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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/25313-8.txt b/25313-8.txt new file mode 100644 index 0000000..41a80bf --- /dev/null +++ b/25313-8.txt @@ -0,0 +1,7788 @@ +The Project Gutenberg EBook of Um conto portuguez: episodio da guerra +civil: a Maria da Fonte, by Miguel J. T. Mascarenhas + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte + +Author: Miguel J. T. Mascarenhas + +Release Date: May 3, 2008 [EBook #25313] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UM CONTO PORTUGUEZ *** + + + + +Produced by Manuela Alves e Pedro Saborano. (produced from +scanned images of public domain material from Google Book +Search) + + + + + + + + + +UM CONTO PORTUGUEZ + + + + +UM CONTO PORTUGUEZ + +EPISODIO DA GUERRA CIVIL + +A MARIA DA FONTE + +POR + +MIGUEL J. T. MASCARENHAS + +PORTO + +Typographia Lusitana + +84--Rua das Flores--84 + +1873. + + + + +DEDICATORIA + +A MEU FILHO + +GASPAR TEIXEIRA DE SOUSA MASCARENHAS + + +Dedico-te o meu unico livro. + +Dos variados escriptos meus, é este só que aprecio, porque empreguei n'elle +todo o meu cabedal, vontade tenaz, e a escrupulosa consciencia dos quarenta +annos repletos de provações. + +Principiado na convalescença de perigosa enfermidade, á cerca de quatro +annos, só hoje foi concluido. É certo que precisei estudar, e ler muitos +livros portuguezes de lei; mas a demora na conclusão do «Conto Portuguez», +deve, como sabes, tambem ser attribuida aos meus constantes padecimentos +physicos, que me não consentem atturados trabalhos de nenhum genero. + +Escolhi-te para esta dedicatoria, porque tens no peito por tua indole e +minha insinuação, bem gravados todos os nomes das pessoas a que devemos +eterno reconhecimento: és como um ponto de reunião dos nossos bons amigos +que assim me parece contemplar sem o melindre da preferencia. + +Guimarães, 12 de Agosto de 1873. + + Teu pae muito amigo + + Miguel J. T. Mascarenhas. + + + + +PROLOGO + + +Não ha forças humanas que nos destruam as tendencias. + +Quando o pae d'um antigo poeta latino castigou severamente o filho por +escrever poesias, ouviu do castigado um famoso verso heroico, como promessa +de não compôr mais versos. + +Desde os onze annos de idade que sinto uma irresistivel attracção para as +letras. + +Não frequentei escólas: apenas me ensinaram o--a, b, c. Em tal ignorancia, +como chegar á realisação dos meus ambiciosos sonhos, que todos eram de vêr +em letra redonda a minha «letra de mão»?! + +Tive por unicos auxiliares da minha ambiciosa quanto ardua empreza, a muita +leitura, de boa ou má digestão, o muito ouvido, a muita vontade, e a muita +audacia, que é o fructo da ignorancia. + +Tenho soffrido decepções amargas, por muitas das minhas impensadas +obrinhas: se eu fui escrevedor de gazetas!... + +Remirei os meus peccados, com a publicação d'este livro?... + +Sugeitei a primeira parte do «Conto portuguez» á censura d'um dos mais +eruditos litteratos do Minho, que se dignou fazel-a, com a pericia e +imparcialidade dignas d'elle. Os seus prudentes e sabios conselhos, a que +dei todo o peso, estiveram, por um triz, a matar a obra: depois de ler o +bom juizo do meu sensor, tudo que eu havia escripto me parecia horrendo. + +Resolvi, pois, concluir, e dar publicidade ao meu «Conto» sem continuar o +prévio exame da pessoa competente a que me refiro. A rasão d'este proceder, +que parece atrevido, está no vehemente desejo de ver publicada a obra, e na +minha indole de hoje: tive já tanto de audacioso, quanto agora tenho de +poltrão. O estudo, os annos, e tambem as doenças, concorreram para a +mudança: vem sempre tarde o perfeito conhecimento da nossa ignorancia. Não +curo do concerto, para não desabar o edificio. Se continuasse a apresentar +o meu trabalho, como tencionei, ao mesmo excellente critico, e elle como é +de crer, lhe notasse os defeitos,--morria o «Conto» com toda a certeza: +morria, porque eu, por um erro apontado, desconfiava que fossem erros todas +as palavras. + +Seria melhor?... + +São exactissimas as citações que faço tanto na parte historica como na +romantica, colhidas em livros insuspeitos; e o que é acção do «Conto», sem +ter allusões determinadas, é, com tudo, verdadeira: são muitos factos, meus +conhecidos, desviados das épocas e logares em que se deram, atados e +compostos com a arte de que posso dispôr, e postos a cargo de imaginarios +personagens. + +Resta-me dizer que, na pontuação, segui o systema de regular a escriptura +pelas pausas do discurso. Regras, deduzidas dos principios ideologicos, e +da grammatica geral, não estão ainda assentadas, e já é tarde para o serem. +Assim, entendi que não errava, seguindo opiniões esclarecidissimas, que +podem ser capitaneadas pela mui douta opinião do nosso immortal padre +Vieira, manifestada, por exemplo, n'este famoso periodo: + +«Arranca o estatuario uma pedra d'essas montanhas, tosca, bruta, dura, +informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na +mão, e começa a formar um homem; primeiro, membro a membro, e depois, +feição por feição, até a mais miuda: ondeia-lhe os cabellos; aliza-lhe a +testa; rasga-lhe os olhos; afila-lhe o nariz; abre-lhe a bocca; avulta-lhe +as faces; torneia-lhe o pescoço; estende-lhe os braços; espalma-lhe as +mãos; divide-lhe os dedos; lança-lhe os vestidos: aqui desprega; alli +arruga; acolá recama: e fica um homem perfeito, e, talvez, um sancto, que +se póde pôr no altar.» + +Guimarães, 12 de Agosto de 1873. + + Miguel J. T. Mascarenhas. + + + + +PRIMEIRA PARTE + +HONRA + + + «No que o mundo chama _honra_ ha muitas vezes mais vaidade que virtude». + + (DR. CORRÊA DE LACERDA). + + + + +UM CONTO PORTUGUEZ + + + +I + +TREZ DONZELLAS + + «.................... + Tres, sim. Não cuides + Que te desgraças: + Vês? + Tres são as Graças, + Tres, as Virtudes, + Tres.» + + «_João de Deus_--FLOR DO CAMPO.» + + +Ao cahir da tarde de um dia que fôra borrascôso, no mez de Maria de 1846, +avistavam-se, em preparados assentos de terreiro povoado de arvores +floridas junto do atrio de nobre e vetusto domicilio, no valle de Sousa, +das cercanias de Penafiel, tres formosas donzellas em colloquio intimo. O +donaire de uma d'ellas e, a par de seu garbo senhoril, a riqueza e o bem +posto de seus atavios, estremando-a das companheiras, annunciavam a elevada +posição social a que pertencia. A natureza é que fôra egualmente prodiga +para todas tres, no tocante a dotes physicos. Possuiam essas feições +caracteristicas das nossas mimosas portuguezas--e não é cego patriotismo +esta asserção--que reunem o que ha de seductor em todos os typos do mundo. + +Chamava-se a fidalga D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho: +por menos euphonico que pareça este ultimo appellido--seja dito aqui +ligeiramente--é muito nobre e muito peninsular.[1] + +D. Maria achava-se no gôso de todas as caricias da familia, porque vira +fallecer, um após outro, cinco irmãos varões, ficando a ser, por tal falta, +o unico enlevo de seus nobres e abastados progenitores; como tambem +usofruia o respeito admirativo de todos os mancebos de muitas leguas em +redor de sua habitação, por ser esbelta; possuir cintura como de vespa; pés +pequenissimos; mãos a que todos os poetas--e os democraticos mais que +todos--chamam aristocraticas, por não encontrarem palavra mais +significativa do bello; rosto comprido; tez pallido-rosa; nariz um tanto +aquilino; olhos pretos, rasgados em fórma de amêndoa, e penetrantes; bocca, +ainda que não mui breve, attrahente e engraçada, pelos alvissimos dentes +que sustinha, e delicioso sorrir que semeava; cabellos que se lhe formavam +em natural e opulenta corôa; piso de alvéloa sobre gêlo, e... mais de +trezentos mil cruzados em dote. + +Digamos em abono de poucos dos frequentadores da morada de D. Maria, que as +magnificas e rendosas propriedades da gentil fidalga, entravam, só por +ultimo, nos calculos que faziam, e nos sentimentos que manifestavam. + +A donzella que apresentamos como principal heroina do nosso conto--que á +força de ser verdadeiro ha de parecer inverosimil--apenas desmentia os seus +nobilissimos antepassados na applicação ao estudo, e nos apreciaveis +resultados que de tal ia colhendo. Era já mais de mediocremente instruida, +e muito além do geral das senhoras portuguezas. + +Sobre a instrucção, devia a Deus um talento investigador, que, junto ao +espirito repentista do sexo, dava á briosa fidalga proveitosas vantagens. + +Sustamos este bosquejo da nossa estremada heroina, que muita occasião +teremos de pôr em relêvo seus dotes e qualidades. + +As companheiras de D. Maria, chamavam-se Anna de Jesus e Rosa de Lima, +estimadas filhas de dous dos muitos caseiros da fidalga. Eram muito +parecidas, apesar de não conhecerem parentesco algum entre si, e tão +similhantes uma á outra, que muitas vezes as confundiam, e lhes trocavam os +nomes. + +Fallaremos de fugida nos dotes physicos de Rosa e Anna: altas; delgadas; +fórmas airosas, ainda que incompletas; tez alva; olhos azues; cabellos de +fino ouro, e um todo encantador, que os modestos trajes não conseguiam +abafar completamente, antes deixavam transluzir suas occultas bellezas. + +Anna de Jesus era docil; timida; e de umas crenças religiosas, que tocavam +na beatice. Ao avêsso, Rosa de Lima, era agil; viva; falladeira; sequiosa +de saber; crente, sim, na religião de seus paes, mas desprendida de certas +apparencias, a que ella sabia chamar _phantasias sagradas_. + +Anna, interrogada, demorava as respostas que dava, e sahiam-lhe, por assim +dizer, coadas pelo receio de não acertar. Rosa, respondia a tudo com a +rapidez do relampago, e algumas vezes, com admiravel acerto. Ambas deviam á +boa indole, e amisade de D. Maria, o saberem lêr e escrever, quasi +correctamente, pelo que, e tambem pela convivencia com a esmerada e +voluntaria preceptora, mostravam uma util superioridade ás demais donzellas +da mesma classe. + +A mais velha das nossas tres heroinas, que era a fidalga, contava apenas +dezoito primaveras. + +Rosa, e Anna, ignoravam a edade que ao certo tinham, sustentando, com tudo, +o pueril capricho de que não era mais velha uma do que a outra. + +Rosa de Lima, mal conhecera o pae, fallecido ha dez annos, que fôra desde +rapaz caseiro em uma das propriedades do casal de D. Maria, onde a viuva e +a filha foram conservadas, mesmo com prejuizo do bom amanho das terras, +como costumavam proceder os bons fidalgos portuguezes, em grata memoria +d'aquelles que bem os serviam. A mãe, alquebrada pelos trabalhos mais que +pela idade, tudo confiava da sua querida Rosinha. E sempre na filha tivera +embebidos os olhos, e a alma presa. + +Rumorejava o povo contra o extremo maternal da mãe de Rosa, conhecida por +Emilia do Adro, attribuindo-lhe causas mysteriosas, o que mais d'uma vez +fôra origem de mágoas para o marido, José do Adro, o fallecido pae de Roza. + +Quasi sempre, o povo condemna sem averiguar, d'onde lhe vem o ser pouco +certeiro nos juizos que fórma, embora tenham alvo, proximo ou remoto, os +rumores de que se faz echo. + +Anna de Jesus, vivia na companhia de seus paes, ainda novos e vigorosos, e +de quatro irmãos mais velhos, que eram completos homens do campo. +Empregava-se no arranjo do bragal, e misteres internos, e quasi +desapercebida passava, a existencia da timida Anna, no centro de sua +laboriosa e rude familia. + +Não deve ser estranhada a confiança que D. Maria da Gloria dava, como +iremos conhecendo, ás filhas de seus caseiros. E de certo o não estranham, +aquelles dos leitores que bem conhecerem a distincta affabilidade no trato +da verdadeira nobreza de Portugal, mórmente com as pessoas de condição +humilde. + +Corre um tempo pouco favoravel á nobreza de sangue, no dizer dos que só +d'esta herança desdenham. + +Respeitam-se todos os titulos hereditarios, menos aquelles, que provam uma +geração briosa, e heroica! + +Porquê? + +É facil a resposta, a quem a quizer dar em boa fé: ralha-se do que se não +póde ter. Adquirem-se bens de fortuna, distincções, tudo: só não é possivel +mudar-se o berço. E quantos o mudariam, se podessem, mesmo na occasião do +seu mais frenetico vociferar contra a nobreza herdada!... + +Sejamos justos: haja consideração para tudo que o merece, que o bello é de +todas as classes sociaes. + +Descender de boa extirpe, é indubitavel gloria, e tambem onus, que obriga a +muito. + +Os que hoje adquirem nobreza,--e é comezinho o accesso,--se podessem +testimunhar d'aqui a trezentos annos os gabos de seus fidalgos descendentes +aos heroicos avós, não ficariam repletos de intima alegria? + +Abrandem, pois, os propagadores demagogicos, as democraticas íras, em que +decerto já tem parte o muito plebeu auctor do conto, e deixem-nos dizer, +com um dos nossos doutos portuguezes, que não ha cousa mais estimavel e +bella, que a nobreza do sangue, junta á nobreza do coração: é uma saphira +engastada em oiro purissimo. + +O colloquio das tres donzellas, fôra assim: + +--Pareces-me hoje mais pensativa, ainda que de costume, minha estimavel +Anna, o que tens tu? + +--Pensará talvez nas Ladainhas, e no jejum, fidalga;--respondeu, pela +interrogada, a falladeira Rosa. + +--Ora vamos, travessura da vida!... Já te prohibi que me chamasses fidalga, +como tambem te fiz vêr, o respeito que se deve a tudo que prende com a +religião que professamos. Bem deves conhecer, que tenho auctoridade de +mestra, e que posso chamar á palmatoria a discipula rebelde... + +--Diz bem fidal... snr.^a D. Maria; e aqui tem a mão, sem fazer momices... +mas eu só digo estas coisas no intuito de animar um pouco a nossa Annitas, +que parece mesmo a figura da tristeza, quando não ha motivos para lagrimas. + +--Tu pódes lá saber, o que vae no coração da nossa amiga, doudinha? + +--Sabe de certo, minha senhora, porque entre nós tres não ha +segredos;--respondeu a custo a questionada donzella. + +--Não ha, não... Juro por Santa Rosa de Lima, da qual tenho o nome e +desejara ter as virtudes, que a nossa scismadora, Anna de Jesus, me tem +revelado todos os seus mais vedados pensamentos... Por exemplo: se tem a +desventura de deixar uma noite cahir a candêa, e emborcar o azeite, para +logo prevê graves successos, que fielmente me vae narrar... Se estala um +vidro na casa, toda se encolhe, como a sensitiva, empallidece, treme, e +diz-me, depois, que grandes calamidades nos esperam... Se entra no meu +casebre, e vê que eu, por melhor disposição ou limpeza, deixei ficar a +minha cama com os pés para o lado da porta, faz tal exclamação, que devéras +me assusta; e... + +--Basta, tontinha, basta... interrompeu D. Maria, entre frouxos de riso. +Não será possivel conseguir que tu deixes de atormentar, com as tuas +graças, a nossa commum amiga? + +--Deixe-a fallar, minha senhora, que eu necessito ouvil-a, a vêr se perco +algum do meu natural acanhamento. Conheço-me defeituosa, e sinto não ter a +necessaria força para vencer os meus defeitos. Apraz-me sentir um aviso de +Deus, nas jocosas palavras da boa Rosinha. + +--Nem tanto, pequena, que me arrependo já... Fazeres de mim, por obra do +Eterno, um propheta de saias, é mais pesado do que ouvir-te quantos +preconceitos aprendeste de teus crédulos parentes. + +--Se tu confessas que foram aprendidos, como posso eu ter culpa das culpas +alheias?... Não é assim, minha senhora? + +--Dizes pouco, mas sempre bem. É o resultado de quem pensa o que diz. O +favor que me fazes de _tua senhora_, é que eu não queria receber. Chamai-me +só D. Maria, já que não quereis habituar-vos a um tratamento mais intimo, e +proprio das nossas idades, como eu appetecia. + +--Era o que faltava! As rainhas bem amigas são das damas do paço, e mais +estas ajoelham-se para beijarem a mão de sua real ama... + +--Invejo-te a verbosidade e o talento, querida Rosa... Has-de chegar a +muito se fôres bem fadada por Deus. + +--Vês, Rosinha, _minha vassalla_, que o mal da inveja tambem toca nas almas +como a da nossa Annitas!? + +--Aquillo, senhora, não é inveja, é mostrar que _pensa o que diz_... mas é +muito de crêr que nem sempre _diga o que pensa_... + +--Com a tua pessoa, em jogo de bons ditos, minha doutora, não ha partido... +Olhai!... Se não são visões do crepusculo, o que eu diviso, é muita gente +reunida na serra de Guilhufe!... + +--É muito povo, é, snr.^a D. Maria! Responderam, a uma voz, surprehendidas, +as duas amigas da fidalga. + +--É caso extraordinario! A esta hora, e n'um dia de serviço!... Ahi vem o +sobrinho do snr. reitor, que nos vai dizer o que significa aquelle +ajuntamento... + +Interrogado, o recem-vindo, pelas tres donzellas ao mesmo tempo, +respondeu,--precedendo um cumprimento de cabeça, por lhe não darem logar a +outro--é... a «Maria da Fonte!» + + [1] Na _Historia da casa de Lara_, e n'um manuscripto, de 1676, do + padre Manoel da Purificação Magalhães, vê-se + escripto==_Avendanho_==; mas os modernos senhores do nome, + assignam-se--_Abendanho_. A nobre familia dos Abendanhos, veiu para + Portugal no tempo de El-Rei D. Diniz. O seu brasão compõe-se de + cotta d'armas de prata, em campo azul, trespassada por tres setas + manchadas de sangue, com a legenda: _Sine sanguine non est + victoria_. + + + + +II + +RUGIDO + + + «Não vêdes, que nos destruiremos a nós, e á nossa Republica, se + intentarmos cousas, que não podem ser, porque nos hão-de dar na cabeça + todos esses remedios?» + + (_Vieira_--ARTE DE FURTAR.) + + +Ha palavras, que excitam o espanto dos ouvintes, sem visivel rasão +justificativa do enleio: aquellas--«Maria da Fonte»--tiveram esse condão. +Interrogado, e interrogantes, entraram silenciosos na casa solar de D. +Maria da Gloria, em direcção á sala chamada das visitas, onde estavam os +velhos senhores d'ella. + +Não seremos exagerados dando o nome de palacio, á nobre e grande habitação, +que fazemos aqui figurar. Antes de se chegar á sala de recepção, +encontravam-se immensos salões e repartimentos, tudo a desafiar, pela +solidez, a acção do tempo, como são quasi todas as antigas edificações +portuguezas. + +Na sala de visitas, para não desmentir o adagio muito nosso,--«Em Maio +florido, ainda ao brasido»--havia lume no fogão. Em cima de uma mesa +circular, estava um grande candieiro de metal amarello, com quatro bicos; e +postos nas demais mesas, castiçaes de prata, com vélas de cêra: moveis de +pau santo, cadeiras de espaldar, com botões de metal e arabêscos esculpidos +em sola, e denotando haver sido mudas testimunhas da passagem de algumas +gerações. + +Nas duas portas, que nos topos da sala se defrontavam, estavam pendentes de +fortes lanças reposteiros de grossa baêta encarnada, em que se viam +bordadas as armas de familia. Ao lado dos reposteiros, occupando parte da +parede, pendiam dous grandes quadros, representando, um d'elles, S. +Sebastião, e o outro Santa Isabel, primores de arte do celebre pintor +portuguez Affonso Sanches Coelho, que foi protegido pelo snr. principe D. +João, pae de El-Rei D. Sebastião, e depois apreciado por Filippe II de +Hespanha, onde morreu mui favorecido da côrte. + +Na parede fronteira a nove rasgadas janellas, que olhavam para um lindo +jardim, e famoso vergel de fructiferas arvores, estavam suspensas de +grossos cordões de sêda, de côr verde, as arvores genealogicas dos +Mesquitas, Bandeiras, Abendanhos, Souzas, e Mellos; collocados por cima +d'ellas, seis antiquissimos retratos de antepassados d'aquelle solar. + +Pelas mesas da sala, viam-se espalhados alguns livros, e periodicos da +época, merecendo especial menção um alto e largo volume, agasalhado em +veludo côr de rosa bordado a ouro, que dava a razão dos nobres appellidos +da familia, e, minuciosamente, contava as honras, e mercês a ella +concedidas, pelos monarchas, e senhores de Portugal. + +Sebastião da Mesquita Bandeira de Mello, pae de D. Maria da Gloria, e +verdadeiro representante e possuidor d'aquella casa, era um velho fidalgo +portuguez, dos rarissimos que chegaram até nós, sabendo fazer acatar a +nobreza de sangue, que é ephemera sem a nobreza da alma. Era alto; direito, +apesar dos seus 70 annos; com fartos bigodes; olhos grandes, +castanhos-escuros; de olhar suave, que elle sabia, a proposito; tornar +imperativo; fronte elevada; cabellos brancos, e ar magestoso. + +Affavel em extremo, só era Sebastião da Mesquita, intransigivel, com os +desvios da honra. Recebia gentilmente em sua casa todos que n'ella se +acolhessem, e mui difficil seria não voltar alli tendo-se lá entrado uma +vez. O verdadeiro culto, que prestava á nobreza, levava-o a ser nimiamente +sevéro para as fraquezas dos nobres. O que fosse fidalgo, havia de +mostral-o mais pelas suas acções do que pela ostentação de seus +pergaminhos: era este um dos invariaveis preceitos do velho nobre. + +Não se attingiam de repente as sympathias de Sebastião da Mesquita. +Tratando a todos--nobres e plebeus--sem odiosas distincções, sabia occultar +as preferencias, que talvez sentisse. Ainda assim, sustentava, sempre que +se lhe deparava occasião, conversas demoradas e intimas com Arthur Soares, +sobrinho do reitor da freguezia, e, só este, no dizer dos analysadores, +merecia ao velho fidalgo reservadas prerogativas. + +D. Isabel de Abendanho e Sousa, prima e esposa de Sebastião da Mesquita era +uma idosa senhora, que deixava ainda entrever alguns traços de belleza, +pelo meio das ruinas do tempo, e do soffrimento, com a prematura morte de +seus cinco filhos varões. Toda entregue á direcção interna do seu casal, +só á noite apparecia na sala das visitas, á hora do chá, servido o qual, as +pessoas estranhas á familia da casa, não a viam mais, até á mesma hora do +dia seguinte. + +Manifestava certo respeito ao marido, muito voluntario que não imposto, e +adorava a filha, como unico existente penhor do seu inalteravel affecto ao +esposo. + +A todas as pessoas apparecia D. Isabel com um mólho de chaves prêso á +cintura, o que lhe grangeou o epitheto de--_fidalga das chaves_--dito pelo +povo, á bocca pequena, sem o menor intento de offender a virtuosa e velha +fidalga. As chaves, companheiras inseparaveis de D. Isabel, provavam +unicamente, vigilancia e cuidado de boa dona de casa, que confia mais em si +do que nos melhores criados e familiares; e não diziam, de nenhum modo, +avareza, ou mesquinhez. E tanto isto assim era, que o povo igualmente a +denominava--_chaveira dos pobres_,--em grata allusão ás immensas esmolas, +que distribuia, e fazia distribuir, pela freguezia; além das que +diariamente se davam á porta d'aquella nobre casa, que, n'isto, se +assemelhava á portaria d'um convento. + +Falta apresentar aos leitores, o cavalheiro que vae acompanhando as tres +donzellas. + +Arthur Soares, sobrinho do reitor d'aquella freguezia, era homem de 27 +annos de idade; sympathico; bem parecido; insinuante; grave; erudito sem +affectação; brioso; conveniente em todos os seus dizeres, e procedimentos; +sobrio em palavras; vestindo com modesto aceio, e tratando todas as pessoas +com respeito e dignidade. Quando mancebo, frequentara eschola de primeiras +lettras; e o seu verdadeiro estudo principiou aos quinze annos de idade, e +teve logar, sem presidencia de mestres, apenas auxiliado pelos livros de +seu thio reitor, e pela sua privilegiada intelligencia, e natural talento. + +Era Arthur conhecido em muitas terras de Portugal, e, por todas ellas, a +nobreza de sangue lhe mostrava apparente agrado, desdenhando sempre do +plebeu, que entendia saber um pouco de tudo, e que dava seus ares de +fidalgo orgulhôso. Os capitalistas, os grandes proprietarios, os modernos +titulares, todos os homens de fortuna, emfim, olhavam de soslaio para o +litterato sem diplomas, que se atrevia a mostrar indifferença pelo +dinheiro, o rei do mundo. + +Fóra da residencia de seu thio, n'aquella freguezia, só era visto Arthur +Soares em casa de Sebastião da Mesquita, seu padrinho de baptismo, que o +considerava do modo que já dissemos. + +Ao entrarem na sala das visitas, as quatro pessoas que acompanhamos desde o +terreiro, ouviram-se badalar as _Ave-Marias_ no campanario da terra, o que +logo fez pôr em pé os velhos senhores da casa, dos quaes se aproximaram as +donzellas, e Arthur, e todos, com a devida reverencia, resaram em côro a +conhecida oração da Santissima Trindade. Acabada a resa, foi D. Maria +beijar a mão e a face de sua mãe, e, depois, curvando os joelhos, pediu a +benção ao pae, que lhe offereceu a face direita, onde D. Maria depositou um +respeitoso osculo. + +As duas companheiras de D. Maria, pediram, de mãos postas, a benção aos +velhos fidalgos, que as acariciaram, chamando-lhes as lindas discipulas de +Maria, nomes com que Sebastião da Mesquita as dava a conhecer ás suas +visitas. + +Arthur Soares, saúdou D. Isabel, beijando-lhe as extremidades dos dedos da +mão direita, e recebeu um amplo aperto de mão do fidalgo, acompanhado das +palavras--bem vindo, afilhado--e de um certo fitar, que n'elle demonstrava +contentamento, e interesse pela pessoa a quem o dirigia. + +Estabelecida certa liberdade familiar, promovida pelos velhos fidalgos, +occuparam as cadeiras proximas do fogão, Sebastião da Mesquita, D. Izabel e +Arthur Soares. D. Maria e as suas discipulas procuraram outro lado da sala, +onde podessem confidenciar, á vontade, os mil nonadas, que são os encantos +dos annos verdes, e, algumas vezes, até dos já illustrados pelo estudo. +Rosa, e Anna, ficaram de pé, aos lados da cadeira, occupada por D. Maria: +só tomavam assento na presença dos velhos fidalgos, quando estes +imperativamente o ordenavam. Sebastião da Mesquita e D. Isabel--diga-se a +verdade--não desgostavam d'aquella prova de submissão, e quasi sempre se +esqueciam de lhe pôr termo. É que o barro, por mais apurado que seja, tem +asperezas, que só em pó se desfazem. + +Passado pouco tempo, D. Isabel sahiu da sala, e o fidalgo estabeleceu com +Arthur o seguinte dialogo: + +--Que pesadelo o fez triste, como parece estar, snr. meu afilhado? + +--Tenho que dar a v. ex.^a a desagradavel noticia de que o povo se agita em +desordem, começada por não sei que «_Maria da Fonte_» das proximidades de +Lanhôso, e temo que os tumultos cresçam até á altura de revolução, porque a +semente lançada pelas paixões partidarias hade produzir os benésses a que +miram os curas da imprensa desenvolta. + +--É cousa essa, snr. Arthur Soares, que não deve surprehender aquelles que, +como nós, acompanharam de longe as dissensões, e os desacertos, da familia +liberal, a que não pertenço pela communhão de idéas, mas que desejára, como +portuguez, vêr prosperar, para o bem de todos. E o que diz e faz o povo? + +--O povo diz, _que abaixo o ministerio e as contribuições_, e queima os +mappas, que se mandaram encher, para um novo systema de contribuições, +reprovado, sem analyse séria, pelos partidos da opposição, que incutiram +nas massas ignorantes o absurdo de que aquelles papeis serviriam de +documentos para hypotheca da propriedade aos inglezes! + +--Quando haverá seriedade nos homens politicos, que assim fazem brinco de +uma nação?! + +--Neguei até hoje, o meu voto aos bandos politicos militantes, que já da +gloriosa ilha Terceira vieram eivados do mal, que devia affectar o heroismo +de um povo, e d'um rei-soldado. Os feitos praticados dentro das muralhas da +invicta cidade da Virgem, dariam assumpto para uma epopéa, se não tivessem +a macula de fratricidas... Perdôe v. ex.^a o modo de vêr da moderna +eschola, que isto de nenhuma sorte escurece a grandeza, d'aquellas épochas +de conquistas, e de independencia, em que nobres antepassados de v. ex.^a +manejaram a espada, com proveito, e immortal honra d'estes reinos. Bem +sabe, que sou liberal... + +--Sei que é homem de bem, snr. Arthur Soares, e não me repugna a liberdade +de que V. S.^a é apostolo. Á licença, ao desenfreamento de paixões +interesseiras, ao que promove a desunião da familia portugueza, é que um +soldado da independencia, como eu fui, não dará em tempo algum o seu +preito. É V. S.^a o mesmo que confessa,--e dizem outro tanto todos os +liberaes de boa fé--que muito é para temer a desintelligencia que lavra +entre os que tanto precisavam de união. Tambem eu partilho esse receio pelo +meu paiz, sem que n'isto tome parte qualquer tendencia que possa haver em +mim, para applaudir outra fórma de governo. O que eu desejo, antes das +proprias conveniencias, é o bem geral, o engrandecimento d'este torrão +abençoado, em que nasci, e onde queria morrer portuguez. Estas continuadas +luctas intestinas, que nos trouxe a constituição, desdizem da felicidade +por ella annunciada, e quem sabe o que poderão causar-nos!... + +--Talvez a perda da nossa autonomia... É possivel. Mas as grandes +transformações sociaes, snr. Sebastião da Mesquita, não se operam sem +abalos mais ou menos fortes. Consinta-me V. Exc.^a, que ainda confie no +futuro. Entre os vultos liberaes, ha caracteres nobilissimos, completamente +devotados á causa nacional. Se conseguirem aproximar d'elles, aos altos +cargos da governação publica, todos os homens competentes sem distincções +partidarias, póde a náo do estado tomar norte, e trazer-nos éras de paz e +de prosperidade. + +Foi n'esta altura interrompido o dialogo por um escudeiro de habito de +Christo, que vinha dar parte a Sebastião da Mesquita de que se achava o +terreiro coberto de povo, e á sua frente o Exc.^mo Leopoldo de Moraes +Lencastre, do Marco de Canavezes, que pedia licença para entrar. + +Antes de dizermos a ordem que Sebastião da Mesquita deu ao escudeiro, +lembraremos de passagem duas cousas: primeira, que não sirva de prejuizo ao +cofre nacional, pela falha de direitos de mercê, a noticia de haver +_escudeiros_ com habito de Christo, porque é facto averiguado que os houve, +e não sabemos se ainda existem alguns. Eram homens de merecimento, a +maioria d'elles soldados companheiros de seus amos, e de provado valor e +lealdade. + +Segunda: que na rapida descripção que fizermos da guerra civil +contemporanea, seremos completamente isentos de sympathias pelos partidos +ou grupos que dividem os politicos de Portugal. Respeitamos todos os +homens, não temos odios nem invejas, e ajuizamos das cousas com o justo +criterio da imparcialidade. + +Sebastião da Mesquita, levantou-se e disse ao escudeiro, que mandasse +entrar toda a gente. D. Isabel, veiu á sala um pouco perturbada, e +perguntou ao esposo, para dizer alguma cousa, se queria que fosse servido o +chá. Sebastião da Mesquita, respondeu placidamente, que era magnifica +occasião de beber agua quando estivesse o povo na sala, porque se viesse +com más tenções fugiria d'ella como de sua figadal inimiga... Via-se que +Sebastião da Mesquita, estava ou queria mostrar-se tranquillo e jovial. + +D. Isabel foi tomar logar no centro das tres donzellas, que ficaram mudas +de espanto pela ordem que ouviram dar, e não de todo livres de receio, +embora tivessem sempre observado no povo extrema consideração pelo velho +fidalgo. Conservaram-se com tudo impassiveis, como estavam costumados a +proceder todos os familiares do fidalgo, quando este manifestava a sua +vontade. + +Arthur Soares, collocou-se á esquerda do padrinho com tão natural aspecto, +como se fôra a continuar a conversa interrompida. + +O escudeiro, entrou de novo na sala com uma grande salva de prata e sobre +ella uma espada antiga, com cinturão, que, sem dizer palavra, offereceu a +Sebastião da Mesquita. O velho fez repentinamente um gesto de espanto, que +o escudeiro presenceou sem pestanejar; em seguida sorriu-se, como se +disséra--lembraste bem,--e pendurou a espada á cinta, com a pericia propria +de um antigo official de cavallaria. Logo depois, era annunciado, e dava +entrada na sala, o Exc.^mo Leopoldo de Moraes Lencastre, que foi recebido +friamente: nas tres donzellas, é que se poderia notar a apparição d'um tal +ou qual rubor intraduzivel para os circumstantes, ao conhecerem o fidalgo +moço. + +--Sou o mais dedicado servo de V. Exc.^a meu presadissimo primo e senhor da +Mesquita;--principiou por dizer o fidalgo Leopoldo, acompanhando estas +palavras de mesura palaciana, a que Sebastião da Mesquita correspondeu com +um ligeiro curvar de cabeça. + +--Tenho a honra de me dirigir a V. Exc.^a em nome da soberania popular, +para que se digne acceitar o commando dos bravos camponezes da comarca, que +na cidade acabam de reduzir a cinzas os vexatorios papeis, que um +ministerio obnoxio, pelos actos despoticos que pratíca, semeára pelo reino. +A provincia do Minho, ao grito da heroina «_Maria da Fonte_,» está toda +revolucionada; e dentro em pouco chegarão os gritos do povo aos ouvidos da +corôa, que deve fazer justiça immediata, como o requerem as anómalas +condições em que se acha o systema constitucional. Ninguem mais competente +do que V. Exc.^a, meu nobre primo e snr., para conduzir o povo até ao paço; +logar em que os nossos nobilissimos antepassados já tiveram a honra de +sustentar na presença da magestade os direitos da nação, com a coragem +revelada n'aquellas memoraveis palavras, que a historia legou ás futuras +gerações:--«Se não, escolheremos outro rei que melhor saiba governar e +dirigir a briosa nação portugueza!»--Aguardo as determinações de V. Exc.^a, +que fielmente serão communicadas aos que por ellas esperam nos proximos +salões deste palacio; bons lavradores que me pediram fosse eu o interprete +dos sentimentos d'elles perante V. Exc.^a Não consenti que entrassem n'esta +sala, para deixar tranquillas as damas, primas e senhoras minhas, ás quaes +só agora tenho occasião de tributar o mais respeitoso dos meus cultos e a +mais submissa das minhas homenagens, pedindo-lhes humildemente, que se +dignem perdoar o não ter eu praticado desde logo este dever, em attenção a +que estava pouco senhor de mim com a delicada e obrigatoria missão de que +fui encarregado. + +Quando o fidalgo do Marco deu assim por terminado o aranzel, acenou +Sebastião da Mesquita ao escudeiro, que comprehendendo seu nobre senhor, +abriu de par em par as portas e reposteiros, dando livre accesso ao povo, +que estava agrupado pelos immediatos aposentos. Foram pouco e pouco, como +possuidos de acanhamento, entrando na sala os populares, activos e +laboriosos lavradores, sempre cortezes como todos os habitantes do Minho, +mas faceis de inflammar com perfidas insinuações, principalmente ácerca do +perigo que possa correr a religião que professam, e o lar que possuem. + +Eram variados os trajes d'aquelles homens amotinados, e variadissimas as +armas de que cada um estava munido: ainda assim, predominavam os fatos +domingueiros a que é obrigada a casaqueta de botões amarellos, e as +espingardas de fechos com pederneira. Todos entravam desbarretados e +convenientes. Sebastião da Mesquita ia provocando a entrada com as +animadoras palavras:--«Vinde, vinde, bons homens.» E assim que todos o +podiam ouvir, virou-se para o mensageiro, e fallou n'estes termos: + +--Ouvi com a devida attenção e serenidade, o que teve a bondade de dizer-me +meu primo e snr. de Lencastre. Respondendo ao povo, que me escuta, respondo +tambem a v. ex.^a Esta espada, que já serviu a nossos avós, para emprezas +importantes em prol d'estes reinos, e sempre em defeza do sagrado solo da +patria,--nunca será por mim empunhada contra portuguezes e irmãos. Fui +soldado da independencia, e não quero outra gloria. Quem deseja conduzir o +povo pelo caminho da revolta contra os poderes bem ou mal constituidos, +póde ter ambições a saciar, mas falta-lhe bem dentro n'alma a nobreza de +sentimentos, unica que póde distinguir da massa geral dos homens, os +fidalgos e as pessoas illustradas. + +«Porque os principes, ou aquelles que governam o reino, abusem do seu +poder, não é rasão para que os povos abusem dos seus direitos. Os homens +prudentes, devem conhecer os demais. Aos não poucos annos que tenho, devo +eu o não poder ser facilmente enganado... Não se queria o meu braço, não, +que já mal póde com a espada... O que se vinha aqui buscar era o bom nome +do velho, para servir de joguete a pequenas ambições... Não precisa o snr. +meu primo Leopoldo d'este fraco auxilio. As tendencias que manifesta para +tribuno popular, devem leval-o rapidamente ao parlamento, que é o caminho +aberto ás modernas glorias... Seja feliz, e deixe-me descer socegadamente á +sepultura. E vós, homens do trabalho, recolhei-vos ao seio de vossas +familias, que devem soffrer com os vossos desvarios, e desconfiai sempre +dos pareceres que vos levam á porta os voluntarios zeladores dos vossos +interesses... Lembrai-vos, que não se devem despresar as lições da velhice, +que são as da experiencia. Minha prima e presada esposa, digne-se v. ex.^a +mandar abrir a adega, para que esta boa gente mate a sêde. Maria, as tuas +interessantes discipulas ficam esta noite a fazer-te companhia, para assim +escaparem a algum _discurso_ dos campeões de praça... Snr. Arthur Soares e +meu bom amigo, queira ter a summa bondade de acompanhar este bom povo até +ao terreiro, e vêr se póde com a sua eloquencia acabar de convencêl-o da +verdade encerrada nas minhas trémulas palavras. Meu primo, querendo v. +ex.^a dar-nos a honra da sua presença, logo que voltem minha mulher e o +snr. Arthur Soares mando servir o chá. + +--Agradeço, mas não posso acceitar nem conservar-me aqui mais tempo depois +do que v. ex.^a acaba de pronunciar... + +--N'esse caso,--interrompeu Sebastião da Mesquita--peço as ordens de v. +ex.^a... João, acompanha meu primo até ao portal. + +Ao receber a ordem do amo, o escudeiro foi postar-se atraz de Leopoldo. +Este, fulo de cólera açamada, virou a espalda e sahiu com o povo, que +escutára o fidalgo com todo o respeito e silenciosa attenção, e que foi tão +rapido na sahida como morôso havia sido na entrada. + +Logo que foi evacuada a sala segundo as ordens de Sebastião da Mesquita, +caminhou este até ao pé das donzellas, pôz a mão direita sobre o hombro +esquerdo da filha, encarou-a por longo tempo com visivel commoção, e +disse-lhe com lagrimas na voz: Deos te dê melhor sorte, Maria!... Depois, +cingiu Rosa e Anna com o braço esquerdo, e disse a todas com igual ternura: +Deos vos proteja, minhas filhas!... + + + + +III + +AO LUAR + + «Na minha terra, uma aldeia, + Por noites de lua cheia, + É tão bella! é tão feliz!...» + ............................. + + (_João de Lemos_--CANCIONEIRO.) + + +Leopoldo de Moraes Lencastre, filho segundo da nobre familia dos alcaides +móres de Coruche, achava-se--por fallecimento do primogenito--na posse do +morgadio. + +Era importante a casa de seus maiores, dispersa por quasi todo o reino. +Leopoldo administrava mal e esbanjava muito, sem gastar, ainda assim, mais +que o rendimento. + +Corriam differentes versões ácerca da morte inesperada do morgado, que +todas formavam um pessimo conceito do herdeiro forçado d'aquella nobre +casa. No entanto, Leopoldo mostrára-se angustiado com a morte do irmão, e +parecia gosar a herança com a tranquilidade de espirito propria dos +innocentes. Deixára Coimbra quando frequentava o quarto anno da faculdade +de direito, para tomar conta da casa, e voltára mais tarde a concluir a +formatura. + +Dotado de um caracter ardente, Leopoldo, era ambicioso de glorias, que +sonhava de um modo unico. Sacrificava todos os bons sentimentos, á +satisfação do amor proprio. Na consciencia d'elle, havia só logar para a +sua personalidade. Nunca encontrou espelho que lhe reflectisse outro +objecto, além da sua figura. + +O mundo era para o fidalgo doutor apenas um palco, destinado a receber-lhe +as scenas comicas ou tragicas; e os espectadores estavam magnetisados, para +só attentarem n'elle e nas suas acções. Não havia torpeza que lhe +embargasse o caminho do Capitolio, nem falta que o fizesse exitar no +trajecto. Mettia algumas vezes na gaveta das conveniencias a sua altivez, +para de lá sahir depois mais furiosa, alcançados que fossem os premeditados +fins. Era mais insaciavel com o seu orgulho, do que um miseravel com as +suas necessidades: os cuidados, agitações e pesares communs a todo o homem +quando se dilata a esphera dos prazeres, affeições e sentimentos, só +accommettiam o moço doutor na hora em que se convencia de que o mundo +desviava os olhos das suas façanhas. + +Leopoldo era physicamente favorecido da natureza, e suppríra, com o estudo, +o que lhe faltava em talentos. Foi-lhe facil estabelecer escóla sua, e +rodear-se de manequins, que serviam magnificamente aos seus desejos. É +crescido o numero de parasitas que, algumas vezes, se prestam para +caudatarios, e que são sempre tubas, ainda que rouquenhas, de famas adrede. +E não se verificava, com relação a Leopoldo, o preceito de ser a lisonja +moeda falsa que empobrece quem a recebe; muito ao avêsso ia logrando +insinuar-se na opinião publica, que foi, e é, e ha de sempre ser, a tonta +filha das apparencias. + +Quando Arthur Soares, encarregado pelo fidalgo Mesquita de fallar ao povo, +estava desempenhando a commissão, foi interrompido por Leopoldo, que +pretendeu ridiculisal-o. Deu isto causa a uma discussão entre os dous, +algum tanto animada, que acabou pelo povo ir dispersando, e Arthur Soares +deixar bruscamente o adversario fidalgo, entrando de novo no palacio de +Sebastião da Mesquita, com o qual passou algumas horas mais. + +Na sahida para a residencia de seu thio reitor, ao passar por baixo das +janellas do quarto de D. Maria, teve Arthur Soares de prestar attenção ao +chamado da fidalga senhora, que, com as suas discipulas, estava gosando o +luar e a belleza da noite, e lhe perguntára como havia conseguido que o +povo recolhesse a suas casas. + +--Tudo consegue a prudencia, minha senhora, quando não é capa de occultos +interesses. O povo estava illudido por palavras pomposas que eu expliquei +em linguagem chã, fazendo-lhe conhecer o sentido interesseiro de quem lh'as +havia dito: convenceu-se e tranquillisou-se. O fidalgo, primo de V. Exc.^a, +é que se não convenceu nem me agradece... Creio que adquiri n'elle um +verdadeiro inimigo. + +--Pouco deve importar ao snr. Soares a inimisade do snr. Lencastre. V. S.^a +tem a nobreza das suas acções, que não podem invejar cousa alguma ás do meu +fidalgo primo. + +--Não me parece tanto assim, snr.^a D. Maria;--arriscou-se a dizer a timida +Anna--O snr. Lencastre é pessoa muito estimavel e virtuosa, no meu humilde +parecer... + +--Estimavel; virtuosa e _carinhosa_, deves acerescentar, minha beatinha, +porque o tal senhor teve artes para ganhar a tua affeição... + +--Valha-te Deus, Rosa, que vês tudo pelo mau lado... Eu sou muito amiga do +snr. Lencastre, como o seria de qualquer outra pessoa que conhecesse, e que +nunca me fizesse mal... + +--Parece-me, menina Anna, que a Rosinha foi mais verdadeira agora do que +mordaz ou satyrica, como graciosamente lhe chamam;--disse Arthur +Soares.--Se não, haja vista esse denunciativo rubôr que mais de palpite do +que auxiliado pelo luar, d'aqui imagino vêr... + +--Peço desculpa de ser contra a sua opinião, snr. Arthur, mas entendo que o +pejo, manifestado nas faces, póde ter variadas origens. A Rosinha tambem +córou, e talvez eu córasse egualmente, quando meu primo entrou no salão; e, +com tudo, não creio que em nós exista sentimento algum reservado. + +--Nunca dei entrada no meu espirito a qualquer suspeita prejudicial á +inexcedivel virtude de V. Exc.^a, e á que adorna as suas interessantes +discipulas, o que não obstou a que eu fizesse reparo--confesso-o--em certo +embaraço que descobri em todas, na occasião a que V. Exc.^a se refere. + +--Eu explico ao snr. Arthur Soares a razão do nosso abalo;--disse +repentinamente Rosa.--Annitas, córou, porque o fidalguinho lhe não é +indiferente... + +--Tens cousas... + +--Não me interrompas, que ter coração não fica sul a pessoa alguma, O amor, +é toda a historia da vida das mulheres, como diz um livro, que a snr.^a D. +Maria me ensinou a lêr e entender.--Eu córei, por que antipathiso +solemnemente com uns certos modos do snr. Lencastre, que já me fez a honra +de dizer que eu era bonita e espirituosa... A snr.^a D. Maria... + +--Eu, menina, não desejo n'este momento ter interpretes dos meus +sentimentos... Subiu-me calor ás faces, porque... estava um tanto +indisposta... + +--É já tarde, minhas senhoras, e eu vou até á residencia de meu thio, onde +espero conciliar o sômno, vendo o soberbo luar d'esta lindissima noite, +atravez dos vidros da janella do meu pequeno quarto. V. Exc.^a, snr.^a D. +Maria, continue a gosar, em companhia das suas innocentes amigas, o arôma +das flôres do jardim e do pomar, a fagueira brisa d'esta bellissima noite +de primavera, o suave cantico da voadôra cotovia e da poetica philomella, o +murmurio da agua nos proximos tanques, a magestosa pallidez da lua cheia, +que tudo isto ajuda a nutrir a imaginação com illusões nascidas da candidez +da alma, muito mais carecida de taes alimentos do que a fria razão. + +--Quer o snr. Arthur Soares dizer-me com esse trecho poetico, que não +gostou de que eu interrompesse a Rosinha?... Apreciava bem mais ouvir a +franqueza de que sabe usar, do que escutar-lhe um subterfugio, aliás +lindissimo na fórma... Eu, digo-lhe abertamente, snr. Soares, porque não +tenho motivos para occultal-o, que o meu pejo procedeu de haver ha muito +reconhecido em meu primo Lencastre, qualidades e sentimentos improprios de +um cavalheiro. Magôa-me bastante ter de fallar assim de um fidalgo, que é +meu parente; mas não quero que os meus gestos sejam mal avaliados, +principalmente por V. S.^a, que é um amigo d'esta casa, a quem meu pae +devéras estima. + +--Não me accuso, snr.^a D. Maria, de ter provocado a irritabilidade +nervosa, que me parece descobrir em V. Exc.^a, porque me diz a alma que eu +era incapaz de lhe promover o mais leve desgosto. O dia em que eu me +conhecesse origem de qualquer dissabor, para a familia do snr. Sebastião da +Mesquita--póde V. Exc.^a crêl-o--seria o ultimo da minha vida. + +--O que disse, não foi queixa, snr. Arthur Soares. Quiz apenas _ser eu_, a +dizer a V. S.^a os meus sentimentos... Se perdeu com isto de ouvir a +narrativa com a natural eloquencia e graça de que dispõe a minha amiga +Rosa, deixo-os agora á vontade, para... + +--Sou eu que me devo retirar, snr.^a D. Maria... E retiro-me com a +convicção bem formada de que _nunca mais_ as minhas palavras, dirigidas ao +snr. Arthur Soares, poderão melindrar a minha presada senhora, amiga e +mestra, porque hei de medital-as muito... + +--Ficam ambas, com certeza, porque uma e outra se encontram empolgadas pelo +gavião!...--Disse uma voz sahida do pomar, que todos reconheceram ser a do +snr. de Lencastre. + +Facilmente se avalia a commoção em sentidos diversos, que soffreram todos +os actores d'esta scena, ao conhecerem o novo e audacioso interlocutor, +sahido de entre as arvores do pomar que o occultavam, e collocando-se +sobranceiro á parede do jardim, em frente da janella occupada pelas tres +donzellas, ficando alguns metros separado de Arthur Soares. + +--Não me surprehende, continuou a dizer o fidalgo moço, dirigindo-se para a +janella,--que a snr.^a Rosa concebesse um arranjinho de vida commodo, +fazendo presente do seu coração e de seus volumosos espiritos ao snr. +Arthur Soares; e que este eminente litterato tome posse de tudo, para cada +vez dar maior brilho ao seu verniz de urbanidade e brios... Agora, o que +devéras me faz descrêr de quantas virtudes podem honrar o coração humano, é +o vêr que a snr.^a D. Maria da Gloria esqueceu rapidamente a distancia que +a separa de um plebeu, embora um tanto polido, que nunca se atreveria a +pensar sequer na honra de conseguir, á custa dos maiores sacrificios, o que +V. Exc.^a tão de barato lhe concede!... Manifestar _ciumes_ ao snr. Soares, +minha nobre prima, é declarar-lhe que o ama!... + +--Eu já sabia, snr. de Lencastre, que uma certa grosseria de habitos +formava a base do seu codigo cortezão; mas nunca me persuadi que V. Exc.^a +quizesse lá escripta a villania de um procedimento como o que acaba de ter! +Os nossos lacaios, se alguma vez são apanhados a devassar alheias causas, +fogem espavoridos da feia acção que commetteram... O meu nobre primo +_afidalga-se_ com um manifesto de curioso, e delator das vidas alheias, +abrindo com chave de mui duro e enferrujado ferro, o coração de uma +senhora, que lhe não deu o direito de se tornar seu vigia, e muito menos +seu mentor. Só a meu pae quero dar conta dos meus procedimentos, e nenhum +receio me dominava se o santo velho fosse um dos espectadores d'esta scena, +só pouco edificante desde que V. Exc.^a entrou n'ella... Peço ao snr. +Arthur Soares, que seja completamente alheio ás palavras e acções do snr. +meu primo; peço-lho pela amisade que tem á minha familia. + +--É esse o mais espinhoso dever, que V. Exc.^a me podia impôr... + +--Socegue o paladino da nobre castellã, que não tem de medir armas comigo, +porque lhe não acceito o repto... E V. Exc.^a, nobilissima snr.^a D. Maria +da Gloria, fique sabendo que a um perfeito acaso devi o ficar conhecendo +dos adiantados, prósperos e sublimes amores de V. Exc.^a, com o sobrinho do +senhor reitor... Se me interesso por alguem, não é de certo por V. +Exc.^a... Ha talvez ao lado da minha nobre prima quem saiba nutrir +aspirações mais fidalgas... Muitas vezes acontece haver discipulos, que +podiam ensinar os mestres... + +--Das lições de V. Exc.^a é que ninguem aproveita... disse sacudidamente +Rosa, que ha muito ardia por fallar, e que era contida pelo respeito devido +á fidalga, e por se achar affectada com a inesperada direcção d'estes +acontecimentos, que lhe descobriram o coração. + +--Já me tardavam as provas de seu despeito, menina... Apraz-me têl-a por +inimiga: das mulheres formosas, só nos deve magoar a indifferença... + +--E o despreso, snr. meu primo?... + +--V. Exc.^a despresa-me, minha nobre prima?... Tanto melhor, que posso usar +sem constrangimento dos meus direitos de fidalgo e de parente de V. Exc.^a +para annunciar ao mundo do bom tom, que a snr.^a D. Maria da Gloria +Mesquita Bandeira de Abendanho, está ligada pelos vinculos _do mais +apertado amor, com dispensa de sacramentos_, ao sobrinho do snr. reitor da +freguezia... + +Ainda o snr. Leopoldo não tinha acabado de pronunciar bem a ultima palavra +do insulto, e já o som de uma estrondosa bofetada echoava nos ouvidos de +todos. + +As discipulas de D. Maria deram um abafado grito e retiraram-se da janella, +a um pequeno impulso que lhes deu D. Maria. A fidalga, julgando ter sido +Arthur Soares que déra o castigo ao insolente, ficou sobresaltada, e +dirigiu-lhe, ainda que meigas, algumas censuras, a que o brioso mancebo +respondeu, que outra mão, mais prompta que a sua, castigára o desaforado +fidalgo. + +Fôra o caso, que João Vidal, o escudeiro, andando na sua costumada ronda +pelas cercanias do palacio, e ouvindo parte do dialogo, aproximou-se +cautelosamente do sitio onde estava Leopoldo, e lá se conservou até ao +momento em que o insulto feito á sua nobre ama, o levou a estender a mão na +cara do petulante com força tal, que o snr. de Lencastre cahiu redondamente +no chão do pomar. Logo que se levantou, ardendo em ira, partiu para o +escudeiro de punhal na mão. João Vidal, suspendeu-lhe o braço homicida e +arrancou-lhe da mão a arma cobarde, em menos tempo, tudo isto, do que se +gasta a contal-o. + +Vendo-se abatido, sem armas, e marcado pelo mais ignominoso ferrête que um +homem póde imprimir n'outro homem, Leopoldo vociferou: + +--Por um escudeiro!... Vergonha eterna!... Juro que a vingança ha de ser +superior á affronta... Não posso medir-me comtigo, villão, mas quero e +hei-de vingar-me... Vingar-me de todos... Ouviram?! De todos!... E a ti, +canalha... escudeiro infame... hei de afogar-te como se afoga um cão +vadio!... + +Proferidas aquellas selvagens ameaças, retirou-se o possesso, a passos +accelerados, não dando assim logar a maior castigo. + +João Vidal, com toda a submissão e respeito, pediu á sua joven senhora +desculpa para o que fizera sem premeditação, e levado unicamente pela +violencia do insulto. D. Maria agradeceu-lhe com palavras vehementes, e +ordenou-lhe que entregasse o punhal ao snr. Arthur Soares, o que o +escudeiro fez, sem exitação, pedindo depois licença para retirar-se. + +Arthur, surprezo com a ordem e a entrega, perguntou a D. Maria, que uso +devia fazer d'aquella arma. + +--Guarde-a--lhe disse a fidalga--até que eu lh'a peça. + +--É perigoso este instrumento na minha mão, senhora, desde que me vejo +causa involuntaria das mágoas de V. Exc.^a... Esta noite foi para mim ao +mesmo tempo a vida e a morte... Tive sempre horror ao crime, e vejo-me +levado pelo destino a ser necessariamente criminoso! Acolhendo em meu peito +sentimentos, que nem ao dominio dos meus sonhos quereria que pertencessem, +terei de luctar e de punir, de caminhar para a incerta felicidade por cima +do cadaver de um inimigo, vilissimo é verdade, mas bem nascido e +poderoso... O que devo fazer em tão apertada como temivel conjunctura?!... +Não devo escolher entre dous crimes, aquelle de que só eu venha a soffrer +as fataes consequencias?!... Nunca me persuadi de que havia de chegar uma +hora em que assim fosse abalada a minha austeridade em principios +religiosos!... Nunca imaginei que seria forçado a praticar, o que sempre +tenho rebatido com todas as forças de uma profunda convicção!... Adeus, +snr.^a D. Maria da Gloria!... Amanhã será entregue a V. Exc.^a esta arma +por pessoa de confiança.... Peço-lhe que ao recebel-a se lembre com alguma +saudade do martyr de umas certas crenças, talvez irrisorias n'esta epocha +de... progressos... Adeus!... + +--Ordeno-lhe que fique!... Disse D. Maria com um tal assento de voz, que +obrigou Arthur a ficar como petrificado. + +--O snr. Arthur Soares, pensar em suicidar-se?!... Onde escondeu a +fortaleza do seu espirito robustecido pelo estudo?! Como assim esqueceu os +salutares conselhos de sua boa mãe, que o snr. Soares muitas vezes me tem +repetido?! Que fez das arreigadas crenças na religião de nossos paes, que o +snr. Arthur dizia ser a mais racional e acceitavel de todas as religiões, +mesmo desprendida do que n'ella ha de mysterioso e divino?!... Ah! snr. +Arthur Soares, que me parece imperdoavel essa allucinação!... Já não quero +fallar-lhe no abandono em que deixava as pessoas amigas, só pelo egoismo de +não soffrer na lucta! Isso prova que as melhores almas tambem têem suas +fraquezas... Lembre-se, senhor, que á vida de V. S.^a póde estar presa +alguma outra vida; e que, querendo fugir a matar um inimigo vil, quando +seja absolutamente indispensavel o fazel-o, póde assassinar _alguem_ com o +seu suicidio... + +--Pois V. Exc.^a?!!... + +--Adeus, snr. Arthur Soares! Durma tranquillo e guarde bem essa arma que +deve ser entregue por V. S.^a _em pessoa_ a mim, ou, de minha ordem, á +minha amiga e discipula Rosa... + +Ditas estas palavras, retirou-se D. Maria da janella, que fechou de manso. + +Arthur permaneceu no mesmo logar por largo espaço de tempo, immovel, com +os olhos fitos na formosa lua cheia, e o pensamento entregue ao vago de +estranhas e indecifraveis sensações. Accordou d'este delicioso e pungente +lethargo, á voz amiga de João Vidal, o escudeiro, que o acompanhou á +residencia do thio. + + + + +IV + +MÃE E MADRE + + + «Espero que essas pedras, que em outras foram de escandalo, sejam em + v. m. padrões de espirituaes exemplos.» + + (_Fr. Ant. das Chagas_--CARTAS ESPIRIT.) + + +Pelos fins do mez de janeiro de 1807, um cavalleiro envolto em larga capa, +acompanhado de seus lacaios e creados a pé, desmontou, seria meia noite, +defronte da portaria do convento e mosteiro, da invocação de Nossa Senhora +das Candêas, de freiras de S. Bento, que fundou, nas casas em que nascêra +na villa de Moimenta da Beira, o doutor Fernão Mergulhão, filho de Vasco +Mergulhão e de sua mulher D. Leonor de Lucena, pessoas nobres e de vastos +rendimentos. + +O cavalleiro, bateu tão de rijo com a aldrava do portão, que a communidade +inteira accordou ao estrondo produzido pelos repetidos embates da massa de +ferro. + +Em quanto as noviças alvoroçadas perguntavam em voz baixa umas ás outras, +o que poderia significar uma visita a taes deshoras, e que a muito +respeitavel abbadessa se erguia com inquietação, foi repetidas vezes +renovado o chamamento com furia egual, se não superior, á das primeiras +pancadas, até que a soror rodeira, toda espavorida, tendo-se vestido +precipitadamente e sem esperar as ordens da superiora, desceu até onde +podésse ser ouvida e, com a maior força que podia dar á sua voz +septuagenaria, perguntou: + +--Quem, a esta hora, vem assim perturbar o repouso da vida claustral?! + +--Muito digna soror rodeira, tende a bondade de annunciar á senhora +abbadessa, a urgentissima necessidade de escutar, por um pouco, a um de +seus mais proximos parentes e ao mais humilde de seus servos. + +A este tempo, já a madre abbadessa estava ao lado da soror rodeira e, +reconhecendo a voz que a invocara, mandou que abrissem a porta sem demora. +Introduzido o cavalleiro no palratorio, depois de ter alcançado a benção da +abbadessa, fallou assim: + +--Minha muito respeitavel e estimadissima thia e senhora! Venho aqui, a +horas bem importunas, implorar de V. Exc.^a a minha tranquilidade +domestica, porque ha já mezes que me é insupportavel a vida ao lado de +minha esposa e prima D. Leocadia. + +Não sei porque artes minha mulher descobriu a existencia do João, d'esse +filho do peccado, que a minha boa thia e senhora quiz ter a caridade de +recolher dentro d'estas sagradas paredes. E, desde que o sabe, ameaça-me de +separar-se de mim e de levar todo o seu dote, que é, como V. Exc.^a sabe, a +maior parte da minha casa, se eu não entregar o pequeno ao destino que +ella lhe queira dar. Eu conheço o coração de Leocadia, e sei que ella é +incapaz de maltratar o Joãosinho, e por isso... + +--Suspenda, snr. meu sobrinho, suspenda o seu desnaturado pedido, que lh'o +roga esta velha, em nome do Nosso doce Salvador Jesus. Entregar a uma +inimiga declarada, o meu querido filho adoptivo, o innocentinho a quem +salvei a vida com desvélos e cuidados, que talvez custem--quem +sabe?--indelevel mancha ao convento de que sou indigna superiora?!... +Nunca, snr.! Nunca espere semelhante acção de sua thia... Deu-me ha tres +annos, por uma hora igual a esta, seu filho recem-nascido. Considerei-me, +quando me vi forçada a recebel-o para evitar escandalos, escolhida pelo +Nosso bom Deus, para exercer uma de suas infinitas obras de misericordia. +Vi-me attribulada para conseguir mitigar a sêde ao anginho, que dava gritos +dolorosos! + +Fui eu mesma aos curraes buscar o leite necessario, e apartar depois a mais +formosa das nossas cabrinhas, para servir de ama ao innocentinho... Não me +foi possivel occultar por muito tempo, ás virtuosas madres minhas santas +companheiras, a existencia do menino n'este recinto protector. Todas ellas +tem affecto egual áquelle que eu dedico ao nosso bello Joãosinho. O nome, +que recebeu no sagrado baptismo, é o do milagroso santo padroeiro d'esta +villa, que ha de abençoal-o e protegel-o... É o enlevo de todas a triste +creancinha; é o cofre em que depositamos as joias das nossas affeições +mundanas. Este nosso affecto, não póde offender nem diminuir o que votamos +ao nosso doce esposo e bom Jesus, que é todo caridade, todo amor, todo +misericordia, todo compaixão para as fracas creaturas de que é pae +extremosissimo...... Assim que o meu querido filho adoptivo completar dez +annos, hei de separar-me d'elle, ainda que um rio de lagrimas me custe a +separação, porque não póde, nem deve, continuar a viver aqui; mas eu +escolherei o destino do abandonado infante. Pedirei ao nosso bom Deus, que +me inspire, e tenho fé em que hei de acertar... É esta, meu sobrinho, a +minha irrevogavel resolução. Recorde-se de que lhe ouvi, n'aquella noite +assignalada da entrega que me fez de seu innocente filho, a inaudita +blasphemia de que, se eu o não recebesse, o deixaria a qualquer canto de +uma estrada!... Um pae que profere taes palavras, perde, desde esse +momento, os direitos da paternidade... Snr. meu sobrinho! Digne-se Deus +esquecer os seus erros!... + +Assim fallando, com um tom imperioso e sêcco, deixou a madre abbadessa +interdicto o seu interlocutor, que teve de retirar-se, não sem protestar +haver pela força e violencia, o que á boa paz não pudéra conseguir, ameaças +que ainda foram ouvidas pela respeitavel abbadessa. + +Era fama por todo o Portugal, fundada em apparencias mais ou menos falsas, +que as noviças e senhoras religiosas do convento de Moimenta da Beira +attrahiam ás suas grades a flôr da mocidade das provincias da Beira e +Minho, não só pela notavel belleza de muitas d'ellas, mas, principalmente, +pelo modo affavel com que recebiam as suas visitas. + +Dos mais assiduos frequentadores d'aquelle claustro, era um mancebo +elegante, distincto em acções e nascimento, que já havia sustentado +bastantes galanteios, com donzellas de todas as classes sociaes. Logo ao +principiar a juventude, creára compromissos de homem feito; e declarava a +sua vida intima, a todas as pessoas que o escutavam, com a leviandade +propria dos annos ainda verdes. + +Fôra muitas vezes, sem elle o saber, espreitado pela respeitavel madre +abbadessa, em occasiões que se tornava expansivo com uma das mais lindas +noviças d'aquelle convento, que o attendia e mimoseava, ao palratorio, com +golodices e innocentes amabilidades. + +Certo dia, foi-lhe alli entregue uma carta urgente, que pediu licença para +lêr. O contheúdo no escripto, fizera-o mudar o semblante tão salientemente, +que a formosa noviça não resistiu á tentação de perguntar-lhe, que má +novidade o pozéra assim. + +--Está muito doente, um filhinho que tenho... + +--Pois o snr., que é solteiro, tem um filho?!... + +--Tenho, e quero-lhe tanto como se elle houvesse nascido do mais legitimo +matrimonio. + +Amo as creanças em geral, e estremeço aquella a que dei a existencia. Todos +os sacrificios seriam insignificantes para mim, quando se tratasse de +salvar innocentes creancinhas. Sou novo, mas quer-me parecer que em tempo +algum perderei os sentimentos de que já me orgulho. Só reconheço a +legitimidade do sangue, que é perfeitamente igual nos bastardos como nos +filhos do mais santo hymeneu. + +--Graças, meu doce Senhor Jesus, que já encontrei o que fervorosamente +pedia á vossa infinita bondade!... Disse uma voz, sahida do interior das +grades, que ambos reconheceram ser a da senhora abbadessa. + +Appareceu á grade, acto seguido, a trémula e veneranda cabeça da +respeitavel superiora d'aquelle sagrado recinto, resplandecente de uma +auréola de luz divina, e pediu, com a mais terna affabilidade, á noviça, +que a deixasse ter um segredo com aquelle bondoso e nobre cavalheiro. + +Revelou a santa velhinha ao mancebo, como em seu poder cahira do céu o +pequenino João, que alli escapára ao abandono de paes desnaturados. + +Disse-lhe que muito receiava que o pae do innocente, movido por vil +interesse, tentasse apossar-se do filho pela violencia, o que não seria +difficil conseguir em uma terra certaneja, onde não havia segurança nem +para o asylo sagrado das esposas de Jesus Salvador. Pediu-lhe pelas +sagradas dôres de Maria Santissima, que tomasse a seu cargo o futuro +d'aquelle infeliz, que ella, amando-o como carinhosa mãe, confiaria do seu +cavalheirismo, porque uma voz occulta, que nunca lhe mentira, lhe dizia que +podia confiar. E quando, em algum dia dos poucos que tinha para viver, +podesse haver ás mãos documentos que aproveitassem ao seu querido filho +adoptivo, lh'os faria entregar por modo seguro. + +Logo que os soluços e as lagrimas da santa freira deram logar a ser ouvida +do mancebo, a quem fizera tão estranha revelação e ponderoso pedido, +disse-lhe, com uma solemnidade inesperada, que podia ficar tranquilla, em +relação ao futuro da creança, que elle, desde aquelle momento, tambem +adoptava por seu filho. + +Ás onze horas da noite d'aquelle dia, quem penetrasse até á porta das +cellas das religiosas benedictinas de Moimenta da Beira, sentiria lá dentro +lagrimas abundantes, porque todas choravam a ausencia de Joãosinho, fragil +e inoffensiva creatura, que aquellas bondosas senhoras amavam com maternal +affecto. + +Ha sempre, mórmente em terras de poucos e incultos habitantes, vigias +nocturnas, homens morcêgos, que devassam os mais insignificantes +acontecimentos da rua, e que levam a sua audacia até ao ponto de +pretenderem sujar o sanctuario da familia com inducções calumniosas, +tiradas dos incidentes presenceados, a que não sabem nem podem dar +verdadeira interpretação. + +O fallar-se dentro do convento a deshoras, o bulicio de homens e cavallos, +por occasião da entrada e tambem da sahida da creança, alguns indicios da +existencia do pequeno João junto das freiras, o bom gasalhado que as +trataveis madres davam ás suas visitas, e os commentarios exageradissimos +dos vadios indagadores,--foram causas, tão indignas como infundadas, da +extincção d'aquelle convento. + +É assim, muitas e repetidas vezes, a justiça dos homens. + +Ao leitor attento, escusado talvez seria declarar, que o mancebo a quem foi +entregue o pequenino João, se chama, n'este conto, Sebastião da Mesquita. E +a creancinha, salva da sanha de uma terrivel madrasta e da cobardia de um +indigno pae, pela santa abbadessa,--madre e mãe adoptiva--tem aqui os nomes +de João Vidal, o escudeiro. + + + + +V + +UM LEVITA + + + «Apostolo é o pae que se afadiga + Só para que descance o filho amado; + Apostolo é a rocha em que se abriga + Ave agoureira e pobre desgraçado; + Apostolo é a lagrima que amiga + Cae pela face em peito amargurado; + E esse monstro do Céu que solitario + Correu o mundo á busca do Calvario.» + + (_J. de Deus_--FLOR. DO CAMPO.) + + +Em Santiago de Esporões--antiga vigairaria do arcebispado bracarense, onde +Martim Ribeiro fundou uma capella chamada de Nossa Senhora da Caridade, e +estabeleceu um celleiro para os pobres, com dinheiro por elle adquirido no +Brazil--residia, no anno de 1799, uma honesta familia de pequenos +proprietarios lavradores, composta de marido, mulher e um filho de nome +Alvaro, rapaz de cinco para seis annos de idade. + +Os apoucados lavradores, por mais de uma vez em tempo de más colheitas, +tiveram de recorrer ao celleiro dos pobres, restituindo o emprestimo, +quando mais farto era o anno, com o _avanço_ de seu alvitre, segundo o uso +e lei do estabelecimento de Martim Ribeiro, que não marcou limite ao juro +para os que o queriam e podiam dar. + +É de mui antigas éras o costume portuguez, pronunciadissimo na provincia do +Minho, dos paes imporem o destino aos filhos, quasi ao sahirem da pia +baptismal. Este erro,--que tem origem na falta de illustração do povo, e +tambem, o que peior é, em calculadas conveniencias familiares,--dá em +resultado a troca de vocações, padrinho mal de muitas immoralidades e +ruinas. Algumas vezes sem o quererem, na idêa até de evitarem imaginarios +prejuizos, são os paes que forjam a completa desgraça de seus filhos, +marcando-lhes, sem escrupoloso exame, a estrada a proseguir no transito da +vida, trilho sempre difficil de aplanar, e impossivel de vencer sem +desastres, para os que o percorrem violentados. + +Os pobres lavradores de Esporões, convencionaram fazer do seu unico filho +um vigario. Ter um padre na familia, ouvir-lhe a primeira missa e vêl-o +cura d'almas, é a suprema ambição dos camponezes. + +Alvaro, havia de ser padre, porque seus paes o queriam. Tinham feito todos +os calculos; as propriedades que possuiam chegavam para o patrimonio; e +para as despezas da ordenação, quando minguassem os rendimentos, passariam +fome se tanto fosse necessario. As fortes e decididas vontades, não +conhecem obstaculos. + +Chegou a hora de Alvaro tomar logar nas aulas de Braga. Alcançara-lhe o pae +alojamento na rua de S. João do Souto, em casas da morada de uma viuva bem +reputada e muito moça ainda, que havia calculado augmentar o pequeno +rendimento de seus poucos haveres com o lucro proveniente de apatroar um +estudante. + +É d'este modo que bastantes familias, nas populações onde ha lyceus e aulas +publicas, diminuem as suas occultas necessidades. + +Chamava-se Eugenia Soares a viuva, que o era de um alferes do exercito +portuguez, e contava vinte e duas primaveras no anno em que acolheu ao seu +lar o estudante Alvaro da Cunha. Este, havia completado 16 annos de idade, +e preparava-se para fazer exame do latim, que principiara a estudar na sua +aldeia, tendo por bom professor o parocho da freguezia. + +Eugenia, não houvera filhos do seu matrimonio, nem conhecia parentes +proximos que lhe fossem amparo. Vivia em companhia de uma creada, que já o +fôra de seus paes antes d'ella nascer, que lhe queria como a filha, que +todos os dias recordava as virtudes de seus velhos e fallecidos amos, e que +era a sua unica conselheira e amiga. Antes de resolver a entrada de um +estudante em sua casa, consultára Eugenia a sua Theresa, que apenas +objectára dever ser o admittido ainda rapaz e não homem feito. N'aquelles +felizes tempos, só depois dos trinta annos completos se gosava o nome de +homem. + +Quando a velha Thereza precisava de sahir ás compras, Eugenia e Alvaro +prestavam-se mutuo auxilio nos afanos domesticos. Nasceu assim entre elles +uma innocente intimidade, que os deleitava. Succedia repetidas vezes ter +Alvaro a delicadeza de preceder a patrôa no amanho das iguarias, +confundindo o seu trabalho com o de Eugenia, e dando isto logar a toques de +mãos tão singelos como perigosos nas edades em que o calor do sangue +traspassa a cuticula, e póde, pelo contacto, communicar as doenças physicas +e os ardores moraes: d'aquellas, e d'estes, ha a temer, após a +communicação, a reciprocidade de padecimentos, sendo o amor o mais fatal de +todos, por ser incuravelmente nervoso. + +A viuva e o estudante adoeceram da terrivel molestia, que se não cura tendo +a séde na alma. + +Decorreram cinco annos. + +Faltava ao ordinando um exame, para completar o seu estudo e ficar preso á +egreja. Mais alguns mezes passados, e acabaria o engano das almas de +Eugenia e Alvaro, que já durava muito, livre de vicissitudes e de +impurezas. + +Chegou o menorista, de ter passado as férias grandes na sua aldeia, sem +grande pesar de haver deixado a companhia dos paes, que trocava por outra +havida por mais terna: é assim o coração humano. + +O estudante deparou com Eugenia physicamente mudada, e sobresaltou-o tão +rapida alteração. Viu pallida, magra, chorosa e pensativa, a mulher bella, +como sempre nos parece a do amor, que deixara, quarenta dias antes, com +todo o viço de uma feliz mocidade. Fez-lhe um montão de perguntas, e só +teve lagrimas em resposta. + +As gotas de humor aquoso que sáem a pares dos olhos da mulher estimada, +transformam-se em ferros agudos, a rasgarem fundo na alma do homem que as +sente. + +Seccaram-se as lagrimas: como? Ao sol do amor, que o menorista fez nascer +do soffrimento. + +A mudez de Eugenia promoveu a de Alvaro. Em casos taes, o silencio é o +requinte do sentimento. + +A noite d'aquelle dia passou-a o estudante a scismar. Quando pelas fendas +da janella do seu quarto conheceu o alvorecer, vestiu-se e sahiu. Não fez +reparo em achar apenas cerrada a porta da rua, por que a sua preoccupação +estava sobranceira aos factos materiaes. Caminhou sem direcção premeditada. +Ao passar no largo da Sé, viu aberta uma porta lateral da egreja, e foi +orar. Acabada a oração, reparou n'um vulto encostado a um confissionario, +em posição de penitente, e estremeceu: não a vira, adivinhara Eugenia +n'aquella confessada. + +O que atravessou o espirito do ordinando por aquelle encontro? + +Nem elle o saberia dizer. Só com grande esforço, conseguiu recolher-se a +casa e deitar-se vestido sobre a cama. Passadas horas, e já quando se +tornou reparada a falta de Alvaro á primeira refeição, entrou a velha +Thereza no quarto do estudante e perguntou-lhe se estava doente. + +--Doente, e muito. Diga á snr.^a D. Eugenia, que estou vestido, como vê, e +que lhe peço a mercê de vir fallar-me. + +Eugenia, entrou no quarto de Alvaro, e aproximou-se do leito com +sobresalto. O doente, levantou rapidamente a cabeça e, sem dar tempo a +perguntas, disse: + +--A senhora tem a bondade de mandar a Thereza procurar um portador que vá +já buscar meu pae? + +--Para quê?! + +--Para sahir d'esta casa e d'esta terra immediatamente, a vêr se posso +curar-me do mal que me assaltou esta manhã, e passar o resto da vida como a +passam meus paes... Já não quero ser... _padre_! + +--Foi _elle_, foi, Alvaro, que me aconselhou a despedir-te!... Mas eu +amo-te, ouves? e não quero que me fujas... Deus não póde ser tão severo +como diz _aquelle_ seu ministro; ora não?... E eu morria se tu me +faltasses; tenho a certeza de que morria... Vês? Só agora, que deveria +proceder de modo bem opposto, se attendesse aos dictames do meu confessor, +é que rompo o véu do meu coração!... + +A severidade, talvez egoista, de um padre indelicado, accelerou o natural +desfecho d'aquellas relações. + +A missão melindrosa do confissionario, mais ainda que a do pulpito, só +devia ser confiada a cabeças muito sãs, e a purissimas almas. + +Alvaro, ficou e sarou logo: bem dever era, que ficava e que sarava. Depois +de scenas assim expansivas, é que nós não _ficamos_ pela continuação da +pureza no sentimento. + +Na epocha propria, fez o estudante o exame que lhe faltava, e ficou +habilitado a tomar ordens ecclesiasticas. Seguraram-lhe os paes o +patrimonio em todos os seus bens, e vieram pernoitar á cidade, em companhia +do filho, na vespora do dia em que elle devia ficar para sempre ligado á +egreja, que houve por bem condemnar os seus ministros á mais terrivel das +solidões,--á solidão d'alma! + +Chegada a hora da ceremonia, foram vêr o religioso e solemne apparato, os +paes de Alvaro, acompanhados por Eugenia e pela creada Thereza. Quando o +ordinando appareceu revestido do habito clerical, cahiu a desditosa +Eugenia, com o sangue gelado, nos braços de Thereza. A boa da serva, ficou +tambem semi-morta. + +Estavam finalmente realisados os ambiciosos sonhos dos velhos lavradores de +Esporões. + +Alvaro, era presbytero! + + + + +VI + +CELIBATO + + + «Deus me livre de discutir materia tantas vezes disputada, tantas + vezes exhaurida pelos que sabem a sciencia do mundo, e pelos que + sabem a sciencia do céu!» + + _Alex. Herc._--EURICO. + + +O padre Alvaro, foi residir, em companhia de seus paes, para a terra da sua +naturalidade, onde cumpria rigorosamente todos os deveres de seu ministerio +sagrado, procurando os infelizes para os consolar com a palavra e com a +esmola, fazendo colheita de lagrimas, e escondendo de todos as que lhe +vertia o coração. Vivia só para a caridade e para a dôr. Decorando, no +Evangelho, a vida de Christo, identificou-se com Elle no amor da +humanidade. Conseguiu augmentar ao casebre do seu patrimonio um novo e +separado repartimento, na solidão do qual, fóra das horas obrigadas aos +seus deveres, fechava cuidadosamente as suas mágoas. + +O soffrimento de um filho, não póde ser, por muito tempo, estranho aos que +lhe deram a vida. Os bondosos lavradores de Esporões, conheceram, mais por +instincto do que por sagacidade, que seu filho padecia, e quizeram +profundar a causa de suas tristezas. Espreitaram-no a horas mortas, e +ficaram surprezos do que viram. + +--Que peregrinação será aquella do nosso querido Alvaro, em noites de +tempestade, Maria?!--Perguntava o velho a sua esposa, ambos de volta de +suas pesquizas. + +--Eu sei-te lá, homem! Só te digo, que isto tudo me faz chorar... Elle come +quasi nada, anda tanto por esses montes e outeiros, vae pelas cabanas á +cata dos necessitados, passa o pouco tempo que lhe resta de dia a lêr e a +escrever, e ainda sahe de noite e com um tempo assim!... Deus me perdôe, +mas quer-me parecer que o nosso filho se fez padre de mais! + +--Não ha gosto perfeito n'esta vida, é certo. O prazer com que lhe ouvimos +a primeira missa, farta recompensa de todos os nossos sacrificios, +desandou, dentro em pouco, n'estas lagrimas! Mas deixa estar, que eu ainda +tenho vigor, e não canço nas minhas pesquizas, que podem trazer-nos +tranquillidade. D'aqui por deante, quero ser eu só a vigiar o nosso Alvaro, +porque fico mais á minha vontade. Tu, entretanto, ficas na cama a pedir a +Deus por nós, sim? + +--O que tu queres, quero eu sempre, Antonio. + +Uma das noites em que Alvaro foi espreitado pelo pae, entrou este, após a +sahida do filho, no repartimento da casa habitado pelo padre. Analysou, com +olhos paternaes, os mais insignificantes indicios de soffrimento, physico e +moral, que por alli estavam dispersos. Entre outros, pareceu-lhe descobrir +signaes de que o seu Alvaro cuspia sangue, supposição que fez verter da +testa, ao triste pae, esse humor rubro que nos circúla nas arterias e +veias. Encontrou no chão um papel com letras, que não sabia lêr, e +guardou-o. Na madrugada do seguinte dia, foi o lavrador á residencia do seu +parocho e velho amigo pedir-lhe o favor de lêr o escripto. Resava assim: + +«Não, disse S. Gregorio, que o laço do matrimonio era o nucleo do genero +humano, o esteio da vida e o centro da piedade? + +«Para quê, os concilios d'Elvira e de Trento?... + +«Celibato puro!!... + +«Para quê, decretar contra a natureza?!... + +«Oh Christo? Não quizeste Tu nascer de Maria?... Se não tivesses por +consorte a Cruz da Redempção humana, fugirias Tu a completar, quando homem, +a Tua existencia no mundo?... + +«Porque não ha de ser para todos os filhos do peccado, a mulher, resumo do +bem possivel, a casta mensageira entre o céu e a terra?!...» + +O parocho, que era um padre intelligente e bondoso, pediu á sua ovelha, que +fosse depositar aquelle papel no mesmo sitio em que o achara, e passou, +depois, largas horas em colloquio amigo com o pae do que fôra seu +discipulo. + +Quinze dias depois da conferencia do parocho com o velho Antonio, ao cahir +da tarde, chegava o lavrador, na rua de S. João do Souto, á cabeceira do +leito em que Eugenia, cadaverica, estava recostada. Houve um longo +silencio: ambos temiam o rompimento. Animou-se finalmente o velho a dizer: + +--Então de que mal padece a snr.^a Eugenia, não me dirá? As mulheres sempre +são muito fracas! Pois a molestia que tem, é lá cousa para estar com esses +quebrantos?! Será isso mimo?... + +--Vou dizer-lhe tudo por uma vez, snr. Antonio, antes que as forças me +faltem... Amo seu filho e sou amada por elle... Um padre e uma viuva!... +Deus castiga-nos, e bem o tinha agourado o meu confessor... _Elle_, está +cavando a sepultura, bem o vejo; e eu quero, e hei de morrer antes... + +--Em quanto viverem os velhos como eu, não podem morrer assim depressa os +novos como vossas mercês, descancem... Mas porque não fallaram a tempo?! +Porque não confiaram de mim esses incuraveis amores, quando fossem ainda +horas de os legitimar aos olhos do mundo?... + +--Não o quiz eu, snr. Antonio, porque tive mêdo de ajuntar ao meu crime o +seu odio, ou de praticar novo crime, levando Alvaro á desobediencia. + +--Foram bons sentimentos esses, foram; mas fôra melhor que ambos tivessem +mais alguma confiança nos corações dos outros... Em fim, isso lá vae, e o +que não tem remedio remediado está. Agora, cumpre fazermos todos da nossa +parte para se viver o melhor possivel, o que se hade conseguir com o favor +de Deus... + +A este tempo sentiu-se rumor á porta do quarto, e ouviu-se distinctamente a +voz de Thereza dizer: «É seu pae!...» + +--Entra, Alvaro;--disse em voz clara e de modo a ser ouvido de fóra, o +sympathico e honrado velho. Entrou o padre, ajoelhou aos pés do pae, e +titubeou a palavra:--Perdão. + +--Levanta-te, que és mais infeliz do que culpado, e para os infelizes +reservou Deus a sua divina misericordia. Sei tudo, e tambem o sabe tua +mãe. Não te louvamos nem condemnamos; choramos as tuas dôres, que são as +nossas, e procuramos-lhe allivio. É preciso que vivas, e que viva tambem a +snr.^a Eugenia. Eu mando, pela voz da religião que tenho n'alma, pela do +sangue e pela da honra, como a entendem os homens do campo. Se fôr +condemnado pelos fanaticos, já tenho a absolvição do meu santo pastor, que +mais vale. A um pobre, que sempre foi honrado, não falta a Providencia nas +occasiões precisas. Tu, meu Alvaro, vaes ser nomeado reitor da freguezia de +Santo Adrião de Penafiel, que assim m'o prometteu o snr. fidalgo de Porto +Carreiro, que nunca faltou á sua palavra. É um presente que me faz, disse +elle, por eu lhe ter pago com toda a pontualidade, ha quarenta e cinco +annos, um fôro, de dois carros e meio de pão meiado, limpo e sêcco. É um +fidalgo ás direitas, que sabe conhecer o que vale o suor da pobreza. Ora, a +reitoria, fica lá para o valle de Sousa, nas proximidades de Penafiel, +muito longe d'aqui. Eu e tua mãe de certo lá não poderemos ir; mas tu, que +estás na força da vida, virás amiudadas vezes visitar-nos. O snr. padre +reitor de Santo Adrião, tem na aldeia da sua naturalidade uma irmã viuva, +que póde ter um filhinho que talvez precise do auxilio do thio padre... +Repito, eu mando, e quero ser obedecido. Não sei o que dizem os livros +sagrados nem os profanos, porque me não ensinaram a lêr: tenho só aprendido +o que me diz a minha consciencia honrada. No tribunal do Deus justo, darei +eu as contas por tudo isto. Do escandalo, é que as não hei-de dar, porque +tenho toda a segurança nos bons sentimentos d'aquelles que preferiam a +morte, á quebra publica dos seus deveres. + +Quando Antonio acabou de insinuar as suas ordens, dadas n'um tom prophetico +e inspirado, é que fez reparo no quadro que, havia já minutos, alli se via. +Estavam a seus pés, ajoelhados, cada um de seu lado, regando-lh'os de +lagrimas doces, os amnistiados da paternidade, que representa Deus na +terra. + +Era bello de vêr-se a mocidade cadaverica pelo mal d'amor, abraçando +commovida até ás lagrimas, a honra envelhecida no rude trabalho do campo, +fresca e vigorosa como a carvalheira secular liberta da podridão das +cidades!... + +No dia 27 de agosto de 1819, recebia o primeiro sacramento da egreja, na +cidade de Braga, um recem-nascido do sexo masculino, a que foi posto o nome +de Arthur. Os padrinhos, por procurações de Sebastião da Mesquita Bandeira +de Mello e de D. Isabel de Abendanho e Sousa, foram Antonio da Cunha e +Maria do Espirito Santo, os honestos lavradores de Esporões, que deram a +existencia ao reitor de Santo Adrião de Penafiel. + +Estava o padre Alvaro ha mais de tres annos de posse da reitoria, sendo +acatado e tido na conta de exemplar pelo povo, quando recolheu na sua +residencia uma irmã viuva com um filho. Cresceu o amor e o respeito do povo +pelo padre reitor e pela familia, na razão directa do augmento de +beneficios e de consolações que recebia. Eram seis mãos sempre abertas á +pobreza, e duas santas boccas a semearem palavras animadoras aos dous +sexos, o que o povo encontrava na residencia do reitor de Santo Adrião de +Penafiel. Por isso, o reitor, irmã e sobrinho, ganharam a estima geral, ao +ponto de fazerem dividir, nos corações de todos os habitantes do valle de +Sousa, a antiga e bem fundada sympathia pela familia do fidalgo Sebastião +da Mesquita. + +Um dia, chegou ao conhecimento do publico, que havia luto na residencia do +padre Alvaro. Foi lá toda a gente da povoação. O reitor, leu, +commovidissimo, ao seu rebanho, uma carta que recebera do seu amigo e +mestre, o parocho de S. Santiago de Esporões. Dizia assim: + +«Dei hontem sepultura a dois cadaveres, Alvaro, e dou hoje cumprimento a +uma triste imposição da amisade. Está devoluta a residencia do teu +patrimonio. Teu pae morreu ás dez horas, e tua mãe á uma da tarde do mesmo +dia. Presenciei a morte de dois justos. Disseram-me, para te communicar, +que iam pedir a Deus por ti... Resignação.» + +As lagrimas do padre confundiram-se com as de todos que o escutavam. + +Arthur, que então teria sete annos, trepou aos joelhos do sagrado pastor, +pousou-lhe os rosados e frescos labios nas faces crestadas pelo fogo das +lagrimas, e disse-lhe: + +--Não chores, thio, que os avós estão no Céu. Sabes o que hasde fazer? +Manda occupar as casas, que elles deixaram, pelos pobresinhos lá d'essa +terra, sim? + +--Pois sim, querido amor, e hei de dizer-lhes que foste tu o da +lembrança... + +Arthur andou nos braços de todos, e foi devorado com beijos. N'esta +occasião, deu entrada na sala o fidalgo Sebastião da Mesquita, acompanhado +de uma creada, que trazia ao collo uma interessante menina de treze mezes +de idade. O povo formou respeitosamente duas alas, e o reitor recebeu, com +agrado, mais aquella visita. + +--Que fez o meu afilhado para merecer tantos affagos?--perguntou o fidalgo, +depois de ter saudado a todos. + +--O que havia de ser, snr. da Mesquita?... O rapaz parece não ter mau +coração: destinou a habitação dos avós fallecidos para residencia das +pessoas mais necessitadas da freguezia d'elles; e as boas almas d'estes +meus filhos todos, pagaram-lhe a lembrança em fartas caricias. + +--Então já assim caminhamos para o Céu, snr. meu afilhado?! Muito bem, +muito bem!... Vou dar-lhe a primeira paga da sua nobre acção... + +--E assim fallando tomou Arthur nos braços e, aproximando-o da filhinha, +fez com que se beijassem os dous innocentes...... + +Treze annos depois d'estas scenas, em dia de trabalho, e por horas em que +estão dezertas as egrejas das aldeias, entrava Sebastião da Mesquita no +templo parochial de Santo Adrião, e batia de manso nas costas de um padre, +que estava curvado sobre uma sepultura. Ao levantar-se o padre, tremeu +involuntariamente o fidalgo, de encarar nas transtornadas feições do seu +amigo. + +--Nem tanta penitencia nem tamanha dôr, padre Alvaro, que podem não ser do +agrado de Deus. Não precisa, Arthur, agora mais que nunca dos seus +cuidados? + +--Basta-lhe a protecção do nobre e honrado padrinho... A minha vida, está +n'esta sepultura, onde talvez cahisse uma condemnada ás penas eternas!... + +--Não conta com a bondade do Pae para com seus filhos, e por uma culpa +involuntaria, desvanecida por innumeras virtudes, só quer vêr o castigo, em +vez do perdão?! + +--E as leis da egreja?!... + +--E as leis da natureza; a misericordia divina; os votos de seus honrados +paes; a consideração, a estima, o respeito geral; as bençãos dos infelizes +e a tranquillidade da consciencia, pelo que toca a todas as demais acções +da sua vida?... + +--Viverei, snr. Sebastião da Mesquita, e o tempo que me sobrar da +penitencia dal-o-hei á sua heroica amisade! + + + + +VII + +RAPTOS + + + «Que póde valer á hebrêa + Sentir n'alma chamma infinda? + como a linda Ester ser linda, + e amada como Rachel? + Se o coração da judia + se entre-abre do amor aos lumes, + não lhe dá tempo aos perfumes + o seu destino cruel.» + + (_T. Ribeiro_--SONS QUE PASSAM). + + «O vicio está por tal fórma naturalisado que não ha razão para + espantos nem sequer para censuras.» + + (_Camillo C. B._--O CONDEMNADO.) + + +Foi ephemero o triumpho para a revolução do Minho, denominada--Maria da +Fonte.--Cahiu o ministerio ao rugido popular, foi certo; mas a seis de +outubro do mesmo anno, o governo constituido ao grito dos revoltosos, +teve, por vontade régia, sorte igual á do seu predecessor. A esse facto, +que se deu fóra das praxes constitucionaes, chamou-se--_emboscada +palaciana_--e deveu-se a mais formidavel das guerras civis portuguezas. + +A heroica cidade da Virgem foi o centro da resistencia ao chamado +governo de facção, constituindo dentro de seus muros, a nove de outubro +de mil oito centos quarenta e seis, uma _junta provisoria do governo +supremo do reino_, que ousou prodigios bem dignos de causa mais santa, +como seria a defesa da patria contra estrangeiro dominador. Exaltaram-se +os partidos, e de todos os angulos do paiz voava a mocidade portugueza a +alistar-se sob as bandeiras hasteadas em guerra fratricida. O +enthusiasmo guerreiro tocou o delirio. Raro, bem raro, seria +encontrar-se um portuguez de braços cruzados ante o flagicio geral. + +Além dos bandos constitucionaes, achou tambem ensejo de desfraldar +bandeira o velho e respeitavel partido absolutista: respeitavel na sua +quéda, e ostracismo sem limite, pela coragem da abnegação, e pelo +inquebrantamento da sua fé. Este ultimo grito de revolta, chamou tambem +os velhos ao campo da batalha. Acabaram então os indifferentes: todos os +portuguezes, cada um a sabôr das suas paixões, ficaram empenhados na +luta. + +Sebastião da Mesquita foi convidado por um general +estrangeiro--Mac-Donnell--, que se dizia commissionado do snr. D. Miguel +de Bragança, a tomar parte activa no pronunciamento ante-dynastico. +Recusou-se. Pediu-lhe o general que fizesse, ao menos, parte do seu +estado maior, para lhe dar conselho e força moral, e apresentou-lhe um +autographo do principe proscripto,[2] que fez abalo na rigidez do velho +fidalgo. Esta conferencia teve logar nos primeiros dias do mez de +novembro de mil oitocentos quarenta e seis; e não se passaram muitas +horas depois d'ella, sem que o aventureiro general visse caminhar ao seu +lado, para Villa Real, o respeitavel pae de D. Maria da Gloria, tendo +previamente recommendado ao seu afilhado, Arthur Soares, que auxiliasse +a esposa na vigilancia do seu casal. + +Quem podesse espancar as trevas da tempestuosa noite de dezoito do mez e +anno referidos, e penetrar no terreiro da frente do palacio de Sebastião +da Mesquita, veria alli tres liteiras e seus guias, um formidavel +cortejo de lacaios, e cêrca de cem homens armados, todos recolhidos ao +maior silencio. O capitão d'aquella força e apparato, era o fidalgo +Leopoldo. Conseguira aquelle posto no exercito da rainha, em batalhão +addido á brigada do commando de um general que, por aquella epocha, se +aproximou da cidade do Porto, no intuito de lhe serem abertas pela +traição, que se dizia combinada, as fortes linhas defensivas do baluarte +da Liberdade.[3] + +Não podemos averiguar como o snr. de Lencastre conseguira desviar +aquella força da sua direcção para as cercanias do Porto. O que sabemos +é que aquella gente caminhara de noite, por verédas escusas, no +manifesto intento de evitar encontros com os sublevados. O mais, ficou +sendo um segredo do voluntario capitão, e do general commandante da +brigada. + +No interior do palacio, e no quarto reservado a D. Maria da Gloria, onde +tambem estavam Rosa e Anna, que ficaram sendo constantes companheiras da +fidalga desde a ausencia de Sebastião da Mesquita, á mesma hora da +chegada ao terreiro do já descripto e bellicoso apparato,--havia uma +conversação, a que o leitor, ainda hoje, tem direito de assistir: + +--Conheço agora, minhas boas amigas, toda a verdade do rifão--«diz-me +com quem vives, saberei os fracos que tens.»--Estou supersticiosa com a +nossa Annitas! Não sei o que me adivinha o coração... A ausencia do meu +illustre pae e do João Vidal, e o escrupulo do snr. Arthur Soares, em +não querer pernoitar n'esta casa, são naturaes acontecimentos, bem o +conheço, mas despertam-me uns certos receios que até hoje não conhecia +em mim!... + +--Querem vêr que ainda lhe lembra a má catadura do irritado primo +n'aquella noite de luar?!... Não pense em tal, minha querida snr.^a D. +Maria, que a tempestade, se o foi, passou sem resultados fataes, e só +deve restar d'ella, ao seu auctor, o pesar de a ter provocado. + +--É de certo pela minha natural timidez que eu, partilhando os sustos da +snr.^a D. Maria, vejo cahir sobre nós a tempestade, como a Rosa lhe +chama, e fazer-nos victimas do seu louco furor... + +--Por melhor o fará Deus, Anna... Comtudo, parece-me prudente não +desprezar estes presentimentos, accordar a minha presada mãe e senhora, +e pôr os criados de atalaia... + +--Credo! o que ahi vae!... E o mais é que são capazes de reunir em mim, +ao pêso d'esta tenebrosa noite de inverno, o mêdo do terror de que as +sinto possuidas... + +E as tres donzellas, como se fossem tocadas por occultas molas, saltaram +fóra dos leitos, e vestiram-se apressadamente. + +Ao mesmo tempo que se manifestava nas tres donzellas o máu presentimento +revelado no dialogo a que fizemos assistir o leitor, sentira igual +panico a velha fidalga D. Isabel de Abendanho e Sousa. Não são virgens +estes casos. Muitos exemplos attestam o ter sido uma familia atacada de +funestas ideias, e de iguaes padecimentos physicos, em alguns de seus +membros ao mesmo tempo, vivendo até distanciados uns dos outros. Não +sabemos se ha sciencia que explique o phenomeno; mas é certo que se tem +dado. + +Fez a dona da casa levantar os criados, que collocou de sobre-aviso, +indo em seguida escutar á porta do quarto da filha, para certificar-se +de se havia por alli em que fundar os seus receios. Na mesma occasião +era aberta a porta por D. Maria e, juntas as quatro habitadoras do +palacio, confidenciaram os seus mysteriosos sustos. Teriam apenas tempo +de trazer a lume a mais diminuta parte de suas apprehensões, quando +sentiram tropel de criados, tomando a direcção do quarto, que procuravam +a senhora fidalga, para, entre temerosos e espantados, lhe darem parte +de que o palacio estava cercado de tropa. + +Foi então que aquellas quatro mulheres, tímidas momentos antes por +ideias de imaginarios perigos, mostraram que o sangue frio e a coragem, +quando chegam as verdadeiras tempestades da vida, não são qualidades +alheias ao sexo chamado fragil. + +Era, com tudo, tarde para se tomarem acertadas providencias contra +qualquer aggressão. Um dos serventes da casa, comprado pelo ouro de +Leopoldo, abrira uma das portas do palacio. Foram, pois, surprehendidas +as tristes senhoras pela multidão de homens armados, á testa dos quaes +se via o imprudente auctor d'aquelle attentado, e impossibilitadas de +resistir aos intentos de seus perseguidores. + +Entre alguns dos criados do palacio, e a força violadora d'aquelle lar, +houve uma pequena luta--até aquelles serem subjugados pela vantagem +numerica--perecendo apenas n'ella o criado traidor, ás mãos dos +assalariados por aquelle que lhe comprára a fidelidade. + +As tres donzellas foram brutalmente amarradas e conduzidas ás liteiras. + +A velha fidalga presenceou tudo com denodo varonil, sem fazer o mais +leve rumor, representando, na sua mudez e aspecto sublimes, uma perfeita +estatua de concentrado soffrimento. Era uma «Vilhena» a meditar vingança +condigna de tão atroz delicto. Ao arrancarem-lhe as donzellas, +disse-lhes D. Isabel com voz severa: + +--A infamia não vence a honra. Sabei morrer sem vergonha, que eu vos +abençôo como Deus vos abençoará. Adeus, Maria!... + +Retirados que foram os assaltantes com as suas presas, ficou o palacio +occupado pelos fieis creados, agglomerados em volta de sua ama D. +Isabel. Esta heroica matrona, teve força para recolher ao coração as +lagrimas da saudade, o fel do desespero e do seu justificado odio ao +malvado parente que a deshonrava, e para dizer com apparente +tranquillidade aos que a cercavam: + +«Quizera antes ter de vos lamentar mortos, e de vos mandar suffragar as +almas, do que vêr-vos aqui sem aquellas em defesa das quaes deveriam +todos acabar seus dias, porque eram vossas amas, vossas enfermeiras, e +vossas amigas... Já agora não ha tempo para mais reflexões. Apparelhae +todos os cavallos que estão nas cavallariças,--um d'elles para que eu o +possa montar--soltae os animaes recolhidos nas lojas, colhei todos os +retratos de familia que encontrardes, e deitae immediatamente fogo a +este palacio. Não deve mais ser visto de meu marido, o logar onde um +fidalgo villão insultou a mulher e a filha de um verdadeiro nobre. +Reparae que eu _quero_ caminhar para a residencia do snr. reitor, +alumiada pelas chammas da casa que foi habitação de meus avós!...» + +Foram rigorosamente cumpridas as ordens da fidalga, que effectivamente +caminhara para casa do reitor ao clarão que despedia o fogo lançado de +seu mando ao seu solar, e ao som do toque de sinos a rebate, que o +incendio provocara. + +A meio caminho da residencia encontrou D. Isabel Arthur Soares, que o +toque dos sinos despertara, ao qual referiu o succedido. + +Duas horas depois das scenas narradas, quem fosse á sala do oratorio da +residencia, encontraria uma senhora e um homem--dous velhos--ajoelhados, +a orarem ao Creador. Eram o reitor e a fidalga D. Isabel. + +Á mesma hora, passeava Arthur Soares, como louco, no seu quarto, +brandindo um punhal, aquella detestavel arma, já conhecida do leitor, +que D. Maria lhe legára. + + [2] Verdadeiro ou imitado, mostrava Mac-Donnell ás pessoas mais + importantes do partido realista, um escripto do punho do snr. D. + Miguel de Bragança. + + [3] É notavel a linguagem d'esta proclamação: «Portuenses!