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+The Project Gutenberg EBook of Um conto portuguez: episodio da guerra
+civil: a Maria da Fonte, by Miguel J. T. Mascarenhas
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte
+
+Author: Miguel J. T. Mascarenhas
+
+Release Date: May 3, 2008 [EBook #25313]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UM CONTO PORTUGUEZ ***
+
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+Produced by Manuela Alves e Pedro Saborano. (produced from
+scanned images of public domain material from Google Book
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+UM CONTO PORTUGUEZ
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+UM CONTO PORTUGUEZ
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+EPISODIO DA GUERRA CIVIL
+
+A MARIA DA FONTE
+
+POR
+
+MIGUEL J. T. MASCARENHAS
+
+PORTO
+
+Typographia Lusitana
+
+84--Rua das Flores--84
+
+1873.
+
+
+
+
+DEDICATORIA
+
+A MEU FILHO
+
+GASPAR TEIXEIRA DE SOUSA MASCARENHAS
+
+
+Dedico-te o meu unico livro.
+
+Dos variados escriptos meus, é este só que aprecio, porque empreguei n'elle
+todo o meu cabedal, vontade tenaz, e a escrupulosa consciencia dos quarenta
+annos repletos de provações.
+
+Principiado na convalescença de perigosa enfermidade, á cerca de quatro
+annos, só hoje foi concluido. É certo que precisei estudar, e ler muitos
+livros portuguezes de lei; mas a demora na conclusão do «Conto Portuguez»,
+deve, como sabes, tambem ser attribuida aos meus constantes padecimentos
+physicos, que me não consentem atturados trabalhos de nenhum genero.
+
+Escolhi-te para esta dedicatoria, porque tens no peito por tua indole e
+minha insinuação, bem gravados todos os nomes das pessoas a que devemos
+eterno reconhecimento: és como um ponto de reunião dos nossos bons amigos
+que assim me parece contemplar sem o melindre da preferencia.
+
+Guimarães, 12 de Agosto de 1873.
+
+ Teu pae muito amigo
+
+ Miguel J. T. Mascarenhas.
+
+
+
+
+PROLOGO
+
+
+Não ha forças humanas que nos destruam as tendencias.
+
+Quando o pae d'um antigo poeta latino castigou severamente o filho por
+escrever poesias, ouviu do castigado um famoso verso heroico, como promessa
+de não compôr mais versos.
+
+Desde os onze annos de idade que sinto uma irresistivel attracção para as
+letras.
+
+Não frequentei escólas: apenas me ensinaram o--a, b, c. Em tal ignorancia,
+como chegar á realisação dos meus ambiciosos sonhos, que todos eram de vêr
+em letra redonda a minha «letra de mão»?!
+
+Tive por unicos auxiliares da minha ambiciosa quanto ardua empreza, a muita
+leitura, de boa ou má digestão, o muito ouvido, a muita vontade, e a muita
+audacia, que é o fructo da ignorancia.
+
+Tenho soffrido decepções amargas, por muitas das minhas impensadas
+obrinhas: se eu fui escrevedor de gazetas!...
+
+Remirei os meus peccados, com a publicação d'este livro?...
+
+Sugeitei a primeira parte do «Conto portuguez» á censura d'um dos mais
+eruditos litteratos do Minho, que se dignou fazel-a, com a pericia e
+imparcialidade dignas d'elle. Os seus prudentes e sabios conselhos, a que
+dei todo o peso, estiveram, por um triz, a matar a obra: depois de ler o
+bom juizo do meu sensor, tudo que eu havia escripto me parecia horrendo.
+
+Resolvi, pois, concluir, e dar publicidade ao meu «Conto» sem continuar o
+prévio exame da pessoa competente a que me refiro. A rasão d'este proceder,
+que parece atrevido, está no vehemente desejo de ver publicada a obra, e na
+minha indole de hoje: tive já tanto de audacioso, quanto agora tenho de
+poltrão. O estudo, os annos, e tambem as doenças, concorreram para a
+mudança: vem sempre tarde o perfeito conhecimento da nossa ignorancia. Não
+curo do concerto, para não desabar o edificio. Se continuasse a apresentar
+o meu trabalho, como tencionei, ao mesmo excellente critico, e elle como é
+de crer, lhe notasse os defeitos,--morria o «Conto» com toda a certeza:
+morria, porque eu, por um erro apontado, desconfiava que fossem erros todas
+as palavras.
+
+Seria melhor?...
+
+São exactissimas as citações que faço tanto na parte historica como na
+romantica, colhidas em livros insuspeitos; e o que é acção do «Conto», sem
+ter allusões determinadas, é, com tudo, verdadeira: são muitos factos, meus
+conhecidos, desviados das épocas e logares em que se deram, atados e
+compostos com a arte de que posso dispôr, e postos a cargo de imaginarios
+personagens.
+
+Resta-me dizer que, na pontuação, segui o systema de regular a escriptura
+pelas pausas do discurso. Regras, deduzidas dos principios ideologicos, e
+da grammatica geral, não estão ainda assentadas, e já é tarde para o serem.
+Assim, entendi que não errava, seguindo opiniões esclarecidissimas, que
+podem ser capitaneadas pela mui douta opinião do nosso immortal padre
+Vieira, manifestada, por exemplo, n'este famoso periodo:
+
+«Arranca o estatuario uma pedra d'essas montanhas, tosca, bruta, dura,
+informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na
+mão, e começa a formar um homem; primeiro, membro a membro, e depois,
+feição por feição, até a mais miuda: ondeia-lhe os cabellos; aliza-lhe a
+testa; rasga-lhe os olhos; afila-lhe o nariz; abre-lhe a bocca; avulta-lhe
+as faces; torneia-lhe o pescoço; estende-lhe os braços; espalma-lhe as
+mãos; divide-lhe os dedos; lança-lhe os vestidos: aqui desprega; alli
+arruga; acolá recama: e fica um homem perfeito, e, talvez, um sancto, que
+se póde pôr no altar.»
+
+Guimarães, 12 de Agosto de 1873.
+
+ Miguel J. T. Mascarenhas.
+
+
+
+
+PRIMEIRA PARTE
+
+HONRA
+
+
+ «No que o mundo chama _honra_ ha muitas vezes mais vaidade que virtude».
+
+ (DR. CORRÊA DE LACERDA).
+
+
+
+
+UM CONTO PORTUGUEZ
+
+
+
+I
+
+TREZ DONZELLAS
+
+ «....................
+ Tres, sim. Não cuides
+ Que te desgraças:
+ Vês?
+ Tres são as Graças,
+ Tres, as Virtudes,
+ Tres.»
+
+ «_João de Deus_--FLOR DO CAMPO.»
+
+
+Ao cahir da tarde de um dia que fôra borrascôso, no mez de Maria de 1846,
+avistavam-se, em preparados assentos de terreiro povoado de arvores
+floridas junto do atrio de nobre e vetusto domicilio, no valle de Sousa,
+das cercanias de Penafiel, tres formosas donzellas em colloquio intimo. O
+donaire de uma d'ellas e, a par de seu garbo senhoril, a riqueza e o bem
+posto de seus atavios, estremando-a das companheiras, annunciavam a elevada
+posição social a que pertencia. A natureza é que fôra egualmente prodiga
+para todas tres, no tocante a dotes physicos. Possuiam essas feições
+caracteristicas das nossas mimosas portuguezas--e não é cego patriotismo
+esta asserção--que reunem o que ha de seductor em todos os typos do mundo.
+
+Chamava-se a fidalga D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho:
+por menos euphonico que pareça este ultimo appellido--seja dito aqui
+ligeiramente--é muito nobre e muito peninsular.[1]
+
+D. Maria achava-se no gôso de todas as caricias da familia, porque vira
+fallecer, um após outro, cinco irmãos varões, ficando a ser, por tal falta,
+o unico enlevo de seus nobres e abastados progenitores; como tambem
+usofruia o respeito admirativo de todos os mancebos de muitas leguas em
+redor de sua habitação, por ser esbelta; possuir cintura como de vespa; pés
+pequenissimos; mãos a que todos os poetas--e os democraticos mais que
+todos--chamam aristocraticas, por não encontrarem palavra mais
+significativa do bello; rosto comprido; tez pallido-rosa; nariz um tanto
+aquilino; olhos pretos, rasgados em fórma de amêndoa, e penetrantes; bocca,
+ainda que não mui breve, attrahente e engraçada, pelos alvissimos dentes
+que sustinha, e delicioso sorrir que semeava; cabellos que se lhe formavam
+em natural e opulenta corôa; piso de alvéloa sobre gêlo, e... mais de
+trezentos mil cruzados em dote.
+
+Digamos em abono de poucos dos frequentadores da morada de D. Maria, que as
+magnificas e rendosas propriedades da gentil fidalga, entravam, só por
+ultimo, nos calculos que faziam, e nos sentimentos que manifestavam.
+
+A donzella que apresentamos como principal heroina do nosso conto--que á
+força de ser verdadeiro ha de parecer inverosimil--apenas desmentia os seus
+nobilissimos antepassados na applicação ao estudo, e nos apreciaveis
+resultados que de tal ia colhendo. Era já mais de mediocremente instruida,
+e muito além do geral das senhoras portuguezas.
+
+Sobre a instrucção, devia a Deus um talento investigador, que, junto ao
+espirito repentista do sexo, dava á briosa fidalga proveitosas vantagens.
+
+Sustamos este bosquejo da nossa estremada heroina, que muita occasião
+teremos de pôr em relêvo seus dotes e qualidades.
+
+As companheiras de D. Maria, chamavam-se Anna de Jesus e Rosa de Lima,
+estimadas filhas de dous dos muitos caseiros da fidalga. Eram muito
+parecidas, apesar de não conhecerem parentesco algum entre si, e tão
+similhantes uma á outra, que muitas vezes as confundiam, e lhes trocavam os
+nomes.
+
+Fallaremos de fugida nos dotes physicos de Rosa e Anna: altas; delgadas;
+fórmas airosas, ainda que incompletas; tez alva; olhos azues; cabellos de
+fino ouro, e um todo encantador, que os modestos trajes não conseguiam
+abafar completamente, antes deixavam transluzir suas occultas bellezas.
+
+Anna de Jesus era docil; timida; e de umas crenças religiosas, que tocavam
+na beatice. Ao avêsso, Rosa de Lima, era agil; viva; falladeira; sequiosa
+de saber; crente, sim, na religião de seus paes, mas desprendida de certas
+apparencias, a que ella sabia chamar _phantasias sagradas_.
+
+Anna, interrogada, demorava as respostas que dava, e sahiam-lhe, por assim
+dizer, coadas pelo receio de não acertar. Rosa, respondia a tudo com a
+rapidez do relampago, e algumas vezes, com admiravel acerto. Ambas deviam á
+boa indole, e amisade de D. Maria, o saberem lêr e escrever, quasi
+correctamente, pelo que, e tambem pela convivencia com a esmerada e
+voluntaria preceptora, mostravam uma util superioridade ás demais donzellas
+da mesma classe.
+
+A mais velha das nossas tres heroinas, que era a fidalga, contava apenas
+dezoito primaveras.
+
+Rosa, e Anna, ignoravam a edade que ao certo tinham, sustentando, com tudo,
+o pueril capricho de que não era mais velha uma do que a outra.
+
+Rosa de Lima, mal conhecera o pae, fallecido ha dez annos, que fôra desde
+rapaz caseiro em uma das propriedades do casal de D. Maria, onde a viuva e
+a filha foram conservadas, mesmo com prejuizo do bom amanho das terras,
+como costumavam proceder os bons fidalgos portuguezes, em grata memoria
+d'aquelles que bem os serviam. A mãe, alquebrada pelos trabalhos mais que
+pela idade, tudo confiava da sua querida Rosinha. E sempre na filha tivera
+embebidos os olhos, e a alma presa.
+
+Rumorejava o povo contra o extremo maternal da mãe de Rosa, conhecida por
+Emilia do Adro, attribuindo-lhe causas mysteriosas, o que mais d'uma vez
+fôra origem de mágoas para o marido, José do Adro, o fallecido pae de Roza.
+
+Quasi sempre, o povo condemna sem averiguar, d'onde lhe vem o ser pouco
+certeiro nos juizos que fórma, embora tenham alvo, proximo ou remoto, os
+rumores de que se faz echo.
+
+Anna de Jesus, vivia na companhia de seus paes, ainda novos e vigorosos, e
+de quatro irmãos mais velhos, que eram completos homens do campo.
+Empregava-se no arranjo do bragal, e misteres internos, e quasi
+desapercebida passava, a existencia da timida Anna, no centro de sua
+laboriosa e rude familia.
+
+Não deve ser estranhada a confiança que D. Maria da Gloria dava, como
+iremos conhecendo, ás filhas de seus caseiros. E de certo o não estranham,
+aquelles dos leitores que bem conhecerem a distincta affabilidade no trato
+da verdadeira nobreza de Portugal, mórmente com as pessoas de condição
+humilde.
+
+Corre um tempo pouco favoravel á nobreza de sangue, no dizer dos que só
+d'esta herança desdenham.
+
+Respeitam-se todos os titulos hereditarios, menos aquelles, que provam uma
+geração briosa, e heroica!
+
+Porquê?
+
+É facil a resposta, a quem a quizer dar em boa fé: ralha-se do que se não
+póde ter. Adquirem-se bens de fortuna, distincções, tudo: só não é possivel
+mudar-se o berço. E quantos o mudariam, se podessem, mesmo na occasião do
+seu mais frenetico vociferar contra a nobreza herdada!...
+
+Sejamos justos: haja consideração para tudo que o merece, que o bello é de
+todas as classes sociaes.
+
+Descender de boa extirpe, é indubitavel gloria, e tambem onus, que obriga a
+muito.
+
+Os que hoje adquirem nobreza,--e é comezinho o accesso,--se podessem
+testimunhar d'aqui a trezentos annos os gabos de seus fidalgos descendentes
+aos heroicos avós, não ficariam repletos de intima alegria?
+
+Abrandem, pois, os propagadores demagogicos, as democraticas íras, em que
+decerto já tem parte o muito plebeu auctor do conto, e deixem-nos dizer,
+com um dos nossos doutos portuguezes, que não ha cousa mais estimavel e
+bella, que a nobreza do sangue, junta á nobreza do coração: é uma saphira
+engastada em oiro purissimo.
+
+O colloquio das tres donzellas, fôra assim:
+
+--Pareces-me hoje mais pensativa, ainda que de costume, minha estimavel
+Anna, o que tens tu?
+
+--Pensará talvez nas Ladainhas, e no jejum, fidalga;--respondeu, pela
+interrogada, a falladeira Rosa.
+
+--Ora vamos, travessura da vida!... Já te prohibi que me chamasses fidalga,
+como tambem te fiz vêr, o respeito que se deve a tudo que prende com a
+religião que professamos. Bem deves conhecer, que tenho auctoridade de
+mestra, e que posso chamar á palmatoria a discipula rebelde...
+
+--Diz bem fidal... snr.^a D. Maria; e aqui tem a mão, sem fazer momices...
+mas eu só digo estas coisas no intuito de animar um pouco a nossa Annitas,
+que parece mesmo a figura da tristeza, quando não ha motivos para lagrimas.
+
+--Tu pódes lá saber, o que vae no coração da nossa amiga, doudinha?
+
+--Sabe de certo, minha senhora, porque entre nós tres não ha
+segredos;--respondeu a custo a questionada donzella.
+
+--Não ha, não... Juro por Santa Rosa de Lima, da qual tenho o nome e
+desejara ter as virtudes, que a nossa scismadora, Anna de Jesus, me tem
+revelado todos os seus mais vedados pensamentos... Por exemplo: se tem a
+desventura de deixar uma noite cahir a candêa, e emborcar o azeite, para
+logo prevê graves successos, que fielmente me vae narrar... Se estala um
+vidro na casa, toda se encolhe, como a sensitiva, empallidece, treme, e
+diz-me, depois, que grandes calamidades nos esperam... Se entra no meu
+casebre, e vê que eu, por melhor disposição ou limpeza, deixei ficar a
+minha cama com os pés para o lado da porta, faz tal exclamação, que devéras
+me assusta; e...
+
+--Basta, tontinha, basta... interrompeu D. Maria, entre frouxos de riso.
+Não será possivel conseguir que tu deixes de atormentar, com as tuas
+graças, a nossa commum amiga?
+
+--Deixe-a fallar, minha senhora, que eu necessito ouvil-a, a vêr se perco
+algum do meu natural acanhamento. Conheço-me defeituosa, e sinto não ter a
+necessaria força para vencer os meus defeitos. Apraz-me sentir um aviso de
+Deus, nas jocosas palavras da boa Rosinha.
+
+--Nem tanto, pequena, que me arrependo já... Fazeres de mim, por obra do
+Eterno, um propheta de saias, é mais pesado do que ouvir-te quantos
+preconceitos aprendeste de teus crédulos parentes.
+
+--Se tu confessas que foram aprendidos, como posso eu ter culpa das culpas
+alheias?... Não é assim, minha senhora?
+
+--Dizes pouco, mas sempre bem. É o resultado de quem pensa o que diz. O
+favor que me fazes de _tua senhora_, é que eu não queria receber. Chamai-me
+só D. Maria, já que não quereis habituar-vos a um tratamento mais intimo, e
+proprio das nossas idades, como eu appetecia.
+
+--Era o que faltava! As rainhas bem amigas são das damas do paço, e mais
+estas ajoelham-se para beijarem a mão de sua real ama...
+
+--Invejo-te a verbosidade e o talento, querida Rosa... Has-de chegar a
+muito se fôres bem fadada por Deus.
+
+--Vês, Rosinha, _minha vassalla_, que o mal da inveja tambem toca nas almas
+como a da nossa Annitas!?
+
+--Aquillo, senhora, não é inveja, é mostrar que _pensa o que diz_... mas é
+muito de crêr que nem sempre _diga o que pensa_...
+
+--Com a tua pessoa, em jogo de bons ditos, minha doutora, não ha partido...
+Olhai!... Se não são visões do crepusculo, o que eu diviso, é muita gente
+reunida na serra de Guilhufe!...
+
+--É muito povo, é, snr.^a D. Maria! Responderam, a uma voz, surprehendidas,
+as duas amigas da fidalga.
+
+--É caso extraordinario! A esta hora, e n'um dia de serviço!... Ahi vem o
+sobrinho do snr. reitor, que nos vai dizer o que significa aquelle
+ajuntamento...
+
+Interrogado, o recem-vindo, pelas tres donzellas ao mesmo tempo,
+respondeu,--precedendo um cumprimento de cabeça, por lhe não darem logar a
+outro--é... a «Maria da Fonte!»
+
+ [1] Na _Historia da casa de Lara_, e n'um manuscripto, de 1676, do
+ padre Manoel da Purificação Magalhães, vê-se
+ escripto==_Avendanho_==; mas os modernos senhores do nome,
+ assignam-se--_Abendanho_. A nobre familia dos Abendanhos, veiu para
+ Portugal no tempo de El-Rei D. Diniz. O seu brasão compõe-se de
+ cotta d'armas de prata, em campo azul, trespassada por tres setas
+ manchadas de sangue, com a legenda: _Sine sanguine non est
+ victoria_.
+
+
+
+
+II
+
+RUGIDO
+
+
+ «Não vêdes, que nos destruiremos a nós, e á nossa Republica, se
+ intentarmos cousas, que não podem ser, porque nos hão-de dar na cabeça
+ todos esses remedios?»
+
+ (_Vieira_--ARTE DE FURTAR.)
+
+
+Ha palavras, que excitam o espanto dos ouvintes, sem visivel rasão
+justificativa do enleio: aquellas--«Maria da Fonte»--tiveram esse condão.
+Interrogado, e interrogantes, entraram silenciosos na casa solar de D.
+Maria da Gloria, em direcção á sala chamada das visitas, onde estavam os
+velhos senhores d'ella.
+
+Não seremos exagerados dando o nome de palacio, á nobre e grande habitação,
+que fazemos aqui figurar. Antes de se chegar á sala de recepção,
+encontravam-se immensos salões e repartimentos, tudo a desafiar, pela
+solidez, a acção do tempo, como são quasi todas as antigas edificações
+portuguezas.
+
+Na sala de visitas, para não desmentir o adagio muito nosso,--«Em Maio
+florido, ainda ao brasido»--havia lume no fogão. Em cima de uma mesa
+circular, estava um grande candieiro de metal amarello, com quatro bicos; e
+postos nas demais mesas, castiçaes de prata, com vélas de cêra: moveis de
+pau santo, cadeiras de espaldar, com botões de metal e arabêscos esculpidos
+em sola, e denotando haver sido mudas testimunhas da passagem de algumas
+gerações.
+
+Nas duas portas, que nos topos da sala se defrontavam, estavam pendentes de
+fortes lanças reposteiros de grossa baêta encarnada, em que se viam
+bordadas as armas de familia. Ao lado dos reposteiros, occupando parte da
+parede, pendiam dous grandes quadros, representando, um d'elles, S.
+Sebastião, e o outro Santa Isabel, primores de arte do celebre pintor
+portuguez Affonso Sanches Coelho, que foi protegido pelo snr. principe D.
+João, pae de El-Rei D. Sebastião, e depois apreciado por Filippe II de
+Hespanha, onde morreu mui favorecido da côrte.
+
+Na parede fronteira a nove rasgadas janellas, que olhavam para um lindo
+jardim, e famoso vergel de fructiferas arvores, estavam suspensas de
+grossos cordões de sêda, de côr verde, as arvores genealogicas dos
+Mesquitas, Bandeiras, Abendanhos, Souzas, e Mellos; collocados por cima
+d'ellas, seis antiquissimos retratos de antepassados d'aquelle solar.
+
+Pelas mesas da sala, viam-se espalhados alguns livros, e periodicos da
+época, merecendo especial menção um alto e largo volume, agasalhado em
+veludo côr de rosa bordado a ouro, que dava a razão dos nobres appellidos
+da familia, e, minuciosamente, contava as honras, e mercês a ella
+concedidas, pelos monarchas, e senhores de Portugal.
+
+Sebastião da Mesquita Bandeira de Mello, pae de D. Maria da Gloria, e
+verdadeiro representante e possuidor d'aquella casa, era um velho fidalgo
+portuguez, dos rarissimos que chegaram até nós, sabendo fazer acatar a
+nobreza de sangue, que é ephemera sem a nobreza da alma. Era alto; direito,
+apesar dos seus 70 annos; com fartos bigodes; olhos grandes,
+castanhos-escuros; de olhar suave, que elle sabia, a proposito; tornar
+imperativo; fronte elevada; cabellos brancos, e ar magestoso.
+
+Affavel em extremo, só era Sebastião da Mesquita, intransigivel, com os
+desvios da honra. Recebia gentilmente em sua casa todos que n'ella se
+acolhessem, e mui difficil seria não voltar alli tendo-se lá entrado uma
+vez. O verdadeiro culto, que prestava á nobreza, levava-o a ser nimiamente
+sevéro para as fraquezas dos nobres. O que fosse fidalgo, havia de
+mostral-o mais pelas suas acções do que pela ostentação de seus
+pergaminhos: era este um dos invariaveis preceitos do velho nobre.
+
+Não se attingiam de repente as sympathias de Sebastião da Mesquita.
+Tratando a todos--nobres e plebeus--sem odiosas distincções, sabia occultar
+as preferencias, que talvez sentisse. Ainda assim, sustentava, sempre que
+se lhe deparava occasião, conversas demoradas e intimas com Arthur Soares,
+sobrinho do reitor da freguezia, e, só este, no dizer dos analysadores,
+merecia ao velho fidalgo reservadas prerogativas.
+
+D. Isabel de Abendanho e Sousa, prima e esposa de Sebastião da Mesquita era
+uma idosa senhora, que deixava ainda entrever alguns traços de belleza,
+pelo meio das ruinas do tempo, e do soffrimento, com a prematura morte de
+seus cinco filhos varões. Toda entregue á direcção interna do seu casal,
+só á noite apparecia na sala das visitas, á hora do chá, servido o qual, as
+pessoas estranhas á familia da casa, não a viam mais, até á mesma hora do
+dia seguinte.
+
+Manifestava certo respeito ao marido, muito voluntario que não imposto, e
+adorava a filha, como unico existente penhor do seu inalteravel affecto ao
+esposo.
+
+A todas as pessoas apparecia D. Isabel com um mólho de chaves prêso á
+cintura, o que lhe grangeou o epitheto de--_fidalga das chaves_--dito pelo
+povo, á bocca pequena, sem o menor intento de offender a virtuosa e velha
+fidalga. As chaves, companheiras inseparaveis de D. Isabel, provavam
+unicamente, vigilancia e cuidado de boa dona de casa, que confia mais em si
+do que nos melhores criados e familiares; e não diziam, de nenhum modo,
+avareza, ou mesquinhez. E tanto isto assim era, que o povo igualmente a
+denominava--_chaveira dos pobres_,--em grata allusão ás immensas esmolas,
+que distribuia, e fazia distribuir, pela freguezia; além das que
+diariamente se davam á porta d'aquella nobre casa, que, n'isto, se
+assemelhava á portaria d'um convento.
+
+Falta apresentar aos leitores, o cavalheiro que vae acompanhando as tres
+donzellas.
+
+Arthur Soares, sobrinho do reitor d'aquella freguezia, era homem de 27
+annos de idade; sympathico; bem parecido; insinuante; grave; erudito sem
+affectação; brioso; conveniente em todos os seus dizeres, e procedimentos;
+sobrio em palavras; vestindo com modesto aceio, e tratando todas as pessoas
+com respeito e dignidade. Quando mancebo, frequentara eschola de primeiras
+lettras; e o seu verdadeiro estudo principiou aos quinze annos de idade, e
+teve logar, sem presidencia de mestres, apenas auxiliado pelos livros de
+seu thio reitor, e pela sua privilegiada intelligencia, e natural talento.
+
+Era Arthur conhecido em muitas terras de Portugal, e, por todas ellas, a
+nobreza de sangue lhe mostrava apparente agrado, desdenhando sempre do
+plebeu, que entendia saber um pouco de tudo, e que dava seus ares de
+fidalgo orgulhôso. Os capitalistas, os grandes proprietarios, os modernos
+titulares, todos os homens de fortuna, emfim, olhavam de soslaio para o
+litterato sem diplomas, que se atrevia a mostrar indifferença pelo
+dinheiro, o rei do mundo.
+
+Fóra da residencia de seu thio, n'aquella freguezia, só era visto Arthur
+Soares em casa de Sebastião da Mesquita, seu padrinho de baptismo, que o
+considerava do modo que já dissemos.
+
+Ao entrarem na sala das visitas, as quatro pessoas que acompanhamos desde o
+terreiro, ouviram-se badalar as _Ave-Marias_ no campanario da terra, o que
+logo fez pôr em pé os velhos senhores da casa, dos quaes se aproximaram as
+donzellas, e Arthur, e todos, com a devida reverencia, resaram em côro a
+conhecida oração da Santissima Trindade. Acabada a resa, foi D. Maria
+beijar a mão e a face de sua mãe, e, depois, curvando os joelhos, pediu a
+benção ao pae, que lhe offereceu a face direita, onde D. Maria depositou um
+respeitoso osculo.
+
+As duas companheiras de D. Maria, pediram, de mãos postas, a benção aos
+velhos fidalgos, que as acariciaram, chamando-lhes as lindas discipulas de
+Maria, nomes com que Sebastião da Mesquita as dava a conhecer ás suas
+visitas.
+
+Arthur Soares, saúdou D. Isabel, beijando-lhe as extremidades dos dedos da
+mão direita, e recebeu um amplo aperto de mão do fidalgo, acompanhado das
+palavras--bem vindo, afilhado--e de um certo fitar, que n'elle demonstrava
+contentamento, e interesse pela pessoa a quem o dirigia.
+
+Estabelecida certa liberdade familiar, promovida pelos velhos fidalgos,
+occuparam as cadeiras proximas do fogão, Sebastião da Mesquita, D. Izabel e
+Arthur Soares. D. Maria e as suas discipulas procuraram outro lado da sala,
+onde podessem confidenciar, á vontade, os mil nonadas, que são os encantos
+dos annos verdes, e, algumas vezes, até dos já illustrados pelo estudo.
+Rosa, e Anna, ficaram de pé, aos lados da cadeira, occupada por D. Maria:
+só tomavam assento na presença dos velhos fidalgos, quando estes
+imperativamente o ordenavam. Sebastião da Mesquita e D. Isabel--diga-se a
+verdade--não desgostavam d'aquella prova de submissão, e quasi sempre se
+esqueciam de lhe pôr termo. É que o barro, por mais apurado que seja, tem
+asperezas, que só em pó se desfazem.
+
+Passado pouco tempo, D. Isabel sahiu da sala, e o fidalgo estabeleceu com
+Arthur o seguinte dialogo:
+
+--Que pesadelo o fez triste, como parece estar, snr. meu afilhado?
+
+--Tenho que dar a v. ex.^a a desagradavel noticia de que o povo se agita em
+desordem, começada por não sei que «_Maria da Fonte_» das proximidades de
+Lanhôso, e temo que os tumultos cresçam até á altura de revolução, porque a
+semente lançada pelas paixões partidarias hade produzir os benésses a que
+miram os curas da imprensa desenvolta.
+
+--É cousa essa, snr. Arthur Soares, que não deve surprehender aquelles que,
+como nós, acompanharam de longe as dissensões, e os desacertos, da familia
+liberal, a que não pertenço pela communhão de idéas, mas que desejára, como
+portuguez, vêr prosperar, para o bem de todos. E o que diz e faz o povo?
+
+--O povo diz, _que abaixo o ministerio e as contribuições_, e queima os
+mappas, que se mandaram encher, para um novo systema de contribuições,
+reprovado, sem analyse séria, pelos partidos da opposição, que incutiram
+nas massas ignorantes o absurdo de que aquelles papeis serviriam de
+documentos para hypotheca da propriedade aos inglezes!
+
+--Quando haverá seriedade nos homens politicos, que assim fazem brinco de
+uma nação?!
+
+--Neguei até hoje, o meu voto aos bandos politicos militantes, que já da
+gloriosa ilha Terceira vieram eivados do mal, que devia affectar o heroismo
+de um povo, e d'um rei-soldado. Os feitos praticados dentro das muralhas da
+invicta cidade da Virgem, dariam assumpto para uma epopéa, se não tivessem
+a macula de fratricidas... Perdôe v. ex.^a o modo de vêr da moderna
+eschola, que isto de nenhuma sorte escurece a grandeza, d'aquellas épochas
+de conquistas, e de independencia, em que nobres antepassados de v. ex.^a
+manejaram a espada, com proveito, e immortal honra d'estes reinos. Bem
+sabe, que sou liberal...
+
+--Sei que é homem de bem, snr. Arthur Soares, e não me repugna a liberdade
+de que V. S.^a é apostolo. Á licença, ao desenfreamento de paixões
+interesseiras, ao que promove a desunião da familia portugueza, é que um
+soldado da independencia, como eu fui, não dará em tempo algum o seu
+preito. É V. S.^a o mesmo que confessa,--e dizem outro tanto todos os
+liberaes de boa fé--que muito é para temer a desintelligencia que lavra
+entre os que tanto precisavam de união. Tambem eu partilho esse receio pelo
+meu paiz, sem que n'isto tome parte qualquer tendencia que possa haver em
+mim, para applaudir outra fórma de governo. O que eu desejo, antes das
+proprias conveniencias, é o bem geral, o engrandecimento d'este torrão
+abençoado, em que nasci, e onde queria morrer portuguez. Estas continuadas
+luctas intestinas, que nos trouxe a constituição, desdizem da felicidade
+por ella annunciada, e quem sabe o que poderão causar-nos!...
+
+--Talvez a perda da nossa autonomia... É possivel. Mas as grandes
+transformações sociaes, snr. Sebastião da Mesquita, não se operam sem
+abalos mais ou menos fortes. Consinta-me V. Exc.^a, que ainda confie no
+futuro. Entre os vultos liberaes, ha caracteres nobilissimos, completamente
+devotados á causa nacional. Se conseguirem aproximar d'elles, aos altos
+cargos da governação publica, todos os homens competentes sem distincções
+partidarias, póde a náo do estado tomar norte, e trazer-nos éras de paz e
+de prosperidade.
+
+Foi n'esta altura interrompido o dialogo por um escudeiro de habito de
+Christo, que vinha dar parte a Sebastião da Mesquita de que se achava o
+terreiro coberto de povo, e á sua frente o Exc.^mo Leopoldo de Moraes
+Lencastre, do Marco de Canavezes, que pedia licença para entrar.
+
+Antes de dizermos a ordem que Sebastião da Mesquita deu ao escudeiro,
+lembraremos de passagem duas cousas: primeira, que não sirva de prejuizo ao
+cofre nacional, pela falha de direitos de mercê, a noticia de haver
+_escudeiros_ com habito de Christo, porque é facto averiguado que os houve,
+e não sabemos se ainda existem alguns. Eram homens de merecimento, a
+maioria d'elles soldados companheiros de seus amos, e de provado valor e
+lealdade.
+
+Segunda: que na rapida descripção que fizermos da guerra civil
+contemporanea, seremos completamente isentos de sympathias pelos partidos
+ou grupos que dividem os politicos de Portugal. Respeitamos todos os
+homens, não temos odios nem invejas, e ajuizamos das cousas com o justo
+criterio da imparcialidade.
+
+Sebastião da Mesquita, levantou-se e disse ao escudeiro, que mandasse
+entrar toda a gente. D. Isabel, veiu á sala um pouco perturbada, e
+perguntou ao esposo, para dizer alguma cousa, se queria que fosse servido o
+chá. Sebastião da Mesquita, respondeu placidamente, que era magnifica
+occasião de beber agua quando estivesse o povo na sala, porque se viesse
+com más tenções fugiria d'ella como de sua figadal inimiga... Via-se que
+Sebastião da Mesquita, estava ou queria mostrar-se tranquillo e jovial.
+
+D. Isabel foi tomar logar no centro das tres donzellas, que ficaram mudas
+de espanto pela ordem que ouviram dar, e não de todo livres de receio,
+embora tivessem sempre observado no povo extrema consideração pelo velho
+fidalgo. Conservaram-se com tudo impassiveis, como estavam costumados a
+proceder todos os familiares do fidalgo, quando este manifestava a sua
+vontade.
+
+Arthur Soares, collocou-se á esquerda do padrinho com tão natural aspecto,
+como se fôra a continuar a conversa interrompida.
+
+O escudeiro, entrou de novo na sala com uma grande salva de prata e sobre
+ella uma espada antiga, com cinturão, que, sem dizer palavra, offereceu a
+Sebastião da Mesquita. O velho fez repentinamente um gesto de espanto, que
+o escudeiro presenceou sem pestanejar; em seguida sorriu-se, como se
+disséra--lembraste bem,--e pendurou a espada á cinta, com a pericia propria
+de um antigo official de cavallaria. Logo depois, era annunciado, e dava
+entrada na sala, o Exc.^mo Leopoldo de Moraes Lencastre, que foi recebido
+friamente: nas tres donzellas, é que se poderia notar a apparição d'um tal
+ou qual rubor intraduzivel para os circumstantes, ao conhecerem o fidalgo
+moço.
+
+--Sou o mais dedicado servo de V. Exc.^a meu presadissimo primo e senhor da
+Mesquita;--principiou por dizer o fidalgo Leopoldo, acompanhando estas
+palavras de mesura palaciana, a que Sebastião da Mesquita correspondeu com
+um ligeiro curvar de cabeça.
+
+--Tenho a honra de me dirigir a V. Exc.^a em nome da soberania popular,
+para que se digne acceitar o commando dos bravos camponezes da comarca, que
+na cidade acabam de reduzir a cinzas os vexatorios papeis, que um
+ministerio obnoxio, pelos actos despoticos que pratíca, semeára pelo reino.
+A provincia do Minho, ao grito da heroina «_Maria da Fonte_,» está toda
+revolucionada; e dentro em pouco chegarão os gritos do povo aos ouvidos da
+corôa, que deve fazer justiça immediata, como o requerem as anómalas
+condições em que se acha o systema constitucional. Ninguem mais competente
+do que V. Exc.^a, meu nobre primo e snr., para conduzir o povo até ao paço;
+logar em que os nossos nobilissimos antepassados já tiveram a honra de
+sustentar na presença da magestade os direitos da nação, com a coragem
+revelada n'aquellas memoraveis palavras, que a historia legou ás futuras
+gerações:--«Se não, escolheremos outro rei que melhor saiba governar e
+dirigir a briosa nação portugueza!»--Aguardo as determinações de V. Exc.^a,
+que fielmente serão communicadas aos que por ellas esperam nos proximos
+salões deste palacio; bons lavradores que me pediram fosse eu o interprete
+dos sentimentos d'elles perante V. Exc.^a Não consenti que entrassem n'esta
+sala, para deixar tranquillas as damas, primas e senhoras minhas, ás quaes
+só agora tenho occasião de tributar o mais respeitoso dos meus cultos e a
+mais submissa das minhas homenagens, pedindo-lhes humildemente, que se
+dignem perdoar o não ter eu praticado desde logo este dever, em attenção a
+que estava pouco senhor de mim com a delicada e obrigatoria missão de que
+fui encarregado.
+
+Quando o fidalgo do Marco deu assim por terminado o aranzel, acenou
+Sebastião da Mesquita ao escudeiro, que comprehendendo seu nobre senhor,
+abriu de par em par as portas e reposteiros, dando livre accesso ao povo,
+que estava agrupado pelos immediatos aposentos. Foram pouco e pouco, como
+possuidos de acanhamento, entrando na sala os populares, activos e
+laboriosos lavradores, sempre cortezes como todos os habitantes do Minho,
+mas faceis de inflammar com perfidas insinuações, principalmente ácerca do
+perigo que possa correr a religião que professam, e o lar que possuem.
+
+Eram variados os trajes d'aquelles homens amotinados, e variadissimas as
+armas de que cada um estava munido: ainda assim, predominavam os fatos
+domingueiros a que é obrigada a casaqueta de botões amarellos, e as
+espingardas de fechos com pederneira. Todos entravam desbarretados e
+convenientes. Sebastião da Mesquita ia provocando a entrada com as
+animadoras palavras:--«Vinde, vinde, bons homens.» E assim que todos o
+podiam ouvir, virou-se para o mensageiro, e fallou n'estes termos:
+
+--Ouvi com a devida attenção e serenidade, o que teve a bondade de dizer-me
+meu primo e snr. de Lencastre. Respondendo ao povo, que me escuta, respondo
+tambem a v. ex.^a Esta espada, que já serviu a nossos avós, para emprezas
+importantes em prol d'estes reinos, e sempre em defeza do sagrado solo da
+patria,--nunca será por mim empunhada contra portuguezes e irmãos. Fui
+soldado da independencia, e não quero outra gloria. Quem deseja conduzir o
+povo pelo caminho da revolta contra os poderes bem ou mal constituidos,
+póde ter ambições a saciar, mas falta-lhe bem dentro n'alma a nobreza de
+sentimentos, unica que póde distinguir da massa geral dos homens, os
+fidalgos e as pessoas illustradas.
+
+«Porque os principes, ou aquelles que governam o reino, abusem do seu
+poder, não é rasão para que os povos abusem dos seus direitos. Os homens
+prudentes, devem conhecer os demais. Aos não poucos annos que tenho, devo
+eu o não poder ser facilmente enganado... Não se queria o meu braço, não,
+que já mal póde com a espada... O que se vinha aqui buscar era o bom nome
+do velho, para servir de joguete a pequenas ambições... Não precisa o snr.
+meu primo Leopoldo d'este fraco auxilio. As tendencias que manifesta para
+tribuno popular, devem leval-o rapidamente ao parlamento, que é o caminho
+aberto ás modernas glorias... Seja feliz, e deixe-me descer socegadamente á
+sepultura. E vós, homens do trabalho, recolhei-vos ao seio de vossas
+familias, que devem soffrer com os vossos desvarios, e desconfiai sempre
+dos pareceres que vos levam á porta os voluntarios zeladores dos vossos
+interesses... Lembrai-vos, que não se devem despresar as lições da velhice,
+que são as da experiencia. Minha prima e presada esposa, digne-se v. ex.^a
+mandar abrir a adega, para que esta boa gente mate a sêde. Maria, as tuas
+interessantes discipulas ficam esta noite a fazer-te companhia, para assim
+escaparem a algum _discurso_ dos campeões de praça... Snr. Arthur Soares e
+meu bom amigo, queira ter a summa bondade de acompanhar este bom povo até
+ao terreiro, e vêr se póde com a sua eloquencia acabar de convencêl-o da
+verdade encerrada nas minhas trémulas palavras. Meu primo, querendo v.
+ex.^a dar-nos a honra da sua presença, logo que voltem minha mulher e o
+snr. Arthur Soares mando servir o chá.
+
+--Agradeço, mas não posso acceitar nem conservar-me aqui mais tempo depois
+do que v. ex.^a acaba de pronunciar...
+
+--N'esse caso,--interrompeu Sebastião da Mesquita--peço as ordens de v.
+ex.^a... João, acompanha meu primo até ao portal.
+
+Ao receber a ordem do amo, o escudeiro foi postar-se atraz de Leopoldo.
+Este, fulo de cólera açamada, virou a espalda e sahiu com o povo, que
+escutára o fidalgo com todo o respeito e silenciosa attenção, e que foi tão
+rapido na sahida como morôso havia sido na entrada.
+
+Logo que foi evacuada a sala segundo as ordens de Sebastião da Mesquita,
+caminhou este até ao pé das donzellas, pôz a mão direita sobre o hombro
+esquerdo da filha, encarou-a por longo tempo com visivel commoção, e
+disse-lhe com lagrimas na voz: Deos te dê melhor sorte, Maria!... Depois,
+cingiu Rosa e Anna com o braço esquerdo, e disse a todas com igual ternura:
+Deos vos proteja, minhas filhas!...
+
+
+
+
+III
+
+AO LUAR
+
+ «Na minha terra, uma aldeia,
+ Por noites de lua cheia,
+ É tão bella! é tão feliz!...»
+ .............................
+
+ (_João de Lemos_--CANCIONEIRO.)
+
+
+Leopoldo de Moraes Lencastre, filho segundo da nobre familia dos alcaides
+móres de Coruche, achava-se--por fallecimento do primogenito--na posse do
+morgadio.
+
+Era importante a casa de seus maiores, dispersa por quasi todo o reino.
+Leopoldo administrava mal e esbanjava muito, sem gastar, ainda assim, mais
+que o rendimento.
+
+Corriam differentes versões ácerca da morte inesperada do morgado, que
+todas formavam um pessimo conceito do herdeiro forçado d'aquella nobre
+casa. No entanto, Leopoldo mostrára-se angustiado com a morte do irmão, e
+parecia gosar a herança com a tranquilidade de espirito propria dos
+innocentes. Deixára Coimbra quando frequentava o quarto anno da faculdade
+de direito, para tomar conta da casa, e voltára mais tarde a concluir a
+formatura.
+
+Dotado de um caracter ardente, Leopoldo, era ambicioso de glorias, que
+sonhava de um modo unico. Sacrificava todos os bons sentimentos, á
+satisfação do amor proprio. Na consciencia d'elle, havia só logar para a
+sua personalidade. Nunca encontrou espelho que lhe reflectisse outro
+objecto, além da sua figura.
+
+O mundo era para o fidalgo doutor apenas um palco, destinado a receber-lhe
+as scenas comicas ou tragicas; e os espectadores estavam magnetisados, para
+só attentarem n'elle e nas suas acções. Não havia torpeza que lhe
+embargasse o caminho do Capitolio, nem falta que o fizesse exitar no
+trajecto. Mettia algumas vezes na gaveta das conveniencias a sua altivez,
+para de lá sahir depois mais furiosa, alcançados que fossem os premeditados
+fins. Era mais insaciavel com o seu orgulho, do que um miseravel com as
+suas necessidades: os cuidados, agitações e pesares communs a todo o homem
+quando se dilata a esphera dos prazeres, affeições e sentimentos, só
+accommettiam o moço doutor na hora em que se convencia de que o mundo
+desviava os olhos das suas façanhas.
+
+Leopoldo era physicamente favorecido da natureza, e suppríra, com o estudo,
+o que lhe faltava em talentos. Foi-lhe facil estabelecer escóla sua, e
+rodear-se de manequins, que serviam magnificamente aos seus desejos. É
+crescido o numero de parasitas que, algumas vezes, se prestam para
+caudatarios, e que são sempre tubas, ainda que rouquenhas, de famas adrede.
+E não se verificava, com relação a Leopoldo, o preceito de ser a lisonja
+moeda falsa que empobrece quem a recebe; muito ao avêsso ia logrando
+insinuar-se na opinião publica, que foi, e é, e ha de sempre ser, a tonta
+filha das apparencias.
+
+Quando Arthur Soares, encarregado pelo fidalgo Mesquita de fallar ao povo,
+estava desempenhando a commissão, foi interrompido por Leopoldo, que
+pretendeu ridiculisal-o. Deu isto causa a uma discussão entre os dous,
+algum tanto animada, que acabou pelo povo ir dispersando, e Arthur Soares
+deixar bruscamente o adversario fidalgo, entrando de novo no palacio de
+Sebastião da Mesquita, com o qual passou algumas horas mais.
+
+Na sahida para a residencia de seu thio reitor, ao passar por baixo das
+janellas do quarto de D. Maria, teve Arthur Soares de prestar attenção ao
+chamado da fidalga senhora, que, com as suas discipulas, estava gosando o
+luar e a belleza da noite, e lhe perguntára como havia conseguido que o
+povo recolhesse a suas casas.
+
+--Tudo consegue a prudencia, minha senhora, quando não é capa de occultos
+interesses. O povo estava illudido por palavras pomposas que eu expliquei
+em linguagem chã, fazendo-lhe conhecer o sentido interesseiro de quem lh'as
+havia dito: convenceu-se e tranquillisou-se. O fidalgo, primo de V. Exc.^a,
+é que se não convenceu nem me agradece... Creio que adquiri n'elle um
+verdadeiro inimigo.
+
+--Pouco deve importar ao snr. Soares a inimisade do snr. Lencastre. V. S.^a
+tem a nobreza das suas acções, que não podem invejar cousa alguma ás do meu
+fidalgo primo.
+
+--Não me parece tanto assim, snr.^a D. Maria;--arriscou-se a dizer a timida
+Anna--O snr. Lencastre é pessoa muito estimavel e virtuosa, no meu humilde
+parecer...
+
+--Estimavel; virtuosa e _carinhosa_, deves acerescentar, minha beatinha,
+porque o tal senhor teve artes para ganhar a tua affeição...
+
+--Valha-te Deus, Rosa, que vês tudo pelo mau lado... Eu sou muito amiga do
+snr. Lencastre, como o seria de qualquer outra pessoa que conhecesse, e que
+nunca me fizesse mal...
+
+--Parece-me, menina Anna, que a Rosinha foi mais verdadeira agora do que
+mordaz ou satyrica, como graciosamente lhe chamam;--disse Arthur
+Soares.--Se não, haja vista esse denunciativo rubôr que mais de palpite do
+que auxiliado pelo luar, d'aqui imagino vêr...
+
+--Peço desculpa de ser contra a sua opinião, snr. Arthur, mas entendo que o
+pejo, manifestado nas faces, póde ter variadas origens. A Rosinha tambem
+córou, e talvez eu córasse egualmente, quando meu primo entrou no salão; e,
+com tudo, não creio que em nós exista sentimento algum reservado.
+
+--Nunca dei entrada no meu espirito a qualquer suspeita prejudicial á
+inexcedivel virtude de V. Exc.^a, e á que adorna as suas interessantes
+discipulas, o que não obstou a que eu fizesse reparo--confesso-o--em certo
+embaraço que descobri em todas, na occasião a que V. Exc.^a se refere.
+
+--Eu explico ao snr. Arthur Soares a razão do nosso abalo;--disse
+repentinamente Rosa.--Annitas, córou, porque o fidalguinho lhe não é
+indiferente...
+
+--Tens cousas...
+
+--Não me interrompas, que ter coração não fica sul a pessoa alguma, O amor,
+é toda a historia da vida das mulheres, como diz um livro, que a snr.^a D.
+Maria me ensinou a lêr e entender.--Eu córei, por que antipathiso
+solemnemente com uns certos modos do snr. Lencastre, que já me fez a honra
+de dizer que eu era bonita e espirituosa... A snr.^a D. Maria...
+
+--Eu, menina, não desejo n'este momento ter interpretes dos meus
+sentimentos... Subiu-me calor ás faces, porque... estava um tanto
+indisposta...
+
+--É já tarde, minhas senhoras, e eu vou até á residencia de meu thio, onde
+espero conciliar o sômno, vendo o soberbo luar d'esta lindissima noite,
+atravez dos vidros da janella do meu pequeno quarto. V. Exc.^a, snr.^a D.
+Maria, continue a gosar, em companhia das suas innocentes amigas, o arôma
+das flôres do jardim e do pomar, a fagueira brisa d'esta bellissima noite
+de primavera, o suave cantico da voadôra cotovia e da poetica philomella, o
+murmurio da agua nos proximos tanques, a magestosa pallidez da lua cheia,
+que tudo isto ajuda a nutrir a imaginação com illusões nascidas da candidez
+da alma, muito mais carecida de taes alimentos do que a fria razão.
+
+--Quer o snr. Arthur Soares dizer-me com esse trecho poetico, que não
+gostou de que eu interrompesse a Rosinha?... Apreciava bem mais ouvir a
+franqueza de que sabe usar, do que escutar-lhe um subterfugio, aliás
+lindissimo na fórma... Eu, digo-lhe abertamente, snr. Soares, porque não
+tenho motivos para occultal-o, que o meu pejo procedeu de haver ha muito
+reconhecido em meu primo Lencastre, qualidades e sentimentos improprios de
+um cavalheiro. Magôa-me bastante ter de fallar assim de um fidalgo, que é
+meu parente; mas não quero que os meus gestos sejam mal avaliados,
+principalmente por V. S.^a, que é um amigo d'esta casa, a quem meu pae
+devéras estima.
+
+--Não me accuso, snr.^a D. Maria, de ter provocado a irritabilidade
+nervosa, que me parece descobrir em V. Exc.^a, porque me diz a alma que eu
+era incapaz de lhe promover o mais leve desgosto. O dia em que eu me
+conhecesse origem de qualquer dissabor, para a familia do snr. Sebastião da
+Mesquita--póde V. Exc.^a crêl-o--seria o ultimo da minha vida.
+
+--O que disse, não foi queixa, snr. Arthur Soares. Quiz apenas _ser eu_, a
+dizer a V. S.^a os meus sentimentos... Se perdeu com isto de ouvir a
+narrativa com a natural eloquencia e graça de que dispõe a minha amiga
+Rosa, deixo-os agora á vontade, para...
+
+--Sou eu que me devo retirar, snr.^a D. Maria... E retiro-me com a
+convicção bem formada de que _nunca mais_ as minhas palavras, dirigidas ao
+snr. Arthur Soares, poderão melindrar a minha presada senhora, amiga e
+mestra, porque hei de medital-as muito...
+
+--Ficam ambas, com certeza, porque uma e outra se encontram empolgadas pelo
+gavião!...--Disse uma voz sahida do pomar, que todos reconheceram ser a do
+snr. de Lencastre.
+
+Facilmente se avalia a commoção em sentidos diversos, que soffreram todos
+os actores d'esta scena, ao conhecerem o novo e audacioso interlocutor,
+sahido de entre as arvores do pomar que o occultavam, e collocando-se
+sobranceiro á parede do jardim, em frente da janella occupada pelas tres
+donzellas, ficando alguns metros separado de Arthur Soares.
+
+--Não me surprehende, continuou a dizer o fidalgo moço, dirigindo-se para a
+janella,--que a snr.^a Rosa concebesse um arranjinho de vida commodo,
+fazendo presente do seu coração e de seus volumosos espiritos ao snr.
+Arthur Soares; e que este eminente litterato tome posse de tudo, para cada
+vez dar maior brilho ao seu verniz de urbanidade e brios... Agora, o que
+devéras me faz descrêr de quantas virtudes podem honrar o coração humano, é
+o vêr que a snr.^a D. Maria da Gloria esqueceu rapidamente a distancia que
+a separa de um plebeu, embora um tanto polido, que nunca se atreveria a
+pensar sequer na honra de conseguir, á custa dos maiores sacrificios, o que
+V. Exc.^a tão de barato lhe concede!... Manifestar _ciumes_ ao snr. Soares,
+minha nobre prima, é declarar-lhe que o ama!...
+
+--Eu já sabia, snr. de Lencastre, que uma certa grosseria de habitos
+formava a base do seu codigo cortezão; mas nunca me persuadi que V. Exc.^a
+quizesse lá escripta a villania de um procedimento como o que acaba de ter!
+Os nossos lacaios, se alguma vez são apanhados a devassar alheias causas,
+fogem espavoridos da feia acção que commetteram... O meu nobre primo
+_afidalga-se_ com um manifesto de curioso, e delator das vidas alheias,
+abrindo com chave de mui duro e enferrujado ferro, o coração de uma
+senhora, que lhe não deu o direito de se tornar seu vigia, e muito menos
+seu mentor. Só a meu pae quero dar conta dos meus procedimentos, e nenhum
+receio me dominava se o santo velho fosse um dos espectadores d'esta scena,
+só pouco edificante desde que V. Exc.^a entrou n'ella... Peço ao snr.
+Arthur Soares, que seja completamente alheio ás palavras e acções do snr.
+meu primo; peço-lho pela amisade que tem á minha familia.
+
+--É esse o mais espinhoso dever, que V. Exc.^a me podia impôr...
+
+--Socegue o paladino da nobre castellã, que não tem de medir armas comigo,
+porque lhe não acceito o repto... E V. Exc.^a, nobilissima snr.^a D. Maria
+da Gloria, fique sabendo que a um perfeito acaso devi o ficar conhecendo
+dos adiantados, prósperos e sublimes amores de V. Exc.^a, com o sobrinho do
+senhor reitor... Se me interesso por alguem, não é de certo por V.
+Exc.^a... Ha talvez ao lado da minha nobre prima quem saiba nutrir
+aspirações mais fidalgas... Muitas vezes acontece haver discipulos, que
+podiam ensinar os mestres...
+
+--Das lições de V. Exc.^a é que ninguem aproveita... disse sacudidamente
+Rosa, que ha muito ardia por fallar, e que era contida pelo respeito devido
+á fidalga, e por se achar affectada com a inesperada direcção d'estes
+acontecimentos, que lhe descobriram o coração.
+
+--Já me tardavam as provas de seu despeito, menina... Apraz-me têl-a por
+inimiga: das mulheres formosas, só nos deve magoar a indifferença...
+
+--E o despreso, snr. meu primo?...
+
+--V. Exc.^a despresa-me, minha nobre prima?... Tanto melhor, que posso usar
+sem constrangimento dos meus direitos de fidalgo e de parente de V. Exc.^a
+para annunciar ao mundo do bom tom, que a snr.^a D. Maria da Gloria
+Mesquita Bandeira de Abendanho, está ligada pelos vinculos _do mais
+apertado amor, com dispensa de sacramentos_, ao sobrinho do snr. reitor da
+freguezia...
+
+Ainda o snr. Leopoldo não tinha acabado de pronunciar bem a ultima palavra
+do insulto, e já o som de uma estrondosa bofetada echoava nos ouvidos de
+todos.
+
+As discipulas de D. Maria deram um abafado grito e retiraram-se da janella,
+a um pequeno impulso que lhes deu D. Maria. A fidalga, julgando ter sido
+Arthur Soares que déra o castigo ao insolente, ficou sobresaltada, e
+dirigiu-lhe, ainda que meigas, algumas censuras, a que o brioso mancebo
+respondeu, que outra mão, mais prompta que a sua, castigára o desaforado
+fidalgo.
+
+Fôra o caso, que João Vidal, o escudeiro, andando na sua costumada ronda
+pelas cercanias do palacio, e ouvindo parte do dialogo, aproximou-se
+cautelosamente do sitio onde estava Leopoldo, e lá se conservou até ao
+momento em que o insulto feito á sua nobre ama, o levou a estender a mão na
+cara do petulante com força tal, que o snr. de Lencastre cahiu redondamente
+no chão do pomar. Logo que se levantou, ardendo em ira, partiu para o
+escudeiro de punhal na mão. João Vidal, suspendeu-lhe o braço homicida e
+arrancou-lhe da mão a arma cobarde, em menos tempo, tudo isto, do que se
+gasta a contal-o.
+
+Vendo-se abatido, sem armas, e marcado pelo mais ignominoso ferrête que um
+homem póde imprimir n'outro homem, Leopoldo vociferou:
+
+--Por um escudeiro!... Vergonha eterna!... Juro que a vingança ha de ser
+superior á affronta... Não posso medir-me comtigo, villão, mas quero e
+hei-de vingar-me... Vingar-me de todos... Ouviram?! De todos!... E a ti,
+canalha... escudeiro infame... hei de afogar-te como se afoga um cão
+vadio!...
+
+Proferidas aquellas selvagens ameaças, retirou-se o possesso, a passos
+accelerados, não dando assim logar a maior castigo.
+
+João Vidal, com toda a submissão e respeito, pediu á sua joven senhora
+desculpa para o que fizera sem premeditação, e levado unicamente pela
+violencia do insulto. D. Maria agradeceu-lhe com palavras vehementes, e
+ordenou-lhe que entregasse o punhal ao snr. Arthur Soares, o que o
+escudeiro fez, sem exitação, pedindo depois licença para retirar-se.
+
+Arthur, surprezo com a ordem e a entrega, perguntou a D. Maria, que uso
+devia fazer d'aquella arma.
+
+--Guarde-a--lhe disse a fidalga--até que eu lh'a peça.
+
+--É perigoso este instrumento na minha mão, senhora, desde que me vejo
+causa involuntaria das mágoas de V. Exc.^a... Esta noite foi para mim ao
+mesmo tempo a vida e a morte... Tive sempre horror ao crime, e vejo-me
+levado pelo destino a ser necessariamente criminoso! Acolhendo em meu peito
+sentimentos, que nem ao dominio dos meus sonhos quereria que pertencessem,
+terei de luctar e de punir, de caminhar para a incerta felicidade por cima
+do cadaver de um inimigo, vilissimo é verdade, mas bem nascido e
+poderoso... O que devo fazer em tão apertada como temivel conjunctura?!...
+Não devo escolher entre dous crimes, aquelle de que só eu venha a soffrer
+as fataes consequencias?!... Nunca me persuadi de que havia de chegar uma
+hora em que assim fosse abalada a minha austeridade em principios
+religiosos!... Nunca imaginei que seria forçado a praticar, o que sempre
+tenho rebatido com todas as forças de uma profunda convicção!... Adeus,
+snr.^a D. Maria da Gloria!... Amanhã será entregue a V. Exc.^a esta arma
+por pessoa de confiança.... Peço-lhe que ao recebel-a se lembre com alguma
+saudade do martyr de umas certas crenças, talvez irrisorias n'esta epocha
+de... progressos... Adeus!...
+
+--Ordeno-lhe que fique!... Disse D. Maria com um tal assento de voz, que
+obrigou Arthur a ficar como petrificado.
+
+--O snr. Arthur Soares, pensar em suicidar-se?!... Onde escondeu a
+fortaleza do seu espirito robustecido pelo estudo?! Como assim esqueceu os
+salutares conselhos de sua boa mãe, que o snr. Soares muitas vezes me tem
+repetido?! Que fez das arreigadas crenças na religião de nossos paes, que o
+snr. Arthur dizia ser a mais racional e acceitavel de todas as religiões,
+mesmo desprendida do que n'ella ha de mysterioso e divino?!... Ah! snr.
+Arthur Soares, que me parece imperdoavel essa allucinação!... Já não quero
+fallar-lhe no abandono em que deixava as pessoas amigas, só pelo egoismo de
+não soffrer na lucta! Isso prova que as melhores almas tambem têem suas
+fraquezas... Lembre-se, senhor, que á vida de V. S.^a póde estar presa
+alguma outra vida; e que, querendo fugir a matar um inimigo vil, quando
+seja absolutamente indispensavel o fazel-o, póde assassinar _alguem_ com o
+seu suicidio...
+
+--Pois V. Exc.^a?!!...
+
+--Adeus, snr. Arthur Soares! Durma tranquillo e guarde bem essa arma que
+deve ser entregue por V. S.^a _em pessoa_ a mim, ou, de minha ordem, á
+minha amiga e discipula Rosa...
+
+Ditas estas palavras, retirou-se D. Maria da janella, que fechou de manso.
+
+Arthur permaneceu no mesmo logar por largo espaço de tempo, immovel, com
+os olhos fitos na formosa lua cheia, e o pensamento entregue ao vago de
+estranhas e indecifraveis sensações. Accordou d'este delicioso e pungente
+lethargo, á voz amiga de João Vidal, o escudeiro, que o acompanhou á
+residencia do thio.
+
+
+
+
+IV
+
+MÃE E MADRE
+
+
+ «Espero que essas pedras, que em outras foram de escandalo, sejam em
+ v. m. padrões de espirituaes exemplos.»
+
+ (_Fr. Ant. das Chagas_--CARTAS ESPIRIT.)
+
+
+Pelos fins do mez de janeiro de 1807, um cavalleiro envolto em larga capa,
+acompanhado de seus lacaios e creados a pé, desmontou, seria meia noite,
+defronte da portaria do convento e mosteiro, da invocação de Nossa Senhora
+das Candêas, de freiras de S. Bento, que fundou, nas casas em que nascêra
+na villa de Moimenta da Beira, o doutor Fernão Mergulhão, filho de Vasco
+Mergulhão e de sua mulher D. Leonor de Lucena, pessoas nobres e de vastos
+rendimentos.
+
+O cavalleiro, bateu tão de rijo com a aldrava do portão, que a communidade
+inteira accordou ao estrondo produzido pelos repetidos embates da massa de
+ferro.
+
+Em quanto as noviças alvoroçadas perguntavam em voz baixa umas ás outras,
+o que poderia significar uma visita a taes deshoras, e que a muito
+respeitavel abbadessa se erguia com inquietação, foi repetidas vezes
+renovado o chamamento com furia egual, se não superior, á das primeiras
+pancadas, até que a soror rodeira, toda espavorida, tendo-se vestido
+precipitadamente e sem esperar as ordens da superiora, desceu até onde
+podésse ser ouvida e, com a maior força que podia dar á sua voz
+septuagenaria, perguntou:
+
+--Quem, a esta hora, vem assim perturbar o repouso da vida claustral?!
+
+--Muito digna soror rodeira, tende a bondade de annunciar á senhora
+abbadessa, a urgentissima necessidade de escutar, por um pouco, a um de
+seus mais proximos parentes e ao mais humilde de seus servos.
+
+A este tempo, já a madre abbadessa estava ao lado da soror rodeira e,
+reconhecendo a voz que a invocara, mandou que abrissem a porta sem demora.
+Introduzido o cavalleiro no palratorio, depois de ter alcançado a benção da
+abbadessa, fallou assim:
+
+--Minha muito respeitavel e estimadissima thia e senhora! Venho aqui, a
+horas bem importunas, implorar de V. Exc.^a a minha tranquilidade
+domestica, porque ha já mezes que me é insupportavel a vida ao lado de
+minha esposa e prima D. Leocadia.
+
+Não sei porque artes minha mulher descobriu a existencia do João, d'esse
+filho do peccado, que a minha boa thia e senhora quiz ter a caridade de
+recolher dentro d'estas sagradas paredes. E, desde que o sabe, ameaça-me de
+separar-se de mim e de levar todo o seu dote, que é, como V. Exc.^a sabe, a
+maior parte da minha casa, se eu não entregar o pequeno ao destino que
+ella lhe queira dar. Eu conheço o coração de Leocadia, e sei que ella é
+incapaz de maltratar o Joãosinho, e por isso...
+
+--Suspenda, snr. meu sobrinho, suspenda o seu desnaturado pedido, que lh'o
+roga esta velha, em nome do Nosso doce Salvador Jesus. Entregar a uma
+inimiga declarada, o meu querido filho adoptivo, o innocentinho a quem
+salvei a vida com desvélos e cuidados, que talvez custem--quem
+sabe?--indelevel mancha ao convento de que sou indigna superiora?!...
+Nunca, snr.! Nunca espere semelhante acção de sua thia... Deu-me ha tres
+annos, por uma hora igual a esta, seu filho recem-nascido. Considerei-me,
+quando me vi forçada a recebel-o para evitar escandalos, escolhida pelo
+Nosso bom Deus, para exercer uma de suas infinitas obras de misericordia.
+Vi-me attribulada para conseguir mitigar a sêde ao anginho, que dava gritos
+dolorosos!
+
+Fui eu mesma aos curraes buscar o leite necessario, e apartar depois a mais
+formosa das nossas cabrinhas, para servir de ama ao innocentinho... Não me
+foi possivel occultar por muito tempo, ás virtuosas madres minhas santas
+companheiras, a existencia do menino n'este recinto protector. Todas ellas
+tem affecto egual áquelle que eu dedico ao nosso bello Joãosinho. O nome,
+que recebeu no sagrado baptismo, é o do milagroso santo padroeiro d'esta
+villa, que ha de abençoal-o e protegel-o... É o enlevo de todas a triste
+creancinha; é o cofre em que depositamos as joias das nossas affeições
+mundanas. Este nosso affecto, não póde offender nem diminuir o que votamos
+ao nosso doce esposo e bom Jesus, que é todo caridade, todo amor, todo
+misericordia, todo compaixão para as fracas creaturas de que é pae
+extremosissimo...... Assim que o meu querido filho adoptivo completar dez
+annos, hei de separar-me d'elle, ainda que um rio de lagrimas me custe a
+separação, porque não póde, nem deve, continuar a viver aqui; mas eu
+escolherei o destino do abandonado infante. Pedirei ao nosso bom Deus, que
+me inspire, e tenho fé em que hei de acertar... É esta, meu sobrinho, a
+minha irrevogavel resolução. Recorde-se de que lhe ouvi, n'aquella noite
+assignalada da entrega que me fez de seu innocente filho, a inaudita
+blasphemia de que, se eu o não recebesse, o deixaria a qualquer canto de
+uma estrada!... Um pae que profere taes palavras, perde, desde esse
+momento, os direitos da paternidade... Snr. meu sobrinho! Digne-se Deus
+esquecer os seus erros!...
+
+Assim fallando, com um tom imperioso e sêcco, deixou a madre abbadessa
+interdicto o seu interlocutor, que teve de retirar-se, não sem protestar
+haver pela força e violencia, o que á boa paz não pudéra conseguir, ameaças
+que ainda foram ouvidas pela respeitavel abbadessa.
+
+Era fama por todo o Portugal, fundada em apparencias mais ou menos falsas,
+que as noviças e senhoras religiosas do convento de Moimenta da Beira
+attrahiam ás suas grades a flôr da mocidade das provincias da Beira e
+Minho, não só pela notavel belleza de muitas d'ellas, mas, principalmente,
+pelo modo affavel com que recebiam as suas visitas.
+
+Dos mais assiduos frequentadores d'aquelle claustro, era um mancebo
+elegante, distincto em acções e nascimento, que já havia sustentado
+bastantes galanteios, com donzellas de todas as classes sociaes. Logo ao
+principiar a juventude, creára compromissos de homem feito; e declarava a
+sua vida intima, a todas as pessoas que o escutavam, com a leviandade
+propria dos annos ainda verdes.
+
+Fôra muitas vezes, sem elle o saber, espreitado pela respeitavel madre
+abbadessa, em occasiões que se tornava expansivo com uma das mais lindas
+noviças d'aquelle convento, que o attendia e mimoseava, ao palratorio, com
+golodices e innocentes amabilidades.
+
+Certo dia, foi-lhe alli entregue uma carta urgente, que pediu licença para
+lêr. O contheúdo no escripto, fizera-o mudar o semblante tão salientemente,
+que a formosa noviça não resistiu á tentação de perguntar-lhe, que má
+novidade o pozéra assim.
+
+--Está muito doente, um filhinho que tenho...
+
+--Pois o snr., que é solteiro, tem um filho?!...
+
+--Tenho, e quero-lhe tanto como se elle houvesse nascido do mais legitimo
+matrimonio.
+
+Amo as creanças em geral, e estremeço aquella a que dei a existencia. Todos
+os sacrificios seriam insignificantes para mim, quando se tratasse de
+salvar innocentes creancinhas. Sou novo, mas quer-me parecer que em tempo
+algum perderei os sentimentos de que já me orgulho. Só reconheço a
+legitimidade do sangue, que é perfeitamente igual nos bastardos como nos
+filhos do mais santo hymeneu.
+
+--Graças, meu doce Senhor Jesus, que já encontrei o que fervorosamente
+pedia á vossa infinita bondade!... Disse uma voz, sahida do interior das
+grades, que ambos reconheceram ser a da senhora abbadessa.
+
+Appareceu á grade, acto seguido, a trémula e veneranda cabeça da
+respeitavel superiora d'aquelle sagrado recinto, resplandecente de uma
+auréola de luz divina, e pediu, com a mais terna affabilidade, á noviça,
+que a deixasse ter um segredo com aquelle bondoso e nobre cavalheiro.
+
+Revelou a santa velhinha ao mancebo, como em seu poder cahira do céu o
+pequenino João, que alli escapára ao abandono de paes desnaturados.
+
+Disse-lhe que muito receiava que o pae do innocente, movido por vil
+interesse, tentasse apossar-se do filho pela violencia, o que não seria
+difficil conseguir em uma terra certaneja, onde não havia segurança nem
+para o asylo sagrado das esposas de Jesus Salvador. Pediu-lhe pelas
+sagradas dôres de Maria Santissima, que tomasse a seu cargo o futuro
+d'aquelle infeliz, que ella, amando-o como carinhosa mãe, confiaria do seu
+cavalheirismo, porque uma voz occulta, que nunca lhe mentira, lhe dizia que
+podia confiar. E quando, em algum dia dos poucos que tinha para viver,
+podesse haver ás mãos documentos que aproveitassem ao seu querido filho
+adoptivo, lh'os faria entregar por modo seguro.
+
+Logo que os soluços e as lagrimas da santa freira deram logar a ser ouvida
+do mancebo, a quem fizera tão estranha revelação e ponderoso pedido,
+disse-lhe, com uma solemnidade inesperada, que podia ficar tranquilla, em
+relação ao futuro da creança, que elle, desde aquelle momento, tambem
+adoptava por seu filho.
+
+Ás onze horas da noite d'aquelle dia, quem penetrasse até á porta das
+cellas das religiosas benedictinas de Moimenta da Beira, sentiria lá dentro
+lagrimas abundantes, porque todas choravam a ausencia de Joãosinho, fragil
+e inoffensiva creatura, que aquellas bondosas senhoras amavam com maternal
+affecto.
+
+Ha sempre, mórmente em terras de poucos e incultos habitantes, vigias
+nocturnas, homens morcêgos, que devassam os mais insignificantes
+acontecimentos da rua, e que levam a sua audacia até ao ponto de
+pretenderem sujar o sanctuario da familia com inducções calumniosas,
+tiradas dos incidentes presenceados, a que não sabem nem podem dar
+verdadeira interpretação.
+
+O fallar-se dentro do convento a deshoras, o bulicio de homens e cavallos,
+por occasião da entrada e tambem da sahida da creança, alguns indicios da
+existencia do pequeno João junto das freiras, o bom gasalhado que as
+trataveis madres davam ás suas visitas, e os commentarios exageradissimos
+dos vadios indagadores,--foram causas, tão indignas como infundadas, da
+extincção d'aquelle convento.
+
+É assim, muitas e repetidas vezes, a justiça dos homens.
+
+Ao leitor attento, escusado talvez seria declarar, que o mancebo a quem foi
+entregue o pequenino João, se chama, n'este conto, Sebastião da Mesquita. E
+a creancinha, salva da sanha de uma terrivel madrasta e da cobardia de um
+indigno pae, pela santa abbadessa,--madre e mãe adoptiva--tem aqui os nomes
+de João Vidal, o escudeiro.
+
+
+
+
+V
+
+UM LEVITA
+
+
+ «Apostolo é o pae que se afadiga
+ Só para que descance o filho amado;
+ Apostolo é a rocha em que se abriga
+ Ave agoureira e pobre desgraçado;
+ Apostolo é a lagrima que amiga
+ Cae pela face em peito amargurado;
+ E esse monstro do Céu que solitario
+ Correu o mundo á busca do Calvario.»
+
+ (_J. de Deus_--FLOR. DO CAMPO.)
+
+
+Em Santiago de Esporões--antiga vigairaria do arcebispado bracarense, onde
+Martim Ribeiro fundou uma capella chamada de Nossa Senhora da Caridade, e
+estabeleceu um celleiro para os pobres, com dinheiro por elle adquirido no
+Brazil--residia, no anno de 1799, uma honesta familia de pequenos
+proprietarios lavradores, composta de marido, mulher e um filho de nome
+Alvaro, rapaz de cinco para seis annos de idade.
+
+Os apoucados lavradores, por mais de uma vez em tempo de más colheitas,
+tiveram de recorrer ao celleiro dos pobres, restituindo o emprestimo,
+quando mais farto era o anno, com o _avanço_ de seu alvitre, segundo o uso
+e lei do estabelecimento de Martim Ribeiro, que não marcou limite ao juro
+para os que o queriam e podiam dar.
+
+É de mui antigas éras o costume portuguez, pronunciadissimo na provincia do
+Minho, dos paes imporem o destino aos filhos, quasi ao sahirem da pia
+baptismal. Este erro,--que tem origem na falta de illustração do povo, e
+tambem, o que peior é, em calculadas conveniencias familiares,--dá em
+resultado a troca de vocações, padrinho mal de muitas immoralidades e
+ruinas. Algumas vezes sem o quererem, na idêa até de evitarem imaginarios
+prejuizos, são os paes que forjam a completa desgraça de seus filhos,
+marcando-lhes, sem escrupoloso exame, a estrada a proseguir no transito da
+vida, trilho sempre difficil de aplanar, e impossivel de vencer sem
+desastres, para os que o percorrem violentados.
+
+Os pobres lavradores de Esporões, convencionaram fazer do seu unico filho
+um vigario. Ter um padre na familia, ouvir-lhe a primeira missa e vêl-o
+cura d'almas, é a suprema ambição dos camponezes.
+
+Alvaro, havia de ser padre, porque seus paes o queriam. Tinham feito todos
+os calculos; as propriedades que possuiam chegavam para o patrimonio; e
+para as despezas da ordenação, quando minguassem os rendimentos, passariam
+fome se tanto fosse necessario. As fortes e decididas vontades, não
+conhecem obstaculos.
+
+Chegou a hora de Alvaro tomar logar nas aulas de Braga. Alcançara-lhe o pae
+alojamento na rua de S. João do Souto, em casas da morada de uma viuva bem
+reputada e muito moça ainda, que havia calculado augmentar o pequeno
+rendimento de seus poucos haveres com o lucro proveniente de apatroar um
+estudante.
+
+É d'este modo que bastantes familias, nas populações onde ha lyceus e aulas
+publicas, diminuem as suas occultas necessidades.
+
+Chamava-se Eugenia Soares a viuva, que o era de um alferes do exercito
+portuguez, e contava vinte e duas primaveras no anno em que acolheu ao seu
+lar o estudante Alvaro da Cunha. Este, havia completado 16 annos de idade,
+e preparava-se para fazer exame do latim, que principiara a estudar na sua
+aldeia, tendo por bom professor o parocho da freguezia.
+
+Eugenia, não houvera filhos do seu matrimonio, nem conhecia parentes
+proximos que lhe fossem amparo. Vivia em companhia de uma creada, que já o
+fôra de seus paes antes d'ella nascer, que lhe queria como a filha, que
+todos os dias recordava as virtudes de seus velhos e fallecidos amos, e que
+era a sua unica conselheira e amiga. Antes de resolver a entrada de um
+estudante em sua casa, consultára Eugenia a sua Theresa, que apenas
+objectára dever ser o admittido ainda rapaz e não homem feito. N'aquelles
+felizes tempos, só depois dos trinta annos completos se gosava o nome de
+homem.
+
+Quando a velha Thereza precisava de sahir ás compras, Eugenia e Alvaro
+prestavam-se mutuo auxilio nos afanos domesticos. Nasceu assim entre elles
+uma innocente intimidade, que os deleitava. Succedia repetidas vezes ter
+Alvaro a delicadeza de preceder a patrôa no amanho das iguarias,
+confundindo o seu trabalho com o de Eugenia, e dando isto logar a toques de
+mãos tão singelos como perigosos nas edades em que o calor do sangue
+traspassa a cuticula, e póde, pelo contacto, communicar as doenças physicas
+e os ardores moraes: d'aquellas, e d'estes, ha a temer, após a
+communicação, a reciprocidade de padecimentos, sendo o amor o mais fatal de
+todos, por ser incuravelmente nervoso.
+
+A viuva e o estudante adoeceram da terrivel molestia, que se não cura tendo
+a séde na alma.
+
+Decorreram cinco annos.
+
+Faltava ao ordinando um exame, para completar o seu estudo e ficar preso á
+egreja. Mais alguns mezes passados, e acabaria o engano das almas de
+Eugenia e Alvaro, que já durava muito, livre de vicissitudes e de
+impurezas.
+
+Chegou o menorista, de ter passado as férias grandes na sua aldeia, sem
+grande pesar de haver deixado a companhia dos paes, que trocava por outra
+havida por mais terna: é assim o coração humano.
+
+O estudante deparou com Eugenia physicamente mudada, e sobresaltou-o tão
+rapida alteração. Viu pallida, magra, chorosa e pensativa, a mulher bella,
+como sempre nos parece a do amor, que deixara, quarenta dias antes, com
+todo o viço de uma feliz mocidade. Fez-lhe um montão de perguntas, e só
+teve lagrimas em resposta.
+
+As gotas de humor aquoso que sáem a pares dos olhos da mulher estimada,
+transformam-se em ferros agudos, a rasgarem fundo na alma do homem que as
+sente.
+
+Seccaram-se as lagrimas: como? Ao sol do amor, que o menorista fez nascer
+do soffrimento.
+
+A mudez de Eugenia promoveu a de Alvaro. Em casos taes, o silencio é o
+requinte do sentimento.
+
+A noite d'aquelle dia passou-a o estudante a scismar. Quando pelas fendas
+da janella do seu quarto conheceu o alvorecer, vestiu-se e sahiu. Não fez
+reparo em achar apenas cerrada a porta da rua, por que a sua preoccupação
+estava sobranceira aos factos materiaes. Caminhou sem direcção premeditada.
+Ao passar no largo da Sé, viu aberta uma porta lateral da egreja, e foi
+orar. Acabada a oração, reparou n'um vulto encostado a um confissionario,
+em posição de penitente, e estremeceu: não a vira, adivinhara Eugenia
+n'aquella confessada.
+
+O que atravessou o espirito do ordinando por aquelle encontro?
+
+Nem elle o saberia dizer. Só com grande esforço, conseguiu recolher-se a
+casa e deitar-se vestido sobre a cama. Passadas horas, e já quando se
+tornou reparada a falta de Alvaro á primeira refeição, entrou a velha
+Thereza no quarto do estudante e perguntou-lhe se estava doente.
+
+--Doente, e muito. Diga á snr.^a D. Eugenia, que estou vestido, como vê, e
+que lhe peço a mercê de vir fallar-me.
+
+Eugenia, entrou no quarto de Alvaro, e aproximou-se do leito com
+sobresalto. O doente, levantou rapidamente a cabeça e, sem dar tempo a
+perguntas, disse:
+
+--A senhora tem a bondade de mandar a Thereza procurar um portador que vá
+já buscar meu pae?
+
+--Para quê?!
+
+--Para sahir d'esta casa e d'esta terra immediatamente, a vêr se posso
+curar-me do mal que me assaltou esta manhã, e passar o resto da vida como a
+passam meus paes... Já não quero ser... _padre_!
+
+--Foi _elle_, foi, Alvaro, que me aconselhou a despedir-te!... Mas eu
+amo-te, ouves? e não quero que me fujas... Deus não póde ser tão severo
+como diz _aquelle_ seu ministro; ora não?... E eu morria se tu me
+faltasses; tenho a certeza de que morria... Vês? Só agora, que deveria
+proceder de modo bem opposto, se attendesse aos dictames do meu confessor,
+é que rompo o véu do meu coração!...
+
+A severidade, talvez egoista, de um padre indelicado, accelerou o natural
+desfecho d'aquellas relações.
+
+A missão melindrosa do confissionario, mais ainda que a do pulpito, só
+devia ser confiada a cabeças muito sãs, e a purissimas almas.
+
+Alvaro, ficou e sarou logo: bem dever era, que ficava e que sarava. Depois
+de scenas assim expansivas, é que nós não _ficamos_ pela continuação da
+pureza no sentimento.
+
+Na epocha propria, fez o estudante o exame que lhe faltava, e ficou
+habilitado a tomar ordens ecclesiasticas. Seguraram-lhe os paes o
+patrimonio em todos os seus bens, e vieram pernoitar á cidade, em companhia
+do filho, na vespora do dia em que elle devia ficar para sempre ligado á
+egreja, que houve por bem condemnar os seus ministros á mais terrivel das
+solidões,--á solidão d'alma!
+
+Chegada a hora da ceremonia, foram vêr o religioso e solemne apparato, os
+paes de Alvaro, acompanhados por Eugenia e pela creada Thereza. Quando o
+ordinando appareceu revestido do habito clerical, cahiu a desditosa
+Eugenia, com o sangue gelado, nos braços de Thereza. A boa da serva, ficou
+tambem semi-morta.
+
+Estavam finalmente realisados os ambiciosos sonhos dos velhos lavradores de
+Esporões.
+
+Alvaro, era presbytero!
+
+
+
+
+VI
+
+CELIBATO
+
+
+ «Deus me livre de discutir materia tantas vezes disputada, tantas
+ vezes exhaurida pelos que sabem a sciencia do mundo, e pelos que
+ sabem a sciencia do céu!»
+
+ _Alex. Herc._--EURICO.
+
+
+O padre Alvaro, foi residir, em companhia de seus paes, para a terra da sua
+naturalidade, onde cumpria rigorosamente todos os deveres de seu ministerio
+sagrado, procurando os infelizes para os consolar com a palavra e com a
+esmola, fazendo colheita de lagrimas, e escondendo de todos as que lhe
+vertia o coração. Vivia só para a caridade e para a dôr. Decorando, no
+Evangelho, a vida de Christo, identificou-se com Elle no amor da
+humanidade. Conseguiu augmentar ao casebre do seu patrimonio um novo e
+separado repartimento, na solidão do qual, fóra das horas obrigadas aos
+seus deveres, fechava cuidadosamente as suas mágoas.
+
+O soffrimento de um filho, não póde ser, por muito tempo, estranho aos que
+lhe deram a vida. Os bondosos lavradores de Esporões, conheceram, mais por
+instincto do que por sagacidade, que seu filho padecia, e quizeram
+profundar a causa de suas tristezas. Espreitaram-no a horas mortas, e
+ficaram surprezos do que viram.
+
+--Que peregrinação será aquella do nosso querido Alvaro, em noites de
+tempestade, Maria?!--Perguntava o velho a sua esposa, ambos de volta de
+suas pesquizas.
+
+--Eu sei-te lá, homem! Só te digo, que isto tudo me faz chorar... Elle come
+quasi nada, anda tanto por esses montes e outeiros, vae pelas cabanas á
+cata dos necessitados, passa o pouco tempo que lhe resta de dia a lêr e a
+escrever, e ainda sahe de noite e com um tempo assim!... Deus me perdôe,
+mas quer-me parecer que o nosso filho se fez padre de mais!
+
+--Não ha gosto perfeito n'esta vida, é certo. O prazer com que lhe ouvimos
+a primeira missa, farta recompensa de todos os nossos sacrificios,
+desandou, dentro em pouco, n'estas lagrimas! Mas deixa estar, que eu ainda
+tenho vigor, e não canço nas minhas pesquizas, que podem trazer-nos
+tranquillidade. D'aqui por deante, quero ser eu só a vigiar o nosso Alvaro,
+porque fico mais á minha vontade. Tu, entretanto, ficas na cama a pedir a
+Deus por nós, sim?
+
+--O que tu queres, quero eu sempre, Antonio.
+
+Uma das noites em que Alvaro foi espreitado pelo pae, entrou este, após a
+sahida do filho, no repartimento da casa habitado pelo padre. Analysou, com
+olhos paternaes, os mais insignificantes indicios de soffrimento, physico e
+moral, que por alli estavam dispersos. Entre outros, pareceu-lhe descobrir
+signaes de que o seu Alvaro cuspia sangue, supposição que fez verter da
+testa, ao triste pae, esse humor rubro que nos circúla nas arterias e
+veias. Encontrou no chão um papel com letras, que não sabia lêr, e
+guardou-o. Na madrugada do seguinte dia, foi o lavrador á residencia do seu
+parocho e velho amigo pedir-lhe o favor de lêr o escripto. Resava assim:
+
+«Não, disse S. Gregorio, que o laço do matrimonio era o nucleo do genero
+humano, o esteio da vida e o centro da piedade?
+
+«Para quê, os concilios d'Elvira e de Trento?...
+
+«Celibato puro!!...
+
+«Para quê, decretar contra a natureza?!...
+
+«Oh Christo? Não quizeste Tu nascer de Maria?... Se não tivesses por
+consorte a Cruz da Redempção humana, fugirias Tu a completar, quando homem,
+a Tua existencia no mundo?...
+
+«Porque não ha de ser para todos os filhos do peccado, a mulher, resumo do
+bem possivel, a casta mensageira entre o céu e a terra?!...»
+
+O parocho, que era um padre intelligente e bondoso, pediu á sua ovelha, que
+fosse depositar aquelle papel no mesmo sitio em que o achara, e passou,
+depois, largas horas em colloquio amigo com o pae do que fôra seu
+discipulo.
+
+Quinze dias depois da conferencia do parocho com o velho Antonio, ao cahir
+da tarde, chegava o lavrador, na rua de S. João do Souto, á cabeceira do
+leito em que Eugenia, cadaverica, estava recostada. Houve um longo
+silencio: ambos temiam o rompimento. Animou-se finalmente o velho a dizer:
+
+--Então de que mal padece a snr.^a Eugenia, não me dirá? As mulheres sempre
+são muito fracas! Pois a molestia que tem, é lá cousa para estar com esses
+quebrantos?! Será isso mimo?...
+
+--Vou dizer-lhe tudo por uma vez, snr. Antonio, antes que as forças me
+faltem... Amo seu filho e sou amada por elle... Um padre e uma viuva!...
+Deus castiga-nos, e bem o tinha agourado o meu confessor... _Elle_, está
+cavando a sepultura, bem o vejo; e eu quero, e hei de morrer antes...
+
+--Em quanto viverem os velhos como eu, não podem morrer assim depressa os
+novos como vossas mercês, descancem... Mas porque não fallaram a tempo?!
+Porque não confiaram de mim esses incuraveis amores, quando fossem ainda
+horas de os legitimar aos olhos do mundo?...
+
+--Não o quiz eu, snr. Antonio, porque tive mêdo de ajuntar ao meu crime o
+seu odio, ou de praticar novo crime, levando Alvaro á desobediencia.
+
+--Foram bons sentimentos esses, foram; mas fôra melhor que ambos tivessem
+mais alguma confiança nos corações dos outros... Em fim, isso lá vae, e o
+que não tem remedio remediado está. Agora, cumpre fazermos todos da nossa
+parte para se viver o melhor possivel, o que se hade conseguir com o favor
+de Deus...
+
+A este tempo sentiu-se rumor á porta do quarto, e ouviu-se distinctamente a
+voz de Thereza dizer: «É seu pae!...»
+
+--Entra, Alvaro;--disse em voz clara e de modo a ser ouvido de fóra, o
+sympathico e honrado velho. Entrou o padre, ajoelhou aos pés do pae, e
+titubeou a palavra:--Perdão.
+
+--Levanta-te, que és mais infeliz do que culpado, e para os infelizes
+reservou Deus a sua divina misericordia. Sei tudo, e tambem o sabe tua
+mãe. Não te louvamos nem condemnamos; choramos as tuas dôres, que são as
+nossas, e procuramos-lhe allivio. É preciso que vivas, e que viva tambem a
+snr.^a Eugenia. Eu mando, pela voz da religião que tenho n'alma, pela do
+sangue e pela da honra, como a entendem os homens do campo. Se fôr
+condemnado pelos fanaticos, já tenho a absolvição do meu santo pastor, que
+mais vale. A um pobre, que sempre foi honrado, não falta a Providencia nas
+occasiões precisas. Tu, meu Alvaro, vaes ser nomeado reitor da freguezia de
+Santo Adrião de Penafiel, que assim m'o prometteu o snr. fidalgo de Porto
+Carreiro, que nunca faltou á sua palavra. É um presente que me faz, disse
+elle, por eu lhe ter pago com toda a pontualidade, ha quarenta e cinco
+annos, um fôro, de dois carros e meio de pão meiado, limpo e sêcco. É um
+fidalgo ás direitas, que sabe conhecer o que vale o suor da pobreza. Ora, a
+reitoria, fica lá para o valle de Sousa, nas proximidades de Penafiel,
+muito longe d'aqui. Eu e tua mãe de certo lá não poderemos ir; mas tu, que
+estás na força da vida, virás amiudadas vezes visitar-nos. O snr. padre
+reitor de Santo Adrião, tem na aldeia da sua naturalidade uma irmã viuva,
+que póde ter um filhinho que talvez precise do auxilio do thio padre...
+Repito, eu mando, e quero ser obedecido. Não sei o que dizem os livros
+sagrados nem os profanos, porque me não ensinaram a lêr: tenho só aprendido
+o que me diz a minha consciencia honrada. No tribunal do Deus justo, darei
+eu as contas por tudo isto. Do escandalo, é que as não hei-de dar, porque
+tenho toda a segurança nos bons sentimentos d'aquelles que preferiam a
+morte, á quebra publica dos seus deveres.
+
+Quando Antonio acabou de insinuar as suas ordens, dadas n'um tom prophetico
+e inspirado, é que fez reparo no quadro que, havia já minutos, alli se via.
+Estavam a seus pés, ajoelhados, cada um de seu lado, regando-lh'os de
+lagrimas doces, os amnistiados da paternidade, que representa Deus na
+terra.
+
+Era bello de vêr-se a mocidade cadaverica pelo mal d'amor, abraçando
+commovida até ás lagrimas, a honra envelhecida no rude trabalho do campo,
+fresca e vigorosa como a carvalheira secular liberta da podridão das
+cidades!...
+
+No dia 27 de agosto de 1819, recebia o primeiro sacramento da egreja, na
+cidade de Braga, um recem-nascido do sexo masculino, a que foi posto o nome
+de Arthur. Os padrinhos, por procurações de Sebastião da Mesquita Bandeira
+de Mello e de D. Isabel de Abendanho e Sousa, foram Antonio da Cunha e
+Maria do Espirito Santo, os honestos lavradores de Esporões, que deram a
+existencia ao reitor de Santo Adrião de Penafiel.
+
+Estava o padre Alvaro ha mais de tres annos de posse da reitoria, sendo
+acatado e tido na conta de exemplar pelo povo, quando recolheu na sua
+residencia uma irmã viuva com um filho. Cresceu o amor e o respeito do povo
+pelo padre reitor e pela familia, na razão directa do augmento de
+beneficios e de consolações que recebia. Eram seis mãos sempre abertas á
+pobreza, e duas santas boccas a semearem palavras animadoras aos dous
+sexos, o que o povo encontrava na residencia do reitor de Santo Adrião de
+Penafiel. Por isso, o reitor, irmã e sobrinho, ganharam a estima geral, ao
+ponto de fazerem dividir, nos corações de todos os habitantes do valle de
+Sousa, a antiga e bem fundada sympathia pela familia do fidalgo Sebastião
+da Mesquita.
+
+Um dia, chegou ao conhecimento do publico, que havia luto na residencia do
+padre Alvaro. Foi lá toda a gente da povoação. O reitor, leu,
+commovidissimo, ao seu rebanho, uma carta que recebera do seu amigo e
+mestre, o parocho de S. Santiago de Esporões. Dizia assim:
+
+«Dei hontem sepultura a dois cadaveres, Alvaro, e dou hoje cumprimento a
+uma triste imposição da amisade. Está devoluta a residencia do teu
+patrimonio. Teu pae morreu ás dez horas, e tua mãe á uma da tarde do mesmo
+dia. Presenciei a morte de dois justos. Disseram-me, para te communicar,
+que iam pedir a Deus por ti... Resignação.»
+
+As lagrimas do padre confundiram-se com as de todos que o escutavam.
+
+Arthur, que então teria sete annos, trepou aos joelhos do sagrado pastor,
+pousou-lhe os rosados e frescos labios nas faces crestadas pelo fogo das
+lagrimas, e disse-lhe:
+
+--Não chores, thio, que os avós estão no Céu. Sabes o que hasde fazer?
+Manda occupar as casas, que elles deixaram, pelos pobresinhos lá d'essa
+terra, sim?
+
+--Pois sim, querido amor, e hei de dizer-lhes que foste tu o da
+lembrança...
+
+Arthur andou nos braços de todos, e foi devorado com beijos. N'esta
+occasião, deu entrada na sala o fidalgo Sebastião da Mesquita, acompanhado
+de uma creada, que trazia ao collo uma interessante menina de treze mezes
+de idade. O povo formou respeitosamente duas alas, e o reitor recebeu, com
+agrado, mais aquella visita.
+
+--Que fez o meu afilhado para merecer tantos affagos?--perguntou o fidalgo,
+depois de ter saudado a todos.
+
+--O que havia de ser, snr. da Mesquita?... O rapaz parece não ter mau
+coração: destinou a habitação dos avós fallecidos para residencia das
+pessoas mais necessitadas da freguezia d'elles; e as boas almas d'estes
+meus filhos todos, pagaram-lhe a lembrança em fartas caricias.
+
+--Então já assim caminhamos para o Céu, snr. meu afilhado?! Muito bem,
+muito bem!... Vou dar-lhe a primeira paga da sua nobre acção...
+
+--E assim fallando tomou Arthur nos braços e, aproximando-o da filhinha,
+fez com que se beijassem os dous innocentes......
+
+Treze annos depois d'estas scenas, em dia de trabalho, e por horas em que
+estão dezertas as egrejas das aldeias, entrava Sebastião da Mesquita no
+templo parochial de Santo Adrião, e batia de manso nas costas de um padre,
+que estava curvado sobre uma sepultura. Ao levantar-se o padre, tremeu
+involuntariamente o fidalgo, de encarar nas transtornadas feições do seu
+amigo.
+
+--Nem tanta penitencia nem tamanha dôr, padre Alvaro, que podem não ser do
+agrado de Deus. Não precisa, Arthur, agora mais que nunca dos seus
+cuidados?
+
+--Basta-lhe a protecção do nobre e honrado padrinho... A minha vida, está
+n'esta sepultura, onde talvez cahisse uma condemnada ás penas eternas!...
+
+--Não conta com a bondade do Pae para com seus filhos, e por uma culpa
+involuntaria, desvanecida por innumeras virtudes, só quer vêr o castigo, em
+vez do perdão?!
+
+--E as leis da egreja?!...
+
+--E as leis da natureza; a misericordia divina; os votos de seus honrados
+paes; a consideração, a estima, o respeito geral; as bençãos dos infelizes
+e a tranquillidade da consciencia, pelo que toca a todas as demais acções
+da sua vida?...
+
+--Viverei, snr. Sebastião da Mesquita, e o tempo que me sobrar da
+penitencia dal-o-hei á sua heroica amisade!
+
+
+
+
+VII
+
+RAPTOS
+
+
+ «Que póde valer á hebrêa
+ Sentir n'alma chamma infinda?
+ como a linda Ester ser linda,
+ e amada como Rachel?
+ Se o coração da judia
+ se entre-abre do amor aos lumes,
+ não lhe dá tempo aos perfumes
+ o seu destino cruel.»
+
+ (_T. Ribeiro_--SONS QUE PASSAM).
+
+ «O vicio está por tal fórma naturalisado que não ha razão para
+ espantos nem sequer para censuras.»
+
+ (_Camillo C. B._--O CONDEMNADO.)
+
+
+Foi ephemero o triumpho para a revolução do Minho, denominada--Maria da
+Fonte.--Cahiu o ministerio ao rugido popular, foi certo; mas a seis de
+outubro do mesmo anno, o governo constituido ao grito dos revoltosos,
+teve, por vontade régia, sorte igual á do seu predecessor. A esse facto,
+que se deu fóra das praxes constitucionaes, chamou-se--_emboscada
+palaciana_--e deveu-se a mais formidavel das guerras civis portuguezas.
+
+A heroica cidade da Virgem foi o centro da resistencia ao chamado
+governo de facção, constituindo dentro de seus muros, a nove de outubro
+de mil oito centos quarenta e seis, uma _junta provisoria do governo
+supremo do reino_, que ousou prodigios bem dignos de causa mais santa,
+como seria a defesa da patria contra estrangeiro dominador. Exaltaram-se
+os partidos, e de todos os angulos do paiz voava a mocidade portugueza a
+alistar-se sob as bandeiras hasteadas em guerra fratricida. O
+enthusiasmo guerreiro tocou o delirio. Raro, bem raro, seria
+encontrar-se um portuguez de braços cruzados ante o flagicio geral.
+
+Além dos bandos constitucionaes, achou tambem ensejo de desfraldar
+bandeira o velho e respeitavel partido absolutista: respeitavel na sua
+quéda, e ostracismo sem limite, pela coragem da abnegação, e pelo
+inquebrantamento da sua fé. Este ultimo grito de revolta, chamou tambem
+os velhos ao campo da batalha. Acabaram então os indifferentes: todos os
+portuguezes, cada um a sabôr das suas paixões, ficaram empenhados na
+luta.
+
+Sebastião da Mesquita foi convidado por um general
+estrangeiro--Mac-Donnell--, que se dizia commissionado do snr. D. Miguel
+de Bragança, a tomar parte activa no pronunciamento ante-dynastico.
+Recusou-se. Pediu-lhe o general que fizesse, ao menos, parte do seu
+estado maior, para lhe dar conselho e força moral, e apresentou-lhe um
+autographo do principe proscripto,[2] que fez abalo na rigidez do velho
+fidalgo. Esta conferencia teve logar nos primeiros dias do mez de
+novembro de mil oitocentos quarenta e seis; e não se passaram muitas
+horas depois d'ella, sem que o aventureiro general visse caminhar ao seu
+lado, para Villa Real, o respeitavel pae de D. Maria da Gloria, tendo
+previamente recommendado ao seu afilhado, Arthur Soares, que auxiliasse
+a esposa na vigilancia do seu casal.
+
+Quem podesse espancar as trevas da tempestuosa noite de dezoito do mez e
+anno referidos, e penetrar no terreiro da frente do palacio de Sebastião
+da Mesquita, veria alli tres liteiras e seus guias, um formidavel
+cortejo de lacaios, e cêrca de cem homens armados, todos recolhidos ao
+maior silencio. O capitão d'aquella força e apparato, era o fidalgo
+Leopoldo. Conseguira aquelle posto no exercito da rainha, em batalhão
+addido á brigada do commando de um general que, por aquella epocha, se
+aproximou da cidade do Porto, no intuito de lhe serem abertas pela
+traição, que se dizia combinada, as fortes linhas defensivas do baluarte
+da Liberdade.[3]
+
+Não podemos averiguar como o snr. de Lencastre conseguira desviar
+aquella força da sua direcção para as cercanias do Porto. O que sabemos
+é que aquella gente caminhara de noite, por verédas escusas, no
+manifesto intento de evitar encontros com os sublevados. O mais, ficou
+sendo um segredo do voluntario capitão, e do general commandante da
+brigada.
+
+No interior do palacio, e no quarto reservado a D. Maria da Gloria, onde
+tambem estavam Rosa e Anna, que ficaram sendo constantes companheiras da
+fidalga desde a ausencia de Sebastião da Mesquita, á mesma hora da
+chegada ao terreiro do já descripto e bellicoso apparato,--havia uma
+conversação, a que o leitor, ainda hoje, tem direito de assistir:
+
+--Conheço agora, minhas boas amigas, toda a verdade do rifão--«diz-me
+com quem vives, saberei os fracos que tens.»--Estou supersticiosa com a
+nossa Annitas! Não sei o que me adivinha o coração... A ausencia do meu
+illustre pae e do João Vidal, e o escrupulo do snr. Arthur Soares, em
+não querer pernoitar n'esta casa, são naturaes acontecimentos, bem o
+conheço, mas despertam-me uns certos receios que até hoje não conhecia
+em mim!...
+
+--Querem vêr que ainda lhe lembra a má catadura do irritado primo
+n'aquella noite de luar?!... Não pense em tal, minha querida snr.^a D.
+Maria, que a tempestade, se o foi, passou sem resultados fataes, e só
+deve restar d'ella, ao seu auctor, o pesar de a ter provocado.
+
+--É de certo pela minha natural timidez que eu, partilhando os sustos da
+snr.^a D. Maria, vejo cahir sobre nós a tempestade, como a Rosa lhe
+chama, e fazer-nos victimas do seu louco furor...
+
+--Por melhor o fará Deus, Anna... Comtudo, parece-me prudente não
+desprezar estes presentimentos, accordar a minha presada mãe e senhora,
+e pôr os criados de atalaia...
+
+--Credo! o que ahi vae!... E o mais é que são capazes de reunir em mim,
+ao pêso d'esta tenebrosa noite de inverno, o mêdo do terror de que as
+sinto possuidas...
+
+E as tres donzellas, como se fossem tocadas por occultas molas, saltaram
+fóra dos leitos, e vestiram-se apressadamente.
+
+Ao mesmo tempo que se manifestava nas tres donzellas o máu presentimento
+revelado no dialogo a que fizemos assistir o leitor, sentira igual
+panico a velha fidalga D. Isabel de Abendanho e Sousa. Não são virgens
+estes casos. Muitos exemplos attestam o ter sido uma familia atacada de
+funestas ideias, e de iguaes padecimentos physicos, em alguns de seus
+membros ao mesmo tempo, vivendo até distanciados uns dos outros. Não
+sabemos se ha sciencia que explique o phenomeno; mas é certo que se tem
+dado.
+
+Fez a dona da casa levantar os criados, que collocou de sobre-aviso,
+indo em seguida escutar á porta do quarto da filha, para certificar-se
+de se havia por alli em que fundar os seus receios. Na mesma occasião
+era aberta a porta por D. Maria e, juntas as quatro habitadoras do
+palacio, confidenciaram os seus mysteriosos sustos. Teriam apenas tempo
+de trazer a lume a mais diminuta parte de suas apprehensões, quando
+sentiram tropel de criados, tomando a direcção do quarto, que procuravam
+a senhora fidalga, para, entre temerosos e espantados, lhe darem parte
+de que o palacio estava cercado de tropa.
+
+Foi então que aquellas quatro mulheres, tímidas momentos antes por
+ideias de imaginarios perigos, mostraram que o sangue frio e a coragem,
+quando chegam as verdadeiras tempestades da vida, não são qualidades
+alheias ao sexo chamado fragil.
+
+Era, com tudo, tarde para se tomarem acertadas providencias contra
+qualquer aggressão. Um dos serventes da casa, comprado pelo ouro de
+Leopoldo, abrira uma das portas do palacio. Foram, pois, surprehendidas
+as tristes senhoras pela multidão de homens armados, á testa dos quaes
+se via o imprudente auctor d'aquelle attentado, e impossibilitadas de
+resistir aos intentos de seus perseguidores.
+
+Entre alguns dos criados do palacio, e a força violadora d'aquelle lar,
+houve uma pequena luta--até aquelles serem subjugados pela vantagem
+numerica--perecendo apenas n'ella o criado traidor, ás mãos dos
+assalariados por aquelle que lhe comprára a fidelidade.
+
+As tres donzellas foram brutalmente amarradas e conduzidas ás liteiras.
+
+A velha fidalga presenceou tudo com denodo varonil, sem fazer o mais
+leve rumor, representando, na sua mudez e aspecto sublimes, uma perfeita
+estatua de concentrado soffrimento. Era uma «Vilhena» a meditar vingança
+condigna de tão atroz delicto. Ao arrancarem-lhe as donzellas,
+disse-lhes D. Isabel com voz severa:
+
+--A infamia não vence a honra. Sabei morrer sem vergonha, que eu vos
+abençôo como Deus vos abençoará. Adeus, Maria!...
+
+Retirados que foram os assaltantes com as suas presas, ficou o palacio
+occupado pelos fieis creados, agglomerados em volta de sua ama D.
+Isabel. Esta heroica matrona, teve força para recolher ao coração as
+lagrimas da saudade, o fel do desespero e do seu justificado odio ao
+malvado parente que a deshonrava, e para dizer com apparente
+tranquillidade aos que a cercavam:
+
+«Quizera antes ter de vos lamentar mortos, e de vos mandar suffragar as
+almas, do que vêr-vos aqui sem aquellas em defesa das quaes deveriam
+todos acabar seus dias, porque eram vossas amas, vossas enfermeiras, e
+vossas amigas... Já agora não ha tempo para mais reflexões. Apparelhae
+todos os cavallos que estão nas cavallariças,--um d'elles para que eu o
+possa montar--soltae os animaes recolhidos nas lojas, colhei todos os
+retratos de familia que encontrardes, e deitae immediatamente fogo a
+este palacio. Não deve mais ser visto de meu marido, o logar onde um
+fidalgo villão insultou a mulher e a filha de um verdadeiro nobre.
