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diff --git a/25114-8.txt b/25114-8.txt new file mode 100644 index 0000000..bb9253e --- /dev/null +++ b/25114-8.txt @@ -0,0 +1,2657 @@ +The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não +póde dormir. Nº4, by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº4 + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: April 21, 2008 [EBook #25114] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 4 *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + + +BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA + + +NOITES DE INSOMNIA + +OFFERECIDAS + +A QUEM NÃO PÓDE DORMIR + +POR + +Camillo Castello Branco + +PUBLICAÇÃO MENSAL + + +N.º 4--ABRIL + + +LIVRARIA INTERNACIONAL + +DE + +ERNESTO CHARDRON + +96, Largo dos Clerigos, 98 + +PORTO + +EUGENIO CHARDRON + +4, Largo de S. Francisco, 4 + +BRAGA + +1874 + + +PORTO + +TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA + +62--Rua da Cancella Velha--62 + +1874 + + +BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA + + +NOITES DE INSOMNIA + + +SUMMARIO + + +O cofre do capitão-mór--O jogador--Inedito do poeta Fr. Bernardo de +Brito--Lisboa--Litteratura brazileira--Á «Actualidade»--A ex.^ma madrasta +d'el-rei D. Luiz 1.^o calumniada--Os salões, pelo exc.^mo snr. visconde de +Ouguella--O decepado--Caridade barata e elegante--Profunda reforma nos +costumes da via-ferrea portugueza--Formosa e infeliz--Antonio Serrão de +Castro + + + + +O COFRE DO CAPITÃO-MÓR + + +O homem, concluida a guerra do Paraguay, liquidou quinhentos contos, e +retirou-se com esposa e filha para Mondim de Basto, sua patria. + +Passou, acaso, um dia por perto das ruinas de um casarão, reparou na pedra +de armas que encimava um vasto portal de quinta, e perguntou de quem eram +aquelles pardieiros. + +O abbade, a quem a pergunta era feita, respondeu: + +--São da fazenda nacional, que se está cobrando, ha trinta e dous annos, +de uma divida antiga de impostos e respectivos juros e custas. + +--E, depois que a fazenda nacional estiver embolsada, de quem é isto? + +--Veremos a qual dos credores a lei dá a primazia--tornou +o abbade. + +--Acho que os donos d'estes pardieiros eram fidalgos, porque tem armas +reaes á porta--volveu o brazileiro pouco versado em heraldica. + +--Estas armas não são as reaes--explicou o padre--é o brazão de Pachecos e +Andrades, muito illustres senhores d'este paço, que, em bons tempos, se +chamou a honra de Real de Oleiros. + +--Cahiram em pobreza? + +--Sim, senhor; mas pobreza que tem uma historia interessante. Meu avô +conheceu esta familia no galarim. Contava elle que o capitão-mór Pedro +Pacheco estava em Lisboa, quando o marquez de Tavora, com os seus +parentes, tentaram matar D. José, que era o amante da marqueza nova. Havia +marqueza velha e nova, como sabe... + +--A fallar a verdade, não sei isso muito bem--atalhou ingenuamente o snr. +José Maria Guimarães--Então como foi lá essa pouca vergonha? + +--Contos largos. A marqueza velha foi degolada, por não aceitar a +prostituição da nora; a marqueza nova foi para um mosteiro bem regalado, +em quanto o marido ia para a masmorra, e da masmorra para o cadafalso. +Contos largos, amigo e snr. Guimarães. Vamos cá ao nosso caso. O +capitão-mór Pedro Pacheco era muito de casa do duque de Aveiro; e, como eu +disse, estava em Lisboa, quando o duque foi preso na quinta de Azeitão. +Assim que o soube, fugiu, e não fez mal; porque foi procurado lá e aqui. +Logo que chegou a esta casa, que era então um paço feudal, deu ordem á +mulher que se preparasse e mais dous filhos menores para sahirem do reino. +E, em quanto enfardelavam as bagagens, o capitão-mór mandou chamar meu +avô, lavrador abastado, alferes de ordenanças, e muito seu amigo, para lhe +entregar um cofre de pau preto com braçadeiras de bronze, cheio de peças. +O cofre era tão leve ou tão pesado que meu avô, querendo erguel-o pelas +argolas, gemeu. Lá por noite fora, pegaram os dous no cofre, +transportaram-o á casa que ainda é a minha, e metteram-o n'um falso que +ficava escondido pelas costas do leito de meu avô. Disse então o fidalgo +ao depositario da sua riqueza que n'aquelle caixote estavam trezentos mil +e tantos cruzados em dobrões e peças de ouro, e outras moedas muito +antigas. Disse mais que a sua casa ficava exposta a buscas de +quadrilheiros e de tropa, que era o mesmo que deixal-a franca aos assaltos +dos ladrões. Por tanto, confiava de meu avô o seu dinheiro, sentindo não +ter mais valiosas cousas que confiar á sua honra. + +--Trezentos mil cruzados!--murmurou o snr. Guimarães, esbugalhando os +olhos--era bem bom d'elle! E depois? + +--O fidalgo foi para Hespanha, e para Inglaterra, onde tinha um seu +parente embaixador, e por lá esteve alguns annos. N'este comenos, meu avô +pegou de adoentar-se de molestia ethica, e escreveu ao capitão-mór, +pintando-lhe o seu estado, e pedindo-lhe que viesse ou mandasse tomar +conta do cofre. O fidalgo appareceu aqui uma noite com o maior resguardo, +e metteu-se no seu palacio, confiando-se de um criado sómente a quem +deixára a feitorisação das terras. De madrugada, mandou chamar meu avô, +passaram juntos o dia, e de noite trouxeram ambos o cofre. Contava meu +pai,--parece que o estou ouvindo,--que meu avô muitas vezes lhe dissera +que o fidalgo não declarára onde tencionava esconder o thesouro; mas +positivamente lhe dissera que o não levava para Inglaterra, já por temer +ladrões, já porque não precisava gastar mais que os rendimentos da sua +grande casa. + +Meu avô morreu d'ahi a mezes; e o capitão-mór voltou para a patria, no +anno de 1777, quando D. José morreu, e o marquez de Pombal foi desterrado. + +--Essa não sabia eu!--atalhou com civico enleio o snr. Guimarães. + +--Que é que v. s.^a não sabia? + +--Que o grande marquez foi desterrado! Quem foram os marotos que... + +--São contos largos, snr. Guimarães. Vinha eu contando que o capitão-mór +voltou, já viuvo, com dous filhos barbados, muito extravagantes, sem +religião de casta nenhuma, criados entre hereges, destemidos, e levadinhos +de todos os diabos. Ainda não ha muitos annos que morreram dous velhos do +seu tempo que me contaram as malfeitorias que elles praticavam. Batiam a +matar em todas as ordenanças que por ordem superior lhe tinham entrado em +casa á procura do pai. Deshonestavam todas as cachopas d'estas tres leguas +em roda. Em fim, amarguraram a velhice do pai, que era um santo homem, a +ponto de lhe roubarem as pratas porque elle lhes não dava quanto dinheiro +pediam. Finalmente, o velho morreu de repente em 1782, segundo reza o +epitaphio que está na igreja de Refojos, convento que elle e seus +ascendentes haviam beneficiado... + +--E os trezentos mil cruzados?--interrompeu o brazileiro. + +--Lá vou já. Assim que o pai se finou, os dous filhos abriram todas as +gavetas, levantaram taboas, desladrilharam as lojas, escavaram debaixo dos +toneis, escalavraram os forros, e nada toparam. Revolveram todos os +papeis, a vêr se encontravam alguma indicação do dinheiro; e, com effeito, +em um papelucho mettido n'uma carteira vermelha, acharam isto, que meu pai +leu tambem: _Póde ser que a pobreza vos não corrija; mas a riqueza de +certo vos faria tigres. Eu não morrerei com o remorso de vos deixar nas +mãos o peor instrumento dos perversos, que é o ouro não adquirido com o +proprio suor._ Tomaram-se de raiva, e romperam direitos a casa de meu pai, +perguntando-lhe pelo dinheiro do seu. + +--Não ha duvida--respondeu meu pai--que n'esta casa e n'aquelle falso +esteve um cofre do snr. capitão-mór; mas, alguns mezes antes de dar a alma +a Deus, meu pai, que era honrado, entregou o cofre a quem lh'o dera a +guardar. + +--E depois?--bradaram elles. + +--Depois, nada mais sei, senão isto que seu paisinho me repetiu muitas +vezes. + +--Nós havemos de achar os ladrões. + +--Pois é procural-os--disse meu pai. + +Volveram a casa, e amarraram de pés e mãos o velho feitor do capitão-mór, +determinados a não o desatarem sem elle denunciar a paragem do thesouro; +porque o velho declarára que ninguem, senão elle, soubera da vinda do +capitão-mór á patria, em quanto vegetou el-rei D. José, e o marquez de +Pombal reinou. O feitor deixava-se martyrisar e morrer, ou porque +realmente nada sabia, ou porque esperava que a final o deixassem. O caso é +que, depois de solto, desappareceu d'estas terras, e nunca mais houve +novas d'elle. Muita gente suppoz que o feitor levou os trezentos e tantos +mil cruzados; mas meu pai, que o conheceu e teve em conta de muito +honrado, affirmou que o dinheiro estava enterrado. Não sei; mas o +desapparecimento do criado confidente do capitão-mór, a meu vêr, deixa +suppôr que a estas horas, lá por esses reinos estrangeiros, vivem muito +ricos os filhos do feitor. Deus sabe o que foi. + +--E então os dous filhos do capitão-mór ficaram pobres?--tornou o snr. +Guimarães. + +--Pobres?! não, senhor. Quem tem sete quintas, que rendiam cinco a seis +mil cruzados, que ha oitenta annos valiam dezoito mil cruzados de hoje em +dia, não é pobre. O que elles fizeram foi tratar de se empobrecer. O +morgado por aqui ficou, entretido com mulheres, galgos, caçadas, cavallos, +feiras, jogo e valentias. O outro, que teve duas quintas de patrimonio, +reduziu-as a moeda sonante, e foi para Lisboa requerer não sei que +recompensas a D. Maria I, pensando que o ser seu pai amigo do duque de +Aveiro, lhe dava direito a ser galardoado. Ora, se elle soubesse que a +filha de D. José negou ao desventurado, ao innocente e quasi mendigo D. +Martinho de Mascarenhas os bens de seu pai, duque de Aveiro, não iria +allegar como cousa digna de premio o affecto do capitão-mór ao regicida +suppliciado. + +--Conte-me lá isso por miudos...--atalhou o brazileiro que não lêra a +_Historia portugueza_ do snr. Viale. + +--São contos largos. Vamos primeiro á historia do ultimo senhor da honra +do Real de Oleiros--respondeu o abbade, e continuou: Não sei onde nem +quando morreu Sebastião Pacheco de Andrade, o filho segundo do +capitão-mór. Ouvi, porém, dizer que morrêra novo, pobre e deshonrado. +Quanto ao morgado, sei que elle casou com a menos digna das suas +concubinas, já quando não toparia menina honesta que aceitasse o fidalgo +de Real de Oleiros. Christovão Pacheco, apesar da libertinagem e +desperdicio, ainda gozava o que se chama decente mediania, quando sahiu +d'este mundo, antes dos cincoenta annos. Teve um filho ante-nupcial da +criada com quem casou. Este conheci eu mui de perto e em conflicto muito +deploravel, como lhe contarei. O pai, que desprezava frades, e zombava da +religião, mandara-o educar em religião e com um parente frade da ordem +benedictina. O rapaz alegrou-se grandemente ao noticiarem-lhe que o pai +era morto e elle herdeiro. Veio aqui, por ahi esteve dous annos +socegadamente, olhando pelos bens, posto que debaixo de tutela; e, quando +orçava pelos dezenove annos, tão grandes amostras dava de homem de bem que +se lhe offereceu para esposa uma senhora de linhagem illustre e dotada com +vinte mil cruzados. Emancipado pelo casamento, apossou-se do casal, +desempenhou parte das quintas hypothecadas, e manteve bons creditos por +espaço de alguns annos. + +Em 1832 era elle ainda muito rapaz, e já então vestia a farda de capitão +de milicias. Esteve no cerco do Porto, onde consta que procedera +valentemente. Porém, no fim da guerra, os bons costumes com que sahira +d'esta casa por lá ficaram. O homem voltou tão diverso, tão estragado na +moral, que já ninguem o via e ouvia que se não lembrasse do pai. A esposa +não sei se por santa, se por peccadora, fugiu-lhe com uma criança de cinco +annos para a casa d'onde viera; e elle, hypothecando os bens já +deteriorados com as prodigalidades da vida militar, levantou muitos contos +de reis, e estabeleceu-se em Lisboa. + +Desde 1836 a 1843, o seu viver na capital deu brado por _aventuras +amorosas_, como lá dizem os salteadores da honra das familias. Pedro de +Andrade, que assim se chamava, como seu avô, era um homem gentil, bem +feito, galhardo, e muito airoso. Tinha as seducções de Satanaz feito +homem. A corrupção de Lisboa era grande, e elle ainda maior; mas +desgraçadamente, o maldito empestou muita menina innocente, e abriu muitos +abysmos aos pés das virgens que pareciam ter postos no céo os olhos +contemplativos. + +--Que grande maroto!--disse o brazileiro. + +--Em 1843, depois de uma ausencia de seis annos, appareceu aqui, de +repente, Pedro de Andrade, e procurou-me a fim de me propôr a compra dos +bens que ainda não estavam captivos de dividas. Eu desculpei-me com a +falta de dinheiro, e outros aceitavam a proposta, se a mulher assignasse +os contractos. N'este entretanto, recebi de Lisboa certa gazeta de que era +assignante, onde li uma noticia que me abalou dolorosamente. E, estando em +minha casa Pedro de Andrade, perguntei-lhe se tinha noticia do triste +successo contado pelas gazetas.--Qual successo?