--O + general *** volta de novo com a força de seu commando a aproximar-se + das linhas do Porto. Elle não confia em si. Confia na traição. Mas + engana-se. A junta está prevenida. Ninguem ousará dentro dos muros + do Porto levantar um grito criminoso, fazer uma tentativa culpada. + Ninguem o ousará. E ai d'aquelle que o ousasse! As medidas + convenientes estão tomadas. Porto! A Europa nos contempla! Com a + ajuda de Deus, pela intercessão da Virgem, protectora de nossas + armas e de nossa gloria, o Porto será sempre vencedor--nunca + vencido. A liberdade nos inspira! Os escravos que vem trazer os + ferros, e a assolação a esta cidade ficarão petrificados deante de + nossas bayonetas. O Porto é a cabeça de Medusa deante da qual os + tyrannos estremecem e gelam de terror. + + ......................................................... + + «Confiemos na protecção do eterno, e no esforço de nossos braços. + Transmittamos á posteridade uma nova pagina de heroismo--a nossos + netos uma rica herança de gloria, e um grande e novo exemplo de + valor. Ás armas cidadãos! Ás armas! por Deus, e pela liberdade: + e--Viva o Porto!--O Porto sempre grande, sempre intrepido, sempre + heroico, indomito, invencivel!--Viva a Nação!--Viva a Liberdade!--E + ás armas!--Palacio da junta provisoria do supremo governo do reino, + em 8 de Dezembro de 1846.» + + (Omittimos tudo que podesse recordar odios pessoaes.) + + + + +VIII + +COMBATE + + + «O homem debatia-se ahi nas vascas da morte, e o sol passava involto + na sua gloria sem corar das angustias d'aquelles, que em seu ridiculo + orgulho se chamavam monarchas e conquistadores do mundo; sem lhe + importar se os vermes vestidos de ferro, chamados guerreiros, se + despedaçavam uns aos outros com o delirio insensato das viboras no + momento dos seus amorosos ardores.» + + (_A. Herculano_--EURICO.) + + +Em Porto Manso, logar situado pouco abaixo das Caldas de Arego, no dia +19 de Novembro de 1846--o seguinte áquelle das scenas descriptas no +capitulo precedente--estavam postados á margem do rio Douro, em fortes +posições, uns quinhentos homens commandados pelo aventureiro general +Mac-Donnell, espreitando a passagem rio abaixo de um bravo, mutilado e +honradissimo militar do tempo do cêrco, que servia ás ordens da junta, e +que recolhia, com a força de seu commando, á invicta cidade do Porto. + +Desprevenido da cilada, soffreu o liberal guerreiro de muitas e bem +feridas batalhas, um vivissimo fogo de fuzilaria, despejado sobre as +suas tropas embarcadas, pela emboscada guerrilha. + +Travou-se combate. + +No mais vivo da peleja, dirige-o um cavalleiro o seu corcel a toda a +brida em direcção onde se achava o general da guerrilha, e segredou-lhe: + +--General! Não é d'este modo que se batem os defensores de uma causa +justa e sancta. Esta espera traiçoeira a uma força que nos não aggride +nem mesmo podemos ter como inimiga declarada--é procedimento condemnado +pelos bons estimulos, por todas as regras, e pelo decoro da briosa +carreira militar. Se não manda já cessar o fogo, e tocar a retirar, +retiro-me eu immediatamente. + +--Faça o que lhe aprouver fazer, snr. Sebastião da Mesquita, que eu não +desisto do meu empenho em aprisionar o _manêta_. + +--Não o conseguirá. A Providencia, que muitas vezes parece dormir, é +sempre protectora dos opprimidos. Recolho a minha casa, general, e não +creio que nos tornemos a encontrar. + +Verificou-se o vaticinio do nobre fidalgo. + +Poucas horas depois d'aquelle curto dialogo, retirava a guerrilha de +Mac-Donnell em completa debandada, deixando no campo do combate 17 +mortos e 9 prisioneiros, escapando com difficuldade de ser tambem +aprisionado o seu aventureiro commandante. + +Quando Sebastião da Mesquita, acompanhado do seu fiel escudeiro João +Vidal, seguia caminho de sua casa, viu ao largo, caminhando em direcção +a elle, uma cavalgada que, sem atinar com o motivo, lhe fez profunda +sensação. Ao aproximarem-se os dous grupos de cavalleiros, não pôde +suster o velho fidalgo uma exclamação de espanto, reconhecendo sua +mulher, o reitor, Arthur Soares e todos os seus criados. Apeiaram-se +silenciosos. Era um descampado o sitio do encontro. D. Isabel abraçára +seu marido, debulhada em lagrimas. Todos os rostos exprimiam a mais +profunda tristeza. Houve um longo e doloroso silencio. Sebastião da +Mesquita interrogou sua mulher com um olhar, que D. Isabel comprehendeu +e revelou ao inquieto esposo o attentado do seu palacio, e as suas +consequencias, sem esquecer a mais pequena circumstancia do occorrido. O +velho ficára por instantes como fulminado. Quando pôde fallar, disse á +esposa: + +--Isabel! Acabas de dar-me, com a má nova, mais uma prova do quanto és +digna do meu affecto. Procedeste como honrada mulher que és. O que resta +a fazer, compete-me a mim, e crê que Deus me ha-de conservar a vida para +a desfórra. As nossas filhas--chamo assim a todas--se não morrerem, +hão-de voltar com honra ao nosso poder. A educação e o sangue, são, +n'estes casos, melhores guardas do que o mais poderoso exercito. +Socega.--Padre Alvaro, póde voltar a pastorear o seu rebanho. Não lhe +agradeço o que fez, porque a verdadeira amisade vexa-se com +agradecimentos.--Arthur Soares, sei lêr nos seus olhos a sua vontade e +por isso lhe digo que militará desde hoje ao lado de seu padrinho. +Faço-me coronel ou general, e dou-lhe o posto de meu ajudante... + +--E para mim, snr. Sebastião da Mesquita,--interrompeu o velho +reitor--reclamo o de padre capellão do seu regimento e, se fôr +indeferida a minha pretenção, como estamos em tempos anormaes, +despacho-me a mim mesmo, e sigo-o, ainda contra vontade de v. exc.^a. As +minhas ovelhas ficaram entregues a um bom pastor, que eu previra a +demora da snr.^a D. Isabel, e comprehendi que o meu dever era não me +apartar um só instante da nobre senhora, que me honrara procurando o +abrigo do meu tecto. Não tente demover-me d'este proposito, snr. +Sebastião da Mesquita, que deve conhecer a mágua que a reluctancia de v. +exc.^a me causava. + +--Obrigado, padre Alvaro. Seja como quer, que deve ser como Deus manda. + +Durante o tempo que durou este encontro, explicações e pactos, foram-se +agglomerando em volta do grupo os guerrilhas que vinham fugidos do +combate, e que haviam reconhecido em Sebastião da Mesquita o ajudante do +general _inglez_, como elles chamavam a Mac-Donnell. + +O velho fidalgo perguntou-lhes se queriam continuar a militar sob o +commando d'elle, proposta que todos receberam com exclamações da mais +expansiva alegria. Dentro em pouco reuniu o ex-ajudante, ou antes +conselheiro, do aventureiro general, debaixo do seu commando, quasi toda +a força de que Mac-Donnell dispunha antes do combate. + +Dispoz Sebastião da Mesquita em acção de guerra toda a sua tropa, e +proclamou-lhe a conveniencia de uma rigorosa disciplina, +declarando-se-lhe intransigivel e inimiamente severo para qualquer +infracção. + +Estavam já em disposições de marcha, para pernoitarem na mais proxima +povoação, quando o novo commandante viu aproximar-se-lhe um official a +cavallo, que chegára alli á desfilada. + +Déra a tropa caminho ao recem-vindo, por não haver que temer de um só +homem, e pelo instincto de que havia utilidade n'aquella apparição. A um +signal do esbaforido official, mandou Sebastião da Mesquita fazer campo, +em que ficaram um tanto isolados da força o recem-chegado, elle e a +familia. + +Não cabe nas forças de um escriptor do nosso pulso, pintar +satisfactoriamente as gratas impressões e o delirante contentamento de +todos, ao reconhecerem, n'aquelle supposto mensageiro, a intrépida Rosa! + +Fôra o caso, que chegando Leopoldo com as tres roubadas donzellas ao Bom +Jesus do Monte, dos arrabaldes de Braga, e recolhendo-as á hospedaria, +teve Rosa artes para communicar, por uma varanda, com o quarto immediato +ao que em prisão lhe fôra dado, onde a sorte quiz que houvesse um +completo fardamento de official ajustado ao corpo da nossa heroina. +Conceber o seu plano, despojar-se dos feminis vestidos, substituil-os +pela farda, descer á cavallariça, ordenar em tom positivo ao curador que +apparelhasse o seu cavallo, montal-o e fugir--foram tudo actos tão +seguidos e repentinos, quanto vigorosa e ardida era a vontade da +donzella! + +Contou Rosa a historia da sua fuga com as variantes e variadas +peripecias a que forçosamente havia de sujeital-a a sua inexperiencia, +narrou os succedimentos que da liteira poude presencear após os raptos, +e foi no fim abraçada por todos com frenetico enthusiasmo. + +No rosto de Arthur Soares, ao reconhecer Rosa, havia transparecido um +raio de alegria, que foi de novo sumido nas trevas da sua profunda +tristeza, mal que terminára a narrativa. + +--Esta, já está salva! e hade ser o primeiro mobil da salvação das +outras nossas filhas, Isabel!--Disse Sebastião da Mesquita, cheio do +jubilo que em taes circumstancias podia abrigar no peito. + + + + +IX + +AMOR + + + AMOR é a palavra, o brado eterno + Solto por Deus ao vêr já feito o mundo, + Que fez tremer as abobodas do inferno + E o sol ficou da côr d'um moribundo: + A primavera, estio, outomno, inverno, + Terra, céu, alma pura, bicho immundo, + Tudo ahi cabe á larga de tal modo + Que n'essa concha Deus se fecha todo.» + + (_João de Deus_--FLORES DO CAMPO.) + + +Á margem de uma estrada que serve de transito entre Vianna e a praça de +Valença no alto Minho, em aprasivel e pittoresca posição, olhando as +viçosas e celebradas cercanias do nosso poetico Lima,--está situado um +sumptuoso palacio com suas suberbas fachadas das ordens Toscana e +Dorica, esta decorando a frente principal, e aquella a do primeiro +jardim, como tambem as suas respectivas torres ou pavilhões. + +A escada principal d'este edificio, rivalisa com a do palacio episcopal +da cidade do Porto. + +A capella ostenta um elegante zimborio e grande profuzão de maravilhosos +ornatos. Os seus aprasiveis parques e bellissimos jardins, com +magnificas e espaçosas ruas, tornam aquella vivenda verdadeiramente +encantadora. O interior corresponde ao exterior, se não o excede, na +vastidão, luxo, e boa ordem com que está decorado.[4] + +Fôra para aquelle paraiso, que o sr. Leopoldo de Lencastre fizera +conduzir D. Maria e a sua discipula Anna, conservando-as separadas, +ignorando a existencia ali uma da outra, e na maior vigilancia, para +evitar outra fuga como a de Rosa. + +Viviam as duas donzellas n'aquelle privado carcere rodeadas do mais +asiatico luxo, e como feudaes princezas a que, no exilio, fosse +concedido o eden por homenagem. + +Anna facilmente se coadunára com a nova e extraordinaria existencia a +que fôra levada pelo crime, por que--já o sabe o leitor--no seio de sua +virginal pureza despontára um sentimento a ella desconhecido, de que o +seu roubador fôra alvo, e que devia leval-a a debater-se na labareda que +elle fórma, ou a consumir-se nas cinzas que essa mythologica chamma, +denominada amor, conserva eternamente nos corações martyrisados pela voz +do dever e da consciencia. + +Outro era o estado de D. Maria da Gloria. A convivencia desde o berço +com Arthur Soares, o cotejo que muitas vezes, e insensivelmente, fizera +das qualidades moraes do sobrinho do reitor com os de mais +frequentadores do seu solar--o que sempre dava em resultado innumeras +vantagens para aquelle--e, sobre tudo, esse mysterioso aquecer do sangue +ao girar perto de nós em natural fluido o de alguem que o bafeja, e essa +constante e seductora visão da alma semelhante á nossa em corpo da nossa +sympathia,--haviam sido outros tantos estimulos a conduzirem a fidalga +moça á posse de um reservado e verdadeiro affecto por Arthur Soares, que +ella julgava poder sempre ter sepultado no fundo do coração, em respeito +ao culto da nobreza que herdára e que lhe fôra inoculado ao entrar na +vida pelos seus educadores, reserva esta já trahida n'outra crise, e que +d'esta vez corria gravissimo risco de acabar completamente. N'este +estado, fôra-lhe tyrannico, sobre ser infamissimo, o cobarde e violento +procedimento do fidalgo primo. + +Leopoldo, estava apanhado na sua propria rêde. Levado por maus +instinctos, e por sêde de vingança, premeditou e levou á execução, sem +ao menos preceder o circumspecto exame da maldade precavida, o arrojado +e perigoso projecto de roubar as donzellas. A primeira contrariedade +soffreu-a elle immediatamente com a fuga de Rosa, á qual votava +entranhado rancor, e anciava humilhar cruelmente, e abortára-lhe esse +prazer. A segunda quebra dos seus devaneios veiu-lhe com a nimia +facilidade que encontrou em sujeitar a timida e docil Anna a todos os +seus caprichos, desfazendo-se-lhe d'este modo, como fatua bolha de +sabão, um mal definido e peior agasalhado sentimento que, por aquella +rapariga, lhe parecia a elle ter no peito. + +Muitas d'estas velleidades, cunha a sociedade com o pomposo nome de +amor, confundindo o appetecido contacto das epidermes com esse +sentimento moral que subjuga o homem, que é o principio creador de todos +os seus heroismos, que é a razão, o genio, a harmonia, o acto supremo da +alma, a inspiração de Deus!... + +O terceiro e o mais fatal de todos os castigos de Leopoldo cahira sobre +o coração do desgraçado em frecha envenenada, que já começava a +tolher-lhe as funcções moraes e o vital respiro da sua vida physica: +amava o infeliz, sem bem o saber ainda, e amava D. Maria da Gloria! + +Que terrivel lucta! + +Fascinado a seu pesar pela belleza da fidalga prima e pelo seu nobre +orgulho, abatido pelo desprezo que sentia merecer á sua victima, +dominado pelas rijas impressões a que vivem subordinadas as paixões +humanas, louco de furor pela certeza de existir um rival, um miseravel +peão, preferido no coração do seu idolo, e sem poder, pelo seu caracter, +elevar-se, no infortunio e no martyrio, á sublime condição dos espiritos +privilegiados que o idealismo purifica--tormentos eram estes que a +Providencia destinou a Leopoldo com o seu amor por Maria! + +Achava-se o voluntario capitão das tropas da rainha fazendo parte de uma +força militar que então occupava Vianna do Castello. Dispozéra tudo de +modo a ter segurança na forçada posse das donzellas, que visitava sempre +que podia, ignorando as encarceradas as repetidas ausencias a que era +obrigado o seu fidalgo carcereiro. + +Entremos com Leopoldo, chegado de Vianna, no palacio encantado, que elle +escolhera deslumbrante no intento de maravilhar D. Maria da Gloria. + +Acabava de anoitecer: penetrou o elegante fidalgo na parte da casa +destinada aos seus cómmodos, e, sem descançar um só instante da fadiga +da jornada, attendeu desde logo ao esmero e atavios da sua pessoa e +vestuario, como se tivera de comparecer n'um baile de côrte. Assim +disposto, tomou direcção dos aposentos de D. Maria da Gloria. Na +ante-sala proxima d'aquella em que estava recolhida a fidalga moça, +sentiu-se Leopoldo repentinamente assaltado de um mau-estar, d'uma +fraqueza, d'uma indecisão e de uns receios taes, que o levaram a tomar +assento n'uma poltrona que, do acaso, ficava fronteira de um riquissimo +espelho. Ao vêr copiado no preparado vidro o seu transtornado aspecto, +mudou Leopoldo de tenção, e dirigiu-se com paços ainda mal seguros para +a parte do palacio, occupada pela docil Anna. + +Deixemos sem testimunhas os faceis protestos do mentido amor, proferidos +sobre-posse, áquella que já não podia nem sabia regeital-os, pelo homem +que a seduzira e arrebatara, e entremos no salão em que D. Maria da +Gloria gemia saudades e nutria, a par de sublimes affectos, esperança de +proxima salvação:--as paredes estavam forradas de setim verde; as +janellas todas adornadas de custosas cortinas de côres branca e +amarella; os reposteiros eram de damasco encarnado com os cordões e as +borlas de fio de prata, e os moveis todos de pau preto almofadados de +setim branco. Se uma dama de caprichosa imperatriz tivera sido a +encarregada de dispôr, alli como em todas as salas do aposento de D. +Maria, e collocar em ordem essas infindas e minuciosas commodidades de +uma senhora de régia estirpe,--não deslumbraria mais aquelle recinto. Lá +dentro, era D. Maria senhora absoluta, obedecida por aias e criados ao +mais leve aceno, sem que aquellas e estes deixassem de ser outros tantos +vigias e guardas de seus movimentos e acções. Os grilhões, eram com +effeito de ouro do mais subido quilate. + +Estava a joven captiva a uma das janellas, olhando pela milesima vez os +arrebatadores jardins d'aquelle palacio, quando sentiu cahir a seus pés +um objecto arremessado de fóra, que se apressou a apanhar. Desfez o +embrulho, e encontrou um punhal acompanhado de um papel escripto d'este +modo: + +«Ha mais de sessenta dias que apenas vivo para a vingança, cogitada de +instante a instante no meio de torturas espirituaes que dementam! + +«Descobri finalmente este infernal paraiso que a retem. Queria ser eu +sósinho o salvador de v. exc.^a, mas as cautelas tomadas pelo infame +obrigam-me a metter na melindrosa empresa o snr. Sebastião da Mesquita. + +«Esse estylete é inutil nas minhas mãos e póde convir nas de v. exc.^a. +Para a desaffronta dum homem, não deve servir a arma que se esconde em +bolço falso como o sicario nas trevas da noite. A senhora D. Maria da +Gloria comprehenderá melhor do que eu como póde fazer entrega do vil +instrumento no malvado que o sabe usar. + +«Está a soar a ultima hora do captiveiro. Creio em v. exc.^a como creio +em Deus. + + «_Arthur_». + + +Ao terminar a leitura do bilhete de Arthur Soares, que enchera de +felicidade a D. Maria, correu-se um reposteiro e entrou na sala o +fidalgo Leopoldo. Ao sentil-o, tomou a donzella, junto do fogão que +ardia na sala, uma attitude de rainha quando concede audiencia aos seus +subditos. Vira Leopoldo o papel nas mãos de sua prima, e a suspeita +dera-lhe animo para fallar: + +--Vejo que a minha nobre prima tem por estes sitios correio amoroso!... +Poderei ter a honra de saber o conteudo n'esse papel? + +Por unica resposta lançou D. Maria o bilhete á chamma do fogão. + +--Continua a ser cruel, senhora, e eu submisso sempre! Vê como o amor +torna os homens bons e generosos? Qual de nós é o captivo?... + +--Infame!... + +--Sempre esse burguez adjectivo! E porque sou eu infame?! Pois se o amor +governa o mundo, podem-se por ventura impor deveres aos impulsos da +alma?!... Solte a minha nobre prima uma palavra de esperança, e verá +transtornado em manso cordeiro aquelle que imaginou ser um feroz +tigre... O sentimento verdadeiramente moral que me domina, é sincero e +augusto... Nasceu subitamente e nem por isso é possivel a sua cura... +Conheço, desde que a avalio, toda a grandeza, todo o poder, toda a +irresistivel força dos seus naturaes encantos, toda a magnitude da sua +nobilissima alma... Amo-a e soffro muito, minha prima, tendo para mim +este sofrimento na conta do maior prazer!... Adoro-a até no seu despreso +por mim!... + +--Infame!... + +--É muito, senhora!... Não será prudencia abusar d'esse modo de uma +paixão que deve conhecer verdadeira, e que é capaz das maiores virtudes +como dos mais negros crimes... A par d'esta loucura que faz escorregar +para o mais medonho precipicio, ou que nos salva d'elle, todas as +differentes paixões da vida são uns simples brinquedos... Fechado na sua +formosa mão, tem a minha nobre prima o meu destino e o de todos os +seus... Até lá está tambem o esquecimento para dous homens que me +fizeram ultrages, que só o amor tem o poder de perdoar... Abra essa mão, +senhora, que em abril-a desponta-lhe a felicidade... Serei um escravo +humilde da sua mais caprichosa opinião... Domarei todos os instinctos, +todos os appetites, todas as tendencias que possam ir de encontro aos +seus desejos... Somos ambos poderosos, somos fidalgos, somos parentes... +A nossa união não póde ter obstaculos legaes e, que os tivéra, todos eu +saberia dissipar pela força d'este amor que é a minha vida, ou que hade +ser a minha morte... Quer sahir d'esta casa? Quer levar em sua companhia +as suas discipulas? Quer um cortejo de princeza para acompanhal-a, em +que eu serei o ultimo de seus servos?... Pois basta, para tudo isto se +fazer immediatamente, que a minha nobre prima me dê uma simples palavra, +uma singela esperança... + +--Infame!... + +--Oh! que é de mais!... + +N'esta altura da entrevista, e quando talvez Leopoldo estivesse para +ceder á violencia da sua paixão atrozmente insultada pelo sangue frio da +nossa heroina, sentiram-se palmas cadenciadas, e tres vezes repetidas, +na proxima ante-sala. Ao ouvir aquelle signal, de certo convencionado +por elle, retirou-se precipitadamente o infeliz capitão, o senhor +d'aquella casa, e por sem duvida o mais infeliz dos seus habitadores. + +O chamamento fôra a communicar-lhe a urgencia de acudir a Vianna, para +recolher com toda a força militar ao Castello, d'onde o commandante +resolvera resistir a numerosas forças do exercito da junta do Porto, que +se aproximavam, e do povo, que se reunia para as coadjuvar. Recebida a +ordem, quasi com indifferença, voltou Leopoldo á presença de D. Maria, +para lhe dizer com voz pausada e debil: + +--Senhora!... Retiro-me por algum tempo d'esta casa, na qual V. Exc.^a +fica substituindo o meu poder. Conservo as ordens dadas aos meus +criados, e servos de V. Exc.^a para a guardarem com profundo respeito, +mas altero-as ordenando-lhes, que não resistam a qualquer força que +tente libertar a minha nobre prima... É possivel que seja esta a ultima +vez em que a minha presença lhe provoque esse invencivel tédio... Este +_malvado_, que podia ter colhido com novas violencias os fructos a que +pareceu mirar pela primeira imprudencia, pede-lhe o seu perdão com +_lagrimas_ de sincero arrependimento... + +--Lave com ellas os pés de meu honrado e nobre pae, que deve ser o +primeiro, senão o unico, a perdoar-lhe os desvarios... Agora que o +considero inutil como defeza da minha honra, porque acredito nos seus +remorsos, tome conta d'esse punhal, que lhe pertence, e que nunca +deveria ter servido nas emprezas a que está vesado. + +E com magestoso porte, atirou D. Maria ao meio da sala a arma villã. + +Leopoldo, depois de alguns momentos de recolhimento, que lhe valeram +seculos de indiscriptivel soffrimento, agitou o cordão de uma campainha +e esperou o resultado d'esta sua acção. Appareceu um escudeiro, vestido +na mais rigorosa etiqueta, que aguardou silencioso as ordens de seu amo. + +--Pegue n'aquelle punhal, vista-lhe o cabo com um panno preto, e +pendure-o á cabeceira do meu leito... Quem de hora ávante dá ordens +n'esta casa é minha prima e senhora D. Maria da Gloria. Faça-o saber a +todos os seus companheiros. Póde retirar-se. + +Sahiu o escudeiro e Leopoldo ficou immovel e calado por alguns minutos. +Depois, como se após intima lucta se fizesse luz no seu espirito, +levantou repentinamente a fronte, encarou a donzella, d'esta vez sem +acanhamento, e disse-lhe: + +--Sou... serei um infame! mas um infame que a ama como V. Exc.^a nunca +por outrem será amada, juro-lh'o!... Adeus, senhora D. Maria da +Gloria!... + +Ao retirar-se o attribulado mancebo, proferiu D. Maria, como para só +d'ella serem ouvidas, estas significativas palavas:--«Ao menos foi uma +hora verdadeiro fidalgo...» D'aqui a levar a sua clemencia ao ponto de +perdoar ao primo os insultos que d'elle recebera, havia só a transpôr a +barreira de Arthur Soares, que ella não queria nem podia vencer! + + [4] Existe com effeito, dous kilometros e meio ao sul da villa de + Monção no alto Minho, o edificio de que tiramos alguns traços, + fundado em 1806 pelo commendador Luiz Pereira Velho de Moscoso. Diz + o snr. A. A. Teixeira de Vasconcellos, nas notas do seu bello + romance--«A Ermida de Castromino»--que aquella casa, chamada da + Berjoeira, é de risco semelhante ao do palacio da Ajuda. N'esta, + como n'outras descripções e nomes proprios d'este nosso _conto_, na + parte romantica, não ha allusões a logares certos ou pessoas + determinadas. + + + + +X + +RELIGIÃO + + + «O mundo que nos tira até o que Deus nos deu, que nos não póde dar + o que Deus nos tirou, que não tem bem que dure nem cousa que + permaneça,--que cultos merece? que estimações se lhe devem?» + + (_Fr. A. das Chagas_--C. ESPIRITUAES.) + + +Entreteve Sebastião da Mesquita a gente do seu commando, em marchas +vagarosas, e por logares desoccupados de outras forças, porque era seu +unico fito perseguir o insultador da sua familia, para libertar as +donzellas raptadas; e não podéra seguir-lhe a pista com a ligeireza que +requeria a sua anciedade paternal, por estar todo o Minho revolucionado, +e pejado de tropas dos tres partidos em guerra. Em um dos seus forçados +estacionamentos, teve Sebastião da Mesquita occasião de prestar um +relevante serviço ao respeitavel ancião que por aquella epocha era +arcebispo de Braga. + +Depois da terrivel mortandade que um general das tropas da rainha, em +ataque ás forças realistas, mandara fazer na manhã do memoravel dia +vinte de dezembro de 1846 nas ruas da cidade de Braga, que ficaram +juncadas com cerca de quatrocentos cadaveres!--fizera o mesmo general, +ingloria e tristemente vencedor, intimar o venerando prelado da diocese +bracarense para o acompanhar na sua marcha.[5] Aterrado o bondoso padre +por aquella inqualificavel violencia, após o luctuoso espectaculo que a +precedera, fugira em direcção a uma das suas quintas das cercanias de +Coimbra, fuga em que fôra auxiliado pela pessoa de Sebastião da +Mesquita, e pela sua gente, tendo antes os dois velhos passado algumas +horas em secreta e intima conferencia. + +Havia-se operado em Arthur Soares uma completa transformação: o seu +physico, como reflexo do soffrimento moral, alterou-se ao ponto de não +parecer o mesmo homem; para o que tambem muito concorrera a repentina +mudança de habitos. Os raptos das donzellas, por elle moralisados sob as +indeleveis impressões d'aquella noite de luar, em que D. Maria da Gloria +levantara uma nêsga do véu que lhe cobria o coração, eram por elle +vistos como offensas directas de um rival abjecto. A sua alma sempre +aberta a todos os sentimentos generosos, estava quasi entregue ao odio e +á vingança. Sabia elle, porque desde infante o escutara diariamente ao +padre Alvaro, que a religião manda perdoar, e que a doutrina da egreja +quer que se recebam as humilhações em justa expiação das faltas +commettidas; mas tambem não ignorava que, algumas vezes, sob as proprias +vestes sacerdotaes, se encobrem violentas e desapiedadas cóleras. A sua +razão, um pouco obscurecida pelas dôres, fluctuava, pois, á mercê das +paixões mundanas; e de pouco proveito lhe eram os prudentes conselhos +que a todo o momento lhe estava dando o padre Alvaro, inquieto com os +estragos do corpo, e da alma, que elle via estampados nas faces de +Arthur Soares. + +Eram constantes da parte do apaixonado mancebo as deserções do seu +arraial, das quaes nenhum caso parecia fazer Sebastião da Mesquita, +porque possuia a quasi certeza da razão que as promovia. + +A intrepida Rosa, com permissão do velho fidalgo, continuava usando do +seu uniforme salvador, e a ser tida pelos estranhos á familia por um +elegante e joven official. Calculadamente se affastava o mais que podia +de Arthur Soares, sem deixar de notar as suas desapparições, e de as +commentar mentalmente. + +Chegara Sebastião da Mesquita com a força de seu commando ás alturas de +Vianna, e fôra alli obrigado, conjunctamente com o povo, e a tropa da +junta, a sitiar o castello, onde estavam refugiados muitos empregados +publicos do partido do paço, e os militares de que fazia parte Leopoldo +de Lencastre. Não se viu grandemente contrariado Sebastião da Mesquita, +em ser levado ao extremo de batalhar, porque já lhe era um tanto +sympathica a causa popular, principalmente pelos factos de Leopoldo +pertencer ao partido da rainha, e da maior parte dos chefes dos bandos +realistas, depois da morte de Mac-Donnell,[6] se terem reunido ao +exercito da junta do Porto. + +N'um dos intervallos do assédio, recebeu Sebastião da Mesquita da bocca +de Arthur Soares a boa nova de ter descoberto o carcere das donzellas, +que elle julgava ainda guardado pelo raptor em pessoa. Reuniu o velho +fidalgo a toda a pressa o maior numero da sua gente em disponibilidade +e, acompanhado tambem por toda a sua familia, voou a libertar as filhas. + +Chegados que foram ás portas do palacio, e tudo disposto para n'elle +entrarem á viva força, viu Sebastião da Mesquita, com espanto seu, +ser-lhes a entrada franqueada. Tremeu o valente do receio de já não +encontrar alli a quem buscava, e só recuperou o perdido animo quando +susteve em seus braços a D. Maria da Gloria, e viu a seus pés banhada em +pranto a seduzida Anna. + +Foram expansivas, como natural era que o fossem, as demonstrações de +regosijo intimo, em todos os membros d'aquella nobre familia, alfim de +novo reunida. + +Depois de ter dado o necessario tempo ás largas do contentamento de +todos, dirigiu Sebastião da Mesquita a palavra a D. Maria da Gloria, +n'estes termos: + +--Maria!... Podes continuar a viver na companhia de teus paes?... + +--Essa pergunta, meu presadissimo pae e senhor, devia V. Exc.^a fazel-a +ao meu cadaver...--respondeu com firmeza a nossa heroina. + +--Muito obrigado, Maria! Paguem-te estas lagrimas do mais puro amor, a +nobreza e honradez da tua resposta!... + +Ao passo que o pae assim fallava, cobria a moça fidalga de beijos e +caricias maternaes, a respeitavel matrona D. Isabel de Abendanho. + +--E tu, Anna, foste da mesma sorte feliz? + +A timida interrogada, ficou silenciosa e interdicta... + +O velho fidalgo, tomado instantaneamente de uma pallidez assustadora, +alçou assim a voz: + +--Padre Alvaro! Disponha immediatamente a capella d'esta casa, para uma +solemne ceremonia religiosa.--Snr. Arthur Soares, dê busca a todo o +edificio e traga-me já aqui o infame possuidor d'este lupanar!--Anna!.. +Prepare-se para o mais serio acto da sua vida, com a coragem que lhe +faltou para resistir á seducção!... + +Apressaram-se todos a cumprirem as ordens dadas, que bem de conhecer era +o não admittirem réplicas. + +N'esta situação, fôra ouvido ao longe da estrada, que passava em frente +do palacio, um extraordinario bulicio. + +O pae de D. Maria da Gloria, mandou ao unico official de ordens que alli +tinha--a metamorphoseada Rosa--que fosse reconhecer o barulho, e +aguardou impaciente a chegada de Arthur Soares. + +Caminhavam pela estrada de Vianna, cujo castello acabava de cahir em +poder das forças populares, em direcção á praça de Valença, os +prisioneiros de guerra, guardados por duzentas praças de linha e +cercados de immenso povo, que pedia em altos gritos a morte dos +empregados publicos, e de toda a guarnição prisioneira. Arduo trabalho +havia tido a força conductora, para salvar até alli da sanha popular os +que foram entregues ao seu brio e que, maneatados, só deviam pertencer +ao poder das leis. + +A custo se introduzira Rosa entre as fileiras da tropa, e conseguira, +com a interferencia de um tenente que folgara de ter occasião de +subtrair ao povo uma victima, soltar um dos officiaes prisioneiros, e +trazel-o pelo braço fóra do alcance da furia popular:--era Leopoldo de +Lencastre. + +--Temos contas a saldar, snr. capitão, e será o seu formoso palacio o +logar do ajuste. + +--Conheci-a logo no seu disfarce, snr.^a Rosa, e a minha cobardia, se +m'o concede, não é de tal quilate que me leve a bater-me com... o snr. +tenente... + +--Em sua casa será obrigado a entrar no repto. + +E caminhando sempre, sem troca de mais palavras, deram entrada no salão, +onde Sebastião da Mesquita acabava de ouvir, enfurecido, o ephemero +resultado da busca a que procedera Arthur Soares. + +--A proposito chega e condignamente conduzido é o villão ao seu +prostibulo... Ajoelhe immediatamente aos pés d'aquella mulher, e +peça-lhe a honra de ser sua esposa... + +--Mas... snr. Sebastião da Mesquita... um fidalgo... + +--Que serodios e infames brios!... É fidalga, é bem mais nobre do que o +canalha que lhe cuspiu a vergonha, aquella que eu o obrigo a receber por +sua mulher legitima. + +--N'esse caso... se V. Exc.^a me affiança... + +--Sebastião da Mesquita, snr. Lencastre degenerado, poderia ser levado a +transpor as fornalhas do inferno, mas nunca a manchar a sua honra com a +mentira... Para a capella, senhores!... + +O nosso velho heroe, não querendo consentir, em nenhum caso, no +casamento do perverso Leopoldo com D. Maria, e prevendo com acertado +raciocinio que a docil Anna teria a fraqueza de se deixar vencer pela +seducção, alcançára, na conferencia com o arcebispo de Braga, licença, +em fórma, de qualquer padre, e em qualquer sanctuario, poder realisar o +sagrado enlace que ia ter logar na capella d'aquelle palacio. + +Finda a religiosa ceremonia, durante a qual esteve a capella repleta de +muitos curiosos e de alguns devotos, cresceu de ponto o tumulto da +estrada. Sebastião da Mesquita, que já alli se julgava desnecessario, +sahiu á rua, e tentou pôr um dique ao excesso do povo. Foi impotente, +d'esta vez, a sua respeitavel palavra. + +O leão popular, mostrava-se indomito, e cruel. A facilidade que via no +triumpho, aguçava-lhe o appetite de sangue. Os infelizes prisioneiros +estavam prestes a cahir-lhes nas garras, das quaes só em pedaços +sahiriam! + +De repente, principia a turba a desbarretar-se, atirando com os joelhos +para o solo!... Ficaram só de pé os prisioneiros e a força que os +guardava. Estava domado o leão!.. + +Por quem?... + +Por um velho, de negras mas sagradas roupagens, do mais humilde aspecto, +da mais inoffensiva attitude!... Pelo padre Alvaro, que se arrastara até +ao cume de um penêdo--d'onde era visto por todos--e que trémulo e +silencioso, por lhe embargar a voz a commoção, alçara ao alto da +veneranda cabeça um crucifixo com a imagem do Redemptor do mundo...[7] + +Os presos foram recolhidos e agasalhados sem a menor resistencia +popular, no palacio de Leopoldo. + +O povo dispersou, a estas enthusiasticas vozes de Sebastião da Mesquita: + +«Salvè! religioso e bom povo portuguez, salvè!...» + + [5] O periodico «Estrella do Norte» publicou a noticia da + _intimação_ e da retirada do exc.^mo arcebispo primaz. + + Temos á vista vários jornaes d'aquella epocha calamitosa, que fazem, + pela desenvoltura da linguagem e calúmnias que semearam, corar de + pejo todos aquelles que saibam presar a dignidade da imprensa, e + comprehender a sua nobre missão. Um dos mais repugnantes por certo, + foi aquelle que se denominou--«Popular».--O melhor correctivo que, + em seguida, podiam ter as suas atrevidas e mentirosas apostrophes, + foi-lhe dado pelo primeiro jornalista portuguez n'estas honrosas + verdades: «O jornalista é o sacerdote d'uma religião, d'uma crença + social--expõe a sua doutrina, discute, convence ou é convencido. A + sua alma deve respirar sempre amor, o seu apostolado é um apostolado + de paz. Se o seu irmão pecca, deve dizer-lhe como o sacerdote do + Evangelho--_Fili, peccasti; non adjicias iterum_. + + «Para que é incitar o povo a que entre no palacio dos nossos reis e + pratique ahi acções de canibaes? Que civilisaçâo é esta que injuría + as victimas para as immolar? + + «Não ha rainha mais virtuosa do que a nossa como esposa, nem como + mãe de familias. A sua casa póde servir de exemplo a todas da + Europa. + + «Apraz-nos fazer esta justiça. Assim podessemos achar que louvar no + funccionario como achamos no individuo. + + «Por isso é que a nossa voz se levanta contra uma imputação + injuriosa e falsa.--A moral respeita-se no adversario como no + amigo.» («O Espectro» de 26 de Fevereiro de 1847.) + + [6] Aquelle infeliz aventureiro, abandonado pelo partido que levara + á rebellião, e apenas seguido de uns cem homens, foi morto por um + sargento de cavallaria das forças da rainha. O «Diario do Governo» + de 5 de Fevereiro de 1847, noticiando a morte de Mac-Donnell, diz + assim: «A identidade da pessoa de Mac-Donnell foi reconhecida por + diversas pessoas, e d'esta circumstancia se lavrou auto judicial.» + + [7] Este facto, teve effectivamente logar quando foi tomado pelo + povo o castello de Vianna. + + +FIM DA PRIMEIRA PARTE + + + + +SEGUNDA PARTE + +CRIME + + «Eu pintarei o caso com côres bem crimes.» + + (_Chron. de Cister_.) + + + + +I +ABYSMO + + + «Ai do viandante que não vê caminho! + ai do mesquinho sem a luz da fé! + ai! que, na falta d'um amor sublime, + triumfa o crime, do ludibrio ao pé! + + (_T. Ribeiro_--SONS QUE PASSAM.) + + +Foi talvez pouco sensivel ao leitor a desapparição de João Vidal nos +ultimos capitulos da primeira parte d'este livro, por que lhe traçou +papel secundario no «Conto Portuguez.» A ser assim, foi-lhe infiel o +trabalho de imaginação e, temos para nós que por mais vezes, no deslizar +pela fiel narração do conto, hade o leitor errar seus calculos.--«_Em +romance ou folhetim, o verdadeiro é o menos verosímil_:»--escreveu com +muita propriedade, em maré de chiste, um nosso festejado folhetinista. + +João Vidal, o escudeiro, fôra mandado pelo amo reconstruir o solar, em +parte presa das chammas, e tractar da administração da casa. Foi elle o +escolhido por Sebastião da Mesquita, pela illimitada confiança que lhe +devia, e tambem para o desviar dos logares da acção empregada no +livramento das donzellas, onde a podia prejudicar o entranhado rancor do +escudeiro a Leopoldo. + +A resolução do velho fidalgo fazer sumir os vestigios do incendio +mandado lançar pela esposa ao seu palacio, foi tomada d'accordo com D. +Isabel. Louvára Sebastião da Mesquita aquella inopinada e fidalga acção, +a que o desespêro da immerecida e violenta affronta condusira os brios +de uma nobre senhora, que era mãe, mas facil lhe foi convencer sua +mulher da sem razão de ficarem permanentes os signaes de um crime já +reparado, que de mais os privava de viverem commodamente. + +Não teve D. Isabel igual facilidade em destruir no seu esposo, o +preconceito de que devia bater-se em duello de morte com Leopoldo: foi +preciso o auxilio de D. Maria da Gloria, que teve a força de convencer +seu illustre pae do respeito e das attenções com ella havidas durante o +captiveiro, para conseguirem de Sebastião da Mesquita o esquecimento de +tão absurda idêa, a que era levado pelo excesso da honra. E de presumir +é que, mais ainda do que as boas razões dadas, imperasse no quietismo de +seu animo, a certeza da partilha que tinha a esposa no que houvesse de +soffrer seu marido: limitou-se, pois, o honrado velho, a varrer de si, e +cortar com a sua familia, todas as relações com a mulher de Leopoldo, +pelo desprêso a este votado. + +Ao recolher-se com a familia á sua habitação, entregara Sebastião da +Mesquita o commando da força popular a Arthur Soares, pedindo-lhe que se +conservasse no alto Minho, e exercesse vigilancia sobre as acções +intimas de Leopoldo, porque receiava haver feito uma victima da pobre +_donzella_, que tivera em vista honrar pelo casamento com o seductor. + +Algum tempo volvido, era Arthur Soares forçado pelo seu dever, a narrar, +em longa carta a seu padrinho, o que podera saber pelos seus exforços +habilmente empregados. Daremos ao leitor conhecimento d'um periodo +daquella carta: + + +«Colhi a fatal certeza de que a snr.^a D. Anna soffre a seu marido +constantes doéstos, em alguns dos quaes é menos respeitada a boa +intenção do meu nobre padrinho, e senhor, porque se atreve a dizer, que +_occultas razões_ determinaram a violencia do seu casamento com uma +_rapariga pobre_! Não se queixa a paciente; mas traz escripto na face os +signaes do seu pesar, e gradual definhamento.» + + +Esperou Arthur, com a ancia de um verdadeiro interesse, apenas producto +de sua bem formada alma, que Sebastião da Mesquita, dando o pêso devido +ao que lhe havia communicado, procedesse de modo a sanar aquellas rudes +e vilãs provocações de um depravado senhor á sua escrava. Os dias, +porém, succediam-se na sua marcha natural--que é morosa para os que +esperam e pensam, e rapida para os que gosam descuidados--sem que o +velho fidalgo désse accordo de si. Admirado Arthur de um tal silencio, +que lhe deu margem a mil oppostas conjecturas, não podendo duvidar da +entrega em mão da sua carta, porque o portador fôra seguro, resolveu +empregar os seus proprios recursos para adoçar quanto possivel a +situação amarga da infeliz Anna, que lhe fôra companheira e socia nos +annos e nos brinquedos infantis. Tomada a resolução, seguiu-se o emprego +de meios para chegar á falla com a mulher de Leopoldo. + +Entremos pela segunda vez nas casas que serviram de forçado aposento a +D. Maria da Gloria. Estamos na mesma sala onde tiveram logar as scenas +descriptas no capitulo--_Amor_. Recostada em magnifico sofá, e vestida +com singela elegancia, está uma sombra d'aquella Anna, que fôra +discipula muito amada de D. Maria da Gloria: a seu lado, tomou assento +Arthur Soares, em uma d'essas cadeiras cujo feitio se presta a todas as +commodidades e posturas de phantastico confôrto. Escutêmol-os: + +--Consinta-me, snr.^a D. Anna... + +--Snr.^a D. Anna!... + +--Sim, minha senhora, é esse o tractamento que hoje se lhe deve, e não +serei eu que o esqueça. V. exc.^a soffre. Deixe-me aproveitar estes +momentos, para bem claramente lhe dizer o que me obrigou a pedir-lhe +esta audiencia. Fui encarregado pelo snr. Sebastião da Mesquita de saber +se v. exc.^a era feliz: Não é. Sei que o seu viver intimo não está em +harmonia com as seductoras apparencias do fausto que a rodeia. Quererá +v. exc.^a confiar de um leal amigo, de um companheiro de infancia, do +mensageiro de seu nobre pae adoptivo, todos os pesares que a consomem? + +--Infeliz, eu?!... Pois não vê o senhor Arthur Soares, como estes +aposentos estão repletos de esplendor e de magnificencia?!... Não vê +esta mobilia, estes adereços, esta riqueza, este luxo, esta +sumptuosidade régia de que partilho?!... Eu, a misera filha de um +lavrador, apenas habituada ás palhas e ao fumo da cabana paterna!... Eu, +que só por favor conhecia o palacio da minha querida mestra e senhora D. +Maria da Gloria!... Podem por ventura ter entrada os dissabores, onde +moram as preciosidades?!... Não, mil vezes não!... As estatuetas, os +modelos em bronze e jaspe dos principaes monumentos da Europa, os bustos +serios e caricatos de notaveis personagens do mundo civilisado, o ébano, +a madre-perola, esses milhares de caprichos e de prodigios, as +antiguidades, os _recocós_, as reliquias de toda a arte misturadas com +os feitios e labores de toda a imaginação, tudo isto que me _cérca_, de +que me chamam dona, que me obrigam a fitar, comprehender e decorar, e +que me veiu conjunctamente com a posse de um esposo letrado e +nobre,--não será o gôso, a felicidade, a completa ventura?!... + +--E as lagrimas, que são o epilogo da formosa descripção que fez, o que +significam, senhora D. Anna?... + +--Oh!... Estas lagrimas são... de alegria!... + +--E porque não diz de saudade?!... Saudade que ninguem tem o poder de +condemnar na alma, que foge dos logares dourados, onde lhe fazem soffrer +o peso de grandezas que não ambicionou, para se aninhar nas pacificas +palhas da sua infancia e adolescencia, onde lhe fôra suave e salutar +bafejo o contacto de outras almas lavadas, caridosas, verdadeiramente +nobres em todas as suas acções... Por que não revela toda a verdade, que +eu de sobra conheço na excitação que V. Exc.^a manifesta?... + +--Toda a verdade!... Sabel-a-ei eu, senhor Arthur Soares?... Amo +Leopoldo, que é meu senhor, e... e devo ser feliz n'este paraiso, para +onde fui atirada em completa nudez, e no qual achei, como nos contos de +fadas, tudo que uma princeza póde ambicionar... + +--Disse o bastante, minha senhora. Agradeço a confiança que em mim +depositou, e que lhe mereço, creia. Peço o favor de confiar-me tambem a +cobrança de haveres que lhe pertencem. Ha um mysterio na vida de V. +Exc.^a, de que eu estou senhor, que só mais tarde lhe póde ser revelado. +Mysterio honroso, que a hade tornar respeitavel aos olhos de... de toda +a gente. Os haveres de V. Exc.^a, se não podem equiparar-se aos de seu +illustre esposo, são, com tudo, sufficientes para darem, em todo o +tempo, a independencia necessaria a uma senhora. Concede-me, por +escripto, a auctorisação que lhe peço? + +--Vou escrever o que quizer dictar-me, meu bom amigo. + +Aproximaram-se de um riquissimo e formoso movel, que serviu de +escrivaninha, onde Arthur, em pé, dictou, o que Anna escreveu com punho +firme. Concluido e entregue o documento, tiveram logar os +agradecimentos, as despedidas e as recommendações, em que por muito +entraram os sentimentos de gratidão que a pobre senhora nutria por toda +a familia de D. Maria da Gloria, e o affecto filial aos singelos +caseiros, que ella julgava seus progenitores. Durante estas +naturalissimas expansões, agitou-se um reposteiro e entrou Leopoldo na +sala. Vinha pallido, mas os passos eram seguros, o aspecto risonho e o +porte ceremonioso. Dirigiu-se a sua mulher com requintada delicadeza, +dizendo-lhe que a esperavam as suas modistas, e dando-lhe o braço para a +conduzir. Cumprimentou attenciosamente Arthur Soares, e pediu-lhe o +favor de o aguardar alguns minutos, dirigindo-se em seguida com a esposa +para o interior do palacio. + +Arthur esperou de animo resoluto, como quem descança na paz da +consciencia, a volta do seu pronunciado inimigo. + +--Creio que o não fiz esperar muito, senhor Arthur Soares?... Queira +collocar-se á vontade, e dignar-se responder-me, caso me julgue com +direito a fazer-lhe algumas breves e concisas perguntas. + +--Ouvirei, senhor Leopoldo. + +--Peço desculpa de não principiar pelos offerecimentos do estylo: julgo +que minha mulher saberia fazer-lhe o que chamam as honras da casa?... + +--A senhora D. Anna recebeu-me como uma senhora distincta costuma +agasalhar um companheiro de infancia, um como irmão respeitoso e +lealmente affeiçoado. + +--Muito bem... Poderei saber o motivo porque se aproveitou a minha +ausencia, para a visita com que V. S.^a quiz honrar esta casa?... + +--Porque não me sendo agradavel a presença de V. Exc.^a, devo suppor que +a minha egualmente o não seja ao senhor Leopoldo. + +--Colhe alguma cousa essa franqueza... E o motivo da conferencia, é +segredo para mim?... + +--Não guardo segredos de uma senhora casada. Vim visitar a senhora D. +Anna, em nome de pessoas que a presam, e pedir-lhe esta +auctorisação:--«Dou a Arthur Soares os poderes necessarios, para receber +toda a quantia ou valores a que eu tenho direito.» + +--Vejo que se faz procurador de minha mulher, sem outhorga minha!... É +para intentar divorcio, e pedir-me alimentos?... + +--Pondo agora de parte as suas impertinentes ironias, assevero-lhe que +S. Ex.^ma esposa _não é pobre_, e que, para cobrar o que lhe pertence, é +que eu vim pedir-lhe este escripto. + +--E que validade descobre V. S.^a n'esse papel, que não é authenticado +por mim?... Pois não serei eu o competente para essa cobrança?... + +--A esposa de V. Exc.^a ignorou até hoje, que era senhora de fortuna, +como ainda não sabe do seu illustre nascimento: este mysterio, não póde +ser já aclarado. Não se fatigue com perguntas, que não colhe mais +esclarecimentos. V. Exc.^a tem o direito de receber, querendo, o dote da +snr.^a D. Anna, garantindo-lh'o em bens seus. Para a recepção actual, +sou eu o unico competente. Não peço mais documentos, nem dou a pessoa +alguma o direito de duvidar da pontual entrega, que hei de fazer, do +liquidado e recebido por mim. + +--Por hoje, não quero demoral-o mais... Conto que V. S.^a não ha de +recusar-se a dar-me, de futuro, quaesquer esclarecimentos... + +--Sempre ás ordens de V. Exc.^a, para o que fôr do meu brio. + +Retirou-se Arthur Soares, e o mesmo foi que abrir-se um dique á torrente +do odio represado no coração de Leopoldo. Ficou o leão rugindo no seu +antro, prestes a cahir no abysmo cavado a seus pés pelo amor e pelo +ciume. + + + + +II + +FIDALGUIA + + + «É que ha uma fidalguia de alma que nem sempre falta ao que chegou + por si á grandeza, assim como nem sempre vem aos que a herdaram de + seus antepassados.» + + (_V. d'Almeida-Garrett_--HELENA.) + + +A chamada nobreza de sangue tem origem respeitavel. + +Os homens que defenderam e ajudaram a republica, consagrando-lhe todas +as suas forças e haveres, quando o perigo era commum de todos,--foram +nobres. Os homens que souberam fazer valer os direitos da nação, sendo +leaes guardadores das immunidades patrias, e em longinquas e perigosas +paragens, exposeram as suas vidas, em quanto muitos outros gosavam as +delicias caseiras,--foram nobres. Os homens que, dados a serios estudos +desde a mais tenra infancia, conseguiram nome e gloria para as nações a +que pertenciam,--foram nobres. Foram, e deviam sêl-o. Não lhes ficou +barato o rôlo de papel--titulo de nobreza, porque o da fidalguia estava +nos seus feitos--de que os descendentes, ainda hoje, e sempre, e com +soberbas razões, se devem orgulhar. + +Por milagre de esforço, de perseverança, de audacia mesmo, se deve aos +nobres de Portugal, o termos algum dia sido o povo mais forte e mais +respeitado da Europa. Um Affonso de Albuquerque, o fundador do imperio +portuguez no Oriente, aquelle que os adversarios chamaram _leão dos +mares_, fôra bastante, por seus heroismos, a justificar entre nós o +justissimo orgulho da nobreza de sangue; que, ainda assim, tem mais +remotas e egualmente verdadeiras glorias a que soccorrer-se. + +Do natural desvanecimento dos que se gloriam de seus nobres +antepassados, só a mesquinha inveja póde desdenhar. E muitos, e tantos, +e de tamanho valor foram os nobres portuguezes, que não cabe n'este +logar enumeral-os. E nem por isso elles ficam ignorados, que, a par dos +heroes da espada, viveram os nobres d'outros feitos, os Camões, os +Barros, os Coutos, os gigantes eternisadores das memoraveis façanhas de +seus coevos, meritorios como elles, e como elles dedicados á grandeza da +patria. + +Sabemos que á civilisação repugna a _conquista_, embora tenha de +conformar-se com os _factos consummados_; mas quem ha que duvide da boa +fé com que pelejaram os nossos velhos portuguezes? Religião e patria, +eram os seus estimulos; e á prodigiosa força de tão poderosas ideias, se +devem attribuir as suas heroicidades. + +Mas ser _nobre_, nem sempre quer dizer ser _fidalgo illustre_. A nobreza +póde ser herdada, e a fidalguia, as acções briosas, não. Para ser nobre +bastam os pergaminhos; para ser fidalgo illustre, não se dispensam as +virtudes proprias, os actos insignes, os meritos individuaes, e até, e +quasi sempre, os auxilios da caprichosa natureza. + +Ha mais nobres do que fidalgos illustres, e ha illustres fidalgos, que +não são nobres. É bom ser nobre; melhor é ser illustre fidalgo; e +optimo, por sem duvida, é ser illustre e nobre fidalgo. + +Arthur Soares, era illustre. Gentil de corpo e sem mácula na alma, +reunia em si todas as qualidades physicas e moraes, que fazem o homem +distincto. O encargo de vigiar pela vida intima da que lhe fôra +companheira na infancia, tomára-o elle de boa vontade, porque entendeu +que o fim de Sebastião da Mesquita era proteger a mulher que julgára +infelicitar com o forçado casamento. Tardára-lhe porém, a protecção, e +levado pelos seus brios a tomar iniciativa propria, teve de inventar +para Anna um nascimento e um dote. + +Ha mentiras salvadoras, que elevam tanto os que as sabem dizer, como os +inventos tórpes malsinam os caracteres dos velhacos, que os engendram. +Encobrir verdades que pódem fazer victimas, dar um sabor mysterioso a +qualquer facto, determinar mesmo quaesquer circumstancias em sentido +diverso do occorrido, para valer a infelizes sem prejuizo de +terceiros,--são culpas venturosas de que só podem accusar-se as almas +boas, e os espiritos elevados. + +Uma vez entrado no caminho de protector, resolveu Arthur Soares sahir +d'elle pelo da dignidade, que não conhece obstaculos, porque os +sacrificios alargam-lhe todas as verêdas. Estava obrigado +voluntariamente, e só pela sua palavra, é certo, mas por isso mesmo com +obrigação completa, a entregar um dote á mulher de Leopoldo. A evidencia +de um nascimento fidalgo, que tambem asseverára, menos cuidado lhe dava, +porque ouvira a Sebastião da Mesquita affirmar o que elle repetira, e +tinha toda a confiança no desempenho, mais ou menos tardio, da palavra +do honrado velho. Além de que, o esclarecimento d'esta circumstancia, +podia demorar-se, visto já ter lançado á imaginação de Leopoldo a +existencia do mysterio: o essencial, o urgente, era o dote. + +Escreveu Arthur Soares outra carta a Sebastião da Mesquita, +perguntando-lhe se recebera a primeira. Respondeu-lhe affirmativamente, +e que havia tomado as suas importantes revelações na devida +consideração. Esta resposta não aquietou o animo generoso do voluntario +protector. Queria obras, e não palavras, que elle achou frias em caso de +tanto brio. Resolveu proceder isoladamente, e com segredo. + +Obtida uma licença de alguns dias, dirigiu-se Arthur Soares á residencia +de seu thio. Recebido pelo padre com a natural expansão de um affecto +puro e vivo, n'elle depositou o segredo da promessa que o impressionava, +e queria cumprir, pedindo-lhe conselho e favor. No fim da confidencia, +ficou o padre mais ébrio de prazer do que se fôra elle o favorecido com +o generoso compromisso de Arthur. Conduziu o mancebo ao pé de um velho +movel, e disse-lhe: + +--Estão aqui as nossas economias: são uns vinte e tantos mil cruzados. É +dinheiro de muitos annos guardado por tua mãe sem prejuiso dos pobres. +Trabalhava noite e dia, a pobre martyr... Quando eu brandamente lhe +observava que podia adoecer com tão aturado labutar, respondia-me que +Deus não havia de condemnar a ambição de mãe em converter as suas +vigilias e o seu suor em dote para seu filho... Chegou á força de +perseverança a poder commerciar em cereaes, principiando pelo mesquinho +producto da roca... Como era boa a tua mãe, Arthur!... Já vês que não +tenho parte n'essa accumulação de moedas, que te pertencem... Mas essa +quantia, bastante notavel para nós, é ainda pequena para dotar a mulher +de um rico nobre... Vamos já a Penafiel... Farei perante um tabellião o +necessario documento, para que tu possas vender a raiz das propriedades, +que foram de meus paes... A raiz só, porque o uso-fructo deve continuar +a pertencer a uma infeliz familia, que lá está por disposição tua... De +certo te não recordas já d'aquella tua _doação_... Eras muito criança +ainda, mas com a indole que... que tu tens, meu Arthur!... + +Velho e moço, sentiram a commoção de duas almas iguaes, quando são +abaladas por acções celestes, e confundiram n'um longo abraço os soluços +e as lagrimas. O respeitavel e sagrado nome de--pae--foi proferido por +Arthur Soares, saltando-lhe do coração á bôcca. O padre Alvaro, ouvindo +chamar-se por aquelle nome, fez-se d'uma pallidez mortal, e balbuciou: + +--Obrigado meu filho, por teres pela primeira vez esse nome para mim!... +Sou eu só a ouvil-o, e Deus, que sabe os meus remorsos, de certo me +consente este innocente prazer... Obrigado!... Vejo, sinto que te não +repugna o sacrilego... És bom, Arthur, meu filho adorado!... Crê que +tenho soffrido muito!... E o maior, o mais terrivel do meu padecer, era +o não poder chamar-te--filho--nem ouvir de tua bôcca o dôce nome +de--pae... Diz-me, meu querido Arthur, diz que não desdenhas, que não +amaldiçôas o teu nascimento... Perdoa-me o haver-te privado da +paternidade legal... + +--Perdoar-lhe?!... O quê, meu sempre amado pae?!... O ter-me dado esta +alma, que é sua, e que me faz grande aos meus proprios olhos?!... O ter +coberto a minha infancia e mocidade dos maiores e dos mais carinhosos +extremos?!... O haver-me dado uma educação de fazer inveja aos mais +poderosos da terra?!... O tornar amênos e felizes os dias da vida de +minha santa mãe?!... O ter vertido lagrimas de sangue pela chamada culpa +que me deu vida e felicidade?!... É isto tudo que eu tenho a +perdoar-lhe, não é assim?... Oh! mas não sabe que o meu maior orgulho é +o de ser seu filho?!... Que pae mais heroe, mais santo, mais martyr me +podia dar o céu?!... + +--Basta, Arthur, que me pódes matar de alegria!.. Bemdicto sejas, meu +Deus e meu Salvador! Bemdicto e louvado pela tua Misericordia com este +indigno padre!... + +Deixemos o velho Alvaro nos braços de seu filho Arthur, nos momentos +mais felizes da sua attribulada existencia, e vamos presenciar o que se +passa no palacio de Sebastião da Mesquita. + +Estamos no salão onde tiveram logar as primeiras scenas d'este +verdadeiro conto. Estão lá outros moveis de mais recente data, mas ainda +se alli sente o respeito devido ao que é antigo e bello, porque foram +salvas do incendio as reliquias de familia: São ainda os mesmos os +quadros, os retratos, e os brasões. Sebastião da Mesquita está fallando +com muita solemnidade a João Vidal: + +--É tempo de te fazer mui sérias e importantes revelações, João, que +devem mudar completamente a tua posição social. Dir-te-hei tudo em +poucas palavras: sou avêsso ás phrases de estylo em materias graves. +Recebi-te em criança das mãos de uma santa abbadessa, que te salvou a +vida criando-te dentro do seu convento. Conservei-te sempre ao meu lado, +e dei-te, quando homem, a qualidade de escudeiro d'esta casa, tendo-te o +carinho de pae, porque era impossivel, e prejudicial para ti, a +revelação do teu nascimento. És filho bastardo de um nobre desnaturado, +que sacrificou os seus brios ao dote da mulher, nobre tambem de +pergaminhos, e villã de sentimentos. Agora que todo o perigo é passado, +aqui tens os papeis, que provam o teu nascimento, e com elles recebe +igualmente este dinheiro, e estes titulos, que tudo te foi legado pela +religiosa tua salvadora, e tua thia-avó paterna, e depositado em minhas +mãos para te ser entregue quando já não corresses o risco de ser +perseguido, e talvez assassinado, pelos assalariados da mulher de teu +pae. Ficas sabendo que és nobre, e na posse de dinheiro, e valores que +orçam por cincoenta mil crusados, com a accumulação da parte rendivel. +Fui máu administrador, porque deixei quieto e improductivo o dinheiro, +que hoje podia estar treplicado; mas bem sabes que abomino todas as +especulações, e que não sei commerciar. Antes que te surprehenda, com a +leitura dos documentos que te entrego, a noticia de que és irmão de +Leopoldo... + +--Eu, irmão de semelhante malvado!... Snr. Sebastião da Mesquita, meu +amo e unico pae que me apraz reconhecer.... Peço a v. exc.^a muito de +mercê, que me continue a graça de o servir... Quero considerar-me sem +parentes conhecidos... Quero ser o filho adoptivo de v. exc.^a, e o seu +mais humilde criado... + +--É impossivel. Pódes, sim, continuar a viver na minha companhia, se o +quizeres; mas na posse do que te pertence, e na qualidade de amigo, e +não de criado da casa. Escusado é instares por outra solução, que esta +é-me dictada pela honra. A ultima ordem que te dou é a de extinguires em +ti o odio que tens a Leopoldo... + +--Mas, senhor... + +--Esqueceste, João, da inflexibilidade do meu caracter?... Terminou a +nossa audiencia, que outros deveres não menos graves me chamam a +attenção. Leva o que é teu, e faz-me o favor de dizer a minha mulher e a +minha filha, que venham a esta sala... Manda tambem chamar Rosa. + +--V. exc.^a bem sabe que a menina Rosa ha tempo que não vem ao palacio, +e que parece soffrer bastante... + +--Sei. Digam-lhe que sou eu que a chamo, e quero-a aqui. + +Sebastião da Mesquita, logo que João Vidal se retirou, ficou entregue a +uma desusada agitação nervosa, que n'elle era infallivel symptoma da +gravidade do assumpto que o preoccupava. Durou-lhe a inquietação só até +ao momento em que sentiu aproximar-se a familia que chamara. Logo que +deram entrada na sala D. Isabel, D. Maria da Gloria, e Rosa, serenou o +velho fidalgo, que as convidou a escutarem-n'o. + +--Dirijo-me a si em primeiro logar, Rosa, porque desejava saber os +motivos da sua frieza com esta familia, que a estima devéras, e os que +são causa de um soffrimento que a sua indiscreta face revela... Tem a +queixar-se de alguem d'esta casa? + +--Que pergunta, senhor!... Pois a planta parasita e inutil póde por +ventura queixar-se dos cultivadores, que a querem tornar mimosa á força +de cuidados e attenções?!... + +--Se a sua elegante resposta não encobre nenhum resentimento, porque é +então que não frequenta esta casa como costumava? + +--A minha doença... + +--E como se chama a sua doença?... + +--Ainda não consultei a sciencia, e... + +--Receia que a consulta seja inutil... Guarde, pois, os seus segredos, +Rosa, que não quer depositar no coração de um velho, talvez por +considerar a velhice incapaz de os comprehender, e preste toda a sua +attenção ao que vou dizer a minha mulher e a minha filha... Minha prima +e estimada esposa, e minha presada Maria: desde muito que sabeis o +interesse e affeição que voto a esta donzella, e áquella infeliz que +obriguei a casar com um homem que detesto... Consenti-me que ainda vos +occulte os motivos de honra, que a tanto me obrigam, e que um dia vos +serão patentes... É urgente, e indispensavel, que a mulher do _rico +fidalgo_ e snr. Leopoldo tenha um dote capaz de suffocar na alma villã +do marido o desprêso pela que foi obrigado a receber por sua legitima +esposa... Para lhe dar esse dote necessito empenhar muito o teu +patrimonio Maria, e a casa de v. exc.^a, minha prima... + +--Para que me dá o primo parte das suas nobres acções?! Mereço-lhe que +me suspeite capaz de ir de encontro a uma sua resolução, ainda que por +ella fosse levada á extrema miséria?... É injusto, senhor... + +--Deixe-me beijar-lhe a mão, minha santa prima!... Nunca duvidei dos +nobilissimos sentimentos de V. Exc.^a; mas cumpria-me consultal-a, e +pedir-lhe auctorisação para o que tenho a fazer, e bem sabe que não sei +faltar ao que devo a mim mesmo... + +--E eu, meu presado e respeitavel pae e senhor, tenho só a dizer a V. +Exc.^a, que me é inutil um dote, porque estou resolvida a morrer +solteira, e... + +--Criança!... Não é preciso tamanho sacrificio... Vejo que entregas nas +minhas mãos o teu futuro, e pódes estar certa de que ninguem o velaria +melhor do que eu o farei... Temos de fazer uma séria reducção nas +despezas, porque nos vae diminuir muito o rendimento. Possuia dinheiro e +valores que entregaram á minha honra, e que acabo de restituir. Tenho, +portanto, de vender bastantes propriedades... É custoso vêr passar a +mãos alheias o que era de nossos avós; mas o dever primeiro que tudo... +O que me diria, Rosa, se estivesse no logar de minha filha Maria? + +--Desejaria saber dizer a V. Exc.^a as mesmas palavras que o coração +dictou á minha querida mestra e senhora D. Maria da Gloria, porque são +perfeitamente iguaes os meus sentimentos... + +--Agradeço a todas... + +Entrou precipitadamente na sala João Vidal, e Sebastião da Mesquita, um +pouco enfadado, perguntou-lhe: + +--O que quer, João?... Parece que vem como portador de novas +importantes, a dar valor ao modo porque se aproxima de nós, ao que traz +nas mãos, e ao demudado da sua côr?... + +--É que, senhor, por mais indifferente que o dinheiro nos pareça ser, +sempre sentimos algum estremecimento ao achar inesperadamente uma +quantia importante... Os trabalhadores que andavam no pomar a compôr o +muro, encontraram esta panella de ferro com o dinheiro que ella +contém... Apressei-me a vir participar o acontecimento a V. Exc.^a, e +peço que me desculpe o interrompel-o?... + +--Deixe-me vêr a qualidade da moeda... Tenho visto, snr. João de +Lencastre... Conheço este dinheiro, que passou do cofre em que lh'o dei, +para a primeira panella que o João encontrou na cosinha... Foi pouco +engenhoso na sua cavalheira mentira... Não sou facil de illudir; mas, em +compensação, sou facilimo em perdoar acções como aquella que desejou +praticar... Lembro-lhe, porém, João, que _só eu_ tenho direito a regular +as minhas generosidades, e que não posso acceitar favores d'essa +ordem... nem mesmo do João... Minha esposa e minhas filhas: dou-lhes +parte que João Vidal, o escudeiro, passou hoje á posse do seu verdadeiro +nome, e da fortuna que lhe veiu por elle. É bastardo da casa dos +Lencastres, irmão de Leopoldo, e o unico que ha de sustentar em todo o +brilho a gloria de seus antepassados. É, pois, na qualidade de nosso +parente, e intimo amigo, que occupa desde hoje o logar que n'esta casa +está sempre vago para os homens de bem. + +--Agradeço de toda a alma a V. Exc.^a a immensa honra que me concede, e +que só condicionalmente acceitarei... Perdôe-me a arrogancia da +phrase... foi dictada por V. Exc.^a que me ensinou os deveres de +cavalheiro... + +--Venham as condições! + +--É só uma: a de me consentir em ter parte na generosidade que vae +praticar... Ouvi tudo... Quiz encobrir-lhe o meu desejo, e não pude, por +que V. Exc.^a descobriu a mentira, que eu inventei para bom fim... +Acabou o constrangimento, senhor, e não tenho já receio de affirmar ao +snr. Sebastião da Mesquita, que se me não permittir o que rogo, fugirei +para muito longe, para onde me não possa chegar... + +--E que direito--disse Sebastião da Mesquita, interrompendo-o--é o seu +para fazer um beneficio á senhora D. Anna?... + +--É a mulher de meu irmão, senhor!... + +João Vidal, pronunciou estas palavras com dignidade e consciencia tal, +que as tres senhoras immediatamente estenderam as mãos ao ex-escudeiro. + +Sebastião da Mesquita levantou-se com toda a soberania, e disse: + +--Está terminada a conferencia... Ácerca do que pede, eu darei parte ao +_primo_ João do que resolver. + + + + +III + +CIUME + + + «................................ + Invejo-te, Camões, o nome honroso, + Da Mente creadora o sacro lume, + Que exprime as furias de Liêo raivoso, + + Os ais de Ignez, de Venus o queixume: + As pragas do Gigante procelloso, + O Céu de Amor, o Inferno do Ciume.» + + (_Manoel Maria de Barbosa du Bocage._) + + +O ciume é, por sem duvida, a mais feroz e violenta das paixões, porque +participa do amor e do odio, os mais agudos e incuraveis padecimentos do +coração humano. + +Os modos de manifestar tão perigosa como prejudicial paixão, variam +tanto quantos são os temperamentos, as indoles, e as educações das +pessoas sujeitas ao ciume. + +O homem rude, que é brutal em suas expansões, não magôa mais, com seus +castigos materiaes, a mulher que lhe faz sentir ciume, do que o burguez +indinheirado, que ensina a consorte a decorar uma infinita taboada de +favores, que lhe minguaram a burra. + +O homem educado, da boa sociedade e com escola das conveniencias +sociaes, tambem não é o que menos faz sentir á pobre filha de Eva o +castigo de sua egoista paixão. Com a mascara da mais requintada polidez, +fere com gestos, com sorrisos gelados, com subtilesas, com allusões, com +toda a sorte de estudadas torturas, que nem consentem á victima a +desfórra de uma resposta. + +Fazemos distincção do ciume, dividindo-o em espiritual e material. O +primeiro, o que procede da alma, não é selvagem nas suas consequencias, +não escandalisa, e, sendo injusto, quasi sempre é debelado pela +resignação e carinho da mulher, succedendo, algumas vezes, quando +verdadeiro, conseguir a emenda e o arrependimento da culpada. O segundo, +o que só tem origem nos sentidos corporaes, é arrebatado, não raciocina +nem perdôa, sendo, por isso, sempre ruinoso e fatal. + +Leopoldo luctava com o ciume espiritual pelo verdadeiro amor a D. Maria +da Gloria, e com o ciume material pela esposa, que não podia amar. + +Arthur Soares, por ser estimado pela fidalga donzella e conservar com D. +Anna relações suspeitosas ao parecer do marido, tinha em Leopoldo um +terrivel inimigo. + +Depois d'aquelle dia, em que foi encontrar a esposa conversando a sós +com Arthur, o fidalgo militar soffria um verdadeiro tormento intimo, de +que D. Anna era participante, por esses infinitos actos de calculada +severidade, e de frieza, que fazem do homem polido um carrasco +civilisado, e da mulher innocente, e que os atura, uma completa martyr. + +D. Anna, como não tivesse a mais pequena mácula de que accusar-se, +attribuia todos os maus tractos de seu marido, unicamente a ter elle +sido forçado a recebel-a por esposa, sendo ella plebêa e pobre. A triste +senhora procurava na leitura, quando as lagrimas a deixavam, lenitivo +aos seus pesares, e dava preferencia á Biblia, esse formoso rei dos +livros, e n'ella ás divinas parabulas, essas inimitaveis phrases do +Christo, que alliviam a alma, e derramam o mais suave dos perfumes sobre +os sentidos de quem lê, e sabe comprehender e crêr. + +Lia a contristada esposa o seu livro favorito na pagina que diz: + + +«E chegavam-se a Jesus os fariseus tentando-o, e dizendo: É por ventura +licito a um homem repudiar a sua mulher, por qualquer causa? Elle, +respondendo-lhes disse: O que vos ordenou Moysés? Elles lhe responderam: +Moysés mandou dar o homem a sua mulher carta de desquite, e repudial-a. +Respondeu-lhes Jesus: Porque Moysés, pela dureza de vossos corações, vos +permittiu repudiar a vossas mulheres; mas ao principio não foi assim. +Não tendes lido, que quem creou o homem desde o principio, creou macho e +femea, e que deixarão pae e mãe, e ajuntar-se-hão, e serão dois n'uma só +carne, não sendo já dois, mas uma só carne? Não separe, logo o homem, o +que Deus ajuntou.» + + +Esta lei do Evangelho sobre a indissolubilidade do casamento, tornou +pensativa a chorosa esposa, que pousou sobre os joelhos o sagrado livro, +aberto na pagina que lêra, pendendo-lhe a cabeça para o seio. Era tal a +preoccupação em que se achava, meditando, que não deu pela entrada do +marido no seu quarto, Leopoldo, que espiava todas as acções de sua +mulher, vendo-a tão enleiada, aproximou-se-lhe mansamente, e leu, por +cima do hombro da esposa, as palavras que deixamos transcriptas, e que +finalisavam a pagina em que se liam: ensaiou um dos seus mais ironicos +sorrisos, deu á voz um tom de tão meliflua quanto refalsada ternura, e, +juntando a acção ás palavras, disse: + +--Virando esta pagina, minha cara esposa, talvez que encontre passagens +de mais interesse... Não me enganei. Olhe, veja a continuação e +conclusão das maximas, que tiveram o condão de a fazer ainda mais bella, +levando-a a esse estado e posição elegante de heroina scismadora... «Eu, +pois, vos declaro, que todo aquelle que repudiar a sua mulher, _se não é +por causa de adultério_, e casar com outra, commette adulterio: e o que +se casar com a que outro repudiou, commette adulterio: _E se a mulher +deixa o seu marido e casa com outro, ella é «adultera._» + +De certo comprehende bem o sentido d'estas palavras, principalmente +d'aquellas que eu, ao lêr-lhe, sublinhei? + +--O primo, quasi me assustava, pelo não esperar agora aqui!... Se +comprehendo o sentido do que me leu?!... Não sei o que quer que eu +comprehenda?!... + +--Em primeiro logar, minha senhora e cara esposa, tomo a liberdade de +lhe dizer que não me consta que haja entre nós parentesco algum... + +--Foi o meu esposo, e snr. Leopoldo, que determinou este tratamento +entre nós... + +--Aconselhei-o, minha senhora, para as salas sómente, onde os _nobres_ +teem obrigação de saber guardar todas as _conveniencias_: mas, aqui, +escusa a minha estimavel esposa de usar de taes _constrangimentos_... +Pelo que toca á comprehensão do que eu li, parece-me facilima, mórmente +para o seu talento. Julgo que Jesus-Christo, com aquellas palavras, nos +quiz dizer, que se não pécca repudiando a mulher _adultera_. Não lhe +parece?... + +--Quem melhor do que o meu esposo, que é letrado, póde entender o que +lê?... Mas quer-me parecer que n'outro logar d'este sagrado livro, o bom +Jesus perdoou á adultera, que ia ser apedrejada, tendo antes provocado +dos queixosos o que se considerasse sem culpas que fosse o primeiro a +lançar a pedra... Não nos dirá tambem esta humanitaria e sublime +parabula, que se Jesus-Christo não tinha como peccado o desprezo da +adultera, via, comtudo, que os homens, mais fortes, e absolutos +legisladores para os crimes do meu sexo, nem sempre procedem com +justiça? + +--Imaginemos que é assim: apraz-me concordar com os seus _engenhosos_ +corollarios, minha senhora... Mas, como estamos em _amigavel_ +controversia, desejava ouvir a sua _esclarecida_ opinião sobre a +_igualdade_ dos deveres... Parece-lhe que o _adulterio_ é o _mesmo +crime_ da parte da mulher como da parte do homem?... + +--Não sei como responder-lhe, meu esposo e senhor... Nunca pensei +detidamente na gravidade do crime de que fallamos; e, pesando agora a +fealdade d'um tal delicto, julgo quasi impossivel que haja mulher +voluntariamente adultera. Talvez que essas infelizes peccadoras sejam +levadas a uma tal degradação pelo contínuo desprezo e ardua severidade +dos maridos, pelos maus exemplos, e pelas aleivosas seducções dos +homens, que as conduzem á quéda, para as enlamearem em seguida... + +--Para quem não tem _pensado_ no assumpto, desenvolve-o +admiravelmente!... Dou á minha cara esposa _sinceros_ emboras pelo bem +que falla da materia... Devo comtudo observar-lhe, como em descardo da +_letradice_ com que ha pouco quiz honrar-me, que os _maus exemplos_ do +homem nunca podem lançar no leito nupcial um _pequenino ladrão_... A +minha _intelligente_ esposa comprehende-me bem, não é assim? + +--Se o comprehendo, senhor, devo tambem _observar-lhe_ que os _maus +exemplos_ podem igualmente introduzir o mesmo _roubo_ em alheios +lares... Feliz a esposa que sabe resistir a todas as tentações, embora +tenha de ganhar a palma do martyrio; mas bem mais feliz aquella que +encontra no marido um guia, e natural protector, em vez d'um tyranno +egoista. + +--Dou lhe palmas, minha _cara_ esposa! Isso é que se chama saber +defender o terreno pollegada a pollegada... Proclamo-a rainha das +defensoras da reciprocidade do crime de adulterio entre os conjuges... + +N'esta altura do dialogo, que promettia mais serio azedume, foram +interrompidos pela voz de uma criada, que annunciou a chegada, e a +introducção, de Arthur Soares, na sala das visitas. A esta noticia foram +differentes as sensações manifestadas pelos esposos. Leopoldo franziu a +testa, e D. Anna mostrou na face o natural contentamento com que recebia +a visita do seu companheiro de infancia, do seu protector e irmão +adoptivo... + +--O seu rôsto, minha _boa_ esposa, formosissimo, mesmo quando _v. +exc.^a_ se acha em perfeita tranquilidade de espirito, está agora +explendido de brilhantismo, pelo contentamento que manifesta com a +noticia que nos deu a criada... Muito _feliz_ é esse snr. Arthur +Soares!... + +--Se a profunda estima de uma irmã, que não sabe ser ingrata, póde dar a +felicidade, de certo que é feliz o meu companheiro de infancia, porque o +sei presar como elle merece. + +--Hei-de vêr se consigo haver d'elle, por _um sério estudo_, o segredo +de tanto se fazer _apreciar_ das bellas... Vamos prestes ao seu +encontro, que estou já ancioso por começar as minhas _experiencias_... + +D. Anna continuava a não comprehender os remoques do marido. A boa fé, e +a innocencia, são quasi sempre ingenuas. + +Chegados á sala os dois esposos, foram cumprimentados por Arthur Soares, +Leopoldo com polida frieza, e D. Anna com a expansão do _amor sem +desejo_, que assim é definida a verdadeira amisade, ao que ella soube +gentilmente corresponder, mau grado de seu marido, que principiava a +manifestar, por contorsões nervosas, o inferno que lhe ralava o peito. + +--Venho dar contas a v. exc.^a, e a seu illustre marido, do uso que fiz +da auctorisação que me concedeu. Apenas consegui apurar trinta mil +crusados, que entrego em papeis de bom credito, equivalentes a dinheiro +de contado, e mais commodos no transporte. Com letigios, sempre +impertinentes, incommodos e despendiosos, podia augmentar a cobrança; +mas usando, e talvez que abusando um pouco, da auctorisação e da +reconhecida bondade de v. exc.^a, passei quitação geral do seu dote pela +quantia que recebi e apresento... Digne-se o snr. Leopoldo examinar e +contar... + +--Desculpe-me interrompel-o, snr. Arthur Soares. Eu não posso, nem +quero, entrar no mysterio d'esse _dote_ da minha _prima_ e _cara_ +esposa. Creio possuir o necessario para vivermos com algum allivio, e +nunca _esperei_ receber quantia alguma de tal proveniencia... Se minha +mulher _julgar digno_ o receber esse dinheiro, receba-o muito embora, +que eu nunca procurarei saber qual seja a sua applicação. + +--Não só a considero digna, mas até me parece obrigatoria a recepção. +Diz-me o snr. Arthur Soares, que tenho um _dote_, que é meu, +entrega-m'o, porque não hei-de recebel-o? Posso por ventura suspeitar +que o meu companheiro de infancia, e bom irmão adoptivo, trouxesse a +esta casa dinheiro meu de origem menos pura? Tambem não é de crer que +haja quem se desaposse de _trinta mil crusados_, para fazer um beneficio +gratuito. Além do que, se o meu esposo e senhor póde dispensar este +dote; se eu mesma, por estar no gôso da munificencia de meu marido, não +tenho immediata precisão d'elle, pódem de futuro existir outros +interessados, os filhos, que não temos o direito de prejudicar. Acceito, +e agradeço ao snr. Arthur Soares, o trabalho que teve para haver o meu +dote. + +--Estou mais que pago do que fiz, pela certeza de ter prestado a v. +exc.^a um pequeno serviço. + +--«A snr.^a D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho!...» + +A este annuncio, que um escudeiro fez em devida fórma, ficaram como +interdictos todos os actores da scena que descrevemos. São faceis de +comprehender os motivos da interdicção, se o leitor tem attendido o +«Conto portuguez». + +Sebastião da Mesquita resolveu enviar a D. Anna o seu dote por D. Maria +da Gloria, e que esta fosse acompanhada por João de Lencastre: explicada +a inopinada apparição, e deixando á capacidade do leitor o avaliar como +seriam recebidos os recem-vindos, continuaremos a interrompida scena, em +que figuram agora mais dous actores: + +--Antes de participar ao primo Leopoldo qual é a commissão de que venho +encarregada por meu ex.^mo pae e senhor, peço-lhe licença para +apresentar-lhe o snr. João de... + +--Conheço _bastante_, minha querida prima e senhora, o seu escudeiro e +fiel pagem, _que só poderia entrar n'esta casa, como entrou_, +acompanhando a sua dona... + +--Engana-se v. exc.^a, meu caro primo, quanto ao mister e aos direitos +do meu apresentado. Este cavalheiro, que precisou de viver alguns annos +sob o incognito, mais de amigo que de escudeiro da nossa casa, é +bastardo da illustre progenie dos snrs. de Lencastre, reconhecido e +dotado por uma sua thia avó paterna; é nosso primo e muito intimo amigo; +é, finalmente, irmão de v. exc.^a... + +--Não posso crêr que a minha apreciavel prima e snr.^a D. Maria da +Gloria, queira honrar-me com um gracejo d'essa ordem, e... + +--Quer provas? Aqui as tem... Depois de lêr ficam desterradas as suas +duvidas, e atrevo-me a esperar do cavalheirismo de v. exc.^a, que dará +todas as mostras de fraternal estima ao meu nobre apresentado... + +--Não desejo só dever a esses pergaminhos a amizade de meu irmão... +Embora por motivos justificados, commetti um acto rude, e offereço-lhe a +face, para applicar n'ella a pena de Talião... + +--Mais do que a essa humildade, que sei apreciar n'este momento, e tanto +como aos laços de sangue que nos prendem, deve-se á vontade e nobreza de +sentimentos da nossa querida prima e snr.^a D. Maria da Gloria, a +espontaneidade com que o abraço, mano João!... + +--Agradeço ao primo Leopoldo a delicadeza e fidalguia do seu proceder. +Agora, passo a remir-me da obrigação que recebi de meu exc.^mo pae: +faço-o mesmo em presença do snr. Arthur Soares, que pela muita amisade e +consideração que todos lhe devemos, é estimado como pessoa de familia. O +primo João, entregará ao primo Leopoldo, e á minha boa amiga e antiga +discipula, um movel que contém setenta mil crusados, que tanto importa o +dote d'esta excellente esposa, de que meu respeitavel pae estava de +posse. Não foi entregue ha mais tempo, porque só agora se acabou de +liquidar e receber... + +Um raio, que n'aquella occasião tivesse cahido na sala, não deixaria +ficar mais assombrados Leopoldo, Arthur e D. Anna, do que ficaram ao +ouvirem aquellas palavras de D. Maria da Gloria! Póde comprehender-se, +mas não é descriptivel, a scena muda que entre elles teve logar. Arthur +Soares, pelo auxilio de seu natural talento, e por um d'aquelles raros +expedientes, que Deus concede repentinamente ás almas que o merecem, +abrangeu a difficuldade da situação, e desembaraçou-a maravilhosamente: + +--É á snr.^a D. Maria da Gloria, que devo explicar o assombro em que +ficaram estes felizes esposos, pela remessa que lhes faz meu illustre +padrinho, e senhor Sebastião da Mesquita, logo em seguida a outra de +igual genero de que eu fui portador... Tudo se aclara com a narração da +verdade, ficando eu apenas com a macula de imprudente, por me precipitar +na entrega... O snr. Sebastião da Mesquita, havia-me encarregado da +cobrança de varios creditos e dividas, exigindo-me a maior actividade, +porque pertenciam, me disse elle, ao dote da snr.^a D. Anna, que meu +padrinho desejava entregar o mais breve possivel... O emprego do tempo +n'essa cobrança, o desejo de prestar um serviço á minha companheira de +infancia, e a necessidade de marchar immediatamente para a cidade do +Porto, onde me chamam os deveres de voluntario da causa popular, tudo +isto junto á irreflexão, que eu mesmo classifico de imprudencia, +arrastou-me aqui, a fazer a entrega do por mim recebido, sem ter, como +devia, uma prévia conferencia com o meu illustre mandatario, que, pelo +que observo agora, desconfiou da minha actividade, e foi enviando o que +já era em seu poder... + +--Deve ter sido assim, snr. Arthur Soares. E como meu excellente pae +sabe guardar bem os seus segredos, não me confiou essa missão de que o +encarregára... É grande a quantia pelo snr. Arthur recebida? + +--São, apenas, trinta mil cruzados. + +--Então, já a minha Annitas tem um dotesinho rasoavel... cem mil +cruzados... É um pequeno regato, que pouco volume augmenta ao oceano que +possue o marido, bem sei; mas que já chega para alfinetes, e para ter +meia duzia de dias, cada anno, hospedada a sua mestra... Consente, primo +Leopoldo, que eu seja, por algum tempo, hospeda de sua esposa? + +--A esse consentimento, é nossa prima D. Anna que hade responder. Da +parte que eu tenho n'esta casa, dispõe V. Exc.^a como de cousa sua, que +é... O que me parece descobrir na pergunta da minha querida prima D. +Maria, é vontade de estar aqui só com a sua discipula; e eu sou +obrigado, pelos meus deveres de militar da rainha, a senhora D. Maria +II, a fazer-lhe a vontade, porque hoje mesmo devo retirar-me, para +reunir-me ao exercito. + +--N'esse caso, mano Leopoldo, vamos todos até Guimarães, onde fiquei de +encontrar-me com o snr. Sebastião da Mesquita... Acompanha-nos, snr. +Arthur Soares? + +--Com todo o prazer, snr. João de Lencastre: não é grande a volta na +jornada que tenho a fazer para a cidade do Porto, onde sou esperado na +qualidade de soldado do governo supremo do reino... + +Para melhor intelligencia da scena que se deu após as narradas, e com +que vamos fechar este capitulo, é necessario descrever as posições que +occupavam na sala os differentes actores. + +D. Maria da Gloria e Arthur Soares, conversavam a meia voz no vão de uma +das janellas de varanda, quasi no fim da sala, semi-occultos pelas +cortinas, a bastante distancia das de mais pessoas. D. Anna, occupava, +no meio da sala, um logar junto do precioso movel, onde movia +maquinalmente alguns dos objectos que o adornavam. João Vidal, ou de +Lencastre, estava sentado a um dos lados, folheando um album de +pinturas; e Leopoldo, na extremidade da sala, opposta ao lado occupado +por D. Maria e Arthur, conservava-se de pé, encostado ao pedestal de um +magnifico relogio, com a cabeça levemente pousada sobre os dedos da mão +esquerda. + +D. Maria da Gloria e Arthur Soares, estavam muito interessados no seu +confidencial dialogo. A joven senhora, não acreditára na explicação, +dada por Arthur, ácerca dos seus trinta mil cruzados, e apertava-o com +raciocinios, que deviam leval-o, inevitavelmente, á confissão da +verdade. + +D. Anna, reunia em sua mente as menores circumstancias de sua vida, +avaliava os ultimos acontecimentos d'ella, e via, ainda que com pouca +clareza, que estava sendo o alvo de generosidades extraordinarias. + +Leopoldo, só era dominado pelo ciume: reconhecia, mau grado seu, as +vantagens moraes do seu rival, e tremia de intima raiva. + +João, o antigo escudeiro, e moderno fidalgo por bastardia, senhor de +quasi todas as intrigas que agitavam os seus parentes e amigos, fingia +prestar muita attenção ás paizagens que examinava, e não perdia um só +dos movimentos dos que o cercavam. + +D. Maria triumphara, em fim, do seu docil adversario: obrigara-o a +confessar o que fizera, e a pedir-lhe segredo para o seu brioso +procedimento. A gentil e fidalga donzella, vendo realisadas as suas +suspeitas, e abysmada na grandeza d'alma do seu idolo, apertou-lhe as +mãos meigamente, e saltaram-lhe dos olhos lagrimas alegres. D. Anna, +vira aquelles movimentos, preadivinhára o que se havia passado, +chegou-se a elles, e exclamou, entre lagrimas de reconhecimento: «Meus +bons amigos!» deixando em seguida cahir a cabeça no seio de D. Maria da +Gloria.--Era bello aquelle grupo! + +Leopoldo, acompanhára aquellas expansões de gratidão com olhos ferinos. +De repente, perdeu a côr, sacudiu fortemente a cabeça, e dirigia-se, com +passos mal seguros, ao grupo encantador. Não podemos calcular o que +teria succedido, se aquella prêsa do ciume não fosse logo interrompida +nos seus passos pelo irmão que, com o album aberto, lhe disse: + +--Tem bellissimas pinturas este album, mano Leopoldo... Esta, que parece +ser o emblema do ciume, é realmente curiosa... Figura uma bella mulher +com apparencia de inquietação, e ar de quem escuta... As suas roupas são +da côr das ondas do mar: tem na mão direita um ramo de espinhos, e na +esquerda um gallo... Mantém-se na attitude do desassocêgo e curiosidade, +e a côr dos vestidos indica a perturbação da alma... O ramo de espinhos +denota que os tormentos do ciume são acerbos e agudos, e o gallo é o +symbolo da suspeita e vigilancia... É curioso, muito curioso!... O seu +braço, mano Leopoldo, e vamos até á proxima saleta, onde quero fazer-lhe +entrega do movel em que lhe fallou a snr.^a D. Maria da Gloria, e +conversar em cousas de commum interesse... + +E sem dar occasião a evasivas, foi arrastando Leopoldo, que se deixou +conduzir sem resistencia, já mais ou menos conscio do ridiculo de que o +irmão o salvava. + + + + +IV + +O BERÇO DA MONARCHIA + + + «Querem alguns que seja esta villa o assento da cidade de Araduca, + de que Ptolomeu faz menção; é porem incerta a conjectura, sendo + certissima a sua veneranda antiguidade.» + + (O PANORAMA DE 1867.) + + «A antiga Guimarães foi fundada pelos gallo-celtas, quinhentos annos + antes da éra christã.» + + (PADRE CARVALHO) + + + «As fabricas de cortumes produzem annualmente um valor superior a + cento e cincoenta contos de reis. O commercio das linhas pannos de + linho e ferragens, é importante, apesar de ter decahido depois do + tratado de 1810 e da independencia do Brazil: todavia ninguem ainda + hoje negará o incontestavel merecimento dos tecidos de linho + adamascados, fabricados em Guimarães, que em duração e primor d'obra + por certo que não tem rival. Calcula-se que os tres ultimos productos + industriaes que apontamos, não rendem menos de oitenta contos de reis + por anno. Os doces de fructas confeitados n'esta villa, renderam, no + anno de 1835, seis contos de reis.» + + (GEOGRAPHIA DE URCULLU.) + + +Parece fóra de duvida, que esta bella povoação do Minho, elevada +modernamente á cathegoria de cidade, teve, no seu começo, duas +existencias distinctas, e muito separadas na ordem do tempo, ambas com o +nome de--Guimarães--; se é que não serviu tambem de local á antiquissima +cidade de Araduca, como querem muitos e mui abalisados auctores. + +É Guimarães uma das terras heroicas de Portugal, por titulos +honrosissimos. Mais do que ao facto de ter sido o berço do primeiro rei +portuguez, o snr. D. Affonso Henriques, que após a gloria de ter fundado +e consolidado o reino e a monarchia portugueza, morreu em geral opinião +de santo, como é affirmado na chronica dos conegos regrantes de Santo +Agostinho, e na terceira parte da Monarchia Lusitana; mais do que á +contestada, ainda que muito auctorisada, versão de ter sido a patria do +famoso Papa S. Damaso,[8] que mereceu, ao sexto concilio de +Constantinopla, o dar-lhe os nomes de--Diamante da Fé--; mais do que á +justa fama de ser um povo notavelmente commercial e industrial; mais +finalmente, do que á sua immensa riqueza,--deve Guimarães, o seu bom +nome, aos feitos emprehendedores e gloriosos de um grande numero de seus +filhos, na guerra, nas artes, nas sciencias, em todos os ramos dos +conhecimentos humanos, e á magnifica e incomparavel indole de todos +elles, que sempre souberam reunir á bravura do leão a mansidão do +cordeiro, á intrepidez a resignação, e ao uso da caridade a facilidade +no perdão das injurias. + +Nomearemos alguns dos mais antigos e gloriosos nomes dos heroicos filhos +de Guimarães: + +Gil Vicente, filho de Martim Vicente, o fundador do theatro portuguez, e +distincto artista, que fez a Custodia de Belem.