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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Memoria sobre a cultura, e productos da cana de assucar + +Author: José Caetano Gomes + +Contributor: José Mariano da Conceição Veloso + +Release Date: April 23, 2008 [EBook #25148] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIA SOBRE A CULTURA *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos + existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à + versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com + o original. No final deste livro encontrará a lista de erros + corrigidos. + + Rita Farinha (Abr. 2008) + + + + + +MEMORIA +SOBRE A CULTURA, E PRODUCTOS +DA +CANA DE ASSUCAR + +_OFFERECIDA_ +A S. ALTEZA REAL. + +O PRINCIPE REGENTE +NOSSO SENHOR. +PELA +MESA DA INSPECÇAÕ DO RIO DE JANEIRO. +APRESENTADA POR +JOZE CAETANO GOMES, +E DE ORDEM DO MESMO SENHOR +_PUBLICADA_ +POR +Fr. JOZE MARIANO VELLOSO. + + + +LISBOA: +Na Offic. da casa litteraria do arco do cego. + +Anno M. D CCC. + + + + +SENHOR. + + +_A Mesa da Inspecção do Rio de Janeiro, desejando conformar-se com os +ardentes desejos, que V. A. R. tem de fazer felices os Habitadores do +Brasil, por huma bem entendida Agricultura, e desta sorte satisfazer +tambem as suas Reaes Ordens, recomendou a Jose Caetano Gomes, que lhe +apresentasse as reflexões, que os seus vastos conhecimentos lhe tivessem +subministrado, sobre a factura do Assucar nos Engenhos do Rio de +Janeiro, a que elle satisfez no dia 16 de Março do anno proxime passado +de 1799., lendo perante ella a presente Memoria, que, sendo dirigida a +V. A. R., se dignou ordenar-me, que houvesse de a fazer imprimir, em +beneficio de seus fieis vasallos dos vastos dominios, naquelle +Continente._ + +_Como pois André João Antonil no seu livro da Cultura, e opulencia do +Brasil, não faz mais, que dar huma simples relação do modo de cultivar a +Canna, extrahir Assucar no Brasil, creio, SENHOR, ou talvez posso +assegurar, que, sobre este objecto, esta he a primeira cousa, ou a unica +melhor escripta em nossa linguagem pelas sabias, e luminosas reflexões, +com que a enriquece, e que seu Author he digno das Soberanas vistas de +V. A. R., a cujos pés se prostra_ + + + _O mais humilde vassallo_ + + _Fr. Jose Mariano da Conceição._ + + + + +PROEMIO. + + +Sendo a Provincia do Brasil considerada como melhor Colonia do Mundo, +não se sentindo em toda ella nenhum dos flagellos da natureza, pois não +há terremotos, furacões, volcões, fomes, nem pestes; gozando de hum +clima benigno, e, á excepção de poucas trovoadas, que servem de depurar +o seu ár, e concorrendo todas as causas fysicas, com huma vegetação +sempre activa, para fazerem a felicidade dos seus habitantes, não se +poderia comprehender, o não ter chegado este bello paiz ao maior gráo de +prosperidade possivel, se se não soubesse, que as causas moraes, podem +tanto, ou mais que as fysicas, para deteriorar o melhor terreno. + +A Agricultura, a primeira, a mais util das Artes, que nutre a todas, e +faz a base da prosperidade, e força dos Estados, não sahio ainda da +infancia no Brasil; todas as plantas são cultivadas por costume, e sem +principios; as luzes da Europa culta chegão cá tão fracas, que não podem +aclarar-nos; as couzas mais triviaes, de que podíamos ter abundancia, +não se sabem trabalhar. A Canna de Assucar sendo o vegetal mais +precioso, comparado o seu producto, com o que tirão os Estrangeiros das +Antilhas, he menos de ametade. Entregue a sua cultura á escravos +conduzidos por hum feitor, sem mais talentos que, os que lhe suggere a +sua ferocidade; a manufactura do Assucar, e da aguardente, executada por +ignorantes, que não sabem a razão dos factos, nem conhecem a natureza +das differentes partes, que constituem os liquidos, sobre que trabalhão; +os donos das fábricas olhando com indifferença para todos estes +objectos, julgando-os indignos da sua applicação; não he de admirar, que +desta sorte haja o atrazamento, que se vê na cultura, e producto da Cana +de Assucar. + +Conheço alguns Senhores de engenho, que se distinguem pela sua +instrucção; para estes não he que escrevo; a minha obra he dirigida +sómente, aos que sabem ainda menos do que eu, e que estão inteiramente +entregues á disposição dos seus obreiros. A cultura actual, respeito á +que se propõem, faz huma grande differença. Quem está costumado a +plantar Cana na distancia de hum, a dois palmos, e que assim se dá bem, +difficilmente poderá conceber, que, plantando na de seis, lucrará mais. +Ainda que a razão, e a experiencia fação conhecer, que as plantas devem +ser afastadas humas das outras, segundo a sua grandeza, e a quantidade +de succos, de que carecem, não pertendo que se adopte o novo methodo, +sem que cada hum se convença por si mesmo da sua efficacia. Plante-se +hum quadrado de doze braças, que deve conter quatrocentas covas de Cana, +segundo o methodo que se propoem; plante-se outro quadrado igual, na +mesma qualidade de terra, segundo o methodo que se pratica; faça-se +assento da despeza de huma, e outra cultura separadamente; apure-se o +producto destas duas especies de plantação; deduzão-se-lhe as +respectivas despezas e a resulta que se achar he o que se deve seguir. +As experiencias em pequeno não arruinão a alguem, e podem ser seguidas +de grandes utilidades. O que digo sobre a cultura da Cana, e lembro a +respeito ás suas dependencias, manufactura do Assucar, e aguardente; he +o que me parece melhor; porém cada hum deve ver por si mesmo, e fazer +tudo o que a experiencia lhe mostrar mais util. + + + + +DESCRIPÇAÕ DA CANNA DE ASSUCAR, + +SEGUNDO A VISTA QUE APPRESENTA. + + +A canna de Assucar, tem a apparencia das outras cannas destituidas de +medulla; he huma planta da familia das gramineas; como ellas, he cheia +de articulações, ou nós, que distão huns dos outros, de meia até quatro +pollegadas, segundo a bondade do terreno, produzindo huma folha em cada +articulação, ou nó, cercada de pequenas raizes, onde há hum botão, ou +olho, destinado a ser canna, se se deposita na terra. Estes espaços +entre cada articulação, a que se chama gomos, são cheios de huma medulla +esponjosa, elastica, succosa, doce, cuberta de huma casca pouco dura, +lenhosa, que se deixa penetrar pela unha; destinada a se extrahir della +hum sal essencial, que se chama Assucar. O seu comprimento, ou altura, +he de seis, a doze palmos, segundo o terreno, na Cappitania do Rio de +Janeiro, e de oito, a doze linhas de diametro. Succede adquirir algumas +braças de comprido, se cahe, e as raizes, que circundão os nós, +introduzindo-se na terra, fazem collos; porém só o que sobe ao ár depois +da ultima raiz, he que tem doçura, tudo o mais he perdido. A Natureza +tem destinado dezoito mezes a esta planta para chegar á sua perfeição; +se he colhida antes, ou depois deste termo, o rendimento he menor em +proporção que delle se afastão; porém com maior prejuizo depois, que +antes da madureza. Isto he relativo á Estação; grandes sêccas, ou +grandes chuvas, accelerão, ou retardão esta colheita. + +Ainda que, como outra qualquer planta, a Canna de Assucar floreça, e dê +semente, a fórma de se multiplicar, he lançar na terra pequenas estacas +tiradas da parte superior da Canna, onde não tem doçura; porém isto só +póde fazer-se, quando a plantação he ao mesmo tempo, que a colheita, +fóra disto toda a Cana desde a raiz he empregada em estacas. + + +_Como se cultiva actualmente a Canna de Assucar._ + +Cada plantador de Canna, segundo as suas faculdades, vai com dez, vinte, +quarenta, ou mais escravos com enxadas, limpar de todas as hervas huma +certa porção de terra, onde quer fazer aquillo a que se chama partido. + +As plantas, ervas, ou capins arrancados, ou cortados com a enxada, são +sacudidos da terra pelos mesmos escravos, que trabalhão enfileirados, +juntos em pequenos monticulos, para no caso de sobrevir chuva, não +pegarem as raizes na terra. Depois da terra capinada, ou limpa de +plantas, vão os escravos abrir covas com a mesma enxada; cujas covas são +huma especie de regos, de duas, a tres pollegadas de profundidade, na +distancia huns dos outros, de hum palmo, a palmo e meio; e se suppõem a +terra muito boa, chegão a dois palmos. São lançadas nestes regos duas +estacas de Canna, de palmo e meio de comprido, e se cobrem com a mesma +terra, que se tirou da cova. Faz-se esta plantação em dois tempos; hum +quando se moe para aproveitar os olhos da Canna, que he a parte superior +della, de Junho até Setembro; o outro em Março, que se tem pela melhor +plantação, a qual se faz então com as estacas tiradas de toda a Canna, +que se não moeo, com o fim mesmo de se plantar neste tempo. He de +costume a qualquer das duas plantações dar duas capinas, ou limpas. A +Canna plantada de Junho a Setembro, he moida no anno seguinte com doze a +quatorze mezes; a plantada em Março, de dezoito a vinte mezes; huma, e +outra se deixa ficar por não se poder moer, para Canna velha; planta-se, +ou moe-se na safra subsequente. Da Canna, que se cortou, colhe-se a +sócca no anno seguinte, e dahi todos os annos as ressócas, em quanto no +terreno brotão Cannas. Ainda que se conheça, que estas ressócas rendem +progressivamente ametade, as ultimas em respeito ás antecedentes, todos +as aproveitão quanto podem. Alguns lavradores, rarissimos, se tem +servido do arado para fazer os regos, e de algum estrume nas terras já +cançadas, porém o numero he tão diminuto, que não merece entrar em linha +de conta; o geral he limpar a terra a braço, ajuntar o capim, fazer +covas com a enxada sem alinhamento, plantar sem estercar, fazer toda a +plantação em hum, ou dois partidos, fugindo de terras virgens, porque, +assim como as muito estercadas, ou estrumadas, fazem a Canna, a que se +chama taioba, quero dizer, muito aquosa, muito oleosa, e pouco +assucarada. + + +_Notas sobre esta fórma de plantação._ + +Sendo a Canna de Assucar huma planta, destinada pela Natureza a alcançar +doze, dezaseis, vinte, e mais palmos de altura, segundo o terreno, e até +pollegada e meia de diametro, não he possivel que possa prosperar +plantando-se tão junta; porque rouba huma a substancia da outra. Tambem +as covas, ou regos, em que se planta, não tem bastante profundidade; +duas, ou tres pollegadas não bastão para a suster. + +Plantando-se sem alinhamento, em confusão, nunca o sol, e o vento podem +aperfeiçoar o seu succo. Fazendo-se a plantação em hum, ou dois +partidos, póde pegar o fogo em ambos, o que succede algumas vezes, e +fica seu dono empobrecido. A experiencia tem feito conhecer, que todos +os fructos doces carecem do Sol, e ár para alcançar a sua perfeição, e +que o mesmo sol bata a nu sobre a terra, que cobre as suas raizes; não +se reunindo estas circumstancias, os fructos se deteriorão á proporção. +Em Portugal as uvas, a que chamão de forcado, são sempre imperfeitas, +porque as arvores, que as cobrem, lhes roubão a luz. As larangeiras no +Brasil, cubertas de erva de passarinho, dão, pela mesma causa, laranjas +pouco doces. + +Ainda que estas larangeiras estejão limpas da mesma herva, ainda que +estejão n'hum campo solitarias; se a terra, por onde estão permeadas as +suas raizes, está cuberta de herva, ou capim, que impeça a luz de bater +sobre ella, os fructos são sempre azedos. + +Nenhum author, que trate da Canna de Assucar, manda plantalla em menos +distancia, que a de tres pés, e alguns querem seis, e sete, que são +nove, e dez palmos e meio de cova a cova: isto ha de parecer hum +paradoxo aos nossos lavradores, que até tem hum ditado: quero canna mil, +e não gentil. Porém da perfeição, com que nas Colonias estrangeiras se +faz esta cultura, a mais preciosa d'America, he que tem procedido o gráo +de prosperidade, a que se tem elevado, e de que somos privados, por +seguirmos sómente hum trilho cégo, e sem reflexão. + + +_Theoria para a cultura da Canna de Assucar._ + +O Que vou dizer he hum extracto do que tenho visto sobre esta materia. +Os principios para a cultura da terra, segundo os Antigos, que suppunhão +as raizes das plantas, como os unicos orgãos para receber a sua +nutrição, consistião em lavrar a terra com diversos instrumentos para a +pôr bem movel, estrumalla, e depois de hum certo numero de colheitas, +dar-lhe descanço, quero dizer, conservalla limpa sem nutrir planta +alguma. Os estercos, e estrumes de que se servião, era toda a especie de +excrementos de animaes, e vegetaes podres. Os modernos adoptando os +mesmos principios, instão por mais lavras; dão o descanço nos grandes +intervallos, que deixão entre planta e planta; estes intervallos são +lavrados durante a vegetação; além dos estrumes de que se servião os +Antigos, accrescentárão o dos marnes, ou terras saponaceas, e o dos +rebanhos nas terras que se propõem cultivar; e alguns Authores não +querem esterco, que substituem com lavras, e mais lavras, origem da +immensidade de instrumentos, que se tem inventado a este fim. Estes +principios são certos em parte, e em parte diametralmente oppostos ao +fim que se busca. A quem ignorar os descobrimentos mais modernos, ha de +parecer paradoxo o dizer-se, que a terra natural não concorre para a +vegetação das plantas; que estas não tirão della alimento algum, e que +só serve de alicerce para suster a sua corporeïdade. Há terra +vitrescivel, terra calcarea, terra argillosa, ou barro, marne, e humus. + +A terra vitrescivel absolutamente esteril, he aquella de que foi +composto, e faz a solidez do nosso Planeta. A terra calcarea he o +residuo da decomposição dos corpos animaes. A terra argillosa he o +residuo da decomposição dos vegetaes. + +O marne, ou terra saponacea, he a combinação destas duas especies de +terra, variado a infinito com a arêa, ou terra vitrescivel, segundo as +proporções da sua mistura. O humus, materia tão preciosa para a +vegetação, he a combinação da decomposição dos corpos organisados, +vegetaes, e animaes de recente data, que tem a propriedade de +dissolver-se n'agua, pelo oleo animal, e sal do vegetal, e com este +liquido formar hum sabão, que se transforma em seiba, que he o sangue da +planta. + +A argilla, ou barro de todas as especies, e as terras calcareas, são +humus envelhecido, a quem a decomposição dos animaes phlogisticou, e com +o seu gluten, fez tão tenazes as suas partes, que são impermeaveis ás +raizes das plantas; porém combinadas com a arêa, ou terra vitrescivel, +ficão terras proprias á vegetação. As plantas são viventes, que tem a +faculdade de se reproduzir pela semente, pelo tronco, e pela raiz. A +experiencia de Boyle, milhares de vezes repetida, e sempre confirmada, +prova com evidencia, que tirão a maior parte da sua nutrição do ár; +ellas tem vasos absorventes para receberem o alimento, e vasos +exhalantes para se alliviarem do superfluo; ainda que estes orgãos se +não percebão á simples vista, a existencia delles he huma verdade. Assim +como os animaes dão pasto a differentes especies de insectos, tambem os +vegetaes sustentão huma innumeridade delles; cada hum tem os seus. Huma +folha que cahe de qualquer planta, causa a morte a milhares de entes +invisiveis. O fogo, o ár, a agua, o humus, e a terra concorrem para a +vegetação. O fogo he o motor, o ár o agente, a agua o vehiculo, o humus +o que faz a seiba. + +O fogo como calor, e como luz, faz subir os fluidos nas plantas desde a +raiz; a frescura da noite os faz descer, fazendo assim huma especie de +circulação, e desta sorte capazes de receber pelos vasos absorventes das +suas folhas, do seu tronco, da sua raiz, as partes que os meteoros +atmosphericos lhe communicão. A agua muito composta, como elemento, faz +com o gáz, ou ár fixo, a parte mais consideravel da planta. O ár como +atmospherico, e o receptaculo onde se combinão todas as emanações da +natureza, serve de todas as sortes á planta; e o humus faz as partes +fixas della. A terra he a matriz da semente, ou planta, que serve de +cadêa, ou alicerce para esta se desenvolver, e suster; e a fertilidade +que se lhe suppõem, he devida sómente ás partes do humus, que em si +contém, boa, ou má, segundo a maior, ou menor quantidade, que encerra +desta preciosa materia, segundo a planta; que deve nutrir; deve ser +trabalhada, dividida, ter toda a facilidade para receber as aguas das +chuvas, dos orvalhos, dos outros meteoros aquosos, todos os principios +fecundantes espalhados na atmosphera, e deixar-se penetrar das raizes, +que se vão estendendo á proporção que a planta cresce. A abundancia do +humus nos terrenos cubertos de mato virgem, quando este mato se derruba, +e se põem a terra em cultura, faz prosperar extraordinariamente os +vegetaes nella cultivados. Este humus, convertendo-se nas partes solidas +das plantas, vai diminuindo a pouco, e pouco; e passados annos fica a +terra exhaurida desta preciosa materia, e por consequencia esteril. A +experiencia fez conhecer em todos os tempos, que os estrumes, e materias +estercoraes reparavão de alguma sorte esta falta, e se usou delles com +bom successo; porém que não bastando, era preciso dar descanço a esta +terra, descobrindo-a de todas as plantas, lavrando-a muitas vezes, +esperando que a atmosphera a fecundasse. Isto he hum grande erro, porque +o calor do Sol batendo a nu sobre esta terra, a faz arida, e vindo +depois huma chuva, a pequena porção do humus, que em si contém, he +levado a outra parte, e por consequencia fica ainda mais empobrecido o +mesmo terreno, que com este methodo se quer enriquecer. He evidentemente +demonstrado, que para a terra não cançar, adquirir, e conservar o seu +humus, e fertilidade, he preciso que esteja sempre cuberta de plantas. +Devem cultivar-se aquellas de que se pertende utilidade; quando estas se +colherem, lançar a semente de outras de prompto crescimento, que tenhão +grandes, e brandas raizes, que cubrão bem a terra, taes como nabos, +rabãos, cenouras, batatas, aboboras, etc. e antes de chegarem ao seu +total crescimento, serem lavradas, enterradas; e quando tiverem +apodrecido, ou estiverem reduzidas a humus, plantarem-se, ou semearem-se +aquellas, de que se pertende redito. + +Trabalhando-se continuada, e alternativamente desta sorte, podem +evitar-se todos os estrumes, e estercos; estes são inventados pelos +homens, e o humus he o da natureza. As vargens que estão cercadas de +serras, collinas, montes, se estas eminencias se conservão coroadas de +matto, são sempre ferteis, porque o humus, que estes mattos estão +continuadamente depositando na terra, dissolvido pelas chuvas, vai +enriquecer as vargens. As fraldas destas eminencias podem ser cultivadas +para pequenos vegetaes, se o angulo, que fizerem, não passar de +quarenta, e cinco gráos porque então só grandes arvores lhes convém. + +Os proprietarios destas eminencias, que as descoroão de mattos, +empobrecem o Estado a perpetuidade; a