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+The Project Gutenberg EBook of Ramo de Flores, by João de Deus
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Ramo de Flores
+ acompanhado de varias criticas das Flores do Campo
+
+Author: João de Deus
+
+Commentator: Alexandre da Conceição
+ Luciano Cordeiro
+ Guiomar D. Torrezão
+ António Cândido de Figueiredo
+
+Release Date: March 16, 2008 [EBook #24847]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RAMO DE FLORES ***
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+RAMO DE FLORES
+
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+
+
+RAMO DE FLORES
+
+POR
+
+JOÃO DE DEUS
+
+ * * * * *
+
+ACOMPANHADO DE VARIAS
+
+CRITICAS DAS FLORES DO CAMPO
+
+
+ * * * * *
+
+
+PORTO
+
+Typ. da Livraria Nacional
+
+2--Rua do Laranjal--22
+
+1869.
+
+
+
+
+RAMO DE FLORES
+
+
+I
+
+SÊDE DE AMOR
+
+
+ I
+
+ Vi-te uma vez e (novo
+ Extranho caso foi!)
+ Por entre tanto povo...
+ Tanta mulher... Suppõe
+
+ Que mãe estremecida
+ Via o seu filho andar
+ Sobre muralha erguida,
+ Onde o fizesse ir dar
+
+ Aquelle remoinho,
+ Aquella inquietação
+ D'um pobre innocentinho
+ Ainda sem razão!
+
+ E ora estendendo os braços...
+ Ora apertando as mãos...
+ Vendo-lhe o gesto, os passos,
+ Quantos esforços vãos,
+
+ O triste na cimalha
+ Faz por voltar atraz...
+ Sem vêr como lhe valha!
+ A vêr o que elle faz!
+
+ Pallida, exhausta, muda,
+ Os olhos uns tições,
+ Com que, a tremer, lhe estuda
+ As mesmas pulsações...
+
+ (Porque não é mais fundo
+ O mar no equador,
+ Nem é todo este mundo
+ Maior do que esse amor!
+
+ Mais vasto, largo e extenso
+ Todo esse céo tambem
+ Do que o amor immenso
+ D'um coração de mãe!)
+
+ Assim, n'essa agonia...
+ N'essa intima avidez...
+ É que entre os mais te eu ia
+ Seguindo d'essa vez!
+
+ Porque te adoro!... a ponto,
+ Que ainda hoje, crê!
+ Escuto e oiço e conto
+ Os grãos de arêa até,
+
+ Que tu, mulher! andando
+ Fazias estalar
+ Já mesmo longe e... quando
+ Deixei de te avistar!
+
+
+ II
+
+ Os olhos são
+ D'uma expressão!
+ Que linda bôca!
+ O pé nem toca,
+ De leve, o chão!
+
+ Aquelle pé
+ De leve até
+ Nem se elle sente!
+ E sente a gente
+ Não sei o que é...
+
+ E a graça, o ar,
+ D'aquelle a andar!
+ Que véla passa
+ Com tanta graça
+ Á flôr do mar!
+
+ Os olhos vêr
+ Um só volver
+ De olhar tão dôce,
+ Que mais não fosse...
+ Era morrer!
+
+ Os dentes sãos
+ E tão irmãos
+ E tão luzentes!
+ Que bellos dentes!
+ Que lindas mãos!
+
+
+ III
+
+ Estrella, nuvem, ave,
+ Perfume, aragem, flôr!
+ Consola-me! distilla,
+ Da languida pupilla,
+ O balsamo suave
+ De um desditoso amor!
+ Estrella, nuvem, ave,
+ Perfume, aragem, flôr!
+
+ A flôr, de que és imagem,
+ A flôr, de que és irmã,
+ Sacia-se, e desata
+ O seu collar de prata
+ Aos beijos da aragem,
+ Aos risos da manhã!...
+ A flôr, de que és imagem,
+ A flôr, de que és irmã!
+
+ A perola que encerra
+ A flôr, é sua? Não.
+ O pranto que a amima,
+ Cahiu-lhe lá de cima
+ Para cahir na terra,
+ Para cahir no chão!
+ A perola que encerra
+ A flôr, é sua? Não!
+
+ Tu já mataste a sêde,
+ Mata-me a sêde a mim!
+ Se em nuvem piedosa
+ Te refrescaste, rosa!
+ Tambem em ti eu hei de
+ Refrigerar-me!... sim!
+ Tu já mataste a sêde,
+ Mata-me a sêde a mim!
+
+ É para que me orvalhes
+ Que te orvalhou o céo!
+ O liquido que veio
+ Aljofarar-te o seio
+ Bem é tambem que o espalhes
+ No chão... o chão sou eu!
+ É para que me orvalhes,
+ Que te orvalhou o céo!
+
+
+
+
+II
+
+LAMENTO
+
+
+ Senhor! Senhor! que um ai nunca me ouviste
+ Na minha dôr!
+ Ai vida, vida minha, como és triste!...
+ Senhor! Senhor!
+
+ Quando eu nasci, o sol cobriu o rosto
+ Mal que eu o vi!
+ Tingiu-se o céo de sangue, e era sol-posto,
+ Quando eu nasci!
+
+ Pela manhã, a rosa era mais alva
+ Que a alva lã!
+ E o cravo desmaiou á estrella-d'alva,
+ Pela manhã!
+
+ Ao longe, o mar se ouviu, leão piedoso,
+ Um ai soltar!
+ Pelas praias, se ouviu gemer ancioso,
+ Ao longe, o mar!
+
+ Oh roixinol! a ti, nasce-te o dia
+ Ao pôr do sol!
+ Mostre-me a campa a luz que te alumia,
+ Oh roixinol!
+
+
+
+
+III
+
+ENLEVO
+
+
+ Não brilha o sol,
+ Nem póde a lua
+ Brilhar na sua
+ Presença d'ella!..
+ Nenhuma estrella
+ Brilha deante
+ Da minha amante,
+ Da minha amada!
+
+ A madrugada
+ Quanto não perde!
+ O campo verde
+ Quanto esmorece!
+ Quanto parece
+ A voz da ave
+ Menos suave
+ Que a sua falla!
+
+ A flôr exhala
+ Menos perfume
+ Do que é costume
+ O seu cabello!
+ Que basta vêl-o,
+ Prende-se a gente!
+ Prende-se e sente
+ Gosto ineffavel!
+
+ Que riso affavel
+ Aquelle riso!
+ Que paraíso
+ Aquella bôca!
+ Penetra, toca,
+ Enche de inveja
+ Um ar que seja
+ Da sua graça!
+
+ Onde ella passa,
+ Onde ella chega,
+ Quem lhe não prega
+ Olhos avaros!
+ Ha dotes raros,
+ Rara doçura
+ N'aquella pura
+ Casta existencia!
+
+ Oh! que innocencia
+ Que ella respira!
+ A alma aspira
+ Não sei que aroma
+ Mal nos assoma
+ Ao longe aquella
+ Pallida estrella,
+ Que rege o mundo!...
+
+ Nunca do fundo
+ Do oceano
+ Foi braço humano
+ Colher tão linda
+ Perola ainda,
+ Como a formosa
+ Candida rosa
+ Que eu amo tanto!
+
+ Não sei de santo
+ Que ha no seu gesto!
+ No ar modesto
+ D'aquelle todo...
+ N'aquelle modo...
+ Que tudo esquece,
+ E nos parece
+ Estar no céo!
+
+
+
+
+IV
+
+SEMPRE!
+
+
+ Pensas que te não vejo a ti? Bom era!
+ Gravei tão vivamente n'alma a dôce
+ E bella imagem tua, que eu quizera
+ Deixar de contemplar-te, só que fosse
+ Um momento, e não posso, não consigo!
+
+ Foges-me, escondes-te e que importa? Esculpes
+ Mais fundo ainda os indeleveis traços!
+ Realça-te o retrato! E não me culpes!
+ Culpa-te antes a ti!... Sigo-te os passos!...
+ Vejo-te sempre!... trago-te comigo!...
+
+
+
+
+V
+
+ESPERA!
+
+
+ Uivaria de amor a féra bruta
+ Que pela grenha te sentisse a mão!
+ E eu não sou féra, pomba! Espera! Escuta!
+ Eu tenho coração!
+
+ Não é mais preto o ébano que as tranças
+ Que adornam o teu collo seductor!
+ Ai não me fujas, pomba! que me canças!
+ Não fujas, meu amor!
+
+ A mim nasceu-me o sol, rompeu-me o dia
+ Da noite escura d'olhos taes, mulher!
+ Não me apagues a luz que me alumia
+ Senão quando eu morrer!
+
+ Eu não te peço a ti que as mãos de neve,
+ Os dedos afusados d'essas mãos,
+ Me toquem estas minhas nem de leve...
+ Seriam rogos vãos!
+
+ Não te peço que os labios nacarados
+ Me deixem esses dentes alvejar,
+ Trocando, n'um sorriso, os meus cuidados
+ Em extasis sem par!