+Reparae que eu _quero_ caminhar para a residencia do snr. reitor,
+alumiada pelas chammas da casa que foi habitação de meus avós!...»
+
+Foram rigorosamente cumpridas as ordens da fidalga, que effectivamente
+caminhara para casa do reitor ao clarão que despedia o fogo lançado de
+seu mando ao seu solar, e ao som do toque de sinos a rebate, que o
+incendio provocara.
+
+A meio caminho da residencia encontrou D. Isabel Arthur Soares, que o
+toque dos sinos despertara, ao qual referiu o succedido.
+
+Duas horas depois das scenas narradas, quem fosse á sala do oratorio da
+residencia, encontraria uma senhora e um homem--dous velhos--ajoelhados,
+a orarem ao Creador. Eram o reitor e a fidalga D. Isabel.
+
+Á mesma hora, passeava Arthur Soares, como louco, no seu quarto,
+brandindo um punhal, aquella detestavel arma, já conhecida do leitor,
+que D. Maria lhe legára.
+
+ [2] Verdadeiro ou imitado, mostrava Mac-Donnell ás pessoas mais
+ importantes do partido realista, um escripto do punho do snr. D.
+ Miguel de Bragança.
+
+ [3] É notavel a linguagem d'esta proclamação: «Portuenses!--O
+ general *** volta de novo com a força de seu commando a aproximar-se
+ das linhas do Porto. Elle não confia em si. Confia na traição. Mas
+ engana-se. A junta está prevenida. Ninguem ousará dentro dos muros
+ do Porto levantar um grito criminoso, fazer uma tentativa culpada.
+ Ninguem o ousará. E ai d'aquelle que o ousasse! As medidas
+ convenientes estão tomadas. Porto! A Europa nos contempla! Com a
+ ajuda de Deus, pela intercessão da Virgem, protectora de nossas
+ armas e de nossa gloria, o Porto será sempre vencedor--nunca
+ vencido. A liberdade nos inspira! Os escravos que vem trazer os
+ ferros, e a assolação a esta cidade ficarão petrificados deante de
+ nossas bayonetas. O Porto é a cabeça de Medusa deante da qual os
+ tyrannos estremecem e gelam de terror.
+
+ .........................................................
+
+ «Confiemos na protecção do eterno, e no esforço de nossos braços.
+ Transmittamos á posteridade uma nova pagina de heroismo--a nossos
+ netos uma rica herança de gloria, e um grande e novo exemplo de
+ valor. Ás armas cidadãos! Ás armas! por Deus, e pela liberdade:
+ e--Viva o Porto!--O Porto sempre grande, sempre intrepido, sempre
+ heroico, indomito, invencivel!--Viva a Nação!--Viva a Liberdade!--E
+ ás armas!--Palacio da junta provisoria do supremo governo do reino,
+ em 8 de Dezembro de 1846.»
+
+ (Omittimos tudo que podesse recordar odios pessoaes.)
+
+
+
+
+VIII
+
+COMBATE
+
+
+ «O homem debatia-se ahi nas vascas da morte, e o sol passava involto
+ na sua gloria sem corar das angustias d'aquelles, que em seu ridiculo
+ orgulho se chamavam monarchas e conquistadores do mundo; sem lhe
+ importar se os vermes vestidos de ferro, chamados guerreiros, se
+ despedaçavam uns aos outros com o delirio insensato das viboras no
+ momento dos seus amorosos ardores.»
+
+ (_A. Herculano_--EURICO.)
+
+
+Em Porto Manso, logar situado pouco abaixo das Caldas de Arego, no dia
+19 de Novembro de 1846--o seguinte áquelle das scenas descriptas no
+capitulo precedente--estavam postados á margem do rio Douro, em fortes
+posições, uns quinhentos homens commandados pelo aventureiro general
+Mac-Donnell, espreitando a passagem rio abaixo de um bravo, mutilado e
+honradissimo militar do tempo do cêrco, que servia ás ordens da junta, e
+que recolhia, com a força de seu commando, á invicta cidade do Porto.
+
+Desprevenido da cilada, soffreu o liberal guerreiro de muitas e bem
+feridas batalhas, um vivissimo fogo de fuzilaria, despejado sobre as
+suas tropas embarcadas, pela emboscada guerrilha.
+
+Travou-se combate.
+
+No mais vivo da peleja, dirige-o um cavalleiro o seu corcel a toda a
+brida em direcção onde se achava o general da guerrilha, e segredou-lhe:
+
+--General! Não é d'este modo que se batem os defensores de uma causa
+justa e sancta. Esta espera traiçoeira a uma força que nos não aggride
+nem mesmo podemos ter como inimiga declarada--é procedimento condemnado
+pelos bons estimulos, por todas as regras, e pelo decoro da briosa
+carreira militar. Se não manda já cessar o fogo, e tocar a retirar,
+retiro-me eu immediatamente.
+
+--Faça o que lhe aprouver fazer, snr. Sebastião da Mesquita, que eu não
+desisto do meu empenho em aprisionar o _manêta_.
+
+--Não o conseguirá. A Providencia, que muitas vezes parece dormir, é
+sempre protectora dos opprimidos. Recolho a minha casa, general, e não
+creio que nos tornemos a encontrar.
+
+Verificou-se o vaticinio do nobre fidalgo.
+
+Poucas horas depois d'aquelle curto dialogo, retirava a guerrilha de
+Mac-Donnell em completa debandada, deixando no campo do combate 17
+mortos e 9 prisioneiros, escapando com difficuldade de ser tambem
+aprisionado o seu aventureiro commandante.
+
+Quando Sebastião da Mesquita, acompanhado do seu fiel escudeiro João
+Vidal, seguia caminho de sua casa, viu ao largo, caminhando em direcção
+a elle, uma cavalgada que, sem atinar com o motivo, lhe fez profunda
+sensação. Ao aproximarem-se os dous grupos de cavalleiros, não pôde
+suster o velho fidalgo uma exclamação de espanto, reconhecendo sua
+mulher, o reitor, Arthur Soares e todos os seus criados. Apeiaram-se
+silenciosos. Era um descampado o sitio do encontro. D. Isabel abraçára
+seu marido, debulhada em lagrimas. Todos os rostos exprimiam a mais
+profunda tristeza. Houve um longo e doloroso silencio. Sebastião da
+Mesquita interrogou sua mulher com um olhar, que D. Isabel comprehendeu
+e revelou ao inquieto esposo o attentado do seu palacio, e as suas
+consequencias, sem esquecer a mais pequena circumstancia do occorrido. O
+velho ficára por instantes como fulminado. Quando pôde fallar, disse á
+esposa:
+
+--Isabel! Acabas de dar-me, com a má nova, mais uma prova do quanto és
+digna do meu affecto. Procedeste como honrada mulher que és. O que resta
+a fazer, compete-me a mim, e crê que Deus me ha-de conservar a vida para
+a desfórra. As nossas filhas--chamo assim a todas--se não morrerem,
+hão-de voltar com honra ao nosso poder. A educação e o sangue, são,
+n'estes casos, melhores guardas do que o mais poderoso exercito.
+Socega.--Padre Alvaro, póde voltar a pastorear o seu rebanho. Não lhe
+agradeço o que fez, porque a verdadeira amisade vexa-se com
+agradecimentos.--Arthur Soares, sei lêr nos seus olhos a sua vontade e
+por isso lhe digo que militará desde hoje ao lado de seu padrinho.
+Faço-me coronel ou general, e dou-lhe o posto de meu ajudante...
+
+--E para mim, snr. Sebastião da Mesquita,--interrompeu o velho
+reitor--reclamo o de padre capellão do seu regimento e, se fôr
+indeferida a minha pretenção, como estamos em tempos anormaes,
+despacho-me a mim mesmo, e sigo-o, ainda contra vontade de v. exc.^a. As
+minhas ovelhas ficaram entregues a um bom pastor, que eu previra a
+demora da snr.^a D. Isabel, e comprehendi que o meu dever era não me
+apartar um só instante da nobre senhora, que me honrara procurando o
+abrigo do meu tecto. Não tente demover-me d'este proposito, snr.
+Sebastião da Mesquita, que deve conhecer a mágua que a reluctancia de v.
+exc.^a me causava.
+
+--Obrigado, padre Alvaro. Seja como quer, que deve ser como Deus manda.
+
+Durante o tempo que durou este encontro, explicações e pactos, foram-se
+agglomerando em volta do grupo os guerrilhas que vinham fugidos do
+combate, e que haviam reconhecido em Sebastião da Mesquita o ajudante do
+general _inglez_, como elles chamavam a Mac-Donnell.
+
+O velho fidalgo perguntou-lhes se queriam continuar a militar sob o
+commando d'elle, proposta que todos receberam com exclamações da mais
+expansiva alegria. Dentro em pouco reuniu o ex-ajudante, ou antes
+conselheiro, do aventureiro general, debaixo do seu commando, quasi toda
+a força de que Mac-Donnell dispunha antes do combate.
+
+Dispoz Sebastião da Mesquita em acção de guerra toda a sua tropa, e
+proclamou-lhe a conveniencia de uma rigorosa disciplina,
+declarando-se-lhe intransigivel e inimiamente severo para qualquer
+infracção.
+
+Estavam já em disposições de marcha, para pernoitarem na mais proxima
+povoação, quando o novo commandante viu aproximar-se-lhe um official a
+cavallo, que chegára alli á desfilada.
+
+Déra a tropa caminho ao recem-vindo, por não haver que temer de um só
+homem, e pelo instincto de que havia utilidade n'aquella apparição. A um
+signal do esbaforido official, mandou Sebastião da Mesquita fazer campo,
+em que ficaram um tanto isolados da força o recem-chegado, elle e a
+familia.
+
+Não cabe nas forças de um escriptor do nosso pulso, pintar
+satisfactoriamente as gratas impressões e o delirante contentamento de
+todos, ao reconhecerem, n'aquelle supposto mensageiro, a intrépida Rosa!
+
+Fôra o caso, que chegando Leopoldo com as tres roubadas donzellas ao Bom
+Jesus do Monte, dos arrabaldes de Braga, e recolhendo-as á hospedaria,
+teve Rosa artes para communicar, por uma varanda, com o quarto immediato
+ao que em prisão lhe fôra dado, onde a sorte quiz que houvesse um
+completo fardamento de official ajustado ao corpo da nossa heroina.
+Conceber o seu plano, despojar-se dos feminis vestidos, substituil-os
+pela farda, descer á cavallariça, ordenar em tom positivo ao curador que
+apparelhasse o seu cavallo, montal-o e fugir--foram tudo actos tão
+seguidos e repentinos, quanto vigorosa e ardida era a vontade da
+donzella!
+
+Contou Rosa a historia da sua fuga com as variantes e variadas
+peripecias a que forçosamente havia de sujeital-a a sua inexperiencia,
+narrou os succedimentos que da liteira poude presencear após os raptos,
+e foi no fim abraçada por todos com frenetico enthusiasmo.
+
+No rosto de Arthur Soares, ao reconhecer Rosa, havia transparecido um
+raio de alegria, que foi de novo sumido nas trevas da sua profunda
+tristeza, mal que terminára a narrativa.
+
+--Esta, já está salva! e hade ser o primeiro mobil da salvação das
+outras nossas filhas, Isabel!--Disse Sebastião da Mesquita, cheio do
+jubilo que em taes circumstancias podia abrigar no peito.
+
+
+
+
+IX
+
+AMOR
+
+
+ AMOR é a palavra, o brado eterno
+ Solto por Deus ao vêr já feito o mundo,
+ Que fez tremer as abobodas do inferno
+ E o sol ficou da côr d'um moribundo:
+ A primavera, estio, outomno, inverno,
+ Terra, céu, alma pura, bicho immundo,
+ Tudo ahi cabe á larga de tal modo
+ Que n'essa concha Deus se fecha todo.»
+
+ (_João de Deus_--FLORES DO CAMPO.)
+
+
+Á margem de uma estrada que serve de transito entre Vianna e a praça de
+Valença no alto Minho, em aprasivel e pittoresca posição, olhando as
+viçosas e celebradas cercanias do nosso poetico Lima,--está situado um
+sumptuoso palacio com suas suberbas fachadas das ordens Toscana e
+Dorica, esta decorando a frente principal, e aquella a do primeiro
+jardim, como tambem as suas respectivas torres ou pavilhões.
+
+A escada principal d'este edificio, rivalisa com a do palacio episcopal
+da cidade do Porto.
+
+A capella ostenta um elegante zimborio e grande profuzão de maravilhosos
+ornatos. Os seus aprasiveis parques e bellissimos jardins, com
+magnificas e espaçosas ruas, tornam aquella vivenda verdadeiramente
+encantadora. O interior corresponde ao exterior, se não o excede, na
+vastidão, luxo, e boa ordem com que está decorado.[4]
+
+Fôra para aquelle paraiso, que o sr. Leopoldo de Lencastre fizera
+conduzir D. Maria e a sua discipula Anna, conservando-as separadas,
+ignorando a existencia ali uma da outra, e na maior vigilancia, para
+evitar outra fuga como a de Rosa.
+
+Viviam as duas donzellas n'aquelle privado carcere rodeadas do mais
+asiatico luxo, e como feudaes princezas a que, no exilio, fosse
+concedido o eden por homenagem.
+
+Anna facilmente se coadunára com a nova e extraordinaria existencia a
+que fôra levada pelo crime, por que--já o sabe o leitor--no seio de sua
+virginal pureza despontára um sentimento a ella desconhecido, de que o
+seu roubador fôra alvo, e que devia leval-a a debater-se na labareda que
+elle fórma, ou a consumir-se nas cinzas que essa mythologica chamma,
+denominada amor, conserva eternamente nos corações martyrisados pela voz
+do dever e da consciencia.
+
+Outro era o estado de D. Maria da Gloria. A convivencia desde o berço
+com Arthur Soares, o cotejo que muitas vezes, e insensivelmente, fizera
+das qualidades moraes do sobrinho do reitor com os de mais
+frequentadores do seu solar--o que sempre dava em resultado innumeras
+vantagens para aquelle--e, sobre tudo, esse mysterioso aquecer do sangue
+ao girar perto de nós em natural fluido o de alguem que o bafeja, e essa
+constante e seductora visão da alma semelhante á nossa em corpo da nossa
+sympathia,--haviam sido outros tantos estimulos a conduzirem a fidalga
+moça á posse de um reservado e verdadeiro affecto por Arthur Soares, que
+ella julgava poder sempre ter sepultado no fundo do coração, em respeito
+ao culto da nobreza que herdára e que lhe fôra inoculado ao entrar na
+vida pelos seus educadores, reserva esta já trahida n'outra crise, e que
+d'esta vez corria gravissimo risco de acabar completamente. N'este
+estado, fôra-lhe tyrannico, sobre ser infamissimo, o cobarde e violento
+procedimento do fidalgo primo.
+
+Leopoldo, estava apanhado na sua propria rêde. Levado por maus
+instinctos, e por sêde de vingança, premeditou e levou á execução, sem
+ao menos preceder o circumspecto exame da maldade precavida, o arrojado
+e perigoso projecto de roubar as donzellas. A primeira contrariedade
+soffreu-a elle immediatamente com a fuga de Rosa, á qual votava
+entranhado rancor, e anciava humilhar cruelmente, e abortára-lhe esse
+prazer. A segunda quebra dos seus devaneios veiu-lhe com a nimia
+facilidade que encontrou em sujeitar a timida e docil Anna a todos os
+seus caprichos, desfazendo-se-lhe d'este modo, como fatua bolha de
+sabão, um mal definido e peior agasalhado sentimento que, por aquella
+rapariga, lhe parecia a elle ter no peito.
+
+Muitas d'estas velleidades, cunha a sociedade com o pomposo nome de
+amor, confundindo o appetecido contacto das epidermes com esse
+sentimento moral que subjuga o homem, que é o principio creador de todos
+os seus heroismos, que é a razão, o genio, a harmonia, o acto supremo da
+alma, a inspiração de Deus!...
+
+O terceiro e o mais fatal de todos os castigos de Leopoldo cahira sobre
+o coração do desgraçado em frecha envenenada, que já começava a
+tolher-lhe as funcções moraes e o vital respiro da sua vida physica:
+amava o infeliz, sem bem o saber ainda, e amava D. Maria da Gloria!
+
+Que terrivel lucta!
+
+Fascinado a seu pesar pela belleza da fidalga prima e pelo seu nobre
+orgulho, abatido pelo desprezo que sentia merecer á sua victima,
+dominado pelas rijas impressões a que vivem subordinadas as paixões
+humanas, louco de furor pela certeza de existir um rival, um miseravel
+peão, preferido no coração do seu idolo, e sem poder, pelo seu caracter,
+elevar-se, no infortunio e no martyrio, á sublime condição dos espiritos
+privilegiados que o idealismo purifica--tormentos eram estes que a
+Providencia destinou a Leopoldo com o seu amor por Maria!
+
+Achava-se o voluntario capitão das tropas da rainha fazendo parte de uma
+força militar que então occupava Vianna do Castello. Dispozéra tudo de
+modo a ter segurança na forçada posse das donzellas, que visitava sempre
+que podia, ignorando as encarceradas as repetidas ausencias a que era
+obrigado o seu fidalgo carcereiro.
+
+Entremos com Leopoldo, chegado de Vianna, no palacio encantado, que elle
+escolhera deslumbrante no intento de maravilhar D. Maria da Gloria.
+
+Acabava de anoitecer: penetrou o elegante fidalgo na parte da casa
+destinada aos seus cómmodos, e, sem descançar um só instante da fadiga
+da jornada, attendeu desde logo ao esmero e atavios da sua pessoa e
+vestuario, como se tivera de comparecer n'um baile de côrte. Assim
+disposto, tomou direcção dos aposentos de D. Maria da Gloria. Na
+ante-sala proxima d'aquella em que estava recolhida a fidalga moça,
+sentiu-se Leopoldo repentinamente assaltado de um mau-estar, d'uma
+fraqueza, d'uma indecisão e de uns receios taes, que o levaram a tomar
+assento n'uma poltrona que, do acaso, ficava fronteira de um riquissimo
+espelho. Ao vêr copiado no preparado vidro o seu transtornado aspecto,
+mudou Leopoldo de tenção, e dirigiu-se com paços ainda mal seguros para
+a parte do palacio, occupada pela docil Anna.
+
+Deixemos sem testimunhas os faceis protestos do mentido amor, proferidos
+sobre-posse, áquella que já não podia nem sabia regeital-os, pelo homem
+que a seduzira e arrebatara, e entremos no salão em que D. Maria da
+Gloria gemia saudades e nutria, a par de sublimes affectos, esperança de
+proxima salvação:--as paredes estavam forradas de setim verde; as
+janellas todas adornadas de custosas cortinas de côres branca e
+amarella; os reposteiros eram de damasco encarnado com os cordões e as
+borlas de fio de prata, e os moveis todos de pau preto almofadados de
+setim branco. Se uma dama de caprichosa imperatriz tivera sido a
+encarregada de dispôr, alli como em todas as salas do aposento de D.
+Maria, e collocar em ordem essas infindas e minuciosas commodidades de
+uma senhora de régia estirpe,--não deslumbraria mais aquelle recinto. Lá
+dentro, era D. Maria senhora absoluta, obedecida por aias e criados ao
+mais leve aceno, sem que aquellas e estes deixassem de ser outros tantos
+vigias e guardas de seus movimentos e acções. Os grilhões, eram com
+effeito de ouro do mais subido quilate.
+
+Estava a joven captiva a uma das janellas, olhando pela milesima vez os
+arrebatadores jardins d'aquelle palacio, quando sentiu cahir a seus pés
+um objecto arremessado de fóra, que se apressou a apanhar. Desfez o
+embrulho, e encontrou um punhal acompanhado de um papel escripto d'este
+modo:
+
+«Ha mais de sessenta dias que apenas vivo para a vingança, cogitada de
+instante a instante no meio de torturas espirituaes que dementam!
+
+«Descobri finalmente este infernal paraiso que a retem. Queria ser eu
+sósinho o salvador de v. exc.^a, mas as cautelas tomadas pelo infame
+obrigam-me a metter na melindrosa empresa o snr. Sebastião da Mesquita.
+
+«Esse estylete é inutil nas minhas mãos e póde convir nas de v. exc.^a.
+Para a desaffronta dum homem, não deve servir a arma que se esconde em
+bolço falso como o sicario nas trevas da noite. A senhora D. Maria da
+Gloria comprehenderá melhor do que eu como póde fazer entrega do vil
+instrumento no malvado que o sabe usar.
+
+«Está a soar a ultima hora do captiveiro. Creio em v. exc.^a como creio
+em Deus.
+
+ «_Arthur_».
+
+
+Ao terminar a leitura do bilhete de Arthur Soares, que enchera de
+felicidade a D. Maria, correu-se um reposteiro e entrou na sala o
+fidalgo Leopoldo. Ao sentil-o, tomou a donzella, junto do fogão que
+ardia na sala, uma attitude de rainha quando concede audiencia aos seus
+subditos. Vira Leopoldo o papel nas mãos de sua prima, e a suspeita
+dera-lhe animo para fallar:
+
+--Vejo que a minha nobre prima tem por estes sitios correio amoroso!...
+Poderei ter a honra de saber o conteudo n'esse papel?
+
+Por unica resposta lançou D. Maria o bilhete á chamma do fogão.
+
+--Continua a ser cruel, senhora, e eu submisso sempre! Vê como o amor
+torna os homens bons e generosos? Qual de nós é o captivo?...
+
+--Infame!...
+
+--Sempre esse burguez adjectivo! E porque sou eu infame?! Pois se o amor
+governa o mundo, podem-se por ventura impor deveres aos impulsos da
+alma?!... Solte a minha nobre prima uma palavra de esperança, e verá
+transtornado em manso cordeiro aquelle que imaginou ser um feroz
+tigre... O sentimento verdadeiramente moral que me domina, é sincero e
+augusto... Nasceu subitamente e nem por isso é possivel a sua cura...
+Conheço, desde que a avalio, toda a grandeza, todo o poder, toda a
+irresistivel força dos seus naturaes encantos, toda a magnitude da sua
+nobilissima alma... Amo-a e soffro muito, minha prima, tendo para mim
+este sofrimento na conta do maior prazer!... Adoro-a até no seu despreso
+por mim!...
+
+--Infame!...
+
+--É muito, senhora!... Não será prudencia abusar d'esse modo de uma
+paixão que deve conhecer verdadeira, e que é capaz das maiores virtudes
+como dos mais negros crimes... A par d'esta loucura que faz escorregar
+para o mais medonho precipicio, ou que nos salva d'elle, todas as
+differentes paixões da vida são uns simples brinquedos... Fechado na sua
+formosa mão, tem a minha nobre prima o meu destino e o de todos os
+seus... Até lá está tambem o esquecimento para dous homens que me
+fizeram ultrages, que só o amor tem o poder de perdoar... Abra essa mão,
+senhora, que em abril-a desponta-lhe a felicidade... Serei um escravo
+humilde da sua mais caprichosa opinião... Domarei todos os instinctos,
+todos os appetites, todas as tendencias que possam ir de encontro aos
+seus desejos... Somos ambos poderosos, somos fidalgos, somos parentes...
+A nossa união não póde ter obstaculos legaes e, que os tivéra, todos eu
+saberia dissipar pela força d'este amor que é a minha vida, ou que hade
+ser a minha morte... Quer sahir d'esta casa? Quer levar em sua companhia
+as suas discipulas? Quer um cortejo de princeza para acompanhal-a, em
+que eu serei o ultimo de seus servos?... Pois basta, para tudo isto se
+fazer immediatamente, que a minha nobre prima me dê uma simples palavra,
+uma singela esperança...
+
+--Infame!...
+
+--Oh! que é de mais!...
+
+N'esta altura da entrevista, e quando talvez Leopoldo estivesse para
+ceder á violencia da sua paixão atrozmente insultada pelo sangue frio da
+nossa heroina, sentiram-se palmas cadenciadas, e tres vezes repetidas,
+na proxima ante-sala. Ao ouvir aquelle signal, de certo convencionado
+por elle, retirou-se precipitadamente o infeliz capitão, o senhor
+d'aquella casa, e por sem duvida o mais infeliz dos seus habitadores.
+
+O chamamento fôra a communicar-lhe a urgencia de acudir a Vianna, para
+recolher com toda a força militar ao Castello, d'onde o commandante
+resolvera resistir a numerosas forças do exercito da junta do Porto, que
+se aproximavam, e do povo, que se reunia para as coadjuvar. Recebida a
+ordem, quasi com indifferença, voltou Leopoldo á presença de D. Maria,
+para lhe dizer com voz pausada e debil:
+
+--Senhora!... Retiro-me por algum tempo d'esta casa, na qual V. Exc.^a
+fica substituindo o meu poder. Conservo as ordens dadas aos meus
+criados, e servos de V. Exc.^a para a guardarem com profundo respeito,
+mas altero-as ordenando-lhes, que não resistam a qualquer força que
+tente libertar a minha nobre prima... É possivel que seja esta a ultima
+vez em que a minha presença lhe provoque esse invencivel tédio... Este
+_malvado_, que podia ter colhido com novas violencias os fructos a que
+pareceu mirar pela primeira imprudencia, pede-lhe o seu perdão com
+_lagrimas_ de sincero arrependimento...
+
+--Lave com ellas os pés de meu honrado e nobre pae, que deve ser o
+primeiro, senão o unico, a perdoar-lhe os desvarios... Agora que o
+considero inutil como defeza da minha honra, porque acredito nos seus
+remorsos, tome conta d'esse punhal, que lhe pertence, e que nunca
+deveria ter servido nas emprezas a que está vesado.
+
+E com magestoso porte, atirou D. Maria ao meio da sala a arma villã.
+
+Leopoldo, depois de alguns momentos de recolhimento, que lhe valeram
+seculos de indiscriptivel soffrimento, agitou o cordão de uma campainha
+e esperou o resultado d'esta sua acção. Appareceu um escudeiro, vestido
+na mais rigorosa etiqueta, que aguardou silencioso as ordens de seu amo.
+
+--Pegue n'aquelle punhal, vista-lhe o cabo com um panno preto, e
+pendure-o á cabeceira do meu leito... Quem de hora ávante dá ordens
+n'esta casa é minha prima e senhora D. Maria da Gloria. Faça-o saber a
+todos os seus companheiros. Póde retirar-se.
+
+Sahiu o escudeiro e Leopoldo ficou immovel e calado por alguns minutos.
+Depois, como se após intima lucta se fizesse luz no seu espirito,
+levantou repentinamente a fronte, encarou a donzella, d'esta vez sem
+acanhamento, e disse-lhe:
+
+--Sou... serei um infame! mas um infame que a ama como V. Exc.^a nunca
+por outrem será amada, juro-lh'o!... Adeus, senhora D. Maria da
+Gloria!...
+
+Ao retirar-se o attribulado mancebo, proferiu D. Maria, como para só
+d'ella serem ouvidas, estas significativas palavas:--«Ao menos foi uma
+hora verdadeiro fidalgo...» D'aqui a levar a sua clemencia ao ponto de
+perdoar ao primo os insultos que d'elle recebera, havia só a transpôr a
+barreira de Arthur Soares, que ella não queria nem podia vencer!
+
+ [4] Existe com effeito, dous kilometros e meio ao sul da villa de
+ Monção no alto Minho, o edificio de que tiramos alguns traços,
+ fundado em 1806 pelo commendador Luiz Pereira Velho de Moscoso. Diz
+ o snr. A. A. Teixeira de Vasconcellos, nas notas do seu bello
+ romance--«A Ermida de Castromino»--que aquella casa, chamada da
+ Berjoeira, é de risco semelhante ao do palacio da Ajuda. N'esta,
+ como n'outras descripções e nomes proprios d'este nosso _conto_, na
+ parte romantica, não ha allusões a logares certos ou pessoas
+ determinadas.
+
+
+
+
+X
+
+RELIGIÃO
+
+
+ «O mundo que nos tira até o que Deus nos deu, que nos não póde dar
+ o que Deus nos tirou, que não tem bem que dure nem cousa que
+ permaneça,--que cultos merece? que estimações se lhe devem?»
+
+ (_Fr. A. das Chagas_--C. ESPIRITUAES.)
+
+
+Entreteve Sebastião da Mesquita a gente do seu commando, em marchas
+vagarosas, e por logares desoccupados de outras forças, porque era seu
+unico fito perseguir o insultador da sua familia, para libertar as
+donzellas raptadas; e não podéra seguir-lhe a pista com a ligeireza que
+requeria a sua anciedade paternal, por estar todo o Minho revolucionado,
+e pejado de tropas dos tres partidos em guerra. Em um dos seus forçados
+estacionamentos, teve Sebastião da Mesquita occasião de prestar um
+relevante serviço ao respeitavel ancião que por aquella epocha era
+arcebispo de Braga.
+
+Depois da terrivel mortandade que um general das tropas da rainha, em
+ataque ás forças realistas, mandara fazer na manhã do memoravel dia
+vinte de dezembro de 1846 nas ruas da cidade de Braga, que ficaram
+juncadas com cerca de quatrocentos cadaveres!--fizera o mesmo general,
+ingloria e tristemente vencedor, intimar o venerando prelado da diocese
+bracarense para o acompanhar na sua marcha.[5] Aterrado o bondoso padre
+por aquella inqualificavel violencia, após o luctuoso espectaculo que a
+precedera, fugira em direcção a uma das suas quintas das cercanias de
+Coimbra, fuga em que fôra auxiliado pela pessoa de Sebastião da
+Mesquita, e pela sua gente, tendo antes os dois velhos passado algumas
+horas em secreta e intima conferencia.
+
+Havia-se operado em Arthur Soares uma completa transformação: o seu
+physico, como reflexo do soffrimento moral, alterou-se ao ponto de não
+parecer o mesmo homem; para o que tambem muito concorrera a repentina
+mudança de habitos. Os raptos das donzellas, por elle moralisados sob as
+indeleveis impressões d'aquella noite de luar, em que D. Maria da Gloria
+levantara uma nêsga do véu que lhe cobria o coração, eram por elle
+vistos como offensas directas de um rival abjecto. A sua alma sempre
+aberta a todos os sentimentos generosos, estava quasi entregue ao odio e
+á vingança. Sabia elle, porque desde infante o escutara diariamente ao
+padre Alvaro, que a religião manda perdoar, e que a doutrina da egreja
+quer que se recebam as humilhações em justa expiação das faltas
+commettidas; mas tambem não ignorava que, algumas vezes, sob as proprias
+vestes sacerdotaes, se encobrem violentas e desapiedadas cóleras. A sua
+razão, um pouco obscurecida pelas dôres, fluctuava, pois, á mercê das
+paixões mundanas; e de pouco proveito lhe eram os prudentes conselhos
+que a todo o momento lhe estava dando o padre Alvaro, inquieto com os
+estragos do corpo, e da alma, que elle via estampados nas faces de
+Arthur Soares.
+
+Eram constantes da parte do apaixonado mancebo as deserções do seu
+arraial, das quaes nenhum caso parecia fazer Sebastião da Mesquita,
+porque possuia a quasi certeza da razão que as promovia.
+
+A intrepida Rosa, com permissão do velho fidalgo, continuava usando do
+seu uniforme salvador, e a ser tida pelos estranhos á familia por um
+elegante e joven official. Calculadamente se affastava o mais que podia
+de Arthur Soares, sem deixar de notar as suas desapparições, e de as
+commentar mentalmente.
+
+Chegara Sebastião da Mesquita com a força de seu commando ás alturas de
+Vianna, e fôra alli obrigado, conjunctamente com o povo, e a tropa da
+junta, a sitiar o castello, onde estavam refugiados muitos empregados
+publicos do partido do paço, e os militares de que fazia parte Leopoldo
+de Lencastre. Não se viu grandemente contrariado Sebastião da Mesquita,
+em ser levado ao extremo de batalhar, porque já lhe era um tanto
+sympathica a causa popular, principalmente pelos factos de Leopoldo
+pertencer ao partido da rainha, e da maior parte dos chefes dos bandos
+realistas, depois da morte de Mac-Donnell,[6] se terem reunido ao
+exercito da junta do Porto.
+
+N'um dos intervallos do assédio, recebeu Sebastião da Mesquita da bocca
+de Arthur Soares a boa nova de ter descoberto o carcere das donzellas,
+que elle julgava ainda guardado pelo raptor em pessoa. Reuniu o velho
+fidalgo a toda a pressa o maior numero da sua gente em disponibilidade
+e, acompanhado tambem por toda a sua familia, voou a libertar as filhas.
+
+Chegados que foram ás portas do palacio, e tudo disposto para n'elle
+entrarem á viva força, viu Sebastião da Mesquita, com espanto seu,
+ser-lhes a entrada franqueada. Tremeu o valente do receio de já não
+encontrar alli a quem buscava, e só recuperou o perdido animo quando
+susteve em seus braços a D. Maria da Gloria, e viu a seus pés banhada em
+pranto a seduzida Anna.
+
+Foram expansivas, como natural era que o fossem, as demonstrações de
+regosijo intimo, em todos os membros d'aquella nobre familia, alfim de
+novo reunida.
+
+Depois de ter dado o necessario tempo ás largas do contentamento de
+todos, dirigiu Sebastião da Mesquita a palavra a D. Maria da Gloria,
+n'estes termos:
+
+--Maria!... Podes continuar a viver na companhia de teus paes?...
+
+--Essa pergunta, meu presadissimo pae e senhor, devia V. Exc.^a fazel-a
+ao meu cadaver...--respondeu com firmeza a nossa heroina.
+
+--Muito obrigado, Maria! Paguem-te estas lagrimas do mais puro amor, a
+nobreza e honradez da tua resposta!...
+
+Ao passo que o pae assim fallava, cobria a moça fidalga de beijos e
+caricias maternaes, a respeitavel matrona D. Isabel de Abendanho.
+
+--E tu, Anna, foste da mesma sorte feliz?
+
+A timida interrogada, ficou silenciosa e interdicta...
+
+O velho fidalgo, tomado instantaneamente de uma pallidez assustadora,
+alçou assim a voz:
+
+--Padre Alvaro! Disponha immediatamente a capella d'esta casa, para uma
+solemne ceremonia religiosa.--Snr. Arthur Soares, dê busca a todo o
+edificio e traga-me já aqui o infame possuidor d'este lupanar!--Anna!..
+Prepare-se para o mais serio acto da sua vida, com a coragem que lhe
+faltou para resistir á seducção!...
+
+Apressaram-se todos a cumprirem as ordens dadas, que bem de conhecer era
+o não admittirem réplicas.
+
+N'esta situação, fôra ouvido ao longe da estrada, que passava em frente
+do palacio, um extraordinario bulicio.
+
+O pae de D. Maria da Gloria, mandou ao unico official de ordens que alli
+tinha--a metamorphoseada Rosa--que fosse reconhecer o barulho, e
+aguardou impaciente a chegada de Arthur Soares.
+
+Caminhavam pela estrada de Vianna, cujo castello acabava de cahir em
+poder das forças populares, em direcção á praça de Valença, os
+prisioneiros de guerra, guardados por duzentas praças de linha e
+cercados de immenso povo, que pedia em altos gritos a morte dos
+empregados publicos, e de toda a guarnição prisioneira. Arduo trabalho
+havia tido a força conductora, para salvar até alli da sanha popular os
+que foram entregues ao seu brio e que, maneatados, só deviam pertencer
+ao poder das leis.
+
+A custo se introduzira Rosa entre as fileiras da tropa, e conseguira,
+com a interferencia de um tenente que folgara de ter occasião de
+subtrair ao povo uma victima, soltar um dos officiaes prisioneiros, e
+trazel-o pelo braço fóra do alcance da furia popular:--era Leopoldo de
+Lencastre.
+
+--Temos contas a saldar, snr. capitão, e será o seu formoso palacio o
+logar do ajuste.
+
+--Conheci-a logo no seu disfarce, snr.^a Rosa, e a minha cobardia, se
+m'o concede, não é de tal quilate que me leve a bater-me com... o snr.
+tenente...
+
+--Em sua casa será obrigado a entrar no repto.
+
+E caminhando sempre, sem troca de mais palavras, deram entrada no salão,
+onde Sebastião da Mesquita acabava de ouvir, enfurecido, o ephemero
+resultado da busca a que procedera Arthur Soares.
+
+--A proposito chega e condignamente conduzido é o villão ao seu
+prostibulo... Ajoelhe immediatamente aos pés d'aquella mulher, e
+peça-lhe a honra de ser sua esposa...
+
+--Mas... snr. Sebastião da Mesquita... um fidalgo...
+
+--Que serodios e infames brios!... É fidalga, é bem mais nobre do que o
+canalha que lhe cuspiu a vergonha, aquella que eu o obrigo a receber por
+sua mulher legitima.
+
+--N'esse caso... se V. Exc.^a me affiança...
+
+--Sebastião da Mesquita, snr. Lencastre degenerado, poderia ser levado a
+transpor as fornalhas do inferno, mas nunca a manchar a sua honra com a
+mentira... Para a capella, senhores!...
+
+O nosso velho heroe, não querendo consentir, em nenhum caso, no
+casamento do perverso Leopoldo com D. Maria, e prevendo com acertado
+raciocinio que a docil Anna teria a fraqueza de se deixar vencer pela
+seducção, alcançára, na conferencia com o arcebispo de Braga, licença,
+em fórma, de qualquer padre, e em qualquer sanctuario, poder realisar o
+sagrado enlace que ia ter logar na capella d'aquelle palacio.
+
+Finda a religiosa ceremonia, durante a qual esteve a capella repleta de
+muitos curiosos e de alguns devotos, cresceu de ponto o tumulto da
+estrada. Sebastião da Mesquita, que já alli se julgava desnecessario,
+sahiu á rua, e tentou pôr um dique ao excesso do povo. Foi impotente,
+d'esta vez, a sua respeitavel palavra.
+
+O leão popular, mostrava-se indomito, e cruel. A facilidade que via no
+triumpho, aguçava-lhe o appetite de sangue. Os infelizes prisioneiros
+estavam prestes a cahir-lhes nas garras, das quaes só em pedaços
+sahiriam!
+
+De repente, principia a turba a desbarretar-se, atirando com os joelhos
+para o solo!... Ficaram só de pé os prisioneiros e a força que os
+guardava. Estava domado o leão!..
+
+Por quem?...
+
+Por um velho, de negras mas sagradas roupagens, do mais humilde aspecto,
+da mais inoffensiva attitude!... Pelo padre Alvaro, que se arrastara até
+ao cume de um penêdo--d'onde era visto por todos--e que trémulo e
+silencioso, por lhe embargar a voz a commoção, alçara ao alto da
+veneranda cabeça um crucifixo com a imagem do Redemptor do mundo...[7]
+
+Os presos foram recolhidos e agasalhados sem a menor resistencia
+popular, no palacio de Leopoldo.
+
+O povo dispersou, a estas enthusiasticas vozes de Sebastião da Mesquita:
+
+«Salvè! religioso e bom povo portuguez, salvè!...»
+
+ [5] O periodico «Estrella do Norte» publicou a noticia da
+ _intimação_ e da retirada do exc.^mo arcebispo primaz.
+
+ Temos á vista vários jornaes d'aquella epocha calamitosa, que fazem,
+ pela desenvoltura da linguagem e calúmnias que semearam, corar de
+ pejo todos aquelles que saibam presar a dignidade da imprensa, e
+ comprehender a sua nobre missão. Um dos mais repugnantes por certo,
+ foi aquelle que se denominou--«Popular».--O melhor correctivo que,
+ em seguida, podiam ter as suas atrevidas e mentirosas apostrophes,
+ foi-lhe dado pelo primeiro jornalista portuguez n'estas honrosas
+ verdades: «O jornalista é o sacerdote d'uma religião, d'uma crença
+ social--expõe a sua doutrina, discute, convence ou é convencido. A
+ sua alma deve respirar sempre amor, o seu apostolado é um apostolado
+ de paz. Se o seu irmão pecca, deve dizer-lhe como o sacerdote do
+ Evangelho--_Fili, peccasti; non adjicias iterum_.
+
+ «Para que é incitar o povo a que entre no palacio dos nossos reis e
+ pratique ahi acções de canibaes? Que civilisaçâo é esta que injuría
+ as victimas para as immolar?
+
+ «Não ha rainha mais virtuosa do que a nossa como esposa, nem como
+ mãe de familias. A sua casa póde servir de exemplo a todas da
+ Europa.
+
+ «Apraz-nos fazer esta justiça. Assim podessemos achar que louvar no
+ funccionario como achamos no individuo.
+
+ «Por isso é que a nossa voz se levanta contra uma imputação
+ injuriosa e falsa.--A moral respeita-se no adversario como no
+ amigo.» («O Espectro» de 26 de Fevereiro de 1847.)
+
+ [6] Aquelle infeliz aventureiro, abandonado pelo partido que levara
+ á rebellião, e apenas seguido de uns cem homens, foi morto por um
+ sargento de cavallaria das forças da rainha. O «Diario do Governo»
+ de 5 de Fevereiro de 1847, noticiando a morte de Mac-Donnell, diz
+ assim: «A identidade da pessoa de Mac-Donnell foi reconhecida por
+ diversas pessoas, e d'esta circumstancia se lavrou auto judicial.»
+
+ [7] Este facto, teve effectivamente logar quando foi tomado pelo
+ povo o castello de Vianna.
+
+
+FIM DA PRIMEIRA PARTE
+
+
+
+
+SEGUNDA PARTE
+
+CRIME
+
+ «Eu pintarei o caso com côres bem crimes.»
+
+ (_Chron. de Cister_.)
+
+
+
+
+I
+ABYSMO
+
+
+ «Ai do viandante que não vê caminho!
+ ai do mesquinho sem a luz da fé!
+ ai! que, na falta d'um amor sublime,
+ triumfa o crime, do ludibrio ao pé!
+
+ (_T. Ribeiro_--SONS QUE PASSAM.)
+
+
+Foi talvez pouco sensivel ao leitor a desapparição de João Vidal nos
+ultimos capitulos da primeira parte d'este livro, por que lhe traçou
+papel secundario no «Conto Portuguez.» A ser assim, foi-lhe infiel o
+trabalho de imaginação e, temos para nós que por mais vezes, no deslizar
+pela fiel narração do conto, hade o leitor errar seus calculos.--«_Em
+romance ou folhetim, o verdadeiro é o menos verosímil_:»--escreveu com
+muita propriedade, em maré de chiste, um nosso festejado folhetinista.
+
+João Vidal, o escudeiro, fôra mandado pelo amo reconstruir o solar, em
+parte presa das chammas, e tractar da administração da casa. Foi elle o
+escolhido por Sebastião da Mesquita, pela illimitada confiança que lhe
+devia, e tambem para o desviar dos logares da acção empregada no
+livramento das donzellas, onde a podia prejudicar o entranhado rancor do
+escudeiro a Leopoldo.
+
+A resolução do velho fidalgo fazer sumir os vestigios do incendio
+mandado lançar pela esposa ao seu palacio, foi tomada d'accordo com D.
+Isabel. Louvára Sebastião da Mesquita aquella inopinada e fidalga acção,
+a que o desespêro da immerecida e violenta affronta condusira os brios
+de uma nobre senhora, que era mãe, mas facil lhe foi convencer sua
+mulher da sem razão de ficarem permanentes os signaes de um crime já
+reparado, que de mais os privava de viverem commodamente.
+
+Não teve D. Isabel igual facilidade em destruir no seu esposo, o
+preconceito de que devia bater-se em duello de morte com Leopoldo: foi
+preciso o auxilio de D. Maria da Gloria, que teve a força de convencer
+seu illustre pae do respeito e das attenções com ella havidas durante o
+captiveiro, para conseguirem de Sebastião da Mesquita o esquecimento de
+tão absurda idêa, a que era levado pelo excesso da honra. E de presumir
+é que, mais ainda do que as boas razões dadas, imperasse no quietismo de
+seu animo, a certeza da partilha que tinha a esposa no que houvesse de
+soffrer seu marido: limitou-se, pois, o honrado velho, a varrer de si, e
+cortar com a sua familia, todas as relações com a mulher de Leopoldo,
+pelo desprêso a este votado.
+
+Ao recolher-se com a familia á sua habitação, entregara Sebastião da
+Mesquita o commando da força popular a Arthur Soares, pedindo-lhe que se
+conservasse no alto Minho, e exercesse vigilancia sobre as acções
+intimas de Leopoldo, porque receiava haver feito uma victima da pobre
+_donzella_, que tivera em vista honrar pelo casamento com o seductor.
+
+Algum tempo volvido, era Arthur Soares forçado pelo seu dever, a narrar,
+em longa carta a seu padrinho, o que podera saber pelos seus exforços
+habilmente empregados. Daremos ao leitor conhecimento d'um periodo
+daquella carta:
+
+
+«Colhi a fatal certeza de que a snr.^a D. Anna soffre a seu marido
+constantes doéstos, em alguns dos quaes é menos respeitada a boa
+intenção do meu nobre padrinho, e senhor, porque se atreve a dizer, que
+_occultas razões_ determinaram a violencia do seu casamento com uma
+_rapariga pobre_! Não se queixa a paciente; mas traz escripto na face os
+signaes do seu pesar, e gradual definhamento.»
+
+
+Esperou Arthur, com a ancia de um verdadeiro interesse, apenas producto
+de sua bem formada alma, que Sebastião da Mesquita, dando o pêso devido
+ao que lhe havia communicado, procedesse de modo a sanar aquellas rudes
+e vilãs provocações de um depravado senhor á sua escrava. Os dias,
+porém, succediam-se na sua marcha natural--que é morosa para os que
+esperam e pensam, e rapida para os que gosam descuidados--sem que o
+velho fidalgo désse accordo de si. Admirado Arthur de um tal silencio,
+que lhe deu margem a mil oppostas conjecturas, não podendo duvidar da
+entrega em mão da sua carta, porque o portador fôra seguro, resolveu
+empregar os seus proprios recursos para adoçar quanto possivel a
+situação amarga da infeliz Anna, que lhe fôra companheira e socia nos
+annos e nos brinquedos infantis. Tomada a resolução, seguiu-se o emprego
+de meios para chegar á falla com a mulher de Leopoldo.
+
+Entremos pela segunda vez nas casas que serviram de forçado aposento a
+D. Maria da Gloria. Estamos na mesma sala onde tiveram logar as scenas
+descriptas no capitulo--_Amor_. Recostada em magnifico sofá, e vestida
+com singela elegancia, está uma sombra d'aquella Anna, que fôra
+discipula muito amada de D. Maria da Gloria: a seu lado, tomou assento
+Arthur Soares, em uma d'essas cadeiras cujo feitio se presta a todas as
+commodidades e posturas de phantastico confôrto. Escutêmol-os:
+
+--Consinta-me, snr.^a D. Anna...
+
+--Snr.^a D. Anna!...
+
+--Sim, minha senhora, é esse o tractamento que hoje se lhe deve, e não
+serei eu que o esqueça. V. exc.^a soffre. Deixe-me aproveitar estes
+momentos, para bem claramente lhe dizer o que me obrigou a pedir-lhe
+esta audiencia. Fui encarregado pelo snr. Sebastião da Mesquita de saber
+se v. exc.^a era feliz: Não é. Sei que o seu viver intimo não está em
+harmonia com as seductoras apparencias do fausto que a rodeia. Quererá
+v. exc.^a confiar de um leal amigo, de um companheiro de infancia, do
+mensageiro de seu nobre pae adoptivo, todos os pesares que a consomem?
+
+--Infeliz, eu?!... Pois não vê o senhor Arthur Soares, como estes
+aposentos estão repletos de esplendor e de magnificencia?!... Não vê
+esta mobilia, estes adereços, esta riqueza, este luxo, esta
+sumptuosidade régia de que partilho?!... Eu, a misera filha de um
+lavrador, apenas habituada ás palhas e ao fumo da cabana paterna!... Eu,
+que só por favor conhecia o palacio da minha querida mestra e senhora D.
+Maria da Gloria!... Podem por ventura ter entrada os dissabores, onde
+moram as preciosidades?!... Não, mil vezes não!... As estatuetas, os
+modelos em bronze e jaspe dos principaes monumentos da Europa, os bustos
+serios e caricatos de notaveis personagens do mundo civilisado, o ébano,
+a madre-perola, esses milhares de caprichos e de prodigios, as
+antiguidades, os _recocós_, as reliquias de toda a arte misturadas com
+os feitios e labores de toda a imaginação, tudo isto que me _cérca_, de
+que me chamam dona, que me obrigam a fitar, comprehender e decorar, e
+que me veiu conjunctamente com a posse de um esposo letrado e
+nobre,--não será o gôso, a felicidade, a completa ventura?!...
+
+--E as lagrimas, que são o epilogo da formosa descripção que fez, o que
+significam, senhora D. Anna?...
+
+--Oh!... Estas lagrimas são... de alegria!...
+
+--E porque não diz de saudade?!... Saudade que ninguem tem o poder de
+condemnar na alma, que foge dos logares dourados, onde lhe fazem soffrer
+o peso de grandezas que não ambicionou, para se aninhar nas pacificas
+palhas da sua infancia e adolescencia, onde lhe fôra suave e salutar
+bafejo o contacto de outras almas lavadas, caridosas, verdadeiramente
+nobres em todas as suas acções... Por que não revela toda a verdade, que
+eu de sobra conheço na excitação que V. Exc.^a manifesta?...
+
+--Toda a verdade!... Sabel-a-ei eu, senhor Arthur Soares?... Amo
+Leopoldo, que é meu senhor, e... e devo ser feliz n'este paraiso, para
+onde fui atirada em completa nudez, e no qual achei, como nos contos de
+fadas, tudo que uma princeza póde ambicionar...
+
+--Disse o bastante, minha senhora. Agradeço a confiança que em mim
+depositou, e que lhe mereço, creia. Peço o favor de confiar-me tambem a
+cobrança de haveres que lhe pertencem. Ha um mysterio na vida de V.
+Exc.^a, de que eu estou senhor, que só mais tarde lhe póde ser revelado.
+Mysterio honroso, que a hade tornar respeitavel aos olhos de... de toda
+a gente. Os haveres de V. Exc.^a, se não podem equiparar-se aos de seu
+illustre esposo, são, com tudo, sufficientes para darem, em todo o
+tempo, a independencia necessaria a uma senhora. Concede-me, por
+escripto, a auctorisação que lhe peço?
+
+--Vou escrever o que quizer dictar-me, meu bom amigo.
+
+Aproximaram-se de um riquissimo e formoso movel, que serviu de
+escrivaninha, onde Arthur, em pé, dictou, o que Anna escreveu com punho
+firme. Concluido e entregue o documento, tiveram logar os
+agradecimentos, as despedidas e as recommendações, em que por muito
+entraram os sentimentos de gratidão que a pobre senhora nutria por toda
+a familia de D. Maria da Gloria, e o affecto filial aos singelos
+caseiros, que ella julgava seus progenitores. Durante estas
+naturalissimas expansões, agitou-se um reposteiro e entrou Leopoldo na
+sala. Vinha pallido, mas os passos eram seguros, o aspecto risonho e o
+porte ceremonioso. Dirigiu-se a sua mulher com requintada delicadeza,
+dizendo-lhe que a esperavam as suas modistas, e dando-lhe o braço para a
+conduzir. Cumprimentou attenciosamente Arthur Soares, e pediu-lhe o
+favor de o aguardar alguns minutos, dirigindo-se em seguida com a esposa
+para o interior do palacio.
+
+Arthur esperou de animo resoluto, como quem descança na paz da
+consciencia, a volta do seu pronunciado inimigo.
+
+--Creio que o não fiz esperar muito, senhor Arthur Soares?... Queira
+collocar-se á vontade, e dignar-se responder-me, caso me julgue com
+direito a fazer-lhe algumas breves e concisas perguntas.
+
+--Ouvirei, senhor Leopoldo.
+
+--Peço desculpa de não principiar pelos offerecimentos do estylo: julgo
+que minha mulher saberia fazer-lhe o que chamam as honras da casa?...
+
+--A senhora D. Anna recebeu-me como uma senhora distincta costuma
+agasalhar um companheiro de infancia, um como irmão respeitoso e
+lealmente affeiçoado.
+
+--Muito bem... Poderei saber o motivo porque se aproveitou a minha
+ausencia, para a visita com que V. S.^a quiz honrar esta casa?...
+
+--Porque não me sendo agradavel a presença de V. Exc.^a, devo suppor que
+a minha egualmente o não seja ao senhor Leopoldo.
+
+--Colhe alguma cousa essa franqueza... E o motivo da conferencia, é
+segredo para mim?...
+
+--Não guardo segredos de uma senhora casada. Vim visitar a senhora D.
+Anna, em nome de pessoas que a presam, e pedir-lhe esta
+auctorisação:--«Dou a Arthur Soares os poderes necessarios, para receber
+toda a quantia ou valores a que eu tenho direito.»
+
+--Vejo que se faz procurador de minha mulher, sem outhorga minha!... É
+para intentar divorcio, e pedir-me alimentos?...
+
+--Pondo agora de parte as suas impertinentes ironias, assevero-lhe que
+S. Ex.^ma esposa _não é pobre_, e que, para cobrar o que lhe pertence, é
+que eu vim pedir-lhe este escripto.
+
+--E que validade descobre V. S.^a n'esse papel, que não é authenticado
+por mim?... Pois não serei eu o competente para essa cobrança?...
+
+--A esposa de V. Exc.^a ignorou até hoje, que era senhora de fortuna,
+como ainda não sabe do seu illustre nascimento: este mysterio, não póde
+ser já aclarado. Não se fatigue com perguntas, que não colhe mais
+esclarecimentos. V. Exc.^a tem o direito de receber, querendo, o dote da
+snr.^a D. Anna, garantindo-lh'o em bens seus. Para a recepção actual,
+sou eu o unico competente. Não peço mais documentos, nem dou a pessoa
+alguma o direito de duvidar da pontual entrega, que hei de fazer, do
+liquidado e recebido por mim.
+
+--Por hoje, não quero demoral-o mais... Conto que V. S.^a não ha de
+recusar-se a dar-me, de futuro, quaesquer esclarecimentos...
+
+--Sempre ás ordens de V. Exc.^a, para o que fôr do meu brio.
+
+Retirou-se Arthur Soares, e o mesmo foi que abrir-se um dique á torrente
+do odio represado no coração de Leopoldo. Ficou o leão rugindo no seu
+antro, prestes a cahir no abysmo cavado a seus pés pelo amor e pelo
+ciume.
+
+
+
+
+II
+
+FIDALGUIA
+
+
+ «É que ha uma fidalguia de alma que nem sempre falta ao que chegou
+ por si á grandeza, assim como nem sempre vem aos que a herdaram de
+ seus antepassados.»
+
+ (_V. d'Almeida-Garrett_--HELENA.)
+
+
+A chamada nobreza de sangue tem origem respeitavel.
+
+Os homens que defenderam e ajudaram a republica, consagrando-lhe todas
+as suas forças e haveres, quando o perigo era commum de todos,--foram
+nobres. Os homens que souberam fazer valer os direitos da nação, sendo
+leaes guardadores das immunidades patrias, e em longinquas e perigosas
+paragens, exposeram as suas vidas, em quanto muitos outros gosavam as
+delicias caseiras,--foram nobres. Os homens que, dados a serios estudos
+desde a mais tenra infancia, conseguiram nome e gloria para as nações a
+que pertenciam,--foram nobres. Foram, e deviam sêl-o. Não lhes ficou
+barato o rôlo de papel--titulo de nobreza, porque o da fidalguia estava
+nos seus feitos--de que os descendentes, ainda hoje, e sempre, e com
+soberbas razões, se devem orgulhar.
+
+Por milagre de esforço, de perseverança, de audacia mesmo, se deve aos
+nobres de Portugal, o termos algum dia sido o povo mais forte e mais
+respeitado da Europa. Um Affonso de Albuquerque, o fundador do imperio
+portuguez no Oriente, aquelle que os adversarios chamaram _leão dos
+mares_, fôra bastante, por seus heroismos, a justificar entre nós o
+justissimo orgulho da nobreza de sangue; que, ainda assim, tem mais
+remotas e egualmente verdadeiras glorias a que soccorrer-se.
+
+Do natural desvanecimento dos que se gloriam de seus nobres
+antepassados, só a mesquinha inveja póde desdenhar. E muitos, e tantos,
+e de tamanho valor foram os nobres portuguezes, que não cabe n'este
+logar enumeral-os. E nem por isso elles ficam ignorados, que, a par dos
+heroes da espada, viveram os nobres d'outros feitos, os Camões, os
+Barros, os Coutos, os gigantes eternisadores das memoraveis façanhas de
+seus coevos, meritorios como elles, e como elles dedicados á grandeza da
+patria.
+
+Sabemos que á civilisação repugna a _conquista_, embora tenha de
+conformar-se com os _factos consummados_; mas quem ha que duvide da boa
+fé com que pelejaram os nossos velhos portuguezes? Religião e patria,
+eram os seus estimulos; e á prodigiosa força de tão poderosas ideias, se
+devem attribuir as suas heroicidades.
+
+Mas ser _nobre_, nem sempre quer dizer ser _fidalgo illustre_. A nobreza
+póde ser herdada, e a fidalguia, as acções briosas, não. Para ser nobre
+bastam os pergaminhos; para ser fidalgo illustre, não se dispensam as
+virtudes proprias, os actos insignes, os meritos individuaes, e até, e
+quasi sempre, os auxilios da caprichosa natureza.
+
+Ha mais nobres do que fidalgos illustres, e ha illustres fidalgos, que
+não são nobres. É bom ser nobre; melhor é ser illustre fidalgo; e
+optimo, por sem duvida, é ser illustre e nobre fidalgo.
+
+Arthur Soares, era illustre. Gentil de corpo e sem mácula na alma,
+reunia em si todas as qualidades physicas e moraes, que fazem o homem
+distincto. O encargo de vigiar pela vida intima da que lhe fôra
+companheira na infancia, tomára-o elle de boa vontade, porque entendeu
+que o fim de Sebastião da Mesquita era proteger a mulher que julgára
+infelicitar com o forçado casamento. Tardára-lhe porém, a protecção, e
+levado pelos seus brios a tomar iniciativa propria, teve de inventar
+para Anna um nascimento e um dote.
+
+Ha mentiras salvadoras, que elevam tanto os que as sabem dizer, como os
+inventos tórpes malsinam os caracteres dos velhacos, que os engendram.
+Encobrir verdades que pódem fazer victimas, dar um sabor mysterioso a
+qualquer facto, determinar mesmo quaesquer circumstancias em sentido
+diverso do occorrido, para valer a infelizes sem prejuizo de
+terceiros,--são culpas venturosas de que só podem accusar-se as almas
+boas, e os espiritos elevados.
+
+Uma vez entrado no caminho de protector, resolveu Arthur Soares sahir
+d'elle pelo da dignidade, que não conhece obstaculos, porque os
+sacrificios alargam-lhe todas as verêdas. Estava obrigado
+voluntariamente, e só pela sua palavra, é certo, mas por isso mesmo com
+obrigação completa, a entregar um dote á mulher de Leopoldo. A evidencia
+de um nascimento fidalgo, que tambem asseverára, menos cuidado lhe dava,
+porque ouvira a Sebastião da Mesquita affirmar o que elle repetira, e
+tinha toda a confiança no desempenho, mais ou menos tardio, da palavra
+do honrado velho. Além de que, o esclarecimento d'esta circumstancia,
+podia demorar-se, visto já ter lançado á imaginação de Leopoldo a
+existencia do mysterio: o essencial, o urgente, era o dote.
+
+Escreveu Arthur Soares outra carta a Sebastião da Mesquita,
+perguntando-lhe se recebera a primeira. Respondeu-lhe affirmativamente,
+e que havia tomado as suas importantes revelações na devida
+consideração. Esta resposta não aquietou o animo generoso do voluntario
+protector. Queria obras, e não palavras, que elle achou frias em caso de
+tanto brio. Resolveu proceder isoladamente, e com segredo.
+
+Obtida uma licença de alguns dias, dirigiu-se Arthur Soares á residencia
+de seu thio. Recebido pelo padre com a natural expansão de um affecto
+puro e vivo, n'elle depositou o segredo da promessa que o impressionava,
+e queria cumprir, pedindo-lhe conselho e favor. No fim da confidencia,
+ficou o padre mais ébrio de prazer do que se fôra elle o favorecido com
+o generoso compromisso de Arthur. Conduziu o mancebo ao pé de um velho
+movel, e disse-lhe:
+
+--Estão aqui as nossas economias: são uns vinte e tantos mil cruzados. É
+dinheiro de muitos annos guardado por tua mãe sem prejuiso dos pobres.
+Trabalhava noite e dia, a pobre martyr... Quando eu brandamente lhe
+observava que podia adoecer com tão aturado labutar, respondia-me que
+Deus não havia de condemnar a ambição de mãe em converter as suas
+vigilias e o seu suor em dote para seu filho... Chegou á força de
+perseverança a poder commerciar em cereaes, principiando pelo mesquinho
+producto da roca... Como era boa a tua mãe, Arthur!... Já vês que não
+tenho parte n'essa accumulação de moedas, que te pertencem... Mas essa
+quantia, bastante notavel para nós, é ainda pequena para dotar a mulher
+de um rico nobre... Vamos já a Penafiel... Farei perante um tabellião o
+necessario documento, para que tu possas vender a raiz das propriedades,
+que foram de meus paes... A raiz só, porque o uso-fructo deve continuar
+a pertencer a uma infeliz familia, que lá está por disposição tua... De
+certo te não recordas já d'aquella tua _doação_... Eras muito criança
+ainda, mas com a indole que... que tu tens, meu Arthur!...
+
+Velho e moço, sentiram a commoção de duas almas iguaes, quando são
+abaladas por acções celestes, e confundiram n'um longo abraço os soluços
+e as lagrimas. O respeitavel e sagrado nome de--pae--foi proferido por
+Arthur Soares, saltando-lhe do coração á bôcca. O padre Alvaro, ouvindo
+chamar-se por aquelle nome, fez-se d'uma pallidez mortal, e balbuciou:
+
+--Obrigado meu filho, por teres pela primeira vez esse nome para mim!...
+Sou eu só a ouvil-o, e Deus, que sabe os meus remorsos, de certo me
+consente este innocente prazer... Obrigado!... Vejo, sinto que te não
+repugna o sacrilego... És bom, Arthur, meu filho adorado!... Crê que
+tenho soffrido muito!... E o maior, o mais terrivel do meu padecer, era
+o não poder chamar-te--filho--nem ouvir de tua bôcca o dôce nome
+de--pae... Diz-me, meu querido Arthur, diz que não desdenhas, que não
+amaldiçôas o teu nascimento... Perdoa-me o haver-te privado da
+paternidade legal...
+
+--Perdoar-lhe?!... O quê, meu sempre amado pae?!... O ter-me dado esta
+alma, que é sua, e que me faz grande aos meus proprios olhos?!... O ter
+coberto a minha infancia e mocidade dos maiores e dos mais carinhosos
+extremos?!... O haver-me dado uma educação de fazer inveja aos mais
+poderosos da terra?!... O tornar amênos e felizes os dias da vida de
+minha santa mãe?!... O ter vertido lagrimas de sangue pela chamada culpa
+que me deu vida e felicidade?!... É isto tudo que eu tenho a
+perdoar-lhe, não é assim?... Oh! mas não sabe que o meu maior orgulho é
+o de ser seu filho?!... Que pae mais heroe, mais santo, mais martyr me
+podia dar o céu?!...
+
+--Basta, Arthur, que me pódes matar de alegria!.. Bemdicto sejas, meu
+Deus e meu Salvador! Bemdicto e louvado pela tua Misericordia com este
+indigno padre!...
+
+Deixemos o velho Alvaro nos braços de seu filho Arthur, nos momentos
+mais felizes da sua attribulada existencia, e vamos presenciar o que se
+passa no palacio de Sebastião da Mesquita.
+
+Estamos no salão onde tiveram logar as primeiras scenas d'este
+verdadeiro conto. Estão lá outros moveis de mais recente data, mas ainda
+se alli sente o respeito devido ao que é antigo e bello, porque foram
+salvas do incendio as reliquias de familia: São ainda os mesmos os
+quadros, os retratos, e os brasões. Sebastião da Mesquita está fallando
+com muita solemnidade a João Vidal:
+
+--É tempo de te fazer mui sérias e importantes revelações, João, que
+devem mudar completamente a tua posição social. Dir-te-hei tudo em
+poucas palavras: sou avêsso ás phrases de estylo em materias graves.
+Recebi-te em criança das mãos de uma santa abbadessa, que te salvou a
+vida criando-te dentro do seu convento. Conservei-te sempre ao meu lado,
+e dei-te, quando homem, a qualidade de escudeiro d'esta casa, tendo-te o
+carinho de pae, porque era impossivel, e prejudicial para ti, a
+revelação do teu nascimento. És filho bastardo de um nobre desnaturado,
+que sacrificou os seus brios ao dote da mulher, nobre tambem de
+pergaminhos, e villã de sentimentos. Agora que todo o perigo é passado,
+aqui tens os papeis, que provam o teu nascimento, e com elles recebe
+igualmente este dinheiro, e estes titulos, que tudo te foi legado pela
+religiosa tua salvadora, e tua thia-avó paterna, e depositado em minhas
+mãos para te ser entregue quando já não corresses o risco de ser
+perseguido, e talvez assassinado, pelos assalariados da mulher de teu
+pae. Ficas sabendo que és nobre, e na posse de dinheiro, e valores que
+orçam por cincoenta mil crusados, com a accumulação da parte rendivel.
+Fui máu administrador, porque deixei quieto e improductivo o dinheiro,
+que hoje podia estar treplicado; mas bem sabes que abomino todas as
+especulações, e que não sei commerciar. Antes que te surprehenda, com a
+leitura dos documentos que te entrego, a noticia de que és irmão de
+Leopoldo...
+
+--Eu, irmão de semelhante malvado!... Snr. Sebastião da Mesquita, meu
+amo e unico pae que me apraz reconhecer.... Peço a v. exc.^a muito de
+mercê, que me continue a graça de o servir... Quero considerar-me sem
+parentes conhecidos... Quero ser o filho adoptivo de v. exc.^a, e o seu
+mais humilde criado...
+
+--É impossivel. Pódes, sim, continuar a viver na minha companhia, se o
+quizeres; mas na posse do que te pertence, e na qualidade de amigo, e
+não de criado da casa. Escusado é instares por outra solução, que esta
+é-me dictada pela honra. A ultima ordem que te dou é a de extinguires em
+ti o odio que tens a Leopoldo...
+
+--Mas, senhor...
+
+--Esqueceste, João, da inflexibilidade do meu caracter?... Terminou a
+nossa audiencia, que outros deveres não menos graves me chamam a
+attenção. Leva o que é teu, e faz-me o favor de dizer a minha mulher e a
+minha filha, que venham a esta sala... Manda tambem chamar Rosa.
+
+--V. exc.^a bem sabe que a menina Rosa ha tempo que não vem ao palacio,
+e que parece soffrer bastante...
+
+--Sei. Digam-lhe que sou eu que a chamo, e quero-a aqui.
+
+Sebastião da Mesquita, logo que João Vidal se retirou, ficou entregue a
+uma desusada agitação nervosa, que n'elle era infallivel symptoma da
+gravidade do assumpto que o preoccupava. Durou-lhe a inquietação só até
+ao momento em que sentiu aproximar-se a familia que chamara. Logo que
+deram entrada na sala D. Isabel, D. Maria da Gloria, e Rosa, serenou o
+velho fidalgo, que as convidou a escutarem-n'o.
+
+--Dirijo-me a si em primeiro logar, Rosa, porque desejava saber os
+motivos da sua frieza com esta familia, que a estima devéras, e os que
+são causa de um soffrimento que a sua indiscreta face revela... Tem a
+queixar-se de alguem d'esta casa?
+
+--Que pergunta, senhor!... Pois a planta parasita e inutil póde por
+ventura queixar-se dos cultivadores, que a querem tornar mimosa á força
+de cuidados e attenções?!...
+
+--Se a sua elegante resposta não encobre nenhum resentimento, porque é
+então que não frequenta esta casa como costumava?
+
+--A minha doença...
+
+--E como se chama a sua doença?...
+
+--Ainda não consultei a sciencia, e...
+
+--Receia que a consulta seja inutil... Guarde, pois, os seus segredos,
+Rosa, que não quer depositar no coração de um velho, talvez por
+considerar a velhice incapaz de os comprehender, e preste toda a sua
+attenção ao que vou dizer a minha mulher e a minha filha... Minha prima
+e estimada esposa, e minha presada Maria: desde muito que sabeis o
+interesse e affeição que voto a esta donzella, e áquella infeliz que
+obriguei a casar com um homem que detesto... Consenti-me que ainda vos
+occulte os motivos de honra, que a tanto me obrigam, e que um dia vos
+serão patentes... É urgente, e indispensavel, que a mulher do _rico
+fidalgo_ e snr. Leopoldo tenha um dote capaz de suffocar na alma villã
+do marido o desprêso pela que foi obrigado a receber por sua legitima
+esposa... Para lhe dar esse dote necessito empenhar muito o teu
+patrimonio Maria, e a casa de v. exc.^a, minha prima...
+
+--Para que me dá o primo parte das suas nobres acções?! Mereço-lhe que
+me suspeite capaz de ir de encontro a uma sua resolução, ainda que por
+ella fosse levada á extrema miséria?... É injusto, senhor...
+
+--Deixe-me beijar-lhe a mão, minha santa prima!... Nunca duvidei dos
+nobilissimos sentimentos de V. Exc.^a; mas cumpria-me consultal-a, e
+pedir-lhe auctorisação para o que tenho a fazer, e bem sabe que não sei
+faltar ao que devo a mim mesmo...
+
+--E eu, meu presado e respeitavel pae e senhor, tenho só a dizer a V.
+Exc.^a, que me é inutil um dote, porque estou resolvida a morrer
+solteira, e...
+
+--Criança!... Não é preciso tamanho sacrificio... Vejo que entregas nas
+minhas mãos o teu futuro, e pódes estar certa de que ninguem o velaria
+melhor do que eu o farei... Temos de fazer uma séria reducção nas
+despezas, porque nos vae diminuir muito o rendimento. Possuia dinheiro e
+valores que entregaram á minha honra, e que acabo de restituir. Tenho,
+portanto, de vender bastantes propriedades... É custoso vêr passar a
+mãos alheias o que era de nossos avós; mas o dever primeiro que tudo...
+O que me diria, Rosa, se estivesse no logar de minha filha Maria?
+
+--Desejaria saber dizer a V. Exc.^a as mesmas palavras que o coração
+dictou á minha querida mestra e senhora D. Maria da Gloria, porque são
+perfeitamente iguaes os meus sentimentos...
+
+--Agradeço a todas...
+
+Entrou precipitadamente na sala João Vidal, e Sebastião da Mesquita, um
+pouco enfadado, perguntou-lhe:
+
+--O que quer, João?... Parece que vem como portador de novas
+importantes, a dar valor ao modo porque se aproxima de nós, ao que traz
+nas mãos, e ao demudado da sua côr?...
+
+--É que, senhor, por mais indifferente que o dinheiro nos pareça ser,
+sempre sentimos algum estremecimento ao achar inesperadamente uma
+quantia importante... Os trabalhadores que andavam no pomar a compôr o
+muro, encontraram esta panella de ferro com o dinheiro que ella
+contém... Apressei-me a vir participar o acontecimento a V. Exc.^a, e
+peço que me desculpe o interrompel-o?...
+
+--Deixe-me vêr a qualidade da moeda... Tenho visto, snr. João de
+Lencastre... Conheço este dinheiro, que passou do cofre em que lh'o dei,
+para a primeira panella que o João encontrou na cosinha... Foi pouco
+engenhoso na sua cavalheira mentira... Não sou facil de illudir; mas, em
+compensação, sou facilimo em perdoar acções como aquella que desejou
+praticar... Lembro-lhe, porém, João, que _só eu_ tenho direito a regular
+as minhas generosidades, e que não posso acceitar favores d'essa
+ordem... nem mesmo do João... Minha esposa e minhas filhas: dou-lhes
+parte que João Vidal, o escudeiro, passou hoje á posse do seu verdadeiro
+nome, e da fortuna que lhe veiu por elle. É bastardo da casa dos
+Lencastres, irmão de Leopoldo, e o unico que ha de sustentar em todo o
+brilho a gloria de seus antepassados. É, pois, na qualidade de nosso
+parente, e intimo amigo, que occupa desde hoje o logar que n'esta casa
+está sempre vago para os homens de bem.
+
+--Agradeço de toda a alma a V. Exc.^a a immensa honra que me concede, e
+que só condicionalmente acceitarei... Perdôe-me a arrogancia da
+phrase... foi dictada por V. Exc.^a que me ensinou os deveres de
+cavalheiro...
+
+--Venham as condições!
+
+--É só uma: a de me consentir em ter parte na generosidade que vae
+praticar... Ouvi tudo... Quiz encobrir-lhe o meu desejo, e não pude, por
+que V. Exc.^a descobriu a mentira, que eu inventei para bom fim...
+Acabou o constrangimento, senhor, e não tenho já receio de affirmar ao
+snr. Sebastião da Mesquita, que se me não permittir o que rogo, fugirei
+para muito longe, para onde me não possa chegar...
+
+--E que direito--disse Sebastião da Mesquita, interrompendo-o--é o seu
+para fazer um beneficio á senhora D. Anna?...
+
+--É a mulher de meu irmão, senhor!...
+
+João Vidal, pronunciou estas palavras com dignidade e consciencia tal,
+que as tres senhoras immediatamente estenderam as mãos ao ex-escudeiro.
+
+Sebastião da Mesquita levantou-se com toda a soberania, e disse:
+
+--Está terminada a conferencia... Ácerca do que pede, eu darei parte ao
+_primo_ João do que resolver.
+
+
+
+
+III
+
+CIUME
+
+
+ «................................
+ Invejo-te, Camões, o nome honroso,
+ Da Mente creadora o sacro lume,
+ Que exprime as furias de Liêo raivoso,
+
+ Os ais de Ignez, de Venus o queixume:
+ As pragas do Gigante procelloso,
+ O Céu de Amor, o Inferno do Ciume.»
+
+ (_Manoel Maria de Barbosa du Bocage._)
+
+
+O ciume é, por sem duvida, a mais feroz e violenta das paixões, porque
+participa do amor e do odio, os mais agudos e incuraveis padecimentos do
+coração humano.
+
+Os modos de manifestar tão perigosa como prejudicial paixão, variam
+tanto quantos são os temperamentos, as indoles, e as educações das
+pessoas sujeitas ao ciume.
+
+O homem rude, que é brutal em suas expansões, não magôa mais, com seus
+castigos materiaes, a mulher que lhe faz sentir ciume, do que o burguez
+indinheirado, que ensina a consorte a decorar uma infinita taboada de
+favores, que lhe minguaram a burra.
+
+O homem educado, da boa sociedade e com escola das conveniencias
+sociaes, tambem não é o que menos faz sentir á pobre filha de Eva o
+castigo de sua egoista paixão. Com a mascara da mais requintada polidez,
+fere com gestos, com sorrisos gelados, com subtilesas, com allusões, com
+toda a sorte de estudadas torturas, que nem consentem á victima a
+desfórra de uma resposta.
+
+Fazemos distincção do ciume, dividindo-o em espiritual e material. O
+primeiro, o que procede da alma, não é selvagem nas suas consequencias,
+não escandalisa, e, sendo injusto, quasi sempre é debelado pela
+resignação e carinho da mulher, succedendo, algumas vezes, quando
+verdadeiro, conseguir a emenda e o arrependimento da culpada. O segundo,
+o que só tem origem nos sentidos corporaes, é arrebatado, não raciocina
+nem perdôa, sendo, por isso, sempre ruinoso e fatal.
+
+Leopoldo luctava com o ciume espiritual pelo verdadeiro amor a D. Maria
+da Gloria, e com o ciume material pela esposa, que não podia amar.
+
+Arthur Soares, por ser estimado pela fidalga donzella e conservar com D.
+Anna relações suspeitosas ao parecer do marido, tinha em Leopoldo um
+terrivel inimigo.
+
+Depois d'aquelle dia, em que foi encontrar a esposa conversando a sós
+com Arthur, o fidalgo militar soffria um verdadeiro tormento intimo, de
+que D. Anna era participante, por esses infinitos actos de calculada
+severidade, e de frieza, que fazem do homem polido um carrasco
+civilisado, e da mulher innocente, e que os atura, uma completa martyr.
+
+D. Anna, como não tivesse a mais pequena mácula de que accusar-se,
+attribuia todos os maus tractos de seu marido, unicamente a ter elle
+sido forçado a recebel-a por esposa, sendo ella plebêa e pobre. A triste
+senhora procurava na leitura, quando as lagrimas a deixavam, lenitivo
+aos seus pesares, e dava preferencia á Biblia, esse formoso rei dos
+livros, e n'ella ás divinas parabulas, essas inimitaveis phrases do
+Christo, que alliviam a alma, e derramam o mais suave dos perfumes sobre
+os sentidos de quem lê, e sabe comprehender e crêr.
+
+Lia a contristada esposa o seu livro favorito na pagina que diz:
+
+
+«E chegavam-se a Jesus os fariseus tentando-o, e dizendo: É por ventura
+licito a um homem repudiar a sua mulher, por qualquer causa? Elle,
+respondendo-lhes disse: O que vos ordenou Moysés? Elles lhe responderam:
+Moysés mandou dar o homem a sua mulher carta de desquite, e repudial-a.
+Respondeu-lhes Jesus: Porque Moysés, pela dureza de vossos corações, vos
+permittiu repudiar a vossas mulheres; mas ao principio não foi assim.
+Não tendes lido, que quem creou o homem desde o principio, creou macho e
+femea, e que deixarão pae e mãe, e ajuntar-se-hão, e serão dois n'uma só
+carne, não sendo já dois, mas uma só carne? Não separe, logo o homem, o
+que Deus ajuntou.»
+
+
+Esta lei do Evangelho sobre a indissolubilidade do casamento, tornou
+pensativa a chorosa esposa, que pousou sobre os joelhos o sagrado livro,
+aberto na pagina que lêra, pendendo-lhe a cabeça para o seio. Era tal a
+preoccupação em que se achava, meditando, que não deu pela entrada do
+marido no seu quarto, Leopoldo, que espiava todas as acções de sua
+mulher, vendo-a tão enleiada, aproximou-se-lhe mansamente, e leu, por
+cima do hombro da esposa, as palavras que deixamos transcriptas, e que
+finalisavam a pagina em que se liam: ensaiou um dos seus mais ironicos
+sorrisos, deu á voz um tom de tão meliflua quanto refalsada ternura, e,
+juntando a acção ás palavras, disse:
+
+--Virando esta pagina, minha cara esposa, talvez que encontre passagens
+de mais interesse... Não me enganei. Olhe, veja a continuação e
+conclusão das maximas, que tiveram o condão de a fazer ainda mais bella,
+levando-a a esse estado e posição elegante de heroina scismadora... «Eu,
+pois, vos declaro, que todo aquelle que repudiar a sua mulher, _se não é
+por causa de adultério_, e casar com outra, commette adulterio: e o que
+se casar com a que outro repudiou, commette adulterio: _E se a mulher
+deixa o seu marido e casa com outro, ella é «adultera._»
+
+De certo comprehende bem o sentido d'estas palavras, principalmente
+d'aquellas que eu, ao lêr-lhe, sublinhei?
+
+--O primo, quasi me assustava, pelo não esperar agora aqui!... Se
+comprehendo o sentido do que me leu?!... Não sei o que quer que eu
+comprehenda?!...
+
+--Em primeiro logar, minha senhora e cara esposa, tomo a liberdade de
+lhe dizer que não me consta que haja entre nós parentesco algum...
+
+--Foi o meu esposo, e snr. Leopoldo, que determinou este tratamento
+entre nós...
+
+--Aconselhei-o, minha senhora, para as salas sómente, onde os _nobres_
+teem obrigação de saber guardar todas as _conveniencias_: mas, aqui,
+escusa a minha estimavel esposa de usar de taes _constrangimentos_...
+Pelo que toca á comprehensão do que eu li, parece-me facilima, mórmente
+para o seu talento. Julgo que Jesus-Christo, com aquellas palavras, nos
+quiz dizer, que se não pécca repudiando a mulher _adultera_. Não lhe
+parece?...
+
+--Quem melhor do que o meu esposo, que é letrado, póde entender o que
+lê?... Mas quer-me parecer que n'outro logar d'este sagrado livro, o bom
+Jesus perdoou á adultera, que ia ser apedrejada, tendo antes provocado
+dos queixosos o que se considerasse sem culpas que fosse o primeiro a
+lançar a pedra... Não nos dirá tambem esta humanitaria e sublime
+parabula, que se Jesus-Christo não tinha como peccado o desprezo da
+adultera, via, comtudo, que os homens, mais fortes, e absolutos
+legisladores para os crimes do meu sexo, nem sempre procedem com
+justiça?
+
+--Imaginemos que é assim: apraz-me concordar com os seus _engenhosos_
+corollarios, minha senhora... Mas, como estamos em _amigavel_
+controversia, desejava ouvir a sua _esclarecida_ opinião sobre a
+_igualdade_ dos deveres... Parece-lhe que o _adulterio_ é o _mesmo
+crime_ da parte da mulher como da parte do homem?...
+
+--Não sei como responder-lhe, meu esposo e senhor... Nunca pensei
+detidamente na gravidade do crime de que fallamos; e, pesando agora a
+fealdade d'um tal delicto, julgo quasi impossivel que haja mulher
+voluntariamente adultera. Talvez que essas infelizes peccadoras sejam
+levadas a uma tal degradação pelo contínuo desprezo e ardua severidade
+dos maridos, pelos maus exemplos, e pelas aleivosas seducções dos
+homens, que as conduzem á quéda, para as enlamearem em seguida...
+
+--Para quem não tem _pensado_ no assumpto, desenvolve-o
+admiravelmente!... Dou á minha cara esposa _sinceros_ emboras pelo bem
+que falla da materia... Devo comtudo observar-lhe, como em descardo da
+_letradice_ com que ha pouco quiz honrar-me, que os _maus exemplos_ do
+homem nunca podem lançar no leito nupcial um _pequenino ladrão_... A
+minha _intelligente_ esposa comprehende-me bem, não é assim?
+
+--Se o comprehendo, senhor, devo tambem _observar-lhe_ que os _maus
+exemplos_ podem igualmente introduzir o mesmo _roubo_ em alheios
+lares... Feliz a esposa que sabe resistir a todas as tentações, embora
+tenha de ganhar a palma do martyrio; mas bem mais feliz aquella que
+encontra no marido um guia, e natural protector, em vez d'um tyranno
+egoista.
+
+--Dou lhe palmas, minha _cara_ esposa! Isso é que se chama saber
+defender o terreno pollegada a pollegada... Proclamo-a rainha das
+defensoras da reciprocidade do crime de adulterio entre os conjuges...
+
+N'esta altura do dialogo, que promettia mais serio azedume, foram
+interrompidos pela voz de uma criada, que annunciou a chegada, e a
+introducção, de Arthur Soares, na sala das visitas. A esta noticia foram
+differentes as sensações manifestadas pelos esposos. Leopoldo franziu a
+testa, e D. Anna mostrou na face o natural contentamento com que recebia
+a visita do seu companheiro de infancia, do seu protector e irmão
+adoptivo...
+
+--O seu rôsto, minha _boa_ esposa, formosissimo, mesmo quando _v.
+exc.^a_ se acha em perfeita tranquilidade de espirito, está agora
+explendido de brilhantismo, pelo contentamento que manifesta com a
+noticia que nos deu a criada... Muito _feliz_ é esse snr. Arthur
+Soares!...
+
+--Se a profunda estima de uma irmã, que não sabe ser ingrata, póde dar a
+felicidade, de certo que é feliz o meu companheiro de infancia, porque o
+sei presar como elle merece.
+
+--Hei-de vêr se consigo haver d'elle, por _um sério estudo_, o segredo
+de tanto se fazer _apreciar_ das bellas... Vamos prestes ao seu
+encontro, que estou já ancioso por começar as minhas _experiencias_...
+
+D. Anna continuava a não comprehender os remoques do marido. A boa fé, e
+a innocencia, são quasi sempre ingenuas.
+
+Chegados á sala os dois esposos, foram cumprimentados por Arthur Soares,
+Leopoldo com polida frieza, e D. Anna com a expansão do _amor sem
+desejo_, que assim é definida a verdadeira amisade, ao que ella soube
+gentilmente corresponder, mau grado de seu marido, que principiava a
+manifestar, por contorsões nervosas, o inferno que lhe ralava o peito.
+
+--Venho dar contas a v. exc.^a, e a seu illustre marido, do uso que fiz
+da auctorisação que me concedeu. Apenas consegui apurar trinta mil
+crusados, que entrego em papeis de bom credito, equivalentes a dinheiro
+de contado, e mais commodos no transporte. Com letigios, sempre
+impertinentes, incommodos e despendiosos, podia augmentar a cobrança;
+mas usando, e talvez que abusando um pouco, da auctorisação e da
+reconhecida bondade de v. exc.^a, passei quitação geral do seu dote pela
+quantia que recebi e apresento... Digne-se o snr. Leopoldo examinar e
+contar...
+
+--Desculpe-me interrompel-o, snr. Arthur Soares. Eu não posso, nem
+quero, entrar no mysterio d'esse _dote_ da minha _prima_ e _cara_
+esposa. Creio possuir o necessario para vivermos com algum allivio, e
+nunca _esperei_ receber quantia alguma de tal proveniencia... Se minha
+mulher _julgar digno_ o receber esse dinheiro, receba-o muito embora,
+que eu nunca procurarei saber qual seja a sua applicação.
+
+--Não só a considero digna, mas até me parece obrigatoria a recepção.
+Diz-me o snr. Arthur Soares, que tenho um _dote_, que é meu,
+entrega-m'o, porque não hei-de recebel-o? Posso por ventura suspeitar
+que o meu companheiro de infancia, e bom irmão adoptivo, trouxesse a
+esta casa dinheiro meu de origem menos pura? Tambem não é de crer que
+haja quem se desaposse de _trinta mil crusados_, para fazer um beneficio
+gratuito. Além do que, se o meu esposo e senhor póde dispensar este
+dote; se eu mesma, por estar no gôso da munificencia de meu marido, não
+tenho immediata precisão d'elle, pódem de futuro existir outros
+interessados, os filhos, que não temos o direito de prejudicar. Acceito,
+e agradeço ao snr. Arthur Soares, o trabalho que teve para haver o meu
+dote.
+
+--Estou mais que pago do que fiz, pela certeza de ter prestado a v.
+exc.^a um pequeno serviço.
+
+--«A snr.^a D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho!...»
+
+A este annuncio, que um escudeiro fez em devida fórma, ficaram como
+interdictos todos os actores da scena que descrevemos. São faceis de
+comprehender os motivos da interdicção, se o leitor tem attendido o
+«Conto portuguez».
+
+Sebastião da Mesquita resolveu enviar a D. Anna o seu dote por D. Maria
+da Gloria, e que esta fosse acompanhada por João de Lencastre: explicada
+a inopinada apparição, e deixando á capacidade do leitor o avaliar como
+seriam recebidos os recem-vindos, continuaremos a interrompida scena, em
+que figuram agora mais dous actores:
+
+--Antes de participar ao primo Leopoldo qual é a commissão de que venho
+encarregada por meu ex.^mo pae e senhor, peço-lhe licença para
+apresentar-lhe o snr. João de...
+
+--Conheço _bastante_, minha querida prima e senhora, o seu escudeiro e
+fiel pagem, _que só poderia entrar n'esta casa, como entrou_,
+acompanhando a sua dona...
+
+--Engana-se v. exc.^a, meu caro primo, quanto ao mister e aos direitos
+do meu apresentado. Este cavalheiro, que precisou de viver alguns annos
+sob o incognito, mais de amigo que de escudeiro da nossa casa, é
+bastardo da illustre progenie dos snrs. de Lencastre, reconhecido e
+dotado por uma sua thia avó paterna; é nosso primo e muito intimo amigo;
+é, finalmente, irmão de v. exc.^a...
+
+--Não posso crêr que a minha apreciavel prima e snr.^a D. Maria da
+Gloria, queira honrar-me com um gracejo d'essa ordem, e...
+
+--Quer provas? Aqui as tem... Depois de lêr ficam desterradas as suas
+duvidas, e atrevo-me a esperar do cavalheirismo de v. exc.^a, que dará
+todas as mostras de fraternal estima ao meu nobre apresentado...
+
+--Não desejo só dever a esses pergaminhos a amizade de meu irmão...
+Embora por motivos justificados, commetti um acto rude, e offereço-lhe a
+face, para applicar n'ella a pena de Talião...
+
+--Mais do que a essa humildade, que sei apreciar n'este momento, e tanto
+como aos laços de sangue que nos prendem, deve-se á vontade e nobreza de
+sentimentos da nossa querida prima e snr.^a D. Maria da Gloria, a
+espontaneidade com que o abraço, mano João!...
+
+--Agradeço ao primo Leopoldo a delicadeza e fidalguia do seu proceder.
+Agora, passo a remir-me da obrigação que recebi de meu exc.^mo pae:
+faço-o mesmo em presença do snr. Arthur Soares, que pela muita amisade e
+consideração que todos lhe devemos, é estimado como pessoa de familia. O
+primo João, entregará ao primo Leopoldo, e á minha boa amiga e antiga
+discipula, um movel que contém setenta mil crusados, que tanto importa o
+dote d'esta excellente esposa, de que meu respeitavel pae estava de
+posse. Não foi entregue ha mais tempo, porque só agora se acabou de
+liquidar e receber...
+
+Um raio, que n'aquella occasião tivesse cahido na sala, não deixaria
+ficar mais assombrados Leopoldo, Arthur e D. Anna, do que ficaram ao
+ouvirem aquellas palavras de D. Maria da Gloria! Póde comprehender-se,
+mas não é descriptivel, a scena muda que entre elles teve logar. Arthur
+Soares, pelo auxilio de seu natural talento, e por um d'aquelles raros
+expedientes, que Deus concede repentinamente ás almas que o merecem,
+abrangeu a difficuldade da situação, e desembaraçou-a maravilhosamente:
+
+--É á snr.^a D. Maria da Gloria, que devo explicar o assombro em que
+ficaram estes felizes esposos, pela remessa que lhes faz meu illustre
+padrinho, e senhor Sebastião da Mesquita, logo em seguida a outra de
+igual genero de que eu fui portador... Tudo se aclara com a narração da
+verdade, ficando eu apenas com a macula de imprudente, por me precipitar
+na entrega... O snr. Sebastião da Mesquita, havia-me encarregado da
+cobrança de varios creditos e dividas, exigindo-me a maior actividade,
+porque pertenciam, me disse elle, ao dote da snr.^a D. Anna, que meu
+padrinho desejava entregar o mais breve possivel... O emprego do tempo
+n'essa cobrança, o desejo de prestar um serviço á minha companheira de
+infancia, e a necessidade de marchar immediatamente para a cidade do
+Porto, onde me chamam os deveres de voluntario da causa popular, tudo
+isto junto á irreflexão, que eu mesmo classifico de imprudencia,
+arrastou-me aqui, a fazer a entrega do por mim recebido, sem ter, como
+devia, uma prévia conferencia com o meu illustre mandatario, que, pelo
+que observo agora, desconfiou da minha actividade, e foi enviando o que
+já era em seu poder...
+
+--Deve ter sido assim, snr. Arthur Soares. E como meu excellente pae
+sabe guardar bem os seus segredos, não me confiou essa missão de que o
+encarregára... É grande a quantia pelo snr. Arthur recebida?
+
+--São, apenas, trinta mil cruzados.
+
+--Então, já a minha Annitas tem um dotesinho rasoavel... cem mil
+cruzados... É um pequeno regato, que pouco volume augmenta ao oceano que
+possue o marido, bem sei; mas que já chega para alfinetes, e para ter
+meia duzia de dias, cada anno, hospedada a sua mestra... Consente, primo
+Leopoldo, que eu seja, por algum tempo, hospeda de sua esposa?
+
+--A esse consentimento, é nossa prima D. Anna que hade responder. Da
+parte que eu tenho n'esta casa, dispõe V. Exc.^a como de cousa sua, que
+é... O que me parece descobrir na pergunta da minha querida prima D.
+Maria, é vontade de estar aqui só com a sua discipula; e eu sou
+obrigado, pelos meus deveres de militar da rainha, a senhora D. Maria
+II, a fazer-lhe a vontade, porque hoje mesmo devo retirar-me, para
+reunir-me ao exercito.
+
+--N'esse caso, mano Leopoldo, vamos todos até Guimarães, onde fiquei de
+encontrar-me com o snr. Sebastião da Mesquita... Acompanha-nos, snr.
+Arthur Soares?
+
+--Com todo o prazer, snr. João de Lencastre: não é grande a volta na
+jornada que tenho a fazer para a cidade do Porto, onde sou esperado na
+qualidade de soldado do governo supremo do reino...
+
+Para melhor intelligencia da scena que se deu após as narradas, e com
+que vamos fechar este capitulo, é necessario descrever as posições que
+occupavam na sala os differentes actores.
+
+D. Maria da Gloria e Arthur Soares, conversavam a meia voz no vão de uma
+das janellas de varanda, quasi no fim da sala, semi-occultos pelas
+cortinas, a bastante distancia das de mais pessoas. D. Anna, occupava,
+no meio da sala, um logar junto do precioso movel, onde movia
+maquinalmente alguns dos objectos que o adornavam. João Vidal, ou de
+Lencastre, estava sentado a um dos lados, folheando um album de
+pinturas; e Leopoldo, na extremidade da sala, opposta ao lado occupado
+por D. Maria e Arthur, conservava-se de pé, encostado ao pedestal de um
+magnifico relogio, com a cabeça levemente pousada sobre os dedos da mão
+esquerda.
+
+D. Maria da Gloria e Arthur Soares, estavam muito interessados no seu
+confidencial dialogo. A joven senhora, não acreditára na explicação,
+dada por Arthur, ácerca dos seus trinta mil cruzados, e apertava-o com
+raciocinios, que deviam leval-o, inevitavelmente, á confissão da
+verdade.
+
+D. Anna, reunia em sua mente as menores circumstancias de sua vida,
+avaliava os ultimos acontecimentos d'ella, e via, ainda que com pouca
+clareza, que estava sendo o alvo de generosidades extraordinarias.
+
+Leopoldo, só era dominado pelo ciume: reconhecia, mau grado seu, as
+vantagens moraes do seu rival, e tremia de intima raiva.
+
+João, o antigo escudeiro, e moderno fidalgo por bastardia, senhor de
+quasi todas as intrigas que agitavam os seus parentes e amigos, fingia
+prestar muita attenção ás paizagens que examinava, e não perdia um só
+dos movimentos dos que o cercavam.
+
+D. Maria triumphara, em fim, do seu docil adversario: obrigara-o a
+confessar o que fizera, e a pedir-lhe segredo para o seu brioso
+procedimento. A gentil e fidalga donzella, vendo realisadas as suas
+suspeitas, e abysmada na grandeza d'alma do seu idolo, apertou-lhe as
+mãos meigamente, e saltaram-lhe dos olhos lagrimas alegres. D. Anna,
+vira aquelles movimentos, preadivinhára o que se havia passado,
+chegou-se a elles, e exclamou, entre lagrimas de reconhecimento: «Meus
+bons amigos!» deixando em seguida cahir a cabeça no seio de D. Maria da
+Gloria.--Era bello aquelle grupo!
+
+Leopoldo, acompanhára aquellas expansões de gratidão com olhos ferinos.
+De repente, perdeu a côr, sacudiu fortemente a cabeça, e dirigia-se, com
+passos mal seguros, ao grupo encantador. Não podemos calcular o que
+teria succedido, se aquella prêsa do ciume não fosse logo interrompida
+nos seus passos pelo irmão que, com o album aberto, lhe disse:
+
+--Tem bellissimas pinturas este album, mano Leopoldo... Esta, que parece
+ser o emblema do ciume, é realmente curiosa... Figura uma bella mulher
+com apparencia de inquietação, e ar de quem escuta... As suas roupas são
+da côr das ondas do mar: tem na mão direita um ramo de espinhos, e na
+esquerda um gallo... Mantém-se na attitude do desassocêgo e curiosidade,
+e a côr dos vestidos indica a perturbação da alma... O ramo de espinhos
+denota que os tormentos do ciume são acerbos e agudos, e o gallo é o
+symbolo da suspeita e vigilancia... É curioso, muito curioso!... O seu
+braço, mano Leopoldo, e vamos até á proxima saleta, onde quero fazer-lhe
+entrega do movel em que lhe fallou a snr.^a D. Maria da Gloria, e
+conversar em cousas de commum interesse...
+
+E sem dar occasião a evasivas, foi arrastando Leopoldo, que se deixou
+conduzir sem resistencia, já mais ou menos conscio do ridiculo de que o
+irmão o salvava.
+
+
+
+
+IV
+
+O BERÇO DA MONARCHIA
+
+
+ «Querem alguns que seja esta villa o assento da cidade de Araduca,
+ de que Ptolomeu faz menção; é porem incerta a conjectura, sendo
+ certissima a sua veneranda antiguidade.»
+
+ (O PANORAMA DE 1867.)
+
+ «A antiga Guimarães foi fundada pelos gallo-celtas, quinhentos annos
+ antes da éra christã.»
+
+ (PADRE CARVALHO)
+
+
+ «As fabricas de cortumes produzem annualmente um valor superior a
+ cento e cincoenta contos de reis. O commercio das linhas pannos de
+ linho e ferragens, é importante, apesar de ter decahido depois do
+ tratado de 1810 e da independencia do Brazil: todavia ninguem ainda
+ hoje negará o incontestavel merecimento dos tecidos de linho
+ adamascados, fabricados em Guimarães, que em duração e primor d'obra
+ por certo que não tem rival. Calcula-se que os tres ultimos productos
+ industriaes que apontamos, não rendem menos de oitenta contos de reis
+ por anno. Os doces de fructas confeitados n'esta villa, renderam, no
+ anno de 1835, seis contos de reis.»
+
+ (GEOGRAPHIA DE URCULLU.)
+
+
+Parece fóra de duvida, que esta bella povoação do Minho, elevada
+modernamente á cathegoria de cidade, teve, no seu começo, duas
+existencias distinctas, e muito separadas na ordem do tempo, ambas com o
+nome de--Guimarães--; se é que não serviu tambem de local á antiquissima
+cidade de Araduca, como querem muitos e mui abalisados auctores.
+
+É Guimarães uma das terras heroicas de Portugal, por titulos
+honrosissimos. Mais do que ao facto de ter sido o berço do primeiro rei
+portuguez, o snr. D. Affonso Henriques, que após a gloria de ter fundado
+e consolidado o reino e a monarchia portugueza, morreu em geral opinião
+de santo, como é affirmado na chronica dos conegos regrantes de Santo
+Agostinho, e na terceira parte da Monarchia Lusitana; mais do que á
+contestada, ainda que muito auctorisada, versão de ter sido a patria do
+famoso Papa S. Damaso,[8] que mereceu, ao sexto concilio de
+Constantinopla, o dar-lhe os nomes de--Diamante da Fé--; mais do que á
+justa fama de ser um povo notavelmente commercial e industrial; mais
+finalmente, do que á sua immensa riqueza,--deve Guimarães, o seu bom
+nome, aos feitos emprehendedores e gloriosos de um grande numero de seus
+filhos, na guerra, nas artes, nas sciencias, em todos os ramos dos
+conhecimentos humanos, e á magnifica e incomparavel indole de todos
+elles, que sempre souberam reunir á bravura do leão a mansidão do
+cordeiro, á intrepidez a resignação, e ao uso da caridade a facilidade
+no perdão das injurias.
+
+Nomearemos alguns dos mais antigos e gloriosos nomes dos heroicos filhos
+de Guimarães:
+
+Gil Vicente, filho de Martim Vicente, o fundador do theatro portuguez, e
+distincto artista, que fez a Custodia de Belem.[9]
+
+Pedro Alves, artista de notavel merecimento, que, com mais outros
+contemporaneos seus, tornou florescente a ourivesaria de Guimarães,
+pelos annos de mil quatro centos e cincoenta a mil quatro centos e
+oitenta.
+
+João Gonçalves, mais conhecido pelo nome de _Engenhoso_, o introductor
+do serrilhado na moeda.
+
+Payo Galvão, filho unico de Pedro Galvão e de sua mulher D. Maria Paes;
+entrou em tenra idade no convento de Santa Marinha da Costa, no anno de
+1178; enviado á Universidade de Paris, recebeu lá o grao de mestre de
+theologia. Regressando ao seu convento e mosteiro da Costa, foi elevado
+á dignidade de mestre-escóla da real collegiada. El Rei D. Sancho I, o
+nomeou, em 1198, seu embaixador em Roma, onde foi muito estimado pelo
+Papa Innocencio III, que o fez seu vice-cancellario, poucos mezes depois
+da sua chegada: cardeal diacono, no anno de 1206; presbytero cardeal de
+Santa Cecilia, no anno de 1211; e bispo Albanense, no anno de 1215.
+Completou, este douto varão vimaranense, a sua gloriosa carreira,
+acompanhando, na qualidade de seu--legado apostolico--, o general João
+Breno, á conquista de Jerusalem, enviado pelo Pontifice Honorio III.
+
+O doutor Gaspar de Carvalho, que foi chanceller mór do reino, do
+conselho de El-Rei D. João III, e tambem seu embaixador e testamenteiro.
+
+O doutor Balthasar de Azevedo, que foi desembargador da supplicação.
+
+O padre fr. Paulo do Valle, da ordem de S. Bento, que foi mestre de
+theologia na Universidade de Coimbra.
+
+O doutor Diogo Lopes de Carvalho, senhor dos coutos de Abadim e
+Negrellos, que foi môço fidalgo da casa de El-Rei, e seu desembargador
+do Paço.
+
+O doutor Gonçalo Dias de Carvalho, o primeiro legista portuguez, que
+começou a estudar em Guimarães, no Mosteiro de Santa Marinha da Costa,
+de frades Jeronymos. Foi o primeiro doutor que na Universidade de
+Coimbra tomou capêllo, e foi desembargador dos aggravos, e deputado da
+meza da consciencia.
+
+O doutor Balthasar Vieira, môço fidalgo da casa d'El-Rei, que foi
+corregedor da côrte.
+
+O licenciado Manoel Barbosa, que escreveu com muito conhecimento sobre a
+ordenação, que foi distincto antiquario e genealogista dos de mais
+credito.
+
+O insigne doutor Agostinho Barbosa, filho do precedente, que foi bispo
+de Cisgento, e publicou obras utilissimas, apreciadas dentro e fóra do
+paiz.
+
+O doutor Simão Vaz Barbosa, filho tambem do jurisconsulto Manoel
+Barbosa, que foi mestre em artes, e escreveu o seu livro do _Axioma_.
+
+O doutor Antonio Pereira Cardote, que teve a gloria de vêr adoptada,
+pela Universidade de Salamanca, a doutrina que ensinou na Universidade
+de Coimbra. Dizem os mais auctorisados, quanto imparciaes, chronistas,
+_que se a villa de Guimarães não tivera dado de si outro parto, bastava
+este sujeito para o seu maior credito_.
+
+O padre fr. Antonio da Luz, religioso de S. Bento, insigne theologo, e
+lente na Universidade de Coimbra.
+
+O padre mestre, fr. José de Oliveira, religioso dos eremitas de Santo
+Agostinho, lente de theologia em Coimbra, e feito bispo de Angola, por
+El-Rei D. Pedro II.
+
+O doutor Gaspar de Abreu de Freitas, commendador da Ordem de Christo,
+desembargador e conselheiro da fazenda, môço fidalgo da casa de El-Rei,
+e seu enviado a Hollanda, Inglaterra, e Roma.
+
+O desembargador João de Guimarães, embaixador duas vezes á Suecia,
+Inglaterra, e Hollanda, moço fidalgo, commendador de capa-rosa, na ordem
+de Christo, e deputado da Mesa da consciencia.
+
+O doutor João de Gouvêa da Rocha, desembargador na relação do Porto, na
+dos aggravos, em Lisboa, e no Paço, moço fidalgo, e cavalleiro professo
+de habito de Christo.
+
+O doutor Pedro da Rocha de Gouvêa, irmão do precedente, desembargador do
+Brazil, e depois da supplicação, e cavalleiro da ordem de Christo.
+
+O doutor José Peixoto de Azevedo, desembargador dos aggravos, em Lisboa.
+
+O doutor Jeronymo Vaz Vieira, juiz das ordens militares, deputado da
+mesa da consciencia, desembargador dos aggravos, juiz da corôa, e
+desembargador do Paço.