coroa sendo descuberta, apresenta +huma superficie nua aos raios do Sol, e passados poucos tempos ficão +reduzidas a escalvados; porém a perda que não se repara mais, he a das +chuvas, que os grandes vegetaes tem a propriedade de chamar. + +O humus não basta só para conduzir as plantas á sua perfeição; ellas +carecem ainda da luz, 3, do ár renovado, 4, de ter a superficie da terra +até onde podem extender-se as suas raizes, despida de plantas; esta +mesma terra revolvida, bem dividida, e haver entre planta, e planta huma +certa distancia, proporcionada aos succos, de que carecem, segundo a sua +natureza; haver huma escolha escrupulosa na semente, ou planta, e +conhecer qual he o tempo proprio para se lançar na terra, etc. etc. + + +_Como se deve cultivar a Cana de Assucar._ + +A Experiencia tem feito conhecer, que o melhor tempo de plantar a Canna +na Capitania do Rio de Janeiro, he de Dezembro a Março, para ser moida +de Junho a Septembro do anno subsequente, com dezoito mezes de idade. +Como nestes mezes não há olhos de Canna, usa-se cortar da Canna, que se +deixou para velha, pequenas estacas; porém esta Canna velha, que está +deteriorada por ter passado do ponto da sua madureza, tem sim bastante +doçura, porém os botões, ou olhos dos seus nós, ou articulações, que he +o que deve ser Canna, huns estão já murchos, outros podres, e por +consequencia perdidos; e só a parte superior da Canna, que sempre +conserva verdura, pouca doçura, e mesmo acidez, he o que nasce +facilmente. + +Ainda que os botões estejão em bom estado, devem desprezar-se as Cannas +velhas, porque em quanto tem doçura, não nascem, e he preciso hum mez, e +mais tempo para a perderem. Para se fazer huma plantação perfeita, he +preciso fazer a planta. No principio da moagem, devem plantar-se os +olhos, ou parte superior da Canna, n'huma terra de muita substancia, +lodosa mesmo, em terreno virgem, que tenha bem humus, ou seja bem +estercado, para a Canna, que nascer, ser bem ataiobada, ou selvagem. +Desta Canna sem doçura, e bravia, he que se tirão as estacas para fazer +a plantação; cujas estacas devem ter o comprimento, que alcancem quatro +nós, que segundo a distancia de nó a nó, serão mais compridas, ou mais +curtas. Esta Canna plantada n'hum terreno tão pouco proprio para se lhe +extrahir o Assucar, não he perdida; além da utilidade da boa planta, no +fim de dois, ou tres cortes, póde servir para Assucar; porém deve haver +o cuidado de renovar a Canna para a planta. A Canna de Assucar cresce em +todas as especies de terra; porém as que são gordas, fortes, baixas, +lodosas, novamente roteadas, quero dizer, donde se derrubou matto +virgem, a pezar do comprimento, ou altura, que alcanção, tem o succo +aquoso, oleoso, pouco assucarado, difficil de cozer, de purificar, sem +rendimento. Hum terreno ligeiro, poroso, profundo, inclinado até quinze +gráos, he aquelle que a natureza tem destinado a este rico vegetal. +Deve-se dividir o terreno destinado para a Canna em tres partes, e cada +huma destas partes, subdividir-se em pequenos quadrados de doze braças +cada hum; qualquer que seja a exposição do terreno, sempre estes +pequenos quadrados hão de ser alinhados de Norte a Sul, de Leste a +Oeste. _Veja-se a Estampa I._ Cultivão-se estes pequenos quadrados, +deixando os lados de cada hum delles para todas as partes, livres da +planta da Canna; porém podem occupar-se em mandioca, carás, batatas, +feijão, milho, aboboras, ervilhas, etc. Cada hum dos quadrados, se tiver +doze braças de frente, e doze de fundo, deve conter quatrocentas covas, +na distancia humas das outras de seis palmos. Para se fazerem estas +còvas, não he preciso que todo o quadrado esteja descuberto de capim, +basta que seja limpo pouco mais que o tamanho dellas, que devem ter dois +palmos de comprido, hum palmo de largo, e seis pollegadas de fundo. +Comparadas estas covas com as que se fazem actualmente, hão de parecer +muito grandes, e muitos fundas; e na realidade o não são, respeito ás +que fazem os Colonos das Antilhas, e o mesmo digo sobre a distancia +dellas; pois elles chegão a afastallas humas das outras, até dez palmos +e meio, e a dar-lhe dezoito pollegadas de comprido, doze de largo, e +oito de fundo. O milho para prosperar de serra acima, para os seus +cultores colherem duzentos por hum, he preciso fazerem as covas na +distancia de cinco a seis palmos, nas quaes lanção quatro, ou cinco +grãos; ora este vegetal não tem o corpo da Canna de Assucar, nem como +ella carece de tanta substancia, e alimento; a cova de milho he para +quatro, ou cinco pés, a da Cana para oito, ou dez, que tantas são as que +devem nascer, dos olhos, os botões das duas pequenas estacas, que se +deitão nas covas, e se devem conservar, cortando todas as que demais +nascerem, porque como ladrões lhe roubão a substancia. + +He certo que com a enxada, que se usa no Brasil, que he talvez a +primeira que se inventou, e onde não chegou ainda a enxada de Luca, +Franceza, ou Ingleza, he hum pouco difficil fazer esta especie de covas; +são precisas de vinte a trinta golpes, quando com qualquer das +mencionadas, bastão tres, ou quatro. A nossa enxada he fatigante, o +trabalhador anda curvado; e tendo o ferro de cinco a seis libras, elle +carrega com vinte, ou mais nas cadeiras; nesta especie de serviço o +homem baxo tem vantagem ao homem alto, a quem he preciso maior +curvatura, e por consequencia dobrado esforço. Na Republica de Luca, e +em algumas Provincias de França, não se usa de arado, nem de charrua, +porque a sua enxada equivale ao trabalho destes instrumentos, e fica a +terra mais bem trabalhada. + +No Brasil onde os mesmos instrumentos pouco uso podem ter, he de huma +grande vantagem o adoptarmos a enxada Luqueza, ou outra com pouca +differença, que he huma especie de pá, com dez pollegadas de altura, +nove de largura em cima, oito em baxo, com a grossura de meia pollegada, +a acabar em huma linha, bem temperada de aço, com hum alvado de seis +pollegadas, quatro a meio ferro, e duas sobresahindo, e com a vacuidade +de pollegada e meia de diametro, que vai diminuindo insensivelmente, com +dois furos no alvado, para com huma cavilha se fazer firme o cabo, que +deve ter oito palmos de comprido. _Veja-se a Estampa II. Fig. I. e II._ +O trabalhador com este instrumento tem o corpo direito, virado para o +Norte, os calcanhares afastados pouco mais de meio palmo; a enxada +afastada quasi hum palmo do pé esquerdo; a mão esquerda por todo o +comprimento do braço, pegando no cabo; e a mão direita pegando no mesmo +cabo, quasi no hombro direito _Fig. III._ A mão esquerda levanta a +enxada até onde póde hir, sem que o antebraço se desuna do corpo. _Fig. +IV._ A mão direita da altura, a que chegou, impelle a enxada com toda a +força, e a esquerda deixa escorregar o cabo, segundo a ferida que a +enxada fez na terra. Para se tirar esta terra, serve de apoio a mão +esquerda, e a direita carregando no cabo, levanta a pá, e ambas a guião +para lançar a terra a qualquer parte; porém deve ser regularmente para +Oeste, ou Leste. No segundo movimento, deve chegar-se o calcanhar do pé +esquerdo ao do direito, e este ladear para a direita tanto quanto a +enxada cava, e assim progressivamente. + +Designados os quadrados para a plantação da Canna, vão a cada hum vinte +trabalhadores; o seu feitor os deve pôr enfileirados olhando para Oeste, +na distancia de seis palmos huns dos outros; manda-os andar á direita +para ficarem virados para o Norte; manda-lhe passar o pé direito a +perfilar com o esquerdo, na distancia pouco mais que meio palmo; e desta +sorte principião o trabalho, abrindo as covas de Oeste para Leste, de +manhã até ao meio dia, servindo de guia a sombra do corpo; e do meio dia +para a noite virados para o Sul fazem o mesmo; ou tambem podem trocar as +mãos, porque se trabalha para o lado direito, assim como para o +esquerdo; devendo buscar-se de qualquer sorte o alinhamento perfeito das +covas de Norte a Sul, e de Leste a Oeste, o que he essencial para a +perfeição da cultura deste rico vegetal. + +Feitas as covas, devem lançar-se nellas duas estacas de Canna, que não +tenhão menos de quatro, nem mais de cinco botões, para quando nascerem, +fazerem huma soqueira de oito, ou dez Cannas. Cobrem-se estas estacas +com duas pollegadas de terra, e quando tem nascido a Canna, e alcançado +dois palmos pouco mais de altura, enchem-se as covas com o resto da +terra. Limpão-se as Cannas de todas as hervas que podem roubar-lhe a +substancia, á proporção que forem nascendo. Esta plantação deve fazer-se +de Janeiro até Março, e não antes, nem depois. Qualquer que seja a +qualidade da terra, não deve pretender-se mais, que dois cortes; o +primeiro dahi a dezoito mezes, o segundo a que se chama sóca, dahi a +quinze, ou dezaseis mezes. Depois deste segundo córte, deve occupar-se o +terreno em que esteve a Canna, com aboboras de todas as especies, que +tem a propriedade de cubrir bem a terra, para que as raizes da Canna +apodreção, e depois de convertidas em humus, ficar a terra apta para +receber nova Canna, que dahi a mais de hum anno se lhe póde confiar. De +Janeiro a Março do segundo anno, cultiva-se a segunda divisão, e no anno +seguinte a terceira. A quarta plantação faz-se nos mesmos quadrados da +primeira; a quinta, nos segundos, a sexta nos terceiros, a setima nos +primeiros da primeira, a oitava nos da segunda, a nona nos da terceira, +e assim alternativamente; de sorte que a Canna de cada quadrado tenha +intervallo bastante, que a livre de plantas, que lhe roubem a luz. Esta +fórma de plantação póde variar-se a infinito, segundo a quantidade de +terreno, e intelligencia do cultor. + +Em lugar de quadrados perfeitos, podem ser quadrados longos etc., com +tanto que se busque sempre o dar á Canna, a maior quantidade de ár, e +luz possivel; porque a experiencia faz ver com evidencia, que só a dos +aceiros, que recebe continuadamente a influencia destes dois agentes, he +que alcança perfeição no seu succo; a que está para dentro, fica sempre +esverdeada, o seu succo mal digerido, difficil de cozer, e de purificar; +por consequencia o fim do lavrador deve ser quanto lhe for possivel, +fazer todo o Canaveal em aceiro. + + +_Vantagens desta fórma de plantação._ + +Se há fogos por accidente, he moralmente impossivel, que passem de huns +a outros partidos, tendo tão grande separação entre si. Nunca os carros, +nem animaes pizão o Cannaveal, quando se conduz a Canna á fábrica. Há +facilidade para se verem as Cannas de todos os pequenos partidos, para +se cortarem os filhos que brotão, que como ladrões lhe roubão a +substancia. + +Quasi todo o Cannaveal está em aceiro, quero dizer, está apto para +receber a influencia, e nutrição, que lhe communica a atmosphera. A +renovação, e correnteza do ár impede a geração, e propagação de +insectos, taes como baratas, e outros, que a sua corrupção tem a +propriedade de chamar. Pelo alinhamento de Norte a Sul, de Leste a +Oeste, recebem as Cannas os raios da luz, que o Sol póde +communicar-lhes, e que lhes são tão precisos para a depuração do seu +succo. + +Facilita o tarefar o trabalho, etc. etc. + + +_Córte das Cannas._ + +A Canna de Assucar gasta dezoito mezes a chegar ao seu ponto de +perfeição, porém se há seccas, anticipa-se; o gosto, e a vista he que +decidem a colheita; quando está bem doce, e tem a côr amarellada, he +tempo de cortar. He sabido de todos, que principia a ser doce do pé, e +que esta doçura vai diminuindo gradualmente para a parte superior, e que +junto á bandeira, ou olho, não só não tem doçura, porém mesmo tem +acidez, e he por consequencia hum erro, o aproveitalla até ás folhas. +Deve sim cortar-se bem rente á terra sem ferir as raizes, porém o palmo +junto ás folhas, deve-se desprezar. Segundo a sua grandeza, se ha de +cortar em huma, duas, e talvez tres partes, servindo de ballisa, o não +ter mais de cinco, ou seis palmos, para se appresentar á moenda. Usa-se, +quando se corta, fazer feixes de seis, ou oito Cannas, segundo a sua +grossura, cujos feixes são amarrados com os olhos das Cannas que se +cortárão. Esta especie de atilhos he tirada dos feixes de Canna, quando +se appresentão á moenda, porém escapão muitos, que se espremem com a +Canna; ora, tendo elles acidez, vão deteriorar o sumo, de que se ha de +fazer Assucar, gastar mais decoada, e lenha, além do tempo, e serviço +que se perde; porque no acto de cortar a Canna, são precisas quasi +tantas pessoas para amarrar, como para cortar; e para a conducção tanto +importa estar em feixes, como solta, e o mesmo para se meter na moenda, +onde o trabalhador póde regular o pegar em seis, ou oito, doze, ou +dezaseis, para as appresentar. Deve haver cuidado de não se cortar mais +Canna, que a que póde moer-se em vinte e quatro horas, principalmente se +o calor he intenso, porque o sumo fermenta na mesma Canna, o que arruina +a sua qualidade. + + +_Construcção dos engenhos actuaes._ + +Todos os engenhos de fazer Assucar na Capitania do Rio de Janeiro, +qualquer que seja a potencia, agua, bestas, ou bois, tem a mesma +construcção, á excepção de tres modernamente feitos, que reunem algumas +vantagens, todos os mais he hum grande pião, que faz fazer huma casa de +sessenta palmos livres, acabando em varandas á roda, algumas +subdivididas; cujas varandas são maiores, ou menores, segundo o destino, +que se lhes dá, de picadeiro, casa de caldeiras, casa de purgar, casa de +encaixe, casa de aguardente, fornalhas, e varandas de carros; com +algumas trapeiras para dar sahida ao fumo, e luz. No centro desta grande +casa de sessenta palmos, se o engenho he moido por animaes, está a meza +com as moendas; na moenda do meio, vulgarmente chamada a moenda grande, +que pela sua dentadura faz moer as dos lados, há quatro aspas, ou +almanjarras, a cada huma das quaes puxão dois animaes, formando hum +circulo á roda da meza, de cincoenta e seis palmos de diametro, vindo a +ter as almanjarras por onde puxão os oito animaes, vinte e oito palmos +de comprido; os dois palmos que faltão para os trinta, ou quatro para +sessenta da capacidade da casa, he folga para os animaes, que não devem +roçar pelas paredes. + +Se o engenho he de agua, na moenda do meio há huma grande roda, de +trinta e seis a quarenta palmos de diametro, a qual está n'hum eixo +horisontal, e nelle huma roda vertical, de trinta a trinta e seis +palmos, que nos cubos da sua circumferencia recebe a agua, que he a +potencia. Há hum engenho de agua com rodizio, ou roda horisontal, que +reunindo a vantagem de tocar dois ternos de moendas, e ser obra tão +perfeita neste genero, não tem tido imitadores, por parecer á primeira +vista, ser a roda vertical de maior força que a horisontal, o que he +engano, como farei ver. + + +_Notas sobre esta fórma de construcção._ + +Para se fazer huma casa de sessenta palmos livres, são precisas vigas de +sessenta e quatro palmos de comprido, que ficão fracas, se não tiverem +dois palmos por cada face; he custoso achar estes madeiros, difficultosa +a sua conducção, perigoso o levallos acima do edificio, que fica +sobrecarregado com este desmarcado pêso, e por consequencia fraco. As +trapeiras, de que usão para dar sahida ao fumo, e entrada á luz, são +insufficientes, e há occasiões, em que quasi se he suffocado pela +fumaça, e sempre he precisa a candêa para se verem os objectos. Os +animaes no seu giro, circulando as moendas, estorvão a passagem, aos +conductores da Canna, que algumas vezes succede serem atropellados; os +picadeiros de sobrado, que se fizerão n'hum engenho, para evitar estes +accidentes, não tiverão imitadores; e o mesmo engenho os abolio por +incommodos. O sumo, que sahe das Cannas pela expressão das moendas, he +conduzido por huma calha ao parol, a que chamão de caldo frio; no +circulo, que fazem as bestas, atravessão esta calha, o que fórça pôlla +junto á terra, e o dormente dos moendas com pouca altura, e por +consequencia o não se poder moer Canna, como deve ser. Ainda que o +engenho seja de agua, como estas fábricas forão feitas por imitação de +humas a outras, o prospecto he o mesmo, e não tem os commodos, que se +devião buscar; multiplica-se serviço, por ser preciso usar de pótes, e +barris para levantarem os liquidos, que devião ser conduzidos por bicas, +ou calhas, até cahirem nos alambiques. + + +_Nova construcção de engenhos._ + +Em mechanica o ser senhor da potencia, para augmentar, diminuir, e +modificar a força ao seu arbitrio; ajuntar a estas vantagens a da +elegancia, commodo, e economia, parece que he tudo, quanto se póde +desejar. + +O engenho, que se propõem para modello, não tem hum páo de maior +comprimento, que o de quarenta e quatro palmos, com huma face de palmo e +meio, e outra de hum palmo, e estes são os tirantes; todos os mais páos +são de hum palmo, tres quartos, meio palmo, com menos comprimento, á +excepção dos esteios, com palmo e meio de face, e de quarenta para cima +de comprido. + +O edificio por dentro, debaxo de huma cumieira, tem cento e sessenta +palmos de comprido, quarenta e dois palmos de largura, e trinta e tres +de altura em pé direito. + +Na altura de trinta palmos está hum segundo frechal, que cinge todo o +edificio, e serve sômente, para encabeçar os caibros das varandas, e +deixar hum claro de tres palmos, para dar luz, e sahida ao fumo. + +Este engenho he para o trabalho de bestas, ou bois, porém a sua +construcção he, como se fosse para agua, girando tudo sobre pião. Na +moenda do meio tem huma roda com oito aspas, a que se chama bolandeira, +com trinta e seis palmos de diametro de centro de dente, a centro de +dente, e noventa e seis dentes na sua circumferencia, que ficão na +distancia de pouco mais de palmo huns dos outros; os dentes desta roda +são de coroa. Esta roda he movida por hum rodete estrellado de trinta e +dois dentes, cujo eixo em pião tem duas almanjarras; da ponta de cada +huma das quaes ao centro do eixo, são quatorze palmos. Os animaes +trabalhão nesta máquina, em huma especie de pôço calçado, com oito +palmos de profundidade (póde ser mais, ou menos) cercado com huma +varanda. Esta especie de pôço he formada pelo aterro da casa, onde gira +a máquina, e estão as moendas. Já se vê que, tendo o rodete a terça +parte da bolandeira, he preciso que dê tres voltas para a bolandeira dar +huma; e, como os animaes puxão na distancia de quatorze palmos do +centro, devem fazer tres circulos de vinte e oito palmos de diametro, +que fazem oitenta e quatro palmos, para as moendas darem huma volta, o +que faz puxar por huma almanjarra, ou alavanca de quarenta e dois +palmos. He certo que oitenta e quatro palmos de diametro fazem oitenta e +quatro passos de circumferencia; e, tendo os engenhos communs as suas +almanjarras em cincoenta e seis palmos de diametro, que fazem cincoenta +e seis