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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Casa dos Fantasmas - Volume I + Episodio do Tempo dos Francezes + +Author: Luiz Augusto Rebello da Silva + +Release Date: May 5, 2008 [EBook #25330] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CASA DOS FANTASMAS - VOLUME I *** + + + + +Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net + + + + + + + *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos + existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à + versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com + o original. No final deste livro encontrará a lista de erros + corrigidos. + + Rita Farinha (Maio 2008) + + + + +VOLUMES PUBLICADOS + + +I--Ráusso por homizío +II--Odio velho não cança (1.^o) +III--Odio velho não cança (2.^o) +IV--A Mocidade de D. João V (1.^o) +V--A Mocidade de D. João V (2.^o) +VI--A Mocidade de D. João V (3.^o) +VII--A Mocidade de D. João V (4.^o) +VIII--A Mocidade de D. João V (5.^o) +IX--Lagrimas e thesouros (1.^o) +X--Lagrimas e thesouros (2.^o) +XI--A Casa dos Fantasmas (1.^o) +XVI--Othello--As redeas do governo +XVII--A mocidade de D. João V (drama). +XVIII--O amor por conquista (comedia)--O Infante Santo (fragmento). +XIX--Fastos da Egreja (1.^o) +XX--Fastos da Egreja (2.^o) +XXI--Fastos da Egreja (3.^o) +XXII--Fastos da Egreja (4.^o) + + + + +OBRAS COMPLETAS DE LUIZ AUGUSTO REBELLO DA SILVA +REVISTAS E METHODICAMENTE COORDENADAS + + +XI + + +ROMANCES E NOVELLAS--V + + +A CASA DOS FANTASMAS + + +EPISODIO DO TEMPO DOS FRANCEZES + +2.^a EDIÇÃO + +VOLUME I + + +LISBOA + +Empreza da Historia de Portugal + +_Sociedade editora_ + +LIVRARIA MODERNA +_R. Augusta, 95_ + +TYPOGRAPHIA +_45, R. Ivens, 47_ + +1908 + + + + +A CAMILLO CASTELLO BRANCO + + +Seja-me licito, amigo, dedicar-lhe este esboço informe, fructo de +algumas horas de ocio. Quem melhor, do que o auctor de tantas +composições profundas na interpretação da vida, admiraveis na pintura do +coração e dos costumes contemporaneos, poderá desculpar o muito, que +falta n'este quadro para sair menos imperfeito, e ao mesmo tempo +apreciar em um, ou outro traço, os bons desejos e os esforços do auctor? + +A epocha, que escolhi, pedia pincel mais fino, e tintas mais vivas. +Tentei vencer-me, e desenhal-a. Sei que fiquei mui inferior ao ideal, +que tinha concebido, e receio mesmo, que o enfado dos leitores castigue +a ousadia do commettimento. Espero, que o seu nome applaudido sirva de +escudo e de defensor ao modesto livro, de que elle vae ser o maior +ornamento. + +Não o consultei para lhe offerecer este testemunho da minha antiga e +sincera amisade. Adivinhei a resposta, e ahi entrego em suas mãos mais +este orphão, que sae a correr o mundo. Deus lhe conceda a sorte +propicia, que elle não merece, mas que ás vezes uma boa sina proporciona +mesmo aos menos dignos. + +Lisboa, 22 de Janeiro de 1865 + + + Luiz Augusto Rebello da Silva. + + + + + +A CASA DOS FANTASMAS + + + +I + +Uma noite desabrida + + +Era de tarde. Tinham dado cinco horas, e o dia declinava rapidamente. O +mez de maio do anno 1808, anno assignalado de successos estrondosos na +peninsula, acabava, como tinha corrido quasi todo, entre diluvios de +chuva e ventanias. A noite, cujos primeiros veus já começavam a cobrir +as terras baixas, em quanto os derradeiros raios do sol esmoreciam na +corôa dos outeiros, avisinhava-se, toldada de castellos de nuvens, que +surgiam do sul, listrando o horizonte de barras cinzentas, rasgadas de +espaço em espaço pelos clarões dos relampagos. + +O ar estava tepido, ou antes quente, e todos os ruidos se iam calando +uns após outros. A immobilidade das aguas, que não arrugava o mais leve +sopro; a das arvores, cujas copas pareciam petrificadas; e as sombras, +que avultavam mais pesadas de instante para instante, revestiam a +paizagem de um aspecto gelido. Uma lufada de vento, halito abrazado da +tormenta, passava solta por cima dos campos, acamando as hervas altas, +destoucando os arbustos, e saccudindo as ramas das oliveiras, dos +alamos, e das faias, e ia morrer distante no roncar soturno e rouco dos +trovões. Algumas gotas, raras e grossas, caiam então, e a luz, offuscada +por mais espessos vapores, sumia-se de subito para reviver depois, mas +timida e desmaiada, sem alegria e sem calor. As aves fugiam, cruzando-se +e pipitando; a solidão quasi que não tinha echos; e um silencio lugubre +precedia a grande voz da tempestade, que ia principiar dentro em pouco. + +Apezar das ameaças da atmosphera, um viajante trocando o conchego de +povoação commoda pelas inclemencias do tempo, tinha-se despedido da +hospitaleira casa, aonde jantára, e mettendo o pé no estribo de pau, e +apertando as dobras da manta ribatejana, sem escutar os conselhos e +vaticinios amigaveis, estimulava a mula com as largas rosetas da +classica espora de correia, obrigando-a a espertar o passo por entre os +viçosos pampanos, hoje gloria e gala da nobre villa do Cartaxo. + +Em breve deixou atraz de si as vinhas, que, a esse tempo, (cultura +nascente) apenas verdejavam em uma pequena parte do terreno, que se +carrega agora de seus cachos, e achando-se em plena charneca, extendeu +os olhos pela bella e vasta planicie, desatada por algumas leguas de +ermo, não triste, nem agreste, mas tocado de risonha suavidade, e +rodeado de longes tão puros e desafogados, que a alma se consola e +refrigera de extender por elle os olhos. + +O aroma alpestre das plantas; aquelle pôr do sol entre nuvens; os +lamentos da procella ao sul; e o vago indeciso de todo o quadro +compunham um espectaculo de opposições tão firmes e tão bellas, que o +viajante, quasi sem o querer, se deixou arrebatar por elle, e +insensivelmente foi imbebendo a vista nas formosuras rusticas, que de +todos os lados o convidavam. Suas feições, de uma gentileza viril e +sympathica, não inculcavam tedio ou cansaço, mas impaciencia. A elevada +estatura não se encurvava sobre os arções, e as pupillas pretas e cheias +de fogo, se a miudo fitavam os trilhos enredados com estreitas fitas +sobre o verde sombrio da charneca, denunciavam mais receio de chegar +tarde a um ponto dado, do que temor de se ver assaltado pelo temporal no +meio da jornada. + +A mula, que algumas horas de repouso tinham refrescado, como se +adivinhasse os desejos do amo, despejava o passo, e o caminho; mas a +noite e a cerração ainda corriam mais. Á claridade baça do crepusculo +seguiram-se as trevas; o céu forrou-se todo de negro; e os primeiros +furacões bramiram acompanhados de um trovão proximo. A chuva principiava +a fustigar de rajadas fortes o rosto do viajante, e a cegar-lhe a +estrada inundada dos dias anteriores, e arrombada em diversas partes. A +mula, apezar de afouta e vigorosa, atolava-se, tropeçando a miudo. Na +ponte da Asseca, a varzea, que ella corta, parecia um immenso paul, +cujas aguas a cheia despenhada dos altos empolava com sussurros, que, +unidos aos silvos do vento e aos ribombos da trovoada, enchiam de horror +e de estrepito aquella scena, tão repassada de grandeza e de magestade. + +Á esquerda os olivaes pendurados dos montes, que se encandeiam até +Santarem, estorciam-se com o vendaval. Á direita os choupos e os +freixos, na beira dos vallados, vergavam tremulos e desgrenhados como se +mão gigante os dobrasse. O caminho parecia um mar, e os clarões, em que +os céus pareciam abrir-se, golfavam de repente o seu fulgor sinistro +sobre este painel, que o tenebroso manto da procella tornava logo depois +a esconder. + +Atravessando a ponte, por onde enxurrava quasi uma torrente, o viajante +procurou orientar-se. Ajudou-o uma luz ao longe. Seguindo por ella, no +fim de dez minutos encontrou-se junto do vulto massiço de um palacio +arruinado, solitariamente erguido no meio das terras, e olhando quasi +como sentinella esquecida para um angulo da estrada. Em uma das seis +janellas sem caixilhos da fachada, através das fendas das portas de +dentro, ou antes das tábuas de forro pregadas em logar de vidros, +brilhava a luz que lhe servira de norte, e pelas gretas mal juntas das +frestas do andar terreo luzia o clarão de um grande brazeiro talvez +acceso na cozinha. Applicando o ouvido sentiam-se estalar no lume os +troncos humidos, e escutava-se o meio alarido de algumas vozes e +risadas. + +--Ah! exclamou o cavalleiro, detendo a mula, e derrubando sobre a cara +por um gesto machinal as largas abas do chapéu de Braga, quebradas pela +chuva. Gente na casa Negra! Quem?!... + +Depois de breves momentos pareceu tomar uma resolução, e a passo, +chapinhando na agua, como se passasse um ribeiro, desviou-se, atravessou +para o outro lado, e cozido com o monte subiu por vereda ingreme até um +alto a tres ou quatro tiros de espingarda de distancia. Pelos corregos, +a uma e outra parte, estrepitavam verdadeiros riachos saltando pelas +pedras, e um relampago, fuzilando e extendendo como um lençol de fogo +por cima das trevas, descubriu-lhe repentinamente a casinha caiada, de +dois sobrados, tecto esguio, e duas janellinhas, que buscava. Cercava-a +um muro baixo de pedras soltas. O ruido monotono de uma roda, e a queda +de uma especie de cascata, sobrepujando o esparralhar da chuva, e os +gemidos do vento mostraram-lhe que estava na azenha de cima, ou no +moinho da _Raposa_, como diziam os visinhos dos arredores. + +Sem se apeiar, o viajante bateu com o conto ferrado do cajado de +marmeleiro por duas vezes tres pancadas na porta, e esperou. Não foi +necessario mais. Os latidos feros de um cão de guarda, e logo depois +vagarosos passos descendo a escada, advertiram-o de que fôra ouvido. + +--Oh, de dentro! bradou. + +--Quem bate?! perguntou uma voz cheia. + +--Eu! + +--Esse eu quem é?... + +--Abre!... + +--Pois não!... Ao mesmo tempo o ouvido fino do recem-chegado percebeu o +leve tinir dos fechos de uma espingarda a engatilhar-se. + +--Antonio! Pelo rei e pela patria!... + +--Ah?! Agora é outro cantar. Lá vou. + +E calando o cão, que pulava, ladrando e rosnando como furioso, +desencostou a tranca, tirou o ferrolho, e a chave rangeu duas voltas na +fechadura. Abriu-se finalmente a porta. + +--Então quem é? repetiu a mesma voz, em quanto a cabeça se arriscava +fóra no escuro, sem a mão largar a espingarda. + +--Manuel Coutinho. Conheces-me agora? redarguiu o hospede, apeiando-se, +e expremendo do chapéu a agua a escorrer em bica, e saccudindo a manta, +que não estava menos ensopada.--Que diluvio! murmurava por entre dentes +ao mesmo tempo. Se continúa, nadam ámanhã os saveis na tua horta, +Antonio da Cruz! + +--Que se lhe ha de fazer! Como v. s.^a vem!... Bemdito e louvado seja +Deus!... + +--Amen! Elle seja comnosco e nos ajude, que bem o precisâmos; redarguiu +o mancebo, porque o seu rosto moreno, mas fresco, e o cabello preto não +inculcavam mais de vinte e quatro a vinte e cinco annos. + +--Cuidei que me recebias a tiro! disse rindo, e mostrando duas fiadas de +dentes finos, alvos, e eguaes, que uma dama franceza lhe invejaria para +ornar um sorriso galanteador. + +--Bem vê a noite?!... Depois a gente não sabe quem lhe quer mal, e uma +bala depressa entra... Cá me entendo!... D'ahi não esperava já por v. +s.^a!... + +--Não me esperavas?... mas eu tinha dito!... + +--É verdade, que disse. Mas choviam raios e coriscos e sempre cuidei que +se deixasse lá ficar em baixo. Dê-me a redea da mulinha. Então não sahiu +como se queria? Foi um ovo por um real. Entre v. s.^a e enxugue-se. Vou +cá á nossa arribana, com sua licença, arranjar a Ligeira, e é um ai em +quanto volto a accender-lhe o lume... Jesus! Santo Nome de Maria! Os +relampagos cegam. Parece que nos cae o céu esta noite na cabeça com a +bulha lá de cima! + +Manuel Coutinho entrou. O interior da casa, muito seu conhecido, era de +apparencia singela e rustica. Suspensa do gancho preso em uma das vigas +do tecto a candeia allumiava-a escassamente, apezar de pequena. No meio +da parede do fundo rasgava-se a chaminé baixa e ladrilhada. Á direita +uma arca de pinho alta, sem fechadura, tinha em cima um cobertôr de +papa, e sobre elle enroscado com uma fisga aberta á vigilancia em cada +olho, o gato preto do moinho, tão absorvido na sua beatitude extatica, e +na sua pachorrenta immobilidade, que os latidos do cão amigo e alliado +domestico, e as vozes do dono, nem um movimento lhe tinham podido +arrancar! Á esquerda a barra de pinho pintado tremia sobre tres pés +validos. Na cabeceira um devoto registo do milagre da Senhora da +Nazareth correspondia a outro do glorioso confessor Santo Antonio, +pregado na parede com obreias. A manta sobre o enxergão e duas pelles de +carneiro compunham a roupa d'este catre de cenobita. + +Á direita, em todo o comprimento da casa, viam-se empilhados muitos +sacos de trigo destinados á mó alveira da azenha. Os de milho jaziam +mais adeante em pilhas. A fina flôr da farinha escapando-se pelas +aberturas revoava ao menor abalo, polvilhando tudo em roda. Por cima de +algumas pelles de lebre e de coelho, extendidas a seccar na parede, +pendiam o polvorinho de chifre com o fundo, ou rodella de pau, e a bolsa +de couro, ou chumbeiro, attestado de munição e pederneiras. Em um +armario, vasado no muro, e resguardado com sua cortina de riscado azul, +luziam, como prata, pelo aceio, a chaleira e a almotolia de lata, e +acastellavam-se duas rumas de pratos. Dos lados, sumptuosidade rara (!), +duas caçarolas de folha de Flandres e cabos de ferro acompanhavam a +baixella de louça. Em uma prateleira por cima da chaminé a caixa da isca +e alguns tachos e frigideiras de barro esperavam a hora de serem +chamados a serviço activo. + +Uma escada empinada, de degráus toscos, verdadeiro quebra-costas, subia +de um dos angulos para o andar de cima, aonde um alçapão erguido e +quadrado abria as fauces, como se quizesse engulir os que entrassem. Era +ahi a labutação principal do moinho. As mós, rodando e zoando, +ensurdeciam casadas no ruido somnolento com a queda da levada, que por +uma longa calha de pau descia da preza a ferir a roda, e d'esta, +saltando em cachões dos baldes, ia espadanar no canal, d'onde fugia +ainda espumante a regar as hortas e as terras dos visinhos. + +Dois mochos de cerejeira brava, e uma poltrona de couro, roto e cossado, +rodeavam no sobrado de baixo uma velha mesa de pau, collocada no meio do +aposento por baixo da candeia de dois bicos. No meio d'ella um cangirão +de aza larga, bojudo e vidrado, com sua tampa de cortiça guardava a +agua-pé. Um copo de canada, limpo como crystal, um prato sobre toalha +alva, meia broa de milho com um garfo de cabo de pau ao lado, e uma +frigideira de sardinhas fritas annunciavam que a ceia do moleiro ía +começar, quando fôra chamado. A navalha de mola e de ponta, um rôlo de +tabaco de picar, e algumas aparas d'elle, assim como duas capas de papel +de cigarros, estavam dizendo tambem o que elle fazia pouco antes da +visita inopinada lhe bater á porta. + +Vejamos agora que razão de estado attrahia o mancebo a tal hora e por um +tempo similhante áquella casa, e o que se passou alli n'esta noite +fecunda em incidentes para os personagens, que temos de metter em scena. + + + + +II + +O moinho da Raposa + + +O mancebo approximou-se da mesa, picou do rôlo uma porção pequena, +enrolou o cigaro entre os dedos, e, depois de o accender á luz da +candeia, assentou-se em um dos mochos, com os cotovellos fincados na +tábua, e o rosto entre as mãos, não sem primeiro ter tirado do cinto um +par de pistolas inglezas e uma faca de matto hespanhola, encubertas com +as compridas abas do gabinardo, que trajava. + +Antonio da Cruz appareceu instantes depois. + +Era robusto, largo de hombros e de peitos, mas esbelto. Trigueiro, e +queimado do sol, as suas feições lembravam o typo arabe. Os beiços +grossos sorriam com franqueza, e, apezar de muito rasgada, tinha graça +na bôcca, mesmo quando descubria os trinta e dois dentes alvos e agudos, +como os do felpudo molosso, que saltava em volta d'elle. O cabello rente +e crespo cortado quasi em bico sobre a testa era negro como azeviche. O +nariz revirado na ponta dava certo chiste á physionomia; e nos olhos +pardos e vivos como scentelhas brincava uma expressão de finura natural +e de malicia jovial, que lhe caìa bem, e logo á primeira vista o faziam +bem quisto. + +De mediana estatura, mas proporcionado, era tido por um dos homens mais +forçosos d'aquelles contornos. O seu nome servia de grito da guerra nas +aldeias contra a brutalidade dos valentões de arraial. Nas praças de +touros em Villa Franca, em Salvaterra, ou na capital nenhum forcado o +egualava em apanhar os bois de cara, ou de cernelha. A cavallo era um +centauro; a pé não tinha par no salto, ou na carreira; em mettendo a +espingarda ao rosto aonde punha o olho punha a bala. O seu cajado +manejado por mãos de mestre varria as feiras, zombando de facas e de +espadas. + +Sobrio como um anachoreta, presentido e vigilante como um mohicano, o +seu maior defeito era ser impetuoso e assomado de mais. Em o sangue lhe +subindo á cabeça, e em principiando a picar-lhe a pelle com pontas de +alfinetes, segundo elle dizia, cegava-se, corria direito ao perigo, e, +sem attender a nada, atirava-se a um precipicio. + +Temente a Deus, tinha tanto de bom amigo como de implacavel inimigo. +Portuguez e patriota extremo, amaldiçoava os francezes como jacobinos, e +chorava de saudade pelo principe regente, D. João, ao qual só vira duas, +ou tres vezes, em sua vida. Manuel Coutinho affeiçoou-se a este caracter +firme, honrado, e decidido. O moinho e a horta pertenciam ao mancebo, e +Antonio trazia-os de renda. Ligado á conspiração, por emquanto quasi +inoffensiva, urdida em Lisboa contra o governo de Junot, conspiração que +regia o _conselho_ denominado _Conservador_, secretamente instituido no +dia 5 de fevereiro d'aquelle anno para auxiliar a restauração do throno +legitimo e da independencia, Manuel Coutinho confiava no humilde +camponez, e communicava-lhe até recados de importancia. Executor +discreto d'estas missões arriscadas, Antonio da Cruz comportava-se +sempre com exemplar acerto, não só enganando o faro da policia de +Lagarde, cujos espiões corriam por toda a parte, mas supportando +resignado por amor de seu amo (assim lhe chamava), e da boa causa +desafios e remoques, que em outra occasião seguramente custariam caros +aos aggressores. + +--Se não é hoje o fim do mundo, bradou elle entrando e saccudindo a agua +de cima de si, não sei quando o será! Mas o lume em um instantinho está +a arder. A lenha é secca. Ora, diga, meu amo: v. s.^a traz sua vontadica +de comer, não? Do Cartaxo aqui é um pedacito menos mau... e a chuva e o +vento cavam cá por dentro como enxada em nateiro... + +--Não. Não me faças nada. Se o appetite vier aqui temos de mais. Agora o +lume sim. + +--Essa é boa. Ha de perdoar; não senhor. Graças a Deus o Manuel nunca +foi torto, nem aleijado, e ainda esta manhã, antes de almoço, não perdeu +a polvora e o chumbo. Andavam aquelles fidalgos a saltar nas vinhas, e +trouxe-os no alforge. Como os quer?... + +E apontava para os dois coelhos mortos e pendurados junto do almario. + +--Guizo-lh'os de molho de vilão n'um abrir e fechar de olhos, e depois +ha de beber-lhe em cima um, ou dois copos de um vinhinho, que me deram, +e que fica a gente a chorar por mais... + +--Já te disse. O vinho e os coelhos guarda-os para ámanhã. Agora melhor +me sabe este cigarro, do que todos os manjares. Accende o lume. Temos +que falar. + +O mancebo suspirou como quem se sente opprimido de tristeza, e lucta em +vão por se vencer. + +O Antonio da Cruz, curvo sobre a caixa da isca, a assoprar a chamma, +ouvia-o, e percebeu-o, mas calou-se. A mecha pegou, e d'ahi a um momento +levantava-se da lareira um clarão vivo e alegre, tingindo de vermelho as +paredes e os pobres moveis da casa. + +--Bem! disse Manuel Coutinho. Isto já parece outra cousa! Senta-te, e +come! + +--Salvo o respeito, saiba v. s.^a que não tem pressa. + +--Tem. Come e despacha-te. Depois falaremos. É preciso sair logo... + +--Ah! Então a cousa aperta? Para termos de saír por uma noite +d'estas!... + +--Póde bem ser a ultima da vida de umas poucas de pessoas! exclamou o +mancebo, pondo-se em pé agitado. + +--Melhor o ha de fazer Deus, senhor Manuel! redarguiu o moleiro com a +sua tranquillidade apparente, que illudia os que o conheciam mal. Com +sua licença! ajuntou sentando-se á mesa, e rompendo o assalto contra a +broa e as sardinhas, regadas de copiosas libações de agua-pé. Os sacos +pesam seis alqueires, e por aquella escada acima apalpam as costellas. Á +saude de v. s.^a! A minha pena é que não quizessse provar dos coelhos e +do vinho do convento de S. Francisco. Olhe que os padres sabem escolher +do fino!... + +--Que gente era aquella, que esta noite vi na Casa Negra? perguntou +Manuel Coutinho, que as proezas gastronomicas de Antonio já não +maravilhavam, porque fôra testemunha d'ellas muitas vezes. + +--Gente na Casa Negra? Na Casa Maldita?!... accudiu com a bôcca cheia, e +estremecendo. + +--Sim! Vi luz em cima, na terceira janella, e ouvi risadas e vozes no +andar terreo. Não sabes o que será?! + +--O meu padre Santo Antonio nos accuda! Cousas do demonio, que desde que +me entendo é o unico morador d'aquelle casarão! Mas v. s.^a está bem +certo!?... Gente a estas horas alli! Não póde ser! + +--Tanto póde, que havia fogo na cosinha, e gente a rir, a falar, e a +aquecer-se a elle! + +Antonio da Cruz enguliu á pressa o ultimo boccado, poz á bôcca cheio a +trasbordar o copo de agua-pé, e pousando-o vasio com um suspiro, tirou o +barrete e benzeu-se. + +--Olhe, senhor, creia v. s.^a o que lhe digo! tornou meio atalhado. +Gente d'este mundo não era de certo. Por estes arredores não havia quem +se atrevesse!... Ah, Jesus, Santo Nome de Maria! accrescentou mais +pallido. Deram ainda agora, á noitinha, um tiro no Antonio Simões. Dizem +que o mataram; mas o corpo não appareceu! Querem ver que foi parar a +alma... + +--Antonio! accudiu o amo um pouco severo. Alma que vae não volta! Isso +são medos de criança. Os hospedes da Casa Negra estão vivos, como eu, e +tu. Agora o que preciso saber, e já, é o que são e o que fazem alli!... + +--Será o sargento Cabrinha, aquelle jacobino! Andou esta manhã pelo +sitio com as milicias. Só se fôr elle! O maldito ri-se de Deus e do +diabo. Ha de chegar-lhe a sua vez. + +--Prendeu alguem?!... + +--Dizem que sim, ahi para os sitios do Casal do Ouro. + +--Ah! exclamou o mancebo. Capaz seria elle? Se fosse quem receio!... +Ouviste dizer?... + +--Um velho e sua filha. Os nomes não m'os souberam dar. + +--Nem é preciso! interrompeu Manuel Coutinho em voz soffocada, e com os +olhos inflammados. O infame Lagarde cumpriu a promessa. Verá se a de um +portuguez lhe fica atraz! Os nomes sei-os eu; dizia-m'os o coração antes +de aqui entrar. Mas!... + +Conteve-se, e caíu em reflexão profunda. Antonio da Cruz, tambem de pé, +e animado, desde que sabia que não era com os demonios, ou com as almas +do outro mundo a contenda, esperava, olhando para a espingarda, que uma +palavra do amo lhe pedisse o apoio do seu braço. + +--Depois de curta pausa, o mancebo, renovadas as escorvas das pistolas, +e cingida a faca de matto, virou-se para o seu confidente e disse-lhe: + +--Queres saber como se chama o velho, que o sargento arrasta preso a +Santarem para o entregar á vingança dos francezes? É Paulo de Azevedo +Carvalho. E sua filha... + +--A senhora D. Leonor?! A noiva de v. s.^a!... Jesus... Pobre menina! + +--Buscam-o para o processar como rebelde desde o caso de Mafra. +Tinham-se escondido na Aramanha, e esse villão do sargento Cabrinha, por +trinta moedas prometteu entregal-o. Não o achando já alli, correu os +arredores, e de certo o foi encontrar no Casal do Ouro pela denuncia... + +--Do Sapo! Foi o Sapo, aposto! Por isso o patife andava desde hontem de +orelha fita e focinho aguçado! Só ao moinho, aqui, veiu duas vezes! Ah! +Se eu soubera! Partia-lhe outra perna. Não importa. O que não se acaba +dia de S. Braz n'outro dia se faz. Não as perde. + +--Antonio! Paulo de Azevedo não ha de entrar na cadeia da villa, nem na +de Lisboa. Esta noite a «Casa Negra» terá outra historia talvez mais +feia que juntar á sua. Aprompta-te! Á meia noite saímos. Pódes resar por +alma do sargento, se o encontro! + + + + +III + +Duas paginas da historia d'este seculo + + +Antes de proseguirmos, para maior clareza d'esta mui veridica narração, +cujo fio poderia enredar-se com as explicações de todos os momentos, +pedimos venia ao leitor para resumir em breve noticia os acontecimentos, +que formam o fundo da pintura, ou antes do esboço, que nos propozemos +traçar. + +A revolução franceza, representante das forças e interesses da +humanidade, herdeira não só das aspirações e esperanças, mas tambem das +dores e resentimentos de muitos seculos, saudada em 1789 com transportes +de jubilo, em 1793 já tinha convertido a innocencia do primeiro +enthusiasmo nos accessos febris de um patriotismo sombrio, dando o +espectaculo, novo e incrivel, dos maiores crimes a par dos rasgos mais +heroicos, e das virtudes mais sublimes. + +Só e contra todos arremessou audaciosamente a luva aos adversarios de +fóra e ás facções internas. Decapitou no cadafalso a realeza; repelliu +os exercitos da Europa colligada; atravessou após elles as fronteiras +inimigas; suffocou nas provincias insurgidas as saudades e as iras do +regimen decaído; e vigorosa, mesmo ao saír do berço, sobreviveu aos +delirios e excessos da anarchia. Nada a detinha, nada a assombrava! +Admirada de uns, execrada do maior numero, mas invencivel, +precipitou-se, demolindo tudo no seu impeto, até, esvaída do sangue +vertido nos patibulos e nos campos de batalha, caír por fim, quasi sem +alentos, nos braços do mais illustre de seus capitães, d'aquelle de quem +Siéyés disséra com persuasão prophetica: «que seria o senhor, porque +sabia, queria, e podia tudo!» + +A ordem restituida por elle, a victoria inseparavel de suas armas, o +esplendor de tantas acções applaudidas, os milagres de uma vontade, a +que ainda obedeciam os obstaculos e o destino, compozeram essa rara +epopêa, de que Napoleão I, grande como Cesar, ou maior talvez, foi ao +mesmo tempo o heroe e o assumpto. + +Guiada pela providencia, a sua mão, ao passo que ia lavrando nas +primeiras paginas da historia d'este seculo as datas memoraveis, com que +se abriu sua agitada existencia, unia, pesada como a de Attila, gloriosa +como a de Carlos Magno, á queda do passado a transformação do presente. + +A fortuna muitos annos constante seguiu-o de triumpho em triumpho, desde +as planicies da Italia, immortalizadas pela sua mocidade, até aos gelos +do norte para os quaes a sorte parecia attrahil-o, e aonde o clarão de +Moscow incendiada havia de illuminar depois os funeraes do imperio. + +Marengo, Eylau, Essling, Wagram, e cem estações assignaladas pelos +prodigios do seu genio, viram a terra gemer abalada pelo galope dos +esquadrões; viram os thronos vacillar, ou alluirem-se; viram os +principios nóvos germinarem grávidos do futuro nos sulcos rotos pela +inundação, quando a onda vencida recolheu ao antigo leito! Abrazada em +odio, ou cortada de espanto, a Europa contemplava aquella epocha de +terremotos e de transfigurações, sobresaltando-se com os decretos da voz +soberana, que falava pela bôcca de bronze dos canhões, e inclinando-se +serva, mas fremente, na presença das aguias, que passavam e revolviam +profundamente o mundo das idéas e o mundo dos factos, desde as bases e +os limites das monarchias, desde o solo e a familia, até ao estado +physico e social, até á organização politica e economica. + +N'esta lucta de gigantes, a França e a Inglaterra, travadas como dois +athletas, combatiam sem escolher as armas. Feriam-se sempre e em toda a +parte! Percebiam que o duello era mortal, e que só podia terminar pela +ruina de uma d'ellas. Aboukir e Trafalgar tinham assegurado a supremacia +dos mares ao leopardo britannico. A Austria impaciente, mas resignada, a +Prussia rendida em Jena, a Russia desenganada em Austerlitz e Friedland +proclamavam a vaidade da liga continental. + +Mas Bonaparte, na maior elevação a que fôra dado subir, tocado o apogeu, +não foi superior á fragilidade humana. Os deslumbramentos da grandeza +trouxeram a vertigem. O abysmo chamou pelo abysmo. Esquecido de que só +Deus é omnipotente quiz e ousou tudo! Gerações inteiras immoladas +semearam de cadaveres o rasto de seus passos. Os povos amaldiçoavam-lhe +a ambição como flagello. As coroas, voando da cabeça dos reis legitimos, +arrancadas pelos furacões da guerra vinham cingir a fronte plebea dos +eleitos da gloria. Retalhando o corpo exanime das nacionalidades +desmembradas pela espada, edificou na areia, suppondo fundir em bronze +esses reinos e dynastias ephemeras, que um aceno tirou do nada, que os +seus revezes sepultaram para sempre. + +Repartindo pelos irmãos e os generaes os diademas e os estados, queria +ter n'elles satrapas, e não soberanos. Murat em Napoles, Joseph em +Hespanha, Luiz na Hollanda, e Jeronymo na Westphalia representaram as +peripecias d'esta ultima e arriscada phase de uma grandeza, que na +usurpação dos sceptros e na provocação das antipathias populares +encontrou o precipicio, a queda, e a lição! + +Portugal, no extremo occidente, abrigado pela distancia das revoluções, +que desmoronavam tudo ao meio dia e ao norte da Europa, não se eximiu +afinal de participar tambem, e com largo quinhão, das infelicidades, que +a nenhum paiz poupou a sorte. A iniciativa do marquez de Pombal, +interrompida pela morte do soberano, que vinte e sete annos o +sustentára, apezar das conspirações da nobreza, e da adversão da familia +real, acabou com o monarcha tão notavel pela firmeza. O poder do +ministro eclipsou-se com o ultimo suspiro do principe, e com elle +expiraram as tradições viris, e os commettimentos reformadores. Um +gabinete quasi todo composto de aulicos, sujeito ao veto do confessor +valido, substituiu o mando odiado do marquez; e este poude vêr ainda do +seu desterro a mão dos emulos alçada contra a arvore, que plantára, +arvore que apenas principiava a cobrir-se de flôres, e á qual a inveja +não deixou amadurecer os fructos. + +A branda e devota indole da rainha atalhou em parte os bons desejos dos +homens, que se prezavam de ainda respeitarem as maximas do grande +reinado. José de Seabra, Martinho de Mello, e após elles D. Rodrigo de +Souza Coutinho queriam continuar no caminho encetado por Sebastião José +de Carvalho; porém divididos em partidos (o francez e o inglez), +offuscados pelas intrigas dos hypocritas, e detidos pelos escrupulos, +que assustavam a consciencia da filha de D. José I, luctavam muitas +vezes em vão com a corrente, e os seus esforços a miudo naufragaram +contra os artificios dos cortezãos, e contra as declamações dos beatos, +senhores de todas as avenidas do paço. + +As providencias uteis, que honraram o governo de D. Maria I, +derivaram-se do predominio conquistado sobre o animo da rainha, sua +penitente, pelo arcebispo de Thessalonica, prelado isento de +preconceitos e ornado de virtudes. Mal elle desceu ao tumulo, a visão +terrivel dos patibulos, erguidos por seu pae, tornou-se uma allucinação +perenne, e as trevas da demencia apagaram para sempre a razão vacillante +da princeza. + +D. João, seu filho, empunhou as redeas do Estado, primeiro sem titulo +expresso, depois com o de regente. Amigo da tranquillidade, avêsso a +complicações e lances arrojados, humano e bondoso, era todavia mais +sagaz e penetrante, do que supporia quem o conhecesse mal. Em suas mãos +a auctoridade soberana podia enfraquecer-se e rebaixar-se, como +aconteceu, mas ferir os subditos, ou irritar os alliados, não! + +Comprada a preço de grandes sacrificios, a neutralidade foi a politica +preferida pela timidez do principe, e ao mesmo passo o arbitrio prudente +aconselhado pelas circumstancias. A republica tinha legado ao directorio +esta amizade inerte, mas facil de conservar; e Napoleão, mais altivo, ou +mais exigente, olhando quasi Portugal como colonia de Grã-Bretanha, não +encobria já no consulado as suas repugnancias pela dynastia de Bragança. + +Dictando-lhe a paz em 1801, e obrigando-a a submetter-se a condições +injustas, nutriu acaso a esperança de que, não podendo executal-as, ella +lhe proporcionasse um pretexto? Não hesitando em animar a cobiça e a +rivalidade do gabinete de Madrid, queria costumal-o a invadir-nos as +fronteiras, offerecidas como pasto áquella ambição estimulada? + +Seja o que fôr, a Hespanha tendo-se valido de nossas armas no +Roussillon, pagou-nos com ingratidões o soccorro, separando a sua causa +da nossa, unindo-se a Bonaparte para nos humilhar, e aproveitando a +sombra dos estandartes francezes para se apoderar de Olivença, que nunca +mais restituiu! + +Na mente de Napoleão I, a idéa de precipitar do throno os Bourbons de +Hespanha, como os expulsára de Napoles e da Etruria, era idéa, que +lançára raizes firmes. No seu tribunal tambem a casa de Bragança era +condemnada por outras culpas. Accusava-a de seguir, como satellite, o +astro da Grã-Bretanha, e queixava-se de que usasse e abusasse da +neutralidade em beneficio dos interesses commerciaes dos inglezes, os +quaes, por meio da oppressiva utopia do bloqueio continental, cuidava +expellir dos mercados da Europa, fechando-lhes todos os portos desde +Lisboa até Cronstadt! + +Inspirado occultamente por mr. Canning, o governo portuguez promettia +excluir o pavilhão britannico de suas praias, e não duvidava affiançar +uma declaração de guerra simulada; mas prender as pessoas e sequestrar +as fazendas dos subditos do rei Jorge, como exigia em nome da França o +seu ministro, mr. de Rayneval, era violencia, que as relações anteriores +e a ruina de grossos capitaes nacionaes e estrangeiros lhe prohibiam. +Recusou-a sem ostentação, mas com vigor. + +Napoleão queria tudo, ou nada! Para elle Lisboa e o Porto eram como +puras feitorias britannicas, e, se não lh'as entregassem, estava +resolvido a mandar os seus soldados conquistal-as. Contava com a +repulsa, e no meio dos mil cuidados, que o salteavam então, acabava de +pôr o ultimo remate ao seu plano. O tractado secreto de Fontainebleau +assignado em 27 de outubro de 1807, affiançava-lhe pela cumplicidade da +Hespanha a estrada militar, de que precisava para realizar a invasão. + +Junot, acampado em Salamanca á testa de vinte cinco mil homens promptos +á primeira voz, apenas aguardava as ultimas ordens. Duas divisões +castelhanas, uma de dez, outra de seis mil soldados, deviam coadjuvar as +operações do exercito francez, apoderando-se a primeira do Porto, do +Minho, e de Entre Douro e Minho, assenhoreando-se a segunda da provincia +do Alemtejo e do reino dos Algarves. O pacto ajustado entre Bonaparte e +Carlos IV, desmembrava o reino em proveito de ambos. O Principe da Paz +lucrava um estado independente de quatrocentas mil almas, composto das +provincias do sul, e denominado o principado do Algarve. A rainha viuva +do duque de Parma, filha querida do monarcha hespanhol, em compensação +da Etruria cedida ao gabinete de Saint-Cloud, recebia um reino de +oitocentos mil habitantes, formado de duas das provincias do norte, com +a cidade do Porto por capital, denominado o reino da Lusitania +Septentrional! + +A marcha dos francezes correu tão rapida e atropellada, quanto era viva +e ardente a impaciencia do imperador! + +Bonaparte ordenára, que entrassem a tempo de salvar das mãos dos +inglezes a nossa esquadra e os thesouros, que ella podia transportar +para a America. A familia real não o preoccupava tanto. Eram alguns +prisioneiros de menos a guardar! Nunca a obediencia foi tão fiel. Junot +voou! Passando a raia em Alcantara, precipitou-se, como torrente, por +meio do paiz, que o ciume da independencia e o amor aos principes +naturaes podia tornar-lhe todo hostil. A cada passo mil perigos o +advertiam da temeridade. Aqui eram serras alpestres, aonde um punhado de +homens resolutos facilmente o sepultaria com seus companheiros de armas! +Além eram solidões, aonde a falta de todos os recursos exaggerava as +miserias com que luctava desde que saíra de Salamanca! + +Os rigores do inverno tempestuoso, as estradas arrombadas e cobertas de +agua, os campos inundados, a falta de viveres, e o odio dos moradores, +dizimavam suas fileiras rareadas pela fadiga, pela fome, e pelas +enfermidades. Tudo se conspirava para o punir e demorar a invasão; o +clima, os habitantes, e o territorio que se via obrigado a atravessar! + +A firmeza do general triumphou. No dia 27 de novembro suas avançadas +batiam quasi ás portas de Arroios, e nas praias de Belem o principe +regente dava o ultimo beijamão aos vassallos consternados! + +No caes e na praça não se via senão lagrimas e confusão. Os parentes +despediam-se, abraçados, como se não esperassem tornar a vêr-se. Os +escalares e bergantins carregavam para bordo as mobilias dos fidalgos e +as alfaias mais preciosas do paço e da patriarchal. Nas ruas apinhava-se +o povo attonito. Cercada do cortejo doloroso do infortunio, a familia +real era o alvo, em que se empregavam os olhos de todos. + +No meio das damas, açafatas, camaristas, e criados, pallidos e +suffocados, o principe D. João, sua esposa a princeza D. Carlota, seus +filhos, e sua mãe a rainha D. Maria I, cujos gritos de demencia cortavam +o coração, diziam o ultimo adeus á terra do seu berço! + +A multidão soluçava e estendia os braços em vão, como se quizesse +retel-os. Um decreto datado da vespera tinha declarado que os conselhos +pusillanimes prevaleciam. Em vez de chamar o reino ás armas, imitando o +valor de seus antepassados, D. João ia refugiar-se além do Atlantico, no +Rio de Janeiro, deixando nomeada uma regencia á qual deferia a triste +missão de abrir as portas da capital ás tropas inimigas. + +Demorada no Tejo pelos temporaes, a esquadra portugueza só largou as +velas no dia 29. Nessa mesma noite arrastavam-se desfallecidos pelos +arrabaldes de Lisboa os invasores, cuja sombra sossobrára o peito de um +descendente de D. João I! Quasi nús, descalços, esmorecidos, recrutas +imberbes com as espingardas cobertas de ferrugem, inuteis, ou partidas, +os soldados do corpo de occupação infundiam mais dó e piedade, do que +temor e respeito no animo dos que os viam desfilar. Escudava-os, porém, +o nome de Napoleão com o seu prestigio. A hora dos desenganos ainda não +tinha batido. + +Junot entrou no dia 30, hospedou-se no palacio do barão de Quintella, e +poz algumas auctoridades suas. No dia 13 de dezembro, depois de uma +parada no Rocio, a bandeira tricolor foi arvorada nas ameias do +castello. Começava o primeiro acto do attribulado drama, cujo desenlace +encerrou a capitulação de Paris, e a abdicação de Fontainebleau! As +tropas hespanholas acompanhavam os movimentos dos alliados. O general +Taranco apoderou-se do Porto; o marquez del Soccorro, senhor do +Alemtejo, adeantou-se até Setubal. As forças dos invasores cercaram-nos +por todas as partes. + +Ás saudades cada vez mais vivas da dynastia desterrada, aos +resentimentos provocados pelo jugo estranho, que, arrogando-se fóros de +conquista em plena paz, cada dia era mais detestado, uniam-se os +aggravos e violencias inseparaveis de uma occupação, que só podia +sustentar-se pelo rigor. + +Amanheceu finalmente o dia 13 de fevereiro de 1808, o qual, rasgando o +véu de todo, revelou sem disfarce os designios de Bonaparte. Rodeado de +soldados e canhões, ao som das salvas das fortalezas de mar e terra, +Junot proclamou sem hesitar a usurpação insolente de todos os direitos +da soberania. A casa de Bragança, disse elle no seu edital, acabou de +reinar. O imperador dos francezes será de ora em deante o protector e o +arbitro dos destinos da monarchia! Para consolar os portuguezes da perda +da independencia, o duque de Abrantes prometteu-lhes mil beneficios, e +assegurou-lhes que um dia até o Algarve e a Beira Alta haviam de ter o +seu Camões! + +Os habitantes preferiam a epopea viva á epopea escrita, e poucos mezes +depois com a espada em punho recordavam as proezas de seus avós, +repellindo os estrangeiros. + +As armas nacionaes picadas e substituidas pela aguia corsa, a +contribuição forçada, decretada em 7 de dezembro de 1807, e repartida +pelos moradores abastados de Lisboa, que nem o pretexto da resistencia +tinham offerecido á cubiça, irritando os animos excitaram tumultos na +capital e rixas em varias terras. + +Correu sangue de parte a parte. Nas provincias os roubos impunes, os +desacatos da soldadesca nas egrejas, e as tropelias de tropas +licenciosas e pouco disciplinadas, ainda cansavam mais a paciencia +publica. + +A sorte da capital e do Porto não era menos infeliz. Lagarde, detestado +pela sua tyrannia na Italia, e Perrot assaz inventivo em oppressões, +cobriam de uma rede de delatores os pontos, onde suppunham que podiam +abrigar-se os seus adversarios, faziam leilão publico da clemencia, e +abriam, ou cerravam as portas das prisões com chaves de ouro. Tinham +pressa de enriquecer! + +Adivinhariam que o seu governo não havia de durar muito? Os factos +provaram mais esta vez ainda os perigos de tão errado systema. Filho da +violencia, apenas o desamparou a força que era o seu unico apoio, +despenhou-se nos abysmos, que elle proprio afundára. + + + + +IV + +O bem soa, o mal voa + + +De ordinario voltam-se contra os poderes odiados os proprios meios +empregados para algemar os povos. As visitas domiciliarias, as buscas, +as denuncias, as multas, os encarceramentos, todos os instrumentos de +tortura moral, em fim, excogitados pelo genio assolador de Lagarde, +produziam effeitos contrarios aos que elle esperava colher, ulcerando o +orgulho nacional, enfurecendo as populações, e predispondo-as para +vingarem no primeiro ensejo todas as offensas de uma vez. + +Em Mafra, aonde um conflicto casual custára a vida, ou o sangue a alguns +soldados de Junot, a crueldade da repressão, confiada ao general Loison, +acabou de exasperar os animos. O desditoso Jacintho Correia expiou com o +supplicio a culpa, quasi geral, da aversão aos invasores. + +Estes rigores, longe de as firmarem, tornaram mais frageis as bases da +dominação estrangeira, que a todos os instante via desabar o edificio +vacillante do seu poder. As devassas e monterias ordenadas contra as +pessoas implicadas n'esta guerra surda, mas implacavel, ameaçando alguns +innocentes, apenas réos do horroroso delicto de aborrecerem a usurpação, +recrutou em favor da reacção patriotica numerosas e decididas adhesões. + +Paulo de Azevedo Carvalho, que no «Moinho da Raposa» ouvimos citar como +uma das victimas da intendencia geral da policia, salvo quasi por +milagre, graças á rapidez da fuga, das garras dos emissarios de Lagarde, +vagueára de asylo em asylo, acossado de perto, mas sempre protegido, +desde Torres Novas até Santarem pela generosa cumplicidade, que lhe +patenteava todas as portas, do palacio até á choupana, apagando logo +depois com discreto silencio o menor vestigio de seus passos. + +Uma imprudencia ajudou os que o perseguiam. Sua filha partiu de Torres +Vedras para ir encontrar-se com elle, e os olhos de argos da policia +seguiram-a na jornada até ao humilde casal, escondido nas mattas da +Aramanha, onde a esperava Paulo de Azevedo, e onde lhe abria os braços a +hospitalidade rude, mas sincera, do honrado fazendeiro Antonio Simões. + +Disfarçados em mendigos ou em jornaleiros, os agentes de Lagarde +depressa descobriram o foragido no seio da casa rustica, em que se +abrigava. Assaltaram-a de noite com um cordão de milicias ás ordens de +Estevan Cabrinha sargento no regimento de Rio Maior, e capaz de vender o +sangue de mãe e irmãos, uma vez que o preço correspondesse. Falharam, +porém, todas as precauções. Cabrinha errou o salto. Avisados a tempo o +pae e a filha evadiram-se na vespera, e o sargento só colheu da ruidosa +diligencia as maldições de Antonio Simões, maldições e despresos, que +estava costumado a engulir, como ossos do officio, mas que registrava +cuidadosamente para as descontar aos devedores na hora opportuna. + +D'esta vez a divida não esperou muito. Uma busca de contrabando sobre +denuncia falsa proporcionou-lhe o desejado pretexto. Antonio Simões da +Aramanha deu-lhe o gosto de entrar dias depois sob seus auspicios na +cadeia de Santarem, quasi arrependido da soltura de lingua, com que +tinha lançado em rosto ao perseguidor as lagrimas e a ruina das +familias, e os crimes contra a patria. O fazendeiro, todavia, não gemeu +nos ferros de el-rei, como se dizia então, sem jurar pelas costellas ao +malsim. Deante de testemunhas protestou moel-o com o cajado de +zambujeiro, especie de clava, que achatava um homem como uma bolacha, e +vozes chocalheiras avisaram o sargento da promessa caridosa. Cabrinha +enfiou. O intendente geral da policia Lagarde servia-se do mastim e +açulava-o contra o Ribatejo, não regateando ao mercenario venal as +recompensas; mas era duvidoso que podesse eximir-lhe o corpo do premio, +affiançado pela gratidão de muitas victimas. + +Em quanto Paulo de Azevedo respirasse livre, o amor proprio e a bolsa de +Cabrinha padeciam, e não era elle homem que dormisse, quando o interesse +o chamava com voz activa. Suppondo o cavalleiro de Mafra ainda proximo, +deixou-o socegar por dias, e valendo-se da ardileza de um subalterno +sagaz, digno assessor de suas virtuosas emprezas, o coxo Gaspar Preto, +conhecido pela expressiva alcunha do _Sapo_, mandou-o bater os +arredores, na idéa de que a vista de lince do agente, com mais +facilidade desencantaria, ainda quente, o ninho aonde se refugiava a +presa. + +Não se enganou. O _Sapo_, cujos brios avivára a esperança de rasoaveis +lucros, entrou sem demora em campanha, e tres dias depois trouxe-lhe a +agradavel nova de que o cavalheiro e sua filha se cobriam com o tecto +modesto de uma casa, pouco mais do que choupana, solitaria, e situada +nas abas da risonha povoação do Casal do Ouro no meio das vinhas e +olivedos, que o vestem de verdura. + +O sargento não perdeu tempo. Apenou seis milicianos fieis ao copo e ao +cangirão, e, acompanhado por elles, prendeu de tarde e á traição a Paulo +de Azevedo e a Leonor. Temendo, porém, que o povo se alvoroçasse, apezar +das ameaças da trovoada metteu-se a caminho, não sem olhar a miudo para +traz, receioso, sobre tudo na charneca, de que a bala perdida de uma +espingarda lhe testemunhasse o reconhecimento grangeado por seus longos +e valiosos serviços! + +O homem põe, e Deus dispõe! A fortuna que o protegêra, detendo Manuel +Coutinho no Cartaxo, sem o que teria encontrado o seu amigo e a sua +noiva presos, (lance de certo fatal ao sargento), mostrou-se logo +contraria a Cabrinha, não demorando uma hora, ou duas mais, tambem, o +temporal, o qual, perto da Ponte da Asseca rebentou com violencia tal, +que o constrangeu, á falta de melhor, e não sem grandes arrepios de medo +seus, e dos soldados, a descançar aquella noite no palacio arruinado, +temido na visinhança pelo significativo nome de _Casa Negra_, ou de +_Casa Maldita_. + +O _Sapo_, entretanto, não ficára ocioso. + +Sabendo que Antonio Simões da Aramanha fôra solto da cadeia de Santarem +por ordem do juiz de fóra, e que n'essa mesma tarde vinha dormir ao +Casal do Ouro, doeram-lhe de repente todos os ossos, como se o cajado +monumental lh'os triturasse, similhante a mangual na eira, e assentou +livrar-se a si e ao sargento da promettida sova, interceptando na +estrada o robusto fazendeiro com uma bala. + +Esperou-o, pois, atraz de um vallado, em azinhaga escura e estreita, ao +anoitecer. Escutando o ruido de passadas cheias renovou a escorva, +engatilhou a espingarda, metteu-a á cara, e com a tranquillidade, com +que poderia desfechar sobre uma lebre, disparou por entre as ramas sobre +um vulto, que vinha dobrando a quina do caminho, e que soltando um grito +agudo baqueou por terra. + +--Deus seja com a sua alma! exclamou o assassino, saltando o vallado, e +contemplando prostrado, e com o rosto banhado em sangue o corpo da +victima, que todavia conheceu pela estatura e pelo trajo ser Antonio +Simões da Aramanha. + +--Está com Christo! ajuntou depois de olhar para elle instantes. Este já +não morde. Falta o Antonio da Cruz!... Tambem lhe ha de chegar a sua +vez! + +Feito este responso, torcendo a perna, e apressando os saltos, em que +despejava mais caminho do que os sãos, o coxo passou por entre as +silvas, e atravessando pelas vinhas e hortas, veiu saír muito distante +do logar do crime, ao alto do valle. + +Soou a noticia do tiro dado em Antonio Simões. As mulheres, que se +recolhiam do trabalho do campo, encontraram o corpo ensanguentado na +azinhaga, e correndo e clamando, tocaram a rebate com a historia do +homicidio por todas as portas. Juntou-se gente, accudiram alguns amigos, +que o morto contava na terra, e em procissão encaminharam-se ao sitio +aonde o desgraçado fazendeiro devia jazer, que era aonde a azinhaga +cortava entre a Ponte de Asseca e a Casa Negra. + +Caso inaudito, e que fez erriçar de espanto as grenhas hirsutas dos +aldeões, por baixo dos barretes de lã e dos chapéus desabados! Nem rasto +da victima! Sómente duas poças de sangue, e a cama feita pelo cadaver na +terra molhada denunciavam a verdade das camponezas e a existencia do +delicto! + +Quem roubára aquelle corpo á sepultura christã? Quem fôra o assassino? A +estas duas perguntas respondia a superstição, que só poderia ter sido o +inimigo do genero humano, porque a azinhaga não se via trilhada senão +dos pés curtos e deseguaes de um homem, que, fugindo, deixára +assignalada no vallado a feição dos joelhos. Aonde acabavam as passadas +fortes e largas dos sapatos de Antonio Simões não havia indicio de mais +nenhumas. + +A chuva caíndo em torrentes, os relampagos allumiando as trevas de +clarões repentinos, e os trovões estalando uns após outros, depressa +dispersaram os curiosos, que a luz de dois archotes, saccudidos e +apagados pelo vento, não confortava muito contra os terrores do inferno, +sobre tudo em tão medonha noite. + +Benzendo-se, e acotovellando-se uns aos outros, recolhiam-se transidos, +ensopados, e cheios de apprehensões, quando alguns mais audazes, que +tinham ousado arriscar a vista na direcção do palacio arruinado notaram, +que duas das janellas, sempre cerradas, deixavam transparecer por entre +as taboas mal juntas uma claridade livida, brilhante na escuridão como +os olhos de um demonio! + +Esta ultima prova do poder sobrenatural do tentador foi tão decisiva +que, trocando o passo ligeiro pela mais despedida carreira, os bons dos +aldeãos, persuadidos de que Satanaz reunia na Casa Negra a sua côrte +plenaria, não pararam senão á porta da egreja parochial, chamando pelo +prior em altas vozes. + +D'onde vinha ao palacio arruinado a má reputação, que afugentava de sua +visinhança os moradores dos logares proximos? Que trasgo, ou que duende +vexava com suas maleficas travessuras a casa ennegrecida pelo tempo, e +rodeada de eterna solidão? + +Construida nos principios do seculo XVII, o gosto depravado do +architecto traduzia-se nos dois pavilhões lateraes, que acompanhavam o +corpo do edificio, esmagados pelos tectos, e massiços como duas +cidadellas, carregadas de tristeza. Revestidos de pesadas cantarias, com +as janellas estreitas e de volta baixa, e as portas abafadas de lavores +e ornamentos desgraciosos, o ar e a luz só a medo podiam circular pelas +immensas salas e pelos extensos e escuros corredores, em que se +repartia. + +Solar desamparado, por mais de um seculo via-se as ervas crescerem nos +pateos e eirados, as eras enrolarem-se pelos muros gretados, e os +telhados verdejarem cobertos de plantas parasitas. Os anciãos mais +antigos na terra, não se lembravam de nunca terem visto o dono d'aquella +casa condemnada, e todos os annos os invernos, succedendo-se, e +penetrando pelas brechas não reparadas, accumulavam ruinas sobre ruinas, +estragos sobre estragos. + +As lendas populares explicavam o destino singular d'aquelle palacio, o +qual de certo vira dias mais ditosos, quando as malvas e ortigas não +afogavam os canteiros de seus jardins, quando os entulhos não cegavam os +canos á fresca lympha, que jorrava em tórnos de agua crystallina para os +largos tanques de marmore, quando, finalmente, as colgaduras de couro e +os pannos de raz não pendiam em farrapos das paredes fendidas e +esverdeadas, e as manchas de humidade não desfiguravam os relevos e +molduras dos tectos. + +Que horroroso crime expiava o palacio deserto, cujos vigamentos pôdres +estalavam com o peso de telhados arrombados, cujos moveis roidos de +caruncho se desfaziam no pó da velhice e do abandono? + +Contava a tradição que dois irmãos rivaes haviam disputado a mão de uma +formosa dama, causa innocente do seu infortunio, e que o menos ditoso na +porfia, como Iago, convertêra em desespero a felicidade do competidor, +envenenando-lhe de suspeitas os amores. Não valeram prantos e supplicas +contra as allucinações do ciume! O sangue da esposa e o sangue do filho +innocente, doce fructo do seu enlace, vertido em um momento de delirio, +vingou os zelos do marido, que suppunha lavar com elle a nodoa do nome e +do brazão. Horas depois, mas sem remedio, descobriu-se a perfidia, e o +desgraçado caiu em si do delirio, e viu-se tornado o verdugo de si mesmo +e dos que mais estremecêra no mundo. O que passou n'aquella noite entre +os dois irmãos é segredo, que dorme com ambos na eternidade. Sómente ao +romper da aurora mais um cadaver descia ao jazigo da capella, e o +infeliz, sobrevivendo á morte de todos os affectos, e algoz de todos +elles, na edade de vinte e cinco annos, quando partiu para não voltar, +mettia horror á vista. Os cabellos e o rosto eram já os de um velho. +Bastaram poucas horas de remorso e de agonia para lhe consumirem a vida +e a mocidade. + +O lucto do senhor cubriu a casa, theatro de tantos crimes. Deshabitada, +fugiam d'ella donos e creados como de um logar maldito. Sempre êrma, e +sempre muda, só os echos accordavam n'ella com o anniversario do +terrivel drama. O velho guarda, ao qual primeiro foram confiadas as +chaves, despertando sobresaltado por horas mortas, subiu ao andar nobre, +e caiu sem sentidos, paralyzado pela visão terrivel, que se lhe +representou alli. + +Viu uma fórma branca e suave, com os cabellos esparzidos sobre o collo, +atravessar, chorando, as salas. Apertava ao peito uma creança +adormecida, e seguia-a outro espectro ameaçador com o punhal erguido. +Atraz, uma figura contemplava aquella scena rindo com satanica alegria. +Os lustres accesos por si mesmos entornavam torrentes de luz livida +sobre os aposentos. Os gemidos e soluços das victimas, o tinir dos +ferros, as risadas e as imprecações retratavam ao vivo o tremendo +espectaculo, em que o parricidio e o fratricidio tinham desempenhado os +principaes papeis. O velho enlouqueceu de terror. + +Desde então ninguem mais quiz tomar conta do palacio. Os morgados +deixaram-o caír em ruinas a pouco e pouco, e quando os francezes +sequestraram por ausente os bens do fidalgo, aquellas paredes infamadas +não acharam comprador. O fisco não quiz para si senão a posse das +terras, e arrendou-as. Parece, todavia, que a invasão dos estrangeiros +excitára a cólera das potencias sobrenaturaes, porque nunca se tinham +mostrado tão malfazejas e ruidosas. Um allemão excentrico, apostando +hospedar-se alli uma noite inteira, foi achado ao amanhecer sem fala, +nem movimento, e seis mezes depois ainda tremia quando lhe lembravam a +aventura da Casa Negra. + +Era, pois, desculpavel o susto dos aldeões. Vendo a luz coar-se através +d'aquellas janellas sempre escuras, e não achando o corpo de Antonio +Simões no sitio aonde fôra assassinado, tudo attribuiram aos maleficios, +e escudando-se com o amparo da egreja, invocaram a protecção do parocho, +persuadidos de que as iras divinas, provocadas pelas abominações dos +jacobinos, haviam quebrado a lousa das sepulturas, soltando os espiritos +das trevas para flagello e confusão dos inimigos de Deus e de el-rei. + +Entretanto, cousa notavel (!) n'esta assembléa dos homens bons do logar, +como diria um foral de nossos avoengos, faltava o João da Ventosa, o +orador popular por excellencia, o Hortencio, o Eschino laureado +d'aquellas visinhanças! O que o detinha? Pouco timorato por indole, e +até para a epocha e para a educação assaz limpo de abusões, trazia de +renda as terras da Casa Negra, pegadas com uma horta sua; mas se alguem +lhe tocava na ruim visinhança do palacio, prendia-se-lhe de repente a +voz, e uma visagem avinagrada torcia-lhe o semblante. Era mais orthodoxo +n'este ponto, do que o cura. Os contos de visões e de almas penadas, que +repetia, não concorriam pouco para entreter o pavor dos companheiros de +copo e de touradas, os quaes se espantavam, de que elle tivesse animo +para metter o arado e a enchada em terras, que mais deviam reputar-se +vinculadas ao demonio, do que administradas pelo bondoso morgado, que as +disfructára. + +Mas como as terras eram excellentes e criavam bem, e como, não sendo +affrontado por competidores, elle as trazia quasi pelo que queria dar +por ellas, o João da Ventosa continuava a amanhal-as, e a servir-se das +officinas do palacio, e até de algumas casas do andar terreo. Peccado de +avareza que as almas pias e tementes a Deus prognosticavam, que lhe +seria funesto um dia, arriscando-se a que o demonio, enfadado com o +atrevimento, levasse pelos ares n'um furacão os bois, as charruas, o +lavrador, os carros, e os telhados! + +Nunca lhe viam o trigo e o milho na eira, que não rosnassem por entre +dentes: «Queira Deus que o meu compadre uma vez se não arrependa. De +parceria com o demo nunca ninguem medrou!» O João, como bom christão, +ouvia-os, suspirando, queixava-se da carestia dos tempos, que obrigava o +pobre a fazer pão até das pedras, e ia attestando de saccos o celleiro, +dizendo sempre que muitas noites não podia pregar olho com o alarido +infernal, que ía lá por cima. + +Dadas estas informações essenciaes, que o leitor benevolo desculpará, +tornemos á nossa historia, e acompanhemos as diversas pessoas, que estão +em scena, esperando por nós, tanto no Moinho da Raposa, como na Casa +Maldita. + +Quanto aos honrados aldeões, apinhados defronte da porta do reverendo +prior, não nos dê cuidado a sua inquietação. O parocho, consolando-os +com duas maximas em mau latim de orelha, prometteu-lhes exorcismar, +mesmo de longe o espirito maligno, e recommendou-lhes que se recolhessem +e abafassem depressa, porque a noite estava medonha, e o anno corria +infamado de pleurizes e catharraes. Dito isto lançou-lhes a benção da +janella, e foi sentar-se á mesa para não deixar esfriar a ceia. As +ovelhas imitaram o pastor, e meia hora depois, acalmado o alvoroço, +reinava na aldeia o mais profundo socego, apenas interrompido pelos +latidos de algum cão impertinente, e pelas rajadas da chuva e do vento, +com que a tempestade açoutava as copas das arvores, e fustigava os +telhados das casas. + + + + +V + +Não ha atalho sem trabalho + + +Transportemo-nos sem demora ao andar baixo da Casa Negra. + +As duas portas da fachada estão fechadas, mas um estreito postigo, que +abre para o pateo, apenas se acha cerrado. Entremos por elle, e, +seguindo o som das vozes, continuemos, apalpando no escuro as paredes, +que se esfarelam de humidade pelo comprido corredor. + +É uma especie de dormitorio ladrilhado com portas á direita e á +esquerda, provavelmente accommodações dos creados do palacio, quando +fôra habitado. As taboas do tecto, podres e despregadas, ameaçam cahir +sobre a cabeça, e aqui e acolá montes de caliça dos muros esboroados +promettem um desabamento proximo. No topo uma porta derreia-se pendente +a meio cutelo do ultimo leme enferrujado. + +Atravessemos depressa! Estamos em uma casa de abobada, fria e surda, com +duas frestas engradadas. Subamos aquelles tres degraus, e guiemo-nos +pela claridade baça, e pelo alarido que da extremidade de outro corredor +nos estão avisando de que na estancia immediata conversam, ou disputam +muitos homens. + +No fim do corredor apercebem-se os vãos de duas escadas interiores, +cujas vigas e degraus carcomidos tremem de velhice. Uma fenda larga +racha ao meio a grossa parede, que as divide. Duas portas com travessas +cerram a entrada das escadas, lançadas dos lados em ramos divergentes +para o andar de cima. + +Empurremos agora as taboas mal juntas de outra porta, que nos veda a +vista, e adeantemo-nos. O espectaculo que vamos presenciar vale a fadiga +a que nos sujeitámos. + +É a cozinha, terrea e toda de abobada, com fornalhas ao fundo e chaminés +enormes. Uma immensa pia de pedra á direita, e uma mesa tambem de pedra +á esquerda, compunham a mobilia primitiva. Na lareira ardem e estalam +grossos troncos de arvores, cortadas em verdes, e á roda da chamma +afogueada e crepitante, sentam-se os novos hospedes do palacio. Pelas +tres janellas lateraes sem vidraças sopra o temporal ás rajadas, e a +chuva salpica dentro fustigada pelo vento; dos canos das chaminés, meio +alluidas, escorre a agua, e geme o vendaval, afogando os silvos em +sussurros prolongados. O clarão dos relampagos, golfando quasi sem +interrupção, allumia de phantasticos e subitos clarões as paredes e o +chão lageado da enfumnada, sombria, e vasta quadra. + +No recanto, formado pelo angulo da chaminé, e pelo angulo de um grande +armario embocetado, esconde-se, quasi suspensa, uma escada de caracol, +toda de pedra, ainda menos mal conservada. Defronte da porta da sahida +dois arcos de volta mui baixa, parecidos a bôccas de furna, communicam +para a cave e para a arrecadação, ambas subterraneas e extensas. + +Uma especie de lampião, em que são mais as folhas de papel azeitado, do +que os vidros, balouça-se pendente de cadeia de ferro presa no tecto. + +Uma tosca mesa de quatro pés, coberta de toalha, cuja alvura +desappareceu debaixo da ramagem caprichosa das nodoas de vinho e de +gordura, levanta-se no meio da casa. Pratos e garfos, um tacho colossal +de migas com a classica colher de pau enterrada na appetitosa assorda; +dois cangirões de vinho, e canecos monstruosos, uma cesta de laranjas ao +pé de uma frigideira de queijos brancos, ladeiam a peça capital do +brodio campesino, um cabrito acerejado, rodeado de batatas, e credor de +tentar a gula do mais austero cenobita. + +Finalmente, sobre a mesa de pedra, coberto com um capote de cabeções, do +talho pouco airoso dos chamados Josésinhos, com um tronco por +travesseiro, e um panno ensanguentado sobre a cara, jaz um vulto, que a +immobilidade rigida dos membros, e duas vellas uma aos pés, outra á +cabeceira, dizem claramente ser um cadaver. + +De vez em quando os olhos dos que velam bem contra vontade o seu ultimo +somno, voltam-se para elle, e afastam-se rapidamente, como se temessem, +que a trombeta final, soando mais cêdo, o despertasse. O sargento +Cabrinha e o seu honrado confidente Gaspar Preto, o _Sapo_, as pessoas +conspicuas da assembléa nocturna, em que a nossa indiscreção introduz o +leitor, são as que olham mais a miudo, e de cada vez que fitam vista +n'aquelle corpo inerte, um calafrio arrepia-lhes a espinha dorsal, e um +suor de mau agouro, apezar da temperatura, borbulha na testa de ambas. +Dariam tudo por se verem a cem leguas da companhia d'aquelle morto, cujo +sangue o seu remorso, como que está avivando mais em manchas vermelhas +sobre o sudario, que lhes esconde o rosto. + +Os principaes auctores concordam com o logar e com os accessorios. + +Comecêmos pelo chefe, como é razão. + +A physionomia de Estevam Cabrinha não desmente a reputação. Conta pelo +menos sessenta annos, mas póde melhor com elles, do que outros, menos +robustos, poderiam com quarenta. A testa esguia e deprimída lembra a +fronte felina, e a mobilidade de duas profundas rugas, cavadas logo por +cima dos sobrolhos, ainda torna mais sensivel a similhança. Faces +encovadas, beiços sorvidos, barba revirada, e por cima da pelle uma côr +assanhada de amora mansa, não lhe permittem suppor-se por certo nenhum +Cupido, nem seccar-se, como Narciso, de paixão pela belleza propria. + +O nariz, adunco, em fórma de bico de papagaio, caía como apagador, +ornado de botões vinosos, sobre a bôcca. Os olhos, cujo raio visual se +torcia com sinistra expressão, tinham aquelle tom baço e frio de +pupillas, que revela quasi sempre as almas traiçoeiras. Curto de +pescoço, largo de hombros, e prendado com uma corcova assás volumosa, +imita nos movimentos lentos o pesado garbo do urso dos Alpes. + +O ventre proeminente, e as pernas delgadas provam, que pouco tinha que +agradecer á providencia as graças do busto. Os cabellos hirsutos, +empastados na testa, alargam-se como duas orelhas derrubadas sobre as +fontes, e terminam por um rabicho esplendido de meio covado de comprido, +dançando enfeitado de seu laço de fita preta sobre a farda, +polvilhando-a de pós, e ensebando-a de banha. + +Um bigode, quasi todo branco, espetado nas guias, como as sedas de um +chicote, e o resto da cara rapado e escanhoado cuidadosamente, afinam +perfeitamente o typo singular e repugnante d'este personagem funesto, +que as desgraças civis fizeram sobrenadar com as escumas sociaes, mas +que as galés cêdo, ou tarde, hão de recolher, como filho prodigo, se as +iras populares se lhes não anteciparem. + +Trajava a farda de milicias, de panno azul ferrete, botões e vivos +brancos, abas de tesoura, e gola de espeque. Os calções de uniforme e as +polainas atraiçoavam-lhe a magreza das pernas. A espada de bainha preta +e copos de roca descançava fóra do boldrié a seu lado, e a alabarda, +insignia do posto, via-se encostada da outra parte. + +O _Sapo_ merecia a alcunha. Teria trinta annos. Era todo branco-papel, +cara e cabellos, como se um moleiro o tivesse amortalhado em um sacco de +farinha, mas d'aquelle branco livido e sepulcral, que nos enoja e +repugna, quando contemplâmos qualquer reptil asqueroso. Uma queda em +pequeno tinha-lhe deixado em memoria a deslocação da perna esquerda, +que, torcida quasi em rosca de parafuso, o obrigava a andar aos saltos +como a rã, ou a agachar-se, como o animal immundo, cujo nome o baptismo +dos visinhos substituira ao seu. + +Quasi sem nariz e beiços, vesgo, e da altura de um rapaz de nove annos, +não mostrava no rosto ponta de barba, e quando se ria escarnava as +gengivas e os dentes, de modo, que as mulheres lhe chamavam por escarneo +o bôcca de tubarão. Agil e matreiro, como a raposa, a sua actividade era +incansavel, a sua consciencia larga como o peccado, o seu coração duro +como um penhasco. Caçador dos mais destros, andarilho infatigavel apezar +das pernas, curioso e falador como um cento de comadres, ouvia, sabia, e +aproveitava tudo. + +Accusavam-o de não perdoar aos outros a fealdade propria, e de se +felicitar com os alheios males. Auctor de alguns furtos industriosos, +espião e delator por officio, assassino por vocação, Gaspar Preto, como +o imperador romano, desejaria ao genero humano uma só cabeça para lh'a +decepar de golpe. Vestia calções curtos atacados sobre as meias de lã, +botas de couro branco e salto de prateleira, collete e vestia de +belbutina com botões ôccos de metal amarello, e cinta escarlate muito +apertada ao corpo. + +A espingarda, sua fiel companheira, estava sempre á mão, e a tiracolo +encruzavam-se-lhe sobre o peito as correias do polvorinho e do +chumbeiro. A navalha de ponta e de cabo de osso, que trazia na cintura, +era afamada em toda a comarca pela habilidade, com que a jogava, ou com +que sabia atiral-a de arremesso aonde punha o alvo. + +Os cinco homens da milicia e da ordenança, que acompanharam o sargento +na diligencia ao Casal do Ouro, não merecem menção especial. Aldeãos +corpulentos cabeceavam de somno ao calor do lume, e bocejavam de fome ao +tinir dos pratos, que um creado do João da Ventosa principiava a pôr em +cima da mesa. O João, sim, esse é que destaca de todo o grupo pela +figura, pelos gestos, e pelo aspecto na realidade digno de exame. Será +homem de quarenta e cinco annos, mas não inculca mais de trinta e oito. +Bem posto e proporcionado de membros, mais esbelto, do que robusto, á +primeira vista, mais engraçado, do que forçoso na apparencia. A cara +redonda e os beiços grossos e sensuaes, o olhar fino e malicioso, e a +bôcca cheia de riso, na sua mocidade tinham feito d'elle o enlevo e o +adonis das bellas e namoradas raparigas d'aquelles contornos; porém +debaixo d'estas fórmas quasi delicadas escondia elle vigor pouco vulgar, +assim como o sorriso meio travesso, que lhe bailava nos labios, +disfarçava uma firmeza e penetração mui pouco usuaes. + +Sabia ler, escrever, e contar como um mestre--eschola. Se tivesse +nascido trinta annos depois, n'estes felizes tempos, era de certo juiz +eleito, regedor, vereador, e quem sabe (!) talvez mesmo deputado! Outros +muito peiores deu já á luz a urna rural. São os que, cerzindo umas abas +de paletó á jaqueta hereditaria, mascarram de interpellações boçaes e de +apoiados taurinos e beocios o extracto das sessões, acotovellando-se nos +aditos da tribuna. + +O nosso amigo contentava-se, porém, com os seus trinta a quarenta moios +de colheita, com as vinte pipas de azeite, que expremia nos seus +lagares, com os toneis attestados de vinho puro e genuino, honra e +orgulho da sua adega, e com a vara de juiz de vintena, magistratura +exercida a contento de clero, nobreza e povo. + +O João da Ventosa, ou João Bonito, como lhe chamavam as mulheres da sua +edade, gosava álém d'isso da fama de rico, pastava bons rebanhos na +charneca, fazia dinheiro de tudo, e abotoava-se com um bom par de +louras. Solteiro e jovial vivia só em companhia de um sobrinho de +quatorze annos, e de dois creados. + +Ao pôr da tarde, vendo a trovoada armada, tinha ido de passeio rondar as +hortas e o olival, tinha deitado depois até ás abegoarias, e na volta de +uma das arribanas, por encurtar caminho, viera descair á azinhaga, aonde +a espingarda do _Sapo_ acabára de deitar por terra Antonio Simões da +Aramanha. + +O estrondo do tiro, a hora e o grito do ferido obrigaram-n'o a apertar o +passo. Assim mesmo chegou tarde. O assassino já tinha saltado o vallado, +e o corpo do fazendeiro jazia prostrado. Era quasi noite, choviscava +rijo, e o ribombo dos trovões amiudava. Inclinou-se para o morto, +conheceu n'elle um amigo de vinte annos, exhalou um suspiro, rosnou uma +praga contra o homicida, e, depois de alguns momentos de hesitação, +levantou-o nos braços, como se o peso não o devesse ajoujar, e +deitando-lhe a cabeça sobre o hombro, sem vergar, encaminhou-se com elle +para casa. Á porta chamou o maioral e o abegão, e todos tres +transportaram o cadaver para a cozinha. + +Duas horas depois batia á porta o sargento Cabrinha com os seus +milicianos, e da parte da justiça pedia agasalho por aquella noite para +elles e para os presos. O João da Ventosa, ao que parece, estava +occupado, porque os deixou repetir o recado terceira e quarta vez. + +Por fim veiu abrir em pessoa, e desculpando-se com o mau tempo, metteu o +sargento na cozinha com os acolytos, e guiou Paulo de Azevedo ao andar +nobre, a um aposento mais bem reparado, aonde um leito antigo de +balaustres enroscados e baldaquino de seda carmezim, cama quasi regia, +parecia esperar por elle. O quarto de D. Leonor era ao lado, e +communicava por uma entrada baixa com o de seu pae. Cabrinha assistiu ao +aquartelamento dos presos, visitou o corredor e a escada, que era a que +dava para a cozinha, sondou a parede de duas portas entaipadas de +fresco, que abriam d'antes para o corpo do palacio, e não socegou senão +depois de ter fechado o cavalheiro de Mafra e sua filha a duas voltas de +chave nas duas camaras, que um official amigo do rendeiro havia separado +do resto da casa, enchendo de pedra e cal o vão das portas. + +--A menos de não lhes nascerem azas de repente, murmurava o sargento, +para voarem, ou de passarem como espiritos através dos muros, os dois +estão seguros. A evasão pelas janellas, vista a altura, equivale a um +suicidio; e pela porta, mesmo que a arrombem, como não ha senão uma +escada e uma saida, e ambas vão dar á cozinha, aonde conto acampar, +qualquer tentativa serviria só de os tornar a metter nas goelas do lobo! + +Tomadas todas as cautellas, que a prudencia aconselha, Estevam Cabrinha +desceu com o seu hospede, e principiou a apalpal-o, ácerca da +generosidade, que lhe suppunha de não consentir que elle e os seus +jejuassem só com o leve almoço, esmoido no largo passeio do Casal do +Ouro á Ponte da Asseca. João da Ventosa respondeu ás gargalhadas, que de +sua casa nunca saiam barrigas famintas, e gritando pelos creados, mandou +trazer luz e accender o lume. + +N'este momento entrou o _Sapo_. + +Rondando as visinhanças o virtuoso assessor do sargento achou a porta +meio cerrada, ouviu de fóra a voz aspera e roufenha do amo, e sem mais +ceremonia inseriu-se no texto, enfiou o corredor, e veiu farejar a ceia +e a pousada. + +A manta, em que se enrolava, escorria como se fôra tirada de um tanque, +e as botas atascadas de barro denunciavam a larga excursão de que se +recolhia. Approximando-se de Cabrinha, tocou-lhe no hombro, e disse-lhe +ao ouvido duas palavras. O digno mandarim recuou sobresaltado, e não +poude conter uma exclamação em alta voz, exclamação de susto e de +alegria ao mesmo tempo, que não escapou á curiosa attenção, com que o +João da Ventosa espreitava e escutava com todos os sentidos vigilantes o +dialogo confidencial dos dois personagens, cujas proezas conhecia de +longa data. + +As suspeitas, que desde o principio o tinham assaltado ácerca dos +verdadeiros auctores do homicidio da azinhaga, confirmaram-se. + +Estevam Cabrinha era muito capaz de encommendar a morte do fazendeiro, e +Gaspar Preto muito obediente servo, em se tractando de um crime, para +elle os não accusar secretamente do delicto, e não vêr as mãos de ambos +tintas no sangue do seu amigo. Sabia a historia da prisão de Antonio +Simões, não ignorava a promessa indiscreta que elle fizera, de varejar +as costellas do sargento e do _Sapo_, e o mau conceito que formava +d'elles, auctorizava-o a crer que o tiro e a espera haviam partido de um +plano concertado com a deliberação e perversidade, que tanto +caracterizavam o coxo, e o seu Mecenas. + +Mas se o sargento era jubilado em velhacaria, e se o seu fiel Achates +tinha estanhadas a alma e as faces, João da Ventosa lisongeava-se de os +codilhar a ambos em esperteza, e armára uma rede, em que haviam de cair +por força. Calou-se, pois, e esperou. + +D'ahi a pouco o moço dos bois appareceu com o velho e cansado lampião, +cuja luz mortiça só começou a avivar-se depois de pendurado. Logo atraz +outro creado atirava ao chão com um grande feixe de matto secco, e +arrastando para a lareira dois cepos de oliveira, petiscava lume com o +fuzil, e incendiando tudo ateava uma labareda, cujos clarões, lambendo +as paredes da vasta chaminé, derramaram por toda a casa viva e repentina +claridade. De subito o sargento, que se achava com o _Sapo_ junto da +mesa de pedra, olhou, viu o corpo, e por um gesto machinal e +irresistivel extendeu a mão, e levantou o panno que lhe cobria o rosto. +A vista encandeou-se-lhe, os cabellos erriçaram-se-lhe, e um grito de +espanto truncou-se-lhe suffocado na garganta. As côres rubicundas +amorteceram-se, e, se não se ampara com a hombreira, resvalava redondo +no chão, tão fracos lhe fugiam os joelhos. + +Gaspar Preto ainda revelou mais horror. Recuando até á parede com as +mãos abertas como para afugentar de si a visão terrivel, parecia +metter-se pelo muro dentro, com os cabellos em pé, as pupillas +envidraçadas, e tal convulsão em todo o corpo, que o frio de uma sezão +mortal não podéra ser maior. + +Os milicianos boquiabertos contemplavam o cadaver, e a figura singular +de Estevam Cabrinha e do coxo, que não eram santos da devoção de nenhum +d'elles. + +João da Ventosa sorria-se para dentro. Dir-se-hia que fulminava os dois +cumplices com o sombrio fulgor dos olhos. Um instante depois pousou a +vista, sereno e temperado, sabendo conter-se e dissimular para não se +prender no mesmo laço, que tecia aos outros. + +Seguiram-se as explicações. O rendeiro com a voz macia, cujo timbre era +quasi feminil, e aquelle ar de rir bondoso, que encobria tanta cousa, +desculpou-se da triste companhia, que era obrigado a dar aos hospedes. + +Tinha encontrado, disse elle, Antonio Simões morto, apenas o conhecia de +vista, mas não tivera animo de deixar o corpo de uma creatura de Deus +exposto no caminho toda a noite. Não havia outra casa decente, aonde +esperasse a sepultura christã, e o tempo e a hora não permittiam chamar +o padre, e deposital-o na egreja. Ao passo que explicava isto, o +compassivo João accendia de vagar duas vellas de cêra, amarelladas dos +ocios da gavêta, e cravando-as nos castiçaes de estanho amolgados, punha +uma aos pés e outra á cabeceira do morto, completando com todo o socego, +e de proposito, a exposição funebre, que arripiava os circumstantes, e +especialmente o sargento e seu confidente, constrangidos a associar toda +a noite o banquete e o somno dos vivos ao espectaculo