+
+D. Gabriel da Annunciação, conego de S. João Evangelista, que foi bispo
+de Annel, do arcebispado de Evora.
+
+D. Manoel Affonso da Guerra, que foi bispo de Cabo-Verde.
+
+O doutor Pedro de Sousa, que foi lente de Vespora.
+
+O doutor Christovão de Azevedo, fisico-mór do reino.
+
+O doutor Francisco Cibrão, medico notavel, e muito conhecido e apreciado
+em Lisboa.
+
+Manoel Gonçalves, o trovador, morador no _burgo_ da rua de Couros, que
+foi o primeiro homem que n'este reino fez trovas.
+
+Manoel Thomaz, que compoz a noticia das guerras d'entre Douro e Minho,
+em _oitava rima_.
+
+Manoel de Faria e Sousa, homem que se fez conhecido e admirado, dentro e
+fóra do paiz, pelo acerto, erudição e credito de suas obras, em que se
+mostrou profundo conhecedor, não só das antiguidades de Portugal, como
+tambem da Africa, Asia, e America. Foi sepultado no Mosteiro de
+Pombeiro, ao pé do magestoso tumulo de D. João de Mello e Sampaio,
+antigo commendatario d'aquelle Mosteiro.
+
+Martim Ferreira, que salvou Guimarães do sitio que tentava pôr-lhe o
+exercito castelhano, alojado na _veiga das favas_; e que, por uma
+cutilada que então recebeu no rôsto, ficou appellidado--o Martim
+Narizes.
+
+Manoel Machado de Miranda, senhor do _casal dos Cavalleiros_, e
+residente no seu _palacio do arco_, na rua de Santa Maria, poderoso
+fidalgo, que prestou assignalados serviços ao rei e ao reino, obrigando
+seus filhos a continual-os.
+
+Manoel Machado, filho do precedente, que morreu em uma batalha naval
+pelejada com os turcos.
+
+Francisco Machado, irmão d'aquelle, que morreu na India, no posto de
+capitão de infanteria, batalhando pela patria.
+
+Fr. Gualter Machado, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na
+religião de João de Rodes, que perdeu a vida em um assalto contra os
+turcos.
+
+Fr. Martim Pereira d'Eça, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na
+religião de João de Rodes, que, depois de ter batalhado com notavel
+valentia ao lado de seus irmãos, regressou ao reino, que encontrou em
+guerras contra Castella, e logo tomou as armas em defeza da patria,
+sendo mestre de campo de um _terço de volantes_, e capitão duma
+_companhia de cavallos com o titulo de couraças_. Celebradas as pazes
+entre os dous reinos, entrou o guerreiro em mais brandas, fadigas: foi
+occupado em visitador das commendas da sua religião, d'onde passou a
+recebedor d'ellas; e, estando n'esta occupação, foi, por algum tempo,
+governador do priorado do Crato. Foi tambem commendador de Torres
+Vedras, e de S. João da Carvoeira.
+
+João Machado d'Eça, irmão dos precedentes, que serviu importantes cargos
+no Alemtejo.
+
+Gregorio Ferreira d'Eça, irmão dos precedentes, que foi capitão-mór de
+Guimarães, e governador de sua comarca, militar valente, fidalgo da casa
+d'El-Rei, e cavalleiro professo do habito de Christo.
+
+Pedro Alvares de Almada, cavalleiro valeroso, possuidor do morgado e
+cazas do _Rocio da Tulha_, que, depois de ter batalhado n'este reino e
+no de Hespanha, passou a servir El-Rei Henrique de Inglaterra nas
+guerras contra os mouros; e taes valentias praticou, que mereceu a este
+rei um alvará, (datado de 2 de março de 1501) «_em que lhe entregou, e
+livremente doou, parte determinada de suas armas reaes, a saber: ametade
+de uma flôr de Lyrio de ouro, e ametade de uma rosa vermelha, em campo
+dividido em duas partes, e em duas côres, como é, de uma parte de verde,
+e da outra de prata; para que elle, e todos os seus descendentes, e
+parentes, assim conjunctos por sangue, ou affeniedade, possam usar das
+mesmas armas segura e livremente, aonde cada um quizer, assim como se
+forem suas proprias armas._»
+
+Fernão da Mesquita, chamado--o velho--, possuidor da _casa da rua da
+Infesta, com sua capella de Nossa Senhora da Graça_, que acompanhou, com
+grande dispendio de sua fazenda, ao duque de Bragança, D. Jaymes, na
+tomada de Azamôr, no anno de 1513, partindo depois para a India, onde
+fez as suas proezas, que se lêem na Chronica d'El-Rei D. Manoel, cap.
+46.
+
+Ruy Mendes da Mesquita, filho do precedente, que acompanhou o infante D.
+Luiz, filho d'El-Rei D. Manoel, á tomada de Tunes, passando depois
+tambem á India, onde, por seus valorosos feitos, honrou as cinzas de seu
+pae, honrando a patria.
+
+Fernão da Mesquita e Lima, o Novo, filho do precedente, que, aos 18
+annos de idade, ganhou na guerra de Tangere, uma commenda da ordem de
+Christo, e, dous annos depois, foi capitão mór da Costa.
+
+Diogo Lopes da Mesquita, irmão do precedente, que foi intrepido capitão
+da fortaleza de Maluco, na India.
+
+Miguel Lopes da Mesquita, filho do precedente, e digno imitador do valor
+e virtudes da familia dos Mesquitas de Guimarães, que teve a honra de
+hospedar, na sua casa da rua da Infesta, o infante D. Luiz, filho de
+El-Rei D. Manoel, em agosto de 1548.
+
+Diogo da Mesquita, outro filho de Fernão da Mesquita, o velho, _que,
+melhor que todos, realçou e eternisou_ seu nome. Foi mandado pelo
+viso-rei da India, Nuno da Cunha, por embaixador a um rei mouro; e,
+sendo captivo do rei de Cambaya, por não querer renegar a sua fé, e a
+sua patria, _foi posto na bocca d'uma peça de artilheria_, sem que um
+tal apparato o amedrontasse; e, porque só o quizessem intimidar, e não
+matar, o pozeram a resgate, e resgatado foi, _por subido preço_. Vingou
+suas affrontas, matando, em combate, o rei de Cambaya, _que era senhor
+de tres reinos_; e por este feito se accrescentaram ás suas armas _tres
+corôas e um alfange_, como diz Diogo do Couto, na decada 4.^a, livro
+4.º, capitulo 9.º
+
+Manoel da Mesquita, filho do precedente, que foi capitão da fortaleza de
+Chacel, na India.
+
+Fernão da Mesquita, irmão do precedente, que serviu nas Armadas, no
+tempo d'El-Rei D. Sebastião.
+
+Antonio Pereira da Silva, fidalgo da casa d'El-Rei, _morgado rico, e
+possuidor de casas nobres na rua de Santa Maria_, que acompanhou El-Rei
+D. Sebastião á batalha de Alcacer Quibir, onde foi captivo. Resgatado,
+embarcou para a India, e serviu como bom cavalleiro, na guerra contra os
+turcos.
+
+Salvador Pereira da Silva, filho natural do precedente, que foi mestre
+de campo em Ceilão, sendo general D. Jeronymo d'Azevedo; e depois foi
+capitão mór da Armada, que foi ao cerco de Malaga.
+
+Antonio Peixoto de Carvalho, moço fidalgo da casa d'El-Rei, morgado da
+Pousada, _com suas casas_ _na rua do Val de Donas_, que serviu na guerra
+da India, _contra os infiéis_, onde acabou a vida.
+
+João Vasques Peixoto, irmão do precedente, ao qual fez doação do
+morgado, que tomou o habito de S. João de Rodes, e mostrou seu valor nas
+guerras de Malta, sendo feito commendador da sua ordem.
+
+João de Sousa Alcoforado, moço fidalgo da casa d'El-Rei, _que deixou
+mulher, e filhos, e o morgado e casa de Villa Pouca_, para servir a
+patria, nas guerras da India, levando em sua companhia dous de seus
+filhos, Manoel de Sousa da Silva, e Francisco de Sousa Alcoforado.
+
+Simão Rebello de Valadares, que embarcou para a India sem licença de seu
+pae, João Valadares, residente na rua de Santa Maria, e foi um dos mais
+valentes soldados do seu tempo. Morreu juncto da muralha de Ceilão,
+ficando-lhe, na escalada, os braços dentro da muralha.
+
+João Martins, Annadel mór dos espingardeiros de Guimarães, senhor do
+morgado do Pinheiro, que deixou mulher e filhos, fretou uma náu á sua
+custa, e mettendo-se n'ella, _com gente e armas tambem suas_,
+acompanhado de seu irmão Fernão Martins, se offereceu a El-Rei D.
+Affonso V, para o seguir na viagem que fazia a Azamôr. Por seus
+valerosos serviços, mereceram estes dois irmãos, _grandes mercês e
+honras_.
+
+Pedro Coelho, da rua de Santa Maria, que acompanhou El-rei D. Sebastião
+á Africa. Ficou captivo, e foi escravo _de dous senhores_. Resgatado,
+_com muito trabalho e dispendio de sua fazenda_, foi cavalleiro professo
+do habito de Christo.
+
+Salvador da Costa e Almada, morador na _rua Nova do Muro_, embarcou para
+a India, onde foi _cabo de_ _tres fustas_, que o governador, Mathias de
+Albuquerque, mandou á costa de Ceilão.
+
+Gregorio da Costa do Valle, tambem da rua Nova do Muro, thio do
+precedente, que foi capitão da Costa, por El-Rei D. Manoel, e morreu na
+India, pelejando com grande valor contra os turcos.
+
+Gaspar Leite Pereira, da rua do _Cano das Gasas_, que embarcou para a
+India no anno de 1559, e, por seu valor, foi provido no cargo _de
+Tanaydar e Manorá, nas terras de Baçaim_. Foi depois mandado, por El-Rei
+D. Sebastião, á costa de Guiné, por capitão do navio--S. Nicolau--.
+
+Antonio Leite d'Azevedo, sobrinho do precedente, que tambem, na India,
+mostrou o seu valor, como diz _A vida do irmão Pedro de Basto_, liv.
+2.º cap. 13.º
+
+Gonçalo Paes de Meira, da rua de Santa Barbara, que acompanhou Martim
+Ferreira na façanha da _Veiga das favas_, onde foi desbaratado o
+exercito de D. Henrique 2.º, de Castella, que tentava pôr cêrco a
+Guimarães; causando, por outra vez, em 1371, ao mesmo rei, graves
+desgostos, porque elle, e seus dois filhos, Estevão Gonçalves de Meira,
+e Fernão Gonçalves de Meira, acompanhados de quarenta cavalleiros,
+obrigaram o rei de Castella a levantar o cêrco.
+
+Affonso Lourenço de Carvalho, que, estando de posse de Guimarães o rei
+de Castella D. João 1.º, serviu, _por sua traça_, de poderoso
+instrumento á conquista que d'ella fez El-Rei D. João I de Portugal. Foi
+o caso, que estando El-Rei de Portugal, com o seu exercito, _na ponte do
+Sueiro, juncto á ponte de Servas_, Affonso Lourenço de Carvalho lhe deu
+parte, que conseguira do porteiro e guarda da _porta do postigo_, que
+esta lhe abrisse, para elle metter em sua casa uma cuba em um carro; e,
+aproveitando El-Rei o aviso, entrou por alli, _com trezentos de
+cavallo_, ficando senhor de Guimarães, depois de combate.
+
+Manoel de Valadares Vieira, que foi dos primeiros soldados filhos de
+Guimarães, que, na provincia de entre Douro e Minho, assentou praça,
+deixando o interesse de seu morgado, de que era unico herdeiro, para
+servir na feliz acclamação de D. João 4.º. Foi capitão e sargento mór
+de infanteria, e governador da praça de Monte Alegre.
+
+André Pinto Barboza, que militou n'este reino e no Brazil, chegando a
+mestre de campo e governador da praça de Miranda, e provedor mór de
+Pernambuco.
+
+Francisco de Meira Peixoto, que serviu em duas armadas, occupando tambem
+o posto de capitão de infanteria.
+
+João Leite de Oliveira, que deixou a agricultura, que exercitava na sua
+quinta _de Pombeiro_, para se alistar _na milicia de Flandes_, onde, por
+seu valor, mereceu o posto de capitão, morrendo, no de general de
+artilheria, com grande nome e fama.
+
+Sebastião Salgado de Faria, que, _na guerra de Flandes_ foi _um dos
+capitães de cavallo de couraças_ com melhor nome no exercito.
+
+Jeronymo de Figueiredo, que, nas guerras com os castelhanos, chegou ao
+posto de _tenente de mestre de campo general_.
+
+Dionisio da Cunha, que foi valente capitão de infanteria.
+
+Pedro Coelho de Miranda, que foi capitão dos _privilegiados de Nossa
+Senhora da Oliveira_.
+
+João Botelho Leite, que foi capitão de infanteria, e um dos que
+promoveram a feliz acclamação de D. João IV.
+
+João Rebello Leite, filho do precedente, que, no _primeiro rebate que em
+seguida á feliz acclamação, os gallegos deram_ na fronteira do Minho,
+foi prisioneiro e levado, _com oito feridas_, ao castello de
+Compostella, d'onde, após dezoito mezes de prisão, fez _uma fugida
+valorosa_, chegando depois a mestre de campo, e, _com lastimosa
+desgraça, morreu de veneno_.
+
+João Machado de Miranda, que, deixando em serviço da patria os bens em
+que succedia, militou com grande valor, chegando ao posto de mestre de
+campo de infanteria, _e de cavallos_; e, indo a Santarem _reformar o seu
+terço, foi captivo da morte por um reparado manjar, que lhe serviu a sua
+mulata_.
+
+Fernão Ferreira da Maia; José Peixoto de Sousa; Francisco de Macedo;
+João Barroso de Azevedo; Jacintho Leite Pereira; André de Sousa Homem;
+José Machado Pinto, e Manoel Velho do Couto, que todos occuparam postos
+de _capitães volantes_, no exercito da provincia do Minho.
+
+Diogo de Freitas, que foi capitão de infanteria.
+
+Antonio Paes do Amaral, cavalleiro do habito de Christo, e _ajudante de
+cavallaria_.
+
+Antonio de Andrade e Valle, que foi _ajudante de Infanteria_.
+
+João de Sousa e Lima, que foi _alferes do mestre_ de campo de
+infanteria.
+
+Paschoal da Costa, que foi capitão de infanteria.
+
+Francisco Machado de Miranda, que foi capitão de infanteria; e Antonio
+de Barros, que foi _capitão de volantes_.
+
+Esta lista seria infinda, se continuassemos a esgravatar nas
+gloriosissimas antiguidades d'este nosso Portugal, e aproveitassemos
+tudo, que respeita a Guimarães.
+
+E não é só ao sexo forte, que o berço da monarchia deve o seu nome
+famoso: foi distinctissima vimaranense, entre outras de menor fama,
+Joanna Michaella, filha de Pedro Machado e Dionizia de Macedo, e esposa
+do tenente coronel de cavallaria Antonio Mendes de Brito. Era perfeita
+no conhecimento e uso da lingua materna, e sabia latim, italiano, grego
+e chinez: estudou philosophia, theologia, mathematica, astrologia, e
+musica; chegando a ser classificada como uma das senhoras portuguezas
+mais eruditas do seu seculo.
+
+Foram, pois, justificadamente merecidas as immensas honras, privilegios
+e isempções, que os senhores reis d'este reino concederam aos moradores
+de Guimarães, como não tiveram por certo, nenhuns outros do paiz; e da
+mesma fórma, de toda a razão é o nobre orgulho, que ainda hoje sustenta
+a briosa raça de tão heroico povo.
+
+E não resistimos ao estimulo de notar aqui meia duzia de nomes, que, na
+actualidade, provam não ter degenerado aquelle sangue portuguez, tão
+admiravelmente fertil.
+
+Contamos com a benevolencia dos cavalheiros, por nós apontados, para que
+nos relevem o não lhes respeitarmos a modestia em preito á verdade; como
+esperamos desculpa das capacidades, que, involuntariamente, esqueçamos
+de nomear.
+
+É natural de Guimarães, o snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho,
+residente hoje na cidade do Porto, notavel curioso de obras de prata e
+de marfim, e celebre artista gravador de medalhas, algumas das quaes
+teem sido admiradas dentro e fóra do paiz.[10]
+
+Nasceu tambem aqui o apreciavel rabequista, e maestro, Francisco de Sá
+Noronha, que, nas suas viagens, se tem feito admirar em quasi toda a
+Europa, recebendo honras, e condecorações de alguns monarchas.[11]
+
+É distincto, em equitação, e talvez se possa chamar o primeiro
+cavalleiro peninsular, o snr. José Martins Minotes.
+
+São profundos jurisconsultos, e como taes conhecidos em todo o reino, os
+senhores doutores Bento Antonio d'Oliveira Cardoso, e Antonio Leite de
+Castro.
+
+É mimoso poeta e dramaturgo, o senhor doutor Antonio d'Oliveira Cardoso.
+
+Tem logar conhecido entre os amadores das boas Lettras, o snr. doutor
+Francisco de Moraes Sarmento, apreciado já, nas suas obras, pelo nosso
+bom e fecundo romancista, o snr. Camillo Castello Branco.
+
+Os que hoje representam os antigos fidalgos do «Berço da Monarchia», são
+todos pessoas estimaveis, caritativas, e uteis. Não existe aqui, onde a
+nobreza é verdadeira, esses enfatuamentos condemnaveis, que só
+prejudicam seus donos. Na casa do mais distincto cidadão vimaranense,
+tem facil entrada, e bom acolhimento, toda a pessoa que lhe bate á porta
+por mais humilde que seja. É tambem por isto, que a nobreza vimaranense,
+hoje como sempre, é por todos respeitada.
+
+Peza a louza do sepulchro sobre as cinzas de tres condes, que, por sua
+popularidade, e importantes cargos que exerceram, deixaram no seu paiz
+honrosa memoria.
+
+Tudo que dizemos, e muito mais que, em verdade, poderiamos dizer de
+Guimarães, tem desafiado a critica mordaz _dos fortes espiritos_ do
+seculo, que a chamam _terra retrógrada_.
+
+É certo, que o progresso material não tem entrado aqui, com a velocidade
+que fôra para desejar; mas nem por isso deixam de ser plenamente
+satisfeitas todas as necessidades da vida. E a cada passo vemos, para
+comprovar a bondade da terra, adoptarem Guimarães, por sua patria,
+muitos estrangeiros, que n'ella encontram estimação.
+
+Conservam-se, é tambem certo, alguns costumes de velhas datas; mas
+n'estes uzos, que os modernistas condemnam, sem bem os avaliarem, ha um
+certo sabôr de patriotismo, que satisfaz, e deleita, aos que não trocam
+o que foi bom, no passado, pelo que é, muitas vezes, futil, e mau no
+presente.
+
+O auctor d'estas Linhas, para que o não acoimem de suspeito, declara que
+nasceu na cidade do Porto.
+
+Fugimos um pouco do principal fim do nosso «conto», chamando os leitores
+para o local da acção, em que elle vae continuar, nos seguintes
+capitulos; mas d'este desvio se podem esquivar os mais exigentes,
+passando em claro as noticias vimaranenses, que damos por concluidas.
+
+ [8] Portugal deu á cadeira de S. Pedro dois naturaes seus: S.
+ Damaso, de Guimarães, e Pedro Hispano, natural de Lisboa, freguezia
+ de S. Julião, que por pouco tempo gosou as honras do pontificado,
+ por morrer de um desastre no sumptuoso palacio, que mandou construir
+ em Viterbo. S. Damaso foi o 39.º na serie dos pontifices romanos:
+ foi-lhe disputada a eleição por Ursino, que as auctoridades civis
+ desterraram, sendo confirmada a legitima eleição de S. Damaso;
+ tambem o inculparam de adultero, mas foi absolvido por um concilio
+ de 44 bispos, reunido em Roma. Entre outras obras de sua iniciativa,
+ contam-se as basilicas de S. Lourenço, e a da Ardeativa, fóra de
+ Roma, mandando concluir outras. Combateu valorosamente as seitas
+ dissidentes, congregando varios concilios, e o ecumenico, em
+ Constantinopla, no anno de 381, ao qual assistiram 150 bispos.
+
+ [9] Em um moderno artigo das «Artes e letras», que tem por
+ epigraphe: «Gil Vicente e a custodia de Belem»--lê-se: «Contemplada
+ a Custodia de Belem e confrontada com a Custodia de prata dourada
+ que se guarda na collegiada da Oliveira em Guimarães, saltava ao
+ espirito a existencia de uma mesma tradicção artistica, de uma mesma
+ escóla. Seria Guimarães que teria influido sobre o gosto da
+ ourivesaria em Lisboa? É certo que a tradição recolhida por Barbosa
+ Machado, dizia que disputavam o nascimento a Gil Vicente, Lisboa e
+ Guimarães. Este criterio nos dirigiu nas investigações, e no
+ manuscripto de Christovão Alão de Moraes, datado de 1667, que tem o
+ titulo de _Sedatura Lusitana_ encontramos estes factos preciosos:
+ «_Martim Vicente, foi um homem natural de Guimarães; dizem que era
+ ourives de prata; não podemos saber com quem casou; só se sabe de
+ certo que teve a Gil Vicente._» Isto já bastava para acreditarmos
+ que o auctor da Custodia de Belem era natural de Guimarães; mas o
+ manuscripto genealogico é mais explicito, e declara-nos que esse Gil
+ Vicente, filho do ourives de Guimarães, é o afamado poeta da côrte
+ de D. João II, D. Manoel e D. João III «_Gil Vicente, filho unico
+ d'este Martim Vicente, foi homem mui discreto e galante_, e por tal
+ foi sempre muito _estimado dos Principes e senhores de seu tempo.
+ Foi o que fez os autos, que em seu nome se imprimiram, e por sua
+ muita graça foram sempre celebrados pelos melhores que se fizeram
+ n'aquelle genero. Está sepultado em Evora._» O gráo de
+ authenticidade que nos merece este manuscripto é irrefragavel; por
+ que Christovão Alão de Moraes datou a Sedatura de 1667, e elle segue
+ esta genealogia até 1668, em que figurava o seu trisneto Manoel
+ Barreto de Pina, que viveu em Torres Vedras, e n'esse anno foi
+ procurador em côrtes.»
+
+ [10] O mesmo artigo a que nos referimos em a nota que falla de Gil
+ Vicente, diz: «... e mesmo em nossos dias o grande gravador de
+ medalhas, José Arnaldo Nogueira Molarinho, representa para nós essa
+ antiga seiva artistica de Guimarães.»
+
+ [11] O sr. Noronha é auctor da musica da «Beatriz de Portugal»,
+ drama lyrico em 4 actos, vertido em italiano pelo sr. Luigi Bianchi,
+ e representado com applauso geral nos reaes theatros de S. Carlos,
+ em Lisboa, e de S. João, no Porto. A letra do drama, é do sr. R. C.
+ M.
+
+
+
+
+V
+
+BABEL DE SABIOS
+
+
+ «Alli se ajunta bando de casquilhos,
+ A que o vulgo mordaz chama rafados;
+ ..........................................
+ Altercam mil questões; promptos contendem,
+ Promptos decidem no que nada entendem.
+
+ (_Nicolao Tolentino de Almeida_)
+
+
+--Antes queremos do de _Basto_, snr.^a Anastacia Mendes, do de Basto,
+que é macio, e tem corpo... Diga-me... todos nós somos de segredo, e
+bisarros mancebos, bem sabe... ha na sua afamada locanda algum _peixe_
+fresco?...
+
+--Que o houvesse, não era para os senhores, que vão comer a melhor
+_carninha_ do meu fumeiro... É dia de jejum, e n'esta casa, louvado
+Deus, ninguem _mistura_...
+
+--Não quer dizer isso, snr.^a Mendes... O que o Andrade pergunta é se
+deu entrada ha pouco, no seu estabelecimento, algum animal da especie
+dos _infusorios_...
+
+--Dos _rotarios_, snr.^a Anastacia, dos rotarios... Este Abreu é da
+mesma força do Andrade... Não sabem classificar as differentes especies
+de viventes, que ha no mundo...
+
+--Pois o Ribeiro, nossa robicunda patrôa, é de egual ignorancia aos que
+censura... A fazenda, que procuravamos é da familia dos _zoophytos_...
+
+--_Medusas_, snr.^a Anastacia, _são medusas_...
+
+--Não é tal, são _radiarios_...
+
+--São _enthelmentes_...
+
+--São _arachnides_...
+
+--São _crustaceos_...
+
+--São _annelides_...
+
+--São _molluscos_...
+
+--São _mammaes_...
+
+--São _amphibios_...
+
+--Só vos esqueceram tres especies, carissimos commensaes, e eximios
+falladores: a dos _insectos_, a dos _peixes_, e a das _aves_...
+
+--Para saber fallar é preciso saber ouvir... E quem és tu, ó mais
+_peixote_ de todos os Peixotos do mundo?!...
+
+--Sou, com vossas licenças, talvez um cavallo, que é o unico animal que
+não sabe lisongear os principes do... talento... _Bias_, um dos sete
+sabios da Grecia, dizia que dos animaes ferozes, o mais temivel, é um
+tyranno; e dos domesticos, o peior, um lisongeiro...
+
+--Que babel, senhora da Boa Hora, que babel!... Os _meninos_ são
+engraçadinhos, mas eu não os entendo... Escutem todos, e _caluda_...
+Chegou hontem _cousa_ de _arregalar_ o olho... Parece, pelo menos,
+_varoneza_... Isso é que ella sabe fallar!... Aquella ha-de entendel-os,
+de certo... E que palminho de cara!... Parece mesmo a _Madanela_ da
+procissão de passos..
+
+--Bravo!...
+
+--Bravissimo!...
+
+--Excellente!...
+
+--Soberbo!...
+
+--Magnifico!...
+
+--Surprehendente!...
+
+--Bom achado!...
+
+--Optima descoberta!...
+
+--Venha essa phenis!...
+
+--Appareça a bella!...
+
+--Surja a estrella polar!...
+
+--Dê entrada a feiticeira encantadora!...
+
+--Queremos ouvir a cantadeira!...
+
+--Venha a nós, a filha d'Eva!...
+
+--Aqui estou, senhores, para matar-lhes a curiosidade, e matar em mim o
+nôjo da vida... Deixe-me com os seus _eruditos_ hospedes, snr.^a
+Anastacia, que eu farei por sustentar a fama dos seus elogios...
+Correspondo ao que de mim lhes disse a nossa _ingenua_ patrôa, senhores
+curiosos!...
+
+--É arrebatadora!...
+
+--Explendida!...
+
+--Sublime!...
+
+--Não busquem outros synonimos, amaveis _sabios_, que já consumiram
+palavras de mais em meu favor... Digam-me só, a que _especie de animaes_
+fico pertencendo agora?...
+
+--Á dos Anjos!...
+
+--Classifica, então, os anjos de animaes, senhor... não sei como deva
+chamar-lhe?...
+
+--Peixoto, o mais furioso dos seus admiradores... E como se chama... _V.
+Exc.^a_? Hade, ia apostar, ter algum nome de flôr, e patronimicos dos
+que entraram na peninsula com o exercito romano... Eu conheço a origem
+de todos os nobres appellidos: uns, procedem dos nomes das terras em que
+viveram os primeiros fidalgos, e n'ellas tiveram os seus solares;
+outros, de feitos assignalados na guerra; outros, finalmente, dos nomes
+de toda a casta de animaes, peixes, aves, e até de instrumentos... Como
+são os seus, minha formosa?
+
+--Quanto ao meu nome, acertou, que é de flôr, e das mais _espinhosas_...
+Appellidos... Diga-me, meu caro snr. _encyclopedista_, os Bandeiras, e
+os Mesquitas, serão dignos da minha... _formosura_?...
+
+--Lê-se, em Severim de Faria, Not. de Port., Disc. III, que o illustre
+portuguez Gonçalo Pires Bandeira, vendo, na _batalha do Touro_, que um
+cavalleiro castelhano levava preza a bandeira real de Portugal, investiu
+com elle, e lh'a tomou das mãos, e a libertou; e por este feito insigne,
+El-Rei D. João II, lhe deu por armas uma bandeira branca, com um leão
+n'ella, de prata; denotando, na bandeira, a real que libertára; e no
+leão, o valor e esforço que mostrára: e assim lhe deu tambem o appellido
+de Bandeira, com que hoje seus descendentes se nomeiam. Diz mais, o
+mesmo auctor, na mesma obra e disc. que quando El-Rei D. Affonso V
+passou á Africa, a tomar Arzilla, o acompanharam cinco irmãos da familia
+dos Pimenteis, naturaes de Villa Real; e como sendo entrada a cidade, os
+mouros se fizeram fortes na mesquita, d'onde faziam grande resistencia,
+sem poderem ser entrados; estes irmãos, tirando os cintos, e atados uns
+nos outros, os lançaram a uma ameia, e subindo por elles, levantaram uma
+bandeira, e por alli foi entrada a mesquita, e mortos os mouros. Por
+este feito tão honrado, lhes deu El-Rei D. Affonso V, por armas, em
+campo d'ouro, cinco cintos vermelhos, com fivelas de prata e tachões, e
+uma bordadura azul com sete flôres de liz; por timbre um meio mouro com
+uma azagaya na mão, e uma bandeira de prata; e por appellido o nome de
+Mesquita. São, pois, nomes bellicosos, que ficam perfeitamente bem a...
+uma leôa...
+
+--Acho-os _encarnados_ de mais... A côr do _sangue_, apesar das _garras_
+com que _V. Exc.^a_ me honra, affecta-me a sensibilidade nervosa...
+Ficarei só com o nome do baptismo... Antes da sua _historica_
+dissertação, creio que estavamos na altura dos... _animaes anjos_?...
+
+--Distingo: existem anjos _animaes racionaes_, desde que a cubiça, ou o
+amor, levou a nossa primeira mãe ao estado de completa nudez, pelo
+peccado commettido no Eden, onde vivia com o seu Adão; desde que um
+moço, das maiores esperanças, se precipitou no mais caudaloso rio da sua
+patria, levando as algibeiras carregadas de chumbo, porque a mulher a
+quem amava, querendo dar-lhe uma chicara de chá, teimou em laval-a
+primeiro, por se ter servido já d'ella para o mesmo effeito; e desde que
+eu, que recebi das Musas a chave de todos os seus segredos, de Minerva o
+cofre de todas as sciencias, e de Marte a _vazilha_ da intrepidez, me
+declaro em ruinas d'um pavoroso affecto pela pessoa de... _V.
+Exc.^a_!...
+
+--O snr. faz-me recordar uma anecdota, que vou contar-lhe: O papa
+Adriano edificou um collegio em Lovaine, no qual mandou pôr a seguinte
+inscripção:--Utrecht me alevantou, Lovaine me deu agua, Cesar me deu
+esplendor;--um curioso accrescentou-lhe por baixo: Só Deus não fez aqui
+nada... Deixo a _moralidade_, á perspicacia do snr... Peixoto...
+Pareceu-me ter-lhe ouvido que assim se appellidava?
+
+--Para em tudo lhe dar prazer, snr.^a... das anecdotas... Sem embargo do
+seu espirituoso apologo, minha bella, continuo a deixar sangrar a veia,
+dando-lhe parte, que os primeiros espelhos foram de metal; que Moysés
+faz d'elles menção; e que Cicero attribue o invento a Esculapio, deus da
+medicina. Foi no tempo de Pompeu, que se fabricaram em Roma os primeiros
+espelhos de prata. Plinio falla d'uma pedra brilhante, provavelmente o
+talco, susceptivel de dividir-se em laminas que, postas sobre um plano
+metallico, reflectem perfeitamente os objectos. Os primeiros espelhos de
+vidro appareceram na Europa no fim das cruzadas: Veneza, que primeiro
+soube fabrical-os, viu enriquecer os seus negociantes, e exportou estas
+manufacturas preciosas, para todos os estados do mundo, onde hoje tanto
+abundam... Só não tenho agora aqui, á mão, um d'esses primores da
+invenção humana!... Queria mostrar-lhe o quanto lhe fez realçar a
+peregrina formosura, a satyra com que tentou emmudecer-me, oh imperatriz
+das bellas!...
+
+--_Copia_ admiravelmente de _memoria_, snr. Peixoto... Sinto dizer-lhe
+que, para _v. exc.^a_, só poderá servir de _espelho_ o lago em que
+_Narcizo_ se namorava da sua esbelta figura...
+
+--Ou o rio em que se reflectia o sabujo, que trocou a preza certa, que
+levava nos dentes, pela sombra que vira na corrente... Póde fallar-me
+com desassombro, que eu tudo sei affrontar pelo amor da mulher, que
+reune, á seducção material, a faisca do genio, com que me apraz
+emparelhar...
+
+--É _nimiamente modesto_, o snr. Peixoto... Contou-me a origem dos
+espelhos, contar-lhe-hei a origem dos _orgãos_... São uns instrumentos
+de _vento_, compostos de _folles_, _teclado_, e grande numero de
+_canudos_... Querem os _chins_, que a invenção de tal instrumento seja
+devida ao seu imperador _Hoang-Ti_, que existio, antes de Jesus Christo,
+2:601 annos... Se estivessemos no seculo 12.º, atrevia-me a chamar a
+_v. exc.^a_ um _magnifico órgão_...
+
+--E porque não, n'este seculo das luzes, e de todos os _instrumentos_
+possiveis?...
+
+--Porque desde o seculo 13.º usam-se orgãos nas egrejas, e os logares
+sagrados não pódem agradar aos... _materialistas_...
+
+--Não me assenta bem o nome, minha arisca formosura, porque o
+materialista não admitte no universo ente algum espiritual; e eu estou a
+reconhecel-o em Guimarães, aqui, n'este logar em que discorremos, na
+pessoa de minha... adversaria...
+
+--Tambem é _diccionarista_?... A definição que acaba de fazer parece-me
+_textualmente_ lida n'um dos modernos diccionarios...
+
+--Serei tudo que quizer chamar-me, menos _plagiario_. São exclusivamente
+minhas as ideias que expendo. Em mim realisa-se o phenomeno da sciencia
+innata. Não roubo alheios pensamentos, antes deixo que me roubem
+descaradamente as minhas famosas theorias sobre...
+
+--Sobre _principios elementares de mathematica_, talvez, em que és
+fortissimo... Ora, acaba com a sécca, que nós tambem sômos gente, e
+sabemos que, duas vezes cinco, sommam dez...
+
+--Deixem-me, apenas, concluir por fazer um convite a esta feiticeira...
+Quer assistir a um baile de costumes, que hoje se dá na casa do _Arco_?
+
+--Como ha-de lograr introduzir-me lá?...
+
+--Acompanhando-a, e dando-lhe uma das senhas, que servem para esse fim;
+e como só se tiram as _caraças_ na occasião da ceia, querendo conservar
+o incognito, retira-se antes d'ella... Serve-lhe?
+
+--Talvez aceite...
+
+--N'aquella, tão tolerante quanto illustre casa, consegues tu realisar
+todos os teus intentos... Se fosse em _Villa Pouca_...
+
+--O Arco é mais popular...
+
+--Será; mas Villa Pouca é mais escrupulosa... O que devéras nos espanta,
+é que tu não peças, _á tua Convidada_, qualquer remuneração pelo favor
+que intentas fazer-lhe...
+
+--Eu não costumo sustentar _assedio_ por muito tempo; costumo, sim,
+tomar as praças _d'assalto_...
+
+E, como para provar a sua fanfarrice quiz o fallador espadachim abraçar
+a joven mulher, que lhe auguara a fôfa verbosidade; mas teve de moderar
+os malcriados impetos, ao simples e carregado aspecto da que assim
+queria ultrajar.
+
+O seu tentamen, foi presenceado por um novo personagem, que, n'aquelle
+momento, déra alli entrada, e que se lhe dirigiu n'estes termos:
+
+--Se quizer, _senhor atrevido_, eu substituo esta senhora, para a
+realisação da sua vontade; e prometto-lhe que, o _abraço_ entre nós,
+ha-de ser dos mais apertados... Desculpem os restantes cavalheiros, que
+não tomaram parte no desejo do insulto, a minha linguagem com o que
+d'elle se queria fazer auctor...
+
+A mulher assim inesperadamente defendida, exclamou, no auge da
+surpreza:--O snr. João?!....
+
+--De Lencastre, accrescentarei, para que estes senhores fiquem sabendo
+que sou _filho d'alguem_...
+
+A donzella Rosa, porque era ella, como o leitor terá adivinhado, após
+uma lucta instantanea, de que ella triumphou para o seu intento, disse,
+sacudidamente, a João Vidal, ou de Lencastre:
+
+--Prohibo-lhe, snr., que toque n'aquelle cavalheiro!... É... o meu
+amante...
+
+--Seu amante!!... Foi, esta ultima exclamação, sahida simultanea e
+admirativamente da bocca de todos os circumstantes; pronunciando-a, com
+indiscriptivel amargura, aquelle que fôra a causa de ella ter apenas
+brincado nos labios da donzella.
+
+Depois de um silencio d'alguns instantes, pediu João de Lencastre, aos
+que alli estavam reunidos, com tão persuasiva eloquencia e vehementedor
+que o deixassem a sós com a donzella, que foi immediatamente por todos
+attendido.
+
+O que disseram, e como se encontraram n'uma casa de libertinagem estes
+dous heroes do nosso «Conto», a seu tempo será explicado.
+
+
+
+
+VI
+
+UM BAILE EM COSTUMES
+
+
+ «David dançou diante da arca da alliança, e nos primeiros tempos da
+ Egreja havia uma dança, que era a demonstração exterior da
+ dependencia das creaturas, e uma expressão primitiva de
+ reconhecimento.»
+
+ «O sabio e sisudo Socrates era summamente apaixonado pelas danças,
+ que lhe ensinára Aspasia.»
+
+ «O grave e carrancudo Catão, aos 60 annos, tomou mestre de dança,
+ para poder apparecer convenientemente nos bailes.»
+
+ (O PANORAMA DE 1837)
+
+
+Abrira a nobilissima casa do _Arco_ os seus salões ao publico:
+dizemos--_ao publico_--, porque, o cavalheiro titular seu dono, era
+prodigo nos seus convites, como em todas as suas nobres acções. Dentro
+do seu palacete, nenhum dos seus convidados gosava de superioridade:
+todos eram iguaes, pelo tracto que recebiam; e se alguem, estranho á
+terra e ás pessoas alli reunidas, houvesse de notar algum acanhamento,
+isto é, menos liberdade em todas as suas acções, apontaria o distincto
+fidalgo que recebia. Tal foi sempre o especial condão de toda aquella
+sympathica familia, para pôrem á vontade os seus convidados.[12]
+
+São tres os salões de baile, todos ao correr, havendo de cada lado do
+ultimo d'elles, e ao mesmo nivel, um lindo terraço ajardinado: para o do
+meio, dá entrada um soberbo salão de espera, com duas varandas, sobre o
+arco, que olham para a rua, assim como os terraços. Ao salão de entrada,
+e em sentido opposto aos do baile, seguem-se outros, parecendo todos,
+olhando-se do ultimo d'elles para os do baile, um--T.--De sorte que, a
+pessoa collocada no salão do meio defronte da porta da entrada, vê todos
+os salões e os terraços. A entrada do palacete é por uma larga e bem
+construida escadaria de pedra.
+
+N'este baile, onde se vão dar algumas scenas do nosso «Conto», foram
+permittidas as _caraças_, tendo-se distribuido bilhetes, para os que
+assim quizessem conservar o incognito, por algum tempo, e animar a
+reunião com freneticas danças, e brinquedos innocentes.
+
+Desde a escada até ao ultimo salão, como nos terraços que, pela profusão
+de luzes, se não sentia a falta do dia.
+
+O mais exigente dos convidados, deparava, no seu logar, com os objectos
+que lá devessem apparecer.
+
+Antes de affluirem os encaretados, já se viam, no principal salão, as
+nobres senhoras intimas da casa; o respeitavel senhor d'ella; Sebastião
+da Mesquita; Arthur Soares; Leopoldo, e seu irmão João de Lencastre.
+Estes nossos personagens foram alli hospedes, como parentes.
+
+Completo o ajuntamento, era bello de vêr-se.
+
+Aqui, um grupo de senhoras vestidas de camponezas dos arrabaldes de
+Guimarães, com as saias de muita roda, os capotilhos de fina baêta
+encarnada com as pontas crusadas no peito, e atadas nas costas, os seus
+grossos cordões, e immensas arrecadas de ouro,--offereciam confeitos, e
+raminhos de violetas.
+
+Alli, os descuidados e jovens lavradores, com as suas fardetas azues de
+botões amarellos, camizas de linho bordado, e o inseparavel varapau, que
+lhes servia de encosto para contemplarem as suas namoradas, tendo cada
+um o braço esquerdo estendido sobre o pau, e a perna direita crusada
+sobre a esquerda.
+
+Além, a irrequieta vivandeira, acompanhada de seu militar; o sevéro
+magistrado assestando a luneta; o antigo fidalgo portuguez de rabicho
+empoado, e de casaca e calções de setim bordado; matrônas respeitaveis,
+e jovens senhoras vestidas á época, no melhor gôsto, ostentando a antiga
+e bem merecida fama das formosas vimaranenses, e mostrando, pelas joias
+de subido preço, que as adornavam, o esplendor e nobreza de suas
+familias.
+
+Rompeu o baile por uma scena campestre das que no Minho, a mais poetica
+provincia de Portugal, se notam com frequencia, e se apreciam sempre.
+
+Dos grupos camponezes foi composta uma _tocata_, de rebecas, clarinetes
+e banzas; havendo um cantador, e uma cantadeira que, depois d'outros
+improvisos do seu _desafio_, concluiram assim:
+
+ «Foi o velho rei David,
+ o primeiro dançador;
+ vamos nós tambem dançar,
+ cada um com o seu amor.
+
+ «Fazes mal, linda Maria,
+ convidar em lar alheio;
+ do temôr e d'altivez
+ a virtude jaz no meio.
+
+ «Não te pedi o conselho,
+ e vem tarde a correcção;
+ quem á festa convidou,
+ agradece a minha acção.
+
+ «O fidalgo que dá festa,
+ incapaz é de ralhar;
+ mas o sabel-o não deve,
+ ser motivo p'ra abusar.
+
+ «Digam todos que me ouvem,
+ se eu me quiz entremetter;
+ seja a resposta o signal,
+ para a gente s'entreter...»
+
+E começou o baile, vivo, animado, delirante.
+
+Nos pequenos intervallos do bulicio dançante, e em quanto eram servidos
+os convidados, tinham logar as _intrigas_ ou, sem cheiro de gallicismo,
+as mystificações.
+
+A _vivandeira_, sempre pelo braço do _soldado_, fôra a que mais valente
+se tornara em phrases de mystificar. Dirigindo-se a todos os grupos,
+simultaneamente, e procurando dar á voz esse tom desconhecido que, nos
+bailes d'esta ordem, faz parecer igual o metal de todas as vozes,
+conseguiu, em pouco tempo, chamar sobre si todas as attenções. Além da
+agudeza e propriedade dos seus dizeres, concorreram tambem, para um tal
+resultado, a notavel elegancia da vivandeira, e o porte pretencioso e
+audaz do militar seu companheiro.
+
+A Leopoldo, fallou a vivandeira assim:
+
+--Porque não está aqui tua mulher?...
+
+--Porque está n'outra parte... Tu querias conhecêl-a?
+
+--Conheço-a, e conheço-te... Ella é uma creatura angelica, e tu és um
+marido ao qual assenta bem o adagio portuguez, que diz: «Horta sem agua,
+casa sem telhado, _marido sem cuidado, de graça é caro_...»
+
+E finalisando com uma risadinha aquella allusão, foi dizer a Arthur
+Soares:
+
+--Conheço a origem da sua habitual tristeza, cavalheiro... Pensa... _na
+dôr de Maria_...
+
+--E não lhe parece motivo de grave meditação o soffrimento da Virgem?...
+
+--Ha dôres muito semelhantes, que não merecem ao cavalheiro o menor
+cuidado...
+
+--Porque talvez as desconheça...
+
+--Não: é porque se não póde dividir _o __sentimento forte_...
+
+--E, quando seja assim, o culpado sou eu?...
+
+--Não é culpado, mas é _causa de culpas_... Quando as conhecer, saiba
+comprehendel-as e desculpal-as... Adeus!
+
+Prepassou rapidamente por junto de João de Lencastre, e disse-lhe:
+
+--A palavra do homem de bem é sagrada: conto com o seu silencio...
+
+Em seguida foi collocar-se, sempre pelo braço do soldado, em frente de
+uma distincta senhora, á qual dirigiu a palavra n'estes termos:
+
+--Por este meu companheiro, fui rogada, para dizer a v. exc.^a uma
+impertinencia: desejava _pagar-lhe o beneficio_ de me trazer a este
+baile... Dá licença que eu falle, minha senhora?...
+
+--Dizia minha avó, que _triste da casa, onde a gallinha canta, e o gallo
+calla_... Mas como é para ser _pago_ um favor, venha de lá a tua
+impertinencia...
+
+--Digo, fielmente, as palavras que me ensinaram: «_Queimou-se a fôrca,
+cahiu o tyranno_».
+
+--Pena foi que elle cahisse, e ella se queimasse, antes de ter lá subido
+o atrevido que te ensinou...
+
+--Eu, minha senhora, não tomo a mais pequena parte...
+
+--Acredito, dei-te licença, e não te quero mal. Aconselho-te, porém, que
+te desquites d'esse companheiro: os da sua laia, substituiram a _fôrca_
+pelo _punhal_, que é mais leve, _traiçoeiro_, e menos _apparatoso_...
+
+O _careta_ vestido de magistrado, que ouvira o dialogo precedente, disse
+ao _fidalgo antigo_, que estava ao seu lado:
+
+--Conheces aquella senhora, que respondeu á vivandeira com tanta
+vivacidade?
+
+--Não é a viuva irmã do dono da casa?
+
+--É. Que juizo fórmas da sua alma?
+
+--Parece que não desgostaria de vêr continuar a _pernear_ os
+_malhados_...
+
+--Como te enganas!... É a alma mais completa e mais sublime, que sahiu
+das mãos do Creador. As suas acções, são uma perfeita antithese das suas
+palavras...
+
+A vivandeira, livre já do peso sob que parecia vergar com a commissão do
+companheiro, procurava alguem com anciedade. Percorridos todos os
+salões, sem encontrar quem desejava, foi a um dos terraços, onde
+Sebastião da Mesquita passeava, parecendo alheio á festa. A
+_vivandeira_, mal que o vira, despediu bruscamente o soldado, e
+dirigiu-se ao velho fidalgo:
+
+--A tristeza de que v. exc.^a está possuido, procede do conhecimento da
+_fuga inesperada_ de uma donzella, companheira de infancia de sua
+exc.^ma filha, não é verdade?...
+
+--Não conheço quem me interroga, nem sei quaes sejam os direitos que
+julga ter para me interrogar...
+
+--Queria... desejava dar cumprimento a uma vontade e pedido da pessoa a
+que me refiro... Se V. Exc.^a désse licença...
+
+--Tirando primeiro esse panno que lhe cobre a cara, póde fallar.
+
+--É que... para o que tenho a dizer e a fazer, posso conservar o meu
+incognito... É só pedir, em nome _d'ella_, perdão a V. Exc.^a se algum
+desgosto lhe causou com o seu procedimento, e beijar-lhe a respeitavel e
+bemfeitora mão...
+
+--João, Arthur, meus amigos, venham cá!... É preciso obrigar esta mulher
+a descobrir a cara...
+
+--Senhor!... Uma tal violencia, sem auctorisação do cavalheiro dono da
+casa...
+
+--Quero-o eu!...
+
+A estas vozes, demasiado vivas, acudiu gente das salas, que
+repentinamente conheceu a origem da altercação.
+
+A senhora, que déra licença á vivandeira para lhe dizer _uma
+impertinência_, foi a que primeiro a protegeu:
+
+--Estranho que o primo Sebastião, um consummado fidalgo e cavalheiro,
+tentasse fazer violencia a uma fraca mulher... Esta pequena, senhora ou
+burgueza, fica, desde este momento, considerada como se fôra minha
+filha!... Conserva o teu incognito, que ninguem agora se atreverá a
+descobril-o...
+
+--Se V. Exc.^a quer, snr.^a condessa, eu levo comigo essa menina para o
+convento...
+
+--Obrigado, Eulalinha, pelo teu bom desejo. És uma criança tão formosa
+do corpo como da alma: Deus ha de proteger-te.
+
+--Mas, minha boa irmã, V. Exc.^a bem sabe que devemos ao primo e snr.
+Sebastião da Mesquita, toda e qualquer satisfação que elle peça; não só
+pela qualidade da pessoa que é, como por ser nosso parente, e meu
+hospede... Talvez que essa creatura o offendesse, e...
+
+--Um homem, como nosso primo, nunca póde dar-se por offendido pelo que
+lhe faça, ou diga, uma infeliz mulher... É a primeira vez, que ouço
+fazer distincção ao meu excellente irmão das _qualidades_ dos seus
+convidados... V. Exc.^a não se considerou, para assim fallar, o dono
+d'esta casa...
+
+--De certo que não, nem podia, estando V. Exc.^a aqui.
+
+--N'esse caso, eu já dei as minhas ordens.
+
+--V. Exc.^a minha respeitavel thia e senhora, concede-me a honra de ser,
+no resto da noite, o cavalheiro d'essa dama?
+
+--Agradeço-te a boa e fidalga intenção, meu presado sobrinho e snr. de
+Pindella. Has de vir a ser competentissimo para todas as nobres acções,
+assim o espero em Deus; mas és ainda muito novo para um protector.
+
+--E para mim, prima condessa, não serão estas cans fiança sufficiente
+para receber a honra, que lhe pediu seu illustre sobrinho?
+
+--A V. Exc.^a, meu presado primo e snr. de Villa Pouca, que reconheço
+habil para tudo que seja nobremente arrojado e distincto, peço até a
+especial graça de conduzir, quando ella quizer, esta minha protegida á
+sua habitação...
+
+--Nobres senhoras, e amaveis cavalheiros!... Penhorada em extremo pelos
+favores e attenções, que me dispensam, não posso deixar, comtudo, de
+pedir-lhes, que reformem completamente qualquer juizo menos favoravel,
+concebido pelo procedimento do snr. Sebastião da Mesquita... Só quem o
+não conheça, o poderá considerar capaz de uma acção menos nobre...
+Aquelle respeitavel ancião, que nem talvez ouvisse do que VV. Exc.^as o
+accusaram, está soffrendo intimas dores, como paga da sua generosa
+bondade para comigo... Adoptou-me, e tratou-me como sua filha, e eu fugi
+repentinamente da sua vigilancia e carinho!... Procurei vir aqui, a este
+baile, só para vêr aquelle venerando velho, e beijar-lhe a bemfeitora
+mão... Queria fazel-o sem me dar a conhecer, e foi a minha teimosia em
+conservar o incognito, que o fez alvo de injustiças, que não merece!...
+De joelhos, e com a cara descoberta, lhe pede perdão de tudo esta
+infeliz, snr. Sebastião da Mesquita!...
+
+--Rosa!!... Como póde conservar os sentimentos que acaba de manifestar,
+a mulher que... que eu não conheço!...
+
+E Sebastião da Mesquita, assim fallando, virou as costas á donzella,
+retirando-se vagarosamente.
+
+O baile continuou ainda por muito tempo, um pouco frio após estas
+scenas, e, para o fim, com a mesma animação do comêço.
+
+As dôres alheias, não tolhem as festas dos felizes.
+
+ [12] Quando a snr.^a D. Maria II visitou o Minho, o sr. duque de
+ Saldanha, que fazia parte do séquito da rainha, foi hospedar-se em
+ casa do fallecido snr. do _Arco_. Constou ao povo, que o palacete
+ estava custosamente adornado, e agglomerou-se á porta, para o vêr:
+ os criados, não deixavam entrar; mas o illustre, e sempre chorado,
+ titular, deu-lhe entrada franca, não consentindo que se despojasse
+ dos seus _tamancos_, embora lhe inutilizasse riquissimos tapetes.
+
+
+
+
+VII
+
+TORMENTOS INTIMOS
+
+
+ «Correu-me a vida outr'ora delirante,
+ Tive faceis amores, ledas glorias,
+ Julguei-me um dia amado e outro amante,
+ Sonhei promptas victorias,
+ E vi, em limpo céu formoso e puro,
+ Brilhante erguer-se o vulto do futuro.
+ Tumulto, agitação, rumor, bulicio
+ Compoz o meu viver.--Mas eis que um dia
+ Paro e vejo o tremendo precipicio--
+ A vida, que vivia,
+ Era vida ficticia e descorada...
+ Um pouco de sussurro--e ao cabo... o nada!»
+
+ (SILVA LEAL JUNIOR.--PRIMAVERA.)
+
+
+Logo que João de Lencastre chegou á falla com Sebastião da Mesquita,
+depois de lhe dar a rasão por que Arthur e Leopoldo o acompanhavam, e de
+lhe dar conta da entrega do dinheiro e onde ficara D. Maria da Gloria,
+occultando-lhe a parte que dizia respeito a Arthur Soares, porque este
+muito lhe rogara que assim procedesse,--noticiou-lhe Sebastião da
+Mesquita, com intimo pesar e viva inquietação, a fuga precipitada da
+donzella Rosa, encarregando-o de descubrir a sua paragem, e de saber os
+motivos que a determinaram a deixar a casa paterna, lançando sobre si
+indelevel estigma.
+
+Não ficou o antigo escudeiro menos perturbado com a noticia, do que se
+mostrava o velho fidalgo ao dar-lh'a: preparava-se para ir procurar a
+donzella por toda a parte, quando um dos constantes visitadores da casa
+do Arco, muito fallador, e do numero de sujeitos que facilmente se
+relacionam com toda a gente que os quer ouvir, lhe deu, como novidade
+importante, a da chegada á terra de uma _rapariga de truz_, que parecia
+ser de _facil accesso_, pela pousada que escolhera, descrêvendo-a com
+toda a minuciosidade.
+
+Agradeceu João a Deus, a veia falladora d'aquelle homem, que lhe poupára
+muitas fadigas; e não o enganou a sua esperança, porque era
+effectivamente Rosa a inculcada mulher, que elle foi encontrar na casa,
+e na occasiâo, descripta no capitulo--«Babel de Sabios.»
+
+Depois que João conseguira fazer retirar os _petisqueiros_ adoradores de
+Rosa, e ficara só com a donzella, empregára, para a obrigar a fallar,
+persuasivos e sentimentaes discursos, orvalhados, por mais d'uma vez,
+com lagrimas de mal escondida affeição. Foi tão eloquentemente
+irresistivel, que a donzella confessou-lhe tudo: disse-lhe, que fugira
+do seu lar, e abandonára a protecção e carinho dos nobres fidalgos seus
+paes adoptivos, porque não podéra por mais tempo ter occulto no peito o
+seu affecto por Arthur Soares, affecto que d'ella se apoderára por tal
+arte, que só pela morte ou pela doudice podia terminar. Que sabia a
+existencia de um amor, igualmente invencivel, entre Arthur Soares e D.
+Maria da Gloria, senhora que ella amava como irmã; e que, para não
+prejudicar com algum irreflectido procedimento seu estes amores,
+resolvera fugir, e dar-se como _perdida_, embora tambem estivesse
+resoluta na sustentação da sua virtude, mesmo no meio dos mais
+arriscados perigos.
+
+João Vidal, ou de Lencastre, que a escutára com a maior attenção, depois
+de um longo silencio, significativo de intimas dores, disse á donzella,
+que não podendo deixar de ser já um facto conhecido do publico, a sua
+fuga e paragem n'um local de descredito, inuteis se tornavam todas as
+reflexões tendentes á demonstração do êrro de um tal passo; mas que elle
+via um meio seguro, e menos arriscado, de tudo se fazer como a donzella
+queria. Que pelo casamento d'ella Rosa, ficavam igualmente livres os
+amores de sua irmã adoptiva, não se expondo a donzella á lucta terrivel
+que começara; lucta que, mesmo victoriosa que d'ella sahisse, lhe havia
+de trazer necessariamente a perca da sua boa reputação: que elle possuia
+um nome, e uma pequena fortuna, e que, se podéssem esquecer os 40 annos
+da sua idade, no seu coração havia logar para a entrada de um sentimento
+sério.
+
+Rosa, respondeu-lhe commovida, que não era digna de semelhante honra;
+que apreciava devidamente o seu brioso e caritativo proceder, e que lhe
+devia por elle o nome de irmã, com a santa amisade de um tal titulo.
+
+Foram baldados todos os esforços, que João empregára para demover a
+donzella do seu proposito, e combinaram o guardar-se absoluto segredo
+ácerca do que entre elles se déra.
+
+No dia seguinte ao do baile, alugou João de Lencastre uma casa, situada
+defronte d'aquella a que a donzella regressara; e despediu-se de
+Sebastião da Mesquita, dizendo-lhe que acompanhava Arthur Soares ás
+_linhas_ do Porto, onde eram precisos braços leaes para a sustentação da
+causa do povo; sendo-lhe facil o convencer Arthur de que partisse sem
+elle, com promessa de lá ir ter, logo que podésse fazel-o; e recolheu-se
+secretamente á morada que alugára, para de lá espiar as acções de Rosa.
+
+Arthur Soares, caminho do Porto, levava enluctado o coração. Sabia que
+era amado por D. Maria da Gloria; já se havia acostumado áquelle
+affecto, o unico da sua existencia; mas não podia desterrar de si o
+convencimento de que a fidalga lhe não podia ser dada por esposa. Era
+certa, e bem manifesta, a estima que lhe dava seu padrinho; mas essa
+estima, considerava elle mais como uma protecção das que usam conceder
+os nobres senhores aos que d'ella carecem, do que amisade verdadeira,
+que iguala e estreita os homens por laços fraternaes: possuia muitas
+provas do desapparecimento de affeições iguaes á que lhe concedia o
+fidalgo, logo que, pelo considerado e protegido, fosse ferido o orgulho
+de raça do protector. Pedia, pois, a Deus, que a sorte da guerra lhe
+désse occasião de elevar-se até poder chegar a D. Maria da Gloria, ou de
+fazel-o descer ao esquecimento eterno, com a gloria dos bravos por
+mortalha.
+
+Leopoldo, cuja presença, na illustre casa da hospedagem commum, fôra
+tolerada por Sebastião da Mesquita em deferencia ás conveniencias
+sociaes, regressava tambem ao exercito da rainha, o grosso do qual se
+achava então em Coimbra, commandado pela primeira espada portugueza do
+nosso tempo.
+
+Podia chamar-se um cadaver ambulante, o fidalgo militar, tal era o
+sombrio e estragado aspecto da sua pessoa. O soffrimento d'este
+desgraçado, que amava sem esperança, e que odiava por ciumes, era um
+severo castigo da Providencia. Caminhava para onde o chamava o dever,
+movido mais por um resto de brios, do que por empenho, e vontade, de
+servir a causa a que se devotára, depois de ter renegado a popular:
+n'elle só havia bem fixo, o sentimento do seu tormento intimo.
+
+Sebastião da Mesquita, chorava com lagrimas paternaes a má sorte a que
+se entregára a donzella Rosa. Arrependera-se do seu arrebatamento no
+baile, desejára poder remedial-o, receber nos braços a donzella,
+perdoar-lhe a primeira leviandade, acolhel-a de novo, talvez ainda
+innocente e pura, e estorvar assim a quéda infallivel, e horrenda, da
+que elle considerára sempre como sua filha. Mas era já tarde; e o seu
+natural orgulho não lhe consentia desmentir, com um procedimento
+contradictorio, o severo porte de que usara publicamente.
+
+Este facto, a par da violenta dôr que lhe entorpecera as forças
+physicas, fizera pensar Sebastião da Mesquita, com muita gravidade, no
+futuro de sua filha Maria da Gloria.
+
+Por maior que seja a confiança que se deposite no caracter e virtudes de
+uma filha, quando vemos no caminho da perdição outra mulher, que nos é
+cara, lembra-nos logo a possibilidade de um desvio, e queremos
+remedial-o com prevenções, algumas vezes, e não poucas, com bem peiores
+resultados do que haveria no imaginado mal, que tentáramos evitar.
+
+O velho fidalgo, depois de ter conferenciado com varios cavalheiros do
+berço da monarchia, onde se deteve pelo prostramento em que estava,
+escreveu a D. Maria da Gloria uma carta d'este theor:
+
+
+ «_Minha muito presada Maria_:
+
+«O meu paternal carinho, leva-me a pensar que seja tempo de escolher-te
+um esposo digno de ti, que possa, na minha falta, proteger-te
+socialmente contra as ciladas sempre preparadas para as donzellas do teu
+merecimento, e do teu dote. Aqui, n'esta antiga e gloriosa terra de
+Guimarães, presumo eu que existe o que nos convém. Convido-te, pois, a
+que venhas quanto antes ter comigo, para avaliares por ti a competencia
+da minha escolha.
+
+«Ainda hoje recebi carta da tua santa e respeitavel mãe, que é sempre o
+bom anjo do nosso lar. De certo tambem sabes, que ella está de boa
+saude, por que não haverá dia em que te não escreva, como á pessoa que
+ella mais ama.
+
+«Recebe a benção, e uma saudade, do teu extremoso pae,
+
+ _Sebastião._»
+
+
+D. Maria da Gloria, embebida nos fagueiros sonhos de um futuro risonho,
+a que aspirava pelo seu amor a Arthur Soares, e entretida a desvanecer,
+com expansivas provas da sua amisade e bom juiso, os dissabores da sua
+discipula Anna, que todos eram a quasi certeza de não ser já amada por
+Leopoldo, nem por sombras podia prever a fatalidade de que estava
+ameaçada, com aquella ordem paterna.
+
+O padre Alvaro, continuava a sua vida de oração e penitencia. Pastor
+exemplar, possuia o acrisolado amor das suas ovelhas, porque sabia
+praticar, para com todos, a caridade que aprendêra de Christo. Ainda
+assim, soffria constantemente, e muito. Havia uma campa na sua parochial
+egreja, ao pé da qual elle esquecia o filho idolatrado, as suas
+penitencias, o seu evangelico proceder, para tão sómente se recordar de
+que fôra peccador.
+
+Feliz, quanto se póde ser n'este patrimonio de Eva, de todos os
+personagens do nosso «Conto», só era a respeitavel e bondosa matrona, D.
+Isabel de Abendanho, que tinha fechada a sua existencia em aldeia
+pacifica, e resumidas as suas ambições na direcção do seu casal, no
+respeito e amisade ao esposo, e no elevado amor a sua filha.
+
+
+
+
+VIII
+
+A MULHER CAHIDA
+
+
+ «A justiça de Deus lhe infundira no coração abundancia de remorsos,
+ e a dos homens lhe entornava sobre a fronte amplo vaso farto de
+ ignominia.»
+
+ (_A. H._--Fragmento de um livro inedito.)
+
+
+Por mais que os homens doutamente célebres de todos os seculos tenham
+querido collocar essa formosa e apreciavel parte do genero humano--a
+mulher--na altura que lhe é devida, nunca a fonte sublime do amor, a mãe
+e o apoio da meninice, o esteio da vida, deixou de ser conduzida por nós
+a todos os sacrificios: raro é o homem que se aproxima da mulher sem que
+a macule; e feita escrava de seus caprichos, é a deshonra e o
+villipendio, que lhe dá em premio!
+
+A mulher, na sua juventude, só ambiciona o nosso amor; alinda-se para
+agradar-nos, e nós damos-lhe, em vez do que nos pede, a paixão material
+que a enlameia: consome-se, para conservar-nos, em sua idade adulta,
+porque nos alimenta a seus peitos, arruinando a sua belleza; e nós
+córamos de um pejo infame, se a maternidade não teve logar dentro de
+umas certas condições sociaes, que nos imprimem a _legitimidade_:
+levanta as mãos ao céu na velhice, porque a mulher é naturalmente
+religiosa, dedica os ultimos annos de sua vida a orar por seus paes, por
+seus filhos, por todos os desvalidos; e nós alcunhamol-a de impostôra e
+de bruxa!
+
+Existiram sempre _philosophos_, escassos de comprehensão, e mal avindos
+com a mulher, que attribuem a esta preciosa parte da nossa existencia o
+vicio do sensualismo, que nos provoca. Covarde mentira!
+
+A perversão da moral, e o desenfreamento das vis paixões, tem sido, em
+todos os tempos, o resultado forçoso de infinitas circumstancias, em que
+a mulher não toma parte.
+
+A corrupção da Grecia, como a romana sua filha, teve origem na
+philosophia de Epicuro, nos mancebos que a seguiam, e não nas
+vilipendiadas matrônas d'aquellas nações.
+
+Antes das torpezas de Messalina, já Cesar tinha manchado o seu thálamo
+imperial.
+
+Seriam as mulheres culpadas nos crimes, que abrazaram as duas cidades
+nefandas, de que nos falla o Génesis?!
+
+Corteja-se a formosura da mulher; empregam-se aleives para seduzir a
+incauta; fazem-se promessas mentirosas; servem todas as villezas ao
+nosso proposito: um, é o dilecto de seus carinhos, e consegue o seu
+amor; aconselha-lhe a fuga da casa paterna; cerca-a de algumas
+commodidades passageiras; sacia-se; desampara-a; precipita-a na
+profundeza da desventura; deixa-a na miseria, e no desabrigo de toda a
+consolação humana!
+
+A nudez e a fome, tomam então logar juncto ao umbral solitario da
+infeliz!... Que lhe resta?!... Vender-se!... Pedir ao primeiro que
+passa, que lhe estampe na fronte o ferrete do aviltamento pelo óbulo da
+infamia!...
+
+Depois, as dissoluções, a velhice prematura, a miseria e a doença!...
+
+Depois, a enxerga da caridade!...
+
+Depois, a valla commum do cemiterio!...
+
+Depois, nem uma só lagrima que lhe aqueça as cinzas; nem uma só flôr no
+seu jazigo; ninguem que ore por ella a Deus!...
+
+E o _elegante seductor_?...
+
+Passou a fazer novas _conquistas_; gastou o melhor do seu vigor e da sua
+fortuna, em atirar com muitas irmãs na desgraça ao lado da sua primeira
+victima; pensou mais tarde em casar-se; escolheu _convenientemente a
+esposa_, fez-lhe a _mercê_ do seu nome e, para vingar-se de uma
+_affronta_, que _não podia_ ter o seu perdão, assassinou a mulher
+adultera!...............................................................
+
+Rosa, luctava com animo viril contra as tentações de todo o genero de
+que se via rodeada no bordel a que voluntariamente se acolhêra.
+Eram-lhe, porém, já muito pesadas essas luctas desiguaes. Mais ainda que
+os atrevimentos e ciladas dos vadios frequentadores d'aquella casa,
+causavam asco á virtuosa donzella as suggestões das infelizes do seu
+mesmo sexo, pervertidas até ao extremo de tentarem chamar ao seu grémio
+as que não tinham mácula.
+
+Principiava a entrar na alma de Rosa o arrependimento do passo
+precipitado a que se abalançara. Conhecêra, ainda que tarde, a borda do
+precipicio em que estava, receiava pelas suas forças, e tremia de não
+saber como fugir-lhe.
+
+Uma noite, foi a donzella mais atacada pelo terror: pareceu-lhe, a
+deshoras, ouvir estranhos rumores, fóra do seu pequeno e pessimo quarto.
+A pouca segurança da porta, e da fragil fechadura, augmentava o receio
+da donzella: apromptou luz, e vestiu-se.
+
+O rumor aproximou-se, a porta foi violentada, e Rosa agarrada fortemente
+pelos pulsos:
+
+--Não esperava esta desfórra do seu _militar_, amavel _vivandeira_?!...
+
+--Deixe-me... largue-me... acudam!...
+
+--Não espante as pulgas, menina... _Esta boa terra dorme toda ás nove
+horas_, e já passa da meia noite... Só poderia esperar beneficio da
+minha generosidade, e eu, confesso, não tenho o fraco de generoso...
+
+--Não realisará a malvadez que intenta, em quanto eu tiver um sôpro de
+vida...
+
+--É o que vamos a vêr...
+
+E o malvado homem empregava todas as suas forças, em dobrar a mulher,
+que não podéra seduzir.
+
+Rosa, debatia-se com toda a furia e, mais que outra qualquer, resistira
+por muito tempo.
+
+Quando estava proxima a matar-se ou a ser preza do infame, quebrou-se
+repentinamente um vidro da janella, e varanda, que dava para a rua,
+abriu-se a porta d'ella, e penetrou no quarto um homem, possesso da
+furia do leão, que descarregou sobre a cabeça do aggressor uma
+fortissima pancada, com o castão de um chicote de força, estendendo-o
+logo sem accordo de si.
+
+--O snr. João de Lencastre!!... Oh, leve-me d'aqui!... Salve- me!... A
+mais forte das mulheres, cercada d'estas infamias, é impotente e
+fraca!... Agora o conheço!... Mas... como appareceu tanto a
+proposito?!...
+
+--Habito aquella casa, alli defronte, e estava sempre de vigia, e
+preparado com uma taboa forte e larga, para lançar da minha janella á
+varanda d'esta casa, quando, como agora succedeu, lhe fosse necessaria a
+protecção de... seu irmão, senhora...
+
+--Que nobre alma a sua, João!... Vamos... deixemos este inferno, e em
+sua casa combinaremos o que deva fazer-se...
+
+
+
+
+IX
+
+O PERIGO DAS CARTAS
+
+
+ «......e bem se manifesta,
+ Que são grandes as cousas, e excellentes,
+ Que o mundo encobre aos homens imprudentes.
+
+ (_Camões_--LUSÍADAS.)
+
+
+D. Anna e D. Maria da Gloria, passavam as horas em longos desafógos e
+amigaveis confidencias, suavisando assim as saudades e as mágoas que
+soffriam. Nas suas respectivas posições, não era aquella a epocha mais
+infeliz da vida das duas amigas. Quando podêmos depositar em peito amigo
+o que nos impressiona, quasi desapparece o pesar que sentimos, pelo
+allivio que nos dá a certeza da partilha na dôr.
+
+Estava, porém, marcado pelo destino, que poucos deviam ser os momentos
+de quietação, para as heroinas do nosso «Conto».
+
+A carta que Sebastião da Mesquita escrevera á filha, viera terminar o
+gôso das confidencias, e tornal-o em prantos amargos. Para D. Maria da
+Gloria, o ser forçada a casar-se com outro homem, que não fosse Arthur
+Soares, era peior do que a morte. Sabia-o D. Anna, que tomou uma
+deliberação arrojada, para salvar a sua amiga, sem lh'a communicar.
+Mandou um expresso a Arthur Soares, com uma carta d'este theor:
+
+
+ «_Meu presado irmão adoptivo_:
+
+«Confiada no seu cavalheirismo, de que já possuo bastantes provas, ouso
+pedir-lhe que venha a esta sua casa, logo após a recepção d'esta minha
+carta. Leopoldo está ausente, como sabe, e _nós_ esperamos o snr. Arthur
+_com a maior anciedade_.
+
+ _Anna_.»
+
+
+Isto feito, tratou de convencer a sua mestra, e amiga, de que devia
+accusar ao pae a recepção da carta, e dizer-lhe que estava doente, e que
+cumpriria as suas ordens, logo que o seu estado de saude lhe permittisse
+fazel-o; porque assim ganhava tempo, que podia muito bem mudar a face
+dos acontecimentos. D. Maria da Gloria, inhabil para o raciocinio,
+sujeitou-se a tudo quanto lhe ensinuou a sua amiga.
+
+Por este tempo, marchava sobre as linhas do Porto, o general em chefe
+das tropas da rainha, com o grosso do seu exercito.
+
+As tropas da junta provisoria do governo supremo do reino, haviam
+soffrido desastres, sendo, o mais notavel, a _incomprehensivel desgraça_
+de Torres Vedras;[13] mas as activas e energicas providencias dos homens
+do governo, juntas á dedicação popular pela sua causa, tudo remediavam
+como por encanto. Em vez de diminuir, augmentava o numero de soldados,
+por cada batalha que se perdia!
+
+E apesar dos desastres, do grande dispendio com as reorganisações do
+exercito, e de só pagarem tributos moderados os povos sujeitos ao poder
+da junta, poude esta exemplar quanto energica governação decretar, entre
+outras medidas de bom senso e muito alcance, e de algumas pensões
+avultadas, _que as mulheres dos officiaes prisioneiros na batalha de
+Torres Vedras recebessem uma prestação mensal de 12$000 reis, e as das
+praças de pret 60 reis diarios, em quanto seus maridos estivessem em
+poder do inimigo_.[14]
+
+O quartel general do real exercito estava em Oliveira de Azemeis: foi
+escolhido um official para commandar uma força, que fosse em
+conhecimento junto das linhas do Porto, e recahiu essa escolha em
+Leopoldo. Ao saber-se da aproximação de forças inimigas, tocou a rebate
+dentro dos muros da cidade invicta, e as linhas foram immediatamente
+guarnecidas em fórma.
+
+Arthur Soares, commandava uma companhia de voluntarios da guarnição, que
+occupava, casualmente, o lado da estrada de Lisboa. Conhecida a pequenez
+da força inimiga, os insoffridos populares saltaram as linhas, e foram
+atacal-a. Arthur quiz, mas não o conseguiu, conter os do seu commando.
+Havia recebido ha poucos instantes a carta de D. Anna, e não podia, nem
+queria, arriscar temerariamente a vida n'aquella occasião. Anciava que
+terminasse aquelle passageiro incidente da guerra, para correr ao
+chamamento da sua companheira de infancia. Batia-lhe apressado o
+coração, porque um presentimento lhe segredava, que D. Maria da Gloria
+não era estranha no conteúdo da carta; mas como não podéra refrear o
+impeto dos voluntarios, forçoso lhe foi acompanhal-os.
+
+Empenhado o tiroteio entre as pequenas forças inimigas, cahiu ferido
+Arthur Soares, que ficára por morto no campo. Um soldado, d'aquelles a
+que os proprios camaradas dão o epitheto infamante de _pulhas_, despojou
+logo o official inimigo de todos os objectos de algum valor, que elle
+tinha em si: entre os demais despojos, ficou tambem possuidor da carta
+de D. Anna, que teve a curiosidade de lêr; e como visse lá o nome de
+Leopoldo, e soubesse que assim se chamava o seu commandante, com a mira
+em qualquer recompensa, quando por ventura com elle se entendesse
+aquella carta, foi immediatamente entregal-a a Leopoldo, dizendo-lhe que
+a encontrára perdida no logar da refrega...
+
+Aquella bala de papel, fôra mais fatal ao marido de D. Anna, do que a de
+chumbo ao amante de D. Maria da Gloria...
+
+Leopoldo retirou precipitadamente com a força do seu commando; e o corpo
+de Arthur Soares foi recolhido pelos seus camaradas, que lamentavam com
+desespêro a sorte do bondoso e bravo official.
+
+ [13] Em proclamação do primeiro general da junta do Porto, datada de
+ Coimbra de 29 de Dezembro de 1846, lê-se: «Soldados!--Nem a desgraça
+ da nossa valente segunda columna vencedora em Torres Vedras, e
+ depois anniquilada por uma _incomprehensivel desgraça_; nem a
+ conspiração dos elementos, que tornaram perigosa e terrivel a nossa
+ marcha, na qual centenares de individuos ficaram em poucas horas
+ descalços, e muitos em risco de morrerem, tem podido abater vossa
+ coragem!»
+
+ [14] Decreto da junta de 11 de Janeiro de 1847.
+
+
+
+
+X
+
+O CRIME
+
+
+ «O espirito não lhe dava coisa que vislumbrasse senso-commum. A carta
+ era o seu maximo supplicio.»
+
+ (_Camillo Castello Branco_. MYSTERIOS DE FAFE.)
+
+
+D. Isabel de Abendanho recebera carta do marido, communicativa da sua
+resolução de casar a filha com um cavalheiro vimaranense; e dizia-lhe
+que fosse, acompanhada do padre Alvaro, á residencia de D. Anna, e de lá
+viessem todos ter com elle a Guimarães.
+
+A chegada de sua mãe, e do padre Alvaro, foi para D. Maria da Gloria
+novo motivo de abundantes lagrimas. A velha e nobre senhora
+preadivinhara a rasão d'aquelle pranto, e desde logo protestou dar á
+filha o seu maternal apoio. O padre Alvaro, senhor da causa que assim
+amofinava as tristes mulheres, deu-lhes a consolação das suas
+evangelicas palavras, e prometteu empregar, com Sebastião da Mesquita,
+os brandos meios da persuasão para o dissuadir da effectividade de um
+enlace repulsivo á noiva. Todos de accôrdo em demorar quanto possivel a
+ida a Guimarães, confirmaram a Sebastião da Mesquita a noticia do
+incommodo de D. Maria da Gloria, que afinal não era mentirosa, porque a
+donzella estava doente, e de molestia que podia matal-a, se não tivesse
+força para resistir á vontade paterna.
+
+Rosa, salva da vergonha e da deshonra por João de Lencastre, resolveu
+aproveitar-se da protecção do seu salvador, e assentaram de viver, em
+Portugal, ou no estrangeiro, debaixo de rigoroso incognito, mostrando a
+donzella desejos de vêr as suas queridas companheiras antes da sua
+completa desapparição, embora lhes não podésse fallar; e o antigo
+escudeiro, que não tinha vontade alheia á da sua protegida, cogitava no
+modo de fazer-lhe a vontade.
+
+Nenhum dos mais fortes inimigos do homem, empenhado em fulminal-o, e
+dispondo de todas as convulsões do mundo, teria conseguido produzir em
+Leopoldo uma sensação semelhante á que sentira com a leitura da carta,
+que o soldado lhe entregara. Por momentos, julgou-se victima de um
+sonho, e o seu olhar desvairado era terrivel de vêr-se. Depois, de
+subito, sahiu-lhe do peito um como rugido feroz, e todas as suas acções
+foram impetuosas e allucinadas. Mandou tocar á retirada, entregou o
+commando ao seu immediato, e precedeu muitas horas, tal foi a sua
+vertiginosa carreira, a chegada da força ao quartel general. Alli, fez,
+como lhe cumpria, o relatorio dos successos militares, de tal sorte
+contradictorio e obscuro, que lhe não foi difficil obter a licença, que
+febrilmente implorava, porque os superiores o suspeitaram victima do
+começo d'uma alienação mental.
+
+Era alta noite, e dormiam todos os habitadores do seu palacio, quando
+Leopoldo chegou alli, vindo do acampamento. Quem o tivesse visto
+jornadear de noite, ora esporeando o ginete de modo a fazel-o saltar por
+todos os obstaculos, que lhe estavam defronte, ora deixando o caminhar
+em direcção incerta, e com as rédeas soltas, dizia que era um sêr
+phantastico dos que algumas vezes nos agitam o somno. Gastára algumas
+horas a percorrer os arredores da sua principesca habitação, para
+conseguir introduzir-se lá, sem que fosse apercebido.
+
+Estava a romper a manhã, quando podéra obter entrada por uma janella
+baixa, que ficara mal fechada, e caminhar, tateando, e com passos
+incertos, até ao seu quarto de cama, onde se apossou do punhal que
+pendia da cabeceira do seu leito, abrindo em seguida as janellas, e
+expondo ao ar a sua abrazada cabeça.
+
+Ao voltar a vista para o interior do quarto, já um pouco alumiado pela
+frouxa luz do crepusculo, pareceu-lhe que a sua cama não estava deserta,
+e foi ajuntar-se-lhe ás violentas commoções que o infernavam mais um
+mixto de curiosidade e de terror, como teria o bandido que deparasse
+inopinadamente, na casa que julgara dezerta, com uma testimunha de seus
+crimes.
+
+No leito de Leopoldo dormia tranquillamente o somno da innocencia, a
+suspeitada esposa. Tivera que sahir dos seus aposentos, occupados até
+então por ella e por D. Maria da Gloria, á chegada alli de D. Isabel,
+para que esta ficasse junto da filha.
+
+Reconhecida pelo marido a mulher da qual julgava possuir um
+incontestavel documento de adulterio, as feições do dementado assumiram
+as repugnantes proporções da mais repelente das mumias; e monologou
+terrivelmente:
+
+«Estás no teu sepulchro, maldita!... O mesmo leito que manchaste com a
+infidelidade, será manchado pelo teu sangue villão!... Não mais
+acordarás d'esse ultimo somno, em que os sonhos de megéra te hão de
+trazer ainda junto dos labios o halito do canalha, que eu hei-de devorar
+após de ti!... Far-te-hei abrir os olhos, apenas para vêres a tua carta,
+que o diabo me levou ás mãos, e nem uma palavra te deixarei pronunciar,
+porque antes terá este punhal atravessado o teu infame coração!....»
+
+E, fazendo o que disséra, sacudiu violentamente a infeliz D. Anna,
+apresentou-lhe diante dos olhos, mal abertos, a carta homicida, e
+enterrou-lhe em seguida o punhal no peito!...
+
+A desgraçada senhora, teve apenas tempo para dar um grito revelador da
+suprema agonia, e cerrar os olhos.
+
+Ao ouvir aquelle brado de morte, fitou o vingador de imaginaria affronta
+um olhar tresvairado em redor de si, e ficou, como se estivera pregado
+ao chão, sem forças nem deliberação para fugir. Estava assim havia já
+muito tempo, quando se abriu uma porta, e entraram por ella duas pessoas
+em traje de romeiros que andam em peregrinação. Os recem-chegados, ao
+tomarem conhecimento da tragedia que tinham á vista, ficaram por um
+pouco, como assombrados de raio: um d'elles, o que primeiro conseguiu
+mover-se, foi cahir com a cabeça sobre a da assassinada, lavando-lh'a
+com as lagrimas que vertia. O outro, com um sangue frio ainda mais
+terrivel que o desespêro, aproximou-se de Leopoldo, encarou-o longo
+tempo, como olharia para o maior dos monstros, e exclamou por fim:
+
+--Assassino!... Miseravel e cobarde assassino de mulheres!... Não posso
+eu ser o vingador d'aquella infeliz, porque--desgraça! disseram-me que
+era teu irmão!... Mas Deus a vingará, malvado!... O teu futuro hade ser
+de cruel expiação, crê!... O maior castigo que te espera, é o
+prolongamento da vida que tens a viver!...
+
+E deixando-o, sem lhe tocar, foi apalpar o seio da assassinada:--«Ainda
+lhe pulsa o coração, e o padre Alvaro está aqui!...» E saiu rapidamente
+do quarto, voltando, minutos depois, acompanhado do pae de Arthur.
+
+O ministro do altar, entrou no sagrado exercicio do seu alto e sublime
+ministerio: serviam-lhe os dous romeiros de ajudantes, e Leopoldo estava
+ainda, immovel, no mesmo logar, em que ficára de seguida ao crime.
+
+O padre Alvaro foi tocar de manso no hombro do assassino, e disse-lhe
+com brandura:
+
+--Irmão! Ajoelhe, que está na presença de um Deus misericordioso e
+vingador!
+
+Ao contacto d'aquella mão, e ao sussurro d'aquellas palavras, fez
+Leopoldo um movimento de cabeça, assomou-lhe aos labios um riso idiota,
+e tartamudeou:
+
+--Não acordem a minha segunda esposa... Com esta casei eu por amor...
+Não me hade trahir que é nobre... O punhal está guardado... Ella
+disse-me que era uma arma villã, e eu escondi-o no peito da Anna... Hade
+amar-me depois da batalha... Sou general, e hei de vencer... Terei um
+duello com o meu rival... Depois, a felicidade... E meu filho, que me
+não conhece!... Meu filho, que me chama assassino, que me cóspe injurias
+a todo o instante, que me espanca sem piedade!!... Perdão!...
+Perdão!...
+
+--A loucura e os remorsos na propria hora do crime!... Aquella que ajudo
+a bem morrer, é menos desgraçada do que o seu assassino!...
+
+Haverá quem não trema da vossa justiça, meu Deus?!...
+
+
+FIM DA SEGUNDA PARTE
+
+
+
+
+TERCEIRA PARTE
+
+REMORSO
+
+
+ «Para que venha sobre vós todo o sangue dos justos, que se tem
+ derramado sobre a terra...
+
+ (S. Lucas, XI; vida de N. S. Jesu-Christo).
+
+
+
+
+I
+
+GRATIDÃO
+
+
+ Tira-me já do p'rigo, amigo honrado,
+ Depois solta a prelenda.
+
+ (_Filinto Elysio_--APOLOGO)
+
+
+É menos vulgar a existencia do homem grato do que a do homem sabio; mas
+a compensação do rigor d'este axioma, está na raridade com que se faz um
+favor desinteressado. Contam-se em pequenissima quantidade as pessoas
+reconhecidas; mas é grande o numero das que sabem calcular o provento,
+mais ou menos proximo, de suas generosidades.
+
+O genero de maior consumo no mercado da vida humana, é o egoismo, a que
+chamaremos, por antonomasia, o _verme do coração_.
+
+Os factos, porém, de todos os tempos, levam-nos a exceptuar a mulher da
+regra geral do egoismo do homem, por que é d'ella, na maior parte das
+suas acções, a santa abnegação: a mulher perde-se pelo amor, o homem
+gloria-se com elle; a mulher serve á ambição do homem, e é por elle
+escravisada; a mulher morre sempre por seus filhos, e o homem renega-os
+muitas vezes...........................................................
+.......................................................................
+
+
+Quasi á mesma hora em que tinham logar as tragicas scenas do final da
+segunda parte d'este livro, e quando ellas ainda eram ignoradas pelos
+restantes habitadores do palacio, recebia D. Maria da Gloria, recolhida
+nos seus aposentos, uma carta que abrira, sobresaltada, com prévio
+consentimento de sua mãe, e que dizia assim:
+
+
+ «_Exc.^ma e respeitavel senhora_:
+
+«O meu camarada Arthur Soares, retido no seu leito por virtude de um
+ferimento grave, mas não mortal, que recebeu em um ataque dado pelo
+inimigo ás linhas d'esta cidade, incumbe-me de escrever a V. Exc.^a em
+seu nome, para que termine o cuidado com que deve estar a Exc.^ma Snr.^a
+D. Anna, pelo silencio d'elle, depois de um formal chamamento. Só uma
+impossibilidade absoluta, como aquella que se deu logo em seguida á
+recepção da carta que o chamava, é que estorvaria o meu camarada e
+amigo, como elle affirma, de voar a cumprir as ordens de sua exc.^ma
+irmã adoptiva. Muito mais do que as consequencias do seu ferimento, tem
+o meu camarada sentido o vêr-se até impossibilitado de escrever; e eu,
+accedi aos seus rogos, para o tranquillisar, e abreviar a sua cura;
+podendo V. Exc.^a ficar certa--pela cruz da minha espada o juro--que,
+finda esta carta, esquecerei completamente o seu conteudo. Não vae
+dirigida á snr.^a D. Anna, porque tendo sido roubado, quando cahira no
+campo, o meu camarada Arthur, fez parte do roubo a carta que aquella
+respeitavel senhora lhe escrevera; e o ferido receia que ella fosse
+parar ás mãos _d'alguem_, que, por má interpretação, tenha ficado com
+suspeitas, as quaes augmentariam, por certo, sendo mais esta
+interceptada.
+
+«Não obstante estar o meu camarada livre de perigo, os homens da
+sciencia recommendam toda a cautela, e marcam ainda alguns dias de
+recolhimento ao ferido.
+
+ «É de V. Exc.^a m.^o att.^o v.^or e cr.^o
+
+ «_O tenente da 2.^a comp.^a de voluntarios do Minho_.»
+
+
+Desde o começo da leitura, que D. Maria da Gloria ficára excessivamente
+pallida e trémula; mas a sua dôr, por demasiado violenta, não deu
+accesso ás lagrimas. D. Isabel que sentira o estado da filha,
+perguntou-lhe o conteúdo da carta, que ella teve a coragem de lêr
+segunda vez, de modo que fosse ouvida por sua mãe.
+
+--Assustas-me, querida Maria, mais com essa dôr surda, do que se te vira
+coberta de pranto... É então incuravel o affecto que nutres por Arthur?
+
+--Só a morte o póde curar, minha respeitavel e muito presada mãe e
+senhora: se até agora o podesse duvidar, recebia n'este momento a mais
+solemne das provas... É a primeira vez que lastimo a minha condição de
+nobre, que me embarga o vehemente desejo de ir ser a enfermeira de
+Arthur... Dava ametade da minha existencia, para ser hoje uma camponeza,
+livre dos preconceitos e obrigações sociaes, que podesse seguir os
+impulsos do coração sem constrangimento nem temôr...
+
+--E conheces bem, filha, as qualidades do homem por quem assim queres
+sacrificar-te?!...
+
+--Conheço, e vai tambem avalial-as a minha querida e santa mãe: Arthur,
+sabe que é amado por mim, adora-me, e nunca da sua bôcca sahiu uma
+palavra, que meus paes não podessem ouvir. Podia estar ao meu lado,
+gosar a todo o instante d'esses prazeres innocentes e celestes, que só
+dá o verdadeiro amor, e fugiu-me, para não prejudicar a minha reputação,
+porque receia não poder desposar-me. Todas as acções de Arthur, são de
+uma fidalguia exemplar, unica, inimitavel. Encarregado por meu illustre
+pae de saber como a Annitas era tractada pelo marido, obteve a convicção
+de que ella era desprezada por ser plebêa e pobre: disse-o, por carta, a
+seu padrinho; esperou que o brioso fidalgo acudisse logo á sua
+protegida, á que adoptara por sua filha, á que obrigara a casar-se com o
+seu tyranno; demorou-se a protecção, e Arthur, que apenas fôra
+companheiro de infancia da nossa Anna, sem nenhuma obrigação legal ou
+moral, só porque ella não tivesse de soffrer mais alguns dias, alcançou
+do thio, o venerando padre Alvaro, todo o importe do futuro
+d'elle--trinta mil crusados--que veiu entregar a Leopoldo, dizendo que
+era o dote de sua mulher, enviado por meu respeitavel pae!...
+
+--É grande, muito grande, o que me contas, Maria!... Por isso tu o amas,
+filha, e creio agora comtigo na impossibilidade de venceres o teu
+amor... Meu primo já sabe d'esse facto?
+
+--Não sabe, minha senhora, porque Arthur rogou muito que se lhe
+occultasse.
+
+--Então, Maria, sou eu que te digo, que pódes ter esperança de casar com
+Arthur. Teu pae é um fidalgo excessivamente orgulhoso da sua raça, bem
+sei; mas é tambem pela sua excedente alma, bom apreciador de todas as
+acções que ennobrecem quem as pratica.
+
+--Não podêmos contar com este segredo, minha querida mãe, porque jurei a
+Arthur que o não revelaria, e não sei faltar aos meus juramentos.
+
+--Mau é isso: no entanto, confiemos em Deus.
+
+--Agora, minha boa mãe, deixe-me dizer-lhe mais, que outro sentimento,
+não menos forte do que o meu amor por Arthur, me obriga, e me domina: é
+a gratidão pelo generoso procedimento da nossa Anna. Escrever uma carta
+a chamar o homem que eu amo, por vér, talvez, na sua vinda aqui a minha
+salvação, arriscando-se a ser suspeitada pelo marido, e a soffrer-lhe as
+terriveis consequencias do seu ciume,--é a mais irrefragavel prova de
+uma verdadeira dedicação... Estou inquieta com a perda da carta; bate-me
+o coração com uma violencia desusada, e presinto grande desgraça...
+Vamos já ao quarto da Anna...
+
+--Pois ajuda-me a terminar o meu vestuario... Vamos lá, filha, e socega,
+que Deus tudo fará por melhor.
+
+Quando a mãe e a filha entraram no quarto mortuario, estava lá o cadaver
+só com os romeiros ajoelhados, porque o padre Alvaro fôra procurar o
+medico da localidade, ainda na vaga esperança de salvar a desditosa
+esposa.
+
+As duas senhoras, consideraram-se por muito tempo victimas de um
+pesadêlo horrivel, ao depararem com aquelle funebre espectaculo. D.
+Maria da Gloria, sem bem saber o que fazia, acercou-se do leito, fitou-o
+com vistas desvairadas, apalpou-o automaticamente, fechou n'uma das mãos
+um papel manchado de sangue, curvou-se depois sobre o cadaver,
+pousou-lhe os labios na fronte, nos olhos, na bôcca, tudo feito como em
+delirio, levantou lentamente a cabeça, olhou para as mãos, abriu aquella
+que encontrara e fechara o papel, acompanhou a quéda natural d'elle com
+a incerta curiosidade de um innocente que deixa cahir o brinquedo,
+apanhou-o outra vez, examinou-o e, ao conhecer-lhe manchas de sangue, um
+tremor violento se apoderou d'ella...
+
+D. Isabel, conservara-se immovel, como se fôra uma estatua, olhando,
+simultaneamente, e como louca, para o cadaver, para os romeiros e para a
+filha.
+
+Os romeiros levantaram-se, e foram collocar-se, um ao lado de D. Maria
+da Gloria, e outro de D. Isabel; como para lhes servirem de amparo.
+
+O que ficara juncto de D. Maria, tentou brandamente arrancar-lhe da mão
+o papel, ao que ella resistiu, com a reacção dos dementes contrariados,
+procurando em seguida lêr o seu conteúdo. Quando, após uma demorada
+leitura e indeciso exame, a fidalga donzella levantou a fronte, e fechou
+os punhos, o seu aspecto aterrava. Aquella feminil belleza, transformada
+pela dôr, afugentaria de si, n'aquelle momento, o seu mais apaixonado
+amante!
+
+Demorou-se ainda alguns minutos silenciosa, e terrivel de vêr-se; até
+que, tomando uma deliberação repentina, curvou outra vez a cabeça, e
+disse ao ouvido do cadaver, n'um tom de voz indiscriptivel:
+
+--«Assassinaram-te por minha causa, irmã!... O teu assassino, o monstro
+que nos roubou e te seduziu, ama-me... entendes?!!... Oh!... como tu
+vaes ser vingada!... Ha-de o infame soffrer mil mortes em cada segundo,
+até ao seu ultimo sôpro de vida... Juro-t'o pela honra do meu nome!...»
+
+Em seguida tirou o punhal do peito do cadaver, metteu-o no seio sem o
+limpar, guardou a carta fatal, e, agarrando nas mãos de sua mãe, sairam
+ambas repentinamente.
+
+Tiveram apenas tempo de transpôr os umbraes da porta d'aquelle recinto,
+quando um grito unisono, dos dous romeiros, as teria feito retroceder,
+se o estado em que fugiam lhes podésse deixar ouvil-o.
+
+Aquelle grito fôra occasionado por ter parecido aos romeiros, que o
+cadaver abrira os olhos:--Ao tentarem verificar a sua illusão, estavam
+já acompanhados do padre Alvaro e do medico.
+
+
+
+
+II
+
+MYSTERIO
+
+
+ «Os conegos da sé de Evora, conduziram, sem pompa, á igreja de S.
+ Domingos, entoando as orações dos finados, o cadaver truncado do
+ duque de Bragança.»
+
+ (CHRONICA DO SECULO XV.)
+
+
+
+Algumas horas depois que o padre Alvaro, os romeiros e o medico, tinham
+ficado no quarto mortuario, junto do cadaver, era publica a morte da
+infeliz D. Anna, que fôra attribuida a um ataque cerebral. Os creados e
+os visinhos do palacio, lamentavam sinceramente o funebre succedimento,
+e a fatal consequencia d'elle, que fôra a immediata loucura do
+_extremoso_ marido.
+
+Para que esta mentira fosse a versão publica da repentina morte de uma
+das nossas heroinas, fôra preciso que o padre Alvaro empregasse com D.
+Maria da Gloria e sua mãe, a sua auctorisada e respeitavel palavra, para
+as convencer da necessidade de, por aquelle modo, estorvarem a acção da
+justiça, e a deshonra que o facto, commentado pelos ociosos, traria a
+todos; e tambem o grave desgosto, que elle causaria ao velho fidalgo
+Sebastião da Mesquita.
+
+Accordado em que assim se publicasse ficou o bom do padre incumbido de
+tudo remediar, e assim o fez.
+
+O que se passou entre o medico, os romeiros e o padre, antes que este
+viesse pactuar a util e generosa mentira, é, por emquanto, vedado aos
+leitores.
+
+Houve desde logo todo o cuidado de não deixar penetrar pessoa alguma no
+quarto da finada, e de fazer desapparecer todos os vestigios do crime.
+Aos que notaram ser o cadaver conduzido immediatamente, em caixão
+fechado, á capella do palacio, sem preceder a demora, e a exposição
+costumada, foi-lhes revelado, que a defuncta deixára disposta
+antecipadamente a condição de não ser visto do publico o seu cadaver, e
+de se evitarem, no enterro, todas as pompas.
+
+Até ao momento do caixão descer ao jazigo de familia, foi constantemente
+guardado por um dos romeiros.
+
+Concluida a funebre ceremonia, voltou o padre Alvaro para junto das
+consternadas senhoras. O tranquillo aspecto do ministro de Deus, as suas
+palavras persuasivas, e a força de seus concludentes raciocinios, deram
+ás fidalgas mulheres a coragem necessaria, para continuarem com firmeza
+a encobrir o crime.
+
+D. Maria da Gloria, deixou transparecer a ideia da sua medonha vingança,
+que o padre rebateu com evangelicas razões: foi um combate de palavras,
+entre dous adversarios valentes e convictos, que só teve em resultado
+firmar-se mais cada um d'elles no seu proposito. A donzella tinha n'alma
+a gratidão, e o padre a caridosa doutrina de Christo: D. Maria queria
+vingar de um monstruoso crime, a companheira e amiga, que por sua causa
+fôra victima; o bom Alvaro queria o perdão do criminoso, e pedia-o, a
+exemplo do que o Christo implorára para os seus matadores.
+
+No mais caloroso do debate, entrou Leopoldo vagarosamente no local
+d'elle. D. Isabel teve medo d'aquelle homem, e conchegou-se á filha; o
+padre Alvaro ficou impassivel, e D. Maria da Gloria teve força para
+concentrar a sua cólera.
+
+Leopoldo, com todos os modos de completo idiotismo, disse a D. Maria:
+
+--Vá reconhecer o inimigo, snr. ajudante... Tenho um plano que nos dará
+infallivelmente a victoria... É um segredo que só direi a meu filho, por
+que vae commandar a emboscada... É verdade... peça a meu filho que me
+não bata... pede?... Eu sou tão amigo d'elle... Coitadinho!... está
+doido!... diz que lhe matei a mãe, e fustiga-me sem piedade!... Peça-lhe
+muito, sim?... Vá... vá, que eu espero a resposta no quartel general...
+
+E sahiu com o mesmo vagar com que entrára, deixando as mulheres
+estupefactas, porque ainda ignoravam o facto da loucura de Leopoldo.
+
+--Este homem está effectivamente louco?!...
+
+--Está, sim, snr.^a D. Maria da Gloria...
+
+--Eu julguei, que o snr. padre Alvaro teria combinado com elle o
+fingir-se demente por algumas horas, para melhor encobrir o seu crime...
+
+--Não, minha senhora, era essa uma calúmnia desnecessaria, e pouco
+digna. O infeliz perdeu a razão, logo em seguida ao crime. Antes da sua
+vingança, senhora D. Maria, appareceu o castigo da Providencia...
+
+--É preciso curar-lhe a loucura, e hade curar-se... Empregarei, para
+conseguil-o, todos os carinhos que dispensaria ao homem idolatrado...
+Quero vingar a minha querida Anna...
+
+--Desconheço-a, snr.^a D. Maria da Gloria!... Pois, que vingança quer V.
+Exc.^a tirar, no estado d'aquelle infeliz?!...
+
+--O snr. padre Alvaro não sabe o que é o coração da mulher _de raça_
+quando ama ou quando odeia... O castigo que eu reservo áquelle malvado,
+se poder conseguir fazel-o recuperar a razão, a mim propria causaria
+terror, não me dominando a ideia de vingança...
+
+--E não receia, com o seu procedimento, descobrir o crime a seu exc.^mo
+pae?...
+
+--Socegue, que a dissimulação é a mais forte defeza das mulheres.
+
+--Mas, minha filha, o snr. padre Alvaro diz bem... Tu não deves querer o
+que Deus não quer...
+
+--Perdão, minha santa mãe.....Se não deseja vêr sua filha morta pela
+dôr, e pela saudade, deixe-a dar largas á sua gratidão...
+
+Tres dias depois de ter logar o enterro, chegava áquelle formoso e
+triste domicilio, o velho fidalgo Sebastião da Mesquita, já sabedor pela
+voz publica, que se antecipára á parte dada pela familia, da morte de D.
+Anna e da loucura de Leopoldo.
+
+
+
+
+III
+
+BRIOS DE RAÇA
+
+
+ «Se de imitar meu nome te gloreias,
+ As façanhas me imita,
+ Ou na Patria Nação, ou nas alheias,
+ O meu valor te incita:
+ Ségue os meus passos, segue a meu exemplo,
+ Se morar quéres, n'este honrado templo.»
+
+ (Filinto Elysio.)
+
+
+Decorreu um mez, após a chegada do velho fidalgo ao palacio de Leopoldo.
+
+Sebastião da Mesquita, já bastante alquebrado, e mal convalescido,
+cahira de novo na cama, muito magoado com a morte de D. Anna, e com a
+loucura do marido. Tornou-se grave o seu padecimento, que dava sérios
+cuidados ao seu assistente. Mais do que á sciencia, aos desvelos de sua
+esposa D. Isabel d'Abendanho, que passava dias e noites á cabeceira do
+enfermo, deveu o velho fidalgo as leves melhoras que sentia.
+
+D. Maria da Gloria, toda entregue ao seu pensamento dominante, procurava
+fazer recuperar o juiso a Leopoldo. Consultara todos os medicos que
+visitaram seu pae, e ouvira d'elles opiniões de que os muitos cuidados e
+carinhos empregados com o louco e, mais tarde, algumas impressões
+violentas, poderiam, talvez, trazer-lhe a razão.
+
+Quem presenciasse o cuidado permanente, que a fidalga donzella empregava
+com Leopoldo, diria que, a não ser uma sua extremosa amante, era uma
+filha dedicada ao triste dementado. E conseguira já muito: Leopoldo
+tinha alguns lucidos intervallos, em que parecia conhecer a sua gentil
+enfermeira, e em que vertia copiosas lagrimas. Succedia mesmo, nos
+curtos instantes em que a donzella se afastava, ser chamada pelo nome de
+filha, em altos gritos, e até procurada pelo infeliz, com a pertinacia
+da loucura.
+
+Sebastião da Mesquita teve uma longa e religiosa conferencia com o padre
+Alvaro, despida de apparatos que, aos timidos, encurtam as horas de
+vida; conversação que augmentara as melhoras do velho fidalgo, e o
+predispozéra para este dialogo:
+
+--Agora, meu bom amigo, que as suas evangelicas palavras conseguiram
+fazer-me esperar mercê da Providencia para os meus êrros, consinta-me
+que lhe falle do nosso Arthur...
+
+--V. exc.^a assusta-me com esse modo solemne!.. Sabe alguma coisa má do
+seu afilhado?...
+
+--Sou eu que peço agora resignação e coragem, áquelle que ha pouco me
+fallava com desprendimento das cousas terrenas... Bem sabe que tenho
+soffrido muito: posso, pelas minhas, avaliar as dôres alheias; mas
+tambem sei que o padre Alvaro é um martyr a quem Deus concedeu forças
+superiores ao commum dos homens...
+
+--Acabe, senhor, se não quer vêr-me morrer de impaciencia!... Que
+desgraça pésa sobre meu filho?!...
+
+--Póde ser mentira... Os periodicos muitas vezes desmentem no dia
+seguinte, o que asseveraram na vespora... Comtudo, eu li, em Guimarães,
+uma gazeta, que noticiava ter sido... gravemente ferido o meu afilhado
+n'um recontro com as tropas da rainha...
+
+Um grito de suprema angústia, foi a unica resposta que ouviu o fidalgo,
+vendo em seguida fugir-lhe o padre, com a rapidez e o vigor da mocidade!
+
+Deus por certo se amerciou com a mágua de aquelle pae, porque logo
+deparou com D. Maria da Gloria, que o susteve, e lhe disse que Arthur
+Soares estava livre de perigo, mostrando-lhe as cartas que tinha em seu
+poder, e pondo-o ao facto de quanto succedera.
+
+--Obrigado, minha querida filha! O céu lhe compensará o bem que fez a
+este peccador... Não se póde vencer a natureza, e eu sou pae... De certo
+eram ficticias as forças que me deu o desespero, e eu não chegaria ao
+Porto com vida... não veria ainda uma vez o filho do... Perdôe-me v.
+exc.^a esta revelação do meu criminoso passado...
+
+--Já sabia o que me diz... adivinhou-o o meu coração...
+
+--É magnanimo o seu coração, minha senhora, e receio que d'essa extrema
+bondade lhe resultem sérios dissabôres... Arthur não é nobre, snr.^a D.
+Maria, nem sequer é um filho legal!... V. exc.^a fez mal em dar entrada
+ao sentimento que nutre por elle...