passos de circumferencia, parece que farão em menos tempo virar +as moendas; porém não he assim; porque a pezar de serem oito os animaes, +que puxão estas almanjarras, e poderem só quatro, e menos puxar as +outras, por ter a sua alavanca mais quatorze palmos de comprido; +attendendo ás paradas, que os oito animaes fazem a cada passo, para +vencer a resistencia, e á suavidade, com que os quatro andaráõ, sem +nunca achar obstaculo, que faça retardar o seu passo natural, fica +igualado o serviço, e talvez superior o dos quatro: além disto, ainda +que eu não conheça no Rio de Janeiro, quem possa occupar sempre, e no +seu devido tempo, esta máquina trabalhando assim, mettendo Canna como +deve metter-se; quem quizer andar mais veloz, encurte as almanjarras, e +augmente o numero de bestas, e póde levar isto ao ponto, que lhe +parecer; vantagem de que são privados os engenhos actuaes, que hão de +restringir-se ao numero de oito sómente. + +Por esta nova fórma cada hum póde trabalhar, segundo as suas forças: se +em lugar do rodete pela terça parte, o fizer pela quarta, conservando as +almanjarras no seu comprimento, faz puxar as bestas por huma alavanca de +cincoenta e seis palmos, e se ha de moer com quatro, póde fazello com +duas, e mesmo huma. Assim como póde diminuir; se fizer o rodete por +ametade, augmenta o movimento, e fica a almanjarra de vinte e oito +palmos, e tem a vantagem de meter oito, dez, doze, dezaseis bestas, o +que não póde fazer na construcção actual; porque então não terião +passagem os carregadores de Canna para as moendas, que estão sempre +desembaraçadas na construcção, que se propõem; porém a proporção da +terça parte, he, segundo o meu cálculo, a mais ajustada. + +_Veja-se a Estampa III._ + + +_Sobre o movimento das moendas._ + +Eu não tenho noticia de que houvesse ainda quem regulasse o movimento +das moendas, para fazerem o maior effeito possivel n'hum termo dado, +sendo isto hum objecto, que merece toda a ponderação. Vendo que em hum +engenho movido por bois, dão as moendas huma volta por minuto; n'hum por +bestas quasi volta e meia; nos de agua duas, tres, quatro, e mais +voltas; pensando todos geralmente, que quanto maior numero de voltas der +em menos tempo, mais moerá, fiz exame a este respeito, e achei que o +movimento de duas voltas por minuto, he o ponto de perfeição; e que +tanto menos se moerá, quanto se afastarem delle para mais, ou para +menos. Quando boas bestas, e descançadas, excitadas pelo açoite puxão +pelas almanjarras a trote, e fazem dar ás moendas duas voltas e meia por +minuto, a Canna fica esmagada, e não espremida; porque o sumo não tem +tempo da cahir, e passa em cima da Canna para a outra parte; e como ella +he hum corpo esponjoso, e elastico, logo que cessa o aperto, torna a +beber o mesmo sumo, do qual só numa pequena parte cahe na meza; e se em +duas voltas e meia succede isto, peior em tres, quatro, e mais. N'hum +engenho movido por bestas, não póde haver excesso no movimento, poderia +talvez prejudicar por defeito, se houvesse quem tivesse forças para +fazer de dez a doze mil arrobas de Assucar annualmente, o que nunca +succedeo; porém havendo quem possa fazellas, ou ainda mais, póde pôr +dois ternos de moendas, que o mesmo rodete faz moer, segundo o modello +que se propõem. Com a roda vertical dos engenhos de agua, he hum pouco +dificultoso regular o movimento das moendas; só se a agua he muito alta, +o que raras vezes succede; sendo baxa, e muita, que possa dar-se-lhe +toda a força que se precisa, o rodete he muito grande, e faz que a +bolandeira dê tres, e quatro voltas por minuto, o que retarda o serviço, +como acima se diz; só se a roda vertical tivesse de cincoenta a sessenta +palmos de diametro, o que não póde ser sem muito incommodo. Com a roda +horisontal, vulgarmente chamada rodizio, he facil graduar o movimento. + +O maior, ou menor declivio na bica de ferir as pennas; maior, ou menor +diametro no rodete, ou no mesmo rodizio, faz conseguir o que se quer sem +custo. + + +_Comparação da roda vertical com a horisontal._ + +He sabido de todos, que em qualquer máquina, a agua obra sómente pelo +seu pêso. Supponho ter huma bolandeira com trinta e seis palmos de +diametro, movida por hum rodete de oito; a roda vertical de trinta e +seis; a agua na altura de vinte palmos, com quatro pollegadas cubicas, +que são sessenta e quatro, e pesão quasi tres libras. Onde a vertical +recebe o impulso com a maior força, he no semidiametro, e fim da linha +horisontal do eixo, em dezoito palmos; a agua cahe com dois palmos de +ferida, e doze libras de pêso no principal cubo; nos que se enchêrão, +pésa com tres libras em linhas mais curtas. Se os cubos tem capacidade +para receber mais agua, e o pêso desta nos mesmos he preciso para o +movimento, fica a máquina vagarosa, e sem o effeito que se quer. Tem +mais o defeito de ficarem as moendas baxas; não se poderem dar as +proporções que se precisão; estar tudo cheio de agua, e a roda afeiando +o edificio, estorvando passagens, etc. O mesmo diametro na bolandeira, e +na horisontal, quero dizer, trinta e seis palmos o diametro da +bolandeira, e trinta e seis o do rodizio, o rodete deve ter a oitava +parte, ou doze dentes estrelados, tendo a bolandeira noventa e seis de +coroa, e a agua na mesma quantidade, e altura. Vinte palmos que a agua +tem de altura, são quarenta vezes tres libras, ou cento e vinte libras, +que pésão sobre as pennas do rodizio com hum jacto de quasi vinte +palmos, se sahisse horisontalmente, porém como deve ter quinze gráos de +declivio para ferir as pennas, fica em dezaseis. + +Este jacto de quinze gráos communica hum movimento mui veloz ao rodizio, +que póde ser moderado, segundo a necessidade, e o podemos levar até +quarenta e cinco gráos com toda a vantagem. Podemos augmentar o diametro +do rodizio; diminuir, ou accrescentar o do rodete; levantar, ou abaxar +as moendas á nossa vontade, fazendo mais curto, ou mais comprido o eixo +do rodizio; cujas pennas, sendo feitas de páos firmes, tudo cerne, com +tres palmos de comprido, e hum em quadro, as cavas em meia lua, para +receber a agua, com seis pollegadas pelo comprimento da penna, cinco na +largura, e cinco em profundidade, tem toda a solidez, e duração +possiveis; quando pelo contrario a roda vertical, composta de muitas +taboinhas, e pequenas juntas, em poucos tempos fica fóra de serviço. + +O modello, que se propõem, para moerem bestas, serve para o de agua com +rodizio, só com a differença do rodete ser mais pequeno, e a especie de +pôço ser cuberta de sobrado, que dá passagem ao eixo; reunindo esta +fórma de máquina além das mais vantagens, a de poder ser movida por +animaes, se por accidente falta a agua, o que succede algumas vezes, e +causa prejuisos. + +Não fallo nos engenhos de vento para moer Canna, porque a instabilidade, +e irregularidade deste agente no Brasil, o faz inutil. Ainda mesmo os de +agua, se esta for difficultosa, ou que faça precisar grandes despesas; +pondo-se em prática o modello, não causará muito pesar o moer sem ella. + +_A Estampa III._ mostra o interior, o plano, e o exterior da casa do +engenho. + + +_Preciso sobre a dentadura das rodas._ + +A falta de conhecimento de mechanica nos mestres de engenhos do Rio de +Janeiro, aos quaes com mais propriedade se pódem chamar curiosos, á +excepção de alguns, e bem poucos, que tem merecimento, me faz dizer o +que sei a este respeito, por me parecer que será de alguma utilidade. +Quero fazer huma roda grande, que tenha trinta e seis palmos de +diametro, de centro de dente, a centro de dente; sabe-se que a devo +armar de oito curvas, ou cambótas, que tenhão de testa, a testa trinta e +sete palmos; porque a dentadura devendo estar no centro da cambóta, para +esta ficar com fortaleza, deve ter meio palmo para dentro, e meio para +fóra. Huma roda com este diametro não se póde fazer sem oito aspas. Devo +repartir o circulo em oito partes perfeitamente iguaes, que assignallo; +e como quero pôr neste circulo noventa e seis dentes, já se vê que +pertencem doze a cada oitavo. + +O sintel tem feito descrever a linha onde devem ser postos; reparto em +doze partes o oitavo, e assignallo cada huma com seu ponto, que serve de +centro ao furo para o dente, cujos pontos ficão distando huns dos outros +nove pollegadas e meia com pouca differença. + +Deve haver o maior cuidado, em que estes pontos fiquem perfeitamente +iguaes, e que não desmintão nem a grossura de hum cabello; e que os +furos, que se fizerem para os dentes, fiquem perpendiculares. + +O circulo deve ser fixo nas aspas por cavilhas; quatro destas aspas o +sustem, e as outras quatro prendem-no. + +Estas aspas devem assentar no circulo entre os dentes com huma medida +perfeitamente justa, para a roda não ficar com o que se chama peito. Se +quero fazer huma roda mais pequena, que não careça de oito aspas, e sim +de seis, reparto o circulo em seis partes iguaes, e procedo da mesma +sorte que para a antecedente; lembrando-me sempre de não fazer os pontos +para os dentes em menos de nove pollegadas, e podem hir a dez, que he +erro fazellos mais proximos, porque fica a cambóta fraca; e que nunca +deve haver dente, onde a aspa assentar. Regra geral, o numero das aspas, +he o das divisões, e em cada divisão hum numero certo de dentes, o que +faz ver que nenhuma roda, tomada no todo, tem os dentes impares. He +sabido de todos, que duas rodas, tendo huma de fazer mover a outra, +ainda que as dentaduras sejão certas, se forem perfeitamente iguaes, não +podem trabalhar; he preciso que aquella, que está unida á potencia, +tenha huma certa folga nos dentes, que devem ficar mais largos, que os +da outra, para trabalharem suavemente; a esta folga, ou maior distancia +dos dentes de huma, respeito aos dentes da outra, he ao que os mestres +chamão compasso. Ora para acharem este compasso nas medidas, que fazem, +usão das maiores extravagancias; e o que tem encontrado melhor, depois +de muitos erros, encobrem-no com mysterio até aos seus aprendizes. +Depois de ter feito a roda, e graduado os seus dentes, para compassar os +do rodete, ou roda que trabalha com a potencia, abro o compasso (cujas +pontas devem ser bem agudas) e com toda a certeza as assento nos pontos +de dois dentes, o que me dá a distancia de dente a dente. No centro de +huma regoa comprida traço huma linha, e por esta linha messo, ou conto +quinze compassos; a distancia destes quinze compassos deve ser signalada +por dois pontos. Abro agora o compasso mais, e a linha descripta dos +quinze divido em quatorze; esta pequena differença de quatorze a quinze +he o apartamento, ou folga, que devem ter de mais os dentes do rodete, +respeito aos da roda. Se tenho graduado o rodete primeiro, faço o mesmo +que na roda; mésso pelo compasso a distancia de hum dente a outro; na +linha traçada conto quatorze compassos, aperto o compasso hum tanto, +para que a distancia dos quatorze se reduza a quinze: esta pequena +diminuição he, o que devem ter de menos distancia, os dentes da roda aos +do rodete. + +Devo lembrar, que estas medidas devem ser exactas, e que os pontos +signalão o centro dos dentes. Se as rodas, ou rodetes tem os dentes em +coroa, a medida, ou compasso deve ser tomado na cambóta; se os dentes +são em estrella, deve o compasso ser tomado no centro da ponta do dente. +Segundo o destino da máquina, que se quer fazer, póde o rodete ser +pequeno, e a roda grande; o rodete ser grande, e a roda pequena, ou +ambos de igual tamanho; porém he regra geral, que a roda, onde trabalha +a potencia, seja grande, ou pequena, he a que deve ter folga nos dentes, +quero dizer, serem mais apartados, o que vai de quatorze a quinze, que a +outra roda, qualquer que seja a grandeza. + +Os dentes das rodas podem ser todos de coroa, e todos estrelados; em +humas, de coroa, e em outras estrelados; porém observando-se as regras +dadas, he facil fazellos de qualquer sorte. He indifferente, que os +dentes de qualquer roda sejão delgados, ou grossos, com tanto que sejão +iguaes em grossura. Hum terno de moendas com tres palmos de diametro, e +oito dentes cada huma, graduados estes dentes pelo centro da sua ponta, +regidos pela moenda do meio, que he a motora, e a que deve ter a folga, +podem ser os dentes de cada huma desiguaes, respeito ás outras, sem +defeito no trabalho; todos os dentes da moenda do meio podem ser muito +grossos; menos grossos os da de hum dos lados, e mais delgados os da +outra, e assim mesmo podem trabalhar com perfeição. Os dentes das rodas +de coroa devem ser redondos a torno; os em estrella tambem a sua ponta +deve ser redonda, acabando em semicirculo, segundo o seu diametro. O +aguilhão do eixo, onde anda o rodete, não deve ser fixo nelle, ha de +andar junto n'huma caixa de bronze; porque, como se ha de gastar pelo +movimento, para o recalçar, basta levantar com huma alçaprema o mesmo +eixo, e logo o aguilhão cahe, oppõem-se-lhe outro, que deve haver de +sobrecellente. As almanjarras hão de ficar n'huma altura tal, que os +tirantes, por onde puxão as bestas, corrão em linha horisontal ao seu +peito; puxão mais desta sorte, e fatigão-se menos. A besta puxa com o +seu pêso, e o esforço dos seus musculos serva para renovar este pêso, se +os tirantes estão muito baxos, o pêso, que devia empregar-se a puxar, +perde-se em levantar o eixo, e se estão muito altos, a besta he +levantada por diante, e as suas mãos não achão na terra hum apoio +sufficiente para renovar o seu movimento. + + +_Como se moe Canna actualmente._ + +As moendas, de que actualmente se usa na Capitania do Rio de Janeiro, +tem de tres a quatro palmos de diametro, e outro tanto, pouco mais de +altura. + +A sua dentadura he no meio da moenda; alguns engenhos, rarissimos, tem +as moendas dentadas na parte superior, e aguilhões inteiros de ferro; +porém o commum he terem os dentes no meio do corpo da moenda, e meios +aguilhões de ferro, e na parte superior hum pescoço, que faz as vezes de +meio aguilhão, feito de hum páo solido. Saõ chapeadas de ferro meio +largo: estas chapas tem hum palmo de comprido, e são afastadas humas das +outras a quarta parte de huma pollegada, ou tres linhas; e pregadas no +madeiro da moenda com seis pregos curtos, e grossos. A meza, em que +estão assentadas estas moendas, não tem mais altura, que a de quatro a +cinco palmos. Qualquer que seja a potencia que as faça mover, a Canna he +sempre mettida nellas da mesma sorte. Hum Escravo appresenta hum feixe +de Canna pela sua ponta em linha horisontal, entre a moenda do meio, e +huma das dos lados; continua a metter segundo, terceiro, quarto, quinto, +e sexto e outro Escravo da parte opposta, á proporção que os feixes de +Canna passaõ, depois de espremidos na primeira, os appresenta da mesma +sorte á segunda: tornão a passar pela primeira, e repassar pela segunda, +o que faz que esta Canna seja espremida quatro vezes, sempre em linha +horisontal. Em alguns engenhos chegão a passar cinco, e seis vezes, +porém o commum são quatro. Sobre estas quatro passagens, e suppondõ tres +palmos de diametro nas moendas, he que eu faço o meu cálculo; e tambem +supponho, que hum carro de Canna contém cento e cincoenta feixes; de +seis Cannas, se são grossas, de oito, se saõ delgadas, e do comprimento +de seis palmos. Tres palmos de diametro são nove de circumferencia, +dando quatro voltas a moenda, tem passado, e repassado os seis feixes; +dando outras quatro voltas, tem feito passar os seis feixes reduzidos a +bagaço, por consequencia, para se espremerem seis feixes de Canna, he +preciso que as moendas dem oito voltas, as quaes n'hum engenho de bestas +bem corrente se não dão em menos de seis minutos, o que faz precisar +duas horas e meia para se moer hum carro de Canna, com o numero de +feixes, e comprimento acima ditos, e nove para dez carros, em vinte e +quatro horas. + + +_Notas sobre esta fórma de moer_ + +As moendas tem pouca altura da dentadura para baxo, onde anda a +chapeação, e póde metter-se Canna, que não deve chegar aos dentes; e +para isto se conseguir, he preciso que os feixes se appresentem á moenda +em linha horisontal. A meza he muito baxa, e como o Escravo, curvando-se +hum pouco, chega com as mãos á moenda, onde as costuma ter para amparar, +e empurrar as partes minimas da Canna, a que se chama bagaço, he causa +de accidentes, e de muitos Escravos ficarem sem mãos, o que todos os +annos succede em hum, ou outro engenho. + +A chapeação das moendas he grande erro; huma moenda de tres palmos de +diametro, que fazem nove de circumferencia, precisa de vinte chapas; a +seis pregos, são cento e vinte pequenas cunhas, que mettidas com muita +força pelo comprimento do madeiro da moenda, a faz abrir em pequenas +raxas, onde póde introduzir-se alguma porçaõ de sumo de Canna, e não +póde chegar a lavagem; porque he agua simplesmente lançada, e a quem +falta o aperto, que soffre o sumo da Canna entre as moendas. + +Esta pequena porção de sumo huma vez introduzida nestas raxas, azéda, e +serve de fermento para fazer desmerecer o sumo que se espreme; e todos +sabem, que huma mui pequena porção de acido impede o fazer Assucar, e +deteriora a sua qualidade. Ainda mesmo que o madeiro esteja perfeito, +sempre o sumo se introduz por baxo das chapas, e a agua da lavagem não +póde lá chegar. + +Esta chapeação não impede que as moendas sejão torneadas todos os annos, +ou todos os dois annos; he preciso arrancar as chapas, e depois de +torneado o madeiro, repregallas em outro lugar, tapando com tornos, os +buracos, onde estiverão os pregos; por mais solido que elle seja, não +póde resistir a tres, ou quatro operações destas, sem que fique fóra de +serviço. Vinte chapas, de mais de duas linhas de grossura, são quarenta +angulos, ou cunhas, que cortão, ou mordem as Cannas, que á terceira +passagem ficão reduzidas a partes minimas, cujo bagaço, para passar a +quarta vez, he preciso que o Escravo o empurre, e ampare com as mãos +entre as moendas, para poder espremer-se, e ainda nesta quarta passagem +sahe humido. As ultimas vezes, que este bagaço passa nas moendas, faz +tanta resistencia, que se são de meios aguilhões, succede aluirem para +os lados, e se são inteiros, quebrarem. O bagaço, quasi reduzido a pó, +só serve para estrume depois de ter apodrecido na bagaceira, o que +infecta o ár, que se respira á roda da fábrica, e faz sempre sentir hum +máo cheiro. + + +_Nova fórma de moer._ + +As moendas devem ter tres palmos, e pouco mais de altura, até á +dentadura; devem ter tres palmos de diametro, ser feitas de hum páo bem +firme, e bem lisas, sem chapeação. A meza deve dar pelos peitos de hum +homem, e ter cinco palmos de largura, inclusos os taboleiros. A Canna ha +de ser appresentada á moenda em linha obliqua, fazendo hum angulo de +quarenta e cinco gráos, com pouca differença, e perto da