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+The Project Gutenberg EBook of Memoria sobre a cultura, e productos da
+cana de assucar, by José Caetano Gomes
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Memoria sobre a cultura, e productos da cana de assucar
+
+Author: José Caetano Gomes
+
+Contributor: José Mariano da Conceição Veloso
+
+Release Date: April 23, 2008 [EBook #25148]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIA SOBRE A CULTURA ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+
+ *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
+ existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
+ versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Abr. 2008)
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+
+MEMORIA
+SOBRE A CULTURA, E PRODUCTOS
+DA
+CANA DE ASSUCAR
+
+_OFFERECIDA_
+A S. ALTEZA REAL.
+
+O PRINCIPE REGENTE
+NOSSO SENHOR.
+PELA
+MESA DA INSPECÇAÕ DO RIO DE JANEIRO.
+APRESENTADA POR
+JOZE CAETANO GOMES,
+E DE ORDEM DO MESMO SENHOR
+_PUBLICADA_
+POR
+Fr. JOZE MARIANO VELLOSO.
+
+
+
+LISBOA:
+Na Offic. da casa litteraria do arco do cego.
+
+Anno M. D CCC.
+
+
+
+
+SENHOR.
+
+
+_A Mesa da Inspecção do Rio de Janeiro, desejando conformar-se com os
+ardentes desejos, que V. A. R. tem de fazer felices os Habitadores do
+Brasil, por huma bem entendida Agricultura, e desta sorte satisfazer
+tambem as suas Reaes Ordens, recomendou a Jose Caetano Gomes, que lhe
+apresentasse as reflexões, que os seus vastos conhecimentos lhe tivessem
+subministrado, sobre a factura do Assucar nos Engenhos do Rio de
+Janeiro, a que elle satisfez no dia 16 de Março do anno proxime passado
+de 1799., lendo perante ella a presente Memoria, que, sendo dirigida a
+V. A. R., se dignou ordenar-me, que houvesse de a fazer imprimir, em
+beneficio de seus fieis vasallos dos vastos dominios, naquelle
+Continente._
+
+_Como pois André João Antonil no seu livro da Cultura, e opulencia do
+Brasil, não faz mais, que dar huma simples relação do modo de cultivar a
+Canna, extrahir Assucar no Brasil, creio, SENHOR, ou talvez posso
+assegurar, que, sobre este objecto, esta he a primeira cousa, ou a unica
+melhor escripta em nossa linguagem pelas sabias, e luminosas reflexões,
+com que a enriquece, e que seu Author he digno das Soberanas vistas de
+V. A. R., a cujos pés se prostra_
+
+
+ _O mais humilde vassallo_
+
+ _Fr. Jose Mariano da Conceição._
+
+
+
+
+PROEMIO.
+
+
+Sendo a Provincia do Brasil considerada como melhor Colonia do Mundo,
+não se sentindo em toda ella nenhum dos flagellos da natureza, pois não
+há terremotos, furacões, volcões, fomes, nem pestes; gozando de hum
+clima benigno, e, á excepção de poucas trovoadas, que servem de depurar
+o seu ár, e concorrendo todas as causas fysicas, com huma vegetação
+sempre activa, para fazerem a felicidade dos seus habitantes, não se
+poderia comprehender, o não ter chegado este bello paiz ao maior gráo de
+prosperidade possivel, se se não soubesse, que as causas moraes, podem
+tanto, ou mais que as fysicas, para deteriorar o melhor terreno.
+
+A Agricultura, a primeira, a mais util das Artes, que nutre a todas, e
+faz a base da prosperidade, e força dos Estados, não sahio ainda da
+infancia no Brasil; todas as plantas são cultivadas por costume, e sem
+principios; as luzes da Europa culta chegão cá tão fracas, que não podem
+aclarar-nos; as couzas mais triviaes, de que podíamos ter abundancia,
+não se sabem trabalhar. A Canna de Assucar sendo o vegetal mais
+precioso, comparado o seu producto, com o que tirão os Estrangeiros das
+Antilhas, he menos de ametade. Entregue a sua cultura á escravos
+conduzidos por hum feitor, sem mais talentos que, os que lhe suggere a
+sua ferocidade; a manufactura do Assucar, e da aguardente, executada por
+ignorantes, que não sabem a razão dos factos, nem conhecem a natureza
+das differentes partes, que constituem os liquidos, sobre que trabalhão;
+os donos das fábricas olhando com indifferença para todos estes
+objectos, julgando-os indignos da sua applicação; não he de admirar, que
+desta sorte haja o atrazamento, que se vê na cultura, e producto da Cana
+de Assucar.
+
+Conheço alguns Senhores de engenho, que se distinguem pela sua
+instrucção; para estes não he que escrevo; a minha obra he dirigida
+sómente, aos que sabem ainda menos do que eu, e que estão inteiramente
+entregues á disposição dos seus obreiros. A cultura actual, respeito á
+que se propõem, faz huma grande differença. Quem está costumado a
+plantar Cana na distancia de hum, a dois palmos, e que assim se dá bem,
+difficilmente poderá conceber, que, plantando na de seis, lucrará mais.
+Ainda que a razão, e a experiencia fação conhecer, que as plantas devem
+ser afastadas humas das outras, segundo a sua grandeza, e a quantidade
+de succos, de que carecem, não pertendo que se adopte o novo methodo,
+sem que cada hum se convença por si mesmo da sua efficacia. Plante-se
+hum quadrado de doze braças, que deve conter quatrocentas covas de Cana,
+segundo o methodo que se propoem; plante-se outro quadrado igual, na
+mesma qualidade de terra, segundo o methodo que se pratica; faça-se
+assento da despeza de huma, e outra cultura separadamente; apure-se o
+producto destas duas especies de plantação; deduzão-se-lhe as
+respectivas despezas e a resulta que se achar he o que se deve seguir.
+As experiencias em pequeno não arruinão a alguem, e podem ser seguidas
+de grandes utilidades. O que digo sobre a cultura da Cana, e lembro a
+respeito ás suas dependencias, manufactura do Assucar, e aguardente; he
+o que me parece melhor; porém cada hum deve ver por si mesmo, e fazer
+tudo o que a experiencia lhe mostrar mais util.
+
+
+
+
+DESCRIPÇAÕ DA CANNA DE ASSUCAR,
+
+SEGUNDO A VISTA QUE APPRESENTA.
+
+
+A canna de Assucar, tem a apparencia das outras cannas destituidas de
+medulla; he huma planta da familia das gramineas; como ellas, he cheia
+de articulações, ou nós, que distão huns dos outros, de meia até quatro
+pollegadas, segundo a bondade do terreno, produzindo huma folha em cada
+articulação, ou nó, cercada de pequenas raizes, onde há hum botão, ou
+olho, destinado a ser canna, se se deposita na terra. Estes espaços
+entre cada articulação, a que se chama gomos, são cheios de huma medulla
+esponjosa, elastica, succosa, doce, cuberta de huma casca pouco dura,
+lenhosa, que se deixa penetrar pela unha; destinada a se extrahir della
+hum sal essencial, que se chama Assucar. O seu comprimento, ou altura,
+he de seis, a doze palmos, segundo o terreno, na Cappitania do Rio de
+Janeiro, e de oito, a doze linhas de diametro. Succede adquirir algumas
+braças de comprido, se cahe, e as raizes, que circundão os nós,
+introduzindo-se na terra, fazem collos; porém só o que sobe ao ár depois
+da ultima raiz, he que tem doçura, tudo o mais he perdido. A Natureza
+tem destinado dezoito mezes a esta planta para chegar á sua perfeição;
+se he colhida antes, ou depois deste termo, o rendimento he menor em
+proporção que delle se afastão; porém com maior prejuizo depois, que
+antes da madureza. Isto he relativo á Estação; grandes sêccas, ou
+grandes chuvas, accelerão, ou retardão esta colheita.
+
+Ainda que, como outra qualquer planta, a Canna de Assucar floreça, e dê
+semente, a fórma de se multiplicar, he lançar na terra pequenas estacas
+tiradas da parte superior da Canna, onde não tem doçura; porém isto só
+póde fazer-se, quando a plantação he ao mesmo tempo, que a colheita,
+fóra disto toda a Cana desde a raiz he empregada em estacas.
+
+
+_Como se cultiva actualmente a Canna de Assucar._
+
+Cada plantador de Canna, segundo as suas faculdades, vai com dez, vinte,
+quarenta, ou mais escravos com enxadas, limpar de todas as hervas huma
+certa porção de terra, onde quer fazer aquillo a que se chama partido.
+
+As plantas, ervas, ou capins arrancados, ou cortados com a enxada, são
+sacudidos da terra pelos mesmos escravos, que trabalhão enfileirados,
+juntos em pequenos monticulos, para no caso de sobrevir chuva, não
+pegarem as raizes na terra. Depois da terra capinada, ou limpa de
+plantas, vão os escravos abrir covas com a mesma enxada; cujas covas são
+huma especie de regos, de duas, a tres pollegadas de profundidade, na
+distancia huns dos outros, de hum palmo, a palmo e meio; e se suppõem a
+terra muito boa, chegão a dois palmos. São lançadas nestes regos duas
+estacas de Canna, de palmo e meio de comprido, e se cobrem com a mesma
+terra, que se tirou da cova. Faz-se esta plantação em dois tempos; hum
+quando se moe para aproveitar os olhos da Canna, que he a parte superior
+della, de Junho até Setembro; o outro em Março, que se tem pela melhor
+plantação, a qual se faz então com as estacas tiradas de toda a Canna,
+que se não moeo, com o fim mesmo de se plantar neste tempo. He de
+costume a qualquer das duas plantações dar duas capinas, ou limpas. A
+Canna plantada de Junho a Setembro, he moida no anno seguinte com doze a
+quatorze mezes; a plantada em Março, de dezoito a vinte mezes; huma, e
+outra se deixa ficar por não se poder moer, para Canna velha; planta-se,
+ou moe-se na safra subsequente. Da Canna, que se cortou, colhe-se a
+sócca no anno seguinte, e dahi todos os annos as ressócas, em quanto no
+terreno brotão Cannas. Ainda que se conheça, que estas ressócas rendem
+progressivamente ametade, as ultimas em respeito ás antecedentes, todos
+as aproveitão quanto podem. Alguns lavradores, rarissimos, se tem
+servido do arado para fazer os regos, e de algum estrume nas terras já
+cançadas, porém o numero he tão diminuto, que não merece entrar em linha
+de conta; o geral he limpar a terra a braço, ajuntar o capim, fazer
+covas com a enxada sem alinhamento, plantar sem estercar, fazer toda a
+plantação em hum, ou dois partidos, fugindo de terras virgens, porque,
+assim como as muito estercadas, ou estrumadas, fazem a Canna, a que se
+chama taioba, quero dizer, muito aquosa, muito oleosa, e pouco
+assucarada.
+
+
+_Notas sobre esta fórma de plantação._
+
+Sendo a Canna de Assucar huma planta, destinada pela Natureza a alcançar
+doze, dezaseis, vinte, e mais palmos de altura, segundo o terreno, e até
+pollegada e meia de diametro, não he possivel que possa prosperar
+plantando-se tão junta; porque rouba huma a substancia da outra. Tambem
+as covas, ou regos, em que se planta, não tem bastante profundidade;
+duas, ou tres pollegadas não bastão para a suster.
+
+Plantando-se sem alinhamento, em confusão, nunca o sol, e o vento podem
+aperfeiçoar o seu succo. Fazendo-se a plantação em hum, ou dois
+partidos, póde pegar o fogo em ambos, o que succede algumas vezes, e
+fica seu dono empobrecido. A experiencia tem feito conhecer, que todos
+os fructos doces carecem do Sol, e ár para alcançar a sua perfeição, e
+que o mesmo sol bata a nu sobre a terra, que cobre as suas raizes; não
+se reunindo estas circumstancias, os fructos se deteriorão á proporção.
+Em Portugal as uvas, a que chamão de forcado, são sempre imperfeitas,
+porque as arvores, que as cobrem, lhes roubão a luz. As larangeiras no
+Brasil, cubertas de erva de passarinho, dão, pela mesma causa, laranjas
+pouco doces.
+
+Ainda que estas larangeiras estejão limpas da mesma herva, ainda que
+estejão n'hum campo solitarias; se a terra, por onde estão permeadas as
+suas raizes, está cuberta de herva, ou capim, que impeça a luz de bater
+sobre ella, os fructos são sempre azedos.
+
+Nenhum author, que trate da Canna de Assucar, manda plantalla em menos
+distancia, que a de tres pés, e alguns querem seis, e sete, que são
+nove, e dez palmos e meio de cova a cova: isto ha de parecer hum
+paradoxo aos nossos lavradores, que até tem hum ditado: quero canna mil,
+e não gentil. Porém da perfeição, com que nas Colonias estrangeiras se
+faz esta cultura, a mais preciosa d'America, he que tem procedido o gráo
+de prosperidade, a que se tem elevado, e de que somos privados, por
+seguirmos sómente hum trilho cégo, e sem reflexão.
+
+
+_Theoria para a cultura da Canna de Assucar._
+
+O Que vou dizer he hum extracto do que tenho visto sobre esta materia.
+Os principios para a cultura da terra, segundo os Antigos, que suppunhão
+as raizes das plantas, como os unicos orgãos para receber a sua
+nutrição, consistião em lavrar a terra com diversos instrumentos para a
+pôr bem movel, estrumalla, e depois de hum certo numero de colheitas,
+dar-lhe descanço, quero dizer, conservalla limpa sem nutrir planta
+alguma. Os estercos, e estrumes de que se servião, era toda a especie de
+excrementos de animaes, e vegetaes podres. Os modernos adoptando os
+mesmos principios, instão por mais lavras; dão o descanço nos grandes
+intervallos, que deixão entre planta e planta; estes intervallos são
+lavrados durante a vegetação; além dos estrumes de que se servião os
+Antigos, accrescentárão o dos marnes, ou terras saponaceas, e o dos
+rebanhos nas terras que se propõem cultivar; e alguns Authores não
+querem esterco, que substituem com lavras, e mais lavras, origem da
+immensidade de instrumentos, que se tem inventado a este fim. Estes
+principios são certos em parte, e em parte diametralmente oppostos ao
+fim que se busca. A quem ignorar os descobrimentos mais modernos, ha de
+parecer paradoxo o dizer-se, que a terra natural não concorre para a
+vegetação das plantas; que estas não tirão della alimento algum, e que
+só serve de alicerce para suster a sua corporeïdade. Há terra
+vitrescivel, terra calcarea, terra argillosa, ou barro, marne, e humus.
+
+A terra vitrescivel absolutamente esteril, he aquella de que foi
+composto, e faz a solidez do nosso Planeta. A terra calcarea he o
+residuo da decomposição dos corpos animaes. A terra argillosa he o
+residuo da decomposição dos vegetaes.
+
+O marne, ou terra saponacea, he a combinação destas duas especies de
+terra, variado a infinito com a arêa, ou terra vitrescivel, segundo as
+proporções da sua mistura. O humus, materia tão preciosa para a
+vegetação, he a combinação da decomposição dos corpos organisados,
+vegetaes, e animaes de recente data, que tem a propriedade de
+dissolver-se n'agua, pelo oleo animal, e sal do vegetal, e com este
+liquido formar hum sabão, que se transforma em seiba, que he o sangue da
+planta.
+
+A argilla, ou barro de todas as especies, e as terras calcareas, são
+humus envelhecido, a quem a decomposição dos animaes phlogisticou, e com
+o seu gluten, fez tão tenazes as suas partes, que são impermeaveis ás
+raizes das plantas; porém combinadas com a arêa, ou terra vitrescivel,
+ficão terras proprias á vegetação. As plantas são viventes, que tem a
+faculdade de se reproduzir pela semente, pelo tronco, e pela raiz. A
+experiencia de Boyle, milhares de vezes repetida, e sempre confirmada,
+prova com evidencia, que tirão a maior parte da sua nutrição do ár;
+ellas tem vasos absorventes para receberem o alimento, e vasos
+exhalantes para se alliviarem do superfluo; ainda que estes orgãos se
+não percebão á simples vista, a existencia delles he huma verdade. Assim
+como os animaes dão pasto a differentes especies de insectos, tambem os
+vegetaes sustentão huma innumeridade delles; cada hum tem os seus. Huma
+folha que cahe de qualquer planta, causa a morte a milhares de entes
+invisiveis. O fogo, o ár, a agua, o humus, e a terra concorrem para a
+vegetação. O fogo he o motor, o ár o agente, a agua o vehiculo, o humus
+o que faz a seiba.
+
+O fogo como calor, e como luz, faz subir os fluidos nas plantas desde a
+raiz; a frescura da noite os faz descer, fazendo assim huma especie de
+circulação, e desta sorte capazes de receber pelos vasos absorventes das
+suas folhas, do seu tronco, da sua raiz, as partes que os meteoros
+atmosphericos lhe communicão. A agua muito composta, como elemento, faz
+com o gáz, ou ár fixo, a parte mais consideravel da planta. O ár como
+atmospherico, e o receptaculo onde se combinão todas as emanações da
+natureza, serve de todas as sortes á planta; e o humus faz as partes
+fixas della. A terra he a matriz da semente, ou planta, que serve de
+cadêa, ou alicerce para esta se desenvolver, e suster; e a fertilidade
+que se lhe suppõem, he devida sómente ás partes do humus, que em si
+contém, boa, ou má, segundo a maior, ou menor quantidade, que encerra
+desta preciosa materia, segundo a planta; que deve nutrir; deve ser
+trabalhada, dividida, ter toda a facilidade para receber as aguas das
+chuvas, dos orvalhos, dos outros meteoros aquosos, todos os principios
+fecundantes espalhados na atmosphera, e deixar-se penetrar das raizes,
+que se vão estendendo á proporção que a planta cresce. A abundancia do
+humus nos terrenos cubertos de mato virgem, quando este mato se derruba,
+e se põem a terra em cultura, faz prosperar extraordinariamente os
+vegetaes nella cultivados. Este humus, convertendo-se nas partes solidas
+das plantas, vai diminuindo a pouco, e pouco; e passados annos fica a
+terra exhaurida desta preciosa materia, e por consequencia esteril. A
+experiencia fez conhecer em todos os tempos, que os estrumes, e materias
+estercoraes reparavão de alguma sorte esta falta, e se usou delles com
+bom successo; porém que não bastando, era preciso dar descanço a esta
+terra, descobrindo-a de todas as plantas, lavrando-a muitas vezes,
+esperando que a atmosphera a fecundasse. Isto he hum grande erro, porque
+o calor do Sol batendo a nu sobre esta terra, a faz arida, e vindo
+depois huma chuva, a pequena porção do humus, que em si contém, he
+levado a outra parte, e por consequencia fica ainda mais empobrecido o
+mesmo terreno, que com este methodo se quer enriquecer. He evidentemente
+demonstrado, que para a terra não cançar, adquirir, e conservar o seu
+humus, e fertilidade, he preciso que esteja sempre cuberta de plantas.
+Devem cultivar-se aquellas de que se pertende utilidade; quando estas se
+colherem, lançar a semente de outras de prompto crescimento, que tenhão
+grandes, e brandas raizes, que cubrão bem a terra, taes como nabos,
+rabãos, cenouras, batatas, aboboras, etc. e antes de chegarem ao seu
+total crescimento, serem lavradas, enterradas; e quando tiverem
+apodrecido, ou estiverem reduzidas a humus, plantarem-se, ou semearem-se
+aquellas, de que se pertende redito.
+
+Trabalhando-se continuada, e alternativamente desta sorte, podem
+evitar-se todos os estrumes, e estercos; estes são inventados pelos
+homens, e o humus he o da natureza. As vargens que estão cercadas de
+serras, collinas, montes, se estas eminencias se conservão coroadas de
+matto, são sempre ferteis, porque o humus, que estes mattos estão
+continuadamente depositando na terra, dissolvido pelas chuvas, vai
+enriquecer as vargens. As fraldas destas eminencias podem ser cultivadas
+para pequenos vegetaes, se o angulo, que fizerem, não passar de
+quarenta, e cinco gráos porque então só grandes arvores lhes convém.
+
+Os proprietarios destas eminencias, que as descoroão de mattos,
+empobrecem o Estado a perpetuidade; a coroa sendo descuberta, apresenta
+huma superficie nua aos raios do Sol, e passados poucos tempos ficão
+reduzidas a escalvados; porém a perda que não se repara mais, he a das
+chuvas, que os grandes vegetaes tem a propriedade de chamar.