+
+--Seu filho possue a mais verdadeira e sólida das nobrezas--a da alma--e
+eu amo-o!...
+
+--E seu pae, minha senhora?!... Não sabe V. Exc.^a quanto elle é
+orgulhoso da sua raça?!...
+
+--Diligenciarei convencel-o e, se não o conseguir...
+
+--Por Deus, senhora D. Maria, não pense em desobedecer a seu illustre
+pae!... Desgraçados d'aquelles que na sua mocidade se deixam arrastar
+pelas paixões! Eu sei o que tenho soffrido, senhora!... Não queira
+augmentar os remorsos d'este pobre velho, com o mal causado por meu
+filho!... De joelhos lhe peço que me jure, que nunca procederá de
+encontro á vontade paterna...
+
+--Quer, então, a minha morte?...
+
+--Quero a sua salvação, senhora D. Maria da Gloria! Quero o cumprimento
+de um dever sagrado, que póde até tornar respeitavel o seu amor por meu
+filho. Se V. Exc.^a soffresse a maldição paterna, não haveria posição
+que lhe désse tranquillidade: infelicitava-se, e fazia seu cumplice
+aquelle que ama... Já não quero que attenda a este velho, que a implora,
+e que dentro em pouco será pasto dos vermes...
+
+--Basta, snr. padre Alvaro!... Juro-lhe que serei sempre filha obediente
+e respeitosa, ainda que isso me custe a vida!...
+
+--Obrigado, querido anjo!... Hade viver e ser muito feliz, porque Deus é
+justo... Deixe-me pedir-lhe perdão de ter estranhado a sua dureza, para
+com o desgraçado marido de D. Anna... Eu ignorava a causa do seu
+criminoso proceder e os motivos de gratidão que levavam V. Exc.^a á
+vingança... Ainda assim, peço-lhe que o deixe entregue ao castigo
+providencial que o pune...
+
+--A esse respeito, é inabalavel o meu proposito, e serei tanto mais
+cruel, quanto mais contrariado fôr o meu affecto por Arthur... Vae de
+certo ao Porto, snr. padre Alvaro, e eu atrevo-me a pedir-lhe noticias
+do doente... Concede-me este pedido?
+
+--Cumprirei essa obrigação, minha senhora.
+
+Poucas horas depois de ter logar o encontro que acabamos de escrever,
+foi D. Maria da Gloria chamada por seu pae, que lhe dirigiu a palavra
+n'estes termos:
+
+--É tempo, querida Maria, de te explicar alguns dos meus actos, e de te
+dar a minha opinião sobre o teu futuro. Deus sabe se me tornarei a
+levantar d'este leito, e desejo que o meu passamento seja o mais
+tranquillo possivel...
+
+--O meu bom pae, e senhor, está livre de perigo, e ha de viver ainda
+muitos annos, para a nossa felicidade:
+
+--É para que sejas feliz, que eu vou remecher no meu passado, e
+despertar factos que me remordem na consciencia. Quero que a minha vida
+sirva de exemplo á tua, seguindo-a no bem, e fugindo ao mal que os seus
+erros me trouxeram... Escuta-me: tive na minha mocidade sérias ligações,
+que acabaram com a morte de filhinhos que estremeci; e, já depois de
+casado, vi uma encantadora menina, cheia de virtudes, vivendo na
+companhia de seus paes de quem era o unico enlevo. As demandas da nossa
+casa, fizeram-me travar relações com o pae, o melhor jurisconsulto que
+então existia em Penafiel. Abusei da confiança que me deram, para me
+insinuar no animo da gentil e innocente criança, que em breve sentiu por
+mim um d'esses affectos, que são a felicidade ou a completa desgraça dos
+que os nutrem, segundo o bem ou o mal empregado d'elles. Amei-a...
+amei-a levianamente!... Quando os meus brios me fizeram conhecer a
+infamia do meu procedimento, quiz fugir-lhe, mas já não era tempo!... Um
+dia, a vigilancia paterna, arrebatou a infeliz Laura ao meu amor, e fez
+encerral-a num recolhimento... Mais tarde, entrava eu furtivamente, e a
+deshoras, na casa sagrada, para receber nos meus braços duas gêmeas
+recem-nascidas... E sabes quem eram aquellas criancinhas, que a minha
+criminosa leviandade fez vir a este mundo?... Eram as tuas discipulas
+Rosa e Anna...
+
+--Minhas irmãs!!...
+
+--Sim, tuas irmãs... uma das quaes está morta, e a outra... perdida!...
+
+--Que diz, meu pae, perdida?!! A Rosa está perdida?!... Perdida,
+como?!...
+
+--Ha muito que eu andava suspeitando da profunda melancolia de Rosa, e
+dos seus modos inteiramente oppostos á indole viril e folgasã que sempre
+lhe conheci. Antes da minha partida para Guimarães, procurei-a em casa
+dos suppostos paes, quando estes choravam a sua inopinada e inexplicavel
+ausencia... Esquecia-me dizer-te, que aquellas infelizes crianças
+encontraram carinhosas mães, em duas das minhas caseiras, cujos maridos
+tiveram a bondade de consentir na alimentação de seus verdadeiros filhos
+a peitos estranhos, para que as minhas filhas podessem ser amamentadas
+por suas esposas, e tidas como filhas d'elles por toda a povoação... Foi
+assim que sempre as pude ter perto de mim, ignorando, ellas e o mundo,
+que eram gêmeas, e que eu era seu pae...
+
+--E é á simples _ausencia_ de Rosa, que o meu bom pae e senhor chama
+_perdição_?!...
+
+--Encontrei-a em Guimarães, entregue a um homem desconhecido, talvez o
+seu amante, fazendo gala da sua liberdade... Soffri muito!... Os brios
+da minha raça, fizeram com que mais uma vez esmagasse o coração; mas
+tive forças para a desprezar publicamente... Já vês, que está perdida, e
+bem perdida!...
+
+E uma torrente de lagrimas, serviram de epilogo á narração do velho
+fidalgo.
+
+D. Maria da Gloria, estava cadaverica, mas não vertia uma só lagrima.
+Tinham sido tão violentos, e seguidos, os choques que soffrêra, havia
+n'aquella fidalga indole tamanha reacção contra a má sorte, que a
+donzella, imitando os que a adversidade torna heroes, reprimia todas as
+dôres, e concentrava todas as suas forças para a lucta.
+
+--Minha irmã não podia entregar-se voluntariamente a qualquer homem,
+pisando aos pés a sua dignidade... V. Exc.^a, meu respeitavel pae,
+deixou-se illudir por falsas apparencias, e o tempo hade esclarecer o
+mysterio, provando-lhe que uma filha de Sebastião da Mesquita, não
+sobrevivería uma hora á sua deshonra...
+
+--Como tu és boa, minha querida Maria!...
+
+--Sou apenas justa, meu bom pae. Espero, com plena confiança, vêr um dia
+resurgir minha irmã Rosa, tão digna como eu da sua benção, e do seu
+affecto... Agora, se V. Exc.^a o consente, dir-lhe-hei, que lamento o
+não se poder legitimar o nascimento de minhas irmãs, pelo enlace de V.
+Exc.^a com a senhora que foi mãe d'ellas...
+
+--Estamos chegados ao ponto principal d'esta solemne conferencia, minha
+querida filha... Peço-te que continues a escutar-me com a maior
+attenção, porque é de todo o melindre o que vou dizer-te... Para nós, os
+homens que na bruma de tempos immemoriaes temos escondida a nossa
+gloriosa origem, a nobreza não é o echo de pomposos nomes, nem o
+apparato de vaidosos titulos, nem a fama de notaveis feitos: é uma
+questão de _raça_. O rei póde fazer nobres; mas os fidalgos só os faz a
+_casta_... Não ha memoria de existir na minha familia uma alliança
+inconveniente... Gira em nossas veias um sangue tão puro, como possuira
+o primeiro fidalgo d'esta raça: é uma herança, que só póde deixar de
+transmittir-se pela morte da ultima vergontea da nossa arvore gigante...
+
+--Meu Deus! que pesada herança!...
+
+--Dizes bem, Maria, muito pesada... Senti-lhe todo o rigor, quando tive
+de sacrificar-lhe o coração... Poupa-me a narrativa de alguns detalhes,
+que me fariam córar de pejo... Basta saberes, que não obstante a
+existencia de ligações graves, que tive de quebrar, conduzi aos altares
+minha prima e tua santa mãe... Cumpri o legado da minha casta á custa de
+permanentes remorsos, aggravados depois com a existencia de tuas
+irmãs!... Vou hoje exigir de ti, minha presada filha, e unica
+representante do meu nome, não um sacrificio igual ao meu, porque de
+certo tens livre o coração, mas sim a tua palavra de receberes por
+esposo o distincto fidalgo que te escolhi...
+
+--É impossivel, meu pae e senhor!... Eu tenho já o coração cheio de
+affecto por um homem dignissimo, e a nenhum outro posso entregar-me...
+
+--Custa-me isso, filha, porque dei a minha palavra, embora reservasse o
+ter de ouvir-te primeiramente... Comtudo, o cavalheiro por mim
+escolhido, hade acceitar-me as rasoaveis desculpas, e tudo poderá
+combinar-se, sendo o teu preferido, como é de crer, um fidalgo de
+verdadeira raça...
+
+Felizmente para a enleiada donzella, ao soarem as ultimas palavras do
+velho fidalgo, entrou sua mãe no quarto, acompanhada por João de
+Lencastre, e foi a bondosa _fidalga das chaves_ que respondeu ao marido:
+
+--Não sei a que raça pertence o homem que nossa filha ama, meu presado
+primo e senhor, mas conheço-lhe as acções, e posso affiançar-lhe sob a
+minha palavra de _verdadeira fidalga_, que ninguem as tem mais
+illustres... Peço ao meu esposo, que desculpe a esta curiosa velha o ter
+escutado a sua conversação com a nossa filha... Sabia da sua bocca o que
+se havia de entre ambos passar, é certo; mas tinha maternaes razões,
+para não deixar só no campo esta sensivel criança...
+
+--Então, pelo que escuto, era uma conspiração!... Entrou tambem n'ella o
+senhor meu primo João de Lencastre?... Ora deixem estar, que lhes hei-de
+fazer pagar caro o segredinho... Vamos lá a saber o nome do feiticeiro,
+que assim me roubou a melhor parte do coração de minha filha, e que teve
+artes para chamar a minha sancta prima ao seu partido... Venha, venha
+esse nome magico...
+
+--Chama-se, simplesmente, Arthur Soares...
+
+--O meu afilhado?!!... Deus não quiz que V. Exc.^a, snr.^a D. Maria da
+Gloria, calcasse aos pés as venerandas cinzas de seus avós, e matasse
+seu pae já proximo do tumulo... O snr. Arthur Soares, não póde ser...
+_seu marido_, porque... morreu!...
+
+--Engana-se, meu pae, e senhor!... Arthur vive, e sempre viverá na minha
+alma!... Foi gravemente ferido, mas está livre de perigo... Ha-de viver
+longos annos... Ha de ser muito feliz, porque o merece, porque tem uma
+alma, que vale por todas as nobrezas da terra... Ha-de chorar todas as
+infelicidades que talvez esperem a minha raça, conservando-se
+constantemente á altura dos seus nobilissimos sentimentos...
+Affirmo-lhe, senhor, que nunca partiu d'elle a minima palavra ou o mais
+insignificante gesto, que v. exc.^a não podesse presencear... Amei-o, e
+hei-de amal-o eternamente... Mas sou fidalga!... Sou a herdeira de um
+nome que deve passar _immaculado_ á posteridade, continuando em mim uma
+infinda série de aristocraticas allianças!... Seja!!... V. exc.^a que
+diz de um Lencastre para meu esposo?...
+
+--São de boa casta os Lencastres, minha filha; mas...
+
+--Muito bem, meu pae e senhor!... Com quanto eu receba a cruz da minha
+herança, a escolha agora é minha... Findo o lucto pela morte de minha
+irmã Anna, serei esposa do snr. Leopoldo de Lencastre!...
+
+Ficaram de tal sorte aturdidos os restantes personagens, com este
+inesperado desenlace, que nem uma palavra se ouviu mais, retirando-se a
+donzella cheia de magestade.
+
+
+
+
+IV
+
+VISÃO
+
+
+ «Um presentimento de terror, d'aquelles que batem no coração de
+ repente, sem saber por quê nem d'onde vêem...
+
+ «Tem sempre fé em Deus, que hade querer o que fôr melhor para nós.
+
+ «E é trovoada isto, que se escurece tudo?... Não, são as sombras da
+ Eternidade que vêem sobre mim.»
+
+ (VISCONDE DE ALMEIDA GARRETT--FRAGMENTO DE UM ROMANCE INEDITO.)
+
+
+Conseguido o quietismo dos animos pela retirada de D. Maria da Gloria,
+veiu a cada um a consciencia do que lhe ouvira affirmar, com uma
+invencivel força de pasmosa vontade.
+
+Sebastião da Mesquita, embora tivesse triumphado no seu principal
+proposito, não ficára tranquillo, porque lhe era antipathico o genro;
+mas o seu orgulho de raça podia mais n'elle do que todos os bons
+sentimentos que possuia: conheceu que sua filha era mulher de não
+retrogradar, e resolveu conformar-se, guardando silencio.
+
+D. Isabel de Abendanho, comprehendendo mal o que se passára, esperava os
+acontecimentos com a confiança das almas puras.
+
+João de Lencastre, ficára engolfado nos seus pensamentos, e só usou da
+palavra, passado bastante tempo, para responder a algumas perguntas que
+lhe fez Sebastião da Mesquita, e despedir-se dos velhos fidalgos,
+dizendo-lhes que ia seguir a sorte da guerra.
+
+D. Maria da Gloria, mais do que nunca, ficára toda entregue ao
+tractamento do demente.
+
+Ao dar meia noite do quarto dia, posterior áquelle em que a fidalga
+donzella tão inesperadamente desenlaçára o temivel nó, que seu pae lhe
+lançára ao collo, gemia Sebastião da Mesquita no seu leito as dôres de
+sua teimosa enfermidade, e as que procediam de um pesadelo medonho. Via
+as suas filhas bastardas, uma levantar-se do tumulo, e outra surgir do
+meio de uma turba de mulheres hediondas pela miseria e pela devassidão,
+pedirem-lhe contas dos carinhos maternaes, a que elle as arrebatara; de
+um nome que podessem usar sem pejo, que elle não podia dar-lhes; e de um
+futuro igual ao que esperava a sua filha legitima, que já não podia ser
+o d'ellas... O mais terrivel da visão, era o espectro da mulher de
+Leopoldo... D. Anna apparecia a seu pae, em todo o vigor da sua
+mocidade, criminando-o pela forçada ligação a que elle a levára, e que
+fôra causa da morte prematura que tivéra... O velho fidalgo, implorava o
+perdão de sua filha, e a victima exigia-lhe, em troca, nada menos que o
+completo aniquilamento da sua raça... Queria que seu pae désse por
+escripto o seu consentimento para D. Maria da Gloria poder casar-se com
+Arthur Soares... Apresentava-lhe penna, tinta e papel, e dizia-lhe, pela
+voz da eternidade:
+
+«Em nome de Laura, a virgem que deshonrastes, e á qual nem foi dado
+depositar um beijo maternal nas faces de suas filhas!... Em nome das
+cruciantes dôres e das lagrimas de sangue, que levastes ao seio de uma
+familia honesta!... Em nome do desespero da filha, que o teu despreso
+atirou ao lôdo social!... Em nome, finalmente, d'esta outra filha, que
+fizestes morrer na flôr da vida; e para que todos te perdoem, e Deus se
+amerceie da tua alma,--escreve: «_Dou voluntariamente o meu
+consentimento para minha filha D. Maria da Gloria poder casar-se com o
+meu afilhado Arthur Soares. Ás portas da eternidade, prestes a
+comparecer perante o pae commum, reconheço que só é verdadeiramente
+nobre, aquelle que segue no mundo os preceitos de Jesus Christo==«Não
+faças a outrem o que não queres para ti, perdôa as injurias, e ama o teu
+proximo como a ti mesmo.»==Sebastião da Mesquita._»
+
+E o torturado velho, banhado em frios suores, sem ter já forças para
+affastar de si a vingadora visão, que o aterrava, sem poder distinguir
+se tudo aquillo era sonho ou realidade, pareceu-lhe que cedia ás ordens
+da filha, e que estava escrevendo o que ella lhe dictava...............
+.......................................................................
+
+Succedeu-se á visão um quebrantamento, que teve o velho fidalgo
+prostrado, por algumas horas, como se estivera morto.
+
+Ao abrir os olhos, viu Sebastião da Mesquita junto da cabeceira a
+sollicita e carinhosa esposa. Diligenciou recordar-se, e communicou o
+acontecido a D. Isabel, em voz fraca, e cada vez mais duvidoso, se um
+sonho fôra, ou se tudo se passára na realidade. A bondosa senhora,
+aproveitou aquellas disposições do marido, para advogar a causa da
+filha. Pintou Arthur Soares com as mais bellas côres; revelou o que elle
+praticára em beneficio de D. Anna, porque entendeu que o juramento de
+guardar segredo, dado por D. Maria, a não obrigava a ella; descreveu com
+enthusiasmo o casto amor da donzella, e o que ella soffreria tendo de o
+sacrificar ao dever de esposa de um homem aborrecido; foi, finalmente,
+sublime de eloquencia maternal.
+
+No fim das suas expansões, olhou D. Isabel para o marido, a vêr se lhe
+lia nos olhos o assentimento, que os labios não tinham proferido. Não
+conseguiu o seu intento, porque os olhos de Sebastião da Mesquita
+estavam completamente fechados... O remorso fôra um poderoso auxiliar da
+enfermidade...
+
+Áquella hora, já o velho fidalgo sabia se lá nas alturas Deus permitte a
+distincção de _humanas raças_...
+
+
+
+
+V
+
+TRES SOLDADOS POR AMOR
+
+
+ «Tomai pensar mais solido e sizudo:
+ O caminho segui que a honra indica;
+ Trabalhai pela Patria, a Patria é tudo.»
+
+ (POESIAS DE ANTONIO JOAQUIM DE MESQUITA E MELLO).
+
+
+Entremos na residencia do reitor de Santo Adrião de Penafiel.
+
+Estamos na sala do oratorio, onde já vimos orar D. Isabel e o velho
+parocho, por occasião dos _raptos_, e do incendio, da primeira parte
+d'esta obra.
+
+Ajoelhado aos pés de Christo, está um vulto de mulher, nova e bella
+ainda apesar do seu definhamento.
+
+Assentados em um movel de junco de dous logares unidos, com as costas
+oppostas uma a outra, ficando por isso as pessoas a olharem-se de
+frente, estão a um canto Rosa e João Vidal ou de Lencastre.
+
+A um lado, escrevendo, está o bondoso reitor.
+
+Trajam todos rigoroso lucto.
+
+Ouviremos o que dizem João e Rosa:
+
+--Quando seccarão as lagrimas nos seus olhos, snr.^a D. Rosa?...
+
+--Não ha muito que chóro, meu amigo, e ainda bem que posso chorar... Sou
+muito mais forte do que me julgam, e do que eu mesma pensava ser...
+Tenho atravessado de olhos enchutos crises violentas, que nem todos os
+homens atravessariam de animo frio... Mas saber, na mesma hora, que era
+filha de um respeitavel cavalheiro, e que meu pae morrera
+considerando-me perdida... é de mais, bem o conhece!...
+
+--Não posso asseverar-lhe qual foi a convicção com que seu exc.^mo pae
+falleceu; mas ao despedir-me d'elle, julgando eu que ainda o veria
+muitas vezes, quando elle me pediu noticias suas, jurei-lhe, pelo meu
+nome, que v. exc.^a era em tudo sua digna e honrada filha. Este meu
+juramento, pelo conhecimento que elle tinha do meu caracter, e dado
+poucos momentos depois de sua exc.^ma irmã D. Maria lhe ter dicto, por
+uma sublime inspiração, que a snr.^a D. Rosa havia de resurgir pura de
+toda a mácula,--devia ser bastante para o convencer de que fôra
+precipitado em julgar por apparencias. Não posso adiantar-lhe mais,
+porque me era impossivel mentir-lhe, mesmo para seu bem. Estive lá, como
+sabe, quando fui acompanhar aquella desventurada martyr, que implora a
+Deus o perdão dos que a sacrificaram, e desconheceram suas
+virtudes;--mas não fallei com pessoa alguma da familia, porque assim era
+preciso... Poucas horas depois, já seu exc.^mo pae não era d'este mundo!
+
+--Querido pae, e boa irmã!... É preciso que terminado o lucto, meu bom
+amigo, D. Maria da Gloria seja feliz.
+
+--Sabe o que se fez, e o que se espera. O plano de v. exc.^a foi
+rigorosamente executado. Admiro-a, snr.^a D. Rosa!... Como Deus lhe dá
+forças para esmagar o coração!...
+
+--Não me julgue de leve, meu amigo, que póde enganar-se nos seus juizos
+a meu respeito. É muitas vezes insondavel o coração da mulher... Eu
+mesma não saberia, talvez, dizer em verdade quaes sejam os estimulos do
+meu actual proceder...
+
+--Quer a desgraça que os eu conheça, senhora, e que os sinta
+inabalaveis... São rarissimas as mulheres que sabem sacrificar o amor
+aos seus brios, á dedicação e amisade; mas ha exemplos, e v. exc.^a é
+das que póde praticar todos os extraordinarios...
+
+--E não tenho podido conseguir fazel-o feliz com a minha illimitada
+estima... Veja que apoucado poder é o d'esta _extraordinaria_ mulher...
+
+--O que quer, senhora?!... O ambicioso soffre e caminha continuadamente,
+até chegar ao cumulo da sua ambição, ou succumbir sem vêr realisadas as
+suas loucas esperanças... Cheguei a meio caminho do meu paraiso, é
+certo; deveria contentar-me, por que fôra alcançar já muito mais do que
+merecia; mas esse mesmo exito augmentou a minha loucura, e não posso
+ficar parado... Antes morrer com a esperança no pensamento, do que
+arrastar a vida sem essa dôce consolação dos que padecem...
+
+--E como lhe ha de conceder _esperanças_, a mulher que o senhor salvou
+da _perdição_, onde ella se foi voluntariamente lançar por amor a
+_outro_ homem?!...
+
+--Não lhe tenho eu jurado muitas vezes, que seria o mais extremoso e
+dedicado dos esposos?... Suspeita-me capaz, mil annos que vivessemos
+juntos, de lhe fazer a mais remota allusão a um seu passo impensado, que
+nem erro se póde chamar?...
+
+--E julga que me satisfaço com tão pouco?!... Avalia-me com a capacidade
+de o victimar, para salvar a minha virtude?!... Como é injusto, João!...
+Se fosse possivel ter entrada no meu peito, para lhe dar, um affecto
+ainda superior ao que me levou a affrontar os prejuizos sociaes, seria
+então sua esposa, creia-o... Mas posso eu sentil-o?... E sentindo-o, não
+deveria occultal-o a mim propria, para não ter de córar da minha
+versatilidade?...
+
+--Sou, pois, infallivelmente condemnado, não é verdade?!... Um pedido
+então, senhora, e será o ultimo... Deixe-me ir batalhar pela nação... V.
+Exc.^a já não carece dos meus serviços... tem a companhia d'aquella
+martyr, e d'aquelle respeitabilissimo ancião... Vou para junto do meu
+camarada Arthur... talvez que precise do meu auxilio, e juro-lhe que
+darei por elle a vida... Consente, não é assim?... Não me responde?!...
+Chora?!... Compadeça-se de mim, senhora, e deixe-me partir!...
+
+Usando dos privilegios concedidos a todos os narradores, vamos agora lêr
+a carta, que o padre Alvaro acaba de escrever:
+
+
+ «_Exc.^ma Snr.^a D. Maria da Gloria, escolhida filha do bondoso Deus_:
+
+«Não ha flôres por mais mimosas que a natureza as produzisse, que
+estejam ao abrigo das tempestades da terra; e por muito açoitadas e
+pendidas que ellas fiquem, o sopro de um Deus, mais poderoso do que o
+furacão da tormenta, em breve as alevanta e reanima. A minha linda flôr
+da Gloria, está sendo abalada pelos ventos do infortunio, com que o pae
+celeste costuma experimentar os seus escolhidos; mas, se como eu espero
+e creio, a christã resignação fôr uma das muitas virtudes de V. Exc.^a,
+não virá longe o dia em que hade ser compensada dos seus dolorosos
+soffrimentos. Tambem eu sei carpir saudades do meu unico e verdadeiro
+amigo, que nunca julguei que me houvesse de preceder na viagem da
+eternidade!... Ora, pois, enchuguemos o justificado pranto, e fallemos
+um pouco de nós outros, interinos habitadores d'este valle de lagrimas.
+
+«Venho da cabeceira do leito de Arthur, que está livre de todo o perigo:
+mais alguns dias de repouso, e a seiva da vida apparecerá de novo. Foram
+muito graves os ferimentos, perigosos mesmo: deixaram vestigios
+permanentes, que mudaram immenso a physionomia do meu caro Arthur.
+Perdôe a este velho padre o dizer-lhe, que o rapaz me pareceu assim mais
+formoso ainda!... Eu, que devo impugnar os ardores guerreiros, como
+indignos da caridade e da misericordia do Senhor, achei bello aquelle
+aspecto marcial!... Na hora das despedidas, sahiu-lhe espontaneamente da
+bocca o nome de V. Exc.^a, proferido com igual respeito áquelle com que
+por vezes invocára o da sua querida mãe. Quizera responder-lhe com
+poucas palavras, mas foi impossivel. A despedida, durou mais tempo do
+que o resto da visita!... O padre, teve de ceder o seu logar ao homem,
+que, apesar de criminoso, é pae!... Que lhe direi mais, senhora D. Maria
+da Gloria?!... Arthur está preparado para todos os acontecimentos...
+Resignar-se-ha com tudo, afóra a ideia de que V. Exc.^a possa ser menos
+feliz do que merece.
+
+«Peço a transmissão dos meus profundissimos respeitos á exc.^ma snr.^a
+D. Isabel, á qual me atrevo a rogar o seu regresso a estes sitios, onde
+me será mais facil a realisação do desejo de as vêr todos os dias, e
+acompanhal-as nas orações pelo eterno descanço do nosso chorado esposo,
+pae e amigo.
+
+ _Padre Alvaro._»
+
+
+N'este mesmo dia, existiam só, além dos serventes, duas pessoas na
+residencia do padre Alvaro: elle, e a senhora que vimos orar, em quanto
+o padre escrevera e João e Rosa conversavam.
+
+João de Lencastre, fôra o primeiro a retirar-se, com a morte no coração,
+porque de todo lhe fugira a esperança de ser correspondido no seu
+immenso amor.
+
+Rosa, que o não prevenira da sua resolução, seguira-o pouco depois.
+
+Quarenta e oito horas eram apenas passadas, quando, no Porto, a
+companhia de que era capitão Arthur Soares, contava mais dous
+voluntarios, que eram o tenente João de Lencastre, e um elegante
+sargento, que dizia chamar-se Paulo Virginio.
+
+Arthur Soares, estava já completamente restabelecido.
+
+
+
+
+VI
+
+DENODO FEMININO
+
+
+ «Descavalgando, os dous guerreiros tomaram nos braços a irmã de
+ Pelagio, e foram reclinál-a sobre um monticulo cuberto de relva e
+ musgos.....
+
+ «O unico signal que n'ella revelava vida era o tremor convulso que
+ violentamente a agitava.»
+
+ (_A. Herculano_--EURICO.)
+
+
+A guerra civil havia chegado ao seu maximo desenvolvimento. Não existia
+em Portugal uma aldêa livre dos vexames da revolução. Os exercitos
+belligerantes entretinham-se em operações de pouca importancia, em
+conservarem para os seus governos os territorios occupados pela força, e
+não chegavam a travar uma lucta decisiva.
+
+Um estado de coisas assim violento, não podia prolongar-se sem grave
+prejuiso da nossa nacionalidade.
+
+O governo de Lisboa, fundado nas acclamações feitas a favor do snr. D.
+Miguel de Bragança, pedira a interferencia das nações signatarias do
+tractado da quadrupla alliança, por se achar em perigo a pessoa e
+dynastia da rainha.
+
+Foi muito condemnada n'aquella epocha a medida extraordinaria da
+intervenção estrangeira, que é sempre um desaire para as nações a ella
+sujeita; mas é forçoso confessar, que lhe devemos immensos beneficios; e
+que, se não foi um bem absoluto a interferencia da França, Inglaterra e
+Hespanha, poupou comtudo a Portugal o derramamento de muito sangue, e os
+milhares de calamidades a que a duração da guerra nos tinha entregues.
+
+No caso mesmo do vencimento provavel da causa popular havia a receiar
+que, após elle, a ambição do partido ante-dynastico, que se achava em
+força consideravel, désse muito que entender aos liberaes de boa fé, que
+apenas pelejavam pela prática genuina do systema constitucional, e que
+amavam de toda a alma a Liberdade, e a respeitabilissima pessoa da
+snr.^a D. Maria II.
+
+A excelsa filha do rei soldado, a mais exemplar senhora da Europa, como
+esposa e mãe educadora, foi inconsideradamente arguida de facciosa, pela
+exaltação partidaria, que se esqueceu de levar-lhe em conta dos seus
+actos politicos as constantes suggestões dos conselheiros que a
+cercavam, aos quaes não se fartava de fornecer terriveis documentos para
+a catechese, a imprensa licenciosa da opposição, cuja linguagem
+desenvolta e ameaçadora bastaria a resolver qualquer monarcha, por mais
+resoluto que elle fosse, a entregar-se nos braços dos que se lhe
+mostrassem dedicados e leaes.
+
+O certo é, que alguns dos officiaes superiores da junta do Porto, não
+viram com máus olhos a conclusão da guerra, pelo modo que ella teve
+logar, como por sem duvida, a maioria sensata do paiz, a recebeu com
+jubilo.
+
+O batalhão a que pertenciam Arthur Soares, João de Lencastre e o
+sargento Paulo Virginio, achava-se em Setubal, fazendo parte da brigada
+do commando do honrado e mutilado general, que servia ás ordens da junta
+do Porto. Succedeu haverem sido interceptados a bordo de um vaso de
+guerra alguns objectos, que do estrangeiro vinham dirigidos á rainha, e
+entregues áquelle general, que immediatamente os enviou ao Paço por um
+dos seus officiaes;[15] e foi Arthur Soares, elevado por seus serviços
+ao posto de major, o escolhido para os ir apresentar, commissão que
+desempenhou galhardamente.
+
+A snr.^a D. Maria II, commovida por um tão delicado quanto conveniente
+procedimento, acolheu o mensageiro com inequivocas demonstrações de
+estima. Não lhe fez graça nem mercê régia, porque, senhora como era de
+elevadissimos sentimentos e notavel intelligencia, não queria de nenhuma
+fórma melindrar o caracter de um soldado, que militava em campo que lhe
+era opposto; mas significou-lhe, em phrases insinuantes, o quanto estava
+reconhecida áquella fineza do bravo general, e o muito que desejava
+poder em dias mais felizes distinguir e galardoar o porte e delicadeza
+do attencioso mensageiro.
+
+Dias depois, tivera logar a batalha de Setubal, que matou cerca de 600
+homens de ambos os lados, em quatro horas que durou o fogo, e a que poz
+termo um armisticio, por uma especie de intervenção do coronel Wilde,
+que se achava n'aquellas paragens, a bordo do navio de S. M. Britanica
+_Polyphemus_.
+
+N'esta batalha, achou-se o regimento de Arthur Soares fazendo parte da
+força que atacara a direita do inimigo, e que foi tomada de improviso
+pela cavallaria, que a fez debandar desordenadamente. O major Arthur
+Soares, o tenente João de Lencastre, e o sargento Paulo Virginio,
+fizeram desesperados esforços por conter os soldados, e tiveram de
+sustentar uma lucta desigual com a cavallaria inimiga. Na occasião em
+que o peito de João de Lencastre ia ser varado por uma bala sahida da
+pistola que lhe apontava um soldado, collocou-se de permeio o sargento
+Paulo Virginio, que recebeu o ferimento destinado ao seu superior.
+N'esta altura, ouvia-se por todo o campo da batalha o toque de retirada,
+e foi a elle que os dous officiaes deveram a conservação de suas vidas,
+e o poderem soccorrer o ferido, que tão denodadamente havia salvado um
+d'elles.
+
+Imagine-se qual seria o espanto dos nossos heroes, ao reconhecerem, sob
+as vestes militares do sargento moribundo, o corpo mimoso da donzella
+Rosa!...
+
+ [15] Este facto foi publicado em alguns periodicos d'aquelle tempo.
+
+
+
+
+VII
+
+OS ESPINHOS DA FLOR
+
+
+ «Peço ao meu anjo da guarda,
+ Se hei-de aqui ficar perdida,
+ Que vá levar-te por sonhos
+ Esta minha despedida.»
+
+ (_V. de Castilho_--O ACALENTAR DA NETA.)
+
+
+Leopoldo havia recuperado a razão, graças aos cuidados da sua gentil
+enfermeira. Mal sabia o desgraçado, que novo supplicio lhe destinava a
+mulher que o salvára da demencia!...
+
+Ouçamol-os:
+
+--Diga-me muitas vezes que não sonho, querida prima, e que não é
+encantamento, ou uma nova crise da minha loucura, este celeste deslisar
+da existencia ao seu lado...
+
+--É um facto muito real e verdadeiro, _caro primo_, que hade ter por
+desenlace o nosso casamento...
+
+--Não posso crêr em tamanha ventura!...
+
+--Duvída?!... Pois não sabe, que protestei a meu pae de sustentar o
+seguimento das _nobres_ allianças da minha raça?... Não vê como já me
+abandono ao seu dominio, separada de minha mãe, que foi para o nosso
+solar chorar a perda do marido estremecido, e longe de todos que no
+mundo me são caros?... Duvída?!... Alguma razão tem para duvidar, porque
+não é com premios taes que se costumam castigar os assassinos...
+
+--Tenha piedade, senhora!...
+
+--Piedade?!... De quem, e porquê?!...
+
+--De mim, que só fui criminoso por amor e por ciume... A ferida que fiz
+n'um peito desleal, causou-me estragos, que só a prima teve o poder de
+reparar... e bem conhece que não são de _assassino_ estes
+soffrimentos...
+
+--__A _ferida que fez n'um peito desleal_, diz o primo?!... Illude-se, e
+é chegada a hora de lhe tirar a venda... V. Exc.^a cravou ás punhaladas,
+com este villão instrumento que guardei para o sangue que o tinge me
+animar á vingança, o unico peito em que batia um coração que lhe era
+affecto... Minha irmã Anna amava-o, como ao seu unico e verdadeiro
+amor...
+
+--Não brinque, prima, que me tortura!...
+
+--Quer as provas?... Vá ouvindo... Passavamos aqui uma existencia
+relativamente feliz, eu a crear sonhos de ventura com o meu _idolatrado_
+Arthur, e minha irmã Anna a lamentar-se de não ser comprehendida por V.
+Exc.^a no seu immenso affecto, quando veiu enluctar-nos uma carta de
+nosso pae, que me participava a resolução de casar-me em Guimarães...
+Soffri horrivelmente!... Fiquei em estado de não poder empregar sequer
+um raciocinio... A minha querida irmã, que era o symbolo da dedicação,
+imaginou conjurar a tempestade que ameaçava o meu futuro, chamando aqui
+o meu _muito amado_ Arthur... Comprehende?... Foi essa carta fatal,
+roubada no campo da gloria ao _meu idolo_ por um soldado do seu
+commando, que o tornou um assassino cobarde... Veja o sangue innocente,
+tornado ferrugem no seu punhal!...
+
+--Misericordia, senhora, que me mata!...
+
+--Não hade morrer, _senhor meu noivo_, em quanto não tiver bem esgotado
+o calix de amargura, que outros já tragaram por sua causa...
+
+--É então o demonio vingador, em vez do anjo adorado?!... Mas como é que
+deseja unir-se ao homem que detesta, ao assassino de sua innocente
+irmã?!... Eu torno a enlouquecer, de certo!...
+
+--Tambem não hade enlouquecer, porque me tem amor, e vae ser meu
+esposo... Socegue, que o aguarda uma existencia _singular_...
+
+--Atterra-me o seu sangue frio, senhora! Não me dirá o logar que occupo
+no seu coração?...
+
+--O meu coração está cheio, hade estal-o sempre, do _unico_ homem que eu
+amo, e do qual me separa a fatalidade... Não hade passar um minuto da
+minha existencia, sem que eu pague um tributo de lagrimas ardentes e
+saudosas á memoria de _Arthur Soares_, do amor da minha infancia, da
+alma mais nobre que existe na terra, e que só no céu me será concedido
+unir á minha... Que importa isto ao _meu futuro esposo_, ao viuvo de
+_minha irmã assassinada_!...
+
+--Cale-se, demonio!...
+
+--Hei de entreter os ouvidos de meu caro primo, e _feliz noivo_, com a
+fiel narração do estado da minha alma, que todos os dias voará em busca
+da que lhe é igual... Hei-de fazer-lhe conhecidas muitas
+particularidades do nobilissimo caracter de Arthur... Quer saber?... Foi
+elle que deu um dote á sua primeira mulher, ajuntando e vendendo para
+esse fim, todos os seus haveres...
+
+--Que tormentos do inferno me quer fazer passar, senhora?!!... Peço-lhe
+antes a morte como o supremo beneficio...
+
+--Quer saber mais?... Lembra-se da musica que eu lhe tocava todos os
+dias ao pianno durante a sua convalescença?... É uma composição minha...
+Fiz-lhe tambem uma letra, que lhe não cantava, porque não estava ainda
+em estado de comprehendel-a... Vou dizer-lh'a agora, para que fique
+sabendo que só o amor é verdadeiro poeta... Oiça:
+
+ «LAGRIMAS D'ALMA
+
+ «Vida ditosa da infancia amena,
+ tornada pena, que me traz delirio!...
+ Meu terno amante, meu poderoso rei,
+ por amor fiquei n'um atroz martyrio!...
+
+ Ignora o mundo que cruel mysterio,
+ ao cemiterio casta virgem leva!...
+ Nem _Elle_ sabe quanto hei penado,
+ Arthur amado, que minha alma enleva!
+
+ Aqui defronte do feroz tyranno,
+ que deshumano duas vidas sóme,
+ a irmã eu vingo, o amor vingando,
+ Arthur amando com ardor sem nome!...
+
+ Ai! que saudade dos meus sonhos bellos,
+ puros anhelos, que gostosa tinha!
+ Ai! que tormentos o presente encerra,
+ na crua guerra da vingança minha!...
+
+ Vida ditosa da infancia amêna,
+ tornada pena, que me traz delirio!...
+ Meu terno amante, meu querido d'alma,
+ recebe a palma d'este cru martyrio!...»
+
+O todo de Leopoldo revelava um tal soffrimento, que o mais desalmado
+executor de alta justiça se compadeceria ao vêl-o! E D. Maria da Gloria
+estava impiedosa! Chegara a um estado de exaltação, em que a mulher
+_senhora_, se torna a mais temivel das féras. Havia por muito tempo
+concentrado o seu rancor ao homem que lhe matara a irmã, e fôra causa,
+ainda que indirecta, de se lhe sumir o delicioso porvir que sonhara, e
+por isso era terrivel n'aquelle seu primeiro manifesto do odio que lhe
+enchia o peito.
+
+Um escudeiro veiu entregar uma carta á vingadora que, reconhecendo
+n'ella a letra de Arthur, a recebeu com transportes da mais intima
+alegria, praticados febrilmente em face de Leopoldo.
+
+O conteúdo na carta, que D. Maria lêu em voz alta, era este:
+
+«Depois que o meu velho Alvaro lançou n'este pobre coração o desespero,
+com a noticia da resolução que v. exc.^a tomara de ser fiel á vontade de
+seu exc.^mo pae, tenho procurado a morte no campo da batalha, porque só
+ella me libertaria dos tormentos, que me esperam ao saber que outro
+homem é o seu esposo... Mas superior á minha vontade está o dedo de um
+Deus todo poderoso, que me afasta os perigos, e me cérca de espectaculos
+insinuantes!... Poderei vêr n'isto uma esperança?...
+
+«Na ultima batalha a que assisti, e na qual ganhei a patente de coronel,
+deu-se um acontecimento, que vou narrar-lhe, porque tambem lhe
+interessa. Alistara-se ultimamente no regimento do meu commando um joven
+sargento, sobrio de palavras, que dizia chamar-se Paulo Virginio, e que
+era a sombra do meu camarada, o seu bondoso parente João de Lencastre.
+Não fizemos caso da assiduidade com que o sargento seguia de perto o seu
+tenente, porque ambos nós tinhamos sérias preoccupações, que nos não
+davam tempo a reparos curiosos. Quasi no fim da batalha, e quando já se
+ouviam por todo o campo os toques de cessar fogo, e de retirada das
+forças combatentes, estavamos todos tres cercados por soldados da
+cavallaria inimiga, um dos quaes apontou a sua pistola ao peito de João
+de Lencastre. Rapido, porém, como se fôra uma frecha, o intrépido
+sargento, colloca o seu corpo em defesa do tenente, e recebe no peito o
+ferimento que lhe era destinado! Dentro em pouco, apenas restavam no
+campo os mortos e feridos de ambos os lados. Fomos em soccorro do
+sargento: quem imagina v. exc.^a que descobrimos debaixo de um tal
+disfarce?... A heroica senhora D. Rosa, sua exc.^ma irmã!...
+
+«De certo que avalia o nosso espanto e viva sensação, ao reconhecermos a
+nossa companheira de infancia, a minha quasi irmã, a querida de todos
+nós!...
+
+«Apresso-me a dizer-lhe que sua exc.^ma irmã não morreu; mas antes de
+participar-lhe o desfecho d'esta tragica scena, preciso oriental-a de
+succedimentos anteriores.
+
+«A snr.^a D. Rosa, chegou a persuadir-se que sentia por este seu indigno
+criado, um affecto irresistivel; e como sabia d'aquelle que occupa a
+minha alma, e que ella considerava correspondido, entendeu dever oppôr
+entre mim e ella a barreira da perdição simulada, fugindo, n'este
+intuito, do seu lar domestico, e dando entrada em Guimarães n'uma casa
+de perdição!... Foi alli surprehendida por João de Lencastre que, após
+porfiadas luctas, conseguiu arrancar-lhe o segredo do seu procedimento.
+Este meu brioso camarada, e digno parente de v. exc.^a, offereceu o seu
+nome, e a sua fortuna, á snr.^a D. Rosa, indicando-lhe este meio como o
+melhor para o conseguimento dos seus fins; isto é, para que entre mim o
+v. exc.^a nunca podésse haver suspeita do amor que ella julgava
+consagrar-me. Sua exc.^ma irmã regeitou, e conservou-se na mesma casa,
+até que João de Lencastre, que a occultas alugara uma sala proxima, teve
+occasião de a salvar de uma affronta, que um infame tentava fazer-lhe.
+Desde um tal dia, que a snr.^a D. Rosa abandonou completamente o seu
+arrojado e perigoso projecto, entregando-se á protecção do nobre
+salvador da sua virtude.
+
+«O meu camarada, e honrado parente de v. exc.^a, ha muito tempo, como
+elle me confidenciou, que déra entrada a um sentimento sério pela
+senhora D. Rosa; sentimento que todas estas peripecias tiveram o poder
+de augmentar, por conhecer em sua exc.^ma irmã, a par de um genio viril,
+um nobilissimo caracter, e pouco vulgar talento. Ultimamente, em casa do
+meu prosado velho, tentou o meu camarada obter da senhora D. Rosa uma
+resposta decisiva aos seus vehementes desejos, que lhe foi negada.
+
+«Dadas estas explicações indispensaveis, para a boa intelligencia do
+mais que tenho a narrar-lhe, vou dizer o que se deu em seguida ao
+ferimento do supposto sargento.
+
+«A dôr e a desesperação que se apoderaram de João de Lencastre ao
+reconhecer na pessoa ferida a mulher que adorava, e que lhe parecia
+estar sem vida, sentí-as, mas não me é dado descrevel-as. Conduzimos o
+corpo inerte para a nossa residencia no quartel militar, e foram alli
+chamados os mais habeis facultativos da nossa brigada, que estiveram
+tres dias indecisos sobre o diagnostico que deviam dar. Ao quarto dia, o
+primeiro em que sua exc.^ma irmã recobrou o uso da falla,
+consideraram-n'a os medicos livre de perigo, ainda que mui gravemente
+ferida. Durante o periodo de prostração da snr.^a D. Rosa, não pude
+conseguir desviar o meu camarada da cabeceira do seu leito um só
+instante. Estava mais cadaverico ainda que a doente, e n'um quietismo
+idiota, que muito me assustou. Só deu accordo de si, quando sua exc.^ma
+irmã abriu os olhos, e os fitou ternamente n'elle, levando-lhe a mão aos
+labios... Então, arrebentaram-lhe as lagrimas com espantosa força, e
+tive de o tirar arrebatadamente de ao pé do leito, para evitar damno á
+doente.
+
+«Horas depois, fui testimunha da mais commovedora scena que tenho
+presenceado: a snr.^a D. Rosa chamou-nos para junto de si, e fallou
+n'estes termos: «Não podia ser feliz n'este mundo, e louvo a Deus a
+sorte que me permittiu conservar a vida do homem que amo, a troco da
+minha... Agora, que vou morrer, hei de ser acreditada, por mais
+incomprehensivel que seja a minha confissão... Considerei-me presa de um
+amor invencivel pelo snr. Arthur Soares, que eu sabia cheio de um
+sublime affecto por minha irmã... Quiz pôr entre nós o impossivel, para
+conter-me, e fingi entregar-me ao vicio... Fui salva da minha
+temeridade, por uma affeição das que raramente os homens sabem ter...
+Esta dedicação, a que não tinha o menor direito, fez-me descobrir um
+novo rumo no sentimento que eu havia considerado immutavel!... Mas como
+fazer semelhante confissão?!... Segui o homem que amava, e ao qual devo
+a conservação da minha honra, na intenção de lhe dar a vida, como lhe
+havia dado o coração... Deus concedeu-me a ventura desejada... Crês
+agora em mim, Lencastre?...»
+
+«O meu camarada, snr.^a D. Maria, praticou as maiores loucuras, a que
+póde levar-nos uma alegria sem limites!... Eu... pensava em v. exc.^a...
+
+«Tenho dentro em pouco de ser padrinho da união d'aquellas almas
+angelicas perante o altar do Eterno... Partilho, por amizade, da ventura
+dos nossos amigos; mas que dôres não hei-de ter ao lembrar-me que igual
+ceremonia póde qualquer dia unir eternamente a snr.^a D. Maria da Gloria
+a...
+
+«Cahe a penna da mão ao fiel servo de v. exc.^a
+
+ _Arthur._»
+
+
+A leitura da carta, que produzira em Leopoldo o effeito de um choque
+electrico, augmentou o mau humor da vingadora, que redobrou as pungentes
+ironias e os crueis sarcasmos, com que torturava o seu futuro noivo...
+
+Quando o desgraçado estava de todo succumbido, appareceram alli, sem se
+fazerem annunciar, dois importantes personagens: eram o padre Alvaro, e
+uma senhora com o rosto coberto por expêsso véu.
+
+O bondoso levita, dirigiu-se a Leopoldo n'estes termos:
+
+--Nunca se deve descrêr da misericordia divina, snr. Leopoldo!... Se na
+sua alma entrou o remorso e o arrependimento do mal que tem causado,
+posso dar-lhe uma esperança de que será perdoado por Deus... O seu
+crime, não teve o resultado fatal, que o fizera enlouquecer... Sua
+esposa escapou do ferimento que o senhor lhe fez, e vive ainda para lhe
+perdoar, e amal-o como sempre o amou... Eu, seu irmão e a senhora D.
+Rosa occultos em trajes de romeiros, e o honrado medico d'esta
+localidade, que logo asseverou não ser mortal o ferimento, combinamos
+deixal-a passar por morta, na caridosa intenção de pouparmos toda a
+familia aos escandalos de um processo crime; fizemos convencer a todos
+de que v. exc.^a enlouquecera com o desgosto; simulamos o enterro de um
+cadaver, e conduzimos secretamente a snr.^a D. Anna á habitação do
+medico, onde se conservou até se achar completamente curada, passando
+depois para a residencia d'este humilde servo do senhor...
+
+Leopoldo, forcejou por levantar-se e ir ter com o vulto de mulher, que
+elle adivinhara ser a sua, mas não pôde conseguil-o, porque a violencia
+d'estas scenas o fizera cahir sem sentidos nos braços do bondoso padre.
+
+As duas irmãs, ternamente abraçadas, confundiam as lagrimas e os
+soluços.
+
+
+
+
+VIII
+
+A CONVENÇÃO DE GRAMIDO
+
+
+ «O partido popular fica livre da deshonra. Cedemos desde que nos era
+ impossivel combater; cedemos á força de tres poderosas nações.
+ Perdemos tudo, mas salvamos a honra.»
+
+ (O n.º 63 do _Espectro_)[16].
+
+
+Leopoldo ficára prostrado no leito, acariciado por sua esposa, e
+assistido da medicina, que procurava prevenir a volta da loucura.
+
+D. Maria da Gloria, antes de sahir, na companhia do padre Alvaro, para a
+casa materna, tivera com sua irmã largas conferencias, e recebeu d'ella
+um escripto do punho paterno, em que lhe era concedida licença para
+unir-se com Arthur Soares. Este documento, fôra aquelle que Sebastião da
+Mesquita lhe _parecera_ ter escripto, e que effectivamente escrevera,
+durante a _visão_ de que tracta o capitulo assim chamado. Alcançara-o D.
+Anna, entrando a deshoras no quarto de seu pae, em cumprimento de um
+plano concebido por sua irmã Rosa, e auxiliado por João de Lencastre.
+Levava de prevenção o necessario para aquelle escripto, que humildemente
+rogára a seu pae lhe fizesse, e que o velho fidalgo, aterrado pela
+apparição da filha que elle julgava morta, e considerando ordem o que
+era rogativa, escreveu com mão trémula.
+
+Arthur Soares, e os noivos João de Lencastre e Rosa, estavam na cidade
+do Porto, onde a revolução agonisava.
+
+Arthur acompanhara os representantes da junta provisoria do governo
+supremo do reino a Gramido, onde tivéra logar a convenção, que poz termo
+á guerra civil, e que foi resumido nestes artigos:
+
+1.º O fiel e exacto cumprimento dos quatro artigos da medeação,
+incluidos no protocollo de 21 de maio d'este anno, é garantido pelos
+governos alliados.
+
+2.º As tropas de sua magestade catholica exclusivamente occuparão desde
+o dia 30 de junho a cidade do Porto, Villa Nova de Gaya, e todos os
+fortes e reductos d'um e outro lado do rio em quanto a tranquillidade
+não estiver completamente estabelecida sem receio de que possa ser
+alterada pela sua ausencia, ficando na cidade do Porto uma forte
+guarnição das forças alliadas em quanto estas se conservarem em
+Portugal. No mesmo tempo o castello da Foz será occupado por tropas
+inglezas, e no Douro estacionarão alguns vasos de guerra das potencias
+alliadas.
+
+3.º A epocha da entrada das tropas portuguezas na cidade do Porto será
+marcada pelas potencias alliadas.
+
+4.º A propriedade e segurança dos habitantes do Porto, e de todos os
+portuguezes em geral, ficam confiados á honra, protecção e garantia das
+potencias alliadas.
+
+5.º As forças do exercito de sua magestade catholica receberão as armas
+dos corpos de linha, e voluntarios que obedecem á junta, entregando-se
+guia ou passaporte gratuito ás pessoas que tiverem de sahir do Porto
+para as terras da sua residencia, e dando-se baixa aos soldados de linha
+que tiverem completado o tempo de serviço, e aos quaes se alistaram
+durante esta lucta para servirem só até á sua conclusão.
+
+6.º O exercito da junta será tractado com todas as honras de guerra,
+sendo conservadas aos officiaes as espadas, e cavallos de propriedade
+sua.
+
+7.º Conceder-se-hão passaportes a qualquer pessoa, que deseje sahir do
+reino, podendo voltar a elle quando lhe convier.
+
+8.º As tres potencias alliadas empregarão os seus esforços para com o
+governo de sua magestade fidelissima afim de melhorar a condição dos
+officiaes do antigo exercito realista.
+
+Esta convenção foi publicada por um decreto e proclamação da junta, que
+termina assim:
+
+«A junta felicitando-se a si propria, e á nação, por vêr terminada uma
+tão longa, e tão dolorosa guerra civil, espera que nenhum portuguez que
+seguisse a sua bandeira conserve a lembrança de qualquer aggravo que,
+durante a mesma guerra, possa ter recebido.
+
+«A junta lisongeia-se de que o seu comportamento, durante os difficeis
+tempos em que foi chamada a reger estes reinos, em nome da nação e de
+sua magestade a rainha, lhe tenha grangeado a estimação do povo
+portuguez e do mundo civilisado.
+
+«A junta considera terminada a sua missão de uma maneira nobre, e
+honrosa. A junta vai dissolver-se.
+
+«Seus membros, voltando de novo ao seio da vida particular, levam
+comsigo a convicção de que sempre desejaram o bem, a liberdade e a
+gloria do povo portuguez.
+
+«Não querem maior galardão do que a lisongeira recordação de que por
+tanto tempo presidiram aos destinos do povo mais benigno, mais virtuoso,
+mais heroico, e mais nobre da terra.
+
+«E farão sempre os mais sinceros votos pela gloria de Sua Magestade a
+rainha, pela sincera reconciliação de seus subditos, e pela liberdade, e
+felicidade do povo portuguez.»
+
+Assim acabou a mais notavel das guerras civis portuguezas.
+
+Arthur Soares, antes de seguir jornada, com os noivos, para Penafiel,
+escreveu a D. Maria da Gloria estas palavras:
+
+«Acabou a guerra e com ella a esperança d'uma morte gloriosa para mim.
+Recolho-me á residencia do meu santo velho, onde tudo me recordará o
+tempo feliz da minha mocidade, passado ao lado de v. exc.^a... Qual será
+o meu futuro?!...
+
+«Acompanham-me os noivos, que tencionam pedir á snr.^a D. Isabel e a v.
+exc.^a um aposento no seu palacio.
+
+ _Arthur_».
+
+Havia sido expedida esta carta ha poucos momentos, quanto Arthur Soares
+recebera outra d'este theor:
+
+«Venha quanto antes abraçar a sua esposa. As barreiras que se oppunham á
+nossa ventura, quiz Deus sumil-as pela sua infinita bondade!
+
+ _Maria_.»
+
+Avalie o contentamento de Arthur, aquelle dos nossos leitores, que tiver
+sinceramente amado.
+
+ [16] Referimo-nos por vezes ao _Espectro_, não só por ter sido o
+ papel mais conhecido na epocha da revolta, mas tambem, e
+ principalmente, para darmos ao seu redactor, e nosso primeiro
+ jornalista, a honra, e a justiça, que se lhe devem. As más paixões
+ teem querido desfigurar os factos, attribuindo a odio pessoal o que
+ só fôra desharmonia politica; mas a verdade é--como já provamos--que
+ o _Espectro_ foi o _unico_ periodico da opposição d'aquelle tempo,
+ que teve a gloria de castigar os aleives da imprensa desenvolta,
+ tributando o respeito devido á _pessoa_ e _virtudes_ da snr.^a D.
+ Maria II.
+
+
+
+
+IX
+
+BRIOS DE PLEBEU
+
+
+ «Uns homens ha, que, na paixão ardente,
+ Immolam tudo seu,
+ Menos a propria estima; e, felizmente,
+ D'esses homens sou eu:
+ Sou, que de tudo o que no mundo prézo,
+ Prézo mais não mer'cer o meu desprezo.»
+
+ [João de Lemos--CANCIONEIRO]
+
+
+Uma d'estas revoluções moraes, que as grandes crises produzem no espirito
+humano, se operou em Arthur Soares. O filho do bom Alvaro era uma destas
+almas privilegiadas, ricas de sublime poesia, a que o mundo chama
+imaginações prodigas, porque lhe é vedado o entendel-as. Amara D. Maria da
+Gloria, que era rica e nobre, como se ella fôra a mais desprotegida
+camponeza. Prenderam-n'o os dotes moraes e physicos da fidalga moça, e nem
+por sombras o deslumbrara a fortuna e nobreza de sangue da sua amada. Tão
+prudente como gentil e cavalheiro, nunca d'elle partiria a iniciativa de
+uma declaração: era d'estes poucos homens, que sabem morrer com um segredo
+na alma, para não se exporem aos falsos juizos do vulgo, nem serem menos
+presados pelo alvo da sua estima. D. Maria da Gloria, possuidora d'uma alma
+semelhante á de Arthur, amando-o como era amada e manifestando o seu amor,
+seguira seus naturaes impulsos com feminil precipitação.
+
+Sabendo que era amado pela filha do seu orgulhoso e fidalgo padrinho, a par
+do naturalissimo contentamento que uma tal certeza lhe deu, principiou
+Arthur Soares a comprehender o melindre em que o collocavam estes amores.
+Os acontecimentos, porém, precipitaram-se com tal velocidade, que, até ao
+momento do desenlace, não teve o nosso heroe o tempo material preciso para
+cogitar n'um procedimento digno de si.
+
+Agora, que só da sua vontade estava dependente a sua ventura, Arthur
+hesitava, e sustentava uma lucta mortificadora, porque os seus brios de
+homem de bem lhe patenteavam, que no seu enlace com D. Maria não podia elle
+entrar com uma porção, se não igual, aproximada das conveniencias sociaes
+que ia receber. Se ao menos podésse apresentar as dragonas e condecorações
+ganhas no campo da batalha, seria já alguma coisa, e fôra provavel que
+acabasse a sua hesitação; mas o governo interino que lh'as concedera
+deixara de existir, e o de sua magestade não lh'as garantia.
+
+Este brioso luctar contra o sentimento, se collocava Arthur Soares bem
+longe do bafo empestado das paixões mesquinhas e torpes, que são o apanagio
+de villões interesses, trazia-lhe a par a recordação dos tempos em que lhe
+soavam os alegres hymnos do amor e da saudade; em que era sustentado o seu
+affecto pela esperança de se tornar distincto no campo da honra, e poder
+assim encurtar a distancia que o separava de Maria; e o seu intimo soffrer
+tomava proporções assustadoras, que ameaçavam queimar-lhe ao fogo do
+coração os brilhantes sonhos de amor que o tinham embalado.
+
+Ao passo que tudo respirava tranquillidade no palacio de D. Maria da
+Gloria, e que a vida prasenteira dos noivos se tornava communicativa aos
+demais habitadores d'aquelle nobre solar, existiam a dois passos d'alli, na
+residencia do padre Alvaro, duas almas consumidas pela melancolia; pae e
+filho eram victimas dos mesmos pensamentos, que nutriam sem os
+communicarem, e que nenhum d'elles sabia como destruil-os para o bem
+commum.
+
+As forças physicas de Arthur tiveram de ceder ao prolongado e doloroso
+debate moral que elle sustentara, e cahiu em perigosa enfermidade. O triste
+pae, teve de envidar um resto de energia, para animar o filho querido, e
+chamou em seu auxilio aquella que era a involuntaria causa do soffrimento
+de Arthur.
+
+D. Maria da Gloria, com a perspicacia inherente ás pessoas do seu sexo,
+educação e talentos, quasi que lia claramente na alma do seu amante e, por
+um fidalgo tacto, que só ensina o amor verdadeiro, desviara sempre as
+conversações do terreno em que poderiam declinar para expansões perigosas,
+esperando assim corajosamente o resultado da lucta, sem dar o menor indicio
+de querer accelerar o desfecho que tão grato era ao seu coração.
+
+Assidua enfermeira do seu amante, pondo de parte as etiquetas e convenções
+do seu mundo, D. Maria não largava a cabeceira do seu querido enfermo. Nas
+crises mais perigosas da enfermidade, tinha a gentil e fidalga moça a
+coragem de mostrar-se risonha na presença do seu idolo, para dar, ás
+occultas, largas ao pranto, e á dôr que a definhava.
+
+Os desvélos do pae e da amante, auxiliados pela constituição vigorosa de
+Arthur, arrancaram-n'o das bordas do tumulo. Já convalescente, tomou um dia
+as mãos do pae e de D. Maria, beijou-as religiosamente, e disse-lhes, com
+lagrimas na voz, e nos olhos:
+
+--Porque me não deixaram morrer?!... Acabava tudo, e não os faria soffrer
+mais...
+
+--Quer-me parecer, Arthur, que vão muito longe os teus brios, e que talvez
+degenerem em orgulho condemnavel... Ambos nós lêmos no teu intimo; eu,
+porque sou teu pae; e este incomparavel anjo, porque te ama, ainda além do
+que é permittido amar-se na terra... Querias morrer?!... E não será a
+manifestação de um tal desejo grave offensa á Divina Providencia, que tão
+prodiga tem sido em beneficiar-te?... Ou quererás tu tornar-me mais
+pungentes os remorsos, por te haver dado uma existencia a que chamas
+infeliz?... Mas fica certo, filho, que a tua ultima hora seria a minha, e
+que tu, deixando a vida, fugias á possivel felicidade n'este mundo, em
+quanto que eu, se um Deus misericordioso perdoar os meus peccados, encontro
+na morte o supremo bem!...
+
+--Como são sevéras as suas palavras, meu querido pae!... E diz-me o
+coração, que os seus sentimentos são os meus, e que, no meu caso, seria em
+tudo semelhante o seu procedimento... A prova d'esta minha convicção, está
+no silencio que tem guardado, quando muito bem conhece que o simples
+enunciado da sua vontade seria para mim uma ordem terminante... Porque me
+não ordena o que devo fazer?...
+
+--Chega-me a minha vez de fallar, e principio por usar da minha auctoridade
+de enfermeira, lembrando ao impertinente doentinho, que não póde ainda
+entrar em conversações animadas... Sim, agora o mais bonito é isso!...
+Chorem, chorem ambos, mortifiquem-se bem, e não tenham pena de mim, que os
+heide aturar doentinhos!...
+
+--És o melhor dos anjos, minha querida Maria!...
+
+--Nem sou _anjo_, nem sou ainda _sua_, seu mau... Isso hade acontecer,
+quando se realisar um sonho que eu tive uma d'estas noites......O snr.
+Arthur Soares, figurava no meu sonho como um grande personagem, cercado de
+attenções e de respeitos, podendo dispensar protecção, e não tendo já que
+receiar dos maus juizos que o mundo fórma quando vê ligações entre duas
+pessoas que não pesam do mesmo modo na balança das conveniencias... Eu era
+sempre a mesma rapariga aldeã, que _V. Exc.^a se dignava elevar_ até á sua
+altura, e que caminhava para a capella tão contente por o meu esposo ser um
+_potentado_, como o estaria se elle fosse um simples _operario_...
+
+--Basta, minha adorada Maria!... Fixa tu a epocha do nosso casamento...
+
+--Está fixada, já lhe disse... Esperemos a realisação do meu sonho, que me
+diz o coração, que não havemos de envelhecer esperando... Quero que fiquem
+bem satisfeitos todos os seus caprichinhos... E agora, nem mais uma
+palavra, que te faz mal fallar...
+
+
+
+
+X
+
+VIAGEM DA RAINHA
+
+
+ «Foi então que se apossou da corôa.»
+
+ (A. HERCULANO--EURICO.)
+
+
+ «Crer e amar--é a unica religião verdadeira; crer e amar--a unica
+ poesia verdadeira: uma não está sem a outra.»
+
+ (V. DE ALMEIDA GARRETT--HELENA.)
+
+
+A guerra civil gastou a nossa energia, e converteu a dissenção armada em
+vinganças mesquinhas, em baixos enrêdos e ambiciosas abjecções. O povo,
+esmagado com o peso dos tributos e dilacerado pelas inglorias luctas dos
+bandos politicos, tinha perdido as crenças, e o amor ao systema liberal: o
+throno, á força de lh'o pintarem de ferro, figurava-se-lhe tyrannico. Foi
+então que uma feliz revolta militar levou ao poder os primeiros homens que
+pozeram em pratica a constituição.
+
+Ferindo no ámago a roedora agiotagem por medidas energicas; apagando os
+odios politicos; equilibrando quanto possivel a receita com a despeza do
+estado; pagando em dia aos empregados da nação; garantindo as patentes aos
+officiaes do exercito, e fazendo este alheio aos baldões politicos; dotando
+o paiz de estradas e outros melhoramentos materiaes; dando accesso nos
+empregos aos homens de todas as côres politicas; segurando os direitos
+individuaes; e pondo, finalmente, em acção todo o machinismo de uma
+verdadeira monarchia constitucional,--o primeiro ministerio chamado
+_regenerador_, não desmentiu este nome redemptivo.[17]
+
+Não contentes de haverem grangeado a estima publica pelos seus actos,
+aquelles vultos politicos do memoravel ministerio _regenerador_, quizeram
+dar ao povo portuguez um conhecimento perfeito das altas virtudes da
+familia real, e aconselharam-na a viajar pelo reino. Este passo teve o
+alcance meditado: o nobre povo portuguez ficou amando, como ella merecia, a
+senhora D. Maria II, e a sua dynastia.
+
+Pouco tempo depois, a digna filha do rei soldado, foi chorada, na sua
+prematura morte, por todos os partidos; sendo para notar-se a parte
+distincta que tomou no lucto, o partido que era affeiçoado ao infeliz
+principe proscripto.[18]
+
+Continuou, sob a regencia do sympathico e bondoso monarcha, o snr. D.
+Fernando, a sua bem assignalada gerencia, o ministerio regenerador.
+
+.........................................................................
+
+Era tudo rumor e gala no antigo solar dos Bandeiras, Mesquitas e
+Abendanhos. A respeitavel snr.^a D. Isabel, parecia ter voltado aos seus
+vinte annos, pela rapidez com que dava ordens e movia as chaves que lhe
+pendiam do cinto. Era justificado o regosijo e o afan, porque a velha
+fidalga esperava a honra de hospedar a familia real em seu palacio. D.
+Maria da Gloria acompanhava a mãe nos precisos trabalhos com vivo
+contentamento. D. Rosa deixara de ter questões com o marido,--para
+resolverem qual d'elles devia ter mais tempo no collo um robusto rapaz,
+fructo do seu amor, que era afilhado de D. Maria da Gloria e de Arthur
+Soares,--e tambem dava o seu contingente para os preparativos do palacio.
+João de Lencastre fôra encarregado por D. Maria de uma commissão
+diplomatica: era forçoso conseguir que Arthur apparecesse, fardado, á
+rainha!... Innocente capricho, chamou o ex-coronel á exigencia da sua Maria
+e, embora estivesse sempre em projecto o seu casamento, folgava de obedecer
+á vontade d'aquella que era tudo para elle. O capricho, porém, não era tão
+innocente como parecia. João de Lencastre tornara-se fallador, como todas
+as pessoas felizes, e havia contado a D. Maria, que Arthur fôra o official
+escolhido em Setubal, para levar a Sua Magestade os objectos que lhe eram
+destinados, e que foram tomados com um navio de guerra. Ora, esta
+revelação, fez conceber um plano á fidalga moça, que devia tornar realidade
+o sonho precursor do seu casamento.
+
+Chegou a familia real, e foi recebida alli, da mesma fórma que em todo o
+seu transito, com as mais festivas demonstrações de leal affecto da parte
+do povo apinhado na estrada, que entoava freneticos vivas aos reaes
+viajantes, e os cobria de flôres.
+
+N'um intervallo das enfadonhas etiquetas, a que mesmo em viagem está
+sujeito o primeiro magistrado de uma nação, conseguiu D. Maria da Gloria
+fazer-se ouvir da rainha. Pouco depois, foi apresentado Arthur Soares a sua
+magestade, que logo o reconheceu:
+
+--Felicito-me, snr. official, por ter chegado o _tempo mais feliz_, a que
+me referi em palacio quando tive de agradecer-lhe o modo nobre e attencioso
+com que se houve n'uma commissão delicada. Dizem que os reis
+constitucionaes não podem fazer mercês a seu bel-prazer; mas se isso é
+regra, soffre excepção quando os ministros responsaveis possuem as
+qualidades d'aquelles que ora me cercam... Fica o snr. official com as
+honras de coronel do exercito portuguez, cujo uniforme veste; pertence,
+desde hoje, aos fidalgos da minha casa, e póde desde já assignar-se conde
+de Setubal... Agora, consinta á sua rainha, que lhe manifeste a vontade de
+ser testimunha e protectora do seu casamento... Sei que as formalidades
+indispensaveis ha muito esperam por a sua resolução, está a dous passos a
+capella do palacio, e eu tenho aqui o meu padre esmoller-mór...
+
+--Senhora! Toda a minha vida será dedicada a vossa magestade e á sua real
+familia, como ha-de ser transmittida por mim a meus filhos, a obrigação de
+darem todo o seu sangue em defeza do throno e dynastia da minha muito amada
+rainha a senhora D. Maria II!
+
+--Obrigada, conde... Ame muito a sua esposa, que as _Marias_ são dignas de
+um leal affecto... Levante-se condessa! É nos meus braços que eu costumo
+apertar as pessoas que têem a sua alma... Finda a ceremonia do casamento,
+quiz a rainha vêr, antes de retirar-se, o padre Alvaro, que foram chamar á
+residencia a toda a pressa. Logo que chegou, dirigiu-lhe sua magestade a
+palavra n'estes termos:
+
+--Foi me descripto o seu caracter, por quem conhece as suas virtudes. Não
+lhe faço mercês porque sei que as regeitaria com evangelica abnegação; mas
+peço-lhe que distribua pelos seus pobres o dinheiro que lhe ha-de entregar
+o meu esmoller-mór... Peço-lhe ainda algumas orações para esta mulher
+corôada, que dentro em pouco tempo ha-de ser pó... Os medicos
+desenganaram-me... Queriam _remediar o mal infallivel_ não sei com que
+_medicinas preventivas_, que eu recusei formalmente, porque não tremo de
+morrer no meu officio de mulher, que é tão nobre, pelo menos, como o de
+rainha...
+
+--De que preces póde carecer uma santa como vossa magestade?!...
+
+--Sempre rese, padre Alvaro; bem sabe que o maior justo pecca muitas
+vezes...
+
+--Resarei, real senhora! e será meu o proveito das orações, como ha-de ser
+de vossa magestade o reino do céu!...
+
+
+ [17] Quando revemos as provas d'este capitulo, annunciam os periodicos
+ a realisação de um emprestimo nacional, nas mais vantajosas condições
+ para o thesouro, de reis quarenta e tres mil oito centos e oito
+ contos--tres mil oito centos e oito a maior do que o governo solicitava
+ para a consolidação da divida fluctuante! É geral o contentamento,
+ esperançosa, e proxima, a organisação das nossas finanças, e notavel o
+ credito que o emprestimo nos faz ter nas principaes bolças da Europa.
+ Outros factos, igualmente importantes, em bem do paiz, estão succedendo
+ sob a gerencia de um governo composto das reliquias d'aquelle que
+ louvamos.
+
+ [18] O snr. João de Lemos, publicou, por occasião da morte da snr.^a D.
+ Maria II, a conhecida poesia--O FUNERAL E A POMBA--da qual
+ consignaremos aqui estes edificantes versos:
+
+ Soldados, que ha vinte annos
+ Com esforços sobre humanos
+ Batalhaes por vossa fé,
+ Soldados, eia, de pé!
+ Respeitem-se aquellas mágoas,
+ E do nosso pranto as agoas
+ Lavem d'odio o coração;
+ Não ha odios d'este lado,
+ Nem se deshonra um soldado,
+ Quando abraça seu irmão.
+
+ Ponham-se treguas á guerra,
+ E ninguém manche esta terra
+ Ao pé de funérea luz;
+ Soldados, olhai a cruz!
+ Demos pranto a quem prantêa,
+ Demos dôr á dôr alheia,
+ Nos dois campos lucto egual!
+ Nenhum, nenhum se envilece,
+ Unidos na mesma prece,
+ Junto á loisa sepulchral.
+
+ Solemne melancolia,
+ Seja n'hora da agonia
+ Nosso tributo cortez;
+ Que o tomem, que é portuguez!
+ Portuguez d'aquelles peitos,
+ Por tantos annos affeitos
+ Na lealdade a soffrer;
+ Portuguez que vem das eras,
+ D'aquellas crenças sinceras
+ _D'antes quebrar que torcer_.
+
+ Que o tomem; e nós, soldados,
+ Ao vêl-os tão consternados,
+ Respeitemos-lhe a sua fé;
+ Amigos, eia, de pé!
+ Era o seu chefe, e bandeira,
+ Diziam-n'a companheira
+ De infortunio e proscripção;
+ Comprehendemos, pois, seu grito,
+ Nós, soldados do Proscripto,
+ Vinte annos gemendo em vão!
+
+ A cada um sua crença e dôres,
+ Cada qual estreme as côres
+ Do pendão que traz por si;
+ Todo branco, é o nosso aqui.
+ Mas, se d'elle voz sagrada
+ Nos manda, por gloria herdada,
+ Ou morrer ou triumphar,
+ Tambem no alto do Calvario
+ Outro estandarte, um sudario,
+ Manda os tristes consolar.
+
+ Porque é de arraial opposto,
+ Não córa o tributo o rôsto,
+ A quem o toma ou quem dá;
+ Soldados, lucto de cá!
+ É tributo á monarchia,
+ Por dois campos n'um só dia,
+ Cada qual por sua lei;
+ Um faz honras á Rainha,
+ Outro á Princesa, sobrinha
+ D'aquelle que jurou Rei!»
+
+
+
+
+EPILOGO
+
+
+
+
+EPILOGO
+
+
+São decorridos cinco annos, depois do casamento de Arthur com D. Maria da
+Gloria, e estamos no dia do 4.º anniversario natalicio de uma interessante
+menina, que é a filha estremecida de tão venturoso par.
+
+O filho de Rosa e de João de Lencastre, dous annos mais velho, dá-se ares
+de protector da priminha, que cérca de brinquedos e caricias infantis. D.
+Isabel prepara toda jubilosa a festa dos annos da sua netinha. João de
+Lencastre está narrando á mulher o que presenceára em casa do irmão, d'onde
+recolhia de o haver visitado, triste pelo definhamento em que vira
+Leopoldo. D. Maria e Arthur estão de mãos dadas contemplando as crianças, e
+trocando phrases embalsemadas de felicidade.
+
+É de bem diverso effeito, a scena que vamos presencear na egreja parochial
+da freguezia. O padre Alvaro, envelhecido e quebrantado em extremo, está
+ajoelhado sobre a campa, que encerra os restos mortaes da mãe de Arthur, e
+lê esta passagem da Biblia:
+
+«Disseram-lhe seus discipulos: Se tal é a condição de um homem a respeito
+de sua mulher, não convém casar-se. Ao que elle respondeu: Nem todos são
+capazes d'esta resolução, mas sómente aquelles, a quem isto foi dado.
+Porque ha uns castrados que já assim nasceram; ha outros castrados a quem
+outros homens fizeram taes; e ha outros castrados, que a si mesmos se
+castraram por amor do Reino dos Céus. O que é capaz de comprehender isto,
+comprehenda-o.»
+
+A leitura d'estas palavras, que são, para a egreja catholica, a desculpa do
+padre celibatario, fez cahir o livro das mãos de Alvaro, e obrigou-o a
+dizer, em consternadora exclamação:
+
+--Oh meu bom Deus! quando terão fim os meus remorsos?!... Quando poderei
+deixar a vida esperançado no vosso perdão, oh Senhor Misericordioso?!...
+
+Lançou em seguida os olhos á Biblia, que no chão ficára aberta, e passados
+poucos momentos, empregados em lêr o que a Providencia lhe deparou com a
+queda do livro santo, estava o padre Alvaro radiante de alegria, erguendo
+as mãos e os olhos ao Céu em acção de graça!... As palavras que causaram a
+repentina mudança no attribulado espirito do bondoso padre, foram estas:
+
+«Digo-vos que assim haverá maior jubilo no Céu, sobre um peccador que fizer
+penitencia, que sobre noventa e nove justos, que não hão de mister
+penitencia.»
+
+Entrou n'aquella occasião na egreja toda a nova familia de Arthur,
+incluindo as creancinhas e a velha fidalga D. Isabel, que vinha buscar o
+padre para a festa dos annos.
+
+Findo o alegre jantar, desceram todos ao jardim, á excepção de D. Isabel.
+Este local, é o mesmo em que se deram os acontecimentos descriptos no
+capitulo--Ao luar--da primeira parte d'esta obra, apenas melhorado com mais
+algumas plantações de arvores e flores, e commodos assentos.
+
+Estava toda a familia assentada em frente das janellas do palacio; o padre
+Alvaro no centro com as crianças sobre os joelhos; D. Maria á direita
+d'elle, e junto d'esta João de Lencastre; e D. Rosa á esquerda, e junto
+d'ella Arthur. Umas pombas domesticas, saltavam do chão ao collo das
+criancinhas a depenicarem-lhes os dôces que tinham nas mãos.
+
+As alegres expansões d'esta feliz familia, foram interrompidas pela
+presença de um escudeiro, que a apresentava, n'uma salva, a D. Maria uma
+carta tarjada de preto.
+
+Todos se olharam receiosos e contristados, sem que nenhum d'elles se
+resolvesse a lançar mão da agoureira carta. Tomou-a o padre Alvaro, e pediu
+licença a D. Maria para abril-a, e lêr o seu conteúdo em voz alta, o que
+todos estimaram de ouvir, porque assim eram poupados ao desgosto da
+primeira impressão. A carta era do punho de D. Anna, e resava assim:
+
+
+ «_Minha boa Maria e presada irmã_:
+
+«Estou viuva!... Nem os carinhos da minha profunda e constante adoração;
+nem a linguagem caridosa das tuas cartas, em que chegaste a pedir indulto
+para culpas que não eram tuas; nem os esforços, em fim, dos homens da
+sciencia medica, poderam roubar á morte o meu desditoso Leopoldo!...
+Mataram n'o os remorsos de não ter conhecido e compensado a tempo o meu
+immenso affecto!... Vê, por isto, quanto eu soffro, Maria!... Ha cerca de
+seis annos que todos os meus cuidados se resumiam na conservação da vida do
+unico homem que amei!... Perdi-o!... perdi-o para sempre, minha querida
+irmã!... E elle era bom, Maria!... Os arrebatamentos do seu genio
+terminavam por um terrivel soffrimento, com o qual sobejamente se castigava
+do mal causado aos outros!... Era tão bom, que o mataram uns mal entendidos
+remorsos!... E eu vivo ainda, minha irmã!...
+
+«D'aqui a poucas horas, fechar-se-hão sobre mim as portas de um austero
+convento,[19] onde possa chorar e orar por meu marido, e onde quero
+repousar eternamente, quando Deus fôr servido livrar-me do fardo da vida...
+
+«Teu marido que venha tomar conta d'esta casa, que tudo lhe pertence por
+minha disposição, como eu tambem a herdei pela de Leopoldo.
+
+«Abraça a Rosa por mim; lembra-me a todos; sede felizes, e diligenciae
+evitar a vossos filhos, que de toda a alma abençôo, o remorso de qualquer
+falta, porque o remorso mata!...
+
+«Adeus!
+
+ Tua infeliz irmã,
+
+ _Anna_.»
+
+
+Finda a leitura, que o padre fez commovidissimo, assomou a uma das varandas
+do palacio o respeitavel vulto de D. Isabel de Abendanho, trazendo atraz de
+si meia duzia de pessoas das mais necessitadas da freguezia, todas
+uniformemente vestidas de novo, e, rindo com a tranquillidade de uma santa,
+disse para a familia:
+
+--Não esperavam, que a _velha_ fosse capaz de preparar-lhes uma surpreza,
+no dia da festa da minha neta?... Pois saberão, meus _crianças_, que tive
+segundo jantar na companhia d'estes bons filhos adoptivos, que aqui lhes
+apresento todos pimpões, com os fatos novos de que a minha netinha lhes fez
+presente... Perdão, senhor reitor... O nome de _criança_ foi uma
+brincadeira minha, que nunca podia entender-se com o respeitavel senhor
+padre Alvaro...
+
+O pae de Arthur, havia-se repentinamente tornado cadaverico! Apertara nas
+suas as mãos dos pequeninos que tinha no collo, inclinara a cabeça sobre o
+encôsto do assento, erguera os olhos ao céu, e balbuciara estas palavras:
+
+--_O remorso mata_... mas Deus perdôa aos que morrem penitentes...
+Arthur... meus filhos... até logo!......
+
+N'aquelle momento sombrio, uma das pombas saltou á cabeça do moribundo, o
+que lhe fez entreabrir o seu ultimo sorriso.
+
+Um despedaçador grito de Arthur, fizera prostrar todos de joelhos.
+
+Chegava alli, da proxima campina, a melancolica toada d'este cantar:
+
+ «Vou chorar e cortar fêno,
+ quem trabalha tambem sente:
+ as paixões trazem veneno
+ encoberto na semente.
+
+ O nosso reitor, um santo,
+ reza sempre, e tambem chora!
+ N'um sepulchro verte o pranto
+ sempre, sempre á mesma hora!...
+
+ Ninguem foge ao sentimento,
+ ninguem foge ao seu destino...
+ Quem d'amor soffre o tormento,
+ no Céu tem Amor Divino.»
+
+
+ [19] É motivo de odios para os liberalões de má casta, o sustentar
+ hoje a conveniencia da vida claustral!
+
+ Por verdadeiro affecto á liberdade, por sabermos seguir e presar o
+ progresso do bem, é que entendemos absurda e tyrannica a extincção
+ dos conventos. O claustro, em casos analogos ao d'aquella heroina do
+ nosso «conto», era um refugio celeste: como suppril-o? Que liberdade
+ é essa que tolhe as mais innocentes acções da criatura? Existiam
+ abusos? E onde deixariam elles de existir, sem a vigilancia e o
+ castigo dos poderes constituidos? Porque no parlamento se discutem
+ questões impertinentes, porque no sanctuario das leis havemos
+ presenceado scenas vergonhosas, já alguem se lembrou de extinguir a
+ camara popular?
+
+ Consola-nos vêr sustentar a nossa opinião abalisados e insuspeitos
+ escriptores liberaes de toda a Europa.
+
+ Dizemos desassombradamente o que sentimos: não sabemos comprehender
+ o _celibato forçado_ e somos desaffectos á _extincção das ordens
+ religiosas_ e a todas as medidas violentas oppostas á bem entendida
+ Liberdade.
+
+
+FIM DA TERCEIRA PARTE E ULTIMA
+
+
+
+
+
+Ao snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho, devo a delicada offerta da gravura
+em chapa, que serviu para a tiragem do meu retrato.
+
+Orgulha-me a fineza de um artista, que no _Reglamento de exposiciones
+nacionales de bellas artes_, publicado em Madrid no anno de 1871, foi assim
+classificado: «Molarinho (D. José Arnaldo Nogueira), natural de Guimarães,
+discipulo del snr. T. M. de Almeida Furtado, caballero de la Orden de
+Cristo, medallas de plata en las Exposiciones Nacionales de 1857, 1862 y
+1863.» Que no mesmo anno de 1871, na exposição de concurso das bellas artes
+em Madrid, obteve o segundo premio; que tem recebido do estrangeiro
+inequivocas demonstrações do grande apreço em que por lá é tido o seu
+talento, e que mais util ainda teria sido á patria, se os poderes publicos
+d'este nosso Portugal não tivessem o infeliz séstro de ignorarem a morada
+do verdadeiro merito.
+
+Para o nosso primeiro gravador de medalhas, ainda não houve um _cantinho_
+na casa da moeda! Se elle não é influente eleitoral!...
+
+De sorte que o artista distincto, e pobre, n'este paiz, tem que empregar o
+seu genio em obrinhas que lhe dêem o pão de todos os dias!
+
+Queriam que o snr. Molarinho concorresse á exposição de Vienna
+d'Austria?[20]
+
+Os seis mezes que s. s.^a havia de gastar n'uma obra que lhe daria nome
+europeu, e gloria a Portugal, foram passados a gravar _colleiras para
+adorno dos sabujos de pessoas indinheiradas, que para tal fim procuram o
+notavel artista_, como algures escreveu um nosso espirituoso narrador.
+
+Perdão... Não façamos injustiças. Nem todos os ministerios se esqueceram do
+snr. Molarinho: houve um que o emparelhou com qualquer regedor de
+parochia... O snr. Molarinho é cavalleiro do habito de Christo: não morre
+de fome.
+
+Porto, 27 de agosto de 1873.
+
+ _Miguel J. T. Mascarenhas_.
+
+
+ [20] O snr. Molarinho, foi oficialmente convidado de Vienna
+ d'Austria para entrar no concurso das medalhas para os premios da
+ exposição: não lhe foi possivel acceder. Os trabalhos seus, que lá
+ mandou, foram premiados.
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Um conto portuguez: episodio da guerra
+civil: a Maria da Fonte, by Miguel J. T. Mascarenhas
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UM CONTO PORTUGUEZ ***
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+Produced by Manuela Alves e Pedro Saborano. (produced from
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
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+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
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+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
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+Literary Archive Foundation
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+spread public support and donations to carry out its mission of
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+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
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+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+</head>
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Um conto portuguez: episodio da guerra
+civil: a Maria da Fonte, by Miguel J. T. Mascarenhas
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte
+
+Author: Miguel J. T. Mascarenhas
+
+Release Date: May 3, 2008 [EBook #25313]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UM CONTO PORTUGUEZ ***
+
+
+
+
+Produced by Manuela Alves e Pedro Saborano. (produced from
+scanned images of public domain material from Google Book
+Search)
+
+
+
+
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+
+</pre>
+
+
+<h2>UM CONTO PORTUGUEZ</h2>
+
+<p class="centrado"><img src="images/retratomjtm.gif" border="0"
+alt="Retrato do Autor"></p>
+
+
+<div class="capa">
+<h2>UM CONTO PORTUGUEZ</h2>
+
+<h5>EPISODIO DA GUERRA CIVIL</h5>
+
+<h1>A MARIA DA FONTE</h1>
+
+<h5>POR</h5>
+
+<p class="author">MIGUEL J. T. MASCARENHAS</p>
+
+<p>PORTO<br>
+Typographia Lusitana<br>
+84--Rua das Flores--84<br>
+1873.</p>
+</div>
+<span class="pagenum">[5]</span>
+
+<h3>DEDICATORIA</h3>
+
+<h4>A MEU FILHO</h4>
+
+<h3>GASPAR TEIXEIRA DE SOUSA MASCARENHAS</h3>
+
+<div class="dedicatoria">
+<p>Dedico-te o meu unico livro.</p>
+
+<p>Dos variados escriptos meus, é este só que aprecio, porque empreguei
+n'elle todo o meu cabedal, vontade tenaz, e a escrupulosa consciencia dos
+quarenta annos repletos de provações.</p>
+
+<p>Principiado na convalescença de perigosa enfermidade, á cerca de quatro
+annos, só hoje foi concluido. É certo que precisei estudar, e ler muitos
+livros portuguezes de lei; mas a demora na conclusão do «Conto Portuguez»,
+deve, como sabes, tambem ser attribuida aos meus constantes padecimentos
+physicos, que me não <span class="pagenum">[6]</span> consentem atturados trabalhos de nenhum genero.</p>
+
+<p>Escolhi-te para esta dedicatoria, porque tens no peito por tua indole e
+minha insinuação, bem gravados todos os nomes das pessoas a que devemos
+eterno reconhecimento: és como um ponto de reunião dos nossos bons amigos que
+assim me parece contemplar sem o melindre da preferencia.</p>
+
+<p>Guimarães, 12 de Agosto de 1873.</p>
+
+<p class="direita">Teu pae muito amigo</p>
+</div>
+
+<p class="direita"><span class="smallcaps">Miguel J. T.
+Mascarenhas.</span></p>
+<span class="pagenum">[7]</span>
+
+<h3>PROLOGO</h3>
+
+<p>Não ha forças humanas que nos destruam as tendencias.</p>
+
+<p>Quando o pae d'um antigo poeta latino castigou severamente o filho por
+escrever poesias, ouviu do castigado um famoso verso heroico, como promessa
+de não compôr mais versos.</p>
+
+<p>Desde os onze annos de idade que sinto uma irresistivel attracção para as
+letras.</p>
+
+<p>Não frequentei escólas: apenas me ensinaram o--a, b, c. Em tal ignorancia,
+como chegar á realisação dos meus ambiciosos sonhos, que todos eram de vêr em
+letra redonda a minha «letra de mão»?!</p>
+
+<p>Tive por unicos auxiliares da minha ambiciosa quanto ardua empreza, a
+muita leitura, <span class="pagenum">[8]</span> de boa ou má digestão, o muito ouvido, a muita vontade,
+e a muita audacia, que é o fructo da ignorancia.</p>
+
+<p>Tenho soffrido decepções amargas, por muitas das minhas impensadas
+obrinhas: se eu fui escrevedor de gazetas!...</p>
+
+<p>Remirei os meus peccados, com a publicação d'este livro?...</p>
+
+<p>Sugeitei a primeira parte do «Conto portuguez» á censura d'um dos mais
+eruditos litteratos do Minho, que se dignou fazel-a, com a pericia e
+imparcialidade dignas d'elle. Os seus prudentes e sabios conselhos, a que dei
+todo o peso, estiveram, por um triz, a matar a obra: depois de ler o bom
+juizo do meu sensor, tudo que eu havia escripto me parecia horrendo.</p>
+
+<p>Resolvi, pois, concluir, e dar publicidade ao meu «Conto» sem continuar o
+prévio exame da pessoa competente a que me refiro. A rasão d'este proceder,
+que parece atrevido, está no vehemente desejo de ver publicada a obra, e na
+minha indole de hoje: tive já tanto de audacioso, quanto agora tenho de
+poltrão. O estudo, os annos, e tambem as doenças, concorreram para a mudança:
+vem sempre tarde o perfeito conhecimento da nossa ignorancia. Não curo do
+concerto, para não desabar <span class="pagenum">[9]</span> o edificio. Se continuasse a apresentar o
+meu trabalho, como tencionei, ao mesmo excellente critico, e elle como é de
+crer, lhe notasse os defeitos,--morria o «Conto» com toda a certeza: morria,
+porque eu, por um erro apontado, desconfiava que fossem erros todas as
+palavras.</p>
+
+<p>Seria melhor?...</p>
+
+<p>São exactissimas as citações que faço tanto na parte historica como na
+romantica, colhidas em livros insuspeitos; e o que é acção do «Conto», sem
+ter allusões determinadas, é, com tudo, verdadeira: são muitos factos, meus
+conhecidos, desviados das épocas e logares em que se deram, atados e
+compostos com a arte de que posso dispôr, e postos a cargo de imaginarios
+personagens.</p>
+
+<p>Resta-me dizer que, na pontuação, segui o systema de regular a escriptura
+pelas pausas do discurso. Regras, deduzidas dos principios ideologicos, e da
+grammatica geral, não estão ainda assentadas, e já é tarde para o serem.
+Assim, entendi que não errava, seguindo opiniões esclarecidissimas, que podem
+ser capitaneadas pela mui douta opinião do nosso immortal padre Vieira,
+manifestada, por exemplo, n'este famoso periodo:</p>
+
+<p>«Arranca o estatuario uma pedra d'essas <span class="pagenum">[10]</span> montanhas, tosca, bruta,
+dura, informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel
+na mão, e começa a formar um homem; primeiro, membro a membro, e depois,
+feição por feição, até a mais miuda: ondeia-lhe os cabellos; aliza-lhe a
+testa; rasga-lhe os olhos; afila-lhe o nariz; abre-lhe a bocca; avulta-lhe as
+faces; torneia-lhe o pescoço; estende-lhe os braços; espalma-lhe as mãos;
+divide-lhe os dedos; lança-lhe os vestidos: aqui desprega; alli arruga; acolá
+recama: e fica um homem perfeito, e, talvez, um sancto, que se póde pôr no
+altar.»</p>
+
+<p>Guimarães, 12 de Agosto de 1873.</p>
+
+<p class="direita">Miguel J. T. Mascarenhas.</p>
+<span class="pagenum">[11]</span>
+
+<h2>PRIMEIRA PARTE</h2>
+
+<h3>HONRA</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«No que o mundo chama <em>honra</em> ha muitas vezes mais vaidade que
+virtude».</p>
+
+<p class="direita">(<span class="smallcaps">Dr. Corrêa de Lacerda</span>).</p>
+</div>
+<span class="pagenum">[12]</span><br><span class="pagenum">[13]</span>
+
+<h2>UM CONTO PORTUGUEZ</h2>
+<br>
+
+
+<h3>I<br>
+TREZ DONZELLAS</h3>
+
+<div class="quote">
+«.....................................<br>
+Tres, sim. Não cuides<br>
+Que te desgraças: <br>
+<span style="margin-left: 3em;">Vês?</span><br>
+Tres são as Graças,<br>
+Tres, as Virtudes,<br>
+<span style="margin-left: 3em;">Tres.</span>»
+
+<p class="direita">«<em>João de Deus</em>--<span class="smallcaps">flor do
+campo</span>.» </p>
+</div>
+
+<p>Ao cahir da tarde de um dia que fôra borrascôso, no mez de Maria de 1846,
+avistavam-se, em preparados assentos de terreiro povoado de arvores floridas
+junto do atrio de nobre e vetusto domicilio, no valle de Sousa, das cercanias
+de Penafiel, tres formosas donzellas em colloquio intimo. O donaire de uma
+d'ellas e, a par de seu garbo senhoril, a riqueza e o bem posto de seus
+atavios, estremando-a das companheiras, annunciavam a elevada posição social
+a que pertencia. A natureza é que fôra egualmente prodiga para todas tres, no
+tocante a dotes physicos. Possuiam <span class="pagenum">[14]</span> essas feições caracteristicas das
+nossas mimosas portuguezas--e não é cego patriotismo esta asserção--que
+reunem o que ha de seductor em todos os typos do mundo.</p>
+
+<p>Chamava-se a fidalga D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho:
+por menos euphonico que pareça este ultimo appellido--seja dito aqui
+ligeiramente--é muito nobre e muito peninsular.<sup
+class="footnote"><a href="#fn1" name="lfn1">1</a></sup></p>
+
+<p>D. Maria achava-se no gôso de todas as caricias da familia, porque vira
+fallecer, um após outro, cinco irmãos varões, ficando a ser, por tal falta, o
+unico enlevo de seus nobres e abastados progenitores; como tambem usofruia o
+respeito admirativo de todos os mancebos de muitas leguas em redor de sua
+habitação, por ser esbelta; possuir cintura como de vespa; pés pequenissimos;
+mãos a que todos os poetas--e os democraticos mais que todos--chamam
+aristocraticas, por não encontrarem palavra mais significativa do bello;
+rosto comprido; tez pallido-rosa; nariz um tanto aquilino; olhos pretos,
+rasgados em fórma de amêndoa, e penetrantes; bocca, ainda que não mui breve,
+attrahente e engraçada, pelos alvissimos dentes que sustinha, e delicioso
+sorrir que semeava; cabellos que se lhe formavam em natural e opulenta corôa;
+<span class="pagenum">[15]</span> piso de alvéloa sobre gêlo, e... mais de trezentos mil cruzados em
+dote.</p>
+
+<p>Digamos em abono de poucos dos frequentadores da morada de D. Maria, que
+as magnificas e rendosas propriedades da gentil fidalga, entravam, só por
+ultimo, nos calculos que faziam, e nos sentimentos que manifestavam.</p>
+
+<p>A donzella que apresentamos como principal heroina do nosso conto--que á
+força de ser verdadeiro ha de parecer inverosimil--apenas desmentia os seus
+nobilissimos antepassados na applicação ao estudo, e nos apreciaveis
+resultados que de tal ia colhendo. Era já mais de mediocremente instruida, e
+muito além do geral das senhoras portuguezas.</p>
+
+<p>Sobre a instrucção, devia a Deus um talento investigador, que, junto ao
+espirito repentista do sexo, dava á briosa fidalga proveitosas vantagens.</p>
+
+<p>Sustamos este bosquejo da nossa estremada heroina, que muita occasião
+teremos de pôr em relêvo seus dotes e qualidades.</p>
+
+<p>As companheiras de D. Maria, chamavam-se Anna de Jesus e Rosa de Lima,
+estimadas filhas de dous dos muitos caseiros da fidalga. Eram muito
+parecidas, apesar de não conhecerem parentesco algum entre si, e tão
+similhantes uma á outra, que muitas vezes as confundiam, e lhes trocavam os
+nomes.</p>
+
+<p>Fallaremos de fugida nos dotes physicos de Rosa e Anna: altas; delgadas;
+fórmas airosas, ainda que incompletas; tez alva; olhos azues; cabellos de
+fino ouro, e um todo encantador, que os modestos trajes não conseguiam abafar
+completamente, antes deixavam transluzir suas occultas bellezas.</p>
+
+<p>Anna de Jesus era docil; timida; e de umas crenças <span class="pagenum">[16]</span> religiosas, que
+tocavam na beatice. Ao avêsso, Rosa de Lima, era agil; viva; falladeira;
+sequiosa de saber; crente, sim, na religião de seus paes, mas desprendida de
+certas apparencias, a que ella sabia chamar <em>phantasias sagradas</em>.</p>
+
+<p>Anna, interrogada, demorava as respostas que dava, e sahiam-lhe, por assim
+dizer, coadas pelo receio de não acertar. Rosa, respondia a tudo com a
+rapidez do relampago, e algumas vezes, com admiravel acerto. Ambas deviam á
+boa indole, e amisade de D. Maria, o saberem lêr e escrever, quasi
+correctamente, pelo que, e tambem pela convivencia com a esmerada e
+voluntaria preceptora, mostravam uma util superioridade ás demais donzellas
+da mesma classe.</p>
+
+<p>A mais velha das nossas tres heroinas, que era a fidalga, contava apenas
+dezoito primaveras.</p>
+
+<p>Rosa, e Anna, ignoravam a edade que ao certo tinham, sustentando, com
+tudo, o pueril capricho de que não era mais velha uma do que a outra.</p>
+
+<p>Rosa de Lima, mal conhecera o pae, fallecido ha dez annos, que fôra desde
+rapaz caseiro em uma das propriedades do casal de D. Maria, onde a viuva e a
+filha foram conservadas, mesmo com prejuizo do bom amanho das terras, como
+costumavam proceder os bons fidalgos portuguezes, em grata memoria d'aquelles
+que bem os serviam. A mãe, alquebrada pelos trabalhos mais que pela idade,
+tudo confiava da sua querida Rosinha. E sempre na filha tivera embebidos os
+olhos, e a alma presa.</p>
+
+<p>Rumorejava o povo contra o extremo maternal da mãe de Rosa, conhecida por
+Emilia do Adro, attribuindo-lhe causas mysteriosas, o que mais d'uma <span class="pagenum">[17]</span>
+vez fôra origem de mágoas para o marido, José do Adro, o fallecido pae de
+Roza.</p>
+
+<p>Quasi sempre, o povo condemna sem averiguar, d'onde lhe vem o ser pouco
+certeiro nos juizos que fórma, embora tenham alvo, proximo ou remoto, os
+rumores de que se faz echo.</p>
+
+<p>Anna de Jesus, vivia na companhia de seus paes, ainda novos e vigorosos, e
+de quatro irmãos mais velhos, que eram completos homens do campo.
+Empregava-se no arranjo do bragal, e misteres internos, e quasi desapercebida
+passava, a existencia da timida Anna, no centro de sua laboriosa e rude
+familia.</p>
+
+<p>Não deve ser estranhada a confiança que D. Maria da Gloria dava, como
+iremos conhecendo, ás filhas de seus caseiros. E de certo o não estranham,
+aquelles dos leitores que bem conhecerem a distincta affabilidade no trato da
+verdadeira nobreza de Portugal, mórmente com as pessoas de condição
+humilde.</p>
+
+<p>Corre um tempo pouco favoravel á nobreza de sangue, no dizer dos que só
+d'esta herança desdenham.</p>
+
+<p>Respeitam-se todos os titulos hereditarios, menos aquelles, que provam uma
+geração briosa, e heroica!</p>
+
+<p>Porquê?</p>
+
+<p>É facil a resposta, a quem a quizer dar em boa fé: ralha-se do que se não
+póde ter. Adquirem-se bens de fortuna, distincções, tudo: só não é possivel
+mudar-se o berço. E quantos o mudariam, se podessem, mesmo na occasião do seu
+mais frenetico vociferar contra a nobreza herdada!...</p>
+
+<p>Sejamos justos: haja consideração para tudo que o merece, que o bello é de
+todas as classes sociaes.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[18]</span> Descender de boa extirpe, é indubitavel gloria, e tambem onus, que
+obriga a muito.</p>
+
+<p>Os que hoje adquirem nobreza,--e é comezinho o accesso,--se podessem
+testimunhar d'aqui a trezentos annos os gabos de seus fidalgos descendentes
+aos heroicos avós, não ficariam repletos de intima alegria?</p>
+
+<p>Abrandem, pois, os propagadores demagogicos, as democraticas íras, em que
+decerto já tem parte o muito plebeu auctor do conto, e deixem-nos dizer, com
+um dos nossos doutos portuguezes, que não ha cousa mais estimavel e bella,
+que a nobreza do sangue, junta á nobreza do coração: é uma saphira engastada
+em oiro purissimo.</p>
+
+<p>O colloquio das tres donzellas, fôra assim:</p>
+
+<p>--Pareces-me hoje mais pensativa, ainda que de costume, minha estimavel
+Anna, o que tens tu?</p>
+
+<p>--Pensará talvez nas Ladainhas, e no jejum, fidalga;--respondeu, pela
+interrogada, a falladeira Rosa.</p>
+
+<p>--Ora vamos, travessura da vida!... Já te prohibi que me chamasses
+fidalga, como tambem te fiz vêr, o respeito que se deve a tudo que prende com
+a religião que professamos. Bem deves conhecer, que tenho auctoridade de
+mestra, e que posso chamar á palmatoria a discipula rebelde...</p>
+
+<p>--Diz bem fidal... snr.<sup>a</sup> D. Maria; e aqui tem a mão, sem fazer
+momices... mas eu só digo estas coisas no intuito de animar um pouco a nossa
+Annitas, que parece mesmo a figura da tristeza, quando não ha motivos para
+lagrimas.</p>
+
+<p>--Tu pódes lá saber, o que vae no coração da nossa amiga, doudinha?</p>
+
+<p><span class="pagenum">[19]</span> --Sabe de certo, minha senhora, porque entre nós tres não ha
+segredos;--respondeu a custo a questionada donzella.</p>
+
+<p>--Não ha, não... Juro por Santa Rosa de Lima, da qual tenho o nome e
+desejara ter as virtudes, que a nossa scismadora, Anna de Jesus, me tem
+revelado todos os seus mais vedados pensamentos... Por exemplo: se tem a
+desventura de deixar uma noite cahir a candêa, e emborcar o azeite, para logo
+prevê graves successos, que fielmente me vae narrar... Se estala um vidro na
+casa, toda se encolhe, como a sensitiva, empallidece, treme, e diz-me,
+depois, que grandes calamidades nos esperam... Se entra no meu casebre, e vê
+que eu, por melhor disposição ou limpeza, deixei ficar a minha cama com os
+pés para o lado da porta, faz tal exclamação, que devéras me assusta; e...</p>
+
+<p>--Basta, tontinha, basta... interrompeu D. Maria, entre frouxos de riso.
+Não será possivel conseguir que tu deixes de atormentar, com as tuas graças,
+a nossa commum amiga?</p>
+
+<p>--Deixe-a fallar, minha senhora, que eu necessito ouvil-a, a vêr se perco
+algum do meu natural acanhamento. Conheço-me defeituosa, e sinto não ter a
+necessaria força para vencer os meus defeitos. Apraz-me sentir um aviso de
+Deus, nas jocosas palavras da boa Rosinha.</p>
+
+<p>--Nem tanto, pequena, que me arrependo já... Fazeres de mim, por obra do
+Eterno, um propheta de saias, é mais pesado do que ouvir-te quantos
+preconceitos aprendeste de teus crédulos parentes.</p>
+
+<p>--Se tu confessas que foram aprendidos, como <span class="pagenum">[20]</span> posso eu ter culpa das
+culpas alheias?... Não é assim, minha senhora?</p>
+
+<p>--Dizes pouco, mas sempre bem. É o resultado de quem pensa o que diz. O
+favor que me fazes de <em>tua senhora</em>, é que eu não queria receber.