+
+ Mas uivando de amor a bruta féra
+ Que pela grenha te sentisse a mão,
+ Eu não sou féra, pomba! escuta, espera!
+ Eu tenho coração!
+
+
+
+
+VI
+
+ADEUS
+
+
+ A ti, que em astros desenhei nos céos,
+ A ti, que em nuvens desenhei nos ares,
+ A ti, que em ondas desenhei nos mares,
+ A ti, bom anjo! o derradeiro adeus!
+
+ Parto! Se um dia (que é possivel flôr!)
+ Vires ao longe negrejar um vulto,
+ Sou eu que aos olhos d'esta gente occulto
+ O nosso immenso desgraçado amor.
+
+ Talvez as féras ao ouvir meus ais,
+ As brutas selvas, as montanhas brutas,
+ Concavas rochas, solitarias grutas,
+ Mais se condoam, se commovam mais!
+
+ E lá d'aquellas solidões se aqui
+ Chegar gemido que uma pedra estala,
+ Que um cedro vibra, que um carvalho abala,
+ Sou eu que o solto por amor de ti...
+
+ De ti! que em folha que varrer o ar,
+ Em rama, em sombra que bandeie a aragem,
+ De fito sempre n'essa cara imagem
+ Verei, sorrindo, sentirei passar!
+
+ De ti, que em astros desenhei nos céos!
+ De ti, que em nuvens desenhei nos ares!
+ De ti, que em ondas desenhei nos mares,
+ E a quem envio o derradeiro adeus!
+
+
+
+
+VII
+
+MELANCOLIA
+
+
+ Oh dôce luz! oh lua!
+ Que luz suave a tua,
+ E como se insinua
+ Em alma que fluctua
+ De engano em desengano!
+ Oh creação sublime!
+ A tua luz reprime
+ As tentações do crime,
+ E á dôr que nos opprime
+ Abres-lhe um oceano!
+
+ É esse céo um lago,
+ E tu, reflexo vago
+ D'um sol, como o que eu trago
+ No seio, onde o afago,
+ No seio, onde o aperto?
+ Oh luz orphã do dia!
+ Que mystica harmonia
+ Ha n'essa luz tão fria,
+ E a sombra que me guia
+ N'este areal deserto!
+
+ Embora as nuvens trajem
+ De dia outra roupagem,
+ O sol, de que és imagem,
+ Não tem essa linguagem
+ Que encanta, que namora!
+ Fita-te a gente, estuda,
+ (Sem mêdo que se illuda)
+ Essa linguagem muda...
+ O teu olhar ajuda...
+ E a gente sente e chora!
+
+ Ah! sempre que descrevas
+ A orbita que levas,
+ Confia-me o que escrevas
+ De quanto vês nas trevas,
+ Que a luz do sol encobre!
+ As victimas, que escutas,
+ De traças mais astutas
+ Que as d'essas féras brutas...
+ E as lastimas, as luctas
+ Da orphã e do pobre!
+
+
+
+
+VIII
+
+SYMPATIA
+
+
+ Olhas-me tu
+ Constantemente:
+ D'ahi concluo
+ Que essa alma sente!...
+ Que ama, não zomba,
+ Como é vulgar;
+ Que é uma pomba
+ Que busca o par!...
+
+ Pois ouve; eu gemo
+ De te não vêr!
+ E em vendo, tremo
+ Mas de prazer!...
+ Foge-me a vista...
+ Falta-me o ar...
+ Vê quanto dista
+ D'aqui a amar!
+
+
+
+
+IX
+
+11 DE MAIO
+
+
+ Se eu fosse nuvem tinha immensa magoa
+ Não te servindo d'azas maternaes
+ Que te podessem abrigar da agoa
+ Que chovesse das mais!
+
+ E sendo eu onda, tinha magoa summa
+ Não te podendo a ti, mulher, levar
+ De praia em praia, sobre a alva espuma.
+ Sem nunca te molhar!
+
+ E sendo aragem, eu, que pela face
+ Te roçasse de rijo, alguma vez
+ Que o Senhor com mais força respirasse,
+ Que magoa immensa... Vês!
+
+ E a luz do teu olhar que me não lusa
+ Um rapido momento, a mim, sequer,
+ Como a aguia no ar... que passa e cruza
+ A terra sem n'a vêr!
+
+ Mas que me importa a mim! Se me esmagasses
+ Um dia aos pés o coração a mim,
+ As vozes que lhe ouviras se escutasses,
+ Era o teu nome... Sim!
+
+ O teu nome gemido docemente
+ Com toda a fé d'um martyr em Jesus,
+ Se acaso já em Christo pôz um crente
+ A fé que eu em ti puz!
+
+ A fé, mais o amor! Porque elle expira
+ Sem que a ninguem lhe estale o coração,
+ E eu, se essa cruz dos olhos me fugira,
+ Sobrevivia? Não!
+
+ Assim como em ti vivo, morreria
+ Tambem comtigo, se uma vez (que horror!)
+ Te visse pôr, oh sol!... sol do meu dia!
+ Astro do meu amor!
+
+
+
+
+X
+
+ATTRACÇÃO
+
+
+ Meus olhos sempre inquietos
+ Que posso até dizer,
+ Só acham n'alma objectos
+ Que os possam entreter;
+
+ Meus olhos... coisa rara!
+ Porque hão de em ti parar
+ Como a corrente pára
+ Em encontrando o mar!?
+
+ E penso n'isto, scismo...
+ Mas é tão natural
+ Cahir-se no abysmo
+ D'uma belleza tal!...
+
+ Olhei!... Foi indiscreta
+ A vista que te puz.
+ A pobre borboleta
+ Viu luz... cahiu na luz!
+
+ Uma attracção mais forte
+ Que toda a reflexão,
+ (É fado, é sina, é sorte!)
+ Me arrasta o coração...
+
+
+
+
+XI
+
+DESANIMO
+
+
+ Que mimos me confortam?
+ Que doce luz me acena?
+ Eu tenho muita pena
+ De ter nascido até!
+
+ Quizera antes ao pé
+ D'uma arvore frondosa
+ Ter já em cima a lousa
+ E descançar emfim!
+
+ Alli, nem tu de mim
+ De certo te lembravas,
+ Nem estas feras bravas
+ Me iriam assaltar!
+
+ Alli, teria um ar
+ Mais puro e respiravel,
+ E a paz imperturbavel
+ De quem, emfim, morreu!
+
+ D'alli, veria o céo
+ Ora sereno e puro,
+ Ora toldado e escuro...
+ Ainda assim melhor,
+
+ Que este areal de amor
+ Onde ando ao desamparo,
+ Onde a ninguem sou caro
+ E nem, a mim, ninguem!
+
+ Alli passára eu bem
+ A noite derradeira
+ Á sombra hospitaleira
+ Que mais ninguem me dá!
+
+ Tu mesma, que não ha
+ Quem eu mais queira e ame,
+ Quem a minha alma inflamme
+ De mais ardente amor,
+
+ Os ais da minha dôr
+ A ti o que te importam?
+ Teus olhos nem supportam
+ A minha vista ao pé!
+
+ Que mimos me confortam?
+ Que dôce luz me acena?
+ Eu tenho muita pena
+ De ter nascido até!
+
+
+
+
+XII
+
+N'UM ALBUM
+
+
+ É esta vida um mar; e n'este mar
+ Qual é o astro que nos alumia?
+ Que norte, estrella ou bussola nos guia?
+ Um olhar de mulher! um terno olhar!
+
+
+
+
+XIII
+
+O SEU NOME
+
+
+ I
+
+ Ella não sabe a luz suave e pura
+ Que derrama n'uma alma acostumada
+ A não vêr nunca a luz da madrugada
+ Vir raiando senão com amargura!
+
+ Não sabe a avidez com que a procura
+ Ver esta vista, de chorar cançada,
+ A ella... unica nuvem prateada,
+ Unica estrella d'esta noite escura!
+
+ E mil annos que leve a Providencia
+ A dar-me este degredo por cumprido,
+ Por acabada já tão longa ausencia,
+
+ Ainda n'esse instante appetecido
+ Será meu pensamento essa existencia...
+ E o seu nome, o meu ultimo gemido
+
+
+ II
+
+ Oh! o seu nome
+ Como eu o digo
+ E me consola!
+ Nem uma esmola
+ Dada ao mendigo
+ Morto de fome!
+
+ N'um mar de dôres
+ A mãe que afaga
+ Fiel retrato
+ De amante ingrato,
+ Unica paga
+ Dos seus amores...
+
+ Que rota e nua,
+ Tremulos passos,
+ Só mostra á gente
+ A innocente
+ Que traz nos braços
+ De rua em rua;
+
+ Visto que o laço
+ Que a prende á vida
+ E só aquella
+ Candida estrella
+ Que achou cahida
+ No seu regaço;
+
+ (Não que lhe importe
+ A ella nada...