+
+O humus não basta só para conduzir as plantas á sua perfeição; ellas
+carecem ainda da luz, 3, do ár renovado, 4, de ter a superficie da terra
+até onde podem extender-se as suas raizes, despida de plantas; esta
+mesma terra revolvida, bem dividida, e haver entre planta, e planta huma
+certa distancia, proporcionada aos succos, de que carecem, segundo a sua
+natureza; haver huma escolha escrupulosa na semente, ou planta, e
+conhecer qual he o tempo proprio para se lançar na terra, etc. etc.
+
+
+_Como se deve cultivar a Cana de Assucar._
+
+A Experiencia tem feito conhecer, que o melhor tempo de plantar a Canna
+na Capitania do Rio de Janeiro, he de Dezembro a Março, para ser moida
+de Junho a Septembro do anno subsequente, com dezoito mezes de idade.
+Como nestes mezes não há olhos de Canna, usa-se cortar da Canna, que se
+deixou para velha, pequenas estacas; porém esta Canna velha, que está
+deteriorada por ter passado do ponto da sua madureza, tem sim bastante
+doçura, porém os botões, ou olhos dos seus nós, ou articulações, que he
+o que deve ser Canna, huns estão já murchos, outros podres, e por
+consequencia perdidos; e só a parte superior da Canna, que sempre
+conserva verdura, pouca doçura, e mesmo acidez, he o que nasce
+facilmente.
+
+Ainda que os botões estejão em bom estado, devem desprezar-se as Cannas
+velhas, porque em quanto tem doçura, não nascem, e he preciso hum mez, e
+mais tempo para a perderem. Para se fazer huma plantação perfeita, he
+preciso fazer a planta. No principio da moagem, devem plantar-se os
+olhos, ou parte superior da Canna, n'huma terra de muita substancia,
+lodosa mesmo, em terreno virgem, que tenha bem humus, ou seja bem
+estercado, para a Canna, que nascer, ser bem ataiobada, ou selvagem.
+Desta Canna sem doçura, e bravia, he que se tirão as estacas para fazer
+a plantação; cujas estacas devem ter o comprimento, que alcancem quatro
+nós, que segundo a distancia de nó a nó, serão mais compridas, ou mais
+curtas. Esta Canna plantada n'hum terreno tão pouco proprio para se lhe
+extrahir o Assucar, não he perdida; além da utilidade da boa planta, no
+fim de dois, ou tres cortes, póde servir para Assucar; porém deve haver
+o cuidado de renovar a Canna para a planta. A Canna de Assucar cresce em
+todas as especies de terra; porém as que são gordas, fortes, baixas,
+lodosas, novamente roteadas, quero dizer, donde se derrubou matto
+virgem, a pezar do comprimento, ou altura, que alcanção, tem o succo
+aquoso, oleoso, pouco assucarado, difficil de cozer, de purificar, sem
+rendimento. Hum terreno ligeiro, poroso, profundo, inclinado até quinze
+gráos, he aquelle que a natureza tem destinado a este rico vegetal.
+Deve-se dividir o terreno destinado para a Canna em tres partes, e cada
+huma destas partes, subdividir-se em pequenos quadrados de doze braças
+cada hum; qualquer que seja a exposição do terreno, sempre estes
+pequenos quadrados hão de ser alinhados de Norte a Sul, de Leste a
+Oeste. _Veja-se a Estampa I._ Cultivão-se estes pequenos quadrados,
+deixando os lados de cada hum delles para todas as partes, livres da
+planta da Canna; porém podem occupar-se em mandioca, carás, batatas,
+feijão, milho, aboboras, ervilhas, etc. Cada hum dos quadrados, se tiver
+doze braças de frente, e doze de fundo, deve conter quatrocentas covas,
+na distancia humas das outras de seis palmos. Para se fazerem estas
+còvas, não he preciso que todo o quadrado esteja descuberto de capim,
+basta que seja limpo pouco mais que o tamanho dellas, que devem ter dois
+palmos de comprido, hum palmo de largo, e seis pollegadas de fundo.
+Comparadas estas covas com as que se fazem actualmente, hão de parecer
+muito grandes, e muitos fundas; e na realidade o não são, respeito ás
+que fazem os Colonos das Antilhas, e o mesmo digo sobre a distancia
+dellas; pois elles chegão a afastallas humas das outras, até dez palmos
+e meio, e a dar-lhe dezoito pollegadas de comprido, doze de largo, e
+oito de fundo. O milho para prosperar de serra acima, para os seus
+cultores colherem duzentos por hum, he preciso fazerem as covas na
+distancia de cinco a seis palmos, nas quaes lanção quatro, ou cinco
+grãos; ora este vegetal não tem o corpo da Canna de Assucar, nem como
+ella carece de tanta substancia, e alimento; a cova de milho he para
+quatro, ou cinco pés, a da Cana para oito, ou dez, que tantas são as que
+devem nascer, dos olhos, os botões das duas pequenas estacas, que se
+deitão nas covas, e se devem conservar, cortando todas as que demais
+nascerem, porque como ladrões lhe roubão a substancia.
+
+He certo que com a enxada, que se usa no Brasil, que he talvez a
+primeira que se inventou, e onde não chegou ainda a enxada de Luca,
+Franceza, ou Ingleza, he hum pouco difficil fazer esta especie de covas;
+são precisas de vinte a trinta golpes, quando com qualquer das
+mencionadas, bastão tres, ou quatro. A nossa enxada he fatigante, o
+trabalhador anda curvado; e tendo o ferro de cinco a seis libras, elle
+carrega com vinte, ou mais nas cadeiras; nesta especie de serviço o
+homem baxo tem vantagem ao homem alto, a quem he preciso maior
+curvatura, e por consequencia dobrado esforço. Na Republica de Luca, e
+em algumas Provincias de França, não se usa de arado, nem de charrua,
+porque a sua enxada equivale ao trabalho destes instrumentos, e fica a
+terra mais bem trabalhada.
+
+No Brasil onde os mesmos instrumentos pouco uso podem ter, he de huma
+grande vantagem o adoptarmos a enxada Luqueza, ou outra com pouca
+differença, que he huma especie de pá, com dez pollegadas de altura,
+nove de largura em cima, oito em baxo, com a grossura de meia pollegada,
+a acabar em huma linha, bem temperada de aço, com hum alvado de seis
+pollegadas, quatro a meio ferro, e duas sobresahindo, e com a vacuidade
+de pollegada e meia de diametro, que vai diminuindo insensivelmente, com
+dois furos no alvado, para com huma cavilha se fazer firme o cabo, que
+deve ter oito palmos de comprido. _Veja-se a Estampa II. Fig. I. e II._
+O trabalhador com este instrumento tem o corpo direito, virado para o
+Norte, os calcanhares afastados pouco mais de meio palmo; a enxada
+afastada quasi hum palmo do pé esquerdo; a mão esquerda por todo o
+comprimento do braço, pegando no cabo; e a mão direita pegando no mesmo
+cabo, quasi no hombro direito _Fig. III._ A mão esquerda levanta a
+enxada até onde póde hir, sem que o antebraço se desuna do corpo. _Fig.
+IV._ A mão direita da altura, a que chegou, impelle a enxada com toda a
+força, e a esquerda deixa escorregar o cabo, segundo a ferida que a
+enxada fez na terra. Para se tirar esta terra, serve de apoio a mão
+esquerda, e a direita carregando no cabo, levanta a pá, e ambas a guião
+para lançar a terra a qualquer parte; porém deve ser regularmente para
+Oeste, ou Leste. No segundo movimento, deve chegar-se o calcanhar do pé
+esquerdo ao do direito, e este ladear para a direita tanto quanto a
+enxada cava, e assim progressivamente.
+
+Designados os quadrados para a plantação da Canna, vão a cada hum vinte
+trabalhadores; o seu feitor os deve pôr enfileirados olhando para Oeste,
+na distancia de seis palmos huns dos outros; manda-os andar á direita
+para ficarem virados para o Norte; manda-lhe passar o pé direito a
+perfilar com o esquerdo, na distancia pouco mais que meio palmo; e desta
+sorte principião o trabalho, abrindo as covas de Oeste para Leste, de
+manhã até ao meio dia, servindo de guia a sombra do corpo; e do meio dia
+para a noite virados para o Sul fazem o mesmo; ou tambem podem trocar as
+mãos, porque se trabalha para o lado direito, assim como para o
+esquerdo; devendo buscar-se de qualquer sorte o alinhamento perfeito das
+covas de Norte a Sul, e de Leste a Oeste, o que he essencial para a
+perfeição da cultura deste rico vegetal.
+
+Feitas as covas, devem lançar-se nellas duas estacas de Canna, que não
+tenhão menos de quatro, nem mais de cinco botões, para quando nascerem,
+fazerem huma soqueira de oito, ou dez Cannas. Cobrem-se estas estacas
+com duas pollegadas de terra, e quando tem nascido a Canna, e alcançado
+dois palmos pouco mais de altura, enchem-se as covas com o resto da
+terra. Limpão-se as Cannas de todas as hervas que podem roubar-lhe a
+substancia, á proporção que forem nascendo. Esta plantação deve fazer-se
+de Janeiro até Março, e não antes, nem depois. Qualquer que seja a
+qualidade da terra, não deve pretender-se mais, que dois cortes; o
+primeiro dahi a dezoito mezes, o segundo a que se chama sóca, dahi a
+quinze, ou dezaseis mezes. Depois deste segundo córte, deve occupar-se o
+terreno em que esteve a Canna, com aboboras de todas as especies, que
+tem a propriedade de cubrir bem a terra, para que as raizes da Canna
+apodreção, e depois de convertidas em humus, ficar a terra apta para
+receber nova Canna, que dahi a mais de hum anno se lhe póde confiar. De
+Janeiro a Março do segundo anno, cultiva-se a segunda divisão, e no anno
+seguinte a terceira. A quarta plantação faz-se nos mesmos quadrados da
+primeira; a quinta, nos segundos, a sexta nos terceiros, a setima nos
+primeiros da primeira, a oitava nos da segunda, a nona nos da terceira,
+e assim alternativamente; de sorte que a Canna de cada quadrado tenha
+intervallo bastante, que a livre de plantas, que lhe roubem a luz. Esta
+fórma de plantação póde variar-se a infinito, segundo a quantidade de
+terreno, e intelligencia do cultor.
+
+Em lugar de quadrados perfeitos, podem ser quadrados longos etc., com
+tanto que se busque sempre o dar á Canna, a maior quantidade de ár, e
+luz possivel; porque a experiencia faz ver com evidencia, que só a dos
+aceiros, que recebe continuadamente a influencia destes dois agentes, he
+que alcança perfeição no seu succo; a que está para dentro, fica sempre
+esverdeada, o seu succo mal digerido, difficil de cozer, e de purificar;
+por consequencia o fim do lavrador deve ser quanto lhe for possivel,
+fazer todo o Canaveal em aceiro.
+
+
+_Vantagens desta fórma de plantação._
+
+Se há fogos por accidente, he moralmente impossivel, que passem de huns
+a outros partidos, tendo tão grande separação entre si. Nunca os carros,
+nem animaes pizão o Cannaveal, quando se conduz a Canna á fábrica. Há
+facilidade para se verem as Cannas de todos os pequenos partidos, para
+se cortarem os filhos que brotão, que como ladrões lhe roubão a
+substancia.
+
+Quasi todo o Cannaveal está em aceiro, quero dizer, está apto para
+receber a influencia, e nutrição, que lhe communica a atmosphera. A
+renovação, e correnteza do ár impede a geração, e propagação de
+insectos, taes como baratas, e outros, que a sua corrupção tem a
+propriedade de chamar. Pelo alinhamento de Norte a Sul, de Leste a
+Oeste, recebem as Cannas os raios da luz, que o Sol póde
+communicar-lhes, e que lhes são tão precisos para a depuração do seu
+succo.
+
+Facilita o tarefar o trabalho, etc. etc.
+
+
+_Córte das Cannas._
+
+A Canna de Assucar gasta dezoito mezes a chegar ao seu ponto de
+perfeição, porém se há seccas, anticipa-se; o gosto, e a vista he que
+decidem a colheita; quando está bem doce, e tem a côr amarellada, he
+tempo de cortar. He sabido de todos, que principia a ser doce do pé, e
+que esta doçura vai diminuindo gradualmente para a parte superior, e que
+junto á bandeira, ou olho, não só não tem doçura, porém mesmo tem
+acidez, e he por consequencia hum erro, o aproveitalla até ás folhas.
+Deve sim cortar-se bem rente á terra sem ferir as raizes, porém o palmo
+junto ás folhas, deve-se desprezar. Segundo a sua grandeza, se ha de
+cortar em huma, duas, e talvez tres partes, servindo de ballisa, o não
+ter mais de cinco, ou seis palmos, para se appresentar á moenda. Usa-se,
+quando se corta, fazer feixes de seis, ou oito Cannas, segundo a sua
+grossura, cujos feixes são amarrados com os olhos das Cannas que se
+cortárão. Esta especie de atilhos he tirada dos feixes de Canna, quando
+se appresentão á moenda, porém escapão muitos, que se espremem com a
+Canna; ora, tendo elles acidez, vão deteriorar o sumo, de que se ha de
+fazer Assucar, gastar mais decoada, e lenha, além do tempo, e serviço
+que se perde; porque no acto de cortar a Canna, são precisas quasi
+tantas pessoas para amarrar, como para cortar; e para a conducção tanto
+importa estar em feixes, como solta, e o mesmo para se meter na moenda,
+onde o trabalhador póde regular o pegar em seis, ou oito, doze, ou
+dezaseis, para as appresentar. Deve haver cuidado de não se cortar mais
+Canna, que a que póde moer-se em vinte e quatro horas, principalmente se
+o calor he intenso, porque o sumo fermenta na mesma Canna, o que arruina
+a sua qualidade.
+
+
+_Construcção dos engenhos actuaes._
+
+Todos os engenhos de fazer Assucar na Capitania do Rio de Janeiro,
+qualquer que seja a potencia, agua, bestas, ou bois, tem a mesma
+construcção, á excepção de tres modernamente feitos, que reunem algumas
+vantagens, todos os mais he hum grande pião, que faz fazer huma casa de
+sessenta palmos livres, acabando em varandas á roda, algumas
+subdivididas; cujas varandas são maiores, ou menores, segundo o destino,
+que se lhes dá, de picadeiro, casa de caldeiras, casa de purgar, casa de
+encaixe, casa de aguardente, fornalhas, e varandas de carros; com
+algumas trapeiras para dar sahida ao fumo, e luz. No centro desta grande
+casa de sessenta palmos, se o engenho he moido por animaes, está a meza
+com as moendas; na moenda do meio, vulgarmente chamada a moenda grande,
+que pela sua dentadura faz moer as dos lados, há quatro aspas, ou
+almanjarras, a cada huma das quaes puxão dois animaes, formando hum
+circulo á roda da meza, de cincoenta e seis palmos de diametro, vindo a
+ter as almanjarras por onde puxão os oito animaes, vinte e oito palmos
+de comprido; os dois palmos que faltão para os trinta, ou quatro para
+sessenta da capacidade da casa, he folga para os animaes, que não devem
+roçar pelas paredes.
+
+Se o engenho he de agua, na moenda do meio há huma grande roda, de
+trinta e seis a quarenta palmos de diametro, a qual está n'hum eixo
+horisontal, e nelle huma roda vertical, de trinta a trinta e seis
+palmos, que nos cubos da sua circumferencia recebe a agua, que he a
+potencia. Há hum engenho de agua com rodizio, ou roda horisontal, que
+reunindo a vantagem de tocar dois ternos de moendas, e ser obra tão
+perfeita neste genero, não tem tido imitadores, por parecer á primeira
+vista, ser a roda vertical de maior força que a horisontal, o que he
+engano, como farei ver.
+
+
+_Notas sobre esta fórma de construcção._
+
+Para se fazer huma casa de sessenta palmos livres, são precisas vigas de
+sessenta e quatro palmos de comprido, que ficão fracas, se não tiverem
+dois palmos por cada face; he custoso achar estes madeiros, difficultosa
+a sua conducção, perigoso o levallos acima do edificio, que fica
+sobrecarregado com este desmarcado pêso, e por consequencia fraco. As
+trapeiras, de que usão para dar sahida ao fumo, e entrada á luz, são
+insufficientes, e há occasiões, em que quasi se he suffocado pela
+fumaça, e sempre he precisa a candêa para se verem os objectos. Os
+animaes no seu giro, circulando as moendas, estorvão a passagem, aos
+conductores da Canna, que algumas vezes succede serem atropellados; os
+picadeiros de sobrado, que se fizerão n'hum engenho, para evitar estes
+accidentes, não tiverão imitadores; e o mesmo engenho os abolio por
+incommodos. O sumo, que sahe das Cannas pela expressão das moendas, he
+conduzido por huma calha ao parol, a que chamão de caldo frio; no
+circulo, que fazem as bestas, atravessão esta calha, o que fórça pôlla
+junto á terra, e o dormente dos moendas com pouca altura, e por
+consequencia o não se poder moer Canna, como deve ser. Ainda que o
+engenho seja de agua, como estas fábricas forão feitas por imitação de
+humas a outras, o prospecto he o mesmo, e não tem os commodos, que se
+devião buscar; multiplica-se serviço, por ser preciso usar de pótes, e
+barris para levantarem os liquidos, que devião ser conduzidos por bicas,
+ou calhas, até cahirem nos alambiques.
+
+
+_Nova construcção de engenhos._
+
+Em mechanica o ser senhor da potencia, para augmentar, diminuir, e
+modificar a força ao seu arbitrio; ajuntar a estas vantagens a da
+elegancia, commodo, e economia, parece que he tudo, quanto se póde
+desejar.
+
+O engenho, que se propõem para modello, não tem hum páo de maior
+comprimento, que o de quarenta e quatro palmos, com huma face de palmo e
+meio, e outra de hum palmo, e estes são os tirantes; todos os mais páos
+são de hum palmo, tres quartos, meio palmo, com menos comprimento, á
+excepção dos esteios, com palmo e meio de face, e de quarenta para cima
+de comprido.
+
+O edificio por dentro, debaxo de huma cumieira, tem cento e sessenta
+palmos de comprido, quarenta e dois palmos de largura, e trinta e tres
+de altura em pé direito.
+
+Na altura de trinta palmos está hum segundo frechal, que cinge todo o
+edificio, e serve sômente, para encabeçar os caibros das varandas, e
+deixar hum claro de tres palmos, para dar luz, e sahida ao fumo.
+
+Este engenho he para o trabalho de bestas, ou bois, porém a sua
+construcção he, como se fosse para agua, girando tudo sobre pião. Na
+moenda do meio tem huma roda com oito aspas, a que se chama bolandeira,
+com trinta e seis palmos de diametro de centro de dente, a centro de
+dente, e noventa e seis dentes na sua circumferencia, que ficão na
+distancia de pouco mais de palmo huns dos outros; os dentes desta roda
+são de coroa. Esta roda he movida por hum rodete estrellado de trinta e
+dois dentes, cujo eixo em pião tem duas almanjarras; da ponta de cada
+huma das quaes ao centro do eixo, são quatorze palmos. Os animaes
+trabalhão nesta máquina, em huma especie de pôço calçado, com oito
+palmos de profundidade (póde ser mais, ou menos) cercado com huma
+varanda. Esta especie de pôço he formada pelo aterro da casa, onde gira
+a máquina, e estão as moendas. Já se vê que, tendo o rodete a terça
+parte da bolandeira, he preciso que dê tres voltas para a bolandeira dar
+huma; e, como os animaes puxão na distancia de quatorze palmos do
+centro, devem fazer tres circulos de vinte e oito palmos de diametro,
+que fazem oitenta e quatro palmos, para as moendas darem huma volta, o
+que faz puxar por huma almanjarra, ou alavanca de quarenta e dois
+palmos. He certo que oitenta e quatro palmos de diametro fazem oitenta e
+quatro passos de circumferencia; e, tendo os engenhos communs as suas
+almanjarras em cincoenta e seis palmos de diametro, que fazem cincoenta
+e seis passos de circumferencia, parece que farão em menos tempo virar
+as moendas; porém não he assim; porque a pezar de serem oito os animaes,
+que puxão estas almanjarras, e poderem só quatro, e menos puxar as
+outras, por ter a sua alavanca mais quatorze palmos de comprido;
+attendendo ás paradas, que os oito animaes fazem a cada passo, para
+vencer a resistencia, e á suavidade, com que os quatro andaráõ, sem
+nunca achar obstaculo, que faça retardar o seu passo natural, fica
+igualado o serviço, e talvez superior o dos quatro: além disto, ainda
+que eu não conheça no Rio de Janeiro, quem possa occupar sempre, e no
+seu devido tempo, esta máquina trabalhando assim, mettendo Canna como
+deve metter-se; quem quizer andar mais veloz, encurte as almanjarras, e
+augmente o numero de bestas, e póde levar isto ao ponto, que lhe
+parecer; vantagem de que são privados os engenhos actuaes, que hão de
+restringir-se ao numero de oito sómente.