do cadaver +ensanguentado da sua victima. Se ambos podessem ler na alma do homem, +que lhes estava falando, ainda haviam de tremer mais! + +Na mente d'elle tudo isto apenas era prologo! + + + + +VI + +Ressurreição de Lazaro + + +Decorreram minutos sem que as mandibulas de Estevam Cabrinha, deslocadas +pelo terror, podessem volver ao estado natural. Nem articulava, nem +balbuciava. Só a pouco e pouco é que se foi restaurando do susto, e +maldizendo o _Sapo_, o rendeiro, e aquella funesta casa, regougou meio +desvairado uma evasiva para desculpar o pavôr, que o accommettêra, e que +não era senhor de disfarçar. + +Os seus nervos estavam tão delicados, que a vista do sangue e do +cadaver, tirava-o de si, e tornava-o mais fraco, do que uma mulher! +Entretanto fazia o possivel por ser homem; mas pedia por tudo o que +havia de santo no céu e na terra, que o não obrigassem a velar a noite +ao pé do morto, se em vez de um, não queriam enterrar dois cadaveres. + +João da Ventosa affectou clemencia. Capitulando com os terrores do +sargento prometteu dar-lhe um quarto retirado no fundo do corredor, +depois da ceia. Pediu-lhe depois licença para ir cuidar dos hospedes +presos, que desejava receber como pessoas nobres, e que a má reputação +da casa por certo assustaria, sobre tudo na escuridão, e com o temporal +que parecia arrancar as arvores e os telhados. Cabrinha suspirou, e com +um aceno respondeu que sim. Sentia-se gelado, e o coração batia-lhe com +tal força, que parecia querer saltar fóra do peito. + +O lavrador accendeu dois candieiros de latão amarello de tres bicos, +pesados e disformes, pendurou pela argola um em cada mão, e começou a +subir a escada, escoltado por Cabrinha, que apezar de meio tonto, e de +tartamudo de mêdo, sempre desejou certificar-se outra vez de que a +gaiola, como dissera antes, era solida, e não deixaria escapar os +passaros. + +Um creado poz a toalha, trouxe queijos e pão, e reanimou o alento dos +milicianos, collocando triumphalmente em cima da mesa um bojudo cangirão +e dois canecos de estatura descommunal, destinados ás libações. Os +soldados chegaram-se a principio timidos, partiram e saborearam o +queijo, acharam-o excellente, provaram o vinho, que estava ainda coberto +da espuma da pipa espichada de proposito, e romperam o assalto, +esquecendo gradualmente o morto, o sargento, e o _Sapo_, o qual, +agachado como fera medrosa a um canto da chaminé, só dava signal de vida +nos estremecimentos, que lhe saccudiam os membros. + +A demora de Cabrinha em cima foi grande. Quiz assistir a todos os +arranjos, que a velha servente do rendeiro determinou, e que ia +executando com a mão vagarosa por entre as orações resmungadas entre +dentes a Santa Barbara e a S. Simeão Stelita, advogados contra os +trovões. + +Viu, pois, lançar nas camas os lençoes de linho fino e defumados, +recheio das arcas do lavrador; viu enfiar as fronhas e os travesseiros +de folhos com fitas azues; viu deitar as colchas de seda da India +matizadas, e pregar as cortinas dos leitos. Immovel e calado os seus +olhos vigiavam tudo, mas o seu espirito ausente estava ao pé do morto. +Finalmente os moços trouxeram a ceia em bandejas largas, e a creada +velha despediu o amo e o sargento, declarando que ficava e dormia perto +dos presos para os servir. + +Cabrinha saiu atraz do seu amphytrião, fechou a porta, e metteu a chave +no bolso. Por este lado estava tranquillo. Restava a ceia com o cadaver +defronte. Essa é que se lhe representava um supplicio insupportavel; e +se não fosse o receio, com que o remorso ata a lingua dos criminosos, +teria pedido um pedaço de pão secco, um ou dois goles de vinho, e iria +para o meio da estrada esperar que nascesse o dia, mesmo em risco de uma +pancada de agua o ensopar, ou de um raio o fulminar. Não se atreveu, +porém. De cabeça baixa e passos incertos, sem ousar olhar, e não +podendo, todavia, apartar a vista da mesa de pedra, veiu sentar-se ao +brazeiro, do outro lado, defronte do _Sapo_. Ao mesmo tempo o João da +Ventosa consultava o immenso relogio de prata, e, vendo apontadas no +mostrador as dez horas, gritava pelos creados, que apressassem a ceia, +se não queriam que elle e seus honrados amigos morressem alli todos de +fraqueza. + +--Vamos! exclamou. Andar! Esse cabrito não acaba de sair do lume, +mandriões? Para temperar umas migas será preciso chamar o cozinheiro do +patriarcha? Oh Pedro? As batatas cozam-n'as no borralho!... Ficam mais +gostosas. Dêem-me d'aquellas laranjas de casca fina do pomar de cima, +que eu apanhei hontem. Tirem o vinho da pipa nova! Bem basta a +inferneira que logo ahi vae em sendo meia noite! E então com esta visita +em casa! E apontava para o morto. É preciso que o demonio e as almas do +outro mundo, quando vierem, nos achem confortados e quentes de estomago, +limpos de coração, e lavados de consciencia... Que tal é esse vinhinho, +camarada? Ajuntou pedindo o caneco a um dos milicianos, ao qual o seu +discurso petrificára os movimentos, conservando a taça rustica a meia +distancia da mesa e da bôcca sem animo de a depor, ou de a sorver. Os +outros, pallidos e sobresaltados, olhavam espavoridos para as portas, +para as paredes, e para a mesa de pedra, e benziam-se, suppondo ver já +um espectro em cada canto. + +--Vamos! ajuntou. Á nossa saude! E que Deus nos livre por muitos e bons +annos de um amigo, como encontrou aquelle que alli jaz! E emboccando o +caneco deixou cair do bico o vinho em fio dentro da bôcca á moda +hespanhola, engorgitando-o lentamente com delicias. + +O brinde funebre produzira o seu effeito. O sargento poz-se em pé e +desabotoou tres botões da farda. Sentia-se a arder. O _Sapo_ agachou-se +mais, e ouviam-se-lhe distinctamente bater os dentes. + +--A ceia! A ceia! Rapazes! clamava o lavrador acompanhando o rebate das +vozes com fortes punhadas em cima da mesa. + +Os creados acossados por estas impaciencias, verdadeiras, ou fingidas, +saccudiram a preguiça, e a correr acabaram de pôr a mesa, a correr +trouxeram as migas e o cabrito, e a correr tambem vieram com as batatas +e as laranjas. O cangirão refrescado por segunda visita á adega estava +cheio até á borda. + +--Vamos a ella? gritou o dono da casa. Senhor sargento, chegue-se para +os bons, e será um d'elles! sente-se do meu lado. Tu, meu _Sapo_, com +essa cara de alvaiade vae para alli. És curioso, e quero que me +espreites o defunto a ver se bole com a alegria dos vivos! Os camaradas +accommodem-se aonde poderem! Desculpem as colheres de pau e os garfos de +ferro. A pratita, que tinhamos, está em Lisboa; nos tempos, em que +vivemos, digam lá o que disserem, sempre é o mais seguro... Nada de +tristezas! Longe vá quem mal nos quer! Senhor sargento á nossa! É bom +copo, tenho ouvido, mas o João tambem não arreia. Encha-me esse caneco +até cima, e despeje-m'o de um trago, senão digo que o vinho é mau, ou +que debaixo de boa capa ruim bebedor! + +Por um esforço heroico Estevam Cabrinha conseguiu obedecer. Não tinha +sêde, nem fome, tinha medo. A ceia era para elle um martyrio, sobre tudo +com as costas viradas para o cadaver, cuja sombra se lhe figurava a cada +momento alevantada por cima dos hombros. O _Sapo_ não padecia menor +tormento. Com o morto e a vista do sudario ensanguentado defronte +enlouquecia de terror e de afflicção. Suas pupillas dilatadas não podiam +despregar-se d'aquelle testemunho irrecusavel, que lhe avivava o crime +pela bôcca das feridas, por onde fugira a alma. Deixou de ver o que o +rodeava para vêr só a victima silenciosa, e ameaçadora. Poz-se-lhe um nó +na garganta, e um véu nos olhos. A primeira colhér, que levou á bôcca, +tornou-se-lhe de fel; o primeiro trago de vinho, que sorveu, soube-lhe a +sangue. Sentia tentações de se atirar pela porta fóra, desatando em uma +corrida louca; mas os pés estavam grudados ao chão e as pernas mal o +sustinham. A cada instante entrava-lhe pelos ouvidos o som dos passos de +Antonio Simões, e ouvia o grito que elle arrancára caindo ferido. O suor +escorria-lhe em bagas da testa, e os beiços tremulos denunciavam a +intensidade da agonia. + +O lavrador observava, e dissimulava. O seu ar de riso e a sua +jovialidade cresciam á proporção, que iam aggravando-se as dores moraes +de ambos. + +--Que é isso, _Sapo_? accudiu elle apertando os tratos ao mais culpado. +Que é feito d'aquella galhofa do outro dia, meu velho? Estás com cara de +enterro. Terás tu morte de homem ás costas, diabo?!!... + +A esta interpellação directa, que o rendeiro disfarçou em uma risada +larga e sonora, o remorso fez saltar involuntariamente dos bancos o +sargento, e o seu cumplice, como se a voz do sangue chamasse por elles +no tribunal de Deus. Á pergunta: Cain que fizeste de Abel, ao brado que +a consciencia repetia aos dois, ambos tremeram, mas não poderam +responder: não fui eu! Sentiam-se tomados de espanto até ás mais fundas +cavernas do coração. + +João da Ventosa, entendendo que não devia ir mais longe para não se +descobrir, e vendo os dois de pé, mudos, e pasmados, tractou de os +tranquillizar a seu modo, isto é, vertendo-lhes o terror nas veias por +outro modo. + +--Sente-se, meu sargento! disse elle mettendo o hospede no coração com o +tom assucarado. Que vespa o mordeu? Os ares da casa não são bons, sei +muito bem; mas o que quer? A gente toma amor ao ninho, e depois não ha +quem o despegue d'elle. Não tenho mulher, nem filhos; nasceu-me aqui o +dente do siso, e... É melhor não tocar em cousas más. Mas sempre lhe +digo que ha noites! Ainda antes de hontem foi um reboliço lá por cima de +cadêas arrastadas, de soluços e gemidos, que vinham os sobrados +abaixo... + +--E nunca viu nada, senhor João? atalhou um dos milicianos meio +engasgado com um pedaço de cabrito, que o susto causado pelas reflexões +caridosas do rendeiro lhe atravessára na garganta. + +Estevam Cabrinha desabotoára todos os botões da farda, e pelas frestas +da camisa aberta mostrava o peito vellôso como o de um cerdo. Tinha os +cotovellos na mesa, a cabeça entre as mãos, e os olhos espantados. + +Gaspar Preto recaira, sem poder reprimir-se, no tremor das primeiras +horas. + +Aquelles dois entes, tão fortes contra a consciencia, tão esquecidos de +Deus e da justiça humana, desmaiavam como creanças deante da sombra do +seu crime e dos pavores do invisivel. + +--Se não vi nada?... Oh! redarguiu o dono da casa, tornando-se serio de +repente, e fazendo suppor com a reticencia, que não tinha animo para +dizer tudo. + +--Conte-nos isso! accudiu um dos comensaes, que não era dos menos +timidos, mas que era de certo dos mais curiosos. + +--Para que? Para não dormirem umas poucas de noites?!... respondeu João +da Ventosa. É melhor falarmos de cousas alegres. + +--Não. Não! Diga! + +--Depois não se queixem! Faz hoje um anno, e justamente chovia e +trovejava como agora, que parecia que se acabava o mundo. Tinha uma +cadella de perdizes, que era um brinco, a Pomba. Faltou-me todo o dia, e +cuidei logo que ficaria fechada lá em cima. A esse tempo ainda eu não +tinha mandado tapar as duas portas dos quartos, que viu o sargento, e +aonde estão os presos. Peguei n'uma lanterna e subi. Atravessei tres +salas. Apitei, chamei a Pomba, não me respondeu, ella, coitadinha, que +em me ouvindo era toda saltos e alegria. Olhei por acaso para um canto +mais escuro, e vi... a pobre da bruta morta com a cabeça torcida!... Não +sei o que me passou pela vista, mas tive medo, medo deveras, juro-lhes. +Peguei no corpo da Pomba, e arrastando-me, e tropeçando, vim até á +porta, que hoje está entaipada. De repente um sopro forte apaga-me a +luz, um clarão bate-me nos olhos, e uma figura branca apparece-me tão +alta e transparente, que se via através das roupas e do corpo (se era +corpo!) como através de um vidro fino. Não posso dizer-lhes o que senti, +mas quiz gritar e faltou-me a voz, quiz benzer-me e caiu-me a mão, quiz +fugir e fiquei parado. + +«O Fantasma fitou-me dois instantes com um olhar frio, que gelava e +disse-me: Desgraçado de ti se tivesses sangue nas mãos! Nenhum matador +sae vivo d'esta casa! Perdi os sentidos. Quando tornei a mim era dia, e +estava deitado na minha cama. Suppuz ter sido tudo sonho; mas a cadella +morta jazia aos pés do leito. Enterrei-a, fiz uma parede das duas +portas, e andei um mez como doudo, malucando no caso, que podia ser +peior... Fóra com historias negras! exclamou mudando de tom. Estamos +hoje aqui muitos, e graças a Deus nenhum de nós tem de lavar as mãos de +sangue, que vertesse. Vae dar meia noite! ajuntou tirando um relogio de +prata. É a hora da senzala principiar lá por cima. Não se assustem! O +vinho é bom, festejemol-o, e o que for soará. Nossa Senhora, minha +madrinha, não ha de desamparar-nos.» + +A consolação acabou de petrificar o auditorio, que a narração já não +tinha estultificado pouco. O sargento e o seu assessor, ainda mais +enfiados, trocaram um olhar desvairado, e gemeram um suspiro. Era a sua +sentença que o espectro annunciára pela bôcca do lavrador? Os canecos +ficaram cheios sobre a mesa; o cabrito, meio escarnado, viu suspensas as +hostilidades, que ameaçavam deixal-o na ossada; e só o dono da casa +levou aos beiços, e exgotou a libação, que propozera. O volumoso relogio +de caixas de prata posto a seu lado, attrahia a vista anciosa de todos. +Era tão profundo o silencio, que se sentia a leve pancada da machina +trabalhando. Finalmente o ponteiro pousou-se nas doze horas, e o +lavrador, como se obedecesse a um impulso espontaneo e invencivel, +poz-se de pé, e exclamou: + +--Meia noite! Deus seja comnosco! + +N'este momento, como se a natureza quizesse associar os seu terrores á +scena alli representada, um furacão espantoso saccudiu e abalou todo o +palacio com rugidos prolongados, um trovão rebentou perpendicular com o +estrondo de cem canhões no meio de medonhos estalos, fazendo tremer a +terra, a casa encheu-se de luz electrica por um instante, e a chuva, +açoutando com o seu granizo rijo e batido os telhados e os muros, +enxurrou dos tectos pelas chaminés arrombadas, e veiu quasi extinguir o +lume, que esmoreceu em chispas lividas por entre ondas de fumo. Ao mesmo +tempo as duas portas pregadas com travessas á entrada das escadas, que +desciam para a cozinha, vieram a terra com fragor, o cadaver deitado +sobre a mesa ergueu meio corpo sobre o cotovello, e arrancou o panno +cruento, soltando um gemido lugubre, e uma figura de altura descommunal, +envolta em sudario branco e fluctuante, assomou ao limiar. Tudo isto +occorreu em menos de um segundo, acompanhado do ruido de ferros +arrastados, do tropel de passos e de quedas tumultuosas, e de um +verdadeiro clamor de vozes e gemidos no andar de cima. + +Os milicianos apavorados hesitaram um instante immoveis. Depois +correndo, como loucos, investiram pelo corredor, e como rebanho +tresmalhado e perseguido por alcateas de lobos, sentiram de repente azas +nos pés, e voaram pela estrada inundada por entre os relampagos e por +baixo das aguas da tempestade, gritando misericordia! + +O sargento ao som das portas, que desabavam, e deante da apparição +inopinada, sem saber já de si, e sem ver o morto alçar-se, trepou em +dois pulos a escada de pedra, metteu a chave na porta, e acoutou-se nos +aposentos dos presos, tão cego e attonito que atropellou na carreira a +velha servente na sua cama, e foi cair de bruços ao pé da mesa, aonde se +apagava em vascas a véla consumida de um castiçal. + +O _Sapo_, que observámos paralyzado momentos antes, vendo surgir o +fantasma, sentiu todos os instinctos ferozes irritados, e pegando da +espingarda, e apontando-a n'um abrir e fechar de olhos, só volveu em si, +quando o cão bateu na pederneira, e esta faiscou, sem queimar a escorva, +deixando-lhe nas mãos uma arma inutil. Então, como o tigre que rompe a +jaula, arremetteu pelo corredor do dormitorio, e de lá, galgando o muro +baixo do pateo, sem se deter a buscar a porta nas trevas, achou-se no +campo, e precipitando-se por sebes e vallados, veiu parar sem folego, +sem voz, e sem consciencia de si ao pé do moinho da Raposa. + +Finalmente o proprio espectro, primeira causa de todo o alvoroço, não +escapou ao contagio geral, e deu tambem parte de fraco. Vendo o morto +levantar-se e saccudir os véus funebres, assaltou-o tal convulsão de +mêdo, que, tapando os olhos com um grande grito, desabou no chão do alto +das andas, em que estribava. Teve razão ainda d'esta vez o adagio. +Virou-se o feitiço contra o feiticeiro! + +Mas as peripecias d'esta dramatica noite não estavam terminadas. No +momento, em que, afogado em riso, o João da Ventosa accudia a levantar o +fantasma demolido pelo susto, o sargento Cabrinha despenhava-se pela +escada, bradando possesso de espanto. Não era sem causa! + +Seguimol-o quando subia os degraus a dois e dois para se refugiar na +camara dos presos; vimol-o enrolar-se e tropeçar no corpo tolhido de +rheumatismos da tia Margarida, a qual, pobre mulher (!), acordada em +sobresalto pelos trovões, tiritava de joelhos em anagua de estopa, +benzendo-se, e invocando todos os santos da côrte do céu, quando aquelle +furacão humano se ennovellou com ella, e lhe fez das costas escabello. +Os gritos da servente, a motinada do palacio, que alli soava mais +proxima, desembriagaram um pouco do medo do andar de baixo o virtuoso +agente de Lagarde, mas exaltando-lhe os terrores excitados pelo andar de +cima. Percebeu que o asylo, que buscára, era peior do que o perigo, e +tractou de apressar a retirada. + +Mas apezar dos accessos de valor, que lhe notámos, era malsim na alma e +nos ossos, e a curiosidade prevaleceu. Antes de fugir quiz verificar de +novo se os outros podiam fugir. A tremer pegou em uma véla e abriu as +cortinas da cama de Paulo de Azevedo. Recuou pasmado. Estava vasia! +Correu ao quarto immediato de Leonor; achou-o deserto! O unico preso, +que não se bolira, fôra a inoffensiva e tropega Margarida! O sargento +sentiu estalar uma cousa dentro do peito. Se tivesse coração diria que +era o coração! Não o tendo acabou de se lhe varrer o sizo, e ficou por +minutos estatico a contemplar aquella solidão, obra visivel do demonio. + +Por fim este ultimo golpe e uns suspiros em tremulos, exhalados do outro +lado da parede, venceram esses restos de vigor, que ainda conservára. +Consumou o seu destino, e despejou o campo como os seus milicianos, +porém com menos felicidade. Quiz descer a escada, os pés atraiçoaram-o, +e mediu-a com as costellas de cima até baixo. Quando tornou a si com a +dor, e por ella conheceu que vivia ainda, os seus olhos horrorizados +perderam a luz de assombro e de pavor. + +No meio da casa o Manuel Simões da Aramanha, de pé, encarava-o sombrio e +terrivel. Ao pé da mesa o fantasma branco, entrouxado nos lençoes, +extendia o braço direito em ar de ameaça. Atraz d'elles João da Ventosa, +mudo e inerte, e como gelado, apontava-lhe para o corredor, sem falar, +como se o convidasse a fugir. Não poude mais. Atou as mãos na cabeça e +caíu sem sentidos. + + + + +VII + +Segredos em toda a parte + + +Os aposentos aonde Paulo de Azevedo Carvalho e sua filha foram +encerrados, em um dos torreões do palacio, eram dos mais bem +conservados. Os tectos não estavam arrombados; os filetes, que +guarneciam as molduras das paredes, forradas de pannos de Arraz, ainda +não tinham perdido de todo o ouro; e a humidade não acabára tambem de +desvanecer inteiramente as tintas dos quadros de caçadas, batalhas e +scenas campestres, representados na tela. Apezar de velhos e de +ennegrecidos, os moveis ainda resistíam em parte aos seculos e ao +caruncho. + +O venerando leito de cabeceira de talha alta e columnas enroscadas +occupava o centro da primeira casa, e podia quasi dizer-se um edificio, +um monumento, pelo descommunal das proporções. Um pesado baldaquino de +seda desbotada cobria o céu da cama, e largas cortinas do mesmo estofo +desciam dos lados a arrastar pelo chão. + +Defronte um tremó, que na sua mocidade brilhára pelo esplendor dos +dourados, mas que na velhice, ou antes na decrepidez, apenas se +recommendava por bellos relevos de folhas e flores, com um espelho de +Veneza em cima, comido e manchado no aço, sustentava duas jarras do +Japão da mais preciosa porcellana, infelizmente rachadas. Cadeiras de +braços, mutiladas, um velador alto desgrudado, um bofete de almofadas +com sua escrevaninha de prata mareada, olhando para o espelho, +completavam a mobilia. + +Na segunda camara havia um leito mais singelo sem cortinas, e um espelho +embutido na parede, que enchia de alto a baixo um vão inteiro. O bofete +liso com tinteiro de bronze antigo, e as quatro cadeiras que constituiam +todo o seu adorno, não accusavam pouco os annos pelo estado de ruina; e +as colgaduras[1] de couro, rotas ou tão coçadas, que não tinham já côr +possivel, deixavam em parte nus os muros, provando que o tempo as +respeitara menos, do que aos pannos de Arraz do quarto principal. + +O cavalheiro de Mafra mal correu a vista em redor de si. Sentou-se +deante do bofete da sala grande, molhou a penna na tinta grossa da +escrevaninha, e começou machinalmente a traçar linhas e dezenhos +informes em um papel. Desde o Casal do Ouro até alli não descerrára os +labios, nem para falar á companheira do seu infortunio; e só o ardor +sombrio das pupillas denunciava a ira, preferindo consumir calado as +tristezas a desafogal-as em vozes, ou em queixas. Leonor contemplou-o +silenciosa por alguns momentos, e, avisinhando-se depois nas pontas dos +pés, pousou-lhe na fronte annuviada um beijo, que a ternura humedeceu de +lagrimas. + +Paulo, como se acordasse repentinamente, vendo no espelho o lindo rosto +debruçado sobre o seu estremeceu. Um sorriso melancholico adoçou-lhe a +expressão severa. Cedendo ao carinho de tão suaves caricias, e tornando +os olhos meigos, fitou-os cheio de enlevo na formosura da filha. +Cingindo-lhe depois o collo com os braços, cobria-lhe de osculos os +cabellos e a fronte, e procurou tranquillizar-lhe a inquietação. + +Leonor era todo o seu amor e toda a sua familia. Se desejava sobreviver +ás desgraças da patria é porque não queria deixal-a orphã e desamparada +n'uma edade, em que as illusões armam tantos laços á candura e á +innocencia. + +Mas as palavras do velho cavalheiro não o enganavam a elle, nem á +donzella. Quando para a consolar affirmára, que um vago presentimento +lhe augurava, que não chegaria a entrar na prisão da villa, via-a aberta +para o receber, e o conselho de guerra convocado para o sentenciar! +Quando lhe lembrava, que seus amigos não dormiam, e que Manuel Coutinho, +e dois d'elles, andavam perto, sorria-se por dentro da invenção, porque +ignorava se a sorte d'elles não seria egual, ou peior n'este momento! + +Leonor ouvia-o com a incredulidade do affecto. O fino instincto das +almas, que são todas sentimento, é adivinharem os verdadeiros motivos +dos sacrificios generosos. Palpava a verdade, e tremia que o futuro +fosse ainda mais funesto. Mas dotada de caracter varonil vencia-se para +não atormentar seu pae, devorando os prantos, e comprimindo os soluços. + +Á ceia a visita do lavrador, e a presença odiosa do sargento de +sentinella, como vimos, á hospitalidade do rendeiro, interromperam a +conversação cortada, com que os dois se distraíam, e apenas as portas +tornaram a fechar-se, e Margarida poz a mesa, o pae e a filha, tomada +uma refeição mais do que sobria, e já cansados de dissimular, +despediram-se e cada um se recolheu á sua camara. + +A creada no mesmo instante fez a cama para si em um recanto, e fatigada +adormeceu mal a cabeça tocou no travesseiro. + +Leonor aproximou-se então do espelho, lançou sobre as espaduas núas um +penteador de cassa, e principiou a desatar as tranças, que, desfeitas, +se encresparam em madeixas negras, envolvendo-a no mais luxuoso véu. +Duas lagrimas, duas perolas, avelludavam-lhe o olhar tocado de branda +ternura, e as pupillas, pretas e languidas, ás quaes aquella nuvem leve +de melancholia toldava um pouco o brilho, levantavam-se armadas +d'aquelle requebro meio tristeza, meio reflexão, que fala com tanta +eloquencia; e prende com tão irresistivel poder até os mais isentos. A +bôcca, pequena e graciosa, abria aos cantos duas covinhas assetinadas, +berços de lyrios aonde se embuscava a malicia espirituosa, tornando o +sorriso fascinador. Os dentes, ora appareciam finos e eguaes, como fios +de aljofres entre rubis, ora se escondiam, quando a phisionomia tomava a +expressão contemplativa e serena, que era o seu maior triumpho. O collo +esbelto, disputando alvura ás açucenas, pousava-se com graça; as faces e +a fronte douravam-se d'aquella transparente e mimosa côr, em que as +rosas nascem e desmaiam á mais leve commoção, radiosa carnação, que +tanto realça a belleza meridional, mesmo quando não cede ás mulheres do +norte a palma dos niveos encantos. O seio virginal palpitava +sobresaltado. A mão estreita e leve deslaçava impaciente os nós de fita +do justilho; e a estatura elegante e flexivel prestava-se em ondulações +airosas a todos os movimentos. + +Um suspiro e um gesto, que exprimiam a tribulação do animo combatido de +apprehensões, e uma pausa, em que a vista se perdeu pelos idilios do +primeiro amor, revelavam as duas correntes encontradas, com que luctava +áquella hora. O que lhe dizia a ternura filial repetiam-n'o as lagrimas +lentas e silenciosas, vertidas quasi sem as sentir. O que anciava e +assustava a timidez da paixão entre hesitações e receios, mais fortes +que a vontade, retratava-o a repentina chamma da vista, e o extasis em +que o rosto se transfigurava subitamente, illuminado pelo duplo clarão +da esperança e do pudor. Quem podesse colher n'este instante o segredo +da sua alma só encontraria n'ella duas imagens--a do pae extremosamente +querido, e outra mais viva, mais occulta, e mais funda ainda, a de +Manuel Coutinho, que o pejo quasi encobria de si mesma, mas que uma +ternura invencivel avivava a cada palpitação do peito! + +Leonor sentou-se ao bofete no desalinho da meia nudez, dobrou uma folha +de papel, e contemplou-a por momentos com a cabeça entre as mãos e a +vista vaga e esquecida. Depois, meneando a fronte, como se quizesse +sacudir o peso dos cuidados, inclinou-se para a mesa, soltou a penna +sobre o papel, e começou a retratar as tristezas do captiveiro e os +sonhos do coração. + +Usando do privilegio concedido aos auctores de historias, tão veridicas +como esta, introduzir-nos-hemos n'este ninho virginal, e por cima do +hombro da linda escriptora ao qual o véu diafano das rendas mais faz +sobresaír o marfim polido e a fórma admiravel, iremos lendo á medida que +ella as escrever, as confidencias, que julga depositar unicamente no +seio da mais discreta e mimosa de suas amigas de infancia, de D. +Marianna de Sousa, mais velha um anno, e tambem desterrada com toda a +familia para longe do antigo solar de seus paes em Lisboa. + +Escutemos a conversação travada a distancia entre ellas. É de crer que +nos diga mais, do que extensos commentarios ácerca dos principaes +personagens, cujas aventuras emprehendemos esboçar com a fidelidade e +escrupulo proprios de narradores inaccessiveis á fabula e á lisonja. + + +Leonor de Azevedo a D. Marianna de Sousa + +«Minha freirinha!... Deixa-me dar-te mais esta vez ainda o doce nome da +nossa amisade! Escrevo-te das portas de uma prisão, e talvez, ai! tremo +dizel-o! dos primeiros degraus do cadafalso de meu pae. Realizou-se o +que eu tanto receiava. Lagarde descobriu o nosso asylo. Estamos em suas +mãos. Offendi-lhe o orgulho; é capaz de tudo; e conto com a vingança +promettida. Não me arrependo. No meu logar, Marianna, farias tu o mesmo, +e esperavas resignada a tua sorte... Se não fosse meu pae, pouco ou +nenhum caso faria d'elle... O despreso até mata a aversão, e de certo +ninguem o despresa tanto, e com mais rasão. + +«Lagarde veiu a Mafra a um baile que lhe deram. Tentaram-lhe a cubiça as +terras e os vinculos, que hei de herdar, Deus queira que bem tarde (!), +e por desgraça poz os olhos em mim para enriquecer um parente, que não +conheço, que me não conhece tambem, mas que elle ousou dizer que me +adorava pelo retrato, que lhe fizera de mim... dos bens da minha casa é +mais provavel! Marianna, lês na minha alma, e bem pódes imaginar o +espanto em que fiquei, ouvindo de um estrangeiro esta proposta, que me +offendia na ternura filial e no amor proprio... Nem lhe respondi! +Encarei-o, e, levantando-me, deixei-o acabar a ultima cortezia e o +ultimo sorriso deante de uma cadeira vasia. Dizes que me pareço com meu +pae, e que a natureza errou em mim o sexo. Talvez. Nunca senti tantos +desejos de ser homem! Mulher, senão fosse o mundo!... Ha affrontas, +porque choro amargamente a nossa fraqueza! + +«Lagarde tem maneiras e grande uso da sociedade. Não sossobrou com o +revés, começando a girar pelas salas como o convidado mais jovial. Notei +que não tirava a vista de mim, e preparei-me para segunda instancia. Não +tardou. Veiu tirar-me para dançar, louvou o meu toucado, o meu vestido, +a delicadeza das mãos, a graça e a alvura das rendas; achou-me linda e +seductora; extasiou-se de lhe responder algumas palavras em francez; e +falou-me com enthusiasmo dos elogios que tinham feito da minha voz... +Constrangi-me e escutei-o sem colera, sem impaciencia, mas com aquelle +sorriso que tu dizias ás vezes, que era cortante como fio de dois gumes. +Que remedio! Estavamos em scena, e elle é actor consumado. Depois, e no +fim de tudo, por acanhada e esquerda não queria deshonrar a nossa +educação do convento, nem dar-lhe motivos para que me tomassem pela +provinciana boçal e nescia, que ao principio cuidára encontrar... + +«Acabada a dança, em que te affirmo sem vaidade, que não envergonhei as +lições do nosso mestre mr. de Lisieux, tão airoso com a sua cabelleira +empoada, casaca direita, e rabequinha de estojo, ao apartarem-se os +pares, convidou-me para darmos um passeio pelas salas. Inclinei-me, e +acceitei-lhe o braço. Démos algumas voltas, e no meio de uma d'ellas, +junto de um tremó carregado de flores, teve o despejo de renovar a +supplica, assim lhe chamou, em ar de riso, porém o tom e a expressão +diziam assaz que era uma ordem. + +«Ouvi-o estremecendo. Não acreditas a jactancia, a soberba, e por baixo +do verniz das phrases, o modo imperioso, com que este sultão me atirava +o lenço em nome da felicidade do seu parente, e da minha, em nome da +gloria e ornamento dos bailes de París e das recepções das Tulherias, +que a rosa do occidente iria realçar com seus encantos!... Contive-me. +Subiu-me em ondas a côr ao rosto. Empallideci depois. Aquelle escarneo +era tão pungente, que me custava a supportal-o, sem lhe explicar ao +menos que o entendia. Mas contive-me, protesto que me contive a ponto de +me saltarem as lagrimas pelos olhos seccos! Não é possivel exprimir-te o +que padeci nos minutos que durou este supplicio. Foram annos de angustia +e de anciedade! Lagarde, como se adivinhasse, tocava em todas as partes +melindrosas da minha alma e offendia-as. Tornou-se por tal fórma +transparente a ironia, que se me figurava ouvil-o rir por dentro da +eloquencia, que estava gastando em convencer a herdeira sómente +cobiçada, para remir do naufragio a mocidade tempestuosa d'aquelle +sobrinho, arruinado e invisivel, cuja causa advogava. + +«Perguntarás, talvez, porque não fiz o que já tinha feito, porque o não +deixei? Não me atrevi. Meu pae estava perto; Manuel Coutinho tambem; +olhavam para nós, e ao menor signal que me escapasse, castigavam alli +mesmo o insolente! Vê tu o meu enleio e o meu martyrio! Quando se +afastaram, respirei. Podia mostrar a Lagarde, que a estatua vivia e +tinha brios para vingar a dignidade do seu sexo. Inflammou-se-me a vista +com a ira, fitando-a n'elle com um desdem tão altivo e firme que o +obriguei a calar-se de repente no meio das lisonjas impertinentes. +Percebi que não esperava tanto, e que se perturbava. Retirando então o +meu braço, dei dois passos atraz, e medi-o da cabeça aos pés com aquelle +olhar scintillante e frio ao mesmo tempo, que me achaste duas vezes, e +que depois contavas, sorrindo, que era o mais fero e fulminante olhar, +que nunca viras, porque gelava e queimava ao mesmo tempo. Não sei se foi +esse, ou outro peior, o que sei é que recuou lentamente e quasi pasmado +deante d'elle, como deante da ponta de uma espada; e quando lhe +respondi, que preferia a cella do mais austero convento, a pobreza, a +mendicidade até, á ignominia de me vêr em leilão na praça, á vergonha de +acceitar o nome de um homem, que nem ao menos guardava as exterioridades +hypocritas de um galanteio, julgando-me tão pouco que se propunha amar e +pedir esposa por terceiro, vi-o fazer-se branco como a tira da camisa, +esconder o sorriso nos cantos da bôcca, e olhar-me direito e serio como +deve olhar-se para alguem, quando recebemos uma injuria grave. Mas +polido, mesmo na sua colera foi senhor de si, e mordendo os beiços com +tal furia que lhe espirrou o sangue d'elles, cortejou-me, e retirou-se. +Á roda de mim tremiam todos. Eu levantára a voz, e tinha-o constrangido +a curvar a fronte deante de muitos. Foi o que não me perdoou. + +«Todas as nossas desgraças datam d'esta noite. Jurou humilhar-me, mas +não o consegue. Livre, ou em ferros, o desprezo será egual... Antes a +clausura, antes a vida errante que levo ha mezes, antes as estreitezas +de uma prisão, do que a infamia de um laço apertado sem amor pela +avidez! Lagarde não tornou a falar-me. Sómente poucos dias depois, sahi +a cavallo, e encontrei-o com Loison, general maneta, que dizem ainda +mais perverso. Pararam para me vêr passar. Sabes que sou cavalleira, e +que um animal fogoso não me assusta. Montava a Estrella, a egua valida +de meu pae, e apenas os descobri, larguei-lhe a redea, e atravessei como +uma seta por meio d'elles. Saudaram-me, correspondi, e dentro em pouco +já não os avistava. Foi na vespera dos tumultos das Caldas e da +emboscada de Mafra. No dia seguinte, dia de terror e afflicção para os +habitantes, estava achado o pretexto que havia de manchar de sangue o +poder dos estrangeiros. + +«O que nos reserva o futuro? Não ignoras quanto meu pae é altivo e +decidido. Se a sua vida dependesse de uma palavra, de um passo, que +reputasse de quebra para a honra, ou para os brios, preferiria morrer +mil vezes... Sei o que elle ha de fazer como se o estivesse vendo. Ha de +dizer a verdade, toda a verdade; ha de expor-se... Meu Deus! Parte-se-me +o coração, e não tenho animo de cuidar!... Não! Não! A providencia não o +póde permittir! Marianna!... As lagrimas que estou chorando, a dôr que +padeço são tão crueis, que ha momentos, em que a razão me foge. E Manuel +Coutinho?! Ainda me assusta mais!... Em sabendo a nossa prisão... com o +seu genio impetuoso e aquella intrepidez de cavalleiro andante, porque é +um verdadeiro paladino perdido n'estes dias de Junots e Lagardes, é +capaz de entrar só em Santarem para nos arrancar dos ferros á luz do sol +e deante de todos. Não rias?! Não creias que estou pintando de +imaginação um heroe de novella!... Perguntas-me desde quando o amei, e +se foi necessario o fulgor de Marte para vencer a isenção de Juno!? +Entendo-te! Viras contra mim as palavras, que eu soltava na ingenuidade +do orgulho, quando a inexperiente educanda te divertia com seus +encarecimentos de desdem pelas fraquezas apaixonadas. Ouve! Amei-o logo, +amei-o com extremo apenas o vi. Mal nos olhámos, sorrimos, e +conhecemo-nos sem lucta, sem resistencia, sem juras, nem protestos. Elle +sentiu que era meu; eu entreguei-lhe o coração com tanta confiança, como +se nos tivessemos creado juntos desde a infancia. Marianna!... Se és a +amiga, que eu creio, has de estimal-o tambem, e approvar a minha +escolha. Asseguro-te que o merece. Aquelle rosto nobre e gentil, mas um +pouco triste, é o espelho do seu caracter. Meu pae, e mais não é facil +em affeições e elogios, admira-o, e não vê por outros olhos em muitas +cousas. A palavra de Manuel Coutinho, que o não lisonjeia, que até o +contraria em algum dos habitos e idéas mais arraigadas, vale um +juramento para elle. Entre estes dois affectos, tão doces e acerbos, +reparte-se-me a alma, rasga-se-me em duas, e não ouso dizer-te a ti, a +mim propria, qual é maior, ou mais absoluto!... + +«Accusas-me de dissimulada?! Não te encobri nada. Lês nos meus segredos +como em livro aberto. Amo, como não se torna a amar, como não imaginava +que podesse amar-se... Digo-te sem disfarce o que occultaria a outra, e +tu ingrata (!) ainda tens animo de me arguir! ...Lembras-te d'aquellas +nossas madrugadas nas Salesias, entre as rosas e jasmins do jardim, e os +vôos dos passarinhos, que chalreando não nos deixavam um instante?!... +Não tens saudades d'ellas e das brandas illusões, com que nos +embalavamos no meio das flores d'esses dias tão curtos, ai (!) e tão +depressa desvanecidos?! Com que dôr melancholica e agradavel, os estou +recordando, sobre tudo agora!... Como a esperança nos fazia palpitar!... +Que desejos pueris, que planos impossiveis, que doces contestações, e +que amuos logo esquecidos entre dois beijos! O nosso mundo era tão +pequeno, que alli principiava e acabava então! + +«Meu pae, militar e arrebatado, a rogos meus ficou em casa. Por vezes o +vi ir direito á sua espada, e suspender-se com os olhos arrazados de +agua. O que o prendia era o receio de me deixar orphã, era a certeza de +que se arriscaria sem proveito. Que dia aquelle, e sobre tudo que +noite!... Os francezes em bandos pelas ruas alvoroçavam a terra com +vozes, affrontas, e tiros. Duas vezes as balas das espingardas vararam +as portas das nossas janellas. Sobre a madrugada appareceu Manuel +Coutinho. Vinha pallido e desfigurado. Nenhum de nós se tinha tambem +deitado. Chamou meu pae de parte, falaram em segredo, e minutos depois, +ás escuras, e sem ruido, fugiamos pelas hortas, e montavamos a cavallo. +Rompia o sol, quando entrámos em Torres Vedras, e só alli me disseram +que a nossa casa estava cercada, e que Lagarde expedira de Lisboa ordem +de prisão contra meu pae. Não lhe custou a implical-o na devassa, e +contava provavelmente fazer de mim o penhor da sua clemencia... + +«Desde então trocámos o socego domestico pela vida attribulada, que ha +mezes nos não consente uma hora de repouso. Acossados, como feras, +vagueando de homizio em homizio, e de solidão em solidão, por toda a +parte a hospitalidade dos que nos accolhiam, não sem risco, nos foi leal +e caridosa. Rodeados de espias, inculcados aos delatores como presa +digna de subido premio, achámos na bondade rude, mas sincera, dos +casaes, corações de ouro, que nos agazalharam com o maior carinho, e +almas compadecidas, que nos ajudaram a supportar o peso da desgraça. + +«Os mais pobres foram tão honrados como os ricos. Ninguem nos trahiu. +Perseguidos como réos de grandes crimes, todos os braços se abriram para +nos receber, todas as portas se fecharam cuidadosamente para nos +guardar... Descansámos, por fim, mas á porta de uma prisão, e nas mãos +de inimigos implacaveis! Meu pae dormia, e nem teve tempo de se +defender... Estimei! Já que havia de ser, foi melhor assim! Chegámos a +tempos em que é delicto até o valor! Um malvado, cego e venal +instrumento de Lagarde, descobriu o nosso ultimo asylo, e prendeu-nos á +traição... + +«Com que socegada ignorancia te ouvia eu pintar a vida, que nos +aguardava fóra das grades da nossa prisão dourada!... Com que vaidade +infantil me compadecia das fragilidades das donzellas, cegas de amor, +que tudo arriscam por seguir o eleito da sua alma!... Castigou-me Deus! +Sou mais escrava, mais timida deante da minha fraqueza, do que nenhuma! +A ternura, que sinto por elle é tão grande, que me quebra a vontade e o +orgulho. + +«Felizmente adoro um homem digno do meu coração. Mas se o não fosse! +Marianna! Não me vejas córar, não me vejas cobrir o rosto de pejo! Se o +não fosse... Perdôa! hei de ter animo de confessar a verdade, amava-o do +mesmo modo, sei que o amava tanto, porque mais é impossivel!... E agora +terás dó de mim?! Falarás ainda da soberba, que me fazia idolo +indifferente a todos os cultos?!... + +«Cheguei áquelle excesso, em que parece que o coração não vive senão do +que é de outrem, do que o amor, que inspira e domina tudo, quer dar-lhe +quasi por esmola! A minha luz, todas as minhas esperanças, todo o +futuro, pendem de um olhar, de um sorriso, de uma palavra d'elle!... Vê +como o préso, e como deixei de ser a mesma!... Ha cinco annos, quando +iamos sentar-nos debaixo das madresilvas do caramanchão do convento, em +quanto as nossas amigas passavam, correndo e saltando com os seus risos +descuidados, porque suspiravas tu, e por mais que eu interrogasse a +minha alma, porque a achava sempre muda e insensivel!?... O que foi que +me acordou d'aquelle somno tranquillo, d'aquella apathia dos sentidos, +que só despertam com o primeiro alvoroço, quando entre jubilos e +sobresaltos o peito começa a agitar-se? Não sei se outras são assim. +Vivo desde que principiei a amar. Até ahi dormia. Era uma estatua! O meu +coração como que esperava _por elle_ para se abrir e brotar essa flor +tão mimosa, que um nada queima, tão rara que uma vez só na vida a +sentimos pelo perfume, pela alegria, pelo esplendor... Desejava ser +formosa, ser princeza, ser rainha, ser tudo, para elle subir, e eu me +saber invejada. Que loucuras! Vê! Agora mesmo estou perguntando, sem +querer, ao espelho baço e empanado da minha prisão, por esta noite +medonha de trovões, se me acha ainda bella?!...» + +Neste ponto terminavam as confidencias. Leonor nem acabára de formar as +ultimas lettras. Quando, entre o meio sorriso e as rozas avivadas, de +que a travessura da revelação lhe animára o semblante, ergueu de repente +os olhos para o espelho, a que alludia na carta, pasmou, estremeceu de o +vêr mover-se lentamente com a moldura, e entre-abrir-se como uma porta. +Outra, menos varonil, teria soltado vozes de terror; ella não. Fez-se +pallida, sentiu-se fria, porém não articulou palavra, nem deixou escapar +um grito. De pé, tremula, com os olhos fitos e algum tanto dilatados +pelo espanto, aguardou a aventura, que esta singularidade lhe promettia. +Não esperou muito. O espelho girou, rangendo um pouco, e á entrada da +passagem occulta, que fechava, appareceu uma figura com um castiçal na +mão, avultando á medida que se adeantava e que a luz mortiça da véla lhe +batia no corpo, desfazendo a escuridade. Era um homem de carne e osso, e +não um fantasma. Podia ser um salteador, um assassino, ou um indiscreto, +não era de certo uma alma penada. A donzella respirou. Apezar da +fortaleza do seu espirito a visão tinha-lhe paralyzado os membros, e o +coração, pulando descompassado, trahia o susto, que os labios a custo +disfarçavam. O desconhecido trajava de preto, vinha envolto em um capote +de cabeções, e as largas abas do chapéu enchiam-lhe o rosto de sombras. +Quando percebeu que Leonor o contemplava, levou o dedo á bôcca e +recommendou silencio. No movimento de braço o capote descobriu os canos +luzentes de duas pistolas passadas em um cinto de couro, e a bainha de +uma espada larga e curta. + +A filha de Paulo de Azevedo deixou-o approximar de si sem denunciar +terror. Só falava com a vista, e desvanecido o primeiro sobresalto, o +que o semblante exprimia era a curiosidade natural, excitada pela +visita, que, por tal modo e a taes deshoras se via obrigada a receber. O +hospede punha entretanto os pés no sobrado, roto e carunchoso, com tanto +resguardo, e pisava com tão grande subtileza, que os passos eram surdos, +como se caminhasse por cima de lã. Chegando ao pé d'ella, encarou de +perto a formosura intrepida, que sem receio olhava para elle firme, e um +sorriso alegrou a sua physionomia carregada, certo ar de sincera +admiração inculcou que não contára encontrar tanto valor. + +--Vejo que não me enganaram! murmurou ao ouvido de Leonor. Tem mais +animo, do que muitos homens. É digna do que tentâmos para a salvar e a +seu pae! + +--Mas quem é?... D'onde vem?... Como está aqui?!... perguntou a donzella +atropelladamente, mas no mesmo tom submisso. + +--Somos tres. Os meus companheiros esperam no fim do corredor, que +desembocca n'esta porta secreta. Pertencemos ao conselho conservador de +Lisboa, soubemos da prisão de seu pae, e seguimos os milicianos de +longe. O lavrador, que traz esta casa de renda, é nosso, e ensinou o +modo de entrarmos aqui. Temos caminho facil para fugir. + +--Ah! E Manuel Coutinho veiu tambem?... accudiu Leonor córando. + +--Não! Pouco ha de tardar. Está perto, e mandou-se-lhe recado... Mas os +momentos são preciosos. Não podemos demorar-nos aqui. Quer ir acordar +seu pae sem bulha e dizer-lhe?... + +--Já! Vou immediatamente. São dois minutos em quanto volto com elle. + +--Pois sim. Aqui espero. + +De feito, instantes depois Leonor tornava com Paulo de Azevedo, e este +apertava silenciosamente a mão ao desconhecido, que lhe dizia em voz +baixa: + +--Venha! Temos os cavallos promptos e tudo a postos. Simão da Costa e +Nuno do Rio, seus amigos, estão alli dentro, Manuel Coutinho vem já +caminho da Ponte... São mais de onze horas. Ás duas saímos, se a noite +lhe mette menos medo, que a cadeia de Santarem... + +--Quando quizer. Para onde?... + +--Para Lisboa. Para o covil do Lobo. Aonde menos cuidem que póde estar, +ahi será o mais seguro. + +Paulo inclinou a cabeça e seguiu-o com sua filha. + +O espelho fechou-se. Quando o sargento veiu não achou nem o rasto de +seus presos. + + + + +VIII + +Entre os bastidores + + +Lá sabemos como Leonor e seu pae conseguiram evadir-se sem as chaves da +prisão saírem do bolso do carcereiro. Agora cumpre-nos explicar a +resurreição dos mortos na casa maldita, e esboçar em duas palavras a +biographia do intrepido espectro, que, mascarado em alma do outro mundo +para assustar os valorosos milicianos da comarca, ás ordens do sargento, +baqueou das andas abaixo, transido de pavôr, por achar o defunto, de pé +tendo-o visto entrar em braços dos creados. + +Nos acontecimentos d'esta infausta noite para os agentes da policia +franceza, o morto-vivo e o espectro medroso representaram um papel, que +os torna dignos de nos demorarmos com elles por algum tempo. + +Principiemos pelo honrado fazendeiro, cuja desastrada sina choram em +côro as visinhas e as comadres da aldeia. Como o encontramos de repente +são e escorreito com profundo terror dos sicarios, que se julgavam +livres do seu nodoso cajado de marmeleiro? Que santo obrou o milagre de +levantar da sepultura este Lazaro de japona para confusão e ruina dos +inimigos? Como dormiu elle no reino das sombras tantas horas, e só +accordou, como ao rebate da trombeta final, com o dobre fatidico da meia +noite, hora fadada a visões, a trasgos e a feitiços? + +As tres perguntas são razoaveis, e a curiosidade do leitor é natural. +Desejariamos de bom grado asseverar-lhe, sem faltar á verdade, que o +sabido condão do palacio deserto fôra o auctor de todos os prodigios, +porém somos obrigados a confessar como sinceros chronistas, que até aqui +o maravilhoso e o sobrenatural só existiram na imaginação escandecida de +alguns dos actores, que pozemos em scena. Tudo o que passou se explica +perfeitamente sem ser preciso prevalecermo-nos da má reputação da Casa +Negra. + +Em primeiro logar o Manuel Simões não resurgiu á sexta hora de entre os +mortos, embora padecesse sob o poder do sargento Cabrinha, porque para +resuscitar era necessario estar morto, e elle nunca chegou a fallecer! A +bala do _Sapo_ roçou-lhe pela testa, ferindo-o de raspão, e lançando-o +por terra sem sentidos; mas não penetrou na cabeça. + +Quando vieram as mulheres, e entoaram em roda do seu corpo as nenias +costumadas, principiava elle a voltar a si; e quando o João da Ventosa +se approximou, suando e esbaforido, porque do alto de um cabeço ouvira o +tiro, e dois minutos depois descobrira no luz-que-fusque o _Sapo_, +correndo em saltos de gafanhoto com a espingarda na mão, já achou o +corpulento fazendeiro sentado no chão, muito tonto ainda como se +recolhesse de alguma feira, ou romaria, porém sem lesão grave, e +apalpando escrupulosamente todos os ossos e costellas. + +--Ah! Ah! Compadre! gritou o rendeiro extendendo a mão ao amigo e +contentissimo de o ter vivo. Com que então os caçadores andam pelo +sitio, e fizeram-lhe alvo da cabeça? Safa demonio! ajuntou +examinando-lhe a fronte mais de perto. Escapou mesmo por uma unha +negra!... O maldito tinha-lhe vontade, e não queria perder a polvora. +Upa!... Póde vir outra ameixa detraz do vallado, e custar-nos mais a +engulir... Se foi só isso não é nada. Mas!... + +--Ainda não foi d'esta, sôr compadre, e se eu soubesse quem me fez a +esmola... com seiscentos milheiros... de cobras!... Moia-lhe os ossos +com este cajado mais moidos que pimenta em almofariz... Patife! +Atirou-me como a um lobo! Ah, sôr João, vossa mercê acaso veria quem foi +o alma ruim?!... Parece que tenho dentro da cabeça a mó do moinho a +zoar, e que me anda tudo á roda! Ora esta!... + +--Olhe compadre, o melhor é mudarmos de pouso; depois falaremos. Alli em +baixo, na fonte, ata um lenço molhado na cabeça, e lá em casa lhe +diremos o que vimos. Agarre-se a mim, não tenha vergonha. Forte +historia! + +--Antonio me não chame eu, sôr compadre, se me ficar inteiro uma semana +o ladrão, que me pregou esta bala! Hei de achal-o, mas que haja de +descer vestido e calçado em busca d'elle aos infernos... + +--Não será preciso, homem!... Agarra-o cá em cima sem ir tão longe. Mas +ha de fazer o que eu disser. + +--Pois vá! Olhe que o dito, dito! Isto não se leva a rir. + +--Tem razão, compadre; vamos. Trago cá uma idéa!... Emfim! O que for +soará... + +Os dois pozeram-se a caminho, porém muito devagar, porque Manuel Simões +de cinco em cinco passos cambaleava com vertigens, a que chamava +nobremente vagados. Era noite fechada, quando avistaram a Ponte da +Asseca, e a casa. Chovia e trovejava que mettia mêdo. + +O João da Ventosa, que em todo o tempo não soltára palavra, labutando, +contava elle depois, com a sua idéa, virou-se então para o fazendeiro e +disse-lhe que se deitasse e se fingisse morto emquanto ía chamar os +creados. + +--Que me deite e faça morto, salva tal logar?! Oh sôr compadre?! +exclamou o ferido. E para quê com um milheiro de cobras?... + +--Para apanhar a raposa e as gallinhas na capoeira. Você não sabe, +homem!? Não vê que se quem lhe atirou atinar que perdeu a bala muda-se +com vento fresco, e nunca mais lhe pomos os olhos em cima... +Estire-se-me já n'esse chão, não venha alguem. Nem trus, nem buz! Pela +lingua morre o peixe. + +--Ora essa!... Sempre tem cousas, este sôr compadre! Com que então ainda +em cima quer que me espoje n'este charco, e que feche a bôcca a +cadeado?... Vá lá! Por esta não esperava eu. Arrenego! + +--Viu pescar á linha sem anzol, sôr casmurro? Vamos. Esse corpanzil já +por terra, e caluda! Não me demoro. + +Manuel Simões, resmungando, e praguejando, sempre se foi deitando no +sitio mais enchuto. + +Minutos depois tornou o compadre com o maioral e o abegão, em grandes +lastimas por tamanha desgraça, e levaram-o por morto em braços até á +cozinha da casa, aonde o vieram encontrar, como vimos, os dois +assassinos. + +Os creados, apezar de conhecerem por experiencia a força herculea do +João da Ventosa, benziam-se de que elle tivesse carregado só com aquelle +corpo, tão pesado, desde a azinhaga, como lhes disséra. Sentiam os +braços derreados só de o trazerem de tão perto! + +O lavrador mandou accender fogo, e pôr agua ao lume; pediu um alentado +cangirão de vinho, uma tigela de assucar mascavado, e chamou de parte a +tia Margarida, ministro feminino de todas as repartições domesticas da +granja, para lhe confiar o occorrido, exigindo o maior segredo. A velha +esconjurou-se, louvou a Deus pelo milagre visivel, e saíu, trotando e +rosnando, para fazer a cama ao fazendeiro em um vão escuro, e desviar da +cozinha a vista e as orelhas dos curiosos. + +Seguiu-se um entre-acto bacchico, durante o qual a agua quente e o +assucar serviram de pretexto ao vinho, o qual representou a parte +principal. Estava já menos de meio o cangirão, quando a voz esganiçada +de José Vardasca, diabrete de quinze annos, sobrinho do rendeiro, em +altercação com o contralto enrouquecido da tia Margarida, obrigou os +dois campeões a suspender as hostilidades. Manuel Simões amarrou o lenço +manchado de sangue á roda da testa, de modo que lhe cobrisse a cara, e +extendeu-se sobre a mesa de pedra. Um feixe de palha serviu-lhe de +cabeceira, e uma manta cobriu-o até aos pés. + +Ensaiada assim a peça, João da Ventosa abriu a porta, e com +um--Olá!--que fez tremer as paredes, poz termo ao dueto da velha e do +rapaz. + +José Vardasca não vinha só. Acompanhava tres sujeitos, envoltos em +capotes de baetão grosso de gola alta, cobertos com sombreiros de abas +derrubadas, os quaes esperavam fóra da porta, no escuro, que elle désse +ao tio o seu recado. + +Ao que parece os viajantes eram conhecidos do rendeiro, porque apenas o +rapaz lhe disse, quasi ao ouvido, algumas palavras, este correu sem +chapéu apezar da chuva, e encaminhou-se para elles. Ninguem ouviu o que +falaram, mas os creados viram desapparecer o amo e os hospedes por +detraz do muro da horta, e recolher-se passado um pedaço o João da +Ventosa só, em ar de quem se não tinha cansado com o passeio. As +conjecturas dos servos não foram adeante. Cuidaram que elle saíra a +metter os tres embuçados no atalho da azinhaga, e se acaso se admiraram +foi, sendo tão largo e generoso, de lhes não ter dado agasalho em sua +casa por uma noite, em que a agua era tanta, diziam os rusticos, que a +podiam os cães beber de pé! + +Mas o lavrador sabia melhor do que elles o que fazia. E nós, que não +somos de segredos, e que não receiamos que a policia dos francezes nos +tome contas em 1864, das conspirações de 1808, não duvidaremos revelar +as razões do seu procedimento. + +Os tres sujeitos eram nada menos do que tres delegados do conselho +conservador de Lisboa, associação composta de patriotas dedicados á +restauração da independencia e do throno legitimo, e decididos a todos +os sacrificios para arrojarem da sua terra os soldados de Bonaparte. +Tinham atado relações em todo o Ribatejo com os homens que podiam +ajudal-os em seu arriscado proposito, e haviam partido dias antes da +capital para se reunirem em Santarem com Manuel Coutinho e alguns +cavalheiros do Sardoal, Leiria, Pernes e Rio Maior, no intento de +assoprarem de mais perto a irritação popular, e de irem dispondo os +animos para a sublevação geral, que meditavam, apenas as cousas lhes +proporcionassem ensejo favoravel. + +João da Ventosa, assim como o Manuel da Cruz, e outros visinhos, +iniciados em parte do plano, executavam com cega fidelidade todas as +ordens emanadas d'este governo occulto e revolucionario, que na ausencia +da familia real, e em presença do jugo estrangeiro, representava para +elles a unica e verdadeira auctoridade do paiz. + +O rendeiro, pois, assim que os tres desconhecidos lhe repetiram as +palavras, que serviam de senha aos amigos da liberdade--pelo rei e pela +patria--largou tudo, e offereceu-se logo para o que mandassem com a +maior submissão. + +A reputação diabolica da Casa Negra, guardava-a por tal modo da +curiosidade, que nenhum refugio mais seguro podiam encontrar os +conspiradores, não só para pernoitar, mas afim de celebrarem as +conferencias. Explicaram os seus desejos ao lavrador, e este, que o medo +dos fantasmas não vexava, guiou-os pela horta a uma entrada secreta, +disfarçada com um tapume de tábuas, e introduziu-os nas salas e +aposentos do primeiro andar do palacio. Accendeu luz com o fuzil, +ensinou-lhes alguns dos segredos dos quartos e corredores, e prometteu +trazer-lhes vinho e refrescos. + +A chegada do sargento e dos presos, espertando a imaginação do malicioso +rendeiro, e a coincidencia de abrigar debaixo do mesmo tecto a victima e +os assassinos, suscitou-lhe a idéa de salvar Paulo de Azevedo e sua +filha das garras dos agentes de Lagarde, castigando ao mesmo tempo a +perversidade de Cabrinha e do seu acolyto. Avisou os delegados do +conselho de Lisboa, ajustou com elles a maneira de fazer evadir o +cavalheiro de Mafra e Leonor, condemnou o fazendeiro á immobilidade, +assegurando-lhe em premio da sua paciencia as delicias da vingança, e +para não omittir nenhum episodio distribuiu ao travesso José Vardasca o +papel conspicuo de phantasma branco, marcando a todos a meia noite, como +a hora mais opportuna para o feliz exito do drama. + +Sabemos qual foi o resultado. Os milicianos fugindo, o _Sapo_ correndo +até perder o folego, e o sargento estatelado sem sentidos no meio da +cozinha! O que se tornou mais difficil foi calar os berros do intrepido +José Vardasca, assombrado com a vista do fazendeiro, e convencel-o de +que não estava com um defunto, mas com um homem vivo e inteiro. O rapaz +não se rendeu á evidencia, senão depois que viu e apalpou como S. Thomé. + +O sargento, cujos ossos ameaçou por umas poucas de vezes o cajado, ou +antes a clava de Manuel Simões, e que o João da Ventosa não trabalhou +pouco por salvar ainda d'esta vez, o sargento, desmaiado e inerte, foi +levado para cima de um catre e vigiado por um dos moços com ordem de +chamar o lavrador assim que abrisse os olhos. O fazendeiro da Aramanha, +mal rompia a aurora, tomando o conselho do compadre, montou n'uma egua, +e partiu para casa a descançar, não sem primeiro rezar um responso ás +costellas do virtuoso Cabrinha e ao pescoço de Gaspar Preto, aonde quer +que os encontrasse. + +O sargento esteve duas horas sem accordo. Quando voltou a si não via +senão fantasmas em redor da cama. Custou a socegal-o. + +O que mais abalára aquella alma seraphica fôra a fuga dos seus presos! +Não podia conceber como lhe tivessem escapado, e na sua dor pharisaica +arrepellava as melenas, e blasphemava como um possesso, jurando contra +Satanaz, contra a Casa Maldita, e contra si. Mesmo de noite quiz saír. +Pediu o cavallo, outro espectro na transparencia e magreza, e +cravando-lhe as esporas voou a Santarem, talvez na esperança de ainda +pôr a mão em cima da presa. + +Voltemos agora á Azenha de Cima, aonde deixámos Manuel Coutinho e o +Antonio da Cruz, esperando pelas horas mortas da noite afim de +emprehenderem a campanha planeada por ambos. + +Apezar da chuva caudal e dos relampagos, o moço do moinho, garoto leve +como um ginete, que via de noite como os gatos, e era capaz de entrar +pela bôcca de uma manilha, tinha sido mandado pelo amo á descoberta até +á Casa Negra com ordem expressa de não se deixar agarrar, e de espreitar +em roda com a sua curiosidade habitual. O rapaz partiu a correr, como se +a agua lhe não batesse em cima ás torrentes, e uma hora depois voltava +com a noticia de que os presos estavam na Casa Maldita, de que o +sargento, o _Sapo_, e os milicianos ceiavam regaladamente com o João da +Ventosa, e de que o corpo do Manuel Simões fôra recolhido pelo lavrador, +e jazia com uma véla aos pés e outra á cabeceira na mesma cozinha, aonde +o beleguim emerito e seus sequazes se estavam banqueteando. + +Em toda esta chronica, narrada pelo moço com incrivel volubilidade, o +que mais socegou o animo de Antonio da Cruz foi a certeza, de que o +cadaver do fazendeiro da Aramanha não desapparecêra, como se dizia, por +artes do demonio. Estava prompto a medir-se e a arcar com uma companhia +inteira de milicias, mas o inimigo do genero humano tremia só de cuidar +que poderia encontrar-se com elle um só instante! + +--Ah José! disse depois de certa pausa. Então o sôr João da Ventosa é +que levantou o corpo do Manuel e o levou para casa?... Estás bem certo? +Viste?... + +--Com estes dois que ha de comer a terra, respondeu elle, fazendo uma +cruz com os dedos, e beijando-a. Assim me Deus salve a minha alma. Ah +patrão, que _diluivo_ de agua que vae por ahi abaixo! Parece que quer +alagar-se hoje o mundo. Credo!... + +--É verdade! accudiu o moleiro. Vens um pinto... Vamos! Que tal te sabia +um trago, ou dois de agua pé, ein? A roupa não te pesa e estás tiritando +que parece que te apanhou uma sezão... + +O liquido medido com largueza pagou os trabalhos do moço, e o amo +despediu-o logo depois, em quanto Manuel Coutinho passeiava de um lado +para o outro inquieto e murmurando por entre dentes algumas palavras. + +--Antonio! observou o mancebo, parando de repente defronte do moleiro, e +encarando-o firme. Atreves-te a ires commigo á Casa Negra, para +enxotarmos de lá o sargento e a sua quadrilha? Elles são oito, ou nove, +mas nós dois bem armados e decididos?!... + +--Valemos por dez ou doze. Vá feito, senhor! A espingarda é de dois +canos e a choupa está amolada... V. s.^a quer a outra espingarda? É um +instante em quanto se carrega? + +--Não!... Sim!... Carrega! Guardarei as pistolas e a espada para o fim +se for preciso. + +--Quer que vamos já?... Sinto uns formigueiros n'este braço, que não me +deixam senão quando assentar em cheio duas boas lambadas nas costas do +sargento e na cabeça d'aquelle alma ruim do _Sapo_... + +--Não as perdem, mas espera!... Que bebam até caír. Nós os faremos +erguer. Podes fumar homem! + +--Com sua licença. + +O dialogo acabou aqui. Manuel Coutinho sentou-se com a cabeça entre os +punhos e os cotovellos na mesa, scismando, e o Antonio poz-se com todo o +vagar a carregar e escorvar a espingarda. Depois foi ver as mós se +tinham grão, abriu o ladrão da presa, e quando tornou, veiu encontrar +ainda o patrão na mesma posição com o relogio deante de si e os olhos +cravados nos ponteiros. + +--Agora! exclamou o mancebo levantando-se com impeto. É meia noite! +Esperam por nós. Vamos! E cobrindo-se com a manta, que o Antonio +extendera a enxugar ao lume, passou as pistolas no cinto, apertou o +boldrié da espada mais alto, e pegou na espingarda. + +O moleiro ainda se apromptou mais depressa. Enrolou-se na manta, cobriu +com ella a coronha e os fechos da clavina, metteu-a debaixo do braço +esquerdo, e empunhou com a mão direita o inseparavel varapau rematado +pela choupa. No momento, em que estava dando volta á chave da porta um +immenso clarão livido abriu os céus, o outeiro illuminou-se de fulgores +sinistros, e a casa tremeu com a terra ao ribombo do trovão +perpendicular. Apezar da sua intrepidez os dois recuaram quasi +assombrados até ao meio do aposento: Santa Barbara! bradou o Antonio +benzendo-se. Jesus! clamou o amo ao mesmo tempo. Ficaram immoveis ambos +olhando um para o outro. + +--Deixemos passar a maior, senhor! disse d'ahi a instantes o vigoroso +aldeão. Ella anda mesmo por cima da nossa cabeça... + +--Pois sim. Deixemos! redarguiu Manuel Coutinho sentando-se no banco +defronte da porta. + +Minutos depois outro relampago menor allumiou o campo, e á luz d'elle +viram vir correndo ennovellado direito ao moinho um vulto, que mais +parecia na velocidade um furacão, do que um homem. + +--Oh lá! disse em voz cheia o moleiro. Castelhanos por aqui á meia +noite?! Quem temos? É bom vêr sempre!... + +Não teve tempo para mais, do que para se desviar, extender o braço, e +segurar pela golla o impetuoso vulto, tão cego na partida, que se elle +não se arreda a tempo, colhe-o pelos peitos, despedido como uma bala de +canhão, e atira-o ao chão, porque trazia força para arrombar portas e +paredes. + +--Ah, sô amigo, aonde vamos com tanta pressa? exclamou o Antonio, o qual +affeito a apanhar na praça os bois de cara, amarrava ao limiar com o +vigoroso pulso o desconhecido, que, estafado e convulso, estacou +arquejante e sem poder falar. + +Manuel Coutinho, callado e quasi indifferente, havia-se approximado da +porta, e contemplava a scena, como quem só desejava, que ella se não +prolongasse. Antonio da Cruz adivinhou a impaciencia do mancebo, e +voltando-se para elle disse-lhe: + +--É um instantinho, meu amo! Entretanto amaina mais a chuva... mas nadar +por estas horas com mouros na costa, nada!... Vamos, patrão, desate-me +já a lingua, como desatava as pernas pelo cabeço arriba, e diga para ahi +quem é, e o que faz correndo por esta linda noite até á porta da gente +de bem!... Vamos, desembuche, senão!... + +--Sou... Sou... + +--É! É... Quem? Cousa boa, não decerto. Com a breca! Entre que lhe +queremos ver o focinho á candeia. Melros ás escuras podem saír +morcegos!... + +E ao mesmo passo arrastava para dentro da cozinha o vulto, que +escorrendo em agua, e cortado de frio e medo, nem lhe resistia, nem +tinha animo para articular palavra. Apenas lhe metteu a luz ao rosto, o +moleiro, fitando-o, voou de um salto á porta, fechou-a, e voltando-se +para Manuel Coutinho, disse-lhe com um riso amarello: + +--Aposto que v. s.^a não é capaz de adivinhar quem o diabo nos trouxe +por aqui? Sabe quem é este cara de fuinha?... + +--Nunca o vi. Não o conheço. + +--Pois olhe que perde!... Isto é o maior heroe cá dos sitios... Nem mais +nem menos, do que o sôr Gaspar Preto, por alcunha o _Sapo_!... + +--O _Sapo_? Já te ouvi esse nome... Será?!... + +--O maior ladrão e traidor da cafila dos jacobinos... Oh, mas por aqui a +esta hora, não é natural! O sargento Cabrinha não anda longe, aposto!... +Este velhaco é o seu braço direito... + +--Percebo!... bradou o mancebo, deitando tambem a mão ao _Sapo_, e +saccudindo-o de modo, que se repetisse, ameaçava desconjuntal-o. +Antonio! Não o deixes escapar! Foi Deus que o trouxe... + +--Deus?!... Antes o demonio, cujo é!... Não importa. Veiu por guloso? +Pagará as dividas que tem na minha conta. Se havia de ser ámanhã é hoje. +Gaspar! Toma sentido! Se não me respondes direito, por alma de minha mãe +te juro, e sabes que nunca jurei em vão, que deixas aqui a pelle pelos +nós d'essa corda, ou os ossos na vara do meu cajado... + +--Sôr Antonio, por quem é!... + +--Por quem sou mesmo. Prometti, e costumo cumprir. + +--Nunca lhe fiz mal... + +--Hum! Nem bem!... Vamos! Cabeça alta e lingua solta. D'onde vens? + +--Da Casa Negra, aonde appareceu o demonio ao sargento, a mim, e aos +milicianos. + +--Ah! Ah! accudiu Manuel Coutinho. Deixa-me perguntar. Este fio póde +levar-nos longe. + +Interrogado pelo mancebo, entre o pavor dos espectros e o medo das +ameaças de Antonio da Cruz, Gaspar Preto fez uma confissão geral tão +sincera, que até o segredo do tiro dado em Manuel Simões lhe saltou +quasi todo da bôcca sem se sentir. O pavor ensandecia-o. + +--E affirmas não estar já ninguem na casa, senão os presos? + +--Ninguem, a todos os vi fugir, como lebres... + +--E o sargento? + +--Desappareceu. Foi o primeiro. + +--Bem! Agora nós! atalhou o moleiro. O que vinhas tu aqui cheirar +ante-hontem? Se disseres a verdade não te toco. + +--Eu!... Eu!... + +--Tu sim! + +--Vinha ver... se havia gente de fóra por cá!... redarguiu o malsim +contido pelo olhar firme de Antonio, e estorcendo-se como se lhe +estivessem dando tratos. + +--Ora graças a Deus! Já confessas!... Vinhas então como espia! Está bom. +Outra pergunta. Quem foi ao Casal do Ouro? Fala!... + +--Eu!... Suspirou tremulo o miseravel. + +--Quem te mandou? + +--O sargento... Que eu por mim!... + +--Bem sei. Vamos a outra historia. Esta tarde deram um tiro no Manuel +Simões?... Vê bem! Quem foi? Olha lá se mentes!... + +Gaspar sentiu dobrarem-se-lhe os joelhos, fugir-lhe a vista, e +zumbirem-lhe os ouvidos. Esbugalhou os olhos, e por mais que quizesse +não poude pronunciar uma syllaba. + +--Quem deu o tiro, quero saber! repetiu o moleiro, meneando o varapau e +encarando o assassino com terrivel gesto. + +--Não sei... Não sei... + +--Sabes e viste. Essa cara de réo o está confessando. Fala. Quem foi? + +--Eu!... por descuido... + +--Descuidos teus, já sei. É o que suppunha. Agora vê lá!... O sargento +não te tinha dito nada?... + +Houve uma pausa longa. O _Sapo_ chorava, supplicava, mas não redarguia á +interrogação. + +--V. s.