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+The Project Gutenberg EBook of A Casa dos Fantasmas - Volume I, by
+Luiz Augusto Rebello da Silva
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Casa dos Fantasmas - Volume I
+ Episodio do Tempo dos Francezes
+
+Author: Luiz Augusto Rebello da Silva
+
+Release Date: May 5, 2008 [EBook #25330]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CASA DOS FANTASMAS - VOLUME I ***
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+Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
+Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net
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+ *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
+ existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
+ versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Maio 2008)
+
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+
+VOLUMES PUBLICADOS
+
+
+I--Ráusso por homizío
+II--Odio velho não cança (1.^o)
+III--Odio velho não cança (2.^o)
+IV--A Mocidade de D. João V (1.^o)
+V--A Mocidade de D. João V (2.^o)
+VI--A Mocidade de D. João V (3.^o)
+VII--A Mocidade de D. João V (4.^o)
+VIII--A Mocidade de D. João V (5.^o)
+IX--Lagrimas e thesouros (1.^o)
+X--Lagrimas e thesouros (2.^o)
+XI--A Casa dos Fantasmas (1.^o)
+XVI--Othello--As redeas do governo
+XVII--A mocidade de D. João V (drama).
+XVIII--O amor por conquista (comedia)--O Infante Santo (fragmento).
+XIX--Fastos da Egreja (1.^o)
+XX--Fastos da Egreja (2.^o)
+XXI--Fastos da Egreja (3.^o)
+XXII--Fastos da Egreja (4.^o)
+
+
+
+
+OBRAS COMPLETAS DE LUIZ AUGUSTO REBELLO DA SILVA
+REVISTAS E METHODICAMENTE COORDENADAS
+
+
+XI
+
+
+ROMANCES E NOVELLAS--V
+
+
+A CASA DOS FANTASMAS
+
+
+EPISODIO DO TEMPO DOS FRANCEZES
+
+2.^a EDIÇÃO
+
+VOLUME I
+
+
+LISBOA
+
+Empreza da Historia de Portugal
+
+_Sociedade editora_
+
+LIVRARIA MODERNA
+_R. Augusta, 95_
+
+TYPOGRAPHIA
+_45, R. Ivens, 47_
+
+1908
+
+
+
+
+A CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+
+Seja-me licito, amigo, dedicar-lhe este esboço informe, fructo de
+algumas horas de ocio. Quem melhor, do que o auctor de tantas
+composições profundas na interpretação da vida, admiraveis na pintura do
+coração e dos costumes contemporaneos, poderá desculpar o muito, que
+falta n'este quadro para sair menos imperfeito, e ao mesmo tempo
+apreciar em um, ou outro traço, os bons desejos e os esforços do auctor?
+
+A epocha, que escolhi, pedia pincel mais fino, e tintas mais vivas.
+Tentei vencer-me, e desenhal-a. Sei que fiquei mui inferior ao ideal,
+que tinha concebido, e receio mesmo, que o enfado dos leitores castigue
+a ousadia do commettimento. Espero, que o seu nome applaudido sirva de
+escudo e de defensor ao modesto livro, de que elle vae ser o maior
+ornamento.
+
+Não o consultei para lhe offerecer este testemunho da minha antiga e
+sincera amisade. Adivinhei a resposta, e ahi entrego em suas mãos mais
+este orphão, que sae a correr o mundo. Deus lhe conceda a sorte
+propicia, que elle não merece, mas que ás vezes uma boa sina proporciona
+mesmo aos menos dignos.
+
+Lisboa, 22 de Janeiro de 1865
+
+
+ Luiz Augusto Rebello da Silva.
+
+
+
+
+
+A CASA DOS FANTASMAS
+
+
+
+I
+
+Uma noite desabrida
+
+
+Era de tarde. Tinham dado cinco horas, e o dia declinava rapidamente. O
+mez de maio do anno 1808, anno assignalado de successos estrondosos na
+peninsula, acabava, como tinha corrido quasi todo, entre diluvios de
+chuva e ventanias. A noite, cujos primeiros veus já começavam a cobrir
+as terras baixas, em quanto os derradeiros raios do sol esmoreciam na
+corôa dos outeiros, avisinhava-se, toldada de castellos de nuvens, que
+surgiam do sul, listrando o horizonte de barras cinzentas, rasgadas de
+espaço em espaço pelos clarões dos relampagos.
+
+O ar estava tepido, ou antes quente, e todos os ruidos se iam calando
+uns após outros. A immobilidade das aguas, que não arrugava o mais leve
+sopro; a das arvores, cujas copas pareciam petrificadas; e as sombras,
+que avultavam mais pesadas de instante para instante, revestiam a
+paizagem de um aspecto gelido. Uma lufada de vento, halito abrazado da
+tormenta, passava solta por cima dos campos, acamando as hervas altas,
+destoucando os arbustos, e saccudindo as ramas das oliveiras, dos
+alamos, e das faias, e ia morrer distante no roncar soturno e rouco dos
+trovões. Algumas gotas, raras e grossas, caiam então, e a luz, offuscada
+por mais espessos vapores, sumia-se de subito para reviver depois, mas
+timida e desmaiada, sem alegria e sem calor. As aves fugiam, cruzando-se
+e pipitando; a solidão quasi que não tinha echos; e um silencio lugubre
+precedia a grande voz da tempestade, que ia principiar dentro em pouco.
+
+Apezar das ameaças da atmosphera, um viajante trocando o conchego de
+povoação commoda pelas inclemencias do tempo, tinha-se despedido da
+hospitaleira casa, aonde jantára, e mettendo o pé no estribo de pau, e
+apertando as dobras da manta ribatejana, sem escutar os conselhos e
+vaticinios amigaveis, estimulava a mula com as largas rosetas da
+classica espora de correia, obrigando-a a espertar o passo por entre os
+viçosos pampanos, hoje gloria e gala da nobre villa do Cartaxo.
+
+Em breve deixou atraz de si as vinhas, que, a esse tempo, (cultura
+nascente) apenas verdejavam em uma pequena parte do terreno, que se
+carrega agora de seus cachos, e achando-se em plena charneca, extendeu
+os olhos pela bella e vasta planicie, desatada por algumas leguas de
+ermo, não triste, nem agreste, mas tocado de risonha suavidade, e
+rodeado de longes tão puros e desafogados, que a alma se consola e
+refrigera de extender por elle os olhos.
+
+O aroma alpestre das plantas; aquelle pôr do sol entre nuvens; os
+lamentos da procella ao sul; e o vago indeciso de todo o quadro
+compunham um espectaculo de opposições tão firmes e tão bellas, que o
+viajante, quasi sem o querer, se deixou arrebatar por elle, e
+insensivelmente foi imbebendo a vista nas formosuras rusticas, que de
+todos os lados o convidavam. Suas feições, de uma gentileza viril e
+sympathica, não inculcavam tedio ou cansaço, mas impaciencia. A elevada
+estatura não se encurvava sobre os arções, e as pupillas pretas e cheias
+de fogo, se a miudo fitavam os trilhos enredados com estreitas fitas
+sobre o verde sombrio da charneca, denunciavam mais receio de chegar
+tarde a um ponto dado, do que temor de se ver assaltado pelo temporal no
+meio da jornada.
+
+A mula, que algumas horas de repouso tinham refrescado, como se
+adivinhasse os desejos do amo, despejava o passo, e o caminho; mas a
+noite e a cerração ainda corriam mais. Á claridade baça do crepusculo
+seguiram-se as trevas; o céu forrou-se todo de negro; e os primeiros
+furacões bramiram acompanhados de um trovão proximo. A chuva principiava
+a fustigar de rajadas fortes o rosto do viajante, e a cegar-lhe a
+estrada inundada dos dias anteriores, e arrombada em diversas partes. A
+mula, apezar de afouta e vigorosa, atolava-se, tropeçando a miudo. Na
+ponte da Asseca, a varzea, que ella corta, parecia um immenso paul,
+cujas aguas a cheia despenhada dos altos empolava com sussurros, que,
+unidos aos silvos do vento e aos ribombos da trovoada, enchiam de horror
+e de estrepito aquella scena, tão repassada de grandeza e de magestade.
+
+Á esquerda os olivaes pendurados dos montes, que se encandeiam até
+Santarem, estorciam-se com o vendaval. Á direita os choupos e os
+freixos, na beira dos vallados, vergavam tremulos e desgrenhados como se
+mão gigante os dobrasse. O caminho parecia um mar, e os clarões, em que
+os céus pareciam abrir-se, golfavam de repente o seu fulgor sinistro
+sobre este painel, que o tenebroso manto da procella tornava logo depois
+a esconder.
+
+Atravessando a ponte, por onde enxurrava quasi uma torrente, o viajante
+procurou orientar-se. Ajudou-o uma luz ao longe. Seguindo por ella, no
+fim de dez minutos encontrou-se junto do vulto massiço de um palacio
+arruinado, solitariamente erguido no meio das terras, e olhando quasi
+como sentinella esquecida para um angulo da estrada. Em uma das seis
+janellas sem caixilhos da fachada, através das fendas das portas de
+dentro, ou antes das tábuas de forro pregadas em logar de vidros,
+brilhava a luz que lhe servira de norte, e pelas gretas mal juntas das
+frestas do andar terreo luzia o clarão de um grande brazeiro talvez
+acceso na cozinha. Applicando o ouvido sentiam-se estalar no lume os
+troncos humidos, e escutava-se o meio alarido de algumas vozes e
+risadas.
+
+--Ah! exclamou o cavalleiro, detendo a mula, e derrubando sobre a cara
+por um gesto machinal as largas abas do chapéu de Braga, quebradas pela
+chuva. Gente na casa Negra! Quem?!...
+
+Depois de breves momentos pareceu tomar uma resolução, e a passo,
+chapinhando na agua, como se passasse um ribeiro, desviou-se, atravessou
+para o outro lado, e cozido com o monte subiu por vereda ingreme até um
+alto a tres ou quatro tiros de espingarda de distancia. Pelos corregos,
+a uma e outra parte, estrepitavam verdadeiros riachos saltando pelas
+pedras, e um relampago, fuzilando e extendendo como um lençol de fogo
+por cima das trevas, descubriu-lhe repentinamente a casinha caiada, de
+dois sobrados, tecto esguio, e duas janellinhas, que buscava. Cercava-a
+um muro baixo de pedras soltas. O ruido monotono de uma roda, e a queda
+de uma especie de cascata, sobrepujando o esparralhar da chuva, e os
+gemidos do vento mostraram-lhe que estava na azenha de cima, ou no
+moinho da _Raposa_, como diziam os visinhos dos arredores.
+
+Sem se apeiar, o viajante bateu com o conto ferrado do cajado de
+marmeleiro por duas vezes tres pancadas na porta, e esperou. Não foi
+necessario mais. Os latidos feros de um cão de guarda, e logo depois
+vagarosos passos descendo a escada, advertiram-o de que fôra ouvido.
+
+--Oh, de dentro! bradou.
+
+--Quem bate?! perguntou uma voz cheia.
+
+--Eu!
+
+--Esse eu quem é?...
+
+--Abre!...
+
+--Pois não!... Ao mesmo tempo o ouvido fino do recem-chegado percebeu o
+leve tinir dos fechos de uma espingarda a engatilhar-se.
+
+--Antonio! Pelo rei e pela patria!...
+
+--Ah?! Agora é outro cantar. Lá vou.
+
+E calando o cão, que pulava, ladrando e rosnando como furioso,
+desencostou a tranca, tirou o ferrolho, e a chave rangeu duas voltas na
+fechadura. Abriu-se finalmente a porta.
+
+--Então quem é? repetiu a mesma voz, em quanto a cabeça se arriscava
+fóra no escuro, sem a mão largar a espingarda.
+
+--Manuel Coutinho. Conheces-me agora? redarguiu o hospede, apeiando-se,
+e expremendo do chapéu a agua a escorrer em bica, e saccudindo a manta,
+que não estava menos ensopada.--Que diluvio! murmurava por entre dentes
+ao mesmo tempo. Se continúa, nadam ámanhã os saveis na tua horta,
+Antonio da Cruz!
+
+--Que se lhe ha de fazer! Como v. s.^a vem!... Bemdito e louvado seja
+Deus!...
+
+--Amen! Elle seja comnosco e nos ajude, que bem o precisâmos; redarguiu
+o mancebo, porque o seu rosto moreno, mas fresco, e o cabello preto não
+inculcavam mais de vinte e quatro a vinte e cinco annos.
+
+--Cuidei que me recebias a tiro! disse rindo, e mostrando duas fiadas de
+dentes finos, alvos, e eguaes, que uma dama franceza lhe invejaria para
+ornar um sorriso galanteador.
+
+--Bem vê a noite?!... Depois a gente não sabe quem lhe quer mal, e uma
+bala depressa entra... Cá me entendo!... D'ahi não esperava já por v.
+s.^a!...
+
+--Não me esperavas?... mas eu tinha dito!...
+
+--É verdade, que disse. Mas choviam raios e coriscos e sempre cuidei que
+se deixasse lá ficar em baixo. Dê-me a redea da mulinha. Então não sahiu
+como se queria? Foi um ovo por um real. Entre v. s.^a e enxugue-se. Vou
+cá á nossa arribana, com sua licença, arranjar a Ligeira, e é um ai em
+quanto volto a accender-lhe o lume... Jesus! Santo Nome de Maria! Os
+relampagos cegam. Parece que nos cae o céu esta noite na cabeça com a
+bulha lá de cima!
+
+Manuel Coutinho entrou. O interior da casa, muito seu conhecido, era de
+apparencia singela e rustica. Suspensa do gancho preso em uma das vigas
+do tecto a candeia allumiava-a escassamente, apezar de pequena. No meio
+da parede do fundo rasgava-se a chaminé baixa e ladrilhada. Á direita
+uma arca de pinho alta, sem fechadura, tinha em cima um cobertôr de
+papa, e sobre elle enroscado com uma fisga aberta á vigilancia em cada
+olho, o gato preto do moinho, tão absorvido na sua beatitude extatica, e
+na sua pachorrenta immobilidade, que os latidos do cão amigo e alliado
+domestico, e as vozes do dono, nem um movimento lhe tinham podido
+arrancar! Á esquerda a barra de pinho pintado tremia sobre tres pés
+validos. Na cabeceira um devoto registo do milagre da Senhora da
+Nazareth correspondia a outro do glorioso confessor Santo Antonio,
+pregado na parede com obreias. A manta sobre o enxergão e duas pelles de
+carneiro compunham a roupa d'este catre de cenobita.
+
+Á direita, em todo o comprimento da casa, viam-se empilhados muitos
+sacos de trigo destinados á mó alveira da azenha. Os de milho jaziam
+mais adeante em pilhas. A fina flôr da farinha escapando-se pelas
+aberturas revoava ao menor abalo, polvilhando tudo em roda. Por cima de
+algumas pelles de lebre e de coelho, extendidas a seccar na parede,
+pendiam o polvorinho de chifre com o fundo, ou rodella de pau, e a bolsa
+de couro, ou chumbeiro, attestado de munição e pederneiras. Em um
+armario, vasado no muro, e resguardado com sua cortina de riscado azul,
+luziam, como prata, pelo aceio, a chaleira e a almotolia de lata, e
+acastellavam-se duas rumas de pratos. Dos lados, sumptuosidade rara (!),
+duas caçarolas de folha de Flandres e cabos de ferro acompanhavam a
+baixella de louça. Em uma prateleira por cima da chaminé a caixa da isca
+e alguns tachos e frigideiras de barro esperavam a hora de serem
+chamados a serviço activo.
+
+Uma escada empinada, de degráus toscos, verdadeiro quebra-costas, subia
+de um dos angulos para o andar de cima, aonde um alçapão erguido e
+quadrado abria as fauces, como se quizesse engulir os que entrassem. Era
+ahi a labutação principal do moinho. As mós, rodando e zoando,
+ensurdeciam casadas no ruido somnolento com a queda da levada, que por
+uma longa calha de pau descia da preza a ferir a roda, e d'esta,
+saltando em cachões dos baldes, ia espadanar no canal, d'onde fugia
+ainda espumante a regar as hortas e as terras dos visinhos.
+
+Dois mochos de cerejeira brava, e uma poltrona de couro, roto e cossado,
+rodeavam no sobrado de baixo uma velha mesa de pau, collocada no meio do
+aposento por baixo da candeia de dois bicos. No meio d'ella um cangirão
+de aza larga, bojudo e vidrado, com sua tampa de cortiça guardava a
+agua-pé. Um copo de canada, limpo como crystal, um prato sobre toalha
+alva, meia broa de milho com um garfo de cabo de pau ao lado, e uma
+frigideira de sardinhas fritas annunciavam que a ceia do moleiro ía
+começar, quando fôra chamado. A navalha de mola e de ponta, um rôlo de
+tabaco de picar, e algumas aparas d'elle, assim como duas capas de papel
+de cigarros, estavam dizendo tambem o que elle fazia pouco antes da
+visita inopinada lhe bater á porta.
+
+Vejamos agora que razão de estado attrahia o mancebo a tal hora e por um
+tempo similhante áquella casa, e o que se passou alli n'esta noite
+fecunda em incidentes para os personagens, que temos de metter em scena.
+
+
+
+
+II
+
+O moinho da Raposa
+
+
+O mancebo approximou-se da mesa, picou do rôlo uma porção pequena,
+enrolou o cigaro entre os dedos, e, depois de o accender á luz da
+candeia, assentou-se em um dos mochos, com os cotovellos fincados na
+tábua, e o rosto entre as mãos, não sem primeiro ter tirado do cinto um
+par de pistolas inglezas e uma faca de matto hespanhola, encubertas com
+as compridas abas do gabinardo, que trajava.
+
+Antonio da Cruz appareceu instantes depois.
+
+Era robusto, largo de hombros e de peitos, mas esbelto. Trigueiro, e
+queimado do sol, as suas feições lembravam o typo arabe. Os beiços
+grossos sorriam com franqueza, e, apezar de muito rasgada, tinha graça
+na bôcca, mesmo quando descubria os trinta e dois dentes alvos e agudos,
+como os do felpudo molosso, que saltava em volta d'elle. O cabello rente
+e crespo cortado quasi em bico sobre a testa era negro como azeviche. O
+nariz revirado na ponta dava certo chiste á physionomia; e nos olhos
+pardos e vivos como scentelhas brincava uma expressão de finura natural
+e de malicia jovial, que lhe caìa bem, e logo á primeira vista o faziam
+bem quisto.
+
+De mediana estatura, mas proporcionado, era tido por um dos homens mais
+forçosos d'aquelles contornos. O seu nome servia de grito da guerra nas
+aldeias contra a brutalidade dos valentões de arraial. Nas praças de
+touros em Villa Franca, em Salvaterra, ou na capital nenhum forcado o
+egualava em apanhar os bois de cara, ou de cernelha. A cavallo era um
+centauro; a pé não tinha par no salto, ou na carreira; em mettendo a
+espingarda ao rosto aonde punha o olho punha a bala. O seu cajado
+manejado por mãos de mestre varria as feiras, zombando de facas e de
+espadas.
+
+Sobrio como um anachoreta, presentido e vigilante como um mohicano, o
+seu maior defeito era ser impetuoso e assomado de mais. Em o sangue lhe
+subindo á cabeça, e em principiando a picar-lhe a pelle com pontas de
+alfinetes, segundo elle dizia, cegava-se, corria direito ao perigo, e,
+sem attender a nada, atirava-se a um precipicio.
+
+Temente a Deus, tinha tanto de bom amigo como de implacavel inimigo.
+Portuguez e patriota extremo, amaldiçoava os francezes como jacobinos, e
+chorava de saudade pelo principe regente, D. João, ao qual só vira duas,
+ou tres vezes, em sua vida. Manuel Coutinho affeiçoou-se a este caracter
+firme, honrado, e decidido. O moinho e a horta pertenciam ao mancebo, e
+Antonio trazia-os de renda. Ligado á conspiração, por emquanto quasi
+inoffensiva, urdida em Lisboa contra o governo de Junot, conspiração que
+regia o _conselho_ denominado _Conservador_, secretamente instituido no
+dia 5 de fevereiro d'aquelle anno para auxiliar a restauração do throno
+legitimo e da independencia, Manuel Coutinho confiava no humilde
+camponez, e communicava-lhe até recados de importancia. Executor
+discreto d'estas missões arriscadas, Antonio da Cruz comportava-se
+sempre com exemplar acerto, não só enganando o faro da policia de
+Lagarde, cujos espiões corriam por toda a parte, mas supportando
+resignado por amor de seu amo (assim lhe chamava), e da boa causa
+desafios e remoques, que em outra occasião seguramente custariam caros
+aos aggressores.
+
+--Se não é hoje o fim do mundo, bradou elle entrando e saccudindo a agua
+de cima de si, não sei quando o será! Mas o lume em um instantinho está
+a arder. A lenha é secca. Ora, diga, meu amo: v. s.^a traz sua vontadica
+de comer, não? Do Cartaxo aqui é um pedacito menos mau... e a chuva e o
+vento cavam cá por dentro como enxada em nateiro...
+
+--Não. Não me faças nada. Se o appetite vier aqui temos de mais. Agora o
+lume sim.
+
+--Essa é boa. Ha de perdoar; não senhor. Graças a Deus o Manuel nunca
+foi torto, nem aleijado, e ainda esta manhã, antes de almoço, não perdeu
+a polvora e o chumbo. Andavam aquelles fidalgos a saltar nas vinhas, e
+trouxe-os no alforge. Como os quer?...
+
+E apontava para os dois coelhos mortos e pendurados junto do almario.
+
+--Guizo-lh'os de molho de vilão n'um abrir e fechar de olhos, e depois
+ha de beber-lhe em cima um, ou dois copos de um vinhinho, que me deram,
+e que fica a gente a chorar por mais...
+
+--Já te disse. O vinho e os coelhos guarda-os para ámanhã. Agora melhor
+me sabe este cigarro, do que todos os manjares. Accende o lume. Temos
+que falar.
+
+O mancebo suspirou como quem se sente opprimido de tristeza, e lucta em
+vão por se vencer.
+
+O Antonio da Cruz, curvo sobre a caixa da isca, a assoprar a chamma,
+ouvia-o, e percebeu-o, mas calou-se. A mecha pegou, e d'ahi a um momento
+levantava-se da lareira um clarão vivo e alegre, tingindo de vermelho as
+paredes e os pobres moveis da casa.
+
+--Bem! disse Manuel Coutinho. Isto já parece outra cousa! Senta-te, e
+come!
+
+--Salvo o respeito, saiba v. s.^a que não tem pressa.
+
+--Tem. Come e despacha-te. Depois falaremos. É preciso sair logo...
+
+--Ah! Então a cousa aperta? Para termos de saír por uma noite
+d'estas!...
+
+--Póde bem ser a ultima da vida de umas poucas de pessoas! exclamou o
+mancebo, pondo-se em pé agitado.
+
+--Melhor o ha de fazer Deus, senhor Manuel! redarguiu o moleiro com a
+sua tranquillidade apparente, que illudia os que o conheciam mal. Com
+sua licença! ajuntou sentando-se á mesa, e rompendo o assalto contra a
+broa e as sardinhas, regadas de copiosas libações de agua-pé. Os sacos
+pesam seis alqueires, e por aquella escada acima apalpam as costellas. Á
+saude de v. s.^a! A minha pena é que não quizessse provar dos coelhos e
+do vinho do convento de S. Francisco. Olhe que os padres sabem escolher
+do fino!...
+
+--Que gente era aquella, que esta noite vi na Casa Negra? perguntou
+Manuel Coutinho, que as proezas gastronomicas de Antonio já não
+maravilhavam, porque fôra testemunha d'ellas muitas vezes.
+
+--Gente na Casa Negra? Na Casa Maldita?!... accudiu com a bôcca cheia, e
+estremecendo.
+
+--Sim! Vi luz em cima, na terceira janella, e ouvi risadas e vozes no
+andar terreo. Não sabes o que será?!
+
+--O meu padre Santo Antonio nos accuda! Cousas do demonio, que desde que
+me entendo é o unico morador d'aquelle casarão! Mas v. s.^a está bem
+certo!?... Gente a estas horas alli! Não póde ser!
+
+--Tanto póde, que havia fogo na cosinha, e gente a rir, a falar, e a
+aquecer-se a elle!
+
+Antonio da Cruz enguliu á pressa o ultimo boccado, poz á bôcca cheio a
+trasbordar o copo de agua-pé, e pousando-o vasio com um suspiro, tirou o
+barrete e benzeu-se.
+
+--Olhe, senhor, creia v. s.^a o que lhe digo! tornou meio atalhado.
+Gente d'este mundo não era de certo. Por estes arredores não havia quem
+se atrevesse!... Ah, Jesus, Santo Nome de Maria! accrescentou mais
+pallido. Deram ainda agora, á noitinha, um tiro no Antonio Simões. Dizem
+que o mataram; mas o corpo não appareceu! Querem ver que foi parar a
+alma...
+
+--Antonio! accudiu o amo um pouco severo. Alma que vae não volta! Isso
+são medos de criança. Os hospedes da Casa Negra estão vivos, como eu, e
+tu. Agora o que preciso saber, e já, é o que são e o que fazem alli!...
+
+--Será o sargento Cabrinha, aquelle jacobino! Andou esta manhã pelo
+sitio com as milicias. Só se fôr elle! O maldito ri-se de Deus e do
+diabo. Ha de chegar-lhe a sua vez.
+
+--Prendeu alguem?!...
+
+--Dizem que sim, ahi para os sitios do Casal do Ouro.
+
+--Ah! exclamou o mancebo. Capaz seria elle? Se fosse quem receio!...
+Ouviste dizer?...
+
+--Um velho e sua filha. Os nomes não m'os souberam dar.
+
+--Nem é preciso! interrompeu Manuel Coutinho em voz soffocada, e com os
+olhos inflammados. O infame Lagarde cumpriu a promessa. Verá se a de um
+portuguez lhe fica atraz! Os nomes sei-os eu; dizia-m'os o coração antes
+de aqui entrar. Mas!...
+
+Conteve-se, e caíu em reflexão profunda. Antonio da Cruz, tambem de pé,
+e animado, desde que sabia que não era com os demonios, ou com as almas
+do outro mundo a contenda, esperava, olhando para a espingarda, que uma
+palavra do amo lhe pedisse o apoio do seu braço.
+
+--Depois de curta pausa, o mancebo, renovadas as escorvas das pistolas,
+e cingida a faca de matto, virou-se para o seu confidente e disse-lhe:
+
+--Queres saber como se chama o velho, que o sargento arrasta preso a
+Santarem para o entregar á vingança dos francezes? É Paulo de Azevedo
+Carvalho. E sua filha...
+
+--A senhora D. Leonor?! A noiva de v. s.^a!... Jesus... Pobre menina!
+
+--Buscam-o para o processar como rebelde desde o caso de Mafra.
+Tinham-se escondido na Aramanha, e esse villão do sargento Cabrinha, por
+trinta moedas prometteu entregal-o. Não o achando já alli, correu os
+arredores, e de certo o foi encontrar no Casal do Ouro pela denuncia...
+
+--Do Sapo! Foi o Sapo, aposto! Por isso o patife andava desde hontem de
+orelha fita e focinho aguçado! Só ao moinho, aqui, veiu duas vezes! Ah!
+Se eu soubera! Partia-lhe outra perna. Não importa. O que não se acaba
+dia de S. Braz n'outro dia se faz. Não as perde.
+
+--Antonio! Paulo de Azevedo não ha de entrar na cadeia da villa, nem na
+de Lisboa. Esta noite a «Casa Negra» terá outra historia talvez mais
+feia que juntar á sua. Aprompta-te! Á meia noite saímos. Pódes resar por
+alma do sargento, se o encontro!
+
+
+
+
+III
+
+Duas paginas da historia d'este seculo
+
+
+Antes de proseguirmos, para maior clareza d'esta mui veridica narração,
+cujo fio poderia enredar-se com as explicações de todos os momentos,
+pedimos venia ao leitor para resumir em breve noticia os acontecimentos,
+que formam o fundo da pintura, ou antes do esboço, que nos propozemos
+traçar.
+
+A revolução franceza, representante das forças e interesses da
+humanidade, herdeira não só das aspirações e esperanças, mas tambem das
+dores e resentimentos de muitos seculos, saudada em 1789 com transportes
+de jubilo, em 1793 já tinha convertido a innocencia do primeiro
+enthusiasmo nos accessos febris de um patriotismo sombrio, dando o
+espectaculo, novo e incrivel, dos maiores crimes a par dos rasgos mais
+heroicos, e das virtudes mais sublimes.
+
+Só e contra todos arremessou audaciosamente a luva aos adversarios de
+fóra e ás facções internas. Decapitou no cadafalso a realeza; repelliu
+os exercitos da Europa colligada; atravessou após elles as fronteiras
+inimigas; suffocou nas provincias insurgidas as saudades e as iras do
+regimen decaído; e vigorosa, mesmo ao saír do berço, sobreviveu aos
+delirios e excessos da anarchia. Nada a detinha, nada a assombrava!
+Admirada de uns, execrada do maior numero, mas invencivel,
+precipitou-se, demolindo tudo no seu impeto, até, esvaída do sangue
+vertido nos patibulos e nos campos de batalha, caír por fim, quasi sem
+alentos, nos braços do mais illustre de seus capitães, d'aquelle de quem
+Siéyés disséra com persuasão prophetica: «que seria o senhor, porque
+sabia, queria, e podia tudo!»
+
+A ordem restituida por elle, a victoria inseparavel de suas armas, o
+esplendor de tantas acções applaudidas, os milagres de uma vontade, a
+que ainda obedeciam os obstaculos e o destino, compozeram essa rara
+epopêa, de que Napoleão I, grande como Cesar, ou maior talvez, foi ao
+mesmo tempo o heroe e o assumpto.
+
+Guiada pela providencia, a sua mão, ao passo que ia lavrando nas
+primeiras paginas da historia d'este seculo as datas memoraveis, com que
+se abriu sua agitada existencia, unia, pesada como a de Attila, gloriosa
+como a de Carlos Magno, á queda do passado a transformação do presente.
+
+A fortuna muitos annos constante seguiu-o de triumpho em triumpho, desde
+as planicies da Italia, immortalizadas pela sua mocidade, até aos gelos
+do norte para os quaes a sorte parecia attrahil-o, e aonde o clarão de
+Moscow incendiada havia de illuminar depois os funeraes do imperio.
+
+Marengo, Eylau, Essling, Wagram, e cem estações assignaladas pelos
+prodigios do seu genio, viram a terra gemer abalada pelo galope dos
+esquadrões; viram os thronos vacillar, ou alluirem-se; viram os
+principios nóvos germinarem grávidos do futuro nos sulcos rotos pela
+inundação, quando a onda vencida recolheu ao antigo leito! Abrazada em
+odio, ou cortada de espanto, a Europa contemplava aquella epocha de
+terremotos e de transfigurações, sobresaltando-se com os decretos da voz
+soberana, que falava pela bôcca de bronze dos canhões, e inclinando-se
+serva, mas fremente, na presença das aguias, que passavam e revolviam
+profundamente o mundo das idéas e o mundo dos factos, desde as bases e
+os limites das monarchias, desde o solo e a familia, até ao estado
+physico e social, até á organização politica e economica.
+
+N'esta lucta de gigantes, a França e a Inglaterra, travadas como dois
+athletas, combatiam sem escolher as armas. Feriam-se sempre e em toda a
+parte! Percebiam que o duello era mortal, e que só podia terminar pela
+ruina de uma d'ellas. Aboukir e Trafalgar tinham assegurado a supremacia
+dos mares ao leopardo britannico. A Austria impaciente, mas resignada, a
+Prussia rendida em Jena, a Russia desenganada em Austerlitz e Friedland
+proclamavam a vaidade da liga continental.
+
+Mas Bonaparte, na maior elevação a que fôra dado subir, tocado o apogeu,
+não foi superior á fragilidade humana. Os deslumbramentos da grandeza
+trouxeram a vertigem. O abysmo chamou pelo abysmo. Esquecido de que só
+Deus é omnipotente quiz e ousou tudo! Gerações inteiras immoladas
+semearam de cadaveres o rasto de seus passos. Os povos amaldiçoavam-lhe
+a ambição como flagello. As coroas, voando da cabeça dos reis legitimos,
+arrancadas pelos furacões da guerra vinham cingir a fronte plebea dos
+eleitos da gloria. Retalhando o corpo exanime das nacionalidades
+desmembradas pela espada, edificou na areia, suppondo fundir em bronze
+esses reinos e dynastias ephemeras, que um aceno tirou do nada, que os
+seus revezes sepultaram para sempre.
+
+Repartindo pelos irmãos e os generaes os diademas e os estados, queria
+ter n'elles satrapas, e não soberanos. Murat em Napoles, Joseph em
+Hespanha, Luiz na Hollanda, e Jeronymo na Westphalia representaram as
+peripecias d'esta ultima e arriscada phase de uma grandeza, que na
+usurpação dos sceptros e na provocação das antipathias populares
+encontrou o precipicio, a queda, e a lição!
+
+Portugal, no extremo occidente, abrigado pela distancia das revoluções,
+que desmoronavam tudo ao meio dia e ao norte da Europa, não se eximiu
+afinal de participar tambem, e com largo quinhão, das infelicidades, que
+a nenhum paiz poupou a sorte. A iniciativa do marquez de Pombal,
+interrompida pela morte do soberano, que vinte e sete annos o
+sustentára, apezar das conspirações da nobreza, e da adversão da familia
+real, acabou com o monarcha tão notavel pela firmeza. O poder do
+ministro eclipsou-se com o ultimo suspiro do principe, e com elle
+expiraram as tradições viris, e os commettimentos reformadores. Um
+gabinete quasi todo composto de aulicos, sujeito ao veto do confessor
+valido, substituiu o mando odiado do marquez; e este poude vêr ainda do
+seu desterro a mão dos emulos alçada contra a arvore, que plantára,
+arvore que apenas principiava a cobrir-se de flôres, e á qual a inveja
+não deixou amadurecer os fructos.
+
+A branda e devota indole da rainha atalhou em parte os bons desejos dos
+homens, que se prezavam de ainda respeitarem as maximas do grande
+reinado. José de Seabra, Martinho de Mello, e após elles D. Rodrigo de
+Souza Coutinho queriam continuar no caminho encetado por Sebastião José
+de Carvalho; porém divididos em partidos (o francez e o inglez),
+offuscados pelas intrigas dos hypocritas, e detidos pelos escrupulos,
+que assustavam a consciencia da filha de D. José I, luctavam muitas
+vezes em vão com a corrente, e os seus esforços a miudo naufragaram
+contra os artificios dos cortezãos, e contra as declamações dos beatos,
+senhores de todas as avenidas do paço.
+
+As providencias uteis, que honraram o governo de D. Maria I,
+derivaram-se do predominio conquistado sobre o animo da rainha, sua
+penitente, pelo arcebispo de Thessalonica, prelado isento de
+preconceitos e ornado de virtudes. Mal elle desceu ao tumulo, a visão
+terrivel dos patibulos, erguidos por seu pae, tornou-se uma allucinação
+perenne, e as trevas da demencia apagaram para sempre a razão vacillante
+da princeza.
+
+D. João, seu filho, empunhou as redeas do Estado, primeiro sem titulo
+expresso, depois com o de regente. Amigo da tranquillidade, avêsso a
+complicações e lances arrojados, humano e bondoso, era todavia mais
+sagaz e penetrante, do que supporia quem o conhecesse mal. Em suas mãos
+a auctoridade soberana podia enfraquecer-se e rebaixar-se, como
+aconteceu, mas ferir os subditos, ou irritar os alliados, não!
+
+Comprada a preço de grandes sacrificios, a neutralidade foi a politica
+preferida pela timidez do principe, e ao mesmo passo o arbitrio prudente
+aconselhado pelas circumstancias. A republica tinha legado ao directorio
+esta amizade inerte, mas facil de conservar; e Napoleão, mais altivo, ou
+mais exigente, olhando quasi Portugal como colonia de Grã-Bretanha, não
+encobria já no consulado as suas repugnancias pela dynastia de Bragança.
+
+Dictando-lhe a paz em 1801, e obrigando-a a submetter-se a condições
+injustas, nutriu acaso a esperança de que, não podendo executal-as, ella
+lhe proporcionasse um pretexto? Não hesitando em animar a cobiça e a
+rivalidade do gabinete de Madrid, queria costumal-o a invadir-nos as
+fronteiras, offerecidas como pasto áquella ambição estimulada?
+
+Seja o que fôr, a Hespanha tendo-se valido de nossas armas no
+Roussillon, pagou-nos com ingratidões o soccorro, separando a sua causa
+da nossa, unindo-se a Bonaparte para nos humilhar, e aproveitando a
+sombra dos estandartes francezes para se apoderar de Olivença, que nunca
+mais restituiu!
+
+Na mente de Napoleão I, a idéa de precipitar do throno os Bourbons de
+Hespanha, como os expulsára de Napoles e da Etruria, era idéa, que
+lançára raizes firmes. No seu tribunal tambem a casa de Bragança era
+condemnada por outras culpas. Accusava-a de seguir, como satellite, o
+astro da Grã-Bretanha, e queixava-se de que usasse e abusasse da
+neutralidade em beneficio dos interesses commerciaes dos inglezes, os
+quaes, por meio da oppressiva utopia do bloqueio continental, cuidava
+expellir dos mercados da Europa, fechando-lhes todos os portos desde
+Lisboa até Cronstadt!
+
+Inspirado occultamente por mr. Canning, o governo portuguez promettia
+excluir o pavilhão britannico de suas praias, e não duvidava affiançar
+uma declaração de guerra simulada; mas prender as pessoas e sequestrar
+as fazendas dos subditos do rei Jorge, como exigia em nome da França o
+seu ministro, mr. de Rayneval, era violencia, que as relações anteriores
+e a ruina de grossos capitaes nacionaes e estrangeiros lhe prohibiam.
+Recusou-a sem ostentação, mas com vigor.
+
+Napoleão queria tudo, ou nada! Para elle Lisboa e o Porto eram como
+puras feitorias britannicas, e, se não lh'as entregassem, estava
+resolvido a mandar os seus soldados conquistal-as. Contava com a
+repulsa, e no meio dos mil cuidados, que o salteavam então, acabava de
+pôr o ultimo remate ao seu plano. O tractado secreto de Fontainebleau
+assignado em 27 de outubro de 1807, affiançava-lhe pela cumplicidade da
+Hespanha a estrada militar, de que precisava para realizar a invasão.
+
+Junot, acampado em Salamanca á testa de vinte cinco mil homens promptos
+á primeira voz, apenas aguardava as ultimas ordens. Duas divisões
+castelhanas, uma de dez, outra de seis mil soldados, deviam coadjuvar as
+operações do exercito francez, apoderando-se a primeira do Porto, do
+Minho, e de Entre Douro e Minho, assenhoreando-se a segunda da provincia
+do Alemtejo e do reino dos Algarves. O pacto ajustado entre Bonaparte e
+Carlos IV, desmembrava o reino em proveito de ambos. O Principe da Paz
+lucrava um estado independente de quatrocentas mil almas, composto das
+provincias do sul, e denominado o principado do Algarve. A rainha viuva
+do duque de Parma, filha querida do monarcha hespanhol, em compensação
+da Etruria cedida ao gabinete de Saint-Cloud, recebia um reino de
+oitocentos mil habitantes, formado de duas das provincias do norte, com
+a cidade do Porto por capital, denominado o reino da Lusitania
+Septentrional!
+
+A marcha dos francezes correu tão rapida e atropellada, quanto era viva
+e ardente a impaciencia do imperador!
+
+Bonaparte ordenára, que entrassem a tempo de salvar das mãos dos
+inglezes a nossa esquadra e os thesouros, que ella podia transportar
+para a America. A familia real não o preoccupava tanto. Eram alguns
+prisioneiros de menos a guardar! Nunca a obediencia foi tão fiel. Junot
+voou! Passando a raia em Alcantara, precipitou-se, como torrente, por
+meio do paiz, que o ciume da independencia e o amor aos principes
+naturaes podia tornar-lhe todo hostil. A cada passo mil perigos o
+advertiam da temeridade. Aqui eram serras alpestres, aonde um punhado de
+homens resolutos facilmente o sepultaria com seus companheiros de armas!
+Além eram solidões, aonde a falta de todos os recursos exaggerava as
+miserias com que luctava desde que saíra de Salamanca!
+
+Os rigores do inverno tempestuoso, as estradas arrombadas e cobertas de
+agua, os campos inundados, a falta de viveres, e o odio dos moradores,
+dizimavam suas fileiras rareadas pela fadiga, pela fome, e pelas
+enfermidades. Tudo se conspirava para o punir e demorar a invasão; o
+clima, os habitantes, e o territorio que se via obrigado a atravessar!
+
+A firmeza do general triumphou. No dia 27 de novembro suas avançadas
+batiam quasi ás portas de Arroios, e nas praias de Belem o principe
+regente dava o ultimo beijamão aos vassallos consternados!
+
+No caes e na praça não se via senão lagrimas e confusão. Os parentes
+despediam-se, abraçados, como se não esperassem tornar a vêr-se. Os
+escalares e bergantins carregavam para bordo as mobilias dos fidalgos e
+as alfaias mais preciosas do paço e da patriarchal. Nas ruas apinhava-se
+o povo attonito. Cercada do cortejo doloroso do infortunio, a familia
+real era o alvo, em que se empregavam os olhos de todos.
+
+No meio das damas, açafatas, camaristas, e criados, pallidos e
+suffocados, o principe D. João, sua esposa a princeza D. Carlota, seus
+filhos, e sua mãe a rainha D. Maria I, cujos gritos de demencia cortavam
+o coração, diziam o ultimo adeus á terra do seu berço!
+
+A multidão soluçava e estendia os braços em vão, como se quizesse
+retel-os. Um decreto datado da vespera tinha declarado que os conselhos
+pusillanimes prevaleciam. Em vez de chamar o reino ás armas, imitando o
+valor de seus antepassados, D. João ia refugiar-se além do Atlantico, no
+Rio de Janeiro, deixando nomeada uma regencia á qual deferia a triste
+missão de abrir as portas da capital ás tropas inimigas.
+
+Demorada no Tejo pelos temporaes, a esquadra portugueza só largou as
+velas no dia 29. Nessa mesma noite arrastavam-se desfallecidos pelos
+arrabaldes de Lisboa os invasores, cuja sombra sossobrára o peito de um
+descendente de D. João I! Quasi nús, descalços, esmorecidos, recrutas
+imberbes com as espingardas cobertas de ferrugem, inuteis, ou partidas,
+os soldados do corpo de occupação infundiam mais dó e piedade, do que
+temor e respeito no animo dos que os viam desfilar. Escudava-os, porém,
+o nome de Napoleão com o seu prestigio. A hora dos desenganos ainda não
+tinha batido.
+
+Junot entrou no dia 30, hospedou-se no palacio do barão de Quintella, e
+poz algumas auctoridades suas. No dia 13 de dezembro, depois de uma
+parada no Rocio, a bandeira tricolor foi arvorada nas ameias do
+castello. Começava o primeiro acto do attribulado drama, cujo desenlace
+encerrou a capitulação de Paris, e a abdicação de Fontainebleau! As
+tropas hespanholas acompanhavam os movimentos dos alliados. O general
+Taranco apoderou-se do Porto; o marquez del Soccorro, senhor do
+Alemtejo, adeantou-se até Setubal. As forças dos invasores cercaram-nos
+por todas as partes.
+
+Ás saudades cada vez mais vivas da dynastia desterrada, aos
+resentimentos provocados pelo jugo estranho, que, arrogando-se fóros de
+conquista em plena paz, cada dia era mais detestado, uniam-se os
+aggravos e violencias inseparaveis de uma occupação, que só podia
+sustentar-se pelo rigor.
+
+Amanheceu finalmente o dia 13 de fevereiro de 1808, o qual, rasgando o
+véu de todo, revelou sem disfarce os designios de Bonaparte. Rodeado de
+soldados e canhões, ao som das salvas das fortalezas de mar e terra,
+Junot proclamou sem hesitar a usurpação insolente de todos os direitos
+da soberania. A casa de Bragança, disse elle no seu edital, acabou de
+reinar. O imperador dos francezes será de ora em deante o protector e o
+arbitro dos destinos da monarchia! Para consolar os portuguezes da perda
+da independencia, o duque de Abrantes prometteu-lhes mil beneficios, e
+assegurou-lhes que um dia até o Algarve e a Beira Alta haviam de ter o
+seu Camões!
+
+Os habitantes preferiam a epopea viva á epopea escrita, e poucos mezes
+depois com a espada em punho recordavam as proezas de seus avós,
+repellindo os estrangeiros.
+
+As armas nacionaes picadas e substituidas pela aguia corsa, a
+contribuição forçada, decretada em 7 de dezembro de 1807, e repartida
+pelos moradores abastados de Lisboa, que nem o pretexto da resistencia
+tinham offerecido á cubiça, irritando os animos excitaram tumultos na
+capital e rixas em varias terras.
+
+Correu sangue de parte a parte. Nas provincias os roubos impunes, os
+desacatos da soldadesca nas egrejas, e as tropelias de tropas
+licenciosas e pouco disciplinadas, ainda cansavam mais a paciencia
+publica.
+
+A sorte da capital e do Porto não era menos infeliz. Lagarde, detestado
+pela sua tyrannia na Italia, e Perrot assaz inventivo em oppressões,
+cobriam de uma rede de delatores os pontos, onde suppunham que podiam
+abrigar-se os seus adversarios, faziam leilão publico da clemencia, e
+abriam, ou cerravam as portas das prisões com chaves de ouro. Tinham
+pressa de enriquecer!
+
+Adivinhariam que o seu governo não havia de durar muito? Os factos
+provaram mais esta vez ainda os perigos de tão errado systema. Filho da
+violencia, apenas o desamparou a força que era o seu unico apoio,
+despenhou-se nos abysmos, que elle proprio afundára.
+
+
+
+
+IV
+
+O bem soa, o mal voa
+
+
+De ordinario voltam-se contra os poderes odiados os proprios meios
+empregados para algemar os povos. As visitas domiciliarias, as buscas,
+as denuncias, as multas, os encarceramentos, todos os instrumentos de
+tortura moral, em fim, excogitados pelo genio assolador de Lagarde,
+produziam effeitos contrarios aos que elle esperava colher, ulcerando o
+orgulho nacional, enfurecendo as populações, e predispondo-as para
+vingarem no primeiro ensejo todas as offensas de uma vez.
+
+Em Mafra, aonde um conflicto casual custára a vida, ou o sangue a alguns
+soldados de Junot, a crueldade da repressão, confiada ao general Loison,
+acabou de exasperar os animos. O desditoso Jacintho Correia expiou com o
+supplicio a culpa, quasi geral, da aversão aos invasores.
+
+Estes rigores, longe de as firmarem, tornaram mais frageis as bases da
+dominação estrangeira, que a todos os instante via desabar o edificio
+vacillante do seu poder. As devassas e monterias ordenadas contra as
+pessoas implicadas n'esta guerra surda, mas implacavel, ameaçando alguns
+innocentes, apenas réos do horroroso delicto de aborrecerem a usurpação,
+recrutou em favor da reacção patriotica numerosas e decididas adhesões.
+
+Paulo de Azevedo Carvalho, que no «Moinho da Raposa» ouvimos citar como
+uma das victimas da intendencia geral da policia, salvo quasi por
+milagre, graças á rapidez da fuga, das garras dos emissarios de Lagarde,
+vagueára de asylo em asylo, acossado de perto, mas sempre protegido,
+desde Torres Novas até Santarem pela generosa cumplicidade, que lhe
+patenteava todas as portas, do palacio até á choupana, apagando logo
+depois com discreto silencio o menor vestigio de seus passos.
+
+Uma imprudencia ajudou os que o perseguiam. Sua filha partiu de Torres
+Vedras para ir encontrar-se com elle, e os olhos de argos da policia
+seguiram-a na jornada até ao humilde casal, escondido nas mattas da
+Aramanha, onde a esperava Paulo de Azevedo, e onde lhe abria os braços a
+hospitalidade rude, mas sincera, do honrado fazendeiro Antonio Simões.
+
+Disfarçados em mendigos ou em jornaleiros, os agentes de Lagarde
+depressa descobriram o foragido no seio da casa rustica, em que se
+abrigava. Assaltaram-a de noite com um cordão de milicias ás ordens de
+Estevan Cabrinha sargento no regimento de Rio Maior, e capaz de vender o
+sangue de mãe e irmãos, uma vez que o preço correspondesse. Falharam,
+porém, todas as precauções. Cabrinha errou o salto. Avisados a tempo o
+pae e a filha evadiram-se na vespera, e o sargento só colheu da ruidosa
+diligencia as maldições de Antonio Simões, maldições e despresos, que
+estava costumado a engulir, como ossos do officio, mas que registrava
+cuidadosamente para as descontar aos devedores na hora opportuna.
+
+D'esta vez a divida não esperou muito. Uma busca de contrabando sobre
+denuncia falsa proporcionou-lhe o desejado pretexto. Antonio Simões da
+Aramanha deu-lhe o gosto de entrar dias depois sob seus auspicios na
+cadeia de Santarem, quasi arrependido da soltura de lingua, com que
+tinha lançado em rosto ao perseguidor as lagrimas e a ruina das
+familias, e os crimes contra a patria. O fazendeiro, todavia, não gemeu
+nos ferros de el-rei, como se dizia então, sem jurar pelas costellas ao
+malsim. Deante de testemunhas protestou moel-o com o cajado de
+zambujeiro, especie de clava, que achatava um homem como uma bolacha, e
+vozes chocalheiras avisaram o sargento da promessa caridosa. Cabrinha
+enfiou. O intendente geral da policia Lagarde servia-se do mastim e
+açulava-o contra o Ribatejo, não regateando ao mercenario venal as
+recompensas; mas era duvidoso que podesse eximir-lhe o corpo do premio,
+affiançado pela gratidão de muitas victimas.
+
+Em quanto Paulo de Azevedo respirasse livre, o amor proprio e a bolsa de
+Cabrinha padeciam, e não era elle homem que dormisse, quando o interesse
+o chamava com voz activa. Suppondo o cavalleiro de Mafra ainda proximo,
+deixou-o socegar por dias, e valendo-se da ardileza de um subalterno
+sagaz, digno assessor de suas virtuosas emprezas, o coxo Gaspar Preto,
+conhecido pela expressiva alcunha do _Sapo_, mandou-o bater os
+arredores, na idéa de que a vista de lince do agente, com mais
+facilidade desencantaria, ainda quente, o ninho aonde se refugiava a
+presa.
+
+Não se enganou. O _Sapo_, cujos brios avivára a esperança de rasoaveis
+lucros, entrou sem demora em campanha, e tres dias depois trouxe-lhe a
+agradavel nova de que o cavalheiro e sua filha se cobriam com o tecto
+modesto de uma casa, pouco mais do que choupana, solitaria, e situada
+nas abas da risonha povoação do Casal do Ouro no meio das vinhas e
+olivedos, que o vestem de verdura.
+
+O sargento não perdeu tempo. Apenou seis milicianos fieis ao copo e ao
+cangirão, e, acompanhado por elles, prendeu de tarde e á traição a Paulo
+de Azevedo e a Leonor. Temendo, porém, que o povo se alvoroçasse, apezar
+das ameaças da trovoada metteu-se a caminho, não sem olhar a miudo para
+traz, receioso, sobre tudo na charneca, de que a bala perdida de uma
+espingarda lhe testemunhasse o reconhecimento grangeado por seus longos
+e valiosos serviços!
+
+O homem põe, e Deus dispõe! A fortuna que o protegêra, detendo Manuel
+Coutinho no Cartaxo, sem o que teria encontrado o seu amigo e a sua
+noiva presos, (lance de certo fatal ao sargento), mostrou-se logo
+contraria a Cabrinha, não demorando uma hora, ou duas mais, tambem, o
+temporal, o qual, perto da Ponte da Asseca rebentou com violencia tal,
+que o constrangeu, á falta de melhor, e não sem grandes arrepios de medo
+seus, e dos soldados, a descançar aquella noite no palacio arruinado,
+temido na visinhança pelo significativo nome de _Casa Negra_, ou de
+_Casa Maldita_.
+
+O _Sapo_, entretanto, não ficára ocioso.
+
+Sabendo que Antonio Simões da Aramanha fôra solto da cadeia de Santarem
+por ordem do juiz de fóra, e que n'essa mesma tarde vinha dormir ao
+Casal do Ouro, doeram-lhe de repente todos os ossos, como se o cajado
+monumental lh'os triturasse, similhante a mangual na eira, e assentou
+livrar-se a si e ao sargento da promettida sova, interceptando na
+estrada o robusto fazendeiro com uma bala.
+
+Esperou-o, pois, atraz de um vallado, em azinhaga escura e estreita, ao
+anoitecer. Escutando o ruido de passadas cheias renovou a escorva,
+engatilhou a espingarda, metteu-a á cara, e com a tranquillidade, com
+que poderia desfechar sobre uma lebre, disparou por entre as ramas sobre
+um vulto, que vinha dobrando a quina do caminho, e que soltando um grito
+agudo baqueou por terra.
+
+--Deus seja com a sua alma! exclamou o assassino, saltando o vallado, e
+contemplando prostrado, e com o rosto banhado em sangue o corpo da
+victima, que todavia conheceu pela estatura e pelo trajo ser Antonio
+Simões da Aramanha.
+
+--Está com Christo! ajuntou depois de olhar para elle instantes. Este já
+não morde. Falta o Antonio da Cruz!... Tambem lhe ha de chegar a sua
+vez!
+
+Feito este responso, torcendo a perna, e apressando os saltos, em que
+despejava mais caminho do que os sãos, o coxo passou por entre as
+silvas, e atravessando pelas vinhas e hortas, veiu saír muito distante
+do logar do crime, ao alto do valle.
+
+Soou a noticia do tiro dado em Antonio Simões. As mulheres, que se
+recolhiam do trabalho do campo, encontraram o corpo ensanguentado na
+azinhaga, e correndo e clamando, tocaram a rebate com a historia do
+homicidio por todas as portas. Juntou-se gente, accudiram alguns amigos,
+que o morto contava na terra, e em procissão encaminharam-se ao sitio
+aonde o desgraçado fazendeiro devia jazer, que era aonde a azinhaga
+cortava entre a Ponte de Asseca e a Casa Negra.
+
+Caso inaudito, e que fez erriçar de espanto as grenhas hirsutas dos
+aldeões, por baixo dos barretes de lã e dos chapéus desabados! Nem rasto
+da victima! Sómente duas poças de sangue, e a cama feita pelo cadaver na
+terra molhada denunciavam a verdade das camponezas e a existencia do
+delicto!
+
+Quem roubára aquelle corpo á sepultura christã? Quem fôra o assassino? A
+estas duas perguntas respondia a superstição, que só poderia ter sido o
+inimigo do genero humano, porque a azinhaga não se via trilhada senão
+dos pés curtos e deseguaes de um homem, que, fugindo, deixára
+assignalada no vallado a feição dos joelhos. Aonde acabavam as passadas
+fortes e largas dos sapatos de Antonio Simões não havia indicio de mais
+nenhumas.
+
+A chuva caíndo em torrentes, os relampagos allumiando as trevas de
+clarões repentinos, e os trovões estalando uns após outros, depressa
+dispersaram os curiosos, que a luz de dois archotes, saccudidos e
+apagados pelo vento, não confortava muito contra os terrores do inferno,
+sobre tudo em tão medonha noite.
+
+Benzendo-se, e acotovellando-se uns aos outros, recolhiam-se transidos,
+ensopados, e cheios de apprehensões, quando alguns mais audazes, que
+tinham ousado arriscar a vista na direcção do palacio arruinado notaram,
+que duas das janellas, sempre cerradas, deixavam transparecer por entre
+as taboas mal juntas uma claridade livida, brilhante na escuridão como
+os olhos de um demonio!
+
+Esta ultima prova do poder sobrenatural do tentador foi tão decisiva
+que, trocando o passo ligeiro pela mais despedida carreira, os bons dos
+aldeãos, persuadidos de que Satanaz reunia na Casa Negra a sua côrte
+plenaria, não pararam senão á porta da egreja parochial, chamando pelo
+prior em altas vozes.
+
+D'onde vinha ao palacio arruinado a má reputação, que afugentava de sua
+visinhança os moradores dos logares proximos? Que trasgo, ou que duende
+vexava com suas maleficas travessuras a casa ennegrecida pelo tempo, e
+rodeada de eterna solidão?
+
+Construida nos principios do seculo XVII, o gosto depravado do
+architecto traduzia-se nos dois pavilhões lateraes, que acompanhavam o
+corpo do edificio, esmagados pelos tectos, e massiços como duas
+cidadellas, carregadas de tristeza. Revestidos de pesadas cantarias, com
+as janellas estreitas e de volta baixa, e as portas abafadas de lavores
+e ornamentos desgraciosos, o ar e a luz só a medo podiam circular pelas
+immensas salas e pelos extensos e escuros corredores, em que se
+repartia.
+
+Solar desamparado, por mais de um seculo via-se as ervas crescerem nos
+pateos e eirados, as eras enrolarem-se pelos muros gretados, e os
+telhados verdejarem cobertos de plantas parasitas. Os anciãos mais
+antigos na terra, não se lembravam de nunca terem visto o dono d'aquella
+casa condemnada, e todos os annos os invernos, succedendo-se, e
+penetrando pelas brechas não reparadas, accumulavam ruinas sobre ruinas,
+estragos sobre estragos.
+
+As lendas populares explicavam o destino singular d'aquelle palacio, o
+qual de certo vira dias mais ditosos, quando as malvas e ortigas não
+afogavam os canteiros de seus jardins, quando os entulhos não cegavam os
+canos á fresca lympha, que jorrava em tórnos de agua crystallina para os
+largos tanques de marmore, quando, finalmente, as colgaduras de couro e
+os pannos de raz não pendiam em farrapos das paredes fendidas e
+esverdeadas, e as manchas de humidade não desfiguravam os relevos e
+molduras dos tectos.
+
+Que horroroso crime expiava o palacio deserto, cujos vigamentos pôdres
+estalavam com o peso de telhados arrombados, cujos moveis roidos de
+caruncho se desfaziam no pó da velhice e do abandono?
+
+Contava a tradição que dois irmãos rivaes haviam disputado a mão de uma
+formosa dama, causa innocente do seu infortunio, e que o menos ditoso na
+porfia, como Iago, convertêra em desespero a felicidade do competidor,
+envenenando-lhe de suspeitas os amores. Não valeram prantos e supplicas
+contra as allucinações do ciume! O sangue da esposa e o sangue do filho
+innocente, doce fructo do seu enlace, vertido em um momento de delirio,
+vingou os zelos do marido, que suppunha lavar com elle a nodoa do nome e
+do brazão. Horas depois, mas sem remedio, descobriu-se a perfidia, e o
+desgraçado caiu em si do delirio, e viu-se tornado o verdugo de si mesmo
+e dos que mais estremecêra no mundo. O que passou n'aquella noite entre
+os dois irmãos é segredo, que dorme com ambos na eternidade. Sómente ao
+romper da aurora mais um cadaver descia ao jazigo da capella, e o
+infeliz, sobrevivendo á morte de todos os affectos, e algoz de todos
+elles, na edade de vinte e cinco annos, quando partiu para não voltar,
+mettia horror á vista. Os cabellos e o rosto eram já os de um velho.
+Bastaram poucas horas de remorso e de agonia para lhe consumirem a vida
+e a mocidade.
+
+O lucto do senhor cubriu a casa, theatro de tantos crimes. Deshabitada,
+fugiam d'ella donos e creados como de um logar maldito. Sempre êrma, e
+sempre muda, só os echos accordavam n'ella com o anniversario do
+terrivel drama. O velho guarda, ao qual primeiro foram confiadas as
+chaves, despertando sobresaltado por horas mortas, subiu ao andar nobre,
+e caiu sem sentidos, paralyzado pela visão terrivel, que se lhe
+representou alli.
+
+Viu uma fórma branca e suave, com os cabellos esparzidos sobre o collo,
+atravessar, chorando, as salas. Apertava ao peito uma creança
+adormecida, e seguia-a outro espectro ameaçador com o punhal erguido.
+Atraz, uma figura contemplava aquella scena rindo com satanica alegria.
+Os lustres accesos por si mesmos entornavam torrentes de luz livida
+sobre os aposentos. Os gemidos e soluços das victimas, o tinir dos
+ferros, as risadas e as imprecações retratavam ao vivo o tremendo
+espectaculo, em que o parricidio e o fratricidio tinham desempenhado os
+principaes papeis. O velho enlouqueceu de terror.
+
+Desde então ninguem mais quiz tomar conta do palacio. Os morgados
+deixaram-o caír em ruinas a pouco e pouco, e quando os francezes
+sequestraram por ausente os bens do fidalgo, aquellas paredes infamadas
+não acharam comprador. O fisco não quiz para si senão a posse das
+terras, e arrendou-as. Parece, todavia, que a invasão dos estrangeiros
+excitára a cólera das potencias sobrenaturaes, porque nunca se tinham
+mostrado tão malfazejas e ruidosas. Um allemão excentrico, apostando
+hospedar-se alli uma noite inteira, foi achado ao amanhecer sem fala,
+nem movimento, e seis mezes depois ainda tremia quando lhe lembravam a
+aventura da Casa Negra.
+
+Era, pois, desculpavel o susto dos aldeões. Vendo a luz coar-se através
+d'aquellas janellas sempre escuras, e não achando o corpo de Antonio
+Simões no sitio aonde fôra assassinado, tudo attribuiram aos maleficios,
+e escudando-se com o amparo da egreja, invocaram a protecção do parocho,
+persuadidos de que as iras divinas, provocadas pelas abominações dos
+jacobinos, haviam quebrado a lousa das sepulturas, soltando os espiritos
+das trevas para flagello e confusão dos inimigos de Deus e de el-rei.
+
+Entretanto, cousa notavel (!) n'esta assembléa dos homens bons do logar,
+como diria um foral de nossos avoengos, faltava o João da Ventosa, o
+orador popular por excellencia, o Hortencio, o Eschino laureado
+d'aquellas visinhanças! O que o detinha? Pouco timorato por indole, e
+até para a epocha e para a educação assaz limpo de abusões, trazia de
+renda as terras da Casa Negra, pegadas com uma horta sua; mas se alguem
+lhe tocava na ruim visinhança do palacio, prendia-se-lhe de repente a
+voz, e uma visagem avinagrada torcia-lhe o semblante. Era mais orthodoxo
+n'este ponto, do que o cura. Os contos de visões e de almas penadas, que
+repetia, não concorriam pouco para entreter o pavor dos companheiros de
+copo e de touradas, os quaes se espantavam, de que elle tivesse animo
+para metter o arado e a enchada em terras, que mais deviam reputar-se
+vinculadas ao demonio, do que administradas pelo bondoso morgado, que as
+disfructára.
+
+Mas como as terras eram excellentes e criavam bem, e como, não sendo
+affrontado por competidores, elle as trazia quasi pelo que queria dar
+por ellas, o João da Ventosa continuava a amanhal-as, e a servir-se das
+officinas do palacio, e até de algumas casas do andar terreo. Peccado de
+avareza que as almas pias e tementes a Deus prognosticavam, que lhe
+seria funesto um dia, arriscando-se a que o demonio, enfadado com o
+atrevimento, levasse pelos ares n'um furacão os bois, as charruas, o
+lavrador, os carros, e os telhados!
+
+Nunca lhe viam o trigo e o milho na eira, que não rosnassem por entre
+dentes: «Queira Deus que o meu compadre uma vez se não arrependa. De
+parceria com o demo nunca ninguem medrou!» O João, como bom christão,
+ouvia-os, suspirando, queixava-se da carestia dos tempos, que obrigava o
+pobre a fazer pão até das pedras, e ia attestando de saccos o celleiro,
+dizendo sempre que muitas noites não podia pregar olho com o alarido
+infernal, que ía lá por cima.
+
+Dadas estas informações essenciaes, que o leitor benevolo desculpará,
+tornemos á nossa historia, e acompanhemos as diversas pessoas, que estão
+em scena, esperando por nós, tanto no Moinho da Raposa, como na Casa
+Maldita.
+
+Quanto aos honrados aldeões, apinhados defronte da porta do reverendo
+prior, não nos dê cuidado a sua inquietação. O parocho, consolando-os
+com duas maximas em mau latim de orelha, prometteu-lhes exorcismar,
+mesmo de longe o espirito maligno, e recommendou-lhes que se recolhessem
+e abafassem depressa, porque a noite estava medonha, e o anno corria
+infamado de pleurizes e catharraes. Dito isto lançou-lhes a benção da
+janella, e foi sentar-se á mesa para não deixar esfriar a ceia. As
+ovelhas imitaram o pastor, e meia hora depois, acalmado o alvoroço,
+reinava na aldeia o mais profundo socego, apenas interrompido pelos
+latidos de algum cão impertinente, e pelas rajadas da chuva e do vento,
+com que a tempestade açoutava as copas das arvores, e fustigava os
+telhados das casas.
+
+
+
+
+V
+
+Não ha atalho sem trabalho
+
+
+Transportemo-nos sem demora ao andar baixo da Casa Negra.
+
+As duas portas da fachada estão fechadas, mas um estreito postigo, que
+abre para o pateo, apenas se acha cerrado. Entremos por elle, e,
+seguindo o som das vozes, continuemos, apalpando no escuro as paredes,
+que se esfarelam de humidade pelo comprido corredor.
+
+É uma especie de dormitorio ladrilhado com portas á direita e á
+esquerda, provavelmente accommodações dos creados do palacio, quando
+fôra habitado. As taboas do tecto, podres e despregadas, ameaçam cahir
+sobre a cabeça, e aqui e acolá montes de caliça dos muros esboroados
+promettem um desabamento proximo. No topo uma porta derreia-se pendente
+a meio cutelo do ultimo leme enferrujado.
+
+Atravessemos depressa! Estamos em uma casa de abobada, fria e surda, com
+duas frestas engradadas. Subamos aquelles tres degraus, e guiemo-nos
+pela claridade baça, e pelo alarido que da extremidade de outro corredor
+nos estão avisando de que na estancia immediata conversam, ou disputam
+muitos homens.
+
+No fim do corredor apercebem-se os vãos de duas escadas interiores,
+cujas vigas e degraus carcomidos tremem de velhice. Uma fenda larga
+racha ao meio a grossa parede, que as divide. Duas portas com travessas
+cerram a entrada das escadas, lançadas dos lados em ramos divergentes
+para o andar de cima.
+
+Empurremos agora as taboas mal juntas de outra porta, que nos veda a
+vista, e adeantemo-nos. O espectaculo que vamos presenciar vale a fadiga
+a que nos sujeitámos.
+
+É a cozinha, terrea e toda de abobada, com fornalhas ao fundo e chaminés
+enormes. Uma immensa pia de pedra á direita, e uma mesa tambem de pedra
+á esquerda, compunham a mobilia primitiva. Na lareira ardem e estalam
+grossos troncos de arvores, cortadas em verdes, e á roda da chamma
+afogueada e crepitante, sentam-se os novos hospedes do palacio. Pelas
+tres janellas lateraes sem vidraças sopra o temporal ás rajadas, e a
+chuva salpica dentro fustigada pelo vento; dos canos das chaminés, meio
+alluidas, escorre a agua, e geme o vendaval, afogando os silvos em
+sussurros prolongados. O clarão dos relampagos, golfando quasi sem
+interrupção, allumia de phantasticos e subitos clarões as paredes e o
+chão lageado da enfumnada, sombria, e vasta quadra.
+
+No recanto, formado pelo angulo da chaminé, e pelo angulo de um grande
+armario embocetado, esconde-se, quasi suspensa, uma escada de caracol,
+toda de pedra, ainda menos mal conservada. Defronte da porta da sahida
+dois arcos de volta mui baixa, parecidos a bôccas de furna, communicam
+para a cave e para a arrecadação, ambas subterraneas e extensas.
+
+Uma especie de lampião, em que são mais as folhas de papel azeitado, do
+que os vidros, balouça-se pendente de cadeia de ferro presa no tecto.
+
+Uma tosca mesa de quatro pés, coberta de toalha, cuja alvura
+desappareceu debaixo da ramagem caprichosa das nodoas de vinho e de
+gordura, levanta-se no meio da casa. Pratos e garfos, um tacho colossal
+de migas com a classica colher de pau enterrada na appetitosa assorda;
+dois cangirões de vinho, e canecos monstruosos, uma cesta de laranjas ao
+pé de uma frigideira de queijos brancos, ladeiam a peça capital do
+brodio campesino, um cabrito acerejado, rodeado de batatas, e credor de
+tentar a gula do mais austero cenobita.
+
+Finalmente, sobre a mesa de pedra, coberto com um capote de cabeções, do
+talho pouco airoso dos chamados Josésinhos, com um tronco por
+travesseiro, e um panno ensanguentado sobre a cara, jaz um vulto, que a
+immobilidade rigida dos membros, e duas vellas uma aos pés, outra á
+cabeceira, dizem claramente ser um cadaver.
+
+De vez em quando os olhos dos que velam bem contra vontade o seu ultimo
+somno, voltam-se para elle, e afastam-se rapidamente, como se temessem,
+que a trombeta final, soando mais cêdo, o despertasse. O sargento
+Cabrinha e o seu honrado confidente Gaspar Preto, o _Sapo_, as pessoas
+conspicuas da assembléa nocturna, em que a nossa indiscreção introduz o
+leitor, são as que olham mais a miudo, e de cada vez que fitam vista
+n'aquelle corpo inerte, um calafrio arrepia-lhes a espinha dorsal, e um
+suor de mau agouro, apezar da temperatura, borbulha na testa de ambas.
+Dariam tudo por se verem a cem leguas da companhia d'aquelle morto, cujo
+sangue o seu remorso, como que está avivando mais em manchas vermelhas
+sobre o sudario, que lhes esconde o rosto.
+
+Os principaes auctores concordam com o logar e com os accessorios.
+
+Comecêmos pelo chefe, como é razão.
+
+A physionomia de Estevam Cabrinha não desmente a reputação. Conta pelo
+menos sessenta annos, mas póde melhor com elles, do que outros, menos
+robustos, poderiam com quarenta. A testa esguia e deprimída lembra a
+fronte felina, e a mobilidade de duas profundas rugas, cavadas logo por
+cima dos sobrolhos, ainda torna mais sensivel a similhança. Faces
+encovadas, beiços sorvidos, barba revirada, e por cima da pelle uma côr
+assanhada de amora mansa, não lhe permittem suppor-se por certo nenhum
+Cupido, nem seccar-se, como Narciso, de paixão pela belleza propria.
+
+O nariz, adunco, em fórma de bico de papagaio, caía como apagador,
+ornado de botões vinosos, sobre a bôcca. Os olhos, cujo raio visual se
+torcia com sinistra expressão, tinham aquelle tom baço e frio de
+pupillas, que revela quasi sempre as almas traiçoeiras. Curto de
+pescoço, largo de hombros, e prendado com uma corcova assás volumosa,
+imita nos movimentos lentos o pesado garbo do urso dos Alpes.
+
+O ventre proeminente, e as pernas delgadas provam, que pouco tinha que
+agradecer á providencia as graças do busto. Os cabellos hirsutos,
+empastados na testa, alargam-se como duas orelhas derrubadas sobre as
+fontes, e terminam por um rabicho esplendido de meio covado de comprido,
+dançando enfeitado de seu laço de fita preta sobre a farda,
+polvilhando-a de pós, e ensebando-a de banha.
+
+Um bigode, quasi todo branco, espetado nas guias, como as sedas de um
+chicote, e o resto da cara rapado e escanhoado cuidadosamente, afinam
+perfeitamente o typo singular e repugnante d'este personagem funesto,
+que as desgraças civis fizeram sobrenadar com as escumas sociaes, mas
+que as galés cêdo, ou tarde, hão de recolher, como filho prodigo, se as
+iras populares se lhes não anteciparem.
+
+Trajava a farda de milicias, de panno azul ferrete, botões e vivos
+brancos, abas de tesoura, e gola de espeque. Os calções de uniforme e as
+polainas atraiçoavam-lhe a magreza das pernas. A espada de bainha preta
+e copos de roca descançava fóra do boldrié a seu lado, e a alabarda,
+insignia do posto, via-se encostada da outra parte.
+
+O _Sapo_ merecia a alcunha. Teria trinta annos. Era todo branco-papel,
+cara e cabellos, como se um moleiro o tivesse amortalhado em um sacco de
+farinha, mas d'aquelle branco livido e sepulcral, que nos enoja e
+repugna, quando contemplâmos qualquer reptil asqueroso. Uma queda em
+pequeno tinha-lhe deixado em memoria a deslocação da perna esquerda,
+que, torcida quasi em rosca de parafuso, o obrigava a andar aos saltos
+como a rã, ou a agachar-se, como o animal immundo, cujo nome o baptismo
+dos visinhos substituira ao seu.
+
+Quasi sem nariz e beiços, vesgo, e da altura de um rapaz de nove annos,
+não mostrava no rosto ponta de barba, e quando se ria escarnava as
+gengivas e os dentes, de modo, que as mulheres lhe chamavam por escarneo
+o bôcca de tubarão. Agil e matreiro, como a raposa, a sua actividade era
+incansavel, a sua consciencia larga como o peccado, o seu coração duro
+como um penhasco. Caçador dos mais destros, andarilho infatigavel apezar
+das pernas, curioso e falador como um cento de comadres, ouvia, sabia, e
+aproveitava tudo.
+
+Accusavam-o de não perdoar aos outros a fealdade propria, e de se
+felicitar com os alheios males. Auctor de alguns furtos industriosos,
+espião e delator por officio, assassino por vocação, Gaspar Preto, como
+o imperador romano, desejaria ao genero humano uma só cabeça para lh'a
+decepar de golpe. Vestia calções curtos atacados sobre as meias de lã,
+botas de couro branco e salto de prateleira, collete e vestia de
+belbutina com botões ôccos de metal amarello, e cinta escarlate muito
+apertada ao corpo.
+
+A espingarda, sua fiel companheira, estava sempre á mão, e a tiracolo
+encruzavam-se-lhe sobre o peito as correias do polvorinho e do
+chumbeiro. A navalha de ponta e de cabo de osso, que trazia na cintura,
+era afamada em toda a comarca pela habilidade, com que a jogava, ou com
+que sabia atiral-a de arremesso aonde punha o alvo.
+
+Os cinco homens da milicia e da ordenança, que acompanharam o sargento
+na diligencia ao Casal do Ouro, não merecem menção especial. Aldeãos
+corpulentos cabeceavam de somno ao calor do lume, e bocejavam de fome ao
+tinir dos pratos, que um creado do João da Ventosa principiava a pôr em
+cima da mesa. O João, sim, esse é que destaca de todo o grupo pela
+figura, pelos gestos, e pelo aspecto na realidade digno de exame. Será
+homem de quarenta e cinco annos, mas não inculca mais de trinta e oito.
+Bem posto e proporcionado de membros, mais esbelto, do que robusto, á
+primeira vista, mais engraçado, do que forçoso na apparencia. A cara
+redonda e os beiços grossos e sensuaes, o olhar fino e malicioso, e a
+bôcca cheia de riso, na sua mocidade tinham feito d'elle o enlevo e o
+adonis das bellas e namoradas raparigas d'aquelles contornos; porém
+debaixo d'estas fórmas quasi delicadas escondia elle vigor pouco vulgar,
+assim como o sorriso meio travesso, que lhe bailava nos labios,
+disfarçava uma firmeza e penetração mui pouco usuaes.
+
+Sabia ler, escrever, e contar como um mestre--eschola. Se tivesse
+nascido trinta annos depois, n'estes felizes tempos, era de certo juiz
+eleito, regedor, vereador, e quem sabe (!) talvez mesmo deputado! Outros
+muito peiores deu já á luz a urna rural. São os que, cerzindo umas abas
+de paletó á jaqueta hereditaria, mascarram de interpellações boçaes e de
+apoiados taurinos e beocios o extracto das sessões, acotovellando-se nos
+aditos da tribuna.
+
+O nosso amigo contentava-se, porém, com os seus trinta a quarenta moios
+de colheita, com as vinte pipas de azeite, que expremia nos seus
+lagares, com os toneis attestados de vinho puro e genuino, honra e
+orgulho da sua adega, e com a vara de juiz de vintena, magistratura
+exercida a contento de clero, nobreza e povo.
+
+O João da Ventosa, ou João Bonito, como lhe chamavam as mulheres da sua
+edade, gosava álém d'isso da fama de rico, pastava bons rebanhos na
+charneca, fazia dinheiro de tudo, e abotoava-se com um bom par de
+louras. Solteiro e jovial vivia só em companhia de um sobrinho de
+quatorze annos, e de dois creados.
+
+Ao pôr da tarde, vendo a trovoada armada, tinha ido de passeio rondar as
+hortas e o olival, tinha deitado depois até ás abegoarias, e na volta de
+uma das arribanas, por encurtar caminho, viera descair á azinhaga, aonde
+a espingarda do _Sapo_ acabára de deitar por terra Antonio Simões da
+Aramanha.
+
+O estrondo do tiro, a hora e o grito do ferido obrigaram-n'o a apertar o
+passo. Assim mesmo chegou tarde. O assassino já tinha saltado o vallado,
+e o corpo do fazendeiro jazia prostrado. Era quasi noite, choviscava
+rijo, e o ribombo dos trovões amiudava. Inclinou-se para o morto,
+conheceu n'elle um amigo de vinte annos, exhalou um suspiro, rosnou uma
+praga contra o homicida, e, depois de alguns momentos de hesitação,
+levantou-o nos braços, como se o peso não o devesse ajoujar, e
+deitando-lhe a cabeça sobre o hombro, sem vergar, encaminhou-se com elle
+para casa. Á porta chamou o maioral e o abegão, e todos tres
+transportaram o cadaver para a cozinha.
+
+Duas horas depois batia á porta o sargento Cabrinha com os seus
+milicianos, e da parte da justiça pedia agasalho por aquella noite para
+elles e para os presos. O João da Ventosa, ao que parece, estava
+occupado, porque os deixou repetir o recado terceira e quarta vez.
+
+Por fim veiu abrir em pessoa, e desculpando-se com o mau tempo, metteu o
+sargento na cozinha com os acolytos, e guiou Paulo de Azevedo ao andar
+nobre, a um aposento mais bem reparado, aonde um leito antigo de
+balaustres enroscados e baldaquino de seda carmezim, cama quasi regia,
+parecia esperar por elle. O quarto de D. Leonor era ao lado, e
+communicava por uma entrada baixa com o de seu pae. Cabrinha assistiu ao
+aquartelamento dos presos, visitou o corredor e a escada, que era a que
+dava para a cozinha, sondou a parede de duas portas entaipadas de
+fresco, que abriam d'antes para o corpo do palacio, e não socegou senão
+depois de ter fechado o cavalheiro de Mafra e sua filha a duas voltas de
+chave nas duas camaras, que um official amigo do rendeiro havia separado
+do resto da casa, enchendo de pedra e cal o vão das portas.
+
+--A menos de não lhes nascerem azas de repente, murmurava o sargento,
+para voarem, ou de passarem como espiritos através dos muros, os dois
+estão seguros. A evasão pelas janellas, vista a altura, equivale a um
+suicidio; e pela porta, mesmo que a arrombem, como não ha senão uma
+escada e uma saida, e ambas vão dar á cozinha, aonde conto acampar,
+qualquer tentativa serviria só de os tornar a metter nas goelas do lobo!
+
+Tomadas todas as cautellas, que a prudencia aconselha, Estevam Cabrinha
+desceu com o seu hospede, e principiou a apalpal-o, ácerca da
+generosidade, que lhe suppunha de não consentir que elle e os seus
+jejuassem só com o leve almoço, esmoido no largo passeio do Casal do
+Ouro á Ponte da Asseca. João da Ventosa respondeu ás gargalhadas, que de
+sua casa nunca saiam barrigas famintas, e gritando pelos creados, mandou
+trazer luz e accender o lume.
+
+N'este momento entrou o _Sapo_.
+
+Rondando as visinhanças o virtuoso assessor do sargento achou a porta
+meio cerrada, ouviu de fóra a voz aspera e roufenha do amo, e sem mais
+ceremonia inseriu-se no texto, enfiou o corredor, e veiu farejar a ceia
+e a pousada.
+
+A manta, em que se enrolava, escorria como se fôra tirada de um tanque,
+e as botas atascadas de barro denunciavam a larga excursão de que se
+recolhia. Approximando-se de Cabrinha, tocou-lhe no hombro, e disse-lhe
+ao ouvido duas palavras. O digno mandarim recuou sobresaltado, e não
+poude conter uma exclamação em alta voz, exclamação de susto e de
+alegria ao mesmo tempo, que não escapou á curiosa attenção, com que o
+João da Ventosa espreitava e escutava com todos os sentidos vigilantes o
+dialogo confidencial dos dois personagens, cujas proezas conhecia de
+longa data.
+
+As suspeitas, que desde o principio o tinham assaltado ácerca dos
+verdadeiros auctores do homicidio da azinhaga, confirmaram-se.
+
+Estevam Cabrinha era muito capaz de encommendar a morte do fazendeiro, e
+Gaspar Preto muito obediente servo, em se tractando de um crime, para
+elle os não accusar secretamente do delicto, e não vêr as mãos de ambos
+tintas no sangue do seu amigo. Sabia a historia da prisão de Antonio
+Simões, não ignorava a promessa indiscreta que elle fizera, de varejar
+as costellas do sargento e do _Sapo_, e o mau conceito que formava
+d'elles, auctorizava-o a crer que o tiro e a espera haviam partido de um
+plano concertado com a deliberação e perversidade, que tanto
+caracterizavam o coxo, e o seu Mecenas.
+
+Mas se o sargento era jubilado em velhacaria, e se o seu fiel Achates
+tinha estanhadas a alma e as faces, João da Ventosa lisongeava-se de os
+codilhar a ambos em esperteza, e armára uma rede, em que haviam de cair
+por força. Calou-se, pois, e esperou.
+
+D'ahi a pouco o moço dos bois appareceu com o velho e cansado lampião,
+cuja luz mortiça só começou a avivar-se depois de pendurado. Logo atraz
+outro creado atirava ao chão com um grande feixe de matto secco, e
+arrastando para a lareira dois cepos de oliveira, petiscava lume com o
+fuzil, e incendiando tudo ateava uma labareda, cujos clarões, lambendo
+as paredes da vasta chaminé, derramaram por toda a casa viva e repentina
+claridade. De subito o sargento, que se achava com o _Sapo_ junto da
+mesa de pedra, olhou, viu o corpo, e por um gesto machinal e
+irresistivel extendeu a mão, e levantou o panno que lhe cobria o rosto.
+A vista encandeou-se-lhe, os cabellos erriçaram-se-lhe, e um grito de
+espanto truncou-se-lhe suffocado na garganta. As côres rubicundas
+amorteceram-se, e, se não se ampara com a hombreira, resvalava redondo
+no chão, tão fracos lhe fugiam os joelhos.
+
+Gaspar Preto ainda revelou mais horror. Recuando até á parede com as
+mãos abertas como para afugentar de si a visão terrivel, parecia
+metter-se pelo muro dentro, com os cabellos em pé, as pupillas
+envidraçadas, e tal convulsão em todo o corpo, que o frio de uma sezão
+mortal não podéra ser maior.
+
+Os milicianos boquiabertos contemplavam o cadaver, e a figura singular
+de Estevam Cabrinha e do coxo, que não eram santos da devoção de nenhum
+d'elles.
+
+João da Ventosa sorria-se para dentro. Dir-se-hia que fulminava os dois
+cumplices com o sombrio fulgor dos olhos. Um instante depois pousou a
+vista, sereno e temperado, sabendo conter-se e dissimular para não se
+prender no mesmo laço, que tecia aos outros.
+
+Seguiram-se as explicações. O rendeiro com a voz macia, cujo timbre era
+quasi feminil, e aquelle ar de rir bondoso, que encobria tanta cousa,
+desculpou-se da triste companhia, que era obrigado a dar aos hospedes.
+
+Tinha encontrado, disse elle, Antonio Simões morto, apenas o conhecia de
+vista, mas não tivera animo de deixar o corpo de uma creatura de Deus
+exposto no caminho toda a noite. Não havia outra casa decente, aonde
+esperasse a sepultura christã, e o tempo e a hora não permittiam chamar
+o padre, e deposital-o na egreja. Ao passo que explicava isto, o
+compassivo João accendia de vagar duas vellas de cêra, amarelladas dos
+ocios da gavêta, e cravando-as nos castiçaes de estanho amolgados, punha
+uma aos pés e outra á cabeceira do morto, completando com todo o socego,
+e de proposito, a exposição funebre, que arripiava os circumstantes, e
+especialmente o sargento e seu confidente, constrangidos a associar toda
+a noite o banquete e o somno dos vivos ao espectaculo do cadaver
+ensanguentado da sua victima. Se ambos podessem ler na alma do homem,
+que lhes estava falando, ainda haviam de tremer mais!
+
+Na mente d'elle tudo isto apenas era prologo!
+
+
+
+
+VI
+
+Ressurreição de Lazaro
+
+
+Decorreram minutos sem que as mandibulas de Estevam Cabrinha, deslocadas
+pelo terror, podessem volver ao estado natural. Nem articulava, nem
+balbuciava. Só a pouco e pouco é que se foi restaurando do susto, e
+maldizendo o _Sapo_, o rendeiro, e aquella funesta casa, regougou meio
+desvairado uma evasiva para desculpar o pavôr, que o accommettêra, e que
+não era senhor de disfarçar.
+
+Os seus nervos estavam tão delicados, que a vista do sangue e do
+cadaver, tirava-o de si, e tornava-o mais fraco, do que uma mulher!
+Entretanto fazia o possivel por ser homem; mas pedia por tudo o que
+havia de santo no céu e na terra, que o não obrigassem a velar a noite
+ao pé do morto, se em vez de um, não queriam enterrar dois cadaveres.
+
+João da Ventosa affectou clemencia. Capitulando com os terrores do
+sargento prometteu dar-lhe um quarto retirado no fundo do corredor,
+depois da ceia. Pediu-lhe depois licença para ir cuidar dos hospedes
+presos, que desejava receber como pessoas nobres, e que a má reputação
+da casa por certo assustaria, sobre tudo na escuridão, e com o temporal
+que parecia arrancar as arvores e os telhados. Cabrinha suspirou, e com
+um aceno respondeu que sim. Sentia-se gelado, e o coração batia-lhe com
+tal força, que parecia querer saltar fóra do peito.
+
+O lavrador accendeu dois candieiros de latão amarello de tres bicos,
+pesados e disformes, pendurou pela argola um em cada mão, e começou a
+subir a escada, escoltado por Cabrinha, que apezar de meio tonto, e de
+tartamudo de mêdo, sempre desejou certificar-se outra vez de que a
+gaiola, como dissera antes, era solida, e não deixaria escapar os
+passaros.
+
+Um creado poz a toalha, trouxe queijos e pão, e reanimou o alento dos
+milicianos, collocando triumphalmente em cima da mesa um bojudo cangirão
+e dois canecos de estatura descommunal, destinados ás libações. Os
+soldados chegaram-se a principio timidos, partiram e saborearam o
+queijo, acharam-o excellente, provaram o vinho, que estava ainda coberto
+da espuma da pipa espichada de proposito, e romperam o assalto,
+esquecendo gradualmente o morto, o sargento, e o _Sapo_, o qual,
+agachado como fera medrosa a um canto da chaminé, só dava signal de vida
+nos estremecimentos, que lhe saccudiam os membros.
+
+A demora de Cabrinha em cima foi grande. Quiz assistir a todos os
+arranjos, que a velha servente do rendeiro determinou, e que ia
+executando com a mão vagarosa por entre as orações resmungadas entre
+dentes a Santa Barbara e a S. Simeão Stelita, advogados contra os
+trovões.
+
+Viu, pois, lançar nas camas os lençoes de linho fino e defumados,
+recheio das arcas do lavrador; viu enfiar as fronhas e os travesseiros
+de folhos com fitas azues; viu deitar as colchas de seda da India
+matizadas, e pregar as cortinas dos leitos. Immovel e calado os seus
+olhos vigiavam tudo, mas o seu espirito ausente estava ao pé do morto.
+Finalmente os moços trouxeram a ceia em bandejas largas, e a creada
+velha despediu o amo e o sargento, declarando que ficava e dormia perto
+dos presos para os servir.
+
+Cabrinha saiu atraz do seu amphytrião, fechou a porta, e metteu a chave
+no bolso. Por este lado estava tranquillo. Restava a ceia com o cadaver
+defronte. Essa é que se lhe representava um supplicio insupportavel; e
+se não fosse o receio, com que o remorso ata a lingua dos criminosos,
+teria pedido um pedaço de pão secco, um ou dois goles de vinho, e iria
+para o meio da estrada esperar que nascesse o dia, mesmo em risco de uma
+pancada de agua o ensopar, ou de um raio o fulminar. Não se atreveu,
+porém. De cabeça baixa e passos incertos, sem ousar olhar, e não
+podendo, todavia, apartar a vista da mesa de pedra, veiu sentar-se ao
+brazeiro, do outro lado, defronte do _Sapo_. Ao mesmo tempo o João da
+Ventosa consultava o immenso relogio de prata, e, vendo apontadas no
+mostrador as dez horas, gritava pelos creados, que apressassem a ceia,
+se não queriam que elle e seus honrados amigos morressem alli todos de
+fraqueza.