[9] + +Pedro Alves, artista de notavel merecimento, que, com mais outros +contemporaneos seus, tornou florescente a ourivesaria de Guimarães, +pelos annos de mil quatro centos e cincoenta a mil quatro centos e +oitenta. + +João Gonçalves, mais conhecido pelo nome de _Engenhoso_, o introductor +do serrilhado na moeda. + +Payo Galvão, filho unico de Pedro Galvão e de sua mulher D. Maria Paes; +entrou em tenra idade no convento de Santa Marinha da Costa, no anno de +1178; enviado á Universidade de Paris, recebeu lá o grao de mestre de +theologia. Regressando ao seu convento e mosteiro da Costa, foi elevado +á dignidade de mestre-escóla da real collegiada. El Rei D. Sancho I, o +nomeou, em 1198, seu embaixador em Roma, onde foi muito estimado pelo +Papa Innocencio III, que o fez seu vice-cancellario, poucos mezes depois +da sua chegada: cardeal diacono, no anno de 1206; presbytero cardeal de +Santa Cecilia, no anno de 1211; e bispo Albanense, no anno de 1215. +Completou, este douto varão vimaranense, a sua gloriosa carreira, +acompanhando, na qualidade de seu--legado apostolico--, o general João +Breno, á conquista de Jerusalem, enviado pelo Pontifice Honorio III. + +O doutor Gaspar de Carvalho, que foi chanceller mór do reino, do +conselho de El-Rei D. João III, e tambem seu embaixador e testamenteiro. + +O doutor Balthasar de Azevedo, que foi desembargador da supplicação. + +O padre fr. Paulo do Valle, da ordem de S. Bento, que foi mestre de +theologia na Universidade de Coimbra. + +O doutor Diogo Lopes de Carvalho, senhor dos coutos de Abadim e +Negrellos, que foi môço fidalgo da casa de El-Rei, e seu desembargador +do Paço. + +O doutor Gonçalo Dias de Carvalho, o primeiro legista portuguez, que +começou a estudar em Guimarães, no Mosteiro de Santa Marinha da Costa, +de frades Jeronymos. Foi o primeiro doutor que na Universidade de +Coimbra tomou capêllo, e foi desembargador dos aggravos, e deputado da +meza da consciencia. + +O doutor Balthasar Vieira, môço fidalgo da casa d'El-Rei, que foi +corregedor da côrte. + +O licenciado Manoel Barbosa, que escreveu com muito conhecimento sobre a +ordenação, que foi distincto antiquario e genealogista dos de mais +credito. + +O insigne doutor Agostinho Barbosa, filho do precedente, que foi bispo +de Cisgento, e publicou obras utilissimas, apreciadas dentro e fóra do +paiz. + +O doutor Simão Vaz Barbosa, filho tambem do jurisconsulto Manoel +Barbosa, que foi mestre em artes, e escreveu o seu livro do _Axioma_. + +O doutor Antonio Pereira Cardote, que teve a gloria de vêr adoptada, +pela Universidade de Salamanca, a doutrina que ensinou na Universidade +de Coimbra. Dizem os mais auctorisados, quanto imparciaes, chronistas, +_que se a villa de Guimarães não tivera dado de si outro parto, bastava +este sujeito para o seu maior credito_. + +O padre fr. Antonio da Luz, religioso de S. Bento, insigne theologo, e +lente na Universidade de Coimbra. + +O padre mestre, fr. José de Oliveira, religioso dos eremitas de Santo +Agostinho, lente de theologia em Coimbra, e feito bispo de Angola, por +El-Rei D. Pedro II. + +O doutor Gaspar de Abreu de Freitas, commendador da Ordem de Christo, +desembargador e conselheiro da fazenda, môço fidalgo da casa de El-Rei, +e seu enviado a Hollanda, Inglaterra, e Roma. + +O desembargador João de Guimarães, embaixador duas vezes á Suecia, +Inglaterra, e Hollanda, moço fidalgo, commendador de capa-rosa, na ordem +de Christo, e deputado da Mesa da consciencia. + +O doutor João de Gouvêa da Rocha, desembargador na relação do Porto, na +dos aggravos, em Lisboa, e no Paço, moço fidalgo, e cavalleiro professo +de habito de Christo. + +O doutor Pedro da Rocha de Gouvêa, irmão do precedente, desembargador do +Brazil, e depois da supplicação, e cavalleiro da ordem de Christo. + +O doutor José Peixoto de Azevedo, desembargador dos aggravos, em Lisboa. + +O doutor Jeronymo Vaz Vieira, juiz das ordens militares, deputado da +mesa da consciencia, desembargador dos aggravos, juiz da corôa, e +desembargador do Paço. + +D. Gabriel da Annunciação, conego de S. João Evangelista, que foi bispo +de Annel, do arcebispado de Evora. + +D. Manoel Affonso da Guerra, que foi bispo de Cabo-Verde. + +O doutor Pedro de Sousa, que foi lente de Vespora. + +O doutor Christovão de Azevedo, fisico-mór do reino. + +O doutor Francisco Cibrão, medico notavel, e muito conhecido e apreciado +em Lisboa. + +Manoel Gonçalves, o trovador, morador no _burgo_ da rua de Couros, que +foi o primeiro homem que n'este reino fez trovas. + +Manoel Thomaz, que compoz a noticia das guerras d'entre Douro e Minho, +em _oitava rima_. + +Manoel de Faria e Sousa, homem que se fez conhecido e admirado, dentro e +fóra do paiz, pelo acerto, erudição e credito de suas obras, em que se +mostrou profundo conhecedor, não só das antiguidades de Portugal, como +tambem da Africa, Asia, e America. Foi sepultado no Mosteiro de +Pombeiro, ao pé do magestoso tumulo de D. João de Mello e Sampaio, +antigo commendatario d'aquelle Mosteiro. + +Martim Ferreira, que salvou Guimarães do sitio que tentava pôr-lhe o +exercito castelhano, alojado na _veiga das favas_; e que, por uma +cutilada que então recebeu no rôsto, ficou appellidado--o Martim +Narizes. + +Manoel Machado de Miranda, senhor do _casal dos Cavalleiros_, e +residente no seu _palacio do arco_, na rua de Santa Maria, poderoso +fidalgo, que prestou assignalados serviços ao rei e ao reino, obrigando +seus filhos a continual-os. + +Manoel Machado, filho do precedente, que morreu em uma batalha naval +pelejada com os turcos. + +Francisco Machado, irmão d'aquelle, que morreu na India, no posto de +capitão de infanteria, batalhando pela patria. + +Fr. Gualter Machado, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na +religião de João de Rodes, que perdeu a vida em um assalto contra os +turcos. + +Fr. Martim Pereira d'Eça, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na +religião de João de Rodes, que, depois de ter batalhado com notavel +valentia ao lado de seus irmãos, regressou ao reino, que encontrou em +guerras contra Castella, e logo tomou as armas em defeza da patria, +sendo mestre de campo de um _terço de volantes_, e capitão duma +_companhia de cavallos com o titulo de couraças_. Celebradas as pazes +entre os dous reinos, entrou o guerreiro em mais brandas, fadigas: foi +occupado em visitador das commendas da sua religião, d'onde passou a +recebedor d'ellas; e, estando n'esta occupação, foi, por algum tempo, +governador do priorado do Crato. Foi tambem commendador de Torres +Vedras, e de S. João da Carvoeira. + +João Machado d'Eça, irmão dos precedentes, que serviu importantes cargos +no Alemtejo. + +Gregorio Ferreira d'Eça, irmão dos precedentes, que foi capitão-mór de +Guimarães, e governador de sua comarca, militar valente, fidalgo da casa +d'El-Rei, e cavalleiro professo do habito de Christo. + +Pedro Alvares de Almada, cavalleiro valeroso, possuidor do morgado e +cazas do _Rocio da Tulha_, que, depois de ter batalhado n'este reino e +no de Hespanha, passou a servir El-Rei Henrique de Inglaterra nas +guerras contra os mouros; e taes valentias praticou, que mereceu a este +rei um alvará, (datado de 2 de março de 1501) «_em que lhe entregou, e +livremente doou, parte determinada de suas armas reaes, a saber: ametade +de uma flôr de Lyrio de ouro, e ametade de uma rosa vermelha, em campo +dividido em duas partes, e em duas côres, como é, de uma parte de verde, +e da outra de prata; para que elle, e todos os seus descendentes, e +parentes, assim conjunctos por sangue, ou affeniedade, possam usar das +mesmas armas segura e livremente, aonde cada um quizer, assim como se +forem suas proprias armas._» + +Fernão da Mesquita, chamado--o velho--, possuidor da _casa da rua da +Infesta, com sua capella de Nossa Senhora da Graça_, que acompanhou, com +grande dispendio de sua fazenda, ao duque de Bragança, D. Jaymes, na +tomada de Azamôr, no anno de 1513, partindo depois para a India, onde +fez as suas proezas, que se lêem na Chronica d'El-Rei D. Manoel, cap. +46. + +Ruy Mendes da Mesquita, filho do precedente, que acompanhou o infante D. +Luiz, filho d'El-Rei D. Manoel, á tomada de Tunes, passando depois +tambem á India, onde, por seus valorosos feitos, honrou as cinzas de seu +pae, honrando a patria. + +Fernão da Mesquita e Lima, o Novo, filho do precedente, que, aos 18 +annos de idade, ganhou na guerra de Tangere, uma commenda da ordem de +Christo, e, dous annos depois, foi capitão mór da Costa. + +Diogo Lopes da Mesquita, irmão do precedente, que foi intrepido capitão +da fortaleza de Maluco, na India. + +Miguel Lopes da Mesquita, filho do precedente, e digno imitador do valor +e virtudes da familia dos Mesquitas de Guimarães, que teve a honra de +hospedar, na sua casa da rua da Infesta, o infante D. Luiz, filho de +El-Rei D. Manoel, em agosto de 1548. + +Diogo da Mesquita, outro filho de Fernão da Mesquita, o velho, _que, +melhor que todos, realçou e eternisou_ seu nome. Foi mandado pelo +viso-rei da India, Nuno da Cunha, por embaixador a um rei mouro; e, +sendo captivo do rei de Cambaya, por não querer renegar a sua fé, e a +sua patria, _foi posto na bocca d'uma peça de artilheria_, sem que um +tal apparato o amedrontasse; e, porque só o quizessem intimidar, e não +matar, o pozeram a resgate, e resgatado foi, _por subido preço_. Vingou +suas affrontas, matando, em combate, o rei de Cambaya, _que era senhor +de tres reinos_; e por este feito se accrescentaram ás suas armas _tres +corôas e um alfange_, como diz Diogo do Couto, na decada 4.^a, livro +4.º, capitulo 9.º + +Manoel da Mesquita, filho do precedente, que foi capitão da fortaleza de +Chacel, na India. + +Fernão da Mesquita, irmão do precedente, que serviu nas Armadas, no +tempo d'El-Rei D. Sebastião. + +Antonio Pereira da Silva, fidalgo da casa d'El-Rei, _morgado rico, e +possuidor de casas nobres na rua de Santa Maria_, que acompanhou El-Rei +D. Sebastião á batalha de Alcacer Quibir, onde foi captivo. Resgatado, +embarcou para a India, e serviu como bom cavalleiro, na guerra contra os +turcos. + +Salvador Pereira da Silva, filho natural do precedente, que foi mestre +de campo em Ceilão, sendo general D. Jeronymo d'Azevedo; e depois foi +capitão mór da Armada, que foi ao cerco de Malaga. + +Antonio Peixoto de Carvalho, moço fidalgo da casa d'El-Rei, morgado da +Pousada, _com suas casas_ _na rua do Val de Donas_, que serviu na guerra +da India, _contra os infiéis_, onde acabou a vida. + +João Vasques Peixoto, irmão do precedente, ao qual fez doação do +morgado, que tomou o habito de S. João de Rodes, e mostrou seu valor nas +guerras de Malta, sendo feito commendador da sua ordem. + +João de Sousa Alcoforado, moço fidalgo da casa d'El-Rei, _que deixou +mulher, e filhos, e o morgado e casa de Villa Pouca_, para servir a +patria, nas guerras da India, levando em sua companhia dous de seus +filhos, Manoel de Sousa da Silva, e Francisco de Sousa Alcoforado. + +Simão Rebello de Valadares, que embarcou para a India sem licença de seu +pae, João Valadares, residente na rua de Santa Maria, e foi um dos mais +valentes soldados do seu tempo. Morreu juncto da muralha de Ceilão, +ficando-lhe, na escalada, os braços dentro da muralha. + +João Martins, Annadel mór dos espingardeiros de Guimarães, senhor do +morgado do Pinheiro, que deixou mulher e filhos, fretou uma náu á sua +custa, e mettendo-se n'ella, _com gente e armas tambem suas_, +acompanhado de seu irmão Fernão Martins, se offereceu a El-Rei D. +Affonso V, para o seguir na viagem que fazia a Azamôr. Por seus +valerosos serviços, mereceram estes dois irmãos, _grandes mercês e +honras_. + +Pedro Coelho, da rua de Santa Maria, que acompanhou El-rei D. Sebastião +á Africa. Ficou captivo, e foi escravo _de dous senhores_. Resgatado, +_com muito trabalho e dispendio de sua fazenda_, foi cavalleiro professo +do habito de Christo. + +Salvador da Costa e Almada, morador na _rua Nova do Muro_, embarcou para +a India, onde foi _cabo de_ _tres fustas_, que o governador, Mathias de +Albuquerque, mandou á costa de Ceilão. + +Gregorio da Costa do Valle, tambem da rua Nova do Muro, thio do +precedente, que foi capitão da Costa, por El-Rei D. Manoel, e morreu na +India, pelejando com grande valor contra os turcos. + +Gaspar Leite Pereira, da rua do _Cano das Gasas_, que embarcou para a +India no anno de 1559, e, por seu valor, foi provido no cargo _de +Tanaydar e Manorá, nas terras de Baçaim_. Foi depois mandado, por El-Rei +D. Sebastião, á costa de Guiné, por capitão do navio--S. Nicolau--. + +Antonio Leite d'Azevedo, sobrinho do precedente, que tambem, na India, +mostrou o seu valor, como diz _A vida do irmão Pedro de Basto_, liv. +2.º cap. 13.º + +Gonçalo Paes de Meira, da rua de Santa Barbara, que acompanhou Martim +Ferreira na façanha da _Veiga das favas_, onde foi desbaratado o +exercito de D. Henrique 2.º, de Castella, que tentava pôr cêrco a +Guimarães; causando, por outra vez, em 1371, ao mesmo rei, graves +desgostos, porque elle, e seus dois filhos, Estevão Gonçalves de Meira, +e Fernão Gonçalves de Meira, acompanhados de quarenta cavalleiros, +obrigaram o rei de Castella a levantar o cêrco. + +Affonso Lourenço de Carvalho, que, estando de posse de Guimarães o rei +de Castella D. João 1.º, serviu, _por sua traça_, de poderoso +instrumento á conquista que d'ella fez El-Rei D. João I de Portugal. Foi +o caso, que estando El-Rei de Portugal, com o seu exercito, _na ponte do +Sueiro, juncto á ponte de Servas_, Affonso Lourenço de Carvalho lhe deu +parte, que conseguira do porteiro e guarda da _porta do postigo_, que +esta lhe abrisse, para elle metter em sua casa uma cuba em um carro; e, +aproveitando El-Rei o aviso, entrou por alli, _com trezentos de +cavallo_, ficando senhor de Guimarães, depois de combate. + +Manoel de Valadares Vieira, que foi dos primeiros soldados filhos de +Guimarães, que, na provincia de entre Douro e Minho, assentou praça, +deixando o interesse de seu morgado, de que era unico herdeiro, para +servir na feliz acclamação de D. João 4.º. Foi capitão e sargento mór +de infanteria, e governador da praça de Monte Alegre. + +André Pinto Barboza, que militou n'este reino e no Brazil, chegando a +mestre de campo e governador da praça de Miranda, e provedor mór de +Pernambuco. + +Francisco de Meira Peixoto, que serviu em duas armadas, occupando tambem +o posto de capitão de infanteria. + +João Leite de Oliveira, que deixou a agricultura, que exercitava na sua +quinta _de Pombeiro_, para se alistar _na milicia de Flandes_, onde, por +seu valor, mereceu o posto de capitão, morrendo, no de general de +artilheria, com grande nome e fama. + +Sebastião Salgado de Faria, que, _na guerra de Flandes_ foi _um dos +capitães de cavallo de couraças_ com melhor nome no exercito. + +Jeronymo de Figueiredo, que, nas guerras com os castelhanos, chegou ao +posto de _tenente de mestre de campo general_. + +Dionisio da Cunha, que foi valente capitão de infanteria. + +Pedro Coelho de Miranda, que foi capitão dos _privilegiados de Nossa +Senhora da Oliveira_. + +João Botelho Leite, que foi capitão de infanteria, e um dos que +promoveram a feliz acclamação de D. João IV. + +João Rebello Leite, filho do precedente, que, no _primeiro rebate que em +seguida á feliz acclamação, os gallegos deram_ na fronteira do Minho, +foi prisioneiro e levado, _com oito feridas_, ao castello de +Compostella, d'onde, após dezoito mezes de prisão, fez _uma fugida +valorosa_, chegando depois a mestre de campo, e, _com lastimosa +desgraça, morreu de veneno_. + +João Machado de Miranda, que, deixando em serviço da patria os bens em +que succedia, militou com grande valor, chegando ao posto de mestre de +campo de infanteria, _e de cavallos_; e, indo a Santarem _reformar o seu +terço, foi captivo da morte por um reparado manjar, que lhe serviu a sua +mulata_. + +Fernão Ferreira da Maia; José Peixoto de Sousa; Francisco de Macedo; +João Barroso de Azevedo; Jacintho Leite Pereira; André de Sousa Homem; +José Machado Pinto, e Manoel Velho do Couto, que todos occuparam postos +de _capitães volantes_, no exercito da provincia do Minho. + +Diogo de Freitas, que foi capitão de infanteria. + +Antonio Paes do Amaral, cavalleiro do habito de Christo, e _ajudante de +cavallaria_. + +Antonio de Andrade e Valle, que foi _ajudante de Infanteria_. + +João de Sousa e Lima, que foi _alferes do mestre_ de campo de +infanteria. + +Paschoal da Costa, que foi capitão de infanteria. + +Francisco Machado de Miranda, que foi capitão de infanteria; e Antonio +de Barros, que foi _capitão de volantes_. + +Esta lista seria infinda, se continuassemos a esgravatar nas +gloriosissimas antiguidades d'este nosso Portugal, e aproveitassemos +tudo, que respeita a Guimarães. + +E não é só ao sexo forte, que o berço da monarchia deve o seu nome +famoso: foi distinctissima vimaranense, entre outras de menor fama, +Joanna Michaella, filha de Pedro Machado e Dionizia de Macedo, e esposa +do tenente coronel de cavallaria Antonio Mendes de Brito. Era perfeita +no conhecimento e uso da lingua materna, e sabia latim, italiano, grego +e chinez: estudou philosophia, theologia, mathematica, astrologia, e +musica; chegando a ser classificada como uma das senhoras portuguezas +mais eruditas do seu seculo. + +Foram, pois, justificadamente merecidas as immensas honras, privilegios +e isempções, que os senhores reis d'este reino concederam aos moradores +de Guimarães, como não tiveram por certo, nenhuns outros do paiz; e da +mesma fórma, de toda a razão é o nobre orgulho, que ainda hoje sustenta +a briosa raça de tão heroico povo. + +E não resistimos ao estimulo de notar aqui meia duzia de nomes, que, na +actualidade, provam não ter degenerado aquelle sangue portuguez, tão +admiravelmente fertil. + +Contamos com a benevolencia dos cavalheiros, por nós apontados, para que +nos relevem o não lhes respeitarmos a modestia em preito á verdade; como +esperamos desculpa das capacidades, que, involuntariamente, esqueçamos +de nomear. + +É natural de Guimarães, o snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho, +residente hoje na cidade do Porto, notavel curioso de obras de prata e +de marfim, e celebre artista gravador de medalhas, algumas das quaes +teem sido admiradas dentro e fóra do paiz.[10] + +Nasceu tambem aqui o apreciavel rabequista, e maestro, Francisco de Sá +Noronha, que, nas suas viagens, se tem feito admirar em quasi toda a +Europa, recebendo honras, e condecorações de alguns monarchas.[11] + +É distincto, em equitação, e talvez se possa chamar o primeiro +cavalleiro peninsular, o snr. José Martins Minotes. + +São profundos jurisconsultos, e como taes conhecidos em todo o reino, os +senhores doutores Bento Antonio d'Oliveira Cardoso, e Antonio Leite de +Castro. + +É mimoso poeta e dramaturgo, o senhor doutor Antonio d'Oliveira Cardoso. + +Tem logar conhecido entre os amadores das boas Lettras, o snr. doutor +Francisco de Moraes Sarmento, apreciado já, nas suas obras, pelo nosso +bom e fecundo romancista, o snr. Camillo Castello Branco. + +Os que hoje representam os antigos fidalgos do «Berço da Monarchia», são +todos pessoas estimaveis, caritativas, e uteis. Não existe aqui, onde a +nobreza é verdadeira, esses enfatuamentos condemnaveis, que só +prejudicam seus donos. Na casa do mais distincto cidadão vimaranense, +tem facil entrada, e bom acolhimento, toda a pessoa que lhe bate á porta +por mais humilde que seja. É tambem por isto, que a nobreza vimaranense, +hoje como sempre, é por todos respeitada. + +Peza a louza do sepulchro sobre as cinzas de tres condes, que, por sua +popularidade, e importantes cargos que exerceram, deixaram no seu paiz +honrosa memoria. + +Tudo que dizemos, e muito mais que, em verdade, poderiamos dizer de +Guimarães, tem desafiado a critica mordaz _dos fortes espiritos_ do +seculo, que a chamam _terra retrógrada_. + +É certo, que o progresso material não tem entrado aqui, com a velocidade +que fôra para desejar; mas nem por isso deixam de ser plenamente +satisfeitas todas as necessidades da vida. E a cada passo vemos, para +comprovar a bondade da terra, adoptarem Guimarães, por sua patria, +muitos estrangeiros, que n'ella encontram estimação. + +Conservam-se, é tambem certo, alguns costumes de velhas datas; mas +n'estes uzos, que os modernistas condemnam, sem bem os avaliarem, ha um +certo sabôr de patriotismo, que satisfaz, e deleita, aos que não trocam +o que foi bom, no passado, pelo que é, muitas vezes, futil, e mau no +presente. + +O auctor d'estas Linhas, para que o não acoimem de suspeito, declara que +nasceu na cidade do Porto. + +Fugimos um pouco do principal fim do nosso «conto», chamando os leitores +para o local da acção, em que elle vae continuar, nos seguintes +capitulos; mas d'este desvio se podem esquivar os mais exigentes, +passando em claro as noticias vimaranenses, que damos por concluidas. + + [8] Portugal deu á cadeira de S. Pedro dois naturaes seus: S. + Damaso, de Guimarães, e Pedro Hispano, natural de Lisboa, freguezia + de S. Julião, que por pouco tempo gosou as honras do pontificado, + por morrer de um desastre no sumptuoso palacio, que mandou construir + em Viterbo. S. Damaso foi o 39.º na serie dos pontifices romanos: + foi-lhe disputada a eleição por Ursino, que as auctoridades civis + desterraram, sendo confirmada a legitima eleição de S. Damaso; + tambem o inculparam de adultero, mas foi absolvido por um concilio + de 44 bispos, reunido em Roma. Entre outras obras de sua iniciativa, + contam-se as basilicas de S. Lourenço, e a da Ardeativa, fóra de + Roma, mandando concluir outras. Combateu valorosamente as seitas + dissidentes, congregando varios concilios, e o ecumenico, em + Constantinopla, no anno de 381, ao qual assistiram 150 bispos. + + [9] Em um moderno artigo das «Artes e letras», que tem por + epigraphe: «Gil Vicente e a custodia de Belem»--lê-se: «Contemplada + a Custodia de Belem e confrontada com a Custodia de prata dourada + que se guarda na collegiada da Oliveira em Guimarães, saltava ao + espirito a existencia de uma mesma tradicção artistica, de uma mesma + escóla. Seria Guimarães que teria influido sobre o gosto da + ourivesaria em Lisboa? É certo que a tradição recolhida por Barbosa + Machado, dizia que disputavam o nascimento a Gil Vicente, Lisboa e + Guimarães. Este criterio nos dirigiu nas investigações, e no + manuscripto de Christovão Alão de Moraes, datado de 1667, que tem o + titulo de _Sedatura Lusitana_ encontramos estes factos preciosos: + «_Martim Vicente, foi um homem natural de Guimarães; dizem que era + ourives de prata; não podemos saber com quem casou; só se sabe de + certo que teve a Gil Vicente._» Isto já bastava para acreditarmos + que o auctor da Custodia de Belem era natural de Guimarães; mas o + manuscripto genealogico é mais explicito, e declara-nos que esse Gil + Vicente, filho do ourives de Guimarães, é o afamado poeta da côrte + de D. João II, D. Manoel e D. João III «_Gil Vicente, filho unico + d'este Martim Vicente, foi homem mui discreto e galante_, e por tal + foi sempre muito _estimado dos Principes e senhores de seu tempo. + Foi o que fez os autos, que em seu nome se imprimiram, e por sua + muita graça foram sempre celebrados pelos melhores que se fizeram + n'aquelle genero. Está sepultado em Evora._» O gráo de + authenticidade que nos merece este manuscripto é irrefragavel; por + que Christovão Alão de Moraes datou a Sedatura de 1667, e elle segue + esta genealogia até 1668, em que figurava o seu trisneto Manoel + Barreto de Pina, que viveu em Torres Vedras, e n'esse anno foi + procurador em côrtes.» + + [10] O mesmo artigo a que nos referimos em a nota que falla de Gil + Vicente, diz: «... e mesmo em nossos dias o grande gravador de + medalhas, José Arnaldo Nogueira Molarinho, representa para nós essa + antiga seiva artistica de Guimarães.» + + [11] O sr. Noronha é auctor da musica da «Beatriz de Portugal», + drama lyrico em 4 actos, vertido em italiano pelo sr. Luigi Bianchi, + e representado com applauso geral nos reaes theatros de S. Carlos, + em Lisboa, e de S. João, no Porto. A letra do drama, é do sr. R. C. + M. + + + + +V + +BABEL DE SABIOS + + + «Alli se ajunta bando de casquilhos, + A que o vulgo mordaz chama rafados; + .......................................... + Altercam mil questões; promptos contendem, + Promptos decidem no que nada entendem. + + (_Nicolao Tolentino de Almeida_) + + +--Antes queremos do de _Basto_, snr.^a Anastacia Mendes, do de Basto, +que é macio, e tem corpo... Diga-me... todos nós somos de segredo, e +bisarros mancebos, bem sabe... ha na sua afamada locanda algum _peixe_ +fresco?... + +--Que o houvesse, não era para os senhores, que vão comer a melhor +_carninha_ do meu fumeiro... É dia de jejum, e n'esta casa, louvado +Deus, ninguem _mistura_... + +--Não quer dizer isso, snr.^a Mendes... O que o Andrade pergunta é se +deu entrada ha pouco, no seu estabelecimento, algum animal da especie +dos _infusorios_... + +--Dos _rotarios_, snr.^a Anastacia, dos rotarios... Este Abreu é da +mesma força do Andrade... Não sabem classificar as differentes especies +de viventes, que ha no mundo... + +--Pois o Ribeiro, nossa robicunda patrôa, é de egual ignorancia aos que +censura... A fazenda, que procuravamos é da familia dos _zoophytos_... + +--_Medusas_, snr.^a Anastacia, _são medusas_... + +--Não é tal, são _radiarios_... + +--São _enthelmentes_... + +--São _arachnides_... + +--São _crustaceos_... + +--São _annelides_... + +--São _molluscos_... + +--São _mammaes_... + +--São _amphibios_... + +--Só vos esqueceram tres especies, carissimos commensaes, e eximios +falladores: a dos _insectos_, a dos _peixes_, e a das _aves_... + +--Para saber fallar é preciso saber ouvir... E quem és tu, ó mais +_peixote_ de todos os Peixotos do mundo?!... + +--Sou, com vossas licenças, talvez um cavallo, que é o unico animal que +não sabe lisongear os principes do... talento... _Bias_, um dos sete +sabios da Grecia, dizia que dos animaes ferozes, o mais temivel, é um +tyranno; e dos domesticos, o peior, um lisongeiro... + +--Que babel, senhora da Boa Hora, que babel!... Os _meninos_ são +engraçadinhos, mas eu não os entendo... Escutem todos, e _caluda_... +Chegou hontem _cousa_ de _arregalar_ o olho... Parece, pelo menos, +_varoneza_... Isso é que ella sabe fallar!... Aquella ha-de entendel-os, +de certo... E que palminho de cara!... Parece mesmo a _Madanela_ da +procissão de passos.. + +--Bravo!... + +--Bravissimo!... + +--Excellente!... + +--Soberbo!... + +--Magnifico!... + +--Surprehendente!... + +--Bom achado!... + +--Optima descoberta!... + +--Venha essa phenis!... + +--Appareça a bella!... + +--Surja a estrella polar!... + +--Dê entrada a feiticeira encantadora!... + +--Queremos ouvir a cantadeira!... + +--Venha a nós, a filha d'Eva!... + +--Aqui estou, senhores, para matar-lhes a curiosidade, e matar em mim o +nôjo da vida... Deixe-me com os seus _eruditos_ hospedes, snr.^a +Anastacia, que eu farei por sustentar a fama dos seus elogios... +Correspondo ao que de mim lhes disse a nossa _ingenua_ patrôa, senhores +curiosos!... + +--É arrebatadora!... + +--Explendida!... + +--Sublime!... + +--Não busquem outros synonimos, amaveis _sabios_, que já consumiram +palavras de mais em meu favor... Digam-me só, a que _especie de animaes_ +fico pertencendo agora?... + +--Á dos Anjos!... + +--Classifica, então, os anjos de animaes, senhor... não sei como deva +chamar-lhe?... + +--Peixoto, o mais furioso dos seus admiradores... E como se chama... _V. +Exc.^a_? Hade, ia apostar, ter algum nome de flôr, e patronimicos dos +que entraram na peninsula com o exercito romano... Eu conheço a origem +de todos os nobres appellidos: uns, procedem dos nomes das terras em que +viveram os primeiros fidalgos, e n'ellas tiveram os seus solares; +outros, de feitos assignalados na guerra; outros, finalmente, dos nomes +de toda a casta de animaes, peixes, aves, e até de instrumentos... Como +são os seus, minha formosa? + +--Quanto ao meu nome, acertou, que é de flôr, e das mais _espinhosas_... +Appellidos... Diga-me, meu caro snr. _encyclopedista_, os Bandeiras, e +os Mesquitas, serão dignos da minha... _formosura_?... + +--Lê-se, em Severim de Faria, Not. de Port., Disc. III, que o illustre +portuguez Gonçalo Pires Bandeira, vendo, na _batalha do Touro_, que um +cavalleiro castelhano levava preza a bandeira real de Portugal, investiu +com elle, e lh'a tomou das mãos, e a libertou; e por este feito insigne, +El-Rei D. João II, lhe deu por armas uma bandeira branca, com um leão +n'ella, de prata; denotando, na bandeira, a real que libertára; e no +leão, o valor e esforço que mostrára: e assim lhe deu tambem o appellido +de Bandeira, com que hoje seus descendentes se nomeiam. Diz mais, o +mesmo auctor, na mesma obra e disc. que quando El-Rei D. Affonso V +passou á Africa, a tomar Arzilla, o acompanharam cinco irmãos da familia +dos Pimenteis, naturaes de Villa Real; e como sendo entrada a cidade, os +mouros se fizeram fortes na mesquita, d'onde faziam grande resistencia, +sem poderem ser entrados; estes irmãos, tirando os cintos, e atados uns +nos outros, os lançaram a uma ameia, e subindo por elles, levantaram uma +bandeira, e por alli foi entrada a mesquita, e mortos os mouros. Por +este feito tão honrado, lhes deu El-Rei D. Affonso V, por armas, em +campo d'ouro, cinco cintos vermelhos, com fivelas de prata e tachões, e +uma bordadura azul com sete flôres de liz; por timbre um meio mouro com +uma azagaya na mão, e uma bandeira de prata; e por appellido o nome de +Mesquita. São, pois, nomes bellicosos, que ficam perfeitamente bem a... +uma leôa... + +--Acho-os _encarnados_ de mais... A côr do _sangue_, apesar das _garras_ +com que _V. Exc.^a_ me honra, affecta-me a sensibilidade nervosa... +Ficarei só com o nome do baptismo... Antes da sua _historica_ +dissertação, creio que estavamos na altura dos... _animaes anjos_?... + +--Distingo: existem anjos _animaes racionaes_, desde que a cubiça, ou o +amor, levou a nossa primeira mãe ao estado de completa nudez, pelo +peccado commettido no Eden, onde vivia com o seu Adão; desde que um +moço, das maiores esperanças, se precipitou no mais caudaloso rio da sua +patria, levando as algibeiras carregadas de chumbo, porque a mulher a +quem amava, querendo dar-lhe uma chicara de chá, teimou em laval-a +primeiro, por se ter servido já d'ella para o mesmo effeito; e desde que +eu, que recebi das Musas a chave de todos os seus segredos, de Minerva o +cofre de todas as sciencias, e de Marte a _vazilha_ da intrepidez, me +declaro em ruinas d'um pavoroso affecto pela pessoa de... _V. +Exc.^a_!... + +--O snr. faz-me recordar uma anecdota, que vou contar-lhe: O papa +Adriano edificou um collegio em Lovaine, no qual mandou pôr a seguinte +inscripção:--Utrecht me alevantou, Lovaine me deu agua, Cesar me deu +esplendor;--um curioso accrescentou-lhe por baixo: Só Deus não fez aqui +nada... Deixo a _moralidade_, á perspicacia do snr... Peixoto... +Pareceu-me ter-lhe ouvido que assim se appellidava? + +--Para em tudo lhe dar prazer, snr.^a... das anecdotas... Sem embargo do +seu espirituoso apologo, minha bella, continuo a deixar sangrar a veia, +dando-lhe parte, que os primeiros espelhos foram de metal; que Moysés +faz d'elles menção; e que Cicero attribue o invento a Esculapio, deus da +medicina. Foi no tempo de Pompeu, que se fabricaram em Roma os primeiros +espelhos de prata. Plinio falla d'uma pedra brilhante, provavelmente o +talco, susceptivel de dividir-se em laminas que, postas sobre um plano +metallico, reflectem perfeitamente os objectos. Os primeiros espelhos de +vidro appareceram na Europa no fim das cruzadas: Veneza, que primeiro +soube fabrical-os, viu enriquecer os seus negociantes, e exportou estas +manufacturas preciosas, para todos os estados do mundo, onde hoje tanto +abundam... Só não tenho agora aqui, á mão, um d'esses primores da +invenção humana!... Queria mostrar-lhe o quanto lhe fez realçar a +peregrina formosura, a satyra com que tentou emmudecer-me, oh imperatriz +das bellas!... + +--_Copia_ admiravelmente de _memoria_, snr. Peixoto... Sinto dizer-lhe +que, para _v. exc.^a_, só poderá servir de _espelho_ o lago em que +_Narcizo_ se namorava da sua esbelta figura... + +--Ou o rio em que se reflectia o sabujo, que trocou a preza certa, que +levava nos dentes, pela sombra que vira na corrente... Póde fallar-me +com desassombro, que eu tudo sei affrontar pelo amor da mulher, que +reune, á seducção material, a faisca do genio, com que me apraz +emparelhar... + +--É _nimiamente modesto_, o snr. Peixoto... Contou-me a origem dos +espelhos, contar-lhe-hei a origem dos _orgãos_... São uns instrumentos +de _vento_, compostos de _folles_, _teclado_, e grande numero de +_canudos_... Querem os _chins_, que a invenção de tal instrumento seja +devida ao seu imperador _Hoang-Ti_, que existio, antes de Jesus Christo, +2:601 annos... Se estivessemos no seculo 12.º, atrevia-me a chamar a +_v. exc.^a_ um _magnifico órgão_... + +--E porque não, n'este seculo das luzes, e de todos os _instrumentos_ +possiveis?... + +--Porque desde o seculo 13.º usam-se orgãos nas egrejas, e os logares +sagrados não pódem agradar aos... _materialistas_... + +--Não me assenta bem o nome, minha arisca formosura, porque o +materialista não admitte no universo ente algum espiritual; e eu estou a +reconhecel-o em Guimarães, aqui, n'este logar em que discorremos, na +pessoa de minha... adversaria... + +--Tambem é _diccionarista_?... A definição que acaba de fazer parece-me +_textualmente_ lida n'um dos modernos diccionarios... + +--Serei tudo que quizer chamar-me, menos _plagiario_. São exclusivamente +minhas as ideias que expendo. Em mim realisa-se o phenomeno da sciencia +innata. Não roubo alheios pensamentos, antes deixo que me roubem +descaradamente as minhas famosas theorias sobre... + +--Sobre _principios elementares de mathematica_, talvez, em que és +fortissimo... Ora, acaba com a sécca, que nós tambem sômos gente, e +sabemos que, duas vezes cinco, sommam dez... + +--Deixem-me, apenas, concluir por fazer um convite a esta feiticeira... +Quer assistir a um baile de costumes, que hoje se dá na casa do _Arco_? + +--Como ha-de lograr introduzir-me lá?... + +--Acompanhando-a, e dando-lhe uma das senhas, que servem para esse fim; +e como só se tiram as _caraças_ na occasião da ceia, querendo conservar +o incognito, retira-se antes d'ella... Serve-lhe? + +--Talvez aceite... + +--N'aquella, tão tolerante quanto illustre casa, consegues tu realisar +todos os teus intentos... Se fosse em _Villa Pouca_... + +--O Arco é mais popular... + +--Será; mas Villa Pouca é mais escrupulosa... O que devéras nos espanta, +é que tu não peças, _á tua Convidada_, qualquer remuneração pelo favor +que intentas fazer-lhe... + +--Eu não costumo sustentar _assedio_ por muito tempo; costumo, sim, +tomar as praças _d'assalto_... + +E, como para provar a sua fanfarrice quiz o fallador espadachim abraçar +a joven mulher, que lhe auguara a fôfa verbosidade; mas teve de moderar +os malcriados impetos, ao simples e carregado aspecto da que assim +queria ultrajar. + +O seu tentamen, foi presenceado por um novo personagem, que, n'aquelle +momento, déra alli entrada, e que se lhe dirigiu n'estes termos: + +--Se quizer, _senhor atrevido_, eu substituo esta senhora, para a +realisação da sua vontade; e prometto-lhe que, o _abraço_ entre nós, +ha-de ser dos mais apertados... Desculpem os restantes cavalheiros, que +não tomaram parte no desejo do insulto, a minha linguagem com o que +d'elle se queria fazer auctor... + +A mulher assim inesperadamente defendida, exclamou, no auge da +surpreza:--O snr. João?!.... + +--De Lencastre, accrescentarei, para que estes senhores fiquem sabendo +que sou _filho d'alguem_... + +A donzella Rosa, porque era ella, como o leitor terá adivinhado, após +uma lucta instantanea, de que ella triumphou para o seu intento, disse, +sacudidamente, a João Vidal, ou de Lencastre: + +--Prohibo-lhe, snr., que toque n'aquelle cavalheiro!... É... o meu +amante... + +--Seu amante!!... Foi, esta ultima exclamação, sahida simultanea e +admirativamente da bocca de todos os circumstantes; pronunciando-a, com +indiscriptivel amargura, aquelle que fôra a causa de ella ter apenas +brincado nos labios da donzella. + +Depois de um silencio d'alguns instantes, pediu João de Lencastre, aos +que alli estavam reunidos, com tão persuasiva eloquencia e vehementedor +que o deixassem a sós com a donzella, que foi immediatamente por todos +attendido. + +O que disseram, e como se encontraram n'uma casa de libertinagem estes +dous heroes do nosso «Conto», a seu tempo será explicado. + + + + +VI + +UM BAILE EM COSTUMES + + + «David dançou diante da arca da alliança, e nos primeiros tempos da + Egreja havia uma dança, que era a demonstração exterior da + dependencia das creaturas, e uma expressão primitiva de + reconhecimento.» + + «O sabio e sisudo Socrates era summamente apaixonado pelas danças, + que lhe ensinára Aspasia.» + + «O grave e carrancudo Catão, aos 60 annos, tomou mestre de dança, + para poder apparecer convenientemente nos bailes.» + + (O PANORAMA DE 1837) + + +Abrira a nobilissima casa do _Arco_ os seus salões ao publico: +dizemos--_ao publico_--, porque, o cavalheiro titular seu dono, era +prodigo nos seus convites, como em todas as suas nobres acções. Dentro +do seu palacete, nenhum dos seus convidados gosava de superioridade: +todos eram iguaes, pelo tracto que recebiam; e se alguem, estranho á +terra e ás pessoas alli reunidas, houvesse de notar algum acanhamento, +isto é, menos liberdade em todas as suas acções, apontaria o distincto +fidalgo que recebia. Tal foi sempre o especial condão de toda aquella +sympathica familia, para pôrem á vontade os seus convidados.[12] + +São tres os salões de baile, todos ao correr, havendo de cada lado do +ultimo d'elles, e ao mesmo nivel, um lindo terraço ajardinado: para o do +meio, dá entrada um soberbo salão de espera, com duas varandas, sobre o +arco, que olham para a rua, assim como os terraços. Ao salão de entrada, +e em sentido opposto aos do baile, seguem-se outros, parecendo todos, +olhando-se do ultimo d'elles para os do baile, um--T.--De sorte que, a +pessoa collocada no salão do meio defronte da porta da entrada, vê todos +os salões e os terraços. A entrada do palacete é por uma larga e bem +construida escadaria de pedra. + +N'este baile, onde se vão dar algumas scenas do nosso «Conto», foram +permittidas as _caraças_, tendo-se distribuido bilhetes, para os que +assim quizessem conservar o incognito, por algum tempo, e animar a +reunião com freneticas danças, e brinquedos innocentes. + +Desde a escada até ao ultimo salão, como nos terraços que, pela profusão +de luzes, se não sentia a falta do dia. + +O mais exigente dos convidados, deparava, no seu logar, com os objectos +que lá devessem apparecer. + +Antes de affluirem os encaretados, já se viam, no principal salão, as +nobres senhoras intimas da casa; o respeitavel senhor d'ella; Sebastião +da Mesquita; Arthur Soares; Leopoldo, e seu irmão João de Lencastre. +Estes nossos personagens foram alli hospedes, como parentes. + +Completo o ajuntamento, era bello de vêr-se. + +Aqui, um grupo de senhoras vestidas de camponezas dos arrabaldes de +Guimarães, com as saias de muita roda, os capotilhos de fina baêta +encarnada com as pontas crusadas no peito, e atadas nas costas, os seus +grossos cordões, e immensas arrecadas de ouro,--offereciam confeitos, e +raminhos de violetas. + +Alli, os descuidados e jovens lavradores, com as suas fardetas azues de +botões amarellos, camizas de linho bordado, e o inseparavel varapau, que +lhes servia de encosto para contemplarem as suas namoradas, tendo cada +um o braço esquerdo estendido sobre o pau, e a perna direita crusada +sobre a esquerda. + +Além, a irrequieta vivandeira, acompanhada de seu militar; o sevéro +magistrado assestando a luneta; o antigo fidalgo portuguez de rabicho +empoado, e de casaca e calções de setim bordado; matrônas respeitaveis, +e jovens senhoras vestidas á época, no melhor gôsto, ostentando a antiga +e bem merecida fama das formosas vimaranenses, e mostrando, pelas joias +de subido preço, que as adornavam, o esplendor e nobreza de suas +familias. + +Rompeu o baile por uma scena campestre das que no Minho, a mais poetica +provincia de Portugal, se notam com frequencia, e se apreciam sempre. + +Dos grupos camponezes foi composta uma _tocata_, de rebecas, clarinetes +e banzas; havendo um cantador, e uma cantadeira que, depois d'outros +improvisos do seu _desafio_, concluiram assim: + + «Foi o velho rei David, + o primeiro dançador; + vamos nós tambem dançar, + cada um com o seu amor. + + «Fazes mal, linda Maria, + convidar em lar alheio; + do temôr e d'altivez + a virtude jaz no meio. + + «Não te pedi o conselho, + e vem tarde a correcção; + quem á festa convidou, + agradece a minha acção. + + «O fidalgo que dá festa, + incapaz é de ralhar; + mas o sabel-o não deve, + ser motivo p'ra abusar. + + «Digam todos que me ouvem, + se eu me quiz entremetter; + seja a resposta o signal, + para a gente s'entreter...» + +E começou o baile, vivo, animado, delirante. + +Nos pequenos intervallos do bulicio dançante, e em quanto eram servidos +os convidados, tinham logar as _intrigas_ ou, sem cheiro de gallicismo, +as mystificações. + +A _vivandeira_, sempre pelo braço do _soldado_, fôra a que mais valente +se tornara em phrases de mystificar. Dirigindo-se a todos os grupos, +simultaneamente, e procurando dar á voz esse tom desconhecido que, nos +bailes d'esta ordem, faz parecer igual o metal de todas as vozes, +conseguiu, em pouco tempo, chamar sobre si todas as attenções. Além da +agudeza e propriedade dos seus dizeres, concorreram tambem, para um tal +resultado, a notavel elegancia da vivandeira, e o porte pretencioso e +audaz do militar seu companheiro. + +A Leopoldo, fallou a vivandeira assim: + +--Porque não está aqui tua mulher?... + +--Porque está n'outra parte... Tu querias conhecêl-a? + +--Conheço-a, e conheço-te... Ella é uma creatura angelica, e tu és um +marido ao qual assenta bem o adagio portuguez, que diz: «Horta sem agua, +casa sem telhado, _marido sem cuidado, de graça é caro_...» + +E finalisando com uma risadinha aquella allusão, foi dizer a Arthur +Soares: + +--Conheço a origem da sua habitual tristeza, cavalheiro... Pensa... _na +dôr de Maria_... + +--E não lhe parece motivo de grave meditação o soffrimento da Virgem?... + +--Ha dôres muito semelhantes, que não merecem ao cavalheiro o menor +cuidado... + +--Porque talvez as desconheça... + +--Não: é porque se não póde dividir _o __sentimento forte_... + +--E, quando seja assim, o culpado sou eu?... + +--Não é culpado, mas é _causa de culpas_... Quando as conhecer, saiba +comprehendel-as e desculpal-as... Adeus! + +Prepassou rapidamente por junto de João de Lencastre, e disse-lhe: + +--A palavra do homem de bem é sagrada: conto com o seu silencio... + +Em seguida foi collocar-se, sempre pelo braço do soldado, em frente de +uma distincta senhora, á qual dirigiu a palavra n'estes termos: + +--Por este meu companheiro, fui rogada, para dizer a v. exc.^a uma +impertinencia: desejava _pagar-lhe o beneficio_ de me trazer a este +baile... Dá licença que eu falle, minha senhora?... + +--Dizia minha avó, que _triste da casa, onde a gallinha canta, e o gallo +calla_... Mas como é para ser _pago_ um favor, venha de lá a tua +impertinencia... + +--Digo, fielmente, as palavras que me ensinaram: «_Queimou-se a fôrca, +cahiu o tyranno_». + +--Pena foi que elle cahisse, e ella se queimasse, antes de ter lá subido +o atrevido que te ensinou... + +--Eu, minha senhora, não tomo a mais pequena parte... + +--Acredito, dei-te licença, e não te quero mal. Aconselho-te, porém, que +te desquites d'esse companheiro: os da sua laia, substituiram a _fôrca_ +pelo _punhal_, que é mais leve, _traiçoeiro_, e menos _apparatoso_... + +O _careta_ vestido de magistrado, que ouvira o dialogo precedente, disse +ao _fidalgo antigo_, que estava ao seu lado: + +--Conheces aquella senhora, que respondeu á vivandeira com tanta +vivacidade? + +--Não é a viuva irmã do dono da casa? + +--É. Que juizo fórmas da sua alma? + +--Parece que não desgostaria de vêr continuar a _pernear_ os +_malhados_... + +--Como te enganas!... É a alma mais completa e mais sublime, que sahiu +das mãos do Creador. As suas acções, são uma perfeita antithese das suas +palavras... + +A vivandeira, livre já do peso sob que parecia vergar com a commissão do +companheiro, procurava alguem com anciedade. Percorridos todos os +salões, sem encontrar quem desejava, foi a um dos terraços, onde +Sebastião da Mesquita passeava, parecendo alheio á festa. A +_vivandeira_, mal que o vira, despediu bruscamente o soldado, e +dirigiu-se ao velho fidalgo: + +--A tristeza de que v. exc.^a está possuido, procede do conhecimento da +_fuga inesperada_ de uma donzella, companheira de infancia de sua +exc.^ma filha, não é verdade?... + +--Não conheço quem me interroga, nem sei quaes sejam os direitos que +julga ter para me interrogar... + +--Queria... desejava dar cumprimento a uma vontade e pedido da pessoa a +que me refiro... Se V. Exc.^a désse licença... + +--Tirando primeiro esse panno que lhe cobre a cara, póde fallar. + +--É que... para o que tenho a dizer e a fazer, posso conservar o meu +incognito... É só pedir, em nome _d'ella_, perdão a V. Exc.^a se algum +desgosto lhe causou com o seu procedimento, e beijar-lhe a respeitavel e +bemfeitora mão... + +--João, Arthur, meus amigos, venham cá!... É preciso obrigar esta mulher +a descobrir a cara... + +--Senhor!... Uma tal violencia, sem auctorisação do cavalheiro dono da +casa... + +--Quero-o eu!... + +A estas vozes, demasiado vivas, acudiu gente das salas, que +repentinamente conheceu a origem da altercação. + +A senhora, que déra licença á vivandeira para lhe dizer _uma +impertinência_, foi a que primeiro a protegeu: + +--Estranho que o primo Sebastião, um consummado fidalgo e cavalheiro, +tentasse fazer violencia a uma fraca mulher... Esta pequena, senhora ou +burgueza, fica, desde este momento, considerada como se fôra minha +filha!... Conserva o teu incognito, que ninguem agora se atreverá a +descobril-o... + +--Se V. Exc.^a quer, snr.^a condessa, eu levo comigo essa menina para o +convento... + +--Obrigado, Eulalinha, pelo teu bom desejo. És uma criança tão formosa +do corpo como da alma: Deus ha de proteger-te. + +--Mas, minha boa irmã, V. Exc.^a bem sabe que devemos ao primo e snr. +Sebastião da Mesquita, toda e qualquer satisfação que elle peça; não só +pela qualidade da pessoa que é, como por ser nosso parente, e meu +hospede... Talvez que essa creatura o offendesse, e... + +--Um homem, como nosso primo, nunca póde dar-se por offendido pelo que +lhe faça, ou diga, uma infeliz mulher... É a primeira vez, que ouço +fazer distincção ao meu excellente irmão das _qualidades_ dos seus +convidados... V. Exc.^a não se considerou, para assim fallar, o dono +d'esta casa... + +--De certo que não, nem podia, estando V. Exc.^a aqui. + +--N'esse caso, eu já dei as minhas ordens. + +--V. Exc.^a minha respeitavel thia e senhora, concede-me a honra de ser, +no resto da noite, o cavalheiro d'essa dama? + +--Agradeço-te a boa e fidalga intenção, meu presado sobrinho e snr. de +Pindella. Has de vir a ser competentissimo para todas as nobres acções, +assim o espero em Deus; mas és ainda muito novo para um protector. + +--E para mim, prima condessa, não serão estas cans fiança sufficiente +para receber a honra, que lhe pediu seu illustre sobrinho? + +--A V. Exc.^a, meu presado primo e snr. de Villa Pouca, que reconheço +habil para tudo que seja nobremente arrojado e distincto, peço até a +especial graça de conduzir, quando ella quizer, esta minha protegida á +sua habitação... + +--Nobres senhoras, e amaveis cavalheiros!... Penhorada em extremo pelos +favores e attenções, que me dispensam, não posso deixar, comtudo, de +pedir-lhes, que reformem completamente qualquer juizo menos favoravel, +concebido pelo procedimento do snr. Sebastião da Mesquita... Só quem o +não conheça, o poderá considerar capaz de uma acção menos nobre... +Aquelle respeitavel ancião, que nem talvez ouvisse do que VV. Exc.^as o +accusaram, está soffrendo intimas dores, como paga da sua generosa +bondade para comigo... Adoptou-me, e tratou-me como sua filha, e eu fugi +repentinamente da sua vigilancia e carinho!... Procurei vir aqui, a este +baile, só para vêr aquelle venerando velho, e beijar-lhe a bemfeitora +mão... Queria fazel-o sem me dar a conhecer, e foi a minha teimosia em +conservar o incognito, que o fez alvo de injustiças, que não merece!... +De joelhos, e com a cara descoberta, lhe pede perdão de tudo esta +infeliz, snr. Sebastião da Mesquita!... + +--Rosa!!... Como póde conservar os sentimentos que acaba de manifestar, +a mulher que... que eu não conheço!... + +E Sebastião da Mesquita, assim fallando, virou as costas á donzella, +retirando-se vagarosamente. + +O baile continuou ainda por muito tempo, um pouco frio após estas +scenas, e, para o fim, com a mesma animação do comêço. + +As dôres alheias, não tolhem as festas dos felizes. + + [12] Quando a snr.^a D. Maria II visitou o Minho, o sr. duque de + Saldanha, que fazia parte do séquito da rainha, foi hospedar-se em + casa do fallecido snr. do _Arco_. Constou ao povo, que o palacete + estava custosamente adornado, e agglomerou-se á porta, para o vêr: + os criados, não deixavam entrar; mas o illustre, e sempre chorado, + titular, deu-lhe entrada franca, não consentindo que se despojasse + dos seus _tamancos_, embora lhe inutilizasse riquissimos tapetes. + + + + +VII + +TORMENTOS INTIMOS + + + «Correu-me a vida outr'ora delirante, + Tive faceis amores, ledas glorias, + Julguei-me um dia amado e outro amante, + Sonhei promptas victorias, + E vi, em limpo céu formoso e puro, + Brilhante erguer-se o vulto do futuro. + Tumulto, agitação, rumor, bulicio + Compoz o meu viver.--Mas eis que um dia + Paro e vejo o tremendo precipicio-- + A vida, que vivia, + Era vida ficticia e descorada... + Um pouco de sussurro--e ao cabo... o nada!» + + (SILVA LEAL JUNIOR.--PRIMAVERA.) + + +Logo que João de Lencastre chegou á falla com Sebastião da Mesquita, +depois de lhe dar a rasão por que Arthur e Leopoldo o acompanhavam, e de +lhe dar conta da entrega do dinheiro e onde ficara D. Maria da Gloria, +occultando-lhe a parte que dizia respeito a Arthur Soares, porque este +muito lhe rogara que assim procedesse,--noticiou-lhe Sebastião da +Mesquita, com intimo pesar e viva inquietação, a fuga precipitada da +donzella Rosa, encarregando-o de descubrir a sua paragem, e de saber os +motivos que a determinaram a deixar a casa paterna, lançando sobre si +indelevel estigma. + +Não ficou o antigo escudeiro menos perturbado com a noticia, do que se +mostrava o velho fidalgo ao dar-lh'a: preparava-se para ir procurar a +donzella por toda a parte, quando um dos constantes visitadores da casa +do Arco, muito fallador, e do numero de sujeitos que facilmente se +relacionam com toda a gente que os quer ouvir, lhe deu, como novidade +importante, a da chegada á terra de uma _rapariga de truz_, que parecia +ser de _facil accesso_, pela pousada que escolhera, descrêvendo-a com +toda a minuciosidade. + +Agradeceu João a Deus, a veia falladora d'aquelle homem, que lhe poupára +muitas fadigas; e não o enganou a sua esperança, porque era +effectivamente Rosa a inculcada mulher, que elle foi encontrar na casa, +e na occasiâo, descripta no capitulo--«Babel de Sabios.» + +Depois que João conseguira fazer retirar os _petisqueiros_ adoradores de +Rosa, e ficara só com a donzella, empregára, para a obrigar a fallar, +persuasivos e sentimentaes discursos, orvalhados, por mais d'uma vez, +com lagrimas de mal escondida affeição. Foi tão eloquentemente +irresistivel, que a donzella confessou-lhe tudo: disse-lhe, que fugira +do seu lar, e abandonára a protecção e carinho dos nobres fidalgos seus +paes adoptivos, porque não podéra por mais tempo ter occulto no peito o +seu affecto por Arthur Soares, affecto que d'ella se apoderára por tal +arte, que só pela morte ou pela doudice podia terminar. Que sabia a +existencia de um amor, igualmente invencivel, entre Arthur Soares e D. +Maria da Gloria, senhora que ella amava como irmã; e que, para não +prejudicar com algum irreflectido procedimento seu estes amores, +resolvera fugir, e dar-se como _perdida_, embora tambem estivesse +resoluta na sustentação da sua virtude, mesmo no meio dos mais +arriscados perigos. + +João Vidal, ou de Lencastre, que a escutára com a maior attenção, depois +de um longo silencio, significativo de intimas dores, disse á donzella, +que não podendo deixar de ser já um facto conhecido do publico, a sua +fuga e paragem n'um local de descredito, inuteis se tornavam todas as +reflexões tendentes á demonstração do êrro de um tal passo; mas que elle +via um meio seguro, e menos arriscado, de tudo se fazer como a donzella +queria. Que pelo casamento d'ella Rosa, ficavam igualmente livres os +amores de sua irmã adoptiva, não se expondo a donzella á lucta terrivel +que começara; lucta que, mesmo victoriosa que d'ella sahisse, lhe havia +de trazer necessariamente a perca da sua boa reputação: que elle possuia +um nome, e uma pequena fortuna, e que, se podéssem esquecer os 40 annos +da sua idade, no seu coração havia logar para a entrada de um sentimento +sério. + +Rosa, respondeu-lhe commovida, que não era digna de semelhante honra; +que apreciava devidamente o seu brioso e caritativo proceder, e que lhe +devia por elle o nome de irmã, com a santa amisade de um tal titulo. + +Foram baldados todos os esforços, que João empregára para demover a +donzella do seu proposito, e combinaram o guardar-se absoluto segredo +ácerca do que entre elles se déra. + +No dia seguinte ao do baile, alugou João de Lencastre uma casa, situada +defronte d'aquella a que a donzella regressara; e despediu-se de +Sebastião da Mesquita, dizendo-lhe que acompanhava Arthur Soares ás +_linhas_ do Porto, onde eram precisos braços leaes para a sustentação da +causa do povo; sendo-lhe facil o convencer Arthur de que partisse sem +elle, com promessa de lá ir ter, logo que podésse fazel-o; e recolheu-se +secretamente á morada que alugára, para de lá espiar as acções de Rosa. + +Arthur Soares, caminho do Porto, levava enluctado o coração. Sabia que +era amado por D. Maria da Gloria; já se havia acostumado áquelle +affecto, o unico da sua existencia; mas não podia desterrar de si o +convencimento de que a fidalga lhe não podia ser dada por esposa. Era +certa, e bem manifesta, a estima que lhe dava seu padrinho; mas essa +estima, considerava elle mais como uma protecção das que usam conceder +os nobres senhores aos que d'ella carecem, do que amisade verdadeira, +que iguala e estreita os homens por laços fraternaes: possuia muitas +provas do desapparecimento de affeições iguaes á que lhe concedia o +fidalgo, logo que, pelo considerado e protegido, fosse ferido o orgulho +de raça do protector. Pedia, pois, a Deus, que a sorte da guerra lhe +désse occasião de elevar-se até poder chegar a D. Maria da Gloria, ou de +fazel-o descer ao esquecimento eterno, com a gloria dos bravos por +mortalha. + +Leopoldo, cuja presença, na illustre casa da hospedagem commum, fôra +tolerada por Sebastião da Mesquita em deferencia ás conveniencias +sociaes, regressava tambem ao exercito da rainha, o grosso do qual se +achava então em Coimbra, commandado pela primeira espada portugueza do +nosso tempo. + +Podia chamar-se um cadaver ambulante, o fidalgo militar, tal era o +sombrio e estragado aspecto da sua pessoa. O soffrimento d'este +desgraçado, que amava sem esperança, e que odiava por ciumes, era um +severo castigo da Providencia. Caminhava para onde o chamava o dever, +movido mais por um resto de brios, do que por empenho, e vontade, de +servir a causa a que se devotára, depois de ter renegado a popular: +n'elle só havia bem fixo, o sentimento do seu tormento intimo. + +Sebastião da Mesquita, chorava com lagrimas paternaes a má sorte a que +se entregára a donzella Rosa. Arrependera-se do seu arrebatamento no +baile, desejára poder remedial-o, receber nos braços a donzella, +perdoar-lhe a primeira leviandade, acolhel-a de novo, talvez ainda +innocente e pura, e estorvar assim a quéda infallivel, e horrenda, da +que elle considerára sempre como sua filha. Mas era já tarde; e o seu +natural orgulho não lhe consentia desmentir, com um procedimento +contradictorio, o severo porte de que usara publicamente. + +Este facto, a par da violenta dôr que lhe entorpecera as forças +physicas, fizera pensar Sebastião da Mesquita, com muita gravidade, no +futuro de sua filha Maria da Gloria. + +Por maior que seja a confiança que se deposite no caracter e virtudes de +uma filha, quando vemos no caminho da perdição outra mulher, que nos é +cara, lembra-nos logo a possibilidade de um desvio, e queremos +remedial-o com prevenções, algumas vezes, e não poucas, com bem peiores +resultados do que haveria no imaginado mal, que tentáramos evitar. + +O velho fidalgo, depois de ter conferenciado com varios cavalheiros do +berço da monarchia, onde se deteve pelo prostramento em que estava, +escreveu a D. Maria da Gloria uma carta d'este theor: + + + «_Minha muito presada Maria_: + +«O meu paternal carinho, leva-me a pensar que seja tempo de escolher-te +um esposo digno de ti, que possa, na minha falta, proteger-te +socialmente contra as ciladas sempre preparadas para as donzellas do teu +merecimento, e do teu dote. Aqui, n'esta antiga e gloriosa terra de +Guimarães, presumo eu que existe o que nos convém. Convido-te, pois, a +que venhas quanto antes ter comigo, para avaliares por ti a competencia +da minha escolha. + +«Ainda hoje recebi carta da tua santa e respeitavel mãe, que é sempre o +bom anjo do nosso lar. De certo tambem sabes, que ella está de boa +saude, por que não haverá dia em que te não escreva, como á pessoa que +ella mais ama. + +«Recebe a benção, e uma saudade, do teu extremoso pae, + + _Sebastião._» + + +D. Maria da Gloria, embebida nos fagueiros sonhos de um futuro risonho, +a que aspirava pelo seu amor a Arthur Soares, e entretida a desvanecer, +com expansivas provas da sua amisade e bom juiso, os dissabores da sua +discipula Anna, que todos eram a quasi certeza de não ser já amada por +Leopoldo, nem por sombras podia prever a fatalidade de que estava +ameaçada, com aquella ordem paterna. + +O padre Alvaro, continuava a sua vida de oração e penitencia. Pastor +exemplar, possuia o acrisolado amor das suas ovelhas, porque sabia +praticar, para com todos, a caridade que aprendêra de Christo. Ainda +assim, soffria constantemente, e muito. Havia uma campa na sua parochial +egreja, ao pé da qual elle esquecia o filho idolatrado, as suas +penitencias, o seu evangelico proceder, para tão sómente se recordar de +que fôra peccador. + +Feliz, quanto se póde ser n'este patrimonio de Eva, de todos os +personagens do nosso «Conto», só era a respeitavel e bondosa matrona, D. +Isabel de Abendanho, que tinha fechada a sua existencia em aldeia +pacifica, e resumidas as suas ambições na direcção do seu casal, no +respeito e amisade ao esposo, e no elevado amor a sua filha. + + + + +VIII + +A MULHER CAHIDA + + + «A justiça de Deus lhe infundira no coração abundancia de remorsos, + e a dos homens lhe entornava sobre a fronte amplo vaso farto de + ignominia.» + + (_A. H._--Fragmento de um livro inedito.) + + +Por mais que os homens doutamente célebres de todos os seculos tenham +querido collocar essa formosa e apreciavel parte do genero humano--a +mulher--na altura que lhe é devida, nunca a fonte sublime do amor, a mãe +e o apoio da meninice, o esteio da vida, deixou de ser conduzida por nós +a todos os sacrificios: raro é o homem que se aproxima da mulher sem que +a macule; e feita escrava de seus caprichos, é a deshonra e o +villipendio, que lhe dá em premio! + +A mulher, na sua juventude, só ambiciona o nosso amor; alinda-se para +agradar-nos, e nós damos-lhe, em vez do que nos pede, a paixão material +que a enlameia: consome-se, para conservar-nos, em sua idade adulta, +porque nos alimenta a seus peitos, arruinando a sua belleza; e nós +córamos de um pejo infame, se a maternidade não teve logar dentro de +umas certas condições sociaes, que nos imprimem a _legitimidade_: +levanta as mãos ao céu na velhice, porque a mulher é naturalmente +religiosa, dedica os ultimos annos de sua vida a orar por seus paes, por +seus filhos, por todos os desvalidos; e nós alcunhamol-a de impostôra e +de bruxa! + +Existiram sempre _philosophos_, escassos de comprehensão, e mal avindos +com a mulher, que attribuem a esta preciosa parte da nossa existencia o +vicio do sensualismo, que nos provoca. Covarde mentira! + +A perversão da moral, e o desenfreamento das vis paixões, tem sido, em +todos os tempos, o resultado forçoso de infinitas circumstancias, em que +a mulher não toma parte. + +A corrupção da Grecia, como a romana sua filha, teve origem na +philosophia de Epicuro, nos mancebos que a seguiam, e não nas +vilipendiadas matrônas d'aquellas nações. + +Antes das torpezas de Messalina, já Cesar tinha manchado o seu thálamo +imperial. + +Seriam as mulheres culpadas nos crimes, que abrazaram as duas cidades +nefandas, de que nos falla o Génesis?! + +Corteja-se a formosura da mulher; empregam-se aleives para seduzir a +incauta; fazem-se promessas mentirosas; servem todas as villezas ao +nosso proposito: um, é o dilecto de seus carinhos, e consegue o seu +amor; aconselha-lhe a fuga da casa paterna; cerca-a de algumas +commodidades passageiras; sacia-se; desampara-a; precipita-a na +profundeza da desventura; deixa-a na miseria, e no desabrigo de toda a +consolação humana! + +A nudez e a fome, tomam então logar juncto ao umbral solitario da +infeliz!... Que lhe resta?!... Vender-se!... Pedir ao primeiro que +passa, que lhe estampe na fronte o ferrete do aviltamento pelo óbulo da +infamia!... + +Depois, as dissoluções, a velhice prematura, a miseria e a doença!... + +Depois, a enxerga da caridade!... + +Depois, a valla commum do cemiterio!... + +Depois, nem uma só lagrima que lhe aqueça as cinzas; nem uma só flôr no +seu jazigo; ninguem que ore por ella a Deus!... + +E o _elegante seductor_?... + +Passou a fazer novas _conquistas_; gastou o melhor do seu vigor e da sua +fortuna, em atirar com muitas irmãs na desgraça ao lado da sua primeira +victima; pensou mais tarde em casar-se; escolheu _convenientemente a +esposa_, fez-lhe a _mercê_ do seu nome e, para vingar-se de uma +_affronta_, que _não podia_ ter o seu perdão, assassinou a mulher +adultera!............................................................... + +Rosa, luctava com animo viril contra as tentações de todo o genero de +que se via rodeada no bordel a que voluntariamente se acolhêra. +Eram-lhe, porém, já muito pesadas essas luctas desiguaes. Mais ainda que +os atrevimentos e ciladas dos vadios frequentadores d'aquella casa, +causavam asco á virtuosa donzella as suggestões das infelizes do seu +mesmo sexo, pervertidas até ao extremo de tentarem chamar ao seu grémio +as que não tinham mácula. + +Principiava a entrar na alma de Rosa o arrependimento do passo +precipitado a que se abalançara. Conhecêra, ainda que tarde, a borda do +precipicio em que estava, receiava pelas suas forças, e tremia de não +saber como fugir-lhe. + +Uma noite, foi a donzella mais atacada pelo terror: pareceu-lhe, a +deshoras, ouvir estranhos rumores, fóra do seu pequeno e pessimo quarto. +A pouca segurança da porta, e da fragil fechadura, augmentava o receio +da donzella: apromptou luz, e vestiu-se. + +O rumor aproximou-se, a porta foi violentada, e Rosa agarrada fortemente +pelos pulsos: + +--Não esperava esta desfórra do seu _militar_, amavel _vivandeira_?!... + +--Deixe-me... largue-me... acudam!... + +--Não espante as pulgas, menina... _Esta boa terra dorme toda ás nove +horas_, e já passa da meia noite... Só poderia esperar beneficio da +minha generosidade, e eu, confesso, não tenho o fraco de generoso... + +--Não realisará a malvadez que intenta, em quanto eu tiver um sôpro de +vida... + +--É o que vamos a vêr... + +E o malvado homem empregava todas as suas forças, em dobrar a mulher, +que não podéra seduzir. + +Rosa, debatia-se com toda a furia e, mais que outra qualquer, resistira +por muito tempo. + +Quando estava proxima a matar-se ou a ser preza do infame, quebrou-se +repentinamente um vidro da janella, e varanda, que dava para a rua, +abriu-se a porta d'ella, e penetrou no quarto um homem, possesso da +furia do leão, que descarregou sobre a cabeça do aggressor uma +fortissima pancada, com o castão de um chicote de força, estendendo-o +logo sem accordo de si. + +--O snr. João de Lencastre!!... Oh, leve-me d'aqui!... Salve- me!... A +mais forte das mulheres, cercada d'estas infamias, é impotente e +fraca!... Agora o conheço!... Mas... como appareceu tanto a +proposito?!... + +--Habito aquella casa, alli defronte, e estava sempre de vigia, e +preparado com uma taboa forte e larga, para lançar da minha janella á +varanda d'esta casa, quando, como agora succedeu, lhe fosse necessaria a +protecção de... seu irmão, senhora... + +--Que nobre alma a sua, João!... Vamos... deixemos este inferno, e em +sua casa combinaremos o que deva fazer-se... + + + + +IX + +O PERIGO DAS CARTAS + + + «......e bem se manifesta, + Que são grandes as cousas, e excellentes, + Que o mundo encobre aos homens imprudentes. + + (_Camões_--LUSÍADAS.) + + +D. Anna e D. Maria da Gloria, passavam as horas em longos desafógos e +amigaveis confidencias, suavisando assim as saudades e as mágoas que +soffriam. Nas suas respectivas posições, não era aquella a epocha mais +infeliz da vida das duas amigas. Quando podêmos depositar em peito amigo +o que nos impressiona, quasi desapparece o pesar que sentimos, pelo +allivio que nos dá a certeza da partilha na dôr. + +Estava, porém, marcado pelo destino, que poucos deviam ser os momentos +de quietação, para as heroinas do nosso «Conto». + +A carta que Sebastião da Mesquita escrevera á filha, viera terminar o +gôso das confidencias, e tornal-o em prantos amargos. Para D. Maria da +Gloria, o ser forçada a casar-se com outro homem, que não fosse Arthur +Soares, era peior do que a morte. Sabia-o D. Anna, que tomou uma +deliberação arrojada, para salvar a sua amiga, sem lh'a communicar. +Mandou um expresso a Arthur Soares, com uma carta d'este theor: + + + «_Meu presado irmão adoptivo_: + +«Confiada no seu cavalheirismo, de que já possuo bastantes provas, ouso +pedir-lhe que venha a esta sua casa, logo após a recepção d'esta minha +carta. Leopoldo está ausente, como sabe, e _nós_ esperamos o snr. Arthur +_com a maior anciedade_. + + _Anna_.» + + +Isto feito, tratou de convencer a sua mestra, e amiga, de que devia +accusar ao pae a recepção da carta, e dizer-lhe que estava doente, e que +cumpriria as suas ordens, logo que o seu estado de saude lhe permittisse +fazel-o; porque assim ganhava tempo, que podia muito bem mudar a face +dos acontecimentos. D. Maria da Gloria, inhabil para o raciocinio, +sujeitou-se a tudo quanto lhe ensinuou a sua amiga. + +Por este tempo, marchava sobre as linhas do Porto, o general em chefe +das tropas da rainha, com o grosso do seu exercito. + +As tropas da junta provisoria do governo supremo do reino, haviam +soffrido desastres, sendo, o mais notavel, a _incomprehensivel desgraça_ +de Torres Vedras;[13] mas as activas e energicas providencias dos homens +do governo, juntas á dedicação popular pela sua causa, tudo remediavam +como por encanto. Em vez de diminuir, augmentava o numero de soldados, +por cada batalha que se perdia! + +E apesar dos desastres, do grande dispendio com as reorganisações do +exercito, e de só pagarem tributos moderados os povos sujeitos ao poder +da junta, poude esta exemplar quanto energica governação decretar, entre +outras medidas de bom senso e muito alcance, e de algumas pensões +avultadas, _que as mulheres dos officiaes prisioneiros na batalha de +Torres Vedras recebessem uma prestação mensal de 12$000 reis, e as das +praças de pret 60 reis diarios, em quanto seus maridos estivessem em +poder do inimigo_.[14] + +O quartel general do real exercito estava em Oliveira de Azemeis: foi +escolhido um official para commandar uma força, que fosse em +conhecimento junto das linhas do Porto, e recahiu essa escolha em +Leopoldo. Ao saber-se da aproximação de forças inimigas, tocou a rebate +dentro dos muros da cidade invicta, e as linhas foram immediatamente +guarnecidas em fórma. + +Arthur Soares, commandava uma companhia de voluntarios da guarnição, que +occupava, casualmente, o lado da estrada de Lisboa. Conhecida a pequenez +da força inimiga, os insoffridos populares saltaram as linhas, e foram +atacal-a. Arthur quiz, mas não o conseguiu, conter os do seu commando. +Havia recebido ha poucos instantes a carta de D. Anna, e não podia, nem +queria, arriscar temerariamente a vida n'aquella occasião. Anciava que +terminasse aquelle passageiro incidente da guerra, para correr ao +chamamento da sua companheira de infancia. Batia-lhe apressado o +coração, porque um presentimento lhe segredava, que D. Maria da Gloria +não era estranha no conteúdo da carta; mas como não podéra refrear o +impeto dos voluntarios, forçoso lhe foi acompanhal-os. + +Empenhado o tiroteio entre as pequenas forças inimigas, cahiu ferido +Arthur Soares, que ficára por morto no campo. Um soldado, d'aquelles a +que os proprios camaradas dão o epitheto infamante de _pulhas_, despojou +logo o official inimigo de todos os objectos de algum valor, que elle +tinha em si: entre os demais despojos, ficou tambem possuidor da carta +de D. Anna, que teve a curiosidade de lêr; e como visse lá o nome de +Leopoldo, e soubesse que assim se chamava o seu commandante, com a mira +em qualquer recompensa, quando por ventura com elle se entendesse +aquella carta, foi immediatamente entregal-a a Leopoldo, dizendo-lhe que +a encontrára perdida no logar da refrega... + +Aquella bala de papel, fôra mais fatal ao marido de D. Anna, do que a de +chumbo ao amante de D. Maria da Gloria... + +Leopoldo retirou precipitadamente com a força do seu commando; e o corpo +de Arthur Soares foi recolhido pelos seus camaradas, que lamentavam com +desespêro a sorte do bondoso e bravo official. + + [13] Em proclamação do primeiro general da junta do Porto, datada de + Coimbra de 29 de Dezembro de 1846, lê-se: «Soldados!--Nem a desgraça + da nossa valente segunda columna vencedora em Torres Vedras, e + depois anniquilada por uma _incomprehensivel desgraça_; nem a + conspiração dos elementos, que tornaram perigosa e terrivel a nossa + marcha, na qual centenares de individuos ficaram em poucas horas + descalços, e muitos em risco de morrerem, tem podido abater vossa + coragem!» + + [14] Decreto da junta de 11 de Janeiro de 1847. + + + + +X + +O CRIME + + + «O espirito não lhe dava coisa que vislumbrasse senso-commum. A carta + era o seu maximo supplicio.» + + (_Camillo Castello Branco_. MYSTERIOS DE FAFE.) + + +D. Isabel de Abendanho recebera carta do marido, communicativa da sua +resolução de casar a filha com um cavalheiro vimaranense; e dizia-lhe +que fosse, acompanhada do padre Alvaro, á residencia de D. Anna, e de lá +viessem todos ter com elle a Guimarães. + +A chegada de sua mãe, e do padre Alvaro, foi para D. Maria da Gloria +novo motivo de abundantes lagrimas. A velha e nobre senhora +preadivinhara a rasão d'aquelle pranto, e desde logo protestou dar á +filha o seu maternal apoio. O padre Alvaro, senhor da causa que assim +amofinava as tristes mulheres, deu-lhes a consolação das suas +evangelicas palavras, e prometteu empregar, com Sebastião da Mesquita, +os brandos meios da persuasão para o dissuadir da effectividade de um +enlace repulsivo á noiva. Todos de accôrdo em demorar quanto possivel a +ida a Guimarães, confirmaram a Sebastião da Mesquita a noticia do +incommodo de D. Maria da Gloria, que afinal não era mentirosa, porque a +donzella estava doente, e de molestia que podia matal-a, se não tivesse +força para resistir á vontade paterna. + +Rosa, salva da vergonha e da deshonra por João de Lencastre, resolveu +aproveitar-se da protecção do seu salvador, e assentaram de viver, em +Portugal, ou no estrangeiro, debaixo de rigoroso incognito, mostrando a +donzella desejos de vêr as suas queridas companheiras antes da sua +completa desapparição, embora lhes não podésse fallar; e o antigo +escudeiro, que não tinha vontade alheia á da sua protegida, cogitava no +modo de fazer-lhe a vontade. + +Nenhum dos mais fortes inimigos do homem, empenhado em fulminal-o, e +dispondo de todas as convulsões do mundo, teria conseguido produzir em +Leopoldo uma sensação semelhante á que sentira com a leitura da carta, +que o soldado lhe entregara. Por momentos, julgou-se victima de um +sonho, e o seu olhar desvairado era terrivel de vêr-se. Depois, de +subito, sahiu-lhe do peito um como rugido feroz, e todas as suas acções +foram impetuosas e allucinadas. Mandou tocar á retirada, entregou o +commando ao seu immediato, e precedeu muitas horas, tal foi a sua +vertiginosa carreira, a chegada da força ao quartel general. Alli, fez, +como lhe cumpria, o relatorio dos successos militares, de tal sorte +contradictorio e obscuro, que lhe não foi difficil obter a licença, que +febrilmente implorava, porque os superiores o suspeitaram victima do +começo d'uma alienação mental. + +Era alta noite, e dormiam todos os habitadores do seu palacio, quando +Leopoldo chegou alli, vindo do acampamento. Quem o tivesse visto +jornadear de noite, ora esporeando o ginete de modo a fazel-o saltar por +todos os obstaculos, que lhe estavam defronte, ora deixando o caminhar +em direcção incerta, e com as rédeas soltas, dizia que era um sêr +phantastico dos que algumas vezes nos agitam o somno. Gastára algumas +horas a percorrer os arredores da sua principesca habitação, para +conseguir introduzir-se lá, sem que fosse apercebido. + +Estava a romper a manhã, quando podéra obter entrada por uma janella +baixa, que ficara mal fechada, e caminhar, tateando, e com passos +incertos, até ao seu quarto de cama, onde se apossou do punhal que +pendia da cabeceira do seu leito, abrindo em seguida as janellas, e +expondo ao ar a sua abrazada cabeça. + +Ao voltar a vista para o interior do quarto, já um pouco alumiado pela +frouxa luz do crepusculo, pareceu-lhe que a sua cama não estava deserta, +e foi ajuntar-se-lhe ás violentas commoções que o infernavam mais um +mixto de curiosidade e de terror, como teria o bandido que deparasse +inopinadamente, na casa que julgara dezerta, com uma testimunha de seus +crimes. + +No leito de Leopoldo dormia tranquillamente o somno da innocencia, a +suspeitada esposa. Tivera que sahir dos seus aposentos, occupados até +então por ella e por D. Maria da Gloria, á chegada alli de D. Isabel, +para que esta ficasse junto da filha. + +Reconhecida pelo marido a mulher da qual julgava possuir um +incontestavel documento de adulterio, as feições do dementado assumiram +as repugnantes proporções da mais repelente das mumias; e monologou +terrivelmente: + +«Estás no teu sepulchro, maldita!... O mesmo leito que manchaste com a +infidelidade, será manchado pelo teu sangue villão!... Não mais +acordarás d'esse ultimo somno, em que os sonhos de megéra te hão de +trazer ainda junto dos labios o halito do canalha, que eu hei-de devorar +após de ti!... Far-te-hei abrir os olhos, apenas para vêres a tua carta, +que o diabo me levou ás mãos, e nem uma palavra te deixarei pronunciar, +porque antes terá este punhal atravessado o teu infame coração!....» + +E, fazendo o que disséra, sacudiu violentamente a infeliz D. Anna, +apresentou-lhe diante dos olhos, mal abertos, a carta homicida, e +enterrou-lhe em seguida o punhal no peito!... + +A desgraçada senhora, teve apenas tempo para dar um grito revelador da +suprema agonia, e cerrar os olhos. + +Ao ouvir aquelle brado de morte, fitou o vingador de imaginaria affronta +um olhar tresvairado em redor de si, e ficou, como se estivera pregado +ao chão, sem forças nem deliberação para fugir. Estava assim havia já +muito tempo, quando se abriu uma porta, e entraram por ella duas pessoas +em traje de romeiros que andam em peregrinação. Os recem-chegados, ao +tomarem conhecimento da tragedia que tinham á vista, ficaram por um +pouco, como assombrados de raio: um d'elles, o que primeiro conseguiu +mover-se, foi cahir com a cabeça sobre a da assassinada, lavando-lh'a +com as lagrimas que vertia. O outro, com um sangue frio ainda mais +terrivel que o desespêro, aproximou-se de Leopoldo, encarou-o longo +tempo, como olharia para o maior dos monstros, e exclamou por fim: + +--Assassino!... Miseravel e cobarde assassino de mulheres!... Não posso +eu ser o vingador d'aquella infeliz, porque--desgraça! disseram-me que +era teu irmão!... Mas Deus a vingará, malvado!... O teu futuro hade ser +de cruel expiação, crê!... O maior castigo que te espera, é o +prolongamento da vida que tens a viver!... + +E deixando-o, sem lhe tocar, foi apalpar o seio da assassinada:--«Ainda +lhe pulsa o coração, e o padre Alvaro está aqui!...» E saiu rapidamente +do quarto, voltando, minutos depois, acompanhado do pae de Arthur. + +O ministro do altar, entrou no sagrado exercicio do seu alto e sublime +ministerio: serviam-lhe os dous romeiros de ajudantes, e Leopoldo estava +ainda, immovel, no mesmo logar, em que ficára de seguida ao crime. + +O padre Alvaro foi tocar de manso no hombro do assassino, e disse-lhe +com brandura: + +--Irmão! Ajoelhe, que está na presença de um Deus misericordioso e +vingador! + +Ao contacto d'aquella mão, e ao sussurro d'aquellas palavras, fez +Leopoldo um movimento de cabeça, assomou-lhe aos labios um riso idiota, +e tartamudeou: + +--Não acordem a minha segunda esposa... Com esta casei eu por amor... +Não me hade trahir que é nobre... O punhal está guardado... Ella +disse-me que era uma arma villã, e eu escondi-o no peito da Anna... Hade +amar-me depois da batalha... Sou general, e hei de vencer... Terei um +duello com o meu rival... Depois, a felicidade... E meu filho, que me +não conhece!... Meu filho, que me chama assassino, que me cóspe injurias +a todo o instante, que me espanca sem piedade!!... Perdão!... +Perdão!... + +--A loucura e os remorsos na propria hora do crime!... Aquella que ajudo +a bem morrer, é menos desgraçada do que o seu assassino!... + +Haverá quem não trema da vossa justiça, meu Deus?!... + + +FIM DA SEGUNDA PARTE + + + + +TERCEIRA PARTE + +REMORSO + + + «Para que venha sobre vós todo o sangue dos justos, que se tem + derramado sobre a terra... + + (S. Lucas, XI; vida de N. S. Jesu-Christo). + + + + +I + +GRATIDÃO + + + Tira-me já do p'rigo, amigo honrado, + Depois solta a prelenda. + + (_Filinto Elysio_--APOLOGO) + + +É menos vulgar a existencia do homem grato do que a do homem sabio; mas +a compensação do rigor d'este axioma, está na raridade com que se faz um +favor desinteressado. Contam-se em pequenissima quantidade as pessoas +reconhecidas; mas é grande o numero das que sabem calcular o provento, +mais ou menos proximo, de suas generosidades. + +O genero de maior consumo no mercado da vida humana, é o egoismo, a que +chamaremos, por antonomasia, o _verme do coração_. + +Os factos, porém, de todos os tempos, levam-nos a exceptuar a mulher da +regra geral do egoismo do homem, por que é d'ella, na maior parte das +suas acções, a santa abnegação: a mulher perde-se pelo amor, o homem +gloria-se com elle; a mulher serve á ambição do homem, e é por elle +escravisada; a mulher morre sempre por seus filhos, e o homem renega-os +muitas vezes........................................................... +....................................................................... + + +Quasi á mesma hora em que tinham logar as tragicas scenas do final da +segunda parte d'este livro, e quando ellas ainda eram ignoradas pelos +restantes habitadores do palacio, recebia D. Maria da Gloria, recolhida +nos seus aposentos, uma carta que abrira, sobresaltada, com prévio +consentimento de sua mãe, e que dizia assim: + + + «_Exc.^ma e respeitavel senhora_: + +«O meu camarada Arthur Soares, retido no seu leito por virtude de um +ferimento grave, mas não mortal, que recebeu em um ataque dado pelo +inimigo ás linhas d'esta cidade, incumbe-me de escrever a V. Exc.^a em +seu nome, para que termine o cuidado com que deve estar a Exc.^ma Snr.^a +D. Anna, pelo silencio d'elle, depois de um formal chamamento. Só uma +impossibilidade absoluta, como aquella que se deu logo em seguida á +recepção da carta que o chamava, é que estorvaria o meu camarada e +amigo, como elle affirma, de voar a cumprir as ordens de sua exc.^ma +irmã adoptiva. Muito mais do que as consequencias do seu ferimento, tem +o meu camarada sentido o vêr-se até impossibilitado de escrever; e eu, +accedi aos seus rogos, para o tranquillisar, e abreviar a sua cura; +podendo V. Exc.^a ficar certa--pela cruz da minha espada o juro--que, +finda esta carta, esquecerei completamente o seu conteudo. Não vae +dirigida á snr.^a D. Anna, porque tendo sido roubado, quando cahira no +campo, o meu camarada Arthur, fez parte do roubo a carta que aquella +respeitavel senhora lhe escrevera; e o ferido receia que ella fosse +parar ás mãos _d'alguem_, que, por má interpretação, tenha ficado com +suspeitas, as quaes augmentariam, por certo, sendo mais esta +interceptada. + +«Não obstante estar o meu camarada livre de perigo, os homens da +sciencia recommendam toda a cautela, e marcam ainda alguns dias de +recolhimento ao ferido. + + «É de V. Exc.^a m.^o att.^o v.^or e cr.^o + + «_O tenente da 2.^a comp.^a de voluntarios do Minho_.» + + +Desde o começo da leitura, que D. Maria da Gloria ficára excessivamente +pallida e trémula; mas a sua dôr, por demasiado violenta, não deu +accesso ás lagrimas. D. Isabel que sentira o estado da filha, +perguntou-lhe o conteúdo da carta, que ella teve a coragem de lêr +segunda vez, de modo que fosse ouvida por sua mãe. + +--Assustas-me, querida Maria, mais com essa dôr surda, do que se te vira +coberta de pranto... É então incuravel o affecto que nutres por Arthur? + +--Só a morte o póde curar, minha respeitavel e muito presada mãe e +senhora: se até agora o podesse duvidar, recebia n'este momento a mais +solemne das provas... É a primeira vez que lastimo a minha condição de +nobre, que me embarga o vehemente desejo de ir ser a enfermeira de +Arthur... Dava ametade da minha existencia, para ser hoje uma camponeza, +livre dos preconceitos e obrigações sociaes, que podesse seguir os +impulsos do coração sem constrangimento nem temôr... + +--E conheces bem, filha, as qualidades do homem por quem assim queres +sacrificar-te?!... + +--Conheço, e vai tambem avalial-as a minha querida e santa mãe: Arthur, +sabe que é amado por mim, adora-me, e nunca da sua bôcca sahiu uma +palavra, que meus paes não podessem ouvir. Podia estar ao meu lado, +gosar a todo o instante d'esses prazeres innocentes e celestes, que só +dá o verdadeiro amor, e fugiu-me, para não prejudicar a minha reputação, +porque receia não poder desposar-me. Todas as acções de Arthur, são de +uma fidalguia exemplar, unica, inimitavel. Encarregado por meu illustre +pae de saber como a Annitas era tractada pelo marido, obteve a convicção +de que ella era desprezada por ser plebêa e pobre: disse-o, por carta, a +seu padrinho; esperou que o brioso fidalgo acudisse logo á sua +protegida, á que adoptara por sua filha, á que obrigara a casar-se com o +seu tyranno; demorou-se a protecção, e Arthur, que apenas fôra +companheiro de infancia da nossa Anna, sem nenhuma obrigação legal ou +moral, só porque ella não tivesse de soffrer mais alguns dias, alcançou +do thio, o venerando padre Alvaro, todo o importe do futuro +d'elle--trinta mil crusados--que veiu entregar a Leopoldo, dizendo que +era o dote de sua mulher, enviado por meu respeitavel pae!... + +--É grande, muito grande, o que me contas, Maria!... Por isso tu o amas, +filha, e creio agora comtigo na impossibilidade de venceres o teu +amor... Meu primo já sabe d'esse facto? + +--Não sabe, minha senhora, porque Arthur rogou muito que se lhe +occultasse. + +--Então, Maria, sou eu que te digo, que pódes ter esperança de casar com +Arthur. Teu pae é um fidalgo excessivamente orgulhoso da sua raça, bem +sei; mas é tambem pela sua excedente alma, bom apreciador de todas as +acções que ennobrecem quem as pratica. + +--Não podêmos contar com este segredo, minha querida mãe, porque jurei a +Arthur que o não revelaria, e não sei faltar aos meus juramentos. + +--Mau é isso: no entanto, confiemos em Deus. + +--Agora, minha boa mãe, deixe-me dizer-lhe mais, que outro sentimento, +não menos forte do que o meu amor por Arthur, me obriga, e me domina: é +a gratidão pelo generoso procedimento da nossa Anna. Escrever uma carta +a chamar o homem que eu amo, por vér, talvez, na sua vinda aqui a minha +salvação, arriscando-se a ser suspeitada pelo marido, e a soffrer-lhe as +terriveis consequencias do seu ciume,--é a mais irrefragavel prova de +uma verdadeira dedicação... Estou inquieta com a perda da carta; bate-me +o coração com uma violencia desusada, e presinto grande desgraça... +Vamos já ao quarto da Anna... + +--Pois ajuda-me a terminar o meu vestuario... Vamos lá, filha, e socega, +que Deus tudo fará por melhor. + +Quando a mãe e a filha entraram no quarto mortuario, estava lá o cadaver +só com os romeiros ajoelhados, porque o padre Alvaro fôra procurar o +medico da localidade, ainda na vaga esperança de salvar a desditosa +esposa. + +As duas senhoras, consideraram-se por muito tempo victimas de um +pesadêlo horrivel, ao depararem com aquelle funebre espectaculo. D. +Maria da Gloria, sem bem saber o que fazia, acercou-se do leito, fitou-o +com vistas desvairadas, apalpou-o automaticamente, fechou n'uma das mãos +um papel manchado de sangue, curvou-se depois sobre o cadaver, +pousou-lhe os labios na fronte, nos olhos, na bôcca, tudo feito como em +delirio, levantou lentamente a cabeça, olhou para as mãos, abriu aquella +que encontrara e fechara o papel, acompanhou a quéda natural d'elle com +a incerta curiosidade de um innocente que deixa cahir o brinquedo, +apanhou-o outra vez, examinou-o e, ao conhecer-lhe manchas de sangue, um +tremor violento se apoderou d'ella... + +D. Isabel, conservara-se immovel, como se fôra uma estatua, olhando, +simultaneamente, e como louca, para o cadaver, para os romeiros e para a +filha. + +Os romeiros levantaram-se, e foram collocar-se, um ao lado de D. Maria +da Gloria, e outro de D. Isabel; como para lhes servirem de amparo. + +O que ficara juncto de D. Maria, tentou brandamente arrancar-lhe da mão +o papel, ao que ella resistiu, com a reacção dos dementes contrariados, +procurando em seguida lêr o seu conteúdo. Quando, após uma demorada +leitura e indeciso exame, a fidalga donzella levantou a fronte, e fechou +os punhos, o seu aspecto aterrava. Aquella feminil belleza, transformada +pela dôr, afugentaria de si, n'aquelle momento, o seu mais apaixonado +amante! + +Demorou-se ainda alguns minutos silenciosa, e terrivel de vêr-se; até +que, tomando uma deliberação repentina, curvou outra vez a cabeça, e +disse ao ouvido do cadaver, n'um tom de voz indiscriptivel: + +--«Assassinaram-te por minha causa, irmã!... O teu assassino, o monstro +que nos roubou e te seduziu, ama-me... entendes?!!... Oh!... como tu +vaes ser vingada!... Ha-de o infame soffrer mil mortes em cada segundo, +até ao seu ultimo sôpro de vida... Juro-t'o pela honra do meu nome!...» + +Em seguida tirou o punhal do peito do cadaver, metteu-o no seio sem o +limpar, guardou a carta fatal, e, agarrando nas mãos de sua mãe, sairam +ambas repentinamente. + +Tiveram apenas tempo de transpôr os umbraes da porta d'aquelle recinto, +quando um grito unisono, dos dous romeiros, as teria feito retroceder, +se o estado em que fugiam lhes podésse deixar ouvil-o. + +Aquelle grito fôra occasionado por ter parecido aos romeiros, que o +cadaver abrira os olhos:--Ao tentarem verificar a sua illusão, estavam +já acompanhados do padre Alvaro e do medico. + + + + +II + +MYSTERIO + + + «Os conegos da sé de Evora, conduziram, sem pompa, á igreja de S. + Domingos, entoando as orações dos finados, o cadaver truncado do + duque de Bragança.» + + (CHRONICA DO SECULO XV.) + + + +Algumas horas depois que o padre Alvaro, os romeiros e o medico, tinham +ficado no quarto mortuario, junto do cadaver, era publica a morte da +infeliz D. Anna, que fôra attribuida a um ataque cerebral. Os creados e +os visinhos do palacio, lamentavam sinceramente o funebre succedimento, +e a fatal consequencia d'elle, que fôra a immediata loucura do +_extremoso_ marido. + +Para que esta mentira fosse a versão publica da repentina morte de uma +das nossas heroinas, fôra preciso que o padre Alvaro empregasse com D. +Maria da Gloria e sua mãe, a sua auctorisada e respeitavel palavra, para +as convencer da necessidade de, por aquelle modo, estorvarem a acção da +justiça, e a deshonra que o facto, commentado pelos ociosos, traria a +todos; e tambem o grave desgosto, que elle causaria ao velho fidalgo +Sebastião da Mesquita. + +Accordado em que assim se publicasse ficou o bom do padre incumbido de +tudo remediar, e assim o fez. + +O que se passou entre o medico, os romeiros e o padre, antes que este +viesse pactuar a util e generosa mentira, é, por emquanto, vedado aos +leitores. + +Houve desde logo todo o cuidado de não deixar penetrar pessoa alguma no +quarto da finada, e de fazer desapparecer todos os vestigios do crime. +Aos que notaram ser o cadaver conduzido immediatamente, em caixão +fechado, á capella do palacio, sem preceder a demora, e a exposição +costumada, foi-lhes revelado, que a defuncta deixára disposta +antecipadamente a condição de não ser visto do publico o seu cadaver, e +de se evitarem, no enterro, todas as pompas. + +Até ao momento do caixão descer ao jazigo de familia, foi constantemente +guardado por um dos romeiros. + +Concluida a funebre ceremonia, voltou o padre Alvaro para junto das +consternadas senhoras. O tranquillo aspecto do ministro de Deus, as suas +palavras persuasivas, e a força de seus concludentes raciocinios, deram +ás fidalgas mulheres a coragem necessaria, para continuarem com firmeza +a encobrir o crime. + +D. Maria da Gloria, deixou transparecer a ideia da sua medonha vingança, +que o padre rebateu com evangelicas razões: foi um combate de palavras, +entre dous adversarios valentes e convictos, que só teve em resultado +firmar-se mais cada um d'elles no seu proposito. A donzella tinha n'alma +a gratidão, e o padre a caridosa doutrina de Christo: D. Maria queria +vingar de um monstruoso crime, a companheira e amiga, que por sua causa +fôra victima; o bom Alvaro queria o perdão do criminoso, e pedia-o, a +exemplo do que o Christo implorára para os seus matadores. + +No mais caloroso do debate, entrou Leopoldo vagarosamente no local +d'elle. D. Isabel teve medo d'aquelle homem, e conchegou-se á filha; o +padre Alvaro ficou impassivel, e D. Maria da Gloria teve força para +concentrar a sua cólera. + +Leopoldo, com todos os modos de completo idiotismo, disse a D. Maria: + +--Vá reconhecer o inimigo, snr. ajudante... Tenho um plano que nos dará +infallivelmente a victoria... É um segredo que só direi a meu filho, por +que vae commandar a emboscada... É verdade... peça a meu filho que me +não bata... pede?... Eu sou tão amigo d'elle... Coitadinho!... está +doido!... diz que lhe matei a mãe, e fustiga-me sem piedade!... Peça-lhe +muito, sim?... Vá... vá, que eu espero a resposta no quartel general... + +E sahiu com o mesmo vagar com que entrára, deixando as mulheres +estupefactas, porque ainda ignoravam o facto da loucura de Leopoldo. + +--Este homem está effectivamente louco?!... + +--Está, sim, snr.^a D. Maria da Gloria... + +--Eu julguei, que o snr. padre Alvaro teria combinado com elle o +fingir-se demente por algumas horas, para melhor encobrir o seu crime... + +--Não, minha senhora, era essa uma calúmnia desnecessaria, e pouco +digna. O infeliz perdeu a razão, logo em seguida ao crime. Antes da sua +vingança, senhora D. Maria, appareceu o castigo da Providencia... + +--É preciso curar-lhe a loucura, e hade curar-se... Empregarei, para +conseguil-o, todos os carinhos que dispensaria ao homem idolatrado... +Quero vingar a minha querida Anna... + +--Desconheço-a, snr.^a D. Maria da Gloria!... Pois, que vingança quer V. +Exc.^a tirar, no estado d'aquelle infeliz?!... + +--O snr. padre Alvaro não sabe o que é o coração da mulher _de raça_ +quando ama ou quando odeia... O castigo que eu reservo áquelle malvado, +se poder conseguir fazel-o recuperar a razão, a mim propria causaria +terror, não me dominando a ideia de vingança... + +--E não receia, com o seu procedimento, descobrir o crime a seu exc.^mo +pae?... + +--Socegue, que a dissimulação é a mais forte defeza das mulheres. + +--Mas, minha filha, o snr. padre Alvaro diz bem... Tu não deves querer o +que Deus não quer... + +--Perdão, minha santa mãe.....Se não deseja vêr sua filha morta pela +dôr, e pela saudade, deixe-a dar largas á sua gratidão... + +Tres dias depois de ter logar o enterro, chegava áquelle formoso e +triste domicilio, o velho fidalgo Sebastião da Mesquita, já sabedor pela +voz publica, que se antecipára á parte dada pela familia, da morte de D. +Anna e da loucura de Leopoldo. + + + + +III + +BRIOS DE RAÇA + + + «Se de imitar meu nome te gloreias, + As façanhas me imita, + Ou na Patria Nação, ou nas alheias, + O meu valor te incita: + Ségue os meus passos, segue a meu exemplo, + Se morar quéres, n'este honrado templo.» + + (Filinto Elysio.) + + +Decorreu um mez, após a chegada do velho fidalgo ao palacio de Leopoldo. + +Sebastião da Mesquita, já bastante alquebrado, e mal convalescido, +cahira de novo na cama, muito magoado com a morte de D. Anna, e com a +loucura do marido. Tornou-se grave o seu padecimento, que dava sérios +cuidados ao seu assistente. Mais do que á sciencia, aos desvelos de sua +esposa D. Isabel d'Abendanho, que passava dias e noites á cabeceira do +enfermo, deveu o velho fidalgo as leves melhoras que sentia. + +D. Maria da Gloria, toda entregue ao seu pensamento dominante, procurava +fazer recuperar o juiso a Leopoldo. Consultara todos os medicos que +visitaram seu pae, e ouvira d'elles opiniões de que os muitos cuidados e +carinhos empregados com o louco e, mais tarde, algumas impressões +violentas, poderiam, talvez, trazer-lhe a razão. + +Quem presenciasse o cuidado permanente, que a fidalga donzella empregava +com Leopoldo, diria que, a não ser uma sua extremosa amante, era uma +filha dedicada ao triste dementado. E conseguira já muito: Leopoldo +tinha alguns lucidos intervallos, em que parecia conhecer a sua gentil +enfermeira, e em que vertia copiosas lagrimas. Succedia mesmo, nos +curtos instantes em que a donzella se afastava, ser chamada pelo nome de +filha, em altos gritos, e até procurada pelo infeliz, com a pertinacia +da loucura. + +Sebastião da Mesquita teve uma longa e religiosa conferencia com o padre +Alvaro, despida de apparatos que, aos timidos, encurtam as horas de +vida; conversação que augmentara as melhoras do velho fidalgo, e o +predispozéra para este dialogo: + +--Agora, meu bom amigo, que as suas evangelicas palavras conseguiram +fazer-me esperar mercê da Providencia para os meus êrros, consinta-me +que lhe falle do nosso Arthur... + +--V. exc.