+Chamai-me só D. Maria, já que não quereis habituar-vos a um tratamento mais
+intimo, e proprio das nossas idades, como eu appetecia.</p>
+
+<p>--Era o que faltava! As rainhas bem amigas são das damas do paço, e mais
+estas ajoelham-se para beijarem a mão de sua real ama...</p>
+
+<p>--Invejo-te a verbosidade e o talento, querida Rosa... Has-de chegar a
+muito se fôres bem fadada por Deus.</p>
+
+<p>--Vês, Rosinha, <em>minha vassalla</em>, que o mal da inveja tambem toca
+nas almas como a da nossa Annitas!?</p>
+
+<p>--Aquillo, senhora, não é inveja, é mostrar que <em>pensa o que
+diz</em>... mas é muito de crêr que nem sempre <em>diga o que
+pensa</em>...</p>
+
+<p>--Com a tua pessoa, em jogo de bons ditos, minha doutora, não ha
+partido... Olhai!... Se não são visões do crepusculo, o que eu diviso, é
+muita gente reunida na serra de Guilhufe!...</p>
+
+<p>--É muito povo, é, snr.<sup>a</sup> D. Maria! Responderam, a uma voz,
+surprehendidas, as duas amigas da fidalga.</p>
+
+<p>--É caso extraordinario! A esta hora, e n'um dia de serviço!... Ahi vem o
+sobrinho do snr. reitor, que nos vai dizer o que significa aquelle
+ajuntamento...</p>
+
+<p>Interrogado, o recem-vindo, pelas tres donzellas ao mesmo tempo,
+respondeu,--precedendo um cumprimento de cabeça, por lhe não darem logar a
+outro--é... a «Maria da Fonte!»</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn1" name="fn1">1</a></sup> Na <em>Historia da casa de Lara</em>, e
+n'um manuscripto, de 1676, do padre Manoel da Purificação Magalhães, vê-se
+escripto==<em>Avendanho</em>==; mas os modernos senhores do nome,
+assignam-se--<em>Abendanho</em>. A nobre familia dos Abendanhos, veiu para
+Portugal no tempo de El-Rei D. Diniz. O seu brasão compõe-se de cotta d'armas
+de prata, em campo azul, trespassada por tres setas manchadas de sangue, com
+a legenda: <em>Sine sanguine non est victoria</em>.</p>
+</div>
+<span class="pagenum">[21]</span>
+
+<h3>II<br>
+RUGIDO</h3>
+
+<blockquote>
+
+ <div class="quote">
+ <p>«Não vêdes, que nos destruiremos a nós, e á nossa Republica, se
+ intentarmos cousas, que não podem ser, porque nos hão-de dar na cabeça
+ todos esses remedios?»</p>
+
+ <p class="direita">(<em>Vieira</em>--<span class="smallcaps">ARTE DE
+ FURTAR</span>.)</p>
+ </div>
+</blockquote>
+
+<p>Ha palavras, que excitam o espanto dos ouvintes, sem visivel rasão
+justificativa do enleio: aquellas--«Maria da Fonte»--tiveram esse condão.
+Interrogado, e interrogantes, entraram silenciosos na casa solar de D. Maria
+da Gloria, em direcção á sala chamada das visitas, onde estavam os velhos
+senhores d'ella.</p>
+
+<p>Não seremos exagerados dando o nome de palacio, á nobre e grande
+habitação, que fazemos aqui figurar. Antes de se chegar á sala de recepção,
+encontravam-se immensos salões e repartimentos, tudo a desafiar, pela
+solidez, a acção do tempo, como são quasi todas as antigas edificações
+portuguezas.</p>
+
+<p>Na sala de visitas, para não desmentir o adagio muito nosso,--«Em Maio
+florido, ainda ao brasido»--havia <span class="pagenum">[22]</span> lume no fogão. Em cima de uma mesa
+circular, estava um grande candieiro de metal amarello, com quatro bicos; e
+postos nas demais mesas, castiçaes de prata, com vélas de cêra: moveis de pau
+santo, cadeiras de espaldar, com botões de metal e arabêscos esculpidos em
+sola, e denotando haver sido mudas testimunhas da passagem de algumas
+gerações.</p>
+
+<p>Nas duas portas, que nos topos da sala se defrontavam, estavam pendentes
+de fortes lanças reposteiros de grossa baêta encarnada, em que se viam
+bordadas as armas de familia. Ao lado dos reposteiros, occupando parte da
+parede, pendiam dous grandes quadros, representando, um d'elles, S.
+Sebastião, e o outro Santa Isabel, primores de arte do celebre pintor
+portuguez Affonso Sanches Coelho, que foi protegido pelo snr. principe D.
+João, pae de El-Rei D. Sebastião, e depois apreciado por Filippe II de
+Hespanha, onde morreu mui favorecido da côrte.</p>
+
+<p>Na parede fronteira a nove rasgadas janellas, que olhavam para um lindo
+jardim, e famoso vergel de fructiferas arvores, estavam suspensas de grossos
+cordões de sêda, de côr verde, as arvores genealogicas dos Mesquitas,
+Bandeiras, Abendanhos, Souzas, e Mellos; collocados por cima d'ellas, seis
+antiquissimos retratos de antepassados d'aquelle solar.</p>
+
+<p>Pelas mesas da sala, viam-se espalhados alguns livros, e periodicos da
+época, merecendo especial menção um alto e largo volume, agasalhado em veludo
+côr de rosa bordado a ouro, que dava a razão dos nobres appellidos da
+familia, e, minuciosamente, contava as honras, e mercês a ella concedidas,
+pelos monarchas, e senhores de Portugal.</p>
+
+<p>Sebastião da Mesquita Bandeira de Mello, pae de <span class="pagenum">[23]</span> D. Maria da Gloria,
+e verdadeiro representante e possuidor d'aquella casa, era um velho fidalgo
+portuguez, dos rarissimos que chegaram até nós, sabendo fazer acatar a
+nobreza de sangue, que é ephemera sem a nobreza da alma. Era alto; direito,
+apesar dos seus 70 annos; com fartos bigodes; olhos grandes,
+castanhos-escuros; de olhar suave, que elle sabia, a proposito; tornar
+imperativo; fronte elevada; cabellos brancos, e ar magestoso.</p>
+
+<p>Affavel em extremo, só era Sebastião da Mesquita, intransigivel, com os
+desvios da honra. Recebia gentilmente em sua casa todos que n'ella se
+acolhessem, e mui difficil seria não voltar alli tendo-se lá entrado uma vez.
+O verdadeiro culto, que prestava á nobreza, levava-o a ser nimiamente sevéro
+para as fraquezas dos nobres. O que fosse fidalgo, havia de mostral-o mais
+pelas suas acções do que pela ostentação de seus pergaminhos: era este um dos
+invariaveis preceitos do velho nobre.</p>
+
+<p>Não se attingiam de repente as sympathias de Sebastião da Mesquita.
+Tratando a todos--nobres e plebeus--sem odiosas distincções, sabia occultar
+as preferencias, que talvez sentisse. Ainda assim, sustentava, sempre que se
+lhe deparava occasião, conversas demoradas e intimas com Arthur Soares,
+sobrinho do reitor da freguezia, e, só este, no dizer dos analysadores,
+merecia ao velho fidalgo reservadas prerogativas.</p>
+
+<p>D. Isabel de Abendanho e Sousa, prima e esposa de Sebastião da Mesquita
+era uma idosa senhora, que deixava ainda entrever alguns traços de belleza,
+pelo meio das ruinas do tempo, e do soffrimento, com a prematura morte de
+seus cinco filhos varões. Toda <span class="pagenum">[24]</span> entregue á direcção interna do seu
+casal, só á noite apparecia na sala das visitas, á hora do chá, servido o
+qual, as pessoas estranhas á familia da casa, não a viam mais, até á mesma
+hora do dia seguinte.</p>
+
+<p>Manifestava certo respeito ao marido, muito voluntario que não imposto, e
+adorava a filha, como unico existente penhor do seu inalteravel affecto ao
+esposo.</p>
+
+<p>A todas as pessoas apparecia D. Isabel com um mólho de chaves prêso á
+cintura, o que lhe grangeou o epitheto de--<em>fidalga das chaves</em>--dito
+pelo povo, á bocca pequena, sem o menor intento de offender a virtuosa e
+velha fidalga. As chaves, companheiras inseparaveis de D. Isabel, provavam
+unicamente, vigilancia e cuidado de boa dona de casa, que confia mais em si
+do que nos melhores criados e familiares; e não diziam, de nenhum modo,
+avareza, ou mesquinhez. E tanto isto assim era, que o povo igualmente a
+denominava--<em>chaveira dos pobres</em>,--em grata allusão ás immensas
+esmolas, que distribuia, e fazia distribuir, pela freguezia; além das que
+diariamente se davam á porta d'aquella nobre casa, que, n'isto, se
+assemelhava á portaria d'um convento.</p>
+
+<p>Falta apresentar aos leitores, o cavalheiro que vae acompanhando as tres
+donzellas.</p>
+
+<p>Arthur Soares, sobrinho do reitor d'aquella freguezia, era homem de 27
+annos de idade; sympathico; bem parecido; insinuante; grave; erudito sem
+affectação; brioso; conveniente em todos os seus dizeres, e procedimentos;
+sobrio em palavras; vestindo com modesto aceio, e tratando todas as pessoas
+com respeito e dignidade. Quando mancebo, frequentara eschola de primeiras
+lettras; e o seu verdadeiro <span class="pagenum">[25]</span> estudo principiou aos quinze annos de
+idade, e teve logar, sem presidencia de mestres, apenas auxiliado pelos
+livros de seu thio reitor, e pela sua privilegiada intelligencia, e natural
+talento.</p>
+
+<p>Era Arthur conhecido em muitas terras de Portugal, e, por todas ellas, a
+nobreza de sangue lhe mostrava apparente agrado, desdenhando sempre do
+plebeu, que entendia saber um pouco de tudo, e que dava seus ares de fidalgo
+orgulhôso. Os capitalistas, os grandes proprietarios, os modernos titulares,
+todos os homens de fortuna, emfim, olhavam de soslaio para o litterato sem
+diplomas, que se atrevia a mostrar indifferença pelo dinheiro, o rei do
+mundo.</p>
+
+<p>Fóra da residencia de seu thio, n'aquella freguezia, só era visto Arthur
+Soares em casa de Sebastião da Mesquita, seu padrinho de baptismo, que o
+considerava do modo que já dissemos.</p>
+
+<p>Ao entrarem na sala das visitas, as quatro pessoas que acompanhamos desde
+o terreiro, ouviram-se badalar as <em>Ave-Marias</em> no campanario da terra,
+o que logo fez pôr em pé os velhos senhores da casa, dos quaes se aproximaram
+as donzellas, e Arthur, e todos, com a devida reverencia, resaram em côro a
+conhecida oração da Santissima Trindade. Acabada a resa, foi D. Maria beijar
+a mão e a face de sua mãe, e, depois, curvando os joelhos, pediu a benção ao
+pae, que lhe offereceu a face direita, onde D. Maria depositou um respeitoso
+osculo.</p>
+
+<p>As duas companheiras de D. Maria, pediram, de mãos postas, a benção aos
+velhos fidalgos, que as acariciaram, chamando-lhes as lindas discipulas de
+Maria, nomes com que Sebastião da Mesquita as dava a conhecer ás suas
+visitas.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[26]</span> Arthur Soares, saúdou D. Isabel, beijando-lhe as extremidades dos
+dedos da mão direita, e recebeu um amplo aperto de mão do fidalgo,
+acompanhado das palavras--bem vindo, afilhado--e de um certo fitar, que
+n'elle demonstrava contentamento, e interesse pela pessoa a quem o
+dirigia.</p>
+
+<p>Estabelecida certa liberdade familiar, promovida pelos velhos fidalgos,
+occuparam as cadeiras proximas do fogão, Sebastião da Mesquita, D. Izabel e
+Arthur Soares. D. Maria e as suas discipulas procuraram outro lado da sala,
+onde podessem confidenciar, á vontade, os mil nonadas, que são os encantos
+dos annos verdes, e, algumas vezes, até dos já illustrados pelo estudo. Rosa,
+e Anna, ficaram de pé, aos lados da cadeira, occupada por D. Maria: só
+tomavam assento na presença dos velhos fidalgos, quando estes imperativamente
+o ordenavam. Sebastião da Mesquita e D. Isabel--diga-se a verdade--não
+desgostavam d'aquella prova de submissão, e quasi sempre se esqueciam de lhe
+pôr termo. É que o barro, por mais apurado que seja, tem asperezas, que só em
+pó se desfazem.</p>
+
+<p>Passado pouco tempo, D. Isabel sahiu da sala, e o fidalgo estabeleceu com
+Arthur o seguinte dialogo:</p>
+
+<p>--Que pesadelo o fez triste, como parece estar, snr. meu afilhado?</p>
+
+<p>--Tenho que dar a v. ex.<sup>a</sup> a desagradavel noticia de que o povo
+se agita em desordem, começada por não sei que «<em>Maria da Fonte</em>» das
+proximidades de Lanhôso, e temo que os tumultos cresçam até á altura de
+revolução, porque a semente lançada pelas paixões partidarias hade produzir
+os benésses a que miram os curas da imprensa desenvolta.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[27]</span> --É cousa essa, snr. Arthur Soares, que não deve surprehender
+aquelles que, como nós, acompanharam de longe as dissensões, e os desacertos,
+da familia liberal, a que não pertenço pela communhão de idéas, mas que
+desejára, como portuguez, vêr prosperar, para o bem de todos. E o que diz e
+faz o povo?</p>
+
+<p>--O povo diz, <em>que abaixo o ministerio e as contribuições</em>, e
+queima os mappas, que se mandaram encher, para um novo systema de
+contribuições, reprovado, sem analyse séria, pelos partidos da opposição, que
+incutiram nas massas ignorantes o absurdo de que aquelles papeis serviriam de
+documentos para hypotheca da propriedade aos inglezes!</p>
+
+<p>--Quando haverá seriedade nos homens politicos, que assim fazem brinco de
+uma nação?!</p>
+
+<p>--Neguei até hoje, o meu voto aos bandos politicos militantes, que já da
+gloriosa ilha Terceira vieram eivados do mal, que devia affectar o heroismo
+de um povo, e d'um rei-soldado. Os feitos praticados dentro das muralhas da
+invicta cidade da Virgem, dariam assumpto para uma epopéa, se não tivessem a
+macula de fratricidas... Perdôe v. ex.<sup>a</sup> o modo de vêr da moderna
+eschola, que isto de nenhuma sorte escurece a grandeza, d'aquellas épochas de
+conquistas, e de independencia, em que nobres antepassados de v.
+ex.<sup>a</sup> manejaram a espada, com proveito, e immortal honra d'estes
+reinos. Bem sabe, que sou liberal...</p>
+
+<p>--Sei que é homem de bem, snr. Arthur Soares, e não me repugna a liberdade
+de que V. S.<sup>a</sup> é apostolo. Á licença, ao desenfreamento de paixões
+interesseiras, ao que promove a desunião da familia portugueza, é que um
+soldado da independencia, como eu fui, não dará em tempo algum o seu preito.
+É V. S.<sup>a</sup> <span class="pagenum">[28]</span> o mesmo que confessa,--e dizem outro tanto todos
+os liberaes de boa fé--que muito é para temer a desintelligencia que lavra
+entre os que tanto precisavam de união. Tambem eu partilho esse receio pelo
+meu paiz, sem que n'isto tome parte qualquer tendencia que possa haver em
+mim, para applaudir outra fórma de governo. O que eu desejo, antes das
+proprias conveniencias, é o bem geral, o engrandecimento d'este torrão
+abençoado, em que nasci, e onde queria morrer portuguez. Estas continuadas
+luctas intestinas, que nos trouxe a constituição, desdizem da felicidade por
+ella annunciada, e quem sabe o que poderão causar-nos!...</p>
+
+<p>--Talvez a perda da nossa autonomia... É possivel. Mas as grandes
+transformações sociaes, snr. Sebastião da Mesquita, não se operam sem abalos
+mais ou menos fortes. Consinta-me V. Exc.<sup>a</sup>, que ainda confie no
+futuro. Entre os vultos liberaes, ha caracteres nobilissimos, completamente
+devotados á causa nacional. Se conseguirem aproximar d'elles, aos altos
+cargos da governação publica, todos os homens competentes sem distincções
+partidarias, póde a náo do estado tomar norte, e trazer-nos éras de paz e de
+prosperidade.</p>
+
+<p>Foi n'esta altura interrompido o dialogo por um escudeiro de habito de
+Christo, que vinha dar parte a Sebastião da Mesquita de que se achava o
+terreiro coberto de povo, e á sua frente o Exc.<sup>mo</sup> Leopoldo de
+Moraes Lencastre, do Marco de Canavezes, que pedia licença para entrar.</p>
+
+<p>Antes de dizermos a ordem que Sebastião da Mesquita deu ao escudeiro,
+lembraremos de passagem duas cousas: primeira, que não sirva de prejuizo ao
+<span class="pagenum">[29]</span> cofre nacional, pela falha de direitos de mercê, a noticia de haver
+<em>escudeiros</em> com habito de Christo, porque é facto averiguado que os
+houve, e não sabemos se ainda existem alguns. Eram homens de merecimento, a
+maioria d'elles soldados companheiros de seus amos, e de provado valor e
+lealdade.</p>
+
+<p>Segunda: que na rapida descripção que fizermos da guerra civil
+contemporanea, seremos completamente isentos de sympathias pelos partidos ou
+grupos que dividem os politicos de Portugal. Respeitamos todos os homens, não
+temos odios nem invejas, e ajuizamos das cousas com o justo criterio da
+imparcialidade.</p>
+
+<p>Sebastião da Mesquita, levantou-se e disse ao escudeiro, que mandasse
+entrar toda a gente. D. Isabel, veiu á sala um pouco perturbada, e perguntou
+ao esposo, para dizer alguma cousa, se queria que fosse servido o chá.
+Sebastião da Mesquita, respondeu placidamente, que era magnifica occasião de
+beber agua quando estivesse o povo na sala, porque se viesse com más tenções
+fugiria d'ella como de sua figadal inimiga... Via-se que Sebastião da
+Mesquita, estava ou queria mostrar-se tranquillo e jovial.</p>
+
+<p>D. Isabel foi tomar logar no centro das tres donzellas, que ficaram mudas
+de espanto pela ordem que ouviram dar, e não de todo livres de receio, embora
+tivessem sempre observado no povo extrema consideração pelo velho fidalgo.
+Conservaram-se com tudo impassiveis, como estavam costumados a proceder todos
+os familiares do fidalgo, quando este manifestava a sua vontade.</p>
+
+<p>Arthur Soares, collocou-se á esquerda do padrinho com tão natural aspecto,
+como se fôra a continuar a conversa interrompida.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[30]</span> O escudeiro, entrou de novo na sala com uma grande salva de prata e
+sobre ella uma espada antiga, com cinturão, que, sem dizer palavra, offereceu
+a Sebastião da Mesquita. O velho fez repentinamente um gesto de espanto, que
+o escudeiro presenceou sem pestanejar; em seguida sorriu-se, como se
+disséra--lembraste bem,--e pendurou a espada á cinta, com a pericia propria
+de um antigo official de cavallaria. Logo depois, era annunciado, e dava
+entrada na sala, o Exc.<sup>mo</sup> Leopoldo de Moraes Lencastre, que foi
+recebido friamente: nas tres donzellas, é que se poderia notar a apparição
+d'um tal ou qual rubor intraduzivel para os circumstantes, ao conhecerem o
+fidalgo moço.</p>
+
+<p>--Sou o mais dedicado servo de V. Exc.<sup>a</sup> meu presadissimo primo
+e senhor da Mesquita;--principiou por dizer o fidalgo Leopoldo, acompanhando
+estas palavras de mesura palaciana, a que Sebastião da Mesquita correspondeu
+com um ligeiro curvar de cabeça.</p>
+
+<p>--Tenho a honra de me dirigir a V. Exc.<sup>a</sup> em nome da soberania
+popular, para que se digne acceitar o commando dos bravos camponezes da
+comarca, que na cidade acabam de reduzir a cinzas os vexatorios papeis, que
+um ministerio obnoxio, pelos actos despoticos que pratíca, semeára pelo
+reino. A provincia do Minho, ao grito da heroina «<em>Maria da Fonte</em>,»
+está toda revolucionada; e dentro em pouco chegarão os gritos do povo aos
+ouvidos da corôa, que deve fazer justiça immediata, como o requerem as
+anómalas condições em que se acha o systema constitucional. Ninguem mais
+competente do que V. Exc.<sup>a</sup>, meu nobre primo e snr., para conduzir
+o povo até ao paço; logar em que os nossos nobilissimos antepassados já
+tiveram <span class="pagenum">[31]</span> a honra de sustentar na presença da magestade os direitos da
+nação, com a coragem revelada n'aquellas memoraveis palavras, que a historia
+legou ás futuras gerações:--«Se não, escolheremos outro rei que melhor saiba
+governar e dirigir a briosa nação portugueza!»--Aguardo as determinações de
+V. Exc.<sup>a</sup>, que fielmente serão communicadas aos que por ellas
+esperam nos proximos salões deste palacio; bons lavradores que me pediram
+fosse eu o interprete dos sentimentos d'elles perante V. Exc.<sup>a</sup> Não
+consenti que entrassem n'esta sala, para deixar tranquillas as damas, primas
+e senhoras minhas, ás quaes só agora tenho occasião de tributar o mais
+respeitoso dos meus cultos e a mais submissa das minhas homenagens,
+pedindo-lhes humildemente, que se dignem perdoar o não ter eu praticado desde
+logo este dever, em attenção a que estava pouco senhor de mim com a delicada
+e obrigatoria missão de que fui encarregado.</p>
+
+<p>Quando o fidalgo do Marco deu assim por terminado o aranzel, acenou
+Sebastião da Mesquita ao escudeiro, que comprehendendo seu nobre senhor,
+abriu de par em par as portas e reposteiros, dando livre accesso ao povo, que
+estava agrupado pelos immediatos aposentos. Foram pouco e pouco, como
+possuidos de acanhamento, entrando na sala os populares, activos e laboriosos
+lavradores, sempre cortezes como todos os habitantes do Minho, mas faceis de
+inflammar com perfidas insinuações, principalmente ácerca do perigo que possa
+correr a religião que professam, e o lar que possuem.</p>
+
+<p>Eram variados os trajes d'aquelles homens amotinados, e variadissimas as
+armas de que cada um estava munido: ainda assim, predominavam os fatos
+domingueiros <span class="pagenum">[32]</span> a que é obrigada a casaqueta de botões amarellos, e as
+espingardas de fechos com pederneira. Todos entravam desbarretados e
+convenientes. Sebastião da Mesquita ia provocando a entrada com as animadoras
+palavras:--«Vinde, vinde, bons homens.» E assim que todos o podiam ouvir,
+virou-se para o mensageiro, e fallou n'estes termos:</p>
+
+<p>--Ouvi com a devida attenção e serenidade, o que teve a bondade de
+dizer-me meu primo e snr. de Lencastre. Respondendo ao povo, que me escuta,
+respondo tambem a v. ex.<sup>a</sup> Esta espada, que já serviu a nossos
+avós, para emprezas importantes em prol d'estes reinos, e sempre em defeza do
+sagrado solo da patria,--nunca será por mim empunhada contra portuguezes e
+irmãos. Fui soldado da independencia, e não quero outra gloria. Quem deseja
+conduzir o povo pelo caminho da revolta contra os poderes bem ou mal
+constituidos, póde ter ambições a saciar, mas falta-lhe bem dentro n'alma a
+nobreza de sentimentos, unica que póde distinguir da massa geral dos homens,
+os fidalgos e as pessoas illustradas.</p>
+
+<p>«Porque os principes, ou aquelles que governam o reino, abusem do seu
+poder, não é rasão para que os povos abusem dos seus direitos. Os homens
+prudentes, devem conhecer os demais. Aos não poucos annos que tenho, devo eu
+o não poder ser facilmente enganado... Não se queria o meu braço, não, que já
+mal póde com a espada... O que se vinha aqui buscar era o bom nome do velho,
+para servir de joguete a pequenas ambições... Não precisa o snr. meu primo
+Leopoldo d'este fraco auxilio. As tendencias que manifesta para tribuno
+popular, devem leval-o rapidamente ao parlamento, que é o caminho aberto ás
+<span class="pagenum">[33]</span> modernas glorias... Seja feliz, e deixe-me descer socegadamente á
+sepultura. E vós, homens do trabalho, recolhei-vos ao seio de vossas
+familias, que devem soffrer com os vossos desvarios, e desconfiai sempre dos
+pareceres que vos levam á porta os voluntarios zeladores dos vossos
+interesses... Lembrai-vos, que não se devem despresar as lições da velhice,
+que são as da experiencia. Minha prima e presada esposa, digne-se v.
+ex.<sup>a</sup> mandar abrir a adega, para que esta boa gente mate a sêde.
+Maria, as tuas interessantes discipulas ficam esta noite a fazer-te
+companhia, para assim escaparem a algum <em>discurso</em> dos campeões de
+praça... Snr. Arthur Soares e meu bom amigo, queira ter a summa bondade de
+acompanhar este bom povo até ao terreiro, e vêr se póde com a sua eloquencia
+acabar de convencêl-o da verdade encerrada nas minhas trémulas palavras. Meu
+primo, querendo v. ex.<sup>a</sup> dar-nos a honra da sua presença, logo que
+voltem minha mulher e o snr. Arthur Soares mando servir o chá.</p>
+
+<p>--Agradeço, mas não posso acceitar nem conservar-me aqui mais tempo depois
+do que v. ex.<sup>a</sup> acaba de pronunciar...</p>
+
+<p>--N'esse caso,--interrompeu Sebastião da Mesquita--peço as ordens de v.
+ex.<sup>a</sup>... João, acompanha meu primo até ao portal.</p>
+
+<p>Ao receber a ordem do amo, o escudeiro foi postar-se atraz de Leopoldo.
+Este, fulo de cólera açamada, virou a espalda e sahiu com o povo, que
+escutára o fidalgo com todo o respeito e silenciosa attenção, e que foi tão
+rapido na sahida como morôso havia sido na entrada.</p>
+
+<p>Logo que foi evacuada a sala segundo as ordens de Sebastião da Mesquita,
+caminhou este até ao pé <span class="pagenum">[34]</span> das donzellas, pôz a mão direita sobre o
+hombro esquerdo da filha, encarou-a por longo tempo com visivel commoção, e
+disse-lhe com lagrimas na voz: Deos te dê melhor sorte, Maria!... Depois,
+cingiu Rosa e Anna com o braço esquerdo, e disse a todas com igual ternura:
+Deos vos proteja, minhas filhas!...</p>
+<span class="pagenum">[35]</span>
+
+<h3>III<br>
+AO LUAR</h3>
+
+<div class="quote">
+«Na minha terra, uma aldeia,<br>
+Por noites de lua cheia,<br>
+É tão bella! é tão feliz!...»<br>
+.............................
+
+<p class="direita">(<em>João de Lemos</em>--<span
+class="smallcaps">Cancioneiro</span>.) </p>
+</div>
+
+<p>Leopoldo de Moraes Lencastre, filho segundo da nobre familia dos alcaides
+móres de Coruche, achava-se--por fallecimento do primogenito--na posse do
+morgadio.</p>
+
+<p>Era importante a casa de seus maiores, dispersa por quasi todo o reino.
+Leopoldo administrava mal e esbanjava muito, sem gastar, ainda assim, mais
+que o rendimento.</p>
+
+<p>Corriam differentes versões ácerca da morte inesperada do morgado, que
+todas formavam um pessimo conceito do herdeiro forçado d'aquella nobre casa.
+No entanto, Leopoldo mostrára-se angustiado com a morte do irmão, e parecia
+gosar a herança com a tranquilidade de espirito propria dos innocentes.
+Deixára <span class="pagenum">[36]</span> Coimbra quando frequentava o quarto anno da faculdade de
+direito, para tomar conta da casa, e voltára mais tarde a concluir a
+formatura.</p>
+
+<p>Dotado de um caracter ardente, Leopoldo, era ambicioso de glorias, que
+sonhava de um modo unico. Sacrificava todos os bons sentimentos, á satisfação
+do amor proprio. Na consciencia d'elle, havia só logar para a sua
+personalidade. Nunca encontrou espelho que lhe reflectisse outro objecto,
+além da sua figura.</p>
+
+<p>O mundo era para o fidalgo doutor apenas um palco, destinado a receber-lhe
+as scenas comicas ou tragicas; e os espectadores estavam magnetisados, para
+só attentarem n'elle e nas suas acções. Não havia torpeza que lhe embargasse
+o caminho do Capitolio, nem falta que o fizesse exitar no trajecto. Mettia
+algumas vezes na gaveta das conveniencias a sua altivez, para de lá sahir
+depois mais furiosa, alcançados que fossem os premeditados fins. Era mais
+insaciavel com o seu orgulho, do que um miseravel com as suas necessidades:
+os cuidados, agitações e pesares communs a todo o homem quando se dilata a
+esphera dos prazeres, affeições e sentimentos, só accommettiam o moço doutor
+na hora em que se convencia de que o mundo desviava os olhos das suas
+façanhas.</p>
+
+<p>Leopoldo era physicamente favorecido da natureza, e suppríra, com o
+estudo, o que lhe faltava em talentos. Foi-lhe facil estabelecer escóla sua,
+e rodear-se de manequins, que serviam magnificamente aos seus desejos. É
+crescido o numero de parasitas que, algumas vezes, se prestam para
+caudatarios, e que são sempre tubas, ainda que rouquenhas, de famas adrede. E
+não se verificava, com relação a Leopoldo, o preceito de ser a lisonja moeda
+falsa que empobrece quem <span class="pagenum">[37]</span> a recebe; muito ao avêsso ia logrando
+insinuar-se na opinião publica, que foi, e é, e ha de sempre ser, a tonta
+filha das apparencias.</p>
+
+<p>Quando Arthur Soares, encarregado pelo fidalgo Mesquita de fallar ao povo,
+estava desempenhando a commissão, foi interrompido por Leopoldo, que
+pretendeu ridiculisal-o. Deu isto causa a uma discussão entre os dous, algum
+tanto animada, que acabou pelo povo ir dispersando, e Arthur Soares deixar
+bruscamente o adversario fidalgo, entrando de novo no palacio de Sebastião da
+Mesquita, com o qual passou algumas horas mais.</p>
+
+<p>Na sahida para a residencia de seu thio reitor, ao passar por baixo das
+janellas do quarto de D. Maria, teve Arthur Soares de prestar attenção ao
+chamado da fidalga senhora, que, com as suas discipulas, estava gosando o
+luar e a belleza da noite, e lhe perguntára como havia conseguido que o povo
+recolhesse a suas casas.</p>
+
+<p>--Tudo consegue a prudencia, minha senhora, quando não é capa de occultos
+interesses. O povo estava illudido por palavras pomposas que eu expliquei em
+linguagem chã, fazendo-lhe conhecer o sentido interesseiro de quem lh'as
+havia dito: convenceu-se e tranquillisou-se. O fidalgo, primo de V.
+Exc.<sup>a</sup>, é que se não convenceu nem me agradece... Creio que adquiri
+n'elle um verdadeiro inimigo.</p>
+
+<p>--Pouco deve importar ao snr. Soares a inimisade do snr. Lencastre. V.
+S.<sup>a</sup> tem a nobreza das suas acções, que não podem invejar cousa
+alguma ás do meu fidalgo primo.</p>
+
+<p>--Não me parece tanto assim, snr.<sup>a</sup> D. Maria;--arriscou-se a
+dizer a timida Anna--O snr. Lencastre <span class="pagenum">[38]</span> é pessoa muito estimavel e
+virtuosa, no meu humilde parecer...</p>
+
+<p>--Estimavel; virtuosa e <em>carinhosa</em>, deves acerescentar, minha
+beatinha, porque o tal senhor teve artes para ganhar a tua affeição...</p>
+
+<p>--Valha-te Deus, Rosa, que vês tudo pelo mau lado... Eu sou muito amiga do
+snr. Lencastre, como o seria de qualquer outra pessoa que conhecesse, e que
+nunca me fizesse mal...</p>
+
+<p>--Parece-me, menina Anna, que a Rosinha foi mais verdadeira agora do que
+mordaz ou satyrica, como graciosamente lhe chamam;--disse Arthur Soares.--Se
+não, haja vista esse denunciativo rubôr que mais de palpite do que auxiliado
+pelo luar, d'aqui imagino vêr...</p>
+
+<p>--Peço desculpa de ser contra a sua opinião, snr. Arthur, mas entendo que
+o pejo, manifestado nas faces, póde ter variadas origens. A Rosinha tambem
+córou, e talvez eu córasse egualmente, quando meu primo entrou no salão; e,
+com tudo, não creio que em nós exista sentimento algum reservado.</p>
+
+<p>--Nunca dei entrada no meu espirito a qualquer suspeita prejudicial á
+inexcedivel virtude de V. Exc.<sup>a</sup>, e á que adorna as suas
+interessantes discipulas, o que não obstou a que eu fizesse
+reparo--confesso-o--em certo embaraço que descobri em todas, na occasião a
+que V. Exc.<sup>a</sup> se refere.</p>
+
+<p>--Eu explico ao snr. Arthur Soares a razão do nosso abalo;--disse
+repentinamente Rosa.--Annitas, córou, porque o fidalguinho lhe não é
+indiferente...</p>
+
+<p>--Tens cousas...</p>
+
+<p>--Não me interrompas, que ter coração não fica sul a pessoa alguma, O
+amor, é toda a historia da <span class="pagenum">[39]</span> vida das mulheres, como diz um livro, que a
+snr.<sup>a</sup> D. Maria me ensinou a lêr e entender.--Eu córei, por que
+antipathiso solemnemente com uns certos modos do snr. Lencastre, que já me
+fez a honra de dizer que eu era bonita e espirituosa... A snr.<sup>a</sup> D.
+Maria...</p>
+
+<p>--Eu, menina, não desejo n'este momento ter interpretes dos meus
+sentimentos... Subiu-me calor ás faces, porque... estava um tanto
+indisposta...</p>
+
+<p>--É já tarde, minhas senhoras, e eu vou até á residencia de meu thio, onde
+espero conciliar o sômno, vendo o soberbo luar d'esta lindissima noite,
+atravez dos vidros da janella do meu pequeno quarto. V. Exc.<sup>a</sup>,
+snr.<sup>a</sup> D. Maria, continue a gosar, em companhia das suas innocentes
+amigas, o arôma das flôres do jardim e do pomar, a fagueira brisa d'esta
+bellissima noite de primavera, o suave cantico da voadôra cotovia e da
+poetica philomella, o murmurio da agua nos proximos tanques, a magestosa
+pallidez da lua cheia, que tudo isto ajuda a nutrir a imaginação com illusões
+nascidas da candidez da alma, muito mais carecida de taes alimentos do que a
+fria razão.</p>
+
+<p>--Quer o snr. Arthur Soares dizer-me com esse trecho poetico, que não
+gostou de que eu interrompesse a Rosinha?... Apreciava bem mais ouvir a
+franqueza de que sabe usar, do que escutar-lhe um subterfugio, aliás
+lindissimo na fórma... Eu, digo-lhe abertamente, snr. Soares, porque não
+tenho motivos para occultal-o, que o meu pejo procedeu de haver ha muito
+reconhecido em meu primo Lencastre, qualidades e sentimentos improprios de um
+cavalheiro. Magôa-me bastante ter de fallar assim de um fidalgo, que é meu
+parente; mas não quero que os meus gestos sejam mal avaliados, principalmente
+por V. S.<sup>a</sup>, que é um <span class="pagenum">[40]</span> amigo d'esta casa, a quem meu pae
+devéras estima.</p>
+
+<p>--Não me accuso, snr.<sup>a</sup> D. Maria, de ter provocado a
+irritabilidade nervosa, que me parece descobrir em V. Exc.<sup>a</sup>,
+porque me diz a alma que eu era incapaz de lhe promover o mais leve desgosto.
+O dia em que eu me conhecesse origem de qualquer dissabor, para a familia do
+snr. Sebastião da Mesquita--póde V. Exc.<sup>a</sup> crêl-o--seria o ultimo
+da minha vida.</p>
+
+<p>--O que disse, não foi queixa, snr. Arthur Soares. Quiz apenas <em>ser
+eu</em>, a dizer a V. S.<sup>a</sup> os meus sentimentos... Se perdeu com
+isto de ouvir a narrativa com a natural eloquencia e graça de que dispõe a
+minha amiga Rosa, deixo-os agora á vontade, para...</p>
+
+<p>--Sou eu que me devo retirar, snr.<sup>a</sup> D. Maria... E retiro-me com
+a convicção bem formada de que <em>nunca mais</em> as minhas palavras,
+dirigidas ao snr. Arthur Soares, poderão melindrar a minha presada senhora,
+amiga e mestra, porque hei de medital-as muito...</p>
+
+<p>--Ficam ambas, com certeza, porque uma e outra se encontram empolgadas
+pelo gavião!...--Disse uma voz sahida do pomar, que todos reconheceram ser a
+do snr. de Lencastre.</p>
+
+<p>Facilmente se avalia a commoção em sentidos diversos, que soffreram todos
+os actores d'esta scena, ao conhecerem o novo e audacioso interlocutor,
+sahido de entre as arvores do pomar que o occultavam, e collocando-se
+sobranceiro á parede do jardim, em frente da janella occupada pelas tres
+donzellas, ficando alguns metros separado de Arthur Soares.</p>
+
+<p>--Não me surprehende, continuou a dizer o fidalgo moço, dirigindo-se para
+a janella,--que a snr.<sup>a</sup> Rosa concebesse um arranjinho de vida
+commodo, fazendo <span class="pagenum">[41]</span> presente do seu coração e de seus volumosos espiritos
+ao snr. Arthur Soares; e que este eminente litterato tome posse de tudo, para
+cada vez dar maior brilho ao seu verniz de urbanidade e brios... Agora, o que
+devéras me faz descrêr de quantas virtudes podem honrar o coração humano, é o
+vêr que a snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria esqueceu rapidamente a
+distancia que a separa de um plebeu, embora um tanto polido, que nunca se
+atreveria a pensar sequer na honra de conseguir, á custa dos maiores
+sacrificios, o que V. Exc.<sup>a</sup> tão de barato lhe concede!...
+Manifestar <em>ciumes</em> ao snr. Soares, minha nobre prima, é declarar-lhe
+que o ama!...</p>
+
+<p>--Eu já sabia, snr. de Lencastre, que uma certa grosseria de habitos
+formava a base do seu codigo cortezão; mas nunca me persuadi que V.
+Exc.<sup>a</sup> quizesse lá escripta a villania de um procedimento como o
+que acaba de ter! Os nossos lacaios, se alguma vez são apanhados a devassar
+alheias causas, fogem espavoridos da feia acção que commetteram... O meu
+nobre primo <em>afidalga-se</em> com um manifesto de curioso, e delator das
+vidas alheias, abrindo com chave de mui duro e enferrujado ferro, o coração
+de uma senhora, que lhe não deu o direito de se tornar seu vigia, e muito
+menos seu mentor. Só a meu pae quero dar conta dos meus procedimentos, e
+nenhum receio me dominava se o santo velho fosse um dos espectadores d'esta
+scena, só pouco edificante desde que V. Exc.<sup>a</sup> entrou n'ella...
+Peço ao snr. Arthur Soares, que seja completamente alheio ás palavras e
+acções do snr. meu primo; peço-lho pela amisade que tem á minha familia.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[42]</span> --É esse o mais espinhoso dever, que V. Exc.<sup>a</sup> me podia
+impôr...</p>
+
+<p>--Socegue o paladino da nobre castellã, que não tem de medir armas comigo,
+porque lhe não acceito o repto... E V. Exc.<sup>a</sup>, nobilissima
+snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria, fique sabendo que a um perfeito acaso
+devi o ficar conhecendo dos adiantados, prósperos e sublimes amores de V.
+Exc.<sup>a</sup>, com o sobrinho do senhor reitor... Se me interesso por
+alguem, não é de certo por V. Exc.<sup>a</sup>... Ha talvez ao lado da minha
+nobre prima quem saiba nutrir aspirações mais fidalgas... Muitas vezes
+acontece haver discipulos, que podiam ensinar os mestres...</p>
+
+<p>--Das lições de V. Exc.<sup>a</sup> é que ninguem aproveita... disse
+sacudidamente Rosa, que ha muito ardia por fallar, e que era contida pelo
+respeito devido á fidalga, e por se achar affectada com a inesperada direcção
+d'estes acontecimentos, que lhe descobriram o coração.</p>
+
+<p>--Já me tardavam as provas de seu despeito, menina... Apraz-me têl-a por
+inimiga: das mulheres formosas, só nos deve magoar a indifferença...</p>
+
+<p>--E o despreso, snr. meu primo?...</p>
+
+<p>--V. Exc.<sup>a</sup> despresa-me, minha nobre prima?... Tanto melhor, que
+posso usar sem constrangimento dos meus direitos de fidalgo e de parente de
+V. Exc.<sup>a</sup> para annunciar ao mundo do bom tom, que a
+snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria Mesquita Bandeira de Abendanho, está
+ligada pelos vinculos <em>do mais apertado amor, com dispensa de
+sacramentos</em>, ao sobrinho do snr. reitor da freguezia...</p>
+
+<p>Ainda o snr. Leopoldo não tinha acabado de pronunciar bem a ultima palavra
+do insulto, e já o som <span class="pagenum">[43]</span> de uma estrondosa bofetada echoava nos ouvidos
+de todos.</p>
+
+<p>As discipulas de D. Maria deram um abafado grito e retiraram-se da
+janella, a um pequeno impulso que lhes deu D. Maria. A fidalga, julgando ter
+sido Arthur Soares que déra o castigo ao insolente, ficou sobresaltada, e
+dirigiu-lhe, ainda que meigas, algumas censuras, a que o brioso mancebo
+respondeu, que outra mão, mais prompta que a sua, castigára o desaforado
+fidalgo.</p>
+
+<p>Fôra o caso, que João Vidal, o escudeiro, andando na sua costumada ronda
+pelas cercanias do palacio, e ouvindo parte do dialogo, aproximou-se
+cautelosamente do sitio onde estava Leopoldo, e lá se conservou até ao
+momento em que o insulto feito á sua nobre ama, o levou a estender a mão na
+cara do petulante com força tal, que o snr. de Lencastre cahiu redondamente
+no chão do pomar. Logo que se levantou, ardendo em ira, partiu para o
+escudeiro de punhal na mão. João Vidal, suspendeu-lhe o braço homicida e
+arrancou-lhe da mão a arma cobarde, em menos tempo, tudo isto, do que se
+gasta a contal-o.</p>
+
+<p>Vendo-se abatido, sem armas, e marcado pelo mais ignominoso ferrête que um
+homem póde imprimir n'outro homem, Leopoldo vociferou:</p>
+
+<p>--Por um escudeiro!... Vergonha eterna!... Juro que a vingança ha de ser
+superior á affronta... Não posso medir-me comtigo, villão, mas quero e hei-de
+vingar-me... Vingar-me de todos... Ouviram?! De todos!... E a ti, canalha...
+escudeiro infame... hei de afogar-te como se afoga um cão vadio!...</p>
+
+<p>Proferidas aquellas selvagens ameaças, retirou-se <span class="pagenum">[44]</span> o possesso, a
+passos accelerados, não dando assim logar a maior castigo.</p>
+
+<p>João Vidal, com toda a submissão e respeito, pediu á sua joven senhora
+desculpa para o que fizera sem premeditação, e levado unicamente pela
+violencia do insulto. D. Maria agradeceu-lhe com palavras vehementes, e
+ordenou-lhe que entregasse o punhal ao snr. Arthur Soares, o que o escudeiro
+fez, sem exitação, pedindo depois licença para retirar-se.</p>
+
+<p>Arthur, surprezo com a ordem e a entrega, perguntou a D. Maria, que uso
+devia fazer d'aquella arma.</p>
+
+<p>--Guarde-a--lhe disse a fidalga--até que eu lh'a peça.</p>
+
+<p>--É perigoso este instrumento na minha mão, senhora, desde que me vejo
+causa involuntaria das mágoas de V. Exc.<sup>a</sup>... Esta noite foi para
+mim ao mesmo tempo a vida e a morte... Tive sempre horror ao crime, e vejo-me
+levado pelo destino a ser necessariamente criminoso! Acolhendo em meu peito
+sentimentos, que nem ao dominio dos meus sonhos quereria que pertencessem,
+terei de luctar e de punir, de caminhar para a incerta felicidade por cima do
+cadaver de um inimigo, vilissimo é verdade, mas bem nascido e poderoso... O
+que devo fazer em tão apertada como temivel conjunctura?!... Não devo
+escolher entre dous crimes, aquelle de que só eu venha a soffrer as fataes
+consequencias?!... Nunca me persuadi de que havia de chegar uma hora em que
+assim fosse abalada a minha austeridade em principios religiosos!... Nunca
+imaginei que seria forçado a praticar, o que sempre tenho rebatido com todas
+as forças de uma profunda convicção!... Adeus, snr.<sup>a</sup> D. Maria da
+Gloria!... Amanhã será entregue a <span class="pagenum">[45]</span> V. Exc.<sup>a</sup> esta arma por
+pessoa de confiança.... Peço-lhe que ao recebel-a se lembre com alguma
+saudade do martyr de umas certas crenças, talvez irrisorias n'esta epocha
+de... progressos... Adeus!...</p>
+
+<p>--Ordeno-lhe que fique!... Disse D. Maria com um tal assento de voz, que
+obrigou Arthur a ficar como petrificado.</p>
+
+<p>--O snr. Arthur Soares, pensar em suicidar-se?!... Onde escondeu a
+fortaleza do seu espirito robustecido pelo estudo?! Como assim esqueceu os
+salutares conselhos de sua boa mãe, que o snr. Soares muitas vezes me tem
+repetido?! Que fez das arreigadas crenças na religião de nossos paes, que o
+snr. Arthur dizia ser a mais racional e acceitavel de todas as religiões,
+mesmo desprendida do que n'ella ha de mysterioso e divino?!... Ah! snr.
+Arthur Soares, que me parece imperdoavel essa allucinação!... Já não quero
+fallar-lhe no abandono em que deixava as pessoas amigas, só pelo egoismo de
+não soffrer na lucta! Isso prova que as melhores almas tambem têem suas
+fraquezas... Lembre-se, senhor, que á vida de V. S.<sup>a</sup> póde estar
+presa alguma outra vida; e que, querendo fugir a matar um inimigo vil, quando
+seja absolutamente indispensavel o fazel-o, póde assassinar <em>alguem</em>
+com o seu suicidio...</p>
+
+<p>--Pois V. Exc.<sup>a</sup>?!!...</p>
+
+<p>--Adeus, snr. Arthur Soares! Durma tranquillo e guarde bem essa arma que
+deve ser entregue por V. S.<sup>a</sup> <em>em pessoa</em> a mim, ou, de
+minha ordem, á minha amiga e discipula Rosa...</p>
+
+<p>Ditas estas palavras, retirou-se D. Maria da janella, que fechou de
+manso.</p>
+
+<p>Arthur permaneceu no mesmo logar por largo espaço <span class="pagenum">[46]</span> de tempo,
+immovel, com os olhos fitos na formosa lua cheia, e o pensamento entregue ao
+vago de estranhas e indecifraveis sensações. Accordou d'este delicioso e
+pungente lethargo, á voz amiga de João Vidal, o escudeiro, que o acompanhou á
+residencia do thio.</p>
+<span class="pagenum">[47]</span>
+
+<h3>IV<br>
+MÃE E MADRE</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«Espero que essas pedras, que em outras foram de escandalo, sejam em v. m.
+padrões de espirituaes exemplos.»</p>
+
+<p class="direita">(<em>Fr. Ant. das Chagas</em>--<span
+class="smallcaps">Cartas espirit.)</span></p>
+</div>
+
+<p>Pelos fins do mez de janeiro de 1807, um cavalleiro envolto em larga capa,
+acompanhado de seus lacaios e creados a pé, desmontou, seria meia noite,
+defronte da portaria do convento e mosteiro, da invocação de Nossa Senhora
+das Candêas, de freiras de S. Bento, que fundou, nas casas em que nascêra na
+villa de Moimenta da Beira, o doutor Fernão Mergulhão, filho de Vasco
+Mergulhão e de sua mulher D. Leonor de Lucena, pessoas nobres e de vastos
+rendimentos.</p>
+
+<p>O cavalleiro, bateu tão de rijo com a aldrava do portão, que a communidade
+inteira accordou ao estrondo produzido pelos repetidos embates da massa de
+ferro.</p>
+
+<p>Em quanto as noviças alvoroçadas perguntavam <span class="pagenum">[48]</span> em voz baixa umas ás
+outras, o que poderia significar uma visita a taes deshoras, e que a muito
+respeitavel abbadessa se erguia com inquietação, foi repetidas vezes renovado
+o chamamento com furia egual, se não superior, á das primeiras pancadas, até
+que a soror rodeira, toda espavorida, tendo-se vestido precipitadamente e sem
+esperar as ordens da superiora, desceu até onde podésse ser ouvida e, com a
+maior força que podia dar á sua voz septuagenaria, perguntou:</p>
+
+<p>--Quem, a esta hora, vem assim perturbar o repouso da vida claustral?!</p>
+
+<p>--Muito digna soror rodeira, tende a bondade de annunciar á senhora
+abbadessa, a urgentissima necessidade de escutar, por um pouco, a um de seus
+mais proximos parentes e ao mais humilde de seus servos.</p>
+
+<p>A este tempo, já a madre abbadessa estava ao lado da soror rodeira e,
+reconhecendo a voz que a invocara, mandou que abrissem a porta sem demora.
+Introduzido o cavalleiro no palratorio, depois de ter alcançado a benção da
+abbadessa, fallou assim:</p>
+
+<p>--Minha muito respeitavel e estimadissima thia e senhora! Venho aqui, a
+horas bem importunas, implorar de V. Exc.<sup>a</sup> a minha tranquilidade
+domestica, porque ha já mezes que me é insupportavel a vida ao lado de minha
+esposa e prima D. Leocadia.</p>
+
+<p>Não sei porque artes minha mulher descobriu a existencia do João, d'esse
+filho do peccado, que a minha boa thia e senhora quiz ter a caridade de
+recolher dentro d'estas sagradas paredes. E, desde que o sabe, ameaça-me de
+separar-se de mim e de levar todo o seu dote, que é, como V. Exc.<sup>a</sup>
+sabe, a maior parte da minha casa, se eu não entregar o pequeno <span class="pagenum">[49]</span> ao
+destino que ella lhe queira dar. Eu conheço o coração de Leocadia, e sei que
+ella é incapaz de maltratar o Joãosinho, e por isso...</p>
+
+<p>--Suspenda, snr. meu sobrinho, suspenda o seu desnaturado pedido, que lh'o
+roga esta velha, em nome do Nosso doce Salvador Jesus. Entregar a uma inimiga
+declarada, o meu querido filho adoptivo, o innocentinho a quem salvei a vida
+com desvélos e cuidados, que talvez custem--quem sabe?--indelevel mancha ao
+convento de que sou indigna superiora?!... Nunca, snr.! Nunca espere
+semelhante acção de sua thia... Deu-me ha tres annos, por uma hora igual a
+esta, seu filho recem-nascido. Considerei-me, quando me vi forçada a
+recebel-o para evitar escandalos, escolhida pelo Nosso bom Deus, para exercer
+uma de suas infinitas obras de misericordia. Vi-me attribulada para conseguir
+mitigar a sêde ao anginho, que dava gritos dolorosos!</p>
+
+<p>Fui eu mesma aos curraes buscar o leite necessario, e apartar depois a
+mais formosa das nossas cabrinhas, para servir de ama ao innocentinho... Não
+me foi possivel occultar por muito tempo, ás virtuosas madres minhas santas
+companheiras, a existencia do menino n'este recinto protector. Todas ellas
+tem affecto egual áquelle que eu dedico ao nosso bello Joãosinho. O nome, que
+recebeu no sagrado baptismo, é o do milagroso santo padroeiro d'esta villa,
+que ha de abençoal-o e protegel-o... É o enlevo de todas a triste creancinha;
+é o cofre em que depositamos as joias das nossas affeições mundanas. Este
+nosso affecto, não póde offender nem diminuir o que votamos ao nosso doce
+esposo e bom Jesus, que é todo caridade, todo amor, todo misericordia, todo
+compaixão <span class="pagenum">[50]</span> para as fracas creaturas de que é pae extremosissimo......
+Assim que o meu querido filho adoptivo completar dez annos, hei de separar-me
+d'elle, ainda que um rio de lagrimas me custe a separação, porque não póde,
+nem deve, continuar a viver aqui; mas eu escolherei o destino do abandonado
+infante. Pedirei ao nosso bom Deus, que me inspire, e tenho fé em que hei de
+acertar... É esta, meu sobrinho, a minha irrevogavel resolução. Recorde-se de
+que lhe ouvi, n'aquella noite assignalada da entrega que me fez de seu
+innocente filho, a inaudita blasphemia de que, se eu o não recebesse, o
+deixaria a qualquer canto de uma estrada!... Um pae que profere taes
+palavras, perde, desde esse momento, os direitos da paternidade... Snr. meu
+sobrinho! Digne-se Deus esquecer os seus erros!...</p>
+
+<p>Assim fallando, com um tom imperioso e sêcco, deixou a madre abbadessa
+interdicto o seu interlocutor, que teve de retirar-se, não sem protestar
+haver pela força e violencia, o que á boa paz não pudéra conseguir, ameaças
+que ainda foram ouvidas pela respeitavel abbadessa.</p>
+
+<p>Era fama por todo o Portugal, fundada em apparencias mais ou menos falsas,
+que as noviças e senhoras religiosas do convento de Moimenta da Beira
+attrahiam ás suas grades a flôr da mocidade das provincias da Beira e Minho,
+não só pela notavel belleza de muitas d'ellas, mas, principalmente, pelo modo
+affavel com que recebiam as suas visitas.</p>
+
+<p>Dos mais assiduos frequentadores d'aquelle claustro, era um mancebo
+elegante, distincto em acções e nascimento, que já havia sustentado bastantes
+galanteios, com donzellas de todas as classes sociaes. Logo <span class="pagenum">[51]</span> ao
+principiar a juventude, creára compromissos de homem feito; e declarava a sua
+vida intima, a todas as pessoas que o escutavam, com a leviandade propria dos
+annos ainda verdes.</p>
+
+<p>Fôra muitas vezes, sem elle o saber, espreitado pela respeitavel madre
+abbadessa, em occasiões que se tornava expansivo com uma das mais lindas
+noviças d'aquelle convento, que o attendia e mimoseava, ao palratorio, com
+golodices e innocentes amabilidades.</p>
+
+<p>Certo dia, foi-lhe alli entregue uma carta urgente, que pediu licença para
+lêr. O contheúdo no escripto, fizera-o mudar o semblante tão salientemente,
+que a formosa noviça não resistiu á tentação de perguntar-lhe, que má
+novidade o pozéra assim.</p>
+
+<p>--Está muito doente, um filhinho que tenho...</p>
+
+<p>--Pois o snr., que é solteiro, tem um filho?!...</p>
+
+<p>--Tenho, e quero-lhe tanto como se elle houvesse nascido do mais legitimo
+matrimonio.</p>
+
+<p>Amo as creanças em geral, e estremeço aquella a que dei a existencia.
+Todos os sacrificios seriam insignificantes para mim, quando se tratasse de
+salvar innocentes creancinhas. Sou novo, mas quer-me parecer que em tempo
+algum perderei os sentimentos de que já me orgulho. Só reconheço a
+legitimidade do sangue, que é perfeitamente igual nos bastardos como nos
+filhos do mais santo hymeneu.</p>
+
+<p>--Graças, meu doce Senhor Jesus, que já encontrei o que fervorosamente
+pedia á vossa infinita bondade!... Disse uma voz, sahida do interior das
+grades, que ambos reconheceram ser a da senhora abbadessa.</p>
+
+<p>Appareceu á grade, acto seguido, a trémula e veneranda <span class="pagenum">[52]</span> cabeça da
+respeitavel superiora d'aquelle sagrado recinto, resplandecente de uma
+auréola de luz divina, e pediu, com a mais terna affabilidade, á noviça, que
+a deixasse ter um segredo com aquelle bondoso e nobre cavalheiro.</p>
+
+<p>Revelou a santa velhinha ao mancebo, como em seu poder cahira do céu o
+pequenino João, que alli escapára ao abandono de paes desnaturados.</p>
+
+<p>Disse-lhe que muito receiava que o pae do innocente, movido por vil
+interesse, tentasse apossar-se do filho pela violencia, o que não seria
+difficil conseguir em uma terra certaneja, onde não havia segurança nem para
+o asylo sagrado das esposas de Jesus Salvador. Pediu-lhe pelas sagradas dôres
+de Maria Santissima, que tomasse a seu cargo o futuro d'aquelle infeliz, que
+ella, amando-o como carinhosa mãe, confiaria do seu cavalheirismo, porque uma
+voz occulta, que nunca lhe mentira, lhe dizia que podia confiar. E quando, em
+algum dia dos poucos que tinha para viver, podesse haver ás mãos documentos
+que aproveitassem ao seu querido filho adoptivo, lh'os faria entregar por
+modo seguro.</p>
+
+<p>Logo que os soluços e as lagrimas da santa freira deram logar a ser ouvida
+do mancebo, a quem fizera tão estranha revelação e ponderoso pedido,
+disse-lhe, com uma solemnidade inesperada, que podia ficar tranquilla, em
+relação ao futuro da creança, que elle, desde aquelle momento, tambem
+adoptava por seu filho.</p>
+
+<p>Ás onze horas da noite d'aquelle dia, quem penetrasse até á porta das
+cellas das religiosas benedictinas de Moimenta da Beira, sentiria lá dentro
+lagrimas abundantes, porque todas choravam a ausencia <span class="pagenum">[53]</span> de Joãosinho,
+fragil e inoffensiva creatura, que aquellas bondosas senhoras amavam com
+maternal affecto.</p>
+
+<p>Ha sempre, mórmente em terras de poucos e incultos habitantes, vigias
+nocturnas, homens morcêgos, que devassam os mais insignificantes
+acontecimentos da rua, e que levam a sua audacia até ao ponto de pretenderem
+sujar o sanctuario da familia com inducções calumniosas, tiradas dos
+incidentes presenceados, a que não sabem nem podem dar verdadeira
+interpretação.</p>
+
+<p>O fallar-se dentro do convento a deshoras, o bulicio de homens e cavallos,
+por occasião da entrada e tambem da sahida da creança, alguns indicios da
+existencia do pequeno João junto das freiras, o bom gasalhado que as
+trataveis madres davam ás suas visitas, e os commentarios exageradissimos dos
+vadios indagadores,--foram causas, tão indignas como infundadas, da extincção
+d'aquelle convento.</p>
+
+<p>É assim, muitas e repetidas vezes, a justiça dos homens.</p>
+
+<p>Ao leitor attento, escusado talvez seria declarar, que o mancebo a quem
+foi entregue o pequenino João, se chama, n'este conto, Sebastião da Mesquita.
+E a creancinha, salva da sanha de uma terrivel madrasta e da cobardia de um
+indigno pae, pela santa abbadessa,--madre e mãe adoptiva--tem aqui os nomes
+de João Vidal, o escudeiro.</p>
+<span class="pagenum">[55]</span>
+
+<h3>V<br>
+UM LEVITA</h3>
+
+<div class="quote">
+«Apostolo é o pae que se afadiga<br>
+Só para que descance o filho amado;<br>
+Apostolo é a rocha em que se abriga<br>
+Ave agoureira e pobre desgraçado;<br>
+Apostolo é a lagrima que amiga<br>
+Cae pela face em peito amargurado;<br>
+E esse monstro do Céu que solitario<br>
+Correu o mundo á busca do Calvario.»
+
+<p>(<em>J. de Deus</em>--<span class="smallcaps">Flor. do Campo</span>.) </p>
+</div>
+
+<p>Em Santiago de Esporões--antiga vigairaria do arcebispado bracarense, onde
+Martim Ribeiro fundou uma capella chamada de Nossa Senhora da Caridade, e
+estabeleceu um celleiro para os pobres, com dinheiro por elle adquirido no
+Brazil--residia, no anno de 1799, uma honesta familia de pequenos
+proprietarios lavradores, composta de marido, mulher e um filho de nome
+Alvaro, rapaz de cinco para seis annos de idade.</p>
+
+<p>Os apoucados lavradores, por mais de uma vez em tempo de más colheitas,
+tiveram de recorrer ao celleiro dos pobres, restituindo o emprestimo, quando
+mais farto era o anno, com o <em>avanço</em> de seu alvitre, segundo o uso e
+lei do estabelecimento de Martim Ribeiro, <span class="pagenum">[56]</span> que não marcou limite ao
+juro para os que o queriam e podiam dar.</p>
+
+<p>É de mui antigas éras o costume portuguez, pronunciadissimo na provincia
+do Minho, dos paes imporem o destino aos filhos, quasi ao sahirem da pia
+baptismal. Este erro,--que tem origem na falta de illustração do povo, e
+tambem, o que peior é, em calculadas conveniencias familiares,--dá em
+resultado a troca de vocações, padrinho mal de muitas immoralidades e ruinas.
+Algumas vezes sem o quererem, na idêa até de evitarem imaginarios prejuizos,
+são os paes que forjam a completa desgraça de seus filhos, marcando-lhes, sem
+escrupoloso exame, a estrada a proseguir no transito da vida, trilho sempre
+difficil de aplanar, e impossivel de vencer sem desastres, para os que o
+percorrem violentados.</p>
+
+<p>Os pobres lavradores de Esporões, convencionaram fazer do seu unico filho
+um vigario. Ter um padre na familia, ouvir-lhe a primeira missa e vêl-o cura
+d'almas, é a suprema ambição dos camponezes.</p>
+
+<p>Alvaro, havia de ser padre, porque seus paes o queriam. Tinham feito todos
+os calculos; as propriedades que possuiam chegavam para o patrimonio; e para
+as despezas da ordenação, quando minguassem os rendimentos, passariam fome se
+tanto fosse necessario. As fortes e decididas vontades, não conhecem
+obstaculos.</p>
+
+<p>Chegou a hora de Alvaro tomar logar nas aulas de Braga. Alcançara-lhe o
+pae alojamento na rua de S. João do Souto, em casas da morada de uma viuva
+bem reputada e muito moça ainda, que havia calculado augmentar o pequeno
+rendimento de seus poucos haveres com o lucro proveniente de apatroar <span class="pagenum">[57]</span>
+um estudante.</p>
+
+<p>É d'este modo que bastantes familias, nas populações onde ha lyceus e
+aulas publicas, diminuem as suas occultas necessidades.</p>
+
+<p>Chamava-se Eugenia Soares a viuva, que o era de um alferes do exercito
+portuguez, e contava vinte e duas primaveras no anno em que acolheu ao seu
+lar o estudante Alvaro da Cunha. Este, havia completado 16 annos de idade, e
+preparava-se para fazer exame do latim, que principiara a estudar na sua
+aldeia, tendo por bom professor o parocho da freguezia.</p>
+
+<p>Eugenia, não houvera filhos do seu matrimonio, nem conhecia parentes
+proximos que lhe fossem amparo. Vivia em companhia de uma creada, que já o
+fôra de seus paes antes d'ella nascer, que lhe queria como a filha, que todos
+os dias recordava as virtudes de seus velhos e fallecidos amos, e que era a
+sua unica conselheira e amiga. Antes de resolver a entrada de um estudante em
+sua casa, consultára Eugenia a sua Theresa, que apenas objectára dever ser o
+admittido ainda rapaz e não homem feito. N'aquelles felizes tempos, só depois
+dos trinta annos completos se gosava o nome de homem.</p>
+
+<p>Quando a velha Thereza precisava de sahir ás compras, Eugenia e Alvaro
+prestavam-se mutuo auxilio nos afanos domesticos. Nasceu assim entre elles
+uma innocente intimidade, que os deleitava. Succedia repetidas vezes ter
+Alvaro a delicadeza de preceder a patrôa no amanho das iguarias, confundindo
+o seu trabalho com o de Eugenia, e dando isto logar a toques de mãos tão
+singelos como perigosos nas edades em que o calor do sangue traspassa a
+cuticula, e póde, pelo contacto, communicar as doenças physicas e os ardores
+moraes: d'aquellas, e d'estes, ha a temer, após <span class="pagenum">[58]</span> a communicação, a
+reciprocidade de padecimentos, sendo o amor o mais fatal de todos, por ser
+incuravelmente nervoso.</p>
+
+<p>A viuva e o estudante adoeceram da terrivel molestia, que se não cura
+tendo a séde na alma.</p>
+
+<p>Decorreram cinco annos.</p>
+
+<p>Faltava ao ordinando um exame, para completar o seu estudo e ficar preso á
+egreja. Mais alguns mezes passados, e acabaria o engano das almas de Eugenia
+e Alvaro, que já durava muito, livre de vicissitudes e de impurezas.</p>
+
+<p>Chegou o menorista, de ter passado as férias grandes na sua aldeia, sem
+grande pesar de haver deixado a companhia dos paes, que trocava por outra
+havida por mais terna: é assim o coração humano.</p>
+
+<p>O estudante deparou com Eugenia physicamente mudada, e sobresaltou-o tão
+rapida alteração. Viu pallida, magra, chorosa e pensativa, a mulher bella,
+como sempre nos parece a do amor, que deixara, quarenta dias antes, com todo
+o viço de uma feliz mocidade. Fez-lhe um montão de perguntas, e só teve
+lagrimas em resposta.</p>
+
+<p>As gotas de humor aquoso que sáem a pares dos olhos da mulher estimada,
+transformam-se em ferros agudos, a rasgarem fundo na alma do homem que as
+sente.</p>
+
+<p>Seccaram-se as lagrimas: como? Ao sol do amor, que o menorista fez nascer
+do soffrimento.</p>
+
+<p>A mudez de Eugenia promoveu a de Alvaro. Em casos taes, o silencio é o
+requinte do sentimento.</p>
+
+<p>A noite d'aquelle dia passou-a o estudante a scismar. Quando pelas fendas
+da janella do seu quarto conheceu o alvorecer, vestiu-se e sahiu. Não fez
+reparo <span class="pagenum">[59]</span> em achar apenas cerrada a porta da rua, por que a sua
+preoccupação estava sobranceira aos factos materiaes. Caminhou sem direcção
+premeditada. Ao passar no largo da Sé, viu aberta uma porta lateral da
+egreja, e foi orar. Acabada a oração, reparou n'um vulto encostado a um
+confissionario, em posição de penitente, e estremeceu: não a vira, adivinhara
+Eugenia n'aquella confessada.</p>
+
+<p>O que atravessou o espirito do ordinando por aquelle encontro?</p>
+
+<p>Nem elle o saberia dizer. Só com grande esforço, conseguiu recolher-se a
+casa e deitar-se vestido sobre a cama. Passadas horas, e já quando se tornou
+reparada a falta de Alvaro á primeira refeição, entrou a velha Thereza no
+quarto do estudante e perguntou-lhe se estava doente.</p>
+
+<p>--Doente, e muito. Diga á snr.<sup>a</sup> D. Eugenia, que estou vestido,
+como vê, e que lhe peço a mercê de vir fallar-me.</p>
+
+<p>Eugenia, entrou no quarto de Alvaro, e aproximou-se do leito com
+sobresalto. O doente, levantou rapidamente a cabeça e, sem dar tempo a
+perguntas, disse:</p>
+
+<p>--A senhora tem a bondade de mandar a Thereza procurar um portador que vá
+já buscar meu pae?</p>
+
+<p>--Para quê?!</p>
+
+<p>--Para sahir d'esta casa e d'esta terra immediatamente, a vêr se posso
+curar-me do mal que me assaltou esta manhã, e passar o resto da vida como a
+passam meus paes... Já não quero ser... <em>padre</em>!</p>
+
+<p>--Foi <em>elle</em>, foi, Alvaro, que me aconselhou a despedir-te!... Mas
+eu amo-te, ouves? e não quero que me fujas... Deus não póde ser tão severo
+como diz <span class="pagenum">[60]</span> <em>aquelle</em> seu ministro; ora não?... E eu morria se tu
+me faltasses; tenho a certeza de que morria... Vês? Só agora, que deveria
+proceder de modo bem opposto, se attendesse aos dictames do meu confessor, é
+que rompo o véu do meu coração!...</p>
+
+<p>A severidade, talvez egoista, de um padre indelicado, accelerou o natural
+desfecho d'aquellas relações.</p>
+
+<p>A missão melindrosa do confissionario, mais ainda que a do pulpito, só
+devia ser confiada a cabeças muito sãs, e a purissimas almas.</p>
+
+<p>Alvaro, ficou e sarou logo: bem dever era, que ficava e que sarava. Depois
+de scenas assim expansivas, é que nós não <em>ficamos</em> pela continuação
+da pureza no sentimento.</p>
+
+<p>Na epocha propria, fez o estudante o exame que lhe faltava, e ficou
+habilitado a tomar ordens ecclesiasticas. Seguraram-lhe os paes o patrimonio
+em todos os seus bens, e vieram pernoitar á cidade, em companhia do filho, na
+vespora do dia em que elle devia ficar para sempre ligado á egreja, que houve
+por bem condemnar os seus ministros á mais terrivel das solidões,--á solidão
+d'alma!</p>
+
+<p>Chegada a hora da ceremonia, foram vêr o religioso e solemne apparato, os
+paes de Alvaro, acompanhados por Eugenia e pela creada Thereza. Quando o
+ordinando appareceu revestido do habito clerical, cahiu a desditosa Eugenia,
+com o sangue gelado, nos braços de Thereza. A boa da serva, ficou tambem
+semi-morta.</p>
+
+<p>Estavam finalmente realisados os ambiciosos sonhos dos velhos lavradores
+de Esporões.</p>
+
+<p>Alvaro, era presbytero!<span class="pagenum">[61]</span></p>
+
+<h3>VI<br>
+CELIBATO</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«Deus me livre de discutir materia tantas vezes disputada, tantas vezes
+exhaurida pelos que sabem a sciencia do mundo, e pelos que sabem a sciencia
+do céu!» </p>
+
+<p><em>Alex. Herc.</em>--<span class="smallcaps">Eurico</span>. </p>
+</div>
+
+<p>O padre Alvaro, foi residir, em companhia de seus paes, para a terra da
+sua naturalidade, onde cumpria rigorosamente todos os deveres de seu
+ministerio sagrado, procurando os infelizes para os consolar com a palavra e
+com a esmola, fazendo colheita de lagrimas, e escondendo de todos as que lhe
+vertia o coração. Vivia só para a caridade e para a dôr. Decorando, no
+Evangelho, a vida de Christo, identificou-se com Elle no amor da humanidade.
+Conseguiu augmentar ao casebre do seu patrimonio um novo e separado
+repartimento, na solidão do qual, fóra das horas obrigadas aos seus deveres,
+fechava cuidadosamente as suas mágoas.</p>
+
+<p>O soffrimento de um filho, não póde ser, por <span class="pagenum">[62]</span> muito tempo, estranho
+aos que lhe deram a vida. Os bondosos lavradores de Esporões, conheceram,
+mais por instincto do que por sagacidade, que seu filho padecia, e quizeram
+profundar a causa de suas tristezas. Espreitaram-no a horas mortas, e ficaram
+surprezos do que viram.</p>
+
+<p>--Que peregrinação será aquella do nosso querido Alvaro, em noites de
+tempestade, Maria?!--Perguntava o velho a sua esposa, ambos de volta de suas
+pesquizas.</p>
+
+<p>--Eu sei-te lá, homem! Só te digo, que isto tudo me faz chorar... Elle
+come quasi nada, anda tanto por esses montes e outeiros, vae pelas cabanas á
+cata dos necessitados, passa o pouco tempo que lhe resta de dia a lêr e a
+escrever, e ainda sahe de noite e com um tempo assim!... Deus me perdôe, mas
+quer-me parecer que o nosso filho se fez padre de mais!</p>
+
+<p>--Não ha gosto perfeito n'esta vida, é certo. O prazer com que lhe ouvimos
+a primeira missa, farta recompensa de todos os nossos sacrificios, desandou,
+dentro em pouco, n'estas lagrimas! Mas deixa estar, que eu ainda tenho vigor,
+e não canço nas minhas pesquizas, que podem trazer-nos tranquillidade. D'aqui
+por deante, quero ser eu só a vigiar o nosso Alvaro, porque fico mais á minha
+vontade. Tu, entretanto, ficas na cama a pedir a Deus por nós, sim?</p>
+
+<p>--O que tu queres, quero eu sempre, Antonio.</p>
+
+<p>Uma das noites em que Alvaro foi espreitado pelo pae, entrou este, após a
+sahida do filho, no repartimento da casa habitado pelo padre. Analysou, com
+olhos paternaes, os mais insignificantes indicios de soffrimento, physico e
+moral, que por alli estavam dispersos. Entre outros, pareceu-lhe descobrir
+signaes <span class="pagenum">[63]</span> de que o seu Alvaro cuspia sangue, supposição que fez verter
+da testa, ao triste pae, esse humor rubro que nos circúla nas arterias e
+veias. Encontrou no chão um papel com letras, que não sabia lêr, e guardou-o.
+Na madrugada do seguinte dia, foi o lavrador á residencia do seu parocho e
+velho amigo pedir-lhe o favor de lêr o escripto. Resava assim:</p>
+
+<p>«Não, disse S. Gregorio, que o laço do matrimonio era o nucleo do genero
+humano, o esteio da vida e o centro da piedade?</p>
+
+<p>«Para quê, os concilios d'Elvira e de Trento?...</p>
+
+<p>«Celibato puro!!...</p>
+
+<p>«Para quê, decretar contra a natureza?!...</p>
+
+<p>«Oh Christo? Não quizeste Tu nascer de Maria?... Se não tivesses por
+consorte a Cruz da Redempção humana, fugirias Tu a completar, quando homem, a
+Tua existencia no mundo?...</p>
+
+<p>«Porque não ha de ser para todos os filhos do peccado, a mulher, resumo do
+bem possivel, a casta mensageira entre o céu e a terra?!...»</p>
+
+<p>O parocho, que era um padre intelligente e bondoso, pediu á sua ovelha,
+que fosse depositar aquelle papel no mesmo sitio em que o achara, e passou,
+depois, largas horas em colloquio amigo com o pae do que fôra seu
+discipulo.</p>
+
+<p>Quinze dias depois da conferencia do parocho com o velho Antonio, ao cahir
+da tarde, chegava o lavrador, na rua de S. João do Souto, á cabeceira do
+leito em que Eugenia, cadaverica, estava recostada. Houve um longo silencio:
+ambos temiam o rompimento. Animou-se finalmente o velho a dizer:</p>
+
+<p>--Então de que mal padece a snr.<sup>a</sup> Eugenia, não me dirá? As
+mulheres sempre são muito fracas! Pois <span class="pagenum">[64]</span> a molestia que tem, é lá cousa
+para estar com esses quebrantos?! Será isso mimo?...</p>
+
+<p>--Vou dizer-lhe tudo por uma vez, snr. Antonio, antes que as forças me
+faltem... Amo seu filho e sou amada por elle... Um padre e uma viuva!... Deus
+castiga-nos, e bem o tinha agourado o meu confessor... <em>Elle</em>, está
+cavando a sepultura, bem o vejo; e eu quero, e hei de morrer antes...</p>
+
+<p>--Em quanto viverem os velhos como eu, não podem morrer assim depressa os
+novos como vossas mercês, descancem... Mas porque não fallaram a tempo?!
+Porque não confiaram de mim esses incuraveis amores, quando fossem ainda
+horas de os legitimar aos olhos do mundo?...</p>
+
+<p>--Não o quiz eu, snr. Antonio, porque tive mêdo de ajuntar ao meu crime o
+seu odio, ou de praticar novo crime, levando Alvaro á desobediencia.</p>
+
+<p>--Foram bons sentimentos esses, foram; mas fôra melhor que ambos tivessem
+mais alguma confiança nos corações dos outros... Em fim, isso lá vae, e o que
+não tem remedio remediado está. Agora, cumpre fazermos todos da nossa parte
+para se viver o melhor possivel, o que se hade conseguir com o favor de
+Deus...</p>
+
+<p>A este tempo sentiu-se rumor á porta do quarto, e ouviu-se distinctamente
+a voz de Thereza dizer: «É seu pae!...»</p>
+
+<p>--Entra, Alvaro;--disse em voz clara e de modo a ser ouvido de fóra, o
+sympathico e honrado velho. Entrou o padre, ajoelhou aos pés do pae, e
+titubeou a palavra:--Perdão.</p>
+
+<p>--Levanta-te, que és mais infeliz do que culpado, e para os infelizes
+reservou Deus a sua divina misericordia. <span class="pagenum">[65]</span> Sei tudo, e tambem o sabe tua
+mãe. Não te louvamos nem condemnamos; choramos as tuas dôres, que são as
+nossas, e procuramos-lhe allivio. É preciso que vivas, e que viva tambem a
+snr.<sup>a</sup> Eugenia. Eu mando, pela voz da religião que tenho n'alma,
+pela do sangue e pela da honra, como a entendem os homens do campo. Se fôr
+condemnado pelos fanaticos, já tenho a absolvição do meu santo pastor, que
+mais vale. A um pobre, que sempre foi honrado, não falta a Providencia nas
+occasiões precisas. Tu, meu Alvaro, vaes ser nomeado reitor da freguezia de
+Santo Adrião de Penafiel, que assim m'o prometteu o snr. fidalgo de Porto
+Carreiro, que nunca faltou á sua palavra. É um presente que me faz, disse
+elle, por eu lhe ter pago com toda a pontualidade, ha quarenta e cinco annos,
+um fôro, de dois carros e meio de pão meiado, limpo e sêcco. É um fidalgo ás
+direitas, que sabe conhecer o que vale o suor da pobreza. Ora, a reitoria,
+fica lá para o valle de Sousa, nas proximidades de Penafiel, muito longe
+d'aqui. Eu e tua mãe de certo lá não poderemos ir; mas tu, que estás na força
+da vida, virás amiudadas vezes visitar-nos. O snr. padre reitor de Santo
+Adrião, tem na aldeia da sua naturalidade uma irmã viuva, que póde ter um
+filhinho que talvez precise do auxilio do thio padre... Repito, eu mando, e
+quero ser obedecido. Não sei o que dizem os livros sagrados nem os profanos,
+porque me não ensinaram a lêr: tenho só aprendido o que me diz a minha
+consciencia honrada. No tribunal do Deus justo, darei eu as contas por tudo
+isto. Do escandalo, é que as não hei-de dar, porque tenho toda a segurança
+nos bons sentimentos d'aquelles que <span class="pagenum">[66]</span> preferiam a morte, á quebra
+publica dos seus deveres.</p>
+
+<p>Quando Antonio acabou de insinuar as suas ordens, dadas n'um tom
+prophetico e inspirado, é que fez reparo no quadro que, havia já minutos,
+alli se via. Estavam a seus pés, ajoelhados, cada um de seu lado,
+regando-lh'os de lagrimas doces, os amnistiados da paternidade, que
+representa Deus na terra.</p>
+
+<p>Era bello de vêr-se a mocidade cadaverica pelo mal d'amor, abraçando
+commovida até ás lagrimas, a honra envelhecida no rude trabalho do campo,
+fresca e vigorosa como a carvalheira secular liberta da podridão das
+cidades!...</p>
+
+<p>No dia 27 de agosto de 1819, recebia o primeiro sacramento da egreja, na
+cidade de Braga, um recem-nascido do sexo masculino, a que foi posto o nome
+de Arthur. Os padrinhos, por procurações de Sebastião da Mesquita Bandeira de
+Mello e de D. Isabel de Abendanho e Sousa, foram Antonio da Cunha e Maria do
+Espirito Santo, os honestos lavradores de Esporões, que deram a existencia ao
+reitor de Santo Adrião de Penafiel.</p>
+
+<p>Estava o padre Alvaro ha mais de tres annos de posse da reitoria, sendo
+acatado e tido na conta de exemplar pelo povo, quando recolheu na sua
+residencia uma irmã viuva com um filho. Cresceu o amor e o respeito do povo
+pelo padre reitor e pela familia, na razão directa do augmento de beneficios
+e de consolações que recebia. Eram seis mãos sempre abertas á pobreza, e duas
+santas boccas a semearem palavras animadoras aos dous sexos, o que o povo
+encontrava na residencia do reitor de Santo Adrião de Penafiel. Por isso, o
+reitor, irmã e sobrinho, ganharam <span class="pagenum">[67]</span> a estima geral, ao ponto de fazerem
+dividir, nos corações de todos os habitantes do valle de Sousa, a antiga e
+bem fundada sympathia pela familia do fidalgo Sebastião da Mesquita.</p>
+
+<p>Um dia, chegou ao conhecimento do publico, que havia luto na residencia do
+padre Alvaro. Foi lá toda a gente da povoação. O reitor, leu, commovidissimo,
+ao seu rebanho, uma carta que recebera do seu amigo e mestre, o parocho de S.
+Santiago de Esporões. Dizia assim:</p>
+
+<p>«Dei hontem sepultura a dois cadaveres, Alvaro, e dou hoje cumprimento a
+uma triste imposição da amisade. Está devoluta a residencia do teu
+patrimonio. Teu pae morreu ás dez horas, e tua mãe á uma da tarde do mesmo
+dia. Presenciei a morte de dois justos. Disseram-me, para te communicar, que
+iam pedir a Deus por ti... Resignação.»</p>
+
+<p>As lagrimas do padre confundiram-se com as de todos que o escutavam.</p>
+
+<p>Arthur, que então teria sete annos, trepou aos joelhos do sagrado pastor,
+pousou-lhe os rosados e frescos labios nas faces crestadas pelo fogo das
+lagrimas, e disse-lhe:</p>
+
+<p>--Não chores, thio, que os avós estão no Céu. Sabes o que hasde fazer?
+Manda occupar as casas, que elles deixaram, pelos pobresinhos lá d'essa
+terra, sim?</p>
+
+<p>--Pois sim, querido amor, e hei de dizer-lhes que foste tu o da
+lembrança...</p>
+
+<p>Arthur andou nos braços de todos, e foi devorado com beijos. N'esta
+occasião, deu entrada na sala o fidalgo Sebastião da Mesquita, acompanhado de
+uma creada, que trazia ao collo uma interessante menina <span class="pagenum">[68]</span> de treze mezes
+de idade. O povo formou respeitosamente duas alas, e o reitor recebeu, com
+agrado, mais aquella visita.</p>
+
+<p>--Que fez o meu afilhado para merecer tantos affagos?--perguntou o
+fidalgo, depois de ter saudado a todos.</p>
+
+<p>--O que havia de ser, snr. da Mesquita?... O rapaz parece não ter mau
+coração: destinou a habitação dos avós fallecidos para residencia das pessoas
+mais necessitadas da freguezia d'elles; e as boas almas d'estes meus filhos
+todos, pagaram-lhe a lembrança em fartas caricias.</p>
+
+<p>--Então já assim caminhamos para o Céu, snr. meu afilhado?! Muito bem,
+muito bem!... Vou dar-lhe a primeira paga da sua nobre acção...</p>
+
+<p>--E assim fallando tomou Arthur nos braços e, aproximando-o da filhinha,
+fez com que se beijassem os dous innocentes......</p>
+
+<p>Treze annos depois d'estas scenas, em dia de trabalho, e por horas em que
+estão dezertas as egrejas das aldeias, entrava Sebastião da Mesquita no
+templo parochial de Santo Adrião, e batia de manso nas costas de um padre,
+que estava curvado sobre uma sepultura. Ao levantar-se o padre, tremeu
+involuntariamente o fidalgo, de encarar nas transtornadas feições do seu
+amigo.</p>
+
+<p>--Nem tanta penitencia nem tamanha dôr, padre Alvaro, que podem não ser do
+agrado de Deus. Não precisa, Arthur, agora mais que nunca dos seus
+cuidados?</p>
+
+<p>--Basta-lhe a protecção do nobre e honrado padrinho... A minha vida, está
+n'esta sepultura, onde talvez cahisse uma condemnada ás penas eternas!...
+<span class="pagenum">[69]</span></p>
+
+<p>--Não conta com a bondade do Pae para com seus filhos, e por uma culpa
+involuntaria, desvanecida por innumeras virtudes, só quer vêr o castigo, em
+vez do perdão?!</p>
+
+<p>--E as leis da egreja?!...</p>
+
+<p>--E as leis da natureza; a misericordia divina; os votos de seus honrados
+paes; a consideração, a estima, o respeito geral; as bençãos dos infelizes e
+a tranquillidade da consciencia, pelo que toca a todas as demais acções da
+sua vida?...</p>
+
+<p>--Viverei, snr. Sebastião da Mesquita, e o tempo que me sobrar da
+penitencia dal-o-hei á sua heroica amisade! <span class="pagenum">[70]</span><br><span class="pagenum">[71]</span> </p>
+
+<h3>VII<br>
+RAPTOS</h3>
+
+<div class="quote">
+«Que póde valer á hebrêa<br>
+Sentir n'alma chamma infinda?<br>
+como a linda Ester ser linda,<br>
+e amada como Rachel?<br>
+Se o coração da judia<br>
+se entre-abre do amor aos lumes,<br>
+não lhe dá tempo aos perfumes<br>
+o seu destino cruel.»
+
+<p class="direita">(<em>T. Ribeiro</em>--<span class="smallcaps">Sons que
+passam</span>).</p>
+
+<p>«O vicio está por tal fórma naturalisado que não ha razão para espantos
+nem sequer para censuras.»</p>
+
+<p class="direita">(<em>Camillo C. B.</em>--<span class="smallcaps">O
+Condemnado</span>.) </p>
+</div>
+
+<p>Foi ephemero o triumpho para a revolução do Minho, denominada--Maria da
+Fonte.--Cahiu o ministerio ao rugido popular, foi certo; mas a seis de
+outubro do mesmo anno, o governo constituido ao grito dos revoltosos, teve,
+por vontade régia, sorte igual á do seu predecessor. A esse facto, que se deu
+fóra das praxes constitucionaes, chamou-se--<em>emboscada palaciana</em>--e
+deveu-se a mais formidavel das guerras civis portuguezas.</p>
+
+<p>A heroica cidade da Virgem foi o centro da resistencia ao chamado governo
+de facção, constituindo dentro de seus muros, a nove de outubro de mil oito
+centos quarenta e seis, uma <em>junta provisoria do governo supremo do
+reino</em>, que ousou prodigios bem dignos <span class="pagenum">[72]</span> de causa mais santa, como
+seria a defesa da patria contra estrangeiro dominador. Exaltaram-se os
+partidos, e de todos os angulos do paiz voava a mocidade portugueza a
+alistar-se sob as bandeiras hasteadas em guerra fratricida. O enthusiasmo
+guerreiro tocou o delirio. Raro, bem raro, seria encontrar-se um portuguez de
+braços cruzados ante o flagicio geral.</p>
+
+<p>Além dos bandos constitucionaes, achou tambem ensejo de desfraldar
+bandeira o velho e respeitavel partido absolutista: respeitavel na sua quéda,
+e ostracismo sem limite, pela coragem da abnegação, e pelo inquebrantamento
+da sua fé. Este ultimo grito de revolta, chamou tambem os velhos ao campo da
+batalha. Acabaram então os indifferentes: todos os portuguezes, cada um a
+sabôr das suas paixões, ficaram empenhados na luta.</p>
+
+<p>Sebastião da Mesquita foi convidado por um general
+estrangeiro--Mac-Donnell--, que se dizia commissionado do snr. D. Miguel de
+Bragança, a tomar parte activa no pronunciamento ante-dynastico. Recusou-se.
+Pediu-lhe o general que fizesse, ao menos, parte do seu estado maior, para
+lhe dar conselho e força moral, e apresentou-lhe um autographo do principe
+proscripto,<sup class="footnote"><a href="#fn2" name="lfn2">2</a></sup> que fez abalo na rigidez do velho
+fidalgo. Esta conferencia teve logar nos primeiros dias do mez de novembro de
+mil oitocentos quarenta e seis; e não se passaram muitas horas depois d'ella,
+sem que o aventureiro general visse caminhar ao seu lado, para Villa Real, o
+respeitavel pae de D. Maria da Gloria, <span class="pagenum">[73]</span> tendo previamente recommendado
+ao seu afilhado, Arthur Soares, que auxiliasse a esposa na vigilancia do seu
+casal.</p>
+
+<p>Quem podesse espancar as trevas da tempestuosa noite de dezoito do mez e
+anno referidos, e penetrar no terreiro da frente do palacio de Sebastião da
+Mesquita, veria alli tres liteiras e seus guias, um formidavel cortejo de
+lacaios, e cêrca de cem homens armados, todos recolhidos ao maior silencio. O
+capitão d'aquella força e apparato, era o fidalgo Leopoldo. Conseguira
+aquelle posto no exercito da rainha, em batalhão addido á brigada do commando
+de um general que, por aquella epocha, se aproximou da cidade do Porto, no
+intuito de lhe serem abertas pela traição, que se dizia combinada, as fortes
+linhas defensivas do baluarte da Liberdade.<sup class="footnote"><a href="#fn3" name="lfn3">3</a></sup></p>
+
+<p>Não podemos averiguar como o snr. de Lencastre conseguira desviar aquella
+força da sua direcção para as cercanias do Porto. O que sabemos é que aquella
+gente caminhara de noite, por verédas escusas, <span class="pagenum">[74]</span> no manifesto intento de
+evitar encontros com os sublevados. O mais, ficou sendo um segredo do
+voluntario capitão, e do general commandante da brigada.</p>
+
+<p>No interior do palacio, e no quarto reservado a D. Maria da Gloria, onde
+tambem estavam Rosa e Anna, que ficaram sendo constantes companheiras da
+fidalga desde a ausencia de Sebastião da Mesquita, á mesma hora da chegada ao
+terreiro do já descripto e bellicoso apparato,--havia uma conversação, a que
+o leitor, ainda hoje, tem direito de assistir:</p>
+
+<p>--Conheço agora, minhas boas amigas, toda a verdade do rifão--«diz-me com
+quem vives, saberei os fracos que tens.»--Estou supersticiosa com a nossa
+Annitas! Não sei o que me adivinha o coração... A ausencia do meu illustre
+pae e do João Vidal, e o escrupulo do snr. Arthur Soares, em não querer
+pernoitar n'esta casa, são naturaes acontecimentos, bem o conheço, mas
+despertam-me uns certos receios que até hoje não conhecia em mim!...</p>
+
+<p><span class="pagenum">[75]</span> --Querem vêr que ainda lhe lembra a má catadura do irritado primo
+n'aquella noite de luar?!... Não pense em tal, minha querida snr.<sup>a</sup>
+D. Maria, que a tempestade, se o foi, passou sem resultados fataes, e só deve
+restar d'ella, ao seu auctor, o pesar de a ter provocado.</p>
+
+<p>--É de certo pela minha natural timidez que eu, partilhando os sustos da
+snr.<sup>a</sup> D. Maria, vejo cahir sobre nós a tempestade, como a Rosa lhe
+chama, e fazer-nos victimas do seu louco furor...</p>
+
+<p>--Por melhor o fará Deus, Anna... Comtudo, parece-me prudente não
+desprezar estes presentimentos, accordar a minha presada mãe e senhora, e pôr
+os criados de atalaia...</p>
+
+<p>--Credo! o que ahi vae!... E o mais é que são capazes de reunir em mim, ao
+pêso d'esta tenebrosa noite de inverno, o mêdo do terror de que as sinto
+possuidas...</p>
+
+<p>E as tres donzellas, como se fossem tocadas por occultas molas, saltaram
+fóra dos leitos, e vestiram-se apressadamente.</p>
+
+<p>Ao mesmo tempo que se manifestava nas tres donzellas o máu presentimento
+revelado no dialogo a que fizemos assistir o leitor, sentira igual panico a
+velha fidalga D. Isabel de Abendanho e Sousa. Não são virgens estes casos.
+Muitos exemplos attestam o ter sido uma familia atacada de funestas ideias, e
+de iguaes padecimentos physicos, em alguns de seus membros ao mesmo tempo,
+vivendo até distanciados uns dos outros. Não sabemos se ha sciencia que
+explique o phenomeno; mas é certo que se tem dado.</p>
+
+<p>Fez a dona da casa levantar os criados, que collocou de sobre-aviso, indo
+em seguida escutar á porta <span class="pagenum">[76]</span> do quarto da filha, para certificar-se de
+se havia por alli em que fundar os seus receios. Na mesma occasião era aberta
+a porta por D. Maria e, juntas as quatro habitadoras do palacio,
+confidenciaram os seus mysteriosos sustos. Teriam apenas tempo de trazer a
+lume a mais diminuta parte de suas apprehensões, quando sentiram tropel de
+criados, tomando a direcção do quarto, que procuravam a senhora fidalga,
+para, entre temerosos e espantados, lhe darem parte de que o palacio estava
+cercado de tropa.</p>
+
+<p>Foi então que aquellas quatro mulheres, tímidas momentos antes por ideias
+de imaginarios perigos, mostraram que o sangue frio e a coragem, quando
+chegam as verdadeiras tempestades da vida, não são qualidades alheias ao sexo
+chamado fragil.</p>
+
+<p>Era, com tudo, tarde para se tomarem acertadas providencias contra
+qualquer aggressão. Um dos serventes da casa, comprado pelo ouro de Leopoldo,
+abrira uma das portas do palacio. Foram, pois, surprehendidas as tristes
+senhoras pela multidão de homens armados, á testa dos quaes se via o
+imprudente auctor d'aquelle attentado, e impossibilitadas de resistir aos
+intentos de seus perseguidores.</p>
+
+<p>Entre alguns dos criados do palacio, e a força violadora d'aquelle lar,
+houve uma pequena luta--até aquelles serem subjugados pela vantagem
+numerica--perecendo apenas n'ella o criado traidor, ás mãos dos assalariados
+por aquelle que lhe comprára a fidelidade.</p>
+
+<p>As tres donzellas foram brutalmente amarradas e conduzidas ás liteiras.</p>
+
+<p>A velha fidalga presenceou tudo com denodo varonil, sem fazer o mais leve
+rumor, representando, <span class="pagenum">[77]</span> na sua mudez e aspecto sublimes, uma perfeita
+estatua de concentrado soffrimento. Era uma «Vilhena» a meditar vingança
+condigna de tão atroz delicto. Ao arrancarem-lhe as donzellas, disse-lhes D.
+Isabel com voz severa:</p>
+
+<p>--A infamia não vence a honra. Sabei morrer sem vergonha, que eu vos
+abençôo como Deus vos abençoará. Adeus, Maria!...</p>
+
+<p>Retirados que foram os assaltantes com as suas presas, ficou o palacio
+occupado pelos fieis creados, agglomerados em volta de sua ama D. Isabel.
+Esta heroica matrona, teve força para recolher ao coração as lagrimas da
+saudade, o fel do desespero e do seu justificado odio ao malvado parente que
+a deshonrava, e para dizer com apparente tranquillidade aos que a
+cercavam:</p>
+
+<p>«Quizera antes ter de vos lamentar mortos, e de vos mandar suffragar as
+almas, do que vêr-vos aqui sem aquellas em defesa das quaes deveriam todos
+acabar seus dias, porque eram vossas amas, vossas enfermeiras, e vossas
+amigas... Já agora não ha tempo para mais reflexões. Apparelhae todos os
+cavallos que estão nas cavallariças,--um d'elles para que eu o possa
+montar--soltae os animaes recolhidos nas lojas, colhei todos os retratos de
+familia que encontrardes, e deitae immediatamente fogo a este palacio. Não
+deve mais ser visto de meu marido, o logar onde um fidalgo villão insultou a
+mulher e a filha de um verdadeiro nobre. Reparae que eu <em>quero</em>
+caminhar para a residencia do snr. reitor, alumiada pelas chammas da casa que
+foi habitação de meus avós!...»</p>
+
+<p>Foram rigorosamente cumpridas as ordens da fidalga, que effectivamente
+caminhara para casa do reitor <span class="pagenum">[78]</span> ao clarão que despedia o fogo lançado de
+seu mando ao seu solar, e ao som do toque de sinos a rebate, que o incendio
+provocara.</p>
+
+<p>A meio caminho da residencia encontrou D. Isabel Arthur Soares, que o
+toque dos sinos despertara, ao qual referiu o succedido.</p>
+
+<p>Duas horas depois das scenas narradas, quem fosse á sala do oratorio da
+residencia, encontraria uma senhora e um homem--dous velhos--ajoelhados, a
+orarem ao Creador. Eram o reitor e a fidalga D. Isabel.</p>
+
+<p>Á mesma hora, passeava Arthur Soares, como louco, no seu quarto, brandindo
+um punhal, aquella detestavel arma, já conhecida do leitor, que D. Maria lhe
+legára. </p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn2" name="fn2">2</a></sup> Verdadeiro ou imitado, mostrava
+Mac-Donnell ás pessoas mais importantes do partido realista, um escripto do
+punho do snr. D. Miguel de Bragança. <sup class="footnote"></sup></p>
+
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn3" name="fn3">3</a></sup> É notavel a linguagem d'esta proclamação:
+«Portuenses!--O general *** volta de novo com a força de seu commando a
+aproximar-se das linhas do Porto. Elle não confia em si. Confia na traição.
+Mas engana-se. A junta está prevenida. Ninguem ousará dentro dos muros do
+Porto levantar um grito criminoso, fazer uma tentativa culpada. Ninguem o
+ousará. E ai d'aquelle que o ousasse! As medidas convenientes estão tomadas.
+Porto! A Europa nos contempla! Com a ajuda de Deus, pela intercessão da
+Virgem, protectora de nossas armas e de nossa gloria, o Porto será sempre
+vencedor--nunca vencido. A liberdade nos inspira! Os escravos que vem trazer
+os ferros, e a assolação a esta cidade ficarão petrificados deante de nossas
+bayonetas. O Porto é a cabeça de Medusa deante da qual os tyrannos estremecem
+e gelam de terror.</p>
+
+<p>.........................................................</p>
+
+<p>«Confiemos na protecção do eterno, e no esforço de nossos braços.
+Transmittamos á posteridade uma nova pagina de heroismo--a nossos netos uma
+rica herança de gloria, e um grande e novo exemplo de valor. Ás armas
+cidadãos! Ás armas! por Deus, e pela liberdade: e--Viva o Porto!--O Porto
+sempre grande, sempre intrepido, sempre heroico, indomito, invencivel!--Viva
+a Nação!--Viva a Liberdade!--E ás armas!--Palacio da junta provisoria do
+supremo governo do reino, em 8 de Dezembro de 1846.»</p>
+
+<p>(Omittimos tudo que podesse recordar odios pessoaes.) </p>
+</div>
+<span class="pagenum">[79]</span>
+
+<h3>VIII<br>
+COMBATE</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«O homem debatia-se ahi nas vascas da morte, e o sol passava involto na
+sua gloria sem corar das angustias d'aquelles, que em seu ridiculo orgulho se
+chamavam monarchas e conquistadores do mundo; sem lhe importar se os vermes
+vestidos de ferro, chamados guerreiros, se despedaçavam uns aos outros com o
+delirio insensato das viboras no momento dos seus amorosos ardores.»</p>
+
+<p class="direita">(<em>A. Herculano</em>--<span
+class="smallcaps">Eurico</span>.)</p>
+</div>
+
+<p>Em Porto Manso, logar situado pouco abaixo das Caldas de Arego, no dia 19
+de Novembro de 1846--o seguinte áquelle das scenas descriptas no capitulo
+precedente--estavam postados á margem do rio Douro, em fortes posições, uns
+quinhentos homens commandados pelo aventureiro general Mac-Donnell,
+espreitando a passagem rio abaixo de um bravo, mutilado e honradissimo
+militar do tempo do cêrco, que servia ás ordens da junta, e que recolhia, com
+a força de seu commando, á invicta cidade do Porto.</p>
+
+<p>Desprevenido da cilada, soffreu o liberal guerreiro de muitas e bem
+feridas batalhas, um vivissimo <span class="pagenum">[80]</span> fogo de fuzilaria, despejado sobre as
+suas tropas embarcadas, pela emboscada guerrilha.</p>
+
+<p>Travou-se combate.</p>
+
+<p>No mais vivo da peleja, dirige-o um cavalleiro o seu corcel a toda a brida
+em direcção onde se achava o general da guerrilha, e segredou-lhe:</p>
+
+<p>--General! Não é d'este modo que se batem os defensores de uma causa justa
+e sancta. Esta espera traiçoeira a uma força que nos não aggride nem mesmo
+podemos ter como inimiga declarada--é procedimento condemnado pelos bons
+estimulos, por todas as regras, e pelo decoro da briosa carreira militar. Se
+não manda já cessar o fogo, e tocar a retirar, retiro-me eu
+immediatamente.</p>
+
+<p>--Faça o que lhe aprouver fazer, snr. Sebastião da Mesquita, que eu não
+desisto do meu empenho em aprisionar o <em>manêta</em>.</p>
+
+<p>--Não o conseguirá. A Providencia, que muitas vezes parece dormir, é
+sempre protectora dos opprimidos. Recolho a minha casa, general, e não creio
+que nos tornemos a encontrar.</p>
+
+<p>Verificou-se o vaticinio do nobre fidalgo.</p>
+
+<p>Poucas horas depois d'aquelle curto dialogo, retirava a guerrilha de
+Mac-Donnell em completa debandada, deixando no campo do combate 17 mortos e 9
+prisioneiros, escapando com difficuldade de ser tambem aprisionado o seu
+aventureiro commandante.</p>
+
+<p>Quando Sebastião da Mesquita, acompanhado do seu fiel escudeiro João
+Vidal, seguia caminho de sua casa, viu ao largo, caminhando em direcção a
+elle, uma cavalgada que, sem atinar com o motivo, lhe fez profunda sensação.
+Ao aproximarem-se os dous grupos de cavalleiros, não pôde suster o velho
+fidalgo <span class="pagenum">[81]</span> uma exclamação de espanto, reconhecendo sua mulher, o reitor,
+Arthur Soares e todos os seus criados. Apeiaram-se silenciosos. Era um
+descampado o sitio do encontro. D. Isabel abraçára seu marido, debulhada em
+lagrimas. Todos os rostos exprimiam a mais profunda tristeza. Houve um longo
+e doloroso silencio. Sebastião da Mesquita interrogou sua mulher com um
+olhar, que D. Isabel comprehendeu e revelou ao inquieto esposo o attentado do
+seu palacio, e as suas consequencias, sem esquecer a mais pequena
+circumstancia do occorrido. O velho ficára por instantes como fulminado.
+Quando pôde fallar, disse á esposa:</p>
+
+<p>--Isabel! Acabas de dar-me, com a má nova, mais uma prova do quanto és
+digna do meu affecto. Procedeste como honrada mulher que és. O que resta a
+fazer, compete-me a mim, e crê que Deus me ha-de conservar a vida para a
+desfórra. As nossas filhas--chamo assim a todas--se não morrerem, hão-de
+voltar com honra ao nosso poder. A educação e o sangue, são, n'estes casos,
+melhores guardas do que o mais poderoso exercito. Socega.--Padre Alvaro, póde
+voltar a pastorear o seu rebanho. Não lhe agradeço o que fez, porque a
+verdadeira amisade vexa-se com agradecimentos.--Arthur Soares, sei lêr nos
+seus olhos a sua vontade e por isso lhe digo que militará desde hoje ao lado
+de seu padrinho. Faço-me coronel ou general, e dou-lhe o posto de meu
+ajudante...</p>
+
+<p>--E para mim, snr. Sebastião da Mesquita,--interrompeu o velho
+reitor--reclamo o de padre capellão do seu regimento e, se fôr indeferida a
+minha pretenção, como estamos em tempos anormaes, despacho-me <span class="pagenum">[82]</span> a mim
+mesmo, e sigo-o, ainda contra vontade de v. exc.<sup>a</sup>. As minhas
+ovelhas ficaram entregues a um bom pastor, que eu previra a demora da
+snr.<sup>a</sup> D. Isabel, e comprehendi que o meu dever era não me apartar
+um só instante da nobre senhora, que me honrara procurando o abrigo do meu
+tecto. Não tente demover-me d'este proposito, snr. Sebastião da Mesquita, que
+deve conhecer a mágua que a reluctancia de v. exc.<sup>a</sup> me causava.</p>
+
+<p>--Obrigado, padre Alvaro. Seja como quer, que deve ser como Deus manda.</p>
+
+<p>Durante o tempo que durou este encontro, explicações e pactos, foram-se
+agglomerando em volta do grupo os guerrilhas que vinham fugidos do combate, e
+que haviam reconhecido em Sebastião da Mesquita o ajudante do general
+<em>inglez</em>, como elles chamavam a Mac-Donnell.</p>
+
+<p>O velho fidalgo perguntou-lhes se queriam continuar a militar sob o
+commando d'elle, proposta que todos receberam com exclamações da mais
+expansiva alegria. Dentro em pouco reuniu o ex-ajudante, ou antes
+conselheiro, do aventureiro general, debaixo do seu commando, quasi toda a
+força de que Mac-Donnell dispunha antes do combate.</p>
+
+<p>Dispoz Sebastião da Mesquita em acção de guerra toda a sua tropa, e
+proclamou-lhe a conveniencia de uma rigorosa disciplina, declarando-se-lhe
+intransigivel e inimiamente severo para qualquer infracção.</p>
+
+<p>Estavam já em disposições de marcha, para pernoitarem na mais proxima
+povoação, quando o novo commandante viu aproximar-se-lhe um official a
+cavallo, que chegára alli á desfilada.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[83]</span> Déra a tropa caminho ao recem-vindo, por não haver que temer de um
+só homem, e pelo instincto de que havia utilidade n'aquella apparição. A um
+signal do esbaforido official, mandou Sebastião da Mesquita fazer campo, em
+que ficaram um tanto isolados da força o recem-chegado, elle e a familia.</p>
+
+<p>Não cabe nas forças de um escriptor do nosso pulso, pintar
+satisfactoriamente as gratas impressões e o delirante contentamento de todos,
+ao reconhecerem, n'aquelle supposto mensageiro, a intrépida Rosa!</p>
+
+<p>Fôra o caso, que chegando Leopoldo com as tres roubadas donzellas ao Bom
+Jesus do Monte, dos arrabaldes de Braga, e recolhendo-as á hospedaria, teve
+Rosa artes para communicar, por uma varanda, com o quarto immediato ao que em
+prisão lhe fôra dado, onde a sorte quiz que houvesse um completo fardamento
+de official ajustado ao corpo da nossa heroina. Conceber o seu plano,
+despojar-se dos feminis vestidos, substituil-os pela farda, descer á
+cavallariça, ordenar em tom positivo ao curador que apparelhasse o seu
+cavallo, montal-o e fugir--foram tudo actos tão seguidos e repentinos, quanto
+vigorosa e ardida era a vontade da donzella!</p>
+
+<p>Contou Rosa a historia da sua fuga com as variantes e variadas peripecias
+a que forçosamente havia de sujeital-a a sua inexperiencia, narrou os
+succedimentos que da liteira poude presencear após os raptos, e foi no fim
+abraçada por todos com frenetico enthusiasmo.</p>
+
+<p>No rosto de Arthur Soares, ao reconhecer Rosa, havia transparecido um raio
+de alegria, que foi de novo sumido nas trevas da sua profunda tristeza, mal
+que terminára a narrativa.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[84]</span> --Esta, já está salva! e hade ser o primeiro mobil da salvação das
+outras nossas filhas, Isabel!--Disse Sebastião da Mesquita, cheio do jubilo
+que em taes circumstancias podia abrigar no peito.</p>
+<span class="pagenum">[85]</span>
+
+<h3>IX<br>
+AMOR</h3>
+
+<div class="quote">
+«<span class="smallcaps">Amor</span> é a palavra, o brado eterno<br>
+Solto por Deus ao vêr já feito o mundo,<br>
+Que fez tremer as abobodas do inferno<br>
+E o sol ficou da côr d'um moribundo:<br>
+A primavera, estio, outomno, inverno,<br>
+Terra, céu, alma pura, bicho immundo,<br>
+Tudo ahi cabe á larga de tal modo<br>
+Que n'essa concha Deus se fecha todo.»