+
+--Vamos! exclamou. Andar! Esse cabrito não acaba de sair do lume,
+mandriões? Para temperar umas migas será preciso chamar o cozinheiro do
+patriarcha? Oh Pedro? As batatas cozam-n'as no borralho!... Ficam mais
+gostosas. Dêem-me d'aquellas laranjas de casca fina do pomar de cima,
+que eu apanhei hontem. Tirem o vinho da pipa nova! Bem basta a
+inferneira que logo ahi vae em sendo meia noite! E então com esta visita
+em casa! E apontava para o morto. É preciso que o demonio e as almas do
+outro mundo, quando vierem, nos achem confortados e quentes de estomago,
+limpos de coração, e lavados de consciencia... Que tal é esse vinhinho,
+camarada? Ajuntou pedindo o caneco a um dos milicianos, ao qual o seu
+discurso petrificára os movimentos, conservando a taça rustica a meia
+distancia da mesa e da bôcca sem animo de a depor, ou de a sorver. Os
+outros, pallidos e sobresaltados, olhavam espavoridos para as portas,
+para as paredes, e para a mesa de pedra, e benziam-se, suppondo ver já
+um espectro em cada canto.
+
+--Vamos! ajuntou. Á nossa saude! E que Deus nos livre por muitos e bons
+annos de um amigo, como encontrou aquelle que alli jaz! E emboccando o
+caneco deixou cair do bico o vinho em fio dentro da bôcca á moda
+hespanhola, engorgitando-o lentamente com delicias.
+
+O brinde funebre produzira o seu effeito. O sargento poz-se em pé e
+desabotoou tres botões da farda. Sentia-se a arder. O _Sapo_ agachou-se
+mais, e ouviam-se-lhe distinctamente bater os dentes.
+
+--A ceia! A ceia! Rapazes! clamava o lavrador acompanhando o rebate das
+vozes com fortes punhadas em cima da mesa.
+
+Os creados acossados por estas impaciencias, verdadeiras, ou fingidas,
+saccudiram a preguiça, e a correr acabaram de pôr a mesa, a correr
+trouxeram as migas e o cabrito, e a correr tambem vieram com as batatas
+e as laranjas. O cangirão refrescado por segunda visita á adega estava
+cheio até á borda.
+
+--Vamos a ella? gritou o dono da casa. Senhor sargento, chegue-se para
+os bons, e será um d'elles! sente-se do meu lado. Tu, meu _Sapo_, com
+essa cara de alvaiade vae para alli. És curioso, e quero que me
+espreites o defunto a ver se bole com a alegria dos vivos! Os camaradas
+accommodem-se aonde poderem! Desculpem as colheres de pau e os garfos de
+ferro. A pratita, que tinhamos, está em Lisboa; nos tempos, em que
+vivemos, digam lá o que disserem, sempre é o mais seguro... Nada de
+tristezas! Longe vá quem mal nos quer! Senhor sargento á nossa! É bom
+copo, tenho ouvido, mas o João tambem não arreia. Encha-me esse caneco
+até cima, e despeje-m'o de um trago, senão digo que o vinho é mau, ou
+que debaixo de boa capa ruim bebedor!
+
+Por um esforço heroico Estevam Cabrinha conseguiu obedecer. Não tinha
+sêde, nem fome, tinha medo. A ceia era para elle um martyrio, sobre tudo
+com as costas viradas para o cadaver, cuja sombra se lhe figurava a cada
+momento alevantada por cima dos hombros. O _Sapo_ não padecia menor
+tormento. Com o morto e a vista do sudario ensanguentado defronte
+enlouquecia de terror e de afflicção. Suas pupillas dilatadas não podiam
+despregar-se d'aquelle testemunho irrecusavel, que lhe avivava o crime
+pela bôcca das feridas, por onde fugira a alma. Deixou de ver o que o
+rodeava para vêr só a victima silenciosa, e ameaçadora. Poz-se-lhe um nó
+na garganta, e um véu nos olhos. A primeira colhér, que levou á bôcca,
+tornou-se-lhe de fel; o primeiro trago de vinho, que sorveu, soube-lhe a
+sangue. Sentia tentações de se atirar pela porta fóra, desatando em uma
+corrida louca; mas os pés estavam grudados ao chão e as pernas mal o
+sustinham. A cada instante entrava-lhe pelos ouvidos o som dos passos de
+Antonio Simões, e ouvia o grito que elle arrancára caindo ferido. O suor
+escorria-lhe em bagas da testa, e os beiços tremulos denunciavam a
+intensidade da agonia.
+
+O lavrador observava, e dissimulava. O seu ar de riso e a sua
+jovialidade cresciam á proporção, que iam aggravando-se as dores moraes
+de ambos.
+
+--Que é isso, _Sapo_? accudiu elle apertando os tratos ao mais culpado.
+Que é feito d'aquella galhofa do outro dia, meu velho? Estás com cara de
+enterro. Terás tu morte de homem ás costas, diabo?!!...
+
+A esta interpellação directa, que o rendeiro disfarçou em uma risada
+larga e sonora, o remorso fez saltar involuntariamente dos bancos o
+sargento, e o seu cumplice, como se a voz do sangue chamasse por elles
+no tribunal de Deus. Á pergunta: Cain que fizeste de Abel, ao brado que
+a consciencia repetia aos dois, ambos tremeram, mas não poderam
+responder: não fui eu! Sentiam-se tomados de espanto até ás mais fundas
+cavernas do coração.
+
+João da Ventosa, entendendo que não devia ir mais longe para não se
+descobrir, e vendo os dois de pé, mudos, e pasmados, tractou de os
+tranquillizar a seu modo, isto é, vertendo-lhes o terror nas veias por
+outro modo.
+
+--Sente-se, meu sargento! disse elle mettendo o hospede no coração com o
+tom assucarado. Que vespa o mordeu? Os ares da casa não são bons, sei
+muito bem; mas o que quer? A gente toma amor ao ninho, e depois não ha
+quem o despegue d'elle. Não tenho mulher, nem filhos; nasceu-me aqui o
+dente do siso, e... É melhor não tocar em cousas más. Mas sempre lhe
+digo que ha noites! Ainda antes de hontem foi um reboliço lá por cima de
+cadêas arrastadas, de soluços e gemidos, que vinham os sobrados
+abaixo...
+
+--E nunca viu nada, senhor João? atalhou um dos milicianos meio
+engasgado com um pedaço de cabrito, que o susto causado pelas reflexões
+caridosas do rendeiro lhe atravessára na garganta.
+
+Estevam Cabrinha desabotoára todos os botões da farda, e pelas frestas
+da camisa aberta mostrava o peito vellôso como o de um cerdo. Tinha os
+cotovellos na mesa, a cabeça entre as mãos, e os olhos espantados.
+
+Gaspar Preto recaira, sem poder reprimir-se, no tremor das primeiras
+horas.
+
+Aquelles dois entes, tão fortes contra a consciencia, tão esquecidos de
+Deus e da justiça humana, desmaiavam como creanças deante da sombra do
+seu crime e dos pavores do invisivel.
+
+--Se não vi nada?... Oh! redarguiu o dono da casa, tornando-se serio de
+repente, e fazendo suppor com a reticencia, que não tinha animo para
+dizer tudo.
+
+--Conte-nos isso! accudiu um dos comensaes, que não era dos menos
+timidos, mas que era de certo dos mais curiosos.
+
+--Para que? Para não dormirem umas poucas de noites?!... respondeu João
+da Ventosa. É melhor falarmos de cousas alegres.
+
+--Não. Não! Diga!
+
+--Depois não se queixem! Faz hoje um anno, e justamente chovia e
+trovejava como agora, que parecia que se acabava o mundo. Tinha uma
+cadella de perdizes, que era um brinco, a Pomba. Faltou-me todo o dia, e
+cuidei logo que ficaria fechada lá em cima. A esse tempo ainda eu não
+tinha mandado tapar as duas portas dos quartos, que viu o sargento, e
+aonde estão os presos. Peguei n'uma lanterna e subi. Atravessei tres
+salas. Apitei, chamei a Pomba, não me respondeu, ella, coitadinha, que
+em me ouvindo era toda saltos e alegria. Olhei por acaso para um canto
+mais escuro, e vi... a pobre da bruta morta com a cabeça torcida!... Não
+sei o que me passou pela vista, mas tive medo, medo deveras, juro-lhes.
+Peguei no corpo da Pomba, e arrastando-me, e tropeçando, vim até á
+porta, que hoje está entaipada. De repente um sopro forte apaga-me a
+luz, um clarão bate-me nos olhos, e uma figura branca apparece-me tão
+alta e transparente, que se via através das roupas e do corpo (se era
+corpo!) como através de um vidro fino. Não posso dizer-lhes o que senti,
+mas quiz gritar e faltou-me a voz, quiz benzer-me e caiu-me a mão, quiz
+fugir e fiquei parado.
+
+«O Fantasma fitou-me dois instantes com um olhar frio, que gelava e
+disse-me: Desgraçado de ti se tivesses sangue nas mãos! Nenhum matador
+sae vivo d'esta casa! Perdi os sentidos. Quando tornei a mim era dia, e
+estava deitado na minha cama. Suppuz ter sido tudo sonho; mas a cadella
+morta jazia aos pés do leito. Enterrei-a, fiz uma parede das duas
+portas, e andei um mez como doudo, malucando no caso, que podia ser
+peior... Fóra com historias negras! exclamou mudando de tom. Estamos
+hoje aqui muitos, e graças a Deus nenhum de nós tem de lavar as mãos de
+sangue, que vertesse. Vae dar meia noite! ajuntou tirando um relogio de
+prata. É a hora da senzala principiar lá por cima. Não se assustem! O
+vinho é bom, festejemol-o, e o que for soará. Nossa Senhora, minha
+madrinha, não ha de desamparar-nos.»
+
+A consolação acabou de petrificar o auditorio, que a narração já não
+tinha estultificado pouco. O sargento e o seu assessor, ainda mais
+enfiados, trocaram um olhar desvairado, e gemeram um suspiro. Era a sua
+sentença que o espectro annunciára pela bôcca do lavrador? Os canecos
+ficaram cheios sobre a mesa; o cabrito, meio escarnado, viu suspensas as
+hostilidades, que ameaçavam deixal-o na ossada; e só o dono da casa
+levou aos beiços, e exgotou a libação, que propozera. O volumoso relogio
+de caixas de prata posto a seu lado, attrahia a vista anciosa de todos.
+Era tão profundo o silencio, que se sentia a leve pancada da machina
+trabalhando. Finalmente o ponteiro pousou-se nas doze horas, e o
+lavrador, como se obedecesse a um impulso espontaneo e invencivel,
+poz-se de pé, e exclamou:
+
+--Meia noite! Deus seja comnosco!
+
+N'este momento, como se a natureza quizesse associar os seu terrores á
+scena alli representada, um furacão espantoso saccudiu e abalou todo o
+palacio com rugidos prolongados, um trovão rebentou perpendicular com o
+estrondo de cem canhões no meio de medonhos estalos, fazendo tremer a
+terra, a casa encheu-se de luz electrica por um instante, e a chuva,
+açoutando com o seu granizo rijo e batido os telhados e os muros,
+enxurrou dos tectos pelas chaminés arrombadas, e veiu quasi extinguir o
+lume, que esmoreceu em chispas lividas por entre ondas de fumo. Ao mesmo
+tempo as duas portas pregadas com travessas á entrada das escadas, que
+desciam para a cozinha, vieram a terra com fragor, o cadaver deitado
+sobre a mesa ergueu meio corpo sobre o cotovello, e arrancou o panno
+cruento, soltando um gemido lugubre, e uma figura de altura descommunal,
+envolta em sudario branco e fluctuante, assomou ao limiar. Tudo isto
+occorreu em menos de um segundo, acompanhado do ruido de ferros
+arrastados, do tropel de passos e de quedas tumultuosas, e de um
+verdadeiro clamor de vozes e gemidos no andar de cima.
+
+Os milicianos apavorados hesitaram um instante immoveis. Depois
+correndo, como loucos, investiram pelo corredor, e como rebanho
+tresmalhado e perseguido por alcateas de lobos, sentiram de repente azas
+nos pés, e voaram pela estrada inundada por entre os relampagos e por
+baixo das aguas da tempestade, gritando misericordia!
+
+O sargento ao som das portas, que desabavam, e deante da apparição
+inopinada, sem saber já de si, e sem ver o morto alçar-se, trepou em
+dois pulos a escada de pedra, metteu a chave na porta, e acoutou-se nos
+aposentos dos presos, tão cego e attonito que atropellou na carreira a
+velha servente na sua cama, e foi cair de bruços ao pé da mesa, aonde se
+apagava em vascas a véla consumida de um castiçal.
+
+O _Sapo_, que observámos paralyzado momentos antes, vendo surgir o
+fantasma, sentiu todos os instinctos ferozes irritados, e pegando da
+espingarda, e apontando-a n'um abrir e fechar de olhos, só volveu em si,
+quando o cão bateu na pederneira, e esta faiscou, sem queimar a escorva,
+deixando-lhe nas mãos uma arma inutil. Então, como o tigre que rompe a
+jaula, arremetteu pelo corredor do dormitorio, e de lá, galgando o muro
+baixo do pateo, sem se deter a buscar a porta nas trevas, achou-se no
+campo, e precipitando-se por sebes e vallados, veiu parar sem folego,
+sem voz, e sem consciencia de si ao pé do moinho da Raposa.
+
+Finalmente o proprio espectro, primeira causa de todo o alvoroço, não
+escapou ao contagio geral, e deu tambem parte de fraco. Vendo o morto
+levantar-se e saccudir os véus funebres, assaltou-o tal convulsão de
+mêdo, que, tapando os olhos com um grande grito, desabou no chão do alto
+das andas, em que estribava. Teve razão ainda d'esta vez o adagio.
+Virou-se o feitiço contra o feiticeiro!
+
+Mas as peripecias d'esta dramatica noite não estavam terminadas. No
+momento, em que, afogado em riso, o João da Ventosa accudia a levantar o
+fantasma demolido pelo susto, o sargento Cabrinha despenhava-se pela
+escada, bradando possesso de espanto. Não era sem causa!
+
+Seguimol-o quando subia os degraus a dois e dois para se refugiar na
+camara dos presos; vimol-o enrolar-se e tropeçar no corpo tolhido de
+rheumatismos da tia Margarida, a qual, pobre mulher (!), acordada em
+sobresalto pelos trovões, tiritava de joelhos em anagua de estopa,
+benzendo-se, e invocando todos os santos da côrte do céu, quando aquelle
+furacão humano se ennovellou com ella, e lhe fez das costas escabello.
+Os gritos da servente, a motinada do palacio, que alli soava mais
+proxima, desembriagaram um pouco do medo do andar de baixo o virtuoso
+agente de Lagarde, mas exaltando-lhe os terrores excitados pelo andar de
+cima. Percebeu que o asylo, que buscára, era peior do que o perigo, e
+tractou de apressar a retirada.
+
+Mas apezar dos accessos de valor, que lhe notámos, era malsim na alma e
+nos ossos, e a curiosidade prevaleceu. Antes de fugir quiz verificar de
+novo se os outros podiam fugir. A tremer pegou em uma véla e abriu as
+cortinas da cama de Paulo de Azevedo. Recuou pasmado. Estava vasia!
+Correu ao quarto immediato de Leonor; achou-o deserto! O unico preso,
+que não se bolira, fôra a inoffensiva e tropega Margarida! O sargento
+sentiu estalar uma cousa dentro do peito. Se tivesse coração diria que
+era o coração! Não o tendo acabou de se lhe varrer o sizo, e ficou por
+minutos estatico a contemplar aquella solidão, obra visivel do demonio.
+
+Por fim este ultimo golpe e uns suspiros em tremulos, exhalados do outro
+lado da parede, venceram esses restos de vigor, que ainda conservára.
+Consumou o seu destino, e despejou o campo como os seus milicianos,
+porém com menos felicidade. Quiz descer a escada, os pés atraiçoaram-o,
+e mediu-a com as costellas de cima até baixo. Quando tornou a si com a
+dor, e por ella conheceu que vivia ainda, os seus olhos horrorizados
+perderam a luz de assombro e de pavor.
+
+No meio da casa o Manuel Simões da Aramanha, de pé, encarava-o sombrio e
+terrivel. Ao pé da mesa o fantasma branco, entrouxado nos lençoes,
+extendia o braço direito em ar de ameaça. Atraz d'elles João da Ventosa,
+mudo e inerte, e como gelado, apontava-lhe para o corredor, sem falar,
+como se o convidasse a fugir. Não poude mais. Atou as mãos na cabeça e
+caíu sem sentidos.
+
+
+
+
+VII
+
+Segredos em toda a parte
+
+
+Os aposentos aonde Paulo de Azevedo Carvalho e sua filha foram
+encerrados, em um dos torreões do palacio, eram dos mais bem
+conservados. Os tectos não estavam arrombados; os filetes, que
+guarneciam as molduras das paredes, forradas de pannos de Arraz, ainda
+não tinham perdido de todo o ouro; e a humidade não acabára tambem de
+desvanecer inteiramente as tintas dos quadros de caçadas, batalhas e
+scenas campestres, representados na tela. Apezar de velhos e de
+ennegrecidos, os moveis ainda resistíam em parte aos seculos e ao
+caruncho.
+
+O venerando leito de cabeceira de talha alta e columnas enroscadas
+occupava o centro da primeira casa, e podia quasi dizer-se um edificio,
+um monumento, pelo descommunal das proporções. Um pesado baldaquino de
+seda desbotada cobria o céu da cama, e largas cortinas do mesmo estofo
+desciam dos lados a arrastar pelo chão.
+
+Defronte um tremó, que na sua mocidade brilhára pelo esplendor dos
+dourados, mas que na velhice, ou antes na decrepidez, apenas se
+recommendava por bellos relevos de folhas e flores, com um espelho de
+Veneza em cima, comido e manchado no aço, sustentava duas jarras do
+Japão da mais preciosa porcellana, infelizmente rachadas. Cadeiras de
+braços, mutiladas, um velador alto desgrudado, um bofete de almofadas
+com sua escrevaninha de prata mareada, olhando para o espelho,
+completavam a mobilia.
+
+Na segunda camara havia um leito mais singelo sem cortinas, e um espelho
+embutido na parede, que enchia de alto a baixo um vão inteiro. O bofete
+liso com tinteiro de bronze antigo, e as quatro cadeiras que constituiam
+todo o seu adorno, não accusavam pouco os annos pelo estado de ruina; e
+as colgaduras[1] de couro, rotas ou tão coçadas, que não tinham já côr
+possivel, deixavam em parte nus os muros, provando que o tempo as
+respeitara menos, do que aos pannos de Arraz do quarto principal.
+
+O cavalheiro de Mafra mal correu a vista em redor de si. Sentou-se
+deante do bofete da sala grande, molhou a penna na tinta grossa da
+escrevaninha, e começou machinalmente a traçar linhas e dezenhos
+informes em um papel. Desde o Casal do Ouro até alli não descerrára os
+labios, nem para falar á companheira do seu infortunio; e só o ardor
+sombrio das pupillas denunciava a ira, preferindo consumir calado as
+tristezas a desafogal-as em vozes, ou em queixas. Leonor contemplou-o
+silenciosa por alguns momentos, e, avisinhando-se depois nas pontas dos
+pés, pousou-lhe na fronte annuviada um beijo, que a ternura humedeceu de
+lagrimas.
+
+Paulo, como se acordasse repentinamente, vendo no espelho o lindo rosto
+debruçado sobre o seu estremeceu. Um sorriso melancholico adoçou-lhe a
+expressão severa. Cedendo ao carinho de tão suaves caricias, e tornando
+os olhos meigos, fitou-os cheio de enlevo na formosura da filha.
+Cingindo-lhe depois o collo com os braços, cobria-lhe de osculos os
+cabellos e a fronte, e procurou tranquillizar-lhe a inquietação.
+
+Leonor era todo o seu amor e toda a sua familia. Se desejava sobreviver
+ás desgraças da patria é porque não queria deixal-a orphã e desamparada
+n'uma edade, em que as illusões armam tantos laços á candura e á
+innocencia.
+
+Mas as palavras do velho cavalheiro não o enganavam a elle, nem á
+donzella. Quando para a consolar affirmára, que um vago presentimento
+lhe augurava, que não chegaria a entrar na prisão da villa, via-a aberta
+para o receber, e o conselho de guerra convocado para o sentenciar!
+Quando lhe lembrava, que seus amigos não dormiam, e que Manuel Coutinho,
+e dois d'elles, andavam perto, sorria-se por dentro da invenção, porque
+ignorava se a sorte d'elles não seria egual, ou peior n'este momento!
+
+Leonor ouvia-o com a incredulidade do affecto. O fino instincto das
+almas, que são todas sentimento, é adivinharem os verdadeiros motivos
+dos sacrificios generosos. Palpava a verdade, e tremia que o futuro
+fosse ainda mais funesto. Mas dotada de caracter varonil vencia-se para
+não atormentar seu pae, devorando os prantos, e comprimindo os soluços.
+
+Á ceia a visita do lavrador, e a presença odiosa do sargento de
+sentinella, como vimos, á hospitalidade do rendeiro, interromperam a
+conversação cortada, com que os dois se distraíam, e apenas as portas
+tornaram a fechar-se, e Margarida poz a mesa, o pae e a filha, tomada
+uma refeição mais do que sobria, e já cansados de dissimular,
+despediram-se e cada um se recolheu á sua camara.
+
+A creada no mesmo instante fez a cama para si em um recanto, e fatigada
+adormeceu mal a cabeça tocou no travesseiro.
+
+Leonor aproximou-se então do espelho, lançou sobre as espaduas núas um
+penteador de cassa, e principiou a desatar as tranças, que, desfeitas,
+se encresparam em madeixas negras, envolvendo-a no mais luxuoso véu.
+Duas lagrimas, duas perolas, avelludavam-lhe o olhar tocado de branda
+ternura, e as pupillas, pretas e languidas, ás quaes aquella nuvem leve
+de melancholia toldava um pouco o brilho, levantavam-se armadas
+d'aquelle requebro meio tristeza, meio reflexão, que fala com tanta
+eloquencia; e prende com tão irresistivel poder até os mais isentos. A
+bôcca, pequena e graciosa, abria aos cantos duas covinhas assetinadas,
+berços de lyrios aonde se embuscava a malicia espirituosa, tornando o
+sorriso fascinador. Os dentes, ora appareciam finos e eguaes, como fios
+de aljofres entre rubis, ora se escondiam, quando a phisionomia tomava a
+expressão contemplativa e serena, que era o seu maior triumpho. O collo
+esbelto, disputando alvura ás açucenas, pousava-se com graça; as faces e
+a fronte douravam-se d'aquella transparente e mimosa côr, em que as
+rosas nascem e desmaiam á mais leve commoção, radiosa carnação, que
+tanto realça a belleza meridional, mesmo quando não cede ás mulheres do
+norte a palma dos niveos encantos. O seio virginal palpitava
+sobresaltado. A mão estreita e leve deslaçava impaciente os nós de fita
+do justilho; e a estatura elegante e flexivel prestava-se em ondulações
+airosas a todos os movimentos.
+
+Um suspiro e um gesto, que exprimiam a tribulação do animo combatido de
+apprehensões, e uma pausa, em que a vista se perdeu pelos idilios do
+primeiro amor, revelavam as duas correntes encontradas, com que luctava
+áquella hora. O que lhe dizia a ternura filial repetiam-n'o as lagrimas
+lentas e silenciosas, vertidas quasi sem as sentir. O que anciava e
+assustava a timidez da paixão entre hesitações e receios, mais fortes
+que a vontade, retratava-o a repentina chamma da vista, e o extasis em
+que o rosto se transfigurava subitamente, illuminado pelo duplo clarão
+da esperança e do pudor. Quem podesse colher n'este instante o segredo
+da sua alma só encontraria n'ella duas imagens--a do pae extremosamente
+querido, e outra mais viva, mais occulta, e mais funda ainda, a de
+Manuel Coutinho, que o pejo quasi encobria de si mesma, mas que uma
+ternura invencivel avivava a cada palpitação do peito!
+
+Leonor sentou-se ao bofete no desalinho da meia nudez, dobrou uma folha
+de papel, e contemplou-a por momentos com a cabeça entre as mãos e a
+vista vaga e esquecida. Depois, meneando a fronte, como se quizesse
+sacudir o peso dos cuidados, inclinou-se para a mesa, soltou a penna
+sobre o papel, e começou a retratar as tristezas do captiveiro e os
+sonhos do coração.
+
+Usando do privilegio concedido aos auctores de historias, tão veridicas
+como esta, introduzir-nos-hemos n'este ninho virginal, e por cima do
+hombro da linda escriptora ao qual o véu diafano das rendas mais faz
+sobresaír o marfim polido e a fórma admiravel, iremos lendo á medida que
+ella as escrever, as confidencias, que julga depositar unicamente no
+seio da mais discreta e mimosa de suas amigas de infancia, de D.
+Marianna de Sousa, mais velha um anno, e tambem desterrada com toda a
+familia para longe do antigo solar de seus paes em Lisboa.
+
+Escutemos a conversação travada a distancia entre ellas. É de crer que
+nos diga mais, do que extensos commentarios ácerca dos principaes
+personagens, cujas aventuras emprehendemos esboçar com a fidelidade e
+escrupulo proprios de narradores inaccessiveis á fabula e á lisonja.
+
+
+Leonor de Azevedo a D. Marianna de Sousa
+
+«Minha freirinha!... Deixa-me dar-te mais esta vez ainda o doce nome da
+nossa amisade! Escrevo-te das portas de uma prisão, e talvez, ai! tremo
+dizel-o! dos primeiros degraus do cadafalso de meu pae. Realizou-se o
+que eu tanto receiava. Lagarde descobriu o nosso asylo. Estamos em suas
+mãos. Offendi-lhe o orgulho; é capaz de tudo; e conto com a vingança
+promettida. Não me arrependo. No meu logar, Marianna, farias tu o mesmo,
+e esperavas resignada a tua sorte... Se não fosse meu pae, pouco ou
+nenhum caso faria d'elle... O despreso até mata a aversão, e de certo
+ninguem o despresa tanto, e com mais rasão.
+
+«Lagarde veiu a Mafra a um baile que lhe deram. Tentaram-lhe a cubiça as
+terras e os vinculos, que hei de herdar, Deus queira que bem tarde (!),
+e por desgraça poz os olhos em mim para enriquecer um parente, que não
+conheço, que me não conhece tambem, mas que elle ousou dizer que me
+adorava pelo retrato, que lhe fizera de mim... dos bens da minha casa é
+mais provavel! Marianna, lês na minha alma, e bem pódes imaginar o
+espanto em que fiquei, ouvindo de um estrangeiro esta proposta, que me
+offendia na ternura filial e no amor proprio... Nem lhe respondi!
+Encarei-o, e, levantando-me, deixei-o acabar a ultima cortezia e o
+ultimo sorriso deante de uma cadeira vasia. Dizes que me pareço com meu
+pae, e que a natureza errou em mim o sexo. Talvez. Nunca senti tantos
+desejos de ser homem! Mulher, senão fosse o mundo!... Ha affrontas,
+porque choro amargamente a nossa fraqueza!
+
+«Lagarde tem maneiras e grande uso da sociedade. Não sossobrou com o
+revés, começando a girar pelas salas como o convidado mais jovial. Notei
+que não tirava a vista de mim, e preparei-me para segunda instancia. Não
+tardou. Veiu tirar-me para dançar, louvou o meu toucado, o meu vestido,
+a delicadeza das mãos, a graça e a alvura das rendas; achou-me linda e
+seductora; extasiou-se de lhe responder algumas palavras em francez; e
+falou-me com enthusiasmo dos elogios que tinham feito da minha voz...
+Constrangi-me e escutei-o sem colera, sem impaciencia, mas com aquelle
+sorriso que tu dizias ás vezes, que era cortante como fio de dois gumes.
+Que remedio! Estavamos em scena, e elle é actor consumado. Depois, e no
+fim de tudo, por acanhada e esquerda não queria deshonrar a nossa
+educação do convento, nem dar-lhe motivos para que me tomassem pela
+provinciana boçal e nescia, que ao principio cuidára encontrar...
+
+«Acabada a dança, em que te affirmo sem vaidade, que não envergonhei as
+lições do nosso mestre mr. de Lisieux, tão airoso com a sua cabelleira
+empoada, casaca direita, e rabequinha de estojo, ao apartarem-se os
+pares, convidou-me para darmos um passeio pelas salas. Inclinei-me, e
+acceitei-lhe o braço. Démos algumas voltas, e no meio de uma d'ellas,
+junto de um tremó carregado de flores, teve o despejo de renovar a
+supplica, assim lhe chamou, em ar de riso, porém o tom e a expressão
+diziam assaz que era uma ordem.
+
+«Ouvi-o estremecendo. Não acreditas a jactancia, a soberba, e por baixo
+do verniz das phrases, o modo imperioso, com que este sultão me atirava
+o lenço em nome da felicidade do seu parente, e da minha, em nome da
+gloria e ornamento dos bailes de París e das recepções das Tulherias,
+que a rosa do occidente iria realçar com seus encantos!... Contive-me.
+Subiu-me em ondas a côr ao rosto. Empallideci depois. Aquelle escarneo
+era tão pungente, que me custava a supportal-o, sem lhe explicar ao
+menos que o entendia. Mas contive-me, protesto que me contive a ponto de
+me saltarem as lagrimas pelos olhos seccos! Não é possivel exprimir-te o
+que padeci nos minutos que durou este supplicio. Foram annos de angustia
+e de anciedade! Lagarde, como se adivinhasse, tocava em todas as partes
+melindrosas da minha alma e offendia-as. Tornou-se por tal fórma
+transparente a ironia, que se me figurava ouvil-o rir por dentro da
+eloquencia, que estava gastando em convencer a herdeira sómente
+cobiçada, para remir do naufragio a mocidade tempestuosa d'aquelle
+sobrinho, arruinado e invisivel, cuja causa advogava.
+
+«Perguntarás, talvez, porque não fiz o que já tinha feito, porque o não
+deixei? Não me atrevi. Meu pae estava perto; Manuel Coutinho tambem;
+olhavam para nós, e ao menor signal que me escapasse, castigavam alli
+mesmo o insolente! Vê tu o meu enleio e o meu martyrio! Quando se
+afastaram, respirei. Podia mostrar a Lagarde, que a estatua vivia e
+tinha brios para vingar a dignidade do seu sexo. Inflammou-se-me a vista
+com a ira, fitando-a n'elle com um desdem tão altivo e firme que o
+obriguei a calar-se de repente no meio das lisonjas impertinentes.
+Percebi que não esperava tanto, e que se perturbava. Retirando então o
+meu braço, dei dois passos atraz, e medi-o da cabeça aos pés com aquelle
+olhar scintillante e frio ao mesmo tempo, que me achaste duas vezes, e
+que depois contavas, sorrindo, que era o mais fero e fulminante olhar,
+que nunca viras, porque gelava e queimava ao mesmo tempo. Não sei se foi
+esse, ou outro peior, o que sei é que recuou lentamente e quasi pasmado
+deante d'elle, como deante da ponta de uma espada; e quando lhe
+respondi, que preferia a cella do mais austero convento, a pobreza, a
+mendicidade até, á ignominia de me vêr em leilão na praça, á vergonha de
+acceitar o nome de um homem, que nem ao menos guardava as exterioridades
+hypocritas de um galanteio, julgando-me tão pouco que se propunha amar e
+pedir esposa por terceiro, vi-o fazer-se branco como a tira da camisa,
+esconder o sorriso nos cantos da bôcca, e olhar-me direito e serio como
+deve olhar-se para alguem, quando recebemos uma injuria grave. Mas
+polido, mesmo na sua colera foi senhor de si, e mordendo os beiços com
+tal furia que lhe espirrou o sangue d'elles, cortejou-me, e retirou-se.
+Á roda de mim tremiam todos. Eu levantára a voz, e tinha-o constrangido
+a curvar a fronte deante de muitos. Foi o que não me perdoou.
+
+«Todas as nossas desgraças datam d'esta noite. Jurou humilhar-me, mas
+não o consegue. Livre, ou em ferros, o desprezo será egual... Antes a
+clausura, antes a vida errante que levo ha mezes, antes as estreitezas
+de uma prisão, do que a infamia de um laço apertado sem amor pela
+avidez! Lagarde não tornou a falar-me. Sómente poucos dias depois, sahi
+a cavallo, e encontrei-o com Loison, general maneta, que dizem ainda
+mais perverso. Pararam para me vêr passar. Sabes que sou cavalleira, e
+que um animal fogoso não me assusta. Montava a Estrella, a egua valida
+de meu pae, e apenas os descobri, larguei-lhe a redea, e atravessei como
+uma seta por meio d'elles. Saudaram-me, correspondi, e dentro em pouco
+já não os avistava. Foi na vespera dos tumultos das Caldas e da
+emboscada de Mafra. No dia seguinte, dia de terror e afflicção para os
+habitantes, estava achado o pretexto que havia de manchar de sangue o
+poder dos estrangeiros.
+
+«O que nos reserva o futuro? Não ignoras quanto meu pae é altivo e
+decidido. Se a sua vida dependesse de uma palavra, de um passo, que
+reputasse de quebra para a honra, ou para os brios, preferiria morrer
+mil vezes... Sei o que elle ha de fazer como se o estivesse vendo. Ha de
+dizer a verdade, toda a verdade; ha de expor-se... Meu Deus! Parte-se-me
+o coração, e não tenho animo de cuidar!... Não! Não! A providencia não o
+póde permittir! Marianna!... As lagrimas que estou chorando, a dôr que
+padeço são tão crueis, que ha momentos, em que a razão me foge. E Manuel
+Coutinho?! Ainda me assusta mais!... Em sabendo a nossa prisão... com o
+seu genio impetuoso e aquella intrepidez de cavalleiro andante, porque é
+um verdadeiro paladino perdido n'estes dias de Junots e Lagardes, é
+capaz de entrar só em Santarem para nos arrancar dos ferros á luz do sol
+e deante de todos. Não rias?! Não creias que estou pintando de
+imaginação um heroe de novella!... Perguntas-me desde quando o amei, e
+se foi necessario o fulgor de Marte para vencer a isenção de Juno!?
+Entendo-te! Viras contra mim as palavras, que eu soltava na ingenuidade
+do orgulho, quando a inexperiente educanda te divertia com seus
+encarecimentos de desdem pelas fraquezas apaixonadas. Ouve! Amei-o logo,
+amei-o com extremo apenas o vi. Mal nos olhámos, sorrimos, e
+conhecemo-nos sem lucta, sem resistencia, sem juras, nem protestos. Elle
+sentiu que era meu; eu entreguei-lhe o coração com tanta confiança, como
+se nos tivessemos creado juntos desde a infancia. Marianna!... Se és a
+amiga, que eu creio, has de estimal-o tambem, e approvar a minha
+escolha. Asseguro-te que o merece. Aquelle rosto nobre e gentil, mas um
+pouco triste, é o espelho do seu caracter. Meu pae, e mais não é facil
+em affeições e elogios, admira-o, e não vê por outros olhos em muitas
+cousas. A palavra de Manuel Coutinho, que o não lisonjeia, que até o
+contraria em algum dos habitos e idéas mais arraigadas, vale um
+juramento para elle. Entre estes dois affectos, tão doces e acerbos,
+reparte-se-me a alma, rasga-se-me em duas, e não ouso dizer-te a ti, a
+mim propria, qual é maior, ou mais absoluto!...
+
+«Accusas-me de dissimulada?! Não te encobri nada. Lês nos meus segredos
+como em livro aberto. Amo, como não se torna a amar, como não imaginava
+que podesse amar-se... Digo-te sem disfarce o que occultaria a outra, e
+tu ingrata (!) ainda tens animo de me arguir! ...Lembras-te d'aquellas
+nossas madrugadas nas Salesias, entre as rosas e jasmins do jardim, e os
+vôos dos passarinhos, que chalreando não nos deixavam um instante?!...
+Não tens saudades d'ellas e das brandas illusões, com que nos
+embalavamos no meio das flores d'esses dias tão curtos, ai (!) e tão
+depressa desvanecidos?! Com que dôr melancholica e agradavel, os estou
+recordando, sobre tudo agora!... Como a esperança nos fazia palpitar!...
+Que desejos pueris, que planos impossiveis, que doces contestações, e
+que amuos logo esquecidos entre dois beijos! O nosso mundo era tão
+pequeno, que alli principiava e acabava então!
+
+«Meu pae, militar e arrebatado, a rogos meus ficou em casa. Por vezes o
+vi ir direito á sua espada, e suspender-se com os olhos arrazados de
+agua. O que o prendia era o receio de me deixar orphã, era a certeza de
+que se arriscaria sem proveito. Que dia aquelle, e sobre tudo que
+noite!... Os francezes em bandos pelas ruas alvoroçavam a terra com
+vozes, affrontas, e tiros. Duas vezes as balas das espingardas vararam
+as portas das nossas janellas. Sobre a madrugada appareceu Manuel
+Coutinho. Vinha pallido e desfigurado. Nenhum de nós se tinha tambem
+deitado. Chamou meu pae de parte, falaram em segredo, e minutos depois,
+ás escuras, e sem ruido, fugiamos pelas hortas, e montavamos a cavallo.
+Rompia o sol, quando entrámos em Torres Vedras, e só alli me disseram
+que a nossa casa estava cercada, e que Lagarde expedira de Lisboa ordem
+de prisão contra meu pae. Não lhe custou a implical-o na devassa, e
+contava provavelmente fazer de mim o penhor da sua clemencia...
+
+«Desde então trocámos o socego domestico pela vida attribulada, que ha
+mezes nos não consente uma hora de repouso. Acossados, como feras,
+vagueando de homizio em homizio, e de solidão em solidão, por toda a
+parte a hospitalidade dos que nos accolhiam, não sem risco, nos foi leal
+e caridosa. Rodeados de espias, inculcados aos delatores como presa
+digna de subido premio, achámos na bondade rude, mas sincera, dos
+casaes, corações de ouro, que nos agazalharam com o maior carinho, e
+almas compadecidas, que nos ajudaram a supportar o peso da desgraça.
+
+«Os mais pobres foram tão honrados como os ricos. Ninguem nos trahiu.
+Perseguidos como réos de grandes crimes, todos os braços se abriram para
+nos receber, todas as portas se fecharam cuidadosamente para nos
+guardar... Descansámos, por fim, mas á porta de uma prisão, e nas mãos
+de inimigos implacaveis! Meu pae dormia, e nem teve tempo de se
+defender... Estimei! Já que havia de ser, foi melhor assim! Chegámos a
+tempos em que é delicto até o valor! Um malvado, cego e venal
+instrumento de Lagarde, descobriu o nosso ultimo asylo, e prendeu-nos á
+traição...
+
+«Com que socegada ignorancia te ouvia eu pintar a vida, que nos
+aguardava fóra das grades da nossa prisão dourada!... Com que vaidade
+infantil me compadecia das fragilidades das donzellas, cegas de amor,
+que tudo arriscam por seguir o eleito da sua alma!... Castigou-me Deus!
+Sou mais escrava, mais timida deante da minha fraqueza, do que nenhuma!
+A ternura, que sinto por elle é tão grande, que me quebra a vontade e o
+orgulho.
+
+«Felizmente adoro um homem digno do meu coração. Mas se o não fosse!
+Marianna! Não me vejas córar, não me vejas cobrir o rosto de pejo! Se o
+não fosse... Perdôa! hei de ter animo de confessar a verdade, amava-o do
+mesmo modo, sei que o amava tanto, porque mais é impossivel!... E agora
+terás dó de mim?! Falarás ainda da soberba, que me fazia idolo
+indifferente a todos os cultos?!...
+
+«Cheguei áquelle excesso, em que parece que o coração não vive senão do
+que é de outrem, do que o amor, que inspira e domina tudo, quer dar-lhe
+quasi por esmola! A minha luz, todas as minhas esperanças, todo o
+futuro, pendem de um olhar, de um sorriso, de uma palavra d'elle!... Vê
+como o préso, e como deixei de ser a mesma!... Ha cinco annos, quando
+iamos sentar-nos debaixo das madresilvas do caramanchão do convento, em
+quanto as nossas amigas passavam, correndo e saltando com os seus risos
+descuidados, porque suspiravas tu, e por mais que eu interrogasse a
+minha alma, porque a achava sempre muda e insensivel!?... O que foi que
+me acordou d'aquelle somno tranquillo, d'aquella apathia dos sentidos,
+que só despertam com o primeiro alvoroço, quando entre jubilos e
+sobresaltos o peito começa a agitar-se? Não sei se outras são assim.
+Vivo desde que principiei a amar. Até ahi dormia. Era uma estatua! O meu
+coração como que esperava _por elle_ para se abrir e brotar essa flor
+tão mimosa, que um nada queima, tão rara que uma vez só na vida a
+sentimos pelo perfume, pela alegria, pelo esplendor... Desejava ser
+formosa, ser princeza, ser rainha, ser tudo, para elle subir, e eu me
+saber invejada. Que loucuras! Vê! Agora mesmo estou perguntando, sem
+querer, ao espelho baço e empanado da minha prisão, por esta noite
+medonha de trovões, se me acha ainda bella?!...»
+
+Neste ponto terminavam as confidencias. Leonor nem acabára de formar as
+ultimas lettras. Quando, entre o meio sorriso e as rozas avivadas, de
+que a travessura da revelação lhe animára o semblante, ergueu de repente
+os olhos para o espelho, a que alludia na carta, pasmou, estremeceu de o
+vêr mover-se lentamente com a moldura, e entre-abrir-se como uma porta.
+Outra, menos varonil, teria soltado vozes de terror; ella não. Fez-se
+pallida, sentiu-se fria, porém não articulou palavra, nem deixou escapar
+um grito. De pé, tremula, com os olhos fitos e algum tanto dilatados
+pelo espanto, aguardou a aventura, que esta singularidade lhe promettia.
+Não esperou muito. O espelho girou, rangendo um pouco, e á entrada da
+passagem occulta, que fechava, appareceu uma figura com um castiçal na
+mão, avultando á medida que se adeantava e que a luz mortiça da véla lhe
+batia no corpo, desfazendo a escuridade. Era um homem de carne e osso, e
+não um fantasma. Podia ser um salteador, um assassino, ou um indiscreto,
+não era de certo uma alma penada. A donzella respirou. Apezar da
+fortaleza do seu espirito a visão tinha-lhe paralyzado os membros, e o
+coração, pulando descompassado, trahia o susto, que os labios a custo
+disfarçavam. O desconhecido trajava de preto, vinha envolto em um capote
+de cabeções, e as largas abas do chapéu enchiam-lhe o rosto de sombras.
+Quando percebeu que Leonor o contemplava, levou o dedo á bôcca e
+recommendou silencio. No movimento de braço o capote descobriu os canos
+luzentes de duas pistolas passadas em um cinto de couro, e a bainha de
+uma espada larga e curta.
+
+A filha de Paulo de Azevedo deixou-o approximar de si sem denunciar
+terror. Só falava com a vista, e desvanecido o primeiro sobresalto, o
+que o semblante exprimia era a curiosidade natural, excitada pela
+visita, que, por tal modo e a taes deshoras se via obrigada a receber. O
+hospede punha entretanto os pés no sobrado, roto e carunchoso, com tanto
+resguardo, e pisava com tão grande subtileza, que os passos eram surdos,
+como se caminhasse por cima de lã. Chegando ao pé d'ella, encarou de
+perto a formosura intrepida, que sem receio olhava para elle firme, e um
+sorriso alegrou a sua physionomia carregada, certo ar de sincera
+admiração inculcou que não contára encontrar tanto valor.
+
+--Vejo que não me enganaram! murmurou ao ouvido de Leonor. Tem mais
+animo, do que muitos homens. É digna do que tentâmos para a salvar e a
+seu pae!
+
+--Mas quem é?... D'onde vem?... Como está aqui?!... perguntou a donzella
+atropelladamente, mas no mesmo tom submisso.
+
+--Somos tres. Os meus companheiros esperam no fim do corredor, que
+desembocca n'esta porta secreta. Pertencemos ao conselho conservador de
+Lisboa, soubemos da prisão de seu pae, e seguimos os milicianos de
+longe. O lavrador, que traz esta casa de renda, é nosso, e ensinou o
+modo de entrarmos aqui. Temos caminho facil para fugir.
+
+--Ah! E Manuel Coutinho veiu tambem?... accudiu Leonor córando.
+
+--Não! Pouco ha de tardar. Está perto, e mandou-se-lhe recado... Mas os
+momentos são preciosos. Não podemos demorar-nos aqui. Quer ir acordar
+seu pae sem bulha e dizer-lhe?...
+
+--Já! Vou immediatamente. São dois minutos em quanto volto com elle.
+
+--Pois sim. Aqui espero.
+
+De feito, instantes depois Leonor tornava com Paulo de Azevedo, e este
+apertava silenciosamente a mão ao desconhecido, que lhe dizia em voz
+baixa:
+
+--Venha! Temos os cavallos promptos e tudo a postos. Simão da Costa e
+Nuno do Rio, seus amigos, estão alli dentro, Manuel Coutinho vem já
+caminho da Ponte... São mais de onze horas. Ás duas saímos, se a noite
+lhe mette menos medo, que a cadeia de Santarem...
+
+--Quando quizer. Para onde?...
+
+--Para Lisboa. Para o covil do Lobo. Aonde menos cuidem que póde estar,
+ahi será o mais seguro.
+
+Paulo inclinou a cabeça e seguiu-o com sua filha.
+
+O espelho fechou-se. Quando o sargento veiu não achou nem o rasto de
+seus presos.
+
+
+
+
+VIII
+
+Entre os bastidores
+
+
+Lá sabemos como Leonor e seu pae conseguiram evadir-se sem as chaves da
+prisão saírem do bolso do carcereiro. Agora cumpre-nos explicar a
+resurreição dos mortos na casa maldita, e esboçar em duas palavras a
+biographia do intrepido espectro, que, mascarado em alma do outro mundo
+para assustar os valorosos milicianos da comarca, ás ordens do sargento,
+baqueou das andas abaixo, transido de pavôr, por achar o defunto, de pé
+tendo-o visto entrar em braços dos creados.
+
+Nos acontecimentos d'esta infausta noite para os agentes da policia
+franceza, o morto-vivo e o espectro medroso representaram um papel, que
+os torna dignos de nos demorarmos com elles por algum tempo.
+
+Principiemos pelo honrado fazendeiro, cuja desastrada sina choram em
+côro as visinhas e as comadres da aldeia. Como o encontramos de repente
+são e escorreito com profundo terror dos sicarios, que se julgavam
+livres do seu nodoso cajado de marmeleiro? Que santo obrou o milagre de
+levantar da sepultura este Lazaro de japona para confusão e ruina dos
+inimigos? Como dormiu elle no reino das sombras tantas horas, e só
+accordou, como ao rebate da trombeta final, com o dobre fatidico da meia
+noite, hora fadada a visões, a trasgos e a feitiços?
+
+As tres perguntas são razoaveis, e a curiosidade do leitor é natural.
+Desejariamos de bom grado asseverar-lhe, sem faltar á verdade, que o
+sabido condão do palacio deserto fôra o auctor de todos os prodigios,
+porém somos obrigados a confessar como sinceros chronistas, que até aqui
+o maravilhoso e o sobrenatural só existiram na imaginação escandecida de
+alguns dos actores, que pozemos em scena. Tudo o que passou se explica
+perfeitamente sem ser preciso prevalecermo-nos da má reputação da Casa
+Negra.
+
+Em primeiro logar o Manuel Simões não resurgiu á sexta hora de entre os
+mortos, embora padecesse sob o poder do sargento Cabrinha, porque para
+resuscitar era necessario estar morto, e elle nunca chegou a fallecer! A
+bala do _Sapo_ roçou-lhe pela testa, ferindo-o de raspão, e lançando-o
+por terra sem sentidos; mas não penetrou na cabeça.
+
+Quando vieram as mulheres, e entoaram em roda do seu corpo as nenias
+costumadas, principiava elle a voltar a si; e quando o João da Ventosa
+se approximou, suando e esbaforido, porque do alto de um cabeço ouvira o
+tiro, e dois minutos depois descobrira no luz-que-fusque o _Sapo_,
+correndo em saltos de gafanhoto com a espingarda na mão, já achou o
+corpulento fazendeiro sentado no chão, muito tonto ainda como se
+recolhesse de alguma feira, ou romaria, porém sem lesão grave, e
+apalpando escrupulosamente todos os ossos e costellas.
+
+--Ah! Ah! Compadre! gritou o rendeiro extendendo a mão ao amigo e
+contentissimo de o ter vivo. Com que então os caçadores andam pelo
+sitio, e fizeram-lhe alvo da cabeça? Safa demonio! ajuntou
+examinando-lhe a fronte mais de perto. Escapou mesmo por uma unha
+negra!... O maldito tinha-lhe vontade, e não queria perder a polvora.
+Upa!... Póde vir outra ameixa detraz do vallado, e custar-nos mais a
+engulir... Se foi só isso não é nada. Mas!...
+
+--Ainda não foi d'esta, sôr compadre, e se eu soubesse quem me fez a
+esmola... com seiscentos milheiros... de cobras!... Moia-lhe os ossos
+com este cajado mais moidos que pimenta em almofariz... Patife!
+Atirou-me como a um lobo! Ah, sôr João, vossa mercê acaso veria quem foi
+o alma ruim?!... Parece que tenho dentro da cabeça a mó do moinho a
+zoar, e que me anda tudo á roda! Ora esta!...
+
+--Olhe compadre, o melhor é mudarmos de pouso; depois falaremos. Alli em
+baixo, na fonte, ata um lenço molhado na cabeça, e lá em casa lhe
+diremos o que vimos. Agarre-se a mim, não tenha vergonha. Forte
+historia!
+
+--Antonio me não chame eu, sôr compadre, se me ficar inteiro uma semana
+o ladrão, que me pregou esta bala! Hei de achal-o, mas que haja de
+descer vestido e calçado em busca d'elle aos infernos...
+
+--Não será preciso, homem!... Agarra-o cá em cima sem ir tão longe. Mas
+ha de fazer o que eu disser.
+
+--Pois vá! Olhe que o dito, dito! Isto não se leva a rir.
+
+--Tem razão, compadre; vamos. Trago cá uma idéa!... Emfim! O que for
+soará...
+
+Os dois pozeram-se a caminho, porém muito devagar, porque Manuel Simões
+de cinco em cinco passos cambaleava com vertigens, a que chamava
+nobremente vagados. Era noite fechada, quando avistaram a Ponte da
+Asseca, e a casa. Chovia e trovejava que mettia mêdo.
+
+O João da Ventosa, que em todo o tempo não soltára palavra, labutando,
+contava elle depois, com a sua idéa, virou-se então para o fazendeiro e
+disse-lhe que se deitasse e se fingisse morto emquanto ía chamar os
+creados.
+
+--Que me deite e faça morto, salva tal logar?! Oh sôr compadre?!
+exclamou o ferido. E para quê com um milheiro de cobras?...
+
+--Para apanhar a raposa e as gallinhas na capoeira. Você não sabe,
+homem!? Não vê que se quem lhe atirou atinar que perdeu a bala muda-se
+com vento fresco, e nunca mais lhe pomos os olhos em cima...
+Estire-se-me já n'esse chão, não venha alguem. Nem trus, nem buz! Pela
+lingua morre o peixe.
+
+--Ora essa!... Sempre tem cousas, este sôr compadre! Com que então ainda
+em cima quer que me espoje n'este charco, e que feche a bôcca a
+cadeado?... Vá lá! Por esta não esperava eu. Arrenego!
+
+--Viu pescar á linha sem anzol, sôr casmurro? Vamos. Esse corpanzil já
+por terra, e caluda! Não me demoro.
+
+Manuel Simões, resmungando, e praguejando, sempre se foi deitando no
+sitio mais enchuto.
+
+Minutos depois tornou o compadre com o maioral e o abegão, em grandes
+lastimas por tamanha desgraça, e levaram-o por morto em braços até á
+cozinha da casa, aonde o vieram encontrar, como vimos, os dois
+assassinos.
+
+Os creados, apezar de conhecerem por experiencia a força herculea do
+João da Ventosa, benziam-se de que elle tivesse carregado só com aquelle
+corpo, tão pesado, desde a azinhaga, como lhes disséra. Sentiam os
+braços derreados só de o trazerem de tão perto!
+
+O lavrador mandou accender fogo, e pôr agua ao lume; pediu um alentado
+cangirão de vinho, uma tigela de assucar mascavado, e chamou de parte a
+tia Margarida, ministro feminino de todas as repartições domesticas da
+granja, para lhe confiar o occorrido, exigindo o maior segredo. A velha
+esconjurou-se, louvou a Deus pelo milagre visivel, e saíu, trotando e
+rosnando, para fazer a cama ao fazendeiro em um vão escuro, e desviar da
+cozinha a vista e as orelhas dos curiosos.
+
+Seguiu-se um entre-acto bacchico, durante o qual a agua quente e o
+assucar serviram de pretexto ao vinho, o qual representou a parte
+principal. Estava já menos de meio o cangirão, quando a voz esganiçada
+de José Vardasca, diabrete de quinze annos, sobrinho do rendeiro, em
+altercação com o contralto enrouquecido da tia Margarida, obrigou os
+dois campeões a suspender as hostilidades. Manuel Simões amarrou o lenço
+manchado de sangue á roda da testa, de modo que lhe cobrisse a cara, e
+extendeu-se sobre a mesa de pedra. Um feixe de palha serviu-lhe de
+cabeceira, e uma manta cobriu-o até aos pés.
+
+Ensaiada assim a peça, João da Ventosa abriu a porta, e com
+um--Olá!--que fez tremer as paredes, poz termo ao dueto da velha e do
+rapaz.
+
+José Vardasca não vinha só. Acompanhava tres sujeitos, envoltos em
+capotes de baetão grosso de gola alta, cobertos com sombreiros de abas
+derrubadas, os quaes esperavam fóra da porta, no escuro, que elle désse
+ao tio o seu recado.
+
+Ao que parece os viajantes eram conhecidos do rendeiro, porque apenas o
+rapaz lhe disse, quasi ao ouvido, algumas palavras, este correu sem
+chapéu apezar da chuva, e encaminhou-se para elles. Ninguem ouviu o que
+falaram, mas os creados viram desapparecer o amo e os hospedes por
+detraz do muro da horta, e recolher-se passado um pedaço o João da
+Ventosa só, em ar de quem se não tinha cansado com o passeio. As
+conjecturas dos servos não foram adeante. Cuidaram que elle saíra a
+metter os tres embuçados no atalho da azinhaga, e se acaso se admiraram
+foi, sendo tão largo e generoso, de lhes não ter dado agasalho em sua
+casa por uma noite, em que a agua era tanta, diziam os rusticos, que a
+podiam os cães beber de pé!
+
+Mas o lavrador sabia melhor do que elles o que fazia. E nós, que não
+somos de segredos, e que não receiamos que a policia dos francezes nos
+tome contas em 1864, das conspirações de 1808, não duvidaremos revelar
+as razões do seu procedimento.
+
+Os tres sujeitos eram nada menos do que tres delegados do conselho
+conservador de Lisboa, associação composta de patriotas dedicados á
+restauração da independencia e do throno legitimo, e decididos a todos
+os sacrificios para arrojarem da sua terra os soldados de Bonaparte.
+Tinham atado relações em todo o Ribatejo com os homens que podiam
+ajudal-os em seu arriscado proposito, e haviam partido dias antes da
+capital para se reunirem em Santarem com Manuel Coutinho e alguns
+cavalheiros do Sardoal, Leiria, Pernes e Rio Maior, no intento de
+assoprarem de mais perto a irritação popular, e de irem dispondo os
+animos para a sublevação geral, que meditavam, apenas as cousas lhes
+proporcionassem ensejo favoravel.
+
+João da Ventosa, assim como o Manuel da Cruz, e outros visinhos,
+iniciados em parte do plano, executavam com cega fidelidade todas as
+ordens emanadas d'este governo occulto e revolucionario, que na ausencia
+da familia real, e em presença do jugo estrangeiro, representava para
+elles a unica e verdadeira auctoridade do paiz.
+
+O rendeiro, pois, assim que os tres desconhecidos lhe repetiram as
+palavras, que serviam de senha aos amigos da liberdade--pelo rei e pela
+patria--largou tudo, e offereceu-se logo para o que mandassem com a
+maior submissão.
+
+A reputação diabolica da Casa Negra, guardava-a por tal modo da
+curiosidade, que nenhum refugio mais seguro podiam encontrar os
+conspiradores, não só para pernoitar, mas afim de celebrarem as
+conferencias. Explicaram os seus desejos ao lavrador, e este, que o medo
+dos fantasmas não vexava, guiou-os pela horta a uma entrada secreta,
+disfarçada com um tapume de tábuas, e introduziu-os nas salas e
+aposentos do primeiro andar do palacio. Accendeu luz com o fuzil,
+ensinou-lhes alguns dos segredos dos quartos e corredores, e prometteu
+trazer-lhes vinho e refrescos.
+
+A chegada do sargento e dos presos, espertando a imaginação do malicioso
+rendeiro, e a coincidencia de abrigar debaixo do mesmo tecto a victima e
+os assassinos, suscitou-lhe a idéa de salvar Paulo de Azevedo e sua
+filha das garras dos agentes de Lagarde, castigando ao mesmo tempo a
+perversidade de Cabrinha e do seu acolyto. Avisou os delegados do
+conselho de Lisboa, ajustou com elles a maneira de fazer evadir o
+cavalheiro de Mafra e Leonor, condemnou o fazendeiro á immobilidade,
+assegurando-lhe em premio da sua paciencia as delicias da vingança, e
+para não omittir nenhum episodio distribuiu ao travesso José Vardasca o
+papel conspicuo de phantasma branco, marcando a todos a meia noite, como
+a hora mais opportuna para o feliz exito do drama.
+
+Sabemos qual foi o resultado. Os milicianos fugindo, o _Sapo_ correndo
+até perder o folego, e o sargento estatelado sem sentidos no meio da
+cozinha! O que se tornou mais difficil foi calar os berros do intrepido
+José Vardasca, assombrado com a vista do fazendeiro, e convencel-o de
+que não estava com um defunto, mas com um homem vivo e inteiro. O rapaz
+não se rendeu á evidencia, senão depois que viu e apalpou como S. Thomé.
+
+O sargento, cujos ossos ameaçou por umas poucas de vezes o cajado, ou
+antes a clava de Manuel Simões, e que o João da Ventosa não trabalhou
+pouco por salvar ainda d'esta vez, o sargento, desmaiado e inerte, foi
+levado para cima de um catre e vigiado por um dos moços com ordem de
+chamar o lavrador assim que abrisse os olhos. O fazendeiro da Aramanha,
+mal rompia a aurora, tomando o conselho do compadre, montou n'uma egua,
+e partiu para casa a descançar, não sem primeiro rezar um responso ás
+costellas do virtuoso Cabrinha e ao pescoço de Gaspar Preto, aonde quer
+que os encontrasse.
+
+O sargento esteve duas horas sem accordo. Quando voltou a si não via
+senão fantasmas em redor da cama. Custou a socegal-o.
+
+O que mais abalára aquella alma seraphica fôra a fuga dos seus presos!
+Não podia conceber como lhe tivessem escapado, e na sua dor pharisaica
+arrepellava as melenas, e blasphemava como um possesso, jurando contra
+Satanaz, contra a Casa Maldita, e contra si. Mesmo de noite quiz saír.
+Pediu o cavallo, outro espectro na transparencia e magreza, e
+cravando-lhe as esporas voou a Santarem, talvez na esperança de ainda
+pôr a mão em cima da presa.
+
+Voltemos agora á Azenha de Cima, aonde deixámos Manuel Coutinho e o
+Antonio da Cruz, esperando pelas horas mortas da noite afim de
+emprehenderem a campanha planeada por ambos.
+
+Apezar da chuva caudal e dos relampagos, o moço do moinho, garoto leve
+como um ginete, que via de noite como os gatos, e era capaz de entrar
+pela bôcca de uma manilha, tinha sido mandado pelo amo á descoberta até
+á Casa Negra com ordem expressa de não se deixar agarrar, e de espreitar
+em roda com a sua curiosidade habitual. O rapaz partiu a correr, como se
+a agua lhe não batesse em cima ás torrentes, e uma hora depois voltava
+com a noticia de que os presos estavam na Casa Maldita, de que o
+sargento, o _Sapo_, e os milicianos ceiavam regaladamente com o João da
+Ventosa, e de que o corpo do Manuel Simões fôra recolhido pelo lavrador,
+e jazia com uma véla aos pés e outra á cabeceira na mesma cozinha, aonde
+o beleguim emerito e seus sequazes se estavam banqueteando.
+
+Em toda esta chronica, narrada pelo moço com incrivel volubilidade, o
+que mais socegou o animo de Antonio da Cruz foi a certeza, de que o
+cadaver do fazendeiro da Aramanha não desapparecêra, como se dizia, por
+artes do demonio. Estava prompto a medir-se e a arcar com uma companhia
+inteira de milicias, mas o inimigo do genero humano tremia só de cuidar
+que poderia encontrar-se com elle um só instante!
+
+--Ah José! disse depois de certa pausa. Então o sôr João da Ventosa é
+que levantou o corpo do Manuel e o levou para casa?... Estás bem certo?
+Viste?...
+
+--Com estes dois que ha de comer a terra, respondeu elle, fazendo uma
+cruz com os dedos, e beijando-a. Assim me Deus salve a minha alma. Ah
+patrão, que _diluivo_ de agua que vae por ahi abaixo! Parece que quer
+alagar-se hoje o mundo. Credo!...
+
+--É verdade! accudiu o moleiro. Vens um pinto... Vamos! Que tal te sabia
+um trago, ou dois de agua pé, ein? A roupa não te pesa e estás tiritando
+que parece que te apanhou uma sezão...
+
+O liquido medido com largueza pagou os trabalhos do moço, e o amo
+despediu-o logo depois, em quanto Manuel Coutinho passeiava de um lado
+para o outro inquieto e murmurando por entre dentes algumas palavras.
+
+--Antonio! observou o mancebo, parando de repente defronte do moleiro, e
+encarando-o firme. Atreves-te a ires commigo á Casa Negra, para
+enxotarmos de lá o sargento e a sua quadrilha? Elles são oito, ou nove,
+mas nós dois bem armados e decididos?!...
+
+--Valemos por dez ou doze. Vá feito, senhor! A espingarda é de dois
+canos e a choupa está amolada... V. s.^a quer a outra espingarda? É um
+instante em quanto se carrega?
+
+--Não!... Sim!... Carrega! Guardarei as pistolas e a espada para o fim
+se for preciso.
+
+--Quer que vamos já?... Sinto uns formigueiros n'este braço, que não me
+deixam senão quando assentar em cheio duas boas lambadas nas costas do
+sargento e na cabeça d'aquelle alma ruim do _Sapo_...
+
+--Não as perdem, mas espera!... Que bebam até caír. Nós os faremos
+erguer. Podes fumar homem!
+
+--Com sua licença.
+
+O dialogo acabou aqui. Manuel Coutinho sentou-se com a cabeça entre os
+punhos e os cotovellos na mesa, scismando, e o Antonio poz-se com todo o
+vagar a carregar e escorvar a espingarda. Depois foi ver as mós se
+tinham grão, abriu o ladrão da presa, e quando tornou, veiu encontrar
+ainda o patrão na mesma posição com o relogio deante de si e os olhos
+cravados nos ponteiros.
+
+--Agora! exclamou o mancebo levantando-se com impeto. É meia noite!
+Esperam por nós. Vamos! E cobrindo-se com a manta, que o Antonio
+extendera a enxugar ao lume, passou as pistolas no cinto, apertou o
+boldrié da espada mais alto, e pegou na espingarda.
+
+O moleiro ainda se apromptou mais depressa. Enrolou-se na manta, cobriu
+com ella a coronha e os fechos da clavina, metteu-a debaixo do braço
+esquerdo, e empunhou com a mão direita o inseparavel varapau rematado
+pela choupa. No momento, em que estava dando volta á chave da porta um
+immenso clarão livido abriu os céus, o outeiro illuminou-se de fulgores
+sinistros, e a casa tremeu com a terra ao ribombo do trovão
+perpendicular. Apezar da sua intrepidez os dois recuaram quasi
+assombrados até ao meio do aposento: Santa Barbara! bradou o Antonio
+benzendo-se. Jesus! clamou o amo ao mesmo tempo. Ficaram immoveis ambos
+olhando um para o outro.
+
+--Deixemos passar a maior, senhor! disse d'ahi a instantes o vigoroso
+aldeão. Ella anda mesmo por cima da nossa cabeça...
+
+--Pois sim. Deixemos! redarguiu Manuel Coutinho sentando-se no banco
+defronte da porta.
+
+Minutos depois outro relampago menor allumiou o campo, e á luz d'elle
+viram vir correndo ennovellado direito ao moinho um vulto, que mais
+parecia na velocidade um furacão, do que um homem.
+
+--Oh lá! disse em voz cheia o moleiro. Castelhanos por aqui á meia
+noite?! Quem temos? É bom vêr sempre!...
+
+Não teve tempo para mais, do que para se desviar, extender o braço, e
+segurar pela golla o impetuoso vulto, tão cego na partida, que se elle
+não se arreda a tempo, colhe-o pelos peitos, despedido como uma bala de
+canhão, e atira-o ao chão, porque trazia força para arrombar portas e
+paredes.
+
+--Ah, sô amigo, aonde vamos com tanta pressa? exclamou o Antonio, o qual
+affeito a apanhar na praça os bois de cara, amarrava ao limiar com o
+vigoroso pulso o desconhecido, que, estafado e convulso, estacou
+arquejante e sem poder falar.
+
+Manuel Coutinho, callado e quasi indifferente, havia-se approximado da
+porta, e contemplava a scena, como quem só desejava, que ella se não
+prolongasse. Antonio da Cruz adivinhou a impaciencia do mancebo, e
+voltando-se para elle disse-lhe:
+
+--É um instantinho, meu amo! Entretanto amaina mais a chuva... mas nadar
+por estas horas com mouros na costa, nada!... Vamos, patrão, desate-me
+já a lingua, como desatava as pernas pelo cabeço arriba, e diga para ahi
+quem é, e o que faz correndo por esta linda noite até á porta da gente
+de bem!... Vamos, desembuche, senão!...
+
+--Sou... Sou...
+
+--É! É... Quem? Cousa boa, não decerto. Com a breca! Entre que lhe
+queremos ver o focinho á candeia. Melros ás escuras podem saír
+morcegos!...
+
+E ao mesmo passo arrastava para dentro da cozinha o vulto, que
+escorrendo em agua, e cortado de frio e medo, nem lhe resistia, nem
+tinha animo para articular palavra. Apenas lhe metteu a luz ao rosto, o
+moleiro, fitando-o, voou de um salto á porta, fechou-a, e voltando-se
+para Manuel Coutinho, disse-lhe com um riso amarello:
+
+--Aposto que v. s.^a não é capaz de adivinhar quem o diabo nos trouxe
+por aqui? Sabe quem é este cara de fuinha?...
+
+--Nunca o vi. Não o conheço.
+
+--Pois olhe que perde!... Isto é o maior heroe cá dos sitios... Nem mais
+nem menos, do que o sôr Gaspar Preto, por alcunha o _Sapo_!...
+
+--O _Sapo_? Já te ouvi esse nome... Será?!...
+
+--O maior ladrão e traidor da cafila dos jacobinos... Oh, mas por aqui a
+esta hora, não é natural! O sargento Cabrinha não anda longe, aposto!...
+Este velhaco é o seu braço direito...
+
+--Percebo!... bradou o mancebo, deitando tambem a mão ao _Sapo_, e
+saccudindo-o de modo, que se repetisse, ameaçava desconjuntal-o.
+Antonio! Não o deixes escapar! Foi Deus que o trouxe...
+
+--Deus?!... Antes o demonio, cujo é!... Não importa. Veiu por guloso?
+Pagará as dividas que tem na minha conta. Se havia de ser ámanhã é hoje.
+Gaspar! Toma sentido! Se não me respondes direito, por alma de minha mãe
+te juro, e sabes que nunca jurei em vão, que deixas aqui a pelle pelos
+nós d'essa corda, ou os ossos na vara do meu cajado...
+
+--Sôr Antonio, por quem é!...
+
+--Por quem sou mesmo. Prometti, e costumo cumprir.
+
+--Nunca lhe fiz mal...
+
+--Hum! Nem bem!... Vamos! Cabeça alta e lingua solta. D'onde vens?
+
+--Da Casa Negra, aonde appareceu o demonio ao sargento, a mim, e aos
+milicianos.
+
+--Ah! Ah! accudiu Manuel Coutinho. Deixa-me perguntar. Este fio póde
+levar-nos longe.
+
+Interrogado pelo mancebo, entre o pavor dos espectros e o medo das
+ameaças de Antonio da Cruz, Gaspar Preto fez uma confissão geral tão
+sincera, que até o segredo do tiro dado em Manuel Simões lhe saltou
+quasi todo da bôcca sem se sentir. O pavor ensandecia-o.
+
+--E affirmas não estar já ninguem na casa, senão os presos?
+
+--Ninguem, a todos os vi fugir, como lebres...
+
+--E o sargento?
+
+--Desappareceu. Foi o primeiro.
+
+--Bem! Agora nós! atalhou o moleiro. O que vinhas tu aqui cheirar
+ante-hontem? Se disseres a verdade não te toco.
+
+--Eu!... Eu!...
+
+--Tu sim!
+
+--Vinha ver... se havia gente de fóra por cá!... redarguiu o malsim
+contido pelo olhar firme de Antonio, e estorcendo-se como se lhe
+estivessem dando tratos.
+
+--Ora graças a Deus! Já confessas!... Vinhas então como espia! Está bom.
+Outra pergunta. Quem foi ao Casal do Ouro? Fala!...
+
+--Eu!... Suspirou tremulo o miseravel.
+
+--Quem te mandou?
+
+--O sargento... Que eu por mim!...
+
+--Bem sei. Vamos a outra historia. Esta tarde deram um tiro no Manuel
+Simões?... Vê bem! Quem foi? Olha lá se mentes!...
+
+Gaspar sentiu dobrarem-se-lhe os joelhos, fugir-lhe a vista, e
+zumbirem-lhe os ouvidos. Esbugalhou os olhos, e por mais que quizesse
+não poude pronunciar uma syllaba.
+
+--Quem deu o tiro, quero saber! repetiu o moleiro, meneando o varapau e
+encarando o assassino com terrivel gesto.
+
+--Não sei... Não sei...
+
+--Sabes e viste. Essa cara de réo o está confessando. Fala. Quem foi?
+
+--Eu!... por descuido...
+
+--Descuidos teus, já sei. É o que suppunha. Agora vê lá!... O sargento
+não te tinha dito nada?...
+
+Houve uma pausa longa. O _Sapo_ chorava, supplicava, mas não redarguia á
+interrogação.
+
+--V. s.^a já viu esmagar uma osga contra uma parede? bradou o Antonio
+fuzilando-lhe as pupillas, e convulso de cholera. Pois vae ver.
+Juro-lhe, se este cão se cala um minuto, que deixa os miolos n'aquelle
+muro.
+
+--Pelo amor de Deus!... Sôr Antonio não me deite a perder!...
+
+--O sargento sabia?... replicou o outro alçando o cajado.
+
+--Jesus!... Não me mate!
+
+--Sabia ou não?...
+
+--Sabia!... rosnou o malsim quasi sem sentidos de terror.
+
+--Quanto te prometteu... pelo tiro? Conheço-te. Tu de graça não o
+disparavas.
+
+--Agora isso não! Póde matar-me, mas não confesso.
+
+--Eu matar-te?... Para que? O carrasco não come pão de graça.
+
+--Então entrega-me?!...
+
+--Com anginhos nos dedos e ferros aos pés. Juro-te! Dize a verdade,
+homem. Do mal o menos. Quanto te prometteu? Olha que a corda, que ha de
+pendurar-te na forca, já está fiada e torcida...
+
+--Se eu disser não me descobre?
+
+--Não! O teu crime te descobrirá. Quanto?
+
+--Seis moedas...
+
+--Por conta, ou ao todo?
+
+--Por conta. As outras seis... havia dar-m'as em Lisboa... quando
+levassemos os presos.
+
+--Ah! Agora repara. Vamos ás nossas contas. Gaspar, devo-te uma sova
+mestra pelo natal passado e outra por este entrudo. Bem te has de
+lembrar por quê!... Mas perdôo-te, tudo, e até no tiro dado em Manuel
+Simões não hei de boquejar... se juras fazer ao sargento o que elle te
+mandou fazer aos outros...
+
+--Matal-o?!... exclamou o _Sapo_, cuja vista feroz se inflammou.
+
+--Não, maldito! A justiça que o mate, quando o sentencear!
+
+--Então?!...
+
+--Quero que vejas, que ouças, e que me digas tudo quanto elle fizer?
+Percebeste?
+
+--Sim senhor...
+
+--Vê lá. Se te escorrega um pé, ou a lingua, e eu o sei... guarda-te!
+
+--Não ha de ter razão de queixa. Sou-lhe muito obrigado.
+
+--Não me dês mel pelos beiços, que não sou abelha. Cuidado commigo.
+Depois!...
+
+--Já lhe disse. Fique descançado.
+
+--Fico, fico! Não tem duvida. Agora vens comnosco á Casa Negra.
+
+--Oh, sôr Antonio, por alma de sua mãe, pela sua boa sorte, tudo quanto
+mandar, menos isso... Sirvo-o de rastos, estou prompto a lamber o chão
+aonde pozer os pés, mas tornar alli... isso não!
+
+--Ah! Tens medo do diabo?...
+
+--Mate-me, entregue-me, faça de mim o que quizer, mas não volto lá.
+
+E as feições repulsivas do malsim exprimiam por tal modo o medo e o
+espanto, e revelavam uma resolução tão decidida de se expor a tudo para
+não obedecer, que Manuel Coutinho disse algumas palavras ao ouvido de
+Antonio da Cruz.
+
+--Pois bem, esperarás por nós. Ahi te deixo agua pé e brôa. Mas sentido!
+Olha que te quero encontrar á volta!... Forte homem! Ter pavor assim de
+almas do outro mundo!...
+
+--Ah! sôr Antonio! Se você visse!... O fantasma branco alto como um
+cypreste crescer para si, e o defunto sentar-se de repente e olhar... Ai
+Jesus! Parece que os estou vendo ainda! Quando me lembro cuido que
+enlouqueço!...
+
+--Está bom! Está bom! Até logo! Com que viste o defunto e o fantasma?...
+insistia o moleiro serio e apprehensivo, olhando para o amo com certo
+enleio.
+
+--Como o estou vendo a você, sôr Antonio. Credo!...
+
+Manuel Coutinho encolheu os hombros, conchegou o capote e saíu. O
+Antonio não teve mais remedio senão seguil-o, mas apezar de todo o seu
+valor benzeu-se, e o coração batia-lhe mais rijo no peito, do que se
+visse um touro partir contra elle enfurecido.
+
+
+
+
+IX
+
+Que talvez podesse servir de prologo
+
+
+Deixemos descançar por um pouco os heroes d'esta mui veridica historia,
+em quanto corremos rapidamente os olhos pelos successos, de que a
+Peninsula foi theatro n'este periodo memoravel.
+
+Sem um resumido esboço, dos factos, que servem de fundo e de moldura ao
+quadro, difficilmente formará o leitor exacta idéa d'elle.
+
+Os francezes, como dissemos, tinham atravessado as provincias, e entrado
+na capital com o nome de amigos. Retirando-se com a esquadra para o
+Brazil, o principe regente entregára em suas mãos o reino sem defeza. As
+ultimas ordens de sua alteza, datadas de 26 de novembro de 1807, ordens
+pacificas e conciliadoras, abrindo-lhes as fronteiras, ajudaram mais,
+que as armas, os generaes de Bonaparte a superar os obstaculos da
+invasão.
+
+Junot confessou-o nas primeiras proclamações! A obediencia, tão elogiada
+por elle, e dictada pelas circumstancias, ainda não encerrava os
+ressentimentos, que tornaram depois vacillante e precario o dominio
+estrangeiro.
+
+O regimen absoluto, que as reformas do marquez de Pombal não conseguiram
+remoçar, adoecia de incuravel decrepidez. Muitos homens illustrados, que
+o grandioso espectaculo dos acontecimentos advertia, suspiravam por uma
+renovação, que não podia nunca ser inspirada, bem o sabiam elles por
+experiencia, nem pelas idéas, nem pela iniciativa de um governo caduco.
+
+Esta illusão de animos generosos durou pouco. Os que amavam sinceramente
+a patria depressa se desenganaram da vaidade das promessas dos
+conquistadores.
+
+Estes, apenas se reputaram seguros, arrancaram a mascara, e pozeram
+termo ás complacencias. Assim que viu reunidos e repousados os corpos
+dispersos por longas e precipitadas marchas; assim que os soldados lhe
+pareceram restaurados da fome, das inclemencias da estação, e da
+aspereza do transito o general em chefe cançou-se de dissimular, falando
+com a altivez de vencedor aos que o tinham recebido como hospede!
+
+Foi então geral o sobresalto. Os actos despoticos e oppressivos
+dir-se-íam calculados para irritar o ciume e o amor proprio do paiz. As
+guardas de Lisboa confiadas só aos francezes; o emprestimo forçado
+imposto ao commercio com o praso de vinte dias; a insolencia do famoso
+decreto de Milão condemnando como sujeito a resgate o reino que não fôra
+conquistado; as armas reaes picadas do frontão dos edificios publicos; e
+a bandeira nacional arriada no castello e nas fortalezas, e substituida
+pelos estandartes tricolores, foram outros tantos erros dos dominadores,
+que a saudade da independencia registrou como ultrajes.
+
+Desde o dia 13 de dezembro, em que Junot rodeado de pompas guerreiras,
+mandára baixar o pavilhão das quinas deante das aguias do Sena, nunca
+mais houve paz entre a nação offendida e os invasores. A luva ficou
+desd'esse dia no chão por falta de chefe, que a levantasse; porém,
+decorridos mezes, Portugal erguia-se para responder á provocação,
+envidando valor egual aos brios.
+
+Atraz da occupação da pequena monarchia, que o orgulho do gabinete de
+Saint Cloud estava ainda longe de suppor, que podesse tornar-se em breve
+um dos inimigos implacaveis de sua ambição, pouco se dilatou a invasão
+de toda a Hespanha. Assignando o tractado de Fontainebleau, que repartia
+os membros de Portugal entre os Bourbons, os francezes, e o principe da
+Paz, auctorizando a entrada de quarenta mil soldados em seus dominios,
+Carlos IV não percebeu que firmava a propria abdicação.
+
+Bonaparte anciava um pretexto para realizar os seus designios.
+Deram-lh'o os enredos aulicos, o nucleo de descontentes, de que se
+rodeava o principe das Asturias, depois Fernando VII, e a má vontade de
+todas as classes contra o ministro omnipotente, valido do monarcha e
+amante da rainha; deram-lh'o egualmente a miseria, a inquietação, a
+decadencia geral, e o presentimento de immensas catastrophes.
+
+As dissensões da côrte, filhas da lucta do herdeiro da corôa com os
+soberanos e com o privado, D. Miguel de Godoy, e a indiscreta revelação
+dos aggravos reciprocos, levada ao tribunal do imperador, para este
+sentenciar como arbitro a familia real, ajoelhada a seus pés,
+facilitaram a occasião appetecida por Napoleão I, precipitando a queda
+do ministro entre violencias e tumultos, coagindo a abdicação de Carlos
+IV, e apressando a saída de Fernando VII para Bayona.
+
+Vendo por terra o diadema dos Bourbons de Hespanha Bonaparte não o
+restituiu a Carlos IV, nem a Fernando VII, cingiu-o na fronte de seu
+irmão, o rei de Naples, escolhido para reinar entre bayonetas sobre a
+monarchia de Izabel a Catholica. Os principes despojados resignaram-se,
+mas a Hespanha protestou. Madrid insurgida deu o exemplo. Murat cuidou
+suffocar a sublevação pelo terror dos supplicios. Illudiu-se. O sangue
+vertido na capital em 2 de maio tornou irreconciliavel a nova conquista
+com o imperio. A nação respondeu aos canhões, aos fuzis, e ás execuções
+militares com a resolução indomita, que as adversidades confortam, e os
+triumphos exaltam.
+
+A ira fez soldados os habitantes da Peninsula. O odio da servidão
+resuscitou os dias de Viriato e de Sertorio. Cada rochedo, cada tronco,
+de arvore, cada balsa escondeu um inimigo; e para repellir os
+oppressores até os velhos saccudiam os gelos da edade como mancebos, e
+as crianças pelejavam como homens. Por um, que expirava, erguiam-se mil.
+N'esta nova seára de Cadmo o ferro, tocando a terra, levantava legiões
+de heroes. O chão fugia debaixo dos pés aos veteranos da Italia e do
+Egypto, e a espada dos marechaes, quebrada sem gloria, ameaçava em vão
+as fragas de um territorio, que, alastrado de cadaveres, e abrazado
+pelas armas e pelos incendios, até cuspia de si os ossos do estrangeiro,
+negando-lhes a paz do tumulo!
+
+Oviedo, a antiga e venerada côrte das Asturias, recordando, que suas
+montanhas tinham sido berço e asylo da renascença christã, alçou ousada
+o seu estandarte. Cadix e Sevilha acompanharam-n'a. Granada e Valencia
+insurgiram-se logo depois. Toledo, Santander de Biscaya, Saragoça,
+Tortosa, e Galliza, não ficaram atraz. Dentro em pouco os esquadrões
+francezes, encanecidos nas luctas d'esta epocha de prodigios, já não
+chamavam seu mais do que ao terreno aonde combatiam.
+
+As juntas de salvação e defeza, á medida que as terras se iam
+sublevando, exprimiam o seu pensamento de porfiada resistencia. Filhas
+legitimas da revolução, os revezes e os sacrificios não as desanimavam.
+Diversas e oppostas muitas vezes no caracter e nos costumes, nenhuma
+trahiu o seu juramento. Preferindo para mortalha da Hespanha os muros
+voados e as torres arrazadas das praças de guerra e das antigas cidades,
+todas rejeitaram a clemencia injuriosa, que lhes promettia o perdão em
+troca do soberbo dominio a que a Europa quasi inteira curvava então a
+cerviz.
+
+Os successos correram como a impaciencia dos contendores.
+
+A invasão, que talára a provincia de Granada, derrotadas por Castaños as
+tropas imperiaes, foi obrigada a retroceder. A capitulação de Bailen
+quebrou o prestigio das legiões invenciveis. Os francezes, acossados de
+posto em posto, tiveram de evacuar Madrid, e recuando deante do impeto
+da nação armada, só pararam ás margens do Ebro. Os capitães mais ousados
+aprendiam, finalmente, a conhecer, que vale mais o esforço de um povo
+unanime, do que a espada feliz do mais do maior homem de armas.
+
+A junta central de Aranjuez, composta de deputados de todas as
+provincias, constituiu-se como representante de Fernando VII, captivo em
+Valençay, e assumiu a suprema direcção, conferida pelas necessidades e o
+heroismo pelo paiz. A Inglaterra, senhora por tanto tempo do sceptro dos
+mares, disputando a Napoleão em todos os campos de batalha a primazia no
+continente, ouviu de repente os clamores dos descendentes de Pelaio, e
+contemplando o arrojo, com que elles se atreviam contra o poder que
+desmaiava os monarchas mais poderosos, estremeceu de jubilo, e saudou
+n'este commettimento audaz a aurora do dia de Waterloo.
+
+Em Portugal, apezar de não ser menos vivo e intenso o odio, não foi tão
+prompta a explosão. Mas a chamma, por calar debaixo de cinzas, não
+rompeu por isso com menor violencia.
+
+No dia 5 de fevereiro de 1808, na occasião, em que as auctoridades
+francezas se reputavam mais firmes, reuniram-se encobertamente em Lisboa
+seis homens, que nenhuma distincção hierarchica apontava para chefes,
+mas que a firmeza da vontade e o despreso dos perigos recommendam ao
+louvor da posteridade. Chamavam-se Matheus Augusto, José Maximo Pinto da
+Fonseca Rangel, José Carlos de Figueiredo, Antonio Gonçalves Pereira e
+André da Ponte de Quental da Camera. Juraram na presença de Deus
+empregar as forças, os bens, e a vida com fervor até conseguirem
+restituir ao principe regente, a sua corôa, e á patria o seu esplendor e
+liberdade.
+
+Juntavam-se ás oito horas da noite alternadamente uns em casa dos
+outros, e desde logo se occuparam de minar o chão debaixo dos passos dos
+invasores, descobrindo no meio do seu cortejo os illudidos e os coactos
+para os descriminar dos vendidos e traidores, e sondando o animo dos
+officiaes militares, dos magistrados, e dos ecclesiasticos para indagar
+a sua disposição, apurando aquelles com que podia contar.
+
+Esboçada a conspiração, e protegida por inviolavel segredo, principiaram
+os primeiros conjurados a attrahir outros, engrossando o numero dos
+cumplices. Á policia, regida por Lagarde, chegaram cedo os echos d'esta
+empreza, que, tomando corpo á proporção que os acontecimentos
+caminhavam, era já na primavera de 1808 uma verdadeira potencia,
+fortificada pelos votos concordes do patriotismo portuguez, e pela
+coadjuvação de valiosos auxiliares recrutados nas fileiras do exercito
+nacional, nas casas mais illustres da fidalguia, e nas classes
+respeitadas do clero, da toga, e do commercio.
+
+Quando Junot embarcou em virtude da capitulação de Cintra, só os cabeças
+de bando, representantes, perante o Conselho Conservador, da multidão
+dos adherentes, excediam de _cento e oitenta_, e os homens, de que
+podiam dispor, não baixavam de tres, ou quatro mil, com sete peças de
+artilheria, 370 cavallos do regimento da Luz, e da guarda real da
+policia, 112 officiaes avulsos, e 710 bayonetas!
+
+Saltemos agora as semanas, que nos separam dos meiados de junho de 1808,
+e observemos o estado das cousas já bastante alterado no curto espaço de
+sete mezes.
+
+Determinára a Providencia que do excesso dos males, que flagellaram a
+Peninsula se gerassem as causas, de que primeiro renasceu a
+independencia, e depois a liberdade. As scenas de Bayona, e a repressão
+cruel dos tumultos de Madrid despertaram a Hespanha do somno, em que a
+falsa alliança dos francezes a embalava. Badajoz sublevou-se a par de
+outras terras importantes no dia 30 de maio, e á sua voz principiou a
+provincia do Alemtejo a agitar-se. Ao norte a Galliza, com os bellos
+portos do Ferrol e da Corunha, e a sua população briosa e accumulada,
+não hesitou egualmente em saccudir o jugo.
+
+Os dez mil hespanhoes aquartelados no Porto, que depois da morte do
+general Taranco obedeciam ao marechal de campo D. Domingos Ballesta,
+receberam ordem da junta para recolherem, aprisionando o general
+Quesnel, governador militar da cidade, e todos os officiaes e soldados,
+de que podessem apoderar-se.
+
+Ballesta executou a ordem, e chamando as auctoridades da segunda capital
+do reino, perguntou-lhes, antes de partir, por quem se decidiam? Pela
+patria, responderam alguns.
+
+O castello de S. João da Foz, de que era major Raymundo José Pinheiro,
+arvorou a bandeira portugueza, e a guarnição communicou com o brigue
+inglez _Eclipse_, o qual esperava os acontecimentos, cruzando proximo da
+costa. O povo não se moveu. A occasião ainda não estava madura.
+
+Os timidos conselhos do brigadeiro Luiz de Oliveira prevaleceram. O
+Porto tornou a submetter-se ao governo de Napoleão I.
+
+A 9 de julho chegou a Lisboa a noticia da insurreição das tropas
+hespanholas e da prisão de Quesnel.
+
+O perigo eminente estimulou o duque de Abrantes.
+
+A divisão Caraffa, composta de seis batalhões de infanteria, de um
+regimento de cavallaria, e de algumas baterias de artilheria, ardia em
+desejos de imitar seus irmãos de armas, provocada pelos emissarios
+expedidos a toda a pressa de Sevilha e Badajoz. Junot antecipou-se.
+Vinte e quatro horas depois os soldados de Fernando VII, presos e
+desarmados, embarcavam para bordo dos pontões francezes, e sómente
+poucas companhias do regimento de Murcia e alguns hussards do Maria
+Luiza conseguiam escapar-se.
+
+Por meio d'este golpe ousado o general em chefe, retaliando as
+hostilidades dos patriotas, soube refrear a tempo as impaciencias e a
+animosidade dos habitantes irritados. Loison saíu a 17 de Almeida sobre
+o Porto com a sua columna, afim de se oppor ás tentativas da Junta de
+Galliza, e a 20 passava o Douro no Pezo da Regua. Mas o dia das iras
+populares tinha alvorecido. Rodeado por todas as partes de inimigos
+invisiveis, que fuzilavam suas tropas por traz das vinhas e dos
+rochedos, pendurados sobre a corrente torva e arrebatada do rio, volveu
+já sobre a noite ao Pezo da Regua, e tornou a vadear o Douro para a
+outra margem, abençoando a precipitação boçal dos camponezes, que o
+salvára quasi por milagre de uma ruina completa.
+
+O Minho e Traz os Montes, sublevadas em massa, acabavam de empunhar as
+armas, proclamando a independencia. Mais alguns passos de Loison além de
+Mesãofrio, mais prudencia e calculo da parte dos aggressores, e a
+columna franceza encontrava a sepultura n'aquelles penhascos e
+desfiladeiros immortalizados pela sua derrota!
+
+Em quanto Junot quebrava por um lance audacioso a espada nas mãos dos
+batalhões de Caraffa, Manuel Jorge Gomes Sepulveda, tenente general, e
+governador militar do norte, em edade provecta, acclamava a restauração
+da dynastia de Bragança, e era seguido pelas terras mais notaveis das
+duas provincias.