dentadura. +Assim que esta Canna passou, o Escravo da parte opposta deve dobralla, e +appresentalla á moenda pela sua curvatura, tambem em linha obliqua. Com +estas duas passagens fica a Canna melhor espremida, que com as quatro, +ou mais, que actualmente se usão. + +Para que este serviço continue sem interrupção, he preciso que o +Escravo, que mette Canna, appresente á moenda de doze a dezaseis de cada +vez, segundo a sua grossura; o Escravo, da parte opposta, pega em seis, +ou oito destas Cannas, dobra-as, e appresenta-as á moenda pela sua +curvatura, e faz o mesmo ás outras seis, ou oito, e assim continua o +serviço; porque tendo a Canna seis palmos de comprido, dobrada fica em +tres, e he preciso que as moendas estejão sempre cheias. Por mais molle +que seja hum páo proprio para moendas, sempre he muito mais duro que a +Canna, que, sendo hum corpo esponjoso, deprime-se facilmente; o muito +uso poderá gastallo, e será preciso torneallo, porém creio certamente, +que ha de precisar muito mais tarde deste beneficio, que as moendas +chapeadas, e ha de conservar mais annos a sua solidez. Conheço huma +fábrica de Estampas, que imprime de oito a dez mil todos os annos, e +trabalha há mais de vinte; que os dois cilindros, que fazem a fieira, e +apertão entre duas taboas a chapa da impressão, ainda não forão +torneados, nem o precisão; accrescendo ser isto hum trabalho de páo +contra páo, muito differente da Canna, que he hum corpo muito mais +molle. A Canna, appresentada em linha horisontal, faz aperto n'huma +parte da moenda sómente, e, appresentada em linha obliqua, trabalha com +todo o corpo. He certo que as moendas de páo são hum remedio; devião ser +tambores, ou cilindros de ferro, assim como se pratica nas Antilhas, +despesa que se faz por huma vez, porém em quanto se não põem em prática, +deve degradar-se a chapeação, por ser desnecessaria, e nociva. + + +_Comparação da moagem actual com a que se propõem._ + +Pelo methodo usado, dando a moenda quatro voltas; são trinta e seis +palmos de superficie; tendo os feixes seis palmos de comprido, e, +appresentando-se em linha recta, ou horisontal, passaõ, e repassão seis +feixes; dando outras quatro voltas, passão, e repassão em bagaço, são +precisas oito voltas para moer seis feixes de Canna, o que não póde +fazer-se em menos de seis minutos. He certo que estes feixes de Canna só +tem os seis palmos de comprido na primeira, e segunda passagem, ficando +reduzidos a pequenas partes para a terceira, e quarta, o que fará +parecer gastarem menos tempo nas duas ultimas; porém isto deve +considerar-se nullo, pelas paradas que nestas occasiões fazem as bestas, +por ser preciso redobrar o seu esforço para vencer a resistencia, que o +bagaço, ou Canna, reduzida a pequenas partes, lhe offerece. Pelo methodo +proposto, appresentando-se a Canna á moenda em linha obliqua, tendo seis +palmos de comprido, fica reduzida a quatro e meio, e he preciso nas +quatro voltas fazer oito entradas, para ganhar a superficie das moendas, +cujas entradas sendo de doze a dezaseis Cannas, que são dois feixes, +fazem dezaseis; e como passão, e repassao simplesmente, em quanto nos +seis minutos, pelo methodo usado se moem seis feixes; moem-se pelo +methodo proposto trinta e dois, e por consequencia hum carro de cento e +cincoenta feixes em menos de trinta minutos, que em vinte e quatro horas +faz mais de cincoenta carros. Pelo methodo usado, hum feixe de Canna, +appresentado á moenda em linha horisontal, o aperto que soffre faz, que +estas Cannas fiquem sobrepostas humas acima das outras; ellas, que tem +huma pollegada pouco menos de diametro, ficão bem espremidas, passando +por huma fieira de huma a duas linhas; porém do sumo que espremem, que +tem de circumdar a superficie de quasi todas as Cannas, sò huma pequena +parte cahe na meza, e a maior parte, fluctuando por cima dellas, logo +que cessárão de soffrer a compressão, sendo de natureza esponjosa, e +elastica, tornão a beber o sumo espremido. Na segunda passagem pouco +aperto percebem; porque passão por huma fieira igual á primeira, e por +consequencia he preciso que sejão reduzidas pela chapeação a partes +minimas, para se lhe aproveitar o sumo. Pelo methodo proposto, +appresentando-se a Canna em linha obliqua, quando recebe o aperto, dá +sahida ao sumo pela mesma Canna, e deposita na meza todo, o que espreme. + +Quando acabou de passar a Canna, e o Escravo da parte opposta a dobra ao +meio, para a appresentar na mesma linha obliqua; pelo seu angulo, ou +curvatura, recebe na fieira da moenda hum aperto maior que o primeiro; +porque em igual ou superior volume, tem partes mais solidas que +comprimir, faz ficar o bagaço sècco, inteiro, apto para se fazer em +feixes, que podem servir para as fornalhas; o que he impossivel no +methodo usado, porque fica reduzido quasi a pó. A differença de hum a +outro methodo he de nove a cincoenta, vantagem inapreciavel em +semelhantes fábricas. Eu não sei que haja em todo o Brasil, quem reuna +forças para moer esta quantidade de Canna de Junho a Setembro, que he o +verdadeiro tempo, e são cem dias de serviço; talvez não haverá meia +duzia de fábricas, que possão fazer ametade, porque então farião de seis +a sette mil arrobas de Assucar. Vejo que há engenhos, que para tres, ou +quatro mil arrobas, principião em Maio, e acabão em Dezembro, por não +poderem mais, empregando dia, e noite neste trabalho, e assim mesmo +perdem Canna, que não podem moer. Trabalhando-se desta sorte, os homens, +e os animaes se estragão, o dia he para trabalhar, e a noite para +descançar, esta a ordem da natureza, que se não inverte impunemente. + +Adoptando-se esta fórma de moer, póde a noite ficar salva. Principia-se +das quatro horas da manhã até ao meio dia, das duas horas da tarde até +ás dez da noite; nestas dezaseis horas de serviço, cada hum póde +trabalhar, segundo as suas forças. Suppondo que quer moer dezaseis +carros de Canna, faça appresentar á moenda só seis, ou oito Cannas (que +he hum feixe) continuadamente, na repassagem faça dobrar tres, ou +quatro, tudo como acima se diz, e desta sorte póde augmentar, e +diminuir, segundo as suas forças, e vontade. Nestas duas horas depois do +meio dia, e ás dez da noite, basta que sejão lavadas ás moendas, menos +que o calor não seja intenso, ou que haja trovoadas; porque então todas +as vezes que se enche o cocho, devem ser lavadas. _Veja-se a Estampa +IV._ + + +_Descripção do que contém a casa de caldeiras actualmente._ + +A Casa de caldeiras, onde se fabrica o Assucar, he de cinco a oito +palmos, mais baxa que a do engenho, e contém o que se segue. Parois de +caldo frio, Parois de caldo quente, Rominhois, Espumadeiras, Batedeiras, +Repartideiras, Caldeira, e Coxinha, Bangué com suas tachas, Esfriadeira, +Fôrmas para lançar a calda, de que se faz o Assucar bruto, Carcanha, +Massa de Mamono, Espatulas, Tanque de preparar o barro, que ha de +clarificar o Assucar, Vasos com decoada, e Vasos com agua. Parol de +caldo frio, he hum cocho, ou especie de tanque, feito de taboas, e pelo +commum cavado n'hum grosso madeiro, com maior, ou menor comprimento, e +largura, e capacidade de conter tanto liquido, quanto encha a caldeira, +sem sobejar. Há alguns engenhos, que já os tem de cobre. + +Parol de caldo quente, he o mesmo que de caldo frio, porém maior, por +ser destinado a receber o liquido depurado da caldeira, huma, e mais +vezes, donde passa para as tachas. Rominhol he huma especie de cassarola +de cobre, que pòde conter de quatro a seis libras de agua; quando tem +hum cabo comprido, e com elle se tira o liquido da caldeira para o parol +de caldo quente, toma o nome de pomba. Espumadeira, todos sabem o que +he, a que serve nos engenhos, tem hum cabo até dez palmos. Batedeïra, he +huma chapa de cobre circular, com pouco mais de hum palmo de diametro, +huma concavidade de duas pollegadas no centro, que vai diminuindo para a +circumferencia, com hum cabo comprido. Repartideira, he huma especie de +cassarola de cobre, que póde conter até dez libras de agua. + +A Caldeira, he pelo commum de ferro, tem de cinco a seis palmos de +diametro na boca, outro tanto de altura, sendo menos larga no fundo; he +assentada de fórma, que fica a sua boca pouco mais alta que a superficie +do terreno, sendo este ladrilhado á roda della, com huma pequena +inclinação, que faz correr as espumas que a Caldeira lança a hum +receptaculo, a que se chama Cochinha. A Cochinha, he hum pequeno tanque +de taboas, que tem seu registo; o liquido que recebe, que não são +espumas, torna a passar para a Caldeira; as espumas por huma calha +coberta, vão depositar-se ao seu receptaculo na casa da aguardente. + +Bangué, he huma fornalha comprida, com quatro palmos de altura, que +contém tres, quatro, e cinco tachas de ferro, de tres a quatro palmos de +diametro, da maior á menor, que se distinguem com os nomes, quando são +tres (o que he o mais commum) de tacha de receber, de cozer, e de bater. +No mesmo bangué está outra tacha encravada, que não recebe fogo, que se +distingue com o nome de bacia, ou esfriadeira, e he de cobre, para onde +passa a calda de Assucar em ponto, e desta bacia he que vai para as +fôrmas. As fôrmas são feitas de barro, de figura conica, de dois palmos +pouco mais de diametro na boca, acabando para o fundo quasi agudas, com +hum buraco de meia pollegada. A Espatula, he huma especie de pá de +taboa, que serve de mexer o Assucar nas fôrmas, e impedir a sua mui +prompta condensação. A Carcanha, he o aparelho de fazer a decoada, que +se faz com a cinza de toda a lenha, preferindo a de gorarema, ou páo de +alho, que se tem reconhecido ser rica em alcali; a esta cinza misturão +algumas hervas acres, para augmentar o que chamão queimo da decoada; +enchem com esta cinza, e hervas, doze a vinte fôrmas, que ficão +levantadas do chão alguns palmos, enfiadas em buracos proporcionados +feitos em taboas; lanção em cima destas fôrmas agua quente, que, +filtrando-se por entre as hervas acres, e a cinza, cahe pelo furo da +fôrma gotta a gotta, n'hum recipiente, donde se tira para o uso. A massa +de Mamono, são as sementes deste vegetal bem pizadas. O tanque de +preparar o barro, he hum cocho, no qual se deita muita agua, e barro, +que com hum rodo se faz dissolver, ficando n'huma especie de lodo, que +se lança em cima das fôrmas de Assucar bruto. Os vasos, onde está a +decoada, e agua para o uso, são fôrmas com algum defeito, a que se tapa +o buraco que tem no fundo. + + +_Como se trabalha na fàbrica do Assucar._ + +Cheio que seja o parol de caldo frio, do sumo das Cannas espremidas nas +moendas (o que actualmente se não faz em menos de quatro a seis horas) +corre por huma calha para a caldeira, que fica hum palmo por encher. + +Esta caldeira, que tem sua fornalha particular, e hum Escravo, que a +serve com lenha, principia a receber hum fogo violento; á proporção que +o liquido aquece, sobe á sua superficie huma especie de gusmo, a que se +chama cachassa, que he tirada com a espumadeira pelo obreiro, que +governa a caldeira, e lançada na cochinha para por huma calha ser +conduzida á casa da aguardente. Esta operação, a que se chama +descachassar a caldeira, dura tanto tempo, quanto tarda o ferver o +liquido, o que pelo commum, segundo o grande calor que recebe, não chega +a meia hora. Logo que ferve, principia o uso da decoada; lanção-lhe +mais, ou menos rominhois della, segundo que o sumo da Canna contém mais, +ou menos partes oleosas, e tem maior, ou menor densidade; e se he muito +denso, e rico em sal, interpoladamente se lhe lança agua, e decoada. +Esta decoada, combinando-se com o oleo, faz hum sabão, que náda na +superficie do liquor em fórma de espuma, que he tirada á proporção, que +se ajunta. + +Quando a violencia do fogo, dilatando o liquido, o faz sublevar acima +das bordas da caldeira, às vezes hum, e dois palmos; huma pitada de +massa de Mamono, lançada em cima, instantaneamente o faz abater, e reduz +a mais de hum palmo abaixo das bordas della. O signal, para se conhecer +se o liquor desta caldeira tem o cosimento preciso, a que chamão estar +limpa, ou ajudada, he hum segredo, de que fazem mysterio os Mestres de +Assucar; ora isto he huma gente, pretos, pardos, ou Indios, que pelo +commum não sabem lêr, e, em quanto a mim, não tem outro merito, e +sciencia, que a de serem fiéis, duros ao somno, e terem hum pouco de +cuidado, por ser preciso nestas fábricas trabalhar de dia, e de noite. +Quando se julga limpo o liquido da caldeira, passa ao parol de caldo +quente, onde he lançado a braço, pelo caldeireiro, com a pomba. Continua +o trabalho com mais caldo frio; estando prompto, passa ao parol de caldo +quente, e quando neste parol há quantidade sufficiente para passar ás +tachas, e, que depois destas trabalharem, não possão parar á falta +delle, enche-se a primeira tacha, chamada de receber, depois de ter aqui +engrossado alguma cousa, passa della a braço para a de coser, e desta +para a de bater. Assim que o liquido passou da tacha de receber para a +de coser, enche-se a de receber, e assim progressivamente, de sorte que +as tachas não fiquem paradas. Todas estas tachas são espumadas, e levão +massa de Mamono. A fórma de bater na ultima tacha, he levantar o +liquido, que já está em calda, com a batedeira, e virallo com inclinação +sobre huma parede alta, forrada de tijolo, que borda, e circumda, mais +que ao meio, a mesma tacha, e quando suppõem ter alcançado o ponto +necessario, he, desta tacha de bater, passado para a bacia de esfriar, e +daqui com a repartideira vai para as fôrmas, que estão no que se chama +tendal, que he huma especie de anteparo, cheio de bagaço de Canna, em +cima de cujo bagaço estão as fôrmas, que são no numero de sete, a que +chamão huma venda; não se enchem de huma vez, he repartida a calda por +todas; e como a quantidade, que se apurou, não chega para as encher, +completão-se com o segundo, e terceiro cosimento. Esta calda, lançada +nas fôrmas, he mexida com a espatula, para impedir a condensação, e +agregação mui prompta da gran do Assucar, a que chamão coalhar. Quando +as fôrmas ficão cheias, e o Assucar coalha, tira-se a rolha, que tapa o +buraco do fundo, para dar sahida ao mel, ou Assucar decomposto, cujo mel +he conduzido por huma calha ao seu receptaculo. O Assucar mui trigueiro, +que contém estas fôrmas, he o que se chama Assucar bruto. Passão agora +do tendal para a casa de purgar. Esta casa he assobradada, e nas taboas +do soalho há muitos buracos redondos, de seis pollegadas de diametro, +onde se firmão as fôrmas, para serem barreadas. + +A coxia, ou casa, que fica por baxo deste sobrado, he ladrilhada com +inclinação das paredes ao centro, onde há hum canal, que recebe o mel, +que as fôrmas de si lanção, e o conduz a hum tanque, donde se tira para +o uso. Do tanque de preparar o barro, se tira em huma vasilha, a especie +de lodo, a que he reduzido, e se lança em cima das fôrmas: este lodo, +que conserva a agua em si, a vai largando a pouco, e pouco, a qual, +introduzindo-se por entre o Assucar, precipita o mel, para sahir pelo +buraco do fundo da fôrma. Sêcco que seja este barro, tira-se da fôrma, +lança-se segundo, e ainda terceiro. Com estes tres barros, se suppõem +ficar a fôrma, como chamão, lavada. Succede poucas vezes ser o Assucar +desta fôrma todo branco, o commum he ser branco da superficie, até huma +terça parte da fôrma, menos branco a segunda terça parte, trigueiro, dos +dois terços para o fundo. Estas tres especies de Assucar, se distinguem +com os nomes de fino, ou redondo, batido, e mascavado; este ultimo he +ainda subdividido em diversos mascavados, segundo, que he mais, ou menos +trigueiro. + +O Assucar, assim trabalhado, diminue huma terça parte, pouco mais, ou +menos, em quantidade de sorte, que, se as fôrmas contém tres arrobas de +Assucar bruto, fica reduzido a duas de todas as qualidades. Depois que o +Assucar se suppõem purgado, passa da casa de purgar para o terreiro, ou +eira, onde he tirado das fôrmas, e com hum facão divididas as +qualidades; e depois de reduzido a pequenas partes, he lançado em +differentes toldos, ou lençoes de panno grosso, para que o calor do Sol +lhe faça evaporar a humidade, e desseque. + +He dalli conduzido á casa do encaixe, onde se deita em caixas, que podem +conter de quarenta a cincoenta arrobas; e socado a pilões; e pregadas as +caixas, conduzidas ao armazem, ou trapiche, onde, depois de julgadas as +qualidades pela Meza da Inspecção, he vendido. + + +_Notas sobre esta fórma de fazer Assucar._ + +Por não se saber moer Canna, gasta muito tempo o parol a encher-se. +Nestas quatro, e mais horas, que o sumo da Canna, liquido mui composto, +se deixa em repouso, fermenta; o que deprava o liquor, e diminue a +quantidade de Assucar, e sua qualidade. + +Se o parol he de madeira, conserva sempre em si hum fermento, que ajuda +extraordinariamente esta deterioração. Quando o caldo da Canna passa do +parol para a caldeira, vai frio; esta, que he de ferro coado, e está +muito quente, recebendo repentinamente huma impressão tão estranha, póde +rachar, o que muitas vezes succede. Hum calor moderado, que faz subir á +superficie do liquor, as partes impuras, a que se chama cachassa, não +dura o tempo que he preciso; logo que a caldeira levanta fervura, todas +as partes são confundidas: a decoada, que se lhe lança, tem a +propriedade de se combinar com as partes oleosas, e acidas, e de nenhuma +sorte com este gusmo, que incorporando-se com o Assucar, o faz +trigueiro, e perder a qualidade. O obreiro, que governa esta caldeira, +ainda que o descachassalla não dure meia hora, faz hum trabalho +fatigante, pela postura curva, em que he preciso estar; e mais se fatiga +ainda, quando, julgando-a limpa, lança o liquido a braço com a pomba, no +parol de caldo quente. Os parois de caldo quente, tem o mesmo defeito, +que os de caldo frio, se são de madeira; e se o liquido, que nelles se +deposita, chega a esfriar, o que quasi sempre succede. O bangué, he +proporcionado ao pouco, que se trabalha. + +A construcção desta fornalha, he positivamente má, o fogo faz o seu +effeito inversamente. A tacha, chamada de receber, que póde com mais +calor, por ser o liquido que contém, menos denso, he a ultima proxima á +chaminé; a de cozer, está no meio, a de bater, e apurar o Assucar, he +junto á boca da fornalha. + +Para que a tacha de receber tenha maior calor, descobrem-lhe mais o +fundo, menos a de cozer, e muito pouco á de bater. Ainda que o liquido, +que contém estas tachas, esteja a ferver, a voz do Mestre de Assucar não +cessa de dizer: _Fornalheiro, deita lenha_. + +Este fogo demasiado decompõem o Assucar, transforma-o em mel, ou Assucar +queimado. Em algumas fábricas há já bangués, em que quatro, e cinco +tachas recebem o fogo directamente; porém os obreiros, que as