^a assusta-me com esse modo solemne!.. Sabe alguma coisa má do +seu afilhado?... + +--Sou eu que peço agora resignação e coragem, áquelle que ha pouco me +fallava com desprendimento das cousas terrenas... Bem sabe que tenho +soffrido muito: posso, pelas minhas, avaliar as dôres alheias; mas +tambem sei que o padre Alvaro é um martyr a quem Deus concedeu forças +superiores ao commum dos homens... + +--Acabe, senhor, se não quer vêr-me morrer de impaciencia!... Que +desgraça pésa sobre meu filho?!... + +--Póde ser mentira... Os periodicos muitas vezes desmentem no dia +seguinte, o que asseveraram na vespora... Comtudo, eu li, em Guimarães, +uma gazeta, que noticiava ter sido... gravemente ferido o meu afilhado +n'um recontro com as tropas da rainha... + +Um grito de suprema angústia, foi a unica resposta que ouviu o fidalgo, +vendo em seguida fugir-lhe o padre, com a rapidez e o vigor da mocidade! + +Deus por certo se amerciou com a mágua de aquelle pae, porque logo +deparou com D. Maria da Gloria, que o susteve, e lhe disse que Arthur +Soares estava livre de perigo, mostrando-lhe as cartas que tinha em seu +poder, e pondo-o ao facto de quanto succedera. + +--Obrigado, minha querida filha! O céu lhe compensará o bem que fez a +este peccador... Não se póde vencer a natureza, e eu sou pae... De certo +eram ficticias as forças que me deu o desespero, e eu não chegaria ao +Porto com vida... não veria ainda uma vez o filho do... Perdôe-me v. +exc.^a esta revelação do meu criminoso passado... + +--Já sabia o que me diz... adivinhou-o o meu coração... + +--É magnanimo o seu coração, minha senhora, e receio que d'essa extrema +bondade lhe resultem sérios dissabôres... Arthur não é nobre, snr.^a D. +Maria, nem sequer é um filho legal!... V. exc.^a fez mal em dar entrada +ao sentimento que nutre por elle... + +--Seu filho possue a mais verdadeira e sólida das nobrezas--a da alma--e +eu amo-o!... + +--E seu pae, minha senhora?!... Não sabe V. Exc.^a quanto elle é +orgulhoso da sua raça?!... + +--Diligenciarei convencel-o e, se não o conseguir... + +--Por Deus, senhora D. Maria, não pense em desobedecer a seu illustre +pae!... Desgraçados d'aquelles que na sua mocidade se deixam arrastar +pelas paixões! Eu sei o que tenho soffrido, senhora!... Não queira +augmentar os remorsos d'este pobre velho, com o mal causado por meu +filho!... De joelhos lhe peço que me jure, que nunca procederá de +encontro á vontade paterna... + +--Quer, então, a minha morte?... + +--Quero a sua salvação, senhora D. Maria da Gloria! Quero o cumprimento +de um dever sagrado, que póde até tornar respeitavel o seu amor por meu +filho. Se V. Exc.^a soffresse a maldição paterna, não haveria posição +que lhe désse tranquillidade: infelicitava-se, e fazia seu cumplice +aquelle que ama... Já não quero que attenda a este velho, que a implora, +e que dentro em pouco será pasto dos vermes... + +--Basta, snr. padre Alvaro!... Juro-lhe que serei sempre filha obediente +e respeitosa, ainda que isso me custe a vida!... + +--Obrigado, querido anjo!... Hade viver e ser muito feliz, porque Deus é +justo... Deixe-me pedir-lhe perdão de ter estranhado a sua dureza, para +com o desgraçado marido de D. Anna... Eu ignorava a causa do seu +criminoso proceder e os motivos de gratidão que levavam V. Exc.^a á +vingança... Ainda assim, peço-lhe que o deixe entregue ao castigo +providencial que o pune... + +--A esse respeito, é inabalavel o meu proposito, e serei tanto mais +cruel, quanto mais contrariado fôr o meu affecto por Arthur... Vae de +certo ao Porto, snr. padre Alvaro, e eu atrevo-me a pedir-lhe noticias +do doente... Concede-me este pedido? + +--Cumprirei essa obrigação, minha senhora. + +Poucas horas depois de ter logar o encontro que acabamos de escrever, +foi D. Maria da Gloria chamada por seu pae, que lhe dirigiu a palavra +n'estes termos: + +--É tempo, querida Maria, de te explicar alguns dos meus actos, e de te +dar a minha opinião sobre o teu futuro. Deus sabe se me tornarei a +levantar d'este leito, e desejo que o meu passamento seja o mais +tranquillo possivel... + +--O meu bom pae, e senhor, está livre de perigo, e ha de viver ainda +muitos annos, para a nossa felicidade: + +--É para que sejas feliz, que eu vou remecher no meu passado, e +despertar factos que me remordem na consciencia. Quero que a minha vida +sirva de exemplo á tua, seguindo-a no bem, e fugindo ao mal que os seus +erros me trouxeram... Escuta-me: tive na minha mocidade sérias ligações, +que acabaram com a morte de filhinhos que estremeci; e, já depois de +casado, vi uma encantadora menina, cheia de virtudes, vivendo na +companhia de seus paes de quem era o unico enlevo. As demandas da nossa +casa, fizeram-me travar relações com o pae, o melhor jurisconsulto que +então existia em Penafiel. Abusei da confiança que me deram, para me +insinuar no animo da gentil e innocente criança, que em breve sentiu por +mim um d'esses affectos, que são a felicidade ou a completa desgraça dos +que os nutrem, segundo o bem ou o mal empregado d'elles. Amei-a... +amei-a levianamente!... Quando os meus brios me fizeram conhecer a +infamia do meu procedimento, quiz fugir-lhe, mas já não era tempo!... Um +dia, a vigilancia paterna, arrebatou a infeliz Laura ao meu amor, e fez +encerral-a num recolhimento... Mais tarde, entrava eu furtivamente, e a +deshoras, na casa sagrada, para receber nos meus braços duas gêmeas +recem-nascidas... E sabes quem eram aquellas criancinhas, que a minha +criminosa leviandade fez vir a este mundo?... Eram as tuas discipulas +Rosa e Anna... + +--Minhas irmãs!!... + +--Sim, tuas irmãs... uma das quaes está morta, e a outra... perdida!... + +--Que diz, meu pae, perdida?!! A Rosa está perdida?!... Perdida, +como?!... + +--Ha muito que eu andava suspeitando da profunda melancolia de Rosa, e +dos seus modos inteiramente oppostos á indole viril e folgasã que sempre +lhe conheci. Antes da minha partida para Guimarães, procurei-a em casa +dos suppostos paes, quando estes choravam a sua inopinada e inexplicavel +ausencia... Esquecia-me dizer-te, que aquellas infelizes crianças +encontraram carinhosas mães, em duas das minhas caseiras, cujos maridos +tiveram a bondade de consentir na alimentação de seus verdadeiros filhos +a peitos estranhos, para que as minhas filhas podessem ser amamentadas +por suas esposas, e tidas como filhas d'elles por toda a povoação... Foi +assim que sempre as pude ter perto de mim, ignorando, ellas e o mundo, +que eram gêmeas, e que eu era seu pae... + +--E é á simples _ausencia_ de Rosa, que o meu bom pae e senhor chama +_perdição_?!... + +--Encontrei-a em Guimarães, entregue a um homem desconhecido, talvez o +seu amante, fazendo gala da sua liberdade... Soffri muito!... Os brios +da minha raça, fizeram com que mais uma vez esmagasse o coração; mas +tive forças para a desprezar publicamente... Já vês, que está perdida, e +bem perdida!... + +E uma torrente de lagrimas, serviram de epilogo á narração do velho +fidalgo. + +D. Maria da Gloria, estava cadaverica, mas não vertia uma só lagrima. +Tinham sido tão violentos, e seguidos, os choques que soffrêra, havia +n'aquella fidalga indole tamanha reacção contra a má sorte, que a +donzella, imitando os que a adversidade torna heroes, reprimia todas as +dôres, e concentrava todas as suas forças para a lucta. + +--Minha irmã não podia entregar-se voluntariamente a qualquer homem, +pisando aos pés a sua dignidade... V. Exc.^a, meu respeitavel pae, +deixou-se illudir por falsas apparencias, e o tempo hade esclarecer o +mysterio, provando-lhe que uma filha de Sebastião da Mesquita, não +sobrevivería uma hora á sua deshonra... + +--Como tu és boa, minha querida Maria!... + +--Sou apenas justa, meu bom pae. Espero, com plena confiança, vêr um dia +resurgir minha irmã Rosa, tão digna como eu da sua benção, e do seu +affecto... Agora, se V. Exc.^a o consente, dir-lhe-hei, que lamento o +não se poder legitimar o nascimento de minhas irmãs, pelo enlace de V. +Exc.^a com a senhora que foi mãe d'ellas... + +--Estamos chegados ao ponto principal d'esta solemne conferencia, minha +querida filha... Peço-te que continues a escutar-me com a maior +attenção, porque é de todo o melindre o que vou dizer-te... Para nós, os +homens que na bruma de tempos immemoriaes temos escondida a nossa +gloriosa origem, a nobreza não é o echo de pomposos nomes, nem o +apparato de vaidosos titulos, nem a fama de notaveis feitos: é uma +questão de _raça_. O rei póde fazer nobres; mas os fidalgos só os faz a +_casta_... Não ha memoria de existir na minha familia uma alliança +inconveniente... Gira em nossas veias um sangue tão puro, como possuira +o primeiro fidalgo d'esta raça: é uma herança, que só póde deixar de +transmittir-se pela morte da ultima vergontea da nossa arvore gigante... + +--Meu Deus! que pesada herança!... + +--Dizes bem, Maria, muito pesada... Senti-lhe todo o rigor, quando tive +de sacrificar-lhe o coração... Poupa-me a narrativa de alguns detalhes, +que me fariam córar de pejo... Basta saberes, que não obstante a +existencia de ligações graves, que tive de quebrar, conduzi aos altares +minha prima e tua santa mãe... Cumpri o legado da minha casta á custa de +permanentes remorsos, aggravados depois com a existencia de tuas +irmãs!... Vou hoje exigir de ti, minha presada filha, e unica +representante do meu nome, não um sacrificio igual ao meu, porque de +certo tens livre o coração, mas sim a tua palavra de receberes por +esposo o distincto fidalgo que te escolhi... + +--É impossivel, meu pae e senhor!... Eu tenho já o coração cheio de +affecto por um homem dignissimo, e a nenhum outro posso entregar-me... + +--Custa-me isso, filha, porque dei a minha palavra, embora reservasse o +ter de ouvir-te primeiramente... Comtudo, o cavalheiro por mim +escolhido, hade acceitar-me as rasoaveis desculpas, e tudo poderá +combinar-se, sendo o teu preferido, como é de crer, um fidalgo de +verdadeira raça... + +Felizmente para a enleiada donzella, ao soarem as ultimas palavras do +velho fidalgo, entrou sua mãe no quarto, acompanhada por João de +Lencastre, e foi a bondosa _fidalga das chaves_ que respondeu ao marido: + +--Não sei a que raça pertence o homem que nossa filha ama, meu presado +primo e senhor, mas conheço-lhe as acções, e posso affiançar-lhe sob a +minha palavra de _verdadeira fidalga_, que ninguem as tem mais +illustres... Peço ao meu esposo, que desculpe a esta curiosa velha o ter +escutado a sua conversação com a nossa filha... Sabia da sua bocca o que +se havia de entre ambos passar, é certo; mas tinha maternaes razões, +para não deixar só no campo esta sensivel criança... + +--Então, pelo que escuto, era uma conspiração!... Entrou tambem n'ella o +senhor meu primo João de Lencastre?... Ora deixem estar, que lhes hei-de +fazer pagar caro o segredinho... Vamos lá a saber o nome do feiticeiro, +que assim me roubou a melhor parte do coração de minha filha, e que teve +artes para chamar a minha sancta prima ao seu partido... Venha, venha +esse nome magico... + +--Chama-se, simplesmente, Arthur Soares... + +--O meu afilhado?!!... Deus não quiz que V. Exc.^a, snr.^a D. Maria da +Gloria, calcasse aos pés as venerandas cinzas de seus avós, e matasse +seu pae já proximo do tumulo... O snr. Arthur Soares, não póde ser... +_seu marido_, porque... morreu!... + +--Engana-se, meu pae, e senhor!... Arthur vive, e sempre viverá na minha +alma!... Foi gravemente ferido, mas está livre de perigo... Ha-de viver +longos annos... Ha de ser muito feliz, porque o merece, porque tem uma +alma, que vale por todas as nobrezas da terra... Ha-de chorar todas as +infelicidades que talvez esperem a minha raça, conservando-se +constantemente á altura dos seus nobilissimos sentimentos... +Affirmo-lhe, senhor, que nunca partiu d'elle a minima palavra ou o mais +insignificante gesto, que v. exc.^a não podesse presencear... Amei-o, e +hei-de amal-o eternamente... Mas sou fidalga!... Sou a herdeira de um +nome que deve passar _immaculado_ á posteridade, continuando em mim uma +infinda série de aristocraticas allianças!... Seja!!... V. exc.^a que +diz de um Lencastre para meu esposo?... + +--São de boa casta os Lencastres, minha filha; mas... + +--Muito bem, meu pae e senhor!... Com quanto eu receba a cruz da minha +herança, a escolha agora é minha... Findo o lucto pela morte de minha +irmã Anna, serei esposa do snr. Leopoldo de Lencastre!... + +Ficaram de tal sorte aturdidos os restantes personagens, com este +inesperado desenlace, que nem uma palavra se ouviu mais, retirando-se a +donzella cheia de magestade. + + + + +IV + +VISÃO + + + «Um presentimento de terror, d'aquelles que batem no coração de + repente, sem saber por quê nem d'onde vêem... + + «Tem sempre fé em Deus, que hade querer o que fôr melhor para nós. + + «E é trovoada isto, que se escurece tudo?... Não, são as sombras da + Eternidade que vêem sobre mim.» + + (VISCONDE DE ALMEIDA GARRETT--FRAGMENTO DE UM ROMANCE INEDITO.) + + +Conseguido o quietismo dos animos pela retirada de D. Maria da Gloria, +veiu a cada um a consciencia do que lhe ouvira affirmar, com uma +invencivel força de pasmosa vontade. + +Sebastião da Mesquita, embora tivesse triumphado no seu principal +proposito, não ficára tranquillo, porque lhe era antipathico o genro; +mas o seu orgulho de raça podia mais n'elle do que todos os bons +sentimentos que possuia: conheceu que sua filha era mulher de não +retrogradar, e resolveu conformar-se, guardando silencio. + +D. Isabel de Abendanho, comprehendendo mal o que se passára, esperava os +acontecimentos com a confiança das almas puras. + +João de Lencastre, ficára engolfado nos seus pensamentos, e só usou da +palavra, passado bastante tempo, para responder a algumas perguntas que +lhe fez Sebastião da Mesquita, e despedir-se dos velhos fidalgos, +dizendo-lhes que ia seguir a sorte da guerra. + +D. Maria da Gloria, mais do que nunca, ficára toda entregue ao +tractamento do demente. + +Ao dar meia noite do quarto dia, posterior áquelle em que a fidalga +donzella tão inesperadamente desenlaçára o temivel nó, que seu pae lhe +lançára ao collo, gemia Sebastião da Mesquita no seu leito as dôres de +sua teimosa enfermidade, e as que procediam de um pesadelo medonho. Via +as suas filhas bastardas, uma levantar-se do tumulo, e outra surgir do +meio de uma turba de mulheres hediondas pela miseria e pela devassidão, +pedirem-lhe contas dos carinhos maternaes, a que elle as arrebatara; de +um nome que podessem usar sem pejo, que elle não podia dar-lhes; e de um +futuro igual ao que esperava a sua filha legitima, que já não podia ser +o d'ellas... O mais terrivel da visão, era o espectro da mulher de +Leopoldo... D. Anna apparecia a seu pae, em todo o vigor da sua +mocidade, criminando-o pela forçada ligação a que elle a levára, e que +fôra causa da morte prematura que tivéra... O velho fidalgo, implorava o +perdão de sua filha, e a victima exigia-lhe, em troca, nada menos que o +completo aniquilamento da sua raça... Queria que seu pae désse por +escripto o seu consentimento para D. Maria da Gloria poder casar-se com +Arthur Soares... Apresentava-lhe penna, tinta e papel, e dizia-lhe, pela +voz da eternidade: + +«Em nome de Laura, a virgem que deshonrastes, e á qual nem foi dado +depositar um beijo maternal nas faces de suas filhas!... Em nome das +cruciantes dôres e das lagrimas de sangue, que levastes ao seio de uma +familia honesta!... Em nome do desespero da filha, que o teu despreso +atirou ao lôdo social!... Em nome, finalmente, d'esta outra filha, que +fizestes morrer na flôr da vida; e para que todos te perdoem, e Deus se +amerceie da tua alma,--escreve: «_Dou voluntariamente o meu +consentimento para minha filha D. Maria da Gloria poder casar-se com o +meu afilhado Arthur Soares. Ás portas da eternidade, prestes a +comparecer perante o pae commum, reconheço que só é verdadeiramente +nobre, aquelle que segue no mundo os preceitos de Jesus Christo==«Não +faças a outrem o que não queres para ti, perdôa as injurias, e ama o teu +proximo como a ti mesmo.»==Sebastião da Mesquita._» + +E o torturado velho, banhado em frios suores, sem ter já forças para +affastar de si a vingadora visão, que o aterrava, sem poder distinguir +se tudo aquillo era sonho ou realidade, pareceu-lhe que cedia ás ordens +da filha, e que estava escrevendo o que ella lhe dictava............... +....................................................................... + +Succedeu-se á visão um quebrantamento, que teve o velho fidalgo +prostrado, por algumas horas, como se estivera morto. + +Ao abrir os olhos, viu Sebastião da Mesquita junto da cabeceira a +sollicita e carinhosa esposa. Diligenciou recordar-se, e communicou o +acontecido a D. Isabel, em voz fraca, e cada vez mais duvidoso, se um +sonho fôra, ou se tudo se passára na realidade. A bondosa senhora, +aproveitou aquellas disposições do marido, para advogar a causa da +filha. Pintou Arthur Soares com as mais bellas côres; revelou o que elle +praticára em beneficio de D. Anna, porque entendeu que o juramento de +guardar segredo, dado por D. Maria, a não obrigava a ella; descreveu com +enthusiasmo o casto amor da donzella, e o que ella soffreria tendo de o +sacrificar ao dever de esposa de um homem aborrecido; foi, finalmente, +sublime de eloquencia maternal. + +No fim das suas expansões, olhou D. Isabel para o marido, a vêr se lhe +lia nos olhos o assentimento, que os labios não tinham proferido. Não +conseguiu o seu intento, porque os olhos de Sebastião da Mesquita +estavam completamente fechados... O remorso fôra um poderoso auxiliar da +enfermidade... + +Áquella hora, já o velho fidalgo sabia se lá nas alturas Deus permitte a +distincção de _humanas raças_... + + + + +V + +TRES SOLDADOS POR AMOR + + + «Tomai pensar mais solido e sizudo: + O caminho segui que a honra indica; + Trabalhai pela Patria, a Patria é tudo.» + + (POESIAS DE ANTONIO JOAQUIM DE MESQUITA E MELLO). + + +Entremos na residencia do reitor de Santo Adrião de Penafiel. + +Estamos na sala do oratorio, onde já vimos orar D. Isabel e o velho +parocho, por occasião dos _raptos_, e do incendio, da primeira parte +d'esta obra. + +Ajoelhado aos pés de Christo, está um vulto de mulher, nova e bella +ainda apesar do seu definhamento. + +Assentados em um movel de junco de dous logares unidos, com as costas +oppostas uma a outra, ficando por isso as pessoas a olharem-se de +frente, estão a um canto Rosa e João Vidal ou de Lencastre. + +A um lado, escrevendo, está o bondoso reitor. + +Trajam todos rigoroso lucto. + +Ouviremos o que dizem João e Rosa: + +--Quando seccarão as lagrimas nos seus olhos, snr.^a D. Rosa?... + +--Não ha muito que chóro, meu amigo, e ainda bem que posso chorar... Sou +muito mais forte do que me julgam, e do que eu mesma pensava ser... +Tenho atravessado de olhos enchutos crises violentas, que nem todos os +homens atravessariam de animo frio... Mas saber, na mesma hora, que era +filha de um respeitavel cavalheiro, e que meu pae morrera +considerando-me perdida... é de mais, bem o conhece!... + +--Não posso asseverar-lhe qual foi a convicção com que seu exc.^mo pae +falleceu; mas ao despedir-me d'elle, julgando eu que ainda o veria +muitas vezes, quando elle me pediu noticias suas, jurei-lhe, pelo meu +nome, que v. exc.^a era em tudo sua digna e honrada filha. Este meu +juramento, pelo conhecimento que elle tinha do meu caracter, e dado +poucos momentos depois de sua exc.^ma irmã D. Maria lhe ter dicto, por +uma sublime inspiração, que a snr.^a D. Rosa havia de resurgir pura de +toda a mácula,--devia ser bastante para o convencer de que fôra +precipitado em julgar por apparencias. Não posso adiantar-lhe mais, +porque me era impossivel mentir-lhe, mesmo para seu bem. Estive lá, como +sabe, quando fui acompanhar aquella desventurada martyr, que implora a +Deus o perdão dos que a sacrificaram, e desconheceram suas +virtudes;--mas não fallei com pessoa alguma da familia, porque assim era +preciso... Poucas horas depois, já seu exc.^mo pae não era d'este mundo! + +--Querido pae, e boa irmã!... É preciso que terminado o lucto, meu bom +amigo, D. Maria da Gloria seja feliz. + +--Sabe o que se fez, e o que se espera. O plano de v. exc.^a foi +rigorosamente executado. Admiro-a, snr.^a D. Rosa!... Como Deus lhe dá +forças para esmagar o coração!... + +--Não me julgue de leve, meu amigo, que póde enganar-se nos seus juizos +a meu respeito. É muitas vezes insondavel o coração da mulher... Eu +mesma não saberia, talvez, dizer em verdade quaes sejam os estimulos do +meu actual proceder... + +--Quer a desgraça que os eu conheça, senhora, e que os sinta +inabalaveis... São rarissimas as mulheres que sabem sacrificar o amor +aos seus brios, á dedicação e amisade; mas ha exemplos, e v. exc.^a é +das que póde praticar todos os extraordinarios... + +--E não tenho podido conseguir fazel-o feliz com a minha illimitada +estima... Veja que apoucado poder é o d'esta _extraordinaria_ mulher... + +--O que quer, senhora?!... O ambicioso soffre e caminha continuadamente, +até chegar ao cumulo da sua ambição, ou succumbir sem vêr realisadas as +suas loucas esperanças... Cheguei a meio caminho do meu paraiso, é +certo; deveria contentar-me, por que fôra alcançar já muito mais do que +merecia; mas esse mesmo exito augmentou a minha loucura, e não posso +ficar parado... Antes morrer com a esperança no pensamento, do que +arrastar a vida sem essa dôce consolação dos que padecem... + +--E como lhe ha de conceder _esperanças_, a mulher que o senhor salvou +da _perdição_, onde ella se foi voluntariamente lançar por amor a +_outro_ homem?!... + +--Não lhe tenho eu jurado muitas vezes, que seria o mais extremoso e +dedicado dos esposos?... Suspeita-me capaz, mil annos que vivessemos +juntos, de lhe fazer a mais remota allusão a um seu passo impensado, que +nem erro se póde chamar?... + +--E julga que me satisfaço com tão pouco?!... Avalia-me com a capacidade +de o victimar, para salvar a minha virtude?!... Como é injusto, João!... +Se fosse possivel ter entrada no meu peito, para lhe dar, um affecto +ainda superior ao que me levou a affrontar os prejuizos sociaes, seria +então sua esposa, creia-o... Mas posso eu sentil-o?... E sentindo-o, não +deveria occultal-o a mim propria, para não ter de córar da minha +versatilidade?... + +--Sou, pois, infallivelmente condemnado, não é verdade?!... Um pedido +então, senhora, e será o ultimo... Deixe-me ir batalhar pela nação... V. +Exc.^a já não carece dos meus serviços... tem a companhia d'aquella +martyr, e d'aquelle respeitabilissimo ancião... Vou para junto do meu +camarada Arthur... talvez que precise do meu auxilio, e juro-lhe que +darei por elle a vida... Consente, não é assim?... Não me responde?!... +Chora?!... Compadeça-se de mim, senhora, e deixe-me partir!... + +Usando dos privilegios concedidos a todos os narradores, vamos agora lêr +a carta, que o padre Alvaro acaba de escrever: + + + «_Exc.^ma Snr.^a D. Maria da Gloria, escolhida filha do bondoso Deus_: + +«Não ha flôres por mais mimosas que a natureza as produzisse, que +estejam ao abrigo das tempestades da terra; e por muito açoitadas e +pendidas que ellas fiquem, o sopro de um Deus, mais poderoso do que o +furacão da tormenta, em breve as alevanta e reanima. A minha linda flôr +da Gloria, está sendo abalada pelos ventos do infortunio, com que o pae +celeste costuma experimentar os seus escolhidos; mas, se como eu espero +e creio, a christã resignação fôr uma das muitas virtudes de V. Exc.^a, +não virá longe o dia em que hade ser compensada dos seus dolorosos +soffrimentos. Tambem eu sei carpir saudades do meu unico e verdadeiro +amigo, que nunca julguei que me houvesse de preceder na viagem da +eternidade!... Ora, pois, enchuguemos o justificado pranto, e fallemos +um pouco de nós outros, interinos habitadores d'este valle de lagrimas. + +«Venho da cabeceira do leito de Arthur, que está livre de todo o perigo: +mais alguns dias de repouso, e a seiva da vida apparecerá de novo. Foram +muito graves os ferimentos, perigosos mesmo: deixaram vestigios +permanentes, que mudaram immenso a physionomia do meu caro Arthur. +Perdôe a este velho padre o dizer-lhe, que o rapaz me pareceu assim mais +formoso ainda!... Eu, que devo impugnar os ardores guerreiros, como +indignos da caridade e da misericordia do Senhor, achei bello aquelle +aspecto marcial!... Na hora das despedidas, sahiu-lhe espontaneamente da +bocca o nome de V. Exc.^a, proferido com igual respeito áquelle com que +por vezes invocára o da sua querida mãe. Quizera responder-lhe com +poucas palavras, mas foi impossivel. A despedida, durou mais tempo do +que o resto da visita!... O padre, teve de ceder o seu logar ao homem, +que, apesar de criminoso, é pae!... Que lhe direi mais, senhora D. Maria +da Gloria?!... Arthur está preparado para todos os acontecimentos... +Resignar-se-ha com tudo, afóra a ideia de que V. Exc.^a possa ser menos +feliz do que merece. + +«Peço a transmissão dos meus profundissimos respeitos á exc.^ma snr.^a +D. Isabel, á qual me atrevo a rogar o seu regresso a estes sitios, onde +me será mais facil a realisação do desejo de as vêr todos os dias, e +acompanhal-as nas orações pelo eterno descanço do nosso chorado esposo, +pae e amigo. + + _Padre Alvaro._» + + +N'este mesmo dia, existiam só, além dos serventes, duas pessoas na +residencia do padre Alvaro: elle, e a senhora que vimos orar, em quanto +o padre escrevera e João e Rosa conversavam. + +João de Lencastre, fôra o primeiro a retirar-se, com a morte no coração, +porque de todo lhe fugira a esperança de ser correspondido no seu +immenso amor. + +Rosa, que o não prevenira da sua resolução, seguira-o pouco depois. + +Quarenta e oito horas eram apenas passadas, quando, no Porto, a +companhia de que era capitão Arthur Soares, contava mais dous +voluntarios, que eram o tenente João de Lencastre, e um elegante +sargento, que dizia chamar-se Paulo Virginio. + +Arthur Soares, estava já completamente restabelecido. + + + + +VI + +DENODO FEMININO + + + «Descavalgando, os dous guerreiros tomaram nos braços a irmã de + Pelagio, e foram reclinál-a sobre um monticulo cuberto de relva e + musgos..... + + «O unico signal que n'ella revelava vida era o tremor convulso que + violentamente a agitava.» + + (_A. Herculano_--EURICO.) + + +A guerra civil havia chegado ao seu maximo desenvolvimento. Não existia +em Portugal uma aldêa livre dos vexames da revolução. Os exercitos +belligerantes entretinham-se em operações de pouca importancia, em +conservarem para os seus governos os territorios occupados pela força, e +não chegavam a travar uma lucta decisiva. + +Um estado de coisas assim violento, não podia prolongar-se sem grave +prejuiso da nossa nacionalidade. + +O governo de Lisboa, fundado nas acclamações feitas a favor do snr. D. +Miguel de Bragança, pedira a interferencia das nações signatarias do +tractado da quadrupla alliança, por se achar em perigo a pessoa e +dynastia da rainha. + +Foi muito condemnada n'aquella epocha a medida extraordinaria da +intervenção estrangeira, que é sempre um desaire para as nações a ella +sujeita; mas é forçoso confessar, que lhe devemos immensos beneficios; e +que, se não foi um bem absoluto a interferencia da França, Inglaterra e +Hespanha, poupou comtudo a Portugal o derramamento de muito sangue, e os +milhares de calamidades a que a duração da guerra nos tinha entregues. + +No caso mesmo do vencimento provavel da causa popular havia a receiar +que, após elle, a ambição do partido ante-dynastico, que se achava em +força consideravel, désse muito que entender aos liberaes de boa fé, que +apenas pelejavam pela prática genuina do systema constitucional, e que +amavam de toda a alma a Liberdade, e a respeitabilissima pessoa da +snr.^a D. Maria II. + +A excelsa filha do rei soldado, a mais exemplar senhora da Europa, como +esposa e mãe educadora, foi inconsideradamente arguida de facciosa, pela +exaltação partidaria, que se esqueceu de levar-lhe em conta dos seus +actos politicos as constantes suggestões dos conselheiros que a +cercavam, aos quaes não se fartava de fornecer terriveis documentos para +a catechese, a imprensa licenciosa da opposição, cuja linguagem +desenvolta e ameaçadora bastaria a resolver qualquer monarcha, por mais +resoluto que elle fosse, a entregar-se nos braços dos que se lhe +mostrassem dedicados e leaes. + +O certo é, que alguns dos officiaes superiores da junta do Porto, não +viram com máus olhos a conclusão da guerra, pelo modo que ella teve +logar, como por sem duvida, a maioria sensata do paiz, a recebeu com +jubilo. + +O batalhão a que pertenciam Arthur Soares, João de Lencastre e o +sargento Paulo Virginio, achava-se em Setubal, fazendo parte da brigada +do commando do honrado e mutilado general, que servia ás ordens da junta +do Porto. Succedeu haverem sido interceptados a bordo de um vaso de +guerra alguns objectos, que do estrangeiro vinham dirigidos á rainha, e +entregues áquelle general, que immediatamente os enviou ao Paço por um +dos seus officiaes;[15] e foi Arthur Soares, elevado por seus serviços +ao posto de major, o escolhido para os ir apresentar, commissão que +desempenhou galhardamente. + +A snr.^a D. Maria II, commovida por um tão delicado quanto conveniente +procedimento, acolheu o mensageiro com inequivocas demonstrações de +estima. Não lhe fez graça nem mercê régia, porque, senhora como era de +elevadissimos sentimentos e notavel intelligencia, não queria de nenhuma +fórma melindrar o caracter de um soldado, que militava em campo que lhe +era opposto; mas significou-lhe, em phrases insinuantes, o quanto estava +reconhecida áquella fineza do bravo general, e o muito que desejava +poder em dias mais felizes distinguir e galardoar o porte e delicadeza +do attencioso mensageiro. + +Dias depois, tivera logar a batalha de Setubal, que matou cerca de 600 +homens de ambos os lados, em quatro horas que durou o fogo, e a que poz +termo um armisticio, por uma especie de intervenção do coronel Wilde, +que se achava n'aquellas paragens, a bordo do navio de S. M. Britanica +_Polyphemus_. + +N'esta batalha, achou-se o regimento de Arthur Soares fazendo parte da +força que atacara a direita do inimigo, e que foi tomada de improviso +pela cavallaria, que a fez debandar desordenadamente. O major Arthur +Soares, o tenente João de Lencastre, e o sargento Paulo Virginio, +fizeram desesperados esforços por conter os soldados, e tiveram de +sustentar uma lucta desigual com a cavallaria inimiga. Na occasião em +que o peito de João de Lencastre ia ser varado por uma bala sahida da +pistola que lhe apontava um soldado, collocou-se de permeio o sargento +Paulo Virginio, que recebeu o ferimento destinado ao seu superior. +N'esta altura, ouvia-se por todo o campo da batalha o toque de retirada, +e foi a elle que os dous officiaes deveram a conservação de suas vidas, +e o poderem soccorrer o ferido, que tão denodadamente havia salvado um +d'elles. + +Imagine-se qual seria o espanto dos nossos heroes, ao reconhecerem, sob +as vestes militares do sargento moribundo, o corpo mimoso da donzella +Rosa!... + + [15] Este facto foi publicado em alguns periodicos d'aquelle tempo. + + + + +VII + +OS ESPINHOS DA FLOR + + + «Peço ao meu anjo da guarda, + Se hei-de aqui ficar perdida, + Que vá levar-te por sonhos + Esta minha despedida.» + + (_V. de Castilho_--O ACALENTAR DA NETA.) + + +Leopoldo havia recuperado a razão, graças aos cuidados da sua gentil +enfermeira. Mal sabia o desgraçado, que novo supplicio lhe destinava a +mulher que o salvára da demencia!... + +Ouçamol-os: + +--Diga-me muitas vezes que não sonho, querida prima, e que não é +encantamento, ou uma nova crise da minha loucura, este celeste deslisar +da existencia ao seu lado... + +--É um facto muito real e verdadeiro, _caro primo_, que hade ter por +desenlace o nosso casamento... + +--Não posso crêr em tamanha ventura!... + +--Duvída?!... Pois não sabe, que protestei a meu pae de sustentar o +seguimento das _nobres_ allianças da minha raça?... Não vê como já me +abandono ao seu dominio, separada de minha mãe, que foi para o nosso +solar chorar a perda do marido estremecido, e longe de todos que no +mundo me são caros?... Duvída?!... Alguma razão tem para duvidar, porque +não é com premios taes que se costumam castigar os assassinos... + +--Tenha piedade, senhora!... + +--Piedade?!... De quem, e porquê?!... + +--De mim, que só fui criminoso por amor e por ciume... A ferida que fiz +n'um peito desleal, causou-me estragos, que só a prima teve o poder de +reparar... e bem conhece que não são de _assassino_ estes +soffrimentos... + +--__A _ferida que fez n'um peito desleal_, diz o primo?!... Illude-se, e +é chegada a hora de lhe tirar a venda... V. Exc.^a cravou ás punhaladas, +com este villão instrumento que guardei para o sangue que o tinge me +animar á vingança, o unico peito em que batia um coração que lhe era +affecto... Minha irmã Anna amava-o, como ao seu unico e verdadeiro +amor... + +--Não brinque, prima, que me tortura!... + +--Quer as provas?... Vá ouvindo... Passavamos aqui uma existencia +relativamente feliz, eu a crear sonhos de ventura com o meu _idolatrado_ +Arthur, e minha irmã Anna a lamentar-se de não ser comprehendida por V. +Exc.^a no seu immenso affecto, quando veiu enluctar-nos uma carta de +nosso pae, que me participava a resolução de casar-me em Guimarães... +Soffri horrivelmente!... Fiquei em estado de não poder empregar sequer +um raciocinio... A minha querida irmã, que era o symbolo da dedicação, +imaginou conjurar a tempestade que ameaçava o meu futuro, chamando aqui +o meu _muito amado_ Arthur... Comprehende?... Foi essa carta fatal, +roubada no campo da gloria ao _meu idolo_ por um soldado do seu +commando, que o tornou um assassino cobarde... Veja o sangue innocente, +tornado ferrugem no seu punhal!... + +--Misericordia, senhora, que me mata!... + +--Não hade morrer, _senhor meu noivo_, em quanto não tiver bem esgotado +o calix de amargura, que outros já tragaram por sua causa... + +--É então o demonio vingador, em vez do anjo adorado?!... Mas como é que +deseja unir-se ao homem que detesta, ao assassino de sua innocente +irmã?!... Eu torno a enlouquecer, de certo!... + +--Tambem não hade enlouquecer, porque me tem amor, e vae ser meu +esposo... Socegue, que o aguarda uma existencia _singular_... + +--Atterra-me o seu sangue frio, senhora! Não me dirá o logar que occupo +no seu coração?... + +--O meu coração está cheio, hade estal-o sempre, do _unico_ homem que eu +amo, e do qual me separa a fatalidade... Não hade passar um minuto da +minha existencia, sem que eu pague um tributo de lagrimas ardentes e +saudosas á memoria de _Arthur Soares_, do amor da minha infancia, da +alma mais nobre que existe na terra, e que só no céu me será concedido +unir á minha... Que importa isto ao _meu futuro esposo_, ao viuvo de +_minha irmã assassinada_!... + +--Cale-se, demonio!... + +--Hei de entreter os ouvidos de meu caro primo, e _feliz noivo_, com a +fiel narração do estado da minha alma, que todos os dias voará em busca +da que lhe é igual... Hei-de fazer-lhe conhecidas muitas +particularidades do nobilissimo caracter de Arthur... Quer saber?... Foi +elle que deu um dote á sua primeira mulher, ajuntando e vendendo para +esse fim, todos os seus haveres... + +--Que tormentos do inferno me quer fazer passar, senhora?!!... Peço-lhe +antes a morte como o supremo beneficio... + +--Quer saber mais?... Lembra-se da musica que eu lhe tocava todos os +dias ao pianno durante a sua convalescença?... É uma composição minha... +Fiz-lhe tambem uma letra, que lhe não cantava, porque não estava ainda +em estado de comprehendel-a... Vou dizer-lh'a agora, para que fique +sabendo que só o amor é verdadeiro poeta... Oiça: + + «LAGRIMAS D'ALMA + + «Vida ditosa da infancia amena, + tornada pena, que me traz delirio!... + Meu terno amante, meu poderoso rei, + por amor fiquei n'um atroz martyrio!... + + Ignora o mundo que cruel mysterio, + ao cemiterio casta virgem leva!... + Nem _Elle_ sabe quanto hei penado, + Arthur amado, que minha alma enleva! + + Aqui defronte do feroz tyranno, + que deshumano duas vidas sóme, + a irmã eu vingo, o amor vingando, + Arthur amando com ardor sem nome!... + + Ai! que saudade dos meus sonhos bellos, + puros anhelos, que gostosa tinha! + Ai! que tormentos o presente encerra, + na crua guerra da vingança minha!... + + Vida ditosa da infancia amêna, + tornada pena, que me traz delirio!... + Meu terno amante, meu querido d'alma, + recebe a palma d'este cru martyrio!...» + +O todo de Leopoldo revelava um tal soffrimento, que o mais desalmado +executor de alta justiça se compadeceria ao vêl-o! E D. Maria da Gloria +estava impiedosa! Chegara a um estado de exaltação, em que a mulher +_senhora_, se torna a mais temivel das féras. Havia por muito tempo +concentrado o seu rancor ao homem que lhe matara a irmã, e fôra causa, +ainda que indirecta, de se lhe sumir o delicioso porvir que sonhara, e +por isso era terrivel n'aquelle seu primeiro manifesto do odio que lhe +enchia o peito. + +Um escudeiro veiu entregar uma carta á vingadora que, reconhecendo +n'ella a letra de Arthur, a recebeu com transportes da mais intima +alegria, praticados febrilmente em face de Leopoldo. + +O conteúdo na carta, que D. Maria lêu em voz alta, era este: + +«Depois que o meu velho Alvaro lançou n'este pobre coração o desespero, +com a noticia da resolução que v. exc.^a tomara de ser fiel á vontade de +seu exc.^mo pae, tenho procurado a morte no campo da batalha, porque só +ella me libertaria dos tormentos, que me esperam ao saber que outro +homem é o seu esposo... Mas superior á minha vontade está o dedo de um +Deus todo poderoso, que me afasta os perigos, e me cérca de espectaculos +insinuantes!... Poderei vêr n'isto uma esperança?... + +«Na ultima batalha a que assisti, e na qual ganhei a patente de coronel, +deu-se um acontecimento, que vou narrar-lhe, porque tambem lhe +interessa. Alistara-se ultimamente no regimento do meu commando um joven +sargento, sobrio de palavras, que dizia chamar-se Paulo Virginio, e que +era a sombra do meu camarada, o seu bondoso parente João de Lencastre. +Não fizemos caso da assiduidade com que o sargento seguia de perto o seu +tenente, porque ambos nós tinhamos sérias preoccupações, que nos não +davam tempo a reparos curiosos. Quasi no fim da batalha, e quando já se +ouviam por todo o campo os toques de cessar fogo, e de retirada das +forças combatentes, estavamos todos tres cercados por soldados da +cavallaria inimiga, um dos quaes apontou a sua pistola ao peito de João +de Lencastre. Rapido, porém, como se fôra uma frecha, o intrépido +sargento, colloca o seu corpo em defesa do tenente, e recebe no peito o +ferimento que lhe era destinado! Dentro em pouco, apenas restavam no +campo os mortos e feridos de ambos os lados. Fomos em soccorro do +sargento: quem imagina v. exc.^a que descobrimos debaixo de um tal +disfarce?... A heroica senhora D. Rosa, sua exc.^ma irmã!... + +«De certo que avalia o nosso espanto e viva sensação, ao reconhecermos a +nossa companheira de infancia, a minha quasi irmã, a querida de todos +nós!... + +«Apresso-me a dizer-lhe que sua exc.^ma irmã não morreu; mas antes de +participar-lhe o desfecho d'esta tragica scena, preciso oriental-a de +succedimentos anteriores. + +«A snr.^a D. Rosa, chegou a persuadir-se que sentia por este seu indigno +criado, um affecto irresistivel; e como sabia d'aquelle que occupa a +minha alma, e que ella considerava correspondido, entendeu dever oppôr +entre mim e ella a barreira da perdição simulada, fugindo, n'este +intuito, do seu lar domestico, e dando entrada em Guimarães n'uma casa +de perdição!... Foi alli surprehendida por João de Lencastre que, após +porfiadas luctas, conseguiu arrancar-lhe o segredo do seu procedimento. +Este meu brioso camarada, e digno parente de v. exc.^a, offereceu o seu +nome, e a sua fortuna, á snr.^a D. Rosa, indicando-lhe este meio como o +melhor para o conseguimento dos seus fins; isto é, para que entre mim o +v. exc.^a nunca podésse haver suspeita do amor que ella julgava +consagrar-me. Sua exc.^ma irmã regeitou, e conservou-se na mesma casa, +até que João de Lencastre, que a occultas alugara uma sala proxima, teve +occasião de a salvar de uma affronta, que um infame tentava fazer-lhe. +Desde um tal dia, que a snr.^a D. Rosa abandonou completamente o seu +arrojado e perigoso projecto, entregando-se á protecção do nobre +salvador da sua virtude. + +«O meu camarada, e honrado parente de v. exc.^a, ha muito tempo, como +elle me confidenciou, que déra entrada a um sentimento sério pela +senhora D. Rosa; sentimento que todas estas peripecias tiveram o poder +de augmentar, por conhecer em sua exc.^ma irmã, a par de um genio viril, +um nobilissimo caracter, e pouco vulgar talento. Ultimamente, em casa do +meu prosado velho, tentou o meu camarada obter da senhora D. Rosa uma +resposta decisiva aos seus vehementes desejos, que lhe foi negada. + +«Dadas estas explicações indispensaveis, para a boa intelligencia do +mais que tenho a narrar-lhe, vou dizer o que se deu em seguida ao +ferimento do supposto sargento. + +«A dôr e a desesperação que se apoderaram de João de Lencastre ao +reconhecer na pessoa ferida a mulher que adorava, e que lhe parecia +estar sem vida, sentí-as, mas não me é dado descrevel-as. Conduzimos o +corpo inerte para a nossa residencia no quartel militar, e foram alli +chamados os mais habeis facultativos da nossa brigada, que estiveram +tres dias indecisos sobre o diagnostico que deviam dar. Ao quarto dia, o +primeiro em que sua exc.^ma irmã recobrou o uso da falla, +consideraram-n'a os medicos livre de perigo, ainda que mui gravemente +ferida. Durante o periodo de prostração da snr.^a D. Rosa, não pude +conseguir desviar o meu camarada da cabeceira do seu leito um só +instante. Estava mais cadaverico ainda que a doente, e n'um quietismo +idiota, que muito me assustou. Só deu accordo de si, quando sua exc.^ma +irmã abriu os olhos, e os fitou ternamente n'elle, levando-lhe a mão aos +labios... Então, arrebentaram-lhe as lagrimas com espantosa força, e +tive de o tirar arrebatadamente de ao pé do leito, para evitar damno á +doente. + +«Horas depois, fui testimunha da mais commovedora scena que tenho +presenceado: a snr.^a D. Rosa chamou-nos para junto de si, e fallou +n'estes termos: «Não podia ser feliz n'este mundo, e louvo a Deus a +sorte que me permittiu conservar a vida do homem que amo, a troco da +minha... Agora, que vou morrer, hei de ser acreditada, por mais +incomprehensivel que seja a minha confissão... Considerei-me presa de um +amor invencivel pelo snr. Arthur Soares, que eu sabia cheio de um +sublime affecto por minha irmã... Quiz pôr entre nós o impossivel, para +conter-me, e fingi entregar-me ao vicio... Fui salva da minha +temeridade, por uma affeição das que raramente os homens sabem ter... +Esta dedicação, a que não tinha o menor direito, fez-me descobrir um +novo rumo no sentimento que eu havia considerado immutavel!... Mas como +fazer semelhante confissão?!... Segui o homem que amava, e ao qual devo +a conservação da minha honra, na intenção de lhe dar a vida, como lhe +havia dado o coração... Deus concedeu-me a ventura desejada... Crês +agora em mim, Lencastre?...» + +«O meu camarada, snr.^a D. Maria, praticou as maiores loucuras, a que +póde levar-nos uma alegria sem limites!... Eu... pensava em v. exc.^a... + +«Tenho dentro em pouco de ser padrinho da união d'aquellas almas +angelicas perante o altar do Eterno... Partilho, por amizade, da ventura +dos nossos amigos; mas que dôres não hei-de ter ao lembrar-me que igual +ceremonia póde qualquer dia unir eternamente a snr.^a D. Maria da Gloria +a... + +«Cahe a penna da mão ao fiel servo de v. exc.^a + + _Arthur._» + + +A leitura da carta, que produzira em Leopoldo o effeito de um choque +electrico, augmentou o mau humor da vingadora, que redobrou as pungentes +ironias e os crueis sarcasmos, com que torturava o seu futuro noivo... + +Quando o desgraçado estava de todo succumbido, appareceram alli, sem se +fazerem annunciar, dois importantes personagens: eram o padre Alvaro, e +uma senhora com o rosto coberto por expêsso véu. + +O bondoso levita, dirigiu-se a Leopoldo n'estes termos: + +--Nunca se deve descrêr da misericordia divina, snr. Leopoldo!... Se na +sua alma entrou o remorso e o arrependimento do mal que tem causado, +posso dar-lhe uma esperança de que será perdoado por Deus... O seu +crime, não teve o resultado fatal, que o fizera enlouquecer... Sua +esposa escapou do ferimento que o senhor lhe fez, e vive ainda para lhe +perdoar, e amal-o como sempre o amou... Eu, seu irmão e a senhora D. +Rosa occultos em trajes de romeiros, e o honrado medico d'esta +localidade, que logo asseverou não ser mortal o ferimento, combinamos +deixal-a passar por morta, na caridosa intenção de pouparmos toda a +familia aos escandalos de um processo crime; fizemos convencer a todos +de que v. exc.^a enlouquecera com o desgosto; simulamos o enterro de um +cadaver, e conduzimos secretamente a snr.^a D. Anna á habitação do +medico, onde se conservou até se achar completamente curada, passando +depois para a residencia d'este humilde servo do senhor... + +Leopoldo, forcejou por levantar-se e ir ter com o vulto de mulher, que +elle adivinhara ser a sua, mas não pôde conseguil-o, porque a violencia +d'estas scenas o fizera cahir sem sentidos nos braços do bondoso padre. + +As duas irmãs, ternamente abraçadas, confundiam as lagrimas e os +soluços. + + + + +VIII + +A CONVENÇÃO DE GRAMIDO + + + «O partido popular fica livre da deshonra. Cedemos desde que nos era + impossivel combater; cedemos á força de tres poderosas nações. + Perdemos tudo, mas salvamos a honra.» + + (O n.º 63 do _Espectro_)[16]. + + +Leopoldo ficára prostrado no leito, acariciado por sua esposa, e +assistido da medicina, que procurava prevenir a volta da loucura. + +D. Maria da Gloria, antes de sahir, na companhia do padre Alvaro, para a +casa materna, tivera com sua irmã largas conferencias, e recebeu d'ella +um escripto do punho paterno, em que lhe era concedida licença para +unir-se com Arthur Soares. Este documento, fôra aquelle que Sebastião da +Mesquita lhe _parecera_ ter escripto, e que effectivamente escrevera, +durante a _visão_ de que tracta o capitulo assim chamado. Alcançara-o D. +Anna, entrando a deshoras no quarto de seu pae, em cumprimento de um +plano concebido por sua irmã Rosa, e auxiliado por João de Lencastre. +Levava de prevenção o necessario para aquelle escripto, que humildemente +rogára a seu pae lhe fizesse, e que o velho fidalgo, aterrado pela +apparição da filha que elle julgava morta, e considerando ordem o que +era rogativa, escreveu com mão trémula. + +Arthur Soares, e os noivos João de Lencastre e Rosa, estavam na cidade +do Porto, onde a revolução agonisava. + +Arthur acompanhara os representantes da junta provisoria do governo +supremo do reino a Gramido, onde tivéra logar a convenção, que poz termo +á guerra civil, e que foi resumido nestes artigos: + +1.º O fiel e exacto cumprimento dos quatro artigos da medeação, +incluidos no protocollo de 21 de maio d'este anno, é garantido pelos +governos alliados. + +2.º As tropas de sua magestade catholica exclusivamente occuparão desde +o dia 30 de junho a cidade do Porto, Villa Nova de Gaya, e todos os +fortes e reductos d'um e outro lado do rio em quanto a tranquillidade +não estiver completamente estabelecida sem receio de que possa ser +alterada pela sua ausencia, ficando na cidade do Porto uma forte +guarnição das forças alliadas em quanto estas se conservarem em +Portugal. No mesmo tempo o castello da Foz será occupado por tropas +inglezas, e no Douro estacionarão alguns vasos de guerra das potencias +alliadas. + +3.º A epocha da entrada das tropas portuguezas na cidade do Porto será +marcada pelas potencias alliadas. + +4.º A propriedade e segurança dos habitantes do Porto, e de todos os +portuguezes em geral, ficam confiados á honra, protecção e garantia das +potencias alliadas. + +5.º As forças do exercito de sua magestade catholica receberão as armas +dos corpos de linha, e voluntarios que obedecem á junta, entregando-se +guia ou passaporte gratuito ás pessoas que tiverem de sahir do Porto +para as terras da sua residencia, e dando-se baixa aos soldados de linha +que tiverem completado o tempo de serviço, e aos quaes se alistaram +durante esta lucta para servirem só até á sua conclusão. + +6.º O exercito da junta será tractado com todas as honras de guerra, +sendo conservadas aos officiaes as espadas, e cavallos de propriedade +sua. + +7.º Conceder-se-hão passaportes a qualquer pessoa, que deseje sahir do +reino, podendo voltar a elle quando lhe convier. + +8.º As tres potencias alliadas empregarão os seus esforços para com o +governo de sua magestade fidelissima afim de melhorar a condição dos +officiaes do antigo exercito realista. + +Esta convenção foi publicada por um decreto e proclamação da junta, que +termina assim: + +«A junta felicitando-se a si propria, e á nação, por vêr terminada uma +tão longa, e tão dolorosa guerra civil, espera que nenhum portuguez que +seguisse a sua bandeira conserve a lembrança de qualquer aggravo que, +durante a mesma guerra, possa ter recebido. + +«A junta lisongeia-se de que o seu comportamento, durante os difficeis +tempos em que foi chamada a reger estes reinos, em nome da nação e de +sua magestade a rainha, lhe tenha grangeado a estimação do povo +portuguez e do mundo civilisado. + +«A junta considera terminada a sua missão de uma maneira nobre, e +honrosa. A junta vai dissolver-se. + +«Seus membros, voltando de novo ao seio da vida particular, levam +comsigo a convicção de que sempre desejaram o bem, a liberdade e a +gloria do povo portuguez. + +«Não querem maior galardão do que a lisongeira recordação de que por +tanto tempo presidiram aos destinos do povo mais benigno, mais virtuoso, +mais heroico, e mais nobre da terra. + +«E farão sempre os mais sinceros votos pela gloria de Sua Magestade a +rainha, pela sincera reconciliação de seus subditos, e pela liberdade, e +felicidade do povo portuguez.» + +Assim acabou a mais notavel das guerras civis portuguezas. + +Arthur Soares, antes de seguir jornada, com os noivos, para Penafiel, +escreveu a D. Maria da Gloria estas palavras: + +«Acabou a guerra e com ella a esperança d'uma morte gloriosa para mim. +Recolho-me á residencia do meu santo velho, onde tudo me recordará o +tempo feliz da minha mocidade, passado ao lado de v. exc.^a... Qual será +o meu futuro?!... + +«Acompanham-me os noivos, que tencionam pedir á snr.^a D. Isabel e a v. +exc.^a um aposento no seu palacio. + + _Arthur_». + +Havia sido expedida esta carta ha poucos momentos, quanto Arthur Soares +recebera outra d'este theor: + +«Venha quanto antes abraçar a sua esposa. As barreiras que se oppunham á +nossa ventura, quiz Deus sumil-as pela sua infinita bondade! + + _Maria_.» + +Avalie o contentamento de Arthur, aquelle dos nossos leitores, que tiver +sinceramente amado. + + [16] Referimo-nos por vezes ao _Espectro_, não só por ter sido o + papel mais conhecido na epocha da revolta, mas tambem, e + principalmente, para darmos ao seu redactor, e nosso primeiro + jornalista, a honra, e a justiça, que se lhe devem. As más paixões + teem querido desfigurar os factos, attribuindo a odio pessoal o que + só fôra desharmonia politica; mas a verdade é--como já provamos--que + o _Espectro_ foi o _unico_ periodico da opposição d'aquelle tempo, + que teve a gloria de castigar os aleives da imprensa desenvolta, + tributando o respeito devido á _pessoa_ e _virtudes_ da snr.^a D. + Maria II. + + + + +IX + +BRIOS DE PLEBEU + + + «Uns homens ha, que, na paixão ardente, + Immolam tudo seu, + Menos a propria estima; e, felizmente, + D'esses homens sou eu: + Sou, que de tudo o que no mundo prézo, + Prézo mais não mer'cer o meu desprezo.» + + [João de Lemos--CANCIONEIRO] + + +Uma d'estas revoluções moraes, que as grandes crises produzem no espirito +humano, se operou em Arthur Soares. O filho do bom Alvaro era uma destas +almas privilegiadas, ricas de sublime poesia, a que o mundo chama +imaginações prodigas, porque lhe é vedado o entendel-as. Amara D. Maria da +Gloria, que era rica e nobre, como se ella fôra a mais desprotegida +camponeza. Prenderam-n'o os dotes moraes e physicos da fidalga moça, e nem +por sombras o deslumbrara a fortuna e nobreza de sangue da sua amada. Tão +prudente como gentil e cavalheiro, nunca d'elle partiria a iniciativa de +uma declaração: era d'estes poucos homens, que sabem morrer com um segredo +na alma, para não se exporem aos falsos juizos do vulgo, nem serem menos +presados pelo alvo da sua estima. D. Maria da Gloria, possuidora d'uma alma +semelhante á de Arthur, amando-o como era amada e manifestando o seu amor, +seguira seus naturaes impulsos com feminil precipitação. + +Sabendo que era amado pela filha do seu orgulhoso e fidalgo padrinho, a par +do naturalissimo contentamento que uma tal certeza lhe deu, principiou +Arthur Soares a comprehender o melindre em que o collocavam estes amores. +Os acontecimentos, porém, precipitaram-se com tal velocidade, que, até ao +momento do desenlace, não teve o nosso heroe o tempo material preciso para +cogitar n'um procedimento digno de si. + +Agora, que só da sua vontade estava dependente a sua ventura, Arthur +hesitava, e sustentava uma lucta mortificadora, porque os seus brios de +homem de bem lhe patenteavam, que no seu enlace com D. Maria não podia elle +entrar com uma porção, se não igual, aproximada das conveniencias sociaes +que ia receber. Se ao menos podésse apresentar as dragonas e condecorações +ganhas no campo da batalha, seria já alguma coisa, e fôra provavel que +acabasse a sua hesitação; mas o governo interino que lh'as concedera +deixara de existir, e o de sua magestade não lh'as garantia. + +Este brioso luctar contra o sentimento, se collocava Arthur Soares bem +longe do bafo empestado das paixões mesquinhas e torpes, que são o apanagio +de villões interesses, trazia-lhe a par a recordação dos tempos em que lhe +soavam os alegres hymnos do amor e da saudade; em que era sustentado o seu +affecto pela esperança de se tornar distincto no campo da honra, e poder +assim encurtar a distancia que o separava de Maria; e o seu intimo soffrer +tomava proporções assustadoras, que ameaçavam queimar-lhe ao fogo do +coração os brilhantes sonhos de amor que o tinham embalado. + +Ao passo que tudo respirava tranquillidade no palacio de D. Maria da +Gloria, e que a vida prasenteira dos noivos se tornava communicativa aos +demais habitadores d'aquelle nobre solar, existiam a dois passos d'alli, na +residencia do padre Alvaro, duas almas consumidas pela melancolia; pae e +filho eram victimas dos mesmos pensamentos, que nutriam sem os +communicarem, e que nenhum d'elles sabia como destruil-os para o bem +commum. + +As forças physicas de Arthur tiveram de ceder ao prolongado e doloroso +debate moral que elle sustentara, e cahiu em perigosa enfermidade. O triste +pae, teve de envidar um resto de energia, para animar o filho querido, e +chamou em seu auxilio aquella que era a involuntaria causa do soffrimento +de Arthur. + +D. Maria da Gloria, com a perspicacia inherente ás pessoas do seu sexo, +educação e talentos, quasi que lia claramente na alma do seu amante e, por +um fidalgo tacto, que só ensina o amor verdadeiro, desviara sempre as +conversações do terreno em que poderiam declinar para expansões perigosas, +esperando assim corajosamente o resultado da lucta, sem dar o menor indicio +de querer accelerar o desfecho que tão grato era ao seu coração. + +Assidua enfermeira do seu amante, pondo de parte as etiquetas e convenções +do seu mundo, D. Maria não largava a cabeceira do seu querido enfermo. Nas +crises mais perigosas da enfermidade, tinha a gentil e fidalga moça a +coragem de mostrar-se risonha na presença do seu idolo, para dar, ás +occultas, largas ao pranto, e á dôr que a definhava. + +Os desvélos do pae e da amante, auxiliados pela constituição vigorosa de +Arthur, arrancaram-n'o das bordas do tumulo. Já convalescente, tomou um dia +as mãos do pae e de D. Maria, beijou-as religiosamente, e disse-lhes, com +lagrimas na voz, e nos olhos: + +--Porque me não deixaram morrer?!... Acabava tudo, e não os faria soffrer +mais... + +--Quer-me parecer, Arthur, que vão muito longe os teus brios, e que talvez +degenerem em orgulho condemnavel... Ambos nós lêmos no teu intimo; eu, +porque sou teu pae; e este incomparavel anjo, porque te ama, ainda além do +que é permittido amar-se na terra... Querias morrer?!... E não será a +manifestação de um tal desejo grave offensa á Divina Providencia, que tão +prodiga tem sido em beneficiar-te?... Ou quererás tu tornar-me mais +pungentes os remorsos, por te haver dado uma existencia a que chamas +infeliz?... Mas fica certo, filho, que a tua ultima hora seria a minha, e +que tu, deixando a vida, fugias á possivel felicidade n'este mundo, em +quanto que eu, se um Deus misericordioso perdoar os meus peccados, encontro +na morte o supremo bem!... + +--Como são sevéras as suas palavras, meu querido pae!... E diz-me o +coração, que os seus sentimentos são os meus, e que, no meu caso, seria em +tudo semelhante o seu procedimento... A prova d'esta minha convicção, está +no silencio que tem guardado, quando muito bem conhece que o simples +enunciado da sua vontade seria para mim uma ordem terminante... Porque me +não ordena o que devo fazer?... + +--Chega-me a minha vez de fallar, e principio por usar da minha auctoridade +de enfermeira, lembrando ao impertinente doentinho, que não póde ainda +entrar em conversações animadas... Sim, agora o mais bonito é isso!... +Chorem, chorem ambos, mortifiquem-se bem, e não tenham pena de mim, que os +heide aturar doentinhos!... + +--És o melhor dos anjos, minha querida Maria!... + +--Nem sou _anjo_, nem sou ainda _sua_, seu mau... Isso hade acontecer, +quando se realisar um sonho que eu tive uma d'estas noites......O snr. +Arthur Soares, figurava no meu sonho como um grande personagem, cercado de +attenções e de respeitos, podendo dispensar protecção, e não tendo já que +receiar dos maus juizos que o mundo fórma quando vê ligações entre duas +pessoas que não pesam do mesmo modo na balança das conveniencias... Eu era +sempre a mesma rapariga aldeã, que _V. Exc.^a se dignava elevar_ até á sua +altura, e que caminhava para a capella tão contente por o meu esposo ser um +_potentado_, como o estaria se elle fosse um simples _operario_... + +--Basta, minha adorada Maria!... Fixa tu a epocha do nosso casamento... + +--Está fixada, já lhe disse... Esperemos a realisação do meu sonho, que me +diz o coração, que não havemos de envelhecer esperando... Quero que fiquem +bem satisfeitos todos os seus caprichinhos... E agora, nem mais uma +palavra, que te faz mal fallar... + + + + +X + +VIAGEM DA RAINHA + + + «Foi então que se apossou da corôa.» + + (A. HERCULANO--EURICO.) + + + «Crer e amar--é a unica religião verdadeira; crer e amar--a unica + poesia verdadeira: uma não está sem a outra.» + + (V. DE ALMEIDA GARRETT--HELENA.) + + +A guerra civil gastou a nossa energia, e converteu a dissenção armada em +vinganças mesquinhas, em baixos enrêdos e ambiciosas abjecções. O povo, +esmagado com o peso dos tributos e dilacerado pelas inglorias luctas dos +bandos politicos, tinha perdido as crenças, e o amor ao systema liberal: o +throno, á força de lh'o pintarem de ferro, figurava-se-lhe tyrannico. Foi +então que uma feliz revolta militar levou ao poder os primeiros homens que +pozeram em pratica a constituição. + +Ferindo no ámago a roedora agiotagem por medidas energicas; apagando os +odios politicos; equilibrando quanto possivel a receita com a despeza do +estado; pagando em dia aos empregados da nação; garantindo as patentes aos +officiaes do exercito, e fazendo este alheio aos baldões politicos; dotando +o paiz de estradas e outros melhoramentos materiaes; dando accesso nos +empregos aos homens de todas as côres politicas; segurando os direitos +individuaes; e pondo, finalmente, em acção todo o machinismo de uma +verdadeira monarchia constitucional,--o primeiro ministerio chamado +_regenerador_, não desmentiu este nome redemptivo.[17] + +Não contentes de haverem grangeado a estima publica pelos seus actos, +aquelles vultos politicos do memoravel ministerio _regenerador_, quizeram +dar ao povo portuguez um conhecimento perfeito das altas virtudes da +familia real, e aconselharam-na a viajar pelo reino. Este passo teve o +alcance meditado: o nobre povo portuguez ficou amando, como ella merecia, a +senhora D. Maria II, e a sua dynastia. + +Pouco tempo depois, a digna filha do rei soldado, foi chorada, na sua +prematura morte, por todos os partidos; sendo para notar-se a parte +distincta que tomou no lucto, o partido que era affeiçoado ao infeliz +principe proscripto.[18] + +Continuou, sob a regencia do sympathico e bondoso monarcha, o snr. D. +Fernando, a sua bem assignalada gerencia, o ministerio regenerador. + +......................................................................... + +Era tudo rumor e gala no antigo solar dos Bandeiras, Mesquitas e +Abendanhos. A respeitavel snr.^a D. Isabel, parecia ter voltado aos seus +vinte annos, pela rapidez com que dava ordens e movia as chaves que lhe +pendiam do cinto. Era justificado o regosijo e o afan, porque a velha +fidalga esperava a honra de hospedar a familia real em seu palacio. D. +Maria da Gloria acompanhava a mãe nos precisos trabalhos com vivo +contentamento. D. Rosa deixara de ter questões com o marido,--para +resolverem qual d'elles devia ter mais tempo no collo um robusto rapaz, +fructo do seu amor, que era afilhado de D. Maria da Gloria e de Arthur +Soares,--e tambem dava o seu contingente para os preparativos do palacio. +João de Lencastre fôra encarregado por D. Maria de uma commissão +diplomatica: era forçoso conseguir que Arthur apparecesse, fardado, á +rainha!... Innocente capricho, chamou o ex-coronel á exigencia da sua Maria +e, embora estivesse sempre em projecto o seu casamento, folgava de obedecer +á vontade d'aquella que era tudo para elle. O capricho, porém, não era tão +innocente como parecia. João de Lencastre tornara-se fallador, como todas +as pessoas felizes, e havia contado a D. Maria, que Arthur fôra o official +escolhido em Setubal, para levar a Sua Magestade os objectos que lhe eram +destinados, e que foram tomados com um navio de guerra. Ora, esta +revelação, fez conceber um plano á fidalga moça, que devia tornar realidade +o sonho precursor do seu casamento. + +Chegou a familia real, e foi recebida alli, da mesma fórma que em todo o +seu transito, com as mais festivas demonstrações de leal affecto da parte +do povo apinhado na estrada, que entoava freneticos vivas aos reaes +viajantes, e os cobria de flôres. + +N'um intervallo das enfadonhas etiquetas, a que mesmo em viagem está +sujeito o primeiro magistrado de uma nação, conseguiu D. Maria da Gloria +fazer-se ouvir da rainha. Pouco depois, foi apresentado Arthur Soares a sua +magestade, que logo o reconheceu: + +--Felicito-me, snr. official, por ter chegado o _tempo mais feliz_, a que +me referi em palacio quando tive de agradecer-lhe o modo nobre e attencioso +com que se houve n'uma commissão delicada. Dizem que os reis +constitucionaes não podem fazer mercês a seu bel-prazer; mas se isso é +regra, soffre excepção quando os ministros responsaveis possuem as +qualidades d'aquelles que ora me cercam... Fica o snr. official com as +honras de coronel do exercito portuguez, cujo uniforme veste; pertence, +desde hoje, aos fidalgos da minha casa, e póde desde já assignar-se conde +de Setubal... Agora, consinta á sua rainha, que lhe manifeste a vontade de +ser testimunha e protectora do seu casamento... Sei que as formalidades +indispensaveis ha muito esperam por a sua resolução, está a dous passos a +capella do palacio, e eu tenho aqui o meu padre esmoller-mór... + +--Senhora! Toda a minha vida será dedicada a vossa magestade e á sua real +familia, como ha-de ser transmittida por mim a meus filhos, a obrigação de +darem todo o seu sangue em defeza do throno e dynastia da minha muito amada +rainha a senhora D. Maria II! + +--Obrigada, conde... Ame muito a sua esposa, que as _Marias_ são dignas de +um leal affecto... Levante-se condessa! É nos meus braços que eu costumo +apertar as pessoas que têem a sua alma... Finda a ceremonia do casamento, +quiz a rainha vêr, antes de retirar-se, o padre Alvaro, que foram chamar á +residencia a toda a pressa. Logo que chegou, dirigiu-lhe sua magestade a +palavra n'estes termos: + +--Foi me descripto o seu caracter, por quem conhece as suas virtudes. Não +lhe faço mercês porque sei que as regeitaria com evangelica abnegação; mas +peço-lhe que distribua pelos seus pobres o dinheiro que lhe ha-de entregar +o meu esmoller-mór... Peço-lhe ainda algumas orações para esta mulher +corôada, que dentro em pouco tempo ha-de ser pó... Os medicos +desenganaram-me... Queriam _remediar o mal infallivel_ não sei com que +_medicinas preventivas_, que eu recusei formalmente, porque não tremo de +morrer no meu officio de mulher, que é tão nobre, pelo menos, como o de +rainha... + +--De que preces póde carecer uma santa como vossa magestade?!... + +--Sempre rese, padre Alvaro; bem sabe que o maior justo pecca muitas +vezes... + +--Resarei, real senhora! e será meu o proveito das orações, como ha-de ser +de vossa magestade o reino do céu!... + + + [17] Quando revemos as provas d'este capitulo, annunciam os periodicos + a realisação de um emprestimo nacional, nas mais vantajosas condições + para o thesouro, de reis quarenta e tres mil oito centos e oito + contos--tres mil oito centos e oito a maior do que o governo solicitava + para a consolidação da divida fluctuante! É geral o contentamento, + esperançosa, e proxima, a organisação das nossas finanças, e notavel o + credito que o emprestimo nos faz ter nas principaes bolças da Europa. + Outros factos, igualmente importantes, em bem do paiz, estão succedendo + sob a gerencia de um governo composto das reliquias d'aquelle que + louvamos. + + [18] O snr. João de Lemos, publicou, por occasião da morte da snr.^a D. + Maria II, a conhecida poesia--O FUNERAL E A POMBA--da qual + consignaremos aqui estes edificantes versos: + + Soldados, que ha vinte annos + Com esforços sobre humanos + Batalhaes por vossa fé, + Soldados, eia, de pé! + Respeitem-se aquellas mágoas, + E do nosso pranto as agoas + Lavem d'odio o coração; + Não ha odios d'este lado, + Nem se deshonra um soldado, + Quando abraça seu irmão. + + Ponham-se treguas á guerra, + E ninguém manche esta terra + Ao pé de funérea luz; + Soldados, olhai a cruz! + Demos pranto a quem prantêa, + Demos dôr á dôr alheia, + Nos dois campos lucto egual! + Nenhum, nenhum se envilece, + Unidos na mesma prece, + Junto á loisa sepulchral. + + Solemne melancolia, + Seja n'hora da agonia + Nosso tributo cortez; + Que o tomem, que é portuguez! + Portuguez d'aquelles peitos, + Por tantos annos affeitos + Na lealdade a soffrer; + Portuguez que vem das eras, + D'aquellas crenças sinceras + _D'antes quebrar que torcer_. + + Que o tomem; e nós, soldados, + Ao vêl-os tão consternados, + Respeitemos-lhe a sua fé; + Amigos, eia, de pé! + Era o seu chefe, e bandeira, + Diziam-n'a companheira + De infortunio e proscripção; + Comprehendemos, pois, seu grito, + Nós, soldados do Proscripto, + Vinte annos gemendo em vão! + + A cada um sua crença e dôres, + Cada qual estreme as côres + Do pendão que traz por si; + Todo branco, é o nosso aqui. + Mas, se d'elle voz sagrada + Nos manda, por gloria herdada, + Ou morrer ou triumphar, + Tambem no alto do Calvario + Outro estandarte, um sudario, + Manda os tristes consolar. + + Porque é de arraial opposto, + Não córa o tributo o rôsto, + A quem o toma ou quem dá; + Soldados, lucto de cá! + É tributo á monarchia, + Por dois campos n'um só dia, + Cada qual por sua lei; + Um faz honras á Rainha, + Outro á Princesa, sobrinha + D'aquelle que jurou Rei!» + + + + +EPILOGO + + + + +EPILOGO + + +São decorridos cinco annos, depois do casamento de Arthur com D. Maria da +Gloria, e estamos no dia do 4.º anniversario natalicio de uma interessante +menina, que é a filha estremecida de tão venturoso par. + +O filho de Rosa e de João de Lencastre, dous annos mais velho, dá-se ares +de protector da priminha, que cérca de brinquedos e caricias infantis. D. +Isabel prepara toda jubilosa a festa dos annos da sua netinha. João de +Lencastre está narrando á mulher o que presenceára em casa do irmão, d'onde +recolhia de o haver visitado, triste pelo definhamento em que vira +Leopoldo. D. Maria e Arthur estão de mãos dadas contemplando as crianças, e +trocando phrases embalsemadas de felicidade. + +É de bem diverso effeito, a scena que vamos presencear na egreja parochial +da freguezia. O padre Alvaro, envelhecido e quebrantado em extremo, está +ajoelhado sobre a campa, que encerra os restos mortaes da mãe de Arthur, e +lê esta passagem da Biblia: + +«Disseram-lhe seus discipulos: Se tal é a condição de um homem a respeito +de sua mulher, não convém casar-se. Ao que elle respondeu: Nem todos são +capazes d'esta resolução, mas sómente aquelles, a quem isto foi dado. +Porque ha uns castrados que já assim nasceram; ha outros castrados a quem +outros homens fizeram taes; e ha outros castrados, que a si mesmos se +castraram por amor do Reino dos Céus. O que é capaz de comprehender isto, +comprehenda-o.» + +A leitura d'estas palavras, que são, para a egreja catholica, a desculpa do +padre celibatario, fez cahir o livro das mãos de Alvaro, e obrigou-o a +dizer, em consternadora exclamação: + +--Oh meu bom Deus! quando terão fim os meus remorsos?!... Quando poderei +deixar a vida esperançado no vosso perdão, oh Senhor Misericordioso?!... + +Lançou em seguida os olhos á Biblia, que no chão ficára aberta, e passados +poucos momentos, empregados em lêr o que a Providencia lhe deparou com a +queda do livro santo, estava o padre Alvaro radiante de alegria, erguendo +as mãos e os olhos ao Céu em acção de graça!... As palavras que causaram a +repentina mudança no attribulado espirito do bondoso padre, foram estas: + +«Digo-vos que assim haverá maior jubilo no Céu, sobre um peccador que fizer +penitencia, que sobre noventa e nove justos, que não hão de mister +penitencia.» + +Entrou n'aquella occasião na egreja toda a nova familia de Arthur, +incluindo as creancinhas e a velha fidalga D. Isabel, que vinha buscar o +padre para a festa dos annos. + +Findo o alegre jantar, desceram todos ao jardim, á excepção de D. Isabel. +Este local, é o mesmo em que se deram os acontecimentos descriptos no +capitulo--Ao luar--da primeira parte d'esta obra, apenas melhorado com mais +algumas plantações de arvores e flores, e commodos assentos. + +Estava toda a familia assentada em frente das janellas do palacio; o padre +Alvaro no centro com as crianças sobre os joelhos; D. Maria á direita +d'elle, e junto d'esta João de Lencastre; e D. Rosa á esquerda, e junto +d'ella Arthur. Umas pombas domesticas, saltavam do chão ao collo das +criancinhas a depenicarem-lhes os dôces que tinham nas mãos. + +As alegres expansões d'esta feliz familia, foram interrompidas pela +presença de um escudeiro, que a apresentava, n'uma salva, a D. Maria uma +carta tarjada de preto. + +Todos se olharam receiosos e contristados, sem que nenhum d'elles se +resolvesse a lançar mão da agoureira carta. Tomou-a o padre Alvaro, e pediu +licença a D. Maria para abril-a, e lêr o seu conteúdo em voz alta, o que +todos estimaram de ouvir, porque assim eram poupados ao desgosto da +primeira impressão. A carta era do punho de D. Anna, e resava assim: + + + «_Minha boa Maria e presada irmã_: + +«Estou viuva!... Nem os carinhos da minha profunda e constante adoração; +nem a linguagem caridosa das tuas cartas, em que chegaste a pedir indulto +para culpas que não eram tuas; nem os esforços, em fim, dos homens da +sciencia medica, poderam roubar á morte o meu desditoso Leopoldo!... +Mataram n'o os remorsos de não ter conhecido e compensado a tempo o meu +immenso affecto!... Vê, por isto, quanto eu soffro, Maria!... Ha cerca de +seis annos que todos os meus cuidados se resumiam na conservação da vida do +unico homem que amei!... Perdi-o!... perdi-o para sempre, minha querida +irmã!... E elle era bom, Maria!... Os arrebatamentos do seu genio +terminavam por um terrivel soffrimento, com o qual sobejamente se castigava +do mal causado aos outros!... Era tão bom, que o mataram uns mal entendidos +remorsos!... E eu vivo ainda, minha irmã!... + +«D'aqui a poucas horas, fechar-se-hão sobre mim as portas de um austero +convento,[19] onde possa chorar e orar por meu marido, e onde quero +repousar eternamente, quando Deus fôr servido livrar-me do fardo da vida... + +«Teu marido que venha tomar conta d'esta casa, que tudo lhe pertence por +minha disposição, como eu tambem a herdei pela de Leopoldo. + +«Abraça a Rosa por mim; lembra-me a todos; sede felizes, e diligenciae +evitar a vossos filhos, que de toda a alma abençôo, o remorso de qualquer +falta, porque o remorso mata!... + +«Adeus! + + Tua infeliz irmã, + + _Anna_.» + + +Finda a leitura, que o padre fez commovidissimo, assomou a uma das varandas +do palacio o respeitavel vulto de D. Isabel de Abendanho, trazendo atraz de +si meia duzia de pessoas das mais necessitadas da freguezia, todas +uniformemente vestidas de novo, e, rindo com a tranquillidade de uma santa, +disse para a familia: + +--Não esperavam, que a _velha_ fosse capaz de preparar-lhes uma surpreza, +no dia da festa da minha neta?... Pois saberão, meus _crianças_, que tive +segundo jantar na companhia d'estes bons filhos adoptivos, que aqui lhes +apresento todos pimpões, com os fatos novos de que a minha netinha lhes fez +presente... Perdão, senhor reitor... O nome de _criança_ foi uma +brincadeira minha, que nunca podia entender-se com o respeitavel senhor +padre Alvaro... + +O pae de Arthur, havia-se repentinamente tornado cadaverico! Apertara nas +suas as mãos dos pequeninos que tinha no collo, inclinara a cabeça sobre o +encôsto do assento, erguera os olhos ao céu, e balbuciara estas palavras: + +--_O remorso mata_... mas Deus perdôa aos que morrem penitentes... +Arthur... meus filhos... até logo!...... + +N'aquelle momento sombrio, uma das pombas saltou á cabeça do moribundo, o +que lhe fez entreabrir o seu ultimo sorriso. + +Um despedaçador grito de Arthur, fizera prostrar todos de joelhos. + +Chegava alli, da proxima campina, a melancolica toada d'este cantar: + + «Vou chorar e cortar fêno, + quem trabalha tambem sente: + as paixões trazem veneno + encoberto na semente. + + O nosso reitor, um santo, + reza sempre, e tambem chora! + N'um sepulchro verte o pranto + sempre, sempre á mesma hora!... + + Ninguem foge ao sentimento, + ninguem foge ao seu destino... + Quem d'amor soffre o tormento, + no Céu tem Amor Divino.» + + + [19] É motivo de odios para os liberalões de má casta, o sustentar + hoje a conveniencia da vida claustral! + + Por verdadeiro affecto á liberdade, por sabermos seguir e presar o + progresso do bem, é que entendemos absurda e tyrannica a extincção + dos conventos. O claustro, em casos analogos ao d'aquella heroina do + nosso «conto», era um refugio celeste: como suppril-o? Que liberdade + é essa que tolhe as mais innocentes acções da criatura? Existiam + abusos? E onde deixariam elles de existir, sem a vigilancia e o + castigo dos poderes constituidos? Porque no parlamento se discutem + questões impertinentes, porque no sanctuario das leis havemos + presenceado scenas vergonhosas, já alguem se lembrou de extinguir a + camara popular? + + Consola-nos vêr sustentar a nossa opinião abalisados e insuspeitos + escriptores liberaes de toda a Europa. + + Dizemos desassombradamente o que sentimos: não sabemos comprehender + o _celibato forçado_ e somos desaffectos á _extincção das ordens + religiosas_ e a todas as medidas violentas oppostas á bem entendida + Liberdade. + + +FIM DA TERCEIRA PARTE E ULTIMA + + + + + +Ao snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho, devo a delicada offerta da gravura +em chapa, que serviu para a tiragem do meu retrato. + +Orgulha-me a fineza de um artista, que no _Reglamento de exposiciones +nacionales de bellas artes_, publicado em Madrid no anno de 1871, foi assim +classificado: «Molarinho (D. José Arnaldo Nogueira), natural de Guimarães, +discipulo del snr. T. M. de Almeida Furtado, caballero de la Orden de +Cristo, medallas de plata en las Exposiciones Nacionales de 1857, 1862 y +1863.» Que no mesmo anno de 1871, na exposição de concurso das bellas artes +em Madrid, obteve o segundo premio; que tem recebido do estrangeiro +inequivocas demonstrações do grande apreço em que por lá é tido o seu +talento, e que mais util ainda teria sido á patria, se os poderes publicos +d'este nosso Portugal não tivessem o infeliz séstro de ignorarem a morada +do verdadeiro merito. + +Para o nosso primeiro gravador de medalhas, ainda não houve um _cantinho_ +na casa da moeda! Se elle não é influente eleitoral!... + +De sorte que o artista distincto, e pobre, n'este paiz, tem que empregar o +seu genio em obrinhas que lhe dêem o pão de todos os dias! + +Queriam que o snr. Molarinho concorresse á exposição de Vienna +d'Austria?[20] + +Os seis mezes que s. s.^a havia de gastar n'uma obra que lhe daria nome +europeu, e gloria a Portugal, foram passados a gravar _colleiras para +adorno dos sabujos de pessoas indinheiradas, que para tal fim procuram o +notavel artista_, como algures escreveu um nosso espirituoso narrador. + +Perdão... Não façamos injustiças. Nem todos os ministerios se esqueceram do +snr. Molarinho: houve um que o emparelhou com qualquer regedor de +parochia... O snr. Molarinho é cavalleiro do habito de Christo: não morre +de fome. + +Porto, 27 de agosto de 1873. + + _Miguel J. T. Mascarenhas_. + + + [20] O snr. Molarinho, foi oficialmente convidado de Vienna + d'Austria para entrar no concurso das medalhas para os premios da + exposição: não lhe foi possivel acceder. Os trabalhos seus, que lá + mandou, foram premiados. + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Um conto portuguez: episodio da guerra +civil: a Maria da Fonte, by Miguel J. T. Mascarenhas + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UM CONTO PORTUGUEZ *** + +***** This file should be named 25313-8.txt or 25313-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/5/3/1/25313/ + +Produced by Manuela Alves e Pedro Saborano. (produced from +scanned images of public domain material from Google Book +Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. 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T. Mascarenhas + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte + +Author: Miguel J. T. Mascarenhas + +Release Date: May 3, 2008 [EBook #25313] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UM CONTO PORTUGUEZ *** + + + + +Produced by Manuela Alves e Pedro Saborano. (produced from +scanned images of public domain material from Google Book +Search) + + + + + + +</pre> + + +<h2>UM CONTO PORTUGUEZ</h2> + +<p class="centrado"><img src="images/retratomjtm.gif" border="0" +alt="Retrato do Autor"></p> + + +<div class="capa"> +<h2>UM CONTO PORTUGUEZ</h2> + +<h5>EPISODIO DA GUERRA CIVIL</h5> + +<h1>A MARIA DA FONTE</h1> + +<h5>POR</h5> + +<p class="author">MIGUEL J. T. MASCARENHAS</p> + +<p>PORTO<br> +Typographia Lusitana<br> +84--Rua das Flores--84<br> +1873.</p> +</div> +<span class="pagenum">[5]</span> + +<h3>DEDICATORIA</h3> + +<h4>A MEU FILHO</h4> + +<h3>GASPAR TEIXEIRA DE SOUSA MASCARENHAS</h3> + +<div class="dedicatoria"> +<p>Dedico-te o meu unico livro.</p> + +<p>Dos variados escriptos meus, é este só que aprecio, porque empreguei +n'elle todo o meu cabedal, vontade tenaz, e a escrupulosa consciencia dos +quarenta annos repletos de provações.</p> + +<p>Principiado na convalescença de perigosa enfermidade, á cerca de quatro +annos, só hoje foi concluido. É certo que precisei estudar, e ler muitos +livros portuguezes de lei; mas a demora na conclusão do «Conto Portuguez», +deve, como sabes, tambem ser attribuida aos meus constantes padecimentos +physicos, que me não <span class="pagenum">[6]</span> consentem atturados trabalhos de nenhum genero.</p> + +<p>Escolhi-te para esta dedicatoria, porque tens no peito por tua indole e +minha insinuação, bem gravados todos os nomes das pessoas a que devemos +eterno reconhecimento: és como um ponto de reunião dos nossos bons amigos que +assim me parece contemplar sem o melindre da preferencia.</p> + +<p>Guimarães, 12 de Agosto de 1873.</p> + +<p class="direita">Teu pae muito amigo</p> +</div> + +<p class="direita"><span class="smallcaps">Miguel J. T. +Mascarenhas.</span></p> +<span class="pagenum">[7]</span> + +<h3>PROLOGO</h3> + +<p>Não ha forças humanas que nos destruam as tendencias.</p> + +<p>Quando o pae d'um antigo poeta latino castigou severamente o filho por +escrever poesias, ouviu do castigado um famoso verso heroico, como promessa +de não compôr mais versos.</p> + +<p>Desde os onze annos de idade que sinto uma irresistivel attracção para as +letras.</p> + +<p>Não frequentei escólas: apenas me ensinaram o--a, b, c. Em tal ignorancia, +como chegar á realisação dos meus ambiciosos sonhos, que todos eram de vêr em +letra redonda a minha «letra de mão»?!</p> + +<p>Tive por unicos auxiliares da minha ambiciosa quanto ardua empreza, a +muita leitura, <span class="pagenum">[8]</span> de boa ou má digestão, o muito ouvido, a muita vontade, +e a muita audacia, que é o fructo da ignorancia.</p> + +<p>Tenho soffrido decepções amargas, por muitas das minhas impensadas +obrinhas: se eu fui escrevedor de gazetas!...</p> + +<p>Remirei os meus peccados, com a publicação d'este livro?...</p> + +<p>Sugeitei a primeira parte do «Conto portuguez» á censura d'um dos mais +eruditos litteratos do Minho, que se dignou fazel-a, com a pericia e +imparcialidade dignas d'elle. Os seus prudentes e sabios conselhos, a que dei +todo o peso, estiveram, por um triz, a matar a obra: depois de ler o bom +juizo do meu sensor, tudo que eu havia escripto me parecia horrendo.</p> + +<p>Resolvi, pois, concluir, e dar publicidade ao meu «Conto» sem continuar o +prévio exame da pessoa competente a que me refiro. A rasão d'este proceder, +que parece atrevido, está no vehemente desejo de ver publicada a obra, e na +minha indole de hoje: tive já tanto de audacioso, quanto agora tenho de +poltrão. O estudo, os annos, e tambem as doenças, concorreram para a mudança: +vem sempre tarde o perfeito conhecimento da nossa ignorancia. Não curo do +concerto, para não desabar <span class="pagenum">[9]</span> o edificio. Se continuasse a apresentar o +meu trabalho, como tencionei, ao mesmo excellente critico, e elle como é de +crer, lhe notasse os defeitos,--morria o «Conto» com toda a certeza: morria, +porque eu, por um erro apontado, desconfiava que fossem erros todas as +palavras.</p> + +<p>Seria melhor?...</p> + +<p>São exactissimas as citações que faço tanto na parte historica como na +romantica, colhidas em livros insuspeitos; e o que é acção do «Conto», sem +ter allusões determinadas, é, com tudo, verdadeira: são muitos factos, meus +conhecidos, desviados das épocas e logares em que se deram, atados e +compostos com a arte de que posso dispôr, e postos a cargo de imaginarios +personagens.</p> + +<p>Resta-me dizer que, na pontuação, segui o systema de regular a escriptura +pelas pausas do discurso. Regras, deduzidas dos principios ideologicos, e da +grammatica geral, não estão ainda assentadas, e já é tarde para o serem. +Assim, entendi que não errava, seguindo opiniões esclarecidissimas, que podem +ser capitaneadas pela mui douta opinião do nosso immortal padre Vieira, +manifestada, por exemplo, n'este famoso periodo:</p> + +<p>«Arranca o estatuario uma pedra d'essas <span class="pagenum">[10]</span> montanhas, tosca, bruta, +dura, informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel +na mão, e começa a formar um homem; primeiro, membro a membro, e depois, +feição por feição, até a mais miuda: ondeia-lhe os cabellos; aliza-lhe a +testa; rasga-lhe os olhos; afila-lhe o nariz; abre-lhe a bocca; avulta-lhe as +faces; torneia-lhe o pescoço; estende-lhe os braços; espalma-lhe as mãos; +divide-lhe os dedos; lança-lhe os vestidos: aqui desprega; alli arruga; acolá +recama: e fica um homem perfeito, e, talvez, um sancto, que se póde pôr no +altar.»</p> + +<p>Guimarães, 12 de Agosto de 1873.</p> + +<p class="direita">Miguel J. T. Mascarenhas.</p> +<span class="pagenum">[11]</span> + +<h2>PRIMEIRA PARTE</h2> + +<h3>HONRA</h3> + +<div class="quote"> +<p>«No que o mundo chama <em>honra</em> ha muitas vezes mais vaidade que +virtude».</p> + +<p class="direita">(<span class="smallcaps">Dr. Corrêa de Lacerda</span>).</p> +</div> +<span class="pagenum">[12]</span><br><span class="pagenum">[13]</span> + +<h2>UM CONTO PORTUGUEZ</h2> +<br> + + +<h3>I<br> +TREZ DONZELLAS</h3> + +<div class="quote"> +«.....................................<br> +Tres, sim. Não cuides<br> +Que te desgraças: <br> +<span style="margin-left: 3em;">Vês?</span><br> +Tres são as Graças,<br> +Tres, as Virtudes,<br> +<span style="margin-left: 3em;">Tres.</span>» + +<p class="direita">«<em>João de Deus</em>--<span class="smallcaps">flor do +campo</span>.» </p> +</div> + +<p>Ao cahir da tarde de um dia que fôra borrascôso, no mez de Maria de 1846, +avistavam-se, em preparados assentos de terreiro povoado de arvores floridas +junto do atrio de nobre e vetusto domicilio, no valle de Sousa, das cercanias +de Penafiel, tres formosas donzellas em colloquio intimo. O donaire de uma +d'ellas e, a par de seu garbo senhoril, a riqueza e o bem posto de seus +atavios, estremando-a das companheiras, annunciavam a elevada posição social +a que pertencia. A natureza é que fôra egualmente prodiga para todas tres, no +tocante a dotes physicos. Possuiam <span class="pagenum">[14]</span> essas feições caracteristicas das +nossas mimosas portuguezas--e não é cego patriotismo esta asserção--que +reunem o que ha de seductor em todos os typos do mundo.</p> + +<p>Chamava-se a fidalga D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho: +por menos euphonico que pareça este ultimo appellido--seja dito aqui +ligeiramente--é muito nobre e muito peninsular.<sup +class="footnote"><a href="#fn1" name="lfn1">1</a></sup></p> + +<p>D. Maria achava-se no gôso de todas as caricias da familia, porque vira +fallecer, um após outro, cinco irmãos varões, ficando a ser, por tal falta, o +unico enlevo de seus nobres e abastados progenitores; como tambem usofruia o +respeito admirativo de todos os mancebos de muitas leguas em redor de sua +habitação, por ser esbelta; possuir cintura como de vespa; pés pequenissimos; +mãos a que todos os poetas--e os democraticos mais que todos--chamam +aristocraticas, por não encontrarem palavra mais significativa do bello; +rosto comprido; tez pallido-rosa; nariz um tanto aquilino; olhos pretos, +rasgados em fórma de amêndoa, e penetrantes; bocca, ainda que não mui breve, +attrahente e engraçada, pelos alvissimos dentes que sustinha, e delicioso +sorrir que semeava; cabellos que se lhe formavam em natural e opulenta corôa; +<span class="pagenum">[15]</span> piso de alvéloa sobre gêlo, e... mais de trezentos mil cruzados em +dote.</p> + +<p>Digamos em abono de poucos dos frequentadores da morada de D. Maria, que +as magnificas e rendosas propriedades da gentil fidalga, entravam, só por +ultimo, nos calculos que faziam, e nos sentimentos que manifestavam.</p> + +<p>A donzella que apresentamos como principal heroina do nosso conto--que á +força de ser verdadeiro ha de parecer inverosimil--apenas desmentia os seus +nobilissimos antepassados na applicação ao estudo, e nos apreciaveis +resultados que de tal ia colhendo. Era já mais de mediocremente instruida, e +muito além do geral das senhoras portuguezas.</p> + +<p>Sobre a instrucção, devia a Deus um talento investigador, que, junto ao +espirito repentista do sexo, dava á briosa fidalga proveitosas vantagens.</p> + +<p>Sustamos este bosquejo da nossa estremada heroina, que muita occasião +teremos de pôr em relêvo seus dotes e qualidades.</p> + +<p>As companheiras de D. Maria, chamavam-se Anna de Jesus e Rosa de Lima, +estimadas filhas de dous dos muitos caseiros da fidalga. Eram muito +parecidas, apesar de não conhecerem parentesco algum entre si, e tão +similhantes uma á outra, que muitas vezes as confundiam, e lhes trocavam os +nomes.</p> + +<p>Fallaremos de fugida nos dotes physicos de Rosa e Anna: altas; delgadas; +fórmas airosas, ainda que incompletas; tez alva; olhos azues; cabellos de +fino ouro, e um todo encantador, que os modestos trajes não conseguiam abafar +completamente, antes deixavam transluzir suas occultas bellezas.</p> + +<p>Anna de Jesus era docil; timida; e de umas crenças <span class="pagenum">[16]</span> religiosas, que +tocavam na beatice. Ao avêsso, Rosa de Lima, era agil; viva; falladeira; +sequiosa de saber; crente, sim, na religião de seus paes, mas desprendida de +certas apparencias, a que ella sabia chamar <em>phantasias sagradas</em>.</p> + +<p>Anna, interrogada, demorava as respostas que dava, e sahiam-lhe, por assim +dizer, coadas pelo receio de não acertar. Rosa, respondia a tudo com a +rapidez do relampago, e algumas vezes, com admiravel acerto. Ambas deviam á +boa indole, e amisade de D. Maria, o saberem lêr e escrever, quasi +correctamente, pelo que, e tambem pela convivencia com a esmerada e +voluntaria preceptora, mostravam uma util superioridade ás demais donzellas +da mesma classe.</p> + +<p>A mais velha das nossas tres heroinas, que era a fidalga, contava apenas +dezoito primaveras.</p> + +<p>Rosa, e Anna, ignoravam a edade que ao certo tinham, sustentando, com +tudo, o pueril capricho de que não era mais velha uma do que a outra.</p> + +<p>Rosa de Lima, mal conhecera o pae, fallecido ha dez annos, que fôra desde +rapaz caseiro em uma das propriedades do casal de D. Maria, onde a viuva e a +filha foram conservadas, mesmo com prejuizo do bom amanho das terras, como +costumavam proceder os bons fidalgos portuguezes, em grata memoria d'aquelles +que bem os serviam. A mãe, alquebrada pelos trabalhos mais que pela idade, +tudo confiava da sua querida Rosinha. E sempre na filha tivera embebidos os +olhos, e a alma presa.</p> + +<p>Rumorejava o povo contra o extremo maternal da mãe de Rosa, conhecida por +Emilia do Adro, attribuindo-lhe causas mysteriosas, o que mais d'uma <span class="pagenum">[17]</span> +vez fôra origem de mágoas para o marido, José do Adro, o fallecido pae de +Roza.</p> + +<p>Quasi sempre, o povo condemna sem averiguar, d'onde lhe vem o ser pouco +certeiro nos juizos que fórma, embora tenham alvo, proximo ou remoto, os +rumores de que se faz echo.</p> + +<p>Anna de Jesus, vivia na companhia de seus paes, ainda novos e vigorosos, e +de quatro irmãos mais velhos, que eram completos homens do campo. +Empregava-se no arranjo do bragal, e misteres internos, e quasi desapercebida +passava, a existencia da timida Anna, no centro de sua laboriosa e rude +familia.</p> + +<p>Não deve ser estranhada a confiança que D. Maria da Gloria dava, como +iremos conhecendo, ás filhas de seus caseiros. E de certo o não estranham, +aquelles dos leitores que bem conhecerem a distincta affabilidade no trato da +verdadeira nobreza de Portugal, mórmente com as pessoas de condição +humilde.</p> + +<p>Corre um tempo pouco favoravel á nobreza de sangue, no dizer dos que só +d'esta herança desdenham.</p> + +<p>Respeitam-se todos os titulos hereditarios, menos aquelles, que provam uma +geração briosa, e heroica!</p> + +<p>Porquê?</p> + +<p>É facil a resposta, a quem a quizer dar em boa fé: ralha-se do que se não +póde ter. Adquirem-se bens de fortuna, distincções, tudo: só não é possivel +mudar-se o berço. E quantos o mudariam, se podessem, mesmo na occasião do seu +mais frenetico vociferar contra a nobreza herdada!...</p> + +<p>Sejamos justos: haja consideração para tudo que o merece, que o bello é de +todas as classes sociaes.</p> + +<p><span class="pagenum">[18]</span> Descender de boa extirpe, é indubitavel gloria, e tambem onus, que +obriga a muito.</p> + +<p>Os que hoje adquirem nobreza,--e é comezinho o accesso,--se podessem +testimunhar d'aqui a trezentos annos os gabos de seus fidalgos descendentes +aos heroicos avós, não ficariam repletos de intima alegria?</p> + +<p>Abrandem, pois, os propagadores demagogicos, as democraticas íras, em que +decerto já tem parte o muito plebeu auctor do conto, e deixem-nos dizer, com +um dos nossos doutos portuguezes, que não ha cousa mais estimavel e bella, +que a nobreza do sangue, junta á nobreza do coração: é uma saphira engastada +em oiro purissimo.</p> + +<p>O colloquio das tres donzellas, fôra assim:</p> + +<p>--Pareces-me hoje mais pensativa, ainda que de costume, minha estimavel +Anna, o que tens tu?</p> + +<p>--Pensará talvez nas Ladainhas, e no jejum, fidalga;--respondeu, pela +interrogada, a falladeira Rosa.</p> + +<p>--Ora vamos, travessura da vida!... Já te prohibi que me chamasses +fidalga, como tambem te fiz vêr, o respeito que se deve a tudo que prende com +a religião que professamos. Bem deves conhecer, que tenho auctoridade de +mestra, e que posso chamar á palmatoria a discipula rebelde...</p> + +<p>--Diz bem fidal... snr.<sup>a</sup> D. Maria; e aqui tem a mão, sem fazer +momices... mas eu só digo estas coisas no intuito de animar um pouco a nossa +Annitas, que parece mesmo a figura da tristeza, quando não ha motivos para +lagrimas.</p> + +<p>--Tu pódes lá saber, o que vae no coração da nossa amiga, doudinha?</p> + +<p><span class="pagenum">[19]</span> --Sabe de certo, minha senhora, porque entre nós tres não ha +segredos;--respondeu a custo a questionada donzella.