--perguntou elle. «Eu lh'o +leio» disse eu; e visto que estamos á minha porta, queira o snr. Guimarães +entrar, que eu lhe vou lêr a gazeta, que Pedro de Andrade ouviu com +inalterado semblante. + + * * * * * + +O brazileiro entrou na saleta do abbade, que tirou da estante dos seus +livros a _Revista Universal Lisbonense_ de 1843; e leo, a paginas 23, o +seguinte: + + +«A POMBA E O ABUTRE + +«Quasi todos os papeis publicos transcreveram do _Portugal Velho_ o caso +de uma donzella fugida do paço real. Levantaram sobre isto altos clamores +contra ella, contra o seductor, contra a perda da proverbial gravidade do +palacio portuguez. Sentimol-o o calamos.--Era assumpto melindroso; para +relatar e sentenciar careciamos ainda de evidencia. Hoje suppômo-nos +habilitados para ratificar e completar a narração de um successo que, +devida ou indevidamente, já cahiu no dominio do publico, e não é possivel +extorquir-se-lhe da memoria. + +«No palacio velho da Ajuda vegetam ainda umas cincoenta ou mais +solitarias, que, opprimidas dos annos e das molestias, recebem da caridade +da soberana o pão pelos serviços, que outr'ora prestaram ás rainhas e +princezas suas ascendentes;--são os ornamentos partidos e desfigurados de +um seculo, que desabou para nunca mais ser reconstruido.--Todas estas +mulheres são tristes como reliquias de tempos festivos, saudosas, ou +antes, saudades ellas mesmas:--a presença de todas e de cada uma, aggrava +a cada uma e a todas ellas a melancolia do crepusculo da morte, que já +lhes vem anoitecendo.--Todo o reboliço, todas as quotidianas +transformações materiaes, moraes e politicas da visinha capital, onde já +foram vivas, moças e brilhantes, ou não chegam alli, ou só chegam como uns +contos vãos e longinquos, como sonhos de cousas passadas em outro planeta: +¿que tem ellas que vêr no berço que se apparelha para uma nova +idade?--ellas, que já pendem para o sepulchro, a contemplar no fundo +d'elle tantas cousas louçãs e vivazes, que lhes pertenciam! + +«Entretanto no meio d'este palacio de tristezas volteava ainda um raio de +sol; um arbusto florejava purpuras no meio d'este cemiterio; uma avesinha +cantava primavera entre o desconsolo d'estas ruinas; uma viração deliciosa +fazia ás vezes susurrar agradavelmente estes musgos resequidos. Tudo isto +era a joven Maria, lindeza de 18 annos, lindeza corporal como poucas, +lindeza de espirito como ainda menos, lindeza de coração como quasi +nenhuma, sobrinha e companheira de uma d'estas velhas, companheira e amiga +de todas ellas. Maria, era realmente o feitiço, a Vida e o encantamento +d'aquelle retiro sem porvir. Toda a casa a amava: era uma paga de divida; +Maria queria-lhe muito, quasi que alli abrira os olhos, pelo menos outra +nenhuma lhe lembrava; sob aquelles tectos brincára desde a idade de tres +annos; entre aquellas cabeças encanecidas se fôra coroando a sua de longas +tranças louras: entre o crescer de tantas rugas se desenvolveram e +aperfeiçoaram as suas graças; entre o progressivo decahir de tantas +prendas e esperanças como as folhas verde-pallidas que em pomar de outomno +se despegam uma a uma, os seus talentos naturaes por uma desvelada +educação, que a munificencia da snr.^a D. Maria I proporcionára a sua tia +os meios de lh'a dar, tinham chegado ao seu maior auge. + +«Maria do Carmo reunia ás prendas manuaes proprias do seu sexo, um lêr e +escrever primoroso, noções e gosto de litteratura, mórmente da franceza, +em cuja lingua era mui versada, e musica, merecendo no piano as honras de +mestra, e por corôa de elogio verdadeiro, os seus costumes eram puros e o +seu coração religioso: nas orações que todas iam quotidianamente depôr aos +pés do altar, as d'ella deviam rescender mais a innocente alegria que a +temores ou remorsos.--A 25 de junho orava no côro com sua tia quando o +relogio dos paços bateu as 6 da tarde. Levanta-se, pede licença para +deixar o restante para depois, e ir entregar--que o prometteu--um debuxo +de bordados a uma sua amiga fóra da casa. + +«Foi: correram horas, e não voltou. + +«Começaram e cresceram cuidados: mandou-se á busca por todas as partes: +passou o serão, passou a noite, e passaram tambem dias, sem que a +tornassem a vêr, nem a ouvir d'ella nova alguma. + +«N'essa tarde alguem se lembra de ter notado uma sege parada debaixo da +arcada do paço. E um morador da casa acrescenta que, perto da noite, +achando-se no caes do Sodré, vira chegar uma sege á porta de uma +hospedaria, e um homem de chapéo branco apear uma menina, que lhe pareceu +ella. + +«Devolvidos quatro mortaes dias, chega no domingo um gallego com uma carta +para a consternada tia:--entrega-lh'a em mão propria, e ajunta, havel-a +recebido de uma menina mui linda, que lavada em lagrimas e afogada em +soluços lhe recommendára fosse leval-a correndo, e lhe trouxesse signal de +ter sido recebida. O conteudo d'esta carta ninguem o soube, mas parte +d'elle facilmente se póde presumir.--Ás nove horas d'essa mesma noite +viram-se sahir pela portaria dous vultos rebuçados, que por mais que a +porteira os interrogasse, partiram sem dar resposta. Á hora e meia da +noite os mesmos dous vultos vieram bater á porta, trazendo entre si +amparado e quasi em braços um terceiro, que ninguem reconheceu. Abriram +uma porta, que havia muito não servia, e que dava passagem para a pousada +da fugitiva, e entraram. + +«Pessoa do sitio por quem isto soubemos, nos acrescentou, que o estado de +Maria na seguinte manhã, segundo lh'o descrevêra quem acabava de a vêr, +cortava o coração. As suas tranças louras e espessas tinham desapparecido. +O seu rosto pendia pallido e esmorecido. Duas fontes corriam dos seus +olhos. A sua dôr via-se e era terrivel porque era muda. + +«As suas o occupações desde então teem sido orar e chorar: com isto leva +no oratorio as horas do dia e da noite, abraçada com a imagem da +consoladora dos afflictos, beijando-a nos pés, nas mãos e no rosto como +filha a sua mãi--como filha prodiga, que procura, á força de se restituir +toda, reconquistar o coração materno; como se coração materno se apartasse +nunca. O pai aggravado perdôa, a mãi não, toda ella foi sempre amor, e o +amor não sabe senão amar. + +«A unica pessoa, que além de sua tia, a tem visto, é o medico, alma +sensivel, de quem recebe os soccorros mais assiduos e delicados. +Entretanto o mal que a mina é grave. Quasi privada do alimento e do somno, +os seus dias parecem ameaçados de um fim prematuro. Se a violencia mesma +da sua dôr lhe não limitar em breve a duração, outro perigo pouco menos +cruel que o da morte, parece ameaçal-a. O pranto continuo que afoga os +seus olhos, receia-se que venha por ultimo a lh'os apagar, e que a +pobresinha que, ainda ha pouco, era o raio de sol de toda a habitação, +venha ainda a ser, mergulhada em trevas e sobrevivendo a si mesma, um +objecto de profunda e esteril compaixão para tantas infelizes, a quem +ella, pouco ha, repartia alegrias e emprestava mocidade. + +¡¿E agora quem a condemnará por um erro, cuja origem e historia nos são +desconhecidos?! ¿quem a apedrejará entre os braços, sob o manto e sob os +olhos da rainha dos anjos, que lhe deu o seu nome, lhe chama filha sua e +com a vista serena e amorosa lhe está apontando para as alturas?! ¡¡¡Que +delictos e crimes (quanto mais erros)! deixariam de se lavar com tantas +lagrimas!!! ¡¡¡E ha entretanto aqui um homem, talvez entre nós, talvez +festejado e respeitado--um homem, que ella generosa não nomeia, não +nomeará nunca--um homem, cujo rosto mais duro que o de Caím se não +transformou, se não tingiu de repente na côr de sua alma para o denunciar, +como sacrificador da innocencia, da virtude, da formosura, e do amor, de +um amor irresistivel, inspirado por elle, e que a elle sacrificava tudo +até a vida,--tudo até o porvir--tudo--tudo até a honra!!! ¡¡¡Ha ahi um +homem d'estes!! ¡Ha-o sem duvida! e se as justiças o descobrissem, este +homem receberia uma pena: menos affrontosa que a do ladrão assassino... +Este homem não havia de ser mandado por todas as cidades e villas do reino +de braço dado com o carrasco, para ser atado a cada pelourinho, escarrado +no rosto por todos os homens e mulheres, e esbofeteado depois pelo seu +menos infame companheiro de jornada com a mão esquerda. Não: que importa o +que padece uma mulher? Não crêsse nas palavras de quem a fascinára; não +fosse moça, innocente e amante; não fosse mulher. As justiças da sociedade +teem mais cousas em que pensar. ¿E de mais não se vê isto todos os dias? +Não são conhecidos muitos outros que tambem matam assim o tempo com estas +caçadas amorosas? ¿que o confessam com vangloria e que em companhias mui +luzidas são por isso admirados e invejados! Tratemos dos interesses +materiaes. O restante são chimeras, são fanatismos, são miserias, indignas +da attenção de legisladores, e dos homens illustrados de 1843.» + + +Concluida a leitura, o abbade proseguiu: + +--Ouvida a historia, o fidalgote sacudiu a poeira das calças com um +chicotinho de baleia, e disse: «São vulgarissimos esses casos em Lisboa. O +que a mim me espanta é que a imprensa vista o habito de Tartuffo, e sáia +ás praças a prégar contra a corrupção que ella promoveu com os seus +romances, com as suas philosophias, com as suas theses de liberdade, e com +a perseguição de escarneo e de fome feita aos apostolos da sincera +moralidade.» + +Discursou largamente n'este sentido, e despediu-se, deixando-me inclinado +a dar-lhe razão. + + * * * * * + +Passam-se tres dias:--continuou o abbade--era meia noite de 2 de agosto do +mesmo anno de 1843. Recolhia-me á igreja de ter ministrado a extrema-unção +a um moribundo, quando ouvi dous tiros a pouca distancia, e d'ahi a +minutos o alarido de muitas vozes, gritando «homem morto!» + +Sahi ao adro, e encontrei pessoas que já vinham chamar-me para assistir +aos paroxismos de Pedro de Andrade que estava mortalmente ferido á porta +de sua casa. + +Quando cheguei, já o haviam transportado ao leito. Estava ainda vivo. +Assim que me viu, acenou-me com anciedade, apertou-me convulsamente a mão, +e segredou-me: «Quero confessar-me, que vou morrer.» + +Escutei-o por espaço de hora e meia; as phrases eram cortadas por gritos +de agonia; ambas as balas lhe estavam dilacerando as entranhas do peito; +e, ainda assim, aquelle demorado arrancar da vida me quiz parecer uma +delonga providencial para que o grande criminoso tivesse tempo de penar e +chorar suas culpas. Expirou com todos os sacramentos, pedindo-me que, em +nome d'elle, pedisse perdão a seu filho e a sua mulher. + +O moribundo, quando me revelou o seu derradeiro delicto, rogou-me que +désse publicidade ao crime e ao castigo a fim de que a sua desgraça +podesse aproveitar aos centenares de delinquentes que lhe haviam dado o +exemplo do vicio e da impunidade. E, por tanto, não escrupuliso em lhe +dizer que o seductor da infeliz Maria do Carmo havia sido Pedro de +Andrade, e que os vingadores da abandonada menina deviam ser seus +parentes, posto que o assassinado os não houvesse conhecido, e lhes +ouvisse apenas dizer, antes de desfecharem as clavinas, que lhe traziam +saudades da prostituida senhora do paço da Ajuda. + +--Com effeito!--observou o snr. Guimarães--essa historia arripiou-me os +cabellos!... V. s.^a ha de emprestar-me essa gazeta que eu quero copiar +esse caso! Diga-me cá: e o filho d'esse desgraçado? + +--O filho do desgraçado, que tinha então onze annos e estava com sua mãi, +póde dizer-se que ficou litteralmente pobre. Os credores e a fazenda +nacional disputaram-se a posse do espolio. O rapaz, quando chegou á idade +de tomar conta da honra de Real de Oleiros, convenceu-se que lhe era +mister trabalhar para não morrer de fome. Os parentes de sua mãi, posto +que abastados, não o protegeram, e tornaram-lhe pesada a esmola do pão e +da cama. Um dia, o brioso moço sahiu com sua mãi da casa que lhe +amargurava o bocado, e foi habitar um casebre nas visinhanças do escrivão, +que o fizera seu amanuense, e lhe dava doze vintens por dia. V. s.^a +conhece-o. É aquelle Alvaro de Andrade que tem lavrado as escripturas de +compra de propriedades que o snr. Guimarães tem adquirido... + +--Pois é esse!... Aquelle homem humilde que me beijou as mãos quando eu +lhe dei uma libra de gratificação... + +--É esse mesmo. + +--E nunca me disse de que familia era... + +--Não falla em familia, e parece até esquecido da sua procedencia. Que eu, +a fallar verdade, uma vez, passando com elle defronte das ruinas da casa +de seu pai, surprendi-o a olhar para as paredes derruidas com as lagrimas +nos olhos. Perguntei-lhe por que chorava, e elle respondeu-me que chorava +por sua mãi, lembrando-se que d'aquella casa sahira ella coberta de mais +amargas lagrimas. + +--Coitado!--disse o brazileiro--hei de fazer-lhe o bem que poder. + +--E póde muito v. s.^a; mas faça-lh'o de modo que o não humilhe. + +--Eu cá sei, snr. abbade. Nós, os chamados brazileiros, sabemos todos os +processos de dar esmolas aos nossos patricios de modo que elles se +dispensem de nos agradecer, e até lhe deixamos o direito salvo de nos +ridiculisar. + +A justiça inspirára este homem, que nunca fôra tão eloquente. + + * * * * * + +Pouco tempo depois, annunciou-se a venda da quinta de Real de Oleiros e +suas pertenças, a requerimento dos credores. José Maria Guimarães cobriu +todos os lanços. Foi-lhe adjudicada a quinta por alto preço. Os +licitantes, que eram os credores, acotovelavam-se jubilosos, e diziam +entre si: + +--_Espiguêmol-o!