+
+No dia 18 a revolução rebentou no Porto, e no dia 19 foi nomeada a
+primeira junta portugueza, cujo papel havia de ser tão importante nos
+successos, que se precipitavam. Coimbra Pombal, e Leiria seguiram o
+exemplo do Porto, e a insurreição crescendo e alargando-se, batia pouco
+depois ás portas de Lisboa, ameaçando o dominio estrangeiro, tanto pelo
+lado do norte, como pelo lado do sul. Desde os Algarves até Evora e Beja
+levantou-se o mesmo grito de exterminio correspondido por milhares de
+vozes.
+
+Antes de combater a insurreição a ferro, o duque de Abrantes chamou em
+seu auxilio o braço ecclesiastico, convidando-o a fulminar as populações
+armadas.
+
+Uma pastoral do cabido patriarchal representou como crime e peccado
+inexpiavel a resistencia ao grande e invencivel Napoleão, declarando a
+culpa sujeita a excommunhão maior sem prejuizo das penas temporaes. Esta
+profanação sacrilega serviu só de aviltar aos olhos do paiz os ministros
+do altar, que não se envergonhavam de offerecer o incenso do templo e o
+beijo de Judas contra a liberdade á vontade despotica dos oppressores.
+Os raios mal forjados nas sacristias caíram frios e inermes deante da
+resolução e da perseverança dos que pelejavam pela patria, e a famosa
+proclamação ao Divino, despresada como merecia, não roubou ás fileiras
+nacionaes um só defensor.
+
+A resposta de Bonaparte em Bayona á deputação portugueza foi mais
+eloquente para fazer de nós soldados, do que as excommunhões dictadas no
+quartel general francez. O imperador, julgando a occupação de Portugal
+legitima depois da partida da familia de Bragança, tractava o pequeno
+reino desamparado com os rigores devidos a uma colonia ingleza!
+
+Era a sua idéa e a sua politica. Pouco lhe importavam o amor e a
+confiança dos novos subditos. Não os temia nem o preoccupava o que havia
+de dispor afinal ácerca do seu destino. Junot, que os conhecia melhor,
+tinha procurado attrahil-os, e chegára a linsongear-se com a esperança
+de os adormecer a ponto de lhes riscar da memoria as saudades da
+dynastia e da independencia. A obediencia imposta pela força
+afigurava-se-lhe esquecimento, e nos seus officios ao ministro da guerra
+o governador de Paris traduzia os vivas venaes da plebe ao sabor dos
+seus desejos, pintando a nação tranquilla, submissa, e satisfeita. A
+explosão das provincias e os murmurios da capital vieram depressa
+acordal-o d'este sonho!
+
+Olhou. Não viu em volta de si, senão odios mal reprimidos, ou adhesões
+falliveis e compradas. A pobreza e a miseria, filhas do bloqueio, que
+paralysava o commercio, tornavam ainda mais critica a sua posição. O
+cambio do papel moeda subira a 31 e a 32 por cento; o pão custava 75
+réis o arratel. A carestia dos generos, tornando a vida difficil e
+dolorosa para as classes indigentes, aggravava o descontentamento geral.
+A Junta dos Tres Estados, reunida para pedir um rei a Napoleão,
+proporcionou ao juiz do povo José de Abreu Campos, a occasião appetecida
+de manifestar os verdadeiros sentimentos do paiz, desenganando o duque
+de Abrantes, de que se achava só e detestado com o seu exercito no meio
+de populações hostis, que suspiravam pela hora de restaurar a liberdade
+e o throno de seus principes.
+
+No mez de junho estavam dissipadas todas as illusões. Admirado do arrojo
+com que paizanos quasi sem defeza se arriscavam ao encontro de legiões
+aguerridas, Junot exclamava: «Portuguezes! Que delirio é o vosso? Em que
+abysmo de males vos despenhaes? Ao cabo de sete mezes de paz e harmonia,
+porque razão correis ás armas?» Concluindo com a lei marcial, ameaçava
+as villas e cidades com o saque e o incendio, e os cidadãos com a morte!
+
+Se estivesse mais lembrado da sua juventude deveria recordar-se do modo
+por que a França respondêra heroicamente aos que lhe apontaram a espada
+ao peito dizendo o mesmo.
+
+
+
+
+X
+
+Tolda-se o tempo
+
+
+Transportemo-nos um pouco antes dos successos esboçados nas paginas
+antecedentes aos paços da inquisição, situados no Rocio de Lisboa, aonde
+hoje ergue o seu frontão votado ás Musas o theatro de D. Maria II. Em
+algumas das salas e aposentos do antigo palacio dos Estáos, restaurado
+pelo marquez de Pombal, assentou Lagarde as repartições da policia geral
+do reino. Era justo! Ao lado do santo officio da fé o santo officio da
+usurpação. As duas inquisições fraternalmente hospedadas uma a par da
+outra não podiam offender-se do acaso que as unia! Soldados da guarda
+real da policia, corpo fundado e disciplinado pelo conde de Novion,
+emigrado francez que as victorias de Bonaparte e a invasão de 1807
+lançaram outra vez nos braços dos seus compatriotas, guardavam as portas
+de fóra, ou de espadas em punho vigiavam os corredores e camaras, que
+precediam o quarto reservado aonde o proconsul se encerrava com os seus
+confidentes.
+
+Deixemos passar esses vultos, que pisam os sobrados nas pontas dos pés,
+escorregando quasi como sombras. São rodas secundarias da machina. O
+olhar enviezado e inquieto, o rosto meio escondido na dobra do capote, e
+a humildade rasteira denunciam, sem necessidade de mais exame, os
+delatores obscuros, ou os agentes provocadores, destacados nas ruas e
+praças, ou nas tavernas para escutar e repetir os clamores de indignação
+das multidões. Esperemos que algum personagem de elevada gerarchia
+appareça, e nos introduza no gabinete discreto e só accessivel a poucos
+eleitos, aonde o magistrado estrangeiro conta as pulsações do coração de
+Portugal, e segue com a vista fria e penetrante os estremecimentos de
+cholera, ou de impaciencia do paiz, cançado da oppressão e envergonhado
+do silencio, em que a supporta ha sete mezes!
+
+O general Junot, governador de Paris, entra pelo braço do conde da Ega,
+seguido de seus ajudantes de campo. O ministro Herman, encarregado dos
+negocios do reino e da fazenda, ex-commissario imperial, não se demora
+atraz d'elle. Lunyt, secretario d'estado da marinha e da guerra já os
+tinha precedido. A concorrencia de taes pessoas inculca acontecimento
+notavel, e é de crer que o conselho se não separe sem que alguma
+providencia venha esclarecer o segredo dos ultimos dias e dos ultimos
+sucessos. Quem nos abrirá caminho até ao famoso reposteiro, que deante
+da entrada da sala vedada representa para os profanos o papel de véu de
+Pythagoras? As sentinellas, immoveis como estatuas, velam fieis ás
+ordens recebidas. Os porteiros, em ar protector, ou mysterioso, despedem
+os pretendentes e os importunos. Um cordão de empregados corta á
+curiosidade todos os passos. Gritou-se, porém ás armas. O uniforme de um
+official superior reluz na extremidade de extenso corredor. Os
+subalternos inclinam-se profundamente, e respondem em voz submissa ás
+perguntas imperiosas, que lhes dirige. Acompanhemos este iniciado. É o
+capitão de mar e guerra Magendie, commandante da marinha. Seguindo-o,
+temos a certeza de não encontrar obstaculos.
+
+Quando o recem-chegado franziu o reposteiro de panno escarlate orlado de
+branco, no meio do qual campêa uma aguia azul colossal, e empurrou de
+leve um dos batentes da porta, a discussão já se havia travado, segundo
+parecia, menos placida, do que promettiam os annos e auctoridade dos
+diversos membros do governo, sentados á roda da comprida mesa, coberta
+de couro, e cingida até ao chão de um rodapé de tela encarnada. A mesa
+occupava o centro da casa. Junot, facil de conhecer pela estatura, boa
+presença, e garbo do porte, achava-se em pé junto da cabeceira, com o
+rosto inflammado, e a mão no punho da espada. Lagarde, á sua esquerda,
+analyzava com o olhar prescrutador todas as physionomias, traçando com a
+penna sobre uma folha de papel algumas palavras soltas. Pallido, ou
+antes livido, retratava no rosto a astucia unida á expressão repulsiva
+de um cynismo cruel e glacial.
+
+Herman, á direita do general em chefe, sereno, aprazivel, e delicado,
+com um lapis entre os dedos enfeitados de anneis, justificava ao
+primeiro volver de olhos a reputação de melindre e de primor, merecida
+desde que se estreára na carreira publica exercendo as funcções de
+consul em Portugal. Vestia em todo o apuro da moda do seu tempo. Casaca
+de lemiste talhada á franceza com botões de metal e golla alta, collete
+branco aberto, que deixava sobresaír a finissima cambraia da camisa e da
+tira engommadas em pregas miudissimas, calções de seda, meia a estalar
+na perna, sapatos e fivelas de ouro cravejadas. Um espadim curto de
+bainha dourada pendia-lhe da cinta, e uma caixa de rapé, mais preciosa
+pelo lavor, do que pela qualidade, aberta a seu lado, e consultada a
+miudo pelos dedos distrahidos de Junot, recommendava-se pela admiravel
+miniatura, cercada de aljofres, que lhe ornava a tampa.
+
+O conde da Ega, cuja intimidade no quartel general do largo do Quintella
+as murmurações populares explicavam de um modo pouco airoso, e que dias
+depois havia de substituir o Principal Castro na pasta da justiça,
+escutava de pé, e com mostras de não pequeno sobresalto, talvez
+provocado pelo desassocego da consciencia, a leitura nasal, lenta, e
+accentuada, que Lunyt secretario de estado continuava sem mudar de tom,
+estudando de vez em quando por baixo dos oculos de ouro o effeito
+produzido no animo dos ouvintes.
+
+A entrada de Magendie, accolhida por uma exclamação de alegria do duque
+de Abrantes, por uma cortezia de Herman entre dois sorrisos, e por um
+gesto de urbanidade de Lagarde, foi como o signal da explosão até ahi
+contida das paixões e receios mal reprimidos. Todos diriam que o
+Conselho aguardava a sua chegada para arrancar a mascara, que o
+suffocava, dando largas á expressão sincera dos verdadeiros sentimentos.
+
+--Bem vindo, capitão Magendie! A sua demora fazia-nos temer que
+faltasse. O aviso chegou-lhe tarde?...
+
+--Não foi o aviso, general! Mas a esquadra de sir Carlos Cotton
+appareceu outra vez á barra, e julguei prudente ir a bordo das fragatas
+_Carlota_ e _Benjamin_...
+
+--E então?! interrompeu Lunyt, pondo de parte o papel que lia, e
+encarando o capitão de mar e guerra.
+
+--Fosquinhas por ora! respondeu este encolhendo os hombros.
+Entretanto...
+
+--Podem encobrir planos de hostilidade? atalhou Herman, sorvendo com
+pausa uma pitada, e dispersando depois com um piparote os grãos que
+tinham saltado sobre a tira alvissima da camisa.
+
+--É possivel. Os inglezes animados pela sublevação dos hespanhoes,
+meditam desembarques na peninsula, accudiu Lagarde em ar grave.
+
+--Veremos se em terra são felizes como no mar! observou o conde da Ega.
+
+--Mesmo no mar, redarguiu Magendie, espero que não hão de forçar-nos a
+barra sem deixarem nos escolhos um par de navios. Temos de observação
+entre as torres a fragata _Graça Phenix_ e mais dois vasos de alto
+bordo, artilhados, mas incapazes de navegar; em Belem estão fundeadas
+tres charruas...
+
+--Bem! Bem! tornou Junot. Duvido que rocem as barbas pela bôcca de
+nossos canhões, Magendie! Oxalá que todas as tempestades nos viessem só
+do mar... O peior de tudo, senhores, é que o chão treme debaixo dos pés,
+e...
+
+--Que a traição vela á nossa cabeceira? Notou Lunyt, limpando os vidros
+dos oculos, e falando no mesmo tom lento e nasal, com que lia.
+
+--É verdade, Lagarde! Conspira-se, trama-se, e não nos dizieis nada!...
+
+--Para que? Quando uma nação inteira está conjurada, general, a policia
+passa, vê, e dissimula. Prisões e devassas, de que serviriam, senão de a
+irritar mais? Descobrir o que ella quer, tirar-lhe os pretextos, e
+escolher a occasião de ferir a muitos de uma vez pelo terror do mesmo
+golpe, eis o segredo dos que sabem dominar.
+
+--Sim! Bem sei! É a theoria de Fouchet, do duque de Otranto!...
+
+--E para este caso a unica aproveitavel. O que diria o sr. conde da Ega,
+tão nosso amigo...
+
+--Eu!... Pois eu!...
+
+--Se lhe mettessemos no castello, ou nas torres dez, ou doze parentes de
+toga, e de espada, que estão conspirando a esta hora mesmo contra o
+governo de sua magestade o imperador e rei?!... proseguiu o intendente
+com o seu riso agudo e estridulo, similhante ao som do córte de uma
+serra.
+
+--Ah! Os parentes do sr. conde de Ega tambem são contra nós?!... notou
+Junot vagarosamente.
+
+--E os da senhora condessa ainda mais!... observou Lagarde trespassando
+o general com a vista afiada e ironica.
+
+Uma nuvem escureceu a fronte do duque de Abrantes. Aquella seta viera
+cravar-se-lhe direita no peito. O guerreiro destemido, coroado tantas
+vezes pela victoria no meio de proezas heroicas, era accusado de
+excessiva sensibilidade perante o bello sexo; e a formosa condessa da
+Ega, segundo se dizia, graças a seus enlevos e encantos, tinha
+conseguido tornal-o escravo do menor de seus caprichos.
+
+O general inclinou a cabeça, correu os dedos pela fronte annuviada, como
+se quizesse saccudir com o gesto pensamentos importunos, e, sem
+responder á allusão, levantou-se, e deu alguns passos pela casa, talvez
+para ter tempo de se assenhorear de si, vencendo a commoção. Os olhos
+dos outros vogaes do conselho fitaram-se no semblante do conde da Ega
+por um movimento irresistivel. Sem resultado! Ayres de Saldanha, por
+calculo, ou por ignorancia, não denunciava na physionomia, senão a
+indifferença apathica, prova real da mais virtuosa confiança. Herman e
+Lagarde trocaram um sorriso fino, que não abonava a sua credulidade na
+innocencia apparente do fidalgo portuguez.
+
+N'este momento a mão de um ajudante de ordens arredou as prégas do
+pesado reposteiro, e sem proferir palavra entregou a Junot dois maços
+cuidadosamente lacrados. O duque recebeu-os tambem calado, e veiu
+sentar-se na ampla cadeira de braços, d'onde se erguêra minutos antes.
+Emquanto rompia o sobrescripto do primeiro, e corria os olhos pelo
+volumoso officio, era facil notar no seu rosto, de ordinario sereno e
+intrepido, a apprehensão causada por noticias desagradaveis. Antes de
+passar á leitura do segundo maço, e de lhe rasgar a capa, os que o
+conheciam assustaram-se, apercebendo-se de certa hesitação momentanea,
+notavel em caracter tão firme, porque seguramente inculcava mais do que
+sobresalto, ou torvação. Ao mesmo tempo recebia Lagarde um papel
+fechado, que não lhe causava menor cuidado, do que os dois officios ao
+general. Houve um minuto, ou dois de profundo e ancioso silencio.
+
+--Nome de Deus! exclamou o duque de Abrantes incapaz de conter as
+paixões, e amarrotando irado o papel. Verifica-se o que sempre
+prognostiquei. Não me quizeram attender, decidiram tudo em Paris sem
+entender nada, e agora cá estamos nós para carregar com o peso de todas
+as culpas!... Quantas vezes os avisei e lhes disse a verdade! Deram
+finalmente aos inglezes o campo de batalha porque tanto suspiravam; não
+contentes fizeram suas alliadas duas nações inteiras. Veremos agora como
+desatam o nó!
+
+E recostando os cotovellos na mesa, e a cabeça entre as mãos, sem fazer
+caso do espanto excitado pelas suas phrases, abysmou-se em sombria
+meditação.
+
+--O que é? O que succedeu?... perguntava o conde da Ega a Herman.
+
+--Pouco viverá quem o não souber! redarguiu o malicioso diplomata,
+encolhendo os hombros. Rapaziadas dos portuguezes, aposto!...
+
+--Mais do que rapaziadas, senhor Herman! atalhou o intendente geral da
+policia, que de livido se tornára verde, cujas pupillas chammejavam,
+cujo sorriso era uma contorsão diabolica. Estamos sobre um vulcão.
+
+--Apagado! replicou o ministro do reino inalteravel. Esta gente de
+Lisboa não é para emprezas altas. Queixa-se com saudades, fala, ameaça,
+mas por fim faz-se d'ella o que se quer. Em lhes não tocando nos seus
+lausperennes, nos seus frades, e nas suas procissões, todos andam mansos
+como borregos... Estes não me mettem medo a mim; oxalá!...
+
+--Medo! accudiu Junot, levantando-se de um pulo, com o rosto incendido,
+e os olhos scintillantes! Medo! Quem fala em medo!? Para enxotar como um
+rebanho de ovelhas toda essa plebe, toda essa espuma... basta o meu
+cavallo e o meu chicote!...
+
+--Nem tanto, senhor duque! observou Magendie. Os portuguezes são homens
+e soldados. Mais de uma vez o têem provado. Perguntae aos hespanhoes...
+e ao senhor conde da Ega, que hão de conhecel-os.
+
+Herman sorriu-se. O conde parecia petreficado. A injuria do general em
+chefe feria-o no rosto como golpe de mão aberta. O coração indignado
+convidava-o a repellil-a, porém o servilismo tapava-lhe a bôcca. Não
+acertava com o que fizesse. Calado deshonrava-se; falando
+arriscava-se... Calou-se!
+
+Junot caíu depressa em si. O seu animo era generoso, embora cedesse aos
+impetos do sangue, facil de inflammar, provocando paroxismos de cholera,
+que os seus intimos deploravam, porque frisavam quasi por loucura
+frenetica. As palavras de Magendie advertiram-n'o. Recuperando-se da
+embriaguez da raiva, volveu ás maneiras cultas e urbanas, que tantas
+affeições lhe grangeavam, mesmo entre os adversarios.
+
+--Senhor capitão Magendie, a plebe não é a nação. Os portuguezes são
+para muito; pena é que não os soubessem aproveitar, em quanto era
+tempo!... O erro não o commetti eu. Este povo é bom, generoso, e
+paciente... Podiamos, deviamos ajudal-o a regenerar-se... Preferimos
+tractal-o como vencido, e fazer d'elle um inimigo!... Paciencia!
+Colheremos os fructos que semeámos. Lagarde! Herman! Magendie! Vamos ter
+a guerra!... O segundo acto da tragedia começa em Portugal. A Hespanha
+deu-nos o primeiro... Loison escapou milagrosamente aos montanhezes
+sublevados no Marão, em Amarante, e em Chaves!...
+
+--Se escapou é o essencial! Os bandos populares sem cabeça depressa se
+dispersam. Observou Lagarde.
+
+--É verdade. Mas o chefe existe. Manuel Gomes de Sepulveda acclamou em
+Traz-os-Montes o principe regente...
+
+--Um velho de mais de oitenta annos, tropego, e quasi cego!?... accudiu
+Lunyt sorrindo.
+
+--Acrescentae, porém, velho mas habil general, valente, e adorado!... As
+provincias do norte estão, ou estarão todas em armas dentro de oito
+dias. Miranda, Villa Real, Moncorvo, e Guimarães já o seguiram, ou vão
+seguil-o...
+
+--Temos o Porto, e em quanto for nosso, facilmente daremos a mão aos
+nossos exercitos de Hespanha, interrompeu Herman.
+
+--O Porto!... Lêde!... E passando o officio ao ministro do reino, Junot,
+em quanto este o lia a meia voz aos collegas, passeiava agitado, medindo
+a sala em todo o comprimento.
+
+--O Porto? É tarde! já não lhe accudimos. Hoje, ou ámanhã subleva-se, e
+dá o exemplo. Coimbra não se demora. Contae com ella insurgida. Não nos
+lisongeemos com illusões...
+
+--O mal, comtudo, não é irremediavel! Sejamos fortes! exclamou Magendie.
+As nossas tropas devem ter vencido em Hespanha, e...
+
+--As nossas tropas não venceram, foram vencidas! Tornou o general em
+chefe sombrio, e mordendo os beiços. A fortuna vira-nos as costas. As
+divisões aguerridas recuam sobre o Ebro. O rei José saíu de Madrid.
+Estamos sós e sem retirada no meio de um reino irritado e adverso...
+
+--Ah! disse Herman empallidecendo. N'esse caso a partida é arriscada.
+Não a julgo, porém, perdida.
+
+--Nem eu! Mas contemos um pouco, se nos apraz, com os inglezes. Em
+Gibraltar acha-se sir Hew Dalrymple com o corpo do general Spenser. Em
+Cork, na Irlanda, vão embarcar nove mil soldados. A esquadra de sir
+Charles Cotton anda cruzando deante da foz do Douro, e das bahias do
+Tejo e do Mondego. De um instante para outro podemos ter de pelejar com
+o povo e com as tropas do rei George... N'esse caso!...
+
+--Ameaça-nos a capitulação de Dupont em Bailen?!... accudiu Lagarde,
+batendo com o punho cerrado sobre a mesa. Oh!...
+
+--Nunca!... Pelo menos em quanto eu viver! exclamou Junot com um gesto
+admiravel de firmeza. Luctaremos! A derrota não é menos gloriosa, que o
+triumpho, quando o campo de batalha proclama o heroismo dos vencidos...
+Poderemos ao menos contar com a obediencia de Lisboa? A capital em nosso
+poder póde ser ao mesmo tempo segura base de operações, e precioso
+penhor para o infortunio. Lagarde! Chegou o momento. Respondeis pela
+tranquillidade de Lisboa?...
+
+Houve um momento de silencio. O intendente geral da policia, atalhado,
+olhava para o papel, que lhe tinham trazido, e conservava ainda aberto,
+e para o general, e hesitava.
+
+--Que nova desgraça nos ameaça!? accudiu o duque arrebatado. Hoje é o
+dia das fatalidades? Falae! Estou preparado para tudo. Que dizeis de
+Lisboa?...
+
+--Que respondo por ella, como por mim!... balbuciou Lagarde tremulo.
+
+Bem! Não é preciso mais. Dás-nos a alavanca de Archimedes!...
+
+--Só depois de ámanhã em deante!... concluiu o intendente engasgado, e
+convulso.
+
+--Ah! E hoje porque não?! exclamou Junot, que os revezes pareciam
+reanimar á medida que se accumulavam. Nome de Deus! Não sois medroso.
+Conheço-vos! Esse papel trouxe-vos a cabeça de Medusa? Que segredo
+terrivel encerra? Vamos! Vencei a consternação, e dizei-nos o que ha. O
+peior perigo, é o perigo encoberto. Quero saber!
+
+E o duque de Abrantes assentou-se com a fronte erguida, os olhos
+brilhantes, e um sorriso intrepido nos labios. Era assim que elle
+costumava affrontar a morte nas batalhas.
+
+Lagarde principiou em voz baixa a leitura. Era o plano de uma revolução
+traçada para rebentar no dia seguinte depois da procissão do Corpo de
+Deus.
+
+Os auctores d'este commettimento, todos membros do Conselho Conservador
+de Lisboa, tinham sido denunciados á policia em differentes occasiões,
+mas poupados como conspiradores theoricos e inoffensivos. A ousadia do
+trama excedia, porém, d'esta vez quanto podia prever-se de audaz e
+decidido. O rompimento havia de começar de tarde, ás seis horas, muito
+depois de concluida a festa religiosa. Junot devia ser preso no caminho
+do palacio de Anadia para o Rato, as guardas do Rocio, do Terreiro do
+Paço, de S. Domingos, de Santa Clara, e do quartel general, atacadas e
+desarmadas, e o Castello rendido por assalto, ou por algum artificio de
+guerra. As tropas francezas privadas do seu chefe, e surprehendidas,
+seriam obrigadas a depor as armas em virtude das ordens dictadas ao
+duque de Abrantes pelos seus carcereiros. O povo e os soldados
+portuguezes coadjuvariam a revolta occupando as ruas e as praças.
+
+O assombro dos vogaes do governo durante a communicação, que acabâmos de
+resumir, custaria a descrever. A gravidade das physionomias tornou-se
+mesmo tão solemne, que ia degenerando quasi em comica. O unico ouvinte
+desassombrado e de sangue frio era o duque de Abrantes. A idéa de se ver
+colhido ao anoitecer no seu transito costumado pelos cumplices do
+Conselho Conservador, affigurou-se-lhe por tal modo absurda, que,
+recostado no espaldar da cadeira, desatou o riso em frouxos, suspendendo
+a leitura, e desengatilhando de sua expressão severa o rosto dos que a
+sua hilaridade não admirava menos, do que o plano de sublevação forjado
+para a capital.
+
+--Admiravel! Sublime!... clamava Junot estorcendo-se entre risadas.
+Parece-me que os estou vendo d'aqui a esses illustres conspiradores de
+rabicho e samarra, decidindo á pluralidade de votos o theor das ordens,
+que hei de escrever depois de prisioneiro!... Mas é um entremez puro o
+que esta boa gente imaginou: art.^o 1.^o O general Junot será
+apprehendido, e ao mesmo tempo as guardas do Terreiro do Paço e do
+Rocio!... art.^o 2.^o (porque o não puzeram tambem?) O presente decreto
+será registado nos livros da chancellaria da Junta Provisoria!
+Excellente! Deixae-me rir, Lagarde. Sois um homem unico para desterrar
+tristezas.
+
+Herman, Lunyt, e o intendente olhavam uns para os outros, pasmados, e
+não sabiam se deviam conservar-se serios, ou imitar o general. Magendie,
+militar e resoluto, ria a ponto de lhe saltarem as lagrimas dos olhos. O
+plano peccava pela ingenuidade. Os innocentes conspiradores fundavam
+todo o edificio de suas esperanças na prisão de Junot, e essa prisão era
+justamente o que lhes esquecêra assegurar. O duque de Abrantes, cujo
+valor todos respeitavam, os seus ajudantes, e a escolta de cavallaria
+que sempre o acompanhava, não cairiam de leve em uma cilada de poucos
+homens, e para o esperar em grande numero, vigiadas como estavam as
+ruas, parecia duvidoso que meia hora depois não se achassem recolhidos
+na cadeia os Scevolas incumbidos d'este prologo essencial no grande
+drama da restauração da patria.
+
+--Herman! O vosso voto sobre esta farça que terrificou Lagarde!...
+
+--O plano é fraco, porém a intenção...
+
+--De intenções, boas, más, e pessimas está calçado o inferno! Tendes
+acaso receio de me vêr preso no meio das becas dos conspiradores, suando
+medo por todos os poros, e ordenando aos meus valentes soldados que
+entreguem as espadas e espingardas aos milicianos de Lisboa!?... Que
+gente admiravel a do vosso Conselho Conservador, Lagarde! Respeitae-os
+como se respeita a innocencia. Conjurados assim inventam-se, quando se
+não acham, e guardam-se debaixo de redomas de vidro... Art.^o 1.^o O
+general Junot será apprehendido! Nada mais! Que bella concisão spartana!
+Ah! Ah!... Quem serve de espirito santo a este cenaculo? Algum macrobio?
+Alguma reliquia do tempo do marquez de Pombal, aposto?... A conspiração
+dá ares de quinhentista. Foi desenterrada de certo de algum archivo!...
+
+--Informam-me que José de Seabra no principio déra alguns conselhos, mas
+que hoje...
+
+--Não quer saber d'elles para nada!?... É evidente! José de Seabra, duas
+vezes ministro de estado, sisudo, e espirituoso, morria de vergonha se
+visse o seu nome ligado a similhante satyra do senso commum... Art.^o
+1.^o O general Junot!... Desculpem, mas é incrivel! Os desembargadores e
+os padres de Lisboa cuidam que um general francez é algum passaro raro,
+que se apanha e mette na gaiola para o ensinar a cantar o hymno
+nacional!?... Lagarde! Prohibo-vos de tocar nos veneraveis juizes,
+fidalgos, frades, abbades e negociantes, de que se compõe este
+bemaventurado Conselho. Dae graças a Deus pela sua existencia, e não os
+incommodeis. D'alli não vem de certo mal! Oxalá que Sepulveda fizesse
+parte d'elle, esperando pela minha prisão para se sublevar. O Porto
+ainda poderia salvar-se!
+
+--Mas, general, o dia de ámanhã parece-me critico, observou o
+intendente, que o riso e os motejos do duque tinham confortado pouco.
+Não é só gente da capital a que sae ás ruas. Os arrabaldes e o Ribatejo
+despovoam-se, e talvez fosse mais prudente prohibir a procissão, e
+prender por algumas horas os cabeças conhecidos dos arruidos
+populares...
+
+--Pela gloria do imperador! Enlouqueceis, senhor Lagarde?!...
+Assustam-vos tanto os planos ridiculos de uns poucos de dementes, que
+vos não envergonha o argumento de fraqueza, que dariamos, escondendo-nos
+com medo dos frades e das irmandades de Lisboa? A procissão ha de saír.
+Nada de prisões! Os nossos soldados trazem polvora e bala nas patronas.
+É quanto basta!... Meus senhores, hoje, o general Junot, depois das seis
+horas da tarde sae do palacio da Anadia para o Rato, e vae ser
+apprehendido. Ah! Ah! Está encerrado o conselho. Herman enfeitae-vos bem
+ámanhã. Tereis de pegar a uma das varas do palio. Magendie não deixeis
+_apprehender_ os nossos navios. Lagarde, mandae saber ao hospital se ha
+logares vagos na casa dos orates; os vossos amigos do Conselho
+Conservador acabam todos lá. Lunyt, vinde commigo; tenho que vos
+communicar... isto é se não receiais que o general Junot _seja
+apprehendido_ no caminho para o largo do Quintella. Ah! Ah!... Senhor
+conde da Ega acceita um logar na minha carruagem?... Note que lhe
+offereço um posto perigoso.
+
+E o duque saíu precedido por Magendie e acompanhado do conde e do
+secretario de estado da guerra e da marinha. Herman e Lagarde, que
+ficaram atraz, olharam um para o outro, interrogando-se com a vista e
+com o gesto.
+
+--O que devo fazer? perguntou o intendente.
+
+--Nada. É o melhor!
+
+--Mas!...
+
+--Meu querido senhor Lagarde, o homem que ha de prender Junot... não
+está de certo no Conselho Conservador de Lisboa! Redarguiu o ministro
+rindo. Socegue!
+
+Momentos depois o intendente tocava a campainha, e por ordem sua um
+porteiro introduzia no gabinete o sargento Cabrinha e o seu assessor
+Gaspar Preto, por alcunha o _Sapo_.
+
+Saberemos a seu tempo o que alli vinham fazer aquellas duas boas almas.
+
+
+
+
+XI
+
+Achilles e Nestor
+
+
+Em quanto no palacio do Rocio se representava a scena, a que assistiu o
+leitor, em uma casa, situada quasi no arrabalde, perto de Campo de
+Ourique, no qual trabalham ranchos de operarios sem repouso a levantar
+um acampamento militar para as tropas francezas, que Junot recolhe das
+provincias, e concentra na capital, iremos encontrar alguns dos
+personagens, que deixámos na Ponte de Asseca, n'aquella tempestuosa
+noite, que viu as proezas do sargento Cabrinha, a evasão de Paulo de
+Azevedo, e as artes diabolicas do astuto lavrador João da Ventosa.
+
+Estava formoso o dia, mas quente. Nem um leve sopro de aragem meneava as
+cortinas de caça, que por detraz das quatro janellas da frontaria
+substituiam os modernos e elegantes _stores_. A casa, de um só andar,
+caiada de branco, pintada de verde claro em todas as portas, grades,
+hombreiras, e maineis respirava aceio e alegria. Um muro baixo rodeava o
+jardim, d'onde as rozas de trepar, as baunilhas, e outras plantas,
+subindo pelas paredes, vinham debruçar do espigão seus festões floridos
+e recendentes.
+
+Um preto quasi anão, grosso, roliço, com a carapinha semeada de cans,
+indicio de provecta edade, e brincos de prata nas orelhas, acabava de
+varrer, gemendo e rosnando, os tres degraus de pedra, que desciam da
+porta da entrada para a viella quasi deserta.
+
+No jardim a areia, fina e vermelha, das ruas, orladas de buxos
+recortados, rangia debaixo dos pés de duas pessoas, que passeavam,
+conversando em voz submissa. No angulo, que olhava para as terras, um
+mirante entrelaçado de caracoleiros e jasmins, offerecia em seus bancos
+de cortiça commodo assento aos que desejassem recrear a vista,
+espairecendo-a pelos largos horisontes, que d'alli se descobriam.
+
+--Não perca o animo nas vesperas da victoria, senhor Manuel Coutinho!
+Lembre-se de quem é, e creia mais em si, e em nós... deixe-me ter tambem
+um momento de vaidade!... Deus ha de ser por este reino, e não ha de
+permittir...
+
+O homem que proferia estas palavras era um velho de aprazivel aspecto,
+trajado em habitos ecclesiasticos, inculcando na phisionomia, na voz, e
+nas maneiras, a prudencia que dão os annos, e a experiencia do mundo
+unida á confiança e ao enthusiasmo sereno, que nascem do coração, que
+ardem com viveza aquecidos pelo calor de uma alma generosa, e que os
+gelos da edade nem amortecem, nem apagam.
+
+O sorriso meigo e tranquillo, que lhe franzia os labios, contrastava de
+visivel modo com as sombras de profunda tristeza, que escureciam o rosto
+do amante de Leonor de Azevedo, e com a expressão de desalento retratada
+em suas feições abatidas.
+
+Quem attentasse, todavia, com mais cuidado no semblante palido do
+mancebo, e sobre tudo no fulgor dos olhos, que despediam por vezes
+lampejos quasi sinistros, denunciando as intimas commoções, logo
+percebia, que, se um assomo repentino de duvida, ou desconforto podéra
+abalar por instantes a energia d'aquella forte vontade, depressa a
+reacção a havia de despertar do lethargo, e que pouco depois, em logar
+de ser necessario reanimal-a, todo o poder da persuasão seria pequeno
+para a conter dentro de limites razoaveis.
+
+--Deus?!... exclamou Manuel Coutinho, respondendo á ultima phrase do
+ancião, e volvendo ao céu, limpido e azul, um olhar de amarga
+desesperação. Não se esqueceu Elle de nós? Não está com os inimigos do
+seu nome e da nossa liberdade?!...
+
+--Não diga isso. Caia em si. Não vê que accusa a divina justiça? Deixe-a
+caminhar...
+
+--Coxa e lenta como a dos homens?!... Senhor bispo! Sou moço e militar,
+desculpe-me, mas não posso supportar com paciencia christã o espectaculo
+de tantas miserias e de tantos crimes!... Fala na justiça de Deus?!
+Aonde estava ella, quando o Vigario de Christo, arrancado por mãos
+sacrilegas da sua cadeira, foi como seu divino Mestre arrastado de
+prisão em prisão, de opprobrio em opprobrio, por turbas de soldados á
+voz de Bonaparte?...
+
+--Estava no Calvario, como no dia em que padeceu o Redemptor! Continue!
+
+--Ah! E porque dorme ella, quando nações inteiras choram escravas o seu
+martyrio, e banhadas em sangue invocam a morte nos campos talados, nas
+cidades saqueadas, nos patibulos e nos carceres, a morte, unica
+esperança que lhes resta, depois de roubados os seus altares, de
+incendiadas as suas moradas, de infamadas suas esposas e filhas, e de
+dispersas como vil pó as cinzas de seus paes e de seus avós?!...
+
+--Quem lhe diz, que dorme, e não que aguarda a sua hora? Quantos seculos
+durou a perseguição da egreja e a tyrannia dos Cesares?... E hoje,
+d'esse colosso romano, que assoberbava o mundo, o que sobrevive? Ruinas,
+memorias, e a cruz triumphante alçada no Vaticano!... Tranquillize-se,
+conforme-se, espere...
+
+--Que espere!... Mas elles, os verdugos, os malvados, acaso esperam?
+Paulo de Azevedo, duas vezes salvo por nós, escapou por fim aos laços do
+infame Lagarde? Está no castello, bem sabe, e o conselho de guerra, que
+ha de julgal-o, tem sêde do seu sangue... Hoje, ámanhã, de uma hora para
+a outra, as balas de um pelotão!... Não tenho animo de o imaginar!...
+Vel-o morto, assassinado, e não poder valer-lhe!... E sua filha, a
+desgraçada, que já não tem lagrimas que verter, que sente a todos os
+instantes no coração o frio da morte, ameaçando o que mais ama e
+estremece n'este mundo?!... E hei de esperar?! Resignar-me! Deixal-o
+morrer?!...
+
+--Ha de esperar, sim. Que remedio!... Paulo de Azevedo está em perigo,
+porém ainda não morreu...
+
+--É verdade. Mas para o salvar?!...
+
+--Havemos de empregar todas as nossas forças.
+
+--Oh! accudiu o mancebo, cujo desespero rompeu por fim em dolorosa
+ironia. Hão de salval-o! Contam assaltar o castello, prender Junot, e
+colher Lagarde como um lobo no seu antro?!... Lagarde!... O auctor de
+todos os nossos infortunios!... ajuntou em voz cava e com terrivel
+expressão. Pelo menos esse não se rirá impune, festejando o ultimo
+suspiro da sua victima. Lagarde pertence-me. Sou o seu juiz, e a minha
+justiça não coxêa, nem dorme, como a da Providencia.
+
+--Não blaspheme, e escute, se póde! Os dias da usurpação estão contados.
+Quem sabe! Ámanhã mesmo talvez troquemos o lucto da escravidão pelas
+galas...
+
+--Sonho! Irrisão!... bradou Manuel Coutinho saccudindo com força o braço
+do seu interlocutor. Aonde estão os homens para isso? Bastaria o som de
+um tambor para os espantar, e Junot conhece-os. Cuida que dou fé ás
+proclamações e aos conciliabulos do Conselho Conservador? Becas,
+sotainas, velhos fracos, negociantes, e frades, que tremem da sua
+sombra, ousarão nunca medir-se com os soldados de Bonaparte em um
+combate?!... Senhor bispo de Malaca, se palavras e balas de papel
+matassem, então sim, mas!...
+
+--Manuel Coutinho, a dor torna-o injusto. Essas becas e esses frades são
+mais fortes, do que os soldados em volta de suas bandeiras. Lembre-se de
+que puzemos a cabeça em cima do cepo, e de que estamos resignados a
+padecer!... Não esperava que o escarneo caísse da sua bôcca sobre nós!
+Aprende-se mais depressa a morrer com ruido no meio do fogo e dos
+alaridos de uma batalha, do que a aguardar o algoz sobre os degraus do
+cadafalso?... E ninguem sabe melhor se elle póde ferir, e se todos
+estamos decididos a jogar a cabeça n'esta partida... em que apostámos
+honra, bens, e vida pela patria...
+
+--Sei, mas o povo cala-se e obedece. Lisboa chora e supporta. O reino...
+
+--O reino accordou, e não torna a adormecer. Por isso lhe disse que
+estavamos nas vesperas da victoria...
+
+--O reino accorda?! Mas eu ignoro tudo!... Senhor bispo de Malaca!...
+Compadeça-se da minha impaciencia. Bem vê! Estou quasi louco! Conte com
+o meu braço, com o meu sangue. Ha alguma esperança?...
+
+--Ha mais do que esperanças, ha factos. Prepare-se! dentro em pouco o
+seu posto será nas fileiras de seus compatriotas, no exercito da
+independencia. Leia! Adore os designios profundos da Providencia.
+
+Manuel Coutinho, arrancando-lhe quasi da mão o papel, que lhe offerecia,
+correu-o todo em um relance de olhos, e apenas o sentido lhe penetrou a
+intelligencia, o sangue em ondas affluiu ás faces, as pupillas
+faiscaram, e uma expressão de jubilo, e de enthusiasmo subito avivou-lhe
+as feições.
+
+--O norte sublevado!... murmurava lendo, e detendo-se, como se julgasse
+impossivel o que lia. O Porto talvez levantado a esta hora!
+Traz-os-Montes e o Minho ámanhã, ou depois em armas!... Os inglezes em
+Cork, ou já no mar para desembarcarem!...
+
+E o suor borbulhava-lhe na fronte, e a vista scintillante devorava cada
+lettra do escripto.
+
+--Meu Deus! Se isto é sonho, ou delirio meu, fazei que nunca desperte
+d'elle.
+
+--Então, filho, disse o bispo sorrindo-se com mansidão, ainda acha que a
+justiça divina coxêa, e dorme? Arrepende-se agora da sua pouca fé?! Pois
+bem! Já vê que as becas e as sotainas ainda valem alguma coisa. O
+milagre fez-se, e um bispo é quem ha de no Porto presidir, ao governo do
+reino restaurado. Sei-o de certeza.
+
+--Seguiu-se uma pausa curta, durante a qual os olhos e as mãos do
+mancebo se elevaram ao céu em um gesto sublime de gratidão e de crença
+fervorosa. Depois a cabeça inclinou-se, a vista fitou-se no chão, os
+braços descaíram e duas lagrimas de dor e de alegria saltaram do
+coração, e correram vagarosas pelas faces.
+
+O bispo contemplava o rosto do amante de Leonor de Azevedo, e traduzia
+com a perspicacia dos annos e da reflexão os signaes fugitivos da lucta
+das paixões.
+
+Por fim venceu a razão. Manuel Coutinho, como se quebrasse de repente a
+prisão, que lhe paralyzava as faculdades, serenado o semblante, acabou
+de exhalar em um suspiro a maior oppressão, que lhe confrangia o peito.
+
+--Fui temerario, senhor bispo. Falei mal de Deus e dos homens! Cegou-me
+o orgulho, e deixei-me arrastar pelas loucuras da tristeza. Desesperei
+da Providencia no momento em que ella nos accudia!...
+
+--Só Deus é grande, filho! O que somos, e o que podem os nossos juizos
+falliveis em presença da sabedoria eterna?! Arrepende-se? É o essencial.
+Vamos ao que importa. Já viu D. Leonor?...
+
+--Não! Faltou-me o valor. O que havia de dizer áquella infeliz, ferida
+de tantos golpes a um tempo?... A imagem do patibulo de seu pae, visão
+lugubre e incessante, segue-a por toda a parte. Nos seus olhos leio o
+desespero e a morte. Amo-a, senhor bispo, amo-a desde a infancia, como
+não amei minha mãe, como não estremeço meus irmãos, como não adoro... ia
+soltar uma blasphemia!... Enlaçadas desde a meninice pela mesma ternura
+nossas duas almas ha muito que não fazem senão uma. O que ella sente e
+chora, as suas lagrimas de sangue, caem-me todas, ardentes como fogo,
+aqui, dentro do peito, e escaldam-m'o. O véu branco da noiva será em
+breve o negro fumo da orphã, e viuva sem chegar a ser esposa, sei,
+adivinho, que um claustro começará a abrir-lhe a sepultura, aonde ella,
+aonde nós havemos de descançar ambos!... Não sem eu me vingar primeiro!
+
+--Manuel Coutinho, deixe a Deus o cuidado de punir! Socegue! A voz da
+liberdade, a voz da patria chamam por nós. Seja homem! Seja soldado! Tem
+uma espada, não faça d'ella um punhal, arma de traidores!... Leonor está
+mais tranquilla, mais resignada. Vi-a hoje, e já falámos a seu
+respeito...
+
+--E ella?!... Disse-lhe?! Espera?!...
+
+--Disse-me tudo e espera. Paulo de Azevedo não morreu, e havemos de
+salval-o. Tenha mais fé. Não atormente com os delirios da sua paixão a
+existencia propria, e aquella alma sensivel e melindrosa, que treme que
+uma imprudencia, venha abismar no mesmo naufragio os dois amores da sua
+vida!... Se não fosse o seu genio arrebatado confiava-lhe um segredo,
+que Leonor se não atreveu nunca a dizer-lhe, porque receia os impetos da
+sua cholera, mas que havia por outro lado de aplacar-lhe a afflicção...
+
+--Diga-me tudo, senhor bispo. Prometto, juro vencer o meu genio.
+
+--Veja lá! Dá-me a sua palavra de cavalheiro de fazer o que eu lhe
+aconselhar depois?...
+
+--Dou. O segredo?...
+
+--A vida de Paulo de Azevedo não corre por ora risco. É o penhor com que
+Lagarde tenta extorquir a D. Leonor uma promessa de casamento...
+
+--Oh o infame!... E eu aqui de braços cruzados!...
+
+--Se me não me escuta, calo-me. Lembre-se da sua promessa.
+
+--Sou mudo. Sou uma estatua.
+
+--Bom! Saiba, pois, que o intendente da policia imaginou enriquecer um
+sobrinho arruinado, dotando-o com os bens da filha de Paulo de Azevedo.
+Pediu-lhe a mão em Mafra ha mezes, foi repellido, e vingou-se
+perseguindo o cavalheiro e sua filha...
+
+--Assim a causa de todas as desgraças sou eu!?... atalhou o mancebo
+impetuoso. Leonor e seu pae padecem por amor de mim, e no meio de seus
+prantos e do lucto da sua alma aquelle anjo nem uma queixa soltou ainda
+contra o algoz da sua vida! Porque sou eu que a torno infeliz e
+inconsolavel!... Hei de mostrar-me digno do sacrificio! Hei de...
+
+--Comece por se mostrar digno das minhas confidencias, escutando-as.
+Observou o bispo com um sorriso. Lagarde ameaça Paulo de Azevedo,
+tem-lhe a espada suspensa de um fio sobre a cabeça para vencer a filha;
+mas no fim é tão interessado como nós em conservar vivo o unico fiador
+de suas esperanças!... O conselho de guerra não se reune, e mesmo que
+chegue a ser convocado, a sentença não passa do papel.
+
+--E Leonor?!...
+
+--Altiva e varonil redobra as resistencias. Mesmo ao pé do cadafalso de
+seu pae prefere morrer com elle, creio, a comprar-lhe o perdão por um
+preço vil...
+
+--Bem sei! O seu coração envergonha o de muitos homens!... Como se chama
+o sobrinho de Lagarde, esse noivo feito á força, cujo papel, tão nobre
+(!) entra como parte principal na tragedia de nossas desventuras?...
+accrescentou Manuel Coutinho em voz lenta e sombria, a que um toque de
+ironia cruenta avivava a expressão.
+
+--Porque o pergunta?
+
+--Para ajustar no mesmo dia todas as minhas contas.
+
+--Já se esqueceu da sua promessa?
+
+--Não! Mas!...
+
+--Quando for tempo de o desligar d'ella sem perigo seu e nosso... então
+falarei. Agora não. Sabe que ámanhã, depois da procissão do Corpo de
+Deus, se esperam grandes novidades?
+
+--Aonde?... Se soubesse a minha impaciencia?!...
+
+--Em Lisboa. Aonde queria que fosse?...
+
+--E contam commigo?... Qual é o posto que hei de occupar?...
+Asseguro-lhe que só por cima do meu cadaver...
+
+--Sei muito bem. Guarde para si a noticia, vá ver Leonor, demore-se
+pouco, porque ella espera uma visita, ou antes duas...
+
+--Visitas!... De quem?...
+
+--Segredo de estado. Depois saberá...
+
+--Porém!...
+
+--Não insista. Se podesse dizer-lh'o, cuida que me calava? A proposito!
+Se por acaso estiver lá em cima, quando elles... digo, quando as visitas
+chegarem, jura pela sua honra obedecer em tudo a Leonor, e voltar aqui
+pela escada do meu gabinete?...
+
+--Mas!... Tantas precauções fazem-me suppor!...
+
+--Supponha o que quizer. Jura?...
+
+--A minha confiança na sua virtude é tal, que de olhos fechados me
+entrego em suas mãos. Juro!
+
+--Não ha de arrepender-se. Sem isso não o deixava subir...
+
+--Mas padre, mas senhor bispo! Essas visitas são então de inimigos?...
+
+--Talvez! E então?! Cobre-os, quem quer que sejam, o tecto d'esta casa,
+recebo-as como hospedes, é quanto basta, julgo!...
+
+--Oh! Dava metade da minha vida por adivinhar...
+
+--O caso não merece o sacrificio!... Deixe instruir o processo, deixe
+informar os juizes, e quando lhe chegar a sua vez... nós o chamaremos.
+
+--Obrigado! Como instrumento cego?!...
+
+--Não. Como um coração generoso, como um amigo seguro, porém...
+perigoso. Estamos perdendo tempo! Leonor espera-o. Nem uma palavra do
+que se conversou aqui, e sobre tudo recorde-se do que jurou...
+
+--Hei de cumprir a minha palavra como homem de honra, mas depois, sr.
+bispo!...
+
+--Depois... O que Deus quizer! Dá o mundo tantas voltas em poucas horas,
+Manuel Coutinho, que nos deitâmos rapazes, e ás vezes accordamos velhos.
+Deixe andar os homens e as cousas. Creia no tempo. É grande medico.
+Adeus! Vou tractar de uma doença, que dá maior cuidado... Portugal está
+enfermo e não póde esperar.
+
+E despedindo-o com um sorriso e um aceno de mão cheio de bondade, o
+velho prelado entrou para um aposento terreo, cujas portas de vidraças
+abriam sobre o jardim, em quanto o mancebo voltou em busca da escada de
+pedra, que subia para as salas do primeiro andar.
+
+
+
+
+XII
+
+Arcades ambo!
+
+
+--Está certo do que affirma? Veja lá!... A policia não gosta de
+representar papeis tristes, e um erro nas circumstancias actuaes póde
+ter consequencias... Repita! Viu os homens? Sabe o seu intento?...
+
+--Vi, sim senhor! Largava a falua quando eu cheguei, e por um triz me
+não apanham!... Sempre curti um medo! A gente não ganha para sustos...
+
+--Está bom! E como soube que vinham para a revolução, que os inimigos de
+sua magestade o imperador e rei tramaram para ámanhã durante a procissão
+do corpo de Deus? Olhe bem! Não se allucine...
+
+--Não ha engano, não senhor. Aqui trago quem ouviu tudo. Gaspar,
+chega-te! S. ex.^a dá licença. Dize para ahi o que saccaste do bucho ao
+alarve do Paulo Penedo, e o que ouviste na Ponte da Asseca.
+
+--Ah! Este homem ouviu?!... Bem! Então que fale.
+
+O dialogo, que estamos escutando, tinha-se travado, como o leitor já
+percebeu de certo, entre o intendente Lagarde, o sargento Cabrinha, e o
+seu assessor Gaspar Preto.
+
+Os honrados malsins, farejando a denuncia lucrativa, corriam de Villa
+Franca, aonde se haviam transportado a cavallo, e traziam nos alforges
+nada menos do que uma boa conspiração para attrahir sobre si a chuva de
+ouro, com que o ministro francez costumava recompensar os serviços
+relevantes dos seus agentes.
+
+Ainda que o sargento desempenhasse o papel principal, manda a verdade
+que se diga, que a gloria do descobrimento pertencia de direito ás
+longas e afiadas orelhas do seu digno assessor. Fôra o _Sapo_, apezar de
+meio homiziado depois da prisão de Paulo de Azevedo, devida, como
+sabemos, á sua traiçoeira actividade, quem, espreitando os passos do
+Antonio da Cruz e do João da Ventosa, e as idas e voltas nocturnas dos
+embuçados, que frequentavam a casa arruinada da Ponte da Asseca,
+principiára a desconfiar de que as ruidosas cavalhadas das almas do
+outro mundo nas salas desertas do palacio encobriam planos politicos.
+
+Para melhor se certificar, provou Gaspar, que não roubára a alcunha por
+que era conhecido.
+
+Cozeu-se, como o _Sapo_, com as pedras caídas, que do lado da porta do
+João da Ventosa pegavam com o tapume, por onde elle introduzia as
+visitas, segundo vimos atraz, nos quartos do primeiro andar, penou frios
+e fomes, tiritou de mêdo mais de cem vezes, mas por fim conseguiu o seu
+fim.
+
+Seis dias antes da festa do Corpo de Deus, ás onze horas da noite, por
+um luar esplendido, colheu em flagrante tres dos fantasmas, que tanto
+desejava avistar, e teve a rara felicidade de os conhecer a todos.
+
+Viu-os entrar. Ficou firme no seu posto. A divindade protectora dos
+mexericos segredava-lhe que se os olhos tinham alcançado muito, os
+ouvidos ainda podiam obter mais. A sua paciencia merecia premio, e o
+demonio, cujo era, não lh'o negou.
+
+Quando se ía já sentindo quasi inteiricado de jazer enroscado, como a
+serpente, os conspiradores saíram. Principiava a aclarar a madrugada. Um
+d'elles, o capitão de milicias de Rio Maior, dotado de uma voz de baixo
+profundo, voltando-se para os outros, disse-lhes:
+
+--Façam-me uma fogueira bem vistosa lá pelos sitios de Leiria, e
+assem-me n'ella esses hereges e jacobinos, que os de aqui ficam por
+minha conta! Não havemos de ser menos que os de Bragança e Villa Real!
+Viva o principe regente, nosso senhor!
+
+Os poderes do orgão vocal do herculeo capitão eram tão extensos, que
+este desafogo innocente do seu patriotismo seria assaz perigoso, se a
+solidão e a noite o não cubrissem. Entretanto os amigos, menos
+intrepidos, recommendaram-lhe prudencia, e o gigante, docil como uma
+creança, submetteu-se, encolhendo os hombros, a estes conselhos timidos.
+O morgado de Penin e outro cavalheiro apartaram-se então um pouco. Quiz
+o acaso que fosse para o lado, justamente, em que o virtuoso Gaspar se
+occultava; e o terror do malsim subiu tal ponto, que esteve um instante
+para o trahir!
+
+Vendo de repente o Antonio da Cruz, o João da Ventosa, e o Manuel da
+Aramanha, o resurgido, tão proximos do seu covil, que bastaria um
+d'elles extender o braço para o agarrar, não foi senhor de si. Vinham
+atraz dos personagens principaes, e tudo inculcava que não vinham por
+curiosos. O _Sapo_, frio de neve, e todo um calafrio de medo,
+ennovellou-se n'uma bola para occupar menos espaço, e fez a Nossa
+Senhora da Saude a promessa solemne de uma missa e de uma perna de cêra
+se permittisse, que nenhum dos cinco désse com elle alapado n'aquella
+toca, seguro de que, se escapasse por milagre ao alentado varapau do
+ex-assassinado fazendeiro, a bala da espingarda, que o moleiro trazia ao
+hombro, não o erraria de certo em nenhum caso.
+
+Os conspiradores estavam longe de se supporem espiados, e traziam outros
+cuidados.
+
+Voltando-se para Antonio da Cruz, o morgado disse-lhe:
+
+--Já sabes! No dia de Corpo de Deus has-de estar em Lisboa. És lá
+preciso!
+
+--Se meu amo mandar!
+
+--De certo. Mas sei que manda. O Paulo Penedo não tarda com as ordens...
+E você, sôr João da Ventosa, deixa-se ficar por cá, ou acompanha tambem
+o Antonio á côrte?
+
+--Eu, sôr morgado, lá por ir, ia; mas assim sem saber o que a gente lá
+vae fazer?!...
+
+--Ora! Vae dar um passeio, vêr a procissão, que se despovoam aldêas e
+logares para accudir a ella... e depois!... Adivinha-me este dedo, que o
+seu cajado talvez não fique por lá parado!... Gosta dos francezes?...
+
+--Como o diabo da cruz, senhor! Pelo amor que lhes eu tenho... e o bem
+que me fizeram!...
+
+--Pois vá, homem, que póde ser que não perca o seu tempo. Ás vezes
+d'onde menos se espreita sae coelho...
+
+--V. s.^a que diz isso!... Está bom. Não é preciso mais. Senhor mandar,
+preto obedecer!... E tu, Antonio Simões, estás ahi sem atar nem desatar?
+Porque não vens com o Antonio e commigo á festa? Tens medo dos
+francezes, homem?
+
+--Salva tal logar, sôr compadre! Mas que quer você que eu vá fazer á
+côrte pregado no meio das ruas como uma estaca? Com mil cobras? Se por
+lá bispasse o alma ruin do sargento, ou aquelle excommungado _Sapo_,
+ainda, ainda; mas qual! sumiu-se a terra com elles!...
+
+--Qual sumiu! Aposto um almude dobrado contra duas canadas singelas em
+como as duas osgas estão pegadas em alguma parede de Lisboa...
+
+--Veja lá, sôr compadre! Se tem palpite n'isso é outra cousa: pernas a
+caminho. N'um sopro deito o albardão á égua... Não morro quieto se não
+racho de meio a meio aquelles dois patifes.
+
+--O _Sapo_ fica por minha conta, atalhou o moleiro. Prometti-lh'o e hei
+de cumprir. Você, sôr João, que me diz da figueira de José Lopes, alli
+em cima, no alto do logar?
+
+--Ora essa! Que é boa arvore. Porque?...
+
+--Pois juro-lhe que dá figos de enforcado para o anno. Antonio me não
+chame eu se não pendurar do pescoço em um dos ramos o judas do Gaspar
+Preto antes do dia do natal!...
+
+--Você sempre tem cousas, sôr Antonio!
+
+--Vá com o que lhe digo. De mais, pouco ha de viver quem o não vir.
+
+--Então, rapazes? atalhou o morgado, que estivera conversando a meia voz
+durante o colloquio dos tres. Quem vae a Lisboa?...
+
+--Saberá v. s.^a que nós todos tres!
+
+--Ora assim é que é. Gosto de os vêr de feição. Bebam por lá um copo, ou
+dois, de vinho á minha saude, e outro á do principe regente, nosso
+senhor, o qual, querendo Deus, muito cedo teremos n'estes reinos para
+gloria da patria e da santa religião!...
+
+E o morgado, assim como os ouvintes, desbarretaram-se com toda a
+reverencia como bons catholicos e vassallos fieis e respeitosos.
+
+--Adeus, Antonio, proseguiu. Recados a teu amo! Diz-lhe que nós cá
+estamos, e que o que fêr soará. Sôr João! Volte depressa. A caldeira
+está ao lume, ha de ferver, e póde ser necessaria a casa...
+
+--Quando v. s.^a mandar, sôr morgado.
+
+--Olhe! Se no meio da procissão, ou depois, houver algum barulho, não me
+metta as mãos nas algibeiras. Dê-lhes com alma, desanque-me os jacobinos
+moa-m'os como farinha, hein?...
+
+--Vá v. s.^a descançado.
+
+--Vou! Vou! Vocês não deixam mal o Ribatejo. Até á volta. São horas.
+
+Os tres de fóra foram buscar os cavallos, e d'ahi a pouco desappareciam
+a galope pela Ponte da Asseca. O lavrador e os seus amigos recolheram-se
+tambem logo. D'ahi a instantes resonavam a somno solto.
+
+Quem não tinha vontade de dormir era o _Sapo_, o qual, arrastando-se do
+esconderijo, fulo de terror, respirava a custo, estirando os braços,
+mais morto do que vivo.
+
+A ameaça do Antonio da Cruz soava-lhe nos ouvidos como um dobre funebre,
+e por vezes sentia já em imaginação os gorgomillos tão apertados como se
+lh'os estreitasse a promettida e fatal corda!
+
+A reputação merecida do moleiro de não quebrar palavra dada fazia-o de
+mil côres, e a voz da consciencia, que só o susto tinha o condão de
+accordar de véras, advertia-lhe, que provocára, não uma, porém cem
+vezes, o castigo.
+
+Não vendêra elle ao sargento o segredo do asylo em que se homiziava
+Paulo de Azevedo, abusando da hospitalidade de Antonio da Cruz, o qual,
+tendo-o poupado, o julgára grato? Não fôra causa da prisão do Cavalheiro
+de Mafra, da magoa de Leonor, e do desespero de Manuel Coutinho? Agora
+mesmo, não colhêra um segredo, que podia custar a vida e a liberdade a
+tantas pessoas?
+
+Gaspar era logico. Convencido de que a sentença proferida era
+irrevogavel, tractou de se eximir aos seus rigores pelos meios usuaes,
+isto é, accumulando novas traições. Coxeando e rastejando partiu para a
+villa, aonde amanheceu á porta do sargento, cuja cholera exacerbada pela
+certeza de ter servido de alvo á irrisão na famosa noite dos fantasmas,
+soube artificiosamente exaltar. O _Sapo_ acabou de o petrificar,
+narrando-lhe as ameaças do Antonio Simões da Aramanha, e o plano,
+interceptado por elle, de grandes tumultos em Lisboa durante, ou depois
+da procissão do Corpo de Deus.
+
+A noticia valia o seu pezo em ouro, e Cabrinha decidiu-se a ser em
+pessoa o portador d'ella.
+
+A chegada de Paulo Penedo, emissario de Manuel Coutinho para chamar o
+moleiro em seu nome á capital, confirmou as informações do agente.
+Gaspar, a troco de pão, queijo, vinho, arrancou sem difficuldade ao
+camponez boçal quanto elle vira e ouvira do patrão em Lisboa.
+Separou-se, deixando-o convencido de que o amante de Leonor de Azevedo
+não tinha mais leal amigo.
+
+Depois d'esta ultima proeza, os dois malsins começaram a jornada até
+Villa Franca, aonde haviam de embarcar, o sargento ardendo em
+impaciencia de cingir na fronte os louros, e de sepultar no bolso as
+peças de 7$500, que Lagarde não cisava aos que o serviam zelosamente: o
+_Sapo_, cujas vigilias eram cada noite mais tormentosas, acompanhando o
+patrono a Lisboa, primeiro para se afastar o mais possivel da figueira
+do alto do Valle, depois, para ter o gosto de vêr mettidos na enxovia do
+Limoeiro, graças á sua honrada lingua, o Antonio da Cruz, o João da
+Ventosa, e o Antonio Simões.
+
+Já os ouvimos confessar ao intendente da policia, que por um instante
+não caíram na bôcca do lobo em Villa Franca, e encontrando-os no
+gabinete do ministro, no exercicio de suas funcções, convem notarmos,
+que tinham sido activos no desempenho da sua missão, como homens fieis
+aos interesses proprios, e devotos da causa que abraçavam.
+
+Lagarde escutára com attenção o depoimento lucido e conciso, que o
+_Sapo_, sem trepidar, lhe recitou, como licção aprendida de cór,
+admirando a prodigalidade, com que a natureza favorecêra este ente quasi
+disforme e rachitico, que, encarado á primeira vista, não promettia,
+senão fraqueza e estulticia.
+
+Depois de tomar algumas notas, consultando um, ou dois papeis, e
+tornando-os a encerrar nas gavetas do bofete, o intendente conservou-se
+silencioso por momentos, scismando profundamente.
+
+--A conspiração existe, dizia elle comsigo. Aqui estão as provas d'ella;
+mas quem ha de persuadir o duque, e vencer o seu amor proprio? A leitura
+d'aquelle maldito plano atrazou-nos!... Não importa. Deixal-os rir! A
+mim compete-me velar para que riam sem perigo.
+
+Virando-se depois para os agentes, que aguardavam calados as suas
+ordens, acrescentou:
+
+--Sargento! Estamos na pista de um trama complicado. Fique em Lisboa com
+este homem, e procure hoje de tarde o meu secretario Loisy. Elle lhe
+dirá o que ha de fazer.
+
+Estas palavras, e o gesto do ministro avisaram os dois, de que a
+audiencia estava terminada. Saíram logo, mas ainda Lagarde não tinha
+tido tempo de percorrer com os olhos um papel, que acabavam de lhe
+entregar, abriu-se uma porta particular, e entrou no escriptorio um
+mancebo, de rosto jovial, vinte oito annos de edade, e figura esbelta,
+realçada pelo uniforme de official de cavallaria, trajado com garbo. Era
+seu sobrinho Armand de Aubry.
+
+
+
+
+XIII
+
+Dois parentes
+
+
+O intendente accolheu o recem-chegado com um sorriso, e extendeu-lhe a
+mão com amizade. Aubry apertou-lh'a sem ceremonia, encarou-o com ar
+malicioso por momentos, e disparou-lhe depois na cara a mais longa e
+estrepitosa risada, que de certo tinham ouvido aquellas paredes, desde
+que a Santa Inquisição reinava dentro d'ellas.
+
+--Ah! Ah! exclamou fazendo esforços em vão para se reprimir. Que duas
+figuras unicas, que duas corujas agoureiras acabo de encontrar no
+corredor!... Pelo que vejo a procissão de ámanhã leva anjos, demonios,
+serpentes, e até estafermos do mais curioso feitio. Estes dois são
+magnificos. Sobre tudo um... o mais baixo. É admiravel!
+
+--Porque? atalhou Lagarde.
+
+--Porque, meu tio? A pergunta é rara! Aquella cabeça de anão, aquella
+cara de papel, e os saltos de rã da perna coxa promettem á festa um
+palhaço soberbo. Por quanto se aluga aquelle senhor? Juro-lhe que vale
+quanto pesa... em cobre. Dou-lhe os parabens! Foi um achado. Posso saber
+o que elle custa á policia de sua magestade o imperador e rei?!...
+
+E o official dizendo isto ria como um louco, afagando o bigode louro, e
+saccudindo o pó das botas de montar com a ponta do junco flexivel, que
+trazia na mão.
+
+--Não custa barato, Armand! redarguiu o intendente, sorrindo-se tambem.
+Aquelle anão, assim mesmo contrafeito e ridiculo como te pareceu...
+
+--Esse _pareceu_ é delicioso, meu tio! Continue. Sou todo ouvidos.
+
+--Vale mais do que muitos homens guapos e bem postos.
+
+--Quem tal diria! Então é um diamante bruto?...
+
+--Talvez. Dentro em pouco vel-o-has chefe...
+
+--Chefe? Muito bem. E de que tenciona invental-o chefe? Acaso a policia
+conta distraír os portuguezes de suas saudades, armando tablados ao ar,
+e escripturando polichinellos?
+
+--Não! redarguiu Lagarde um pouco enfadado dos motejos do sobrinho. A
+policia aspira a funcções mais modestas. Lisboa, esta cidade immunda
+como as do Oriente, começa já a ser outra cousa... As ruas...
+
+--Tá! Tá! Meu tio. Esse elogio dos serviços da policia, na sua bôcca é
+capaz de abrandar as pedras... das mesmas ruas. A proposito!
+Denuncio-lhe os cães vadios. Resistem ás ordens como janizaros. Hontem á
+meia noite estivemos em perigo de sermos devorados, eu, e o meu cavallo!
+Que morte para um official do exercito imperial!... Diga-me: o anão, de
+que tractâmos, será nomeado executor da alta justiça contra as matilhas
+famintas? A cara do personagem é de um verdadeiro Herodes, e não
+desmente o officio. Puah! O maldito sempre deixou aqui um cheiro
+patibular!...
+
+--Armand! Não te cansaste ainda?!...
+
+--Oh! Cuida meu tio, que os assumptos recreativos se encontram a cada
+canto n'esta boa terra? O que admiro mais é a sua longanimidade. Parece
+incrivel! Aturar fechado n'este gabinete dias, semanas, e mezes, entre
+cachos de malsins e grinaldas de larapios aposentados! Santo Deus! Que
+emanações asquerosas. É de engulhar até o estomago a um tubarão!...
+
+--Ainda! Armand, o que sinto mais, do que a triste sociedade, que sou
+obrigado a admittir...
+
+--Diga tristissima, meu tio, que não diz senão a verdade. Os melhores
+dir-se-íam desenterrados das enxovias, ou das galés...
+
+--Então! O que deploro, mais do que isso, é essa tua leviandade
+incuravel. O homem, que estás escarnecendo, prestou-nos a ambos um
+serviço relevante...
+
+--Não sabia. Pelo que observo o precioso aborto accumula as funcções de
+palhaço ás de nigromante? Faz magia branca nas ferias. Excellente!
+
+--Ah, Aubry! Quando te verei um momento serio e preoccupado dos deveres
+da tua posição?
+
+--Quando uma bala me varar o peito, ou a cabeça. Se não levasse a vida a
+rir e a folgar, entre dois amores, um que hoje foge para volver ámanhã,
+outro que arrebata e embriaga; o amor dos sentidos e o amor da gloria;
+cuida que valia a pena de a arrastar de desengano em desengano, de revez
+em revez até aos rheumatismos, e aos defluxos asthmaticos da velhice?
+Por alma de meu pae! Nasci e hei de acabar com esta sina. Sou assim
+feito. Não tem remedio! Mas apezar de rir muito, de chorar pouco, e de
+preferir o lado comico ao aspecto lugubre da existencia, ajuntou,
+tornando-se um tanto grave, creia que este coração, facil em se
+alvoroçar com a promessa de uns bellos olhos pretos, azues, ou verdes, a
+côr é indifferente uma vez que sejam formosos (!), é incapaz de trahir a
+honra e a amizade, ou de se aviltar por nenhum preço...
+
+--Bem sei. Por isso te estimo. Desejava-te só menos estouvado. Não póde
+ser? accrescentou sorrindo-se involuntariamente do gesto negativo do
+sobrinho. Paciencia! Escuta-me. Aquelle homem, que saiu d'aqui ha
+pouco... Não rias! ao qual ignoro porque pozeram a alcunha de _Sapo_...
+
+--Quem seria o philosopho que tão bem chrismou o reptil? Preciso
+abraçal-o! O _Sapo_?! Mas é verdadeiramente um sapo o seu homem, meu
+tio! Bom! Não se agaste. Já me calo. Passo a estar serio e aprumado como
+uma estatua... Diga!
+
+--Aquelle homem... foi quem descobriu o asylo de Paulo de Azevedo, e
+entregou á policia a sorte do cavalheiro, do qual depende...
+
+--Cuidei que lhe tinha escapado! interrompeu o mancebo. Pareceu-me
+ouvir-lhe dizer que duas vezes...
+
+--O tivemos nas mãos, e que nos escorregou por ellas, zombando de nossas
+diligencias? É verdade. Não te enganaste. Mas á terceira fomos mais
+felizes. Estava escondido aqui mesmo em Lisboa, e mandei-o prender... O
+sargento Cabrinha, um dos meus agentes mais activos, e este _Sapo_, que
+ainda promette ser melhor...
+
+--Ah, meu tio, fale-me de tudo menos d'esse miseravel. Deploro vêl-o
+convertido em Plutarco de similhante monstro...
+
+--Pois sim. Mas attende-me. Lavemos agora um pouco a nossa roupa suja em
+familia. O que te resta dos bens de tua casa?...
+
+--Dividas e credores, replicou Armand com um sorriso stoico sublime.
+
+--Nada mais?...
+
+--Acha pouco? Dividas desassocegadas e credores inquietos!... Tenho com
+que me entreter toda a minha vida.
+
+--Um!... Pois de todas as propriedades, que herdaste, mobilias, ouro,
+prata... não possues absolutamente nada?!...
+
+--Nada!... O ouro a que posso chamar meu... e assim mesmo só por uma
+audaciosa figura de rhetorica, porque o não paguei ainda... trago-o aos
+hombros... são as dragonas!
+
+--Ah! Então o naufragio foi completo!?... E com que contas para o
+futuro?...
+
+--Essa é boa! Conto com os meus vinte e oito annos, com esta figura
+soffrivel, com a saude á prova de todas as fadigas, que devo á minha
+compleição, e que tem sido o desespero dos medicos, e com o acaso de uma
+bala, ou de uma proeza, que me eleve em patente, ou me deixe no campo
+como muitas outras buxas de canhão, que valem menos do que eu.
+
+--És louco!...
+
+--Sou philosopho!
+
+--Talvez! Mas dize! Eras filho unico. Teus paes deixaram-te...
+
+--A sua benção e alguns punhados de escudos nas gavetas. Que quer, meu
+tio?! As Aspasias de París, as Sylphides do corpo de baile, e as Musas
+da opera vendem os sorrisos caros. Não imagina!... E sorriram tanto, e
+com tal graça para mim, que as mãos abriram-se-me sem as sentir...
+Quando caí na realidade... sabia de cór todas as piruetas e saltos de
+Vestris, todos os passeios e casas de pasto de mais fama, e podia dar
+licções de gosto e de ouvido a todas as platéas civilizadas... Mas nem
+um real no bolso para afugentar o demonio! Encolhi os hombros e fiz-me
+soldado.
+
+--Bem sei. Porém a herança de tua tia?!...
+
+--Santa e excellente velha!... Saltam-me as lagrimas dos olhos ainda
+quando me recordo d'ella! A herança da boa tia veiu nas poucas horas de
+melancholia, que tenho penado em minha vida.
+
+--Isso não explica!... Lembro-me de ter ouvido falar em terras...
+
+--Oh, de certo. Um bom par de geiras... Eram muito fracas. Vendi-as por
+economia.
+
+--Mattas e pinhaes!?...
+
+--Magnificos!... Eram muito sombrios. Troquei-os a dinheiro para me não
+entristecerem.
+
+--Uma casa de residencia vasta com jardins?...
+
+--A casa era humida e constipava-me. Os jardins precisavam de muito
+amanho, e não apparecia jardineiro. Desfiz-me da casa e dos jardins.
+
+--Uma mobilia antiga, mas rica?!
+
+--Custava-me muito caro o transporte, cedi-a.
+
+--Percebo!... N'esse caso estás?...
+
+--Como diz o livro de Job: Nú saí do ventre de minha mãe, e despido de
+bens da fortuna descerei á cova.
+
+--Admiro o teu sangue frio. Não te parece já tempo de assentar, e de
+mudares de vida...
+
+--Conforme a mudança! Saltar da agua fria para caír no fogo, não sei se
+é peior.
+
+--Armand! É necessario cazares, e que o dote de tua mulher...
+
+--Chegue para remendar a capa esburacada do mendigo?!
+
+--Mais do que isso. É preciso que dê para uma capa nova.
+
+--Não digo que não. Mudarei ainda de pelle. Estou prompto.
+
+--Estimo. Falei-te na filha de Paulo de Azevedo...
+
+--É moça?...
+
+--Dezoito annos.
+
+--Feia como uma herdeira, ou desastrada como as morgadas?...
+
+--Não. Linda, airosa, e gentil como uma parisiense.
+
+--Santo Deus!... E esse thesouro, essa fada, mimo de todas as
+perfeições, guardou até hoje o seu coração livre á espera de um
+perdulario, de um estouvado, que nunca viu?! Meu tio! Sabe que o unico
+ridiculo, de que tenho medo, é da sorriada merecida de Jorge Dandin?...
+
+--Repito. É uma menina séria, prendada, e espirituosa...
+
+--Não duvido. Antes isso! A ingenuidade de Agnés sempre me assustou
+muito! Essa menina... Mathilde?... Clara?...
+
+--Leonor! Leonor de Azevedo...
+
+--É verdade! Leonor!... Essa Leonor não estava justa a cazar com um
+cavalheiro, tambem fidalgo, official, capitão, creio eu, do segundo
+regimento do Porto, licenciado depois do tumulto das Caldas?... Se não
+erro, elle chama-se?...
+
+--Manuel Coutinho! accudiu o intendente. Não houve nunca promessa de
+cazamento, enganas-te. As duas familias davam-se muito. O que poderia
+existir era algum namorico, alguns requebros naturaes... innocentes...
+
+--Sim! Sim! Muito innocentes. Sabe que nunca me resolvi a calçar sapatos
+de defuncto, e que de sapatos de vivos gosto ainda menos?... Uma
+pergunta, meu tio?... Hei de ser sempre noivo por procuração? Conta
+cazar-me sem eu vêr nunca minha mulher... nem até no oratorio da
+policia?...
+
+Lagarde piscou os olhos, assoou-se com ruido, e coçou depois ao de leve
+a ponta do nariz aquilino. Eram os gestos, que n'elle inculcavam
+hesitação e perplexidade.
+
+--Cazares sem vêr tua mulher?! exclamou rindo constrangido. Pelo amor de
+Deus! Quem te metteu isso na cabeça?
+
+--Cuidei! Como os principes cazam pelos retratos...
+
+--Has de vêl-a, adoral-a, e agradecer-me de mãos postas a escolha.
+
+--Estou certo, meu tio. Porém!... Como o meu voto me parece essencial
+desejo dal-o em consciencia. Quando me apresenta a D. Leonor?...
+
+--Um dia cêdo! Ámanhã talvez! redarguiu o intendente, agitando-se, e
+estorcendo-se na cadeira, como se o assento fossem brazas.
+
+--E porque não ha de ser hoje. Sou tão curioso!...
+
+--Hoje! Sem a avisar! De mais tenho que despachar... Espero...
+
+--O honrado sargento, ou o palhaço talvez?!... Vamos. Decida-se. Hoje,
+ou nunca! _Alea jacta_! como nós diziamos no collegio. Os bons palpites
+aproveitam-se. O matrimonio é um grilhão de ferro coberto de flôres...
+Quem sabe se ámanhã eu terei medo da felicidade conjugal, e me
+arrependerei? Seja docil! Deixe-me vêr hoje esse portento encoberto...
+
+--Pois bem! Faça-se a vontade ao teimoso, contestou Lagarde, depois de
+alguns instantes de reflexão, tirando o relogio do bolso, e
+consultando-o. São dez horas. Ao meio dia aqui te espero.
+
+--Viva o melhor dos tios! bradou Armand, rindo, e abraçando-o. Diz o
+rifão: em quanto venta molha a véla! Quero remar com a maré. É verdade
+que na Ponte da Asseca, em um casarão arruinado, apparecem aventesmas, e
+que um troço de milicianos debandou por uma noite de tempestade, fugindo
+de um fantasma?...
+
+--Porque?
+
+--Nunca tive a honra de conversar particularmente com nenhum espectro, e
+desejava certas informações sobre o paraizo e sobre o purgatorio...
+
+--Os fantasmas da Ponte da Asseca sabes o que são? accudiu o ministro
+agastado. Um bando de conspiradores, que a policia vae desmascarar e
+punir.
+
+--Jesus, que ares tragicos, meu tio! Pela sua vida não represente de
+tyranno. O papel cai-lhe mal. Dê-me essa missão a mim. Adoro as
+aventuras, e Cazote é o meu idolo... Quem sabe se irei lá encontrar
+algum diabo amoroso?
+
+--Pois bem, irás! atalhou Lagarde sorrindo. Mas já te previno. O que lá
+acharás são morgados lorpas, e rebeldes endurecidos. Agora adeus. Não te
+esqueças. Ao meio dia em ponto!
+
+--Ao meio dia em ponto! respondeu o sobrinho, saudando-o, e saindo.
+
+
+
+
+XIV
+
+Amor
+
+
+Quando Manuel Coutinho assomou aos umbraes da porta do aposento, acabava
+Leonor de lêr uma carta de seu pae, escripta com a firmeza de animo, que
+tornava tão nobre o caracter do velho cavalheiro. Da sua prisão do
+castello, com a morte eminente e a vingança de poderosos inimigos
+suspensa sobre a cabeça, falava Paulo a sua filha com o mesmo socego,
+com que o faria solto e desaffrontado. Nem uma queixa! Nem um indicio de
+tristeza, ou desalento! Ausente em uma viagem longa, ou distraído em uma
+partida de caça, não tractaria com indifferença mais soberana as
+vigilias e amarguras do carcere.
+
+Dizia-lhe que o seu processo, apressado a principio pelo odio, agora
+coxeava, retido por mão occulta. Zombava da vigilancia, com que era
+guardado, attribuindo-a á scena comica da sua evasão no palacio da Ponte
+da Asseca.
+
+Perguntava-lhe por Manuel Coutinho, e pedia-lhe que recommendasse ao
+mancebo muita paciencia e conformidade, e resignação para atravessar os
+dias dolorosos do captiveiro. Finalmente, lembrava-lhe em estylo risonho
+alguns episodios de suas peregrinações pelas aldeias e casaes do
+Ribatejo, assegurando-a, de que o descanso do corpo e a serenidade do
+espirito iam obrando n'elle o prodigio de o transformarem, de seco e
+agil, em um ente mais obeso, mais corpulento, e mais oleoso, do que fr.
+Raymundo, frade notavel em Mafra pela estatura agigantada, pela
+estupidez, e pela voracidade.
+
+Aonde a sua ternura extremosa se denunciava, e a alma stoica deixava
+perceber a ferida dos espinhos da saudade, era nos conselhos dados á
+donzella, e nos gracejos constrangidos, com que a motejava ácerca da
+alvura da tez e das rosas pallidas, tão festejadas no seu rosto,
+deplorando que o sol, as geadas, e a vida alpestre de uns poucos de
+mezes as tivessem queimado! Rogava-lhe ironicamente, que aprendesse de
+alguma dama franceza o segredo d'aquella frescura artificiosa, que só
+ellas sabiam fabricar para engano da edade, e conservação de successivas
+gerações de adoradores.
+
+Apezar do tom jovial, a carta era mais triste do que se respirasse
+sincera melancholia. Leonor, avaliando o coração paterno pelo seu,
+sentiu correrem-lhe as lagrimas e empanar-se-lhe a vista á proporção que
+a ía lendo. Dotada, tambem, de indole varonil e soffredora adivinhava
+facilmente as apprehensões e os tormentos, que aquellas lettras
+escondiam, e quasi revia por baixo d'ellas as nodoas do pranto suffocado
+por uma vontade forte.
+
+A donzella recostava-se em uma marqueza de palhinha. O braço nù do
+cotovello para baixo descansava em um velador entre duas jarras de
+porcelana cheias de rozas e madresilvas. Duas portas de vidraças abertas
+sobre o jardim, para onde se descia por escada de poucos degraus
+deixavam entrar a luz em jorros. A sala era atapetada de esteira, e
+estava ornada de alguns paineis de paizagem, pendentes das paredes
+estucadas. Nos vãos das portas duas gaiolas douradas encerravam aves
+africanas de vistosas plumagens. Em cima do marmore de um tremó, entre
+flores, jazia esquecido o livro, que tivera na mão pouco antes de rasgar
+anciosa o sobrescripto da carta, que viera interrompel-a. A um lado, no
+bastidor, sobre a tela repregada notava-se ainda a agulha picando a
+talagarça na petala delicada da ultima flor, cujo matiz deixára em meio.
+Um vidro de peixes, de cores cambiantes, enfeitava a mesa fronteira ao
+tremó e ao espelho.
+
+--A filha de Paulo de Azevedo vestia de escuro sem affectação. Um
+corpete, dos que então se chamavam _Mimosos_, de seda preta com
+guarnições singelas, e cintura curtissima, desenhava mal a rara
+elegancia d'aquelle corpo esbelto, moldado pelas graças. Uma fita larga,
+com laço e pontas caidas, unia-o á saia de tafetá de cauda alta, orlada
+com uma barra de requifes; mas a saia, segundo a moda do tempo, não era
+menos desairosa do que o corpete; e n'esta nossa epocha de crinolines e
+balões de verga de aço a magreza da roda, e a estreiteza do córte, que a
+cingia aos membros quasi a ponto de accusar de mais as fórmas, faria
+estalar de riso um conciliabulo de modistas e petimetres. Uma singela
+cruz de coral, encastoada em ouro, e suspensa de um fio de aljofres
+debruçava-se sobre o collo de neve, que um poeta sem exageração
+denominaria verdadeiro collo de garça. O penteado, não menos singular
+para os nossos dias, que o feitio do trajo, era todo de anneis
+irregulares, acompanhando a testa em figura quasi de diadema, e
+rematando no alto da cabeça por uma flor natural cravada nas tranças.
+Sapatos de setim de entrada muito baixa, cobriam ou antes descobriam o
+pé mais breve e mais lindo, que um estatuario poderia desejar para
+modelo das extremidades de uma Hebé. A manga do corpete desnudava todo o
+braço, que na pureza e correcção das linhas não desmentia a formosura do
+semblante, o enlevo namorado dos olhos, e a expressão nobre, quasi
+altiva, e apesar d'isso ingenua e suave da physionomia.
+
+Vendo-a assim reclinada, com os atomos dourados do sol a brincar-lhe nos
+cabellos, com a meiga pallidez, que um carmin fugaz e transparente
+apenas córava por momentos, e com aquella melancholia tão feiticeira
+pousada na vista, perdida com o pensamento bem longe de si e de tudo o
+que a cercava, um pagão, se a contemplasse de repente, hesitaria entre
+Juno e Diana, mas de certo não equivocaria sua belleza casta com os
+encantos mais faceis da lasciva deusa de Paphos.
+
+Manuel Coutinho, que a amava, que desde a infancia a vira crescer em
+annos e attractivos, deteve-se suspenso de admiração, não se atrevendo a
+despertal-a do enlevo com o ruido de seus passos. Mas o coração tem
+sentidos mais subtis, que os ordinarios. Sem o vêr, sem ter percebido a
+sua chegada, Leonor adivinhou que era elle, e a sua alma, fugindo á dor,
+logo voou a encontral-o. Um suspiro á flor dos labios, um sorriso em que
+a magoa e o jubilo se fundiam, duas lagrimas congeladas, tremendo nas
+pestanas, disseram ao mancebo, que o sonho se quebrára, e que a amante,
+baixando das illusões do devaneio, volvia ás realidades doces, mas bem
+tristes, da existencia, e da paixão.
+
+Leonor olhou para elle. N'este simples volver de olhos disse tudo,
+calados os labios, mas cheia de luz a vista radiosa. Um rubor, que
+esmorecia, e breve tornava a avivar-se, denunciou ao mesmo tempo o
+sobresalto da alegria e as tremulas palpitações do peito. O mancebo, não
+menos rendido, porém mais impetuoso, soltou a alma em um suspiro de
+entranhavel affecto, prostrando-se-lhe aos pés e, adorando-a, quasi como
+se adora a Deus. O que ambos falaram mudos n'este momento só póde
+concebel-o quem já gosou tambem as delicias por vezes acres das
+expansões do primeiro amor. Á donzella ria a esperança na bôcca e nas
+pupillas. Ao amante, olvidados os zelos e amarguras das confidencias,
+que acabára de escutar, tumultuavam no seio agitado as commoções, como
+vão e vem as ondas inquietas espumando sobre a areia.
+
+Por fim a mão estreita e melindrosa extendeu-se para o obrigar a
+erguer-se. Um beijo ardente, seguido de mil osculos, n'essa mão que não
+fugiu, affrontou de novas e vivas cores as faces da filha de Paulo de
+Azevedo.
+
+Desviando com um gracioso gesto de infinita brandura o amante ajoelhado,
+e constrangendo-o a levantar-se com o imperio só dos olhos. Leonor
+disse-lhe:
+
+--Veiu tarde!... Não imagina o cuidado com que o esperava!...
+
+--Leonor! Leonor! exclamou Manuel Coutinho incapaz de se vencer. Jure-me
+que não dará nunca a outro esta mão, que tenho nas minhas, como penhor
+da nossa ventura...
+
+--Juramentos?! Já se não contenta com menos? Não crê em mim?!...
+
+--Como em Deus!
+
+--É de mais agora. Basta a fé... Teve noticias de meu pae? Será possivel
+ao menos demorar a sentença? que o ameaça. Quando me lembro!... Manuel!
+E nós aqui n'estes colloquios, quando elle.. geme desamparado, e se
+prepara para a morte... que será tambem a minha, porque, se o perder,
+sei que não posso, que não hei de sobreviver-lhe!...
+
+--Não diga isso. Seu pae está mais perto da liberdade, do que da
+morte...
+
+--Quem lh'o disse? Elle escreveu-me. Aqui está a carta; mas só confia em
+Deus! Ha alguma novidade? Veja que padeço ha tantos dias, chorando quasi
+orphã aquella vida, que é tudo para mim... Diga! Devo ter ainda
+esperança?...
+
+--Deve!... O bispo, e sua irmã não lhe contaram nada?...
+
+--Não! Mas o que ha? Ouvil-o-hei da sua bôcca... A boa nova será para
+mim mais risonha!
+
+--O Porto vae acclamar o principe regente. Sepulveda sublevou as
+provincias do norte! O Alemtejo e o Algarve fazem e farão o mesmo!... Os
+francezes acossados retiram sobre Lisboa de toda a parte!...
+
+--Seja para sempre glorificado o vosso nome, meu Deus! exclamou a bella
+enthusiasta, caindo de joelhos, e erguendo as mãos. Os ferros do
+captiveiro são asperos e pesados e a minha alma, ferida e cega de
+prantos, nem já a vista se atrevia a elevar ao ceu para vos pedir
+justiça!... O dia da liberdade começa a raiar. Manuel! O seu posto não é
+aqui, é ao lado de nossos irmãos que pelejam e morrem pela patria...
+
+--Bem sei. Parto em dois dias. Vinha dizer-lh'o.
+
+--Perdoe-me. Tenho pressa de vêr meu pae! Quero dever-lhe o seu
+resgate... As damas antigamente mandavam os cavalleiros correr
+aventuras, e não os premiavam senão coroados de louros. Quer ser meu
+cavalleiro?... ajuntou com um sorriso e em um tom irresistivel.
+
+--Não o sou já? Que votos póde fazer que eu não cumpra?
+
+--Vá! A empreza é gloriosa. Ajudará a restaurar a patria, a restituir o
+throno ao seu rei legitimo, e um pae extremoso aos braços da sua
+filha!... Porque não sou homem?! Nunca invejei tanto uma espada!...
+
+--Quem sabe, accudiu o mancebo sorrindo, se os dias das amazonas não
+voltarão!...
+
+--Porque o diz zombando?... Cuida que me faltaria o valor?... Estou
+louca! Desculpe! De balde quero dissimular a minha fraqueza mais do que
+posso. Elles são briosos; hão de combater aqui como combateram em toda a
+parte... Quantas victimas! Quanto sangue! Manuel! Não seja temerario!
+Quero tornar a vel-o!... Oh! se uma bala, se um golpe!...
+
+--Deus será comnosco. Havemos de vencer. Anime-se!