^a já viu esmagar uma osga contra uma parede? bradou o Antonio +fuzilando-lhe as pupillas, e convulso de cholera. Pois vae ver. +Juro-lhe, se este cão se cala um minuto, que deixa os miolos n'aquelle +muro. + +--Pelo amor de Deus!... Sôr Antonio não me deite a perder!... + +--O sargento sabia?... replicou o outro alçando o cajado. + +--Jesus!... Não me mate! + +--Sabia ou não?... + +--Sabia!... rosnou o malsim quasi sem sentidos de terror. + +--Quanto te prometteu... pelo tiro? Conheço-te. Tu de graça não o +disparavas. + +--Agora isso não! Póde matar-me, mas não confesso. + +--Eu matar-te?... Para que? O carrasco não come pão de graça. + +--Então entrega-me?!... + +--Com anginhos nos dedos e ferros aos pés. Juro-te! Dize a verdade, +homem. Do mal o menos. Quanto te prometteu? Olha que a corda, que ha de +pendurar-te na forca, já está fiada e torcida... + +--Se eu disser não me descobre? + +--Não! O teu crime te descobrirá. Quanto? + +--Seis moedas... + +--Por conta, ou ao todo? + +--Por conta. As outras seis... havia dar-m'as em Lisboa... quando +levassemos os presos. + +--Ah! Agora repara. Vamos ás nossas contas. Gaspar, devo-te uma sova +mestra pelo natal passado e outra por este entrudo. Bem te has de +lembrar por quê!... Mas perdôo-te, tudo, e até no tiro dado em Manuel +Simões não hei de boquejar... se juras fazer ao sargento o que elle te +mandou fazer aos outros... + +--Matal-o?!... exclamou o _Sapo_, cuja vista feroz se inflammou. + +--Não, maldito! A justiça que o mate, quando o sentencear! + +--Então?!... + +--Quero que vejas, que ouças, e que me digas tudo quanto elle fizer? +Percebeste? + +--Sim senhor... + +--Vê lá. Se te escorrega um pé, ou a lingua, e eu o sei... guarda-te! + +--Não ha de ter razão de queixa. Sou-lhe muito obrigado. + +--Não me dês mel pelos beiços, que não sou abelha. Cuidado commigo. +Depois!... + +--Já lhe disse. Fique descançado. + +--Fico, fico! Não tem duvida. Agora vens comnosco á Casa Negra. + +--Oh, sôr Antonio, por alma de sua mãe, pela sua boa sorte, tudo quanto +mandar, menos isso... Sirvo-o de rastos, estou prompto a lamber o chão +aonde pozer os pés, mas tornar alli... isso não! + +--Ah! Tens medo do diabo?... + +--Mate-me, entregue-me, faça de mim o que quizer, mas não volto lá. + +E as feições repulsivas do malsim exprimiam por tal modo o medo e o +espanto, e revelavam uma resolução tão decidida de se expor a tudo para +não obedecer, que Manuel Coutinho disse algumas palavras ao ouvido de +Antonio da Cruz. + +--Pois bem, esperarás por nós. Ahi te deixo agua pé e brôa. Mas sentido! +Olha que te quero encontrar á volta!... Forte homem! Ter pavor assim de +almas do outro mundo!... + +--Ah! sôr Antonio! Se você visse!... O fantasma branco alto como um +cypreste crescer para si, e o defunto sentar-se de repente e olhar... Ai +Jesus! Parece que os estou vendo ainda! Quando me lembro cuido que +enlouqueço!... + +--Está bom! Está bom! Até logo! Com que viste o defunto e o fantasma?... +insistia o moleiro serio e apprehensivo, olhando para o amo com certo +enleio. + +--Como o estou vendo a você, sôr Antonio. Credo!... + +Manuel Coutinho encolheu os hombros, conchegou o capote e saíu. O +Antonio não teve mais remedio senão seguil-o, mas apezar de todo o seu +valor benzeu-se, e o coração batia-lhe mais rijo no peito, do que se +visse um touro partir contra elle enfurecido. + + + + +IX + +Que talvez podesse servir de prologo + + +Deixemos descançar por um pouco os heroes d'esta mui veridica historia, +em quanto corremos rapidamente os olhos pelos successos, de que a +Peninsula foi theatro n'este periodo memoravel. + +Sem um resumido esboço, dos factos, que servem de fundo e de moldura ao +quadro, difficilmente formará o leitor exacta idéa d'elle. + +Os francezes, como dissemos, tinham atravessado as provincias, e entrado +na capital com o nome de amigos. Retirando-se com a esquadra para o +Brazil, o principe regente entregára em suas mãos o reino sem defeza. As +ultimas ordens de sua alteza, datadas de 26 de novembro de 1807, ordens +pacificas e conciliadoras, abrindo-lhes as fronteiras, ajudaram mais, +que as armas, os generaes de Bonaparte a superar os obstaculos da +invasão. + +Junot confessou-o nas primeiras proclamações! A obediencia, tão elogiada +por elle, e dictada pelas circumstancias, ainda não encerrava os +ressentimentos, que tornaram depois vacillante e precario o dominio +estrangeiro. + +O regimen absoluto, que as reformas do marquez de Pombal não conseguiram +remoçar, adoecia de incuravel decrepidez. Muitos homens illustrados, que +o grandioso espectaculo dos acontecimentos advertia, suspiravam por uma +renovação, que não podia nunca ser inspirada, bem o sabiam elles por +experiencia, nem pelas idéas, nem pela iniciativa de um governo caduco. + +Esta illusão de animos generosos durou pouco. Os que amavam sinceramente +a patria depressa se desenganaram da vaidade das promessas dos +conquistadores. + +Estes, apenas se reputaram seguros, arrancaram a mascara, e pozeram +termo ás complacencias. Assim que viu reunidos e repousados os corpos +dispersos por longas e precipitadas marchas; assim que os soldados lhe +pareceram restaurados da fome, das inclemencias da estação, e da +aspereza do transito o general em chefe cançou-se de dissimular, falando +com a altivez de vencedor aos que o tinham recebido como hospede! + +Foi então geral o sobresalto. Os actos despoticos e oppressivos +dir-se-íam calculados para irritar o ciume e o amor proprio do paiz. As +guardas de Lisboa confiadas só aos francezes; o emprestimo forçado +imposto ao commercio com o praso de vinte dias; a insolencia do famoso +decreto de Milão condemnando como sujeito a resgate o reino que não fôra +conquistado; as armas reaes picadas do frontão dos edificios publicos; e +a bandeira nacional arriada no castello e nas fortalezas, e substituida +pelos estandartes tricolores, foram outros tantos erros dos dominadores, +que a saudade da independencia registrou como ultrajes. + +Desde o dia 13 de dezembro, em que Junot rodeado de pompas guerreiras, +mandára baixar o pavilhão das quinas deante das aguias do Sena, nunca +mais houve paz entre a nação offendida e os invasores. A luva ficou +desd'esse dia no chão por falta de chefe, que a levantasse; porém, +decorridos mezes, Portugal erguia-se para responder á provocação, +envidando valor egual aos brios. + +Atraz da occupação da pequena monarchia, que o orgulho do gabinete de +Saint Cloud estava ainda longe de suppor, que podesse tornar-se em breve +um dos inimigos implacaveis de sua ambição, pouco se dilatou a invasão +de toda a Hespanha. Assignando o tractado de Fontainebleau, que repartia +os membros de Portugal entre os Bourbons, os francezes, e o principe da +Paz, auctorizando a entrada de quarenta mil soldados em seus dominios, +Carlos IV não percebeu que firmava a propria abdicação. + +Bonaparte anciava um pretexto para realizar os seus designios. +Deram-lh'o os enredos aulicos, o nucleo de descontentes, de que se +rodeava o principe das Asturias, depois Fernando VII, e a má vontade de +todas as classes contra o ministro omnipotente, valido do monarcha e +amante da rainha; deram-lh'o egualmente a miseria, a inquietação, a +decadencia geral, e o presentimento de immensas catastrophes. + +As dissensões da côrte, filhas da lucta do herdeiro da corôa com os +soberanos e com o privado, D. Miguel de Godoy, e a indiscreta revelação +dos aggravos reciprocos, levada ao tribunal do imperador, para este +sentenciar como arbitro a familia real, ajoelhada a seus pés, +facilitaram a occasião appetecida por Napoleão I, precipitando a queda +do ministro entre violencias e tumultos, coagindo a abdicação de Carlos +IV, e apressando a saída de Fernando VII para Bayona. + +Vendo por terra o diadema dos Bourbons de Hespanha Bonaparte não o +restituiu a Carlos IV, nem a Fernando VII, cingiu-o na fronte de seu +irmão, o rei de Naples, escolhido para reinar entre bayonetas sobre a +monarchia de Izabel a Catholica. Os principes despojados resignaram-se, +mas a Hespanha protestou. Madrid insurgida deu o exemplo. Murat cuidou +suffocar a sublevação pelo terror dos supplicios. Illudiu-se. O sangue +vertido na capital em 2 de maio tornou irreconciliavel a nova conquista +com o imperio. A nação respondeu aos canhões, aos fuzis, e ás execuções +militares com a resolução indomita, que as adversidades confortam, e os +triumphos exaltam. + +A ira fez soldados os habitantes da Peninsula. O odio da servidão +resuscitou os dias de Viriato e de Sertorio. Cada rochedo, cada tronco, +de arvore, cada balsa escondeu um inimigo; e para repellir os +oppressores até os velhos saccudiam os gelos da edade como mancebos, e +as crianças pelejavam como homens. Por um, que expirava, erguiam-se mil. +N'esta nova seára de Cadmo o ferro, tocando a terra, levantava legiões +de heroes. O chão fugia debaixo dos pés aos veteranos da Italia e do +Egypto, e a espada dos marechaes, quebrada sem gloria, ameaçava em vão +as fragas de um territorio, que, alastrado de cadaveres, e abrazado +pelas armas e pelos incendios, até cuspia de si os ossos do estrangeiro, +negando-lhes a paz do tumulo! + +Oviedo, a antiga e venerada côrte das Asturias, recordando, que suas +montanhas tinham sido berço e asylo da renascença christã, alçou ousada +o seu estandarte. Cadix e Sevilha acompanharam-n'a. Granada e Valencia +insurgiram-se logo depois. Toledo, Santander de Biscaya, Saragoça, +Tortosa, e Galliza, não ficaram atraz. Dentro em pouco os esquadrões +francezes, encanecidos nas luctas d'esta epocha de prodigios, já não +chamavam seu mais do que ao terreno aonde combatiam. + +As juntas de salvação e defeza, á medida que as terras se iam +sublevando, exprimiam o seu pensamento de porfiada resistencia. Filhas +legitimas da revolução, os revezes e os sacrificios não as desanimavam. +Diversas e oppostas muitas vezes no caracter e nos costumes, nenhuma +trahiu o seu juramento. Preferindo para mortalha da Hespanha os muros +voados e as torres arrazadas das praças de guerra e das antigas cidades, +todas rejeitaram a clemencia injuriosa, que lhes promettia o perdão em +troca do soberbo dominio a que a Europa quasi inteira curvava então a +cerviz. + +Os successos correram como a impaciencia dos contendores. + +A invasão, que talára a provincia de Granada, derrotadas por Castaños as +tropas imperiaes, foi obrigada a retroceder. A capitulação de Bailen +quebrou o prestigio das legiões invenciveis. Os francezes, acossados de +posto em posto, tiveram de evacuar Madrid, e recuando deante do impeto +da nação armada, só pararam ás margens do Ebro. Os capitães mais ousados +aprendiam, finalmente, a conhecer, que vale mais o esforço de um povo +unanime, do que a espada feliz do mais do maior homem de armas. + +A junta central de Aranjuez, composta de deputados de todas as +provincias, constituiu-se como representante de Fernando VII, captivo em +Valençay, e assumiu a suprema direcção, conferida pelas necessidades e o +heroismo pelo paiz. A Inglaterra, senhora por tanto tempo do sceptro dos +mares, disputando a Napoleão em todos os campos de batalha a primazia no +continente, ouviu de repente os clamores dos descendentes de Pelaio, e +contemplando o arrojo, com que elles se atreviam contra o poder que +desmaiava os monarchas mais poderosos, estremeceu de jubilo, e saudou +n'este commettimento audaz a aurora do dia de Waterloo. + +Em Portugal, apezar de não ser menos vivo e intenso o odio, não foi tão +prompta a explosão. Mas a chamma, por calar debaixo de cinzas, não +rompeu por isso com menor violencia. + +No dia 5 de fevereiro de 1808, na occasião, em que as auctoridades +francezas se reputavam mais firmes, reuniram-se encobertamente em Lisboa +seis homens, que nenhuma distincção hierarchica apontava para chefes, +mas que a firmeza da vontade e o despreso dos perigos recommendam ao +louvor da posteridade. Chamavam-se Matheus Augusto, José Maximo Pinto da +Fonseca Rangel, José Carlos de Figueiredo, Antonio Gonçalves Pereira e +André da Ponte de Quental da Camera. Juraram na presença de Deus +empregar as forças, os bens, e a vida com fervor até conseguirem +restituir ao principe regente, a sua corôa, e á patria o seu esplendor e +liberdade. + +Juntavam-se ás oito horas da noite alternadamente uns em casa dos +outros, e desde logo se occuparam de minar o chão debaixo dos passos dos +invasores, descobrindo no meio do seu cortejo os illudidos e os coactos +para os descriminar dos vendidos e traidores, e sondando o animo dos +officiaes militares, dos magistrados, e dos ecclesiasticos para indagar +a sua disposição, apurando aquelles com que podia contar. + +Esboçada a conspiração, e protegida por inviolavel segredo, principiaram +os primeiros conjurados a attrahir outros, engrossando o numero dos +cumplices. Á policia, regida por Lagarde, chegaram cedo os echos d'esta +empreza, que, tomando corpo á proporção que os acontecimentos +caminhavam, era já na primavera de 1808 uma verdadeira potencia, +fortificada pelos votos concordes do patriotismo portuguez, e pela +coadjuvação de valiosos auxiliares recrutados nas fileiras do exercito +nacional, nas casas mais illustres da fidalguia, e nas classes +respeitadas do clero, da toga, e do commercio. + +Quando Junot embarcou em virtude da capitulação de Cintra, só os cabeças +de bando, representantes, perante o Conselho Conservador, da multidão +dos adherentes, excediam de _cento e oitenta_, e os homens, de que +podiam dispor, não baixavam de tres, ou quatro mil, com sete peças de +artilheria, 370 cavallos do regimento da Luz, e da guarda real da +policia, 112 officiaes avulsos, e 710 bayonetas! + +Saltemos agora as semanas, que nos separam dos meiados de junho de 1808, +e observemos o estado das cousas já bastante alterado no curto espaço de +sete mezes. + +Determinára a Providencia que do excesso dos males, que flagellaram a +Peninsula se gerassem as causas, de que primeiro renasceu a +independencia, e depois a liberdade. As scenas de Bayona, e a repressão +cruel dos tumultos de Madrid despertaram a Hespanha do somno, em que a +falsa alliança dos francezes a embalava. Badajoz sublevou-se a par de +outras terras importantes no dia 30 de maio, e á sua voz principiou a +provincia do Alemtejo a agitar-se. Ao norte a Galliza, com os bellos +portos do Ferrol e da Corunha, e a sua população briosa e accumulada, +não hesitou egualmente em saccudir o jugo. + +Os dez mil hespanhoes aquartelados no Porto, que depois da morte do +general Taranco obedeciam ao marechal de campo D. Domingos Ballesta, +receberam ordem da junta para recolherem, aprisionando o general +Quesnel, governador militar da cidade, e todos os officiaes e soldados, +de que podessem apoderar-se. + +Ballesta executou a ordem, e chamando as auctoridades da segunda capital +do reino, perguntou-lhes, antes de partir, por quem se decidiam? Pela +patria, responderam alguns. + +O castello de S. João da Foz, de que era major Raymundo José Pinheiro, +arvorou a bandeira portugueza, e a guarnição communicou com o brigue +inglez _Eclipse_, o qual esperava os acontecimentos, cruzando proximo da +costa. O povo não se moveu. A occasião ainda não estava madura. + +Os timidos conselhos do brigadeiro Luiz de Oliveira prevaleceram. O +Porto tornou a submetter-se ao governo de Napoleão I. + +A 9 de julho chegou a Lisboa a noticia da insurreição das tropas +hespanholas e da prisão de Quesnel. + +O perigo eminente estimulou o duque de Abrantes. + +A divisão Caraffa, composta de seis batalhões de infanteria, de um +regimento de cavallaria, e de algumas baterias de artilheria, ardia em +desejos de imitar seus irmãos de armas, provocada pelos emissarios +expedidos a toda a pressa de Sevilha e Badajoz. Junot antecipou-se. +Vinte e quatro horas depois os soldados de Fernando VII, presos e +desarmados, embarcavam para bordo dos pontões francezes, e sómente +poucas companhias do regimento de Murcia e alguns hussards do Maria +Luiza conseguiam escapar-se. + +Por meio d'este golpe ousado o general em chefe, retaliando as +hostilidades dos patriotas, soube refrear a tempo as impaciencias e a +animosidade dos habitantes irritados. Loison saíu a 17 de Almeida sobre +o Porto com a sua columna, afim de se oppor ás tentativas da Junta de +Galliza, e a 20 passava o Douro no Pezo da Regua. Mas o dia das iras +populares tinha alvorecido. Rodeado por todas as partes de inimigos +invisiveis, que fuzilavam suas tropas por traz das vinhas e dos +rochedos, pendurados sobre a corrente torva e arrebatada do rio, volveu +já sobre a noite ao Pezo da Regua, e tornou a vadear o Douro para a +outra margem, abençoando a precipitação boçal dos camponezes, que o +salvára quasi por milagre de uma ruina completa. + +O Minho e Traz os Montes, sublevadas em massa, acabavam de empunhar as +armas, proclamando a independencia. Mais alguns passos de Loison além de +Mesãofrio, mais prudencia e calculo da parte dos aggressores, e a +columna franceza encontrava a sepultura n'aquelles penhascos e +desfiladeiros immortalizados pela sua derrota! + +Em quanto Junot quebrava por um lance audacioso a espada nas mãos dos +batalhões de Caraffa, Manuel Jorge Gomes Sepulveda, tenente general, e +governador militar do norte, em edade provecta, acclamava a restauração +da dynastia de Bragança, e era seguido pelas terras mais notaveis das +duas provincias. + +No dia 18 a revolução rebentou no Porto, e no dia 19 foi nomeada a +primeira junta portugueza, cujo papel havia de ser tão importante nos +successos, que se precipitavam. Coimbra Pombal, e Leiria seguiram o +exemplo do Porto, e a insurreição crescendo e alargando-se, batia pouco +depois ás portas de Lisboa, ameaçando o dominio estrangeiro, tanto pelo +lado do norte, como pelo lado do sul. Desde os Algarves até Evora e Beja +levantou-se o mesmo grito de exterminio correspondido por milhares de +vozes. + +Antes de combater a insurreição a ferro, o duque de Abrantes chamou em +seu auxilio o braço ecclesiastico, convidando-o a fulminar as populações +armadas. + +Uma pastoral do cabido patriarchal representou como crime e peccado +inexpiavel a resistencia ao grande e invencivel Napoleão, declarando a +culpa sujeita a excommunhão maior sem prejuizo das penas temporaes. Esta +profanação sacrilega serviu só de aviltar aos olhos do paiz os ministros +do altar, que não se envergonhavam de offerecer o incenso do templo e o +beijo de Judas contra a liberdade á vontade despotica dos oppressores. +Os raios mal forjados nas sacristias caíram frios e inermes deante da +resolução e da perseverança dos que pelejavam pela patria, e a famosa +proclamação ao Divino, despresada como merecia, não roubou ás fileiras +nacionaes um só defensor. + +A resposta de Bonaparte em Bayona á deputação portugueza foi mais +eloquente para fazer de nós soldados, do que as excommunhões dictadas no +quartel general francez. O imperador, julgando a occupação de Portugal +legitima depois da partida da familia de Bragança, tractava o pequeno +reino desamparado com os rigores devidos a uma colonia ingleza! + +Era a sua idéa e a sua politica. Pouco lhe importavam o amor e a +confiança dos novos subditos. Não os temia nem o preoccupava o que havia +de dispor afinal ácerca do seu destino. Junot, que os conhecia melhor, +tinha procurado attrahil-os, e chegára a linsongear-se com a esperança +de os adormecer a ponto de lhes riscar da memoria as saudades da +dynastia e da independencia. A obediencia imposta pela força +afigurava-se-lhe esquecimento, e nos seus officios ao ministro da guerra +o governador de Paris traduzia os vivas venaes da plebe ao sabor dos +seus desejos, pintando a nação tranquilla, submissa, e satisfeita. A +explosão das provincias e os murmurios da capital vieram depressa +acordal-o d'este sonho! + +Olhou. Não viu em volta de si, senão odios mal reprimidos, ou adhesões +falliveis e compradas. A pobreza e a miseria, filhas do bloqueio, que +paralysava o commercio, tornavam ainda mais critica a sua posição. O +cambio do papel moeda subira a 31 e a 32 por cento; o pão custava 75 +réis o arratel. A carestia dos generos, tornando a vida difficil e +dolorosa para as classes indigentes, aggravava o descontentamento geral. +A Junta dos Tres Estados, reunida para pedir um rei a Napoleão, +proporcionou ao juiz do povo José de Abreu Campos, a occasião appetecida +de manifestar os verdadeiros sentimentos do paiz, desenganando o duque +de Abrantes, de que se achava só e detestado com o seu exercito no meio +de populações hostis, que suspiravam pela hora de restaurar a liberdade +e o throno de seus principes. + +No mez de junho estavam dissipadas todas as illusões. Admirado do arrojo +com que paizanos quasi sem defeza se arriscavam ao encontro de legiões +aguerridas, Junot exclamava: «Portuguezes! Que delirio é o vosso? Em que +abysmo de males vos despenhaes? Ao cabo de sete mezes de paz e harmonia, +porque razão correis ás armas?» Concluindo com a lei marcial, ameaçava +as villas e cidades com o saque e o incendio, e os cidadãos com a morte! + +Se estivesse mais lembrado da sua juventude deveria recordar-se do modo +por que a França respondêra heroicamente aos que lhe apontaram a espada +ao peito dizendo o mesmo. + + + + +X + +Tolda-se o tempo + + +Transportemo-nos um pouco antes dos successos esboçados nas paginas +antecedentes aos paços da inquisição, situados no Rocio de Lisboa, aonde +hoje ergue o seu frontão votado ás Musas o theatro de D. Maria II. Em +algumas das salas e aposentos do antigo palacio dos Estáos, restaurado +pelo marquez de Pombal, assentou Lagarde as repartições da policia geral +do reino. Era justo! Ao lado do santo officio da fé o santo officio da +usurpação. As duas inquisições fraternalmente hospedadas uma a par da +outra não podiam offender-se do acaso que as unia! Soldados da guarda +real da policia, corpo fundado e disciplinado pelo conde de Novion, +emigrado francez que as victorias de Bonaparte e a invasão de 1807 +lançaram outra vez nos braços dos seus compatriotas, guardavam as portas +de fóra, ou de espadas em punho vigiavam os corredores e camaras, que +precediam o quarto reservado aonde o proconsul se encerrava com os seus +confidentes. + +Deixemos passar esses vultos, que pisam os sobrados nas pontas dos pés, +escorregando quasi como sombras. São rodas secundarias da machina. O +olhar enviezado e inquieto, o rosto meio escondido na dobra do capote, e +a humildade rasteira denunciam, sem necessidade de mais exame, os +delatores obscuros, ou os agentes provocadores, destacados nas ruas e +praças, ou nas tavernas para escutar e repetir os clamores de indignação +das multidões. Esperemos que algum personagem de elevada gerarchia +appareça, e nos introduza no gabinete discreto e só accessivel a poucos +eleitos, aonde o magistrado estrangeiro conta as pulsações do coração de +Portugal, e segue com a vista fria e penetrante os estremecimentos de +cholera, ou de impaciencia do paiz, cançado da oppressão e envergonhado +do silencio, em que a supporta ha sete mezes! + +O general Junot, governador de Paris, entra pelo braço do conde da Ega, +seguido de seus ajudantes de campo. O ministro Herman, encarregado dos +negocios do reino e da fazenda, ex-commissario imperial, não se demora +atraz d'elle. Lunyt, secretario d'estado da marinha e da guerra já os +tinha precedido. A concorrencia de taes pessoas inculca acontecimento +notavel, e é de crer que o conselho se não separe sem que alguma +providencia venha esclarecer o segredo dos ultimos dias e dos ultimos +sucessos. Quem nos abrirá caminho até ao famoso reposteiro, que deante +da entrada da sala vedada representa para os profanos o papel de véu de +Pythagoras? As sentinellas, immoveis como estatuas, velam fieis ás +ordens recebidas. Os porteiros, em ar protector, ou mysterioso, despedem +os pretendentes e os importunos. Um cordão de empregados corta á +curiosidade todos os passos. Gritou-se, porém ás armas. O uniforme de um +official superior reluz na extremidade de extenso corredor. Os +subalternos inclinam-se profundamente, e respondem em voz submissa ás +perguntas imperiosas, que lhes dirige. Acompanhemos este iniciado. É o +capitão de mar e guerra Magendie, commandante da marinha. Seguindo-o, +temos a certeza de não encontrar obstaculos. + +Quando o recem-chegado franziu o reposteiro de panno escarlate orlado de +branco, no meio do qual campêa uma aguia azul colossal, e empurrou de +leve um dos batentes da porta, a discussão já se havia travado, segundo +parecia, menos placida, do que promettiam os annos e auctoridade dos +diversos membros do governo, sentados á roda da comprida mesa, coberta +de couro, e cingida até ao chão de um rodapé de tela encarnada. A mesa +occupava o centro da casa. Junot, facil de conhecer pela estatura, boa +presença, e garbo do porte, achava-se em pé junto da cabeceira, com o +rosto inflammado, e a mão no punho da espada. Lagarde, á sua esquerda, +analyzava com o olhar prescrutador todas as physionomias, traçando com a +penna sobre uma folha de papel algumas palavras soltas. Pallido, ou +antes livido, retratava no rosto a astucia unida á expressão repulsiva +de um cynismo cruel e glacial. + +Herman, á direita do general em chefe, sereno, aprazivel, e delicado, +com um lapis entre os dedos enfeitados de anneis, justificava ao +primeiro volver de olhos a reputação de melindre e de primor, merecida +desde que se estreára na carreira publica exercendo as funcções de +consul em Portugal. Vestia em todo o apuro da moda do seu tempo. Casaca +de lemiste talhada á franceza com botões de metal e golla alta, collete +branco aberto, que deixava sobresaír a finissima cambraia da camisa e da +tira engommadas em pregas miudissimas, calções de seda, meia a estalar +na perna, sapatos e fivelas de ouro cravejadas. Um espadim curto de +bainha dourada pendia-lhe da cinta, e uma caixa de rapé, mais preciosa +pelo lavor, do que pela qualidade, aberta a seu lado, e consultada a +miudo pelos dedos distrahidos de Junot, recommendava-se pela admiravel +miniatura, cercada de aljofres, que lhe ornava a tampa. + +O conde da Ega, cuja intimidade no quartel general do largo do Quintella +as murmurações populares explicavam de um modo pouco airoso, e que dias +depois havia de substituir o Principal Castro na pasta da justiça, +escutava de pé, e com mostras de não pequeno sobresalto, talvez +provocado pelo desassocego da consciencia, a leitura nasal, lenta, e +accentuada, que Lunyt secretario de estado continuava sem mudar de tom, +estudando de vez em quando por baixo dos oculos de ouro o effeito +produzido no animo dos ouvintes. + +A entrada de Magendie, accolhida por uma exclamação de alegria do duque +de Abrantes, por uma cortezia de Herman entre dois sorrisos, e por um +gesto de urbanidade de Lagarde, foi como o signal da explosão até ahi +contida das paixões e receios mal reprimidos. Todos diriam que o +Conselho aguardava a sua chegada para arrancar a mascara, que o +suffocava, dando largas á expressão sincera dos verdadeiros sentimentos. + +--Bem vindo, capitão Magendie! A sua demora fazia-nos temer que +faltasse. O aviso chegou-lhe tarde?... + +--Não foi o aviso, general! Mas a esquadra de sir Carlos Cotton +appareceu outra vez á barra, e julguei prudente ir a bordo das fragatas +_Carlota_ e _Benjamin_... + +--E então?! interrompeu Lunyt, pondo de parte o papel que lia, e +encarando o capitão de mar e guerra. + +--Fosquinhas por ora! respondeu este encolhendo os hombros. +Entretanto... + +--Podem encobrir planos de hostilidade? atalhou Herman, sorvendo com +pausa uma pitada, e dispersando depois com um piparote os grãos que +tinham saltado sobre a tira alvissima da camisa. + +--É possivel. Os inglezes animados pela sublevação dos hespanhoes, +meditam desembarques na peninsula, accudiu Lagarde em ar grave. + +--Veremos se em terra são felizes como no mar! observou o conde da Ega. + +--Mesmo no mar, redarguiu Magendie, espero que não hão de forçar-nos a +barra sem deixarem nos escolhos um par de navios. Temos de observação +entre as torres a fragata _Graça Phenix_ e mais dois vasos de alto +bordo, artilhados, mas incapazes de navegar; em Belem estão fundeadas +tres charruas... + +--Bem! Bem! tornou Junot. Duvido que rocem as barbas pela bôcca de +nossos canhões, Magendie! Oxalá que todas as tempestades nos viessem só +do mar... O peior de tudo, senhores, é que o chão treme debaixo dos pés, +e... + +--Que a traição vela á nossa cabeceira? Notou Lunyt, limpando os vidros +dos oculos, e falando no mesmo tom lento e nasal, com que lia. + +--É verdade, Lagarde! Conspira-se, trama-se, e não nos dizieis nada!... + +--Para que? Quando uma nação inteira está conjurada, general, a policia +passa, vê, e dissimula. Prisões e devassas, de que serviriam, senão de a +irritar mais? Descobrir o que ella quer, tirar-lhe os pretextos, e +escolher a occasião de ferir a muitos de uma vez pelo terror do mesmo +golpe, eis o segredo dos que sabem dominar. + +--Sim! Bem sei! É a theoria de Fouchet, do duque de Otranto!... + +--E para este caso a unica aproveitavel. O que diria o sr. conde da Ega, +tão nosso amigo... + +--Eu!... Pois eu!... + +--Se lhe mettessemos no castello, ou nas torres dez, ou doze parentes de +toga, e de espada, que estão conspirando a esta hora mesmo contra o +governo de sua magestade o imperador e rei?!... proseguiu o intendente +com o seu riso agudo e estridulo, similhante ao som do córte de uma +serra. + +--Ah! Os parentes do sr. conde de Ega tambem são contra nós?!... notou +Junot vagarosamente. + +--E os da senhora condessa ainda mais!... observou Lagarde trespassando +o general com a vista afiada e ironica. + +Uma nuvem escureceu a fronte do duque de Abrantes. Aquella seta viera +cravar-se-lhe direita no peito. O guerreiro destemido, coroado tantas +vezes pela victoria no meio de proezas heroicas, era accusado de +excessiva sensibilidade perante o bello sexo; e a formosa condessa da +Ega, segundo se dizia, graças a seus enlevos e encantos, tinha +conseguido tornal-o escravo do menor de seus caprichos. + +O general inclinou a cabeça, correu os dedos pela fronte annuviada, como +se quizesse saccudir com o gesto pensamentos importunos, e, sem +responder á allusão, levantou-se, e deu alguns passos pela casa, talvez +para ter tempo de se assenhorear de si, vencendo a commoção. Os olhos +dos outros vogaes do conselho fitaram-se no semblante do conde da Ega +por um movimento irresistivel. Sem resultado! Ayres de Saldanha, por +calculo, ou por ignorancia, não denunciava na physionomia, senão a +indifferença apathica, prova real da mais virtuosa confiança. Herman e +Lagarde trocaram um sorriso fino, que não abonava a sua credulidade na +innocencia apparente do fidalgo portuguez. + +N'este momento a mão de um ajudante de ordens arredou as prégas do +pesado reposteiro, e sem proferir palavra entregou a Junot dois maços +cuidadosamente lacrados. O duque recebeu-os tambem calado, e veiu +sentar-se na ampla cadeira de braços, d'onde se erguêra minutos antes. +Emquanto rompia o sobrescripto do primeiro, e corria os olhos pelo +volumoso officio, era facil notar no seu rosto, de ordinario sereno e +intrepido, a apprehensão causada por noticias desagradaveis. Antes de +passar á leitura do segundo maço, e de lhe rasgar a capa, os que o +conheciam assustaram-se, apercebendo-se de certa hesitação momentanea, +notavel em caracter tão firme, porque seguramente inculcava mais do que +sobresalto, ou torvação. Ao mesmo tempo recebia Lagarde um papel +fechado, que não lhe causava menor cuidado, do que os dois officios ao +general. Houve um minuto, ou dois de profundo e ancioso silencio. + +--Nome de Deus! exclamou o duque de Abrantes incapaz de conter as +paixões, e amarrotando irado o papel. Verifica-se o que sempre +prognostiquei. Não me quizeram attender, decidiram tudo em Paris sem +entender nada, e agora cá estamos nós para carregar com o peso de todas +as culpas!... Quantas vezes os avisei e lhes disse a verdade! Deram +finalmente aos inglezes o campo de batalha porque tanto suspiravam; não +contentes fizeram suas alliadas duas nações inteiras. Veremos agora como +desatam o nó! + +E recostando os cotovellos na mesa, e a cabeça entre as mãos, sem fazer +caso do espanto excitado pelas suas phrases, abysmou-se em sombria +meditação. + +--O que é? O que succedeu?... perguntava o conde da Ega a Herman. + +--Pouco viverá quem o não souber! redarguiu o malicioso diplomata, +encolhendo os hombros. Rapaziadas dos portuguezes, aposto!... + +--Mais do que rapaziadas, senhor Herman! atalhou o intendente geral da +policia, que de livido se tornára verde, cujas pupillas chammejavam, +cujo sorriso era uma contorsão diabolica. Estamos sobre um vulcão. + +--Apagado! replicou o ministro do reino inalteravel. Esta gente de +Lisboa não é para emprezas altas. Queixa-se com saudades, fala, ameaça, +mas por fim faz-se d'ella o que se quer. Em lhes não tocando nos seus +lausperennes, nos seus frades, e nas suas procissões, todos andam mansos +como borregos... Estes não me mettem medo a mim; oxalá!... + +--Medo! accudiu Junot, levantando-se de um pulo, com o rosto incendido, +e os olhos scintillantes! Medo! Quem fala em medo!? Para enxotar como um +rebanho de ovelhas toda essa plebe, toda essa espuma... basta o meu +cavallo e o meu chicote!... + +--Nem tanto, senhor duque! observou Magendie. Os portuguezes são homens +e soldados. Mais de uma vez o têem provado. Perguntae aos hespanhoes... +e ao senhor conde da Ega, que hão de conhecel-os. + +Herman sorriu-se. O conde parecia petreficado. A injuria do general em +chefe feria-o no rosto como golpe de mão aberta. O coração indignado +convidava-o a repellil-a, porém o servilismo tapava-lhe a bôcca. Não +acertava com o que fizesse. Calado deshonrava-se; falando +arriscava-se... Calou-se! + +Junot caíu depressa em si. O seu animo era generoso, embora cedesse aos +impetos do sangue, facil de inflammar, provocando paroxismos de cholera, +que os seus intimos deploravam, porque frisavam quasi por loucura +frenetica. As palavras de Magendie advertiram-n'o. Recuperando-se da +embriaguez da raiva, volveu ás maneiras cultas e urbanas, que tantas +affeições lhe grangeavam, mesmo entre os adversarios. + +--Senhor capitão Magendie, a plebe não é a nação. Os portuguezes são +para muito; pena é que não os soubessem aproveitar, em quanto era +tempo!... O erro não o commetti eu. Este povo é bom, generoso, e +paciente... Podiamos, deviamos ajudal-o a regenerar-se... Preferimos +tractal-o como vencido, e fazer d'elle um inimigo!... Paciencia! +Colheremos os fructos que semeámos. Lagarde! Herman! Magendie! Vamos ter +a guerra!... O segundo acto da tragedia começa em Portugal. A Hespanha +deu-nos o primeiro... Loison escapou milagrosamente aos montanhezes +sublevados no Marão, em Amarante, e em Chaves!... + +--Se escapou é o essencial! Os bandos populares sem cabeça depressa se +dispersam. Observou Lagarde. + +--É verdade. Mas o chefe existe. Manuel Gomes de Sepulveda acclamou em +Traz-os-Montes o principe regente... + +--Um velho de mais de oitenta annos, tropego, e quasi cego!?... accudiu +Lunyt sorrindo. + +--Acrescentae, porém, velho mas habil general, valente, e adorado!... As +provincias do norte estão, ou estarão todas em armas dentro de oito +dias. Miranda, Villa Real, Moncorvo, e Guimarães já o seguiram, ou vão +seguil-o... + +--Temos o Porto, e em quanto for nosso, facilmente daremos a mão aos +nossos exercitos de Hespanha, interrompeu Herman. + +--O Porto!... Lêde!... E passando o officio ao ministro do reino, Junot, +em quanto este o lia a meia voz aos collegas, passeiava agitado, medindo +a sala em todo o comprimento. + +--O Porto? É tarde! já não lhe accudimos. Hoje, ou ámanhã subleva-se, e +dá o exemplo. Coimbra não se demora. Contae com ella insurgida. Não nos +lisongeemos com illusões... + +--O mal, comtudo, não é irremediavel! Sejamos fortes! exclamou Magendie. +As nossas tropas devem ter vencido em Hespanha, e... + +--As nossas tropas não venceram, foram vencidas! Tornou o general em +chefe sombrio, e mordendo os beiços. A fortuna vira-nos as costas. As +divisões aguerridas recuam sobre o Ebro. O rei José saíu de Madrid. +Estamos sós e sem retirada no meio de um reino irritado e adverso... + +--Ah! disse Herman empallidecendo. N'esse caso a partida é arriscada. +Não a julgo, porém, perdida. + +--Nem eu! Mas contemos um pouco, se nos apraz, com os inglezes. Em +Gibraltar acha-se sir Hew Dalrymple com o corpo do general Spenser. Em +Cork, na Irlanda, vão embarcar nove mil soldados. A esquadra de sir +Charles Cotton anda cruzando deante da foz do Douro, e das bahias do +Tejo e do Mondego. De um instante para outro podemos ter de pelejar com +o povo e com as tropas do rei George... N'esse caso!... + +--Ameaça-nos a capitulação de Dupont em Bailen?!... accudiu Lagarde, +batendo com o punho cerrado sobre a mesa. Oh!... + +--Nunca!... Pelo menos em quanto eu viver! exclamou Junot com um gesto +admiravel de firmeza. Luctaremos! A derrota não é menos gloriosa, que o +triumpho, quando o campo de batalha proclama o heroismo dos vencidos... +Poderemos ao menos contar com a obediencia de Lisboa? A capital em nosso +poder póde ser ao mesmo tempo segura base de operações, e precioso +penhor para o infortunio. Lagarde! Chegou o momento. Respondeis pela +tranquillidade de Lisboa?... + +Houve um momento de silencio. O intendente geral da policia, atalhado, +olhava para o papel, que lhe tinham trazido, e conservava ainda aberto, +e para o general, e hesitava. + +--Que nova desgraça nos ameaça!? accudiu o duque arrebatado. Hoje é o +dia das fatalidades? Falae! Estou preparado para tudo. Que dizeis de +Lisboa?... + +--Que respondo por ella, como por mim!... balbuciou Lagarde tremulo. + +Bem! Não é preciso mais. Dás-nos a alavanca de Archimedes!... + +--Só depois de ámanhã em deante!... concluiu o intendente engasgado, e +convulso. + +--Ah! E hoje porque não?! exclamou Junot, que os revezes pareciam +reanimar á medida que se accumulavam. Nome de Deus! Não sois medroso. +Conheço-vos! Esse papel trouxe-vos a cabeça de Medusa? Que segredo +terrivel encerra? Vamos! Vencei a consternação, e dizei-nos o que ha. O +peior perigo, é o perigo encoberto. Quero saber! + +E o duque de Abrantes assentou-se com a fronte erguida, os olhos +brilhantes, e um sorriso intrepido nos labios. Era assim que elle +costumava affrontar a morte nas batalhas. + +Lagarde principiou em voz baixa a leitura. Era o plano de uma revolução +traçada para rebentar no dia seguinte depois da procissão do Corpo de +Deus. + +Os auctores d'este commettimento, todos membros do Conselho Conservador +de Lisboa, tinham sido denunciados á policia em differentes occasiões, +mas poupados como conspiradores theoricos e inoffensivos. A ousadia do +trama excedia, porém, d'esta vez quanto podia prever-se de audaz e +decidido. O rompimento havia de começar de tarde, ás seis horas, muito +depois de concluida a festa religiosa. Junot devia ser preso no caminho +do palacio de Anadia para o Rato, as guardas do Rocio, do Terreiro do +Paço, de S. Domingos, de Santa Clara, e do quartel general, atacadas e +desarmadas, e o Castello rendido por assalto, ou por algum artificio de +guerra. As tropas francezas privadas do seu chefe, e surprehendidas, +seriam obrigadas a depor as armas em virtude das ordens dictadas ao +duque de Abrantes pelos seus carcereiros. O povo e os soldados +portuguezes coadjuvariam a revolta occupando as ruas e as praças. + +O assombro dos vogaes do governo durante a communicação, que acabâmos de +resumir, custaria a descrever. A gravidade das physionomias tornou-se +mesmo tão solemne, que ia degenerando quasi em comica. O unico ouvinte +desassombrado e de sangue frio era o duque de Abrantes. A idéa de se ver +colhido ao anoitecer no seu transito costumado pelos cumplices do +Conselho Conservador, affigurou-se-lhe por tal modo absurda, que, +recostado no espaldar da cadeira, desatou o riso em frouxos, suspendendo +a leitura, e desengatilhando de sua expressão severa o rosto dos que a +sua hilaridade não admirava menos, do que o plano de sublevação forjado +para a capital. + +--Admiravel! Sublime!... clamava Junot estorcendo-se entre risadas. +Parece-me que os estou vendo d'aqui a esses illustres conspiradores de +rabicho e samarra, decidindo á pluralidade de votos o theor das ordens, +que hei de escrever depois de prisioneiro!... Mas é um entremez puro o +que esta boa gente imaginou: art.^o 1.^o O general Junot será +apprehendido, e ao mesmo tempo as guardas do Terreiro do Paço e do +Rocio!... art.^o 2.^o (porque o não puzeram tambem?) O presente decreto +será registado nos livros da chancellaria da Junta Provisoria! +Excellente! Deixae-me rir, Lagarde. Sois um homem unico para desterrar +tristezas. + +Herman, Lunyt, e o intendente olhavam uns para os outros, pasmados, e +não sabiam se deviam conservar-se serios, ou imitar o general. Magendie, +militar e resoluto, ria a ponto de lhe saltarem as lagrimas dos olhos. O +plano peccava pela ingenuidade. Os innocentes conspiradores fundavam +todo o edificio de suas esperanças na prisão de Junot, e essa prisão era +justamente o que lhes esquecêra assegurar. O duque de Abrantes, cujo +valor todos respeitavam, os seus ajudantes, e a escolta de cavallaria +que sempre o acompanhava, não cairiam de leve em uma cilada de poucos +homens, e para o esperar em grande numero, vigiadas como estavam as +ruas, parecia duvidoso que meia hora depois não se achassem recolhidos +na cadeia os Scevolas incumbidos d'este prologo essencial no grande +drama da restauração da patria. + +--Herman! O vosso voto sobre esta farça que terrificou Lagarde!... + +--O plano é fraco, porém a intenção... + +--De intenções, boas, más, e pessimas está calçado o inferno! Tendes +acaso receio de me vêr preso no meio das becas dos conspiradores, suando +medo por todos os poros, e ordenando aos meus valentes soldados que +entreguem as espadas e espingardas aos milicianos de Lisboa!?... Que +gente admiravel a do vosso Conselho Conservador, Lagarde! Respeitae-os +como se respeita a innocencia. Conjurados assim inventam-se, quando se +não acham, e guardam-se debaixo de redomas de vidro... Art.^o 1.^o O +general Junot será apprehendido! Nada mais! Que bella concisão spartana! +Ah! Ah!... Quem serve de espirito santo a este cenaculo? Algum macrobio? +Alguma reliquia do tempo do marquez de Pombal, aposto?... A conspiração +dá ares de quinhentista. Foi desenterrada de certo de algum archivo!... + +--Informam-me que José de Seabra no principio déra alguns conselhos, mas +que hoje... + +--Não quer saber d'elles para nada!?... É evidente! José de Seabra, duas +vezes ministro de estado, sisudo, e espirituoso, morria de vergonha se +visse o seu nome ligado a similhante satyra do senso commum... Art.^o +1.^o O general Junot!... Desculpem, mas é incrivel! Os desembargadores e +os padres de Lisboa cuidam que um general francez é algum passaro raro, +que se apanha e mette na gaiola para o ensinar a cantar o hymno +nacional!?... Lagarde! Prohibo-vos de tocar nos veneraveis juizes, +fidalgos, frades, abbades e negociantes, de que se compõe este +bemaventurado Conselho. Dae graças a Deus pela sua existencia, e não os +incommodeis. D'alli não vem de certo mal! Oxalá que Sepulveda fizesse +parte d'elle, esperando pela minha prisão para se sublevar. O Porto +ainda poderia salvar-se! + +--Mas, general, o dia de ámanhã parece-me critico, observou o +intendente, que o riso e os motejos do duque tinham confortado pouco. +Não é só gente da capital a que sae ás ruas. Os arrabaldes e o Ribatejo +despovoam-se, e talvez fosse mais prudente prohibir a procissão, e +prender por algumas horas os cabeças conhecidos dos arruidos +populares... + +--Pela gloria do imperador! Enlouqueceis, senhor Lagarde?!... +Assustam-vos tanto os planos ridiculos de uns poucos de dementes, que +vos não envergonha o argumento de fraqueza, que dariamos, escondendo-nos +com medo dos frades e das irmandades de Lisboa? A procissão ha de saír. +Nada de prisões! Os nossos soldados trazem polvora e bala nas patronas. +É quanto basta!... Meus senhores, hoje, o general Junot, depois das seis +horas da tarde sae do palacio da Anadia para o Rato, e vae ser +apprehendido. Ah! Ah! Está encerrado o conselho. Herman enfeitae-vos bem +ámanhã. Tereis de pegar a uma das varas do palio. Magendie não deixeis +_apprehender_ os nossos navios. Lagarde, mandae saber ao hospital se ha +logares vagos na casa dos orates; os vossos amigos do Conselho +Conservador acabam todos lá. Lunyt, vinde commigo; tenho que vos +communicar... isto é se não receiais que o general Junot _seja +apprehendido_ no caminho para o largo do Quintella. Ah! Ah!... Senhor +conde da Ega acceita um logar na minha carruagem?... Note que lhe +offereço um posto perigoso. + +E o duque saíu precedido por Magendie e acompanhado do conde e do +secretario de estado da guerra e da marinha. Herman e Lagarde, que +ficaram atraz, olharam um para o outro, interrogando-se com a vista e +com o gesto. + +--O que devo fazer? perguntou o intendente. + +--Nada. É o melhor! + +--Mas!... + +--Meu querido senhor Lagarde, o homem que ha de prender Junot... não +está de certo no Conselho Conservador de Lisboa! Redarguiu o ministro +rindo. Socegue! + +Momentos depois o intendente tocava a campainha, e por ordem sua um +porteiro introduzia no gabinete o sargento Cabrinha e o seu assessor +Gaspar Preto, por alcunha o _Sapo_. + +Saberemos a seu tempo o que alli vinham fazer aquellas duas boas almas. + + + + +XI + +Achilles e Nestor + + +Em quanto no palacio do Rocio se representava a scena, a que assistiu o +leitor, em uma casa, situada quasi no arrabalde, perto de Campo de +Ourique, no qual trabalham ranchos de operarios sem repouso a levantar +um acampamento militar para as tropas francezas, que Junot recolhe das +provincias, e concentra na capital, iremos encontrar alguns dos +personagens, que deixámos na Ponte de Asseca, n'aquella tempestuosa +noite, que viu as proezas do sargento Cabrinha, a evasão de Paulo de +Azevedo, e as artes diabolicas do astuto lavrador João da Ventosa. + +Estava formoso o dia, mas quente. Nem um leve sopro de aragem meneava as +cortinas de caça, que por detraz das quatro janellas da frontaria +substituiam os modernos e elegantes _stores_. A casa, de um só andar, +caiada de branco, pintada de verde claro em todas as portas, grades, +hombreiras, e maineis respirava aceio e alegria. Um muro baixo rodeava o +jardim, d'onde as rozas de trepar, as baunilhas, e outras plantas, +subindo pelas paredes, vinham debruçar do espigão seus festões floridos +e recendentes. + +Um preto quasi anão, grosso, roliço, com a carapinha semeada de cans, +indicio de provecta edade, e brincos de prata nas orelhas, acabava de +varrer, gemendo e rosnando, os tres degraus de pedra, que desciam da +porta da entrada para a viella quasi deserta. + +No jardim a areia, fina e vermelha, das ruas, orladas de buxos +recortados, rangia debaixo dos pés de duas pessoas, que passeavam, +conversando em voz submissa. No angulo, que olhava para as terras, um +mirante entrelaçado de caracoleiros e jasmins, offerecia em seus bancos +de cortiça commodo assento aos que desejassem recrear a vista, +espairecendo-a pelos largos horisontes, que d'alli se descobriam. + +--Não perca o animo nas vesperas da victoria, senhor Manuel Coutinho! +Lembre-se de quem é, e creia mais em si, e em nós... deixe-me ter tambem +um momento de vaidade!... Deus ha de ser por este reino, e não ha de +permittir... + +O homem que proferia estas palavras era um velho de aprazivel aspecto, +trajado em habitos ecclesiasticos, inculcando na phisionomia, na voz, e +nas maneiras, a prudencia que dão os annos, e a experiencia do mundo +unida á confiança e ao enthusiasmo sereno, que nascem do coração, que +ardem com viveza aquecidos pelo calor de uma alma generosa, e que os +gelos da edade nem amortecem, nem apagam. + +O sorriso meigo e tranquillo, que lhe franzia os labios, contrastava de +visivel modo com as sombras de profunda tristeza, que escureciam o rosto +do amante de Leonor de Azevedo, e com a expressão de desalento retratada +em suas feições abatidas. + +Quem attentasse, todavia, com mais cuidado no semblante palido do +mancebo, e sobre tudo no fulgor dos olhos, que despediam por vezes +lampejos quasi sinistros, denunciando as intimas commoções, logo +percebia, que, se um assomo repentino de duvida, ou desconforto podéra +abalar por instantes a energia d'aquella forte vontade, depressa a +reacção a havia de despertar do lethargo, e que pouco depois, em logar +de ser necessario reanimal-a, todo o poder da persuasão seria pequeno +para a conter dentro de limites razoaveis. + +--Deus?!... exclamou Manuel Coutinho, respondendo á ultima phrase do +ancião, e volvendo ao céu, limpido e azul, um olhar de amarga +desesperação. Não se esqueceu Elle de nós? Não está com os inimigos do +seu nome e da nossa liberdade?!... + +--Não diga isso. Caia em si. Não vê que accusa a divina justiça? Deixe-a +caminhar... + +--Coxa e lenta como a dos homens?!... Senhor bispo! Sou moço e militar, +desculpe-me, mas não posso supportar com paciencia christã o espectaculo +de tantas miserias e de tantos crimes!... Fala na justiça de Deus?! +Aonde estava ella, quando o Vigario de Christo, arrancado por mãos +sacrilegas da sua cadeira, foi como seu divino Mestre arrastado de +prisão em prisão, de opprobrio em opprobrio, por turbas de soldados á +voz de Bonaparte?... + +--Estava no Calvario, como no dia em que padeceu o Redemptor! Continue! + +--Ah! E porque dorme ella, quando nações inteiras choram escravas o seu +martyrio, e banhadas em sangue invocam a morte nos campos talados, nas +cidades saqueadas, nos patibulos e nos carceres, a morte, unica +esperança que lhes resta, depois de roubados os seus altares, de +incendiadas as suas moradas, de infamadas suas esposas e filhas, e de +dispersas como vil pó as cinzas de seus paes e de seus avós?!... + +--Quem lhe diz, que dorme, e não que aguarda a sua hora? Quantos seculos +durou a perseguição da egreja e a tyrannia dos Cesares?... E hoje, +d'esse colosso romano, que assoberbava o mundo, o que sobrevive? Ruinas, +memorias, e a cruz triumphante alçada no Vaticano!... Tranquillize-se, +conforme-se, espere... + +--Que espere!... Mas elles, os verdugos, os malvados, acaso esperam? +Paulo de Azevedo, duas vezes salvo por nós, escapou por fim aos laços do +infame Lagarde? Está no castello, bem sabe, e o conselho de guerra, que +ha de julgal-o, tem sêde do seu sangue... Hoje, ámanhã, de uma hora para +a outra, as balas de um pelotão!... Não tenho animo de o imaginar!... +Vel-o morto, assassinado, e não poder valer-lhe!... E sua filha, a +desgraçada, que já não tem lagrimas que verter, que sente a todos os +instantes no coração o frio da morte, ameaçando o que mais ama e +estremece n'este mundo?!... E hei de esperar?! Resignar-me! Deixal-o +morrer?!... + +--Ha de esperar, sim. Que remedio!... Paulo de Azevedo está em perigo, +porém ainda não morreu... + +--É verdade. Mas para o salvar?!... + +--Havemos de empregar todas as nossas forças. + +--Oh! accudiu o mancebo, cujo desespero rompeu por fim em dolorosa +ironia. Hão de salval-o! Contam assaltar o castello, prender Junot, e +colher Lagarde como um lobo no seu antro?!... Lagarde!... O auctor de +todos os nossos infortunios!... ajuntou em voz cava e com terrivel +expressão. Pelo menos esse não se rirá impune, festejando o ultimo +suspiro da sua victima. Lagarde pertence-me. Sou o seu juiz, e a minha +justiça não coxêa, nem dorme, como a da Providencia. + +--Não blaspheme, e escute, se póde! Os dias da usurpação estão contados. +Quem sabe! Ámanhã mesmo talvez troquemos o lucto da escravidão pelas +galas... + +--Sonho! Irrisão!... bradou Manuel Coutinho saccudindo com força o braço +do seu interlocutor. Aonde estão os homens para isso? Bastaria o som de +um tambor para os espantar, e Junot conhece-os. Cuida que dou fé ás +proclamações e aos conciliabulos do Conselho Conservador? Becas, +sotainas, velhos fracos, negociantes, e frades, que tremem da sua +sombra, ousarão nunca medir-se com os soldados de Bonaparte em um +combate?!... Senhor bispo de Malaca, se palavras e balas de papel +matassem, então sim, mas!... + +--Manuel Coutinho, a dor torna-o injusto. Essas becas e esses frades são +mais fortes, do que os soldados em volta de suas bandeiras. Lembre-se de +que puzemos a cabeça em cima do cepo, e de que estamos resignados a +padecer!... Não esperava que o escarneo caísse da sua bôcca sobre nós! +Aprende-se mais depressa a morrer com ruido no meio do fogo e dos +alaridos de uma batalha, do que a aguardar o algoz sobre os degraus do +cadafalso?... E ninguem sabe melhor se elle póde ferir, e se todos +estamos decididos a jogar a cabeça n'esta partida... em que apostámos +honra, bens, e vida pela patria... + +--Sei, mas o povo cala-se e obedece. Lisboa chora e supporta. O reino... + +--O reino accordou, e não torna a adormecer. Por isso lhe disse que +estavamos nas vesperas da victoria... + +--O reino accorda?! Mas eu ignoro tudo!... Senhor bispo de Malaca!... +Compadeça-se da minha impaciencia. Bem vê! Estou quasi louco! Conte com +o meu braço, com o meu sangue. Ha alguma esperança?... + +--Ha mais do que esperanças, ha factos. Prepare-se! dentro em pouco o +seu posto será nas fileiras de seus compatriotas, no exercito da +independencia. Leia! Adore os designios profundos da Providencia. + +Manuel Coutinho, arrancando-lhe quasi da mão o papel, que lhe offerecia, +correu-o todo em um relance de olhos, e apenas o sentido lhe penetrou a +intelligencia, o sangue em ondas affluiu ás faces, as pupillas +faiscaram, e uma expressão de jubilo, e de enthusiasmo subito avivou-lhe +as feições. + +--O norte sublevado!... murmurava lendo, e detendo-se, como se julgasse +impossivel o que lia. O Porto talvez levantado a esta hora! +Traz-os-Montes e o Minho ámanhã, ou depois em armas!... Os inglezes em +Cork, ou já no mar para desembarcarem!... + +E o suor borbulhava-lhe na fronte, e a vista scintillante devorava cada +lettra do escripto. + +--Meu Deus! Se isto é sonho, ou delirio meu, fazei que nunca desperte +d'elle. + +--Então, filho, disse o bispo sorrindo-se com mansidão, ainda acha que a +justiça divina coxêa, e dorme? Arrepende-se agora da sua pouca fé?! Pois +bem! Já vê que as becas e as sotainas ainda valem alguma coisa. O +milagre fez-se, e um bispo é quem ha de no Porto presidir, ao governo do +reino restaurado. Sei-o de certeza. + +--Seguiu-se uma pausa curta, durante a qual os olhos e as mãos do +mancebo se elevaram ao céu em um gesto sublime de gratidão e de crença +fervorosa. Depois a cabeça inclinou-se, a vista fitou-se no chão, os +braços descaíram e duas lagrimas de dor e de alegria saltaram do +coração, e correram vagarosas pelas faces. + +O bispo contemplava o rosto do amante de Leonor de Azevedo, e traduzia +com a perspicacia dos annos e da reflexão os signaes fugitivos da lucta +das paixões. + +Por fim venceu a razão. Manuel Coutinho, como se quebrasse de repente a +prisão, que lhe paralyzava as faculdades, serenado o semblante, acabou +de exhalar em um suspiro a maior oppressão, que lhe confrangia o peito. + +--Fui temerario, senhor bispo. Falei mal de Deus e dos homens! Cegou-me +o orgulho, e deixei-me arrastar pelas loucuras da tristeza. Desesperei +da Providencia no momento em que ella nos accudia!... + +--Só Deus é grande, filho! O que somos, e o que podem os nossos juizos +falliveis em presença da sabedoria eterna?! Arrepende-se? É o essencial. +Vamos ao que importa. Já viu D. Leonor?... + +--Não! Faltou-me o valor. O que havia de dizer áquella infeliz, ferida +de tantos golpes a um tempo?... A imagem do patibulo de seu pae, visão +lugubre e incessante, segue-a por toda a parte. Nos seus olhos leio o +desespero e a morte. Amo-a, senhor bispo, amo-a desde a infancia, como +não amei minha mãe, como não estremeço meus irmãos, como não adoro... ia +soltar uma blasphemia!... Enlaçadas desde a meninice pela mesma ternura +nossas duas almas ha muito que não fazem senão uma. O que ella sente e +chora, as suas lagrimas de sangue, caem-me todas, ardentes como fogo, +aqui, dentro do peito, e escaldam-m'o. O véu branco da noiva será em +breve o negro fumo da orphã, e viuva sem chegar a ser esposa, sei, +adivinho, que um claustro começará a abrir-lhe a sepultura, aonde ella, +aonde nós havemos de descançar ambos!... Não sem eu me vingar primeiro! + +--Manuel Coutinho, deixe a Deus o cuidado de punir! Socegue! A voz da +liberdade, a voz da patria chamam por nós. Seja homem! Seja soldado! Tem +uma espada, não faça d'ella um punhal, arma de traidores!... Leonor está +mais tranquilla, mais resignada. Vi-a hoje, e já falámos a seu +respeito... + +--E ella?!... Disse-lhe?! Espera?!... + +--Disse-me tudo e espera. Paulo de Azevedo não morreu, e havemos de +salval-o. Tenha mais fé. Não atormente com os delirios da sua paixão a +existencia propria, e aquella alma sensivel e melindrosa, que treme que +uma imprudencia, venha abismar no mesmo naufragio os dois amores da sua +vida!... Se não fosse o seu genio arrebatado confiava-lhe um segredo, +que Leonor se não atreveu nunca a dizer-lhe, porque receia os impetos da +sua cholera, mas que havia por outro lado de aplacar-lhe a afflicção... + +--Diga-me tudo, senhor bispo. Prometto, juro vencer o meu genio. + +--Veja lá! Dá-me a sua palavra de cavalheiro de fazer o que eu lhe +aconselhar depois?... + +--Dou. O segredo?... + +--A vida de Paulo de Azevedo não corre por ora risco. É o penhor com que +Lagarde tenta extorquir a D. Leonor uma promessa de casamento... + +--Oh o infame!... E eu aqui de braços cruzados!... + +--Se me não me escuta, calo-me. Lembre-se da sua promessa. + +--Sou mudo. Sou uma estatua. + +--Bom! Saiba, pois, que o intendente da policia imaginou enriquecer um +sobrinho arruinado, dotando-o com os bens da filha de Paulo de Azevedo. +Pediu-lhe a mão em Mafra ha mezes, foi repellido, e vingou-se +perseguindo o cavalheiro e sua filha... + +--Assim a causa de todas as desgraças sou eu!?... atalhou o mancebo +impetuoso. Leonor e seu pae padecem por amor de mim, e no meio de seus +prantos e do lucto da sua alma aquelle anjo nem uma queixa soltou ainda +contra o algoz da sua vida! Porque sou eu que a torno infeliz e +inconsolavel!... Hei de mostrar-me digno do sacrificio! Hei de... + +--Comece por se mostrar digno das minhas confidencias, escutando-as. +Observou o bispo com um sorriso. Lagarde ameaça Paulo de Azevedo, +tem-lhe a espada suspensa de um fio sobre a cabeça para vencer a filha; +mas no fim é tão interessado como nós em conservar vivo o unico fiador +de suas esperanças!... O conselho de guerra não se reune, e mesmo que +chegue a ser convocado, a sentença não passa do papel. + +--E Leonor?!... + +--Altiva e varonil redobra as resistencias. Mesmo ao pé do cadafalso de +seu pae prefere morrer com elle, creio, a comprar-lhe o perdão por um +preço vil... + +--Bem sei! O seu coração envergonha o de muitos homens!... Como se chama +o sobrinho de Lagarde, esse noivo feito á força, cujo papel, tão nobre +(!) entra como parte principal na tragedia de nossas desventuras?... +accrescentou Manuel Coutinho em voz lenta e sombria, a que um toque de +ironia cruenta avivava a expressão. + +--Porque o pergunta? + +--Para ajustar no mesmo dia todas as minhas contas. + +--Já se esqueceu da sua promessa? + +--Não! Mas!... + +--Quando for tempo de o desligar d'ella sem perigo seu e nosso... então +falarei. Agora não. Sabe que ámanhã, depois da procissão do Corpo de +Deus, se esperam grandes novidades? + +--Aonde?... Se soubesse a minha impaciencia?!... + +--Em Lisboa. Aonde queria que fosse?... + +--E contam commigo?... Qual é o posto que hei de occupar?... +Asseguro-lhe que só por cima do meu cadaver... + +--Sei muito bem. Guarde para si a noticia, vá ver Leonor, demore-se +pouco, porque ella espera uma visita, ou antes duas... + +--Visitas!... De quem?... + +--Segredo de estado. Depois saberá... + +--Porém!... + +--Não insista. Se podesse dizer-lh'o, cuida que me calava? A proposito! +Se por acaso estiver lá em cima, quando elles... digo, quando as visitas +chegarem, jura pela sua honra obedecer em tudo a Leonor, e voltar aqui +pela escada do meu gabinete?... + +--Mas!... Tantas precauções fazem-me suppor!... + +--Supponha o que quizer. Jura?... + +--A minha confiança na sua virtude é tal, que de olhos fechados me +entrego em suas mãos. Juro! + +--Não ha de arrepender-se. Sem isso não o deixava subir... + +--Mas padre, mas senhor bispo! Essas visitas são então de inimigos?... + +--Talvez! E então?! Cobre-os, quem quer que sejam, o tecto d'esta casa, +recebo-as como hospedes, é quanto basta, julgo!... + +--Oh! Dava metade da minha vida por adivinhar... + +--O caso não merece o sacrificio!... Deixe instruir o processo, deixe +informar os juizes, e quando lhe chegar a sua vez... nós o chamaremos. + +--Obrigado! Como instrumento cego?!... + +--Não. Como um coração generoso, como um amigo seguro, porém... +perigoso. Estamos perdendo tempo! Leonor espera-o. Nem uma palavra do +que se conversou aqui, e sobre tudo recorde-se do que jurou... + +--Hei de cumprir a minha palavra como homem de honra, mas depois, sr. +bispo!... + +--Depois... O que Deus quizer! Dá o mundo tantas voltas em poucas horas, +Manuel Coutinho, que nos deitâmos rapazes, e ás vezes accordamos velhos. +Deixe andar os homens e as cousas. Creia no tempo. É grande medico. +Adeus! Vou tractar de uma doença, que dá maior cuidado... Portugal está +enfermo e não póde esperar. + +E despedindo-o com um sorriso e um aceno de mão cheio de bondade, o +velho prelado entrou para um aposento terreo, cujas portas de vidraças +abriam sobre o jardim, em quanto o mancebo voltou em busca da escada de +pedra, que subia para as salas do primeiro andar. + + + + +XII + +Arcades ambo! + + +--Está certo do que affirma? Veja lá!... A policia não gosta de +representar papeis tristes, e um erro nas circumstancias actuaes póde +ter consequencias... Repita! Viu os homens? Sabe o seu intento?... + +--Vi, sim senhor! Largava a falua quando eu cheguei, e por um triz me +não apanham!... Sempre curti um medo! A gente não ganha para sustos... + +--Está bom! E como soube que vinham para a revolução, que os inimigos de +sua magestade o imperador e rei tramaram para ámanhã durante a procissão +do corpo de Deus? Olhe bem! Não se allucine... + +--Não ha engano, não senhor. Aqui trago quem ouviu tudo. Gaspar, +chega-te! S. ex.^a dá licença. Dize para ahi o que saccaste do bucho ao +alarve do Paulo Penedo, e o que ouviste na Ponte da Asseca. + +--Ah! Este homem ouviu?!... Bem! Então que fale. + +O dialogo, que estamos escutando, tinha-se travado, como o leitor já +percebeu de certo, entre o intendente Lagarde, o sargento Cabrinha, e o +seu assessor Gaspar Preto. + +Os honrados malsins, farejando a denuncia lucrativa, corriam de Villa +Franca, aonde se haviam transportado a cavallo, e traziam nos alforges +nada menos do que uma boa conspiração para attrahir sobre si a chuva de +ouro, com que o ministro francez costumava recompensar os serviços +relevantes dos seus agentes. + +Ainda que o sargento desempenhasse o papel principal, manda a verdade +que se diga, que a gloria do descobrimento pertencia de direito ás +longas e afiadas orelhas do seu digno assessor. Fôra o _Sapo_, apezar de +meio homiziado depois da prisão de Paulo de Azevedo, devida, como +sabemos, á sua traiçoeira actividade, quem, espreitando os passos do +Antonio da Cruz e do João da Ventosa, e as idas e voltas nocturnas dos +embuçados, que frequentavam a casa arruinada da Ponte da Asseca, +principiára a desconfiar de que as ruidosas cavalhadas das almas do +outro mundo nas salas desertas do palacio encobriam planos politicos. + +Para melhor se certificar, provou Gaspar, que não roubára a alcunha por +que era conhecido. + +Cozeu-se, como o _Sapo_, com as pedras caídas, que do lado da porta do +João da Ventosa pegavam com o tapume, por onde elle introduzia as +visitas, segundo vimos atraz, nos quartos do primeiro andar, penou frios +e fomes, tiritou de mêdo mais de cem vezes, mas por fim conseguiu o seu +fim. + +Seis dias antes da festa do Corpo de Deus, ás onze horas da noite, por +um luar esplendido, colheu em flagrante tres dos fantasmas, que tanto +desejava avistar, e teve a rara felicidade de os conhecer a todos. + +Viu-os entrar. Ficou firme no seu posto. A divindade protectora dos +mexericos segredava-lhe que se os olhos tinham alcançado muito, os +ouvidos ainda podiam obter mais. A sua paciencia merecia premio, e o +demonio, cujo era, não lh'o negou. + +Quando se ía já sentindo quasi inteiricado de jazer enroscado, como a +serpente, os conspiradores saíram. Principiava a aclarar a madrugada. Um +d'elles, o capitão de milicias de Rio Maior, dotado de uma voz de baixo +profundo, voltando-se para os outros, disse-lhes: + +--Façam-me uma fogueira bem vistosa lá pelos sitios de Leiria, e +assem-me n'ella esses hereges e jacobinos, que os de aqui ficam por +minha conta! Não havemos de ser menos que os de Bragança e Villa Real! +Viva o principe regente, nosso senhor! + +Os poderes do orgão vocal do herculeo capitão eram tão extensos, que +este desafogo innocente do seu patriotismo seria assaz perigoso, se a +solidão e a noite o não cubrissem. Entretanto os amigos, menos +intrepidos, recommendaram-lhe prudencia, e o gigante, docil como uma +creança, submetteu-se, encolhendo os hombros, a estes conselhos timidos. +O morgado de Penin e outro cavalheiro apartaram-se então um pouco. Quiz +o acaso que fosse para o lado, justamente, em que o virtuoso Gaspar se +occultava; e o terror do malsim subiu tal ponto, que esteve um instante +para o trahir! + +Vendo de repente o Antonio da Cruz, o João da Ventosa, e o Manuel da +Aramanha, o resurgido, tão proximos do seu covil, que bastaria um +d'elles extender o braço para o agarrar, não foi senhor de si. Vinham +atraz dos personagens principaes, e tudo inculcava que não vinham por +curiosos. O _Sapo_, frio de neve, e todo um calafrio de medo, +ennovellou-se n'uma bola para occupar menos espaço, e fez a Nossa +Senhora da Saude a promessa solemne de uma missa e de uma perna de cêra +se permittisse, que nenhum dos cinco désse com elle alapado n'aquella +toca, seguro de que, se escapasse por milagre ao alentado varapau do +ex-assassinado fazendeiro, a bala da espingarda, que o moleiro trazia ao +hombro, não o erraria de certo em nenhum caso. + +Os conspiradores estavam longe de se supporem espiados, e traziam outros +cuidados. + +Voltando-se para Antonio da Cruz, o morgado disse-lhe: + +--Já sabes! No dia de Corpo de Deus has-de estar em Lisboa. És lá +preciso! + +--Se meu amo mandar! + +--De certo. Mas sei que manda. O Paulo Penedo não tarda com as ordens... +E você, sôr João da Ventosa, deixa-se ficar por cá, ou acompanha tambem +o Antonio á côrte? + +--Eu, sôr morgado, lá por ir, ia; mas assim sem saber o que a gente lá +vae fazer?!... + +--Ora! Vae dar um passeio, vêr a procissão, que se despovoam aldêas e +logares para accudir a ella... e depois!... Adivinha-me este dedo, que o +seu cajado talvez não fique por lá parado!... Gosta dos francezes?... + +--Como o diabo da cruz, senhor! Pelo amor que lhes eu tenho... e o bem +que me fizeram!... + +--Pois vá, homem, que póde ser que não perca o seu tempo. Ás vezes +d'onde menos se espreita sae coelho... + +--V. s.^a que diz isso!... Está bom. Não é preciso mais. Senhor mandar, +preto obedecer!... E tu, Antonio Simões, estás ahi sem atar nem desatar? +Porque não vens com o Antonio e commigo á festa? Tens medo dos +francezes, homem? + +--Salva tal logar, sôr compadre! Mas que quer você que eu vá fazer á +côrte pregado no meio das ruas como uma estaca? Com mil cobras? Se por +lá bispasse o alma ruin do sargento, ou aquelle excommungado _Sapo_, +ainda, ainda; mas qual! sumiu-se a terra com elles!... + +--Qual sumiu! Aposto um almude dobrado contra duas canadas singelas em +como as duas osgas estão pegadas em alguma parede de Lisboa... + +--Veja lá, sôr compadre! Se tem palpite n'isso é outra cousa: pernas a +caminho. N'um sopro deito o albardão á égua... Não morro quieto se não +racho de meio a meio aquelles dois patifes. + +--O _Sapo_ fica por minha conta, atalhou o moleiro. Prometti-lh'o e hei +de cumprir. Você, sôr João, que me diz da figueira de José Lopes, alli +em cima, no alto do logar? + +--Ora essa! Que é boa arvore. Porque?... + +--Pois juro-lhe que dá figos de enforcado para o anno. Antonio me não +chame eu se não pendurar do pescoço em um dos ramos o judas do Gaspar +Preto antes do dia do natal!... + +--Você sempre tem cousas, sôr Antonio! + +--Vá com o que lhe digo. De mais, pouco ha de viver quem o não vir. + +--Então, rapazes? atalhou o morgado, que estivera conversando a meia voz +durante o colloquio dos tres. Quem vae a Lisboa?... + +--Saberá v. s.^a que nós todos tres! + +--Ora assim é que é. Gosto de os vêr de feição. Bebam por lá um copo, ou +dois, de vinho á minha saude, e outro á do principe regente, nosso +senhor, o qual, querendo Deus, muito cedo teremos n'estes reinos para +gloria da patria e da santa religião!... + +E o morgado, assim como os ouvintes, desbarretaram-se com toda a +reverencia como bons catholicos e vassallos fieis e respeitosos. + +--Adeus, Antonio, proseguiu. Recados a teu amo! Diz-lhe que nós cá +estamos, e que o que fêr soará. Sôr João! Volte depressa. A caldeira +está ao lume, ha de ferver, e póde ser necessaria a casa... + +--Quando v. s.^a mandar, sôr morgado. + +--Olhe! Se no meio da procissão, ou depois, houver algum barulho, não me +metta as mãos nas algibeiras. Dê-lhes com alma, desanque-me os jacobinos +moa-m'os como farinha, hein?... + +--Vá v. s.^a descançado. + +--Vou! Vou! Vocês não deixam mal o Ribatejo. Até á volta. São horas. + +Os tres de fóra foram buscar os cavallos, e d'ahi a pouco desappareciam +a galope pela Ponte da Asseca. O lavrador e os seus amigos recolheram-se +tambem logo. D'ahi a instantes resonavam a somno solto. + +Quem não tinha vontade de dormir era o _Sapo_, o qual, arrastando-se do +esconderijo, fulo de terror, respirava a custo, estirando os braços, +mais morto do que vivo. + +A ameaça do Antonio da Cruz soava-lhe nos ouvidos como um dobre funebre, +e por vezes sentia já em imaginação os gorgomillos tão apertados como se +lh'os estreitasse a promettida e fatal corda! + +A reputação merecida do moleiro de não quebrar palavra dada fazia-o de +mil côres, e a voz da consciencia, que só o susto tinha o condão de +accordar de véras, advertia-lhe, que provocára, não uma, porém cem +vezes, o castigo. + +Não vendêra elle ao sargento o segredo do asylo em que se homiziava +Paulo de Azevedo, abusando da hospitalidade de Antonio da Cruz, o qual, +tendo-o poupado, o julgára grato? Não fôra causa da prisão do Cavalheiro +de Mafra, da magoa de Leonor, e do desespero de Manuel Coutinho? Agora +mesmo, não colhêra um segredo, que podia custar a vida e a liberdade a +tantas pessoas? + +Gaspar era logico. Convencido de que a sentença proferida era +irrevogavel, tractou de se eximir aos seus rigores pelos meios usuaes, +isto é, accumulando novas traições. Coxeando e rastejando partiu para a +villa, aonde amanheceu á porta do sargento, cuja cholera exacerbada pela +certeza de ter servido de alvo á irrisão na famosa noite dos fantasmas, +soube artificiosamente exaltar. O _Sapo_ acabou de o petrificar, +narrando-lhe as ameaças do Antonio Simões da Aramanha, e o plano, +interceptado por elle, de grandes tumultos em Lisboa durante, ou depois +da procissão do Corpo de Deus. + +A noticia valia o seu pezo em ouro, e Cabrinha decidiu-se a ser em +pessoa o portador d'ella. + +A chegada de Paulo Penedo, emissario de Manuel Coutinho para chamar o +moleiro em seu nome á capital, confirmou as informações do agente. +Gaspar, a troco de pão, queijo, vinho, arrancou sem difficuldade ao +camponez boçal quanto elle vira e ouvira do patrão em Lisboa. +Separou-se, deixando-o convencido de que o amante de Leonor de Azevedo +não tinha mais leal amigo. + +Depois d'esta ultima proeza, os dois malsins começaram a jornada até +Villa Franca, aonde haviam de embarcar, o sargento ardendo em +impaciencia de cingir na fronte os louros, e de sepultar no bolso as +peças de 7$500, que Lagarde não cisava aos que o serviam zelosamente: o +_Sapo_, cujas vigilias eram cada noite mais tormentosas, acompanhando o +patrono a Lisboa, primeiro para se afastar o mais possivel da figueira +do alto do Valle, depois, para ter o gosto de vêr mettidos na enxovia do +Limoeiro, graças á sua honrada lingua, o Antonio da Cruz, o João da +Ventosa, e o Antonio Simões. + +Já os ouvimos confessar ao intendente da policia, que por um instante +não caíram na bôcca do lobo em Villa Franca, e encontrando-os no +gabinete do ministro, no exercicio de suas funcções, convem notarmos, +que tinham sido activos no desempenho da sua missão, como homens fieis +aos interesses proprios, e devotos da causa que abraçavam. + +Lagarde escutára com attenção o depoimento lucido e conciso, que o +_Sapo_, sem trepidar, lhe recitou, como licção aprendida de cór, +admirando a prodigalidade, com que a natureza favorecêra este ente quasi +disforme e rachitico, que, encarado á primeira vista, não promettia, +senão fraqueza e estulticia. + +Depois de tomar algumas notas, consultando um, ou dois papeis, e +tornando-os a encerrar nas gavetas do bofete, o intendente conservou-se +silencioso por momentos, scismando profundamente. + +--A conspiração existe, dizia elle comsigo. Aqui estão as provas d'ella; +mas quem ha de persuadir o duque, e vencer o seu amor proprio? A leitura +d'aquelle maldito plano atrazou-nos!... Não importa. Deixal-os rir! A +mim compete-me velar para que riam sem perigo. + +Virando-se depois para os agentes, que aguardavam calados as suas +ordens, acrescentou: + +--Sargento! Estamos na pista de um trama complicado. Fique em Lisboa com +este homem, e procure hoje de tarde o meu secretario Loisy. Elle lhe +dirá o que ha de fazer. + +Estas palavras, e o gesto do ministro avisaram os dois, de que a +audiencia estava terminada. Saíram logo, mas ainda Lagarde não tinha +tido tempo de percorrer com os olhos um papel, que acabavam de lhe +entregar, abriu-se uma porta particular, e entrou no escriptorio um +mancebo, de rosto jovial, vinte oito annos de edade, e figura esbelta, +realçada pelo uniforme de official de cavallaria, trajado com garbo. Era +seu sobrinho Armand de Aubry. + + + + +XIII + +Dois parentes + + +O intendente accolheu o recem-chegado com um sorriso, e extendeu-lhe a +mão com amizade. Aubry apertou-lh'a sem ceremonia, encarou-o com ar +malicioso por momentos, e disparou-lhe depois na cara a mais longa e +estrepitosa risada, que de certo tinham ouvido aquellas paredes, desde +que a Santa Inquisição reinava dentro d'ellas. + +--Ah! Ah! exclamou fazendo esforços em vão para se reprimir. Que duas +figuras unicas, que duas corujas agoureiras acabo de encontrar no +corredor!... Pelo que vejo a procissão de ámanhã leva anjos, demonios, +serpentes, e até estafermos do mais curioso feitio. Estes dois são +magnificos. Sobre tudo um... o mais baixo. É admiravel! + +--Porque? atalhou Lagarde. + +--Porque, meu tio? A pergunta é rara! Aquella cabeça de anão, aquella +cara de papel, e os saltos de rã da perna coxa promettem á festa um +palhaço soberbo. Por quanto se aluga aquelle senhor? Juro-lhe que vale +quanto pesa... em cobre. Dou-lhe os parabens! Foi um achado. Posso saber +o que elle custa á policia de sua magestade o imperador e rei?!... + +E o official dizendo isto ria como um louco, afagando o bigode louro, e +saccudindo o pó das botas de montar com a ponta do junco flexivel, que +trazia na mão. + +--Não custa barato, Armand! redarguiu o intendente, sorrindo-se tambem. +Aquelle anão, assim mesmo contrafeito e ridiculo como te pareceu... + +--Esse _pareceu_ é delicioso, meu tio! Continue. Sou todo ouvidos. + +--Vale mais do que muitos homens guapos e bem postos. + +--Quem tal diria! Então é um diamante bruto?... + +--Talvez. Dentro em pouco vel-o-has chefe... + +--Chefe? Muito bem. E de que tenciona invental-o chefe? Acaso a policia +conta distraír os portuguezes de suas saudades, armando tablados ao ar, +e escripturando polichinellos? + +--Não! redarguiu Lagarde um pouco enfadado dos motejos do sobrinho. A +policia aspira a funcções mais modestas. Lisboa, esta cidade immunda +como as do Oriente, começa já a ser outra cousa... As ruas... + +--Tá! Tá! Meu tio. Esse elogio dos serviços da policia, na sua bôcca é +capaz de abrandar as pedras... das mesmas ruas. A proposito! +Denuncio-lhe os cães vadios. Resistem ás ordens como janizaros. Hontem á +meia noite estivemos em perigo de sermos devorados, eu, e o meu cavallo! +Que morte para um official do exercito imperial!... Diga-me: o anão, de +que tractâmos, será nomeado executor da alta justiça contra as matilhas +famintas? A cara do personagem é de um verdadeiro Herodes, e não +desmente o officio. Puah! O maldito sempre deixou aqui um cheiro +patibular!... + +--Armand! Não te cansaste ainda?!... + +--Oh! Cuida meu tio, que os assumptos recreativos se encontram a cada +canto n'esta boa terra? O que admiro mais é a sua longanimidade. Parece +incrivel! Aturar fechado n'este gabinete dias, semanas, e mezes, entre +cachos de malsins e grinaldas de larapios aposentados! Santo Deus! Que +emanações asquerosas. É de engulhar até o estomago a um tubarão!... + +--Ainda! Armand, o que sinto mais, do que a triste sociedade, que sou +obrigado a admittir... + +--Diga tristissima, meu tio, que não diz senão a verdade. Os melhores +dir-se-íam desenterrados das enxovias, ou das galés... + +--Então! O que deploro, mais do que isso, é essa tua leviandade +incuravel. O homem, que estás escarnecendo, prestou-nos a ambos um +serviço relevante... + +--Não sabia. Pelo que observo o precioso aborto accumula as funcções de +palhaço ás de nigromante? Faz magia branca nas ferias. Excellente! + +--Ah, Aubry! Quando te verei um momento serio e preoccupado dos deveres +da tua posição? + +--Quando uma bala me varar o peito, ou a cabeça. Se não levasse a vida a +rir e a folgar, entre dois amores, um que hoje foge para volver ámanhã, +outro que arrebata e embriaga; o amor dos sentidos e o amor da gloria; +cuida que valia a pena de a arrastar de desengano em desengano, de revez +em revez até aos rheumatismos, e aos defluxos asthmaticos da velhice? +Por alma de meu pae! Nasci e hei de acabar com esta sina. Sou assim +feito. Não tem remedio! Mas apezar de rir muito, de chorar pouco, e de +preferir o lado comico ao aspecto lugubre da existencia, ajuntou, +tornando-se um tanto grave, creia que este coração, facil em se +alvoroçar com a promessa de uns bellos olhos pretos, azues, ou verdes, a +côr é indifferente uma vez que sejam formosos (!), é incapaz de trahir a +honra e a amizade, ou de se aviltar por nenhum preço... + +--Bem sei. Por isso te estimo. Desejava-te só menos estouvado. Não póde +ser? accrescentou sorrindo-se involuntariamente do gesto negativo do +sobrinho. Paciencia! Escuta-me. Aquelle homem, que saiu d'aqui ha +pouco... Não rias! ao qual ignoro porque pozeram a alcunha de _Sapo_... + +--Quem seria o philosopho que tão bem chrismou o reptil? Preciso +abraçal-o! O _Sapo_?! Mas é verdadeiramente um sapo o seu homem, meu +tio! Bom! Não se agaste. Já me calo. Passo a estar serio e aprumado como +uma estatua... Diga! + +--Aquelle homem... foi quem descobriu o asylo de Paulo de Azevedo, e +entregou á policia a sorte do cavalheiro, do qual depende... + +--Cuidei que lhe tinha escapado! interrompeu o mancebo. Pareceu-me +ouvir-lhe dizer que duas vezes... + +--O tivemos nas mãos, e que nos escorregou por ellas, zombando de nossas +diligencias? É verdade. Não te enganaste. Mas á terceira fomos mais +felizes. Estava escondido aqui mesmo em Lisboa, e mandei-o prender... O +sargento Cabrinha, um dos meus agentes mais activos, e este _Sapo_, que +ainda promette ser melhor... + +--Ah, meu tio, fale-me de tudo menos d'esse miseravel. Deploro vêl-o +convertido em Plutarco de similhante monstro... + +--Pois sim. Mas attende-me. Lavemos agora um pouco a nossa roupa suja em +familia. O que te resta dos bens de tua casa?... + +--Dividas e credores, replicou Armand com um sorriso stoico sublime. + +--Nada mais?... + +--Acha pouco? Dividas desassocegadas e credores inquietos!... Tenho com +que me entreter toda a minha vida. + +--Um!... Pois de todas as propriedades, que herdaste, mobilias, ouro, +prata... não possues absolutamente nada?!... + +--Nada!... O ouro a que posso chamar meu... e assim mesmo só por uma +audaciosa figura de rhetorica, porque o não paguei ainda... trago-o aos +hombros... são as dragonas! + +--Ah! Então o naufragio foi completo!?... E com que contas para o +futuro?... + +--Essa é boa! Conto com os meus vinte e oito annos, com esta figura +soffrivel, com a saude á prova de todas as fadigas, que devo á minha +compleição, e que tem sido o desespero dos medicos, e com o acaso de uma +bala, ou de uma proeza, que me eleve em patente, ou me deixe no campo +como muitas outras buxas de canhão, que valem menos do que eu. + +--És louco!... + +--Sou philosopho! + +--Talvez! Mas dize! Eras filho unico. Teus paes deixaram-te... + +--A sua benção e alguns punhados de escudos nas gavetas. Que quer, meu +tio?! As Aspasias de París, as Sylphides do corpo de baile, e as Musas +da opera vendem os sorrisos caros. Não imagina!... E sorriram tanto, e +com tal graça para mim, que as mãos abriram-se-me sem as sentir... +Quando caí na realidade... sabia de cór todas as piruetas e saltos de +Vestris, todos os passeios e casas de pasto de mais fama, e podia dar +licções de gosto e de ouvido a todas as platéas civilizadas... Mas nem +um real no bolso para afugentar o demonio! Encolhi os hombros e fiz-me +soldado. + +--Bem sei. Porém a herança de tua tia?!... + +--Santa e excellente velha!... Saltam-me as lagrimas dos olhos ainda +quando me recordo d'ella! A herança da boa tia veiu nas poucas horas de +melancholia, que tenho penado em minha vida. + +--Isso não explica!... Lembro-me de ter ouvido falar em terras... + +--Oh, de certo. Um bom par de geiras... Eram muito fracas. Vendi-as por +economia. + +--Mattas e pinhaes!?... + +--Magnificos!... Eram muito sombrios. Troquei-os a dinheiro para me não +entristecerem. + +--Uma casa de residencia vasta com jardins?... + +--A casa era humida e constipava-me. Os jardins precisavam de muito +amanho, e não apparecia jardineiro. Desfiz-me da casa e dos jardins. + +--Uma mobilia antiga, mas rica?! + +--Custava-me muito caro o transporte, cedi-a. + +--Percebo!... N'esse caso estás?... + +--Como diz o livro de Job: Nú saí do ventre de minha mãe, e despido de +bens da fortuna descerei á cova. + +--Admiro o teu sangue frio. Não te parece já tempo de assentar, e de +mudares de vida... + +--Conforme a mudança! Saltar da agua fria para caír no fogo, não sei se +é peior. + +--Armand! É necessario cazares, e que o dote de tua mulher... + +--Chegue para remendar a capa esburacada do mendigo?! + +--Mais do que isso. É preciso que dê para uma capa nova. + +--Não digo que não. Mudarei ainda de pelle. Estou prompto. + +--Estimo. Falei-te na filha de Paulo de Azevedo... + +--É moça?... + +--Dezoito annos. + +--Feia como uma herdeira, ou desastrada como as morgadas?... + +--Não. Linda, airosa, e gentil como uma parisiense. + +--Santo Deus!... E esse thesouro, essa fada, mimo de todas as +perfeições, guardou até hoje o seu coração livre á espera de um +perdulario, de um estouvado, que nunca viu?! Meu tio! Sabe que o unico +ridiculo, de que tenho medo, é da sorriada merecida de Jorge Dandin?... + +--Repito. É uma menina séria, prendada, e espirituosa... + +--Não duvido. Antes isso! A ingenuidade de Agnés sempre me assustou +muito! Essa menina... Mathilde?... Clara?... + +--Leonor! Leonor de Azevedo... + +--É verdade! Leonor!... Essa Leonor não estava justa a cazar com um +cavalheiro, tambem fidalgo, official, capitão, creio eu, do segundo +regimento do Porto, licenciado depois do tumulto das Caldas?... Se não +erro, elle chama-se?... + +--Manuel Coutinho! accudiu o intendente. Não houve nunca promessa de +cazamento, enganas-te. As duas familias davam-se muito. O que poderia +existir era algum namorico, alguns requebros naturaes... innocentes... + +--Sim! Sim! Muito innocentes. Sabe que nunca me resolvi a calçar sapatos +de defuncto, e que de sapatos de vivos gosto ainda menos?... Uma +pergunta, meu tio?... Hei de ser sempre noivo por procuração? Conta +cazar-me sem eu vêr nunca minha mulher... nem até no oratorio da +policia?... + +Lagarde piscou os olhos, assoou-se com ruido, e coçou depois ao de leve +a ponta do nariz aquilino. Eram os gestos, que n'elle inculcavam +hesitação e perplexidade. + +--Cazares sem vêr tua mulher?! exclamou rindo constrangido. Pelo amor de +Deus! Quem te metteu isso na cabeça? + +--Cuidei! Como os principes cazam pelos retratos... + +--Has de vêl-a, adoral-a, e agradecer-me de mãos postas a escolha. + +--Estou certo, meu tio. Porém!... Como o meu voto me parece essencial +desejo dal-o em consciencia. Quando me apresenta a D. Leonor?... + +--Um dia cêdo! Ámanhã talvez! redarguiu o intendente, agitando-se, e +estorcendo-se na cadeira, como se o assento fossem brazas. + +--E porque não ha de ser hoje. Sou tão curioso!... + +--Hoje! Sem a avisar! De mais tenho que despachar... Espero... + +--O honrado sargento, ou o palhaço talvez?!... Vamos. Decida-se. Hoje, +ou nunca! _Alea jacta_! como nós diziamos no collegio. Os bons palpites +aproveitam-se. O matrimonio é um grilhão de ferro coberto de flôres... +Quem sabe se ámanhã eu terei medo da felicidade conjugal, e me +arrependerei? Seja docil! Deixe-me vêr hoje esse portento encoberto... + +--Pois bem! Faça-se a vontade ao teimoso, contestou Lagarde, depois de +alguns instantes de reflexão, tirando o relogio do bolso, e +consultando-o. São dez horas. Ao meio dia aqui te espero. + +--Viva o melhor dos tios! bradou Armand, rindo, e abraçando-o. Diz o +rifão: em quanto venta molha a véla! Quero remar com a maré. É verdade +que na Ponte da Asseca, em um casarão arruinado, apparecem aventesmas, e +que um troço de milicianos debandou por uma noite de tempestade, fugindo +de um fantasma?... + +--Porque? + +--Nunca tive a honra de conversar particularmente com nenhum espectro, e +desejava certas