fazem, +gente material, e sem principios; os Mestres de Assucar, tirados do seu +trilho, sem capacidade para moderar o fogo, que pela fornalha direta, se +augmenta muito; huma boca mui pequena, que nellas se pôz, e faz precisar +o rachar-se lenha, ou servir-se só de lenha miuda; hum crivo +desproporcionado, a boca da fornalha aberta, todas estas cousas fazem, +com que a maior parte use das antigas. + +A bacia, ou esfriadeira, he inutil. As fôrmas de barro tem pequena base, +e muita altura; ainda que estes defeitos não fossem bastantes, a sua +fragilidade devia fazellas desprezar. A decoada, e fórma de a fazer, não +póde ser mais defeituosa; as hervas acres, só servem de a tingir, e a +côr, que lhe communicão, se incorpora com o Assucar. Tenho visto parar +engenhos, e bem notaveis, por falta de decoada; ainda que haja cinza, +são precisos dois, e tres dias para se fazer; não há regra, humas vezes +he forte, outras fraca. + +A massa de Mamono, quasi sempre he podre, ao menos conserva hum cheiro +detestavel. Não há escolha no barro para clarificar o Assucar; qualquer +serve, he sempre de hum cinzento escuro, e quando, depois de sêcco, se +tira de cima da fôrma, deixa encostrado sobre o Assucar, hum sedimento +negro. A fórma de seccar o Assucar no terreiro, he pessima; além de ser +preciso ter sentinela, ainda que quem o vigia, seja hum Argos, não +impede, que se furte muita parte; a formiga, a galinha, o cão, o porco, +todos o comem; o vento faz depositar nelle mil impuresas; se há chuvas +continuadas, o que succede muitas vezes, não podendo as fôrmas sahir da +casa de purgar, mélla o Assucar nellas; a estufa salta aos olhos, porém +ninguem a pôz ainda em prática. O bater a calda, levantando-a da tacha +na batedeira, com inclinação sobre huma parede, onde cahe muita parte +della, não sei que isto possa servir para fazer Assucar, vejo que se faz +hum encostramento na parede, que he preciso fação para o arrancar; esta +especie de Assucar encostrado, a que se chama rapadura, para ter algum +valor, he preciso tornar á primeira tacha, e antes que a ella vá, tem +mil descaminhos. O tanque do mel, além de ser huma verdadeira sentina, +hum aggregado de mil imundicias, o mel faz apodrecer o tijolo, a que faz +perder pela terra muita parte, que bem acondicionada, se aproveitaria em +aguardente. + + +_Principios, que devem conduzir o fabricante de Assucar._ + +Quando de hum todo, ou composto, se quer extrahir huma parte, he preciso +conhecer esta parte, e as mais, que com ella fazem o mesmo todo, e saber +a fórma de as separar. O Assucar purificado, segundo _Cartheuser_, he +hum corpo concreto, salino, formado de huma terra soluvel, de hum acido +subtil (de que huma parte he intimamente unida a huma base alcalina, e +calcarea) e de huma substancia oleosa inflammavel. + +O sumo, ou caldo de Canna, que contém este sal delicioso, he hum +composto de agua, mel, oleo, e acido; e das materias extractivas, da +casca, dos nós, e das fibras longitudinaes da mesma Canna. + +Deve-se buscar na fábrica do Assucar, o separar estas tres especies de +materias extractivas, rezinosas, ou feculas (que fazem o que se chama +cachassa) o oleo, e acido superabundantes, e evaporar a agua. + +Estas operações, que são chymicas, sendo bem feitas, constituem o bom +Mestre de Assucar. + +O unico meio, até agora conhecido, para separar as tres feculas, que +fazem a cachassa, he hum calor, que a mão não possa supportar, porém que +de nenhuma fórma chegue ao gráo de fervura. Para separar o oleo, e acido +superabundantes, não se sabe de outro meio mais, que os alcalis, +vegetal, e calcareo, quero dizer, as decoadas de cinza, e de cal, +combinadas. + +Qualquer destas duas decoadas por si, tem a propriedade de se unir aos +oleos, e acidos, e fazer com elles hum sabão, que se mostra na fórma de +espuma; porém Bergman observou, que o alcali calcareo prefere o acido, e +o alcali vegetal o oleo; o que faz precisar a combinação destas duas +especies da alcalis, para a depuração do Assucar. Se o sumo, ou caldo de +Canna he muito aquoso, oleoso, acido, pouco assucarado, quero dizer, +produzido por huma Canna taióba, ou selvagem, deve ser servida a +caldeira com decoada pura, no ponto, em que fica, segundo a fórma de a +fazer, que logo direi. + +Se, pelo contrario, he rico em sal, pouco aquoso, muito denso, produzido +por huma Canna de boa qualidade, deve a decoada ser enfraquecida com +agua pura. Esta maior, ou menor força da decoada, he relativa ao sumo, +ou caldo de Canna, por ser preciso ter, onde se empregue, para +deteriorar o Assucar, e communicar-lhe hum gosto lexivial. + +A evaporação da agua deve ser feita por hum fogo graduado, e poupado; +por ser fysicamente demonstrado, que qualquer liquido, chegando a +levantar fervura, tem alcançado o maior gráo de calor, de que he capaz, +e que he em pura-perda, toda a mais lenha, que se lança na fornalha. +Este calor demasiado, perdido para a evaporação, decompõem o Assucar, e +o reduz a mel, ou Assucar queimado. A evaporação de qualquer liquido, he +em rasão da sua superficie; para esta se augmentar, he preciso levantar +o liquido, e deixallo cahir em columna; tanta he a superficie desta, +quanta a augmentação da evaporação, respeito á que tinha na tacha +simplesmente fervendo. + +Todo o liquido mucoso, doce, tendo fluidez sufficiente, ajudado pelo +calor, e influxo do ár, entra promptamente em fermentação. Esta +fermentação decompõem o Assucar, que tranforma em espirito, de sorte, +que certa quantidade de liquido, que produziria vinte, se chega a +fermentar, póde dar sómente quinze, dez, e mesmo nada, e esse menos que +se fizer, ha de ser de má qualidade. O gráo de frio, que géla a agua, +impede a fermentação, porém este meio só a natureza o póde dar, e no +Brasil he impossivel; o que temos na nossa mão, e facil, he darmos, e +conservarmos hum calor ao liquido, que quasi o faça ferver. A rasão +porque se diz, ser bom trabalhar em quente, e muito máo em frio, he por +este frio ser o do ár, que no Brasil ajuda prodigiosamente a +fermentação, e o quente, he o liquido quasi fervendo, que a impede. + +Ora, sahindo o caldo quasi fervendo da caldeira, e passando ás tachas +quasi com esta quentura, trabalha-se bem, e apura-se o mais possivel; +esfriando no parol, assim que alcança o calor, que favorece a +fermentação, entra logo nella, porque a natureza não pára; e quanto mais +tempo assim se conserva, tanto mais se deteriora, perde o rendimento, e +custa a trabalhar. + + +_Preparo para manufacturar o Assucar._ + +Dois parois de cobre bem estanhados, que não tenhão mais de dois palmos +de altura, com sufficiente largura, e comprimento, para conter cada hum +tanto liquido, quanto caiba na caldeira, sem sobejar. Devem ser cubertos +de taboas, para impedir o mui livre contacto do ár; com hum furo na +tampa, para dar entrada a hum grosso, e comprido funil, que recebe da +calha o sumo da Canna, e o deposita no fundo do parol. + +Devem ter na parte mais commoda do fundo hum grosso furo, onde he +soldado, hum curto tubo, que hum comprido torno tapa, para, quando for +tempo, dar sahida ao liquido, que huma calha conduz á caldeira. Devem +ter sua fornalha, que póde ser commua a ambos, e serem assentados nella +com huma pequena inclinação, para facilitar a sahida do liquido. + +Duas caldeiras, cada huma com sua fornalha; assentadas o mais alto +possivel, bordadas de ladrilho, com sua cochinha para receber sómente +espumas. Dois funis grandes de folha de flandres, com altura, que possão +chegar ao fundo das caldeiras. Hum bangué de tres tachas, cuja +proporção, e fórma adiante descreverei. Quatro esfriadores. O esfriador, +he huma especie de caixão, com dois palmos de altura, oito de comprido, +e tres de largo, feito de cossueiras de boa madeira, bem aplainadas. + +Cem fôrmas. A fôrma tem a figura de prisma triangular, deve ser feita de +cossueiras de boa madeira, bem aplainadas, de quatro palmos de comprido, +dois, ou mais de largura, fazendo huma abertura de dois palmos, fechando +em baxo, e deixando aberta huma fenda de duas linhas; aplainadas no +fundo, para fazerem hum assento de tres a quatro pollegadas; as cabeças +hão de ser malhetadas, e feitas com toda a solidez. + +A _Figura II._ da _Estampa VII._, mostra a fôrma vista com a boca para +cima; e a _Figura III._ mostra a mesma fôrma com o fundo para cima, e a +fenda aberta para escôo do mel. + +Tres baldes de valvula em polé, hum para servir as caldeiras, outro as +duas primeiras tachas, e o terceiro he para servir sómente a tacha, +chamada de bater. Estes baldes devem ser de estanho, a valvula, do mesmo +metal, assentada em boa solla; a ponta desta valvula deve conter hum +pequeno aro, onde jogue hum arame grosso de dois palmos, e meio de +comprido; neste arame, que acaba tambem em aro, prende huma delgada +corda, que, passando na polé, chegando á mão do obreiro, facilita-lhe o +levantar a valvula, e deixar cahir o liquido em columna, ou sobre huma +calha, segundo a necessidade. O balde tem dois palmos de altura, e palmo +e meio por cada face, e póde conter noventa libras de agua; a valvula +tem pouco mais de hum palmo quadrado, e a columna de liquido, que +descarrega, he de hum palmo. O apoio da polé está em tres palmos, a +alavanca he de seis, e como pésa mais, o obreiro balanceia o pêso do +balde cheio, com trinta e tantas libras. A _Estampa VI._ mostra o +trabalho do balde. Huma estufa. Esta casa tão util, absolutamente +precisa, que a negligencia, a ignorancia, a falta de economia tem +despresado, deve ter até vinte palmos em quadro, feita de paredes +mestras, cuberta de abobada reforçada; com duas aberturas da altura de +hum homem, e cada huma com duas portas, feitas de cossueiras; huma +destas aberturas communica com a casa de purgar, e a outra com a casa de +encaixe. Deve ter tambem huma janella alta com dobradas portas, para se +abrirem defóra, quando for preciso refrescar o ár da estufa. Todas estas +portas devem ter boas chaves. Dentro desta casa, sobre pontaletes, se +fazem tres taboleiros, com taboas bem sêccas, bem desempenadas, bem +lisas, unidas com meio fio, que fiquem acima huns dos outros, de seis a +oito palmos. O soalho desta casa, deve ser feito sobre abobada, ou +aterrado sobre ella. Na parte exterior, que communica com a varanda, tem +esta abobada huma abertura, que dá passagem ao calor, communicado por +huma fornalha, a huma chapa de cobre circular bem grossa, de tres palmos +de diametro. Esta fornalha tem seu cinzeiro, e he servida com lenha pelo +fornalheiro do Bangué. Quatro ensinhos para os esfriadores. Este ensinho +tem vinte dentes, dezoito em prisma quadrangular, e os dois dos lados, +em prisma triangular, afastados huns dos outros, duas linhas, e cada +dente tem dois palmos de altura. A _Figura II._ da _Estampa V._, mostra +os dentes vistos de topo, com a disposição, figura, e distancia, que +devem ter no seu estado natural; o escuro da Figura, he a espiga, que se +introduz no taboão, onde se firma o cabo porque puxa o obreiro. + +Alguns pannos, para servir de coadores. Espumadeiras, Rominhois, +Repartideiras, Manteiga de cacáo, ou qualquer oleo doce, para impedir a +sublevação do liquido. Vasilhas de barro para decoada, porque as de +madeira communicão-lhe côr. Quatro raspas de ferro, que tenhão a fórma +de enchós de martello. + + +_Fórma de fazer a decoada._ + +Peneira-se meio alqueire de cal, para separar todas as partes não +calcinadas; deita-se em huma fôrma, ou qualquer vasilha de bom barro, +eleva-se a hum forno de telha, ou tijolo, ou a qualquer parte, onde +receba grande fogo; o calor, que aqui recebe, faz evaporar a agua da sua +extincção, e a reduz a cal viva, ou virgem. + +Deita-se esta cal virgem n'huma caldeira, que contenha doze vezes o seu +volume de agua; depois de se demorar hum quarto de hora, tira-se esta +agua com hum rominhol, e se côa para outra caldeira. Tomão-se duas +partes de cinza, que he hum alqueire (porque a cinza deve ter dobrada +porção da cal) e deita-se tambem n'huma caldeira, que contenha doze +vezes o seu volume de agua, mexe-se bem com huma espatula, deixa-se +assentar, tira-se esta agua impregnada do sal da cinza, e côa-se para a +mesma caldeira, onde está a agua de cal. Faz-se fogo a esta agua; a +evaporação concentra os alcalis da cinza, e cal, faz-se de vez em quando +a prova, tirando n'hum rominhol huma pouca desta decoada, deitando-lhe +hum ovo fresco em cima; quando este ovo não vai ao fundo, que sobrenada +huma parte delle, e descobre meia pollegada, pouco mais, ou menos, está +feita a decoada no seu ponto. A cinza que ficou, tambem não he perdida; +deitada, e espalhada debaxo de hum alpendre, ou telheiro, o ár, em +poucos mezes, communica-lhe novos saes, e queimada de novo, produz mais +alcali. + + +_Descripção, e proporções do Bangué._ + +O Bangue deve conter tres tachas, a primeira, a que chamão de receber, +tem quatro palmos de diametro na boca, a segunda tres e meio, e a +terceira tres. A primeira tacha, tem a boca quatro palmos acima da +superficie da casa, chamada de caldeiras; a segunda tacha, seis palmos, +e meio, e a terceira oito palmos, e meio; o que faz precisar haver +degráos da primeira para a segunda, e desta para a terceira; e huma +rampa da ultima, para a conducção da calda. A disposição das tachas +desta fórma, he para a columna do fogo arrastar pelo seu fundo, por huma +linha de trinta gráos. A boca da fornalha tem palmo, e meio, ou hum pé +quadrado, deve ser feita de ferro vergalháo bem grosso, e ter huma porta +de ferro, que só deve abrir-se, quando se servir com lenha. Da porta +desta fornalha, pela abobada, que cobre o cinzeiro, se descreve huma +linha de quinze gráos, até dez palmos do interior della, onde fórma hum +resalto de dois palmos, e dahi se descreve outra linha de trinta e cinco +gráos, que tambem tem dez palmos de comprido, e acaba na parede, que +fórma a chaminé. Esta chaminé he hum quadrado de oito pollegadas por +cada face, que corresponde ao centro da fornalha. + +Na abobada, que cobre o cinzeiro, há hum buraco de seis pollegadas em +quadro, que corresponde ao centro do fundo da primeira tacha, e deve ser +formado por huma barra de ferro vergalháo grosso, quadrilaterado. + +A boca deste cinzeiro, deve ter dois palmos quadrados, e elle ser +ladrilhado. A _Estampa V. Fig. I._ mostra o bangué com as paredes dos +lados abatidas, para se ver facilmente todo o seu interior, e +proporções. + +Num. 1, 2, e 3, as tres tachas; 4, a boca da fornalha; 5, o vão da +fornalha; 6, o resalto de dois palmos; 7, a boca da chaminé; 8, a boca +do cinzeiro; 9, o vão do cinzeiro; 10, a communicação do cinzeiro, com a +fornalha. + +A linha de 4 a 7, he de 30 gráos: A linha de 6 a 7, he de 35 gráos: A +linha de 4 a 6, he de 15 gráos: O cheio, são paredes de tijolo: O +ponteado he o aterro. + +Esta fornalha he a de Macquer, adoptada no modo possivel á fábrica do +Assucar. Servida com lenha, o fogo accêso, a boca tapada, o ár +rarificado dentro pelo calor, com tão prompta sahida pela chaminé, +absorve, pelo canal do cinzeiro, huma columna de ár, com maior, ou menor +rapidez, segundo a sahida que tem. + +Este ár, alimentando o fogo, o faz subir tambem em columna ao centro do +fundo da primeira tacha, e daqui corre, arrastando o fundo da segunda, e +terceira, para sahir pela chaminé. Esta sahida, que he de sessenta e +quatro pollegadas quadradas, respeito á da entrada, pelo cinzeiro, que +he de trinta e seis, augmenta extraordinariamente o movimento, e por +consequencia, a intensidade do calor. Este calor, com dois tijolos na +boca da chaminé, modera-se, segundo a precisão. Estando todo o vacuo da +chaminé aberto, e a fornalha com lenha sufficiente, he o maior calor +possivel; e com a mesma quantidade de lenha, tapando-se mais, ou menos, +a boca da chaminé, diminue proporcionalmente. A fórma de alimentar o +fogo desta fornalha, he lançar-lhe dentro hum páo, que tenha até seis +pollegadas de diametro, pouco mais, ou menos, com oito palmos de +comprido, cuja ponta se faz chegar até ao resalto, e alguns feixes de +bagaço; este páo se puxa com hum gancho de ferro, a chegar a ponta a +cobrir a communicação do cinzeiro, com a fornalha, á proporção, que o +fogo a devora; e assim se continua, A Estampa mostra tambem o fogo. + + +_Preparo do barro para clarificar o Assucar._ + +O tanque de preparar o lodo, com que se ha de clarificar o Assucar, he o +actualmente praticado; porém em lugar de barro cinzento escuro, deve, +usar-se de barro branco, de que há abundancia em todas as partes, com o +cuidado de o depurar da arêa, e pirites. Piza-se, que fique em pó, huma +porção de barro branco bem sêcco, deita-se este pó n'hum cocho cheio de +agua, agita-se com hum rodo, e dá-se tempo a que as pirites, e arêas +como mais pesadas, se precipitem ao fundo. Esta agua impregnada das +particulas barrentas, tira-se com hum rominhol para o tanque de preparar +o lodo. Continua-se o mesmo serviço, torna-se a passar a agua impregnada +do barro; e quando há sufficiente quantidade, deixa-se assentar, e +tira-se a agua superabundante; e deste barro assim purificado, he que se +fórma o lodo, para clarificar o Assucar. Se a agua, depois de +precipitado o barro, conserva alguma côr, deve-se tirar, e lançar outra, +e agitar com o barro precipitado, até que fique cristallina, para que +não vá incorporar, com o Assucar, a côr, que o barro póde +communicar-lhe. Isto he trabalho, que se faz por huma vez, porque este +barro póde durar sempre. + + +_Methodo para trabalhar na fábrica do Assucar._ + +Assim que o caldo da Canna espremida nas moendas cahe da bica no funil, +que o conduz ao fundo do parol, accende-se logo fogo na sua fornalha, +cujo fogo se entretem gradualmente, de sorte, que o liquido nunca chegue +a levantar fervura; porém que a mão não possa supportar o seu calor, o +qual se conserva, em quanto os parois contiverem liquido. Quando, depois +de cheio o primeiro, passa a bica para encher o segundo, trata-se este +segundo da mesma sorte que o primeiro. Cheio o segundo parol, passa o +liquido para a primeira caldeira, por huma calha, que se ajusta ao seu +fundo, na parte, onde está o tubo de descarga; e antes do torno se +tirar, põem-se hum coador sobre a calha, para não passar á caldeira mais +que o liquido; devendo haver o maior cuidado, quando se aproximar ao +fundo o gusmo, a que se chama cachassa, que o calor fez subir á +superficie, de tapar logo, para que á caldeira não vá parte alguma +delle. Deita-se então agua neste parol, e lava-se, cuja agua se mistura +com o gusmo, e o ajuda a correr por huma calha, ao seu receptaculo, na +casa da aguardente. Depois de cheio segunda vez o primeiro parol, passa +o liquido do segundo para a segunda caldeira, com as mesmas precauções +do primeiro, e assim continua o trabalho, não se despejando