+
+Por esta nova fórma cada hum póde trabalhar, segundo as suas forças: se
+em lugar do rodete pela terça parte, o fizer pela quarta, conservando as
+almanjarras no seu comprimento, faz puxar as bestas por huma alavanca de
+cincoenta e seis palmos, e se ha de moer com quatro, póde fazello com
+duas, e mesmo huma. Assim como póde diminuir; se fizer o rodete por
+ametade, augmenta o movimento, e fica a almanjarra de vinte e oito
+palmos, e tem a vantagem de meter oito, dez, doze, dezaseis bestas, o
+que não póde fazer na construcção actual; porque então não terião
+passagem os carregadores de Canna para as moendas, que estão sempre
+desembaraçadas na construcção, que se propõem; porém a proporção da
+terça parte, he, segundo o meu cálculo, a mais ajustada.
+
+_Veja-se a Estampa III._
+
+
+_Sobre o movimento das moendas._
+
+Eu não tenho noticia de que houvesse ainda quem regulasse o movimento
+das moendas, para fazerem o maior effeito possivel n'hum termo dado,
+sendo isto hum objecto, que merece toda a ponderação. Vendo que em hum
+engenho movido por bois, dão as moendas huma volta por minuto; n'hum por
+bestas quasi volta e meia; nos de agua duas, tres, quatro, e mais
+voltas; pensando todos geralmente, que quanto maior numero de voltas der
+em menos tempo, mais moerá, fiz exame a este respeito, e achei que o
+movimento de duas voltas por minuto, he o ponto de perfeição; e que
+tanto menos se moerá, quanto se afastarem delle para mais, ou para
+menos. Quando boas bestas, e descançadas, excitadas pelo açoite puxão
+pelas almanjarras a trote, e fazem dar ás moendas duas voltas e meia por
+minuto, a Canna fica esmagada, e não espremida; porque o sumo não tem
+tempo da cahir, e passa em cima da Canna para a outra parte; e como ella
+he hum corpo esponjoso, e elastico, logo que cessa o aperto, torna a
+beber o mesmo sumo, do qual só numa pequena parte cahe na meza; e se em
+duas voltas e meia succede isto, peior em tres, quatro, e mais. N'hum
+engenho movido por bestas, não póde haver excesso no movimento, poderia
+talvez prejudicar por defeito, se houvesse quem tivesse forças para
+fazer de dez a doze mil arrobas de Assucar annualmente, o que nunca
+succedeo; porém havendo quem possa fazellas, ou ainda mais, póde pôr
+dois ternos de moendas, que o mesmo rodete faz moer, segundo o modello
+que se propõem. Com a roda vertical dos engenhos de agua, he hum pouco
+dificultoso regular o movimento das moendas; só se a agua he muito alta,
+o que raras vezes succede; sendo baxa, e muita, que possa dar-se-lhe
+toda a força que se precisa, o rodete he muito grande, e faz que a
+bolandeira dê tres, e quatro voltas por minuto, o que retarda o serviço,
+como acima se diz; só se a roda vertical tivesse de cincoenta a sessenta
+palmos de diametro, o que não póde ser sem muito incommodo. Com a roda
+horisontal, vulgarmente chamada rodizio, he facil graduar o movimento.
+
+O maior, ou menor declivio na bica de ferir as pennas; maior, ou menor
+diametro no rodete, ou no mesmo rodizio, faz conseguir o que se quer sem
+custo.
+
+
+_Comparação da roda vertical com a horisontal._
+
+He sabido de todos, que em qualquer máquina, a agua obra sómente pelo
+seu pêso. Supponho ter huma bolandeira com trinta e seis palmos de
+diametro, movida por hum rodete de oito; a roda vertical de trinta e
+seis; a agua na altura de vinte palmos, com quatro pollegadas cubicas,
+que são sessenta e quatro, e pesão quasi tres libras. Onde a vertical
+recebe o impulso com a maior força, he no semidiametro, e fim da linha
+horisontal do eixo, em dezoito palmos; a agua cahe com dois palmos de
+ferida, e doze libras de pêso no principal cubo; nos que se enchêrão,
+pésa com tres libras em linhas mais curtas. Se os cubos tem capacidade
+para receber mais agua, e o pêso desta nos mesmos he preciso para o
+movimento, fica a máquina vagarosa, e sem o effeito que se quer. Tem
+mais o defeito de ficarem as moendas baxas; não se poderem dar as
+proporções que se precisão; estar tudo cheio de agua, e a roda afeiando
+o edificio, estorvando passagens, etc. O mesmo diametro na bolandeira, e
+na horisontal, quero dizer, trinta e seis palmos o diametro da
+bolandeira, e trinta e seis o do rodizio, o rodete deve ter a oitava
+parte, ou doze dentes estrelados, tendo a bolandeira noventa e seis de
+coroa, e a agua na mesma quantidade, e altura. Vinte palmos que a agua
+tem de altura, são quarenta vezes tres libras, ou cento e vinte libras,
+que pésão sobre as pennas do rodizio com hum jacto de quasi vinte
+palmos, se sahisse horisontalmente, porém como deve ter quinze gráos de
+declivio para ferir as pennas, fica em dezaseis.
+
+Este jacto de quinze gráos communica hum movimento mui veloz ao rodizio,
+que póde ser moderado, segundo a necessidade, e o podemos levar até
+quarenta e cinco gráos com toda a vantagem. Podemos augmentar o diametro
+do rodizio; diminuir, ou accrescentar o do rodete; levantar, ou abaxar
+as moendas á nossa vontade, fazendo mais curto, ou mais comprido o eixo
+do rodizio; cujas pennas, sendo feitas de páos firmes, tudo cerne, com
+tres palmos de comprido, e hum em quadro, as cavas em meia lua, para
+receber a agua, com seis pollegadas pelo comprimento da penna, cinco na
+largura, e cinco em profundidade, tem toda a solidez, e duração
+possiveis; quando pelo contrario a roda vertical, composta de muitas
+taboinhas, e pequenas juntas, em poucos tempos fica fóra de serviço.
+
+O modello, que se propõem, para moerem bestas, serve para o de agua com
+rodizio, só com a differença do rodete ser mais pequeno, e a especie de
+pôço ser cuberta de sobrado, que dá passagem ao eixo; reunindo esta
+fórma de máquina além das mais vantagens, a de poder ser movida por
+animaes, se por accidente falta a agua, o que succede algumas vezes, e
+causa prejuisos.
+
+Não fallo nos engenhos de vento para moer Canna, porque a instabilidade,
+e irregularidade deste agente no Brasil, o faz inutil. Ainda mesmo os de
+agua, se esta for difficultosa, ou que faça precisar grandes despesas;
+pondo-se em prática o modello, não causará muito pesar o moer sem ella.
+
+_A Estampa III._ mostra o interior, o plano, e o exterior da casa do
+engenho.
+
+
+_Preciso sobre a dentadura das rodas._
+
+A falta de conhecimento de mechanica nos mestres de engenhos do Rio de
+Janeiro, aos quaes com mais propriedade se pódem chamar curiosos, á
+excepção de alguns, e bem poucos, que tem merecimento, me faz dizer o
+que sei a este respeito, por me parecer que será de alguma utilidade.
+Quero fazer huma roda grande, que tenha trinta e seis palmos de
+diametro, de centro de dente, a centro de dente; sabe-se que a devo
+armar de oito curvas, ou cambótas, que tenhão de testa, a testa trinta e
+sete palmos; porque a dentadura devendo estar no centro da cambóta, para
+esta ficar com fortaleza, deve ter meio palmo para dentro, e meio para
+fóra. Huma roda com este diametro não se póde fazer sem oito aspas. Devo
+repartir o circulo em oito partes perfeitamente iguaes, que assignallo;
+e como quero pôr neste circulo noventa e seis dentes, já se vê que
+pertencem doze a cada oitavo.
+
+O sintel tem feito descrever a linha onde devem ser postos; reparto em
+doze partes o oitavo, e assignallo cada huma com seu ponto, que serve de
+centro ao furo para o dente, cujos pontos ficão distando huns dos outros
+nove pollegadas e meia com pouca differença.
+
+Deve haver o maior cuidado, em que estes pontos fiquem perfeitamente
+iguaes, e que não desmintão nem a grossura de hum cabello; e que os
+furos, que se fizerem para os dentes, fiquem perpendiculares.
+
+O circulo deve ser fixo nas aspas por cavilhas; quatro destas aspas o
+sustem, e as outras quatro prendem-no.
+
+Estas aspas devem assentar no circulo entre os dentes com huma medida
+perfeitamente justa, para a roda não ficar com o que se chama peito. Se
+quero fazer huma roda mais pequena, que não careça de oito aspas, e sim
+de seis, reparto o circulo em seis partes iguaes, e procedo da mesma
+sorte que para a antecedente; lembrando-me sempre de não fazer os pontos
+para os dentes em menos de nove pollegadas, e podem hir a dez, que he
+erro fazellos mais proximos, porque fica a cambóta fraca; e que nunca
+deve haver dente, onde a aspa assentar. Regra geral, o numero das aspas,
+he o das divisões, e em cada divisão hum numero certo de dentes, o que
+faz ver que nenhuma roda, tomada no todo, tem os dentes impares. He
+sabido de todos, que duas rodas, tendo huma de fazer mover a outra,
+ainda que as dentaduras sejão certas, se forem perfeitamente iguaes, não
+podem trabalhar; he preciso que aquella, que está unida á potencia,
+tenha huma certa folga nos dentes, que devem ficar mais largos, que os
+da outra, para trabalharem suavemente; a esta folga, ou maior distancia
+dos dentes de huma, respeito aos dentes da outra, he ao que os mestres
+chamão compasso. Ora para acharem este compasso nas medidas, que fazem,
+usão das maiores extravagancias; e o que tem encontrado melhor, depois
+de muitos erros, encobrem-no com mysterio até aos seus aprendizes.
+Depois de ter feito a roda, e graduado os seus dentes, para compassar os
+do rodete, ou roda que trabalha com a potencia, abro o compasso (cujas
+pontas devem ser bem agudas) e com toda a certeza as assento nos pontos
+de dois dentes, o que me dá a distancia de dente a dente. No centro de
+huma regoa comprida traço huma linha, e por esta linha messo, ou conto
+quinze compassos; a distancia destes quinze compassos deve ser signalada
+por dois pontos. Abro agora o compasso mais, e a linha descripta dos
+quinze divido em quatorze; esta pequena differença de quatorze a quinze
+he o apartamento, ou folga, que devem ter de mais os dentes do rodete,
+respeito aos da roda. Se tenho graduado o rodete primeiro, faço o mesmo
+que na roda; mésso pelo compasso a distancia de hum dente a outro; na
+linha traçada conto quatorze compassos, aperto o compasso hum tanto,
+para que a distancia dos quatorze se reduza a quinze: esta pequena
+diminuição he, o que devem ter de menos distancia, os dentes da roda aos
+do rodete.
+
+Devo lembrar, que estas medidas devem ser exactas, e que os pontos
+signalão o centro dos dentes. Se as rodas, ou rodetes tem os dentes em
+coroa, a medida, ou compasso deve ser tomado na cambóta; se os dentes
+são em estrella, deve o compasso ser tomado no centro da ponta do dente.
+Segundo o destino da máquina, que se quer fazer, póde o rodete ser
+pequeno, e a roda grande; o rodete ser grande, e a roda pequena, ou
+ambos de igual tamanho; porém he regra geral, que a roda, onde trabalha
+a potencia, seja grande, ou pequena, he a que deve ter folga nos dentes,
+quero dizer, serem mais apartados, o que vai de quatorze a quinze, que a
+outra roda, qualquer que seja a grandeza.
+
+Os dentes das rodas podem ser todos de coroa, e todos estrelados; em
+humas, de coroa, e em outras estrelados; porém observando-se as regras
+dadas, he facil fazellos de qualquer sorte. He indifferente, que os
+dentes de qualquer roda sejão delgados, ou grossos, com tanto que sejão
+iguaes em grossura. Hum terno de moendas com tres palmos de diametro, e
+oito dentes cada huma, graduados estes dentes pelo centro da sua ponta,
+regidos pela moenda do meio, que he a motora, e a que deve ter a folga,
+podem ser os dentes de cada huma desiguaes, respeito ás outras, sem
+defeito no trabalho; todos os dentes da moenda do meio podem ser muito
+grossos; menos grossos os da de hum dos lados, e mais delgados os da
+outra, e assim mesmo podem trabalhar com perfeição. Os dentes das rodas
+de coroa devem ser redondos a torno; os em estrella tambem a sua ponta
+deve ser redonda, acabando em semicirculo, segundo o seu diametro. O
+aguilhão do eixo, onde anda o rodete, não deve ser fixo nelle, ha de
+andar junto n'huma caixa de bronze; porque, como se ha de gastar pelo
+movimento, para o recalçar, basta levantar com huma alçaprema o mesmo
+eixo, e logo o aguilhão cahe, oppõem-se-lhe outro, que deve haver de
+sobrecellente. As almanjarras hão de ficar n'huma altura tal, que os
+tirantes, por onde puxão as bestas, corrão em linha horisontal ao seu
+peito; puxão mais desta sorte, e fatigão-se menos. A besta puxa com o
+seu pêso, e o esforço dos seus musculos serva para renovar este pêso, se
+os tirantes estão muito baxos, o pêso, que devia empregar-se a puxar,
+perde-se em levantar o eixo, e se estão muito altos, a besta he
+levantada por diante, e as suas mãos não achão na terra hum apoio
+sufficiente para renovar o seu movimento.
+
+
+_Como se moe Canna actualmente._
+
+As moendas, de que actualmente se usa na Capitania do Rio de Janeiro,
+tem de tres a quatro palmos de diametro, e outro tanto, pouco mais de
+altura.
+
+A sua dentadura he no meio da moenda; alguns engenhos, rarissimos, tem
+as moendas dentadas na parte superior, e aguilhões inteiros de ferro;
+porém o commum he terem os dentes no meio do corpo da moenda, e meios
+aguilhões de ferro, e na parte superior hum pescoço, que faz as vezes de
+meio aguilhão, feito de hum páo solido. Saõ chapeadas de ferro meio
+largo: estas chapas tem hum palmo de comprido, e são afastadas humas das
+outras a quarta parte de huma pollegada, ou tres linhas; e pregadas no
+madeiro da moenda com seis pregos curtos, e grossos. A meza, em que
+estão assentadas estas moendas, não tem mais altura, que a de quatro a
+cinco palmos. Qualquer que seja a potencia que as faça mover, a Canna he
+sempre mettida nellas da mesma sorte. Hum Escravo appresenta hum feixe
+de Canna pela sua ponta em linha horisontal, entre a moenda do meio, e
+huma das dos lados; continua a metter segundo, terceiro, quarto, quinto,
+e sexto e outro Escravo da parte opposta, á proporção que os feixes de
+Canna passaõ, depois de espremidos na primeira, os appresenta da mesma
+sorte á segunda: tornão a passar pela primeira, e repassar pela segunda,
+o que faz que esta Canna seja espremida quatro vezes, sempre em linha
+horisontal. Em alguns engenhos chegão a passar cinco, e seis vezes,
+porém o commum são quatro. Sobre estas quatro passagens, e suppondõ tres
+palmos de diametro nas moendas, he que eu faço o meu cálculo; e tambem
+supponho, que hum carro de Canna contém cento e cincoenta feixes; de
+seis Cannas, se são grossas, de oito, se saõ delgadas, e do comprimento
+de seis palmos. Tres palmos de diametro são nove de circumferencia,
+dando quatro voltas a moenda, tem passado, e repassado os seis feixes;
+dando outras quatro voltas, tem feito passar os seis feixes reduzidos a
+bagaço, por consequencia, para se espremerem seis feixes de Canna, he
+preciso que as moendas dem oito voltas, as quaes n'hum engenho de bestas
+bem corrente se não dão em menos de seis minutos, o que faz precisar
+duas horas e meia para se moer hum carro de Canna, com o numero de
+feixes, e comprimento acima ditos, e nove para dez carros, em vinte e
+quatro horas.
+
+
+_Notas sobre esta fórma de moer_
+
+As moendas tem pouca altura da dentadura para baxo, onde anda a
+chapeação, e póde metter-se Canna, que não deve chegar aos dentes; e
+para isto se conseguir, he preciso que os feixes se appresentem á moenda
+em linha horisontal. A meza he muito baxa, e como o Escravo, curvando-se
+hum pouco, chega com as mãos á moenda, onde as costuma ter para amparar,
+e empurrar as partes minimas da Canna, a que se chama bagaço, he causa
+de accidentes, e de muitos Escravos ficarem sem mãos, o que todos os
+annos succede em hum, ou outro engenho.
+
+A chapeação das moendas he grande erro; huma moenda de tres palmos de
+diametro, que fazem nove de circumferencia, precisa de vinte chapas; a
+seis pregos, são cento e vinte pequenas cunhas, que mettidas com muita
+força pelo comprimento do madeiro da moenda, a faz abrir em pequenas
+raxas, onde póde introduzir-se alguma porçaõ de sumo de Canna, e não
+póde chegar a lavagem; porque he agua simplesmente lançada, e a quem
+falta o aperto, que soffre o sumo da Canna entre as moendas.
+
+Esta pequena porção de sumo huma vez introduzida nestas raxas, azéda, e
+serve de fermento para fazer desmerecer o sumo que se espreme; e todos
+sabem, que huma mui pequena porção de acido impede o fazer Assucar, e
+deteriora a sua qualidade. Ainda mesmo que o madeiro esteja perfeito,
+sempre o sumo se introduz por baxo das chapas, e a agua da lavagem não
+póde lá chegar.
+
+Esta chapeação não impede que as moendas sejão torneadas todos os annos,
+ou todos os dois annos; he preciso arrancar as chapas, e depois de
+torneado o madeiro, repregallas em outro lugar, tapando com tornos, os
+buracos, onde estiverão os pregos; por mais solido que elle seja, não
+póde resistir a tres, ou quatro operações destas, sem que fique fóra de
+serviço. Vinte chapas, de mais de duas linhas de grossura, são quarenta
+angulos, ou cunhas, que cortão, ou mordem as Cannas, que á terceira
+passagem ficão reduzidas a partes minimas, cujo bagaço, para passar a
+quarta vez, he preciso que o Escravo o empurre, e ampare com as mãos
+entre as moendas, para poder espremer-se, e ainda nesta quarta passagem
+sahe humido. As ultimas vezes, que este bagaço passa nas moendas, faz
+tanta resistencia, que se são de meios aguilhões, succede aluirem para
+os lados, e se são inteiros, quebrarem. O bagaço, quasi reduzido a pó,
+só serve para estrume depois de ter apodrecido na bagaceira, o que
+infecta o ár, que se respira á roda da fábrica, e faz sempre sentir hum
+máo cheiro.
+
+
+_Nova fórma de moer._
+
+As moendas devem ter tres palmos, e pouco mais de altura, até á
+dentadura; devem ter tres palmos de diametro, ser feitas de hum páo bem
+firme, e bem lisas, sem chapeação. A meza deve dar pelos peitos de hum
+homem, e ter cinco palmos de largura, inclusos os taboleiros. A Canna ha
+de ser appresentada á moenda em linha obliqua, fazendo hum angulo de
+quarenta e cinco gráos, com pouca differença, e perto da dentadura.
+Assim que esta Canna passou, o Escravo da parte opposta deve dobralla, e
+appresentalla á moenda pela sua curvatura, tambem em linha obliqua. Com
+estas duas passagens fica a Canna melhor espremida, que com as quatro,
+ou mais, que actualmente se usão.