+
+<p class="direita">(<em>João de Deus</em>--<span class="smallcaps">Flores do
+campo</span>.) </p>
+</div>
+
+<p>Á margem de uma estrada que serve de transito entre Vianna e a praça de
+Valença no alto Minho, em aprasivel e pittoresca posição, olhando as viçosas
+e celebradas cercanias do nosso poetico Lima,--está situado um sumptuoso
+palacio com suas suberbas fachadas das ordens Toscana e Dorica, esta
+decorando a frente principal, e aquella a do primeiro jardim, como tambem as
+suas respectivas torres ou pavilhões.</p>
+
+<p>A escada principal d'este edificio, rivalisa com a do palacio episcopal da
+cidade do Porto.</p>
+
+<p>A capella ostenta um elegante zimborio e grande profuzão de maravilhosos
+ornatos. Os seus aprasiveis <span class="pagenum">[86]</span> parques e bellissimos jardins, com
+magnificas e espaçosas ruas, tornam aquella vivenda verdadeiramente
+encantadora. O interior corresponde ao exterior, se não o excede, na
+vastidão, luxo, e boa ordem com que está decorado.<sup
+class="footnote"><a href="#fn4" name="lfn4">4</a></sup></p>
+
+<p>Fôra para aquelle paraiso, que o sr. Leopoldo de Lencastre fizera conduzir
+D. Maria e a sua discipula Anna, conservando-as separadas, ignorando a
+existencia ali uma da outra, e na maior vigilancia, para evitar outra fuga
+como a de Rosa.</p>
+
+<p>Viviam as duas donzellas n'aquelle privado carcere rodeadas do mais
+asiatico luxo, e como feudaes princezas a que, no exilio, fosse concedido o
+eden por homenagem.</p>
+
+<p>Anna facilmente se coadunára com a nova e extraordinaria existencia a que
+fôra levada pelo crime, por que--já o sabe o leitor--no seio de sua virginal
+pureza despontára um sentimento a ella desconhecido, de que o seu roubador
+fôra alvo, e que devia leval-a a debater-se na labareda que elle fórma, ou a
+consumir-se nas cinzas que essa mythologica chamma, <span class="pagenum">[87]</span> denominada amor,
+conserva eternamente nos corações martyrisados pela voz do dever e da
+consciencia.</p>
+
+<p>Outro era o estado de D. Maria da Gloria. A convivencia desde o berço com
+Arthur Soares, o cotejo que muitas vezes, e insensivelmente, fizera das
+qualidades moraes do sobrinho do reitor com os de mais frequentadores do seu
+solar--o que sempre dava em resultado innumeras vantagens para aquelle--e,
+sobre tudo, esse mysterioso aquecer do sangue ao girar perto de nós em
+natural fluido o de alguem que o bafeja, e essa constante e seductora visão
+da alma semelhante á nossa em corpo da nossa sympathia,--haviam sido outros
+tantos estimulos a conduzirem a fidalga moça á posse de um reservado e
+verdadeiro affecto por Arthur Soares, que ella julgava poder sempre ter
+sepultado no fundo do coração, em respeito ao culto da nobreza que herdára e
+que lhe fôra inoculado ao entrar na vida pelos seus educadores, reserva esta
+já trahida n'outra crise, e que d'esta vez corria gravissimo risco de acabar
+completamente. N'este estado, fôra-lhe tyrannico, sobre ser infamissimo, o
+cobarde e violento procedimento do fidalgo primo.</p>
+
+<p>Leopoldo, estava apanhado na sua propria rêde. Levado por maus instinctos,
+e por sêde de vingança, premeditou e levou á execução, sem ao menos preceder
+o circumspecto exame da maldade precavida, o arrojado e perigoso projecto de
+roubar as donzellas. A primeira contrariedade soffreu-a elle immediatamente
+com a fuga de Rosa, á qual votava entranhado rancor, e anciava humilhar
+cruelmente, e abortára-lhe esse prazer. A segunda quebra dos seus devaneios
+veiu-lhe com a nimia facilidade que encontrou em sujeitar a timida e docil
+Anna a todos os seus caprichos, desfazendo-se-lhe <span class="pagenum">[88]</span> d'este modo, como
+fatua bolha de sabão, um mal definido e peior agasalhado sentimento que, por
+aquella rapariga, lhe parecia a elle ter no peito.</p>
+
+<p>Muitas d'estas velleidades, cunha a sociedade com o pomposo nome de amor,
+confundindo o appetecido contacto das epidermes com esse sentimento moral que
+subjuga o homem, que é o principio creador de todos os seus heroismos, que é
+a razão, o genio, a harmonia, o acto supremo da alma, a inspiração de
+Deus!...</p>
+
+<p>O terceiro e o mais fatal de todos os castigos de Leopoldo cahira sobre o
+coração do desgraçado em frecha envenenada, que já começava a tolher-lhe as
+funcções moraes e o vital respiro da sua vida physica: amava o infeliz, sem
+bem o saber ainda, e amava D. Maria da Gloria!</p>
+
+<p>Que terrivel lucta!</p>
+
+<p>Fascinado a seu pesar pela belleza da fidalga prima e pelo seu nobre
+orgulho, abatido pelo desprezo que sentia merecer á sua victima, dominado
+pelas rijas impressões a que vivem subordinadas as paixões humanas, louco de
+furor pela certeza de existir um rival, um miseravel peão, preferido no
+coração do seu idolo, e sem poder, pelo seu caracter, elevar-se, no
+infortunio e no martyrio, á sublime condição dos espiritos privilegiados que
+o idealismo purifica--tormentos eram estes que a Providencia destinou a
+Leopoldo com o seu amor por Maria!</p>
+
+<p>Achava-se o voluntario capitão das tropas da rainha fazendo parte de uma
+força militar que então occupava Vianna do Castello. Dispozéra tudo de modo a
+ter segurança na forçada posse das donzellas, que visitava sempre que podia,
+ignorando as encarceradas <span class="pagenum">[89]</span> as repetidas ausencias a que era obrigado o
+seu fidalgo carcereiro.</p>
+
+<p>Entremos com Leopoldo, chegado de Vianna, no palacio encantado, que elle
+escolhera deslumbrante no intento de maravilhar D. Maria da Gloria.</p>
+
+<p>Acabava de anoitecer: penetrou o elegante fidalgo na parte da casa
+destinada aos seus cómmodos, e, sem descançar um só instante da fadiga da
+jornada, attendeu desde logo ao esmero e atavios da sua pessoa e vestuario,
+como se tivera de comparecer n'um baile de côrte. Assim disposto, tomou
+direcção dos aposentos de D. Maria da Gloria. Na ante-sala proxima d'aquella
+em que estava recolhida a fidalga moça, sentiu-se Leopoldo repentinamente
+assaltado de um mau-estar, d'uma fraqueza, d'uma indecisão e de uns receios
+taes, que o levaram a tomar assento n'uma poltrona que, do acaso, ficava
+fronteira de um riquissimo espelho. Ao vêr copiado no preparado vidro o seu
+transtornado aspecto, mudou Leopoldo de tenção, e dirigiu-se com paços ainda
+mal seguros para a parte do palacio, occupada pela docil Anna.</p>
+
+<p>Deixemos sem testimunhas os faceis protestos do mentido amor, proferidos
+sobre-posse, áquella que já não podia nem sabia regeital-os, pelo homem que a
+seduzira e arrebatara, e entremos no salão em que D. Maria da Gloria gemia
+saudades e nutria, a par de sublimes affectos, esperança de proxima
+salvação:--as paredes estavam forradas de setim verde; as janellas todas
+adornadas de custosas cortinas de côres branca e amarella; os reposteiros
+eram de damasco encarnado com os cordões e as borlas de fio de prata, e os
+moveis todos de pau preto almofadados <span class="pagenum">[90]</span> de setim branco. Se uma dama de
+caprichosa imperatriz tivera sido a encarregada de dispôr, alli como em todas
+as salas do aposento de D. Maria, e collocar em ordem essas infindas e
+minuciosas commodidades de uma senhora de régia estirpe,--não deslumbraria
+mais aquelle recinto. Lá dentro, era D. Maria senhora absoluta, obedecida por
+aias e criados ao mais leve aceno, sem que aquellas e estes deixassem de ser
+outros tantos vigias e guardas de seus movimentos e acções. Os grilhões, eram
+com effeito de ouro do mais subido quilate.</p>
+
+<p>Estava a joven captiva a uma das janellas, olhando pela milesima vez os
+arrebatadores jardins d'aquelle palacio, quando sentiu cahir a seus pés um
+objecto arremessado de fóra, que se apressou a apanhar. Desfez o embrulho, e
+encontrou um punhal acompanhado de um papel escripto d'este modo:</p>
+
+<p>«Ha mais de sessenta dias que apenas vivo para a vingança, cogitada de
+instante a instante no meio de torturas espirituaes que dementam!</p>
+
+<p>«Descobri finalmente este infernal paraiso que a retem. Queria ser eu
+sósinho o salvador de v. exc.<sup>a</sup>, mas as cautelas tomadas pelo
+infame obrigam-me a metter na melindrosa empresa o snr. Sebastião da
+Mesquita.</p>
+
+<p>«Esse estylete é inutil nas minhas mãos e póde convir nas de v.
+exc.<sup>a</sup>. Para a desaffronta dum homem, não deve servir a arma que se
+esconde em bolço falso como o sicario nas trevas da noite. A senhora D. Maria
+da Gloria comprehenderá melhor do que eu como póde fazer entrega do vil
+instrumento no malvado que o sabe usar.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[91]</span> «Está a soar a ultima hora do captiveiro. Creio em v.
+exc.<sup>a</sup> como creio em Deus.</p>
+
+<p class="direita">«<em>Arthur</em>».</p>
+
+<p>Ao terminar a leitura do bilhete de Arthur Soares, que enchera de
+felicidade a D. Maria, correu-se um reposteiro e entrou na sala o fidalgo
+Leopoldo. Ao sentil-o, tomou a donzella, junto do fogão que ardia na sala,
+uma attitude de rainha quando concede audiencia aos seus subditos. Vira
+Leopoldo o papel nas mãos de sua prima, e a suspeita dera-lhe animo para
+fallar:</p>
+
+<p>--Vejo que a minha nobre prima tem por estes sitios correio amoroso!...
+Poderei ter a honra de saber o conteudo n'esse papel?</p>
+
+<p>Por unica resposta lançou D. Maria o bilhete á chamma do fogão.</p>
+
+<p>--Continua a ser cruel, senhora, e eu submisso sempre! Vê como o amor
+torna os homens bons e generosos? Qual de nós é o captivo?...</p>
+
+<p>--Infame!...</p>
+
+<p>--Sempre esse burguez adjectivo! E porque sou eu infame?! Pois se o amor
+governa o mundo, podem-se por ventura impor deveres aos impulsos da alma?!...
+Solte a minha nobre prima uma palavra de esperança, e verá transtornado em
+manso cordeiro aquelle que imaginou ser um feroz tigre... O sentimento
+verdadeiramente moral que me domina, é sincero e augusto... Nasceu
+subitamente e nem por isso é possivel a sua cura... Conheço, desde que a
+avalio, toda a grandeza, todo o poder, toda a irresistivel força dos seus
+naturaes encantos, toda a magnitude da sua nobilissima alma... Amo-a e soffro
+muito, minha prima, tendo para mim este sofrimento na <span class="pagenum">[92]</span> conta do maior
+prazer!... Adoro-a até no seu despreso por mim!...</p>
+
+<p>--Infame!...</p>
+
+<p>--É muito, senhora!... Não será prudencia abusar d'esse modo de uma paixão
+que deve conhecer verdadeira, e que é capaz das maiores virtudes como dos
+mais negros crimes... A par d'esta loucura que faz escorregar para o mais
+medonho precipicio, ou que nos salva d'elle, todas as differentes paixões da
+vida são uns simples brinquedos... Fechado na sua formosa mão, tem a minha
+nobre prima o meu destino e o de todos os seus... Até lá está tambem o
+esquecimento para dous homens que me fizeram ultrages, que só o amor tem o
+poder de perdoar... Abra essa mão, senhora, que em abril-a desponta-lhe a
+felicidade... Serei um escravo humilde da sua mais caprichosa opinião...
+Domarei todos os instinctos, todos os appetites, todas as tendencias que
+possam ir de encontro aos seus desejos... Somos ambos poderosos, somos
+fidalgos, somos parentes... A nossa união não póde ter obstaculos legaes e,
+que os tivéra, todos eu saberia dissipar pela força d'este amor que é a minha
+vida, ou que hade ser a minha morte... Quer sahir d'esta casa? Quer levar em
+sua companhia as suas discipulas? Quer um cortejo de princeza para
+acompanhal-a, em que eu serei o ultimo de seus servos?... Pois basta, para
+tudo isto se fazer immediatamente, que a minha nobre prima me dê uma simples
+palavra, uma singela esperança...</p>
+
+<p>--Infame!...</p>
+
+<p>--Oh! que é de mais!...</p>
+
+<p>N'esta altura da entrevista, e quando talvez Leopoldo estivesse para ceder
+á violencia da sua paixão <span class="pagenum">[93]</span> atrozmente insultada pelo sangue frio da
+nossa heroina, sentiram-se palmas cadenciadas, e tres vezes repetidas, na
+proxima ante-sala. Ao ouvir aquelle signal, de certo convencionado por elle,
+retirou-se precipitadamente o infeliz capitão, o senhor d'aquella casa, e por
+sem duvida o mais infeliz dos seus habitadores.</p>
+
+<p>O chamamento fôra a communicar-lhe a urgencia de acudir a Vianna, para
+recolher com toda a força militar ao Castello, d'onde o commandante resolvera
+resistir a numerosas forças do exercito da junta do Porto, que se
+aproximavam, e do povo, que se reunia para as coadjuvar. Recebida a ordem,
+quasi com indifferença, voltou Leopoldo á presença de D. Maria, para lhe
+dizer com voz pausada e debil:</p>
+
+<p>--Senhora!... Retiro-me por algum tempo d'esta casa, na qual V.
+Exc.<sup>a</sup> fica substituindo o meu poder. Conservo as ordens dadas aos
+meus criados, e servos de V. Exc.<sup>a</sup> para a guardarem com profundo
+respeito, mas altero-as ordenando-lhes, que não resistam a qualquer força que
+tente libertar a minha nobre prima... É possivel que seja esta a ultima vez
+em que a minha presença lhe provoque esse invencivel tédio... Este
+<em>malvado</em>, que podia ter colhido com novas violencias os fructos a que
+pareceu mirar pela primeira imprudencia, pede-lhe o seu perdão com
+<em>lagrimas</em> de sincero arrependimento...</p>
+
+<p>--Lave com ellas os pés de meu honrado e nobre pae, que deve ser o
+primeiro, senão o unico, a perdoar-lhe os desvarios... Agora que o considero
+inutil como defeza da minha honra, porque acredito nos seus remorsos, tome
+conta d'esse punhal, que lhe pertence, e que nunca deveria ter servido nas
+emprezas a que está vesado.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[94]</span> E com magestoso porte, atirou D. Maria ao meio da sala a arma
+villã. </p>
+
+<p>Leopoldo, depois de alguns momentos de recolhimento, que lhe valeram
+seculos de indiscriptivel soffrimento, agitou o cordão de uma campainha e
+esperou o resultado d'esta sua acção. Appareceu um escudeiro, vestido na mais
+rigorosa etiqueta, que aguardou silencioso as ordens de seu amo.</p>
+
+<p>--Pegue n'aquelle punhal, vista-lhe o cabo com um panno preto, e pendure-o
+á cabeceira do meu leito... Quem de hora ávante dá ordens n'esta casa é minha
+prima e senhora D. Maria da Gloria. Faça-o saber a todos os seus
+companheiros. Póde retirar-se.</p>
+
+<p>Sahiu o escudeiro e Leopoldo ficou immovel e calado por alguns minutos.
+Depois, como se após intima lucta se fizesse luz no seu espirito, levantou
+repentinamente a fronte, encarou a donzella, d'esta vez sem acanhamento, e
+disse-lhe:</p>
+
+<p>--Sou... serei um infame! mas um infame que a ama como V. Exc.<sup>a</sup>
+nunca por outrem será amada, juro-lh'o!... Adeus, senhora D. Maria da
+Gloria!...</p>
+
+<p>Ao retirar-se o attribulado mancebo, proferiu D. Maria, como para só
+d'ella serem ouvidas, estas significativas palavas:--«Ao menos foi uma hora
+verdadeiro fidalgo...» D'aqui a levar a sua clemencia ao ponto de perdoar ao
+primo os insultos que d'elle recebera, havia só a transpôr a barreira de
+Arthur Soares, que ella não queria nem podia vencer! </p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn4" name="fn4">4</a></sup> Existe com effeito, dous kilometros e meio
+ao sul da villa de Monção no alto Minho, o edificio de que tiramos alguns
+traços, fundado em 1806 pelo commendador Luiz Pereira Velho de Moscoso. Diz o
+snr. A. A. Teixeira de Vasconcellos, nas notas do seu bello romance--«A
+Ermida de Castromino»--que aquella casa, chamada da Berjoeira, é de risco
+semelhante ao do palacio da Ajuda. N'esta, como n'outras descripções e nomes
+proprios d'este nosso <em>conto</em>, na parte romantica, não ha allusões a
+logares certos ou pessoas determinadas.</p>
+</div>
+<span class="pagenum">[95]</span>
+
+<h3>X<br>
+RELIGIÃO</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«O mundo que nos tira até o que Deus nos deu, que nos não póde dar o que
+Deus nos tirou, que não tem bem que dure nem cousa que permaneça,--que cultos
+merece? que estimações se lhe devem?»</p>
+
+<p class="direita">(<em>Fr. A. das Chagas</em>--<span class="smallcaps">C.
+espirituaes</span>.)</p>
+</div>
+
+<p>Entreteve Sebastião da Mesquita a gente do seu commando, em marchas
+vagarosas, e por logares desoccupados de outras forças, porque era seu unico
+fito perseguir o insultador da sua familia, para libertar as donzellas
+raptadas; e não podéra seguir-lhe a pista com a ligeireza que requeria a sua
+anciedade paternal, por estar todo o Minho revolucionado, e pejado de tropas
+dos tres partidos em guerra. Em um dos seus forçados estacionamentos, teve
+Sebastião da Mesquita occasião de prestar um relevante serviço ao respeitavel
+ancião que por aquella epocha era arcebispo de Braga.</p>
+
+<p>Depois da terrivel mortandade que um general das tropas da rainha, em
+ataque ás forças realistas, <span class="pagenum">[96]</span> mandara fazer na manhã do memoravel dia
+vinte de dezembro de 1846 nas ruas da cidade de Braga, que ficaram juncadas
+com cerca de quatrocentos cadaveres!--fizera o mesmo general, ingloria e
+tristemente vencedor, intimar o venerando prelado da diocese bracarense para
+o acompanhar na sua marcha.<sup class="footnote"><a href="#fn5" name="lfn5">5</a></sup> Aterrado o bondoso
+padre por aquella inqualificavel violencia, após o luctuoso espectaculo que a
+precedera, fugira em direcção a uma das suas quintas das cercanias de
+Coimbra, fuga em que fôra auxiliado pela pessoa de Sebastião da Mesquita, e
+pela sua gente, tendo antes os dois velhos passado algumas horas em secreta e
+intima conferencia.</p>
+
+<p>Havia-se operado em Arthur Soares uma completa transformação: o seu
+physico, como reflexo do soffrimento moral, alterou-se ao ponto de não
+parecer o mesmo homem; para o que tambem muito concorrera a repentina mudança
+de habitos. Os raptos das donzellas, por elle moralisados sob as indeleveis
+<span class="pagenum">[97]</span> impressões d'aquella noite de luar, em que D. Maria da Gloria
+levantara uma nêsga do véu que lhe cobria o coração, eram por elle vistos
+como offensas directas de um rival abjecto. A sua alma sempre aberta a todos
+os sentimentos generosos, estava quasi entregue ao odio e á vingança. Sabia
+elle, porque desde infante o escutara diariamente ao padre Alvaro, que a
+religião manda perdoar, e que a doutrina da egreja quer que se recebam as
+humilhações em justa expiação das faltas commettidas; mas tambem não ignorava
+que, algumas vezes, sob as proprias vestes sacerdotaes, se encobrem violentas
+e desapiedadas cóleras. A sua razão, um pouco obscurecida pelas dôres,
+fluctuava, pois, á mercê das paixões mundanas; e de pouco proveito lhe eram
+os prudentes conselhos que a todo o momento lhe estava dando o padre Alvaro,
+inquieto com os estragos do corpo, e da alma, que elle via estampados nas
+faces de Arthur Soares.</p>
+
+<p>Eram constantes da parte do apaixonado mancebo <span class="pagenum">[98]</span> as deserções do seu
+arraial, das quaes nenhum caso parecia fazer Sebastião da Mesquita, porque
+possuia a quasi certeza da razão que as promovia.</p>
+
+<p>A intrepida Rosa, com permissão do velho fidalgo, continuava usando do seu
+uniforme salvador, e a ser tida pelos estranhos á familia por um elegante e
+joven official. Calculadamente se affastava o mais que podia de Arthur
+Soares, sem deixar de notar as suas desapparições, e de as commentar
+mentalmente.</p>
+
+<p>Chegara Sebastião da Mesquita com a força de seu commando ás alturas de
+Vianna, e fôra alli obrigado, conjunctamente com o povo, e a tropa da junta,
+a sitiar o castello, onde estavam refugiados muitos empregados publicos do
+partido do paço, e os militares de que fazia parte Leopoldo de Lencastre. Não
+se viu grandemente contrariado Sebastião da Mesquita, em ser levado ao
+extremo de batalhar, porque já lhe era um tanto sympathica a causa popular,
+principalmente pelos factos de Leopoldo pertencer ao partido da rainha, e da
+maior parte dos chefes dos bandos realistas, depois da morte de
+Mac-Donnell,<sup class="footnote"><a href="#fn6" name="lfn6">6</a></sup> se terem reunido ao exercito da
+junta do Porto.</p>
+
+<p>N'um dos intervallos do assédio, recebeu Sebastião da Mesquita da bocca de
+Arthur Soares a boa <span class="pagenum">[99]</span> nova de ter descoberto o carcere das donzellas,
+que elle julgava ainda guardado pelo raptor em pessoa. Reuniu o velho fidalgo
+a toda a pressa o maior numero da sua gente em disponibilidade e, acompanhado
+tambem por toda a sua familia, voou a libertar as filhas.</p>
+
+<p>Chegados que foram ás portas do palacio, e tudo disposto para n'elle
+entrarem á viva força, viu Sebastião da Mesquita, com espanto seu, ser-lhes a
+entrada franqueada. Tremeu o valente do receio de já não encontrar alli a
+quem buscava, e só recuperou o perdido animo quando susteve em seus braços a
+D. Maria da Gloria, e viu a seus pés banhada em pranto a seduzida Anna.</p>
+
+<p>Foram expansivas, como natural era que o fossem, as demonstrações de
+regosijo intimo, em todos os membros d'aquella nobre familia, alfim de novo
+reunida.</p>
+
+<p>Depois de ter dado o necessario tempo ás largas do contentamento de todos,
+dirigiu Sebastião da Mesquita a palavra a D. Maria da Gloria, n'estes
+termos:</p>
+
+<p>--Maria!... Podes continuar a viver na companhia de teus paes?...</p>
+
+<p>--Essa pergunta, meu presadissimo pae e senhor, devia V. Exc.<sup>a</sup>
+fazel-a ao meu cadaver...--respondeu com firmeza a nossa heroina.</p>
+
+<p>--Muito obrigado, Maria! Paguem-te estas lagrimas do mais puro amor, a
+nobreza e honradez da tua resposta!...</p>
+
+<p>Ao passo que o pae assim fallava, cobria a moça fidalga de beijos e
+caricias maternaes, a respeitavel matrona D. Isabel de Abendanho.</p>
+
+<p>--E tu, Anna, foste da mesma sorte feliz?</p>
+
+<p><span class="pagenum">[100]</span> A timida interrogada, ficou silenciosa e interdicta...</p>
+
+<p>O velho fidalgo, tomado instantaneamente de uma pallidez assustadora,
+alçou assim a voz:</p>
+
+<p>--Padre Alvaro! Disponha immediatamente a capella d'esta casa, para uma
+solemne ceremonia religiosa.--Snr. Arthur Soares, dê busca a todo o edificio
+e traga-me já aqui o infame possuidor d'este lupanar!--Anna!.. Prepare-se
+para o mais serio acto da sua vida, com a coragem que lhe faltou para
+resistir á seducção!...</p>
+
+<p>Apressaram-se todos a cumprirem as ordens dadas, que bem de conhecer era o
+não admittirem réplicas.</p>
+
+<p>N'esta situação, fôra ouvido ao longe da estrada, que passava em frente do
+palacio, um extraordinario bulicio.</p>
+
+<p>O pae de D. Maria da Gloria, mandou ao unico official de ordens que alli
+tinha--a metamorphoseada Rosa--que fosse reconhecer o barulho, e aguardou
+impaciente a chegada de Arthur Soares.</p>
+
+<p>Caminhavam pela estrada de Vianna, cujo castello acabava de cahir em poder
+das forças populares, em direcção á praça de Valença, os prisioneiros de
+guerra, guardados por duzentas praças de linha e cercados de immenso povo,
+que pedia em altos gritos a morte dos empregados publicos, e de toda a
+guarnição prisioneira. Arduo trabalho havia tido a força conductora, para
+salvar até alli da sanha popular os que foram entregues ao seu brio e que,
+maneatados, só deviam pertencer ao poder das leis.</p>
+
+<p>A custo se introduzira Rosa entre as fileiras da tropa, e conseguira, com
+a interferencia de um tenente <span class="pagenum">[101]</span> que folgara de ter occasião de subtrair
+ao povo uma victima, soltar um dos officiaes prisioneiros, e trazel-o pelo
+braço fóra do alcance da furia popular:--era Leopoldo de Lencastre.</p>
+
+<p>--Temos contas a saldar, snr. capitão, e será o seu formoso palacio o
+logar do ajuste.</p>
+
+<p>--Conheci-a logo no seu disfarce, snr.<sup>a</sup> Rosa, e a minha
+cobardia, se m'o concede, não é de tal quilate que me leve a bater-me com...
+o snr. tenente...</p>
+
+<p>--Em sua casa será obrigado a entrar no repto.</p>
+
+<p>E caminhando sempre, sem troca de mais palavras, deram entrada no salão,
+onde Sebastião da Mesquita acabava de ouvir, enfurecido, o ephemero resultado
+da busca a que procedera Arthur Soares.</p>
+
+<p>--A proposito chega e condignamente conduzido é o villão ao seu
+prostibulo... Ajoelhe immediatamente aos pés d'aquella mulher, e peça-lhe a
+honra de ser sua esposa...</p>
+
+<p>--Mas... snr. Sebastião da Mesquita... um fidalgo...</p>
+
+<p>--Que serodios e infames brios!... É fidalga, é bem mais nobre do que o
+canalha que lhe cuspiu a vergonha, aquella que eu o obrigo a receber por sua
+mulher legitima.</p>
+
+<p>--N'esse caso... se V. Exc.<sup>a</sup> me affiança...</p>
+
+<p>--Sebastião da Mesquita, snr. Lencastre degenerado, poderia ser levado a
+transpor as fornalhas do inferno, mas nunca a manchar a sua honra com a
+mentira... Para a capella, senhores!...</p>
+
+<p>O nosso velho heroe, não querendo consentir, em nenhum caso, no casamento
+do perverso Leopoldo com D. Maria, e prevendo com acertado raciocinio <span class="pagenum">[102]</span>
+que a docil Anna teria a fraqueza de se deixar vencer pela seducção,
+alcançára, na conferencia com o arcebispo de Braga, licença, em fórma, de
+qualquer padre, e em qualquer sanctuario, poder realisar o sagrado enlace que
+ia ter logar na capella d'aquelle palacio.</p>
+
+<p>Finda a religiosa ceremonia, durante a qual esteve a capella repleta de
+muitos curiosos e de alguns devotos, cresceu de ponto o tumulto da estrada.
+Sebastião da Mesquita, que já alli se julgava desnecessario, sahiu á rua, e
+tentou pôr um dique ao excesso do povo. Foi impotente, d'esta vez, a sua
+respeitavel palavra.</p>
+
+<p>O leão popular, mostrava-se indomito, e cruel. A facilidade que via no
+triumpho, aguçava-lhe o appetite de sangue. Os infelizes prisioneiros estavam
+prestes a cahir-lhes nas garras, das quaes só em pedaços sahiriam!</p>
+
+<p>De repente, principia a turba a desbarretar-se, atirando com os joelhos
+para o solo!... Ficaram só de pé os prisioneiros e a força que os guardava.
+Estava domado o leão!..</p>
+
+<p>Por quem?...</p>
+
+<p>Por um velho, de negras mas sagradas roupagens, do mais humilde aspecto,
+da mais inoffensiva attitude!... Pelo padre Alvaro, que se arrastara até ao
+cume de um penêdo--d'onde era visto por todos--e que trémulo e silencioso,
+por lhe embargar a voz a commoção, alçara ao alto da veneranda cabeça um
+crucifixo com a imagem do Redemptor do mundo...<sup
+class="footnote"><a href="#fn7" name="lfn7">7</a></sup></p>
+
+<p><span class="pagenum">[103]</span> Os presos foram recolhidos e agasalhados sem a menor resistencia
+popular, no palacio de Leopoldo.</p>
+
+<p>O povo dispersou, a estas enthusiasticas vozes de Sebastião da
+Mesquita:</p>
+
+<p>«Salvè! religioso e bom povo portuguez, salvè!...»</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn5" name="fn5">5</a></sup> O periodico «Estrella do Norte» publicou a
+noticia da <em>intimação</em> e da retirada do exc.<sup>mo</sup> arcebispo
+primaz.</p>
+
+<p>Temos á vista vários jornaes d'aquella epocha calamitosa, que fazem, pela
+desenvoltura da linguagem e calúmnias que semearam, corar de pejo todos
+aquelles que saibam presar a dignidade da imprensa, e comprehender a sua
+nobre missão. Um dos mais repugnantes por certo, foi aquelle que se
+denominou--«Popular».--O melhor correctivo que, em seguida, podiam ter as
+suas atrevidas e mentirosas apostrophes, foi-lhe dado pelo primeiro
+jornalista portuguez n'estas honrosas verdades: «O jornalista é o sacerdote
+d'uma religião, d'uma crença social--expõe a sua doutrina, discute, convence
+ou é convencido. A sua alma deve respirar sempre amor, o seu apostolado é um
+apostolado de paz. Se o seu irmão pecca, deve dizer-lhe como o sacerdote do
+Evangelho--<em>Fili, peccasti; non adjicias iterum</em>.</p>
+
+<p>«Para que é incitar o povo a que entre no palacio dos nossos reis e
+pratique ahi acções de canibaes? Que civilisaçâo é esta que injuría as
+victimas para as immolar?</p>
+
+<p>«Não ha rainha mais virtuosa do que a nossa como esposa, nem como mãe de
+familias. A sua casa póde servir de exemplo a todas da Europa.</p>
+
+<p>«Apraz-nos fazer esta justiça. Assim podessemos achar que louvar no
+funccionario como achamos no individuo.</p>
+
+<p>«Por isso é que a nossa voz se levanta contra uma imputação injuriosa e
+falsa.--A moral respeita-se no adversario como no amigo.» («O Espectro» de 26
+de Fevereiro de 1847.) <sup class="footnote"></sup></p>
+
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn6" name="fn6">6</a></sup> Aquelle infeliz aventureiro, abandonado
+pelo partido que levara á rebellião, e apenas seguido de uns cem homens, foi
+morto por um sargento de cavallaria das forças da rainha. O «Diario do
+Governo» de 5 de Fevereiro de 1847, noticiando a morte de Mac-Donnell, diz
+assim: «A identidade da pessoa de Mac-Donnell foi reconhecida por diversas
+pessoas, e d'esta circumstancia se lavrou auto judicial.»<sup
+class="footnote"></sup></p>
+
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn7" name="fn7">7</a></sup> Este facto, teve effectivamente logar
+quando foi tomado pelo povo o castello de Vianna. </p>
+</div>
+
+<h4>FIM DA PRIMEIRA PARTE</h4>
+
+<p><span class="pagenum">[104]</span><br><span class="pagenum">[105]</span> </p>
+
+<h2>SEGUNDA PARTE</h2>
+
+<h3>CRIME</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«Eu pintarei o caso com côres bem crimes.»</p>
+
+<p>(<em>Chron. de Cister</em>.)</p>
+</div>
+
+<p><span class="pagenum">[106]</span><br><span class="pagenum">[107]</span> </p>
+
+<h3>I<br>
+ABYSMO</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«Ai do viandante que não vê caminho!<br>
+ai do mesquinho sem a luz da fé!<br>
+ai! que, na falta d'um amor sublime,<br>
+triumfa o crime, do ludibrio ao pé!</p>
+
+<p class="direita">(<em>T. Ribeiro</em>--<span class="smallcaps">Sons que
+passam</span>.) </p>
+</div>
+
+<p>Foi talvez pouco sensivel ao leitor a desapparição de João Vidal nos
+ultimos capitulos da primeira parte d'este livro, por que lhe traçou papel
+secundario no «Conto Portuguez.» A ser assim, foi-lhe infiel o trabalho de
+imaginação e, temos para nós que por mais vezes, no deslizar pela fiel
+narração do conto, hade o leitor errar seus calculos.--«<em>Em romance ou
+folhetim, o verdadeiro é o menos verosímil</em>:»--escreveu com muita
+propriedade, em maré de chiste, um nosso festejado folhetinista.</p>
+
+<p>João Vidal, o escudeiro, fôra mandado pelo amo reconstruir o solar, em
+parte presa das chammas, e tractar da administração da casa. Foi elle o
+escolhido por Sebastião da Mesquita, pela illimitada confiança <span class="pagenum">[108]</span> que
+lhe devia, e tambem para o desviar dos logares da acção empregada no
+livramento das donzellas, onde a podia prejudicar o entranhado rancor do
+escudeiro a Leopoldo.</p>
+
+<p>A resolução do velho fidalgo fazer sumir os vestigios do incendio mandado
+lançar pela esposa ao seu palacio, foi tomada d'accordo com D. Isabel.
+Louvára Sebastião da Mesquita aquella inopinada e fidalga acção, a que o
+desespêro da immerecida e violenta affronta condusira os brios de uma nobre
+senhora, que era mãe, mas facil lhe foi convencer sua mulher da sem razão de
+ficarem permanentes os signaes de um crime já reparado, que de mais os
+privava de viverem commodamente.</p>
+
+<p>Não teve D. Isabel igual facilidade em destruir no seu esposo, o
+preconceito de que devia bater-se em duello de morte com Leopoldo: foi
+preciso o auxilio de D. Maria da Gloria, que teve a força de convencer seu
+illustre pae do respeito e das attenções com ella havidas durante o
+captiveiro, para conseguirem de Sebastião da Mesquita o esquecimento de tão
+absurda idêa, a que era levado pelo excesso da honra. E de presumir é que,
+mais ainda do que as boas razões dadas, imperasse no quietismo de seu animo,
+a certeza da partilha que tinha a esposa no que houvesse de soffrer seu
+marido: limitou-se, pois, o honrado velho, a varrer de si, e cortar com a sua
+familia, todas as relações com a mulher de Leopoldo, pelo desprêso a este
+votado.</p>
+
+<p>Ao recolher-se com a familia á sua habitação, entregara Sebastião da
+Mesquita o commando da força popular a Arthur Soares, pedindo-lhe que se
+conservasse no alto Minho, e exercesse vigilancia sobre as acções <span class="pagenum">[109]</span>
+intimas de Leopoldo, porque receiava haver feito uma victima da pobre
+<em>donzella</em>, que tivera em vista honrar pelo casamento com o
+seductor.</p>
+
+<p>Algum tempo volvido, era Arthur Soares forçado pelo seu dever, a narrar,
+em longa carta a seu padrinho, o que podera saber pelos seus exforços
+habilmente empregados. Daremos ao leitor conhecimento d'um periodo daquella
+carta:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Colhi a fatal certeza de que a snr.<sup>a</sup> D. Anna soffre a seu
+marido constantes doéstos, em alguns dos quaes é menos respeitada a boa
+intenção do meu nobre padrinho, e senhor, porque se atreve a dizer, que
+<em>occultas razões</em> determinaram a violencia do seu casamento com uma
+<em>rapariga pobre</em>! Não se queixa a paciente; mas traz escripto na face
+os signaes do seu pesar, e gradual definhamento.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Esperou Arthur, com a ancia de um verdadeiro interesse, apenas producto de
+sua bem formada alma, que Sebastião da Mesquita, dando o pêso devido ao que
+lhe havia communicado, procedesse de modo a sanar aquellas rudes e vilãs
+provocações de um depravado senhor á sua escrava. Os dias, porém,
+succediam-se na sua marcha natural--que é morosa para os que esperam e
+pensam, e rapida para os que gosam descuidados--sem que o velho fidalgo désse
+accordo de si. Admirado Arthur de um tal silencio, que lhe deu margem a mil
+oppostas conjecturas, não podendo duvidar da entrega em mão da sua carta,
+porque o portador fôra seguro, resolveu empregar os seus proprios recursos
+para adoçar quanto possivel a situação amarga da infeliz Anna, que lhe fôra
+companheira e socia nos annos e nos brinquedos infantis. <span class="pagenum">[110]</span> Tomada a
+resolução, seguiu-se o emprego de meios para chegar á falla com a mulher de
+Leopoldo.</p>
+
+<p>Entremos pela segunda vez nas casas que serviram de forçado aposento a D.
+Maria da Gloria. Estamos na mesma sala onde tiveram logar as scenas
+descriptas no capitulo--<em>Amor</em>. Recostada em magnifico sofá, e vestida
+com singela elegancia, está uma sombra d'aquella Anna, que fôra discipula
+muito amada de D. Maria da Gloria: a seu lado, tomou assento Arthur Soares,
+em uma d'essas cadeiras cujo feitio se presta a todas as commodidades e
+posturas de phantastico confôrto. Escutêmol-os:</p>
+
+<p>--Consinta-me, snr.<sup>a</sup> D. Anna...</p>
+
+<p>--Snr.<sup>a</sup> D. Anna!...</p>
+
+<p>--Sim, minha senhora, é esse o tractamento que hoje se lhe deve, e não
+serei eu que o esqueça. V. exc.<sup>a</sup> soffre. Deixe-me aproveitar estes
+momentos, para bem claramente lhe dizer o que me obrigou a pedir-lhe esta
+audiencia. Fui encarregado pelo snr. Sebastião da Mesquita de saber se v.
+exc.<sup>a</sup> era feliz: Não é. Sei que o seu viver intimo não está em
+harmonia com as seductoras apparencias do fausto que a rodeia. Quererá v.
+exc.<sup>a</sup> confiar de um leal amigo, de um companheiro de infancia, do
+mensageiro de seu nobre pae adoptivo, todos os pesares que a consomem?</p>
+
+<p>--Infeliz, eu?!... Pois não vê o senhor Arthur Soares, como estes
+aposentos estão repletos de esplendor e de magnificencia?!... Não vê esta
+mobilia, estes adereços, esta riqueza, este luxo, esta sumptuosidade régia de
+que partilho?!... Eu, a misera filha de um lavrador, apenas habituada ás
+palhas e ao fumo da cabana paterna!... Eu, que só por favor conhecia <span class="pagenum">[111]</span>
+o palacio da minha querida mestra e senhora D. Maria da Gloria!... Podem por
+ventura ter entrada os dissabores, onde moram as preciosidades?!... Não, mil
+vezes não!... As estatuetas, os modelos em bronze e jaspe dos principaes
+monumentos da Europa, os bustos serios e caricatos de notaveis personagens do
+mundo civilisado, o ébano, a madre-perola, esses milhares de caprichos e de
+prodigios, as antiguidades, os <em>recocós</em>, as reliquias de toda a arte
+misturadas com os feitios e labores de toda a imaginação, tudo isto que me
+<em>cérca</em>, de que me chamam dona, que me obrigam a fitar, comprehender e
+decorar, e que me veiu conjunctamente com a posse de um esposo letrado e
+nobre,--não será o gôso, a felicidade, a completa ventura?!...</p>
+
+<p>--E as lagrimas, que são o epilogo da formosa descripção que fez, o que
+significam, senhora D. Anna?...</p>
+
+<p>--Oh!... Estas lagrimas são... de alegria!...</p>
+
+<p>--E porque não diz de saudade?!... Saudade que ninguem tem o poder de
+condemnar na alma, que foge dos logares dourados, onde lhe fazem soffrer o
+peso de grandezas que não ambicionou, para se aninhar nas pacificas palhas da
+sua infancia e adolescencia, onde lhe fôra suave e salutar bafejo o contacto
+de outras almas lavadas, caridosas, verdadeiramente nobres em todas as suas
+acções... Por que não revela toda a verdade, que eu de sobra conheço na
+excitação que V. Exc.<sup>a</sup> manifesta?...</p>
+
+<p>--Toda a verdade!... Sabel-a-ei eu, senhor Arthur Soares?... Amo Leopoldo,
+que é meu senhor, e... e devo ser feliz n'este paraiso, para onde fui atirada
+em completa nudez, e no qual achei, como nos <span class="pagenum">[112]</span> contos de fadas, tudo
+que uma princeza póde ambicionar...</p>
+
+<p>--Disse o bastante, minha senhora. Agradeço a confiança que em mim
+depositou, e que lhe mereço, creia. Peço o favor de confiar-me tambem a
+cobrança de haveres que lhe pertencem. Ha um mysterio na vida de V.
+Exc.<sup>a</sup>, de que eu estou senhor, que só mais tarde lhe póde ser
+revelado. Mysterio honroso, que a hade tornar respeitavel aos olhos de... de
+toda a gente. Os haveres de V. Exc.<sup>a</sup>, se não podem equiparar-se
+aos de seu illustre esposo, são, com tudo, sufficientes para darem, em todo o
+tempo, a independencia necessaria a uma senhora. Concede-me, por escripto, a
+auctorisação que lhe peço?</p>
+
+<p>--Vou escrever o que quizer dictar-me, meu bom amigo.</p>
+
+<p>Aproximaram-se de um riquissimo e formoso movel, que serviu de
+escrivaninha, onde Arthur, em pé, dictou, o que Anna escreveu com punho
+firme. Concluido e entregue o documento, tiveram logar os agradecimentos, as
+despedidas e as recommendações, em que por muito entraram os sentimentos de
+gratidão que a pobre senhora nutria por toda a familia de D. Maria da Gloria,
+e o affecto filial aos singelos caseiros, que ella julgava seus progenitores.
+Durante estas naturalissimas expansões, agitou-se um reposteiro e entrou
+Leopoldo na sala. Vinha pallido, mas os passos eram seguros, o aspecto
+risonho e o porte ceremonioso. Dirigiu-se a sua mulher com requintada
+delicadeza, dizendo-lhe que a esperavam as suas modistas, e dando-lhe o braço
+para a conduzir. Cumprimentou attenciosamente Arthur Soares, e pediu-lhe o
+<span class="pagenum">[113]</span> favor de o aguardar alguns minutos, dirigindo-se em seguida com a
+esposa para o interior do palacio.</p>
+
+<p>Arthur esperou de animo resoluto, como quem descança na paz da
+consciencia, a volta do seu pronunciado inimigo.</p>
+
+<p>--Creio que o não fiz esperar muito, senhor Arthur Soares?... Queira
+collocar-se á vontade, e dignar-se responder-me, caso me julgue com direito a
+fazer-lhe algumas breves e concisas perguntas.</p>
+
+<p>--Ouvirei, senhor Leopoldo.</p>
+
+<p>--Peço desculpa de não principiar pelos offerecimentos do estylo: julgo
+que minha mulher saberia fazer-lhe o que chamam as honras da casa?...</p>
+
+<p>--A senhora D. Anna recebeu-me como uma senhora distincta costuma
+agasalhar um companheiro de infancia, um como irmão respeitoso e lealmente
+affeiçoado. </p>
+
+<p>--Muito bem... Poderei saber o motivo porque se aproveitou a minha
+ausencia, para a visita com que V. S.<sup>a</sup> quiz honrar esta
+casa?...</p>
+
+<p>--Porque não me sendo agradavel a presença de V. Exc.<sup>a</sup>, devo
+suppor que a minha egualmente o não seja ao senhor Leopoldo.</p>
+
+<p>--Colhe alguma cousa essa franqueza... E o motivo da conferencia, é
+segredo para mim?...</p>
+
+<p>--Não guardo segredos de uma senhora casada. Vim visitar a senhora D.
+Anna, em nome de pessoas que a presam, e pedir-lhe esta auctorisação:--«Dou a
+Arthur Soares os poderes necessarios, para receber toda a quantia ou valores
+a que eu tenho direito.»</p>
+
+<p>--Vejo que se faz procurador de minha mulher, sem outhorga minha!... É
+para intentar divorcio, e pedir-me alimentos?...</p>
+
+<p><span class="pagenum">[114]</span> --Pondo agora de parte as suas impertinentes ironias, assevero-lhe
+que S. Ex.<sup>ma</sup> esposa <em>não é pobre</em>, e que, para cobrar o que
+lhe pertence, é que eu vim pedir-lhe este escripto.</p>
+
+<p>--E que validade descobre V. S.<sup>a</sup> n'esse papel, que não é
+authenticado por mim?... Pois não serei eu o competente para essa
+cobrança?...</p>
+
+<p>--A esposa de V. Exc.<sup>a</sup> ignorou até hoje, que era senhora de
+fortuna, como ainda não sabe do seu illustre nascimento: este mysterio, não
+póde ser já aclarado. Não se fatigue com perguntas, que não colhe mais
+esclarecimentos. V. Exc.<sup>a</sup> tem o direito de receber, querendo, o
+dote da snr.<sup>a</sup> D. Anna, garantindo-lh'o em bens seus. Para a
+recepção actual, sou eu o unico competente. Não peço mais documentos, nem dou
+a pessoa alguma o direito de duvidar da pontual entrega, que hei de fazer, do
+liquidado e recebido por mim.</p>
+
+<p>--Por hoje, não quero demoral-o mais... Conto que V. S.<sup>a</sup> não ha
+de recusar-se a dar-me, de futuro, quaesquer esclarecimentos...</p>
+
+<p>--Sempre ás ordens de V. Exc.<sup>a</sup>, para o que fôr do meu brio.</p>
+
+<p>Retirou-se Arthur Soares, e o mesmo foi que abrir-se um dique á torrente
+do odio represado no coração de Leopoldo. Ficou o leão rugindo no seu antro,
+prestes a cahir no abysmo cavado a seus pés pelo amor e pelo ciume.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[115]</span> </p>
+
+<h3>II<br>
+FIDALGUIA</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«É que ha uma fidalguia de alma que nem sempre falta ao que chegou por si
+á grandeza, assim como nem sempre vem aos que a herdaram de seus
+antepassados.» </p>
+
+<p class="direita">(<em>V. d'Almeida-Garrett</em>--<span
+class="smallcaps">Helena.</span>) </p>
+</div>
+
+<p>A chamada nobreza de sangue tem origem respeitavel.</p>
+
+<p>Os homens que defenderam e ajudaram a republica, consagrando-lhe todas as
+suas forças e haveres, quando o perigo era commum de todos,--foram nobres. Os
+homens que souberam fazer valer os direitos da nação, sendo leaes guardadores
+das immunidades patrias, e em longinquas e perigosas paragens, exposeram as
+suas vidas, em quanto muitos outros gosavam as delicias caseiras,--foram
+nobres. Os homens que, dados a serios estudos desde a mais tenra infancia,
+conseguiram nome e gloria para as nações <span class="pagenum">[116]</span> a que pertenciam,--foram
+nobres. Foram, e deviam sêl-o. Não lhes ficou barato o rôlo de papel--titulo
+de nobreza, porque o da fidalguia estava nos seus feitos--de que os
+descendentes, ainda hoje, e sempre, e com soberbas razões, se devem
+orgulhar.</p>
+
+<p>Por milagre de esforço, de perseverança, de audacia mesmo, se deve aos
+nobres de Portugal, o termos algum dia sido o povo mais forte e mais
+respeitado da Europa. Um Affonso de Albuquerque, o fundador do imperio
+portuguez no Oriente, aquelle que os adversarios chamaram <em>leão dos
+mares</em>, fôra bastante, por seus heroismos, a justificar entre nós o
+justissimo orgulho da nobreza de sangue; que, ainda assim, tem mais remotas e
+egualmente verdadeiras glorias a que soccorrer-se.</p>
+
+<p>Do natural desvanecimento dos que se gloriam de seus nobres antepassados,
+só a mesquinha inveja póde desdenhar. E muitos, e tantos, e de tamanho valor
+foram os nobres portuguezes, que não cabe n'este logar enumeral-os. E nem por
+isso elles ficam ignorados, que, a par dos heroes da espada, viveram os
+nobres d'outros feitos, os Camões, os Barros, os Coutos, os gigantes
+eternisadores das memoraveis façanhas de seus coevos, meritorios como elles,
+e como elles dedicados á grandeza da patria.</p>
+
+<p>Sabemos que á civilisação repugna a <em>conquista</em>, embora tenha de
+conformar-se com os <em>factos consummados</em>; mas quem ha que duvide da
+boa fé com que pelejaram os nossos velhos portuguezes? Religião e patria,
+eram os seus estimulos; e á prodigiosa força de tão poderosas ideias, se
+devem attribuir as suas heroicidades.</p>
+
+<p>Mas ser <em>nobre</em>, nem sempre quer dizer ser <em>fidalgo
+illustre</em>. <span class="pagenum">[117]</span> A nobreza póde ser herdada, e a fidalguia, as acções
+briosas, não. Para ser nobre bastam os pergaminhos; para ser fidalgo
+illustre, não se dispensam as virtudes proprias, os actos insignes, os
+meritos individuaes, e até, e quasi sempre, os auxilios da caprichosa
+natureza.</p>
+
+<p>Ha mais nobres do que fidalgos illustres, e ha illustres fidalgos, que não
+são nobres. É bom ser nobre; melhor é ser illustre fidalgo; e optimo, por sem
+duvida, é ser illustre e nobre fidalgo.</p>
+
+<p>Arthur Soares, era illustre. Gentil de corpo e sem mácula na alma, reunia
+em si todas as qualidades physicas e moraes, que fazem o homem distincto. O
+encargo de vigiar pela vida intima da que lhe fôra companheira na infancia,
+tomára-o elle de boa vontade, porque entendeu que o fim de Sebastião da
+Mesquita era proteger a mulher que julgára infelicitar com o forçado
+casamento. Tardára-lhe porém, a protecção, e levado pelos seus brios a tomar
+iniciativa propria, teve de inventar para Anna um nascimento e um dote.</p>
+
+<p>Ha mentiras salvadoras, que elevam tanto os que as sabem dizer, como os
+inventos tórpes malsinam os caracteres dos velhacos, que os engendram.
+Encobrir verdades que pódem fazer victimas, dar um sabor mysterioso a
+qualquer facto, determinar mesmo quaesquer circumstancias em sentido diverso
+do occorrido, para valer a infelizes sem prejuizo de terceiros,--são culpas
+venturosas de que só podem accusar-se as almas boas, e os espiritos
+elevados.</p>
+
+<p>Uma vez entrado no caminho de protector, resolveu Arthur Soares sahir
+d'elle pelo da dignidade, que não conhece obstaculos, porque os sacrificios
+alargam-lhe todas as verêdas. Estava obrigado voluntariamente, <span class="pagenum">[118]</span> e só
+pela sua palavra, é certo, mas por isso mesmo com obrigação completa, a
+entregar um dote á mulher de Leopoldo. A evidencia de um nascimento fidalgo,
+que tambem asseverára, menos cuidado lhe dava, porque ouvira a Sebastião da
+Mesquita affirmar o que elle repetira, e tinha toda a confiança no
+desempenho, mais ou menos tardio, da palavra do honrado velho. Além de que, o
+esclarecimento d'esta circumstancia, podia demorar-se, visto já ter lançado á
+imaginação de Leopoldo a existencia do mysterio: o essencial, o urgente, era
+o dote.</p>
+
+<p>Escreveu Arthur Soares outra carta a Sebastião da Mesquita,
+perguntando-lhe se recebera a primeira. Respondeu-lhe affirmativamente, e que
+havia tomado as suas importantes revelações na devida consideração. Esta
+resposta não aquietou o animo generoso do voluntario protector. Queria obras,
+e não palavras, que elle achou frias em caso de tanto brio. Resolveu proceder
+isoladamente, e com segredo.</p>
+
+<p>Obtida uma licença de alguns dias, dirigiu-se Arthur Soares á residencia
+de seu thio. Recebido pelo padre com a natural expansão de um affecto puro e
+vivo, n'elle depositou o segredo da promessa que o impressionava, e queria
+cumprir, pedindo-lhe conselho e favor. No fim da confidencia, ficou o padre
+mais ébrio de prazer do que se fôra elle o favorecido com o generoso
+compromisso de Arthur. Conduziu o mancebo ao pé de um velho movel, e
+disse-lhe: </p>
+
+<p>--Estão aqui as nossas economias: são uns vinte e tantos mil cruzados. É
+dinheiro de muitos annos guardado por tua mãe sem prejuiso dos pobres.
+Trabalhava noite e dia, a pobre martyr... Quando eu brandamente lhe observava
+que podia adoecer com <span class="pagenum">[119]</span> tão aturado labutar, respondia-me que Deus não
+havia de condemnar a ambição de mãe em converter as suas vigilias e o seu
+suor em dote para seu filho... Chegou á força de perseverança a poder
+commerciar em cereaes, principiando pelo mesquinho producto da roca... Como
+era boa a tua mãe, Arthur!... Já vês que não tenho parte n'essa accumulação
+de moedas, que te pertencem... Mas essa quantia, bastante notavel para nós, é
+ainda pequena para dotar a mulher de um rico nobre... Vamos já a Penafiel...
+Farei perante um tabellião o necessario documento, para que tu possas vender
+a raiz das propriedades, que foram de meus paes... A raiz só, porque o
+uso-fructo deve continuar a pertencer a uma infeliz familia, que lá está por
+disposição tua... De certo te não recordas já d'aquella tua
+<em>doação</em>... Eras muito criança ainda, mas com a indole que... que tu
+tens, meu Arthur!...</p>
+
+<p>Velho e moço, sentiram a commoção de duas almas iguaes, quando são
+abaladas por acções celestes, e confundiram n'um longo abraço os soluços e as
+lagrimas. O respeitavel e sagrado nome de--pae--foi proferido por Arthur
+Soares, saltando-lhe do coração á bôcca. O padre Alvaro, ouvindo chamar-se
+por aquelle nome, fez-se d'uma pallidez mortal, e balbuciou:</p>
+
+<p>--Obrigado meu filho, por teres pela primeira vez esse nome para mim!...
+Sou eu só a ouvil-o, e Deus, que sabe os meus remorsos, de certo me consente
+este innocente prazer... Obrigado!... Vejo, sinto que te não repugna o
+sacrilego... És bom, Arthur, meu filho adorado!... Crê que tenho soffrido
+muito!... E o maior, o mais terrivel do meu padecer, era o não poder
+chamar-te--filho--nem ouvir <span class="pagenum">[120]</span> de tua bôcca o dôce nome de--pae...
+Diz-me, meu querido Arthur, diz que não desdenhas, que não amaldiçôas o teu
+nascimento... Perdoa-me o haver-te privado da paternidade legal...</p>
+
+<p>--Perdoar-lhe?!... O quê, meu sempre amado pae?!... O ter-me dado esta
+alma, que é sua, e que me faz grande aos meus proprios olhos?!... O ter
+coberto a minha infancia e mocidade dos maiores e dos mais carinhosos
+extremos?!... O haver-me dado uma educação de fazer inveja aos mais poderosos
+da terra?!... O tornar amênos e felizes os dias da vida de minha santa
+mãe?!... O ter vertido lagrimas de sangue pela chamada culpa que me deu vida
+e felicidade?!... É isto tudo que eu tenho a perdoar-lhe, não é assim?... Oh!
+mas não sabe que o meu maior orgulho é o de ser seu filho?!... Que pae mais
+heroe, mais santo, mais martyr me podia dar o céu?!...</p>
+
+<p>--Basta, Arthur, que me pódes matar de alegria!.. Bemdicto sejas, meu Deus
+e meu Salvador! Bemdicto e louvado pela tua Misericordia com este indigno
+padre!...</p>
+
+<p>Deixemos o velho Alvaro nos braços de seu filho Arthur, nos momentos mais
+felizes da sua attribulada existencia, e vamos presenciar o que se passa no
+palacio de Sebastião da Mesquita.</p>
+
+<p>Estamos no salão onde tiveram logar as primeiras scenas d'este verdadeiro
+conto. Estão lá outros moveis de mais recente data, mas ainda se alli sente o
+respeito devido ao que é antigo e bello, porque foram salvas do incendio as
+reliquias de familia: São ainda os mesmos os quadros, os retratos, e os
+brasões. Sebastião da Mesquita está fallando com muita solemnidade a João
+Vidal:</p>
+
+<p><span class="pagenum">[121]</span> --É tempo de te fazer mui sérias e importantes revelações, João,
+que devem mudar completamente a tua posição social. Dir-te-hei tudo em poucas
+palavras: sou avêsso ás phrases de estylo em materias graves. Recebi-te em
+criança das mãos de uma santa abbadessa, que te salvou a vida criando-te
+dentro do seu convento. Conservei-te sempre ao meu lado, e dei-te, quando
+homem, a qualidade de escudeiro d'esta casa, tendo-te o carinho de pae,
+porque era impossivel, e prejudicial para ti, a revelação do teu nascimento.
+És filho bastardo de um nobre desnaturado, que sacrificou os seus brios ao
+dote da mulher, nobre tambem de pergaminhos, e villã de sentimentos. Agora
+que todo o perigo é passado, aqui tens os papeis, que provam o teu
+nascimento, e com elles recebe igualmente este dinheiro, e estes titulos, que
+tudo te foi legado pela religiosa tua salvadora, e tua thia-avó paterna, e
+depositado em minhas mãos para te ser entregue quando já não corresses o
+risco de ser perseguido, e talvez assassinado, pelos assalariados da mulher
+de teu pae. Ficas sabendo que és nobre, e na posse de dinheiro, e valores que
+orçam por cincoenta mil crusados, com a accumulação da parte rendivel. Fui
+máu administrador, porque deixei quieto e improductivo o dinheiro, que hoje
+podia estar treplicado; mas bem sabes que abomino todas as especulações, e
+que não sei commerciar. Antes que te surprehenda, com a leitura dos
+documentos que te entrego, a noticia de que és irmão de Leopoldo...</p>
+
+<p>--Eu, irmão de semelhante malvado!... Snr. Sebastião da Mesquita, meu amo
+e unico pae que me apraz reconhecer.... Peço a v. exc.<sup>a</sup> muito de
+mercê, que me continue a graça de o servir... Quero <span class="pagenum">[122]</span> considerar-me sem
+parentes conhecidos... Quero ser o filho adoptivo de v. exc.<sup>a</sup>, e o
+seu mais humilde criado...</p>
+
+<p>--É impossivel. Pódes, sim, continuar a viver na minha companhia, se o
+quizeres; mas na posse do que te pertence, e na qualidade de amigo, e não de
+criado da casa. Escusado é instares por outra solução, que esta é-me dictada
+pela honra. A ultima ordem que te dou é a de extinguires em ti o odio que
+tens a Leopoldo...</p>
+
+<p>--Mas, senhor...</p>
+
+<p>--Esqueceste, João, da inflexibilidade do meu caracter?... Terminou a
+nossa audiencia, que outros deveres não menos graves me chamam a attenção.
+Leva o que é teu, e faz-me o favor de dizer a minha mulher e a minha filha,
+que venham a esta sala... Manda tambem chamar Rosa.</p>
+
+<p>--V. exc.<sup>a</sup> bem sabe que a menina Rosa ha tempo que não vem ao
+palacio, e que parece soffrer bastante...</p>
+
+<p>--Sei. Digam-lhe que sou eu que a chamo, e quero-a aqui.</p>
+
+<p>Sebastião da Mesquita, logo que João Vidal se retirou, ficou entregue a
+uma desusada agitação nervosa, que n'elle era infallivel symptoma da
+gravidade do assumpto que o preoccupava. Durou-lhe a inquietação só até ao
+momento em que sentiu aproximar-se a familia que chamara. Logo que deram
+entrada na sala D. Isabel, D. Maria da Gloria, e Rosa, serenou o velho
+fidalgo, que as convidou a escutarem-n'o.</p>
+
+<p>--Dirijo-me a si em primeiro logar, Rosa, porque desejava saber os motivos
+da sua frieza com esta familia, que a estima devéras, e os que são causa de
+<span class="pagenum">[123]</span> um soffrimento que a sua indiscreta face revela... Tem a queixar-se
+de alguem d'esta casa?</p>
+
+<p>--Que pergunta, senhor!... Pois a planta parasita e inutil póde por
+ventura queixar-se dos cultivadores, que a querem tornar mimosa á força de
+cuidados e attenções?!...</p>
+
+<p>--Se a sua elegante resposta não encobre nenhum resentimento, porque é
+então que não frequenta esta casa como costumava?</p>
+
+<p>--A minha doença...</p>
+
+<p>--E como se chama a sua doença?...</p>
+
+<p>--Ainda não consultei a sciencia, e...</p>
+
+<p>--Receia que a consulta seja inutil... Guarde, pois, os seus segredos,
+Rosa, que não quer depositar no coração de um velho, talvez por considerar a
+velhice incapaz de os comprehender, e preste toda a sua attenção ao que vou
+dizer a minha mulher e a minha filha... Minha prima e estimada esposa, e
+minha presada Maria: desde muito que sabeis o interesse e affeição que voto a
+esta donzella, e áquella infeliz que obriguei a casar com um homem que
+detesto... Consenti-me que ainda vos occulte os motivos de honra, que a tanto
+me obrigam, e que um dia vos serão patentes... É urgente, e indispensavel,
+que a mulher do <em>rico fidalgo</em> e snr. Leopoldo tenha um dote capaz de
+suffocar na alma villã do marido o desprêso pela que foi obrigado a receber
+por sua legitima esposa... Para lhe dar esse dote necessito empenhar muito o
+teu patrimonio Maria, e a casa de v. exc.<sup>a</sup>, minha prima...</p>
+
+<p>--Para que me dá o primo parte das suas nobres acções?! Mereço-lhe que me
+suspeite capaz de ir de encontro a uma sua resolução, ainda que por ella
+fosse <span class="pagenum">[124]</span> levada á extrema miséria?... É injusto, senhor...</p>
+
+<p>--Deixe-me beijar-lhe a mão, minha santa prima!... Nunca duvidei dos
+nobilissimos sentimentos de V. Exc.<sup>a</sup>; mas cumpria-me consultal-a,
+e pedir-lhe auctorisação para o que tenho a fazer, e bem sabe que não sei
+faltar ao que devo a mim mesmo...</p>
+
+<p>--E eu, meu presado e respeitavel pae e senhor, tenho só a dizer a V.
+Exc.<sup>a</sup>, que me é inutil um dote, porque estou resolvida a morrer
+solteira, e...</p>
+
+<p>--Criança!... Não é preciso tamanho sacrificio... Vejo que entregas nas
+minhas mãos o teu futuro, e pódes estar certa de que ninguem o velaria melhor
+do que eu o farei... Temos de fazer uma séria reducção nas despezas, porque
+nos vae diminuir muito o rendimento. Possuia dinheiro e valores que
+entregaram á minha honra, e que acabo de restituir. Tenho, portanto, de
+vender bastantes propriedades... É custoso vêr passar a mãos alheias o que
+era de nossos avós; mas o dever primeiro que tudo... O que me diria, Rosa, se
+estivesse no logar de minha filha Maria?</p>
+
+<p>--Desejaria saber dizer a V. Exc.<sup>a</sup> as mesmas palavras que o coração dictou
+á minha querida mestra e senhora D. Maria da Gloria, porque são perfeitamente
+iguaes os meus sentimentos...</p>
+
+<p>--Agradeço a todas...</p>
+
+<p>Entrou precipitadamente na sala João Vidal, e Sebastião da Mesquita, um
+pouco enfadado, perguntou-lhe:</p>
+
+<p>--O que quer, João?... Parece que vem como portador de novas importantes,
+a dar valor ao modo porque se aproxima de nós, ao que traz nas mãos, e ao
+demudado da sua côr?...</p>
+
+<p><span class="pagenum">[125]</span> --É que, senhor, por mais indifferente que o dinheiro nos pareça
+ser, sempre sentimos algum estremecimento ao achar inesperadamente uma
+quantia importante... Os trabalhadores que andavam no pomar a compôr o muro,
+encontraram esta panella de ferro com o dinheiro que ella contém...
+Apressei-me a vir participar o acontecimento a V. Exc.<sup>a</sup>, e peço
+que me desculpe o interrompel-o?...</p>
+
+<p>--Deixe-me vêr a qualidade da moeda... Tenho visto, snr. João de
+Lencastre... Conheço este dinheiro, que passou do cofre em que lh'o dei, para
+a primeira panella que o João encontrou na cosinha... Foi pouco engenhoso na
+sua cavalheira mentira... Não sou facil de illudir; mas, em compensação, sou
+facilimo em perdoar acções como aquella que desejou praticar... Lembro-lhe,
+porém, João, que <em>só eu</em> tenho direito a regular as minhas
+generosidades, e que não posso acceitar favores d'essa ordem... nem mesmo do
+João... Minha esposa e minhas filhas: dou-lhes parte que João Vidal, o
+escudeiro, passou hoje á posse do seu verdadeiro nome, e da fortuna que lhe
+veiu por elle. É bastardo da casa dos Lencastres, irmão de Leopoldo, e o
+unico que ha de sustentar em todo o brilho a gloria de seus antepassados. É,
+pois, na qualidade de nosso parente, e intimo amigo, que occupa desde hoje o
+logar que n'esta casa está sempre vago para os homens de bem.</p>
+
+<p>--Agradeço de toda a alma a V. Exc.<sup>a</sup> a immensa honra que me
+concede, e que só condicionalmente acceitarei... Perdôe-me a arrogancia da
+phrase... foi dictada por V. Exc.<sup>a</sup> que me ensinou os deveres de
+cavalheiro...</p>
+
+<p>--Venham as condições!</p>
+
+<p><span class="pagenum">[126]</span> --É só uma: a de me consentir em ter parte na generosidade que vae
+praticar... Ouvi tudo... Quiz encobrir-lhe o meu desejo, e não pude, por que
+V. Exc.<sup>a</sup> descobriu a mentira, que eu inventei para bom fim...
+Acabou o constrangimento, senhor, e não tenho já receio de affirmar ao snr.
+Sebastião da Mesquita, que se me não permittir o que rogo, fugirei para muito
+longe, para onde me não possa chegar...</p>
+
+<p>--E que direito--disse Sebastião da Mesquita, interrompendo-o--é o seu
+para fazer um beneficio á senhora D. Anna?...</p>
+
+<p>--É a mulher de meu irmão, senhor!...</p>
+
+<p>João Vidal, pronunciou estas palavras com dignidade e consciencia tal, que
+as tres senhoras immediatamente estenderam as mãos ao ex-escudeiro.</p>
+
+<p>Sebastião da Mesquita levantou-se com toda a soberania, e disse:</p>
+
+<p>--Está terminada a conferencia... Ácerca do que pede, eu darei parte ao
+<em>primo</em> João do que resolver. <span class="pagenum">[127]</span></p>
+
+<h3>III<br>
+CIUME</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«................................<br>
+Invejo-te, Camões, o nome honroso,<br>
+Da Mente creadora o sacro lume,<br>
+Que exprime as furias de Liêo raivoso,<br>
+</p>
+
+<p>Os ais de Ignez, de Venus o queixume:<br>
+As pragas do Gigante procelloso,<br>
+O Céu de Amor, o Inferno do Ciume.» </p>
+
+<p class="direita">(<em>Manoel Maria de Barbosa du Bocage.</em>) </p>
+</div>
+
+<p>O ciume é, por sem duvida, a mais feroz e violenta das paixões, porque
+participa do amor e do odio, os mais agudos e incuraveis padecimentos do
+coração humano.</p>
+
+<p>Os modos de manifestar tão perigosa como prejudicial paixão, variam tanto
+quantos são os temperamentos, as indoles, e as educações das pessoas sujeitas
+ao ciume.</p>
+
+<p>O homem rude, que é brutal em suas expansões, não magôa mais, com seus
+castigos materiaes, a mulher que lhe faz sentir ciume, do que o burguez
+indinheirado, que ensina a consorte a decorar uma infinita taboada de
+favores, que lhe minguaram a burra. <span class="pagenum">[128]</span></p>
+
+<p>O homem educado, da boa sociedade e com escola das conveniencias sociaes,
+tambem não é o que menos faz sentir á pobre filha de Eva o castigo de sua
+egoista paixão. Com a mascara da mais requintada polidez, fere com gestos,
+com sorrisos gelados, com subtilesas, com allusões, com toda a sorte de
+estudadas torturas, que nem consentem á victima a desfórra de uma
+resposta.</p>
+
+<p>Fazemos distincção do ciume, dividindo-o em espiritual e material. O
+primeiro, o que procede da alma, não é selvagem nas suas consequencias, não
+escandalisa, e, sendo injusto, quasi sempre é debelado pela resignação e
+carinho da mulher, succedendo, algumas vezes, quando verdadeiro, conseguir a
+emenda e o arrependimento da culpada. O segundo, o que só tem origem nos
+sentidos corporaes, é arrebatado, não raciocina nem perdôa, sendo, por isso,
+sempre ruinoso e fatal.</p>
+
+<p>Leopoldo luctava com o ciume espiritual pelo verdadeiro amor a D. Maria da
+Gloria, e com o ciume material pela esposa, que não podia amar.</p>
+
+<p>Arthur Soares, por ser estimado pela fidalga donzella e conservar com D.
+Anna relações suspeitosas ao parecer do marido, tinha em Leopoldo um terrivel
+inimigo.</p>
+
+<p>Depois d'aquelle dia, em que foi encontrar a esposa conversando a sós com
+Arthur, o fidalgo militar soffria um verdadeiro tormento intimo, de que D.
+Anna era participante, por esses infinitos actos de calculada severidade, e
+de frieza, que fazem do homem polido um carrasco civilisado, e da mulher
+innocente, e que os atura, uma completa martyr.</p>
+
+<p>D. Anna, como não tivesse a mais pequena mácula <span class="pagenum">[129]</span> de que accusar-se,
+attribuia todos os maus tractos de seu marido, unicamente a ter elle sido
+forçado a recebel-a por esposa, sendo ella plebêa e pobre. A triste senhora
+procurava na leitura, quando as lagrimas a deixavam, lenitivo aos seus
+pesares, e dava preferencia á Biblia, esse formoso rei dos livros, e n'ella
+ás divinas parabulas, essas inimitaveis phrases do Christo, que alliviam a
+alma, e derramam o mais suave dos perfumes sobre os sentidos de quem lê, e
+sabe comprehender e crêr.</p>
+
+<p>Lia a contristada esposa o seu livro favorito na pagina que diz:</p>
+
+<p><br>
+«E chegavam-se a Jesus os fariseus tentando-o, e dizendo: É por ventura
+licito a um homem repudiar a sua mulher, por qualquer causa? Elle,
+respondendo-lhes disse: O que vos ordenou Moysés? Elles lhe responderam:
+Moysés mandou dar o homem a sua mulher carta de desquite, e repudial-a.
+Respondeu-lhes Jesus: Porque Moysés, pela dureza de vossos corações, vos
+permittiu repudiar a vossas mulheres; mas ao principio não foi assim. Não
+tendes lido, que quem creou o homem desde o principio, creou macho e femea, e
+que deixarão pae e mãe, e ajuntar-se-hão, e serão dois n'uma só carne, não
+sendo já dois, mas uma só carne? Não separe, logo o homem, o que Deus
+ajuntou.»</p>
+
+<p><br>
+Esta lei do Evangelho sobre a indissolubilidade do casamento, tornou
+pensativa a chorosa esposa, que pousou sobre os joelhos o sagrado livro,
+aberto na pagina que lêra, pendendo-lhe a cabeça para o seio. Era tal a
+preoccupação em que se achava, meditando, que não deu pela entrada do marido
+no seu quarto, <span class="pagenum">[130]</span> Leopoldo, que espiava todas as acções de sua mulher,
+vendo-a tão enleiada, aproximou-se-lhe mansamente, e leu, por cima do hombro
+da esposa, as palavras que deixamos transcriptas, e que finalisavam a pagina
+em que se liam: ensaiou um dos seus mais ironicos sorrisos, deu á voz um tom
+de tão meliflua quanto refalsada ternura, e, juntando a acção ás palavras,
+disse:</p>
+
+<p>--Virando esta pagina, minha cara esposa, talvez que encontre passagens de
+mais interesse... Não me enganei. Olhe, veja a continuação e conclusão das
+maximas, que tiveram o condão de a fazer ainda mais bella, levando-a a esse
+estado e posição elegante de heroina scismadora... «Eu, pois, vos declaro,
+que todo aquelle que repudiar a sua mulher, <em>se não é por causa de
+adultério</em>, e casar com outra, commette adulterio: e o que se casar com a
+que outro repudiou, commette adulterio: <em>E se a mulher deixa o seu marido
+e casa com outro, ella é «adultera.</em>»</p>
+
+<p>De certo comprehende bem o sentido d'estas palavras, principalmente
+d'aquellas que eu, ao lêr-lhe, sublinhei?</p>
+
+<p>--O primo, quasi me assustava, pelo não esperar agora aqui!... Se
+comprehendo o sentido do que me leu?!... Não sei o que quer que eu
+comprehenda?!...</p>
+
+<p>--Em primeiro logar, minha senhora e cara esposa, tomo a liberdade de lhe
+dizer que não me consta que haja entre nós parentesco algum...</p>
+
+<p>--Foi o meu esposo, e snr. Leopoldo, que determinou este tratamento entre
+nós...</p>
+
+<p>--Aconselhei-o, minha senhora, para as salas sómente, onde os
+<em>nobres</em> teem obrigação de saber guardar todas as
+<em>conveniencias</em>: mas, aqui, escusa a minha <span class="pagenum">[131]</span> estimavel esposa de
+usar de taes <em>constrangimentos</em>... Pelo que toca á comprehensão do que
+eu li, parece-me facilima, mórmente para o seu talento. Julgo que
+Jesus-Christo, com aquellas palavras, nos quiz dizer, que se não pécca
+repudiando a mulher <em>adultera</em>. Não lhe parece?...</p>
+
+<p>--Quem melhor do que o meu esposo, que é letrado, póde entender o que
+lê?... Mas quer-me parecer que n'outro logar d'este sagrado livro, o bom
+Jesus perdoou á adultera, que ia ser apedrejada, tendo antes provocado dos
+queixosos o que se considerasse sem culpas que fosse o primeiro a lançar a
+pedra... Não nos dirá tambem esta humanitaria e sublime parabula, que se
+Jesus-Christo não tinha como peccado o desprezo da adultera, via, comtudo,
+que os homens, mais fortes, e absolutos legisladores para os crimes do meu
+sexo, nem sempre procedem com justiça?</p>
+
+<p>--Imaginemos que é assim: apraz-me concordar com os seus
+<em>engenhosos</em> corollarios, minha senhora... Mas, como estamos em
+<em>amigavel</em> controversia, desejava ouvir a sua <em>esclarecida</em>
+opinião sobre a <em>igualdade</em> dos deveres... Parece-lhe que o
+<em>adulterio</em> é o <em>mesmo crime</em> da parte da mulher como da parte
+do homem?...</p>
+
+<p>--Não sei como responder-lhe, meu esposo e senhor... Nunca pensei
+detidamente na gravidade do crime de que fallamos; e, pesando agora a
+fealdade d'um tal delicto, julgo quasi impossivel que haja mulher
+voluntariamente adultera. Talvez que essas infelizes peccadoras sejam levadas
+a uma tal degradação pelo contínuo desprezo e ardua severidade dos maridos,
+pelos maus exemplos, e pelas aleivosas seducções <span class="pagenum">[132]</span> dos homens, que as
+conduzem á quéda, para as enlamearem em seguida...</p>
+
+<p>--Para quem não tem <em>pensado</em> no assumpto, desenvolve-o
+admiravelmente!... Dou á minha cara esposa <em>sinceros</em> emboras pelo bem
+que falla da materia... Devo comtudo observar-lhe, como em descardo da
+<em>letradice</em> com que ha pouco quiz honrar-me, que os <em>maus
+exemplos</em> do homem nunca podem lançar no leito nupcial um <em>pequenino
+ladrão</em>... A minha <em>intelligente</em> esposa comprehende-me bem, não é
+assim?</p>
+
+<p>--Se o comprehendo, senhor, devo tambem <em>observar-lhe</em> que os
+<em>maus exemplos</em> podem igualmente introduzir o mesmo <em>roubo</em> em
+alheios lares... Feliz a esposa que sabe resistir a todas as tentações,
+embora tenha de ganhar a palma do martyrio; mas bem mais feliz aquella que
+encontra no marido um guia, e natural protector, em vez d'um tyranno
+egoista.</p>
+
+<p>--Dou lhe palmas, minha <em>cara</em> esposa! Isso é que se chama saber
+defender o terreno pollegada a pollegada... Proclamo-a rainha das defensoras
+da reciprocidade do crime de adulterio entre os conjuges...</p>
+
+<p>N'esta altura do dialogo, que promettia mais serio azedume, foram
+interrompidos pela voz de uma criada, que annunciou a chegada, e a
+introducção, de Arthur Soares, na sala das visitas. A esta noticia foram
+differentes as sensações manifestadas pelos esposos. Leopoldo franziu a
+testa, e D. Anna mostrou na face o natural contentamento com que recebia a
+visita do seu companheiro de infancia, do seu protector e irmão
+adoptivo...</p>
+
+<p>--O seu rôsto, minha <em>boa</em> esposa, formosissimo, mesmo quando
+<em>v. exc.<sup>a</sup></em> se acha em perfeita tranquilidade de espirito,
+está agora explendido de brilhantismo, <span class="pagenum">[133]</span> pelo contentamento que
+manifesta com a noticia que nos deu a criada... Muito <em>feliz</em> é esse
+snr. Arthur Soares!...</p>
+
+<p>--Se a profunda estima de uma irmã, que não sabe ser ingrata, póde dar a
+felicidade, de certo que é feliz o meu companheiro de infancia, porque o sei
+presar como elle merece.</p>
+
+<p>--Hei-de vêr se consigo haver d'elle, por <em>um sério estudo</em>, o
+segredo de tanto se fazer <em>apreciar</em> das bellas... Vamos prestes ao
+seu encontro, que estou já ancioso por começar as minhas
+<em>experiencias</em>...</p>
+
+<p>D. Anna continuava a não comprehender os remoques do marido. A boa fé, e a
+innocencia, são quasi sempre ingenuas.</p>
+
+<p>Chegados á sala os dois esposos, foram cumprimentados por Arthur Soares,
+Leopoldo com polida frieza, e D. Anna com a expansão do <em>amor sem
+desejo</em>, que assim é definida a verdadeira amisade, ao que ella soube
+gentilmente corresponder, mau grado de seu marido, que principiava a
+manifestar, por contorsões nervosas, o inferno que lhe ralava o peito.</p>
+
+<p>--Venho dar contas a v. exc.<sup>a</sup>, e a seu illustre marido, do uso
+que fiz da auctorisação que me concedeu. Apenas consegui apurar trinta mil
+crusados, que entrego em papeis de bom credito, equivalentes a dinheiro de
+contado, e mais commodos no transporte. Com letigios, sempre impertinentes,
+incommodos e despendiosos, podia augmentar a cobrança; mas usando, e talvez
+que abusando um pouco, da auctorisação e da reconhecida bondade de v.
+exc.<sup>a</sup>, passei quitação geral do seu dote pela quantia que recebi e
+apresento... Digne-se o snr. Leopoldo examinar e contar... <span class="pagenum">[134]</span></p>
+
+<p>--Desculpe-me interrompel-o, snr. Arthur Soares. Eu não posso, nem quero,
+entrar no mysterio d'esse <em>dote</em> da minha <em>prima</em> e
+<em>cara</em> esposa. Creio possuir o necessario para vivermos com algum
+allivio, e nunca <em>esperei</em> receber quantia alguma de tal
+proveniencia... Se minha mulher <em>julgar digno</em> o receber esse
+dinheiro, receba-o muito embora, que eu nunca procurarei saber qual seja a
+sua applicação.</p>
+
+<p>--Não só a considero digna, mas até me parece obrigatoria a recepção.
+Diz-me o snr. Arthur Soares, que tenho um <em>dote</em>, que é meu,
+entrega-m'o, porque não hei-de recebel-o? Posso por ventura suspeitar que o
+meu companheiro de infancia, e bom irmão adoptivo, trouxesse a esta casa
+dinheiro meu de origem menos pura? Tambem não é de crer que haja quem se
+desaposse de <em>trinta mil crusados</em>, para fazer um beneficio gratuito.
+Além do que, se o meu esposo e senhor póde dispensar este dote; se eu mesma,
+por estar no gôso da munificencia de meu marido, não tenho immediata precisão
+d'elle, pódem de futuro existir outros interessados, os filhos, que não temos
+o direito de prejudicar. Acceito, e agradeço ao snr. Arthur Soares, o
+trabalho que teve para haver o meu dote.</p>
+
+<p>--Estou mais que pago do que fiz, pela certeza de ter prestado a v.
+exc.<sup>a</sup> um pequeno serviço.</p>
+
+<p>--«A snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e
+Abendanho!...»</p>
+
+<p>A este annuncio, que um escudeiro fez em devida fórma, ficaram como
+interdictos todos os actores da scena que descrevemos. São faceis de
+comprehender os motivos da interdicção, se o leitor tem attendido o «Conto
+portuguez». <span class="pagenum">[135]</span></p>
+
+<p>Sebastião da Mesquita resolveu enviar a D. Anna o seu dote por D. Maria da
+Gloria, e que esta fosse acompanhada por João de Lencastre: explicada a
+inopinada apparição, e deixando á capacidade do leitor o avaliar como seriam
+recebidos os recem-vindos, continuaremos a interrompida scena, em que figuram
+agora mais dous actores:</p>
+
+<p>--Antes de participar ao primo Leopoldo qual é a commissão de que venho
+encarregada por meu ex.<sup>mo</sup> pae e senhor, peço-lhe licença para
+apresentar-lhe o snr. João de...</p>
+
+<p>--Conheço <em>bastante</em>, minha querida prima e senhora, o seu
+escudeiro e fiel pagem, <em>que só poderia entrar n'esta casa, como
+entrou</em>, acompanhando a sua dona...</p>
+
+<p>--Engana-se v. exc.<sup>a</sup>, meu caro primo, quanto ao mister e aos
+direitos do meu apresentado. Este cavalheiro, que precisou de viver alguns
+annos sob o incognito, mais de amigo que de escudeiro da nossa casa, é
+bastardo da illustre progenie dos snrs. de Lencastre, reconhecido e dotado
+por uma sua thia avó paterna; é nosso primo e muito intimo amigo; é,
+finalmente, irmão de v. exc.<sup>a</sup>...</p>
+
+<p>--Não posso crêr que a minha apreciavel prima e snr.<sup>a</sup> D. Maria
+da Gloria, queira honrar-me com um gracejo d'essa ordem, e...</p>
+
+<p>--Quer provas? Aqui as tem... Depois de lêr ficam desterradas as suas
+duvidas, e atrevo-me a esperar do cavalheirismo de v. exc.<sup>a</sup>, que
+dará todas as mostras de fraternal estima ao meu nobre apresentado...</p>
+
+<p>--Não desejo só dever a esses pergaminhos a amizade de meu irmão... Embora
+por motivos justificados, <span class="pagenum">[136]</span> commetti um acto rude, e offereço-lhe a
+face, para applicar n'ella a pena de Talião...</p>
+
+<p>--Mais do que a essa humildade, que sei apreciar n'este momento, e tanto
+como aos laços de sangue que nos prendem, deve-se á vontade e nobreza de
+sentimentos da nossa querida prima e snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria, a
+espontaneidade com que o abraço, mano João!...</p>
+
+<p>--Agradeço ao primo Leopoldo a delicadeza e fidalguia do seu proceder.
+Agora, passo a remir-me da obrigação que recebi de meu exc.<sup>mo</sup> pae:
+faço-o mesmo em presença do snr. Arthur Soares, que pela muita amisade e
+consideração que todos lhe devemos, é estimado como pessoa de familia. O
+primo João, entregará ao primo Leopoldo, e á minha boa amiga e antiga
+discipula, um movel que contém setenta mil crusados, que tanto importa o dote
+d'esta excellente esposa, de que meu respeitavel pae estava de posse. Não foi
+entregue ha mais tempo, porque só agora se acabou de liquidar e receber...</p>
+
+<p>Um raio, que n'aquella occasião tivesse cahido na sala, não deixaria ficar
+mais assombrados Leopoldo, Arthur e D. Anna, do que ficaram ao ouvirem
+aquellas palavras de D. Maria da Gloria! Póde comprehender-se, mas não é
+descriptivel, a scena muda que entre elles teve logar. Arthur Soares, pelo
+auxilio de seu natural talento, e por um d'aquelles raros expedientes, que
+Deus concede repentinamente ás almas que o merecem, abrangeu a difficuldade
+da situação, e desembaraçou-a maravilhosamente:</p>
+
+<p>--É á snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria, que devo explicar o assombro em
+que ficaram estes felizes esposos, pela remessa que lhes faz meu illustre
+padrinho, <span class="pagenum">[137]</span> e senhor Sebastião da Mesquita, logo em seguida a outra de
+igual genero de que eu fui portador... Tudo se aclara com a narração da
+verdade, ficando eu apenas com a macula de imprudente, por me precipitar na
+entrega... O snr. Sebastião da Mesquita, havia-me encarregado da cobrança de
+varios creditos e dividas, exigindo-me a maior actividade, porque pertenciam,
+me disse elle, ao dote da snr.<sup>a</sup> D. Anna, que meu padrinho desejava
+entregar o mais breve possivel... O emprego do tempo n'essa cobrança, o
+desejo de prestar um serviço á minha companheira de infancia, e a necessidade
+de marchar immediatamente para a cidade do Porto, onde me chamam os deveres
+de voluntario da causa popular, tudo isto junto á irreflexão, que eu mesmo
+classifico de imprudencia, arrastou-me aqui, a fazer a entrega do por mim
+recebido, sem ter, como devia, uma prévia conferencia com o meu illustre
+mandatario, que, pelo que observo agora, desconfiou da minha actividade, e
+foi enviando o que já era em seu poder...</p>
+
+<p>--Deve ter sido assim, snr. Arthur Soares. E como meu excellente pae sabe
+guardar bem os seus segredos, não me confiou essa missão de que o
+encarregára... É grande a quantia pelo snr. Arthur recebida?</p>
+
+<p>--São, apenas, trinta mil cruzados.</p>
+
+<p>--Então, já a minha Annitas tem um dotesinho rasoavel... cem mil
+cruzados... É um pequeno regato, que pouco volume augmenta ao oceano que
+possue o marido, bem sei; mas que já chega para alfinetes, e para ter meia
+duzia de dias, cada anno, hospedada a sua mestra... Consente, primo Leopoldo,
+que eu seja, por algum tempo, hospeda de sua esposa?</p>
+
+<p>--A esse consentimento, é nossa prima D. Anna <span class="pagenum">[138]</span> que hade responder.
+Da parte que eu tenho n'esta casa, dispõe V. Exc.<sup>a</sup> como de cousa sua, que
+é... O que me parece descobrir na pergunta da minha querida prima D. Maria, é
+vontade de estar aqui só com a sua discipula; e eu sou obrigado, pelos meus
+deveres de militar da rainha, a senhora D. Maria II, a fazer-lhe a vontade,
+porque hoje mesmo devo retirar-me, para reunir-me ao exercito.</p>
+
+<p>--N'esse caso, mano Leopoldo, vamos todos até Guimarães, onde fiquei de
+encontrar-me com o snr. Sebastião da Mesquita... Acompanha-nos, snr. Arthur
+Soares?</p>
+
+<p>--Com todo o prazer, snr. João de Lencastre: não é grande a volta na
+jornada que tenho a fazer para a cidade do Porto, onde sou esperado na
+qualidade de soldado do governo supremo do reino...</p>
+
+<p>Para melhor intelligencia da scena que se deu após as narradas, e com que
+vamos fechar este capitulo, é necessario descrever as posições que occupavam
+na sala os differentes actores.</p>
+
+<p>D. Maria da Gloria e Arthur Soares, conversavam a meia voz no vão de uma
+das janellas de varanda, quasi no fim da sala, semi-occultos pelas cortinas,
+a bastante distancia das de mais pessoas. D. Anna, occupava, no meio da sala,
+um logar junto do precioso movel, onde movia maquinalmente alguns dos
+objectos que o adornavam. João Vidal, ou de Lencastre, estava sentado a um
+dos lados, folheando um album de pinturas; e Leopoldo, na extremidade da
+sala, opposta ao lado occupado por D. Maria e Arthur, conservava-se de pé,
+encostado ao pedestal de um magnifico relogio, com a cabeça levemente pousada
+sobre os dedos da mão esquerda. <span class="pagenum">[139]</span></p>
+
+<p>D. Maria da Gloria e Arthur Soares, estavam muito interessados no seu
+confidencial dialogo. A joven senhora, não acreditára na explicação, dada por
+Arthur, ácerca dos seus trinta mil cruzados, e apertava-o com raciocinios,
+que deviam leval-o, inevitavelmente, á confissão da verdade.</p>
+
+<p>D. Anna, reunia em sua mente as menores circumstancias de sua vida,
+avaliava os ultimos acontecimentos d'ella, e via, ainda que com pouca
+clareza, que estava sendo o alvo de generosidades extraordinarias.</p>
+
+<p>Leopoldo, só era dominado pelo ciume: reconhecia, mau grado seu, as
+vantagens moraes do seu rival, e tremia de intima raiva.</p>
+
+<p>João, o antigo escudeiro, e moderno fidalgo por bastardia, senhor de quasi
+todas as intrigas que agitavam os seus parentes e amigos, fingia prestar
+muita attenção ás paizagens que examinava, e não perdia um só dos movimentos
+dos que o cercavam.</p>
+
+<p>D. Maria triumphara, em fim, do seu docil adversario: obrigara-o a
+confessar o que fizera, e a pedir-lhe segredo para o seu brioso procedimento.
+A gentil e fidalga donzella, vendo realisadas as suas suspeitas, e abysmada
+na grandeza d'alma do seu idolo, apertou-lhe as mãos meigamente, e
+saltaram-lhe dos olhos lagrimas alegres. D. Anna, vira aquelles movimentos,
+preadivinhára o que se havia passado, chegou-se a elles, e exclamou, entre
+lagrimas de reconhecimento: «Meus bons amigos!» deixando em seguida cahir a
+cabeça no seio de D. Maria da Gloria.--Era bello aquelle grupo!</p>
+
+<p>Leopoldo, acompanhára aquellas expansões de gratidão com olhos ferinos. De
+repente, perdeu a côr, <span class="pagenum">[140]</span> sacudiu fortemente a cabeça, e dirigia-se, com
+passos mal seguros, ao grupo encantador. Não podemos calcular o que teria
+succedido, se aquella prêsa do ciume não fosse logo interrompida nos seus
+passos pelo irmão que, com o album aberto, lhe disse:</p>
+
+<p>--Tem bellissimas pinturas este album, mano Leopoldo... Esta, que parece
+ser o emblema do ciume, é realmente curiosa... Figura uma bella mulher com
+apparencia de inquietação, e ar de quem escuta... As suas roupas são da côr
+das ondas do mar: tem na mão direita um ramo de espinhos, e na esquerda um
+gallo... Mantém-se na attitude do desassocêgo e curiosidade, e a côr dos
+vestidos indica a perturbação da alma... O ramo de espinhos denota que os
+tormentos do ciume são acerbos e agudos, e o gallo é o symbolo da suspeita e
+vigilancia... É curioso, muito curioso!... O seu braço, mano Leopoldo, e
+vamos até á proxima saleta, onde quero fazer-lhe entrega do movel em que lhe
+fallou a snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria, e conversar em cousas de commum
+interesse...</p>
+
+<p>E sem dar occasião a evasivas, foi arrastando Leopoldo, que se deixou
+conduzir sem resistencia, já mais ou menos conscio do ridiculo de que o irmão
+o salvava. <span class="pagenum">[141]</span></p>
+
+<h3>IV<br>
+O BERÇO DA MONARCHIA</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«Querem alguns que seja esta villa o assento da cidade de Araduca, de que
+Ptolomeu faz menção; é porem incerta a conjectura, sendo certissima a sua
+veneranda antiguidade.»</p>
+
+<p class="direita">(<span class="smallcaps">O Panorama de 1867.</span>)</p>
+
+<p>«A antiga Guimarães foi fundada pelos gallo-celtas, quinhentos annos antes
+da éra christã.»</p>
+
+<p class="direita">(<span class="smallcaps">Padre Carvalho</span>)</p>
+
+<p>«As fabricas de cortumes produzem annualmente um valor superior a cento e
+cincoenta contos de reis. O commercio das linhas pannos de linho e ferragens,
+é importante, apesar de ter decahido depois do tratado de 1810 e da
+independencia do Brazil: todavia ninguem ainda hoje negará o incontestavel
+merecimento dos tecidos de linho adamascados, fabricados em Guimarães, que em
+duração e primor d'obra por certo que não tem rival. Calcula-se que os tres
+ultimos productos industriaes que apontamos, não rendem menos de oitenta
+contos de reis por anno. Os doces de fructas confeitados n'esta villa,
+renderam, no anno de 1835, seis contos de reis.»</p>
+
+<p class="direita">(<span class="smallcaps">Geographia de Urcullu.</span>)
+</p>
+</div>
+
+<p>Parece fóra de duvida, que esta bella povoação do Minho, elevada
+modernamente á cathegoria de cidade, teve, no seu começo, duas existencias
+distinctas, e muito separadas na ordem do tempo, ambas com o nome
+de--Guimarães--; se é que não serviu tambem de local á antiquissima cidade de
+Araduca, <span class="pagenum">[142]</span> como querem muitos e mui abalisados auctores.</p>
+
+<p>É Guimarães uma das terras heroicas de Portugal, por titulos
+honrosissimos. Mais do que ao facto de ter sido o berço do primeiro rei
+portuguez, o snr. D. Affonso Henriques, que após a gloria de ter fundado e
+consolidado o reino e a monarchia portugueza, morreu em geral opinião de
+santo, como é affirmado na chronica dos conegos regrantes de Santo Agostinho,
+e na terceira parte da Monarchia Lusitana; mais do que á contestada, ainda
+que muito auctorisada, versão de ter sido a patria do famoso Papa S.
+Damaso,<sup class="footnote"><a href="#fn8" name="lfn8">8</a></sup> que mereceu, ao sexto concilio de
+Constantinopla, o dar-lhe os nomes de--Diamante da Fé--; mais do que á justa
+fama de ser um povo notavelmente commercial e industrial; mais finalmente, do
+que á sua immensa riqueza,--deve Guimarães, o seu bom nome, aos feitos
+emprehendedores e gloriosos de um grande numero de seus filhos, na guerra,
+nas artes, <span class="pagenum">[143]</span> nas sciencias, em todos os ramos dos conhecimentos
+humanos, e á magnifica e incomparavel indole de todos elles, que sempre
+souberam reunir á bravura do leão a mansidão do cordeiro, á intrepidez a
+resignação, e ao uso da caridade a facilidade no perdão das injurias.</p>
+
+<p>Nomearemos alguns dos mais antigos e gloriosos nomes dos heroicos filhos
+de Guimarães:</p>
+
+<p>Gil Vicente, filho de Martim Vicente, o fundador do theatro portuguez, e
+distincto artista, que fez a Custodia de Belem.<sup
+class="footnote"><a href="#fn9" name="lfn9">9</a></sup></p>
+
+<p>Pedro Alves, artista de notavel merecimento, que, com mais outros
+contemporaneos seus, tornou florescente a ourivesaria de Guimarães, pelos
+annos de mil quatro centos e cincoenta a mil quatro centos e oitenta.</p>
+
+<p>João Gonçalves, mais conhecido pelo nome de <em>Engenhoso</em>, o
+introductor do serrilhado na moeda. <span class="pagenum">[144]</span></p>
+
+<p>Payo Galvão, filho unico de Pedro Galvão e de sua mulher D. Maria Paes;
+entrou em tenra idade no convento de Santa Marinha da Costa, no anno de 1178;
+enviado á Universidade de Paris, recebeu lá o grao de mestre de theologia.
+Regressando ao seu convento e mosteiro da Costa, foi elevado á dignidade de
+mestre-escóla da real collegiada. El Rei D. Sancho I, o nomeou, em 1198, seu
+embaixador em Roma, onde foi muito estimado pelo Papa Innocencio III, que o
+fez seu vice-cancellario, poucos mezes depois da sua chegada: cardeal
+diacono, no anno de 1206; presbytero cardeal de Santa Cecilia, no anno de
+1211; e bispo Albanense, no anno de 1215. Completou, este douto varão
+vimaranense, a sua gloriosa carreira, acompanhando, na qualidade de
+seu--legado apostolico--, o general João Breno, á conquista de Jerusalem,
+enviado pelo Pontifice Honorio III.</p>
+
+<p>O doutor Gaspar de Carvalho, que foi chanceller <span class="pagenum">[145]</span> mór do reino, do
+conselho de El-Rei D. João III, e tambem seu embaixador e testamenteiro.</p>
+
+<p>O doutor Balthasar de Azevedo, que foi desembargador da supplicação.</p>
+
+<p>O padre fr. Paulo do Valle, da ordem de S. Bento, que foi mestre de
+theologia na Universidade de Coimbra.</p>
+
+<p>O doutor Diogo Lopes de Carvalho, senhor dos coutos de Abadim e Negrellos,
+que foi môço fidalgo da casa de El-Rei, e seu desembargador do Paço.</p>
+
+<p>O doutor Gonçalo Dias de Carvalho, o primeiro legista portuguez, que
+começou a estudar em Guimarães, no Mosteiro de Santa Marinha da Costa, de
+frades Jeronymos. Foi o primeiro doutor que na Universidade de Coimbra tomou
+capêllo, e foi desembargador dos aggravos, e deputado da meza da
+consciencia.</p>
+
+<p>O doutor Balthasar Vieira, môço fidalgo da casa d'El-Rei, que foi
+corregedor da côrte.</p>
+
+<p>O licenciado Manoel Barbosa, que escreveu com muito conhecimento sobre a
+ordenação, que foi distincto antiquario e genealogista dos de mais
+credito.</p>
+
+<p>O insigne doutor Agostinho Barbosa, filho do precedente, que foi bispo de
+Cisgento, e publicou obras utilissimas, apreciadas dentro e fóra do paiz.</p>
+
+<p>O doutor Simão Vaz Barbosa, filho tambem do jurisconsulto Manoel Barbosa,
+que foi mestre em artes, e escreveu o seu livro do <em>Axioma</em>.</p>
+
+<p>O doutor Antonio Pereira Cardote, que teve a gloria de vêr adoptada, pela
+Universidade de Salamanca, a doutrina que ensinou na Universidade de Coimbra.