+ Que tudo escusa;
+ E até accusa
+ De descuidada
+ Comsigo a morte!)
+
+ Mão bemfazeja
+ Se por ventura
+ Encontra um dia,
+ Com que alegria,
+ Com que ternura,
+ Ella a não beija!...
+
+ Mas com mais quanto
+ Amor te escrevo,
+ Soletro e leio
+ Nome de enleio!
+ Nome de enlevo!
+ Nome de encanto!
+
+
+ III
+
+ Como a agua d'um lago--toda um nivel,
+ Vae de circulo em circulo ondeando,
+ Se a andorinha a roça ao ir voando
+ Atraz d'algum insecto imperceptivel;
+
+ E quebrado esse espelho em mil pedaços
+ (Que a imagem do céo desapparece)
+ Em circulos concentricos parece
+ Tornarem-se a formar novos espaços...
+
+ Ou como d'entre as notas ineffaveis
+ Dos canticos do céo--todo harmonia--
+ Mal sôa o dôce nome de MARIA,
+ Pasmam as multidões innumeraveis;
+
+ E de onda em onda cada vez mais larga,
+ De brisa em brisa cada vez mais pura,
+ O nome d'essa excelsa creatura
+ Por todo aquelle immenso mar se alarga;
+
+ E tudo quanto cerca o trono eterno
+ Áquella dôce voz desprende o canto,
+ Formando um côro universal, em quanto
+ Reina silencio no profundo inferno...
+
+ Assim, n'esta paixão que me devora,
+ Se aos labios essas syllabas me assomam,
+ As negras sombras da minha alma tomam
+ Gradualmente o explendor da aurora!
+
+ Toda a idéa má recua um passo,
+ Aplanam-se os dominios do futuro,
+ E do crystal mais transparente e puro
+ Se me arqueia a abobada do espaço!
+
+ Desdobra-se o passado á luz do dia,
+ Em valle ameno, aos olhos da memoria;
+ E eu acho não ser perfida, illusoria,
+ A fé que eu punha em certa luz que eu via...
+
+ Vejo que aquelle informe e negro monte,
+ Que me tapava a mim o fim da vida,
+ Não era mais que a natural subida
+ Para se dominar vasto horizonte!...
+
+ Esse horizonte és tu, pombinha brava!
+ Tu, cujo peito que aliás encerra
+ O que ha de bello e grande em céo e terra,
+ Só com duas conchinhas se tapava...
+
+ Mas em quanto não chego áquella altura
+ D'onde se avista a terra promettida,
+ Irei cantando, distrahindo a vida
+ Com essa invocação suave e pura...
+
+ Invocação de nome tão suave
+ Como esse olhar!... que eu, só de vêr, suspiro!
+ Mas... que invoco em silencio... como admiro
+ A luz da lua, e o olhar da ave!...
+
+
+ IV
+
+ E se algum dia
+ Deres abrigo
+ Ao desgraçado
+ Pobre mendigo
+ Expatriado,
+ Morto de fome,
+ Dize comtigo:
+ «Mais consolado
+ Se elle sentia
+ Lendo o meu nome!»
+
+
+
+
+XIV
+
+SAUDADE
+
+
+ Tu és o cálix;
+ Eu, o orvalho!
+ Se me não vales,
+ Eu o que valho?
+
+ Eu se em ti caio
+ E me acolheste
+ Torno-me um raio
+ De luz celeste!
+
+ Tu és o collo
+ Onde me embalo,
+ E acho consolo,
+ Mimo e regalo:
+
+ A folha curva
+ Que se aljofara,
+ Não d'agoa turva,
+ Mas d'agoa clara!
+
+ Quando me passa
+ Essa existencia,
+ Que é toda graça,
+ Toda innocencia,
+
+ Além da raia
+ D'este horizonte--
+ Sem uma faia,
+ Sem uma fonte;
+
+ O passarinho
+ Não se consome
+ Mais no seu ninho
+ De frio e fome,
+
+ Se ella se ausenta,
+ A boa amiga,
+ Ah! que o sustenta
+ E que o abriga!
+
+ Sinto umas magoas
+ Que se confundem
+ Com as que as agoas
+ Do mar infundem!
+
+ E quem um dia
+ Passou os mares
+ É que avalia
+ Esses pezares!
+
+ Só quem lá anda
+ Sem achar onde
+ Sequer expanda
+ A dôr que esconde;
+
+ Longe do berço,
+ Morrendo á mingoa,
+ Paiz diverso...
+ Diversa lingoa...
+
+ Esse é que sabe
+ O meu tormento,
+ Mal se me acabe
+ Aquelle alento!
+
+ Ah, nuvem branca
+ Ah, nuvem d'oiro!
+ Ninguem me estanca
+ Amargo choro;
+
+ E assim que passes
+ Mesmo de largo...
+ Vê n'estas faces
+ Se ha pranto amargo.
+
+ Tu és o norte
+ Que me desvias
+ De ir dar á morte
+ Todos os dias;
+
+ A larga fita
+ Que d'alto monte
+ Cerca e limita
+ O horizonte!
+
+ Tu és a praia
+ Que eu sollicito!
+ Tu és a raia
+ D'este infinito!
+
+ Se ha uma gruta
+ Onde me esconda
+ Á força bruta
+ Que traz a onda;
+
+ Á força immensa
+ D'esta corrente
+ D'alma que pensa,
+ Alma que sente;
+
+ Se ha uma véla,
+ Se ha uma aragem,
+ Se ha uma estrella,
+ N'esta viagem...
+
+ É quem eu amo,
+ A quem adoro!
+ E por quem chamo!
+ E por quem choro!
+
+
+
+
+XV
+
+* * * *
+
+
+ Não sei o que ha de vago,
+ Incoercivel, puro,
+ No vôo em que divago
+ Á tua busca, amor!
+ No vôo em que procuro
+ O balsamo, o aroma,
+ Que, se uma fórma toma,
+ É de impalpavel flôr!
+
+ Oh como te eu aspiro
+ Na ventania agreste!
+ Oh como te eu admiro
+ Nas solidões do mar!
+ Quando o azul celeste
+ Descança n'essas agoas
+ Bem como n'estas magoas
+ Descança o teu olhar!
+
+ Que placida harmonia
+ Então a pouco e pouco
+ Me eleva a fantasia
+ A novas regiões!
+ Dando-me ao uivo rouco
+ Do mar, n'essas cavernas,
+ O timbre das mais ternas
+ E pias orações!
+
+ Parece todo o mundo
+ Só um immenso templo!
+ O mar já não tem fundo
+ E não tem fundo o céo!
+ E, em tudo, o que contemplo,
+ O que diviso em tudo,
+ És tu!... esse olhar mudo!...
+ O mundo... és tu... e eu!...
+
+
+FIM
+
+
+ * * * * *
+
+
+CRITICAS
+
+DAS
+
+FLORES DO CAMPO
+
+
+ * * * * *
+
+
+FLORES DO CAMPO
+
+POR
+
+JOÃO DE DEUS
+
+João de Deus não é sómente um grande poeta, é um iniciador. A estrophe
+sahe-lhe do coração não só transparente e limpida, como um veio de
+crystal, mas espontanea, harmoniosa e originalissima, como todas as
+creações dos espiritos profundamente caracterisados e essencialmente
+creadores.
+
+João de Deus é um grande scismador e um grande artista. Concebe
+admiravelmente, e executa melhor ainda. Cada lyrica é uma maravilha,
+cada estrophe um mimo, cada verso um primor. Reune á intelligencia
+apaixonada de Platão o delicadissimo senso artistico de Cellini. Ha
+n'aquella lyra notas e harmonias d'uma frescura e de uma novidade dignas
+de Homero ou de Wainamoinen. É que o talento poetico de João de Deus é
+essencialmente espontaneo e primitivo, se me permittem a expressão.
+
+Parece que não ha n'aquelles versos nem estudo de modelos, nem
+influencia de escólas, nem escolha de assumptos.
+
+A natureza poetica de João de Deus é sobre tudo virginal, sincera,
+innocente. Canta, não para que o escutem, mas porque nasceu poeta;
+chora, não para que o consolem, mas porque nasceu triste; medita, não
+para que o considerem, mas porque nasceu scismador. É poeta... e não
+póde ser mais nada; fizeram-n'o deputado talvez para fazerem um
+epigramma á poesia, que tantos tem feito--epigrammas, entenda-se.--João
+de Deus deputado é o mesmo... que um deputado João de Deus, duas
+entidades a rirem-se constantemente uma da outra, como os dois
+_oraculos_ de que falla Cicero.
+
+Um João de Deus nasce feito... não se faz d'elle cousa nenhuma; ha de
+ser sempre João de Deus, quer o façam rei, quer regedor de parochia.
+_Ego sum qui sum_, dizia o espirito mais profundamente original da
+humanidade. João de Deus, e os homens de uma individualidade assim tão
+caracterisada podem, salvo a irreverencia, dizer o mesmo.