+
+Para que este serviço continue sem interrupção, he preciso que o
+Escravo, que mette Canna, appresente á moenda de doze a dezaseis de cada
+vez, segundo a sua grossura; o Escravo, da parte opposta, pega em seis,
+ou oito destas Cannas, dobra-as, e appresenta-as á moenda pela sua
+curvatura, e faz o mesmo ás outras seis, ou oito, e assim continua o
+serviço; porque tendo a Canna seis palmos de comprido, dobrada fica em
+tres, e he preciso que as moendas estejão sempre cheias. Por mais molle
+que seja hum páo proprio para moendas, sempre he muito mais duro que a
+Canna, que, sendo hum corpo esponjoso, deprime-se facilmente; o muito
+uso poderá gastallo, e será preciso torneallo, porém creio certamente,
+que ha de precisar muito mais tarde deste beneficio, que as moendas
+chapeadas, e ha de conservar mais annos a sua solidez. Conheço huma
+fábrica de Estampas, que imprime de oito a dez mil todos os annos, e
+trabalha há mais de vinte; que os dois cilindros, que fazem a fieira, e
+apertão entre duas taboas a chapa da impressão, ainda não forão
+torneados, nem o precisão; accrescendo ser isto hum trabalho de páo
+contra páo, muito differente da Canna, que he hum corpo muito mais
+molle. A Canna, appresentada em linha horisontal, faz aperto n'huma
+parte da moenda sómente, e, appresentada em linha obliqua, trabalha com
+todo o corpo. He certo que as moendas de páo são hum remedio; devião ser
+tambores, ou cilindros de ferro, assim como se pratica nas Antilhas,
+despesa que se faz por huma vez, porém em quanto se não põem em prática,
+deve degradar-se a chapeação, por ser desnecessaria, e nociva.
+
+
+_Comparação da moagem actual com a que se propõem._
+
+Pelo methodo usado, dando a moenda quatro voltas; são trinta e seis
+palmos de superficie; tendo os feixes seis palmos de comprido, e,
+appresentando-se em linha recta, ou horisontal, passaõ, e repassão seis
+feixes; dando outras quatro voltas, passão, e repassão em bagaço, são
+precisas oito voltas para moer seis feixes de Canna, o que não póde
+fazer-se em menos de seis minutos. He certo que estes feixes de Canna só
+tem os seis palmos de comprido na primeira, e segunda passagem, ficando
+reduzidos a pequenas partes para a terceira, e quarta, o que fará
+parecer gastarem menos tempo nas duas ultimas; porém isto deve
+considerar-se nullo, pelas paradas que nestas occasiões fazem as bestas,
+por ser preciso redobrar o seu esforço para vencer a resistencia, que o
+bagaço, ou Canna, reduzida a pequenas partes, lhe offerece. Pelo methodo
+proposto, appresentando-se a Canna á moenda em linha obliqua, tendo seis
+palmos de comprido, fica reduzida a quatro e meio, e he preciso nas
+quatro voltas fazer oito entradas, para ganhar a superficie das moendas,
+cujas entradas sendo de doze a dezaseis Cannas, que são dois feixes,
+fazem dezaseis; e como passão, e repassao simplesmente, em quanto nos
+seis minutos, pelo methodo usado se moem seis feixes; moem-se pelo
+methodo proposto trinta e dois, e por consequencia hum carro de cento e
+cincoenta feixes em menos de trinta minutos, que em vinte e quatro horas
+faz mais de cincoenta carros. Pelo methodo usado, hum feixe de Canna,
+appresentado á moenda em linha horisontal, o aperto que soffre faz, que
+estas Cannas fiquem sobrepostas humas acima das outras; ellas, que tem
+huma pollegada pouco menos de diametro, ficão bem espremidas, passando
+por huma fieira de huma a duas linhas; porém do sumo que espremem, que
+tem de circumdar a superficie de quasi todas as Cannas, sò huma pequena
+parte cahe na meza, e a maior parte, fluctuando por cima dellas, logo
+que cessárão de soffrer a compressão, sendo de natureza esponjosa, e
+elastica, tornão a beber o sumo espremido. Na segunda passagem pouco
+aperto percebem; porque passão por huma fieira igual á primeira, e por
+consequencia he preciso que sejão reduzidas pela chapeação a partes
+minimas, para se lhe aproveitar o sumo. Pelo methodo proposto,
+appresentando-se a Canna em linha obliqua, quando recebe o aperto, dá
+sahida ao sumo pela mesma Canna, e deposita na meza todo, o que espreme.
+
+Quando acabou de passar a Canna, e o Escravo da parte opposta a dobra ao
+meio, para a appresentar na mesma linha obliqua; pelo seu angulo, ou
+curvatura, recebe na fieira da moenda hum aperto maior que o primeiro;
+porque em igual ou superior volume, tem partes mais solidas que
+comprimir, faz ficar o bagaço sècco, inteiro, apto para se fazer em
+feixes, que podem servir para as fornalhas; o que he impossivel no
+methodo usado, porque fica reduzido quasi a pó. A differença de hum a
+outro methodo he de nove a cincoenta, vantagem inapreciavel em
+semelhantes fábricas. Eu não sei que haja em todo o Brasil, quem reuna
+forças para moer esta quantidade de Canna de Junho a Setembro, que he o
+verdadeiro tempo, e são cem dias de serviço; talvez não haverá meia
+duzia de fábricas, que possão fazer ametade, porque então farião de seis
+a sette mil arrobas de Assucar. Vejo que há engenhos, que para tres, ou
+quatro mil arrobas, principião em Maio, e acabão em Dezembro, por não
+poderem mais, empregando dia, e noite neste trabalho, e assim mesmo
+perdem Canna, que não podem moer. Trabalhando-se desta sorte, os homens,
+e os animaes se estragão, o dia he para trabalhar, e a noite para
+descançar, esta a ordem da natureza, que se não inverte impunemente.
+
+Adoptando-se esta fórma de moer, póde a noite ficar salva. Principia-se
+das quatro horas da manhã até ao meio dia, das duas horas da tarde até
+ás dez da noite; nestas dezaseis horas de serviço, cada hum póde
+trabalhar, segundo as suas forças. Suppondo que quer moer dezaseis
+carros de Canna, faça appresentar á moenda só seis, ou oito Cannas (que
+he hum feixe) continuadamente, na repassagem faça dobrar tres, ou
+quatro, tudo como acima se diz, e desta sorte póde augmentar, e
+diminuir, segundo as suas forças, e vontade. Nestas duas horas depois do
+meio dia, e ás dez da noite, basta que sejão lavadas ás moendas, menos
+que o calor não seja intenso, ou que haja trovoadas; porque então todas
+as vezes que se enche o cocho, devem ser lavadas. _Veja-se a Estampa
+IV._
+
+
+_Descripção do que contém a casa de caldeiras actualmente._
+
+A Casa de caldeiras, onde se fabrica o Assucar, he de cinco a oito
+palmos, mais baxa que a do engenho, e contém o que se segue. Parois de
+caldo frio, Parois de caldo quente, Rominhois, Espumadeiras, Batedeiras,
+Repartideiras, Caldeira, e Coxinha, Bangué com suas tachas, Esfriadeira,
+Fôrmas para lançar a calda, de que se faz o Assucar bruto, Carcanha,
+Massa de Mamono, Espatulas, Tanque de preparar o barro, que ha de
+clarificar o Assucar, Vasos com decoada, e Vasos com agua. Parol de
+caldo frio, he hum cocho, ou especie de tanque, feito de taboas, e pelo
+commum cavado n'hum grosso madeiro, com maior, ou menor comprimento, e
+largura, e capacidade de conter tanto liquido, quanto encha a caldeira,
+sem sobejar. Há alguns engenhos, que já os tem de cobre.
+
+Parol de caldo quente, he o mesmo que de caldo frio, porém maior, por
+ser destinado a receber o liquido depurado da caldeira, huma, e mais
+vezes, donde passa para as tachas. Rominhol he huma especie de cassarola
+de cobre, que pòde conter de quatro a seis libras de agua; quando tem
+hum cabo comprido, e com elle se tira o liquido da caldeira para o parol
+de caldo quente, toma o nome de pomba. Espumadeira, todos sabem o que
+he, a que serve nos engenhos, tem hum cabo até dez palmos. Batedeïra, he
+huma chapa de cobre circular, com pouco mais de hum palmo de diametro,
+huma concavidade de duas pollegadas no centro, que vai diminuindo para a
+circumferencia, com hum cabo comprido. Repartideira, he huma especie de
+cassarola de cobre, que póde conter até dez libras de agua.
+
+A Caldeira, he pelo commum de ferro, tem de cinco a seis palmos de
+diametro na boca, outro tanto de altura, sendo menos larga no fundo; he
+assentada de fórma, que fica a sua boca pouco mais alta que a superficie
+do terreno, sendo este ladrilhado á roda della, com huma pequena
+inclinação, que faz correr as espumas que a Caldeira lança a hum
+receptaculo, a que se chama Cochinha. A Cochinha, he hum pequeno tanque
+de taboas, que tem seu registo; o liquido que recebe, que não são
+espumas, torna a passar para a Caldeira; as espumas por huma calha
+coberta, vão depositar-se ao seu receptaculo na casa da aguardente.
+
+Bangué, he huma fornalha comprida, com quatro palmos de altura, que
+contém tres, quatro, e cinco tachas de ferro, de tres a quatro palmos de
+diametro, da maior á menor, que se distinguem com os nomes, quando são
+tres (o que he o mais commum) de tacha de receber, de cozer, e de bater.
+No mesmo bangué está outra tacha encravada, que não recebe fogo, que se
+distingue com o nome de bacia, ou esfriadeira, e he de cobre, para onde
+passa a calda de Assucar em ponto, e desta bacia he que vai para as
+fôrmas. As fôrmas são feitas de barro, de figura conica, de dois palmos
+pouco mais de diametro na boca, acabando para o fundo quasi agudas, com
+hum buraco de meia pollegada. A Espatula, he huma especie de pá de
+taboa, que serve de mexer o Assucar nas fôrmas, e impedir a sua mui
+prompta condensação. A Carcanha, he o aparelho de fazer a decoada, que
+se faz com a cinza de toda a lenha, preferindo a de gorarema, ou páo de
+alho, que se tem reconhecido ser rica em alcali; a esta cinza misturão
+algumas hervas acres, para augmentar o que chamão queimo da decoada;
+enchem com esta cinza, e hervas, doze a vinte fôrmas, que ficão
+levantadas do chão alguns palmos, enfiadas em buracos proporcionados
+feitos em taboas; lanção em cima destas fôrmas agua quente, que,
+filtrando-se por entre as hervas acres, e a cinza, cahe pelo furo da
+fôrma gotta a gotta, n'hum recipiente, donde se tira para o uso. A massa
+de Mamono, são as sementes deste vegetal bem pizadas. O tanque de
+preparar o barro, he hum cocho, no qual se deita muita agua, e barro,
+que com hum rodo se faz dissolver, ficando n'huma especie de lodo, que
+se lança em cima das fôrmas de Assucar bruto. Os vasos, onde está a
+decoada, e agua para o uso, são fôrmas com algum defeito, a que se tapa
+o buraco que tem no fundo.
+
+
+_Como se trabalha na fàbrica do Assucar._
+
+Cheio que seja o parol de caldo frio, do sumo das Cannas espremidas nas
+moendas (o que actualmente se não faz em menos de quatro a seis horas)
+corre por huma calha para a caldeira, que fica hum palmo por encher.
+
+Esta caldeira, que tem sua fornalha particular, e hum Escravo, que a
+serve com lenha, principia a receber hum fogo violento; á proporção que
+o liquido aquece, sobe á sua superficie huma especie de gusmo, a que se
+chama cachassa, que he tirada com a espumadeira pelo obreiro, que
+governa a caldeira, e lançada na cochinha para por huma calha ser
+conduzida á casa da aguardente. Esta operação, a que se chama
+descachassar a caldeira, dura tanto tempo, quanto tarda o ferver o
+liquido, o que pelo commum, segundo o grande calor que recebe, não chega
+a meia hora. Logo que ferve, principia o uso da decoada; lanção-lhe
+mais, ou menos rominhois della, segundo que o sumo da Canna contém mais,
+ou menos partes oleosas, e tem maior, ou menor densidade; e se he muito
+denso, e rico em sal, interpoladamente se lhe lança agua, e decoada.
+Esta decoada, combinando-se com o oleo, faz hum sabão, que náda na
+superficie do liquor em fórma de espuma, que he tirada á proporção, que
+se ajunta.
+
+Quando a violencia do fogo, dilatando o liquido, o faz sublevar acima
+das bordas da caldeira, às vezes hum, e dois palmos; huma pitada de
+massa de Mamono, lançada em cima, instantaneamente o faz abater, e reduz
+a mais de hum palmo abaixo das bordas della. O signal, para se conhecer
+se o liquor desta caldeira tem o cosimento preciso, a que chamão estar
+limpa, ou ajudada, he hum segredo, de que fazem mysterio os Mestres de
+Assucar; ora isto he huma gente, pretos, pardos, ou Indios, que pelo
+commum não sabem lêr, e, em quanto a mim, não tem outro merito, e
+sciencia, que a de serem fiéis, duros ao somno, e terem hum pouco de
+cuidado, por ser preciso nestas fábricas trabalhar de dia, e de noite.
+Quando se julga limpo o liquido da caldeira, passa ao parol de caldo
+quente, onde he lançado a braço, pelo caldeireiro, com a pomba. Continua
+o trabalho com mais caldo frio; estando prompto, passa ao parol de caldo
+quente, e quando neste parol há quantidade sufficiente para passar ás
+tachas, e, que depois destas trabalharem, não possão parar á falta
+delle, enche-se a primeira tacha, chamada de receber, depois de ter aqui
+engrossado alguma cousa, passa della a braço para a de coser, e desta
+para a de bater. Assim que o liquido passou da tacha de receber para a
+de coser, enche-se a de receber, e assim progressivamente, de sorte que
+as tachas não fiquem paradas. Todas estas tachas são espumadas, e levão
+massa de Mamono. A fórma de bater na ultima tacha, he levantar o
+liquido, que já está em calda, com a batedeira, e virallo com inclinação
+sobre huma parede alta, forrada de tijolo, que borda, e circumda, mais
+que ao meio, a mesma tacha, e quando suppõem ter alcançado o ponto
+necessario, he, desta tacha de bater, passado para a bacia de esfriar, e
+daqui com a repartideira vai para as fôrmas, que estão no que se chama
+tendal, que he huma especie de anteparo, cheio de bagaço de Canna, em
+cima de cujo bagaço estão as fôrmas, que são no numero de sete, a que
+chamão huma venda; não se enchem de huma vez, he repartida a calda por
+todas; e como a quantidade, que se apurou, não chega para as encher,
+completão-se com o segundo, e terceiro cosimento. Esta calda, lançada
+nas fôrmas, he mexida com a espatula, para impedir a condensação, e
+agregação mui prompta da gran do Assucar, a que chamão coalhar. Quando
+as fôrmas ficão cheias, e o Assucar coalha, tira-se a rolha, que tapa o
+buraco do fundo, para dar sahida ao mel, ou Assucar decomposto, cujo mel
+he conduzido por huma calha ao seu receptaculo. O Assucar mui trigueiro,
+que contém estas fôrmas, he o que se chama Assucar bruto. Passão agora
+do tendal para a casa de purgar. Esta casa he assobradada, e nas taboas
+do soalho há muitos buracos redondos, de seis pollegadas de diametro,
+onde se firmão as fôrmas, para serem barreadas.
+
+A coxia, ou casa, que fica por baxo deste sobrado, he ladrilhada com
+inclinação das paredes ao centro, onde há hum canal, que recebe o mel,
+que as fôrmas de si lanção, e o conduz a hum tanque, donde se tira para
+o uso. Do tanque de preparar o barro, se tira em huma vasilha, a especie
+de lodo, a que he reduzido, e se lança em cima das fôrmas: este lodo,
+que conserva a agua em si, a vai largando a pouco, e pouco, a qual,
+introduzindo-se por entre o Assucar, precipita o mel, para sahir pelo
+buraco do fundo da fôrma. Sêcco que seja este barro, tira-se da fôrma,
+lança-se segundo, e ainda terceiro. Com estes tres barros, se suppõem
+ficar a fôrma, como chamão, lavada. Succede poucas vezes ser o Assucar
+desta fôrma todo branco, o commum he ser branco da superficie, até huma
+terça parte da fôrma, menos branco a segunda terça parte, trigueiro, dos
+dois terços para o fundo. Estas tres especies de Assucar, se distinguem
+com os nomes de fino, ou redondo, batido, e mascavado; este ultimo he
+ainda subdividido em diversos mascavados, segundo, que he mais, ou menos
+trigueiro.
+
+O Assucar, assim trabalhado, diminue huma terça parte, pouco mais, ou
+menos, em quantidade de sorte, que, se as fôrmas contém tres arrobas de
+Assucar bruto, fica reduzido a duas de todas as qualidades. Depois que o
+Assucar se suppõem purgado, passa da casa de purgar para o terreiro, ou
+eira, onde he tirado das fôrmas, e com hum facão divididas as
+qualidades; e depois de reduzido a pequenas partes, he lançado em
+differentes toldos, ou lençoes de panno grosso, para que o calor do Sol
+lhe faça evaporar a humidade, e desseque.
+
+He dalli conduzido á casa do encaixe, onde se deita em caixas, que podem
+conter de quarenta a cincoenta arrobas; e socado a pilões; e pregadas as
+caixas, conduzidas ao armazem, ou trapiche, onde, depois de julgadas as
+qualidades pela Meza da Inspecção, he vendido.
+
+
+_Notas sobre esta fórma de fazer Assucar._
+
+Por não se saber moer Canna, gasta muito tempo o parol a encher-se.
+Nestas quatro, e mais horas, que o sumo da Canna, liquido mui composto,
+se deixa em repouso, fermenta; o que deprava o liquor, e diminue a
+quantidade de Assucar, e sua qualidade.
+
+Se o parol he de madeira, conserva sempre em si hum fermento, que ajuda
+extraordinariamente esta deterioração. Quando o caldo da Canna passa do
+parol para a caldeira, vai frio; esta, que he de ferro coado, e está
+muito quente, recebendo repentinamente huma impressão tão estranha, póde
+rachar, o que muitas vezes succede. Hum calor moderado, que faz subir á
+superficie do liquor, as partes impuras, a que se chama cachassa, não
+dura o tempo que he preciso; logo que a caldeira levanta fervura, todas
+as partes são confundidas: a decoada, que se lhe lança, tem a
+propriedade de se combinar com as partes oleosas, e acidas, e de nenhuma
+sorte com este gusmo, que incorporando-se com o Assucar, o faz
+trigueiro, e perder a qualidade. O obreiro, que governa esta caldeira,
+ainda que o descachassalla não dure meia hora, faz hum trabalho
+fatigante, pela postura curva, em que he preciso estar; e mais se fatiga
+ainda, quando, julgando-a limpa, lança o liquido a braço com a pomba, no
+parol de caldo quente. Os parois de caldo quente, tem o mesmo defeito,
+que os de caldo frio, se são de madeira; e se o liquido, que nelles se
+deposita, chega a esfriar, o que quasi sempre succede. O bangué, he
+proporcionado ao pouco, que se trabalha.
+
+A construcção desta fornalha, he positivamente má, o fogo faz o seu
+effeito inversamente. A tacha, chamada de receber, que póde com mais
+calor, por ser o liquido que contém, menos denso, he a ultima proxima á
+chaminé; a de cozer, está no meio, a de bater, e apurar o Assucar, he
+junto á boca da fornalha.
+
+Para que a tacha de receber tenha maior calor, descobrem-lhe mais o
+fundo, menos a de cozer, e muito pouco á de bater. Ainda que o liquido,
+que contém estas tachas, esteja a ferver, a voz do Mestre de Assucar não
+cessa de dizer: _Fornalheiro, deita lenha_.
+
+Este fogo demasiado decompõem o Assucar, transforma-o em mel, ou Assucar
+queimado. Em algumas fábricas há já bangués, em que quatro, e cinco
+tachas recebem o fogo directamente; porém os obreiros, que as fazem,
+gente material, e sem principios; os Mestres de Assucar, tirados do seu
+trilho, sem capacidade para moderar o fogo, que pela fornalha direta, se
+augmenta muito; huma boca mui pequena, que nellas se pôz, e faz precisar
+o rachar-se lenha, ou servir-se só de lenha miuda; hum crivo
+desproporcionado, a boca da fornalha aberta, todas estas cousas fazem,
+com que a maior parte use das antigas.