_ + +E, assim que o ramo lhe foi entregue, disseram unanimemente: + +--Foi _espigado_! + +O brazileiro pagou immediatamente ao instrumento da adjudicação, e disse, +relançando a vista aos alegres credores de Pedro de Andrade: + +--Meus senhores, o que vale aos credores dos fidalgos, que não pagam, são +estes _nossos irmãos de além-mar_, que, lá e cá, melhor fôra chamar-lhes +_irmãos da misericordia_... + +--É parvo!--disse um poeta de Basto ao ouvido de um bacharel de +Felgueiras. + + * * * * * + +Passados dias, começaram obras de reedificação no local do palacete +arruinado. O proprietario, fazendo-se encontradiço com o amanuense do +tabellião, disse-lhe: + +--Ó snr. Alvaro, vá o snr. hoje, se não tiver que fazer, á quinta de Real, +que temos que conversar a respeito de certos arranjos. + +--Sim, senhor--disse Alvaro--quando v. s.^a quizer. + +--Ás 4 da tarde; e leve tinteiro e papel, que não ha lá d'isso. + +Á hora aprazada, entrou o bisneto do capitão-mór na extincta honra dos +Pachecos e Andrades. Já lá estava o brazileiro, ás testilhas com os +alveneis. Assim que chegou o escrevente do tabellião, subiu com elle por +entre um matagal de bravio até ao alto de um outeirinho onde se erguia um +pombal já descaliçado, mas ainda assim a porção menos esboroada das +pertenças da quinta, graças á fortaleza do tecto abobadado de pedra. + +Havia dentro uma banca de granito, onde outrora os senhores de Real se +desenfastiavam em merendas, depois das fadigas da caça na tapada defeza. +Já lá estavam duas cadeiras. + +--Sente-se ahi, snr. Alvaro--disse José Maria Guimarães,--e vá escrevendo. + +--Prompto!--respondeu o escrevente, rodando a sibilante tarracha do +tinteiro de chifre. + +--Ponha ahi os nomes dos pobres da freguezia que não tem casa de seu. + +Alvaro Pacheco escreveu trinta e quatro nomes; quedou-se um momento, e +perguntou: + +--De todos os pobres que não tem casa? + +--Sim, de todos os pobres que não tem casa propria. + +--Então, falta o meu nome. Somos trinta e cinco os pobres que não temos +casa. + +E escreveu: _Alvaro, escrevente de tabellião._ + +--Muito bem--volveu o brazileiro commovido--sabe o que eu quero? + +--V. s.^a o dirá. + +--É ceder metade d'esta quinta aos pobres para elles edificarem uma casa +com seu quintalejo; já se vê que sou eu que pago as obras das casas; e, +visto que o snr. Alvaro é um dos trinta e cinco pobres, escolha a local +onde quer a sua casa feita. A escolha do local é sua; ora agora, o feitio +da obra isso é cá por minha conta. + +--Os pobres aceitam, não escolhem--disse Alvaro. + +--Mau!--replicou José Maria Guimarães--Mau! ou bem que somos francos um +com o outro, ou não temos nada feito. Eu cá sou assim! + +--Então quer v. s.^a... + +--Deixemo-nos de _senhorias_. Eu sou filho de um almocreve, e neto e +bisneto de burriqueiros; e o snr. Alvaro Pacheco é descendente de +capitães-móres a quem meus avós traziam presuntos de Melgaço nas suas +recovas de machos. Deixemo-nos de _senhorias_. Vamos á questão. Onde quer +a sua casa? + +--Aqui--disse Alvaro. + +--Aqui no pombal?! + +--Aqui, porque fica sendo casa, e ao mesmo tempo memoria de ter estado +n'este sitio um homem honrado. + +--Ou dous--emendou o brasileiro--Dê cá um abraço, e vamos embora, que faz +aqui frio. + +E, no decurso do caminho, proseguiu: + +--O snr. Alvaro ha de fazer-me o favor de se despedir do serviço do +tabellião, se lhe não custar. Preciso de quem me represente n'estas obras, +em quanto vou tratar de negocios a Lisboa. Eu cá lhe deixo as plantas das +casas dos pobres, e o capital para o custeio das despezas. + + * * * * * + +O brazileiro voltou, passados seis mezes. Todas as casas estavam já de +parede e tecto, quando voltou, excepto a do pobre chamado Alvaro. + +--Com que então a casa n.^o 35 ainda não tem sequer os +alicerces?---perguntou o bemfeitor. + +--É porque o pobre n.^o 35 não precisa tanto como os outros--respondeu o +feitor. + +--Então vou eu ser agora o fiscal das suas obras--tornou José Maria. + +E, ao outro dia, fez convergir os melhores operarios para a bouça do +pombal, e mandou arrazar a vivenda de centenares de andorinhas que se +esvoaçavam ao primeiro troar dos alviões e marretas. + +Alvaro e José Maria assistiam ao derrubamento do pombal, um tanto +condoidos do esgazear das espavoridas habitadoras das ruinas. + +N'isto, um pedreiro esboroando com a alavanca um pedaço de parede, +descobriu uma superficie escura, que se lhe figurou lousa. + +--Que diabo de obra é esta de lousa em parede de cantaria?--disse o +alvenel. + +O brazileiro abeirou-se da parede, apalpou a supposta lousa, e observou ao +pedreiro que era pau e não lousa, mandando socavar dos lados, e alimpar a +superficie do que quer que fosse. + +--Isto é um caixote!--disse o mestre da obra--querem vossês vêr que o +diabo as arma? + +--Arma o quê?--perguntou José Maria Guimarães. + +--V. s.^a nunca ouvia dizer que os fidalgos de Real esconderam um thesouro +que nunca se encontrou? + +--Já ouvi dizer isso. Atirem a baixo toda a pedra que está dos lados, e +não embarrem no caixote. Cuidado lá com isso! Snr. Alvaro, parece-me que +vai assistir á resurreição do melhor defunto dos seus avós--bradou o +brazileiro. + +--Como?!--perguntou Alvaro, que vinha entrando no recinto do pombal. + +--Venha vêr. Apalpe. Que é isso? + +--Parece-me um caixote--disse o bisneto do capitão-mór. + +--Não é parece; é que é. Sabe o que lá está dentro? Sabe a historia dos +trezentos e tantos mil cruzados de seu bisavô? + +--Ouvi dizer que... + +--Que nunca appareceram. Apparecem hoje. Estão alli. + +Alvaro de Andrade que tinha encarado o infortunio de trinta annos com +intemerato aspecto, descorou em frente da taboa negra que devia ter dentro +uma cousa chamada, bem ou mal, a _fortuna_. + +A este tempo, o caixote era apeado, suspenso entre quatro robustos braços. + +--Oh! como pesa!--gemeu um dos pedreiros. + +--Podéra não!--disse o brazileiro--trezentos e tantos mil cruzados! + +--Os rios correm para o mar, snr. Guimarães--observou o mestre d'obras. + +--Que quer dizer, mestre?--perguntou o brazileiro. + +--Que se v. s.^a era rico, é agora riquissimo. + +--Obrigado pelo conceito que faz de mim, mestre...--volveu José Maria +entre risonho e agastado. + +--Ó meu senhor, pois eu... + +--Suspeita-me de ladrão... + +--Valha-me Deus!... o que apparecer em terra de v. s.^a seu é. + +--E esta terra é minha? Pois não sabe que este chão é d'este pobre que se +chama Alvaro? + +--Ó snr. Guimarães!...-exclamou o filho do ultimo senhor da honra de Real +de Oleiros, e não pôde articular outra expressão. + +--Vamos!--acudiu o brazileiro--para onde é que vai o thesouro de seu avô, +snr. Alvaro Pacheco de Andrade, snr. barão, snr. visconde, snr. conde, +snr.... Quer mais? Dê as suas ordens. + +José Maria casquinava uma risada de elevada intelligencia, em quanto os +obreiros, rodeando o caixote, se embasbacavam uns nos outros, e todos no +rosto de Alvaro com a mais sincera e respeitosa estupidez. + +Novamente instado para que dissesse onde o caixão devia ser levado, Alvaro +respondeu: + +--A minha mãi, que sabe o que são pobres. + + * * * * * + +E os primeiros pobres, que relativamente enriqueceram nas aldêas +convisinhas, foram os descendentes dos irmãos d'aquelle feitor que muitos +alcunharam de fugitivo ladrão do thesouro do capitão-mór, e que se fôra a +morrer longe d'alli, e obscuramente, receoso de ser novamente martyrisado +pelos filhos de seu amo. + +Alvaro Pacheco de Andrade, n'este anno de 1874, tem quarenta e nove annos, +e é conhecido pelo fidalgo de Real de Oleiros. Aquella senhora de tez +morena, com cinco formosos filhos, que brincam á volta de outra senhora de +setenta annos, é a esposa de Alvaro, e filha de José Maria Guimarães. A +dos cabellos brancos, que lhe alvejam na fronte como a corôa de açucenas +de uma santa, é a viuva d'aquelle galhardo e infausto D. Juan, assassinado +em 1843. O sacerdote ancião, que parece ser da familia, é aquelle abbade +que nos leu a _Revista Universal Lisbonense_, e a quem eu devo e agradeço +os commentarios ao fogoso e pungente artigo, que me parece ser do meu +presado mestre e adorado amigo visconde de Castilho. + + + + +O JOGADOR + + +Hoje em dia, aquella denominação, nem é desprezivel nem affrontosa. O +progresso indultou o jogador; deliu-lhe da fronte o antigo ferrete. + +Se eu jogar com sorte propicia, e mobilar um palacio, cujas alfaias e +baixella representem os haveres e as lagrimas de muitas familias, serei o +legitimo e respeitado proprietario do meu palacio. + +Se eu abrir os meus salões, a mais selecta sociedade virá pisar as +alcatifas do meu palacio, e lisonjear a magnificencia do fino gosto que +dirigiu as correntes do meu ouro. Ninguem me perguntará se herdei de avós, +se ganhei de incautos a minha opulencia. Talvez que os meus convidados +segredem entre si a proveniencia das minhas pompas; mas d'esses, duas +vezes deshonrados, vingado estou. Deshonrados, porque entraram nas minhas +salas, e deshonrados porque denegriram a honesta posse dos vinhos que me +beberam. + +Continuando a auspiciosa hypothese: se eu fôr o jogador enriquecido, +bemquisto das familias, pessoa séria, influente nas eleições bancarias, +com folha corrida, insuspeito de falsificador de testamentos ou moeda, de +certo me não distingo do homem de bem, laborioso, honrado e provado nas +lutas da vida. + +Ha, todavia, entre nós uma pequena differença: eu dou bailes, e o meu +honrado visinho não os dá. + +Mas isso depende da aristocracia da indole: elle póde descender d'algum +servo de gleba, que lhe transmittiu genio caínho e o acanhamento de raça; +em quanto eu obedeço a impulsos de outro sangue. As damas que se bamboavam +nos coxins flaccidos das minhas othomanas com toda a certeza não +calcularam quantos _micos_ infelizes dos meus parceiros representavam as +copias de Raphael e os originaes de Murillo pendurados sobre as colgaduras +das minhas paredes. Antes quero suppôr que ellas, no arrobo da sua +admiração, meditaram que na minha cabeça havia o que quer que fosse digno +da cabelleira encalamistrada de um Marialva, no reinado de D. João V. + +É profundo o fôsso que me separa do jogador em outras eras. Nasci quando +devia nascer. Se eu viesse á luz no seculo XVI, este meu mister de jogador +era synonymo de vadiagem (_Ord_, l. V, tit. 82). Nas minhas tertulias, +devidas á sorte feliz da tavolagem, lograria apenas reunir jogadores. Se +nascesse no seculo XVII ou XVIII, os corregedores dos Philippes, de D. +João IV e Pedro II, e dos reis subsequentes, se eu désse bailes, +carregavam-me com as leis sumptuarias por sobre a pêcha de vadio. Em tempo +de D. João V, D. José ou D. Maria, tanto o Camões do Rocio, como o Marques +Bacalhau, como o Pina Manique mandavam-me responder do Limoeiro pela +procedencia dos meus lustres, dos meus sophás, dos meus jarrões, dos meus +contadores marchetados, dos meus bronzes, dos meus frescos, dos meus +pendulos, dos meus pavimentos de xadrez lustroso. E vestiam-me talvez uma +das librés dos meus criados. + +Foi por isso que o facho da civilisação, passando pelas minhas salas de +jogador feliz, radiou reverberos esplendidos da minha baixella, e me +mostrou em meio dos meus convidados, com a fronte luzentissima das +alegrias do homem de bem. + +Póde ser que, em outras eras tenebrosas, a felicidade no jogo fosse +malsinada de fraude e roubo. + +Hoje não. + +O jogo, á luz de 1874, é um contracto bilateral, fundado no consentimento +de ambas as partes. + +Se é forçoso que uma das partes fosse tola e desgraçada, eu de certo não +fui. + +Está fechada a hypothese. + + + + +INEDITO DO POETA FR. BERNARDO DE BRITO + + +Escreveu o famoso cisterciense a _Sylvia de Lizardo_, e ninguem o trata de +poeta quando o louva ou moteja. Chamam-lhe o _chronista_, o _classico_, o +_douto_, o _mentiroso_, o _massador_, o _milagreiro_; poeta é que não; e +houve até um frade da ordem d'elle, Fortunato de S. Boaventura, o author do +_Punhal dos Corcundas_, que positivamente desbalisou de poeta e de author +da _Sylvia de Lizardo_ o vernaculo author da _Chronica de Cistér_. + +Pois foi poeta, e dos bons do seu tempo, aquelle Balthazar de Brito de +Andrade, que por amor do patriarcha se crismou em _Bernardo_. + +Teve elle o ruim sestro de desfazer na prosapia dos outros. Raro fidalgo +lhe sahiu incolume do crisol em que por obrigação do officio de +historiador, elle acendrava o fino ouro dos Trocozendos, dos Romarigues, +dos Egas Bufas e outros condes das raças romana é goda. + +Nos descendentes do Espadeiro, que eram a geração dos _Coelhos_, beliscava +elle, á conta do assassinio de Ignez de Castro. De si, dizia o frade, que +os _Britos_, em Portugal, derivavam dos _Brutos_ de Roma. + +Um descendente de Egas Moniz, chamado João Soares de Alarcão, como era +poeta, satyrisou a maledicencia de fr. Bernardo de Brito com este soneto: + + Aos profundos imperios d'el-rei Pluto + Irás, Bernardo, pelo que has escripto, + Pois dizes que de _Bruto_ vem teu _Brito_, + Ficando tu só n'isso Brito e bruto. + + Tu vens d'aquelles que a pé enxuto + Passaram, com Moysés, o mar do Egypto, + Ou vens do que com sangue do cabrito + Tantos guizados fez sem nenhum fructo. + + Chamastes ao teu livro _Monarchia_, + Sendo _Mona_ que cria monstros varios, + E tornastes de ferro a idade de ouro. + + Não te mettas em casos temerarios; + Pasta nas hervas, bebe da agua fria, + Ou na velha escudela o caldo louro. + +O monge de Cistér responde pelas mesmas rimas: + + Maçarico dos charcos de el-rei Pluto, + Que taes marmanjarias has escripto, + Que ao douto frei Bernardo ou Bruto ou Brito + Picas com bico infame, sujo e bruto; + + Jámais será de Ignez o pranto enxuto, + Pois a fazes mais quartos que um cabrito, + Dizendo que nas mãos deu o esp'rito + De Coelho matador, sagaz e astuto. + + Não vem da lusitana monarchia + Martinho _mono_, pai de cascos varios, + Sua mãi de _Aguilar_, aguia, não de ouro. + + Não te mettas em casos temerarios: + Que louro não honra tua musa fria, + Mas de uma pouca de... o caldo louro. + +As injurias do primeiro terceto entendem com os progenitores de João Soares +de Alarcão. Martinho, se era _mono_, sobrava-lhe direito a ser da +_monarchia_ lusitana; mas tambem o outro se demasiára, vituperando de +_mona_ a _Monarchia_ do frade. Tratavam-se de macacões um ao outro. _Pai de +cascos varios_, invectiva o poeta de Alcobaça. Pela variedade da cascaria, +entende-se que capitulava de cavalgadura o adversario: saldo bem ajustado +com o outro que lhe chamára _bruto_. + +Entra no soneto a mãi do poeta, que devia ser da familia de _Aguilares_: e +era com effeito, sem ser de raça desprimorosa. Chamava-se D. Cecilia de +Mendonça Aguilar e Lugo, filha de Philippe de Aguilar, mestre-sala de D. +Sebastião, de D. Henrique, de D. Philippe, e tão amigo de Castella que +chegou á mordomia-mór do rei intruso. Estes Aguilares e Aguiares foram +sempre muito dos hespanhoes, e logo contarei um caso do mais notavel. + +_Martinho_, _mono_, diz frei Bernardo. Que o pai do poeta era Martinho +Soares de Alarcão e Mello, 6.º senhor da casa de Torres-Vedras, não ha +duvida; que fosse _mono_, não o inculcam os genealogistas. Seu filho, o +poeta, foi alcaide-mór de Torres-Vedras, casou, teve nove filhos, e entre +esses, o jesuita Francisco Soares de Alarcão, letrado eminente e guerreiro, +que morreu queimado em uma explosão de polvora, quando guarnecia Juromenha, +em tempo de D. João IV, capitaneando os noviços da companhia, cujo reitor +era. + +Outro filho do _poeta dos cascos varios_, quando D. João IV o mandava +governar Ceuta, passou-se para Philippe IV; e foi condemnado á morte[1]. + +Teve a mãi de João Soares um primo chamado Damião de Aguiar Ribeiro, que +era corregedor em Lisboa, reinando o cardeal. Como sabem, andavam então +divididas as opiniões entre D. Antonio e Philippe II, ácerca da successão +do throno. Damião de Aguiar era dos mais façanhosos propugnadores por +Castella. Succedeu então que um homem do serviço de D. Antonio acutilasse +na Padaria um vereador que fallava soltamente no senado contra o filho de +Violante Gomes. Foi preso e summariamente condemnado á forca. Á hora em que +o réo era levado, soube Damião de Aguiar na rua Nova que, na Ribeira, se +ajuntava povo intencionado a tirar-lhe o padecente. Mandou o corregedor +parar o prestito; fez lançar uma corda de uma janella, e alli mesmo ordenou +que se enforcasse o homem, para evitar semsaborias. Tão grato lhe ficou por +isto o rei de Castella que o nomeou desembargador do paço, e depois +chanceller-mór do reino, commendador de S. Matheus de Soure e de S. Cosme +de Gondomar, commendas que rendiam 3:500 cruzados. + +Foi, por tanto, riquissimo, e tão bom homem que fundou o convento das +Capuchinhas da Merciana. Instituiu morgadio, comprehendendo uma extensa +quinta que ia desde as portas de Santo Antão pela travessa da Annunciada +até á chamada calçada de _Damião de Aguiar_. + +Casou duas vezes; procreou-se, e fez-se representar entre nós pelos snrs. +condes de Povolide, de Valladares, etc. + +Rebello da Silva não reza bem d'este Damião na _Historia de Portugal_. Eu +não rezo bem d'elle nem por elle; confesso, todavia, que era homem expedito +nisto de enforcar a gente na janella de qualquer cidadão, mediante seis +varas de corda. + + [1] D. João Soares morreu em 1618, com 38 annos de idade. Escreveu e + imprimiu em lingua castelhana: _Archimusa de varias rimas y efetos_, e + _La iffanta coronada por el-rei D. Pedro, D. Ignez de Castro_, etc. + Este poema não devia ser mui lisonjeiro ás tradições de Pero Coelho, + avoengo do poeta. + + + + +LISBOA + + +Elucidemos a historia do viajante. + +O mordomo-mór que fugia era D. João de Mascarenhas, 4.º marquez de Gouvêa, +e 7.º conde de Santa Cruz. Tinha 25 annos, e era casado com uma hespanhola, +chamada D. Thereza de Moscoso e Aragão, filha do 7.º conde de Altamira. + +A senhora que fugiu com elle era D. Maria da Penha de França, tambem casada +com seu primo-irmão D. Lourenço de Almada, muito moço. + +Tinham casado em 1722. Em junho de 1723 D. Maria da Penha de França deu á +luz uma menina, que se chamou Violante. E, na noite de 11 de novembro de +1724, a esposa, abandonando marido e filha, fugiu com o marquez. + +Este desastre não foi precedido de ardentes galanteios e grandes +resistencias do pudor vencido pela paixão. + +D. Maria foi de visita ao paço, onde havia sido dama, como sua mãi D. +Violante Henriques o fôra da rainha D. Maria Sophia de Saboya. Viu o +marquez que era galan, audaz, e sem ser milagre, fulminou-o com o relampago +da formosura. Fugiram e pararam em Tuy. Não foi em Vigo como diz o +viajante. Julgavam-se salvos em terra estrangeira; mas o bispo, por ordem +vinda de Madrid, prendeu D. Maria n'um mosteiro; e o marquez fugiu por +Hespanha dentro, e mais tarde para Inglaterra. + +Tanto que em Lisboa se divulgou a prisão da mulher de D. Lourenço de +Almada, certo poeta escreveu um soneto gravido de maus versos e boa moral, +que diz isto: + + D'esse claustro a sagrada penitencia + Pia te esconda, oh bella criminosa, + E converta-se em sombra a luz formosa + Que ardeu nos sacrificios da indecencia. + + Tolera da prisão toda a violencia, + Perdida já a nobreza generosa; + Fique ainda entre a culpa indecorosa + Benemerita ao menos a paciencia. + + Principia a morrer n'essa clausura + Encobrindo um descredito infinito + No antecipado horror da morte escura. + + Mas ah! se em ti, por ultimo conflicto, + Como vai sendo de vida sepultura, + Chegasse a ser cadaver o delicto! + +Hei de escrever um livro que ha de chamar-se o DESTERRADO. Estes desastres +hão de ser esmiuçados compridamente. O _Desterrado_ do meu romance não é o +marquez de Gouvêa: é outra casta de personagem. Bem sei que esfrio o +interesse do futuro livro, bosquejando-o aqui em poucas linhas. Não +importa. A curiosidade do leitor é mais attendivel que as conveniencias +mercantis d'uma novella. + +Como sabem, D. Maria da Penha deixou nos braços do abandonado marido uma +filhinha de onze mezes, que se chamou Violante. Esta menina, ahi pelos +dezesete annos, amou seu primo D. Luiz Francisco de Assis Sanches de Baena, +alcaide-mór de Villa do Conde, capitão de cavallos, e uns gentilissimos +vinte e nove annos. Na casa dos Almadas, onde D. Luiz fôra creado--porque +sua mãi casára em segundas nupcias com D. Luiz José de Almada--havia um D. +Antão, que se apaixonára por Violante, que era sua sobrinha. A menina +esquivara-se ás caricias do tio, e deixou-se arrebatar nos braços do primo +D. Luiz, quando uma ordem regia o desterrou para Moncorvo, a rogos de D. +Antão de Almada. Os dous fugitivos (que desterro tão semelhante, o de mãi e +filha!) esconderam-se e casaram em Zamora; mas ahi mesmo os enviados do +cioso tio a foram colher de sobresalto e a trouxeram a Portugal. + +Esteve a menina reclusa alguns annos em Marvilla, com o proposito de +professar, pois que a lei lhe annullára o casamento com o primo; não +obstante, porém, a saudade do desterrado primo, ao fim de onze annos, +aceitou seu tio para esposo, do mesmo passo que D. Luiz era banido e +desnaturalisado para sempre. Aqui fica muito pela rama o entrecho do livro +para o qual se estão aprestando as peças essenciaes da vida tempestuosa de +D. Luiz Francisco de Assis Sanches de Baena, fallecido aos 75 annos, e +terceiro avô do actual snr. visconde de Sanches de Baena[2]. + +De D. Violante e de seu tio D. Antão de Almada (sem embargo das amarguras +da violentada esposa) nasceu D. Lourenço de Almada, que foi o 1.º conde do +seu appellido em 1793. + + * * * * * + +Outra indicação do viajante que estimula a curiosidade: + +«A casa da rainha e dos principes são analogas á do rei. O posto de +camareiro-mór da rainha vagou por morte do marquez das Minas, assassinado +em 1721. Este senhor era genro do marechal de Villeroy; e seu filho, o +conde do Prado, está presentemente na côrte de França.» + +Já d'este caso dei n'outro livro a noticia que transcrevo do citado +periodico de Francisco Xavier de Oliveira: + + +«Um corregedor guardava uma porta da igreja da casa professa dos jesuitas, +quando alli se celebrava grande festividade. Sómente o rei havia de entrar +por aquella porta. Chegaram aqui o marquez das Minas e o conde da Atalaya; +mas o corregedor com razão lhes vedou o passo. Insistiram elles, dizendo ao +ministro que as ordens recebidas não podiam entender-se com pessoas de sua +esphera. Redarguiu o corregedor que as ordens ninguem exceptuavam, e por +tanto, sem que o rei entrasse, não podia elle permittir que entrasse quem +quer que fosse. Aquelles senhores podiam entrar por outras portas francas a +toda a gente. Não obstante, pertinazmente exigiram do corregedor uma +distincção que elle não podia dar-lhes sem transgredir os deveres... Os +dous fidalgos, depois de o terem insultado, passaram ás ultimas. O conde da +Atalaya deu com o chapéo na cara do corregedor, e o marquez das Minas +traspassando-o com a espada, matou-o. Em seguida cavalgaram, e sahiram do +reino. O marquez das Minas _foi perdoado e voltou ao reino_[3].» + +Crê o leitor que, não obstante o perdão, o marquez das Minas passaria o +restante da vida sequestrado das graças do monarcha e da convivencia das +pessoas de bem? Não faça juizos temerarios o leitor: o marquez das Minas +recebeu o indulto, e ao mesmo tempo o bastão de general. + +Já vimos a justiça dos homens: agora vejamos a da Providencia. Servia no +exercito portuguez um castelhano chamado D. Juan de la Cueva, que não dava +_excellencia_ ao seu general, marquez das Minas, sem que este lhe désse +_senhoria_. «Ora, o marquez, assassino do corregedor,--diz o cavalheiro de +Oliveira--era soberbo e arrogante. Um dia, ao entardecer, sahia elle da +portaria da congregação de S. Philippe Neri, a tempo que desgraçadamente +_Juan de la Cueva_ ia entrando. Cortejou elle o marquez, que lhe não deu a +pretendida _senhoria_, e por isso _de la Cueva_ lhe não deu _excellencia_. +O general, grandemente irritado, levantou o bastão e proferiu palavras +ameaçadoras. _De la Cueva_, sem lhe dizer palavra, traspassou-o com a +espada. O marquez não tugiu nem mugiu: quando cahiu por terra, já ia morto. +O padre, que o acompanhára até á portaria, e era confessor d'elle, apenas +teve tempo de lhe apertar a mão. _D. Juan de la Cueva_ pôde escapar-se, e +refugiou-se em Hespanha[4].» + +Na jurisprudencia divina a justiça mais seguida é a pena de Talião. + + [2] Veja _Apontamentos biographicos_ ácerca de D. Luiz Francisco de + Assis Sanches de Baena, etc., por Innocencio Francisco da Silva, + Lisboa 1869. + + [3] O cavalheiro de Oliveira não designa o tempo de expatriação do + marquez das Minas, conde do Prado. Deviam ser dez annos, segundo a + sentença manuscripta de que dá noticia o snr. Innocencio Francisco da + Silva, a pag. 233 do 7.º tom. do Dicc. Bibliog. Diz assim: «Sentença da + Relação de Lisboa, contra os condes do Prado e da Atalaya por matarem + publicamente o corregedor do Bairro-Alto no exercicio da sua + authoridade. O primeiro, tendo-se evadido, foi justiçado em estatua; o + segundo condemnado a degredo por dez annos, e ambos em multas + pecuniarias». Creio que ha equivoco, na transcripção da sentença. O + queimado em estatua foi o conde de Atalaya, que, no dizer do cavalheiro + de Oliveira, morreu furioso em Vienna, depois de ter militado no + exercito do imperador de Austria. Quanto ao marquez das Minas, + presume-se que lhe foi indultada a sentença, visto que o citado + Oliveira diz que obteve perdão e voltou a Lisboa. + + [4] _Amusement_, 2.