nunca hum, +sem que o outro esteja cheio. Ficando a caldeira quasi hum palmo por +encher, lança-se fogo na fornalha, para fazer ferver o liquido, havendo +sempre a lembrança, que, chegando a levantar fervura, he escusado deitar +mais lenha, porque he perdida; porém esta fervura deve-se entreter. +Principia agora o uso da decoada. Introduz-se na caldeira hum dos dois +grandes funis, e por elle he que se lança a decoada, para os alcalis +fazerem subir do fundo á superficie, o oleo, e acido superabundantes, em +fórma de espuma, que se separa, assim que aparece. Quando se não vem +mais espumas escuras, julga-se limpa a caldeira, e principia a simples +evaporação; porém o liquido desta caldeira não passa ás tachas, sem que +a outra caldeira esteja tambem com o seu liquido depurado. Estando o +liquido de ambas as caldeiras prompto, passa ás tachas o da primeira, +para renovar o trabalho com o segundo liquido do primeiro parol, e assim +vai continuando; de sorte, que as caldeiras tem tres usos: são vasos +depuratorios, vasos evaporatorios, e parois de caldo quente. O liquido +da caldeira, sobe no balde de valvula, que por huma calha o conduz á +primeira, e segunda tacha; este balde serve tambem de augmentar a +evaporação, levantando o liquido, e deixando-o cahir em columna, se há +necessidade de accelerar este serviço nas caldeiras. As tres tachas do +Bangué, devem ser consideradas, como vasos evaporatorios. A primeira, +chamada de receber, e a segunda de coser, recebem o liquido da caldeira; +depois de engrossar nellas hum pouco, passa para a tacha, chamada de +bater; nesta ultima he, que o liquor alcança a sua perfeição; para o +concentrar, deve ser levantado no balde muitas vezes, e deixallo cahir +em columna. + +Quando desta fórma tem alcançado o ponto, passa para o esfriador. Estas +tres tachas podem ser todas, de receber, de coser, e de bater, tendo +cada huma seu balde, e passar a calda de cada huma dellas para o +esfriador; porém, como a primeira tacha recebe mais fogo, que a segunda, +e esta, que a terceira, e o fogo, se he violento, queima o Assucar, que +reduz a mel, he melhor fazer a concentração na terceira tacha, sempre +com o cuidado, de que a fornalha não tenha mais fogo, que o preciso para +levantar fervura. + +Distingue-se o ponto da calda de Assucar em tres estados, que são ponto +fraco, ponte forte, e ponto muito forte. Conhece-se o ponto fraco, +quando, tomando huma pouca de calda com o dedo indes, e unindo esta +calda ao pollegar, e apartando estes dedos, a calda não faz fios. + +O ponto muito forte he, quando, tomando a calda da mesma sorte, e ella +se estende em fios por todo o apartamento dos dedos, sem quebrar. + +O ponto forte, ou bom ponto he, quando se fórmão estes fios, e, antes de +chegarem a todo o apartamento dos dedos, quebrão a duas, tres, ou quatro +pollegadas. A grossura dos olhos, que fórma a calda, fervendo na tacha, +mais, ou menos grossos, indica a sufficiente concentração. Isto he huma +cousa conhecida, e facil, porém que o uso ensina mais, que todos os +discursos. Estando a calda no ponto forte, passa em repartideiras para o +esfriador. + +O ár, que bate na superficie desta calda, e refresca continuadamente as +paredes do esfriador, faz coalhar o Assucar n'huma especie de costra, a +qual se engrossa cada vez mais, até incorporar tudo o que he Assucar, +deixando apartada a parte melosa; porém este Assucar, coalhado tão +promptamente, alcança tanta dureza, e a sua gran he tão unida á outra, +que faz impossivel a passagem da agua para a sua clarificação. A +espatula, de que se usa, para o remexer nas fôrmas conicas, não sendo +sufficiente, he indispensavel o uso do ensinho já descripto; hum obreiro +com este util instrumento, em huma das cabaças do esfriador, puxando-o a +si, e impulsando-o para a outra cabeça; encostando-o no puxar, a huma +das paredes, no impulsar á outra, impede a aggregação mui prompta da +gran do Assucar, para a agua, que o barro largar, fazer o seu effeito. +Este esfriador, segundo a sua grandeza, não póde encher-se com o +primeiro cosimento, e carece, que se lhe ajuntem outros; porém o uso do +ensinho principia desde o primeiro, até se encher, e sahir o Assucar +para as fôrmas. Não há necessidade, de que o obreiro esteja sempre com o +ensinho na mão; deve trabalhar de vez em quando, porém sem descuido. He +essencial, que o Assucar não vá para as fôrmas frio, e sim n'hum gráo de +quentura, que permitta o meter-lhe o dedo. + +As fôrmas molhadas, assentadas n'huma taboa desempenada, podem receber o +Assucar, sem que pela fenda de duas linhas, que tem no seu fundo, elle +possa cahir. O Assucar deve ser deitado nellas com espumadeiras grandes; +esta operação deve ser prompta, e ao mesmo tempo vagarosa; prompta, em +que he preciso varias espumadeiras, sem descuido no trabalho; e +vagarosa, porque tirando as espumadeiras o Assucar, carece demorado +algum tempo sobre o esfriador, para deixar cahir dentro muita parte do +mel, de sorte que para as fôrmas vá o menos possivel. + +A fôrma deve ficar meia pollegada, por encher, e depois de esfriar nella +o Assucar, tirada da sua taboa, e esgotado o mel, que ajuntou no seu +fundo, passa para a casa de purgar, em paviola. Esta casa basta que +tenha quarenta e dois palmos de largura, e sessenta de comprido; o seu +sobrado na altura de doze palmos; as vigas de hum palmo de grossura, +afastadas humas das outras, quatro palmos, e meio; as taboas do soalho, +da largura de dois palmos, ou mais, com o vão entre taboa, e taboa, de +duas pollegadas. + +A coxia desta casa póde ser ladrilhada, para mais aceio. Se parecer +fraco o vigamento, pontaletes o fazem firme. Esta coxia deve estar bem +munida de calhas, para cahir o mel das fôrmas. + +As calhas são mui simples, e podem ser feitas de taboas de seis +pollegadas de largura, e duas de grossura, cavado o centro na profundeza +de huma pollegada a diminuir para os lados; são firmadas na viga, +defronte da abertura de duas pollegadas do apartamento das taboas do +soalho, com declivio a acabar na altura de hum barril, que recebe o mel +que nellas cahe, e o leva a huma pipa, que o guarda. + +Cada barril, que deve ter seu funil de folha com rallo, recebe o de duas +calhas, e estas, o de muitas fôrmas. + +As calhas assim dispostas, fazem a vista de zigzag vertical. Chegando a +fôrma á casa de purgar, he assentada entre viga, e viga, que fique a +fenda de duas linhas do seu fundo, no meio do apartamento de duas +pollegadas, que tem as taboas do soalho. + +Raspa-se a superficie desta fôrma, para igualar o Assucar; enche-se do +lodo branco, que está preparado; e quando este lodo sécca, tira-se, para +diluido tornar a servir. Com huma raspa se tira desta fôrma o Assucar +embranquecido, e quando vai ficando trigueiro, sobre este mais escuro se +lança novo lodo; raspa-se outra vez, e torna-se a lançar mais lodo, e +assim até ficar o Assucar desta fórma todo branco. + +O fim desta operação he impedir, que ao Assucar já branco não passe mais +agua; porque, não tendo partes melosas, que precipitar, dissolve o +Assucar, que confunde com o mel, e o faz esvaido, ou sem força, e ainda +que fique muito alvo, não indemniza a perda. + +O Assucar raspado passa á estufa, e he lançado nos taboleiros della, +para seccar. O calor desta estufa deve ser mais forte que, o que +communica o Sol, que não excede a quarenta e cinco gráos do thermometro +de Reaumur; e na estufa se póde levar até sessenta gráos, porém não +mais, porque então o fará trigueiro. Se não houver thermometro, deve +regular, o poder-se entrar dentro, e demorar algum tempo; porém se não +se puder entrar, ou parar, he preciso moderar o calor, porque he forte. +Quando o Assucar está sêcco, o que succede em oito a doze horas, segundo +o calor que recebeo, cessa o fogo; abre-se a janella, tira-se para a +casa de encaixe, sóca-se, etc. + + +_Como se trabalha na fábrica da aguardente._ + +Todos os Mestres de aguardente sabem, que hum liquido doce fermenta, que +esta fermentação o faz vinhoso, e que este vinho destilado, produz +aguardente, em maior, ou menor quantidade, segundo o gráo de doçura, que +em si contém este liquido. Segundo este principio, a cachassa, ou fezes +do caldo da Canna; as espumas da caldeira, e tachas, que são materias +por si bastantemente doces, são recebidas em parois; e como levão +comsigo muito caldo de Canna puro, tem bastante fluidez, para que, cheio +o parol, entre logo em fermentação. + +Estes parois, ou especies de tanques são cavados n'hum grosso madeiro, e +ficão quasi hum, palmo por encher. + +Geralmente são descubertos; e alguma excepção que há, com esteiras he, +que lhe tirão a maior communicação com o ár. Assim que a fermentação se +estabelece, o movimento, que em si faz o liquido, com hum certo zunido, +faz subir á superficie, huma côdea de materias impuras, que vai +engrossando cada vez mais; porém abre-se de vez em quando, para dar +passagem ao gás, ou ár fixo, que se desprende, e foge do mesmo liquido +em fermentação. Quando o zunido cessa, e que a costra se desfaz, e +mistura com o vinho, que neste estado toma o nome de guarápa, he o +ponto, para passar ao alambique. + +Alguns esperão ainda, que huma luz se não apague no vão, que occupa o +gás, da superficie do liquido á borda do parol. Não havendo mais +cachassa, misturão huma terça parte de mel com duas de agua, para se +seguir o mesmo effeito; ou misturão mel, cachassa, e agua, porque estas +cousas em si são indifferentes, e seguem-se os mesmos effeitos. Se +succede algumas vezes estar a guarápa em ponto, e o alambique occupado, +deitão agua na guarápa, para não passar, segundo dizem, e quando há +occasião, vai para o alambique. + +Nestes alambiques não há regra, cada hum tem os seus; porém nas fábricas +mais modernas, o commum he, sèrem os chamados, _tromba de elephante_. +Recebem o fogo pelo fundo, até huma terça parte da altura da cucurbita, +ou caldeira; outros recebem pelo fundo, e pelas paredes, onde se pratica +huma espiral, que acaba na chaminé. Todos tem serpentina de cobre, e já +vi alguma de estanho, e nada de refrigerante. O primeiro liquido, que +sahe pela serpentina, que he fleuma, he lançado fóra; e assim que +principia a correr o espirito, vai para o recipiente, a que chamão +balsa; esta cheia, he levada para a pipa, ou tonel. + +A serpentina, que he huma espiral de quatro, cinco voltas, está firme +n'huma grande tina cheia de agua, sempre quente, devendo ser bem fria. + +Todo este trabalho he feito sem principios; se alguns se gabão de fazer +muita aguardente, não he, porque saibão aproveitar, sim porque he feita +á custa do Assucar. + + +_Principios, que devem conduzir o Mestre Aguardenteiro._ + +He efficazmente demonstrado, que só a parte doce, ou assucarada de +qualquer liquido, he que pela fermentação se póde mudar em vinho, de que +se tira o espirito ardente. Esta mudança, que a fermentação faz, he em +mais, ou menos tempo, segundo a densidade do liquido, quero dizer mais, +ou menos assucarado. + +Se he pouco doce, fermenta mais depréssa, e assim relativamente; de +sorte que se chega a ter a consistencia de mel, não há fermentação, ou +ao menos não he sensivel. Há tres especies de fermentação; fermentação +espirituosa, fermentação acida, e fermentação podre, ou alcalina; ou +antes, só há a fermentação podre, que passa pelos dois primeiros +estados, de espirituosa, e acida. Quando hum liquido mucoso doce, pela +fermentação se faz vinhoso, toda a parte assucarada he decomposta, e +mudada em espirito. + +Se não se aproveita no alambique, e passa á fermentação acida, he +decomposto este vinho, e mudado em vinagre; se então vai ao alambique, +sahe hum acido. + +Se se deixa continuar a fermentação, e passa á alcalina, alcança o +liquido hum cheiro detestavel, e pelo alambique sahe sómente alcali +volatil, ou o producto das materias podres. Estas mudanças, ou +decomposições, accelerão-se, ou retardão-se, segundo o maior, ou menor +calor do ár, que he o principal agente da fermentação. + +No gráo de frio, que géla a agua, não há fermentação, ou ao menos não he +sensivel; e o mesmo succede n'hum gráo de calor de sessenta gráos para +cima, do thermometro de Reaumur, quero dizer, que a mão não póde +supportar. Quando o calor da atmosphera, ou do lugar, onde se faz a +fermentação, chega a dez gráos do mesmo thermometro, ella se estabelece, +e se augmenta cada vez mais até aos trinta e cinco, que he o maximum; de +trinta e cinco para cima, entra a enfraquecer proporcionalmente, até aos +sessenta em que pára. Estes sessenta gráos para a fermentação são iguaes +ao zero, ou gèlo de Reaumur. Nunca o gráo do frio no Rio de Janeiro póde +impedir a fermentação, por ser o calor da atmosphera, de vinte a trinta +gráos; e são raros os dias no Inverno, onde chega a quatorze, e nunca +menos. Quando hum liquido entra em fermentação espirituosa, não a soffre +ao mesmo tempo em toda a sua massa; já algumas partes tem fermentado, e +vão passando a acidas, quando outras ainda não principiárão; o que faz +precisar hum fermento, que excite o movimento em todas as suas partes, +ao mesmo tempo. + +Este fermento, a natureza o dá na espuma, e costra, que se fórma sobre +hum primeiro liquido, que fermentou, que mesmo se póde desseccar para o +uso. + +Ajudando o calor da atmosphera tão poderosamente a fermentação, deve o +Mestre Aguardenteiro impedir, quanto lhe for possivel, que com o gás, +que se desprende do liquido, se não dissipem partes espirituosas; para o +que ha de conservar os vasos, onde ella se faz, com pouca communicação +com o ár; e em lugar de cochos, e abertos, sirva-se de pipas, e ainda +melhor de dornas, com o fundo largo, a boca estreita, com sua tampa, e +nella hum pequeno furo, e de grandeza proporcionada aos alambiques. Deve +ter tambem o maior cuidado, em determinar o seu trabalho de sorte, que +não tenha mais guarápa que destilar, que os alambiques não possão +vencer; e que he melhor, que estes esperem, que aquella, por não haver +meio de impedir a sua depravação. + +O ponto principal, donde depende toda a felicidade, ou o maior producto +possivel da fermentação espirituosa, he, o saber conhecer precisamente o +instante, em que a guarápa deve passar ao alambique. O signal +infallivel, que designa este instante, foi descuberto por M. Gentil, +Prior de Fontenet, e membro de muitas Academias, «O sabor, diz este +grande homem, he huma qualidade, que he o objecto do gosto, e este +sentido não póde enganar-se entre o sabor vinhoso, e o sabor assucarado; +e como o cheiro vinhoso acompanha sempre o sabor vinhoso, he impossivel +errar sobre a relação destes dois sentidos. Não he preciso suppôr estes +sentidos bem delicados, e bem exquisitos, nem hum grande discernimento +para fazer a distincção; todo o homem organisado, como o commum dos +homens, distinguirá o sabor vinhoso, do sabor assucarado, com tanta +facilidade, quanta poderia distinguir a côr vermelha, da côr verde.... O +signal determinado, e infallivel, que designa de huma maneira +invariavel, o momento, em o qual, a fermentação tem chegado ao gráo +preciso, e a que he unida a maior perfeição de vinho; o momento, no qual +o vinho não he assàs feito, e depois do qual vem a ser aspero, +grosseiro; he o momento mesmo, onde, depois de muitas degustações +successivas, nas quaes temos sentido a diminuição do sabor assucarado. +Este sabor, depois de se ter enfraquecido gradualmente, desaparece +subitamente; então he o signal preciso, fixo, e seguro para se tirar o +vinho da dorna: isto he huma ordem irrevogavel, que a natureza prescreve +á arte, e que signala o momento fatal, a que he unida a perfeição deste +liquor.... Fura-se a dorna no meio da altura, que occupa o liquor, e +tapa-se com hum pequeno torno; logo, que a fermentação se estabelece, +tira-se o torno, e deixa-se correr o liquor n'hum pequeno copo para o +provar. Assim, que se percebe huma diminuição, marcada no sabor +assucarado, e huma augmentação no sabor vinhoso, que são inseparaveis, +deve haver cuidado na dorna, fazer a prova com frequencia, ter os vasos +promptos para receber o liquor; e se o signal aparece no meio da noite, +não differir para o outro dia o aproveitallo; esta noite segura huma +recompensa, que deve fazer esquecer a necessidade do repouso. Este +signal commum, he proporcionado á intelligencia de todos; he ainda +identico, e invariavel, para hum mosto de excellente qualidade, como da +mais mediocre; para huma grande quantidade de liquido, como para huma +pequena; para huma fermentação viva, forte, tumultuosa, e prompta, como +para huma fraca, lenta, etc. Ou seja o calor do ár proporcionado, ou +intenso, sempre he o mesmo; he preciso sómente, se a fermentação tem +sido mui rapida, ter mais cuidado na dorna, porque chega mais depréssa +ao ponto, e he de maior prejuiso á passagem.» + +Até aqui M. Gentil. Quando a guarápa indica este ponto, a costra, que a +fermentação produzio, está sobre ella; no tempo que gasta a desfazer-se, +misturar-se com o vinho, dissipar-se o gás, que a sobrenadava para não +apagar a luz, tem-se evaporado muito espirito, e outro tem passado a +acido, pela fermentação acetosa, que immediatamente segue a espirituosa, +porque a natureza não pára hum instante; e daqui se póde inferir, o +quanto se perde, pela fórma de tomar o ponto, no estado actual. + +Depois da boa fermentação com o seu ponto tomado a tempo, nada concorre +tanto para huma boa distilação, como a abundancia de agua, na casa +d'aguardente. + +Se no refrigerante não corre sempre agua fria, para a condensação do +vapor, e na tina da serpentina, para fazer cahir frio o liquor no +recipiente, há huma diminuição incalculavel, na quantidade, e qualidade +d'aguardente. + +A falta de principios, nos fabricantes deste genero, não lhe deixa +conhecer esta perda, porque lhe não he sensivel á simples vista. Olha-se +com tanta indifferença para este objecto, que eu já vi n'huma fábrica, +cujo dono não passa por ignorante, querer hum individuo tomar banho com +a agua da tina da serpentina, suppondo-a fria, ou ao menos tepida; e, +tirando a torneira, para lhe cahir no corpo, estava tão quente, que +quasi levantou vessiculas. Considere-se, quanto espirito se dissiparia, +sendo refrescado com agua neste estado. + +Se o engenho he de agua, tem a tina da serpentina sua bica, porém tão +pequena, que eu nunca vi, que a aguardente deixasse de correr com +quentura. Á excepção de alguns engenhos, que tem ao pé huma pequena +fonte, o commum he, o ser a agua carregada ás costas, e ás vezes de bem +longe. Era natural a lembrança de mandar abrir hum pôço, e com huma +bomba tirar a agua que se precisasse, principalmente neste paiz, onde em +menos de vinte palmos se acha a quantidade que se quer, porém só tenho +visto hum; quando a despesa, que com elle se fizesse, bem paga ficava