+
+A João de Deus deu-lhe para ser poeta; se lhe désse para ser diplomata
+era Bismark, e tinha a estas horas realisado a união iberica. Foi melhor
+assim, ao menos para se não acabar com a possibilidade de termos volumes
+como as _Flores do Campo_.
+
+Dizem-me que João de Deus é um excellente tocador de viola, onde
+improvisa devaneios arrebatadores. Esta prenda caracterisa-lhe o talento
+artistico. É poeta como guitarrista e quasi improvisador como poeta.
+Aquella alma é uma lyra: vibra, estremece e canta ás aragens fugitivas
+da impressão. Natureza profundamente sympathica, tem um riso para cada
+alegria, uma lagrima para cada amargura, uma consolação para cada
+infortunio:
+
+ Despe o lucto da tua soledade
+ E vem junto de mim, lirio esquecido
+ Do orvalho do ceu!
+ Tens nos meus olhos pranto de piedade,
+ E se és, mulher! irmã dos que hão soffrido,
+ Mulher! sou irmão teu.
+
+ Consolos não te dou, que não existe
+ Quem de lagrimas suas nunca enxuto
+ Possa as d'outro enxugar:
+ Não póde allivios dar quem vive triste,
+ Mas é-me dôce a mim chorar, se escuto
+ Alguem tambem chorar.
+
+E não ha artificios n'esta poesia, que é singela como todos os grandes
+sentimentos, harmoniosa e virginal como um sorriso de creança, suave e
+consoladora como uma parabola de Christo, serena e luminosa como um
+dialogo de Platão:
+
+ Mulher, mulher! quando eu n'um cemiterio
+ Levanto o pó dos tumulos sósinho:
+ Eis, digo, eis o que eu sou,
+ Mas quando penso bem n'esse mysterio
+ Da virtude infeliz: Vae teu caminho;
+ Dois mundos Deus creou.
+
+É poesia que se sente e que poucos exprimem, são versos que se admiram e
+que rarissimos os escrevem.
+
+As imagens adejam-lhe em torno frescas, vivas, alegres e graciosas, como
+um bando de andorinhas em torno dos frisos d'um campanario:
+
+ Quando em silencio finges,
+ Que um beijo foi furtado,
+ E o rosto desmaiado
+ De côr de rosa tinges,
+ Dir-se-ha que a rosa deve
+ Assim ficar com pejo,
+ Quando a furtar-lhe um beijo
+ O zephiro se atreve.
+
+ ............................
+
+ A bôca é tão vermelha que, em te rindo,
+ Lembra-me uma romã aberta ao meio
+ Quando já de madura está cahindo.
+
+ ......................................
+
+ Quando a sua mãosinha pondo um dedo
+ Em seus labios de rosa pouco aberta,
+ Como timida pomba sempre alerta,
+ Me impunha ora silencio ora segredo.
+
+Não ha nada mais gracioso, mais natural, mais espontaneo, mais facil! A
+gente chega a pasmar de não encontrar todos aquelles dizeres elegantes,
+todos aquelles versos formosissimos nos outros poetas, tal é a fluencia
+e a vitalidade d'esta inspiração.
+
+Na voz de João de Deus ha as inflexões carinhosas de uma creança; os
+versos parecem caricias; têm a suavidade affectuosa das orações de uma
+santa e aquelle tom amavel e triste, mas nunca pretencioso, dos
+verdadeiros scismadores:
+
+ Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
+ A luz que n'esta vida me guiava,
+ Olhos fitos na qual até contava
+ Ir os degraus do tumulo descendo.
+
+ ..................................
+
+ Alma gemea da minha, e ingenua e pura
+ Como os anjos do ceu (se o não sonharam...)
+ Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura.
+
+ Não sei se me voou, se ma levaram,
+ Nem saiba eu nunca a minha desventura
+ Contar aos que inda em vida não choraram.
+
+Camões não a sentiu mais, nem a escreveu melhor esta poesia da tristeza,
+esta melancolia suave d'um scismador, esta saudade resignada de uma alma
+nas soledades do infortunio, nos desterros do isolamento. Ha alli poesia
+para vinte poemas, ha alli suavidade para vinte idyllios.
+
+As rhimas parecem beijos, tão estreitas se enlaçam, tão ardentes se
+casam, tão apaixonadas se apertam:
+
+ Que magoa ou que receio
+ Dos olhos te desata
+ Aljofares de prata
+ No jaspe do teu seio?
+
+ Bem intima ser deve
+ A pena que te opprime,
+ Flôr tenra como o vime,
+ Flôr pura como a neve!
+
+ .......................
+
+ Vós, lobos! ide em bando,
+ Trepae pelo rochedo,
+ Uivae, mettei-lhe medo,
+ Levae-a recuando!
+
+ Que faz quem se approxima
+ D'um precipicio, diz-m'o?
+ Que buscas tu no abysmo
+ Se o ceu é lá em cima?
+
+É só a lyrica intitulada--_Heresta_--que me fornece estes quatro
+exemplos; podia fornecer-me trinta e dois, porque são trinta e duas as
+quadras d'essa formosa composição.
+
+Ás vezes o verso deixa de ser uma phrase e transforma-se n'um suspiro, a
+estrophe deixa de ser um canto e converte-se n'um arrulho. Tudo alli é
+muito amar, profundamente sentir e divinamente cantar:
+
+ Que é d'esses cabellos d'ouro
+ Do mais subido quilate,
+ D'esses labios escarlate,
+ Meu thesouro!
+
+ .............................
+
+ Que é d'uma flôr da grinalda
+ Dos teus dourados cabellos,
+ D'esses olhos, quero vêl-os,
+ Esmeralda!
+
+ Que é d'essa alma que me deste!
+ D'um sorriso, um só que fosse.
+ Da tua bôca tão dôce
+ Flôr celeste!
+
+ Tua cabeça que é d'ella
+ A tua cabeça d'ouro,
+ Minha pomba! meu thesouro!
+ Minha estrella!
+
+ ..........................
+
+ E as desgraças, podia prevêl-as
+ Quem a terra sustenta no ar,
+ Quem sustenta no ar as estrellas,
+ Quem levanta ás estrellas o mar.
+
+ Deus podia prevêr a desgraça,
+ Deus podia prevêr e não quiz;
+ E não quiz, não... se a nuvem que passa
+ Tambem póde chamar-se infeliz.
+
+Quem escreve d'isto, sente-o. Um homem não arranca ao seu espirito
+d'estas perolas sem as lá ter em sentimento e em amor. E só o alto calor
+d'um grande, d'um immenso coração póde _cristallisar_ taes diamantes; o
+fogo sómente do craneo não produz d'estes milagres d'inspiração:
+
+ Não se é só pó no fim de tanta magoa,
+ Senão diga-me alguem que allivio é este
+ Que sinto, quando á abobada celeste
+ Alevanto os meus olhos rasos d'agoa.
+
+ ....................................
+
+ Ha depois d'esta vida inda outra vida,
+ Não se reduz a nada o grão d'areia,
+ E havia de a nossa alma, a nossa ideia
+ Nas ruinas do pó ficar perdida?
+
+Se isto não é inspiração, e alta inspiração, não sei que nome se ha de
+dar ás maravilhas do genio de Dante, de Shakspeare, de Camões ou de
+Victor Hugo.
+
+Um espirito que se eleva a taes alturas tem obrigação de produzir um
+_Hamlet_, uma _Divina Comedia_ ou uns _Lusiadas_.
+
+Sente-se pela leitura d'este volume que Camões é o auctor predilecto de
+João de Deus. O livro abre até por uma composição que póde considerar-se
+uma verdadeira profissão de fé em poesia. A propria fórma poetica da
+maior parte das lyricas de João de Deus, um certo geito facil e
+correntio na composição grammatical dos periodos, a suavidade das
+rhimas, a doçura das expressões, a harmonia cadenciosa dos versos e um
+certo tom de intima melancolia que se faz sentir até nas idêas as mais
+graciosas revelam a decidida predilecção que o cantor da _Heresta_ tem
+pelo desafortunado scismador de Macau.
+
+É esta a feição seria, a feição elevada e talvez caracteristica do genio
+poetico de João de Deus. Como todas as grandes vocações, como todas as
+naturezas ricas, João de Deus porém não é menos apreciavel, nem menos
+digno de estudo pelo lado alegre, malicioso e a espaços finamente
+epigrammatico. Ás vezes chega a ser um observador digno de competir com
+Molière ou Tolentino. Os _Caturras_ é composição de emparelhar com a
+_Funcção_ ou com o _Bilhar_ do diabolico professor de rhetorica; e o
+_Gaspar_ póde pedir meças em ridiculo a qualquer dos _frades_ grotescos
+da numerosa collecção de Bocage. E o epigramma aqui é tanto mais
+pungente quanto menos grosseiro, e a caricatura tanto mais graciosa
+quanto menos exagerada.