+Dizem os mais auctorisados, quanto imparciaes, chronistas, <em>que se a villa
+de Guimarães não tivera dado de si outro parto, bastava este sujeito para o
+seu maior credito</em>. <span class="pagenum">[146]</span></p>
+
+<p>O padre fr. Antonio da Luz, religioso de S. Bento, insigne theologo, e
+lente na Universidade de Coimbra.</p>
+
+<p>O padre mestre, fr. José de Oliveira, religioso dos eremitas de Santo
+Agostinho, lente de theologia em Coimbra, e feito bispo de Angola, por El-Rei
+D. Pedro II.</p>
+
+<p>O doutor Gaspar de Abreu de Freitas, commendador da Ordem de Christo,
+desembargador e conselheiro da fazenda, môço fidalgo da casa de El-Rei, e seu
+enviado a Hollanda, Inglaterra, e Roma.</p>
+
+<p>O desembargador João de Guimarães, embaixador duas vezes á Suecia,
+Inglaterra, e Hollanda, moço fidalgo, commendador de capa-rosa, na ordem de
+Christo, e deputado da Mesa da consciencia.</p>
+
+<p>O doutor João de Gouvêa da Rocha, desembargador na relação do Porto, na
+dos aggravos, em Lisboa, e no Paço, moço fidalgo, e cavalleiro professo de
+habito de Christo.</p>
+
+<p>O doutor Pedro da Rocha de Gouvêa, irmão do precedente, desembargador do
+Brazil, e depois da supplicação, e cavalleiro da ordem de Christo.</p>
+
+<p>O doutor José Peixoto de Azevedo, desembargador dos aggravos, em
+Lisboa.</p>
+
+<p>O doutor Jeronymo Vaz Vieira, juiz das ordens militares, deputado da mesa
+da consciencia, desembargador dos aggravos, juiz da corôa, e desembargador do
+Paço.</p>
+
+<p>D. Gabriel da Annunciação, conego de S. João Evangelista, que foi bispo de
+Annel, do arcebispado de Evora. <span class="pagenum">[147]</span></p>
+
+<p>D. Manoel Affonso da Guerra, que foi bispo de Cabo-Verde.</p>
+
+<p>O doutor Pedro de Sousa, que foi lente de Vespora.</p>
+
+<p>O doutor Christovão de Azevedo, fisico-mór do reino.</p>
+
+<p>O doutor Francisco Cibrão, medico notavel, e muito conhecido e apreciado
+em Lisboa.</p>
+
+<p>Manoel Gonçalves, o trovador, morador no <em>burgo</em> da rua de Couros,
+que foi o primeiro homem que n'este reino fez trovas.</p>
+
+<p>Manoel Thomaz, que compoz a noticia das guerras d'entre Douro e Minho, em
+<em>oitava rima</em>.</p>
+
+<p>Manoel de Faria e Sousa, homem que se fez conhecido e admirado, dentro e
+fóra do paiz, pelo acerto, erudição e credito de suas obras, em que se
+mostrou profundo conhecedor, não só das antiguidades de Portugal, como tambem
+da Africa, Asia, e America. Foi sepultado no Mosteiro de Pombeiro, ao pé do
+magestoso tumulo de D. João de Mello e Sampaio, antigo commendatario
+d'aquelle Mosteiro.</p>
+
+<p>Martim Ferreira, que salvou Guimarães do sitio que tentava pôr-lhe o
+exercito castelhano, alojado na <em>veiga das favas</em>; e que, por uma
+cutilada que então recebeu no rôsto, ficou appellidado--o Martim Narizes.</p>
+
+<p>Manoel Machado de Miranda, senhor do <em>casal dos Cavalleiros</em>, e
+residente no seu <em>palacio do arco</em>, na rua de Santa Maria, poderoso
+fidalgo, que prestou assignalados serviços ao rei e ao reino, obrigando seus
+filhos a continual-os.</p>
+
+<p>Manoel Machado, filho do precedente, que morreu em uma batalha naval
+pelejada com os turcos. <span class="pagenum">[148]</span></p>
+
+<p>Francisco Machado, irmão d'aquelle, que morreu na India, no posto de
+capitão de infanteria, batalhando pela patria.</p>
+
+<p>Fr. Gualter Machado, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na
+religião de João de Rodes, que perdeu a vida em um assalto contra os
+turcos.</p>
+
+<p>Fr. Martim Pereira d'Eça, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na
+religião de João de Rodes, que, depois de ter batalhado com notavel valentia
+ao lado de seus irmãos, regressou ao reino, que encontrou em guerras contra
+Castella, e logo tomou as armas em defeza da patria, sendo mestre de campo de
+um <em>terço de volantes</em>, e capitão duma <em>companhia de cavallos com o
+titulo de couraças</em>. Celebradas as pazes entre os dous reinos, entrou o
+guerreiro em mais brandas, fadigas: foi occupado em visitador das commendas
+da sua religião, d'onde passou a recebedor d'ellas; e, estando n'esta
+occupação, foi, por algum tempo, governador do priorado do Crato. Foi tambem
+commendador de Torres Vedras, e de S. João da Carvoeira.</p>
+
+<p>João Machado d'Eça, irmão dos precedentes, que serviu importantes cargos
+no Alemtejo.</p>
+
+<p>Gregorio Ferreira d'Eça, irmão dos precedentes, que foi capitão-mór de
+Guimarães, e governador de sua comarca, militar valente, fidalgo da casa
+d'El-Rei, e cavalleiro professo do habito de Christo.</p>
+
+<p>Pedro Alvares de Almada, cavalleiro valeroso, possuidor do morgado e cazas
+do <em>Rocio da Tulha</em>, que, depois de ter batalhado n'este reino e no de
+Hespanha, passou a servir El-Rei Henrique de Inglaterra nas guerras contra os
+mouros; e taes valentias praticou, que mereceu a este rei um alvará, (datado
+de <span class="pagenum">[149]</span> 2 de março de 1501) «<em>em que lhe entregou, e livremente doou,
+parte determinada de suas armas reaes, a saber: ametade de uma flôr de Lyrio
+de ouro, e ametade de uma rosa vermelha, em campo dividido em duas partes, e
+em duas côres, como é, de uma parte de verde, e da outra de prata; para que
+elle, e todos os seus descendentes, e parentes, assim conjunctos por sangue,
+ou affeniedade, possam usar das mesmas armas segura e livremente, aonde cada
+um quizer, assim como se forem suas proprias armas.</em>»</p>
+
+<p>Fernão da Mesquita, chamado--o velho--, possuidor da <em>casa da rua da
+Infesta, com sua capella de Nossa Senhora da Graça</em>, que acompanhou, com
+grande dispendio de sua fazenda, ao duque de Bragança, D. Jaymes, na tomada
+de Azamôr, no anno de 1513, partindo depois para a India, onde fez as suas
+proezas, que se lêem na Chronica d'El-Rei D. Manoel, cap. 46.</p>
+
+<p>Ruy Mendes da Mesquita, filho do precedente, que acompanhou o infante D.
+Luiz, filho d'El-Rei D. Manoel, á tomada de Tunes, passando depois tambem á
+India, onde, por seus valorosos feitos, honrou as cinzas de seu pae, honrando
+a patria.</p>
+
+<p>Fernão da Mesquita e Lima, o Novo, filho do precedente, que, aos 18 annos
+de idade, ganhou na guerra de Tangere, uma commenda da ordem de Christo, e,
+dous annos depois, foi capitão mór da Costa.</p>
+
+<p>Diogo Lopes da Mesquita, irmão do precedente, que foi intrepido capitão da
+fortaleza de Maluco, na India.</p>
+
+<p>Miguel Lopes da Mesquita, filho do precedente, e digno imitador do valor e
+virtudes da familia dos Mesquitas de Guimarães, que teve a honra de hospedar,
+<span class="pagenum">[150]</span> na sua casa da rua da Infesta, o infante D. Luiz, filho de El-Rei D.
+Manoel, em agosto de 1548.</p>
+
+<p>Diogo da Mesquita, outro filho de Fernão da Mesquita, o velho, <em>que,
+melhor que todos, realçou e eternisou</em> seu nome. Foi mandado pelo
+viso-rei da India, Nuno da Cunha, por embaixador a um rei mouro; e, sendo
+captivo do rei de Cambaya, por não querer renegar a sua fé, e a sua patria,
+<em>foi posto na bocca d'uma peça de artilheria</em>, sem que um tal apparato
+o amedrontasse; e, porque só o quizessem intimidar, e não matar, o pozeram a
+resgate, e resgatado foi, <em>por subido preço</em>. Vingou suas affrontas,
+matando, em combate, o rei de Cambaya, <em>que era senhor de tres
+reinos</em>; e por este feito se accrescentaram ás suas armas <em>tres corôas
+e um alfange</em>, como diz Diogo do Couto, na decada 4.<sup>a</sup>, livro
+4.º, capitulo 9.º</p>
+
+<p>Manoel da Mesquita, filho do precedente, que foi capitão da fortaleza de
+Chacel, na India.</p>
+
+<p>Fernão da Mesquita, irmão do precedente, que serviu nas Armadas, no tempo
+d'El-Rei D. Sebastião.</p>
+
+<p>Antonio Pereira da Silva, fidalgo da casa d'El-Rei, <em>morgado rico, e
+possuidor de casas nobres na rua de Santa Maria</em>, que acompanhou El-Rei
+D. Sebastião á batalha de Alcacer Quibir, onde foi captivo. Resgatado,
+embarcou para a India, e serviu como bom cavalleiro, na guerra contra os
+turcos.</p>
+
+<p>Salvador Pereira da Silva, filho natural do precedente, que foi mestre de
+campo em Ceilão, sendo general D. Jeronymo d'Azevedo; e depois foi capitão
+mór da Armada, que foi ao cerco de Malaga.</p>
+
+<p>Antonio Peixoto de Carvalho, moço fidalgo da casa d'El-Rei, morgado da
+Pousada, <em>com suas casas</em> <span class="pagenum">[151]</span> <em>na rua do Val de Donas</em>, que
+serviu na guerra da India, <em>contra os infiéis</em>, onde acabou a vida.</p>
+
+<p>João Vasques Peixoto, irmão do precedente, ao qual fez doação do morgado,
+que tomou o habito de S. João de Rodes, e mostrou seu valor nas guerras de
+Malta, sendo feito commendador da sua ordem.</p>
+
+<p>João de Sousa Alcoforado, moço fidalgo da casa d'El-Rei, <em>que deixou
+mulher, e filhos, e o morgado e casa de Villa Pouca</em>, para servir a
+patria, nas guerras da India, levando em sua companhia dous de seus filhos,
+Manoel de Sousa da Silva, e Francisco de Sousa Alcoforado.</p>
+
+<p>Simão Rebello de Valadares, que embarcou para a India sem licença de seu
+pae, João Valadares, residente na rua de Santa Maria, e foi um dos mais
+valentes soldados do seu tempo. Morreu juncto da muralha de Ceilão,
+ficando-lhe, na escalada, os braços dentro da muralha.</p>
+
+<p>João Martins, Annadel mór dos espingardeiros de Guimarães, senhor do
+morgado do Pinheiro, que deixou mulher e filhos, fretou uma náu á sua custa,
+e mettendo-se n'ella, <em>com gente e armas tambem suas</em>, acompanhado de
+seu irmão Fernão Martins, se offereceu a El-Rei D. Affonso V, para o seguir
+na viagem que fazia a Azamôr. Por seus valerosos serviços, mereceram estes
+dois irmãos, <em>grandes mercês e honras</em>.</p>
+
+<p>Pedro Coelho, da rua de Santa Maria, que acompanhou El-rei D. Sebastião á
+Africa. Ficou captivo, e foi escravo <em>de dous senhores</em>. Resgatado,
+<em>com muito trabalho e dispendio de sua fazenda</em>, foi cavalleiro
+professo do habito de Christo.</p>
+
+<p>Salvador da Costa e Almada, morador na <em>rua Nova do Muro</em>, embarcou
+para a India, onde foi <em>cabo de</em> <span class="pagenum">[152]</span> <em>tres fustas</em>, que o
+governador, Mathias de Albuquerque, mandou á costa de Ceilão.</p>
+
+<p>Gregorio da Costa do Valle, tambem da rua Nova do Muro, thio do
+precedente, que foi capitão da Costa, por El-Rei D. Manoel, e morreu na
+India, pelejando com grande valor contra os turcos.</p>
+
+<p>Gaspar Leite Pereira, da rua do <em>Cano das Gasas</em>, que embarcou para
+a India no anno de 1559, e, por seu valor, foi provido no cargo <em>de
+Tanaydar e Manorá, nas terras de Baçaim</em>. Foi depois mandado, por El-Rei
+D. Sebastião, á costa de Guiné, por capitão do navio--S. Nicolau--.</p>
+
+<p>Antonio Leite d'Azevedo, sobrinho do precedente, que tambem, na India,
+mostrou o seu valor, como diz <em>A vida do irmão Pedro de Basto</em>, liv.
+2.º cap. 13.º</p>
+
+<p>Gonçalo Paes de Meira, da rua de Santa Barbara, que acompanhou Martim
+Ferreira na façanha da <em>Veiga das favas</em>, onde foi desbaratado o
+exercito de D. Henrique 2.º, de Castella, que tentava pôr cêrco a
+Guimarães; causando, por outra vez, em 1371, ao mesmo rei, graves desgostos,
+porque elle, e seus dois filhos, Estevão Gonçalves de Meira, e Fernão
+Gonçalves de Meira, acompanhados de quarenta cavalleiros, obrigaram o rei de
+Castella a levantar o cêrco.</p>
+
+<p>Affonso Lourenço de Carvalho, que, estando de posse de Guimarães o rei de
+Castella D. João 1.º, serviu, <em>por sua traça</em>, de poderoso
+instrumento á conquista que d'ella fez El-Rei D. João I de Portugal. Foi o
+caso, que estando El-Rei de Portugal, com o seu exercito, <em>na ponte do
+Sueiro, juncto á ponte de Servas</em>, Affonso Lourenço de Carvalho lhe deu
+parte, que conseguira do porteiro e guarda da <em>porta do postigo</em>, que
+esta lhe abrisse, para elle metter em sua casa uma <span class="pagenum">[153]</span> cuba em um carro;
+e, aproveitando El-Rei o aviso, entrou por alli, <em>com trezentos de
+cavallo</em>, ficando senhor de Guimarães, depois de combate.</p>
+
+<p>Manoel de Valadares Vieira, que foi dos primeiros soldados filhos de
+Guimarães, que, na provincia de entre Douro e Minho, assentou praça, deixando
+o interesse de seu morgado, de que era unico herdeiro, para servir na feliz
+acclamação de D. João 4.º. Foi capitão e sargento mór de
+infanteria, e governador da praça de Monte Alegre.</p>
+
+<p>André Pinto Barboza, que militou n'este reino e no Brazil, chegando a
+mestre de campo e governador da praça de Miranda, e provedor mór de
+Pernambuco.</p>
+
+<p>Francisco de Meira Peixoto, que serviu em duas armadas, occupando tambem o
+posto de capitão de infanteria.</p>
+
+<p>João Leite de Oliveira, que deixou a agricultura, que exercitava na sua
+quinta <em>de Pombeiro</em>, para se alistar <em>na milicia de Flandes</em>,
+onde, por seu valor, mereceu o posto de capitão, morrendo, no de general de
+artilheria, com grande nome e fama.</p>
+
+<p>Sebastião Salgado de Faria, que, <em>na guerra de Flandes</em> foi <em>um
+dos capitães de cavallo de couraças</em> com melhor nome no exercito.</p>
+
+<p>Jeronymo de Figueiredo, que, nas guerras com os castelhanos, chegou ao
+posto de <em>tenente de mestre de campo general</em>.</p>
+
+<p>Dionisio da Cunha, que foi valente capitão de infanteria.</p>
+
+<p>Pedro Coelho de Miranda, que foi capitão dos <em>privilegiados de Nossa
+Senhora da Oliveira</em>.</p>
+
+<p>João Botelho Leite, que foi capitão de infanteria, <span class="pagenum">[154]</span> e um dos que
+promoveram a feliz acclamação de D. João IV.</p>
+
+<p>João Rebello Leite, filho do precedente, que, no <em>primeiro rebate que
+em seguida á feliz acclamação, os gallegos deram</em> na fronteira do Minho,
+foi prisioneiro e levado, <em>com oito feridas</em>, ao castello de
+Compostella, d'onde, após dezoito mezes de prisão, fez <em>uma fugida
+valorosa</em>, chegando depois a mestre de campo, e, <em>com lastimosa
+desgraça, morreu de veneno</em>.</p>
+
+<p>João Machado de Miranda, que, deixando em serviço da patria os bens em que
+succedia, militou com grande valor, chegando ao posto de mestre de campo de
+infanteria, <em>e de cavallos</em>; e, indo a Santarem <em>reformar o seu
+terço, foi captivo da morte por um reparado manjar, que lhe serviu a sua
+mulata</em>.</p>
+
+<p>Fernão Ferreira da Maia; José Peixoto de Sousa; Francisco de Macedo; João
+Barroso de Azevedo; Jacintho Leite Pereira; André de Sousa Homem; José
+Machado Pinto, e Manoel Velho do Couto, que todos occuparam postos de
+<em>capitães volantes</em>, no exercito da provincia do Minho.</p>
+
+<p>Diogo de Freitas, que foi capitão de infanteria.</p>
+
+<p>Antonio Paes do Amaral, cavalleiro do habito de Christo, e <em>ajudante de
+cavallaria</em>.</p>
+
+<p>Antonio de Andrade e Valle, que foi <em>ajudante de Infanteria</em>.</p>
+
+<p>João de Sousa e Lima, que foi <em>alferes do mestre</em> de campo de
+infanteria.</p>
+
+<p>Paschoal da Costa, que foi capitão de infanteria.</p>
+
+<p>Francisco Machado de Miranda, que foi capitão de infanteria; e Antonio de
+Barros, que foi <em>capitão de volantes</em>.</p>
+
+<p>Esta lista seria infinda, se continuassemos a esgravatar <span class="pagenum">[155]</span> nas
+gloriosissimas antiguidades d'este nosso Portugal, e aproveitassemos tudo,
+que respeita a Guimarães.</p>
+
+<p>E não é só ao sexo forte, que o berço da monarchia deve o seu nome famoso:
+foi distinctissima vimaranense, entre outras de menor fama, Joanna Michaella,
+filha de Pedro Machado e Dionizia de Macedo, e esposa do tenente coronel de
+cavallaria Antonio Mendes de Brito. Era perfeita no conhecimento e uso da
+lingua materna, e sabia latim, italiano, grego e chinez: estudou philosophia,
+theologia, mathematica, astrologia, e musica; chegando a ser classificada
+como uma das senhoras portuguezas mais eruditas do seu seculo.</p>
+
+<p>Foram, pois, justificadamente merecidas as immensas honras, privilegios e
+isempções, que os senhores reis d'este reino concederam aos moradores de
+Guimarães, como não tiveram por certo, nenhuns outros do paiz; e da mesma
+fórma, de toda a razão é o nobre orgulho, que ainda hoje sustenta a briosa
+raça de tão heroico povo.</p>
+
+<p>E não resistimos ao estimulo de notar aqui meia duzia de nomes, que, na
+actualidade, provam não ter degenerado aquelle sangue portuguez, tão
+admiravelmente fertil.</p>
+
+<p>Contamos com a benevolencia dos cavalheiros, por nós apontados, para que
+nos relevem o não lhes respeitarmos a modestia em preito á verdade; como
+esperamos desculpa das capacidades, que, involuntariamente, esqueçamos de
+nomear.</p>
+
+<p>É natural de Guimarães, o snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho, residente
+hoje na cidade do Porto, notavel curioso de obras de prata e de marfim, e
+celebre <span class="pagenum">[156]</span> artista gravador de medalhas, algumas das quaes teem sido
+admiradas dentro e fóra do paiz.<sup class="footnote"><a href="#fn10" name="lfn10">10</a></sup></p>
+
+<p>Nasceu tambem aqui o apreciavel rabequista, e maestro, Francisco de Sá
+Noronha, que, nas suas viagens, se tem feito admirar em quasi toda a Europa,
+recebendo honras, e condecorações de alguns monarchas.<sup
+class="footnote"><a href="#fn11" name="lfn11">11</a></sup></p>
+
+<p>É distincto, em equitação, e talvez se possa chamar o primeiro cavalleiro
+peninsular, o snr. José Martins Minotes.</p>
+
+<p>São profundos jurisconsultos, e como taes conhecidos em todo o reino, os
+senhores doutores Bento Antonio d'Oliveira Cardoso, e Antonio Leite de
+Castro.</p>
+
+<p>É mimoso poeta e dramaturgo, o senhor doutor Antonio d'Oliveira
+Cardoso.</p>
+
+<p>Tem logar conhecido entre os amadores das boas Lettras, o snr. doutor
+Francisco de Moraes Sarmento, apreciado já, nas suas obras, pelo nosso bom e
+fecundo romancista, o snr. Camillo Castello Branco.</p>
+
+<p>Os que hoje representam os antigos fidalgos do «Berço da Monarchia», são
+todos pessoas estimaveis, <span class="pagenum">[157]</span> caritativas, e uteis. Não existe aqui, onde
+a nobreza é verdadeira, esses enfatuamentos condemnaveis, que só prejudicam
+seus donos. Na casa do mais distincto cidadão vimaranense, tem facil entrada,
+e bom acolhimento, toda a pessoa que lhe bate á porta por mais humilde que
+seja. É tambem por isto, que a nobreza vimaranense, hoje como sempre, é por
+todos respeitada.</p>
+
+<p>Peza a louza do sepulchro sobre as cinzas de tres condes, que, por sua
+popularidade, e importantes cargos que exerceram, deixaram no seu paiz
+honrosa memoria.</p>
+
+<p>Tudo que dizemos, e muito mais que, em verdade, poderiamos dizer de
+Guimarães, tem desafiado a critica mordaz <em>dos fortes espiritos</em> do
+seculo, que a chamam <em>terra retrógrada</em>.</p>
+
+<p>É certo, que o progresso material não tem entrado aqui, com a velocidade
+que fôra para desejar; mas nem por isso deixam de ser plenamente satisfeitas
+todas as necessidades da vida. E a cada passo vemos, para comprovar a bondade
+da terra, adoptarem Guimarães, por sua patria, muitos estrangeiros, que
+n'ella encontram estimação.</p>
+
+<p>Conservam-se, é tambem certo, alguns costumes de velhas datas; mas n'estes
+uzos, que os modernistas condemnam, sem bem os avaliarem, ha um certo sabôr
+de patriotismo, que satisfaz, e deleita, aos que não trocam o que foi bom, no
+passado, pelo que é, muitas vezes, futil, e mau no presente.</p>
+
+<p>O auctor d'estas Linhas, para que o não acoimem de suspeito, declara que
+nasceu na cidade do Porto. <span class="pagenum">[158]</span></p>
+
+<p>Fugimos um pouco do principal fim do nosso «conto», chamando os leitores
+para o local da acção, em que elle vae continuar, nos seguintes capitulos;
+mas d'este desvio se podem esquivar os mais exigentes, passando em claro as
+noticias vimaranenses, que damos por concluidas. </p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn8" name="fn8">8</a></sup> Portugal deu á cadeira de S. Pedro dois
+naturaes seus: S. Damaso, de Guimarães, e Pedro Hispano, natural de Lisboa,
+freguezia de S. Julião, que por pouco tempo gosou as honras do pontificado,
+por morrer de um desastre no sumptuoso palacio, que mandou construir em
+Viterbo. S. Damaso foi o 39.º na serie dos pontifices romanos:
+foi-lhe disputada a eleição por Ursino, que as auctoridades civis
+desterraram, sendo confirmada a legitima eleição de S. Damaso; tambem o
+inculparam de adultero, mas foi absolvido por um concilio de 44 bispos,
+reunido em Roma. Entre outras obras de sua iniciativa, contam-se as basilicas
+de S. Lourenço, e a da Ardeativa, fóra de Roma, mandando concluir outras.
+Combateu valorosamente as seitas dissidentes, congregando varios concilios, e
+o ecumenico, em Constantinopla, no anno de 381, ao qual assistiram 150
+bispos. <sup class="footnote"></sup></p>
+
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn9" name="fn9">9</a></sup> Em um moderno artigo das «Artes e letras»,
+que tem por epigraphe: «Gil Vicente e a custodia de Belem»--lê-se:
+«Contemplada a Custodia de Belem e confrontada com a Custodia de prata
+dourada que se guarda na collegiada da Oliveira em Guimarães, saltava ao
+espirito a existencia de uma mesma tradicção artistica, de uma mesma escóla.
+Seria Guimarães que teria influido sobre o gosto da ourivesaria em Lisboa? É
+certo que a tradição recolhida por Barbosa Machado, dizia que disputavam o
+nascimento a Gil Vicente, Lisboa e Guimarães. Este criterio nos dirigiu nas
+investigações, e no manuscripto de Christovão Alão de Moraes, datado de 1667,
+que tem o titulo de <em>Sedatura Lusitana</em> encontramos estes factos
+preciosos: «<em>Martim Vicente, foi um homem natural de Guimarães; dizem que
+era ourives de prata; não podemos saber com quem casou; só se sabe de certo
+que teve a Gil Vicente.</em>» Isto já bastava para acreditarmos que o auctor
+da Custodia de Belem era natural de Guimarães; mas o manuscripto genealogico
+é mais explicito, e declara-nos que esse Gil Vicente, filho do ourives de
+Guimarães, é o afamado poeta da côrte de D. João II, D. Manoel e D. João III
+«<em>Gil Vicente, filho unico d'este Martim Vicente, foi homem mui discreto e
+galante</em>, e por tal foi sempre muito <em>estimado dos Principes e
+senhores de seu tempo. Foi o que fez os autos, que em seu nome se imprimiram,
+e por sua muita graça foram sempre celebrados pelos melhores que se fizeram
+n'aquelle genero. Está sepultado em Evora.</em>» O gráo de authenticidade que
+nos merece este manuscripto é irrefragavel; por que Christovão Alão de Moraes
+datou a Sedatura de 1667, e elle segue esta genealogia até 1668, em que
+figurava o seu trisneto Manoel Barreto de Pina, que viveu em Torres Vedras, e
+n'esse anno foi procurador em côrtes.» <sup class="footnote"></sup></p>
+
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn10" name="fn10">10</a></sup> O mesmo artigo a que nos referimos em a
+nota que falla de Gil Vicente, diz: «... e mesmo em nossos dias o grande
+gravador de medalhas, José Arnaldo Nogueira Molarinho, representa para nós
+essa antiga seiva artistica de Guimarães.» <sup class="footnote"></sup></p>
+
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn11" name="fn11">11</a></sup> O sr. Noronha é auctor da musica da
+«Beatriz de Portugal», drama lyrico em 4 actos, vertido em italiano pelo sr.
+Luigi Bianchi, e representado com applauso geral nos reaes theatros de S.
+Carlos, em Lisboa, e de S. João, no Porto. A letra do drama, é do sr. R. C.
+M. </p>
+</div>
+
+<p><span class="pagenum">[159]</span></p>
+
+<h3>V<br>
+BABEL DE SABIOS</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«Alli se ajunta bando de casquilhos,<br>
+A que o vulgo mordaz chama rafados;<br>
+........................................................<br>
+Altercam mil questões; promptos contendem,<br>
+Promptos decidem no que nada entendem.</p>
+
+<p class="direita">(<em>Nicolao Tolentino de Almeida</em>) </p>
+</div>
+
+<p>--Antes queremos do de <em>Basto</em>, snr.<sup>a</sup> Anastacia Mendes,
+do de Basto, que é macio, e tem corpo... Diga-me... todos nós somos de
+segredo, e bisarros mancebos, bem sabe... ha na sua afamada locanda algum
+<em>peixe</em> fresco?...</p>
+
+<p>--Que o houvesse, não era para os senhores, que vão comer a melhor
+<em>carninha</em> do meu fumeiro... É dia de jejum, e n'esta casa, louvado
+Deus, ninguem <em>mistura</em>...</p>
+
+<p>--Não quer dizer isso, snr.<sup>a</sup> Mendes... O que o Andrade pergunta
+é se deu entrada ha pouco, no seu estabelecimento, algum animal da especie
+dos <em>infusorios</em>...</p>
+
+<p>--Dos <em>rotarios</em>, snr.<sup>a</sup> Anastacia, dos rotarios...
+<span class="pagenum">[160]</span> Este Abreu é da mesma força do Andrade... Não sabem classificar as
+differentes especies de viventes, que ha no mundo...</p>
+
+<p>--Pois o Ribeiro, nossa robicunda patrôa, é de egual ignorancia aos que
+censura... A fazenda, que procuravamos é da familia dos
+<em>zoophytos</em>...</p>
+
+<p>--<em>Medusas</em>, snr.<sup>a</sup> Anastacia, <em>são medusas</em>...</p>
+
+<p>--Não é tal, são <em>radiarios</em>...</p>
+
+<p>--São <em>enthelmentes</em>...</p>
+
+<p>--São <em>arachnides</em>...</p>
+
+<p>--São <em>crustaceos</em>...</p>
+
+<p>--São <em>annelides</em>...</p>
+
+<p>--São <em>molluscos</em>...</p>
+
+<p>--São <em>mammaes</em>...</p>
+
+<p>--São <em>amphibios</em>...</p>
+
+<p>--Só vos esqueceram tres especies, carissimos commensaes, e eximios
+falladores: a dos <em>insectos</em>, a dos <em>peixes</em>, e a das
+<em>aves</em>...</p>
+
+<p>--Para saber fallar é preciso saber ouvir... E quem és tu, ó mais
+<em>peixote</em> de todos os Peixotos do mundo?!...</p>
+
+<p>--Sou, com vossas licenças, talvez um cavallo, que é o unico animal que
+não sabe lisongear os principes do... talento... <em>Bias</em>, um dos sete
+sabios da Grecia, dizia que dos animaes ferozes, o mais temivel, é um
+tyranno; e dos domesticos, o peior, um lisongeiro...</p>
+
+<p>--Que babel, senhora da Boa Hora, que babel!... Os <em>meninos</em> são
+engraçadinhos, mas eu não os entendo... Escutem todos, e <em>caluda</em>...
+Chegou hontem <em>cousa</em> de <em>arregalar</em> o olho... Parece, pelo
+menos, <em>varoneza</em>... Isso é que ella sabe fallar!... Aquella ha-de
+entendel-os, de certo... E que palminho de <span class="pagenum">[161]</span> cara!... Parece mesmo a
+<em>Madanela</em> da procissão de passos..</p>
+
+<p>--Bravo!...</p>
+
+<p>--Bravissimo!...</p>
+
+<p>--Excellente!...</p>
+
+<p>--Soberbo!...</p>
+
+<p>--Magnifico!...</p>
+
+<p>--Surprehendente!...</p>
+
+<p>--Bom achado!...</p>
+
+<p>--Optima descoberta!...</p>
+
+<p>--Venha essa phenis!...</p>
+
+<p>--Appareça a bella!...</p>
+
+<p>--Surja a estrella polar!...</p>
+
+<p>--Dê entrada a feiticeira encantadora!...</p>
+
+<p>--Queremos ouvir a cantadeira!...</p>
+
+<p>--Venha a nós, a filha d'Eva!...</p>
+
+<p>--Aqui estou, senhores, para matar-lhes a curiosidade, e matar em mim o
+nôjo da vida... Deixe-me com os seus <em>eruditos</em> hospedes,
+snr.<sup>a</sup> Anastacia, que eu farei por sustentar a fama dos seus
+elogios... Correspondo ao que de mim lhes disse a nossa <em>ingenua</em>
+patrôa, senhores curiosos!...</p>
+
+<p>--É arrebatadora!...</p>
+
+<p>--Explendida!...</p>
+
+<p>--Sublime!...</p>
+
+<p>--Não busquem outros synonimos, amaveis <em>sabios</em>, que já consumiram
+palavras de mais em meu favor... Digam-me só, a que <em>especie de
+animaes</em> fico pertencendo agora?...</p>
+
+<p>--Á dos Anjos!...</p>
+
+<p>--Classifica, então, os anjos de animaes, senhor... não sei como deva
+chamar-lhe?...</p>
+
+<p>--Peixoto, o mais furioso dos seus admiradores... <span class="pagenum">[162]</span> E como se
+chama... <em>V. Exc.<sup>a</sup></em>? Hade, ia apostar, ter algum nome de
+flôr, e patronimicos dos que entraram na peninsula com o exercito romano...
+Eu conheço a origem de todos os nobres appellidos: uns, procedem dos nomes
+das terras em que viveram os primeiros fidalgos, e n'ellas tiveram os seus
+solares; outros, de feitos assignalados na guerra; outros, finalmente, dos
+nomes de toda a casta de animaes, peixes, aves, e até de instrumentos... Como
+são os seus, minha formosa?</p>
+
+<p>--Quanto ao meu nome, acertou, que é de flôr, e das mais
+<em>espinhosas</em>... Appellidos... Diga-me, meu caro snr.
+<em>encyclopedista</em>, os Bandeiras, e os Mesquitas, serão dignos da
+minha... <em>formosura</em>?...</p>
+
+<p>--Lê-se, em Severim de Faria, Not. de Port., Disc. III, que o illustre
+portuguez Gonçalo Pires Bandeira, vendo, na <em>batalha do Touro</em>, que um
+cavalleiro castelhano levava preza a bandeira real de Portugal, investiu com
+elle, e lh'a tomou das mãos, e a libertou; e por este feito insigne, El-Rei
+D. João II, lhe deu por armas uma bandeira branca, com um leão n'ella, de
+prata; denotando, na bandeira, a real que libertára; e no leão, o valor e
+esforço que mostrára: e assim lhe deu tambem o appellido de Bandeira, com que
+hoje seus descendentes se nomeiam. Diz mais, o mesmo auctor, na mesma obra e
+disc. que quando El-Rei D. Affonso V passou á Africa, a tomar Arzilla, o
+acompanharam cinco irmãos da familia dos Pimenteis, naturaes de Villa Real; e
+como sendo entrada a cidade, os mouros se fizeram fortes na mesquita, d'onde
+faziam grande resistencia, sem poderem ser entrados; estes irmãos, tirando os
+cintos, e atados uns nos outros, os lançaram a uma ameia, e subindo por
+elles, <span class="pagenum">[163]</span> levantaram uma bandeira, e por alli foi entrada a mesquita, e
+mortos os mouros. Por este feito tão honrado, lhes deu El-Rei D. Affonso V,
+por armas, em campo d'ouro, cinco cintos vermelhos, com fivelas de prata e
+tachões, e uma bordadura azul com sete flôres de liz; por timbre um meio
+mouro com uma azagaya na mão, e uma bandeira de prata; e por appellido o nome
+de Mesquita. São, pois, nomes bellicosos, que ficam perfeitamente bem a...
+uma leôa...</p>
+
+<p>--Acho-os <em>encarnados</em> de mais... A côr do <em>sangue</em>, apesar
+das <em>garras</em> com que <em>V. Exc.<sup>a</sup></em> me honra, affecta-me
+a sensibilidade nervosa... Ficarei só com o nome do baptismo... Antes da sua
+<em>historica</em> dissertação, creio que estavamos na altura dos...
+<em>animaes anjos</em>?...</p>
+
+<p>--Distingo: existem anjos <em>animaes racionaes</em>, desde que a cubiça,
+ou o amor, levou a nossa primeira mãe ao estado de completa nudez, pelo
+peccado commettido no Eden, onde vivia com o seu Adão; desde que um moço, das
+maiores esperanças, se precipitou no mais caudaloso rio da sua patria,
+levando as algibeiras carregadas de chumbo, porque a mulher a quem amava,
+querendo dar-lhe uma chicara de chá, teimou em laval-a primeiro, por se ter
+servido já d'ella para o mesmo effeito; e desde que eu, que recebi das Musas
+a chave de todos os seus segredos, de Minerva o cofre de todas as sciencias,
+e de Marte a <em>vazilha</em> da intrepidez, me declaro em ruinas d'um
+pavoroso affecto pela pessoa de... <em>V. Exc.<sup>a</sup></em>!...</p>
+
+<p>--O snr. faz-me recordar uma anecdota, que vou contar-lhe: O papa Adriano
+edificou um collegio em Lovaine, no qual mandou pôr a seguinte
+inscripção:--Utrecht me alevantou, Lovaine me deu agua, Cesar <span class="pagenum">[164]</span> me deu
+esplendor;--um curioso accrescentou-lhe por baixo: Só Deus não fez aqui
+nada... Deixo a <em>moralidade</em>, á perspicacia do snr... Peixoto...
+Pareceu-me ter-lhe ouvido que assim se appellidava?</p>
+
+<p>--Para em tudo lhe dar prazer, snr.<sup>a</sup>... das anecdotas... Sem
+embargo do seu espirituoso apologo, minha bella, continuo a deixar sangrar a
+veia, dando-lhe parte, que os primeiros espelhos foram de metal; que Moysés
+faz d'elles menção; e que Cicero attribue o invento a Esculapio, deus da
+medicina. Foi no tempo de Pompeu, que se fabricaram em Roma os primeiros
+espelhos de prata. Plinio falla d'uma pedra brilhante, provavelmente o talco,
+susceptivel de dividir-se em laminas que, postas sobre um plano metallico,
+reflectem perfeitamente os objectos. Os primeiros espelhos de vidro
+appareceram na Europa no fim das cruzadas: Veneza, que primeiro soube
+fabrical-os, viu enriquecer os seus negociantes, e exportou estas
+manufacturas preciosas, para todos os estados do mundo, onde hoje tanto
+abundam... Só não tenho agora aqui, á mão, um d'esses primores da invenção
+humana!... Queria mostrar-lhe o quanto lhe fez realçar a peregrina formosura,
+a satyra com que tentou emmudecer-me, oh imperatriz das bellas!...</p>
+
+<p>--<em>Copia</em> admiravelmente de <em>memoria</em>, snr. Peixoto... Sinto
+dizer-lhe que, para <em>v. exc.<sup>a</sup></em>, só poderá servir de
+<em>espelho</em> o lago em que <em>Narcizo</em> se namorava da sua esbelta
+figura...</p>
+
+<p>--Ou o rio em que se reflectia o sabujo, que trocou a preza certa, que
+levava nos dentes, pela sombra que vira na corrente... Póde fallar-me com
+desassombro, que eu tudo sei affrontar pelo amor da mulher, <span class="pagenum">[165]</span> que
+reune, á seducção material, a faisca do genio, com que me apraz
+emparelhar...</p>
+
+<p>--É <em>nimiamente modesto</em>, o snr. Peixoto... Contou-me a origem dos
+espelhos, contar-lhe-hei a origem dos <em>orgãos</em>... São uns instrumentos
+de <em>vento</em>, compostos de <em>folles</em>, <em>teclado</em>, e grande
+numero de <em>canudos</em>... Querem os <em>chins</em>, que a invenção de tal
+instrumento seja devida ao seu imperador <em>Hoang-Ti</em>, que existio,
+antes de Jesus Christo, 2:601 annos... Se estivessemos no seculo
+12.º, atrevia-me a chamar a <em>v. exc.<sup>a</sup></em> um
+<em>magnifico órgão</em>...</p>
+
+<p>--E porque não, n'este seculo das luzes, e de todos os
+<em>instrumentos</em> possiveis?...</p>
+
+<p>--Porque desde o seculo 13.º usam-se orgãos nas egrejas, e os
+logares sagrados não pódem agradar aos... <em>materialistas</em>...</p>
+
+<p>--Não me assenta bem o nome, minha arisca formosura, porque o materialista
+não admitte no universo ente algum espiritual; e eu estou a reconhecel-o em
+Guimarães, aqui, n'este logar em que discorremos, na pessoa de minha...
+adversaria...</p>
+
+<p>--Tambem é <em>diccionarista</em>?... A definição que acaba de fazer
+parece-me <em>textualmente</em> lida n'um dos modernos diccionarios...</p>
+
+<p>--Serei tudo que quizer chamar-me, menos <em>plagiario</em>. São
+exclusivamente minhas as ideias que expendo. Em mim realisa-se o phenomeno da
+sciencia innata. Não roubo alheios pensamentos, antes deixo que me roubem
+descaradamente as minhas famosas theorias sobre...</p>
+
+<p>--Sobre <em>principios elementares de mathematica</em>, talvez, em que és
+fortissimo... Ora, acaba com a sécca, <span class="pagenum">[166]</span> que nós tambem sômos gente, e
+sabemos que, duas vezes cinco, sommam dez...</p>
+
+<p>--Deixem-me, apenas, concluir por fazer um convite a esta feiticeira...
+Quer assistir a um baile de costumes, que hoje se dá na casa do
+<em>Arco</em>?</p>
+
+<p>--Como ha-de lograr introduzir-me lá?...</p>
+
+<p>--Acompanhando-a, e dando-lhe uma das senhas, que servem para esse fim; e
+como só se tiram as <em>caraças</em> na occasião da ceia, querendo conservar
+o incognito, retira-se antes d'ella... Serve-lhe?</p>
+
+<p>--Talvez aceite...</p>
+
+<p>--N'aquella, tão tolerante quanto illustre casa, consegues tu realisar
+todos os teus intentos... Se fosse em <em>Villa Pouca</em>...</p>
+
+<p>--O Arco é mais popular...</p>
+
+<p>--Será; mas Villa Pouca é mais escrupulosa... O que devéras nos espanta, é
+que tu não peças, <em>á tua Convidada</em>, qualquer remuneração pelo favor
+que intentas fazer-lhe...</p>
+
+<p>--Eu não costumo sustentar <em>assedio</em> por muito tempo; costumo, sim,
+tomar as praças <em>d'assalto</em>...</p>
+
+<p>E, como para provar a sua fanfarrice quiz o fallador espadachim abraçar a
+joven mulher, que lhe auguara a fôfa verbosidade; mas teve de moderar os
+malcriados impetos, ao simples e carregado aspecto da que assim queria
+ultrajar.</p>
+
+<p>O seu tentamen, foi presenceado por um novo personagem, que, n'aquelle
+momento, déra alli entrada, e que se lhe dirigiu n'estes termos:</p>
+
+<p>--Se quizer, <em>senhor atrevido</em>, eu substituo esta senhora, para a
+realisação da sua vontade; e prometto-lhe que, o <em>abraço</em> entre nós,
+ha-de ser dos mais apertados... Desculpem os restantes cavalheiros, que
+<span class="pagenum">[167]</span> não tomaram parte no desejo do insulto, a minha linguagem com o que
+d'elle se queria fazer auctor...</p>
+
+<p>A mulher assim inesperadamente defendida, exclamou, no auge da
+surpreza:--O snr. João?!....</p>
+
+<p>--De Lencastre, accrescentarei, para que estes senhores fiquem sabendo que
+sou <em>filho d'alguem</em>...</p>
+
+<p>A donzella Rosa, porque era ella, como o leitor terá adivinhado, após uma
+lucta instantanea, de que ella triumphou para o seu intento, disse,
+sacudidamente, a João Vidal, ou de Lencastre:</p>
+
+<p>--Prohibo-lhe, snr., que toque n'aquelle cavalheiro!... É... o meu
+amante...</p>
+
+<p>--Seu amante!!... Foi, esta ultima exclamação, sahida simultanea e
+admirativamente da bocca de todos os circumstantes; pronunciando-a, com
+indiscriptivel amargura, aquelle que fôra a causa de ella ter apenas brincado
+nos labios da donzella.</p>
+
+<p>Depois de um silencio d'alguns instantes, pediu João de Lencastre, aos que
+alli estavam reunidos, com tão persuasiva eloquencia e vehementedor que o
+deixassem a sós com a donzella, que foi immediatamente por todos
+attendido.</p>
+
+<p>O que disseram, e como se encontraram n'uma casa de libertinagem estes
+dous heroes do nosso «Conto», a seu tempo será explicado. <span class="pagenum">[168]</span><br><span class="pagenum">[169]</span></p>
+
+<h3>VI<br>
+UM BAILE EM COSTUMES</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«David dançou diante da arca da alliança, e nos primeiros tempos da Egreja
+havia uma dança, que era a demonstração exterior da dependencia das
+creaturas, e uma expressão primitiva de reconhecimento.»</p>
+
+<p>«O sabio e sisudo Socrates era summamente apaixonado pelas danças, que lhe
+ensinára Aspasia.»</p>
+
+<p>«O grave e carrancudo Catão, aos 60 annos, tomou mestre de dança, para
+poder apparecer convenientemente nos bailes.»</p>
+
+<p class="direita">(<span class="smallcaps">O Panorama de 1837</span>) </p>
+</div>
+
+<p>Abrira a nobilissima casa do <em>Arco</em> os seus salões ao publico:
+dizemos--<em>ao publico</em>--, porque, o cavalheiro titular seu dono, era
+prodigo nos seus convites, como em todas as suas nobres acções. Dentro do seu
+palacete, nenhum dos seus convidados gosava de superioridade: todos eram
+iguaes, pelo tracto que recebiam; e se alguem, estranho á terra e ás pessoas
+alli reunidas, houvesse de notar algum acanhamento, isto é, menos liberdade
+em todas as suas acções, apontaria o distincto fidalgo que recebia. Tal foi
+sempre <span class="pagenum">[170]</span> o especial condão de toda aquella sympathica familia, para
+pôrem á vontade os seus convidados.<sup class="footnote"><a href="#fn12" name="lfn12">12</a></sup></p>
+
+<p>São tres os salões de baile, todos ao correr, havendo de cada lado do
+ultimo d'elles, e ao mesmo nivel, um lindo terraço ajardinado: para o do
+meio, dá entrada um soberbo salão de espera, com duas varandas, sobre o arco,
+que olham para a rua, assim como os terraços. Ao salão de entrada, e em
+sentido opposto aos do baile, seguem-se outros, parecendo todos, olhando-se
+do ultimo d'elles para os do baile, um--T.--De sorte que, a pessoa collocada
+no salão do meio defronte da porta da entrada, vê todos os salões e os
+terraços. A entrada do palacete é por uma larga e bem construida escadaria de
+pedra.</p>
+
+<p>N'este baile, onde se vão dar algumas scenas do nosso «Conto», foram
+permittidas as <em>caraças</em>, tendo-se distribuido bilhetes, para os que
+assim quizessem conservar o incognito, por algum tempo, e animar a reunião
+com freneticas danças, e brinquedos innocentes.</p>
+
+<p>Desde a escada até ao ultimo salão, como nos terraços que, pela profusão
+de luzes, se não sentia a falta do dia. <span class="pagenum">[171]</span></p>
+
+<p>O mais exigente dos convidados, deparava, no seu logar, com os objectos
+que lá devessem apparecer.</p>
+
+<p>Antes de affluirem os encaretados, já se viam, no principal salão, as
+nobres senhoras intimas da casa; o respeitavel senhor d'ella; Sebastião da
+Mesquita; Arthur Soares; Leopoldo, e seu irmão João de Lencastre. Estes
+nossos personagens foram alli hospedes, como parentes.</p>
+
+<p>Completo o ajuntamento, era bello de vêr-se.</p>
+
+<p>Aqui, um grupo de senhoras vestidas de camponezas dos arrabaldes de
+Guimarães, com as saias de muita roda, os capotilhos de fina baêta encarnada
+com as pontas crusadas no peito, e atadas nas costas, os seus grossos
+cordões, e immensas arrecadas de ouro,--offereciam confeitos, e raminhos de
+violetas.</p>
+
+<p>Alli, os descuidados e jovens lavradores, com as suas fardetas azues de
+botões amarellos, camizas de linho bordado, e o inseparavel varapau, que lhes
+servia de encosto para contemplarem as suas namoradas, tendo cada um o braço
+esquerdo estendido sobre o pau, e a perna direita crusada sobre a
+esquerda.</p>
+
+<p>Além, a irrequieta vivandeira, acompanhada de seu militar; o sevéro
+magistrado assestando a luneta; o antigo fidalgo portuguez de rabicho
+empoado, e de casaca e calções de setim bordado; matrônas respeitaveis, e
+jovens senhoras vestidas á época, no melhor gôsto, ostentando a antiga e bem
+merecida fama das formosas vimaranenses, e mostrando, pelas joias de subido
+preço, que as adornavam, o esplendor e nobreza de suas familias.</p>
+
+<p>Rompeu o baile por uma scena campestre das que no Minho, a mais poetica
+provincia de Portugal, se notam com frequencia, e se apreciam sempre.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[172]</span>Dos grupos camponezes foi composta uma <em>tocata</em>, de rebecas,
+clarinetes e banzas; havendo um cantador, e uma cantadeira que, depois
+d'outros improvisos do seu <em>desafio</em>, concluiram assim: </p>
+
+<div class="poesia">
+<p>«Foi o velho rei David,<br>
+o primeiro dançador;<br>
+vamos nós tambem dançar,<br>
+cada um com o seu amor.</p>
+
+<p>«Fazes mal, linda Maria,<br>
+convidar em lar alheio;<br>
+do temôr e d'altivez<br>
+a virtude jaz no meio.</p>
+
+<p>«Não te pedi o conselho,<br>
+e vem tarde a correcção;<br>
+quem á festa convidou,<br>
+agradece a minha acção.</p>
+
+<p>«O fidalgo que dá festa,<br>
+incapaz é de ralhar;<br>
+mas o sabel-o não deve,<br>
+ser motivo p'ra abusar.</p>
+
+<p>«Digam todos que me ouvem,<br>
+se eu me quiz entremetter;<br>
+seja a resposta o signal,<br>
+para a gente s'entreter...» </p>
+</div>
+
+<p>E começou o baile, vivo, animado, delirante.</p>
+
+<p>Nos pequenos intervallos do bulicio dançante, e em quanto eram servidos os
+convidados, tinham logar <span class="pagenum">[173]</span> as <em>intrigas</em> ou, sem cheiro de
+gallicismo, as mystificações.</p>
+
+<p>A <em>vivandeira</em>, sempre pelo braço do <em>soldado</em>, fôra a que
+mais valente se tornara em phrases de mystificar. Dirigindo-se a todos os
+grupos, simultaneamente, e procurando dar á voz esse tom desconhecido que,
+nos bailes d'esta ordem, faz parecer igual o metal de todas as vozes,
+conseguiu, em pouco tempo, chamar sobre si todas as attenções. Além da
+agudeza e propriedade dos seus dizeres, concorreram tambem, para um tal
+resultado, a notavel elegancia da vivandeira, e o porte pretencioso e audaz
+do militar seu companheiro.</p>
+
+<p>A Leopoldo, fallou a vivandeira assim:</p>
+
+<p>--Porque não está aqui tua mulher?...</p>
+
+<p>--Porque está n'outra parte... Tu querias conhecêl-a?</p>
+
+<p>--Conheço-a, e conheço-te... Ella é uma creatura angelica, e tu és um
+marido ao qual assenta bem o adagio portuguez, que diz: «Horta sem agua, casa
+sem telhado, <em>marido sem cuidado, de graça é caro</em>...»</p>
+
+<p>E finalisando com uma risadinha aquella allusão, foi dizer a Arthur
+Soares:</p>
+
+<p>--Conheço a origem da sua habitual tristeza, cavalheiro... Pensa... <em>na
+dôr de Maria</em>...</p>
+
+<p>--E não lhe parece motivo de grave meditação o soffrimento da
+Virgem?...</p>
+
+<p>--Ha dôres muito semelhantes, que não merecem ao cavalheiro o menor
+cuidado...</p>
+
+<p>--Porque talvez as desconheça...</p>
+
+<p>--Não: é porque se não póde dividir <em>o </em><em>sentimento
+forte</em>...</p>
+
+<p>--E, quando seja assim, o culpado sou eu?...</p>
+
+<p><span class="pagenum">[174]</span>--Não é culpado, mas é <em>causa de culpas</em>... Quando as
+conhecer, saiba comprehendel-as e desculpal-as... Adeus!</p>
+
+<p>Prepassou rapidamente por junto de João de Lencastre, e disse-lhe:</p>
+
+<p>--A palavra do homem de bem é sagrada: conto com o seu silencio...</p>
+
+<p>Em seguida foi collocar-se, sempre pelo braço do soldado, em frente de uma
+distincta senhora, á qual dirigiu a palavra n'estes termos:</p>
+
+<p>--Por este meu companheiro, fui rogada, para dizer a v. exc.<sup>a</sup> uma
+impertinencia: desejava <em>pagar-lhe o beneficio</em> de me trazer a este
+baile... Dá licença que eu falle, minha senhora?...</p>
+
+<p>--Dizia minha avó, que <em>triste da casa, onde a gallinha canta, e o
+gallo calla</em>... Mas como é para ser <em>pago</em> um favor, venha de lá a
+tua impertinencia...</p>
+
+<p>--Digo, fielmente, as palavras que me ensinaram: «<em>Queimou-se a fôrca,
+cahiu o tyranno</em>».</p>
+
+<p>--Pena foi que elle cahisse, e ella se queimasse, antes de ter lá subido o
+atrevido que te ensinou...</p>
+
+<p>--Eu, minha senhora, não tomo a mais pequena parte...</p>
+
+<p>--Acredito, dei-te licença, e não te quero mal. Aconselho-te, porém, que
+te desquites d'esse companheiro: os da sua laia, substituiram a
+<em>fôrca</em> pelo <em>punhal</em>, que é mais leve, <em>traiçoeiro</em>, e
+menos <em>apparatoso</em>...</p>
+
+<p>O <em>careta</em> vestido de magistrado, que ouvira o dialogo precedente,
+disse ao <em>fidalgo antigo</em>, que estava ao seu lado:</p>
+
+<p>--Conheces aquella senhora, que respondeu á vivandeira com tanta
+vivacidade?</p>
+
+<p><span class="pagenum">[175]</span>--Não é a viuva irmã do dono da casa?</p>
+
+<p>--É. Que juizo fórmas da sua alma?</p>
+
+<p>--Parece que não desgostaria de vêr continuar a <em>pernear</em> os
+<em>malhados</em>...</p>
+
+<p>--Como te enganas!... É a alma mais completa e mais sublime, que sahiu das
+mãos do Creador. As suas acções, são uma perfeita antithese das suas
+palavras...</p>
+
+<p>A vivandeira, livre já do peso sob que parecia vergar com a commissão do
+companheiro, procurava alguem com anciedade. Percorridos todos os salões, sem
+encontrar quem desejava, foi a um dos terraços, onde Sebastião da Mesquita
+passeava, parecendo alheio á festa. A <em>vivandeira</em>, mal que o vira,
+despediu bruscamente o soldado, e dirigiu-se ao velho fidalgo:</p>
+
+<p>--A tristeza de que v. exc.<sup>a</sup> está possuido, procede do
+conhecimento da <em>fuga inesperada</em> de uma donzella, companheira de
+infancia de sua exc.<sup>ma</sup> filha, não é verdade?...</p>
+
+<p>--Não conheço quem me interroga, nem sei quaes sejam os direitos que julga
+ter para me interrogar...</p>
+
+<p>--Queria... desejava dar cumprimento a uma vontade e pedido da pessoa a
+que me refiro... Se V. Exc.<sup>a</sup> désse licença...</p>
+
+<p>--Tirando primeiro esse panno que lhe cobre a cara, póde fallar.</p>
+
+<p>--É que... para o que tenho a dizer e a fazer, posso conservar o meu
+incognito... É só pedir, em nome <em>d'ella</em>, perdão a V.
+Exc.<sup>a</sup> se algum desgosto lhe causou com o seu procedimento, e
+beijar-lhe a respeitavel e bemfeitora mão...</p>
+
+<p>--João, Arthur, meus amigos, venham cá!... <span class="pagenum">[176]</span> É preciso obrigar esta
+mulher a descobrir a cara...</p>
+
+<p>--Senhor!... Uma tal violencia, sem auctorisação do cavalheiro dono da
+casa...</p>
+
+<p>--Quero-o eu!...</p>
+
+<p>A estas vozes, demasiado vivas, acudiu gente das salas, que repentinamente
+conheceu a origem da altercação.</p>
+
+<p>A senhora, que déra licença á vivandeira para lhe dizer <em>uma
+impertinência</em>, foi a que primeiro a protegeu:</p>
+
+<p>--Estranho que o primo Sebastião, um consummado fidalgo e cavalheiro,
+tentasse fazer violencia a uma fraca mulher... Esta pequena, senhora ou
+burgueza, fica, desde este momento, considerada como se fôra minha filha!...
+Conserva o teu incognito, que ninguem agora se atreverá a descobril-o...</p>
+
+<p>--Se V. Exc.<sup>a</sup> quer, snr.<sup>a</sup> condessa, eu levo comigo
+essa menina para o convento...</p>
+
+<p>--Obrigado, Eulalinha, pelo teu bom desejo. És uma criança tão formosa do
+corpo como da alma: Deus ha de proteger-te.</p>
+
+<p>--Mas, minha boa irmã, V. Exc.<sup>a</sup> bem sabe que devemos ao primo e
+snr. Sebastião da Mesquita, toda e qualquer satisfação que elle peça; não só
+pela qualidade da pessoa que é, como por ser nosso parente, e meu hospede...
+Talvez que essa creatura o offendesse, e...</p>
+
+<p>--Um homem, como nosso primo, nunca póde dar-se por offendido pelo que lhe
+faça, ou diga, uma infeliz mulher... É a primeira vez, que ouço fazer
+distincção ao meu excellente irmão das <em>qualidades</em> dos seus
+convidados... V. Exc.<sup>a</sup> não se considerou, para assim fallar, o
+dono d'esta casa...</p>
+
+<p><span class="pagenum">[177]</span>--De certo que não, nem podia, estando V. Exc.<sup>a</sup> aqui.</p>
+
+<p>--N'esse caso, eu já dei as minhas ordens.</p>
+
+<p>--V. Exc.<sup>a</sup> minha respeitavel thia e senhora, concede-me a honra
+de ser, no resto da noite, o cavalheiro d'essa dama?</p>
+
+<p>--Agradeço-te a boa e fidalga intenção, meu presado sobrinho e snr. de
+Pindella. Has de vir a ser competentissimo para todas as nobres acções, assim
+o espero em Deus; mas és ainda muito novo para um protector.</p>
+
+<p>--E para mim, prima condessa, não serão estas cans fiança sufficiente para
+receber a honra, que lhe pediu seu illustre sobrinho?</p>
+
+<p>--A V. Exc.<sup>a</sup>, meu presado primo e snr. de Villa Pouca, que reconheço habil
+para tudo que seja nobremente arrojado e distincto, peço até a especial graça
+de conduzir, quando ella quizer, esta minha protegida á sua habitação...</p>
+
+<p>--Nobres senhoras, e amaveis cavalheiros!... Penhorada em extremo pelos
+favores e attenções, que me dispensam, não posso deixar, comtudo, de
+pedir-lhes, que reformem completamente qualquer juizo menos favoravel,
+concebido pelo procedimento do snr. Sebastião da Mesquita... Só quem o não
+conheça, o poderá considerar capaz de uma acção menos nobre... Aquelle
+respeitavel ancião, que nem talvez ouvisse do que VV. Exc.<sup>as</sup> o
+accusaram, está soffrendo intimas dores, como paga da sua generosa bondade
+para comigo... Adoptou-me, e tratou-me como sua filha, e eu fugi
+repentinamente da sua vigilancia e carinho!... Procurei vir aqui, a este
+baile, só para vêr aquelle venerando velho, e beijar-lhe a bemfeitora mão...
+Queria <span class="pagenum">[178]</span> fazel-o sem me dar a conhecer, e foi a minha teimosia em
+conservar o incognito, que o fez alvo de injustiças, que não merece!... De
+joelhos, e com a cara descoberta, lhe pede perdão de tudo esta infeliz, snr.
+Sebastião da Mesquita!...</p>
+
+<p>--Rosa!!... Como póde conservar os sentimentos que acaba de manifestar, a
+mulher que... que eu não conheço!...</p>
+
+<p>E Sebastião da Mesquita, assim fallando, virou as costas á donzella,
+retirando-se vagarosamente.</p>
+
+<p>O baile continuou ainda por muito tempo, um pouco frio após estas scenas,
+e, para o fim, com a mesma animação do comêço.</p>
+
+<p>As dôres alheias, não tolhem as festas dos felizes. </p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn12" name="fn12">12</a></sup> Quando a snr.<sup>a</sup> D. Maria II
+visitou o Minho, o sr. duque de Saldanha, que fazia parte do séquito da
+rainha, foi hospedar-se em casa do fallecido snr. do <em>Arco</em>. Constou
+ao povo, que o palacete estava custosamente adornado, e agglomerou-se á
+porta, para o vêr: os criados, não deixavam entrar; mas o illustre, e sempre
+chorado, titular, deu-lhe entrada franca, não consentindo que se despojasse
+dos seus <em>tamancos</em>, embora lhe inutilizasse riquissimos tapetes. </p>
+</div>
+<span class="pagenum">[179]</span>
+
+<h3>VII<br>
+TORMENTOS INTIMOS</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«Correu-me a vida outr'ora delirante,<br>
+Tive faceis amores, ledas glorias,<br>
+Julguei-me um dia amado e outro amante,<br>
+            Sonhei promptas victorias,<br>
+E vi, em limpo céu formoso e puro,<br>
+Brilhante erguer-se o vulto do futuro.<br>
+            Tumulto, agitação, rumor, bulicio<br>
+            Compoz o meu viver.--Mas eis que um dia<br>
+            Paro e vejo o tremendo precipicio--<br>
+                          A vida, que vivia,<br>
+            Era vida ficticia e descorada...<br>
+            Um pouco de sussurro--e ao cabo... o nada!»</p>
+
+<p class="direita">(<span class="smallcaps">Silva Leal Junior.</span>--<span
+class="smallcaps">Primavera.</span>) </p>
+</div>
+
+<p>Logo que João de Lencastre chegou á falla com Sebastião da Mesquita,
+depois de lhe dar a rasão por que Arthur e Leopoldo o acompanhavam, e de lhe
+dar conta da entrega do dinheiro e onde ficara D. Maria da Gloria,
+occultando-lhe a parte que dizia respeito a Arthur Soares, porque este muito
+lhe rogara que assim procedesse,--noticiou-lhe Sebastião da Mesquita, com
+intimo pesar e viva inquietação, a fuga precipitada da donzella Rosa,
+encarregando-o de descubrir a sua paragem, e de saber os motivos que a
+determinaram a deixar a casa paterna, lançando sobre si indelevel estigma.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[180]</span>Não ficou o antigo escudeiro menos perturbado com a noticia, do que
+se mostrava o velho fidalgo ao dar-lh'a: preparava-se para ir procurar a
+donzella por toda a parte, quando um dos constantes visitadores da casa do
+Arco, muito fallador, e do numero de sujeitos que facilmente se relacionam
+com toda a gente que os quer ouvir, lhe deu, como novidade importante, a da
+chegada á terra de uma <em>rapariga de truz</em>, que parecia ser de
+<em>facil accesso</em>, pela pousada que escolhera, descrêvendo-a com toda a
+minuciosidade.</p>
+
+<p>Agradeceu João a Deus, a veia falladora d'aquelle homem, que lhe poupára
+muitas fadigas; e não o enganou a sua esperança, porque era effectivamente
+Rosa a inculcada mulher, que elle foi encontrar na casa, e na occasiâo,
+descripta no capitulo--«Babel de Sabios.»</p>
+
+<p>Depois que João conseguira fazer retirar os <em>petisqueiros</em>
+adoradores de Rosa, e ficara só com a donzella, empregára, para a obrigar a
+fallar, persuasivos e sentimentaes discursos, orvalhados, por mais d'uma vez,
+com lagrimas de mal escondida affeição. Foi tão eloquentemente irresistivel,
+que a donzella confessou-lhe tudo: disse-lhe, que fugira do seu lar, e
+abandonára a protecção e carinho dos nobres fidalgos seus paes adoptivos,
+porque não podéra por mais tempo ter occulto no peito o seu affecto por
+Arthur Soares, affecto que d'ella se apoderára por tal arte, que só pela
+morte ou pela doudice podia terminar. Que sabia a existencia de um amor,
+igualmente invencivel, entre Arthur Soares e D. Maria da Gloria, senhora que
+ella amava como irmã; e que, para não prejudicar com algum irreflectido
+procedimento seu estes amores, resolvera fugir, e dar-se como
+<em>perdida</em>, embora <span class="pagenum">[181]</span> tambem estivesse resoluta na sustentação da
+sua virtude, mesmo no meio dos mais arriscados perigos.</p>
+
+<p>João Vidal, ou de Lencastre, que a escutára com a maior attenção, depois
+de um longo silencio, significativo de intimas dores, disse á donzella, que
+não podendo deixar de ser já um facto conhecido do publico, a sua fuga e
+paragem n'um local de descredito, inuteis se tornavam todas as reflexões
+tendentes á demonstração do êrro de um tal passo; mas que elle via um meio
+seguro, e menos arriscado, de tudo se fazer como a donzella queria. Que pelo
+casamento d'ella Rosa, ficavam igualmente livres os amores de sua irmã
+adoptiva, não se expondo a donzella á lucta terrivel que começara; lucta que,
+mesmo victoriosa que d'ella sahisse, lhe havia de trazer necessariamente a
+perca da sua boa reputação: que elle possuia um nome, e uma pequena fortuna,
+e que, se podéssem esquecer os 40 annos da sua idade, no seu coração havia
+logar para a entrada de um sentimento sério.</p>
+
+<p>Rosa, respondeu-lhe commovida, que não era digna de semelhante honra; que
+apreciava devidamente o seu brioso e caritativo proceder, e que lhe devia por
+elle o nome de irmã, com a santa amisade de um tal titulo.</p>
+
+<p>Foram baldados todos os esforços, que João empregára para demover a
+donzella do seu proposito, e combinaram o guardar-se absoluto segredo ácerca
+do que entre elles se déra.</p>
+
+<p>No dia seguinte ao do baile, alugou João de Lencastre uma casa, situada
+defronte d'aquella a que a donzella regressara; e despediu-se de Sebastião da
+Mesquita, dizendo-lhe que acompanhava Arthur Soares <span class="pagenum">[182]</span> ás
+<em>linhas</em> do Porto, onde eram precisos braços leaes para a sustentação
+da causa do povo; sendo-lhe facil o convencer Arthur de que partisse sem
+elle, com promessa de lá ir ter, logo que podésse fazel-o; e recolheu-se
+secretamente á morada que alugára, para de lá espiar as acções de Rosa.</p>
+
+<p>Arthur Soares, caminho do Porto, levava enluctado o coração. Sabia que era
+amado por D. Maria da Gloria; já se havia acostumado áquelle affecto, o unico
+da sua existencia; mas não podia desterrar de si o convencimento de que a
+fidalga lhe não podia ser dada por esposa. Era certa, e bem manifesta, a
+estima que lhe dava seu padrinho; mas essa estima, considerava elle mais como
+uma protecção das que usam conceder os nobres senhores aos que d'ella
+carecem, do que amisade verdadeira, que iguala e estreita os homens por laços
+fraternaes: possuia muitas provas do desapparecimento de affeições iguaes á
+que lhe concedia o fidalgo, logo que, pelo considerado e protegido, fosse
+ferido o orgulho de raça do protector. Pedia, pois, a Deus, que a sorte da
+guerra lhe désse occasião de elevar-se até poder chegar a D. Maria da Gloria,
+ou de fazel-o descer ao esquecimento eterno, com a gloria dos bravos por
+mortalha.</p>
+
+<p>Leopoldo, cuja presença, na illustre casa da hospedagem commum, fôra
+tolerada por Sebastião da Mesquita em deferencia ás conveniencias sociaes,
+regressava tambem ao exercito da rainha, o grosso do qual se achava então em
+Coimbra, commandado pela primeira espada portugueza do nosso tempo.</p>
+
+<p>Podia chamar-se um cadaver ambulante, o fidalgo militar, tal era o sombrio
+e estragado aspecto da sua pessoa. O soffrimento d'este desgraçado, que amava
+<span class="pagenum">[183]</span> sem esperança, e que odiava por ciumes, era um severo castigo da
+Providencia. Caminhava para onde o chamava o dever, movido mais por um resto
+de brios, do que por empenho, e vontade, de servir a causa a que se devotára,
+depois de ter renegado a popular: n'elle só havia bem fixo, o sentimento do
+seu tormento intimo.</p>
+
+<p>Sebastião da Mesquita, chorava com lagrimas paternaes a má sorte a que se
+entregára a donzella Rosa. Arrependera-se do seu arrebatamento no baile,
+desejára poder remedial-o, receber nos braços a donzella, perdoar-lhe a
+primeira leviandade, acolhel-a de novo, talvez ainda innocente e pura, e
+estorvar assim a quéda infallivel, e horrenda, da que elle considerára sempre
+como sua filha. Mas era já tarde; e o seu natural orgulho não lhe consentia
+desmentir, com um procedimento contradictorio, o severo porte de que usara
+publicamente.</p>
+
+<p>Este facto, a par da violenta dôr que lhe entorpecera as forças physicas,
+fizera pensar Sebastião da Mesquita, com muita gravidade, no futuro de sua
+filha Maria da Gloria.</p>
+
+<p>Por maior que seja a confiança que se deposite no caracter e virtudes de
+uma filha, quando vemos no caminho da perdição outra mulher, que nos é cara,
+lembra-nos logo a possibilidade de um desvio, e queremos remedial-o com
+prevenções, algumas vezes, e não poucas, com bem peiores resultados do que
+haveria no imaginado mal, que tentáramos evitar.</p>
+
+<p>O velho fidalgo, depois de ter conferenciado com varios cavalheiros do
+berço da monarchia, onde se deteve pelo prostramento em que estava, escreveu
+a D. Maria da Gloria uma carta d'este theor:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="direita"><span class="pagenum">[184]</span>«<em>Minha muito presada Maria</em>:</p>
+
+<p>«O meu paternal carinho, leva-me a pensar que seja tempo de escolher-te um
+esposo digno de ti, que possa, na minha falta, proteger-te socialmente contra
+as ciladas sempre preparadas para as donzellas do teu merecimento, e do teu
+dote. Aqui, n'esta antiga e gloriosa terra de Guimarães, presumo eu que
+existe o que nos convém. Convido-te, pois, a que venhas quanto antes ter
+comigo, para avaliares por ti a competencia da minha escolha.</p>
+
+<p>«Ainda hoje recebi carta da tua santa e respeitavel mãe, que é sempre o
+bom anjo do nosso lar. De certo tambem sabes, que ella está de boa saude, por
+que não haverá dia em que te não escreva, como á pessoa que ella mais ama.</p>
+
+<p>«Recebe a benção, e uma saudade, do teu extremoso pae,</p>
+
+<p class="direita"><em>Sebastião.</em>»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>D. Maria da Gloria, embebida nos fagueiros sonhos de um futuro risonho, a
+que aspirava pelo seu amor a Arthur Soares, e entretida a desvanecer, com
+expansivas provas da sua amisade e bom juiso, os dissabores da sua discipula
+Anna, que todos eram a quasi certeza de não ser já amada por Leopoldo, nem
+por sombras podia prever a fatalidade de que estava ameaçada, com aquella
+ordem paterna.</p>
+
+<p>O padre Alvaro, continuava a sua vida de oração e penitencia. Pastor
+exemplar, possuia o acrisolado amor das suas ovelhas, porque sabia praticar,
+para com todos, a caridade que aprendêra de Christo. Ainda assim, soffria
+constantemente, e muito. Havia uma <span class="pagenum">[185]</span> campa na sua parochial egreja, ao
+pé da qual elle esquecia o filho idolatrado, as suas penitencias, o seu
+evangelico proceder, para tão sómente se recordar de que fôra peccador.</p>
+
+<p>Feliz, quanto se póde ser n'este patrimonio de Eva, de todos os
+personagens do nosso «Conto», só era a respeitavel e bondosa matrona, D.
+Isabel de Abendanho, que tinha fechada a sua existencia em aldeia pacifica, e
+resumidas as suas ambições na direcção do seu casal, no respeito e amisade ao
+esposo, e no elevado amor a sua filha. <span class="pagenum">[186]</span><br><span class="pagenum">[187]</span> </p>
+
+<h3>VIII<br>
+A MULHER CAHIDA</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«A justiça de Deus lhe infundira no coração abundancia de remorsos, e a
+dos homens lhe entornava sobre a fronte amplo vaso farto de ignominia.»</p>
+
+<p class="direita">(<em>A. H.</em>--<span class="smallcaps">Fragmento de um
+livro inedito</span>.) </p>
+</div>
+
+<p>Por mais que os homens doutamente célebres de todos os seculos tenham
+querido collocar essa formosa e apreciavel parte do genero humano--a
+mulher--na altura que lhe é devida, nunca a fonte sublime do amor, a mãe e o
+apoio da meninice, o esteio da vida, deixou de ser conduzida por nós a todos
+os sacrificios: raro é o homem que se aproxima da mulher sem que a macule; e
+feita escrava de seus caprichos, é a deshonra e o villipendio, que lhe dá em
+premio!</p>
+
+<p>A mulher, na sua juventude, só ambiciona o nosso amor; alinda-se para
+agradar-nos, e nós damos-lhe, em vez do que nos pede, a paixão material que a
+enlameia: consome-se, para conservar-nos, em sua <span class="pagenum">[188]</span> idade adulta, porque
+nos alimenta a seus peitos, arruinando a sua belleza; e nós córamos de um
+pejo infame, se a maternidade não teve logar dentro de umas certas condições
+sociaes, que nos imprimem a <em>legitimidade</em>: levanta as mãos ao céu na
+velhice, porque a mulher é naturalmente religiosa, dedica os ultimos annos de
+sua vida a orar por seus paes, por seus filhos, por todos os desvalidos; e
+nós alcunhamol-a de impostôra e de bruxa!</p>
+
+<p>Existiram sempre <em>philosophos</em>, escassos de comprehensão, e mal
+avindos com a mulher, que attribuem a esta preciosa parte da nossa existencia
+o vicio do sensualismo, que nos provoca. Covarde mentira!</p>
+
+<p>A perversão da moral, e o desenfreamento das vis paixões, tem sido, em
+todos os tempos, o resultado forçoso de infinitas circumstancias, em que a
+mulher não toma parte.</p>
+
+<p>A corrupção da Grecia, como a romana sua filha, teve origem na philosophia
+de Epicuro, nos mancebos que a seguiam, e não nas vilipendiadas matrônas
+d'aquellas nações.</p>
+
+<p>Antes das torpezas de Messalina, já Cesar tinha manchado o seu thálamo
+imperial.</p>
+
+<p>Seriam as mulheres culpadas nos crimes, que abrazaram as duas cidades
+nefandas, de que nos falla o Génesis?!</p>
+
+<p>Corteja-se a formosura da mulher; empregam-se aleives para seduzir a
+incauta; fazem-se promessas mentirosas; servem todas as villezas ao nosso
+proposito: um, é o dilecto de seus carinhos, e consegue o seu amor;
+aconselha-lhe a fuga da casa paterna; cerca-a de algumas commodidades
+passageiras; sacia-se; desampara-a; precipita-a na profundeza da desventura;
+<span class="pagenum">[189]</span> deixa-a na miseria, e no desabrigo de toda a consolação humana!</p>
+
+<p>A nudez e a fome, tomam então logar juncto ao umbral solitario da
+infeliz!... Que lhe resta?!... Vender-se!... Pedir ao primeiro que passa, que
+lhe estampe na fronte o ferrete do aviltamento pelo óbulo da infamia!...</p>
+
+<p>Depois, as dissoluções, a velhice prematura, a miseria e a doença!...</p>
+
+<p>Depois, a enxerga da caridade!...</p>
+
+<p>Depois, a valla commum do cemiterio!...</p>
+
+<p>Depois, nem uma só lagrima que lhe aqueça as cinzas; nem uma só flôr no
+seu jazigo; ninguem que ore por ella a Deus!...</p>
+
+<p>E o <em>elegante seductor</em>?...</p>
+
+<p>Passou a fazer novas <em>conquistas</em>; gastou o melhor do seu vigor e
+da sua fortuna, em atirar com muitas irmãs na desgraça ao lado da sua
+primeira victima; pensou mais tarde em casar-se; escolheu
+<em>convenientemente a esposa</em>, fez-lhe a <em>mercê</em> do seu nome e,
+para vingar-se de uma <em>affronta</em>, que <em>não podia</em> ter o seu
+perdão, assassinou a mulher
+adultera!...............................................................</p>
+
+<p>Rosa, luctava com animo viril contra as tentações de todo o genero de que
+se via rodeada no bordel a que voluntariamente se acolhêra. Eram-lhe, porém,
+já muito pesadas essas luctas desiguaes. Mais ainda que os atrevimentos e
+ciladas dos vadios frequentadores d'aquella casa, causavam asco á virtuosa
+donzella as suggestões das infelizes do seu mesmo sexo, pervertidas até ao
+extremo de tentarem chamar ao seu grémio as que não tinham mácula.</p>
+
+<p>Principiava a entrar na alma de Rosa o arrependimento <span class="pagenum">[190]</span> do passo
+precipitado a que se abalançara. Conhecêra, ainda que tarde, a borda do
+precipicio em que estava, receiava pelas suas forças, e tremia de não saber
+como fugir-lhe.</p>
+
+<p>Uma noite, foi a donzella mais atacada pelo terror: pareceu-lhe, a
+deshoras, ouvir estranhos rumores, fóra do seu pequeno e pessimo quarto. A
+pouca segurança da porta, e da fragil fechadura, augmentava o receio da
+donzella: apromptou luz, e vestiu-se.</p>
+
+<p>O rumor aproximou-se, a porta foi violentada, e Rosa agarrada fortemente
+pelos pulsos:</p>
+
+<p>--Não esperava esta desfórra do seu <em>militar</em>, amavel
+<em>vivandeira</em>?!...</p>
+
+<p>--Deixe-me... largue-me... acudam!...</p>
+
+<p>--Não espante as pulgas, menina... <em>Esta boa terra dorme toda ás nove
+horas</em>, e já passa da meia noite... Só poderia esperar beneficio da minha
+generosidade, e eu, confesso, não tenho o fraco de generoso...</p>
+
+<p>--Não realisará a malvadez que intenta, em quanto eu tiver um sôpro de
+vida...</p>
+
+<p>--É o que vamos a vêr...</p>
+
+<p>E o malvado homem empregava todas as suas forças, em dobrar a mulher, que
+não podéra seduzir.</p>
+
+<p>Rosa, debatia-se com toda a furia e, mais que outra qualquer, resistira
+por muito tempo.</p>
+
+<p>Quando estava proxima a matar-se ou a ser preza do infame, quebrou-se
+repentinamente um vidro da janella, e varanda, que dava para a rua, abriu-se
+a porta d'ella, e penetrou no quarto um homem, possesso da furia do leão, que
+descarregou sobre a cabeça do aggressor uma fortissima pancada, com o castão
+<span class="pagenum">[191]</span> de um chicote de força, estendendo-o logo sem accordo de si.</p>
+
+<p>--O snr. João de Lencastre!!... Oh, leve-me d'aqui!... Salve- me!... A
+mais forte das mulheres, cercada d'estas infamias, é impotente e fraca!...
+Agora o conheço!... Mas... como appareceu tanto a proposito?!...</p>
+
+<p>--Habito aquella casa, alli defronte, e estava sempre de vigia, e
+preparado com uma taboa forte e larga, para lançar da minha janella á varanda
+d'esta casa, quando, como agora succedeu, lhe fosse necessaria a protecção
+de... seu irmão, senhora...</p>
+
+<p>--Que nobre alma a sua, João!... Vamos... deixemos este inferno, e em sua
+casa combinaremos o que deva fazer-se... <span class="pagenum">[192]</span><br><span class="pagenum">[193]</span></p>
+
+<h3>IX<br>
+O PERIGO DAS CARTAS</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«......e bem se manifesta,<br>
+Que são grandes as cousas, e excellentes,<br>
+Que o mundo encobre aos homens imprudentes.</p>
+
+<p class="direita">(<em>Camões</em>--<span
+class="smallcaps">Lusíadas</span>.) </p>
+</div>
+
+<p>D. Anna e D. Maria da Gloria, passavam as horas em longos desafógos e
+amigaveis confidencias, suavisando assim as saudades e as mágoas que
+soffriam. Nas suas respectivas posições, não era aquella a epocha mais
+infeliz da vida das duas amigas. Quando podêmos depositar em peito amigo o
+que nos impressiona, quasi desapparece o pesar que sentimos, pelo allivio que
+nos dá a certeza da partilha na dôr.</p>
+
+<p>Estava, porém, marcado pelo destino, que poucos deviam ser os momentos de
+quietação, para as heroinas do nosso «Conto».</p>
+
+<p>A carta que Sebastião da Mesquita escrevera á filha, viera terminar o gôso
+das confidencias, e tornal-o em prantos amargos. Para D. Maria da Gloria, o
+ser forçada a casar-se com outro homem, que não <span class="pagenum">[194]</span> fosse Arthur Soares,
+era peior do que a morte. Sabia-o D. Anna, que tomou uma deliberação
+arrojada, para salvar a sua amiga, sem lh'a communicar. Mandou um expresso a
+Arthur Soares, com uma carta d'este theor: </p>
+
+<p class="direita">«<em>Meu presado irmão adoptivo</em>:</p>
+
+<p>«Confiada no seu cavalheirismo, de que já possuo bastantes provas, ouso
+pedir-lhe que venha a esta sua casa, logo após a recepção d'esta minha carta.
+Leopoldo está ausente, como sabe, e <em>nós</em> esperamos o snr. Arthur
+<em>com a maior anciedade</em>.</p>
+
+<p class="direita"><em>Anna</em>.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Isto feito, tratou de convencer a sua mestra, e amiga, de que devia
+accusar ao pae a recepção da carta, e dizer-lhe que estava doente, e que
+cumpriria as suas ordens, logo que o seu estado de saude lhe permittisse
+fazel-o; porque assim ganhava tempo, que podia muito bem mudar a face dos
+acontecimentos. D. Maria da Gloria, inhabil para o raciocinio, sujeitou-se a
+tudo quanto lhe ensinuou a sua amiga.</p>
+
+<p>Por este tempo, marchava sobre as linhas do Porto, o general em chefe das
+tropas da rainha, com o grosso do seu exercito.</p>
+
+<p>As tropas da junta provisoria do governo supremo do reino, haviam soffrido
+desastres, sendo, o mais notavel, a <em>incomprehensivel desgraça</em> de
+Torres Vedras;<sup class="footnote"><a href="#fn13" name="lfn13">13</a></sup> mas as activas e energicas
+providencias dos homens <span class="pagenum">[195]</span> do governo, juntas á dedicação popular pela
+sua causa, tudo remediavam como por encanto. Em vez de diminuir, augmentava o
+numero de soldados, por cada batalha que se perdia!</p>
+
+<p>E apesar dos desastres, do grande dispendio com as reorganisações do
+exercito, e de só pagarem tributos moderados os povos sujeitos ao poder da
+junta, poude esta exemplar quanto energica governação decretar, entre outras
+medidas de bom senso e muito alcance, e de algumas pensões avultadas, <em>que
+as mulheres dos officiaes prisioneiros na batalha de Torres Vedras recebessem
+uma prestação mensal de 12$000 reis, e as das praças de pret 60 reis diarios,
+em quanto seus maridos estivessem em poder do inimigo</em>.<sup
+class="footnote"><a href="#fn14" name="lfn14">14</a></sup></p>
+
+<p>O quartel general do real exercito estava em Oliveira de Azemeis: foi
+escolhido um official para commandar uma força, que fosse em conhecimento
+junto das linhas do Porto, e recahiu essa escolha em Leopoldo. Ao saber-se da
+aproximação de forças inimigas, tocou a rebate dentro dos muros da cidade
+invicta, e as linhas foram immediatamente guarnecidas em fórma.</p>
+
+<p>Arthur Soares, commandava uma companhia de voluntarios da guarnição, que
+occupava, casualmente, o lado da estrada de Lisboa. Conhecida a pequenez da
+força inimiga, os insoffridos populares saltaram as linhas, <span class="pagenum">[196]</span> e foram
+atacal-a. Arthur quiz, mas não o conseguiu, conter os do seu commando. Havia
+recebido ha poucos instantes a carta de D. Anna, e não podia, nem queria,
+arriscar temerariamente a vida n'aquella occasião. Anciava que terminasse
+aquelle passageiro incidente da guerra, para correr ao chamamento da sua
+companheira de infancia. Batia-lhe apressado o coração, porque um
+presentimento lhe segredava, que D. Maria da Gloria não era estranha no
+conteúdo da carta; mas como não podéra refrear o impeto dos voluntarios,
+forçoso lhe foi acompanhal-os.</p>
+
+<p>Empenhado o tiroteio entre as pequenas forças inimigas, cahiu ferido
+Arthur Soares, que ficára por morto no campo. Um soldado, d'aquelles a que os
+proprios camaradas dão o epitheto infamante de <em>pulhas</em>, despojou logo
+o official inimigo de todos os objectos de algum valor, que elle tinha em si:
+entre os demais despojos, ficou tambem possuidor da carta de D. Anna, que
+teve a curiosidade de lêr; e como visse lá o nome de Leopoldo, e soubesse que
+assim se chamava o seu commandante, com a mira em qualquer recompensa, quando
+por ventura com elle se entendesse aquella carta, foi immediatamente
+entregal-a a Leopoldo, dizendo-lhe que a encontrára perdida no logar da
+refrega...</p>
+
+<p>Aquella bala de papel, fôra mais fatal ao marido de D. Anna, do que a de
+chumbo ao amante de D. Maria da Gloria...</p>
+
+<p>Leopoldo retirou precipitadamente com a força do seu commando; e o corpo
+de Arthur Soares foi recolhido pelos seus camaradas, que lamentavam com
+desespêro a sorte do bondoso e bravo official. </p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn13" name="fn13">13</a></sup> Em proclamação do primeiro general da
+junta do Porto, datada de Coimbra de 29 de Dezembro de 1846, lê-se:
+«Soldados!--Nem a desgraça da nossa valente segunda columna vencedora em
+Torres Vedras, e depois anniquilada por uma <em>incomprehensivel
+desgraça</em>; nem a conspiração dos elementos, que tornaram perigosa e
+terrivel a nossa marcha, na qual centenares de individuos ficaram em poucas
+horas descalços, e muitos em risco de morrerem, tem podido abater vossa
+coragem!» <sup class="footnote"></sup></p>
+
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn14" name="fn14">14</a></sup> Decreto da junta de 11 de Janeiro de
+1847. </p>
+</div>
+<span class="pagenum">[197]</span>
+
+<h3>X<br>
+O CRIME</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«O espirito não lhe dava coisa que vislumbrasse senso-commum. A carta era
+o seu maximo supplicio.»</p>
+
+<p class="direita">(<em>Camillo Castello Branco</em>. <span
+class="smallcaps">Mysterios de Fafe</span>.) </p>
+</div>
+
+<p>D. Isabel de Abendanho recebera carta do marido, communicativa da sua
+resolução de casar a filha com um cavalheiro vimaranense; e dizia-lhe que
+fosse, acompanhada do padre Alvaro, á residencia de D. Anna, e de lá viessem
+todos ter com elle a Guimarães.</p>
+
+<p>A chegada de sua mãe, e do padre Alvaro, foi para D. Maria da Gloria novo
+motivo de abundantes lagrimas. A velha e nobre senhora preadivinhara a rasão
+d'aquelle pranto, e desde logo protestou dar á filha o seu maternal apoio. O
+padre Alvaro, senhor da causa que assim amofinava as tristes mulheres,
+deu-lhes a consolação das suas evangelicas palavras, e prometteu empregar,
+com Sebastião da Mesquita, os brandos meios da persuasão para o dissuadir da
+<span class="pagenum">[198]</span> effectividade de um enlace repulsivo á noiva. Todos de accôrdo em
+demorar quanto possivel a ida a Guimarães, confirmaram a Sebastião da
+Mesquita a noticia do incommodo de D. Maria da Gloria, que afinal não era
+mentirosa, porque a donzella estava doente, e de molestia que podia matal-a,
+se não tivesse força para resistir á vontade paterna.</p>
+
+<p>Rosa, salva da vergonha e da deshonra por João de Lencastre, resolveu
+aproveitar-se da protecção do seu salvador, e assentaram de viver, em
+Portugal, ou no estrangeiro, debaixo de rigoroso incognito, mostrando a
+donzella desejos de vêr as suas queridas companheiras antes da sua completa
+desapparição, embora lhes não podésse fallar; e o antigo escudeiro, que não
+tinha vontade alheia á da sua protegida, cogitava no modo de fazer-lhe a
+vontade.</p>
+
+<p>Nenhum dos mais fortes inimigos do homem, empenhado em fulminal-o, e
+dispondo de todas as convulsões do mundo, teria conseguido produzir em
+Leopoldo uma sensação semelhante á que sentira com a leitura da carta, que o
+soldado lhe entregara. Por momentos, julgou-se victima de um sonho, e o seu
+olhar desvairado era terrivel de vêr-se. Depois, de subito, sahiu-lhe do
+peito um como rugido feroz, e todas as suas acções foram impetuosas e
+allucinadas. Mandou tocar á retirada, entregou o commando ao seu immediato, e
+precedeu muitas horas, tal foi a sua vertiginosa carreira, a chegada da força
+ao quartel general. Alli, fez, como lhe cumpria, o relatorio dos successos
+militares, de tal sorte contradictorio e obscuro, que lhe não foi difficil
+obter a licença, que febrilmente implorava, porque os superiores o
+suspeitaram victima do começo d'uma alienação mental.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[199]</span>Era alta noite, e dormiam todos os habitadores do seu palacio,
+quando Leopoldo chegou alli, vindo do acampamento. Quem o tivesse visto
+jornadear de noite, ora esporeando o ginete de modo a fazel-o saltar por
+todos os obstaculos, que lhe estavam defronte, ora deixando o caminhar em
+direcção incerta, e com as rédeas soltas, dizia que era um sêr phantastico
+dos que algumas vezes nos agitam o somno. Gastára algumas horas a percorrer
+os arredores da sua principesca habitação, para conseguir introduzir-se lá,
+sem que fosse apercebido.</p>
+
+<p>Estava a romper a manhã, quando podéra obter entrada por uma janella
+baixa, que ficara mal fechada, e caminhar, tateando, e com passos incertos,
+até ao seu quarto de cama, onde se apossou do punhal que pendia da cabeceira
+do seu leito, abrindo em seguida as janellas, e expondo ao ar a sua abrazada
+cabeça.</p>
+
+<p>Ao voltar a vista para o interior do quarto, já um pouco alumiado pela
+frouxa luz do crepusculo, pareceu-lhe que a sua cama não estava deserta, e
+foi ajuntar-se-lhe ás violentas commoções que o infernavam mais um mixto de
+curiosidade e de terror, como teria o bandido que deparasse inopinadamente,
+na casa que julgara dezerta, com uma testimunha de seus crimes.</p>
+
+<p>No leito de Leopoldo dormia tranquillamente o somno da innocencia, a
+suspeitada esposa. Tivera que sahir dos seus aposentos, occupados até então
+por ella e por D. Maria da Gloria, á chegada alli de D. Isabel, para que esta
+ficasse junto da filha.</p>
+
+<p>Reconhecida pelo marido a mulher da qual julgava possuir um incontestavel
+documento de adulterio, <span class="pagenum">[200]</span> as feições do dementado assumiram as
+repugnantes proporções da mais repelente das mumias; e monologou
+terrivelmente:</p>
+
+<p>«Estás no teu sepulchro, maldita!... O mesmo leito que manchaste com a
+infidelidade, será manchado pelo teu sangue villão!... Não mais acordarás
+d'esse ultimo somno, em que os sonhos de megéra te hão de trazer ainda junto
+dos labios o halito do canalha, que eu hei-de devorar após de ti!...
+Far-te-hei abrir os olhos, apenas para vêres a tua carta, que o diabo me
+levou ás mãos, e nem uma palavra te deixarei pronunciar, porque antes terá
+este punhal atravessado o teu infame coração!....»</p>
+
+<p>E, fazendo o que disséra, sacudiu violentamente a infeliz D. Anna,
+apresentou-lhe diante dos olhos, mal abertos, a carta homicida, e
+enterrou-lhe em seguida o punhal no peito!...</p>
+
+<p>A desgraçada senhora, teve apenas tempo para dar um grito revelador da
+suprema agonia, e cerrar os olhos.</p>
+
+<p>Ao ouvir aquelle brado de morte, fitou o vingador de imaginaria affronta
+um olhar tresvairado em redor de si, e ficou, como se estivera pregado ao
+chão, sem forças nem deliberação para fugir. Estava assim havia já muito
+tempo, quando se abriu uma porta, e entraram por ella duas pessoas em traje
+de romeiros que andam em peregrinação. Os recem-chegados, ao tomarem
+conhecimento da tragedia que tinham á vista, ficaram por um pouco, como
+assombrados de raio: um d'elles, o que primeiro conseguiu mover-se, foi cahir
+com a cabeça sobre a da assassinada, lavando-lh'a com as lagrimas que vertia.
+O outro, com um sangue frio ainda mais terrivel que o desespêro, <span class="pagenum">[201]</span>
+aproximou-se de Leopoldo, encarou-o longo tempo, como olharia para o maior
+dos monstros, e exclamou por fim:</p>
+
+<p>--Assassino!... Miseravel e cobarde assassino de mulheres!... Não posso eu
+ser o vingador d'aquella infeliz, porque--desgraça! disseram-me que era teu
+irmão!... Mas Deus a vingará, malvado!... O teu futuro hade ser de cruel
+expiação, crê!... O maior castigo que te espera, é o prolongamento da vida
+que tens a viver!...</p>
+
+<p>E deixando-o, sem lhe tocar, foi apalpar o seio da assassinada:--«Ainda
+lhe pulsa o coração, e o padre Alvaro está aqui!...» E saiu rapidamente do
+quarto, voltando, minutos depois, acompanhado do pae de Arthur.</p>
+
+<p>O ministro do altar, entrou no sagrado exercicio do seu alto e sublime
+ministerio: serviam-lhe os dous romeiros de ajudantes, e Leopoldo estava
+ainda, immovel, no mesmo logar, em que ficára de seguida ao crime.</p>
+
+<p>O padre Alvaro foi tocar de manso no hombro do assassino, e disse-lhe com
+brandura:</p>
+
+<p>--Irmão! Ajoelhe, que está na presença de um Deus misericordioso e
+vingador!</p>
+
+<p>Ao contacto d'aquella mão, e ao sussurro d'aquellas palavras, fez Leopoldo
+um movimento de cabeça, assomou-lhe aos labios um riso idiota, e
+tartamudeou:</p>
+
+<p>--Não acordem a minha segunda esposa... Com esta casei eu por amor... Não
+me hade trahir que é nobre... O punhal está guardado... Ella disse-me que era
+uma arma villã, e eu escondi-o no peito da Anna... Hade amar-me depois da
+batalha... Sou general, e hei de vencer... Terei um duello com o meu <span class="pagenum">[202]</span>
+rival... Depois, a felicidade... E meu filho, que me não conhece!... Meu
+filho, que me chama assassino, que me cóspe injurias a todo o instante, que
+me espanca sem piedade!!... Perdão!... Perdão!...</p>
+
+<p>--A loucura e os remorsos na propria hora do crime!... Aquella que ajudo a
+bem morrer, é menos desgraçada do que o seu assassino!...</p>
+
+<p>Haverá quem não trema da vossa justiça, meu Deus?!... </p>
+
+<p class="centrado">FIM DA SEGUNDA PARTE</p>
+
+<p><span class="pagenum">[203]</span></p>
+
+<h2>TERCEIRA PARTE</h2>
+
+<h3>REMORSO</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«Para que venha sobre vós todo o sangue dos justos, que se tem derramado
+sobre a terra...</p>
+
+<p class="direita">(<span class="smallcaps">S. Lucas, XI; vida de N. S.
+Jesu-Christo</span>). </p>
+</div>
+<span class="pagenum">[205]</span><br><span class="pagenum">[207]</span>
+
+<h3>I<br>
+GRATIDÃO</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>Tira-me já do p'rigo, amigo honrado,<br>
+Depois solta a prelenda.</p>
+
+<p class="direita">(<em>Filinto Elysio</em>--<span
+class="smallcaps">Apologo</span>) </p>
+</div>
+
+<p>É menos vulgar a existencia do homem grato do que a do homem sabio; mas a
+compensação do rigor d'este axioma, está na raridade com que se faz um favor
+desinteressado. Contam-se em pequenissima quantidade as pessoas reconhecidas;
+mas é grande o numero das que sabem calcular o provento, mais ou menos
+proximo, de suas generosidades.</p>
+
+<p>O genero de maior consumo no mercado da vida humana, é o egoismo, a que
+chamaremos, por antonomasia, o <em>verme do coração</em>.</p>
+
+<p>Os factos, porém, de todos os tempos, levam-nos a exceptuar a mulher da
+regra geral do egoismo do homem, por que é d'ella, na maior parte das suas
+acções, a santa abnegação: a mulher perde-se pelo amor, <span class="pagenum">[206]</span> o homem
+gloria-se com elle; a mulher serve á ambição do homem, e é por elle
+escravisada; a mulher morre sempre por seus filhos, e o homem renega-os
+muitas vezes....................................................</p>
+
+<p>................................................................</p>
+
+<p>Quasi á mesma hora em que tinham logar as tragicas scenas do final da
+segunda parte d'este livro, e quando ellas ainda eram ignoradas pelos
+restantes habitadores do palacio, recebia D. Maria da Gloria, recolhida nos
+seus aposentos, uma carta que abrira, sobresaltada, com prévio consentimento
+de sua mãe, e que dizia assim:</p>
+
+<p class="direita">«<em>Exc.<sup>ma</sup> e respeitavel senhora</em>:</p>
+
+<p>«O meu camarada Arthur Soares, retido no seu leito por virtude de um
+ferimento grave, mas não mortal, que recebeu em um ataque dado pelo inimigo
+ás linhas d'esta cidade, incumbe-me de escrever a V. Exc.<sup>a</sup> em seu
+nome, para que termine o cuidado com que deve estar a Exc.<sup>ma</sup>
+Snr.<sup>a</sup> D. Anna, pelo silencio d'elle, depois de um formal
+chamamento. Só uma impossibilidade absoluta, como aquella que se deu logo em
+seguida á recepção da carta que o chamava, é que estorvaria o meu camarada e
+amigo, como elle affirma, de voar a cumprir as ordens de sua
+exc.<sup>ma</sup> irmã adoptiva. Muito mais do que as consequencias do seu
+ferimento, tem o meu camarada sentido o vêr-se até impossibilitado de
+escrever; e eu, accedi aos seus rogos, para o tranquillisar, e abreviar a sua
+cura; podendo V. Exc.<sup>a</sup> ficar certa--pela cruz da minha espada o
+juro--que, finda esta carta, esquecerei completamente o seu conteudo. Não vae
+dirigida á snr.<sup>a</sup> <span class="pagenum">[207]</span> D. Anna, porque tendo sido roubado,
+quando cahira no campo, o meu camarada Arthur, fez parte do roubo a carta que
+aquella respeitavel senhora lhe escrevera; e o ferido receia que ella fosse
+parar ás mãos <em>d'alguem</em>, que, por má interpretação, tenha ficado com
+suspeitas, as quaes augmentariam, por certo, sendo mais esta interceptada.</p>
+
+<p>«Não obstante estar o meu camarada livre de perigo, os homens da sciencia
+recommendam toda a cautela, e marcam ainda alguns dias de recolhimento ao
+ferido.</p>
+
+<p class="direita">«É de V. Exc.<sup>a</sup> m.<sup>o</sup> att.<sup>o</sup>
+v.<sup>or</sup> e cr.<sup>o</sup></p>
+
+<p class="direita">«<em>O tenente da 2.<sup>a</sup> comp.<sup>a</sup> de voluntarios do
+Minho</em>.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Desde o começo da leitura, que D. Maria da Gloria ficára excessivamente
+pallida e trémula; mas a sua dôr, por demasiado violenta, não deu accesso ás
+lagrimas. D. Isabel que sentira o estado da filha, perguntou-lhe o conteúdo
+da carta, que ella teve a coragem de lêr segunda vez, de modo que fosse
+ouvida por sua mãe.</p>
+
+<p>--Assustas-me, querida Maria, mais com essa dôr surda, do que se te vira
+coberta de pranto... É então incuravel o affecto que nutres por Arthur?</p>
+
+<p>--Só a morte o póde curar, minha respeitavel e muito presada mãe e
+senhora: se até agora o podesse duvidar, recebia n'este momento a mais
+solemne das provas... É a primeira vez que lastimo a minha condição de nobre,
+que me embarga o vehemente desejo de ir ser a enfermeira de Arthur... Dava
+ametade da minha existencia, para ser hoje uma camponeza, livre dos
+preconceitos e obrigações sociaes, que podesse seguir os impulsos do coração
+sem constrangimento nem temôr... <span class="pagenum">[208]</span></p>
+
+<p>--E conheces bem, filha, as qualidades do homem por quem assim queres
+sacrificar-te?!...</p>
+
+<p>--Conheço, e vai tambem avalial-as a minha querida e santa mãe: Arthur,
+sabe que é amado por mim, adora-me, e nunca da sua bôcca sahiu uma palavra,
+que meus paes não podessem ouvir. Podia estar ao meu lado, gosar a todo o
+instante d'esses prazeres innocentes e celestes, que só dá o verdadeiro amor,
+e fugiu-me, para não prejudicar a minha reputação, porque receia não poder
+desposar-me. Todas as acções de Arthur, são de uma fidalguia exemplar, unica,
+inimitavel. Encarregado por meu illustre pae de saber como a Annitas era
+tractada pelo marido, obteve a convicção de que ella era desprezada por ser
+plebêa e pobre: disse-o, por carta, a seu padrinho; esperou que o brioso
+fidalgo acudisse logo á sua protegida, á que adoptara por sua filha, á que
+obrigara a casar-se com o seu tyranno; demorou-se a protecção, e Arthur, que
+apenas fôra companheiro de infancia da nossa Anna, sem nenhuma obrigação
+legal ou moral, só porque ella não tivesse de soffrer mais alguns dias,
+alcançou do thio, o venerando padre Alvaro, todo o importe do futuro
+d'elle--trinta mil crusados--que veiu entregar a Leopoldo, dizendo que era o
+dote de sua mulher, enviado por meu respeitavel pae!...</p>
+
+<p>--É grande, muito grande, o que me contas, Maria!... Por isso tu o amas,
+filha, e creio agora comtigo na impossibilidade de venceres o teu amor... Meu
+primo já sabe d'esse facto?</p>
+
+<p>--Não sabe, minha senhora, porque Arthur rogou muito que se lhe
+occultasse.</p>
+
+<p>--Então, Maria, sou eu que te digo, que pódes ter esperança de casar com
+Arthur. Teu pae é um fidalgo <span class="pagenum">[209]</span> excessivamente orgulhoso da sua raça,
+bem sei; mas é tambem pela sua excedente alma, bom apreciador de todas as
+acções que ennobrecem quem as pratica.</p>
+
+<p>--Não podêmos contar com este segredo, minha querida mãe, porque jurei a
+Arthur que o não revelaria, e não sei faltar aos meus juramentos.</p>
+
+<p>--Mau é isso: no entanto, confiemos em Deus.</p>
+
+<p>--Agora, minha boa mãe, deixe-me dizer-lhe mais, que outro sentimento, não
+menos forte do que o meu amor por Arthur, me obriga, e me domina: é a
+gratidão pelo generoso procedimento da nossa Anna. Escrever uma carta a
+chamar o homem que eu amo, por vér, talvez, na sua vinda aqui a minha
+salvação, arriscando-se a ser suspeitada pelo marido, e a soffrer-lhe as
+terriveis consequencias do seu ciume,--é a mais irrefragavel prova de uma
+verdadeira dedicação... Estou inquieta com a perda da carta; bate-me o
+coração com uma violencia desusada, e presinto grande desgraça... Vamos já ao
+quarto da Anna...</p>
+
+<p>--Pois ajuda-me a terminar o meu vestuario... Vamos lá, filha, e socega,
+que Deus tudo fará por melhor.</p>
+
+<p>Quando a mãe e a filha entraram no quarto mortuario, estava lá o cadaver
+só com os romeiros ajoelhados, porque o padre Alvaro fôra procurar o medico
+da localidade, ainda na vaga esperança de salvar a desditosa esposa.</p>
+
+<p>As duas senhoras, consideraram-se por muito tempo victimas de um pesadêlo
+horrivel, ao depararem com aquelle funebre espectaculo. D. Maria da Gloria,
+sem bem saber o que fazia, acercou-se do <span class="pagenum">[210]</span> leito, fitou-o com vistas
+desvairadas, apalpou-o automaticamente, fechou n'uma das mãos um papel
+manchado de sangue, curvou-se depois sobre o cadaver, pousou-lhe os labios na
+fronte, nos olhos, na bôcca, tudo feito como em delirio, levantou lentamente
+a cabeça, olhou para as mãos, abriu aquella que encontrara e fechara o papel,
+acompanhou a quéda natural d'elle com a incerta curiosidade de um innocente
+que deixa cahir o brinquedo, apanhou-o outra vez, examinou-o e, ao
+conhecer-lhe manchas de sangue, um tremor violento se apoderou d'ella...</p>
+
+<p>D. Isabel, conservara-se immovel, como se fôra uma estatua, olhando,
+simultaneamente, e como louca, para o cadaver, para os romeiros e para a
+filha.</p>
+
+<p>Os romeiros levantaram-se, e foram collocar-se, um ao lado de D. Maria da
+Gloria, e outro de D. Isabel; como para lhes servirem de amparo.</p>
+
+<p>O que ficara juncto de D. Maria, tentou brandamente arrancar-lhe da mão o
+papel, ao que ella resistiu, com a reacção dos dementes contrariados,
+procurando em seguida lêr o seu conteúdo. Quando, após uma demorada leitura e
+indeciso exame, a fidalga donzella levantou a fronte, e fechou os punhos, o
+seu aspecto aterrava. Aquella feminil belleza, transformada pela dôr,
+afugentaria de si, n'aquelle momento, o seu mais apaixonado amante!</p>
+
+<p>Demorou-se ainda alguns minutos silenciosa, e terrivel de vêr-se; até que,
+tomando uma deliberação repentina, curvou outra vez a cabeça, e disse ao
+ouvido do cadaver, n'um tom de voz indiscriptivel:</p>
+
+<p>--«Assassinaram-te por minha causa, irmã!... O teu assassino, o monstro
+que nos roubou e te seduziu, ama-me... entendes?!!... Oh!... como tu <span class="pagenum">[211]</span>
+vaes ser vingada!... Ha-de o infame soffrer mil mortes em cada segundo, até
+ao seu ultimo sôpro de vida... Juro-t'o pela honra do meu nome!...»</p>
+
+<p>Em seguida tirou o punhal do peito do cadaver, metteu-o no seio sem o
+limpar, guardou a carta fatal, e, agarrando nas mãos de sua mãe, sairam ambas
+repentinamente.</p>
+
+<p>Tiveram apenas tempo de transpôr os umbraes da porta d'aquelle recinto,
+quando um grito unisono, dos dous romeiros, as teria feito retroceder, se o
+estado em que fugiam lhes podésse deixar ouvil-o.</p>
+
+<p>Aquelle grito fôra occasionado por ter parecido aos romeiros, que o
+cadaver abrira os olhos:--Ao tentarem verificar a sua illusão, estavam já
+acompanhados do padre Alvaro e do medico. <span class="pagenum">[212]</span><br><span class="pagenum">[213]</span> </p>
+
+<h3>II<br>
+MYSTERIO</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«Os conegos da sé de Evora, conduziram, sem pompa, á igreja de S.