</p> + +<p>--Não ha, não... Juro por Santa Rosa de Lima, da qual tenho o nome e +desejara ter as virtudes, que a nossa scismadora, Anna de Jesus, me tem +revelado todos os seus mais vedados pensamentos... Por exemplo: se tem a +desventura de deixar uma noite cahir a candêa, e emborcar o azeite, para logo +prevê graves successos, que fielmente me vae narrar... Se estala um vidro na +casa, toda se encolhe, como a sensitiva, empallidece, treme, e diz-me, +depois, que grandes calamidades nos esperam... Se entra no meu casebre, e vê +que eu, por melhor disposição ou limpeza, deixei ficar a minha cama com os +pés para o lado da porta, faz tal exclamação, que devéras me assusta; e...</p> + +<p>--Basta, tontinha, basta... interrompeu D. Maria, entre frouxos de riso. +Não será possivel conseguir que tu deixes de atormentar, com as tuas graças, +a nossa commum amiga?</p> + +<p>--Deixe-a fallar, minha senhora, que eu necessito ouvil-a, a vêr se perco +algum do meu natural acanhamento. Conheço-me defeituosa, e sinto não ter a +necessaria força para vencer os meus defeitos. Apraz-me sentir um aviso de +Deus, nas jocosas palavras da boa Rosinha.</p> + +<p>--Nem tanto, pequena, que me arrependo já... Fazeres de mim, por obra do +Eterno, um propheta de saias, é mais pesado do que ouvir-te quantos +preconceitos aprendeste de teus crédulos parentes.</p> + +<p>--Se tu confessas que foram aprendidos, como <span class="pagenum">[20]</span> posso eu ter culpa das +culpas alheias?... Não é assim, minha senhora?</p> + +<p>--Dizes pouco, mas sempre bem. É o resultado de quem pensa o que diz. O +favor que me fazes de <em>tua senhora</em>, é que eu não queria receber. +Chamai-me só D. Maria, já que não quereis habituar-vos a um tratamento mais +intimo, e proprio das nossas idades, como eu appetecia.</p> + +<p>--Era o que faltava! As rainhas bem amigas são das damas do paço, e mais +estas ajoelham-se para beijarem a mão de sua real ama...</p> + +<p>--Invejo-te a verbosidade e o talento, querida Rosa... Has-de chegar a +muito se fôres bem fadada por Deus.</p> + +<p>--Vês, Rosinha, <em>minha vassalla</em>, que o mal da inveja tambem toca +nas almas como a da nossa Annitas!?</p> + +<p>--Aquillo, senhora, não é inveja, é mostrar que <em>pensa o que +diz</em>... mas é muito de crêr que nem sempre <em>diga o que +pensa</em>...</p> + +<p>--Com a tua pessoa, em jogo de bons ditos, minha doutora, não ha +partido... Olhai!... Se não são visões do crepusculo, o que eu diviso, é +muita gente reunida na serra de Guilhufe!...</p> + +<p>--É muito povo, é, snr.<sup>a</sup> D. Maria! Responderam, a uma voz, +surprehendidas, as duas amigas da fidalga.</p> + +<p>--É caso extraordinario! A esta hora, e n'um dia de serviço!... Ahi vem o +sobrinho do snr. reitor, que nos vai dizer o que significa aquelle +ajuntamento...</p> + +<p>Interrogado, o recem-vindo, pelas tres donzellas ao mesmo tempo, +respondeu,--precedendo um cumprimento de cabeça, por lhe não darem logar a +outro--é... a «Maria da Fonte!»</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn1" name="fn1">1</a></sup> Na <em>Historia da casa de Lara</em>, e +n'um manuscripto, de 1676, do padre Manoel da Purificação Magalhães, vê-se +escripto==<em>Avendanho</em>==; mas os modernos senhores do nome, +assignam-se--<em>Abendanho</em>. A nobre familia dos Abendanhos, veiu para +Portugal no tempo de El-Rei D. Diniz. O seu brasão compõe-se de cotta d'armas +de prata, em campo azul, trespassada por tres setas manchadas de sangue, com +a legenda: <em>Sine sanguine non est victoria</em>.</p> +</div> +<span class="pagenum">[21]</span> + +<h3>II<br> +RUGIDO</h3> + +<blockquote> + + <div class="quote"> + <p>«Não vêdes, que nos destruiremos a nós, e á nossa Republica, se + intentarmos cousas, que não podem ser, porque nos hão-de dar na cabeça + todos esses remedios?»</p> + + <p class="direita">(<em>Vieira</em>--<span class="smallcaps">ARTE DE + FURTAR</span>.)</p> + </div> +</blockquote> + +<p>Ha palavras, que excitam o espanto dos ouvintes, sem visivel rasão +justificativa do enleio: aquellas--«Maria da Fonte»--tiveram esse condão. +Interrogado, e interrogantes, entraram silenciosos na casa solar de D. Maria +da Gloria, em direcção á sala chamada das visitas, onde estavam os velhos +senhores d'ella.</p> + +<p>Não seremos exagerados dando o nome de palacio, á nobre e grande +habitação, que fazemos aqui figurar. Antes de se chegar á sala de recepção, +encontravam-se immensos salões e repartimentos, tudo a desafiar, pela +solidez, a acção do tempo, como são quasi todas as antigas edificações +portuguezas.</p> + +<p>Na sala de visitas, para não desmentir o adagio muito nosso,--«Em Maio +florido, ainda ao brasido»--havia <span class="pagenum">[22]</span> lume no fogão. Em cima de uma mesa +circular, estava um grande candieiro de metal amarello, com quatro bicos; e +postos nas demais mesas, castiçaes de prata, com vélas de cêra: moveis de pau +santo, cadeiras de espaldar, com botões de metal e arabêscos esculpidos em +sola, e denotando haver sido mudas testimunhas da passagem de algumas +gerações.</p> + +<p>Nas duas portas, que nos topos da sala se defrontavam, estavam pendentes +de fortes lanças reposteiros de grossa baêta encarnada, em que se viam +bordadas as armas de familia. Ao lado dos reposteiros, occupando parte da +parede, pendiam dous grandes quadros, representando, um d'elles, S. +Sebastião, e o outro Santa Isabel, primores de arte do celebre pintor +portuguez Affonso Sanches Coelho, que foi protegido pelo snr. principe D. +João, pae de El-Rei D. Sebastião, e depois apreciado por Filippe II de +Hespanha, onde morreu mui favorecido da côrte.</p> + +<p>Na parede fronteira a nove rasgadas janellas, que olhavam para um lindo +jardim, e famoso vergel de fructiferas arvores, estavam suspensas de grossos +cordões de sêda, de côr verde, as arvores genealogicas dos Mesquitas, +Bandeiras, Abendanhos, Souzas, e Mellos; collocados por cima d'ellas, seis +antiquissimos retratos de antepassados d'aquelle solar.</p> + +<p>Pelas mesas da sala, viam-se espalhados alguns livros, e periodicos da +época, merecendo especial menção um alto e largo volume, agasalhado em veludo +côr de rosa bordado a ouro, que dava a razão dos nobres appellidos da +familia, e, minuciosamente, contava as honras, e mercês a ella concedidas, +pelos monarchas, e senhores de Portugal.</p> + +<p>Sebastião da Mesquita Bandeira de Mello, pae de <span class="pagenum">[23]</span> D. Maria da Gloria, +e verdadeiro representante e possuidor d'aquella casa, era um velho fidalgo +portuguez, dos rarissimos que chegaram até nós, sabendo fazer acatar a +nobreza de sangue, que é ephemera sem a nobreza da alma. Era alto; direito, +apesar dos seus 70 annos; com fartos bigodes; olhos grandes, +castanhos-escuros; de olhar suave, que elle sabia, a proposito; tornar +imperativo; fronte elevada; cabellos brancos, e ar magestoso.</p> + +<p>Affavel em extremo, só era Sebastião da Mesquita, intransigivel, com os +desvios da honra. Recebia gentilmente em sua casa todos que n'ella se +acolhessem, e mui difficil seria não voltar alli tendo-se lá entrado uma vez. +O verdadeiro culto, que prestava á nobreza, levava-o a ser nimiamente sevéro +para as fraquezas dos nobres. O que fosse fidalgo, havia de mostral-o mais +pelas suas acções do que pela ostentação de seus pergaminhos: era este um dos +invariaveis preceitos do velho nobre.</p> + +<p>Não se attingiam de repente as sympathias de Sebastião da Mesquita. +Tratando a todos--nobres e plebeus--sem odiosas distincções, sabia occultar +as preferencias, que talvez sentisse. Ainda assim, sustentava, sempre que se +lhe deparava occasião, conversas demoradas e intimas com Arthur Soares, +sobrinho do reitor da freguezia, e, só este, no dizer dos analysadores, +merecia ao velho fidalgo reservadas prerogativas.</p> + +<p>D. Isabel de Abendanho e Sousa, prima e esposa de Sebastião da Mesquita +era uma idosa senhora, que deixava ainda entrever alguns traços de belleza, +pelo meio das ruinas do tempo, e do soffrimento, com a prematura morte de +seus cinco filhos varões. Toda <span class="pagenum">[24]</span> entregue á direcção interna do seu +casal, só á noite apparecia na sala das visitas, á hora do chá, servido o +qual, as pessoas estranhas á familia da casa, não a viam mais, até á mesma +hora do dia seguinte.</p> + +<p>Manifestava certo respeito ao marido, muito voluntario que não imposto, e +adorava a filha, como unico existente penhor do seu inalteravel affecto ao +esposo.</p> + +<p>A todas as pessoas apparecia D. Isabel com um mólho de chaves prêso á +cintura, o que lhe grangeou o epitheto de--<em>fidalga das chaves</em>--dito +pelo povo, á bocca pequena, sem o menor intento de offender a virtuosa e +velha fidalga. As chaves, companheiras inseparaveis de D. Isabel, provavam +unicamente, vigilancia e cuidado de boa dona de casa, que confia mais em si +do que nos melhores criados e familiares; e não diziam, de nenhum modo, +avareza, ou mesquinhez. E tanto isto assim era, que o povo igualmente a +denominava--<em>chaveira dos pobres</em>,--em grata allusão ás immensas +esmolas, que distribuia, e fazia distribuir, pela freguezia; além das que +diariamente se davam á porta d'aquella nobre casa, que, n'isto, se +assemelhava á portaria d'um convento.</p> + +<p>Falta apresentar aos leitores, o cavalheiro que vae acompanhando as tres +donzellas.</p> + +<p>Arthur Soares, sobrinho do reitor d'aquella freguezia, era homem de 27 +annos de idade; sympathico; bem parecido; insinuante; grave; erudito sem +affectação; brioso; conveniente em todos os seus dizeres, e procedimentos; +sobrio em palavras; vestindo com modesto aceio, e tratando todas as pessoas +com respeito e dignidade. Quando mancebo, frequentara eschola de primeiras +lettras; e o seu verdadeiro <span class="pagenum">[25]</span> estudo principiou aos quinze annos de +idade, e teve logar, sem presidencia de mestres, apenas auxiliado pelos +livros de seu thio reitor, e pela sua privilegiada intelligencia, e natural +talento.</p> + +<p>Era Arthur conhecido em muitas terras de Portugal, e, por todas ellas, a +nobreza de sangue lhe mostrava apparente agrado, desdenhando sempre do +plebeu, que entendia saber um pouco de tudo, e que dava seus ares de fidalgo +orgulhôso. Os capitalistas, os grandes proprietarios, os modernos titulares, +todos os homens de fortuna, emfim, olhavam de soslaio para o litterato sem +diplomas, que se atrevia a mostrar indifferença pelo dinheiro, o rei do +mundo.</p> + +<p>Fóra da residencia de seu thio, n'aquella freguezia, só era visto Arthur +Soares em casa de Sebastião da Mesquita, seu padrinho de baptismo, que o +considerava do modo que já dissemos.</p> + +<p>Ao entrarem na sala das visitas, as quatro pessoas que acompanhamos desde +o terreiro, ouviram-se badalar as <em>Ave-Marias</em> no campanario da terra, +o que logo fez pôr em pé os velhos senhores da casa, dos quaes se aproximaram +as donzellas, e Arthur, e todos, com a devida reverencia, resaram em côro a +conhecida oração da Santissima Trindade. Acabada a resa, foi D. Maria beijar +a mão e a face de sua mãe, e, depois, curvando os joelhos, pediu a benção ao +pae, que lhe offereceu a face direita, onde D. Maria depositou um respeitoso +osculo.</p> + +<p>As duas companheiras de D. Maria, pediram, de mãos postas, a benção aos +velhos fidalgos, que as acariciaram, chamando-lhes as lindas discipulas de +Maria, nomes com que Sebastião da Mesquita as dava a conhecer ás suas +visitas.</p> + +<p><span class="pagenum">[26]</span> Arthur Soares, saúdou D. Isabel, beijando-lhe as extremidades dos +dedos da mão direita, e recebeu um amplo aperto de mão do fidalgo, +acompanhado das palavras--bem vindo, afilhado--e de um certo fitar, que +n'elle demonstrava contentamento, e interesse pela pessoa a quem o +dirigia.</p> + +<p>Estabelecida certa liberdade familiar, promovida pelos velhos fidalgos, +occuparam as cadeiras proximas do fogão, Sebastião da Mesquita, D. Izabel e +Arthur Soares. D. Maria e as suas discipulas procuraram outro lado da sala, +onde podessem confidenciar, á vontade, os mil nonadas, que são os encantos +dos annos verdes, e, algumas vezes, até dos já illustrados pelo estudo. Rosa, +e Anna, ficaram de pé, aos lados da cadeira, occupada por D. Maria: só +tomavam assento na presença dos velhos fidalgos, quando estes imperativamente +o ordenavam. Sebastião da Mesquita e D. Isabel--diga-se a verdade--não +desgostavam d'aquella prova de submissão, e quasi sempre se esqueciam de lhe +pôr termo. É que o barro, por mais apurado que seja, tem asperezas, que só em +pó se desfazem.</p> + +<p>Passado pouco tempo, D. Isabel sahiu da sala, e o fidalgo estabeleceu com +Arthur o seguinte dialogo:</p> + +<p>--Que pesadelo o fez triste, como parece estar, snr. meu afilhado?</p> + +<p>--Tenho que dar a v. ex.<sup>a</sup> a desagradavel noticia de que o povo +se agita em desordem, começada por não sei que «<em>Maria da Fonte</em>» das +proximidades de Lanhôso, e temo que os tumultos cresçam até á altura de +revolução, porque a semente lançada pelas paixões partidarias hade produzir +os benésses a que miram os curas da imprensa desenvolta.</p> + +<p><span class="pagenum">[27]</span> --É cousa essa, snr. Arthur Soares, que não deve surprehender +aquelles que, como nós, acompanharam de longe as dissensões, e os desacertos, +da familia liberal, a que não pertenço pela communhão de idéas, mas que +desejára, como portuguez, vêr prosperar, para o bem de todos. E o que diz e +faz o povo?</p> + +<p>--O povo diz, <em>que abaixo o ministerio e as contribuições</em>, e +queima os mappas, que se mandaram encher, para um novo systema de +contribuições, reprovado, sem analyse séria, pelos partidos da opposição, que +incutiram nas massas ignorantes o absurdo de que aquelles papeis serviriam de +documentos para hypotheca da propriedade aos inglezes!</p> + +<p>--Quando haverá seriedade nos homens politicos, que assim fazem brinco de +uma nação?!</p> + +<p>--Neguei até hoje, o meu voto aos bandos politicos militantes, que já da +gloriosa ilha Terceira vieram eivados do mal, que devia affectar o heroismo +de um povo, e d'um rei-soldado. Os feitos praticados dentro das muralhas da +invicta cidade da Virgem, dariam assumpto para uma epopéa, se não tivessem a +macula de fratricidas... Perdôe v. ex.<sup>a</sup> o modo de vêr da moderna +eschola, que isto de nenhuma sorte escurece a grandeza, d'aquellas épochas de +conquistas, e de independencia, em que nobres antepassados de v. +ex.<sup>a</sup> manejaram a espada, com proveito, e immortal honra d'estes +reinos. Bem sabe, que sou liberal...</p> + +<p>--Sei que é homem de bem, snr. Arthur Soares, e não me repugna a liberdade +de que V. S.<sup>a</sup> é apostolo. Á licença, ao desenfreamento de paixões +interesseiras, ao que promove a desunião da familia portugueza, é que um +soldado da independencia, como eu fui, não dará em tempo algum o seu preito. +É V. S.<sup>a</sup> <span class="pagenum">[28]</span> o mesmo que confessa,--e dizem outro tanto todos +os liberaes de boa fé--que muito é para temer a desintelligencia que lavra +entre os que tanto precisavam de união. Tambem eu partilho esse receio pelo +meu paiz, sem que n'isto tome parte qualquer tendencia que possa haver em +mim, para applaudir outra fórma de governo. O que eu desejo, antes das +proprias conveniencias, é o bem geral, o engrandecimento d'este torrão +abençoado, em que nasci, e onde queria morrer portuguez. Estas continuadas +luctas intestinas, que nos trouxe a constituição, desdizem da felicidade por +ella annunciada, e quem sabe o que poderão causar-nos!...</p> + +<p>--Talvez a perda da nossa autonomia... É possivel. Mas as grandes +transformações sociaes, snr. Sebastião da Mesquita, não se operam sem abalos +mais ou menos fortes. Consinta-me V. Exc.<sup>a</sup>, que ainda confie no +futuro. Entre os vultos liberaes, ha caracteres nobilissimos, completamente +devotados á causa nacional. Se conseguirem aproximar d'elles, aos altos +cargos da governação publica, todos os homens competentes sem distincções +partidarias, póde a náo do estado tomar norte, e trazer-nos éras de paz e de +prosperidade.</p> + +<p>Foi n'esta altura interrompido o dialogo por um escudeiro de habito de +Christo, que vinha dar parte a Sebastião da Mesquita de que se achava o +terreiro coberto de povo, e á sua frente o Exc.<sup>mo</sup> Leopoldo de +Moraes Lencastre, do Marco de Canavezes, que pedia licença para entrar.</p> + +<p>Antes de dizermos a ordem que Sebastião da Mesquita deu ao escudeiro, +lembraremos de passagem duas cousas: primeira, que não sirva de prejuizo ao +<span class="pagenum">[29]</span> cofre nacional, pela falha de direitos de mercê, a noticia de haver +<em>escudeiros</em> com habito de Christo, porque é facto averiguado que os +houve, e não sabemos se ainda existem alguns. Eram homens de merecimento, a +maioria d'elles soldados companheiros de seus amos, e de provado valor e +lealdade.</p> + +<p>Segunda: que na rapida descripção que fizermos da guerra civil +contemporanea, seremos completamente isentos de sympathias pelos partidos ou +grupos que dividem os politicos de Portugal. Respeitamos todos os homens, não +temos odios nem invejas, e ajuizamos das cousas com o justo criterio da +imparcialidade.</p> + +<p>Sebastião da Mesquita, levantou-se e disse ao escudeiro, que mandasse +entrar toda a gente. D. Isabel, veiu á sala um pouco perturbada, e perguntou +ao esposo, para dizer alguma cousa, se queria que fosse servido o chá. +Sebastião da Mesquita, respondeu placidamente, que era magnifica occasião de +beber agua quando estivesse o povo na sala, porque se viesse com más tenções +fugiria d'ella como de sua figadal inimiga... Via-se que Sebastião da +Mesquita, estava ou queria mostrar-se tranquillo e jovial.</p> + +<p>D. Isabel foi tomar logar no centro das tres donzellas, que ficaram mudas +de espanto pela ordem que ouviram dar, e não de todo livres de receio, embora +tivessem sempre observado no povo extrema consideração pelo velho fidalgo. +Conservaram-se com tudo impassiveis, como estavam costumados a proceder todos +os familiares do fidalgo, quando este manifestava a sua vontade.</p> + +<p>Arthur Soares, collocou-se á esquerda do padrinho com tão natural aspecto, +como se fôra a continuar a conversa interrompida.</p> + +<p><span class="pagenum">[30]</span> O escudeiro, entrou de novo na sala com uma grande salva de prata e +sobre ella uma espada antiga, com cinturão, que, sem dizer palavra, offereceu +a Sebastião da Mesquita. O velho fez repentinamente um gesto de espanto, que +o escudeiro presenceou sem pestanejar; em seguida sorriu-se, como se +disséra--lembraste bem,--e pendurou a espada á cinta, com a pericia propria +de um antigo official de cavallaria. Logo depois, era annunciado, e dava +entrada na sala, o Exc.<sup>mo</sup> Leopoldo de Moraes Lencastre, que foi +recebido friamente: nas tres donzellas, é que se poderia notar a apparição +d'um tal ou qual rubor intraduzivel para os circumstantes, ao conhecerem o +fidalgo moço.</p> + +<p>--Sou o mais dedicado servo de V. Exc.<sup>a</sup> meu presadissimo primo +e senhor da Mesquita;--principiou por dizer o fidalgo Leopoldo, acompanhando +estas palavras de mesura palaciana, a que Sebastião da Mesquita correspondeu +com um ligeiro curvar de cabeça.</p> + +<p>--Tenho a honra de me dirigir a V. Exc.<sup>a</sup> em nome da soberania +popular, para que se digne acceitar o commando dos bravos camponezes da +comarca, que na cidade acabam de reduzir a cinzas os vexatorios papeis, que +um ministerio obnoxio, pelos actos despoticos que pratíca, semeára pelo +reino. A provincia do Minho, ao grito da heroina «<em>Maria da Fonte</em>,» +está toda revolucionada; e dentro em pouco chegarão os gritos do povo aos +ouvidos da corôa, que deve fazer justiça immediata, como o requerem as +anómalas condições em que se acha o systema constitucional. Ninguem mais +competente do que V. Exc.<sup>a</sup>, meu nobre primo e snr., para conduzir +o povo até ao paço; logar em que os nossos nobilissimos antepassados já +tiveram <span class="pagenum">[31]</span> a honra de sustentar na presença da magestade os direitos da +nação, com a coragem revelada n'aquellas memoraveis palavras, que a historia +legou ás futuras gerações:--«Se não, escolheremos outro rei que melhor saiba +governar e dirigir a briosa nação portugueza!»--Aguardo as determinações de +V. Exc.<sup>a</sup>, que fielmente serão communicadas aos que por ellas +esperam nos proximos salões deste palacio; bons lavradores que me pediram +fosse eu o interprete dos sentimentos d'elles perante V. Exc.<sup>a</sup> Não +consenti que entrassem n'esta sala, para deixar tranquillas as damas, primas +e senhoras minhas, ás quaes só agora tenho occasião de tributar o mais +respeitoso dos meus cultos e a mais submissa das minhas homenagens, +pedindo-lhes humildemente, que se dignem perdoar o não ter eu praticado desde +logo este dever, em attenção a que estava pouco senhor de mim com a delicada +e obrigatoria missão de que fui encarregado.</p> + +<p>Quando o fidalgo do Marco deu assim por terminado o aranzel, acenou +Sebastião da Mesquita ao escudeiro, que comprehendendo seu nobre senhor, +abriu de par em par as portas e reposteiros, dando livre accesso ao povo, que +estava agrupado pelos immediatos aposentos. Foram pouco e pouco, como +possuidos de acanhamento, entrando na sala os populares, activos e laboriosos +lavradores, sempre cortezes como todos os habitantes do Minho, mas faceis de +inflammar com perfidas insinuações, principalmente ácerca do perigo que possa +correr a religião que professam, e o lar que possuem.</p> + +<p>Eram variados os trajes d'aquelles homens amotinados, e variadissimas as +armas de que cada um estava munido: ainda assim, predominavam os fatos +domingueiros <span class="pagenum">[32]</span> a que é obrigada a casaqueta de botões amarellos, e as +espingardas de fechos com pederneira. Todos entravam desbarretados e +convenientes. Sebastião da Mesquita ia provocando a entrada com as animadoras +palavras:--«Vinde, vinde, bons homens.» E assim que todos o podiam ouvir, +virou-se para o mensageiro, e fallou n'estes termos:</p> + +<p>--Ouvi com a devida attenção e serenidade, o que teve a bondade de +dizer-me meu primo e snr. de Lencastre. Respondendo ao povo, que me escuta, +respondo tambem a v. ex.<sup>a</sup> Esta espada, que já serviu a nossos +avós, para emprezas importantes em prol d'estes reinos, e sempre em defeza do +sagrado solo da patria,--nunca será por mim empunhada contra portuguezes e +irmãos. Fui soldado da independencia, e não quero outra gloria. Quem deseja +conduzir o povo pelo caminho da revolta contra os poderes bem ou mal +constituidos, póde ter ambições a saciar, mas falta-lhe bem dentro n'alma a +nobreza de sentimentos, unica que póde distinguir da massa geral dos homens, +os fidalgos e as pessoas illustradas.</p> + +<p>«Porque os principes, ou aquelles que governam o reino, abusem do seu +poder, não é rasão para que os povos abusem dos seus direitos. Os homens +prudentes, devem conhecer os demais. Aos não poucos annos que tenho, devo eu +o não poder ser facilmente enganado... Não se queria o meu braço, não, que já +mal póde com a espada... O que se vinha aqui buscar era o bom nome do velho, +para servir de joguete a pequenas ambições... Não precisa o snr. meu primo +Leopoldo d'este fraco auxilio. As tendencias que manifesta para tribuno +popular, devem leval-o rapidamente ao parlamento, que é o caminho aberto ás +<span class="pagenum">[33]</span> modernas glorias... Seja feliz, e deixe-me descer socegadamente á +sepultura. E vós, homens do trabalho, recolhei-vos ao seio de vossas +familias, que devem soffrer com os vossos desvarios, e desconfiai sempre dos +pareceres que vos levam á porta os voluntarios zeladores dos vossos +interesses... Lembrai-vos, que não se devem despresar as lições da velhice, +que são as da experiencia. Minha prima e presada esposa, digne-se v. +ex.<sup>a</sup> mandar abrir a adega, para que esta boa gente mate a sêde. +Maria, as tuas interessantes discipulas ficam esta noite a fazer-te +companhia, para assim escaparem a algum <em>discurso</em> dos campeões de +praça... Snr. Arthur Soares e meu bom amigo, queira ter a summa bondade de +acompanhar este bom povo até ao terreiro, e vêr se póde com a sua eloquencia +acabar de convencêl-o da verdade encerrada nas minhas trémulas palavras. Meu +primo, querendo v. ex.<sup>a</sup> dar-nos a honra da sua presença, logo que +voltem minha mulher e o snr. Arthur Soares mando servir o chá.</p> + +<p>--Agradeço, mas não posso acceitar nem conservar-me aqui mais tempo depois +do que v. ex.<sup>a</sup> acaba de pronunciar...</p> + +<p>--N'esse caso,--interrompeu Sebastião da Mesquita--peço as ordens de v. +ex.<sup>a</sup>... João, acompanha meu primo até ao portal.</p> + +<p>Ao receber a ordem do amo, o escudeiro foi postar-se atraz de Leopoldo. +Este, fulo de cólera açamada, virou a espalda e sahiu com o povo, que +escutára o fidalgo com todo o respeito e silenciosa attenção, e que foi tão +rapido na sahida como morôso havia sido na entrada.</p> + +<p>Logo que foi evacuada a sala segundo as ordens de Sebastião da Mesquita, +caminhou este até ao pé <span class="pagenum">[34]</span> das donzellas, pôz a mão direita sobre o +hombro esquerdo da filha, encarou-a por longo tempo com visivel commoção, e +disse-lhe com lagrimas na voz: Deos te dê melhor sorte, Maria!... Depois, +cingiu Rosa e Anna com o braço esquerdo, e disse a todas com igual ternura: +Deos vos proteja, minhas filhas!...</p> +<span class="pagenum">[35]</span> + +<h3>III<br> +AO LUAR</h3> + +<div class="quote"> +«Na minha terra, uma aldeia,<br> +Por noites de lua cheia,<br> +É tão bella! é tão feliz!...»<br> +............................. + +<p class="direita">(<em>João de Lemos</em>--<span +class="smallcaps">Cancioneiro</span>.) </p> +</div> + +<p>Leopoldo de Moraes Lencastre, filho segundo da nobre familia dos alcaides +móres de Coruche, achava-se--por fallecimento do primogenito--na posse do +morgadio.</p> + +<p>Era importante a casa de seus maiores, dispersa por quasi todo o reino. +Leopoldo administrava mal e esbanjava muito, sem gastar, ainda assim, mais +que o rendimento.</p> + +<p>Corriam differentes versões ácerca da morte inesperada do morgado, que +todas formavam um pessimo conceito do herdeiro forçado d'aquella nobre casa. +No entanto, Leopoldo mostrára-se angustiado com a morte do irmão, e parecia +gosar a herança com a tranquilidade de espirito propria dos innocentes. +Deixára <span class="pagenum">[36]</span> Coimbra quando frequentava o quarto anno da faculdade de +direito, para tomar conta da casa, e voltára mais tarde a concluir a +formatura.</p> + +<p>Dotado de um caracter ardente, Leopoldo, era ambicioso de glorias, que +sonhava de um modo unico. Sacrificava todos os bons sentimentos, á satisfação +do amor proprio. Na consciencia d'elle, havia só logar para a sua +personalidade. Nunca encontrou espelho que lhe reflectisse outro objecto, +além da sua figura.</p> + +<p>O mundo era para o fidalgo doutor apenas um palco, destinado a receber-lhe +as scenas comicas ou tragicas; e os espectadores estavam magnetisados, para +só attentarem n'elle e nas suas acções. Não havia torpeza que lhe embargasse +o caminho do Capitolio, nem falta que o fizesse exitar no trajecto. Mettia +algumas vezes na gaveta das conveniencias a sua altivez, para de lá sahir +depois mais furiosa, alcançados que fossem os premeditados fins. Era mais +insaciavel com o seu orgulho, do que um miseravel com as suas necessidades: +os cuidados, agitações e pesares communs a todo o homem quando se dilata a +esphera dos prazeres, affeições e sentimentos, só accommettiam o moço doutor +na hora em que se convencia de que o mundo desviava os olhos das suas +façanhas.</p> + +<p>Leopoldo era physicamente favorecido da natureza, e suppríra, com o +estudo, o que lhe faltava em talentos. Foi-lhe facil estabelecer escóla sua, +e rodear-se de manequins, que serviam magnificamente aos seus desejos. É +crescido o numero de parasitas que, algumas vezes, se prestam para +caudatarios, e que são sempre tubas, ainda que rouquenhas, de famas adrede. E +não se verificava, com relação a Leopoldo, o preceito de ser a lisonja moeda +falsa que empobrece quem <span class="pagenum">[37]</span> a recebe; muito ao avêsso ia logrando +insinuar-se na opinião publica, que foi, e é, e ha de sempre ser, a tonta +filha das apparencias.</p> + +<p>Quando Arthur Soares, encarregado pelo fidalgo Mesquita de fallar ao povo, +estava desempenhando a commissão, foi interrompido por Leopoldo, que +pretendeu ridiculisal-o. Deu isto causa a uma discussão entre os dous, algum +tanto animada, que acabou pelo povo ir dispersando, e Arthur Soares deixar +bruscamente o adversario fidalgo, entrando de novo no palacio de Sebastião da +Mesquita, com o qual passou algumas horas mais.</p> + +<p>Na sahida para a residencia de seu thio reitor, ao passar por baixo das +janellas do quarto de D. Maria, teve Arthur Soares de prestar attenção ao +chamado da fidalga senhora, que, com as suas discipulas, estava gosando o +luar e a belleza da noite, e lhe perguntára como havia conseguido que o povo +recolhesse a suas casas.</p> + +<p>--Tudo consegue a prudencia, minha senhora, quando não é capa de occultos +interesses. O povo estava illudido por palavras pomposas que eu expliquei em +linguagem chã, fazendo-lhe conhecer o sentido interesseiro de quem lh'as +havia dito: convenceu-se e tranquillisou-se. O fidalgo, primo de V. +Exc.<sup>a</sup>, é que se não convenceu nem me agradece... Creio que adquiri +n'elle um verdadeiro inimigo.</p> + +<p>--Pouco deve importar ao snr. Soares a inimisade do snr. Lencastre. V. +S.<sup>a</sup> tem a nobreza das suas acções, que não podem invejar cousa +alguma ás do meu fidalgo primo.</p> + +<p>--Não me parece tanto assim, snr.<sup>a</sup> D. Maria;--arriscou-se a +dizer a timida Anna--O snr. Lencastre <span class="pagenum">[38]</span> é pessoa muito estimavel e +virtuosa, no meu humilde parecer...</p> + +<p>--Estimavel; virtuosa e <em>carinhosa</em>, deves acerescentar, minha +beatinha, porque o tal senhor teve artes para ganhar a tua affeição...</p> + +<p>--Valha-te Deus, Rosa, que vês tudo pelo mau lado... Eu sou muito amiga do +snr. Lencastre, como o seria de qualquer outra pessoa que conhecesse, e que +nunca me fizesse mal...</p> + +<p>--Parece-me, menina Anna, que a Rosinha foi mais verdadeira agora do que +mordaz ou satyrica, como graciosamente lhe chamam;--disse Arthur Soares.--Se +não, haja vista esse denunciativo rubôr que mais de palpite do que auxiliado +pelo luar, d'aqui imagino vêr...</p> + +<p>--Peço desculpa de ser contra a sua opinião, snr. Arthur, mas entendo que +o pejo, manifestado nas faces, póde ter variadas origens. A Rosinha tambem +córou, e talvez eu córasse egualmente, quando meu primo entrou no salão; e, +com tudo, não creio que em nós exista sentimento algum reservado.</p> + +<p>--Nunca dei entrada no meu espirito a qualquer suspeita prejudicial á +inexcedivel virtude de V. Exc.<sup>a</sup>, e á que adorna as suas +interessantes discipulas, o que não obstou a que eu fizesse +reparo--confesso-o--em certo embaraço que descobri em todas, na occasião a +que V. Exc.<sup>a</sup> se refere.</p> + +<p>--Eu explico ao snr. Arthur Soares a razão do nosso abalo;--disse +repentinamente Rosa.--Annitas, córou, porque o fidalguinho lhe não é +indiferente...</p> + +<p>--Tens cousas...</p> + +<p>--Não me interrompas, que ter coração não fica sul a pessoa alguma, O +amor, é toda a historia da <span class="pagenum">[39]</span> vida das mulheres, como diz um livro, que a +snr.<sup>a</sup> D. Maria me ensinou a lêr e entender.--Eu córei, por que +antipathiso solemnemente com uns certos modos do snr. Lencastre, que já me +fez a honra de dizer que eu era bonita e espirituosa... A snr.<sup>a</sup> D. +Maria...</p> + +<p>--Eu, menina, não desejo n'este momento ter interpretes dos meus +sentimentos... Subiu-me calor ás faces, porque... estava um tanto +indisposta...</p> + +<p>--É já tarde, minhas senhoras, e eu vou até á residencia de meu thio, onde +espero conciliar o sômno, vendo o soberbo luar d'esta lindissima noite, +atravez dos vidros da janella do meu pequeno quarto. V. Exc.<sup>a</sup>, +snr.<sup>a</sup> D. Maria, continue a gosar, em companhia das suas innocentes +amigas, o arôma das flôres do jardim e do pomar, a fagueira brisa d'esta +bellissima noite de primavera, o suave cantico da voadôra cotovia e da +poetica philomella, o murmurio da agua nos proximos tanques, a magestosa +pallidez da lua cheia, que tudo isto ajuda a nutrir a imaginação com illusões +nascidas da candidez da alma, muito mais carecida de taes alimentos do que a +fria razão.</p> + +<p>--Quer o snr. Arthur Soares dizer-me com esse trecho poetico, que não +gostou de que eu interrompesse a Rosinha?... Apreciava bem mais ouvir a +franqueza de que sabe usar, do que escutar-lhe um subterfugio, aliás +lindissimo na fórma... Eu, digo-lhe abertamente, snr. Soares, porque não +tenho motivos para occultal-o, que o meu pejo procedeu de haver ha muito +reconhecido em meu primo Lencastre, qualidades e sentimentos improprios de um +cavalheiro. Magôa-me bastante ter de fallar assim de um fidalgo, que é meu +parente; mas não quero que os meus gestos sejam mal avaliados, principalmente +por V. S.<sup>a</sup>, que é um <span class="pagenum">[40]</span> amigo d'esta casa, a quem meu pae +devéras estima.</p> + +<p>--Não me accuso, snr.<sup>a</sup> D. Maria, de ter provocado a +irritabilidade nervosa, que me parece descobrir em V. Exc.<sup>a</sup>, +porque me diz a alma que eu era incapaz de lhe promover o mais leve desgosto. +O dia em que eu me conhecesse origem de qualquer dissabor, para a familia do +snr. Sebastião da Mesquita--póde V. Exc.<sup>a</sup> crêl-o--seria o ultimo +da minha vida.</p> + +<p>--O que disse, não foi queixa, snr. Arthur Soares. Quiz apenas <em>ser +eu</em>, a dizer a V. S.<sup>a</sup> os meus sentimentos... Se perdeu com +isto de ouvir a narrativa com a natural eloquencia e graça de que dispõe a +minha amiga Rosa, deixo-os agora á vontade, para...</p> + +<p>--Sou eu que me devo retirar, snr.<sup>a</sup> D. Maria... E retiro-me com +a convicção bem formada de que <em>nunca mais</em> as minhas palavras, +dirigidas ao snr. Arthur Soares, poderão melindrar a minha presada senhora, +amiga e mestra, porque hei de medital-as muito...</p> + +<p>--Ficam ambas, com certeza, porque uma e outra se encontram empolgadas +pelo gavião!...--Disse uma voz sahida do pomar, que todos reconheceram ser a +do snr. de Lencastre.</p> + +<p>Facilmente se avalia a commoção em sentidos diversos, que soffreram todos +os actores d'esta scena, ao conhecerem o novo e audacioso interlocutor, +sahido de entre as arvores do pomar que o occultavam, e collocando-se +sobranceiro á parede do jardim, em frente da janella occupada pelas tres +donzellas, ficando alguns metros separado de Arthur Soares.</p> + +<p>--Não me surprehende, continuou a dizer o fidalgo moço, dirigindo-se para +a janella,--que a snr.<sup>a</sup> Rosa concebesse um arranjinho de vida +commodo, fazendo <span class="pagenum">[41]</span> presente do seu coração e de seus volumosos espiritos +ao snr. Arthur Soares; e que este eminente litterato tome posse de tudo, para +cada vez dar maior brilho ao seu verniz de urbanidade e brios... Agora, o que +devéras me faz descrêr de quantas virtudes podem honrar o coração humano, é o +vêr que a snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria esqueceu rapidamente a +distancia que a separa de um plebeu, embora um tanto polido, que nunca se +atreveria a pensar sequer na honra de conseguir, á custa dos maiores +sacrificios, o que V. Exc.<sup>a</sup> tão de barato lhe concede!... +Manifestar <em>ciumes</em> ao snr. Soares, minha nobre prima, é declarar-lhe +que o ama!...</p> + +<p>--Eu já sabia, snr. de Lencastre, que uma certa grosseria de habitos +formava a base do seu codigo cortezão; mas nunca me persuadi que V. +Exc.<sup>a</sup> quizesse lá escripta a villania de um procedimento como o +que acaba de ter! Os nossos lacaios, se alguma vez são apanhados a devassar +alheias causas, fogem espavoridos da feia acção que commetteram... O meu +nobre primo <em>afidalga-se</em> com um manifesto de curioso, e delator das +vidas alheias, abrindo com chave de mui duro e enferrujado ferro, o coração +de uma senhora, que lhe não deu o direito de se tornar seu vigia, e muito +menos seu mentor. Só a meu pae quero dar conta dos meus procedimentos, e +nenhum receio me dominava se o santo velho fosse um dos espectadores d'esta +scena, só pouco edificante desde que V. Exc.<sup>a</sup> entrou n'ella... +Peço ao snr. Arthur Soares, que seja completamente alheio ás palavras e +acções do snr. meu primo; peço-lho pela amisade que tem á minha familia.</p> + +<p><span class="pagenum">[42]</span> --É esse o mais espinhoso dever, que V. Exc.<sup>a</sup> me podia +impôr...</p> + +<p>--Socegue o paladino da nobre castellã, que não tem de medir armas comigo, +porque lhe não acceito o repto... E V. Exc.<sup>a</sup>, nobilissima +snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria, fique sabendo que a um perfeito acaso +devi o ficar conhecendo dos adiantados, prósperos e sublimes amores de V. +Exc.<sup>a</sup>, com o sobrinho do senhor reitor... Se me interesso por +alguem, não é de certo por V. Exc.<sup>a</sup>... Ha talvez ao lado da minha +nobre prima quem saiba nutrir aspirações mais fidalgas... Muitas vezes +acontece haver discipulos, que podiam ensinar os mestres...</p> + +<p>--Das lições de V. Exc.<sup>a</sup> é que ninguem aproveita... disse +sacudidamente Rosa, que ha muito ardia por fallar, e que era contida pelo +respeito devido á fidalga, e por se achar affectada com a inesperada direcção +d'estes acontecimentos, que lhe descobriram o coração.</p> + +<p>--Já me tardavam as provas de seu despeito, menina... Apraz-me têl-a por +inimiga: das mulheres formosas, só nos deve magoar a indifferença...</p> + +<p>--E o despreso, snr. meu primo?...</p> + +<p>--V. Exc.<sup>a</sup> despresa-me, minha nobre prima?... Tanto melhor, que +posso usar sem constrangimento dos meus direitos de fidalgo e de parente de +V. Exc.<sup>a</sup> para annunciar ao mundo do bom tom, que a +snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria Mesquita Bandeira de Abendanho, está +ligada pelos vinculos <em>do mais apertado amor, com dispensa de +sacramentos</em>, ao sobrinho do snr. reitor da freguezia...</p> + +<p>Ainda o snr. Leopoldo não tinha acabado de pronunciar bem a ultima palavra +do insulto, e já o som <span class="pagenum">[43]</span> de uma estrondosa bofetada echoava nos ouvidos +de todos.</p> + +<p>As discipulas de D. Maria deram um abafado grito e retiraram-se da +janella, a um pequeno impulso que lhes deu D. Maria. A fidalga, julgando ter +sido Arthur Soares que déra o castigo ao insolente, ficou sobresaltada, e +dirigiu-lhe, ainda que meigas, algumas censuras, a que o brioso mancebo +respondeu, que outra mão, mais prompta que a sua, castigára o desaforado +fidalgo.</p> + +<p>Fôra o caso, que João Vidal, o escudeiro, andando na sua costumada ronda +pelas cercanias do palacio, e ouvindo parte do dialogo, aproximou-se +cautelosamente do sitio onde estava Leopoldo, e lá se conservou até ao +momento em que o insulto feito á sua nobre ama, o levou a estender a mão na +cara do petulante com força tal, que o snr. de Lencastre cahiu redondamente +no chão do pomar. Logo que se levantou, ardendo em ira, partiu para o +escudeiro de punhal na mão. João Vidal, suspendeu-lhe o braço homicida e +arrancou-lhe da mão a arma cobarde, em menos tempo, tudo isto, do que se +gasta a contal-o.</p> + +<p>Vendo-se abatido, sem armas, e marcado pelo mais ignominoso ferrête que um +homem póde imprimir n'outro homem, Leopoldo vociferou:</p> + +<p>--Por um escudeiro!... Vergonha eterna!... Juro que a vingança ha de ser +superior á affronta... Não posso medir-me comtigo, villão, mas quero e hei-de +vingar-me... Vingar-me de todos... Ouviram?! De todos!... E a ti, canalha... +escudeiro infame... hei de afogar-te como se afoga um cão vadio!...</p> + +<p>Proferidas aquellas selvagens ameaças, retirou-se <span class="pagenum">[44]</span> o possesso, a +passos accelerados, não dando assim logar a maior castigo.</p> + +<p>João Vidal, com toda a submissão e respeito, pediu á sua joven senhora +desculpa para o que fizera sem premeditação, e levado unicamente pela +violencia do insulto. D. Maria agradeceu-lhe com palavras vehementes, e +ordenou-lhe que entregasse o punhal ao snr. Arthur Soares, o que o escudeiro +fez, sem exitação, pedindo depois licença para retirar-se.</p> + +<p>Arthur, surprezo com a ordem e a entrega, perguntou a D. Maria, que uso +devia fazer d'aquella arma.</p> + +<p>--Guarde-a--lhe disse a fidalga--até que eu lh'a peça.</p> + +<p>--É perigoso este instrumento na minha mão, senhora, desde que me vejo +causa involuntaria das mágoas de V. Exc.<sup>a</sup>... Esta noite foi para +mim ao mesmo tempo a vida e a morte... Tive sempre horror ao crime, e vejo-me +levado pelo destino a ser necessariamente criminoso! Acolhendo em meu peito +sentimentos, que nem ao dominio dos meus sonhos quereria que pertencessem, +terei de luctar e de punir, de caminhar para a incerta felicidade por cima do +cadaver de um inimigo, vilissimo é verdade, mas bem nascido e poderoso... O +que devo fazer em tão apertada como temivel conjunctura?!... Não devo +escolher entre dous crimes, aquelle de que só eu venha a soffrer as fataes +consequencias?!... Nunca me persuadi de que havia de chegar uma hora em que +assim fosse abalada a minha austeridade em principios religiosos!... Nunca +imaginei que seria forçado a praticar, o que sempre tenho rebatido com todas +as forças de uma profunda convicção!... Adeus, snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Gloria!... Amanhã será entregue a <span class="pagenum">[45]</span> V. Exc.<sup>a</sup> esta arma por +pessoa de confiança.... Peço-lhe que ao recebel-a se lembre com alguma +saudade do martyr de umas certas crenças, talvez irrisorias n'esta epocha +de... progressos... Adeus!...</p> + +<p>--Ordeno-lhe que fique!... Disse D. Maria com um tal assento de voz, que +obrigou Arthur a ficar como petrificado.</p> + +<p>--O snr. Arthur Soares, pensar em suicidar-se?!... Onde escondeu a +fortaleza do seu espirito robustecido pelo estudo?! Como assim esqueceu os +salutares conselhos de sua boa mãe, que o snr. Soares muitas vezes me tem +repetido?! Que fez das arreigadas crenças na religião de nossos paes, que o +snr. Arthur dizia ser a mais racional e acceitavel de todas as religiões, +mesmo desprendida do que n'ella ha de mysterioso e divino?!... Ah! snr. +Arthur Soares, que me parece imperdoavel essa allucinação!... Já não quero +fallar-lhe no abandono em que deixava as pessoas amigas, só pelo egoismo de +não soffrer na lucta! Isso prova que as melhores almas tambem têem suas +fraquezas... Lembre-se, senhor, que á vida de V. S.<sup>a</sup> póde estar +presa alguma outra vida; e que, querendo fugir a matar um inimigo vil, quando +seja absolutamente indispensavel o fazel-o, póde assassinar <em>alguem</em> +com o seu suicidio...</p> + +<p>--Pois V. Exc.<sup>a</sup>?!!...</p> + +<p>--Adeus, snr. Arthur Soares! Durma tranquillo e guarde bem essa arma que +deve ser entregue por V. S.<sup>a</sup> <em>em pessoa</em> a mim, ou, de +minha ordem, á minha amiga e discipula Rosa...</p> + +<p>Ditas estas palavras, retirou-se D. Maria da janella, que fechou de +manso.</p> + +<p>Arthur permaneceu no mesmo logar por largo espaço <span class="pagenum">[46]</span> de tempo, +immovel, com os olhos fitos na formosa lua cheia, e o pensamento entregue ao +vago de estranhas e indecifraveis sensações. Accordou d'este delicioso e +pungente lethargo, á voz amiga de João Vidal, o escudeiro, que o acompanhou á +residencia do thio.</p> +<span class="pagenum">[47]</span> + +<h3>IV<br> +MÃE E MADRE</h3> + +<div class="quote"> +<p>«Espero que essas pedras, que em outras foram de escandalo, sejam em v. m. +padrões de espirituaes exemplos.»</p> + +<p class="direita">(<em>Fr. Ant. das Chagas</em>--<span +class="smallcaps">Cartas espirit.)</span></p> +</div> + +<p>Pelos fins do mez de janeiro de 1807, um cavalleiro envolto em larga capa, +acompanhado de seus lacaios e creados a pé, desmontou, seria meia noite, +defronte da portaria do convento e mosteiro, da invocação de Nossa Senhora +das Candêas, de freiras de S. Bento, que fundou, nas casas em que nascêra na +villa de Moimenta da Beira, o doutor Fernão Mergulhão, filho de Vasco +Mergulhão e de sua mulher D. Leonor de Lucena, pessoas nobres e de vastos +rendimentos.</p> + +<p>O cavalleiro, bateu tão de rijo com a aldrava do portão, que a communidade +inteira accordou ao estrondo produzido pelos repetidos embates da massa de +ferro.</p> + +<p>Em quanto as noviças alvoroçadas perguntavam <span class="pagenum">[48]</span> em voz baixa umas ás +outras, o que poderia significar uma visita a taes deshoras, e que a muito +respeitavel abbadessa se erguia com inquietação, foi repetidas vezes renovado +o chamamento com furia egual, se não superior, á das primeiras pancadas, até +que a soror rodeira, toda espavorida, tendo-se vestido precipitadamente e sem +esperar as ordens da superiora, desceu até onde podésse ser ouvida e, com a +maior força que podia dar á sua voz septuagenaria, perguntou:</p> + +<p>--Quem, a esta hora, vem assim perturbar o repouso da vida claustral?!</p> + +<p>--Muito digna soror rodeira, tende a bondade de annunciar á senhora +abbadessa, a urgentissima necessidade de escutar, por um pouco, a um de seus +mais proximos parentes e ao mais humilde de seus servos.</p> + +<p>A este tempo, já a madre abbadessa estava ao lado da soror rodeira e, +reconhecendo a voz que a invocara, mandou que abrissem a porta sem demora. +Introduzido o cavalleiro no palratorio, depois de ter alcançado a benção da +abbadessa, fallou assim:</p> + +<p>--Minha muito respeitavel e estimadissima thia e senhora! Venho aqui, a +horas bem importunas, implorar de V. Exc.<sup>a</sup> a minha tranquilidade +domestica, porque ha já mezes que me é insupportavel a vida ao lado de minha +esposa e prima D. Leocadia.</p> + +<p>Não sei porque artes minha mulher descobriu a existencia do João, d'esse +filho do peccado, que a minha boa thia e senhora quiz ter a caridade de +recolher dentro d'estas sagradas paredes. E, desde que o sabe, ameaça-me de +separar-se de mim e de levar todo o seu dote, que é, como V. Exc.<sup>a</sup> +sabe, a maior parte da minha casa, se eu não entregar o pequeno <span class="pagenum">[49]</span> ao +destino que ella lhe queira dar. Eu conheço o coração de Leocadia, e sei que +ella é incapaz de maltratar o Joãosinho, e por isso...</p> + +<p>--Suspenda, snr. meu sobrinho, suspenda o seu desnaturado pedido, que lh'o +roga esta velha, em nome do Nosso doce Salvador Jesus. Entregar a uma inimiga +declarada, o meu querido filho adoptivo, o innocentinho a quem salvei a vida +com desvélos e cuidados, que talvez custem--quem sabe?--indelevel mancha ao +convento de que sou indigna superiora?!... Nunca, snr.! Nunca espere +semelhante acção de sua thia... Deu-me ha tres annos, por uma hora igual a +esta, seu filho recem-nascido. Considerei-me, quando me vi forçada a +recebel-o para evitar escandalos, escolhida pelo Nosso bom Deus, para exercer +uma de suas infinitas obras de misericordia. Vi-me attribulada para conseguir +mitigar a sêde ao anginho, que dava gritos dolorosos!</p> + +<p>Fui eu mesma aos curraes buscar o leite necessario, e apartar depois a +mais formosa das nossas cabrinhas, para servir de ama ao innocentinho... Não +me foi possivel occultar por muito tempo, ás virtuosas madres minhas santas +companheiras, a existencia do menino n'este recinto protector. Todas ellas +tem affecto egual áquelle que eu dedico ao nosso bello Joãosinho. O nome, que +recebeu no sagrado baptismo, é o do milagroso santo padroeiro d'esta villa, +que ha de abençoal-o e protegel-o... É o enlevo de todas a triste creancinha; +é o cofre em que depositamos as joias das nossas affeições mundanas. Este +nosso affecto, não póde offender nem diminuir o que votamos ao nosso doce +esposo e bom Jesus, que é todo caridade, todo amor, todo misericordia, todo +compaixão <span class="pagenum">[50]</span> para as fracas creaturas de que é pae extremosissimo...... +Assim que o meu querido filho adoptivo completar dez annos, hei de separar-me +d'elle, ainda que um rio de lagrimas me custe a separação, porque não póde, +nem deve, continuar a viver aqui; mas eu escolherei o destino do abandonado +infante. Pedirei ao nosso bom Deus, que me inspire, e tenho fé em que hei de +acertar... É esta, meu sobrinho, a minha irrevogavel resolução. Recorde-se de +que lhe ouvi, n'aquella noite assignalada da entrega que me fez de seu +innocente filho, a inaudita blasphemia de que, se eu o não recebesse, o +deixaria a qualquer canto de uma estrada!... Um pae que profere taes +palavras, perde, desde esse momento, os direitos da paternidade... Snr. meu +sobrinho! Digne-se Deus esquecer os seus erros!...</p> + +<p>Assim fallando, com um tom imperioso e sêcco, deixou a madre abbadessa +interdicto o seu interlocutor, que teve de retirar-se, não sem protestar +haver pela força e violencia, o que á boa paz não pudéra conseguir, ameaças +que ainda foram ouvidas pela respeitavel abbadessa.</p> + +<p>Era fama por todo o Portugal, fundada em apparencias mais ou menos falsas, +que as noviças e senhoras religiosas do convento de Moimenta da Beira +attrahiam ás suas grades a flôr da mocidade das provincias da Beira e Minho, +não só pela notavel belleza de muitas d'ellas, mas, principalmente, pelo modo +affavel com que recebiam as suas visitas.</p> + +<p>Dos mais assiduos frequentadores d'aquelle claustro, era um mancebo +elegante, distincto em acções e nascimento, que já havia sustentado bastantes +galanteios, com donzellas de todas as classes sociaes. Logo <span class="pagenum">[51]</span> ao +principiar a juventude, creára compromissos de homem feito; e declarava a sua +vida intima, a todas as pessoas que o escutavam, com a leviandade propria dos +annos ainda verdes.</p> + +<p>Fôra muitas vezes, sem elle o saber, espreitado pela respeitavel madre +abbadessa, em occasiões que se tornava expansivo com uma das mais lindas +noviças d'aquelle convento, que o attendia e mimoseava, ao palratorio, com +golodices e innocentes amabilidades.</p> + +<p>Certo dia, foi-lhe alli entregue uma carta urgente, que pediu licença para +lêr. O contheúdo no escripto, fizera-o mudar o semblante tão salientemente, +que a formosa noviça não resistiu á tentação de perguntar-lhe, que má +novidade o pozéra assim.</p> + +<p>--Está muito doente, um filhinho que tenho...</p> + +<p>--Pois o snr., que é solteiro, tem um filho?!...</p> + +<p>--Tenho, e quero-lhe tanto como se elle houvesse nascido do mais legitimo +matrimonio.</p> + +<p>Amo as creanças em geral, e estremeço aquella a que dei a existencia. +Todos os sacrificios seriam insignificantes para mim, quando se tratasse de +salvar innocentes creancinhas. Sou novo, mas quer-me parecer que em tempo +algum perderei os sentimentos de que já me orgulho. Só reconheço a +legitimidade do sangue, que é perfeitamente igual nos bastardos como nos +filhos do mais santo hymeneu.</p> + +<p>--Graças, meu doce Senhor Jesus, que já encontrei o que fervorosamente +pedia á vossa infinita bondade!... Disse uma voz, sahida do interior das +grades, que ambos reconheceram ser a da senhora abbadessa.</p> + +<p>Appareceu á grade, acto seguido, a trémula e veneranda <span class="pagenum">[52]</span> cabeça da +respeitavel superiora d'aquelle sagrado recinto, resplandecente de uma +auréola de luz divina, e pediu, com a mais terna affabilidade, á noviça, que +a deixasse ter um segredo com aquelle bondoso e nobre cavalheiro.</p> + +<p>Revelou a santa velhinha ao mancebo, como em seu poder cahira do céu o +pequenino João, que alli escapára ao abandono de paes desnaturados.</p> + +<p>Disse-lhe que muito receiava que o pae do innocente, movido por vil +interesse, tentasse apossar-se do filho pela violencia, o que não seria +difficil conseguir em uma terra certaneja, onde não havia segurança nem para +o asylo sagrado das esposas de Jesus Salvador. Pediu-lhe pelas sagradas dôres +de Maria Santissima, que tomasse a seu cargo o futuro d'aquelle infeliz, que +ella, amando-o como carinhosa mãe, confiaria do seu cavalheirismo, porque uma +voz occulta, que nunca lhe mentira, lhe dizia que podia confiar. E quando, em +algum dia dos poucos que tinha para viver, podesse haver ás mãos documentos +que aproveitassem ao seu querido filho adoptivo, lh'os faria entregar por +modo seguro.</p> + +<p>Logo que os soluços e as lagrimas da santa freira deram logar a ser ouvida +do mancebo, a quem fizera tão estranha revelação e ponderoso pedido, +disse-lhe, com uma solemnidade inesperada, que podia ficar tranquilla, em +relação ao futuro da creança, que elle, desde aquelle momento, tambem +adoptava por seu filho.</p> + +<p>Ás onze horas da noite d'aquelle dia, quem penetrasse até á porta das +cellas das religiosas benedictinas de Moimenta da Beira, sentiria lá dentro +lagrimas abundantes, porque todas choravam a ausencia <span class="pagenum">[53]</span> de Joãosinho, +fragil e inoffensiva creatura, que aquellas bondosas senhoras amavam com +maternal affecto.</p> + +<p>Ha sempre, mórmente em terras de poucos e incultos habitantes, vigias +nocturnas, homens morcêgos, que devassam os mais insignificantes +acontecimentos da rua, e que levam a sua audacia até ao ponto de pretenderem +sujar o sanctuario da familia com inducções calumniosas, tiradas dos +incidentes presenceados, a que não sabem nem podem dar verdadeira +interpretação.</p> + +<p>O fallar-se dentro do convento a deshoras, o bulicio de homens e cavallos, +por occasião da entrada e tambem da sahida da creança, alguns indicios da +existencia do pequeno João junto das freiras, o bom gasalhado que as +trataveis madres davam ás suas visitas, e os commentarios exageradissimos dos +vadios indagadores,--foram causas, tão indignas como infundadas, da extincção +d'aquelle convento.</p> + +<p>É assim, muitas e repetidas vezes, a justiça dos homens.</p> + +<p>Ao leitor attento, escusado talvez seria declarar, que o mancebo a quem +foi entregue o pequenino João, se chama, n'este conto, Sebastião da Mesquita. +E a creancinha, salva da sanha de uma terrivel madrasta e da cobardia de um +indigno pae, pela santa abbadessa,--madre e mãe adoptiva--tem aqui os nomes +de João Vidal, o escudeiro.</p> +<span class="pagenum">[55]</span> + +<h3>V<br> +UM LEVITA</h3> + +<div class="quote"> +«Apostolo é o pae que se afadiga<br> +Só para que descance o filho amado;<br> +Apostolo é a rocha em que se abriga<br> +Ave agoureira e pobre desgraçado;<br> +Apostolo é a lagrima que amiga<br> +Cae pela face em peito amargurado;<br> +E esse monstro do Céu que solitario<br> +Correu o mundo á busca do Calvario.» + +<p>(<em>J. de Deus</em>--<span class="smallcaps">Flor. do Campo</span>.) </p> +</div> + +<p>Em Santiago de Esporões--antiga vigairaria do arcebispado bracarense, onde +Martim Ribeiro fundou uma capella chamada de Nossa Senhora da Caridade, e +estabeleceu um celleiro para os pobres, com dinheiro por elle adquirido no +Brazil--residia, no anno de 1799, uma honesta familia de pequenos +proprietarios lavradores, composta de marido, mulher e um filho de nome +Alvaro, rapaz de cinco para seis annos de idade.</p> + +<p>Os apoucados lavradores, por mais de uma vez em tempo de más colheitas, +tiveram de recorrer ao celleiro dos pobres, restituindo o emprestimo, quando +mais farto era o anno, com o <em>avanço</em> de seu alvitre, segundo o uso e +lei do estabelecimento de Martim Ribeiro, <span class="pagenum">[56]</span> que não marcou limite ao +juro para os que o queriam e podiam dar.</p> + +<p>É de mui antigas éras o costume portuguez, pronunciadissimo na provincia +do Minho, dos paes imporem o destino aos filhos, quasi ao sahirem da pia +baptismal. Este erro,--que tem origem na falta de illustração do povo, e +tambem, o que peior é, em calculadas conveniencias familiares,--dá em +resultado a troca de vocações, padrinho mal de muitas immoralidades e ruinas. +Algumas vezes sem o quererem, na idêa até de evitarem imaginarios prejuizos, +são os paes que forjam a completa desgraça de seus filhos, marcando-lhes, sem +escrupoloso exame, a estrada a proseguir no transito da vida, trilho sempre +difficil de aplanar, e impossivel de vencer sem desastres, para os que o +percorrem violentados.</p> + +<p>Os pobres lavradores de Esporões, convencionaram fazer do seu unico filho +um vigario. Ter um padre na familia, ouvir-lhe a primeira missa e vêl-o cura +d'almas, é a suprema ambição dos camponezes.</p> + +<p>Alvaro, havia de ser padre, porque seus paes o queriam. Tinham feito todos +os calculos; as propriedades que possuiam chegavam para o patrimonio; e para +as despezas da ordenação, quando minguassem os rendimentos, passariam fome se +tanto fosse necessario. As fortes e decididas vontades, não conhecem +obstaculos.</p> + +<p>Chegou a hora de Alvaro tomar logar nas aulas de Braga. Alcançara-lhe o +pae alojamento na rua de S. João do Souto, em casas da morada de uma viuva +bem reputada e muito moça ainda, que havia calculado augmentar o pequeno +rendimento de seus poucos haveres com o lucro proveniente de apatroar <span class="pagenum">[57]</span> +um estudante.</p> + +<p>É d'este modo que bastantes familias, nas populações onde ha lyceus e +aulas publicas, diminuem as suas occultas necessidades.</p> + +<p>Chamava-se Eugenia Soares a viuva, que o era de um alferes do exercito +portuguez, e contava vinte e duas primaveras no anno em que acolheu ao seu +lar o estudante Alvaro da Cunha. Este, havia completado 16 annos de idade, e +preparava-se para fazer exame do latim, que principiara a estudar na sua +aldeia, tendo por bom professor o parocho da freguezia.</p> + +<p>Eugenia, não houvera filhos do seu matrimonio, nem conhecia parentes +proximos que lhe fossem amparo. Vivia em companhia de uma creada, que já o +fôra de seus paes antes d'ella nascer, que lhe queria como a filha, que todos +os dias recordava as virtudes de seus velhos e fallecidos amos, e que era a +sua unica conselheira e amiga. Antes de resolver a entrada de um estudante em +sua casa, consultára Eugenia a sua Theresa, que apenas objectára dever ser o +admittido ainda rapaz e não homem feito. N'aquelles felizes tempos, só depois +dos trinta annos completos se gosava o nome de homem.</p> + +<p>Quando a velha Thereza precisava de sahir ás compras, Eugenia e Alvaro +prestavam-se mutuo auxilio nos afanos domesticos. Nasceu assim entre elles +uma innocente intimidade, que os deleitava. Succedia repetidas vezes ter +Alvaro a delicadeza de preceder a patrôa no amanho das iguarias, confundindo +o seu trabalho com o de Eugenia, e dando isto logar a toques de mãos tão +singelos como perigosos nas edades em que o calor do sangue traspassa a +cuticula, e póde, pelo contacto, communicar as doenças physicas e os ardores +moraes: d'aquellas, e d'estes, ha a temer, após <span class="pagenum">[58]</span> a communicação, a +reciprocidade de padecimentos, sendo o amor o mais fatal de todos, por ser +incuravelmente nervoso.</p> + +<p>A viuva e o estudante adoeceram da terrivel molestia, que se não cura +tendo a séde na alma.</p> + +<p>Decorreram cinco annos.</p> + +<p>Faltava ao ordinando um exame, para completar o seu estudo e ficar preso á +egreja. Mais alguns mezes passados, e acabaria o engano das almas de Eugenia +e Alvaro, que já durava muito, livre de vicissitudes e de impurezas.</p> + +<p>Chegou o menorista, de ter passado as férias grandes na sua aldeia, sem +grande pesar de haver deixado a companhia dos paes, que trocava por outra +havida por mais terna: é assim o coração humano.</p> + +<p>O estudante deparou com Eugenia physicamente mudada, e sobresaltou-o tão +rapida alteração. Viu pallida, magra, chorosa e pensativa, a mulher bella, +como sempre nos parece a do amor, que deixara, quarenta dias antes, com todo +o viço de uma feliz mocidade. Fez-lhe um montão de perguntas, e só teve +lagrimas em resposta.</p> + +<p>As gotas de humor aquoso que sáem a pares dos olhos da mulher estimada, +transformam-se em ferros agudos, a rasgarem fundo na alma do homem que as +sente.</p> + +<p>Seccaram-se as lagrimas: como? Ao sol do amor, que o menorista fez nascer +do soffrimento.</p> + +<p>A mudez de Eugenia promoveu a de Alvaro. Em casos taes, o silencio é o +requinte do sentimento.</p> + +<p>A noite d'aquelle dia passou-a o estudante a scismar. Quando pelas fendas +da janella do seu quarto conheceu o alvorecer, vestiu-se e sahiu. Não fez +reparo <span class="pagenum">[59]</span> em achar apenas cerrada a porta da rua, por que a sua +preoccupação estava sobranceira aos factos materiaes. Caminhou sem direcção +premeditada. Ao passar no largo da Sé, viu aberta uma porta lateral da +egreja, e foi orar. Acabada a oração, reparou n'um vulto encostado a um +confissionario, em posição de penitente, e estremeceu: não a vira, adivinhara +Eugenia n'aquella confessada.</p> + +<p>O que atravessou o espirito do ordinando por aquelle encontro?</p> + +<p>Nem elle o saberia dizer. Só com grande esforço, conseguiu recolher-se a +casa e deitar-se vestido sobre a cama. Passadas horas, e já quando se tornou +reparada a falta de Alvaro á primeira refeição, entrou a velha Thereza no +quarto do estudante e perguntou-lhe se estava doente.</p> + +<p>--Doente, e muito. Diga á snr.<sup>a</sup> D. Eugenia, que estou vestido, +como vê, e que lhe peço a mercê de vir fallar-me.</p> + +<p>Eugenia, entrou no quarto de Alvaro, e aproximou-se do leito com +sobresalto. O doente, levantou rapidamente a cabeça e, sem dar tempo a +perguntas, disse:</p> + +<p>--A senhora tem a bondade de mandar a Thereza procurar um portador que vá +já buscar meu pae?</p> + +<p>--Para quê?!</p> + +<p>--Para sahir d'esta casa e d'esta terra immediatamente, a vêr se posso +curar-me do mal que me assaltou esta manhã, e passar o resto da vida como a +passam meus paes... Já não quero ser... <em>padre</em>!</p> + +<p>--Foi <em>elle</em>, foi, Alvaro, que me aconselhou a despedir-te!... Mas +eu amo-te, ouves? e não quero que me fujas... Deus não póde ser tão severo +como diz <span class="pagenum">[60]</span> <em>aquelle</em> seu ministro; ora não?... E eu morria se tu +me faltasses; tenho a certeza de que morria... Vês? Só agora, que deveria +proceder de modo bem opposto, se attendesse aos dictames do meu confessor, é +que rompo o véu do meu coração!...</p> + +<p>A severidade, talvez egoista, de um padre indelicado, accelerou o natural +desfecho d'aquellas relações.</p> + +<p>A missão melindrosa do confissionario, mais ainda que a do pulpito, só +devia ser confiada a cabeças muito sãs, e a purissimas almas.</p> + +<p>Alvaro, ficou e sarou logo: bem dever era, que ficava e que sarava. Depois +de scenas assim expansivas, é que nós não <em>ficamos</em> pela continuação +da pureza no sentimento.</p> + +<p>Na epocha propria, fez o estudante o exame que lhe faltava, e ficou +habilitado a tomar ordens ecclesiasticas. Seguraram-lhe os paes o patrimonio +em todos os seus bens, e vieram pernoitar á cidade, em companhia do filho, na +vespora do dia em que elle devia ficar para sempre ligado á egreja, que houve +por bem condemnar os seus ministros á mais terrivel das solidões,--á solidão +d'alma!</p> + +<p>Chegada a hora da ceremonia, foram vêr o religioso e solemne apparato, os +paes de Alvaro, acompanhados por Eugenia e pela creada Thereza. Quando o +ordinando appareceu revestido do habito clerical, cahiu a desditosa Eugenia, +com o sangue gelado, nos braços de Thereza. A boa da serva, ficou tambem +semi-morta.</p> + +<p>Estavam finalmente realisados os ambiciosos sonhos dos velhos lavradores +de Esporões.</p> + +<p>Alvaro, era presbytero!<span class="pagenum">[61]</span></p> + +<h3>VI<br> +CELIBATO</h3> + +<div class="quote"> +<p>«Deus me livre de discutir materia tantas vezes disputada, tantas vezes +exhaurida pelos que sabem a sciencia do mundo, e pelos que sabem a sciencia +do céu!» </p> + +<p><em>Alex. Herc.</em>--<span class="smallcaps">Eurico</span>. </p> +</div> + +<p>O padre Alvaro, foi residir, em companhia de seus paes, para a terra da +sua naturalidade, onde cumpria rigorosamente todos os deveres de seu +ministerio sagrado, procurando os infelizes para os consolar com a palavra e +com a esmola, fazendo colheita de lagrimas, e escondendo de todos as que lhe +vertia o coração. Vivia só para a caridade e para a dôr. Decorando, no +Evangelho, a vida de Christo, identificou-se com Elle no amor da humanidade. +Conseguiu augmentar ao casebre do seu patrimonio um novo e separado +repartimento, na solidão do qual, fóra das horas obrigadas aos seus deveres, +fechava cuidadosamente as suas mágoas.</p> + +<p>O soffrimento de um filho, não póde ser, por <span class="pagenum">[62]</span> muito tempo, estranho +aos que lhe deram a vida. Os bondosos lavradores de Esporões, conheceram, +mais por instincto do que por sagacidade, que seu filho padecia, e quizeram +profundar a causa de suas tristezas. Espreitaram-no a horas mortas, e ficaram +surprezos do que viram.</p> + +<p>--Que peregrinação será aquella do nosso querido Alvaro, em noites de +tempestade, Maria?!--Perguntava o velho a sua esposa, ambos de volta de suas +pesquizas.</p> + +<p>--Eu sei-te lá, homem! Só te digo, que isto tudo me faz chorar... Elle +come quasi nada, anda tanto por esses montes e outeiros, vae pelas cabanas á +cata dos necessitados, passa o pouco tempo que lhe resta de dia a lêr e a +escrever, e ainda sahe de noite e com um tempo assim!... Deus me perdôe, mas +quer-me parecer que o nosso filho se fez padre de mais!</p> + +<p>--Não ha gosto perfeito n'esta vida, é certo. O prazer com que lhe ouvimos +a primeira missa, farta recompensa de todos os nossos sacrificios, desandou, +dentro em pouco, n'estas lagrimas! Mas deixa estar, que eu ainda tenho vigor, +e não canço nas minhas pesquizas, que podem trazer-nos tranquillidade. D'aqui +por deante, quero ser eu só a vigiar o nosso Alvaro, porque fico mais á minha +vontade. Tu, entretanto, ficas na cama a pedir a Deus por nós, sim?</p> + +<p>--O que tu queres, quero eu sempre, Antonio.</p> + +<p>Uma das noites em que Alvaro foi espreitado pelo pae, entrou este, após a +sahida do filho, no repartimento da casa habitado pelo padre. Analysou, com +olhos paternaes, os mais insignificantes indicios de soffrimento, physico e +moral, que por alli estavam dispersos. Entre outros, pareceu-lhe descobrir +signaes <span class="pagenum">[63]</span> de que o seu Alvaro cuspia sangue, supposição que fez verter +da testa, ao triste pae, esse humor rubro que nos circúla nas arterias e +veias. Encontrou no chão um papel com letras, que não sabia lêr, e guardou-o. +Na madrugada do seguinte dia, foi o lavrador á residencia do seu parocho e +velho amigo pedir-lhe o favor de lêr o escripto. Resava assim:</p> + +<p>«Não, disse S. Gregorio, que o laço do matrimonio era o nucleo do genero +humano, o esteio da vida e o centro da piedade?</p> + +<p>«Para quê, os concilios d'Elvira e de Trento?...</p> + +<p>«Celibato puro!!...</p> + +<p>«Para quê, decretar contra a natureza?!...</p> + +<p>«Oh Christo? Não quizeste Tu nascer de Maria?... Se não tivesses por +consorte a Cruz da Redempção humana, fugirias Tu a completar, quando homem, a +Tua existencia no mundo?...</p> + +<p>«Porque não ha de ser para todos os filhos do peccado, a mulher, resumo do +bem possivel, a casta mensageira entre o céu e a terra?!...»</p> + +<p>O parocho, que era um padre intelligente e bondoso, pediu á sua ovelha, +que fosse depositar aquelle papel no mesmo sitio em que o achara, e passou, +depois, largas horas em colloquio amigo com o pae do que fôra seu +discipulo.</p> + +<p>Quinze dias depois da conferencia do parocho com o velho Antonio, ao cahir +da tarde, chegava o lavrador, na rua de S. João do Souto, á cabeceira do +leito em que Eugenia, cadaverica, estava recostada. Houve um longo silencio: +ambos temiam o rompimento. Animou-se finalmente o velho a dizer:</p> + +<p>--Então de que mal padece a snr.<sup>a</sup> Eugenia, não me dirá? As +mulheres sempre são muito fracas! Pois <span class="pagenum">[64]</span> a molestia que tem, é lá cousa +para estar com esses quebrantos?! Será isso mimo?...</p> + +<p>--Vou dizer-lhe tudo por uma vez, snr. Antonio, antes que as forças me +faltem... Amo seu filho e sou amada por elle... Um padre e uma viuva!... Deus +castiga-nos, e bem o tinha agourado o meu confessor... <em>Elle</em>, está +cavando a sepultura, bem o vejo; e eu quero, e hei de morrer antes...</p> + +<p>--Em quanto viverem os velhos como eu, não podem morrer assim depressa os +novos como vossas mercês, descancem... Mas porque não fallaram a tempo?! +Porque não confiaram de mim esses incuraveis amores, quando fossem ainda +horas de os legitimar aos olhos do mundo?...</p> + +<p>--Não o quiz eu, snr. Antonio, porque tive mêdo de ajuntar ao meu crime o +seu odio, ou de praticar novo crime, levando Alvaro á desobediencia.</p> + +<p>--Foram bons sentimentos esses, foram; mas fôra melhor que ambos tivessem +mais alguma confiança nos corações dos outros... Em fim, isso lá vae, e o que +não tem remedio remediado está. Agora, cumpre fazermos todos da nossa parte +para se viver o melhor possivel, o que se hade conseguir com o favor de +Deus...</p> + +<p>A este tempo sentiu-se rumor á porta do quarto, e ouviu-se distinctamente +a voz de Thereza dizer: «É seu pae!...»</p> + +<p>--Entra, Alvaro;--disse em voz clara e de modo a ser ouvido de fóra, o +sympathico e honrado velho. Entrou o padre, ajoelhou aos pés do pae, e +titubeou a palavra:--Perdão.</p> + +<p>--Levanta-te, que és mais infeliz do que culpado, e para os infelizes +reservou Deus a sua divina misericordia. <span class="pagenum">[65]</span> Sei tudo, e tambem o sabe tua +mãe. Não te louvamos nem condemnamos; choramos as tuas dôres, que são as +nossas, e procuramos-lhe allivio. É preciso que vivas, e que viva tambem a +snr.<sup>a</sup> Eugenia. Eu mando, pela voz da religião que tenho n'alma, +pela do sangue e pela da honra, como a entendem os homens do campo. Se fôr +condemnado pelos fanaticos, já tenho a absolvição do meu santo pastor, que +mais vale. A um pobre, que sempre foi honrado, não falta a Providencia nas +occasiões precisas. Tu, meu Alvaro, vaes ser nomeado reitor da freguezia de +Santo Adrião de Penafiel, que assim m'o prometteu o snr. fidalgo de Porto +Carreiro, que nunca faltou á sua palavra. É um presente que me faz, disse +elle, por eu lhe ter pago com toda a pontualidade, ha quarenta e cinco annos, +um fôro, de dois carros e meio de pão meiado, limpo e sêcco. É um fidalgo ás +direitas, que sabe conhecer o que vale o suor da pobreza. Ora, a reitoria, +fica lá para o valle de Sousa, nas proximidades de Penafiel, muito longe +d'aqui. Eu e tua mãe de certo lá não poderemos ir; mas tu, que estás na força +da vida, virás amiudadas vezes visitar-nos. O snr. padre reitor de Santo +Adrião, tem na aldeia da sua naturalidade uma irmã viuva, que póde ter um +filhinho que talvez precise do auxilio do thio padre... Repito, eu mando, e +quero ser obedecido. Não sei o que dizem os livros sagrados nem os profanos, +porque me não ensinaram a lêr: tenho só aprendido o que me diz a minha +consciencia honrada. No tribunal do Deus justo, darei eu as contas por tudo +isto. Do escandalo, é que as não hei-de dar, porque tenho toda a segurança +nos bons sentimentos d'aquelles que <span class="pagenum">[66]</span> preferiam a morte, á quebra +publica dos seus deveres.</p> + +<p>Quando Antonio acabou de insinuar as suas ordens, dadas n'um tom +prophetico e inspirado, é que fez reparo no quadro que, havia já minutos, +alli se via. Estavam a seus pés, ajoelhados, cada um de seu lado, +regando-lh'os de lagrimas doces, os amnistiados da paternidade, que +representa Deus na terra.</p> + +<p>Era bello de vêr-se a mocidade cadaverica pelo mal d'amor, abraçando +commovida até ás lagrimas, a honra envelhecida no rude trabalho do campo, +fresca e vigorosa como a carvalheira secular liberta da podridão das +cidades!...</p> + +<p>No dia 27 de agosto de 1819, recebia o primeiro sacramento da egreja, na +cidade de Braga, um recem-nascido do sexo masculino, a que foi posto o nome +de Arthur. Os padrinhos, por procurações de Sebastião da Mesquita Bandeira de +Mello e de D. Isabel de Abendanho e Sousa, foram Antonio da Cunha e Maria do +Espirito Santo, os honestos lavradores de Esporões, que deram a existencia ao +reitor de Santo Adrião de Penafiel.</p> + +<p>Estava o padre Alvaro ha mais de tres annos de posse da reitoria, sendo +acatado e tido na conta de exemplar pelo povo, quando recolheu na sua +residencia uma irmã viuva com um filho. Cresceu o amor e o respeito do povo +pelo padre reitor e pela familia, na razão directa do augmento de beneficios +e de consolações que recebia. Eram seis mãos sempre abertas á pobreza, e duas +santas boccas a semearem palavras animadoras aos dous sexos, o que o povo +encontrava na residencia do reitor de Santo Adrião de Penafiel. Por isso, o +reitor, irmã e sobrinho, ganharam <span class="pagenum">[67]</span> a estima geral, ao ponto de fazerem +dividir, nos corações de todos os habitantes do valle de Sousa, a antiga e +bem fundada sympathia pela familia do fidalgo Sebastião da Mesquita.</p> + +<p>Um dia, chegou ao conhecimento do publico, que havia luto na residencia do +padre Alvaro. Foi lá toda a gente da povoação. O reitor, leu, commovidissimo, +ao seu rebanho, uma carta que recebera do seu amigo e mestre, o parocho de S. +Santiago de Esporões. Dizia assim:</p> + +<p>«Dei hontem sepultura a dois cadaveres, Alvaro, e dou hoje cumprimento a +uma triste imposição da amisade. Está devoluta a residencia do teu +patrimonio. Teu pae morreu ás dez horas, e tua mãe á uma da tarde do mesmo +dia. Presenciei a morte de dois justos. Disseram-me, para te communicar, que +iam pedir a Deus por ti... Resignação.»</p> + +<p>As lagrimas do padre confundiram-se com as de todos que o escutavam.</p> + +<p>Arthur, que então teria sete annos, trepou aos joelhos do sagrado pastor, +pousou-lhe os rosados e frescos labios nas faces crestadas pelo fogo das +lagrimas, e disse-lhe:</p> + +<p>--Não chores, thio, que os avós estão no Céu. Sabes o que hasde fazer? +Manda occupar as casas, que elles deixaram, pelos pobresinhos lá d'essa +terra, sim?</p> + +<p>--Pois sim, querido amor, e hei de dizer-lhes que foste tu o da +lembrança...</p> + +<p>Arthur andou nos braços de todos, e foi devorado com beijos. N'esta +occasião, deu entrada na sala o fidalgo Sebastião da Mesquita, acompanhado de +uma creada, que trazia ao collo uma interessante menina <span class="pagenum">[68]</span> de treze mezes +de idade. O povo formou respeitosamente duas alas, e o reitor recebeu, com +agrado, mais aquella visita.</p> + +<p>--Que fez o meu afilhado para merecer tantos affagos?--perguntou o +fidalgo, depois de ter saudado a todos.</p> + +<p>--O que havia de ser, snr. da Mesquita?... O rapaz parece não ter mau +coração: destinou a habitação dos avós fallecidos para residencia das pessoas +mais necessitadas da freguezia d'elles; e as boas almas d'estes meus filhos +todos, pagaram-lhe a lembrança em fartas caricias.</p> + +<p>--Então já assim caminhamos para o Céu, snr. meu afilhado?! Muito bem, +muito bem!... Vou dar-lhe a primeira paga da sua nobre acção...</p> + +<p>--E assim fallando tomou Arthur nos braços e, aproximando-o da filhinha, +fez com que se beijassem os dous innocentes......</p> + +<p>Treze annos depois d'estas scenas, em dia de trabalho, e por horas em que +estão dezertas as egrejas das aldeias, entrava Sebastião da Mesquita no +templo parochial de Santo Adrião, e batia de manso nas costas de um padre, +que estava curvado sobre uma sepultura. Ao levantar-se o padre, tremeu +involuntariamente o fidalgo, de encarar nas transtornadas feições do seu +amigo.</p> + +<p>--Nem tanta penitencia nem tamanha dôr, padre Alvaro, que podem não ser do +agrado de Deus. Não precisa, Arthur, agora mais que nunca dos seus +cuidados?</p> + +<p>--Basta-lhe a protecção do nobre e honrado padrinho... A minha vida, está +n'esta sepultura, onde talvez cahisse uma condemnada ás penas eternas!... +<span class="pagenum">[69]</span></p> + +<p>--Não conta com a bondade do Pae para com seus filhos, e por uma culpa +involuntaria, desvanecida por innumeras virtudes, só quer vêr o castigo, em +vez do perdão?!</p> + +<p>--E as leis da egreja?!...</p> + +<p>--E as leis da natureza; a misericordia divina; os votos de seus honrados +paes; a consideração, a estima, o respeito geral; as bençãos dos infelizes e +a tranquillidade da consciencia, pelo que toca a todas as demais acções da +sua vida?...</p> + +<p>--Viverei, snr. Sebastião da Mesquita, e o tempo que me sobrar da +penitencia dal-o-hei á sua heroica amisade! <span class="pagenum">[70]</span><br><span class="pagenum">[71]</span> </p> + +<h3>VII<br> +RAPTOS</h3> + +<div class="quote"> +«Que póde valer á hebrêa<br> +Sentir n'alma chamma infinda?<br> +como a linda Ester ser linda,<br> +e amada como Rachel?<br> +Se o coração da judia<br> +se entre-abre do amor aos lumes,<br> +não lhe dá tempo aos perfumes<br> +o seu destino cruel.» + +<p class="direita">(<em>T. Ribeiro</em>--<span class="smallcaps">Sons que +passam</span>).</p> + +<p>«O vicio está por tal fórma naturalisado que não ha razão para espantos +nem sequer para censuras.»</p> + +<p class="direita">(<em>Camillo C. B.</em>--<span class="smallcaps">O +Condemnado</span>.) </p> +</div> + +<p>Foi ephemero o triumpho para a revolução do Minho, denominada--Maria da +Fonte.--Cahiu o ministerio ao rugido popular, foi certo; mas a seis de +outubro do mesmo anno, o governo constituido ao grito dos revoltosos, teve, +por vontade régia, sorte igual á do seu predecessor. A esse facto, que se deu +fóra das praxes constitucionaes, chamou-se--<em>emboscada palaciana</em>--e +deveu-se a mais formidavel das guerras civis portuguezas.</p> + +<p>A heroica cidade da Virgem foi o centro da resistencia ao chamado governo +de facção, constituindo dentro de seus muros, a nove de outubro de mil oito +centos quarenta e seis, uma <em>junta provisoria do governo supremo do +reino</em>, que ousou prodigios bem dignos <span class="pagenum">[72]</span> de causa mais santa, como +seria a defesa da patria contra estrangeiro dominador. Exaltaram-se os +partidos, e de todos os angulos do paiz voava a mocidade portugueza a +alistar-se sob as bandeiras hasteadas em guerra fratricida. O enthusiasmo +guerreiro tocou o delirio. Raro, bem raro, seria encontrar-se um portuguez de +braços cruzados ante o flagicio geral.</p> + +<p>Além dos bandos constitucionaes, achou tambem ensejo de desfraldar +bandeira o velho e respeitavel partido absolutista: respeitavel na sua quéda, +e ostracismo sem limite, pela coragem da abnegação, e pelo inquebrantamento +da sua fé. Este ultimo grito de revolta, chamou tambem os velhos ao campo da +batalha. Acabaram então os indifferentes: todos os portuguezes, cada um a +sabôr das suas paixões, ficaram empenhados na luta.</p> + +<p>Sebastião da Mesquita foi convidado por um general +estrangeiro--Mac-Donnell--, que se dizia commissionado do snr. D. Miguel de +Bragança, a tomar parte activa no pronunciamento ante-dynastico. Recusou-se. +Pediu-lhe o general que fizesse, ao menos, parte do seu estado maior, para +lhe dar conselho e força moral, e apresentou-lhe um autographo do principe +proscripto,<sup class="footnote"><a href="#fn2" name="lfn2">2</a></sup> que fez abalo na rigidez do velho +fidalgo. Esta conferencia teve logar nos primeiros dias do mez de novembro de +mil oitocentos quarenta e seis; e não se passaram muitas horas depois d'ella, +sem que o aventureiro general visse caminhar ao seu lado, para Villa Real, o +respeitavel pae de D. Maria da Gloria, <span class="pagenum">[73]</span> tendo previamente recommendado +ao seu afilhado, Arthur Soares, que auxiliasse a esposa na vigilancia do seu +casal.</p> + +<p>Quem podesse espancar as trevas da tempestuosa noite de dezoito do mez e +anno referidos, e penetrar no terreiro da frente do palacio de Sebastião da +Mesquita, veria alli tres liteiras e seus guias, um formidavel cortejo de +lacaios, e cêrca de cem homens armados, todos recolhidos ao maior silencio. O +capitão d'aquella força e apparato, era o fidalgo Leopoldo. Conseguira +aquelle posto no exercito da rainha, em batalhão addido á brigada do commando +de um general que, por aquella epocha, se aproximou da cidade do Porto, no +intuito de lhe serem abertas pela traição, que se dizia combinada, as fortes +linhas defensivas do baluarte da Liberdade.<sup class="footnote"><a href="#fn3" name="lfn3">3</a></sup></p> + +<p>Não podemos averiguar como o snr. de Lencastre conseguira desviar aquella +força da sua direcção para as cercanias do Porto. O que sabemos é que aquella +gente caminhara de noite, por verédas escusas, <span class="pagenum">[74]</span> no manifesto intento de +evitar encontros com os sublevados. O mais, ficou sendo um segredo do +voluntario capitão, e do general commandante da brigada.</p> + +<p>No interior do palacio, e no quarto reservado a D. Maria da Gloria, onde +tambem estavam Rosa e Anna, que ficaram sendo constantes companheiras da +fidalga desde a ausencia de Sebastião da Mesquita, á mesma hora da chegada ao +terreiro do já descripto e bellicoso apparato,--havia uma conversação, a que +o leitor, ainda hoje, tem direito de assistir:</p> + +<p>--Conheço agora, minhas boas amigas, toda a verdade do rifão--«diz-me com +quem vives, saberei os fracos que tens.»--Estou supersticiosa com a nossa +Annitas! Não sei o que me adivinha o coração... A ausencia do meu illustre +pae e do João Vidal, e o escrupulo do snr. Arthur Soares, em não querer +pernoitar n'esta casa, são naturaes acontecimentos, bem o conheço, mas +despertam-me uns certos receios que até hoje não conhecia em mim!...</p> + +<p><span class="pagenum">[75]</span> --Querem vêr que ainda lhe lembra a má catadura do irritado primo +n'aquella noite de luar?!... Não pense em tal, minha querida snr.<sup>a</sup> +D. Maria, que a tempestade, se o foi, passou sem resultados fataes, e só deve +restar d'ella, ao seu auctor, o pesar de a ter provocado.</p> + +<p>--É de certo pela minha natural timidez que eu, partilhando os sustos da +snr.<sup>a</sup> D. Maria, vejo cahir sobre nós a tempestade, como a Rosa lhe +chama, e fazer-nos victimas do seu louco furor...</p> + +<p>--Por melhor o fará Deus, Anna... Comtudo, parece-me prudente não +desprezar estes presentimentos, accordar a minha presada mãe e senhora, e pôr +os criados de atalaia...</p> + +<p>--Credo! o que ahi vae!... E o mais é que são capazes de reunir em mim, ao +pêso d'esta tenebrosa noite de inverno, o mêdo do terror de que as sinto +possuidas...</p> + +<p>E as tres donzellas, como se fossem tocadas por occultas molas, saltaram +fóra dos leitos, e vestiram-se apressadamente.</p> + +<p>Ao mesmo tempo que se manifestava nas tres donzellas o máu presentimento +revelado no dialogo a que fizemos assistir o leitor, sentira igual panico a +velha fidalga D. Isabel de Abendanho e Sousa. Não são virgens estes casos. +Muitos exemplos attestam o ter sido uma familia atacada de funestas ideias, e +de iguaes padecimentos physicos, em alguns de seus membros ao mesmo tempo, +vivendo até distanciados uns dos outros. Não sabemos se ha sciencia que +explique o phenomeno; mas é certo que se tem dado.</p> + +<p>Fez a dona da casa levantar os criados, que collocou de sobre-aviso, indo +em seguida escutar á porta <span class="pagenum">[76]</span> do quarto da filha, para certificar-se de +se havia por alli em que fundar os seus receios. Na mesma occasião era aberta +a porta por D. Maria e, juntas as quatro habitadoras do palacio, +confidenciaram os seus mysteriosos sustos. Teriam apenas tempo de trazer a +lume a mais diminuta parte de suas apprehensões, quando sentiram tropel de +criados, tomando a direcção do quarto, que procuravam a senhora fidalga, +para, entre temerosos e espantados, lhe darem parte de que o palacio estava +cercado de tropa.</p> + +<p>Foi então que aquellas quatro mulheres, tímidas momentos antes por ideias +de imaginarios perigos, mostraram que o sangue frio e a coragem, quando +chegam as verdadeiras tempestades da vida, não são qualidades alheias ao sexo +chamado fragil.</p> + +<p>Era, com tudo, tarde para se tomarem acertadas providencias contra +qualquer aggressão. Um dos serventes da casa, comprado pelo ouro de Leopoldo, +abrira uma das portas do palacio. Foram, pois, surprehendidas as tristes +senhoras pela multidão de homens armados, á testa dos quaes se via o +imprudente auctor d'aquelle attentado, e impossibilitadas de resistir aos +intentos de seus perseguidores.</p> + +<p>Entre alguns dos criados do palacio, e a força violadora d'aquelle lar, +houve uma pequena luta--até aquelles serem subjugados pela vantagem +numerica--perecendo apenas n'ella o criado traidor, ás mãos dos assalariados +por aquelle que lhe comprára a fidelidade.</p> + +<p>As tres donzellas foram brutalmente amarradas e conduzidas ás liteiras.</p> + +<p>A velha fidalga presenceou tudo com denodo varonil, sem fazer o mais leve +rumor, representando, <span class="pagenum">[77]</span> na sua mudez e aspecto sublimes, uma perfeita +estatua de concentrado soffrimento. Era uma «Vilhena» a meditar vingança +condigna de tão atroz delicto. Ao arrancarem-lhe as donzellas, disse-lhes D. +Isabel com voz severa:</p> + +<p>--A infamia não vence a honra. Sabei morrer sem vergonha, que eu vos +abençôo como Deus vos abençoará. Adeus, Maria!...</p> + +<p>Retirados que foram os assaltantes com as suas presas, ficou o palacio +occupado pelos fieis creados, agglomerados em volta de sua ama D. Isabel. +Esta heroica matrona, teve força para recolher ao coração as lagrimas da +saudade, o fel do desespero e do seu justificado odio ao malvado parente que +a deshonrava, e para dizer com apparente tranquillidade aos que a +cercavam:</p> + +<p>«Quizera antes ter de vos lamentar mortos, e de vos mandar suffragar as +almas, do que vêr-vos aqui sem aquellas em defesa das quaes deveriam todos +acabar seus dias, porque eram vossas amas, vossas enfermeiras, e vossas +amigas... Já agora não ha tempo para mais reflexões. Apparelhae todos os +cavallos que estão nas cavallariças,--um d'elles para que eu o possa +montar--soltae os animaes recolhidos nas lojas, colhei todos os retratos de +familia que encontrardes, e deitae immediatamente fogo a este palacio. Não +deve mais ser visto de meu marido, o logar onde um fidalgo villão insultou a +mulher e a filha de um verdadeiro nobre. Reparae que eu <em>quero</em> +caminhar para a residencia do snr. reitor, alumiada pelas chammas da casa que +foi habitação de meus avós!...»</p> + +<p>Foram rigorosamente cumpridas as ordens da fidalga, que effectivamente +caminhara para casa do reitor <span class="pagenum">[78]</span> ao clarão que despedia o fogo lançado de +seu mando ao seu solar, e ao som do toque de sinos a rebate, que o incendio +provocara.</p> + +<p>A meio caminho da residencia encontrou D. Isabel Arthur Soares, que o +toque dos sinos despertara, ao qual referiu o succedido.</p> + +<p>Duas horas depois das scenas narradas, quem fosse á sala do oratorio da +residencia, encontraria uma senhora e um homem--dous velhos--ajoelhados, a +orarem ao Creador. Eram o reitor e a fidalga D. Isabel.</p> + +<p>Á mesma hora, passeava Arthur Soares, como louco, no seu quarto, brandindo +um punhal, aquella detestavel arma, já conhecida do leitor, que D. Maria lhe +legára. </p> + +<div class="rodape"> +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn2" name="fn2">2</a></sup> Verdadeiro ou imitado, mostrava +Mac-Donnell ás pessoas mais importantes do partido realista, um escripto do +punho do snr. D. Miguel de Bragança. <sup class="footnote"></sup></p> + +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn3" name="fn3">3</a></sup> É notavel a linguagem d'esta proclamação: +«Portuenses!--O general *** volta de novo com a força de seu commando a +aproximar-se das linhas do Porto. Elle não confia em si. Confia na traição. +Mas engana-se. A junta está prevenida. Ninguem ousará dentro dos muros do +Porto levantar um grito criminoso, fazer uma tentativa culpada. Ninguem o +ousará. E ai d'aquelle que o ousasse! As medidas convenientes estão tomadas. +Porto! A Europa nos contempla! Com a ajuda de Deus, pela intercessão da +Virgem, protectora de nossas armas e de nossa gloria, o Porto será sempre +vencedor--nunca vencido. A liberdade nos inspira! Os escravos que vem trazer +os ferros, e a assolação a esta cidade ficarão petrificados deante de nossas +bayonetas. O Porto é a cabeça de Medusa deante da qual os tyrannos estremecem +e gelam de terror.</p> + +<p>.........................................................</p> + +<p>«Confiemos na protecção do eterno, e no esforço de nossos braços. +Transmittamos á posteridade uma nova pagina de heroismo--a nossos netos uma +rica herança de gloria, e um grande e novo exemplo de valor. Ás armas +cidadãos! Ás armas! por Deus, e pela liberdade: e--Viva o Porto!--O Porto +sempre grande, sempre intrepido, sempre heroico, indomito, invencivel!--Viva +a Nação!--Viva a Liberdade!--E ás armas!--Palacio da junta provisoria do +supremo governo do reino, em 8 de Dezembro de 1846.»</p> + +<p>(Omittimos tudo que podesse recordar odios pessoaes.) </p> +</div> +<span class="pagenum">[79]</span> + +<h3>VIII<br> +COMBATE</h3> + +<div class="quote"> +<p>«O homem debatia-se ahi nas vascas da morte, e o sol passava involto na +sua gloria sem corar das angustias d'aquelles, que em seu ridiculo orgulho se +chamavam monarchas e conquistadores do mundo; sem lhe importar se os vermes +vestidos de ferro, chamados guerreiros, se despedaçavam uns aos outros com o +delirio insensato das viboras no momento dos seus amorosos ardores.»</p> + +<p class="direita">(<em>A. Herculano</em>--<span +class="smallcaps">Eurico</span>.)</p> +</div> + +<p>Em Porto Manso, logar situado pouco abaixo das Caldas de Arego, no dia 19 +de Novembro de 1846--o seguinte áquelle das scenas descriptas no capitulo +precedente--estavam postados á margem do rio Douro, em fortes posições, uns +quinhentos homens commandados pelo aventureiro general Mac-Donnell, +espreitando a passagem rio abaixo de um bravo, mutilado e honradissimo +militar do tempo do cêrco, que servia ás ordens da junta, e que recolhia, com +a força de seu commando, á invicta cidade do Porto.</p> + +<p>Desprevenido da cilada, soffreu o liberal guerreiro de muitas e bem +feridas batalhas, um vivissimo <span class="pagenum">[80]</span> fogo de fuzilaria, despejado sobre as +suas tropas embarcadas, pela emboscada guerrilha.</p> + +<p>Travou-se combate.</p> + +<p>No mais vivo da peleja, dirige-o um cavalleiro o seu corcel a toda a brida +em direcção onde se achava o general da guerrilha, e segredou-lhe:</p> + +<p>--General! Não é d'este modo que se batem os defensores de uma causa justa +e sancta. Esta espera traiçoeira a uma força que nos não aggride nem mesmo +podemos ter como inimiga declarada--é procedimento condemnado pelos bons +estimulos, por todas as regras, e pelo decoro da briosa carreira militar. Se +não manda já cessar o fogo, e tocar a retirar, retiro-me eu +immediatamente.</p> + +<p>--Faça o que lhe aprouver fazer, snr. Sebastião da Mesquita, que eu não +desisto do meu empenho em aprisionar o <em>manêta</em>.</p> + +<p>--Não o conseguirá. A Providencia, que muitas vezes parece dormir, é +sempre protectora dos opprimidos. Recolho a minha casa, general, e não creio +que nos tornemos a encontrar.</p> + +<p>Verificou-se o vaticinio do nobre fidalgo.</p> + +<p>Poucas horas depois d'aquelle curto dialogo, retirava a guerrilha de +Mac-Donnell em completa debandada, deixando no campo do combate 17 mortos e 9 +prisioneiros, escapando com difficuldade de ser tambem aprisionado o seu +aventureiro commandante.</p> + +<p>Quando Sebastião da Mesquita, acompanhado do seu fiel escudeiro João +Vidal, seguia caminho de sua casa, viu ao largo, caminhando em direcção a +elle, uma cavalgada que, sem atinar com o motivo, lhe fez profunda sensação. +Ao aproximarem-se os dous grupos de cavalleiros, não pôde suster o velho +fidalgo <span class="pagenum">[81]</span> uma exclamação de espanto, reconhecendo sua mulher, o reitor, +Arthur Soares e todos os seus criados. Apeiaram-se silenciosos. Era um +descampado o sitio do encontro. D. Isabel abraçára seu marido, debulhada em +lagrimas. Todos os rostos exprimiam a mais profunda tristeza. Houve um longo +e doloroso silencio. Sebastião da Mesquita interrogou sua mulher com um +olhar, que D. Isabel comprehendeu e revelou ao inquieto esposo o attentado do +seu palacio, e as suas consequencias, sem esquecer a mais pequena +circumstancia do occorrido. O velho ficára por instantes como fulminado. +Quando pôde fallar, disse á esposa:</p> + +<p>--Isabel! Acabas de dar-me, com a má nova, mais uma prova do quanto és +digna do meu affecto. Procedeste como honrada mulher que és. O que resta a +fazer, compete-me a mim, e crê que Deus me ha-de conservar a vida para a +desfórra. As nossas filhas--chamo assim a todas--se não morrerem, hão-de +voltar com honra ao nosso poder. A educação e o sangue, são, n'estes casos, +melhores guardas do que o mais poderoso exercito. Socega.--Padre Alvaro, póde +voltar a pastorear o seu rebanho. Não lhe agradeço o que fez, porque a +verdadeira amisade vexa-se com agradecimentos.--Arthur Soares, sei lêr nos +seus olhos a sua vontade e por isso lhe digo que militará desde hoje ao lado +de seu padrinho. Faço-me coronel ou general, e dou-lhe o posto de meu +ajudante...</p> + +<p>--E para mim, snr. Sebastião da Mesquita,--interrompeu o velho +reitor--reclamo o de padre capellão do seu regimento e, se fôr indeferida a +minha pretenção, como estamos em tempos anormaes, despacho-me <span class="pagenum">[82]</span> a mim +mesmo, e sigo-o, ainda contra vontade de v. exc.