+
+A bacia, ou esfriadeira, he inutil. As fôrmas de barro tem pequena base,
+e muita altura; ainda que estes defeitos não fossem bastantes, a sua
+fragilidade devia fazellas desprezar. A decoada, e fórma de a fazer, não
+póde ser mais defeituosa; as hervas acres, só servem de a tingir, e a
+côr, que lhe communicão, se incorpora com o Assucar. Tenho visto parar
+engenhos, e bem notaveis, por falta de decoada; ainda que haja cinza,
+são precisos dois, e tres dias para se fazer; não há regra, humas vezes
+he forte, outras fraca.
+
+A massa de Mamono, quasi sempre he podre, ao menos conserva hum cheiro
+detestavel. Não há escolha no barro para clarificar o Assucar; qualquer
+serve, he sempre de hum cinzento escuro, e quando, depois de sêcco, se
+tira de cima da fôrma, deixa encostrado sobre o Assucar, hum sedimento
+negro. A fórma de seccar o Assucar no terreiro, he pessima; além de ser
+preciso ter sentinela, ainda que quem o vigia, seja hum Argos, não
+impede, que se furte muita parte; a formiga, a galinha, o cão, o porco,
+todos o comem; o vento faz depositar nelle mil impuresas; se há chuvas
+continuadas, o que succede muitas vezes, não podendo as fôrmas sahir da
+casa de purgar, mélla o Assucar nellas; a estufa salta aos olhos, porém
+ninguem a pôz ainda em prática. O bater a calda, levantando-a da tacha
+na batedeira, com inclinação sobre huma parede, onde cahe muita parte
+della, não sei que isto possa servir para fazer Assucar, vejo que se faz
+hum encostramento na parede, que he preciso fação para o arrancar; esta
+especie de Assucar encostrado, a que se chama rapadura, para ter algum
+valor, he preciso tornar á primeira tacha, e antes que a ella vá, tem
+mil descaminhos. O tanque do mel, além de ser huma verdadeira sentina,
+hum aggregado de mil imundicias, o mel faz apodrecer o tijolo, a que faz
+perder pela terra muita parte, que bem acondicionada, se aproveitaria em
+aguardente.
+
+
+_Principios, que devem conduzir o fabricante de Assucar._
+
+Quando de hum todo, ou composto, se quer extrahir huma parte, he preciso
+conhecer esta parte, e as mais, que com ella fazem o mesmo todo, e saber
+a fórma de as separar. O Assucar purificado, segundo _Cartheuser_, he
+hum corpo concreto, salino, formado de huma terra soluvel, de hum acido
+subtil (de que huma parte he intimamente unida a huma base alcalina, e
+calcarea) e de huma substancia oleosa inflammavel.
+
+O sumo, ou caldo de Canna, que contém este sal delicioso, he hum
+composto de agua, mel, oleo, e acido; e das materias extractivas, da
+casca, dos nós, e das fibras longitudinaes da mesma Canna.
+
+Deve-se buscar na fábrica do Assucar, o separar estas tres especies de
+materias extractivas, rezinosas, ou feculas (que fazem o que se chama
+cachassa) o oleo, e acido superabundantes, e evaporar a agua.
+
+Estas operações, que são chymicas, sendo bem feitas, constituem o bom
+Mestre de Assucar.
+
+O unico meio, até agora conhecido, para separar as tres feculas, que
+fazem a cachassa, he hum calor, que a mão não possa supportar, porém que
+de nenhuma fórma chegue ao gráo de fervura. Para separar o oleo, e acido
+superabundantes, não se sabe de outro meio mais, que os alcalis,
+vegetal, e calcareo, quero dizer, as decoadas de cinza, e de cal,
+combinadas.
+
+Qualquer destas duas decoadas por si, tem a propriedade de se unir aos
+oleos, e acidos, e fazer com elles hum sabão, que se mostra na fórma de
+espuma; porém Bergman observou, que o alcali calcareo prefere o acido, e
+o alcali vegetal o oleo; o que faz precisar a combinação destas duas
+especies da alcalis, para a depuração do Assucar. Se o sumo, ou caldo de
+Canna he muito aquoso, oleoso, acido, pouco assucarado, quero dizer,
+produzido por huma Canna taióba, ou selvagem, deve ser servida a
+caldeira com decoada pura, no ponto, em que fica, segundo a fórma de a
+fazer, que logo direi.
+
+Se, pelo contrario, he rico em sal, pouco aquoso, muito denso, produzido
+por huma Canna de boa qualidade, deve a decoada ser enfraquecida com
+agua pura. Esta maior, ou menor força da decoada, he relativa ao sumo,
+ou caldo de Canna, por ser preciso ter, onde se empregue, para
+deteriorar o Assucar, e communicar-lhe hum gosto lexivial.
+
+A evaporação da agua deve ser feita por hum fogo graduado, e poupado;
+por ser fysicamente demonstrado, que qualquer liquido, chegando a
+levantar fervura, tem alcançado o maior gráo de calor, de que he capaz,
+e que he em pura-perda, toda a mais lenha, que se lança na fornalha.
+Este calor demasiado, perdido para a evaporação, decompõem o Assucar, e
+o reduz a mel, ou Assucar queimado. A evaporação de qualquer liquido, he
+em rasão da sua superficie; para esta se augmentar, he preciso levantar
+o liquido, e deixallo cahir em columna; tanta he a superficie desta,
+quanta a augmentação da evaporação, respeito á que tinha na tacha
+simplesmente fervendo.
+
+Todo o liquido mucoso, doce, tendo fluidez sufficiente, ajudado pelo
+calor, e influxo do ár, entra promptamente em fermentação. Esta
+fermentação decompõem o Assucar, que tranforma em espirito, de sorte,
+que certa quantidade de liquido, que produziria vinte, se chega a
+fermentar, póde dar sómente quinze, dez, e mesmo nada, e esse menos que
+se fizer, ha de ser de má qualidade. O gráo de frio, que géla a agua,
+impede a fermentação, porém este meio só a natureza o póde dar, e no
+Brasil he impossivel; o que temos na nossa mão, e facil, he darmos, e
+conservarmos hum calor ao liquido, que quasi o faça ferver. A rasão
+porque se diz, ser bom trabalhar em quente, e muito máo em frio, he por
+este frio ser o do ár, que no Brasil ajuda prodigiosamente a
+fermentação, e o quente, he o liquido quasi fervendo, que a impede.
+
+Ora, sahindo o caldo quasi fervendo da caldeira, e passando ás tachas
+quasi com esta quentura, trabalha-se bem, e apura-se o mais possivel;
+esfriando no parol, assim que alcança o calor, que favorece a
+fermentação, entra logo nella, porque a natureza não pára; e quanto mais
+tempo assim se conserva, tanto mais se deteriora, perde o rendimento, e
+custa a trabalhar.
+
+
+_Preparo para manufacturar o Assucar._
+
+Dois parois de cobre bem estanhados, que não tenhão mais de dois palmos
+de altura, com sufficiente largura, e comprimento, para conter cada hum
+tanto liquido, quanto caiba na caldeira, sem sobejar. Devem ser cubertos
+de taboas, para impedir o mui livre contacto do ár; com hum furo na
+tampa, para dar entrada a hum grosso, e comprido funil, que recebe da
+calha o sumo da Canna, e o deposita no fundo do parol.
+
+Devem ter na parte mais commoda do fundo hum grosso furo, onde he
+soldado, hum curto tubo, que hum comprido torno tapa, para, quando for
+tempo, dar sahida ao liquido, que huma calha conduz á caldeira. Devem
+ter sua fornalha, que póde ser commua a ambos, e serem assentados nella
+com huma pequena inclinação, para facilitar a sahida do liquido.
+
+Duas caldeiras, cada huma com sua fornalha; assentadas o mais alto
+possivel, bordadas de ladrilho, com sua cochinha para receber sómente
+espumas. Dois funis grandes de folha de flandres, com altura, que possão
+chegar ao fundo das caldeiras. Hum bangué de tres tachas, cuja
+proporção, e fórma adiante descreverei. Quatro esfriadores. O esfriador,
+he huma especie de caixão, com dois palmos de altura, oito de comprido,
+e tres de largo, feito de cossueiras de boa madeira, bem aplainadas.
+
+Cem fôrmas. A fôrma tem a figura de prisma triangular, deve ser feita de
+cossueiras de boa madeira, bem aplainadas, de quatro palmos de comprido,
+dois, ou mais de largura, fazendo huma abertura de dois palmos, fechando
+em baxo, e deixando aberta huma fenda de duas linhas; aplainadas no
+fundo, para fazerem hum assento de tres a quatro pollegadas; as cabeças
+hão de ser malhetadas, e feitas com toda a solidez.
+
+A _Figura II._ da _Estampa VII._, mostra a fôrma vista com a boca para
+cima; e a _Figura III._ mostra a mesma fôrma com o fundo para cima, e a
+fenda aberta para escôo do mel.
+
+Tres baldes de valvula em polé, hum para servir as caldeiras, outro as
+duas primeiras tachas, e o terceiro he para servir sómente a tacha,
+chamada de bater. Estes baldes devem ser de estanho, a valvula, do mesmo
+metal, assentada em boa solla; a ponta desta valvula deve conter hum
+pequeno aro, onde jogue hum arame grosso de dois palmos, e meio de
+comprido; neste arame, que acaba tambem em aro, prende huma delgada
+corda, que, passando na polé, chegando á mão do obreiro, facilita-lhe o
+levantar a valvula, e deixar cahir o liquido em columna, ou sobre huma
+calha, segundo a necessidade. O balde tem dois palmos de altura, e palmo
+e meio por cada face, e póde conter noventa libras de agua; a valvula
+tem pouco mais de hum palmo quadrado, e a columna de liquido, que
+descarrega, he de hum palmo. O apoio da polé está em tres palmos, a
+alavanca he de seis, e como pésa mais, o obreiro balanceia o pêso do
+balde cheio, com trinta e tantas libras. A _Estampa VI._ mostra o
+trabalho do balde. Huma estufa. Esta casa tão util, absolutamente
+precisa, que a negligencia, a ignorancia, a falta de economia tem
+despresado, deve ter até vinte palmos em quadro, feita de paredes
+mestras, cuberta de abobada reforçada; com duas aberturas da altura de
+hum homem, e cada huma com duas portas, feitas de cossueiras; huma
+destas aberturas communica com a casa de purgar, e a outra com a casa de
+encaixe. Deve ter tambem huma janella alta com dobradas portas, para se
+abrirem defóra, quando for preciso refrescar o ár da estufa. Todas estas
+portas devem ter boas chaves. Dentro desta casa, sobre pontaletes, se
+fazem tres taboleiros, com taboas bem sêccas, bem desempenadas, bem
+lisas, unidas com meio fio, que fiquem acima huns dos outros, de seis a
+oito palmos. O soalho desta casa, deve ser feito sobre abobada, ou
+aterrado sobre ella. Na parte exterior, que communica com a varanda, tem
+esta abobada huma abertura, que dá passagem ao calor, communicado por
+huma fornalha, a huma chapa de cobre circular bem grossa, de tres palmos
+de diametro. Esta fornalha tem seu cinzeiro, e he servida com lenha pelo
+fornalheiro do Bangué. Quatro ensinhos para os esfriadores. Este ensinho
+tem vinte dentes, dezoito em prisma quadrangular, e os dois dos lados,
+em prisma triangular, afastados huns dos outros, duas linhas, e cada
+dente tem dois palmos de altura. A _Figura II._ da _Estampa V._, mostra
+os dentes vistos de topo, com a disposição, figura, e distancia, que
+devem ter no seu estado natural; o escuro da Figura, he a espiga, que se
+introduz no taboão, onde se firma o cabo porque puxa o obreiro.
+
+Alguns pannos, para servir de coadores. Espumadeiras, Rominhois,
+Repartideiras, Manteiga de cacáo, ou qualquer oleo doce, para impedir a
+sublevação do liquido. Vasilhas de barro para decoada, porque as de
+madeira communicão-lhe côr. Quatro raspas de ferro, que tenhão a fórma
+de enchós de martello.
+
+
+_Fórma de fazer a decoada._
+
+Peneira-se meio alqueire de cal, para separar todas as partes não
+calcinadas; deita-se em huma fôrma, ou qualquer vasilha de bom barro,
+eleva-se a hum forno de telha, ou tijolo, ou a qualquer parte, onde
+receba grande fogo; o calor, que aqui recebe, faz evaporar a agua da sua
+extincção, e a reduz a cal viva, ou virgem.
+
+Deita-se esta cal virgem n'huma caldeira, que contenha doze vezes o seu
+volume de agua; depois de se demorar hum quarto de hora, tira-se esta
+agua com hum rominhol, e se côa para outra caldeira. Tomão-se duas
+partes de cinza, que he hum alqueire (porque a cinza deve ter dobrada
+porção da cal) e deita-se tambem n'huma caldeira, que contenha doze
+vezes o seu volume de agua, mexe-se bem com huma espatula, deixa-se
+assentar, tira-se esta agua impregnada do sal da cinza, e côa-se para a
+mesma caldeira, onde está a agua de cal. Faz-se fogo a esta agua; a
+evaporação concentra os alcalis da cinza, e cal, faz-se de vez em quando
+a prova, tirando n'hum rominhol huma pouca desta decoada, deitando-lhe
+hum ovo fresco em cima; quando este ovo não vai ao fundo, que sobrenada
+huma parte delle, e descobre meia pollegada, pouco mais, ou menos, está
+feita a decoada no seu ponto. A cinza que ficou, tambem não he perdida;
+deitada, e espalhada debaxo de hum alpendre, ou telheiro, o ár, em
+poucos mezes, communica-lhe novos saes, e queimada de novo, produz mais
+alcali.
+
+
+_Descripção, e proporções do Bangué._
+
+O Bangue deve conter tres tachas, a primeira, a que chamão de receber,
+tem quatro palmos de diametro na boca, a segunda tres e meio, e a
+terceira tres. A primeira tacha, tem a boca quatro palmos acima da
+superficie da casa, chamada de caldeiras; a segunda tacha, seis palmos,
+e meio, e a terceira oito palmos, e meio; o que faz precisar haver
+degráos da primeira para a segunda, e desta para a terceira; e huma
+rampa da ultima, para a conducção da calda. A disposição das tachas
+desta fórma, he para a columna do fogo arrastar pelo seu fundo, por huma
+linha de trinta gráos. A boca da fornalha tem palmo, e meio, ou hum pé
+quadrado, deve ser feita de ferro vergalháo bem grosso, e ter huma porta
+de ferro, que só deve abrir-se, quando se servir com lenha. Da porta
+desta fornalha, pela abobada, que cobre o cinzeiro, se descreve huma
+linha de quinze gráos, até dez palmos do interior della, onde fórma hum
+resalto de dois palmos, e dahi se descreve outra linha de trinta e cinco
+gráos, que tambem tem dez palmos de comprido, e acaba na parede, que
+fórma a chaminé. Esta chaminé he hum quadrado de oito pollegadas por
+cada face, que corresponde ao centro da fornalha.
+
+Na abobada, que cobre o cinzeiro, há hum buraco de seis pollegadas em
+quadro, que corresponde ao centro do fundo da primeira tacha, e deve ser
+formado por huma barra de ferro vergalháo grosso, quadrilaterado.
+
+A boca deste cinzeiro, deve ter dois palmos quadrados, e elle ser
+ladrilhado. A _Estampa V. Fig. I._ mostra o bangué com as paredes dos
+lados abatidas, para se ver facilmente todo o seu interior, e
+proporções.
+
+Num. 1, 2, e 3, as tres tachas; 4, a boca da fornalha; 5, o vão da
+fornalha; 6, o resalto de dois palmos; 7, a boca da chaminé; 8, a boca
+do cinzeiro; 9, o vão do cinzeiro; 10, a communicação do cinzeiro, com a
+fornalha.
+
+A linha de 4 a 7, he de 30 gráos: A linha de 6 a 7, he de 35 gráos: A
+linha de 4 a 6, he de 15 gráos: O cheio, são paredes de tijolo: O
+ponteado he o aterro.
+
+Esta fornalha he a de Macquer, adoptada no modo possivel á fábrica do
+Assucar. Servida com lenha, o fogo accêso, a boca tapada, o ár
+rarificado dentro pelo calor, com tão prompta sahida pela chaminé,
+absorve, pelo canal do cinzeiro, huma columna de ár, com maior, ou menor
+rapidez, segundo a sahida que tem.
+
+Este ár, alimentando o fogo, o faz subir tambem em columna ao centro do
+fundo da primeira tacha, e daqui corre, arrastando o fundo da segunda, e
+terceira, para sahir pela chaminé. Esta sahida, que he de sessenta e
+quatro pollegadas quadradas, respeito á da entrada, pelo cinzeiro, que
+he de trinta e seis, augmenta extraordinariamente o movimento, e por
+consequencia, a intensidade do calor. Este calor, com dois tijolos na
+boca da chaminé, modera-se, segundo a precisão. Estando todo o vacuo da
+chaminé aberto, e a fornalha com lenha sufficiente, he o maior calor
+possivel; e com a mesma quantidade de lenha, tapando-se mais, ou menos,
+a boca da chaminé, diminue proporcionalmente. A fórma de alimentar o
+fogo desta fornalha, he lançar-lhe dentro hum páo, que tenha até seis
+pollegadas de diametro, pouco mais, ou menos, com oito palmos de
+comprido, cuja ponta se faz chegar até ao resalto, e alguns feixes de
+bagaço; este páo se puxa com hum gancho de ferro, a chegar a ponta a
+cobrir a communicação do cinzeiro, com a fornalha, á proporção, que o
+fogo a devora; e assim se continua, A Estampa mostra tambem o fogo.
+
+
+_Preparo do barro para clarificar o Assucar._
+
+O tanque de preparar o lodo, com que se ha de clarificar o Assucar, he o
+actualmente praticado; porém em lugar de barro cinzento escuro, deve,
+usar-se de barro branco, de que há abundancia em todas as partes, com o
+cuidado de o depurar da arêa, e pirites. Piza-se, que fique em pó, huma
+porção de barro branco bem sêcco, deita-se este pó n'hum cocho cheio de
+agua, agita-se com hum rodo, e dá-se tempo a que as pirites, e arêas
+como mais pesadas, se precipitem ao fundo. Esta agua impregnada das
+particulas barrentas, tira-se com hum rominhol para o tanque de preparar
+o lodo. Continua-se o mesmo serviço, torna-se a passar a agua impregnada
+do barro; e quando há sufficiente quantidade, deixa-se assentar, e
+tira-se a agua superabundante; e deste barro assim purificado, he que se
+fórma o lodo, para clarificar o Assucar. Se a agua, depois de
+precipitado o barro, conserva alguma côr, deve-se tirar, e lançar outra,
+e agitar com o barro precipitado, até que fique cristallina, para que
+não vá incorporar, com o Assucar, a côr, que o barro póde
+communicar-lhe. Isto he trabalho, que se faz por huma vez, porque este
+barro póde durar sempre.
+
+
+_Methodo para trabalhar na fábrica do Assucar._
+
+Assim que o caldo da Canna espremida nas moendas cahe da bica no funil,
+que o conduz ao fundo do parol, accende-se logo fogo na sua fornalha,
+cujo fogo se entretem gradualmente, de sorte, que o liquido nunca chegue
+a levantar fervura; porém que a mão não possa supportar o seu calor, o
+qual se conserva, em quanto os parois contiverem liquido. Quando, depois
+de cheio o primeiro, passa a bica para encher o segundo, trata-se este
+segundo da mesma sorte que o primeiro. Cheio o segundo parol, passa o
+liquido para a primeira caldeira, por huma calha, que se ajusta ao seu
+fundo, na parte, onde está o tubo de descarga; e antes do torno se
+tirar, põem-se hum coador sobre a calha, para não passar á caldeira mais
+que o liquido; devendo haver o maior cuidado, quando se aproximar ao
+fundo o gusmo, a que se chama cachassa, que o calor fez subir á
+superficie, de tapar logo, para que á caldeira não vá parte alguma
+delle. Deita-se então agua neste parol, e lava-se, cuja agua se mistura
+com o gusmo, e o ajuda a correr por huma calha, ao seu receptaculo, na
+casa da aguardente. Depois de cheio segunda vez o primeiro parol, passa
+o liquido do segundo para a segunda caldeira, com as mesmas precauções
+do primeiro, e assim continua o trabalho, não se despejando nunca hum,
+sem que o outro esteja cheio. Ficando a caldeira quasi hum palmo por
+encher, lança-se fogo na fornalha, para fazer ferver o liquido, havendo
+sempre a lembrança, que, chegando a levantar fervura, he escusado deitar
+mais lenha, porque he perdida; porém esta fervura deve-se entreter.