+
+--E eu?!... Ficarei só entre dois amores, que são toda a minha
+esperança, entre duas saudades, que prendem toda a minha alma! Só! Não
+sem outra companhia mais do que receios e cuidados, sem outras armas
+senão as minhas lagrimas e orações!... Attentando, depois, na confissão
+que acabava de soltar, vermelha de pejo como uma roza, cobriu o rosto, e
+o pranto, rebentando, principiou a deslisar-se-lhe por entre os dedos. O
+mancebo, exaltado, lançou-se outra vez a seus pés, e em vozes suffocadas
+e incoherentes repetiu-lhe mil protestos. A final, Leonor levantou a
+face orvalhada d'aquellas lagrimas tão suaves para ambos, e os bellos
+olhos sorriram humidos, como o sol de abril por entre chuveiros finos.
+Uma vista longa e apaixonada beijou com ineffavel delirio a vista do
+amante, que se sentia desfallecer de jubilo, e que sem forças para
+exprimir com palavras o alvorço, amiudava os osculos frementes nas mãos,
+que tremiam, entregando-se a seus carinhos.
+
+--Leonor! disse depois de alguns momentos. Agora póde vir a morte, póde
+redobrar o infortunio, achar-me-hão forte! Sei que sou amado! Levo
+commigo a confissão da sua ternura!...
+
+--Ingrato! accudiu ella com meigo requebro. Era preciso que um instante
+de dor, mais poderoso que o pejo, lhe dissesse o que devia ter
+adivinhado!?... Não sabia que a ninguem, a mais ninguem... depois de meu
+pae, tenho a affeição...
+
+--Porque não diz o amor!... Teme ver-me feliz?!...
+
+--Pois sim! O amor! redarguiu, alçando a fronte com nobre altivez, e
+fitando no mancebo um olhar de indizivel e terno orgulho. Porque hei de
+encobrir o que sinto; porque hei de negar o que não posso esconder?
+Amo!... Desde a nossa infancia jurei que não teria outro esposo. Não é
+crime escutar o coração! Amo-o, Manuel Coutinho!...
+
+--Leonor!...
+
+--Agora ouça! Antes de partir, volte aqui. Deante de Deus estamos
+unidos. Quero dar-lhe uma prenda, que nos recorde a alegria triste
+d'este dia!... A guerra vae a principiar. A sua ausencia póde ser
+larga... Hei de supportal-a com toda a constancia, hei de ser digna
+mulher de um soldado!... Volte! Lembre-se de que deixa n'esta solidão
+metade da sua alma em troca da minha que leva toda... Quero vêl-o
+victorioso, coberto de gloria, mas!... Que eu não fique viuva sem ser
+esposa! Tem outra amante que vae servir, a patria! Sacrifique por
+ella... tudo... tudo! menos a vida que me pertence! Adeus agora! Preciso
+de socegar o animo para uma visita, que espero, e da qual depende talvez
+a sorte de meu pae...
+
+--Lagarde!?... atalhou Manuel Coutinho irado e sombrio de repente.
+Porque se sujeita a ouvir esse monstro, auctor de nossas desgraças?
+
+--Porque o meu dever o manda. Cuida que ha sacrificio, que me custe,
+para salvar meu pae? Oxalá que viesse pedir-me todo o meu sangue em
+preço do sangue d'elle!
+
+--Sabe o que Lagarde quer exigir-lhe pela soltura do sr. Paulo de
+Azevedo? perguntou o mancebo tremulo e pallido.
+
+--Sei! contestou ella serenamente.
+
+--E conta responder-lhe?!... interrompeu o amante ancioso.
+
+--Não lhe disse que o amava? Duvida do meu coração, ou da minha fé!?
+Pela vida de meu pae estou prompta a immolar tudo, menos... a honra do
+seu nome, que é sagrada, e a minha alma, que é livre... O esposo, que
+posso ter, já o escolhi.
+
+--Obrigado, Leonor, pela doce promessa! Partirei tranquillo... Mas,
+então porque escuta Lagarde? Com que espera movel-o?...
+
+--É o meu segredo. Todos os sacrificios, menos um! Tudo menos vender-me,
+ou aviltar-me!... Não ouviu rodar uma carruagem? É a d'elle! Sáia por
+aquella porta... Não! Não! ajuntou, notando a agitação do amante. Não
+lhe devo occultar nada! Entre para aquelle gabinete!... Mas jure-me, que
+ouça o que ouvir, veja o que vir, mesmo que eu fosse ameaçada... o seu
+braço, a sua voz, a sua presença, é como se estivessem ausentes...
+
+--Juro! Mas se elle ousar!...
+
+--Não ousa! De mais, sei, e posso defender-me! Creia em mim. Agora vá!
+Um momento! Deixe-me colher forças para o combate!... E pousando-lhe na
+fronte os labios de rosa afagou-lh'a com um beijo.
+
+--Leonor!... exclamou elle ebrio de jubilo.
+
+--Recompense-me! Seja homem! Hoje a nossa arma é a paciencia. Não o
+sente? Sobe a escada... Vá! Nem um gesto, nem uma palavra! Responde pela
+vida de meu pae!
+
+E impellindo-o com maviosa brandura obrigou-o a entrar para o gabinete,
+cuja porta de vidraças recatavam duas cortinas de seda despregadas quasi
+até ao chão.
+
+Depois, levando a mão ao peito, como se quizesse contel-o, alçou a vista
+com expressão sublime e magoada, e aguardou que a porta se abrisse.
+
+Não tardou. Lagarde d'ahi a um instante appareceu entre os umbraes.
+
+
+
+
+XV
+
+Cubiça e Nobreza
+
+
+O intendente geral da policia era homem de sala. No tracto usual ninguem
+o excedia em delicadeza.
+
+Apenas apontou ao limiar, inclinando-se profundamente, adeantou-se com o
+chapéu na mão. Com o sorriso estereotypado nos labios beijou a mão, que
+Leonor de pé, séria, e grave, nem lhe estendeu, nem lhe recusou.
+
+Seguiu-se uma pausa curta durante a qual a vista do ministro se cruzou
+com a da donzella, frias e penetrantes ambas como duas espadas.
+
+A um aceno cortez da filha de Paulo de Azevedo, offerecendo-lhe cadeira,
+Lagarde escusou-se com o gesto, ajuntando logo risonho:
+
+--Minha senhora... Venho como supplicante mover a piedade da belleza
+deshumana, e os supplicantes não se assentam em presença dos juizes.
+
+--Vem mover a minha piedade, ou offerecer-me a sua?! accudiu a donzella
+em tom ironico. Não mudemos os papeis! A supplicante devo ser eu. O
+vencedor não veiu aqui dictar-me as condições na idéa de me achar
+resignada a escutal-as e a submetter-me?!... Não o incommoda ficar de
+pé?...
+
+--Não, minha senhora. Tenho de pedir licença para lhe apresentar outra
+visita...
+
+--Outra visita?!
+
+--Meu sobrinho...
+
+--Seu sobrinho?!...
+
+--Era tempo, não lhe parece?...
+
+--Eu!...
+
+--Percebo! É-lhe indifferente? Consinta que junte duas palavras. Quer
+que lhe fale como amigo?...
+
+--Se póde!... Receio tanto o intendente geral da policia!...
+
+--Não receie. Seja menos injusta. Desejo-lhe bem. Respeito a sua
+firmeza, préso os seus sentimentos de filha extremosa, e sei que se
+quizer ha de fazer a felicidade do marido que preferir.
+
+--Tantos louvores, sr. Lagarde!... Ha quantos mezes me avalia assim?
+accudiu Leonor sorrindo, mas tornando-se logo séria. Confesse que tenho
+motivos fortes para suppor o contrario. Costuma tractar, como nos
+tractou a nós, as pessoas que lhe merecem bom conceito?!...
+
+--Ah, cruel!... volveu o ministro, córando um pouco, porém disfarçando a
+torvação momentanea com o riso. As setas são agudas, e essa mão mimosa
+aponta-as com uma certeza! Pois bem! Se fiz o mal, posso ao menos
+dar-lhe remedio... O conselho de guerra ámanhã, ou depois, reune-se para
+julgar seu pae... A sentença depende das provas, e as provas principaes
+estão nas minhas mãos. De mais, Lunyt, o secretario de estado dos
+negocios da guerra, é meu amigo intimo... Já vê! Se eu interceder e
+ajudar... o sr. Paulo de Azevedo sae absolvido e solto...
+
+--Bem o sei, redarguiu a donzella. Quererá o sr. Lagarde?...
+
+--Duvída?! Porque tem tão pouca fé?...
+
+--Porque não acredito facilmente em conversões repentinas. Perseguiu-nos
+sem tregua, não socegou em quanto não teve meu pae em ferros, e hoje...
+offerece-me ser o seu protector!?... Ha grande mysterio n'isto, não o
+negue!... Temo que exija tanto da minha gratidão em premio, que eu não
+deva acceitar!
+
+--Nada escapa á sua agudeza! Quer saber tudo? Tem razão. Joguemos liso.
+Posso interessar-me, e ser ouvido, falando a favor do pae da noiva de
+Armand, de meu sobrinho; mas percebe muito bem, por maiores que fossem
+os meus desejos de servir, que o empenho não teria a mesma força, se o
+mettesse em beneficio de estranhos... de pessoas desaffectas ao governo
+de sua magestade o imperador e rei. Agora permitte que meu sobrinho
+entre? Espera as suas ordens n'aquella saleta...
+
+--Pois sim. Uma palavra antes, sr. Lagarde. É a noiva, ou é o dote, o
+que mais o tenta n'este negocio?!...
+
+--Oh, minha senhora, que pergunta! Que offensa!... O dote?!... Não faz
+mal, de certo o dote, a riqueza nunca se despreza; porém o thesouro
+d'essa linda mão!...
+
+--Supponha que... em troca da sua... como hei de dizer?
+
+--Diga amisade, minha senhora, amisade sincera. Fale affoutamente!...
+
+--Talvez seja muito. Benevolencia parece mais natural... Supponha, pois,
+que em troca da sua benevolencia eu cedia o dote, e guardava a _linda_
+mão... que é já de outro, e que em nenhum caso, aconteça o que
+acontecer... darei a seu sobrinho?...
+
+Leonor falava serena, e sorrindo-se, porém a voz e o tom affirmavam
+assás, que a proposta era positiva, e que a resolução tomada seria
+inabalavel. Lagarde franziu o sobrolho, raspou com o dedo a ponta do
+nariz, cortejou-a em silencio, e reconcentrou-se por instantes como quem
+reflectia.
+
+--O dote sem a mão?! disse por fim lentamente, e esbrugando as palavras
+como se as pezasse. Julga, minha senhora, que seria possivel?...
+
+--Depende da minha vontade, e estou prompta.
+
+--Não me entendeu! É uma esmola, que nos quer fazer a meu sobrinho e a
+mim, ou uma peita, com que espera subornar o ministro?...
+
+A interrogação parecia aspera; porém o olhar e a voz não podiam ser mais
+amaveis. Leonor concebeu esperanças.
+
+--Nem uma, nem outra cousa! É um testemunho de reconhecimento.
+Protesto-lhe que dos tres a mais agradecida serei eu.
+
+--Esquece-lhe, que o mundo dirá, que me vendi!... Não pode ser! Uma
+esposa não se nota que seja generosa, porém uma estranha!... Minha
+senhora, não decida nada sem o conhecer. Armand está aqui. É moço, é
+gentil, é brioso. Merece-a. Sei que o accusam de ser um pouco estouvado
+e perdulario. Não o defendo. São defeitos que o matrimonio corrigirá.
+Veja-o!... Tome tempo!... Não me julgue tão mau como dizem os meus
+inimigos. Tudo ha de compor-se.
+
+--Deus permitta! replicou a filha de Paulo de Azevedo.
+
+Mas a sua phisionomia espirituosa traduzia perfeitamente, sem os
+disfarçar, a malicia e o despreso, com que assistia ao combate da avidez
+e da cubiça na alma de Lagarde, impaciente de receber o que lhe
+promettiam, mas preso ainda, apezar do cynismo, pelos escrupulos de um
+resto de decoro e de respeito da sociedade. Talvez, que não o
+embaraçasse pouco n'este conflicto a idéa, que formava do caracter do
+sobrinho, e a apprehensão de que elle recusasse favores, cuja origem o
+cobriria de opprobrio.
+
+--Deus quer o nosso bem, e ha de permittir!... atalhou o magistrado,
+todo brandura e delicadeza. Sobre tudo se fizermos da nossa parte...
+
+--Da minha tudo, menos!...
+
+--Não diga isso!... Esse _menos_ é que precisamos que desappareça. Meu
+sobrinho é um cavalheiro...
+
+--Affiança-m'o?... N'esse caso estou socegada. O _menos_ virá d'elle!...
+
+Uma sombra escureceu o rosto do intendente. Ainda não lhe occorrêra esta
+hypothese, e um estremecimento nervoso avisou-o, de que ella podia
+converter-se em obstaculo insuperavel. Que certeza tinha de que Aubry
+annuisse ao pacto infame, que procurava extorquir, fazendo da cabeça de
+Paulo de Azevedo o penhor da docilidade de sua filha?
+
+--Não imaginemos coisas tristes! redarguiu contrafeito. Seu pae,
+lembre-se, está preso, e em vesperas de ser sentenciado...
+
+--Meu pae, tornou a donzella altiva, saberá morrer, que lh'o ensinaram
+os seus antepassados; o que nunca soube, nem ha de aprender na velhice,
+é a vender o sangue da sua alma, a ventura e a dignidade de sua filha
+para salvar a vida.
+
+--N'esse caso!... Mas o pobre Armand!... Falámos tanto d'elle que por
+fim esqueceu-nos! Como ha de estar impaciente. Tinha um desejo tão
+ardente de vir aqui!... Ah, ri-se? Não acredita?!... Pois é verdade. Dá
+licença?!...
+
+E sem aguardar mesmo o aceno secco de cabeça, com que Leonor respondeu,
+Lagarde, precipitando-se direito á porta, cortou com esta saída theatral
+a conversação no ponto, em que ameaçava tornar-se tempestuosa. Em quanto
+elle saia, a donzella enxugou á pressa duas lagrimas, reprimidas até
+então pelo orgulho, e inclinou a fronte como se lhe faltasse o vigor
+para supportar mais. Durou só um momento esta fraqueza. Um minuto depois
+erguia a face, e tornava a obrigal-a a exprimir a frieza glacial do
+papel forçado, que se via constrangida a representar. Um rapido volver
+de olhos á porta de vidraças, detraz da qual Manuel Coutinho escutava, e
+um suspiro ancioso foram os ultimos signaes do seu desalento.
+
+O intendente entrava com o sobrinho.
+
+Vendo-o, Leonor córou, e fez-se logo, pallida.
+
+O mancebo, contemplando-a, sentiu-se vencido de repente, e conheceu que
+aquella bella e doce imagem se lhe gravára profundamente no coração. A
+tristeza resignada, que respiravam as feições da donzella, a sua vista
+magoada, mas serena e quasi severa, e a casta e graciosa elegancia do
+porte, acabaram de o render. O semblante, em que um momento antes sorria
+zombeteira a mofa do conquistador, seguro do triumpho, desarmou-se
+instantaneamente da expressão quasi insolente, e inclinando-se,
+perturbado, e reverente, Armand saudou a filha de Paulo de Azevedo como
+poderia saudar uma rainha no seu throno.
+
+--Aqui vem a seus pés mais este captivo, minha senhora! exclamou o
+intendente no estylo refinado e galanteador da côrte franceza.
+Compadeça-se d'elle. Não consinta que suspire em vão!
+
+Armand empallideceu. Não era com gracejos vulgares e pueris, que elle
+agora desejava expressar á donzella a admiração. O official, de
+ordinario tão solto e audacioso, já não achava phrases que pintassem o
+estado da sua alma. Mas se os labios eram mudos, falavam os olhos, e o
+proprio enleio significou uma homenagem á amante de Manuel Coutinho.
+
+--Veja como a adora! proseguiu Lagarde, que, sem o querer, representava
+o papel comico de um tutor de entremez. Que victoria, minha senhora! Fez
+como Cesar, viu, e venceu!...
+
+--Ah! interrompeu Leonor, deixando cair de alto sobre o tio e o sobrinho
+uma vista ironica e aguda, que os gelou a ambos, porque o despreso e o
+escarneo, que exprimia, traspassava.
+
+--Meu tio!... murmurou Armand confuso, e recuando como ferido de uma
+bala.
+
+Houve uma breve pausa. O ministro estudava um exordio, que o salvasse
+dos apuros do lance, em que se mettêra, amaldiçoando interiormente
+Aubry, cuja falsa delicadeza começava a assustal-o. A filha de Paulo de
+Azevedo, em pé, branca como uma estatua de alabastro, mas imperiosa,
+amparava o corpo gentil com a mão no espaldar da cadeira e n'esta
+posição, cheia de dignidade, aguardava silenciosamente, que um dos dois
+ousasse dizer-lhe tudo.
+
+O mancebo, que a interjeição de Leonor fizera córar até á raiz dos
+cabellos, e que a vista de tantas graças e enlevos cada vez seduzia
+mais, esperava ancioso, que o intendente, auctor do enredo, lhe rompesse
+o caminho, temendo adivinhar na mudez e no ar soberano e offendido da
+bella portugueza um trama, que a honra o obrigasse a desmentir.
+
+--Armand, minha senhora, disse por fim Lagarde, que o amor proprio e a
+cubiça forçavam a insistir, encarrega-me de lhe pedir, que se digne
+receber os testemunhos de seu respeito e adoração.
+
+--Sempre como procurador?!... atalhou ella com um sorriso ironico.
+
+--Em pessoa, minha senhora, em pessoa!... Se não veiu mais cedo é que...
+
+--Meu pae não estava ainda quasi no oratorio, e o sr. Lagarde temia que
+a filha fosse menos docil?
+
+--Oh!... bradou Armand, encarando o ministro severamente, e
+adeantando-se impetuoso. Minha senhora, balbuciou depois, se aqui vim
+foi attrahido por uma doce esperança, que vejo ter sido chimerica...
+Posso saber o que meu tio quiz fazer, valendo-se do meu nome? Presinto
+um segredo de violencia, talvez de iniquidade, mas, juro-lhe pela minha
+honra, que estou innocente... que sou incapaz de acceitar a sua mão, que
+me faria bem ditoso, agora o sinto, se livremente m'a não désse.
+Peço-lhe a verdade! Ao menos não me condemne sem me ouvir!...
+
+Lagarde não soube conter-se. Um raio, que lhe estalasse de repente sobre
+a cabeça, não o teria desfigurado tanto. Empregado o ardil classico do
+famoso quadro do sacrificio de Ephigenia, escondeu metade da cara no
+lenço de assoar, pedindo a Deus que um alçapão propicio se lhe abrisse
+debaixo dos pés para o sumir da vista irritada dos personagens, cujas
+explicações previu, que iam desmascaral-o inteiramente.
+
+Leonor, escutando as nobres palavras de Aubry, recompensou-as com um
+olhar sympathico. O semblante perdeu a expressão severa, e a voz, meiga
+e commovida, vibrou harmoniosa, como um canto suave, no peito agitado do
+official francez.
+
+--Agradecida! redarguiu offerecendo-lhe pela primeira vez a mão, que
+elle beijou estremecendo. Não tenho que lhe perdoar... Agora vejo! O sr.
+Lagarde... como hei de dizer toda a verdade!? O sr. Lagarde prendeu meu
+pae, accusou-o, e tem suspensa sobre a sua vida a espada de um conselho
+de guerra... Tinha-me falado ha mezes n'este casamento... A minha recusa
+aggravou-o... e hoje, aqui mesmo, veiu propor-me salvar meu pae se eu
+consentisse...
+
+--Oh, meu tio! interrompeu o mancebo fulminando o intendente com os
+olhos, e vermelho de colera e pejo. Não diga mais, minha senhora.
+Adivinho a resposta. Regeitou!...
+
+--Regeitei! continuou a donzella. A minha mão pertence a outro; o meu
+amor não se vende.
+
+--Nem o meu nome se infama! rugiu Aubry tremulo de raiva. Sr. Lagarde
+agradeça ao sangue, que nos corre nas veias, a minha paciencia! Se não
+fosse! E suffocado em ira apertou os punhos, e levou-os á fronte.
+Lagrimas de indignação rebentaram de seus olhos seccos. O intendente
+parecia petrificado.
+
+--Offereci o dote sem a noiva; proseguiu Leonor. Era o meu resgate. Oh,
+perdoe sr. Aubry, não o conhecia ainda. Depois que o ouço... não lhe
+faria a affronta de suppor...
+
+--Vê! accudiu o official, colhendo o ministro do braço, e saccudindo-o
+com furia. Vê a que me expoz?!... Meu tio, tenho vergonha, queima-me os
+labios dar-lhe este nome! Quem lhe deu o direito e a ousadia de arrastar
+o meu, o nobre appellido de meus virtuosos paes pelo lodo de suas
+torpezas?! Sou pobre, accrescentou voltando-se convulso para a filha de
+Paulo de Azevedo, mas a pobreza supportada com valor, com alegria, como
+eu a supportei sempre, não desdoura, engrandece. Hoje não possuo outras
+riquezas, senão o orgulho da propria indigencia, que nunca ajoelhou, o
+respeito do nome sem macula que herdei, e esta espada... que póde
+abrir-me o caminho da gloria, ou o da sepultura!... Nunca me passou pela
+idéa, que houvesse no mundo um coração tão vil e corroido, que se
+atrevesse a cuspir no meu rosto e sobre as cinzas dos que mais amei a
+injuria de me aviltar ausente a especulações infames!... Socegue, minha
+senhora! Todos os thesouros da terra, depois d'isto, não me obrigavam a
+acceitar a sua mão, ainda que m'a offerecesse.
+
+--Louco! D. Quixote! Nescio!... rosnou Lagarde, ao qual a generosa
+declaração do mancebo restituiu a voz, e redobrou a ira de se ver
+descoberto e punido.
+
+--Senhor Lagarde! disse Armand, cravando n'elle um olhar sombrio. Sei
+que devo parecer-lhe nescio e estouvado. Glorio-me da censura. O que me
+faria córar eternamente seria um elogio... depois do que acabo de ouvir.
+
+--Senhor Aubry, observou Leonor, creia que nunca hei de esquecer a
+nobreza do seu caracter. Aonde quer que a fortuna o leve... conte com a
+minha amisade. Não sou ingrata. Se meu pae escapar...
+
+--Ah! exclamou o mancebo. Esquecia-me! Senhor Lagarde! ajuntou, travando
+rijo do braço ao ministro, que se ia desviando para se evadir
+desapercebido. Uma palavra antes de sair! Os vinculos do nosso
+parentesco estão rotos de hoje em deante. Quer que o mundo ignore os
+motivos? Ponho uma condição a esse sacrificio da minha parte!...
+
+--Condições?!... interrompeu o intendente, ameaçando o sobrinho e Leonor
+com os olhos e com o gesto.
+
+--Condições, sim! atalhou o mancebo friamente. Offereço-lhe o seu
+perdão, e a minha indifferença...
+
+--Offereces-me o teu perdão? É admiravel! Que me importa o teu
+perdão?...
+
+--Em troca de um acto de generosidade... forçada. Bem vê que lhe faço
+justiça, e que digo _forçada_, proseguiu Aubry, contendo-o, e
+dominando-o com a vista.
+
+--Oh! exclamou Lagarde, rindo convulso e constrangido. A scena era para
+se ver no theatro francez! Enlouqueceste Armand?!...
+
+--Não! redarguiu Aubry, cerrando os dentes e crescendo para elle
+indignado. Não enlouqueci! Mas ninguem até hoje me affrontou
+impunemente. Em tres dias o pae d'esta senhora ha de estar absolvido e
+solto...
+
+--Ah! É de mais! accudiu o ministro affectando intrepidez, porém
+assustado. E se não estiver? póde acontecer que as tuas ordens não sejam
+cumpridas á risca. Se não estiver pódes dizer-me o que farás?
+Accommettes a policia, fuzilas o conselho de guerra, ou assaltas os
+moinhos de vento de Monsanto?!...
+
+--Por Deus, senhor Lagarde, não tente a minha paciencia! bradou o
+official empallidecendo de colera, em quanto as pupillas scintillantes
+faiscavam mil ameaças. Se não estiver livre e absolvido... como lhe
+mando!... ouve? juro-lhe pela santa memoria de minha mãe, á qual deve só
+n'este momento a vida! que ámanhã o nome mais infame do imperio será o
+seu!...
+
+O intendente fez-se branco e recuou, lendo na vista inflammada do
+sobrinho o odio e o despreso.
+
+--Armand! exclamou balbuciando, renegas o teu sangue por estranhos?!
+Unes-te aos inimigos da tua patria contra mim!?...
+
+--Os inimigos combatem-se com as armas na mão, não se salteam nos
+corredores da policia, pedindo-lhes a bolsa, ou a vida!... Fez-me córar
+de vergonha! A maior injuria, que podia irrogar-me, era suppor alguem
+que eu fosse cumplice de mercados tão vilões...
+
+--És uma criança! Julgas o mundo pelos romances!...
+
+--Basta! clamou o mancebo. Quer acaso convencer-me?! Se não obedecer ao
+que lhe disse, que é o desaggravo da minha honra ultrajada, não se
+admire do que eu fizer!...
+
+--Do que fizeres! Ameaças?! Crês que te receio?... Em eu te desamparando
+cuidas que vales alguma cousa?! rugiu o intendente exasperado.
+
+--Hei de valer sempre o que vale um nome honrado! Não preciso de mais.
+Repito. Tome bem sentido! Se o pae de D. Leonor não for solto em tres
+dias...
+
+--Não é. Que mais?! atalhou o ministro, cruzando os braços.
+
+--O general Junot e o conselho do governo saberão como se enriquece o
+intendente geral da policia! Vou revelar-lhes tudo. Então veremos.
+
+--Tu! Meu sobrinho! exclamou Lagarde retrocedendo fulminado.
+
+--Eu! Seu sobrinho por minha desgraça. Escolha agora.
+
+Voltou-se depois para Leonor, que o dialogo tornára immovel, e
+acrescentou:
+
+--Minha senhora, adeus. Levo d'aqui a admiração da sua formosura, e a
+magoa de ter sido causa innocente de suas lagrimas. Sei que me perdoa, e
+que me fica estimando. Não peço mais. Socegue. Mesmo sem o dote, o
+senhor Lagarde ha de servir seu pae... Elle sabe que eu costumo cumprir
+a minha palavra. Vamos, ajuntou apontando a saída ao ministro com um
+gesto imperioso. O luto entrou comnosco n'esta casa... É tempo de
+deixarmos que a alegria e a tranquillidade voltem.
+
+E quasi obrigando Lagarde a retirar-se, lançou sobre Leonor um olhar de
+apaixonado enlevo, inclinou-se com um suspiro, e desappareceu.
+
+--Manuel Coutinho, disse a donzella, erguendo a fronte de repente,
+depois de alguns momentos de silencio, ouviu tudo?...
+
+--Tudo, redarguiu elle, que não se demorou em vir lançar-se de novo a
+seus pés.
+
+--Então sabe a divida que hoje contrahi... que ambos contrahimos com
+Armand de Aubry. Espero que a vida d'elle lhe seja tão sagrada...
+
+--Como a de um irmão, respondeu Manuel. É uma grande alma.
+
+--Alviçaras! Alviçaras! Senhora D. Leonor! Gritou a voz do bispo do lado
+do jardim. Os inglezes estão a desembarcar. O nosso captiveiro pouco
+durará se Deus quizer.
+
+E o prelado entrou afadigado e tremulo de jubilo no aposento, aonde os
+dois lhe abriam os braços não menos alvoroçados.
+
+
+FIM DO PRIMEIRO VOLUME
+
+
+
+
+NOTAS AO PRIMEIRO VOLUME
+
+
+I
+
+ O poder do ministro eclipsou-se com o ultimo suspiro do principe e,
+ com elle expiraram as tradições viris e os commettimentos
+ reformadores... pag. 24.
+
+O governo do marquez de Pombal abrangeu todo o reinado de el rei D. José
+I. Varios, e mais ou menos parciaes, foram os juizos dos contemporaneos
+ácerca da administração severa, intolerante, e absoluta, mas a muitos
+respeitos fecunda e reorganizadora de Sebastião José de Carvalho e
+Mello. A obra, que emprehendeu, o rejuvenescimento da unidade monarchica
+sustentado pelo apoio das classes medias devia encontrar, e de feito
+encontrou, a opposição dos privilegios, dos abusos, das hypocrisias, e
+do fanatismo. No paço a familia real, nos gremios puritanos da nobreza
+os fidalgos mais poderosos, nas corporações religiosas a companhia de
+Jesus, declararam guerra mortal e incessante ao ministro, aos seus
+actos, e ás suas tendencias. Para a familia real Sebastião José de
+Carvalho era quasi um inimigo da força e da consciencia do rei. Para a
+nobreza arrogante e affeita a dominar o poder despotico de um ministro,
+que não acurvava as vontades, ou as leis ao aceno imperioso dos eleitos
+de sangue azul era um peão fidalgo, insolente e soberbo, que importava
+derrubar e punir o mais depressa possivel. Finalmente, para os jesuitas,
+cuja influencia dilatada nos ultimos annos de valimento durante o
+reinado de D. João V, não consentia emulos, e muito menos peias, os
+planos atrevidos do secretario d'Estado, representando ameaças e perigos
+perennes para a prosperidade da sociedade, equivaliam a um cartel, que a
+todo o transe convinha acceitar e concluir pela derrota do orgulhoso sob
+pena de aplanar aos adversarios os caminhos do triumpho.
+
+A firmeza do rei, o prestigio que a auctoridade monarchica possuia
+ainda, e a intrepidez do ministro venceram estas resistencias
+colligadas. Por que preço, porém? Que o digam os carceres e prisões
+povoadas de suspeitos, réos apenas muitos d'elles de alguma opinião mais
+livre. Que respondam os processos, as alçadas, os degredos, e os
+supplicios, paginas luctuosas de um governo inexoravel e vingativo.
+Copiando do cardeal de Richelieu até as perfidias cruentas, Pombal
+assignalou com um rasto patibular as principaes estações da sua
+administração. Por fim escorregou e caiu no sangue vertido muitas vezes
+sem necessidade. Os horrores, que afogaram nos tratos e crueldades da
+praça de Belem a famosa conspiração de 1758, a expulsão dos jesuitas; os
+castigos atrozes contra os tumultuarios do Porto; a execução de João
+Baptista-Pelle; o encarceramento prompto e perpetuo de quantos podia
+receiar como rivaes, ou como censores pelo nome, pela integridade, pela
+jerarchia, ou pela sciencia são nodoas indeleveis e accusadoras, que não
+apagam o merecido elogio de outros actos, nem a recta e desassombrada
+apreciação de suas reformas uteis e opportunas.
+
+O marquez de Pombal tentava em parte o impossivel. Não admira, por isso,
+que na queda arrastasse comsigo quasi tudo o que nos monumentos do seu
+governo era fragil, instavel, e transitorio. A monarchia pura tinha
+envelhecido muito e depressa para ser exequivel salval-a por meio da
+transfusão de idéas e principios repugnantes á sua índole, contrarios
+aos preconceitos e crenças do povo e das classes elevadas, e sem base
+firme em que assentasse uma construcção duravel. Os tres reinados de D.
+Affonso VI, D. Pedro II e D. João V adeantaram a tal ponto a caducidade,
+que os milagres do genio, e os prodigios da vontade o mais que poderam
+conseguir foi suspender a dissolução espaçando até ao fim do reinado
+seguinte a revolução eminente. O ministro absoluto serviu-se em muitas
+occasiões do poder como de uma arma cega e demolidora, e a ferro e fogo
+imaginou transformar a sociedade decrepita e moribunda em uma sociedade
+nova, e vigorosa e viril, filha legitima das grandes idéas philosophicas
+fadadas á conquista do futuro. Suas leis e seus esforços provam a
+elevação do pensamento e a intensidade dos bons desejos; mas do que elle
+decretou ficou de pé sómente o corpo logo tornado cadaver. O espirito...
+não eram aquelles ainda os dias da sua victoria nem os seus meios de
+persuasão. Por isso com o ultimo suspiro de D. José I baqueou não só o
+poder, mas subverteram-se em grande parte até as idéas representadas
+pelo marquez de Pombal.
+
+
+II
+
+ Um gabinete quasi todo composto de aulicos, sujeito ao voto do
+ confessor valido substituiu o mando odiado do marquez... pag. 24.
+
+A rainha D. Maria I contava, quando subiu ao throno, quarenta e tres
+annos de edade. Nascida e educada para reinar houve um momento, em que
+seu pae, segundo se affirma, concebeu a idéa de proclamar a lei salica,
+cingindo a corôa na fronte juvenil do principe D. José. Acclamada em 13
+de maio de 1777 com D. Pedro III, esposo e tio, o primeiro acto do seu
+governo foi um acto de clemencia. Mandou abrir as prisões e soltar os
+presos d'Estado. Chamou dos longos desterros, em que jaziam, a muitos
+varões respeitaveis pelos annos, pelo caracter, e pela jerarchia. Menos
+feliz do que Richelieu e Colbert o marquez de Pombal assistiu vivo ás
+exequias do seu poder e á demolição da sua obra.
+
+Demittido dos principaes empregos exercidos por largo tempo, teve o
+marquez por successores na presidencia do real erario o marquez de
+Angeja, cuja lealdade D. José I attestára espontaneamente recolhendo-se
+a sua casa na fatal noite de 3 de setembro de 1778; na secretaria
+d'Estado dos negocios do reino, o visconde de Villa Nova da Cerveira; na
+dos negocios estrangeiros e da guerra Ayres de Sá; e na repartição da
+marinha e ultramar Martinho de Mello e Castro.
+
+Estes cavalheiros não eram homens obscuros, ou ineptos, mas qualquer
+d'elles estava longe da vigorosa iniciativa de Sebastião José de
+Carvalho, e todos juntos confundiam e atavam, mais do que desenredavam e
+esclareciam, as resoluções.
+
+A consciencia timida da rainha, o genio apoucado de seu marido, as
+insinuações hypocritas dos beatos, que se apoderaram logo de todas as
+avenidas do paço e começaram a influir na direcção dos negocios, não
+concorreram pouco para tornar o novo reinado uma quasi restauração de
+tudo quanto o marquez de Pombal intentára destruir, ou modificar.
+
+Combatida de escrupulos suggeridos por falsos devotos a rasão da rainha
+principiou logo a vacillar, e á prudencia e caracter limpo de allusões
+do seu confessor o arcebispo de Thessalonica, D. Fr. Ignacio de S.
+Caetano, é que ella deveu não se afogar mais cedo nas trevas da
+demencia.
+
+O governo de D. Maria I não foi, comtudo, um governo absolutamente
+estacionario e inimigo de reformas. Se o risco das grandes cousas
+traçadas pelo marquez de Pombal assustava a capacidade menos elevada dos
+ministros, que lhe succederam, todos elles ao menos manifestaram bons
+desejos e rectas intenções, seguindo, ainda que muito de longe, o
+espirito moderno, que alvorecia em França, e cujos clarões ainda se não
+haviam convertido nos relampagos deslumbrantes, que precederam a
+revolução de 1789; ou nas tempestades medonhas, que revelaram as
+subversões de 1792 e 1793.
+
+Modesto nas idéas e nos commettimentos, o gabinete da rainha creou a
+junta do codigo civil, cujos trabalhos nunca viram a luz da estampa;
+fundou a Academia Real das sciencias; estabeleceu os estudos de
+primeiras lettras e humanidades nos claustros das corporações regulares;
+instituiu a casa Pia para asylo das creanças orphãs; dotou as aulas de
+Fortificação e a Academia de Marinha; e decretou novas estradas e meios
+de as executar sob a direcção de José Diogo de Mascarenhas Netto.
+
+A entrada de D. Rodrigo de Sousa Coutinho no ministerio em principios de
+1797, por morte de Martinho de Mello, introduziu na administração um
+elemento activo, emprehendedor, e dedicado por indole e tendencias a
+arriscar planos mais vastos e mais altos muitas vezes, do que o
+consentiam as circumstancias e as forças debilitadas da monarchia.
+
+
+III
+
+ Os tres sujeitos eram nada menos, do que tres delegados do
+ _conselho conservador de Lisboa_, associação composta de patriotas
+ dedicados á restauração da independencia, etc., pag. 88.
+
+A existencia d'esta sociedade secreta politica não é uma invenção. Saiu
+á luz dos prelos da imprensa regia um opusculo de 24 paginas de 8^o, com
+a seguinte denominação _Catalogo por copia extrahido do original das
+sessões e actas feitas pela sociedade de portuguezes, dirigida por um
+conselho intitulado CONSELHO CONSERVADOR DE LISBOA, e installada n'esta
+mesma cidade em 5 de fevereiro de 1808; tendo se unido os installadores
+em 21 de janeiro do mesmo anno para tractar da restauração da patria_.
+
+O conselho fundou-se em 5 de fevereiro de 1808 com seis socios que eram:
+G... Matheus Augusto, José Maximo Pinto da Fonseca Rangel, José Carlos
+de Figueiredo, Antonio Gonçalves Pereira, André da Ponte do Quental da
+Camara; José Maximo da Fonseca foi nomeado secretario. O local das
+reuniões decidiu-se que fosse alternadamente a casa de cada um dos
+adeptos. A hora das conferencias ás 8 da noite.
+
+A formula do juramento adoptada era esta: «Na nossa presença, oh
+immenso, Sempiterno, Omnipotente Deus, creador do Universo, estando em
+nosso accordo, sem constrangimento, ou duvida, livres e deliberados
+jurámos tractar de hoje em deante com todo o possivel disvelo, fervor,
+prudencia, e firmeza a causa nobilissima da religião da patria e do
+throno applicando para isso nossas forças, talentos, bens e vida até
+conseguirmos entregar este a seu dono o PRINCIPE REGENTE e áquelles o
+esplendor, a liberdade, a gloria. Este juramento seja para sempre o
+fundamento da nossa honra e da nossa felicidade, que chame sobre nós a
+benção divina e os applausos da nossa posteridade: a violação d'elle,
+pelo contrario, attrairá sobre nós as maldições do céu e da terra; a
+vileza para nós e para os nossos descendentes.»
+
+Na setima sessão prestaram este juramento um pouco theatral o coronel de
+cavallaria Alvaro Xavier de Povoas e Fernando Romão da Costa Athaide
+Teive. D'ahi em deante cresceu todos os dias o numero dos socios e
+associados. Na sessão de 25.^o constituiu-se o _conselho conservador_ á
+pluralidade de votos e ficou composto dos seguintes deputados e
+adjuntos: o bispo de Malaca D. Francisco, o D. abbade de Belem fr.
+Manuel de Mesquita, o arcediago do Funchal Manuel Joaquim de Sousa, o
+beneficiado Joaquim José da Costa, o marquez de Angeja D. João, o conde
+de Rio Maior, o visconde da Bahia, o desembargador Sebastião José de
+Sampaio, o brigadeiro Antonio Marcelino da Victoria, os coroneis Lemos,
+Lacerda, e Raposo, o tenente coronel Costa Athaide, o major Antonio
+Marcelino Soares, e todos os mais socios approvados e admittidos. João
+Carlos de Saldanha Oliveira e Daun, hoje duque de Saldanha, entrou
+tambem no conselho inscripto sob numero 27. Consta da relação publicada
+a pag. 87 do opusculo.
+
+O conselho desde 5 de fevereiro até ao 1.^o de outubro de 1808, em que
+se dissolveu, celebrou quarenta e duas sessões. O numero dos socios
+ajuramentados subia a 183. O dos auxiliares abonados por varios d'elles
+elevava-se a 959, além do concurso de tropa e povo, com que contava para
+o caso de um rompimento.
+
+Os planos de sublevação, as proclamações, os avisos ao almirante inglez
+sir Charles Cotton, e os projectos da sociedade não corriam tão secretos
+como elle imaginava.
+
+A policia franceza suspeitava, pelo menos, se não conhecia plenamente a
+organização d'este nucleo; porém não julgou prudente proceder contra
+elle, temendo-se talvez mais de um processo ruidoso em circumstancias
+criticas, do que dos tramas pouco bellicosos e activos dos
+conspiradores. É o que se deprehende de um trecho da _Historia da Guerra
+da Peninsula_ do general Foy.
+
+
+IV
+
+ Muitos homens illustrados, que o grandioso espectaculo dos
+ acontecimentos advertia, suspiravam por uma renovação, que nunca
+ podia ser inspirada, bem o sabiam por experiencia, nem pelas idéas,
+ nem pela iniciativa de um governo caduco pag. 101.
+
+Allude-se no texto ao plano de uma constituição similhante á que
+Napoleão I concedêra ao grão-ducado de Varsovia, plano concebido,
+segundo affirma o general Foy, no liv. II da sua _Histoire de la Guerre
+de la Peninsule_, por alguns patriotas portuguezes, desejosos de
+colherem ao menos da intrusão estrangeira os beneficios da liberdade.
+
+O general Foy cita como auctores principaes do plano o desembargador
+Francisco Duarte Coelho, o doutor Ricardo Raymundo Nogueira, reitor do
+Collegio dos Nobres, e o conego Simão de Cordes Brandão, lente de
+direito natural e das gentes na Universidade de Coimbra, e insere nas
+provas sob a lettra _J_ o projecto de codigo politico, que então se
+queria pedir a Bonaparte. (Tomo II, edição de Paris pag. 38 e seguintes
+e pag. 469 e seguintes).
+
+José Acurcio das Neves (_Historia da Invasão dos Francezes em Portugal_
+tomo II) transcreve egualmente o documento, porém não diz claramente a
+quem elle deve ser attribuido; mas o auctor da _Historia de El-Rei D.
+João VI_, vertida em portuguez (Lisboa typographia Patriotica 1838 a
+pag. 189-191), depois de nos dar tambem o projecto, accrescenta, que
+esta mensagem fôra dirigida pelo doutor Gregorio José de Seixas de
+accordo com muitas pessoas distinctas por engenho e representação.
+Entretanto o padre José Agostinho de Macedo, como nota o sr. Innocencio
+Francisco da Silva no tomo VII do seu _Diccionario Biliographico_ pag.
+276, accusou em mais de um logar de suas obras a Simão de Cordes,
+lançando-lhe em rosto o haver sido um dos que no fim do seculo passado
+maior impulso tentáram dar á maçonaria em Portugal, e principalmente em
+Coimbra, aonde chegára a organizar algumas lojas.
+
+O bispo de Vizeu no _Elogio Historico_ fórma juizo absolutamente opposto
+do procedimento e doutrinas de Simão de Cordes.
+
+Sejam, porém, as que aponta o general Foy, ou outros auctores, o
+projecto de constituição redigiu-se e corre hoje impresso. Restava o
+mais difficil. Era necessario achar pessoa auctorizada, que se decidisse
+a apresental-o. Acceitou a missão arriscada o juiz do povo, que era
+então um tanoeiro chamado José de Abreu Campos, notavel pela firmeza e
+integridade. Mais de um lance de nobre ousadia confirma esta opinião
+formada com justiça ácerca do seu caracter.
+
+Quando o conde da Ega foi incumbido por Junot de aggregar aos membros da
+_Junta dos Tres Estados_ os representantes denominados dos braços da
+nação para lhes extorquir em simulacro de côrtes um voto de adhesão, o
+juiz do povo protestou contra os actos da assembléa, como illegaes e
+emanados de corpo incompetente. Quando as quinas foram picadas e
+substituidas pela aguia corsa, Abreu Campos negou-se a apagal-as da
+cabeça da sua vara.
+
+O juiz do povo correspondeu ás esperanças depositadas n'elle. Intimado
+para assignar com o clero e a nobreza, em nome do povo, a mensagem de 24
+de maio de 1808 (provas de _l'Histoire de la guerre de la Peninsule_,
+par le general Foy. Paris 1827, tom. II, pags. 467-469) o honrado
+tanoeiro, protestando contra o acto por nullo e abjecto, e contra os que
+o practicavam por incompetentes, apresentou o projecto de constituição
+composto em fórma de petição dirigida ao imperador, e appellou para o
+voto do paiz representado em côrtes.
+
+Esta voz isenta proclamando a emancipação politica offendeu os ouvidos
+do duque de Abrantes. O juiz do povo, chamado ao quartel general, foi
+asperamente reprehendido, e varias pessoas, suspeitas de liberaes,
+mandadas sair de Lisboa.
+
+Prevaleceu assim a mensagem servil dictada á simulada junta da nação.
+José Sebastião de Saldanha partiu encarregado de a apresentar a Napoleão
+I. Achando, porém, já interceptadas as communicações da Hespanha com a
+França, recolheu a Lisboa sem ter podido passar adeante da cidade
+Rodrigo.
+
+
+V
+
+ Deixemos passar esses vultos, que pisam os sobrados nas pontas dos
+ pés, escorregando quasi como sombras. São rodas secundarias da
+ machina, pag. 111 e 112.
+
+O general Junot, intitulando-se nos seus actos governador de Paris,
+primeiro ajudante de campo de S. M. o imperador e rei, e general em
+chefe do exercito invasor, compôz desde principio e da maneira seguinte
+o pessoal do governo em Lisboa:
+
+Por decreto datado de Lisboa no 1.^o de dezembro de 1807, nomeou
+Francisco Antonio Herman commissario do governo francez junto do
+conselho do reino de Portugal, o qual lhe daria conta de todas as suas
+deliberações, podendo assistir a ellas, querendo, e assignar as actas.
+Por decreto de 3 de dezembro, do mesmo anno foi Herman incumbido tambem
+da administração geral da fazenda. Em 8 de dezembro foi encarregado o
+general Laborde do commando superior de Lisboa e o conde de Novion do
+commando das armas da cidade. O marquez de Alorna recebeu a nomeação de
+inspector geral e commandante das tropas nas provincias de Traz
+os-Montes, Beira e Extremadura (22 de dezembro de 1807).
+
+J. J. Magendie já exercia as funcções de commandante em chefe da marinha
+em 1 de março de 1808, como consta de um aviso seu aos officiaes da
+arma, e aos empregados do porto de Lisboa, expedido n'essa data. P.
+Lagarde foi nomeado intendente geral da policia do reino em 25 de março
+de 1808, por decreto de Junot, referendado pelo secretario de Estado dos
+negocios do interior e da fazenda, Francisco Antonio Herman. Por
+decretos da mesma data nomeou Junot corregedor-mór da Extremadura a mr.
+Pepin Bellisle, auditor do conselho de Estado, da provincia do Alemtejo
+a mr. Lafond, e da provincia de entre Douro e Minho a Taboureau, ambos
+tambem auditores do conselho de Estado. Quintella foi feito
+corregedor-mór da Beira.
+
+O decreto, que approvou as instrucções dictadas a estes novos
+magistrados, sahiu com a data de 2 de abril de 1808. Por decreto de 16
+de abril do mesmo anno foi Lagarde nomeado conselheiro do governo para
+assistir ás sessões do conselho. A 16 de abril já o general Junot havia
+recebido de Napoleão o titulo de duque de Abrantes.
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+A Camillo Castello Branco 5
+I--Uma noite desabrida 7
+II--O moinho da Raposa 15
+III--Duas paginas da historia d'este seculo 21
+IV--O bem soa, o mal voa 32
+V--Não ha atalho sem trabalho 43
+VI--Ressurreição de Lazaro 55
+VII--Segredos em toda a parte 67
+VIII--Entre os bastidores 83
+IX--Que talvez podesse servir de prologo 100
+X--Tolda-se o tempo 111
+XI--Achilles e Nestor 127
+XII--Arcades ambo! 138
+XIII--Dois parentes 147
+XIV--Amor 156
+XV--Cubiça e Nobreza 166
+
+
+
+
+UM REINADO TRAGICO
+
+(Complemento da HISTORIA DE PORTUGAL)
+
+Por * * *
+
+Edição Popular e Illustrada
+
+Com grande numero de retratos dos homens contemporaneos, e de gravuras
+representativas dos acontecimentos mais notaveis do reinado de D. Carlos
+
+Attendendo a instantes pedidos de muitos dos assignantes da nossa
+*Historia de Portugal*, resolveu esta Empreza publicar um novo livro
+que, embora seja como que o complemento d'aquella--e por isso
+absolutamente egual em formato, papel, etc.--será no emtanto
+completamente independente dos anteriores volumes, e no qual, sob o
+titulo de *Um Reinado Tragico*, se fará a descripção de todos os
+successos politicos que vão desde o _ultimatum_ de 11 de janeiro de 1890
+até aos tragicos acontecimentos de 1 de fevereiro de 1908, que
+determinaram a subida ao throno portuguez do rei D. Manuel II.
+
+Publicação em fasciculos semanaes de 16 paginas, in-4.^o grande, ao
+preço de
+
+60 RÉIS
+
+ou a tomos mensaes de 5 fasciculos, ao preço de
+
+300 RÉIS
+
+
+
+
+FLOS SANCTORUM
+
+Vida de todos, os santos e martyres do Christianismo
+
+SEGUINDO, DIA A DIA, A ORDEM DA SUA COMMEMORAÇÃO PELA EGREJA
+
+Trabalho de compilação e de synthese, feito sobre os mais modernos e
+conscienciosos estudos
+
+PELO
+
+Rev. Dr. SANTOS FARINHA
+
+Bacharel formado em theologia pela Universidade de Coimbra e parocho
+collado da freguezia de Santa Izabel, de Lisboa
+
+Illustrado com centenares de gravuras
+
+Cada fasciculo semanal de 2 folhas de 8 paginas cada, in-4.^o grande,
+contendo pelo menos 2 gravuras,
+
+60--REIS--60
+
+Cada tomo mensal de 5 fasciculos, ou 80 pag., grande formato, contendo
+numerosas gravuras,
+
+300--REIS--300
+
+DIRIGIR OS PEDIDOS Á
+
+EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
+
+SOCIEDADE EDITORA
+
+Livraria Moderna--Rua Augusta, 95, Lisboa
+
+TYPOGRAPHIA--45, RUA IVENS, 47
+
+
+Notas:
+
+[1] Eram pannos lavrados, ou lisos, que vestiam as paredes. Tambem se
+usavam de couro.
+
+Lista de erros corrigidos
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+
+ +----------+------------------+-------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+------------------+-------------------+
+ |#pág. 15 | hombos | hombros |
+ |#pág. 17 | á | é |
+ |#pág. 26 | nosas | nossas |
+ |#pág. 27 | Bonapart | Bonaparte |
+ |#pág. 29 | anino | animo |
+ |#pág. 31 | presa | pressa |
+ |#pág. 33 | ruidasa | ruidosa |
+ |#pág. 33 | costumudo | costumado |
+ |#pág. 44 | cava | cave |
+ |#pág. 53 | do | de |
+ |#pág. 57 | Pedr | Pedro |
+ |#pág. 64 | inop nada | inopinada |
+ |#pág. 68 | quatros | quatro |
+ |#pág. 68 | e | o |
+ |#pág. 78 | acabavaentão | acabava então |
+ |#pág. 79 | da mesmo | do mesmo |
+ |#pág. 84 | naural | natural |
+ |#pág. 108 | noneada | nomeada |
+ |#pág. 110 | setes | sete |
+ |#pág. 122 | os que os | que os |
+ |#pág. 127 | Azevdo | Azevedo |
+ |#pág. 156 | attribindo-a | attribuindo-a |
+ |#pág. 180 | do | dos |
+ |#pág. 185 | segunda | segundo |
+ +----------+------------------+-------------------+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Casa dos Fantasmas - Volume I, by
+Luiz Augusto Rebello da Silva
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CASA DOS FANTASMAS - VOLUME I ***
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+works. See paragraph 1.E below.
+
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
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+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
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+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
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+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+information can be found at the Foundation's web site and official
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+ <title>A Casa dos Fantasmas (Vol. I)</title>
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of A Casa dos Fantasmas - Volume I, by
+Luiz Augusto Rebello da Silva
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Casa dos Fantasmas - Volume I
+ Episodio do Tempo dos Francezes
+
+Author: Luiz Augusto Rebello da Silva
+
+Release Date: May 5, 2008 [EBook #25330]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CASA DOS FANTASMAS - VOLUME I ***
+
+
+
+
+Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
+Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div>
+<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+quantidade de erros tipogr&aacute;ficos existentes neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Maio 2008)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>VOLUMES PUBLICADOS </h2>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">I</td>
+
+ <td style="width: 11px; text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 522px;">R&aacute;usso por
+homiz&iacute;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">II</td>
+
+ <td style="width: 11px; text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 522px;">Odio velho n&atilde;o
+can&ccedil;a (1.&ordm;)</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">III</td>
+
+ <td style="width: 11px; text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 522px;">Odio velho n&atilde;o
+can&ccedil;a (2.&ordm;) </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">IV</td>
+
+ <td style="width: 11px; text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 522px;">A Mocidade de D.
+Jo&atilde;o V (1.&ordm;) </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">V</td>
+
+ <td style="width: 11px; text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 522px;">A Mocidade de D.
+Jo&atilde;o V (2.&ordm;) </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">VI</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>A Mocidade de D. Jo&atilde;o V (3.&ordm;) </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">VII</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>A Mocidade de D. Jo&atilde;o V (4.&ordm;) </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">VIII</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>A Mocidade de D. Jo&atilde;o V (5.&ordm;)</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">IX</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Lagrimas e thesouros (1.&ordm;) </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">X</td>
+
+ <td style="width: 11px; text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 522px;">Lagrimas e thesouros
+(2.&ordm;) </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">XI</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>A Casa dos Fantasmas (1.&ordm;)</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">XVI</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Othello&#8213;As redeas do governo </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">XVII</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>A mocidade de D. Jo&atilde;o V (drama).</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">XVIII</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>O amor por conquista (comedia)&#8213;O Infante Santo
+(fragmento). </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">XIX</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Fastos da Egreja (1.&ordm;) </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">XX</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Fastos da Egreja (2.&ordm;) </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">XXI</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Fastos da Egreja (3.&ordm;) </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">XXII</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Fastos da Egreja (4.&ordm;)</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox">
+<h4><span class="smallcaps">obras completas de luiz
+augusto rebello da silva</span><span class="smallcaps"><br />
+
+revistas e methodicamente coordenadas</span>
+<br />
+
+</h4>
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 240px;">
+ <hr /></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 41px;">XI</td>
+
+ <td style="width: 240px;">
+ <hr /></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>ROMANCES E NOVELLAS&#8213;V </h3>
+
+<h2>
+A CASA DOS FANTASMAS </h2>
+
+<h4>
+EPISODIO DO TEMPO DOS FRANCEZES </h4>
+
+<br />
+
+<h3>2.&ordf; EDI&Ccedil;&Atilde;O </h3>
+
+<br />
+
+<h3>VOLUME I </h3>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 120px; height: 164px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<h4>
+LISBOA<br />
+
+<span class="smallcaps">Empreza da Historia de Portugal</span><br />
+
+<em>Sociedade editora</em></h4>
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; font-weight: bold; width: 265px;">LIVRARIA
+MODERNA<br />
+
+ <em>R. Augusta, 95</em></td>
+
+ <td style="width: 2px; text-align: center;">|<br />
+
+|</td>
+
+ <td style="font-weight: bold; width: 264px;">TYPOGRAPHIA<br />
+
+ <em>45, R. Ivens, 47</em></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<h4>1908</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2><a name="c0"></a>A CAMILLO CASTELLO BRANCO
+</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Seja-me licito, amigo, dedicar-lhe este esbo&ccedil;o informe,
+fructo de algumas horas de ocio. Quem melhor, do que o auctor de tantas
+composi&ccedil;&otilde;es profundas na
+interpreta&ccedil;&atilde;o da vida, admiraveis na pintura do
+cora&ccedil;&atilde;o e dos costumes contemporaneos,
+poder&aacute; desculpar o muito, que falta n'este quadro para sair
+menos imperfeito, e ao mesmo tempo apreciar em um, ou outro
+tra&ccedil;o, os bons desejos e os esfor&ccedil;os do auctor? <br />
+
+<br />
+
+A epocha, que escolhi, pedia pincel mais fino, e tintas mais vivas.
+Tentei vencer-me, e desenhal-a. Sei que fiquei mui inferior ao ideal,
+que tinha concebido, e receio mesmo, que o enfado dos leitores castigue
+a ousadia do commettimento. Espero, que o seu nome applaudido sirva de
+escudo e de defensor ao modesto livro, de que elle vae ser o maior
+ornamento. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o o consultei para lhe offerecer este testemunho
+<span class="pagenum">[6]</span>
+da minha antiga e sincera amisade. Adivinhei
+a resposta, e ahi entrego em suas m&atilde;os mais este
+orph&atilde;o, que sae a correr o mundo. Deus lhe conceda a sorte
+propicia, que elle n&atilde;o merece, mas que &aacute;s vezes
+uma boa sina proporciona mesmo aos menos dignos. <br />
+
+<br />
+
+<div class="intro1">Lisboa, 22 de Janeiro de 1865</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Luiz Augusto Rebello da
+Silva.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>A CASA DOS FANTASMAS </h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c1"></a>I </h3>
+
+<h3><br />
+
+Uma noite desabrida </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Era de tarde. Tinham dado cinco horas, e o dia declinava rapidamente. O
+mez de maio do anno 1808, anno assignalado de successos estrondosos na
+peninsula, acabava, como tinha corrido quasi todo, entre diluvios de
+chuva e ventanias. A noite, cujos primeiros veus j&aacute;
+come&ccedil;avam a cobrir as terras baixas, em quanto os
+derradeiros raios do sol esmoreciam na cor&ocirc;a dos outeiros,
+avisinhava-se, toldada de castellos de nuvens, que surgiam do sul,
+listrando o horizonte de barras cinzentas, rasgadas de
+espa&ccedil;o em espa&ccedil;o pelos clar&otilde;es dos
+relampagos. <br />
+
+<br />
+
+O ar estava tepido, ou antes quente, e todos os ruidos se iam calando
+uns ap&oacute;s outros. A immobilidade das aguas, que
+n&atilde;o arrugava o mais leve sopro; a das arvores, cujas copas
+pareciam petrificadas; e as sombras, que avultavam mais pesadas de
+instante para instante, revestiam a paizagem de um aspecto gelido. Uma
+lufada de vento, halito abrazado da tormenta, passava solta por cima
+dos campos,
+<span class="pagenum">[8]</span>
+acamando as hervas altas,
+destoucando os arbustos, e saccudindo as ramas das oliveiras, dos
+alamos, e das faias, e ia morrer distante no roncar soturno e rouco dos
+trov&otilde;es. Algumas gotas, raras e grossas, caiam
+ent&atilde;o, e a luz, offuscada por mais espessos vapores,
+sumia-se de subito para reviver depois, mas timida e desmaiada, sem
+alegria e sem calor. As aves fugiam, cruzando-se e pipitando; a
+solid&atilde;o quasi que n&atilde;o tinha echos; e um silencio
+lugubre precedia a grande voz da tempestade, que ia principiar dentro
+em pouco. <br />
+
+<br />
+
+Apezar das amea&ccedil;as da atmosphera, um viajante trocando o
+conchego de povoa&ccedil;&atilde;o commoda pelas inclemencias
+do tempo, tinha-se despedido da hospitaleira casa, aonde
+jant&aacute;ra, e mettendo o p&eacute; no estribo de pau, e
+apertando as dobras da manta ribatejana, sem escutar os conselhos e
+vaticinios amigaveis, estimulava a mula com as largas rosetas da
+classica espora de correia, obrigando-a a espertar o passo por entre os
+vi&ccedil;osos pampanos, hoje gloria e gala da nobre villa do
+Cartaxo. <br />
+
+<br />
+
+Em breve deixou atraz de si as vinhas, que, a esse tempo, (cultura
+nascente) apenas verdejavam em uma pequena parte do terreno, que se
+carrega agora de seus cachos, e achando-se em plena charneca, extendeu
+os olhos pela bella e vasta planicie, desatada por algumas leguas de
+ermo, n&atilde;o triste, nem agreste, mas tocado de risonha
+suavidade, e rodeado de longes t&atilde;o puros e desafogados, que
+a alma se consola e refrigera de extender por elle os olhos. <br />
+
+<br />
+
+O aroma alpestre das plantas; aquelle p&ocirc;r do sol entre
+nuvens; os lamentos da procella ao sul; e o vago indeciso de todo o
+quadro compunham um espectaculo de opposi&ccedil;&otilde;es
+t&atilde;o firmes e t&atilde;o bellas, que o viajante, quasi
+sem o querer, se deixou arrebatar por elle, e
+<span class="pagenum">[9]</span>
+insensivelmente foi imbebendo a vista nas formosuras
+rusticas, que de todos os lados o convidavam. Suas
+fei&ccedil;&otilde;es, de uma gentileza viril e sympathica,
+n&atilde;o inculcavam tedio ou cansa&ccedil;o, mas impaciencia.
+A elevada estatura n&atilde;o se encurvava sobre os
+ar&ccedil;&otilde;es, e as
+pupillas pretas e cheias de fogo, se a miudo fitavam os trilhos
+enredados com estreitas fitas sobre o verde sombrio da charneca,
+denunciavam mais receio de chegar tarde a um ponto dado, do que temor
+de se ver assaltado pelo temporal no meio da jornada. <br />
+
+<br />
+
+A mula, que algumas horas de repouso tinham refrescado, como se
+adivinhasse os desejos do amo, despejava o passo, e o caminho; mas a
+noite e a cerra&ccedil;&atilde;o ainda corriam mais.
+&Aacute; claridade ba&ccedil;a do crepusculo seguiram-se as
+trevas; o c&eacute;u forrou-se todo de negro; e os primeiros
+furac&otilde;es bramiram acompanhados de um trov&atilde;o
+proximo. A chuva principiava a fustigar de rajadas fortes o rosto do
+viajante, e a cegar-lhe a estrada inundada dos dias anteriores, e
+arrombada em diversas partes. A mula, apezar de afouta e vigorosa,
+atolava-se, trope&ccedil;ando a miudo. Na ponte da Asseca, a
+varzea, que ella corta, parecia um immenso paul, cujas aguas a cheia
+despenhada dos altos empolava com sussurros, que, unidos aos silvos do
+vento e aos ribombos da trovoada, enchiam de horror e de estrepito
+aquella scena, t&atilde;o repassada de grandeza e de magestade. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; esquerda os olivaes pendurados dos montes, que se
+encandeiam at&eacute; Santarem, estorciam-se com o vendaval.
+&Aacute; direita os choupos e os freixos, na beira dos vallados,
+vergavam tremulos e desgrenhados como se m&atilde;o gigante os
+dobrasse. O caminho parecia um mar, e os clar&otilde;es, em que os
+c&eacute;us pareciam abrir-se, golfavam d
+&Aacute; esquerda os olivaes pendurados dos montes, que se
+encandeiam at&eacute; Santarem, estorciam-se com o vendaval.
+&Aacute; direita os choupos e os freixos, na beira dos vallados,
+vergavam tremulos e desgrenhados como se m&atilde;o gigante os
+dobrasse. O caminho parecia um mar, e os clar&otilde;es, em que os
+c&eacute;us pareciam abrir-se, golfavam de repente o seu fulgor
+sinistro sobre este painel, que o tenebroso manto
+<span class="pagenum">[10]</span>
+da procella tornava logo depois a esconder. <br />
+
+<br />
+
+Atravessando a ponte, por onde enxurrava quasi uma torrente, o viajante
+procurou orientar-se. Ajudou-o uma luz ao longe. Seguindo por ella, no
+fim de dez minutos encontrou-se junto do vulto massi&ccedil;o de um
+palacio arruinado, solitariamente erguido no meio das terras, e olhando
+quasi como sentinella esquecida para um angulo da estrada. Em uma das
+seis janellas sem caixilhos da fachada, atrav&eacute;s das fendas
+das portas de dentro, ou antes das t&aacute;buas de forro pregadas
+em logar de vidros, brilhava a luz que lhe servira de norte, e pelas
+gretas mal juntas das frestas do andar terreo luzia o clar&atilde;o
+de um grande brazeiro talvez acceso na cozinha. Applicando o ouvido
+sentiam-se estalar no lume os troncos humidos, e escutava-se o meio
+alarido de algumas vozes e risadas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! exclamou o cavalleiro, detendo a mula, e derrubando sobre a cara
+por um gesto machinal as largas abas do chap&eacute;u de Braga,
+quebradas pela chuva. Gente na casa Negra! Quem?!... <br />
+
+<br />
+
+Depois de breves momentos pareceu tomar uma
+resolu&ccedil;&atilde;o, e a passo, chapinhando na agua, como
+se passasse um ribeiro, desviou-se, atravessou para o outro lado, e
+cozido com o monte subiu por vereda ingreme at&eacute; um alto a
+tres ou quatro tiros de espingarda de distancia. Pelos corregos, a uma
+e outra parte, estrepitavam verdadeiros riachos saltando pelas pedras,
+e um relampago, fuzilando e extendendo como um len&ccedil;ol de
+fogo por cima das trevas, descubriu-lhe repentinamente a casinha
+caiada, de dois sobrados, tecto esguio, e duas janellinhas, que
+buscava. Cercava-a um muro baixo de pedras soltas. O ruido monotono de
+uma roda, e a queda de uma especie de cascata, sobrepujando o
+esparralhar da chuva,
+<span class="pagenum">[11]</span>
+e os gemidos
+do vento mostraram-lhe que estava na azenha de cima, ou no moinho da
+<em>Raposa</em>, como diziam os visinhos dos
+arredores. <br />
+
+<br />
+
+Sem se apeiar, o viajante bateu com o conto ferrado do cajado de
+marmeleiro por duas vezes tres pancadas na porta, e esperou.
+N&atilde;o foi necessario mais. Os latidos feros de um
+c&atilde;o de guarda, e logo depois vagarosos passos descendo a
+escada, advertiram-o de que f&ocirc;ra ouvido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, de dentro! bradou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem bate?! perguntou uma voz cheia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esse eu quem &eacute;?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abre!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o!... Ao mesmo tempo o ouvido fino do recem-chegado
+percebeu o leve tinir dos fechos de uma espingarda a engatilhar-se. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Antonio! Pelo rei e pela patria!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah?! Agora &eacute; outro cantar. L&aacute; vou. <br />
+
+<br />
+
+E calando o c&atilde;o, que pulava, ladrando e rosnando como
+furioso, desencostou a tranca, tirou o ferrolho, e a chave rangeu duas
+voltas na fechadura. Abriu-se finalmente a porta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o quem &eacute;? repetiu a mesma voz, em quanto a
+cabe&ccedil;a se arriscava f&oacute;ra no escuro, sem a
+m&atilde;o largar a espingarda. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Manuel Coutinho. Conheces-me agora? redarguiu o hospede, apeiando-se,
+e expremendo do chap&eacute;u a agua a escorrer em bica, e
+saccudindo a manta, que n&atilde;o estava menos ensopada.&#8213;Que
+diluvio! murmurava por entre dentes ao mesmo tempo. Se
+contin&uacute;a, nadam &aacute;manh&atilde; os saveis na
+tua horta, Antonio da Cruz! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que se lhe ha de fazer! Como v. s.<sup>a</sup> vem!...
+Bemdito e
+louvado seja
+Deus!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amen! Elle seja comnosco e nos ajude,
+<span class="pagenum">[12]</span>
+que bem o precis&acirc;mos; redarguiu o
+mancebo, porque o seu rosto moreno, mas fresco, e o cabello preto
+n&atilde;o inculcavam mais de vinte e quatro a vinte e cinco annos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cuidei que me recebias a tiro! disse rindo, e mostrando duas fiadas
+de dentes finos, alvos, e eguaes, que uma dama franceza lhe invejaria
+para ornar um sorriso galanteador. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem v&ecirc; a noite?!... Depois a gente n&atilde;o sabe quem
+lhe quer mal, e uma bala depressa entra... C&aacute; me entendo!...
+D'ahi n&atilde;o esperava j&aacute; por v. s.<sup>a</sup>!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me esperavas?... mas eu tinha dito!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, que disse. Mas choviam raios e coriscos e
+sempre cuidei que se deixasse l&aacute; ficar em baixo.
+D&ecirc;-me a redea da mulinha. Ent&atilde;o n&atilde;o
+sahiu como se queria? Foi um ovo por um real. Entre v. s.<sup>a</sup>
+e
+enxugue-se. Vou c&aacute; &aacute; nossa arribana, com sua
+licen&ccedil;a, arranjar a Ligeira, e &eacute; um ai em quanto
+volto a accender-lhe o lume... Jesus! Santo Nome de Maria! Os
+relampagos cegam. Parece que nos cae o c&eacute;u esta noite na
+cabe&ccedil;a com a bulha l&aacute; de cima! <br />
+
+<br />
+
+Manuel Coutinho entrou. O interior da casa, muito seu conhecido, era de
+apparencia singela e rustica. Suspensa do gancho preso em uma das vigas
+do tecto a candeia allumiava-a escassamente, apezar de pequena. No meio
+da parede do fundo rasgava-se a chamin&eacute; baixa e ladrilhada.
+&Aacute; direita uma arca de pinho alta, sem fechadura, tinha em
+cima um cobert&ocirc;r de papa, e sobre elle enroscado com uma
+fisga aberta &aacute; vigilancia em cada olho, o gato preto do
+moinho, t&atilde;o absorvido na sua beatitude extatica, e na sua
+pachorrenta immobilidade, que os latidos do c&atilde;o amigo e
+alliado domestico, e as vozes do dono, nem um movimento lhe tinham
+podido arrancar! &Aacute; esquerda a barra de pinho pintado tremia
+sobre <span class="pagenum">[13]</span>
+tres p&eacute;s validos. Na
+cabeceira um devoto registo do milagre da Senhora da Nazareth
+correspondia a outro do glorioso confessor Santo Antonio, pregado na
+parede com obreias. A manta sobre o enxerg&atilde;o e duas pelles
+de carneiro compunham a roupa d'este catre de cenobita. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; direita, em todo o comprimento da casa, viam-se empilhados
+muitos sacos de trigo destinados &aacute; m&oacute; alveira da
+azenha. Os de milho jaziam mais adeante em pilhas. A fina
+fl&ocirc;r da farinha escapando-se pelas aberturas revoava ao menor
+abalo, polvilhando tudo em roda. Por cima de algumas pelles de lebre e
+de coelho, extendidas a seccar na parede, pendiam o polvorinho de
+chifre com o fundo, ou rodella de pau, e a bolsa de couro, ou
+chumbeiro, attestado de muni&ccedil;&atilde;o e pederneiras. Em
+um armario, vasado no muro, e resguardado com sua cortina de riscado
+azul, luziam, como prata, pelo aceio, a chaleira e a almotolia de lata,
+e acastellavam-se duas rumas de pratos. Dos lados, sumptuosidade
+rara (!), duas ca&ccedil;arolas de folha de Flandres e cabos de
+ferro acompanhavam a baixella de lou&ccedil;a. Em uma prateleira
+por cima da chamin&eacute; a caixa da isca e alguns tachos e
+frigideiras de barro esperavam a hora de serem chamados a
+servi&ccedil;o activo. <br />
+
+<br />
+
+Uma escada empinada, de degr&aacute;us toscos, verdadeiro
+quebra-costas, subia de um dos angulos para o andar de cima, aonde um
+al&ccedil;ap&atilde;o erguido e quadrado abria as fauces, como
+se quizesse engulir os que entrassem. Era ahi a
+labuta&ccedil;&atilde;o principal do moinho. As
+m&oacute;s, rodando e zoando, ensurdeciam casadas no ruido
+somnolento com a queda da levada, que por uma longa calha de pau descia
+da preza a ferir a roda, e d'esta, saltando em cach&otilde;es dos
+baldes, ia espadanar no canal, d'onde fugia
+<span class="pagenum">[14]</span>
+ainda espumante a regar as hortas e as terras
+dos visinhos. <br />
+
+<br />
+
+Dois mochos de cerejeira brava, e uma poltrona de couro, roto e
+cossado, rodeavam no sobrado de baixo uma velha mesa de pau, collocada
+no meio do aposento por baixo da candeia de dois bicos. No meio d'ella
+um cangir&atilde;o de aza larga, bojudo e vidrado, com sua tampa de
+corti&ccedil;a guardava a agua-p&eacute;. Um copo de canada,
+limpo como crystal, um prato sobre toalha alva, meia broa de milho com
+um garfo de cabo de pau ao lado, e uma frigideira de sardinhas fritas
+annunciavam que a ceia do moleiro &iacute;a come&ccedil;ar,
+quando
+f&ocirc;ra chamado. A navalha de mola e de ponta, um r&ocirc;lo
+de tabaco de picar, e algumas aparas d'elle, assim como duas capas de
+papel de cigarros, estavam dizendo tambem o que elle fazia pouco antes
+da visita inopinada lhe bater &aacute; porta. <br />
+
+<br />
+
+Vejamos agora que raz&atilde;o de estado attrahia o mancebo a tal
+hora e por um tempo similhante &aacute;quella casa, e o que se
+passou alli n'esta noite fecunda em incidentes para os personagens, que
+temos de metter em scena. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c2"></a>II </h3>
+
+<h3><br />
+
+O moinho da Raposa </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo approximou-se da mesa, picou do r&ocirc;lo uma
+por&ccedil;&atilde;o pequena, enrolou o
+cigaro entre os dedos, e, depois de o accender &aacute; luz da
+candeia, assentou-se em um dos mochos, com os cotovellos fincados na
+t&aacute;bua, e o rosto entre as m&atilde;os, n&atilde;o
+sem primeiro ter tirado do cinto um par de pistolas inglezas e uma faca
+de matto hespanhola, encubertas com as compridas abas do gabinardo, que
+trajava. <br />
+
+<br />
+
+Antonio da Cruz appareceu instantes depois. <br />
+
+<br />
+
+Era robusto, largo de <a href="#e1">hombros</a> e
+de peitos, mas
+esbelto. Trigueiro, e queimado do sol, as suas
+fei&ccedil;&otilde;es lembravam o typo arabe. Os
+bei&ccedil;os grossos sorriam com franqueza, e, apezar de muito
+rasgada, tinha gra&ccedil;a na b&ocirc;cca, mesmo quando
+descubria os trinta e dois dentes alvos e agudos, como os do felpudo
+molosso, que saltava em volta d'elle. O cabello rente e crespo cortado
+quasi em bico sobre a testa era negro como azeviche. O nariz revirado
+na ponta dava certo chiste &aacute; physionomia; e nos olhos pardos
+e vivos como scentelhas brincava
+<span class="pagenum">[16]</span>
+uma
+express&atilde;o de finura natural e de malicia jovial, que lhe
+ca&igrave;a bem, e logo &aacute; primeira vista o faziam bem
+quisto. <br />
+
+<br />
+
+De mediana estatura, mas proporcionado, era tido por um dos homens mais
+for&ccedil;osos d'aquelles contornos. O seu nome servia de grito da
+guerra nas aldeias contra a brutalidade dos valent&otilde;es de
+arraial. Nas pra&ccedil;as de touros em Villa Franca, em
+Salvaterra, ou na capital nenhum forcado o egualava em apanhar os bois
+de cara, ou de cernelha. A cavallo era um centauro; a p&eacute;
+n&atilde;o tinha par no salto, ou na carreira; em mettendo a
+espingarda ao rosto aonde punha o olho punha a bala. O seu cajado
+manejado por m&atilde;os de mestre varria as feiras, zombando de
+facas e de espadas. <br />
+
+<br />
+
+Sobrio como um anachoreta, presentido e vigilante como um mohicano, o
+seu maior defeito era ser impetuoso e assomado de mais. Em o sangue lhe
+subindo &aacute; cabe&ccedil;a, e em
+principiando a picar-lhe a pelle com pontas de alfinetes, segundo elle
+dizia, cegava-se, corria direito ao perigo, e, sem attender a nada,
+atirava-se a um precipicio. <br />
+
+<br />
+
+Temente a Deus, tinha tanto de bom amigo como de implacavel inimigo.
+Portuguez e patriota extremo, amaldi&ccedil;oava os francezes como
+jacobinos, e chorava de saudade pelo principe regente, D.
+Jo&atilde;o, ao qual s&oacute; vira duas, ou tres vezes, em sua
+vida. Manuel Coutinho affei&ccedil;oou-se a este caracter firme,
+honrado, e decidido. O moinho e a horta pertenciam ao mancebo, e
+Antonio trazia-os de renda. Ligado &aacute;
+conspira&ccedil;&atilde;o, por emquanto quasi
+inoffensiva, urdida em Lisboa contra o governo de Junot,
+conspira&ccedil;&atilde;o que regia o
+<em>conselho</em> denominado
+<em>Conservador</em>, secretamente instituido
+no dia 5 de fevereiro d'aquelle anno para auxiliar a
+restaura&ccedil;&atilde;o do throno legitimo e da
+independencia, Manuel Coutinho confiava
+<span class="pagenum"><a name="p17">[17]</a></span>
+no humilde camponez, e communicava-lhe at&eacute; recados de
+importancia. Executor discreto d'estas miss&otilde;es arriscadas,
+Antonio da Cruz comportava-se sempre com exemplar acerto,
+n&atilde;o s&oacute; enganando o faro da policia de Lagarde,
+cujos espi&otilde;es corriam por toda a parte, mas supportando
+resignado por amor de seu amo (assim lhe chamava), e da boa causa
+desafios e remoques, que em outra occasi&atilde;o seguramente
+custariam caros aos aggressores. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se n&atilde;o &eacute; hoje o fim do mundo, bradou elle
+entrando e saccudindo a agua de cima de si, n&atilde;o sei quando o
+ser&aacute;! Mas o lume em um
+instantinho est&aacute; a arder. A lenha &eacute; secca. Ora,
+diga, meu amo: v. s.<sup>a</sup> traz sua vontadica de
+comer,
+n&atilde;o? Do
+Cartaxo aqui &eacute; um pedacito menos mau... e a chuva e o vento
+cavam c&aacute; por dentro como enxada em nateiro... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. N&atilde;o me fa&ccedil;as nada. Se o
+appetite vier aqui temos de mais. Agora o lume sim. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa <a href="#e2">&eacute;</a> boa. Ha de
+perdoar; n&atilde;o
+senhor. Gra&ccedil;as a Deus o Manuel nunca foi torto, nem
+aleijado, e ainda esta manh&atilde;, antes de almo&ccedil;o,
+n&atilde;o perdeu a polvora e o chumbo. Andavam aquelles fidalgos a
+saltar nas vinhas, e trouxe-os no alforge. Como os quer?... <br />
+
+<br />
+
+E apontava para os dois coelhos mortos e pendurados junto do almario. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Guizo-lh'os de molho de vil&atilde;o n'um abrir e fechar de
+olhos, e depois ha de beber-lhe em cima um, ou dois copos de um
+vinhinho, que me deram, e que fica a gente a chorar por mais... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; te disse. O vinho e os coelhos guarda-os para
+&aacute;manh&atilde;. Agora melhor me sabe este cigarro, do que
+todos os manjares. Accende o lume. Temos que falar. <br />
+
+<br />
+
+O mancebo suspirou como quem se sente opprimido de tristeza, e lucta em
+v&atilde;o por se vencer.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[18]</span>
+O Antonio da Cruz, curvo sobre a caixa da isca, a assoprar a chamma,
+ouvia-o, e percebeu-o, mas calou-se. A mecha pegou, e d'ahi a um
+momento levantava-se da lareira um clar&atilde;o vivo e alegre,
+tingindo de vermelho as paredes e os pobres moveis da casa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem! disse Manuel Coutinho. Isto j&aacute; parece outra cousa!
+Senta-te, e come! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Salvo o respeito, saiba v. s.<sup>a</sup> que
+n&atilde;o tem
+pressa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem. Come e despacha-te. Depois falaremos. &Eacute; preciso sair
+logo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Ent&atilde;o a cousa aperta? Para termos de sa&iacute;r
+por uma noite d'estas!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;P&oacute;de bem ser a ultima da vida de umas poucas de pessoas!
+exclamou o mancebo, pondo-se em p&eacute; agitado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Melhor o ha de fazer Deus, senhor Manuel! redarguiu o moleiro com a
+sua tranquillidade apparente, que illudia os que o conheciam mal. Com
+sua licen&ccedil;a! ajuntou sentando-se &aacute; mesa, e
+rompendo o assalto contra a broa e as sardinhas, regadas de copiosas
+liba&ccedil;&otilde;es de agua-p&eacute;. Os sacos pesam
+seis alqueires, e por aquella escada acima apalpam as costellas.
+&Aacute; saude de v. s.<sup>a</sup>! A minha pena
+&eacute; que
+n&atilde;o quizessse provar dos coelhos e do vinho do convento de
+S. Francisco. Olhe que os padres sabem escolher do fino!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que gente era aquella, que esta noite vi na Casa Negra? perguntou
+Manuel Coutinho, que as proezas gastronomicas de Antonio j&aacute;
+n&atilde;o maravilhavam, porque f&ocirc;ra testemunha d'ellas
+muitas vezes.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Gente na Casa Negra? Na Casa Maldita?!... accudiu com a
+b&ocirc;cca cheia, e estremecendo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim! Vi luz em cima, na terceira janella, e ouvi risadas e vozes no
+andar terreo. N&atilde;o sabes o que ser&aacute;?!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[19]</span> &#8213;O meu padre Santo
+Antonio nos accuda! Cousas do demonio, que desde
+que me entendo &eacute; o unico morador d'aquelle
+casar&atilde;o! Mas v. s.<sup>a</sup> est&aacute;
+bem certo!?...
+Gente a
+estas horas alli! N&atilde;o p&oacute;de ser! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto p&oacute;de, que havia fogo na cosinha, e gente a rir, a
+falar, e a aquecer-se a elle! <br />
+
+<br />
+
+Antonio da Cruz enguliu &aacute; pressa o ultimo boccado, poz
+&aacute; b&ocirc;cca cheio a trasbordar o copo de
+agua-p&eacute;, e pousando-o vasio com um suspiro, tirou o barrete
+e benzeu-se. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe, senhor, creia v. s.<sup>a</sup> o que lhe digo!
+tornou meio
+atalhado.
+Gente d'este mundo n&atilde;o era de certo. Por estes arredores
+n&atilde;o havia quem se atrevesse!... Ah, Jesus, Santo Nome de
+Maria! accrescentou mais pallido. Deram ainda agora, &aacute;
+noitinha, um tiro no Antonio Sim&otilde;es. Dizem que o mataram;
+mas o corpo n&atilde;o appareceu! Querem ver que foi parar a
+alma... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Antonio! accudiu o amo um pouco severo. Alma que vae n&atilde;o
+volta! Isso s&atilde;o medos de crian&ccedil;a. Os hospedes da
+Casa Negra est&atilde;o vivos, como eu, e tu. Agora o que preciso
+saber, e j&aacute;, &eacute; o que s&atilde;o e o que fazem
+alli!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ser&aacute; o sargento Cabrinha, aquelle jacobino! Andou esta
+manh&atilde; pelo sitio com as milicias. S&oacute; se
+f&ocirc;r elle! O maldito ri-se de Deus e do diabo. Ha de
+chegar-lhe a sua vez. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prendeu alguem?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dizem que sim, ahi para os sitios do Casal do Ouro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! exclamou o mancebo. Capaz seria elle? Se fosse quem receio!...
+Ouviste dizer?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um velho e sua filha. Os nomes n&atilde;o m'os souberam dar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem &eacute; preciso! interrompeu Manuel Coutinho em voz
+soffocada, e com os olhos inflammados. O infame Lagarde cumpriu a
+promessa.
+<span class="pagenum">[20]</span>
+Ver&aacute; se a de
+um portuguez lhe fica atraz! Os nomes sei-os eu; dizia-m'os o
+cora&ccedil;&atilde;o antes de aqui entrar. Mas!... <br />
+
+<br />
+
+Conteve-se, e ca&iacute;u em reflex&atilde;o profunda. Antonio
+da Cruz, tambem de p&eacute;, e animado, desde que sabia que
+n&atilde;o era com os demonios, ou com as almas do outro mundo a
+contenda, esperava, olhando para a espingarda, que uma palavra do amo
+lhe pedisse o apoio do seu bra&ccedil;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois de curta pausa, o mancebo, renovadas as escorvas das pistolas,
+e cingida a faca de matto, virou-se para o seu confidente e disse-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Queres saber como se chama o velho, que o sargento arrasta preso a
+Santarem para o entregar &aacute; vingan&ccedil;a dos
+francezes? &Eacute;
+Paulo de Azevedo Carvalho. E sua filha... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A senhora D. Leonor?! A noiva de v. s.<sup>a</sup>!...
+Jesus... Pobre
+menina! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Buscam-o para o processar como rebelde desde o caso de Mafra.
+Tinham-se escondido na Aramanha, e esse vill&atilde;o do sargento
+Cabrinha, por trinta moedas prometteu entregal-o. N&atilde;o o
+achando j&aacute; alli, correu os arredores, e de certo o foi
+encontrar no Casal do Ouro pela denuncia... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Do Sapo! Foi o Sapo, aposto! Por isso o patife andava desde hontem de
+orelha fita e focinho agu&ccedil;ado! S&oacute; ao moinho,
+aqui, veiu duas vezes! Ah! Se eu soubera! Partia-lhe outra perna.
+N&atilde;o importa. O que n&atilde;o se acaba dia de S. Braz
+n'outro dia se faz. N&atilde;o as perde. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Antonio! Paulo de Azevedo n&atilde;o ha de entrar na cadeia da
+villa, nem na de Lisboa. Esta noite a &laquo;Casa Negra&raquo;
+ter&aacute; outra
+historia talvez mais feia que juntar &aacute; sua. Aprompta-te!
+&Aacute; meia noite sa&iacute;mos. P&oacute;des resar por
+alma do sargento, se o encontro!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c3"></a>III </h3>
+
+<h3><br />
+
+Duas paginas da historia d'este seculo </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Antes de proseguirmos, para maior clareza d'esta mui veridica
+narra&ccedil;&atilde;o, cujo fio poderia enredar-se com as
+explica&ccedil;&otilde;es de todos os
+momentos, pedimos venia ao leitor para resumir em breve noticia os
+acontecimentos, que formam o fundo da pintura, ou antes do
+esbo&ccedil;o, que nos propozemos tra&ccedil;ar. <br />
+
+<br />
+
+A revolu&ccedil;&atilde;o franceza, representante das
+for&ccedil;as e interesses da humanidade, herdeira n&atilde;o
+s&oacute; das aspira&ccedil;&otilde;es e
+esperan&ccedil;as, mas tambem das dores e resentimentos de muitos
+seculos, saudada em 1789 com transportes de jubilo, em 1793
+j&aacute; tinha convertido a innocencia do primeiro enthusiasmo nos
+accessos febris de um patriotismo sombrio, dando o espectaculo, novo e
+incrivel, dos maiores crimes a par dos rasgos mais heroicos, e das
+virtudes mais sublimes. <br />
+
+<br />
+
+S&oacute; e contra todos arremessou audaciosamente a luva aos
+adversarios de f&oacute;ra e &aacute;s
+fac&ccedil;&otilde;es internas. Decapitou no cadafalso a
+realeza; repelliu os exercitos da Europa colligada; atravessou
+ap&oacute;s elles as fronteiras inimigas;
+<span class="pagenum">[22]</span>
+suffocou nas provincias insurgidas as saudades e as iras do
+regimen deca&iacute;do; e vigorosa, mesmo ao sa&iacute;r do
+ber&ccedil;o, sobreviveu aos delirios e excessos da anarchia. Nada
+a detinha, nada a assombrava! Admirada de uns, execrada do maior
+numero, mas invencivel, precipitou-se, demolindo tudo no seu impeto,
+at&eacute;, esva&iacute;da do sangue vertido nos patibulos e
+nos campos de batalha, ca&iacute;r por fim, quasi sem alentos, nos
+bra&ccedil;os do mais illustre de seus capit&atilde;es,
+d'aquelle de quem Si&eacute;y&eacute;s diss&eacute;ra com
+persuas&atilde;o prophetica: &laquo;que seria o senhor, porque
+sabia, queria, e podia tudo!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+A ordem restituida por elle, a victoria inseparavel de suas armas, o
+esplendor de tantas ac&ccedil;&otilde;es applaudidas, os
+milagres de uma vontade, a que ainda obedeciam os obstaculos e o
+destino, compozeram essa rara epop&ecirc;a, de que
+Napole&atilde;o I, grande como Cesar, ou maior talvez, foi ao mesmo
+tempo o heroe e o assumpto. <br />
+
+<br />
+
+Guiada pela providencia, a sua m&atilde;o, ao passo que ia lavrando
+nas primeiras paginas da historia d'este seculo as datas memoraveis,
+com que se abriu sua agitada existencia, unia, pesada como a de Attila,
+gloriosa como a de Carlos Magno, &aacute; queda do passado a
+transforma&ccedil;&atilde;o do presente. <br />
+
+<br />
+
+A fortuna muitos annos constante seguiu-o de triumpho em triumpho,
+desde as planicies da Italia, immortalizadas pela sua mocidade,
+at&eacute; aos gelos do norte para os quaes a sorte parecia
+attrahil-o, e aonde o clar&atilde;o de Moscow incendiada havia de
+illuminar depois os funeraes do imperio. <br />
+
+<br />
+
+Marengo, Eylau, Essling, Wagram, e cem esta&ccedil;&otilde;es
+assignaladas pelos prodigios do seu genio, viram a terra gemer abalada
+pelo galope dos esquadr&otilde;es; viram os thronos vacillar,
+<span class="pagenum">[23]</span>
+ou alluirem-se; viram os principios
+n&oacute;vos germinarem gr&aacute;vidos do futuro nos sulcos
+rotos pela inunda&ccedil;&atilde;o, quando a onda vencida
+recolheu ao antigo leito! Abrazada em odio, ou cortada de espanto, a
+Europa contemplava aquella epocha de terremotos e de
+transfigura&ccedil;&otilde;es, sobresaltando-se com os decretos
+da voz soberana, que falava pela b&ocirc;cca de bronze dos
+canh&otilde;es, e inclinando-se serva, mas fremente, na
+presen&ccedil;a das aguias, que passavam e revolviam profundamente
+o mundo das id&eacute;as e o mundo dos factos, desde as bases e os
+limites das monarchias, desde o solo e a familia, at&eacute; ao
+estado physico e social, at&eacute; &aacute;
+organiza&ccedil;&atilde;o politica e economica. <br />
+
+<br />
+
+N'esta lucta de gigantes, a Fran&ccedil;a e a Inglaterra, travadas
+como dois athletas, combatiam sem escolher as armas. Feriam-se sempre e
+em toda a parte! Percebiam que o duello era mortal, e que s&oacute;
+podia terminar pela ruina de uma d'ellas. Aboukir e Trafalgar tinham
+assegurado a supremacia dos mares ao leopardo britannico. A Austria
+impaciente, mas resignada, a Prussia rendida em Jena, a Russia
+desenganada em Austerlitz e Friedland proclamavam a vaidade da liga
+continental. <br />
+
+<br />
+
+Mas Bonaparte, na maior eleva&ccedil;&atilde;o a que
+f&ocirc;ra dado subir, tocado o apogeu, n&atilde;o foi superior
+&aacute; fragilidade humana. Os deslumbramentos da grandeza
+trouxeram a vertigem. O abysmo chamou pelo abysmo. Esquecido de que
+s&oacute; Deus &eacute; omnipotente quiz e ousou tudo!