<sup>a</sup>. As minhas +ovelhas ficaram entregues a um bom pastor, que eu previra a demora da +snr.<sup>a</sup> D. Isabel, e comprehendi que o meu dever era não me apartar +um só instante da nobre senhora, que me honrara procurando o abrigo do meu +tecto. Não tente demover-me d'este proposito, snr. Sebastião da Mesquita, que +deve conhecer a mágua que a reluctancia de v. exc.<sup>a</sup> me causava.</p> + +<p>--Obrigado, padre Alvaro. Seja como quer, que deve ser como Deus manda.</p> + +<p>Durante o tempo que durou este encontro, explicações e pactos, foram-se +agglomerando em volta do grupo os guerrilhas que vinham fugidos do combate, e +que haviam reconhecido em Sebastião da Mesquita o ajudante do general +<em>inglez</em>, como elles chamavam a Mac-Donnell.</p> + +<p>O velho fidalgo perguntou-lhes se queriam continuar a militar sob o +commando d'elle, proposta que todos receberam com exclamações da mais +expansiva alegria. Dentro em pouco reuniu o ex-ajudante, ou antes +conselheiro, do aventureiro general, debaixo do seu commando, quasi toda a +força de que Mac-Donnell dispunha antes do combate.</p> + +<p>Dispoz Sebastião da Mesquita em acção de guerra toda a sua tropa, e +proclamou-lhe a conveniencia de uma rigorosa disciplina, declarando-se-lhe +intransigivel e inimiamente severo para qualquer infracção.</p> + +<p>Estavam já em disposições de marcha, para pernoitarem na mais proxima +povoação, quando o novo commandante viu aproximar-se-lhe um official a +cavallo, que chegára alli á desfilada.</p> + +<p><span class="pagenum">[83]</span> Déra a tropa caminho ao recem-vindo, por não haver que temer de um +só homem, e pelo instincto de que havia utilidade n'aquella apparição. A um +signal do esbaforido official, mandou Sebastião da Mesquita fazer campo, em +que ficaram um tanto isolados da força o recem-chegado, elle e a familia.</p> + +<p>Não cabe nas forças de um escriptor do nosso pulso, pintar +satisfactoriamente as gratas impressões e o delirante contentamento de todos, +ao reconhecerem, n'aquelle supposto mensageiro, a intrépida Rosa!</p> + +<p>Fôra o caso, que chegando Leopoldo com as tres roubadas donzellas ao Bom +Jesus do Monte, dos arrabaldes de Braga, e recolhendo-as á hospedaria, teve +Rosa artes para communicar, por uma varanda, com o quarto immediato ao que em +prisão lhe fôra dado, onde a sorte quiz que houvesse um completo fardamento +de official ajustado ao corpo da nossa heroina. Conceber o seu plano, +despojar-se dos feminis vestidos, substituil-os pela farda, descer á +cavallariça, ordenar em tom positivo ao curador que apparelhasse o seu +cavallo, montal-o e fugir--foram tudo actos tão seguidos e repentinos, quanto +vigorosa e ardida era a vontade da donzella!</p> + +<p>Contou Rosa a historia da sua fuga com as variantes e variadas peripecias +a que forçosamente havia de sujeital-a a sua inexperiencia, narrou os +succedimentos que da liteira poude presencear após os raptos, e foi no fim +abraçada por todos com frenetico enthusiasmo.</p> + +<p>No rosto de Arthur Soares, ao reconhecer Rosa, havia transparecido um raio +de alegria, que foi de novo sumido nas trevas da sua profunda tristeza, mal +que terminára a narrativa.</p> + +<p><span class="pagenum">[84]</span> --Esta, já está salva! e hade ser o primeiro mobil da salvação das +outras nossas filhas, Isabel!--Disse Sebastião da Mesquita, cheio do jubilo +que em taes circumstancias podia abrigar no peito.</p> +<span class="pagenum">[85]</span> + +<h3>IX<br> +AMOR</h3> + +<div class="quote"> +«<span class="smallcaps">Amor</span> é a palavra, o brado eterno<br> +Solto por Deus ao vêr já feito o mundo,<br> +Que fez tremer as abobodas do inferno<br> +E o sol ficou da côr d'um moribundo:<br> +A primavera, estio, outomno, inverno,<br> +Terra, céu, alma pura, bicho immundo,<br> +Tudo ahi cabe á larga de tal modo<br> +Que n'essa concha Deus se fecha todo.» + +<p class="direita">(<em>João de Deus</em>--<span class="smallcaps">Flores do +campo</span>.) </p> +</div> + +<p>Á margem de uma estrada que serve de transito entre Vianna e a praça de +Valença no alto Minho, em aprasivel e pittoresca posição, olhando as viçosas +e celebradas cercanias do nosso poetico Lima,--está situado um sumptuoso +palacio com suas suberbas fachadas das ordens Toscana e Dorica, esta +decorando a frente principal, e aquella a do primeiro jardim, como tambem as +suas respectivas torres ou pavilhões.</p> + +<p>A escada principal d'este edificio, rivalisa com a do palacio episcopal da +cidade do Porto.</p> + +<p>A capella ostenta um elegante zimborio e grande profuzão de maravilhosos +ornatos. Os seus aprasiveis <span class="pagenum">[86]</span> parques e bellissimos jardins, com +magnificas e espaçosas ruas, tornam aquella vivenda verdadeiramente +encantadora. O interior corresponde ao exterior, se não o excede, na +vastidão, luxo, e boa ordem com que está decorado.<sup +class="footnote"><a href="#fn4" name="lfn4">4</a></sup></p> + +<p>Fôra para aquelle paraiso, que o sr. Leopoldo de Lencastre fizera conduzir +D. Maria e a sua discipula Anna, conservando-as separadas, ignorando a +existencia ali uma da outra, e na maior vigilancia, para evitar outra fuga +como a de Rosa.</p> + +<p>Viviam as duas donzellas n'aquelle privado carcere rodeadas do mais +asiatico luxo, e como feudaes princezas a que, no exilio, fosse concedido o +eden por homenagem.</p> + +<p>Anna facilmente se coadunára com a nova e extraordinaria existencia a que +fôra levada pelo crime, por que--já o sabe o leitor--no seio de sua virginal +pureza despontára um sentimento a ella desconhecido, de que o seu roubador +fôra alvo, e que devia leval-a a debater-se na labareda que elle fórma, ou a +consumir-se nas cinzas que essa mythologica chamma, <span class="pagenum">[87]</span> denominada amor, +conserva eternamente nos corações martyrisados pela voz do dever e da +consciencia.</p> + +<p>Outro era o estado de D. Maria da Gloria. A convivencia desde o berço com +Arthur Soares, o cotejo que muitas vezes, e insensivelmente, fizera das +qualidades moraes do sobrinho do reitor com os de mais frequentadores do seu +solar--o que sempre dava em resultado innumeras vantagens para aquelle--e, +sobre tudo, esse mysterioso aquecer do sangue ao girar perto de nós em +natural fluido o de alguem que o bafeja, e essa constante e seductora visão +da alma semelhante á nossa em corpo da nossa sympathia,--haviam sido outros +tantos estimulos a conduzirem a fidalga moça á posse de um reservado e +verdadeiro affecto por Arthur Soares, que ella julgava poder sempre ter +sepultado no fundo do coração, em respeito ao culto da nobreza que herdára e +que lhe fôra inoculado ao entrar na vida pelos seus educadores, reserva esta +já trahida n'outra crise, e que d'esta vez corria gravissimo risco de acabar +completamente. N'este estado, fôra-lhe tyrannico, sobre ser infamissimo, o +cobarde e violento procedimento do fidalgo primo.</p> + +<p>Leopoldo, estava apanhado na sua propria rêde. Levado por maus instinctos, +e por sêde de vingança, premeditou e levou á execução, sem ao menos preceder +o circumspecto exame da maldade precavida, o arrojado e perigoso projecto de +roubar as donzellas. A primeira contrariedade soffreu-a elle immediatamente +com a fuga de Rosa, á qual votava entranhado rancor, e anciava humilhar +cruelmente, e abortára-lhe esse prazer. A segunda quebra dos seus devaneios +veiu-lhe com a nimia facilidade que encontrou em sujeitar a timida e docil +Anna a todos os seus caprichos, desfazendo-se-lhe <span class="pagenum">[88]</span> d'este modo, como +fatua bolha de sabão, um mal definido e peior agasalhado sentimento que, por +aquella rapariga, lhe parecia a elle ter no peito.</p> + +<p>Muitas d'estas velleidades, cunha a sociedade com o pomposo nome de amor, +confundindo o appetecido contacto das epidermes com esse sentimento moral que +subjuga o homem, que é o principio creador de todos os seus heroismos, que é +a razão, o genio, a harmonia, o acto supremo da alma, a inspiração de +Deus!...</p> + +<p>O terceiro e o mais fatal de todos os castigos de Leopoldo cahira sobre o +coração do desgraçado em frecha envenenada, que já começava a tolher-lhe as +funcções moraes e o vital respiro da sua vida physica: amava o infeliz, sem +bem o saber ainda, e amava D. Maria da Gloria!</p> + +<p>Que terrivel lucta!</p> + +<p>Fascinado a seu pesar pela belleza da fidalga prima e pelo seu nobre +orgulho, abatido pelo desprezo que sentia merecer á sua victima, dominado +pelas rijas impressões a que vivem subordinadas as paixões humanas, louco de +furor pela certeza de existir um rival, um miseravel peão, preferido no +coração do seu idolo, e sem poder, pelo seu caracter, elevar-se, no +infortunio e no martyrio, á sublime condição dos espiritos privilegiados que +o idealismo purifica--tormentos eram estes que a Providencia destinou a +Leopoldo com o seu amor por Maria!</p> + +<p>Achava-se o voluntario capitão das tropas da rainha fazendo parte de uma +força militar que então occupava Vianna do Castello. Dispozéra tudo de modo a +ter segurança na forçada posse das donzellas, que visitava sempre que podia, +ignorando as encarceradas <span class="pagenum">[89]</span> as repetidas ausencias a que era obrigado o +seu fidalgo carcereiro.</p> + +<p>Entremos com Leopoldo, chegado de Vianna, no palacio encantado, que elle +escolhera deslumbrante no intento de maravilhar D. Maria da Gloria.</p> + +<p>Acabava de anoitecer: penetrou o elegante fidalgo na parte da casa +destinada aos seus cómmodos, e, sem descançar um só instante da fadiga da +jornada, attendeu desde logo ao esmero e atavios da sua pessoa e vestuario, +como se tivera de comparecer n'um baile de côrte. Assim disposto, tomou +direcção dos aposentos de D. Maria da Gloria. Na ante-sala proxima d'aquella +em que estava recolhida a fidalga moça, sentiu-se Leopoldo repentinamente +assaltado de um mau-estar, d'uma fraqueza, d'uma indecisão e de uns receios +taes, que o levaram a tomar assento n'uma poltrona que, do acaso, ficava +fronteira de um riquissimo espelho. Ao vêr copiado no preparado vidro o seu +transtornado aspecto, mudou Leopoldo de tenção, e dirigiu-se com paços ainda +mal seguros para a parte do palacio, occupada pela docil Anna.</p> + +<p>Deixemos sem testimunhas os faceis protestos do mentido amor, proferidos +sobre-posse, áquella que já não podia nem sabia regeital-os, pelo homem que a +seduzira e arrebatara, e entremos no salão em que D. Maria da Gloria gemia +saudades e nutria, a par de sublimes affectos, esperança de proxima +salvação:--as paredes estavam forradas de setim verde; as janellas todas +adornadas de custosas cortinas de côres branca e amarella; os reposteiros +eram de damasco encarnado com os cordões e as borlas de fio de prata, e os +moveis todos de pau preto almofadados <span class="pagenum">[90]</span> de setim branco. Se uma dama de +caprichosa imperatriz tivera sido a encarregada de dispôr, alli como em todas +as salas do aposento de D. Maria, e collocar em ordem essas infindas e +minuciosas commodidades de uma senhora de régia estirpe,--não deslumbraria +mais aquelle recinto. Lá dentro, era D. Maria senhora absoluta, obedecida por +aias e criados ao mais leve aceno, sem que aquellas e estes deixassem de ser +outros tantos vigias e guardas de seus movimentos e acções. Os grilhões, eram +com effeito de ouro do mais subido quilate.</p> + +<p>Estava a joven captiva a uma das janellas, olhando pela milesima vez os +arrebatadores jardins d'aquelle palacio, quando sentiu cahir a seus pés um +objecto arremessado de fóra, que se apressou a apanhar. Desfez o embrulho, e +encontrou um punhal acompanhado de um papel escripto d'este modo:</p> + +<p>«Ha mais de sessenta dias que apenas vivo para a vingança, cogitada de +instante a instante no meio de torturas espirituaes que dementam!</p> + +<p>«Descobri finalmente este infernal paraiso que a retem. Queria ser eu +sósinho o salvador de v. exc.<sup>a</sup>, mas as cautelas tomadas pelo +infame obrigam-me a metter na melindrosa empresa o snr. Sebastião da +Mesquita.</p> + +<p>«Esse estylete é inutil nas minhas mãos e póde convir nas de v. +exc.<sup>a</sup>. Para a desaffronta dum homem, não deve servir a arma que se +esconde em bolço falso como o sicario nas trevas da noite. A senhora D. Maria +da Gloria comprehenderá melhor do que eu como póde fazer entrega do vil +instrumento no malvado que o sabe usar.</p> + +<p><span class="pagenum">[91]</span> «Está a soar a ultima hora do captiveiro. Creio em v. +exc.<sup>a</sup> como creio em Deus.</p> + +<p class="direita">«<em>Arthur</em>».</p> + +<p>Ao terminar a leitura do bilhete de Arthur Soares, que enchera de +felicidade a D. Maria, correu-se um reposteiro e entrou na sala o fidalgo +Leopoldo. Ao sentil-o, tomou a donzella, junto do fogão que ardia na sala, +uma attitude de rainha quando concede audiencia aos seus subditos. Vira +Leopoldo o papel nas mãos de sua prima, e a suspeita dera-lhe animo para +fallar:</p> + +<p>--Vejo que a minha nobre prima tem por estes sitios correio amoroso!... +Poderei ter a honra de saber o conteudo n'esse papel?</p> + +<p>Por unica resposta lançou D. Maria o bilhete á chamma do fogão.</p> + +<p>--Continua a ser cruel, senhora, e eu submisso sempre! Vê como o amor +torna os homens bons e generosos? Qual de nós é o captivo?...</p> + +<p>--Infame!...</p> + +<p>--Sempre esse burguez adjectivo! E porque sou eu infame?! Pois se o amor +governa o mundo, podem-se por ventura impor deveres aos impulsos da alma?!... +Solte a minha nobre prima uma palavra de esperança, e verá transtornado em +manso cordeiro aquelle que imaginou ser um feroz tigre... O sentimento +verdadeiramente moral que me domina, é sincero e augusto... Nasceu +subitamente e nem por isso é possivel a sua cura... Conheço, desde que a +avalio, toda a grandeza, todo o poder, toda a irresistivel força dos seus +naturaes encantos, toda a magnitude da sua nobilissima alma... Amo-a e soffro +muito, minha prima, tendo para mim este sofrimento na <span class="pagenum">[92]</span> conta do maior +prazer!... Adoro-a até no seu despreso por mim!...</p> + +<p>--Infame!...</p> + +<p>--É muito, senhora!... Não será prudencia abusar d'esse modo de uma paixão +que deve conhecer verdadeira, e que é capaz das maiores virtudes como dos +mais negros crimes... A par d'esta loucura que faz escorregar para o mais +medonho precipicio, ou que nos salva d'elle, todas as differentes paixões da +vida são uns simples brinquedos... Fechado na sua formosa mão, tem a minha +nobre prima o meu destino e o de todos os seus... Até lá está tambem o +esquecimento para dous homens que me fizeram ultrages, que só o amor tem o +poder de perdoar... Abra essa mão, senhora, que em abril-a desponta-lhe a +felicidade... Serei um escravo humilde da sua mais caprichosa opinião... +Domarei todos os instinctos, todos os appetites, todas as tendencias que +possam ir de encontro aos seus desejos... Somos ambos poderosos, somos +fidalgos, somos parentes... A nossa união não póde ter obstaculos legaes e, +que os tivéra, todos eu saberia dissipar pela força d'este amor que é a minha +vida, ou que hade ser a minha morte... Quer sahir d'esta casa? Quer levar em +sua companhia as suas discipulas? Quer um cortejo de princeza para +acompanhal-a, em que eu serei o ultimo de seus servos?... Pois basta, para +tudo isto se fazer immediatamente, que a minha nobre prima me dê uma simples +palavra, uma singela esperança...</p> + +<p>--Infame!...</p> + +<p>--Oh! que é de mais!...</p> + +<p>N'esta altura da entrevista, e quando talvez Leopoldo estivesse para ceder +á violencia da sua paixão <span class="pagenum">[93]</span> atrozmente insultada pelo sangue frio da +nossa heroina, sentiram-se palmas cadenciadas, e tres vezes repetidas, na +proxima ante-sala. Ao ouvir aquelle signal, de certo convencionado por elle, +retirou-se precipitadamente o infeliz capitão, o senhor d'aquella casa, e por +sem duvida o mais infeliz dos seus habitadores.</p> + +<p>O chamamento fôra a communicar-lhe a urgencia de acudir a Vianna, para +recolher com toda a força militar ao Castello, d'onde o commandante resolvera +resistir a numerosas forças do exercito da junta do Porto, que se +aproximavam, e do povo, que se reunia para as coadjuvar. Recebida a ordem, +quasi com indifferença, voltou Leopoldo á presença de D. Maria, para lhe +dizer com voz pausada e debil:</p> + +<p>--Senhora!... Retiro-me por algum tempo d'esta casa, na qual V. +Exc.<sup>a</sup> fica substituindo o meu poder. Conservo as ordens dadas aos +meus criados, e servos de V. Exc.<sup>a</sup> para a guardarem com profundo +respeito, mas altero-as ordenando-lhes, que não resistam a qualquer força que +tente libertar a minha nobre prima... É possivel que seja esta a ultima vez +em que a minha presença lhe provoque esse invencivel tédio... Este +<em>malvado</em>, que podia ter colhido com novas violencias os fructos a que +pareceu mirar pela primeira imprudencia, pede-lhe o seu perdão com +<em>lagrimas</em> de sincero arrependimento...</p> + +<p>--Lave com ellas os pés de meu honrado e nobre pae, que deve ser o +primeiro, senão o unico, a perdoar-lhe os desvarios... Agora que o considero +inutil como defeza da minha honra, porque acredito nos seus remorsos, tome +conta d'esse punhal, que lhe pertence, e que nunca deveria ter servido nas +emprezas a que está vesado.</p> + +<p><span class="pagenum">[94]</span> E com magestoso porte, atirou D. Maria ao meio da sala a arma +villã. </p> + +<p>Leopoldo, depois de alguns momentos de recolhimento, que lhe valeram +seculos de indiscriptivel soffrimento, agitou o cordão de uma campainha e +esperou o resultado d'esta sua acção. Appareceu um escudeiro, vestido na mais +rigorosa etiqueta, que aguardou silencioso as ordens de seu amo.</p> + +<p>--Pegue n'aquelle punhal, vista-lhe o cabo com um panno preto, e pendure-o +á cabeceira do meu leito... Quem de hora ávante dá ordens n'esta casa é minha +prima e senhora D. Maria da Gloria. Faça-o saber a todos os seus +companheiros. Póde retirar-se.</p> + +<p>Sahiu o escudeiro e Leopoldo ficou immovel e calado por alguns minutos. +Depois, como se após intima lucta se fizesse luz no seu espirito, levantou +repentinamente a fronte, encarou a donzella, d'esta vez sem acanhamento, e +disse-lhe:</p> + +<p>--Sou... serei um infame! mas um infame que a ama como V. Exc.<sup>a</sup> +nunca por outrem será amada, juro-lh'o!... Adeus, senhora D. Maria da +Gloria!...</p> + +<p>Ao retirar-se o attribulado mancebo, proferiu D. Maria, como para só +d'ella serem ouvidas, estas significativas palavas:--«Ao menos foi uma hora +verdadeiro fidalgo...» D'aqui a levar a sua clemencia ao ponto de perdoar ao +primo os insultos que d'elle recebera, havia só a transpôr a barreira de +Arthur Soares, que ella não queria nem podia vencer! </p> + +<div class="rodape"> +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn4" name="fn4">4</a></sup> Existe com effeito, dous kilometros e meio +ao sul da villa de Monção no alto Minho, o edificio de que tiramos alguns +traços, fundado em 1806 pelo commendador Luiz Pereira Velho de Moscoso. Diz o +snr. A. A. Teixeira de Vasconcellos, nas notas do seu bello romance--«A +Ermida de Castromino»--que aquella casa, chamada da Berjoeira, é de risco +semelhante ao do palacio da Ajuda. N'esta, como n'outras descripções e nomes +proprios d'este nosso <em>conto</em>, na parte romantica, não ha allusões a +logares certos ou pessoas determinadas.</p> +</div> +<span class="pagenum">[95]</span> + +<h3>X<br> +RELIGIÃO</h3> + +<div class="quote"> +<p>«O mundo que nos tira até o que Deus nos deu, que nos não póde dar o que +Deus nos tirou, que não tem bem que dure nem cousa que permaneça,--que cultos +merece? que estimações se lhe devem?»</p> + +<p class="direita">(<em>Fr. A. das Chagas</em>--<span class="smallcaps">C. +espirituaes</span>.)</p> +</div> + +<p>Entreteve Sebastião da Mesquita a gente do seu commando, em marchas +vagarosas, e por logares desoccupados de outras forças, porque era seu unico +fito perseguir o insultador da sua familia, para libertar as donzellas +raptadas; e não podéra seguir-lhe a pista com a ligeireza que requeria a sua +anciedade paternal, por estar todo o Minho revolucionado, e pejado de tropas +dos tres partidos em guerra. Em um dos seus forçados estacionamentos, teve +Sebastião da Mesquita occasião de prestar um relevante serviço ao respeitavel +ancião que por aquella epocha era arcebispo de Braga.</p> + +<p>Depois da terrivel mortandade que um general das tropas da rainha, em +ataque ás forças realistas, <span class="pagenum">[96]</span> mandara fazer na manhã do memoravel dia +vinte de dezembro de 1846 nas ruas da cidade de Braga, que ficaram juncadas +com cerca de quatrocentos cadaveres!--fizera o mesmo general, ingloria e +tristemente vencedor, intimar o venerando prelado da diocese bracarense para +o acompanhar na sua marcha.<sup class="footnote"><a href="#fn5" name="lfn5">5</a></sup> Aterrado o bondoso +padre por aquella inqualificavel violencia, após o luctuoso espectaculo que a +precedera, fugira em direcção a uma das suas quintas das cercanias de +Coimbra, fuga em que fôra auxiliado pela pessoa de Sebastião da Mesquita, e +pela sua gente, tendo antes os dois velhos passado algumas horas em secreta e +intima conferencia.</p> + +<p>Havia-se operado em Arthur Soares uma completa transformação: o seu +physico, como reflexo do soffrimento moral, alterou-se ao ponto de não +parecer o mesmo homem; para o que tambem muito concorrera a repentina mudança +de habitos. Os raptos das donzellas, por elle moralisados sob as indeleveis +<span class="pagenum">[97]</span> impressões d'aquella noite de luar, em que D. Maria da Gloria +levantara uma nêsga do véu que lhe cobria o coração, eram por elle vistos +como offensas directas de um rival abjecto. A sua alma sempre aberta a todos +os sentimentos generosos, estava quasi entregue ao odio e á vingança. Sabia +elle, porque desde infante o escutara diariamente ao padre Alvaro, que a +religião manda perdoar, e que a doutrina da egreja quer que se recebam as +humilhações em justa expiação das faltas commettidas; mas tambem não ignorava +que, algumas vezes, sob as proprias vestes sacerdotaes, se encobrem violentas +e desapiedadas cóleras. A sua razão, um pouco obscurecida pelas dôres, +fluctuava, pois, á mercê das paixões mundanas; e de pouco proveito lhe eram +os prudentes conselhos que a todo o momento lhe estava dando o padre Alvaro, +inquieto com os estragos do corpo, e da alma, que elle via estampados nas +faces de Arthur Soares.</p> + +<p>Eram constantes da parte do apaixonado mancebo <span class="pagenum">[98]</span> as deserções do seu +arraial, das quaes nenhum caso parecia fazer Sebastião da Mesquita, porque +possuia a quasi certeza da razão que as promovia.</p> + +<p>A intrepida Rosa, com permissão do velho fidalgo, continuava usando do seu +uniforme salvador, e a ser tida pelos estranhos á familia por um elegante e +joven official. Calculadamente se affastava o mais que podia de Arthur +Soares, sem deixar de notar as suas desapparições, e de as commentar +mentalmente.</p> + +<p>Chegara Sebastião da Mesquita com a força de seu commando ás alturas de +Vianna, e fôra alli obrigado, conjunctamente com o povo, e a tropa da junta, +a sitiar o castello, onde estavam refugiados muitos empregados publicos do +partido do paço, e os militares de que fazia parte Leopoldo de Lencastre. Não +se viu grandemente contrariado Sebastião da Mesquita, em ser levado ao +extremo de batalhar, porque já lhe era um tanto sympathica a causa popular, +principalmente pelos factos de Leopoldo pertencer ao partido da rainha, e da +maior parte dos chefes dos bandos realistas, depois da morte de +Mac-Donnell,<sup class="footnote"><a href="#fn6" name="lfn6">6</a></sup> se terem reunido ao exercito da +junta do Porto.</p> + +<p>N'um dos intervallos do assédio, recebeu Sebastião da Mesquita da bocca de +Arthur Soares a boa <span class="pagenum">[99]</span> nova de ter descoberto o carcere das donzellas, +que elle julgava ainda guardado pelo raptor em pessoa. Reuniu o velho fidalgo +a toda a pressa o maior numero da sua gente em disponibilidade e, acompanhado +tambem por toda a sua familia, voou a libertar as filhas.</p> + +<p>Chegados que foram ás portas do palacio, e tudo disposto para n'elle +entrarem á viva força, viu Sebastião da Mesquita, com espanto seu, ser-lhes a +entrada franqueada. Tremeu o valente do receio de já não encontrar alli a +quem buscava, e só recuperou o perdido animo quando susteve em seus braços a +D. Maria da Gloria, e viu a seus pés banhada em pranto a seduzida Anna.</p> + +<p>Foram expansivas, como natural era que o fossem, as demonstrações de +regosijo intimo, em todos os membros d'aquella nobre familia, alfim de novo +reunida.</p> + +<p>Depois de ter dado o necessario tempo ás largas do contentamento de todos, +dirigiu Sebastião da Mesquita a palavra a D. Maria da Gloria, n'estes +termos:</p> + +<p>--Maria!... Podes continuar a viver na companhia de teus paes?...</p> + +<p>--Essa pergunta, meu presadissimo pae e senhor, devia V. Exc.<sup>a</sup> +fazel-a ao meu cadaver...--respondeu com firmeza a nossa heroina.</p> + +<p>--Muito obrigado, Maria! Paguem-te estas lagrimas do mais puro amor, a +nobreza e honradez da tua resposta!...</p> + +<p>Ao passo que o pae assim fallava, cobria a moça fidalga de beijos e +caricias maternaes, a respeitavel matrona D. Isabel de Abendanho.</p> + +<p>--E tu, Anna, foste da mesma sorte feliz?</p> + +<p><span class="pagenum">[100]</span> A timida interrogada, ficou silenciosa e interdicta...</p> + +<p>O velho fidalgo, tomado instantaneamente de uma pallidez assustadora, +alçou assim a voz:</p> + +<p>--Padre Alvaro! Disponha immediatamente a capella d'esta casa, para uma +solemne ceremonia religiosa.--Snr. Arthur Soares, dê busca a todo o edificio +e traga-me já aqui o infame possuidor d'este lupanar!--Anna!.. Prepare-se +para o mais serio acto da sua vida, com a coragem que lhe faltou para +resistir á seducção!...</p> + +<p>Apressaram-se todos a cumprirem as ordens dadas, que bem de conhecer era o +não admittirem réplicas.</p> + +<p>N'esta situação, fôra ouvido ao longe da estrada, que passava em frente do +palacio, um extraordinario bulicio.</p> + +<p>O pae de D. Maria da Gloria, mandou ao unico official de ordens que alli +tinha--a metamorphoseada Rosa--que fosse reconhecer o barulho, e aguardou +impaciente a chegada de Arthur Soares.</p> + +<p>Caminhavam pela estrada de Vianna, cujo castello acabava de cahir em poder +das forças populares, em direcção á praça de Valença, os prisioneiros de +guerra, guardados por duzentas praças de linha e cercados de immenso povo, +que pedia em altos gritos a morte dos empregados publicos, e de toda a +guarnição prisioneira. Arduo trabalho havia tido a força conductora, para +salvar até alli da sanha popular os que foram entregues ao seu brio e que, +maneatados, só deviam pertencer ao poder das leis.</p> + +<p>A custo se introduzira Rosa entre as fileiras da tropa, e conseguira, com +a interferencia de um tenente <span class="pagenum">[101]</span> que folgara de ter occasião de subtrair +ao povo uma victima, soltar um dos officiaes prisioneiros, e trazel-o pelo +braço fóra do alcance da furia popular:--era Leopoldo de Lencastre.</p> + +<p>--Temos contas a saldar, snr. capitão, e será o seu formoso palacio o +logar do ajuste.</p> + +<p>--Conheci-a logo no seu disfarce, snr.<sup>a</sup> Rosa, e a minha +cobardia, se m'o concede, não é de tal quilate que me leve a bater-me com... +o snr. tenente...</p> + +<p>--Em sua casa será obrigado a entrar no repto.</p> + +<p>E caminhando sempre, sem troca de mais palavras, deram entrada no salão, +onde Sebastião da Mesquita acabava de ouvir, enfurecido, o ephemero resultado +da busca a que procedera Arthur Soares.</p> + +<p>--A proposito chega e condignamente conduzido é o villão ao seu +prostibulo... Ajoelhe immediatamente aos pés d'aquella mulher, e peça-lhe a +honra de ser sua esposa...</p> + +<p>--Mas... snr. Sebastião da Mesquita... um fidalgo...</p> + +<p>--Que serodios e infames brios!... É fidalga, é bem mais nobre do que o +canalha que lhe cuspiu a vergonha, aquella que eu o obrigo a receber por sua +mulher legitima.</p> + +<p>--N'esse caso... se V. Exc.<sup>a</sup> me affiança...</p> + +<p>--Sebastião da Mesquita, snr. Lencastre degenerado, poderia ser levado a +transpor as fornalhas do inferno, mas nunca a manchar a sua honra com a +mentira... Para a capella, senhores!...</p> + +<p>O nosso velho heroe, não querendo consentir, em nenhum caso, no casamento +do perverso Leopoldo com D. Maria, e prevendo com acertado raciocinio <span class="pagenum">[102]</span> +que a docil Anna teria a fraqueza de se deixar vencer pela seducção, +alcançára, na conferencia com o arcebispo de Braga, licença, em fórma, de +qualquer padre, e em qualquer sanctuario, poder realisar o sagrado enlace que +ia ter logar na capella d'aquelle palacio.</p> + +<p>Finda a religiosa ceremonia, durante a qual esteve a capella repleta de +muitos curiosos e de alguns devotos, cresceu de ponto o tumulto da estrada. +Sebastião da Mesquita, que já alli se julgava desnecessario, sahiu á rua, e +tentou pôr um dique ao excesso do povo. Foi impotente, d'esta vez, a sua +respeitavel palavra.</p> + +<p>O leão popular, mostrava-se indomito, e cruel. A facilidade que via no +triumpho, aguçava-lhe o appetite de sangue. Os infelizes prisioneiros estavam +prestes a cahir-lhes nas garras, das quaes só em pedaços sahiriam!</p> + +<p>De repente, principia a turba a desbarretar-se, atirando com os joelhos +para o solo!... Ficaram só de pé os prisioneiros e a força que os guardava. +Estava domado o leão!..</p> + +<p>Por quem?...</p> + +<p>Por um velho, de negras mas sagradas roupagens, do mais humilde aspecto, +da mais inoffensiva attitude!... Pelo padre Alvaro, que se arrastara até ao +cume de um penêdo--d'onde era visto por todos--e que trémulo e silencioso, +por lhe embargar a voz a commoção, alçara ao alto da veneranda cabeça um +crucifixo com a imagem do Redemptor do mundo...<sup +class="footnote"><a href="#fn7" name="lfn7">7</a></sup></p> + +<p><span class="pagenum">[103]</span> Os presos foram recolhidos e agasalhados sem a menor resistencia +popular, no palacio de Leopoldo.</p> + +<p>O povo dispersou, a estas enthusiasticas vozes de Sebastião da +Mesquita:</p> + +<p>«Salvè! religioso e bom povo portuguez, salvè!...»</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn5" name="fn5">5</a></sup> O periodico «Estrella do Norte» publicou a +noticia da <em>intimação</em> e da retirada do exc.<sup>mo</sup> arcebispo +primaz.</p> + +<p>Temos á vista vários jornaes d'aquella epocha calamitosa, que fazem, pela +desenvoltura da linguagem e calúmnias que semearam, corar de pejo todos +aquelles que saibam presar a dignidade da imprensa, e comprehender a sua +nobre missão. Um dos mais repugnantes por certo, foi aquelle que se +denominou--«Popular».--O melhor correctivo que, em seguida, podiam ter as +suas atrevidas e mentirosas apostrophes, foi-lhe dado pelo primeiro +jornalista portuguez n'estas honrosas verdades: «O jornalista é o sacerdote +d'uma religião, d'uma crença social--expõe a sua doutrina, discute, convence +ou é convencido. A sua alma deve respirar sempre amor, o seu apostolado é um +apostolado de paz. Se o seu irmão pecca, deve dizer-lhe como o sacerdote do +Evangelho--<em>Fili, peccasti; non adjicias iterum</em>.</p> + +<p>«Para que é incitar o povo a que entre no palacio dos nossos reis e +pratique ahi acções de canibaes? Que civilisaçâo é esta que injuría as +victimas para as immolar?</p> + +<p>«Não ha rainha mais virtuosa do que a nossa como esposa, nem como mãe de +familias. A sua casa póde servir de exemplo a todas da Europa.</p> + +<p>«Apraz-nos fazer esta justiça. Assim podessemos achar que louvar no +funccionario como achamos no individuo.</p> + +<p>«Por isso é que a nossa voz se levanta contra uma imputação injuriosa e +falsa.--A moral respeita-se no adversario como no amigo.» («O Espectro» de 26 +de Fevereiro de 1847.) <sup class="footnote"></sup></p> + +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn6" name="fn6">6</a></sup> Aquelle infeliz aventureiro, abandonado +pelo partido que levara á rebellião, e apenas seguido de uns cem homens, foi +morto por um sargento de cavallaria das forças da rainha. O «Diario do +Governo» de 5 de Fevereiro de 1847, noticiando a morte de Mac-Donnell, diz +assim: «A identidade da pessoa de Mac-Donnell foi reconhecida por diversas +pessoas, e d'esta circumstancia se lavrou auto judicial.»<sup +class="footnote"></sup></p> + +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn7" name="fn7">7</a></sup> Este facto, teve effectivamente logar +quando foi tomado pelo povo o castello de Vianna. </p> +</div> + +<h4>FIM DA PRIMEIRA PARTE</h4> + +<p><span class="pagenum">[104]</span><br><span class="pagenum">[105]</span> </p> + +<h2>SEGUNDA PARTE</h2> + +<h3>CRIME</h3> + +<div class="quote"> +<p>«Eu pintarei o caso com côres bem crimes.»</p> + +<p>(<em>Chron. de Cister</em>.)</p> +</div> + +<p><span class="pagenum">[106]</span><br><span class="pagenum">[107]</span> </p> + +<h3>I<br> +ABYSMO</h3> + +<div class="quote"> +<p>«Ai do viandante que não vê caminho!<br> +ai do mesquinho sem a luz da fé!<br> +ai! que, na falta d'um amor sublime,<br> +triumfa o crime, do ludibrio ao pé!</p> + +<p class="direita">(<em>T. Ribeiro</em>--<span class="smallcaps">Sons que +passam</span>.) </p> +</div> + +<p>Foi talvez pouco sensivel ao leitor a desapparição de João Vidal nos +ultimos capitulos da primeira parte d'este livro, por que lhe traçou papel +secundario no «Conto Portuguez.» A ser assim, foi-lhe infiel o trabalho de +imaginação e, temos para nós que por mais vezes, no deslizar pela fiel +narração do conto, hade o leitor errar seus calculos.--«<em>Em romance ou +folhetim, o verdadeiro é o menos verosímil</em>:»--escreveu com muita +propriedade, em maré de chiste, um nosso festejado folhetinista.</p> + +<p>João Vidal, o escudeiro, fôra mandado pelo amo reconstruir o solar, em +parte presa das chammas, e tractar da administração da casa. Foi elle o +escolhido por Sebastião da Mesquita, pela illimitada confiança <span class="pagenum">[108]</span> que +lhe devia, e tambem para o desviar dos logares da acção empregada no +livramento das donzellas, onde a podia prejudicar o entranhado rancor do +escudeiro a Leopoldo.</p> + +<p>A resolução do velho fidalgo fazer sumir os vestigios do incendio mandado +lançar pela esposa ao seu palacio, foi tomada d'accordo com D. Isabel. +Louvára Sebastião da Mesquita aquella inopinada e fidalga acção, a que o +desespêro da immerecida e violenta affronta condusira os brios de uma nobre +senhora, que era mãe, mas facil lhe foi convencer sua mulher da sem razão de +ficarem permanentes os signaes de um crime já reparado, que de mais os +privava de viverem commodamente.</p> + +<p>Não teve D. Isabel igual facilidade em destruir no seu esposo, o +preconceito de que devia bater-se em duello de morte com Leopoldo: foi +preciso o auxilio de D. Maria da Gloria, que teve a força de convencer seu +illustre pae do respeito e das attenções com ella havidas durante o +captiveiro, para conseguirem de Sebastião da Mesquita o esquecimento de tão +absurda idêa, a que era levado pelo excesso da honra. E de presumir é que, +mais ainda do que as boas razões dadas, imperasse no quietismo de seu animo, +a certeza da partilha que tinha a esposa no que houvesse de soffrer seu +marido: limitou-se, pois, o honrado velho, a varrer de si, e cortar com a sua +familia, todas as relações com a mulher de Leopoldo, pelo desprêso a este +votado.</p> + +<p>Ao recolher-se com a familia á sua habitação, entregara Sebastião da +Mesquita o commando da força popular a Arthur Soares, pedindo-lhe que se +conservasse no alto Minho, e exercesse vigilancia sobre as acções <span class="pagenum">[109]</span> +intimas de Leopoldo, porque receiava haver feito uma victima da pobre +<em>donzella</em>, que tivera em vista honrar pelo casamento com o +seductor.</p> + +<p>Algum tempo volvido, era Arthur Soares forçado pelo seu dever, a narrar, +em longa carta a seu padrinho, o que podera saber pelos seus exforços +habilmente empregados. Daremos ao leitor conhecimento d'um periodo daquella +carta:</p> + +<p> </p> + +<p>«Colhi a fatal certeza de que a snr.<sup>a</sup> D. Anna soffre a seu +marido constantes doéstos, em alguns dos quaes é menos respeitada a boa +intenção do meu nobre padrinho, e senhor, porque se atreve a dizer, que +<em>occultas razões</em> determinaram a violencia do seu casamento com uma +<em>rapariga pobre</em>! Não se queixa a paciente; mas traz escripto na face +os signaes do seu pesar, e gradual definhamento.»</p> + +<p> </p> + +<p>Esperou Arthur, com a ancia de um verdadeiro interesse, apenas producto de +sua bem formada alma, que Sebastião da Mesquita, dando o pêso devido ao que +lhe havia communicado, procedesse de modo a sanar aquellas rudes e vilãs +provocações de um depravado senhor á sua escrava. Os dias, porém, +succediam-se na sua marcha natural--que é morosa para os que esperam e +pensam, e rapida para os que gosam descuidados--sem que o velho fidalgo désse +accordo de si. Admirado Arthur de um tal silencio, que lhe deu margem a mil +oppostas conjecturas, não podendo duvidar da entrega em mão da sua carta, +porque o portador fôra seguro, resolveu empregar os seus proprios recursos +para adoçar quanto possivel a situação amarga da infeliz Anna, que lhe fôra +companheira e socia nos annos e nos brinquedos infantis. <span class="pagenum">[110]</span> Tomada a +resolução, seguiu-se o emprego de meios para chegar á falla com a mulher de +Leopoldo.</p> + +<p>Entremos pela segunda vez nas casas que serviram de forçado aposento a D. +Maria da Gloria. Estamos na mesma sala onde tiveram logar as scenas +descriptas no capitulo--<em>Amor</em>. Recostada em magnifico sofá, e vestida +com singela elegancia, está uma sombra d'aquella Anna, que fôra discipula +muito amada de D. Maria da Gloria: a seu lado, tomou assento Arthur Soares, +em uma d'essas cadeiras cujo feitio se presta a todas as commodidades e +posturas de phantastico confôrto. Escutêmol-os:</p> + +<p>--Consinta-me, snr.<sup>a</sup> D. Anna...</p> + +<p>--Snr.<sup>a</sup> D. Anna!...</p> + +<p>--Sim, minha senhora, é esse o tractamento que hoje se lhe deve, e não +serei eu que o esqueça. V. exc.<sup>a</sup> soffre. Deixe-me aproveitar estes +momentos, para bem claramente lhe dizer o que me obrigou a pedir-lhe esta +audiencia. Fui encarregado pelo snr. Sebastião da Mesquita de saber se v. +exc.<sup>a</sup> era feliz: Não é. Sei que o seu viver intimo não está em +harmonia com as seductoras apparencias do fausto que a rodeia. Quererá v. +exc.<sup>a</sup> confiar de um leal amigo, de um companheiro de infancia, do +mensageiro de seu nobre pae adoptivo, todos os pesares que a consomem?</p> + +<p>--Infeliz, eu?!... Pois não vê o senhor Arthur Soares, como estes +aposentos estão repletos de esplendor e de magnificencia?!... Não vê esta +mobilia, estes adereços, esta riqueza, este luxo, esta sumptuosidade régia de +que partilho?!... Eu, a misera filha de um lavrador, apenas habituada ás +palhas e ao fumo da cabana paterna!... Eu, que só por favor conhecia <span class="pagenum">[111]</span> +o palacio da minha querida mestra e senhora D. Maria da Gloria!... Podem por +ventura ter entrada os dissabores, onde moram as preciosidades?!... Não, mil +vezes não!... As estatuetas, os modelos em bronze e jaspe dos principaes +monumentos da Europa, os bustos serios e caricatos de notaveis personagens do +mundo civilisado, o ébano, a madre-perola, esses milhares de caprichos e de +prodigios, as antiguidades, os <em>recocós</em>, as reliquias de toda a arte +misturadas com os feitios e labores de toda a imaginação, tudo isto que me +<em>cérca</em>, de que me chamam dona, que me obrigam a fitar, comprehender e +decorar, e que me veiu conjunctamente com a posse de um esposo letrado e +nobre,--não será o gôso, a felicidade, a completa ventura?!...</p> + +<p>--E as lagrimas, que são o epilogo da formosa descripção que fez, o que +significam, senhora D. Anna?...</p> + +<p>--Oh!... Estas lagrimas são... de alegria!...</p> + +<p>--E porque não diz de saudade?!... Saudade que ninguem tem o poder de +condemnar na alma, que foge dos logares dourados, onde lhe fazem soffrer o +peso de grandezas que não ambicionou, para se aninhar nas pacificas palhas da +sua infancia e adolescencia, onde lhe fôra suave e salutar bafejo o contacto +de outras almas lavadas, caridosas, verdadeiramente nobres em todas as suas +acções... Por que não revela toda a verdade, que eu de sobra conheço na +excitação que V. Exc.<sup>a</sup> manifesta?...</p> + +<p>--Toda a verdade!... Sabel-a-ei eu, senhor Arthur Soares?... Amo Leopoldo, +que é meu senhor, e... e devo ser feliz n'este paraiso, para onde fui atirada +em completa nudez, e no qual achei, como nos <span class="pagenum">[112]</span> contos de fadas, tudo +que uma princeza póde ambicionar...</p> + +<p>--Disse o bastante, minha senhora. Agradeço a confiança que em mim +depositou, e que lhe mereço, creia. Peço o favor de confiar-me tambem a +cobrança de haveres que lhe pertencem. Ha um mysterio na vida de V. +Exc.<sup>a</sup>, de que eu estou senhor, que só mais tarde lhe póde ser +revelado. Mysterio honroso, que a hade tornar respeitavel aos olhos de... de +toda a gente. Os haveres de V. Exc.<sup>a</sup>, se não podem equiparar-se +aos de seu illustre esposo, são, com tudo, sufficientes para darem, em todo o +tempo, a independencia necessaria a uma senhora. Concede-me, por escripto, a +auctorisação que lhe peço?</p> + +<p>--Vou escrever o que quizer dictar-me, meu bom amigo.</p> + +<p>Aproximaram-se de um riquissimo e formoso movel, que serviu de +escrivaninha, onde Arthur, em pé, dictou, o que Anna escreveu com punho +firme. Concluido e entregue o documento, tiveram logar os agradecimentos, as +despedidas e as recommendações, em que por muito entraram os sentimentos de +gratidão que a pobre senhora nutria por toda a familia de D. Maria da Gloria, +e o affecto filial aos singelos caseiros, que ella julgava seus progenitores. +Durante estas naturalissimas expansões, agitou-se um reposteiro e entrou +Leopoldo na sala. Vinha pallido, mas os passos eram seguros, o aspecto +risonho e o porte ceremonioso. Dirigiu-se a sua mulher com requintada +delicadeza, dizendo-lhe que a esperavam as suas modistas, e dando-lhe o braço +para a conduzir. Cumprimentou attenciosamente Arthur Soares, e pediu-lhe o +<span class="pagenum">[113]</span> favor de o aguardar alguns minutos, dirigindo-se em seguida com a +esposa para o interior do palacio.</p> + +<p>Arthur esperou de animo resoluto, como quem descança na paz da +consciencia, a volta do seu pronunciado inimigo.</p> + +<p>--Creio que o não fiz esperar muito, senhor Arthur Soares?... Queira +collocar-se á vontade, e dignar-se responder-me, caso me julgue com direito a +fazer-lhe algumas breves e concisas perguntas.</p> + +<p>--Ouvirei, senhor Leopoldo.</p> + +<p>--Peço desculpa de não principiar pelos offerecimentos do estylo: julgo +que minha mulher saberia fazer-lhe o que chamam as honras da casa?...</p> + +<p>--A senhora D. Anna recebeu-me como uma senhora distincta costuma +agasalhar um companheiro de infancia, um como irmão respeitoso e lealmente +affeiçoado. </p> + +<p>--Muito bem... Poderei saber o motivo porque se aproveitou a minha +ausencia, para a visita com que V. S.<sup>a</sup> quiz honrar esta +casa?...</p> + +<p>--Porque não me sendo agradavel a presença de V. Exc.<sup>a</sup>, devo +suppor que a minha egualmente o não seja ao senhor Leopoldo.</p> + +<p>--Colhe alguma cousa essa franqueza... E o motivo da conferencia, é +segredo para mim?...</p> + +<p>--Não guardo segredos de uma senhora casada. Vim visitar a senhora D. +Anna, em nome de pessoas que a presam, e pedir-lhe esta auctorisação:--«Dou a +Arthur Soares os poderes necessarios, para receber toda a quantia ou valores +a que eu tenho direito.»</p> + +<p>--Vejo que se faz procurador de minha mulher, sem outhorga minha!... É +para intentar divorcio, e pedir-me alimentos?...</p> + +<p><span class="pagenum">[114]</span> --Pondo agora de parte as suas impertinentes ironias, assevero-lhe +que S. Ex.<sup>ma</sup> esposa <em>não é pobre</em>, e que, para cobrar o que +lhe pertence, é que eu vim pedir-lhe este escripto.</p> + +<p>--E que validade descobre V. S.<sup>a</sup> n'esse papel, que não é +authenticado por mim?... Pois não serei eu o competente para essa +cobrança?...</p> + +<p>--A esposa de V. Exc.<sup>a</sup> ignorou até hoje, que era senhora de +fortuna, como ainda não sabe do seu illustre nascimento: este mysterio, não +póde ser já aclarado. Não se fatigue com perguntas, que não colhe mais +esclarecimentos. V. Exc.<sup>a</sup> tem o direito de receber, querendo, o +dote da snr.<sup>a</sup> D. Anna, garantindo-lh'o em bens seus. Para a +recepção actual, sou eu o unico competente. Não peço mais documentos, nem dou +a pessoa alguma o direito de duvidar da pontual entrega, que hei de fazer, do +liquidado e recebido por mim.</p> + +<p>--Por hoje, não quero demoral-o mais... Conto que V. S.<sup>a</sup> não ha +de recusar-se a dar-me, de futuro, quaesquer esclarecimentos...</p> + +<p>--Sempre ás ordens de V. Exc.<sup>a</sup>, para o que fôr do meu brio.</p> + +<p>Retirou-se Arthur Soares, e o mesmo foi que abrir-se um dique á torrente +do odio represado no coração de Leopoldo. Ficou o leão rugindo no seu antro, +prestes a cahir no abysmo cavado a seus pés pelo amor e pelo ciume.</p> + +<p><span class="pagenum">[115]</span> </p> + +<h3>II<br> +FIDALGUIA</h3> + +<div class="quote"> +<p>«É que ha uma fidalguia de alma que nem sempre falta ao que chegou por si +á grandeza, assim como nem sempre vem aos que a herdaram de seus +antepassados.» </p> + +<p class="direita">(<em>V. d'Almeida-Garrett</em>--<span +class="smallcaps">Helena.</span>) </p> +</div> + +<p>A chamada nobreza de sangue tem origem respeitavel.</p> + +<p>Os homens que defenderam e ajudaram a republica, consagrando-lhe todas as +suas forças e haveres, quando o perigo era commum de todos,--foram nobres. Os +homens que souberam fazer valer os direitos da nação, sendo leaes guardadores +das immunidades patrias, e em longinquas e perigosas paragens, exposeram as +suas vidas, em quanto muitos outros gosavam as delicias caseiras,--foram +nobres. Os homens que, dados a serios estudos desde a mais tenra infancia, +conseguiram nome e gloria para as nações <span class="pagenum">[116]</span> a que pertenciam,--foram +nobres. Foram, e deviam sêl-o. Não lhes ficou barato o rôlo de papel--titulo +de nobreza, porque o da fidalguia estava nos seus feitos--de que os +descendentes, ainda hoje, e sempre, e com soberbas razões, se devem +orgulhar.</p> + +<p>Por milagre de esforço, de perseverança, de audacia mesmo, se deve aos +nobres de Portugal, o termos algum dia sido o povo mais forte e mais +respeitado da Europa. Um Affonso de Albuquerque, o fundador do imperio +portuguez no Oriente, aquelle que os adversarios chamaram <em>leão dos +mares</em>, fôra bastante, por seus heroismos, a justificar entre nós o +justissimo orgulho da nobreza de sangue; que, ainda assim, tem mais remotas e +egualmente verdadeiras glorias a que soccorrer-se.</p> + +<p>Do natural desvanecimento dos que se gloriam de seus nobres antepassados, +só a mesquinha inveja póde desdenhar. E muitos, e tantos, e de tamanho valor +foram os nobres portuguezes, que não cabe n'este logar enumeral-os. E nem por +isso elles ficam ignorados, que, a par dos heroes da espada, viveram os +nobres d'outros feitos, os Camões, os Barros, os Coutos, os gigantes +eternisadores das memoraveis façanhas de seus coevos, meritorios como elles, +e como elles dedicados á grandeza da patria.</p> + +<p>Sabemos que á civilisação repugna a <em>conquista</em>, embora tenha de +conformar-se com os <em>factos consummados</em>; mas quem ha que duvide da +boa fé com que pelejaram os nossos velhos portuguezes? Religião e patria, +eram os seus estimulos; e á prodigiosa força de tão poderosas ideias, se +devem attribuir as suas heroicidades.</p> + +<p>Mas ser <em>nobre</em>, nem sempre quer dizer ser <em>fidalgo +illustre</em>. <span class="pagenum">[117]</span> A nobreza póde ser herdada, e a fidalguia, as acções +briosas, não. Para ser nobre bastam os pergaminhos; para ser fidalgo +illustre, não se dispensam as virtudes proprias, os actos insignes, os +meritos individuaes, e até, e quasi sempre, os auxilios da caprichosa +natureza.</p> + +<p>Ha mais nobres do que fidalgos illustres, e ha illustres fidalgos, que não +são nobres. É bom ser nobre; melhor é ser illustre fidalgo; e optimo, por sem +duvida, é ser illustre e nobre fidalgo.</p> + +<p>Arthur Soares, era illustre. Gentil de corpo e sem mácula na alma, reunia +em si todas as qualidades physicas e moraes, que fazem o homem distincto. O +encargo de vigiar pela vida intima da que lhe fôra companheira na infancia, +tomára-o elle de boa vontade, porque entendeu que o fim de Sebastião da +Mesquita era proteger a mulher que julgára infelicitar com o forçado +casamento. Tardára-lhe porém, a protecção, e levado pelos seus brios a tomar +iniciativa propria, teve de inventar para Anna um nascimento e um dote.</p> + +<p>Ha mentiras salvadoras, que elevam tanto os que as sabem dizer, como os +inventos tórpes malsinam os caracteres dos velhacos, que os engendram. +Encobrir verdades que pódem fazer victimas, dar um sabor mysterioso a +qualquer facto, determinar mesmo quaesquer circumstancias em sentido diverso +do occorrido, para valer a infelizes sem prejuizo de terceiros,--são culpas +venturosas de que só podem accusar-se as almas boas, e os espiritos +elevados.</p> + +<p>Uma vez entrado no caminho de protector, resolveu Arthur Soares sahir +d'elle pelo da dignidade, que não conhece obstaculos, porque os sacrificios +alargam-lhe todas as verêdas. Estava obrigado voluntariamente, <span class="pagenum">[118]</span> e só +pela sua palavra, é certo, mas por isso mesmo com obrigação completa, a +entregar um dote á mulher de Leopoldo. A evidencia de um nascimento fidalgo, +que tambem asseverára, menos cuidado lhe dava, porque ouvira a Sebastião da +Mesquita affirmar o que elle repetira, e tinha toda a confiança no +desempenho, mais ou menos tardio, da palavra do honrado velho. Além de que, o +esclarecimento d'esta circumstancia, podia demorar-se, visto já ter lançado á +imaginação de Leopoldo a existencia do mysterio: o essencial, o urgente, era +o dote.</p> + +<p>Escreveu Arthur Soares outra carta a Sebastião da Mesquita, +perguntando-lhe se recebera a primeira. Respondeu-lhe affirmativamente, e que +havia tomado as suas importantes revelações na devida consideração. Esta +resposta não aquietou o animo generoso do voluntario protector. Queria obras, +e não palavras, que elle achou frias em caso de tanto brio. Resolveu proceder +isoladamente, e com segredo.</p> + +<p>Obtida uma licença de alguns dias, dirigiu-se Arthur Soares á residencia +de seu thio. Recebido pelo padre com a natural expansão de um affecto puro e +vivo, n'elle depositou o segredo da promessa que o impressionava, e queria +cumprir, pedindo-lhe conselho e favor. No fim da confidencia, ficou o padre +mais ébrio de prazer do que se fôra elle o favorecido com o generoso +compromisso de Arthur. Conduziu o mancebo ao pé de um velho movel, e +disse-lhe: </p> + +<p>--Estão aqui as nossas economias: são uns vinte e tantos mil cruzados. É +dinheiro de muitos annos guardado por tua mãe sem prejuiso dos pobres. +Trabalhava noite e dia, a pobre martyr... Quando eu brandamente lhe observava +que podia adoecer com <span class="pagenum">[119]</span> tão aturado labutar, respondia-me que Deus não +havia de condemnar a ambição de mãe em converter as suas vigilias e o seu +suor em dote para seu filho... Chegou á força de perseverança a poder +commerciar em cereaes, principiando pelo mesquinho producto da roca... Como +era boa a tua mãe, Arthur!... Já vês que não tenho parte n'essa accumulação +de moedas, que te pertencem... Mas essa quantia, bastante notavel para nós, é +ainda pequena para dotar a mulher de um rico nobre... Vamos já a Penafiel... +Farei perante um tabellião o necessario documento, para que tu possas vender +a raiz das propriedades, que foram de meus paes... A raiz só, porque o +uso-fructo deve continuar a pertencer a uma infeliz familia, que lá está por +disposição tua... De certo te não recordas já d'aquella tua +<em>doação</em>... Eras muito criança ainda, mas com a indole que... que tu +tens, meu Arthur!...</p> + +<p>Velho e moço, sentiram a commoção de duas almas iguaes, quando são +abaladas por acções celestes, e confundiram n'um longo abraço os soluços e as +lagrimas. O respeitavel e sagrado nome de--pae--foi proferido por Arthur +Soares, saltando-lhe do coração á bôcca. O padre Alvaro, ouvindo chamar-se +por aquelle nome, fez-se d'uma pallidez mortal, e balbuciou:</p> + +<p>--Obrigado meu filho, por teres pela primeira vez esse nome para mim!... +Sou eu só a ouvil-o, e Deus, que sabe os meus remorsos, de certo me consente +este innocente prazer... Obrigado!... Vejo, sinto que te não repugna o +sacrilego... És bom, Arthur, meu filho adorado!... Crê que tenho soffrido +muito!... E o maior, o mais terrivel do meu padecer, era o não poder +chamar-te--filho--nem ouvir <span class="pagenum">[120]</span> de tua bôcca o dôce nome de--pae... +Diz-me, meu querido Arthur, diz que não desdenhas, que não amaldiçôas o teu +nascimento... Perdoa-me o haver-te privado da paternidade legal...</p> + +<p>--Perdoar-lhe?!... O quê, meu sempre amado pae?!... O ter-me dado esta +alma, que é sua, e que me faz grande aos meus proprios olhos?!... O ter +coberto a minha infancia e mocidade dos maiores e dos mais carinhosos +extremos?!... O haver-me dado uma educação de fazer inveja aos mais poderosos +da terra?!... O tornar amênos e felizes os dias da vida de minha santa +mãe?!... O ter vertido lagrimas de sangue pela chamada culpa que me deu vida +e felicidade?!... É isto tudo que eu tenho a perdoar-lhe, não é assim?... Oh! +mas não sabe que o meu maior orgulho é o de ser seu filho?!... Que pae mais +heroe, mais santo, mais martyr me podia dar o céu?!...</p> + +<p>--Basta, Arthur, que me pódes matar de alegria!.. Bemdicto sejas, meu Deus +e meu Salvador! Bemdicto e louvado pela tua Misericordia com este indigno +padre!...</p> + +<p>Deixemos o velho Alvaro nos braços de seu filho Arthur, nos momentos mais +felizes da sua attribulada existencia, e vamos presenciar o que se passa no +palacio de Sebastião da Mesquita.</p> + +<p>Estamos no salão onde tiveram logar as primeiras scenas d'este verdadeiro +conto. Estão lá outros moveis de mais recente data, mas ainda se alli sente o +respeito devido ao que é antigo e bello, porque foram salvas do incendio as +reliquias de familia: São ainda os mesmos os quadros, os retratos, e os +brasões. Sebastião da Mesquita está fallando com muita solemnidade a João +Vidal:</p> + +<p><span class="pagenum">[121]</span> --É tempo de te fazer mui sérias e importantes revelações, João, +que devem mudar completamente a tua posição social. Dir-te-hei tudo em poucas +palavras: sou avêsso ás phrases de estylo em materias graves. Recebi-te em +criança das mãos de uma santa abbadessa, que te salvou a vida criando-te +dentro do seu convento. Conservei-te sempre ao meu lado, e dei-te, quando +homem, a qualidade de escudeiro d'esta casa, tendo-te o carinho de pae, +porque era impossivel, e prejudicial para ti, a revelação do teu nascimento. +És filho bastardo de um nobre desnaturado, que sacrificou os seus brios ao +dote da mulher, nobre tambem de pergaminhos, e villã de sentimentos. Agora +que todo o perigo é passado, aqui tens os papeis, que provam o teu +nascimento, e com elles recebe igualmente este dinheiro, e estes titulos, que +tudo te foi legado pela religiosa tua salvadora, e tua thia-avó paterna, e +depositado em minhas mãos para te ser entregue quando já não corresses o +risco de ser perseguido, e talvez assassinado, pelos assalariados da mulher +de teu pae. Ficas sabendo que és nobre, e na posse de dinheiro, e valores que +orçam por cincoenta mil crusados, com a accumulação da parte rendivel. Fui +máu administrador, porque deixei quieto e improductivo o dinheiro, que hoje +podia estar treplicado; mas bem sabes que abomino todas as especulações, e +que não sei commerciar. Antes que te surprehenda, com a leitura dos +documentos que te entrego, a noticia de que és irmão de Leopoldo...</p> + +<p>--Eu, irmão de semelhante malvado!... Snr. Sebastião da Mesquita, meu amo +e unico pae que me apraz reconhecer.... Peço a v. exc.<sup>a</sup> muito de +mercê, que me continue a graça de o servir... Quero <span class="pagenum">[122]</span> considerar-me sem +parentes conhecidos... Quero ser o filho adoptivo de v. exc.<sup>a</sup>, e o +seu mais humilde criado...</p> + +<p>--É impossivel. Pódes, sim, continuar a viver na minha companhia, se o +quizeres; mas na posse do que te pertence, e na qualidade de amigo, e não de +criado da casa. Escusado é instares por outra solução, que esta é-me dictada +pela honra. A ultima ordem que te dou é a de extinguires em ti o odio que +tens a Leopoldo...</p> + +<p>--Mas, senhor...</p> + +<p>--Esqueceste, João, da inflexibilidade do meu caracter?... Terminou a +nossa audiencia, que outros deveres não menos graves me chamam a attenção. +Leva o que é teu, e faz-me o favor de dizer a minha mulher e a minha filha, +que venham a esta sala... Manda tambem chamar Rosa.</p> + +<p>--V. exc.<sup>a</sup> bem sabe que a menina Rosa ha tempo que não vem ao +palacio, e que parece soffrer bastante...</p> + +<p>--Sei. Digam-lhe que sou eu que a chamo, e quero-a aqui.</p> + +<p>Sebastião da Mesquita, logo que João Vidal se retirou, ficou entregue a +uma desusada agitação nervosa, que n'elle era infallivel symptoma da +gravidade do assumpto que o preoccupava. Durou-lhe a inquietação só até ao +momento em que sentiu aproximar-se a familia que chamara. Logo que deram +entrada na sala D. Isabel, D. Maria da Gloria, e Rosa, serenou o velho +fidalgo, que as convidou a escutarem-n'o.</p> + +<p>--Dirijo-me a si em primeiro logar, Rosa, porque desejava saber os motivos +da sua frieza com esta familia, que a estima devéras, e os que são causa de +<span class="pagenum">[123]</span> um soffrimento que a sua indiscreta face revela... Tem a queixar-se +de alguem d'esta casa?</p> + +<p>--Que pergunta, senhor!... Pois a planta parasita e inutil póde por +ventura queixar-se dos cultivadores, que a querem tornar mimosa á força de +cuidados e attenções?!...</p> + +<p>--Se a sua elegante resposta não encobre nenhum resentimento, porque é +então que não frequenta esta casa como costumava?</p> + +<p>--A minha doença...</p> + +<p>--E como se chama a sua doença?...</p> + +<p>--Ainda não consultei a sciencia, e...</p> + +<p>--Receia que a consulta seja inutil... Guarde, pois, os seus segredos, +Rosa, que não quer depositar no coração de um velho, talvez por considerar a +velhice incapaz de os comprehender, e preste toda a sua attenção ao que vou +dizer a minha mulher e a minha filha... Minha prima e estimada esposa, e +minha presada Maria: desde muito que sabeis o interesse e affeição que voto a +esta donzella, e áquella infeliz que obriguei a casar com um homem que +detesto... Consenti-me que ainda vos occulte os motivos de honra, que a tanto +me obrigam, e que um dia vos serão patentes... É urgente, e indispensavel, +que a mulher do <em>rico fidalgo</em> e snr. Leopoldo tenha um dote capaz de +suffocar na alma villã do marido o desprêso pela que foi obrigado a receber +por sua legitima esposa... Para lhe dar esse dote necessito empenhar muito o +teu patrimonio Maria, e a casa de v. exc.<sup>a</sup>, minha prima...</p> + +<p>--Para que me dá o primo parte das suas nobres acções?! Mereço-lhe que me +suspeite capaz de ir de encontro a uma sua resolução, ainda que por ella +fosse <span class="pagenum">[124]</span> levada á extrema miséria?... É injusto, senhor...</p> + +<p>--Deixe-me beijar-lhe a mão, minha santa prima!... Nunca duvidei dos +nobilissimos sentimentos de V. Exc.<sup>a</sup>; mas cumpria-me consultal-a, +e pedir-lhe auctorisação para o que tenho a fazer, e bem sabe que não sei +faltar ao que devo a mim mesmo...</p> + +<p>--E eu, meu presado e respeitavel pae e senhor, tenho só a dizer a V. +Exc.<sup>a</sup>, que me é inutil um dote, porque estou resolvida a morrer +solteira, e...</p> + +<p>--Criança!... Não é preciso tamanho sacrificio... Vejo que entregas nas +minhas mãos o teu futuro, e pódes estar certa de que ninguem o velaria melhor +do que eu o farei... Temos de fazer uma séria reducção nas despezas, porque +nos vae diminuir muito o rendimento. Possuia dinheiro e valores que +entregaram á minha honra, e que acabo de restituir. Tenho, portanto, de +vender bastantes propriedades... É custoso vêr passar a mãos alheias o que +era de nossos avós; mas o dever primeiro que tudo... O que me diria, Rosa, se +estivesse no logar de minha filha Maria?</p> + +<p>--Desejaria saber dizer a V. Exc.<sup>a</sup> as mesmas palavras que o coração dictou +á minha querida mestra e senhora D. Maria da Gloria, porque são perfeitamente +iguaes os meus sentimentos...</p> + +<p>--Agradeço a todas...</p> + +<p>Entrou precipitadamente na sala João Vidal, e Sebastião da Mesquita, um +pouco enfadado, perguntou-lhe:</p> + +<p>--O que quer, João?... Parece que vem como portador de novas importantes, +a dar valor ao modo porque se aproxima de nós, ao que traz nas mãos, e ao +demudado da sua côr?...</p> + +<p><span class="pagenum">[125]</span> --É que, senhor, por mais indifferente que o dinheiro nos pareça +ser, sempre sentimos algum estremecimento ao achar inesperadamente uma +quantia importante... Os trabalhadores que andavam no pomar a compôr o muro, +encontraram esta panella de ferro com o dinheiro que ella contém... +Apressei-me a vir participar o acontecimento a V. Exc.<sup>a</sup>, e peço +que me desculpe o interrompel-o?...</p> + +<p>--Deixe-me vêr a qualidade da moeda... Tenho visto, snr. João de +Lencastre... Conheço este dinheiro, que passou do cofre em que lh'o dei, para +a primeira panella que o João encontrou na cosinha... Foi pouco engenhoso na +sua cavalheira mentira... Não sou facil de illudir; mas, em compensação, sou +facilimo em perdoar acções como aquella que desejou praticar... Lembro-lhe, +porém, João, que <em>só eu</em> tenho direito a regular as minhas +generosidades, e que não posso acceitar favores d'essa ordem... nem mesmo do +João... Minha esposa e minhas filhas: dou-lhes parte que João Vidal, o +escudeiro, passou hoje á posse do seu verdadeiro nome, e da fortuna que lhe +veiu por elle. É bastardo da casa dos Lencastres, irmão de Leopoldo, e o +unico que ha de sustentar em todo o brilho a gloria de seus antepassados. É, +pois, na qualidade de nosso parente, e intimo amigo, que occupa desde hoje o +logar que n'esta casa está sempre vago para os homens de bem.</p> + +<p>--Agradeço de toda a alma a V. Exc.<sup>a</sup> a immensa honra que me +concede, e que só condicionalmente acceitarei... Perdôe-me a arrogancia da +phrase... foi dictada por V. Exc.<sup>a</sup> que me ensinou os deveres de +cavalheiro...</p> + +<p>--Venham as condições!</p> + +<p><span class="pagenum">[126]</span> --É só uma: a de me consentir em ter parte na generosidade que vae +praticar... Ouvi tudo... Quiz encobrir-lhe o meu desejo, e não pude, por que +V. Exc.<sup>a</sup> descobriu a mentira, que eu inventei para bom fim... +Acabou o constrangimento, senhor, e não tenho já receio de affirmar ao snr. +Sebastião da Mesquita, que se me não permittir o que rogo, fugirei para muito +longe, para onde me não possa chegar...</p> + +<p>--E que direito--disse Sebastião da Mesquita, interrompendo-o--é o seu +para fazer um beneficio á senhora D. Anna?...</p> + +<p>--É a mulher de meu irmão, senhor!...</p> + +<p>João Vidal, pronunciou estas palavras com dignidade e consciencia tal, que +as tres senhoras immediatamente estenderam as mãos ao ex-escudeiro.</p> + +<p>Sebastião da Mesquita levantou-se com toda a soberania, e disse:</p> + +<p>--Está terminada a conferencia... Ácerca do que pede, eu darei parte ao +<em>primo</em> João do que resolver. <span class="pagenum">[127]</span></p> + +<h3>III<br> +CIUME</h3> + +<div class="quote"> +<p>«................................<br> +Invejo-te, Camões, o nome honroso,<br> +Da Mente creadora o sacro lume,<br> +Que exprime as furias de Liêo raivoso,<br> +</p> + +<p>Os ais de Ignez, de Venus o queixume:<br> +As pragas do Gigante procelloso,<br> +O Céu de Amor, o Inferno do Ciume.» </p> + +<p class="direita">(<em>Manoel Maria de Barbosa du Bocage.</em>) </p> +</div> + +<p>O ciume é, por sem duvida, a mais feroz e violenta das paixões, porque +participa do amor e do odio, os mais agudos e incuraveis padecimentos do +coração humano.</p> + +<p>Os modos de manifestar tão perigosa como prejudicial paixão, variam tanto +quantos são os temperamentos, as indoles, e as educações das pessoas sujeitas +ao ciume.</p> + +<p>O homem rude, que é brutal em suas expansões, não magôa mais, com seus +castigos materiaes, a mulher que lhe faz sentir ciume, do que o burguez +indinheirado, que ensina a consorte a decorar uma infinita taboada de +favores, que lhe minguaram a burra. <span class="pagenum">[128]</span></p> + +<p>O homem educado, da boa sociedade e com escola das conveniencias sociaes, +tambem não é o que menos faz sentir á pobre filha de Eva o castigo de sua +egoista paixão. Com a mascara da mais requintada polidez, fere com gestos, +com sorrisos gelados, com subtilesas, com allusões, com toda a sorte de +estudadas torturas, que nem consentem á victima a desfórra de uma +resposta.</p> + +<p>Fazemos distincção do ciume, dividindo-o em espiritual e material. O +primeiro, o que procede da alma, não é selvagem nas suas consequencias, não +escandalisa, e, sendo injusto, quasi sempre é debelado pela resignação e +carinho da mulher, succedendo, algumas vezes, quando verdadeiro, conseguir a +emenda e o arrependimento da culpada. O segundo, o que só tem origem nos +sentidos corporaes, é arrebatado, não raciocina nem perdôa, sendo, por isso, +sempre ruinoso e fatal.</p> + +<p>Leopoldo luctava com o ciume espiritual pelo verdadeiro amor a D. Maria da +Gloria, e com o ciume material pela esposa, que não podia amar.</p> + +<p>Arthur Soares, por ser estimado pela fidalga donzella e conservar com D. +Anna relações suspeitosas ao parecer do marido, tinha em Leopoldo um terrivel +inimigo.</p> + +<p>Depois d'aquelle dia, em que foi encontrar a esposa conversando a sós com +Arthur, o fidalgo militar soffria um verdadeiro tormento intimo, de que D. +Anna era participante, por esses infinitos actos de calculada severidade, e +de frieza, que fazem do homem polido um carrasco civilisado, e da mulher +innocente, e que os atura, uma completa martyr.</p> + +<p>D. Anna, como não tivesse a mais pequena mácula <span class="pagenum">[129]</span> de que accusar-se, +attribuia todos os maus tractos de seu marido, unicamente a ter elle sido +forçado a recebel-a por esposa, sendo ella plebêa e pobre. A triste senhora +procurava na leitura, quando as lagrimas a deixavam, lenitivo aos seus +pesares, e dava preferencia á Biblia, esse formoso rei dos livros, e n'ella +ás divinas parabulas, essas inimitaveis phrases do Christo, que alliviam a +alma, e derramam o mais suave dos perfumes sobre os sentidos de quem lê, e +sabe comprehender e crêr.</p> + +<p>Lia a contristada esposa o seu livro favorito na pagina que diz:</p> + +<p><br> +«E chegavam-se a Jesus os fariseus tentando-o, e dizendo: É por ventura +licito a um homem repudiar a sua mulher, por qualquer causa? Elle, +respondendo-lhes disse: O que vos ordenou Moysés? Elles lhe responderam: +Moysés mandou dar o homem a sua mulher carta de desquite, e repudial-a. +Respondeu-lhes Jesus: Porque Moysés, pela dureza de vossos corações, vos +permittiu repudiar a vossas mulheres; mas ao principio não foi assim. Não +tendes lido, que quem creou o homem desde o principio, creou macho e femea, e +que deixarão pae e mãe, e ajuntar-se-hão, e serão dois n'uma só carne, não +sendo já dois, mas uma só carne? Não separe, logo o homem, o que Deus +ajuntou.»</p> + +<p><br> +Esta lei do Evangelho sobre a indissolubilidade do casamento, tornou +pensativa a chorosa esposa, que pousou sobre os joelhos o sagrado livro, +aberto na pagina que lêra, pendendo-lhe a cabeça para o seio. Era tal a +preoccupação em que se achava, meditando, que não deu pela entrada do marido +no seu quarto, <span class="pagenum">[130]</span> Leopoldo, que espiava todas as acções de sua mulher, +vendo-a tão enleiada, aproximou-se-lhe mansamente, e leu, por cima do hombro +da esposa, as palavras que deixamos transcriptas, e que finalisavam a pagina +em que se liam: ensaiou um dos seus mais ironicos sorrisos, deu á voz um tom +de tão meliflua quanto refalsada ternura, e, juntando a acção ás palavras, +disse:</p> + +<p>--Virando esta pagina, minha cara esposa, talvez que encontre passagens de +mais interesse... Não me enganei. Olhe, veja a continuação e conclusão das +maximas, que tiveram o condão de a fazer ainda mais bella, levando-a a esse +estado e posição elegante de heroina scismadora... «Eu, pois, vos declaro, +que todo aquelle que repudiar a sua mulher, <em>se não é por causa de +adultério</em>, e casar com outra, commette adulterio: e o que se casar com a +que outro repudiou, commette adulterio: <em>E se a mulher deixa o seu marido +e casa com outro, ella é «adultera.</em>»</p> + +<p>De certo comprehende bem o sentido d'estas palavras, principalmente +d'aquellas que eu, ao lêr-lhe, sublinhei?</p> + +<p>--O primo, quasi me assustava, pelo não esperar agora aqui!... Se +comprehendo o sentido do que me leu?!... Não sei o que quer que eu +comprehenda?!...</p> + +<p>--Em primeiro logar, minha senhora e cara esposa, tomo a liberdade de lhe +dizer que não me consta que haja entre nós parentesco algum...</p> + +<p>--Foi o meu esposo, e snr. Leopoldo, que determinou este tratamento entre +nós...</p> + +<p>--Aconselhei-o, minha senhora, para as salas sómente, onde os +<em>nobres</em> teem obrigação de saber guardar todas as +<em>conveniencias</em>: mas, aqui, escusa a minha <span class="pagenum">[131]</span> estimavel esposa de +usar de taes <em>constrangimentos</em>... Pelo que toca á comprehensão do que +eu li, parece-me facilima, mórmente para o seu talento. Julgo que +Jesus-Christo, com aquellas palavras, nos quiz dizer, que se não pécca +repudiando a mulher <em>adultera</em>. Não lhe parece?...</p> + +<p>--Quem melhor do que o meu esposo, que é letrado, póde entender o que +lê?... Mas quer-me parecer que n'outro logar d'este sagrado livro, o bom +Jesus perdoou á adultera, que ia ser apedrejada, tendo antes provocado dos +queixosos o que se considerasse sem culpas que fosse o primeiro a lançar a +pedra... Não nos dirá tambem esta humanitaria e sublime parabula, que se +Jesus-Christo não tinha como peccado o desprezo da adultera, via, comtudo, +que os homens, mais fortes, e absolutos legisladores para os crimes do meu +sexo, nem sempre procedem com justiça?</p> + +<p>--Imaginemos que é assim: apraz-me concordar com os seus +<em>engenhosos</em> corollarios, minha senhora... Mas, como estamos em +<em>amigavel</em> controversia, desejava ouvir a sua <em>esclarecida</em> +opinião sobre a <em>igualdade</em> dos deveres... Parece-lhe que o +<em>adulterio</em> é o <em>mesmo crime</em> da parte da mulher como da parte +do homem?...</p> + +<p>--Não sei como responder-lhe, meu esposo e senhor... Nunca pensei +detidamente na gravidade do crime de que fallamos; e, pesando agora a +fealdade d'um tal delicto, julgo quasi impossivel que haja mulher +voluntariamente adultera. Talvez que essas infelizes peccadoras sejam levadas +a uma tal degradação pelo contínuo desprezo e ardua severidade dos maridos, +pelos maus exemplos, e pelas aleivosas seducções <span class="pagenum">[132]</span> dos homens, que as +conduzem á quéda, para as enlamearem em seguida...</p> + +<p>--Para quem não tem <em>pensado</em> no assumpto, desenvolve-o +admiravelmente!... Dou á minha cara esposa <em>sinceros</em> emboras pelo bem +que falla da materia... Devo comtudo observar-lhe, como em descardo da +<em>letradice</em> com que ha pouco quiz honrar-me, que os <em>maus +exemplos</em> do homem nunca podem lançar no leito nupcial um <em>pequenino +ladrão</em>... A minha <em>intelligente</em> esposa comprehende-me bem, não é +assim?</p> + +<p>--Se o comprehendo, senhor, devo tambem <em>observar-lhe</em> que os +<em>maus exemplos</em> podem igualmente introduzir o mesmo <em>roubo</em> em +alheios lares... Feliz a esposa que sabe resistir a todas as tentações, +embora tenha de ganhar a palma do martyrio; mas bem mais feliz aquella que +encontra no marido um guia, e natural protector, em vez d'um tyranno +egoista.</p> + +<p>--Dou lhe palmas, minha <em>cara</em> esposa! Isso é que se chama saber +defender o terreno pollegada a pollegada... Proclamo-a rainha das defensoras +da reciprocidade do crime de adulterio entre os conjuges...</p> + +<p>N'esta altura do dialogo, que promettia mais serio azedume, foram +interrompidos pela voz de uma criada, que annunciou a chegada, e a +introducção, de Arthur Soares, na sala das visitas. A esta noticia foram +differentes as sensações manifestadas pelos esposos. Leopoldo franziu a +testa, e D. Anna mostrou na face o natural contentamento com que recebia a +visita do seu companheiro de infancia, do seu protector e irmão +adoptivo...</p> + +<p>--O seu rôsto, minha <em>boa</em> esposa, formosissimo, mesmo quando +<em>v. exc.<sup>a</sup></em> se acha em perfeita tranquilidade de espirito, +está agora explendido de brilhantismo, <span class="pagenum">[133]</span> pelo contentamento que +manifesta com a noticia que nos deu a criada... Muito <em>feliz</em> é esse +snr. Arthur Soares!...</p> + +<p>--Se a profunda estima de uma irmã, que não sabe ser ingrata, póde dar a +felicidade, de certo que é feliz o meu companheiro de infancia, porque o sei +presar como elle merece.</p> + +<p>--Hei-de vêr se consigo haver d'elle, por <em>um sério estudo</em>, o +segredo de tanto se fazer <em>apreciar</em> das bellas... Vamos prestes ao +seu encontro, que estou já ancioso por começar as minhas +<em>experiencias</em>...</p> + +<p>D. Anna continuava a não comprehender os remoques do marido. A boa fé, e a +innocencia, são quasi sempre ingenuas.</p> + +<p>Chegados á sala os dois esposos, foram cumprimentados por Arthur Soares, +Leopoldo com polida frieza, e D. Anna com a expansão do <em>amor sem +desejo</em>, que assim é definida a verdadeira amisade, ao que ella soube +gentilmente corresponder, mau grado de seu marido, que principiava a +manifestar, por contorsões nervosas, o inferno que lhe ralava o peito.</p> + +<p>--Venho dar contas a v. exc.<sup>a</sup>, e a seu illustre marido, do uso +que fiz da auctorisação que me concedeu. Apenas consegui apurar trinta mil +crusados, que entrego em papeis de bom credito, equivalentes a dinheiro de +contado, e mais commodos no transporte. Com letigios, sempre impertinentes, +incommodos e despendiosos, podia augmentar a cobrança; mas usando, e talvez +que abusando um pouco, da auctorisação e da reconhecida bondade de v. +exc.<sup>a</sup>, passei quitação geral do seu dote pela quantia que recebi e +apresento... Digne-se o snr. Leopoldo examinar e contar... <span class="pagenum">[134]</span></p> + +<p>--Desculpe-me interrompel-o, snr. Arthur Soares. Eu não posso, nem quero, +entrar no mysterio d'esse <em>dote</em> da minha <em>prima</em> e +<em>cara</em> esposa. Creio possuir o necessario para vivermos com algum +allivio, e nunca <em>esperei</em> receber quantia alguma de tal +proveniencia... Se minha mulher <em>julgar digno</em> o receber esse +dinheiro, receba-o muito embora, que eu nunca procurarei saber qual seja a +sua applicação.</p> + +<p>--Não só a considero digna, mas até me parece obrigatoria a recepção. +Diz-me o snr. Arthur Soares, que tenho um <em>dote</em>, que é meu, +entrega-m'o, porque não hei-de recebel-o? Posso por ventura suspeitar que o +meu companheiro de infancia, e bom irmão adoptivo, trouxesse a esta casa +dinheiro meu de origem menos pura? Tambem não é de crer que haja quem se +desaposse de <em>trinta mil crusados</em>, para fazer um beneficio gratuito. +Além do que, se o meu esposo e senhor póde dispensar este dote; se eu mesma, +por estar no gôso da munificencia de meu marido, não tenho immediata precisão +d'elle, pódem de futuro existir outros interessados, os filhos, que não temos +o direito de prejudicar. Acceito, e agradeço ao snr. Arthur Soares, o +trabalho que teve para haver o meu dote.</p> + +<p>--Estou mais que pago do que fiz, pela certeza de ter prestado a v. +exc.<sup>a</sup> um pequeno serviço.</p> + +<p>--«A snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e +Abendanho!...»</p> + +<p>A este annuncio, que um escudeiro fez em devida fórma, ficaram como +interdictos todos os actores da scena que descrevemos. São faceis de +comprehender os motivos da interdicção, se o leitor tem attendido o «Conto +portuguez». <span class="pagenum">[135]</span></p> + +<p>Sebastião da Mesquita resolveu enviar a D. Anna o seu dote por D. Maria da +Gloria, e que esta fosse acompanhada por João de Lencastre: explicada a +inopinada apparição, e deixando á capacidade do leitor o avaliar como seriam +recebidos os recem-vindos, continuaremos a interrompida scena, em que figuram +agora mais dous actores:</p> + +<p>--Antes de participar ao primo Leopoldo qual é a commissão de que venho +encarregada por meu ex.<sup>mo</sup> pae e senhor, peço-lhe licença para +apresentar-lhe o snr. João de...</p> + +<p>--Conheço <em>bastante</em>, minha querida prima e senhora, o seu +escudeiro e fiel pagem, <em>que só poderia entrar n'esta casa, como +entrou</em>, acompanhando a sua dona...</p> + +<p>--Engana-se v. exc.<sup>a</sup>, meu caro primo, quanto ao mister e aos +direitos do meu apresentado. Este cavalheiro, que precisou de viver alguns +annos sob o incognito, mais de amigo que de escudeiro da nossa casa, é +bastardo da illustre progenie dos snrs. de Lencastre, reconhecido e dotado +por uma sua thia avó paterna; é nosso primo e muito intimo amigo; é, +finalmente, irmão de v. exc.<sup>a</sup>...</p> + +<p>--Não posso crêr que a minha apreciavel prima e snr.<sup>a</sup> D. Maria +da Gloria, queira honrar-me com um gracejo d'essa ordem, e...</p> + +<p>--Quer provas? Aqui as tem... Depois de lêr ficam desterradas as suas +duvidas, e atrevo-me a esperar do cavalheirismo de v. exc.<sup>a</sup>, que +dará todas as mostras de fraternal estima ao meu nobre apresentado...</p> + +<p>--Não desejo só dever a esses pergaminhos a amizade de meu irmão... Embora +por motivos justificados, <span class="pagenum">[136]</span> commetti um acto rude, e offereço-lhe a +face, para applicar n'ella a pena de Talião...</p> + +<p>--Mais do que a essa humildade, que sei apreciar n'este momento, e tanto +como aos laços de sangue que nos prendem, deve-se á vontade e nobreza de +sentimentos da nossa querida prima e snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria, a +espontaneidade com que o abraço, mano João!...</p> + +<p>--Agradeço ao primo Leopoldo a delicadeza e fidalguia do seu proceder. +Agora, passo a remir-me da obrigação que recebi de meu exc.<sup>mo</sup> pae: +faço-o mesmo em presença do snr. Arthur Soares, que pela muita amisade e +consideração que todos lhe devemos, é estimado como pessoa de familia. O +primo João, entregará ao primo Leopoldo, e á minha boa amiga e antiga +discipula, um movel que contém setenta mil crusados, que tanto importa o dote +d'esta excellente esposa, de que meu respeitavel pae estava de posse. Não foi +entregue ha mais tempo, porque só agora se acabou de liquidar e receber...</p> + +<p>Um raio, que n'aquella occasião tivesse cahido na sala, não deixaria ficar +mais assombrados Leopoldo, Arthur e D. Anna, do que ficaram ao ouvirem +aquellas palavras de D. Maria da Gloria! Póde comprehender-se, mas não é +descriptivel, a scena muda que entre elles teve logar. Arthur Soares, pelo +auxilio de seu natural talento, e por um d'aquelles raros expedientes, que +Deus concede repentinamente ás almas que o merecem, abrangeu a difficuldade +da situação, e desembaraçou-a maravilhosamente:</p> + +<p>--É á snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria, que devo explicar o assombro em +que ficaram estes felizes esposos, pela remessa que lhes faz meu illustre +padrinho, <span class="pagenum">[137]</span> e senhor Sebastião da Mesquita, logo em seguida a outra de +igual genero de que eu fui portador... Tudo se aclara com a narração da +verdade, ficando eu apenas com a macula de imprudente, por me precipitar na +entrega... O snr. Sebastião da Mesquita, havia-me encarregado da cobrança de +varios creditos e dividas, exigindo-me a maior actividade, porque pertenciam, +me disse elle, ao dote da snr.<sup>a</sup> D. Anna, que meu padrinho desejava +entregar o mais breve possivel... O emprego do tempo n'essa cobrança, o +desejo de prestar um serviço á minha companheira de infancia, e a necessidade +de marchar immediatamente para a cidade do Porto, onde me chamam os deveres +de voluntario da causa popular, tudo isto junto á irreflexão, que eu mesmo +classifico de imprudencia, arrastou-me aqui, a fazer a entrega do por mim +recebido, sem ter, como devia, uma prévia conferencia com o meu illustre +mandatario, que, pelo que observo agora, desconfiou da minha actividade, e +foi enviando o que já era em seu poder...</p> + +<p>--Deve ter sido assim, snr. Arthur Soares. E como meu excellente pae sabe +guardar bem os seus segredos, não me confiou essa missão de que o +encarregára... É grande a quantia pelo snr. Arthur recebida?</p> + +<p>--São, apenas, trinta mil cruzados.</p> + +<p>--Então, já a minha Annitas tem um dotesinho rasoavel... cem mil +cruzados... É um pequeno regato, que pouco volume augmenta ao oceano que +possue o marido, bem sei; mas que já chega para alfinetes, e para ter meia +duzia de dias, cada anno, hospedada a sua mestra... Consente, primo Leopoldo, +que eu seja, por algum tempo, hospeda de sua esposa?</p> + +<p>--A esse consentimento, é nossa prima D. Anna <span class="pagenum">[138]</span> que hade responder. +Da parte que eu tenho n'esta casa, dispõe V. Exc.<sup>a</sup> como de cousa sua, que +é... O que me parece descobrir na pergunta da minha querida prima D. Maria, é +vontade de estar aqui só com a sua discipula; e eu sou obrigado, pelos meus +deveres de militar da rainha, a senhora D. Maria II, a fazer-lhe a vontade, +porque hoje mesmo devo retirar-me, para reunir-me ao exercito.</p> + +<p>--N'esse caso, mano Leopoldo, vamos todos até Guimarães, onde fiquei de +encontrar-me com o snr. Sebastião da Mesquita... Acompanha-nos, snr. Arthur +Soares?</p> + +<p>--Com todo o prazer, snr. João de Lencastre: não é grande a volta na +jornada que tenho a fazer para a cidade do Porto, onde sou esperado na +qualidade de soldado do governo supremo do reino...</p> + +<p>Para melhor intelligencia da scena que se deu após as narradas, e com que +vamos fechar este capitulo, é necessario descrever as posições que occupavam +na sala os differentes actores.</p> + +<p>D. Maria da Gloria e Arthur Soares, conversavam a meia voz no vão de uma +das janellas de varanda, quasi no fim da sala, semi-occultos pelas cortinas, +a bastante distancia das de mais pessoas. D. Anna, occupava, no meio da sala, +um logar junto do precioso movel, onde movia maquinalmente alguns dos +objectos que o adornavam. João Vidal, ou de Lencastre, estava sentado a um +dos lados, folheando um album de pinturas; e Leopoldo, na extremidade da +sala, opposta ao lado occupado por D. Maria e Arthur, conservava-se de pé, +encostado ao pedestal de um magnifico relogio, com a cabeça levemente pousada +sobre os dedos da mão esquerda. <span class="pagenum">[139]</span></p> + +<p>D. Maria da Gloria e Arthur Soares, estavam muito interessados no seu +confidencial dialogo. A joven senhora, não acreditára na explicação, dada por +Arthur, ácerca dos seus trinta mil cruzados, e apertava-o com raciocinios, +que deviam leval-o, inevitavelmente, á confissão da verdade.</p> + +<p>D. Anna, reunia em sua mente as menores circumstancias de sua vida, +avaliava os ultimos acontecimentos d'ella, e via, ainda que com pouca +clareza, que estava sendo o alvo de generosidades extraordinarias.</p> + +<p>Leopoldo, só era dominado pelo ciume: reconhecia, mau grado seu, as +vantagens moraes do seu rival, e tremia de intima raiva.</p> + +<p>João, o antigo escudeiro, e moderno fidalgo por bastardia, senhor de quasi +todas as intrigas que agitavam os seus parentes e amigos, fingia prestar +muita attenção ás paizagens que examinava, e não perdia um só dos movimentos +dos que o cercavam.</p> + +<p>D. Maria triumphara, em fim, do seu docil adversario: obrigara-o a +confessar o que fizera, e a pedir-lhe segredo para o seu brioso procedimento. +A gentil e fidalga donzella, vendo realisadas as suas suspeitas, e abysmada +na grandeza d'alma do seu idolo, apertou-lhe as mãos meigamente, e +saltaram-lhe dos olhos lagrimas alegres. D. Anna, vira aquelles movimentos, +preadivinhára o que se havia passado, chegou-se a elles, e exclamou, entre +lagrimas de reconhecimento: «Meus bons amigos!» deixando em seguida cahir a +cabeça no seio de D. Maria da Gloria.--Era bello aquelle grupo!</p> + +<p>Leopoldo, acompanhára aquellas expansões de gratidão com olhos ferinos. De +repente, perdeu a côr, <span class="pagenum">[140]</span> sacudiu fortemente a cabeça, e dirigia-se, com +passos mal seguros, ao grupo encantador. Não podemos calcular o que teria +succedido, se aquella prêsa do ciume não fosse logo interrompida nos seus +passos pelo irmão que, com o album aberto, lhe disse:</p> + +<p>--Tem bellissimas pinturas este album, mano Leopoldo... Esta, que parece +ser o emblema do ciume, é realmente curiosa... Figura uma bella mulher com +apparencia de inquietação, e ar de quem escuta... As suas roupas são da côr +das ondas do mar: tem na mão direita um ramo de espinhos, e na esquerda um +gallo... Mantém-se na attitude do desassocêgo e curiosidade, e a côr dos +vestidos indica a perturbação da alma... O ramo de espinhos denota que os +tormentos do ciume são acerbos e agudos, e o gallo é o symbolo da suspeita e +vigilancia... É curioso, muito curioso!... O seu braço, mano Leopoldo, e +vamos até á proxima saleta, onde quero fazer-lhe entrega do movel em que lhe +fallou a snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria, e conversar em cousas de commum +interesse...</p> + +<p>E sem dar occasião a evasivas, foi arrastando Leopoldo, que se deixou +conduzir sem resistencia, já mais ou menos conscio do ridiculo de que o irmão +o salvava. <span class="pagenum">[141]</span></p> + +<h3>IV<br> +O BERÇO DA MONARCHIA</h3> + +<div class="quote"> +<p>«Querem alguns que seja esta villa o assento da cidade de Araduca, de que +Ptolomeu faz menção; é porem incerta a conjectura, sendo certissima a sua +veneranda antiguidade.»</p> + +<p class="direita">(<span class="smallcaps">O Panorama de 1867.</span>)</p> + +<p>«A antiga Guimarães foi fundada pelos gallo-celtas, quinhentos annos antes +da éra christã.»</p> + +<p class="direita">(<span class="smallcaps">Padre Carvalho</span>)</p> + +<p>«As fabricas de cortumes produzem annualmente um valor superior a cento e +cincoenta contos de reis. O commercio das linhas pannos de linho e ferragens, +é importante, apesar de ter decahido depois do tratado de 1810 e da +independencia do Brazil: todavia ninguem ainda hoje negará o incontestavel +merecimento dos tecidos de linho adamascados, fabricados em Guimarães, que em +duração e primor d'obra por certo que não tem rival. Calcula-se que os tres +ultimos productos industriaes que apontamos, não rendem menos de oitenta +contos de reis por anno. Os doces de fructas confeitados n'esta villa, +renderam, no anno de 1835, seis contos de reis.»</p> + +<p class="direita">(<span class="smallcaps">Geographia de Urcullu.</span>) +</p> +</div> + +<p>Parece fóra de duvida, que esta bella povoação do Minho, elevada +modernamente á cathegoria de cidade, teve, no seu começo, duas existencias +distinctas, e muito separadas na ordem do tempo, ambas com o nome +de--Guimarães--; se é que não serviu tambem de local á antiquissima cidade de +Araduca, <span class="pagenum">[142]</span> como querem muitos e mui abalisados auctores.</p> + +<p>É Guimarães uma das terras heroicas de Portugal, por titulos +honrosissimos. Mais do que ao facto de ter sido o berço do primeiro rei +portuguez, o snr. D. Affonso Henriques, que após a gloria de ter fundado e +consolidado o reino e a monarchia portugueza, morreu em geral opinião de +santo, como é affirmado na chronica dos conegos regrantes de Santo Agostinho, +e na terceira parte da Monarchia Lusitana; mais do que á contestada, ainda +que muito auctorisada, versão de ter sido a patria do famoso Papa S. +Damaso,<sup class="footnote"><a href="#fn8" name="lfn8">8</a></sup> que mereceu, ao sexto concilio de +Constantinopla, o dar-lhe os nomes de--Diamante da Fé--; mais do que á justa +fama de ser um povo notavelmente commercial e industrial; mais finalmente, do +que á sua immensa riqueza,--deve Guimarães, o seu bom nome, aos feitos +emprehendedores e gloriosos de um grande numero de seus filhos, na guerra, +nas artes, <span class="pagenum">[143]</span> nas sciencias, em todos os ramos dos conhecimentos +humanos, e á magnifica e incomparavel indole de todos elles, que sempre +souberam reunir á bravura do leão a mansidão do cordeiro, á intrepidez a +resignação, e ao uso da caridade a facilidade no perdão das injurias.</p> + +<p>Nomearemos alguns dos mais antigos e gloriosos nomes dos heroicos filhos +de Guimarães:</p> + +<p>Gil Vicente, filho de Martim Vicente, o fundador do theatro portuguez, e +distincto artista, que fez a Custodia de Belem.<sup +class="footnote"><a href="#fn9" name="lfn9">9</a></sup></p> + +<p>Pedro Alves, artista de notavel merecimento, que, com mais outros +contemporaneos seus, tornou florescente a ourivesaria de Guimarães, pelos +annos de mil quatro centos e cincoenta a mil quatro centos e oitenta.</p> + +<p>João Gonçalves, mais conhecido pelo nome de <em>Engenhoso</em>, o +introductor do serrilhado na moeda. <span class="pagenum">[144]</span></p> + +<p>Payo Galvão, filho unico de Pedro Galvão e de sua mulher D. Maria Paes; +entrou em tenra idade no convento de Santa Marinha da Costa, no anno de 1178; +enviado á Universidade de Paris, recebeu lá o grao de mestre de theologia. +Regressando ao seu convento e mosteiro da Costa, foi elevado á dignidade de +mestre-escóla da real collegiada. El Rei D. Sancho I, o nomeou, em 1198, seu +embaixador em Roma, onde foi muito estimado pelo Papa Innocencio III, que o +fez seu vice-cancellario, poucos mezes depois da sua chegada: cardeal +diacono, no anno de 1206; presbytero cardeal de Santa Cecilia, no anno de +1211; e bispo Albanense, no anno de 1215. Completou, este douto varão +vimaranense, a sua gloriosa carreira, acompanhando, na qualidade de +seu--legado apostolico--, o general João Breno, á conquista de Jerusalem, +enviado pelo Pontifice Honorio III.</p> + +<p>O doutor Gaspar de Carvalho, que foi chanceller <span class="pagenum">[145]</span> mór do reino, do +conselho de El-Rei D. João III, e tambem seu embaixador e testamenteiro.</p> + +<p>O doutor Balthasar de Azevedo, que foi desembargador da supplicação.</p> + +<p>O padre fr. Paulo do Valle, da ordem de S. Bento, que foi mestre de +theologia na Universidade de Coimbra.</p> + +<p>O doutor Diogo Lopes de Carvalho, senhor dos coutos de Abadim e Negrellos, +que foi môço fidalgo da casa de El-Rei, e seu desembargador do Paço.</p> + +<p>O doutor Gonçalo Dias de Carvalho, o primeiro legista portuguez, que +começou a estudar em Guimarães, no Mosteiro de Santa Marinha da Costa, de +frades Jeronymos. Foi o primeiro doutor que na Universidade de Coimbra tomou +capêllo, e foi desembargador dos aggravos, e deputado da meza da +consciencia.</p> + +<p>O doutor Balthasar Vieira, môço fidalgo da casa d'El-Rei, que foi +corregedor da côrte.</p> + +<p>O licenciado Manoel Barbosa, que escreveu com muito conhecimento sobre a +ordenação, que foi distincto antiquario e genealogista dos de mais +credito.</p> + +<p>O insigne doutor Agostinho Barbosa, filho do precedente, que foi bispo de +Cisgento, e publicou obras utilissimas, apreciadas dentro e fóra do paiz.</p> + +<p>O doutor Simão Vaz Barbosa, filho tambem do jurisconsulto Manoel Barbosa, +que foi mestre em artes, e escreveu o seu livro do <em>Axioma</em>.</p> + +<p>O doutor Antonio Pereira Cardote, que teve a gloria de vêr adoptada, pela +Universidade de Salamanca, a doutrina que ensinou na Universidade de Coimbra. +Dizem os mais auctorisados, quanto imparciaes, chronistas, <em>que se a villa +de Guimarães não tivera dado de si outro parto, bastava este sujeito para o +seu maior credito</em>. <span class="pagenum">[146]</span></p> + +<p>O padre fr. Antonio da Luz, religioso de S. Bento, insigne theologo, e +lente na Universidade de Coimbra.</p> + +<p>O padre mestre, fr. José de Oliveira, religioso dos eremitas de Santo +Agostinho, lente de theologia em Coimbra, e feito bispo de Angola, por El-Rei +D. Pedro II.</p> + +<p>O doutor Gaspar de Abreu de Freitas, commendador da Ordem de Christo, +desembargador e conselheiro da fazenda, môço fidalgo da casa de El-Rei, e seu +enviado a Hollanda, Inglaterra, e Roma.