º v. pag. 147 e 148. + + + + +LITTERATURA BRAZILEIRA + + +Longo tempo se queixaram os estudiosos do descuido dos livreiros +portuguezes em se fornecerem de livros brazileiros. Nomeavam-se de outiva +os escriptores distinctos do imperio, e raro havia quem os tivesse nas suas +livrarias. Nas bibliothecas publicas era escusado procural-os. Em +compensação, sobravam n'ellas as edições raras de obras seculares que +ninguem consulta. + +O mercado dos livros brazileiros abriu-se, ha poucos mezes, em Portugal. +Devemol-o á actividade inteligente do snr. Ernesto Chardron. Foi elle quem +primeiro divulgou um catalogo de variada litteratura, em que realçam os +nomes de mais voga n'aquelle florentissimo paiz. Ahi se nos deparam, entre +os poetas, Gonçalves de Magalhães, o correcto e sublime author da +_Confederação dos tamoyos_; o lyrico e arrojado Alvares de Azevedo; o +primaz dos escriptores brazileiros, e chorado Gonçalves Dias; o esperançoso +devaneiador, fallecido no viço da idade, Casimiro de Abreu; Junqueira +Freire que primou nos segredos da melodia e já não é d'este mundo; e o +severo e cadencioso poeta de _Colombo_, tão estimado dos nossos. Entre os +romancistas o fecundissimo Joaquim Manoel de Macedo, que disputa a +supremacia a J. de Alencar, que tanta nomeada grangeou com o seu _Guarany_. +Não lustram menos as novellas mimosissimas de Luiz Guimarães, e as +arrobadas mesclas de prosa e verso de Machado de Assis. Em litteratura +didascalica sobresahem os valiosos escriptos do professor, o snr. conego +Fernandes Pinheiro, nomeadamente o _Resumo de historia litteraria_, que +muito se avantaja a uns esbocêtos que em Portugal circulam nas escólas, +e--o que é mais deploravel--nos estudos secundarios. São notabilissimos +todos os livros do snr. J. M. Pereira da Silva, já na sciencia historica, +já na politica, e ainda no romance, tão prosperamente estreiado na +_Aspazia_. Sobre tudo, porém, os _Varões illustres do Brazil_ e a _Historia +da fundação do imperio brasileiro_ são obras que denotam profundo estudo e +muito engenho na boa disposição dos elementos e critica dos personagens +historicos. Em varia sciencia, em livros elementares, em lexicologia, e +ainda sobre motivos de religião é copioso o catalogo da livraria Chardron. +Esta variedade argue a fertilidade de intelligencias que ajuntam á riqueza +congenial d'aquelle solo os thesouros do espirito. E muito importa e cumpre +observar que os brazileiros modernamente nos não cedem no zelo de imitar a +linguagem pura dos grandes escriptores portuguezes dos seculos de ouro. + +Não esqueçamos, todavia, que o impulsor d'este brilhante movimento +litterario no Rio de Janeiro, e por isso em todo o imperio, é o +livreiro-editor Garnier, espirito emprehendedor que tanto faz luzir os +talentos que divulga, quanto lucra para si a honra de os fazer conhecidos e +laureados. Quem calcular o despendio grande de empresas semelhantes +n'aquelle paiz, deprehenda o quanto cumpre que seja robusto e afouto o +pulso que removeu as immensas difficuldades com que ha trinta annos lutavam +os escriptores do Novo-mundo para se fazerem conhecidos. Coube esta gloria +e este triumpho ao snr. Garnier. + +Falta dizer que os preços dos livros offerecidos no catalogo das casas +Chardron, no Porto e em Braga, são modicos, reduzidos, e inferiores ao +preço corrente das obras portuguezas de igual tomo. + +E, pois que estou agradavelmente recommendando livros de brazileiros, seria +injustiça não graduar de passagem ao menos o merito de uma obra que +recentemente sahia dos prélos portuenses. É o _Estudo sobre a colonização e +emigração para o Brazil_. É seu author o snr. Augusto de Carvalho, que tão +grave e prestadiamente abre carreira de escriptor, em annos ainda muito na +flôr, e com o espirito já a fructear as mais sensatas considerações sobre +as questões controversas inculcadas no titulo da sua obra. Á substancia do +livro allia-se o primor da fórma, a propriedade do termo, a chaneza +eloquente, e, a espaços, a elevação do estylo que não innubla a clareza da +idéa. É o snr. Augusto de Carvalho um brazileiro que nobilita as letras da +sua patria, e está grangeando um lugar entre os melhores escriptores, e, +desde já, o tem distincto entre os bons pensadores e cultores de idéas +proficuas. Congratulo-me com os seus conterraneos. + + + + +Á ACTUALIDADE + + +O meu nome foi banido das columnas d'aquelle jornal. Assim o rosnou o +lebreu por entre os arames da mordaça. + +Foi realmente banido? + +Então, adeus, desgraçado! + +Que o mundo tenha tanta piedade de ti, lazaro, quanto eu me arrependo de te +haver baldeado do charco da petulancia para outro peor--o do silencio. + +Adeusinho! coça a tua lepra com os teus folhetins; mas sume-te, escalracho! + + + + +A EXC.^ma MADRASTA D'EL-REI D. LUIZ 1.º CALUMNIADA + + +Se me arguirem de adulador da senhora condessa, madrasta d'el-rei D. Luiz +I, são iniquos. Se esta ditosa dama, em vez de estar no paço das +Necessidades, estivesse, a esta hora, em trances de cantora não +escripturada, eu sahiria por honra do seu nome de artista contra o +calumniador que lhe mareasse os applausos recebidos no theatro do Porto, ha +quatorze annos. + +Em um numero da _Lanterna_, periodico truculento, li que a esposa do viuvo +de D. Maria II havia sido pateada na rampa do theatro de S. João, em 1859. + +É calumnia, que vou desfazer com a imprensa contemporanea. + +Conceda-se-me a abstinencia de tratamentos regiamente honorificos, em +quanto a nobre condessa de Edla me permitte pleitear em prol dos seus +creditos de cantora. + +A snr.^a Elisa Hensler cantou, pela primeira vez, no theatro do Porto, na +noite de 8 de outubro de 1859. O _Nacional_ do dia 10 escreve o seguinte: + +«_A companhia italiana estreou-se effectivamente no sabbado, e não se +estreou mal. A escolha da opera foi acertada--«O Saltimbanco»; é uma bella +partitura... e a prima-dona Hensler é bella, joven, e canta com mimo. A sua +voz, se não é possante, é melodiosa e expressiva, tem alcance bastante para +o nosso theatro. O publico ficou agradavelmente surprehendido, e deu +lisongeiro acolhimento á mimosa cantora... Tanto no duetto como no rondó +mostrou a snr.^a Hensler que possue dotes musicaes pouco vulgares. O +sentimento com que cantou os andantes do duetto, a bravura e perfeição na +execução da difficil parte do rondó, e aquelles trilos tão nitidos e puros, +que ella faz em notas tão agudas no rondó, é sufficientemente para +corroborar as grandes e vantajosas informações que a precederam; e o +publico foi justo com os applausos e chamadas no fim da opera._» + +Receio que os detractores da mimosa cantora venham com artigos de suspeição +ao _Nacional_, culpando-o de parcial e apaixonado, já no louvor, já na +censura, em juizos theatraes. Contra esses artigos redargúo estampando a +opinião do _Commercio do Porto_, o jornal mais serio do paiz: + +«_Abriu-se no sabbado com a opera o «Saltimbanco» de Paccini... Fizeram a +sua estreia n'esta opera a primeira dama Elisa Hensler, etc. A prima dona +Hensler foi applaudida e teve uma chamada no fim_.» (Commercio de 10 de +outubro). E no folhetim de 15 do mesmo mez, confirma n'estes termos: «_A +snr.^a Hensler é uma excellente cantora. A sua voz de soprano-agudo é de +sonoro timbre; e, ainda que de pouco volume, extensa, flexivel, melodiosa e +fresca. Possue, além d'estes dotes naturaes, outros não menos valiosos como +cantora: conhecimento do mechanismo do canto, perfeita entoação e +expressão. Revela a seu grande merito como cantatriz nos floreios, nas +escalas chromaticas, e especialmente nos trinados. Na passagem da 1.^a á +2.^a cavaletta do seu rondó final faz admirar os tres longos e bellos +trinados em_ sol, lá _e_ si _agudos. Na difficil cavaletta de sua cavatina +do 1.º acto são muito merecidos os applausos que tem colhido. No_ larghetto +e cantabile _do duetto do baritono e soprano do 3.º acto, não obstante a +agudissima_ tacitora _em que está escripto, não deixa a snr.^a Hensler nada +a desejar. A todas estas excellentes condições como artista e cantora reune +uma presença sympathica, qualidade esta de muito valor no theatro._» + +Já no _Nacional_ de 13 este parecer viera corroborado com estes gabos: «_E +a prima-dona Hensler? Não desmereceu em nada das primeiras impressões que +nos imprimiu._ + +«_É sempre a cantora mimosa e correcta._» + +O _Commercio_ de 29 de outubro classifica maviosamente a dôce cantora com +esta phrase: ... «_A prima-dona Hensler é o bijou da companhia._» + +Na noite de 6 de novembro cantou a snr.^a Hensler a parte de _Lucia_. O +_Nacional_ diz o seguinte: «_A snr.^a Hensler na aria do 3.º acto remiu-se +do fiasco do 2.º, e cantou com tal mimo e doçura que a platéa apesar de +gelada rompeu então em reiterados applausos._» (Nacional de 7 de novembro). +O _Commercio_, esquivando-se á ingrata e desmerecida palavra _fiasco_, +escreve: «_A sr.^a Hensler foi muito applaudida no_ rondó, _e os applausos +foram merecidos no_ andante, _que cantou lindamente, executando com +admiravel justeza_ a cadencia _em unisono com a flauta... Na cavaletta não +foi tão irreprehensivel a execução._» Está de accordo com o _Nacional_ de 8 +de novembro: «_A snr.^a Hensler continua a ser applaudida no_ rondó _do 3.º +acto, onde a bella cantora revela muito talento. Se a sua voz fosse tão +volumosa como é suave, seria uma artista de infinito merecimento._» + +A 12 de novembro principiam os jornaes a gemer sobre a gaveta do snr. +Laneuville, empresario que se dissolvia, com quanto fosse insoluvel. Sem +embargo, a snr.^a Hensler, na confirmação dos dous citados jornaes, +excedia-se no mimo do canto. Dir-se-hia que attentava em captar com as +harmonias dulcissimas da sua voz o archanjo torvo da miseria que espreitava +o empresario por entre as bambolinas de cartão esgarçado. + +Alguns amadores, que previam o desastre da empresa nas cadeiras vasias da +platéa, fermentaram a occultas dous bandos que, mais ou menos +ficticiamente, se apaixonassem pelas duas damas. É o que se deprehende das +revelações do _Commercio_ de 5 de novembro que reza assim:... «_No pessoal +da companhia não ha nada que desafie enthusiamo e dê vida animada ao +theatro, apesar dos esforços que alguns poucos frequentadores do theatro, +dos mais desenfadados, empenham para crear partido ás duas damas._ + +«_Houve já episodios curiosos; porém nem as damas, nem os seus admiradores +conseguem fazer móça no indifferentismo do publico, que reconhece +superioridade relativa na dama Hensler; mas não vê ainda assim motivo +justificado para se enthusiasmar._» + +Com a sua usual discrição, omittiu o _Commercio_ os _episodios curiosos_. +Bem é de vêr que o amor, ideal da arte das fusas e semifusas, não seria +estranho aos sonegados episodios. A radiosa belleza da cantora sem duvida +attrahia umas borboletas, que então douravam o seu polen sob as fulgurações +do lustre; todavia, como a dignidade da artista se esquivasse ás intrigas +de bastidor que, ás vezes, galvanisam os empresarios oxydados, a empresa +falliu. + +Decorreram uns quinze dias angustiados para a companhia desvalida. Hermann, +aquelle prestigiador cavalheiroso que morreu ha dous annos, estava então no +Porto. Foi elle o generoso valedor dos artistas e ainda do empresario. A +companhia, em fim de dezembro, estava dispersa, não deixando um vestigio de +fragilidade no seu rasto de pobreza. + +Em 21 de dezembro d'aquelle anno, uma local do _Commercio_ dizia: «_O vapor +Lusitania sahido hontem pelas 12 horas da manhã conduziu 118 passageiros, +entre os quaes: Elisa F. Hensler_, etc.» + +Entrou, pois, na manhã do dia 21 em Lisboa a cantora. Devia levar na alma +os lutos da natural vaidade ferida pela indifferença gelida d'uns +pisa-verdes que honraram grandemente a mulher, menosprezando a artista. Dos +frementes applausos, que a victoriaram quando assomou deslumbrante no +palco, ao fastio com que as filas dos seus admiradores rarearam, vai a +distancia que medeia entre a mulher honesta e a que permitte que lhe abram +saldo de contas em que os applausos representam uma verba. + +Eu não sei se Hensler, a cantora, escripturada pela empresa de S. Carlos, +ao encarar a princeza do Tejo, que devia vestir de negro n'aquelle dia de +dezembro, sentiu pavores da sua futura sorte, em theatro de jerarchia tão +elevada para suas forças. Não sei porque frontarias de palacios lhe avoejou +a vista absorta nas tristezas de quem ia sósinha, forasteira, sem o genio +grande que estua no peito as palpitações do triumpho. Não sei; mas, se +encarou lá em cima os palacios dos dous reis--com que olhos a esposa do +snr. rei D. Fernando avistará hoje o Tejo, por onde entrára n'aquella manhã +pardacenta de nebrina carrancuda de agouros esquerdos! Se ella então +preveria um marido rei nas Necessidades, um enteado rei na Ajuda, e toda +aquella Lisboa, e todo este reino, e nós todos ás suas plantas, nós todos, +os bons subditos do rei que é marido, e do rei que é enteado, e d'ella, que +vale mais que todos, por que, offuscando-os com a aureola da arte, +estrellada das seducções da belleza, nos revelou que os reis deslumbrados +eram apenas homens! + + + + +OS SALÕES + + +CAPITULO II + +PLEBISCITUM + + + Homem plebeu. _Homo plebeius._ Nos antigos romanos havia tres + ordens. A ordem senatoria, equestre e plebea. A ordem plebea val o + mesmo que a gente do povo. + + _Plebiscitum._ Termo da antiga jurisprudencia romana. Deriva-se do + latim: _plebs_, plebe, e _sciscere_, que val o mesmo que + _assentar_, _ordenar_, _determinar_. E assim _plebiscito_ era o + decreto, ou lei posta pelo povo, sem o suffragio dos senadores, mas + só ao pedir do tribuno, magistrado do povo. _Plebiscitum._ + + D. RAPHAEL BLUTEAU. + + La conscience peut être géante, cela fait Socrate et Jésus: elle + peut être naine, cela fait Atrée et Judas. + + La conscience petite est vite reptile... + + Les catastrophes ont une sombre façon d'arranger les choses. + + VICTOR HUGO. + + +A luz não se exprime. Não tem definição. Como a não tem o calor, o +magnetismo, a electricidade, e a vida. + +A luz é o agente ou a acção, que nos adverte a distancia da presença dos +corpos luminosos pelo intermedio da vista. + +Vejamos. + +A luz propaga-se em linha recta nos meios homogeneos. Obrigada a parar, no +seu caminho, pelo encontro d'um corpo opaco--produz os phenomenos da sombra +e da penumbra. + +No mundo moral são a sombra e a penumbra as reacções da sciencia, da arte, +da civilisação e do progresso. + +Analysemos as penumbras. + +Entremos nas sombras. + +Desçamos ás trevas. + +Fóra da vida physica são as trevas a ignorancia, e esta produz o silencio. +Ora, o silencio é a paz dos sepulchros. Por que não deveria eu consultar a +plebe? + +Ha por ahi, nas ultimas camadas sociaes, perdidas, nas solidões da miseria, +almas tão nobres, aspirações tão vastas, crenças tão vivas... + +Por que não iria eu consultar os generosos sentimentos populares? + +E fui. + +Entrei n'um tugurio qualquer.