+
+Ha alli o sal attico de Terencio e não a especiaria acinante de Plauto,
+a não ser talvez nos versos intitulados--_Uma femea_,--brazileiros no
+titulo e no sabor, d'um _piquesinho_ de gosto bastante equivoco.
+
+E já que entramos no capitulo das maculas, convém dizer-se que João de
+Deus é por vezes revolucionario de mais em assumptos de metrificação. Eu
+não gosto de absolutistas nem mesmo em poesia, mas tambem não morro de
+amores pelos tão republicanos que nos levem á demagogia. É preciso que
+sejamos um pouco _constitucionaes_ em tudo. Ora a _constituição_ poetica
+tem artigos que se não podem infringir sem se incorrer no crime de leso
+bom gosto, porque o bom gosto foi e ha de ser sempre o eterno legislador
+d'estes codigos. Um verso frouxo ou manco e uma rhima equivoca ou
+violenta hão de ser perpetuamente defeitos.
+
+Quem disser o contrario ou é tolo ou tem ouvidos de cortiça. João de
+Deus cahe por vezes nestes dous peccadilhos, deixando alguns versos
+arrastados, e outros duros; estes porém muito menos frequentes do que os
+primeiros. Mais frequentes são as rhimas violentas, algumas realmente
+d'um mau gosto insustentavel, taes como: _justiça_ rhimando com pinça,
+como a paginas 152; _rio_ e _viu_, como a paginas 159, e ainda algumas
+outras.
+
+É da tarifa dizer-se em occasiôes similhantes, como são da tarifa todas
+as vulgaridades, que não ha livro sem defeitos. Eu creio piamente na
+sentença, e até creio que um livro sem defeitos, se existisse, devia ser
+o mais defeituoso de todos os livros, o mais sorna e o mais semsaborão.
+Eu porém quando abro um livro não é para lhe andar a catar os defeitos
+pagina por pagina, como quem anda ao _pulgão_ pelos vinhedos. O que
+busco n'um livro são ensinamentos, calor de vida, fogo de coração e luz
+de intelligencia; esplendores de espirito e esplendores de palavra;
+genio, alma e sentimento.
+
+Ora um livro de versos onde ha composição como a _Rachel_, _O Musgo_,
+_Ultimo adeus_, _o Remoinho_, _a Carta_, e trinta outras lyricas de tal
+novidade e tal merecimento, tem obrigação de ter defeitos, por que sem
+elles... seria um livro impossivel, uma verdadeira monstruosidade.
+Diga-se aqui pois, e para se pôr ponto ao aranzel, que o livro de João
+de Deus tem maculas, mas que estas, como as do sol, desapparecem no meio
+dos esplendores d'aquella immensa luz de vida, de genio e de inspiração.
+_Flores do Campo_ é finalmente um livro de versos, como ha poucos n'este
+paiz, desde que por cá se escrevem versos.[1]
+
+Guarda, 4 de fevereiro de 1869.
+
+ *Alexandre da Conceição.*
+
+ [1]Jornal do Porto (1869) n.º 33.
+
+
+
+
+LIVROS
+
+
+REVISTA CRITICA BIBLIOGRAPHICA
+
+
+Flores do campo, _por João de Deus, publicadas pelo seu amigo José
+Antonio Garcia Blanco_--Lisboa, typ. Franco-portugueza, 1868--Em casa de
+Ferin & Robin--1 vol. in-16.º--271.
+
+
+João de Deus é um personagem semi-lendario na tradicção academica, e
+apesar de homem do nosso tempo, e tão do nosso que até com um diploma de
+deputado se nos apresentou ha pouco, anda-lhe o nome rodeado de quasi os
+mesmos fulgores e as mesmas sombras em que uma historia superficial ou
+mentirosa envolveu os velhos trovadores da Provença.
+
+Permittam-me uma digressão.
+
+Ha n'esta sociedade portugueza--já agora, ao que parece--condemnada a
+refocilhar em monturo de sanefas lantejouladas e rotas que lhe deixou o
+passado, e a dar ao mundo o triste espectaculo d'uma nacionalidade sem
+_idêa_ que a represente na historia philosophica de amanhã, sem _ideal_
+que lhe seja pharol e bussola na tormentosa navegação das sociedades
+d'hoje; ha, digo, n'esta nossa sociedade amortecida: extraordinarias
+visões, mysteriosos anceios, esforços convulsivos como que filhos de
+ignotos impulsos, que bem poderiam passar por agonias e paroxismos
+annunciadores da proxima dissolução, se um diagnostico escrupuloso não
+encontrasse antes n'aquillo promessas de reacção proxima, de
+rejuvenescimento que não vem longe, de evolução fatal, que, em Portugal
+como em toda a parte, denuncia por aquellas aberrações e anormalidades a
+sua sublime prenhez d'uma nova idêa, d'uma era nova.
+
+Erguem-se no meio da grasnada petulante ou esteril da litteratura, vozes
+persistentes... doces ou enthusiasticas, sympathicas ou ameaçadoras...
+frescas, novas, _originaes_--_raræ voces!_--que parece irem na turba
+desmoralisada pôr em vibração alguma cellulasinha não contaminada do
+mal.
+
+E a turba põe-se a escutar, a applaudir, a aspirar soffregamente os
+frescores e doçuras, que tão enormemente se distanceiam dos miasmas do
+ambiente habitual, do sabor da habitual pitança.
+
+Alteiam-se, no meio da calaçaria geral, do geral e natural desanimo,
+vontades energicas que a pedraria da mestrança ignorante, intolerante e
+madraça não consegue desviar um momento da faina do estudo e da
+evangelisação scientifica.
+
+E a turba vae attentando n'ellas, vae sympathisando com aquelles
+revolucionarios heroicos do marasmo, vae comparando-os com os idolos
+anões que, sem ella saber como nem porque se grudaram aos altares da sua
+admiração, vae fitando os novos horizontes para onde lhe apontam os
+novos chefes, vae-os seguindo já ao impulso d'uma necessidade
+indefinivel mas fatal. Ha n'isto, já se vê, alguma cousa d'allucinação
+infantil. Crê-se que os novos Moysés levam comsigo, completas, as
+verdadeiras taboas da lei, e rasgarão com a magica varinha as brumas que
+envolvem a terra da promissão.
+
+Engano. Não lhes dão as forças para mais que para um terço do caminho,
+se tanto. Mas isso mesmo é muito, é o que basta. Hão de apparecer novos
+guias. A questão é saír da esterilidade do deserto.
+
+Citemos porém dois factos, tiremos dois exemplos, apenas, de tantos que
+podiamos apresentar da revolução litteraria que se realisa surdamente no
+seio da nossa pequena sociedade.
+
+Sejam elles, por hoje, dois poetas: Theophilo Braga e João de Deus; dois
+verdadeiros revolucionarios como outros de que para o diante terei de
+fallar. Um, apesar do mal que dizem d'elle, e do mal, que é maior
+talvez, que elle a si proprio faz, é inegavelmente um dos nossos poucos
+talentos originaes na concepção e na manifestação litteraria, na _idêa_
+e na _fórma_, e se não é marco que no futuro atteste um grande e
+brilhante progresso na litteratura patria, é como que atrio imperfeito e
+tosco, mas espaçoso e altaneiro que póde servir d'entrada a _pantheon_
+de explendidos engenhos.
+
+E grande engenho é Theophilo, de certo.
+
+Por entre uma saraivada d'apodos e improperios de _mau gosto_ ou _má
+fé_, conquistou elle um logar elevado, na poesia portugueza d'hoje,
+cujos magnates na maxima parte, persistem, com risivel teimosia, em
+trazer-lhe engastada na corôa á laia de fina joia, o carvão da
+ignorancia, ou em mascararem-na com um falso e retrogrado
+_classissismo_.
+
+Theophilo porém avançou menos do que devia.
+
+O _idealismo_ desvairou-o, o _romancismo_ perdeu-o.
+
+Um dia a voz sympathica, insinuante, ora melancholica e dolorida,
+ora--bem poucas vezes!--alegre e enthusiastica de João de Deus começou
+de fluctuar por sobre o borburinho cançado e monotono das nossas letras.
+Não se sabe como nem quando foi. Perdeu-se a chronologia biographica nos
+encantos do _quasi_--extasis. Sabe-se sómente que a reputação do poeta
+não nos entrou na terra, dentro do cavallo de pau d'algum chefe _grego_,
+mestrão consummado n'estas maquinações. Sabe-se tambem que João de Deus
+não andou por salas e officinas, annunciando a fazenda que tempos
+depois, atirada ao mercado, podia realisar o caso da _mons parturiens_.
+
+João de Deus apparecia-nos uma ou outra vez n'um periodico de Coimbra;
+ora nos segredava uma estrophe singela e melodiosa pelo postigo de uma
+typographia alemtejana; ora surgia em um periodico da capital a
+contar-nos umas duvidas que o magoavam, umas saudades indefiniveis que o
+pungiam, uns vagos amores que lhe andavam rumorejando lá dentro em vagas
+harmonias.