</p> + +<p>O desembargador João de Guimarães, embaixador duas vezes á Suecia, +Inglaterra, e Hollanda, moço fidalgo, commendador de capa-rosa, na ordem de +Christo, e deputado da Mesa da consciencia.</p> + +<p>O doutor João de Gouvêa da Rocha, desembargador na relação do Porto, na +dos aggravos, em Lisboa, e no Paço, moço fidalgo, e cavalleiro professo de +habito de Christo.</p> + +<p>O doutor Pedro da Rocha de Gouvêa, irmão do precedente, desembargador do +Brazil, e depois da supplicação, e cavalleiro da ordem de Christo.</p> + +<p>O doutor José Peixoto de Azevedo, desembargador dos aggravos, em +Lisboa.</p> + +<p>O doutor Jeronymo Vaz Vieira, juiz das ordens militares, deputado da mesa +da consciencia, desembargador dos aggravos, juiz da corôa, e desembargador do +Paço.</p> + +<p>D. Gabriel da Annunciação, conego de S. João Evangelista, que foi bispo de +Annel, do arcebispado de Evora. <span class="pagenum">[147]</span></p> + +<p>D. Manoel Affonso da Guerra, que foi bispo de Cabo-Verde.</p> + +<p>O doutor Pedro de Sousa, que foi lente de Vespora.</p> + +<p>O doutor Christovão de Azevedo, fisico-mór do reino.</p> + +<p>O doutor Francisco Cibrão, medico notavel, e muito conhecido e apreciado +em Lisboa.</p> + +<p>Manoel Gonçalves, o trovador, morador no <em>burgo</em> da rua de Couros, +que foi o primeiro homem que n'este reino fez trovas.</p> + +<p>Manoel Thomaz, que compoz a noticia das guerras d'entre Douro e Minho, em +<em>oitava rima</em>.</p> + +<p>Manoel de Faria e Sousa, homem que se fez conhecido e admirado, dentro e +fóra do paiz, pelo acerto, erudição e credito de suas obras, em que se +mostrou profundo conhecedor, não só das antiguidades de Portugal, como tambem +da Africa, Asia, e America. Foi sepultado no Mosteiro de Pombeiro, ao pé do +magestoso tumulo de D. João de Mello e Sampaio, antigo commendatario +d'aquelle Mosteiro.</p> + +<p>Martim Ferreira, que salvou Guimarães do sitio que tentava pôr-lhe o +exercito castelhano, alojado na <em>veiga das favas</em>; e que, por uma +cutilada que então recebeu no rôsto, ficou appellidado--o Martim Narizes.</p> + +<p>Manoel Machado de Miranda, senhor do <em>casal dos Cavalleiros</em>, e +residente no seu <em>palacio do arco</em>, na rua de Santa Maria, poderoso +fidalgo, que prestou assignalados serviços ao rei e ao reino, obrigando seus +filhos a continual-os.</p> + +<p>Manoel Machado, filho do precedente, que morreu em uma batalha naval +pelejada com os turcos. <span class="pagenum">[148]</span></p> + +<p>Francisco Machado, irmão d'aquelle, que morreu na India, no posto de +capitão de infanteria, batalhando pela patria.</p> + +<p>Fr. Gualter Machado, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na +religião de João de Rodes, que perdeu a vida em um assalto contra os +turcos.</p> + +<p>Fr. Martim Pereira d'Eça, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na +religião de João de Rodes, que, depois de ter batalhado com notavel valentia +ao lado de seus irmãos, regressou ao reino, que encontrou em guerras contra +Castella, e logo tomou as armas em defeza da patria, sendo mestre de campo de +um <em>terço de volantes</em>, e capitão duma <em>companhia de cavallos com o +titulo de couraças</em>. Celebradas as pazes entre os dous reinos, entrou o +guerreiro em mais brandas, fadigas: foi occupado em visitador das commendas +da sua religião, d'onde passou a recebedor d'ellas; e, estando n'esta +occupação, foi, por algum tempo, governador do priorado do Crato. Foi tambem +commendador de Torres Vedras, e de S. João da Carvoeira.</p> + +<p>João Machado d'Eça, irmão dos precedentes, que serviu importantes cargos +no Alemtejo.</p> + +<p>Gregorio Ferreira d'Eça, irmão dos precedentes, que foi capitão-mór de +Guimarães, e governador de sua comarca, militar valente, fidalgo da casa +d'El-Rei, e cavalleiro professo do habito de Christo.</p> + +<p>Pedro Alvares de Almada, cavalleiro valeroso, possuidor do morgado e cazas +do <em>Rocio da Tulha</em>, que, depois de ter batalhado n'este reino e no de +Hespanha, passou a servir El-Rei Henrique de Inglaterra nas guerras contra os +mouros; e taes valentias praticou, que mereceu a este rei um alvará, (datado +de <span class="pagenum">[149]</span> 2 de março de 1501) «<em>em que lhe entregou, e livremente doou, +parte determinada de suas armas reaes, a saber: ametade de uma flôr de Lyrio +de ouro, e ametade de uma rosa vermelha, em campo dividido em duas partes, e +em duas côres, como é, de uma parte de verde, e da outra de prata; para que +elle, e todos os seus descendentes, e parentes, assim conjunctos por sangue, +ou affeniedade, possam usar das mesmas armas segura e livremente, aonde cada +um quizer, assim como se forem suas proprias armas.</em>»</p> + +<p>Fernão da Mesquita, chamado--o velho--, possuidor da <em>casa da rua da +Infesta, com sua capella de Nossa Senhora da Graça</em>, que acompanhou, com +grande dispendio de sua fazenda, ao duque de Bragança, D. Jaymes, na tomada +de Azamôr, no anno de 1513, partindo depois para a India, onde fez as suas +proezas, que se lêem na Chronica d'El-Rei D. Manoel, cap. 46.</p> + +<p>Ruy Mendes da Mesquita, filho do precedente, que acompanhou o infante D. +Luiz, filho d'El-Rei D. Manoel, á tomada de Tunes, passando depois tambem á +India, onde, por seus valorosos feitos, honrou as cinzas de seu pae, honrando +a patria.</p> + +<p>Fernão da Mesquita e Lima, o Novo, filho do precedente, que, aos 18 annos +de idade, ganhou na guerra de Tangere, uma commenda da ordem de Christo, e, +dous annos depois, foi capitão mór da Costa.</p> + +<p>Diogo Lopes da Mesquita, irmão do precedente, que foi intrepido capitão da +fortaleza de Maluco, na India.</p> + +<p>Miguel Lopes da Mesquita, filho do precedente, e digno imitador do valor e +virtudes da familia dos Mesquitas de Guimarães, que teve a honra de hospedar, +<span class="pagenum">[150]</span> na sua casa da rua da Infesta, o infante D. Luiz, filho de El-Rei D. +Manoel, em agosto de 1548.</p> + +<p>Diogo da Mesquita, outro filho de Fernão da Mesquita, o velho, <em>que, +melhor que todos, realçou e eternisou</em> seu nome. Foi mandado pelo +viso-rei da India, Nuno da Cunha, por embaixador a um rei mouro; e, sendo +captivo do rei de Cambaya, por não querer renegar a sua fé, e a sua patria, +<em>foi posto na bocca d'uma peça de artilheria</em>, sem que um tal apparato +o amedrontasse; e, porque só o quizessem intimidar, e não matar, o pozeram a +resgate, e resgatado foi, <em>por subido preço</em>. Vingou suas affrontas, +matando, em combate, o rei de Cambaya, <em>que era senhor de tres +reinos</em>; e por este feito se accrescentaram ás suas armas <em>tres corôas +e um alfange</em>, como diz Diogo do Couto, na decada 4.<sup>a</sup>, livro +4.º, capitulo 9.º</p> + +<p>Manoel da Mesquita, filho do precedente, que foi capitão da fortaleza de +Chacel, na India.</p> + +<p>Fernão da Mesquita, irmão do precedente, que serviu nas Armadas, no tempo +d'El-Rei D. Sebastião.</p> + +<p>Antonio Pereira da Silva, fidalgo da casa d'El-Rei, <em>morgado rico, e +possuidor de casas nobres na rua de Santa Maria</em>, que acompanhou El-Rei +D. Sebastião á batalha de Alcacer Quibir, onde foi captivo. Resgatado, +embarcou para a India, e serviu como bom cavalleiro, na guerra contra os +turcos.</p> + +<p>Salvador Pereira da Silva, filho natural do precedente, que foi mestre de +campo em Ceilão, sendo general D. Jeronymo d'Azevedo; e depois foi capitão +mór da Armada, que foi ao cerco de Malaga.</p> + +<p>Antonio Peixoto de Carvalho, moço fidalgo da casa d'El-Rei, morgado da +Pousada, <em>com suas casas</em> <span class="pagenum">[151]</span> <em>na rua do Val de Donas</em>, que +serviu na guerra da India, <em>contra os infiéis</em>, onde acabou a vida.</p> + +<p>João Vasques Peixoto, irmão do precedente, ao qual fez doação do morgado, +que tomou o habito de S. João de Rodes, e mostrou seu valor nas guerras de +Malta, sendo feito commendador da sua ordem.</p> + +<p>João de Sousa Alcoforado, moço fidalgo da casa d'El-Rei, <em>que deixou +mulher, e filhos, e o morgado e casa de Villa Pouca</em>, para servir a +patria, nas guerras da India, levando em sua companhia dous de seus filhos, +Manoel de Sousa da Silva, e Francisco de Sousa Alcoforado.</p> + +<p>Simão Rebello de Valadares, que embarcou para a India sem licença de seu +pae, João Valadares, residente na rua de Santa Maria, e foi um dos mais +valentes soldados do seu tempo. Morreu juncto da muralha de Ceilão, +ficando-lhe, na escalada, os braços dentro da muralha.</p> + +<p>João Martins, Annadel mór dos espingardeiros de Guimarães, senhor do +morgado do Pinheiro, que deixou mulher e filhos, fretou uma náu á sua custa, +e mettendo-se n'ella, <em>com gente e armas tambem suas</em>, acompanhado de +seu irmão Fernão Martins, se offereceu a El-Rei D. Affonso V, para o seguir +na viagem que fazia a Azamôr. Por seus valerosos serviços, mereceram estes +dois irmãos, <em>grandes mercês e honras</em>.</p> + +<p>Pedro Coelho, da rua de Santa Maria, que acompanhou El-rei D. Sebastião á +Africa. Ficou captivo, e foi escravo <em>de dous senhores</em>. Resgatado, +<em>com muito trabalho e dispendio de sua fazenda</em>, foi cavalleiro +professo do habito de Christo.</p> + +<p>Salvador da Costa e Almada, morador na <em>rua Nova do Muro</em>, embarcou +para a India, onde foi <em>cabo de</em> <span class="pagenum">[152]</span> <em>tres fustas</em>, que o +governador, Mathias de Albuquerque, mandou á costa de Ceilão.</p> + +<p>Gregorio da Costa do Valle, tambem da rua Nova do Muro, thio do +precedente, que foi capitão da Costa, por El-Rei D. Manoel, e morreu na +India, pelejando com grande valor contra os turcos.</p> + +<p>Gaspar Leite Pereira, da rua do <em>Cano das Gasas</em>, que embarcou para +a India no anno de 1559, e, por seu valor, foi provido no cargo <em>de +Tanaydar e Manorá, nas terras de Baçaim</em>. Foi depois mandado, por El-Rei +D. Sebastião, á costa de Guiné, por capitão do navio--S. Nicolau--.</p> + +<p>Antonio Leite d'Azevedo, sobrinho do precedente, que tambem, na India, +mostrou o seu valor, como diz <em>A vida do irmão Pedro de Basto</em>, liv. +2.º cap. 13.º</p> + +<p>Gonçalo Paes de Meira, da rua de Santa Barbara, que acompanhou Martim +Ferreira na façanha da <em>Veiga das favas</em>, onde foi desbaratado o +exercito de D. Henrique 2.º, de Castella, que tentava pôr cêrco a +Guimarães; causando, por outra vez, em 1371, ao mesmo rei, graves desgostos, +porque elle, e seus dois filhos, Estevão Gonçalves de Meira, e Fernão +Gonçalves de Meira, acompanhados de quarenta cavalleiros, obrigaram o rei de +Castella a levantar o cêrco.</p> + +<p>Affonso Lourenço de Carvalho, que, estando de posse de Guimarães o rei de +Castella D. João 1.º, serviu, <em>por sua traça</em>, de poderoso +instrumento á conquista que d'ella fez El-Rei D. João I de Portugal. Foi o +caso, que estando El-Rei de Portugal, com o seu exercito, <em>na ponte do +Sueiro, juncto á ponte de Servas</em>, Affonso Lourenço de Carvalho lhe deu +parte, que conseguira do porteiro e guarda da <em>porta do postigo</em>, que +esta lhe abrisse, para elle metter em sua casa uma <span class="pagenum">[153]</span> cuba em um carro; +e, aproveitando El-Rei o aviso, entrou por alli, <em>com trezentos de +cavallo</em>, ficando senhor de Guimarães, depois de combate.</p> + +<p>Manoel de Valadares Vieira, que foi dos primeiros soldados filhos de +Guimarães, que, na provincia de entre Douro e Minho, assentou praça, deixando +o interesse de seu morgado, de que era unico herdeiro, para servir na feliz +acclamação de D. João 4.º. Foi capitão e sargento mór de +infanteria, e governador da praça de Monte Alegre.</p> + +<p>André Pinto Barboza, que militou n'este reino e no Brazil, chegando a +mestre de campo e governador da praça de Miranda, e provedor mór de +Pernambuco.</p> + +<p>Francisco de Meira Peixoto, que serviu em duas armadas, occupando tambem o +posto de capitão de infanteria.</p> + +<p>João Leite de Oliveira, que deixou a agricultura, que exercitava na sua +quinta <em>de Pombeiro</em>, para se alistar <em>na milicia de Flandes</em>, +onde, por seu valor, mereceu o posto de capitão, morrendo, no de general de +artilheria, com grande nome e fama.</p> + +<p>Sebastião Salgado de Faria, que, <em>na guerra de Flandes</em> foi <em>um +dos capitães de cavallo de couraças</em> com melhor nome no exercito.</p> + +<p>Jeronymo de Figueiredo, que, nas guerras com os castelhanos, chegou ao +posto de <em>tenente de mestre de campo general</em>.</p> + +<p>Dionisio da Cunha, que foi valente capitão de infanteria.</p> + +<p>Pedro Coelho de Miranda, que foi capitão dos <em>privilegiados de Nossa +Senhora da Oliveira</em>.</p> + +<p>João Botelho Leite, que foi capitão de infanteria, <span class="pagenum">[154]</span> e um dos que +promoveram a feliz acclamação de D. João IV.</p> + +<p>João Rebello Leite, filho do precedente, que, no <em>primeiro rebate que +em seguida á feliz acclamação, os gallegos deram</em> na fronteira do Minho, +foi prisioneiro e levado, <em>com oito feridas</em>, ao castello de +Compostella, d'onde, após dezoito mezes de prisão, fez <em>uma fugida +valorosa</em>, chegando depois a mestre de campo, e, <em>com lastimosa +desgraça, morreu de veneno</em>.</p> + +<p>João Machado de Miranda, que, deixando em serviço da patria os bens em que +succedia, militou com grande valor, chegando ao posto de mestre de campo de +infanteria, <em>e de cavallos</em>; e, indo a Santarem <em>reformar o seu +terço, foi captivo da morte por um reparado manjar, que lhe serviu a sua +mulata</em>.</p> + +<p>Fernão Ferreira da Maia; José Peixoto de Sousa; Francisco de Macedo; João +Barroso de Azevedo; Jacintho Leite Pereira; André de Sousa Homem; José +Machado Pinto, e Manoel Velho do Couto, que todos occuparam postos de +<em>capitães volantes</em>, no exercito da provincia do Minho.</p> + +<p>Diogo de Freitas, que foi capitão de infanteria.</p> + +<p>Antonio Paes do Amaral, cavalleiro do habito de Christo, e <em>ajudante de +cavallaria</em>.</p> + +<p>Antonio de Andrade e Valle, que foi <em>ajudante de Infanteria</em>.</p> + +<p>João de Sousa e Lima, que foi <em>alferes do mestre</em> de campo de +infanteria.</p> + +<p>Paschoal da Costa, que foi capitão de infanteria.</p> + +<p>Francisco Machado de Miranda, que foi capitão de infanteria; e Antonio de +Barros, que foi <em>capitão de volantes</em>.</p> + +<p>Esta lista seria infinda, se continuassemos a esgravatar <span class="pagenum">[155]</span> nas +gloriosissimas antiguidades d'este nosso Portugal, e aproveitassemos tudo, +que respeita a Guimarães.</p> + +<p>E não é só ao sexo forte, que o berço da monarchia deve o seu nome famoso: +foi distinctissima vimaranense, entre outras de menor fama, Joanna Michaella, +filha de Pedro Machado e Dionizia de Macedo, e esposa do tenente coronel de +cavallaria Antonio Mendes de Brito. Era perfeita no conhecimento e uso da +lingua materna, e sabia latim, italiano, grego e chinez: estudou philosophia, +theologia, mathematica, astrologia, e musica; chegando a ser classificada +como uma das senhoras portuguezas mais eruditas do seu seculo.</p> + +<p>Foram, pois, justificadamente merecidas as immensas honras, privilegios e +isempções, que os senhores reis d'este reino concederam aos moradores de +Guimarães, como não tiveram por certo, nenhuns outros do paiz; e da mesma +fórma, de toda a razão é o nobre orgulho, que ainda hoje sustenta a briosa +raça de tão heroico povo.</p> + +<p>E não resistimos ao estimulo de notar aqui meia duzia de nomes, que, na +actualidade, provam não ter degenerado aquelle sangue portuguez, tão +admiravelmente fertil.</p> + +<p>Contamos com a benevolencia dos cavalheiros, por nós apontados, para que +nos relevem o não lhes respeitarmos a modestia em preito á verdade; como +esperamos desculpa das capacidades, que, involuntariamente, esqueçamos de +nomear.</p> + +<p>É natural de Guimarães, o snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho, residente +hoje na cidade do Porto, notavel curioso de obras de prata e de marfim, e +celebre <span class="pagenum">[156]</span> artista gravador de medalhas, algumas das quaes teem sido +admiradas dentro e fóra do paiz.<sup class="footnote"><a href="#fn10" name="lfn10">10</a></sup></p> + +<p>Nasceu tambem aqui o apreciavel rabequista, e maestro, Francisco de Sá +Noronha, que, nas suas viagens, se tem feito admirar em quasi toda a Europa, +recebendo honras, e condecorações de alguns monarchas.<sup +class="footnote"><a href="#fn11" name="lfn11">11</a></sup></p> + +<p>É distincto, em equitação, e talvez se possa chamar o primeiro cavalleiro +peninsular, o snr. José Martins Minotes.</p> + +<p>São profundos jurisconsultos, e como taes conhecidos em todo o reino, os +senhores doutores Bento Antonio d'Oliveira Cardoso, e Antonio Leite de +Castro.</p> + +<p>É mimoso poeta e dramaturgo, o senhor doutor Antonio d'Oliveira +Cardoso.</p> + +<p>Tem logar conhecido entre os amadores das boas Lettras, o snr. doutor +Francisco de Moraes Sarmento, apreciado já, nas suas obras, pelo nosso bom e +fecundo romancista, o snr. Camillo Castello Branco.</p> + +<p>Os que hoje representam os antigos fidalgos do «Berço da Monarchia», são +todos pessoas estimaveis, <span class="pagenum">[157]</span> caritativas, e uteis. Não existe aqui, onde +a nobreza é verdadeira, esses enfatuamentos condemnaveis, que só prejudicam +seus donos. Na casa do mais distincto cidadão vimaranense, tem facil entrada, +e bom acolhimento, toda a pessoa que lhe bate á porta por mais humilde que +seja. É tambem por isto, que a nobreza vimaranense, hoje como sempre, é por +todos respeitada.</p> + +<p>Peza a louza do sepulchro sobre as cinzas de tres condes, que, por sua +popularidade, e importantes cargos que exerceram, deixaram no seu paiz +honrosa memoria.</p> + +<p>Tudo que dizemos, e muito mais que, em verdade, poderiamos dizer de +Guimarães, tem desafiado a critica mordaz <em>dos fortes espiritos</em> do +seculo, que a chamam <em>terra retrógrada</em>.</p> + +<p>É certo, que o progresso material não tem entrado aqui, com a velocidade +que fôra para desejar; mas nem por isso deixam de ser plenamente satisfeitas +todas as necessidades da vida. E a cada passo vemos, para comprovar a bondade +da terra, adoptarem Guimarães, por sua patria, muitos estrangeiros, que +n'ella encontram estimação.</p> + +<p>Conservam-se, é tambem certo, alguns costumes de velhas datas; mas n'estes +uzos, que os modernistas condemnam, sem bem os avaliarem, ha um certo sabôr +de patriotismo, que satisfaz, e deleita, aos que não trocam o que foi bom, no +passado, pelo que é, muitas vezes, futil, e mau no presente.</p> + +<p>O auctor d'estas Linhas, para que o não acoimem de suspeito, declara que +nasceu na cidade do Porto. <span class="pagenum">[158]</span></p> + +<p>Fugimos um pouco do principal fim do nosso «conto», chamando os leitores +para o local da acção, em que elle vae continuar, nos seguintes capitulos; +mas d'este desvio se podem esquivar os mais exigentes, passando em claro as +noticias vimaranenses, que damos por concluidas. </p> + +<div class="rodape"> +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn8" name="fn8">8</a></sup> Portugal deu á cadeira de S. Pedro dois +naturaes seus: S. Damaso, de Guimarães, e Pedro Hispano, natural de Lisboa, +freguezia de S. Julião, que por pouco tempo gosou as honras do pontificado, +por morrer de um desastre no sumptuoso palacio, que mandou construir em +Viterbo. S. Damaso foi o 39.º na serie dos pontifices romanos: +foi-lhe disputada a eleição por Ursino, que as auctoridades civis +desterraram, sendo confirmada a legitima eleição de S. Damaso; tambem o +inculparam de adultero, mas foi absolvido por um concilio de 44 bispos, +reunido em Roma. Entre outras obras de sua iniciativa, contam-se as basilicas +de S. Lourenço, e a da Ardeativa, fóra de Roma, mandando concluir outras. +Combateu valorosamente as seitas dissidentes, congregando varios concilios, e +o ecumenico, em Constantinopla, no anno de 381, ao qual assistiram 150 +bispos. <sup class="footnote"></sup></p> + +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn9" name="fn9">9</a></sup> Em um moderno artigo das «Artes e letras», +que tem por epigraphe: «Gil Vicente e a custodia de Belem»--lê-se: +«Contemplada a Custodia de Belem e confrontada com a Custodia de prata +dourada que se guarda na collegiada da Oliveira em Guimarães, saltava ao +espirito a existencia de uma mesma tradicção artistica, de uma mesma escóla. +Seria Guimarães que teria influido sobre o gosto da ourivesaria em Lisboa? É +certo que a tradição recolhida por Barbosa Machado, dizia que disputavam o +nascimento a Gil Vicente, Lisboa e Guimarães. Este criterio nos dirigiu nas +investigações, e no manuscripto de Christovão Alão de Moraes, datado de 1667, +que tem o titulo de <em>Sedatura Lusitana</em> encontramos estes factos +preciosos: «<em>Martim Vicente, foi um homem natural de Guimarães; dizem que +era ourives de prata; não podemos saber com quem casou; só se sabe de certo +que teve a Gil Vicente.</em>» Isto já bastava para acreditarmos que o auctor +da Custodia de Belem era natural de Guimarães; mas o manuscripto genealogico +é mais explicito, e declara-nos que esse Gil Vicente, filho do ourives de +Guimarães, é o afamado poeta da côrte de D. João II, D. Manoel e D. João III +«<em>Gil Vicente, filho unico d'este Martim Vicente, foi homem mui discreto e +galante</em>, e por tal foi sempre muito <em>estimado dos Principes e +senhores de seu tempo. Foi o que fez os autos, que em seu nome se imprimiram, +e por sua muita graça foram sempre celebrados pelos melhores que se fizeram +n'aquelle genero. Está sepultado em Evora.</em>» O gráo de authenticidade que +nos merece este manuscripto é irrefragavel; por que Christovão Alão de Moraes +datou a Sedatura de 1667, e elle segue esta genealogia até 1668, em que +figurava o seu trisneto Manoel Barreto de Pina, que viveu em Torres Vedras, e +n'esse anno foi procurador em côrtes.» <sup class="footnote"></sup></p> + +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn10" name="fn10">10</a></sup> O mesmo artigo a que nos referimos em a +nota que falla de Gil Vicente, diz: «... e mesmo em nossos dias o grande +gravador de medalhas, José Arnaldo Nogueira Molarinho, representa para nós +essa antiga seiva artistica de Guimarães.» <sup class="footnote"></sup></p> + +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn11" name="fn11">11</a></sup> O sr. Noronha é auctor da musica da +«Beatriz de Portugal», drama lyrico em 4 actos, vertido em italiano pelo sr. +Luigi Bianchi, e representado com applauso geral nos reaes theatros de S. +Carlos, em Lisboa, e de S. João, no Porto. A letra do drama, é do sr. R. C. +M. </p> +</div> + +<p><span class="pagenum">[159]</span></p> + +<h3>V<br> +BABEL DE SABIOS</h3> + +<div class="quote"> +<p>«Alli se ajunta bando de casquilhos,<br> +A que o vulgo mordaz chama rafados;<br> +........................................................<br> +Altercam mil questões; promptos contendem,<br> +Promptos decidem no que nada entendem.</p> + +<p class="direita">(<em>Nicolao Tolentino de Almeida</em>) </p> +</div> + +<p>--Antes queremos do de <em>Basto</em>, snr.<sup>a</sup> Anastacia Mendes, +do de Basto, que é macio, e tem corpo... Diga-me... todos nós somos de +segredo, e bisarros mancebos, bem sabe... ha na sua afamada locanda algum +<em>peixe</em> fresco?...</p> + +<p>--Que o houvesse, não era para os senhores, que vão comer a melhor +<em>carninha</em> do meu fumeiro... É dia de jejum, e n'esta casa, louvado +Deus, ninguem <em>mistura</em>...</p> + +<p>--Não quer dizer isso, snr.<sup>a</sup> Mendes... O que o Andrade pergunta +é se deu entrada ha pouco, no seu estabelecimento, algum animal da especie +dos <em>infusorios</em>...</p> + +<p>--Dos <em>rotarios</em>, snr.<sup>a</sup> Anastacia, dos rotarios... +<span class="pagenum">[160]</span> Este Abreu é da mesma força do Andrade... Não sabem classificar as +differentes especies de viventes, que ha no mundo...</p> + +<p>--Pois o Ribeiro, nossa robicunda patrôa, é de egual ignorancia aos que +censura... A fazenda, que procuravamos é da familia dos +<em>zoophytos</em>...</p> + +<p>--<em>Medusas</em>, snr.<sup>a</sup> Anastacia, <em>são medusas</em>...</p> + +<p>--Não é tal, são <em>radiarios</em>...</p> + +<p>--São <em>enthelmentes</em>...</p> + +<p>--São <em>arachnides</em>...</p> + +<p>--São <em>crustaceos</em>...</p> + +<p>--São <em>annelides</em>...</p> + +<p>--São <em>molluscos</em>...</p> + +<p>--São <em>mammaes</em>...</p> + +<p>--São <em>amphibios</em>...</p> + +<p>--Só vos esqueceram tres especies, carissimos commensaes, e eximios +falladores: a dos <em>insectos</em>, a dos <em>peixes</em>, e a das +<em>aves</em>...</p> + +<p>--Para saber fallar é preciso saber ouvir... E quem és tu, ó mais +<em>peixote</em> de todos os Peixotos do mundo?!...</p> + +<p>--Sou, com vossas licenças, talvez um cavallo, que é o unico animal que +não sabe lisongear os principes do... talento... <em>Bias</em>, um dos sete +sabios da Grecia, dizia que dos animaes ferozes, o mais temivel, é um +tyranno; e dos domesticos, o peior, um lisongeiro...</p> + +<p>--Que babel, senhora da Boa Hora, que babel!... Os <em>meninos</em> são +engraçadinhos, mas eu não os entendo... Escutem todos, e <em>caluda</em>... +Chegou hontem <em>cousa</em> de <em>arregalar</em> o olho... Parece, pelo +menos, <em>varoneza</em>... Isso é que ella sabe fallar!... Aquella ha-de +entendel-os, de certo... E que palminho de <span class="pagenum">[161]</span> cara!... Parece mesmo a +<em>Madanela</em> da procissão de passos..</p> + +<p>--Bravo!...</p> + +<p>--Bravissimo!...</p> + +<p>--Excellente!...</p> + +<p>--Soberbo!...</p> + +<p>--Magnifico!...</p> + +<p>--Surprehendente!...</p> + +<p>--Bom achado!...</p> + +<p>--Optima descoberta!...</p> + +<p>--Venha essa phenis!...</p> + +<p>--Appareça a bella!...</p> + +<p>--Surja a estrella polar!...</p> + +<p>--Dê entrada a feiticeira encantadora!...</p> + +<p>--Queremos ouvir a cantadeira!...</p> + +<p>--Venha a nós, a filha d'Eva!...</p> + +<p>--Aqui estou, senhores, para matar-lhes a curiosidade, e matar em mim o +nôjo da vida... Deixe-me com os seus <em>eruditos</em> hospedes, +snr.<sup>a</sup> Anastacia, que eu farei por sustentar a fama dos seus +elogios... Correspondo ao que de mim lhes disse a nossa <em>ingenua</em> +patrôa, senhores curiosos!...</p> + +<p>--É arrebatadora!...</p> + +<p>--Explendida!...</p> + +<p>--Sublime!...</p> + +<p>--Não busquem outros synonimos, amaveis <em>sabios</em>, que já consumiram +palavras de mais em meu favor... Digam-me só, a que <em>especie de +animaes</em> fico pertencendo agora?...</p> + +<p>--Á dos Anjos!...</p> + +<p>--Classifica, então, os anjos de animaes, senhor... não sei como deva +chamar-lhe?...</p> + +<p>--Peixoto, o mais furioso dos seus admiradores... <span class="pagenum">[162]</span> E como se +chama... <em>V. Exc.<sup>a</sup></em>? Hade, ia apostar, ter algum nome de +flôr, e patronimicos dos que entraram na peninsula com o exercito romano... +Eu conheço a origem de todos os nobres appellidos: uns, procedem dos nomes +das terras em que viveram os primeiros fidalgos, e n'ellas tiveram os seus +solares; outros, de feitos assignalados na guerra; outros, finalmente, dos +nomes de toda a casta de animaes, peixes, aves, e até de instrumentos... Como +são os seus, minha formosa?</p> + +<p>--Quanto ao meu nome, acertou, que é de flôr, e das mais +<em>espinhosas</em>... Appellidos... Diga-me, meu caro snr. +<em>encyclopedista</em>, os Bandeiras, e os Mesquitas, serão dignos da +minha... <em>formosura</em>?...</p> + +<p>--Lê-se, em Severim de Faria, Not. de Port., Disc. III, que o illustre +portuguez Gonçalo Pires Bandeira, vendo, na <em>batalha do Touro</em>, que um +cavalleiro castelhano levava preza a bandeira real de Portugal, investiu com +elle, e lh'a tomou das mãos, e a libertou; e por este feito insigne, El-Rei +D. João II, lhe deu por armas uma bandeira branca, com um leão n'ella, de +prata; denotando, na bandeira, a real que libertára; e no leão, o valor e +esforço que mostrára: e assim lhe deu tambem o appellido de Bandeira, com que +hoje seus descendentes se nomeiam. Diz mais, o mesmo auctor, na mesma obra e +disc. que quando El-Rei D. Affonso V passou á Africa, a tomar Arzilla, o +acompanharam cinco irmãos da familia dos Pimenteis, naturaes de Villa Real; e +como sendo entrada a cidade, os mouros se fizeram fortes na mesquita, d'onde +faziam grande resistencia, sem poderem ser entrados; estes irmãos, tirando os +cintos, e atados uns nos outros, os lançaram a uma ameia, e subindo por +elles, <span class="pagenum">[163]</span> levantaram uma bandeira, e por alli foi entrada a mesquita, e +mortos os mouros. Por este feito tão honrado, lhes deu El-Rei D. Affonso V, +por armas, em campo d'ouro, cinco cintos vermelhos, com fivelas de prata e +tachões, e uma bordadura azul com sete flôres de liz; por timbre um meio +mouro com uma azagaya na mão, e uma bandeira de prata; e por appellido o nome +de Mesquita. São, pois, nomes bellicosos, que ficam perfeitamente bem a... +uma leôa...</p> + +<p>--Acho-os <em>encarnados</em> de mais... A côr do <em>sangue</em>, apesar +das <em>garras</em> com que <em>V. Exc.<sup>a</sup></em> me honra, affecta-me +a sensibilidade nervosa... Ficarei só com o nome do baptismo... Antes da sua +<em>historica</em> dissertação, creio que estavamos na altura dos... +<em>animaes anjos</em>?...</p> + +<p>--Distingo: existem anjos <em>animaes racionaes</em>, desde que a cubiça, +ou o amor, levou a nossa primeira mãe ao estado de completa nudez, pelo +peccado commettido no Eden, onde vivia com o seu Adão; desde que um moço, das +maiores esperanças, se precipitou no mais caudaloso rio da sua patria, +levando as algibeiras carregadas de chumbo, porque a mulher a quem amava, +querendo dar-lhe uma chicara de chá, teimou em laval-a primeiro, por se ter +servido já d'ella para o mesmo effeito; e desde que eu, que recebi das Musas +a chave de todos os seus segredos, de Minerva o cofre de todas as sciencias, +e de Marte a <em>vazilha</em> da intrepidez, me declaro em ruinas d'um +pavoroso affecto pela pessoa de... <em>V. Exc.<sup>a</sup></em>!...</p> + +<p>--O snr. faz-me recordar uma anecdota, que vou contar-lhe: O papa Adriano +edificou um collegio em Lovaine, no qual mandou pôr a seguinte +inscripção:--Utrecht me alevantou, Lovaine me deu agua, Cesar <span class="pagenum">[164]</span> me deu +esplendor;--um curioso accrescentou-lhe por baixo: Só Deus não fez aqui +nada... Deixo a <em>moralidade</em>, á perspicacia do snr... Peixoto... +Pareceu-me ter-lhe ouvido que assim se appellidava?</p> + +<p>--Para em tudo lhe dar prazer, snr.<sup>a</sup>... das anecdotas... Sem +embargo do seu espirituoso apologo, minha bella, continuo a deixar sangrar a +veia, dando-lhe parte, que os primeiros espelhos foram de metal; que Moysés +faz d'elles menção; e que Cicero attribue o invento a Esculapio, deus da +medicina. Foi no tempo de Pompeu, que se fabricaram em Roma os primeiros +espelhos de prata. Plinio falla d'uma pedra brilhante, provavelmente o talco, +susceptivel de dividir-se em laminas que, postas sobre um plano metallico, +reflectem perfeitamente os objectos. Os primeiros espelhos de vidro +appareceram na Europa no fim das cruzadas: Veneza, que primeiro soube +fabrical-os, viu enriquecer os seus negociantes, e exportou estas +manufacturas preciosas, para todos os estados do mundo, onde hoje tanto +abundam... Só não tenho agora aqui, á mão, um d'esses primores da invenção +humana!... Queria mostrar-lhe o quanto lhe fez realçar a peregrina formosura, +a satyra com que tentou emmudecer-me, oh imperatriz das bellas!...</p> + +<p>--<em>Copia</em> admiravelmente de <em>memoria</em>, snr. Peixoto... Sinto +dizer-lhe que, para <em>v. exc.<sup>a</sup></em>, só poderá servir de +<em>espelho</em> o lago em que <em>Narcizo</em> se namorava da sua esbelta +figura...</p> + +<p>--Ou o rio em que se reflectia o sabujo, que trocou a preza certa, que +levava nos dentes, pela sombra que vira na corrente... Póde fallar-me com +desassombro, que eu tudo sei affrontar pelo amor da mulher, <span class="pagenum">[165]</span> que +reune, á seducção material, a faisca do genio, com que me apraz +emparelhar...</p> + +<p>--É <em>nimiamente modesto</em>, o snr. Peixoto... Contou-me a origem dos +espelhos, contar-lhe-hei a origem dos <em>orgãos</em>... São uns instrumentos +de <em>vento</em>, compostos de <em>folles</em>, <em>teclado</em>, e grande +numero de <em>canudos</em>... Querem os <em>chins</em>, que a invenção de tal +instrumento seja devida ao seu imperador <em>Hoang-Ti</em>, que existio, +antes de Jesus Christo, 2:601 annos... Se estivessemos no seculo +12.º, atrevia-me a chamar a <em>v. exc.<sup>a</sup></em> um +<em>magnifico órgão</em>...</p> + +<p>--E porque não, n'este seculo das luzes, e de todos os +<em>instrumentos</em> possiveis?...</p> + +<p>--Porque desde o seculo 13.º usam-se orgãos nas egrejas, e os +logares sagrados não pódem agradar aos... <em>materialistas</em>...</p> + +<p>--Não me assenta bem o nome, minha arisca formosura, porque o materialista +não admitte no universo ente algum espiritual; e eu estou a reconhecel-o em +Guimarães, aqui, n'este logar em que discorremos, na pessoa de minha... +adversaria...</p> + +<p>--Tambem é <em>diccionarista</em>?... A definição que acaba de fazer +parece-me <em>textualmente</em> lida n'um dos modernos diccionarios...</p> + +<p>--Serei tudo que quizer chamar-me, menos <em>plagiario</em>. São +exclusivamente minhas as ideias que expendo. Em mim realisa-se o phenomeno da +sciencia innata. Não roubo alheios pensamentos, antes deixo que me roubem +descaradamente as minhas famosas theorias sobre...</p> + +<p>--Sobre <em>principios elementares de mathematica</em>, talvez, em que és +fortissimo... Ora, acaba com a sécca, <span class="pagenum">[166]</span> que nós tambem sômos gente, e +sabemos que, duas vezes cinco, sommam dez...</p> + +<p>--Deixem-me, apenas, concluir por fazer um convite a esta feiticeira... +Quer assistir a um baile de costumes, que hoje se dá na casa do +<em>Arco</em>?</p> + +<p>--Como ha-de lograr introduzir-me lá?...</p> + +<p>--Acompanhando-a, e dando-lhe uma das senhas, que servem para esse fim; e +como só se tiram as <em>caraças</em> na occasião da ceia, querendo conservar +o incognito, retira-se antes d'ella... Serve-lhe?</p> + +<p>--Talvez aceite...</p> + +<p>--N'aquella, tão tolerante quanto illustre casa, consegues tu realisar +todos os teus intentos... Se fosse em <em>Villa Pouca</em>...</p> + +<p>--O Arco é mais popular...</p> + +<p>--Será; mas Villa Pouca é mais escrupulosa... O que devéras nos espanta, é +que tu não peças, <em>á tua Convidada</em>, qualquer remuneração pelo favor +que intentas fazer-lhe...</p> + +<p>--Eu não costumo sustentar <em>assedio</em> por muito tempo; costumo, sim, +tomar as praças <em>d'assalto</em>...</p> + +<p>E, como para provar a sua fanfarrice quiz o fallador espadachim abraçar a +joven mulher, que lhe auguara a fôfa verbosidade; mas teve de moderar os +malcriados impetos, ao simples e carregado aspecto da que assim queria +ultrajar.</p> + +<p>O seu tentamen, foi presenceado por um novo personagem, que, n'aquelle +momento, déra alli entrada, e que se lhe dirigiu n'estes termos:</p> + +<p>--Se quizer, <em>senhor atrevido</em>, eu substituo esta senhora, para a +realisação da sua vontade; e prometto-lhe que, o <em>abraço</em> entre nós, +ha-de ser dos mais apertados... Desculpem os restantes cavalheiros, que +<span class="pagenum">[167]</span> não tomaram parte no desejo do insulto, a minha linguagem com o que +d'elle se queria fazer auctor...</p> + +<p>A mulher assim inesperadamente defendida, exclamou, no auge da +surpreza:--O snr. João?!....</p> + +<p>--De Lencastre, accrescentarei, para que estes senhores fiquem sabendo que +sou <em>filho d'alguem</em>...</p> + +<p>A donzella Rosa, porque era ella, como o leitor terá adivinhado, após uma +lucta instantanea, de que ella triumphou para o seu intento, disse, +sacudidamente, a João Vidal, ou de Lencastre:</p> + +<p>--Prohibo-lhe, snr., que toque n'aquelle cavalheiro!... É... o meu +amante...</p> + +<p>--Seu amante!!... Foi, esta ultima exclamação, sahida simultanea e +admirativamente da bocca de todos os circumstantes; pronunciando-a, com +indiscriptivel amargura, aquelle que fôra a causa de ella ter apenas brincado +nos labios da donzella.</p> + +<p>Depois de um silencio d'alguns instantes, pediu João de Lencastre, aos que +alli estavam reunidos, com tão persuasiva eloquencia e vehementedor que o +deixassem a sós com a donzella, que foi immediatamente por todos +attendido.</p> + +<p>O que disseram, e como se encontraram n'uma casa de libertinagem estes +dous heroes do nosso «Conto», a seu tempo será explicado. <span class="pagenum">[168]</span><br><span class="pagenum">[169]</span></p> + +<h3>VI<br> +UM BAILE EM COSTUMES</h3> + +<div class="quote"> +<p>«David dançou diante da arca da alliança, e nos primeiros tempos da Egreja +havia uma dança, que era a demonstração exterior da dependencia das +creaturas, e uma expressão primitiva de reconhecimento.»</p> + +<p>«O sabio e sisudo Socrates era summamente apaixonado pelas danças, que lhe +ensinára Aspasia.»</p> + +<p>«O grave e carrancudo Catão, aos 60 annos, tomou mestre de dança, para +poder apparecer convenientemente nos bailes.»</p> + +<p class="direita">(<span class="smallcaps">O Panorama de 1837</span>) </p> +</div> + +<p>Abrira a nobilissima casa do <em>Arco</em> os seus salões ao publico: +dizemos--<em>ao publico</em>--, porque, o cavalheiro titular seu dono, era +prodigo nos seus convites, como em todas as suas nobres acções. Dentro do seu +palacete, nenhum dos seus convidados gosava de superioridade: todos eram +iguaes, pelo tracto que recebiam; e se alguem, estranho á terra e ás pessoas +alli reunidas, houvesse de notar algum acanhamento, isto é, menos liberdade +em todas as suas acções, apontaria o distincto fidalgo que recebia. Tal foi +sempre <span class="pagenum">[170]</span> o especial condão de toda aquella sympathica familia, para +pôrem á vontade os seus convidados.<sup class="footnote"><a href="#fn12" name="lfn12">12</a></sup></p> + +<p>São tres os salões de baile, todos ao correr, havendo de cada lado do +ultimo d'elles, e ao mesmo nivel, um lindo terraço ajardinado: para o do +meio, dá entrada um soberbo salão de espera, com duas varandas, sobre o arco, +que olham para a rua, assim como os terraços. Ao salão de entrada, e em +sentido opposto aos do baile, seguem-se outros, parecendo todos, olhando-se +do ultimo d'elles para os do baile, um--T.--De sorte que, a pessoa collocada +no salão do meio defronte da porta da entrada, vê todos os salões e os +terraços. A entrada do palacete é por uma larga e bem construida escadaria de +pedra.</p> + +<p>N'este baile, onde se vão dar algumas scenas do nosso «Conto», foram +permittidas as <em>caraças</em>, tendo-se distribuido bilhetes, para os que +assim quizessem conservar o incognito, por algum tempo, e animar a reunião +com freneticas danças, e brinquedos innocentes.</p> + +<p>Desde a escada até ao ultimo salão, como nos terraços que, pela profusão +de luzes, se não sentia a falta do dia. <span class="pagenum">[171]</span></p> + +<p>O mais exigente dos convidados, deparava, no seu logar, com os objectos +que lá devessem apparecer.</p> + +<p>Antes de affluirem os encaretados, já se viam, no principal salão, as +nobres senhoras intimas da casa; o respeitavel senhor d'ella; Sebastião da +Mesquita; Arthur Soares; Leopoldo, e seu irmão João de Lencastre. Estes +nossos personagens foram alli hospedes, como parentes.</p> + +<p>Completo o ajuntamento, era bello de vêr-se.</p> + +<p>Aqui, um grupo de senhoras vestidas de camponezas dos arrabaldes de +Guimarães, com as saias de muita roda, os capotilhos de fina baêta encarnada +com as pontas crusadas no peito, e atadas nas costas, os seus grossos +cordões, e immensas arrecadas de ouro,--offereciam confeitos, e raminhos de +violetas.</p> + +<p>Alli, os descuidados e jovens lavradores, com as suas fardetas azues de +botões amarellos, camizas de linho bordado, e o inseparavel varapau, que lhes +servia de encosto para contemplarem as suas namoradas, tendo cada um o braço +esquerdo estendido sobre o pau, e a perna direita crusada sobre a +esquerda.</p> + +<p>Além, a irrequieta vivandeira, acompanhada de seu militar; o sevéro +magistrado assestando a luneta; o antigo fidalgo portuguez de rabicho +empoado, e de casaca e calções de setim bordado; matrônas respeitaveis, e +jovens senhoras vestidas á época, no melhor gôsto, ostentando a antiga e bem +merecida fama das formosas vimaranenses, e mostrando, pelas joias de subido +preço, que as adornavam, o esplendor e nobreza de suas familias.</p> + +<p>Rompeu o baile por uma scena campestre das que no Minho, a mais poetica +provincia de Portugal, se notam com frequencia, e se apreciam sempre.</p> + +<p><span class="pagenum">[172]</span>Dos grupos camponezes foi composta uma <em>tocata</em>, de rebecas, +clarinetes e banzas; havendo um cantador, e uma cantadeira que, depois +d'outros improvisos do seu <em>desafio</em>, concluiram assim: </p> + +<div class="poesia"> +<p>«Foi o velho rei David,<br> +o primeiro dançador;<br> +vamos nós tambem dançar,<br> +cada um com o seu amor.</p> + +<p>«Fazes mal, linda Maria,<br> +convidar em lar alheio;<br> +do temôr e d'altivez<br> +a virtude jaz no meio.</p> + +<p>«Não te pedi o conselho,<br> +e vem tarde a correcção;<br> +quem á festa convidou,<br> +agradece a minha acção.</p> + +<p>«O fidalgo que dá festa,<br> +incapaz é de ralhar;<br> +mas o sabel-o não deve,<br> +ser motivo p'ra abusar.</p> + +<p>«Digam todos que me ouvem,<br> +se eu me quiz entremetter;<br> +seja a resposta o signal,<br> +para a gente s'entreter...» </p> +</div> + +<p>E começou o baile, vivo, animado, delirante.</p> + +<p>Nos pequenos intervallos do bulicio dançante, e em quanto eram servidos os +convidados, tinham logar <span class="pagenum">[173]</span> as <em>intrigas</em> ou, sem cheiro de +gallicismo, as mystificações.</p> + +<p>A <em>vivandeira</em>, sempre pelo braço do <em>soldado</em>, fôra a que +mais valente se tornara em phrases de mystificar. Dirigindo-se a todos os +grupos, simultaneamente, e procurando dar á voz esse tom desconhecido que, +nos bailes d'esta ordem, faz parecer igual o metal de todas as vozes, +conseguiu, em pouco tempo, chamar sobre si todas as attenções. Além da +agudeza e propriedade dos seus dizeres, concorreram tambem, para um tal +resultado, a notavel elegancia da vivandeira, e o porte pretencioso e audaz +do militar seu companheiro.</p> + +<p>A Leopoldo, fallou a vivandeira assim:</p> + +<p>--Porque não está aqui tua mulher?...</p> + +<p>--Porque está n'outra parte... Tu querias conhecêl-a?</p> + +<p>--Conheço-a, e conheço-te... Ella é uma creatura angelica, e tu és um +marido ao qual assenta bem o adagio portuguez, que diz: «Horta sem agua, casa +sem telhado, <em>marido sem cuidado, de graça é caro</em>...»</p> + +<p>E finalisando com uma risadinha aquella allusão, foi dizer a Arthur +Soares:</p> + +<p>--Conheço a origem da sua habitual tristeza, cavalheiro... Pensa... <em>na +dôr de Maria</em>...</p> + +<p>--E não lhe parece motivo de grave meditação o soffrimento da +Virgem?...</p> + +<p>--Ha dôres muito semelhantes, que não merecem ao cavalheiro o menor +cuidado...</p> + +<p>--Porque talvez as desconheça...</p> + +<p>--Não: é porque se não póde dividir <em>o </em><em>sentimento +forte</em>...</p> + +<p>--E, quando seja assim, o culpado sou eu?...</p> + +<p><span class="pagenum">[174]</span>--Não é culpado, mas é <em>causa de culpas</em>... Quando as +conhecer, saiba comprehendel-as e desculpal-as... Adeus!</p> + +<p>Prepassou rapidamente por junto de João de Lencastre, e disse-lhe:</p> + +<p>--A palavra do homem de bem é sagrada: conto com o seu silencio...</p> + +<p>Em seguida foi collocar-se, sempre pelo braço do soldado, em frente de uma +distincta senhora, á qual dirigiu a palavra n'estes termos:</p> + +<p>--Por este meu companheiro, fui rogada, para dizer a v. exc.<sup>a</sup> uma +impertinencia: desejava <em>pagar-lhe o beneficio</em> de me trazer a este +baile... Dá licença que eu falle, minha senhora?...</p> + +<p>--Dizia minha avó, que <em>triste da casa, onde a gallinha canta, e o +gallo calla</em>... Mas como é para ser <em>pago</em> um favor, venha de lá a +tua impertinencia...</p> + +<p>--Digo, fielmente, as palavras que me ensinaram: «<em>Queimou-se a fôrca, +cahiu o tyranno</em>».</p> + +<p>--Pena foi que elle cahisse, e ella se queimasse, antes de ter lá subido o +atrevido que te ensinou...</p> + +<p>--Eu, minha senhora, não tomo a mais pequena parte...</p> + +<p>--Acredito, dei-te licença, e não te quero mal. Aconselho-te, porém, que +te desquites d'esse companheiro: os da sua laia, substituiram a +<em>fôrca</em> pelo <em>punhal</em>, que é mais leve, <em>traiçoeiro</em>, e +menos <em>apparatoso</em>...</p> + +<p>O <em>careta</em> vestido de magistrado, que ouvira o dialogo precedente, +disse ao <em>fidalgo antigo</em>, que estava ao seu lado:</p> + +<p>--Conheces aquella senhora, que respondeu á vivandeira com tanta +vivacidade?</p> + +<p><span class="pagenum">[175]</span>--Não é a viuva irmã do dono da casa?</p> + +<p>--É. Que juizo fórmas da sua alma?</p> + +<p>--Parece que não desgostaria de vêr continuar a <em>pernear</em> os +<em>malhados</em>...</p> + +<p>--Como te enganas!... É a alma mais completa e mais sublime, que sahiu das +mãos do Creador. As suas acções, são uma perfeita antithese das suas +palavras...</p> + +<p>A vivandeira, livre já do peso sob que parecia vergar com a commissão do +companheiro, procurava alguem com anciedade. Percorridos todos os salões, sem +encontrar quem desejava, foi a um dos terraços, onde Sebastião da Mesquita +passeava, parecendo alheio á festa. A <em>vivandeira</em>, mal que o vira, +despediu bruscamente o soldado, e dirigiu-se ao velho fidalgo:</p> + +<p>--A tristeza de que v. exc.<sup>a</sup> está possuido, procede do +conhecimento da <em>fuga inesperada</em> de uma donzella, companheira de +infancia de sua exc.<sup>ma</sup> filha, não é verdade?...</p> + +<p>--Não conheço quem me interroga, nem sei quaes sejam os direitos que julga +ter para me interrogar...</p> + +<p>--Queria... desejava dar cumprimento a uma vontade e pedido da pessoa a +que me refiro... Se V. Exc.<sup>a</sup> désse licença...</p> + +<p>--Tirando primeiro esse panno que lhe cobre a cara, póde fallar.</p> + +<p>--É que... para o que tenho a dizer e a fazer, posso conservar o meu +incognito... É só pedir, em nome <em>d'ella</em>, perdão a V. +Exc.<sup>a</sup> se algum desgosto lhe causou com o seu procedimento, e +beijar-lhe a respeitavel e bemfeitora mão...</p> + +<p>--João, Arthur, meus amigos, venham cá!... <span class="pagenum">[176]</span> É preciso obrigar esta +mulher a descobrir a cara...</p> + +<p>--Senhor!... Uma tal violencia, sem auctorisação do cavalheiro dono da +casa...</p> + +<p>--Quero-o eu!...</p> + +<p>A estas vozes, demasiado vivas, acudiu gente das salas, que repentinamente +conheceu a origem da altercação.</p> + +<p>A senhora, que déra licença á vivandeira para lhe dizer <em>uma +impertinência</em>, foi a que primeiro a protegeu:</p> + +<p>--Estranho que o primo Sebastião, um consummado fidalgo e cavalheiro, +tentasse fazer violencia a uma fraca mulher... Esta pequena, senhora ou +burgueza, fica, desde este momento, considerada como se fôra minha filha!... +Conserva o teu incognito, que ninguem agora se atreverá a descobril-o...</p> + +<p>--Se V. Exc.<sup>a</sup> quer, snr.<sup>a</sup> condessa, eu levo comigo +essa menina para o convento...</p> + +<p>--Obrigado, Eulalinha, pelo teu bom desejo. És uma criança tão formosa do +corpo como da alma: Deus ha de proteger-te.</p> + +<p>--Mas, minha boa irmã, V. Exc.<sup>a</sup> bem sabe que devemos ao primo e +snr. Sebastião da Mesquita, toda e qualquer satisfação que elle peça; não só +pela qualidade da pessoa que é, como por ser nosso parente, e meu hospede... +Talvez que essa creatura o offendesse, e...</p> + +<p>--Um homem, como nosso primo, nunca póde dar-se por offendido pelo que lhe +faça, ou diga, uma infeliz mulher... É a primeira vez, que ouço fazer +distincção ao meu excellente irmão das <em>qualidades</em> dos seus +convidados... V. Exc.<sup>a</sup> não se considerou, para assim fallar, o +dono d'esta casa...</p> + +<p><span class="pagenum">[177]</span>--De certo que não, nem podia, estando V. Exc.<sup>a</sup> aqui.</p> + +<p>--N'esse caso, eu já dei as minhas ordens.</p> + +<p>--V. Exc.<sup>a</sup> minha respeitavel thia e senhora, concede-me a honra +de ser, no resto da noite, o cavalheiro d'essa dama?</p> + +<p>--Agradeço-te a boa e fidalga intenção, meu presado sobrinho e snr. de +Pindella. Has de vir a ser competentissimo para todas as nobres acções, assim +o espero em Deus; mas és ainda muito novo para um protector.</p> + +<p>--E para mim, prima condessa, não serão estas cans fiança sufficiente para +receber a honra, que lhe pediu seu illustre sobrinho?</p> + +<p>--A V. Exc.<sup>a</sup>, meu presado primo e snr. de Villa Pouca, que reconheço habil +para tudo que seja nobremente arrojado e distincto, peço até a especial graça +de conduzir, quando ella quizer, esta minha protegida á sua habitação...</p> + +<p>--Nobres senhoras, e amaveis cavalheiros!... Penhorada em extremo pelos +favores e attenções, que me dispensam, não posso deixar, comtudo, de +pedir-lhes, que reformem completamente qualquer juizo menos favoravel, +concebido pelo procedimento do snr. Sebastião da Mesquita... Só quem o não +conheça, o poderá considerar capaz de uma acção menos nobre... Aquelle +respeitavel ancião, que nem talvez ouvisse do que VV. Exc.<sup>as</sup> o +accusaram, está soffrendo intimas dores, como paga da sua generosa bondade +para comigo... Adoptou-me, e tratou-me como sua filha, e eu fugi +repentinamente da sua vigilancia e carinho!... Procurei vir aqui, a este +baile, só para vêr aquelle venerando velho, e beijar-lhe a bemfeitora mão... +Queria <span class="pagenum">[178]</span> fazel-o sem me dar a conhecer, e foi a minha teimosia em +conservar o incognito, que o fez alvo de injustiças, que não merece!... De +joelhos, e com a cara descoberta, lhe pede perdão de tudo esta infeliz, snr. +Sebastião da Mesquita!...</p> + +<p>--Rosa!!... Como póde conservar os sentimentos que acaba de manifestar, a +mulher que... que eu não conheço!...</p> + +<p>E Sebastião da Mesquita, assim fallando, virou as costas á donzella, +retirando-se vagarosamente.</p> + +<p>O baile continuou ainda por muito tempo, um pouco frio após estas scenas, +e, para o fim, com a mesma animação do comêço.</p> + +<p>As dôres alheias, não tolhem as festas dos felizes. </p> + +<div class="rodape"> +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn12" name="fn12">12</a></sup> Quando a snr.<sup>a</sup> D. Maria II +visitou o Minho, o sr. duque de Saldanha, que fazia parte do séquito da +rainha, foi hospedar-se em casa do fallecido snr. do <em>Arco</em>. Constou +ao povo, que o palacete estava custosamente adornado, e agglomerou-se á +porta, para o vêr: os criados, não deixavam entrar; mas o illustre, e sempre +chorado, titular, deu-lhe entrada franca, não consentindo que se despojasse +dos seus <em>tamancos</em>, embora lhe inutilizasse riquissimos tapetes. </p> +</div> +<span class="pagenum">[179]</span> + +<h3>VII<br> +TORMENTOS INTIMOS</h3> + +<div class="quote"> +<p>«Correu-me a vida outr'ora delirante,<br> +Tive faceis amores, ledas glorias,<br> +Julguei-me um dia amado e outro amante,<br> + Sonhei promptas victorias,<br> +E vi, em limpo céu formoso e puro,<br> +Brilhante erguer-se o vulto do futuro.<br> + Tumulto, agitação, rumor, bulicio<br> + Compoz o meu viver.--Mas eis que um dia<br> + Paro e vejo o tremendo precipicio--<br> + A vida, que vivia,<br> + Era vida ficticia e descorada...<br> + Um pouco de sussurro--e ao cabo... o nada!»</p> + +<p class="direita">(<span class="smallcaps">Silva Leal Junior.</span>--<span +class="smallcaps">Primavera.</span>) </p> +</div> + +<p>Logo que João de Lencastre chegou á falla com Sebastião da Mesquita, +depois de lhe dar a rasão por que Arthur e Leopoldo o acompanhavam, e de lhe +dar conta da entrega do dinheiro e onde ficara D. Maria da Gloria, +occultando-lhe a parte que dizia respeito a Arthur Soares, porque este muito +lhe rogara que assim procedesse,--noticiou-lhe Sebastião da Mesquita, com +intimo pesar e viva inquietação, a fuga precipitada da donzella Rosa, +encarregando-o de descubrir a sua paragem, e de saber os motivos que a +determinaram a deixar a casa paterna, lançando sobre si indelevel estigma.</p> + +<p><span class="pagenum">[180]</span>Não ficou o antigo escudeiro menos perturbado com a noticia, do que +se mostrava o velho fidalgo ao dar-lh'a: preparava-se para ir procurar a +donzella por toda a parte, quando um dos constantes visitadores da casa do +Arco, muito fallador, e do numero de sujeitos que facilmente se relacionam +com toda a gente que os quer ouvir, lhe deu, como novidade importante, a da +chegada á terra de uma <em>rapariga de truz</em>, que parecia ser de +<em>facil accesso</em>, pela pousada que escolhera, descrêvendo-a com toda a +minuciosidade.</p> + +<p>Agradeceu João a Deus, a veia falladora d'aquelle homem, que lhe poupára +muitas fadigas; e não o enganou a sua esperança, porque era effectivamente +Rosa a inculcada mulher, que elle foi encontrar na casa, e na occasiâo, +descripta no capitulo--«Babel de Sabios.»</p> + +<p>Depois que João conseguira fazer retirar os <em>petisqueiros</em> +adoradores de Rosa, e ficara só com a donzella, empregára, para a obrigar a +fallar, persuasivos e sentimentaes discursos, orvalhados, por mais d'uma vez, +com lagrimas de mal escondida affeição. Foi tão eloquentemente irresistivel, +que a donzella confessou-lhe tudo: disse-lhe, que fugira do seu lar, e +abandonára a protecção e carinho dos nobres fidalgos seus paes adoptivos, +porque não podéra por mais tempo ter occulto no peito o seu affecto por +Arthur Soares, affecto que d'ella se apoderára por tal arte, que só pela +morte ou pela doudice podia terminar. Que sabia a existencia de um amor, +igualmente invencivel, entre Arthur Soares e D. Maria da Gloria, senhora que +ella amava como irmã; e que, para não prejudicar com algum irreflectido +procedimento seu estes amores, resolvera fugir, e dar-se como +<em>perdida</em>, embora <span class="pagenum">[181]</span> tambem estivesse resoluta na sustentação da +sua virtude, mesmo no meio dos mais arriscados perigos.</p> + +<p>João Vidal, ou de Lencastre, que a escutára com a maior attenção, depois +de um longo silencio, significativo de intimas dores, disse á donzella, que +não podendo deixar de ser já um facto conhecido do publico, a sua fuga e +paragem n'um local de descredito, inuteis se tornavam todas as reflexões +tendentes á demonstração do êrro de um tal passo; mas que elle via um meio +seguro, e menos arriscado, de tudo se fazer como a donzella queria. Que pelo +casamento d'ella Rosa, ficavam igualmente livres os amores de sua irmã +adoptiva, não se expondo a donzella á lucta terrivel que começara; lucta que, +mesmo victoriosa que d'ella sahisse, lhe havia de trazer necessariamente a +perca da sua boa reputação: que elle possuia um nome, e uma pequena fortuna, +e que, se podéssem esquecer os 40 annos da sua idade, no seu coração havia +logar para a entrada de um sentimento sério.</p> + +<p>Rosa, respondeu-lhe commovida, que não era digna de semelhante honra; que +apreciava devidamente o seu brioso e caritativo proceder, e que lhe devia por +elle o nome de irmã, com a santa amisade de um tal titulo.</p> + +<p>Foram baldados todos os esforços, que João empregára para demover a +donzella do seu proposito, e combinaram o guardar-se absoluto segredo ácerca +do que entre elles se déra.</p> + +<p>No dia seguinte ao do baile, alugou João de Lencastre uma casa, situada +defronte d'aquella a que a donzella regressara; e despediu-se de Sebastião da +Mesquita, dizendo-lhe que acompanhava Arthur Soares <span class="pagenum">[182]</span> ás +<em>linhas</em> do Porto, onde eram precisos braços leaes para a sustentação +da causa do povo; sendo-lhe facil o convencer Arthur de que partisse sem +elle, com promessa de lá ir ter, logo que podésse fazel-o; e recolheu-se +secretamente á morada que alugára, para de lá espiar as acções de Rosa.</p> + +<p>Arthur Soares, caminho do Porto, levava enluctado o coração. Sabia que era +amado por D. Maria da Gloria; já se havia acostumado áquelle affecto, o unico +da sua existencia; mas não podia desterrar de si o convencimento de que a +fidalga lhe não podia ser dada por esposa. Era certa, e bem manifesta, a +estima que lhe dava seu padrinho; mas essa estima, considerava elle mais como +uma protecção das que usam conceder os nobres senhores aos que d'ella +carecem, do que amisade verdadeira, que iguala e estreita os homens por laços +fraternaes: possuia muitas provas do desapparecimento de affeições iguaes á +que lhe concedia o fidalgo, logo que, pelo considerado e protegido, fosse +ferido o orgulho de raça do protector. Pedia, pois, a Deus, que a sorte da +guerra lhe désse occasião de elevar-se até poder chegar a D. Maria da Gloria, +ou de fazel-o descer ao esquecimento eterno, com a gloria dos bravos por +mortalha.</p> + +<p>Leopoldo, cuja presença, na illustre casa da hospedagem commum, fôra +tolerada por Sebastião da Mesquita em deferencia ás conveniencias sociaes, +regressava tambem ao exercito da rainha, o grosso do qual se achava então em +Coimbra, commandado pela primeira espada portugueza do nosso tempo.</p> + +<p>Podia chamar-se um cadaver ambulante, o fidalgo militar, tal era o sombrio +e estragado aspecto da sua pessoa. O soffrimento d'este desgraçado, que amava +<span class="pagenum">[183]</span> sem esperança, e que odiava por ciumes, era um severo castigo da +Providencia. Caminhava para onde o chamava o dever, movido mais por um resto +de brios, do que por empenho, e vontade, de servir a causa a que se devotára, +depois de ter renegado a popular: n'elle só havia bem fixo, o sentimento do +seu tormento intimo.</p> + +<p>Sebastião da Mesquita, chorava com lagrimas paternaes a má sorte a que se +entregára a donzella Rosa. Arrependera-se do seu arrebatamento no baile, +desejára poder remedial-o, receber nos braços a donzella, perdoar-lhe a +primeira leviandade, acolhel-a de novo, talvez ainda innocente e pura, e +estorvar assim a quéda infallivel, e horrenda, da que elle considerára sempre +como sua filha. Mas era já tarde; e o seu natural orgulho não lhe consentia +desmentir, com um procedimento contradictorio, o severo porte de que usara +publicamente.</p> + +<p>Este facto, a par da violenta dôr que lhe entorpecera as forças physicas, +fizera pensar Sebastião da Mesquita, com muita gravidade, no futuro de sua +filha Maria da Gloria.</p> + +<p>Por maior que seja a confiança que se deposite no caracter e virtudes de +uma filha, quando vemos no caminho da perdição outra mulher, que nos é cara, +lembra-nos logo a possibilidade de um desvio, e queremos remedial-o com +prevenções, algumas vezes, e não poucas, com bem peiores resultados do que +haveria no imaginado mal, que tentáramos evitar.</p> + +<p>O velho fidalgo, depois de ter conferenciado com varios cavalheiros do +berço da monarchia, onde se deteve pelo prostramento em que estava, escreveu +a D. Maria da Gloria uma carta d'este theor:</p> + +<p> </p> + +<p class="direita"><span class="pagenum">[184]</span>«<em>Minha muito presada Maria</em>:</p> + +<p>«O meu paternal carinho, leva-me a pensar que seja tempo de escolher-te um +esposo digno de ti, que possa, na minha falta, proteger-te socialmente contra +as ciladas sempre preparadas para as donzellas do teu merecimento, e do teu +dote. Aqui, n'esta antiga e gloriosa terra de Guimarães, presumo eu que +existe o que nos convém. Convido-te, pois, a que venhas quanto antes ter +comigo, para avaliares por ti a competencia da minha escolha.</p> + +<p>«Ainda hoje recebi carta da tua santa e respeitavel mãe, que é sempre o +bom anjo do nosso lar. De certo tambem sabes, que ella está de boa saude, por +que não haverá dia em que te não escreva, como á pessoa que ella mais ama.</p> + +<p>«Recebe a benção, e uma saudade, do teu extremoso pae,</p> + +<p class="direita"><em>Sebastião.</em>»</p> + +<p> </p> + +<p>D. Maria da Gloria, embebida nos fagueiros sonhos de um futuro risonho, a +que aspirava pelo seu amor a Arthur Soares, e entretida a desvanecer, com +expansivas provas da sua amisade e bom juiso, os dissabores da sua discipula +Anna, que todos eram a quasi certeza de não ser já amada por Leopoldo, nem +por sombras podia prever a fatalidade de que estava ameaçada, com aquella +ordem paterna.</p> + +<p>O padre Alvaro, continuava a sua vida de oração e penitencia. Pastor +exemplar, possuia o acrisolado amor das suas ovelhas, porque sabia praticar, +para com todos, a caridade que aprendêra de Christo. Ainda assim, soffria +constantemente, e muito. Havia uma <span class="pagenum">[185]</span> campa na sua parochial egreja, ao +pé da qual elle esquecia o filho idolatrado, as suas penitencias, o seu +evangelico proceder, para tão sómente se recordar de que fôra peccador.</p> + +<p>Feliz, quanto se póde ser n'este patrimonio de Eva, de todos os +personagens do nosso «Conto», só era a respeitavel e bondosa matrona, D. +Isabel de Abendanho, que tinha fechada a sua existencia em aldeia pacifica, e +resumidas as suas ambições na direcção do seu casal, no respeito e amisade ao +esposo, e no elevado amor a sua filha. <span class="pagenum">[186]</span><br><span class="pagenum">[187]</span> </p> + +<h3>VIII<br> +A MULHER CAHIDA</h3> + +<div class="quote"> +<p>«A justiça de Deus lhe infundira no coração abundancia de remorsos, e a +dos homens lhe entornava sobre a fronte amplo vaso farto de ignominia.»</p> + +<p class="direita">(<em>A. H.</em>--<span class="smallcaps">Fragmento de um +livro inedito</span>.) </p> +</div> + +<p>Por mais que os homens doutamente célebres de todos os seculos tenham +querido collocar essa formosa e apreciavel parte do genero humano--a +mulher--na altura que lhe é devida, nunca a fonte sublime do amor, a mãe e o +apoio da meninice, o esteio da vida, deixou de ser conduzida por nós a todos +os sacrificios: raro é o homem que se aproxima da mulher sem que a macule; e +feita escrava de seus caprichos, é a deshonra e o villipendio, que lhe dá em +premio!</p> + +<p>A mulher, na sua juventude, só ambiciona o nosso amor; alinda-se para +agradar-nos, e nós damos-lhe, em vez do que nos pede, a paixão material que a +enlameia: consome-se, para conservar-nos, em sua <span class="pagenum">[188]</span> idade adulta, porque +nos alimenta a seus peitos, arruinando a sua belleza; e nós córamos de um +pejo infame, se a maternidade não teve logar dentro de umas certas condições +sociaes, que nos imprimem a <em>legitimidade</em>: levanta as mãos ao céu na +velhice, porque a mulher é naturalmente religiosa, dedica os ultimos annos de +sua vida a orar por seus paes, por seus filhos, por todos os desvalidos; e +nós alcunhamol-a de impostôra e de bruxa!</p> + +<p>Existiram sempre <em>philosophos</em>, escassos de comprehensão, e mal +avindos com a mulher, que attribuem a esta preciosa parte da nossa existencia +o vicio do sensualismo, que nos provoca. Covarde mentira!</p> + +<p>A perversão da moral, e o desenfreamento das vis paixões, tem sido, em +todos os tempos, o resultado forçoso de infinitas circumstancias, em que a +mulher não toma parte.</p> + +<p>A corrupção da Grecia, como a romana sua filha, teve origem na philosophia +de Epicuro, nos mancebos que a seguiam, e não nas vilipendiadas matrônas +d'aquellas nações.</p> + +<p>Antes das torpezas de Messalina, já Cesar tinha manchado o seu thálamo +imperial.</p> + +<p>Seriam as mulheres culpadas nos crimes, que abrazaram as duas cidades +nefandas, de que nos falla o Génesis?!</p> + +<p>Corteja-se a formosura da mulher; empregam-se aleives para seduzir a +incauta; fazem-se promessas mentirosas; servem todas as villezas ao nosso +proposito: um, é o dilecto de seus carinhos, e consegue o seu amor; +aconselha-lhe a fuga da casa paterna; cerca-a de algumas commodidades +passageiras; sacia-se; desampara-a; precipita-a na profundeza da desventura; +<span class="pagenum">[189]</span> deixa-a na miseria, e no desabrigo de toda a consolação humana!</p> + +<p>A nudez e a fome, tomam então logar juncto ao umbral solitario da +infeliz!... Que lhe resta?!... Vender-se!... Pedir ao primeiro que passa, que +lhe estampe na fronte o ferrete do aviltamento pelo óbulo da infamia!...</p> + +<p>Depois, as dissoluções, a velhice prematura, a miseria e a doença!...</p> + +<p>Depois, a enxerga da caridade!...</p> + +<p>Depois, a valla commum do cemiterio!...</p> + +<p>Depois, nem uma só lagrima que lhe aqueça as cinzas; nem uma só flôr no +seu jazigo; ninguem que ore por ella a Deus!...</p> + +<p>E o <em>elegante seductor</em>?...</p> + +<p>Passou a fazer novas <em>conquistas</em>; gastou o melhor do seu vigor e +da sua fortuna, em atirar com muitas irmãs na desgraça ao lado da sua +primeira victima; pensou mais tarde em casar-se; escolheu +<em>convenientemente a esposa</em>, fez-lhe a <em>mercê</em> do seu nome e, +para vingar-se de uma <em>affronta</em>, que <em>não podia</em> ter o seu +perdão, assassinou a mulher +adultera!...............................................................</p> + +<p>Rosa, luctava com animo viril contra as tentações de todo o genero de que +se via rodeada no bordel a que voluntariamente se acolhêra. Eram-lhe, porém, +já muito pesadas essas luctas desiguaes. Mais ainda que os atrevimentos e +ciladas dos vadios frequentadores d'aquella casa, causavam asco á virtuosa +donzella as suggestões das infelizes do seu mesmo sexo, pervertidas até ao +extremo de tentarem chamar ao seu grémio as que não tinham mácula.</p> + +<p>Principiava a entrar na alma de Rosa o arrependimento <span class="pagenum">[190]</span> do passo +precipitado a que se abalançara. Conhecêra, ainda que tarde, a borda do +precipicio em que estava, receiava pelas suas forças, e tremia de não saber +como fugir-lhe.</p> + +<p>Uma noite, foi a donzella mais atacada pelo terror: pareceu-lhe, a +deshoras, ouvir estranhos rumores, fóra do seu pequeno e pessimo quarto. A +pouca segurança da porta, e da fragil fechadura, augmentava o receio da +donzella: apromptou luz, e vestiu-se.</p> + +<p>O rumor aproximou-se, a porta foi violentada, e Rosa agarrada fortemente +pelos pulsos:</p> + +<p>--Não esperava esta desfórra do seu <em>militar</em>, amavel +<em>vivandeira</em>?!...</p> + +<p>--Deixe-me... largue-me... acudam!...</p> + +<p>--Não espante as pulgas, menina... <em>Esta boa terra dorme toda ás nove +horas</em>, e já passa da meia noite... Só poderia esperar beneficio da minha +generosidade, e eu, confesso, não tenho o fraco de generoso...</p> + +<p>--Não realisará a malvadez que intenta, em quanto eu tiver um sôpro de +vida...</p> + +<p>--É o que vamos a vêr...</p> + +<p>E o malvado homem empregava todas as suas forças, em dobrar a mulher, que +não podéra seduzir.</p> + +<p>Rosa, debatia-se com toda a furia e, mais que outra qualquer, resistira +por muito tempo.</p> + +<p>Quando estava proxima a matar-se ou a ser preza do infame, quebrou-se +repentinamente um vidro da janella, e varanda, que dava para a rua, abriu-se +a porta d'ella, e penetrou no quarto um homem, possesso da furia do leão, que +descarregou sobre a cabeça do aggressor uma fortissima pancada, com o castão +<span class="pagenum">[191]</span> de um chicote de força, estendendo-o logo sem accordo de si.</p> + +<p>--O snr. João de Lencastre!!... Oh, leve-me d'aqui!... Salve- me!... A +mais forte das mulheres, cercada d'estas infamias, é impotente e fraca!... +Agora o conheço!... Mas... como appareceu tanto a proposito?!...</p> + +<p>--Habito aquella casa, alli defronte, e estava sempre de vigia, e +preparado com uma taboa forte e larga, para lançar da minha janella á varanda +d'esta casa, quando, como agora succedeu, lhe fosse necessaria a protecção +de... seu irmão, senhora...</p> + +<p>--Que nobre alma a sua, João!... Vamos... deixemos este inferno, e em sua +casa combinaremos o que deva fazer-se... <span class="pagenum">[192]</span><br><span class="pagenum">[193]</span></p> + +<h3>IX<br> +O PERIGO DAS CARTAS</h3> + +<div class="quote"> +<p>«......e bem se manifesta,<br> +Que são grandes as cousas, e excellentes,<br> +Que o mundo encobre aos homens imprudentes.</p> + +<p class="direita">(<em>Camões</em>--<span +class="smallcaps">Lusíadas</span>.) </p> +</div> + +<p>D. Anna e D. Maria da Gloria, passavam as horas em longos desafógos e +amigaveis confidencias, suavisando assim as saudades e as mágoas que +soffriam. Nas suas respectivas posições, não era aquella a epocha mais +infeliz da vida das duas amigas. Quando podêmos depositar em peito amigo o +que nos impressiona, quasi desapparece o pesar que sentimos, pelo allivio que +nos dá a certeza da partilha na dôr.</p> + +<p>Estava, porém, marcado pelo destino, que poucos deviam ser os momentos de +quietação, para as heroinas do nosso «Conto».</p> + +<p>A carta que Sebastião da Mesquita escrevera á filha, viera terminar o gôso +das confidencias, e tornal-o em prantos amargos. Para D. Maria da Gloria, o +ser forçada a casar-se com outro homem, que não <span class="pagenum">[194]</span> fosse Arthur Soares, +era peior do que a morte. Sabia-o D. Anna, que tomou uma deliberação +arrojada, para salvar a sua amiga, sem lh'a communicar. Mandou um expresso a +Arthur Soares, com uma carta d'este theor: </p> + +<p class="direita">«<em>Meu presado irmão adoptivo</em>:</p> + +<p>«Confiada no seu cavalheirismo, de que já possuo bastantes provas, ouso +pedir-lhe que venha a esta sua casa, logo após a recepção d'esta minha carta. +Leopoldo está ausente, como sabe, e <em>nós</em> esperamos o snr. Arthur +<em>com a maior anciedade</em>.</p> + +<p class="direita"><em>Anna</em>.»</p> + +<p> </p> + +<p>Isto feito, tratou de convencer a sua mestra, e amiga, de que devia +accusar ao pae a recepção da carta, e dizer-lhe que estava doente, e que +cumpriria as suas ordens, logo que o seu estado de saude lhe permittisse +fazel-o; porque assim ganhava tempo, que podia muito bem mudar a face dos +acontecimentos. D. Maria da Gloria, inhabil para o raciocinio, sujeitou-se a +tudo quanto lhe ensinuou a sua amiga.</p> + +<p>Por este tempo, marchava sobre as linhas do Porto, o general em chefe das +tropas da rainha, com o grosso do seu exercito.</p> + +<p>As tropas da junta provisoria do governo supremo do reino, haviam soffrido +desastres, sendo, o mais notavel, a <em>incomprehensivel desgraça</em> de +Torres Vedras;<sup class="footnote"><a href="#fn13" name="lfn13">13</a></sup> mas as activas e energicas +providencias dos homens <span class="pagenum">[195]</span> do governo, juntas á dedicação popular pela +sua causa, tudo remediavam como por encanto. Em vez de diminuir, augmentava o +numero de soldados, por cada batalha que se perdia!</p> + +<p>E apesar dos desastres, do grande dispendio com as reorganisações do +exercito, e de só pagarem tributos moderados os povos sujeitos ao poder da +junta, poude esta exemplar quanto energica governação decretar, entre outras +medidas de bom senso e muito alcance, e de algumas pensões avultadas, <em>que +as mulheres dos officiaes prisioneiros na batalha de Torres Vedras recebessem +uma prestação mensal de 12$000 reis, e as das praças de pret 60 reis diarios, +em quanto seus maridos estivessem em poder do inimigo</em>.<sup +class="footnote"><a href="#fn14" name="lfn14">14</a></sup></p> + +<p>O quartel general do real exercito estava em Oliveira de Azemeis: foi +escolhido um official para commandar uma força, que fosse em conhecimento +junto das linhas do Porto, e recahiu essa escolha em Leopoldo. Ao saber-se da +aproximação de forças inimigas, tocou a rebate dentro dos muros da cidade +invicta, e as linhas foram immediatamente guarnecidas em fórma.</p> + +<p>Arthur Soares, commandava uma companhia de voluntarios da guarnição, que +occupava, casualmente, o lado da estrada de Lisboa. Conhecida a pequenez da +força inimiga, os insoffridos populares saltaram as linhas, <span class="pagenum">[196]</span> e foram +atacal-a. Arthur quiz, mas não o conseguiu, conter os do seu commando. Havia +recebido ha poucos instantes a carta de D. Anna, e não podia, nem queria, +arriscar temerariamente a vida n'aquella occasião. Anciava que terminasse +aquelle passageiro incidente da guerra, para correr ao chamamento da sua +companheira de infancia. Batia-lhe apressado o coração, porque um +presentimento lhe segredava, que D. Maria da Gloria não era estranha no +conteúdo da carta; mas como não podéra refrear o impeto dos voluntarios, +forçoso lhe foi acompanhal-os.</p> + +<p>Empenhado o tiroteio entre as pequenas forças inimigas, cahiu ferido +Arthur Soares, que ficára por morto no campo. Um soldado, d'aquelles a que os +proprios camaradas dão o epitheto infamante de <em>pulhas</em>, despojou logo +o official inimigo de todos os objectos de algum valor, que elle tinha em si: +entre os demais despojos, ficou tambem possuidor da carta de D. Anna, que +teve a curiosidade de lêr; e como visse lá o nome de Leopoldo, e soubesse que +assim se chamava o seu commandante, com a mira em qualquer recompensa, quando +por ventura com elle se entendesse aquella carta, foi immediatamente +entregal-a a Leopoldo, dizendo-lhe que a encontrára perdida no logar da +refrega...</p> + +<p>Aquella bala de papel, fôra mais fatal ao marido de D. Anna, do que a de +chumbo ao amante de D. Maria da Gloria...</p> + +<p>Leopoldo retirou precipitadamente com a força do seu commando; e o corpo +de Arthur Soares foi recolhido pelos seus camaradas, que lamentavam com +desespêro a sorte do bondoso e bravo official. </p> + +<div class="rodape"> +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn13" name="fn13">13</a></sup> Em proclamação do primeiro general da +junta do Porto, datada de Coimbra de 29 de Dezembro de 1846, lê-se: +«Soldados!--Nem a desgraça da nossa valente segunda columna vencedora em +Torres Vedras, e depois anniquilada por uma <em>incomprehensivel +desgraça</em>; nem a conspiração dos elementos, que tornaram perigosa e +terrivel a nossa marcha, na qual centenares de individuos ficaram em poucas +horas descalços, e muitos em risco de morrerem, tem podido abater vossa +coragem!» <sup class="footnote"></sup></p> + +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn14" name="fn14">14</a></sup> Decreto da junta de 11 de Janeiro de +1847. </p> +</div> +<span class="pagenum">[197]</span> + +<h3>X<br> +O CRIME</h3> + +<div class="quote"> +<p>«O espirito não lhe dava coisa que vislumbrasse senso-commum. A carta era +o seu maximo supplicio.»</p> + +<p class="direita">(<em>Camillo Castello Branco</em>. <span +class="smallcaps">Mysterios de Fafe</span>.) </p> +</div> + +<p>D. Isabel de Abendanho recebera carta do marido, communicativa da sua +resolução de casar a filha com um cavalheiro vimaranense; e dizia-lhe que +fosse, acompanhada do padre Alvaro, á residencia de D. Anna, e de lá viessem +todos ter com elle a Guimarães.</p> + +<p>A chegada de sua mãe, e do padre Alvaro, foi para D. Maria da Gloria novo +motivo de abundantes lagrimas. A velha e nobre senhora preadivinhara a rasão +d'aquelle pranto, e desde logo protestou dar á filha o seu maternal apoio. O +padre Alvaro, senhor da causa que assim amofinava as tristes mulheres, +deu-lhes a consolação das suas evangelicas palavras, e prometteu empregar, +com Sebastião da Mesquita, os brandos meios da persuasão para o dissuadir da +<span class="pagenum">[198]</span> effectividade de um enlace repulsivo á noiva. Todos de accôrdo em +demorar quanto possivel a ida a Guimarães, confirmaram a Sebastião da +Mesquita a noticia do incommodo de D. Maria da Gloria, que afinal não era +mentirosa, porque a donzella estava doente, e de molestia que podia matal-a, +se não tivesse força para resistir á vontade paterna.</p> + +<p>Rosa, salva da vergonha e da deshonra por João de Lencastre, resolveu +aproveitar-se da protecção do seu salvador, e assentaram de viver, em +Portugal, ou no estrangeiro, debaixo de rigoroso incognito, mostrando a +donzella desejos de vêr as suas queridas companheiras antes da sua completa +desapparição, embora lhes não podésse fallar; e o antigo escudeiro, que não +tinha vontade alheia á da sua protegida, cogitava no modo de fazer-lhe a +vontade.</p> + +<p>Nenhum dos mais fortes inimigos do homem, empenhado em fulminal-o, e +dispondo de todas as convulsões do mundo, teria conseguido produzir em +Leopoldo uma sensação semelhante á que sentira com a leitura da carta, que o +soldado lhe entregara. Por momentos, julgou-se victima de um sonho, e o seu +olhar desvairado era terrivel de vêr-se. Depois, de subito, sahiu-lhe do +peito um como rugido feroz, e todas as suas acções foram impetuosas e +allucinadas. Mandou tocar á retirada, entregou o commando ao seu immediato, e +precedeu muitas horas, tal foi a sua vertiginosa carreira, a chegada da força +ao quartel general. Alli, fez, como lhe cumpria, o relatorio dos successos +militares, de tal sorte contradictorio e obscuro, que lhe não foi difficil +obter a licença, que febrilmente implorava, porque os superiores o +suspeitaram victima do começo d'uma alienação mental.</p> + +<p><span class="pagenum">[199]</span>Era alta noite, e dormiam todos os habitadores do seu palacio, +quando Leopoldo chegou alli, vindo do acampamento. Quem o tivesse visto +jornadear de noite, ora esporeando o ginete de modo a fazel-o saltar por +todos os obstaculos, que lhe estavam defronte, ora deixando o caminhar em +direcção incerta, e com as rédeas soltas, dizia que era um sêr phantastico +dos que algumas vezes nos agitam o somno. Gastára algumas horas a percorrer +os arredores da sua principesca habitação, para conseguir introduzir-se lá, +sem que fosse apercebido.</p> + +<p>Estava a romper a manhã, quando podéra obter entrada por uma janella +baixa, que ficara mal fechada, e caminhar, tateando, e com passos incertos, +até ao seu quarto de cama, onde se apossou do punhal que pendia da cabeceira +do seu leito, abrindo em seguida as janellas, e expondo ao ar a sua abrazada +cabeça.</p> + +<p>Ao voltar a vista para o interior do quarto, já um pouco alumiado pela +frouxa luz do crepusculo, pareceu-lhe que a sua cama não estava deserta, e +foi ajuntar-se-lhe ás violentas commoções que o infernavam mais um mixto de +curiosidade e de terror, como teria o bandido que deparasse inopinadamente, +na casa que julgara dezerta, com uma testimunha de seus crimes.</p> + +<p>No leito de Leopoldo dormia tranquillamente o somno da innocencia, a +suspeitada esposa. Tivera que sahir dos seus aposentos, occupados até então +por ella e por D. Maria da Gloria, á chegada alli de D. Isabel, para que esta +ficasse junto da filha.</p> + +<p>Reconhecida pelo marido a mulher da qual julgava possuir um incontestavel +documento de adulterio, <span class="pagenum">[200]</span> as feições do dementado assumiram as +repugnantes proporções da mais repelente das mumias; e monologou +terrivelmente:</p> + +<p>«Estás no teu sepulchro, maldita!... O mesmo leito que manchaste com a +infidelidade, será manchado pelo teu sangue villão!... Não mais acordarás +d'esse ultimo somno, em que os sonhos de megéra te hão de trazer ainda junto +dos labios o halito do canalha, que eu hei-de devorar após de ti!... +Far-te-hei abrir os olhos, apenas para vêres a tua carta, que o diabo me +levou ás mãos, e nem uma palavra te deixarei pronunciar, porque antes terá +este punhal atravessado o teu infame coração!....»</p> + +<p>E, fazendo o que disséra, sacudiu violentamente a infeliz D. Anna, +apresentou-lhe diante dos olhos, mal abertos, a carta homicida, e +enterrou-lhe em seguida o punhal no peito!...</p> + +<p>A desgraçada senhora, teve apenas tempo para dar um grito revelador da +suprema agonia, e cerrar os olhos.</p> + +<p>Ao ouvir aquelle brado de morte, fitou o vingador de imaginaria affronta +um olhar tresvairado em redor de si, e ficou, como se estivera pregado ao +chão, sem forças nem deliberação para fugir. Estava assim havia já muito +tempo, quando se abriu uma porta, e entraram por ella duas pessoas em traje +de romeiros que andam em peregrinação. Os recem-chegados, ao tomarem +conhecimento da tragedia que tinham á vista, ficaram por um pouco, como +assombrados de raio: um d'elles, o que primeiro conseguiu mover-se, foi cahir +com a cabeça sobre a da assassinada, lavando-lh'a com as lagrimas que vertia. +O outro, com um sangue frio ainda mais terrivel que o desespêro, <span class="pagenum">[201]</span> +aproximou-se de Leopoldo, encarou-o longo tempo, como olharia para o maior +dos monstros, e exclamou por fim:</p> + +<p>--Assassino!... Miseravel e cobarde assassino de mulheres!... Não posso eu +ser o vingador d'aquella infeliz, porque--desgraça! disseram-me que era teu +irmão!... Mas Deus a vingará, malvado!... O teu futuro hade ser de cruel +expiação, crê!... O maior castigo que te espera, é o prolongamento da vida +que tens a viver!...</p> + +<p>E deixando-o, sem lhe tocar, foi apalpar o seio da assassinada:--«Ainda +lhe pulsa o coração, e o padre Alvaro está aqui!...» E saiu rapidamente do +quarto, voltando, minutos depois, acompanhado do pae de Arthur.</p> + +<p>O ministro do altar, entrou no sagrado exercicio do seu alto e sublime +ministerio: serviam-lhe os dous romeiros de ajudantes, e Leopoldo estava +ainda, immovel, no mesmo logar, em que ficára de seguida ao crime.</p> + +<p>O padre Alvaro foi tocar de manso no hombro do assassino, e disse-lhe com +brandura:</p> + +<p>--Irmão! Ajoelhe, que está na presença de um Deus misericordioso e +vingador!</p> + +<p>Ao contacto d'aquella mão, e ao sussurro d'aquellas palavras, fez Leopoldo +um movimento de cabeça, assomou-lhe aos labios um riso idiota, e +tartamudeou:</p> + +<p>--Não acordem a minha segunda esposa... Com esta casei eu por amor... Não +me hade trahir que é nobre... O punhal está guardado... Ella disse-me que era +uma arma villã, e eu escondi-o no peito da Anna... Hade amar-me depois da +batalha... Sou general, e hei de vencer... Terei um duello com o meu <span class="pagenum">[202]</span> +rival... Depois, a felicidade... E meu filho, que me não conhece!... Meu +filho, que me chama assassino, que me cóspe injurias a todo o instante, que +me espanca sem piedade!!... Perdão!... Perdão!...</p> + +<p>--A loucura e os remorsos na propria hora do crime!... Aquella que ajudo a +bem morrer, é menos desgraçada do que o seu assassino!...</p> + +<p>Haverá quem não trema da vossa justiça, meu Deus?!... </p> + +<p class="centrado">FIM DA SEGUNDA PARTE</p> + +<p><span class="pagenum">[203]</span></p> + +<h2>TERCEIRA PARTE</h2> + +<h3>REMORSO</h3> + +<div class="quote"> +<p>«Para que venha sobre vós todo o sangue dos justos, que se tem derramado +sobre a terra...</p> + +<p class="direita">(<span class="smallcaps">S. Lucas, XI; vida de N. S. +Jesu-Christo</span>). </p> +</div> +<span class="pagenum">[205]</span><br><span class="pagenum">[207]</span> + +<h3>I<br> +GRATIDÃO</h3> + +<div class="quote"> +<p>Tira-me já do p'rigo, amigo honrado,<br> +Depois solta a prelenda.</p> + +<p class="direita">(<em>Filinto Elysio</em>--<span +class="smallcaps">Apologo</span>) </p> +</div> + +<p>É menos vulgar a existencia do homem grato do que a do homem sabio; mas a +compensação do rigor d'este axioma, está na raridade com que se faz um favor +desinteressado. Contam-se em pequenissima quantidade as pessoas reconhecidas; +mas é grande o numero das que sabem calcular o provento, mais ou menos +proximo, de suas generosidades.</p> + +<p>O genero de maior consumo no mercado da vida humana, é o egoismo, a que +chamaremos, por antonomasia, o <em>verme do coração</em>.</p> + +<p>Os factos, porém, de todos os tempos, levam-nos a exceptuar a mulher da +regra geral do egoismo do homem, por que é d'ella, na maior parte das suas +acções, a santa abnegação: a mulher perde-se pelo amor, <span class="pagenum">[206]</span> o homem +gloria-se com elle; a mulher serve á ambição do homem, e é por elle +escravisada; a mulher morre sempre por seus filhos, e o homem renega-os +muitas vezes....................................................</p> + +<p>................................................................</p> + +<p>Quasi á mesma hora em que tinham logar as tragicas scenas do final da +segunda parte d'este livro, e quando ellas ainda eram ignoradas pelos +restantes habitadores do palacio, recebia D. Maria da Gloria, recolhida nos +seus aposentos, uma carta que abrira, sobresaltada, com prévio consentimento +de sua mãe, e que dizia assim:</p> + +<p class="direita">«<em>Exc.<sup>ma</sup> e respeitavel senhora</em>:</p> + +<p>«O meu camarada Arthur Soares, retido no seu leito por virtude de um +ferimento grave, mas não mortal, que recebeu em um ataque dado pelo inimigo +ás linhas d'esta cidade, incumbe-me de escrever a V. Exc.<sup>a</sup> em seu +nome, para que termine o cuidado com que deve estar a Exc.<sup>ma</sup> +Snr.<sup>a</sup> D. Anna, pelo silencio d'elle, depois de um formal +chamamento. Só uma impossibilidade absoluta, como aquella que se deu logo em +seguida á recepção da carta que o chamava, é que estorvaria o meu camarada e +amigo, como elle affirma, de voar a cumprir as ordens de sua +exc.<sup>ma</sup> irmã adoptiva. Muito mais do que as consequencias do seu +ferimento, tem o meu camarada sentido o vêr-se até impossibilitado de +escrever; e eu, accedi aos seus rogos, para o tranquillisar, e abreviar a sua +cura; podendo V. Exc.<sup>a</sup> ficar certa--pela cruz da minha espada o +juro--que, finda esta carta, esquecerei completamente o seu conteudo. Não vae +dirigida á snr.<sup>a</sup> <span class="pagenum">[207]</span> D. Anna, porque tendo sido roubado, +quando cahira no campo, o meu camarada Arthur, fez parte do roubo a carta que +aquella respeitavel senhora lhe escrevera; e o ferido receia que ella fosse +parar ás mãos <em>d'alguem</em>, que, por má interpretação, tenha ficado com +suspeitas, as quaes augmentariam, por certo, sendo mais esta interceptada.</p> + +<p>«Não obstante estar o meu camarada livre de perigo, os homens da sciencia +recommendam toda a cautela, e marcam ainda alguns dias de recolhimento ao +ferido.</p> + +<p class="direita">«É de V. Exc.<sup>a</sup> m.<sup>o</sup> att.<sup>o</sup> +v.<sup>or</sup> e cr.<sup>o</sup></p> + +<p class="direita">«<em>O tenente da 2.<sup>a</sup> comp.<sup>a</sup> de voluntarios do +Minho</em>.»</p> + +<p> </p> + +<p>Desde o começo da leitura, que D. Maria da Gloria ficára excessivamente +pallida e trémula; mas a sua dôr, por demasiado violenta, não deu accesso ás +lagrimas. D. Isabel que sentira o estado da filha, perguntou-lhe o conteúdo +da carta, que ella teve a coragem de lêr segunda vez, de modo que fosse +ouvida por sua mãe.</p> + +<p>--Assustas-me, querida Maria, mais com essa dôr surda, do que se te vira +coberta de pranto... É então incuravel o affecto que nutres por Arthur?</p> + +<p>--Só a morte o póde curar, minha respeitavel e muito presada mãe e +senhora: se até agora o podesse duvidar, recebia n'este momento a mais +solemne das provas... É a primeira vez que lastimo a minha condição de nobre, +que me embarga o vehemente desejo de ir ser a enfermeira de Arthur... Dava +ametade da minha existencia, para ser hoje uma camponeza, livre dos +preconceitos e obrigações sociaes, que podesse seguir os impulsos do coração +sem constrangimento nem temôr... <span class="pagenum">[208]</span></p> + +<p>--E conheces bem, filha, as qualidades do homem por quem assim queres +sacrificar-te?!...</p> + +<p>--Conheço, e vai tambem avalial-as a minha querida e santa mãe: Arthur, +sabe que é amado por mim, adora-me, e nunca da sua bôcca sahiu uma palavra, +que meus paes não podessem ouvir. Podia estar ao meu lado, gosar a todo o +instante d'esses prazeres innocentes e celestes, que só dá o verdadeiro amor, +e fugiu-me, para não prejudicar a minha reputação, porque receia não poder +desposar-me. Todas as acções de Arthur, são de uma fidalguia exemplar, unica, +inimitavel. Encarregado por meu illustre pae de saber como a Annitas era +tractada pelo marido, obteve a convicção de que ella era desprezada por ser +plebêa e pobre: disse-o, por carta, a seu padrinho; esperou que o brioso +fidalgo acudisse logo á sua protegida, á que adoptara por sua filha, á que +obrigara a casar-se com o seu tyranno; demorou-se a protecção, e Arthur, que +apenas fôra companheiro de infancia da nossa Anna, sem nenhuma obrigação +legal ou moral, só porque ella não tivesse de soffrer mais alguns dias, +alcançou do thio, o venerando padre Alvaro, todo o importe do futuro +d'elle--trinta mil crusados--que veiu entregar a Leopoldo, dizendo que era o +dote de sua mulher, enviado por meu respeitavel pae!...</p> + +<p>--É grande, muito grande, o que me contas, Maria!... Por isso tu o amas, +filha, e creio agora comtigo na impossibilidade de venceres o teu amor... Meu +primo já sabe d'esse facto?</p> + +<p>--Não sabe, minha senhora, porque Arthur rogou muito que se lhe +occultasse.</p> + +<p>--Então, Maria, sou eu que te digo, que pódes ter esperança de casar com +Arthur. Teu pae é um fidalgo <span class="pagenum">[209]</span> excessivamente orgulhoso da sua raça, +bem sei; mas é tambem pela sua excedente alma, bom apreciador de todas as +acções que ennobrecem quem as pratica.</p> + +<p>--Não podêmos contar com este segredo, minha querida mãe, porque jurei a +Arthur que o não revelaria, e não sei faltar aos meus juramentos.</p> + +<p>--Mau é isso: no entanto, confiemos em Deus.</p> + +<p>--Agora, minha boa mãe, deixe-me dizer-lhe mais, que outro sentimento, não +menos forte do que o meu amor por Arthur, me obriga, e me domina: é a +gratidão pelo generoso procedimento da nossa Anna. Escrever uma carta a +chamar o homem que eu amo, por vér, talvez, na sua vinda aqui a minha +salvação, arriscando-se a ser suspeitada pelo marido, e a soffrer-lhe as +terriveis consequencias do seu ciume,--é a mais irrefragavel prova de uma +verdadeira dedicação... Estou inquieta com a perda da carta; bate-me o +coração com uma violencia desusada, e presinto grande desgraça... Vamos já ao +quarto da Anna...</p> + +<p>--Pois ajuda-me a terminar o meu vestuario... Vamos lá, filha, e socega, +que Deus tudo fará por melhor.</p> + +<p>Quando a mãe e a filha entraram no quarto mortuario, estava lá o cadaver +só com os romeiros ajoelhados, porque o padre Alvaro fôra procurar o medico +da localidade, ainda na vaga esperança de salvar a desditosa esposa.</p> + +<p>As duas senhoras, consideraram-se por muito tempo victimas de um pesadêlo +horrivel, ao depararem com aquelle funebre espectaculo. D. Maria da Gloria, +sem bem saber o que fazia, acercou-se do <span class="pagenum">[210]</span> leito, fitou-o com vistas +desvairadas, apalpou-o automaticamente, fechou n'uma das mãos um papel +manchado de sangue, curvou-se depois sobre o cadaver, pousou-lhe os labios na +fronte, nos olhos, na bôcca, tudo feito como em delirio, levantou lentamente +a cabeça, olhou para as mãos, abriu aquella que encontrara e fechara o papel, +acompanhou a quéda natural d'elle com a incerta curiosidade de um innocente +que deixa cahir o brinquedo, apanhou-o outra vez, examinou-o e, ao +conhecer-lhe manchas de sangue, um tremor violento se apoderou d'ella...</p> + +<p>D. Isabel, conservara-se immovel, como se fôra uma estatua, olhando, +simultaneamente, e como louca, para o cadaver, para os romeiros e para a +filha.</p> + +<p>Os romeiros levantaram-se, e foram collocar-se, um ao lado de D. Maria da +Gloria, e outro de D. Isabel; como para lhes servirem de amparo.</p> + +<p>O que ficara juncto de D. Maria, tentou brandamente arrancar-lhe da mão o +papel, ao que ella resistiu, com a reacção dos dementes contrariados, +procurando em seguida lêr o seu conteúdo. Quando, após uma demorada leitura e +indeciso exame, a fidalga donzella levantou a fronte, e fechou os punhos, o +seu aspecto aterrava. Aquella feminil belleza, transformada pela dôr, +afugentaria de si, n'aquelle momento, o seu mais apaixonado amante!</p> + +<p>Demorou-se ainda alguns minutos silenciosa, e terrivel de vêr-se; até que, +tomando uma deliberação repentina, curvou outra vez a cabeça, e disse ao +ouvido do cadaver, n'um tom de voz indiscriptivel:</p> + +<p>--«Assassinaram-te por minha causa, irmã!... O teu assassino, o monstro +que nos roubou e te seduziu, ama-me... entendes?!!... Oh!... como tu <span class="pagenum">[211]</span> +vaes ser vingada!... Ha-de o infame soffrer mil mortes em cada segundo, até +ao seu ultimo sôpro de vida... Juro-t'o pela honra do meu nome!...»</p> + +<p>Em seguida tirou o punhal do peito do cadaver, metteu-o no seio sem o +limpar, guardou a carta fatal, e, agarrando nas mãos de sua mãe, sairam ambas +repentinamente.</p> + +<p>Tiveram apenas tempo de transpôr os umbraes da porta d'aquelle recinto, +quando um grito unisono, dos dous romeiros, as teria feito retroceder, se o +estado em que fugiam lhes podésse deixar ouvil-o.</p> + +<p>Aquelle grito fôra occasionado por ter parecido aos romeiros, que o +cadaver abrira os olhos:--Ao tentarem verificar a sua illusão, estavam já +acompanhados do padre Alvaro e do medico. <span class="pagenum">[212]</span><br><span class="pagenum">[213]</span> </p> + +<h3>II<br> +MYSTERIO</h3> + +<div class="quote"> +<p>«Os conegos da sé de Evora, conduziram, sem pompa, á igreja de S. +Domingos, entoando as orações dos finados, o cadaver truncado do duque de +Bragança.»</p> + +<p class="direita">(<span class="smallcaps">Chronica do seculo xv.