--Que lhe importa o leitor qual foi? Havia uma +mesa de pinho, duas cadeiras, e um catre. Era toda a mobilia. Mas, no meio +d'esta hedionda miseria, existia um homem, feito á imagem de Deus; _et +creavit Deus hominem ad imaginem suam._ + +Era um veterano da liberdade. Desembarcára no Mindello. Tinha, na cabeceira +do leito, pregada no travesseiro a insignia da Torre e Espada, ganha em +Souto Redondo, em lutas titanicas, e em nome da liberdade. + +Não desenho o soldado, ainda hoje operario. Basta-nos ouvil-o. + +Li-lhe o manuscripto. + +Ficou pensativo, e triste. Encostou os cotovelos sobre a mesa, afagou o +craneo, como se lhe tumultuassem tantas idéas lá dentro, que não podiam +irromper d'aquella abobada de fogo, e depois, em voz baixa, como se +receasse ser ouvido, começou assim: + +--Publique tudo isso. + +A abstenção politica é mais do que a morte: é a indifferença pelos males +sociaes, é a historia d'este torpe individualismo, que nos corrompe, é a +gangrena moral d'esta sociedade em dissolução, é a anasarca symptomatica da +lesão organica que despedaça a nossa existencia, é o maior de todos os +crimes, por que é uma tranquillidade ficticia, comprada á custa dos legados +que nós iamos enthesourando para as gerações futuras. + +A democracia agonisa, no seculo dezenove, quando desabrochava, e se abria +em flôr, na arvore, que nós todos plantamos, regada com o sangue precioso +de tantos martyres, em nome dos que deviam colher e adorar no futuro, o +fructo dos nossos trabalhos. + +O velho operario, o antigo soldado do cêrco do Porto meditou por alguns +instantes, e continuou: + +--A historia vai esculpida em chronicas de reis, e memorias d'aulicos. A +historia ha de escrevel-a um dia o povo, rasgando todas essas paginas +mentirosas e lisonjeiras das décadas fabulosas, sahidas das mãos dos +eunuchos d'estes harens do occidente. + +Esta paralysia social em que a geração presente cahiu, esta hesitação +absurda e repugnante nos annaes da nossa vida actual tem uma explicação +irrespondivel: o mundo espera uma crença viva para se alentar na sua +marcha--para respirar, e viver. D'onde virá a fé? + +Habitantes d'uma peninsula á mercê de tantas invasões, raças tão diversas +teem pisado este solo, que difficil, senão impossivel, será buscar-lhes a +genealogia. Iberos, celtas, tyrios, phenicios, carthaginezes, numidas, +berbéres, romanos, godos, alanos, suevos, mussulmanos, e varias hordas de +gascões, e borgonhezes, afóra aragonezes, asturianos, e gallegos sulcaram +este solo sagrado. + +Onde estão os lusitanos?--Onde corre esse sangue mosarabe com que a +historia enche a vastidão das nossas campinas, e povôa a crista das nossas +montanhas?--Nas trevas das invasões perdem-se os vestigios, e em presença +dos aventureiros, que acompanhavam Henrique de Borgonha, apparece uma raça +energica, robusta, e corajosa, que põe em derrota a meia lua dos sectarios +do Islam, e obriga a dynastia affonsina a conceder-lhe cartas de foraes, +que são os pergaminhos e armarias d'esta nobilissima raça hispanica. + +E o velho soldado do cêrco do Porto curvou a cabeça, e meditou. + +Depois disse: + +--Quem são, então, os duques e condes que acompanhavam o aventureiro, e +bastardo real? Quem são os mercenarios, que se aformoseavam com as alcunhas +ephemeras, e irrisorias dos cargos nobiliarchicos da côrte byzantina, +quando estes titulos valiam, outr'ora, pela significação do mando, do +poderio e da jurisdicção? + +Á face da nobre raça hispanica--raça que somos nós--eram elles o enxurro, e +a vadiagem das côrtes em que nasceram. + +Nós eramos o povo, éramos a raça, éramos a tradição. + +Quem tomou Lisboa aos mouros? Quem levou os arabes e berbéres de vencida +até ás costas do occidente? Quem povoou a patria, quando as quinas se +desfraldaram em Ourique? Quem coroou D. João I, esmagando as traições de +Castella? Quem promoveu a restauração de 1640, e lutou pela independencia +da patria? + +Foi o povo. + +Deixemos Aljubarrota ao condestavel. + +Deixemos a restauração aos quarenta conjurados do palacio do conde de +Almada. Que poderiam elles sem nós? O zelo, a coragem, o esforço, e o amor +da patria só nos cabem a nós.--Vencemos sempre, porque eramos o povo. + +Batemos com os contos das nossas lanças ás portas de Ceuta, de Tanger, e +d'Arzilla, e os bastiões africanos cediam aos nossos esforços. Aportamos em +Calecut, Cochim, Gôa, Malaca e Ormuz--e o Oriente dobrou-se á nossa +vontade. Que importa, que os cabos de guerra tenham os louros das +victorias, e das conquistas? A gloria é nossa. Fomos o instrumento +civilisador, o soldado que morre pela patria, o portuguez, que cahe +alanceado junto do seu pendão. + +Para o condestavel, para Vasco da Gama, para Affonso d'Albuquerque, para D. +João de Castro, para D. Francisco d'Almeida ha a chronica, ha o livro, ha +as tenças, ha a narração dos feitos esforçados e valerosos, ha as +recompensas da munificencia regia, e os brazões, que são a commemoração +d'esses feitos, esculpidos nos portaes dos seus nobres solares. + +Para o homem do povo, que pelejou ao lado dos mais corajosos, que batalhou +onde havia mais perigo, que abandonou mãi, mulher e filhos,--para esse, ha +a valla de finados, triste, e obscura--e a chronica emmudece, porque não é +para peões, e villanagem, que foi creada a historia dos reis, e a Torre do +Tombo, onde se guardam, e archivam seus feitos e memorias. + +Para o povo ha o silencio. + +Quando d'elle falla a historia, alcunha-o de sedicioso, barbaro e +turbulento. + +Para o povo ha o esquecimento. + +A humanidade é uma idéa abstracta, que vive para a historia, nos vaidosos +triumphos dos Alexandres, dos Cesares e dos Pompeus. + +Quando um homem do povo cahe mutilado, pela arma homicida dos poderosos do +dia, chama-se Socrates, chama-se Spartacus, chama-se Gracho, chama-se +Galileu, chama-se Danton, chama-se Vergniaud, chama-se Armand Carrel, +chama-se Gomes Freire, chama-se _legião_. Mas a historia atravessa estes +periodos symbolicos da vida das nações sem commemorar estes nomes? + +Para que?--Levantou já alguem o estigma que pesa sobre Catilina? + +A historia divinisou Cesar, e applaudiu Cicero. + +Rasgaram já os crépes que envolvem o busto de Robespierre, e a fronte de +Saint-Just? + +A França reclamou Bonaparte, e mais tarde victoriou o cossaco, que dos +estepes da Russia vinha impôr leis e dynastias ao capitolio da raça latina. + +E nós?--Aqui o veterano fez uma pausa. Levantou a fronte como se sentira o +clarim das batalhas, e continuou em voz sumida e cavernosa: + +--A nós deram-nos uma carta constitucional, que é como um foral--para não +dizer carta d'alforria--a nós deram-nos uma mentira, escripta com o sangue +do povo, no sólo sagrado da patria. + +E o veterano calou-se. + +Depois como despertado pelo ruido dos combates, como se aquella alma +aspirasse a novas lutas, para sustentar os principios por que pelejára, +ergueu-se do catre onde estava sentado, e rumorejou: E fallaes-nos de +patria! patria aonde, e patria com quem? No Rocio em treze de março?--em +Torres Vedras em 1846?--no Porto em 1851?--A patria é o sólo sagrado onde +jazem as ossadas dos nossos avós. A patria é o local onde assenta o nosso +lar domestico, onde vivem as nossas familias, onde está cravado o pendão +dos nossos direitos. A patria é nossa por que derramamos o nosso sangue por +ella. + +Em seguida curvou-se para mim, que estava sentado no fundo d'este triste e +miseravel quarto, e disse-me em phrases breves: + +--Faça-me só um favor. É o unico que lhe peço. Como prologo d'esse +manuscripto, publique este papel. É a meditação das minhas noites de +insomnia. É o symbolo das minhas crenças. É o credo da minha religião +politica. Morrerei contente. + +Começa por este prologo o manuscripto do desembargador. + + VISCONDE DE OUGUELLA. + + + + +O DECEPADO + + +Duarte de Almeida, o alferes de Affonso V, conheço-o desde a minha +infancia, por m'o apresentar em verso o meu finado amigo Ignacio Pizarro. + +Chorei por Duarte de Almeida, como se elle fosse meu avô, quando o infeliz, +na volta de Toro, onde os castelhanos lhe deceparam as mãos, se lastimava +assim pela bocca do poeta do _Romanceiro portuguez_: + + Nem a espada, nem a lança + Posso nas mãos empunhar!... + Ai de mim! triste lembrança!... + Nem bandeira tremolar!... + Nem bordão de peregrino + Póde meu corpo arrimar! + Nem o meu pranto contino + Tenho mãos para limpar!... + Luiza! já me esqueceste?... + Talvez tu ora suspires + Por outro... se tal fizeste... + Coração! ah! não delires... + Morto já, tu me julgaste, + E se agora assim me viras, + D'aquelle a quem tanto amaste + Talvez agora fugiras. + Talvez nobre cavalleiro + Póde alcançar tua mão... + Queira o céo morra eu primeiro, + Não saiba a tua traição. + Que eu antes quero da morte + Ter gelado o coração, + Do que vir amor tão forte + Ter em premio a ingratidão. + +Com estas e outras piedosas queixas ia o namorado alferes caminho do +castello de Aguiar, onde vivia a castellã Luiza. + +O leitor já me está dizendo que sabe o entrecho do romance de Pizarro: que +a donosa castellã, julgando morto o seu amado, lhe fizera cantar os +responsos em sumptuosos funeraes: que o cavalleiro, a deshoras, se +annunciára na barbacã do castello; e, admittido á capella, encontrou Luiza +a vestir o habito de monja: que o decepado, apertando-a ao peito, lhe fez +vêr que estava vivo, e que ella, allegando o voto que fizera de professar, +cahiu de encontro á eça, e morreu. + +Termina o trovador: + + Seu amante desditoso, + Mais desgraçado, viveu; + Mas o seu fim lastimoso + Nunca ninguem conheceu. + +Bastantes annos--e que ditosos annos!--andei enganado pelo meu amigo +Pizarro. Fui tres vezes ao castello do Pontido. Creio que já disse, não me +lembra aonde, que encontrei entre as urzes da matta subjacente ao castello +um espigão de espora sem rosêta, e suspeitei que ella houvesse sido do +infausto amador da castellã. Figurou-se-me, ao cahir da noite, vêl-a no +gothico balcão, voltada para os serros fronteiros, suspirar no alaude: + + Adeus, serra do Mizio! + Adeus, val de Villa Pouca! + Adeus, castello sombrio! + Minha voz ouvi já rouca! + +Estas impressões da primeira mocidade revivem quando a razão as impugna ao +sentimento. De envolta com as minhas indagações historicas na triste sorte +da princeza D. Joanna, chamada a _excellente senhora_, o vulto que mais me +preoccupava era o alferes da bandeira, Duarte de Almeida, o heroe, o amante +da castellã, o decepado cujo + + ..........fim lastimoso + Nunca ninguem conheceu. + +Quanto ao seu fim, citava Pizarro um trecho de Duarte Nunes de Leão +(_Chronica de Affonso V_) muitissimo desconsolador. Alli se diz que o +bravo, depois de tamanha proeza, vivera mais pobre que d'antes. Este +opprobrio nacional confirma-o modernamente o snr. Pinheiro Chagas, com +estas phrases austeras: «O cavalleiro heroico sobreviveu ás suas feridas, e +voltou a Portugal onde foi sempre conhecido pelo glorioso nome do +_Decepado_. Mas, ó vergonha! o homem que assim tão briosamente se portára, +morreu na miseria, porque nenhuma recompensa lhe foi dada, e porque nem se +quer podia ganhar a vida pelo seu trabalho, logo que o haviam +impossibilitado de trabalhar as suas tristes mutilações[5].» + +Por honra da patria e da humanidade, apresso-me a declarar que é menos +exacto o que Duarte Nunes diz e o snr. Pinheiro Chagas encarece. Logo me +justificarei com documentos. + +Pelo que respeita ao romance de Pizarro, tão sómente dous elementos de +verdade historica podemos aceitar-lhe: a existencia do alferes e a do +castello de Aguiar. E o certo é que ao meu intelligente amigo não corria o +dever de maiores exactidões. + +Primeiramente direi do castello. + +Lá está, e já lá estava assim, pouco mais ou menos, antes da fundação da +monarchia portugueza. Quem o possuia ou governava, no tempo em que D. +Affonso Henriques pleiteava nos arraiaes com sua mãi e com o imperador D. +Affonso, era o rico-homem D. Gonçalo de Sousa, genro de Egas Moniz, e +senhor da terra de Sousa. Traslada no