informações sobre o paraizo e sobre o purgatorio... + +--Os fantasmas da Ponte da Asseca sabes o que são? accudiu o ministro +agastado. Um bando de conspiradores, que a policia vae desmascarar e +punir. + +--Jesus, que ares tragicos, meu tio! Pela sua vida não represente de +tyranno. O papel cai-lhe mal. Dê-me essa missão a mim. Adoro as +aventuras, e Cazote é o meu idolo... Quem sabe se irei lá encontrar +algum diabo amoroso? + +--Pois bem, irás! atalhou Lagarde sorrindo. Mas já te previno. O que lá +acharás são morgados lorpas, e rebeldes endurecidos. Agora adeus. Não te +esqueças. Ao meio dia em ponto! + +--Ao meio dia em ponto! respondeu o sobrinho, saudando-o, e saindo. + + + + +XIV + +Amor + + +Quando Manuel Coutinho assomou aos umbraes da porta do aposento, acabava +Leonor de lêr uma carta de seu pae, escripta com a firmeza de animo, que +tornava tão nobre o caracter do velho cavalheiro. Da sua prisão do +castello, com a morte eminente e a vingança de poderosos inimigos +suspensa sobre a cabeça, falava Paulo a sua filha com o mesmo socego, +com que o faria solto e desaffrontado. Nem uma queixa! Nem um indicio de +tristeza, ou desalento! Ausente em uma viagem longa, ou distraído em uma +partida de caça, não tractaria com indifferença mais soberana as +vigilias e amarguras do carcere. + +Dizia-lhe que o seu processo, apressado a principio pelo odio, agora +coxeava, retido por mão occulta. Zombava da vigilancia, com que era +guardado, attribuindo-a á scena comica da sua evasão no palacio da Ponte +da Asseca. + +Perguntava-lhe por Manuel Coutinho, e pedia-lhe que recommendasse ao +mancebo muita paciencia e conformidade, e resignação para atravessar os +dias dolorosos do captiveiro. Finalmente, lembrava-lhe em estylo risonho +alguns episodios de suas peregrinações pelas aldeias e casaes do +Ribatejo, assegurando-a, de que o descanso do corpo e a serenidade do +espirito iam obrando n'elle o prodigio de o transformarem, de seco e +agil, em um ente mais obeso, mais corpulento, e mais oleoso, do que fr. +Raymundo, frade notavel em Mafra pela estatura agigantada, pela +estupidez, e pela voracidade. + +Aonde a sua ternura extremosa se denunciava, e a alma stoica deixava +perceber a ferida dos espinhos da saudade, era nos conselhos dados á +donzella, e nos gracejos constrangidos, com que a motejava ácerca da +alvura da tez e das rosas pallidas, tão festejadas no seu rosto, +deplorando que o sol, as geadas, e a vida alpestre de uns poucos de +mezes as tivessem queimado! Rogava-lhe ironicamente, que aprendesse de +alguma dama franceza o segredo d'aquella frescura artificiosa, que só +ellas sabiam fabricar para engano da edade, e conservação de successivas +gerações de adoradores. + +Apezar do tom jovial, a carta era mais triste do que se respirasse +sincera melancholia. Leonor, avaliando o coração paterno pelo seu, +sentiu correrem-lhe as lagrimas e empanar-se-lhe a vista á proporção que +a ía lendo. Dotada, tambem, de indole varonil e soffredora adivinhava +facilmente as apprehensões e os tormentos, que aquellas lettras +escondiam, e quasi revia por baixo d'ellas as nodoas do pranto suffocado +por uma vontade forte. + +A donzella recostava-se em uma marqueza de palhinha. O braço nù do +cotovello para baixo descansava em um velador entre duas jarras de +porcelana cheias de rozas e madresilvas. Duas portas de vidraças abertas +sobre o jardim, para onde se descia por escada de poucos degraus +deixavam entrar a luz em jorros. A sala era atapetada de esteira, e +estava ornada de alguns paineis de paizagem, pendentes das paredes +estucadas. Nos vãos das portas duas gaiolas douradas encerravam aves +africanas de vistosas plumagens. Em cima do marmore de um tremó, entre +flores, jazia esquecido o livro, que tivera na mão pouco antes de rasgar +anciosa o sobrescripto da carta, que viera interrompel-a. A um lado, no +bastidor, sobre a tela repregada notava-se ainda a agulha picando a +talagarça na petala delicada da ultima flor, cujo matiz deixára em meio. +Um vidro de peixes, de cores cambiantes, enfeitava a mesa fronteira ao +tremó e ao espelho. + +--A filha de Paulo de Azevedo vestia de escuro sem affectação. Um +corpete, dos que então se chamavam _Mimosos_, de seda preta com +guarnições singelas, e cintura curtissima, desenhava mal a rara +elegancia d'aquelle corpo esbelto, moldado pelas graças. Uma fita larga, +com laço e pontas caidas, unia-o á saia de tafetá de cauda alta, orlada +com uma barra de requifes; mas a saia, segundo a moda do tempo, não era +menos desairosa do que o corpete; e n'esta nossa epocha de crinolines e +balões de verga de aço a magreza da roda, e a estreiteza do córte, que a +cingia aos membros quasi a ponto de accusar de mais as fórmas, faria +estalar de riso um conciliabulo de modistas e petimetres. Uma singela +cruz de coral, encastoada em ouro, e suspensa de um fio de aljofres +debruçava-se sobre o collo de neve, que um poeta sem exageração +denominaria verdadeiro collo de garça. O penteado, não menos singular +para os nossos dias, que o feitio do trajo, era todo de anneis +irregulares, acompanhando a testa em figura quasi de diadema, e +rematando no alto da cabeça por uma flor natural cravada nas tranças. +Sapatos de setim de entrada muito baixa, cobriam ou antes descobriam o +pé mais breve e mais lindo, que um estatuario poderia desejar para +modelo das extremidades de uma Hebé. A manga do corpete desnudava todo o +braço, que na pureza e correcção das linhas não desmentia a formosura do +semblante, o enlevo namorado dos olhos, e a expressão nobre, quasi +altiva, e apesar d'isso ingenua e suave da physionomia. + +Vendo-a assim reclinada, com os atomos dourados do sol a brincar-lhe nos +cabellos, com a meiga pallidez, que um carmin fugaz e transparente +apenas córava por momentos, e com aquella melancholia tão feiticeira +pousada na vista, perdida com o pensamento bem longe de si e de tudo o +que a cercava, um pagão, se a contemplasse de repente, hesitaria entre +Juno e Diana, mas de certo não equivocaria sua belleza casta com os +encantos mais faceis da lasciva deusa de Paphos. + +Manuel Coutinho, que a amava, que desde a infancia a vira crescer em +annos e attractivos, deteve-se suspenso de admiração, não se atrevendo a +despertal-a do enlevo com o ruido de seus passos. Mas o coração tem +sentidos mais subtis, que os ordinarios. Sem o vêr, sem ter percebido a +sua chegada, Leonor adivinhou que era elle, e a sua alma, fugindo á dor, +logo voou a encontral-o. Um suspiro á flor dos labios, um sorriso em que +a magoa e o jubilo se fundiam, duas lagrimas congeladas, tremendo nas +pestanas, disseram ao mancebo, que o sonho se quebrára, e que a amante, +baixando das illusões do devaneio, volvia ás realidades doces, mas bem +tristes, da existencia, e da paixão. + +Leonor olhou para elle. N'este simples volver de olhos disse tudo, +calados os labios, mas cheia de luz a vista radiosa. Um rubor, que +esmorecia, e breve tornava a avivar-se, denunciou ao mesmo tempo o +sobresalto da alegria e as tremulas palpitações do peito. O mancebo, não +menos rendido, porém mais impetuoso, soltou a alma em um suspiro de +entranhavel affecto, prostrando-se-lhe aos pés e, adorando-a, quasi como +se adora a Deus. O que ambos falaram mudos n'este momento só póde +concebel-o quem já gosou tambem as delicias por vezes acres das +expansões do primeiro amor. Á donzella ria a esperança na bôcca e nas +pupillas. Ao amante, olvidados os zelos e amarguras das confidencias, +que acabára de escutar, tumultuavam no seio agitado as commoções, como +vão e vem as ondas inquietas espumando sobre a areia. + +Por fim a mão estreita e melindrosa extendeu-se para o obrigar a +erguer-se. Um beijo ardente, seguido de mil osculos, n'essa mão que não +fugiu, affrontou de novas e vivas cores as faces da filha de Paulo de +Azevedo. + +Desviando com um gracioso gesto de infinita brandura o amante ajoelhado, +e constrangendo-o a levantar-se com o imperio só dos olhos. Leonor +disse-lhe: + +--Veiu tarde!... Não imagina o cuidado com que o esperava!... + +--Leonor! Leonor! exclamou Manuel Coutinho incapaz de se vencer. Jure-me +que não dará nunca a outro esta mão, que tenho nas minhas, como penhor +da nossa ventura... + +--Juramentos?! Já se não contenta com menos? Não crê em mim?!... + +--Como em Deus! + +--É de mais agora. Basta a fé... Teve noticias de meu pae? Será possivel +ao menos demorar a sentença? que o ameaça. Quando me lembro!... Manuel! +E nós aqui n'estes colloquios, quando elle.. geme desamparado, e se +prepara para a morte... que será tambem a minha, porque, se o perder, +sei que não posso, que não hei de sobreviver-lhe!... + +--Não diga isso. Seu pae está mais perto da liberdade, do que da +morte... + +--Quem lh'o disse? Elle escreveu-me. Aqui está a carta; mas só confia em +Deus! Ha alguma novidade? Veja que padeço ha tantos dias, chorando quasi +orphã aquella vida, que é tudo para mim... Diga! Devo ter ainda +esperança?... + +--Deve!... O bispo, e sua irmã não lhe contaram nada?... + +--Não! Mas o que ha? Ouvil-o-hei da sua bôcca... A boa nova será para +mim mais risonha! + +--O Porto vae acclamar o principe regente. Sepulveda sublevou as +provincias do norte! O Alemtejo e o Algarve fazem e farão o mesmo!... Os +francezes acossados retiram sobre Lisboa de toda a parte!... + +--Seja para sempre glorificado o vosso nome, meu Deus! exclamou a bella +enthusiasta, caindo de joelhos, e erguendo as mãos. Os ferros do +captiveiro são asperos e pesados e a minha alma, ferida e cega de +prantos, nem já a vista se atrevia a elevar ao ceu para vos pedir +justiça!... O dia da liberdade começa a raiar. Manuel! O seu posto não é +aqui, é ao lado de nossos irmãos que pelejam e morrem pela patria... + +--Bem sei. Parto em dois dias. Vinha dizer-lh'o. + +--Perdoe-me. Tenho pressa de vêr meu pae! Quero dever-lhe o seu +resgate... As damas antigamente mandavam os cavalleiros correr +aventuras, e não os premiavam senão coroados de louros. Quer ser meu +cavalleiro?... ajuntou com um sorriso e em um tom irresistivel. + +--Não o sou já? Que votos póde fazer que eu não cumpra? + +--Vá! A empreza é gloriosa. Ajudará a restaurar a patria, a restituir o +throno ao seu rei legitimo, e um pae extremoso aos braços da sua +filha!... Porque não sou homem?! Nunca invejei tanto uma espada!... + +--Quem sabe, accudiu o mancebo sorrindo, se os dias das amazonas não +voltarão!... + +--Porque o diz zombando?... Cuida que me faltaria o valor?... Estou +louca! Desculpe! De balde quero dissimular a minha fraqueza mais do que +posso. Elles são briosos; hão de combater aqui como combateram em toda a +parte... Quantas victimas! Quanto sangue! Manuel! Não seja temerario! +Quero tornar a vel-o!... Oh! se uma bala, se um golpe!... + +--Deus será comnosco. Havemos de vencer. Anime-se! + +--E eu?!... Ficarei só entre dois amores, que são toda a minha +esperança, entre duas saudades, que prendem toda a minha alma! Só! Não +sem outra companhia mais do que receios e cuidados, sem outras armas +senão as minhas lagrimas e orações!... Attentando, depois, na confissão +que acabava de soltar, vermelha de pejo como uma roza, cobriu o rosto, e +o pranto, rebentando, principiou a deslisar-se-lhe por entre os dedos. O +mancebo, exaltado, lançou-se outra vez a seus pés, e em vozes suffocadas +e incoherentes repetiu-lhe mil protestos. A final, Leonor levantou a +face orvalhada d'aquellas lagrimas tão suaves para ambos, e os bellos +olhos sorriram humidos, como o sol de abril por entre chuveiros finos. +Uma vista longa e apaixonada beijou com ineffavel delirio a vista do +amante, que se sentia desfallecer de jubilo, e que sem forças para +exprimir com palavras o alvorço, amiudava os osculos frementes nas mãos, +que tremiam, entregando-se a seus carinhos. + +--Leonor! disse depois de alguns momentos. Agora póde vir a morte, póde +redobrar o infortunio, achar-me-hão forte! Sei que sou amado! Levo +commigo a confissão da sua ternura!... + +--Ingrato! accudiu ella com meigo requebro. Era preciso que um instante +de dor, mais poderoso que o pejo, lhe dissesse o que devia ter +adivinhado!?... Não sabia que a ninguem, a mais ninguem... depois de meu +pae, tenho a affeição... + +--Porque não diz o amor!... Teme ver-me feliz?!... + +--Pois sim! O amor! redarguiu, alçando a fronte com nobre altivez, e +fitando no mancebo um olhar de indizivel e terno orgulho. Porque hei de +encobrir o que sinto; porque hei de negar o que não posso esconder? +Amo!... Desde a nossa infancia jurei que não teria outro esposo. Não é +crime escutar o coração! Amo-o, Manuel Coutinho!... + +--Leonor!... + +--Agora ouça! Antes de partir, volte aqui. Deante de Deus estamos +unidos. Quero dar-lhe uma prenda, que nos recorde a alegria triste +d'este dia!... A guerra vae a principiar. A sua ausencia póde ser +larga... Hei de supportal-a com toda a constancia, hei de ser digna +mulher de um soldado!... Volte! Lembre-se de que deixa n'esta solidão +metade da sua alma em troca da minha que leva toda... Quero vêl-o +victorioso, coberto de gloria, mas!... Que eu não fique viuva sem ser +esposa! Tem outra amante que vae servir, a patria! Sacrifique por +ella... tudo... tudo! menos a vida que me pertence! Adeus agora! Preciso +de socegar o animo para uma visita, que espero, e da qual depende talvez +a sorte de meu pae... + +--Lagarde!?... atalhou Manuel Coutinho irado e sombrio de repente. +Porque se sujeita a ouvir esse monstro, auctor de nossas desgraças? + +--Porque o meu dever o manda. Cuida que ha sacrificio, que me custe, +para salvar meu pae? Oxalá que viesse pedir-me todo o meu sangue em +preço do sangue d'elle! + +--Sabe o que Lagarde quer exigir-lhe pela soltura do sr. Paulo de +Azevedo? perguntou o mancebo tremulo e pallido. + +--Sei! contestou ella serenamente. + +--E conta responder-lhe?!... interrompeu o amante ancioso. + +--Não lhe disse que o amava? Duvida do meu coração, ou da minha fé!? +Pela vida de meu pae estou prompta a immolar tudo, menos... a honra do +seu nome, que é sagrada, e a minha alma, que é livre... O esposo, que +posso ter, já o escolhi. + +--Obrigado, Leonor, pela doce promessa! Partirei tranquillo... Mas, +então porque escuta Lagarde? Com que espera movel-o?... + +--É o meu segredo. Todos os sacrificios, menos um! Tudo menos vender-me, +ou aviltar-me!... Não ouviu rodar uma carruagem? É a d'elle! Sáia por +aquella porta... Não! Não! ajuntou, notando a agitação do amante. Não +lhe devo occultar nada! Entre para aquelle gabinete!... Mas jure-me, que +ouça o que ouvir, veja o que vir, mesmo que eu fosse ameaçada... o seu +braço, a sua voz, a sua presença, é como se estivessem ausentes... + +--Juro! Mas se elle ousar!... + +--Não ousa! De mais, sei, e posso defender-me! Creia em mim. Agora vá! +Um momento! Deixe-me colher forças para o combate!... E pousando-lhe na +fronte os labios de rosa afagou-lh'a com um beijo. + +--Leonor!... exclamou elle ebrio de jubilo. + +--Recompense-me! Seja homem! Hoje a nossa arma é a paciencia. Não o +sente? Sobe a escada... Vá! Nem um gesto, nem uma palavra! Responde pela +vida de meu pae! + +E impellindo-o com maviosa brandura obrigou-o a entrar para o gabinete, +cuja porta de vidraças recatavam duas cortinas de seda despregadas quasi +até ao chão. + +Depois, levando a mão ao peito, como se quizesse contel-o, alçou a vista +com expressão sublime e magoada, e aguardou que a porta se abrisse. + +Não tardou. Lagarde d'ahi a um instante appareceu entre os umbraes. + + + + +XV + +Cubiça e Nobreza + + +O intendente geral da policia era homem de sala. No tracto usual ninguem +o excedia em delicadeza. + +Apenas apontou ao limiar, inclinando-se profundamente, adeantou-se com o +chapéu na mão. Com o sorriso estereotypado nos labios beijou a mão, que +Leonor de pé, séria, e grave, nem lhe estendeu, nem lhe recusou. + +Seguiu-se uma pausa curta durante a qual a vista do ministro se cruzou +com a da donzella, frias e penetrantes ambas como duas espadas. + +A um aceno cortez da filha de Paulo de Azevedo, offerecendo-lhe cadeira, +Lagarde escusou-se com o gesto, ajuntando logo risonho: + +--Minha senhora... Venho como supplicante mover a piedade da belleza +deshumana, e os supplicantes não se assentam em presença dos juizes. + +--Vem mover a minha piedade, ou offerecer-me a sua?! accudiu a donzella +em tom ironico. Não mudemos os papeis! A supplicante devo ser eu. O +vencedor não veiu aqui dictar-me as condições na idéa de me achar +resignada a escutal-as e a submetter-me?!... Não o incommoda ficar de +pé?... + +--Não, minha senhora. Tenho de pedir licença para lhe apresentar outra +visita... + +--Outra visita?! + +--Meu sobrinho... + +--Seu sobrinho?!... + +--Era tempo, não lhe parece?... + +--Eu!... + +--Percebo! É-lhe indifferente? Consinta que junte duas palavras. Quer +que lhe fale como amigo?... + +--Se póde!... Receio tanto o intendente geral da policia!... + +--Não receie. Seja menos injusta. Desejo-lhe bem. Respeito a sua +firmeza, préso os seus sentimentos de filha extremosa, e sei que se +quizer ha de fazer a felicidade do marido que preferir. + +--Tantos louvores, sr. Lagarde!... Ha quantos mezes me avalia assim? +accudiu Leonor sorrindo, mas tornando-se logo séria. Confesse que tenho +motivos fortes para suppor o contrario. Costuma tractar, como nos +tractou a nós, as pessoas que lhe merecem bom conceito?!... + +--Ah, cruel!... volveu o ministro, córando um pouco, porém disfarçando a +torvação momentanea com o riso. As setas são agudas, e essa mão mimosa +aponta-as com uma certeza! Pois bem! Se fiz o mal, posso ao menos +dar-lhe remedio... O conselho de guerra ámanhã, ou depois, reune-se para +julgar seu pae... A sentença depende das provas, e as provas principaes +estão nas minhas mãos. De mais, Lunyt, o secretario de estado dos +negocios da guerra, é meu amigo intimo... Já vê! Se eu interceder e +ajudar... o sr. Paulo de Azevedo sae absolvido e solto... + +--Bem o sei, redarguiu a donzella. Quererá o sr. Lagarde?... + +--Duvída?! Porque tem tão pouca fé?... + +--Porque não acredito facilmente em conversões repentinas. Perseguiu-nos +sem tregua, não socegou em quanto não teve meu pae em ferros, e hoje... +offerece-me ser o seu protector!?... Ha grande mysterio n'isto, não o +negue!... Temo que exija tanto da minha gratidão em premio, que eu não +deva acceitar! + +--Nada escapa á sua agudeza! Quer saber tudo? Tem razão. Joguemos liso. +Posso interessar-me, e ser ouvido, falando a favor do pae da noiva de +Armand, de meu sobrinho; mas percebe muito bem, por maiores que fossem +os meus desejos de servir, que o empenho não teria a mesma força, se o +mettesse em beneficio de estranhos... de pessoas desaffectas ao governo +de sua magestade o imperador e rei. Agora permitte que meu sobrinho +entre? Espera as suas ordens n'aquella saleta... + +--Pois sim. Uma palavra antes, sr. Lagarde. É a noiva, ou é o dote, o +que mais o tenta n'este negocio?!... + +--Oh, minha senhora, que pergunta! Que offensa!... O dote?!... Não faz +mal, de certo o dote, a riqueza nunca se despreza; porém o thesouro +d'essa linda mão!... + +--Supponha que... em troca da sua... como hei de dizer? + +--Diga amisade, minha senhora, amisade sincera. Fale affoutamente!... + +--Talvez seja muito. Benevolencia parece mais natural... Supponha, pois, +que em troca da sua benevolencia eu cedia o dote, e guardava a _linda_ +mão... que é já de outro, e que em nenhum caso, aconteça o que +acontecer... darei a seu sobrinho?... + +Leonor falava serena, e sorrindo-se, porém a voz e o tom affirmavam +assás, que a proposta era positiva, e que a resolução tomada seria +inabalavel. Lagarde franziu o sobrolho, raspou com o dedo a ponta do +nariz, cortejou-a em silencio, e reconcentrou-se por instantes como quem +reflectia. + +--O dote sem a mão?! disse por fim lentamente, e esbrugando as palavras +como se as pezasse. Julga, minha senhora, que seria possivel?... + +--Depende da minha vontade, e estou prompta. + +--Não me entendeu! É uma esmola, que nos quer fazer a meu sobrinho e a +mim, ou uma peita, com que espera subornar o ministro?... + +A interrogação parecia aspera; porém o olhar e a voz não podiam ser mais +amaveis. Leonor concebeu esperanças. + +--Nem uma, nem outra cousa! É um testemunho de reconhecimento. +Protesto-lhe que dos tres a mais agradecida serei eu. + +--Esquece-lhe, que o mundo dirá, que me vendi!... Não pode ser! Uma +esposa não se nota que seja generosa, porém uma estranha!... Minha +senhora, não decida nada sem o conhecer. Armand está aqui. É moço, é +gentil, é brioso. Merece-a. Sei que o accusam de ser um pouco estouvado +e perdulario. Não o defendo. São defeitos que o matrimonio corrigirá. +Veja-o!... Tome tempo!... Não me julgue tão mau como dizem os meus +inimigos. Tudo ha de compor-se. + +--Deus permitta! replicou a filha de Paulo de Azevedo. + +Mas a sua phisionomia espirituosa traduzia perfeitamente, sem os +disfarçar, a malicia e o despreso, com que assistia ao combate da avidez +e da cubiça na alma de Lagarde, impaciente de receber o que lhe +promettiam, mas preso ainda, apezar do cynismo, pelos escrupulos de um +resto de decoro e de respeito da sociedade. Talvez, que não o +embaraçasse pouco n'este conflicto a idéa, que formava do caracter do +sobrinho, e a apprehensão de que elle recusasse favores, cuja origem o +cobriria de opprobrio. + +--Deus quer o nosso bem, e ha de permittir!... atalhou o magistrado, +todo brandura e delicadeza. Sobre tudo se fizermos da nossa parte... + +--Da minha tudo, menos!... + +--Não diga isso!... Esse _menos_ é que precisamos que desappareça. Meu +sobrinho é um cavalheiro... + +--Affiança-m'o?... N'esse caso estou socegada. O _menos_ virá d'elle!... + +Uma sombra escureceu o rosto do intendente. Ainda não lhe occorrêra esta +hypothese, e um estremecimento nervoso avisou-o, de que ella podia +converter-se em obstaculo insuperavel. Que certeza tinha de que Aubry +annuisse ao pacto infame, que procurava extorquir, fazendo da cabeça de +Paulo de Azevedo o penhor da docilidade de sua filha? + +--Não imaginemos coisas tristes! redarguiu contrafeito. Seu pae, +lembre-se, está preso, e em vesperas de ser sentenciado... + +--Meu pae, tornou a donzella altiva, saberá morrer, que lh'o ensinaram +os seus antepassados; o que nunca soube, nem ha de aprender na velhice, +é a vender o sangue da sua alma, a ventura e a dignidade de sua filha +para salvar a vida. + +--N'esse caso!... Mas o pobre Armand!... Falámos tanto d'elle que por +fim esqueceu-nos! Como ha de estar impaciente. Tinha um desejo tão +ardente de vir aqui!... Ah, ri-se? Não acredita?!... Pois é verdade. Dá +licença?!... + +E sem aguardar mesmo o aceno secco de cabeça, com que Leonor respondeu, +Lagarde, precipitando-se direito á porta, cortou com esta saída theatral +a conversação no ponto, em que ameaçava tornar-se tempestuosa. Em quanto +elle saia, a donzella enxugou á pressa duas lagrimas, reprimidas até +então pelo orgulho, e inclinou a fronte como se lhe faltasse o vigor +para supportar mais. Durou só um momento esta fraqueza. Um minuto depois +erguia a face, e tornava a obrigal-a a exprimir a frieza glacial do +papel forçado, que se via constrangida a representar. Um rapido volver +de olhos á porta de vidraças, detraz da qual Manuel Coutinho escutava, e +um suspiro ancioso foram os ultimos signaes do seu desalento. + +O intendente entrava com o sobrinho. + +Vendo-o, Leonor córou, e fez-se logo, pallida. + +O mancebo, contemplando-a, sentiu-se vencido de repente, e conheceu que +aquella bella e doce imagem se lhe gravára profundamente no coração. A +tristeza resignada, que respiravam as feições da donzella, a sua vista +magoada, mas serena e quasi severa, e a casta e graciosa elegancia do +porte, acabaram de o render. O semblante, em que um momento antes sorria +zombeteira a mofa do conquistador, seguro do triumpho, desarmou-se +instantaneamente da expressão quasi insolente, e inclinando-se, +perturbado, e reverente, Armand saudou a filha de Paulo de Azevedo como +poderia saudar uma rainha no seu throno. + +--Aqui vem a seus pés mais este captivo, minha senhora! exclamou o +intendente no estylo refinado e galanteador da côrte franceza. +Compadeça-se d'elle. Não consinta que suspire em vão! + +Armand empallideceu. Não era com gracejos vulgares e pueris, que elle +agora desejava expressar á donzella a admiração. O official, de +ordinario tão solto e audacioso, já não achava phrases que pintassem o +estado da sua alma. Mas se os labios eram mudos, falavam os olhos, e o +proprio enleio significou uma homenagem á amante de Manuel Coutinho. + +--Veja como a adora! proseguiu Lagarde, que, sem o querer, representava +o papel comico de um tutor de entremez. Que victoria, minha senhora! Fez +como Cesar, viu, e venceu!... + +--Ah! interrompeu Leonor, deixando cair de alto sobre o tio e o sobrinho +uma vista ironica e aguda, que os gelou a ambos, porque o despreso e o +escarneo, que exprimia, traspassava. + +--Meu tio!... murmurou Armand confuso, e recuando como ferido de uma +bala. + +Houve uma breve pausa. O ministro estudava um exordio, que o salvasse +dos apuros do lance, em que se mettêra, amaldiçoando interiormente +Aubry, cuja falsa delicadeza começava a assustal-o. A filha de Paulo de +Azevedo, em pé, branca como uma estatua de alabastro, mas imperiosa, +amparava o corpo gentil com a mão no espaldar da cadeira e n'esta +posição, cheia de dignidade, aguardava silenciosamente, que um dos dois +ousasse dizer-lhe tudo. + +O mancebo, que a interjeição de Leonor fizera córar até á raiz dos +cabellos, e que a vista de tantas graças e enlevos cada vez seduzia +mais, esperava ancioso, que o intendente, auctor do enredo, lhe rompesse +o caminho, temendo adivinhar na mudez e no ar soberano e offendido da +bella portugueza um trama, que a honra o obrigasse a desmentir. + +--Armand, minha senhora, disse por fim Lagarde, que o amor proprio e a +cubiça forçavam a insistir, encarrega-me de lhe pedir, que se digne +receber os testemunhos de seu respeito e adoração. + +--Sempre como procurador?!... atalhou ella com um sorriso ironico. + +--Em pessoa, minha senhora, em pessoa!... Se não veiu mais cedo é que... + +--Meu pae não estava ainda quasi no oratorio, e o sr. Lagarde temia que +a filha fosse menos docil? + +--Oh!... bradou Armand, encarando o ministro severamente, e +adeantando-se impetuoso. Minha senhora, balbuciou depois, se aqui vim +foi attrahido por uma doce esperança, que vejo ter sido chimerica... +Posso saber o que meu tio quiz fazer, valendo-se do meu nome? Presinto +um segredo de violencia, talvez de iniquidade, mas, juro-lhe pela minha +honra, que estou innocente... que sou incapaz de acceitar a sua mão, que +me faria bem ditoso, agora o sinto, se livremente m'a não désse. +Peço-lhe a verdade! Ao menos não me condemne sem me ouvir!... + +Lagarde não soube conter-se. Um raio, que lhe estalasse de repente sobre +a cabeça, não o teria desfigurado tanto. Empregado o ardil classico do +famoso quadro do sacrificio de Ephigenia, escondeu metade da cara no +lenço de assoar, pedindo a Deus que um alçapão propicio se lhe abrisse +debaixo dos pés para o sumir da vista irritada dos personagens, cujas +explicações previu, que iam desmascaral-o inteiramente. + +Leonor, escutando as nobres palavras de Aubry, recompensou-as com um +olhar sympathico. O semblante perdeu a expressão severa, e a voz, meiga +e commovida, vibrou harmoniosa, como um canto suave, no peito agitado do +official francez. + +--Agradecida! redarguiu offerecendo-lhe pela primeira vez a mão, que +elle beijou estremecendo. Não tenho que lhe perdoar... Agora vejo! O sr. +Lagarde... como hei de dizer toda a verdade!? O sr. Lagarde prendeu meu +pae, accusou-o, e tem suspensa sobre a sua vida a espada de um conselho +de guerra... Tinha-me falado ha mezes n'este casamento... A minha recusa +aggravou-o... e hoje, aqui mesmo, veiu propor-me salvar meu pae se eu +consentisse... + +--Oh, meu tio! interrompeu o mancebo fulminando o intendente com os +olhos, e vermelho de colera e pejo. Não diga mais, minha senhora. +Adivinho a resposta. Regeitou!... + +--Regeitei! continuou a donzella. A minha mão pertence a outro; o meu +amor não se vende. + +--Nem o meu nome se infama! rugiu Aubry tremulo de raiva. Sr. Lagarde +agradeça ao sangue, que nos corre nas veias, a minha paciencia! Se não +fosse! E suffocado em ira apertou os punhos, e levou-os á fronte. +Lagrimas de indignação rebentaram de seus olhos seccos. O intendente +parecia petrificado. + +--Offereci o dote sem a noiva; proseguiu Leonor. Era o meu resgate. Oh, +perdoe sr. Aubry, não o conhecia ainda. Depois que o ouço... não lhe +faria a affronta de suppor... + +--Vê! accudiu o official, colhendo o ministro do braço, e saccudindo-o +com furia. Vê a que me expoz?!... Meu tio, tenho vergonha, queima-me os +labios dar-lhe este nome! Quem lhe deu o direito e a ousadia de arrastar +o meu, o nobre appellido de meus virtuosos paes pelo lodo de suas +torpezas?! Sou pobre, accrescentou voltando-se convulso para a filha de +Paulo de Azevedo, mas a pobreza supportada com valor, com alegria, como +eu a supportei sempre, não desdoura, engrandece. Hoje não possuo outras +riquezas, senão o orgulho da propria indigencia, que nunca ajoelhou, o +respeito do nome sem macula que herdei, e esta espada... que póde +abrir-me o caminho da gloria, ou o da sepultura!... Nunca me passou pela +idéa, que houvesse no mundo um coração tão vil e corroido, que se +atrevesse a cuspir no meu rosto e sobre as cinzas dos que mais amei a +injuria de me aviltar ausente a especulações infames!... Socegue, minha +senhora! Todos os thesouros da terra, depois d'isto, não me obrigavam a +acceitar a sua mão, ainda que m'a offerecesse. + +--Louco! D. Quixote! Nescio!... rosnou Lagarde, ao qual a generosa +declaração do mancebo restituiu a voz, e redobrou a ira de se ver +descoberto e punido. + +--Senhor Lagarde! disse Armand, cravando n'elle um olhar sombrio. Sei +que devo parecer-lhe nescio e estouvado. Glorio-me da censura. O que me +faria córar eternamente seria um elogio... depois do que acabo de ouvir. + +--Senhor Aubry, observou Leonor, creia que nunca hei de esquecer a +nobreza do seu caracter. Aonde quer que a fortuna o leve... conte com a +minha amisade. Não sou ingrata. Se meu pae escapar... + +--Ah! exclamou o mancebo. Esquecia-me! Senhor Lagarde! ajuntou, travando +rijo do braço ao ministro, que se ia desviando para se evadir +desapercebido. Uma palavra antes de sair! Os vinculos do nosso +parentesco estão rotos de hoje em deante. Quer que o mundo ignore os +motivos? Ponho uma condição a esse sacrificio da minha parte!... + +--Condições?!... interrompeu o intendente, ameaçando o sobrinho e Leonor +com os olhos e com o gesto. + +--Condições, sim! atalhou o mancebo friamente. Offereço-lhe o seu +perdão, e a minha indifferença... + +--Offereces-me o teu perdão? É admiravel! Que me importa o teu +perdão?... + +--Em troca de um acto de generosidade... forçada. Bem vê que lhe faço +justiça, e que digo _forçada_, proseguiu Aubry, contendo-o, e +dominando-o com a vista. + +--Oh! exclamou Lagarde, rindo convulso e constrangido. A scena era para +se ver no theatro francez! Enlouqueceste Armand?!... + +--Não! redarguiu Aubry, cerrando os dentes e crescendo para elle +indignado. Não enlouqueci! Mas ninguem até hoje me affrontou +impunemente. Em tres dias o pae d'esta senhora ha de estar absolvido e +solto... + +--Ah! É de mais! accudiu o ministro affectando intrepidez, porém +assustado. E se não estiver? póde acontecer que as tuas ordens não sejam +cumpridas á risca. Se não estiver pódes dizer-me o que farás? +Accommettes a policia, fuzilas o conselho de guerra, ou assaltas os +moinhos de vento de Monsanto?!... + +--Por Deus, senhor Lagarde, não tente a minha paciencia! bradou o +official empallidecendo de colera, em quanto as pupillas scintillantes +faiscavam mil ameaças. Se não estiver livre e absolvido... como lhe +mando!... ouve? juro-lhe pela santa memoria de minha mãe, á qual deve só +n'este momento a vida! que ámanhã o nome mais infame do imperio será o +seu!... + +O intendente fez-se branco e recuou, lendo na vista inflammada do +sobrinho o odio e o despreso. + +--Armand! exclamou balbuciando, renegas o teu sangue por estranhos?! +Unes-te aos inimigos da tua patria contra mim!?... + +--Os inimigos combatem-se com as armas na mão, não se salteam nos +corredores da policia, pedindo-lhes a bolsa, ou a vida!... Fez-me córar +de vergonha! A maior injuria, que podia irrogar-me, era suppor alguem +que eu fosse cumplice de mercados tão vilões... + +--És uma criança! Julgas o mundo pelos romances!... + +--Basta! clamou o mancebo. Quer acaso convencer-me?! Se não obedecer ao +que lhe disse, que é o desaggravo da minha honra ultrajada, não se +admire do que eu fizer!... + +--Do que fizeres! Ameaças?! Crês que te receio?... Em eu te desamparando +cuidas que vales alguma cousa?! rugiu o intendente exasperado. + +--Hei de valer sempre o que vale um nome honrado! Não preciso de mais. +Repito. Tome bem sentido! Se o pae de D. Leonor não for solto em tres +dias... + +--Não é. Que mais?! atalhou o ministro, cruzando os braços. + +--O general Junot e o conselho do governo saberão como se enriquece o +intendente geral da policia! Vou revelar-lhes tudo. Então veremos. + +--Tu! Meu sobrinho! exclamou Lagarde retrocedendo fulminado. + +--Eu! Seu sobrinho por minha desgraça. Escolha agora. + +Voltou-se depois para Leonor, que o dialogo tornára immovel, e +acrescentou: + +--Minha senhora, adeus. Levo d'aqui a admiração da sua formosura, e a +magoa de ter sido causa innocente de suas lagrimas. Sei que me perdoa, e +que me fica estimando. Não peço mais. Socegue. Mesmo sem o dote, o +senhor Lagarde ha de servir seu pae... Elle sabe que eu costumo cumprir +a minha palavra. Vamos, ajuntou apontando a saída ao ministro com um +gesto imperioso. O luto entrou comnosco n'esta casa... É tempo de +deixarmos que a alegria e a tranquillidade voltem. + +E quasi obrigando Lagarde a retirar-se, lançou sobre Leonor um olhar de +apaixonado enlevo, inclinou-se com um suspiro, e desappareceu. + +--Manuel Coutinho, disse a donzella, erguendo a fronte de repente, +depois de alguns momentos de silencio, ouviu tudo?... + +--Tudo, redarguiu elle, que não se demorou em vir lançar-se de novo a +seus pés. + +--Então sabe a divida que hoje contrahi... que ambos contrahimos com +Armand de Aubry. Espero que a vida d'elle lhe seja tão sagrada... + +--Como a de um irmão, respondeu Manuel. É uma grande alma. + +--Alviçaras! Alviçaras! Senhora D. Leonor! Gritou a voz do bispo do lado +do jardim. Os inglezes estão a desembarcar. O nosso captiveiro pouco +durará se Deus quizer. + +E o prelado entrou afadigado e tremulo de jubilo no aposento, aonde os +dois lhe abriam os braços não menos alvoroçados. + + +FIM DO PRIMEIRO VOLUME + + + + +NOTAS AO PRIMEIRO VOLUME + + +I + + O poder do ministro eclipsou-se com o ultimo suspiro do principe e, + com elle expiraram as tradições viris e os commettimentos + reformadores... pag. 24. + +O governo do marquez de Pombal abrangeu todo o reinado de el rei D. José +I. Varios, e mais ou menos parciaes, foram os juizos dos contemporaneos +ácerca da administração severa, intolerante, e absoluta, mas a muitos +respeitos fecunda e reorganizadora de Sebastião José de Carvalho e +Mello. A obra, que emprehendeu, o rejuvenescimento da unidade monarchica +sustentado pelo apoio das classes medias devia encontrar, e de feito +encontrou, a opposição dos privilegios, dos abusos, das hypocrisias, e +do fanatismo. No paço a familia real, nos gremios puritanos da nobreza +os fidalgos mais poderosos, nas corporações religiosas a companhia de +Jesus, declararam guerra mortal e incessante ao ministro, aos seus +actos, e ás suas tendencias. Para a familia real Sebastião José de +Carvalho era quasi um inimigo da força e da consciencia do rei. Para a +nobreza arrogante e affeita a dominar o poder despotico de um ministro, +que não acurvava as vontades, ou as leis ao aceno imperioso dos eleitos +de sangue azul era um peão fidalgo, insolente e soberbo, que importava +derrubar e punir o mais depressa possivel. Finalmente, para os jesuitas, +cuja influencia dilatada nos ultimos annos de valimento durante o +reinado de D. João V, não consentia emulos, e muito menos peias, os +planos atrevidos do secretario d'Estado, representando ameaças e perigos +perennes para a prosperidade da sociedade, equivaliam a um cartel, que a +todo o transe convinha acceitar e concluir pela derrota do orgulhoso sob +pena de aplanar aos adversarios os caminhos do triumpho. + +A firmeza do rei, o prestigio que a auctoridade monarchica possuia +ainda, e a intrepidez do ministro venceram estas resistencias +colligadas. Por que preço, porém? Que o digam os carceres e prisões +povoadas de suspeitos, réos apenas muitos d'elles de alguma opinião mais +livre. Que respondam os processos, as alçadas, os degredos, e os +supplicios, paginas luctuosas de um governo inexoravel e vingativo. +Copiando do cardeal de Richelieu até as perfidias cruentas, Pombal +assignalou com um rasto patibular as principaes estações da sua +administração. Por fim escorregou e caiu no sangue vertido muitas vezes +sem necessidade. Os horrores, que afogaram nos tratos e crueldades da +praça de Belem a famosa conspiração de 1758, a expulsão dos jesuitas; os +castigos atrozes contra os tumultuarios do Porto; a execução de João +Baptista-Pelle; o encarceramento prompto e perpetuo de quantos podia +receiar como rivaes, ou como censores pelo nome, pela integridade, pela +jerarchia, ou pela sciencia são nodoas indeleveis e accusadoras, que não +apagam o merecido elogio de outros actos, nem a recta e desassombrada +apreciação de suas reformas uteis e opportunas. + +O marquez de Pombal tentava em parte o impossivel. Não admira, por isso, +que na queda arrastasse comsigo quasi tudo o que nos monumentos do seu +governo era fragil, instavel, e transitorio. A monarchia pura tinha +envelhecido muito e depressa para ser exequivel salval-a por meio da +transfusão de idéas e principios repugnantes á sua índole, contrarios +aos preconceitos e crenças do povo e das classes elevadas, e sem base +firme em que assentasse uma construcção duravel. Os tres reinados de D. +Affonso VI, D. Pedro II e D. João V adeantaram a tal ponto a caducidade, +que os milagres do genio, e os prodigios da vontade o mais que poderam +conseguir foi suspender a dissolução espaçando até ao fim do reinado +seguinte a revolução eminente. O ministro absoluto serviu-se em muitas +occasiões do poder como de uma arma cega e demolidora, e a ferro e fogo +imaginou transformar a sociedade decrepita e moribunda em uma sociedade +nova, e vigorosa e viril, filha legitima das grandes idéas philosophicas +fadadas á conquista do futuro. Suas leis e seus esforços provam a +elevação do pensamento e a intensidade dos bons desejos; mas do que elle +decretou ficou de pé sómente o corpo logo tornado cadaver. O espirito... +não eram aquelles ainda os dias da sua victoria nem os seus meios de +persuasão. Por isso com o ultimo suspiro de D. José I baqueou não só o +poder, mas subverteram-se em grande parte até as idéas representadas +pelo marquez de Pombal. + + +II + + Um gabinete quasi todo composto de aulicos, sujeito ao voto do + confessor valido substituiu o mando odiado do marquez... pag. 24. + +A rainha D. Maria I contava, quando subiu ao throno, quarenta e tres +annos de edade. Nascida e educada para reinar houve um momento, em que +seu pae, segundo se affirma, concebeu a idéa de proclamar a lei salica, +cingindo a corôa na fronte juvenil do principe D. José. Acclamada em 13 +de maio de 1777 com D. Pedro III, esposo e tio, o primeiro acto do seu +governo foi um acto de clemencia. Mandou abrir as prisões e soltar os +presos d'Estado. Chamou dos longos desterros, em que jaziam, a muitos +varões respeitaveis pelos annos, pelo caracter, e pela jerarchia. Menos +feliz do que Richelieu e Colbert o marquez de Pombal assistiu vivo ás +exequias do seu poder e á demolição da sua obra. + +Demittido dos principaes empregos exercidos por largo tempo, teve o +marquez por successores na presidencia do real erario o marquez de +Angeja, cuja lealdade D. José I attestára espontaneamente recolhendo-se +a sua casa na fatal noite de 3 de setembro de 1778; na secretaria +d'Estado dos negocios do reino, o visconde de Villa Nova da Cerveira; na +dos negocios estrangeiros e da guerra Ayres de Sá; e na repartição da +marinha e ultramar Martinho de Mello e Castro. + +Estes cavalheiros não eram homens obscuros, ou ineptos, mas qualquer +d'elles estava longe da vigorosa iniciativa de Sebastião José de +Carvalho, e todos juntos confundiam e atavam, mais do que desenredavam e +esclareciam, as resoluções. + +A consciencia timida da rainha, o genio apoucado de seu marido, as +insinuações hypocritas dos beatos, que se apoderaram logo de todas as +avenidas do paço e começaram a influir na direcção dos negocios, não +concorreram pouco para tornar o novo reinado uma quasi restauração de +tudo quanto o marquez de Pombal intentára destruir, ou modificar. + +Combatida de escrupulos suggeridos por falsos devotos a rasão da rainha +principiou logo a vacillar, e á prudencia e caracter limpo de allusões +do seu confessor o arcebispo de Thessalonica, D. Fr. Ignacio de S. +Caetano, é que ella deveu não se afogar mais cedo nas trevas da +demencia. + +O governo de D. Maria I não foi, comtudo, um governo absolutamente +estacionario e inimigo de reformas. Se o risco das grandes cousas +traçadas pelo marquez de Pombal assustava a capacidade menos elevada dos +ministros, que lhe succederam, todos elles ao menos manifestaram bons +desejos e rectas intenções, seguindo, ainda que muito de longe, o +espirito moderno, que alvorecia em França, e cujos clarões ainda se não +haviam convertido nos relampagos deslumbrantes, que precederam a +revolução de 1789; ou nas tempestades medonhas, que revelaram as +subversões de 1792 e 1793. + +Modesto nas idéas e nos commettimentos, o gabinete da rainha creou a +junta do codigo civil, cujos trabalhos nunca viram a luz da estampa; +fundou a Academia Real das sciencias; estabeleceu os estudos de +primeiras lettras e humanidades nos claustros das corporações regulares; +instituiu a casa Pia para asylo das creanças orphãs; dotou as aulas de +Fortificação e a Academia de Marinha; e decretou novas estradas e meios +de as executar sob a direcção de José Diogo de Mascarenhas Netto. + +A entrada de D. Rodrigo de Sousa Coutinho no ministerio em principios de +1797, por morte de Martinho de Mello, introduziu na administração um +elemento activo, emprehendedor, e dedicado por indole e tendencias a +arriscar planos mais vastos e mais altos muitas vezes, do que o +consentiam as circumstancias e as forças debilitadas da monarchia. + + +III + + Os tres sujeitos eram nada menos, do que tres delegados do + _conselho conservador de Lisboa_, associação composta de patriotas + dedicados á restauração da independencia, etc., pag. 88. + +A existencia d'esta sociedade secreta politica não é uma invenção. Saiu +á luz dos prelos da imprensa regia um opusculo de 24 paginas de 8^o, com +a seguinte denominação _Catalogo por copia extrahido do original das +sessões e actas feitas pela sociedade de portuguezes, dirigida por um +conselho intitulado CONSELHO CONSERVADOR DE LISBOA, e installada n'esta +mesma cidade em 5 de fevereiro de 1808; tendo se unido os installadores +em 21 de janeiro do mesmo anno para tractar da restauração da patria_. + +O conselho fundou-se em 5 de fevereiro de 1808 com seis socios que eram: +G... Matheus Augusto, José Maximo Pinto da Fonseca Rangel, José Carlos +de Figueiredo, Antonio Gonçalves Pereira, André da Ponte do Quental da +Camara; José Maximo da Fonseca foi nomeado secretario. O local das +reuniões decidiu-se que fosse alternadamente a casa de cada um dos +adeptos. A hora das conferencias ás 8 da noite. + +A formula do juramento adoptada era esta: «Na nossa presença, oh +immenso, Sempiterno, Omnipotente Deus, creador do Universo, estando em +nosso accordo, sem constrangimento, ou duvida, livres e deliberados +jurámos tractar de hoje em deante com todo o possivel disvelo, fervor, +prudencia, e firmeza a causa nobilissima da religião da patria e do +throno applicando para isso nossas forças, talentos, bens e vida até +conseguirmos entregar este a seu dono o PRINCIPE REGENTE e áquelles o +esplendor, a liberdade, a gloria. Este juramento seja para sempre o +fundamento da nossa honra e da nossa felicidade, que chame sobre nós a +benção divina e os applausos da nossa posteridade: a violação d'elle, +pelo contrario, attrairá sobre nós as maldições do céu e da terra; a +vileza para nós e para os nossos descendentes.» + +Na setima sessão prestaram este juramento um pouco theatral o coronel de +cavallaria Alvaro Xavier de Povoas e Fernando Romão da Costa Athaide +Teive. D'ahi em deante cresceu todos os dias o numero dos socios e +associados. Na sessão de 25.^o constituiu-se o _conselho conservador_ á +pluralidade de votos e ficou composto dos seguintes deputados e +adjuntos: o bispo de Malaca D. Francisco, o D. abbade de Belem fr. +Manuel de Mesquita, o arcediago do Funchal Manuel Joaquim de Sousa, o +beneficiado Joaquim José da Costa, o marquez de Angeja D. João, o conde +de Rio Maior, o visconde da Bahia, o desembargador Sebastião José de +Sampaio, o brigadeiro Antonio Marcelino da Victoria, os coroneis Lemos, +Lacerda, e Raposo, o tenente coronel Costa Athaide, o major Antonio +Marcelino Soares, e todos os mais socios approvados e admittidos. João +Carlos de Saldanha Oliveira e Daun, hoje duque de Saldanha, entrou +tambem no conselho inscripto sob numero 27. Consta da relação publicada +a pag. 87 do opusculo. + +O conselho desde 5 de fevereiro até ao 1.^o de outubro de 1808, em que +se dissolveu, celebrou quarenta e duas sessões. O numero dos socios +ajuramentados subia a 183. O dos auxiliares abonados por varios d'elles +elevava-se a 959, além do concurso de tropa e povo, com que contava para +o caso de um rompimento. + +Os planos de sublevação, as proclamações, os avisos ao almirante inglez +sir Charles Cotton, e os projectos da sociedade não corriam tão secretos +como elle imaginava. + +A policia franceza suspeitava, pelo menos, se não conhecia plenamente a +organização d'este nucleo; porém não julgou prudente proceder contra +elle, temendo-se talvez mais de um processo ruidoso em circumstancias +criticas, do que dos tramas pouco bellicosos e activos dos +conspiradores. É o que se deprehende de um trecho da _Historia da Guerra +da Peninsula_ do general Foy. + + +IV + + Muitos homens illustrados, que o grandioso espectaculo dos + acontecimentos advertia, suspiravam por uma renovação, que nunca + podia ser inspirada, bem o sabiam por experiencia, nem pelas idéas, + nem pela iniciativa de um governo caduco pag. 101. + +Allude-se no texto ao plano de uma constituição similhante á que +Napoleão I concedêra ao grão-ducado de Varsovia, plano concebido, +segundo affirma o general Foy, no liv. II da sua _Histoire de la Guerre +de la Peninsule_, por alguns patriotas portuguezes, desejosos de +colherem ao menos da intrusão estrangeira os beneficios da liberdade. + +O general Foy cita como auctores principaes do plano o desembargador +Francisco Duarte Coelho, o doutor Ricardo Raymundo Nogueira, reitor do +Collegio dos Nobres, e o conego Simão de Cordes Brandão, lente de +direito natural e das gentes na Universidade de Coimbra, e insere nas +provas sob a lettra _J_ o projecto de codigo politico, que então se +queria pedir a Bonaparte. (Tomo II, edição de Paris pag. 38 e seguintes +e pag. 469 e seguintes). + +José Acurcio das Neves (_Historia da Invasão dos Francezes em Portugal_ +tomo II) transcreve egualmente o documento, porém não diz claramente a +quem elle deve ser attribuido; mas o auctor da _Historia de El-Rei D. +João VI_, vertida em portuguez (Lisboa typographia Patriotica 1838 a +pag. 189-191), depois de nos dar tambem o projecto, accrescenta, que +esta mensagem fôra dirigida pelo doutor Gregorio José de Seixas de +accordo com muitas pessoas distinctas por engenho e representação. +Entretanto o padre José Agostinho de Macedo, como nota o sr. Innocencio +Francisco da Silva no tomo VII do seu _Diccionario Biliographico_ pag. +276, accusou em mais de um logar de suas obras a Simão de Cordes, +lançando-lhe em rosto o haver sido um dos que no fim do seculo passado +maior impulso tentáram dar á maçonaria em Portugal, e principalmente em +Coimbra, aonde chegára a organizar algumas lojas. + +O bispo de Vizeu no _Elogio Historico_ fórma juizo absolutamente opposto +do procedimento e doutrinas de Simão de Cordes. + +Sejam, porém, as que aponta o general Foy, ou outros auctores, o +projecto de constituição redigiu-se e corre hoje impresso. Restava o +mais difficil. Era necessario achar pessoa auctorizada, que se decidisse +a apresental-o. Acceitou a missão arriscada o juiz do povo, que era +então um tanoeiro chamado José de Abreu Campos, notavel pela firmeza e +integridade. Mais de um lance de nobre ousadia confirma esta opinião +formada com justiça ácerca do seu caracter. + +Quando o conde da Ega foi incumbido por Junot de aggregar aos membros da +_Junta dos Tres Estados_ os representantes denominados dos braços da +nação para lhes extorquir em simulacro de côrtes um voto de adhesão, o +juiz do povo protestou contra os actos da assembléa, como illegaes e +emanados de corpo incompetente. Quando as quinas foram picadas e +substituidas pela aguia corsa, Abreu Campos negou-se a apagal-as da +cabeça da sua vara. + +O juiz do povo correspondeu ás esperanças depositadas n'elle. Intimado +para assignar com o clero e a nobreza, em nome do povo, a mensagem de 24 +de maio de 1808 (provas de _l'Histoire de la guerre de la Peninsule_, +par le general Foy. Paris 1827, tom. II, pags. 467-469) o honrado +tanoeiro, protestando contra o acto por nullo e abjecto, e contra os que +o practicavam por incompetentes, apresentou o projecto de constituição +composto em fórma de petição dirigida ao imperador, e appellou para o +voto do paiz representado em côrtes. + +Esta voz isenta proclamando a emancipação politica offendeu os ouvidos +do duque de Abrantes. O juiz do povo, chamado ao quartel general, foi +asperamente reprehendido, e varias pessoas, suspeitas de liberaes, +mandadas sair de Lisboa. + +Prevaleceu assim a mensagem servil dictada á simulada junta da nação. +José Sebastião de Saldanha partiu encarregado de a apresentar a Napoleão +I. Achando, porém, já interceptadas as communicações da Hespanha com a +França, recolheu a Lisboa sem ter podido passar adeante da cidade +Rodrigo. + + +V + + Deixemos passar esses vultos, que pisam os sobrados nas pontas dos + pés, escorregando quasi como sombras. São rodas secundarias da + machina, pag. 111 e 112. + +O general Junot, intitulando-se nos seus actos governador de Paris, +primeiro ajudante de campo de S. M. o imperador e rei, e general em +chefe do exercito invasor, compôz desde principio e da maneira seguinte +o pessoal do governo em Lisboa: + +Por decreto datado de Lisboa no 1.^o de dezembro de 1807, nomeou +Francisco Antonio Herman commissario do governo francez junto do +conselho do reino de Portugal, o qual lhe daria conta de todas as suas +deliberações, podendo assistir a ellas, querendo, e assignar as actas. +Por decreto de 3 de dezembro, do mesmo anno foi Herman incumbido tambem +da administração geral da fazenda. Em 8 de dezembro foi encarregado o +general Laborde do commando superior de Lisboa e o conde de Novion do +commando das armas da cidade. O marquez de Alorna recebeu a nomeação de +inspector geral e commandante das tropas nas provincias de Traz +os-Montes, Beira e Extremadura (22 de dezembro de 1807). + +J. J. Magendie já exercia as funcções de commandante em chefe da marinha +em 1 de março de 1808, como consta de um aviso seu aos officiaes da +arma, e aos empregados do porto de Lisboa, expedido n'essa data. P. +Lagarde foi nomeado intendente geral da policia do reino em 25 de março +de 1808, por decreto de Junot, referendado pelo secretario de Estado dos +negocios do interior e da fazenda, Francisco Antonio Herman. Por +decretos da mesma data nomeou Junot corregedor-mór da Extremadura a mr. +Pepin Bellisle, auditor do conselho de Estado, da provincia do Alemtejo +a mr. Lafond, e da provincia de entre Douro e Minho a Taboureau, ambos +tambem auditores do conselho de Estado. Quintella foi feito +corregedor-mór da Beira. + +O decreto, que approvou as instrucções dictadas a estes novos +magistrados, sahiu com a data de 2 de abril de 1808. Por decreto de 16 +de abril do mesmo anno foi Lagarde nomeado conselheiro do governo para +assistir ás sessões do conselho. A 16 de abril já o general Junot havia +recebido de Napoleão o titulo de duque de Abrantes. + + + + +INDICE + + +A Camillo Castello Branco 5 +I--Uma noite desabrida 7 +II--O moinho da Raposa 15 +III--Duas paginas da historia d'este seculo 21 +IV--O bem soa, o mal voa 32 +V--Não ha atalho sem trabalho 43 +VI--Ressurreição de Lazaro 55 +VII--Segredos em toda a parte 67 +VIII--Entre os bastidores 83 +IX--Que talvez podesse servir de prologo 100 +X--Tolda-se o tempo 111 +XI--Achilles e Nestor 127 +XII--Arcades ambo! 138 +XIII--Dois parentes 147 +XIV--Amor 156 +XV--Cubiça e Nobreza 166 + + + + +UM REINADO TRAGICO + +(Complemento da HISTORIA DE PORTUGAL) + +Por * * * + +Edição Popular e Illustrada + +Com grande numero de retratos dos homens contemporaneos, e de gravuras +representativas dos acontecimentos mais notaveis do reinado de D. Carlos + +Attendendo a instantes pedidos de muitos dos assignantes da nossa +*Historia de Portugal*, resolveu esta Empreza publicar um novo livro +que, embora seja como que o complemento d'aquella--e por isso +absolutamente egual em formato, papel, etc.--será no emtanto +completamente independente dos anteriores volumes, e no qual, sob o +titulo de *Um Reinado Tragico*, se fará a descripção de todos os +successos politicos que vão desde o _ultimatum_ de 11 de janeiro de 1890 +até aos tragicos acontecimentos de 1 de fevereiro de 1908, que +determinaram a subida ao throno portuguez do rei D. Manuel II. + +Publicação em fasciculos semanaes de 16 paginas, in-4.^o grande, ao +preço de + +60 RÉIS + +ou a tomos mensaes de 5 fasciculos, ao preço de + +300 RÉIS + + + + +FLOS SANCTORUM + +Vida de todos, os santos e martyres do Christianismo + +SEGUINDO, DIA A DIA, A ORDEM DA SUA COMMEMORAÇÃO PELA EGREJA + +Trabalho de compilação e de synthese, feito sobre os mais modernos e +conscienciosos estudos + +PELO + +Rev. Dr. SANTOS FARINHA + +Bacharel formado em theologia pela Universidade de Coimbra e parocho +collado da freguezia de Santa Izabel, de Lisboa + +Illustrado com centenares de gravuras + +Cada fasciculo semanal de 2 folhas de 8 paginas cada, in-4.^o grande, +contendo pelo menos 2 gravuras, + +60--REIS--60 + +Cada tomo mensal de 5 fasciculos, ou 80 pag., grande formato, contendo +numerosas gravuras, + +300--REIS--300 + +DIRIGIR OS PEDIDOS Á + +EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL + +SOCIEDADE EDITORA + +Livraria Moderna--Rua Augusta, 95, Lisboa + +TYPOGRAPHIA--45, RUA IVENS, 47 + + +Notas: + +[1] Eram pannos lavrados, ou lisos, que vestiam as paredes. Tambem se +usavam de couro. + +Lista de erros corrigidos + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + + +----------+------------------+-------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+------------------+-------------------+ + |#pág. 15 | hombos | hombros | + |#pág. 17 | á | é | + |#pág. 26 | nosas | nossas | + |#pág. 27 | Bonapart | Bonaparte | + |#pág. 29 | anino | animo | + |#pág. 31 | presa | pressa | + |#pág. 33 | ruidasa | ruidosa | + |#pág. 33 | costumudo | costumado | + |#pág. 44 | cava | cave | + |#pág. 53 | do | de | + |#pág. 57 | Pedr | Pedro | + |#pág. 64 | inop nada | inopinada | + |#pág. 68 | quatros | quatro | + |#pág. 68 | e | o | + |#pág. 78 | acabavaentão | acabava então | + |#pág. 79 | da mesmo | do mesmo | + |#pág. 84 | naural | natural | + |#pág. 108 | noneada | nomeada | + |#pág. 110 | setes | sete | + |#pág. 122 | os que os | que os | + |#pág. 127 | Azevdo | Azevedo | + |#pág. 156 | attribindo-a | attribuindo-a | + |#pág. 180 | do | dos | + |#pág. 185 | segunda | segundo | + +----------+------------------+-------------------+ + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Casa dos Fantasmas - Volume I, by +Luiz Augusto Rebello da Silva + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CASA DOS FANTASMAS - VOLUME I *** + +***** This file should be named 25330-8.txt or 25330-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/5/3/3/25330/ + +Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/25330-8.zip b/25330-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..487955f --- /dev/null +++ b/25330-8.zip diff --git a/25330-h.zip b/25330-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..bd8dce6 --- /dev/null +++ b/25330-h.zip diff --git a/25330-h/25330-h.htm b/25330-h/25330-h.htm new file mode 100644 index 0000000..7eb7a33 --- /dev/null +++ b/25330-h/25330-h.htm @@ -0,0 +1,10536 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>A Casa dos Fantasmas (Vol. I)</title> + + + <meta name="AUTHOR" content="Luiz Augusto Rebello da Silva" /> + + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.tiny {font-size: 75%; text-align: center;} +.tinyl {font-size: 95%;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.gbox {border: solid gray 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.intro {font-size: 90%; font-style: italic;} +.intro1 {margin-left:5%;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.quote {margin-left:20%; margin-right:20%; font-style: italic;} +.quote1 {margin-left:10%; font-size: 90%;} +.quote2 {margin-left:50%;} +.right {text-align: right;} +.break { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.breaks { +width: 80%; +margin-left:10%;} +.note {font-size: 75%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.poetry {margin-left:20%;} +.poetry1 {margin-left:10%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of A Casa dos Fantasmas - Volume I, by +Luiz Augusto Rebello da Silva + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Casa dos Fantasmas - Volume I + Episodio do Tempo dos Francezes + +Author: Luiz Augusto Rebello da Silva + +Release Date: May 5, 2008 [EBook #25330] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CASA DOS FANTASMAS - VOLUME I *** + + + + +Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b> +Devido à +quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Maio 2008) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>VOLUMES PUBLICADOS </h2> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">I</td> + + <td style="width: 11px; text-align: center;">―</td> + + <td style="width: 522px;">Ráusso por +homizío</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">II</td> + + <td style="width: 11px; text-align: center;">―</td> + + <td style="width: 522px;">Odio velho não +cança (1.º)</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">III</td> + + <td style="width: 11px; text-align: center;">―</td> + + <td style="width: 522px;">Odio velho não +cança (2.º) </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">IV</td> + + <td style="width: 11px; text-align: center;">―</td> + + <td style="width: 522px;">A Mocidade de D. +João V (1.º) </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">V</td> + + <td style="width: 11px; text-align: center;">―</td> + + <td style="width: 522px;">A Mocidade de D. +João V (2.º) </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">VI</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>A Mocidade de D. João V (3.º) </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">VII</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>A Mocidade de D. João V (4.º) </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">VIII</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>A Mocidade de D. João V (5.º)</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">IX</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>Lagrimas e thesouros (1.º) </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">X</td> + + <td style="width: 11px; text-align: center;">―</td> + + <td style="width: 522px;">Lagrimas e thesouros +(2.º) </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">XI</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>A Casa dos Fantasmas (1.º)</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">XVI</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>Othello―As redeas do governo </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">XVII</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>A mocidade de D. João V (drama).</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">XVIII</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>O amor por conquista (comedia)―O Infante Santo +(fragmento). </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">XIX</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>Fastos da Egreja (1.º) </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">XX</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>Fastos da Egreja (2.º) </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">XXI</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>Fastos da Egreja (3.º) </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">XXII</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>Fastos da Egreja (4.º)</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"> +<h4><span class="smallcaps">obras completas de luiz +augusto rebello da silva</span><span class="smallcaps"><br /> + +revistas e methodicamente coordenadas</span> +<br /> + +</h4> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 240px;"> + <hr /></td> + + <td style="text-align: center; width: 41px;">XI</td> + + <td style="width: 240px;"> + <hr /></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<h3>ROMANCES E NOVELLAS―V </h3> + +<h2> +A CASA DOS FANTASMAS </h2> + +<h4> +EPISODIO DO TEMPO DOS FRANCEZES </h4> + +<br /> + +<h3>2.ª EDIÇÃO </h3> + +<br /> + +<h3>VOLUME I </h3> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 120px; height: 164px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<h4> +LISBOA<br /> + +<span class="smallcaps">Empreza da Historia de Portugal</span><br /> + +<em>Sociedade editora</em></h4> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="text-align: right; font-weight: bold; width: 265px;">LIVRARIA +MODERNA<br /> + + <em>R. Augusta, 95</em></td> + + <td style="width: 2px; text-align: center;">|<br /> + +|</td> + + <td style="font-weight: bold; width: 264px;">TYPOGRAPHIA<br /> + + <em>45, R. Ivens, 47</em></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<h4>1908</h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="c0"></a>A CAMILLO CASTELLO BRANCO +</h2> + +<br /> + +<br /> + +Seja-me licito, amigo, dedicar-lhe este esboço informe, +fructo de algumas horas de ocio. Quem melhor, do que o auctor de tantas +composições profundas na +interpretação da vida, admiraveis na pintura do +coração e dos costumes contemporaneos, +poderá desculpar o muito, que falta n'este quadro para sair +menos imperfeito, e ao mesmo tempo apreciar em um, ou outro +traço, os bons desejos e os esforços do auctor? <br /> + +<br /> + +A epocha, que escolhi, pedia pincel mais fino, e tintas mais vivas. +Tentei vencer-me, e desenhal-a. Sei que fiquei mui inferior ao ideal, +que tinha concebido, e receio mesmo, que o enfado dos leitores castigue +a ousadia do commettimento. Espero, que o seu nome applaudido sirva de +escudo e de defensor ao modesto livro, de que elle vae ser o maior +ornamento. <br /> + +<br /> + +Não o consultei para lhe offerecer este testemunho +<span class="pagenum">[6]</span> +da minha antiga e sincera amisade. Adivinhei +a resposta, e ahi entrego em suas mãos mais este +orphão, que sae a correr o mundo. Deus lhe conceda a sorte +propicia, que elle não merece, mas que ás vezes +uma boa sina proporciona mesmo aos menos dignos. <br /> + +<br /> + +<div class="intro1">Lisboa, 22 de Janeiro de 1865</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Luiz Augusto Rebello da +Silva.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>A CASA DOS FANTASMAS </h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c1"></a>I </h3> + +<h3><br /> + +Uma noite desabrida </h3> + +<br /> + +<br /> + +Era de tarde. Tinham dado cinco horas, e o dia declinava rapidamente. O +mez de maio do anno 1808, anno assignalado de successos estrondosos na +peninsula, acabava, como tinha corrido quasi todo, entre diluvios de +chuva e ventanias. A noite, cujos primeiros veus já +começavam a cobrir as terras baixas, em quanto os +derradeiros raios do sol esmoreciam na corôa dos outeiros, +avisinhava-se, toldada de castellos de nuvens, que surgiam do sul, +listrando o horizonte de barras cinzentas, rasgadas de +espaço em espaço pelos clarões dos +relampagos. <br /> + +<br /> + +O ar estava tepido, ou antes quente, e todos os ruidos se iam calando +uns após outros. A immobilidade das aguas, que +não arrugava o mais leve sopro; a das arvores, cujas copas +pareciam petrificadas; e as sombras, que avultavam mais pesadas de +instante para instante, revestiam a paizagem de um aspecto gelido. Uma +lufada de vento, halito abrazado da tormenta, passava solta por cima +dos campos, +<span class="pagenum">[8]</span> +acamando as hervas altas, +destoucando os arbustos, e saccudindo as ramas das oliveiras, dos +alamos, e das faias, e ia morrer distante no roncar soturno e rouco dos +trovões. Algumas gotas, raras e grossas, caiam +então, e a luz, offuscada por mais espessos vapores, +sumia-se de subito para reviver depois, mas timida e desmaiada, sem +alegria e sem calor. As aves fugiam, cruzando-se e pipitando; a +solidão quasi que não tinha echos; e um silencio +lugubre precedia a grande voz da tempestade, que ia principiar dentro +em pouco. <br /> + +<br /> + +Apezar das ameaças da atmosphera, um viajante trocando o +conchego de povoação commoda pelas inclemencias +do tempo, tinha-se despedido da hospitaleira casa, aonde +jantára, e mettendo o pé no estribo de pau, e +apertando as dobras da manta ribatejana, sem escutar os conselhos e +vaticinios amigaveis, estimulava a mula com as largas rosetas da +classica espora de correia, obrigando-a a espertar o passo por entre os +viçosos pampanos, hoje gloria e gala da nobre villa do +Cartaxo. <br /> + +<br /> + +Em breve deixou atraz de si as vinhas, que, a esse tempo, (cultura +nascente) apenas verdejavam em uma pequena parte do terreno, que se +carrega agora de seus cachos, e achando-se em plena charneca, extendeu +os olhos pela bella e vasta planicie, desatada por algumas leguas de +ermo, não triste, nem agreste, mas tocado de risonha +suavidade, e rodeado de longes tão puros e desafogados, que +a alma se consola e refrigera de extender por elle os olhos. <br /> + +<br /> + +O aroma alpestre das plantas; aquelle pôr do sol entre +nuvens; os lamentos da procella ao sul; e o vago indeciso de todo o +quadro compunham um espectaculo de opposições +tão firmes e tão bellas, que o viajante, quasi +sem o querer, se deixou arrebatar por elle, e +<span class="pagenum">[9]</span> +insensivelmente foi imbebendo a vista nas formosuras +rusticas, que de todos os lados o convidavam. Suas +feições, de uma gentileza viril e sympathica, +não inculcavam tedio ou cansaço, mas impaciencia. +A elevada estatura não se encurvava sobre os +arções, e as +pupillas pretas e cheias de fogo, se a miudo fitavam os trilhos +enredados com estreitas fitas sobre o verde sombrio da charneca, +denunciavam mais receio de chegar tarde a um ponto dado, do que temor +de se ver assaltado pelo temporal no meio da jornada. <br /> + +<br /> + +A mula, que algumas horas de repouso tinham refrescado, como se +adivinhasse os desejos do amo, despejava o passo, e o caminho; mas a +noite e a cerração ainda corriam mais. +Á claridade baça do crepusculo seguiram-se as +trevas; o céu forrou-se todo de negro; e os primeiros +furacões bramiram acompanhados de um trovão +proximo. A chuva principiava a fustigar de rajadas fortes o rosto do +viajante, e a cegar-lhe a estrada inundada dos dias anteriores, e +arrombada em diversas partes. A mula, apezar de afouta e vigorosa, +atolava-se, tropeçando a miudo. Na ponte da Asseca, a +varzea, que ella corta, parecia um immenso paul, cujas aguas a cheia +despenhada dos altos empolava com sussurros, que, unidos aos silvos do +vento e aos ribombos da trovoada, enchiam de horror e de estrepito +aquella scena, tão repassada de grandeza e de magestade. <br /> + +<br /> + +Á esquerda os olivaes pendurados dos montes, que se +encandeiam até Santarem, estorciam-se com o vendaval. +Á direita os choupos e os freixos, na beira dos vallados, +vergavam tremulos e desgrenhados como se mão gigante os +dobrasse. O caminho parecia um mar, e os clarões, em que os +céus pareciam abrir-se, golfavam d +Á esquerda os olivaes pendurados dos montes, que se +encandeiam até Santarem, estorciam-se com o vendaval. +Á direita os choupos e os freixos, na beira dos vallados, +vergavam tremulos e desgrenhados como se mão gigante os +dobrasse. O caminho parecia um mar, e os clarões, em que os +céus pareciam abrir-se, golfavam de repente o seu fulgor +sinistro sobre este painel, que o tenebroso manto +<span class="pagenum">[10]</span> +da procella tornava logo depois a esconder. <br /> + +<br /> + +Atravessando a ponte, por onde enxurrava quasi uma torrente, o viajante +procurou orientar-se. Ajudou-o uma luz ao longe. Seguindo por ella, no +fim de dez minutos encontrou-se junto do vulto massiço de um +palacio arruinado, solitariamente erguido no meio das terras, e olhando +quasi como sentinella esquecida para um angulo da estrada. Em uma das +seis janellas sem caixilhos da fachada, através das fendas +das portas de dentro, ou antes das tábuas de forro pregadas +em logar de vidros, brilhava a luz que lhe servira de norte, e pelas +gretas mal juntas das frestas do andar terreo luzia o clarão +de um grande brazeiro talvez acceso na cozinha. Applicando o ouvido +sentiam-se estalar no lume os troncos humidos, e escutava-se o meio +alarido de algumas vozes e risadas. <br /> + +<br /> + +―Ah! exclamou o cavalleiro, detendo a mula, e derrubando sobre a cara +por um gesto machinal as largas abas do chapéu de Braga, +quebradas pela chuva. Gente na casa Negra! Quem?!... <br /> + +<br /> + +Depois de breves momentos pareceu tomar uma +resolução, e a passo, chapinhando na agua, como +se passasse um ribeiro, desviou-se, atravessou para o outro lado, e +cozido com o monte subiu por vereda ingreme até um alto a +tres ou quatro tiros de espingarda de distancia. Pelos corregos, a uma +e outra parte, estrepitavam verdadeiros riachos saltando pelas pedras, +e um relampago, fuzilando e extendendo como um lençol de +fogo por cima das trevas, descubriu-lhe repentinamente a casinha +caiada, de dois sobrados, tecto esguio, e duas janellinhas, que +buscava. Cercava-a um muro baixo de pedras soltas. O ruido monotono de +uma roda, e a queda de uma especie de cascata, sobrepujando o +esparralhar da chuva, +<span class="pagenum">[11]</span> +e os gemidos +do vento mostraram-lhe que estava na azenha de cima, ou no moinho da +<em>Raposa</em>, como diziam os visinhos dos +arredores. <br /> + +<br /> + +Sem se apeiar, o viajante bateu com o conto ferrado do cajado de +marmeleiro por duas vezes tres pancadas na porta, e esperou. +Não foi necessario mais. Os latidos feros de um +cão de guarda, e logo depois vagarosos passos descendo a +escada, advertiram-o de que fôra ouvido. <br /> + +<br /> + +―Oh, de dentro! bradou. <br /> + +<br /> + +―Quem bate?! perguntou uma voz cheia. <br /> + +<br /> + +―Eu! <br /> + +<br /> + +―Esse eu quem é?... <br /> + +<br /> + +―Abre!... <br /> + +<br /> + +―Pois não!... Ao mesmo tempo o ouvido fino do recem-chegado +percebeu o leve tinir dos fechos de uma espingarda a engatilhar-se. <br /> + +<br /> + +―Antonio! Pelo rei e pela patria!... <br /> + +<br /> + +―Ah?! Agora é outro cantar. Lá vou. <br /> + +<br /> + +E calando o cão, que pulava, ladrando e rosnando como +furioso, desencostou a tranca, tirou o ferrolho, e a chave rangeu duas +voltas na fechadura. Abriu-se finalmente a porta. <br /> + +<br /> + +―Então quem é? repetiu a mesma voz, em quanto a +cabeça se arriscava fóra no escuro, sem a +mão largar a espingarda. <br /> + +<br /> + +―Manuel Coutinho. Conheces-me agora? redarguiu o hospede, apeiando-se, +e expremendo do chapéu a agua a escorrer em bica, e +saccudindo a manta, que não estava menos ensopada.―Que +diluvio! murmurava por entre dentes ao mesmo tempo. Se +continúa, nadam ámanhã os saveis na +tua horta, Antonio da Cruz! <br /> + +<br /> + +―Que se lhe ha de fazer! Como v. s.<sup>a</sup> vem!... +Bemdito e +louvado seja +Deus!... <br /> + +<br /> + +―Amen! Elle seja comnosco e nos ajude, +<span class="pagenum">[12]</span> +que bem o precisâmos; redarguiu o +mancebo, porque o seu rosto moreno, mas fresco, e o cabello preto +não inculcavam mais de vinte e quatro a vinte e cinco annos. +<br /> + +<br /> + +―Cuidei que me recebias a tiro! disse rindo, e mostrando duas fiadas +de dentes finos, alvos, e eguaes, que uma dama franceza lhe invejaria +para ornar um sorriso galanteador. <br /> + +<br /> + +―Bem vê a noite?!... Depois a gente não sabe quem +lhe quer mal, e uma bala depressa entra... Cá me entendo!... +D'ahi não esperava já por v. s.<sup>a</sup>!... +<br /> + +<br /> + +―Não me esperavas?... mas eu tinha dito!... <br /> + +<br /> + +―É verdade, que disse. Mas choviam raios e coriscos e +sempre cuidei que se deixasse lá ficar em baixo. +Dê-me a redea da mulinha. Então não +sahiu como se queria? Foi um ovo por um real. Entre v. s.<sup>a</sup> +e +enxugue-se. Vou cá á nossa arribana, com sua +licença, arranjar a Ligeira, e é um ai em quanto +volto a accender-lhe o lume... Jesus! Santo Nome de Maria! Os +relampagos cegam. Parece que nos cae o céu esta noite na +cabeça com a bulha lá de cima! <br /> + +<br /> + +Manuel Coutinho entrou. O interior da casa, muito seu conhecido, era de +apparencia singela e rustica. Suspensa do gancho preso em uma das vigas +do tecto a candeia allumiava-a escassamente, apezar de pequena. No meio +da parede do fundo rasgava-se a chaminé baixa e ladrilhada. +Á direita uma arca de pinho alta, sem fechadura, tinha em +cima um cobertôr de papa, e sobre elle enroscado com uma +fisga aberta á vigilancia em cada olho, o gato preto do +moinho, tão absorvido na sua beatitude extatica, e na sua +pachorrenta immobilidade, que os latidos do cão amigo e +alliado domestico, e as vozes do dono, nem um movimento lhe tinham +podido arrancar! Á esquerda a barra de pinho pintado tremia +sobre <span class="pagenum">[13]</span> +tres pés validos. Na +cabeceira um devoto registo do milagre da Senhora da Nazareth +correspondia a outro do glorioso confessor Santo Antonio, pregado na +parede com obreias. A manta sobre o enxergão e duas pelles +de carneiro compunham a roupa d'este catre de cenobita. <br /> + +<br /> + +Á direita, em todo o comprimento da casa, viam-se empilhados +muitos sacos de trigo destinados á mó alveira da +azenha. Os de milho jaziam mais adeante em pilhas. A fina +flôr da farinha escapando-se pelas aberturas revoava ao menor +abalo, polvilhando tudo em roda. Por cima de algumas pelles de lebre e +de coelho, extendidas a seccar na parede, pendiam o polvorinho de +chifre com o fundo, ou rodella de pau, e a bolsa de couro, ou +chumbeiro, attestado de munição e pederneiras. Em +um armario, vasado no muro, e resguardado com sua cortina de riscado +azul, luziam, como prata, pelo aceio, a chaleira e a almotolia de lata, +e acastellavam-se duas rumas de pratos. Dos lados, sumptuosidade +rara (!), duas caçarolas de folha de Flandres e cabos de +ferro acompanhavam a baixella de louça. Em uma prateleira +por cima da chaminé a caixa da isca e alguns tachos e +frigideiras de barro esperavam a hora de serem chamados a +serviço activo. <br /> + +<br /> + +Uma escada empinada, de degráus toscos, verdadeiro +quebra-costas, subia de um dos angulos para o andar de cima, aonde um +alçapão erguido e quadrado abria as fauces, como +se quizesse engulir os que entrassem. Era ahi a +labutação principal do moinho. As +mós, rodando e zoando, ensurdeciam casadas no ruido +somnolento com a queda da levada, que por uma longa calha de pau descia +da preza a ferir a roda, e d'esta, saltando em cachões dos +baldes, ia espadanar no canal, d'onde fugia +<span class="pagenum">[14]</span> +ainda espumante a regar as hortas e as terras +dos visinhos. <br /> + +<br /> + +Dois mochos de cerejeira brava, e uma poltrona de couro, roto e +cossado, rodeavam no sobrado de baixo uma velha mesa de pau, collocada +no meio do aposento por baixo da candeia de dois bicos. No meio d'ella +um cangirão de aza larga, bojudo e vidrado, com sua tampa de +cortiça guardava a agua-pé. Um copo de canada, +limpo como crystal, um prato sobre toalha alva, meia broa de milho com +um garfo de cabo de pau ao lado, e uma frigideira de sardinhas fritas +annunciavam que a ceia do moleiro ía começar, +quando +fôra chamado. A navalha de mola e de ponta, um rôlo +de tabaco de picar, e algumas aparas d'elle, assim como duas capas de +papel de cigarros, estavam dizendo tambem o que elle fazia pouco antes +da visita inopinada lhe bater á porta. <br /> + +<br /> + +Vejamos agora que razão de estado attrahia o mancebo a tal +hora e por um tempo similhante áquella casa, e o que se +passou alli n'esta noite fecunda em incidentes para os personagens, que +temos de metter em scena. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c2"></a>II </h3> + +<h3><br /> + +O moinho da Raposa </h3> + +<br /> + +<br /> + +O mancebo approximou-se da mesa, picou do rôlo uma +porção pequena, enrolou o +cigaro entre os dedos, e, depois de o accender á luz da +candeia, assentou-se em um dos mochos, com os cotovellos fincados na +tábua, e o rosto entre as mãos, não +sem primeiro ter tirado do cinto um par de pistolas inglezas e uma faca +de matto hespanhola, encubertas com as compridas abas do gabinardo, que +trajava. <br /> + +<br /> + +Antonio da Cruz appareceu instantes depois. <br /> + +<br /> + +Era robusto, largo de <a href="#e1">hombros</a> e +de peitos, mas +esbelto. Trigueiro, e queimado do sol, as suas +feições lembravam o typo arabe. Os +beiços grossos sorriam com franqueza, e, apezar de muito +rasgada, tinha graça na bôcca, mesmo quando +descubria os trinta e dois dentes alvos e agudos, como os do felpudo +molosso, que saltava em volta d'elle. O cabello rente e crespo cortado +quasi em bico sobre a testa era negro como azeviche. O nariz revirado +na ponta dava certo chiste á physionomia; e nos olhos pardos +e vivos como scentelhas brincava +<span class="pagenum">[16]</span> +uma +expressão de finura natural e de malicia jovial, que lhe +caìa bem, e logo á primeira vista o faziam bem +quisto. <br /> + +<br /> + +De mediana estatura, mas proporcionado, era tido por um dos homens mais +forçosos d'aquelles contornos. O seu nome servia de grito da +guerra nas aldeias contra a brutalidade dos valentões de +arraial. Nas praças de touros em Villa Franca, em +Salvaterra, ou na capital nenhum forcado o egualava em apanhar os bois +de cara, ou de cernelha. A cavallo era um centauro; a pé +não tinha par no salto, ou na carreira; em mettendo a +espingarda ao rosto aonde punha o olho punha a bala. O seu cajado +manejado por mãos de mestre varria as feiras, zombando de +facas e de espadas. <br /> + +<br /> + +Sobrio como um anachoreta, presentido e vigilante como um mohicano, o +seu maior defeito era ser impetuoso e assomado de mais. Em o sangue lhe +subindo á cabeça, e em +principiando a picar-lhe a pelle com pontas de alfinetes, segundo elle +dizia, cegava-se, corria direito ao perigo, e, sem attender a nada, +atirava-se a um precipicio. <br /> + +<br /> + +Temente a Deus, tinha tanto de bom amigo como de implacavel inimigo. +Portuguez e patriota extremo, amaldiçoava os francezes como +jacobinos, e chorava de saudade pelo principe regente, D. +João, ao qual só vira duas, ou tres vezes, em sua +vida. Manuel Coutinho affeiçoou-se a este caracter firme, +honrado, e decidido. O moinho e a horta pertenciam ao mancebo, e +Antonio trazia-os de renda. Ligado á +conspiração, por emquanto quasi +inoffensiva, urdida em Lisboa contra o governo de Junot, +conspiração que regia o +<em>conselho</em> denominado +<em>Conservador</em>, secretamente instituido +no dia 5 de fevereiro d'aquelle anno para auxiliar a +restauração do throno legitimo e da +independencia, Manuel Coutinho confiava +<span class="pagenum"><a name="p17">[17]</a></span> +no humilde camponez, e communicava-lhe até recados de +importancia. Executor discreto d'estas missões arriscadas, +Antonio da Cruz comportava-se sempre com exemplar acerto, +não só enganando o faro da policia de Lagarde, +cujos espiões corriam por toda a parte, mas supportando +resignado por amor de seu amo (assim lhe chamava), e da boa causa +desafios e remoques, que em outra occasião seguramente +custariam caros aos aggressores. <br /> + +<br /> + +―Se não é hoje o fim do mundo, bradou elle +entrando e saccudindo a agua de cima de si, não sei quando o +será! Mas o lume em um +instantinho está a arder. A lenha é secca. Ora, +diga, meu amo: v. s.<sup>a</sup> traz sua vontadica de +comer, +não? Do +Cartaxo aqui é um pedacito menos mau... e a chuva e o vento +cavam cá por dentro como enxada em nateiro... <br /> + +<br /> + +―Não. Não me faças nada. Se o +appetite vier aqui temos de mais. Agora o lume sim. <br /> + +<br /> + +―Essa <a href="#e2">é</a> boa. Ha de +perdoar; não +senhor. Graças a Deus o Manuel nunca foi torto, nem +aleijado, e ainda esta manhã, antes de almoço, +não perdeu a polvora e o chumbo. Andavam aquelles fidalgos a +saltar nas vinhas, e trouxe-os no alforge. Como os quer?... <br /> + +<br /> + +E apontava para os dois coelhos mortos e pendurados junto do almario. <br /> + +<br /> + +―Guizo-lh'os de molho de vilão n'um abrir e fechar de +olhos, e depois ha de beber-lhe em cima um, ou dois copos de um +vinhinho, que me deram, e que fica a gente a chorar por mais... <br /> + +<br /> + +―Já te disse. O vinho e os coelhos guarda-os para +ámanhã. Agora melhor me sabe este cigarro, do que +todos os manjares. Accende o lume. Temos que falar. <br /> + +<br /> + +O mancebo suspirou como quem se sente opprimido de tristeza, e lucta em +vão por se vencer. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[18]</span> +O Antonio da Cruz, curvo sobre a caixa da isca, a assoprar a chamma, +ouvia-o, e percebeu-o, mas calou-se. A mecha pegou, e d'ahi a um +momento levantava-se da lareira um clarão vivo e alegre, +tingindo de vermelho as paredes e os pobres moveis da casa. <br /> + +<br /> + +―Bem! disse Manuel Coutinho. Isto já parece outra cousa! +Senta-te, e come! <br /> + +<br /> + +―Salvo o respeito, saiba v. s.<sup>a</sup> que +não tem +pressa. <br /> + +<br /> + +―Tem. Come e despacha-te. Depois falaremos. É preciso sair +logo... <br /> + +<br /> + +―Ah! Então a cousa aperta? Para termos de saír +por uma noite d'estas!... <br /> + +<br /> + +―Póde bem ser a ultima da vida de umas poucas de pessoas! +exclamou o mancebo, pondo-se em pé agitado. <br /> + +<br /> + +―Melhor o ha de fazer Deus, senhor Manuel! redarguiu o moleiro com a +sua tranquillidade apparente, que illudia os que o conheciam mal. Com +sua licença! ajuntou sentando-se á mesa, e +rompendo o assalto contra a broa e as sardinhas, regadas de copiosas +libações de agua-pé. Os sacos pesam +seis alqueires, e por aquella escada acima apalpam as costellas. +Á saude de v. s.<sup>a</sup>! A minha pena +é que +não quizessse provar dos coelhos e do vinho do convento de +S. Francisco. Olhe que os padres sabem escolher do fino!... <br /> + +<br /> + +―Que gente era aquella, que esta noite vi na Casa Negra? perguntou +Manuel Coutinho, que as proezas gastronomicas de Antonio já +não maravilhavam, porque fôra testemunha d'ellas +muitas vezes.<br /> + +<br /> + +―Gente na Casa Negra? Na Casa Maldita?!... accudiu com a +bôcca cheia, e estremecendo. <br /> + +<br /> + +―Sim! Vi luz em cima, na terceira janella, e ouvi risadas e vozes no +andar terreo. Não sabes o que será?! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[19]</span> ―O meu padre Santo +Antonio nos accuda! Cousas do demonio, que desde +que me entendo é o unico morador d'aquelle +casarão! Mas v. s.<sup>a</sup> está +bem certo!?... +Gente a +estas horas alli! Não póde ser! <br /> + +<br /> + +―Tanto póde, que havia fogo na cosinha, e gente a rir, a +falar, e a aquecer-se a elle! <br /> + +<br /> + +Antonio da Cruz enguliu á pressa o ultimo boccado, poz +á bôcca cheio a trasbordar o copo de +agua-pé, e pousando-o vasio com um suspiro, tirou o barrete +e benzeu-se. <br /> + +<br /> + +―Olhe, senhor, creia v. s.<sup>a</sup> o que lhe digo! +tornou meio +atalhado. +Gente d'este mundo não era de certo. Por estes arredores +não havia quem se atrevesse!... Ah, Jesus, Santo Nome de +Maria! accrescentou mais pallido. Deram ainda agora, á +noitinha, um tiro no Antonio Simões. Dizem que o mataram; +mas o corpo não appareceu! Querem ver que foi parar a +alma... <br /> + +<br /> + +―Antonio! accudiu o amo um pouco severo. Alma que vae não +volta! Isso são medos de criança. Os hospedes da +Casa Negra estão vivos, como eu, e tu. Agora o que preciso +saber, e já, é o que são e o que fazem +alli!... <br /> + +<br /> + +―Será o sargento Cabrinha, aquelle jacobino! Andou esta +manhã pelo sitio com as milicias. Só se +fôr elle! O maldito ri-se de Deus e do diabo. Ha de +chegar-lhe a sua vez. <br /> + +<br /> + +―Prendeu alguem?!... <br /> + +<br /> + +―Dizem que sim, ahi para os sitios do Casal do Ouro. <br /> + +<br /> + +―Ah! exclamou o mancebo. Capaz seria elle? Se fosse quem receio!... +Ouviste dizer?... <br /> + +<br /> + +―Um velho e sua filha. Os nomes não m'os souberam dar. <br /> + +<br /> + +―Nem é preciso! interrompeu Manuel Coutinho em voz +soffocada, e com os olhos inflammados. O infame Lagarde cumpriu a +promessa. +<span class="pagenum">[20]</span> +Verá se a de +um portuguez lhe fica atraz! Os nomes sei-os eu; dizia-m'os o +coração antes de aqui entrar. Mas!... <br /> + +<br /> + +Conteve-se, e caíu em reflexão profunda. Antonio +da Cruz, tambem de pé, e animado, desde que sabia que +não era com os demonios, ou com as almas do outro mundo a +contenda, esperava, olhando para a espingarda, que uma palavra do amo +lhe pedisse o apoio do seu braço. <br /> + +<br /> + +―Depois de curta pausa, o mancebo, renovadas as escorvas das pistolas, +e cingida a faca de matto, virou-se para o seu confidente e disse-lhe: <br /> + +<br /> + +―Queres saber como se chama o velho, que o sargento arrasta preso a +Santarem para o entregar á vingança dos +francezes? É +Paulo de Azevedo Carvalho. E sua filha... <br /> + +<br /> + +―A senhora D. Leonor?! A noiva de v. s.<sup>a</sup>!... +Jesus... Pobre +menina! <br /> + +<br /> + +―Buscam-o para o processar como rebelde desde o caso de Mafra. +Tinham-se escondido na Aramanha, e esse villão do sargento +Cabrinha, por trinta moedas prometteu entregal-o. Não o +achando já alli, correu os arredores, e de certo o foi +encontrar no Casal do Ouro pela denuncia... <br /> + +<br /> + +―Do Sapo! Foi o Sapo, aposto! Por isso o patife andava desde hontem de +orelha fita e focinho aguçado! Só ao moinho, +aqui, veiu duas vezes! Ah! Se eu soubera! Partia-lhe outra perna. +Não importa. O que não se acaba dia de S. Braz +n'outro dia se faz. Não as perde. <br /> + +<br /> + +―Antonio! Paulo de Azevedo não ha de entrar na cadeia da +villa, nem na de Lisboa. Esta noite a «Casa Negra» +terá outra +historia talvez mais feia que juntar á sua. Aprompta-te! +Á meia noite saímos. Pódes resar por +alma do sargento, se o encontro!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c3"></a>III </h3> + +<h3><br /> + +Duas paginas da historia d'este seculo </h3> + +<br /> + +<br /> + +Antes de proseguirmos, para maior clareza d'esta mui veridica +narração, cujo fio poderia enredar-se com as +explicações de todos os +momentos, pedimos venia ao leitor para resumir em breve noticia os +acontecimentos, que formam o fundo da pintura, ou antes do +esboço, que nos propozemos traçar. <br /> + +<br /> + +A revolução franceza, representante das +forças e interesses da humanidade, herdeira não +só das aspirações e +esperanças, mas tambem das dores e resentimentos de muitos +seculos, saudada em 1789 com transportes de jubilo, em 1793 +já tinha convertido a innocencia do primeiro enthusiasmo nos +accessos febris de um patriotismo sombrio, dando o espectaculo, novo e +incrivel, dos maiores crimes a par dos rasgos mais heroicos, e das +virtudes mais sublimes. <br /> + +<br /> + +Só e contra todos arremessou audaciosamente a luva aos +adversarios de fóra e ás +facções internas. Decapitou no cadafalso a +realeza; repelliu os exercitos da Europa colligada; atravessou +após elles as fronteiras inimigas; +<span class="pagenum">[22]</span> +suffocou nas provincias insurgidas as saudades e as iras do +regimen decaído; e vigorosa, mesmo ao saír do +berço, sobreviveu aos delirios e excessos da anarchia. Nada +a detinha, nada a assombrava! Admirada de uns, execrada do maior +numero, mas invencivel, precipitou-se, demolindo tudo no seu impeto, +até, esvaída do sangue vertido nos patibulos e +nos campos de batalha, caír por fim, quasi sem alentos, nos +braços do mais illustre de seus capitães, +d'aquelle de quem Siéyés disséra com +persuasão prophetica: «que seria o senhor, porque +sabia, queria, e podia tudo!» <br /> + +<br /> + +A ordem restituida por elle, a victoria inseparavel de suas armas, o +esplendor de tantas acções applaudidas, os +milagres de uma vontade, a que ainda obedeciam os obstaculos e o +destino, compozeram essa rara epopêa, de que +Napoleão I, grande como Cesar, ou maior talvez, foi ao mesmo +tempo o heroe e o assumpto. <br /> + +<br /> + +Guiada pela providencia, a sua mão, ao passo que ia lavrando +nas primeiras paginas da historia d'este seculo as datas memoraveis, +com que se abriu sua agitada existencia, unia, pesada como a de Attila, +gloriosa como a de Carlos Magno, á queda do passado a +transformação do presente. <br /> + +<br /> + +A fortuna muitos annos constante seguiu-o de triumpho em triumpho, +desde as planicies da Italia, immortalizadas pela sua mocidade, +até aos gelos do norte para os quaes a sorte parecia +attrahil-o, e aonde o clarão de Moscow incendiada havia de +illuminar depois os funeraes do imperio. <br /> + +<br /> + +Marengo, Eylau, Essling, Wagram, e cem estações +assignaladas pelos prodigios do seu genio, viram a terra gemer abalada +pelo galope dos esquadrões; viram os thronos vacillar, +<span class="pagenum">[23]</span> +ou alluirem-se; viram os principios +nóvos germinarem grávidos do futuro nos sulcos +rotos pela inundação, quando a onda vencida +recolheu ao antigo leito! Abrazada em odio, ou cortada de espanto, a +Europa contemplava aquella epocha de terremotos e de +transfigurações, sobresaltando-se com os decretos +da voz soberana, que falava pela bôcca de bronze dos +canhões, e inclinando-se serva, mas fremente, na +presença das aguias, que passavam e revolviam profundamente +o mundo das idéas e o mundo dos factos, desde as bases e os +limites das monarchias, desde o solo e a familia, até ao +estado physico e social, até á +organização politica e economica. <br /> + +<br /> + +N'esta lucta de gigantes, a França e a Inglaterra, travadas +como dois athletas, combatiam sem escolher as armas. Feriam-se sempre e +em toda a parte! Percebiam que o duello era mortal, e que só +podia terminar pela ruina de uma d'ellas. Aboukir e Trafalgar tinham +assegurado a supremacia dos mares ao leopardo britannico. A Austria +impaciente, mas resignada, a Prussia rendida em Jena, a Russia +desenganada em Austerlitz e Friedland proclamavam a vaidade da liga +continental. <br /> + +<br /> + +Mas Bonaparte, na maior elevação a que +fôra dado subir, tocado o apogeu, não foi superior +á fragilidade humana. Os deslumbramentos da grandeza +trouxeram a vertigem. O abysmo chamou pelo abysmo. Esquecido de que +só Deus é omnipotente quiz e ousou tudo! +Gerações inteiras immoladas semearam de cadaveres +o rasto de seus passos. Os povos amaldiçoavam-lhe a +ambição como +flagello. As coroas, voando da cabeça dos reis legitimos, +arrancadas pelos furacões da guerra vinham cingir a fronte +plebea dos eleitos da gloria. Retalhando o corpo exanime das +nacionalidades desmembradas pela espada, edificou +<span class="pagenum">[24]</span> +na areia, s +na areia, suppondo fundir em bronze esses +reinos e dynastias ephemeras, que um aceno tirou do nada, que os seus +revezes sepultaram para sempre. <br /> + +<br /> + +Repartindo pelos irmãos e os generaes os diademas e os +estados, queria ter n'elles satrapas, e não soberanos. Murat +em Napoles, Joseph em Hespanha, Luiz na Hollanda, e Jeronymo na +Westphalia representaram as peripecias d'esta ultima e arriscada phase +de uma grandeza, que na usurpação dos sceptros e +na provocação das antipathias populares encontrou +o precipicio, a queda, e a lição! <br /> + +<br /> + +Portugal, no extremo occidente, abrigado pela distancia das +revoluções, que desmoronavam tudo ao meio dia e +ao norte da Europa, não se eximiu afinal de participar +tambem, e com largo quinhão, das infelicidades, que a nenhum +paiz poupou a sorte. A iniciativa do marquez de Pombal, interrompida +pela morte do soberano, que vinte e sete annos o sustentára, +apezar das conspirações da nobreza, e da +adversão da familia real, acabou com o monarcha +tão notavel pela firmeza. <a name="n1"></a>O +poder do ministro eclipsou-se +com o ultimo suspiro do principe, e com elle expiraram as +tradições viris, e os commettimentos +reformadores. <a name="n2"></a>Um gabinete quasi +todo composto de aulicos, sujeito ao +veto do confessor valido, substituiu o mando odiado do marquez; e este +poude vêr ainda do seu desterro a mão dos emulos +alçada contra a arvore, que plantára, arvore que +apenas principiava a cobrir-se de flôres, e á qual +a inveja não deixou amadurecer os fructos. <br /> + +<br /> + +A branda e devota indole da rainha atalhou em parte os bons desejos dos +homens, que se prezavam de ainda respeitarem as maximas do grande +reinado. José de Seabra, Martinho de Mello, e +após elles D. Rodrigo de Souza +<span class="pagenum">[25]</span> +Coutinho queriam continuar no caminho encetado por Sebastião +José de Carvalho; porém divididos em partidos (o +francez e o inglez), offuscados pelas intrigas dos hypocritas, e +detidos pelos escrupulos, que assustavam a consciencia da filha de D. +José I, luctavam muitas vezes em vão com a +corrente, e os seus esforços a miudo naufragaram contra os +artificios dos cortezãos, e contra as +declamações +dos beatos, senhores de todas as avenidas do paço. <br /> + +<br /> + +As providencias uteis, que honraram o governo de D. Maria I, +derivaram-se do predominio conquistado sobre o animo da rainha, sua +penitente, pelo arcebispo de Thessalonica, prelado isento de +preconceitos e ornado de virtudes. Mal elle desceu ao tumulo, a +visão terrivel dos patibulos, erguidos por seu pae, +tornou-se uma allucinação perenne, e as trevas da +demencia apagaram para sempre a razão vacillante da +princeza. <br /> + +<br /> + +D. João, seu filho, empunhou as redeas do Estado, primeiro +sem titulo expresso, depois com o de regente. Amigo da tranquillidade, +avêsso a complicações e lances +arrojados, humano e bondoso, era todavia mais sagaz e penetrante, do +que supporia quem o conhecesse mal. Em suas mãos a +auctoridade soberana podia enfraquecer-se e rebaixar-se, como +aconteceu, mas ferir os subditos, ou irritar os alliados, +não! <br /> + +<br /> + +Comprada a preço de grandes sacrificios, a neutralidade foi +a politica preferida pela timidez do principe, e ao mesmo passo o +arbitrio prudente aconselhado pelas circumstancias. Comprada a +preço de grandes sacrificios, a neutralidade foi +a politica preferida pela timidez do principe, e ao mesmo passo o +arbitrio prudente aconselhado pelas circumstancias. A republica tinha +legado ao directorio esta amizade inerte, mas facil de conservar; e +Napoleão, mais altivo, ou mais exigente, olhando quasi +Portugal como colonia de Grã-Bretanha, não +encobria já no consulado as +<span class="pagenum"><a name="p26">[26]</a></span> +suas repugnancias pela dynastia de Bragança. <br /> + +<br /> + +Dictando-lhe a paz em 1801, e obrigando-a a submetter-se a +condições injustas, nutriu acaso a +esperança de que, não podendo +executal-as, ella lhe proporcionasse um pretexto? Não +hesitando em animar a cobiça e a rivalidade do gabinete de +Madrid, queria costumal-o a invadir-nos as fronteiras, offerecidas como +pasto áquella ambição estimulada? <br /> + +<br /> + +Seja o que fôr, a Hespanha tendo-se valido de +<a href="#e3">nossas</a> armas no Roussillon, +pagou-nos com +ingratidões o soccorro, separando a sua causa da nossa, +unindo-se a Bonaparte para nos humilhar, e aproveitando a sombra dos +estandartes francezes para se apoderar de Olivença, que +nunca mais restituiu! <br /> + +<br /> + +Na mente de Napoleão I, a idéa de precipitar do +throno os Bourbons de Hespanha, como os expulsára de Napoles +e da Etruria, era idéa, que lançára +raizes firmes. No seu tribunal tambem a casa de Bragança era +condemnada por outras culpas. Accusava-a de seguir, como satellite, o +astro da Grã-Bretanha, e queixava-se de que usasse e +abusasse da neutralidade em beneficio dos interesses commerciaes dos +inglezes, os quaes, por meio da oppressiva utopia do bloqueio +continental, cuidava expellir dos mercados da Europa, fechando-lhes +todos os portos desde Lisboa até Cronstadt! <br /> + +<br /> + +Inspirado occultamente por mr. Canning, o governo portuguez promettia +excluir o pavilhão britannico de suas praias, e +não duvidava affiançar uma +declaração de guerra +simulada; mas prender as pessoas e sequestrar as fazendas dos subditos +do rei Jorge, como exigia em nome da França o seu ministro, +mr. de Rayneval, era violencia, que as relações +anteriores e a ruina de grossos capitaes nacionaes e estrangeiros lhe +prohibiam. Recusou-a sem ostentação, mas com +vigor. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p27">[27]</a></span> +Napoleão queria tudo, ou nada! Para elle Lisboa e o Porto +eram como puras feitorias britannicas, e, se não lh'as +entregassem, estava resolvido a mandar os seus soldados conquistal-as. +Contava com a repulsa, e no meio dos mil cuidados, que o salteavam +então, acabava de pôr o ultimo remate ao seu +plano. O tractado secreto de Fontainebleau assignado em 27 de outubro +de 1807, affiançava-lhe pela cumplicidade da Hespanha a +estrada militar, de que precisava para realizar a invasão. <br /> + +<br /> + +Junot, acampado em Salamanca á testa de vinte cinco mil +homens promptos á primeira voz, apenas aguardava as ultimas +ordens. Duas divisões castelhanas, uma de dez, outra de seis +mil soldados, deviam coadjuvar as operações do +exercito francez, apoderando-se a primeira do Porto, do Minho, e de +Entre Douro e Minho, assenhoreando-se a segunda da provincia do +Alemtejo e do reino dos Algarves. O pacto ajustado entre +<a href="#e4">Bonaparte</a> e Carlos IV, desmembrava +o reino em proveito de +ambos. O Principe da Paz lucrava um estado independente de quatrocentas +mil almas, composto das provincias do sul, e denominado o principado do +Algarve. A rainha viuva do duque de Parma, filha querida do monarcha +hespanhol, em compensação da Etruria cedida ao +gabinete de Saint-Cloud, recebia um reino de oitocentos mil habitantes, +formado de duas das provincias do norte, com a cidade do Porto por +capital, denominado o reino da Lusitania Septentrional! <br /> + +<br /> + +A marcha dos francezes correu tão rapida e atropellada, +quanto era viva e ardente a impaciencia do imperador! <br /> + +<br /> + +Bonaparte ordenára, que entrassem a tempo de salvar das +mãos dos inglezes a nossa esquadra e os thesouros, que ella +podia transportar para a America. A familia real não +<span class="pagenum">[28]</span> +o preoccupava tanto. Eram alguns +prisioneiros de menos a guardar! Nunca a obediencia foi tão +fiel. Junot voou! Passando a raia em Alcantara, precipitou-se, como +torrente, por meio do paiz, que o ciume da independencia e o amor aos +principes naturaes podia tornar-lhe todo hostil. A cada passo mil +perigos o advertiam da temeridade. Aqui eram serras alpestres, aonde um +punhado de homens resolutos facilmente o sepultaria com seus +companheiros de armas! Além eram solidões, aonde +a falta de todos os recursos exaggerava as miserias com que luctava +desde que saíra de Salamanca! <br /> + +<br /> + +Os rigores do inverno tempestuoso, as estradas arrombadas e cobertas de +agua, os campos inundados, a falta de viveres, e o odio dos moradores, +dizimavam suas fileiras rareadas pela fadiga, pela fome, e pelas +enfermidades. Tudo se conspirava para o punir e demorar a +invasão; o clima, os habitantes, e o territorio que se via +obrigado a atravessar! <br /> + +<br /> + +A firmeza do general triumphou. No dia 27 de novembro suas +avançadas batiam quasi ás portas de Arroios, e +nas praias de Belem o principe regente dava o ultimo +beijamão aos vassallos consternados! <br /> + +<br /> + +No caes e na praça não se via senão +lagrimas e confusão. Os parentes despediam-se, +abraçados, como se não esperassem tornar a +vêr-se. Os escalares e bergantins carregavam para bordo as +mobilias dos fidalgos e as alfaias mais preciosas do paço e +da patriarchal. Nas ruas apinhava-se o povo attonito. Cercada do +cortejo doloroso do infortunio, a familia real era o alvo, em que se +empregavam os olhos de todos. <br /> + +<br /> + +No meio das damas, açafatas, camaristas, e criados, pallidos +e suffocados, o principe D. +<span class="pagenum"><a name="p29">[29]</a></span> +João, sua esposa a princeza D. Carlota, seus filhos, e sua +mãe a rainha D. Maria I, cujos gritos de demencia cortavam o +coração, diziam o ultimo adeus á terra +do seu berço! <br /> + +<br /> + +A multidão soluçava e estendia os +braços em vão, como se quizesse retel-os. Um +decreto datado da vespera tinha declarado que os conselhos pusillanimes +prevaleciam. Em vez de chamar o reino ás armas, imitando o +valor de seus antepassados, D. João ia refugiar-se +além do Atlantico, no Rio de Janeiro, deixando nomeada uma +regencia á qual deferia a triste missão de abrir +as portas da capital ás tropas inimigas. <br /> + +<br /> + +Demorada no Tejo pelos temporaes, a esquadra portugueza só +largou as velas no dia 29. Nessa mesma noite arrastavam-se +desfallecidos pelos arrabaldes de Lisboa os invasores, cuja sombra +sossobrára o peito de um descendente de D. João +I! Quasi nús, descalços, esmorecidos, recrutas +imberbes com as espingardas cobertas de ferrugem, inuteis, ou partidas, +os soldados do corpo de occupação infundiam mais +dó e piedade, do que temor e respeito no <a href="#e5">animo</a> +dos +que os viam desfilar. Escudava-os, porém, o nome de +Napoleão com o seu prestigio. A hora dos desenganos ainda +não tinha batido. <br /> + +<br /> + +Junot entrou no dia 30, hospedou-se no palacio do barão de +Quintella, e poz algumas auctoridades suas. No dia 13 de dezembro, +depois de uma parada no Rocio, a bandeira tricolor foi arvorada nas +ameias do castello. Começava o primeiro acto do attribulado +drama, cujo desenlace encerrou a capitulação de +Paris, e a abdicação de Fontainebleau! As tropas +hespanholas acompanhavam os movimentos dos alliados. O general Taranco +apoderou-se do Porto; o marquez del Soccorro, senhor do Alemtejo, +adeantou-se até Setubal. +<span class="pagenum">[30]</span> +As +forças dos invasores cercaram-nos por todas as partes. <br /> + +<br /> + +Ás saudades cada vez mais vivas da dynastia desterrada, aos +resentimentos provocados pelo jugo estranho, que, arrogando-se +fóros de conquista em plena paz, cada dia era mais +detestado, uniam-se os aggravos e violencias inseparaveis de uma +occupação, que só +podia sustentar-se pelo rigor. <br /> + +<br /> + +Amanheceu finalmente o dia 13 de fevereiro de 1808, o qual, rasgando o +véu de todo, revelou sem disfarce os designios de Bonaparte. +Rodeado de soldados e canhões, ao som das salvas das +fortalezas de mar e terra, Junot proclamou sem hesitar a +usurpação insolente de todos os direitos da +soberania. A casa de Bragança, disse elle no seu edital, +acabou de reinar. O imperador dos francezes será de ora em +deante o protector e o arbitro dos destinos da monarchia! Para consolar +os portuguezes da perda da independencia, o duque de Abrantes +prometteu-lhes mil beneficios, e assegurou-lhes que um dia +até o Algarve e a Beira Alta haviam de ter o seu +Camões! <br /> + +<br /> + +Os habitantes preferiam a epopea viva á epopea escrita, e +poucos mezes depois com a espada em punho recordavam as proezas de seus +avós, repellindo os estrangeiros. <br /> + +<br /> + +As armas nacionaes picadas e substituidas pela aguia corsa, a +contribuição +forçada, decretada em 7 de dezembro de 1807, e repartida +pelos moradores abastados de Lisboa, que nem o pretexto da resistencia +tinham offerecido á cubiça, irritando os animos +excitaram tumultos na capital e rixas em varias terras. <br /> + +<br /> + +Correu sangue de parte a parte. Nas provincias os roubos impunes, os +desacatos da soldadesca nas egrejas, e as tropelias de tropas +licenciosas e pouco disciplinadas, ainda cansavam mais a paciencia +publica. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p31">[31]</a></span> +A sorte da capital e do Porto não era menos infeliz. +Lagarde, detestado pela sua tyrannia na Italia, e Perrot assaz +inventivo em oppressões, cobriam de uma rede de delatores os +pontos, onde suppunham que podiam abrigar-se os seus adversarios, +faziam leilão publico da clemencia, e abriam, ou cerravam as +portas das prisões com chaves de ouro. Tinham +<a href="#e6">pressa</a> de enriquecer! <br /> + +<br /> + +Adivinhariam que o seu governo não havia de durar muito? Os +factos provaram mais esta vez ainda os perigos de tão errado +systema. Filho da violencia, apenas o desamparou a força que +era o seu unico apoio, despenhou-se nos abysmos, que elle proprio +afundára.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c4"></a>IV</h3> + +<h3><br /> + +O bem soa, o mal voa</h3> + +<br /> + +<br /> + +De ordinario voltam-se contra os poderes odiados os proprios meios +empregados para algemar os povos. As visitas domiciliarias, as buscas, +as denuncias, as multas, os encarceramentos, todos os instrumentos de +tortura moral, em fim, excogitados pelo genio assolador de Lagarde, +produziam effeitos contrarios aos que elle esperava colher, ulcerando o +orgulho nacional, enfurecendo as populações, e +predispondo-as para vingarem no primeiro ensejo todas as offensas de +uma vez. <br /> + +<br /> + +Em Mafra, aonde um conflicto casual custára a vida, ou o +sangue a alguns soldados de Junot, a crueldade da repressão, +confiada ao general Loison, acabou de exasperar os animos. O desditoso +Jacintho Correia expiou com o supplicio a culpa, quasi geral, da +aversão aos invasores. <br /> + +<br /> + +Estes rigores, longe de as firmarem, tornaram mais frageis as bases da +dominação estrangeira, que a todos os instante +via desabar o edificio vacillante do seu poder. As devassas e monterias +ordenadas contra as pessoas implicadas +<span class="pagenum"><a name="p33">[33]</a></span> +n'esta guerra surda, mas implacavel, ameaçando alguns +innocentes, apenas réos do horroroso delicto de aborrecerem +a usurpação, recrutou em favor da +reacção patriotica numerosas e decididas +adhesões. <br /> + +<br /> + +Paulo de Azevedo Carvalho, que no «Moinho da +Raposa» ouvimos citar como uma das victimas da intendencia +geral da policia, salvo quasi por milagre, graças +á rapidez da fuga, das garras dos emissarios de Lagarde, +vagueára de asylo em asylo, acossado de perto, mas sempre +protegido, desde Torres Novas até Santarem pela generosa +cumplicidade, que lhe patenteava todas as portas, do palacio +até á choupana, apagando logo depois com discreto +silencio o menor vestigio de seus passos. <br /> + +<br /> + +Uma imprudencia ajudou os que o perseguiam. Sua filha partiu de Torres +Vedras para ir encontrar-se com elle, e os olhos de argos da policia +seguiram-a na jornada até ao humilde casal, escondido nas +mattas da Aramanha, onde a esperava Paulo de Azevedo, e onde lhe abria +os braços a hospitalidade rude, mas sincera, do honrado +fazendeiro Antonio Simões. <br /> + +<br /> + +Disfarçados em mendigos ou em jornaleiros, os agentes de +Lagarde depressa descobriram o foragido no seio da casa rustica, em que +se abrigava. Assaltaram-a de noite com um cordão de milicias +ás ordens de Estevan Cabrinha sargento no regimento de Rio +Maior, e capaz de vender o sangue de mãe e +irmãos, uma vez que o preço correspondesse. +Falharam, porém, todas as precauções. +Cabrinha errou o salto. Avisados a tempo o pae e a filha evadiram-se na +vespera, e o sargento só colheu da <a href="#e7">ruidosa</a> +diligencia as maldições de Antonio +Simões, maldições e despresos, que +estava +<a href="#e8">costumado</a> a engulir, como ossos do +officio, mas que +registrava cuidadosamente para as descontar aos devedores na hora +opportuna. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[34]</span> +D'esta vez a divida não esperou muito. Uma busca de +contrabando sobre denuncia falsa proporcionou-lhe o desejado pretexto. +Antonio Simões da Aramanha deu-lhe o gosto de entrar dias +depois sob seus auspicios na cadeia de Santarem, quasi arrependido da +soltura de lingua, com que tinha lançado em rosto ao +perseguidor as lagrimas e a ruina das familias, e os crimes contra a +patria. O fazendeiro, todavia, não gemeu nos ferros de +el-rei, como se dizia então, sem jurar pelas costellas ao +malsim. Deante de testemunhas protestou moel-o com o cajado de +zambujeiro, especie de clava, que achatava um homem como uma bolacha, e +vozes chocalheiras avisaram o sargento da promessa caridosa. Cabrinha +enfiou. O intendente geral da policia Lagarde servia-se do mastim e +açulava-o contra o Ribatejo, não regateando ao +mercenario venal as recompensas; mas era duvidoso que podesse +eximir-lhe o corpo do premio, affiançado pela +gratidão de muitas victimas. <br /> + +<br /> + +Em quanto Paulo de Azevedo respirasse livre, o amor proprio e a bolsa +de Cabrinha padeciam, e não era elle homem que dormisse, +quando o interesse o chamava com voz activa. Suppondo o cavalleiro de +Mafra ainda proximo, deixou-o socegar por dias, e valendo-se da +ardileza de um subalterno sagaz, digno assessor de suas virtuosas +emprezas, o coxo Gaspar Preto, conhecido pela expressiva alcunha do +<em>Sapo</em>, mandou-o bater os +arredores, na idéa de que a vista de lince do agente, com +mais facilidade desencantaria, ainda quente, o ninho aonde se refugiava +a presa. <br /> + +<br /> + +Não se enganou. O <em>Sapo</em>, +cujos brios avivára a esperança de rasoaveis +lucros, entrou sem demora em campanha, e tres dias depois trouxe-lhe a +agradavel nova de que o cavalheiro e sua filha se cobriam com o tecto +modesto +<span class="pagenum">[35]</span> +de uma casa, pouco mais do que +choupana, solitaria, e situada nas abas da risonha +povoação +do Casal do Ouro no meio das vinhas e olivedos, que o vestem de +verdura. <br /> + +<br /> + +O sargento não perdeu tempo. Apenou seis milicianos fieis ao +copo e ao cangirão, e, acompanhado por elles, prendeu de +tarde e á +traição a Paulo de Azevedo e a Leonor. Temendo, +porém, que o povo se alvoroçasse, apezar das +ameaças da trovoada metteu-se a caminho, não sem +olhar a miudo para traz, receioso, sobre tudo na charneca, de que a +bala perdida de uma espingarda lhe testemunhasse o reconhecimento +grangeado por seus longos e valiosos serviços! <br /> + +<br /> + +O homem põe, e Deus dispõe! A fortuna que o +protegêra, detendo Manuel Coutinho no Cartaxo, sem o que +teria encontrado o seu amigo e a sua noiva presos, (lance de certo +fatal ao sargento), mostrou-se logo contraria a Cabrinha, +não demorando uma hora, ou duas mais, tambem, o temporal, o +qual, perto da Ponte da Asseca rebentou com violencia tal, que o +constrangeu, á falta de melhor, e não sem grandes +arrepios de medo seus, e dos soldados, a descançar aquella +noite no palacio arruinado, temido na visinhança pelo +significativo nome de <em>Casa Negra</em>, ou +de +<em>Casa Maldita</em>. <br /> + +<br /> + +O <em>Sapo</em>, entretanto, não +ficára ocioso. <br /> + +<br /> + +Sabendo que Antonio Simões da Aramanha fôra solto +da cadeia de Santarem por ordem do juiz de fóra, e que +n'essa mesma tarde vinha dormir ao Casal do Ouro, doeram-lhe de repente +todos os ossos, como se o cajado monumental lh'os triturasse, +similhante a mangual na eira, e assentou livrar-se a si e ao sargento +da promettida sova, interceptando na estrada o robusto fazendeiro com +uma bala. <br /> + +<br /> + +Esperou-o, pois, atraz de um vallado, em +<span class="pagenum">[36]</span> +azinhaga escura e estreita, ao anoitecer. Escutando o ruido de passadas +cheias renovou a escorva, engatilhou a espingarda, metteu-a +á cara, e com a tranquillidade, com que poderia desfechar +sobre uma lebre, disparou por entre as ramas sobre um vulto, que vinha +dobrando a quina do caminho, e que soltando um grito agudo baqueou por +terra. <br /> + +<br /> + +―Deus seja com a sua alma! exclamou o assassino, saltando o vallado, e +contemplando prostrado, e com o rosto banhado em sangue o corpo da +victima, que todavia conheceu pela estatura e pelo trajo ser Antonio +Simões da Aramanha. <br /> + +<br /> + +―Está com Christo! ajuntou depois de olhar para elle +instantes. Este já não morde. Falta o Antonio da +Cruz!... Tambem lhe ha de chegar a sua vez! <br /> + +<br /> + +Feito este responso, torcendo a perna, e apressando os saltos, em que +despejava mais caminho do que os sãos, o coxo passou por +entre as silvas, e atravessando pelas vinhas e hortas, veiu +saír muito distante do logar do crime, ao alto do valle. <br /> + +<br /> + +Soou a noticia do tiro dado em Antonio Simões. As mulheres, +que se recolhiam do trabalho do campo, encontraram o corpo +ensanguentado na azinhaga, e correndo e clamando, tocaram a rebate com +a historia do homicidio por todas as portas. Juntou-se gente, accudiram +alguns amigos, que o morto contava na terra, e em procissão +encaminharam-se ao sitio aonde o desgraçado fazendeiro devia +jazer, que era aonde a azinhaga cortava entre a Ponte de Asseca e a +Casa Negra. <br /> + +<br /> + +Caso inaudito, e que fez erriçar de espanto as grenhas +hirsutas dos aldeões, por baixo dos barretes de +lã e dos chapéus desabados! Nem rasto da victima! +Sómente duas poças de sangue, e a cama feita pelo +cadaver na terra molhada +<span class="pagenum">[37]</span> +denunciavam +a verdade das camponezas e a existencia do delicto! <br /> + +<br /> + +Quem roubára aquelle corpo á sepultura +christã? Quem fôra o assassino? A estas duas +perguntas respondia a superstição, que +só poderia ter sido o inimigo do genero humano, porque a +azinhaga não se via trilhada senão dos +pés curtos e deseguaes de um homem, que, fugindo, +deixára assignalada no vallado a +feição dos joelhos. Aonde acabavam as passadas +fortes e largas dos sapatos de Antonio Simões não +havia indicio de mais nenhumas. <br /> + +<br /> + +A chuva caíndo em torrentes, os relampagos allumiando as +trevas de clarões repentinos, e os trovões +estalando uns após outros, depressa dispersaram os curiosos, +que a luz de dois archotes, saccudidos e apagados pelo vento, +não confortava muito contra os terrores do inferno, sobre +tudo em tão medonha noite. <br /> + +<br /> + +Benzendo-se, e acotovellando-se uns aos outros, recolhiam-se transidos, +ensopados, e cheios de apprehensões, quando alguns mais +audazes, que tinham ousado arriscar a vista na +direcção do palacio arruinado notaram, que duas +das janellas, sempre cerradas, deixavam transparecer por entre as +taboas mal juntas uma claridade livida, brilhante na +escuridão como os olhos de um demonio! <br /> + +<br /> + +Esta ultima prova do poder sobrenatural do tentador foi tão +decisiva que, trocando o passo ligeiro pela mais despedida carreira, os +bons dos aldeãos, persuadidos de que Satanaz reunia na Casa +Negra a sua côrte plenaria, não pararam +senão á porta da egreja +parochial, chamando pelo prior em altas vozes. <br /> + +<br /> + +D'onde vinha ao palacio arruinado a má +reputação, que afugentava de sua +visinhança os moradores dos logares proximos? Que trasgo, ou +que duende vexava com suas maleficas +<span class="pagenum">[38]</span> +travessuras a casa ennegrecida pelo tempo, e rodeada de eterna +solidão? <br /> + +<br /> + +Construida nos principios do seculo XVII, o gosto depravado do +architecto traduzia-se nos dois pavilhões lateraes, que +acompanhavam o corpo do edificio, esmagados pelos tectos, e +massiços como duas cidadellas, carregadas de tristeza. +Revestidos de pesadas cantarias, com as janellas estreitas e de volta +baixa, e as portas abafadas de lavores e ornamentos desgraciosos, o ar +e a luz só a medo podiam circular pelas immensas salas e +pelos extensos e escuros corredores, em que se repartia. <br /> + +<br /> + +Solar desamparado, por mais de um seculo via-se as ervas crescerem nos +pateos e eirados, as eras enrolarem-se pelos muros gretados, e os +telhados verdejarem cobertos de plantas parasitas. Os +anciãos mais antigos na terra, não se lembravam +de nunca terem visto o dono d'aquella casa condemnada, e todos os annos +os invernos, succedendo-se, e penetrando pelas brechas não +reparadas, accumulavam ruinas sobre ruinas, estragos sobre estragos. <br /> + +<br /> + +As lendas populares explicavam o destino singular d'aquelle palacio, o +qual de certo vira dias mais ditosos, quando as malvas e ortigas +não afogavam os canteiros de seus jardins, quando os +entulhos não cegavam os canos á fresca lympha, +que jorrava em tórnos de agua crystallina para os largos +tanques de marmore, quando, finalmente, as colgaduras de couro e os +pannos de raz não pendiam em farrapos das paredes fendidas e +esverdeadas, e as manchas de humidade não desfiguravam os +relevos e molduras dos tectos. <br /> + +<br /> + +Que horroroso crime expiava o palacio deserto, cujos vigamentos +pôdres estalavam com o peso de telhados arrombados, cujos +moveis roidos de caruncho se desfaziam no pó da velhice e do +abandono? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[39]</span> +Contava a tradição que dois irmãos +rivaes haviam disputado a mão de uma formosa dama, causa +innocente do seu infortunio, e que o menos ditoso na porfia, como Iago, +convertêra em desespero a felicidade do competidor, +envenenando-lhe de suspeitas os amores. Não valeram prantos +e supplicas contra as +allucinações do ciume! O sangue da esposa e o +sangue do filho innocente, doce fructo do seu enlace, vertido em um +momento de delirio, vingou os zelos do marido, que suppunha lavar com +elle a nodoa do nome e do brazão. Horas depois, mas sem +remedio, descobriu-se a perfidia, e o desgraçado caiu em si +do delirio, e viu-se tornado o verdugo de si mesmo e dos que mais +estremecêra no mundo. O que passou n'aquella noite entre os +dois irmãos é segredo, que dorme com ambos na +eternidade. Sómente ao romper da aurora mais um cadaver +descia ao jazigo da capella, e o infeliz, sobrevivendo á +morte de todos os affectos, e algoz de todos elles, na edade de vinte e +cinco annos, quando partiu para não voltar, mettia horror +á vista. Os cabellos e o rosto eram já os de um +velho. Bastaram poucas horas de remorso e de agonia para lhe consumirem +a vida e a mocidade. <br /> + +<br /> + +O lucto do senhor cubriu a casa, theatro de tantos crimes. Deshabitada, +fugiam d'ella donos e creados como de um logar maldito. Sempre +êrma, e sempre muda, só os echos accordavam n'ella +com o anniversario do terrivel drama. O velho guarda, ao qual primeiro +foram confiadas as chaves, despertando sobresaltado por horas mortas, +subiu ao andar nobre, e caiu sem sentidos, paralyzado pela +visão terrivel, que se lhe representou alli. <br /> + +<br /> + +Viu uma fórma branca e suave, com os cabellos esparzidos +sobre o collo, atravessar, chorando, as salas. Apertava ao peito uma +<span class="pagenum">[40]</span> +creança adormecida, e seguia-a +outro espectro ameaçador com o punhal erguido. Atraz, uma +figura contemplava aquella scena rindo com satanica alegria. Os lustres +accesos por si mesmos entornavam torrentes de luz livida sobre os +aposentos. Os gemidos e soluços das victimas, o tinir dos +ferros, as risadas e as +imprecações retratavam ao vivo o tremendo +espectaculo, em que o parricidio e o fratricidio tinham desempenhado os +principaes papeis. O velho enlouqueceu de terror. <br /> + +<br /> + +Desde então ninguem mais quiz tomar conta do palacio. Os +morgados deixaram-o caír em ruinas a pouco e pouco, e quando +os francezes sequestraram por ausente os bens do fidalgo, aquellas +paredes infamadas não acharam comprador. O fisco +não quiz para si senão a posse das terras, e +arrendou-as. Parece, todavia, que a invasão dos estrangeiros +excitára a cólera das potencias sobrenaturaes, +porque nunca se tinham mostrado tão malfazejas e ruidosas. +Um allemão excentrico, apostando hospedar-se alli uma noite +inteira, foi achado ao amanhecer sem fala, nem movimento, e seis mezes +depois ainda tremia quando lhe lembravam a aventura da Casa Negra. <br /> + +<br /> + +Era, pois, desculpavel o susto dos aldeões. Vendo a luz +coar-se através d'aquellas janellas sempre escuras, e +não achando o corpo de Antonio Simões no sitio +aonde fôra assassinado, tudo attribuiram aos maleficios, e +escudando-se com o amparo da egreja, invocaram a +protecção do parocho, persuadidos de que as iras +divinas, provocadas pelas abominações dos +jacobinos, haviam quebrado a lousa das sepulturas, soltando os +espiritos das trevas para flagello e confusão dos inimigos +de Deus e de el-rei. <br /> + +<br /> + +Entretanto, cousa notavel (!) n'esta assembléa dos homens +bons do logar, como diria +<span class="pagenum">[41]</span> +um foral de +nossos avoengos, faltava o João da Ventosa, o orador popular +por excellencia, o Hortencio, o Eschino laureado d'aquellas +visinhanças! O que o detinha? Pouco timorato por indole, e +até para a epocha e para a +educação assaz limpo de abusões, +trazia de renda as terras da Casa Negra, pegadas com uma horta sua; mas +se alguem lhe tocava na ruim visinhança do palacio, +prendia-se-lhe de repente a voz, e uma visagem avinagrada torcia-lhe o +semblante. Era mais orthodoxo n'este ponto, do que o cura. Os contos de +visões e de almas penadas, que repetia, não +concorriam pouco para entreter o pavor dos companheiros de copo e de +touradas, os quaes se espantavam, de que elle tivesse animo para metter +o arado e a enchada em terras, que mais deviam reputar-se vinculadas ao +demonio, do que administradas pelo bondoso morgado, que as +disfructára. <br /> + +<br /> + +Mas como as terras eram excellentes e criavam bem, e como, +não sendo affrontado por competidores, elle as trazia quasi +pelo que queria dar por ellas, o João da Ventosa continuava +a amanhal-as, e a servir-se das officinas do palacio, e até +de algumas casas do andar terreo. Peccado de avareza que as almas pias +e tementes a Deus prognosticavam, que lhe seria funesto um dia, +arriscando-se a que o demonio, enfadado com o atrevimento, levasse +pelos ares n'um furacão os bois, as charruas, o lavrador, os +carros, e os telhados! <br /> + +<br /> + +Nunca lhe viam o trigo e o milho na eira, que não rosnassem +por entre dentes: «Queira Deus que o meu compadre uma vez se +não arrependa. De parceria com o demo nunca ninguem +medrou!» O João, como bom +christão, ouvia-os, suspirando, queixava-se da carestia dos +tempos, que obrigava o pobre a fazer pão até das +pedras, e ia attestando de saccos o celleiro, +<span class="pagenum">[42]</span> +dizendo sempre que muitas noites não podia pregar +olho com o alarido infernal, que ía lá por cima. <br /> + +<br /> + +Dadas estas informações essenciaes, que o leitor +benevolo desculpará, tornemos á nossa historia, e +acompanhemos as diversas pessoas, que estão em scena, +esperando por nós, tanto no Moinho da Raposa, como na Casa +Maldita. <br /> + +<br /> + +Quanto aos honrados aldeões, apinhados defronte da porta do +reverendo prior, não nos dê cuidado a sua +inquietação. O +parocho, consolando-os com duas maximas em mau latim de orelha, +prometteu-lhes exorcismar, mesmo de longe o espirito maligno, e +recommendou-lhes que se recolhessem e abafassem depressa, porque a +noite estava medonha, e o anno corria infamado de pleurizes e +catharraes. Dito isto lançou-lhes a +benção da janella, e foi +sentar-se á mesa para não deixar esfriar a ceia. +As ovelhas +imitaram o pastor, e meia hora depois, acalmado o alvoroço, +reinava na aldeia o mais profundo socego, apenas interrompido pelos +latidos de algum cão impertinente, e pelas rajadas da chuva +e do vento, com que a tempestade açoutava as copas das +arvores, e fustigava os telhados das casas.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c5"></a>V</h3> + +<h3><br /> + +Não ha atalho sem trabalho</h3> + +<br /> + +<br /> + +Transportemo-nos sem demora ao andar baixo da Casa Negra. <br /> + +<br /> + +As duas portas da fachada estão fechadas, mas um estreito +postigo, que abre para o pateo, apenas se acha cerrado. Entremos por +elle, e, seguindo o som das vozes, continuemos, apalpando no escuro as +paredes, que se esfarelam de humidade pelo comprido corredor. <br /> + +<br /> + +É uma especie de dormitorio ladrilhado com portas +á direita e á esquerda, provavelmente +accommodações dos creados do palacio, quando +fôra habitado. As taboas do tecto, podres e despregadas, +ameaçam cahir sobre a cabeça, e aqui e +acolá montes de +caliça dos muros esboroados promettem um desabamento +proximo. No topo uma porta derreia-se pendente a meio cutelo do ultimo +leme enferrujado. <br /> + +<br /> + +Atravessemos depressa! Estamos em uma casa de abobada, fria e surda, +com duas frestas engradadas. Subamos aquelles tres degraus, e +guiemo-nos pela claridade baça, e pelo alarido que da +extremidade de outro corredor +<span class="pagenum"><a name="p44">[44]</a></span> +nos +estão avisando de que na estancia immediata conversam, ou +disputam muitos homens. <br /> + +<br /> + +No fim do corredor apercebem-se os vãos de duas escadas +interiores, cujas vigas e degraus carcomidos tremem de velhice. Uma +fenda larga racha ao meio a grossa parede, que as divide. Duas portas +com travessas cerram a entrada das escadas, lançadas dos +lados em ramos divergentes para o andar de cima. <br /> + +<br /> + +Empurremos agora as taboas mal juntas de outra porta, que nos veda a +vista, e adeantemo-nos. O espectaculo que vamos presenciar vale a +fadiga a que nos sujeitámos. <br /> + +<br /> + +É a cozinha, terrea e toda de abobada, com fornalhas ao +fundo e chaminés enormes. Uma immensa pia de pedra +á direita, e uma mesa tambem de pedra á esquerda, +compunham a mobilia primitiva. Na lareira ardem e estalam grossos +troncos de arvores, cortadas em verdes, e á roda da chamma +afogueada e crepitante, sentam-se os novos hospedes do palacio. Pelas +tres janellas lateraes sem vidraças sopra o temporal +ás rajadas, e a chuva salpica dentro fustigada pelo vento; +dos canos das chaminés, meio alluidas, escorre a agua, e +geme o vendaval, afogando os silvos em sussurros prolongados. O +clarão dos relampagos, golfando quasi sem +interrupção, allumia de phantasticos e subitos +clarões as paredes e o chão lageado da enfumnada, +sombria, e vasta quadra. <br /> + +<br /> + +No recanto, formado pelo angulo da chaminé, e pelo angulo de +um grande armario embocetado, esconde-se, quasi suspensa, uma escada de +caracol, toda de pedra, ainda menos mal conservada. Defronte da porta +da sahida dois arcos de volta mui baixa, parecidos a bôccas +de furna, communicam para a <a href="#e9">cave</a> +e para a +arrecadação, ambas subterraneas e extensas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[45]</span> +Uma especie de lampião, em que são mais as folhas +de papel azeitado, do que os vidros, balouça-se pendente de +cadeia de ferro presa no tecto. <br /> + +<br /> + +Uma tosca mesa de quatro pés, coberta de toalha, cuja alvura +desappareceu debaixo da ramagem caprichosa das nodoas de vinho e de +gordura, levanta-se no meio da casa. Pratos e garfos, um tacho colossal +de migas com a classica colher de pau enterrada na appetitosa assorda; +dois cangirões de vinho, e canecos monstruosos, uma cesta de +laranjas ao pé de uma frigideira de queijos brancos, ladeiam +a peça capital do brodio campesino, um cabrito acerejado, +rodeado de batatas, e credor de tentar a gula do mais austero cenobita. +<br /> + +<br /> + +Finalmente, sobre a mesa de pedra, coberto com um capote de +cabeções, do talho pouco airoso dos chamados +Josésinhos, com um tronco por travesseiro, e um panno +ensanguentado sobre a cara, jaz um vulto, que a immobilidade rigida dos +membros, e duas vellas uma aos pés, outra á +cabeceira, dizem claramente ser um cadaver. <br /> + +<br /> + +De vez em quando os olhos dos que velam bem contra vontade o seu ultimo +somno, voltam-se para elle, e afastam-se rapidamente, como se temessem, +que a trombeta final, soando mais cêdo, o despertasse. O +sargento Cabrinha e o seu honrado confidente Gaspar Preto, o +<em>Sapo</em>, as pessoas conspicuas da +assembléa nocturna, em que a nossa +indiscreção introduz o leitor, são as +que olham mais a miudo, e de cada vez que fitam vista n'aquelle corpo +inerte, um calafrio arrepia-lhes a espinha dorsal, e um suor de mau +agouro, apezar da temperatura, borbulha na testa de ambas. Dariam tudo +por se verem a cem leguas da companhia d'aquelle morto, cujo sangue o +seu remorso, como que está avivando mais em manchas +<span class="pagenum">[46]</span> +vermelhas sobre o sudario, que lhes +esconde o rosto. <br /> + +<br /> + +Os principaes auctores concordam com o logar e com os accessorios. <br /> + +<br /> + +Comecêmos pelo chefe, como é razão. <br /> + +<br /> + +A physionomia de Estevam Cabrinha não desmente a +reputação. Conta pelo menos sessenta annos, mas +póde melhor com elles, do que outros, menos robustos, +poderiam com quarenta. A testa esguia e deprimída lembra a +fronte felina, e a mobilidade de duas profundas rugas, cavadas logo por +cima dos sobrolhos, ainda torna mais sensivel a similhança. +Faces encovadas, beiços sorvidos, barba revirada, e por cima +da pelle uma côr assanhada de amora mansa, não lhe +permittem suppor-se por certo nenhum Cupido, nem seccar-se, como +Narciso, de paixão pela belleza propria. <br /> + +<br /> + +O nariz, adunco, em fórma de bico de papagaio, +caía como apagador, ornado de botões vinosos, +sobre a bôcca. Os olhos, cujo raio visual se torcia com +sinistra expressão, tinham aquelle tom baço e +frio de pupillas, que revela quasi sempre as almas +traiçoeiras. Curto de pescoço, largo de hombros, +e prendado com uma corcova assás volumosa, imita nos +movimentos lentos o pesado garbo do urso dos Alpes. <br /> + +<br /> + +O ventre proeminente, e as pernas delgadas provam, que pouco tinha que +agradecer á providencia as graças do busto. Os +cabellos hirsutos, empastados na testa, alargam-se como duas orelhas +derrubadas sobre as fontes, e terminam por um rabicho esplendido de +meio covado de comprido, dançando enfeitado de seu +laço de fita preta sobre a farda, polvilhando-a de +pós, e ensebando-a de banha. <br /> + +<br /> + +Um bigode, quasi todo branco, espetado nas guias, como as sedas de um +chicote, e o resto da cara rapado e escanhoado cuidadosamente, +<span class="pagenum">[47]</span> +afinam perfeitamente o typo +singular e repugnante d'este personagem funesto, que as +desgraças civis fizeram sobrenadar com as escumas sociaes, +mas que as galés cêdo, ou tarde, hão de +recolher, como filho prodigo, se as iras populares se lhes +não anteciparem. <br /> + +<br /> + +Trajava a farda de milicias, de panno azul ferrete, botões e +vivos brancos, abas de tesoura, e gola de espeque. Os +calções de uniforme e as polainas +atraiçoavam-lhe a magreza das pernas. A espada de bainha +preta e copos de roca descançava fóra do +boldrié a +seu lado, e a alabarda, insignia do posto, via-se encostada da outra +parte. <br /> + +<br /> + +O <em>Sapo</em> merecia a alcunha. Teria +trinta annos. Era todo branco-papel, cara e cabellos, como se um +moleiro o tivesse amortalhado em um sacco de farinha, mas d'aquelle +branco livido e sepulcral, que nos enoja e repugna, quando +contemplâmos qualquer reptil asqueroso. Uma queda em pequeno +tinha-lhe deixado em memoria a deslocação da +perna esquerda, que, torcida quasi em rosca de parafuso, o obrigava a +andar aos saltos como a rã, ou a agachar-se, como o animal +immundo, cujo nome o baptismo dos visinhos substituira ao seu. <br /> + +<br /> + +Quasi sem nariz e beiços, vesgo, e da altura de um rapaz de +nove annos, não mostrava no rosto ponta de barba, e quando +se ria escarnava as gengivas e os dentes, de modo, que as mulheres lhe +chamavam por escarneo o bôcca de tubarão. Agil e +matreiro, como a raposa, a sua actividade era incansavel, a sua +consciencia larga como o peccado, o seu coração +duro como um penhasco. Caçador dos mais destros, andarilho +infatigavel apezar das pernas, curioso e falador como um cento de +comadres, ouvia, sabia, e aproveitava tudo. <br /> + +<br /> + +Accusavam-o de não perdoar aos outros a +<span class="pagenum">[48]</span> +fealdade propria, e de se felicitar com os alheios +males. Auctor de alguns furtos industriosos, espião e +delator por officio, assassino por vocação, +Gaspar Preto, como o imperador romano, desejaria ao genero humano uma +só cabeça para lh'a decepar de golpe. Vestia +calções curtos atacados sobre as meias de +lã, botas de couro branco e salto de prateleira, collete e +vestia de belbutina com botões ôccos de metal +amarello, e cinta escarlate muito apertada ao corpo. <br /> + +<br /> + +A espingarda, sua fiel companheira, estava sempre á +mão, e a tiracolo encruzavam-se-lhe sobre o peito as +correias do polvorinho e do chumbeiro. A navalha de ponta e de cabo de +osso, que trazia na cintura, era afamada em toda a comarca pela +habilidade, com que a jogava, ou com que sabia atiral-a de arremesso +aonde punha o alvo. <br /> + +<br /> + +Os cinco homens da milicia e da ordenança, que acompanharam +o sargento na diligencia ao Casal do Ouro, não merecem +menção +especial. Aldeãos corpulentos cabeceavam de somno ao calor +do lume, e bocejavam de fome ao tinir dos pratos, que um creado do +João da Ventosa principiava a pôr em cima da mesa. +O João, sim, esse é que destaca de todo o grupo +pela figura, pelos gestos, e pelo aspecto na realidade digno de exame. +Será homem de quarenta e cinco annos, mas não +inculca mais de trinta e oito. Bem posto e proporcionado de membros, +mais esbelto, do que robusto, á primeira vista, mais +engraçado, do que forçoso na apparencia. A cara +redonda e os beiços grossos e sensuaes, o olhar fino e +malicioso, e a bôcca cheia de riso, na sua mocidade tinham +feito d'elle o enlevo e o adonis das bellas e namoradas raparigas +d'aquelles contornos; porém debaixo d'estas +fórmas quasi delicadas escondia elle vigor pouco vulgar, +assim +<span class="pagenum">[49]</span> +como o sorriso meio travesso, +que lhe bailava nos labios, disfarçava uma firmeza e +penetração mui pouco usuaes. <br /> + +<br /> + +Sabia ler, escrever, e contar como um mestre―eschola. Se tivesse +nascido trinta annos depois, n'estes felizes tempos, era de certo juiz +eleito, regedor, vereador, e quem sabe (!) talvez mesmo deputado! +Outros +muito peiores deu já á luz a urna rural. +São os que, +cerzindo umas abas de paletó á jaqueta +hereditaria, mascarram de interpellações +boçaes e +de apoiados taurinos e beocios o extracto das sessões, +acotovellando-se nos aditos da tribuna. <br /> + +<br /> + +O nosso amigo contentava-se, porém, com os seus trinta a +quarenta moios de colheita, com as vinte pipas de azeite, que expremia +nos seus lagares, com os toneis attestados de vinho puro e genuino, +honra e orgulho da sua adega, e com a vara de juiz de vintena, +magistratura exercida a contento de clero, nobreza e povo. <br /> + +<br /> + +O João da Ventosa, ou João Bonito, como lhe +chamavam as mulheres da sua edade, gosava álém +d'isso da fama de rico, pastava bons rebanhos na charneca, fazia +dinheiro de tudo, e abotoava-se com um bom par de louras. Solteiro e +jovial vivia só em companhia de um sobrinho de quatorze +annos, e de dois creados. <br /> + +<br /> + +Ao pôr da tarde, vendo a trovoada armada, tinha ido de +passeio rondar as hortas e o olival, tinha deitado depois +até ás abegoarias, e na volta de uma das +arribanas, por encurtar caminho, viera descair á azinhaga, +aonde a espingarda do <em>Sapo</em> +acabára de deitar por terra Antonio Simões da +Aramanha. <br /> + +<br /> + +O estrondo do tiro, a hora e o grito do ferido obrigaram-n'o a apertar +o passo. Assim mesmo chegou tarde. O assassino já tinha +saltado o vallado, e o corpo do fazendeiro jazia prostrado. Era quasi +noite, choviscava rijo, e o +<span class="pagenum">[50]</span> +ribombo dos +trovões amiudava. Inclinou-se para o morto, conheceu n'elle +um amigo de vinte annos, exhalou um suspiro, rosnou uma praga contra o +homicida, e, depois de alguns momentos de +hesitação, levantou-o nos +braços, como se o peso não o devesse ajoujar, e +deitando-lhe a cabeça sobre o hombro, sem vergar, +encaminhou-se com elle para casa. Á porta chamou o maioral e +o abegão, e todos tres transportaram o cadaver para a +cozinha. <br /> + +<br /> + +Duas horas depois batia á porta o sargento Cabrinha com os +seus milicianos, e da parte da justiça pedia agasalho por +aquella noite para elles e para os presos. O João da +Ventosa, ao que parece, estava occupado, porque os deixou repetir o +recado terceira e quarta vez. <br /> + +<br /> + +Por fim veiu abrir em pessoa, e desculpando-se com o mau tempo, metteu +o sargento na cozinha com os acolytos, e guiou Paulo de Azevedo ao +andar nobre, a um aposento mais bem reparado, aonde um leito antigo de +balaustres enroscados e baldaquino de seda carmezim, cama quasi regia, +parecia esperar por elle. O quarto de D. Leonor era ao lado, e +communicava por uma entrada baixa com o de seu pae. Cabrinha assistiu +ao aquartelamento dos presos, visitou o corredor e a escada, que era a +que dava para a cozinha, sondou a parede de duas portas entaipadas de +fresco, que abriam d'antes para o corpo do palacio, e não +socegou senão depois de ter +fechado o cavalheiro de Mafra e sua filha a duas voltas de chave nas +duas camaras, que um official amigo do rendeiro havia separado do resto +da casa, enchendo de pedra e cal o vão das portas. <br /> + +<br /> + +―A menos de não lhes nascerem azas de repente, murmurava o +sargento, para voarem, ou de passarem como espiritos através +dos muros, os dois estão seguros. A evasão pelas +<span class="pagenum">[51]</span> +janellas, vista a altura, equivale a um +suicidio; e pela porta, mesmo que a arrombem, como não ha +senão uma escada e uma saida, e ambas vão dar +á cozinha, aonde conto acampar, qualquer tentativa serviria +só de os tornar a metter nas goelas do lobo! <br /> + +<br /> + +Tomadas todas as cautellas, que a prudencia aconselha, Estevam Cabrinha +desceu com o seu hospede, e principiou a apalpal-o, ácerca +da generosidade, que lhe suppunha de não consentir que elle +e os seus jejuassem só com o leve almoço, esmoido +no largo passeio do Casal do Ouro á Ponte da Asseca. +João da Ventosa respondeu ás gargalhadas, que de +sua casa nunca saiam barrigas famintas, e gritando pelos creados, +mandou trazer luz e accender o lume. <br /> + +<br /> + +N'este momento entrou o <em>Sapo</em>. <br /> + +<br /> + +Rondando as visinhanças o virtuoso assessor do sargento +achou a porta meio cerrada, ouviu de fóra a voz aspera e +roufenha do amo, e sem mais ceremonia inseriu-se no texto, enfiou o +corredor, e veiu farejar a ceia e a pousada. <br /> + +<br /> + +A manta, em que se enrolava, escorria como se fôra tirada de +um tanque, e as botas atascadas de barro denunciavam a larga +excursão de que se recolhia. Approximando-se de Cabrinha, +tocou-lhe no hombro, e disse-lhe ao ouvido duas palavras. O digno +mandarim recuou sobresaltado, e não poude conter uma +exclamação em alta voz, +exclamação de susto e de alegria ao mesmo tempo, +que não escapou á curiosa +attenção, com que o João da +Ventosa espreitava e escutava com todos os sentidos vigilantes o +dialogo confidencial dos dois personagens, cujas proezas conhecia de +longa data. <br /> + +<br /> + +As suspeitas, que desde o principio o tinham assaltado +ácerca dos verdadeiros auctores do homicidio da azinhaga, +confirmaram-se. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[52]</span> +Estevam Cabrinha era muito capaz de encommendar a morte do fazendeiro, +e Gaspar Preto muito obediente servo, em se tractando de um crime, para +elle os não accusar secretamente do delicto, e +não vêr as mãos de ambos tintas no +sangue do seu amigo. Sabia a historia da prisão de Antonio +Simões, +não ignorava a promessa indiscreta que elle fizera, de +varejar as costellas do sargento e do +<em>Sapo</em>, e o mau conceito que formava +d'elles, auctorizava-o a crer que o tiro e a espera haviam partido de +um plano concertado com a deliberação e +perversidade, que tanto caracterizavam o coxo, e o seu Mecenas. <br /> + +<br /> + +Mas se o sargento era jubilado em velhacaria, e se o seu fiel Achates +tinha estanhadas a alma e as faces, João da Ventosa +lisongeava-se de os codilhar a ambos em esperteza, e armára +uma rede, em que haviam de cair por força. Calou-se, pois, e +esperou. <br /> + +<br /> + +D'ahi a pouco o moço dos bois appareceu com o velho e +cansado lampião, cuja luz mortiça só +começou a avivar-se depois de pendurado. Logo atraz outro +creado atirava ao chão com um grande feixe de matto secco, e +arrastando para a lareira dois cepos de oliveira, petiscava lume com o +fuzil, e incendiando tudo ateava uma labareda, cujos +clarões, lambendo as paredes da vasta chaminé, +derramaram por toda a casa viva e repentina claridade. De subito o +sargento, que se achava com o <em>Sapo</em> +junto da mesa de pedra, +olhou, viu o corpo, e por um gesto machinal e irresistivel extendeu a +mão, e levantou o panno que lhe cobria o rosto. A vista +encandeou-se-lhe, os cabellos erriçaram-se-lhe, e um grito +de espanto truncou-se-lhe suffocado na garganta. As côres +rubicundas amorteceram-se, e, se não se ampara com a +hombreira, resvalava redondo +<span class="pagenum"><a name="p53">[53]</a></span> +no +chão, tão fracos lhe fugiam os joelhos. +<br /> + +<br /> + +Gaspar Preto ainda revelou mais horror. Recuando até +á parede com as mãos +abertas como para afugentar de si a visão terrivel, parecia +metter-se pelo muro dentro, com os cabellos em pé, as +pupillas envidraçadas, e tal convulsão em todo o +corpo, que o frio de uma sezão mortal não +podéra ser maior. <br /> + +<br /> + +Os milicianos boquiabertos contemplavam o cadaver, e a figura singular +de Estevam Cabrinha e do coxo, que não eram santos da +devoção <a href="#e10">de</a> +nenhum +d'elles. <br /> + +<br /> + +João da Ventosa sorria-se para dentro. Dir-se-hia que +fulminava os dois cumplices com o sombrio fulgor dos olhos. Um instante +depois pousou a vista, sereno e temperado, sabendo conter-se e +dissimular para não se prender no mesmo laço, que +tecia aos outros. <br /> + +<br /> + +Seguiram-se as explicações. O rendeiro com a voz +macia, cujo timbre era quasi feminil, e aquelle ar de rir bondoso, que +encobria tanta cousa, desculpou-se da triste companhia, que era +obrigado a dar aos hospedes. <br /> + +<br /> + +Tinha encontrado, disse elle, Antonio Simões morto, apenas o +conhecia de vista, mas não tivera animo de deixar o corpo de +uma creatura de Deus exposto no caminho toda a noite. Não +havia outra casa decente, aonde esperasse a sepultura +christã, e o tempo e a hora não permittiam chamar +o padre, e deposital-o na egreja. Ao passo que explicava isto, o +compassivo João accendia de vagar duas vellas de +cêra, amarelladas dos ocios da gavêta, e +cravando-as nos castiçaes de estanho amolgados, punha uma +aos pés e outra á cabeceira do morto, completando +com todo o socego, e de proposito, a exposição +funebre, que arripiava os circumstantes, e especialmente o sargento e +seu confidente, constrangidos +<span class="pagenum">[54]</span> +a +associar toda a noite o banquete e o somno dos vivos ao espectaculo do +cadaver ensanguentado da sua victima. Se ambos podessem ler na alma do +homem, que lhes estava falando, ainda haviam de tremer mais! <br /> + +<br /> + +Na mente d'elle tudo isto apenas era prologo!