+
+E ninguem sabia quem era João de Deus. E ninguem procurava saber quem
+fosse. Ou antes, julgavam todos sabel-o. Conheciam-no todos. Era um
+cerebro em ebullição, um coração em ataxia permanente, um estomago que
+valia por uma adega.
+
+João de Deus era um doudo que forrava as paredes do albergue com as
+folhas das _sebentas_, que dormia dentro da enxerga, porque achava mais
+commodo isto do que dormir-lhe em cima, que se matriculava todos os
+annos na faculdade em que o secretario-universitario se lembrava de
+matriculal-o, que fôra de Coimbra a casa, d'algibeira vasia e lapis
+constantemente occupado em fazer magnificos versos ou magnificos
+desenhos, que se fizera um dia sachristão, e pozera n'outro, todo um
+bairro em sobresalto, subindo aos telhados para apostrophar a lua, etc.,
+etc.
+
+E as anecdotas galantes succediam-se, e a cada nova poesia annexava-se
+uma historieta, e quando as poesias escaceavam, attribuiam-se ao poeta
+novas doudices, novas excentricidades, como a certo honrado e já
+defuncto general se attribuiam quantos dispauterios o soalheiro burguez
+produzia. Se eu fosse biographo de João de Deus havia talvez de lavrar
+aqui um protesto esmagador.
+
+Como não sou, limito-me a dizer o que penso do illustre algarviense.
+_Mais_ ou _menos_ todos somos poetas. N'este _mais_ e n'este _menos_
+está, creio eu, o segredo da organisação _sensorial_, se póde dizer-se
+assim, organisação modificada é certo, mas não completamente
+transformada pelo _meio_ e pelo _habito_.
+
+Tal _sensação_ que n'uns individuos poria o cerebro n'um estado de
+effervescencia que lhe _exagerasse_ a realidade, a ponto muitas vezes de
+a substituir por uma concepção puramente subjectiva, em taes outros póde
+dar apenas o facto funccional em condições normaes e ordinarias, e,
+concentrando-se, converter-se em reflexão. Precisava isto longo
+desenvolvimento. Ora como o primeiro modo de ser _sensorial_ póde dar-se
+em todos, mas com mais ou _menos_ intensidade, com _maior_ ou _menor_
+frequencia, digo eu (e dizem bons escriptores) que todos são _mais_ ou
+_menos_ poetas. Isto quanto ao facto intellectivo. Quanto á expressão, o
+mesmo se póde dizer sem receio de contestação seria.
+
+Pois na concepção como na palavra eu tenho João de Deus por verdadeiro
+poeta.
+
+Dizia Merck, homem de profundo bom senso, a Goëthe, seu amigo:
+
+«A tendencia irresistivel do teu genio é a de imprimir a fórma poetica
+ás cousas _reaes_. Outros procuram uma _soi-disant_ poesia tranformando
+em realidades, puras _imaginações_, o que só produz disparates.»[2]
+
+Sem concordar incondicionalmente com a primeira phrase do sensato
+allemão, sem querer acceitar a segunda como lei comprovada de critica
+litteraria, parece-me que de João de Deus se poderá dizer que reune as
+duas tendencias, as duas feições designadas, a _idealisação_ (phrase
+consagrada e porventura inexacta) do _real_, e a personificação, melhor
+talvez, a realisação plastica do _imaginario_.
+
+Como que as sensações sensoriaes[3] n'aquelle cerebro delicado, ou
+atravez d'aquelle organismo exageradamente impressionavel se destacam
+algumas vezes do estimulo, ou alteram a natureza da propria
+objectividade e criam um mundo novo, um mundo mystico, permittam-me a
+expressão, a que o poeta dá uma realidade objectiva moldando-o pelas
+manifestações plasticas do mundo em que vive. Acontece porém, poucas
+vezes, nem podia deixar de ser assim, quando a indole da época e a
+illustração do poeta se estão oppondo á formação e sustentação d'estas
+concepções puramente subjectivas. Adivinha-se aqui ou alli a lucta
+tremenda que vae no cerebro de João de Deus, lucta que é a feição
+caracteristica do seculo, e que o manto esfarrapado do eclectismo
+immoral não consegue abafar, lucta entre o velho _crêr_ e a _duvida_, a
+duvida, que como a hydra da mythologia surge após cada decepamento, e
+que não é possivel destruir como aquella decepando-lhe o tronco. Ouvide
+um exemplo:
+
+ Prestes, se inda na rocha de granito
+ D'onde em tempo me vias, te sentares,
+ Não olhes para a terra, ou para os mares,
+ _Olha sim para o céo, que é lá que habito._
+
+ _Lá, tão longe de ti mas não do terno,_
+ _Bondoso pae que os dois nos ha gerado,_
+ _Só para magoas não, que bem guardado_
+ _Nos tem tambem no céo prazer eterno._
+
+Que profunda crença, que certeza _mystica_, se póde dizer-se assim, não
+rescende a suave _morbidezza_ d'estes versos! Ha alli alguma cousa do
+cantor da Bice. Vêde porém a tempestade que se annuncia; a duvida
+atravessou como um relampago o cerebro do poeta. Ouvide:
+
+ Não se é só pó no fim de tanta magoa.
+ _Senão_, diga-me alguem que allivio é este
+ Que sinto quando á abobada celeste
+ Alevanto os meus olhos rasos d'agua?
+
+ Mentem os céos _tambem_? Os céos maldigo.
+ Feras, tigres _tambem_ o céo povoam?
+ _Tambem_ os labios lá sorrindo coam
+ Veneno desleal em beijo amigo?
+
+ _Mas na dôr é que os astros nos sorriem,_
+ E os homens não sorriem na desdita.
+ Astros! fio-me em vós, e Deus permitta
+ Que os infelizes sempre em vós se fiem.
+
+Refaz-se a crença, resurge a esperança consoladora:
+
+ Ha depois d'esta vida uma outra vida.
+ _Não se reduz a nada um grão d'areia,_
+ _E havia de a nossa alma, a nossa ideia,_
+ Nas ruinas do pó ficar perdida?
+
+Pobre sonhador! Aquelle segundo verso é um protesto ironico contra o teu
+ideal mystico, é o _grão d'areia_ que ha de intorpecer e desmandar todo
+o machinismo psycologico da tua crença!
+
+Continúa:
+
+ _Isso que pensa e quer_ (até me admiro)
+ Isso que a luz nos traz, que a luz nos leva, etc.
+
+e accrescenta:
+
+ _Onde_, não sei eu bem, mas sei que existe
+ Deus remunerador. Depois de mortos
+ Hemos de vêr-nos e um no outro absortos
+ Fartar de glorias este amor tão triste.
+
+ Tão triste e... (o coração que me adivinha?)
+ N'este supplicio nosso, _este tormento_,
+ Nunca dos labios teus minimo alento
+ Num só beijo bebi em vida minha!
+
+Fulge de novo o relampago, baqueia o edificio da crença, vêde que
+tormento:
+
+ _E morro sem te vêr!_ Cabeça douda
+ Desasissado amor? sonhar afflicto
+ Um sonho até morrer...
+
+Pobre Hamlet!
+
+ _... the rest is silence_
+
+ Um sonho até morrer... Não: resuscito;
+ Morto tenho vivido a vida toda.
+
+Pobre Faust! O _insufficiente_ (das Unzuloengliche) atormenta-te, porque
+te fascina o _inenarravel_ (das Unberchreiblichee). Que tempo precioso
+perde comtigo o sensato Mephistopheles!
+
+Preferes á gargalhada que te chama á realidade da vida, o _chorus
+mysticus_ que te amargura a existencia com a mentira da miragem!
+
+
+João de Deus é rigorosamente um artista _insaciavel_: «Satiari artis
+cupiditate non quit,» como diria Plinio.
+
+Adivinha-se em cada estrophe d'elle um ancear indefinivel, um vago
+aspirar, se póde dizer-se assim, uma como que miragem que atráe o poeta,
+que o alenta umas vezes e o desespera não poucas, que parece enviar-lhe
+dos visos do horisonte uns suaves frescores envoltos em deliciosos
+perfumes, e que como a miragem do deserto, lhe foge sempre aos labios
+sequiosos.
+
+E o pobre viandante vae caminhando e cantando sempre. É um descantar
+dolorido geralmente, como que descantar de saudade do que sonhou e não
+acha, e não gosa, e não encontra no caminho, como que de _saudade_ do
+que lhe foge sempre, deixem-me usar a dôce palavra que bem sei eu que
+não fica ella bem lexicographicamente applicada.