+Gera&ccedil;&otilde;es inteiras immoladas semearam de cadaveres
+o rasto de seus passos. Os povos amaldi&ccedil;oavam-lhe a
+ambi&ccedil;&atilde;o como
+flagello. As coroas, voando da cabe&ccedil;a dos reis legitimos,
+arrancadas pelos furac&otilde;es da guerra vinham cingir a fronte
+plebea dos eleitos da gloria. Retalhando o corpo exanime das
+nacionalidades desmembradas pela espada, edificou
+<span class="pagenum">[24]</span>
+na areia, s
+na areia, suppondo fundir em bronze esses
+reinos e dynastias ephemeras, que um aceno tirou do nada, que os seus
+revezes sepultaram para sempre. <br />
+
+<br />
+
+Repartindo pelos irm&atilde;os e os generaes os diademas e os
+estados, queria ter n'elles satrapas, e n&atilde;o soberanos. Murat
+em Napoles, Joseph em Hespanha, Luiz na Hollanda, e Jeronymo na
+Westphalia representaram as peripecias d'esta ultima e arriscada phase
+de uma grandeza, que na usurpa&ccedil;&atilde;o dos sceptros e
+na provoca&ccedil;&atilde;o das antipathias populares encontrou
+o precipicio, a queda, e a li&ccedil;&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Portugal, no extremo occidente, abrigado pela distancia das
+revolu&ccedil;&otilde;es, que desmoronavam tudo ao meio dia e
+ao norte da Europa, n&atilde;o se eximiu afinal de participar
+tambem, e com largo quinh&atilde;o, das infelicidades, que a nenhum
+paiz poupou a sorte. A iniciativa do marquez de Pombal, interrompida
+pela morte do soberano, que vinte e sete annos o sustent&aacute;ra,
+apezar das conspira&ccedil;&otilde;es da nobreza, e da
+advers&atilde;o da familia real, acabou com o monarcha
+t&atilde;o notavel pela firmeza. <a name="n1"></a>O
+poder do ministro eclipsou-se
+com o ultimo suspiro do principe, e com elle expiraram as
+tradi&ccedil;&otilde;es viris, e os commettimentos
+reformadores. <a name="n2"></a>Um gabinete quasi
+todo composto de aulicos, sujeito ao
+veto do confessor valido, substituiu o mando odiado do marquez; e este
+poude v&ecirc;r ainda do seu desterro a m&atilde;o dos emulos
+al&ccedil;ada contra a arvore, que plant&aacute;ra, arvore que
+apenas principiava a cobrir-se de fl&ocirc;res, e &aacute; qual
+a inveja n&atilde;o deixou amadurecer os fructos. <br />
+
+<br />
+
+A branda e devota indole da rainha atalhou em parte os bons desejos dos
+homens, que se prezavam de ainda respeitarem as maximas do grande
+reinado. Jos&eacute; de Seabra, Martinho de Mello, e
+ap&oacute;s elles D. Rodrigo de Souza
+<span class="pagenum">[25]</span>
+Coutinho queriam continuar no caminho encetado por Sebasti&atilde;o
+Jos&eacute; de Carvalho; por&eacute;m divididos em partidos (o
+francez e o inglez), offuscados pelas intrigas dos hypocritas, e
+detidos pelos escrupulos, que assustavam a consciencia da filha de D.
+Jos&eacute; I, luctavam muitas vezes em v&atilde;o com a
+corrente, e os seus esfor&ccedil;os a miudo naufragaram contra os
+artificios dos cortez&atilde;os, e contra as
+declama&ccedil;&otilde;es
+dos beatos, senhores de todas as avenidas do pa&ccedil;o. <br />
+
+<br />
+
+As providencias uteis, que honraram o governo de D. Maria I,
+derivaram-se do predominio conquistado sobre o animo da rainha, sua
+penitente, pelo arcebispo de Thessalonica, prelado isento de
+preconceitos e ornado de virtudes. Mal elle desceu ao tumulo, a
+vis&atilde;o terrivel dos patibulos, erguidos por seu pae,
+tornou-se uma allucina&ccedil;&atilde;o perenne, e as trevas da
+demencia apagaram para sempre a raz&atilde;o vacillante da
+princeza. <br />
+
+<br />
+
+D. Jo&atilde;o, seu filho, empunhou as redeas do Estado, primeiro
+sem titulo expresso, depois com o de regente. Amigo da tranquillidade,
+av&ecirc;sso a complica&ccedil;&otilde;es e lances
+arrojados, humano e bondoso, era todavia mais sagaz e penetrante, do
+que supporia quem o conhecesse mal. Em suas m&atilde;os a
+auctoridade soberana podia enfraquecer-se e rebaixar-se, como
+aconteceu, mas ferir os subditos, ou irritar os alliados,
+n&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Comprada a pre&ccedil;o de grandes sacrificios, a neutralidade foi
+a politica preferida pela timidez do principe, e ao mesmo passo o
+arbitrio prudente aconselhado pelas circumstancias. Comprada a
+pre&ccedil;o de grandes sacrificios, a neutralidade foi
+a politica preferida pela timidez do principe, e ao mesmo passo o
+arbitrio prudente aconselhado pelas circumstancias. A republica tinha
+legado ao directorio esta amizade inerte, mas facil de conservar; e
+Napole&atilde;o, mais altivo, ou mais exigente, olhando quasi
+Portugal como colonia de Gr&atilde;-Bretanha, n&atilde;o
+encobria j&aacute; no consulado as
+<span class="pagenum"><a name="p26">[26]</a></span>
+suas repugnancias pela dynastia de Bragan&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Dictando-lhe a paz em 1801, e obrigando-a a submetter-se a
+condi&ccedil;&otilde;es injustas, nutriu acaso a
+esperan&ccedil;a de que, n&atilde;o podendo
+executal-as, ella lhe proporcionasse um pretexto? N&atilde;o
+hesitando em animar a cobi&ccedil;a e a rivalidade do gabinete de
+Madrid, queria costumal-o a invadir-nos as fronteiras, offerecidas como
+pasto &aacute;quella ambi&ccedil;&atilde;o estimulada? <br />
+
+<br />
+
+Seja o que f&ocirc;r, a Hespanha tendo-se valido de
+<a href="#e3">nossas</a> armas no Roussillon,
+pagou-nos com
+ingratid&otilde;es o soccorro, separando a sua causa da nossa,
+unindo-se a Bonaparte para nos humilhar, e aproveitando a sombra dos
+estandartes francezes para se apoderar de Oliven&ccedil;a, que
+nunca mais restituiu! <br />
+
+<br />
+
+Na mente de Napole&atilde;o I, a id&eacute;a de precipitar do
+throno os Bourbons de Hespanha, como os expuls&aacute;ra de Napoles
+e da Etruria, era id&eacute;a, que lan&ccedil;&aacute;ra
+raizes firmes. No seu tribunal tambem a casa de Bragan&ccedil;a era
+condemnada por outras culpas. Accusava-a de seguir, como satellite, o
+astro da Gr&atilde;-Bretanha, e queixava-se de que usasse e
+abusasse da neutralidade em beneficio dos interesses commerciaes dos
+inglezes, os quaes, por meio da oppressiva utopia do bloqueio
+continental, cuidava expellir dos mercados da Europa, fechando-lhes
+todos os portos desde Lisboa at&eacute; Cronstadt! <br />
+
+<br />
+
+Inspirado occultamente por mr. Canning, o governo portuguez promettia
+excluir o pavilh&atilde;o britannico de suas praias, e
+n&atilde;o duvidava affian&ccedil;ar uma
+declara&ccedil;&atilde;o de guerra
+simulada; mas prender as pessoas e sequestrar as fazendas dos subditos
+do rei Jorge, como exigia em nome da Fran&ccedil;a o seu ministro,
+mr. de Rayneval, era violencia, que as rela&ccedil;&otilde;es
+anteriores e a ruina de grossos capitaes nacionaes e estrangeiros lhe
+prohibiam. Recusou-a sem ostenta&ccedil;&atilde;o, mas com
+vigor.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p27">[27]</a></span>
+Napole&atilde;o queria tudo, ou nada! Para elle Lisboa e o Porto
+eram como puras feitorias britannicas, e, se n&atilde;o lh'as
+entregassem, estava resolvido a mandar os seus soldados conquistal-as.
+Contava com a repulsa, e no meio dos mil cuidados, que o salteavam
+ent&atilde;o, acabava de p&ocirc;r o ultimo remate ao seu
+plano. O tractado secreto de Fontainebleau assignado em 27 de outubro
+de 1807, affian&ccedil;ava-lhe pela cumplicidade da Hespanha a
+estrada militar, de que precisava para realizar a invas&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Junot, acampado em Salamanca &aacute; testa de vinte cinco mil
+homens promptos &aacute; primeira voz, apenas aguardava as ultimas
+ordens. Duas divis&otilde;es castelhanas, uma de dez, outra de seis
+mil soldados, deviam coadjuvar as opera&ccedil;&otilde;es do
+exercito francez, apoderando-se a primeira do Porto, do Minho, e de
+Entre Douro e Minho, assenhoreando-se a segunda da provincia do
+Alemtejo e do reino dos Algarves. O pacto ajustado entre
+<a href="#e4">Bonaparte</a> e Carlos IV, desmembrava
+o reino em proveito de
+ambos. O Principe da Paz lucrava um estado independente de quatrocentas
+mil almas, composto das provincias do sul, e denominado o principado do
+Algarve. A rainha viuva do duque de Parma, filha querida do monarcha
+hespanhol, em compensa&ccedil;&atilde;o da Etruria cedida ao
+gabinete de Saint-Cloud, recebia um reino de oitocentos mil habitantes,
+formado de duas das provincias do norte, com a cidade do Porto por
+capital, denominado o reino da Lusitania Septentrional! <br />
+
+<br />
+
+A marcha dos francezes correu t&atilde;o rapida e atropellada,
+quanto era viva e ardente a impaciencia do imperador! <br />
+
+<br />
+
+Bonaparte orden&aacute;ra, que entrassem a tempo de salvar das
+m&atilde;os dos inglezes a nossa esquadra e os thesouros, que ella
+podia transportar para a America. A familia real n&atilde;o
+<span class="pagenum">[28]</span>
+o preoccupava tanto. Eram alguns
+prisioneiros de menos a guardar! Nunca a obediencia foi t&atilde;o
+fiel. Junot voou! Passando a raia em Alcantara, precipitou-se, como
+torrente, por meio do paiz, que o ciume da independencia e o amor aos
+principes naturaes podia tornar-lhe todo hostil. A cada passo mil
+perigos o advertiam da temeridade. Aqui eram serras alpestres, aonde um
+punhado de homens resolutos facilmente o sepultaria com seus
+companheiros de armas! Al&eacute;m eram solid&otilde;es, aonde
+a falta de todos os recursos exaggerava as miserias com que luctava
+desde que sa&iacute;ra de Salamanca! <br />
+
+<br />
+
+Os rigores do inverno tempestuoso, as estradas arrombadas e cobertas de
+agua, os campos inundados, a falta de viveres, e o odio dos moradores,
+dizimavam suas fileiras rareadas pela fadiga, pela fome, e pelas
+enfermidades. Tudo se conspirava para o punir e demorar a
+invas&atilde;o; o clima, os habitantes, e o territorio que se via
+obrigado a atravessar! <br />
+
+<br />
+
+A firmeza do general triumphou. No dia 27 de novembro suas
+avan&ccedil;adas batiam quasi &aacute;s portas de Arroios, e
+nas praias de Belem o principe regente dava o ultimo
+beijam&atilde;o aos vassallos consternados! <br />
+
+<br />
+
+No caes e na pra&ccedil;a n&atilde;o se via sen&atilde;o
+lagrimas e confus&atilde;o. Os parentes despediam-se,
+abra&ccedil;ados, como se n&atilde;o esperassem tornar a
+v&ecirc;r-se. Os escalares e bergantins carregavam para bordo as
+mobilias dos fidalgos e as alfaias mais preciosas do pa&ccedil;o e
+da patriarchal. Nas ruas apinhava-se o povo attonito. Cercada do
+cortejo doloroso do infortunio, a familia real era o alvo, em que se
+empregavam os olhos de todos. <br />
+
+<br />
+
+No meio das damas, a&ccedil;afatas, camaristas, e criados, pallidos
+e suffocados, o principe D.
+<span class="pagenum"><a name="p29">[29]</a></span>
+Jo&atilde;o, sua esposa a princeza D. Carlota, seus filhos, e sua
+m&atilde;e a rainha D. Maria I, cujos gritos de demencia cortavam o
+cora&ccedil;&atilde;o, diziam o ultimo adeus &aacute; terra
+do seu ber&ccedil;o! <br />
+
+<br />
+
+A multid&atilde;o solu&ccedil;ava e estendia os
+bra&ccedil;os em v&atilde;o, como se quizesse retel-os. Um
+decreto datado da vespera tinha declarado que os conselhos pusillanimes
+prevaleciam. Em vez de chamar o reino &aacute;s armas, imitando o
+valor de seus antepassados, D. Jo&atilde;o ia refugiar-se
+al&eacute;m do Atlantico, no Rio de Janeiro, deixando nomeada uma
+regencia &aacute; qual deferia a triste miss&atilde;o de abrir
+as portas da capital &aacute;s tropas inimigas. <br />
+
+<br />
+
+Demorada no Tejo pelos temporaes, a esquadra portugueza s&oacute;
+largou as velas no dia 29. Nessa mesma noite arrastavam-se
+desfallecidos pelos arrabaldes de Lisboa os invasores, cuja sombra
+sossobr&aacute;ra o peito de um descendente de D. Jo&atilde;o
+I! Quasi n&uacute;s, descal&ccedil;os, esmorecidos, recrutas
+imberbes com as espingardas cobertas de ferrugem, inuteis, ou partidas,
+os soldados do corpo de occupa&ccedil;&atilde;o infundiam mais
+d&oacute; e piedade, do que temor e respeito no <a href="#e5">animo</a>
+dos
+que os viam desfilar. Escudava-os, por&eacute;m, o nome de
+Napole&atilde;o com o seu prestigio. A hora dos desenganos ainda
+n&atilde;o tinha batido. <br />
+
+<br />
+
+Junot entrou no dia 30, hospedou-se no palacio do bar&atilde;o de
+Quintella, e poz algumas auctoridades suas. No dia 13 de dezembro,
+depois de uma parada no Rocio, a bandeira tricolor foi arvorada nas
+ameias do castello. Come&ccedil;ava o primeiro acto do attribulado
+drama, cujo desenlace encerrou a capitula&ccedil;&atilde;o de
+Paris, e a abdica&ccedil;&atilde;o de Fontainebleau! As tropas
+hespanholas acompanhavam os movimentos dos alliados. O general Taranco
+apoderou-se do Porto; o marquez del Soccorro, senhor do Alemtejo,
+adeantou-se at&eacute; Setubal.
+<span class="pagenum">[30]</span>
+As
+for&ccedil;as dos invasores cercaram-nos por todas as partes. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s saudades cada vez mais vivas da dynastia desterrada, aos
+resentimentos provocados pelo jugo estranho, que, arrogando-se
+f&oacute;ros de conquista em plena paz, cada dia era mais
+detestado, uniam-se os aggravos e violencias inseparaveis de uma
+occupa&ccedil;&atilde;o, que s&oacute;
+podia sustentar-se pelo rigor. <br />
+
+<br />
+
+Amanheceu finalmente o dia 13 de fevereiro de 1808, o qual, rasgando o
+v&eacute;u de todo, revelou sem disfarce os designios de Bonaparte.
+Rodeado de soldados e canh&otilde;es, ao som das salvas das
+fortalezas de mar e terra, Junot proclamou sem hesitar a
+usurpa&ccedil;&atilde;o insolente de todos os direitos da
+soberania. A casa de Bragan&ccedil;a, disse elle no seu edital,
+acabou de reinar. O imperador dos francezes ser&aacute; de ora em
+deante o protector e o arbitro dos destinos da monarchia! Para consolar
+os portuguezes da perda da independencia, o duque de Abrantes
+prometteu-lhes mil beneficios, e assegurou-lhes que um dia
+at&eacute; o Algarve e a Beira Alta haviam de ter o seu
+Cam&otilde;es! <br />
+
+<br />
+
+Os habitantes preferiam a epopea viva &aacute; epopea escrita, e
+poucos mezes depois com a espada em punho recordavam as proezas de seus
+av&oacute;s, repellindo os estrangeiros. <br />
+
+<br />
+
+As armas nacionaes picadas e substituidas pela aguia corsa, a
+contribui&ccedil;&atilde;o
+for&ccedil;ada, decretada em 7 de dezembro de 1807, e repartida
+pelos moradores abastados de Lisboa, que nem o pretexto da resistencia
+tinham offerecido &aacute; cubi&ccedil;a, irritando os animos
+excitaram tumultos na capital e rixas em varias terras. <br />
+
+<br />
+
+Correu sangue de parte a parte. Nas provincias os roubos impunes, os
+desacatos da soldadesca nas egrejas, e as tropelias de tropas
+licenciosas e pouco disciplinadas, ainda cansavam mais a paciencia
+publica.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p31">[31]</a></span>
+A sorte da capital e do Porto n&atilde;o era menos infeliz.
+Lagarde, detestado pela sua tyrannia na Italia, e Perrot assaz
+inventivo em oppress&otilde;es, cobriam de uma rede de delatores os
+pontos, onde suppunham que podiam abrigar-se os seus adversarios,
+faziam leil&atilde;o publico da clemencia, e abriam, ou cerravam as
+portas das pris&otilde;es com chaves de ouro. Tinham
+<a href="#e6">pressa</a> de enriquecer! <br />
+
+<br />
+
+Adivinhariam que o seu governo n&atilde;o havia de durar muito? Os
+factos provaram mais esta vez ainda os perigos de t&atilde;o errado
+systema. Filho da violencia, apenas o desamparou a for&ccedil;a que
+era o seu unico apoio, despenhou-se nos abysmos, que elle proprio
+afund&aacute;ra.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c4"></a>IV</h3>
+
+<h3><br />
+
+O bem soa, o mal voa</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+De ordinario voltam-se contra os poderes odiados os proprios meios
+empregados para algemar os povos. As visitas domiciliarias, as buscas,
+as denuncias, as multas, os encarceramentos, todos os instrumentos de
+tortura moral, em fim, excogitados pelo genio assolador de Lagarde,
+produziam effeitos contrarios aos que elle esperava colher, ulcerando o
+orgulho nacional, enfurecendo as popula&ccedil;&otilde;es, e
+predispondo-as para vingarem no primeiro ensejo todas as offensas de
+uma vez. <br />
+
+<br />
+
+Em Mafra, aonde um conflicto casual cust&aacute;ra a vida, ou o
+sangue a alguns soldados de Junot, a crueldade da repress&atilde;o,
+confiada ao general Loison, acabou de exasperar os animos. O desditoso
+Jacintho Correia expiou com o supplicio a culpa, quasi geral, da
+avers&atilde;o aos invasores. <br />
+
+<br />
+
+Estes rigores, longe de as firmarem, tornaram mais frageis as bases da
+domina&ccedil;&atilde;o estrangeira, que a todos os instante
+via desabar o edificio vacillante do seu poder. As devassas e monterias
+ordenadas contra as pessoas implicadas
+<span class="pagenum"><a name="p33">[33]</a></span>
+n'esta guerra surda, mas implacavel, amea&ccedil;ando alguns
+innocentes, apenas r&eacute;os do horroroso delicto de aborrecerem
+a usurpa&ccedil;&atilde;o, recrutou em favor da
+reac&ccedil;&atilde;o patriotica numerosas e decididas
+adhes&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Paulo de Azevedo Carvalho, que no &laquo;Moinho da
+Raposa&raquo; ouvimos citar como uma das victimas da intendencia
+geral da policia, salvo quasi por milagre, gra&ccedil;as
+&aacute; rapidez da fuga, das garras dos emissarios de Lagarde,
+vague&aacute;ra de asylo em asylo, acossado de perto, mas sempre
+protegido, desde Torres Novas at&eacute; Santarem pela generosa
+cumplicidade, que lhe patenteava todas as portas, do palacio
+at&eacute; &aacute; choupana, apagando logo depois com discreto
+silencio o menor vestigio de seus passos. <br />
+
+<br />
+
+Uma imprudencia ajudou os que o perseguiam. Sua filha partiu de Torres
+Vedras para ir encontrar-se com elle, e os olhos de argos da policia
+seguiram-a na jornada at&eacute; ao humilde casal, escondido nas
+mattas da Aramanha, onde a esperava Paulo de Azevedo, e onde lhe abria
+os bra&ccedil;os a hospitalidade rude, mas sincera, do honrado
+fazendeiro Antonio Sim&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Disfar&ccedil;ados em mendigos ou em jornaleiros, os agentes de
+Lagarde depressa descobriram o foragido no seio da casa rustica, em que
+se abrigava. Assaltaram-a de noite com um cord&atilde;o de milicias
+&aacute;s ordens de Estevan Cabrinha sargento no regimento de Rio
+Maior, e capaz de vender o sangue de m&atilde;e e
+irm&atilde;os, uma vez que o pre&ccedil;o correspondesse.
+Falharam, por&eacute;m, todas as precau&ccedil;&otilde;es.
+Cabrinha errou o salto. Avisados a tempo o pae e a filha evadiram-se na
+vespera, e o sargento s&oacute; colheu da <a href="#e7">ruidosa</a>
+diligencia as maldi&ccedil;&otilde;es de Antonio
+Sim&otilde;es, maldi&ccedil;&otilde;es e despresos, que
+estava
+<a href="#e8">costumado</a> a engulir, como ossos do
+officio, mas que
+registrava cuidadosamente para as descontar aos devedores na hora
+opportuna.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[34]</span>
+D'esta vez a divida n&atilde;o esperou muito. Uma busca de
+contrabando sobre denuncia falsa proporcionou-lhe o desejado pretexto.
+Antonio Sim&otilde;es da Aramanha deu-lhe o gosto de entrar dias
+depois sob seus auspicios na cadeia de Santarem, quasi arrependido da
+soltura de lingua, com que tinha lan&ccedil;ado em rosto ao
+perseguidor as lagrimas e a ruina das familias, e os crimes contra a
+patria. O fazendeiro, todavia, n&atilde;o gemeu nos ferros de
+el-rei, como se dizia ent&atilde;o, sem jurar pelas costellas ao
+malsim. Deante de testemunhas protestou moel-o com o cajado de
+zambujeiro, especie de clava, que achatava um homem como uma bolacha, e
+vozes chocalheiras avisaram o sargento da promessa caridosa. Cabrinha
+enfiou. O intendente geral da policia Lagarde servia-se do mastim e
+a&ccedil;ulava-o contra o Ribatejo, n&atilde;o regateando ao
+mercenario venal as recompensas; mas era duvidoso que podesse
+eximir-lhe o corpo do premio, affian&ccedil;ado pela
+gratid&atilde;o de muitas victimas. <br />
+
+<br />
+
+Em quanto Paulo de Azevedo respirasse livre, o amor proprio e a bolsa
+de Cabrinha padeciam, e n&atilde;o era elle homem que dormisse,
+quando o interesse o chamava com voz activa. Suppondo o cavalleiro de
+Mafra ainda proximo, deixou-o socegar por dias, e valendo-se da
+ardileza de um subalterno sagaz, digno assessor de suas virtuosas
+emprezas, o coxo Gaspar Preto, conhecido pela expressiva alcunha do
+<em>Sapo</em>, mandou-o bater os
+arredores, na id&eacute;a de que a vista de lince do agente, com
+mais facilidade desencantaria, ainda quente, o ninho aonde se refugiava
+a presa. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se enganou. O <em>Sapo</em>,
+cujos brios aviv&aacute;ra a esperan&ccedil;a de rasoaveis
+lucros, entrou sem demora em campanha, e tres dias depois trouxe-lhe a
+agradavel nova de que o cavalheiro e sua filha se cobriam com o tecto
+modesto
+<span class="pagenum">[35]</span>
+de uma casa, pouco mais do que
+choupana, solitaria, e situada nas abas da risonha
+povoa&ccedil;&atilde;o
+do Casal do Ouro no meio das vinhas e olivedos, que o vestem de
+verdura. <br />
+
+<br />
+
+O sargento n&atilde;o perdeu tempo. Apenou seis milicianos fieis ao
+copo e ao cangir&atilde;o, e, acompanhado por elles, prendeu de
+tarde e &aacute;
+trai&ccedil;&atilde;o a Paulo de Azevedo e a Leonor. Temendo,
+por&eacute;m, que o povo se alvoro&ccedil;asse, apezar das
+amea&ccedil;as da trovoada metteu-se a caminho, n&atilde;o sem
+olhar a miudo para traz, receioso, sobre tudo na charneca, de que a
+bala perdida de uma espingarda lhe testemunhasse o reconhecimento
+grangeado por seus longos e valiosos servi&ccedil;os! <br />
+
+<br />
+
+O homem p&otilde;e, e Deus disp&otilde;e! A fortuna que o
+proteg&ecirc;ra, detendo Manuel Coutinho no Cartaxo, sem o que
+teria encontrado o seu amigo e a sua noiva presos, (lance de certo
+fatal ao sargento), mostrou-se logo contraria a Cabrinha,
+n&atilde;o demorando uma hora, ou duas mais, tambem, o temporal, o
+qual, perto da Ponte da Asseca rebentou com violencia tal, que o
+constrangeu, &aacute; falta de melhor, e n&atilde;o sem grandes
+arrepios de medo seus, e dos soldados, a descan&ccedil;ar aquella
+noite no palacio arruinado, temido na visinhan&ccedil;a pelo
+significativo nome de <em>Casa Negra</em>, ou
+de
+<em>Casa Maldita</em>. <br />
+
+<br />
+
+O <em>Sapo</em>, entretanto, n&atilde;o
+fic&aacute;ra ocioso. <br />
+
+<br />
+
+Sabendo que Antonio Sim&otilde;es da Aramanha f&ocirc;ra solto
+da cadeia de Santarem por ordem do juiz de f&oacute;ra, e que
+n'essa mesma tarde vinha dormir ao Casal do Ouro, doeram-lhe de repente
+todos os ossos, como se o cajado monumental lh'os triturasse,
+similhante a mangual na eira, e assentou livrar-se a si e ao sargento
+da promettida sova, interceptando na estrada o robusto fazendeiro com
+uma bala. <br />
+
+<br />
+
+Esperou-o, pois, atraz de um vallado, em
+<span class="pagenum">[36]</span>
+azinhaga escura e estreita, ao anoitecer. Escutando o ruido de passadas
+cheias renovou a escorva, engatilhou a espingarda, metteu-a
+&aacute; cara, e com a tranquillidade, com que poderia desfechar
+sobre uma lebre, disparou por entre as ramas sobre um vulto, que vinha
+dobrando a quina do caminho, e que soltando um grito agudo baqueou por
+terra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus seja com a sua alma! exclamou o assassino, saltando o vallado, e
+contemplando prostrado, e com o rosto banhado em sangue o corpo da
+victima, que todavia conheceu pela estatura e pelo trajo ser Antonio
+Sim&otilde;es da Aramanha. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; com Christo! ajuntou depois de olhar para elle
+instantes. Este j&aacute; n&atilde;o morde. Falta o Antonio da
+Cruz!... Tambem lhe ha de chegar a sua vez! <br />
+
+<br />
+
+Feito este responso, torcendo a perna, e apressando os saltos, em que
+despejava mais caminho do que os s&atilde;os, o coxo passou por
+entre as silvas, e atravessando pelas vinhas e hortas, veiu
+sa&iacute;r muito distante do logar do crime, ao alto do valle. <br />
+
+<br />
+
+Soou a noticia do tiro dado em Antonio Sim&otilde;es. As mulheres,
+que se recolhiam do trabalho do campo, encontraram o corpo
+ensanguentado na azinhaga, e correndo e clamando, tocaram a rebate com
+a historia do homicidio por todas as portas. Juntou-se gente, accudiram
+alguns amigos, que o morto contava na terra, e em prociss&atilde;o
+encaminharam-se ao sitio aonde o desgra&ccedil;ado fazendeiro devia
+jazer, que era aonde a azinhaga cortava entre a Ponte de Asseca e a
+Casa Negra. <br />
+
+<br />
+
+Caso inaudito, e que fez erri&ccedil;ar de espanto as grenhas
+hirsutas dos alde&otilde;es, por baixo dos barretes de
+l&atilde; e dos chap&eacute;us desabados! Nem rasto da victima!
+S&oacute;mente duas po&ccedil;as de sangue, e a cama feita pelo
+cadaver na terra molhada
+<span class="pagenum">[37]</span>
+denunciavam
+a verdade das camponezas e a existencia do delicto! <br />
+
+<br />
+
+Quem roub&aacute;ra aquelle corpo &aacute; sepultura
+christ&atilde;? Quem f&ocirc;ra o assassino? A estas duas
+perguntas respondia a supersti&ccedil;&atilde;o, que
+s&oacute; poderia ter sido o inimigo do genero humano, porque a
+azinhaga n&atilde;o se via trilhada sen&atilde;o dos
+p&eacute;s curtos e deseguaes de um homem, que, fugindo,
+deix&aacute;ra assignalada no vallado a
+fei&ccedil;&atilde;o dos joelhos. Aonde acabavam as passadas
+fortes e largas dos sapatos de Antonio Sim&otilde;es n&atilde;o
+havia indicio de mais nenhumas. <br />
+
+<br />
+
+A chuva ca&iacute;ndo em torrentes, os relampagos allumiando as
+trevas de clar&otilde;es repentinos, e os trov&otilde;es
+estalando uns ap&oacute;s outros, depressa dispersaram os curiosos,
+que a luz de dois archotes, saccudidos e apagados pelo vento,
+n&atilde;o confortava muito contra os terrores do inferno, sobre
+tudo em t&atilde;o medonha noite. <br />
+
+<br />
+
+Benzendo-se, e acotovellando-se uns aos outros, recolhiam-se transidos,
+ensopados, e cheios de apprehens&otilde;es, quando alguns mais
+audazes, que tinham ousado arriscar a vista na
+direc&ccedil;&atilde;o do palacio arruinado notaram, que duas
+das janellas, sempre cerradas, deixavam transparecer por entre as
+taboas mal juntas uma claridade livida, brilhante na
+escurid&atilde;o como os olhos de um demonio! <br />
+
+<br />
+
+Esta ultima prova do poder sobrenatural do tentador foi t&atilde;o
+decisiva que, trocando o passo ligeiro pela mais despedida carreira, os
+bons dos alde&atilde;os, persuadidos de que Satanaz reunia na Casa
+Negra a sua c&ocirc;rte plenaria, n&atilde;o pararam
+sen&atilde;o &aacute; porta da egreja
+parochial, chamando pelo prior em altas vozes. <br />
+
+<br />
+
+D'onde vinha ao palacio arruinado a m&aacute;
+reputa&ccedil;&atilde;o, que afugentava de sua
+visinhan&ccedil;a os moradores dos logares proximos? Que trasgo, ou
+que duende vexava com suas maleficas
+<span class="pagenum">[38]</span>
+travessuras a casa ennegrecida pelo tempo, e rodeada de eterna
+solid&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+Construida nos principios do seculo XVII, o gosto depravado do
+architecto traduzia-se nos dois pavilh&otilde;es lateraes, que
+acompanhavam o corpo do edificio, esmagados pelos tectos, e
+massi&ccedil;os como duas cidadellas, carregadas de tristeza.
+Revestidos de pesadas cantarias, com as janellas estreitas e de volta
+baixa, e as portas abafadas de lavores e ornamentos desgraciosos, o ar
+e a luz s&oacute; a medo podiam circular pelas immensas salas e
+pelos extensos e escuros corredores, em que se repartia. <br />
+
+<br />
+
+Solar desamparado, por mais de um seculo via-se as ervas crescerem nos
+pateos e eirados, as eras enrolarem-se pelos muros gretados, e os
+telhados verdejarem cobertos de plantas parasitas. Os
+anci&atilde;os mais antigos na terra, n&atilde;o se lembravam
+de nunca terem visto o dono d'aquella casa condemnada, e todos os annos
+os invernos, succedendo-se, e penetrando pelas brechas n&atilde;o
+reparadas, accumulavam ruinas sobre ruinas, estragos sobre estragos. <br />
+
+<br />
+
+As lendas populares explicavam o destino singular d'aquelle palacio, o
+qual de certo vira dias mais ditosos, quando as malvas e ortigas
+n&atilde;o afogavam os canteiros de seus jardins, quando os
+entulhos n&atilde;o cegavam os canos &aacute; fresca lympha,
+que jorrava em t&oacute;rnos de agua crystallina para os largos
+tanques de marmore, quando, finalmente, as colgaduras de couro e os
+pannos de raz n&atilde;o pendiam em farrapos das paredes fendidas e
+esverdeadas, e as manchas de humidade n&atilde;o desfiguravam os
+relevos e molduras dos tectos. <br />
+
+<br />
+
+Que horroroso crime expiava o palacio deserto, cujos vigamentos
+p&ocirc;dres estalavam com o peso de telhados arrombados, cujos
+moveis roidos de caruncho se desfaziam no p&oacute; da velhice e do
+abandono?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[39]</span>
+Contava a tradi&ccedil;&atilde;o que dois irm&atilde;os
+rivaes haviam disputado a m&atilde;o de uma formosa dama, causa
+innocente do seu infortunio, e que o menos ditoso na porfia, como Iago,
+convert&ecirc;ra em desespero a felicidade do competidor,
+envenenando-lhe de suspeitas os amores. N&atilde;o valeram prantos
+e supplicas contra as
+allucina&ccedil;&otilde;es do ciume! O sangue da esposa e o
+sangue do filho innocente, doce fructo do seu enlace, vertido em um
+momento de delirio, vingou os zelos do marido, que suppunha lavar com
+elle a nodoa do nome e do braz&atilde;o. Horas depois, mas sem
+remedio, descobriu-se a perfidia, e o desgra&ccedil;ado caiu em si
+do delirio, e viu-se tornado o verdugo de si mesmo e dos que mais
+estremec&ecirc;ra no mundo. O que passou n'aquella noite entre os
+dois irm&atilde;os &eacute; segredo, que dorme com ambos na
+eternidade. S&oacute;mente ao romper da aurora mais um cadaver
+descia ao jazigo da capella, e o infeliz, sobrevivendo &aacute;
+morte de todos os affectos, e algoz de todos elles, na edade de vinte e
+cinco annos, quando partiu para n&atilde;o voltar, mettia horror
+&aacute; vista. Os cabellos e o rosto eram j&aacute; os de um
+velho. Bastaram poucas horas de remorso e de agonia para lhe consumirem
+a vida e a mocidade. <br />
+
+<br />
+
+O lucto do senhor cubriu a casa, theatro de tantos crimes. Deshabitada,
+fugiam d'ella donos e creados como de um logar maldito. Sempre
+&ecirc;rma, e sempre muda, s&oacute; os echos accordavam n'ella
+com o anniversario do terrivel drama. O velho guarda, ao qual primeiro
+foram confiadas as chaves, despertando sobresaltado por horas mortas,
+subiu ao andar nobre, e caiu sem sentidos, paralyzado pela
+vis&atilde;o terrivel, que se lhe representou alli. <br />
+
+<br />
+
+Viu uma f&oacute;rma branca e suave, com os cabellos esparzidos
+sobre o collo, atravessar, chorando, as salas. Apertava ao peito uma
+<span class="pagenum">[40]</span>
+crean&ccedil;a adormecida, e seguia-a
+outro espectro amea&ccedil;ador com o punhal erguido. Atraz, uma
+figura contemplava aquella scena rindo com satanica alegria. Os lustres
+accesos por si mesmos entornavam torrentes de luz livida sobre os
+aposentos. Os gemidos e solu&ccedil;os das victimas, o tinir dos
+ferros, as risadas e as
+impreca&ccedil;&otilde;es retratavam ao vivo o tremendo
+espectaculo, em que o parricidio e o fratricidio tinham desempenhado os
+principaes papeis. O velho enlouqueceu de terror. <br />
+
+<br />
+
+Desde ent&atilde;o ninguem mais quiz tomar conta do palacio. Os
+morgados deixaram-o ca&iacute;r em ruinas a pouco e pouco, e quando
+os francezes sequestraram por ausente os bens do fidalgo, aquellas
+paredes infamadas n&atilde;o acharam comprador. O fisco
+n&atilde;o quiz para si sen&atilde;o a posse das terras, e
+arrendou-as. Parece, todavia, que a invas&atilde;o dos estrangeiros
+excit&aacute;ra a c&oacute;lera das potencias sobrenaturaes,
+porque nunca se tinham mostrado t&atilde;o malfazejas e ruidosas.
+Um allem&atilde;o excentrico, apostando hospedar-se alli uma noite
+inteira, foi achado ao amanhecer sem fala, nem movimento, e seis mezes
+depois ainda tremia quando lhe lembravam a aventura da Casa Negra. <br />
+
+<br />
+
+Era, pois, desculpavel o susto dos alde&otilde;es. Vendo a luz
+coar-se atrav&eacute;s d'aquellas janellas sempre escuras, e
+n&atilde;o achando o corpo de Antonio Sim&otilde;es no sitio
+aonde f&ocirc;ra assassinado, tudo attribuiram aos maleficios, e
+escudando-se com o amparo da egreja, invocaram a
+protec&ccedil;&atilde;o do parocho, persuadidos de que as iras
+divinas, provocadas pelas abomina&ccedil;&otilde;es dos
+jacobinos, haviam quebrado a lousa das sepulturas, soltando os
+espiritos das trevas para flagello e confus&atilde;o dos inimigos
+de Deus e de el-rei. <br />
+
+<br />
+
+Entretanto, cousa notavel (!) n'esta assembl&eacute;a dos homens
+bons do logar, como diria
+<span class="pagenum">[41]</span>
+um foral de
+nossos avoengos, faltava o Jo&atilde;o da Ventosa, o orador popular
+por excellencia, o Hortencio, o Eschino laureado d'aquellas
+visinhan&ccedil;as! O que o detinha? Pouco timorato por indole, e
+at&eacute; para a epocha e para a
+educa&ccedil;&atilde;o assaz limpo de abus&otilde;es,
+trazia de renda as terras da Casa Negra, pegadas com uma horta sua; mas
+se alguem lhe tocava na ruim visinhan&ccedil;a do palacio,
+prendia-se-lhe de repente a voz, e uma visagem avinagrada torcia-lhe o
+semblante. Era mais orthodoxo n'este ponto, do que o cura. Os contos de
+vis&otilde;es e de almas penadas, que repetia, n&atilde;o
+concorriam pouco para entreter o pavor dos companheiros de copo e de
+touradas, os quaes se espantavam, de que elle tivesse animo para metter
+o arado e a enchada em terras, que mais deviam reputar-se vinculadas ao
+demonio, do que administradas pelo bondoso morgado, que as
+disfruct&aacute;ra. <br />
+
+<br />
+
+Mas como as terras eram excellentes e criavam bem, e como,
+n&atilde;o sendo affrontado por competidores, elle as trazia quasi
+pelo que queria dar por ellas, o Jo&atilde;o da Ventosa continuava
+a amanhal-as, e a servir-se das officinas do palacio, e at&eacute;
+de algumas casas do andar terreo. Peccado de avareza que as almas pias
+e tementes a Deus prognosticavam, que lhe seria funesto um dia,
+arriscando-se a que o demonio, enfadado com o atrevimento, levasse
+pelos ares n'um furac&atilde;o os bois, as charruas, o lavrador, os
+carros, e os telhados! <br />
+
+<br />
+
+Nunca lhe viam o trigo e o milho na eira, que n&atilde;o rosnassem
+por entre dentes: &laquo;Queira Deus que o meu compadre uma vez se
+n&atilde;o arrependa. De parceria com o demo nunca ninguem
+medrou!&raquo; O Jo&atilde;o, como bom
+christ&atilde;o, ouvia-os, suspirando, queixava-se da carestia dos
+tempos, que obrigava o pobre a fazer p&atilde;o at&eacute; das
+pedras, e ia attestando de saccos o celleiro,
+<span class="pagenum">[42]</span>
+dizendo sempre que muitas noites n&atilde;o podia pregar
+olho com o alarido infernal, que &iacute;a l&aacute; por cima. <br />
+
+<br />
+
+Dadas estas informa&ccedil;&otilde;es essenciaes, que o leitor
+benevolo desculpar&aacute;, tornemos &aacute; nossa historia, e
+acompanhemos as diversas pessoas, que est&atilde;o em scena,
+esperando por n&oacute;s, tanto no Moinho da Raposa, como na Casa
+Maldita. <br />
+
+<br />
+
+Quanto aos honrados alde&otilde;es, apinhados defronte da porta do
+reverendo prior, n&atilde;o nos d&ecirc; cuidado a sua
+inquieta&ccedil;&atilde;o. O
+parocho, consolando-os com duas maximas em mau latim de orelha,
+prometteu-lhes exorcismar, mesmo de longe o espirito maligno, e
+recommendou-lhes que se recolhessem e abafassem depressa, porque a
+noite estava medonha, e o anno corria infamado de pleurizes e
+catharraes. Dito isto lan&ccedil;ou-lhes a
+ben&ccedil;&atilde;o da janella, e foi
+sentar-se &aacute; mesa para n&atilde;o deixar esfriar a ceia.
+As ovelhas
+imitaram o pastor, e meia hora depois, acalmado o alvoro&ccedil;o,
+reinava na aldeia o mais profundo socego, apenas interrompido pelos
+latidos de algum c&atilde;o impertinente, e pelas rajadas da chuva
+e do vento, com que a tempestade a&ccedil;outava as copas das
+arvores, e fustigava os telhados das casas.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c5"></a>V</h3>
+
+<h3><br />
+
+N&atilde;o ha atalho sem trabalho</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Transportemo-nos sem demora ao andar baixo da Casa Negra. <br />
+
+<br />
+
+As duas portas da fachada est&atilde;o fechadas, mas um estreito
+postigo, que abre para o pateo, apenas se acha cerrado. Entremos por
+elle, e, seguindo o som das vozes, continuemos, apalpando no escuro as
+paredes, que se esfarelam de humidade pelo comprido corredor. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; uma especie de dormitorio ladrilhado com portas
+&aacute; direita e &aacute; esquerda, provavelmente
+accommoda&ccedil;&otilde;es dos creados do palacio, quando
+f&ocirc;ra habitado. As taboas do tecto, podres e despregadas,
+amea&ccedil;am cahir sobre a cabe&ccedil;a, e aqui e
+acol&aacute; montes de
+cali&ccedil;a dos muros esboroados promettem um desabamento
+proximo. No topo uma porta derreia-se pendente a meio cutelo do ultimo
+leme enferrujado. <br />
+
+<br />
+
+Atravessemos depressa! Estamos em uma casa de abobada, fria e surda,
+com duas frestas engradadas. Subamos aquelles tres degraus, e
+guiemo-nos pela claridade ba&ccedil;a, e pelo alarido que da
+extremidade de outro corredor
+<span class="pagenum"><a name="p44">[44]</a></span>
+nos
+est&atilde;o avisando de que na estancia immediata conversam, ou
+disputam muitos homens. <br />
+
+<br />
+
+No fim do corredor apercebem-se os v&atilde;os de duas escadas
+interiores, cujas vigas e degraus carcomidos tremem de velhice. Uma
+fenda larga racha ao meio a grossa parede, que as divide. Duas portas
+com travessas cerram a entrada das escadas, lan&ccedil;adas dos
+lados em ramos divergentes para o andar de cima. <br />
+
+<br />
+
+Empurremos agora as taboas mal juntas de outra porta, que nos veda a
+vista, e adeantemo-nos. O espectaculo que vamos presenciar vale a
+fadiga a que nos sujeit&aacute;mos. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; a cozinha, terrea e toda de abobada, com fornalhas ao
+fundo e chamin&eacute;s enormes. Uma immensa pia de pedra
+&aacute; direita, e uma mesa tambem de pedra &aacute; esquerda,
+compunham a mobilia primitiva. Na lareira ardem e estalam grossos
+troncos de arvores, cortadas em verdes, e &aacute; roda da chamma
+afogueada e crepitante, sentam-se os novos hospedes do palacio. Pelas
+tres janellas lateraes sem vidra&ccedil;as sopra o temporal
+&aacute;s rajadas, e a chuva salpica dentro fustigada pelo vento;
+dos canos das chamin&eacute;s, meio alluidas, escorre a agua, e
+geme o vendaval, afogando os silvos em sussurros prolongados. O
+clar&atilde;o dos relampagos, golfando quasi sem
+interrup&ccedil;&atilde;o, allumia de phantasticos e subitos
+clar&otilde;es as paredes e o ch&atilde;o lageado da enfumnada,
+sombria, e vasta quadra. <br />
+
+<br />
+
+No recanto, formado pelo angulo da chamin&eacute;, e pelo angulo de
+um grande armario embocetado, esconde-se, quasi suspensa, uma escada de
+caracol, toda de pedra, ainda menos mal conservada. Defronte da porta
+da sahida dois arcos de volta mui baixa, parecidos a b&ocirc;ccas
+de furna, communicam para a <a href="#e9">cave</a>
+e para a
+arrecada&ccedil;&atilde;o, ambas subterraneas e extensas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[45]</span>
+Uma especie de lampi&atilde;o, em que s&atilde;o mais as folhas
+de papel azeitado, do que os vidros, balou&ccedil;a-se pendente de
+cadeia de ferro presa no tecto. <br />
+
+<br />
+
+Uma tosca mesa de quatro p&eacute;s, coberta de toalha, cuja alvura
+desappareceu debaixo da ramagem caprichosa das nodoas de vinho e de
+gordura, levanta-se no meio da casa. Pratos e garfos, um tacho colossal
+de migas com a classica colher de pau enterrada na appetitosa assorda;
+dois cangir&otilde;es de vinho, e canecos monstruosos, uma cesta de
+laranjas ao p&eacute; de uma frigideira de queijos brancos, ladeiam
+a pe&ccedil;a capital do brodio campesino, um cabrito acerejado,
+rodeado de batatas, e credor de tentar a gula do mais austero cenobita.
+<br />
+
+<br />
+
+Finalmente, sobre a mesa de pedra, coberto com um capote de
+cabe&ccedil;&otilde;es, do talho pouco airoso dos chamados
+Jos&eacute;sinhos, com um tronco por travesseiro, e um panno
+ensanguentado sobre a cara, jaz um vulto, que a immobilidade rigida dos
+membros, e duas vellas uma aos p&eacute;s, outra &aacute;
+cabeceira, dizem claramente ser um cadaver. <br />
+
+<br />
+
+De vez em quando os olhos dos que velam bem contra vontade o seu ultimo
+somno, voltam-se para elle, e afastam-se rapidamente, como se temessem,
+que a trombeta final, soando mais c&ecirc;do, o despertasse. O
+sargento Cabrinha e o seu honrado confidente Gaspar Preto, o
+<em>Sapo</em>, as pessoas conspicuas da
+assembl&eacute;a nocturna, em que a nossa
+indiscre&ccedil;&atilde;o introduz o leitor, s&atilde;o as
+que olham mais a miudo, e de cada vez que fitam vista n'aquelle corpo
+inerte, um calafrio arrepia-lhes a espinha dorsal, e um suor de mau
+agouro, apezar da temperatura, borbulha na testa de ambas. Dariam tudo
+por se verem a cem leguas da companhia d'aquelle morto, cujo sangue o
+seu remorso, como que est&aacute; avivando mais em manchas
+<span class="pagenum">[46]</span>
+vermelhas sobre o sudario, que lhes
+esconde o rosto. <br />
+
+<br />
+
+Os principaes auctores concordam com o logar e com os accessorios. <br />
+
+<br />
+
+Comec&ecirc;mos pelo chefe, como &eacute; raz&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+A physionomia de Estevam Cabrinha n&atilde;o desmente a
+reputa&ccedil;&atilde;o. Conta pelo menos sessenta annos, mas
+p&oacute;de melhor com elles, do que outros, menos robustos,
+poderiam com quarenta. A testa esguia e deprim&iacute;da lembra a
+fronte felina, e a mobilidade de duas profundas rugas, cavadas logo por
+cima dos sobrolhos, ainda torna mais sensivel a similhan&ccedil;a.
+Faces encovadas, bei&ccedil;os sorvidos, barba revirada, e por cima
+da pelle uma c&ocirc;r assanhada de amora mansa, n&atilde;o lhe
+permittem suppor-se por certo nenhum Cupido, nem seccar-se, como
+Narciso, de paix&atilde;o pela belleza propria. <br />
+
+<br />
+
+O nariz, adunco, em f&oacute;rma de bico de papagaio,
+ca&iacute;a como apagador, ornado de bot&otilde;es vinosos,
+sobre a b&ocirc;cca. Os olhos, cujo raio visual se torcia com
+sinistra express&atilde;o, tinham aquelle tom ba&ccedil;o e
+frio de pupillas, que revela quasi sempre as almas
+trai&ccedil;oeiras. Curto de pesco&ccedil;o, largo de hombros,
+e prendado com uma corcova ass&aacute;s volumosa, imita nos
+movimentos lentos o pesado garbo do urso dos Alpes. <br />
+
+<br />
+
+O ventre proeminente, e as pernas delgadas provam, que pouco tinha que
+agradecer &aacute; providencia as gra&ccedil;as do busto. Os
+cabellos hirsutos, empastados na testa, alargam-se como duas orelhas
+derrubadas sobre as fontes, e terminam por um rabicho esplendido de
+meio covado de comprido, dan&ccedil;ando enfeitado de seu
+la&ccedil;o de fita preta sobre a farda, polvilhando-a de
+p&oacute;s, e ensebando-a de banha. <br />
+
+<br />
+
+Um bigode, quasi todo branco, espetado nas guias, como as sedas de um
+chicote, e o resto da cara rapado e escanhoado cuidadosamente,
+<span class="pagenum">[47]</span>
+afinam perfeitamente o typo
+singular e repugnante d'este personagem funesto, que as
+desgra&ccedil;as civis fizeram sobrenadar com as escumas sociaes,
+mas que as gal&eacute;s c&ecirc;do, ou tarde, h&atilde;o de
+recolher, como filho prodigo, se as iras populares se lhes
+n&atilde;o anteciparem. <br />
+
+<br />
+
+Trajava a farda de milicias, de panno azul ferrete, bot&otilde;es e
+vivos brancos, abas de tesoura, e gola de espeque. Os
+cal&ccedil;&otilde;es de uniforme e as polainas
+atrai&ccedil;oavam-lhe a magreza das pernas. A espada de bainha
+preta e copos de roca descan&ccedil;ava f&oacute;ra do
+boldri&eacute; a
+seu lado, e a alabarda, insignia do posto, via-se encostada da outra
+parte. <br />
+
+<br />
+
+O <em>Sapo</em> merecia a alcunha. Teria
+trinta annos. Era todo branco-papel, cara e cabellos, como se um
+moleiro o tivesse amortalhado em um sacco de farinha, mas d'aquelle
+branco livido e sepulcral, que nos enoja e repugna, quando
+contempl&acirc;mos qualquer reptil asqueroso. Uma queda em pequeno
+tinha-lhe deixado em memoria a desloca&ccedil;&atilde;o da
+perna esquerda, que, torcida quasi em rosca de parafuso, o obrigava a
+andar aos saltos como a r&atilde;, ou a agachar-se, como o animal
+immundo, cujo nome o baptismo dos visinhos substituira ao seu. <br />
+
+<br />
+
+Quasi sem nariz e bei&ccedil;os, vesgo, e da altura de um rapaz de
+nove annos, n&atilde;o mostrava no rosto ponta de barba, e quando
+se ria escarnava as gengivas e os dentes, de modo, que as mulheres lhe
+chamavam por escarneo o b&ocirc;cca de tubar&atilde;o. Agil e
+matreiro, como a raposa, a sua actividade era incansavel, a sua
+consciencia larga como o peccado, o seu cora&ccedil;&atilde;o
+duro como um penhasco. Ca&ccedil;ador dos mais destros, andarilho
+infatigavel apezar das pernas, curioso e falador como um cento de
+comadres, ouvia, sabia, e aproveitava tudo. <br />
+
+<br />
+
+Accusavam-o de n&atilde;o perdoar aos outros a
+<span class="pagenum">[48]</span>
+fealdade propria, e de se felicitar com os alheios
+males. Auctor de alguns furtos industriosos, espi&atilde;o e
+delator por officio, assassino por voca&ccedil;&atilde;o,
+Gaspar Preto, como o imperador romano, desejaria ao genero humano uma
+s&oacute; cabe&ccedil;a para lh'a decepar de golpe. Vestia
+cal&ccedil;&otilde;es curtos atacados sobre as meias de
+l&atilde;, botas de couro branco e salto de prateleira, collete e
+vestia de belbutina com bot&otilde;es &ocirc;ccos de metal
+amarello, e cinta escarlate muito apertada ao corpo. <br />
+
+<br />
+
+A espingarda, sua fiel companheira, estava sempre &aacute;
+m&atilde;o, e a tiracolo encruzavam-se-lhe sobre o peito as
+correias do polvorinho e do chumbeiro. A navalha de ponta e de cabo de
+osso, que trazia na cintura, era afamada em toda a comarca pela
+habilidade, com que a jogava, ou com que sabia atiral-a de arremesso
+aonde punha o alvo. <br />
+
+<br />
+
+Os cinco homens da milicia e da ordenan&ccedil;a, que acompanharam
+o sargento na diligencia ao Casal do Ouro, n&atilde;o merecem
+men&ccedil;&atilde;o
+especial. Alde&atilde;os corpulentos cabeceavam de somno ao calor
+do lume, e bocejavam de fome ao tinir dos pratos, que um creado do
+Jo&atilde;o da Ventosa principiava a p&ocirc;r em cima da mesa.
+O Jo&atilde;o, sim, esse &eacute; que destaca de todo o grupo
+pela figura, pelos gestos, e pelo aspecto na realidade digno de exame.
+Ser&aacute; homem de quarenta e cinco annos, mas n&atilde;o
+inculca mais de trinta e oito. Bem posto e proporcionado de membros,
+mais esbelto, do que robusto, &aacute; primeira vista, mais
+engra&ccedil;ado, do que for&ccedil;oso na apparencia. A cara
+redonda e os bei&ccedil;os grossos e sensuaes, o olhar fino e
+malicioso, e a b&ocirc;cca cheia de riso, na sua mocidade tinham
+feito d'elle o enlevo e o adonis das bellas e namoradas raparigas
+d'aquelles contornos; por&eacute;m debaixo d'estas
+f&oacute;rmas quasi delicadas escondia elle vigor pouco vulgar,
+assim
+<span class="pagenum">[49]</span>
+como o sorriso meio travesso,
+que lhe bailava nos labios, disfar&ccedil;ava uma firmeza e
+penetra&ccedil;&atilde;o mui pouco usuaes. <br />
+
+<br />
+
+Sabia ler, escrever, e contar como um mestre&#8213;eschola. Se tivesse
+nascido trinta annos depois, n'estes felizes tempos, era de certo juiz
+eleito, regedor, vereador, e quem sabe (!) talvez mesmo deputado!
+Outros
+muito peiores deu j&aacute; &aacute; luz a urna rural.
+S&atilde;o os que,
+cerzindo umas abas de palet&oacute; &aacute; jaqueta
+hereditaria, mascarram de interpella&ccedil;&otilde;es
+bo&ccedil;aes e
+de apoiados taurinos e beocios o extracto das sess&otilde;es,
+acotovellando-se nos aditos da tribuna. <br />
+
+<br />
+
+O nosso amigo contentava-se, por&eacute;m, com os seus trinta a
+quarenta moios de colheita, com as vinte pipas de azeite, que expremia
+nos seus lagares, com os toneis attestados de vinho puro e genuino,
+honra e orgulho da sua adega, e com a vara de juiz de vintena,
+magistratura exercida a contento de clero, nobreza e povo. <br />
+
+<br />
+
+O Jo&atilde;o da Ventosa, ou Jo&atilde;o Bonito, como lhe
+chamavam as mulheres da sua edade, gosava &aacute;l&eacute;m
+d'isso da fama de rico, pastava bons rebanhos na charneca, fazia
+dinheiro de tudo, e abotoava-se com um bom par de louras. Solteiro e
+jovial vivia s&oacute; em companhia de um sobrinho de quatorze
+annos, e de dois creados. <br />
+
+<br />
+
+Ao p&ocirc;r da tarde, vendo a trovoada armada, tinha ido de
+passeio rondar as hortas e o olival, tinha deitado depois
+at&eacute; &aacute;s abegoarias, e na volta de uma das
+arribanas, por encurtar caminho, viera descair &aacute; azinhaga,
+aonde a espingarda do <em>Sapo</em>
+acab&aacute;ra de deitar por terra Antonio Sim&otilde;es da
+Aramanha. <br />
+
+<br />
+
+O estrondo do tiro, a hora e o grito do ferido obrigaram-n'o a apertar
+o passo. Assim mesmo chegou tarde. O assassino j&aacute; tinha
+saltado o vallado, e o corpo do fazendeiro jazia prostrado. Era quasi
+noite, choviscava rijo, e o
+<span class="pagenum">[50]</span>
+ribombo dos
+trov&otilde;es amiudava. Inclinou-se para o morto, conheceu n'elle
+um amigo de vinte annos, exhalou um suspiro, rosnou uma praga contra o
+homicida, e, depois de alguns momentos de
+hesita&ccedil;&atilde;o, levantou-o nos
+bra&ccedil;os, como se o peso n&atilde;o o devesse ajoujar, e
+deitando-lhe a cabe&ccedil;a sobre o hombro, sem vergar,
+encaminhou-se com elle para casa. &Aacute; porta chamou o maioral e
+o abeg&atilde;o, e todos tres transportaram o cadaver para a
+cozinha. <br />
+
+<br />
+
+Duas horas depois batia &aacute; porta o sargento Cabrinha com os
+seus milicianos, e da parte da justi&ccedil;a pedia agasalho por
+aquella noite para elles e para os presos. O Jo&atilde;o da
+Ventosa, ao que parece, estava occupado, porque os deixou repetir o
+recado terceira e quarta vez. <br />
+
+<br />
+
+Por fim veiu abrir em pessoa, e desculpando-se com o mau tempo, metteu
+o sargento na cozinha com os acolytos, e guiou Paulo de Azevedo ao
+andar nobre, a um aposento mais bem reparado, aonde um leito antigo de
+balaustres enroscados e baldaquino de seda carmezim, cama quasi regia,
+parecia esperar por elle. O quarto de D. Leonor era ao lado, e
+communicava por uma entrada baixa com o de seu pae. Cabrinha assistiu
+ao aquartelamento dos presos, visitou o corredor e a escada, que era a
+que dava para a cozinha, sondou a parede de duas portas entaipadas de
+fresco, que abriam d'antes para o corpo do palacio, e n&atilde;o
+socegou sen&atilde;o depois de ter
+fechado o cavalheiro de Mafra e sua filha a duas voltas de chave nas
+duas camaras, que um official amigo do rendeiro havia separado do resto
+da casa, enchendo de pedra e cal o v&atilde;o das portas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A menos de n&atilde;o lhes nascerem azas de repente, murmurava o
+sargento, para voarem, ou de passarem como espiritos atrav&eacute;s
+dos muros, os dois est&atilde;o seguros. A evas&atilde;o pelas
+<span class="pagenum">[51]</span>
+janellas, vista a altura, equivale a um
+suicidio; e pela porta, mesmo que a arrombem, como n&atilde;o ha
+sen&atilde;o uma escada e uma saida, e ambas v&atilde;o dar
+&aacute; cozinha, aonde conto acampar, qualquer tentativa serviria
+s&oacute; de os tornar a metter nas goelas do lobo! <br />
+
+<br />
+
+Tomadas todas as cautellas, que a prudencia aconselha, Estevam Cabrinha
+desceu com o seu hospede, e principiou a apalpal-o, &aacute;cerca
+da generosidade, que lhe suppunha de n&atilde;o consentir que elle
+e os seus jejuassem s&oacute; com o leve almo&ccedil;o, esmoido
+no largo passeio do Casal do Ouro &aacute; Ponte da Asseca.
+Jo&atilde;o da Ventosa respondeu &aacute;s gargalhadas, que de
+sua casa nunca saiam barrigas famintas, e gritando pelos creados,
+mandou trazer luz e accender o lume. <br />
+
+<br />
+
+N'este momento entrou o <em>Sapo</em>. <br />
+
+<br />
+
+Rondando as visinhan&ccedil;as o virtuoso assessor do sargento
+achou a porta meio cerrada, ouviu de f&oacute;ra a voz aspera e
+roufenha do amo, e sem mais ceremonia inseriu-se no texto, enfiou o
+corredor, e veiu farejar a ceia e a pousada. <br />
+
+<br />
+
+A manta, em que se enrolava, escorria como se f&ocirc;ra tirada de
+um tanque, e as botas atascadas de barro denunciavam a larga
+excurs&atilde;o de que se recolhia. Approximando-se de Cabrinha,
+tocou-lhe no hombro, e disse-lhe ao ouvido duas palavras. O digno
+mandarim recuou sobresaltado, e n&atilde;o poude conter uma
+exclama&ccedil;&atilde;o em alta voz,
+exclama&ccedil;&atilde;o de susto e de alegria ao mesmo tempo,
+que n&atilde;o escapou &aacute; curiosa
+atten&ccedil;&atilde;o, com que o Jo&atilde;o da
+Ventosa espreitava e escutava com todos os sentidos vigilantes o
+dialogo confidencial dos dois personagens, cujas proezas conhecia de
+longa data. <br />
+
+<br />
+
+As suspeitas, que desde o principio o tinham assaltado
+&aacute;cerca dos verdadeiros auctores do homicidio da azinhaga,
+confirmaram-se.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[52]</span>
+Estevam Cabrinha era muito capaz de encommendar a morte do fazendeiro,
+e Gaspar Preto muito obediente servo, em se tractando de um crime, para
+elle os n&atilde;o accusar secretamente do delicto, e
+n&atilde;o v&ecirc;r as m&atilde;os de ambos tintas no
+sangue do seu amigo. Sabia a historia da pris&atilde;o de Antonio
+Sim&otilde;es,
+n&atilde;o ignorava a promessa indiscreta que elle fizera, de
+varejar as costellas do sargento e do
+<em>Sapo</em>, e o mau conceito que formava
+d'elles, auctorizava-o a crer que o tiro e a espera haviam partido de
+um plano concertado com a delibera&ccedil;&atilde;o e
+perversidade, que tanto caracterizavam o coxo, e o seu Mecenas. <br />
+
+<br />
+
+Mas se o sargento era jubilado em velhacaria, e se o seu fiel Achates
+tinha estanhadas a alma e as faces, Jo&atilde;o da Ventosa
+lisongeava-se de os codilhar a ambos em esperteza, e arm&aacute;ra
+uma rede, em que haviam de cair por for&ccedil;a. Calou-se, pois, e
+esperou. <br />
+
+<br />
+
+D'ahi a pouco o mo&ccedil;o dos bois appareceu com o velho e
+cansado lampi&atilde;o, cuja luz morti&ccedil;a s&oacute;
+come&ccedil;ou a avivar-se depois de pendurado. Logo atraz outro
+creado atirava ao ch&atilde;o com um grande feixe de matto secco, e
+arrastando para a lareira dois cepos de oliveira, petiscava lume com o
+fuzil, e incendiando tudo ateava uma labareda, cujos
+clar&otilde;es, lambendo as paredes da vasta chamin&eacute;,
+derramaram por toda a casa viva e repentina claridade. De subito o
+sargento, que se achava com o <em>Sapo</em>
+junto da mesa de pedra,
+olhou, viu o corpo, e por um gesto machinal e irresistivel extendeu a
+m&atilde;o, e levantou o panno que lhe cobria o rosto. A vista
+encandeou-se-lhe, os cabellos erri&ccedil;aram-se-lhe, e um grito
+de espanto truncou-se-lhe suffocado na garganta. As c&ocirc;res
+rubicundas amorteceram-se, e, se n&atilde;o se ampara com a
+hombreira, resvalava redondo
+<span class="pagenum"><a name="p53">[53]</a></span>
+no
+ch&atilde;o, t&atilde;o fracos lhe fugiam os joelhos.
+<br />
+
+<br />
+
+Gaspar Preto ainda revelou mais horror. Recuando at&eacute;
+&aacute; parede com as m&atilde;os
+abertas como para afugentar de si a vis&atilde;o terrivel, parecia
+metter-se pelo muro dentro, com os cabellos em p&eacute;, as
+pupillas envidra&ccedil;adas, e tal convuls&atilde;o em todo o
+corpo, que o frio de uma sez&atilde;o mortal n&atilde;o
+pod&eacute;ra ser maior. <br />
+
+<br />
+
+Os milicianos boquiabertos contemplavam o cadaver, e a figura singular
+de Estevam Cabrinha e do coxo, que n&atilde;o eram santos da
+devo&ccedil;&atilde;o <a href="#e10">de</a>
+nenhum
+d'elles. <br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o da Ventosa sorria-se para dentro. Dir-se-hia que
+fulminava os dois cumplices com o sombrio fulgor dos olhos. Um instante
+depois pousou a vista, sereno e temperado, sabendo conter-se e
+dissimular para n&atilde;o se prender no mesmo la&ccedil;o, que
+tecia aos outros. <br />
+
+<br />
+
+Seguiram-se as explica&ccedil;&otilde;es. O rendeiro com a voz
+macia, cujo timbre era quasi feminil, e aquelle ar de rir bondoso, que
+encobria tanta cousa, desculpou-se da triste companhia, que era
+obrigado a dar aos hospedes. <br />
+
+<br />
+
+Tinha encontrado, disse elle, Antonio Sim&otilde;es morto, apenas o
+conhecia de vista, mas n&atilde;o tivera animo de deixar o corpo de
+uma creatura de Deus exposto no caminho toda a noite. N&atilde;o
+havia outra casa decente, aonde esperasse a sepultura
+christ&atilde;, e o tempo e a hora n&atilde;o permittiam chamar
+o padre, e deposital-o na egreja. Ao passo que explicava isto, o
+compassivo Jo&atilde;o accendia de vagar duas vellas de
+c&ecirc;ra, amarelladas dos ocios da gav&ecirc;ta, e
+cravando-as nos casti&ccedil;aes de estanho amolgados, punha uma
+aos p&eacute;s e outra &aacute; cabeceira do morto, completando
+com todo o socego, e de proposito, a exposi&ccedil;&atilde;o
+funebre, que arripiava os circumstantes, e especialmente o sargento e
+seu confidente, constrangidos
+<span class="pagenum">[54]</span>
+a
+associar toda a noite o banquete e o somno dos vivos ao espectaculo do
+cadaver ensanguentado da sua victima. Se ambos podessem ler na alma do
+homem, que lhes estava falando, ainda haviam de tremer mais! <br />
+
+<br />
+
+Na mente d'elle tudo isto apenas era prologo!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c6"></a>VI</h3>
+
+<h3><br />
+
+Ressurrei&ccedil;&atilde;o de Lazaro</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Decorreram minutos sem que as mandibulas de Estevam Cabrinha,
+deslocadas pelo terror, podessem volver ao estado natural. Nem
+articulava, nem balbuciava. S&oacute; a pouco e pouco &eacute;
+que se foi restaurando do susto, e maldizendo o
+<em>Sapo</em>, o rendeiro, e aquella
+funesta casa, regougou meio desvairado uma evasiva para desculpar o
+pav&ocirc;r, que o accommett&ecirc;ra, e que n&atilde;o era
+senhor de disfar&ccedil;ar. <br />
+
+<br />
+
+Os seus nervos estavam t&atilde;o delicados, que a vista do sangue
+e do cadaver, tirava-o de si, e tornava-o mais fraco, do que uma
+mulher! Entretanto fazia o possivel por ser homem; mas pedia por tudo o
+que havia de santo no c&eacute;u e na terra, que o n&atilde;o
+obrigassem a velar a noite ao p&eacute; do morto, se em vez de um,
+n&atilde;o queriam enterrar dois cadaveres. <br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o da Ventosa affectou clemencia. Capitulando com os
+terrores do sargento prometteu dar-lhe um quarto retirado no fundo do
+corredor, depois da ceia. Pediu-lhe depois licen&ccedil;a para ir
+cuidar dos hospedes presos, que desejava receber como pessoas nobres, e
+que
+<span class="pagenum">[56]</span>
+a m&aacute;
+reputa&ccedil;&atilde;o da casa por certo
+assustaria, sobre tudo na escurid&atilde;o, e com o temporal que
+parecia arrancar as arvores e os telhados. Cabrinha suspirou, e com um
+aceno respondeu que sim. Sentia-se gelado, e o
+cora&ccedil;&atilde;o batia-lhe com tal for&ccedil;a, que
+parecia querer saltar f&oacute;ra do peito. <br />
+
+<br />
+
+O lavrador accendeu dois candieiros de lat&atilde;o amarello de
+tres bicos, pesados e disformes, pendurou pela argola um em cada
+m&atilde;o, e come&ccedil;ou a subir a escada, escoltado por
+Cabrinha, que apezar de meio tonto, e de tartamudo de m&ecirc;do,
+sempre desejou certificar-se outra vez de que a gaiola, como dissera
+antes, era solida, e n&atilde;o deixaria escapar os passaros. <br />
+
+<br />
+
+Um creado poz a toalha, trouxe queijos e p&atilde;o, e reanimou o
+alento dos milicianos, collocando triumphalmente em cima da mesa um
+bojudo cangir&atilde;o e dois canecos de estatura descommunal,
+destinados &aacute;s liba&ccedil;&otilde;es.
+Os soldados chegaram-se a principio timidos, partiram e saborearam o
+queijo, acharam-o excellente, provaram o vinho, que estava ainda
+coberto da espuma da pipa espichada de proposito, e romperam o assalto,
+esquecendo gradualmente o morto, o sargento, e o
+<em>Sapo</em>, o qual, agachado
+como fera medrosa a um canto da chamin&eacute;, s&oacute; dava
+signal de vida nos estremecimentos, que lhe saccudiam os membros. <br />
+
+<br />
+
+A demora de Cabrinha em cima foi grande. Quiz assistir a todos os
+arranjos, que a velha servente do rendeiro determinou, e que ia
+executando com a m&atilde;o vagarosa por entre as
+ora&ccedil;&otilde;es resmungadas entre dentes a Santa Barbara
+e a S. Sime&atilde;o Stelita, advogados contra os
+trov&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Viu, pois, lan&ccedil;ar nas camas os len&ccedil;oes de linho
+fino e defumados, recheio das arcas do
+<span class="pagenum"><a name="p57">[57]</a></span>
+lavrador; viu enfiar as fronhas e os travesseiros de folhos com fitas
+azues; viu deitar as colchas de seda da India matizadas, e pregar as
+cortinas dos leitos. Immovel e calado os seus olhos vigiavam tudo, mas
+o seu espirito ausente estava ao p&eacute; do morto. Finalmente os
+mo&ccedil;os trouxeram a ceia em bandejas largas, e a creada velha
+despediu o amo e o sargento, declarando que ficava e dormia perto dos
+presos para os servir. <br />
+
+<br />
+
+Cabrinha saiu atraz do seu amphytri&atilde;o, fechou a porta, e
+metteu a chave no bolso. Por este lado estava tranquillo. Restava a
+ceia com o cadaver defronte. Essa &eacute; que se lhe representava
+um supplicio insupportavel; e se n&atilde;o fosse o receio, com que
+o remorso ata a lingua dos criminosos, teria pedido um
+peda&ccedil;o de p&atilde;o secco, um ou dois goles de vinho, e
+iria para o meio da estrada esperar que nascesse o dia, mesmo em risco
+de uma pancada de agua o ensopar, ou de um raio o fulminar.
+N&atilde;o se atreveu, por&eacute;m. De cabe&ccedil;a baixa
+e passos incertos, sem ousar olhar, e n&atilde;o podendo, todavia,
+apartar a vista da mesa de pedra, veiu sentar-se ao brazeiro, do outro
+lado, defronte do <em>Sapo</em>. Ao mesmo
+tempo o
+Jo&atilde;o da Ventosa consultava o immenso relogio de prata, e,
+vendo apontadas no mostrador as dez horas, gritava pelos creados, que
+apressassem a ceia, se n&atilde;o queriam que elle e seus honrados
+amigos morressem alli todos de fraqueza. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos! exclamou. Andar! Esse cabrito n&atilde;o acaba de sair do
+lume, mandri&otilde;es? Para temperar umas migas ser&aacute;
+preciso chamar o cozinheiro do patriarcha? Oh <a href="#e11">Pedro</a>?
+As batatas
+cozam-n'as no borralho!... Ficam mais gostosas. D&ecirc;em-me
+d'aquellas laranjas de casca fina do pomar de cima, que eu apanhei
+hontem. Tirem o vinho da pipa nova! Bem basta a inferneira que logo ahi
+vae em sendo
+<span class="pagenum">[58]</span>
+meia noite! E
+ent&atilde;o com esta visita em casa! E apontava para o morto.
+&Eacute; preciso que o demonio e as almas do outro mundo, quando
+vierem, nos achem confortados e quentes de estomago, limpos de
+cora&ccedil;&atilde;o, e lavados de consciencia... Que tal
+&eacute; esse vinhinho, camarada? Ajuntou pedindo o caneco a um dos
+milicianos, ao qual o seu discurso petrific&aacute;ra os
+movimentos, conservando a ta&ccedil;a rustica a meia distancia da
+mesa e da b&ocirc;cca sem animo de a depor, ou de a sorver. Os
+outros, pallidos e sobresaltados, olhavam espavoridos para as portas,
+para as paredes, e para a
+mesa de pedra, e benziam-se, suppondo ver j&aacute; um espectro em
+cada canto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos! ajuntou. &Aacute; nossa saude! E que Deus nos livre por
+muitos e bons annos de um amigo, como encontrou aquelle que alli jaz! E
+emboccando o caneco deixou cair do bico o vinho em fio dentro da
+b&ocirc;cca &aacute; moda hespanhola, engorgitando-o lentamente
+com delicias. <br />
+
+<br />
+
+O brinde funebre produzira o seu effeito. O sargento poz-se em
+p&eacute; e desabotoou tres bot&otilde;es da farda. Sentia-se a
+arder. O
+<em>Sapo</em> agachou-se mais, e
+ouviam-se-lhe distinctamente bater os dentes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A ceia! A ceia! Rapazes! clamava o lavrador acompanhando o rebate das
+vozes com fortes punhadas em cima da mesa. <br />
+
+<br />
+
+Os creados acossados por estas impaciencias, verdadeiras, ou fingidas,
+saccudiram a pregui&ccedil;a, e a correr acabaram de p&ocirc;r
+a mesa, a correr trouxeram as migas e o cabrito, e a correr tambem
+vieram com as batatas e as laranjas. O cangir&atilde;o refrescado
+por segunda visita &aacute; adega estava cheio at&eacute;
+&aacute; borda. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos a ella? gritou o dono da casa. Senhor sargento, chegue-se para
+os bons, e ser&aacute; um d'elles! sente-se do meu lado. Tu, meu
+<span class="pagenum">[59]</span>
+<em>Sapo</em>, com essa cara de alvaiade vae
+para alli. &Eacute;s curioso, e quero que me espreites o defunto a
+ver se bole com a alegria dos vivos! Os camaradas accommodem-se aonde
+poderem! Desculpem as colheres de pau e os garfos de ferro. A pratita,
+que tinhamos, est&aacute; em Lisboa; nos tempos, em que vivemos,
+digam l&aacute; o que disserem, sempre &eacute; o mais
+seguro... Nada de tristezas! Longe v&aacute; quem mal nos quer!
+Senhor sargento &aacute; nossa! &Eacute; bom copo, tenho
+ouvido, mas o Jo&atilde;o tambem n&atilde;o arreia. Encha-me
+esse caneco at&eacute; cima, e despeje-m'o de um trago,
+sen&atilde;o digo que o vinho &eacute; mau, ou que debaixo de
+boa capa ruim bebedor! <br />
+
+<br />
+
+Por um esfor&ccedil;o heroico Estevam Cabrinha conseguiu obedecer.
+N&atilde;o tinha s&ecirc;de, nem fome, tinha medo. A ceia era
+para elle um martyrio, sobre tudo com as costas viradas para o cadaver,
+cuja sombra se lhe figurava a cada momento alevantada por cima dos
+hombros. O <em>Sapo</em> n&atilde;o
+padecia menor
+tormento. Com o morto e a vista do sudario ensanguentado defronte
+enlouquecia de terror e de afflic&ccedil;&atilde;o. Suas
+pupillas dilatadas n&atilde;o podiam despregar-se d'aquelle
+testemunho irrecusavel, que lhe avivava o crime pela b&ocirc;cca
+das feridas, por onde fugira a alma. Deixou de ver o que o rodeava para
+v&ecirc;r s&oacute; a victima silenciosa, e
+amea&ccedil;adora. Poz-se-lhe um n&oacute; na garganta, e um
+v&eacute;u nos olhos. A primeira colh&eacute;r, que levou
+&aacute; b&ocirc;cca, tornou-se-lhe de fel; o
+primeiro trago de vinho, que sorveu, soube-lhe a sangue. Sentia
+tenta&ccedil;&otilde;es de se atirar pela porta
+f&oacute;ra, desatando em uma corrida louca; mas os p&eacute;s
+estavam grudados ao c n&atilde;o
+padecia menor
+tormento. Com o morto e a vista do sudario ensanguentado defronte
+enlouquecia de terror e de afflic&ccedil;&atilde;o. Suas
+pupillas dilatadas n&atilde;o podiam despregar-se d'aquelle
+testemunho irrecusavel, que lhe avivava o crime pela b&ocirc;cca
+das feridas, por onde fugira a alma. Deixou de ver o que o rodeava para
+v&ecirc;r s&oacute; a victima silenciosa, e
+amea&ccedil;adora. Poz-se-lhe um n&oacute; na garganta, e um
+v&eacute;u nos olhos. A primeira colh&eacute;r, que levou
+&aacute; b&ocirc;cca, tornou-se-lhe de fel; o
+primeiro trago de vinho, que sorveu, soube-lhe a sangue. Sentia
+tenta&ccedil;&otilde;es de se atirar pela porta
+f&oacute;ra, desatando em uma corrida louca; mas os p&eacute;s
+estavam grudados ao ch&atilde;o e as pernas mal o sustinham. A cada
+instante entrava-lhe pelos ouvidos o som dos passos de
+Antonio Sim&otilde;es, e ouvia o grito que elle
+arranc&aacute;ra caindo ferido. O suor escorria-lhe em
+<span class="pagenum">[60]</span>
+bagas da testa, e os bei&ccedil;os
+tremulos denunciavam a intensidade da agonia. <br />
+
+<br />
+
+O lavrador observava, e dissimulava. O seu ar de riso e a sua
+jovialidade cresciam &aacute;
+propor&ccedil;&atilde;o, que iam aggravando-se as dores moraes
+de ambos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &eacute; isso, <em>Sapo</em>?
+accudiu elle apertando os tratos ao mais culpado. Que &eacute;
+feito d'aquella galhofa do outro dia, meu velho? Est&aacute;s com
+cara de enterro. Ter&aacute;s tu morte de homem &aacute;s
+costas, diabo?!!... <br />
+
+<br />
+
+A esta interpella&ccedil;&atilde;o directa, que o rendeiro
+disfar&ccedil;ou em uma risada larga e sonora, o remorso fez saltar
+involuntariamente dos bancos o sargento, e o seu cumplice, como se a
+voz do sangue chamasse por elles no tribunal de Deus. &Aacute;
+pergunta: Cain que fizeste de Abel, ao brado que a consciencia repetia
+aos dois, ambos tremeram, mas n&atilde;o poderam responder:
+n&atilde;o fui eu! Sentiam-se tomados de espanto at&eacute;
+&aacute;s mais fundas cavernas do
+cora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o da Ventosa, entendendo que n&atilde;o devia ir mais
+longe para n&atilde;o se descobrir, e vendo os dois de
+p&eacute;, mudos, e pasmados, tractou de os tranquillizar a seu
+modo, isto &eacute;, vertendo-lhes o terror nas veias por outro
+modo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sente-se, meu sargento! disse elle mettendo o hospede no
+cora&ccedil;&atilde;o com o tom assucarado. Que vespa o mordeu?
+Os ares da casa n&atilde;o s&atilde;o bons, sei muito bem; mas
+o que quer? A gente toma amor ao ninho, e depois n&atilde;o ha quem
+o despegue d'elle. N&atilde;o tenho mulher, nem filhos; nasceu-me
+aqui o dente do siso, e... &Eacute; melhor n&atilde;o tocar em
+cousas m&aacute;s. Mas
+sempre lhe digo que ha noites! Ainda antes de hontem foi um
+reboli&ccedil;o l&aacute; por cima de
+cad&ecirc;as arrastadas, de solu&ccedil;os e gemidos, que
+vinham os sobrados abaixo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E nunca viu nada, senhor Jo&atilde;o? atalhou
+<span class="pagenum">[61]</span>
+um dos milicianos meio engasgado com um
+peda&ccedil;o de cabrito, que o susto causado pelas
+reflex&otilde;es caridosas do rendeiro lhe atravess&aacute;ra
+na garganta. <br />
+
+<br />
+
+Estevam Cabrinha desaboto&aacute;ra todos os bot&otilde;es da
+farda, e pelas frestas da camisa aberta mostrava o peito
+vell&ocirc;so como o de um cerdo. Tinha os cotovellos na mesa, a
+cabe&ccedil;a entre as m&atilde;os, e os olhos espantados. <br />
+
+<br />
+
+Gaspar Preto recaira, sem poder reprimir-se, no tremor das primeiras
+horas. <br />
+
+<br />
+
+Aquelles dois entes, t&atilde;o fortes contra a consciencia,
+t&atilde;o esquecidos de Deus e da justi&ccedil;a humana,
+desmaiavam como crean&ccedil;as deante da sombra do seu crime e dos
+pavores do invisivel. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se n&atilde;o vi nada?... Oh! redarguiu o dono da casa,
+tornando-se serio de repente, e fazendo suppor com a reticencia, que
+n&atilde;o tinha animo para dizer tudo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conte-nos isso! accudiu um dos comensaes, que n&atilde;o era dos
+menos timidos, mas que era de certo dos mais curiosos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para que? Para n&atilde;o dormirem umas poucas de noites?!...
+respondeu Jo&atilde;o da Ventosa. &Eacute; melhor falarmos de
+cousas alegres. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. N&atilde;o! Diga! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois n&atilde;o se queixem! Faz hoje um anno, e justamente
+chovia e trovejava como agora, que parecia que se acabava o mundo.
+Tinha uma cadella de perdizes, que era um brinco, a Pomba.
+Faltou-me todo o dia, e cuidei logo que ficaria fechada l&aacute;
+em cima. A esse tempo ainda eu n&atilde;o tinha mandado tapar as
+duas portas dos quartos, que viu o sargento, e aonde est&atilde;o
+os presos. Peguei n'uma lanterna e subi. Atravessei tres salas. Apitei,
+chamei a Pomba, n&atilde;o me respondeu, ella, coitadinha, que em
+me ouvindo era toda saltos e alegria. Olhei por acaso para um canto
+mais
+<span class="pagenum">[62]</span>
+escuro, e vi... a pobre da
+bruta morta com a cabe&ccedil;a torcida!... N&atilde;o sei o
+que me passou pela vista, mas tive medo, medo deveras, juro-lhes.
+Peguei no corpo da Pomba, e arrastando-me, e trope&ccedil;ando, vim
+at&eacute; &aacute; porta, que hoje est&aacute; entaipada.
+De repente um sopro forte apaga-me a luz, um clar&atilde;o bate-me
+nos olhos, e uma figura branca apparece-me t&atilde;o alta e
+transparente, que se via atrav&eacute;s das roupas e do corpo (se
+era corpo!) como atrav&eacute;s de um vidro fino. N&atilde;o
+posso dizer-lhes o que senti, mas quiz gritar e faltou-me a voz, quiz
+benzer-me e caiu-me a m&atilde;o, quiz fugir e fiquei parado. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;O Fantasma fitou-me dois instantes com um olhar frio, que
+gelava e disse-me: Desgra&ccedil;ado de ti se tivesses sangue nas
+m&atilde;os! Nenhum matador sae vivo d'esta casa! Perdi os
+sentidos. Quando tornei a mim era dia, e estava deitado na minha cama.
+Suppuz ter sido tudo sonho; mas a cadella morta jazia aos
+p&eacute;s do leito. Enterrei-a, fiz uma parede das duas portas, e
+andei um mez como doudo, malucando no caso, que podia ser peior...
+F&oacute;ra com historias negras! exclamou mudando de tom. Estamos
+hoje aqui muitos, e gra&ccedil;as a Deus nenhum de n&oacute;s
+tem de lavar as m&atilde;os de sangue, que vertesse. Vae dar meia
+noite! ajuntou tirando um relogio de prata. &Eacute; a hora da
+senzala principiar l&aacute; por cima. N&atilde;o se assustem!
+O vinho &eacute; bom, festejemol-o, e o que for soar&aacute;.
+Nossa Senhora, minha madrinha, n&atilde;o ha de
+desamparar-nos.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+A consola&ccedil;&atilde;o acabou de petrificar o auditorio,
+que a narra&ccedil;&atilde;o j&aacute; n&atilde;o tinha
+estultificado pouco. O sargento e o seu assessor, ainda mais enfiados,
+trocaram um olhar desvairado, e gemeram um suspiro. Era a sua
+senten&ccedil;a que o espectro annunci&aacute;ra pela
+b&ocirc;cca do lavrador? Os canecos ficaram cheios sobre a mesa;
+<span class="pagenum">[63]</span>
+o cabrito, meio escarnado, viu
+suspensas as hostilidades, que amea&ccedil;avam deixal-o na ossada;
+e s&oacute; o dono da casa levou aos bei&ccedil;os, e exgotou a
+liba&ccedil;&atilde;o, que propozera. O volumoso relogio de
+caixas de prata posto a seu lado, attrahia a vista anciosa de todos.
+Era t&atilde;o profundo o silencio, que se sentia a leve pancada da
+machina trabalhando. Finalmente o ponteiro pousou-se nas doze horas, e
+o lavrador, como se obedecesse a um impulso espontaneo e invencivel,
+poz-se de p&eacute;, e exclamou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meia noite! Deus seja comnosco! <br />
+
+<br />
+
+N'este momento, como se a natureza quizesse associar os seu terrores
+&aacute; scena alli representada, um furac&atilde;o espantoso
+saccudiu e abalou todo o palacio com rugidos prolongados, um
+trov&atilde;o rebentou perpendicular com o estrondo de cem
+canh&otilde;es no meio de medonhos estalos, fazendo tremer a terra,
+a casa encheu-se de luz electrica por um instante, e a chuva,
+a&ccedil;outando com o seu granizo rijo e batido os telhados e os
+muros, enxurrou dos tectos pelas chamin&eacute;s arrombadas, e veiu
+quasi extinguir o lume, que esmoreceu em chispas lividas por entre
+ondas de fumo. Ao mesmo tempo as duas portas pregadas com travessas
+&aacute; entrada das escadas, que desciam para a cozinha, vieram a
+terra com fragor, o cadaver deitado sobre a mesa ergueu meio corpo
+sobre o cotovello, e arrancou o panno cruento, soltando um gemido
+lugubre, e uma figura de altura descommunal, envolta em sudario branco
+e fluctuante, assomou ao limiar. Tudo isto occorreu em menos de um
+segundo, acompanhado do ruido de ferros arrastados, do tropel de passos
+e de quedas tumultuosas, e de um verdadeiro clamor de vozes e gemidos
+no andar de cima. <br />
+
+<br />
+
+Os milicianos apavorados hesitaram um instante immoveis. Depois
+correndo, como
+<span class="pagenum"><a name="p64">[64]</a></span>
+loucos,
+investiram pelo corredor, e como rebanho tresmalhado e perseguido por
+alcateas de lobos, sentiram de repente azas nos p&eacute;s, e
+voaram pela estrada inundada por entre os relampagos e por baixo das
+aguas da tempestade, gritando misericordia! <br />
+
+<br />
+
+O sargento ao som das portas, que desabavam, e deante da
+appari&ccedil;&atilde;o <a href="#e12">inopinada</a>,
+sem saber
+j&aacute; de si, e sem ver o morto al&ccedil;ar-se,
+trepou em dois pulos a escada de pedra, metteu a chave na porta, e
+acoutou-se nos aposentos dos presos, t&atilde;o cego e attonito que
+atropellou na carreira a velha servente na sua cama, e foi cair de
+bru&ccedil;os ao p&eacute; da mesa, aonde se
+apagava em vascas a v&eacute;la consumida de um
+casti&ccedil;al. <br />
+
+<br />
+
+O <em>Sapo</em>, que observ&aacute;mos
+paralyzado momentos antes, vendo surgir o fantasma, sentiu todos os
+instinctos ferozes irritados, e pegando da espingarda, e apontando-a
+n'um abrir e fechar de olhos, s&oacute; volveu em si, quando o
+c&atilde;o bateu na pederneira, e esta faiscou, sem queimar a
+escorva, deixando-lhe nas m&atilde;os uma arma inutil.