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c6"></a>VI</h3> + +<h3><br /> + +Ressurreição de Lazaro</h3> + +<br /> + +<br /> + +Decorreram minutos sem que as mandibulas de Estevam Cabrinha, +deslocadas pelo terror, podessem volver ao estado natural. Nem +articulava, nem balbuciava. Só a pouco e pouco é +que se foi restaurando do susto, e maldizendo o +<em>Sapo</em>, o rendeiro, e aquella +funesta casa, regougou meio desvairado uma evasiva para desculpar o +pavôr, que o accommettêra, e que não era +senhor de disfarçar. <br /> + +<br /> + +Os seus nervos estavam tão delicados, que a vista do sangue +e do cadaver, tirava-o de si, e tornava-o mais fraco, do que uma +mulher! Entretanto fazia o possivel por ser homem; mas pedia por tudo o +que havia de santo no céu e na terra, que o não +obrigassem a velar a noite ao pé do morto, se em vez de um, +não queriam enterrar dois cadaveres. <br /> + +<br /> + +João da Ventosa affectou clemencia. Capitulando com os +terrores do sargento prometteu dar-lhe um quarto retirado no fundo do +corredor, depois da ceia. Pediu-lhe depois licença para ir +cuidar dos hospedes presos, que desejava receber como pessoas nobres, e +que +<span class="pagenum">[56]</span> +a má +reputação da casa por certo +assustaria, sobre tudo na escuridão, e com o temporal que +parecia arrancar as arvores e os telhados. Cabrinha suspirou, e com um +aceno respondeu que sim. Sentia-se gelado, e o +coração batia-lhe com tal força, que +parecia querer saltar fóra do peito. <br /> + +<br /> + +O lavrador accendeu dois candieiros de latão amarello de +tres bicos, pesados e disformes, pendurou pela argola um em cada +mão, e começou a subir a escada, escoltado por +Cabrinha, que apezar de meio tonto, e de tartamudo de mêdo, +sempre desejou certificar-se outra vez de que a gaiola, como dissera +antes, era solida, e não deixaria escapar os passaros. <br /> + +<br /> + +Um creado poz a toalha, trouxe queijos e pão, e reanimou o +alento dos milicianos, collocando triumphalmente em cima da mesa um +bojudo cangirão e dois canecos de estatura descommunal, +destinados ás libações. +Os soldados chegaram-se a principio timidos, partiram e saborearam o +queijo, acharam-o excellente, provaram o vinho, que estava ainda +coberto da espuma da pipa espichada de proposito, e romperam o assalto, +esquecendo gradualmente o morto, o sargento, e o +<em>Sapo</em>, o qual, agachado +como fera medrosa a um canto da chaminé, só dava +signal de vida nos estremecimentos, que lhe saccudiam os membros. <br /> + +<br /> + +A demora de Cabrinha em cima foi grande. Quiz assistir a todos os +arranjos, que a velha servente do rendeiro determinou, e que ia +executando com a mão vagarosa por entre as +orações resmungadas entre dentes a Santa Barbara +e a S. Simeão Stelita, advogados contra os +trovões. <br /> + +<br /> + +Viu, pois, lançar nas camas os lençoes de linho +fino e defumados, recheio das arcas do +<span class="pagenum"><a name="p57">[57]</a></span> +lavrador; viu enfiar as fronhas e os travesseiros de folhos com fitas +azues; viu deitar as colchas de seda da India matizadas, e pregar as +cortinas dos leitos. Immovel e calado os seus olhos vigiavam tudo, mas +o seu espirito ausente estava ao pé do morto. Finalmente os +moços trouxeram a ceia em bandejas largas, e a creada velha +despediu o amo e o sargento, declarando que ficava e dormia perto dos +presos para os servir. <br /> + +<br /> + +Cabrinha saiu atraz do seu amphytrião, fechou a porta, e +metteu a chave no bolso. Por este lado estava tranquillo. Restava a +ceia com o cadaver defronte. Essa é que se lhe representava +um supplicio insupportavel; e se não fosse o receio, com que +o remorso ata a lingua dos criminosos, teria pedido um +pedaço de pão secco, um ou dois goles de vinho, e +iria para o meio da estrada esperar que nascesse o dia, mesmo em risco +de uma pancada de agua o ensopar, ou de um raio o fulminar. +Não se atreveu, porém. De cabeça baixa +e passos incertos, sem ousar olhar, e não podendo, todavia, +apartar a vista da mesa de pedra, veiu sentar-se ao brazeiro, do outro +lado, defronte do <em>Sapo</em>. Ao mesmo +tempo o +João da Ventosa consultava o immenso relogio de prata, e, +vendo apontadas no mostrador as dez horas, gritava pelos creados, que +apressassem a ceia, se não queriam que elle e seus honrados +amigos morressem alli todos de fraqueza. <br /> + +<br /> + +―Vamos! exclamou. Andar! Esse cabrito não acaba de sair do +lume, mandriões? Para temperar umas migas será +preciso chamar o cozinheiro do patriarcha? Oh <a href="#e11">Pedro</a>? +As batatas +cozam-n'as no borralho!... Ficam mais gostosas. Dêem-me +d'aquellas laranjas de casca fina do pomar de cima, que eu apanhei +hontem. Tirem o vinho da pipa nova! Bem basta a inferneira que logo ahi +vae em sendo +<span class="pagenum">[58]</span> +meia noite! E +então com esta visita em casa! E apontava para o morto. +É preciso que o demonio e as almas do outro mundo, quando +vierem, nos achem confortados e quentes de estomago, limpos de +coração, e lavados de consciencia... Que tal +é esse vinhinho, camarada? Ajuntou pedindo o caneco a um dos +milicianos, ao qual o seu discurso petrificára os +movimentos, conservando a taça rustica a meia distancia da +mesa e da bôcca sem animo de a depor, ou de a sorver. Os +outros, pallidos e sobresaltados, olhavam espavoridos para as portas, +para as paredes, e para a +mesa de pedra, e benziam-se, suppondo ver já um espectro em +cada canto. <br /> + +<br /> + +―Vamos! ajuntou. Á nossa saude! E que Deus nos livre por +muitos e bons annos de um amigo, como encontrou aquelle que alli jaz! E +emboccando o caneco deixou cair do bico o vinho em fio dentro da +bôcca á moda hespanhola, engorgitando-o lentamente +com delicias. <br /> + +<br /> + +O brinde funebre produzira o seu effeito. O sargento poz-se em +pé e desabotoou tres botões da farda. Sentia-se a +arder. O +<em>Sapo</em> agachou-se mais, e +ouviam-se-lhe distinctamente bater os dentes. <br /> + +<br /> + +―A ceia! A ceia! Rapazes! clamava o lavrador acompanhando o rebate das +vozes com fortes punhadas em cima da mesa. <br /> + +<br /> + +Os creados acossados por estas impaciencias, verdadeiras, ou fingidas, +saccudiram a preguiça, e a correr acabaram de pôr +a mesa, a correr trouxeram as migas e o cabrito, e a correr tambem +vieram com as batatas e as laranjas. O cangirão refrescado +por segunda visita á adega estava cheio até +á borda. <br /> + +<br /> + +―Vamos a ella? gritou o dono da casa. Senhor sargento, chegue-se para +os bons, e será um d'elles! sente-se do meu lado. Tu, meu +<span class="pagenum">[59]</span> +<em>Sapo</em>, com essa cara de alvaiade vae +para alli. És curioso, e quero que me espreites o defunto a +ver se bole com a alegria dos vivos! Os camaradas accommodem-se aonde +poderem! Desculpem as colheres de pau e os garfos de ferro. A pratita, +que tinhamos, está em Lisboa; nos tempos, em que vivemos, +digam lá o que disserem, sempre é o mais +seguro... Nada de tristezas! Longe vá quem mal nos quer! +Senhor sargento á nossa! É bom copo, tenho +ouvido, mas o João tambem não arreia. Encha-me +esse caneco até cima, e despeje-m'o de um trago, +senão digo que o vinho é mau, ou que debaixo de +boa capa ruim bebedor! <br /> + +<br /> + +Por um esforço heroico Estevam Cabrinha conseguiu obedecer. +Não tinha sêde, nem fome, tinha medo. A ceia era +para elle um martyrio, sobre tudo com as costas viradas para o cadaver, +cuja sombra se lhe figurava a cada momento alevantada por cima dos +hombros. O <em>Sapo</em> não +padecia menor +tormento. Com o morto e a vista do sudario ensanguentado defronte +enlouquecia de terror e de afflicção. Suas +pupillas dilatadas não podiam despregar-se d'aquelle +testemunho irrecusavel, que lhe avivava o crime pela bôcca +das feridas, por onde fugira a alma. Deixou de ver o que o rodeava para +vêr só a victima silenciosa, e +ameaçadora. Poz-se-lhe um nó na garganta, e um +véu nos olhos. A primeira colhér, que levou +á bôcca, tornou-se-lhe de fel; o +primeiro trago de vinho, que sorveu, soube-lhe a sangue. Sentia +tentações de se atirar pela porta +fóra, desatando em uma corrida louca; mas os pés +estavam grudados ao c não +padecia menor +tormento. Com o morto e a vista do sudario ensanguentado defronte +enlouquecia de terror e de afflicção. Suas +pupillas dilatadas não podiam despregar-se d'aquelle +testemunho irrecusavel, que lhe avivava o crime pela bôcca +das feridas, por onde fugira a alma. Deixou de ver o que o rodeava para +vêr só a victima silenciosa, e +ameaçadora. Poz-se-lhe um nó na garganta, e um +véu nos olhos. A primeira colhér, que levou +á bôcca, tornou-se-lhe de fel; o +primeiro trago de vinho, que sorveu, soube-lhe a sangue. Sentia +tentações de se atirar pela porta +fóra, desatando em uma corrida louca; mas os pés +estavam grudados ao chão e as pernas mal o sustinham. A cada +instante entrava-lhe pelos ouvidos o som dos passos de +Antonio Simões, e ouvia o grito que elle +arrancára caindo ferido. O suor escorria-lhe em +<span class="pagenum">[60]</span> +bagas da testa, e os beiços +tremulos denunciavam a intensidade da agonia. <br /> + +<br /> + +O lavrador observava, e dissimulava. O seu ar de riso e a sua +jovialidade cresciam á +proporção, que iam aggravando-se as dores moraes +de ambos. <br /> + +<br /> + +―Que é isso, <em>Sapo</em>? +accudiu elle apertando os tratos ao mais culpado. Que é +feito d'aquella galhofa do outro dia, meu velho? Estás com +cara de enterro. Terás tu morte de homem ás +costas, diabo?!!... <br /> + +<br /> + +A esta interpellação directa, que o rendeiro +disfarçou em uma risada larga e sonora, o remorso fez saltar +involuntariamente dos bancos o sargento, e o seu cumplice, como se a +voz do sangue chamasse por elles no tribunal de Deus. Á +pergunta: Cain que fizeste de Abel, ao brado que a consciencia repetia +aos dois, ambos tremeram, mas não poderam responder: +não fui eu! Sentiam-se tomados de espanto até +ás mais fundas cavernas do +coração. <br /> + +<br /> + +João da Ventosa, entendendo que não devia ir mais +longe para não se descobrir, e vendo os dois de +pé, mudos, e pasmados, tractou de os tranquillizar a seu +modo, isto é, vertendo-lhes o terror nas veias por outro +modo. <br /> + +<br /> + +―Sente-se, meu sargento! disse elle mettendo o hospede no +coração com o tom assucarado. Que vespa o mordeu? +Os ares da casa não são bons, sei muito bem; mas +o que quer? A gente toma amor ao ninho, e depois não ha quem +o despegue d'elle. Não tenho mulher, nem filhos; nasceu-me +aqui o dente do siso, e... É melhor não tocar em +cousas más. Mas +sempre lhe digo que ha noites! Ainda antes de hontem foi um +reboliço lá por cima de +cadêas arrastadas, de soluços e gemidos, que +vinham os sobrados abaixo... <br /> + +<br /> + +―E nunca viu nada, senhor João? atalhou +<span class="pagenum">[61]</span> +um dos milicianos meio engasgado com um +pedaço de cabrito, que o susto causado pelas +reflexões caridosas do rendeiro lhe atravessára +na garganta. <br /> + +<br /> + +Estevam Cabrinha desabotoára todos os botões da +farda, e pelas frestas da camisa aberta mostrava o peito +vellôso como o de um cerdo. Tinha os cotovellos na mesa, a +cabeça entre as mãos, e os olhos espantados. <br /> + +<br /> + +Gaspar Preto recaira, sem poder reprimir-se, no tremor das primeiras +horas. <br /> + +<br /> + +Aquelles dois entes, tão fortes contra a consciencia, +tão esquecidos de Deus e da justiça humana, +desmaiavam como creanças deante da sombra do seu crime e dos +pavores do invisivel. <br /> + +<br /> + +―Se não vi nada?... Oh! redarguiu o dono da casa, +tornando-se serio de repente, e fazendo suppor com a reticencia, que +não tinha animo para dizer tudo. <br /> + +<br /> + +―Conte-nos isso! accudiu um dos comensaes, que não era dos +menos timidos, mas que era de certo dos mais curiosos. <br /> + +<br /> + +―Para que? Para não dormirem umas poucas de noites?!... +respondeu João da Ventosa. É melhor falarmos de +cousas alegres. <br /> + +<br /> + +―Não. Não! Diga! <br /> + +<br /> + +―Depois não se queixem! Faz hoje um anno, e justamente +chovia e trovejava como agora, que parecia que se acabava o mundo. +Tinha uma cadella de perdizes, que era um brinco, a Pomba. +Faltou-me todo o dia, e cuidei logo que ficaria fechada lá +em cima. A esse tempo ainda eu não tinha mandado tapar as +duas portas dos quartos, que viu o sargento, e aonde estão +os presos. Peguei n'uma lanterna e subi. Atravessei tres salas. Apitei, +chamei a Pomba, não me respondeu, ella, coitadinha, que em +me ouvindo era toda saltos e alegria. Olhei por acaso para um canto +mais +<span class="pagenum">[62]</span> +escuro, e vi... a pobre da +bruta morta com a cabeça torcida!... Não sei o +que me passou pela vista, mas tive medo, medo deveras, juro-lhes. +Peguei no corpo da Pomba, e arrastando-me, e tropeçando, vim +até á porta, que hoje está entaipada. +De repente um sopro forte apaga-me a luz, um clarão bate-me +nos olhos, e uma figura branca apparece-me tão alta e +transparente, que se via através das roupas e do corpo (se +era corpo!) como através de um vidro fino. Não +posso dizer-lhes o que senti, mas quiz gritar e faltou-me a voz, quiz +benzer-me e caiu-me a mão, quiz fugir e fiquei parado. <br /> + +<br /> + +«O Fantasma fitou-me dois instantes com um olhar frio, que +gelava e disse-me: Desgraçado de ti se tivesses sangue nas +mãos! Nenhum matador sae vivo d'esta casa! Perdi os +sentidos. Quando tornei a mim era dia, e estava deitado na minha cama. +Suppuz ter sido tudo sonho; mas a cadella morta jazia aos +pés do leito. Enterrei-a, fiz uma parede das duas portas, e +andei um mez como doudo, malucando no caso, que podia ser peior... +Fóra com historias negras! exclamou mudando de tom. Estamos +hoje aqui muitos, e graças a Deus nenhum de nós +tem de lavar as mãos de sangue, que vertesse. Vae dar meia +noite! ajuntou tirando um relogio de prata. É a hora da +senzala principiar lá por cima. Não se assustem! +O vinho é bom, festejemol-o, e o que for soará. +Nossa Senhora, minha madrinha, não ha de +desamparar-nos.» <br /> + +<br /> + +A consolação acabou de petrificar o auditorio, +que a narração já não tinha +estultificado pouco. O sargento e o seu assessor, ainda mais enfiados, +trocaram um olhar desvairado, e gemeram um suspiro. Era a sua +sentença que o espectro annunciára pela +bôcca do lavrador? Os canecos ficaram cheios sobre a mesa; +<span class="pagenum">[63]</span> +o cabrito, meio escarnado, viu +suspensas as hostilidades, que ameaçavam deixal-o na ossada; +e só o dono da casa levou aos beiços, e exgotou a +libação, que propozera. O volumoso relogio de +caixas de prata posto a seu lado, attrahia a vista anciosa de todos. +Era tão profundo o silencio, que se sentia a leve pancada da +machina trabalhando. Finalmente o ponteiro pousou-se nas doze horas, e +o lavrador, como se obedecesse a um impulso espontaneo e invencivel, +poz-se de pé, e exclamou: <br /> + +<br /> + +―Meia noite! Deus seja comnosco! <br /> + +<br /> + +N'este momento, como se a natureza quizesse associar os seu terrores +á scena alli representada, um furacão espantoso +saccudiu e abalou todo o palacio com rugidos prolongados, um +trovão rebentou perpendicular com o estrondo de cem +canhões no meio de medonhos estalos, fazendo tremer a terra, +a casa encheu-se de luz electrica por um instante, e a chuva, +açoutando com o seu granizo rijo e batido os telhados e os +muros, enxurrou dos tectos pelas chaminés arrombadas, e veiu +quasi extinguir o lume, que esmoreceu em chispas lividas por entre +ondas de fumo. Ao mesmo tempo as duas portas pregadas com travessas +á entrada das escadas, que desciam para a cozinha, vieram a +terra com fragor, o cadaver deitado sobre a mesa ergueu meio corpo +sobre o cotovello, e arrancou o panno cruento, soltando um gemido +lugubre, e uma figura de altura descommunal, envolta em sudario branco +e fluctuante, assomou ao limiar. Tudo isto occorreu em menos de um +segundo, acompanhado do ruido de ferros arrastados, do tropel de passos +e de quedas tumultuosas, e de um verdadeiro clamor de vozes e gemidos +no andar de cima. <br /> + +<br /> + +Os milicianos apavorados hesitaram um instante immoveis. Depois +correndo, como +<span class="pagenum"><a name="p64">[64]</a></span> +loucos, +investiram pelo corredor, e como rebanho tresmalhado e perseguido por +alcateas de lobos, sentiram de repente azas nos pés, e +voaram pela estrada inundada por entre os relampagos e por baixo das +aguas da tempestade, gritando misericordia! <br /> + +<br /> + +O sargento ao som das portas, que desabavam, e deante da +apparição <a href="#e12">inopinada</a>, +sem saber +já de si, e sem ver o morto alçar-se, +trepou em dois pulos a escada de pedra, metteu a chave na porta, e +acoutou-se nos aposentos dos presos, tão cego e attonito que +atropellou na carreira a velha servente na sua cama, e foi cair de +bruços ao pé da mesa, aonde se +apagava em vascas a véla consumida de um +castiçal. <br /> + +<br /> + +O <em>Sapo</em>, que observámos +paralyzado momentos antes, vendo surgir o fantasma, sentiu todos os +instinctos ferozes irritados, e pegando da espingarda, e apontando-a +n'um abrir e fechar de olhos, só volveu em si, quando o +cão bateu na pederneira, e esta faiscou, sem queimar a +escorva, deixando-lhe nas mãos uma arma inutil. +Então, como o tigre que rompe a jaula, arremetteu pelo +corredor do dormitorio, e de lá, galgando o muro baixo do +pateo, sem se deter a buscar a porta nas trevas, achou-se no campo, e +precipitando-se por sebes e vallados, veiu parar sem folego, sem voz, e +sem consciencia de si ao pé do moinho da Raposa. <br /> + +<br /> + +Finalmente o proprio espectro, primeira causa de todo o +alvoroço, não escapou ao contagio +geral, e deu tambem parte de fraco. Vendo o morto levantar-se e +saccudir os véus funebres, assaltou-o tal +convulsão de mêdo, que, tapando os olhos com um +grande grito, desabou no chão do alto das andas, em que +estribava. Teve razão ainda d'esta vez o adagio. Virou-se o +feitiço contra o feiticeiro! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[65]</span> +Mas as peripecias d'esta dramatica noite não estavam +terminadas. No momento, em que, afogado em riso, o João da +Ventosa accudia a levantar o fantasma demolido pelo susto, o sargento +Cabrinha despenhava-se pela escada, bradando possesso de espanto. +Não era sem causa! <br /> + +<br /> + +Seguimol-o quando subia os degraus a dois e dois para se refugiar na +camara dos presos; vimol-o enrolar-se e tropeçar no corpo +tolhido de rheumatismos da tia Margarida, a qual, pobre mulher (!), +acordada em sobresalto pelos trovões, tiritava de joelhos em +anagua de estopa, benzendo-se, e invocando todos os santos da +côrte do céu, quando aquelle furacão +humano se ennovellou com ella, e lhe fez das costas escabello. Os +gritos da servente, a motinada do palacio, que alli soava mais +proxima, desembriagaram um pouco do medo do andar de baixo o +virtuoso agente de Lagarde, mas exaltando-lhe os terrores excitados +pelo andar de cima. Percebeu que o asylo, que buscára, era +peior do que o perigo, e tractou de apressar a retirada. <br /> + +<br /> + +Mas apezar dos accessos de valor, que lhe notámos, era +malsim na alma e nos ossos, e a curiosidade prevaleceu. Antes de fugir +quiz verificar de novo se os outros podiam fugir. A tremer pegou em uma +véla e abriu as cortinas da cama de Paulo de Azevedo. Recuou +pasmado. Estava vasia! Correu ao quarto immediato de Leonor; achou-o +deserto! O unico preso, que não se bolira, fôra a +inoffensiva +e tropega Margarida! O sargento sentiu estalar uma cousa dentro do +peito. Se tivesse coração diria que era o +coração! Não o tendo acabou de se lhe +varrer o sizo, e ficou por minutos estatico a contemplar aquella +solidão, obra visivel do demonio. <br /> + +<br /> + +Por fim este ultimo golpe e uns suspiros +<span class="pagenum">[66]</span> +em tremulos, exhalados do outro lado da parede, venceram esses restos +de vigor, que ainda conservára. Consumou o seu destino, e +despejou o campo como os seus milicianos, porém com menos +felicidade. Quiz descer a escada, os pés +atraiçoaram-o, e mediu-a com as costellas de cima +até baixo. Quando tornou a si com a dor, e por ella conheceu +que vivia ainda, os seus olhos horrorizados perderam a luz de assombro +e de pavor. <br /> + +<br /> + +No meio da casa o Manuel Simões da Aramanha, de +pé, encarava-o sombrio e terrivel. Ao pé da mesa +o fantasma branco, entrouxado nos lençoes, extendia o +braço direito em ar de ameaça. Atraz d'elles +João da Ventosa, mudo e inerte, e como gelado, apontava-lhe +para o corredor, sem falar, como se o convidasse a fugir. +Não poude mais. Atou as mãos na cabeça +e caíu sem sentidos.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c7"></a>VII </h3> + +<h3><br /> + +Segredos em toda a parte </h3> + +<br /> + +<br /> + +Os aposentos aonde Paulo de Azevedo Carvalho e sua filha foram +encerrados, em um dos torreões do palacio, eram dos mais bem +conservados. Os tectos não estavam arrombados; os filetes, +que guarneciam as molduras das paredes, forradas de pannos de Arraz, +ainda não tinham perdido de todo o ouro; e a humidade +não acabára tambem de desvanecer inteiramente as +tintas dos quadros de caçadas, batalhas e scenas campestres, +representados na tela. Apezar de velhos e de ennegrecidos, os moveis +ainda resistíam em parte aos seculos e ao caruncho. <br /> + +<br /> + +O venerando leito de cabeceira de talha alta e columnas enroscadas +occupava o centro da primeira casa, e podia quasi dizer-se um edificio, +um monumento, pelo descommunal das proporções. Um +pesado baldaquino de seda desbotada cobria o céu da cama, e +largas cortinas do mesmo estofo desciam dos lados a arrastar pelo +chão. <br /> + +<br /> + +Defronte um tremó, que na sua mocidade brilhára +pelo esplendor dos dourados, mas +<span class="pagenum"><a name="p68">[68]</a></span> +que na +velhice, ou antes na decrepidez, apenas se recommendava por bellos +relevos de folhas e flores, com um espelho de Veneza em cima, comido e +manchado no aço, sustentava duas jarras do Japão +da mais preciosa porcellana, infelizmente rachadas. Cadeiras de +braços, mutiladas, um velador alto desgrudado, um bofete de +almofadas com sua escrevaninha de prata mareada, olhando para o +espelho, completavam a mobilia. <br /> + +<br /> + +Na segunda camara havia um leito mais singelo sem cortinas, e um +espelho embutido na parede, que enchia de alto a baixo um +vão inteiro. O bofete liso com tinteiro de bronze antigo, e +as <a href="#e13">quatro</a> cadeiras que +constituiam todo <a href="#e14">o</a> seu adorno, +não accusavam pouco os +annos pelo estado de ruina; e as colgaduras<sup><a href="#1">[1]</a></sup> +de couro, rotas ou +tão coçadas, que +não tinham já côr possivel, deixavam em +parte nus os muros, provando que o tempo as respeitara menos, do que +aos pannos de Arraz do quarto principal. <br /> + +<br /> + +O cavalheiro de Mafra mal correu a vista em redor de si. Sentou-se +deante do bofete da sala grande, molhou a penna na tinta grossa da +escrevaninha, e começou machinalmente a traçar +linhas e dezenhos informes em um papel. Desde o Casal do Ouro +até alli não +descerrára os labios, nem para falar á +companheira do seu infortunio; e só o ardor sombrio das +pupillas denunciava a ira, preferindo consumir calado as tristezas a +desafogal-as em vozes, ou em queixas. Leonor contemplou-o silenciosa +por alguns momentos, e, avisinhando-se depois nas pontas dos +pés, pousou-lhe na fronte annuviada um beijo, que a ternura +humedeceu de lagrimas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[69]</span> +Paulo, como se acordasse repentinamente, vendo no espelho o lindo rosto +debruçado sobre o seu estremeceu. Um sorriso melancholico +adoçou-lhe a expressão severa. Cedendo ao carinho +de tão suaves caricias, e tornando os olhos meigos, fitou-os +cheio de enlevo na formosura da filha. Cingindo-lhe depois o collo com +os braços, cobria-lhe de osculos os cabellos e a fronte, e +procurou tranquillizar-lhe a inquietação. <br /> + +<br /> + +Leonor era todo o seu amor e toda a sua familia. Se desejava sobreviver +ás desgraças da patria é porque +não queria deixal-a +orphã e desamparada n'uma edade, em que as +illusões armam tantos laços á candura +e á +innocencia. <br /> + +<br /> + +Mas as palavras do velho cavalheiro não o enganavam a elle, +nem á donzella. Quando para a consolar affirmára, +que um vago presentimento lhe augurava, que não chegaria a +entrar na prisão da villa, via-a aberta para o receber, e o +conselho de guerra convocado para o sentenciar! Quando lhe lembrava, +que seus amigos não dormiam, e que Manuel Coutinho, e dois +d'elles, andavam perto, sorria-se por dentro da +invenção, porque ignorava se a sorte d'elles +não seria egual, ou peior n'este momento! <br /> + +<br /> + +Leonor ouvia-o com a incredulidade do affecto. O fino instincto das +almas, que são todas sentimento, é adivinharem os +verdadeiros motivos dos sacrificios generosos. Palpava a verdade, e +tremia que o futuro fosse ainda mais funesto. Mas dotada de caracter +varonil vencia-se para não atormentar seu pae, devorando os +prantos, e comprimindo os soluços. <br /> + +<br /> + +Á ceia a visita do lavrador, e a presença odiosa +do sargento de sentinella, como vimos, á hospitalidade do +rendeiro, interromperam a conversação cortada, +com que os dois se +distraíam, e apenas as portas tornaram a fechar-se, +<span class="pagenum">[70]</span> +e Margarida poz a mesa, o pae e a +filha, tomada uma refeição mais do que sobria, e +já cansados de dissimular, despediram-se e cada um se +recolheu á sua camara. <br /> + +<br /> + +A creada no mesmo instante fez a cama para si em um recanto, e fatigada +adormeceu mal a cabeça tocou no travesseiro. <br /> + +<br /> + +Leonor aproximou-se então do espelho, lançou +sobre as espaduas núas um penteador de cassa, e principiou a +desatar as tranças, que, desfeitas, se encresparam em +madeixas negras, envolvendo-a no mais luxuoso véu. Duas +lagrimas, duas perolas, avelludavam-lhe o olhar tocado de branda +ternura, e as pupillas, pretas e languidas, ás quaes aquella +nuvem leve de melancholia toldava um pouco o brilho, levantavam-se +armadas d'aquelle requebro meio tristeza, meio reflexão, que +fala com tanta eloquencia; e prende com tão irresistivel +poder até os mais isentos. A bôcca, pequena e +graciosa, abria aos cantos duas covinhas assetinadas, berços +de lyrios aonde se embuscava a malicia espirituosa, tornando o sorriso +fascinador. Os dentes, ora appareciam finos e eguaes, como fios de +aljofres entre rubis, ora se escondiam, quando a phisionomia tomava a +expressão contemplativa e serena, que era o seu maior +triumpho. O collo esbelto, disputando alvura ás +açucenas, pousava-se com graça; as faces e a +fronte douravam-se d'aquella transparente e mimosa côr, em +que as rosas nascem e desmaiam á mais leve +commoção, radiosa carnação, +que tanto realça a belleza meridional, mesmo quando +não cede ás mulheres do norte a palma dos niveos +encantos. O seio virginal palpitava sobresaltado. A mão +estreita e leve deslaçava impaciente os nós de +fita do justilho; e a estatura elegante e flexivel prestava-se em +ondulações airosas a todos os movimentos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[71]</span> +Um suspiro e um gesto, que exprimiam a tribulação +do animo combatido de +apprehensões, e uma pausa, em que a vista se perdeu pelos +idilios do primeiro amor, revelavam as duas correntes encontradas, com +que luctava áquella hora. O que lhe dizia a ternura filial +repetiam-n'o as lagrimas lentas e silenciosas, vertidas quasi sem as +sentir. O que anciava e assustava a timidez da paixão entre +hesitações e receios, mais fortes que a vontade, +retratava-o a repentina chamma da vista, e o extasis em que o rosto se +transfigurava subitamente, illuminado pelo duplo clarão da +esperança e do pudor. Quem podesse colher n'este instante o +segredo da sua alma só encontraria n'ella duas imagens―a do +pae extremosamente querido, e outra mais viva, mais occulta, e mais +funda ainda, a de Manuel Coutinho, que o pejo quasi encobria de si +mesma, mas que uma ternura invencivel avivava a cada +palpitação do peito! <br /> + +<br /> + +Leonor sentou-se ao bofete no desalinho da meia nudez, dobrou uma folha +de papel, e contemplou-a por momentos com a cabeça entre as +mãos e a vista vaga e esquecida. Depois, meneando a fronte, +como se quizesse sacudir o peso dos cuidados, inclinou-se para a mesa, +soltou a penna sobre o papel, e começou a retratar as +tristezas do captiveiro e os sonhos do coração. <br /> + +<br /> + +Usando do privilegio concedido aos auctores de historias, +tão veridicas como esta, introduzir-nos-hemos n'este ninho +virginal, e por cima do hombro da linda escriptora ao qual o +véu diafano das rendas mais faz sobresaír o +marfim polido e a fórma admiravel, iremos lendo á +medida que ella as escrever, as confidencias, que julga depositar +unicamente no seio da mais discreta e mimosa de suas amigas de +infancia, de D. Marianna de Sousa, +<span class="pagenum">[72]</span> +mais velha um anno, e tambem desterrada com toda a familia para longe +do antigo solar de seus paes em Lisboa. <br /> + +<br /> + +Escutemos a conversação travada a distancia entre +ellas. É de crer que nos diga mais, do que extensos +commentarios ácerca dos principaes personagens, cujas +aventuras emprehendemos esboçar com a fidelidade e escrupulo +proprios de narradores inaccessiveis á fabula e á +lisonja. <br /> + +<h4>Leonor de Azevedo a D. Marianna de Sousa </h4> + +«Minha freirinha!... Deixa-me dar-te mais esta vez ainda o +doce nome da nossa amisade! Escrevo-te das portas de uma +prisão, e talvez, ai! tremo dizel-o! dos primeiros degraus +do cadafalso de meu pae. Realizou-se o que eu tanto receiava. Lagarde +descobriu o nosso asylo. Estamos em suas mãos. Offendi-lhe o +orgulho; é capaz de tudo; e conto com a +vingança promettida. Não me arrependo. No meu +logar, Marianna, farias tu o mesmo, e esperavas resignada a tua +sorte... Se não fosse meu pae, pouco ou nenhum caso faria +d'elle... O despreso até mata a aversão, e de +certo ninguem o despresa tanto, e com mais rasão. <br /> + +<br /> + +«Lagarde veiu a Mafra a um baile que lhe deram. Tentaram-lhe +a cubiça as terras e os vinculos, que hei de herdar, Deus +queira que bem tarde (!), e por desgraça poz os olhos em mim +para enriquecer um parente, que não conheço, que +me não conhece tambem, mas que elle ousou dizer que me +adorava pelo retrato, que lhe fizera de mim... dos bens da minha casa +é mais provavel! Marianna, lês na minha alma, e +bem pódes imaginar o espanto em que fiquei, ouvindo de um +estrangeiro esta proposta, +<span class="pagenum">[73]</span> +que me offendia na ternura filial e no amor proprio... Nem lhe +respondi! Encarei-o, e, levantando-me, deixei-o acabar a ultima +cortezia e o ultimo sorriso deante de uma cadeira vasia. Dizes que me +pareço com meu pae, e que a natureza errou em mim o sexo. +Talvez. Nunca senti tantos desejos de ser homem! Mulher, +senão fosse o mundo!... Ha affrontas, porque choro +amargamente a nossa fraqueza! <br /> + +<br /> + +«Lagarde tem maneiras e grande uso da sociedade. +Não sossobrou com o revés, começando a +girar pelas salas como o convidado mais jovial. Notei que +não tirava a vista de mim, e preparei-me para segunda +instancia. Não tardou. Veiu tirar-me para dançar, +louvou o meu toucado, o meu vestido, a delicadeza das mãos, +a graça e a alvura das rendas; achou-me linda e seductora; +extasiou-se de lhe responder algumas palavras em francez; e falou-me +com enthusiasmo dos elogios que tinham feito da minha voz... +Constrangi-me e escutei-o sem colera, sem impaciencia, mas com aquelle +sorriso que tu dizias ás vezes, que era cortante como fio de +dois gumes. Que remedio! Estavamos em scena, e elle é actor +consumado. Depois, e no fim de tudo, por acanhada e esquerda +não queria deshonrar a nossa educação +do convento, nem dar-lhe motivos para que me tomassem pela provinciana +boçal e nescia, que ao principio cuidára +encontrar... <br /> + +<br /> + +«Acabada a dança, em que te affirmo sem vaidade, +que não envergonhei as lições +do nosso mestre mr. de Lisieux, tão airoso com a sua +cabelleira empoada, casaca direita, e rabequinha de estojo, ao +apartarem-se os pares, convidou-me para darmos um passeio pelas salas. +Inclinei-me, e acceitei-lhe o braço. Démos +algumas voltas, e no meio de uma d'ellas, +<span class="pagenum">[74]</span> +junto de um tremó +carregado de flores, teve o despejo de renovar a supplica, assim lhe +chamou, em ar de riso, porém o tom e a expressão +diziam assaz que era uma ordem. <br /> + +<br /> + +«Ouvi-o estremecendo. Não acreditas a jactancia, a +soberba, e por baixo do verniz das phrases, o modo imperioso, com que +este sultão me atirava o lenço em nome da +felicidade do seu parente, e da minha, em nome da gloria e ornamento +dos bailes de París e das +recepções das Tulherias, que a rosa do occidente +iria realçar com seus encantos!... Contive-me. Subiu-me em +ondas a côr ao rosto. Empallideci depois. Aquelle escarneo +era tão pungente, que me custava a supportal-o, sem lhe +explicar ao menos que o entendia. Mas contive-me, protesto que me +contive a ponto de me saltarem as lagrimas pelos olhos seccos! +Não é possivel exprimir-te o que padeci nos +minutos que durou este supplicio. Foram annos de angustia e de +anciedade! Lagarde, como se adivinhasse, tocava em todas as partes +melindrosas da minha alma e offendia-as. Tornou-se por tal +fórma transparente a ironia, que se me figurava ouvil-o rir +por dentro da eloquencia, que estava gastando em convencer a herdeira +sómente cobiçada, para remir do naufragio a +mocidade tempestuosa d'aquelle sobrinho, arruinado e invisivel, cuja +causa advogava. <br /> + +<br /> + +«Perguntarás, talvez, porque não fiz o +que já tinha feito, porque o não deixei? +Não me atrevi. Meu pae estava perto; Manuel Coutinho tambem; +olhavam para nós, e ao menor signal que me escapasse, +castigavam alli mesmo o insolente! Vê tu o meu enleio e o meu +martyrio! Quando se afastaram, respirei. Podia mostrar a Lagarde, que a +estatua vivia e tinha brios para vingar a dignidade do seu sexo. +Inflammou-se-me a vista com a ira, fitando-a +<span class="pagenum">[75]</span> +n'elle com um desdem tão +altivo e firme que o obriguei a calar-se de repente no meio das +lisonjas impertinentes. Percebi que não esperava tanto, e +que se perturbava. Retirando então o meu braço, +dei dois passos atraz, e medi-o da cabeça aos pés +com aquelle olhar scintillante e frio ao mesmo tempo, que me achaste +duas vezes, e que depois contavas, sorrindo, que era o mais fero e +fulminante olhar, que nunca viras, porque gelava e queimava ao mesmo +tempo. Não sei se foi esse, ou outro peior, o que sei +é que recuou lentamente e quasi pasmado deante d'elle, como +deante da ponta de uma espada; e quando lhe respondi, que preferia a +cella do mais austero convento, a pobreza, a mendicidade +até, á ignominia de me vêr em +leilão na praça, +á vergonha de acceitar o nome de um homem, que nem ao menos +guardava as exterioridades hypocritas de um galanteio, julgando-me +tão pouco que se propunha amar e pedir esposa por terceiro, +vi-o fazer-se branco como a tira da camisa, esconder o sorriso nos +cantos da bôcca, e olhar-me direito e serio como deve +olhar-se para alguem, quando recebemos uma injuria grave. Mas polido, +mesmo na sua colera foi senhor de si, e mordendo os beiços +com tal furia que lhe espirrou o sangue d'elles, cortejou-me, e +retirou-se. Á roda de mim tremiam todos. Eu +levantára a voz, e tinha-o constrangido a curvar a fronte +deante de muitos. Foi o que não me perdoou. <br /> + +<br /> + +«Todas as nossas desgraças datam d'esta noite. +Jurou humilhar-me, mas não o consegue. Livre, ou em ferros, +o desprezo será egual... Antes a clausura, antes a vida +errante que levo ha mezes, antes as estreitezas de uma +prisão, do que a infamia de um laço apertado sem +amor pela avidez! Lagarde não tornou a falar-me. +Sómente poucos dias depois, sahi a +<span class="pagenum">[76]</span> +cavallo, e encontrei-o com Loison, general +maneta, que dizem ainda mais perverso. Pararam para me vêr +passar. Sabes que sou cavalleira, e que um animal fogoso não +me assusta. Montava a Estrella, a egua valida de meu pae, e apenas os +descobri, larguei-lhe a redea, e atravessei como uma seta por meio +d'elles. Saudaram-me, correspondi, e dentro em pouco já +não os avistava. Foi na vespera dos tumultos das Caldas e da +emboscada de Mafra. No dia seguinte, dia de terror e +afflicção para os +habitantes, estava achado o pretexto que havia de manchar de sangue o +poder dos estrangeiros. <br /> + +<br /> + +«O que nos reserva o futuro? Não ignoras quanto +meu pae é altivo e decidido. Se a sua vida dependesse de uma +palavra, de um passo, que reputasse de quebra para a honra, ou para os +brios, preferiria morrer mil vezes... Sei o que elle ha de fazer como +se o estivesse vendo. Ha de dizer a verdade, toda a verdade; ha de +expor-se... Meu Deus! Parte-se-me o coração, e +não tenho animo de cuidar!... Não! +Não! A providencia não o póde +permittir! Marianna!... As lagrimas que estou chorando, a dôr +que padeço são tão +crueis, que ha momentos, em que a razão me foge. E Manuel +Coutinho?! Ainda me assusta mais!... Em sabendo a nossa +prisão... com o seu genio impetuoso e aquella intrepidez de +cavalleiro andante, porque é um verdadeiro paladino perdido +n'estes dias de Junots e Lagardes, é capaz de entrar +só em Santarem para nos arrancar dos ferros á luz +do sol e deante de todos. Não rias?! Não creias +que estou pintando de imaginação um heroe de +novella!... Perguntas-me desde quando o amei, e se foi necessario o +fulgor de Marte para vencer a isenção de Juno!? +Entendo-te! Viras contra mim as palavras, que eu soltava na ingenuidade +do orgulho, quando a inexperiente educanda +<span class="pagenum">[77]</span> +te divertia com seus encarecimentos +de desdem pelas fraquezas apaixonadas. Ouve! Amei-o logo, amei-o com +extremo apenas o vi. Mal nos olhámos, sorrimos, e +conhecemo-nos sem lucta, sem resistencia, sem juras, nem protestos. +Elle sentiu que era meu; eu entreguei-lhe o +coração com tanta confiança, como se +nos tivessemos creado juntos desde a infancia. Marianna!... Se +és a amiga, que eu creio, has de estimal-o tambem, e +approvar a minha escolha. Asseguro-te que o merece. Aquelle rosto nobre +e gentil, mas um pouco triste, é o espelho do seu caracter. +Meu pae, e mais não é facil em +affeições e +elogios, admira-o, e não vê por outros olhos em +muitas cousas. A palavra de Manuel Coutinho, que o não +lisonjeia, que até o contraria em algum dos habitos e +idéas mais arraigadas, vale um juramento para elle. Entre +estes dois affectos, tão doces e acerbos, reparte-se-me a +alma, rasga-se-me em duas, e não ouso dizer-te a ti, a mim +propria, qual é maior, ou mais absoluto!... <br /> + +<br /> + +«Accusas-me de dissimulada?! Não te encobri nada. +Lês nos meus segredos como em livro aberto. Amo, como +não se torna a amar, como não imaginava que +podesse amar-se... Digo-te sem disfarce o que occultaria a outra, e tu +ingrata (!) ainda tens animo de me arguir! ...Lembras-te d'aquellas +nossas madrugadas nas Salesias, entre as rosas e jasmins do jardim, e +os vôos dos passarinhos, que chalreando não nos +deixavam um instante?!... Não tens saudades d'ellas e das +brandas illusões, com que nos embalavamos no meio das flores +d'esses dias tão curtos, ai (!) e tão depressa +desvanecidos?! Com que dôr melancholica e agradavel, os estou +recordando, sobre tudo agora!... Como a esperança nos fazia +palpitar!... Que desejos pueris, que planos impossiveis, que doces +contestações, e que amuos logo esquecidos +<span class="pagenum"><a name="p78">[78]</a></span> +entre dois beijos! O nosso +mundo era tão pequeno, que alli principiava e <a href="#e15">acabava +então</a>!<br /> + +<br /> + +«Meu pae, militar e arrebatado, a rogos meus ficou em casa. +Por vezes o vi ir direito á sua espada, e suspender-se com +os olhos arrazados de agua. O que o prendia era o receio de me deixar +orphã, era a certeza de que se arriscaria sem proveito. Que +dia aquelle, e sobre tudo que noite!... Os francezes em bandos pelas +ruas alvoroçavam a terra com vozes, affrontas, e tiros. Duas +vezes as balas das espingardas vararam as portas das nossas janellas. +Sobre a madrugada appareceu Manuel Coutinho. Vinha pallido e +desfigurado. Nenhum de nós se tinha tambem deitado. Chamou +meu pae de parte, falaram em segredo, e minutos depois, ás +escuras, e sem ruido, fugiamos pelas hortas, e montavamos a cavallo. +Rompia o sol, quando entrámos em Torres Vedras, e +só alli me disseram que a nossa casa estava cercada, e que +Lagarde expedira de Lisboa ordem de prisão contra meu pae. +Não lhe custou a implical-o na devassa, e contava +provavelmente fazer de mim o penhor da sua clemencia... <br /> + +<br /> + +«Desde então trocámos o socego +domestico pela vida attribulada, que ha mezes nos não +consente uma hora de repouso. Acossados, como feras, vagueando de +homizio em homizio, e de solidão em solidão, por +toda a parte a hospitalidade dos que nos accolhiam, não sem +risco, nos foi leal e caridosa. Rodeados de espias, inculcados aos +delatores como presa digna de subido premio, achámos na +bondade rude, mas sincera, dos casaes, corações +de ouro, que nos agazalharam com o maior carinho, e almas compadecidas, +que nos ajudaram a supportar o peso da desgraça. <br /> + +<br /> + +«Os mais pobres foram tão honrados como os ricos. +Ninguem nos trahiu. Perseguidos +<span class="pagenum"><a name="p79">[79]</a></span> +como réos de grandes crimes, +todos os braços se +abriram para nos receber, todas as portas se fecharam cuidadosamente +para nos guardar... Descansámos, por fim, mas á +porta de uma prisão, e nas mãos de inimigos +implacaveis! Meu pae dormia, e nem teve tempo de se defender... +Estimei! Já que havia de ser, foi melhor assim! +Chegámos a tempos em que é delicto até +o valor! Um malvado, cego e venal instrumento de Lagarde, descobriu o +nosso ultimo asylo, e prendeu-nos á +traição... <br /> + +<br /> + +«Com que socegada ignorancia te ouvia eu pintar a vida, que +nos aguardava fóra das grades da nossa prisão +dourada!... Com que vaidade infantil me compadecia das fragilidades das +donzellas, cegas de amor, que tudo arriscam por seguir o eleito da sua +alma!... Castigou-me Deus! Sou mais escrava, mais timida deante da +minha fraqueza, do que nenhuma! A ternura, que sinto por elle +é tão grande, que me quebra a vontade e o +orgulho. <br /> + +<br /> + +«Felizmente adoro um homem digno do meu +coração. Mas se o não fosse! +Marianna! Não me vejas córar, não me +vejas +cobrir o rosto de pejo! Se o não fosse... Perdôa! +hei de ter animo de confessar a verdade, amava-o </a><a href="#e16">do +mesmo</a> modo, sei que o amava tanto, porque mais é +impossivel!... E agora terás dó +de mim?! Falarás ainda da soberba, que me fazia idolo +indifferente a todos os cultos?!... <br /> + +<br /> + +«Cheguei áquelle excesso, em que parece que o +coração não vive +senão do que é de outrem, do que o amor, que +inspira e domina tudo, quer dar-lhe quasi por esmola! A minha luz, +todas as minhas esperanças, todo o futuro, pendem de um +olhar, de um sorriso, de uma palavra d'elle!... Vê como o +préso, e como deixei de ser a mesma!... Ha cinco annos, +quando iamos sentar-nos debaixo das +<span class="pagenum">[80]</span> +madresilvas do caramanchão do +convento, em quanto as nossas amigas passavam, correndo e saltando com +os seus risos descuidados, porque suspiravas tu, e por mais que eu +interrogasse a minha alma, porque a achava sempre muda e +insensivel!?... O que foi que me acordou d'aquelle somno tranquillo, +d'aquella apathia dos sentidos, que só despertam com o +primeiro alvoroço, quando entre jubilos e sobresaltos o +peito começa a agitar-se? Não sei se outras +são assim. Vivo desde que principiei a amar. Até +ahi dormia. Era uma estatua! O meu coração como +que esperava +<em>por elle</em> para se abrir e brotar essa +flor tão mimosa, que um nada queima, tão rara que +uma vez só na vida a sentimos pelo perfume, pela alegria, +pelo esplendor... Desejava ser formosa, ser princeza, ser rainha, ser +tudo, para elle subir, e eu me saber invejada. Que loucuras! +Vê! Agora mesmo estou perguntando, sem querer, ao espelho +baço e empanado da minha prisão, por esta noite +medonha de trovões, se me acha ainda bella?!...» <br /> + +<br /> + +Neste ponto terminavam as confidencias. Leonor nem acabára +de formar as ultimas lettras. Quando, entre o meio sorriso e as rozas +avivadas, de que a travessura da revelação lhe +animára o semblante, ergueu de repente os olhos para o +espelho, a que alludia na carta, pasmou, estremeceu de o vêr +mover-se lentamente com a moldura, e entre-abrir-se como uma porta. +Outra, menos varonil, teria soltado vozes de terror; ella +não. Fez-se pallida, sentiu-se fria, porém +não articulou palavra, nem deixou escapar um grito. De +pé, tremula, com os olhos fitos e algum tanto dilatados pelo +espanto, aguardou a aventura, que esta singularidade lhe promettia. +Não esperou muito. O espelho girou, rangendo um pouco, e +á entrada da passagem occulta, que +<span class="pagenum">[81]</span> +fechava, appareceu uma figura com um +castiçal na mão, avultando á medida +que se adeantava e que a luz mortiça da véla lhe +batia no corpo, desfazendo a escuridade. Era um homem de carne e osso, +e não um fantasma. Podia ser um salteador, um assassino, ou +um indiscreto, não era de certo uma alma penada. A donzella +respirou. Apezar da fortaleza do seu espirito a visão +tinha-lhe paralyzado os membros, e o coração, +pulando descompassado, trahia o susto, que os labios a custo +disfarçavam. O desconhecido trajava de preto, vinha envolto +em um capote de cabeções, e as largas abas do +chapéu enchiam-lhe o rosto de sombras. Quando percebeu que +Leonor o contemplava, levou o dedo á bôcca e +recommendou silencio. No movimento de braço o capote +descobriu os canos luzentes de duas pistolas passadas em um cinto de +couro, e a bainha de uma espada larga e curta. <br /> + +<br /> + +A filha de Paulo de Azevedo deixou-o approximar de si sem denunciar +terror. Só falava com a vista, e desvanecido o primeiro +sobresalto, o que o semblante exprimia era a curiosidade natural, +excitada pela visita, que, por tal modo e a taes deshoras se via +obrigada a receber. O hospede punha entretanto os pés no +sobrado, roto e carunchoso, com tanto resguardo, e pisava com +tão grande subtileza, que os passos eram surdos, como se +caminhasse por cima de lã. Chegando ao pé d'ella, +encarou de perto a formosura intrepida, que sem receio olhava para elle +firme, e um sorriso alegrou a sua physionomia carregada, certo ar de +sincera admiração inculcou que não +contára encontrar tanto valor. <br /> + +<br /> + +―Vejo que não me enganaram! murmurou ao ouvido de Leonor. +Tem mais animo, do que muitos homens. É digna do que +tentâmos para a salvar e a seu pae! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[82]</span> ―Mas quem +é?... D'onde vem?... Como está +aqui?!... perguntou a donzella atropelladamente, mas no mesmo tom +submisso. <br /> + +<br /> + +―Somos tres. Os meus companheiros esperam no fim do corredor, que +desembocca n'esta porta secreta. Pertencemos ao conselho conservador de +Lisboa, soubemos da prisão de seu pae, e seguimos os +milicianos de longe. O lavrador, que traz esta casa de renda, +é nosso, e ensinou o modo de entrarmos aqui. Temos caminho +facil para fugir. <br /> + +<br /> + +―Ah! E Manuel Coutinho veiu tambem?... accudiu Leonor +córando. <br /> + +<br /> + +―Não! Pouco ha de tardar. Está perto, e +mandou-se-lhe recado... Mas os momentos são preciosos. +Não podemos demorar-nos aqui. Quer ir acordar seu pae sem +bulha e dizer-lhe?... <br /> + +<br /> + +―Já! Vou immediatamente. São dois minutos em +quanto volto com elle. <br /> + +<br /> + +―Pois sim. Aqui espero. <br /> + +<br /> + +De feito, instantes depois Leonor tornava com Paulo de Azevedo, e este +apertava silenciosamente a mão ao desconhecido, que lhe +dizia em voz baixa: <br /> + +<br /> + +―Venha! Temos os cavallos promptos e tudo a postos. Simão +da Costa e Nuno do Rio, seus amigos, estão alli dentro, +Manuel Coutinho vem já caminho da Ponte... São +mais de onze horas. Ás duas saímos, se a noite +lhe mette menos medo, que a cadeia de Santarem... <br /> + +<br /> + +―Quando quizer. Para onde?... <br /> + +<br /> + +―Para Lisboa. Para o covil do Lobo. Aonde menos cuidem que +póde estar, ahi será o mais seguro. <br /> + +<br /> + +Paulo inclinou a cabeça e seguiu-o com sua filha. <br /> + +<br /> + +O espelho fechou-se. Quando o sargento veiu não achou nem o +rasto de seus presos.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c8"></a>VIII</h3> + +<h3><br /> + +Entre os bastidores </h3> + +<br /> + +<br /> + +Lá sabemos como Leonor e seu pae conseguiram evadir-se sem +as chaves da prisão saírem do bolso do +carcereiro. Agora cumpre-nos explicar a +resurreição dos mortos na casa maldita, e +esboçar em duas palavras a biographia do intrepido espectro, +que, mascarado em alma do outro mundo para assustar os valorosos +milicianos da comarca, ás ordens do sargento, baqueou das +andas abaixo, transido de pavôr, por achar o defunto, de +pé tendo-o visto entrar em braços dos creados. <br /> + +<br /> + +Nos acontecimentos d'esta infausta noite para os agentes da policia +franceza, o morto-vivo e o espectro medroso representaram um papel, que +os torna dignos de nos demorarmos com elles por algum tempo. <br /> + +<br /> + +Principiemos pelo honrado fazendeiro, cuja desastrada sina choram em +côro as visinhas e as comadres da aldeia. Como o encontramos +de repente são e escorreito com profundo terror dos +sicarios, que se julgavam livres do seu nodoso cajado de marmeleiro? +Que santo obrou o milagre de levantar da sepultura este +<span class="pagenum"><a name="p84">[84]</a></span> +Lazaro de japona para confusão e +ruina dos inimigos? Como dormiu elle no reino das sombras tantas horas, +e só accordou, como ao rebate da trombeta final, com o dobre +fatidico da meia noite, hora fadada a visões, a trasgos e a +feitiços? <br /> + +<br /> + +As tres perguntas são razoaveis, e a curiosidade do leitor +é <a href="#e17">natural</a>. +Desejariamos de bom grado asseverar-lhe, sem faltar á +verdade, que o sabido condão do palacio deserto +fôra o auctor de todos os prodigios, porém somos +obrigados a confessar como sinceros chronistas, que até aqui +o maravilhoso e o sobrenatural só existiram na +imaginação escandecida de alguns dos actores, que +pozemos em scena. Tudo o que passou se explica perfeitamente sem ser +preciso prevalecermo-nos da má +reputação da Casa Negra. <br /> + +<br /> + +Em primeiro logar o Manuel Simões não resurgiu +á sexta hora de entre os mortos, embora padecesse sob o +poder do sargento Cabrinha, porque para resuscitar era necessario estar +morto, e elle nunca chegou a fallecer! A bala do +<em>Sapo</em> roçou-lhe +pela testa, ferindo-o de raspão, e lançando-o por +terra sem sentidos; mas não penetrou na cabeça. <br /> + +<br /> + +Quando vieram as mulheres, e entoaram em roda do seu corpo as nenias +costumadas, principiava elle a voltar a si; e quando o João +da Ventosa se approximou, suando e esbaforido, porque do alto de um +cabeço ouvira o tiro, e dois minutos depois descobrira no +luz-que-fusque o <em>Sapo</em>, correndo em +saltos de +gafanhoto com a espingarda na mão, já achou o +corpulento fazendeiro sentado no chão, muito tonto ainda +como se recolhesse de alguma feira, ou romaria, porém sem +lesão grave, e apalpando escrupulosamente todos os ossos e +costellas. <br /> + +<br /> + +―Ah! Ah! Compadre! gritou o rendeiro +<span class="pagenum">[85]</span> +extendendo a mão ao amigo e +contentissimo de o ter vivo. Com que então os +caçadores andam pelo sitio, e fizeram-lhe alvo da +cabeça? Safa demonio! ajuntou examinando-lhe a fronte mais +de perto. Escapou mesmo por uma unha negra!... O maldito tinha-lhe +vontade, e não queria perder a polvora. Upa!... +Póde vir outra ameixa detraz do vallado, e custar-nos mais a +engulir... Se foi só isso não é +nada. Mas!... <br /> + +<br /> + +―Ainda não foi d'esta, sôr compadre, e se eu +soubesse quem me fez a esmola... com seiscentos milheiros... de +cobras!... Moia-lhe os ossos com este cajado mais moidos que pimenta em +almofariz... Patife! Atirou-me como a um lobo! Ah, sôr +João, vossa mercê acaso +veria quem foi o alma ruim?!... Parece que tenho dentro da +cabeça a mó do moinho a zoar, e que me anda tudo +á roda! Ora esta!... <br /> + +<br /> + +―Olhe compadre, o melhor é mudarmos de pouso; depois +falaremos. Alli em baixo, na fonte, ata um lenço molhado na +cabeça, e +lá em casa lhe diremos o que vimos. Agarre-se a mim, +não tenha vergonha. Forte historia! <br /> + +<br /> + +―Antonio me não chame eu, sôr compadre, se me +ficar inteiro uma semana o ladrão, que me pregou esta bala! +Hei de achal-o, mas que haja de descer vestido e calçado em +busca d'elle aos infernos... <br /> + +<br /> + +―Não será preciso, homem!... Agarra-o +cá em cima sem ir +tão longe. Mas ha de fazer o que eu disser. <br /> + +<br /> + +―Pois vá! Olhe que o dito, dito! Isto não se +leva a rir. <br /> + +<br /> + +―Tem razão, compadre; vamos. Trago cá uma +idéa!... Emfim! O que for soará... <br /> + +<br /> + +Os dois pozeram-se a caminho, porém muito devagar, porque +Manuel Simões de cinco em cinco passos cambaleava com +vertigens, a que chamava nobremente vagados. Era noite fechada, +<span class="pagenum">[86]</span> +quando avistaram a Ponte da Asseca, e +a casa. Chovia e trovejava que mettia mêdo. <br /> + +<br /> + +O João da Ventosa, que em todo o tempo não +soltára palavra, labutando, contava elle depois, com a sua +idéa, virou-se então para o fazendeiro e +disse-lhe que se deitasse e se fingisse morto emquanto ía +chamar os creados. <br /> + +<br /> + +―Que me deite e faça morto, salva tal logar?! Oh +sôr compadre?! exclamou o ferido. E para quê com um +milheiro de cobras?... <br /> + +<br /> + +―Para apanhar a raposa e as gallinhas na capoeira. Você +não sabe, homem!? Não +vê que se quem lhe atirou atinar que perdeu a bala muda-se +com vento fresco, e nunca mais lhe pomos os olhos em cima... +Estire-se-me já n'esse chão, não venha +alguem. Nem trus, nem buz! Pela lingua morre o peixe. <br /> + +<br /> + +―Ora essa!... Sempre tem cousas, este sôr compadre! Com que +então ainda em cima quer que me espoje n'este charco, e que +feche a bôcca a cadeado?... Vá lá! Por +esta +não esperava eu. Arrenego! <br /> + +<br /> + +―Viu pescar á linha sem anzol, sôr casmurro? +Vamos. Esse corpanzil já por terra, e caluda! Não +me demoro. <br /> + +<br /> + +Manuel Simões, resmungando, e praguejando, sempre se foi +deitando no sitio mais enchuto. <br /> + +<br /> + +Minutos depois tornou o compadre com o maioral e o abegão, +em grandes lastimas por tamanha desgraça, e levaram-o por +morto em braços até á cozinha da casa, +aonde o +vieram encontrar, como vimos, os dois assassinos. <br /> + +<br /> + +Os creados, apezar de conhecerem por experiencia a força +herculea do João da Ventosa, benziam-se de que elle tivesse +carregado só com aquelle corpo, tão pesado, desde +a azinhaga, como lhes disséra. Sentiam os braços +derreados só de o trazerem de tão perto! <br /> + +<br /> + +O lavrador mandou accender fogo, e pôr +<span class="pagenum">[87]</span> +agua ao lume; pediu um alentado cangirão +de vinho, uma tigela de assucar mascavado, e chamou de parte a tia +Margarida, ministro feminino de todas as +repartições domesticas da granja, para lhe +confiar o occorrido, exigindo o maior segredo. A velha esconjurou-se, +louvou a Deus pelo milagre visivel, e saíu, trotando e +rosnando, para fazer a cama ao fazendeiro em um vão escuro, +e desviar da cozinha a vista e as orelhas dos curiosos. <br /> + +<br /> + +Seguiu-se um entre-acto bacchico, durante o qual a agua quente e o +assucar serviram de pretexto ao vinho, o qual representou a parte +principal. Estava já menos de meio o cangirão, +quando a voz esganiçada de José Vardasca, +diabrete de quinze annos, sobrinho do rendeiro, em +altercação com o contralto enrouquecido da tia +Margarida, obrigou os dois campeões a suspender as +hostilidades. Manuel Simões amarrou o lenço +manchado de sangue á roda da testa, de modo que lhe cobrisse +a cara, e extendeu-se sobre a mesa de pedra. Um feixe de palha +serviu-lhe de cabeceira, e uma manta cobriu-o até aos +pés. <br /> + +<br /> + +Ensaiada assim a peça, João da Ventosa abriu a +porta, e com um―Olá!―que fez tremer as paredes, poz termo +ao dueto da velha e do rapaz. <br /> + +<br /> + +José Vardasca não vinha só. +Acompanhava tres sujeitos, envoltos em capotes de baetão +grosso de gola alta, cobertos com sombreiros de abas derrubadas, os +quaes esperavam fóra da porta, no escuro, que elle +désse ao tio o seu recado. <br /> + +<br /> + +Ao que parece os viajantes eram conhecidos do rendeiro, porque apenas o +rapaz lhe disse, quasi ao ouvido, algumas palavras, este correu sem +chapéu apezar da chuva, e encaminhou-se para elles. Ninguem +ouviu o que falaram, mas os creados viram desapparecer o +<span class="pagenum">[88]</span> +amo e os hospedes por detraz do muro da horta, e +recolher-se passado um pedaço o João da Ventosa +só, em ar de quem se não tinha cansado com o +passeio. As conjecturas dos servos não foram adeante. +Cuidaram que elle saíra a metter os tres +embuçados no atalho da azinhaga, e se acaso se admiraram +foi, sendo tão largo e generoso, de lhes não ter +dado agasalho em sua casa por uma noite, em que a agua era tanta, +diziam os rusticos, que a podiam os cães beber de +pé! <br /> + +<br /> + +Mas o lavrador sabia melhor do que elles o que fazia. E nós, +que não somos de segredos, e que não receiamos +que a policia dos francezes nos tome contas em 1864, das +conspirações de 1808, não duvidaremos +revelar as razões do seu procedimento. <br /> + +<br /> + +<a name="n3"></a>Os tres sujeitos eram nada menos do +que tres delegados do conselho +conservador de Lisboa, associação composta de +patriotas +dedicados á restauração da +independencia e do throno legitimo, e decididos a todos os sacrificios +para arrojarem da sua terra os soldados de Bonaparte. Tinham atado +relações em todo o Ribatejo com os homens que +podiam ajudal-os em seu arriscado proposito, e haviam partido dias +antes da capital para se reunirem em Santarem com Manuel Coutinho e +alguns cavalheiros do Sardoal, Leiria, Pernes e Rio Maior, no intento +de assoprarem de mais perto a irritação popular, +e de irem dispondo os animos para a sublevação +geral, que meditavam, apenas as cousas lhes proporcionassem ensejo +favoravel. <br /> + +<br /> + +João da Ventosa, assim como o Manuel da Cruz, e outros +visinhos, iniciados em parte do plano, executavam com cega fidelidade +todas as ordens emanadas d'este governo occulto e revolucionario, que +na ausencia da familia real, e em presença do jugo +estrangeiro, +<span class="pagenum">[89]</span> +representava para elles a +unica e verdadeira auctoridade do paiz. <br /> + +<br /> + +O rendeiro, pois, assim que os tres desconhecidos lhe repetiram as +palavras, que serviam de senha aos amigos da liberdade―pelo rei e pela +patria―largou tudo, e offereceu-se logo para o que mandassem com a +maior submissão. <br /> + +<br /> + +A reputação diabolica da Casa Negra, guardava-a +por tal modo da curiosidade, que nenhum refugio mais seguro podiam +encontrar os conspiradores, não só para +pernoitar, mas afim de celebrarem as conferencias. Explicaram os seus +desejos ao lavrador, e este, que o medo dos fantasmas não +vexava, guiou-os pela horta a uma entrada secreta, +disfarçada com um tapume de tábuas, e +introduziu-os nas salas e aposentos do primeiro andar do palacio. +Accendeu luz com o fuzil, ensinou-lhes alguns dos segredos dos quartos +e corredores, e prometteu trazer-lhes vinho e refrescos. <br /> + +<br /> + +A chegada do sargento e dos presos, espertando a +imaginação do malicioso rendeiro, e a +coincidencia de abrigar debaixo do mesmo tecto a victima e os +assassinos, suscitou-lhe a idéa de salvar Paulo de Azevedo e +sua filha das garras dos agentes de Lagarde, castigando ao mesmo tempo +a perversidade de Cabrinha e do seu acolyto. Avisou os delegados do +conselho de Lisboa, ajustou com elles a maneira de fazer evadir o +cavalheiro de Mafra e Leonor, condemnou o fazendeiro á +immobilidade, assegurando-lhe em premio da sua paciencia as delicias da +vingança, e para não omittir nenhum episodio +distribuiu ao travesso José Vardasca o papel conspicuo de +phantasma branco, marcando a todos a meia noite, como a hora mais +opportuna para o feliz exito do drama. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[90]</span> +Sabemos qual foi o resultado. Os milicianos fugindo, o +<em>Sapo</em> correndo +até perder o folego, e o sargento estatelado sem sentidos no +meio da cozinha! O que se tornou mais difficil foi calar os berros do +intrepido José Vardasca, assombrado com a vista do +fazendeiro, e convencel-o de que não estava com um defunto, +mas com um homem vivo e inteiro. O rapaz não se rendeu +á evidencia, senão +depois que viu e apalpou como S. Thomé. <br /> + +<br /> + +O sargento, cujos ossos ameaçou por umas poucas de vezes o +cajado, ou antes a clava de Manuel Simões, e que o +João da Ventosa +não trabalhou pouco por salvar ainda d'esta vez, o sargento, +desmaiado e inerte, foi levado para cima de um catre e vigiado por um +dos moços com ordem de chamar o lavrador assim que abrisse +os olhos. O fazendeiro da Aramanha, mal rompia a aurora, tomando o +conselho do compadre, montou n'uma egua, e partiu para casa a +descançar, não sem primeiro rezar um responso +ás costellas do virtuoso Cabrinha e ao pescoço de +Gaspar Preto, aonde quer que os encontrasse. <br /> + +<br /> + +O sargento esteve duas horas sem accordo. Quando voltou a si +não via senão fantasmas em redor da cama. Custou +a socegal-o. <br /> + +<br /> + +O que mais abalára aquella alma seraphica fôra a +fuga dos seus presos! Não podia conceber como lhe tivessem +escapado, e na sua dor pharisaica arrepellava as melenas, e blasphemava +como um possesso, jurando contra Satanaz, contra a Casa Maldita, e +contra si. Mesmo de noite quiz saír. Pediu o cavallo, outro +espectro na transparencia e magreza, e cravando-lhe as esporas voou a +Santarem, talvez na esperança de ainda pôr a +mão +em cima da presa. <br /> + +<br /> + +Voltemos agora á Azenha de Cima, aonde deixámos +Manuel Coutinho e o Antonio da +<span class="pagenum">[91]</span> +Cruz, +esperando pelas horas mortas da noite afim de emprehenderem a campanha +planeada por ambos. <br /> + +<br /> + +Apezar da chuva caudal e dos relampagos, o moço do moinho, +garoto leve como um ginete, que via de noite como os gatos, e era capaz +de entrar pela bôcca de uma manilha, tinha sido mandado pelo +amo á descoberta até á Casa Negra com +ordem expressa de +não se deixar agarrar, e de espreitar em roda com a sua +curiosidade habitual. O rapaz partiu a correr, como se a agua lhe +não batesse em cima ás torrentes, e uma hora +depois voltava com a noticia de que os presos estavam na Casa Maldita, +de que o sargento, o +<em>Sapo</em>, e os milicianos ceiavam +regaladamente com o João da Ventosa, e de que o corpo do +Manuel Simões fôra recolhido pelo lavrador, e +jazia com uma véla aos pés e outra á +cabeceira +na mesma cozinha, aonde o beleguim emerito e seus sequazes se estavam +banqueteando. <br /> + +<br /> + +Em toda esta chronica, narrada pelo moço com incrivel +volubilidade, o que mais socegou o animo de Antonio da Cruz foi a +certeza, de que o cadaver do fazendeiro da Aramanha não +desapparecêra, como se dizia, por artes do demonio. Estava +prompto a medir-se e a arcar com uma companhia inteira de milicias, mas +o inimigo do genero humano tremia só de cuidar que poderia +encontrar-se com elle um só instante! <br /> + +<br /> + +―Ah José! disse depois de certa pausa. Então o +sôr João da Ventosa é que levantou o +corpo do Manuel e o levou para casa?... Estás bem certo? +Viste?... <br /> + +<br /> + +―Com estes dois que ha de comer a terra, respondeu elle, fazendo uma +cruz com os dedos, e beijando-a. Assim me Deus salve a minha alma. Ah +patrão, que +<em>diluivo</em> de agua que +<span class="pagenum">[92]</span> +vae por ahi abaixo! Parece que quer alagar-se +hoje o mundo. Credo!... <br /> + +<br /> + +―É verdade! accudiu o moleiro. Vens um pinto... Vamos! Que +tal te sabia um trago, ou dois de agua pé, ein? A roupa +não te pesa e estás tiritando que parece que te +apanhou uma sezão... <br /> + +<br /> + +O liquido medido com largueza pagou os trabalhos do moço, e +o amo despediu-o logo depois, em quanto Manuel Coutinho passeiava de um +lado para o outro inquieto e murmurando por entre dentes algumas +palavras. <br /> + +<br /> + +―Antonio! observou o mancebo, parando de repente defronte do moleiro, +e encarando-o firme. Atreves-te a ires commigo á Casa Negra, +para enxotarmos de lá o sargento e a sua quadrilha? Elles +são oito, ou nove, mas nós dois bem armados e +decididos?!...<br /> + +<br /> + +―Valemos por dez ou doze. Vá feito, senhor! A espingarda +é de dois canos e a choupa está amolada... V. +s.<sup>a</sup> quer a outra espingarda? É um +instante em +quanto se +carrega? <br /> + +<br /> + +―Não!... Sim!... Carrega! Guardarei as pistolas e a espada +para o fim se for preciso. <br /> + +<br /> + +―Quer que vamos já?... Sinto uns formigueiros n'este +braço, que não me deixam senão quando +assentar em cheio duas boas lambadas nas costas do sargento e na +cabeça d'aquelle alma ruim do +<em>Sapo</em>... <br /> + +<br /> + +―Não as perdem, mas espera!... Que bebam até +caír. Nós os faremos erguer. Podes +fumar homem! <br /> + +<br /> + +―Com sua licença. <br /> + +<br /> + +O dialogo acabou aqui. Manuel Coutinho sentou-se com a +cabeça entre os punhos e os cotovellos na mesa, scismando, e +o Antonio poz-se com todo o vagar a carregar e escorvar a espingarda. +Depois foi ver as mós se tinham grão, abriu o +ladrão da presa, e quando tornou, veiu encontrar ainda o +patrão na mesma +<span class="pagenum">[93]</span> +posição com o relogio deante de si e os olhos +cravados nos ponteiros. <br /> + +<br /> + +―Agora! exclamou o mancebo levantando-se com impeto. É meia +noite! Esperam por nós. Vamos! E cobrindo-se com a manta, +que o Antonio extendera a enxugar ao lume, passou as pistolas no cinto, +apertou o boldrié da espada mais alto, e pegou na +espingarda. <br /> + +<br /> + +O moleiro ainda se apromptou mais depressa. Enrolou-se na manta, cobriu +com ella a coronha e os fechos da clavina, metteu-a debaixo do +braço esquerdo, e empunhou com a mão direita o +inseparavel varapau rematado pela choupa. No momento, em que estava +dando volta á chave da porta um immenso clarão +livido abriu os céus, o outeiro +illuminou-se de fulgores sinistros, e a casa tremeu com a terra ao +ribombo do trovão perpendicular. Apezar da sua intrepidez os +dois recuaram quasi assombrados até ao meio do aposento: +Santa Barbara! bradou o Antonio benzendo-se. Jesus! clamou o amo ao +mesmo tempo. Ficaram immoveis ambos olhando um para o outro. <br /> + +<br /> + +―Deixemos passar a maior, senhor! disse d'ahi a instantes o vigoroso +aldeão. Ella anda mesmo por cima da nossa +cabeça... <br /> + +<br /> + +―Pois sim. Deixemos! redarguiu Manuel Coutinho sentando-se no banco +defronte da porta. <br /> + +<br /> + +Minutos depois outro relampago menor allumiou o campo, e á +luz d'elle viram vir correndo ennovellado direito ao moinho um vulto, +que mais parecia na velocidade um furacão, do que um homem. <br /> + +<br /> + +―Oh lá! disse em voz cheia o moleiro. Castelhanos por aqui +á meia noite?! Quem temos? É bom vêr +sempre!... <br /> + +<br /> + +Não teve tempo para mais, do que para se desviar, extender o +braço, e segurar pela golla +<span class="pagenum">[94]</span> +o impetuoso vulto, tão cego na partida, que se elle +não se arreda a tempo, colhe-o pelos peitos, despedido como +uma bala de canhão, e atira-o ao chão, porque +trazia força para +arrombar portas e paredes. <br /> + +<br /> + +―Ah, sô amigo, aonde vamos com tanta pressa? exclamou o +Antonio, o qual affeito a apanhar na praça os bois de cara, +amarrava ao limiar com o vigoroso pulso o desconhecido, que, estafado e +convulso, estacou arquejante e sem poder falar. <br /> + +<br /> + +Manuel Coutinho, callado e quasi indifferente, havia-se approximado da +porta, e contemplava a scena, como quem só desejava, que +ella se não prolongasse. Antonio da Cruz adivinhou a +impaciencia do mancebo, e voltando-se para elle disse-lhe: <br /> + +<br /> + +―É um instantinho, meu amo! Entretanto amaina mais a +chuva... mas nadar por estas horas com mouros na costa, nada!... Vamos, +patrão, desate-me já a lingua, como desatava as +pernas pelo cabeço arriba, e diga para ahi quem +é, e o que faz correndo por esta linda noite até +á porta da gente de bem!... Vamos, desembuche, +senão!... <br /> + +<br /> + +―Sou... Sou... <br /> + +<br /> + +―É! É... Quem? Cousa boa, não +decerto. Com a breca! Entre que lhe queremos ver o focinho á +candeia. Melros ás escuras podem saír +morcegos!... <br /> + +<br /> + +E ao mesmo passo arrastava para dentro da cozinha o vulto, que +escorrendo em agua, e cortado de frio e medo, nem lhe resistia, nem +tinha animo para articular palavra. Apenas lhe metteu a luz ao rosto, o +moleiro, fitando-o, voou de um salto á porta, fechou-a, e +voltando-se para Manuel Coutinho, disse-lhe com um riso amarello: <br /> + +<br /> + +―Aposto que v. s.<sup>a</sup> não é +capaz de +adivinhar +<span class="pagenum">[95]</span> +quem o diabo nos trouxe por aqui? Sabe +quem é este cara de fuinha?... <br /> + +<br /> + +―Nunca o vi. Não o conheço. <br /> + +<br /> + +―Pois olhe que perde!... Isto é o maior heroe cá +dos sitios... Nem mais nem menos, do que o sôr Gaspar Preto, +por alcunha o +<em>Sapo</em>!... <br /> + +<br /> + +―O <em>Sapo</em>? Já te ouvi esse +nome... Será?!... <br /> + +<br /> + +―O maior ladrão e traidor da cafila dos jacobinos... Oh, +mas por aqui a esta hora, não é natural! O +sargento Cabrinha não anda longe, aposto!... Este velhaco +é o seu braço direito... <br /> + +<br /> + +―Percebo!... bradou o mancebo, deitando tambem a mão ao +<em>Sapo</em>, e +saccudindo-o de modo, que se repetisse, ameaçava +desconjuntal-o. Antonio! Não o deixes escapar! Foi Deus que +o trouxe... <br /> + +<br /> + +―Deus?!... Antes o demonio, cujo é!... Não +importa. Veiu por guloso? Pagará as dividas que tem na minha +conta. Se havia de ser ámanhã é hoje. +Gaspar! Toma sentido! Se não me respondes direito, por alma +de minha mãe te juro, e sabes que nunca jurei em +vão, que deixas aqui a pelle pelos nós d'essa +corda, ou os ossos na vara do meu cajado... <br /> + +<br /> + +―Sôr Antonio, por quem é!... <br /> + +<br /> + +―Por quem sou mesmo. Prometti, e costumo cumprir. <br /> + +<br /> + +―Nunca lhe fiz mal... <br /> + +<br /> + +―Hum! Nem bem!... Vamos! Cabeça alta e lingua solta. D'onde +vens? <br /> + +<br /> + +―Da Casa Negra, aonde appareceu o demonio ao sargento, a mim, e aos +milicianos. <br /> + +<br /> + +―Ah! Ah! accudiu Manuel Coutinho. Deixa-me perguntar. Este fio +póde levar-nos longe. <br /> + +<br /> + +Interrogado pelo mancebo, entre o pavor dos espectros e o medo das +ameaças de Antonio da Cruz, Gaspar Preto fez uma +confissão geral tão sincera, que até o +segredo do tiro dado +em Manuel Simões lhe saltou quasi todo da bôcca +sem se sentir. O pavor ensandecia-o. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[96]</span> ―E affirmas +não estar já ninguem na casa, +senão os presos? <br /> + +<br /> + +―Ninguem, a todos os vi fugir, como lebres... <br /> + +<br /> + +―E o sargento? <br /> + +<br /> + +―Desappareceu. Foi o primeiro. <br /> + +<br /> + +―Bem! Agora nós! atalhou o moleiro. O que vinhas tu aqui +cheirar ante-hontem? Se disseres a verdade não te toco. <br /> + +<br /> + +―Eu!... Eu!... <br /> + +<br /> + +―Tu sim! <br /> + +<br /> + +―Vinha ver... se havia gente de fóra por cá!... +redarguiu o malsim contido pelo olhar firme de Antonio, e estorcendo-se +como se lhe estivessem dando tratos. <br /> + +<br /> + +―Ora graças a Deus! Já confessas!... Vinhas +então como espia! +Está bom. Outra pergunta. Quem foi ao Casal do Ouro? +Fala!... <br /> + +<br /> + +―Eu!... Suspirou tremulo o miseravel. <br /> + +<br /> + +―Quem te mandou? <br /> + +<br /> + +―O sargento... Que eu por mim!... <br /> + +<br /> + +―Bem sei. Vamos a outra historia. Esta tarde deram um tiro no Manuel +Simões?... Vê bem! Quem foi? Olha lá se +mentes!... <br /> + +<br /> + +Gaspar sentiu dobrarem-se-lhe os joelhos, fugir-lhe a vista, e +zumbirem-lhe os ouvidos. Esbugalhou os olhos, e por mais que quizesse +não poude pronunciar uma syllaba. <br /> + +<br /> + +―Quem deu o tiro, quero saber! repetiu o moleiro, meneando o varapau e +encarando o assassino com terrivel gesto. <br /> + +<br /> + +―Não sei... Não sei... <br /> + +<br /> + +―Sabes e viste. Essa cara de réo o está +confessando. Fala. Quem foi? <br /> + +<br /> + +―Eu!... por descuido... <br /> + +<br /> + +―Descuidos teus, já sei. É o que suppunha. Agora +vê lá!... O sargento não te tinha +dito nada?... <br /> + +<br /> + +Houve uma pausa longa. O <em>Sapo</em> +chorava, supplicava, mas não redarguia á +interrogação. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[97]</span> ―V. s.<sup>a</sup> +já viu esmagar uma osga +contra uma parede? +bradou +o Antonio fuzilando-lhe as pupillas, e convulso de cholera. Pois vae +ver. Juro-lhe, se este cão se cala um minuto, que deixa os +miolos n'aquelle muro. <br /> + +<br /> + +―Pelo amor de Deus!... Sôr Antonio não me deite a +perder!... <br /> + +<br /> + +―O sargento sabia?... replicou o outro alçando o cajado. <br /> + +<br /> + +―Jesus!... Não me mate! <br /> + +<br /> + +―Sabia ou não?... <br /> + +<br /> + +―Sabia!... rosnou o malsim quasi sem sentidos de terror. <br /> + +<br /> + +―Quanto te prometteu... pelo tiro? Conheço-te. Tu de +graça não o disparavas. <br /> + +<br /> + +―Agora isso não! Póde matar-me, mas +não confesso. <br /> + +<br /> + +―Eu matar-te?... Para que? O carrasco não come +pão de graça. <br /> + +<br /> + +―Então entrega-me?!... <br /> + +<br /> + +―Com anginhos nos dedos e ferros aos pés. Juro-te! Dize a +verdade, homem. Do mal o menos. Quanto te prometteu? Olha que a corda, +que ha de pendurar-te na forca, já está fiada e +torcida... <br /> + +<br /> + +―Se eu disser não me descobre? <br /> + +<br /> + +―Não! O teu crime te descobrirá. Quanto? <br /> + +<br /> + +―Seis moedas... <br /> + +<br /> + +―Por conta, ou ao todo? <br /> + +<br /> + +―Por conta. As outras seis... havia dar-m'as em Lisboa... quando +levassemos os presos. <br /> + +<br /> + +―Ah! Agora repara. Vamos ás nossas contas. Gaspar, devo-te +uma sova mestra pelo natal passado e outra por este entrudo. Bem te has +de lembrar por quê!... Mas perdôo-te, tudo, e +até no tiro dado em Manuel Simões não +hei de boquejar... se juras fazer ao sargento o que elle te mandou +fazer aos outros... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[98]</span> ―Matal-o?!... +exclamou o <em>Sapo</em>, cuja +vista feroz se inflammou. <br /> + +<br /> + +―Não, maldito! A justiça que o mate, quando o +sentencear! <br /> + +<br /> + +―Então?!... <br /> + +<br /> + +―Quero que vejas, que ouças, e que me digas tudo quanto +elle fizer? Percebeste? <br /> + +<br /> + +―Sim senhor... <br /> + +<br /> + +―Vê lá. Se te escorrega um pé, ou a +lingua, e eu o sei... guarda-te! <br /> + +<br /> + +―Não ha de ter razão de queixa. Sou-lhe muito +obrigado. <br /> + +<br /> + +―Não me dês mel pelos beiços, que +não sou abelha. Cuidado commigo. Depois!... <br /> + +<br /> + +―Já lhe disse. Fique descançado. <br /> + +<br /> + +―Fico, fico! Não tem duvida. Agora vens comnosco +á Casa Negra. <br /> + +<br /> + +―Oh, sôr Antonio, por alma de sua mãe, pela sua +boa sorte, tudo quanto mandar, menos isso... Sirvo-o de rastos, estou +prompto a lamber o chão aonde pozer os pés, mas +tornar alli... isso não! <br /> + +<br /> + +―Ah! Tens medo do diabo?... <br /> + +<br /> + +―Mate-me, entregue-me, faça de mim o que quizer, mas +não volto lá. <br /> + +<br /> + +E as feições repulsivas do malsim exprimiam por +tal modo o medo e o espanto, e revelavam uma +resolução tão decidida de se expor +a tudo para não obedecer, que Manuel Coutinho disse algumas +palavras ao ouvido de Antonio da Cruz. <br /> + +<br /> + +―Pois bem, esperarás por nós. Ahi te deixo agua +pé e brôa. Mas sentido! Olha que te quero +encontrar á volta!... Forte homem! Ter pavor assim de almas +do outro mundo!... <br /> + +<br /> + +―Ah! sôr Antonio! Se você visse!... O fantasma +branco alto como um cypreste crescer para si, e o defunto sentar-se de +repente e olhar... Ai Jesus! Parece que os estou +<span class="pagenum">[99]</span> +vendo ainda! Quando me lembro cuido que +enlouqueço!... <br /> + +<br /> + +―Está bom! Está bom! Até logo! Com +que viste o defunto e o fantasma?... insistia o moleiro serio e +apprehensivo, olhando para o amo com certo enleio. <br /> + +<br /> + +―Como o estou vendo a você, sôr Antonio. Credo!... +<br /> + +<br /> + +Manuel Coutinho encolheu os hombros, conchegou o capote e +saíu. O Antonio não teve mais remedio +senão seguil-o, mas apezar de todo o seu valor benzeu-se, e +o coração batia-lhe mais rijo no peito, do que se +visse um touro partir contra elle enfurecido.