+
+E assim com a imaginação embalada por um vago _ideal_ vae João de Deus
+_poetisando_ como Goëthe na opinião do seu, já citado amigo, tudo o que
+no caminho encontra. Poucas vezes se lhe altera a harmonia cerebral ao
+impulso d'uma vibração mais violenta. Os successivos amores--fundem
+quasi n'uma abstracção, parecem subtilisar-se até no _feminino eterno_
+do cantor do Fausto. Hoje Margarida, amanhã Helena, depois... Depois
+quem sabe?
+
+Hoje Marina. É uma recordação.
+
+ Como esse olhar é dôce!
+ Dôce dâ mesma sorte
+ Como se nunca fosse
+ Toldado pela morte,
+
+ Como se alumiasse
+ O sol ainda em vida
+ As rosas d'essa face
+ Agora carcomida.
+
+ Colhesse-as eu mais cedo
+ E logo que alvorece,
+ Já não tivesse mêdo
+ Que a terra m'as comesse.
+ .........................
+
+ Se um dia nos meus braços
+ Te desbotasse as côres,
+ Passavam os abraços...
+ Passavam os amores!...
+
+ Oh não: mil vezes antes
+ No céo lá onde habitas
+ E os rapidos instantes
+ Que vens e me visitas
+
+ N'este degredo nosso
+ Que tanta gente estima,
+ E eu, só porque não posso
+ Não largo e vou lá cima.
+
+ Vem tu cá baixo, abala, etc.
+
+ .......................
+
+ Ha uma hora ou mais,
+ Marina! que contemplo
+ A casa de teus paes
+ Que é para mim um templo.
+
+ É esta vida um mar
+ E bem se póde a gente
+ Marina, comparar
+ A rapida corrente
+
+ Que vae de lado a lado
+ Por esses valles fóra
+ Sem nunca lhe ser dado
+ Ter a menor demora:
+
+ Pára quando a engole
+ Aquelle mar sem fundo;
+ Nem pára, é como o sol
+ E como todo o mundo.
+
+ .......................
+
+Custa a resistir á tentação de transplantar para aqui completas, estas
+magnificas _singelesas_. Não ha n'aquillo alguma coisa do que é
+espontaneo e bello na _Vita Nuova_?
+
+Mas, como dissemos, o poeta approxima-se tambem do _Faust_ na
+volubilidade artistica.
+
+ Maria! vêr-te á porta a fazer meia
+ Olhando para mim de vez em quando
+ É o que n'esta vida me recreia.
+
+ ...................................
+
+ E eu pallido, Maria! o pensamento
+ Não é trabalho que nos dê saude,
+ Esta imaginação é um tormento.
+
+ ...................................
+
+ É que a gente na sua mocidade
+ Não cabe em si, não pára de contente
+ E assim fui eu na flôr da minha edade.
+
+ Tu eras n'esse tempo simplesmente
+ A flôr que vae nascendo e mais valia
+ Seres tão terna ainda e innocente.
+
+ Já esse lindo pé que tens, Maria!
+ Esse quadril tão largo e cinta estreita
+ Me não vinha á ideia noite e dia;
+
+ Esses encontros de mulher perfeita,
+ Esse peito redondo e arqueado
+ Como a pomba farta e satisfeita;
+
+ Talvez vivesse então mais socegado
+ Ou já que a minha sorte é sempre triste
+ Ao menos não andasse enfeitiçado.
+ ...................................
+
+Depois é Margarida:
+
+ Oh! que formosos dias, Margarida!
+ Esses, etc. etc.
+
+Depois... Ha nomes que não se proferem, que não se denunciam. São como
+certo nome do Deus judaico.
+
+O poeta diz simplesmente: _No leito nupcial._ Um nome depois d'isto fôra
+mais que uma profanação, fôra uma infamia. Julgaes porém que ides ouvir
+uma recriminação amarga ou uma indiscripção villã?
+
+ Dorme, estatua de neve,
+ Vergontea de marfim,
+ Tocar que impio se atreve
+ No que é sagrado assim!
+
+ Dois são: o mais, mysterio
+ Vedado á terra, Deus
+ Talvez do solio ethereo
+ Nem baixe os olhos seus.
+
+ Respeita-os, tapa-os, como
+ Japhet e Sem, o pae...
+ Pende sagrado pomo,
+ A vista ergue-se e cáe.
+
+ Ergue-se e cáe, conforme
+ A lei que o manda assim,
+ _Ergue-se_ e... dorme, dorme,
+ Vergontea de marfim!
+
+ .......................
+
+ Não segue acaso a sombra
+ Teu corpo sempre, flôr?
+ E pois porque te assombra
+ Meu insensato amor?
+
+ .......................
+
+Depois é Beatriz:
+
+ Tu és o cheiro que exhala
+ Ao ir-se abrindo uma flôr;
+ Tu és o collo que embala
+ Suas primicias d'amor.
+
+ Tu és um beijo materno,
+ Tu és um riso infantil;
+ Sol entre as nuvens do inverno,
+ Rosa entre as flôres d'abril.
+
+ Tu és a rosa de maio,
+ Tua és a flamula azul
+ Que atam á flecha do raio
+ As nuvens negras do sul.
+
+ .......................
+
+E assim vae cantando sempre, de nome em nome, e de mysterio em mysterio
+e d'amor em amor, de duvida em duvida, de saudade em saudade, d'anceio
+em anceio. Não ha Beatriz que o retenha e lhe oiça o _Ecce Deos fortior
+me veniens dominabitur mihi_.
+
+Um dia encontra uma mulher formosa, joven, alegre. Ama. Será amado?
+
+ Amas-me a mim! perdoa,
+ É impossivel! Não,
+ Não ha quem se condoa
+ Da minha solidão.
+
+ Como podia eu triste,
+ Ah! inspirar-te amor,
+ Um dia que me viste,
+ Se é que me viste... flôr!
+
+ .......................
+
+ Via-te arfar o seio...
+ Córar... mudar de côr,
+ E embora, ah! não, não creio,
+ Tu não me tens amor!
+
+E o sonho foi-se e a visão desappareceu. Como se chamava aquella mulher?
+Vão lá saber como se chama a estrella cadente que rasga a amplidão do
+espaço e desapparece n'ella?
+
+E foi uma estrella cadente, aquella. Perdoem a indiscripção.
+
+Outro dia é o poeta que se afasta, que foge, porque receia macular com o
+seu halito o puro fulgor da estrella.
+
+ Tenho-te muito amor,
+ E amas-me muito, creio,
+ Mas ouve-me, receio
+ Tornar-te desgraçada.
+ O homem, minha amada,
+ Não perde nada, gosa;
+ Mas a mulher é rosa...
+ Sim, a mulher é flôr!
+
+ Ora, e a flôr, vê tu,
+ No que ella se resume...
+ Faltando-lhe o perfume.
+ Que é a essencia d'ella,
+ A mais viçosa e bella,
+ Vê-a a gente e... basta.
+ Sê sempre, sempre casta!
+ Terás... quanto possuo!
+
+Vou findar com as transcripções, que bastam as que ficam feitas para
+comprovar o que ácerca d'estas mimosas poesias e d'este original poeta
+tenho dito e hei de para o diante dizer. Não posso porém resistir á
+tentação de citar ainda uns trechos d'uma das mais bellas e
+caracteristicas composições de João de Deus. Podesse eu transcrevel-a
+toda!
+
+Não tem nome. Chamam-lhe alguns «A vida». Innumeras vezes tem ella feito
+cessar as alegrias das salas e interrompido brilhantes festas como o
+austero bispo de certa poesia de Thomaz Ribeiro, para mendigar ao
+sentimento das damas um condoimento de triste sympathia pelas intimas
+amarguras do poeta. Tem por epigraphe aquellas formosas palavras do
+Tasso:
+
+ Cosi trapassa al trapassar d'um giorno, etc.
+
+e começa:
+
+ Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
+ A luz que n'esta vida me guiava,
+ Olhos fitos na qual até contava
+ Ir os degraus do tumulo descendo.
+
+ Em se ella annuveando, em a não vendo,
+ Já se me a luz de tudo anuveava;
+ Despontava ella apenas, despontava
+ Logo em minha alma a luz que ia perdendo.
+
+ Alma gemea da minha, e ingenua e pura,
+ Como os anjos do céo (_se o não sonharam..._)
+ Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura.
+
+ Não sei se me voou, se m'a levaram,
+ Nem saiba eu nunca a minha desventura
+ Contar aos que inda em vida não choraram.
+
+Estas linhas fazem recordar Camões. Ha n'este tristuras que se
+manifestam por versos parecidos, mas eu prefiro estes ao tão conhecido
+soneto da «Alma minha gentil,» etc. Parece denunciar-se n'esta singelesa
+_morbida_, se póde dizer-se assim, mais sentimento e espontaneidade.
+
+Vamos mais além. Que superabundancia de ímagens! Que riquesa e variedade
+de _sensação_! Que esplendidos quadros! Que magnificencia de colorido!
+
+ Ah! quando no seu collo reclinado
+ --Collo mais puro e candido _que arminho_,
+ _Como abelha na flôr do rosmaninho_
+ Osculava seu labio perfumado;
+
+ Quando _á luz dos seus olhos_... (que era vêl-os,
+ E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!)