+Principia agora o uso da decoada. Introduz-se na caldeira hum dos dois
+grandes funis, e por elle he que se lança a decoada, para os alcalis
+fazerem subir do fundo á superficie, o oleo, e acido superabundantes, em
+fórma de espuma, que se separa, assim que aparece. Quando se não vem
+mais espumas escuras, julga-se limpa a caldeira, e principia a simples
+evaporação; porém o liquido desta caldeira não passa ás tachas, sem que
+a outra caldeira esteja tambem com o seu liquido depurado. Estando o
+liquido de ambas as caldeiras prompto, passa ás tachas o da primeira,
+para renovar o trabalho com o segundo liquido do primeiro parol, e assim
+vai continuando; de sorte, que as caldeiras tem tres usos: são vasos
+depuratorios, vasos evaporatorios, e parois de caldo quente. O liquido
+da caldeira, sobe no balde de valvula, que por huma calha o conduz á
+primeira, e segunda tacha; este balde serve tambem de augmentar a
+evaporação, levantando o liquido, e deixando-o cahir em columna, se há
+necessidade de accelerar este serviço nas caldeiras. As tres tachas do
+Bangué, devem ser consideradas, como vasos evaporatorios. A primeira,
+chamada de receber, e a segunda de coser, recebem o liquido da caldeira;
+depois de engrossar nellas hum pouco, passa para a tacha, chamada de
+bater; nesta ultima he, que o liquor alcança a sua perfeição; para o
+concentrar, deve ser levantado no balde muitas vezes, e deixallo cahir
+em columna.
+
+Quando desta fórma tem alcançado o ponto, passa para o esfriador. Estas
+tres tachas podem ser todas, de receber, de coser, e de bater, tendo
+cada huma seu balde, e passar a calda de cada huma dellas para o
+esfriador; porém, como a primeira tacha recebe mais fogo, que a segunda,
+e esta, que a terceira, e o fogo, se he violento, queima o Assucar, que
+reduz a mel, he melhor fazer a concentração na terceira tacha, sempre
+com o cuidado, de que a fornalha não tenha mais fogo, que o preciso para
+levantar fervura.
+
+Distingue-se o ponto da calda de Assucar em tres estados, que são ponto
+fraco, ponte forte, e ponto muito forte. Conhece-se o ponto fraco,
+quando, tomando huma pouca de calda com o dedo indes, e unindo esta
+calda ao pollegar, e apartando estes dedos, a calda não faz fios.
+
+O ponto muito forte he, quando, tomando a calda da mesma sorte, e ella
+se estende em fios por todo o apartamento dos dedos, sem quebrar.
+
+O ponto forte, ou bom ponto he, quando se fórmão estes fios, e, antes de
+chegarem a todo o apartamento dos dedos, quebrão a duas, tres, ou quatro
+pollegadas. A grossura dos olhos, que fórma a calda, fervendo na tacha,
+mais, ou menos grossos, indica a sufficiente concentração. Isto he huma
+cousa conhecida, e facil, porém que o uso ensina mais, que todos os
+discursos. Estando a calda no ponto forte, passa em repartideiras para o
+esfriador.
+
+O ár, que bate na superficie desta calda, e refresca continuadamente as
+paredes do esfriador, faz coalhar o Assucar n'huma especie de costra, a
+qual se engrossa cada vez mais, até incorporar tudo o que he Assucar,
+deixando apartada a parte melosa; porém este Assucar, coalhado tão
+promptamente, alcança tanta dureza, e a sua gran he tão unida á outra,
+que faz impossivel a passagem da agua para a sua clarificação. A
+espatula, de que se usa, para o remexer nas fôrmas conicas, não sendo
+sufficiente, he indispensavel o uso do ensinho já descripto; hum obreiro
+com este util instrumento, em huma das cabaças do esfriador, puxando-o a
+si, e impulsando-o para a outra cabeça; encostando-o no puxar, a huma
+das paredes, no impulsar á outra, impede a aggregação mui prompta da
+gran do Assucar, para a agua, que o barro largar, fazer o seu effeito.
+Este esfriador, segundo a sua grandeza, não póde encher-se com o
+primeiro cosimento, e carece, que se lhe ajuntem outros; porém o uso do
+ensinho principia desde o primeiro, até se encher, e sahir o Assucar
+para as fôrmas. Não há necessidade, de que o obreiro esteja sempre com o
+ensinho na mão; deve trabalhar de vez em quando, porém sem descuido. He
+essencial, que o Assucar não vá para as fôrmas frio, e sim n'hum gráo de
+quentura, que permitta o meter-lhe o dedo.
+
+As fôrmas molhadas, assentadas n'huma taboa desempenada, podem receber o
+Assucar, sem que pela fenda de duas linhas, que tem no seu fundo, elle
+possa cahir. O Assucar deve ser deitado nellas com espumadeiras grandes;
+esta operação deve ser prompta, e ao mesmo tempo vagarosa; prompta, em
+que he preciso varias espumadeiras, sem descuido no trabalho; e
+vagarosa, porque tirando as espumadeiras o Assucar, carece demorado
+algum tempo sobre o esfriador, para deixar cahir dentro muita parte do
+mel, de sorte que para as fôrmas vá o menos possivel.
+
+A fôrma deve ficar meia pollegada, por encher, e depois de esfriar nella
+o Assucar, tirada da sua taboa, e esgotado o mel, que ajuntou no seu
+fundo, passa para a casa de purgar, em paviola. Esta casa basta que
+tenha quarenta e dois palmos de largura, e sessenta de comprido; o seu
+sobrado na altura de doze palmos; as vigas de hum palmo de grossura,
+afastadas humas das outras, quatro palmos, e meio; as taboas do soalho,
+da largura de dois palmos, ou mais, com o vão entre taboa, e taboa, de
+duas pollegadas.
+
+A coxia desta casa póde ser ladrilhada, para mais aceio. Se parecer
+fraco o vigamento, pontaletes o fazem firme. Esta coxia deve estar bem
+munida de calhas, para cahir o mel das fôrmas.
+
+As calhas são mui simples, e podem ser feitas de taboas de seis
+pollegadas de largura, e duas de grossura, cavado o centro na profundeza
+de huma pollegada a diminuir para os lados; são firmadas na viga,
+defronte da abertura de duas pollegadas do apartamento das taboas do
+soalho, com declivio a acabar na altura de hum barril, que recebe o mel
+que nellas cahe, e o leva a huma pipa, que o guarda.
+
+Cada barril, que deve ter seu funil de folha com rallo, recebe o de duas
+calhas, e estas, o de muitas fôrmas.
+
+As calhas assim dispostas, fazem a vista de zigzag vertical. Chegando a
+fôrma á casa de purgar, he assentada entre viga, e viga, que fique a
+fenda de duas linhas do seu fundo, no meio do apartamento de duas
+pollegadas, que tem as taboas do soalho.
+
+Raspa-se a superficie desta fôrma, para igualar o Assucar; enche-se do
+lodo branco, que está preparado; e quando este lodo sécca, tira-se, para
+diluido tornar a servir. Com huma raspa se tira desta fôrma o Assucar
+embranquecido, e quando vai ficando trigueiro, sobre este mais escuro se
+lança novo lodo; raspa-se outra vez, e torna-se a lançar mais lodo, e
+assim até ficar o Assucar desta fórma todo branco.
+
+O fim desta operação he impedir, que ao Assucar já branco não passe mais
+agua; porque, não tendo partes melosas, que precipitar, dissolve o
+Assucar, que confunde com o mel, e o faz esvaido, ou sem força, e ainda
+que fique muito alvo, não indemniza a perda.
+
+O Assucar raspado passa á estufa, e he lançado nos taboleiros della,
+para seccar. O calor desta estufa deve ser mais forte que, o que
+communica o Sol, que não excede a quarenta e cinco gráos do thermometro
+de Reaumur; e na estufa se póde levar até sessenta gráos, porém não
+mais, porque então o fará trigueiro. Se não houver thermometro, deve
+regular, o poder-se entrar dentro, e demorar algum tempo; porém se não
+se puder entrar, ou parar, he preciso moderar o calor, porque he forte.
+Quando o Assucar está sêcco, o que succede em oito a doze horas, segundo
+o calor que recebeo, cessa o fogo; abre-se a janella, tira-se para a
+casa de encaixe, sóca-se, etc.
+
+
+_Como se trabalha na fábrica da aguardente._
+
+Todos os Mestres de aguardente sabem, que hum liquido doce fermenta, que
+esta fermentação o faz vinhoso, e que este vinho destilado, produz
+aguardente, em maior, ou menor quantidade, segundo o gráo de doçura, que
+em si contém este liquido. Segundo este principio, a cachassa, ou fezes
+do caldo da Canna; as espumas da caldeira, e tachas, que são materias
+por si bastantemente doces, são recebidas em parois; e como levão
+comsigo muito caldo de Canna puro, tem bastante fluidez, para que, cheio
+o parol, entre logo em fermentação.
+
+Estes parois, ou especies de tanques são cavados n'hum grosso madeiro, e
+ficão quasi hum, palmo por encher.
+
+Geralmente são descubertos; e alguma excepção que há, com esteiras he,
+que lhe tirão a maior communicação com o ár. Assim que a fermentação se
+estabelece, o movimento, que em si faz o liquido, com hum certo zunido,
+faz subir á superficie, huma côdea de materias impuras, que vai
+engrossando cada vez mais; porém abre-se de vez em quando, para dar
+passagem ao gás, ou ár fixo, que se desprende, e foge do mesmo liquido
+em fermentação. Quando o zunido cessa, e que a costra se desfaz, e
+mistura com o vinho, que neste estado toma o nome de guarápa, he o
+ponto, para passar ao alambique.
+
+Alguns esperão ainda, que huma luz se não apague no vão, que occupa o
+gás, da superficie do liquido á borda do parol. Não havendo mais
+cachassa, misturão huma terça parte de mel com duas de agua, para se
+seguir o mesmo effeito; ou misturão mel, cachassa, e agua, porque estas
+cousas em si são indifferentes, e seguem-se os mesmos effeitos. Se
+succede algumas vezes estar a guarápa em ponto, e o alambique occupado,
+deitão agua na guarápa, para não passar, segundo dizem, e quando há
+occasião, vai para o alambique.
+
+Nestes alambiques não há regra, cada hum tem os seus; porém nas fábricas
+mais modernas, o commum he, sèrem os chamados, _tromba de elephante_.
+Recebem o fogo pelo fundo, até huma terça parte da altura da cucurbita,
+ou caldeira; outros recebem pelo fundo, e pelas paredes, onde se pratica
+huma espiral, que acaba na chaminé. Todos tem serpentina de cobre, e já
+vi alguma de estanho, e nada de refrigerante. O primeiro liquido, que
+sahe pela serpentina, que he fleuma, he lançado fóra; e assim que
+principia a correr o espirito, vai para o recipiente, a que chamão
+balsa; esta cheia, he levada para a pipa, ou tonel.
+
+A serpentina, que he huma espiral de quatro, cinco voltas, está firme
+n'huma grande tina cheia de agua, sempre quente, devendo ser bem fria.
+
+Todo este trabalho he feito sem principios; se alguns se gabão de fazer
+muita aguardente, não he, porque saibão aproveitar, sim porque he feita
+á custa do Assucar.
+
+
+_Principios, que devem conduzir o Mestre Aguardenteiro._
+
+He efficazmente demonstrado, que só a parte doce, ou assucarada de
+qualquer liquido, he que pela fermentação se póde mudar em vinho, de que
+se tira o espirito ardente. Esta mudança, que a fermentação faz, he em
+mais, ou menos tempo, segundo a densidade do liquido, quero dizer mais,
+ou menos assucarado.
+
+Se he pouco doce, fermenta mais depréssa, e assim relativamente; de
+sorte que se chega a ter a consistencia de mel, não há fermentação, ou
+ao menos não he sensivel. Há tres especies de fermentação; fermentação
+espirituosa, fermentação acida, e fermentação podre, ou alcalina; ou
+antes, só há a fermentação podre, que passa pelos dois primeiros
+estados, de espirituosa, e acida. Quando hum liquido mucoso doce, pela
+fermentação se faz vinhoso, toda a parte assucarada he decomposta, e
+mudada em espirito.
+
+Se não se aproveita no alambique, e passa á fermentação acida, he
+decomposto este vinho, e mudado em vinagre; se então vai ao alambique,
+sahe hum acido.
+
+Se se deixa continuar a fermentação, e passa á alcalina, alcança o
+liquido hum cheiro detestavel, e pelo alambique sahe sómente alcali
+volatil, ou o producto das materias podres. Estas mudanças, ou
+decomposições, accelerão-se, ou retardão-se, segundo o maior, ou menor
+calor do ár, que he o principal agente da fermentação.
+
+No gráo de frio, que géla a agua, não há fermentação, ou ao menos não he
+sensivel; e o mesmo succede n'hum gráo de calor de sessenta gráos para
+cima, do thermometro de Reaumur, quero dizer, que a mão não póde
+supportar. Quando o calor da atmosphera, ou do lugar, onde se faz a
+fermentação, chega a dez gráos do mesmo thermometro, ella se estabelece,
+e se augmenta cada vez mais até aos trinta e cinco, que he o maximum; de
+trinta e cinco para cima, entra a enfraquecer proporcionalmente, até aos
+sessenta em que pára. Estes sessenta gráos para a fermentação são iguaes
+ao zero, ou gèlo de Reaumur. Nunca o gráo do frio no Rio de Janeiro póde
+impedir a fermentação, por ser o calor da atmosphera, de vinte a trinta
+gráos; e são raros os dias no Inverno, onde chega a quatorze, e nunca
+menos. Quando hum liquido entra em fermentação espirituosa, não a soffre
+ao mesmo tempo em toda a sua massa; já algumas partes tem fermentado, e
+vão passando a acidas, quando outras ainda não principiárão; o que faz
+precisar hum fermento, que excite o movimento em todas as suas partes,
+ao mesmo tempo.
+
+Este fermento, a natureza o dá na espuma, e costra, que se fórma sobre
+hum primeiro liquido, que fermentou, que mesmo se póde desseccar para o
+uso.
+
+Ajudando o calor da atmosphera tão poderosamente a fermentação, deve o
+Mestre Aguardenteiro impedir, quanto lhe for possivel, que com o gás,
+que se desprende do liquido, se não dissipem partes espirituosas; para o
+que ha de conservar os vasos, onde ella se faz, com pouca communicação
+com o ár; e em lugar de cochos, e abertos, sirva-se de pipas, e ainda
+melhor de dornas, com o fundo largo, a boca estreita, com sua tampa, e
+nella hum pequeno furo, e de grandeza proporcionada aos alambiques. Deve
+ter tambem o maior cuidado, em determinar o seu trabalho de sorte, que
+não tenha mais guarápa que destilar, que os alambiques não possão
+vencer; e que he melhor, que estes esperem, que aquella, por não haver
+meio de impedir a sua depravação.
+
+O ponto principal, donde depende toda a felicidade, ou o maior producto
+possivel da fermentação espirituosa, he, o saber conhecer precisamente o
+instante, em que a guarápa deve passar ao alambique. O signal
+infallivel, que designa este instante, foi descuberto por M. Gentil,
+Prior de Fontenet, e membro de muitas Academias, «O sabor, diz este
+grande homem, he huma qualidade, que he o objecto do gosto, e este
+sentido não póde enganar-se entre o sabor vinhoso, e o sabor assucarado;
+e como o cheiro vinhoso acompanha sempre o sabor vinhoso, he impossivel
+errar sobre a relação destes dois sentidos. Não he preciso suppôr estes
+sentidos bem delicados, e bem exquisitos, nem hum grande discernimento
+para fazer a distincção; todo o homem organisado, como o commum dos
+homens, distinguirá o sabor vinhoso, do sabor assucarado, com tanta
+facilidade, quanta poderia distinguir a côr vermelha, da côr verde.... O
+signal determinado, e infallivel, que designa de huma maneira
+invariavel, o momento, em o qual, a fermentação tem chegado ao gráo
+preciso, e a que he unida a maior perfeição de vinho; o momento, no qual
+o vinho não he assàs feito, e depois do qual vem a ser aspero,
+grosseiro; he o momento mesmo, onde, depois de muitas degustações
+successivas, nas quaes temos sentido a diminuição do sabor assucarado.
+Este sabor, depois de se ter enfraquecido gradualmente, desaparece
+subitamente; então he o signal preciso, fixo, e seguro para se tirar o
+vinho da dorna: isto he huma ordem irrevogavel, que a natureza prescreve
+á arte, e que signala o momento fatal, a que he unida a perfeição deste
+liquor.... Fura-se a dorna no meio da altura, que occupa o liquor, e
+tapa-se com hum pequeno torno; logo, que a fermentação se estabelece,
+tira-se o torno, e deixa-se correr o liquor n'hum pequeno copo para o
+provar. Assim, que se percebe huma diminuição, marcada no sabor
+assucarado, e huma augmentação no sabor vinhoso, que são inseparaveis,
+deve haver cuidado na dorna, fazer a prova com frequencia, ter os vasos
+promptos para receber o liquor; e se o signal aparece no meio da noite,
+não differir para o outro dia o aproveitallo; esta noite segura huma
+recompensa, que deve fazer esquecer a necessidade do repouso. Este
+signal commum, he proporcionado á intelligencia de todos; he ainda
+identico, e invariavel, para hum mosto de excellente qualidade, como da
+mais mediocre; para huma grande quantidade de liquido, como para huma
+pequena; para huma fermentação viva, forte, tumultuosa, e prompta, como
+para huma fraca, lenta, etc. Ou seja o calor do ár proporcionado, ou
+intenso, sempre he o mesmo; he preciso sómente, se a fermentação tem
+sido mui rapida, ter mais cuidado na dorna, porque chega mais depréssa
+ao ponto, e he de maior prejuiso á passagem.»
+
+Até aqui M. Gentil. Quando a guarápa indica este ponto, a costra, que a
+fermentação produzio, está sobre ella; no tempo que gasta a desfazer-se,
+misturar-se com o vinho, dissipar-se o gás, que a sobrenadava para não
+apagar a luz, tem-se evaporado muito espirito, e outro tem passado a
+acido, pela fermentação acetosa, que immediatamente segue a espirituosa,
+porque a natureza não pára hum instante; e daqui se póde inferir, o
+quanto se perde, pela fórma de tomar o ponto, no estado actual.
+
+Depois da boa fermentação com o seu ponto tomado a tempo, nada concorre
+tanto para huma boa distilação, como a abundancia de agua, na casa
+d'aguardente.
+
+Se no refrigerante não corre sempre agua fria, para a condensação do
+vapor, e na tina da serpentina, para fazer cahir frio o liquor no
+recipiente, há huma diminuição incalculavel, na quantidade, e qualidade
+d'aguardente.
+
+A falta de principios, nos fabricantes deste genero, não lhe deixa
+conhecer esta perda, porque lhe não he sensivel á simples vista. Olha-se
+com tanta indifferença para este objecto, que eu já vi n'huma fábrica,
+cujo dono não passa por ignorante, querer hum individuo tomar banho com
+a agua da tina da serpentina, suppondo-a fria, ou ao menos tepida; e,
+tirando a torneira, para lhe cahir no corpo, estava tão quente, que
+quasi levantou vessiculas. Considere-se, quanto espirito se dissiparia,
+sendo refrescado com agua neste estado.
+
+Se o engenho he de agua, tem a tina da serpentina sua bica, porém tão
+pequena, que eu nunca vi, que a aguardente deixasse de correr com
+quentura. Á excepção de alguns engenhos, que tem ao pé huma pequena
+fonte, o commum he, o ser a agua carregada ás costas, e ás vezes de bem
+longe. Era natural a lembrança de mandar abrir hum pôço, e com huma
+bomba tirar a agua que se precisasse, principalmente neste paiz, onde em
+menos de vinte palmos se acha a quantidade que se quer, porém só tenho
+visto hum; quando a despesa, que com elle se fizesse, bem paga ficava na
+primeira safra.
+
+O que se vai dizer sobre o gráo de calor para a distilação, he theoria
+de Macquer, sobre a dos espiritos ardentes.
+
+He huma verdade chymica, que a quantidade de fogo para a distilação,
+deve ser em razão da coherencia, ou apêgo das partes, que se querem
+fazer evaporar, aquellas, que são compostas de principios mais fixos.