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c9"></a>IX</h3> + +<h3><br /> + +Que talvez podesse servir de prologo </h3> + +<br /> + +<br /> + +Deixemos descançar por um pouco os heroes d'esta mui +veridica historia, em quanto corremos rapidamente os olhos pelos +successos, de que a Peninsula foi theatro n'este periodo memoravel. <br /> + +<br /> + +Sem um resumido esboço, dos factos, que servem de fundo e de +moldura ao quadro, difficilmente formará o leitor exacta +idéa d'elle. <br /> + +<br /> + +Os francezes, como dissemos, tinham atravessado as provincias, e +entrado na capital com o nome de amigos. Retirando-se com a esquadra +para o Brazil, o principe regente entregára em suas +mãos o reino sem defeza. As ultimas ordens de sua alteza, +datadas de 26 de novembro de 1807, ordens pacificas e conciliadoras, +abrindo-lhes as fronteiras, ajudaram mais, que as armas, os generaes de +Bonaparte a superar os obstaculos da invasão. <br /> + +<br /> + +Junot confessou-o nas primeiras proclamações! A +obediencia, tão elogiada por elle, e dictada pelas +circumstancias, ainda não encerrava os ressentimentos, que +tornaram depois vacillante e precario o dominio estrangeiro. <br /> + +<br /> + +O regimen absoluto, que as reformas do +<span class="pagenum">[101]</span> +marquez de Pombal não conseguiram +remoçar, adoecia de incuravel decrepidez. <a name="n4"></a>Muitos +homens +illustrados, que o grandioso espectaculo dos acontecimentos advertia, +suspiravam por uma renovação, que não +podia nunca +ser inspirada, bem o sabiam elles por experiencia, nem pelas +idéas, nem pela iniciativa de um governo caduco. <br /> + +<br /> + +Esta illusão de animos generosos durou pouco. Os que amavam +sinceramente a patria depressa se desenganaram da vaidade das promessas +dos conquistadores. <br /> + +<br /> + +Estes, apenas se reputaram seguros, arrancaram a mascara, e pozeram +termo ás complacencias. Assim que viu reunidos e repousados +os corpos dispersos por longas e precipitadas marchas; assim que os +soldados lhe pareceram restaurados da fome, das inclemencias da +estação, +e da aspereza do transito o general em chefe cançou-se de +dissimular, falando com a altivez de vencedor aos que o tinham recebido +como hospede! <br /> + +<br /> + +Foi então geral o sobresalto. Os actos despoticos e +oppressivos dir-se-íam calculados para irritar o ciume e o +amor proprio do paiz. As guardas de Lisboa confiadas só aos +francezes; o emprestimo forçado imposto ao commercio com o +praso de vinte dias; a insolencia do famoso decreto de Milão +condemnando como sujeito a resgate o reino que não +fôra conquistado; as armas reaes picadas do +frontão dos edificios publicos; e a bandeira nacional +arriada no castello e nas fortalezas, e substituida pelos estandartes +tricolores, foram outros tantos erros dos dominadores, que a saudade da +independencia registrou como ultrajes. <br /> + +<br /> + +Desde o dia 13 de dezembro, em que Junot rodeado de pompas guerreiras, +mandára baixar o pavilhão das quinas deante das +aguias +<span class="pagenum">[102]</span> +do Sena, nunca mais houve paz +entre a nação offendida e os invasores. A luva +ficou desd'esse dia no chão por falta de chefe, que a +levantasse; porém, decorridos mezes, Portugal erguia-se para +responder á provocação, +envidando valor egual aos brios. <br /> + +<br /> + +Atraz da occupação da pequena monarchia, que o +orgulho do gabinete de Saint Cloud estava ainda longe de suppor, que +podesse tornar-se em breve um dos inimigos implacaveis de sua +ambição, pouco se dilatou a +invasão de toda a Hespanha. Assignando o tractado de +Fontainebleau, que repartia os membros de Portugal entre os Bourbons, +os francezes, e o principe da Paz, auctorizando a entrada de quarenta +mil soldados em seus dominios, Carlos IV não percebeu que +firmava a propria abdicação. <br /> + +<br /> + +Bonaparte anciava um pretexto para realizar os seus designios. +Deram-lh'o os enredos aulicos, o nucleo de descontentes, de que se +rodeava o principe das Asturias, depois Fernando VII, e a má +vontade de todas as classes contra o ministro omnipotente, valido do +monarcha e amante da rainha; deram-lh'o egualmente a miseria, a +inquietação, a decadencia geral, e o +presentimento de immensas catastrophes. <br /> + +<br /> + +As dissensões da côrte, filhas da lucta do +herdeiro da corôa com os soberanos e com o privado, D. Miguel +de Godoy, e a indiscreta revelação dos aggravos +reciprocos, levada ao tribunal do imperador, para este sentenciar como +arbitro a familia real, ajoelhada a seus pés, facilitaram a +occasião appetecida por +Napoleão I, precipitando a queda do ministro entre +violencias e tumultos, coagindo a abdicação +de Carlos IV, e apressando a saída de Fernando VII para +Bayona. <br /> + +<br /> + +Vendo por terra o diadema dos Bourbons +<span class="pagenum">[103]</span> +de Hespanha Bonaparte não o restituiu +a Carlos IV, nem a Fernando VII, cingiu-o na fronte de seu +irmão, o rei de Naples, escolhido para reinar entre +bayonetas sobre a monarchia de Izabel a Catholica. Os principes +despojados resignaram-se, mas a Hespanha protestou. Madrid insurgida +deu o exemplo. Murat cuidou suffocar a sublevação +pelo terror dos supplicios. Illudiu-se. O sangue vertido na capital em +2 de maio tornou irreconciliavel a nova conquista com o imperio. A +nação respondeu aos canhões, aos +fuzis, e ás execuções militares com a +resolução indomita, que as adversidades +confortam, e os triumphos exaltam. <br /> + +<br /> + +A ira fez soldados os habitantes da Peninsula. O odio da +servidão resuscitou os dias de Viriato e de Sertorio. Cada +rochedo, cada tronco, de +arvore, cada balsa escondeu um inimigo; e para repellir os oppressores +até os velhos saccudiam os gelos da edade como mancebos, e +as crianças pelejavam como homens. Por um, que expirava, +erguiam-se mil. N'esta nova seára de Cadmo o ferro, tocando +a terra, levantava legiões de heroes. O chão +fugia debaixo +dos pés aos veteranos da Italia e do Egypto, e a espada dos +marechaes, quebrada sem gloria, ameaçava em vão +as fragas de um territorio, que, alastrado de cadaveres, e abrazado +pelas armas e pelos incendios, até cuspia de si os ossos do +estrangeiro, negando-lhes a paz do tumulo! <br /> + +<br /> + +Oviedo, a antiga e venerada côrte das Asturias, recordando, +que suas montanhas tinham sido berço e asylo da +renascença +christã, alçou ousada o seu estandarte. Cadix e +Sevilha acompanharam-n'a. Granada e Valencia insurgiram-se logo depois. +Toledo, Santander de Biscaya, Saragoça, Tortosa, e Galliza, +não ficaram atraz. Dentro em pouco os esquadrões +<span class="pagenum">[104]</span> +francezes, encanecidos nas +luctas d'esta epocha de prodigios, já não +chamavam seu mais do que ao terreno aonde combatiam. <br /> + +<br /> + +As juntas de salvação e defeza, á +medida que as terras se iam sublevando, exprimiam o seu pensamento de +porfiada resistencia. Filhas legitimas da +revolução, os revezes e os sacrificios +não as desanimavam. Diversas e oppostas muitas vezes no +caracter e nos costumes, nenhuma trahiu o seu juramento. Preferindo +para mortalha da Hespanha os muros voados e as torres arrazadas das +praças de guerra e das antigas cidades, todas rejeitaram a +clemencia injuriosa, que lhes promettia o perdão em troca do +soberbo dominio a que a Europa quasi inteira curvava então a +cerviz. <br /> + +<br /> + +Os successos correram como a impaciencia dos contendores. <br /> + +<br /> + +A invasão, que talára a provincia de Granada, +derrotadas por Castaños as tropas imperiaes, foi obrigada a +retroceder. A capitulação de Bailen quebrou o +prestigio das legiões invenciveis. Os francezes, acossados +de posto em posto, tiveram de evacuar Madrid, e recuando deante do +impeto da nação armada, só +pararam ás margens do Ebro. Os capitães mais +ousados aprendiam, finalmente, a conhecer, que vale mais o +esforço de um povo unanime, do que a espada feliz do mais do +maior homem de armas. <br /> + +<br /> + +A junta central de Aranjuez, composta de deputados de todas as +provincias, constituiu-se como representante de Fernando VII, captivo +em Valençay, e assumiu a suprema +direcção, conferida pelas necessidades e o +heroismo pelo paiz. A Inglaterra, senhora por tanto tempo do sceptro +dos mares, disputando a Napoleão em todos os campos de +batalha a primazia no continente, ouviu de repente os clamores dos +descendentes de Pelaio, e +<span class="pagenum">[105]</span> +contemplando o arrojo, com que elles se atreviam contra o poder que +desmaiava os monarchas mais poderosos, estremeceu de jubilo, e saudou +n'este commettimento audaz a aurora do dia de Waterloo. <br /> + +<br /> + +Em Portugal, apezar de não ser menos vivo e intenso o odio, +não foi tão prompta a +explosão. Mas a chamma, por calar debaixo de cinzas, +não rompeu por isso com menor violencia. <br /> + +<br /> + +No dia 5 de fevereiro de 1808, na occasião, em que as +auctoridades francezas se reputavam mais firmes, reuniram-se +encobertamente em Lisboa seis homens, que nenhuma +distincção hierarchica apontava para chefes, mas +que a firmeza da vontade e o despreso dos perigos recommendam ao louvor +da posteridade. Chamavam-se Matheus Augusto, José Maximo +Pinto da Fonseca Rangel, José Carlos de Figueiredo, Antonio +Gonçalves Pereira e André da Ponte de Quental da +Camera. Juraram na presença de Deus empregar as +forças, os bens, e a vida com fervor até +conseguirem restituir ao principe regente, a sua corôa, e +á patria o seu esplendor e liberdade. <br /> + +<br /> + +Juntavam-se ás oito horas da noite alternadamente uns em +casa dos outros, e desde logo se occuparam de minar o chão +debaixo dos passos dos invasores, descobrindo no meio do seu cortejo os +illudidos e os coactos para os descriminar dos vendidos e traidores, e +sondando o animo dos officiaes militares, dos magistrados, e dos +ecclesiasticos para indagar a sua disposição, +apurando aquelles com que podia contar. <br /> + +<br /> + +Esboçada a conspiração, e protegida +por inviolavel segredo, principiaram os primeiros conjurados a attrahir +outros, engrossando o numero dos cumplices. Á policia, +regida por Lagarde, chegaram cedo os echos d'esta empreza, +<span class="pagenum">[106]</span> +que, tomando corpo á +proporção +que os acontecimentos caminhavam, era já na primavera de +1808 uma verdadeira potencia, fortificada pelos votos concordes do +patriotismo portuguez, e pela coadjuvação de +valiosos auxiliares recrutados nas fileiras do exercito nacional, nas +casas mais illustres da fidalguia, e nas classes respeitadas do clero, +da toga, e do commercio. <br /> + +<br /> + +Quando Junot embarcou em virtude da capitulação +de Cintra, só os cabeças de bando, +representantes, perante o Conselho Conservador, da multidão +dos adherentes, excediam de <em>cento e +oitenta</em>, e os homens, de +que podiam dispor, não baixavam de tres, ou quatro mil, com +sete peças de artilheria, 370 cavallos do regimento da Luz, +e da guarda real da policia, 112 officiaes avulsos, e 710 bayonetas! <br /> + +<br /> + +Saltemos agora as semanas, que nos separam dos meiados de junho de +1808, e observemos o estado das cousas já bastante alterado +no curto espaço de sete mezes. <br /> + +<br /> + +Determinára a Providencia que do excesso dos males, que +flagellaram a Peninsula se gerassem as causas, de que primeiro renasceu +a independencia, e depois a liberdade. As scenas de Bayona, e a +repressão cruel dos tumultos de Madrid despertaram a +Hespanha do somno, em que a falsa alliança dos francezes a +embalava. Badajoz sublevou-se a par de outras terras importantes no dia +30 de maio, e á sua voz principiou a provincia do Alemtejo a +agitar-se. Ao norte a Galliza, com os bellos portos do Ferrol e da +Corunha, e a sua população briosa e accumulada, +não +hesitou egualmente em saccudir o jugo. <br /> + +<br /> + +Os dez mil hespanhoes aquartelados no Porto, que depois da morte do +general Taranco obedeciam ao marechal de campo D. +<span class="pagenum">[107]</span> +Domingos Ballesta, receberam ordem da junta +para recolherem, aprisionando o general Quesnel, governador militar da +cidade, e todos os officiaes e soldados, de que podessem apoderar-se. <br /> + +<br /> + +Ballesta executou a ordem, e chamando as auctoridades da segunda +capital do reino, perguntou-lhes, antes de partir, por quem se +decidiam? Pela patria, responderam alguns. <br /> + +<br /> + +O castello de S. João da Foz, de que era major Raymundo +José Pinheiro, arvorou a bandeira portugueza, e a +guarnição communicou com o brigue inglez +<em>Eclipse</em>, o qual +esperava os acontecimentos, cruzando proximo da costa. O povo +não se moveu. A +occasião ainda não estava madura. <br /> + +<br /> + +Os timidos conselhos do brigadeiro Luiz de Oliveira prevaleceram. O +Porto tornou a submetter-se ao governo de Napoleão I. <br /> + +<br /> + +A 9 de julho chegou a Lisboa a noticia da +insurreição das tropas hespanholas e da +prisão de Quesnel. <br /> + +<br /> + +O perigo eminente estimulou o duque de Abrantes. <br /> + +<br /> + +A divisão Caraffa, composta de seis batalhões de +infanteria, de um regimento de cavallaria, e de algumas baterias de +artilheria, ardia em desejos de imitar seus irmãos de armas, +provocada pelos emissarios expedidos a toda a pressa de Sevilha e +Badajoz. Junot antecipou-se. Vinte e quatro horas depois os soldados de +Fernando VII, presos e desarmados, embarcavam para bordo dos +pontões francezes, e sómente poucas companhias do +regimento de Murcia e alguns hussards do Maria Luiza conseguiam +escapar-se. <br /> + +<br /> + +Por meio d'este golpe ousado o general em chefe, retaliando as +hostilidades dos patriotas, soube refrear a tempo as impaciencias e a +animosidade dos habitantes irritados. Loison +<span class="pagenum"><a name="p108">[108]</a></span> +saíu a 17 de Almeida sobre o +Porto com a sua columna, afim de se oppor ás tentativas da +Junta de Galliza, e a 20 passava o Douro no Pezo da Regua. Mas o dia +das iras populares tinha alvorecido. Rodeado por todas as partes de +inimigos invisiveis, que fuzilavam suas tropas por traz das vinhas e +dos rochedos, pendurados sobre a corrente torva e arrebatada do rio, +volveu já sobre a noite ao Pezo da Regua, e tornou a vadear +o Douro para a outra margem, abençoando a +precipitação boçal dos camponezes, que +o salvára quasi por milagre de uma ruina completa. <br /> + +<br /> + +O Minho e Traz os Montes, sublevadas em massa, acabavam de empunhar as +armas, proclamando a independencia. Mais alguns passos de Loison +além de Mesãofrio, mais prudencia e calculo da +parte dos aggressores, e a columna franceza encontrava a sepultura +n'aquelles penhascos e desfiladeiros immortalizados pela sua derrota! <br /> + +<br /> + +Em quanto Junot quebrava por um lance audacioso a espada nas +mãos dos batalhões de Caraffa, Manuel Jorge Gomes +Sepulveda, tenente general, e governador militar do norte, em edade +provecta, acclamava a restauração da dynastia de +Bragança, e era seguido pelas terras mais notaveis das duas +provincias. <br /> + +<br /> + +No dia 18 a revolução rebentou no Porto, e no dia +19 foi <a href="#e18">nomeada</a> a +primeira junta portugueza, cujo papel havia de ser tão +importante nos successos, que se precipitavam. Coimbra Pombal, e Leiria +seguiram o exemplo do Porto, e a insurreição +crescendo e alargando-se, batia pouco depois ás portas de +Lisboa, ameaçando o dominio estrangeiro, tanto pelo lado do +norte, como pelo lado do sul. Desde os Algarves até Evora e +Beja levantou-se o mesmo grito de exterminio correspondido por milhares +de vozes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[109]</span> +Antes de combater a insurreição a ferro, o duque +de Abrantes chamou em seu auxilio o braço ecclesiastico, +convidando-o a fulminar as populações armadas. <br /> + +<br /> + +Uma pastoral do cabido patriarchal representou como crime e peccado +inexpiavel a resistencia ao grande e invencivel Napoleão, +declarando a culpa sujeita a excommunhão maior sem prejuizo +das penas temporaes. Esta profanação sacrilega +serviu só de +aviltar aos olhos do paiz os ministros do altar, que não se +envergonhavam de offerecer o incenso do templo e o beijo de Judas +contra a liberdade á vontade despotica dos oppressores. Os +raios mal forjados nas sacristias caíram frios e inermes +deante da resolução e da perseverança +dos que pelejavam pela patria, e a famosa +proclamação ao Divino, despresada como merecia, +não roubou ás fileiras nacionaes um só +defensor. <br /> + +<br /> + +A resposta de Bonaparte em Bayona á +deputação portugueza foi mais eloquente para +fazer de nós soldados, do que as excommunhões +dictadas no quartel general francez. O imperador, julgando a +occupação de Portugal legitima depois da partida +da familia de Bragança, tractava o pequeno reino desamparado +com os rigores devidos a uma colonia ingleza! <br /> + +<br /> + +Era a sua idéa e a sua politica. Pouco lhe importavam o amor +e a confiança dos novos subditos. Não os temia +nem o preoccupava o que havia de dispor afinal ácerca do seu +destino. Junot, que os conhecia melhor, tinha procurado attrahil-os, e +chegára a linsongear-se com a esperança de os +adormecer a ponto de lhes riscar da memoria as saudades da dynastia e +da independencia. A obediencia imposta pela força +afigurava-se-lhe esquecimento, e nos seus officios ao ministro da +guerra o +<span class="pagenum"><a name="p110">[110]</a></span> +governador de Paris traduzia os +vivas venaes da plebe ao sabor dos seus desejos, pintando a +nação tranquilla, submissa, e satisfeita. A +explosão das provincias e os murmurios da capital vieram +depressa acordal-o d'este sonho! <br /> + +<br /> + +Olhou. Não viu em volta de si, senão odios mal +reprimidos, ou adhesões falliveis e compradas. A pobreza e a +miseria, filhas do bloqueio, que paralysava o commercio, tornavam ainda +mais critica a sua posição. O cambio do papel +moeda subira a 31 e a 32 por cento; o pão custava 75 +réis o arratel. A carestia dos generos, tornando a vida +difficil e dolorosa para as classes indigentes, aggravava o +descontentamento geral. A Junta dos Tres Estados, reunida para pedir um +rei a Napoleão, proporcionou ao juiz do povo José +de Abreu Campos, a occasião appetecida de manifestar os +verdadeiros sentimentos do paiz, desenganando o duque de Abrantes, de +que se achava só e detestado com o seu exercito no meio de +populações hostis, que suspiravam pela hora de +restaurar a liberdade e o throno de seus principes. <br /> + +<br /> + +No mez de junho estavam dissipadas todas as illusões. +Admirado do arrojo com que paizanos quasi sem defeza se arriscavam ao +encontro de legiões aguerridas, Junot exclamava: +«Portuguezes! Que delirio é o vosso? Em que abysmo +de males vos despenhaes? Ao cabo de <a href="#e19">sete</a> +mezes de paz e +harmonia, porque razão correis ás +armas?» Concluindo com +a lei marcial, ameaçava as villas e cidades com o saque e o +incendio, e os cidadãos com a morte! <br /> + +<br /> + +Se estivesse mais lembrado da sua juventude deveria recordar-se do modo +por que a França respondêra heroicamente aos que +lhe apontaram a espada ao peito dizendo o mesmo.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c10"></a>X </h3> + +<h3><br /> + +Tolda-se o tempo </h3> + +<br /> + +<br /> + +Transportemo-nos um pouco antes dos successos esboçados nas +paginas antecedentes aos paços da +inquisição, situados no Rocio +de Lisboa, aonde hoje ergue o seu frontão votado +ás Musas o theatro de D. Maria II. Em algumas das salas e +aposentos do antigo palacio dos Estáos, restaurado pelo +marquez de Pombal, assentou Lagarde as +repartições da policia geral do reino. Era justo! +Ao lado do santo officio da fé o santo officio da +usurpação. As duas +inquisições fraternalmente hospedadas uma a par +da outra não podiam offender-se do acaso que as unia! +Soldados da guarda real da policia, corpo fundado e disciplinado pelo +conde de Novion, emigrado francez que as victorias de Bonaparte e a +invasão de 1807 lançaram outra vez nos +braços dos seus compatriotas, guardavam as portas de +fóra, ou de espadas em punho vigiavam os corredores e +camaras, que precediam o quarto reservado aonde o proconsul se +encerrava com os seus confidentes.<br /> + +<br /> + +<a name="n5"></a>Deixemos passar esses vultos, que +pisam os +<span class="pagenum">[112]</span> +sobrados nas pontas dos pés, escorregando quasi como +sombras. São rodas secundarias da machina. O olhar enviezado +e inquieto, o rosto meio escondido na dobra do capote, e a humildade +rasteira denunciam, sem necessidade de mais exame, os delatores +obscuros, ou os agentes provocadores, destacados nas ruas e +praças, ou nas tavernas para escutar e repetir os clamores +de indignação das +multidões. Esperemos que algum personagem de elevada +gerarchia appareça, e nos introduza no gabinete discreto e +só accessivel a poucos eleitos, aonde o magistrado +estrangeiro conta as pulsações +do coração de Portugal, e segue com a vista fria +e penetrante os estremecimentos de cholera, ou de impaciencia do paiz, +cançado da oppressão e envergonhado do silencio, +em que a supporta ha sete mezes! <br /> + +<br /> + +O general Junot, governador de Paris, entra pelo braço do +conde da Ega, seguido de seus ajudantes de campo. O ministro Herman, +encarregado dos negocios do reino e da fazenda, ex-commissario +imperial, não se demora atraz d'elle. Lunyt, secretario +d'estado da marinha e da guerra já os tinha precedido. A +concorrencia de taes pessoas inculca acontecimento notavel, e +é de crer que o conselho se não separe sem que +alguma providencia venha esclarecer o segredo dos ultimos dias e dos +ultimos sucessos. Quem nos abrirá caminho até ao +famoso reposteiro, que deante da entrada da sala vedada representa para +os profanos o papel de véu de Pythagoras? As sentinellas, +immoveis como estatuas, velam fieis ás ordens recebidas. Os +porteiros, em ar protector, ou mysterioso, despedem os pretendentes e +os importunos. Um cordão de empregados corta á +curiosidade todos os passos. Gritou-se, porém ás +armas. O uniforme de um official superior reluz na extremidade +de extenso +<span class="pagenum">[113]</span> +corredor. Os +subalternos inclinam-se profundamente, e respondem em voz submissa +ás perguntas imperiosas, que lhes dirige. Acompanhemos este +iniciado. É o capitão de mar e guerra Magendie, +commandante da marinha. Seguindo-o, temos a certeza de não +encontrar obstaculos. <br /> + +<br /> + +Quando o recem-chegado franziu o reposteiro de panno escarlate orlado +de branco, no meio do qual campêa uma aguia azul colossal, e +empurrou de leve um dos batentes da porta, a discussão +já se havia travado, segundo parecia, menos placida, do que +promettiam os annos e auctoridade dos diversos membros do governo, +sentados á roda da comprida mesa, coberta de couro, e +cingida até ao chão de um rodapé de +tela encarnada. A mesa occupava o centro da casa. Junot, facil de +conhecer pela estatura, boa presença, e garbo do porte, +achava-se em pé junto da cabeceira, com o rosto inflammado, +e a mão no punho da espada. Lagarde, á sua +esquerda, analyzava com o olhar prescrutador todas as physionomias, +traçando com a penna sobre uma folha de papel algumas +palavras soltas. Pallido, ou antes livido, retratava no rosto a astucia +unida á expressão repulsiva de um cynismo cruel e +glacial. <br /> + +<br /> + +Herman, á direita do general em chefe, sereno, aprazivel, e +delicado, com um lapis entre os dedos enfeitados de anneis, justificava +ao primeiro volver de olhos a reputação de +melindre e de primor, merecida desde que se estreára na +carreira publica exercendo as funcções de consul +em Portugal. Vestia em todo o apuro da moda do seu tempo. Casaca de +lemiste talhada á franceza com botões de metal e +golla alta, collete branco aberto, que deixava sobresaír a +finissima cambraia da camisa e da tira engommadas em pregas +miudissimas, calções de seda, meia a estalar na +<span class="pagenum">[114]</span> +perna, sapatos e fivelas de ouro cravejadas. +Um espadim curto de bainha dourada pendia-lhe da cinta, e uma caixa de +rapé, mais preciosa pelo lavor, do que pela qualidade, +aberta a seu lado, e consultada a miudo pelos dedos distrahidos de +Junot, recommendava-se pela admiravel miniatura, cercada de aljofres, +que lhe ornava a tampa. <br /> + +<br /> + +O conde da Ega, cuja intimidade no quartel general do largo do +Quintella as murmurações populares explicavam de +um modo pouco airoso, e que dias depois havia de substituir o Principal +Castro na pasta da justiça, escutava de pé, e com +mostras de não pequeno sobresalto, talvez provocado pelo +desassocego da consciencia, a leitura nasal, lenta, e accentuada, que +Lunyt secretario de estado continuava sem mudar de tom, estudando de +vez em quando por baixo dos oculos de ouro o effeito produzido no animo +dos ouvintes. <br /> + +<br /> + +A entrada de Magendie, accolhida por uma +exclamação de alegria do duque de Abrantes, por +uma cortezia de Herman entre dois sorrisos, e por um gesto de +urbanidade de Lagarde, foi como o signal da explosão +até ahi contida das paixões e receios mal +reprimidos. Todos diriam que o Conselho aguardava a sua chegada para +arrancar a mascara, que o suffocava, dando largas á +expressão sincera dos verdadeiros sentimentos. <br /> + +<br /> + +―Bem vindo, capitão Magendie! A sua demora fazia-nos temer +que faltasse. O aviso chegou-lhe tarde?... <br /> + +<br /> + +―Não foi o aviso, general! Mas a esquadra de sir Carlos +Cotton appareceu outra vez á barra, e julguei prudente ir a +bordo das fragatas <em>Carlota</em> e +<em>Benjamin</em>... <br /> + +<br /> + +―E então?! interrompeu Lunyt, pondo de parte o papel que +lia, e encarando o capitão de mar e guerra. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[115]</span> ―Fosquinhas por +ora! respondeu este encolhendo os hombros. +Entretanto... <br /> + +<br /> + +―Podem encobrir planos de hostilidade? atalhou Herman, sorvendo com +pausa uma pitada, e dispersando depois com um piparote os +grãos que tinham saltado sobre a tira alvissima da camisa. <br /> + +<br /> + +―É possivel. Os inglezes animados pela +sublevação dos hespanhoes, meditam desembarques +na peninsula, accudiu Lagarde em ar grave. <br /> + +<br /> + +―Veremos se em terra são felizes como no mar! observou o +conde da Ega. <br /> + +<br /> + +―Mesmo no mar, redarguiu Magendie, espero que não +hão de forçar-nos a barra sem deixarem nos +escolhos um par de navios. Temos de observação +entre as torres a fragata <em>Graça +Phenix</em> e mais dois +vasos de alto bordo, artilhados, mas incapazes de navegar; em Belem +estão fundeadas tres charruas... <br /> + +<br /> + +―Bem! Bem! tornou Junot. Duvido que rocem as barbas pela +bôcca de nossos canhões, Magendie! +Oxalá que todas as tempestades nos viessem só do +mar... O peior de tudo, senhores, é que o chão +treme debaixo dos pés, e... <br /> + +<br /> + +―Que a traição vela á nossa +cabeceira? Notou Lunyt, limpando os vidros dos oculos, e falando no +mesmo tom lento e nasal, com que lia. <br /> + +<br /> + +―É verdade, Lagarde! Conspira-se, trama-se, e +não nos dizieis nada!... <br /> + +<br /> + +―Para que? Quando uma nação inteira +está conjurada, general, a policia passa, vê, e +dissimula. Prisões e devassas, de que serviriam, +senão de a irritar mais? Descobrir o que ella quer, +tirar-lhe os pretextos, e escolher a occasião de ferir a +muitos de uma vez pelo terror do mesmo golpe, eis o segredo dos que +sabem dominar. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[116]</span> ―Sim! Bem sei! +É a theoria de Fouchet, do duque de +Otranto!... <br /> + +<br /> + +―E para este caso a unica aproveitavel. O que diria o sr. conde da +Ega, tão nosso amigo... <br /> + +<br /> + +―Eu!... Pois eu!... <br /> + +<br /> + +―Se lhe mettessemos no castello, ou nas torres dez, ou doze parentes +de toga, e de espada, que estão conspirando a esta hora +mesmo contra o governo de sua magestade o imperador e rei?!... +proseguiu o intendente com o seu riso agudo e estridulo, similhante ao +som do córte de uma serra. <br /> + +<br /> + +―Ah! Os parentes do sr. conde de Ega tambem são contra +nós?!... notou Junot vagarosamente. <br /> + +<br /> + +―E os da senhora condessa ainda mais!... observou Lagarde trespassando +o general com a vista afiada e ironica. <br /> + +<br /> + +Uma nuvem escureceu a fronte do duque de Abrantes. Aquella seta viera +cravar-se-lhe direita no peito. O guerreiro destemido, coroado tantas +vezes pela victoria no meio de proezas heroicas, era accusado de +excessiva sensibilidade perante o bello sexo; e a formosa condessa da +Ega, segundo se dizia, graças a seus enlevos e encantos, +tinha conseguido tornal-o escravo do menor de seus caprichos. <br /> + +<br /> + +O general inclinou a cabeça, correu os dedos pela fronte +annuviada, como se quizesse saccudir com o gesto pensamentos +importunos, e, sem responder á allusão, +levantou-se, e deu +alguns passos pela casa, talvez para ter tempo de se assenhorear de si, +vencendo a commoção. Os olhos dos outros vogaes +do conselho fitaram-se no semblante do conde da Ega por um movimento +irresistivel. Sem resultado! Ayres de Saldanha, por calculo, ou por +ignorancia, não denunciava na physionomia, senão +a +indifferença apathica, prova real da mais virtuosa +<span class="pagenum">[117]</span> +confiança. Herman e Lagarde +trocaram um sorriso fino, que não abonava a sua credulidade +na innocencia apparente do fidalgo portuguez. <br /> + +<br /> + +N'este momento a mão de um ajudante de ordens arredou as +prégas do pesado reposteiro, e sem proferir palavra entregou +a Junot dois maços cuidadosamente lacrados. O duque +recebeu-os tambem calado, e veiu sentar-se na ampla cadeira de +braços, d'onde se erguêra minutos antes. Emquanto +rompia o sobrescripto do primeiro, e corria os olhos pelo volumoso +officio, era facil notar no seu rosto, de ordinario sereno e intrepido, +a apprehensão causada por noticias desagradaveis. Antes de +passar á leitura do segundo maço, e de lhe rasgar +a capa, os que o conheciam assustaram-se, apercebendo-se de certa +hesitação momentanea, notavel em caracter +tão firme, porque seguramente inculcava mais do que +sobresalto, ou torvação. Ao mesmo tempo recebia +Lagarde um papel fechado, que não lhe causava menor cuidado, +do que os dois officios ao general. Houve um minuto, ou dois de +profundo e ancioso silencio. <br /> + +<br /> + +―Nome de Deus! exclamou o duque de Abrantes incapaz de conter as +paixões, e amarrotando irado o papel. Verifica-se o que +sempre prognostiquei. Não me quizeram attender, decidiram +tudo em Paris sem entender nada, e agora cá estamos +nós para carregar com o peso de todas as culpas!... Quantas +vezes os avisei e lhes disse a verdade! Deram finalmente aos inglezes o +campo de batalha porque tanto suspiravam; não contentes +fizeram suas alliadas duas nações inteiras. +Veremos agora como desatam o nó! <br /> + +<br /> + +E recostando os cotovellos na mesa, e a cabeça entre as +mãos, sem fazer caso do espanto +<span class="pagenum">[118]</span> +excitado pelas suas phrases, abysmou-se em +sombria meditação. <br /> + +<br /> + +―O que é? O que succedeu?... perguntava o conde da Ega a +Herman. <br /> + +<br /> + +―Pouco viverá quem o não souber! redarguiu o +malicioso diplomata, encolhendo os hombros. Rapaziadas dos portuguezes, +aposto!... <br /> + +<br /> + +―Mais do que rapaziadas, senhor Herman! atalhou o intendente geral da +policia, que de livido se tornára verde, cujas pupillas +chammejavam, cujo sorriso era uma contorsão diabolica. +Estamos sobre um vulcão. <br /> + +<br /> + +―Apagado! replicou o ministro do reino inalteravel. Esta gente de +Lisboa não é para emprezas altas. Queixa-se com +saudades, fala, ameaça, mas por fim faz-se d'ella o que se +quer. Em lhes não tocando nos seus lausperennes, nos seus +frades, e nas suas procissões, todos andam mansos como +borregos... Estes não me mettem medo a mim; +oxalá!... <br /> + +<br /> + +―Medo! accudiu Junot, levantando-se de um pulo, com o rosto incendido, +e os olhos scintillantes! Medo! Quem fala em medo!? Para enxotar como +um rebanho de ovelhas toda essa plebe, toda essa espuma... basta o meu +cavallo e o meu chicote!... <br /> + +<br /> + +―Nem tanto, senhor duque! observou Magendie. Os portuguezes +são homens e soldados. Mais de uma vez o têem +provado. Perguntae aos hespanhoes... e ao senhor conde da Ega, que +hão de conhecel-os. <br /> + +<br /> + +Herman sorriu-se. O conde parecia petreficado. A injuria do general em +chefe feria-o no rosto como golpe de mão aberta. O +coração indignado convidava-o a repellil-a, +porém o servilismo tapava-lhe a bôcca. +Não acertava com o que fizesse. Calado deshonrava-se; +falando arriscava-se... Calou-se! <br /> + +<br /> + +Junot caíu depressa em si. O seu animo era +<span class="pagenum">[119]</span> +generoso, embora cedesse aos impetos do sangue, +facil de inflammar, provocando paroxismos de cholera, que os seus +intimos deploravam, porque frisavam quasi por loucura frenetica. As +palavras de Magendie advertiram-n'o. Recuperando-se da embriaguez da +raiva, volveu ás maneiras cultas e urbanas, que tantas +affeições lhe grangeavam, mesmo entre os +adversarios. <br /> + +<br /> + +―Senhor capitão Magendie, a plebe não +é a nação. Os portuguezes +são para +muito; pena é que não os soubessem aproveitar, em +quanto era tempo!... O erro não o commetti eu. Este povo +é bom, generoso, e paciente... Podiamos, deviamos ajudal-o a +regenerar-se... Preferimos tractal-o como vencido, e fazer d'elle um +inimigo!... Paciencia! Colheremos os fructos que semeámos. +Lagarde! Herman! Magendie! Vamos ter a guerra!... O segundo acto da +tragedia começa em Portugal. A Hespanha deu-nos o +primeiro... Loison escapou milagrosamente aos montanhezes sublevados no +Marão, em Amarante, e em Chaves!... <br /> + +<br /> + +―Se escapou é o essencial! Os bandos populares sem +cabeça depressa se dispersam. Observou Lagarde. <br /> + +<br /> + +―É verdade. Mas o chefe existe. Manuel Gomes de Sepulveda +acclamou em Traz-os-Montes o principe regente... <br /> + +<br /> + +―Um velho de mais de oitenta annos, tropego, e quasi cego!?... accudiu +Lunyt sorrindo. <br /> + +<br /> + +―Acrescentae, porém, velho mas habil general, valente, e +adorado!... As provincias do norte estão, ou +estarão todas em armas dentro de oito dias. Miranda, Villa +Real, Moncorvo, e Guimarães já o seguiram, ou +vão +seguil-o... <br /> + +<br /> + +―Temos o Porto, e em quanto for nosso, +<span class="pagenum">[120]</span> +facilmente daremos a mão aos nossos exercitos de Hespanha, +interrompeu Herman. <br /> + +<br /> + +―O Porto!... Lêde!... E passando o officio ao ministro do +reino, Junot, em quanto este o lia a meia voz aos collegas, passeiava +agitado, medindo a sala em todo o comprimento. <br /> + +<br /> + +―O Porto? É tarde! já não lhe +accudimos. Hoje, ou ámanhã subleva-se, e +dá o +exemplo. Coimbra não se demora. Contae com ella insurgida. +Não nos lisongeemos com illusões... <br /> + +<br /> + +―O mal, comtudo, não é irremediavel! Sejamos +fortes! exclamou Magendie. As nossas tropas devem ter vencido em +Hespanha, e... <br /> + +<br /> + +―As nossas tropas não venceram, foram vencidas! Tornou o +general em chefe sombrio, e mordendo os beiços. A fortuna +vira-nos as costas. As divisões aguerridas recuam sobre o +Ebro. O rei José saíu de Madrid. Estamos +sós e +sem retirada no meio de um reino irritado e adverso... <br /> + +<br /> + +―Ah! disse Herman empallidecendo. N'esse caso a partida é +arriscada. Não a julgo, +porém, perdida. <br /> + +<br /> + +―Nem eu! Mas contemos um pouco, se nos apraz, com os inglezes. Em +Gibraltar acha-se sir Hew Dalrymple com o corpo do general Spenser. Em +Cork, na Irlanda, vão embarcar nove mil soldados. A esquadra +de sir Charles Cotton anda cruzando deante da foz do Douro, e das +bahias do Tejo e do Mondego. De um instante para outro podemos ter de +pelejar com o povo e com as tropas do rei George... N'esse caso!... <br /> + +<br /> + +―Ameaça-nos a capitulação de Dupont +em Bailen?!... accudiu Lagarde, batendo com o punho cerrado sobre a +mesa. Oh!... <br /> + +<br /> + +―Nunca!... Pelo menos em quanto eu viver! exclamou Junot com um gesto +admiravel de firmeza. Luctaremos! A derrota não é +menos gloriosa, que o triumpho, quando o +<span class="pagenum">[121]</span> +campo de batalha proclama o heroismo dos vencidos... Poderemos ao menos +contar com a obediencia de Lisboa? A capital em nosso poder +póde ser ao mesmo tempo segura base de +operações, e precioso penhor para o +infortunio. Lagarde! Chegou o momento. Respondeis pela tranquillidade +de Lisboa?... <br /> + +<br /> + +Houve um momento de silencio. O intendente geral da policia, atalhado, +olhava para o papel, que lhe tinham trazido, e conservava ainda aberto, +e para o general, e hesitava. <br /> + +<br /> + +―Que nova desgraça nos ameaça!? accudiu o duque +arrebatado. Hoje é o dia das fatalidades? Falae! Estou +preparado para tudo. Que dizeis de Lisboa?... <br /> + +<br /> + +―Que respondo por ella, como por mim!... balbuciou Lagarde tremulo. <br /> + +<br /> + +Bem! Não é preciso mais. Dás-nos a +alavanca de Archimedes!... <br /> + +<br /> + +―Só depois de ámanhã em deante!... +concluiu o intendente engasgado, e convulso. <br /> + +<br /> + +―Ah! E hoje porque não?! exclamou Junot, que os revezes +pareciam reanimar á medida que se accumulavam. Nome de Deus! +Não sois medroso. Conheço-vos! Esse papel +trouxe-vos a cabeça de Medusa? Que segredo terrivel encerra? +Vamos! Vencei a consternação, e dizei-nos o que +ha. O peior perigo, é o perigo encoberto. Quero saber! <br /> + +<br /> + +E o duque de Abrantes assentou-se com a fronte erguida, os olhos +brilhantes, e um sorriso intrepido nos labios. Era assim que elle +costumava affrontar a morte nas batalhas. <br /> + +<br /> + +Lagarde principiou em voz baixa a leitura. Era o plano de uma +revolução traçada +para rebentar no dia seguinte depois da procissão do Corpo +de Deus. <br /> + +<br /> + +Os auctores d'este commettimento, todos membros do Conselho Conservador +de Lisboa, tinham sido denunciados á policia em differentes +<span class="pagenum"><a name="p122">[122]</a></span> +occasiões, mas +poupados como conspiradores theoricos e inoffensivos. A ousadia do +trama excedia, porém, d'esta vez quanto podia prever-se de +audaz e decidido. O rompimento havia de começar de tarde, +ás seis horas, muito depois de concluida a festa religiosa. +Junot devia ser preso no caminho do palacio de Anadia para o Rato, as +guardas do Rocio, do Terreiro do Paço, de S. Domingos, de +Santa Clara, e do quartel general, atacadas e desarmadas, e o Castello +rendido por assalto, ou por algum artificio de guerra. As tropas +francezas privadas do seu chefe, e surprehendidas, seriam obrigadas a +depor as armas em virtude das ordens dictadas ao duque de Abrantes +pelos seus carcereiros. O povo e os soldados portuguezes coadjuvariam a +revolta occupando as ruas e as praças. <br /> + +<br /> + +O assombro dos vogaes do governo durante a +communicação, que acabâmos de +resumir, custaria a descrever. A gravidade das physionomias tornou-se +mesmo tão solemne, que ia degenerando quasi em comica. O +unico ouvinte desassombrado e de sangue frio era o duque de Abrantes. A +idéa de se ver colhido ao anoitecer no seu transito +costumado pelos cumplices do Conselho Conservador, affigurou-se-lhe por +tal modo absurda, que, recostado no espaldar da cadeira, desatou o riso +em frouxos, suspendendo a leitura, e desengatilhando de sua +expressão severa o rosto dos que a sua hilaridade +não admirava menos, do que o plano de +sublevação forjado para a capital. <br /> + +<br /> + +―Admiravel! Sublime!... clamava Junot estorcendo-se entre risadas. +Parece-me <a href="#e20">que os</a> estou +vendo d'aqui a esses illustres +conspiradores de rabicho e samarra, decidindo á pluralidade +de votos o theor das ordens, que hei de escrever depois de +prisioneiro!... Mas +<span class="pagenum">[123]</span> +é +um entremez puro o que esta boa gente imaginou: art.º +1.º O general Junot será +apprehendido, e ao mesmo tempo as guardas do Terreiro do +Paço e do Rocio!... art.º 2.º (porque o +não puzeram tambem?) O presente decreto será +registado nos livros da chancellaria da Junta Provisoria! Excellente! +Deixae-me rir, Lagarde. Sois um homem unico para desterrar tristezas. <br /> + +<br /> + +Herman, Lunyt, e o intendente olhavam uns para os outros, pasmados, e +não sabiam se deviam conservar-se serios, ou imitar o +general. Magendie, militar e resoluto, ria a ponto de lhe saltarem as +lagrimas dos olhos. O plano peccava pela ingenuidade. Os innocentes +conspiradores fundavam todo o edificio de suas esperanças na +prisão de Junot, e essa prisão era justamente o +que lhes esquecêra assegurar. O duque de Abrantes, cujo valor +todos respeitavam, os seus ajudantes, e a escolta de cavallaria que +sempre o acompanhava, não cairiam de leve em uma cilada de +poucos homens, e para o esperar em grande numero, vigiadas como estavam +as ruas, parecia duvidoso que meia hora depois não se +achassem recolhidos na cadeia os Scevolas incumbidos d'este prologo +essencial no grande drama da restauração da +patria. <br /> + +<br /> + +―Herman! O vosso voto sobre esta farça que terrificou +Lagarde!... <br /> + +<br /> + +―O plano é fraco, porém a +intenção... <br /> + +<br /> + +―De intenções, boas, más, e pessimas +está calçado o inferno! Tendes acaso receio de me +vêr preso no meio das becas dos conspiradores, suando medo +por todos os poros, e ordenando aos meus valentes soldados que +entreguem as espadas e espingardas aos milicianos de Lisboa!?... Que +gente admiravel a do vosso Conselho Conservador, Lagarde! Respeitae-os +como se respeita a innocencia. Conjurados +<span class="pagenum">[124]</span> +assim inventam-se, quando se +não acham, e guardam-se debaixo de redomas de vidro... +Art.º 1.º O general Junot será +apprehendido! Nada mais! Que bella concisão spartana! Ah! +Ah!... Quem serve de espirito santo a este cenaculo? Algum macrobio? +Alguma reliquia do tempo do marquez de Pombal, aposto?... A +conspiração dá ares de +quinhentista. Foi desenterrada de certo de algum archivo!... <br /> + +<br /> + +―Informam-me que José de Seabra no principio +déra alguns conselhos, mas que hoje... <br /> + +<br /> + +―Não quer saber d'elles para nada!?... É +evidente! José de Seabra, duas vezes ministro de estado, +sisudo, e espirituoso, morria de vergonha se visse o seu nome ligado a +similhante satyra do senso commum... Art.º 1.º O +general Junot!... Desculpem, mas é incrivel! Os +desembargadores e os padres de Lisboa cuidam que um general francez +é algum passaro raro, que se apanha e mette na gaiola para o +ensinar a cantar o hymno nacional!?... Lagarde! Prohibo-vos de tocar +nos veneraveis juizes, fidalgos, frades, abbades e negociantes, de que +se compõe este bemaventurado Conselho. Dae graças +a Deus pela sua existencia, e não os incommodeis. D'alli +não vem de certo mal! Oxalá que Sepulveda fizesse +parte d'elle, esperando pela minha prisão para se sublevar. +O Porto ainda poderia salvar-se! <br /> + +<br /> + +―Mas, general, o dia de ámanhã parece-me +critico, observou o intendente, que o riso e os motejos do duque tinham +confortado pouco. Não é só gente da +capital a que sae +ás ruas. Os arrabaldes e o Ribatejo despovoam-se, e talvez +fosse mais prudente prohibir a procissão, e prender por +algumas horas os cabeças conhecidos dos arruidos +populares... <br /> + +<br /> + +―Pela gloria do imperador! Enlouqueceis, senhor Lagarde?!... +Assustam-vos tanto os +<span class="pagenum">[125]</span> +planos +ridiculos de uns poucos de dementes, que vos não envergonha +o argumento de fraqueza, que dariamos, escondendo-nos com medo dos +frades e das irmandades de Lisboa? A procissão ha de +saír. Nada de +prisões! Os nossos soldados trazem polvora e bala nas +patronas. É quanto basta!... Meus senhores, hoje, o general +Junot, depois das seis horas da tarde sae do palacio da Anadia para o +Rato, e vae ser apprehendido. Ah! Ah! Está encerrado o +conselho. Herman enfeitae-vos bem ámanhã. Tereis +de pegar a uma das varas do palio. Magendie não deixeis +<em>apprehender</em> os nossos navios. +Lagarde, mandae saber ao hospital se ha logares vagos na casa dos +orates; os vossos amigos do Conselho Conservador acabam todos +lá. Lunyt, vinde commigo; tenho que vos communicar... isto +é se não receiais que o general Junot +<em>seja apprehendido</em> no +caminho para o largo do Quintella. Ah! Ah!... Senhor conde da Ega +acceita um logar na minha carruagem?... Note que lhe +offereço um posto perigoso. <br /> + +<br /> + +E o duque saíu precedido por Magendie e acompanhado do conde +e do secretario de estado da guerra e da marinha. Herman e Lagarde, que +ficaram atraz, olharam um para o outro, interrogando-se com a vista e +com o gesto. <br /> + +<br /> + +―O que devo fazer? perguntou o intendente. <br /> + +<br /> + +―Nada. É o melhor! <br /> + +<br /> + +―Mas!... <br /> + +<br /> + +―Meu querido senhor Lagarde, o homem que ha de prender Junot... +não está de certo no Conselho Conservador de +Lisboa! Redarguiu o ministro rindo. Socegue! <br /> + +<br /> + +Momentos depois o intendente tocava a campainha, e por ordem sua um +porteiro introduzia no gabinete o sargento Cabrinha e +<span class="pagenum">[126]</span> +o seu assessor Gaspar Preto, por alcunha o +<em>Sapo</em>. <br /> + +<br /> + +Saberemos a seu tempo o que alli vinham fazer aquellas duas boas almas. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c11"></a>XI </h3> + +<h3><br /> + +Achilles e Nestor </h3> + +<br /> + +<br /> + +Em quanto no palacio do Rocio se representava a scena, a que assistiu o +leitor, em uma casa, situada quasi no arrabalde, perto de Campo de +Ourique, no qual trabalham ranchos de operarios sem repouso a levantar +um acampamento militar para as tropas francezas, que Junot recolhe das +provincias, e concentra na capital, iremos encontrar alguns dos +personagens, que deixámos na Ponte de Asseca, n'aquella +tempestuosa noite, que viu as proezas do sargento Cabrinha, a +evasão de Paulo de <a href="#e21">Azevedo</a>, +e as +artes diabolicas do astuto lavrador João da Ventosa. <br /> + +<br /> + +Estava formoso o dia, mas quente. Nem um leve sopro de aragem meneava +as cortinas de caça, que por detraz das quatro janellas da +frontaria substituiam os modernos e elegantes +<em>stores</em>. A casa, de um só +andar, caiada de branco, pintada de verde claro em todas as portas, +grades, hombreiras, e maineis respirava aceio e alegria. Um muro baixo +rodeava o jardim, d'onde as rozas de trepar, as baunilhas, e outras +plantas, subindo pelas paredes, +<span class="pagenum">[128]</span> +vinham debruçar do espigão seus +festões floridos e recendentes. <br /> + +<br /> + +Um preto quasi anão, grosso, roliço, com a +carapinha semeada de cans, indicio de provecta edade, e brincos de +prata nas orelhas, acabava de varrer, gemendo e rosnando, os tres +degraus de pedra, que desciam da porta da entrada para a viella quasi +deserta. <br /> + +<br /> + +No jardim a areia, fina e vermelha, das ruas, orladas de buxos +recortados, rangia debaixo dos pés de duas pessoas, que +passeavam, conversando em voz submissa. No angulo, que olhava para as +terras, um mirante entrelaçado de caracoleiros e jasmins, +offerecia em seus bancos de cortiça commodo assento aos que +desejassem recrear a vista, espairecendo-a pelos largos horisontes, que +d'alli se descobriam. <br /> + +<br /> + +―Não perca o animo nas vesperas da victoria, senhor Manuel +Coutinho! Lembre-se de quem é, e creia mais em si, e em +nós... deixe-me ter tambem um momento de vaidade!... Deus ha +de ser por este reino, e não ha de permittir... <br /> + +<br /> + +O homem que proferia estas palavras era um velho de aprazivel aspecto, +trajado em habitos ecclesiasticos, inculcando na phisionomia, na voz, e +nas maneiras, a prudencia que dão os annos, e a experiencia +do mundo unida á confiança e ao enthusiasmo +sereno, que nascem do coração, que ardem com +viveza aquecidos pelo calor de uma alma generosa, e que os gelos da +edade nem amortecem, nem apagam. <br /> + +<br /> + +O sorriso meigo e tranquillo, que lhe franzia os labios, contrastava de +visivel modo com as sombras de profunda tristeza, que escureciam o +rosto do amante de Leonor de Azevedo, e com a expressão de +desalento retratada em suas feições abatidas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[129]</span> +Quem attentasse, todavia, com mais cuidado no semblante palido do +mancebo, e sobre tudo no fulgor dos olhos, que despediam por vezes +lampejos quasi sinistros, denunciando as intimas +commoções, logo percebia, que, se um assomo +repentino de duvida, ou desconforto podéra abalar por +instantes a energia d'aquella forte vontade, depressa a +reacção a havia de despertar do lethargo, e que +pouco depois, em logar de ser necessario reanimal-a, todo o poder da +persuasão seria pequeno para a conter dentro de limites +razoaveis. <br /> + +<br /> + +―Deus?!... exclamou Manuel Coutinho, respondendo á ultima +phrase do ancião, e volvendo +ao céu, limpido e azul, um olhar de amarga +desesperação. Não se esqueceu +Elle de nós? Não está com os inimigos +do +seu nome e da nossa liberdade?!... <br /> + +<br /> + +―Não diga isso. Caia em si. Não vê que +accusa a divina justiça? Deixe-a caminhar... <br /> + +<br /> + +―Coxa e lenta como a dos homens?!... Senhor bispo! Sou moço +e militar, desculpe-me, mas não posso supportar com +paciencia christã o espectaculo de tantas miserias e de +tantos crimes!... Fala na justiça de Deus?! Aonde estava +ella, quando o Vigario de Christo, arrancado por mãos +sacrilegas da sua cadeira, foi como seu divino Mestre arrastado de +prisão em prisão, de opprobrio em opprobrio, por +turbas de soldados á voz de Bonaparte?... <br /> + +<br /> + +―Estava no Calvario, como no dia em que padeceu o Redemptor! Continue! +<br /> + +<br /> + +―Ah! E porque dorme ella, quando nações inteiras +choram escravas o seu martyrio, e banhadas em sangue invocam a morte +nos campos talados, nas cidades saqueadas, nos patibulos e nos +carceres, a morte, unica esperança que lhes resta, depois de +roubados os seus altares, de incendiadas as suas moradas, +<span class="pagenum">[130]</span> +de infamadas suas esposas e filhas, e de +dispersas como vil pó as cinzas de seus paes e de seus +avós?!... <br /> + +<br /> + +―Quem lhe diz, que dorme, e não que aguarda a sua hora? +Quantos seculos durou a perseguição da egreja e a +tyrannia dos Cesares?... E hoje, d'esse colosso romano, que assoberbava +o mundo, o que sobrevive? Ruinas, memorias, e a cruz triumphante +alçada no Vaticano!... Tranquillize-se, conforme-se, +espere... <br /> + +<br /> + +―Que espere!... Mas elles, os verdugos, os malvados, acaso esperam? +Paulo de Azevedo, duas vezes salvo por nós, escapou por fim +aos laços do infame Lagarde? Está no castello, +bem sabe, e o conselho de guerra, que ha de julgal-o, tem +sêde do seu sangue... Hoje, +ámanhã, de uma hora para a outra, as balas de um +pelotão!... Não tenho animo de o imaginar!... +Vel-o morto, assassinado, e não poder valer-lhe!... E sua +filha, a desgraçada, que já não tem +lagrimas que verter, que sente a todos os instantes no +coração o frio da morte, +ameaçando o que mais ama e estremece n'este mundo?!... E hei +de esperar?! Resignar-me! Deixal-o morrer?!... <br /> + +<br /> + +―Ha de esperar, sim. Que remedio!... Paulo de Azevedo está +em perigo, porém ainda não morreu... <br /> + +<br /> + +―É verdade. Mas para o salvar?!... <br /> + +<br /> + +―Havemos de empregar todas as nossas forças. <br /> + +<br /> + +―Oh! accudiu o mancebo, cujo desespero rompeu por fim em dolorosa +ironia. Hão de salval-o! Contam assaltar o castello, prender +Junot, e colher Lagarde como um lobo no seu antro?!... Lagarde!... O +auctor de todos os nossos infortunios!... ajuntou em voz cava e com +terrivel expressão. Pelo menos esse não se +rirá impune, festejando o ultimo suspiro da sua victima. +Lagarde pertence-me. Sou o +<span class="pagenum">[131]</span> +seu +juiz, e a minha justiça não coxêa, +nem dorme, como a da Providencia. <br /> + +<br /> + +―Não blaspheme, e escute, se póde! Os dias da +usurpação estão contados. Quem +sabe! Ámanhã mesmo talvez troquemos o lucto da +escravidão pelas galas... <br /> + +<br /> + +―Sonho! Irrisão!... bradou Manuel Coutinho saccudindo com +força o braço do seu interlocutor. +Aonde estão os homens para isso? Bastaria o som de um tambor +para os espantar, e Junot conhece-os. Cuida que dou fé +ás proclamações e aos conciliabulos do +Conselho Conservador? Becas, sotainas, velhos fracos, negociantes, e +frades, que tremem da sua sombra, ousarão nunca medir-se com +os soldados de Bonaparte em um combate?!... Senhor bispo de Malaca, se +palavras e balas de papel matassem, então sim, mas!... <br /> + +<br /> + +―Manuel Coutinho, a dor torna-o injusto. Essas becas e esses frades +são mais fortes, do que os soldados em volta de suas +bandeiras. Lembre-se de que puzemos a cabeça +em cima do cepo, e de que estamos resignados a padecer!... +Não esperava que o escarneo caísse da sua +bôcca sobre nós! Aprende-se mais depressa a morrer +com ruido no meio do fogo e dos alaridos de uma batalha, do que a +aguardar o algoz sobre os degraus do cadafalso?... E ninguem sabe +melhor se elle póde ferir, e se todos estamos decididos a +jogar a cabeça n'esta partida... em que apostámos +honra, bens, e vida pela patria... <br /> + +<br /> + +―Sei, mas o povo cala-se e obedece. Lisboa chora e supporta. O +reino... <br /> + +<br /> + +―O reino accordou, e não torna a adormecer. Por isso lhe +disse que estavamos nas vesperas da victoria... <br /> + +<br /> + +―O reino accorda?! Mas eu ignoro tudo!... Senhor bispo de Malaca!... +Compadeça-se da minha impaciencia. Bem vê! Estou +quasi louco! +<span class="pagenum">[132]</span> +Conte com o +meu braço, com o meu sangue. Ha alguma +esperança?... <br /> + +<br /> + +―Ha mais do que esperanças, ha factos. Prepare-se! dentro +em pouco o seu posto será nas fileiras de seus compatriotas, +no exercito da independencia. Leia! Adore os designios profundos da +Providencia. <br /> + +<br /> + +Manuel Coutinho, arrancando-lhe quasi da mão o papel, que +lhe offerecia, correu-o todo em um relance de olhos, e apenas o sentido +lhe penetrou a intelligencia, o sangue em ondas affluiu ás +faces, as pupillas faiscaram, e uma expressão de jubilo, e +de enthusiasmo subito avivou-lhe as feições. <br /> + +<br /> + +―O norte sublevado!... murmurava lendo, e detendo-se, como se julgasse +impossivel o que lia. O Porto talvez levantado a esta hora! +Traz-os-Montes e o Minho ámanhã, ou depois em +armas!... Os inglezes em Cork, ou já no mar para +desembarcarem!... <br /> + +<br /> + +E o suor borbulhava-lhe na fronte, e a vista scintillante devorava cada +lettra do escripto. <br /> + +<br /> + +―Meu Deus! Se isto é sonho, ou delirio meu, fazei que nunca +desperte d'elle. <br /> + +<br /> + +―Então, filho, disse o bispo sorrindo-se com +mansidão, ainda acha que a justiça divina +coxêa, e dorme? Arrepende-se agora da sua pouca +fé?! Pois bem! Já vê que as becas +e as sotainas ainda valem alguma coisa. O milagre fez-se, e um bispo +é quem ha de no Porto presidir, ao governo do reino +restaurado. Sei-o de certeza. <br /> + +<br /> + +―Seguiu-se uma pausa curta, durante a qual os olhos e as +mãos do mancebo se elevaram ao céu em um gesto +sublime de gratidão e de crença fervorosa. Depois +a cabeça +inclinou-se, a vista fitou-se no chão, os braços +descaíram e duas lagrimas de dor e de alegria saltaram do +coração, e correram vagarosas pelas faces. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[133]</span> +O bispo contemplava o rosto do amante de Leonor de Azevedo, e traduzia +com a perspicacia dos annos e da reflexão os signaes +fugitivos da lucta das paixões. <br /> + +<br /> + +Por fim venceu a razão. Manuel Coutinho, como se quebrasse +de repente a prisão, que lhe paralyzava as faculdades, +serenado o semblante, acabou de exhalar em um suspiro a maior +oppressão, que lhe confrangia o peito. <br /> + +<br /> + +―Fui temerario, senhor bispo. Falei mal de Deus e dos homens! Cegou-me +o orgulho, e deixei-me arrastar pelas loucuras da tristeza. Desesperei +da Providencia no momento em que ella nos accudia!... <br /> + +<br /> + +―Só Deus é grande, filho! O que somos, e o que +podem os nossos juizos falliveis em presença da sabedoria +eterna?! Arrepende-se? É o essencial. Vamos ao que importa. +Já viu D. Leonor?... <br /> + +<br /> + +―Não! Faltou-me o valor. O que havia de dizer +áquella infeliz, ferida de tantos golpes a um tempo?... A +imagem do patibulo de seu pae, visão lugubre e incessante, +segue-a por toda a parte. Nos seus olhos leio o desespero e a morte. +Amo-a, senhor bispo, amo-a desde a infancia, como não amei +minha mãe, como não estremeço meus +irmãos, como +não adoro... ia soltar uma blasphemia!... +Enlaçadas desde a meninice pela mesma ternura nossas duas +almas ha muito que não fazem senão uma. O que +ella sente e chora, as suas lagrimas de sangue, caem-me todas, ardentes +como fogo, aqui, dentro do peito, e escaldam-m'o. O véu +branco da noiva será em breve o negro fumo da +orphã, e viuva sem chegar a ser esposa, sei, adivinho, que +um claustro +começará a abrir-lhe a sepultura, aonde ella, +aonde nós havemos de descançar ambos!... +Não sem eu me vingar primeiro! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[134]</span> ―Manuel Coutinho, +deixe a Deus o cuidado de punir! Socegue! A voz da +liberdade, a voz da patria chamam por nós. Seja homem! Seja +soldado! Tem uma espada, não faça d'ella um +punhal, arma de traidores!... Leonor está mais tranquilla, +mais resignada. Vi-a hoje, e já falámos a seu +respeito... <br /> + +<br /> + +―E ella?!... Disse-lhe?! Espera?!... <br /> + +<br /> + +―Disse-me tudo e espera. Paulo de Azevedo não morreu, e +havemos de salval-o. Tenha mais fé. Não atormente +com os delirios da sua paixão a existencia propria, e +aquella alma sensivel e melindrosa, que treme que uma +imprudencia, venha abismar no mesmo naufragio os dois amores da sua +vida!... Se não fosse o seu genio arrebatado confiava-lhe um +segredo, que Leonor se não atreveu nunca a dizer-lhe, porque +receia os impetos da sua cholera, mas que havia por outro lado de +aplacar-lhe a afflicção... <br /> + +<br /> + +―Diga-me tudo, senhor bispo. Prometto, juro vencer o meu genio. <br /> + +<br /> + +―Veja lá! Dá-me a sua palavra de cavalheiro de +fazer o que eu lhe aconselhar depois?... <br /> + +<br /> + +―Dou. O segredo?... <br /> + +<br /> + +―A vida de Paulo de Azevedo não corre por ora risco. +É o penhor com que Lagarde tenta extorquir a D. Leonor uma +promessa de casamento... <br /> + +<br /> + +―Oh o infame!... E eu aqui de braços cruzados!... <br /> + +<br /> + +―Se me não me escuta, calo-me. Lembre-se da sua promessa. <br /> + +<br /> + +―Sou mudo. Sou uma estatua. <br /> + +<br /> + +―Bom! Saiba, pois, que o intendente da policia imaginou enriquecer um +sobrinho arruinado, dotando-o com os bens da filha de Paulo de Azevedo. +Pediu-lhe a mão em Mafra +<span class="pagenum">[135]</span> +ha mezes, foi repellido, e vingou-se perseguindo o cavalheiro e +sua filha... <br /> + +<br /> + +―Assim a causa de todas as desgraças sou eu!?... atalhou o +mancebo impetuoso. Leonor e seu pae padecem por amor de mim, e no meio +de seus prantos e do lucto da sua alma aquelle anjo nem uma queixa +soltou ainda contra o algoz da sua vida! Porque sou eu que a torno +infeliz e inconsolavel!... Hei de mostrar-me digno do sacrificio! Hei +de... <br /> + +<br /> + +―Comece por se mostrar digno das minhas confidencias, escutando-as. +Observou o bispo com um sorriso. Lagarde ameaça Paulo de +Azevedo, tem-lhe a espada suspensa de um fio sobre a cabeça +para vencer a filha; mas no fim é tão interessado +como nós em +conservar vivo o unico fiador de suas esperanças!... O +conselho de guerra não se reune, e mesmo que chegue a ser +convocado, a sentença não passa do papel. <br /> + +<br /> + +―E Leonor?!... <br /> + +<br /> + +―Altiva e varonil redobra as resistencias. Mesmo ao pé do +cadafalso de seu pae prefere morrer com elle, creio, a comprar-lhe o +perdão por um preço vil... <br /> + +<br /> + +―Bem sei! O seu coração envergonha o de muitos +homens!... Como se chama o sobrinho de Lagarde, esse noivo feito +á força, cujo papel, +tão nobre (!) entra como parte principal na tragedia de +nossas desventuras?... accrescentou Manuel Coutinho em voz lenta e +sombria, a que um toque de ironia cruenta avivava a +expressão. <br /> + +<br /> + +―Porque o pergunta? <br /> + +<br /> + +―Para ajustar no mesmo dia todas as minhas contas. <br /> + +<br /> + +―Já se esqueceu da sua promessa? <br /> + +<br /> + +―Não! Mas!... <br /> + +<br /> + +―Quando for tempo de o desligar d'ella sem perigo seu e nosso... +então falarei. Agora não. +<span class="pagenum">[136]</span> +Sabe que ámanhã, depois da +procissão +do Corpo de Deus, se esperam grandes novidades? <br /> + +<br /> + +―Aonde?... Se soubesse a minha impaciencia?!... <br /> + +<br /> + +―Em Lisboa. Aonde queria que fosse?... <br /> + +<br /> + +―E contam commigo?... Qual é o posto que hei de occupar?... +Asseguro-lhe que só por cima do meu cadaver... <br /> + +<br /> + +―Sei muito bem. Guarde para si a noticia, vá ver Leonor, +demore-se pouco, porque ella espera uma visita, ou antes duas... <br /> + +<br /> + +―Visitas!... De quem?... <br /> + +<br /> + +―Segredo de estado. Depois saberá... <br /> + +<br /> + +―Porém!... <br /> + +<br /> + +―Não insista. Se podesse dizer-lh'o, cuida que me calava? A +proposito! Se por acaso estiver lá em cima, quando elles... +digo, quando as visitas chegarem, jura pela sua honra obedecer em tudo +a Leonor, e voltar aqui pela escada do meu gabinete?... <br /> + +<br /> + +―Mas!... Tantas precauções fazem-me suppor!... <br /> + +<br /> + +―Supponha o que quizer. Jura?... <br /> + +<br /> + +―A minha confiança na sua virtude é tal, que de +olhos fechados me entrego em suas mãos. Juro! <br /> + +<br /> + +―Não ha de arrepender-se. Sem isso não o deixava +subir... <br /> + +<br /> + +―Mas padre, mas senhor bispo! Essas visitas são +então de inimigos?... <br /> + +<br /> + +―Talvez! E então?! Cobre-os, quem quer que sejam, o tecto +d'esta casa, recebo-as como hospedes, é quanto basta, +julgo!... <br /> + +<br /> + +―Oh! Dava metade da minha vida por adivinhar... <br /> + +<br /> + +―O caso não merece o sacrificio!... Deixe instruir o +processo, deixe informar os juizes, e quando lhe chegar a sua vez... +nós o chamaremos. <br /> + +<br /> + +―Obrigado! Como instrumento cego?!... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[137]</span> ―Não. +Como um coração generoso, como +um amigo seguro, porém... perigoso. Estamos perdendo tempo! +Leonor espera-o. Nem uma palavra do que se conversou aqui, e sobre tudo +recorde-se do que jurou... <br /> + +<br /> + +―Hei de cumprir a minha palavra como homem de honra, mas depois, sr. +bispo!... <br /> + +<br /> + +―Depois... O que Deus quizer! Dá o mundo tantas voltas em +poucas horas, Manuel Coutinho, que nos deitâmos rapazes, e +ás vezes accordamos velhos. Deixe andar os homens e as +cousas. Creia no tempo. É grande medico. Adeus! Vou tractar +de uma doença, que dá maior cuidado... Portugal +está enfermo e não póde esperar. <br /> + +<br /> + +E despedindo-o com um sorriso e um aceno de mão cheio de +bondade, o velho prelado entrou para um aposento terreo, cujas portas +de vidraças abriam sobre o jardim, em quanto o mancebo +voltou em busca da escada de pedra, que subia para as salas do primeiro +andar.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c12"></a>XII </h3> + +<h3><br /> + +Arcades ambo! </h3> + +<br /> + +<br /> + +―Está certo do que affirma? Veja lá!... A +policia não gosta de +representar papeis tristes, e um erro nas circumstancias actuaes +póde ter consequencias... Repita! Viu os homens? Sabe o seu +intento?... <br /> + +<br /> + +―Vi, sim senhor! Largava a falua quando eu cheguei, e por um triz me +não apanham!... Sempre curti um medo! A gente não +ganha para sustos... <br /> + +<br /> + +―Está bom! E como soube que vinham para a +revolução, que os inimigos de sua +magestade o imperador e rei tramaram para ámanhã +durante a procissão do corpo de +Deus? Olhe bem! Não se allucine... <br /> + +<br /> + +―Não ha engano, não senhor. Aqui trago quem +ouviu tudo. Gaspar, chega-te! S. ex.ª dá +licença. Dize para ahi o que saccaste do bucho +ao alarve do Paulo Penedo, e o que ouviste na Ponte da Asseca. <br /> + +<br /> + +―Ah! Este homem ouviu?!... Bem! Então que fale. <br /> + +<br /> + +O dialogo, que estamos escutando, tinha-se travado, como o leitor +já percebeu de certo, +<span class="pagenum">[139]</span> +entre o intendente Lagarde, o sargento +Cabrinha, e o seu assessor Gaspar Preto. <br /> + +<br /> + +Os honrados malsins, farejando a denuncia lucrativa, corriam de Villa +Franca, aonde se haviam transportado a cavallo, e traziam nos alforges +nada menos do que uma boa conspiração para +attrahir sobre si a chuva de ouro, com que o ministro francez costumava +recompensar os serviços relevantes dos seus agentes. <br /> + +<br /> + +Ainda que o sargento desempenhasse o papel principal, manda a verdade +que se diga, que a gloria do descobrimento pertencia de direito +ás longas e afiadas orelhas do seu digno assessor. +Fôra o <em>Sapo</em>, +apezar de meio homiziado depois da prisão de Paulo de +Azevedo, devida, como sabemos, á sua traiçoeira +actividade, quem, espreitando os passos do Antonio da Cruz e do +João da Ventosa, e as idas e voltas nocturnas dos +embuçados, que frequentavam a casa arruinada da Ponte da +Asseca, principiára a desconfiar de que as ruidosas +cavalhadas das almas do outro mundo nas salas desertas do palacio +encobriam planos politicos. <br /> + +<br /> + +Para melhor se certificar, provou Gaspar, que não +roubára a alcunha por que era conhecido. <br /> + +<br /> + +Cozeu-se, como o <em>Sapo</em>, com as pedras +caídas, que do lado da porta do João da Ventosa +pegavam com o tapume, por onde elle introduzia as visitas, segundo +vimos atraz, nos quartos do primeiro andar, penou frios e fomes, +tiritou de mêdo mais de cem vezes, mas por fim conseguiu o +seu fim. <br /> + +<br /> + +Seis dias antes da festa do Corpo de Deus, ás onze horas da +noite, por um luar esplendido, colheu em flagrante tres dos fantasmas, +que tanto desejava avistar, e teve a rara felicidade de os conhecer a +todos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[140]</span> +Viu-os entrar. Ficou firme no seu posto. A divindade protectora dos +mexericos segredava-lhe que se os olhos tinham alcançado +muito, os ouvidos ainda podiam obter mais. A sua paciencia merecia +premio, e o demonio, cujo era, não lh'o negou. <br /> + +<br /> + +Quando se ía já sentindo quasi +inteiricado de jazer enroscado, como a serpente, os +conspiradores saíram. Principiava a aclarar a madrugada. Um +d'elles, o capitão de milicias de Rio Maior, dotado de uma +voz de baixo profundo, voltando-se para os outros, disse-lhes: <br /> + +<br /> + +―Façam-me uma fogueira bem vistosa lá pelos +sitios de Leiria, e assem-me n'ella esses hereges e jacobinos, que os +de aqui ficam por minha conta! Não havemos de ser menos que +os de Bragança e Villa Real! Viva o principe regente, nosso +senhor! <br /> + +<br /> + +Os poderes do orgão vocal do herculeo capitão +eram tão extensos, que este desafogo innocente do seu +patriotismo seria assaz perigoso, se a solidão e a noite o +não cubrissem. Entretanto os amigos, menos intrepidos, +recommendaram-lhe prudencia, e o gigante, docil como uma +creança, submetteu-se, encolhendo os hombros, a estes +conselhos timidos. O morgado de Penin e outro cavalheiro apartaram-se +então um pouco. Quiz o acaso que fosse para o lado, +justamente, em que o virtuoso Gaspar se occultava; e o terror do malsim +subiu tal ponto, que esteve um instante para o trahir! <br /> + +<br /> + +Vendo de repente o Antonio da Cruz, o João da Ventosa, e o +Manuel da Aramanha, o resurgido, tão proximos do seu covil, +que bastaria um d'elles extender o braço para o agarrar, +não foi senhor de si. Vinham atraz dos personagens +principaes, e tudo inculcava que não vinham por curiosos. O +<em>Sapo</em>, frio de neve, e todo um +calafrio de medo, ennovellou-se +<span class="pagenum">[141]</span> +n'uma bola para occupar menos espaço, e fez a Nossa Senhora +da Saude a promessa solemne de uma missa e de uma perna de +cêra se permittisse, que nenhum dos cinco désse +com elle alapado n'aquella toca, seguro de que, se escapasse por +milagre ao alentado varapau do ex-assassinado fazendeiro, a bala da +espingarda, que o moleiro trazia ao hombro, não o erraria de +certo em nenhum caso. <br /> + +<br /> + +Os conspiradores estavam longe de se supporem espiados, e traziam +outros cuidados. <br /> + +<br /> + +Voltando-se para Antonio da Cruz, o morgado disse-lhe: <br /> + +<br /> + +―Já sabes! No dia de Corpo de Deus has-de estar em Lisboa. +És lá preciso! <br /> + +<br /> + +―Se meu amo mandar! <br /> + +<br /> + +―De certo. Mas sei que manda. O Paulo Penedo não tarda com +as ordens... E você, sôr João da +Ventosa, deixa-se ficar por cá, ou acompanha tambem o +Antonio á côrte? <br /> + +<br /> + +―Eu, sôr morgado, lá por ir, ia; mas assim sem +saber o que a gente lá vae fazer?!... <br /> + +<br /> + +―Ora! Vae dar um passeio, vêr a procissão, que se +despovoam aldêas e logares para accudir a ella... e +depois!... Adivinha-me este dedo, que o seu cajado talvez +não fique por lá parado!... Gosta dos +francezes?... <br /> + +<br /> + +―Como o diabo da cruz, senhor! Pelo amor que lhes eu tenho... e o bem +que me fizeram!... <br /> + +<br /> + +―Pois vá, homem, que póde ser que não +perca o seu tempo. Ás vezes d'onde menos se espreita sae +coelho... <br /> + +<br /> + +―V. s.<sup>a</sup> que diz isso!... Está bom. +Não +é preciso mais. Senhor mandar, preto obedecer!... E tu, +Antonio Simões, estás ahi sem atar nem desatar? +Porque não vens com o Antonio e commigo á festa? +Tens medo dos francezes, homem? <br /> + +<br /> + +―Salva tal logar, sôr compadre! Mas que +<span class="pagenum">[142]</span> +quer você que eu vá fazer +á +côrte pregado no meio das ruas como uma estaca? Com mil +cobras? Se por lá bispasse o alma ruin do sargento, ou +aquelle excommungado <em>Sapo</em>, ainda, +ainda; mas qual! sumiu-se a terra com elles!... <br /> + +<br /> + +―Qual sumiu! Aposto um almude dobrado contra duas canadas singelas em +como as duas osgas estão pegadas em alguma parede de +Lisboa... <br /> + +<br /> + +―Veja lá, sôr compadre! Se tem palpite n'isso +é outra cousa: pernas a caminho. N'um sopro deito o +albardão á égua... +Não morro quieto se não racho de meio a meio +aquelles dois patifes. <br /> + +<br /> + +―O <em>Sapo</em> fica por minha conta, +atalhou o moleiro. Prometti-lh'o e hei de cumprir. Você, +sôr João, que me diz da figueira +de José Lopes, alli em cima, no alto do logar? <br /> + +<br /> + +―Ora essa! Que é boa arvore. Porque?... <br /> + +<br /> + +―Pois juro-lhe que dá figos de enforcado para o anno. +Antonio me não chame eu se não pendurar do +pescoço em um dos ramos o judas do Gaspar Preto antes do dia +do natal!... <br /> + +<br /> + +―Você sempre tem cousas, sôr Antonio! <br /> + +<br /> + +―Vá com o que lhe digo. De mais, pouco ha de viver quem o +não vir. <br /> + +<br /> + +―Então, rapazes? atalhou o morgado, que estivera +conversando a meia voz durante o colloquio dos tres. Quem vae a +Lisboa?... <br /> + +<br /> + +―Saberá v. s.<sup>a</sup> que nós +todos tres! <br /> + +<br /> + +―Ora assim é que é. Gosto de os vêr de +feição. Bebam por lá um copo, ou dois, +de vinho á minha saude, e outro á do principe +regente, nosso senhor, o qual, querendo Deus, muito cedo teremos +n'estes reinos para gloria da patria e da santa religião!... +<br /> + +<br /> + +E o morgado, assim como o +E o morgado, assim como os ouvintes, desbarretaram-se com toda a +reverencia como +<span class="pagenum">[143]</span> +bons catholicos +e vassallos fieis e respeitosos. <br /> + +<br /> + +―Adeus, Antonio, proseguiu. Recados a teu amo! Diz-lhe que +nós cá estamos, e que o que fêr +soará. +Sôr João! Volte depressa. A caldeira +está ao lume, ha de ferver, e póde ser necessaria +a casa... <br /> + +<br /> + +―Quando v. s.<sup>a</sup> mandar, sôr morgado. <br /> + +<br /> + +―Olhe! Se no meio da procissão, ou depois, houver algum +barulho, não me metta as mãos nas algibeiras. +Dê-lhes com alma, desanque-me +os jacobinos moa-m'os como farinha, hein?... <br /> + +<br /> + +―Vá v. s.<sup>a</sup> descançado. <br /> + +<br /> + +―Vou! Vou! Vocês não deixam mal o Ribatejo. +Até á volta. São horas. <br /> + +<br /> + +Os tres de fóra foram buscar os cavallos, e d'ahi a pouco +desappareciam a galope pela Ponte da Asseca. O lavrador e os seus +amigos recolheram-se tambem logo. D'ahi a instantes resonavam a somno +solto. <br /> + +<br /> + +Quem não tinha vontade de dormir era o +<em>Sapo</em>, o qual, arrastando-se do +esconderijo, fulo de terror, respirava a custo, estirando os +braços, mais morto do que vivo. <br /> + +<br /> + +A ameaça do Antonio da Cruz soava-lhe nos ouvidos como um +dobre funebre, e por vezes sentia já em +imaginação os +gorgomillos tão apertados como se lh'os estreitasse a +promettida e fatal corda! <br /> + +<br /> + +A reputação merecida do moleiro de não +quebrar palavra dada fazia-o de mil côres, e a voz da +consciencia, que só o susto tinha o condão de +accordar de véras, advertia-lhe, que provocára, +não uma, porém cem +vezes, o castigo. <br /> + +<br /> + +Não vendêra elle ao sargento o segredo do asylo em +que se homiziava Paulo de Azevedo, abusando da hospitalidade de Antonio +da Cruz, o qual, tendo-o poupado, o julgára grato? +Não fôra causa da prisão do Cavalheiro +<span class="pagenum">[144]</span> +de Mafra, da magoa de Leonor, e do +desespero de Manuel Coutinho? Agora mesmo, não +colhêra um segredo, que podia custar a vida e a liberdade a +tantas pessoas? <br /> + +<br /> + +Gaspar era logico. Convencido de que a sentença proferida +era irrevogavel, tractou de se eximir aos seus rigores pelos meios +usuaes, isto é, accumulando novas +traições. +Coxeando e rastejando partiu para a villa, aonde amanheceu á +porta do sargento, cuja cholera exacerbada pela certeza de ter servido +de alvo á irrisão na famosa noite dos fantasmas, +soube artificiosamente exaltar. O +<em>Sapo</em> +acabou de o petrificar, narrando-lhe as ameaças do Antonio +Simões da Aramanha, e o plano, interceptado por elle, de +grandes tumultos em Lisboa durante, ou depois da procissão +do Corpo de Deus. <br /> + +<br /> + +A noticia valia o seu pezo em ouro, e Cabrinha decidiu-se a ser em +pessoa o portador d'ella. <br /> + +<br /> + +A chegada de Paulo Penedo, emissario de Manuel Coutinho para chamar o +moleiro em seu nome á capital, confirmou as +informações do agente. Gaspar, a troco de +pão, queijo, vinho, arrancou sem difficuldade ao camponez +boçal quanto elle vira e ouvira do patrão em +Lisboa. Separou-se, deixando-o convencido de que o amante de Leonor de +Azevedo não tinha mais leal amigo. <br /> + +<br /> + +Depois d'esta ultima proeza, os dois malsins começaram a +jornada até Villa Franca, aonde haviam de embarcar, o +sargento ardendo em impaciencia de cingir na fronte os louros, e de +sepultar no bolso as peças de 7$500, que Lagarde +não cisava aos que o serviam zelosamente: o +<em>Sapo</em>, cujas vigilias eram cada noite mais +tormentosas, acompanhando o patrono a Lisboa, primeiro para se afastar +o mais possivel da figueira do alto do Valle, +<span class="pagenum">[145]</span> +depois, para ter o gosto de vêr +mettidos na enxovia do Limoeiro, graças á sua +honrada lingua, o Antonio da Cruz, o João da Ventosa, e o +Antonio Simões. <br /> + +<br /> + +Já os ouvimos confessar ao intendente da policia, que por um +instante não caíram na bôcca +do lobo em Villa Franca, e encontrando-os no gabinete do ministro, no +exercicio de suas funcções, convem notarmos, que +tinham sido activos no desempenho da sua missão, como homens +fieis aos interesses proprios, e devotos da causa que +abraçavam. <br /> + +<br /> + +Lagarde escutára com attenção o +depoimento lucido e conciso, que o +<em>Sapo</em>, sem +trepidar, lhe recitou, como licção aprendida de +cór, admirando a prodigalidade, com que a natureza +favorecêra este ente quasi disforme e rachitico, que, +encarado á primeira vista, não promettia, +senão fraqueza e estulticia.<br /> + +<br /> + +Depois de tomar algumas notas, consultando um, ou dois papeis, e +tornando-os a encerrar nas gavetas do bofete, o intendente conservou-se +silencioso por momentos, scismando profundamente. <br /> + +<br /> + +―A conspiração existe, dizia elle comsigo. Aqui +estão as provas d'ella; mas quem ha de persuadir o duque, e +vencer o seu amor proprio? A leitura d'aquelle maldito plano +atrazou-nos!... Não importa. Deixal-os rir! A mim compete-me +velar para que riam sem perigo. <br /> + +<br /> + +Virando-se depois para os agentes, que aguardavam calados as suas +ordens, acrescentou: <br /> + +<br /> + +―Sargento! Estamos na pista de um trama complicado. Fique em Lisboa +com este homem, e procure hoje de tarde o meu secretario Loisy. Elle +lhe dirá o que ha de fazer. <br /> + +<br /> + +Estas palavras, e o gesto do ministro avisaram os dois, de que a +audiencia estava terminada. +<span class="pagenum">[146]</span> +Saíram logo, mas ainda Lagarde não tinha tido +tempo de percorrer com os olhos um papel, que acabavam de lhe entregar, +abriu-se uma porta particular, e entrou no escriptorio um mancebo, de +rosto jovial, vinte oito annos de edade, e figura esbelta, +realçada pelo uniforme de official de cavallaria, trajado +com garbo. Era seu sobrinho Armand de Aubry. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c13"></a>XIII </h3> + +<h3><br /> + +Dois parentes </h3> + +<br /> + +<br /> + +O intendente accolheu o recem-chegado com um sorriso, e extendeu-lhe a +mão com amizade. Aubry apertou-lh'a sem ceremonia, encarou-o +com ar malicioso por momentos, e disparou-lhe depois na cara a mais +longa e estrepitosa risada, que de certo tinham ouvido aquellas +paredes, desde que a Santa Inquisição reinava +dentro d'ellas. <br /> + +<br /> + +―Ah! Ah! exclamou fazendo esforços em vão para +se reprimir. Que duas figuras unicas, que duas corujas agoureiras acabo +de encontrar no corredor!... Pelo que vejo a procissão de +ámanhã leva anjos, demonios, serpentes, e +até estafermos do mais curioso feitio. Estes dois +são magnificos. Sobre tudo um... o mais baixo. É +admiravel! <br /> + +<br /> + +―Porque? atalhou Lagarde. <br /> + +<br /> + +―Porque, meu tio? A pergunta é rara! Aquella +cabeça de anão, aquella cara de papel, e os +saltos de rã da perna coxa promettem á festa um +palhaço soberbo. Por quanto +<span class="pagenum">[148]</span> +se aluga aquelle senhor? Juro-lhe que vale +quanto pesa... em cobre. Dou-lhe os parabens! Foi um achado. Posso +saber o que elle custa á policia de sua magestade o +imperador e rei?!... <br /> + +<br /> + +E o official dizendo isto ria como um louco, afagando o bigode louro, e +saccudindo o pó das botas de montar com a ponta do junco +flexivel, que trazia na mão. <br /> + +<br /> + +―Não custa barato, Armand! redarguiu o intendente, +sorrindo-se tambem. Aquelle anão, assim mesmo contrafeito e +ridiculo como te pareceu... <br /> + +<br /> + +―Esse <em>pareceu</em> é +delicioso, meu tio! Continue. Sou todo ouvidos. <br /> + +<br /> + +―Vale mais do que muitos homens guapos e bem postos. <br /> + +<br /> + +―Quem tal diria! Então é um diamante bruto?... <br /> + +<br /> + +―Talvez. Dentro em pouco vel-o-has chefe... <br /> + +<br /> + +―Chefe? Muito bem. E de que tenciona invental-o chefe? Acaso a policia +conta distraír os portuguezes de suas saudades, armando +tablados ao ar, e escripturando polichinellos? <br /> + +<br /> + +―Não! redarguiu Lagarde um pouco enfadado dos motejos do +sobrinho. A policia aspira a funcções mais +modestas. Lisboa, esta cidade immunda como as do Oriente, +começa já a ser outra cousa... As ruas... <br /> + +<br /> + +―Tá! Tá! Meu tio. Esse elogio dos +serviços da policia, na sua bôcca é +capaz de abrandar as pedras... das mesmas ruas. A proposito! +Denuncio-lhe os cães vadios. Resistem ás ordens +como janizaros. Hontem á meia noite estivemos em perigo de +sermos devorados, eu, e o meu cavallo! Que morte para um official do +exercito imperial!... Diga-me: o anão, de que +tractâmos, será nomeado executor da alta +<span class="pagenum">[149]</span> +justiça contra as matilhas +famintas? A cara do personagem é de um verdadeiro Herodes, e +não desmente o officio. Puah! O maldito sempre deixou aqui +um cheiro patibular!... <br /> + +<br /> + +―Armand! Não te cansaste ainda?!... <br /> + +<br /> + +―Oh! Cuida meu tio, que os assumptos recreativos se encontram a cada +canto n'esta boa terra? O que admiro mais é a sua +longanimidade. Parece incrivel! Aturar fechado n'este gabinete dias, +semanas, e mezes, entre cachos de malsins e grinaldas de larapios +aposentados! Santo Deus! Que emanações +asquerosas. É de engulhar até o estomago a um +tubarão!... <br /> + +<br /> + +―Ainda! Armand, o que sinto mais, do que a triste sociedade, que sou +obrigado a admittir... <br /> + +<br /> + +―Diga tristissima, meu tio, que não diz senão a +verdade. Os melhores dir-se-íam +desenterrados das enxovias, ou das galés... <br /> + +<br /> + +―Então! O que deploro, mais do que isso, é essa +tua leviandade incuravel. O homem, que estás escarnecendo, +prestou-nos a ambos um serviço relevante... <br /> + +<br /> + +―Não sabia. Pelo que observo o precioso aborto accumula as +funcções de palhaço +ás de nigromante? Faz magia branca nas ferias. Excellente! <br /> + +<br /> + +―Ah, Aubry! Quando te verei um momento serio e preoccupado dos deveres +da tua posição? <br /> + +<br /> + +―Quando uma bala me varar o peito, ou a cabeça. Se +não levasse a vida a rir e a folgar, entre dois amores, um +que hoje foge para volver ámanhã, outro que +arrebata e embriaga; o amor dos sentidos e o amor da gloria; cuida que +valia a pena de a arrastar de desengano em desengano, de revez em revez +até aos rheumatismos, e aos defluxos asthmaticos da velhice? +Por alma de meu pae! Nasci e hei +<span class="pagenum">[150]</span> +de +acabar com esta sina. Sou assim feito. Não tem remedio! Mas +apezar de rir muito, de chorar pouco, e de preferir o lado comico ao +aspecto lugubre da existencia, ajuntou, tornando-se um tanto grave, +creia que este coração, facil em se +alvoroçar com a promessa de uns bellos olhos pretos, azues, +ou verdes, a côr é indifferente uma vez que sejam +formosos (!), é incapaz de trahir a honra e a amizade, ou de +se aviltar por nenhum preço... <br /> + +<br /> + +―Bem sei. Por isso te estimo. Desejava-te só menos +estouvado. Não póde ser? +accrescentou sorrindo-se involuntariamente do gesto negativo do +sobrinho. Paciencia! Escuta-me. Aquelle homem, que saiu d'aqui ha +pouco... Não rias! ao qual ignoro porque pozeram a alcunha +de <em>Sapo</em>... <br /> + +<br /> + +―Quem seria o philosopho que tão bem chrismou o reptil? +Preciso abraçal-o! O +<em>Sapo</em>?! Mas é +verdadeiramente um sapo o seu homem, meu tio! Bom! Não se +agaste. Já me calo. Passo a estar serio e aprumado como uma +estatua... Diga! <br /> + +<br /> + +―Aquelle homem... foi quem descobriu o asylo de Paulo de Azevedo, e +entregou á policia a sorte do cavalheiro, do qual depende... +<br /> + +<br /> + +―Cuidei que lhe tinha escapado! interrompeu o mancebo. Pareceu-me +ouvir-lhe dizer que duas vezes... <br /> + +<br /> + +―O tivemos nas mãos, e que nos escorregou por ellas, +zombando de nossas diligencias? É verdade. Não te +enganaste. Mas á terceira fomos mais felizes. Estava +escondido aqui mesmo em Lisboa, e mandei-o prender... O sargento +Cabrinha, um dos meus agentes mais activos, e este +<em>Sapo</em>, que ainda +promette ser melhor... <br /> + +<br /> + +―Ah, meu tio, fale-me de tudo menos d'esse miseravel. Deploro +vêl-o convertido em Plutarco de similhante monstro... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[151]</span> ―Pois sim. Mas +attende-me. Lavemos agora um pouco a nossa roupa suja +em familia. O que te resta dos bens de tua casa?... <br /> + +<br /> + +―Dividas e credores, replicou Armand com um sorriso stoico sublime. <br /> + +<br /> + +―Nada mais?... <br /> + +<br /> + +―Acha pouco? Dividas desassocegadas e credores inquietos!... Tenho com +que me entreter toda a minha vida. <br /> + +<br /> + +―Um!... Pois de todas as propriedades, que herdaste, mobilias, ouro, +prata... não possues absolutamente nada?!... <br /> + +<br /> + +―Nada!... O ouro a que posso chamar meu... e assim mesmo só +por uma audaciosa figura de rhetorica, porque o não paguei +ainda... trago-o aos hombros... são as dragonas! <br /> + +<br /> + +―Ah! Então o naufragio foi completo!?... E com que contas +para o futuro?... <br /> + +<br /> + +―Essa é boa! Conto com os meus vinte e oito annos, com esta +figura soffrivel, com a saude á prova de todas as fadigas, +que devo á minha compleição, e que tem +sido o +desespero dos medicos, e com o acaso de uma bala, ou de uma proeza, que +me eleve em patente, ou me deixe no campo como muitas outras buxas de +canhão, que valem menos do que eu. <br /> + +<br /> + +―És louco!... <br /> + +<br /> + +―Sou philosopho! <br /> + +<br /> + +―Talvez! Mas dize! Eras filho unico. Teus paes deixaram-te... <br /> + +<br /> + +―A sua benção e alguns punhados de escudos nas +gavetas. Que quer, meu tio?! As Aspasias de París, as +Sylphides do corpo de baile, e as Musas da opera vendem os sorrisos +caros. Não imagina!... E sorriram tanto, e com tal +graça para mim, que as mãos abriram-se-me +sem as sentir... Quando caí na realidade... sabia de +cór todas as piruetas e saltos de Vestris, todos os passeios +e casas de +<span class="pagenum">[152]</span> +pasto de mais fama, e podia +dar licções de gosto e de ouvido a todas as +platéas civilizadas... Mas nem um real no bolso para +afugentar o demonio! Encolhi os hombros e fiz-me soldado. <br /> + +<br /> + +―Bem sei. Porém a herança de tua tia?!... <br /> + +<br /> + +―Santa e excellente velha!... Saltam-me as lagrimas dos olhos ainda +quando me recordo d'ella! A herança da boa tia veiu nas +poucas horas de melancholia, que tenho penado em minha vida. <br /> + +<br /> + +―Isso não explica!... Lembro-me de ter ouvido falar em +terras... <br /> + +<br /> + +―Oh, de certo. Um bom par de geiras... Eram muito fracas. Vendi-as por +economia. <br /> + +<br /> + +―Mattas e pinhaes!?... <br /> + +<br /> + +―Magnificos!... Eram muito sombrios. Troquei-os a dinheiro para me +não entristecerem. <br /> + +<br /> + +―Uma casa de residencia vasta com jardins?... <br /> + +<br /> + +―A casa era humida e constipava-me. Os jardins precisavam de muito +amanho, e não apparecia jardineiro. Desfiz-me da casa e dos +jardins. <br /> + +<br /> + +―Uma mobilia antiga, mas rica?! <br /> + +<br /> + +―Custava-me muito caro o transporte, cedi-a. <br /> + +<br /> + +―Percebo!... N'esse caso estás?... <br /> + +<br /> + +―Como diz o livro de Job: Nú saí do ventre de +minha mãe, e despido de bens da fortuna descerei +á cova. <br /> + +<br /> + +―Admiro o teu sangue frio. Não te parece já +tempo de assentar, e de mudares de vida... <br /> + +<br /> + +―Conforme a mudança! Saltar da agua fria para +caír no fogo, não sei se é +peior.<br /> + +<br /> + +―Armand! É necessario cazares, e que o dote de tua +mulher... <br /> + +<br /> + +―Chegue para remendar a capa esburacada do mendigo?! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[153]</span> ―Mais do que +isso. É preciso que dê para uma capa +nova. <br /> + +<br /> + +―Não digo que não. Mudarei ainda de pelle. Estou +prompto. <br /> + +<br /> + +―Estimo. Falei-te na filha de Paulo de Azevedo... <br /> + +<br /> + +―É moça?... <br /> + +<br /> + +―Dezoito annos. <br /> + +<br /> + +―Feia como uma herdeira, ou desastrada como as morgadas?... <br /> + +<br /> + +―Não. Linda, airosa, e gentil como uma parisiense. <br /> + +<br /> + +―Santo Deus!... E esse thesouro, essa fada, mimo de todas as +perfeições, guardou +até hoje o seu coração livre +á espera de +um perdulario, de um estouvado, que nunca viu?! Meu tio! Sabe que o +unico ridiculo, de que tenho medo, é da sorriada merecida de +Jorge Dandin?... <br /> + +<br /> + +―Repito. É uma menina séria, prendada, e +espirituosa... <br /> + +<br /> + +―Não duvido. Antes isso! A ingenuidade de Agnés +sempre me assustou muito! Essa menina... Mathilde?... Clara?... <br /> + +<br /> + +―Leonor! Leonor de Azevedo... <br /> + +<br /> + +―É verdade! Leonor!... Essa Leonor não estava +justa a cazar com um cavalheiro, tambem fidalgo, official, +capitão, creio eu, do segundo regimento do Porto, licenciado +depois do tumulto das Caldas?... Se não erro, elle +chama-se?... <br /> + +<br /> + +―Manuel Coutinho! accudiu o intendente. Não houve nunca +promessa de cazamento, enganas-te. As duas familias davam-se muito. O +que poderia existir era algum namorico, alguns requebros naturaes... +innocentes...<br /> + +<br /> + +―Sim! Sim! Muito innocentes. Sabe que nunca me resolvi a +calçar sapatos de defuncto, e que de sapatos de vivos gosto +ainda menos?... Uma pergunta, meu tio?... Hei de +<span class="pagenum">[154]</span> +ser sempre noivo por +procuração? Conta cazar-me sem eu vêr +nunca minha mulher... nem até no oratorio da policia?... <br /> + +<br /> + +Lagarde piscou os olhos, assoou-se com ruido, e coçou depois +ao de leve a ponta do nariz aquilino. Eram os gestos, que n'elle +inculcavam hesitação e perplexidade. <br /> + +<br /> + +―Cazares sem vêr tua mulher?! exclamou rindo constrangido. +Pelo amor de Deus! Quem te metteu isso na cabeça? <br /> + +<br /> + +―Cuidei! Como os principes cazam pelos retratos... <br /> + +<br /> + +―Has de vêl-a, adoral-a, e agradecer-me de mãos +postas a escolha. <br /> + +<br /> + +―Estou certo, meu tio. Porém!... Como o meu voto me parece +essencial desejo dal-o em consciencia. Quando me apresenta a D. +Leonor?... <br /> + +<br /> + +―Um dia cêdo! Ámanhã talvez! redarguiu +o intendente, agitando-se, e estorcendo-se na cadeira, como se o +assento fossem brazas. <br /> + +<br /> + +―E porque não ha de ser hoje. Sou tão +curioso!... <br /> + +<br /> + +―Hoje! Sem a avisar! De mais tenho que despachar... Espero... <br /> + +<br /> + +―O honrado sargento, ou o palhaço talvez?!... Vamos. +Decida-se. Hoje, ou nunca! <em>Alea +jacta</em>! como nós +diziamos no collegio. Os bons palpites aproveitam-se. O matrimonio +é um grilhão de ferro coberto de +flôres... Quem sabe se ámanhã eu terei +medo da felicidade conjugal, e me arrependerei? Seja docil! Deixe-me +vêr hoje esse portento encoberto... <br /> + +<br /> + +―Pois bem! Faça-se a vontade ao teimoso, contestou Lagarde, +depois de alguns instantes de reflexão, tirando o relogio do +bolso, e consultando-o. São dez horas. Ao meio dia aqui te +espero. <br /> + +<br /> + +―Viva o melhor dos tios! bradou Armand, +<span class="pagenum">[155]</span> +rindo, e abraçando-o. Diz o +rifão: em quanto venta molha a véla! Quero remar +com a maré. É verdade que na Ponte da Asseca, em +um casarão arruinado, apparecem aventesmas, e que um +troço de milicianos debandou por uma noite de tempestade, +fugindo de um fantasma?... <br /> + +<br /> + +―Porque? <br /> + +<br /> + +―Nunca tive a honra de conversar particularmente com nenhum espectro, +e desejava certas informações sobre o paraizo e +sobre o purgatorio... <br /> + +<br /> + +―Os fantasmas da Ponte da Asseca sabes o que são? accudiu o +ministro agastado. Um bando de conspiradores, que a policia vae +desmascarar e punir. <br /> + +<br /> + +―Jesus, que ares tragicos, meu tio! Pela sua vida não +represente de tyranno. O papel cai-lhe mal. Dê-me essa +missão a mim. Adoro as aventuras, e Cazote é o +meu idolo... Quem sabe se irei lá encontrar algum diabo +amoroso?<br /> + +<br /> + +―Pois bem, irás! atalhou Lagarde sorrindo. Mas +já te previno. O que lá acharás +são morgados lorpas, e rebeldes endurecidos. Agora adeus. +Não te esqueças. Ao meio dia em ponto! <br /> + +<br /> + +―Ao meio dia em ponto! respondeu o sobrinho, saudando-o, e saindo.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c14"></a>XIV </h3> + +<h3><br /> + +Amor </h3> + +<br /> + +<br /> + +Quando Manuel Coutinho assomou aos umbraes da porta do aposento, +acabava Leonor de lêr uma carta de seu pae, escripta com a +firmeza de animo, que tornava tão nobre o caracter do velho +cavalheiro. Da sua prisão do castello, com a morte eminente +e a vingança de poderosos inimigos suspensa sobre a +cabeça, falava Paulo a sua filha com o mesmo socego, com que +o faria solto e desaffrontado. Nem uma queixa! Nem um indicio de +tristeza, ou desalento! Ausente em uma viagem longa, ou +distraído em uma partida de caça, +não tractaria com indifferença mais soberana as +vigilias e amarguras do carcere. <br /> + +<br /> + +Dizia-lhe que o seu processo, apressado a principio pelo odio, agora +coxeava, retido por mão occulta. Zombava da vigilancia, com +que era guardado, <a href="#e22">attribuindo-a</a> +á scena comica da sua evasão no palacio da Ponte +da Asseca. <br /> + +<br /> + +Perguntava-lhe por Manuel Coutinho, e pedia-lhe que recommendasse ao +mancebo muita paciencia e conformidade, e +resignação para atravessar os dias dolorosos do +captiveiro. +<span class="pagenum">[157]</span> +Finalmente, +lembrava-lhe em estylo risonho alguns episodios de suas +peregrinações pelas aldeias e casaes do Ribatejo, +assegurando-a, de que o descanso do corpo e a serenidade do espirito +iam obrando n'elle o prodigio de o transformarem, de seco e agil, em um +ente mais obeso, mais corpulento, e mais oleoso, do que fr. Raymundo, +frade notavel em Mafra pela estatura agigantada, pela estupidez, e pela +voracidade. <br /> + +<br /> + +Aonde a sua ternura extremosa se denunciava, e a alma stoica deixava +perceber a ferida dos espinhos da saudade, era nos conselhos dados +á donzella, e nos gracejos constrangidos, com que a motejava +ácerca da alvura da tez e das rosas pallidas, tão +festejadas no seu rosto, deplorando que o sol, as geadas, e a vida +alpestre de uns poucos de mezes as tivessem queimado! Rogava-lhe +ironicamente, que aprendesse de alguma dama franceza o segredo +d'aquella frescura artificiosa, que só ellas sabiam fabricar +para engano da edade, e conservação de +successivas +gerações de adoradores. <br /> + +<br /> + +Apezar do tom jovial, a carta era mais triste do que se respirasse +sincera melancholia. Leonor, avaliando o coração +paterno pelo seu, sentiu correrem-lhe as lagrimas e empanar-se-lhe a +vista á proporção que a +ía lendo. Dotada, tambem, de indole varonil e soffredora +adivinhava facilmente as apprehensões e os tormentos, que +aquellas lettras escondiam, e quasi revia por baixo d'ellas as nodoas +do pranto suffocado por uma vontade forte. <br /> + +<br /> + +A donzella recostava-se em uma marqueza de palhinha. O braço +nù do cotovello para baixo descansava em um velador entre +duas jarras de porcelana cheias de rozas e madresilvas. Duas portas de +vidraças abertas sobre o jardim, para onde se descia por +escada de poucos +<span class="pagenum">[158]</span> +degraus deixavam +entrar a luz em jorros. A sala era atapetada de esteira, e estava +ornada de alguns paineis de paizagem, pendentes das paredes estucadas. +Nos vãos das portas duas gaiolas douradas encerravam aves +africanas de vistosas plumagens. Em cima do marmore de um +tremó, entre flores, jazia esquecido o livro, que tivera na +mão pouco antes de rasgar anciosa o sobrescripto da carta, +que viera interrompel-a. A um lado, no bastidor, sobre a tela repregada +notava-se ainda a agulha picando a talagarça na petala +delicada da ultima flor, cujo matiz deixára em meio. Um +vidro de peixes, de cores cambiantes, enfeitava a mesa fronteira ao +tremó e ao espelho. <br /> + +<br /> + +―A filha de Paulo de Azevedo vestia de escuro sem +affectação. Um corpete, dos que então +se chamavam +<em>Mimosos</em>, de seda preta com +guarnições singelas, e cintura curtissima, +desenhava mal a rara elegancia d'aquelle corpo esbelto, moldado pelas +graças. Uma fita larga, com laço e pontas caidas, +unia-o á saia de tafetá de cauda alta, orlada com +uma barra de requifes; mas a saia, segundo a moda do tempo, +não era menos desairosa do que o corpete; e n'esta nossa +epocha de crinolines e balões de verga de aço a +magreza da roda, e a estreiteza do córte, que a cingia aos +membros quasi a ponto de accusar de mais as fórmas, faria +estalar de riso um conciliabulo de modistas e petimetres. Uma singela +cruz de coral, encastoada em ouro, e suspensa de um fio de aljofres +debruçava-se sobre o collo de neve, que um poeta sem +exageração denominaria verdadeiro collo de +garça. O penteado, não menos singular para os +nossos dias, que o feitio do trajo, era todo de anneis irregulares, +acompanhando a testa em figura quasi de diadema, e rematando no alto da +cabeça por uma flor natural cravada nas tranças. +Sapatos +<span class="pagenum">[159]</span> +de setim de entrada muito +baixa, cobriam ou antes descobriam o pé mais breve e mais +lindo, que um estatuario poderia desejar para modelo das extremidades +de uma Hebé. A manga do corpete desnudava todo o +braço, que na pureza e correcção das +linhas +não desmentia a formosura do semblante, o enlevo namorado +dos olhos, e a expressão nobre, quasi altiva, e apesar +d'isso ingenua e suave da physionomia. <br /> + +<br /> + +Vendo-a assim reclinada, com os atomos dourados do sol a brincar-lhe +nos cabellos, com a meiga pallidez, que um carmin fugaz e transparente +apenas córava por momentos, e com aquella melancholia +tão feiticeira pousada na vista, perdida com o pensamento +bem longe de si e de tudo o que a cercava, um pagão, se a +contemplasse de repente, hesitaria entre Juno e Diana, mas de certo +não equivocaria sua belleza casta com os encantos mais +faceis da lasciva deusa de Paphos. <br /> + +<br /> + +Manuel Coutinho, que a amava, que desde a infancia a vira crescer em +annos e attractivos, deteve-se suspenso de +admiração, não +se atrevendo a despertal-a do enlevo com o ruido de seus passos. Mas o +coração tem sentidos mais subtis, que os +ordinarios. Sem o vêr, sem ter percebido a sua chegada, +Leonor adivinhou que era elle, e a sua alma, fugindo á dor, +logo voou a encontral-o. Um suspiro á flor dos labios, um +sorriso em que a magoa e o jubilo se fundiam, duas lagrimas congeladas, +tremendo nas pestanas, disseram ao mancebo, que o sonho se +quebrára, e que a amante, baixando das illusões +do devaneio, volvia ás realidades doces, mas bem tristes, da +existencia, e da paixão. <br /> + +<br /> + +Leonor olhou para elle. N'este simples volver de olhos disse tudo, +calados os labios, mas cheia de luz a vista radiosa. Um rubor, que +<span class="pagenum">[160]</span> +esmorecia, e breve tornava a avivar-se, +denunciou ao mesmo tempo o sobresalto da alegria e as tremulas +palpitações do peito. O mancebo, não +menos rendido, porém mais impetuoso, soltou a alma em um +suspiro de entranhavel affecto, prostrando-se-lhe aos pés e, +adorando-a, quasi como se adora a Deus. O que ambos falaram mudos +n'este momento só póde concebel-o quem +já gosou tambem as delicias por vezes acres das +expansões do primeiro amor. Á donzella ria a +esperança na bôcca e nas pupillas. Ao amante, +olvidados os zelos e amarguras das confidencias, que acabára +de escutar, tumultuavam no seio agitado as +commoções, como vão e vem as ondas +inquietas espumando sobre a areia. <br /> + +<br /> + +Por fim a mão estreita e melindrosa extendeu-se para o +obrigar a erguer-se. Um beijo ardente, seguido de mil osculos, n'essa +mão que não fugiu, affrontou de novas e vivas +cores as faces da filha de Paulo de Azevedo. <br /> + +<br /> + +Desviando com um gracioso gesto de infinita brandura o amante +ajoelhado, e constrangendo-o a levantar-se com o imperio só +dos olhos. Leonor disse-lhe: <br /> + +<br /> + +―Veiu tarde!... Não imagina o cuidado com que o +esperava!... <br /> + +<br /> + +―Leonor! Leonor! exclamou Manuel Coutinho incapaz de se vencer. +Jure-me que não dará nunca a outro esta +mão, que tenho nas minhas, como penhor da nossa ventura... <br /> + +<br /> + +―Juramentos?! Já se não contenta com menos? +Não crê em mim?!... <br /> + +<br /> + +―Como em Deus! <br /> + +<br /> + +―É de mais agora. Basta a fé... Teve noticias de +meu pae? Será possivel ao menos demorar a +sentença? que o ameaça. Quando me lembro!... +Manuel! E nós aqui n'estes colloquios, quando elle.. geme +desamparado, e se prepara para a morte... que será tambem a +<span class="pagenum">[161]</span> +minha, porque, se o perder, sei que +não posso, que não hei de sobreviver-lhe!... <br /> + +<br /> + +―Não diga isso. Seu pae está mais perto da +liberdade, do que da morte... <br /> + +<br /> + +―Quem lh'o disse? Elle escreveu-me. Aqui está a carta; mas +só confia em Deus! Ha alguma novidade? Veja que +padeço ha tantos dias, chorando quasi orphã +aquella vida, que é tudo para mim... Diga! Devo ter ainda +esperança?... <br /> + +<br /> + +―Deve!... O bispo, e sua irmã não lhe contaram +nada?... <br /> + +<br /> + +―Não! Mas o que ha? Ouvil-o-hei da sua bôcca... A +boa nova será para mim mais risonha! <br /> + +<br /> + +―O Porto vae acclamar o principe regente. Sepulveda sublevou as +provincias do norte! O Alemtejo e o Algarve fazem e farão o +mesmo!... Os francezes acossados retiram sobre Lisboa de toda a +parte!... <br /> + +<br /> + +―Seja para sempre glorificado o vosso nome, meu Deus! exclamou a bella +enthusiasta, caindo de joelhos, e erguendo as mãos. Os +ferros do captiveiro são asperos e pesados e a minha alma, +ferida e cega de prantos, nem já a vista se atrevia a elevar +ao ceu para vos pedir justiça!... O dia da liberdade +começa a raiar. Manuel! O seu posto não +é aqui, +é ao lado de nossos irmãos que pelejam e morrem +pela patria... <br /> + +<br /> + +―Bem sei. Parto em dois dias. Vinha dizer-lh'o. <br /> + +<br /> + +―Perdoe-me. Tenho pressa de vêr meu pae! Quero dever-lhe o +seu resgate... As damas antigamente mandavam os cavalleiros correr +aventuras, e não os premiavam senão coroados de +louros. Quer ser meu cavalleiro?... ajuntou com um sorriso e em um tom +irresistivel. <br /> + +<br /> + +―Não o sou já? Que votos póde fazer +que eu não cumpra? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[162]</span> ―Vá! A +empreza é gloriosa. Ajudará a +restaurar a patria, a restituir o throno ao seu rei legitimo, e um pae +extremoso aos braços da sua filha!... Porque não +sou homem?! Nunca invejei tanto uma espada!... <br /> + +<br /> + +―Quem sabe, accudiu o mancebo sorrindo, se os dias das amazonas +não voltarão!... <br /> + +<br /> + +―Porque o diz zombando?... +Cuida que me faltaria o valor?... Estou louca! Desculpe! De balde quero +dissimular a minha fraqueza mais do que posso. Elles são +briosos; hão de combater aqui como combateram em toda a +parte... Quantas victimas! Quanto sangue! Manuel! Não seja +temerario! Quero tornar a vel-o!... Oh! se uma bala, se um golpe!... <br /> + +<br /> + +―Deus será comnosco. Havemos de vencer. Anime-se! <br /> + +<br /> + +―E eu?!... Ficarei só entre dois amores, que são +toda a minha esperança, entre duas saudades, que prendem +toda a minha alma! Só! Não sem outra companhia +mais do que receios e cuidados, sem outras armas senão as +minhas lagrimas e orações!... Attentando, depois, +na confissão que acabava de soltar, vermelha de pejo como +uma roza, cobriu o rosto, e o pranto, rebentando, principiou a +deslisar-se-lhe por entre os dedos. O mancebo, exaltado, +lançou-se outra vez a seus pés, e em vozes +suffocadas e incoherentes repetiu-lhe mil protestos. A final, Leonor +levantou a face orvalhada d'aquellas lagrimas tão suaves +para ambos, e os bellos olhos sorriram humidos, como o sol de abril por +entre chuveiros finos. Uma vista longa e apaixonada beijou com +ineffavel delirio a vista do amante, que se sentia desfallecer de +jubilo, e que sem forças para exprimir com palavras o +alvorço, amiudava os osculos frementes nas mãos, +que tremiam, entregando-se a seus carinhos. <br /> + +<br /> + +―Leonor! disse depois de alguns momentos. +<span class="pagenum">[163]</span> +Agora póde vir a morte, +póde redobrar o infortunio, achar-me-hão forte! +Sei que sou amado! Levo commigo a confissão da sua +ternura!... <br /> + +<br /> + +―Ingrato! accudiu ella com meigo requebro. Era preciso que um instante +de dor, mais poderoso que o pejo, lhe dissesse o que devia ter +adivinhado!?... Não sabia que a ninguem, a mais ninguem... +depois de meu pae, tenho a affeição... <br /> + +<br /> + +―Porque não diz o amor!... Teme ver-me feliz?!... <br /> + +<br /> + +―Pois sim! O amor! redarguiu, alçando a fronte com nobre +altivez, e fitando no mancebo um olhar de indizivel e terno orgulho. +Porque hei de encobrir o que sinto; porque hei de negar o que +não posso esconder? Amo!... Desde a nossa infancia jurei que +não teria outro esposo. Não é crime +escutar o +coração! Amo-o, Manuel Coutinho!... <br /> + +<br /> + +―Leonor!... <br /> + +<br /> + +―Agora ouça! Antes de partir, volte aqui. Deante de Deus +estamos unidos. Quero dar-lhe uma prenda, que nos recorde a alegria +triste d'este dia!... A guerra vae a principiar. A sua ausencia +póde ser larga... Hei de supportal-a com toda a constancia, +hei de ser digna mulher de um soldado!... Volte! Lembre-se de que deixa +n'esta solidão metade da sua alma em troca da minha que leva +toda... Quero vêl-o victorioso, coberto de gloria, mas!... +Que eu não fique viuva sem ser esposa! Tem outra amante que +vae servir, a patria! Sacrifique por ella... tudo... tudo! menos a vida +que me pertence! Adeus agora! Preciso de socegar o animo para uma +visita, que espero, e da qual depende talvez a sorte de meu pae... <br /> + +<br /> + +―Lagarde!?... atalhou Manuel Coutinho irado e sombrio de repente. +Porque se sujeita +<span class="pagenum">[164]</span> +a ouvir esse +monstro, auctor de nossas desgraças? <br /> + +<br /> + +―Porque o meu dever o manda. Cuida que ha sacrificio, que me custe, +para salvar meu pae? Oxalá que viesse pedir-me todo o meu +sangue em preço do sangue d'elle! <br /> + +<br /> + +―Sabe o que Lagarde quer exigir-lhe pela soltura do sr. Paulo de +Azevedo? perguntou o mancebo tremulo e pallido. <br /> + +<br /> + +―Sei! contestou ella serenamente. <br /> + +<br /> + +―E conta responder-lhe?!... interrompeu o amante ancioso. <br /> + +<br /> + +―Não lhe disse que o amava? Duvida do meu +coração, ou da minha fé!? Pela +vida de meu pae estou prompta a immolar tudo, menos... a honra do seu +nome, que é sagrada, e a minha alma, que é +livre... O esposo, que posso ter, já o escolhi. <br /> + +<br /> + +―Obrigado, Leonor, pela doce promessa! Partirei tranquillo... Mas, +então porque escuta Lagarde? Com que espera movel-o?... <br /> + +<br /> + +―É o meu segredo. Todos os sacrificios, menos um! Tudo +menos vender-me, ou aviltar-me!... Não ouviu rodar uma +carruagem? É a d'elle! Sáia por aquella porta... +Não! Não! ajuntou, notando a +agitação do +amante. Não lhe devo occultar nada! Entre para aquelle +gabinete!... Mas jure-me, que ouça o que ouvir, veja o que +vir, mesmo que eu fosse ameaçada... o seu braço, +a sua voz, a sua +presença, é como se estivessem ausentes... <br /> + +<br /> + +―Juro! Mas se elle ousar!... <br /> + +<br /> + +―Não ousa! De mais, sei, e posso defender-me! Creia em mim. +Agora vá! Um momento! Deixe-me colher forças para +o combate!... E pousando-lhe na fronte os labios de rosa afagou-lh'a +com um beijo. <br /> + +<br /> + +―Leonor!... exclamou elle ebrio de jubilo. <br /> + +<br /> + +―Recompense-me! Seja homem! Hoje a nossa arma é a +paciencia. Não o sente? Sobe +<span class="pagenum">[165]</span> +a escada... Vá! Nem um gesto, nem uma +palavra! Responde pela vida de meu pae! <br /> + +<br /> + +E impellindo-o com maviosa brandura obrigou-o a entrar para o gabinete, +cuja porta de vidraças recatavam duas cortinas de seda +despregadas quasi até ao chão. <br /> + +<br /> + +Depois, levando a mão ao peito, como se quizesse contel-o, +alçou a vista com expressão sublime e magoada, e +aguardou que a porta se abrisse. <br /> + +<br /> + +Não tardou. Lagarde d'ahi a um instante appareceu entre os +umbraes. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c15"></a>XV </h3> + +<h3><br /> + +Cubiça e Nobreza </h3> + +<br /> + +<br /> + +O intendente geral da policia era homem de sala. No tracto usual +ninguem o excedia em delicadeza. <br /> + +<br /> + +Apenas apontou ao limiar, inclinando-se profundamente, adeantou-se com +o chapéu na mão. Com o sorriso estereotypado nos +labios beijou a mão, que Leonor de pé, +séria, +e grave, nem lhe estendeu, nem lhe recusou. <br /> + +<br /> + +Seguiu-se uma pausa curta durante a qual a vista do ministro se cruzou +com a da donzella, frias e penetrantes ambas como duas espadas. <br /> + +<br /> + +A um aceno cortez da filha de Paulo de Azevedo, offerecendo-lhe +cadeira, Lagarde escusou-se com o gesto, ajuntando logo risonho: <br /> + +<br /> + +―Minha senhora... Venho como supplicante mover a piedade da belleza +deshumana, e os supplicantes não se assentam em +presença dos juizes. <br /> + +<br /> + +―Vem mover a minha piedade, ou offerecer-me a sua?! accudiu a donzella +em tom ironico. Não mudemos os papeis! A supplicante devo +ser eu. O vencedor não veiu +<span class="pagenum">[167]</span> +aqui dictar-me as condições na idéa de +me achar resignada a escutal-as e a submetter-me?!... Não o +incommoda ficar de pé?... <br /> + +<br /> + +―Não, minha senhora. Tenho de pedir licença para +lhe apresentar outra visita... <br /> + +<br /> + +―Outra visita?! <br /> + +<br /> + +―Meu sobrinho... <br /> + +<br /> + +―Seu sobrinho?!... <br /> + +<br /> + +―Era tempo, não lhe parece?... <br /> + +<br /> + +―Eu!... <br /> + +<br /> + +―Percebo! É-lhe indifferente? Consinta que junte duas +palavras. Quer que lhe fale como amigo?... <br /> + +<br /> + +―Se póde!... Receio tanto o intendente geral da policia!... +<br /> + +<br /> + +―Não receie. Seja menos injusta. Desejo-lhe bem. Respeito a +sua firmeza, préso os seus sentimentos de filha extremosa, e +sei que se quizer ha de fazer a felicidade do marido que preferir. <br /> + +<br /> + +―Tantos louvores, sr. Lagarde!... Ha quantos mezes me avalia assim? +accudiu Leonor sorrindo, mas tornando-se logo séria. +Confesse que tenho motivos fortes para suppor o contrario. Costuma +tractar, como nos tractou a nós, as pessoas que lhe merecem +bom conceito?!... <br /> + +<br /> + +―Ah, cruel!... volveu o ministro, córando um pouco, +porém disfarçando a +torvação momentanea com o riso. As setas +são agudas, e essa mão mimosa aponta-as com uma +certeza! Pois bem! Se fiz o mal, posso ao menos dar-lhe remedio... O +conselho de guerra ámanhã, ou depois, reune-se +para julgar seu pae... A sentença depende das provas, e as +provas principaes estão nas minhas mãos. De mais, +Lunyt, o secretario de estado dos negocios da guerra, é meu +amigo intimo... Já vê! Se +eu interceder e ajudar... o sr. Paulo de Azevedo sae absolvido e +solto... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[168]</span> ―Bem o sei, +redarguiu a donzella. Quererá o sr. Lagarde?... +<br /> + +<br /> + +―Duvída?! Porque tem tão pouca fé?... +<br /> + +<br /> + +―Porque não acredito facilmente em conversões +repentinas. Perseguiu-nos sem tregua, não socegou em quanto +não teve meu pae em ferros, e hoje... offerece-me ser o seu +protector!?... Ha grande mysterio n'isto, não o negue!... +Temo que exija tanto da minha gratidão em premio, que eu +não deva acceitar! <br /> + +<br /> + +―Nada escapa á sua agudeza! Quer saber tudo? Tem +razão. Joguemos liso. Posso interessar-me, e ser ouvido, +falando a favor do pae da noiva de Armand, de meu sobrinho; mas percebe +muito bem, por maiores que fossem os meus desejos de servir, que o +empenho não teria a mesma força, se o mettesse em +beneficio de estranhos... de pessoas desaffectas ao governo de sua +magestade o imperador e rei. Agora permitte que meu sobrinho entre? +Espera as suas ordens n'aquella saleta... <br /> + +<br /> + +―Pois sim. Uma palavra antes, sr. Lagarde. É a noiva, ou +é o dote, o que mais o tenta n'este negocio?!... <br /> + +<br /> + +―Oh, minha senhora, que pergunta! Que offensa!... O dote?!... +Não faz mal, de certo o dote, a riqueza nunca se despreza; +porém o thesouro d'essa linda mão!... <br /> + +<br /> + +―Supponha que... em troca da sua... como hei de dizer? <br /> + +<br /> + +―Diga amisade, minha senhora, amisade sincera. Fale affoutamente!... <br /> + +<br /> + +―Talvez seja muito. Benevolencia parece mais natural... Supponha, +pois, que em troca da sua benevolencia eu cedia o dote, e guardava a +<em>linda</em> mão... +que é já de outro, e que em nenhum caso, +aconteça o que acontecer... darei a seu sobrinho?... <br /> + +<br /> + +Leonor falava serena, e sorrindo-se, porém a voz e o tom +affirmavam assás, que a proposta +<span class="pagenum">[169]</span> +era positiva, e que a +resolução tomada seria inabalavel. Lagarde +franziu o sobrolho, raspou com o dedo a ponta do nariz, cortejou-a em +silencio, e reconcentrou-se por instantes como quem reflectia. <br /> + +<br /> + +―O dote sem a mão?! disse por fim lentamente, e esbrugando +as palavras como se as pezasse. Julga, minha senhora, que seria +possivel?... <br /> + +<br /> + +―Depende da minha vontade, e estou prompta. <br /> + +<br /> + +―Não me entendeu! É uma esmola, que nos quer +fazer a meu sobrinho e a mim, ou uma peita, com que espera subornar o +ministro?... <br /> + +<br /> + +A interrogação parecia aspera; porém o +olhar e a voz não podiam ser mais amaveis. Leonor concebeu +esperanças. <br /> + +<br /> + +―Nem uma, nem outra cousa! É um testemunho de +reconhecimento. Protesto-lhe que dos tres a mais agradecida serei eu. <br /> + +<br /> + +―Esquece-lhe, que o mundo dirá, que me vendi!... +Não pode ser! Uma esposa não se nota que seja +generosa, porém uma estranha!... Minha senhora, +não decida nada sem o conhecer. Armand está aqui. +É moço, +é gentil, é brioso. Merece-a. Sei que o accusam +de ser um pouco estouvado e perdulario. Não o defendo. +São defeitos que o matrimonio corrigirá. +Veja-o!... Tome tempo!... Não me julgue tão mau +como dizem os meus inimigos. Tudo ha de compor-se. <br /> + +<br /> + +―Deus permitta! replicou a filha de Paulo de Azevedo. <br /> + +<br /> + +Mas a sua phisionomia espirituosa traduzia perfeitamente, sem os +disfarçar, a malicia e o despreso, com que assistia ao +combate da avidez e da cubiça na alma de Lagarde, impaciente +de receber o que lhe promettiam, mas preso ainda, apezar do cynismo, +pelos escrupulos de um resto de decoro e de respeito +<span class="pagenum">[170]</span> +da sociedade. Talvez, que não o +embaraçasse pouco n'este conflicto a idéa, que +formava do caracter do sobrinho, e a apprehensão de que elle +recusasse favores, cuja origem o cobriria de opprobrio. <br /> + +<br /> + +―Deus quer o nosso bem, e ha de permittir!... atalhou o magistrado, +todo brandura e delicadeza. Sobre tudo se fizermos da nossa parte... <br /> + +<br /> + +―Da minha tudo, menos!... <br /> + +<br /> + +―Não diga isso!... Esse +<em>menos</em> é que precisamos +que desappareça. Meu sobrinho é um cavalheiro... <br /> + +<br /> + +―Affiança-m'o?... N'esse caso estou socegada. O +<em>menos</em> virá d'elle!... <br /> + +<br /> + +Uma sombra escureceu o rosto do intendente. Ainda não lhe +occorrêra esta hypothese, e um estremecimento nervoso +avisou-o, de que ella podia converter-se em obstaculo insuperavel. Que +certeza tinha de que Aubry annuisse ao pacto infame, que procurava +extorquir, fazendo da cabeça de Paulo de Azevedo o penhor da +docilidade de sua filha? <br /> + +<br /> + +―Não imaginemos coisas tristes! redarguiu contrafeito. Seu +pae, lembre-se, está preso, e em vesperas de ser +sentenciado... <br /> + +<br /> + +―Meu pae, tornou a donzella altiva, saberá morrer, que lh'o +ensinaram os seus antepassados; o que nunca soube, nem ha de aprender +na velhice, é a vender o sangue da sua alma, a ventura e a +dignidade de sua filha para salvar a vida. <br /> + +<br /> + +―N'esse caso!... Mas o pobre Armand!... Falámos tanto +d'elle que por fim esqueceu-nos! Como ha de estar impaciente. Tinha um +desejo tão ardente de vir aqui!... Ah, ri-se? Não +acredita?!... Pois é verdade. Dá +licença?!... <br /> + +<br /> + +E sem aguardar mesmo o aceno secco de cabeça, com que Leonor +respondeu, Lagarde, +<span class="pagenum">[171]</span> +precipitando-se +direito á porta, cortou com esta saída theatral a +conversação no +ponto, em que ameaçava tornar-se tempestuosa. Em quanto elle +saia, a donzella enxugou á pressa duas lagrimas, reprimidas +até então pelo orgulho, +e inclinou a fronte como se lhe faltasse o vigor para supportar mais. +Durou só um momento esta fraqueza. Um minuto depois erguia a +face, e tornava a obrigal-a a exprimir a frieza glacial do papel +forçado, que se via constrangida a representar. Um rapido +volver de olhos á porta de vidraças, detraz da +qual Manuel Coutinho escutava, e um suspiro ancioso foram os ultimos +signaes do seu desalento. <br /> + +<br /> + +O intendente entrava com o sobrinho. <br /> + +<br /> + +Vendo-o, Leonor córou, e fez-se logo, pallida. <br /> + +<br /> + +O mancebo, contemplando-a, sentiu-se vencido de repente, e conheceu que +aquella bella e doce imagem se lhe gravára profundamente no +coração. A tristeza resignada, que respiravam as +feições da donzella, a sua vista magoada, mas +serena e quasi severa, e a casta e graciosa elegancia do porte, +acabaram de o render. O semblante, em que um momento antes sorria +zombeteira a mofa do conquistador, seguro do triumpho, desarmou-se +instantaneamente da expressão quasi insolente, e +inclinando-se, perturbado, e reverente, Armand saudou a filha de Paulo +de Azevedo como poderia saudar uma rainha no seu throno. <br /> + +<br /> + +―Aqui vem a seus pés mais este captivo, minha senhora! +exclamou o intendente no estylo refinado e galanteador da +côrte franceza. Compadeça-se d'elle. +Não consinta que suspire em vão! <br /> + +<br /> + +Armand empallideceu. Não era com gracejos vulgares e pueris, +que elle agora desejava +<span class="pagenum">[172]</span> +expressar á donzella a admiração. O +official, de ordinario tão solto e audacioso, já +não achava phrases que pintassem o estado da sua alma. Mas +se os labios eram mudos, falavam os olhos, e o proprio enleio +significou uma homenagem á amante de Manuel Coutinho. <br /> + +<br /> + +―Veja como a adora! proseguiu Lagarde, que, sem o querer, representava +o papel comico de um tutor de entremez. Que victoria, minha senhora! +Fez como Cesar, viu, e venceu!... <br /> + +<br /> + +―Ah! interrompeu Leonor, deixando cair de alto sobre o tio e o +sobrinho uma vista ironica e aguda, que os gelou a ambos, porque o +despreso e o escarneo, que exprimia, traspassava. <br /> + +<br /> + +―Meu tio!... murmurou Armand confuso, e recuando como ferido de uma +bala. <br /> + +<br /> + +Houve uma breve pausa. O ministro estudava um exordio, que o salvasse +dos apuros do lance, em que se mettêra, +amaldiçoando interiormente Aubry, cuja falsa delicadeza +começava a assustal-o. A filha de Paulo de Azevedo, em +pé, branca como uma estatua de alabastro, mas imperiosa, +amparava o corpo gentil com a mão no espaldar da cadeira e +n'esta posição, cheia de dignidade, aguardava +silenciosamente, que um dos dois ousasse dizer-lhe tudo. <br /> + +<br /> + +O mancebo, que a interjeição de Leonor fizera +córar até á raiz dos cabellos, e que a +vista de tantas graças e enlevos cada vez seduzia mais, +esperava ancioso, que o intendente, auctor do enredo, lhe rompesse o +caminho, temendo adivinhar na mudez e no ar soberano e offendido da +bella portugueza um trama, que a honra o obrigasse a desmentir. <br /> + +<br /> + +―Armand, minha senhora, disse por fim Lagarde, que o amor proprio e a +cubiça forçavam a insistir, encarrega-me de lhe +pedir, +<span class="pagenum">[173]</span> +que se digne receber os +testemunhos de seu respeito e adoração. <br /> + +<br /> + +―Sempre como procurador?!... atalhou ella com um sorriso ironico. <br /> + +<br /> + +―Em pessoa, minha senhora, em pessoa!... Se não veiu mais +cedo é que... <br /> + +<br /> + +―Meu pae não estava ainda quasi no oratorio, e o sr. +Lagarde temia que a filha fosse menos docil? <br /> + +<br /> + +―Oh!... bradou Armand, encarando o ministro severamente, e +adeantando-se impetuoso. Minha senhora, balbuciou depois, se aqui vim +foi attrahido por uma doce esperança, que vejo ter sido +chimerica... Posso saber o que meu tio quiz fazer, valendo-se do meu +nome? Presinto um segredo de violencia, talvez de iniquidade, mas, +juro-lhe pela minha honra, que estou innocente... que sou incapaz de +acceitar a sua mão, que me faria bem ditoso, agora o sinto, +se livremente m'a não désse. Peço-lhe +a verdade! Ao +menos não me condemne sem me ouvir!... <br /> + +<br /> + +Lagarde não soube conter-se. Um raio, que lhe estalasse de +repente sobre a cabeça, não o teria desfigurado +tanto. Empregado o ardil classico do famoso quadro do sacrificio de +Ephigenia, escondeu metade da cara no lenço de assoar, +pedindo a Deus que um alçapão propicio se lhe +abrisse debaixo dos pés para o sumir da vista irritada dos +personagens, cujas explicações previu, que iam +desmascaral-o inteiramente. <br /> + +<br /> + +Leonor, escutando as nobres palavras de Aubry, recompensou-as com um +olhar sympathico. O semblante perdeu a expressão severa, e a +voz, meiga e commovida, vibrou harmoniosa, como um canto suave, no +peito agitado do official francez. <br /> + +<br /> + +―Agradecida! redarguiu offerecendo-lhe pela primeira vez a +mão, que elle beijou estremecendo. +<span class="pagenum">[174]</span> +Não tenho que lhe +perdoar... Agora vejo! O sr. Lagarde... como hei de dizer toda a +verdade!? O sr. Lagarde prendeu meu pae, accusou-o, e tem suspensa +sobre a sua vida a espada de um conselho de guerra... Tinha-me falado +ha mezes n'este casamento... A minha recusa aggravou-o... e hoje, aqui +mesmo, veiu propor-me salvar meu pae se eu consentisse... <br /> + +<br /> + +―Oh, meu tio! interrompeu o mancebo fulminando o intendente com os +olhos, e vermelho de colera e pejo. Não diga mais, minha +senhora. Adivinho a resposta. Regeitou!... <br /> + +<br /> + +―Regeitei! continuou a donzella. A minha mão pertence a +outro; o meu amor não se vende. <br /> + +<br /> + +―Nem o meu nome se infama! rugiu Aubry tremulo de raiva. Sr. Lagarde +agradeça ao sangue, que nos corre nas veias, a minha +paciencia! Se não fosse! E suffocado em ira apertou os +punhos, e levou-os á fronte. Lagrimas de +indignação rebentaram de seus olhos seccos. O +intendente parecia petrificado. <br /> + +<br /> + +―Offereci o dote sem a noiva; proseguiu Leonor. Era o meu resgate. Oh, +perdoe sr. Aubry, não o conhecia ainda. Depois que o +ouço... não lhe faria a affronta de suppor... <br /> + +<br /> + +―Vê! accudiu o official, colhendo o ministro do +braço, e saccudindo-o com furia. Vê a que me +expoz?!... Meu tio, tenho vergonha, queima-me os labios dar-lhe este +nome! Quem lhe deu o direito e a ousadia de arrastar o meu, o nobre +appellido de meus virtuosos paes pelo lodo de suas torpezas?! Sou +pobre, accrescentou voltando-se convulso para a filha de Paulo de +Azevedo, mas a pobreza supportada com valor, com alegria, como eu a +supportei sempre, não desdoura, engrandece. Hoje +não possuo outras riquezas, senão o orgulho da +propria indigencia, que nunca ajoelhou, +<span class="pagenum">[175]</span> +o respeito do nome sem macula que +herdei, e esta espada... que póde abrir-me o caminho da +gloria, ou o da sepultura!... Nunca me passou pela idéa, que +houvesse no mundo um coração tão vil e +corroido, +que se atrevesse a cuspir no meu rosto e sobre as cinzas dos que mais +amei a injuria de me aviltar ausente a +especulações infames!... Socegue, minha senhora! +Todos os thesouros da terra, depois d'isto, não me obrigavam +a acceitar a sua mão, ainda que m'a offerecesse. <br /> + +<br /> + +―Louco! D. Quixote! Nescio!... rosnou Lagarde, ao qual a generosa +declaração do mancebo restituiu a voz, e redobrou +a ira de se ver descoberto e punido. <br /> + +<br /> + +―Senhor Lagarde! disse Armand, cravando n'elle um olhar sombrio. Sei +que devo parecer-lhe nescio e estouvado. Glorio-me da censura. O que me +faria córar eternamente seria um elogio... depois do que +acabo de ouvir. <br /> + +<br /> + +―Senhor Aubry, observou Leonor, creia que nunca hei de esquecer a +nobreza do seu caracter. Aonde quer que a fortuna o leve... conte com a +minha amisade. Não sou ingrata. Se meu pae escapar... <br /> + +<br /> + +―Ah! exclamou o mancebo. Esquecia-me! Senhor Lagarde! ajuntou, +travando rijo do braço ao ministro, que se ia desviando para +se evadir desapercebido. Uma palavra antes de sair! Os vinculos do +nosso parentesco estão rotos de hoje em deante. Quer que o +mundo ignore os motivos? Ponho uma condição a +esse sacrificio da minha parte!... <br /> + +<br /> + +―Condições?!... interrompeu o intendente, +ameaçando o sobrinho e Leonor com os olhos e com o gesto. <br /> + +<br /> + +―Condições, sim! atalhou o mancebo friamente. +Offereço-lhe o seu perdão, e a minha +indifferença... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[176]</span> ―Offereces-me o +teu perdão? É admiravel! Que me +importa o teu perdão?... <br /> + +<br /> + +―Em troca de um acto de generosidade... forçada. Bem +vê que lhe faço +justiça, e que digo +<em>forçada</em>, proseguiu +Aubry, contendo-o, e dominando-o com a vista. <br /> + +<br /> + +―Oh! exclamou Lagarde, rindo convulso e constrangido. A scena era para +se ver no theatro francez! Enlouqueceste Armand?!... <br /> + +<br /> + +―Não! redarguiu Aubry, cerrando os dentes e crescendo para +elle indignado. Não enlouqueci! Mas ninguem até +hoje me affrontou impunemente. Em tres dias o pae d'esta senhora ha de +estar absolvido e solto... <br /> + +<br /> + +―Ah! É de mais! accudiu o ministro affectando intrepidez, +porém assustado. E se não estiver? +póde acontecer que as tuas ordens não sejam +cumpridas á risca. Se não +estiver pódes dizer-me o que farás? Accommettes a +policia, fuzilas o conselho de guerra, ou assaltas os moinhos de vento +de Monsanto?!... <br /> + +<br /> + +―Por Deus, senhor Lagarde, não tente a minha paciencia! +bradou o official empallidecendo de colera, em quanto as pupillas +scintillantes faiscavam mil ameaças. Se não +estiver livre e absolvido... como lhe mando!... ouve? juro-lhe pela +santa memoria de minha mãe, á qual deve +só n'este momento a +vida! que ámanhã o nome mais infame do imperio +será o seu!... <br /> + +<br /> + +O intendente fez-se branco e recuou, lendo na vista inflammada do +sobrinho o odio e o despreso. <br /> + +<br /> + +―Armand! exclamou balbuciando, renegas o teu sangue por estranhos?! +Unes-te aos inimigos da tua patria contra mim!?... <br /> + +<br /> + +―Os inimigos combatem-se com as armas na mão, +não se salteam nos corredores da policia, pedindo-lhes a +bolsa, ou a vida!... +<span class="pagenum">[177]</span> +Fez-me +córar de vergonha! A maior injuria, que podia irrogar-me, +era suppor alguem que eu fosse cumplice de mercados tão +vilões... <br /> + +<br /> + +―És uma criança! Julgas o mundo pelos +romances!... <br /> + +<br /> + +―Basta! clamou o mancebo. Quer acaso convencer-me?! Se não +obedecer ao que lhe disse, que é o desaggravo da minha honra +ultrajada, não se admire do que eu fizer!... <br /> + +<br /> + +―Do que fizeres! Ameaças?! Crês que te receio?... +Em eu te desamparando cuidas que vales alguma cousa?! rugiu o +intendente exasperado. <br /> + +<br /> + +―Hei de valer sempre o que vale um nome honrado! Não +preciso de mais. Repito. Tome bem sentido! Se o pae de D. Leonor +não for solto em tres dias... <br /> + +<br /> + +―Não é. Que mais?! atalhou o ministro, cruzando +os braços. <br /> + +<br /> + +―O general Junot e o conselho do governo saberão como se +enriquece o intendente geral da policia! Vou revelar-lhes tudo. +Então veremos. <br /> + +<br /> + +―Tu! Meu sobrinho! exclamou Lagarde retrocedendo fulminado. <br /> + +<br /> + +―Eu! Seu sobrinho por minha desgraça. Escolha agora. <br /> + +<br /> + +Voltou-se depois para Leonor, que o dialogo tornára immovel, +e acrescentou: <br /> + +<br /> + +―Minha senhora, adeus. Levo d'aqui a admiração +da sua formosura, e a magoa de ter sido causa innocente de suas +lagrimas. Sei que me perdoa, e que me fica estimando. Não +peço mais. Socegue. Mesmo sem o dote, o senhor Lagarde ha de +servir seu pae... Elle sabe que eu costumo cumprir a minha palavra. +Vamos, ajuntou apontando a saída ao ministro com um gesto +imperioso. O luto entrou comnosco n'esta casa... É tempo de +<span class="pagenum">[178]</span> +deixarmos que a alegria e a +tranquillidade voltem. <br /> + +<br /> + +E quasi obrigando Lagarde a retirar-se, lançou sobre Leonor +um olhar de apaixonado enlevo, inclinou-se com um suspiro, e +desappareceu. <br /> + +<br /> + +―Manuel Coutinho, disse a donzella, erguendo a fronte de repente, +depois de alguns momentos de silencio, ouviu tudo?... <br /> + +<br /> + +―Tudo, redarguiu elle, que não se demorou em vir +lançar-se de novo a seus pés. <br /> + +<br /> + +―Então sabe a divida que hoje contrahi... que ambos +contrahimos com Armand de Aubry. Espero que a vida d'elle lhe seja +tão sagrada... <br /> + +<br /> + +―Como a de um irmão, respondeu Manuel. É uma +grande alma. <br /> + +<br /> + +―Alviçaras! Alviçaras! Senhora D. Leonor! Gritou +a voz do bispo do lado do jardim. Os inglezes estão a +desembarcar. O nosso captiveiro pouco durará se Deus quizer. +<br /> + +<br /> + +E o prelado entrou afadigado e tremulo de jubilo no aposento, aonde os +dois lhe abriam os braços não menos +alvoroçados. <br /> + +<br /> + +<h4>FIM DO PRIMEIRO VOLUME</h4> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>NOTAS AO PRIMEIRO VOLUME +</h3> + +<h3><br /> + +</h3> + +<h3>I </h3> + +<br /> + +<div class="quote1">O poder do ministro eclipsou-se com o +ultimo suspiro do principe e, +com elle expiraram as tradições viris e os +commettimentos reformadores... <a href="#n1">pag. 24</a>.</div> + +<br /> + +<br /> + +O governo do marquez de Pombal abrangeu todo o reinado de el rei D. +José I. Varios, e mais ou menos parciaes, foram os juizos +dos contemporaneos ácerca da +administração severa, intolerante, e absoluta, +mas a muitos respeitos fecunda e reorganizadora de Sebastião +José de Carvalho e Mello. A obra, que emprehendeu, o +rejuvenescimento da unidade monarchica sustentado pelo apoio das +classes medias devia encontrar, e de feito encontrou, a +opposição dos +privilegios, dos abusos, das hypocrisias, e do fanatismo. No +paço a familia real, nos gremios puritanos da nobreza os +fidalgos mais poderosos, nas corporações +religiosas a +companhia de Jesus, declararam guerra mortal e incessante ao ministro, +aos seus actos, e ás suas tendencias. Para a familia real +Sebastião José de Carvalho +era quasi um inimigo da força e da consciencia do rei. Para +a nobreza arrogante e affeita a dominar o poder despotico de um +ministro, que não acurvava as vontades, ou as leis ao aceno +imperioso dos eleitos de sangue azul era um peão fidalgo, +insolente e soberbo, que importava +derrubar e punir o mais depressa possivel. Finalmente, para os +jesuitas, cuja influencia dilatada nos ultimos annos de valimento +durante o reinado de D. João V, não consentia +emulos, e muito menos +peias, os planos atrevidos do secretario d'Estado, representando +ameaças e perigos perennes para a prosperidade da sociedade, +equivaliam a um cartel, que a todo o +<span class="pagenum"><a name="p180">[180]</a></span> +transe convinha acceitar e concluir pela +derrota do orgulhoso sob pena de aplanar aos adversarios os caminhos do +triumpho. <br /> + +<br /> + +A firmeza do rei, o prestigio que a auctoridade monarchica possuia +ainda, e a intrepidez do ministro venceram estas resistencias +colligadas. Por que preço, +porém? Que o digam os carceres e prisões povoadas +de suspeitos, réos apenas muitos d'elles de alguma +opinião mais livre. Que respondam os processos, as +alçadas, os degredos, e os supplicios, paginas luctuosas de +um governo inexoravel e vingativo. Copiando do cardeal de Richelieu +até as perfidias cruentas, Pombal assignalou com um rasto +patibular as principaes +estações da sua +administração. Por fim escorregou e caiu no +sangue vertido muitas vezes sem necessidade. Os horrores, que afogaram +nos tratos e crueldades da praça de Belem a famosa +conspiração de +1758, a expulsão <a href="#e23">dos</a> +jesuitas; os castigos atrozes +contra os tumultuarios do Porto; a execução de +João +Baptista-Pelle; o encarceramento prompto e perpetuo de quantos podia +receiar como rivaes, ou como censores pelo nome, pela integridade, pela +jerarchia, ou pela sciencia são nodoas indeleveis e +accusadoras, que não +apagam o merecido elogio de outros actos, nem a recta e desassombrada +apreciação de suas reformas uteis e +opportunas. <br /> + +<br /> + +O marquez de Pombal tentava em parte o impossivel. Não +admira, por isso, que na queda arrastasse comsigo quasi tudo o que nos +monumentos do seu governo era fragil, instavel, e transitorio. A +monarchia pura tinha envelhecido muito e depressa para ser exequivel +salval-a por meio da transfusão de idéas e +principios repugnantes á sua índole, contrarios +aos +preconceitos e crenças do povo e das classes elevadas, e sem +base firme em que assentasse uma construcção +duravel. Os tres reinados de D. Affonso VI, D. Pedro II e D. +João V adeantaram a tal ponto a caducidade, que os milagres +do genio, e os prodigios da vontade o mais que poderam conseguir foi +suspender a dissolução +espaçando até ao fim do reinado seguinte a +revolução eminente. O ministro absoluto serviu-se +em muitas occasiões do poder como de uma arma cega e +demolidora, e a ferro e fogo imaginou transformar a sociedade decrepita +e moribunda em uma sociedade nova, e vigorosa e viril, filha legitima +das grandes idéas philosophicas +<span class="pagenum">[181]</span> +fadadas á conquista do +futuro. Suas leis e seus esforços provam a +elevação do +pensamento e a intensidade dos bons desejos; mas do que elle decretou +ficou de pé sómente o corpo logo tornado cadaver. +O +espirito... não eram aquelles ainda os dias da sua victoria +nem os seus meios de persuasão. Por isso com o ultimo +suspiro de D. José I baqueou não só o +poder, mas subverteram-se em grande parte até as +idéas +representadas pelo marquez de Pombal. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>II </h3> + +<br /> + +<div class="quote1"> +Um gabinete quasi todo composto de aulicos, sujeito ao voto do +confessor valido substituiu o mando odiado do marquez... <a href="#n2">pag. 24</a>.</div> + +<br /> + +<br /> + +A rainha D. Maria I contava, quando subiu ao throno, quarenta e tres +annos de edade. Nascida e educada para reinar houve um momento, em que +seu pae, segundo se affirma, concebeu a idéa de proclamar a +lei salica, cingindo a corôa na fronte juvenil do principe D. +José. Acclamada em 13 de maio de 1777 com D. Pedro III, +esposo e tio, o primeiro acto do seu governo foi um acto de clemencia. +Mandou abrir as prisões e soltar os presos d'Estado. Chamou +dos longos desterros, em que jaziam, a muitos varões +respeitaveis pelos annos, pelo caracter, e pela jerarchia. Menos feliz +do que Richelieu e Colbert o marquez de Pombal assistiu vivo +ás exequias do seu poder e á +demolição da sua obra. <br /> + +<br /> + +Demittido dos principaes empregos exercidos por largo tempo, teve o +marquez por successores na presidencia do real erario o marquez de +Angeja, cuja lealdade D. José I attestára +espontaneamente recolhendo-se +a sua casa na fatal noite de 3 de setembro de 1778; na secretaria +d'Estado dos negocios do reino, o visconde de Villa Nova da Cerveira; +na dos negocios estrangeiros e da guerra Ayres de Sá; e na +repartição da marinha e ultramar Martinho de +Mello e Castro. <br /> + +<br /> + +Estes cavalheiros não eram homens obscuros, ou ineptos, mas +qualquer d'elles estava longe da vigorosa iniciativa de +Sebastião José de Carvalho, e todos +juntos +<span class="pagenum">[182]</span> +confundiam e +atavam, mais do que desenredavam e esclareciam, as +resoluções. <br /> + +<br /> + +A consciencia timida da rainha, o genio apoucado de seu marido, as +insinuações hypocritas dos beatos, +que se apoderaram logo de todas as avenidas do paço e +começaram a influir na direcção dos +negocios, +não concorreram pouco para tornar o novo reinado uma quasi +restauração de tudo quanto o marquez de Pombal +intentára destruir, ou modificar. <br /> + +<br /> + +Combatida de escrupulos suggeridos por falsos devotos a +rasão da rainha principiou logo a vacillar, e á +prudencia e caracter limpo de allusões do seu confessor o +arcebispo de Thessalonica, D. Fr. Ignacio de S. Caetano, é +que ella deveu não se afogar mais cedo +nas trevas da demencia. <br /> + +<br /> + +O governo de D. Maria I não foi, comtudo, um governo +absolutamente estacionario e inimigo de reformas. Se o risco das +grandes cousas traçadas pelo marquez de Pombal assustava a +capacidade menos elevada dos ministros, que lhe succederam, todos elles +ao menos manifestaram bons desejos e rectas +intenções, seguindo, ainda que muito de longe, o +espirito moderno, que alvorecia em França, e cujos +clarões ainda se +não haviam convertido nos relampagos deslumbrantes, que +precederam a revolução de 1789; ou nas +tempestades medonhas, que revelaram as subversões de 1792 e +1793. <br /> + +<br /> + +Modesto nas idéas e nos commettimentos, o gabinete da rainha +creou a junta do codigo civil, cujos trabalhos nunca viram a luz da +estampa; fundou a Academia Real das sciencias; estabeleceu os estudos +de primeiras lettras e humanidades nos claustros das +corporações regulares; instituiu a casa Pia para +asylo das creanças orphãs; dotou as aulas de +Fortificação e a Academia de Marinha; e decretou +novas estradas e meios de as executar sob a +direcção de +José Diogo de Mascarenhas Netto. <br /> + +<br /> + +A entrada de D. Rodrigo de Sousa Coutinho no ministerio em principios +de 1797, por morte de Martinho de Mello, introduziu na +administração um elemento +activo, emprehendedor, e dedicado por indole e tendencias a arriscar +planos mais vastos e mais altos muitas vezes, do que o consentiam as +circumstancias e as forças debilitadas da monarchia.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[183]</span> +<h3>III </h3> + +<br /> + +<div class="quote1">Os tres sujeitos eram nada menos, do +que tres delegados do +<em>conselho conservador de Lisboa</em>, +associação composta de patriotas dedicados +á +restauração da independencia, etc., <a href="#n3">pag. 88</a>.</div> + +<br /> + +<br /> + +A existencia d'esta sociedade secreta politica não +é uma invenção. Saiu á luz +dos prelos da +imprensa regia um opusculo de 24 paginas de 8º, com a seguinte +denominação <em>Catalogo por copia +extrahido do original das sessões e actas feitas pela +sociedade de portuguezes, dirigida por um conselho +intitulado</em> +<span class="smallcaps">conselho conservador de lisboa</span><em>, +e +installada n'esta mesma cidade em 5 de fevereiro de 1808; tendo se +unido os installadores em 21 de janeiro do mesmo anno para tractar da +restauração da patria</em>. <br /> + +<br /> + +O conselho fundou-se em 5 de fevereiro de 1808 com seis socios que +eram: G... Matheus Augusto, José Maximo Pinto da Fonseca +Rangel, José Carlos de Figueiredo, Antonio +Gonçalves Pereira, André +da Ponte do Quental da Camara; José Maximo da Fonseca foi +nomeado secretario. O local das reuniões decidiu-se que +fosse alternadamente a casa de cada um dos adeptos. A hora das +conferencias ás 8 da noite. <br /> + +<br /> + +A formula do juramento adoptada era esta: «Na nossa +presença, oh immenso, Sempiterno, Omnipotente Deus, creador +do Universo, estando em nosso accordo, sem constrangimento, ou duvida, +livres e deliberados jurámos tractar de hoje em deante com +todo o possivel disvelo, fervor, prudencia, e firmeza a causa +nobilissima da religião da patria e do throno applicando +para isso nossas forças, talentos, bens e vida +até +conseguirmos entregar este a seu dono o <span class="smallcaps">principe +regente</span> e áquelles o esplendor, a +liberdade, a gloria. Este juramento seja para sempre o fundamento da +nossa honra e da nossa felicidade, que chame sobre nós a +benção divina e os applausos da nossa +posteridade: a +violação d'elle, pelo contrario, +attrairá sobre nós as +maldições do céu e da terra; a vileza +para nós e para os nossos descendentes.» <br /> + +<br /> + +Na setima sessão prestaram este juramento um pouco theatral +o coronel de cavallaria Alvaro Xavier +<span class="pagenum">[184]</span> +de Povoas e Fernando Romão da +Costa Athaide Teive. D'ahi em deante cresceu todos os dias o numero dos +socios e associados. Na sessão de 25.º +constituiu-se o <em>conselho conservador</em> +á +pluralidade de votos e ficou composto dos seguintes deputados e +adjuntos: o bispo de Malaca D. Francisco, o D. abbade de Belem fr. +Manuel de Mesquita, o arcediago do Funchal Manuel Joaquim de Sousa, o +beneficiado Joaquim José da Costa, o marquez de Angeja D. +João, o conde de Rio Maior, o visconde da Bahia, o +desembargador Sebastião José de Sampaio, o +brigadeiro Antonio Marcelino da Victoria, os coroneis Lemos, Lacerda, e +Raposo, o tenente coronel Costa Athaide, o major Antonio Marcelino +Soares, e todos os mais socios approvados e admittidos. João +Carlos de Saldanha Oliveira e Daun, hoje duque de Saldanha, entrou +tambem no conselho inscripto sob numero 27. Consta da +relação +publicada a pag. 87 do opusculo. <br /> + +<br /> + +O conselho desde 5 de fevereiro até ao 1.º de +outubro de 1808, em que se dissolveu, celebrou quarenta e duas +sessões. O numero dos socios ajuramentados subia a 183. O +dos auxiliares abonados por varios d'elles elevava-se a 959, +além do concurso de tropa e povo, com que contava para o +caso de um rompimento. <br /> + +<br /> + +Os planos de sublevação, as +proclamações, os avisos ao almirante inglez sir +Charles Cotton, e os projectos da sociedade não corriam +tão secretos como elle +imaginava. <br /> + +<br /> + +A policia franceza suspeitava, pelo menos, se não conhecia +plenamente a organização d'este nucleo; +porém não julgou prudente proceder contra elle, +temendo-se talvez mais de um processo ruidoso em circumstancias +criticas, do que dos tramas pouco bellicosos e activos dos +conspiradores. É o que se deprehende de um trecho da +<em>Historia da Guerra da +Peninsula</em> do general Foy.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p185">[185]</a></span> +<h3>IV</h3> + +<br /> + +<div class="quote1">Muitos homens illustrados, que o +grandioso espectaculo dos +acontecimentos advertia, suspiravam por uma +renovação, que nunca podia ser inspirada, bem o +sabiam por experiencia, nem pelas idéas, nem pela iniciativa +de um governo caduco <a href="#n4">pag. 101</a>.</div> + +<br /> + +<br /> + +Allude-se no texto ao plano de uma constituição +similhante á que Napoleão I concedêra +ao +grão-ducado de Varsovia, plano concebido, <a href="#e24">segundo</a> +affirma o general Foy, no liv. II da sua <em>Histoire de +la Guerre de la Peninsule</em>, por alguns patriotas +portuguezes, +desejosos de colherem ao menos da intrusão estrangeira os +beneficios da liberdade. <br /> + +<br /> + +O general Foy cita como auctores principaes do plano o desembargador +Francisco Duarte Coelho, o doutor Ricardo Raymundo Nogueira, reitor do +Collegio dos Nobres, e o conego Simão de Cordes +Brandão, lente de direito natural e das gentes na +Universidade de Coimbra, e insere nas provas sob a lettra +<em>J</em> o projecto de codigo politico, que +então se queria pedir a Bonaparte. (Tomo II, +edição de Paris pag. 38 e +seguintes e pag. 469 e seguintes). <br /> + +<br /> + +José Acurcio das Neves (<em>Historia da +Invasão dos Francezes em Portugal</em> tomo II) +transcreve egualmente o documento, porém não diz +claramente a quem elle deve ser attribuido; mas o auctor da +<em>Historia de El-Rei D. João +VI</em>, vertida em portuguez +(Lisboa typographia Patriotica 1838 a pag. 189-191), depois de nos dar +tambem o projecto, accrescenta, que esta mensagem fôra +dirigida pelo doutor Gregorio José de Seixas de accordo com +muitas pessoas distinctas por engenho e +representação. Entretanto o padre +José Agostinho de Macedo, como nota o sr. Innocencio +Francisco da Silva no tomo VII do seu <em>Diccionario +Biliographico</em> pag. 276, accusou em mais de um logar +de suas obras a Simão de Cordes, lançando-lhe em +rosto o +haver sido um dos que no fim do seculo passado maior impulso +tentáram dar á maçonaria em +Portugal, e principalmente em Coimbra, aonde chegára a +organizar algumas lojas. <br /> + +<br /> + +O bispo de Vizeu no <em>Elogio Historico</em> +fórma juizo +<span class="pagenum">[186]</span> +absolutamente opposto do procedimento e doutrinas de Simão +de Cordes. <br /> + +<br /> + +Sejam, porém, as que aponta o general Foy, ou outros +auctores, o projecto de constituição redigiu-se e +corre hoje impresso. Restava o mais difficil. Era necessario achar +pessoa auctorizada, que se decidisse a apresental-o. Acceitou a +missão arriscada o juiz do povo, que era então um +tanoeiro chamado José de Abreu Campos, notavel pela firmeza +e integridade. Mais de um lance de nobre ousadia confirma esta +opinião formada com justiça ácerca do +seu caracter. <br /> + +<br /> + +Quando o conde da Ega foi incumbido por Junot de aggregar aos membros +da <em>Junta dos Tres +Estados</em> os representantes denominados dos +braços da +nação para lhes extorquir em simulacro de +côrtes um voto de adhesão, o juiz do povo +protestou contra os actos da assembléa, como illegaes e +emanados de corpo incompetente. Quando as quinas foram picadas e +substituidas pela aguia corsa, Abreu Campos negou-se a apagal-as da +cabeça da sua vara. <br /> + +<br /> + +O juiz do povo correspondeu ás esperanças +depositadas n'elle. Intimado para assignar com o clero e a nobreza, em +nome do povo, a mensagem de 24 de maio de 1808 (provas de +<em>l'Histoire de la guerre de la +Peninsule</em>, par le general Foy. Paris 1827, tom. II, +pags. 467-469) o honrado tanoeiro, protestando contra o acto por nullo +e abjecto, e contra os que o practicavam por incompetentes, apresentou +o projecto de constituição composto em +fórma de petição dirigida +ao imperador, e appellou para o voto do paiz representado em +côrtes. <br /> + +<br /> + +Esta voz isenta proclamando a emancipação +politica offendeu os ouvidos do duque de Abrantes. O juiz do povo, +chamado ao quartel general, foi asperamente reprehendido, e varias +pessoas, suspeitas de liberaes, mandadas sair de Lisboa. <br /> + +<br /> + +Prevaleceu assim a mensagem servil dictada á simulada junta +da nação. José +Sebastião de Saldanha partiu encarregado de a apresentar a +Napoleão I. Achando, porém, já +interceptadas as +communicações da Hespanha com a +França, recolheu a Lisboa sem ter podido passar adeante da +cidade Rodrigo.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[187]</span> +<h3>V</h3> + +<br /> + +<div class="quote1">Deixemos passar esses vultos, que +pisam os sobrados nas pontas dos +pés, escorregando quasi como sombras. São rodas +secundarias da machina, <a href="#n5">pag. 111 e 112</a>.</div> + +<br /> + +<br /> + +O general Junot, intitulando-se nos seus actos governador de Paris, +primeiro ajudante de campo de S. M. o imperador e rei, e general em +chefe do exercito invasor, compôz desde principio e da +maneira seguinte o pessoal do governo em Lisboa: <br /> + +<br /> + +Por decreto datado de Lisboa no 1.º de dezembro de 1807, +nomeou Francisco Antonio Herman commissario do governo francez junto do +conselho do reino de Portugal, o qual lhe daria conta de todas as suas +deliberações, podendo assistir a ellas, querendo, +e assignar as actas. Por decreto de 3 de dezembro, do mesmo anno foi +Herman incumbido tambem da administração +geral da fazenda. Em 8 de dezembro foi encarregado o general Laborde do +commando superior de Lisboa e o conde de Novion do commando das armas +da cidade. O marquez de Alorna recebeu a nomeação +de +inspector geral e commandante das tropas nas provincias de +Traz os-Montes, Beira e Extremadura (22 de +dezembro de 1807). <br /> + +<br /> + +J. J. Magendie já exercia as funcções +de commandante em chefe da marinha em 1 de março de 1808, +como consta de um aviso seu aos officiaes da arma, e aos empregados do +porto de Lisboa, expedido n'essa data. P. Lagarde foi nomeado +intendente geral da policia do reino em 25 de março de 1808, +por decreto de Junot, referendado pelo secretario de Estado dos +negocios do interior e da fazenda, Francisco Antonio Herman. Por +decretos da mesma data nomeou Junot corregedor-mór da +Extremadura a mr. Pepin Bellisle, auditor do conselho de Estado, da +provincia do Alemtejo a mr. Lafond, e da provincia de entre Douro e +Minho a Taboureau, ambos tambem auditores do conselho de Estado. +Quintella foi feito corregedor-mór da Beira. <br /> + +<br /> + +O decreto, que approvou as instrucções dictadas a +estes novos magistrados, sahiu com a data de 2 de +<span class="pagenum">[188]</span> +abril de 1808. Por decreto de 16 de abril do +mesmo anno foi Lagarde nomeado conselheiro do governo para assistir +ás sessões do conselho. A 16 de +abril já o general Junot havia recebido de +Napoleão o titulo de duque de Abrantes.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>INDICE </h2> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 483px;" colspan="3" rowspan="1">A +Camillo Castello +Branco</td> + + <td style="width: 50px; text-align: right;"><a href="#c0">5</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">I</td> + + <td style="width: 13px; text-align: center;">―</td> + + <td style="width: 483px;">Uma noite +desabrida</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c1">7</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">II</td> + + <td style="width: 13px; text-align: center;">―</td> + + <td style="width: 483px;">O moinho da +Raposa</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c2">15</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">III</td> + + <td style="width: 13px; text-align: center;">―</td> + + <td style="width: 483px;">Duas paginas da historia +d'este +seculo</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c3">21</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">IV</td> + + <td style="width: 13px; text-align: center;">―</td> + + <td style="width: 483px;">O bem soa, o mal +voa</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c4">32</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">V</td> + + <td style="width: 13px; text-align: center;">―</td> + + <td style="width: 483px;">Não ha atalho +sem +trabalho</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c5">43</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">VI</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>Ressurreição de +Lazaro</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c6">55</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">VII</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>Segredos em toda a +parte</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c7">67</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">VIII</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>Entre os +bastidores</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c8">83</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">IX</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>Que talvez podesse servir de +prologo</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c9">100</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">X</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>Tolda-se o tempo</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c10">111</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">XI</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>Achilles e Nestor</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c11">127</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">XII</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>Arcades ambo!</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c12">138</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">XIII</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>Dois parentes</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c13">147</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">XIV</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>Amor</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c14">156</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">XV</td> + + <td style="text-align: center;">―</td> + + <td>Cubiça e +Nobreza</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c15">166</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="gbox"><br /> + +<table style="width: 528px; height: 31px; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td> + <h1>UM REINADO TRAGICO </h1> + + <h2> +(Complemento da HISTORIA DE PORTUGAL) </h2> + + <br /> + + <h3><span class="smallcaps">Por</span> * +* * </h3> + + <h3><br /> + +Edição Popular e Illustrada </h3> + + <br /> + + <h4>Com grande numero de retratos dos<br /> + +homens contemporaneos,<br /> + +e de gravuras +representativas<br /> + +dos acontecimentos mais notaveis<br /> + +do reinado de D. +Carlos </h4> + + <br /> + + <div style="text-align: justify;">Attendendo a +instantes pedidos de muitos dos assignantes da nossa + <b>Historia de +Portugal</b>, resolveu esta Empreza publicar um novo +livro que, embora seja como que o complemento d'aquella―e por isso +absolutamente egual em formato, papel, etc.―será no emtanto +completamente independente dos anteriores volumes, e no qual, sob o +titulo de <b>Um Reinado Tragico</b>, se +fará a descripção de todos os +successos politicos que vão desde o + <em>ultimatum</em> de 11 de janeiro de 1890 +até aos tragicos acontecimentos de 1 de fevereiro de 1908, +que determinaram a subida ao throno portuguez do rei D. Manuel II. <br /> + + </div> + + <br /> + + <div class="sbreak"> + <hr /></div> + + <br /> + + <div style="text-align: justify;">Publicação +em fasciculos semanaes de 16 paginas, +in-4.º grande, ao preço de <br /> + + </div> + + <br /> + + <h3>60 RÉIS </h3> + + <br /> + +ou a tomos mensaes de 5 fasciculos, ao preço de <br /> + + <br /> + + <h3>300 RÉIS</h3> + + </td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="gbox"><br /> + +<table style="width: 527px; height: 31px; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td> + <div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 213px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br /> + + </div> + + <br /> + + <br /> + + <br /> + + <div style="text-align: justify;"> + <div class="tiny">SEGUINDO, DIA A +DIA, A ORDEM DA SUA COMMEMORAÇÃO +PELA EGREJA</div> + + <br /> + + <br /> + + <h4>Trabalho de compilação e de +synthese,<br /> + +feito sobre +os mais modernos e conscienciosos estudos </h4> + + <br /> + + <div style="text-align: center;">PELO<br /> + + </div> + + <br /> + + <h3>Rev. Dr. SANTOS FARINHA </h3> + + <br /> + + <div class="tiny">Bacharel formado em theologia pela +Universidade +de Coimbra e parocho<br /> + +collado da freguezia de Santa Izabel, de Lisboa</div> + + <br /> + + <div class="sbreak"> + <hr /></div> + + <h3>Illustrado com centenares de gravuras </h3> + + <div class="sbreak"> + <hr /></div> + + <br /> + +Cada fasciculo semanal de 2 folhas de 8 paginas cada, in-4.º +grande, contendo pelo menos 2 gravuras, <br /> + + <h1>60―REIS―60 </h1> + + <div class="sbreak"> + <hr /></div> + + <br /> + +Cada tomo mensal de 5 fasciculos, ou 80 pag., grande formato, contendo +numerosas gravuras, <br /> + + <h1>300―REIS―300 </h1> + + <h4>DIRIGIR OS PEDIDOS Á </h4> + + <h3> +EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL </h3> + + <h4> +SOCIEDADE EDITORA </h4> + + <h3> +Livraria Moderna―Rua Augusta, 95, Lisboa </h3> + + <h4> +TYPOGRAPHIA―45, RUA IVENS, 47 + </h4> + + </div> + + </td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<b>Notas:</b><br /> + +<br /> + +<a name="1"></a><sup>[1]</sup> Eram +pannos lavrados, ou lisos, que vestiam as paredes. +Tambem se usavam de couro.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 61px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e1"></a><a href="#c2">#pág. +15</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">hombos</td> + + <td style="width: 5px; text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">hombros</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2"></a><a href="#p17">#pág. +17</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">á</td> + + <td style="width: 5px; text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">é</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e3"></a><a href="#p26">#pág. +26</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">nosas</td> + + <td style="width: 5px; text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">nossas</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e4"></a><a href="#p27">#pág. +27</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">Bonapart</td> + + <td style="width: 5px; text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">Bonaparte</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e5"></a><a href="#p29">#pág. 29</a></td> + + <td style="text-align: center;">anino</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">animo</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e6"></a><a href="#p31">#pág. 31</a></td> + + <td style="text-align: center;">presa</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">pressa</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e7"></a><a href="#p33">#pág. 33</a></td> + + <td style="text-align: center;">ruidasa</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">ruidosa</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e8"></a><a href="#p33">#pág. 33</a></td> + + <td style="text-align: center;">costumudo</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">costumado</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e9"></a><a href="#p44">#pág. 44</a></td> + + <td style="text-align: center;">cava</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">cave</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e10"></a><a href="#p53">#pág. 53</a></td> + + <td style="text-align: center;">do</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">de</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e11"></a><a href="#p57">#pág. 57</a></td> + + <td style="text-align: center;">Pedr</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Pedro</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e12"></a><a href="#p64">#pág. 64</a></td> + + <td style="text-align: center;">inop nada</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">inopinada</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e13"></a><a href="#p68">#pág. 68</a></td> + + <td style="text-align: center;">quatros</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">quatro</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e14"></a><a href="#p68">#pág. 68</a></td> + + <td style="text-align: center;">e</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">o</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e15"></a><a href="#p78">#pág. 78</a></td> + + <td style="text-align: center;">acabavaentão</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">acabava +então</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e16"></a><a href="#p79">#pág. 79</a></td> + + <td style="text-align: center;">da mesmo</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">do mesmo</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e17"></a><a href="#p84">#pág. 84</a></td> + + <td style="text-align: center;">naural</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">natural</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e18"></a><a href="#p108">#pág. 108</a></td> + + <td style="text-align: center;">noneada</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">nomeada</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e19"></a><a href="#p110">#pág. 110</a></td> + + <td style="text-align: center;">setes</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">sete</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e20"></a><a href="#p122">#pág. 122</a></td> + + <td style="text-align: center;">os que os</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">que os</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e21"></a><a href="#c11">#pág. 127</a></td> + + <td style="text-align: center;">Azevdo</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Azevedo</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e22"></a><a href="#c14">#pág. 156</a></td> + + <td style="text-align: center;">attribindo-a</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">attribuindo-a</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e23"></a><a href="#p180">#pág. 180</a></td> + + <td style="text-align: center;">do</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">dos</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e24"></a><a href="#p185">#pág. 185</a></td> + + <td style="text-align: center;">segunda</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">segundo</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +</div> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Casa dos Fantasmas - Volume I, by +Luiz Augusto Rebello da Silva + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CASA DOS FANTASMAS - VOLUME I *** + +***** This file should be named 25330-h.htm or 25330-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/5/3/3/25330/ + +Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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