+Ent&atilde;o, como o tigre que rompe a jaula, arremetteu pelo
+corredor do dormitorio, e de l&aacute;, galgando o muro baixo do
+pateo, sem se deter a buscar a porta nas trevas, achou-se no campo, e
+precipitando-se por sebes e vallados, veiu parar sem folego, sem voz, e
+sem consciencia de si ao p&eacute; do moinho da Raposa. <br />
+
+<br />
+
+Finalmente o proprio espectro, primeira causa de todo o
+alvoro&ccedil;o, n&atilde;o escapou ao contagio
+geral, e deu tambem parte de fraco. Vendo o morto levantar-se e
+saccudir os v&eacute;us funebres, assaltou-o tal
+convuls&atilde;o de m&ecirc;do, que, tapando os olhos com um
+grande grito, desabou no ch&atilde;o do alto das andas, em que
+estribava. Teve raz&atilde;o ainda d'esta vez o adagio. Virou-se o
+feiti&ccedil;o contra o feiticeiro!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[65]</span>
+Mas as peripecias d'esta dramatica noite n&atilde;o estavam
+terminadas. No momento, em que, afogado em riso, o Jo&atilde;o da
+Ventosa accudia a levantar o fantasma demolido pelo susto, o sargento
+Cabrinha despenhava-se pela escada, bradando possesso de espanto.
+N&atilde;o era sem causa! <br />
+
+<br />
+
+Seguimol-o quando subia os degraus a dois e dois para se refugiar na
+camara dos presos; vimol-o enrolar-se e trope&ccedil;ar no corpo
+tolhido de rheumatismos da tia Margarida, a qual, pobre mulher (!),
+acordada em sobresalto pelos trov&otilde;es, tiritava de joelhos em
+anagua de estopa, benzendo-se, e invocando todos os santos da
+c&ocirc;rte do c&eacute;u, quando aquelle furac&atilde;o
+humano se ennovellou com ella, e lhe fez das costas escabello. Os
+gritos da servente, a motinada do palacio, que alli soava mais
+proxima, desembriagaram um pouco do medo do andar de baixo o
+virtuoso agente de Lagarde, mas exaltando-lhe os terrores excitados
+pelo andar de cima. Percebeu que o asylo, que busc&aacute;ra, era
+peior do que o perigo, e tractou de apressar a retirada. <br />
+
+<br />
+
+Mas apezar dos accessos de valor, que lhe not&aacute;mos, era
+malsim na alma e nos ossos, e a curiosidade prevaleceu. Antes de fugir
+quiz verificar de novo se os outros podiam fugir. A tremer pegou em uma
+v&eacute;la e abriu as cortinas da cama de Paulo de Azevedo. Recuou
+pasmado. Estava vasia! Correu ao quarto immediato de Leonor; achou-o
+deserto! O unico preso, que n&atilde;o se bolira, f&ocirc;ra a
+inoffensiva
+e tropega Margarida! O sargento sentiu estalar uma cousa dentro do
+peito. Se tivesse cora&ccedil;&atilde;o diria que era o
+cora&ccedil;&atilde;o! N&atilde;o o tendo acabou de se lhe
+varrer o sizo, e ficou por minutos estatico a contemplar aquella
+solid&atilde;o, obra visivel do demonio. <br />
+
+<br />
+
+Por fim este ultimo golpe e uns suspiros
+<span class="pagenum">[66]</span>
+em tremulos, exhalados do outro lado da parede, venceram esses restos
+de vigor, que ainda conserv&aacute;ra. Consumou o seu destino, e
+despejou o campo como os seus milicianos, por&eacute;m com menos
+felicidade. Quiz descer a escada, os p&eacute;s
+atrai&ccedil;oaram-o, e mediu-a com as costellas de cima
+at&eacute; baixo. Quando tornou a si com a dor, e por ella conheceu
+que vivia ainda, os seus olhos horrorizados perderam a luz de assombro
+e de pavor. <br />
+
+<br />
+
+No meio da casa o Manuel Sim&otilde;es da Aramanha, de
+p&eacute;, encarava-o sombrio e terrivel. Ao p&eacute; da mesa
+o fantasma branco, entrouxado nos len&ccedil;oes, extendia o
+bra&ccedil;o direito em ar de amea&ccedil;a. Atraz d'elles
+Jo&atilde;o da Ventosa, mudo e inerte, e como gelado, apontava-lhe
+para o corredor, sem falar, como se o convidasse a fugir.
+N&atilde;o poude mais. Atou as m&atilde;os na cabe&ccedil;a
+e ca&iacute;u sem sentidos.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c7"></a>VII </h3>
+
+<h3><br />
+
+Segredos em toda a parte </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os aposentos aonde Paulo de Azevedo Carvalho e sua filha foram
+encerrados, em um dos torre&otilde;es do palacio, eram dos mais bem
+conservados. Os tectos n&atilde;o estavam arrombados; os filetes,
+que guarneciam as molduras das paredes, forradas de pannos de Arraz,
+ainda n&atilde;o tinham perdido de todo o ouro; e a humidade
+n&atilde;o acab&aacute;ra tambem de desvanecer inteiramente as
+tintas dos quadros de ca&ccedil;adas, batalhas e scenas campestres,
+representados na tela. Apezar de velhos e de ennegrecidos, os moveis
+ainda resist&iacute;am em parte aos seculos e ao caruncho. <br />
+
+<br />
+
+O venerando leito de cabeceira de talha alta e columnas enroscadas
+occupava o centro da primeira casa, e podia quasi dizer-se um edificio,
+um monumento, pelo descommunal das propor&ccedil;&otilde;es. Um
+pesado baldaquino de seda desbotada cobria o c&eacute;u da cama, e
+largas cortinas do mesmo estofo desciam dos lados a arrastar pelo
+ch&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Defronte um trem&oacute;, que na sua mocidade brilh&aacute;ra
+pelo esplendor dos dourados, mas
+<span class="pagenum"><a name="p68">[68]</a></span>
+que na
+velhice, ou antes na decrepidez, apenas se recommendava por bellos
+relevos de folhas e flores, com um espelho de Veneza em cima, comido e
+manchado no a&ccedil;o, sustentava duas jarras do Jap&atilde;o
+da mais preciosa porcellana, infelizmente rachadas. Cadeiras de
+bra&ccedil;os, mutiladas, um velador alto desgrudado, um bofete de
+almofadas com sua escrevaninha de prata mareada, olhando para o
+espelho, completavam a mobilia. <br />
+
+<br />
+
+Na segunda camara havia um leito mais singelo sem cortinas, e um
+espelho embutido na parede, que enchia de alto a baixo um
+v&atilde;o inteiro. O bofete liso com tinteiro de bronze antigo, e
+as <a href="#e13">quatro</a> cadeiras que
+constituiam todo <a href="#e14">o</a> seu adorno,
+n&atilde;o accusavam pouco os
+annos pelo estado de ruina; e as colgaduras<sup><a href="#1">[1]</a></sup>
+de couro, rotas ou
+t&atilde;o co&ccedil;adas, que
+n&atilde;o tinham j&aacute; c&ocirc;r possivel, deixavam em
+parte nus os muros, provando que o tempo as respeitara menos, do que
+aos pannos de Arraz do quarto principal. <br />
+
+<br />
+
+O cavalheiro de Mafra mal correu a vista em redor de si. Sentou-se
+deante do bofete da sala grande, molhou a penna na tinta grossa da
+escrevaninha, e come&ccedil;ou machinalmente a tra&ccedil;ar
+linhas e dezenhos informes em um papel. Desde o Casal do Ouro
+at&eacute; alli n&atilde;o
+descerr&aacute;ra os labios, nem para falar &aacute;
+companheira do seu infortunio; e s&oacute; o ardor sombrio das
+pupillas denunciava a ira, preferindo consumir calado as tristezas a
+desafogal-as em vozes, ou em queixas. Leonor contemplou-o silenciosa
+por alguns momentos, e, avisinhando-se depois nas pontas dos
+p&eacute;s, pousou-lhe na fronte annuviada um beijo, que a ternura
+humedeceu de lagrimas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[69]</span>
+Paulo, como se acordasse repentinamente, vendo no espelho o lindo rosto
+debru&ccedil;ado sobre o seu estremeceu. Um sorriso melancholico
+ado&ccedil;ou-lhe a express&atilde;o severa. Cedendo ao carinho
+de t&atilde;o suaves caricias, e tornando os olhos meigos, fitou-os
+cheio de enlevo na formosura da filha. Cingindo-lhe depois o collo com
+os bra&ccedil;os, cobria-lhe de osculos os cabellos e a fronte, e
+procurou tranquillizar-lhe a inquieta&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Leonor era todo o seu amor e toda a sua familia. Se desejava sobreviver
+&aacute;s desgra&ccedil;as da patria &eacute; porque
+n&atilde;o queria deixal-a
+orph&atilde; e desamparada n'uma edade, em que as
+illus&otilde;es armam tantos la&ccedil;os &aacute; candura
+e &aacute;
+innocencia. <br />
+
+<br />
+
+Mas as palavras do velho cavalheiro n&atilde;o o enganavam a elle,
+nem &aacute; donzella. Quando para a consolar affirm&aacute;ra,
+que um vago presentimento lhe augurava, que n&atilde;o chegaria a
+entrar na pris&atilde;o da villa, via-a aberta para o receber, e o
+conselho de guerra convocado para o sentenciar! Quando lhe lembrava,
+que seus amigos n&atilde;o dormiam, e que Manuel Coutinho, e dois
+d'elles, andavam perto, sorria-se por dentro da
+inven&ccedil;&atilde;o, porque ignorava se a sorte d'elles
+n&atilde;o seria egual, ou peior n'este momento! <br />
+
+<br />
+
+Leonor ouvia-o com a incredulidade do affecto. O fino instincto das
+almas, que s&atilde;o todas sentimento, &eacute; adivinharem os
+verdadeiros motivos dos sacrificios generosos. Palpava a verdade, e
+tremia que o futuro fosse ainda mais funesto. Mas dotada de caracter
+varonil vencia-se para n&atilde;o atormentar seu pae, devorando os
+prantos, e comprimindo os solu&ccedil;os. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; ceia a visita do lavrador, e a presen&ccedil;a odiosa
+do sargento de sentinella, como vimos, &aacute; hospitalidade do
+rendeiro, interromperam a conversa&ccedil;&atilde;o cortada,
+com que os dois se
+distra&iacute;am, e apenas as portas tornaram a fechar-se,
+<span class="pagenum">[70]</span>
+e Margarida poz a mesa, o pae e a
+filha, tomada uma refei&ccedil;&atilde;o mais do que sobria, e
+j&aacute; cansados de dissimular, despediram-se e cada um se
+recolheu &aacute; sua camara. <br />
+
+<br />
+
+A creada no mesmo instante fez a cama para si em um recanto, e fatigada
+adormeceu mal a cabe&ccedil;a tocou no travesseiro. <br />
+
+<br />
+
+Leonor aproximou-se ent&atilde;o do espelho, lan&ccedil;ou
+sobre as espaduas n&uacute;as um penteador de cassa, e principiou a
+desatar as tran&ccedil;as, que, desfeitas, se encresparam em
+madeixas negras, envolvendo-a no mais luxuoso v&eacute;u. Duas
+lagrimas, duas perolas, avelludavam-lhe o olhar tocado de branda
+ternura, e as pupillas, pretas e languidas, &aacute;s quaes aquella
+nuvem leve de melancholia toldava um pouco o brilho, levantavam-se
+armadas d'aquelle requebro meio tristeza, meio reflex&atilde;o, que
+fala com tanta eloquencia; e prende com t&atilde;o irresistivel
+poder at&eacute; os mais isentos. A b&ocirc;cca, pequena e
+graciosa, abria aos cantos duas covinhas assetinadas, ber&ccedil;os
+de lyrios aonde se embuscava a malicia espirituosa, tornando o sorriso
+fascinador. Os dentes, ora appareciam finos e eguaes, como fios de
+aljofres entre rubis, ora se escondiam, quando a phisionomia tomava a
+express&atilde;o contemplativa e serena, que era o seu maior
+triumpho. O collo esbelto, disputando alvura &aacute;s
+a&ccedil;ucenas, pousava-se com gra&ccedil;a; as faces e a
+fronte douravam-se d'aquella transparente e mimosa c&ocirc;r, em
+que as rosas nascem e desmaiam &aacute; mais leve
+commo&ccedil;&atilde;o, radiosa carna&ccedil;&atilde;o,
+que tanto real&ccedil;a a belleza meridional, mesmo quando
+n&atilde;o cede &aacute;s mulheres do norte a palma dos niveos
+encantos. O seio virginal palpitava sobresaltado. A m&atilde;o
+estreita e leve desla&ccedil;ava impaciente os n&oacute;s de
+fita do justilho; e a estatura elegante e flexivel prestava-se em
+ondula&ccedil;&otilde;es airosas a todos os movimentos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[71]</span>
+Um suspiro e um gesto, que exprimiam a tribula&ccedil;&atilde;o
+do animo combatido de
+apprehens&otilde;es, e uma pausa, em que a vista se perdeu pelos
+idilios do primeiro amor, revelavam as duas correntes encontradas, com
+que luctava &aacute;quella hora. O que lhe dizia a ternura filial
+repetiam-n'o as lagrimas lentas e silenciosas, vertidas quasi sem as
+sentir. O que anciava e assustava a timidez da paix&atilde;o entre
+hesita&ccedil;&otilde;es e receios, mais fortes que a vontade,
+retratava-o a repentina chamma da vista, e o extasis em que o rosto se
+transfigurava subitamente, illuminado pelo duplo clar&atilde;o da
+esperan&ccedil;a e do pudor. Quem podesse colher n'este instante o
+segredo da sua alma s&oacute; encontraria n'ella duas imagens&#8213;a do
+pae extremosamente querido, e outra mais viva, mais occulta, e mais
+funda ainda, a de Manuel Coutinho, que o pejo quasi encobria de si
+mesma, mas que uma ternura invencivel avivava a cada
+palpita&ccedil;&atilde;o do peito! <br />
+
+<br />
+
+Leonor sentou-se ao bofete no desalinho da meia nudez, dobrou uma folha
+de papel, e contemplou-a por momentos com a cabe&ccedil;a entre as
+m&atilde;os e a vista vaga e esquecida. Depois, meneando a fronte,
+como se quizesse sacudir o peso dos cuidados, inclinou-se para a mesa,
+soltou a penna sobre o papel, e come&ccedil;ou a retratar as
+tristezas do captiveiro e os sonhos do cora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Usando do privilegio concedido aos auctores de historias,
+t&atilde;o veridicas como esta, introduzir-nos-hemos n'este ninho
+virginal, e por cima do hombro da linda escriptora ao qual o
+v&eacute;u diafano das rendas mais faz sobresa&iacute;r o
+marfim polido e a f&oacute;rma admiravel, iremos lendo &aacute;
+medida que ella as escrever, as confidencias, que julga depositar
+unicamente no seio da mais discreta e mimosa de suas amigas de
+infancia, de D. Marianna de Sousa,
+<span class="pagenum">[72]</span>
+mais velha um anno, e tambem desterrada com toda a familia para longe
+do antigo solar de seus paes em Lisboa. <br />
+
+<br />
+
+Escutemos a conversa&ccedil;&atilde;o travada a distancia entre
+ellas. &Eacute; de crer que nos diga mais, do que extensos
+commentarios &aacute;cerca dos principaes personagens, cujas
+aventuras emprehendemos esbo&ccedil;ar com a fidelidade e escrupulo
+proprios de narradores inaccessiveis &aacute; fabula e &aacute;
+lisonja. <br />
+
+<h4>Leonor de Azevedo a D. Marianna de Sousa </h4>
+
+&laquo;Minha freirinha!... Deixa-me dar-te mais esta vez ainda o
+doce nome da nossa amisade! Escrevo-te das portas de uma
+pris&atilde;o, e talvez, ai! tremo dizel-o! dos primeiros degraus
+do cadafalso de meu pae. Realizou-se o que eu tanto receiava. Lagarde
+descobriu o nosso asylo. Estamos em suas m&atilde;os. Offendi-lhe o
+orgulho; &eacute; capaz de tudo; e conto com a
+vingan&ccedil;a promettida. N&atilde;o me arrependo. No meu
+logar, Marianna, farias tu o mesmo, e esperavas resignada a tua
+sorte... Se n&atilde;o fosse meu pae, pouco ou nenhum caso faria
+d'elle... O despreso at&eacute; mata a avers&atilde;o, e de
+certo ninguem o despresa tanto, e com mais ras&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Lagarde veiu a Mafra a um baile que lhe deram. Tentaram-lhe
+a cubi&ccedil;a as terras e os vinculos, que hei de herdar, Deus
+queira que bem tarde (!), e por desgra&ccedil;a poz os olhos em mim
+para enriquecer um parente, que n&atilde;o conhe&ccedil;o, que
+me n&atilde;o conhece tambem, mas que elle ousou dizer que me
+adorava pelo retrato, que lhe fizera de mim... dos bens da minha casa
+&eacute; mais provavel! Marianna, l&ecirc;s na minha alma, e
+bem p&oacute;des imaginar o espanto em que fiquei, ouvindo de um
+estrangeiro esta proposta,
+<span class="pagenum">[73]</span>
+que me offendia na ternura filial e no amor proprio... Nem lhe
+respondi! Encarei-o, e, levantando-me, deixei-o acabar a ultima
+cortezia e o ultimo sorriso deante de uma cadeira vasia. Dizes que me
+pare&ccedil;o com meu pae, e que a natureza errou em mim o sexo.
+Talvez. Nunca senti tantos desejos de ser homem! Mulher,
+sen&atilde;o fosse o mundo!... Ha affrontas, porque choro
+amargamente a nossa fraqueza! <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Lagarde tem maneiras e grande uso da sociedade.
+N&atilde;o sossobrou com o rev&eacute;s, come&ccedil;ando a
+girar pelas salas como o convidado mais jovial. Notei que
+n&atilde;o tirava a vista de mim, e preparei-me para segunda
+instancia. N&atilde;o tardou. Veiu tirar-me para dan&ccedil;ar,
+louvou o meu toucado, o meu vestido, a delicadeza das m&atilde;os,
+a gra&ccedil;a e a alvura das rendas; achou-me linda e seductora;
+extasiou-se de lhe responder algumas palavras em francez; e falou-me
+com enthusiasmo dos elogios que tinham feito da minha voz...
+Constrangi-me e escutei-o sem colera, sem impaciencia, mas com aquelle
+sorriso que tu dizias &aacute;s vezes, que era cortante como fio de
+dois gumes. Que remedio! Estavamos em scena, e elle &eacute; actor
+consumado. Depois, e no fim de tudo, por acanhada e esquerda
+n&atilde;o queria deshonrar a nossa educa&ccedil;&atilde;o
+do convento, nem dar-lhe motivos para que me tomassem pela provinciana
+bo&ccedil;al e nescia, que ao principio cuid&aacute;ra
+encontrar... <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Acabada a dan&ccedil;a, em que te affirmo sem vaidade,
+que n&atilde;o envergonhei as li&ccedil;&otilde;es
+do nosso mestre mr. de Lisieux, t&atilde;o airoso com a sua
+cabelleira empoada, casaca direita, e rabequinha de estojo, ao
+apartarem-se os pares, convidou-me para darmos um passeio pelas salas.
+Inclinei-me, e acceitei-lhe o bra&ccedil;o. D&eacute;mos
+algumas voltas, e no meio de uma d'ellas,
+<span class="pagenum">[74]</span>
+junto de um trem&oacute;
+carregado de flores, teve o despejo de renovar a supplica, assim lhe
+chamou, em ar de riso, por&eacute;m o tom e a express&atilde;o
+diziam assaz que era uma ordem. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ouvi-o estremecendo. N&atilde;o acreditas a jactancia, a
+soberba, e por baixo do verniz das phrases, o modo imperioso, com que
+este sult&atilde;o me atirava o len&ccedil;o em nome da
+felicidade do seu parente, e da minha, em nome da gloria e ornamento
+dos bailes de Par&iacute;s e das
+recep&ccedil;&otilde;es das Tulherias, que a rosa do occidente
+iria real&ccedil;ar com seus encantos!... Contive-me. Subiu-me em
+ondas a c&ocirc;r ao rosto. Empallideci depois. Aquelle escarneo
+era t&atilde;o pungente, que me custava a supportal-o, sem lhe
+explicar ao menos que o entendia. Mas contive-me, protesto que me
+contive a ponto de me saltarem as lagrimas pelos olhos seccos!
+N&atilde;o &eacute; possivel exprimir-te o que padeci nos
+minutos que durou este supplicio. Foram annos de angustia e de
+anciedade! Lagarde, como se adivinhasse, tocava em todas as partes
+melindrosas da minha alma e offendia-as. Tornou-se por tal
+f&oacute;rma transparente a ironia, que se me figurava ouvil-o rir
+por dentro da eloquencia, que estava gastando em convencer a herdeira
+s&oacute;mente cobi&ccedil;ada, para remir do naufragio a
+mocidade tempestuosa d'aquelle sobrinho, arruinado e invisivel, cuja
+causa advogava. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Perguntar&aacute;s, talvez, porque n&atilde;o fiz o
+que j&aacute; tinha feito, porque o n&atilde;o deixei?
+N&atilde;o me atrevi. Meu pae estava perto; Manuel Coutinho tambem;
+olhavam para n&oacute;s, e ao menor signal que me escapasse,
+castigavam alli mesmo o insolente! V&ecirc; tu o meu enleio e o meu
+martyrio! Quando se afastaram, respirei. Podia mostrar a Lagarde, que a
+estatua vivia e tinha brios para vingar a dignidade do seu sexo.
+Inflammou-se-me a vista com a ira, fitando-a
+<span class="pagenum">[75]</span>
+n'elle com um desdem t&atilde;o
+altivo e firme que o obriguei a calar-se de repente no meio das
+lisonjas impertinentes. Percebi que n&atilde;o esperava tanto, e
+que se perturbava. Retirando ent&atilde;o o meu bra&ccedil;o,
+dei dois passos atraz, e medi-o da cabe&ccedil;a aos p&eacute;s
+com aquelle olhar scintillante e frio ao mesmo tempo, que me achaste
+duas vezes, e que depois contavas, sorrindo, que era o mais fero e
+fulminante olhar, que nunca viras, porque gelava e queimava ao mesmo
+tempo. N&atilde;o sei se foi esse, ou outro peior, o que sei
+&eacute; que recuou lentamente e quasi pasmado deante d'elle, como
+deante da ponta de uma espada; e quando lhe respondi, que preferia a
+cella do mais austero convento, a pobreza, a mendicidade
+at&eacute;, &aacute; ignominia de me v&ecirc;r em
+leil&atilde;o na pra&ccedil;a,
+&aacute; vergonha de acceitar o nome de um homem, que nem ao menos
+guardava as exterioridades hypocritas de um galanteio, julgando-me
+t&atilde;o pouco que se propunha amar e pedir esposa por terceiro,
+vi-o fazer-se branco como a tira da camisa, esconder o sorriso nos
+cantos da b&ocirc;cca, e olhar-me direito e serio como deve
+olhar-se para alguem, quando recebemos uma injuria grave. Mas polido,
+mesmo na sua colera foi senhor de si, e mordendo os bei&ccedil;os
+com tal furia que lhe espirrou o sangue d'elles, cortejou-me, e
+retirou-se. &Aacute; roda de mim tremiam todos. Eu
+levant&aacute;ra a voz, e tinha-o constrangido a curvar a fronte
+deante de muitos. Foi o que n&atilde;o me perdoou. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Todas as nossas desgra&ccedil;as datam d'esta noite.
+Jurou humilhar-me, mas n&atilde;o o consegue. Livre, ou em ferros,
+o desprezo ser&aacute; egual... Antes a clausura, antes a vida
+errante que levo ha mezes, antes as estreitezas de uma
+pris&atilde;o, do que a infamia de um la&ccedil;o apertado sem
+amor pela avidez! Lagarde n&atilde;o tornou a falar-me.
+S&oacute;mente poucos dias depois, sahi a
+<span class="pagenum">[76]</span>
+cavallo, e encontrei-o com Loison, general
+maneta, que dizem ainda mais perverso. Pararam para me v&ecirc;r
+passar. Sabes que sou cavalleira, e que um animal fogoso n&atilde;o
+me assusta. Montava a Estrella, a egua valida de meu pae, e apenas os
+descobri, larguei-lhe a redea, e atravessei como uma seta por meio
+d'elles. Saudaram-me, correspondi, e dentro em pouco j&aacute;
+n&atilde;o os avistava. Foi na vespera dos tumultos das Caldas e da
+emboscada de Mafra. No dia seguinte, dia de terror e
+afflic&ccedil;&atilde;o para os
+habitantes, estava achado o pretexto que havia de manchar de sangue o
+poder dos estrangeiros. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;O que nos reserva o futuro? N&atilde;o ignoras quanto
+meu pae &eacute; altivo e decidido. Se a sua vida dependesse de uma
+palavra, de um passo, que reputasse de quebra para a honra, ou para os
+brios, preferiria morrer mil vezes... Sei o que elle ha de fazer como
+se o estivesse vendo. Ha de dizer a verdade, toda a verdade; ha de
+expor-se... Meu Deus! Parte-se-me o cora&ccedil;&atilde;o, e
+n&atilde;o tenho animo de cuidar!... N&atilde;o!
+N&atilde;o! A providencia n&atilde;o o p&oacute;de
+permittir! Marianna!... As lagrimas que estou chorando, a d&ocirc;r
+que pade&ccedil;o s&atilde;o t&atilde;o
+crueis, que ha momentos, em que a raz&atilde;o me foge. E Manuel
+Coutinho?! Ainda me assusta mais!... Em sabendo a nossa
+pris&atilde;o... com o seu genio impetuoso e aquella intrepidez de
+cavalleiro andante, porque &eacute; um verdadeiro paladino perdido
+n'estes dias de Junots e Lagardes, &eacute; capaz de entrar
+s&oacute; em Santarem para nos arrancar dos ferros &aacute; luz
+do sol e deante de todos. N&atilde;o rias?! N&atilde;o creias
+que estou pintando de imagina&ccedil;&atilde;o um heroe de
+novella!... Perguntas-me desde quando o amei, e se foi necessario o
+fulgor de Marte para vencer a isen&ccedil;&atilde;o de Juno!?
+Entendo-te! Viras contra mim as palavras, que eu soltava na ingenuidade
+do orgulho, quando a inexperiente educanda
+<span class="pagenum">[77]</span>
+te divertia com seus encarecimentos
+de desdem pelas fraquezas apaixonadas. Ouve! Amei-o logo, amei-o com
+extremo apenas o vi. Mal nos olh&aacute;mos, sorrimos, e
+conhecemo-nos sem lucta, sem resistencia, sem juras, nem protestos.
+Elle sentiu que era meu; eu entreguei-lhe o
+cora&ccedil;&atilde;o com tanta confian&ccedil;a, como se
+nos tivessemos creado juntos desde a infancia. Marianna!... Se
+&eacute;s a amiga, que eu creio, has de estimal-o tambem, e
+approvar a minha escolha. Asseguro-te que o merece. Aquelle rosto nobre
+e gentil, mas um pouco triste, &eacute; o espelho do seu caracter.
+Meu pae, e mais n&atilde;o &eacute; facil em
+affei&ccedil;&otilde;es e
+elogios, admira-o, e n&atilde;o v&ecirc; por outros olhos em
+muitas cousas. A palavra de Manuel Coutinho, que o n&atilde;o
+lisonjeia, que at&eacute; o contraria em algum dos habitos e
+id&eacute;as mais arraigadas, vale um juramento para elle. Entre
+estes dois affectos, t&atilde;o doces e acerbos, reparte-se-me a
+alma, rasga-se-me em duas, e n&atilde;o ouso dizer-te a ti, a mim
+propria, qual &eacute; maior, ou mais absoluto!... <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Accusas-me de dissimulada?! N&atilde;o te encobri nada.
+L&ecirc;s nos meus segredos como em livro aberto. Amo, como
+n&atilde;o se torna a amar, como n&atilde;o imaginava que
+podesse amar-se... Digo-te sem disfarce o que occultaria a outra, e tu
+ingrata (!) ainda tens animo de me arguir! ...Lembras-te d'aquellas
+nossas madrugadas nas Salesias, entre as rosas e jasmins do jardim, e
+os v&ocirc;os dos passarinhos, que chalreando n&atilde;o nos
+deixavam um instante?!... N&atilde;o tens saudades d'ellas e das
+brandas illus&otilde;es, com que nos embalavamos no meio das flores
+d'esses dias t&atilde;o curtos, ai (!) e t&atilde;o depressa
+desvanecidos?! Com que d&ocirc;r melancholica e agradavel, os estou
+recordando, sobre tudo agora!... Como a esperan&ccedil;a nos fazia
+palpitar!... Que desejos pueris, que planos impossiveis, que doces
+contesta&ccedil;&otilde;es, e que amuos logo esquecidos
+<span class="pagenum"><a name="p78">[78]</a></span>
+entre dois beijos! O nosso
+mundo era t&atilde;o pequeno, que alli principiava e <a href="#e15">acabava
+ent&atilde;o</a>!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Meu pae, militar e arrebatado, a rogos meus ficou em casa.
+Por vezes o vi ir direito &aacute; sua espada, e suspender-se com
+os olhos arrazados de agua. O que o prendia era o receio de me deixar
+orph&atilde;, era a certeza de que se arriscaria sem proveito. Que
+dia aquelle, e sobre tudo que noite!... Os francezes em bandos pelas
+ruas alvoro&ccedil;avam a terra com vozes, affrontas, e tiros. Duas
+vezes as balas das espingardas vararam as portas das nossas janellas.
+Sobre a madrugada appareceu Manuel Coutinho. Vinha pallido e
+desfigurado. Nenhum de n&oacute;s se tinha tambem deitado. Chamou
+meu pae de parte, falaram em segredo, e minutos depois, &aacute;s
+escuras, e sem ruido, fugiamos pelas hortas, e montavamos a cavallo.
+Rompia o sol, quando entr&aacute;mos em Torres Vedras, e
+s&oacute; alli me disseram que a nossa casa estava cercada, e que
+Lagarde expedira de Lisboa ordem de pris&atilde;o contra meu pae.
+N&atilde;o lhe custou a implical-o na devassa, e contava
+provavelmente fazer de mim o penhor da sua clemencia... <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Desde ent&atilde;o troc&aacute;mos o socego
+domestico pela vida attribulada, que ha mezes nos n&atilde;o
+consente uma hora de repouso. Acossados, como feras, vagueando de
+homizio em homizio, e de solid&atilde;o em solid&atilde;o, por
+toda a parte a hospitalidade dos que nos accolhiam, n&atilde;o sem
+risco, nos foi leal e caridosa. Rodeados de espias, inculcados aos
+delatores como presa digna de subido premio, ach&aacute;mos na
+bondade rude, mas sincera, dos casaes, cora&ccedil;&otilde;es
+de ouro, que nos agazalharam com o maior carinho, e almas compadecidas,
+que nos ajudaram a supportar o peso da desgra&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Os mais pobres foram t&atilde;o honrados como os ricos.
+Ninguem nos trahiu. Perseguidos
+<span class="pagenum"><a name="p79">[79]</a></span>
+como r&eacute;os de grandes crimes,
+todos os bra&ccedil;os se
+abriram para nos receber, todas as portas se fecharam cuidadosamente
+para nos guardar... Descans&aacute;mos, por fim, mas &aacute;
+porta de uma pris&atilde;o, e nas m&atilde;os de inimigos
+implacaveis! Meu pae dormia, e nem teve tempo de se defender...
+Estimei! J&aacute; que havia de ser, foi melhor assim!
+Cheg&aacute;mos a tempos em que &eacute; delicto at&eacute;
+o valor! Um malvado, cego e venal instrumento de Lagarde, descobriu o
+nosso ultimo asylo, e prendeu-nos &aacute;
+trai&ccedil;&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Com que socegada ignorancia te ouvia eu pintar a vida, que
+nos aguardava f&oacute;ra das grades da nossa pris&atilde;o
+dourada!... Com que vaidade infantil me compadecia das fragilidades das
+donzellas, cegas de amor, que tudo arriscam por seguir o eleito da sua
+alma!... Castigou-me Deus! Sou mais escrava, mais timida deante da
+minha fraqueza, do que nenhuma! A ternura, que sinto por elle
+&eacute; t&atilde;o grande, que me quebra a vontade e o
+orgulho. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Felizmente adoro um homem digno do meu
+cora&ccedil;&atilde;o. Mas se o n&atilde;o fosse!
+Marianna! N&atilde;o me vejas c&oacute;rar, n&atilde;o me
+vejas
+cobrir o rosto de pejo! Se o n&atilde;o fosse... Perd&ocirc;a!
+hei de ter animo de confessar a verdade, amava-o </a><a href="#e16">do
+mesmo</a> modo, sei que o amava tanto, porque mais &eacute;
+impossivel!... E agora ter&aacute;s d&oacute;
+de mim?! Falar&aacute;s ainda da soberba, que me fazia idolo
+indifferente a todos os cultos?!... <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Cheguei &aacute;quelle excesso, em que parece que o
+cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o vive
+sen&atilde;o do que &eacute; de outrem, do que o amor, que
+inspira e domina tudo, quer dar-lhe quasi por esmola! A minha luz,
+todas as minhas esperan&ccedil;as, todo o futuro, pendem de um
+olhar, de um sorriso, de uma palavra d'elle!... V&ecirc; como o
+pr&eacute;so, e como deixei de ser a mesma!... Ha cinco annos,
+quando iamos sentar-nos debaixo das
+<span class="pagenum">[80]</span>
+madresilvas do caramanch&atilde;o do
+convento, em quanto as nossas amigas passavam, correndo e saltando com
+os seus risos descuidados, porque suspiravas tu, e por mais que eu
+interrogasse a minha alma, porque a achava sempre muda e
+insensivel!?... O que foi que me acordou d'aquelle somno tranquillo,
+d'aquella apathia dos sentidos, que s&oacute; despertam com o
+primeiro alvoro&ccedil;o, quando entre jubilos e sobresaltos o
+peito come&ccedil;a a agitar-se? N&atilde;o sei se outras
+s&atilde;o assim. Vivo desde que principiei a amar. At&eacute;
+ahi dormia. Era uma estatua! O meu cora&ccedil;&atilde;o como
+que esperava
+<em>por elle</em> para se abrir e brotar essa
+flor t&atilde;o mimosa, que um nada queima, t&atilde;o rara que
+uma vez s&oacute; na vida a sentimos pelo perfume, pela alegria,
+pelo esplendor... Desejava ser formosa, ser princeza, ser rainha, ser
+tudo, para elle subir, e eu me saber invejada. Que loucuras!
+V&ecirc;! Agora mesmo estou perguntando, sem querer, ao espelho
+ba&ccedil;o e empanado da minha pris&atilde;o, por esta noite
+medonha de trov&otilde;es, se me acha ainda bella?!...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Neste ponto terminavam as confidencias. Leonor nem acab&aacute;ra
+de formar as ultimas lettras. Quando, entre o meio sorriso e as rozas
+avivadas, de que a travessura da revela&ccedil;&atilde;o lhe
+anim&aacute;ra o semblante, ergueu de repente os olhos para o
+espelho, a que alludia na carta, pasmou, estremeceu de o v&ecirc;r
+mover-se lentamente com a moldura, e entre-abrir-se como uma porta.
+Outra, menos varonil, teria soltado vozes de terror; ella
+n&atilde;o. Fez-se pallida, sentiu-se fria, por&eacute;m
+n&atilde;o articulou palavra, nem deixou escapar um grito. De
+p&eacute;, tremula, com os olhos fitos e algum tanto dilatados pelo
+espanto, aguardou a aventura, que esta singularidade lhe promettia.
+N&atilde;o esperou muito. O espelho girou, rangendo um pouco, e
+&aacute; entrada da passagem occulta, que
+<span class="pagenum">[81]</span>
+fechava, appareceu uma figura com um
+casti&ccedil;al na m&atilde;o, avultando &aacute; medida
+que se adeantava e que a luz morti&ccedil;a da v&eacute;la lhe
+batia no corpo, desfazendo a escuridade. Era um homem de carne e osso,
+e n&atilde;o um fantasma. Podia ser um salteador, um assassino, ou
+um indiscreto, n&atilde;o era de certo uma alma penada. A donzella
+respirou. Apezar da fortaleza do seu espirito a vis&atilde;o
+tinha-lhe paralyzado os membros, e o cora&ccedil;&atilde;o,
+pulando descompassado, trahia o susto, que os labios a custo
+disfar&ccedil;avam. O desconhecido trajava de preto, vinha envolto
+em um capote de cabe&ccedil;&otilde;es, e as largas abas do
+chap&eacute;u enchiam-lhe o rosto de sombras. Quando percebeu que
+Leonor o contemplava, levou o dedo &aacute; b&ocirc;cca e
+recommendou silencio. No movimento de bra&ccedil;o o capote
+descobriu os canos luzentes de duas pistolas passadas em um cinto de
+couro, e a bainha de uma espada larga e curta. <br />
+
+<br />
+
+A filha de Paulo de Azevedo deixou-o approximar de si sem denunciar
+terror. S&oacute; falava com a vista, e desvanecido o primeiro
+sobresalto, o que o semblante exprimia era a curiosidade natural,
+excitada pela visita, que, por tal modo e a taes deshoras se via
+obrigada a receber. O hospede punha entretanto os p&eacute;s no
+sobrado, roto e carunchoso, com tanto resguardo, e pisava com
+t&atilde;o grande subtileza, que os passos eram surdos, como se
+caminhasse por cima de l&atilde;. Chegando ao p&eacute; d'ella,
+encarou de perto a formosura intrepida, que sem receio olhava para elle
+firme, e um sorriso alegrou a sua physionomia carregada, certo ar de
+sincera admira&ccedil;&atilde;o inculcou que n&atilde;o
+cont&aacute;ra encontrar tanto valor. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vejo que n&atilde;o me enganaram! murmurou ao ouvido de Leonor.
+Tem mais animo, do que muitos homens. &Eacute; digna do que
+tent&acirc;mos para a salvar e a seu pae!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[82]</span> &#8213;Mas quem
+&eacute;?... D'onde vem?... Como est&aacute;
+aqui?!... perguntou a donzella atropelladamente, mas no mesmo tom
+submisso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Somos tres. Os meus companheiros esperam no fim do corredor, que
+desembocca n'esta porta secreta. Pertencemos ao conselho conservador de
+Lisboa, soubemos da pris&atilde;o de seu pae, e seguimos os
+milicianos de longe. O lavrador, que traz esta casa de renda,
+&eacute; nosso, e ensinou o modo de entrarmos aqui. Temos caminho
+facil para fugir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! E Manuel Coutinho veiu tambem?... accudiu Leonor
+c&oacute;rando. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! Pouco ha de tardar. Est&aacute; perto, e
+mandou-se-lhe recado... Mas os momentos s&atilde;o preciosos.
+N&atilde;o podemos demorar-nos aqui. Quer ir acordar seu pae sem
+bulha e dizer-lhe?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute;! Vou immediatamente. S&atilde;o dois minutos em
+quanto volto com elle. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim. Aqui espero. <br />
+
+<br />
+
+De feito, instantes depois Leonor tornava com Paulo de Azevedo, e este
+apertava silenciosamente a m&atilde;o ao desconhecido, que lhe
+dizia em voz baixa: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venha! Temos os cavallos promptos e tudo a postos. Sim&atilde;o
+da Costa e Nuno do Rio, seus amigos, est&atilde;o alli dentro,
+Manuel Coutinho vem j&aacute; caminho da Ponte... S&atilde;o
+mais de onze horas. &Aacute;s duas sa&iacute;mos, se a noite
+lhe mette menos medo, que a cadeia de Santarem... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando quizer. Para onde?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para Lisboa. Para o covil do Lobo. Aonde menos cuidem que
+p&oacute;de estar, ahi ser&aacute; o mais seguro. <br />
+
+<br />
+
+Paulo inclinou a cabe&ccedil;a e seguiu-o com sua filha. <br />
+
+<br />
+
+O espelho fechou-se. Quando o sargento veiu n&atilde;o achou nem o
+rasto de seus presos.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c8"></a>VIII</h3>
+
+<h3><br />
+
+Entre os bastidores </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+L&aacute; sabemos como Leonor e seu pae conseguiram evadir-se sem
+as chaves da pris&atilde;o sa&iacute;rem do bolso do
+carcereiro. Agora cumpre-nos explicar a
+resurrei&ccedil;&atilde;o dos mortos na casa maldita, e
+esbo&ccedil;ar em duas palavras a biographia do intrepido espectro,
+que, mascarado em alma do outro mundo para assustar os valorosos
+milicianos da comarca, &aacute;s ordens do sargento, baqueou das
+andas abaixo, transido de pav&ocirc;r, por achar o defunto, de
+p&eacute; tendo-o visto entrar em bra&ccedil;os dos creados. <br />
+
+<br />
+
+Nos acontecimentos d'esta infausta noite para os agentes da policia
+franceza, o morto-vivo e o espectro medroso representaram um papel, que
+os torna dignos de nos demorarmos com elles por algum tempo. <br />
+
+<br />
+
+Principiemos pelo honrado fazendeiro, cuja desastrada sina choram em
+c&ocirc;ro as visinhas e as comadres da aldeia. Como o encontramos
+de repente s&atilde;o e escorreito com profundo terror dos
+sicarios, que se julgavam livres do seu nodoso cajado de marmeleiro?
+Que santo obrou o milagre de levantar da sepultura este
+<span class="pagenum"><a name="p84">[84]</a></span>
+Lazaro de japona para confus&atilde;o e
+ruina dos inimigos? Como dormiu elle no reino das sombras tantas horas,
+e s&oacute; accordou, como ao rebate da trombeta final, com o dobre
+fatidico da meia noite, hora fadada a vis&otilde;es, a trasgos e a
+feiti&ccedil;os? <br />
+
+<br />
+
+As tres perguntas s&atilde;o razoaveis, e a curiosidade do leitor
+&eacute; <a href="#e17">natural</a>.
+Desejariamos de bom grado asseverar-lhe, sem faltar &aacute;
+verdade, que o sabido cond&atilde;o do palacio deserto
+f&ocirc;ra o auctor de todos os prodigios, por&eacute;m somos
+obrigados a confessar como sinceros chronistas, que at&eacute; aqui
+o maravilhoso e o sobrenatural s&oacute; existiram na
+imagina&ccedil;&atilde;o escandecida de alguns dos actores, que
+pozemos em scena. Tudo o que passou se explica perfeitamente sem ser
+preciso prevalecermo-nos da m&aacute;
+reputa&ccedil;&atilde;o da Casa Negra. <br />
+
+<br />
+
+Em primeiro logar o Manuel Sim&otilde;es n&atilde;o resurgiu
+&aacute; sexta hora de entre os mortos, embora padecesse sob o
+poder do sargento Cabrinha, porque para resuscitar era necessario estar
+morto, e elle nunca chegou a fallecer! A bala do
+<em>Sapo</em> ro&ccedil;ou-lhe
+pela testa, ferindo-o de rasp&atilde;o, e lan&ccedil;ando-o por
+terra sem sentidos; mas n&atilde;o penetrou na cabe&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Quando vieram as mulheres, e entoaram em roda do seu corpo as nenias
+costumadas, principiava elle a voltar a si; e quando o Jo&atilde;o
+da Ventosa se approximou, suando e esbaforido, porque do alto de um
+cabe&ccedil;o ouvira o tiro, e dois minutos depois descobrira no
+luz-que-fusque o <em>Sapo</em>, correndo em
+saltos de
+gafanhoto com a espingarda na m&atilde;o, j&aacute; achou o
+corpulento fazendeiro sentado no ch&atilde;o, muito tonto ainda
+como se recolhesse de alguma feira, ou romaria, por&eacute;m sem
+les&atilde;o grave, e apalpando escrupulosamente todos os ossos e
+costellas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Ah! Compadre! gritou o rendeiro
+<span class="pagenum">[85]</span>
+extendendo a m&atilde;o ao amigo e
+contentissimo de o ter vivo. Com que ent&atilde;o os
+ca&ccedil;adores andam pelo sitio, e fizeram-lhe alvo da
+cabe&ccedil;a? Safa demonio! ajuntou examinando-lhe a fronte mais
+de perto. Escapou mesmo por uma unha negra!... O maldito tinha-lhe
+vontade, e n&atilde;o queria perder a polvora. Upa!...
+P&oacute;de vir outra ameixa detraz do vallado, e custar-nos mais a
+engulir... Se foi s&oacute; isso n&atilde;o &eacute;
+nada. Mas!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda n&atilde;o foi d'esta, s&ocirc;r compadre, e se eu
+soubesse quem me fez a esmola... com seiscentos milheiros... de
+cobras!... Moia-lhe os ossos com este cajado mais moidos que pimenta em
+almofariz... Patife! Atirou-me como a um lobo! Ah, s&ocirc;r
+Jo&atilde;o, vossa merc&ecirc; acaso
+veria quem foi o alma ruim?!... Parece que tenho dentro da
+cabe&ccedil;a a m&oacute; do moinho a zoar, e que me anda tudo
+&aacute; roda! Ora esta!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe compadre, o melhor &eacute; mudarmos de pouso; depois
+falaremos. Alli em baixo, na fonte, ata um len&ccedil;o molhado na
+cabe&ccedil;a, e
+l&aacute; em casa lhe diremos o que vimos. Agarre-se a mim,
+n&atilde;o tenha vergonha. Forte historia! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Antonio me n&atilde;o chame eu, s&ocirc;r compadre, se me
+ficar inteiro uma semana o ladr&atilde;o, que me pregou esta bala!
+Hei de achal-o, mas que haja de descer vestido e cal&ccedil;ado em
+busca d'elle aos infernos... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ser&aacute; preciso, homem!... Agarra-o
+c&aacute; em cima sem ir
+t&atilde;o longe. Mas ha de fazer o que eu disser. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois v&aacute;! Olhe que o dito, dito! Isto n&atilde;o se
+leva a rir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem raz&atilde;o, compadre; vamos. Trago c&aacute; uma
+id&eacute;a!... Emfim! O que for soar&aacute;... <br />
+
+<br />
+
+Os dois pozeram-se a caminho, por&eacute;m muito devagar, porque
+Manuel Sim&otilde;es de cinco em cinco passos cambaleava com
+vertigens, a que chamava nobremente vagados. Era noite fechada,
+<span class="pagenum">[86]</span>
+quando avistaram a Ponte da Asseca, e
+a casa. Chovia e trovejava que mettia m&ecirc;do. <br />
+
+<br />
+
+O Jo&atilde;o da Ventosa, que em todo o tempo n&atilde;o
+solt&aacute;ra palavra, labutando, contava elle depois, com a sua
+id&eacute;a, virou-se ent&atilde;o para o fazendeiro e
+disse-lhe que se deitasse e se fingisse morto emquanto &iacute;a
+chamar os creados. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que me deite e fa&ccedil;a morto, salva tal logar?! Oh
+s&ocirc;r compadre?! exclamou o ferido. E para qu&ecirc; com um
+milheiro de cobras?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para apanhar a raposa e as gallinhas na capoeira. Voc&ecirc;
+n&atilde;o sabe, homem!? N&atilde;o
+v&ecirc; que se quem lhe atirou atinar que perdeu a bala muda-se
+com vento fresco, e nunca mais lhe pomos os olhos em cima...
+Estire-se-me j&aacute; n'esse ch&atilde;o, n&atilde;o venha
+alguem. Nem trus, nem buz! Pela lingua morre o peixe. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora essa!... Sempre tem cousas, este s&ocirc;r compadre! Com que
+ent&atilde;o ainda em cima quer que me espoje n'este charco, e que
+feche a b&ocirc;cca a cadeado?... V&aacute; l&aacute;! Por
+esta
+n&atilde;o esperava eu. Arrenego! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viu pescar &aacute; linha sem anzol, s&ocirc;r casmurro?
+Vamos. Esse corpanzil j&aacute; por terra, e caluda! N&atilde;o
+me demoro. <br />
+
+<br />
+
+Manuel Sim&otilde;es, resmungando, e praguejando, sempre se foi
+deitando no sitio mais enchuto. <br />
+
+<br />
+
+Minutos depois tornou o compadre com o maioral e o abeg&atilde;o,
+em grandes lastimas por tamanha desgra&ccedil;a, e levaram-o por
+morto em bra&ccedil;os at&eacute; &aacute; cozinha da casa,
+aonde o
+vieram encontrar, como vimos, os dois assassinos. <br />
+
+<br />
+
+Os creados, apezar de conhecerem por experiencia a for&ccedil;a
+herculea do Jo&atilde;o da Ventosa, benziam-se de que elle tivesse
+carregado s&oacute; com aquelle corpo, t&atilde;o pesado, desde
+a azinhaga, como lhes diss&eacute;ra. Sentiam os bra&ccedil;os
+derreados s&oacute; de o trazerem de t&atilde;o perto! <br />
+
+<br />
+
+O lavrador mandou accender fogo, e p&ocirc;r
+<span class="pagenum">[87]</span>
+agua ao lume; pediu um alentado cangir&atilde;o
+de vinho, uma tigela de assucar mascavado, e chamou de parte a tia
+Margarida, ministro feminino de todas as
+reparti&ccedil;&otilde;es domesticas da granja, para lhe
+confiar o occorrido, exigindo o maior segredo. A velha esconjurou-se,
+louvou a Deus pelo milagre visivel, e sa&iacute;u, trotando e
+rosnando, para fazer a cama ao fazendeiro em um v&atilde;o escuro,
+e desviar da cozinha a vista e as orelhas dos curiosos. <br />
+
+<br />
+
+Seguiu-se um entre-acto bacchico, durante o qual a agua quente e o
+assucar serviram de pretexto ao vinho, o qual representou a parte
+principal. Estava j&aacute; menos de meio o cangir&atilde;o,
+quando a voz esgani&ccedil;ada de Jos&eacute; Vardasca,
+diabrete de quinze annos, sobrinho do rendeiro, em
+alterca&ccedil;&atilde;o com o contralto enrouquecido da tia
+Margarida, obrigou os dois campe&otilde;es a suspender as
+hostilidades. Manuel Sim&otilde;es amarrou o len&ccedil;o
+manchado de sangue &aacute; roda da testa, de modo que lhe cobrisse
+a cara, e extendeu-se sobre a mesa de pedra. Um feixe de palha
+serviu-lhe de cabeceira, e uma manta cobriu-o at&eacute; aos
+p&eacute;s. <br />
+
+<br />
+
+Ensaiada assim a pe&ccedil;a, Jo&atilde;o da Ventosa abriu a
+porta, e com um&#8213;Ol&aacute;!&#8213;que fez tremer as paredes, poz termo
+ao dueto da velha e do rapaz. <br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Vardasca n&atilde;o vinha s&oacute;.
+Acompanhava tres sujeitos, envoltos em capotes de baet&atilde;o
+grosso de gola alta, cobertos com sombreiros de abas derrubadas, os
+quaes esperavam f&oacute;ra da porta, no escuro, que elle
+d&eacute;sse ao tio o seu recado. <br />
+
+<br />
+
+Ao que parece os viajantes eram conhecidos do rendeiro, porque apenas o
+rapaz lhe disse, quasi ao ouvido, algumas palavras, este correu sem
+chap&eacute;u apezar da chuva, e encaminhou-se para elles. Ninguem
+ouviu o que falaram, mas os creados viram desapparecer o
+<span class="pagenum">[88]</span>
+amo e os hospedes por detraz do muro da horta, e
+recolher-se passado um peda&ccedil;o o Jo&atilde;o da Ventosa
+s&oacute;, em ar de quem se n&atilde;o tinha cansado com o
+passeio. As conjecturas dos servos n&atilde;o foram adeante.
+Cuidaram que elle sa&iacute;ra a metter os tres
+embu&ccedil;ados no atalho da azinhaga, e se acaso se admiraram
+foi, sendo t&atilde;o largo e generoso, de lhes n&atilde;o ter
+dado agasalho em sua casa por uma noite, em que a agua era tanta,
+diziam os rusticos, que a podiam os c&atilde;es beber de
+p&eacute;! <br />
+
+<br />
+
+Mas o lavrador sabia melhor do que elles o que fazia. E n&oacute;s,
+que n&atilde;o somos de segredos, e que n&atilde;o receiamos
+que a policia dos francezes nos tome contas em 1864, das
+conspira&ccedil;&otilde;es de 1808, n&atilde;o duvidaremos
+revelar as raz&otilde;es do seu procedimento. <br />
+
+<br />
+
+<a name="n3"></a>Os tres sujeitos eram nada menos do
+que tres delegados do conselho
+conservador de Lisboa, associa&ccedil;&atilde;o composta de
+patriotas
+dedicados &aacute; restaura&ccedil;&atilde;o da
+independencia e do throno legitimo, e decididos a todos os sacrificios
+para arrojarem da sua terra os soldados de Bonaparte. Tinham atado
+rela&ccedil;&otilde;es em todo o Ribatejo com os homens que
+podiam ajudal-os em seu arriscado proposito, e haviam partido dias
+antes da capital para se reunirem em Santarem com Manuel Coutinho e
+alguns cavalheiros do Sardoal, Leiria, Pernes e Rio Maior, no intento
+de assoprarem de mais perto a irrita&ccedil;&atilde;o popular,
+e de irem dispondo os animos para a subleva&ccedil;&atilde;o
+geral, que meditavam, apenas as cousas lhes proporcionassem ensejo
+favoravel. <br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o da Ventosa, assim como o Manuel da Cruz, e outros
+visinhos, iniciados em parte do plano, executavam com cega fidelidade
+todas as ordens emanadas d'este governo occulto e revolucionario, que
+na ausencia da familia real, e em presen&ccedil;a do jugo
+estrangeiro,
+<span class="pagenum">[89]</span>
+representava para elles a
+unica e verdadeira auctoridade do paiz. <br />
+
+<br />
+
+O rendeiro, pois, assim que os tres desconhecidos lhe repetiram as
+palavras, que serviam de senha aos amigos da liberdade&#8213;pelo rei e pela
+patria&#8213;largou tudo, e offereceu-se logo para o que mandassem com a
+maior submiss&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+A reputa&ccedil;&atilde;o diabolica da Casa Negra, guardava-a
+por tal modo da curiosidade, que nenhum refugio mais seguro podiam
+encontrar os conspiradores, n&atilde;o s&oacute; para
+pernoitar, mas afim de celebrarem as conferencias. Explicaram os seus
+desejos ao lavrador, e este, que o medo dos fantasmas n&atilde;o
+vexava, guiou-os pela horta a uma entrada secreta,
+disfar&ccedil;ada com um tapume de t&aacute;buas, e
+introduziu-os nas salas e aposentos do primeiro andar do palacio.
+Accendeu luz com o fuzil, ensinou-lhes alguns dos segredos dos quartos
+e corredores, e prometteu trazer-lhes vinho e refrescos. <br />
+
+<br />
+
+A chegada do sargento e dos presos, espertando a
+imagina&ccedil;&atilde;o do malicioso rendeiro, e a
+coincidencia de abrigar debaixo do mesmo tecto a victima e os
+assassinos, suscitou-lhe a id&eacute;a de salvar Paulo de Azevedo e
+sua filha das garras dos agentes de Lagarde, castigando ao mesmo tempo
+a perversidade de Cabrinha e do seu acolyto. Avisou os delegados do
+conselho de Lisboa, ajustou com elles a maneira de fazer evadir o
+cavalheiro de Mafra e Leonor, condemnou o fazendeiro &aacute;
+immobilidade, assegurando-lhe em premio da sua paciencia as delicias da
+vingan&ccedil;a, e para n&atilde;o omittir nenhum episodio
+distribuiu ao travesso Jos&eacute; Vardasca o papel conspicuo de
+phantasma branco, marcando a todos a meia noite, como a hora mais
+opportuna para o feliz exito do drama.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[90]</span>
+Sabemos qual foi o resultado. Os milicianos fugindo, o
+<em>Sapo</em> correndo
+at&eacute; perder o folego, e o sargento estatelado sem sentidos no
+meio da cozinha! O que se tornou mais difficil foi calar os berros do
+intrepido Jos&eacute; Vardasca, assombrado com a vista do
+fazendeiro, e convencel-o de que n&atilde;o estava com um defunto,
+mas com um homem vivo e inteiro. O rapaz n&atilde;o se rendeu
+&aacute; evidencia, sen&atilde;o
+depois que viu e apalpou como S. Thom&eacute;. <br />
+
+<br />
+
+O sargento, cujos ossos amea&ccedil;ou por umas poucas de vezes o
+cajado, ou antes a clava de Manuel Sim&otilde;es, e que o
+Jo&atilde;o da Ventosa
+n&atilde;o trabalhou pouco por salvar ainda d'esta vez, o sargento,
+desmaiado e inerte, foi levado para cima de um catre e vigiado por um
+dos mo&ccedil;os com ordem de chamar o lavrador assim que abrisse
+os olhos. O fazendeiro da Aramanha, mal rompia a aurora, tomando o
+conselho do compadre, montou n'uma egua, e partiu para casa a
+descan&ccedil;ar, n&atilde;o sem primeiro rezar um responso
+&aacute;s costellas do virtuoso Cabrinha e ao pesco&ccedil;o de
+Gaspar Preto, aonde quer que os encontrasse. <br />
+
+<br />
+
+O sargento esteve duas horas sem accordo. Quando voltou a si
+n&atilde;o via sen&atilde;o fantasmas em redor da cama. Custou
+a socegal-o. <br />
+
+<br />
+
+O que mais abal&aacute;ra aquella alma seraphica f&ocirc;ra a
+fuga dos seus presos! N&atilde;o podia conceber como lhe tivessem
+escapado, e na sua dor pharisaica arrepellava as melenas, e blasphemava
+como um possesso, jurando contra Satanaz, contra a Casa Maldita, e
+contra si. Mesmo de noite quiz sa&iacute;r. Pediu o cavallo, outro
+espectro na transparencia e magreza, e cravando-lhe as esporas voou a
+Santarem, talvez na esperan&ccedil;a de ainda p&ocirc;r a
+m&atilde;o
+em cima da presa. <br />
+
+<br />
+
+Voltemos agora &aacute; Azenha de Cima, aonde deix&aacute;mos
+Manuel Coutinho e o Antonio da
+<span class="pagenum">[91]</span>
+Cruz,
+esperando pelas horas mortas da noite afim de emprehenderem a campanha
+planeada por ambos. <br />
+
+<br />
+
+Apezar da chuva caudal e dos relampagos, o mo&ccedil;o do moinho,
+garoto leve como um ginete, que via de noite como os gatos, e era capaz
+de entrar pela b&ocirc;cca de uma manilha, tinha sido mandado pelo
+amo &aacute; descoberta at&eacute; &aacute; Casa Negra com
+ordem expressa de
+n&atilde;o se deixar agarrar, e de espreitar em roda com a sua
+curiosidade habitual. O rapaz partiu a correr, como se a agua lhe
+n&atilde;o batesse em cima &aacute;s torrentes, e uma hora
+depois voltava com a noticia de que os presos estavam na Casa Maldita,
+de que o sargento, o
+<em>Sapo</em>, e os milicianos ceiavam
+regaladamente com o Jo&atilde;o da Ventosa, e de que o corpo do
+Manuel Sim&otilde;es f&ocirc;ra recolhido pelo lavrador, e
+jazia com uma v&eacute;la aos p&eacute;s e outra &aacute;
+cabeceira
+na mesma cozinha, aonde o beleguim emerito e seus sequazes se estavam
+banqueteando. <br />
+
+<br />
+
+Em toda esta chronica, narrada pelo mo&ccedil;o com incrivel
+volubilidade, o que mais socegou o animo de Antonio da Cruz foi a
+certeza, de que o cadaver do fazendeiro da Aramanha n&atilde;o
+desapparec&ecirc;ra, como se dizia, por artes do demonio. Estava
+prompto a medir-se e a arcar com uma companhia inteira de milicias, mas
+o inimigo do genero humano tremia s&oacute; de cuidar que poderia
+encontrar-se com elle um s&oacute; instante! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah Jos&eacute;! disse depois de certa pausa. Ent&atilde;o o
+s&ocirc;r Jo&atilde;o da Ventosa &eacute; que levantou o
+corpo do Manuel e o levou para casa?... Est&aacute;s bem certo?
+Viste?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com estes dois que ha de comer a terra, respondeu elle, fazendo uma
+cruz com os dedos, e beijando-a. Assim me Deus salve a minha alma. Ah
+patr&atilde;o, que
+<em>diluivo</em> de agua que
+<span class="pagenum">[92]</span>
+vae por ahi abaixo! Parece que quer alagar-se
+hoje o mundo. Credo!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade! accudiu o moleiro. Vens um pinto... Vamos! Que
+tal te sabia um trago, ou dois de agua p&eacute;, ein? A roupa
+n&atilde;o te pesa e est&aacute;s tiritando que parece que te
+apanhou uma sez&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+O liquido medido com largueza pagou os trabalhos do mo&ccedil;o, e
+o amo despediu-o logo depois, em quanto Manuel Coutinho passeiava de um
+lado para o outro inquieto e murmurando por entre dentes algumas
+palavras. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Antonio! observou o mancebo, parando de repente defronte do moleiro,
+e encarando-o firme. Atreves-te a ires commigo &aacute; Casa Negra,
+para enxotarmos de l&aacute; o sargento e a sua quadrilha? Elles
+s&atilde;o oito, ou nove, mas n&oacute;s dois bem armados e
+decididos?!...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Valemos por dez ou doze. V&aacute; feito, senhor! A espingarda
+&eacute; de dois canos e a choupa est&aacute; amolada... V.
+s.<sup>a</sup> quer a outra espingarda? &Eacute; um
+instante em
+quanto se
+carrega? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o!... Sim!... Carrega! Guardarei as pistolas e a espada
+para o fim se for preciso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer que vamos j&aacute;?... Sinto uns formigueiros n'este
+bra&ccedil;o, que n&atilde;o me deixam sen&atilde;o quando
+assentar em cheio duas boas lambadas nas costas do sargento e na
+cabe&ccedil;a d'aquelle alma ruim do
+<em>Sapo</em>... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o as perdem, mas espera!... Que bebam at&eacute;
+ca&iacute;r. N&oacute;s os faremos erguer. Podes
+fumar homem! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com sua licen&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+O dialogo acabou aqui. Manuel Coutinho sentou-se com a
+cabe&ccedil;a entre os punhos e os cotovellos na mesa, scismando, e
+o Antonio poz-se com todo o vagar a carregar e escorvar a espingarda.
+Depois foi ver as m&oacute;s se tinham gr&atilde;o, abriu o
+ladr&atilde;o da presa, e quando tornou, veiu encontrar ainda o
+patr&atilde;o na mesma
+<span class="pagenum">[93]</span>
+posi&ccedil;&atilde;o com o relogio deante de si e os olhos
+cravados nos ponteiros. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora! exclamou o mancebo levantando-se com impeto. &Eacute; meia
+noite! Esperam por n&oacute;s. Vamos! E cobrindo-se com a manta,
+que o Antonio extendera a enxugar ao lume, passou as pistolas no cinto,
+apertou o boldri&eacute; da espada mais alto, e pegou na
+espingarda. <br />
+
+<br />
+
+O moleiro ainda se apromptou mais depressa. Enrolou-se na manta, cobriu
+com ella a coronha e os fechos da clavina, metteu-a debaixo do
+bra&ccedil;o esquerdo, e empunhou com a m&atilde;o direita o
+inseparavel varapau rematado pela choupa. No momento, em que estava
+dando volta &aacute; chave da porta um immenso clar&atilde;o
+livido abriu os c&eacute;us, o outeiro
+illuminou-se de fulgores sinistros, e a casa tremeu com a terra ao
+ribombo do trov&atilde;o perpendicular. Apezar da sua intrepidez os
+dois recuaram quasi assombrados at&eacute; ao meio do aposento:
+Santa Barbara! bradou o Antonio benzendo-se. Jesus! clamou o amo ao
+mesmo tempo. Ficaram immoveis ambos olhando um para o outro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixemos passar a maior, senhor! disse d'ahi a instantes o vigoroso
+alde&atilde;o. Ella anda mesmo por cima da nossa
+cabe&ccedil;a... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim. Deixemos! redarguiu Manuel Coutinho sentando-se no banco
+defronte da porta. <br />
+
+<br />
+
+Minutos depois outro relampago menor allumiou o campo, e &aacute;
+luz d'elle viram vir correndo ennovellado direito ao moinho um vulto,
+que mais parecia na velocidade um furac&atilde;o, do que um homem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh l&aacute;! disse em voz cheia o moleiro. Castelhanos por aqui
+&aacute; meia noite?! Quem temos? &Eacute; bom v&ecirc;r
+sempre!... <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o teve tempo para mais, do que para se desviar, extender o
+bra&ccedil;o, e segurar pela golla
+<span class="pagenum">[94]</span>
+o impetuoso vulto, t&atilde;o cego na partida, que se elle
+n&atilde;o se arreda a tempo, colhe-o pelos peitos, despedido como
+uma bala de canh&atilde;o, e atira-o ao ch&atilde;o, porque
+trazia for&ccedil;a para
+arrombar portas e paredes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah, s&ocirc; amigo, aonde vamos com tanta pressa? exclamou o
+Antonio, o qual affeito a apanhar na pra&ccedil;a os bois de cara,
+amarrava ao limiar com o vigoroso pulso o desconhecido, que, estafado e
+convulso, estacou arquejante e sem poder falar. <br />
+
+<br />
+
+Manuel Coutinho, callado e quasi indifferente, havia-se approximado da
+porta, e contemplava a scena, como quem s&oacute; desejava, que
+ella se n&atilde;o prolongasse. Antonio da Cruz adivinhou a
+impaciencia do mancebo, e voltando-se para elle disse-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um instantinho, meu amo! Entretanto amaina mais a
+chuva... mas nadar por estas horas com mouros na costa, nada!... Vamos,
+patr&atilde;o, desate-me j&aacute; a lingua, como desatava as
+pernas pelo cabe&ccedil;o arriba, e diga para ahi quem
+&eacute;, e o que faz correndo por esta linda noite at&eacute;
+&aacute; porta da gente de bem!... Vamos, desembuche,
+sen&atilde;o!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou... Sou... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;! &Eacute;... Quem? Cousa boa, n&atilde;o
+decerto. Com a breca! Entre que lhe queremos ver o focinho &aacute;
+candeia. Melros &aacute;s escuras podem sa&iacute;r
+morcegos!... <br />
+
+<br />
+
+E ao mesmo passo arrastava para dentro da cozinha o vulto, que
+escorrendo em agua, e cortado de frio e medo, nem lhe resistia, nem
+tinha animo para articular palavra. Apenas lhe metteu a luz ao rosto, o
+moleiro, fitando-o, voou de um salto &aacute; porta, fechou-a, e
+voltando-se para Manuel Coutinho, disse-lhe com um riso amarello: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aposto que v. s.<sup>a</sup> n&atilde;o &eacute;
+capaz de
+adivinhar
+<span class="pagenum">[95]</span>
+quem o diabo nos trouxe por aqui? Sabe
+quem &eacute; este cara de fuinha?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca o vi. N&atilde;o o conhe&ccedil;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois olhe que perde!... Isto &eacute; o maior heroe c&aacute;
+dos sitios... Nem mais nem menos, do que o s&ocirc;r Gaspar Preto,
+por alcunha o
+<em>Sapo</em>!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O <em>Sapo</em>? J&aacute; te ouvi esse
+nome... Ser&aacute;?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O maior ladr&atilde;o e traidor da cafila dos jacobinos... Oh,
+mas por aqui a esta hora, n&atilde;o &eacute; natural! O
+sargento Cabrinha n&atilde;o anda longe, aposto!... Este velhaco
+&eacute; o seu bra&ccedil;o direito... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Percebo!... bradou o mancebo, deitando tambem a m&atilde;o ao
+<em>Sapo</em>, e
+saccudindo-o de modo, que se repetisse, amea&ccedil;ava
+desconjuntal-o. Antonio! N&atilde;o o deixes escapar! Foi Deus que
+o trouxe... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus?!... Antes o demonio, cujo &eacute;!... N&atilde;o
+importa. Veiu por guloso? Pagar&aacute; as dividas que tem na minha
+conta. Se havia de ser &aacute;manh&atilde; &eacute; hoje.
+Gaspar! Toma sentido! Se n&atilde;o me respondes direito, por alma
+de minha m&atilde;e te juro, e sabes que nunca jurei em
+v&atilde;o, que deixas aqui a pelle pelos n&oacute;s d'essa
+corda, ou os ossos na vara do meu cajado... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&ocirc;r Antonio, por quem &eacute;!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por quem sou mesmo. Prometti, e costumo cumprir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca lhe fiz mal... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hum! Nem bem!... Vamos! Cabe&ccedil;a alta e lingua solta. D'onde
+vens? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Da Casa Negra, aonde appareceu o demonio ao sargento, a mim, e aos
+milicianos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Ah! accudiu Manuel Coutinho. Deixa-me perguntar. Este fio
+p&oacute;de levar-nos longe. <br />
+
+<br />
+
+Interrogado pelo mancebo, entre o pavor dos espectros e o medo das
+amea&ccedil;as de Antonio da Cruz, Gaspar Preto fez uma
+confiss&atilde;o geral t&atilde;o sincera, que at&eacute; o
+segredo do tiro dado
+em Manuel Sim&otilde;es lhe saltou quasi todo da b&ocirc;cca
+sem se sentir. O pavor ensandecia-o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[96]</span> &#8213;E affirmas
+n&atilde;o estar j&aacute; ninguem na casa,
+sen&atilde;o os presos? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ninguem, a todos os vi fugir, como lebres... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o sargento? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desappareceu. Foi o primeiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem! Agora n&oacute;s! atalhou o moleiro. O que vinhas tu aqui
+cheirar ante-hontem? Se disseres a verdade n&atilde;o te toco. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu!... Eu!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu sim! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vinha ver... se havia gente de f&oacute;ra por c&aacute;!...
+redarguiu o malsim contido pelo olhar firme de Antonio, e estorcendo-se
+como se lhe estivessem dando tratos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora gra&ccedil;as a Deus! J&aacute; confessas!... Vinhas
+ent&atilde;o como espia!
+Est&aacute; bom. Outra pergunta. Quem foi ao Casal do Ouro?
+Fala!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu!... Suspirou tremulo o miseravel. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem te mandou? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O sargento... Que eu por mim!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei. Vamos a outra historia. Esta tarde deram um tiro no Manuel
+Sim&otilde;es?... V&ecirc; bem! Quem foi? Olha l&aacute; se
+mentes!... <br />
+
+<br />
+
+Gaspar sentiu dobrarem-se-lhe os joelhos, fugir-lhe a vista, e
+zumbirem-lhe os ouvidos. Esbugalhou os olhos, e por mais que quizesse
+n&atilde;o poude pronunciar uma syllaba. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem deu o tiro, quero saber! repetiu o moleiro, meneando o varapau e
+encarando o assassino com terrivel gesto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei... N&atilde;o sei... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabes e viste. Essa cara de r&eacute;o o est&aacute;
+confessando. Fala. Quem foi? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu!... por descuido... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Descuidos teus, j&aacute; sei. &Eacute; o que suppunha. Agora
+v&ecirc; l&aacute;!... O sargento n&atilde;o te tinha
+dito nada?... <br />
+
+<br />
+
+Houve uma pausa longa. O <em>Sapo</em>
+chorava, supplicava, mas n&atilde;o redarguia &aacute;
+interroga&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[97]</span> &#8213;V. s.<sup>a</sup>
+j&aacute; viu esmagar uma osga
+contra uma parede?
+bradou
+o Antonio fuzilando-lhe as pupillas, e convulso de cholera. Pois vae
+ver. Juro-lhe, se este c&atilde;o se cala um minuto, que deixa os
+miolos n'aquelle muro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelo amor de Deus!... S&ocirc;r Antonio n&atilde;o me deite a
+perder!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O sargento sabia?... replicou o outro al&ccedil;ando o cajado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Jesus!... N&atilde;o me mate! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabia ou n&atilde;o?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabia!... rosnou o malsim quasi sem sentidos de terror. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quanto te prometteu... pelo tiro? Conhe&ccedil;o-te. Tu de
+gra&ccedil;a n&atilde;o o disparavas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora isso n&atilde;o! P&oacute;de matar-me, mas
+n&atilde;o confesso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu matar-te?... Para que? O carrasco n&atilde;o come
+p&atilde;o de gra&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o entrega-me?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com anginhos nos dedos e ferros aos p&eacute;s. Juro-te! Dize a
+verdade, homem. Do mal o menos. Quanto te prometteu? Olha que a corda,
+que ha de pendurar-te na forca, j&aacute; est&aacute; fiada e
+torcida... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se eu disser n&atilde;o me descobre? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! O teu crime te descobrir&aacute;. Quanto? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seis moedas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por conta, ou ao todo? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por conta. As outras seis... havia dar-m'as em Lisboa... quando
+levassemos os presos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Agora repara. Vamos &aacute;s nossas contas. Gaspar, devo-te
+uma sova mestra pelo natal passado e outra por este entrudo. Bem te has
+de lembrar por qu&ecirc;!... Mas perd&ocirc;o-te, tudo, e
+at&eacute; no tiro dado em Manuel Sim&otilde;es n&atilde;o
+hei de boquejar... se juras fazer ao sargento o que elle te mandou
+fazer aos outros...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[98]</span> &#8213;Matal-o?!...
+exclamou o <em>Sapo</em>, cuja
+vista feroz se inflammou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, maldito! A justi&ccedil;a que o mate, quando o
+sentencear! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero que vejas, que ou&ccedil;as, e que me digas tudo quanto
+elle fizer? Percebeste? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim senhor... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc; l&aacute;. Se te escorrega um p&eacute;, ou a
+lingua, e eu o sei... guarda-te! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha de ter raz&atilde;o de queixa. Sou-lhe muito
+obrigado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me d&ecirc;s mel pelos bei&ccedil;os, que
+n&atilde;o sou abelha. Cuidado commigo. Depois!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; lhe disse. Fique descan&ccedil;ado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fico, fico! N&atilde;o tem duvida. Agora vens comnosco
+&aacute; Casa Negra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, s&ocirc;r Antonio, por alma de sua m&atilde;e, pela sua
+boa sorte, tudo quanto mandar, menos isso... Sirvo-o de rastos, estou
+prompto a lamber o ch&atilde;o aonde pozer os p&eacute;s, mas
+tornar alli... isso n&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Tens medo do diabo?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mate-me, entregue-me, fa&ccedil;a de mim o que quizer, mas
+n&atilde;o volto l&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+E as fei&ccedil;&otilde;es repulsivas do malsim exprimiam por
+tal modo o medo e o espanto, e revelavam uma
+resolu&ccedil;&atilde;o t&atilde;o decidida de se expor
+a tudo para n&atilde;o obedecer, que Manuel Coutinho disse algumas
+palavras ao ouvido de Antonio da Cruz. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem, esperar&aacute;s por n&oacute;s. Ahi te deixo agua
+p&eacute; e br&ocirc;a. Mas sentido! Olha que te quero
+encontrar &aacute; volta!... Forte homem! Ter pavor assim de almas
+do outro mundo!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! s&ocirc;r Antonio! Se voc&ecirc; visse!... O fantasma
+branco alto como um cypreste crescer para si, e o defunto sentar-se de
+repente e olhar... Ai Jesus! Parece que os estou
+<span class="pagenum">[99]</span>
+vendo ainda! Quando me lembro cuido que
+enlouque&ccedil;o!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bom! Est&aacute; bom! At&eacute; logo! Com
+que viste o defunto e o fantasma?... insistia o moleiro serio e
+apprehensivo, olhando para o amo com certo enleio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como o estou vendo a voc&ecirc;, s&ocirc;r Antonio. Credo!...
+<br />
+
+<br />
+
+Manuel Coutinho encolheu os hombros, conchegou o capote e
+sa&iacute;u. O Antonio n&atilde;o teve mais remedio
+sen&atilde;o seguil-o, mas apezar de todo o seu valor benzeu-se, e
+o cora&ccedil;&atilde;o batia-lhe mais rijo no peito, do que se
+visse um touro partir contra elle enfurecido.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c9"></a>IX</h3>
+
+<h3><br />
+
+Que talvez podesse servir de prologo </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Deixemos descan&ccedil;ar por um pouco os heroes d'esta mui
+veridica historia, em quanto corremos rapidamente os olhos pelos
+successos, de que a Peninsula foi theatro n'este periodo memoravel. <br />
+
+<br />
+
+Sem um resumido esbo&ccedil;o, dos factos, que servem de fundo e de
+moldura ao quadro, difficilmente formar&aacute; o leitor exacta
+id&eacute;a d'elle. <br />
+
+<br />
+
+Os francezes, como dissemos, tinham atravessado as provincias, e
+entrado na capital com o nome de amigos. Retirando-se com a esquadra
+para o Brazil, o principe regente entreg&aacute;ra em suas
+m&atilde;os o reino sem defeza. As ultimas ordens de sua alteza,
+datadas de 26 de novembro de 1807, ordens pacificas e conciliadoras,
+abrindo-lhes as fronteiras, ajudaram mais, que as armas, os generaes de
+Bonaparte a superar os obstaculos da invas&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Junot confessou-o nas primeiras proclama&ccedil;&otilde;es! A
+obediencia, t&atilde;o elogiada por elle, e dictada pelas
+circumstancias, ainda n&atilde;o encerrava os ressentimentos, que
+tornaram depois vacillante e precario o dominio estrangeiro. <br />
+
+<br />
+
+O regimen absoluto, que as reformas do
+<span class="pagenum">[101]</span>
+marquez de Pombal n&atilde;o conseguiram
+remo&ccedil;ar, adoecia de incuravel decrepidez. <a name="n4"></a>Muitos
+homens
+illustrados, que o grandioso espectaculo dos acontecimentos advertia,
+suspiravam por uma renova&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o
+podia nunca
+ser inspirada, bem o sabiam elles por experiencia, nem pelas
+id&eacute;as, nem pela iniciativa de um governo caduco. <br />
+
+<br />
+
+Esta illus&atilde;o de animos generosos durou pouco. Os que amavam
+sinceramente a patria depressa se desenganaram da vaidade das promessas
+dos conquistadores. <br />
+
+<br />
+
+Estes, apenas se reputaram seguros, arrancaram a mascara, e pozeram
+termo &aacute;s complacencias. Assim que viu reunidos e repousados
+os corpos dispersos por longas e precipitadas marchas; assim que os
+soldados lhe pareceram restaurados da fome, das inclemencias da
+esta&ccedil;&atilde;o,
+e da aspereza do transito o general em chefe can&ccedil;ou-se de
+dissimular, falando com a altivez de vencedor aos que o tinham recebido
+como hospede! <br />
+
+<br />
+
+Foi ent&atilde;o geral o sobresalto. Os actos despoticos e
+oppressivos dir-se-&iacute;am calculados para irritar o ciume e o
+amor proprio do paiz. As guardas de Lisboa confiadas s&oacute; aos
+francezes; o emprestimo for&ccedil;ado imposto ao commercio com o
+praso de vinte dias; a insolencia do famoso decreto de Mil&atilde;o
+condemnando como sujeito a resgate o reino que n&atilde;o
+f&ocirc;ra conquistado; as armas reaes picadas do
+front&atilde;o dos edificios publicos; e a bandeira nacional
+arriada no castello e nas fortalezas, e substituida pelos estandartes
+tricolores, foram outros tantos erros dos dominadores, que a saudade da
+independencia registrou como ultrajes. <br />
+
+<br />
+
+Desde o dia 13 de dezembro, em que Junot rodeado de pompas guerreiras,
+mand&aacute;ra baixar o pavilh&atilde;o das quinas deante das
+aguias
+<span class="pagenum">[102]</span>
+do Sena, nunca mais houve paz
+entre a na&ccedil;&atilde;o offendida e os invasores. A luva
+ficou desd'esse dia no ch&atilde;o por falta de chefe, que a
+levantasse; por&eacute;m, decorridos mezes, Portugal erguia-se para
+responder &aacute; provoca&ccedil;&atilde;o,
+envidando valor egual aos brios. <br />
+
+<br />
+
+Atraz da occupa&ccedil;&atilde;o da pequena monarchia, que o
+orgulho do gabinete de Saint Cloud estava ainda longe de suppor, que
+podesse tornar-se em breve um dos inimigos implacaveis de sua
+ambi&ccedil;&atilde;o, pouco se dilatou a
+invas&atilde;o de toda a Hespanha. Assignando o tractado de
+Fontainebleau, que repartia os membros de Portugal entre os Bourbons,
+os francezes, e o principe da Paz, auctorizando a entrada de quarenta
+mil soldados em seus dominios, Carlos IV n&atilde;o percebeu que
+firmava a propria abdica&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Bonaparte anciava um pretexto para realizar os seus designios.
+Deram-lh'o os enredos aulicos, o nucleo de descontentes, de que se
+rodeava o principe das Asturias, depois Fernando VII, e a m&aacute;
+vontade de todas as classes contra o ministro omnipotente, valido do
+monarcha e amante da rainha; deram-lh'o egualmente a miseria, a
+inquieta&ccedil;&atilde;o, a decadencia geral, e o
+presentimento de immensas catastrophes. <br />
+
+<br />
+
+As dissens&otilde;es da c&ocirc;rte, filhas da lucta do
+herdeiro da cor&ocirc;a com os soberanos e com o privado, D. Miguel
+de Godoy, e a indiscreta revela&ccedil;&atilde;o dos aggravos
+reciprocos, levada ao tribunal do imperador, para este sentenciar como
+arbitro a familia real, ajoelhada a seus p&eacute;s, facilitaram a
+occasi&atilde;o appetecida por
+Napole&atilde;o I, precipitando a queda do ministro entre
+violencias e tumultos, coagindo a abdica&ccedil;&atilde;o
+de Carlos IV, e apressando a sa&iacute;da de Fernando VII para
+Bayona. <br />
+
+<br />
+
+Vendo por terra o diadema dos Bourbons
+<span class="pagenum">[103]</span>
+de Hespanha Bonaparte n&atilde;o o restituiu
+a Carlos IV, nem a Fernando VII, cingiu-o na fronte de seu
+irm&atilde;o, o rei de Naples, escolhido para reinar entre
+bayonetas sobre a monarchia de Izabel a Catholica. Os principes
+despojados resignaram-se, mas a Hespanha protestou. Madrid insurgida
+deu o exemplo. Murat cuidou suffocar a subleva&ccedil;&atilde;o
+pelo terror dos supplicios. Illudiu-se. O sangue vertido na capital em
+2 de maio tornou irreconciliavel a nova conquista com o imperio. A
+na&ccedil;&atilde;o respondeu aos canh&otilde;es, aos
+fuzis, e &aacute;s execu&ccedil;&otilde;es militares com a
+resolu&ccedil;&atilde;o indomita, que as adversidades
+confortam, e os triumphos exaltam. <br />
+
+<br />
+
+A ira fez soldados os habitantes da Peninsula. O odio da
+servid&atilde;o resuscitou os dias de Viriato e de Sertorio. Cada
+rochedo, cada tronco, de
+arvore, cada balsa escondeu um inimigo; e para repellir os oppressores
+at&eacute; os velhos saccudiam os gelos da edade como mancebos, e
+as crian&ccedil;as pelejavam como homens. Por um, que expirava,
+erguiam-se mil. N'esta nova se&aacute;ra de Cadmo o ferro, tocando
+a terra, levantava legi&otilde;es de heroes. O ch&atilde;o
+fugia debaixo
+dos p&eacute;s aos veteranos da Italia e do Egypto, e a espada dos
+marechaes, quebrada sem gloria, amea&ccedil;ava em v&atilde;o
+as fragas de um territorio, que, alastrado de cadaveres, e abrazado
+pelas armas e pelos incendios, at&eacute; cuspia de si os ossos do
+estrangeiro, negando-lhes a paz do tumulo! <br />
+
+<br />
+
+Oviedo, a antiga e venerada c&ocirc;rte das Asturias, recordando,
+que suas montanhas tinham sido ber&ccedil;o e asylo da
+renascen&ccedil;a
+christ&atilde;, al&ccedil;ou ousada o seu estandarte. Cadix e
+Sevilha acompanharam-n'a. Granada e Valencia insurgiram-se logo depois.
+Toledo, Santander de Biscaya, Sarago&ccedil;a, Tortosa, e Galliza,
+n&atilde;o ficaram atraz. Dentro em pouco os esquadr&otilde;es
+<span class="pagenum">[104]</span>
+francezes, encanecidos nas
+luctas d'esta epocha de prodigios, j&aacute; n&atilde;o
+chamavam seu mais do que ao terreno aonde combatiam. <br />
+
+<br />
+
+As juntas de salva&ccedil;&atilde;o e defeza, &aacute;
+medida que as terras se iam sublevando, exprimiam o seu pensamento de
+porfiada resistencia. Filhas legitimas da
+revolu&ccedil;&atilde;o, os revezes e os sacrificios
+n&atilde;o as desanimavam. Diversas e oppostas muitas vezes no
+caracter e nos costumes, nenhuma trahiu o seu juramento. Preferindo
+para mortalha da Hespanha os muros voados e as torres arrazadas das
+pra&ccedil;as de guerra e das antigas cidades, todas rejeitaram a
+clemencia injuriosa, que lhes promettia o perd&atilde;o em troca do
+soberbo dominio a que a Europa quasi inteira curvava ent&atilde;o a
+cerviz. <br />
+
+<br />
+
+Os successos correram como a impaciencia dos contendores. <br />
+
+<br />
+
+A invas&atilde;o, que tal&aacute;ra a provincia de Granada,
+derrotadas por Casta&ntilde;os as tropas imperiaes, foi obrigada a
+retroceder. A capitula&ccedil;&atilde;o de Bailen quebrou o
+prestigio das legi&otilde;es invenciveis. Os francezes, acossados
+de posto em posto, tiveram de evacuar Madrid, e recuando deante do
+impeto da na&ccedil;&atilde;o armada, s&oacute;
+pararam &aacute;s margens do Ebro. Os capit&atilde;es mais
+ousados aprendiam, finalmente, a conhecer, que vale mais o
+esfor&ccedil;o de um povo unanime, do que a espada feliz do mais do
+maior homem de armas. <br />
+
+<br />
+
+A junta central de Aranjuez, composta de deputados de todas as
+provincias, constituiu-se como representante de Fernando VII, captivo
+em Valen&ccedil;ay, e assumiu a suprema
+direc&ccedil;&atilde;o, conferida pelas necessidades e o
+heroismo pelo paiz. A Inglaterra, senhora por tanto tempo do sceptro
+dos mares, disputando a Napole&atilde;o em todos os campos de
+batalha a primazia no continente, ouviu de repente os clamores dos
+descendentes de Pelaio, e
+<span class="pagenum">[105]</span>
+contemplando o arrojo, com que elles se atreviam contra o poder que
+desmaiava os monarchas mais poderosos, estremeceu de jubilo, e saudou
+n'este commettimento audaz a aurora do dia de Waterloo. <br />
+
+<br />
+
+Em Portugal, apezar de n&atilde;o ser menos vivo e intenso o odio,
+n&atilde;o foi t&atilde;o prompta a
+explos&atilde;o. Mas a chamma, por calar debaixo de cinzas,
+n&atilde;o rompeu por isso com menor violencia. <br />
+
+<br />
+
+No dia 5 de fevereiro de 1808, na occasi&atilde;o, em que as
+auctoridades francezas se reputavam mais firmes, reuniram-se
+encobertamente em Lisboa seis homens, que nenhuma
+distinc&ccedil;&atilde;o hierarchica apontava para chefes, mas
+que a firmeza da vontade e o despreso dos perigos recommendam ao louvor
+da posteridade. Chamavam-se Matheus Augusto, Jos&eacute; Maximo
+Pinto da Fonseca Rangel, Jos&eacute; Carlos de Figueiredo, Antonio
+Gon&ccedil;alves Pereira e Andr&eacute; da Ponte de Quental da
+Camera. Juraram na presen&ccedil;a de Deus empregar as
+for&ccedil;as, os bens, e a vida com fervor at&eacute;
+conseguirem restituir ao principe regente, a sua cor&ocirc;a, e
+&aacute; patria o seu esplendor e liberdade. <br />
+
+<br />
+
+Juntavam-se &aacute;s oito horas da noite alternadamente uns em
+casa dos outros, e desde logo se occuparam de minar o ch&atilde;o
+debaixo dos passos dos invasores, descobrindo no meio do seu cortejo os
+illudidos e os coactos para os descriminar dos vendidos e traidores, e
+sondando o animo dos officiaes militares, dos magistrados, e dos
+ecclesiasticos para indagar a sua disposi&ccedil;&atilde;o,
+apurando aquelles com que podia contar. <br />
+
+<br />
+
+Esbo&ccedil;ada a conspira&ccedil;&atilde;o, e protegida
+por inviolavel segredo, principiaram os primeiros conjurados a attrahir
+outros, engrossando o numero dos cumplices. &Aacute; policia,
+regida por Lagarde, chegaram cedo os echos d'esta empreza,
+<span class="pagenum">[106]</span>
+que, tomando corpo &aacute;
+propor&ccedil;&atilde;o
+que os acontecimentos caminhavam, era j&aacute; na primavera de
+1808 uma verdadeira potencia, fortificada pelos votos concordes do
+patriotismo portuguez, e pela coadjuva&ccedil;&atilde;o de
+valiosos auxiliares recrutados nas fileiras do exercito nacional, nas
+casas mais illustres da fidalguia, e nas classes respeitadas do clero,
+da toga, e do commercio. <br />
+
+<br />
+
+Quando Junot embarcou em virtude da capitula&ccedil;&atilde;o
+de Cintra, s&oacute; os cabe&ccedil;as de bando,
+representantes, perante o Conselho Conservador, da multid&atilde;o
+dos adherentes, excediam de <em>cento e
+oitenta</em>, e os homens, de
+que podiam dispor, n&atilde;o baixavam de tres, ou quatro mil, com
+sete pe&ccedil;as de artilheria, 370 cavallos do regimento da Luz,
+e da guarda real da policia, 112 officiaes avulsos, e 710 bayonetas! <br />
+
+<br />
+
+Saltemos agora as semanas, que nos separam dos meiados de junho de
+1808, e observemos o estado das cousas j&aacute; bastante alterado
+no curto espa&ccedil;o de sete mezes. <br />
+
+<br />
+
+Determin&aacute;ra a Providencia que do excesso dos males, que
+flagellaram a Peninsula se gerassem as causas, de que primeiro renasceu
+a independencia, e depois a liberdade. As scenas de Bayona, e a
+repress&atilde;o cruel dos tumultos de Madrid despertaram a
+Hespanha do somno, em que a falsa allian&ccedil;a dos francezes a
+embalava. Badajoz sublevou-se a par de outras terras importantes no dia
+30 de maio, e &aacute; sua voz principiou a provincia do Alemtejo a
+agitar-se. Ao norte a Galliza, com os bellos portos do Ferrol e da
+Corunha, e a sua popula&ccedil;&atilde;o briosa e accumulada,
+n&atilde;o
+hesitou egualmente em saccudir o jugo. <br />
+
+<br />
+
+Os dez mil hespanhoes aquartelados no Porto, que depois da morte do
+general Taranco obedeciam ao marechal de campo D.