+
+Se se expõem á acção do fogo, compostos, que contenhão principios
+volateis, e principios fixos; os primeiros, rarificados pelo calor,
+procurárão separar-se dos segundos; e se o esforço que para isto
+fizerem, for superior ao seu apêgo, a separação terá lugar, e a
+evaporação se fará. Se se querem distilar substancias mui compostas, mui
+capazes de ser alteradas pelo calor, e que contenhão principios da maior
+volatilidade, taes como são muitas plantas cheirosas, os liquores
+espirituosos, e outros desta natureza, he preciso usar do alambique
+guarnecido de hum banho de maria, quero dizer, que o alambique não
+receba mais calor, que o que póde communicar-lhe hum vaso com agua
+fervendo, sobre a qual se assenta o mesmo alambique. Como na distilação
+que se faz no alambique, os vapores dos corpos volateis sobem
+verticalmente, e se condensão na sua parte superior, ou capello, esta
+sorte de distilação tem sido chamada _per ascensum_. Podem fazer-se
+distilar mui commodamente desta sorte, todas as materias bem volateis,
+que possão subir ao gráo de calor, que não exceda o da agua fervendo;
+taes são os espiritos rectores, o espirito ardente, a agua, e todos os
+oleos essenciaes, etc.
+
+O que se passa na distilação em geral, he mui simples, e mui facil de
+conceber. As substancias volateis, se fazem especificamente mais
+ligeiras, quando soffrem hum gráo de calor conveniente, reduzem-se em
+vapores, e se dissiparião debaxo desta fórma, se não fossem retidas, e
+determinadas a passar a lugares mais frios, onde se condensão, e tomão a
+fórma de liquores, se são dessa natureza. Como a distilação se faz
+sempre em vasos fechados, falta o concurso do ár exterior ás materias,
+que se levantão nesta operação, o qual he com tudo muito proprio para
+augmentar, e accelerar a subida dos corpos volateis. Mas póde-se dizer,
+que esta lentura, occasionada pelo defeito do ár, he antes util, que
+desavantajosa; porque em geral, quanto mais huma substancia volatil, que
+se separa da outra substancia mais fixa, se separa com lentura, tanto
+mais esta separação he exacta.
+
+Por esta razão, quando se quer distilar, segundo as regras d'Arte, se he
+obrigado a conduzir a distilação de sorte, que a substancia volatil
+soffra só o gráo de calor necessario para a separar; e isto he sobre
+tudo indispensavel; quando não há grande differença no gráo de
+volatilidade dos principios dos corpos, que se querem decompôr pela
+distilação. Póde-se estabelecer, como regras geraes, e essenciaes á
+distilação; que se deve sómente applicar o gráo de calor necessario,
+para fazer subir as substancias, que se devem destilar; e que a lentura
+he tão vantajosa, quanto a precipitação he prejudicial nesta operação,
+etc.
+
+Comparando o que diz este grande Chymico, com a quantidade de fogo, que
+se atêa na fornalha do alambique, para distilar aguardente, parece
+impossivel, que entre tantos distiladores no Brasil, não houvesse ainda
+hum, que, abrindo os olhos da rasão, e guiando-se por ella, se afastasse
+da trilha dos mais, o que augmentaria consideravelmente a quantidade, e
+qualidade deste genero, sem ser á custa do Assucar, nem com a perda de
+huma immensidade de lenha. A fornalha, que se propõem desenhada na
+_Estampa VII._, he a do mesmo Macquer, adoptada a esta manufactura.
+
+Communica-se ao cinzeiro, por hum buraco de seis pollegadas de comprido,
+e duas de largo. O vão da chaminé, he de quatro pollegadas em quadro; a
+boca da fornalha tem hum palmo em quadro, e sua porta de ferro.
+
+Na Estampa tem as paredes dos lados abatidas, para se ver a construcção
+por dentro, e o petipé faz conhecer as suas dimensões. O fogo se
+entretem, e modera da mesma sorte, que no bangué do Assucar.
+
+
+_Discurso sobre o alambique_
+
+Naõ há instrumento chymico, em que se tenha tanto trabalhado, como no
+alambique. Grandes homens tem buscado em todos os tempos a sua
+perfeição, e continuar-se ainda hoje este trabalho, prova que ainda não
+se achou. Parecerá temeridade, o arriscar eu as minhas idéas, depois dos
+maiores Chymicos terem fallado; porém lembra-me, que hum grande homem
+póde procurar huma cousa, e não a achar, e hum rustico, ou outro de
+intelligencia mui limitada, vêla. Tem-se usado de refrigerantes, e
+vio-se, que quando a agua desta bacia era fria, parava a distilação, e
+que só se restabelecia, quando alcançava huma certa quentura.
+
+A rasão convincente deste facto he, que os vapores subindo á superficie
+interna do capello, e condensando-se repentinamente pela frieza,
+engrossavão muito, e pelo seu pêso cahião em gottas na superficie do
+liquido; e que a agua hum tanto quente, impedindo esta condensação tão
+prompta, permittia, que os vapores menos engrossados, se encaminhassem
+ao canal praticado na circumferencia do mesmo capello, para sahirem pelo
+seu bico.
+
+Daqui se concluio, que os refrigerantes erão inuteis. Entrão agora as
+theorias. Huns, crendo, que a condensação se fazia na serpentina, fazem
+subir a ella o vapor por hum gargalo, em fórma de _tromba de elephante_;
+outros modificão esta especie de tromba, e dão hum grande diametro á
+caldeira do alambique, com mui pouca altura; e fazem principiar a
+serpentina com hum grande diametro, e acabar n'hum mui pequeno; outros,
+em fim, augmentão a superficie do capello; porém he geral em todos, o
+fazerem hum pescoço á caldeira, maior, ou menor, segundo a sua fantazia,
+e só Chaptal quer, que a caldeira seja hum cilindro perfeito, porém nada
+de refrigerante. Todos estes alambiques obrão com maior, ou menor
+proveito; e eu tenho visto distilar sem refrigerante, nem serpentina, o
+que me prova, que o contacto do ár no capello do alambique, tem bastante
+força para condensar o vapor; não se aproveita tanto, como com a
+serpentina, porém he pela dissipação do liquor, por sahir mui quente do
+bico do alambique. Sendo a evaporação em razão da superficie, e subindo
+os vapores perpendiculares, de que ninguem duvida, só Chaptal acertou,
+tirando o pescoço á sua caldeira, e fazendo-a cilindrica; porque a
+abobada abatida, que nasce das paredes da caldeira, até onde fórma o
+pescoço, exposta ao contacto do ár, condensa o vapor que nella toca, e a
+unica sahida que tem, he tornar para a caldeira; he por consequencia
+preciso mais tempo, e maior fogo, para que o vapor se enfie por este
+pescoço, segundo a maior, ou menor superficie que o ár toca, e o maior,
+ou menor diametro do pescoço, mais, ou menos longitude da superficie,
+onde se faz a evaporação, á parte onde, condensando-se, póde
+encaminhar-se á serpentina. O refrigerante he preciso, e indispensavel
+para huma boa distilação. Se a frieza da agua condensa mui promptamente
+o vapor, e as gôttas engrossadas são precipitadas na caldeira pelo seu
+pêso, he porque a abobada do capello, sendo muito abatida, não lhe dá
+huma facil correntesa; a que eu tenho visto mais levantada, he a do
+capello de Baumé, que faz hum angulo de cincoenta gráos; ora hum angulo
+de cincoenta gráos facilita tanto a cahida, como a correntesa; ha de
+correr, e cahir indistinctamente; porém se este angulo for de sessenta e
+cinco gráos, por mais grossas que sejão as gôttas, tem mais facilidade
+para correr, que para cahir, e por consequencia, quanto vapor subir,
+tanto se aproveitará.
+
+A caldeira do alambique, que se propoem, he hum cilindro de quatro
+palmos de altura, e quatro de diametro. O capello, que he de figura
+conica, deve ter de altura o diametro da sua base, tirado da superficie
+externa do canal, ou goteira, que acaba no bico, para fazer hum angulo
+de sessenta e cinco gráos.
+
+Este capello deve ser de estanho puro, porque o espirito come o cobre; e
+para ficar mais barato, e mais duravel, póde ser o estanho ligado em
+partes iguaes com o zinco. Proximo á sua base, tem hum tubo de pollegada
+e meia de diametro, que huma tampa do mesmo metal fecha em rosca, pelo
+qual se introduz na caldeira o vinho para distilar; e he cercado de huma
+chapa de cobre, soldada na circumferencia, na parte, onde principia o
+calor, que se ha de introduzir na caldeira; cuja chapa fórma hum
+cilindro da altura do cone, e serve de bacia, para conter a agua que
+esfria o capello, onde se condensa o vapor, e o canal, que o conduz ao
+bico. Esta bacia, ou refrigerante, tem n'huma das paredes, proximo á sua
+base, hum pequeno tubo de pollegada de diametro, para dar sahida á agua,
+que continuadamente deve correr sobre a ponta do cone; e tambem dá
+passagem ao tubo, por onde se carrega de vinho a caldeira do alambique.
+A caldeira tem seu tubo de descarga, para sahirem as fézes depois da
+distilação, cujo tubo deve fechar em rosca na caldeira, para, no caso de
+ser preciso tiralla, não desmanchar a parede da fornalha; porém que o
+tape hum simples torno. A. _Veja-se a Estampa VII. Fig. I._ A serpentina
+de oito linhas de diametro, em espiral de oito voltas. Eu não posso
+comprehender as rasões que se dão, para ella principiar com hum grande
+diametro, e acabar n'hum tão pequeno; creio, que a condensação do vapor
+se faz no capello, que a frieza d'agua, batendo nelle, a favorece
+prodigiosamente, e que a serpentina serve só de refrescar o liquor, para
+cahir frio no recipiente; ora este effeito consegue-se melhor com o
+pequeno, que com o grande diametro; porque a agua tem huma pequena
+columna de ár que esfriar, e toca o liquor de mais perto em todas as
+partes do canal. Se dou quatro palmos de diametro á caldeira do
+alambique, he para que o seu fundo seja de huma chapa de cobre inteira,
+e sem emendas; a altura, qualquer que seja o diametro, nunca deve passar
+de quatro palmos. Tambem, se o diametro for muito grande, fica incommodo
+o capello, por ser preciso levantar o cone em proporção: e eu não
+conheço fábrica, que, trabalhando bem, possa occupar sempre dois
+alambiques assim construidos.
+
+Os alambiques, que contém pipa e meia, e duas pipas de guarápa, servem
+mais de ostentação, que de utilidade; o seu rendimento em espirito, não
+equivale, proporção guardada, ao dos mais pequenos. A materia da
+serpentina, merece a maior attenção, não deve ser de cobre, nem de metal
+com elle ligado; o espirito corroe o cobre, dissolve o zinabre, e com a
+aguardente se engole hum veneno; eu bem sei, que o espirito o disfarça
+alguma cousa, e que he em pequena quantidade respeito á sua massa; porém
+o ser pouco, e sem os terriveis effeitos, que causa dissolvido pelos
+acidos, não impede, que ataque a economia animal, e pouco a pouco a
+destrua. Desejava que fosse de prata pura, sem liga alguma de cobre.
+
+Os Artistas, que trabalhão em prata, tem mais pericia que os
+caldeireiros; podem fazer as chapas de prata com a grossura da folha de
+Flandres, reforçada; e, se lhe for mais cómodo, formar a espiral em
+poligono de cinco, ou mais angulos; o effeito he o mesmo. Esta despesa
+não he tão grande, que qualquer Senhor de engenho não possa com ella, e
+a duração excederá á da sua vida. Talvez haverá, quem tenha esta idéa
+por extravagancia, que a escarneça, e teime em usar de serpentina de
+cobre; porém o miseravel que isto fizer, se não for por ignorancia,
+merece a maior compaixão, por ter huma alma gangrenada pela avareza, que
+lhe faz olhar com despreso, para a saude, e vida dos homens. Quizera
+tambem, que o recipiente fosse hum garrafão, e nada de complicações, nem
+torneiras de chave, faceis de desmanchar, e difficultosas de concertar,
+porque me lembro das pessoas, que lidão nestas fábricas.
+
+
+_Ordem do trabalho para fazer aguardente._
+
+Tres quartas partes de agua, huma quarta parte de mel, são lançados na
+dórna, a qual deve conter sómente, tanto desta especie de mosto, quanto
+caiba em dois alambiques, ficando elles hum palmo por encher. Deita-se
+neste mosto bastantes fézes de huma fermentação antecedente, que se
+mistura bem com todo o liquido; tapa-se a dorna, deixando aberto o
+pequeno furo da tampa, para a communicação do ár, e que a mesma dórna
+fique ao menos dois palmos por encher. Assim que principia a
+fermentação, prova-se o liquor, e continua-se a prova, até chegar ao
+ponto determinado por M. Gentil.
+
+Ainda que o vinho neste ponto se considere claro, e se tire por huma
+torneira, que a dorna tem no fundo, não deve passar ao alambique, sem
+que seja por hum coador, para que não vão nelle partes grosseiras;
+porque estas, hindo ao fundo da caldeira, e recebendo o fogo
+immediatamente, queimão-se, e communicão ao espirito, o empireuma, ou
+gosto de queimado, que he indistructivel. Já se vê, que esta dorna deve
+estar n'huma altura tal, que o seu vinho possa correr por huma calha,
+que o lança no alambique pelo tubo da sua carga; em cujo tubo está hum
+funil de folha proporcionado, e neste funil he, que se deve pôr o
+coador. Como a fermentação se fez com pouca communicação com o ár, e o
+gás, que se soltou, e fugio do mosto, se conserva na mesma dorna, e
+causa promptamente a morte a todo o animal, que o inspirar, não, porque
+elle em si seja veneno, mas porque, sendo incompressivel, e inelastico,
+o afoga, assim como a agua; deve haver todo o cuidado, para prevenir
+qualquer funesto effeito. Antes do vinho hir para o alambique, já o
+refrigerante deste está cheio de agua, assim como a tina da serpentina;
+cuja agua continúa sempre a correr n'huma, e outra parte, e a sahir
+pelos seus respectivos tubos, em quanto dura a distilação. Principia
+esta, lançando logo bastante fogo debaxo do alambique, para sahir a
+fleuma, que se despreza; e assim que entra a correr o espirito,
+modera-se o fogo, e entretem-se sòmente o que he preciso; havendo sempre
+a lembrança de perder antes por menos, que por mais, e que a lentura he
+tão proveitosa para a quantidade, e qualidade, quanto a precipitação he
+prejudicial. Assim que cessa de correr o espirito, ou corre sòmente, o
+que se chama agua fraca, tira-se o fogo ao alambique, e descarrega-se
+das suas fézes pelo tubo de descarga; muda-se a bica do refrigerante, e
+a da tina para cahirem dentro delle, e desta sorte ser lavado; e de dia,
+tira-se-lhe o capello, para se fazer este beneficio mais
+individualmente. Não fallo nas qualidades, que deve ter a aguardente
+para ser perfeita, porque he desconhecido neste paiz o areometro.
+
+A forma de a escolher, he agitalla n'hum pequeno copo, e a maior, ou
+menor demora da espuma, que faz, he, o que lhe mostra a bondade; e
+qualquer que ella seja, toda tem sahida.
+
+
+_Sobre o tratamento do gado, e bestas._
+
+Todos os animaes de serviço no Brasil comem no pasto; ainda se tivessem
+pastos abundantes, como há muito gado, e bestas baratos (porque estas
+nunca excedem a dezaseis, e os bois a oito mil reis) poderia supprir a
+quantidade, á qualidade, e força; porém não succede assim. Qualquer
+engenho tem cem bois, e quarenta bestas; como a moagem he no tempo da
+secca, e não há divisão de pastos, e estes forão feitos á trinta,
+cincoenta, e mais annos, e nunca renovados, a herva, ou capim, que
+nelles nasce, não tem substancia, o Sol a dessécca; e os animaes
+cançados, e inanidos vão aos brejos, onde vem alguma verdura, e com o
+capim, que póde ser-lhe util, engolem plantas venenosas, que os matão.
+Dizem que isto he peste, porém a fome he, que lhe faz comer, o que lhe
+he nocivo. Há annos, em que a mortandade he tal, que parão engenhos de
+moer. A este respeito, assim como de outros, a abundancia he que faz a
+miseria. Se hum boi custasse cincoenta mil reis, huma besta oitenta;
+vinte de huns, doze de outras, farião melhor serviço, sustentados com o
+cará, batata, mandioca, guandu, abobora, e outras muitas cousas, de que
+com curiosidade póde haver abundancia, sem contar a mansidão, que
+alcanção estes animaes assim tratados, podendo-se fazer delles, o que se
+quizer a qualquer hora. Ainda não vi hum curral calçado, nem cuberto;
+enterrados os bois até á barriga he o commum. Depois de passarem assim a
+noite, vão para o carro em jejum; trabalhão muitas horas, sahem
+esfalfados, e a fome faz-lhe devorar o que encontrão. Tenho visto gastar
+horas a meter bois em carros, e bestas nas almanjarras dos engenhos; se
+estes animaes sahissem da estrebaria com a barriga cheia, hirião para o
+serviço mansamente, não haverião marradas, nem coices, o que evitaria
+accidentes que sempre há, além do adiantamento do trabalho, que a sua
+braveza estorva. Ao menos devera ser o campo dividido em quatro partes,
+passando o gado de humas para outras, não se demorar mais de dez dias em
+cada huma, e não entrar na ultima, de que sahio, senão depois de trinta,
+ou mais dias. Desta sorte teria tempo de crescer a herva, seria o seu
+succo melhor digerido, e por consequencia mais nutritivo para o animal.
+Se em lugar do pasto estar dividido em quatro, fosse dividido em oito
+partes, e que o gado se demorasse em cada huma só quatro, ou cinco dias,
+ainda seria melhor.
+
+Talvez parecerá, á simples vista, esta multiplicidade de pastos
+divididos, superfluidade, porém he hum ganho real, porque, além de
+prosperar o gado extraordinariamente assim tratado, sendo as divisões
+com cèrcas vivas, podem servir os seus galhos para o fogo das fornalhas;
+e os mesmos pequenos pastos, reduzidos a terras lavradas, plantar-se
+nelles Canna. Os curraes serem calçados, e cubertos, e recolhidos nelles
+os animaes, que devessem trabalhar de noite, ou de madrugada, os quaes
+terião sua ração, não de olhos de Canna, sim dos fructos acima
+mencionados.
+
+
+_Cêrcas vivas, e mortas._
+
+He notavel o serviço, que se perde em cêrcas, quasi continuado, e sempre
+insufficiente. Os moirões são da madeira, que se encontra, o mesmo as
+varas, amarradas a cipó, que antes de seis mezes apodrece. Se aparece
+algum bocado de cêrca viva, he para fazer conhecer a facilidade de se
+naturalisar em todas as partes, onde o seu uso póde ser util. Não há
+paiz, como o Brasil com tantas arvores, e arbustos, de que se possão
+fazer cêrcas vivas. As de limão, e cidra, são conhecidas, porém aparecem
+como amostra. Todos os páos brancos de casca leitosa, e grande miolo,
+pegão bem de estaca, e são de prompto crescimento. Todas as especies de
+figueiras bravas, são excellentes; com ellas em dois, ou tres annos,
+podem ficar as cêrcas impenetraveis, e o decóte annual, servir de lenha
+para as fornalhas. Plantem-se as estacas alinhadas na distancia de dez
+palmos, que fiquem na altura de seis. Cortem-se os pimpolhos, ou brotas,
+que nascerem para a parte de fora, ou de dentro, conservando as dos
+lados, ou comprimento da cêrca, nas quaes se prenderá algum pêso, para
+as fazer dobrar brandamente; quando cruzarem, faz-se huma ferida na
+casca das duas brotas, enxertão-se, e fazem-se firmes com hum pequeno
+espeque, assim como mostra a _Figura I._ da _Estampa VIII._ Mergulhão-se
+os galhos na terra, onde tomão raiz, e fazem a vista, que se mostra na
+_Figura II._; haja hum pouco de cuidado, e em poucos tempos se verá o
+effeito. As cêrcas assim feitas, hão de ser de arvores da mesma especie;
+e de qualquer que sejão mesmo das fructiferas, podem servir, ainda que
+com mais demora.