tom. III da _Monarchia Lusitana_ +(pag. 112), fr. Antonio Brandão da _Vida de Santa Senhorinha_, codice +áquelle tempo inedito, uma passagem que faz ao nosso intento[6]. + +Reza assim, melhorado na orthographia: + + +_«Digo-vos que estando folgando em sua terra um principe nobre e cavalleiro +d'este reino, o qual era mui privado d'el-rei D. Affonso, e havia nome D. +Gonçalo de Sousa, mui poderoso, e todo conselho d'el-rei estava em elle; +estando, como disse, folgando, chegaram a elle mensageiros dizendo que os +inimigos lhe corriam a terra, e que lhe tinham cercado o castello d'Aguiar; +o qual logo chamou suas gentes que pôde haver, e foi-se para haver de +descercar o dito castello. E chegando aonde jaz o corpo d'esta santa lhe +fez reverencia, e oração não lhe lembrou; e indo ainda em vista da igreja +metade de um campo, esteve pegada a mula, em que ia o cavalleiro, a qual +elle com esporas e pancadas não podia abalar, mas antes a mula quedava mais +rija e pero se desceu d'ella e a não podia abalar; e, vendo elle isto, +lembrou-lhe como passára pela igreja da santa sem lhe pedir benção, e +mercê, e sem fazer oração, e por isso lhe detinha a mula; e, soffreando a +mula para traz para se tornar á igreja, a mula logo tornou, e o cavalleiro +fez sua oração encommendando-se á santa, e des i fez seu caminho, e com +suas companhas descercou seu castello, e correu depois os inimigos, e +tornou a sua casa com victoria_, etc.» + + +O chronista Brandão, por mal informado, escreve que o castello de Aguiar da +Pena se avista com as montanhas de Barroso. Estas montanhas distam seis +leguas do castello, e entre ellas e o valle em que negreja a fortaleza +gothica estão os cabeços da serra de Alfarella, e no horisonte mais elevado +alveja villa Pouca de Aguiar. Acrescenta que o castello «é crespo de +torres, baluartes e cubellos, e está fundado sobre a corôa de uma penha +talhada de uma parte por natureza, que parece obra feita á mão,» etc. + +Póde ser que no seculo XVII, quando Brandão escrevia, permanecessem ainda +as torres e baluartes. O que ha vinte annos parecia ter robustez para +seculos eram quatro alterosas quadrellas de alvenaria ameiadas com seus +adarves, bastiões, e janellas gothicas sem lavores. + +Recordo-me ter lido na _Nova historia de Malta_ de José Anastacio de +Figueiredo que o castello no seculo XIII pertencia á ordem hospitalaria de +S. João de Jerusalem, e cita um aviso que obriga os lavradores +circumvisinhos a carregarem pedra para reparos. + +E não sei mais nada quanto ao solar da phantastica Luiza. + +Agora vamos em cata do _Decepado_, depois que voltou de Castella. +Encontramol-o na sua casa acastellada no seculo XII, que teve o nome de +castello de Villarigas, no couto do Banho, hoje concelho de S. Pedro do +Sul. + +É elle o herdeiro de seu pai Pedro Lourenço de Almeida. Afóra aquelle +castello, tem outro na quinta chamada da Cavallaria, honrada por el-rei D. +Fernando em 1419, e onde os linhagistas enraizam o tronco dos Almeidas. + +Quando alli chegou, esperavam-o a esposa e dous filhos. + +A esposa chamava-se D. Maria de Azevedo, filha do senhor da Louzã Rodrigo +Affonso Valente e de D. Leonor d'Azevedo, que herdára grandes haveres de +sua tia D. Ignez Gomes de Avellar. + +Os filhos do _Decepado_ chamaram-se Affonso Lopes, e Ruy Lopes de Almeida. +Affonso, o successor das honras e coutos de Villarigas e Cavallaria, casou +com D. Leonor Vaz Castello Branco, filha de João Vaz Cardoso, aio do conde +de Barcellos. + +O filho segundo, Ruy, foi para Castella, como veador da princeza D. Joanna, +filha de D. Duarte, e mulher de Henrique IV. + +Esta geração de fidalgos continuou honrada e rica até á duodecima neta de +Duarte de Almeida, a snr.^a D. Eugenia de Almeida de Aguilar Monroy da Gama +Mello Azambuja e Menezes que em 15 de setembro de 1834 casou com o snr. +Fernando Telles da Silva, marquez de Penalva, de quem teve dous filhos, +Luiz, que, nascendo em 1837, morreu ha poucos annos, e D. Henriqueta de +Almeida, que nasceu em 1838, e vive solteira. Do snr. Luiz Telles, que foi +casado com a snr.^a D. Maria Francisca Brandão, sua prima, existe uma +filha, que é já senhora. + +Quanto á pobreza _e miseria em que morreu_ Duarte de Almeida, o snr. +Pinheiro Chagas foi illudido por Duarte Nunes e Faria e Sousa, que na +verdade o authorisaram a deplorar tão sentidamente a sorte do alferes de +Affonso V. + +Duarte de Almeida succedera a D. Duarte de Menezes no posto nobilissimo de +alferes-mór da bandeira. Militando nas guerras de Africa, salvou o pendão +real das presas da mourisma, quando Affonso V deu batalha na serra de +Benacofuf. (Faria e Sousa, _Africa_, cap. 6, §. 7.º) + +E tanto o rei não foi ingrato aos serviços do seu valente alferes, que, +estando em Samora, em 1475, no anno anterior ao da batalha de Toro, ainda +antes do heroico feito, lhe fez mercê pelos seus grandes serviços, para +elle e seus filhos, de um reguengo no concelho de Lafões, cuja carta de +mercê póde lêr-se na Torre do Tombo no _Livro que serviu na chancellaria de +D. Affonso V_, folha 17, e começa: _A quantos esta minha carta virem faço +saber que pelos muitos serviços que Duarte de Almeida, fidalgo de minha +casa, e meu alferes-mór me tem feito assim n'estes reinos de Castella como +de Portugal e em Africa, onde sempre me serviu muito bem e lealmente_, etc. + +O rei, que tanto o apreciára e galardoára, sabido é que foi para França +solicitar debalde a alliança do velhaco de Luiz XI. Voltou a Portugal, onde +viveu ainda cinco tristissimos annos, forçado a divorciar-se da esposa, +desestimado do filho, e desvenerado dos vassallos. Não era, pois, tempo +proprio aquelle para premiar heroismos batalha, cuja perda dissimulada em +victoria, enlutára o brio e o coração de Affonso V. + +O decepado, por sua parte, lá tragava o fel dos seus derradeiros annos na +abastança dos bens que, certo, lhe não mitigavam as angustias da mutilação; +mas em pobreza e miseria não consintamos sequer á poesia que nol-o figure. + +Se D. João II não augmentou em coutos, honras e senhorios a casa do alferes +de seu pai, não o arguamos por isso, sem haver a certeza de que Duarte de +Almeida sobrevivesse ao Africano. Na batalha do Toro já devia ir no inverno +da vida quem vinte annos antes desfraldára o pendão real em Alcacer-Ceguer, +e quem já tinha um filho, que acompanhára como veador a Castella a mãi da +princeza D. Joanna por amor de quem andava accesa a guerra. Afóra isso, é +de crêr que Duarte de Almeida assistisse ao desastre de Alfarrobeira em +1449, e não fosse dos menos carniceiros na mortandade do duque de Coimbra e +dos seus leaes amigos. Ora, transluz da historia que D. João II odiára +todos os fidalgos que, de parçaria com o duque de Bragança, malsinaram de +traidor o infante D. Pedro. Ajuda estas suspeitas ser o primogenito de +Duarte de Almeida casado com a filha de um que fôra aio do conde da +Barcellos, antes de ser duque de Bragança. + +Já, porém, o successor de D. João II galardoou o neto do decepado, +dando-lhe o senhorio da villa do Banho, a provedoria das caldas de Lafões, +e lhe confirmou o privilegio e couto da quinta da Cavallaria. + +Em remate de tão derramadas provas, quero deixar bem assente que Duarte de +Almeida, o meu tão chorado heroe do sentimentalismo da infancia, não morreu +pobre, nem acabou na miseria do homem que, á mingua de mãos, não póde +trabalhar. + +Por fim, não sahirei do paço senhorial da Cavallaria sem consolar o leitor +pio e mais lido em cousas do céo que em nobiliarios, que n'aquella casa +nasceu o bemaventurado S. frei Gil, chamado de Santarem, e que Almeida +Garrett ajoujou com o dr. Fausto no poema _D. Branca_ e nas _Viagens_. + +Ainda hoje, n'aquella casa, perdura uma capella edificada na alcova onde +nasceu o sabio feiticeiro e pactuario do demonio. Observe-se que o conde D. +Pedro, no _Livro das Linhagens_, tit. 25, pag. 151, diz que Gil fôra +assassinado por Pedro Soares Galinato; mas o chronista-mór João Baptista +Lavanha desfaz o erro,--o que eu muito estimo para que se não desluza a +substancia da bella prosa de fr. Luiz de Sousa, historiador do santo. + + [5] _Historia de Portugal_, tom. III, pag. 28. + + [6] O codice está integralmente impresso nas _Memorias resuscitadas da + antiga Guimarães_, pelo padre Torquato Peixoto de Azevedo, em 1692, + pag. 444-476. Sirvo-me d'esta copia, corrigindo os erros do traslado de + Brandão. + + + + +CARIDADE BARATA E ELEGANTE + + +O advogado Sampaio Efrin morreu, ha cinco annos, em Lisboa, e deixou dous +filhos illegitimos, que já não tinham mãi. + +Amára-os extremadamente. As duas crianças excruciaram-lhe a agonia; mas +expirára com a certeza de que seus filhos, e herdeiros de parte de seus +haveres, não balbuciariam, em horas de fome, o nome de seu pai. + +Mas a justiça desherdou os orphãos, e deu o espolio do advogado á sua +viuva. + +O menino alimentou-se cinco annos da caridade de uma criada de seu pai. + +E, quando tinha seis, appareceu livido e pobremente vestido a pedir esmola +no tribunal da Boa-Hora--alli, onde seu pai triumphára nas lides da +eloquencia. + +A bemfeitora que, até áquelle dia lhe repartira do seu pão, quando sentia a +mão da morte sobre o seio, disse á criança que fosse ao tribunal e +mendigasse, lembrando-se que alli concorriam pessoas que tinham conhecido +seu pai. + +O snr. João Bernardino da Silva Borges viu o menino andrajoso, a tiritar, +com o espasmo da fome nos olhos--aquelle olhar espavorido da miseria--que +parece sagrada nas criancinhas--aquelle olhar torvo, expressão de assombro +do anjo a tremer sobre o cairel d'este inferno do mundo. + +O menino tinha uma carta na mão. O snr. Silva Borges leu a carta. Era a +supplica da moribunda a favor do desvalido filho de seu amo. + +E conduziu a criança, onde lhe dessem a esmola do jantar e da cama. + +Ao outro dia, o _Jornal da Noite_, publicando uma carta commovente do +protector do orphão, acompanhava a invocação á caridade de sentidas e +pungentes palavras. + +E, no dia immediato, o mesmo jornal exultava noticiando que o orphãosinho +estava amparado, no regaço da caridade abundante, nos braços de alguem que +ouvira o echo das divinas palavras de Jesus: «Deixai que as criancinhas se +aconcheguem de mim.» + +Volvidas duas semanas, á volta do menino, a caridade faz-se representar por +nove senhoras illustres, quanto cabe inferir dos appellidos. + +Nove anjos, as nove musas da inspiração santissima, nove corações a +desbordar de generosidade, dezoito mãos cheias de caricias e do superfluo +da sua riqueza, para afagar, alimentar e educar um menino a quem esta +setima primavera bafeja os primeiros risos de sua enfezadinha puericia. É +muito! + +Mas estas nove damas assumem cada qual sua nomenclatura: + +Uma, chama-se _presidenta_; + +Outra, _vice-presidenta_; + +Quatro, são _vogaes_; + +Uma, é _thesoureira_; + +E as outras, são _secretarias_. + +Mas que tem isto que vêr com o orphão? O congresso das senhoras, assim +qualificadas em categorias de banco, de junta de parochia, de empresa +aurificia, de companhia das aguas, organisou-se d'este feitio para dar uma +pensão de 300 reis diarios--o bastante--ao pequenino no collegio? + +Quer-me parecer dispensavel tamanho funccionalismo em operações tão +singelas! São nove senhoras abastadas que se fintam, quotisando-se cada uma +em 33 reis por dia, ou dez tostões por mez. É, na verdade, barato o +salvar-se um menino e fazel-o homem! Seis ou oito annos do pão e estudo +d'aquella creatura--que ss. exc.^as hão de enfiar com santa vaidade diante +da sepultura de seu pai--não póde custar a cada uma tanto como dous dos +seus vestidos medianamente guarnecidos. + +Então, qual vem a ser a missão das exc.^mas presidenta, vice, vogaes, +thesoureira, secretarias? + +Leitor, que estás a impar de ternura, e tens o rosto banhado de lagrimas de +consolação, saberás que as referidas nove senhoras--que tu já conheces dos +lautos bailes, e das _toilettes_ esplendidas--congregaram-se agora _para +promover um beneficio ao orphão no theatro de D. Maria_. + +Ahi está o que é. Ainda agora é que estas dadivosas senhoras vão sondar a +magnanimidade publica; vão dar uns toques de elegante apparato á caridade, +e ao mesmo tempo convidar-vos a pôr hombros áquella ponderosa empresa de +agasalhar uma criancinha que se alimenta com um pouco de amor e algumas +migalhas sacudidas das cêas opiparas. A caridade de Lisboa! A caridade do +espalhafato! Aqui, no Porto, o orphão, a esta hora, estaria agasalhado, sem +que a imprensa conhecesse o nome do bemfeitor. + +E a imprensa de Lisboa exalça encarecidamente a exuberante bizarria das +senhoras que promovem nos corações alheios o sentimento da esmola. Peço +licença para tambem me accender em admiração de tamanho arrojo, e +perguntar, por esta occasião, aos jornalistas se, no seu cadoz de phrases, +ficou alguma com que se louve aquella criada pobresinha que sustentou o +menino cinco annos, e o largou do seu seio quando o coração se lhe afogou +nas ultimas lagrimas. + + + + +PROFUNDA REFORMA NOS COSTUMES DA VIA-FERREA PORTUGUEZA + + +Quando Portugal emergia das trevas da meia-idade, em 1873, e a via-ferrea +de Portugal era roupa de francezes, o scintillante escriptor Ramalho +Ortigão enviou aos snrs. _François et Ladame_ (cumpre não aceitar a +traducção de Bordalo Pinheiro--_Francisco e a mulher_) uns urbanos +queixumes ácerca da bruta ladroeira que os funccionarios da via-ferrea +perpretaram em parte das batatas de um sacco enviado desde o Minho ao +percuciente critico. Ortigão, cujo agudo espirito argúe abstinencia de +alimentação farinacea, conclue a sua epistola, modêlo de graça +portugueza--que é a graça de todo o mundo--offerecendo aos directores da +via-ferrea todas as futuras e porvindouras batatas, visto que ss. s.