na +primeira safra. + +O que se vai dizer sobre o gráo de calor para a distilação, he theoria +de Macquer, sobre a dos espiritos ardentes. + +He huma verdade chymica, que a quantidade de fogo para a distilação, +deve ser em razão da coherencia, ou apêgo das partes, que se querem +fazer evaporar, aquellas, que são compostas de principios mais fixos. + +Se se expõem á acção do fogo, compostos, que contenhão principios +volateis, e principios fixos; os primeiros, rarificados pelo calor, +procurárão separar-se dos segundos; e se o esforço que para isto +fizerem, for superior ao seu apêgo, a separação terá lugar, e a +evaporação se fará. Se se querem distilar substancias mui compostas, mui +capazes de ser alteradas pelo calor, e que contenhão principios da maior +volatilidade, taes como são muitas plantas cheirosas, os liquores +espirituosos, e outros desta natureza, he preciso usar do alambique +guarnecido de hum banho de maria, quero dizer, que o alambique não +receba mais calor, que o que póde communicar-lhe hum vaso com agua +fervendo, sobre a qual se assenta o mesmo alambique. Como na distilação +que se faz no alambique, os vapores dos corpos volateis sobem +verticalmente, e se condensão na sua parte superior, ou capello, esta +sorte de distilação tem sido chamada _per ascensum_. Podem fazer-se +distilar mui commodamente desta sorte, todas as materias bem volateis, +que possão subir ao gráo de calor, que não exceda o da agua fervendo; +taes são os espiritos rectores, o espirito ardente, a agua, e todos os +oleos essenciaes, etc. + +O que se passa na distilação em geral, he mui simples, e mui facil de +conceber. As substancias volateis, se fazem especificamente mais +ligeiras, quando soffrem hum gráo de calor conveniente, reduzem-se em +vapores, e se dissiparião debaxo desta fórma, se não fossem retidas, e +determinadas a passar a lugares mais frios, onde se condensão, e tomão a +fórma de liquores, se são dessa natureza. Como a distilação se faz +sempre em vasos fechados, falta o concurso do ár exterior ás materias, +que se levantão nesta operação, o qual he com tudo muito proprio para +augmentar, e accelerar a subida dos corpos volateis. Mas póde-se dizer, +que esta lentura, occasionada pelo defeito do ár, he antes util, que +desavantajosa; porque em geral, quanto mais huma substancia volatil, que +se separa da outra substancia mais fixa, se separa com lentura, tanto +mais esta separação he exacta. + +Por esta razão, quando se quer distilar, segundo as regras d'Arte, se he +obrigado a conduzir a distilação de sorte, que a substancia volatil +soffra só o gráo de calor necessario para a separar; e isto he sobre +tudo indispensavel; quando não há grande differença no gráo de +volatilidade dos principios dos corpos, que se querem decompôr pela +distilação. Póde-se estabelecer, como regras geraes, e essenciaes á +distilação; que se deve sómente applicar o gráo de calor necessario, +para fazer subir as substancias, que se devem destilar; e que a lentura +he tão vantajosa, quanto a precipitação he prejudicial nesta operação, +etc. + +Comparando o que diz este grande Chymico, com a quantidade de fogo, que +se atêa na fornalha do alambique, para distilar aguardente, parece +impossivel, que entre tantos distiladores no Brasil, não houvesse ainda +hum, que, abrindo os olhos da rasão, e guiando-se por ella, se afastasse +da trilha dos mais, o que augmentaria consideravelmente a quantidade, e +qualidade deste genero, sem ser á custa do Assucar, nem com a perda de +huma immensidade de lenha. A fornalha, que se propõem desenhada na +_Estampa VII._, he a do mesmo Macquer, adoptada a esta manufactura. + +Communica-se ao cinzeiro, por hum buraco de seis pollegadas de comprido, +e duas de largo. O vão da chaminé, he de quatro pollegadas em quadro; a +boca da fornalha tem hum palmo em quadro, e sua porta de ferro. + +Na Estampa tem as paredes dos lados abatidas, para se ver a construcção +por dentro, e o petipé faz conhecer as suas dimensões. O fogo se +entretem, e modera da mesma sorte, que no bangué do Assucar. + + +_Discurso sobre o alambique_ + +Naõ há instrumento chymico, em que se tenha tanto trabalhado, como no +alambique. Grandes homens tem buscado em todos os tempos a sua +perfeição, e continuar-se ainda hoje este trabalho, prova que ainda não +se achou. Parecerá temeridade, o arriscar eu as minhas idéas, depois dos +maiores Chymicos terem fallado; porém lembra-me, que hum grande homem +póde procurar huma cousa, e não a achar, e hum rustico, ou outro de +intelligencia mui limitada, vêla. Tem-se usado de refrigerantes, e +vio-se, que quando a agua desta bacia era fria, parava a distilação, e +que só se restabelecia, quando alcançava huma certa quentura. + +A rasão convincente deste facto he, que os vapores subindo á superficie +interna do capello, e condensando-se repentinamente pela frieza, +engrossavão muito, e pelo seu pêso cahião em gottas na superficie do +liquido; e que a agua hum tanto quente, impedindo esta condensação tão +prompta, permittia, que os vapores menos engrossados, se encaminhassem +ao canal praticado na circumferencia do mesmo capello, para sahirem pelo +seu bico. + +Daqui se concluio, que os refrigerantes erão inuteis. Entrão agora as +theorias. Huns, crendo, que a condensação se fazia na serpentina, fazem +subir a ella o vapor por hum gargalo, em fórma de _tromba de elephante_; +outros modificão esta especie de tromba, e dão hum grande diametro á +caldeira do alambique, com mui pouca altura; e fazem principiar a +serpentina com hum grande diametro, e acabar n'hum mui pequeno; outros, +em fim, augmentão a superficie do capello; porém he geral em todos, o +fazerem hum pescoço á caldeira, maior, ou menor, segundo a sua fantazia, +e só Chaptal quer, que a caldeira seja hum cilindro perfeito, porém nada +de refrigerante. Todos estes alambiques obrão com maior, ou menor +proveito; e eu tenho visto distilar sem refrigerante, nem serpentina, o +que me prova, que o contacto do ár no capello do alambique, tem bastante +força para condensar o vapor; não se aproveita tanto, como com a +serpentina, porém he pela dissipação do liquor, por sahir mui quente do +bico do alambique. Sendo a evaporação em razão da superficie, e subindo +os vapores perpendiculares, de que ninguem duvida, só Chaptal acertou, +tirando o pescoço á sua caldeira, e fazendo-a cilindrica; porque a +abobada abatida, que nasce das paredes da caldeira, até onde fórma o +pescoço, exposta ao contacto do ár, condensa o vapor que nella toca, e a +unica sahida que tem, he tornar para a caldeira; he por consequencia +preciso mais tempo, e maior fogo, para que o vapor se enfie por este +pescoço, segundo a maior, ou menor superficie que o ár toca, e o maior, +ou menor diametro do pescoço, mais, ou menos longitude da superficie, +onde se faz a evaporação, á parte onde, condensando-se, póde +encaminhar-se á serpentina. O refrigerante he preciso, e indispensavel +para huma boa distilação. Se a frieza da agua condensa mui promptamente +o vapor, e as gôttas engrossadas são precipitadas na caldeira pelo seu +pêso, he porque a abobada do capello, sendo muito abatida, não lhe dá +huma facil correntesa; a que eu tenho visto mais levantada, he a do +capello de Baumé, que faz hum angulo de cincoenta gráos; ora hum angulo +de cincoenta gráos facilita tanto a cahida, como a correntesa; ha de +correr, e cahir indistinctamente; porém se este angulo for de sessenta e +cinco gráos, por mais grossas que sejão as gôttas, tem mais facilidade +para correr, que para cahir, e por consequencia, quanto vapor subir, +tanto se aproveitará. + +A caldeira do alambique, que se propoem, he hum cilindro de quatro +palmos de altura, e quatro de diametro. O capello, que he de figura +conica, deve ter de altura o diametro da sua base, tirado da superficie +externa do canal, ou goteira, que acaba no bico, para fazer hum angulo +de sessenta e cinco gráos. + +Este capello deve ser de estanho puro, porque o espirito come o cobre; e +para ficar mais barato, e mais duravel, póde ser o estanho ligado em +partes iguaes com o zinco. Proximo á sua base, tem hum tubo de pollegada +e meia de diametro, que huma tampa do mesmo metal fecha em rosca, pelo +qual se introduz na caldeira o vinho para distilar; e he cercado de huma +chapa de cobre, soldada na circumferencia, na parte, onde principia o +calor, que se ha de introduzir na caldeira; cuja chapa fórma hum +cilindro da altura do cone, e serve de bacia, para conter a agua que +esfria o capello, onde se condensa o vapor, e o canal, que o conduz ao +bico. Esta bacia, ou refrigerante, tem n'huma das paredes, proximo á sua +base, hum pequeno tubo de pollegada de diametro, para dar sahida á agua, +que continuadamente deve correr sobre a ponta do cone; e tambem dá +passagem ao tubo, por onde se carrega de vinho a caldeira do alambique. +A caldeira tem seu tubo de descarga, para sahirem as fézes depois da +distilação, cujo tubo deve fechar em rosca na caldeira, para, no caso de +ser preciso tiralla, não desmanchar a parede da fornalha; porém que o +tape hum simples torno. A. _Veja-se a Estampa VII. Fig. I._ A serpentina +de oito linhas de diametro, em espiral de oito voltas. Eu não posso +comprehender as rasões que se dão, para ella principiar com hum grande +diametro, e acabar n'hum tão pequeno; creio, que a condensação do vapor +se faz no capello, que a frieza d'agua, batendo nelle, a favorece +prodigiosamente, e que a serpentina serve só de refrescar o liquor, para +cahir frio no recipiente; ora este effeito consegue-se melhor com o +pequeno, que com o grande diametro; porque a agua tem huma pequena +columna de ár que esfriar, e toca o liquor de mais perto em todas as +partes do canal. Se dou quatro palmos de diametro á caldeira do +alambique, he para que o seu fundo seja de huma chapa de cobre inteira, +e sem emendas; a altura, qualquer que seja o diametro, nunca deve passar +de quatro palmos. Tambem, se o diametro for muito grande, fica incommodo +o capello, por ser preciso levantar o cone em proporção: e eu não +conheço fábrica, que, trabalhando bem, possa occupar sempre dois +alambiques assim construidos. + +Os alambiques, que contém pipa e meia, e duas pipas de guarápa, servem +mais de ostentação, que de utilidade; o seu rendimento em espirito, não +equivale, proporção guardada, ao dos mais pequenos. A materia da +serpentina, merece a maior attenção, não deve ser de cobre, nem de metal +com elle ligado; o espirito corroe o cobre, dissolve o zinabre, e com a +aguardente se engole hum veneno; eu bem sei, que o espirito o disfarça +alguma cousa, e que he em pequena quantidade respeito á sua massa; porém +o ser pouco, e sem os terriveis effeitos, que causa dissolvido pelos +acidos, não impede, que ataque a economia animal, e pouco a pouco a +destrua. Desejava que fosse de prata pura, sem liga alguma de cobre. + +Os Artistas, que trabalhão em prata, tem mais pericia que os +caldeireiros; podem fazer as chapas de prata com a grossura da folha de +Flandres, reforçada; e, se lhe for mais cómodo, formar a espiral em +poligono de cinco, ou mais angulos; o effeito he o mesmo. Esta despesa +não he tão grande, que qualquer Senhor de engenho não possa com ella, e +a duração excederá á da sua vida. Talvez haverá, quem tenha esta idéa +por extravagancia, que a escarneça, e teime em usar de serpentina de +cobre; porém o miseravel que isto fizer, se não for por ignorancia, +merece a maior compaixão, por ter huma alma gangrenada pela avareza, que +lhe faz olhar com despreso, para a saude, e vida dos homens. Quizera +tambem, que o recipiente fosse hum garrafão, e nada de complicações, nem +torneiras de chave, faceis de desmanchar, e difficultosas de concertar, +porque me lembro das pessoas, que lidão nestas fábricas. + + +_Ordem do trabalho para fazer aguardente._ + +Tres quartas partes de agua, huma quarta parte de mel, são lançados na +dórna, a qual deve conter sómente, tanto desta especie de mosto, quanto +caiba em dois alambiques, ficando elles hum palmo por encher. Deita-se +neste mosto bastantes fézes de huma fermentação antecedente, que se +mistura bem com todo o liquido; tapa-se a dorna, deixando aberto o +pequeno furo da tampa, para a communicação do ár, e que a mesma dórna +fique ao menos dois palmos por encher. Assim que principia a +fermentação, prova-se o liquor, e continua-se a prova, até chegar ao +ponto determinado por M. Gentil. + +Ainda que o vinho neste ponto se considere claro, e se tire por huma +torneira, que a dorna tem no fundo, não deve passar ao alambique, sem +que seja por hum coador, para que não vão nelle partes grosseiras; +porque estas, hindo ao fundo da caldeira, e recebendo o fogo +immediatamente, queimão-se, e communicão ao espirito, o empireuma, ou +gosto de queimado, que he indistructivel. Já se vê, que esta dorna deve +estar n'huma altura tal, que o seu vinho possa correr por huma calha, +que o lança no alambique pelo tubo da sua carga; em cujo tubo está hum +funil de folha proporcionado, e neste funil he, que se deve pôr o +coador. Como a fermentação se fez com pouca communicação com o ár, e o +gás, que se soltou, e fugio do mosto, se conserva na mesma dorna, e +causa promptamente a morte a todo o animal, que o inspirar, não, porque +elle em si seja veneno, mas porque, sendo incompressivel, e inelastico, +o afoga, assim como a agua; deve haver todo o cuidado, para prevenir +qualquer funesto effeito. Antes do vinho hir para o alambique, já o +refrigerante deste está cheio de agua, assim como a tina da serpentina; +cuja agua continúa sempre a correr n'huma, e outra parte, e a sahir +pelos seus respectivos tubos, em quanto dura a distilação. Principia +esta, lançando logo bastante fogo debaxo do alambique, para sahir a +fleuma, que se despreza; e assim que entra a correr o espirito, +modera-se o fogo, e entretem-se sòmente o que he preciso; havendo sempre +a lembrança de perder antes por menos, que por mais, e que a lentura he +tão proveitosa para a quantidade, e qualidade, quanto a precipitação he +prejudicial. Assim que cessa de correr o espirito, ou corre sòmente, o +que se chama agua fraca, tira-se o fogo ao alambique, e descarrega-se +das suas fézes pelo tubo de descarga; muda-se a bica do refrigerante, e +a da tina para cahirem dentro delle, e desta sorte ser lavado; e de dia, +tira-se-lhe o capello, para se fazer este beneficio mais +individualmente. Não fallo nas qualidades, que deve ter a aguardente +para ser perfeita, porque he desconhecido neste paiz o areometro. + +A forma de a escolher, he agitalla n'hum pequeno copo, e a maior, ou +menor demora da espuma, que faz, he, o que lhe mostra a bondade; e +qualquer que ella seja, toda tem sahida. + + +_Sobre o tratamento do gado, e bestas._ + +Todos os animaes de serviço no Brasil comem no pasto; ainda se tivessem +pastos abundantes, como há muito gado, e bestas baratos (porque estas +nunca excedem a dezaseis, e os bois a oito mil reis) poderia supprir a +quantidade, á qualidade, e força; porém não succede assim. Qualquer +engenho tem cem bois, e quarenta bestas; como a moagem he no tempo da +secca, e não há divisão de pastos, e estes forão feitos á trinta, +cincoenta, e mais annos, e nunca renovados, a herva, ou capim, que +nelles nasce, não tem substancia, o Sol a dessécca; e os animaes +cançados, e inanidos vão aos brejos, onde vem alguma verdura, e com o +capim, que póde ser-lhe util, engolem plantas venenosas, que os matão. +Dizem que isto he peste, porém a fome he, que lhe faz comer, o que lhe +he nocivo. Há annos, em que a mortandade he tal, que parão engenhos de +moer. A este respeito, assim como de outros, a abundancia he que faz a +miseria. Se hum boi custasse cincoenta mil reis, huma besta oitenta; +vinte de huns, doze de outras, farião melhor serviço, sustentados com o +cará, batata, mandioca, guandu, abobora, e outras muitas cousas, de que +com curiosidade póde haver abundancia, sem contar a mansidão, que +alcanção estes animaes assim tratados, podendo-se fazer delles, o que se +quizer a qualquer hora. Ainda não vi hum curral calçado, nem cuberto; +enterrados os bois até á barriga he o commum. Depois de passarem assim a +noite, vão para o carro em jejum; trabalhão muitas horas, sahem +esfalfados, e a fome faz-lhe devorar o que encontrão. Tenho visto gastar +horas a meter bois em carros, e bestas nas almanjarras dos engenhos; se +estes animaes sahissem da estrebaria com a barriga cheia, hirião para o +serviço mansamente, não haverião marradas, nem coices, o que evitaria +accidentes que sempre há, além do adiantamento do trabalho, que a sua +braveza estorva. Ao menos devera ser o campo dividido em quatro partes, +passando o gado de humas para outras, não se demorar mais de dez dias em +cada huma, e não entrar na ultima, de que sahio, senão depois de trinta, +ou mais dias. Desta sorte teria tempo de crescer a herva, seria o seu +succo melhor digerido, e por consequencia mais nutritivo para o animal. +Se em lugar do pasto estar dividido em quatro, fosse dividido em oito +partes, e que o gado se demorasse em cada huma só quatro, ou cinco dias, +ainda seria melhor. + +Talvez parecerá, á simples vista, esta multiplicidade de pastos +divididos, superfluidade, porém he hum ganho real, porque, além de +prosperar o gado extraordinariamente assim tratado, sendo as divisões +com cèrcas vivas, podem servir os seus galhos para o fogo das fornalhas; +e os mesmos pequenos pastos, reduzidos a terras lavradas, plantar-se +nelles Canna. Os curraes serem calçados, e cubertos, e recolhidos nelles +os animaes, que devessem trabalhar de noite, ou de madrugada, os quaes +terião sua ração, não de olhos de Canna, sim dos fructos acima +mencionados. + + +_Cêrcas vivas, e mortas._ + +He notavel o serviço, que se perde em cêrcas, quasi continuado, e sempre +insufficiente. Os moirões são da madeira, que se encontra, o mesmo as +varas, amarradas a cipó, que antes de seis mezes apodrece. Se aparece +algum bocado de cêrca viva, he para fazer conhecer a facilidade de se +naturalisar em todas as partes, onde o seu uso póde ser util. Não há +paiz, como o Brasil com tantas arvores, e arbustos, de que se possão +fazer cêrcas vivas. As de limão, e cidra, são conhecidas, porém aparecem +como amostra. Todos os páos brancos de casca leitosa, e grande miolo, +pegão bem de estaca, e são de prompto crescimento. Todas as especies de +figueiras bravas, são excellentes; com ellas em dois, ou tres annos, +podem ficar as cêrcas impenetraveis, e o decóte annual, servir de lenha +para as fornalhas. Plantem-se as estacas alinhadas na distancia de dez +palmos, que fiquem na altura de seis. Cortem-se os pimpolhos, ou brotas, +que nascerem para a parte de fora, ou de dentro, conservando as dos +lados, ou comprimento da cêrca, nas quaes