+<span class="pagenum">[107]</span>
+Domingos Ballesta, receberam ordem da junta
+para recolherem, aprisionando o general Quesnel, governador militar da
+cidade, e todos os officiaes e soldados, de que podessem apoderar-se. <br />
+
+<br />
+
+Ballesta executou a ordem, e chamando as auctoridades da segunda
+capital do reino, perguntou-lhes, antes de partir, por quem se
+decidiam? Pela patria, responderam alguns. <br />
+
+<br />
+
+O castello de S. Jo&atilde;o da Foz, de que era major Raymundo
+Jos&eacute; Pinheiro, arvorou a bandeira portugueza, e a
+guarni&ccedil;&atilde;o communicou com o brigue inglez
+<em>Eclipse</em>, o qual
+esperava os acontecimentos, cruzando proximo da costa. O povo
+n&atilde;o se moveu. A
+occasi&atilde;o ainda n&atilde;o estava madura. <br />
+
+<br />
+
+Os timidos conselhos do brigadeiro Luiz de Oliveira prevaleceram. O
+Porto tornou a submetter-se ao governo de Napole&atilde;o I. <br />
+
+<br />
+
+A 9 de julho chegou a Lisboa a noticia da
+insurrei&ccedil;&atilde;o das tropas hespanholas e da
+pris&atilde;o de Quesnel. <br />
+
+<br />
+
+O perigo eminente estimulou o duque de Abrantes. <br />
+
+<br />
+
+A divis&atilde;o Caraffa, composta de seis batalh&otilde;es de
+infanteria, de um regimento de cavallaria, e de algumas baterias de
+artilheria, ardia em desejos de imitar seus irm&atilde;os de armas,
+provocada pelos emissarios expedidos a toda a pressa de Sevilha e
+Badajoz. Junot antecipou-se. Vinte e quatro horas depois os soldados de
+Fernando VII, presos e desarmados, embarcavam para bordo dos
+pont&otilde;es francezes, e s&oacute;mente poucas companhias do
+regimento de Murcia e alguns hussards do Maria Luiza conseguiam
+escapar-se. <br />
+
+<br />
+
+Por meio d'este golpe ousado o general em chefe, retaliando as
+hostilidades dos patriotas, soube refrear a tempo as impaciencias e a
+animosidade dos habitantes irritados. Loison
+<span class="pagenum"><a name="p108">[108]</a></span>
+sa&iacute;u a 17 de Almeida sobre o
+Porto com a sua columna, afim de se oppor &aacute;s tentativas da
+Junta de Galliza, e a 20 passava o Douro no Pezo da Regua. Mas o dia
+das iras populares tinha alvorecido. Rodeado por todas as partes de
+inimigos invisiveis, que fuzilavam suas tropas por traz das vinhas e
+dos rochedos, pendurados sobre a corrente torva e arrebatada do rio,
+volveu j&aacute; sobre a noite ao Pezo da Regua, e tornou a vadear
+o Douro para a outra margem, aben&ccedil;oando a
+precipita&ccedil;&atilde;o bo&ccedil;al dos camponezes, que
+o salv&aacute;ra quasi por milagre de uma ruina completa. <br />
+
+<br />
+
+O Minho e Traz os Montes, sublevadas em massa, acabavam de empunhar as
+armas, proclamando a independencia. Mais alguns passos de Loison
+al&eacute;m de Mes&atilde;ofrio, mais prudencia e calculo da
+parte dos aggressores, e a columna franceza encontrava a sepultura
+n'aquelles penhascos e desfiladeiros immortalizados pela sua derrota! <br />
+
+<br />
+
+Em quanto Junot quebrava por um lance audacioso a espada nas
+m&atilde;os dos batalh&otilde;es de Caraffa, Manuel Jorge Gomes
+Sepulveda, tenente general, e governador militar do norte, em edade
+provecta, acclamava a restaura&ccedil;&atilde;o da dynastia de
+Bragan&ccedil;a, e era seguido pelas terras mais notaveis das duas
+provincias. <br />
+
+<br />
+
+No dia 18 a revolu&ccedil;&atilde;o rebentou no Porto, e no dia
+19 foi <a href="#e18">nomeada</a> a
+primeira junta portugueza, cujo papel havia de ser t&atilde;o
+importante nos successos, que se precipitavam. Coimbra Pombal, e Leiria
+seguiram o exemplo do Porto, e a insurrei&ccedil;&atilde;o
+crescendo e alargando-se, batia pouco depois &aacute;s portas de
+Lisboa, amea&ccedil;ando o dominio estrangeiro, tanto pelo lado do
+norte, como pelo lado do sul. Desde os Algarves at&eacute; Evora e
+Beja levantou-se o mesmo grito de exterminio correspondido por milhares
+de vozes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[109]</span>
+Antes de combater a insurrei&ccedil;&atilde;o a ferro, o duque
+de Abrantes chamou em seu auxilio o bra&ccedil;o ecclesiastico,
+convidando-o a fulminar as popula&ccedil;&otilde;es armadas. <br />
+
+<br />
+
+Uma pastoral do cabido patriarchal representou como crime e peccado
+inexpiavel a resistencia ao grande e invencivel Napole&atilde;o,
+declarando a culpa sujeita a excommunh&atilde;o maior sem prejuizo
+das penas temporaes. Esta profana&ccedil;&atilde;o sacrilega
+serviu s&oacute; de
+aviltar aos olhos do paiz os ministros do altar, que n&atilde;o se
+envergonhavam de offerecer o incenso do templo e o beijo de Judas
+contra a liberdade &aacute; vontade despotica dos oppressores. Os
+raios mal forjados nas sacristias ca&iacute;ram frios e inermes
+deante da resolu&ccedil;&atilde;o e da perseveran&ccedil;a
+dos que pelejavam pela patria, e a famosa
+proclama&ccedil;&atilde;o ao Divino, despresada como merecia,
+n&atilde;o roubou &aacute;s fileiras nacionaes um s&oacute;
+defensor. <br />
+
+<br />
+
+A resposta de Bonaparte em Bayona &aacute;
+deputa&ccedil;&atilde;o portugueza foi mais eloquente para
+fazer de n&oacute;s soldados, do que as excommunh&otilde;es
+dictadas no quartel general francez. O imperador, julgando a
+occupa&ccedil;&atilde;o de Portugal legitima depois da partida
+da familia de Bragan&ccedil;a, tractava o pequeno reino desamparado
+com os rigores devidos a uma colonia ingleza! <br />
+
+<br />
+
+Era a sua id&eacute;a e a sua politica. Pouco lhe importavam o amor
+e a confian&ccedil;a dos novos subditos. N&atilde;o os temia
+nem o preoccupava o que havia de dispor afinal &aacute;cerca do seu
+destino. Junot, que os conhecia melhor, tinha procurado attrahil-os, e
+cheg&aacute;ra a linsongear-se com a esperan&ccedil;a de os
+adormecer a ponto de lhes riscar da memoria as saudades da dynastia e
+da independencia. A obediencia imposta pela for&ccedil;a
+afigurava-se-lhe esquecimento, e nos seus officios ao ministro da
+guerra o
+<span class="pagenum"><a name="p110">[110]</a></span>
+governador de Paris traduzia os
+vivas venaes da plebe ao sabor dos seus desejos, pintando a
+na&ccedil;&atilde;o tranquilla, submissa, e satisfeita. A
+explos&atilde;o das provincias e os murmurios da capital vieram
+depressa acordal-o d'este sonho! <br />
+
+<br />
+
+Olhou. N&atilde;o viu em volta de si, sen&atilde;o odios mal
+reprimidos, ou adhes&otilde;es falliveis e compradas. A pobreza e a
+miseria, filhas do bloqueio, que paralysava o commercio, tornavam ainda
+mais critica a sua posi&ccedil;&atilde;o. O cambio do papel
+moeda subira a 31 e a 32 por cento; o p&atilde;o custava 75
+r&eacute;is o arratel. A carestia dos generos, tornando a vida
+difficil e dolorosa para as classes indigentes, aggravava o
+descontentamento geral. A Junta dos Tres Estados, reunida para pedir um
+rei a Napole&atilde;o, proporcionou ao juiz do povo Jos&eacute;
+de Abreu Campos, a occasi&atilde;o appetecida de manifestar os
+verdadeiros sentimentos do paiz, desenganando o duque de Abrantes, de
+que se achava s&oacute; e detestado com o seu exercito no meio de
+popula&ccedil;&otilde;es hostis, que suspiravam pela hora de
+restaurar a liberdade e o throno de seus principes. <br />
+
+<br />
+
+No mez de junho estavam dissipadas todas as illus&otilde;es.
+Admirado do arrojo com que paizanos quasi sem defeza se arriscavam ao
+encontro de legi&otilde;es aguerridas, Junot exclamava:
+&laquo;Portuguezes! Que delirio &eacute; o vosso? Em que abysmo
+de males vos despenhaes? Ao cabo de <a href="#e19">sete</a>
+mezes de paz e
+harmonia, porque raz&atilde;o correis &aacute;s
+armas?&raquo; Concluindo com
+a lei marcial, amea&ccedil;ava as villas e cidades com o saque e o
+incendio, e os cidad&atilde;os com a morte! <br />
+
+<br />
+
+Se estivesse mais lembrado da sua juventude deveria recordar-se do modo
+por que a Fran&ccedil;a respond&ecirc;ra heroicamente aos que
+lhe apontaram a espada ao peito dizendo o mesmo.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c10"></a>X </h3>
+
+<h3><br />
+
+Tolda-se o tempo </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Transportemo-nos um pouco antes dos successos esbo&ccedil;ados nas
+paginas antecedentes aos pa&ccedil;os da
+inquisi&ccedil;&atilde;o, situados no Rocio
+de Lisboa, aonde hoje ergue o seu front&atilde;o votado
+&aacute;s Musas o theatro de D. Maria II. Em algumas das salas e
+aposentos do antigo palacio dos Est&aacute;os, restaurado pelo
+marquez de Pombal, assentou Lagarde as
+reparti&ccedil;&otilde;es da policia geral do reino. Era justo!
+Ao lado do santo officio da f&eacute; o santo officio da
+usurpa&ccedil;&atilde;o. As duas
+inquisi&ccedil;&otilde;es fraternalmente hospedadas uma a par
+da outra n&atilde;o podiam offender-se do acaso que as unia!
+Soldados da guarda real da policia, corpo fundado e disciplinado pelo
+conde de Novion, emigrado francez que as victorias de Bonaparte e a
+invas&atilde;o de 1807 lan&ccedil;aram outra vez nos
+bra&ccedil;os dos seus compatriotas, guardavam as portas de
+f&oacute;ra, ou de espadas em punho vigiavam os corredores e
+camaras, que precediam o quarto reservado aonde o proconsul se
+encerrava com os seus confidentes.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n5"></a>Deixemos passar esses vultos, que
+pisam os
+<span class="pagenum">[112]</span>
+sobrados nas pontas dos p&eacute;s, escorregando quasi como
+sombras. S&atilde;o rodas secundarias da machina. O olhar enviezado
+e inquieto, o rosto meio escondido na dobra do capote, e a humildade
+rasteira denunciam, sem necessidade de mais exame, os delatores
+obscuros, ou os agentes provocadores, destacados nas ruas e
+pra&ccedil;as, ou nas tavernas para escutar e repetir os clamores
+de indigna&ccedil;&atilde;o das
+multid&otilde;es. Esperemos que algum personagem de elevada
+gerarchia appare&ccedil;a, e nos introduza no gabinete discreto e
+s&oacute; accessivel a poucos eleitos, aonde o magistrado
+estrangeiro conta as pulsa&ccedil;&otilde;es
+do cora&ccedil;&atilde;o de Portugal, e segue com a vista fria
+e penetrante os estremecimentos de cholera, ou de impaciencia do paiz,
+can&ccedil;ado da oppress&atilde;o e envergonhado do silencio,
+em que a supporta ha sete mezes! <br />
+
+<br />
+
+O general Junot, governador de Paris, entra pelo bra&ccedil;o do
+conde da Ega, seguido de seus ajudantes de campo. O ministro Herman,
+encarregado dos negocios do reino e da fazenda, ex-commissario
+imperial, n&atilde;o se demora atraz d'elle. Lunyt, secretario
+d'estado da marinha e da guerra j&aacute; os tinha precedido. A
+concorrencia de taes pessoas inculca acontecimento notavel, e
+&eacute; de crer que o conselho se n&atilde;o separe sem que
+alguma providencia venha esclarecer o segredo dos ultimos dias e dos
+ultimos sucessos. Quem nos abrir&aacute; caminho at&eacute; ao
+famoso reposteiro, que deante da entrada da sala vedada representa para
+os profanos o papel de v&eacute;u de Pythagoras? As sentinellas,
+immoveis como estatuas, velam fieis &aacute;s ordens recebidas. Os
+porteiros, em ar protector, ou mysterioso, despedem os pretendentes e
+os importunos. Um cord&atilde;o de empregados corta &aacute;
+curiosidade todos os passos. Gritou-se, por&eacute;m &aacute;s
+armas. O uniforme de um official superior reluz na extremidade
+de extenso
+<span class="pagenum">[113]</span>
+corredor. Os
+subalternos inclinam-se profundamente, e respondem em voz submissa
+&aacute;s perguntas imperiosas, que lhes dirige. Acompanhemos este
+iniciado. &Eacute; o capit&atilde;o de mar e guerra Magendie,
+commandante da marinha. Seguindo-o, temos a certeza de n&atilde;o
+encontrar obstaculos. <br />
+
+<br />
+
+Quando o recem-chegado franziu o reposteiro de panno escarlate orlado
+de branco, no meio do qual camp&ecirc;a uma aguia azul colossal, e
+empurrou de leve um dos batentes da porta, a discuss&atilde;o
+j&aacute; se havia travado, segundo parecia, menos placida, do que
+promettiam os annos e auctoridade dos diversos membros do governo,
+sentados &aacute; roda da comprida mesa, coberta de couro, e
+cingida at&eacute; ao ch&atilde;o de um rodap&eacute; de
+tela encarnada. A mesa occupava o centro da casa. Junot, facil de
+conhecer pela estatura, boa presen&ccedil;a, e garbo do porte,
+achava-se em p&eacute; junto da cabeceira, com o rosto inflammado,
+e a m&atilde;o no punho da espada. Lagarde, &aacute; sua
+esquerda, analyzava com o olhar prescrutador todas as physionomias,
+tra&ccedil;ando com a penna sobre uma folha de papel algumas
+palavras soltas. Pallido, ou antes livido, retratava no rosto a astucia
+unida &aacute; express&atilde;o repulsiva de um cynismo cruel e
+glacial. <br />
+
+<br />
+
+Herman, &aacute; direita do general em chefe, sereno, aprazivel, e
+delicado, com um lapis entre os dedos enfeitados de anneis, justificava
+ao primeiro volver de olhos a reputa&ccedil;&atilde;o de
+melindre e de primor, merecida desde que se estre&aacute;ra na
+carreira publica exercendo as func&ccedil;&otilde;es de consul
+em Portugal. Vestia em todo o apuro da moda do seu tempo. Casaca de
+lemiste talhada &aacute; franceza com bot&otilde;es de metal e
+golla alta, collete branco aberto, que deixava sobresa&iacute;r a
+finissima cambraia da camisa e da tira engommadas em pregas
+miudissimas, cal&ccedil;&otilde;es de seda, meia a estalar na
+<span class="pagenum">[114]</span>
+perna, sapatos e fivelas de ouro cravejadas.
+Um espadim curto de bainha dourada pendia-lhe da cinta, e uma caixa de
+rap&eacute;, mais preciosa pelo lavor, do que pela qualidade,
+aberta a seu lado, e consultada a miudo pelos dedos distrahidos de
+Junot, recommendava-se pela admiravel miniatura, cercada de aljofres,
+que lhe ornava a tampa. <br />
+
+<br />
+
+O conde da Ega, cuja intimidade no quartel general do largo do
+Quintella as murmura&ccedil;&otilde;es populares explicavam de
+um modo pouco airoso, e que dias depois havia de substituir o Principal
+Castro na pasta da justi&ccedil;a, escutava de p&eacute;, e com
+mostras de n&atilde;o pequeno sobresalto, talvez provocado pelo
+desassocego da consciencia, a leitura nasal, lenta, e accentuada, que
+Lunyt secretario de estado continuava sem mudar de tom, estudando de
+vez em quando por baixo dos oculos de ouro o effeito produzido no animo
+dos ouvintes. <br />
+
+<br />
+
+A entrada de Magendie, accolhida por uma
+exclama&ccedil;&atilde;o de alegria do duque de Abrantes, por
+uma cortezia de Herman entre dois sorrisos, e por um gesto de
+urbanidade de Lagarde, foi como o signal da explos&atilde;o
+at&eacute; ahi contida das paix&otilde;es e receios mal
+reprimidos. Todos diriam que o Conselho aguardava a sua chegada para
+arrancar a mascara, que o suffocava, dando largas &aacute;
+express&atilde;o sincera dos verdadeiros sentimentos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem vindo, capit&atilde;o Magendie! A sua demora fazia-nos temer
+que faltasse. O aviso chegou-lhe tarde?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o foi o aviso, general! Mas a esquadra de sir Carlos
+Cotton appareceu outra vez &aacute; barra, e julguei prudente ir a
+bordo das fragatas <em>Carlota</em> e
+<em>Benjamin</em>... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o?! interrompeu Lunyt, pondo de parte o papel que
+lia, e encarando o capit&atilde;o de mar e guerra.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[115]</span> &#8213;Fosquinhas por
+ora! respondeu este encolhendo os hombros.
+Entretanto... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Podem encobrir planos de hostilidade? atalhou Herman, sorvendo com
+pausa uma pitada, e dispersando depois com um piparote os
+gr&atilde;os que tinham saltado sobre a tira alvissima da camisa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; possivel. Os inglezes animados pela
+subleva&ccedil;&atilde;o dos hespanhoes, meditam desembarques
+na peninsula, accudiu Lagarde em ar grave. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veremos se em terra s&atilde;o felizes como no mar! observou o
+conde da Ega. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mesmo no mar, redarguiu Magendie, espero que n&atilde;o
+h&atilde;o de for&ccedil;ar-nos a barra sem deixarem nos
+escolhos um par de navios. Temos de observa&ccedil;&atilde;o
+entre as torres a fragata <em>Gra&ccedil;a
+Phenix</em> e mais dois
+vasos de alto bordo, artilhados, mas incapazes de navegar; em Belem
+est&atilde;o fundeadas tres charruas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem! Bem! tornou Junot. Duvido que rocem as barbas pela
+b&ocirc;cca de nossos canh&otilde;es, Magendie!
+Oxal&aacute; que todas as tempestades nos viessem s&oacute; do
+mar... O peior de tudo, senhores, &eacute; que o ch&atilde;o
+treme debaixo dos p&eacute;s, e... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que a trai&ccedil;&atilde;o vela &aacute; nossa
+cabeceira? Notou Lunyt, limpando os vidros dos oculos, e falando no
+mesmo tom lento e nasal, com que lia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, Lagarde! Conspira-se, trama-se, e
+n&atilde;o nos dizieis nada!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para que? Quando uma na&ccedil;&atilde;o inteira
+est&aacute; conjurada, general, a policia passa, v&ecirc;, e
+dissimula. Pris&otilde;es e devassas, de que serviriam,
+sen&atilde;o de a irritar mais? Descobrir o que ella quer,
+tirar-lhe os pretextos, e escolher a occasi&atilde;o de ferir a
+muitos de uma vez pelo terror do mesmo golpe, eis o segredo dos que
+sabem dominar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[116]</span> &#8213;Sim! Bem sei!
+&Eacute; a theoria de Fouchet, do duque de
+Otranto!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E para este caso a unica aproveitavel. O que diria o sr. conde da
+Ega, t&atilde;o nosso amigo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu!... Pois eu!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se lhe mettessemos no castello, ou nas torres dez, ou doze parentes
+de toga, e de espada, que est&atilde;o conspirando a esta hora
+mesmo contra o governo de sua magestade o imperador e rei?!...
+proseguiu o intendente com o seu riso agudo e estridulo, similhante ao
+som do c&oacute;rte de uma serra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Os parentes do sr. conde de Ega tambem s&atilde;o contra
+n&oacute;s?!... notou Junot vagarosamente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E os da senhora condessa ainda mais!... observou Lagarde trespassando
+o general com a vista afiada e ironica. <br />
+
+<br />
+
+Uma nuvem escureceu a fronte do duque de Abrantes. Aquella seta viera
+cravar-se-lhe direita no peito. O guerreiro destemido, coroado tantas
+vezes pela victoria no meio de proezas heroicas, era accusado de
+excessiva sensibilidade perante o bello sexo; e a formosa condessa da
+Ega, segundo se dizia, gra&ccedil;as a seus enlevos e encantos,
+tinha conseguido tornal-o escravo do menor de seus caprichos. <br />
+
+<br />
+
+O general inclinou a cabe&ccedil;a, correu os dedos pela fronte
+annuviada, como se quizesse saccudir com o gesto pensamentos
+importunos, e, sem responder &aacute; allus&atilde;o,
+levantou-se, e deu
+alguns passos pela casa, talvez para ter tempo de se assenhorear de si,
+vencendo a commo&ccedil;&atilde;o. Os olhos dos outros vogaes
+do conselho fitaram-se no semblante do conde da Ega por um movimento
+irresistivel. Sem resultado! Ayres de Saldanha, por calculo, ou por
+ignorancia, n&atilde;o denunciava na physionomia, sen&atilde;o
+a
+indifferen&ccedil;a apathica, prova real da mais virtuosa
+<span class="pagenum">[117]</span>
+confian&ccedil;a. Herman e Lagarde
+trocaram um sorriso fino, que n&atilde;o abonava a sua credulidade
+na innocencia apparente do fidalgo portuguez. <br />
+
+<br />
+
+N'este momento a m&atilde;o de um ajudante de ordens arredou as
+pr&eacute;gas do pesado reposteiro, e sem proferir palavra entregou
+a Junot dois ma&ccedil;os cuidadosamente lacrados. O duque
+recebeu-os tambem calado, e veiu sentar-se na ampla cadeira de
+bra&ccedil;os, d'onde se ergu&ecirc;ra minutos antes. Emquanto
+rompia o sobrescripto do primeiro, e corria os olhos pelo volumoso
+officio, era facil notar no seu rosto, de ordinario sereno e intrepido,
+a apprehens&atilde;o causada por noticias desagradaveis. Antes de
+passar &aacute; leitura do segundo ma&ccedil;o, e de lhe rasgar
+a capa, os que o conheciam assustaram-se, apercebendo-se de certa
+hesita&ccedil;&atilde;o momentanea, notavel em caracter
+t&atilde;o firme, porque seguramente inculcava mais do que
+sobresalto, ou torva&ccedil;&atilde;o. Ao mesmo tempo recebia
+Lagarde um papel fechado, que n&atilde;o lhe causava menor cuidado,
+do que os dois officios ao general. Houve um minuto, ou dois de
+profundo e ancioso silencio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nome de Deus! exclamou o duque de Abrantes incapaz de conter as
+paix&otilde;es, e amarrotando irado o papel. Verifica-se o que
+sempre prognostiquei. N&atilde;o me quizeram attender, decidiram
+tudo em Paris sem entender nada, e agora c&aacute; estamos
+n&oacute;s para carregar com o peso de todas as culpas!... Quantas
+vezes os avisei e lhes disse a verdade! Deram finalmente aos inglezes o
+campo de batalha porque tanto suspiravam; n&atilde;o contentes
+fizeram suas alliadas duas na&ccedil;&otilde;es inteiras.
+Veremos agora como desatam o n&oacute;! <br />
+
+<br />
+
+E recostando os cotovellos na mesa, e a cabe&ccedil;a entre as
+m&atilde;os, sem fazer caso do espanto
+<span class="pagenum">[118]</span>
+excitado pelas suas phrases, abysmou-se em
+sombria medita&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que &eacute;? O que succedeu?... perguntava o conde da Ega a
+Herman. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pouco viver&aacute; quem o n&atilde;o souber! redarguiu o
+malicioso diplomata, encolhendo os hombros. Rapaziadas dos portuguezes,
+aposto!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mais do que rapaziadas, senhor Herman! atalhou o intendente geral da
+policia, que de livido se torn&aacute;ra verde, cujas pupillas
+chammejavam, cujo sorriso era uma contors&atilde;o diabolica.
+Estamos sobre um vulc&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Apagado! replicou o ministro do reino inalteravel. Esta gente de
+Lisboa n&atilde;o &eacute; para emprezas altas. Queixa-se com
+saudades, fala, amea&ccedil;a, mas por fim faz-se d'ella o que se
+quer. Em lhes n&atilde;o tocando nos seus lausperennes, nos seus
+frades, e nas suas prociss&otilde;es, todos andam mansos como
+borregos... Estes n&atilde;o me mettem medo a mim;
+oxal&aacute;!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Medo! accudiu Junot, levantando-se de um pulo, com o rosto incendido,
+e os olhos scintillantes! Medo! Quem fala em medo!? Para enxotar como
+um rebanho de ovelhas toda essa plebe, toda essa espuma... basta o meu
+cavallo e o meu chicote!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem tanto, senhor duque! observou Magendie. Os portuguezes
+s&atilde;o homens e soldados. Mais de uma vez o t&ecirc;em
+provado. Perguntae aos hespanhoes... e ao senhor conde da Ega, que
+h&atilde;o de conhecel-os. <br />
+
+<br />
+
+Herman sorriu-se. O conde parecia petreficado. A injuria do general em
+chefe feria-o no rosto como golpe de m&atilde;o aberta. O
+cora&ccedil;&atilde;o indignado convidava-o a repellil-a,
+por&eacute;m o servilismo tapava-lhe a b&ocirc;cca.
+N&atilde;o acertava com o que fizesse. Calado deshonrava-se;
+falando arriscava-se... Calou-se! <br />
+
+<br />
+
+Junot ca&iacute;u depressa em si. O seu animo era
+<span class="pagenum">[119]</span>
+generoso, embora cedesse aos impetos do sangue,
+facil de inflammar, provocando paroxismos de cholera, que os seus
+intimos deploravam, porque frisavam quasi por loucura frenetica. As
+palavras de Magendie advertiram-n'o. Recuperando-se da embriaguez da
+raiva, volveu &aacute;s maneiras cultas e urbanas, que tantas
+affei&ccedil;&otilde;es lhe grangeavam, mesmo entre os
+adversarios. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Senhor capit&atilde;o Magendie, a plebe n&atilde;o
+&eacute; a na&ccedil;&atilde;o. Os portuguezes
+s&atilde;o para
+muito; pena &eacute; que n&atilde;o os soubessem aproveitar, em
+quanto era tempo!... O erro n&atilde;o o commetti eu. Este povo
+&eacute; bom, generoso, e paciente... Podiamos, deviamos ajudal-o a
+regenerar-se... Preferimos tractal-o como vencido, e fazer d'elle um
+inimigo!... Paciencia! Colheremos os fructos que seme&aacute;mos.
+Lagarde! Herman! Magendie! Vamos ter a guerra!... O segundo acto da
+tragedia come&ccedil;a em Portugal. A Hespanha deu-nos o
+primeiro... Loison escapou milagrosamente aos montanhezes sublevados no
+Mar&atilde;o, em Amarante, e em Chaves!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se escapou &eacute; o essencial! Os bandos populares sem
+cabe&ccedil;a depressa se dispersam. Observou Lagarde. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade. Mas o chefe existe. Manuel Gomes de Sepulveda
+acclamou em Traz-os-Montes o principe regente... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um velho de mais de oitenta annos, tropego, e quasi cego!?... accudiu
+Lunyt sorrindo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acrescentae, por&eacute;m, velho mas habil general, valente, e
+adorado!... As provincias do norte est&atilde;o, ou
+estar&atilde;o todas em armas dentro de oito dias. Miranda, Villa
+Real, Moncorvo, e Guimar&atilde;es j&aacute; o seguiram, ou
+v&atilde;o
+seguil-o... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Temos o Porto, e em quanto for nosso,
+<span class="pagenum">[120]</span>
+facilmente daremos a m&atilde;o aos nossos exercitos de Hespanha,
+interrompeu Herman. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Porto!... L&ecirc;de!... E passando o officio ao ministro do
+reino, Junot, em quanto este o lia a meia voz aos collegas, passeiava
+agitado, medindo a sala em todo o comprimento. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Porto? &Eacute; tarde! j&aacute; n&atilde;o lhe
+accudimos. Hoje, ou &aacute;manh&atilde; subleva-se, e
+d&aacute; o
+exemplo. Coimbra n&atilde;o se demora. Contae com ella insurgida.
+N&atilde;o nos lisongeemos com illus&otilde;es... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O mal, comtudo, n&atilde;o &eacute; irremediavel! Sejamos
+fortes! exclamou Magendie. As nossas tropas devem ter vencido em
+Hespanha, e... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;As nossas tropas n&atilde;o venceram, foram vencidas! Tornou o
+general em chefe sombrio, e mordendo os bei&ccedil;os. A fortuna
+vira-nos as costas. As divis&otilde;es aguerridas recuam sobre o
+Ebro. O rei Jos&eacute; sa&iacute;u de Madrid. Estamos
+s&oacute;s e
+sem retirada no meio de um reino irritado e adverso... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! disse Herman empallidecendo. N'esse caso a partida &eacute;
+arriscada. N&atilde;o a julgo,
+por&eacute;m, perdida. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem eu! Mas contemos um pouco, se nos apraz, com os inglezes. Em
+Gibraltar acha-se sir Hew Dalrymple com o corpo do general Spenser. Em
+Cork, na Irlanda, v&atilde;o embarcar nove mil soldados. A esquadra
+de sir Charles Cotton anda cruzando deante da foz do Douro, e das
+bahias do Tejo e do Mondego. De um instante para outro podemos ter de
+pelejar com o povo e com as tropas do rei George... N'esse caso!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amea&ccedil;a-nos a capitula&ccedil;&atilde;o de Dupont
+em Bailen?!... accudiu Lagarde, batendo com o punho cerrado sobre a
+mesa. Oh!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca!... Pelo menos em quanto eu viver! exclamou Junot com um gesto
+admiravel de firmeza. Luctaremos! A derrota n&atilde;o &eacute;
+menos gloriosa, que o triumpho, quando o
+<span class="pagenum">[121]</span>
+campo de batalha proclama o heroismo dos vencidos... Poderemos ao menos
+contar com a obediencia de Lisboa? A capital em nosso poder
+p&oacute;de ser ao mesmo tempo segura base de
+opera&ccedil;&otilde;es, e precioso penhor para o
+infortunio. Lagarde! Chegou o momento. Respondeis pela tranquillidade
+de Lisboa?... <br />
+
+<br />
+
+Houve um momento de silencio. O intendente geral da policia, atalhado,
+olhava para o papel, que lhe tinham trazido, e conservava ainda aberto,
+e para o general, e hesitava. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que nova desgra&ccedil;a nos amea&ccedil;a!? accudiu o duque
+arrebatado. Hoje &eacute; o dia das fatalidades? Falae! Estou
+preparado para tudo. Que dizeis de Lisboa?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que respondo por ella, como por mim!... balbuciou Lagarde tremulo. <br />
+
+<br />
+
+Bem! N&atilde;o &eacute; preciso mais. D&aacute;s-nos a
+alavanca de Archimedes!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; depois de &aacute;manh&atilde; em deante!...
+concluiu o intendente engasgado, e convulso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! E hoje porque n&atilde;o?! exclamou Junot, que os revezes
+pareciam reanimar &aacute; medida que se accumulavam. Nome de Deus!
+N&atilde;o sois medroso. Conhe&ccedil;o-vos! Esse papel
+trouxe-vos a cabe&ccedil;a de Medusa? Que segredo terrivel encerra?
+Vamos! Vencei a consterna&ccedil;&atilde;o, e dizei-nos o que
+ha. O peior perigo, &eacute; o perigo encoberto. Quero saber! <br />
+
+<br />
+
+E o duque de Abrantes assentou-se com a fronte erguida, os olhos
+brilhantes, e um sorriso intrepido nos labios. Era assim que elle
+costumava affrontar a morte nas batalhas. <br />
+
+<br />
+
+Lagarde principiou em voz baixa a leitura. Era o plano de uma
+revolu&ccedil;&atilde;o tra&ccedil;ada
+para rebentar no dia seguinte depois da prociss&atilde;o do Corpo
+de Deus. <br />
+
+<br />
+
+Os auctores d'este commettimento, todos membros do Conselho Conservador
+de Lisboa, tinham sido denunciados &aacute; policia em differentes
+<span class="pagenum"><a name="p122">[122]</a></span>
+occasi&otilde;es, mas
+poupados como conspiradores theoricos e inoffensivos. A ousadia do
+trama excedia, por&eacute;m, d'esta vez quanto podia prever-se de
+audaz e decidido. O rompimento havia de come&ccedil;ar de tarde,
+&aacute;s seis horas, muito depois de concluida a festa religiosa.
+Junot devia ser preso no caminho do palacio de Anadia para o Rato, as
+guardas do Rocio, do Terreiro do Pa&ccedil;o, de S. Domingos, de
+Santa Clara, e do quartel general, atacadas e desarmadas, e o Castello
+rendido por assalto, ou por algum artificio de guerra. As tropas
+francezas privadas do seu chefe, e surprehendidas, seriam obrigadas a
+depor as armas em virtude das ordens dictadas ao duque de Abrantes
+pelos seus carcereiros. O povo e os soldados portuguezes coadjuvariam a
+revolta occupando as ruas e as pra&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+O assombro dos vogaes do governo durante a
+communica&ccedil;&atilde;o, que acab&acirc;mos de
+resumir, custaria a descrever. A gravidade das physionomias tornou-se
+mesmo t&atilde;o solemne, que ia degenerando quasi em comica. O
+unico ouvinte desassombrado e de sangue frio era o duque de Abrantes. A
+id&eacute;a de se ver colhido ao anoitecer no seu transito
+costumado pelos cumplices do Conselho Conservador, affigurou-se-lhe por
+tal modo absurda, que, recostado no espaldar da cadeira, desatou o riso
+em frouxos, suspendendo a leitura, e desengatilhando de sua
+express&atilde;o severa o rosto dos que a sua hilaridade
+n&atilde;o admirava menos, do que o plano de
+subleva&ccedil;&atilde;o forjado para a capital. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Admiravel! Sublime!... clamava Junot estorcendo-se entre risadas.
+Parece-me <a href="#e20">que os</a> estou
+vendo d'aqui a esses illustres
+conspiradores de rabicho e samarra, decidindo &aacute; pluralidade
+de votos o theor das ordens, que hei de escrever depois de
+prisioneiro!... Mas
+<span class="pagenum">[123]</span>
+&eacute;
+um entremez puro o que esta boa gente imaginou: art.&ordm;
+1.&ordm; O general Junot ser&aacute;
+apprehendido, e ao mesmo tempo as guardas do Terreiro do
+Pa&ccedil;o e do Rocio!... art.&ordm; 2.&ordm; (porque o
+n&atilde;o puzeram tambem?) O presente decreto ser&aacute;
+registado nos livros da chancellaria da Junta Provisoria! Excellente!
+Deixae-me rir, Lagarde. Sois um homem unico para desterrar tristezas. <br />
+
+<br />
+
+Herman, Lunyt, e o intendente olhavam uns para os outros, pasmados, e
+n&atilde;o sabiam se deviam conservar-se serios, ou imitar o
+general. Magendie, militar e resoluto, ria a ponto de lhe saltarem as
+lagrimas dos olhos. O plano peccava pela ingenuidade. Os innocentes
+conspiradores fundavam todo o edificio de suas esperan&ccedil;as na
+pris&atilde;o de Junot, e essa pris&atilde;o era justamente o
+que lhes esquec&ecirc;ra assegurar. O duque de Abrantes, cujo valor
+todos respeitavam, os seus ajudantes, e a escolta de cavallaria que
+sempre o acompanhava, n&atilde;o cairiam de leve em uma cilada de
+poucos homens, e para o esperar em grande numero, vigiadas como estavam
+as ruas, parecia duvidoso que meia hora depois n&atilde;o se
+achassem recolhidos na cadeia os Scevolas incumbidos d'este prologo
+essencial no grande drama da restaura&ccedil;&atilde;o da
+patria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Herman! O vosso voto sobre esta far&ccedil;a que terrificou
+Lagarde!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O plano &eacute; fraco, por&eacute;m a
+inten&ccedil;&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De inten&ccedil;&otilde;es, boas, m&aacute;s, e pessimas
+est&aacute; cal&ccedil;ado o inferno! Tendes acaso receio de me
+v&ecirc;r preso no meio das becas dos conspiradores, suando medo
+por todos os poros, e ordenando aos meus valentes soldados que
+entreguem as espadas e espingardas aos milicianos de Lisboa!?... Que
+gente admiravel a do vosso Conselho Conservador, Lagarde! Respeitae-os
+como se respeita a innocencia. Conjurados
+<span class="pagenum">[124]</span>
+assim inventam-se, quando se
+n&atilde;o acham, e guardam-se debaixo de redomas de vidro...
+Art.&ordm; 1.&ordm; O general Junot ser&aacute;
+apprehendido! Nada mais! Que bella concis&atilde;o spartana! Ah!
+Ah!... Quem serve de espirito santo a este cenaculo? Algum macrobio?
+Alguma reliquia do tempo do marquez de Pombal, aposto?... A
+conspira&ccedil;&atilde;o d&aacute; ares de
+quinhentista. Foi desenterrada de certo de algum archivo!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Informam-me que Jos&eacute; de Seabra no principio
+d&eacute;ra alguns conselhos, mas que hoje... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o quer saber d'elles para nada!?... &Eacute;
+evidente! Jos&eacute; de Seabra, duas vezes ministro de estado,
+sisudo, e espirituoso, morria de vergonha se visse o seu nome ligado a
+similhante satyra do senso commum... Art.&ordm; 1.&ordm; O
+general Junot!... Desculpem, mas &eacute; incrivel! Os
+desembargadores e os padres de Lisboa cuidam que um general francez
+&eacute; algum passaro raro, que se apanha e mette na gaiola para o
+ensinar a cantar o hymno nacional!?... Lagarde! Prohibo-vos de tocar
+nos veneraveis juizes, fidalgos, frades, abbades e negociantes, de que
+se comp&otilde;e este bemaventurado Conselho. Dae gra&ccedil;as
+a Deus pela sua existencia, e n&atilde;o os incommodeis. D'alli
+n&atilde;o vem de certo mal! Oxal&aacute; que Sepulveda fizesse
+parte d'elle, esperando pela minha pris&atilde;o para se sublevar.
+O Porto ainda poderia salvar-se! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, general, o dia de &aacute;manh&atilde; parece-me
+critico, observou o intendente, que o riso e os motejos do duque tinham
+confortado pouco. N&atilde;o &eacute; s&oacute; gente da
+capital a que sae
+&aacute;s ruas. Os arrabaldes e o Ribatejo despovoam-se, e talvez
+fosse mais prudente prohibir a prociss&atilde;o, e prender por
+algumas horas os cabe&ccedil;as conhecidos dos arruidos
+populares... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pela gloria do imperador! Enlouqueceis, senhor Lagarde?!...
+Assustam-vos tanto os
+<span class="pagenum">[125]</span>
+planos
+ridiculos de uns poucos de dementes, que vos n&atilde;o envergonha
+o argumento de fraqueza, que dariamos, escondendo-nos com medo dos
+frades e das irmandades de Lisboa? A prociss&atilde;o ha de
+sa&iacute;r. Nada de
+pris&otilde;es! Os nossos soldados trazem polvora e bala nas
+patronas. &Eacute; quanto basta!... Meus senhores, hoje, o general
+Junot, depois das seis horas da tarde sae do palacio da Anadia para o
+Rato, e vae ser apprehendido. Ah! Ah! Est&aacute; encerrado o
+conselho. Herman enfeitae-vos bem &aacute;manh&atilde;. Tereis
+de pegar a uma das varas do palio. Magendie n&atilde;o deixeis
+<em>apprehender</em> os nossos navios.
+Lagarde, mandae saber ao hospital se ha logares vagos na casa dos
+orates; os vossos amigos do Conselho Conservador acabam todos
+l&aacute;. Lunyt, vinde commigo; tenho que vos communicar... isto
+&eacute; se n&atilde;o receiais que o general Junot
+<em>seja apprehendido</em> no
+caminho para o largo do Quintella. Ah! Ah!... Senhor conde da Ega
+acceita um logar na minha carruagem?... Note que lhe
+offere&ccedil;o um posto perigoso. <br />
+
+<br />
+
+E o duque sa&iacute;u precedido por Magendie e acompanhado do conde
+e do secretario de estado da guerra e da marinha. Herman e Lagarde, que
+ficaram atraz, olharam um para o outro, interrogando-se com a vista e
+com o gesto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que devo fazer? perguntou o intendente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada. &Eacute; o melhor! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu querido senhor Lagarde, o homem que ha de prender Junot...
+n&atilde;o est&aacute; de certo no Conselho Conservador de
+Lisboa! Redarguiu o ministro rindo. Socegue! <br />
+
+<br />
+
+Momentos depois o intendente tocava a campainha, e por ordem sua um
+porteiro introduzia no gabinete o sargento Cabrinha e
+<span class="pagenum">[126]</span>
+o seu assessor Gaspar Preto, por alcunha o
+<em>Sapo</em>. <br />
+
+<br />
+
+Saberemos a seu tempo o que alli vinham fazer aquellas duas boas almas.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c11"></a>XI </h3>
+
+<h3><br />
+
+Achilles e Nestor </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Em quanto no palacio do Rocio se representava a scena, a que assistiu o
+leitor, em uma casa, situada quasi no arrabalde, perto de Campo de
+Ourique, no qual trabalham ranchos de operarios sem repouso a levantar
+um acampamento militar para as tropas francezas, que Junot recolhe das
+provincias, e concentra na capital, iremos encontrar alguns dos
+personagens, que deix&aacute;mos na Ponte de Asseca, n'aquella
+tempestuosa noite, que viu as proezas do sargento Cabrinha, a
+evas&atilde;o de Paulo de <a href="#e21">Azevedo</a>,
+e as
+artes diabolicas do astuto lavrador Jo&atilde;o da Ventosa. <br />
+
+<br />
+
+Estava formoso o dia, mas quente. Nem um leve sopro de aragem meneava
+as cortinas de ca&ccedil;a, que por detraz das quatro janellas da
+frontaria substituiam os modernos e elegantes
+<em>stores</em>. A casa, de um s&oacute;
+andar, caiada de branco, pintada de verde claro em todas as portas,
+grades, hombreiras, e maineis respirava aceio e alegria. Um muro baixo
+rodeava o jardim, d'onde as rozas de trepar, as baunilhas, e outras
+plantas, subindo pelas paredes,
+<span class="pagenum">[128]</span>
+vinham debru&ccedil;ar do espig&atilde;o seus
+fest&otilde;es floridos e recendentes. <br />
+
+<br />
+
+Um preto quasi an&atilde;o, grosso, roli&ccedil;o, com a
+carapinha semeada de cans, indicio de provecta edade, e brincos de
+prata nas orelhas, acabava de varrer, gemendo e rosnando, os tres
+degraus de pedra, que desciam da porta da entrada para a viella quasi
+deserta. <br />
+
+<br />
+
+No jardim a areia, fina e vermelha, das ruas, orladas de buxos
+recortados, rangia debaixo dos p&eacute;s de duas pessoas, que
+passeavam, conversando em voz submissa. No angulo, que olhava para as
+terras, um mirante entrela&ccedil;ado de caracoleiros e jasmins,
+offerecia em seus bancos de corti&ccedil;a commodo assento aos que
+desejassem recrear a vista, espairecendo-a pelos largos horisontes, que
+d'alli se descobriam. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o perca o animo nas vesperas da victoria, senhor Manuel
+Coutinho! Lembre-se de quem &eacute;, e creia mais em si, e em
+n&oacute;s... deixe-me ter tambem um momento de vaidade!... Deus ha
+de ser por este reino, e n&atilde;o ha de permittir... <br />
+
+<br />
+
+O homem que proferia estas palavras era um velho de aprazivel aspecto,
+trajado em habitos ecclesiasticos, inculcando na phisionomia, na voz, e
+nas maneiras, a prudencia que d&atilde;o os annos, e a experiencia
+do mundo unida &aacute; confian&ccedil;a e ao enthusiasmo
+sereno, que nascem do cora&ccedil;&atilde;o, que ardem com
+viveza aquecidos pelo calor de uma alma generosa, e que os gelos da
+edade nem amortecem, nem apagam. <br />
+
+<br />
+
+O sorriso meigo e tranquillo, que lhe franzia os labios, contrastava de
+visivel modo com as sombras de profunda tristeza, que escureciam o
+rosto do amante de Leonor de Azevedo, e com a express&atilde;o de
+desalento retratada em suas fei&ccedil;&otilde;es abatidas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[129]</span>
+Quem attentasse, todavia, com mais cuidado no semblante palido do
+mancebo, e sobre tudo no fulgor dos olhos, que despediam por vezes
+lampejos quasi sinistros, denunciando as intimas
+commo&ccedil;&otilde;es, logo percebia, que, se um assomo
+repentino de duvida, ou desconforto pod&eacute;ra abalar por
+instantes a energia d'aquella forte vontade, depressa a
+reac&ccedil;&atilde;o a havia de despertar do lethargo, e que
+pouco depois, em logar de ser necessario reanimal-a, todo o poder da
+persuas&atilde;o seria pequeno para a conter dentro de limites
+razoaveis. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus?!... exclamou Manuel Coutinho, respondendo &aacute; ultima
+phrase do anci&atilde;o, e volvendo
+ao c&eacute;u, limpido e azul, um olhar de amarga
+desespera&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o se esqueceu
+Elle de n&oacute;s? N&atilde;o est&aacute; com os inimigos
+do
+seu nome e da nossa liberdade?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o diga isso. Caia em si. N&atilde;o v&ecirc; que
+accusa a divina justi&ccedil;a? Deixe-a caminhar... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coxa e lenta como a dos homens?!... Senhor bispo! Sou mo&ccedil;o
+e militar, desculpe-me, mas n&atilde;o posso supportar com
+paciencia christ&atilde; o espectaculo de tantas miserias e de
+tantos crimes!... Fala na justi&ccedil;a de Deus?! Aonde estava
+ella, quando o Vigario de Christo, arrancado por m&atilde;os
+sacrilegas da sua cadeira, foi como seu divino Mestre arrastado de
+pris&atilde;o em pris&atilde;o, de opprobrio em opprobrio, por
+turbas de soldados &aacute; voz de Bonaparte?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estava no Calvario, como no dia em que padeceu o Redemptor! Continue!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! E porque dorme ella, quando na&ccedil;&otilde;es inteiras
+choram escravas o seu martyrio, e banhadas em sangue invocam a morte
+nos campos talados, nas cidades saqueadas, nos patibulos e nos
+carceres, a morte, unica esperan&ccedil;a que lhes resta, depois de
+roubados os seus altares, de incendiadas as suas moradas,
+<span class="pagenum">[130]</span>
+de infamadas suas esposas e filhas, e de
+dispersas como vil p&oacute; as cinzas de seus paes e de seus
+av&oacute;s?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem lhe diz, que dorme, e n&atilde;o que aguarda a sua hora?
+Quantos seculos durou a persegui&ccedil;&atilde;o da egreja e a
+tyrannia dos Cesares?... E hoje, d'esse colosso romano, que assoberbava
+o mundo, o que sobrevive? Ruinas, memorias, e a cruz triumphante
+al&ccedil;ada no Vaticano!... Tranquillize-se, conforme-se,
+espere... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que espere!... Mas elles, os verdugos, os malvados, acaso esperam?
+Paulo de Azevedo, duas vezes salvo por n&oacute;s, escapou por fim
+aos la&ccedil;os do infame Lagarde? Est&aacute; no castello,
+bem sabe, e o conselho de guerra, que ha de julgal-o, tem
+s&ecirc;de do seu sangue... Hoje,
+&aacute;manh&atilde;, de uma hora para a outra, as balas de um
+pelot&atilde;o!... N&atilde;o tenho animo de o imaginar!...
+Vel-o morto, assassinado, e n&atilde;o poder valer-lhe!... E sua
+filha, a desgra&ccedil;ada, que j&aacute; n&atilde;o tem
+lagrimas que verter, que sente a todos os instantes no
+cora&ccedil;&atilde;o o frio da morte,
+amea&ccedil;ando o que mais ama e estremece n'este mundo?!... E hei
+de esperar?! Resignar-me! Deixal-o morrer?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha de esperar, sim. Que remedio!... Paulo de Azevedo est&aacute;
+em perigo, por&eacute;m ainda n&atilde;o morreu... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade. Mas para o salvar?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Havemos de empregar todas as nossas for&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! accudiu o mancebo, cujo desespero rompeu por fim em dolorosa
+ironia. H&atilde;o de salval-o! Contam assaltar o castello, prender
+Junot, e colher Lagarde como um lobo no seu antro?!... Lagarde!... O
+auctor de todos os nossos infortunios!... ajuntou em voz cava e com
+terrivel express&atilde;o. Pelo menos esse n&atilde;o se
+rir&aacute; impune, festejando o ultimo suspiro da sua victima.
+Lagarde pertence-me. Sou o
+<span class="pagenum">[131]</span>
+seu
+juiz, e a minha justi&ccedil;a n&atilde;o cox&ecirc;a,
+nem dorme, como a da Providencia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o blaspheme, e escute, se p&oacute;de! Os dias da
+usurpa&ccedil;&atilde;o est&atilde;o contados. Quem
+sabe! &Aacute;manh&atilde; mesmo talvez troquemos o lucto da
+escravid&atilde;o pelas galas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sonho! Irris&atilde;o!... bradou Manuel Coutinho saccudindo com
+for&ccedil;a o bra&ccedil;o do seu interlocutor.
+Aonde est&atilde;o os homens para isso? Bastaria o som de um tambor
+para os espantar, e Junot conhece-os. Cuida que dou f&eacute;
+&aacute;s proclama&ccedil;&otilde;es e aos conciliabulos do
+Conselho Conservador? Becas, sotainas, velhos fracos, negociantes, e
+frades, que tremem da sua sombra, ousar&atilde;o nunca medir-se com
+os soldados de Bonaparte em um combate?!... Senhor bispo de Malaca, se
+palavras e balas de papel matassem, ent&atilde;o sim, mas!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Manuel Coutinho, a dor torna-o injusto. Essas becas e esses frades
+s&atilde;o mais fortes, do que os soldados em volta de suas
+bandeiras. Lembre-se de que puzemos a cabe&ccedil;a
+em cima do cepo, e de que estamos resignados a padecer!...
+N&atilde;o esperava que o escarneo ca&iacute;sse da sua
+b&ocirc;cca sobre n&oacute;s! Aprende-se mais depressa a morrer
+com ruido no meio do fogo e dos alaridos de uma batalha, do que a
+aguardar o algoz sobre os degraus do cadafalso?... E ninguem sabe
+melhor se elle p&oacute;de ferir, e se todos estamos decididos a
+jogar a cabe&ccedil;a n'esta partida... em que apost&aacute;mos
+honra, bens, e vida pela patria... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sei, mas o povo cala-se e obedece. Lisboa chora e supporta. O
+reino... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O reino accordou, e n&atilde;o torna a adormecer. Por isso lhe
+disse que estavamos nas vesperas da victoria... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O reino accorda?! Mas eu ignoro tudo!... Senhor bispo de Malaca!...
+Compade&ccedil;a-se da minha impaciencia. Bem v&ecirc;! Estou
+quasi louco!
+<span class="pagenum">[132]</span>
+Conte com o
+meu bra&ccedil;o, com o meu sangue. Ha alguma
+esperan&ccedil;a?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha mais do que esperan&ccedil;as, ha factos. Prepare-se! dentro
+em pouco o seu posto ser&aacute; nas fileiras de seus compatriotas,
+no exercito da independencia. Leia! Adore os designios profundos da
+Providencia. <br />
+
+<br />
+
+Manuel Coutinho, arrancando-lhe quasi da m&atilde;o o papel, que
+lhe offerecia, correu-o todo em um relance de olhos, e apenas o sentido
+lhe penetrou a intelligencia, o sangue em ondas affluiu &aacute;s
+faces, as pupillas faiscaram, e uma express&atilde;o de jubilo, e
+de enthusiasmo subito avivou-lhe as fei&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O norte sublevado!... murmurava lendo, e detendo-se, como se julgasse
+impossivel o que lia. O Porto talvez levantado a esta hora!
+Traz-os-Montes e o Minho &aacute;manh&atilde;, ou depois em
+armas!... Os inglezes em Cork, ou j&aacute; no mar para
+desembarcarem!... <br />
+
+<br />
+
+E o suor borbulhava-lhe na fronte, e a vista scintillante devorava cada
+lettra do escripto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu Deus! Se isto &eacute; sonho, ou delirio meu, fazei que nunca
+desperte d'elle. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, filho, disse o bispo sorrindo-se com
+mansid&atilde;o, ainda acha que a justi&ccedil;a divina
+cox&ecirc;a, e dorme? Arrepende-se agora da sua pouca
+f&eacute;?! Pois bem! J&aacute; v&ecirc; que as becas
+e as sotainas ainda valem alguma coisa. O milagre fez-se, e um bispo
+&eacute; quem ha de no Porto presidir, ao governo do reino
+restaurado. Sei-o de certeza. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seguiu-se uma pausa curta, durante a qual os olhos e as
+m&atilde;os do mancebo se elevaram ao c&eacute;u em um gesto
+sublime de gratid&atilde;o e de cren&ccedil;a fervorosa. Depois
+a cabe&ccedil;a
+inclinou-se, a vista fitou-se no ch&atilde;o, os bra&ccedil;os
+desca&iacute;ram e duas lagrimas de dor e de alegria saltaram do
+cora&ccedil;&atilde;o, e correram vagarosas pelas faces.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[133]</span>
+O bispo contemplava o rosto do amante de Leonor de Azevedo, e traduzia
+com a perspicacia dos annos e da reflex&atilde;o os signaes
+fugitivos da lucta das paix&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Por fim venceu a raz&atilde;o. Manuel Coutinho, como se quebrasse
+de repente a pris&atilde;o, que lhe paralyzava as faculdades,
+serenado o semblante, acabou de exhalar em um suspiro a maior
+oppress&atilde;o, que lhe confrangia o peito. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fui temerario, senhor bispo. Falei mal de Deus e dos homens! Cegou-me
+o orgulho, e deixei-me arrastar pelas loucuras da tristeza. Desesperei
+da Providencia no momento em que ella nos accudia!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; Deus &eacute; grande, filho! O que somos, e o que
+podem os nossos juizos falliveis em presen&ccedil;a da sabedoria
+eterna?! Arrepende-se? &Eacute; o essencial. Vamos ao que importa.
+J&aacute; viu D. Leonor?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! Faltou-me o valor. O que havia de dizer
+&aacute;quella infeliz, ferida de tantos golpes a um tempo?... A
+imagem do patibulo de seu pae, vis&atilde;o lugubre e incessante,
+segue-a por toda a parte. Nos seus olhos leio o desespero e a morte.
+Amo-a, senhor bispo, amo-a desde a infancia, como n&atilde;o amei
+minha m&atilde;e, como n&atilde;o estreme&ccedil;o meus
+irm&atilde;os, como
+n&atilde;o adoro... ia soltar uma blasphemia!...
+Enla&ccedil;adas desde a meninice pela mesma ternura nossas duas
+almas ha muito que n&atilde;o fazem sen&atilde;o uma. O que
+ella sente e chora, as suas lagrimas de sangue, caem-me todas, ardentes
+como fogo, aqui, dentro do peito, e escaldam-m'o. O v&eacute;u
+branco da noiva ser&aacute; em breve o negro fumo da
+orph&atilde;, e viuva sem chegar a ser esposa, sei, adivinho, que
+um claustro
+come&ccedil;ar&aacute; a abrir-lhe a sepultura, aonde ella,
+aonde n&oacute;s havemos de descan&ccedil;ar ambos!...
+N&atilde;o sem eu me vingar primeiro!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[134]</span> &#8213;Manuel Coutinho,
+deixe a Deus o cuidado de punir! Socegue! A voz da
+liberdade, a voz da patria chamam por n&oacute;s. Seja homem! Seja
+soldado! Tem uma espada, n&atilde;o fa&ccedil;a d'ella um
+punhal, arma de traidores!... Leonor est&aacute; mais tranquilla,
+mais resignada. Vi-a hoje, e j&aacute; fal&aacute;mos a seu
+respeito... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ella?!... Disse-lhe?! Espera?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Disse-me tudo e espera. Paulo de Azevedo n&atilde;o morreu, e
+havemos de salval-o. Tenha mais f&eacute;. N&atilde;o atormente
+com os delirios da sua paix&atilde;o a existencia propria, e
+aquella alma sensivel e melindrosa, que treme que uma
+imprudencia, venha abismar no mesmo naufragio os dois amores da sua
+vida!... Se n&atilde;o fosse o seu genio arrebatado confiava-lhe um
+segredo, que Leonor se n&atilde;o atreveu nunca a dizer-lhe, porque
+receia os impetos da sua cholera, mas que havia por outro lado de
+aplacar-lhe a afflic&ccedil;&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga-me tudo, senhor bispo. Prometto, juro vencer o meu genio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veja l&aacute;! D&aacute;-me a sua palavra de cavalheiro de
+fazer o que eu lhe aconselhar depois?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dou. O segredo?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A vida de Paulo de Azevedo n&atilde;o corre por ora risco.
+&Eacute; o penhor com que Lagarde tenta extorquir a D. Leonor uma
+promessa de casamento... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh o infame!... E eu aqui de bra&ccedil;os cruzados!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se me n&atilde;o me escuta, calo-me. Lembre-se da sua promessa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou mudo. Sou uma estatua. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bom! Saiba, pois, que o intendente da policia imaginou enriquecer um
+sobrinho arruinado, dotando-o com os bens da filha de Paulo de Azevedo.
+Pediu-lhe a m&atilde;o em Mafra
+<span class="pagenum">[135]</span>
+ha mezes, foi repellido, e vingou-se perseguindo o cavalheiro e
+sua filha... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim a causa de todas as desgra&ccedil;as sou eu!?... atalhou o
+mancebo impetuoso. Leonor e seu pae padecem por amor de mim, e no meio
+de seus prantos e do lucto da sua alma aquelle anjo nem uma queixa
+soltou ainda contra o algoz da sua vida! Porque sou eu que a torno
+infeliz e inconsolavel!... Hei de mostrar-me digno do sacrificio! Hei
+de... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Comece por se mostrar digno das minhas confidencias, escutando-as.
+Observou o bispo com um sorriso. Lagarde amea&ccedil;a Paulo de
+Azevedo, tem-lhe a espada suspensa de um fio sobre a cabe&ccedil;a
+para vencer a filha; mas no fim &eacute; t&atilde;o interessado
+como n&oacute;s em
+conservar vivo o unico fiador de suas esperan&ccedil;as!... O
+conselho de guerra n&atilde;o se reune, e mesmo que chegue a ser
+convocado, a senten&ccedil;a n&atilde;o passa do papel. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E Leonor?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Altiva e varonil redobra as resistencias. Mesmo ao p&eacute; do
+cadafalso de seu pae prefere morrer com elle, creio, a comprar-lhe o
+perd&atilde;o por um pre&ccedil;o vil... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei! O seu cora&ccedil;&atilde;o envergonha o de muitos
+homens!... Como se chama o sobrinho de Lagarde, esse noivo feito
+&aacute; for&ccedil;a, cujo papel,
+t&atilde;o nobre (!) entra como parte principal na tragedia de
+nossas desventuras?... accrescentou Manuel Coutinho em voz lenta e
+sombria, a que um toque de ironia cruenta avivava a
+express&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque o pergunta? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para ajustar no mesmo dia todas as minhas contas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; se esqueceu da sua promessa? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! Mas!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando for tempo de o desligar d'ella sem perigo seu e nosso...
+ent&atilde;o falarei. Agora n&atilde;o.
+<span class="pagenum">[136]</span>
+Sabe que &aacute;manh&atilde;, depois da
+prociss&atilde;o
+do Corpo de Deus, se esperam grandes novidades? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aonde?... Se soubesse a minha impaciencia?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em Lisboa. Aonde queria que fosse?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E contam commigo?... Qual &eacute; o posto que hei de occupar?...
+Asseguro-lhe que s&oacute; por cima do meu cadaver... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sei muito bem. Guarde para si a noticia, v&aacute; ver Leonor,
+demore-se pouco, porque ella espera uma visita, ou antes duas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Visitas!... De quem?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Segredo de estado. Depois saber&aacute;... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por&eacute;m!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o insista. Se podesse dizer-lh'o, cuida que me calava? A
+proposito! Se por acaso estiver l&aacute; em cima, quando elles...
+digo, quando as visitas chegarem, jura pela sua honra obedecer em tudo
+a Leonor, e voltar aqui pela escada do meu gabinete?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas!... Tantas precau&ccedil;&otilde;es fazem-me suppor!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Supponha o que quizer. Jura?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A minha confian&ccedil;a na sua virtude &eacute; tal, que de
+olhos fechados me entrego em suas m&atilde;os. Juro! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha de arrepender-se. Sem isso n&atilde;o o deixava
+subir... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas padre, mas senhor bispo! Essas visitas s&atilde;o
+ent&atilde;o de inimigos?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez! E ent&atilde;o?! Cobre-os, quem quer que sejam, o tecto
+d'esta casa, recebo-as como hospedes, &eacute; quanto basta,
+julgo!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! Dava metade da minha vida por adivinhar... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O caso n&atilde;o merece o sacrificio!... Deixe instruir o
+processo, deixe informar os juizes, e quando lhe chegar a sua vez...
+n&oacute;s o chamaremos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigado! Como instrumento cego?!...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[137]</span> &#8213;N&atilde;o.
+Como um cora&ccedil;&atilde;o generoso, como
+um amigo seguro, por&eacute;m... perigoso. Estamos perdendo tempo!
+Leonor espera-o. Nem uma palavra do que se conversou aqui, e sobre tudo
+recorde-se do que jurou... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hei de cumprir a minha palavra como homem de honra, mas depois, sr.
+bispo!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois... O que Deus quizer! D&aacute; o mundo tantas voltas em
+poucas horas, Manuel Coutinho, que nos deit&acirc;mos rapazes, e
+&aacute;s vezes accordamos velhos. Deixe andar os homens e as
+cousas. Creia no tempo. &Eacute; grande medico. Adeus! Vou tractar
+de uma doen&ccedil;a, que d&aacute; maior cuidado... Portugal
+est&aacute; enfermo e n&atilde;o p&oacute;de esperar. <br />
+
+<br />
+
+E despedindo-o com um sorriso e um aceno de m&atilde;o cheio de
+bondade, o velho prelado entrou para um aposento terreo, cujas portas
+de vidra&ccedil;as abriam sobre o jardim, em quanto o mancebo
+voltou em busca da escada de pedra, que subia para as salas do primeiro
+andar.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c12"></a>XII </h3>
+
+<h3><br />
+
+Arcades ambo! </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; certo do que affirma? Veja l&aacute;!... A
+policia n&atilde;o gosta de
+representar papeis tristes, e um erro nas circumstancias actuaes
+p&oacute;de ter consequencias... Repita! Viu os homens? Sabe o seu
+intento?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vi, sim senhor! Largava a falua quando eu cheguei, e por um triz me
+n&atilde;o apanham!... Sempre curti um medo! A gente n&atilde;o
+ganha para sustos... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bom! E como soube que vinham para a
+revolu&ccedil;&atilde;o, que os inimigos de sua
+magestade o imperador e rei tramaram para &aacute;manh&atilde;
+durante a prociss&atilde;o do corpo de
+Deus? Olhe bem! N&atilde;o se allucine... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha engano, n&atilde;o senhor. Aqui trago quem
+ouviu tudo. Gaspar, chega-te! S. ex.&ordf; d&aacute;
+licen&ccedil;a. Dize para ahi o que saccaste do bucho
+ao alarve do Paulo Penedo, e o que ouviste na Ponte da Asseca. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Este homem ouviu?!... Bem! Ent&atilde;o que fale. <br />
+
+<br />
+
+O dialogo, que estamos escutando, tinha-se travado, como o leitor
+j&aacute; percebeu de certo,
+<span class="pagenum">[139]</span>
+entre o intendente Lagarde, o sargento
+Cabrinha, e o seu assessor Gaspar Preto. <br />
+
+<br />
+
+Os honrados malsins, farejando a denuncia lucrativa, corriam de Villa
+Franca, aonde se haviam transportado a cavallo, e traziam nos alforges
+nada menos do que uma boa conspira&ccedil;&atilde;o para
+attrahir sobre si a chuva de ouro, com que o ministro francez costumava
+recompensar os servi&ccedil;os relevantes dos seus agentes. <br />
+
+<br />
+
+Ainda que o sargento desempenhasse o papel principal, manda a verdade
+que se diga, que a gloria do descobrimento pertencia de direito
+&aacute;s longas e afiadas orelhas do seu digno assessor.
+F&ocirc;ra o <em>Sapo</em>,
+apezar de meio homiziado depois da pris&atilde;o de Paulo de
+Azevedo, devida, como sabemos, &aacute; sua trai&ccedil;oeira
+actividade, quem, espreitando os passos do Antonio da Cruz e do
+Jo&atilde;o da Ventosa, e as idas e voltas nocturnas dos
+embu&ccedil;ados, que frequentavam a casa arruinada da Ponte da
+Asseca, principi&aacute;ra a desconfiar de que as ruidosas
+cavalhadas das almas do outro mundo nas salas desertas do palacio
+encobriam planos politicos. <br />
+
+<br />
+
+Para melhor se certificar, provou Gaspar, que n&atilde;o
+roub&aacute;ra a alcunha por que era conhecido. <br />
+
+<br />
+
+Cozeu-se, como o <em>Sapo</em>, com as pedras
+ca&iacute;das, que do lado da porta do Jo&atilde;o da Ventosa
+pegavam com o tapume, por onde elle introduzia as visitas, segundo
+vimos atraz, nos quartos do primeiro andar, penou frios e fomes,
+tiritou de m&ecirc;do mais de cem vezes, mas por fim conseguiu o
+seu fim. <br />
+
+<br />
+
+Seis dias antes da festa do Corpo de Deus, &aacute;s onze horas da
+noite, por um luar esplendido, colheu em flagrante tres dos fantasmas,
+que tanto desejava avistar, e teve a rara felicidade de os conhecer a
+todos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[140]</span>
+Viu-os entrar. Ficou firme no seu posto. A divindade protectora dos
+mexericos segredava-lhe que se os olhos tinham alcan&ccedil;ado
+muito, os ouvidos ainda podiam obter mais. A sua paciencia merecia
+premio, e o demonio, cujo era, n&atilde;o lh'o negou. <br />
+
+<br />
+
+Quando se &iacute;a j&aacute; sentindo quasi
+inteiricado de jazer enroscado, como a serpente, os
+conspiradores sa&iacute;ram. Principiava a aclarar a madrugada. Um
+d'elles, o capit&atilde;o de milicias de Rio Maior, dotado de uma
+voz de baixo profundo, voltando-se para os outros, disse-lhes: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fa&ccedil;am-me uma fogueira bem vistosa l&aacute; pelos
+sitios de Leiria, e assem-me n'ella esses hereges e jacobinos, que os
+de aqui ficam por minha conta! N&atilde;o havemos de ser menos que
+os de Bragan&ccedil;a e Villa Real! Viva o principe regente, nosso
+senhor! <br />
+
+<br />
+
+Os poderes do org&atilde;o vocal do herculeo capit&atilde;o
+eram t&atilde;o extensos, que este desafogo innocente do seu
+patriotismo seria assaz perigoso, se a solid&atilde;o e a noite o
+n&atilde;o cubrissem. Entretanto os amigos, menos intrepidos,
+recommendaram-lhe prudencia, e o gigante, docil como uma
+crean&ccedil;a, submetteu-se, encolhendo os hombros, a estes
+conselhos timidos. O morgado de Penin e outro cavalheiro apartaram-se
+ent&atilde;o um pouco. Quiz o acaso que fosse para o lado,
+justamente, em que o virtuoso Gaspar se occultava; e o terror do malsim
+subiu tal ponto, que esteve um instante para o trahir! <br />
+
+<br />
+
+Vendo de repente o Antonio da Cruz, o Jo&atilde;o da Ventosa, e o
+Manuel da Aramanha, o resurgido, t&atilde;o proximos do seu covil,
+que bastaria um d'elles extender o bra&ccedil;o para o agarrar,
+n&atilde;o foi senhor de si. Vinham atraz dos personagens
+principaes, e tudo inculcava que n&atilde;o vinham por curiosos. O
+<em>Sapo</em>, frio de neve, e todo um
+calafrio de medo, ennovellou-se
+<span class="pagenum">[141]</span>
+n'uma bola para occupar menos espa&ccedil;o, e fez a Nossa Senhora
+da Saude a promessa solemne de uma missa e de uma perna de
+c&ecirc;ra se permittisse, que nenhum dos cinco d&eacute;sse
+com elle alapado n'aquella toca, seguro de que, se escapasse por
+milagre ao alentado varapau do ex-assassinado fazendeiro, a bala da
+espingarda, que o moleiro trazia ao hombro, n&atilde;o o erraria de
+certo em nenhum caso. <br />
+
+<br />
+
+Os conspiradores estavam longe de se supporem espiados, e traziam
+outros cuidados. <br />
+
+<br />
+
+Voltando-se para Antonio da Cruz, o morgado disse-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; sabes! No dia de Corpo de Deus has-de estar em Lisboa.
+&Eacute;s l&aacute; preciso! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se meu amo mandar! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De certo. Mas sei que manda. O Paulo Penedo n&atilde;o tarda com
+as ordens... E voc&ecirc;, s&ocirc;r Jo&atilde;o da
+Ventosa, deixa-se ficar por c&aacute;, ou acompanha tambem o
+Antonio &aacute; c&ocirc;rte? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu, s&ocirc;r morgado, l&aacute; por ir, ia; mas assim sem
+saber o que a gente l&aacute; vae fazer?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora! Vae dar um passeio, v&ecirc;r a prociss&atilde;o, que se
+despovoam ald&ecirc;as e logares para accudir a ella... e
+depois!... Adivinha-me este dedo, que o seu cajado talvez
+n&atilde;o fique por l&aacute; parado!... Gosta dos
+francezes?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como o diabo da cruz, senhor! Pelo amor que lhes eu tenho... e o bem
+que me fizeram!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois v&aacute;, homem, que p&oacute;de ser que n&atilde;o
+perca o seu tempo. &Aacute;s vezes d'onde menos se espreita sae
+coelho... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. s.<sup>a</sup> que diz isso!... Est&aacute; bom.
+N&atilde;o
+&eacute; preciso mais. Senhor mandar, preto obedecer!... E tu,
+Antonio Sim&otilde;es, est&aacute;s ahi sem atar nem desatar?
+Porque n&atilde;o vens com o Antonio e commigo &aacute; festa?
+Tens medo dos francezes, homem? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Salva tal logar, s&ocirc;r compadre! Mas que
+<span class="pagenum">[142]</span>
+quer voc&ecirc; que eu v&aacute; fazer
+&aacute;
+c&ocirc;rte pregado no meio das ruas como uma estaca? Com mil
+cobras? Se por l&aacute; bispasse o alma ruin do sargento, ou
+aquelle excommungado <em>Sapo</em>, ainda,
+ainda; mas qual! sumiu-se a terra com elles!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual sumiu! Aposto um almude dobrado contra duas canadas singelas em
+como as duas osgas est&atilde;o pegadas em alguma parede de
+Lisboa... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veja l&aacute;, s&ocirc;r compadre! Se tem palpite n'isso
+&eacute; outra cousa: pernas a caminho. N'um sopro deito o
+albard&atilde;o &aacute; &eacute;gua...
+N&atilde;o morro quieto se n&atilde;o racho de meio a meio
+aquelles dois patifes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O <em>Sapo</em> fica por minha conta,
+atalhou o moleiro. Prometti-lh'o e hei de cumprir. Voc&ecirc;,
+s&ocirc;r Jo&atilde;o, que me diz da figueira
+de Jos&eacute; Lopes, alli em cima, no alto do logar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora essa! Que &eacute; boa arvore. Porque?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois juro-lhe que d&aacute; figos de enforcado para o anno.
+Antonio me n&atilde;o chame eu se n&atilde;o pendurar do
+pesco&ccedil;o em um dos ramos o judas do Gaspar Preto antes do dia
+do natal!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; sempre tem cousas, s&ocirc;r Antonio! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&aacute; com o que lhe digo. De mais, pouco ha de viver quem o
+n&atilde;o vir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, rapazes? atalhou o morgado, que estivera
+conversando a meia voz durante o colloquio dos tres. Quem vae a
+Lisboa?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Saber&aacute; v. s.<sup>a</sup> que n&oacute;s
+todos tres! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora assim &eacute; que &eacute;. Gosto de os v&ecirc;r de
+fei&ccedil;&atilde;o. Bebam por l&aacute; um copo, ou dois,
+de vinho &aacute; minha saude, e outro &aacute; do principe
+regente, nosso senhor, o qual, querendo Deus, muito cedo teremos
+n'estes reinos para gloria da patria e da santa religi&atilde;o!...
+<br />
+
+<br />
+
+E o morgado, assim como o
+E o morgado, assim como os ouvintes, desbarretaram-se com toda a
+reverencia como
+<span class="pagenum">[143]</span>
+bons catholicos
+e vassallos fieis e respeitosos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus, Antonio, proseguiu. Recados a teu amo! Diz-lhe que
+n&oacute;s c&aacute; estamos, e que o que f&ecirc;r
+soar&aacute;.
+S&ocirc;r Jo&atilde;o! Volte depressa. A caldeira
+est&aacute; ao lume, ha de ferver, e p&oacute;de ser necessaria
+a casa... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando v. s.<sup>a</sup> mandar, s&ocirc;r morgado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe! Se no meio da prociss&atilde;o, ou depois, houver algum
+barulho, n&atilde;o me metta as m&atilde;os nas algibeiras.
+D&ecirc;-lhes com alma, desanque-me
+os jacobinos moa-m'os como farinha, hein?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&aacute; v. s.<sup>a</sup> descan&ccedil;ado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou! Vou! Voc&ecirc;s n&atilde;o deixam mal o Ribatejo.
+At&eacute; &aacute; volta. S&atilde;o horas. <br />
+
+<br />
+
+Os tres de f&oacute;ra foram buscar os cavallos, e d'ahi a pouco
+desappareciam a galope pela Ponte da Asseca. O lavrador e os seus
+amigos recolheram-se tambem logo. D'ahi a instantes resonavam a somno
+solto. <br />
+
+<br />
+
+Quem n&atilde;o tinha vontade de dormir era o
+<em>Sapo</em>, o qual, arrastando-se do
+esconderijo, fulo de terror, respirava a custo, estirando os
+bra&ccedil;os, mais morto do que vivo. <br />
+
+<br />
+
+A amea&ccedil;a do Antonio da Cruz soava-lhe nos ouvidos como um
+dobre funebre, e por vezes sentia j&aacute; em
+imagina&ccedil;&atilde;o os
+gorgomillos t&atilde;o apertados como se lh'os estreitasse a
+promettida e fatal corda! <br />
+
+<br />
+
+A reputa&ccedil;&atilde;o merecida do moleiro de n&atilde;o
+quebrar palavra dada fazia-o de mil c&ocirc;res, e a voz da
+consciencia, que s&oacute; o susto tinha o cond&atilde;o de
+accordar de v&eacute;ras, advertia-lhe, que provoc&aacute;ra,
+n&atilde;o uma, por&eacute;m cem
+vezes, o castigo. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o vend&ecirc;ra elle ao sargento o segredo do asylo em
+que se homiziava Paulo de Azevedo, abusando da hospitalidade de Antonio
+da Cruz, o qual, tendo-o poupado, o julg&aacute;ra grato?
+N&atilde;o f&ocirc;ra causa da pris&atilde;o do Cavalheiro
+<span class="pagenum">[144]</span>
+de Mafra, da magoa de Leonor, e do
+desespero de Manuel Coutinho? Agora mesmo, n&atilde;o
+colh&ecirc;ra um segredo, que podia custar a vida e a liberdade a
+tantas pessoas? <br />
+
+<br />
+
+Gaspar era logico. Convencido de que a senten&ccedil;a proferida
+era irrevogavel, tractou de se eximir aos seus rigores pelos meios
+usuaes, isto &eacute;, accumulando novas
+trai&ccedil;&otilde;es.
+Coxeando e rastejando partiu para a villa, aonde amanheceu &aacute;
+porta do sargento, cuja cholera exacerbada pela certeza de ter servido
+de alvo &aacute; irris&atilde;o na famosa noite dos fantasmas,
+soube artificiosamente exaltar. O
+<em>Sapo</em>
+acabou de o petrificar, narrando-lhe as amea&ccedil;as do Antonio
+Sim&otilde;es da Aramanha, e o plano, interceptado por elle, de
+grandes tumultos em Lisboa durante, ou depois da prociss&atilde;o
+do Corpo de Deus. <br />
+
+<br />
+
+A noticia valia o seu pezo em ouro, e Cabrinha decidiu-se a ser em
+pessoa o portador d'ella. <br />
+
+<br />
+
+A chegada de Paulo Penedo, emissario de Manuel Coutinho para chamar o
+moleiro em seu nome &aacute; capital, confirmou as
+informa&ccedil;&otilde;es do agente. Gaspar, a troco de
+p&atilde;o, queijo, vinho, arrancou sem difficuldade ao camponez
+bo&ccedil;al quanto elle vira e ouvira do patr&atilde;o em
+Lisboa. Separou-se, deixando-o convencido de que o amante de Leonor de
+Azevedo n&atilde;o tinha mais leal amigo. <br />
+
+<br />
+
+Depois d'esta ultima proeza, os dois malsins come&ccedil;aram a
+jornada at&eacute; Villa Franca, aonde haviam de embarcar, o
+sargento ardendo em impaciencia de cingir na fronte os louros, e de
+sepultar no bolso as pe&ccedil;as de 7$500, que Lagarde
+n&atilde;o cisava aos que o serviam zelosamente: o
+<em>Sapo</em>, cujas vigilias eram cada noite mais
+tormentosas, acompanhando o patrono a Lisboa, primeiro para se afastar
+o mais possivel da figueira do alto do Valle,
+<span class="pagenum">[145]</span>
+depois, para ter o gosto de v&ecirc;r
+mettidos na enxovia do Limoeiro, gra&ccedil;as &aacute; sua
+honrada lingua, o Antonio da Cruz, o Jo&atilde;o da Ventosa, e o
+Antonio Sim&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; os ouvimos confessar ao intendente da policia, que por um
+instante n&atilde;o ca&iacute;ram na b&ocirc;cca
+do lobo em Villa Franca, e encontrando-os no gabinete do ministro, no
+exercicio de suas func&ccedil;&otilde;es, convem notarmos, que
+tinham sido activos no desempenho da sua miss&atilde;o, como homens
+fieis aos interesses proprios, e devotos da causa que
+abra&ccedil;avam. <br />
+
+<br />
+
+Lagarde escut&aacute;ra com atten&ccedil;&atilde;o o
+depoimento lucido e conciso, que o
+<em>Sapo</em>, sem
+trepidar, lhe recitou, como lic&ccedil;&atilde;o aprendida de
+c&oacute;r, admirando a prodigalidade, com que a natureza
+favorec&ecirc;ra este ente quasi disforme e rachitico, que,
+encarado &aacute; primeira vista, n&atilde;o promettia,
+sen&atilde;o fraqueza e estulticia.<br />
+
+<br />
+
+Depois de tomar algumas notas, consultando um, ou dois papeis, e
+tornando-os a encerrar nas gavetas do bofete, o intendente conservou-se
+silencioso por momentos, scismando profundamente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A conspira&ccedil;&atilde;o existe, dizia elle comsigo. Aqui
+est&atilde;o as provas d'ella; mas quem ha de persuadir o duque, e
+vencer o seu amor proprio? A leitura d'aquelle maldito plano
+atrazou-nos!... N&atilde;o importa. Deixal-os rir! A mim compete-me
+velar para que riam sem perigo. <br />
+
+<br />
+
+Virando-se depois para os agentes, que aguardavam calados as suas
+ordens, acrescentou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sargento! Estamos na pista de um trama complicado. Fique em Lisboa
+com este homem, e procure hoje de tarde o meu secretario Loisy. Elle
+lhe dir&aacute; o que ha de fazer. <br />
+
+<br />
+
+Estas palavras, e o gesto do ministro avisaram os dois, de que a
+audiencia estava terminada.
+<span class="pagenum">[146]</span>
+Sa&iacute;ram logo, mas ainda Lagarde n&atilde;o tinha tido
+tempo de percorrer com os olhos um papel, que acabavam de lhe entregar,
+abriu-se uma porta particular, e entrou no escriptorio um mancebo, de
+rosto jovial, vinte oito annos de edade, e figura esbelta,
+real&ccedil;ada pelo uniforme de official de cavallaria, trajado
+com garbo. Era seu sobrinho Armand de Aubry.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c13"></a>XIII </h3>
+
+<h3><br />
+
+Dois parentes </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O intendente accolheu o recem-chegado com um sorriso, e extendeu-lhe a
+m&atilde;o com amizade. Aubry apertou-lh'a sem ceremonia, encarou-o
+com ar malicioso por momentos, e disparou-lhe depois na cara a mais
+longa e estrepitosa risada, que de certo tinham ouvido aquellas
+paredes, desde que a Santa Inquisi&ccedil;&atilde;o reinava
+dentro d'ellas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Ah! exclamou fazendo esfor&ccedil;os em v&atilde;o para
+se reprimir. Que duas figuras unicas, que duas corujas agoureiras acabo
+de encontrar no corredor!... Pelo que vejo a prociss&atilde;o de
+&aacute;manh&atilde; leva anjos, demonios, serpentes, e
+at&eacute; estafermos do mais curioso feitio. Estes dois
+s&atilde;o magnificos. Sobre tudo um... o mais baixo. &Eacute;
+admiravel! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque? atalhou Lagarde. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque, meu tio? A pergunta &eacute; rara! Aquella
+cabe&ccedil;a de an&atilde;o, aquella cara de papel, e os
+saltos de r&atilde; da perna coxa promettem &aacute; festa um
+palha&ccedil;o soberbo. Por quanto
+<span class="pagenum">[148]</span>
+se aluga aquelle senhor? Juro-lhe que vale
+quanto pesa... em cobre. Dou-lhe os parabens! Foi um achado. Posso
+saber o que elle custa &aacute; policia de sua magestade o
+imperador e rei?!... <br />
+
+<br />
+
+E o official dizendo isto ria como um louco, afagando o bigode louro, e
+saccudindo o p&oacute; das botas de montar com a ponta do junco
+flexivel, que trazia na m&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o custa barato, Armand! redarguiu o intendente,
+sorrindo-se tambem. Aquelle an&atilde;o, assim mesmo contrafeito e
+ridiculo como te pareceu... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esse <em>pareceu</em> &eacute;
+delicioso, meu tio! Continue. Sou todo ouvidos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vale mais do que muitos homens guapos e bem postos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem tal diria! Ent&atilde;o &eacute; um diamante bruto?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez. Dentro em pouco vel-o-has chefe... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Chefe? Muito bem. E de que tenciona invental-o chefe? Acaso a policia
+conta distra&iacute;r os portuguezes de suas saudades, armando
+tablados ao ar, e escripturando polichinellos? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! redarguiu Lagarde um pouco enfadado dos motejos do
+sobrinho. A policia aspira a func&ccedil;&otilde;es mais
+modestas. Lisboa, esta cidade immunda como as do Oriente,
+come&ccedil;a j&aacute; a ser outra cousa... As ruas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;T&aacute;! T&aacute;! Meu tio. Esse elogio dos
+servi&ccedil;os da policia, na sua b&ocirc;cca &eacute;
+capaz de abrandar as pedras... das mesmas ruas. A proposito!
+Denuncio-lhe os c&atilde;es vadios. Resistem &aacute;s ordens
+como janizaros. Hontem &aacute; meia noite estivemos em perigo de
+sermos devorados, eu, e o meu cavallo! Que morte para um official do
+exercito imperial!... Diga-me: o an&atilde;o, de que
+tract&acirc;mos, ser&aacute; nomeado executor da alta
+<span class="pagenum">[149]</span>
+justi&ccedil;a contra as matilhas
+famintas? A cara do personagem &eacute; de um verdadeiro Herodes, e
+n&atilde;o desmente o officio. Puah! O maldito sempre deixou aqui
+um cheiro patibular!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Armand! N&atilde;o te cansaste ainda?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! Cuida meu tio, que os assumptos recreativos se encontram a cada
+canto n'esta boa terra? O que admiro mais &eacute; a sua
+longanimidade. Parece incrivel! Aturar fechado n'este gabinete dias,
+semanas, e mezes, entre cachos de malsins e grinaldas de larapios
+aposentados! Santo Deus! Que emana&ccedil;&otilde;es
+asquerosas. &Eacute; de engulhar at&eacute; o estomago a um
+tubar&atilde;o!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda! Armand, o que sinto mais, do que a triste sociedade, que sou
+obrigado a admittir... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga tristissima, meu tio, que n&atilde;o diz sen&atilde;o a
+verdade. Os melhores dir-se-&iacute;am
+desenterrados das enxovias, ou das gal&eacute;s... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o! O que deploro, mais do que isso, &eacute; essa
+tua leviandade incuravel. O homem, que est&aacute;s escarnecendo,
+prestou-nos a ambos um servi&ccedil;o relevante... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sabia. Pelo que observo o precioso aborto accumula as
+func&ccedil;&otilde;es de palha&ccedil;o
+&aacute;s de nigromante? Faz magia branca nas ferias. Excellente! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah, Aubry! Quando te verei um momento serio e preoccupado dos deveres
+da tua posi&ccedil;&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando uma bala me varar o peito, ou a cabe&ccedil;a. Se
+n&atilde;o levasse a vida a rir e a folgar, entre dois amores, um
+que hoje foge para volver &aacute;manh&atilde;, outro que
+arrebata e embriaga; o amor dos sentidos e o amor da gloria; cuida que
+valia a pena de a arrastar de desengano em desengano, de revez em revez
+at&eacute; aos rheumatismos, e aos defluxos asthmaticos da velhice?
+Por alma de meu pae! Nasci e hei
+<span class="pagenum">[150]</span>
+de
+acabar com esta sina. Sou assim feito. N&atilde;o tem remedio! Mas
+apezar de rir muito, de chorar pouco, e de preferir o lado comico ao
+aspecto lugubre da existencia, ajuntou, tornando-se um tanto grave,
+creia que este cora&ccedil;&atilde;o, facil em se
+alvoro&ccedil;ar com a promessa de uns bellos olhos pretos, azues,
+ou verdes, a c&ocirc;r &eacute; indifferente uma vez que sejam
+formosos (!), &eacute; incapaz de trahir a honra e a amizade, ou de
+se aviltar por nenhum pre&ccedil;o... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei. Por isso te estimo. Desejava-te s&oacute; menos
+estouvado. N&atilde;o p&oacute;de ser?
+accrescentou sorrindo-se involuntariamente do gesto negativo do
+sobrinho. Paciencia! Escuta-me. Aquelle homem, que saiu d'aqui ha
+pouco... N&atilde;o rias! ao qual ignoro porque pozeram a alcunha
+de <em>Sapo</em>... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem seria o philosopho que t&atilde;o bem chrismou o reptil?