+Domingos, entoando as orações dos finados, o cadaver truncado do duque de
+Bragança.»</p>
+
+<p class="direita">(<span class="smallcaps">Chronica do seculo xv.</span>)
+</p>
+</div>
+
+<p>Algumas horas depois que o padre Alvaro, os romeiros e o medico, tinham
+ficado no quarto mortuario, junto do cadaver, era publica a morte da infeliz
+D. Anna, que fôra attribuida a um ataque cerebral. Os creados e os visinhos
+do palacio, lamentavam sinceramente o funebre succedimento, e a fatal
+consequencia d'elle, que fôra a immediata loucura do <em>extremoso</em>
+marido.</p>
+
+<p>Para que esta mentira fosse a versão publica da repentina morte de uma das
+nossas heroinas, fôra preciso que o padre Alvaro empregasse com D. Maria da
+Gloria e sua mãe, a sua auctorisada e respeitavel palavra, para as convencer
+da necessidade de, por aquelle modo, estorvarem a acção da justiça, e a
+deshonra <span class="pagenum">[214]</span> que o facto, commentado pelos ociosos, traria a todos; e
+tambem o grave desgosto, que elle causaria ao velho fidalgo Sebastião da
+Mesquita.</p>
+
+<p>Accordado em que assim se publicasse ficou o bom do padre incumbido de
+tudo remediar, e assim o fez.</p>
+
+<p>O que se passou entre o medico, os romeiros e o padre, antes que este
+viesse pactuar a util e generosa mentira, é, por emquanto, vedado aos
+leitores.</p>
+
+<p>Houve desde logo todo o cuidado de não deixar penetrar pessoa alguma no
+quarto da finada, e de fazer desapparecer todos os vestigios do crime. Aos
+que notaram ser o cadaver conduzido immediatamente, em caixão fechado, á
+capella do palacio, sem preceder a demora, e a exposição costumada, foi-lhes
+revelado, que a defuncta deixára disposta antecipadamente a condição de não
+ser visto do publico o seu cadaver, e de se evitarem, no enterro, todas as
+pompas.</p>
+
+<p>Até ao momento do caixão descer ao jazigo de familia, foi constantemente
+guardado por um dos romeiros.</p>
+
+<p>Concluida a funebre ceremonia, voltou o padre Alvaro para junto das
+consternadas senhoras. O tranquillo aspecto do ministro de Deus, as suas
+palavras persuasivas, e a força de seus concludentes raciocinios, deram ás
+fidalgas mulheres a coragem necessaria, para continuarem com firmeza a
+encobrir o crime.</p>
+
+<p>D. Maria da Gloria, deixou transparecer a ideia da sua medonha vingança,
+que o padre rebateu com evangelicas razões: foi um combate de palavras, entre
+dous adversarios valentes e convictos, que só teve em resultado firmar-se
+mais cada um d'elles no seu proposito. <span class="pagenum">[215]</span> A donzella tinha n'alma a
+gratidão, e o padre a caridosa doutrina de Christo: D. Maria queria vingar de
+um monstruoso crime, a companheira e amiga, que por sua causa fôra victima; o
+bom Alvaro queria o perdão do criminoso, e pedia-o, a exemplo do que o
+Christo implorára para os seus matadores.</p>
+
+<p>No mais caloroso do debate, entrou Leopoldo vagarosamente no local d'elle.
+D. Isabel teve medo d'aquelle homem, e conchegou-se á filha; o padre Alvaro
+ficou impassivel, e D. Maria da Gloria teve força para concentrar a sua
+cólera.</p>
+
+<p>Leopoldo, com todos os modos de completo idiotismo, disse a D. Maria:</p>
+
+<p>--Vá reconhecer o inimigo, snr. ajudante... Tenho um plano que nos dará
+infallivelmente a victoria... É um segredo que só direi a meu filho, por que
+vae commandar a emboscada... É verdade... peça a meu filho que me não bata...
+pede?... Eu sou tão amigo d'elle... Coitadinho!... está doido!... diz que lhe
+matei a mãe, e fustiga-me sem piedade!... Peça-lhe muito, sim?... Vá... vá,
+que eu espero a resposta no quartel general...</p>
+
+<p>E sahiu com o mesmo vagar com que entrára, deixando as mulheres
+estupefactas, porque ainda ignoravam o facto da loucura de Leopoldo.</p>
+
+<p>--Este homem está effectivamente louco?!...</p>
+
+<p>--Está, sim, snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria...</p>
+
+<p>--Eu julguei, que o snr. padre Alvaro teria combinado com elle o fingir-se
+demente por algumas horas, para melhor encobrir o seu crime...</p>
+
+<p>--Não, minha senhora, era essa uma calúmnia desnecessaria, e pouco digna.
+O infeliz perdeu a razão, logo em seguida ao crime. Antes da sua vingança,
+<span class="pagenum">[216]</span> senhora D. Maria, appareceu o castigo da Providencia...</p>
+
+<p>--É preciso curar-lhe a loucura, e hade curar-se... Empregarei, para
+conseguil-o, todos os carinhos que dispensaria ao homem idolatrado... Quero
+vingar a minha querida Anna...</p>
+
+<p>--Desconheço-a, snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria!... Pois, que vingança
+quer V. Exc.<sup>a</sup> tirar, no estado d'aquelle infeliz?!...</p>
+
+<p>--O snr. padre Alvaro não sabe o que é o coração da mulher <em>de
+raça</em> quando ama ou quando odeia... O castigo que eu reservo áquelle
+malvado, se poder conseguir fazel-o recuperar a razão, a mim propria causaria
+terror, não me dominando a ideia de vingança...</p>
+
+<p>--E não receia, com o seu procedimento, descobrir o crime a seu
+exc.<sup>mo</sup> pae?...</p>
+
+<p>--Socegue, que a dissimulação é a mais forte defeza das mulheres.</p>
+
+<p>--Mas, minha filha, o snr. padre Alvaro diz bem... Tu não deves querer o
+que Deus não quer...</p>
+
+<p>--Perdão, minha santa mãe.....Se não deseja vêr sua filha morta pela dôr,
+e pela saudade, deixe-a dar largas á sua gratidão...</p>
+
+<p>Tres dias depois de ter logar o enterro, chegava áquelle formoso e triste
+domicilio, o velho fidalgo Sebastião da Mesquita, já sabedor pela voz
+publica, que se antecipára á parte dada pela familia, da morte de D. Anna e
+da loucura de Leopoldo. <span class="pagenum">[217]</span> </p>
+
+<h3>III<br>
+BRIOS DE RAÇA</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«Se de imitar meu nome te gloreias,<br>
+          As façanhas me imita,<br>
+Ou na Patria Nação, ou nas alheias,<br>
+          O meu valor te incita:<br>
+Ségue os meus passos, segue a meu exemplo,<br>
+Se morar quéres, n'este honrado templo.»</p>
+
+<p class="direita">(<span class="smallcaps">Filinto Elysio.</span>) </p>
+</div>
+
+<p>Decorreu um mez, após a chegada do velho fidalgo ao palacio de
+Leopoldo.</p>
+
+<p>Sebastião da Mesquita, já bastante alquebrado, e mal convalescido, cahira
+de novo na cama, muito magoado com a morte de D. Anna, e com a loucura do
+marido. Tornou-se grave o seu padecimento, que dava sérios cuidados ao seu
+assistente. Mais do que á sciencia, aos desvelos de sua esposa D. Isabel
+d'Abendanho, que passava dias e noites á cabeceira do enfermo, deveu o velho
+fidalgo as leves melhoras que sentia.</p>
+
+<p>D. Maria da Gloria, toda entregue ao seu pensamento dominante, procurava
+fazer recuperar o juiso a Leopoldo. Consultara todos os medicos que visitaram
+<span class="pagenum">[218]</span> seu pae, e ouvira d'elles opiniões de que os muitos cuidados e
+carinhos empregados com o louco e, mais tarde, algumas impressões violentas,
+poderiam, talvez, trazer-lhe a razão.</p>
+
+<p>Quem presenciasse o cuidado permanente, que a fidalga donzella empregava
+com Leopoldo, diria que, a não ser uma sua extremosa amante, era uma filha
+dedicada ao triste dementado. E conseguira já muito: Leopoldo tinha alguns
+lucidos intervallos, em que parecia conhecer a sua gentil enfermeira, e em
+que vertia copiosas lagrimas. Succedia mesmo, nos curtos instantes em que a
+donzella se afastava, ser chamada pelo nome de filha, em altos gritos, e até
+procurada pelo infeliz, com a pertinacia da loucura.</p>
+
+<p>Sebastião da Mesquita teve uma longa e religiosa conferencia com o padre
+Alvaro, despida de apparatos que, aos timidos, encurtam as horas de vida;
+conversação que augmentara as melhoras do velho fidalgo, e o predispozéra
+para este dialogo:</p>
+
+<p>--Agora, meu bom amigo, que as suas evangelicas palavras conseguiram
+fazer-me esperar mercê da Providencia para os meus êrros, consinta-me que lhe
+falle do nosso Arthur...</p>
+
+<p>--V. exc.<sup>a</sup> assusta-me com esse modo solemne!.. Sabe alguma
+coisa má do seu afilhado?...</p>
+
+<p>--Sou eu que peço agora resignação e coragem, áquelle que ha pouco me
+fallava com desprendimento das cousas terrenas... Bem sabe que tenho soffrido
+muito: posso, pelas minhas, avaliar as dôres alheias; mas tambem sei que o
+padre Alvaro é um martyr a quem Deus concedeu forças superiores ao commum dos
+homens...</p>
+
+<p>--Acabe, senhor, se não quer vêr-me morrer de <span class="pagenum">[219]</span> impaciencia!... Que
+desgraça pésa sobre meu filho?!...</p>
+
+<p>--Póde ser mentira... Os periodicos muitas vezes desmentem no dia
+seguinte, o que asseveraram na vespora... Comtudo, eu li, em Guimarães, uma
+gazeta, que noticiava ter sido... gravemente ferido o meu afilhado n'um
+recontro com as tropas da rainha...</p>
+
+<p>Um grito de suprema angústia, foi a unica resposta que ouviu o fidalgo,
+vendo em seguida fugir-lhe o padre, com a rapidez e o vigor da mocidade!</p>
+
+<p>Deus por certo se amerciou com a mágua de aquelle pae, porque logo deparou
+com D. Maria da Gloria, que o susteve, e lhe disse que Arthur Soares estava
+livre de perigo, mostrando-lhe as cartas que tinha em seu poder, e pondo-o ao
+facto de quanto succedera.</p>
+
+<p>--Obrigado, minha querida filha! O céu lhe compensará o bem que fez a este
+peccador... Não se póde vencer a natureza, e eu sou pae... De certo eram
+ficticias as forças que me deu o desespero, e eu não chegaria ao Porto com
+vida... não veria ainda uma vez o filho do... Perdôe-me v. exc.<sup>a</sup>
+esta revelação do meu criminoso passado...</p>
+
+<p>--Já sabia o que me diz... adivinhou-o o meu coração...</p>
+
+<p>--É magnanimo o seu coração, minha senhora, e receio que d'essa extrema
+bondade lhe resultem sérios dissabôres... Arthur não é nobre,
+snr.<sup>a</sup> D. Maria, nem sequer é um filho legal!... V.
+exc.<sup>a</sup> fez mal em dar entrada ao sentimento que nutre por
+elle...</p>
+
+<p>--Seu filho possue a mais verdadeira e sólida das nobrezas--a da alma--e
+eu amo-o!...</p>
+
+<p><span class="pagenum">[220]</span>--E seu pae, minha senhora?!... Não sabe V. Exc.<sup>a</sup> quanto
+elle é orgulhoso da sua raça?!...</p>
+
+<p>--Diligenciarei convencel-o e, se não o conseguir...</p>
+
+<p>--Por Deus, senhora D. Maria, não pense em desobedecer a seu illustre
+pae!... Desgraçados d'aquelles que na sua mocidade se deixam arrastar pelas
+paixões! Eu sei o que tenho soffrido, senhora!... Não queira augmentar os
+remorsos d'este pobre velho, com o mal causado por meu filho!... De joelhos
+lhe peço que me jure, que nunca procederá de encontro á vontade paterna...</p>
+
+<p>--Quer, então, a minha morte?...</p>
+
+<p>--Quero a sua salvação, senhora D. Maria da Gloria! Quero o cumprimento de
+um dever sagrado, que póde até tornar respeitavel o seu amor por meu filho.
+Se V. Exc.<sup>a</sup> soffresse a maldição paterna, não haveria posição que
+lhe désse tranquillidade: infelicitava-se, e fazia seu cumplice aquelle que
+ama... Já não quero que attenda a este velho, que a implora, e que dentro em
+pouco será pasto dos vermes...</p>
+
+<p>--Basta, snr. padre Alvaro!... Juro-lhe que serei sempre filha obediente e
+respeitosa, ainda que isso me custe a vida!...</p>
+
+<p>--Obrigado, querido anjo!... Hade viver e ser muito feliz, porque Deus é
+justo... Deixe-me pedir-lhe perdão de ter estranhado a sua dureza, para com o
+desgraçado marido de D. Anna... Eu ignorava a causa do seu criminoso proceder
+e os motivos de gratidão que levavam V. Exc.<sup>a</sup> á vingança... Ainda assim,
+peço-lhe que o deixe entregue ao castigo providencial que o pune...</p>
+
+<p>--A esse respeito, é inabalavel o meu proposito, <span class="pagenum">[221]</span> e serei tanto
+mais cruel, quanto mais contrariado fôr o meu affecto por Arthur... Vae de
+certo ao Porto, snr. padre Alvaro, e eu atrevo-me a pedir-lhe noticias do
+doente... Concede-me este pedido?</p>
+
+<p>--Cumprirei essa obrigação, minha senhora.</p>
+
+<p>Poucas horas depois de ter logar o encontro que acabamos de escrever, foi
+D. Maria da Gloria chamada por seu pae, que lhe dirigiu a palavra n'estes
+termos:</p>
+
+<p>--É tempo, querida Maria, de te explicar alguns dos meus actos, e de te
+dar a minha opinião sobre o teu futuro. Deus sabe se me tornarei a levantar
+d'este leito, e desejo que o meu passamento seja o mais tranquillo
+possivel...</p>
+
+<p>--O meu bom pae, e senhor, está livre de perigo, e ha de viver ainda
+muitos annos, para a nossa felicidade:</p>
+
+<p>--É para que sejas feliz, que eu vou remecher no meu passado, e despertar
+factos que me remordem na consciencia. Quero que a minha vida sirva de
+exemplo á tua, seguindo-a no bem, e fugindo ao mal que os seus erros me
+trouxeram... Escuta-me: tive na minha mocidade sérias ligações, que acabaram
+com a morte de filhinhos que estremeci; e, já depois de casado, vi uma
+encantadora menina, cheia de virtudes, vivendo na companhia de seus paes de
+quem era o unico enlevo. As demandas da nossa casa, fizeram-me travar
+relações com o pae, o melhor jurisconsulto que então existia em Penafiel.
+Abusei da confiança que me deram, para me insinuar no animo da gentil e
+innocente criança, que em breve sentiu por mim um d'esses affectos, que são a
+felicidade ou a completa desgraça dos que os nutrem, segundo o bem ou o mal
+<span class="pagenum">[222]</span> empregado d'elles. Amei-a... amei-a levianamente!... Quando os meus
+brios me fizeram conhecer a infamia do meu procedimento, quiz fugir-lhe, mas
+já não era tempo!... Um dia, a vigilancia paterna, arrebatou a infeliz Laura
+ao meu amor, e fez encerral-a num recolhimento... Mais tarde, entrava eu
+furtivamente, e a deshoras, na casa sagrada, para receber nos meus braços
+duas gêmeas recem-nascidas... E sabes quem eram aquellas criancinhas, que a
+minha criminosa leviandade fez vir a este mundo?... Eram as tuas discipulas
+Rosa e Anna...</p>
+
+<p>--Minhas irmãs!!...</p>
+
+<p>--Sim, tuas irmãs... uma das quaes está morta, e a outra... perdida!...</p>
+
+<p>--Que diz, meu pae, perdida?!! A Rosa está perdida?!... Perdida,
+como?!...</p>
+
+<p>--Ha muito que eu andava suspeitando da profunda melancolia de Rosa, e dos
+seus modos inteiramente oppostos á indole viril e folgasã que sempre lhe
+conheci. Antes da minha partida para Guimarães, procurei-a em casa dos
+suppostos paes, quando estes choravam a sua inopinada e inexplicavel
+ausencia... Esquecia-me dizer-te, que aquellas infelizes crianças encontraram
+carinhosas mães, em duas das minhas caseiras, cujos maridos tiveram a bondade
+de consentir na alimentação de seus verdadeiros filhos a peitos estranhos,
+para que as minhas filhas podessem ser amamentadas por suas esposas, e tidas
+como filhas d'elles por toda a povoação... Foi assim que sempre as pude ter
+perto de mim, ignorando, ellas e o mundo, que eram gêmeas, e que eu era seu
+pae...</p>
+
+<p>--E é á simples <em>ausencia</em> de Rosa, que o meu bom pae e senhor
+chama <em>perdição</em>?!...</p>
+
+<p><span class="pagenum">[223]</span>--Encontrei-a em Guimarães, entregue a um homem desconhecido,
+talvez o seu amante, fazendo gala da sua liberdade... Soffri muito!... Os
+brios da minha raça, fizeram com que mais uma vez esmagasse o coração; mas
+tive forças para a desprezar publicamente... Já vês, que está perdida, e bem
+perdida!...</p>
+
+<p>E uma torrente de lagrimas, serviram de epilogo á narração do velho
+fidalgo.</p>
+
+<p>D. Maria da Gloria, estava cadaverica, mas não vertia uma só lagrima.
+Tinham sido tão violentos, e seguidos, os choques que soffrêra, havia
+n'aquella fidalga indole tamanha reacção contra a má sorte, que a donzella,
+imitando os que a adversidade torna heroes, reprimia todas as dôres, e
+concentrava todas as suas forças para a lucta.</p>
+
+<p>--Minha irmã não podia entregar-se voluntariamente a qualquer homem,
+pisando aos pés a sua dignidade... V. Exc.<sup>a</sup>, meu respeitavel pae,
+deixou-se illudir por falsas apparencias, e o tempo hade esclarecer o
+mysterio, provando-lhe que uma filha de Sebastião da Mesquita, não
+sobrevivería uma hora á sua deshonra...</p>
+
+<p>--Como tu és boa, minha querida Maria!...</p>
+
+<p>--Sou apenas justa, meu bom pae. Espero, com plena confiança, vêr um dia
+resurgir minha irmã Rosa, tão digna como eu da sua benção, e do seu
+affecto... Agora, se V. Exc.<sup>a</sup> o consente, dir-lhe-hei, que lamento
+o não se poder legitimar o nascimento de minhas irmãs, pelo enlace de V.
+Exc.<sup>a</sup> com a senhora que foi mãe d'ellas...</p>
+
+<p>--Estamos chegados ao ponto principal d'esta solemne conferencia, minha
+querida filha... Peço-te que <span class="pagenum">[224]</span> continues a escutar-me com a maior
+attenção, porque é de todo o melindre o que vou dizer-te... Para nós, os
+homens que na bruma de tempos immemoriaes temos escondida a nossa gloriosa
+origem, a nobreza não é o echo de pomposos nomes, nem o apparato de vaidosos
+titulos, nem a fama de notaveis feitos: é uma questão de <em>raça</em>. O rei
+póde fazer nobres; mas os fidalgos só os faz a <em>casta</em>... Não ha
+memoria de existir na minha familia uma alliança inconveniente... Gira em
+nossas veias um sangue tão puro, como possuira o primeiro fidalgo d'esta
+raça: é uma herança, que só póde deixar de transmittir-se pela morte da
+ultima vergontea da nossa arvore gigante...</p>
+
+<p>--Meu Deus! que pesada herança!...</p>
+
+<p>--Dizes bem, Maria, muito pesada... Senti-lhe todo o rigor, quando tive de
+sacrificar-lhe o coração... Poupa-me a narrativa de alguns detalhes, que me
+fariam córar de pejo... Basta saberes, que não obstante a existencia de
+ligações graves, que tive de quebrar, conduzi aos altares minha prima e tua
+santa mãe... Cumpri o legado da minha casta á custa de permanentes remorsos,
+aggravados depois com a existencia de tuas irmãs!... Vou hoje exigir de ti,
+minha presada filha, e unica representante do meu nome, não um sacrificio
+igual ao meu, porque de certo tens livre o coração, mas sim a tua palavra de
+receberes por esposo o distincto fidalgo que te escolhi...</p>
+
+<p>--É impossivel, meu pae e senhor!... Eu tenho já o coração cheio de
+affecto por um homem dignissimo, e a nenhum outro posso entregar-me...</p>
+
+<p>--Custa-me isso, filha, porque dei a minha palavra, embora reservasse o
+ter de ouvir-te primeiramente... Comtudo, o cavalheiro por mim escolhido,
+hade <span class="pagenum">[225]</span> acceitar-me as rasoaveis desculpas, e tudo poderá combinar-se,
+sendo o teu preferido, como é de crer, um fidalgo de verdadeira raça...</p>
+
+<p>Felizmente para a enleiada donzella, ao soarem as ultimas palavras do
+velho fidalgo, entrou sua mãe no quarto, acompanhada por João de Lencastre, e
+foi a bondosa <em>fidalga das chaves</em> que respondeu ao marido:</p>
+
+<p>--Não sei a que raça pertence o homem que nossa filha ama, meu presado
+primo e senhor, mas conheço-lhe as acções, e posso affiançar-lhe sob a minha
+palavra de <em>verdadeira fidalga</em>, que ninguem as tem mais illustres...
+Peço ao meu esposo, que desculpe a esta curiosa velha o ter escutado a sua
+conversação com a nossa filha... Sabia da sua bocca o que se havia de entre
+ambos passar, é certo; mas tinha maternaes razões, para não deixar só no
+campo esta sensivel criança...</p>
+
+<p>--Então, pelo que escuto, era uma conspiração!... Entrou tambem n'ella o
+senhor meu primo João de Lencastre?... Ora deixem estar, que lhes hei-de
+fazer pagar caro o segredinho... Vamos lá a saber o nome do feiticeiro, que
+assim me roubou a melhor parte do coração de minha filha, e que teve artes
+para chamar a minha sancta prima ao seu partido... Venha, venha esse nome
+magico...</p>
+
+<p>--Chama-se, simplesmente, Arthur Soares...</p>
+
+<p>--O meu afilhado?!!... Deus não quiz que V. Exc.<sup>a</sup>,
+snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria, calcasse aos pés as venerandas cinzas de
+seus avós, e matasse seu pae já proximo do tumulo... O snr. Arthur Soares,
+não póde ser... <em>seu marido</em>, porque... morreu!...</p>
+
+<p>--Engana-se, meu pae, e senhor!... Arthur vive, <span class="pagenum">[226]</span> e sempre viverá na
+minha alma!... Foi gravemente ferido, mas está livre de perigo... Ha-de viver
+longos annos... Ha de ser muito feliz, porque o merece, porque tem uma alma,
+que vale por todas as nobrezas da terra... Ha-de chorar todas as
+infelicidades que talvez esperem a minha raça, conservando-se constantemente
+á altura dos seus nobilissimos sentimentos... Affirmo-lhe, senhor, que nunca
+partiu d'elle a minima palavra ou o mais insignificante gesto, que v.
+exc.<sup>a</sup> não podesse presencear... Amei-o, e hei-de amal-o
+eternamente... Mas sou fidalga!... Sou a herdeira de um nome que deve passar
+<em>immaculado</em> á posteridade, continuando em mim uma infinda série de
+aristocraticas allianças!... Seja!!... V. exc.<sup>a</sup> que diz de um
+Lencastre para meu esposo?...</p>
+
+<p>--São de boa casta os Lencastres, minha filha; mas...</p>
+
+<p>--Muito bem, meu pae e senhor!... Com quanto eu receba a cruz da minha
+herança, a escolha agora é minha... Findo o lucto pela morte de minha irmã
+Anna, serei esposa do snr. Leopoldo de Lencastre!...</p>
+
+<p>Ficaram de tal sorte aturdidos os restantes personagens, com este
+inesperado desenlace, que nem uma palavra se ouviu mais, retirando-se a
+donzella cheia de magestade. <span class="pagenum">[227]</span> </p>
+
+<h3>IV<br>
+VISÃO</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«Um presentimento de terror, d'aquelles que batem no coração de repente,
+sem saber por quê nem d'onde vêem...</p>
+
+<p>«Tem sempre fé em Deus, que hade querer o que fôr melhor para nós.</p>
+
+<p>«E é trovoada isto, que se escurece tudo?... Não, são as sombras da
+Eternidade que vêem sobre mim.»</p>
+
+<p class="direita">(<span class="smallcaps">Visconde de Almeida
+Garrett</span>--<span class="smallcaps">Fragmento de um romance
+inedito</span>.) </p>
+</div>
+
+<p>Conseguido o quietismo dos animos pela retirada de D. Maria da Gloria,
+veiu a cada um a consciencia do que lhe ouvira affirmar, com uma invencivel
+força de pasmosa vontade.</p>
+
+<p>Sebastião da Mesquita, embora tivesse triumphado no seu principal
+proposito, não ficára tranquillo, porque lhe era antipathico o genro; mas o
+seu orgulho de raça podia mais n'elle do que todos os bons sentimentos que
+possuia: conheceu que sua filha era mulher de não retrogradar, e resolveu
+conformar-se, guardando silencio.</p>
+
+<p>D. Isabel de Abendanho, comprehendendo mal o <span class="pagenum">[228]</span> que se passára,
+esperava os acontecimentos com a confiança das almas puras.</p>
+
+<p>João de Lencastre, ficára engolfado nos seus pensamentos, e só usou da
+palavra, passado bastante tempo, para responder a algumas perguntas que lhe
+fez Sebastião da Mesquita, e despedir-se dos velhos fidalgos, dizendo-lhes
+que ia seguir a sorte da guerra.</p>
+
+<p>D. Maria da Gloria, mais do que nunca, ficára toda entregue ao tractamento
+do demente.</p>
+
+<p>Ao dar meia noite do quarto dia, posterior áquelle em que a fidalga
+donzella tão inesperadamente desenlaçára o temivel nó, que seu pae lhe
+lançára ao collo, gemia Sebastião da Mesquita no seu leito as dôres de sua
+teimosa enfermidade, e as que procediam de um pesadelo medonho. Via as suas
+filhas bastardas, uma levantar-se do tumulo, e outra surgir do meio de uma
+turba de mulheres hediondas pela miseria e pela devassidão, pedirem-lhe
+contas dos carinhos maternaes, a que elle as arrebatara; de um nome que
+podessem usar sem pejo, que elle não podia dar-lhes; e de um futuro igual ao
+que esperava a sua filha legitima, que já não podia ser o d'ellas... O mais
+terrivel da visão, era o espectro da mulher de Leopoldo... D. Anna apparecia
+a seu pae, em todo o vigor da sua mocidade, criminando-o pela forçada ligação
+a que elle a levára, e que fôra causa da morte prematura que tivéra... O
+velho fidalgo, implorava o perdão de sua filha, e a victima exigia-lhe, em
+troca, nada menos que o completo aniquilamento da sua raça... Queria que seu
+pae désse por escripto o seu consentimento para D. Maria da Gloria poder
+casar-se com Arthur Soares... Apresentava-lhe penna, tinta e papel, e
+dizia-lhe, pela voz da eternidade: <span class="pagenum">[229]</span></p>
+
+<p>«Em nome de Laura, a virgem que deshonrastes, e á qual nem foi dado
+depositar um beijo maternal nas faces de suas filhas!... Em nome das
+cruciantes dôres e das lagrimas de sangue, que levastes ao seio de uma
+familia honesta!... Em nome do desespero da filha, que o teu despreso atirou
+ao lôdo social!... Em nome, finalmente, d'esta outra filha, que fizestes
+morrer na flôr da vida; e para que todos te perdoem, e Deus se amerceie da
+tua alma,--escreve: «<em>Dou voluntariamente o meu consentimento para minha
+filha D. Maria da Gloria poder casar-se com o meu afilhado Arthur Soares. Ás
+portas da eternidade, prestes a comparecer perante o pae commum, reconheço
+que só é verdadeiramente nobre, aquelle que segue no mundo os preceitos de
+Jesus Christo==«Não faças a outrem o que não queres para ti, perdôa as
+injurias, e ama o teu proximo como a ti mesmo.»==Sebastião da
+Mesquita.</em>»</p>
+
+<p>E o torturado velho, banhado em frios suores, sem ter já forças para
+affastar de si a vingadora visão, que o aterrava, sem poder distinguir se
+tudo aquillo era sonho ou realidade, pareceu-lhe que cedia ás ordens da
+filha, e que estava escrevendo o que ella lhe
+dictava................................</p>
+
+<p>Succedeu-se á visão um quebrantamento, que teve o velho fidalgo prostrado,
+por algumas horas, como se estivera morto.</p>
+
+<p>Ao abrir os olhos, viu Sebastião da Mesquita junto da cabeceira a
+sollicita e carinhosa esposa. Diligenciou recordar-se, e communicou o
+acontecido a D. Isabel, em voz fraca, e cada vez mais duvidoso, se um sonho
+fôra, ou se tudo se passára na realidade. A bondosa senhora, aproveitou
+aquellas disposições do marido, <span class="pagenum">[230]</span> para advogar a causa da filha. Pintou
+Arthur Soares com as mais bellas côres; revelou o que elle praticára em
+beneficio de D. Anna, porque entendeu que o juramento de guardar segredo,
+dado por D. Maria, a não obrigava a ella; descreveu com enthusiasmo o casto
+amor da donzella, e o que ella soffreria tendo de o sacrificar ao dever de
+esposa de um homem aborrecido; foi, finalmente, sublime de eloquencia
+maternal.</p>
+
+<p>No fim das suas expansões, olhou D. Isabel para o marido, a vêr se lhe lia
+nos olhos o assentimento, que os labios não tinham proferido. Não conseguiu o
+seu intento, porque os olhos de Sebastião da Mesquita estavam completamente
+fechados... O remorso fôra um poderoso auxiliar da enfermidade...</p>
+
+<p>Áquella hora, já o velho fidalgo sabia se lá nas alturas Deus permitte a
+distincção de <em>humanas raças</em>... <span class="pagenum">[231]</span> </p>
+
+<h3>V<br>
+TRES SOLDADOS POR AMOR</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«Tomai pensar mais solido e sizudo:<br>
+O caminho segui que a honra indica;<br>
+Trabalhai pela Patria, a Patria é tudo.»</p>
+
+<p class="direita">(<span class="smallcaps">Poesias de Antonio Joaquim de
+Mesquita e Mello</span>). </p>
+</div>
+
+<p>Entremos na residencia do reitor de Santo Adrião de Penafiel.</p>
+
+<p>Estamos na sala do oratorio, onde já vimos orar D. Isabel e o velho
+parocho, por occasião dos <em>raptos</em>, e do incendio, da primeira parte
+d'esta obra.</p>
+
+<p>Ajoelhado aos pés de Christo, está um vulto de mulher, nova e bella ainda
+apesar do seu definhamento.</p>
+
+<p>Assentados em um movel de junco de dous logares unidos, com as costas
+oppostas uma a outra, ficando por isso as pessoas a olharem-se de frente,
+estão a um canto Rosa e João Vidal ou de Lencastre.</p>
+
+<p>A um lado, escrevendo, está o bondoso reitor. <span class="pagenum">[232]</span></p>
+
+<p>Trajam todos rigoroso lucto.</p>
+
+<p>Ouviremos o que dizem João e Rosa:</p>
+
+<p>--Quando seccarão as lagrimas nos seus olhos, snr.<sup>a</sup> D.
+Rosa?...</p>
+
+<p>--Não ha muito que chóro, meu amigo, e ainda bem que posso chorar... Sou
+muito mais forte do que me julgam, e do que eu mesma pensava ser... Tenho
+atravessado de olhos enchutos crises violentas, que nem todos os homens
+atravessariam de animo frio... Mas saber, na mesma hora, que era filha de um
+respeitavel cavalheiro, e que meu pae morrera considerando-me perdida... é de
+mais, bem o conhece!...</p>
+
+<p>--Não posso asseverar-lhe qual foi a convicção com que seu
+exc.<sup>mo</sup> pae falleceu; mas ao despedir-me d'elle, julgando eu que
+ainda o veria muitas vezes, quando elle me pediu noticias suas, jurei-lhe,
+pelo meu nome, que v. exc.<sup>a</sup> era em tudo sua digna e honrada filha.
+Este meu juramento, pelo conhecimento que elle tinha do meu caracter, e dado
+poucos momentos depois de sua exc.<sup>ma</sup> irmã D. Maria lhe ter dicto,
+por uma sublime inspiração, que a snr.<sup>a</sup> D. Rosa havia de resurgir
+pura de toda a mácula,--devia ser bastante para o convencer de que fôra
+precipitado em julgar por apparencias. Não posso adiantar-lhe mais, porque me
+era impossivel mentir-lhe, mesmo para seu bem. Estive lá, como sabe, quando
+fui acompanhar aquella desventurada martyr, que implora a Deus o perdão dos
+que a sacrificaram, e desconheceram suas virtudes;--mas não fallei com pessoa
+alguma da familia, porque assim era preciso... Poucas horas depois, já seu
+exc.<sup>mo</sup> pae não era d'este mundo!</p>
+
+<p><span class="pagenum">[233]</span>--Querido pae, e boa irmã!... É preciso que terminado o lucto, meu
+bom amigo, D. Maria da Gloria seja feliz.</p>
+
+<p>--Sabe o que se fez, e o que se espera. O plano de v. exc.<sup>a</sup> foi
+rigorosamente executado. Admiro-a, snr.<sup>a</sup> D. Rosa!... Como Deus lhe
+dá forças para esmagar o coração!...</p>
+
+<p>--Não me julgue de leve, meu amigo, que póde enganar-se nos seus juizos a
+meu respeito. É muitas vezes insondavel o coração da mulher... Eu mesma não
+saberia, talvez, dizer em verdade quaes sejam os estimulos do meu actual
+proceder...</p>
+
+<p>--Quer a desgraça que os eu conheça, senhora, e que os sinta
+inabalaveis... São rarissimas as mulheres que sabem sacrificar o amor aos
+seus brios, á dedicação e amisade; mas ha exemplos, e v. exc.<sup>a</sup> é
+das que póde praticar todos os extraordinarios...</p>
+
+<p>--E não tenho podido conseguir fazel-o feliz com a minha illimitada
+estima... Veja que apoucado poder é o d'esta <em>extraordinaria</em>
+mulher...</p>
+
+<p>--O que quer, senhora?!... O ambicioso soffre e caminha continuadamente,
+até chegar ao cumulo da sua ambição, ou succumbir sem vêr realisadas as suas
+loucas esperanças... Cheguei a meio caminho do meu paraiso, é certo; deveria
+contentar-me, por que fôra alcançar já muito mais do que merecia; mas esse
+mesmo exito augmentou a minha loucura, e não posso ficar parado... Antes
+morrer com a esperança no pensamento, do que arrastar a vida sem essa dôce
+consolação dos que padecem...</p>
+
+<p>--E como lhe ha de conceder <em>esperanças</em>, a mulher que o senhor
+salvou da <em>perdição</em>, onde ella se foi voluntariamente lançar por amor
+a <em>outro</em> homem?!...</p>
+
+<p><span class="pagenum">[234]</span>--Não lhe tenho eu jurado muitas vezes, que seria o mais extremoso
+e dedicado dos esposos?... Suspeita-me capaz, mil annos que vivessemos
+juntos, de lhe fazer a mais remota allusão a um seu passo impensado, que nem
+erro se póde chamar?...</p>
+
+<p>--E julga que me satisfaço com tão pouco?!... Avalia-me com a capacidade
+de o victimar, para salvar a minha virtude?!... Como é injusto, João!... Se
+fosse possivel ter entrada no meu peito, para lhe dar, um affecto ainda
+superior ao que me levou a affrontar os prejuizos sociaes, seria então sua
+esposa, creia-o... Mas posso eu sentil-o?... E sentindo-o, não deveria
+occultal-o a mim propria, para não ter de córar da minha versatilidade?...</p>
+
+<p>--Sou, pois, infallivelmente condemnado, não é verdade?!... Um pedido
+então, senhora, e será o ultimo... Deixe-me ir batalhar pela nação... V.
+Exc.<sup>a</sup> já não carece dos meus serviços... tem a companhia d'aquella
+martyr, e d'aquelle respeitabilissimo ancião... Vou para junto do meu
+camarada Arthur... talvez que precise do meu auxilio, e juro-lhe que darei
+por elle a vida... Consente, não é assim?... Não me responde?!... Chora?!...
+Compadeça-se de mim, senhora, e deixe-me partir!...</p>
+
+<p>Usando dos privilegios concedidos a todos os narradores, vamos agora lêr a
+carta, que o padre Alvaro acaba de escrever: </p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="direita">«<em>Exc.<sup>ma</sup> Snr.<sup>a</sup> D. Maria da
+Gloria, escolhida filha do bondoso Deus</em>:</p>
+
+<p>«Não ha flôres por mais mimosas que a natureza as produzisse, que estejam
+ao abrigo das tempestades <span class="pagenum">[235]</span> da terra; e por muito açoitadas e pendidas
+que ellas fiquem, o sopro de um Deus, mais poderoso do que o furacão da
+tormenta, em breve as alevanta e reanima. A minha linda flôr da Gloria, está
+sendo abalada pelos ventos do infortunio, com que o pae celeste costuma
+experimentar os seus escolhidos; mas, se como eu espero e creio, a christã
+resignação fôr uma das muitas virtudes de V. Exc.<sup>a</sup>, não virá longe
+o dia em que hade ser compensada dos seus dolorosos soffrimentos. Tambem eu
+sei carpir saudades do meu unico e verdadeiro amigo, que nunca julguei que me
+houvesse de preceder na viagem da eternidade!... Ora, pois, enchuguemos o
+justificado pranto, e fallemos um pouco de nós outros, interinos habitadores
+d'este valle de lagrimas.</p>
+
+<p>«Venho da cabeceira do leito de Arthur, que está livre de todo o perigo:
+mais alguns dias de repouso, e a seiva da vida apparecerá de novo. Foram
+muito graves os ferimentos, perigosos mesmo: deixaram vestigios permanentes,
+que mudaram immenso a physionomia do meu caro Arthur. Perdôe a este velho
+padre o dizer-lhe, que o rapaz me pareceu assim mais formoso ainda!... Eu,
+que devo impugnar os ardores guerreiros, como indignos da caridade e da
+misericordia do Senhor, achei bello aquelle aspecto marcial!... Na hora das
+despedidas, sahiu-lhe espontaneamente da bocca o nome de V. Exc.<sup>a</sup>,
+proferido com igual respeito áquelle com que por vezes invocára o da sua
+querida mãe. Quizera responder-lhe com poucas palavras, mas foi impossivel. A
+despedida, durou mais tempo do que o resto da visita!... O padre, teve de
+ceder o seu logar ao homem, que, apesar de criminoso, é pae!... Que lhe direi
+mais, senhora D. Maria da Gloria?!... Arthur está <span class="pagenum">[236]</span> preparado para
+todos os acontecimentos... Resignar-se-ha com tudo, afóra a ideia de que V.
+Exc.<sup>a</sup> possa ser menos feliz do que merece.</p>
+
+<p>«Peço a transmissão dos meus profundissimos respeitos á exc.<sup>ma</sup>
+snr.<sup>a</sup> D. Isabel, á qual me atrevo a rogar o seu regresso a estes
+sitios, onde me será mais facil a realisação do desejo de as vêr todos os
+dias, e acompanhal-as nas orações pelo eterno descanço do nosso chorado
+esposo, pae e amigo. </p>
+
+<p class="direita"><em>Padre Alvaro.</em>»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>N'este mesmo dia, existiam só, além dos serventes, duas pessoas na
+residencia do padre Alvaro: elle, e a senhora que vimos orar, em quanto o
+padre escrevera e João e Rosa conversavam.</p>
+
+<p>João de Lencastre, fôra o primeiro a retirar-se, com a morte no coração,
+porque de todo lhe fugira a esperança de ser correspondido no seu immenso
+amor.</p>
+
+<p>Rosa, que o não prevenira da sua resolução, seguira-o pouco depois.</p>
+
+<p>Quarenta e oito horas eram apenas passadas, quando, no Porto, a companhia
+de que era capitão Arthur Soares, contava mais dous voluntarios, que eram o
+tenente João de Lencastre, e um elegante sargento, que dizia chamar-se Paulo
+Virginio.</p>
+
+<p>Arthur Soares, estava já completamente restabelecido. <span class="pagenum">[237]</span></p>
+
+<h3>VI<br>
+DENODO FEMININO</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«Descavalgando, os dous guerreiros tomaram nos braços a irmã de Pelagio, e
+foram reclinál-a sobre um monticulo cuberto de relva e musgos.....</p>
+
+<p>«O unico signal que n'ella revelava vida era o tremor convulso que
+violentamente a agitava.»</p>
+
+<p class="direita">(<em>A. Herculano</em>--<span
+class="smallcaps">Eurico</span>.) </p>
+</div>
+
+<p>A guerra civil havia chegado ao seu maximo desenvolvimento. Não existia em
+Portugal uma aldêa livre dos vexames da revolução. Os exercitos belligerantes
+entretinham-se em operações de pouca importancia, em conservarem para os seus
+governos os territorios occupados pela força, e não chegavam a travar uma
+lucta decisiva.</p>
+
+<p>Um estado de coisas assim violento, não podia prolongar-se sem grave
+prejuiso da nossa nacionalidade.</p>
+
+<p>O governo de Lisboa, fundado nas acclamações feitas a favor do snr. D.
+Miguel de Bragança, pedira a <span class="pagenum">[238]</span> interferencia das nações signatarias do
+tractado da quadrupla alliança, por se achar em perigo a pessoa e dynastia da
+rainha.</p>
+
+<p>Foi muito condemnada n'aquella epocha a medida extraordinaria da
+intervenção estrangeira, que é sempre um desaire para as nações a ella
+sujeita; mas é forçoso confessar, que lhe devemos immensos beneficios; e que,
+se não foi um bem absoluto a interferencia da França, Inglaterra e Hespanha,
+poupou comtudo a Portugal o derramamento de muito sangue, e os milhares de
+calamidades a que a duração da guerra nos tinha entregues.</p>
+
+<p>No caso mesmo do vencimento provavel da causa popular havia a receiar que,
+após elle, a ambição do partido ante-dynastico, que se achava em força
+consideravel, désse muito que entender aos liberaes de boa fé, que apenas
+pelejavam pela prática genuina do systema constitucional, e que amavam de
+toda a alma a Liberdade, e a respeitabilissima pessoa da snr.<sup>a</sup> D.
+Maria II.</p>
+
+<p>A excelsa filha do rei soldado, a mais exemplar senhora da Europa, como
+esposa e mãe educadora, foi inconsideradamente arguida de facciosa, pela
+exaltação partidaria, que se esqueceu de levar-lhe em conta dos seus actos
+politicos as constantes suggestões dos conselheiros que a cercavam, aos quaes
+não se fartava de fornecer terriveis documentos para a catechese, a imprensa
+licenciosa da opposição, cuja linguagem desenvolta e ameaçadora bastaria a
+resolver qualquer monarcha, por mais resoluto que elle fosse, a entregar-se
+nos braços dos que se lhe mostrassem dedicados e leaes.</p>
+
+<p>O certo é, que alguns dos officiaes superiores da <span class="pagenum">[239]</span> junta do Porto,
+não viram com máus olhos a conclusão da guerra, pelo modo que ella teve
+logar, como por sem duvida, a maioria sensata do paiz, a recebeu com
+jubilo.</p>
+
+<p>O batalhão a que pertenciam Arthur Soares, João de Lencastre e o sargento
+Paulo Virginio, achava-se em Setubal, fazendo parte da brigada do commando do
+honrado e mutilado general, que servia ás ordens da junta do Porto. Succedeu
+haverem sido interceptados a bordo de um vaso de guerra alguns objectos, que
+do estrangeiro vinham dirigidos á rainha, e entregues áquelle general, que
+immediatamente os enviou ao Paço por um dos seus officiaes;<sup
+class="footnote"><a href="#fn15" name="lfn15">15</a></sup> e foi Arthur Soares, elevado por seus serviços ao
+posto de major, o escolhido para os ir apresentar, commissão que desempenhou
+galhardamente.</p>
+
+<p>A snr.<sup>a</sup> D. Maria II, commovida por um tão delicado quanto
+conveniente procedimento, acolheu o mensageiro com inequivocas demonstrações
+de estima. Não lhe fez graça nem mercê régia, porque, senhora como era de
+elevadissimos sentimentos e notavel intelligencia, não queria de nenhuma
+fórma melindrar o caracter de um soldado, que militava em campo que lhe era
+opposto; mas significou-lhe, em phrases insinuantes, o quanto estava
+reconhecida áquella fineza do bravo general, e o muito que desejava poder em
+dias mais felizes distinguir e galardoar o porte e delicadeza do attencioso
+mensageiro.</p>
+
+<p>Dias depois, tivera logar a batalha de Setubal, que matou cerca de 600
+homens de ambos os lados, em <span class="pagenum">[240]</span> quatro horas que durou o fogo, e a que
+poz termo um armisticio, por uma especie de intervenção do coronel Wilde, que
+se achava n'aquellas paragens, a bordo do navio de S. M. Britanica
+<em>Polyphemus</em>.</p>
+
+<p>N'esta batalha, achou-se o regimento de Arthur Soares fazendo parte da
+força que atacara a direita do inimigo, e que foi tomada de improviso pela
+cavallaria, que a fez debandar desordenadamente. O major Arthur Soares, o
+tenente João de Lencastre, e o sargento Paulo Virginio, fizeram desesperados
+esforços por conter os soldados, e tiveram de sustentar uma lucta desigual
+com a cavallaria inimiga. Na occasião em que o peito de João de Lencastre ia
+ser varado por uma bala sahida da pistola que lhe apontava um soldado,
+collocou-se de permeio o sargento Paulo Virginio, que recebeu o ferimento
+destinado ao seu superior. N'esta altura, ouvia-se por todo o campo da
+batalha o toque de retirada, e foi a elle que os dous officiaes deveram a
+conservação de suas vidas, e o poderem soccorrer o ferido, que tão
+denodadamente havia salvado um d'elles.</p>
+
+<p>Imagine-se qual seria o espanto dos nossos heroes, ao reconhecerem, sob as
+vestes militares do sargento moribundo, o corpo mimoso da donzella Rosa!...
+</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn15" name="fn15">15</a></sup> Este facto foi publicado em alguns
+periodicos d'aquelle tempo. </p>
+</div>
+<span class="pagenum">[241]</span>
+
+<h3>VII<br>
+OS ESPINHOS DA FLOR</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«Peço ao meu anjo da guarda,<br>
+Se hei-de aqui ficar perdida,<br>
+Que vá levar-te por sonhos<br>
+Esta minha despedida.»</p>
+
+<p class="direita">(<em>V. de Castilho</em>--<span class="smallcaps">O
+acalentar da neta</span>.) </p>
+</div>
+
+<p>Leopoldo havia recuperado a razão, graças aos cuidados da sua gentil
+enfermeira. Mal sabia o desgraçado, que novo supplicio lhe destinava a mulher
+que o salvára da demencia!...</p>
+
+<p>Ouçamol-os:</p>
+
+<p>--Diga-me muitas vezes que não sonho, querida prima, e que não é
+encantamento, ou uma nova crise da minha loucura, este celeste deslisar da
+existencia ao seu lado...</p>
+
+<p>--É um facto muito real e verdadeiro, <em>caro primo</em>, que hade ter
+por desenlace o nosso casamento...</p>
+
+<p>--Não posso crêr em tamanha ventura!...</p>
+
+<p><span class="pagenum">[242]</span>--Duvída?!... Pois não sabe, que protestei a meu pae de sustentar o
+seguimento das <em>nobres</em> allianças da minha raça?... Não vê como já me
+abandono ao seu dominio, separada de minha mãe, que foi para o nosso solar
+chorar a perda do marido estremecido, e longe de todos que no mundo me são
+caros?... Duvída?!... Alguma razão tem para duvidar, porque não é com premios
+taes que se costumam castigar os assassinos...</p>
+
+<p>--Tenha piedade, senhora!...</p>
+
+<p>--Piedade?!... De quem, e porquê?!...</p>
+
+<p>--De mim, que só fui criminoso por amor e por ciume... A ferida que fiz
+n'um peito desleal, causou-me estragos, que só a prima teve o poder de
+reparar... e bem conhece que não são de <em>assassino</em> estes
+soffrimentos...</p>
+
+<p>--<em></em>A <em>ferida que fez n'um peito desleal</em>, diz o primo?!...
+Illude-se, e é chegada a hora de lhe tirar a venda... V. Exc.<sup>a</sup>
+cravou ás punhaladas, com este villão instrumento que guardei para o sangue
+que o tinge me animar á vingança, o unico peito em que batia um coração que
+lhe era affecto... Minha irmã Anna amava-o, como ao seu unico e verdadeiro
+amor...</p>
+
+<p>--Não brinque, prima, que me tortura!...</p>
+
+<p>--Quer as provas?... Vá ouvindo... Passavamos aqui uma existencia
+relativamente feliz, eu a crear sonhos de ventura com o meu
+<em>idolatrado</em> Arthur, e minha irmã Anna a lamentar-se de não ser
+comprehendida por V. Exc.<sup>a</sup> no seu immenso affecto, quando veiu
+enluctar-nos uma carta de nosso pae, que me participava a resolução de
+casar-me em Guimarães... Soffri horrivelmente!... Fiquei em estado de não
+poder empregar sequer um raciocinio... A minha querida <span class="pagenum">[243]</span> irmã, que era
+o symbolo da dedicação, imaginou conjurar a tempestade que ameaçava o meu
+futuro, chamando aqui o meu <em>muito amado</em> Arthur... Comprehende?...
+Foi essa carta fatal, roubada no campo da gloria ao <em>meu idolo</em> por um
+soldado do seu commando, que o tornou um assassino cobarde... Veja o sangue
+innocente, tornado ferrugem no seu punhal!...</p>
+
+<p>--Misericordia, senhora, que me mata!...</p>
+
+<p>--Não hade morrer, <em>senhor meu noivo</em>, em quanto não tiver bem
+esgotado o calix de amargura, que outros já tragaram por sua causa...</p>
+
+<p>--É então o demonio vingador, em vez do anjo adorado?!... Mas como é que
+deseja unir-se ao homem que detesta, ao assassino de sua innocente irmã?!...
+Eu torno a enlouquecer, de certo!...</p>
+
+<p>--Tambem não hade enlouquecer, porque me tem amor, e vae ser meu esposo...
+Socegue, que o aguarda uma existencia <em>singular</em>...</p>
+
+<p>--Atterra-me o seu sangue frio, senhora! Não me dirá o logar que occupo no
+seu coração?...</p>
+
+<p>--O meu coração está cheio, hade estal-o sempre, do <em>unico</em> homem
+que eu amo, e do qual me separa a fatalidade... Não hade passar um minuto da
+minha existencia, sem que eu pague um tributo de lagrimas ardentes e saudosas
+á memoria de <em>Arthur Soares</em>, do amor da minha infancia, da alma mais
+nobre que existe na terra, e que só no céu me será concedido unir á minha...
+Que importa isto ao <em>meu futuro esposo</em>, ao viuvo de <em>minha irmã
+assassinada</em>!...</p>
+
+<p>--Cale-se, demonio!...</p>
+
+<p>--Hei de entreter os ouvidos de meu caro primo, e <em>feliz noivo</em>,
+com a fiel narração do estado da minha alma, que todos os dias voará em busca
+da <span class="pagenum">[244]</span> que lhe é igual... Hei-de fazer-lhe conhecidas muitas
+particularidades do nobilissimo caracter de Arthur... Quer saber?... Foi elle
+que deu um dote á sua primeira mulher, ajuntando e vendendo para esse fim,
+todos os seus haveres...</p>
+
+<p>--Que tormentos do inferno me quer fazer passar, senhora?!!... Peço-lhe
+antes a morte como o supremo beneficio...</p>
+
+<p>--Quer saber mais?... Lembra-se da musica que eu lhe tocava todos os dias
+ao pianno durante a sua convalescença?... É uma composição minha... Fiz-lhe
+tambem uma letra, que lhe não cantava, porque não estava ainda em estado de
+comprehendel-a... Vou dizer-lh'a agora, para que fique sabendo que só o amor
+é verdadeiro poeta... Oiça: </p>
+
+<div class="poesia">
+<p>«LAGRIMAS D'ALMA<br>
+<br>
+«Vida ditosa da infancia amena,<br>
+tornada pena, que me traz delirio!...<br>
+Meu terno amante, meu poderoso rei,<br>
+por amor fiquei n'um atroz martyrio!...<br>
+<br>
+Ignora o mundo que cruel mysterio,<br>
+ao cemiterio casta virgem leva!...<br>
+Nem <em>Elle</em> sabe quanto hei penado,<br>
+Arthur amado, que minha alma enleva!<br>
+<br>
+Aqui defronte do feroz tyranno,<br>
+que deshumano duas vidas sóme,<br>
+a irmã eu vingo, o amor vingando,<br>
+Arthur amando com ardor sem nome!...<br>
+<span class="pagenum">[245]</span> <br>
+Ai! que saudade dos meus sonhos bellos,<br>
+puros anhelos, que gostosa tinha!<br>
+Ai! que tormentos o presente encerra,<br>
+na crua guerra da vingança minha!...<br>
+<br>
+Vida ditosa da infancia amêna,<br>
+tornada pena, que me traz delirio!...<br>
+Meu terno amante, meu querido d'alma,<br>
+recebe a palma d'este cru martyrio!...»<br>
+</p>
+</div>
+
+<p>O todo de Leopoldo revelava um tal soffrimento, que o mais desalmado
+executor de alta justiça se compadeceria ao vêl-o! E D. Maria da Gloria
+estava impiedosa! Chegara a um estado de exaltação, em que a mulher
+<em>senhora</em>, se torna a mais temivel das féras. Havia por muito tempo
+concentrado o seu rancor ao homem que lhe matara a irmã, e fôra causa, ainda
+que indirecta, de se lhe sumir o delicioso porvir que sonhara, e por isso era
+terrivel n'aquelle seu primeiro manifesto do odio que lhe enchia o peito.</p>
+
+<p>Um escudeiro veiu entregar uma carta á vingadora que, reconhecendo n'ella
+a letra de Arthur, a recebeu com transportes da mais intima alegria,
+praticados febrilmente em face de Leopoldo.</p>
+
+<p>O conteúdo na carta, que D. Maria lêu em voz alta, era este:</p>
+
+<p>«Depois que o meu velho Alvaro lançou n'este pobre coração o desespero,
+com a noticia da resolução que v. exc.<sup>a</sup> tomara de ser fiel á
+vontade de seu exc.<sup>mo</sup> pae, tenho procurado a morte no campo da
+batalha, porque só ella me libertaria dos tormentos, que me esperam ao saber
+que outro homem é o seu esposo... Mas superior á minha vontade está o dedo
+<span class="pagenum">[246]</span> de um Deus todo poderoso, que me afasta os perigos, e me cérca de
+espectaculos insinuantes!... Poderei vêr n'isto uma esperança?...</p>
+
+<p>«Na ultima batalha a que assisti, e na qual ganhei a patente de coronel,
+deu-se um acontecimento, que vou narrar-lhe, porque tambem lhe interessa.
+Alistara-se ultimamente no regimento do meu commando um joven sargento,
+sobrio de palavras, que dizia chamar-se Paulo Virginio, e que era a sombra do
+meu camarada, o seu bondoso parente João de Lencastre. Não fizemos caso da
+assiduidade com que o sargento seguia de perto o seu tenente, porque ambos
+nós tinhamos sérias preoccupações, que nos não davam tempo a reparos
+curiosos. Quasi no fim da batalha, e quando já se ouviam por todo o campo os
+toques de cessar fogo, e de retirada das forças combatentes, estavamos todos
+tres cercados por soldados da cavallaria inimiga, um dos quaes apontou a sua
+pistola ao peito de João de Lencastre. Rapido, porém, como se fôra uma
+frecha, o intrépido sargento, colloca o seu corpo em defesa do tenente, e
+recebe no peito o ferimento que lhe era destinado! Dentro em pouco, apenas
+restavam no campo os mortos e feridos de ambos os lados. Fomos em soccorro do
+sargento: quem imagina v. exc.<sup>a</sup> que descobrimos debaixo de um tal
+disfarce?... A heroica senhora D. Rosa, sua exc.<sup>ma</sup> irmã!...</p>
+
+<p>«De certo que avalia o nosso espanto e viva sensação, ao reconhecermos a
+nossa companheira de infancia, a minha quasi irmã, a querida de todos
+nós!...</p>
+
+<p>«Apresso-me a dizer-lhe que sua exc.<sup>ma</sup> irmã não morreu; mas
+antes de participar-lhe o desfecho d'esta <span class="pagenum">[247]</span> tragica scena, preciso
+oriental-a de succedimentos anteriores.</p>
+
+<p>«A snr.<sup>a</sup> D. Rosa, chegou a persuadir-se que sentia por este seu indigno
+criado, um affecto irresistivel; e como sabia d'aquelle que occupa a minha
+alma, e que ella considerava correspondido, entendeu dever oppôr entre mim e
+ella a barreira da perdição simulada, fugindo, n'este intuito, do seu lar
+domestico, e dando entrada em Guimarães n'uma casa de perdição!... Foi alli
+surprehendida por João de Lencastre que, após porfiadas luctas, conseguiu
+arrancar-lhe o segredo do seu procedimento. Este meu brioso camarada, e digno
+parente de v. exc.<sup>a</sup>, offereceu o seu nome, e a sua fortuna, á
+snr.<sup>a</sup> D. Rosa, indicando-lhe este meio como o melhor para o
+conseguimento dos seus fins; isto é, para que entre mim o v. exc.<sup>a</sup>
+nunca podésse haver suspeita do amor que ella julgava consagrar-me. Sua
+exc.<sup>ma</sup> irmã regeitou, e conservou-se na mesma casa, até que João
+de Lencastre, que a occultas alugara uma sala proxima, teve occasião de a
+salvar de uma affronta, que um infame tentava fazer-lhe. Desde um tal dia,
+que a snr.<sup>a</sup> D. Rosa abandonou completamente o seu arrojado e
+perigoso projecto, entregando-se á protecção do nobre salvador da sua
+virtude.</p>
+
+<p>«O meu camarada, e honrado parente de v. exc.<sup>a</sup>, ha muito tempo,
+como elle me confidenciou, que déra entrada a um sentimento sério pela
+senhora D. Rosa; sentimento que todas estas peripecias tiveram o poder de
+augmentar, por conhecer em sua exc.<sup>ma</sup> irmã, a par de um genio
+viril, um nobilissimo caracter, e pouco vulgar talento. Ultimamente, em casa
+do meu prosado velho, tentou o meu camarada obter da senhora <span class="pagenum">[248]</span> D. Rosa
+uma resposta decisiva aos seus vehementes desejos, que lhe foi negada.</p>
+
+<p>«Dadas estas explicações indispensaveis, para a boa intelligencia do mais
+que tenho a narrar-lhe, vou dizer o que se deu em seguida ao ferimento do
+supposto sargento.</p>
+
+<p>«A dôr e a desesperação que se apoderaram de João de Lencastre ao
+reconhecer na pessoa ferida a mulher que adorava, e que lhe parecia estar sem
+vida, sentí-as, mas não me é dado descrevel-as. Conduzimos o corpo inerte
+para a nossa residencia no quartel militar, e foram alli chamados os mais
+habeis facultativos da nossa brigada, que estiveram tres dias indecisos sobre
+o diagnostico que deviam dar. Ao quarto dia, o primeiro em que sua
+exc.<sup>ma</sup> irmã recobrou o uso da falla, consideraram-n'a os medicos
+livre de perigo, ainda que mui gravemente ferida. Durante o periodo de
+prostração da snr.<sup>a</sup> D. Rosa, não pude conseguir desviar o meu
+camarada da cabeceira do seu leito um só instante. Estava mais cadaverico
+ainda que a doente, e n'um quietismo idiota, que muito me assustou. Só deu
+accordo de si, quando sua exc.<sup>ma</sup> irmã abriu os olhos, e os fitou
+ternamente n'elle, levando-lhe a mão aos labios... Então, arrebentaram-lhe as
+lagrimas com espantosa força, e tive de o tirar arrebatadamente de ao pé do
+leito, para evitar damno á doente.</p>
+
+<p>«Horas depois, fui testimunha da mais commovedora scena que tenho
+presenceado: a snr.<sup>a</sup> D. Rosa chamou-nos para junto de si, e fallou
+n'estes termos: «Não podia ser feliz n'este mundo, e louvo a Deus a sorte que
+me permittiu conservar a vida do homem que amo, a troco da minha... Agora,
+que vou morrer, <span class="pagenum">[249]</span> hei de ser acreditada, por mais incomprehensivel que
+seja a minha confissão... Considerei-me presa de um amor invencivel pelo snr.
+Arthur Soares, que eu sabia cheio de um sublime affecto por minha irmã...
+Quiz pôr entre nós o impossivel, para conter-me, e fingi entregar-me ao
+vicio... Fui salva da minha temeridade, por uma affeição das que raramente os
+homens sabem ter... Esta dedicação, a que não tinha o menor direito, fez-me
+descobrir um novo rumo no sentimento que eu havia considerado immutavel!...
+Mas como fazer semelhante confissão?!... Segui o homem que amava, e ao qual
+devo a conservação da minha honra, na intenção de lhe dar a vida, como lhe
+havia dado o coração... Deus concedeu-me a ventura desejada... Crês agora em
+mim, Lencastre?...»</p>
+
+<p>«O meu camarada, snr.<sup>a</sup> D. Maria, praticou as maiores loucuras,
+a que póde levar-nos uma alegria sem limites!... Eu... pensava em v.
+exc.<sup>a</sup>...</p>
+
+<p>«Tenho dentro em pouco de ser padrinho da união d'aquellas almas angelicas
+perante o altar do Eterno... Partilho, por amizade, da ventura dos nossos
+amigos; mas que dôres não hei-de ter ao lembrar-me que igual ceremonia póde
+qualquer dia unir eternamente a snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria a...</p>
+
+<p>«Cahe a penna da mão ao fiel servo de v. exc.<sup>a</sup></p>
+
+<p class="direita"><em>Arthur.</em>»</p>
+
+<p>A leitura da carta, que produzira em Leopoldo o effeito de um choque
+electrico, augmentou o mau humor da vingadora, que redobrou as pungentes
+ironias e os crueis sarcasmos, com que torturava o seu futuro noivo...</p>
+
+<p>Quando o desgraçado estava de todo succumbido, <span class="pagenum">[250]</span> appareceram alli,
+sem se fazerem annunciar, dois importantes personagens: eram o padre Alvaro,
+e uma senhora com o rosto coberto por expêsso véu.</p>
+
+<p>O bondoso levita, dirigiu-se a Leopoldo n'estes termos:</p>
+
+<p>--Nunca se deve descrêr da misericordia divina, snr. Leopoldo!... Se na
+sua alma entrou o remorso e o arrependimento do mal que tem causado, posso
+dar-lhe uma esperança de que será perdoado por Deus... O seu crime, não teve
+o resultado fatal, que o fizera enlouquecer... Sua esposa escapou do
+ferimento que o senhor lhe fez, e vive ainda para lhe perdoar, e amal-o como
+sempre o amou... Eu, seu irmão e a senhora D. Rosa occultos em trajes de
+romeiros, e o honrado medico d'esta localidade, que logo asseverou não ser
+mortal o ferimento, combinamos deixal-a passar por morta, na caridosa
+intenção de pouparmos toda a familia aos escandalos de um processo crime;
+fizemos convencer a todos de que v. exc.<sup>a</sup> enlouquecera com o
+desgosto; simulamos o enterro de um cadaver, e conduzimos secretamente a
+snr.<sup>a</sup> D. Anna á habitação do medico, onde se conservou até se
+achar completamente curada, passando depois para a residencia d'este humilde
+servo do senhor...</p>
+
+<p>Leopoldo, forcejou por levantar-se e ir ter com o vulto de mulher, que
+elle adivinhara ser a sua, mas não pôde conseguil-o, porque a violencia
+d'estas scenas o fizera cahir sem sentidos nos braços do bondoso padre.</p>
+
+<p>As duas irmãs, ternamente abraçadas, confundiam as lagrimas e os soluços.
+<span class="pagenum">[251]</span> </p>
+
+<h3>VIII<br>
+A CONVENÇÃO DE GRAMIDO</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«O partido popular fica livre da deshonra. Cedemos desde que nos era
+impossivel combater; cedemos á força de tres poderosas nações. Perdemos tudo,
+mas salvamos a honra.»</p>
+
+<p class="direita">(O n.º 63 do <em>Espectro</em>)<sup
+class="footnote"><a href="#fn16" name="lfn16">16</a></sup>. </p>
+</div>
+
+<p>Leopoldo ficára prostrado no leito, acariciado por sua esposa, e assistido
+da medicina, que procurava prevenir a volta da loucura.</p>
+
+<p>D. Maria da Gloria, antes de sahir, na companhia do padre Alvaro, para a
+casa materna, tivera com sua irmã largas conferencias, e recebeu d'ella um
+escripto do punho paterno, em que lhe era concedida licença para unir-se com
+Arthur Soares. Este documento, fôra <span class="pagenum">[252]</span> aquelle que Sebastião da Mesquita
+lhe <em>parecera</em> ter escripto, e que effectivamente escrevera, durante a
+<em>visão</em> de que tracta o capitulo assim chamado. Alcançara-o D. Anna,
+entrando a deshoras no quarto de seu pae, em cumprimento de um plano
+concebido por sua irmã Rosa, e auxiliado por João de Lencastre. Levava de
+prevenção o necessario para aquelle escripto, que humildemente rogára a seu
+pae lhe fizesse, e que o velho fidalgo, aterrado pela apparição da filha que
+elle julgava morta, e considerando ordem o que era rogativa, escreveu com mão
+trémula.</p>
+
+<p>Arthur Soares, e os noivos João de Lencastre e Rosa, estavam na cidade do
+Porto, onde a revolução agonisava.</p>
+
+<p>Arthur acompanhara os representantes da junta provisoria do governo
+supremo do reino a Gramido, onde tivéra logar a convenção, que poz termo á
+guerra civil, e que foi resumido nestes artigos:</p>
+
+<p>1.º O fiel e exacto cumprimento dos quatro artigos da medeação,
+incluidos no protocollo de 21 de maio d'este anno, é garantido pelos governos
+alliados.</p>
+
+<p>2.º As tropas de sua magestade catholica exclusivamente
+occuparão desde o dia 30 de junho a cidade do Porto, Villa Nova de Gaya, e
+todos os fortes e reductos d'um e outro lado do rio em quanto a
+tranquillidade não estiver completamente estabelecida sem <span class="pagenum">[253]</span> receio de
+que possa ser alterada pela sua ausencia, ficando na cidade do Porto uma
+forte guarnição das forças alliadas em quanto estas se conservarem em
+Portugal. No mesmo tempo o castello da Foz será occupado por tropas inglezas,
+e no Douro estacionarão alguns vasos de guerra das potencias alliadas.</p>
+
+<p>3.º A epocha da entrada das tropas portuguezas na cidade do
+Porto será marcada pelas potencias alliadas.</p>
+
+<p>4.º A propriedade e segurança dos habitantes do Porto, e de
+todos os portuguezes em geral, ficam confiados á honra, protecção e garantia
+das potencias alliadas.</p>
+
+<p>5.º As forças do exercito de sua magestade catholica receberão
+as armas dos corpos de linha, e voluntarios que obedecem á junta,
+entregando-se guia ou passaporte gratuito ás pessoas que tiverem de sahir do
+Porto para as terras da sua residencia, e dando-se baixa aos soldados de
+linha que tiverem completado o tempo de serviço, e aos quaes se alistaram
+durante esta lucta para servirem só até á sua conclusão.</p>
+
+<p>6.º O exercito da junta será tractado com todas as honras de
+guerra, sendo conservadas aos officiaes as espadas, e cavallos de propriedade
+sua.</p>
+
+<p>7.º Conceder-se-hão passaportes a qualquer pessoa, que deseje
+sahir do reino, podendo voltar a elle quando lhe convier.</p>
+
+<p>8.º As tres potencias alliadas empregarão os seus esforços para
+com o governo de sua magestade fidelissima afim de melhorar a condição dos
+officiaes do antigo exercito realista.</p>
+
+<p>Esta convenção foi publicada por um decreto e proclamação da junta, que
+termina assim:</p>
+
+<p><span class="pagenum">[254]</span>«A junta felicitando-se a si propria, e á nação, por vêr terminada
+uma tão longa, e tão dolorosa guerra civil, espera que nenhum portuguez que
+seguisse a sua bandeira conserve a lembrança de qualquer aggravo que, durante
+a mesma guerra, possa ter recebido.</p>
+
+<p>«A junta lisongeia-se de que o seu comportamento, durante os difficeis
+tempos em que foi chamada a reger estes reinos, em nome da nação e de sua
+magestade a rainha, lhe tenha grangeado a estimação do povo portuguez e do
+mundo civilisado.</p>
+
+<p>«A junta considera terminada a sua missão de uma maneira nobre, e honrosa.
+A junta vai dissolver-se.</p>
+
+<p>«Seus membros, voltando de novo ao seio da vida particular, levam comsigo
+a convicção de que sempre desejaram o bem, a liberdade e a gloria do povo
+portuguez.</p>
+
+<p>«Não querem maior galardão do que a lisongeira recordação de que por tanto
+tempo presidiram aos destinos do povo mais benigno, mais virtuoso, mais
+heroico, e mais nobre da terra.</p>
+
+<p>«E farão sempre os mais sinceros votos pela gloria de Sua Magestade a
+rainha, pela sincera reconciliação de seus subditos, e pela liberdade, e
+felicidade do povo portuguez.»</p>
+
+<p>Assim acabou a mais notavel das guerras civis portuguezas.</p>
+
+<p>Arthur Soares, antes de seguir jornada, com os noivos, para Penafiel,
+escreveu a D. Maria da Gloria estas palavras:</p>
+
+<p>«Acabou a guerra e com ella a esperança d'uma morte gloriosa para mim.
+Recolho-me á residencia do <span class="pagenum">[255]</span> meu santo velho, onde tudo me recordará o
+tempo feliz da minha mocidade, passado ao lado de v. exc.<sup>a</sup>... Qual
+será o meu futuro?!...</p>
+
+<p>«Acompanham-me os noivos, que tencionam pedir á snr.<sup>a</sup> D. Isabel
+e a v. exc.<sup>a</sup> um aposento no seu palacio.</p>
+
+<p class="direita"><em>Arthur</em>».</p>
+
+<p>Havia sido expedida esta carta ha poucos momentos, quanto Arthur Soares
+recebera outra d'este theor:</p>
+
+<p>«Venha quanto antes abraçar a sua esposa. As barreiras que se oppunham á
+nossa ventura, quiz Deus sumil-as pela sua infinita bondade!</p>
+
+<p class="direita"><em>Maria</em>.»</p>
+
+<p>Avalie o contentamento de Arthur, aquelle dos nossos leitores, que tiver
+sinceramente amado. </p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn16" name="fn16">16</a></sup> Referimo-nos por vezes ao
+<em>Espectro</em>, não só por ter sido o papel mais conhecido na epocha da
+revolta, mas tambem, e principalmente, para darmos ao seu redactor, e nosso
+primeiro jornalista, a honra, e a justiça, que se lhe devem. As más paixões
+teem querido desfigurar os factos, attribuindo a odio pessoal o que só fôra
+desharmonia politica; mas a verdade é--como já provamos--que o
+<em>Espectro</em> foi o <em>unico</em> periodico da opposição d'aquelle
+tempo, que teve a gloria de castigar os aleives da imprensa desenvolta,
+tributando o respeito devido á <em>pessoa</em> e <em>virtudes</em> da
+snr.<sup>a</sup> D. Maria II. </p>
+</div>
+<span class="pagenum">[256]</span><br><span class="pagenum">[257]</span>
+
+<h3>IX<br>
+BRIOS DE PLEBEU</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«Uns homens ha, que, na paixão ardente,<br>
+                      Immolam tudo seu,<br>
+Menos a propria estima; e, felizmente,<br>
+                      D'esses homens sou eu:<br>
+Sou, que de tudo o que no mundo prézo,<br>
+Prézo mais não mer'cer o meu desprezo.»</p>
+
+<p class="direita">[<span class="smallcaps">João de Lemos</span>--<span
+class="smallcaps">Cancioneiro</span>] </p>
+</div>
+
+<p>Uma d'estas revoluções moraes, que as grandes crises produzem no espirito
+humano, se operou em Arthur Soares. O filho do bom Alvaro era uma destas
+almas privilegiadas, ricas de sublime poesia, a que o mundo chama imaginações
+prodigas, porque lhe é vedado o entendel-as. Amara D. Maria da Gloria, que
+era rica e nobre, como se ella fôra a mais desprotegida camponeza.
+Prenderam-n'o os dotes moraes e physicos da fidalga moça, e nem por sombras o
+deslumbrara a fortuna e nobreza de sangue da sua amada. Tão prudente como
+gentil e cavalheiro, nunca d'elle partiria a iniciativa de uma declaração:
+era d'estes poucos homens, que sabem morrer com um segredo na alma, para não
+se exporem aos falsos juizos <span class="pagenum">[258]</span> do vulgo, nem serem menos presados pelo
+alvo da sua estima. D. Maria da Gloria, possuidora d'uma alma semelhante á de
+Arthur, amando-o como era amada e manifestando o seu amor, seguira seus
+naturaes impulsos com feminil precipitação.</p>
+
+<p>Sabendo que era amado pela filha do seu orgulhoso e fidalgo padrinho, a
+par do naturalissimo contentamento que uma tal certeza lhe deu, principiou
+Arthur Soares a comprehender o melindre em que o collocavam estes amores. Os
+acontecimentos, porém, precipitaram-se com tal velocidade, que, até ao
+momento do desenlace, não teve o nosso heroe o tempo material preciso para
+cogitar n'um procedimento digno de si.</p>
+
+<p>Agora, que só da sua vontade estava dependente a sua ventura, Arthur
+hesitava, e sustentava uma lucta mortificadora, porque os seus brios de homem
+de bem lhe patenteavam, que no seu enlace com D. Maria não podia elle entrar
+com uma porção, se não igual, aproximada das conveniencias sociaes que ia
+receber. Se ao menos podésse apresentar as dragonas e condecorações ganhas no
+campo da batalha, seria já alguma coisa, e fôra provavel que acabasse a sua
+hesitação; mas o governo interino que lh'as concedera deixara de existir, e o
+de sua magestade não lh'as garantia.</p>
+
+<p>Este brioso luctar contra o sentimento, se collocava Arthur Soares bem
+longe do bafo empestado das paixões mesquinhas e torpes, que são o apanagio
+de villões interesses, trazia-lhe a par a recordação dos tempos em que lhe
+soavam os alegres hymnos do amor e da saudade; em que era sustentado o seu
+affecto pela esperança de se tornar distincto no campo <span class="pagenum">[259]</span> da honra, e
+poder assim encurtar a distancia que o separava de Maria; e o seu intimo
+soffrer tomava proporções assustadoras, que ameaçavam queimar-lhe ao fogo do
+coração os brilhantes sonhos de amor que o tinham embalado.</p>
+
+<p>Ao passo que tudo respirava tranquillidade no palacio de D. Maria da
+Gloria, e que a vida prasenteira dos noivos se tornava communicativa aos
+demais habitadores d'aquelle nobre solar, existiam a dois passos d'alli, na
+residencia do padre Alvaro, duas almas consumidas pela melancolia; pae e
+filho eram victimas dos mesmos pensamentos, que nutriam sem os communicarem,
+e que nenhum d'elles sabia como destruil-os para o bem commum.</p>
+
+<p>As forças physicas de Arthur tiveram de ceder ao prolongado e doloroso
+debate moral que elle sustentara, e cahiu em perigosa enfermidade. O triste
+pae, teve de envidar um resto de energia, para animar o filho querido, e
+chamou em seu auxilio aquella que era a involuntaria causa do soffrimento de
+Arthur.</p>
+
+<p>D. Maria da Gloria, com a perspicacia inherente ás pessoas do seu sexo,
+educação e talentos, quasi que lia claramente na alma do seu amante e, por um
+fidalgo tacto, que só ensina o amor verdadeiro, desviara sempre as
+conversações do terreno em que poderiam declinar para expansões perigosas,
+esperando assim corajosamente o resultado da lucta, sem dar o menor indicio
+de querer accelerar o desfecho que tão grato era ao seu coração.</p>
+
+<p>Assidua enfermeira do seu amante, pondo de parte as etiquetas e convenções
+do seu mundo, D. Maria não largava a cabeceira do seu querido enfermo.
+<span class="pagenum">[260]</span> Nas crises mais perigosas da enfermidade, tinha a gentil e fidalga
+moça a coragem de mostrar-se risonha na presença do seu idolo, para dar, ás
+occultas, largas ao pranto, e á dôr que a definhava.</p>
+
+<p>Os desvélos do pae e da amante, auxiliados pela constituição vigorosa de
+Arthur, arrancaram-n'o das bordas do tumulo. Já convalescente, tomou um dia
+as mãos do pae e de D. Maria, beijou-as religiosamente, e disse-lhes, com
+lagrimas na voz, e nos olhos:</p>
+
+<p>--Porque me não deixaram morrer?!... Acabava tudo, e não os faria soffrer
+mais...</p>
+
+<p>--Quer-me parecer, Arthur, que vão muito longe os teus brios, e que talvez
+degenerem em orgulho condemnavel... Ambos nós lêmos no teu intimo; eu, porque
+sou teu pae; e este incomparavel anjo, porque te ama, ainda além do que é
+permittido amar-se na terra... Querias morrer?!... E não será a manifestação
+de um tal desejo grave offensa á Divina Providencia, que tão prodiga tem sido
+em beneficiar-te?... Ou quererás tu tornar-me mais pungentes os remorsos, por
+te haver dado uma existencia a que chamas infeliz?... Mas fica certo, filho,
+que a tua ultima hora seria a minha, e que tu, deixando a vida, fugias á
+possivel felicidade n'este mundo, em quanto que eu, se um Deus misericordioso
+perdoar os meus peccados, encontro na morte o supremo bem!...</p>
+
+<p>--Como são sevéras as suas palavras, meu querido pae!... E diz-me o
+coração, que os seus sentimentos são os meus, e que, no meu caso, seria em
+tudo semelhante o seu procedimento... A prova d'esta minha convicção, está no
+silencio que tem guardado, quando muito bem conhece que o simples enunciado
+da sua vontade seria para mim uma ordem terminante... <span class="pagenum">[261]</span> Porque me não
+ordena o que devo fazer?...</p>
+
+<p>--Chega-me a minha vez de fallar, e principio por usar da minha
+auctoridade de enfermeira, lembrando ao impertinente doentinho, que não póde
+ainda entrar em conversações animadas... Sim, agora o mais bonito é isso!...
+Chorem, chorem ambos, mortifiquem-se bem, e não tenham pena de mim, que os
+heide aturar doentinhos!... </p>
+
+<p>--És o melhor dos anjos, minha querida Maria!...</p>
+
+<p>--Nem sou <em>anjo</em>, nem sou ainda <em>sua</em>, seu mau... Isso hade
+acontecer, quando se realisar um sonho que eu tive uma d'estas noites......O
+snr. Arthur Soares, figurava no meu sonho como um grande personagem, cercado
+de attenções e de respeitos, podendo dispensar protecção, e não tendo já que
+receiar dos maus juizos que o mundo fórma quando vê ligações entre duas
+pessoas que não pesam do mesmo modo na balança das conveniencias... Eu era
+sempre a mesma rapariga aldeã, que <em>V. Exc.<sup>a</sup> se dignava
+elevar</em> até á sua altura, e que caminhava para a capella tão contente por
+o meu esposo ser um <em>potentado</em>, como o estaria se elle fosse um
+simples <em>operario</em>...</p>
+
+<p>--Basta, minha adorada Maria!... Fixa tu a epocha do nosso casamento...</p>
+
+<p>--Está fixada, já lhe disse... Esperemos a realisação do meu sonho, que me
+diz o coração, que não havemos de envelhecer esperando... Quero que fiquem
+bem satisfeitos todos os seus caprichinhos... E agora, nem mais uma palavra,
+que te faz mal fallar...</p>
+
+<p><span class="pagenum">[262]</span><br><span class="pagenum">[263]</span> </p>
+
+<h3>X<br>
+VIAGEM DA RAINHA</h3>
+
+<div class="quote">
+<p>«Foi então que se apossou da corôa.»</p>
+
+<p class="direita">(<span class="smallcaps">A. Herculano--Eurico.</span>)</p>
+
+<p>«Crer e amar--é a unica religião verdadeira; crer e amar--a unica poesia
+verdadeira: uma não está sem a outra.»</p>
+
+<p class="direita">(<span class="smallcaps">V. de Almeida
+Garrett--Helena.</span>) </p>
+</div>
+
+<p>A guerra civil gastou a nossa energia, e converteu a dissenção armada em
+vinganças mesquinhas, em baixos enrêdos e ambiciosas abjecções. O povo,
+esmagado com o peso dos tributos e dilacerado pelas inglorias luctas dos
+bandos politicos, tinha perdido as crenças, e o amor ao systema liberal: o
+throno, á força de lh'o pintarem de ferro, figurava-se-lhe tyrannico. Foi
+então que uma feliz revolta militar levou ao poder os primeiros homens que
+pozeram em pratica a constituição.</p>
+
+<p>Ferindo no ámago a roedora agiotagem por medidas energicas; apagando os
+odios politicos; equilibrando quanto possivel a receita com a despeza do
+estado; <span class="pagenum">[264]</span> pagando em dia aos empregados da nação; garantindo as
+patentes aos officiaes do exercito, e fazendo este alheio aos baldões
+politicos; dotando o paiz de estradas e outros melhoramentos materiaes; dando
+accesso nos empregos aos homens de todas as côres politicas; segurando os
+direitos individuaes; e pondo, finalmente, em acção todo o machinismo de uma
+verdadeira monarchia constitucional,--o primeiro ministerio chamado
+<em>regenerador</em>, não desmentiu este nome redemptivo.<sup
+class="footnote"><a href="#fn17" name="lfn17">17</a></sup></p>
+
+<p>Não contentes de haverem grangeado a estima publica pelos seus actos,
+aquelles vultos politicos do memoravel ministerio <em>regenerador</em>,
+quizeram dar ao povo portuguez um conhecimento perfeito das altas virtudes da
+familia real, e aconselharam-na a viajar pelo reino. Este passo teve o
+alcance meditado: o nobre povo portuguez ficou amando, como ella merecia, a
+senhora D. Maria II, e a sua dynastia.</p>
+
+<p>Pouco tempo depois, a digna filha do rei soldado, foi chorada, na sua
+prematura morte, por todos os partidos; sendo para notar-se a parte distincta
+que <span class="pagenum">[265]</span> tomou no lucto, o partido que era affeiçoado ao infeliz principe
+proscripto.<sup class="footnote"><a href="#fn18" name="lfn18">18</a></sup> </p>
+
+<p>Continuou, sob a regencia do sympathico e bondoso monarcha, o snr. D.
+Fernando, a sua bem assignalada gerencia, o ministerio regenerador.</p>
+
+<p>.....................................................................................</p>
+
+<p><span class="pagenum">[266]</span>Era tudo rumor e gala no antigo solar dos Bandeiras, Mesquitas e
+Abendanhos. A respeitavel snr.<sup>a</sup> D. Isabel, parecia ter voltado aos
+seus vinte annos, pela rapidez com que dava ordens e movia as chaves que lhe
+pendiam do cinto. Era justificado o regosijo e o afan, porque a velha fidalga
+esperava a honra de hospedar a familia real em seu palacio. D. Maria da
+Gloria acompanhava a mãe nos precisos trabalhos com vivo contentamento. D.
+Rosa deixara de ter questões com o marido,--para resolverem qual d'elles
+devia <span class="pagenum">[267]</span> ter mais tempo no collo um robusto rapaz, fructo do seu amor,
+que era afilhado de D. Maria da Gloria e de Arthur Soares,--e tambem dava o
+seu contingente para os preparativos do palacio. João de Lencastre fôra
+encarregado por D. Maria de uma commissão diplomatica: era forçoso conseguir
+que Arthur apparecesse, fardado, á rainha!... Innocente capricho, chamou o
+ex-coronel á exigencia da sua Maria e, embora estivesse sempre em projecto o
+seu casamento, folgava de obedecer á vontade d'aquella que era tudo para
+<span class="pagenum">[268]</span> elle. O capricho, porém, não era tão innocente como parecia. João de
+Lencastre tornara-se fallador, como todas as pessoas felizes, e havia contado
+a D. Maria, que Arthur fôra o official escolhido em Setubal, para levar a Sua
+Magestade os objectos que lhe eram destinados, e que foram tomados com um
+navio de guerra. Ora, esta revelação, fez conceber um plano á fidalga moça,
+que devia tornar realidade o sonho precursor do seu casamento.</p>
+
+<p>Chegou a familia real, e foi recebida alli, da mesma fórma que em todo o
+seu transito, com as mais festivas demonstrações de leal affecto da parte do
+povo apinhado na estrada, que entoava freneticos vivas aos reaes viajantes, e
+os cobria de flôres.</p>
+
+<p>N'um intervallo das enfadonhas etiquetas, a que mesmo em viagem está
+sujeito o primeiro magistrado de uma nação, conseguiu D. Maria da Gloria
+fazer-se ouvir da rainha. Pouco depois, foi apresentado Arthur Soares a sua
+magestade, que logo o reconheceu:</p>
+
+<p>--Felicito-me, snr. official, por ter chegado o <em>tempo mais feliz</em>,
+a que me referi em palacio quando tive de agradecer-lhe o modo nobre e
+attencioso com que se houve n'uma commissão delicada. Dizem que os reis
+constitucionaes não podem fazer mercês a seu bel-prazer; mas se isso é regra,
+soffre excepção quando os ministros responsaveis possuem as qualidades
+d'aquelles que ora me cercam... Fica o snr. official com as honras de coronel
+do exercito portuguez, cujo uniforme veste; pertence, desde hoje, aos
+fidalgos da minha casa, e póde desde já assignar-se conde de Setubal...
+Agora, consinta á sua rainha, que lhe manifeste a vontade de ser testimunha e
+protectora do seu casamento... Sei que as formalidades indispensaveis <span class="pagenum">[269]</span>
+ha muito esperam por a sua resolução, está a dous passos a capella do
+palacio, e eu tenho aqui o meu padre esmoller-mór...</p>
+
+<p>--Senhora! Toda a minha vida será dedicada a vossa magestade e á sua real
+familia, como ha-de ser transmittida por mim a meus filhos, a obrigação de
+darem todo o seu sangue em defeza do throno e dynastia da minha muito amada
+rainha a senhora D. Maria II!</p>
+
+<p>--Obrigada, conde... Ame muito a sua esposa, que as <em>Marias</em> são
+dignas de um leal affecto... Levante-se condessa! É nos meus braços que eu
+costumo apertar as pessoas que têem a sua alma... Finda a ceremonia do
+casamento, quiz a rainha vêr, antes de retirar-se, o padre Alvaro, que foram
+chamar á residencia a toda a pressa. Logo que chegou, dirigiu-lhe sua
+magestade a palavra n'estes termos:</p>
+
+<p>--Foi me descripto o seu caracter, por quem conhece as suas virtudes. Não
+lhe faço mercês porque sei que as regeitaria com evangelica abnegação; mas
+peço-lhe que distribua pelos seus pobres o dinheiro que lhe ha-de entregar o
+meu esmoller-mór... Peço-lhe ainda algumas orações para esta mulher corôada,
+que dentro em pouco tempo ha-de ser pó... Os medicos desenganaram-me...
+Queriam <em>remediar o mal infallivel</em> não sei com que <em>medicinas
+preventivas</em>, que eu recusei formalmente, porque não tremo de morrer no
+meu officio de mulher, que é tão nobre, pelo menos, como o de rainha...</p>
+
+<p>--De que preces póde carecer uma santa como vossa magestade?!...</p>
+
+<p><span class="pagenum">[270]</span>--Sempre rese, padre Alvaro; bem sabe que o maior justo pecca
+muitas vezes...</p>
+
+<p>--Resarei, real senhora! e será meu o proveito das orações, como ha-de ser
+de vossa magestade o reino do céu!... </p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn17" name="fn17">17</a></sup> Quando revemos as provas d'este capitulo,
+annunciam os periodicos a realisação de um emprestimo nacional, nas mais
+vantajosas condições para o thesouro, de reis quarenta e tres mil oito centos
+e oito contos--tres mil oito centos e oito a maior do que o governo
+solicitava para a consolidação da divida fluctuante! É geral o contentamento,
+esperançosa, e proxima, a organisação das nossas finanças, e notavel o
+credito que o emprestimo nos faz ter nas principaes bolças da Europa. Outros
+factos, igualmente importantes, em bem do paiz, estão succedendo sob a
+gerencia de um governo composto das reliquias d'aquelle que louvamos. </p>
+</div>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn18" name="fn18">18</a></sup> O snr. João de Lemos, publicou, por
+occasião da morte da snr.<sup>a</sup> D. Maria II, a conhecida poesia--<span
+class="smallcaps">O Funeral e a pomba</span>--da qual consignaremos aqui
+estes edificantes versos:</p>
+
+<div class="poesia">
+Soldados, que ha vinte annos<br>
+Com esforços sobre humanos<br>
+Batalhaes por vossa fé,<br>
+Soldados, eia, de pé!<br>
+Respeitem-se aquellas mágoas,<br>
+E do nosso pranto as agoas<br>
+Lavem d'odio o coração;<br>
+Não ha odios d'este lado,<br>
+Nem se deshonra um soldado,<br>
+Quando abraça seu irmão.<br>
+<br>
+Ponham-se treguas á guerra,<br>
+E ninguém manche esta terra<br>
+Ao pé de funérea luz;<br>
+Soldados, olhai a cruz!<br>
+Demos pranto a quem prantêa,<br>
+Demos dôr á dôr alheia,<br>
+Nos dois campos lucto egual!<br>
+Nenhum, nenhum se envilece,<br>
+Unidos na mesma prece,<br>
+Junto á loisa sepulchral.<br>
+<br>
+Solemne melancolia,<br>
+Seja n'hora da agonia<br>
+Nosso tributo cortez;<br>
+Que o tomem, que é portuguez!<br>
+Portuguez d'aquelles peitos,<br>
+Por tantos annos affeitos<br>
+Na lealdade a soffrer;<br>
+Portuguez que vem das eras,<br>
+D'aquellas crenças sinceras<br>
+<em>D'antes quebrar que torcer</em>.<br>
+<br>
+Que o tomem; e nós, soldados,<br>
+Ao vêl-os tão consternados,<br>
+Respeitemos-lhe a sua fé;<br>
+Amigos, eia, de pé!<br>
+Era o seu chefe, e bandeira,<br>
+Diziam-n'a companheira<br>
+De infortunio e proscripção;<br>
+Comprehendemos, pois, seu grito,<br>
+Nós, soldados do Proscripto,<br>
+Vinte annos gemendo em vão!<br>
+<br>
+A cada um sua crença e dôres,<br>
+Cada qual estreme as côres<br>
+Do pendão que traz por si;<br>
+Todo branco, é o nosso aqui.<br>
+Mas, se d'elle voz sagrada<br>
+Nos manda, por gloria herdada,<br>
+Ou morrer ou triumphar,<br>
+Tambem no alto do Calvario<br>
+Outro estandarte, um sudario,<br>
+Manda os tristes consolar.<br>
+<br>
+Porque é de arraial opposto,<br>
+Não córa o tributo o rôsto,<br>
+A quem o toma ou quem dá;<br>
+Soldados, lucto de cá!<br>
+É tributo á monarchia,<br>
+Por dois campos n'um só dia,<br>
+Cada qual por sua lei;<br>
+Um faz honras á Rainha,<br>
+Outro á Princesa, sobrinha<br>
+D'aquelle que jurou Rei!» </div>
+</div>
+<span class="pagenum">[271]</span>
+
+<h2>EPILOGO</h2>
+<span class="pagenum">[273]</span>
+
+<h3>EPILOGO</h3>
+
+<p>São decorridos cinco annos, depois do casamento de Arthur com D. Maria da
+Gloria, e estamos no dia do 4.º anniversario natalicio de uma
+interessante menina, que é a filha estremecida de tão venturoso par.</p>
+
+<p>O filho de Rosa e de João de Lencastre, dous annos mais velho, dá-se ares
+de protector da priminha, que cérca de brinquedos e caricias infantis. D.
+Isabel prepara toda jubilosa a festa dos annos da sua netinha. João de
+Lencastre está narrando á mulher o que presenceára em casa do irmão, d'onde
+recolhia de o haver visitado, triste pelo definhamento em que vira Leopoldo.
+D. Maria e Arthur estão de mãos dadas contemplando as crianças, e trocando
+phrases embalsemadas de felicidade.</p>
+
+<p>É de bem diverso effeito, a scena que vamos presencear na egreja parochial
+da freguezia. O padre Alvaro, envelhecido e quebrantado em extremo, está
+ajoelhado sobre a campa, que encerra os restos mortaes <span class="pagenum">[274]</span> da mãe de
+Arthur, e lê esta passagem da Biblia:</p>
+
+<p>«Disseram-lhe seus discipulos: Se tal é a condição de um homem a respeito
+de sua mulher, não convém casar-se. Ao que elle respondeu: Nem todos são
+capazes d'esta resolução, mas sómente aquelles, a quem isto foi dado. Porque
+ha uns castrados que já assim nasceram; ha outros castrados a quem outros
+homens fizeram taes; e ha outros castrados, que a si mesmos se castraram por
+amor do Reino dos Céus. O que é capaz de comprehender isto,
+comprehenda-o.»</p>
+
+<p>A leitura d'estas palavras, que são, para a egreja catholica, a desculpa
+do padre celibatario, fez cahir o livro das mãos de Alvaro, e obrigou-o a
+dizer, em consternadora exclamação:</p>
+
+<p>--Oh meu bom Deus! quando terão fim os meus remorsos?!... Quando poderei
+deixar a vida esperançado no vosso perdão, oh Senhor Misericordioso?!...</p>
+
+<p>Lançou em seguida os olhos á Biblia, que no chão ficára aberta, e passados
+poucos momentos, empregados em lêr o que a Providencia lhe deparou com a
+queda do livro santo, estava o padre Alvaro radiante de alegria, erguendo as
+mãos e os olhos ao Céu em acção de graça!... As palavras que causaram a
+repentina mudança no attribulado espirito do bondoso padre, foram estas:</p>
+
+<p>«Digo-vos que assim haverá maior jubilo no Céu, sobre um peccador que
+fizer penitencia, que sobre noventa e nove justos, que não hão de mister
+penitencia.»</p>
+
+<p>Entrou n'aquella occasião na egreja toda a nova familia de Arthur,
+incluindo as creancinhas e a velha fidalga D. Isabel, que vinha buscar o
+padre para a festa dos annos.</p>
+
+<p><span class="pagenum">[275]</span>Findo o alegre jantar, desceram todos ao jardim, á excepção de D.
+Isabel. Este local, é o mesmo em que se deram os acontecimentos descriptos no
+capitulo--Ao luar--da primeira parte d'esta obra, apenas melhorado com mais
+algumas plantações de arvores e flores, e commodos assentos.</p>
+
+<p>Estava toda a familia assentada em frente das janellas do palacio; o padre
+Alvaro no centro com as crianças sobre os joelhos; D. Maria á direita d'elle,
+e junto d'esta João de Lencastre; e D. Rosa á esquerda, e junto d'ella
+Arthur. Umas pombas domesticas, saltavam do chão ao collo das criancinhas a
+depenicarem-lhes os dôces que tinham nas mãos.</p>
+
+<p>As alegres expansões d'esta feliz familia, foram interrompidas pela
+presença de um escudeiro, que a apresentava, n'uma salva, a D. Maria uma
+carta tarjada de preto.</p>
+
+<p>Todos se olharam receiosos e contristados, sem que nenhum d'elles se
+resolvesse a lançar mão da agoureira carta. Tomou-a o padre Alvaro, e pediu
+licença a D. Maria para abril-a, e lêr o seu conteúdo em voz alta, o que
+todos estimaram de ouvir, porque assim eram poupados ao desgosto da primeira
+impressão. A carta era do punho de D. Anna, e resava assim:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="direita">«<em>Minha boa Maria e presada irmã</em>:</p>
+
+<p>«Estou viuva!... Nem os carinhos da minha profunda e constante adoração;
+nem a linguagem caridosa das tuas cartas, em que chegaste a pedir indulto
+para culpas que não eram tuas; nem os esforços, em fim, dos homens da
+sciencia medica, poderam roubar á morte o meu desditoso Leopoldo!... Mataram
+n'o <span class="pagenum">[276]</span> os remorsos de não ter conhecido e compensado a tempo o meu
+immenso affecto!... Vê, por isto, quanto eu soffro, Maria!... Ha cerca de
+seis annos que todos os meus cuidados se resumiam na conservação da vida do
+unico homem que amei!... Perdi-o!... perdi-o para sempre, minha querida
+irmã!... E elle era bom, Maria!... Os arrebatamentos do seu genio terminavam
+por um terrivel soffrimento, com o qual sobejamente se castigava do mal
+causado aos outros!... Era tão bom, que o mataram uns mal entendidos
+remorsos!... E eu vivo ainda, minha irmã!...</p>
+
+<p>«D'aqui a poucas horas, fechar-se-hão sobre mim as portas de um austero
+convento,<sup class="footnote"><a href="#fn19" name="lfn19">19</a></sup> onde possa chorar e orar por meu
+marido, e onde quero repousar eternamente, quando Deus fôr servido livrar-me
+do fardo da vida...</p>
+
+<p>«Teu marido que venha tomar conta d'esta casa, que tudo lhe pertence por
+minha disposição, como eu tambem a herdei pela de Leopoldo.</p>
+
+<p>«Abraça a Rosa por mim; lembra-me a todos; sede felizes, e diligenciae
+evitar a vossos filhos, que de toda a alma abençôo, o remorso de qualquer
+falta, porque o remorso mata!... </p>
+
+<p>«Adeus!</p>
+
+<p class="direita">Tua infeliz irmã,</p>
+
+<p class="direita"><em>Anna</em>.»</p>
+
+<p><span class="pagenum">[277]</span></p>
+
+<p>Finda a leitura, que o padre fez commovidissimo, assomou a uma das
+varandas do palacio o respeitavel vulto de D. Isabel de Abendanho, trazendo
+atraz de si meia duzia de pessoas das mais necessitadas da freguezia, todas
+uniformemente vestidas de novo, e, rindo com a tranquillidade de uma santa,
+disse para a familia:</p>
+
+<p>--Não esperavam, que a <em>velha</em> fosse capaz de preparar-lhes uma
+surpreza, no dia da festa da minha neta?... Pois saberão, meus
+<em>crianças</em>, que tive segundo jantar na companhia d'estes bons filhos
+adoptivos, que aqui lhes apresento todos pimpões, com os fatos novos de que a
+minha netinha lhes fez presente... Perdão, senhor reitor... O nome de
+<em>criança</em> foi uma brincadeira minha, que nunca podia entender-se com o
+respeitavel senhor padre Alvaro...</p>
+
+<p>O pae de Arthur, havia-se repentinamente tornado cadaverico! Apertara nas
+suas as mãos dos pequeninos que tinha no collo, inclinara a cabeça sobre
+<span class="pagenum">[278]</span> o encôsto do assento, erguera os olhos ao céu, e balbuciara estas
+palavras:</p>
+
+<p>--<em>O remorso mata</em>... mas Deus perdôa aos que morrem penitentes...
+Arthur... meus filhos... até logo!......</p>
+
+<p>N'aquelle momento sombrio, uma das pombas saltou á cabeça do moribundo, o
+que lhe fez entreabrir o seu ultimo sorriso.</p>
+
+<p>Um despedaçador grito de Arthur, fizera prostrar todos de joelhos.</p>
+
+<p>Chegava alli, da proxima campina, a melancolica toada d'este cantar: </p>
+
+<div class="poesia">
+«Vou chorar e cortar fêno,<br>
+quem trabalha tambem sente:<br>
+as paixões trazem veneno<br>
+encoberto na semente.<br>
+<br>
+O nosso reitor, um santo,<br>
+reza sempre, e tambem chora!<br>
+N'um sepulchro verte o pranto<br>
+sempre, sempre á mesma hora!...<br>
+<br>
+Ninguem foge ao sentimento,<br>
+ninguem foge ao seu destino...<br>
+Quem d'amor soffre o tormento,<br>
+no Céu tem Amor Divino.»<br>
+</div>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn19" name="fn19">19</a></sup> É motivo de odios para os liberalões de
+má casta, o sustentar hoje a conveniencia da vida claustral!</p>
+
+<p>Por verdadeiro affecto á liberdade, por sabermos seguir e presar o
+progresso do bem, é que entendemos absurda e tyrannica a extincção dos
+conventos. O claustro, em casos analogos ao d'aquella heroina do nosso
+«conto», era um refugio celeste: como suppril-o? Que liberdade é essa que
+tolhe as mais innocentes acções da criatura? Existiam abusos? E onde
+deixariam elles de existir, sem a vigilancia e o castigo dos poderes
+constituidos? Porque no parlamento se discutem questões impertinentes, porque
+no sanctuario das leis havemos presenceado scenas vergonhosas, já alguem se
+lembrou de extinguir a camara popular?</p>
+
+<p>Consola-nos vêr sustentar a nossa opinião abalisados e insuspeitos
+escriptores liberaes de toda a Europa.</p>
+
+<p>Dizemos desassombradamente o que sentimos: não sabemos comprehender o
+<em>celibato forçado</em> e somos desaffectos á <em>extincção das ordens
+religiosas</em> e a todas as medidas violentas oppostas á bem entendida
+Liberdade. </p>
+</div>
+
+<h4>FIM DA TERCEIRA PARTE E ULTIMA</h4>
+
+<p><span class="pagenum">[279]</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Ao snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho, devo a delicada offerta da
+gravura em chapa, que serviu para a tiragem do meu retrato.</p>
+
+<p>Orgulha-me a fineza de um artista, que no <em>Reglamento de exposiciones
+nacionales de bellas artes</em>, publicado em Madrid no anno de 1871, foi
+assim classificado: «Molarinho (D. José Arnaldo Nogueira), natural de
+Guimarães, discipulo del snr. T. M. de Almeida Furtado, caballero de la Orden
+de Cristo, medallas de plata en las Exposiciones Nacionales de 1857, 1862 y
+1863.» Que no mesmo anno de 1871, na exposição de concurso das bellas artes
+em Madrid, obteve o segundo premio; que tem recebido do estrangeiro
+inequivocas demonstrações do grande apreço em que por lá é tido o seu
+talento, e que mais util ainda teria sido á patria, se os poderes publicos
+d'este nosso Portugal não tivessem o infeliz séstro de ignorarem a morada do
+verdadeiro merito.</p>
+
+<p>Para o nosso primeiro gravador de medalhas, ainda não houve um
+<em>cantinho</em> na casa da moeda! Se elle não é influente eleitoral!...</p>
+
+<p>De sorte que o artista distincto, e pobre, n'este paiz, tem que empregar o
+seu genio em obrinhas que lhe dêem o pão de todos os dias!</p>
+
+<p><span class="pagenum">[280]</span>Queriam que o snr. Molarinho concorresse á exposição de Vienna
+d'Austria?<sup class="footnote"><a href="#fn20" name="lfn20">20</a></sup></p>
+
+<p>Os seis mezes que s. s.<sup>a</sup> havia de gastar n'uma obra que lhe
+daria nome europeu, e gloria a Portugal, foram passados a gravar
+<em>colleiras para adorno dos sabujos de pessoas indinheiradas, que para tal
+fim procuram o notavel artista</em>, como algures escreveu um nosso
+espirituoso narrador.</p>
+
+<p>Perdão... Não façamos injustiças. Nem todos os ministerios se esqueceram
+do snr. Molarinho: houve um que o emparelhou com qualquer regedor de
+parochia... O snr. Molarinho é cavalleiro do habito de Christo: não morre de
+fome.</p>
+
+<p>Porto, 27 de agosto de 1873.</p>
+
+<p class="direita"><em>Miguel J. T. Mascarenhas</em>. </p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup class="footnote"><a href="#lfn20" name="fn20">20</a></sup> O snr. Molarinho, foi oficialmente
+convidado de Vienna d'Austria para entrar no concurso das medalhas para os
+premios da exposição: não lhe foi possivel acceder. Os trabalhos seus, que lá
+mandou, foram premiados.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Um conto portuguez: episodio da guerra
+civil: a Maria da Fonte, by Miguel J. T. Mascarenhas
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UM CONTO PORTUGUEZ ***
+
+***** This file should be named 25313-h.htm or 25313-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/2/5/3/1/25313/
+
+Produced by Manuela Alves e Pedro Saborano. (produced from
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+will be renamed.
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+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
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+used on or associated in any way with an electronic work by people who
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
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+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
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+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
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+1.F.
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+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
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+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
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+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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