se prenderá algum pêso, para +as fazer dobrar brandamente; quando cruzarem, faz-se huma ferida na +casca das duas brotas, enxertão-se, e fazem-se firmes com hum pequeno +espeque, assim como mostra a _Figura I._ da _Estampa VIII._ Mergulhão-se +os galhos na terra, onde tomão raiz, e fazem a vista, que se mostra na +_Figura II._; haja hum pouco de cuidado, e em poucos tempos se verá o +effeito. As cêrcas assim feitas, hão de ser de arvores da mesma especie; +e de qualquer que sejão mesmo das fructiferas, podem servir, ainda que +com mais demora. + +Como há partes, onde as cêrcas vivas se faráõ impraticaveis; para se +fazerem as cêrcas mortas com aceio, solidez, e sem perder muito tempo, +quando se fizer alguma derrubada, devem torrar-se os páos de madeira +firme, taes como de gorauna, ipé, e brasil, etc. no comprimento de doze +palmos para moirões; e os páos de boa qualidade proprios para varas, no +de onze. Quando os trabalhadores se recolhem do serviço, trazem estes +páos, que depositão n'hum armazem. Em tempo de chuva, parte dos escravos +falquejão estes moirões dos dois lados, ou os quadrejão; outros lhe +fazem buracos, distantes por huma bitola de dois palmos, que passem de +parte a parte, e cada moirão deve levar quatro, principiando de meio +palmo da cabeça para baxo; e outros escravos proporcionão as pontas das +varas, a caber nos buracos dos moirões até meio páo; cujos buracos não +devem ter menos de duas pollegadas em quadro. Depois de haver huma boa +provisão de moirões, e varas, querendo-se fazer qualquer cêrca, +mandão-se fazer os buracos na terra alinhados, e na distancia de dez +palmos livres, com dois e meio de fundo. Quando estiverem feitos, no +acto de hirem os trabalhadores para o serviço, carregão as varas, e +moirões, lançando estes cada hum em seu buraco; ficão só dois escravos +endireitando-os, e firmando-os na terra. He visivel, que desta sorte tem +as cêrcas outra duração. A _Figura III._ mostra os moirões, e varas. + + +_Lenhas._ + +He quasi geral a falta da lenha nos engenhos dos suburbios do Rio de +Janeiro; alguns já a comprão, e outros não tardaráõ a fazello. Nos +campos dos Goitacazes, antes de dez annos pararáõ mais de ametade das +fábricas á falta della. Se há paiz, onde isto se não devêra temer, he +todo o Brasil, pela immensidade de arvores, que pegão bem de estaca, e +em poucos annos alcanção a maior grandeza. + +O cajá, o cabui, a mangueira, as figueiras, geralmente todos os páos +brancos pegão com a maior facilidade. + +Os pinheiros, que são espontaneos de serra acima, nascem bem de serra +abaxo, semeando-se os pinhões de vez, e em poucos annos se fazem grandes +arvores, que podem servir a infinitos usos. O guandu, ou hervilha de +Angóla, arbusto, que tem a propriedade de nascer, e prosperar em toda a +qualidade de terreno, mesmo no que se suppõem peior; depois de colhido o +fructo, de Junho até Agosto, que he excellente legume, póde decotar-se +pelo pé, operação de que carece, para a reproducção de outro; de cujas +folhas são avidos todos os animaes herbivoros, e cujos troncos, e ramos, +podem servir para as fornalhas. + +Deve haver o cuidado de tirar as estacas para plantar, de hum terreno +analogo áquelle, onde se devem plantar; se o terreno for sêcco, devem +ser tiradas de sequeiro, e o mesmo, se for humido. + +Ainda que haja mattos virgens, sempre as lenhas se devem plantar; os +páos de matto virgem fazem só brazas, e para as caldeiras, onde se +precisa hum fogo activo, os ramos, os galhos são melhores; çapé mesmo +feito em feixes, o bagaço da Canna, dão hum calor mais forte, que +madeira dura, principalmente se he em grossos tóros, como se usa +commummente. Talvez parecerá isto paradoxo a quem não tem idéa do como +se queima em Portugal o tijolo, a telha, a cal, onde se emprega sómente +tojo, carqueja, rama de pinho, e mattos carrasqueiros. As estacas, para +plantar, tambem podem ser tiradas das raizes das arvores, fazendo-as de +hum palmo de comprido, havendo o cuïdado de não ferir a sua casca, e de +as plantar n'hum terreno bem estrumado; desta sorte não falhão. + + +_Carros._ + +Ainda não lembrou a ninguem na Capitania do Rio de Janeiro, o fazer uso +da carreta, em lugar do carro, sendo a vantagem tão visivel. As rodas do +carro, tem o trilho de huma a duas pollegadas, com cinco a seis palmos +de altura; o trilho das da Carreta, he de quatro a cinco pollegadas, com +nove a dez palmos de altura. Ora n'hum paiz de caminhos não calçados, +pantanosos, he infinitamente melhor a carreta, cujas dão tanta folga aos +animaes, além de não se enterrarem tanto, e facilitarem o virar de hum +para outro lado, sem forcejar no cabeçalho; custando menos na sua +construcção, por haver maior quantidade de madeiras que lhe sirvão, não +precisar tanto ferro, e mesmo se póde fazer sem elle; e onde dois bois +puxão mais sem tanta fadiga, que os seis do Carro. Devo lembrar, que os +raios da roda da Carreta, não devem ser inclinados para fóra, como os +das rodas de sege; hão de ser perpendiculares ao cubo, o que lhe +conserva toda a fortaleza. + + +_Capinas._ + +Hum dos objectos, que merece toda a atenção, e que dá grande trabalho +aos Lavradores do Brasil, são as capinas, ou limpas das hervas gulosas, +que pullulão extraordinariamente, e roubão a substancia destinada ás +plantas, de que pretendem utilidade. A fórma de fazer esta limpa, he +muito defeituosa; a enxada, de que se usa, não dá bastante expedição; o +seu ferro fere a terra, formando hum angulo de mais de sessenta gráos, e +não tem a propriedade de arrancar as pequenas raizes, sem a perda de +muito tempo. + +Em lugar da enxada, deve-se adoptar hum raspador, cujo ferro tenha seis +pollegadas de alto, e doze de comprido, temperado de aço, e cortante; +que tenha o cabo reforçado, e encavado de sorte, que na mão do obreiro +faça formar ao corte hum angulo até quinze gráos. O trabalhador pega com +a mão esquerda na ponta do cabo, e com a direita na altura a que chega, +carrega sobre o mesmo; e tendo o corpo de perfil, com inclinação para a +direita, balancêa-o para a esquerda, forcejando sobre o raspador, e faz +arrastar o seu corte quasi dois palmos, e assim continua, sem nunca o +levantar; parece, que desta sorte cortará mais capim, que dez enxadas. +Para arrancar as pequenas raizes, se há precisão de o fazer, tem mais +propriedade hum ensinho, com seis dentes de ferro curvos, firmados n'hum +grosso madeiro, onde prenda hum cabo reforçado; cujos dentes devem +sobresahir até tres pollegadas, e serem afastados, huns dos outros, +duas; he visivel, que arrancará mais raizes, que muitas enxadas. A +_Figura II._ da _Estampa VI._ mostra o raspador. A _Figura III._, o +mesmo raspador visto de perfil com o seu cabo. + +A _Figura IV._, he o ensinho com dentes de ferro curvos para arrancar +pequenas raizes. + + + + +NOTAS QUE PERTENCEM A ESTA OBRA. + + +NOTA I. Pag. 4. + +Na Provincia do Minho, e em outras partes, há muita uva, que não pode +amadurecer, porque as cêpas são encostadas a arvores, cujas folhas +impedindo, que a luz toque nos cachos, não se pode aperfeiçoar o seu +succo, nem alcançar doçura, condição, sem a qual se não pode fazer vinho +generoso. + +Estas uvas são sempre azêdas, e o seu vinho quasi não tem valor, por +aspero, e inexportavel. He enriquecer aos seus habitantes, e por +consequencia ao Estado, o dizer a forma, porque podem fazer vinho +generoso, e com todas as qualidades, que lhe adquirem grande valor, e +exportação. O meio simples, innocente, e infallivel, para conseguir esta +perfeição, he ajuntar ao mosto máo, antes da fermentação, huma certa +quantidade de Assucar, maior, ou menor, segundo a qualidade do mosto; +porém que nunca poderá exceder a huma arroba por pipa, por mais verde, +que elle possa ser; e governar-se a fermentação, assim como se diz nos +principios para fazer aguardente. Esta despeza ha de ser compensada com +usura na venda do vinho, pelo excesso de verde, a maduro, e bom. Macquer +chegou a fazer vinho de verjus, que he huma uva, que nunca amadurece, e +se servem della em França para tempero acido, assim como nos nos +servimos do limão. Fez tambem, com uva muito má, vinho liquoroso, vinho +como o de Tockay, que he feito de uva muito doce, quasi em passa, +simplesmente com a addicção do Assucar. Não he preciso, que o Assucar +seja branco, basta o mascavado, e mesmo o mel, se houver em abundancia. + + +NOTA II. Pag. 7. + +Boyle pesou huma pouca de terra vegetal, de que encheo hum caixão; +depositou nesta terra huma semente de buxo, e a regava, quando era +preciso. + +Passados annos, pesando este buxo, achou, que tinha cento e tantas +libras, e a terra só tinha diminuido algumas onças. + + +NOTA III. Pag. 9 + +A luz depura as emanações dos vegetaes, prepara com ellas o elemento, +que respirão os animaes, e rehabilita o que a sua respiração tem +corrompido; porque o animal inspira ár, e expira gás: o vegetal, pelo +contrario, absorve gás, e transpira ár puro; porem este ár á sombra, e +de noite, corrompe-se, se a luz o não purifica. A materia, que vive nos +animaes, e nos vegetaes, tem huma dependencia absoluta da luz; ella tem +a faculdade de penetrar os corpos que toca, produzir nelles calor, +desenvolver o que tem no seu seio, e aperfeiçoar os seus succos. As +plantas, que são privadas da luz, por muito juntas, ficão delgadas, as +folhas, e as hastes de hum verde desmaiado, por consequencia enfermas, e +sem darem o producto, que se devia esperar. + + +NOTA IV. Ibid. + +O ar he absolutamente preciso para entreter a vida animal, e vegetal. Se +he corrompido, se não se renova, os animaes, e os vegetaes padecem, +deperigão, e morrem. Já se disse em a nota antecedente, que os animaes +inspiravão ár, e expiravão gás; e que os vegetaes absorvião gás, e +transpiravão ár puro. Esta troca reciproca, estabelecida pelo Author da +natureza, he a que faz ser o ár, que se respira no campo, tão saudavel, +e nocivo, o das grandes povoações. + +No campo há toda a facilidade para se fazer esta troca, que tanto se +difficulta nas Cidades. + +O gás, ou ár fixo, que os animaes expirão, e os vegetaes absorvem, he +hum liquido incompressivel, que, não sendo misturado com sufficiente +quantidade de ár puro, mata os animaes, que o inspirão, afogando-os, +assim como faz a agua, ou qualquer liquido que nos seja visivel; porém +elle se conhece so pelos effeitos, nas victimas que faz perecer, e não á +simples vista. + + +NOTA V. Pag. 41. + +Franklin navegando em frota na America do Norte, vio serem maltratados +por huma tempestade, todos os Navios, e so dois novamente concertados, e +alcatroados, sentirão muito pouco os seus effeitos. Vio tambem algumas +gôttas de azeite lançado no mar, cuja reunião encheria apenas huma +colher, temperar as ondas a mais de cem toezas, com huma celeridade de +expanção tão maravilhosa, como a sua divisão; e que este effeito do +azeite, ou qualquer oleo, principalmente do vegetal, era sobre tudo +efficaz, para evitar o perigo dos mares encapelados. Todas as pessoas, +que tem sentido no mar grandes tormentas, sabem, que os mares +encapelados procedem de huma grande serra de mar, que agitado pelos +ventos, forma huma horrorosa columna, a qual dobrando, ou encapelando, +se por desgraça encontra alguma embarcação, seja ella a maior Náo, +lançando-lhe dentro milhares de toneis de agua, a faz sossobrar. A pezar +de ser Franklin quem isto diz, eu, que sabia o que erão mares +encapellados, suspendi a minha crença, parecendo-me impossivel, que huma +tão pequena quantidade de materia, fizesse cessar hum tão terrivel +effeito: porém a primeira vez, que vi fazer Assucar, e que hum grande +fogo lançado debaxo de huma caldeira, fazendo sublevar acima das bordas +della alguns palmos o liquido, que continha, e que huma pitada de massa +de Mamono, reduzia repentinamente este liquido á sua altura natural, +lembrei-me logo da observação de Franklin, e ainda que eu não possa +conceber o porque isto se faz; se huma pitada de massa de Mamono, que +poderá conter apenas meio grão de azeite, e azeite crasso, he capaz de +impedir a sublevação, e fuga do liquido de huma caldeira abrazada, creio +certamente, que algumas oitavas de azeite bem expansivel, tal como o de +amendobi, de que há abundancia em Angola, lançado por huma seringa de +delgado canudo, contra o maior mar encapelado, o reduzirá a onda +simples, que não tem perigo de consequencias para os Navios. + + +NOTA VI. Pag. 69. + +O ponto indicado por M. Gentil, he para se fazer o vinho da uva; porém +como todos os mostos são compostos dos mesmos principios, com mui +pequenas modificações, o que succede no mosto da uva, he commum ao da +maçan para a cidra, ao da cevada para a cerveja, ao sumo, e productos da +Canna de Assucar, para se fazer aguardente. A passagem da dorna, ou cuba +para a pipa, com os acidos mineraes, para impedir a fermentação +ulterior; como do vinho de Canna, ou guarápa, o que se pretende he +aguardente, tambem he o ponto desta guarápa, passar ao alambique para a +distilação. + + + + +EXPLICAÇÃO DAS ESTAMPAS. + + +ESTAMPA I. + +FIG. I. Forma dos partidos para a Canna, com doze braças em quadro, e o +mesmo de intervallo entre cada partido. + +FIG. II. Quadrados longos, que fórmão tambem partidos, com menos +intervallo. + +FIG. III. Quadrados longos, com outra direcção. A agulha, que está no +centro, he para mostrar o alinhamento, que devem ter os pequenos +partidos, para a Canna ser plantada de Norte a Sul, e de Leste a Oeste. + + +ESTAMPA II. + +FIG. I. A folha da enxada sem cabo. + +FIG. II. A mesma enxada encavada. + +FIG. III. O trabalhador com a enxada prompto a trabalhar. + +FIG. IV. O mesmo trabalhador, trabalhando. + + +ESTAMPA III. + +FIG. I. He a vista exterior da casa do engenho, tomada ao longo. + +FIG. II. He a vista plana da mesma casa. + +FIG. III. He a vista exterior da entrada da casa do engenho, que mostra +tambem as varandas para picadeiros, e outras serventias. + + +ESTAMPA IV. + +Mostra a fórma de moer Canna, pelo methodo que se propõem. + + +ESTAMPA V. + +FIG. I. Mostra o bangué de tres tachas, com as paredes dos lados +abatidas, para se ver o interior; e o fogo fazendo o seu effeito. + +FIG. II. Mostra os dentes em prisma para o ensinho, vistos de topo, com +a grossura, e fórma, que devem ter, e distancia de huns a outros; o mais +escuro he a espiga, que deve entrar no madeiro, onde prende o cabo. A. e +B. figura dos dezoito dentes do centro do mesmo ensinho. C. figura dos +dois dentes, que devem fazer os lados. + + +ESTAMPA VI. + +FIG. I. Mostra hum trabalhador, cavando com a enxada, como se pratica em +França, Inglaterra, etc. + +FIG. II. Fórma do raspador para as limpas, ou capinas. + +FIG. III. O mesmo raspador de perfil, para mostrar a direcção, que deve +ter encavado. + +FIG. IV. Figura do ensinho, para arrancar pequenas raizes. + +FIG. V. Mostra o balde de valvula trabalhando; a polé póde ser feita de +taboas, assim como o sexto circulo, onde se vem os sinaes dos fuzelos, +que sustem as duas cordas que prendem o balde, e tambem a corda, que +levanta a valvula. O apoio da balança está em tres palmos, e o +trabalhador puxa por huma alavanca de seis. + +FIG. VI. Pessa onde joga a polé, e que facilita o seu movimento para +todas as partes. + + +ESTAMPA VII. + +FIG. I. He o alambique na sua fornalha com o fogo acêzo. O refrigerante +deixa ver a figura do capello, fazendo hum angulo de 65 gráos, e o +petipé mostra as dimensões do alambique, e fornalha. + +FIG. II. He a fôrma de Assucar, vista com a boca para cima. + +FIG. III. He a mesma fôrma, deixando ver a abertura do seu fundo. + + +ESTAMPA VIII. + +FIG. I. Faz ver como se fazem cêrcas vivas. + +FIG. II. Mostra os ramos entrelaçados, e mergulhados na terra. + +FIG. III. Mostra os moirões, e varas para as cêrcas mortas. + +FIG. IV. He hum quarto circulo, para dar a conhecer, o que são gráos de +elevação. Na linha horisontal do mesmo, se vem duas pollegadas, +repartidas em linhas. Huma pollegada tem doze linhas, hum palmo tem oito +pollegadas, hum pé tem doze pollegadas. + + + + +INDICE + +DO QUE CONTEM ESTA MEMORIA. + + +_Descripção da Canna de Assucar, segundo a vista que appresenta._ Pag. 1 + +_Como se cultiva actualmente a Canna de Assucar._ 2 + +_Notas sobre esta fôrma de plantação._ 4 + +_Theoria para a cultura da Canna de Assucar._ 5 + +_Como se deve cultivar a Canna de Assucar._ 10 + +_Vantagens desta fôrma de plantação._ 16 + +_Córte das Cannas._ Ib. + +_Construcção dos engenhos actuaes._ 17 + +_Notas sobre esta fórma de construcção._ 19 + +_Nova construcção de engenhos._ 20 + +_Sobre o movimento das moendas._ 22 + +_Comparação da roda vertical com a horisontal._ 24 + +_Preciso sobre a dentadura das rodas._ 26 + +_Como se moe Canna actualmente._ 30 + +_Notas sobre esta fórma de moer._ 32 + +_Nova fórma de moer._ 33 + +_Comparação da moagem actual com a que se propõem._ 35 + +_Descripção do que contém a casa de caldeiras actualmente._ 38 + +_Como se trabalha na fábrica do Assucar._ 40 + +_Notas sobre esta fórma de fazer Assucar._ 44 + +_Principios, que devem conduzir o fabricante de Assucar._ 47 + +_Preparo para manufacturar o Assucar._ 50 + +_Fórma de fazer a decoada._ 53 + +_Descripção, e proporções do Bangué._ 54 + +_Preparo do barro para clarificar o Assucar._ 56 + +_Methodo para trabalhar na fábrica do Assucar._ 57 + +_Como se trabalha na fábrica da aguardente._ 63 + +_Principios, que devem conduzir o Mestre Aguardenteiro._ 65 + +_Discurso sobre o alambique._ 73 + +_Ordem do trabalho para fazer aguardente._ 78 + +_Sobre o tratamento do gado, e bestas._ 80 + +_Cêrcas vivas, e mortas._ 82 + +_Lenhas._ 84 + +_Carros._ 85 + +_Capinas._ 86 + +_Notas._ 88 + +_Explicação das Estampas._ 92 + + +FIM. + + + + +[Figura: Est. 1] + + + + +[Figura: Est. 2] + + + + +[Figura: Est. 3] + + + + +[Figura: Est. 4] + + + + +[Figura: Est. 5] + + + + +[Figura: Est. 6] + + + + +[Figura: Est. 7] + + + + +[Figura: Est. 8] + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+---------------------+----------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+---------------------+----------------------+ + |#pág. 24| hnm | hum | + |#pág. 28| ou ou ambos | ou ambos | + |#pág. 42| Quaudo | Quando | + +----------+---------------------+----------------------+ + + +A numeração das páginas foi alterada no índice de forma a corresponder à +numeração real das páginas do livro original. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Memoria sobre a cultura, e productos +da cana de assucar, by José Caetano Gomes + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIA SOBRE A CULTURA *** + +***** This file should be named 25148-8.txt or 25148-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/5/1/4/25148/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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