^as, +cedendo-lhe algumas, soffriam tal qual desfalque. + +N'esse tempo, estava eu em Lisboa a vasquejar nos demorados paroxismos da +anemia, resultante de dyspepsia, complicada com hepatite, e prodhromos de +encephalite, e symptomas de curvatura de espinha, e esgotamento de fluido +nervoso, afóra a espinhela cahida. + +Escrevi, n'esta concurrencia pathologica, a um amigo meu, residente no +Porto, que me comprasse alli doze garrafas do mais antigo e secco vinho que +se lhe deparasse em garrafeira particular. Quando conclui a carta, cuidei +que expirava, por que tinha consumido em quatro idéas sem estylo o oxygeneo +e acido carbonico de que podia dispôr. + +D'ahi a dias, o meu amigo enviou-me o titulo de recepção de doze garrafas +de vinho, compradas por 12 libras, e enviadas pela «grande velocidade», +cuidando elle que os ladrões não as apanhariam na carreira. + +Como se as doze garrafas se me figurassem outras tantas botelhas de Leyde a +descarregarem electricidade sobre os meus grandes-sympathicos e regiões +limitrophes, saltei da cama, e fui receber o meu vinho--a minha salvação--a +Santa Apolonia. + +Recolhido o caixote á sege, e baixados os stores, debrucei as regiões do +meu olfacto sobre as fisgas da tampa do caixão, na esperança de aspirar +alguns atomos de tanino. + +Cheirou-me a azeite. Entendi que havia perversão na minha membrana +pituitaria, uma narizite, unica molestia que me faltava. + +Assim que entrei em casa e o caixão se abriu, não sei bem o que vi, nem +como perdi a consciencia dos dous _eus_. Sei que, volvidas horas, +recobrando o espirito, e querendo recordar as causas de tão comprido +lethargo, perguntei aos circumstantes, distillados em lagrimas, se eu tinha +lido algum livro de Theophilo. + +--Não, infeliz!--respondeu-me voz sincera--não foi tamanha a desgraça que +te fulminou; o que tu viste foi seis garrafas do teu vinho, que te custaram +seis libras, substituidas por seis garrafas vasias que tiveram azeite. + +A minha primeira idéa foi gritar á d'el-rei; lembrando-me, porém, que o rei +não governa, quiz chamar o cabo da rua; depois, passou-me pelo espirito +recorrer á camara «baixa» e ao patriarcha. E, por fim, chorei copiosamente, +e bebi dous tragos de uma das seis; e logo, á semelhança das nações +oppressas, que se levantam como um só homem, tambem eu me levantei sósinho; +e, clamando um rugido grande, pedi á Providencia das raças latinas que nos +désse um administrador dos caminhos de ferro, nascido e baptisado n'esta +terra dos Affonsos e dos Joões. + +Fui ouvido, e as cousas melhoraram consideravelmente. + +N'este anno de 1874, 2.º da Emancipação, tenho recebido reiteradas provas +da melindrosa cortezia que assiste ao funccionalismo do transporte da +via-ferrea portugueza. Se em 1871 não chorei mediante os prelos, hoje +lamento não ser um cytharista bastante lyrico para dignamente arpejar um +fado expresso do citado funccionalismo. + +Direi da cortezia com que alli são tratadas as minhas cousas. Tendo eu +recebido em Lisboa seis garrafões de aguardente das nossas colonias, +lacrados e cheios, enviei-os d'alli para o Porto cheios e lacrados. Ao cabo +de onze dias de jornada, os garrafões chegaram a minha casa... inteirinhos! +Se isto não é probidade, a virtude era aquillo que dizia Catão. Notei, +porém, uma insignificante cousa: os garrafões chegaram deslacrados, e +levavam pouco menos de metade do liquido; mas inteiros, perfeitos, sem +rachadella, nem esquirola de menos. + +Um d'estes dias, em dous caixões de vinho da Madeira, que me eram enviados +de Lisboa,--e foram retidos para despacho nas Devezas, posto que já em +Lisboa houvessem pago direitos--observei ainda mais refinada cortezia; +porque, apparecendo algumas garrafas quebradas, teve aquella honrada e +limpa gente o cuidado de lhes trasfegar o vinho a fim de que as outras se +não molhassem--de modo que chegaram enxutas. + +E fez mais: teve outro sim a bondade de tirar algumas garrafas para que as +outras chegassem mais desafogadas da pressão das visinhas! + +Eu não conheço maneira mais subtil de obrigar a gente a um reconhecimento +eterno, e a... acautelar o relogio. + + + + +FORMOSA E INFELIZ + + + A dita e a formosura, + Dizem patranhas antigas, + Que pelejaram um dia, + Sendo d'antes muito amigas. + + Muitos hão que é phantasia; + Eu que vi tempos e annos, + Nenhuma cousa duvido + Como ella é azo de damnos. + + BERNARDIM RIBEIRO. + + +São verdadeiras as trovas do poeta das _Saudades_. + +Aquella Maria da Penha que o leitor viu, ainda agora, carpida n'um soneto, +foi muito incensada por formosa antes da sua queda. Uns poetas a +embriagaram com o perfume da lisonja, em quanto ella se manteve honesta; +outros lhe depozeram alguns bagos de assafetida na ambula funeraria, quando +os seus creditos eram mortos e responsados no catafalco que a sociedade +levanta ás suas mesmas victimas. + +E já que eu trasladei o soneto, como epitaphio do seu tumulo no convento +onde se finou, trasladarei tambem uns versos que lhe deram alor e azas á +vaidade que a perdeu. + +Suspeito que o poeta d'estes cantares não fosse o fidalgo que a levou +arrebatada de entre um thalamo e um berço. Os poetas, por via de regra, +costumam enflorar os holocaustos sacrificados nas aras da prosa. Assim o +requer o equilibrio do cosmos. Á poesia--a lyra que insinua no coração da +mulher as phantasias com que mais se alinda e encarece; á prosa--as +delicias d'essas bellas cousas, o dominio das aves do paraiso, que os +poetas farejam, á laia de nebris que pairam a denuncial-as ao caçador +sagaz. + +A meu vêr, em quanto o marquez de Gouvêa mandava ajaezar os cavallos para a +funesta fuga, um dos muitos idolatras da formosissima Maria motejava uma +quadra e derivava d'ella a glosa tão presada n'aquelles tempos: + + + + A D. MARIA DA PENHA DE FRANÇA + + MOTE + + Abre-te, _penha_ constante, + serás minha sepultura; + e, se os meus ais te não movem, + digo-te, penha, que és dura, + + GLOSA + + _Penha_, já sei que és tão dura, + porque dous soes te geraram; + seus raios te despojaram + das reliquias da ternura: + Porém, se a corrente pura + de meus olhos incessante + abrandar um diamante; + a meu pranto sucessivo, + quebra-te, marmore vivo, + abre-te, penha constante. + + Até nas mais duras _penhas_, + lavrador o tempo sendo, + as aguas, que vão correndo, + fazem regos, abrem brenhas. + Não receies tu que venhas + a perder por menos dura; + pois meu pranto o que procura + é desfazer-te em piedade; + e, se abrir concavidade, + serás minha sepultura. + + Lagrimas não te enternecem + antes te tornam mais dura; + roubou-lhe o preço a ventura + ou por minhas desmerecem. + Meus ais sentidos parecem + golpes, que pedras commovem; + mas como faiscas chovem + de ti, que farei, oh _penha_, + se o teu rigor mais se empenha + e se os meus ais te não movem? + + Teu nome a dizer se empenha + quem tu és por semelhança; + pois no garbo és toda _frança_, + na dureza és toda _penha_: + _Penha_ em que pienha tenha + essa rara formosura; + mas, se estatua ser procura + a meu suspiro incessante, + mais que o mais duro diamante, + digo-te, _penha_, que és dura. + + + + +ANTONIO SERRÃO DE CASTRO + + +As indagações de Diogo Barbosa Machado, ácerca do poeta Serrão, reduzem-se +a datar-lhe o nascimento. + +Á falta de outros subsidios, bastariam as poesias do travesso sujeito a +esclarecer-lhe a vida mysteriosa aos mais atilados investigadores. O maior +numero d'ellas está inedito. E o seu mais notavel poema, em tercetos, que +perfazem 2:090 versos octosyllabos, chama-se _Os ratos da inquisição_. + +No palacio da inquisição passou elle alguns annos de sua vida, que de certo +não foram os melhores. + +Pelos modos, era hebreu dos quatro costados; mas não adorava o bezerro, nem +se abstinha dos paios do Alemtejo. Em quanto o deixaram, viveu e medrou á +lei da natureza. Seguiu fervorosamente a religião do prazer, repartindo +alma e versos por judias, christãs e mouras, consoante lhe sahiam a talho +de fouce. Tanto afinava a lyra para cantar fidalgas como regateiras. Entre +estas, houve uma vendilhona de maçãs camoezas que não foi das menos amadas +e menos esquivas. Se os poetas modernos querem ajuizar do lyrismo plebeu +d'este seu bisavô, aqui teem uma das cançonetas dedicadas á saloia das +camoezas, e cantada pelos cytharedos d'aquelle tempo: + + Para a feira vai Luiza + Co seu balaio á cabeça + Todo enramado de louro + E cheio de camoezas. + + Leva saia de jilezia, + Tambem jubão branco leva, + Que serve o jubão de branco[7] + D'onde Amor atira as flechas. + + Sobre os dedos, pendurados + Leva seus punhos de renda, + Tão valentona caminha + Que treme o bairro de vêl-a. + + Lá no meio do Rocio + Levanta a voz mui serena + Como se aprendera solfa: + «Eu já tenho camoezas.» + + A voz tão divina e grave, + A voz tão de prata e bella, + Os galantes se alvorotam + E ferve a bulha na feira. + + Deixam todos as boninas + Só por ver esta açucena; + Em um momento, cercada + Se viu esta fortaleza. + + Os requebros que lhe dizem + São balas de feras peças: + Mas no muro de seu peito + Acham grande resistencia. + + Uns apreçavam a fruta, + Outros tiram da algibeira + Ás mancheias os tostões, + Aos alqueires as moedas. + + Mas Luiza, mui de espaço, + Levantando a voz tão bella, + De quando em quando repete: + «Eu já tenho camoezas.» + +Hoje em dia, por acerto haverá ahi poetastro a quem pareçam, sequer +toleraveis, estas linhas toadas, sem faisca de ideal, sem realismo, sem as +satanisações modernas; no entanto, o coração entende-se melhor n'aquelles +poetas que, em vez de se evolarem á poeira luminosa da via-lactea, andavam +alli pelo Rocio amoriscados de fruteiras de camoezas. + +Por causa d'estes amores innocentes e frescos, não foi Antonio Serrão de +Castro disputar aos ratos da inquisição a magra pitança da sua alcofa. O +leitor alguma vez ha de lêr os queixumes do hebreu, repassados de tanta +ironia, que a gente se admira que os graves monges de S. Domingos lhe não +acendrassem o engenho no fogo. + +Quando o poema satyrico se escoou das grades do carcere para a assembléa +dos catholicos, um poeta christão, no intuito de apressar o processo do +judeu, divulgou as seguintes decimas: + + Judeu de mau proceder, + Que, se em teus versos discorro, + Logo pareces cachorro, + No ladrar e no morder. + Ainda espero vêr-te arder, + Pois com tanta sem-razão + Murmuras da inquisição; + Porém, é força em teu erro, + Se te tratam como perro; + Que te vingues como cão. + + Dos ratos, d'esta maneira, + Te queixas e de seus tratos; + É mau queixar-te dos ratos, + Estando na ratoeira. + Tua allusão sorrateira + Saber o engenho procura, + E a rhetorica se apura + N'esta allusão que formaste, + Pois d'esta figura usaste, + Antes de fazer figura. + + Nescio, depois de judeu, + Quando o sambenito mamas, + Triste portuguez te chamas, + Sendo o mais astuto hebreu! + Quem te vira posto em breu + Ou partido de uma bala! + Ninguem comtigo se iguala, + Pois fazes, quando precito, + Sendo infame o sambenito, + D'esse sambenito gala. + + Se viveste descortez, + Com repetida torpeza, + Mais á lei da natureza + Do que na lei de Moysés, + Queixa-te só d'esta vez + De ti, mas não de outro trato; + Que eu sei que nunca do rato + Te queixarás, asneirão, + Se assim como foste cão, + Poderás tornar-te gato. + +Os ferventes desejos d'este catholico, assim rimados, chegaram ao ergastulo +do cantor dos ratos, e vibraram-lhe os nervos da espinha dorsal. Não lhe +pareceu caso novo e original queimarem-no. Embridou, por tanto, a musa da +galhofa, e cahiu em si. Começou de escrever poesias orthodoxas ao +nascimento do Menino-Deus, aos santos e santas mais em voga, ungindo tudo +de lagrimas de contrição que era uma piedade lêr-lhe os sonetos, os quaes, +ainda agora, li bastantemente commovido. O certo é que o vaticinio do bardo +christão foi desmentido pelo hebreu que sahiu absolto, e por ahi andou por +Lisboa até aos setenta e quatro annos, rindo de tudo com resalva das +conveniencias, e vivendo com as largas, que lhe davam os seus admiradores, +e acamaradado com os primeiros fidalgos. Nasceu em 1610 e morreu em 1684. + + [7] Alvo. + + + +FIM DO 4.º NUMERO + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem +não póde dormir. Nº4, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA, NO 4 *** + +***** This file should be named 25114-8.txt or 25114-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/5/1/1/25114/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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