+Preciso abra&ccedil;al-o! O
+<em>Sapo</em>?! Mas &eacute;
+verdadeiramente um sapo o seu homem, meu tio! Bom! N&atilde;o se
+agaste. J&aacute; me calo. Passo a estar serio e aprumado como uma
+estatua... Diga! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aquelle homem... foi quem descobriu o asylo de Paulo de Azevedo, e
+entregou &aacute; policia a sorte do cavalheiro, do qual depende...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cuidei que lhe tinha escapado! interrompeu o mancebo. Pareceu-me
+ouvir-lhe dizer que duas vezes... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O tivemos nas m&atilde;os, e que nos escorregou por ellas,
+zombando de nossas diligencias? &Eacute; verdade. N&atilde;o te
+enganaste. Mas &aacute; terceira fomos mais felizes. Estava
+escondido aqui mesmo em Lisboa, e mandei-o prender... O sargento
+Cabrinha, um dos meus agentes mais activos, e este
+<em>Sapo</em>, que ainda
+promette ser melhor... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah, meu tio, fale-me de tudo menos d'esse miseravel. Deploro
+v&ecirc;l-o convertido em Plutarco de similhante monstro...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[151]</span> &#8213;Pois sim. Mas
+attende-me. Lavemos agora um pouco a nossa roupa suja
+em familia. O que te resta dos bens de tua casa?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dividas e credores, replicou Armand com um sorriso stoico sublime. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada mais?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acha pouco? Dividas desassocegadas e credores inquietos!... Tenho com
+que me entreter toda a minha vida. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um!... Pois de todas as propriedades, que herdaste, mobilias, ouro,
+prata... n&atilde;o possues absolutamente nada?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada!... O ouro a que posso chamar meu... e assim mesmo s&oacute;
+por uma audaciosa figura de rhetorica, porque o n&atilde;o paguei
+ainda... trago-o aos hombros... s&atilde;o as dragonas! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Ent&atilde;o o naufragio foi completo!?... E com que contas
+para o futuro?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa &eacute; boa! Conto com os meus vinte e oito annos, com esta
+figura soffrivel, com a saude &aacute; prova de todas as fadigas,
+que devo &aacute; minha complei&ccedil;&atilde;o, e que tem
+sido o
+desespero dos medicos, e com o acaso de uma bala, ou de uma proeza, que
+me eleve em patente, ou me deixe no campo como muitas outras buxas de
+canh&atilde;o, que valem menos do que eu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s louco!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou philosopho! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez! Mas dize! Eras filho unico. Teus paes deixaram-te... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A sua ben&ccedil;&atilde;o e alguns punhados de escudos nas
+gavetas. Que quer, meu tio?! As Aspasias de Par&iacute;s, as
+Sylphides do corpo de baile, e as Musas da opera vendem os sorrisos
+caros. N&atilde;o imagina!... E sorriram tanto, e com tal
+gra&ccedil;a para mim, que as m&atilde;os abriram-se-me
+sem as sentir... Quando ca&iacute; na realidade... sabia de
+c&oacute;r todas as piruetas e saltos de Vestris, todos os passeios
+e casas de
+<span class="pagenum">[152]</span>
+pasto de mais fama, e podia
+dar lic&ccedil;&otilde;es de gosto e de ouvido a todas as
+plat&eacute;as civilizadas... Mas nem um real no bolso para
+afugentar o demonio! Encolhi os hombros e fiz-me soldado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei. Por&eacute;m a heran&ccedil;a de tua tia?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Santa e excellente velha!... Saltam-me as lagrimas dos olhos ainda
+quando me recordo d'ella! A heran&ccedil;a da boa tia veiu nas
+poucas horas de melancholia, que tenho penado em minha vida. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso n&atilde;o explica!... Lembro-me de ter ouvido falar em
+terras... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, de certo. Um bom par de geiras... Eram muito fracas. Vendi-as por
+economia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mattas e pinhaes!?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Magnificos!... Eram muito sombrios. Troquei-os a dinheiro para me
+n&atilde;o entristecerem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma casa de residencia vasta com jardins?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A casa era humida e constipava-me. Os jardins precisavam de muito
+amanho, e n&atilde;o apparecia jardineiro. Desfiz-me da casa e dos
+jardins. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma mobilia antiga, mas rica?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Custava-me muito caro o transporte, cedi-a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Percebo!... N'esse caso est&aacute;s?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como diz o livro de Job: N&uacute; sa&iacute; do ventre de
+minha m&atilde;e, e despido de bens da fortuna descerei
+&aacute; cova. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Admiro o teu sangue frio. N&atilde;o te parece j&aacute;
+tempo de assentar, e de mudares de vida... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conforme a mudan&ccedil;a! Saltar da agua fria para
+ca&iacute;r no fogo, n&atilde;o sei se &eacute;
+peior.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Armand! &Eacute; necessario cazares, e que o dote de tua
+mulher... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Chegue para remendar a capa esburacada do mendigo?!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[153]</span> &#8213;Mais do que
+isso. &Eacute; preciso que d&ecirc; para uma capa
+nova. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o digo que n&atilde;o. Mudarei ainda de pelle. Estou
+prompto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estimo. Falei-te na filha de Paulo de Azevedo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; mo&ccedil;a?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dezoito annos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Feia como uma herdeira, ou desastrada como as morgadas?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. Linda, airosa, e gentil como uma parisiense. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Santo Deus!... E esse thesouro, essa fada, mimo de todas as
+perfei&ccedil;&otilde;es, guardou
+at&eacute; hoje o seu cora&ccedil;&atilde;o livre
+&aacute; espera de
+um perdulario, de um estouvado, que nunca viu?! Meu tio! Sabe que o
+unico ridiculo, de que tenho medo, &eacute; da sorriada merecida de
+Jorge Dandin?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Repito. &Eacute; uma menina s&eacute;ria, prendada, e
+espirituosa... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o duvido. Antes isso! A ingenuidade de Agn&eacute;s
+sempre me assustou muito! Essa menina... Mathilde?... Clara?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leonor! Leonor de Azevedo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade! Leonor!... Essa Leonor n&atilde;o estava
+justa a cazar com um cavalheiro, tambem fidalgo, official,
+capit&atilde;o, creio eu, do segundo regimento do Porto, licenciado
+depois do tumulto das Caldas?... Se n&atilde;o erro, elle
+chama-se?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Manuel Coutinho! accudiu o intendente. N&atilde;o houve nunca
+promessa de cazamento, enganas-te. As duas familias davam-se muito. O
+que poderia existir era algum namorico, alguns requebros naturaes...
+innocentes...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim! Sim! Muito innocentes. Sabe que nunca me resolvi a
+cal&ccedil;ar sapatos de defuncto, e que de sapatos de vivos gosto
+ainda menos?... Uma pergunta, meu tio?... Hei de
+<span class="pagenum">[154]</span>
+ser sempre noivo por
+procura&ccedil;&atilde;o? Conta cazar-me sem eu v&ecirc;r
+nunca minha mulher... nem at&eacute; no oratorio da policia?... <br />
+
+<br />
+
+Lagarde piscou os olhos, assoou-se com ruido, e co&ccedil;ou depois
+ao de leve a ponta do nariz aquilino. Eram os gestos, que n'elle
+inculcavam hesita&ccedil;&atilde;o e perplexidade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cazares sem v&ecirc;r tua mulher?! exclamou rindo constrangido.
+Pelo amor de Deus! Quem te metteu isso na cabe&ccedil;a? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cuidei! Como os principes cazam pelos retratos... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Has de v&ecirc;l-a, adoral-a, e agradecer-me de m&atilde;os
+postas a escolha. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou certo, meu tio. Por&eacute;m!... Como o meu voto me parece
+essencial desejo dal-o em consciencia. Quando me apresenta a D.
+Leonor?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um dia c&ecirc;do! &Aacute;manh&atilde; talvez! redarguiu
+o intendente, agitando-se, e estorcendo-se na cadeira, como se o
+assento fossem brazas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E porque n&atilde;o ha de ser hoje. Sou t&atilde;o
+curioso!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hoje! Sem a avisar! De mais tenho que despachar... Espero... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O honrado sargento, ou o palha&ccedil;o talvez?!... Vamos.
+Decida-se. Hoje, ou nunca! <em>Alea
+jacta</em>! como n&oacute;s
+diziamos no collegio. Os bons palpites aproveitam-se. O matrimonio
+&eacute; um grilh&atilde;o de ferro coberto de
+fl&ocirc;res... Quem sabe se &aacute;manh&atilde; eu terei
+medo da felicidade conjugal, e me arrependerei? Seja docil! Deixe-me
+v&ecirc;r hoje esse portento encoberto... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem! Fa&ccedil;a-se a vontade ao teimoso, contestou Lagarde,
+depois de alguns instantes de reflex&atilde;o, tirando o relogio do
+bolso, e consultando-o. S&atilde;o dez horas. Ao meio dia aqui te
+espero. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva o melhor dos tios! bradou Armand,
+<span class="pagenum">[155]</span>
+rindo, e abra&ccedil;ando-o. Diz o
+rif&atilde;o: em quanto venta molha a v&eacute;la! Quero remar
+com a mar&eacute;. &Eacute; verdade que na Ponte da Asseca, em
+um casar&atilde;o arruinado, apparecem aventesmas, e que um
+tro&ccedil;o de milicianos debandou por uma noite de tempestade,
+fugindo de um fantasma?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca tive a honra de conversar particularmente com nenhum espectro,
+e desejava certas informa&ccedil;&otilde;es sobre o paraizo e
+sobre o purgatorio... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os fantasmas da Ponte da Asseca sabes o que s&atilde;o? accudiu o
+ministro agastado. Um bando de conspiradores, que a policia vae
+desmascarar e punir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Jesus, que ares tragicos, meu tio! Pela sua vida n&atilde;o
+represente de tyranno. O papel cai-lhe mal. D&ecirc;-me essa
+miss&atilde;o a mim. Adoro as aventuras, e Cazote &eacute; o
+meu idolo... Quem sabe se irei l&aacute; encontrar algum diabo
+amoroso?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem, ir&aacute;s! atalhou Lagarde sorrindo. Mas
+j&aacute; te previno. O que l&aacute; achar&aacute;s
+s&atilde;o morgados lorpas, e rebeldes endurecidos. Agora adeus.
+N&atilde;o te esque&ccedil;as. Ao meio dia em ponto! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ao meio dia em ponto! respondeu o sobrinho, saudando-o, e saindo.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c14"></a>XIV </h3>
+
+<h3><br />
+
+Amor </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quando Manuel Coutinho assomou aos umbraes da porta do aposento,
+acabava Leonor de l&ecirc;r uma carta de seu pae, escripta com a
+firmeza de animo, que tornava t&atilde;o nobre o caracter do velho
+cavalheiro. Da sua pris&atilde;o do castello, com a morte eminente
+e a vingan&ccedil;a de poderosos inimigos suspensa sobre a
+cabe&ccedil;a, falava Paulo a sua filha com o mesmo socego, com que
+o faria solto e desaffrontado. Nem uma queixa! Nem um indicio de
+tristeza, ou desalento! Ausente em uma viagem longa, ou
+distra&iacute;do em uma partida de ca&ccedil;a,
+n&atilde;o tractaria com indifferen&ccedil;a mais soberana as
+vigilias e amarguras do carcere. <br />
+
+<br />
+
+Dizia-lhe que o seu processo, apressado a principio pelo odio, agora
+coxeava, retido por m&atilde;o occulta. Zombava da vigilancia, com
+que era guardado, <a href="#e22">attribuindo-a</a>
+&aacute; scena comica da sua evas&atilde;o no palacio da Ponte
+da Asseca. <br />
+
+<br />
+
+Perguntava-lhe por Manuel Coutinho, e pedia-lhe que recommendasse ao
+mancebo muita paciencia e conformidade, e
+resigna&ccedil;&atilde;o para atravessar os dias dolorosos do
+captiveiro.
+<span class="pagenum">[157]</span>
+Finalmente,
+lembrava-lhe em estylo risonho alguns episodios de suas
+peregrina&ccedil;&otilde;es pelas aldeias e casaes do Ribatejo,
+assegurando-a, de que o descanso do corpo e a serenidade do espirito
+iam obrando n'elle o prodigio de o transformarem, de seco e agil, em um
+ente mais obeso, mais corpulento, e mais oleoso, do que fr. Raymundo,
+frade notavel em Mafra pela estatura agigantada, pela estupidez, e pela
+voracidade. <br />
+
+<br />
+
+Aonde a sua ternura extremosa se denunciava, e a alma stoica deixava
+perceber a ferida dos espinhos da saudade, era nos conselhos dados
+&aacute; donzella, e nos gracejos constrangidos, com que a motejava
+&aacute;cerca da alvura da tez e das rosas pallidas, t&atilde;o
+festejadas no seu rosto, deplorando que o sol, as geadas, e a vida
+alpestre de uns poucos de mezes as tivessem queimado! Rogava-lhe
+ironicamente, que aprendesse de alguma dama franceza o segredo
+d'aquella frescura artificiosa, que s&oacute; ellas sabiam fabricar
+para engano da edade, e conserva&ccedil;&atilde;o de
+successivas
+gera&ccedil;&otilde;es de adoradores. <br />
+
+<br />
+
+Apezar do tom jovial, a carta era mais triste do que se respirasse
+sincera melancholia. Leonor, avaliando o cora&ccedil;&atilde;o
+paterno pelo seu, sentiu correrem-lhe as lagrimas e empanar-se-lhe a
+vista &aacute; propor&ccedil;&atilde;o que a
+&iacute;a lendo. Dotada, tambem, de indole varonil e soffredora
+adivinhava facilmente as apprehens&otilde;es e os tormentos, que
+aquellas lettras escondiam, e quasi revia por baixo d'ellas as nodoas
+do pranto suffocado por uma vontade forte. <br />
+
+<br />
+
+A donzella recostava-se em uma marqueza de palhinha. O bra&ccedil;o
+n&ugrave; do cotovello para baixo descansava em um velador entre
+duas jarras de porcelana cheias de rozas e madresilvas. Duas portas de
+vidra&ccedil;as abertas sobre o jardim, para onde se descia por
+escada de poucos
+<span class="pagenum">[158]</span>
+degraus deixavam
+entrar a luz em jorros. A sala era atapetada de esteira, e estava
+ornada de alguns paineis de paizagem, pendentes das paredes estucadas.
+Nos v&atilde;os das portas duas gaiolas douradas encerravam aves
+africanas de vistosas plumagens. Em cima do marmore de um
+trem&oacute;, entre flores, jazia esquecido o livro, que tivera na
+m&atilde;o pouco antes de rasgar anciosa o sobrescripto da carta,
+que viera interrompel-a. A um lado, no bastidor, sobre a tela repregada
+notava-se ainda a agulha picando a talagar&ccedil;a na petala
+delicada da ultima flor, cujo matiz deix&aacute;ra em meio. Um
+vidro de peixes, de cores cambiantes, enfeitava a mesa fronteira ao
+trem&oacute; e ao espelho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A filha de Paulo de Azevedo vestia de escuro sem
+affecta&ccedil;&atilde;o. Um corpete, dos que ent&atilde;o
+se chamavam
+<em>Mimosos</em>, de seda preta com
+guarni&ccedil;&otilde;es singelas, e cintura curtissima,
+desenhava mal a rara elegancia d'aquelle corpo esbelto, moldado pelas
+gra&ccedil;as. Uma fita larga, com la&ccedil;o e pontas caidas,
+unia-o &aacute; saia de tafet&aacute; de cauda alta, orlada com
+uma barra de requifes; mas a saia, segundo a moda do tempo,
+n&atilde;o era menos desairosa do que o corpete; e n'esta nossa
+epocha de crinolines e bal&otilde;es de verga de a&ccedil;o a
+magreza da roda, e a estreiteza do c&oacute;rte, que a cingia aos
+membros quasi a ponto de accusar de mais as f&oacute;rmas, faria
+estalar de riso um conciliabulo de modistas e petimetres. Uma singela
+cruz de coral, encastoada em ouro, e suspensa de um fio de aljofres
+debru&ccedil;ava-se sobre o collo de neve, que um poeta sem
+exagera&ccedil;&atilde;o denominaria verdadeiro collo de
+gar&ccedil;a. O penteado, n&atilde;o menos singular para os
+nossos dias, que o feitio do trajo, era todo de anneis irregulares,
+acompanhando a testa em figura quasi de diadema, e rematando no alto da
+cabe&ccedil;a por uma flor natural cravada nas tran&ccedil;as.
+Sapatos
+<span class="pagenum">[159]</span>
+de setim de entrada muito
+baixa, cobriam ou antes descobriam o p&eacute; mais breve e mais
+lindo, que um estatuario poderia desejar para modelo das extremidades
+de uma Heb&eacute;. A manga do corpete desnudava todo o
+bra&ccedil;o, que na pureza e correc&ccedil;&atilde;o das
+linhas
+n&atilde;o desmentia a formosura do semblante, o enlevo namorado
+dos olhos, e a express&atilde;o nobre, quasi altiva, e apesar
+d'isso ingenua e suave da physionomia. <br />
+
+<br />
+
+Vendo-a assim reclinada, com os atomos dourados do sol a brincar-lhe
+nos cabellos, com a meiga pallidez, que um carmin fugaz e transparente
+apenas c&oacute;rava por momentos, e com aquella melancholia
+t&atilde;o feiticeira pousada na vista, perdida com o pensamento
+bem longe de si e de tudo o que a cercava, um pag&atilde;o, se a
+contemplasse de repente, hesitaria entre Juno e Diana, mas de certo
+n&atilde;o equivocaria sua belleza casta com os encantos mais
+faceis da lasciva deusa de Paphos. <br />
+
+<br />
+
+Manuel Coutinho, que a amava, que desde a infancia a vira crescer em
+annos e attractivos, deteve-se suspenso de
+admira&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o
+se atrevendo a despertal-a do enlevo com o ruido de seus passos. Mas o
+cora&ccedil;&atilde;o tem sentidos mais subtis, que os
+ordinarios. Sem o v&ecirc;r, sem ter percebido a sua chegada,
+Leonor adivinhou que era elle, e a sua alma, fugindo &aacute; dor,
+logo voou a encontral-o. Um suspiro &aacute; flor dos labios, um
+sorriso em que a magoa e o jubilo se fundiam, duas lagrimas congeladas,
+tremendo nas pestanas, disseram ao mancebo, que o sonho se
+quebr&aacute;ra, e que a amante, baixando das illus&otilde;es
+do devaneio, volvia &aacute;s realidades doces, mas bem tristes, da
+existencia, e da paix&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Leonor olhou para elle. N'este simples volver de olhos disse tudo,
+calados os labios, mas cheia de luz a vista radiosa. Um rubor, que
+<span class="pagenum">[160]</span>
+esmorecia, e breve tornava a avivar-se,
+denunciou ao mesmo tempo o sobresalto da alegria e as tremulas
+palpita&ccedil;&otilde;es do peito. O mancebo, n&atilde;o
+menos rendido, por&eacute;m mais impetuoso, soltou a alma em um
+suspiro de entranhavel affecto, prostrando-se-lhe aos p&eacute;s e,
+adorando-a, quasi como se adora a Deus. O que ambos falaram mudos
+n'este momento s&oacute; p&oacute;de concebel-o quem
+j&aacute; gosou tambem as delicias por vezes acres das
+expans&otilde;es do primeiro amor. &Aacute; donzella ria a
+esperan&ccedil;a na b&ocirc;cca e nas pupillas. Ao amante,
+olvidados os zelos e amarguras das confidencias, que acab&aacute;ra
+de escutar, tumultuavam no seio agitado as
+commo&ccedil;&otilde;es, como v&atilde;o e vem as ondas
+inquietas espumando sobre a areia. <br />
+
+<br />
+
+Por fim a m&atilde;o estreita e melindrosa extendeu-se para o
+obrigar a erguer-se. Um beijo ardente, seguido de mil osculos, n'essa
+m&atilde;o que n&atilde;o fugiu, affrontou de novas e vivas
+cores as faces da filha de Paulo de Azevedo. <br />
+
+<br />
+
+Desviando com um gracioso gesto de infinita brandura o amante
+ajoelhado, e constrangendo-o a levantar-se com o imperio s&oacute;
+dos olhos. Leonor disse-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veiu tarde!... N&atilde;o imagina o cuidado com que o
+esperava!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leonor! Leonor! exclamou Manuel Coutinho incapaz de se vencer.
+Jure-me que n&atilde;o dar&aacute; nunca a outro esta
+m&atilde;o, que tenho nas minhas, como penhor da nossa ventura... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Juramentos?! J&aacute; se n&atilde;o contenta com menos?
+N&atilde;o cr&ecirc; em mim?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como em Deus! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; de mais agora. Basta a f&eacute;... Teve noticias de
+meu pae? Ser&aacute; possivel ao menos demorar a
+senten&ccedil;a? que o amea&ccedil;a. Quando me lembro!...
+Manuel! E n&oacute;s aqui n'estes colloquios, quando elle.. geme
+desamparado, e se prepara para a morte... que ser&aacute; tambem a
+<span class="pagenum">[161]</span>
+minha, porque, se o perder, sei que
+n&atilde;o posso, que n&atilde;o hei de sobreviver-lhe!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o diga isso. Seu pae est&aacute; mais perto da
+liberdade, do que da morte... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem lh'o disse? Elle escreveu-me. Aqui est&aacute; a carta; mas
+s&oacute; confia em Deus! Ha alguma novidade? Veja que
+pade&ccedil;o ha tantos dias, chorando quasi orph&atilde;
+aquella vida, que &eacute; tudo para mim... Diga! Devo ter ainda
+esperan&ccedil;a?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deve!... O bispo, e sua irm&atilde; n&atilde;o lhe contaram
+nada?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! Mas o que ha? Ouvil-o-hei da sua b&ocirc;cca... A
+boa nova ser&aacute; para mim mais risonha! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Porto vae acclamar o principe regente. Sepulveda sublevou as
+provincias do norte! O Alemtejo e o Algarve fazem e far&atilde;o o
+mesmo!... Os francezes acossados retiram sobre Lisboa de toda a
+parte!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seja para sempre glorificado o vosso nome, meu Deus! exclamou a bella
+enthusiasta, caindo de joelhos, e erguendo as m&atilde;os. Os
+ferros do captiveiro s&atilde;o asperos e pesados e a minha alma,
+ferida e cega de prantos, nem j&aacute; a vista se atrevia a elevar
+ao ceu para vos pedir justi&ccedil;a!... O dia da liberdade
+come&ccedil;a a raiar. Manuel! O seu posto n&atilde;o
+&eacute; aqui,
+&eacute; ao lado de nossos irm&atilde;os que pelejam e morrem
+pela patria... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei. Parto em dois dias. Vinha dizer-lh'o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perdoe-me. Tenho pressa de v&ecirc;r meu pae! Quero dever-lhe o
+seu resgate... As damas antigamente mandavam os cavalleiros correr
+aventuras, e n&atilde;o os premiavam sen&atilde;o coroados de
+louros. Quer ser meu cavalleiro?... ajuntou com um sorriso e em um tom
+irresistivel. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o sou j&aacute;? Que votos p&oacute;de fazer
+que eu n&atilde;o cumpra?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[162]</span> &#8213;V&aacute;! A
+empreza &eacute; gloriosa. Ajudar&aacute; a
+restaurar a patria, a restituir o throno ao seu rei legitimo, e um pae
+extremoso aos bra&ccedil;os da sua filha!... Porque n&atilde;o
+sou homem?! Nunca invejei tanto uma espada!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem sabe, accudiu o mancebo sorrindo, se os dias das amazonas
+n&atilde;o voltar&atilde;o!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque o diz zombando?...
+Cuida que me faltaria o valor?... Estou louca! Desculpe! De balde quero
+dissimular a minha fraqueza mais do que posso. Elles s&atilde;o
+briosos; h&atilde;o de combater aqui como combateram em toda a
+parte... Quantas victimas! Quanto sangue! Manuel! N&atilde;o seja
+temerario! Quero tornar a vel-o!... Oh! se uma bala, se um golpe!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus ser&aacute; comnosco. Havemos de vencer. Anime-se! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu?!... Ficarei s&oacute; entre dois amores, que s&atilde;o
+toda a minha esperan&ccedil;a, entre duas saudades, que prendem
+toda a minha alma! S&oacute;! N&atilde;o sem outra companhia
+mais do que receios e cuidados, sem outras armas sen&atilde;o as
+minhas lagrimas e ora&ccedil;&otilde;es!... Attentando, depois,
+na confiss&atilde;o que acabava de soltar, vermelha de pejo como
+uma roza, cobriu o rosto, e o pranto, rebentando, principiou a
+deslisar-se-lhe por entre os dedos. O mancebo, exaltado,
+lan&ccedil;ou-se outra vez a seus p&eacute;s, e em vozes
+suffocadas e incoherentes repetiu-lhe mil protestos. A final, Leonor
+levantou a face orvalhada d'aquellas lagrimas t&atilde;o suaves
+para ambos, e os bellos olhos sorriram humidos, como o sol de abril por
+entre chuveiros finos. Uma vista longa e apaixonada beijou com
+ineffavel delirio a vista do amante, que se sentia desfallecer de
+jubilo, e que sem for&ccedil;as para exprimir com palavras o
+alvor&ccedil;o, amiudava os osculos frementes nas m&atilde;os,
+que tremiam, entregando-se a seus carinhos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leonor! disse depois de alguns momentos.
+<span class="pagenum">[163]</span>
+Agora p&oacute;de vir a morte,
+p&oacute;de redobrar o infortunio, achar-me-h&atilde;o forte!
+Sei que sou amado! Levo commigo a confiss&atilde;o da sua
+ternura!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ingrato! accudiu ella com meigo requebro. Era preciso que um instante
+de dor, mais poderoso que o pejo, lhe dissesse o que devia ter
+adivinhado!?... N&atilde;o sabia que a ninguem, a mais ninguem...
+depois de meu pae, tenho a affei&ccedil;&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque n&atilde;o diz o amor!... Teme ver-me feliz?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim! O amor! redarguiu, al&ccedil;ando a fronte com nobre
+altivez, e fitando no mancebo um olhar de indizivel e terno orgulho.
+Porque hei de encobrir o que sinto; porque hei de negar o que
+n&atilde;o posso esconder? Amo!... Desde a nossa infancia jurei que
+n&atilde;o teria outro esposo. N&atilde;o &eacute; crime
+escutar o
+cora&ccedil;&atilde;o! Amo-o, Manuel Coutinho!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leonor!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora ou&ccedil;a! Antes de partir, volte aqui. Deante de Deus
+estamos unidos. Quero dar-lhe uma prenda, que nos recorde a alegria
+triste d'este dia!... A guerra vae a principiar. A sua ausencia
+p&oacute;de ser larga... Hei de supportal-a com toda a constancia,
+hei de ser digna mulher de um soldado!... Volte! Lembre-se de que deixa
+n'esta solid&atilde;o metade da sua alma em troca da minha que leva
+toda... Quero v&ecirc;l-o victorioso, coberto de gloria, mas!...
+Que eu n&atilde;o fique viuva sem ser esposa! Tem outra amante que
+vae servir, a patria! Sacrifique por ella... tudo... tudo! menos a vida
+que me pertence! Adeus agora! Preciso de socegar o animo para uma
+visita, que espero, e da qual depende talvez a sorte de meu pae... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lagarde!?... atalhou Manuel Coutinho irado e sombrio de repente.
+Porque se sujeita
+<span class="pagenum">[164]</span>
+a ouvir esse
+monstro, auctor de nossas desgra&ccedil;as? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque o meu dever o manda. Cuida que ha sacrificio, que me custe,
+para salvar meu pae? Oxal&aacute; que viesse pedir-me todo o meu
+sangue em pre&ccedil;o do sangue d'elle! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabe o que Lagarde quer exigir-lhe pela soltura do sr. Paulo de
+Azevedo? perguntou o mancebo tremulo e pallido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sei! contestou ella serenamente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E conta responder-lhe?!... interrompeu o amante ancioso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o lhe disse que o amava? Duvida do meu
+cora&ccedil;&atilde;o, ou da minha f&eacute;!? Pela
+vida de meu pae estou prompta a immolar tudo, menos... a honra do seu
+nome, que &eacute; sagrada, e a minha alma, que &eacute;
+livre... O esposo, que posso ter, j&aacute; o escolhi. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigado, Leonor, pela doce promessa! Partirei tranquillo... Mas,
+ent&atilde;o porque escuta Lagarde? Com que espera movel-o?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o meu segredo. Todos os sacrificios, menos um! Tudo
+menos vender-me, ou aviltar-me!... N&atilde;o ouviu rodar uma
+carruagem? &Eacute; a d'elle! S&aacute;ia por aquella porta...
+N&atilde;o! N&atilde;o! ajuntou, notando a
+agita&ccedil;&atilde;o do
+amante. N&atilde;o lhe devo occultar nada! Entre para aquelle
+gabinete!... Mas jure-me, que ou&ccedil;a o que ouvir, veja o que
+vir, mesmo que eu fosse amea&ccedil;ada... o seu bra&ccedil;o,
+a sua voz, a sua
+presen&ccedil;a, &eacute; como se estivessem ausentes... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Juro! Mas se elle ousar!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ousa! De mais, sei, e posso defender-me! Creia em mim.
+Agora v&aacute;! Um momento! Deixe-me colher for&ccedil;as para
+o combate!... E pousando-lhe na fronte os labios de rosa afagou-lh'a
+com um beijo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leonor!... exclamou elle ebrio de jubilo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Recompense-me! Seja homem! Hoje a nossa arma &eacute; a
+paciencia. N&atilde;o o sente? Sobe
+<span class="pagenum">[165]</span>
+a escada... V&aacute;! Nem um gesto, nem uma
+palavra! Responde pela vida de meu pae! <br />
+
+<br />
+
+E impellindo-o com maviosa brandura obrigou-o a entrar para o gabinete,
+cuja porta de vidra&ccedil;as recatavam duas cortinas de seda
+despregadas quasi at&eacute; ao ch&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Depois, levando a m&atilde;o ao peito, como se quizesse contel-o,
+al&ccedil;ou a vista com express&atilde;o sublime e magoada, e
+aguardou que a porta se abrisse. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tardou. Lagarde d'ahi a um instante appareceu entre os
+umbraes. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c15"></a>XV </h3>
+
+<h3><br />
+
+Cubi&ccedil;a e Nobreza </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O intendente geral da policia era homem de sala. No tracto usual
+ninguem o excedia em delicadeza. <br />
+
+<br />
+
+Apenas apontou ao limiar, inclinando-se profundamente, adeantou-se com
+o chap&eacute;u na m&atilde;o. Com o sorriso estereotypado nos
+labios beijou a m&atilde;o, que Leonor de p&eacute;,
+s&eacute;ria,
+e grave, nem lhe estendeu, nem lhe recusou. <br />
+
+<br />
+
+Seguiu-se uma pausa curta durante a qual a vista do ministro se cruzou
+com a da donzella, frias e penetrantes ambas como duas espadas. <br />
+
+<br />
+
+A um aceno cortez da filha de Paulo de Azevedo, offerecendo-lhe
+cadeira, Lagarde escusou-se com o gesto, ajuntando logo risonho: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha senhora... Venho como supplicante mover a piedade da belleza
+deshumana, e os supplicantes n&atilde;o se assentam em
+presen&ccedil;a dos juizes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vem mover a minha piedade, ou offerecer-me a sua?! accudiu a donzella
+em tom ironico. N&atilde;o mudemos os papeis! A supplicante devo
+ser eu. O vencedor n&atilde;o veiu
+<span class="pagenum">[167]</span>
+aqui dictar-me as condi&ccedil;&otilde;es na id&eacute;a de
+me achar resignada a escutal-as e a submetter-me?!... N&atilde;o o
+incommoda ficar de p&eacute;?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, minha senhora. Tenho de pedir licen&ccedil;a para
+lhe apresentar outra visita... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Outra visita?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu sobrinho... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seu sobrinho?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era tempo, n&atilde;o lhe parece?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Percebo! &Eacute;-lhe indifferente? Consinta que junte duas
+palavras. Quer que lhe fale como amigo?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se p&oacute;de!... Receio tanto o intendente geral da policia!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o receie. Seja menos injusta. Desejo-lhe bem. Respeito a
+sua firmeza, pr&eacute;so os seus sentimentos de filha extremosa, e
+sei que se quizer ha de fazer a felicidade do marido que preferir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tantos louvores, sr. Lagarde!... Ha quantos mezes me avalia assim?
+accudiu Leonor sorrindo, mas tornando-se logo s&eacute;ria.
+Confesse que tenho motivos fortes para suppor o contrario. Costuma
+tractar, como nos tractou a n&oacute;s, as pessoas que lhe merecem
+bom conceito?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah, cruel!... volveu o ministro, c&oacute;rando um pouco,
+por&eacute;m disfar&ccedil;ando a
+torva&ccedil;&atilde;o momentanea com o riso. As setas
+s&atilde;o agudas, e essa m&atilde;o mimosa aponta-as com uma
+certeza! Pois bem! Se fiz o mal, posso ao menos dar-lhe remedio... O
+conselho de guerra &aacute;manh&atilde;, ou depois, reune-se
+para julgar seu pae... A senten&ccedil;a depende das provas, e as
+provas principaes est&atilde;o nas minhas m&atilde;os. De mais,
+Lunyt, o secretario de estado dos negocios da guerra, &eacute; meu
+amigo intimo... J&aacute; v&ecirc;! Se
+eu interceder e ajudar... o sr. Paulo de Azevedo sae absolvido e
+solto...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[168]</span> &#8213;Bem o sei,
+redarguiu a donzella. Querer&aacute; o sr. Lagarde?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Duv&iacute;da?! Porque tem t&atilde;o pouca f&eacute;?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque n&atilde;o acredito facilmente em convers&otilde;es
+repentinas. Perseguiu-nos sem tregua, n&atilde;o socegou em quanto
+n&atilde;o teve meu pae em ferros, e hoje... offerece-me ser o seu
+protector!?... Ha grande mysterio n'isto, n&atilde;o o negue!...
+Temo que exija tanto da minha gratid&atilde;o em premio, que eu
+n&atilde;o deva acceitar! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada escapa &aacute; sua agudeza! Quer saber tudo? Tem
+raz&atilde;o. Joguemos liso. Posso interessar-me, e ser ouvido,
+falando a favor do pae da noiva de Armand, de meu sobrinho; mas percebe
+muito bem, por maiores que fossem os meus desejos de servir, que o
+empenho n&atilde;o teria a mesma for&ccedil;a, se o mettesse em
+beneficio de estranhos... de pessoas desaffectas ao governo de sua
+magestade o imperador e rei. Agora permitte que meu sobrinho entre?
+Espera as suas ordens n'aquella saleta... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim. Uma palavra antes, sr. Lagarde. &Eacute; a noiva, ou
+&eacute; o dote, o que mais o tenta n'este negocio?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, minha senhora, que pergunta! Que offensa!... O dote?!...
+N&atilde;o faz mal, de certo o dote, a riqueza nunca se despreza;
+por&eacute;m o thesouro d'essa linda m&atilde;o!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Supponha que... em troca da sua... como hei de dizer? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga amisade, minha senhora, amisade sincera. Fale affoutamente!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez seja muito. Benevolencia parece mais natural... Supponha,
+pois, que em troca da sua benevolencia eu cedia o dote, e guardava a
+<em>linda</em> m&atilde;o...
+que &eacute; j&aacute; de outro, e que em nenhum caso,
+aconte&ccedil;a o que acontecer... darei a seu sobrinho?... <br />
+
+<br />
+
+Leonor falava serena, e sorrindo-se, por&eacute;m a voz e o tom
+affirmavam ass&aacute;s, que a proposta
+<span class="pagenum">[169]</span>
+era positiva, e que a
+resolu&ccedil;&atilde;o tomada seria inabalavel. Lagarde
+franziu o sobrolho, raspou com o dedo a ponta do nariz, cortejou-a em
+silencio, e reconcentrou-se por instantes como quem reflectia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O dote sem a m&atilde;o?! disse por fim lentamente, e esbrugando
+as palavras como se as pezasse. Julga, minha senhora, que seria
+possivel?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depende da minha vontade, e estou prompta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me entendeu! &Eacute; uma esmola, que nos quer
+fazer a meu sobrinho e a mim, ou uma peita, com que espera subornar o
+ministro?... <br />
+
+<br />
+
+A interroga&ccedil;&atilde;o parecia aspera; por&eacute;m o
+olhar e a voz n&atilde;o podiam ser mais amaveis. Leonor concebeu
+esperan&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem uma, nem outra cousa! &Eacute; um testemunho de
+reconhecimento. Protesto-lhe que dos tres a mais agradecida serei eu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esquece-lhe, que o mundo dir&aacute;, que me vendi!...
+N&atilde;o pode ser! Uma esposa n&atilde;o se nota que seja
+generosa, por&eacute;m uma estranha!... Minha senhora,
+n&atilde;o decida nada sem o conhecer. Armand est&aacute; aqui.
+&Eacute; mo&ccedil;o,
+&eacute; gentil, &eacute; brioso. Merece-a. Sei que o accusam
+de ser um pouco estouvado e perdulario. N&atilde;o o defendo.
+S&atilde;o defeitos que o matrimonio corrigir&aacute;.
+Veja-o!... Tome tempo!... N&atilde;o me julgue t&atilde;o mau
+como dizem os meus inimigos. Tudo ha de compor-se. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus permitta! replicou a filha de Paulo de Azevedo. <br />
+
+<br />
+
+Mas a sua phisionomia espirituosa traduzia perfeitamente, sem os
+disfar&ccedil;ar, a malicia e o despreso, com que assistia ao
+combate da avidez e da cubi&ccedil;a na alma de Lagarde, impaciente
+de receber o que lhe promettiam, mas preso ainda, apezar do cynismo,
+pelos escrupulos de um resto de decoro e de respeito
+<span class="pagenum">[170]</span>
+da sociedade. Talvez, que n&atilde;o o
+embara&ccedil;asse pouco n'este conflicto a id&eacute;a, que
+formava do caracter do sobrinho, e a apprehens&atilde;o de que elle
+recusasse favores, cuja origem o cobriria de opprobrio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus quer o nosso bem, e ha de permittir!... atalhou o magistrado,
+todo brandura e delicadeza. Sobre tudo se fizermos da nossa parte... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Da minha tudo, menos!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o diga isso!... Esse
+<em>menos</em> &eacute; que precisamos
+que desappare&ccedil;a. Meu sobrinho &eacute; um cavalheiro... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Affian&ccedil;a-m'o?... N'esse caso estou socegada. O
+<em>menos</em> vir&aacute; d'elle!... <br />
+
+<br />
+
+Uma sombra escureceu o rosto do intendente. Ainda n&atilde;o lhe
+occorr&ecirc;ra esta hypothese, e um estremecimento nervoso
+avisou-o, de que ella podia converter-se em obstaculo insuperavel. Que
+certeza tinha de que Aubry annuisse ao pacto infame, que procurava
+extorquir, fazendo da cabe&ccedil;a de Paulo de Azevedo o penhor da
+docilidade de sua filha? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o imaginemos coisas tristes! redarguiu contrafeito. Seu
+pae, lembre-se, est&aacute; preso, e em vesperas de ser
+sentenciado... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae, tornou a donzella altiva, saber&aacute; morrer, que lh'o
+ensinaram os seus antepassados; o que nunca soube, nem ha de aprender
+na velhice, &eacute; a vender o sangue da sua alma, a ventura e a
+dignidade de sua filha para salvar a vida. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso!... Mas o pobre Armand!... Fal&aacute;mos tanto
+d'elle que por fim esqueceu-nos! Como ha de estar impaciente. Tinha um
+desejo t&atilde;o ardente de vir aqui!... Ah, ri-se? N&atilde;o
+acredita?!... Pois &eacute; verdade. D&aacute;
+licen&ccedil;a?!... <br />
+
+<br />
+
+E sem aguardar mesmo o aceno secco de cabe&ccedil;a, com que Leonor
+respondeu, Lagarde,
+<span class="pagenum">[171]</span>
+precipitando-se
+direito &aacute; porta, cortou com esta sa&iacute;da theatral a
+conversa&ccedil;&atilde;o no
+ponto, em que amea&ccedil;ava tornar-se tempestuosa. Em quanto elle
+saia, a donzella enxugou &aacute; pressa duas lagrimas, reprimidas
+at&eacute; ent&atilde;o pelo orgulho,
+e inclinou a fronte como se lhe faltasse o vigor para supportar mais.
+Durou s&oacute; um momento esta fraqueza. Um minuto depois erguia a
+face, e tornava a obrigal-a a exprimir a frieza glacial do papel
+for&ccedil;ado, que se via constrangida a representar. Um rapido
+volver de olhos &aacute; porta de vidra&ccedil;as, detraz da
+qual Manuel Coutinho escutava, e um suspiro ancioso foram os ultimos
+signaes do seu desalento. <br />
+
+<br />
+
+O intendente entrava com o sobrinho. <br />
+
+<br />
+
+Vendo-o, Leonor c&oacute;rou, e fez-se logo, pallida. <br />
+
+<br />
+
+O mancebo, contemplando-a, sentiu-se vencido de repente, e conheceu que
+aquella bella e doce imagem se lhe grav&aacute;ra profundamente no
+cora&ccedil;&atilde;o. A tristeza resignada, que respiravam as
+fei&ccedil;&otilde;es da donzella, a sua vista magoada, mas
+serena e quasi severa, e a casta e graciosa elegancia do porte,
+acabaram de o render. O semblante, em que um momento antes sorria
+zombeteira a mofa do conquistador, seguro do triumpho, desarmou-se
+instantaneamente da express&atilde;o quasi insolente, e
+inclinando-se, perturbado, e reverente, Armand saudou a filha de Paulo
+de Azevedo como poderia saudar uma rainha no seu throno. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui vem a seus p&eacute;s mais este captivo, minha senhora!
+exclamou o intendente no estylo refinado e galanteador da
+c&ocirc;rte franceza. Compade&ccedil;a-se d'elle.
+N&atilde;o consinta que suspire em v&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Armand empallideceu. N&atilde;o era com gracejos vulgares e pueris,
+que elle agora desejava
+<span class="pagenum">[172]</span>
+expressar &aacute; donzella a admira&ccedil;&atilde;o. O
+official, de ordinario t&atilde;o solto e audacioso, j&aacute;
+n&atilde;o achava phrases que pintassem o estado da sua alma. Mas
+se os labios eram mudos, falavam os olhos, e o proprio enleio
+significou uma homenagem &aacute; amante de Manuel Coutinho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veja como a adora! proseguiu Lagarde, que, sem o querer, representava
+o papel comico de um tutor de entremez. Que victoria, minha senhora!
+Fez como Cesar, viu, e venceu!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! interrompeu Leonor, deixando cair de alto sobre o tio e o
+sobrinho uma vista ironica e aguda, que os gelou a ambos, porque o
+despreso e o escarneo, que exprimia, traspassava. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu tio!... murmurou Armand confuso, e recuando como ferido de uma
+bala. <br />
+
+<br />
+
+Houve uma breve pausa. O ministro estudava um exordio, que o salvasse
+dos apuros do lance, em que se mett&ecirc;ra,
+amaldi&ccedil;oando interiormente Aubry, cuja falsa delicadeza
+come&ccedil;ava a assustal-o. A filha de Paulo de Azevedo, em
+p&eacute;, branca como uma estatua de alabastro, mas imperiosa,
+amparava o corpo gentil com a m&atilde;o no espaldar da cadeira e
+n'esta posi&ccedil;&atilde;o, cheia de dignidade, aguardava
+silenciosamente, que um dos dois ousasse dizer-lhe tudo. <br />
+
+<br />
+
+O mancebo, que a interjei&ccedil;&atilde;o de Leonor fizera
+c&oacute;rar at&eacute; &aacute; raiz dos cabellos, e que a
+vista de tantas gra&ccedil;as e enlevos cada vez seduzia mais,
+esperava ancioso, que o intendente, auctor do enredo, lhe rompesse o
+caminho, temendo adivinhar na mudez e no ar soberano e offendido da
+bella portugueza um trama, que a honra o obrigasse a desmentir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Armand, minha senhora, disse por fim Lagarde, que o amor proprio e a
+cubi&ccedil;a for&ccedil;avam a insistir, encarrega-me de lhe
+pedir,
+<span class="pagenum">[173]</span>
+que se digne receber os
+testemunhos de seu respeito e adora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre como procurador?!... atalhou ella com um sorriso ironico. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em pessoa, minha senhora, em pessoa!... Se n&atilde;o veiu mais
+cedo &eacute; que... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae n&atilde;o estava ainda quasi no oratorio, e o sr.
+Lagarde temia que a filha fosse menos docil? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh!... bradou Armand, encarando o ministro severamente, e
+adeantando-se impetuoso. Minha senhora, balbuciou depois, se aqui vim
+foi attrahido por uma doce esperan&ccedil;a, que vejo ter sido
+chimerica... Posso saber o que meu tio quiz fazer, valendo-se do meu
+nome? Presinto um segredo de violencia, talvez de iniquidade, mas,
+juro-lhe pela minha honra, que estou innocente... que sou incapaz de
+acceitar a sua m&atilde;o, que me faria bem ditoso, agora o sinto,
+se livremente m'a n&atilde;o d&eacute;sse. Pe&ccedil;o-lhe
+a verdade! Ao
+menos n&atilde;o me condemne sem me ouvir!... <br />
+
+<br />
+
+Lagarde n&atilde;o soube conter-se. Um raio, que lhe estalasse de
+repente sobre a cabe&ccedil;a, n&atilde;o o teria desfigurado
+tanto. Empregado o ardil classico do famoso quadro do sacrificio de
+Ephigenia, escondeu metade da cara no len&ccedil;o de assoar,
+pedindo a Deus que um al&ccedil;ap&atilde;o propicio se lhe
+abrisse debaixo dos p&eacute;s para o sumir da vista irritada dos
+personagens, cujas explica&ccedil;&otilde;es previu, que iam
+desmascaral-o inteiramente. <br />
+
+<br />
+
+Leonor, escutando as nobres palavras de Aubry, recompensou-as com um
+olhar sympathico. O semblante perdeu a express&atilde;o severa, e a
+voz, meiga e commovida, vibrou harmoniosa, como um canto suave, no
+peito agitado do official francez. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agradecida! redarguiu offerecendo-lhe pela primeira vez a
+m&atilde;o, que elle beijou estremecendo.
+<span class="pagenum">[174]</span>
+N&atilde;o tenho que lhe
+perdoar... Agora vejo! O sr. Lagarde... como hei de dizer toda a
+verdade!? O sr. Lagarde prendeu meu pae, accusou-o, e tem suspensa
+sobre a sua vida a espada de um conselho de guerra... Tinha-me falado
+ha mezes n'este casamento... A minha recusa aggravou-o... e hoje, aqui
+mesmo, veiu propor-me salvar meu pae se eu consentisse... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, meu tio! interrompeu o mancebo fulminando o intendente com os
+olhos, e vermelho de colera e pejo. N&atilde;o diga mais, minha
+senhora. Adivinho a resposta. Regeitou!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Regeitei! continuou a donzella. A minha m&atilde;o pertence a
+outro; o meu amor n&atilde;o se vende. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem o meu nome se infama! rugiu Aubry tremulo de raiva. Sr. Lagarde
+agrade&ccedil;a ao sangue, que nos corre nas veias, a minha
+paciencia! Se n&atilde;o fosse! E suffocado em ira apertou os
+punhos, e levou-os &aacute; fronte. Lagrimas de
+indigna&ccedil;&atilde;o rebentaram de seus olhos seccos. O
+intendente parecia petrificado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Offereci o dote sem a noiva; proseguiu Leonor. Era o meu resgate. Oh,
+perdoe sr. Aubry, n&atilde;o o conhecia ainda. Depois que o
+ou&ccedil;o... n&atilde;o lhe faria a affronta de suppor... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc;! accudiu o official, colhendo o ministro do
+bra&ccedil;o, e saccudindo-o com furia. V&ecirc; a que me
+expoz?!... Meu tio, tenho vergonha, queima-me os labios dar-lhe este
+nome! Quem lhe deu o direito e a ousadia de arrastar o meu, o nobre
+appellido de meus virtuosos paes pelo lodo de suas torpezas?! Sou
+pobre, accrescentou voltando-se convulso para a filha de Paulo de
+Azevedo, mas a pobreza supportada com valor, com alegria, como eu a
+supportei sempre, n&atilde;o desdoura, engrandece. Hoje
+n&atilde;o possuo outras riquezas, sen&atilde;o o orgulho da
+propria indigencia, que nunca ajoelhou,
+<span class="pagenum">[175]</span>
+o respeito do nome sem macula que
+herdei, e esta espada... que p&oacute;de abrir-me o caminho da
+gloria, ou o da sepultura!... Nunca me passou pela id&eacute;a, que
+houvesse no mundo um cora&ccedil;&atilde;o t&atilde;o vil e
+corroido,
+que se atrevesse a cuspir no meu rosto e sobre as cinzas dos que mais
+amei a injuria de me aviltar ausente a
+especula&ccedil;&otilde;es infames!... Socegue, minha senhora!
+Todos os thesouros da terra, depois d'isto, n&atilde;o me obrigavam
+a acceitar a sua m&atilde;o, ainda que m'a offerecesse. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Louco! D. Quixote! Nescio!... rosnou Lagarde, ao qual a generosa
+declara&ccedil;&atilde;o do mancebo restituiu a voz, e redobrou
+a ira de se ver descoberto e punido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Senhor Lagarde! disse Armand, cravando n'elle um olhar sombrio. Sei
+que devo parecer-lhe nescio e estouvado. Glorio-me da censura. O que me
+faria c&oacute;rar eternamente seria um elogio... depois do que
+acabo de ouvir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Senhor Aubry, observou Leonor, creia que nunca hei de esquecer a
+nobreza do seu caracter. Aonde quer que a fortuna o leve... conte com a
+minha amisade. N&atilde;o sou ingrata. Se meu pae escapar... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! exclamou o mancebo. Esquecia-me! Senhor Lagarde! ajuntou,
+travando rijo do bra&ccedil;o ao ministro, que se ia desviando para
+se evadir desapercebido. Uma palavra antes de sair! Os vinculos do
+nosso parentesco est&atilde;o rotos de hoje em deante. Quer que o
+mundo ignore os motivos? Ponho uma condi&ccedil;&atilde;o a
+esse sacrificio da minha parte!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Condi&ccedil;&otilde;es?!... interrompeu o intendente,
+amea&ccedil;ando o sobrinho e Leonor com os olhos e com o gesto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Condi&ccedil;&otilde;es, sim! atalhou o mancebo friamente.
+Offere&ccedil;o-lhe o seu perd&atilde;o, e a minha
+indifferen&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[176]</span> &#8213;Offereces-me o
+teu perd&atilde;o? &Eacute; admiravel! Que me
+importa o teu perd&atilde;o?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em troca de um acto de generosidade... for&ccedil;ada. Bem
+v&ecirc; que lhe fa&ccedil;o
+justi&ccedil;a, e que digo
+<em>for&ccedil;ada</em>, proseguiu
+Aubry, contendo-o, e dominando-o com a vista. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! exclamou Lagarde, rindo convulso e constrangido. A scena era para
+se ver no theatro francez! Enlouqueceste Armand?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! redarguiu Aubry, cerrando os dentes e crescendo para
+elle indignado. N&atilde;o enlouqueci! Mas ninguem at&eacute;
+hoje me affrontou impunemente. Em tres dias o pae d'esta senhora ha de
+estar absolvido e solto... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! &Eacute; de mais! accudiu o ministro affectando intrepidez,
+por&eacute;m assustado. E se n&atilde;o estiver?
+p&oacute;de acontecer que as tuas ordens n&atilde;o sejam
+cumpridas &aacute; risca. Se n&atilde;o
+estiver p&oacute;des dizer-me o que far&aacute;s? Accommettes a
+policia, fuzilas o conselho de guerra, ou assaltas os moinhos de vento
+de Monsanto?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por Deus, senhor Lagarde, n&atilde;o tente a minha paciencia!
+bradou o official empallidecendo de colera, em quanto as pupillas
+scintillantes faiscavam mil amea&ccedil;as. Se n&atilde;o
+estiver livre e absolvido... como lhe mando!... ouve? juro-lhe pela
+santa memoria de minha m&atilde;e, &aacute; qual deve
+s&oacute; n'este momento a
+vida! que &aacute;manh&atilde; o nome mais infame do imperio
+ser&aacute; o seu!... <br />
+
+<br />
+
+O intendente fez-se branco e recuou, lendo na vista inflammada do
+sobrinho o odio e o despreso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Armand! exclamou balbuciando, renegas o teu sangue por estranhos?!
+Unes-te aos inimigos da tua patria contra mim!?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os inimigos combatem-se com as armas na m&atilde;o,
+n&atilde;o se salteam nos corredores da policia, pedindo-lhes a
+bolsa, ou a vida!...
+<span class="pagenum">[177]</span>
+Fez-me
+c&oacute;rar de vergonha! A maior injuria, que podia irrogar-me,
+era suppor alguem que eu fosse cumplice de mercados t&atilde;o
+vil&otilde;es... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s uma crian&ccedil;a! Julgas o mundo pelos
+romances!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Basta! clamou o mancebo. Quer acaso convencer-me?! Se n&atilde;o
+obedecer ao que lhe disse, que &eacute; o desaggravo da minha honra
+ultrajada, n&atilde;o se admire do que eu fizer!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Do que fizeres! Amea&ccedil;as?! Cr&ecirc;s que te receio?...
+Em eu te desamparando cuidas que vales alguma cousa?! rugiu o
+intendente exasperado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hei de valer sempre o que vale um nome honrado! N&atilde;o
+preciso de mais. Repito. Tome bem sentido! Se o pae de D. Leonor
+n&atilde;o for solto em tres dias... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute;. Que mais?! atalhou o ministro, cruzando
+os bra&ccedil;os. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O general Junot e o conselho do governo saber&atilde;o como se
+enriquece o intendente geral da policia! Vou revelar-lhes tudo.
+Ent&atilde;o veremos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu! Meu sobrinho! exclamou Lagarde retrocedendo fulminado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu! Seu sobrinho por minha desgra&ccedil;a. Escolha agora. <br />
+
+<br />
+
+Voltou-se depois para Leonor, que o dialogo torn&aacute;ra immovel,
+e acrescentou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha senhora, adeus. Levo d'aqui a admira&ccedil;&atilde;o
+da sua formosura, e a magoa de ter sido causa innocente de suas
+lagrimas. Sei que me perdoa, e que me fica estimando. N&atilde;o
+pe&ccedil;o mais. Socegue. Mesmo sem o dote, o senhor Lagarde ha de
+servir seu pae... Elle sabe que eu costumo cumprir a minha palavra.
+Vamos, ajuntou apontando a sa&iacute;da ao ministro com um gesto
+imperioso. O luto entrou comnosco n'esta casa... &Eacute; tempo de
+<span class="pagenum">[178]</span>
+deixarmos que a alegria e a
+tranquillidade voltem. <br />
+
+<br />
+
+E quasi obrigando Lagarde a retirar-se, lan&ccedil;ou sobre Leonor
+um olhar de apaixonado enlevo, inclinou-se com um suspiro, e
+desappareceu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Manuel Coutinho, disse a donzella, erguendo a fronte de repente,
+depois de alguns momentos de silencio, ouviu tudo?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo, redarguiu elle, que n&atilde;o se demorou em vir
+lan&ccedil;ar-se de novo a seus p&eacute;s. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o sabe a divida que hoje contrahi... que ambos
+contrahimos com Armand de Aubry. Espero que a vida d'elle lhe seja
+t&atilde;o sagrada... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como a de um irm&atilde;o, respondeu Manuel. &Eacute; uma
+grande alma. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alvi&ccedil;aras! Alvi&ccedil;aras! Senhora D. Leonor! Gritou
+a voz do bispo do lado do jardim. Os inglezes est&atilde;o a
+desembarcar. O nosso captiveiro pouco durar&aacute; se Deus quizer.
+<br />
+
+<br />
+
+E o prelado entrou afadigado e tremulo de jubilo no aposento, aonde os
+dois lhe abriam os bra&ccedil;os n&atilde;o menos
+alvoro&ccedil;ados. <br />
+
+<br />
+
+<h4>FIM DO PRIMEIRO VOLUME</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>NOTAS AO PRIMEIRO VOLUME
+</h3>
+
+<h3><br />
+
+</h3>
+
+<h3>I </h3>
+
+<br />
+
+<div class="quote1">O poder do ministro eclipsou-se com o
+ultimo suspiro do principe e,
+com elle expiraram as tradi&ccedil;&otilde;es viris e os
+commettimentos reformadores... <a href="#n1">pag. 24</a>.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O governo do marquez de Pombal abrangeu todo o reinado de el rei D.
+Jos&eacute; I. Varios, e mais ou menos parciaes, foram os juizos
+dos contemporaneos &aacute;cerca da
+administra&ccedil;&atilde;o severa, intolerante, e absoluta,
+mas a muitos respeitos fecunda e reorganizadora de Sebasti&atilde;o
+Jos&eacute; de Carvalho e Mello. A obra, que emprehendeu, o
+rejuvenescimento da unidade monarchica sustentado pelo apoio das
+classes medias devia encontrar, e de feito encontrou, a
+opposi&ccedil;&atilde;o dos
+privilegios, dos abusos, das hypocrisias, e do fanatismo. No
+pa&ccedil;o a familia real, nos gremios puritanos da nobreza os
+fidalgos mais poderosos, nas corpora&ccedil;&otilde;es
+religiosas a
+companhia de Jesus, declararam guerra mortal e incessante ao ministro,
+aos seus actos, e &aacute;s suas tendencias. Para a familia real
+Sebasti&atilde;o Jos&eacute; de Carvalho
+era quasi um inimigo da for&ccedil;a e da consciencia do rei. Para
+a nobreza arrogante e affeita a dominar o poder despotico de um
+ministro, que n&atilde;o acurvava as vontades, ou as leis ao aceno
+imperioso dos eleitos de sangue azul era um pe&atilde;o fidalgo,
+insolente e soberbo, que importava
+derrubar e punir o mais depressa possivel. Finalmente, para os
+jesuitas, cuja influencia dilatada nos ultimos annos de valimento
+durante o reinado de D. Jo&atilde;o V, n&atilde;o consentia
+emulos, e muito menos
+peias, os planos atrevidos do secretario d'Estado, representando
+amea&ccedil;as e perigos perennes para a prosperidade da sociedade,
+equivaliam a um cartel, que a todo o
+<span class="pagenum"><a name="p180">[180]</a></span>
+transe convinha acceitar e concluir pela
+derrota do orgulhoso sob pena de aplanar aos adversarios os caminhos do
+triumpho. <br />
+
+<br />
+
+A firmeza do rei, o prestigio que a auctoridade monarchica possuia
+ainda, e a intrepidez do ministro venceram estas resistencias
+colligadas. Por que pre&ccedil;o,
+por&eacute;m? Que o digam os carceres e pris&otilde;es povoadas
+de suspeitos, r&eacute;os apenas muitos d'elles de alguma
+opini&atilde;o mais livre. Que respondam os processos, as
+al&ccedil;adas, os degredos, e os supplicios, paginas luctuosas de
+um governo inexoravel e vingativo. Copiando do cardeal de Richelieu
+at&eacute; as perfidias cruentas, Pombal assignalou com um rasto
+patibular as principaes
+esta&ccedil;&otilde;es da sua
+administra&ccedil;&atilde;o. Por fim escorregou e caiu no
+sangue vertido muitas vezes sem necessidade. Os horrores, que afogaram
+nos tratos e crueldades da pra&ccedil;a de Belem a famosa
+conspira&ccedil;&atilde;o de
+1758, a expuls&atilde;o <a href="#e23">dos</a>
+jesuitas; os castigos atrozes
+contra os tumultuarios do Porto; a execu&ccedil;&atilde;o de
+Jo&atilde;o
+Baptista-Pelle; o encarceramento prompto e perpetuo de quantos podia
+receiar como rivaes, ou como censores pelo nome, pela integridade, pela
+jerarchia, ou pela sciencia s&atilde;o nodoas indeleveis e
+accusadoras, que n&atilde;o
+apagam o merecido elogio de outros actos, nem a recta e desassombrada
+aprecia&ccedil;&atilde;o de suas reformas uteis e
+opportunas. <br />
+
+<br />
+
+O marquez de Pombal tentava em parte o impossivel. N&atilde;o
+admira, por isso, que na queda arrastasse comsigo quasi tudo o que nos
+monumentos do seu governo era fragil, instavel, e transitorio. A
+monarchia pura tinha envelhecido muito e depressa para ser exequivel
+salval-a por meio da transfus&atilde;o de id&eacute;as e
+principios repugnantes &aacute; sua &iacute;ndole, contrarios
+aos
+preconceitos e cren&ccedil;as do povo e das classes elevadas, e sem
+base firme em que assentasse uma construc&ccedil;&atilde;o
+duravel. Os tres reinados de D. Affonso VI, D. Pedro II e D.
+Jo&atilde;o V adeantaram a tal ponto a caducidade, que os milagres
+do genio, e os prodigios da vontade o mais que poderam conseguir foi
+suspender a dissolu&ccedil;&atilde;o
+espa&ccedil;ando at&eacute; ao fim do reinado seguinte a
+revolu&ccedil;&atilde;o eminente. O ministro absoluto serviu-se
+em muitas occasi&otilde;es do poder como de uma arma cega e
+demolidora, e a ferro e fogo imaginou transformar a sociedade decrepita
+e moribunda em uma sociedade nova, e vigorosa e viril, filha legitima
+das grandes id&eacute;as philosophicas
+<span class="pagenum">[181]</span>
+fadadas &aacute; conquista do
+futuro. Suas leis e seus esfor&ccedil;os provam a
+eleva&ccedil;&atilde;o do
+pensamento e a intensidade dos bons desejos; mas do que elle decretou
+ficou de p&eacute; s&oacute;mente o corpo logo tornado cadaver.
+O
+espirito... n&atilde;o eram aquelles ainda os dias da sua victoria
+nem os seus meios de persuas&atilde;o. Por isso com o ultimo
+suspiro de D. Jos&eacute; I baqueou n&atilde;o s&oacute; o
+poder, mas subverteram-se em grande parte at&eacute; as
+id&eacute;as
+representadas pelo marquez de Pombal. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>II </h3>
+
+<br />
+
+<div class="quote1">
+Um gabinete quasi todo composto de aulicos, sujeito ao voto do
+confessor valido substituiu o mando odiado do marquez... <a href="#n2">pag. 24</a>.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A rainha D. Maria I contava, quando subiu ao throno, quarenta e tres
+annos de edade. Nascida e educada para reinar houve um momento, em que
+seu pae, segundo se affirma, concebeu a id&eacute;a de proclamar a
+lei salica, cingindo a cor&ocirc;a na fronte juvenil do principe D.
+Jos&eacute;. Acclamada em 13 de maio de 1777 com D. Pedro III,
+esposo e tio, o primeiro acto do seu governo foi um acto de clemencia.
+Mandou abrir as pris&otilde;es e soltar os presos d'Estado. Chamou
+dos longos desterros, em que jaziam, a muitos var&otilde;es
+respeitaveis pelos annos, pelo caracter, e pela jerarchia. Menos feliz
+do que Richelieu e Colbert o marquez de Pombal assistiu vivo
+&aacute;s exequias do seu poder e &aacute;
+demoli&ccedil;&atilde;o da sua obra. <br />
+
+<br />
+
+Demittido dos principaes empregos exercidos por largo tempo, teve o
+marquez por successores na presidencia do real erario o marquez de
+Angeja, cuja lealdade D. Jos&eacute; I attest&aacute;ra
+espontaneamente recolhendo-se
+a sua casa na fatal noite de 3 de setembro de 1778; na secretaria
+d'Estado dos negocios do reino, o visconde de Villa Nova da Cerveira;
+na dos negocios estrangeiros e da guerra Ayres de S&aacute;; e na
+reparti&ccedil;&atilde;o da marinha e ultramar Martinho de
+Mello e Castro. <br />
+
+<br />
+
+Estes cavalheiros n&atilde;o eram homens obscuros, ou ineptos, mas
+qualquer d'elles estava longe da vigorosa iniciativa de
+Sebasti&atilde;o Jos&eacute; de Carvalho, e todos
+juntos
+<span class="pagenum">[182]</span>
+confundiam e
+atavam, mais do que desenredavam e esclareciam, as
+resolu&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+A consciencia timida da rainha, o genio apoucado de seu marido, as
+insinua&ccedil;&otilde;es hypocritas dos beatos,
+que se apoderaram logo de todas as avenidas do pa&ccedil;o e
+come&ccedil;aram a influir na direc&ccedil;&atilde;o dos
+negocios,
+n&atilde;o concorreram pouco para tornar o novo reinado uma quasi
+restaura&ccedil;&atilde;o de tudo quanto o marquez de Pombal
+intent&aacute;ra destruir, ou modificar. <br />
+
+<br />
+
+Combatida de escrupulos suggeridos por falsos devotos a
+ras&atilde;o da rainha principiou logo a vacillar, e &aacute;
+prudencia e caracter limpo de allus&otilde;es do seu confessor o
+arcebispo de Thessalonica, D. Fr. Ignacio de S. Caetano, &eacute;
+que ella deveu n&atilde;o se afogar mais cedo
+nas trevas da demencia. <br />
+
+<br />
+
+O governo de D. Maria I n&atilde;o foi, comtudo, um governo
+absolutamente estacionario e inimigo de reformas. Se o risco das
+grandes cousas tra&ccedil;adas pelo marquez de Pombal assustava a
+capacidade menos elevada dos ministros, que lhe succederam, todos elles
+ao menos manifestaram bons desejos e rectas
+inten&ccedil;&otilde;es, seguindo, ainda que muito de longe, o
+espirito moderno, que alvorecia em Fran&ccedil;a, e cujos
+clar&otilde;es ainda se
+n&atilde;o haviam convertido nos relampagos deslumbrantes, que
+precederam a revolu&ccedil;&atilde;o de 1789; ou nas
+tempestades medonhas, que revelaram as subvers&otilde;es de 1792 e
+1793. <br />
+
+<br />
+
+Modesto nas id&eacute;as e nos commettimentos, o gabinete da rainha
+creou a junta do codigo civil, cujos trabalhos nunca viram a luz da
+estampa; fundou a Academia Real das sciencias; estabeleceu os estudos
+de primeiras lettras e humanidades nos claustros das
+corpora&ccedil;&otilde;es regulares; instituiu a casa Pia para
+asylo das crean&ccedil;as orph&atilde;s; dotou as aulas de
+Fortifica&ccedil;&atilde;o e a Academia de Marinha; e decretou
+novas estradas e meios de as executar sob a
+direc&ccedil;&atilde;o de
+Jos&eacute; Diogo de Mascarenhas Netto. <br />
+
+<br />
+
+A entrada de D. Rodrigo de Sousa Coutinho no ministerio em principios
+de 1797, por morte de Martinho de Mello, introduziu na
+administra&ccedil;&atilde;o um elemento
+activo, emprehendedor, e dedicado por indole e tendencias a arriscar
+planos mais vastos e mais altos muitas vezes, do que o consentiam as
+circumstancias e as for&ccedil;as debilitadas da monarchia.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[183]</span>
+<h3>III </h3>
+
+<br />
+
+<div class="quote1">Os tres sujeitos eram nada menos, do
+que tres delegados do
+<em>conselho conservador de Lisboa</em>,
+associa&ccedil;&atilde;o composta de patriotas dedicados
+&aacute;
+restaura&ccedil;&atilde;o da independencia, etc., <a href="#n3">pag. 88</a>.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A existencia d'esta sociedade secreta politica n&atilde;o
+&eacute; uma inven&ccedil;&atilde;o. Saiu &aacute; luz
+dos prelos da
+imprensa regia um opusculo de 24 paginas de 8&ordm;, com a seguinte
+denomina&ccedil;&atilde;o <em>Catalogo por copia
+extrahido do original das sess&otilde;es e actas feitas pela
+sociedade de portuguezes, dirigida por um conselho
+intitulado</em>
+<span class="smallcaps">conselho conservador de lisboa</span><em>,
+e
+installada n'esta mesma cidade em 5 de fevereiro de 1808; tendo se
+unido os installadores em 21 de janeiro do mesmo anno para tractar da
+restaura&ccedil;&atilde;o da patria</em>. <br />
+
+<br />
+
+O conselho fundou-se em 5 de fevereiro de 1808 com seis socios que
+eram: G... Matheus Augusto, Jos&eacute; Maximo Pinto da Fonseca
+Rangel, Jos&eacute; Carlos de Figueiredo, Antonio
+Gon&ccedil;alves Pereira, Andr&eacute;
+da Ponte do Quental da Camara; Jos&eacute; Maximo da Fonseca foi
+nomeado secretario. O local das reuni&otilde;es decidiu-se que
+fosse alternadamente a casa de cada um dos adeptos. A hora das
+conferencias &aacute;s 8 da noite. <br />
+
+<br />
+
+A formula do juramento adoptada era esta: &laquo;Na nossa
+presen&ccedil;a, oh immenso, Sempiterno, Omnipotente Deus, creador
+do Universo, estando em nosso accordo, sem constrangimento, ou duvida,
+livres e deliberados jur&aacute;mos tractar de hoje em deante com
+todo o possivel disvelo, fervor, prudencia, e firmeza a causa
+nobilissima da religi&atilde;o da patria e do throno applicando
+para isso nossas for&ccedil;as, talentos, bens e vida
+at&eacute;
+conseguirmos entregar este a seu dono o <span class="smallcaps">principe
+regente</span> e &aacute;quelles o esplendor, a
+liberdade, a gloria. Este juramento seja para sempre o fundamento da
+nossa honra e da nossa felicidade, que chame sobre n&oacute;s a
+ben&ccedil;&atilde;o divina e os applausos da nossa
+posteridade: a
+viola&ccedil;&atilde;o d'elle, pelo contrario,
+attrair&aacute; sobre n&oacute;s as
+maldi&ccedil;&otilde;es do c&eacute;u e da terra; a vileza
+para n&oacute;s e para os nossos descendentes.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Na setima sess&atilde;o prestaram este juramento um pouco theatral
+o coronel de cavallaria Alvaro Xavier
+<span class="pagenum">[184]</span>
+de Povoas e Fernando Rom&atilde;o da
+Costa Athaide Teive. D'ahi em deante cresceu todos os dias o numero dos
+socios e associados. Na sess&atilde;o de 25.&ordm;
+constituiu-se o <em>conselho conservador</em>
+&aacute;
+pluralidade de votos e ficou composto dos seguintes deputados e
+adjuntos: o bispo de Malaca D. Francisco, o D. abbade de Belem fr.
+Manuel de Mesquita, o arcediago do Funchal Manuel Joaquim de Sousa, o
+beneficiado Joaquim Jos&eacute; da Costa, o marquez de Angeja D.
+Jo&atilde;o, o conde de Rio Maior, o visconde da Bahia, o
+desembargador Sebasti&atilde;o Jos&eacute; de Sampaio, o
+brigadeiro Antonio Marcelino da Victoria, os coroneis Lemos, Lacerda, e
+Raposo, o tenente coronel Costa Athaide, o major Antonio Marcelino
+Soares, e todos os mais socios approvados e admittidos. Jo&atilde;o
+Carlos de Saldanha Oliveira e Daun, hoje duque de Saldanha, entrou
+tambem no conselho inscripto sob numero 27. Consta da
+rela&ccedil;&atilde;o
+publicada a pag. 87 do opusculo. <br />
+
+<br />
+
+O conselho desde 5 de fevereiro at&eacute; ao 1.&ordm; de
+outubro de 1808, em que se dissolveu, celebrou quarenta e duas
+sess&otilde;es. O numero dos socios ajuramentados subia a 183. O
+dos auxiliares abonados por varios d'elles elevava-se a 959,
+al&eacute;m do concurso de tropa e povo, com que contava para o
+caso de um rompimento. <br />
+
+<br />
+
+Os planos de subleva&ccedil;&atilde;o, as
+proclama&ccedil;&otilde;es, os avisos ao almirante inglez sir
+Charles Cotton, e os projectos da sociedade n&atilde;o corriam
+t&atilde;o secretos como elle
+imaginava. <br />
+
+<br />
+
+A policia franceza suspeitava, pelo menos, se n&atilde;o conhecia
+plenamente a organiza&ccedil;&atilde;o d'este nucleo;
+por&eacute;m n&atilde;o julgou prudente proceder contra elle,
+temendo-se talvez mais de um processo ruidoso em circumstancias
+criticas, do que dos tramas pouco bellicosos e activos dos
+conspiradores. &Eacute; o que se deprehende de um trecho da
+<em>Historia da Guerra da
+Peninsula</em> do general Foy.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p185">[185]</a></span>
+<h3>IV</h3>
+
+<br />
+
+<div class="quote1">Muitos homens illustrados, que o
+grandioso espectaculo dos
+acontecimentos advertia, suspiravam por uma
+renova&ccedil;&atilde;o, que nunca podia ser inspirada, bem o
+sabiam por experiencia, nem pelas id&eacute;as, nem pela iniciativa
+de um governo caduco <a href="#n4">pag. 101</a>.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Allude-se no texto ao plano de uma constitui&ccedil;&atilde;o
+similhante &aacute; que Napole&atilde;o I conced&ecirc;ra
+ao
+gr&atilde;o-ducado de Varsovia, plano concebido, <a href="#e24">segundo</a>
+affirma o general Foy, no liv. II da sua <em>Histoire de
+la Guerre de la Peninsule</em>, por alguns patriotas
+portuguezes,
+desejosos de colherem ao menos da intrus&atilde;o estrangeira os
+beneficios da liberdade. <br />
+
+<br />
+
+O general Foy cita como auctores principaes do plano o desembargador
+Francisco Duarte Coelho, o doutor Ricardo Raymundo Nogueira, reitor do
+Collegio dos Nobres, e o conego Sim&atilde;o de Cordes
+Brand&atilde;o, lente de direito natural e das gentes na
+Universidade de Coimbra, e insere nas provas sob a lettra
+<em>J</em> o projecto de codigo politico, que
+ent&atilde;o se queria pedir a Bonaparte. (Tomo II,
+edi&ccedil;&atilde;o de Paris pag. 38 e
+seguintes e pag. 469 e seguintes). <br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Acurcio das Neves (<em>Historia da
+Invas&atilde;o dos Francezes em Portugal</em> tomo II)
+transcreve egualmente o documento, por&eacute;m n&atilde;o diz
+claramente a quem elle deve ser attribuido; mas o auctor da
+<em>Historia de El-Rei D. Jo&atilde;o
+VI</em>, vertida em portuguez
+(Lisboa typographia Patriotica 1838 a pag. 189-191), depois de nos dar
+tambem o projecto, accrescenta, que esta mensagem f&ocirc;ra
+dirigida pelo doutor Gregorio Jos&eacute; de Seixas de accordo com
+muitas pessoas distinctas por engenho e
+representa&ccedil;&atilde;o. Entretanto o padre
+Jos&eacute; Agostinho de Macedo, como nota o sr. Innocencio
+Francisco da Silva no tomo VII do seu <em>Diccionario
+Biliographico</em> pag. 276, accusou em mais de um logar
+de suas obras a Sim&atilde;o de Cordes, lan&ccedil;ando-lhe em
+rosto o
+haver sido um dos que no fim do seculo passado maior impulso
+tent&aacute;ram dar &aacute; ma&ccedil;onaria em
+Portugal, e principalmente em Coimbra, aonde cheg&aacute;ra a
+organizar algumas lojas. <br />
+
+<br />
+
+O bispo de Vizeu no <em>Elogio Historico</em>
+f&oacute;rma juizo
+<span class="pagenum">[186]</span>
+absolutamente opposto do procedimento e doutrinas de Sim&atilde;o
+de Cordes. <br />
+
+<br />
+
+Sejam, por&eacute;m, as que aponta o general Foy, ou outros
+auctores, o projecto de constitui&ccedil;&atilde;o redigiu-se e
+corre hoje impresso. Restava o mais difficil. Era necessario achar
+pessoa auctorizada, que se decidisse a apresental-o. Acceitou a
+miss&atilde;o arriscada o juiz do povo, que era ent&atilde;o um
+tanoeiro chamado Jos&eacute; de Abreu Campos, notavel pela firmeza
+e integridade. Mais de um lance de nobre ousadia confirma esta
+opini&atilde;o formada com justi&ccedil;a &aacute;cerca do
+seu caracter. <br />
+
+<br />
+
+Quando o conde da Ega foi incumbido por Junot de aggregar aos membros
+da <em>Junta dos Tres
+Estados</em> os representantes denominados dos
+bra&ccedil;os da
+na&ccedil;&atilde;o para lhes extorquir em simulacro de
+c&ocirc;rtes um voto de adhes&atilde;o, o juiz do povo
+protestou contra os actos da assembl&eacute;a, como illegaes e
+emanados de corpo incompetente. Quando as quinas foram picadas e
+substituidas pela aguia corsa, Abreu Campos negou-se a apagal-as da
+cabe&ccedil;a da sua vara. <br />
+
+<br />
+
+O juiz do povo correspondeu &aacute;s esperan&ccedil;as
+depositadas n'elle. Intimado para assignar com o clero e a nobreza, em
+nome do povo, a mensagem de 24 de maio de 1808 (provas de
+<em>l'Histoire de la guerre de la
+Peninsule</em>, par le general Foy. Paris 1827, tom. II,
+pags. 467-469) o honrado tanoeiro, protestando contra o acto por nullo
+e abjecto, e contra os que o practicavam por incompetentes, apresentou
+o projecto de constitui&ccedil;&atilde;o composto em
+f&oacute;rma de peti&ccedil;&atilde;o dirigida
+ao imperador, e appellou para o voto do paiz representado em
+c&ocirc;rtes. <br />
+
+<br />
+
+Esta voz isenta proclamando a emancipa&ccedil;&atilde;o
+politica offendeu os ouvidos do duque de Abrantes. O juiz do povo,
+chamado ao quartel general, foi asperamente reprehendido, e varias
+pessoas, suspeitas de liberaes, mandadas sair de Lisboa. <br />
+
+<br />
+
+Prevaleceu assim a mensagem servil dictada &aacute; simulada junta
+da na&ccedil;&atilde;o. Jos&eacute;
+Sebasti&atilde;o de Saldanha partiu encarregado de a apresentar a
+Napole&atilde;o I. Achando, por&eacute;m, j&aacute;
+interceptadas as
+communica&ccedil;&otilde;es da Hespanha com a
+Fran&ccedil;a, recolheu a Lisboa sem ter podido passar adeante da
+cidade Rodrigo.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[187]</span>
+<h3>V</h3>
+
+<br />
+
+<div class="quote1">Deixemos passar esses vultos, que
+pisam os sobrados nas pontas dos
+p&eacute;s, escorregando quasi como sombras. S&atilde;o rodas
+secundarias da machina, <a href="#n5">pag. 111 e 112</a>.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O general Junot, intitulando-se nos seus actos governador de Paris,
+primeiro ajudante de campo de S. M. o imperador e rei, e general em
+chefe do exercito invasor, comp&ocirc;z desde principio e da
+maneira seguinte o pessoal do governo em Lisboa: <br />
+
+<br />
+
+Por decreto datado de Lisboa no 1.&ordm; de dezembro de 1807,
+nomeou Francisco Antonio Herman commissario do governo francez junto do
+conselho do reino de Portugal, o qual lhe daria conta de todas as suas
+delibera&ccedil;&otilde;es, podendo assistir a ellas, querendo,
+e assignar as actas. Por decreto de 3 de dezembro, do mesmo anno foi
+Herman incumbido tambem da administra&ccedil;&atilde;o
+geral da fazenda. Em 8 de dezembro foi encarregado o general Laborde do
+commando superior de Lisboa e o conde de Novion do commando das armas
+da cidade. O marquez de Alorna recebeu a nomea&ccedil;&atilde;o
+de
+inspector geral e commandante das tropas nas provincias de
+Traz os-Montes, Beira e Extremadura (22 de
+dezembro de 1807). <br />
+
+<br />
+
+J. J. Magendie j&aacute; exercia as func&ccedil;&otilde;es
+de commandante em chefe da marinha em 1 de mar&ccedil;o de 1808,
+como consta de um aviso seu aos officiaes da arma, e aos empregados do
+porto de Lisboa, expedido n'essa data. P. Lagarde foi nomeado
+intendente geral da policia do reino em 25 de mar&ccedil;o de 1808,
+por decreto de Junot, referendado pelo secretario de Estado dos
+negocios do interior e da fazenda, Francisco Antonio Herman. Por
+decretos da mesma data nomeou Junot corregedor-m&oacute;r da
+Extremadura a mr. Pepin Bellisle, auditor do conselho de Estado, da
+provincia do Alemtejo a mr. Lafond, e da provincia de entre Douro e
+Minho a Taboureau, ambos tambem auditores do conselho de Estado.
+Quintella foi feito corregedor-m&oacute;r da Beira. <br />
+
+<br />
+
+O decreto, que approvou as instruc&ccedil;&otilde;es dictadas a
+estes novos magistrados, sahiu com a data de 2 de
+<span class="pagenum">[188]</span>
+abril de 1808. Por decreto de 16 de abril do
+mesmo anno foi Lagarde nomeado conselheiro do governo para assistir
+&aacute;s sess&otilde;es do conselho. A 16 de
+abril j&aacute; o general Junot havia recebido de
+Napole&atilde;o o titulo de duque de Abrantes.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>INDICE </h2>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 483px;" colspan="3" rowspan="1">A
+Camillo Castello
+Branco</td>
+
+ <td style="width: 50px; text-align: right;"><a href="#c0">5</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">I</td>
+
+ <td style="width: 13px; text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 483px;">Uma noite
+desabrida</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c1">7</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">II</td>
+
+ <td style="width: 13px; text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 483px;">O moinho da
+Raposa</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c2">15</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">III</td>
+
+ <td style="width: 13px; text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 483px;">Duas paginas da historia
+d'este
+seculo</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c3">21</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">IV</td>
+
+ <td style="width: 13px; text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 483px;">O bem soa, o mal
+voa</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c4">32</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">V</td>
+
+ <td style="width: 13px; text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 483px;">N&atilde;o ha atalho
+sem
+trabalho</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c5">43</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">VI</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Ressurrei&ccedil;&atilde;o de
+Lazaro</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c6">55</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">VII</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Segredos em toda a
+parte</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c7">67</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">VIII</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Entre os
+bastidores</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c8">83</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">IX</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Que talvez podesse servir de
+prologo</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c9">100</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">X</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Tolda-se o tempo</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c10">111</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">XI</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Achilles e Nestor</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c11">127</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">XII</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Arcades ambo!</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c12">138</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">XIII</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Dois parentes</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c13">147</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">XIV</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Amor</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c14">156</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;">XV</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&#8213;</td>
+
+ <td>Cubi&ccedil;a e
+Nobreza</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c15">166</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="gbox"><br />
+
+<table style="width: 528px; height: 31px; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>
+ <h1>UM REINADO TRAGICO </h1>
+
+ <h2>
+(Complemento da HISTORIA DE PORTUGAL) </h2>
+
+ <br />
+
+ <h3><span class="smallcaps">Por</span> *
+* * </h3>
+
+ <h3><br />
+
+Edi&ccedil;&atilde;o Popular e Illustrada </h3>
+
+ <br />
+
+ <h4>Com grande numero de retratos dos<br />
+
+homens contemporaneos,<br />
+
+e de gravuras
+representativas<br />
+
+dos acontecimentos mais notaveis<br />
+
+do reinado de D.
+Carlos </h4>
+
+ <br />
+
+ <div style="text-align: justify;">Attendendo a
+instantes pedidos de muitos dos assignantes da nossa
+ <b>Historia de
+Portugal</b>, resolveu esta Empreza publicar um novo
+livro que, embora seja como que o complemento d'aquella&#8213;e por isso
+absolutamente egual em formato, papel, etc.&#8213;ser&aacute; no emtanto
+completamente independente dos anteriores volumes, e no qual, sob o
+titulo de <b>Um Reinado Tragico</b>, se
+far&aacute; a descrip&ccedil;&atilde;o de todos os
+successos politicos que v&atilde;o desde o
+ <em>ultimatum</em> de 11 de janeiro de 1890
+at&eacute; aos tragicos acontecimentos de 1 de fevereiro de 1908,
+que determinaram a subida ao throno portuguez do rei D. Manuel II. <br />
+
+ </div>
+
+ <br />
+
+ <div class="sbreak">
+ <hr /></div>
+
+ <br />
+
+ <div style="text-align: justify;">Publica&ccedil;&atilde;o
+em fasciculos semanaes de 16 paginas,
+in-4.&ordm; grande, ao pre&ccedil;o de <br />
+
+ </div>
+
+ <br />
+
+ <h3>60 R&Eacute;IS </h3>
+
+ <br />
+
+ou a tomos mensaes de 5 fasciculos, ao pre&ccedil;o de <br />
+
+ <br />
+
+ <h3>300 R&Eacute;IS</h3>
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="gbox"><br />
+
+<table style="width: 527px; height: 31px; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>
+ <div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 213px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br />
+
+ </div>
+
+ <br />
+
+ <br />
+
+ <br />
+
+ <div style="text-align: justify;">
+ <div class="tiny">SEGUINDO, DIA A
+DIA, A ORDEM DA SUA COMMEMORA&Ccedil;&Atilde;O
+PELA EGREJA</div>
+
+ <br />
+
+ <br />
+
+ <h4>Trabalho de compila&ccedil;&atilde;o e de
+synthese,<br />
+
+feito sobre
+os mais modernos e conscienciosos estudos </h4>
+
+ <br />
+
+ <div style="text-align: center;">PELO<br />
+
+ </div>
+
+ <br />
+
+ <h3>Rev. Dr. SANTOS FARINHA </h3>
+
+ <br />
+
+ <div class="tiny">Bacharel formado em theologia pela
+Universidade
+de Coimbra e parocho<br />
+
+collado da freguezia de Santa Izabel, de Lisboa</div>
+
+ <br />
+
+ <div class="sbreak">
+ <hr /></div>
+
+ <h3>Illustrado com centenares de gravuras </h3>
+
+ <div class="sbreak">
+ <hr /></div>
+
+ <br />
+
+Cada fasciculo semanal de 2 folhas de 8 paginas cada, in-4.&ordm;
+grande, contendo pelo menos 2 gravuras, <br />
+
+ <h1>60&#8213;REIS&#8213;60 </h1>
+
+ <div class="sbreak">
+ <hr /></div>
+
+ <br />
+
+Cada tomo mensal de 5 fasciculos, ou 80 pag., grande formato, contendo
+numerosas gravuras, <br />
+
+ <h1>300&#8213;REIS&#8213;300 </h1>
+
+ <h4>DIRIGIR OS PEDIDOS &Aacute; </h4>
+
+ <h3>
+EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL </h3>
+
+ <h4>
+SOCIEDADE EDITORA </h4>
+
+ <h3>
+Livraria Moderna&#8213;Rua Augusta, 95, Lisboa </h3>
+
+ <h4>
+TYPOGRAPHIA&#8213;45, RUA IVENS, 47
+ </h4>
+
+ </div>
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Notas:</b><br />
+
+<br />
+
+<a name="1"></a><sup>[1]</sup> Eram
+pannos lavrados, ou lisos, que vestiam as paredes.
+Tambem se usavam de couro.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 61px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e1"></a><a href="#c2">#p&aacute;g.
+15</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;">hombos</td>
+
+ <td style="width: 5px; text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">hombros</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2"></a><a href="#p17">#p&aacute;g.
+17</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;">&aacute;</td>
+
+ <td style="width: 5px; text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">&eacute;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e3"></a><a href="#p26">#p&aacute;g.
+26</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;">nosas</td>
+
+ <td style="width: 5px; text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">nossas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e4"></a><a href="#p27">#p&aacute;g.
+27</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;">Bonapart</td>
+
+ <td style="width: 5px; text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">Bonaparte</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e5"></a><a href="#p29">#p&aacute;g. 29</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">anino</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">animo</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e6"></a><a href="#p31">#p&aacute;g. 31</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">presa</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">pressa</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e7"></a><a href="#p33">#p&aacute;g. 33</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">ruidasa</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">ruidosa</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e8"></a><a href="#p33">#p&aacute;g. 33</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">costumudo</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">costumado</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e9"></a><a href="#p44">#p&aacute;g. 44</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">cava</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">cave</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e10"></a><a href="#p53">#p&aacute;g. 53</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">do</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">de</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e11"></a><a href="#p57">#p&aacute;g. 57</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Pedr</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Pedro</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e12"></a><a href="#p64">#p&aacute;g. 64</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">inop nada</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">inopinada</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e13"></a><a href="#p68">#p&aacute;g. 68</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">quatros</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">quatro</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e14"></a><a href="#p68">#p&aacute;g. 68</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">e</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e15"></a><a href="#p78">#p&aacute;g. 78</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">acabavaent&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">acabava
+ent&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e16"></a><a href="#p79">#p&aacute;g. 79</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">da mesmo</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">do mesmo</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e17"></a><a href="#p84">#p&aacute;g. 84</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">naural</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">natural</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e18"></a><a href="#p108">#p&aacute;g. 108</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">noneada</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">nomeada</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e19"></a><a href="#p110">#p&aacute;g. 110</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">setes</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">sete</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e20"></a><a href="#p122">#p&aacute;g. 122</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">os que os</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">que os</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e21"></a><a href="#c11">#p&aacute;g. 127</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Azevdo</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Azevedo</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e22"></a><a href="#c14">#p&aacute;g. 156</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">attribindo-a</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">attribuindo-a</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e23"></a><a href="#p180">#p&aacute;g. 180</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">do</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">dos</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e24"></a><a href="#p185">#p&aacute;g. 185</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">segunda</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">segundo</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Casa dos Fantasmas - Volume I, by
+Luiz Augusto Rebello da Silva
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CASA DOS FANTASMAS - VOLUME I ***
+
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+
+Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
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+
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+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
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+
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+
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+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
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+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
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+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
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+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
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+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
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+
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+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
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+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
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+
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
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+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
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+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
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+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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