</span>) +</p> +</div> + +<p>Algumas horas depois que o padre Alvaro, os romeiros e o medico, tinham +ficado no quarto mortuario, junto do cadaver, era publica a morte da infeliz +D. Anna, que fôra attribuida a um ataque cerebral. Os creados e os visinhos +do palacio, lamentavam sinceramente o funebre succedimento, e a fatal +consequencia d'elle, que fôra a immediata loucura do <em>extremoso</em> +marido.</p> + +<p>Para que esta mentira fosse a versão publica da repentina morte de uma das +nossas heroinas, fôra preciso que o padre Alvaro empregasse com D. Maria da +Gloria e sua mãe, a sua auctorisada e respeitavel palavra, para as convencer +da necessidade de, por aquelle modo, estorvarem a acção da justiça, e a +deshonra <span class="pagenum">[214]</span> que o facto, commentado pelos ociosos, traria a todos; e +tambem o grave desgosto, que elle causaria ao velho fidalgo Sebastião da +Mesquita.</p> + +<p>Accordado em que assim se publicasse ficou o bom do padre incumbido de +tudo remediar, e assim o fez.</p> + +<p>O que se passou entre o medico, os romeiros e o padre, antes que este +viesse pactuar a util e generosa mentira, é, por emquanto, vedado aos +leitores.</p> + +<p>Houve desde logo todo o cuidado de não deixar penetrar pessoa alguma no +quarto da finada, e de fazer desapparecer todos os vestigios do crime. Aos +que notaram ser o cadaver conduzido immediatamente, em caixão fechado, á +capella do palacio, sem preceder a demora, e a exposição costumada, foi-lhes +revelado, que a defuncta deixára disposta antecipadamente a condição de não +ser visto do publico o seu cadaver, e de se evitarem, no enterro, todas as +pompas.</p> + +<p>Até ao momento do caixão descer ao jazigo de familia, foi constantemente +guardado por um dos romeiros.</p> + +<p>Concluida a funebre ceremonia, voltou o padre Alvaro para junto das +consternadas senhoras. O tranquillo aspecto do ministro de Deus, as suas +palavras persuasivas, e a força de seus concludentes raciocinios, deram ás +fidalgas mulheres a coragem necessaria, para continuarem com firmeza a +encobrir o crime.</p> + +<p>D. Maria da Gloria, deixou transparecer a ideia da sua medonha vingança, +que o padre rebateu com evangelicas razões: foi um combate de palavras, entre +dous adversarios valentes e convictos, que só teve em resultado firmar-se +mais cada um d'elles no seu proposito. <span class="pagenum">[215]</span> A donzella tinha n'alma a +gratidão, e o padre a caridosa doutrina de Christo: D. Maria queria vingar de +um monstruoso crime, a companheira e amiga, que por sua causa fôra victima; o +bom Alvaro queria o perdão do criminoso, e pedia-o, a exemplo do que o +Christo implorára para os seus matadores.</p> + +<p>No mais caloroso do debate, entrou Leopoldo vagarosamente no local d'elle. +D. Isabel teve medo d'aquelle homem, e conchegou-se á filha; o padre Alvaro +ficou impassivel, e D. Maria da Gloria teve força para concentrar a sua +cólera.</p> + +<p>Leopoldo, com todos os modos de completo idiotismo, disse a D. Maria:</p> + +<p>--Vá reconhecer o inimigo, snr. ajudante... Tenho um plano que nos dará +infallivelmente a victoria... É um segredo que só direi a meu filho, por que +vae commandar a emboscada... É verdade... peça a meu filho que me não bata... +pede?... Eu sou tão amigo d'elle... Coitadinho!... está doido!... diz que lhe +matei a mãe, e fustiga-me sem piedade!... Peça-lhe muito, sim?... Vá... vá, +que eu espero a resposta no quartel general...</p> + +<p>E sahiu com o mesmo vagar com que entrára, deixando as mulheres +estupefactas, porque ainda ignoravam o facto da loucura de Leopoldo.</p> + +<p>--Este homem está effectivamente louco?!...</p> + +<p>--Está, sim, snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria...</p> + +<p>--Eu julguei, que o snr. padre Alvaro teria combinado com elle o fingir-se +demente por algumas horas, para melhor encobrir o seu crime...</p> + +<p>--Não, minha senhora, era essa uma calúmnia desnecessaria, e pouco digna. +O infeliz perdeu a razão, logo em seguida ao crime. Antes da sua vingança, +<span class="pagenum">[216]</span> senhora D. Maria, appareceu o castigo da Providencia...</p> + +<p>--É preciso curar-lhe a loucura, e hade curar-se... Empregarei, para +conseguil-o, todos os carinhos que dispensaria ao homem idolatrado... Quero +vingar a minha querida Anna...</p> + +<p>--Desconheço-a, snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria!... Pois, que vingança +quer V. Exc.<sup>a</sup> tirar, no estado d'aquelle infeliz?!...</p> + +<p>--O snr. padre Alvaro não sabe o que é o coração da mulher <em>de +raça</em> quando ama ou quando odeia... O castigo que eu reservo áquelle +malvado, se poder conseguir fazel-o recuperar a razão, a mim propria causaria +terror, não me dominando a ideia de vingança...</p> + +<p>--E não receia, com o seu procedimento, descobrir o crime a seu +exc.<sup>mo</sup> pae?...</p> + +<p>--Socegue, que a dissimulação é a mais forte defeza das mulheres.</p> + +<p>--Mas, minha filha, o snr. padre Alvaro diz bem... Tu não deves querer o +que Deus não quer...</p> + +<p>--Perdão, minha santa mãe.....Se não deseja vêr sua filha morta pela dôr, +e pela saudade, deixe-a dar largas á sua gratidão...</p> + +<p>Tres dias depois de ter logar o enterro, chegava áquelle formoso e triste +domicilio, o velho fidalgo Sebastião da Mesquita, já sabedor pela voz +publica, que se antecipára á parte dada pela familia, da morte de D. Anna e +da loucura de Leopoldo. <span class="pagenum">[217]</span> </p> + +<h3>III<br> +BRIOS DE RAÇA</h3> + +<div class="quote"> +<p>«Se de imitar meu nome te gloreias,<br> + As façanhas me imita,<br> +Ou na Patria Nação, ou nas alheias,<br> + O meu valor te incita:<br> +Ségue os meus passos, segue a meu exemplo,<br> +Se morar quéres, n'este honrado templo.»</p> + +<p class="direita">(<span class="smallcaps">Filinto Elysio.</span>) </p> +</div> + +<p>Decorreu um mez, após a chegada do velho fidalgo ao palacio de +Leopoldo.</p> + +<p>Sebastião da Mesquita, já bastante alquebrado, e mal convalescido, cahira +de novo na cama, muito magoado com a morte de D. Anna, e com a loucura do +marido. Tornou-se grave o seu padecimento, que dava sérios cuidados ao seu +assistente. Mais do que á sciencia, aos desvelos de sua esposa D. Isabel +d'Abendanho, que passava dias e noites á cabeceira do enfermo, deveu o velho +fidalgo as leves melhoras que sentia.</p> + +<p>D. Maria da Gloria, toda entregue ao seu pensamento dominante, procurava +fazer recuperar o juiso a Leopoldo. Consultara todos os medicos que visitaram +<span class="pagenum">[218]</span> seu pae, e ouvira d'elles opiniões de que os muitos cuidados e +carinhos empregados com o louco e, mais tarde, algumas impressões violentas, +poderiam, talvez, trazer-lhe a razão.</p> + +<p>Quem presenciasse o cuidado permanente, que a fidalga donzella empregava +com Leopoldo, diria que, a não ser uma sua extremosa amante, era uma filha +dedicada ao triste dementado. E conseguira já muito: Leopoldo tinha alguns +lucidos intervallos, em que parecia conhecer a sua gentil enfermeira, e em +que vertia copiosas lagrimas. Succedia mesmo, nos curtos instantes em que a +donzella se afastava, ser chamada pelo nome de filha, em altos gritos, e até +procurada pelo infeliz, com a pertinacia da loucura.</p> + +<p>Sebastião da Mesquita teve uma longa e religiosa conferencia com o padre +Alvaro, despida de apparatos que, aos timidos, encurtam as horas de vida; +conversação que augmentara as melhoras do velho fidalgo, e o predispozéra +para este dialogo:</p> + +<p>--Agora, meu bom amigo, que as suas evangelicas palavras conseguiram +fazer-me esperar mercê da Providencia para os meus êrros, consinta-me que lhe +falle do nosso Arthur...</p> + +<p>--V. exc.<sup>a</sup> assusta-me com esse modo solemne!.. Sabe alguma +coisa má do seu afilhado?...</p> + +<p>--Sou eu que peço agora resignação e coragem, áquelle que ha pouco me +fallava com desprendimento das cousas terrenas... Bem sabe que tenho soffrido +muito: posso, pelas minhas, avaliar as dôres alheias; mas tambem sei que o +padre Alvaro é um martyr a quem Deus concedeu forças superiores ao commum dos +homens...</p> + +<p>--Acabe, senhor, se não quer vêr-me morrer de <span class="pagenum">[219]</span> impaciencia!... Que +desgraça pésa sobre meu filho?!...</p> + +<p>--Póde ser mentira... Os periodicos muitas vezes desmentem no dia +seguinte, o que asseveraram na vespora... Comtudo, eu li, em Guimarães, uma +gazeta, que noticiava ter sido... gravemente ferido o meu afilhado n'um +recontro com as tropas da rainha...</p> + +<p>Um grito de suprema angústia, foi a unica resposta que ouviu o fidalgo, +vendo em seguida fugir-lhe o padre, com a rapidez e o vigor da mocidade!</p> + +<p>Deus por certo se amerciou com a mágua de aquelle pae, porque logo deparou +com D. Maria da Gloria, que o susteve, e lhe disse que Arthur Soares estava +livre de perigo, mostrando-lhe as cartas que tinha em seu poder, e pondo-o ao +facto de quanto succedera.</p> + +<p>--Obrigado, minha querida filha! O céu lhe compensará o bem que fez a este +peccador... Não se póde vencer a natureza, e eu sou pae... De certo eram +ficticias as forças que me deu o desespero, e eu não chegaria ao Porto com +vida... não veria ainda uma vez o filho do... Perdôe-me v. exc.<sup>a</sup> +esta revelação do meu criminoso passado...</p> + +<p>--Já sabia o que me diz... adivinhou-o o meu coração...</p> + +<p>--É magnanimo o seu coração, minha senhora, e receio que d'essa extrema +bondade lhe resultem sérios dissabôres... Arthur não é nobre, +snr.<sup>a</sup> D. Maria, nem sequer é um filho legal!... V. +exc.<sup>a</sup> fez mal em dar entrada ao sentimento que nutre por +elle...</p> + +<p>--Seu filho possue a mais verdadeira e sólida das nobrezas--a da alma--e +eu amo-o!...</p> + +<p><span class="pagenum">[220]</span>--E seu pae, minha senhora?!... Não sabe V. Exc.<sup>a</sup> quanto +elle é orgulhoso da sua raça?!...</p> + +<p>--Diligenciarei convencel-o e, se não o conseguir...</p> + +<p>--Por Deus, senhora D. Maria, não pense em desobedecer a seu illustre +pae!... Desgraçados d'aquelles que na sua mocidade se deixam arrastar pelas +paixões! Eu sei o que tenho soffrido, senhora!... Não queira augmentar os +remorsos d'este pobre velho, com o mal causado por meu filho!... De joelhos +lhe peço que me jure, que nunca procederá de encontro á vontade paterna...</p> + +<p>--Quer, então, a minha morte?...</p> + +<p>--Quero a sua salvação, senhora D. Maria da Gloria! Quero o cumprimento de +um dever sagrado, que póde até tornar respeitavel o seu amor por meu filho. +Se V. Exc.<sup>a</sup> soffresse a maldição paterna, não haveria posição que +lhe désse tranquillidade: infelicitava-se, e fazia seu cumplice aquelle que +ama... Já não quero que attenda a este velho, que a implora, e que dentro em +pouco será pasto dos vermes...</p> + +<p>--Basta, snr. padre Alvaro!... Juro-lhe que serei sempre filha obediente e +respeitosa, ainda que isso me custe a vida!...</p> + +<p>--Obrigado, querido anjo!... Hade viver e ser muito feliz, porque Deus é +justo... Deixe-me pedir-lhe perdão de ter estranhado a sua dureza, para com o +desgraçado marido de D. Anna... Eu ignorava a causa do seu criminoso proceder +e os motivos de gratidão que levavam V. Exc.<sup>a</sup> á vingança... Ainda assim, +peço-lhe que o deixe entregue ao castigo providencial que o pune...</p> + +<p>--A esse respeito, é inabalavel o meu proposito, <span class="pagenum">[221]</span> e serei tanto +mais cruel, quanto mais contrariado fôr o meu affecto por Arthur... Vae de +certo ao Porto, snr. padre Alvaro, e eu atrevo-me a pedir-lhe noticias do +doente... Concede-me este pedido?</p> + +<p>--Cumprirei essa obrigação, minha senhora.</p> + +<p>Poucas horas depois de ter logar o encontro que acabamos de escrever, foi +D. Maria da Gloria chamada por seu pae, que lhe dirigiu a palavra n'estes +termos:</p> + +<p>--É tempo, querida Maria, de te explicar alguns dos meus actos, e de te +dar a minha opinião sobre o teu futuro. Deus sabe se me tornarei a levantar +d'este leito, e desejo que o meu passamento seja o mais tranquillo +possivel...</p> + +<p>--O meu bom pae, e senhor, está livre de perigo, e ha de viver ainda +muitos annos, para a nossa felicidade:</p> + +<p>--É para que sejas feliz, que eu vou remecher no meu passado, e despertar +factos que me remordem na consciencia. Quero que a minha vida sirva de +exemplo á tua, seguindo-a no bem, e fugindo ao mal que os seus erros me +trouxeram... Escuta-me: tive na minha mocidade sérias ligações, que acabaram +com a morte de filhinhos que estremeci; e, já depois de casado, vi uma +encantadora menina, cheia de virtudes, vivendo na companhia de seus paes de +quem era o unico enlevo. As demandas da nossa casa, fizeram-me travar +relações com o pae, o melhor jurisconsulto que então existia em Penafiel. +Abusei da confiança que me deram, para me insinuar no animo da gentil e +innocente criança, que em breve sentiu por mim um d'esses affectos, que são a +felicidade ou a completa desgraça dos que os nutrem, segundo o bem ou o mal +<span class="pagenum">[222]</span> empregado d'elles. Amei-a... amei-a levianamente!... Quando os meus +brios me fizeram conhecer a infamia do meu procedimento, quiz fugir-lhe, mas +já não era tempo!... Um dia, a vigilancia paterna, arrebatou a infeliz Laura +ao meu amor, e fez encerral-a num recolhimento... Mais tarde, entrava eu +furtivamente, e a deshoras, na casa sagrada, para receber nos meus braços +duas gêmeas recem-nascidas... E sabes quem eram aquellas criancinhas, que a +minha criminosa leviandade fez vir a este mundo?... Eram as tuas discipulas +Rosa e Anna...</p> + +<p>--Minhas irmãs!!...</p> + +<p>--Sim, tuas irmãs... uma das quaes está morta, e a outra... perdida!...</p> + +<p>--Que diz, meu pae, perdida?!! A Rosa está perdida?!... Perdida, +como?!...</p> + +<p>--Ha muito que eu andava suspeitando da profunda melancolia de Rosa, e dos +seus modos inteiramente oppostos á indole viril e folgasã que sempre lhe +conheci. Antes da minha partida para Guimarães, procurei-a em casa dos +suppostos paes, quando estes choravam a sua inopinada e inexplicavel +ausencia... Esquecia-me dizer-te, que aquellas infelizes crianças encontraram +carinhosas mães, em duas das minhas caseiras, cujos maridos tiveram a bondade +de consentir na alimentação de seus verdadeiros filhos a peitos estranhos, +para que as minhas filhas podessem ser amamentadas por suas esposas, e tidas +como filhas d'elles por toda a povoação... Foi assim que sempre as pude ter +perto de mim, ignorando, ellas e o mundo, que eram gêmeas, e que eu era seu +pae...</p> + +<p>--E é á simples <em>ausencia</em> de Rosa, que o meu bom pae e senhor +chama <em>perdição</em>?!...</p> + +<p><span class="pagenum">[223]</span>--Encontrei-a em Guimarães, entregue a um homem desconhecido, +talvez o seu amante, fazendo gala da sua liberdade... Soffri muito!... Os +brios da minha raça, fizeram com que mais uma vez esmagasse o coração; mas +tive forças para a desprezar publicamente... Já vês, que está perdida, e bem +perdida!...</p> + +<p>E uma torrente de lagrimas, serviram de epilogo á narração do velho +fidalgo.</p> + +<p>D. Maria da Gloria, estava cadaverica, mas não vertia uma só lagrima. +Tinham sido tão violentos, e seguidos, os choques que soffrêra, havia +n'aquella fidalga indole tamanha reacção contra a má sorte, que a donzella, +imitando os que a adversidade torna heroes, reprimia todas as dôres, e +concentrava todas as suas forças para a lucta.</p> + +<p>--Minha irmã não podia entregar-se voluntariamente a qualquer homem, +pisando aos pés a sua dignidade... V. Exc.<sup>a</sup>, meu respeitavel pae, +deixou-se illudir por falsas apparencias, e o tempo hade esclarecer o +mysterio, provando-lhe que uma filha de Sebastião da Mesquita, não +sobrevivería uma hora á sua deshonra...</p> + +<p>--Como tu és boa, minha querida Maria!...</p> + +<p>--Sou apenas justa, meu bom pae. Espero, com plena confiança, vêr um dia +resurgir minha irmã Rosa, tão digna como eu da sua benção, e do seu +affecto... Agora, se V. Exc.<sup>a</sup> o consente, dir-lhe-hei, que lamento +o não se poder legitimar o nascimento de minhas irmãs, pelo enlace de V. +Exc.<sup>a</sup> com a senhora que foi mãe d'ellas...</p> + +<p>--Estamos chegados ao ponto principal d'esta solemne conferencia, minha +querida filha... Peço-te que <span class="pagenum">[224]</span> continues a escutar-me com a maior +attenção, porque é de todo o melindre o que vou dizer-te... Para nós, os +homens que na bruma de tempos immemoriaes temos escondida a nossa gloriosa +origem, a nobreza não é o echo de pomposos nomes, nem o apparato de vaidosos +titulos, nem a fama de notaveis feitos: é uma questão de <em>raça</em>. O rei +póde fazer nobres; mas os fidalgos só os faz a <em>casta</em>... Não ha +memoria de existir na minha familia uma alliança inconveniente... Gira em +nossas veias um sangue tão puro, como possuira o primeiro fidalgo d'esta +raça: é uma herança, que só póde deixar de transmittir-se pela morte da +ultima vergontea da nossa arvore gigante...</p> + +<p>--Meu Deus! que pesada herança!...</p> + +<p>--Dizes bem, Maria, muito pesada... Senti-lhe todo o rigor, quando tive de +sacrificar-lhe o coração... Poupa-me a narrativa de alguns detalhes, que me +fariam córar de pejo... Basta saberes, que não obstante a existencia de +ligações graves, que tive de quebrar, conduzi aos altares minha prima e tua +santa mãe... Cumpri o legado da minha casta á custa de permanentes remorsos, +aggravados depois com a existencia de tuas irmãs!... Vou hoje exigir de ti, +minha presada filha, e unica representante do meu nome, não um sacrificio +igual ao meu, porque de certo tens livre o coração, mas sim a tua palavra de +receberes por esposo o distincto fidalgo que te escolhi...</p> + +<p>--É impossivel, meu pae e senhor!... Eu tenho já o coração cheio de +affecto por um homem dignissimo, e a nenhum outro posso entregar-me...</p> + +<p>--Custa-me isso, filha, porque dei a minha palavra, embora reservasse o +ter de ouvir-te primeiramente... Comtudo, o cavalheiro por mim escolhido, +hade <span class="pagenum">[225]</span> acceitar-me as rasoaveis desculpas, e tudo poderá combinar-se, +sendo o teu preferido, como é de crer, um fidalgo de verdadeira raça...</p> + +<p>Felizmente para a enleiada donzella, ao soarem as ultimas palavras do +velho fidalgo, entrou sua mãe no quarto, acompanhada por João de Lencastre, e +foi a bondosa <em>fidalga das chaves</em> que respondeu ao marido:</p> + +<p>--Não sei a que raça pertence o homem que nossa filha ama, meu presado +primo e senhor, mas conheço-lhe as acções, e posso affiançar-lhe sob a minha +palavra de <em>verdadeira fidalga</em>, que ninguem as tem mais illustres... +Peço ao meu esposo, que desculpe a esta curiosa velha o ter escutado a sua +conversação com a nossa filha... Sabia da sua bocca o que se havia de entre +ambos passar, é certo; mas tinha maternaes razões, para não deixar só no +campo esta sensivel criança...</p> + +<p>--Então, pelo que escuto, era uma conspiração!... Entrou tambem n'ella o +senhor meu primo João de Lencastre?... Ora deixem estar, que lhes hei-de +fazer pagar caro o segredinho... Vamos lá a saber o nome do feiticeiro, que +assim me roubou a melhor parte do coração de minha filha, e que teve artes +para chamar a minha sancta prima ao seu partido... Venha, venha esse nome +magico...</p> + +<p>--Chama-se, simplesmente, Arthur Soares...</p> + +<p>--O meu afilhado?!!... Deus não quiz que V. Exc.<sup>a</sup>, +snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria, calcasse aos pés as venerandas cinzas de +seus avós, e matasse seu pae já proximo do tumulo... O snr. Arthur Soares, +não póde ser... <em>seu marido</em>, porque... morreu!...</p> + +<p>--Engana-se, meu pae, e senhor!... Arthur vive, <span class="pagenum">[226]</span> e sempre viverá na +minha alma!... Foi gravemente ferido, mas está livre de perigo... Ha-de viver +longos annos... Ha de ser muito feliz, porque o merece, porque tem uma alma, +que vale por todas as nobrezas da terra... Ha-de chorar todas as +infelicidades que talvez esperem a minha raça, conservando-se constantemente +á altura dos seus nobilissimos sentimentos... Affirmo-lhe, senhor, que nunca +partiu d'elle a minima palavra ou o mais insignificante gesto, que v. +exc.<sup>a</sup> não podesse presencear... Amei-o, e hei-de amal-o +eternamente... Mas sou fidalga!... Sou a herdeira de um nome que deve passar +<em>immaculado</em> á posteridade, continuando em mim uma infinda série de +aristocraticas allianças!... Seja!!... V. exc.<sup>a</sup> que diz de um +Lencastre para meu esposo?...</p> + +<p>--São de boa casta os Lencastres, minha filha; mas...</p> + +<p>--Muito bem, meu pae e senhor!... Com quanto eu receba a cruz da minha +herança, a escolha agora é minha... Findo o lucto pela morte de minha irmã +Anna, serei esposa do snr. Leopoldo de Lencastre!...</p> + +<p>Ficaram de tal sorte aturdidos os restantes personagens, com este +inesperado desenlace, que nem uma palavra se ouviu mais, retirando-se a +donzella cheia de magestade. <span class="pagenum">[227]</span> </p> + +<h3>IV<br> +VISÃO</h3> + +<div class="quote"> +<p>«Um presentimento de terror, d'aquelles que batem no coração de repente, +sem saber por quê nem d'onde vêem...</p> + +<p>«Tem sempre fé em Deus, que hade querer o que fôr melhor para nós.</p> + +<p>«E é trovoada isto, que se escurece tudo?... Não, são as sombras da +Eternidade que vêem sobre mim.»</p> + +<p class="direita">(<span class="smallcaps">Visconde de Almeida +Garrett</span>--<span class="smallcaps">Fragmento de um romance +inedito</span>.) </p> +</div> + +<p>Conseguido o quietismo dos animos pela retirada de D. Maria da Gloria, +veiu a cada um a consciencia do que lhe ouvira affirmar, com uma invencivel +força de pasmosa vontade.</p> + +<p>Sebastião da Mesquita, embora tivesse triumphado no seu principal +proposito, não ficára tranquillo, porque lhe era antipathico o genro; mas o +seu orgulho de raça podia mais n'elle do que todos os bons sentimentos que +possuia: conheceu que sua filha era mulher de não retrogradar, e resolveu +conformar-se, guardando silencio.</p> + +<p>D. Isabel de Abendanho, comprehendendo mal o <span class="pagenum">[228]</span> que se passára, +esperava os acontecimentos com a confiança das almas puras.</p> + +<p>João de Lencastre, ficára engolfado nos seus pensamentos, e só usou da +palavra, passado bastante tempo, para responder a algumas perguntas que lhe +fez Sebastião da Mesquita, e despedir-se dos velhos fidalgos, dizendo-lhes +que ia seguir a sorte da guerra.</p> + +<p>D. Maria da Gloria, mais do que nunca, ficára toda entregue ao tractamento +do demente.</p> + +<p>Ao dar meia noite do quarto dia, posterior áquelle em que a fidalga +donzella tão inesperadamente desenlaçára o temivel nó, que seu pae lhe +lançára ao collo, gemia Sebastião da Mesquita no seu leito as dôres de sua +teimosa enfermidade, e as que procediam de um pesadelo medonho. Via as suas +filhas bastardas, uma levantar-se do tumulo, e outra surgir do meio de uma +turba de mulheres hediondas pela miseria e pela devassidão, pedirem-lhe +contas dos carinhos maternaes, a que elle as arrebatara; de um nome que +podessem usar sem pejo, que elle não podia dar-lhes; e de um futuro igual ao +que esperava a sua filha legitima, que já não podia ser o d'ellas... O mais +terrivel da visão, era o espectro da mulher de Leopoldo... D. Anna apparecia +a seu pae, em todo o vigor da sua mocidade, criminando-o pela forçada ligação +a que elle a levára, e que fôra causa da morte prematura que tivéra... O +velho fidalgo, implorava o perdão de sua filha, e a victima exigia-lhe, em +troca, nada menos que o completo aniquilamento da sua raça... Queria que seu +pae désse por escripto o seu consentimento para D. Maria da Gloria poder +casar-se com Arthur Soares... Apresentava-lhe penna, tinta e papel, e +dizia-lhe, pela voz da eternidade: <span class="pagenum">[229]</span></p> + +<p>«Em nome de Laura, a virgem que deshonrastes, e á qual nem foi dado +depositar um beijo maternal nas faces de suas filhas!... Em nome das +cruciantes dôres e das lagrimas de sangue, que levastes ao seio de uma +familia honesta!... Em nome do desespero da filha, que o teu despreso atirou +ao lôdo social!... Em nome, finalmente, d'esta outra filha, que fizestes +morrer na flôr da vida; e para que todos te perdoem, e Deus se amerceie da +tua alma,--escreve: «<em>Dou voluntariamente o meu consentimento para minha +filha D. Maria da Gloria poder casar-se com o meu afilhado Arthur Soares. Ás +portas da eternidade, prestes a comparecer perante o pae commum, reconheço +que só é verdadeiramente nobre, aquelle que segue no mundo os preceitos de +Jesus Christo==«Não faças a outrem o que não queres para ti, perdôa as +injurias, e ama o teu proximo como a ti mesmo.»==Sebastião da +Mesquita.</em>»</p> + +<p>E o torturado velho, banhado em frios suores, sem ter já forças para +affastar de si a vingadora visão, que o aterrava, sem poder distinguir se +tudo aquillo era sonho ou realidade, pareceu-lhe que cedia ás ordens da +filha, e que estava escrevendo o que ella lhe +dictava................................</p> + +<p>Succedeu-se á visão um quebrantamento, que teve o velho fidalgo prostrado, +por algumas horas, como se estivera morto.</p> + +<p>Ao abrir os olhos, viu Sebastião da Mesquita junto da cabeceira a +sollicita e carinhosa esposa. Diligenciou recordar-se, e communicou o +acontecido a D. Isabel, em voz fraca, e cada vez mais duvidoso, se um sonho +fôra, ou se tudo se passára na realidade. A bondosa senhora, aproveitou +aquellas disposições do marido, <span class="pagenum">[230]</span> para advogar a causa da filha. Pintou +Arthur Soares com as mais bellas côres; revelou o que elle praticára em +beneficio de D. Anna, porque entendeu que o juramento de guardar segredo, +dado por D. Maria, a não obrigava a ella; descreveu com enthusiasmo o casto +amor da donzella, e o que ella soffreria tendo de o sacrificar ao dever de +esposa de um homem aborrecido; foi, finalmente, sublime de eloquencia +maternal.</p> + +<p>No fim das suas expansões, olhou D. Isabel para o marido, a vêr se lhe lia +nos olhos o assentimento, que os labios não tinham proferido. Não conseguiu o +seu intento, porque os olhos de Sebastião da Mesquita estavam completamente +fechados... O remorso fôra um poderoso auxiliar da enfermidade...</p> + +<p>Áquella hora, já o velho fidalgo sabia se lá nas alturas Deus permitte a +distincção de <em>humanas raças</em>... <span class="pagenum">[231]</span> </p> + +<h3>V<br> +TRES SOLDADOS POR AMOR</h3> + +<div class="quote"> +<p>«Tomai pensar mais solido e sizudo:<br> +O caminho segui que a honra indica;<br> +Trabalhai pela Patria, a Patria é tudo.»</p> + +<p class="direita">(<span class="smallcaps">Poesias de Antonio Joaquim de +Mesquita e Mello</span>). </p> +</div> + +<p>Entremos na residencia do reitor de Santo Adrião de Penafiel.</p> + +<p>Estamos na sala do oratorio, onde já vimos orar D. Isabel e o velho +parocho, por occasião dos <em>raptos</em>, e do incendio, da primeira parte +d'esta obra.</p> + +<p>Ajoelhado aos pés de Christo, está um vulto de mulher, nova e bella ainda +apesar do seu definhamento.</p> + +<p>Assentados em um movel de junco de dous logares unidos, com as costas +oppostas uma a outra, ficando por isso as pessoas a olharem-se de frente, +estão a um canto Rosa e João Vidal ou de Lencastre.</p> + +<p>A um lado, escrevendo, está o bondoso reitor. <span class="pagenum">[232]</span></p> + +<p>Trajam todos rigoroso lucto.</p> + +<p>Ouviremos o que dizem João e Rosa:</p> + +<p>--Quando seccarão as lagrimas nos seus olhos, snr.<sup>a</sup> D. +Rosa?...</p> + +<p>--Não ha muito que chóro, meu amigo, e ainda bem que posso chorar... Sou +muito mais forte do que me julgam, e do que eu mesma pensava ser... Tenho +atravessado de olhos enchutos crises violentas, que nem todos os homens +atravessariam de animo frio... Mas saber, na mesma hora, que era filha de um +respeitavel cavalheiro, e que meu pae morrera considerando-me perdida... é de +mais, bem o conhece!...</p> + +<p>--Não posso asseverar-lhe qual foi a convicção com que seu +exc.<sup>mo</sup> pae falleceu; mas ao despedir-me d'elle, julgando eu que +ainda o veria muitas vezes, quando elle me pediu noticias suas, jurei-lhe, +pelo meu nome, que v. exc.<sup>a</sup> era em tudo sua digna e honrada filha. +Este meu juramento, pelo conhecimento que elle tinha do meu caracter, e dado +poucos momentos depois de sua exc.<sup>ma</sup> irmã D. Maria lhe ter dicto, +por uma sublime inspiração, que a snr.<sup>a</sup> D. Rosa havia de resurgir +pura de toda a mácula,--devia ser bastante para o convencer de que fôra +precipitado em julgar por apparencias. Não posso adiantar-lhe mais, porque me +era impossivel mentir-lhe, mesmo para seu bem. Estive lá, como sabe, quando +fui acompanhar aquella desventurada martyr, que implora a Deus o perdão dos +que a sacrificaram, e desconheceram suas virtudes;--mas não fallei com pessoa +alguma da familia, porque assim era preciso... Poucas horas depois, já seu +exc.<sup>mo</sup> pae não era d'este mundo!</p> + +<p><span class="pagenum">[233]</span>--Querido pae, e boa irmã!... É preciso que terminado o lucto, meu +bom amigo, D. Maria da Gloria seja feliz.</p> + +<p>--Sabe o que se fez, e o que se espera. O plano de v. exc.<sup>a</sup> foi +rigorosamente executado. Admiro-a, snr.<sup>a</sup> D. Rosa!... Como Deus lhe +dá forças para esmagar o coração!...</p> + +<p>--Não me julgue de leve, meu amigo, que póde enganar-se nos seus juizos a +meu respeito. É muitas vezes insondavel o coração da mulher... Eu mesma não +saberia, talvez, dizer em verdade quaes sejam os estimulos do meu actual +proceder...</p> + +<p>--Quer a desgraça que os eu conheça, senhora, e que os sinta +inabalaveis... São rarissimas as mulheres que sabem sacrificar o amor aos +seus brios, á dedicação e amisade; mas ha exemplos, e v. exc.<sup>a</sup> é +das que póde praticar todos os extraordinarios...</p> + +<p>--E não tenho podido conseguir fazel-o feliz com a minha illimitada +estima... Veja que apoucado poder é o d'esta <em>extraordinaria</em> +mulher...</p> + +<p>--O que quer, senhora?!... O ambicioso soffre e caminha continuadamente, +até chegar ao cumulo da sua ambição, ou succumbir sem vêr realisadas as suas +loucas esperanças... Cheguei a meio caminho do meu paraiso, é certo; deveria +contentar-me, por que fôra alcançar já muito mais do que merecia; mas esse +mesmo exito augmentou a minha loucura, e não posso ficar parado... Antes +morrer com a esperança no pensamento, do que arrastar a vida sem essa dôce +consolação dos que padecem...</p> + +<p>--E como lhe ha de conceder <em>esperanças</em>, a mulher que o senhor +salvou da <em>perdição</em>, onde ella se foi voluntariamente lançar por amor +a <em>outro</em> homem?!...</p> + +<p><span class="pagenum">[234]</span>--Não lhe tenho eu jurado muitas vezes, que seria o mais extremoso +e dedicado dos esposos?... Suspeita-me capaz, mil annos que vivessemos +juntos, de lhe fazer a mais remota allusão a um seu passo impensado, que nem +erro se póde chamar?...</p> + +<p>--E julga que me satisfaço com tão pouco?!... Avalia-me com a capacidade +de o victimar, para salvar a minha virtude?!... Como é injusto, João!... Se +fosse possivel ter entrada no meu peito, para lhe dar, um affecto ainda +superior ao que me levou a affrontar os prejuizos sociaes, seria então sua +esposa, creia-o... Mas posso eu sentil-o?... E sentindo-o, não deveria +occultal-o a mim propria, para não ter de córar da minha versatilidade?...</p> + +<p>--Sou, pois, infallivelmente condemnado, não é verdade?!... Um pedido +então, senhora, e será o ultimo... Deixe-me ir batalhar pela nação... V. +Exc.<sup>a</sup> já não carece dos meus serviços... tem a companhia d'aquella +martyr, e d'aquelle respeitabilissimo ancião... Vou para junto do meu +camarada Arthur... talvez que precise do meu auxilio, e juro-lhe que darei +por elle a vida... Consente, não é assim?... Não me responde?!... Chora?!... +Compadeça-se de mim, senhora, e deixe-me partir!...</p> + +<p>Usando dos privilegios concedidos a todos os narradores, vamos agora lêr a +carta, que o padre Alvaro acaba de escrever: </p> + +<p> </p> + +<p class="direita">«<em>Exc.<sup>ma</sup> Snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Gloria, escolhida filha do bondoso Deus</em>:</p> + +<p>«Não ha flôres por mais mimosas que a natureza as produzisse, que estejam +ao abrigo das tempestades <span class="pagenum">[235]</span> da terra; e por muito açoitadas e pendidas +que ellas fiquem, o sopro de um Deus, mais poderoso do que o furacão da +tormenta, em breve as alevanta e reanima. A minha linda flôr da Gloria, está +sendo abalada pelos ventos do infortunio, com que o pae celeste costuma +experimentar os seus escolhidos; mas, se como eu espero e creio, a christã +resignação fôr uma das muitas virtudes de V. Exc.<sup>a</sup>, não virá longe +o dia em que hade ser compensada dos seus dolorosos soffrimentos. Tambem eu +sei carpir saudades do meu unico e verdadeiro amigo, que nunca julguei que me +houvesse de preceder na viagem da eternidade!... Ora, pois, enchuguemos o +justificado pranto, e fallemos um pouco de nós outros, interinos habitadores +d'este valle de lagrimas.</p> + +<p>«Venho da cabeceira do leito de Arthur, que está livre de todo o perigo: +mais alguns dias de repouso, e a seiva da vida apparecerá de novo. Foram +muito graves os ferimentos, perigosos mesmo: deixaram vestigios permanentes, +que mudaram immenso a physionomia do meu caro Arthur. Perdôe a este velho +padre o dizer-lhe, que o rapaz me pareceu assim mais formoso ainda!... Eu, +que devo impugnar os ardores guerreiros, como indignos da caridade e da +misericordia do Senhor, achei bello aquelle aspecto marcial!... Na hora das +despedidas, sahiu-lhe espontaneamente da bocca o nome de V. Exc.<sup>a</sup>, +proferido com igual respeito áquelle com que por vezes invocára o da sua +querida mãe. Quizera responder-lhe com poucas palavras, mas foi impossivel. A +despedida, durou mais tempo do que o resto da visita!... O padre, teve de +ceder o seu logar ao homem, que, apesar de criminoso, é pae!... Que lhe direi +mais, senhora D. Maria da Gloria?!... Arthur está <span class="pagenum">[236]</span> preparado para +todos os acontecimentos... Resignar-se-ha com tudo, afóra a ideia de que V. +Exc.<sup>a</sup> possa ser menos feliz do que merece.</p> + +<p>«Peço a transmissão dos meus profundissimos respeitos á exc.<sup>ma</sup> +snr.<sup>a</sup> D. Isabel, á qual me atrevo a rogar o seu regresso a estes +sitios, onde me será mais facil a realisação do desejo de as vêr todos os +dias, e acompanhal-as nas orações pelo eterno descanço do nosso chorado +esposo, pae e amigo. </p> + +<p class="direita"><em>Padre Alvaro.</em>»</p> + +<p> </p> + +<p>N'este mesmo dia, existiam só, além dos serventes, duas pessoas na +residencia do padre Alvaro: elle, e a senhora que vimos orar, em quanto o +padre escrevera e João e Rosa conversavam.</p> + +<p>João de Lencastre, fôra o primeiro a retirar-se, com a morte no coração, +porque de todo lhe fugira a esperança de ser correspondido no seu immenso +amor.</p> + +<p>Rosa, que o não prevenira da sua resolução, seguira-o pouco depois.</p> + +<p>Quarenta e oito horas eram apenas passadas, quando, no Porto, a companhia +de que era capitão Arthur Soares, contava mais dous voluntarios, que eram o +tenente João de Lencastre, e um elegante sargento, que dizia chamar-se Paulo +Virginio.</p> + +<p>Arthur Soares, estava já completamente restabelecido. <span class="pagenum">[237]</span></p> + +<h3>VI<br> +DENODO FEMININO</h3> + +<div class="quote"> +<p>«Descavalgando, os dous guerreiros tomaram nos braços a irmã de Pelagio, e +foram reclinál-a sobre um monticulo cuberto de relva e musgos.....</p> + +<p>«O unico signal que n'ella revelava vida era o tremor convulso que +violentamente a agitava.»</p> + +<p class="direita">(<em>A. Herculano</em>--<span +class="smallcaps">Eurico</span>.) </p> +</div> + +<p>A guerra civil havia chegado ao seu maximo desenvolvimento. Não existia em +Portugal uma aldêa livre dos vexames da revolução. Os exercitos belligerantes +entretinham-se em operações de pouca importancia, em conservarem para os seus +governos os territorios occupados pela força, e não chegavam a travar uma +lucta decisiva.</p> + +<p>Um estado de coisas assim violento, não podia prolongar-se sem grave +prejuiso da nossa nacionalidade.</p> + +<p>O governo de Lisboa, fundado nas acclamações feitas a favor do snr. D. +Miguel de Bragança, pedira a <span class="pagenum">[238]</span> interferencia das nações signatarias do +tractado da quadrupla alliança, por se achar em perigo a pessoa e dynastia da +rainha.</p> + +<p>Foi muito condemnada n'aquella epocha a medida extraordinaria da +intervenção estrangeira, que é sempre um desaire para as nações a ella +sujeita; mas é forçoso confessar, que lhe devemos immensos beneficios; e que, +se não foi um bem absoluto a interferencia da França, Inglaterra e Hespanha, +poupou comtudo a Portugal o derramamento de muito sangue, e os milhares de +calamidades a que a duração da guerra nos tinha entregues.</p> + +<p>No caso mesmo do vencimento provavel da causa popular havia a receiar que, +após elle, a ambição do partido ante-dynastico, que se achava em força +consideravel, désse muito que entender aos liberaes de boa fé, que apenas +pelejavam pela prática genuina do systema constitucional, e que amavam de +toda a alma a Liberdade, e a respeitabilissima pessoa da snr.<sup>a</sup> D. +Maria II.</p> + +<p>A excelsa filha do rei soldado, a mais exemplar senhora da Europa, como +esposa e mãe educadora, foi inconsideradamente arguida de facciosa, pela +exaltação partidaria, que se esqueceu de levar-lhe em conta dos seus actos +politicos as constantes suggestões dos conselheiros que a cercavam, aos quaes +não se fartava de fornecer terriveis documentos para a catechese, a imprensa +licenciosa da opposição, cuja linguagem desenvolta e ameaçadora bastaria a +resolver qualquer monarcha, por mais resoluto que elle fosse, a entregar-se +nos braços dos que se lhe mostrassem dedicados e leaes.</p> + +<p>O certo é, que alguns dos officiaes superiores da <span class="pagenum">[239]</span> junta do Porto, +não viram com máus olhos a conclusão da guerra, pelo modo que ella teve +logar, como por sem duvida, a maioria sensata do paiz, a recebeu com +jubilo.</p> + +<p>O batalhão a que pertenciam Arthur Soares, João de Lencastre e o sargento +Paulo Virginio, achava-se em Setubal, fazendo parte da brigada do commando do +honrado e mutilado general, que servia ás ordens da junta do Porto. Succedeu +haverem sido interceptados a bordo de um vaso de guerra alguns objectos, que +do estrangeiro vinham dirigidos á rainha, e entregues áquelle general, que +immediatamente os enviou ao Paço por um dos seus officiaes;<sup +class="footnote"><a href="#fn15" name="lfn15">15</a></sup> e foi Arthur Soares, elevado por seus serviços ao +posto de major, o escolhido para os ir apresentar, commissão que desempenhou +galhardamente.</p> + +<p>A snr.<sup>a</sup> D. Maria II, commovida por um tão delicado quanto +conveniente procedimento, acolheu o mensageiro com inequivocas demonstrações +de estima. Não lhe fez graça nem mercê régia, porque, senhora como era de +elevadissimos sentimentos e notavel intelligencia, não queria de nenhuma +fórma melindrar o caracter de um soldado, que militava em campo que lhe era +opposto; mas significou-lhe, em phrases insinuantes, o quanto estava +reconhecida áquella fineza do bravo general, e o muito que desejava poder em +dias mais felizes distinguir e galardoar o porte e delicadeza do attencioso +mensageiro.</p> + +<p>Dias depois, tivera logar a batalha de Setubal, que matou cerca de 600 +homens de ambos os lados, em <span class="pagenum">[240]</span> quatro horas que durou o fogo, e a que +poz termo um armisticio, por uma especie de intervenção do coronel Wilde, que +se achava n'aquellas paragens, a bordo do navio de S. M. Britanica +<em>Polyphemus</em>.</p> + +<p>N'esta batalha, achou-se o regimento de Arthur Soares fazendo parte da +força que atacara a direita do inimigo, e que foi tomada de improviso pela +cavallaria, que a fez debandar desordenadamente. O major Arthur Soares, o +tenente João de Lencastre, e o sargento Paulo Virginio, fizeram desesperados +esforços por conter os soldados, e tiveram de sustentar uma lucta desigual +com a cavallaria inimiga. Na occasião em que o peito de João de Lencastre ia +ser varado por uma bala sahida da pistola que lhe apontava um soldado, +collocou-se de permeio o sargento Paulo Virginio, que recebeu o ferimento +destinado ao seu superior. N'esta altura, ouvia-se por todo o campo da +batalha o toque de retirada, e foi a elle que os dous officiaes deveram a +conservação de suas vidas, e o poderem soccorrer o ferido, que tão +denodadamente havia salvado um d'elles.</p> + +<p>Imagine-se qual seria o espanto dos nossos heroes, ao reconhecerem, sob as +vestes militares do sargento moribundo, o corpo mimoso da donzella Rosa!... +</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn15" name="fn15">15</a></sup> Este facto foi publicado em alguns +periodicos d'aquelle tempo. </p> +</div> +<span class="pagenum">[241]</span> + +<h3>VII<br> +OS ESPINHOS DA FLOR</h3> + +<div class="quote"> +<p>«Peço ao meu anjo da guarda,<br> +Se hei-de aqui ficar perdida,<br> +Que vá levar-te por sonhos<br> +Esta minha despedida.»</p> + +<p class="direita">(<em>V. de Castilho</em>--<span class="smallcaps">O +acalentar da neta</span>.) </p> +</div> + +<p>Leopoldo havia recuperado a razão, graças aos cuidados da sua gentil +enfermeira. Mal sabia o desgraçado, que novo supplicio lhe destinava a mulher +que o salvára da demencia!...</p> + +<p>Ouçamol-os:</p> + +<p>--Diga-me muitas vezes que não sonho, querida prima, e que não é +encantamento, ou uma nova crise da minha loucura, este celeste deslisar da +existencia ao seu lado...</p> + +<p>--É um facto muito real e verdadeiro, <em>caro primo</em>, que hade ter +por desenlace o nosso casamento...</p> + +<p>--Não posso crêr em tamanha ventura!...</p> + +<p><span class="pagenum">[242]</span>--Duvída?!... Pois não sabe, que protestei a meu pae de sustentar o +seguimento das <em>nobres</em> allianças da minha raça?... Não vê como já me +abandono ao seu dominio, separada de minha mãe, que foi para o nosso solar +chorar a perda do marido estremecido, e longe de todos que no mundo me são +caros?... Duvída?!... Alguma razão tem para duvidar, porque não é com premios +taes que se costumam castigar os assassinos...</p> + +<p>--Tenha piedade, senhora!...</p> + +<p>--Piedade?!... De quem, e porquê?!...</p> + +<p>--De mim, que só fui criminoso por amor e por ciume... A ferida que fiz +n'um peito desleal, causou-me estragos, que só a prima teve o poder de +reparar... e bem conhece que não são de <em>assassino</em> estes +soffrimentos...</p> + +<p>--<em></em>A <em>ferida que fez n'um peito desleal</em>, diz o primo?!... +Illude-se, e é chegada a hora de lhe tirar a venda... V. Exc.<sup>a</sup> +cravou ás punhaladas, com este villão instrumento que guardei para o sangue +que o tinge me animar á vingança, o unico peito em que batia um coração que +lhe era affecto... Minha irmã Anna amava-o, como ao seu unico e verdadeiro +amor...</p> + +<p>--Não brinque, prima, que me tortura!...</p> + +<p>--Quer as provas?... Vá ouvindo... Passavamos aqui uma existencia +relativamente feliz, eu a crear sonhos de ventura com o meu +<em>idolatrado</em> Arthur, e minha irmã Anna a lamentar-se de não ser +comprehendida por V. Exc.<sup>a</sup> no seu immenso affecto, quando veiu +enluctar-nos uma carta de nosso pae, que me participava a resolução de +casar-me em Guimarães... Soffri horrivelmente!... Fiquei em estado de não +poder empregar sequer um raciocinio... A minha querida <span class="pagenum">[243]</span> irmã, que era +o symbolo da dedicação, imaginou conjurar a tempestade que ameaçava o meu +futuro, chamando aqui o meu <em>muito amado</em> Arthur... Comprehende?... +Foi essa carta fatal, roubada no campo da gloria ao <em>meu idolo</em> por um +soldado do seu commando, que o tornou um assassino cobarde... Veja o sangue +innocente, tornado ferrugem no seu punhal!...</p> + +<p>--Misericordia, senhora, que me mata!...</p> + +<p>--Não hade morrer, <em>senhor meu noivo</em>, em quanto não tiver bem +esgotado o calix de amargura, que outros já tragaram por sua causa...</p> + +<p>--É então o demonio vingador, em vez do anjo adorado?!... Mas como é que +deseja unir-se ao homem que detesta, ao assassino de sua innocente irmã?!... +Eu torno a enlouquecer, de certo!...</p> + +<p>--Tambem não hade enlouquecer, porque me tem amor, e vae ser meu esposo... +Socegue, que o aguarda uma existencia <em>singular</em>...</p> + +<p>--Atterra-me o seu sangue frio, senhora! Não me dirá o logar que occupo no +seu coração?...</p> + +<p>--O meu coração está cheio, hade estal-o sempre, do <em>unico</em> homem +que eu amo, e do qual me separa a fatalidade... Não hade passar um minuto da +minha existencia, sem que eu pague um tributo de lagrimas ardentes e saudosas +á memoria de <em>Arthur Soares</em>, do amor da minha infancia, da alma mais +nobre que existe na terra, e que só no céu me será concedido unir á minha... +Que importa isto ao <em>meu futuro esposo</em>, ao viuvo de <em>minha irmã +assassinada</em>!...</p> + +<p>--Cale-se, demonio!...</p> + +<p>--Hei de entreter os ouvidos de meu caro primo, e <em>feliz noivo</em>, +com a fiel narração do estado da minha alma, que todos os dias voará em busca +da <span class="pagenum">[244]</span> que lhe é igual... Hei-de fazer-lhe conhecidas muitas +particularidades do nobilissimo caracter de Arthur... Quer saber?... Foi elle +que deu um dote á sua primeira mulher, ajuntando e vendendo para esse fim, +todos os seus haveres...</p> + +<p>--Que tormentos do inferno me quer fazer passar, senhora?!!... Peço-lhe +antes a morte como o supremo beneficio...</p> + +<p>--Quer saber mais?... Lembra-se da musica que eu lhe tocava todos os dias +ao pianno durante a sua convalescença?... É uma composição minha... Fiz-lhe +tambem uma letra, que lhe não cantava, porque não estava ainda em estado de +comprehendel-a... Vou dizer-lh'a agora, para que fique sabendo que só o amor +é verdadeiro poeta... Oiça: </p> + +<div class="poesia"> +<p>«LAGRIMAS D'ALMA<br> +<br> +«Vida ditosa da infancia amena,<br> +tornada pena, que me traz delirio!...<br> +Meu terno amante, meu poderoso rei,<br> +por amor fiquei n'um atroz martyrio!...<br> +<br> +Ignora o mundo que cruel mysterio,<br> +ao cemiterio casta virgem leva!...<br> +Nem <em>Elle</em> sabe quanto hei penado,<br> +Arthur amado, que minha alma enleva!<br> +<br> +Aqui defronte do feroz tyranno,<br> +que deshumano duas vidas sóme,<br> +a irmã eu vingo, o amor vingando,<br> +Arthur amando com ardor sem nome!...<br> +<span class="pagenum">[245]</span> <br> +Ai! que saudade dos meus sonhos bellos,<br> +puros anhelos, que gostosa tinha!<br> +Ai! que tormentos o presente encerra,<br> +na crua guerra da vingança minha!...<br> +<br> +Vida ditosa da infancia amêna,<br> +tornada pena, que me traz delirio!...<br> +Meu terno amante, meu querido d'alma,<br> +recebe a palma d'este cru martyrio!...»<br> +</p> +</div> + +<p>O todo de Leopoldo revelava um tal soffrimento, que o mais desalmado +executor de alta justiça se compadeceria ao vêl-o! E D. Maria da Gloria +estava impiedosa! Chegara a um estado de exaltação, em que a mulher +<em>senhora</em>, se torna a mais temivel das féras. Havia por muito tempo +concentrado o seu rancor ao homem que lhe matara a irmã, e fôra causa, ainda +que indirecta, de se lhe sumir o delicioso porvir que sonhara, e por isso era +terrivel n'aquelle seu primeiro manifesto do odio que lhe enchia o peito.</p> + +<p>Um escudeiro veiu entregar uma carta á vingadora que, reconhecendo n'ella +a letra de Arthur, a recebeu com transportes da mais intima alegria, +praticados febrilmente em face de Leopoldo.</p> + +<p>O conteúdo na carta, que D. Maria lêu em voz alta, era este:</p> + +<p>«Depois que o meu velho Alvaro lançou n'este pobre coração o desespero, +com a noticia da resolução que v. exc.<sup>a</sup> tomara de ser fiel á +vontade de seu exc.<sup>mo</sup> pae, tenho procurado a morte no campo da +batalha, porque só ella me libertaria dos tormentos, que me esperam ao saber +que outro homem é o seu esposo... Mas superior á minha vontade está o dedo +<span class="pagenum">[246]</span> de um Deus todo poderoso, que me afasta os perigos, e me cérca de +espectaculos insinuantes!... Poderei vêr n'isto uma esperança?...</p> + +<p>«Na ultima batalha a que assisti, e na qual ganhei a patente de coronel, +deu-se um acontecimento, que vou narrar-lhe, porque tambem lhe interessa. +Alistara-se ultimamente no regimento do meu commando um joven sargento, +sobrio de palavras, que dizia chamar-se Paulo Virginio, e que era a sombra do +meu camarada, o seu bondoso parente João de Lencastre. Não fizemos caso da +assiduidade com que o sargento seguia de perto o seu tenente, porque ambos +nós tinhamos sérias preoccupações, que nos não davam tempo a reparos +curiosos. Quasi no fim da batalha, e quando já se ouviam por todo o campo os +toques de cessar fogo, e de retirada das forças combatentes, estavamos todos +tres cercados por soldados da cavallaria inimiga, um dos quaes apontou a sua +pistola ao peito de João de Lencastre. Rapido, porém, como se fôra uma +frecha, o intrépido sargento, colloca o seu corpo em defesa do tenente, e +recebe no peito o ferimento que lhe era destinado! Dentro em pouco, apenas +restavam no campo os mortos e feridos de ambos os lados. Fomos em soccorro do +sargento: quem imagina v. exc.<sup>a</sup> que descobrimos debaixo de um tal +disfarce?... A heroica senhora D. Rosa, sua exc.<sup>ma</sup> irmã!...</p> + +<p>«De certo que avalia o nosso espanto e viva sensação, ao reconhecermos a +nossa companheira de infancia, a minha quasi irmã, a querida de todos +nós!...</p> + +<p>«Apresso-me a dizer-lhe que sua exc.<sup>ma</sup> irmã não morreu; mas +antes de participar-lhe o desfecho d'esta <span class="pagenum">[247]</span> tragica scena, preciso +oriental-a de succedimentos anteriores.</p> + +<p>«A snr.<sup>a</sup> D. Rosa, chegou a persuadir-se que sentia por este seu indigno +criado, um affecto irresistivel; e como sabia d'aquelle que occupa a minha +alma, e que ella considerava correspondido, entendeu dever oppôr entre mim e +ella a barreira da perdição simulada, fugindo, n'este intuito, do seu lar +domestico, e dando entrada em Guimarães n'uma casa de perdição!... Foi alli +surprehendida por João de Lencastre que, após porfiadas luctas, conseguiu +arrancar-lhe o segredo do seu procedimento. Este meu brioso camarada, e digno +parente de v. exc.<sup>a</sup>, offereceu o seu nome, e a sua fortuna, á +snr.<sup>a</sup> D. Rosa, indicando-lhe este meio como o melhor para o +conseguimento dos seus fins; isto é, para que entre mim o v. exc.<sup>a</sup> +nunca podésse haver suspeita do amor que ella julgava consagrar-me. Sua +exc.<sup>ma</sup> irmã regeitou, e conservou-se na mesma casa, até que João +de Lencastre, que a occultas alugara uma sala proxima, teve occasião de a +salvar de uma affronta, que um infame tentava fazer-lhe. Desde um tal dia, +que a snr.<sup>a</sup> D. Rosa abandonou completamente o seu arrojado e +perigoso projecto, entregando-se á protecção do nobre salvador da sua +virtude.</p> + +<p>«O meu camarada, e honrado parente de v. exc.<sup>a</sup>, ha muito tempo, +como elle me confidenciou, que déra entrada a um sentimento sério pela +senhora D. Rosa; sentimento que todas estas peripecias tiveram o poder de +augmentar, por conhecer em sua exc.<sup>ma</sup> irmã, a par de um genio +viril, um nobilissimo caracter, e pouco vulgar talento. Ultimamente, em casa +do meu prosado velho, tentou o meu camarada obter da senhora <span class="pagenum">[248]</span> D. Rosa +uma resposta decisiva aos seus vehementes desejos, que lhe foi negada.</p> + +<p>«Dadas estas explicações indispensaveis, para a boa intelligencia do mais +que tenho a narrar-lhe, vou dizer o que se deu em seguida ao ferimento do +supposto sargento.</p> + +<p>«A dôr e a desesperação que se apoderaram de João de Lencastre ao +reconhecer na pessoa ferida a mulher que adorava, e que lhe parecia estar sem +vida, sentí-as, mas não me é dado descrevel-as. Conduzimos o corpo inerte +para a nossa residencia no quartel militar, e foram alli chamados os mais +habeis facultativos da nossa brigada, que estiveram tres dias indecisos sobre +o diagnostico que deviam dar. Ao quarto dia, o primeiro em que sua +exc.<sup>ma</sup> irmã recobrou o uso da falla, consideraram-n'a os medicos +livre de perigo, ainda que mui gravemente ferida. Durante o periodo de +prostração da snr.<sup>a</sup> D. Rosa, não pude conseguir desviar o meu +camarada da cabeceira do seu leito um só instante. Estava mais cadaverico +ainda que a doente, e n'um quietismo idiota, que muito me assustou. Só deu +accordo de si, quando sua exc.<sup>ma</sup> irmã abriu os olhos, e os fitou +ternamente n'elle, levando-lhe a mão aos labios... Então, arrebentaram-lhe as +lagrimas com espantosa força, e tive de o tirar arrebatadamente de ao pé do +leito, para evitar damno á doente.</p> + +<p>«Horas depois, fui testimunha da mais commovedora scena que tenho +presenceado: a snr.<sup>a</sup> D. Rosa chamou-nos para junto de si, e fallou +n'estes termos: «Não podia ser feliz n'este mundo, e louvo a Deus a sorte que +me permittiu conservar a vida do homem que amo, a troco da minha... Agora, +que vou morrer, <span class="pagenum">[249]</span> hei de ser acreditada, por mais incomprehensivel que +seja a minha confissão... Considerei-me presa de um amor invencivel pelo snr. +Arthur Soares, que eu sabia cheio de um sublime affecto por minha irmã... +Quiz pôr entre nós o impossivel, para conter-me, e fingi entregar-me ao +vicio... Fui salva da minha temeridade, por uma affeição das que raramente os +homens sabem ter... Esta dedicação, a que não tinha o menor direito, fez-me +descobrir um novo rumo no sentimento que eu havia considerado immutavel!... +Mas como fazer semelhante confissão?!... Segui o homem que amava, e ao qual +devo a conservação da minha honra, na intenção de lhe dar a vida, como lhe +havia dado o coração... Deus concedeu-me a ventura desejada... Crês agora em +mim, Lencastre?...»</p> + +<p>«O meu camarada, snr.<sup>a</sup> D. Maria, praticou as maiores loucuras, +a que póde levar-nos uma alegria sem limites!... Eu... pensava em v. +exc.<sup>a</sup>...</p> + +<p>«Tenho dentro em pouco de ser padrinho da união d'aquellas almas angelicas +perante o altar do Eterno... Partilho, por amizade, da ventura dos nossos +amigos; mas que dôres não hei-de ter ao lembrar-me que igual ceremonia póde +qualquer dia unir eternamente a snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria a...</p> + +<p>«Cahe a penna da mão ao fiel servo de v. exc.<sup>a</sup></p> + +<p class="direita"><em>Arthur.</em>»</p> + +<p>A leitura da carta, que produzira em Leopoldo o effeito de um choque +electrico, augmentou o mau humor da vingadora, que redobrou as pungentes +ironias e os crueis sarcasmos, com que torturava o seu futuro noivo...</p> + +<p>Quando o desgraçado estava de todo succumbido, <span class="pagenum">[250]</span> appareceram alli, +sem se fazerem annunciar, dois importantes personagens: eram o padre Alvaro, +e uma senhora com o rosto coberto por expêsso véu.</p> + +<p>O bondoso levita, dirigiu-se a Leopoldo n'estes termos:</p> + +<p>--Nunca se deve descrêr da misericordia divina, snr. Leopoldo!... Se na +sua alma entrou o remorso e o arrependimento do mal que tem causado, posso +dar-lhe uma esperança de que será perdoado por Deus... O seu crime, não teve +o resultado fatal, que o fizera enlouquecer... Sua esposa escapou do +ferimento que o senhor lhe fez, e vive ainda para lhe perdoar, e amal-o como +sempre o amou... Eu, seu irmão e a senhora D. Rosa occultos em trajes de +romeiros, e o honrado medico d'esta localidade, que logo asseverou não ser +mortal o ferimento, combinamos deixal-a passar por morta, na caridosa +intenção de pouparmos toda a familia aos escandalos de um processo crime; +fizemos convencer a todos de que v. exc.<sup>a</sup> enlouquecera com o +desgosto; simulamos o enterro de um cadaver, e conduzimos secretamente a +snr.<sup>a</sup> D. Anna á habitação do medico, onde se conservou até se +achar completamente curada, passando depois para a residencia d'este humilde +servo do senhor...</p> + +<p>Leopoldo, forcejou por levantar-se e ir ter com o vulto de mulher, que +elle adivinhara ser a sua, mas não pôde conseguil-o, porque a violencia +d'estas scenas o fizera cahir sem sentidos nos braços do bondoso padre.</p> + +<p>As duas irmãs, ternamente abraçadas, confundiam as lagrimas e os soluços. +<span class="pagenum">[251]</span> </p> + +<h3>VIII<br> +A CONVENÇÃO DE GRAMIDO</h3> + +<div class="quote"> +<p>«O partido popular fica livre da deshonra. Cedemos desde que nos era +impossivel combater; cedemos á força de tres poderosas nações. Perdemos tudo, +mas salvamos a honra.»</p> + +<p class="direita">(O n.º 63 do <em>Espectro</em>)<sup +class="footnote"><a href="#fn16" name="lfn16">16</a></sup>. </p> +</div> + +<p>Leopoldo ficára prostrado no leito, acariciado por sua esposa, e assistido +da medicina, que procurava prevenir a volta da loucura.</p> + +<p>D. Maria da Gloria, antes de sahir, na companhia do padre Alvaro, para a +casa materna, tivera com sua irmã largas conferencias, e recebeu d'ella um +escripto do punho paterno, em que lhe era concedida licença para unir-se com +Arthur Soares. Este documento, fôra <span class="pagenum">[252]</span> aquelle que Sebastião da Mesquita +lhe <em>parecera</em> ter escripto, e que effectivamente escrevera, durante a +<em>visão</em> de que tracta o capitulo assim chamado. Alcançara-o D. Anna, +entrando a deshoras no quarto de seu pae, em cumprimento de um plano +concebido por sua irmã Rosa, e auxiliado por João de Lencastre. Levava de +prevenção o necessario para aquelle escripto, que humildemente rogára a seu +pae lhe fizesse, e que o velho fidalgo, aterrado pela apparição da filha que +elle julgava morta, e considerando ordem o que era rogativa, escreveu com mão +trémula.</p> + +<p>Arthur Soares, e os noivos João de Lencastre e Rosa, estavam na cidade do +Porto, onde a revolução agonisava.</p> + +<p>Arthur acompanhara os representantes da junta provisoria do governo +supremo do reino a Gramido, onde tivéra logar a convenção, que poz termo á +guerra civil, e que foi resumido nestes artigos:</p> + +<p>1.º O fiel e exacto cumprimento dos quatro artigos da medeação, +incluidos no protocollo de 21 de maio d'este anno, é garantido pelos governos +alliados.</p> + +<p>2.º As tropas de sua magestade catholica exclusivamente +occuparão desde o dia 30 de junho a cidade do Porto, Villa Nova de Gaya, e +todos os fortes e reductos d'um e outro lado do rio em quanto a +tranquillidade não estiver completamente estabelecida sem <span class="pagenum">[253]</span> receio de +que possa ser alterada pela sua ausencia, ficando na cidade do Porto uma +forte guarnição das forças alliadas em quanto estas se conservarem em +Portugal. No mesmo tempo o castello da Foz será occupado por tropas inglezas, +e no Douro estacionarão alguns vasos de guerra das potencias alliadas.</p> + +<p>3.º A epocha da entrada das tropas portuguezas na cidade do +Porto será marcada pelas potencias alliadas.</p> + +<p>4.º A propriedade e segurança dos habitantes do Porto, e de +todos os portuguezes em geral, ficam confiados á honra, protecção e garantia +das potencias alliadas.</p> + +<p>5.º As forças do exercito de sua magestade catholica receberão +as armas dos corpos de linha, e voluntarios que obedecem á junta, +entregando-se guia ou passaporte gratuito ás pessoas que tiverem de sahir do +Porto para as terras da sua residencia, e dando-se baixa aos soldados de +linha que tiverem completado o tempo de serviço, e aos quaes se alistaram +durante esta lucta para servirem só até á sua conclusão.</p> + +<p>6.º O exercito da junta será tractado com todas as honras de +guerra, sendo conservadas aos officiaes as espadas, e cavallos de propriedade +sua.</p> + +<p>7.º Conceder-se-hão passaportes a qualquer pessoa, que deseje +sahir do reino, podendo voltar a elle quando lhe convier.</p> + +<p>8.º As tres potencias alliadas empregarão os seus esforços para +com o governo de sua magestade fidelissima afim de melhorar a condição dos +officiaes do antigo exercito realista.</p> + +<p>Esta convenção foi publicada por um decreto e proclamação da junta, que +termina assim:</p> + +<p><span class="pagenum">[254]</span>«A junta felicitando-se a si propria, e á nação, por vêr terminada +uma tão longa, e tão dolorosa guerra civil, espera que nenhum portuguez que +seguisse a sua bandeira conserve a lembrança de qualquer aggravo que, durante +a mesma guerra, possa ter recebido.</p> + +<p>«A junta lisongeia-se de que o seu comportamento, durante os difficeis +tempos em que foi chamada a reger estes reinos, em nome da nação e de sua +magestade a rainha, lhe tenha grangeado a estimação do povo portuguez e do +mundo civilisado.</p> + +<p>«A junta considera terminada a sua missão de uma maneira nobre, e honrosa. +A junta vai dissolver-se.</p> + +<p>«Seus membros, voltando de novo ao seio da vida particular, levam comsigo +a convicção de que sempre desejaram o bem, a liberdade e a gloria do povo +portuguez.</p> + +<p>«Não querem maior galardão do que a lisongeira recordação de que por tanto +tempo presidiram aos destinos do povo mais benigno, mais virtuoso, mais +heroico, e mais nobre da terra.</p> + +<p>«E farão sempre os mais sinceros votos pela gloria de Sua Magestade a +rainha, pela sincera reconciliação de seus subditos, e pela liberdade, e +felicidade do povo portuguez.»</p> + +<p>Assim acabou a mais notavel das guerras civis portuguezas.</p> + +<p>Arthur Soares, antes de seguir jornada, com os noivos, para Penafiel, +escreveu a D. Maria da Gloria estas palavras:</p> + +<p>«Acabou a guerra e com ella a esperança d'uma morte gloriosa para mim. +Recolho-me á residencia do <span class="pagenum">[255]</span> meu santo velho, onde tudo me recordará o +tempo feliz da minha mocidade, passado ao lado de v. exc.<sup>a</sup>... Qual +será o meu futuro?!...</p> + +<p>«Acompanham-me os noivos, que tencionam pedir á snr.<sup>a</sup> D. Isabel +e a v. exc.<sup>a</sup> um aposento no seu palacio.</p> + +<p class="direita"><em>Arthur</em>».</p> + +<p>Havia sido expedida esta carta ha poucos momentos, quanto Arthur Soares +recebera outra d'este theor:</p> + +<p>«Venha quanto antes abraçar a sua esposa. As barreiras que se oppunham á +nossa ventura, quiz Deus sumil-as pela sua infinita bondade!</p> + +<p class="direita"><em>Maria</em>.»</p> + +<p>Avalie o contentamento de Arthur, aquelle dos nossos leitores, que tiver +sinceramente amado. </p> + +<div class="rodape"> +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn16" name="fn16">16</a></sup> Referimo-nos por vezes ao +<em>Espectro</em>, não só por ter sido o papel mais conhecido na epocha da +revolta, mas tambem, e principalmente, para darmos ao seu redactor, e nosso +primeiro jornalista, a honra, e a justiça, que se lhe devem. As más paixões +teem querido desfigurar os factos, attribuindo a odio pessoal o que só fôra +desharmonia politica; mas a verdade é--como já provamos--que o +<em>Espectro</em> foi o <em>unico</em> periodico da opposição d'aquelle +tempo, que teve a gloria de castigar os aleives da imprensa desenvolta, +tributando o respeito devido á <em>pessoa</em> e <em>virtudes</em> da +snr.<sup>a</sup> D. Maria II. </p> +</div> +<span class="pagenum">[256]</span><br><span class="pagenum">[257]</span> + +<h3>IX<br> +BRIOS DE PLEBEU</h3> + +<div class="quote"> +<p>«Uns homens ha, que, na paixão ardente,<br> + Immolam tudo seu,<br> +Menos a propria estima; e, felizmente,<br> + D'esses homens sou eu:<br> +Sou, que de tudo o que no mundo prézo,<br> +Prézo mais não mer'cer o meu desprezo.»</p> + +<p class="direita">[<span class="smallcaps">João de Lemos</span>--<span +class="smallcaps">Cancioneiro</span>] </p> +</div> + +<p>Uma d'estas revoluções moraes, que as grandes crises produzem no espirito +humano, se operou em Arthur Soares. O filho do bom Alvaro era uma destas +almas privilegiadas, ricas de sublime poesia, a que o mundo chama imaginações +prodigas, porque lhe é vedado o entendel-as. Amara D. Maria da Gloria, que +era rica e nobre, como se ella fôra a mais desprotegida camponeza. +Prenderam-n'o os dotes moraes e physicos da fidalga moça, e nem por sombras o +deslumbrara a fortuna e nobreza de sangue da sua amada. Tão prudente como +gentil e cavalheiro, nunca d'elle partiria a iniciativa de uma declaração: +era d'estes poucos homens, que sabem morrer com um segredo na alma, para não +se exporem aos falsos juizos <span class="pagenum">[258]</span> do vulgo, nem serem menos presados pelo +alvo da sua estima. D. Maria da Gloria, possuidora d'uma alma semelhante á de +Arthur, amando-o como era amada e manifestando o seu amor, seguira seus +naturaes impulsos com feminil precipitação.</p> + +<p>Sabendo que era amado pela filha do seu orgulhoso e fidalgo padrinho, a +par do naturalissimo contentamento que uma tal certeza lhe deu, principiou +Arthur Soares a comprehender o melindre em que o collocavam estes amores. Os +acontecimentos, porém, precipitaram-se com tal velocidade, que, até ao +momento do desenlace, não teve o nosso heroe o tempo material preciso para +cogitar n'um procedimento digno de si.</p> + +<p>Agora, que só da sua vontade estava dependente a sua ventura, Arthur +hesitava, e sustentava uma lucta mortificadora, porque os seus brios de homem +de bem lhe patenteavam, que no seu enlace com D. Maria não podia elle entrar +com uma porção, se não igual, aproximada das conveniencias sociaes que ia +receber. Se ao menos podésse apresentar as dragonas e condecorações ganhas no +campo da batalha, seria já alguma coisa, e fôra provavel que acabasse a sua +hesitação; mas o governo interino que lh'as concedera deixara de existir, e o +de sua magestade não lh'as garantia.</p> + +<p>Este brioso luctar contra o sentimento, se collocava Arthur Soares bem +longe do bafo empestado das paixões mesquinhas e torpes, que são o apanagio +de villões interesses, trazia-lhe a par a recordação dos tempos em que lhe +soavam os alegres hymnos do amor e da saudade; em que era sustentado o seu +affecto pela esperança de se tornar distincto no campo <span class="pagenum">[259]</span> da honra, e +poder assim encurtar a distancia que o separava de Maria; e o seu intimo +soffrer tomava proporções assustadoras, que ameaçavam queimar-lhe ao fogo do +coração os brilhantes sonhos de amor que o tinham embalado.</p> + +<p>Ao passo que tudo respirava tranquillidade no palacio de D. Maria da +Gloria, e que a vida prasenteira dos noivos se tornava communicativa aos +demais habitadores d'aquelle nobre solar, existiam a dois passos d'alli, na +residencia do padre Alvaro, duas almas consumidas pela melancolia; pae e +filho eram victimas dos mesmos pensamentos, que nutriam sem os communicarem, +e que nenhum d'elles sabia como destruil-os para o bem commum.</p> + +<p>As forças physicas de Arthur tiveram de ceder ao prolongado e doloroso +debate moral que elle sustentara, e cahiu em perigosa enfermidade. O triste +pae, teve de envidar um resto de energia, para animar o filho querido, e +chamou em seu auxilio aquella que era a involuntaria causa do soffrimento de +Arthur.</p> + +<p>D. Maria da Gloria, com a perspicacia inherente ás pessoas do seu sexo, +educação e talentos, quasi que lia claramente na alma do seu amante e, por um +fidalgo tacto, que só ensina o amor verdadeiro, desviara sempre as +conversações do terreno em que poderiam declinar para expansões perigosas, +esperando assim corajosamente o resultado da lucta, sem dar o menor indicio +de querer accelerar o desfecho que tão grato era ao seu coração.</p> + +<p>Assidua enfermeira do seu amante, pondo de parte as etiquetas e convenções +do seu mundo, D. Maria não largava a cabeceira do seu querido enfermo. +<span class="pagenum">[260]</span> Nas crises mais perigosas da enfermidade, tinha a gentil e fidalga +moça a coragem de mostrar-se risonha na presença do seu idolo, para dar, ás +occultas, largas ao pranto, e á dôr que a definhava.</p> + +<p>Os desvélos do pae e da amante, auxiliados pela constituição vigorosa de +Arthur, arrancaram-n'o das bordas do tumulo. Já convalescente, tomou um dia +as mãos do pae e de D. Maria, beijou-as religiosamente, e disse-lhes, com +lagrimas na voz, e nos olhos:</p> + +<p>--Porque me não deixaram morrer?!... Acabava tudo, e não os faria soffrer +mais...</p> + +<p>--Quer-me parecer, Arthur, que vão muito longe os teus brios, e que talvez +degenerem em orgulho condemnavel... Ambos nós lêmos no teu intimo; eu, porque +sou teu pae; e este incomparavel anjo, porque te ama, ainda além do que é +permittido amar-se na terra... Querias morrer?!... E não será a manifestação +de um tal desejo grave offensa á Divina Providencia, que tão prodiga tem sido +em beneficiar-te?... Ou quererás tu tornar-me mais pungentes os remorsos, por +te haver dado uma existencia a que chamas infeliz?... Mas fica certo, filho, +que a tua ultima hora seria a minha, e que tu, deixando a vida, fugias á +possivel felicidade n'este mundo, em quanto que eu, se um Deus misericordioso +perdoar os meus peccados, encontro na morte o supremo bem!...</p> + +<p>--Como são sevéras as suas palavras, meu querido pae!... E diz-me o +coração, que os seus sentimentos são os meus, e que, no meu caso, seria em +tudo semelhante o seu procedimento... A prova d'esta minha convicção, está no +silencio que tem guardado, quando muito bem conhece que o simples enunciado +da sua vontade seria para mim uma ordem terminante... <span class="pagenum">[261]</span> Porque me não +ordena o que devo fazer?...</p> + +<p>--Chega-me a minha vez de fallar, e principio por usar da minha +auctoridade de enfermeira, lembrando ao impertinente doentinho, que não póde +ainda entrar em conversações animadas... Sim, agora o mais bonito é isso!... +Chorem, chorem ambos, mortifiquem-se bem, e não tenham pena de mim, que os +heide aturar doentinhos!... </p> + +<p>--És o melhor dos anjos, minha querida Maria!...</p> + +<p>--Nem sou <em>anjo</em>, nem sou ainda <em>sua</em>, seu mau... Isso hade +acontecer, quando se realisar um sonho que eu tive uma d'estas noites......O +snr. Arthur Soares, figurava no meu sonho como um grande personagem, cercado +de attenções e de respeitos, podendo dispensar protecção, e não tendo já que +receiar dos maus juizos que o mundo fórma quando vê ligações entre duas +pessoas que não pesam do mesmo modo na balança das conveniencias... Eu era +sempre a mesma rapariga aldeã, que <em>V. Exc.<sup>a</sup> se dignava +elevar</em> até á sua altura, e que caminhava para a capella tão contente por +o meu esposo ser um <em>potentado</em>, como o estaria se elle fosse um +simples <em>operario</em>...</p> + +<p>--Basta, minha adorada Maria!... Fixa tu a epocha do nosso casamento...</p> + +<p>--Está fixada, já lhe disse... Esperemos a realisação do meu sonho, que me +diz o coração, que não havemos de envelhecer esperando... Quero que fiquem +bem satisfeitos todos os seus caprichinhos... E agora, nem mais uma palavra, +que te faz mal fallar...</p> + +<p><span class="pagenum">[262]</span><br><span class="pagenum">[263]</span> </p> + +<h3>X<br> +VIAGEM DA RAINHA</h3> + +<div class="quote"> +<p>«Foi então que se apossou da corôa.»</p> + +<p class="direita">(<span class="smallcaps">A. Herculano--Eurico.</span>)</p> + +<p>«Crer e amar--é a unica religião verdadeira; crer e amar--a unica poesia +verdadeira: uma não está sem a outra.»</p> + +<p class="direita">(<span class="smallcaps">V. de Almeida +Garrett--Helena.</span>) </p> +</div> + +<p>A guerra civil gastou a nossa energia, e converteu a dissenção armada em +vinganças mesquinhas, em baixos enrêdos e ambiciosas abjecções. O povo, +esmagado com o peso dos tributos e dilacerado pelas inglorias luctas dos +bandos politicos, tinha perdido as crenças, e o amor ao systema liberal: o +throno, á força de lh'o pintarem de ferro, figurava-se-lhe tyrannico. Foi +então que uma feliz revolta militar levou ao poder os primeiros homens que +pozeram em pratica a constituição.</p> + +<p>Ferindo no ámago a roedora agiotagem por medidas energicas; apagando os +odios politicos; equilibrando quanto possivel a receita com a despeza do +estado; <span class="pagenum">[264]</span> pagando em dia aos empregados da nação; garantindo as +patentes aos officiaes do exercito, e fazendo este alheio aos baldões +politicos; dotando o paiz de estradas e outros melhoramentos materiaes; dando +accesso nos empregos aos homens de todas as côres politicas; segurando os +direitos individuaes; e pondo, finalmente, em acção todo o machinismo de uma +verdadeira monarchia constitucional,--o primeiro ministerio chamado +<em>regenerador</em>, não desmentiu este nome redemptivo.<sup +class="footnote"><a href="#fn17" name="lfn17">17</a></sup></p> + +<p>Não contentes de haverem grangeado a estima publica pelos seus actos, +aquelles vultos politicos do memoravel ministerio <em>regenerador</em>, +quizeram dar ao povo portuguez um conhecimento perfeito das altas virtudes da +familia real, e aconselharam-na a viajar pelo reino. Este passo teve o +alcance meditado: o nobre povo portuguez ficou amando, como ella merecia, a +senhora D. Maria II, e a sua dynastia.</p> + +<p>Pouco tempo depois, a digna filha do rei soldado, foi chorada, na sua +prematura morte, por todos os partidos; sendo para notar-se a parte distincta +que <span class="pagenum">[265]</span> tomou no lucto, o partido que era affeiçoado ao infeliz principe +proscripto.<sup class="footnote"><a href="#fn18" name="lfn18">18</a></sup> </p> + +<p>Continuou, sob a regencia do sympathico e bondoso monarcha, o snr. D. +Fernando, a sua bem assignalada gerencia, o ministerio regenerador.</p> + +<p>.....................................................................................</p> + +<p><span class="pagenum">[266]</span>Era tudo rumor e gala no antigo solar dos Bandeiras, Mesquitas e +Abendanhos. A respeitavel snr.<sup>a</sup> D. Isabel, parecia ter voltado aos +seus vinte annos, pela rapidez com que dava ordens e movia as chaves que lhe +pendiam do cinto. Era justificado o regosijo e o afan, porque a velha fidalga +esperava a honra de hospedar a familia real em seu palacio. D. Maria da +Gloria acompanhava a mãe nos precisos trabalhos com vivo contentamento. D. +Rosa deixara de ter questões com o marido,--para resolverem qual d'elles +devia <span class="pagenum">[267]</span> ter mais tempo no collo um robusto rapaz, fructo do seu amor, +que era afilhado de D. Maria da Gloria e de Arthur Soares,--e tambem dava o +seu contingente para os preparativos do palacio. João de Lencastre fôra +encarregado por D. Maria de uma commissão diplomatica: era forçoso conseguir +que Arthur apparecesse, fardado, á rainha!... Innocente capricho, chamou o +ex-coronel á exigencia da sua Maria e, embora estivesse sempre em projecto o +seu casamento, folgava de obedecer á vontade d'aquella que era tudo para +<span class="pagenum">[268]</span> elle. O capricho, porém, não era tão innocente como parecia. João de +Lencastre tornara-se fallador, como todas as pessoas felizes, e havia contado +a D. Maria, que Arthur fôra o official escolhido em Setubal, para levar a Sua +Magestade os objectos que lhe eram destinados, e que foram tomados com um +navio de guerra. Ora, esta revelação, fez conceber um plano á fidalga moça, +que devia tornar realidade o sonho precursor do seu casamento.</p> + +<p>Chegou a familia real, e foi recebida alli, da mesma fórma que em todo o +seu transito, com as mais festivas demonstrações de leal affecto da parte do +povo apinhado na estrada, que entoava freneticos vivas aos reaes viajantes, e +os cobria de flôres.</p> + +<p>N'um intervallo das enfadonhas etiquetas, a que mesmo em viagem está +sujeito o primeiro magistrado de uma nação, conseguiu D. Maria da Gloria +fazer-se ouvir da rainha. Pouco depois, foi apresentado Arthur Soares a sua +magestade, que logo o reconheceu:</p> + +<p>--Felicito-me, snr. official, por ter chegado o <em>tempo mais feliz</em>, +a que me referi em palacio quando tive de agradecer-lhe o modo nobre e +attencioso com que se houve n'uma commissão delicada. Dizem que os reis +constitucionaes não podem fazer mercês a seu bel-prazer; mas se isso é regra, +soffre excepção quando os ministros responsaveis possuem as qualidades +d'aquelles que ora me cercam... Fica o snr. official com as honras de coronel +do exercito portuguez, cujo uniforme veste; pertence, desde hoje, aos +fidalgos da minha casa, e póde desde já assignar-se conde de Setubal... +Agora, consinta á sua rainha, que lhe manifeste a vontade de ser testimunha e +protectora do seu casamento... Sei que as formalidades indispensaveis <span class="pagenum">[269]</span> +ha muito esperam por a sua resolução, está a dous passos a capella do +palacio, e eu tenho aqui o meu padre esmoller-mór...</p> + +<p>--Senhora! Toda a minha vida será dedicada a vossa magestade e á sua real +familia, como ha-de ser transmittida por mim a meus filhos, a obrigação de +darem todo o seu sangue em defeza do throno e dynastia da minha muito amada +rainha a senhora D. Maria II!</p> + +<p>--Obrigada, conde... Ame muito a sua esposa, que as <em>Marias</em> são +dignas de um leal affecto... Levante-se condessa! É nos meus braços que eu +costumo apertar as pessoas que têem a sua alma... Finda a ceremonia do +casamento, quiz a rainha vêr, antes de retirar-se, o padre Alvaro, que foram +chamar á residencia a toda a pressa. Logo que chegou, dirigiu-lhe sua +magestade a palavra n'estes termos:</p> + +<p>--Foi me descripto o seu caracter, por quem conhece as suas virtudes. Não +lhe faço mercês porque sei que as regeitaria com evangelica abnegação; mas +peço-lhe que distribua pelos seus pobres o dinheiro que lhe ha-de entregar o +meu esmoller-mór... Peço-lhe ainda algumas orações para esta mulher corôada, +que dentro em pouco tempo ha-de ser pó... Os medicos desenganaram-me... +Queriam <em>remediar o mal infallivel</em> não sei com que <em>medicinas +preventivas</em>, que eu recusei formalmente, porque não tremo de morrer no +meu officio de mulher, que é tão nobre, pelo menos, como o de rainha...</p> + +<p>--De que preces póde carecer uma santa como vossa magestade?!...</p> + +<p><span class="pagenum">[270]</span>--Sempre rese, padre Alvaro; bem sabe que o maior justo pecca +muitas vezes...</p> + +<p>--Resarei, real senhora! e será meu o proveito das orações, como ha-de ser +de vossa magestade o reino do céu!... </p> + +<div class="rodape"> +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn17" name="fn17">17</a></sup> Quando revemos as provas d'este capitulo, +annunciam os periodicos a realisação de um emprestimo nacional, nas mais +vantajosas condições para o thesouro, de reis quarenta e tres mil oito centos +e oito contos--tres mil oito centos e oito a maior do que o governo +solicitava para a consolidação da divida fluctuante! É geral o contentamento, +esperançosa, e proxima, a organisação das nossas finanças, e notavel o +credito que o emprestimo nos faz ter nas principaes bolças da Europa. Outros +factos, igualmente importantes, em bem do paiz, estão succedendo sob a +gerencia de um governo composto das reliquias d'aquelle que louvamos. </p> +</div> + +<div class="rodape"> +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn18" name="fn18">18</a></sup> O snr. João de Lemos, publicou, por +occasião da morte da snr.<sup>a</sup> D. Maria II, a conhecida poesia--<span +class="smallcaps">O Funeral e a pomba</span>--da qual consignaremos aqui +estes edificantes versos:</p> + +<div class="poesia"> +Soldados, que ha vinte annos<br> +Com esforços sobre humanos<br> +Batalhaes por vossa fé,<br> +Soldados, eia, de pé!<br> +Respeitem-se aquellas mágoas,<br> +E do nosso pranto as agoas<br> +Lavem d'odio o coração;<br> +Não ha odios d'este lado,<br> +Nem se deshonra um soldado,<br> +Quando abraça seu irmão.<br> +<br> +Ponham-se treguas á guerra,<br> +E ninguém manche esta terra<br> +Ao pé de funérea luz;<br> +Soldados, olhai a cruz!<br> +Demos pranto a quem prantêa,<br> +Demos dôr á dôr alheia,<br> +Nos dois campos lucto egual!<br> +Nenhum, nenhum se envilece,<br> +Unidos na mesma prece,<br> +Junto á loisa sepulchral.<br> +<br> +Solemne melancolia,<br> +Seja n'hora da agonia<br> +Nosso tributo cortez;<br> +Que o tomem, que é portuguez!<br> +Portuguez d'aquelles peitos,<br> +Por tantos annos affeitos<br> +Na lealdade a soffrer;<br> +Portuguez que vem das eras,<br> +D'aquellas crenças sinceras<br> +<em>D'antes quebrar que torcer</em>.<br> +<br> +Que o tomem; e nós, soldados,<br> +Ao vêl-os tão consternados,<br> +Respeitemos-lhe a sua fé;<br> +Amigos, eia, de pé!<br> +Era o seu chefe, e bandeira,<br> +Diziam-n'a companheira<br> +De infortunio e proscripção;<br> +Comprehendemos, pois, seu grito,<br> +Nós, soldados do Proscripto,<br> +Vinte annos gemendo em vão!<br> +<br> +A cada um sua crença e dôres,<br> +Cada qual estreme as côres<br> +Do pendão que traz por si;<br> +Todo branco, é o nosso aqui.<br> +Mas, se d'elle voz sagrada<br> +Nos manda, por gloria herdada,<br> +Ou morrer ou triumphar,<br> +Tambem no alto do Calvario<br> +Outro estandarte, um sudario,<br> +Manda os tristes consolar.<br> +<br> +Porque é de arraial opposto,<br> +Não córa o tributo o rôsto,<br> +A quem o toma ou quem dá;<br> +Soldados, lucto de cá!<br> +É tributo á monarchia,<br> +Por dois campos n'um só dia,<br> +Cada qual por sua lei;<br> +Um faz honras á Rainha,<br> +Outro á Princesa, sobrinha<br> +D'aquelle que jurou Rei!» </div> +</div> +<span class="pagenum">[271]</span> + +<h2>EPILOGO</h2> +<span class="pagenum">[273]</span> + +<h3>EPILOGO</h3> + +<p>São decorridos cinco annos, depois do casamento de Arthur com D. Maria da +Gloria, e estamos no dia do 4.º anniversario natalicio de uma +interessante menina, que é a filha estremecida de tão venturoso par.</p> + +<p>O filho de Rosa e de João de Lencastre, dous annos mais velho, dá-se ares +de protector da priminha, que cérca de brinquedos e caricias infantis. D. +Isabel prepara toda jubilosa a festa dos annos da sua netinha. João de +Lencastre está narrando á mulher o que presenceára em casa do irmão, d'onde +recolhia de o haver visitado, triste pelo definhamento em que vira Leopoldo. +D. Maria e Arthur estão de mãos dadas contemplando as crianças, e trocando +phrases embalsemadas de felicidade.</p> + +<p>É de bem diverso effeito, a scena que vamos presencear na egreja parochial +da freguezia. O padre Alvaro, envelhecido e quebrantado em extremo, está +ajoelhado sobre a campa, que encerra os restos mortaes <span class="pagenum">[274]</span> da mãe de +Arthur, e lê esta passagem da Biblia:</p> + +<p>«Disseram-lhe seus discipulos: Se tal é a condição de um homem a respeito +de sua mulher, não convém casar-se. Ao que elle respondeu: Nem todos são +capazes d'esta resolução, mas sómente aquelles, a quem isto foi dado. Porque +ha uns castrados que já assim nasceram; ha outros castrados a quem outros +homens fizeram taes; e ha outros castrados, que a si mesmos se castraram por +amor do Reino dos Céus. O que é capaz de comprehender isto, +comprehenda-o.»</p> + +<p>A leitura d'estas palavras, que são, para a egreja catholica, a desculpa +do padre celibatario, fez cahir o livro das mãos de Alvaro, e obrigou-o a +dizer, em consternadora exclamação:</p> + +<p>--Oh meu bom Deus! quando terão fim os meus remorsos?!... Quando poderei +deixar a vida esperançado no vosso perdão, oh Senhor Misericordioso?!...</p> + +<p>Lançou em seguida os olhos á Biblia, que no chão ficára aberta, e passados +poucos momentos, empregados em lêr o que a Providencia lhe deparou com a +queda do livro santo, estava o padre Alvaro radiante de alegria, erguendo as +mãos e os olhos ao Céu em acção de graça!... As palavras que causaram a +repentina mudança no attribulado espirito do bondoso padre, foram estas:</p> + +<p>«Digo-vos que assim haverá maior jubilo no Céu, sobre um peccador que +fizer penitencia, que sobre noventa e nove justos, que não hão de mister +penitencia.»</p> + +<p>Entrou n'aquella occasião na egreja toda a nova familia de Arthur, +incluindo as creancinhas e a velha fidalga D. Isabel, que vinha buscar o +padre para a festa dos annos.</p> + +<p><span class="pagenum">[275]</span>Findo o alegre jantar, desceram todos ao jardim, á excepção de D. +Isabel. Este local, é o mesmo em que se deram os acontecimentos descriptos no +capitulo--Ao luar--da primeira parte d'esta obra, apenas melhorado com mais +algumas plantações de arvores e flores, e commodos assentos.</p> + +<p>Estava toda a familia assentada em frente das janellas do palacio; o padre +Alvaro no centro com as crianças sobre os joelhos; D. Maria á direita d'elle, +e junto d'esta João de Lencastre; e D. Rosa á esquerda, e junto d'ella +Arthur. Umas pombas domesticas, saltavam do chão ao collo das criancinhas a +depenicarem-lhes os dôces que tinham nas mãos.</p> + +<p>As alegres expansões d'esta feliz familia, foram interrompidas pela +presença de um escudeiro, que a apresentava, n'uma salva, a D. Maria uma +carta tarjada de preto.</p> + +<p>Todos se olharam receiosos e contristados, sem que nenhum d'elles se +resolvesse a lançar mão da agoureira carta. Tomou-a o padre Alvaro, e pediu +licença a D. Maria para abril-a, e lêr o seu conteúdo em voz alta, o que +todos estimaram de ouvir, porque assim eram poupados ao desgosto da primeira +impressão. A carta era do punho de D. Anna, e resava assim:</p> + +<p> </p> + +<p class="direita">«<em>Minha boa Maria e presada irmã</em>:</p> + +<p>«Estou viuva!... Nem os carinhos da minha profunda e constante adoração; +nem a linguagem caridosa das tuas cartas, em que chegaste a pedir indulto +para culpas que não eram tuas; nem os esforços, em fim, dos homens da +sciencia medica, poderam roubar á morte o meu desditoso Leopoldo!... Mataram +n'o <span class="pagenum">[276]</span> os remorsos de não ter conhecido e compensado a tempo o meu +immenso affecto!... Vê, por isto, quanto eu soffro, Maria!... Ha cerca de +seis annos que todos os meus cuidados se resumiam na conservação da vida do +unico homem que amei!... Perdi-o!... perdi-o para sempre, minha querida +irmã!... E elle era bom, Maria!... Os arrebatamentos do seu genio terminavam +por um terrivel soffrimento, com o qual sobejamente se castigava do mal +causado aos outros!... Era tão bom, que o mataram uns mal entendidos +remorsos!... E eu vivo ainda, minha irmã!...</p> + +<p>«D'aqui a poucas horas, fechar-se-hão sobre mim as portas de um austero +convento,<sup class="footnote"><a href="#fn19" name="lfn19">19</a></sup> onde possa chorar e orar por meu +marido, e onde quero repousar eternamente, quando Deus fôr servido livrar-me +do fardo da vida...</p> + +<p>«Teu marido que venha tomar conta d'esta casa, que tudo lhe pertence por +minha disposição, como eu tambem a herdei pela de Leopoldo.</p> + +<p>«Abraça a Rosa por mim; lembra-me a todos; sede felizes, e diligenciae +evitar a vossos filhos, que de toda a alma abençôo, o remorso de qualquer +falta, porque o remorso mata!... </p> + +<p>«Adeus!</p> + +<p class="direita">Tua infeliz irmã,</p> + +<p class="direita"><em>Anna</em>.»</p> + +<p><span class="pagenum">[277]</span></p> + +<p>Finda a leitura, que o padre fez commovidissimo, assomou a uma das +varandas do palacio o respeitavel vulto de D. Isabel de Abendanho, trazendo +atraz de si meia duzia de pessoas das mais necessitadas da freguezia, todas +uniformemente vestidas de novo, e, rindo com a tranquillidade de uma santa, +disse para a familia:</p> + +<p>--Não esperavam, que a <em>velha</em> fosse capaz de preparar-lhes uma +surpreza, no dia da festa da minha neta?... Pois saberão, meus +<em>crianças</em>, que tive segundo jantar na companhia d'estes bons filhos +adoptivos, que aqui lhes apresento todos pimpões, com os fatos novos de que a +minha netinha lhes fez presente... Perdão, senhor reitor... O nome de +<em>criança</em> foi uma brincadeira minha, que nunca podia entender-se com o +respeitavel senhor padre Alvaro...</p> + +<p>O pae de Arthur, havia-se repentinamente tornado cadaverico! Apertara nas +suas as mãos dos pequeninos que tinha no collo, inclinara a cabeça sobre +<span class="pagenum">[278]</span> o encôsto do assento, erguera os olhos ao céu, e balbuciara estas +palavras:</p> + +<p>--<em>O remorso mata</em>... mas Deus perdôa aos que morrem penitentes... +Arthur... meus filhos... até logo!......</p> + +<p>N'aquelle momento sombrio, uma das pombas saltou á cabeça do moribundo, o +que lhe fez entreabrir o seu ultimo sorriso.</p> + +<p>Um despedaçador grito de Arthur, fizera prostrar todos de joelhos.</p> + +<p>Chegava alli, da proxima campina, a melancolica toada d'este cantar: </p> + +<div class="poesia"> +«Vou chorar e cortar fêno,<br> +quem trabalha tambem sente:<br> +as paixões trazem veneno<br> +encoberto na semente.<br> +<br> +O nosso reitor, um santo,<br> +reza sempre, e tambem chora!<br> +N'um sepulchro verte o pranto<br> +sempre, sempre á mesma hora!...<br> +<br> +Ninguem foge ao sentimento,<br> +ninguem foge ao seu destino...<br> +Quem d'amor soffre o tormento,<br> +no Céu tem Amor Divino.»<br> +</div> + +<div class="rodape"> +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn19" name="fn19">19</a></sup> É motivo de odios para os liberalões de +má casta, o sustentar hoje a conveniencia da vida claustral!</p> + +<p>Por verdadeiro affecto á liberdade, por sabermos seguir e presar o +progresso do bem, é que entendemos absurda e tyrannica a extincção dos +conventos. O claustro, em casos analogos ao d'aquella heroina do nosso +«conto», era um refugio celeste: como suppril-o? Que liberdade é essa que +tolhe as mais innocentes acções da criatura? Existiam abusos? E onde +deixariam elles de existir, sem a vigilancia e o castigo dos poderes +constituidos? Porque no parlamento se discutem questões impertinentes, porque +no sanctuario das leis havemos presenceado scenas vergonhosas, já alguem se +lembrou de extinguir a camara popular?</p> + +<p>Consola-nos vêr sustentar a nossa opinião abalisados e insuspeitos +escriptores liberaes de toda a Europa.</p> + +<p>Dizemos desassombradamente o que sentimos: não sabemos comprehender o +<em>celibato forçado</em> e somos desaffectos á <em>extincção das ordens +religiosas</em> e a todas as medidas violentas oppostas á bem entendida +Liberdade. </p> +</div> + +<h4>FIM DA TERCEIRA PARTE E ULTIMA</h4> + +<p><span class="pagenum">[279]</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Ao snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho, devo a delicada offerta da +gravura em chapa, que serviu para a tiragem do meu retrato.</p> + +<p>Orgulha-me a fineza de um artista, que no <em>Reglamento de exposiciones +nacionales de bellas artes</em>, publicado em Madrid no anno de 1871, foi +assim classificado: «Molarinho (D. José Arnaldo Nogueira), natural de +Guimarães, discipulo del snr. T. M. de Almeida Furtado, caballero de la Orden +de Cristo, medallas de plata en las Exposiciones Nacionales de 1857, 1862 y +1863.» Que no mesmo anno de 1871, na exposição de concurso das bellas artes +em Madrid, obteve o segundo premio; que tem recebido do estrangeiro +inequivocas demonstrações do grande apreço em que por lá é tido o seu +talento, e que mais util ainda teria sido á patria, se os poderes publicos +d'este nosso Portugal não tivessem o infeliz séstro de ignorarem a morada do +verdadeiro merito.</p> + +<p>Para o nosso primeiro gravador de medalhas, ainda não houve um +<em>cantinho</em> na casa da moeda! Se elle não é influente eleitoral!...</p> + +<p>De sorte que o artista distincto, e pobre, n'este paiz, tem que empregar o +seu genio em obrinhas que lhe dêem o pão de todos os dias!</p> + +<p><span class="pagenum">[280]</span>Queriam que o snr. Molarinho concorresse á exposição de Vienna +d'Austria?<sup class="footnote"><a href="#fn20" name="lfn20">20</a></sup></p> + +<p>Os seis mezes que s. s.<sup>a</sup> havia de gastar n'uma obra que lhe +daria nome europeu, e gloria a Portugal, foram passados a gravar +<em>colleiras para adorno dos sabujos de pessoas indinheiradas, que para tal +fim procuram o notavel artista</em>, como algures escreveu um nosso +espirituoso narrador.</p> + +<p>Perdão... Não façamos injustiças. Nem todos os ministerios se esqueceram +do snr. Molarinho: houve um que o emparelhou com qualquer regedor de +parochia... O snr. Molarinho é cavalleiro do habito de Christo: não morre de +fome.</p> + +<p>Porto, 27 de agosto de 1873.</p> + +<p class="direita"><em>Miguel J. T. Mascarenhas</em>. </p> + +<div class="rodape"> +<p><sup class="footnote"><a href="#lfn20" name="fn20">20</a></sup> O snr. Molarinho, foi oficialmente +convidado de Vienna d'Austria para entrar no concurso das medalhas para os +premios da exposição: não lhe foi possivel acceder. Os trabalhos seus, que lá +mandou, foram premiados.</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Um conto portuguez: episodio da guerra +civil: a Maria da Fonte, by Miguel J. T. Mascarenhas + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UM CONTO PORTUGUEZ *** + +***** This file should be named 25313-h.htm or 25313-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/5/3/1/25313/ + +Produced by Manuela Alves e Pedro Saborano. (produced from +scanned images of public domain material from Google Book +Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. 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