+
+Como há partes, onde as cêrcas vivas se faráõ impraticaveis; para se
+fazerem as cêrcas mortas com aceio, solidez, e sem perder muito tempo,
+quando se fizer alguma derrubada, devem torrar-se os páos de madeira
+firme, taes como de gorauna, ipé, e brasil, etc. no comprimento de doze
+palmos para moirões; e os páos de boa qualidade proprios para varas, no
+de onze. Quando os trabalhadores se recolhem do serviço, trazem estes
+páos, que depositão n'hum armazem. Em tempo de chuva, parte dos escravos
+falquejão estes moirões dos dois lados, ou os quadrejão; outros lhe
+fazem buracos, distantes por huma bitola de dois palmos, que passem de
+parte a parte, e cada moirão deve levar quatro, principiando de meio
+palmo da cabeça para baxo; e outros escravos proporcionão as pontas das
+varas, a caber nos buracos dos moirões até meio páo; cujos buracos não
+devem ter menos de duas pollegadas em quadro. Depois de haver huma boa
+provisão de moirões, e varas, querendo-se fazer qualquer cêrca,
+mandão-se fazer os buracos na terra alinhados, e na distancia de dez
+palmos livres, com dois e meio de fundo. Quando estiverem feitos, no
+acto de hirem os trabalhadores para o serviço, carregão as varas, e
+moirões, lançando estes cada hum em seu buraco; ficão só dois escravos
+endireitando-os, e firmando-os na terra. He visivel, que desta sorte tem
+as cêrcas outra duração. A _Figura III._ mostra os moirões, e varas.
+
+
+_Lenhas._
+
+He quasi geral a falta da lenha nos engenhos dos suburbios do Rio de
+Janeiro; alguns já a comprão, e outros não tardaráõ a fazello. Nos
+campos dos Goitacazes, antes de dez annos pararáõ mais de ametade das
+fábricas á falta della. Se há paiz, onde isto se não devêra temer, he
+todo o Brasil, pela immensidade de arvores, que pegão bem de estaca, e
+em poucos annos alcanção a maior grandeza.
+
+O cajá, o cabui, a mangueira, as figueiras, geralmente todos os páos
+brancos pegão com a maior facilidade.
+
+Os pinheiros, que são espontaneos de serra acima, nascem bem de serra
+abaxo, semeando-se os pinhões de vez, e em poucos annos se fazem grandes
+arvores, que podem servir a infinitos usos. O guandu, ou hervilha de
+Angóla, arbusto, que tem a propriedade de nascer, e prosperar em toda a
+qualidade de terreno, mesmo no que se suppõem peior; depois de colhido o
+fructo, de Junho até Agosto, que he excellente legume, póde decotar-se
+pelo pé, operação de que carece, para a reproducção de outro; de cujas
+folhas são avidos todos os animaes herbivoros, e cujos troncos, e ramos,
+podem servir para as fornalhas.
+
+Deve haver o cuidado de tirar as estacas para plantar, de hum terreno
+analogo áquelle, onde se devem plantar; se o terreno for sêcco, devem
+ser tiradas de sequeiro, e o mesmo, se for humido.
+
+Ainda que haja mattos virgens, sempre as lenhas se devem plantar; os
+páos de matto virgem fazem só brazas, e para as caldeiras, onde se
+precisa hum fogo activo, os ramos, os galhos são melhores; çapé mesmo
+feito em feixes, o bagaço da Canna, dão hum calor mais forte, que
+madeira dura, principalmente se he em grossos tóros, como se usa
+commummente. Talvez parecerá isto paradoxo a quem não tem idéa do como
+se queima em Portugal o tijolo, a telha, a cal, onde se emprega sómente
+tojo, carqueja, rama de pinho, e mattos carrasqueiros. As estacas, para
+plantar, tambem podem ser tiradas das raizes das arvores, fazendo-as de
+hum palmo de comprido, havendo o cuïdado de não ferir a sua casca, e de
+as plantar n'hum terreno bem estrumado; desta sorte não falhão.
+
+
+_Carros._
+
+Ainda não lembrou a ninguem na Capitania do Rio de Janeiro, o fazer uso
+da carreta, em lugar do carro, sendo a vantagem tão visivel. As rodas do
+carro, tem o trilho de huma a duas pollegadas, com cinco a seis palmos
+de altura; o trilho das da Carreta, he de quatro a cinco pollegadas, com
+nove a dez palmos de altura. Ora n'hum paiz de caminhos não calçados,
+pantanosos, he infinitamente melhor a carreta, cujas dão tanta folga aos
+animaes, além de não se enterrarem tanto, e facilitarem o virar de hum
+para outro lado, sem forcejar no cabeçalho; custando menos na sua
+construcção, por haver maior quantidade de madeiras que lhe sirvão, não
+precisar tanto ferro, e mesmo se póde fazer sem elle; e onde dois bois
+puxão mais sem tanta fadiga, que os seis do Carro. Devo lembrar, que os
+raios da roda da Carreta, não devem ser inclinados para fóra, como os
+das rodas de sege; hão de ser perpendiculares ao cubo, o que lhe
+conserva toda a fortaleza.
+
+
+_Capinas._
+
+Hum dos objectos, que merece toda a atenção, e que dá grande trabalho
+aos Lavradores do Brasil, são as capinas, ou limpas das hervas gulosas,
+que pullulão extraordinariamente, e roubão a substancia destinada ás
+plantas, de que pretendem utilidade. A fórma de fazer esta limpa, he
+muito defeituosa; a enxada, de que se usa, não dá bastante expedição; o
+seu ferro fere a terra, formando hum angulo de mais de sessenta gráos, e
+não tem a propriedade de arrancar as pequenas raizes, sem a perda de
+muito tempo.
+
+Em lugar da enxada, deve-se adoptar hum raspador, cujo ferro tenha seis
+pollegadas de alto, e doze de comprido, temperado de aço, e cortante;
+que tenha o cabo reforçado, e encavado de sorte, que na mão do obreiro
+faça formar ao corte hum angulo até quinze gráos. O trabalhador pega com
+a mão esquerda na ponta do cabo, e com a direita na altura a que chega,
+carrega sobre o mesmo; e tendo o corpo de perfil, com inclinação para a
+direita, balancêa-o para a esquerda, forcejando sobre o raspador, e faz
+arrastar o seu corte quasi dois palmos, e assim continua, sem nunca o
+levantar; parece, que desta sorte cortará mais capim, que dez enxadas.
+Para arrancar as pequenas raizes, se há precisão de o fazer, tem mais
+propriedade hum ensinho, com seis dentes de ferro curvos, firmados n'hum
+grosso madeiro, onde prenda hum cabo reforçado; cujos dentes devem
+sobresahir até tres pollegadas, e serem afastados, huns dos outros,
+duas; he visivel, que arrancará mais raizes, que muitas enxadas. A
+_Figura II._ da _Estampa VI._ mostra o raspador. A _Figura III._, o
+mesmo raspador visto de perfil com o seu cabo.
+
+A _Figura IV._, he o ensinho com dentes de ferro curvos para arrancar
+pequenas raizes.
+
+
+
+
+NOTAS QUE PERTENCEM A ESTA OBRA.
+
+
+NOTA I. Pag. 4.
+
+Na Provincia do Minho, e em outras partes, há muita uva, que não pode
+amadurecer, porque as cêpas são encostadas a arvores, cujas folhas
+impedindo, que a luz toque nos cachos, não se pode aperfeiçoar o seu
+succo, nem alcançar doçura, condição, sem a qual se não pode fazer vinho
+generoso.
+
+Estas uvas são sempre azêdas, e o seu vinho quasi não tem valor, por
+aspero, e inexportavel. He enriquecer aos seus habitantes, e por
+consequencia ao Estado, o dizer a forma, porque podem fazer vinho
+generoso, e com todas as qualidades, que lhe adquirem grande valor, e
+exportação. O meio simples, innocente, e infallivel, para conseguir esta
+perfeição, he ajuntar ao mosto máo, antes da fermentação, huma certa
+quantidade de Assucar, maior, ou menor, segundo a qualidade do mosto;
+porém que nunca poderá exceder a huma arroba por pipa, por mais verde,
+que elle possa ser; e governar-se a fermentação, assim como se diz nos
+principios para fazer aguardente. Esta despeza ha de ser compensada com
+usura na venda do vinho, pelo excesso de verde, a maduro, e bom. Macquer
+chegou a fazer vinho de verjus, que he huma uva, que nunca amadurece, e
+se servem della em França para tempero acido, assim como nos nos
+servimos do limão. Fez tambem, com uva muito má, vinho liquoroso, vinho
+como o de Tockay, que he feito de uva muito doce, quasi em passa,
+simplesmente com a addicção do Assucar. Não he preciso, que o Assucar
+seja branco, basta o mascavado, e mesmo o mel, se houver em abundancia.
+
+
+NOTA II. Pag. 7.
+
+Boyle pesou huma pouca de terra vegetal, de que encheo hum caixão;
+depositou nesta terra huma semente de buxo, e a regava, quando era
+preciso.
+
+Passados annos, pesando este buxo, achou, que tinha cento e tantas
+libras, e a terra só tinha diminuido algumas onças.
+
+
+NOTA III. Pag. 9
+
+A luz depura as emanações dos vegetaes, prepara com ellas o elemento,
+que respirão os animaes, e rehabilita o que a sua respiração tem
+corrompido; porque o animal inspira ár, e expira gás: o vegetal, pelo
+contrario, absorve gás, e transpira ár puro; porem este ár á sombra, e
+de noite, corrompe-se, se a luz o não purifica. A materia, que vive nos
+animaes, e nos vegetaes, tem huma dependencia absoluta da luz; ella tem
+a faculdade de penetrar os corpos que toca, produzir nelles calor,
+desenvolver o que tem no seu seio, e aperfeiçoar os seus succos. As
+plantas, que são privadas da luz, por muito juntas, ficão delgadas, as
+folhas, e as hastes de hum verde desmaiado, por consequencia enfermas, e
+sem darem o producto, que se devia esperar.
+
+
+NOTA IV. Ibid.
+
+O ar he absolutamente preciso para entreter a vida animal, e vegetal. Se
+he corrompido, se não se renova, os animaes, e os vegetaes padecem,
+deperigão, e morrem. Já se disse em a nota antecedente, que os animaes
+inspiravão ár, e expiravão gás; e que os vegetaes absorvião gás, e
+transpiravão ár puro. Esta troca reciproca, estabelecida pelo Author da
+natureza, he a que faz ser o ár, que se respira no campo, tão saudavel,
+e nocivo, o das grandes povoações.
+
+No campo há toda a facilidade para se fazer esta troca, que tanto se
+difficulta nas Cidades.
+
+O gás, ou ár fixo, que os animaes expirão, e os vegetaes absorvem, he
+hum liquido incompressivel, que, não sendo misturado com sufficiente
+quantidade de ár puro, mata os animaes, que o inspirão, afogando-os,
+assim como faz a agua, ou qualquer liquido que nos seja visivel; porém
+elle se conhece so pelos effeitos, nas victimas que faz perecer, e não á
+simples vista.
+
+
+NOTA V. Pag. 41.
+
+Franklin navegando em frota na America do Norte, vio serem maltratados
+por huma tempestade, todos os Navios, e so dois novamente concertados, e
+alcatroados, sentirão muito pouco os seus effeitos. Vio tambem algumas
+gôttas de azeite lançado no mar, cuja reunião encheria apenas huma
+colher, temperar as ondas a mais de cem toezas, com huma celeridade de
+expanção tão maravilhosa, como a sua divisão; e que este effeito do
+azeite, ou qualquer oleo, principalmente do vegetal, era sobre tudo
+efficaz, para evitar o perigo dos mares encapelados. Todas as pessoas,
+que tem sentido no mar grandes tormentas, sabem, que os mares
+encapelados procedem de huma grande serra de mar, que agitado pelos
+ventos, forma huma horrorosa columna, a qual dobrando, ou encapelando,
+se por desgraça encontra alguma embarcação, seja ella a maior Náo,
+lançando-lhe dentro milhares de toneis de agua, a faz sossobrar. A pezar
+de ser Franklin quem isto diz, eu, que sabia o que erão mares
+encapellados, suspendi a minha crença, parecendo-me impossivel, que huma
+tão pequena quantidade de materia, fizesse cessar hum tão terrivel
+effeito: porém a primeira vez, que vi fazer Assucar, e que hum grande
+fogo lançado debaxo de huma caldeira, fazendo sublevar acima das bordas
+della alguns palmos o liquido, que continha, e que huma pitada de massa
+de Mamono, reduzia repentinamente este liquido á sua altura natural,
+lembrei-me logo da observação de Franklin, e ainda que eu não possa
+conceber o porque isto se faz; se huma pitada de massa de Mamono, que
+poderá conter apenas meio grão de azeite, e azeite crasso, he capaz de
+impedir a sublevação, e fuga do liquido de huma caldeira abrazada, creio
+certamente, que algumas oitavas de azeite bem expansivel, tal como o de
+amendobi, de que há abundancia em Angola, lançado por huma seringa de
+delgado canudo, contra o maior mar encapelado, o reduzirá a onda
+simples, que não tem perigo de consequencias para os Navios.
+
+
+NOTA VI. Pag. 69.
+
+O ponto indicado por M. Gentil, he para se fazer o vinho da uva; porém
+como todos os mostos são compostos dos mesmos principios, com mui
+pequenas modificações, o que succede no mosto da uva, he commum ao da
+maçan para a cidra, ao da cevada para a cerveja, ao sumo, e productos da
+Canna de Assucar, para se fazer aguardente. A passagem da dorna, ou cuba
+para a pipa, com os acidos mineraes, para impedir a fermentação
+ulterior; como do vinho de Canna, ou guarápa, o que se pretende he
+aguardente, tambem he o ponto desta guarápa, passar ao alambique para a
+distilação.
+
+
+
+
+EXPLICAÇÃO DAS ESTAMPAS.
+
+
+ESTAMPA I.
+
+FIG. I. Forma dos partidos para a Canna, com doze braças em quadro, e o
+mesmo de intervallo entre cada partido.
+
+FIG. II. Quadrados longos, que fórmão tambem partidos, com menos
+intervallo.
+
+FIG. III. Quadrados longos, com outra direcção. A agulha, que está no
+centro, he para mostrar o alinhamento, que devem ter os pequenos
+partidos, para a Canna ser plantada de Norte a Sul, e de Leste a Oeste.
+
+
+ESTAMPA II.
+
+FIG. I. A folha da enxada sem cabo.
+
+FIG. II. A mesma enxada encavada.
+
+FIG. III. O trabalhador com a enxada prompto a trabalhar.
+
+FIG. IV. O mesmo trabalhador, trabalhando.
+
+
+ESTAMPA III.
+
+FIG. I. He a vista exterior da casa do engenho, tomada ao longo.
+
+FIG. II. He a vista plana da mesma casa.
+
+FIG. III. He a vista exterior da entrada da casa do engenho, que mostra
+tambem as varandas para picadeiros, e outras serventias.
+
+
+ESTAMPA IV.
+
+Mostra a fórma de moer Canna, pelo methodo que se propõem.
+
+
+ESTAMPA V.
+
+FIG. I. Mostra o bangué de tres tachas, com as paredes dos lados
+abatidas, para se ver o interior; e o fogo fazendo o seu effeito.
+
+FIG. II. Mostra os dentes em prisma para o ensinho, vistos de topo, com
+a grossura, e fórma, que devem ter, e distancia de huns a outros; o mais
+escuro he a espiga, que deve entrar no madeiro, onde prende o cabo. A. e
+B. figura dos dezoito dentes do centro do mesmo ensinho. C. figura dos
+dois dentes, que devem fazer os lados.
+
+
+ESTAMPA VI.
+
+FIG. I. Mostra hum trabalhador, cavando com a enxada, como se pratica em
+França, Inglaterra, etc.
+
+FIG. II. Fórma do raspador para as limpas, ou capinas.
+
+FIG. III. O mesmo raspador de perfil, para mostrar a direcção, que deve
+ter encavado.
+
+FIG. IV. Figura do ensinho, para arrancar pequenas raizes.
+
+FIG. V. Mostra o balde de valvula trabalhando; a polé póde ser feita de
+taboas, assim como o sexto circulo, onde se vem os sinaes dos fuzelos,
+que sustem as duas cordas que prendem o balde, e tambem a corda, que
+levanta a valvula. O apoio da balança está em tres palmos, e o
+trabalhador puxa por huma alavanca de seis.
+
+FIG. VI. Pessa onde joga a polé, e que facilita o seu movimento para
+todas as partes.
+
+
+ESTAMPA VII.
+
+FIG. I. He o alambique na sua fornalha com o fogo acêzo. O refrigerante
+deixa ver a figura do capello, fazendo hum angulo de 65 gráos, e o
+petipé mostra as dimensões do alambique, e fornalha.
+
+FIG. II. He a fôrma de Assucar, vista com a boca para cima.
+
+FIG. III. He a mesma fôrma, deixando ver a abertura do seu fundo.
+
+
+ESTAMPA VIII.
+
+FIG. I. Faz ver como se fazem cêrcas vivas.
+
+FIG. II. Mostra os ramos entrelaçados, e mergulhados na terra.
+
+FIG. III. Mostra os moirões, e varas para as cêrcas mortas.
+
+FIG. IV. He hum quarto circulo, para dar a conhecer, o que são gráos de
+elevação. Na linha horisontal do mesmo, se vem duas pollegadas,
+repartidas em linhas. Huma pollegada tem doze linhas, hum palmo tem oito
+pollegadas, hum pé tem doze pollegadas.
+
+
+
+
+INDICE
+
+DO QUE CONTEM ESTA MEMORIA.
+
+
+_Descripção da Canna de Assucar, segundo a vista que appresenta._ Pag. 1
+
+_Como se cultiva actualmente a Canna de Assucar._ 2
+
+_Notas sobre esta fôrma de plantação._ 4
+
+_Theoria para a cultura da Canna de Assucar._ 5
+
+_Como se deve cultivar a Canna de Assucar._ 10
+
+_Vantagens desta fôrma de plantação._ 16
+
+_Córte das Cannas._ Ib.
+
+_Construcção dos engenhos actuaes._ 17
+
+_Notas sobre esta fórma de construcção._ 19
+
+_Nova construcção de engenhos._ 20
+
+_Sobre o movimento das moendas._ 22
+
+_Comparação da roda vertical com a horisontal._ 24
+
+_Preciso sobre a dentadura das rodas._ 26
+
+_Como se moe Canna actualmente._ 30
+
+_Notas sobre esta fórma de moer._ 32
+
+_Nova fórma de moer._ 33
+
+_Comparação da moagem actual com a que se propõem._ 35
+
+_Descripção do que contém a casa de caldeiras actualmente._ 38
+
+_Como se trabalha na fábrica do Assucar._ 40
+
+_Notas sobre esta fórma de fazer Assucar._ 44
+
+_Principios, que devem conduzir o fabricante de Assucar._ 47
+
+_Preparo para manufacturar o Assucar._ 50
+
+_Fórma de fazer a decoada._ 53
+
+_Descripção, e proporções do Bangué._ 54
+
+_Preparo do barro para clarificar o Assucar._ 56
+
+_Methodo para trabalhar na fábrica do Assucar._ 57
+
+_Como se trabalha na fábrica da aguardente._ 63
+
+_Principios, que devem conduzir o Mestre Aguardenteiro._ 65
+
+_Discurso sobre o alambique._ 73
+
+_Ordem do trabalho para fazer aguardente._ 78
+
+_Sobre o tratamento do gado, e bestas._ 80
+
+_Cêrcas vivas, e mortas._ 82
+
+_Lenhas._ 84
+
+_Carros._ 85
+
+_Capinas._ 86
+
+_Notas._ 88
+
+_Explicação das Estampas._ 92
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+[Figura: Est. 1]
+
+
+
+
+[Figura: Est. 2]
+
+
+
+
+[Figura: Est. 3]
+
+
+
+
+[Figura: Est. 4]
+
+
+
+
+[Figura: Est. 5]
+
+
+
+
+[Figura: Est. 6]
+
+
+
+
+[Figura: Est. 7]
+
+
+
+
+[Figura: Est. 8]
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 24| hnm | hum |
+ |#pág. 28| ou ou ambos | ou ambos |
+ |#pág. 42| Quaudo | Quando |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+
+A numeração das páginas foi alterada no índice de forma a corresponder à
+numeração real das páginas do livro original.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Memoria sobre a cultura, e productos
+da cana de assucar, by José Caetano Gomes
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIA SOBRE A CULTURA ***
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+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
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+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
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+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
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+License as specified in paragraph 1.E.1.
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+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
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+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
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+
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
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+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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