+ Lia na sua bôcca a _Biblia santa_
+ Escripta em letra _côr dos seus cabellos_:
+
+ Quando aquella mãosinha pondo um dedo
+ Em seus labios de _rosa pouco aberta_,
+ _Como timida pomba_ sempre alerta,
+ Me impunha ora silencio, ora segredo;
+
+ Quando, _como a alveloa_, delicada,
+ E linda _como a flôr_ que haja mais linda
+ Passava _como o cysne_ ou _como ainda_
+ Antes do sol raiar, _nuvem dourada_;
+
+ ...................................
+
+ Quando a _cruz_ do collar do seu pescoço,
+ _Estendendo-me os braços, como estende_
+ _O symbolo d'amor que as almas prende,_
+ _Me dizia_... o que ás mais dizer não ouço;
+
+ ...............................................
+
+ Quando o _ouro da trança_ aos ventos dando
+ E a _neve_ do seu collo e seu vestido
+ --_Pomba_ que do seu par se ia perdido,
+ Já de longe lhe ouvia o peito arfando;[4]
+
+ Tinha o _céo_ da minha alma as sete cores, etc.
+
+ ...........................................
+ ...........................................
+
+ Que é d'esses cabellos d'ouro
+ Do mais subido quilate,
+ D'esses labios escarlate,
+ Meu thesouro!
+
+ Que é d'esse halito, que ainda
+ O coração me perfuma!
+ Que é de teu collo de espuma,
+ Pomba linda!
+
+ ..............................
+ ..............................
+
+ De dia a estrella d'alva empallidece;
+ E a luz do dia eterno te ha ferido.
+ Em teu languido olhar adormecido
+ Nunca me um dia em vida me amanhece.
+
+ Foste a concha da praia. A flôr parece
+ Mais ditosa que tu. Quem te ha partido,
+ Meu calix de crystal, onde hei bebido
+ Os nectares do céo... _se um céo houvesse!_
+
+ Fonte pura das lagrimas que choro![5]
+ Quem tão menina e moça desmanchado
+ Te ha pelas nuvens os cabellos d'ouro!
+ .....................................
+
+ A vida é o dia d'hoje,
+ A vida é ai que mal sôa,
+ A vida é sombra que foge,
+ A vida é nuvem que vôa;
+ A vida é sonho tão leve
+ Que se desfaz como a neve
+ E como o fumo se esvae:
+ A vida dura um momento;
+ Mais leve que o pensamento,
+ A vida leva-a o vento,
+ A vida é folha que cáe!
+
+ A vida é flôr na corrente,
+ A vida é sopro suave,
+ A vida é estrella cadente,
+ Vôa mais leve que a ave;
+ Nuvem que o vento nos ares,
+ Onda que o vento nos mares
+ Uma apoz outra lançou,
+ A vida--penna cahida
+ Da aza da ave ferida,
+ De valle em valle impellida
+ A vida o vento a levou!
+
+ ..............................
+ ..............................
+
+ _Talvez_, é hoje a Biblia, o livro aberto
+ Que eu só ponho ante mim nas rochas, quando
+ Vou pelo mundo vêr se a posso vêr;
+ E onde, como a palmeira do deserto,
+ Apenas vejo aos pés inquieta ondeando
+ A sombra do meu ser.
+
+ ..............................
+
+Depois d'isto comprehendeu-se que João de Deus se propozesse a traduzir
+o _Cantico dos Canticos_.
+
+Como, se bem me lembro, diz Herder, os elementos primordiaes da poesia
+hebraica são a _sensação_ e a _imagem_, e posto que, no meu entender, a
+boa critica não possa monopolisar aquella feição em favor apenas
+d'aquella poesia, porque ella é caracteristica de todas as litteraturas
+na sua genese, e nos primeiros periodos de constituição, em quanto
+predominam no homem os sentimentos elementares como diz Veron[6],
+comtudo a poesia hebraica propriamente tal quasi não chega a ultrapassar
+o periodo d'aquelle predominio. Poderiam talvez accusar-se os versos que
+acabo de transcrever de certo _garridismo_ que mal iria ao sentimento
+que exprimem, se a violencia d'esse sentimento, o estado de exaltação
+sensorial não estivessem justificando o que parece defeito aos leitores
+que não sintam a transfusão psychologica que muitos hão de experimentar
+ante aquelles versos magnificos.
+
+A poesia de João de Deus é verdadeira musica. Se eu estivesse agora para
+combater os que julgam como Lamartine[7] que a _versificação_, o
+rhythmo, a cadencia, a rima, são cousas indifferentes á poesia na «época
+adiantada e verdadeiramente intellectual dos povos modernos», os que
+teem tudo isso, como Heine (cit. por Max. Buchon) por completa
+puerilidade, para valente comprovação me podiam servir os versos do
+nosso poeta.
+
+São elles geralmente como que uma psalmodía. Allia-se a musica e a
+poesia que tantos querem distancear, como se o rythmo fosse apenas
+elemento especial d'uma arte. João de Deus como que tem uma rhythmopêa
+espontanea. Sahe-lhe o verso moldado pela ideia e pelo sentimento, e
+n'este como n'aquelle a modulação existe pelas fataes variantes dos
+estimulos e das vibrações cerebraes. Procuraram os gregos systematisar
+as relações do rhythmo para com a idêa e o sentimento, como se fôra
+possivel marcar limite numerico aos modos de ser do pensamento, ou aos
+productos da actividade intellectual e esthetica. Se, pois, em muitos
+casos, são acceitaveis as velhas regras, geralmente a rhythmopêa deve
+ser producto espontaneo, e não _canon_ de escóla. E porque se dá o
+primeiro caso em João de Deus, é que talvez se revela nos seus versos,
+bem salientemente o cunho da personalidade, condição essencial d'uma
+obra poetica. É necessario não perder aquella de vista, porque, como diz
+o critico francez, que atraz citei, o verdadeiro merecimento, na poesia,
+está antes na esthesia do poeta de que na do leitor. Ora bastam as
+transcripções que fiz para vêr como a personalidade do poeta, o seu
+sentir e pensar se patentêam na expressão, na _fórma_, que em outros
+escriptores mal disfarça com arrebiques e ouropeis a carencia da
+sensibilidade e inspiração pessoal.
+
+Ha mais poesia n'algumas _singelezas_ de João de Deus do que em muitos
+_versos_ laureados que por ahi correm como modêlos de _metrificação_, e
+que bem podem sêl-o, o que não basta de certo.
+
+ Mais poesia em pobre margarida
+ Que aos pés se pisa, enthesourada vejo,
+ Que em muita madreperola polida
+ Que as cinzas guarda de finado arpejo.
+
+Toquei eu agora n'uma das melhores poesias de João de Deus, poesia que
+elle diz ser fragmento, e fragmento que bem faz desejar a apparição da
+obra toda.
+
+Vou ainda transcrever alguns trechos que lançam de certo muita luz sobre
+o vulto, quasi lendario do poeta, em pontos menos esclarecidos pelas
+transcripções anteriores.
+
+ Padre, ministro do Crucificado
+ É bom ferreiro afeiçoando o ferro
+ Com que ha de prestes ir rompendo o arado
+ Os campos d'este secular desterro...
+
+ ....................................
+
+ Na montanha da Fé, mulher formosa
+ Se ante mim a meus pés desenrolasse
+ Como o demonio a vastidão pasmosa
+ Que elle dava a Jesus se o adorasse
+ E me pedisse em premio uma só cousa
+ Ás mãos de minha mãe furtar a face;
+ Eu lançava-lhe cuspo...
+
+ ...................................
+
+ Vêde-a ao berço, sofrega de vida
+ Que a sua é pouca para dar ao filho;
+ _Ella_ em cama de espinhos, mal vestida,
+ _Elle_ enfaxado, em berço de tomilho;
+ _Ella_ em continua, asafamada lida,
+ _Elle_ vendo se apanha á luz o brilho...
+ _Já descobrindo em tão tenrinha edade_
+ _Que toda a sua sêde é de verdade._
+
+ .................................
+ .................................
+
+ Irmãs da Caridade! A caridade
+ Tem só duas irmãs--a Fé e a Esperança:
+ Não traja as côres só d'uma irmandade,
+ Traja as côres do Arco d'alliança;
+ Leva sósinha o pão da piedade,
+ Tira da roda essa infeliz creança...
+ Roda da vida que anda de tal sorte
+ Que, em se lhe dando, é já contar com a morte.
+
+ Bemdita sejas tu, victima triste
+ D'um peito amante e d'um amante ingrato!
+ Que nunca á mesma loba lançar viste
+ Inda mamando o cachorrinho ao mato;
+ Bemdita sejas tu, que o que pariste
+ Teu fructo, imagem tua e teu retrato
+ Conservas como espelho onde te vejas;
+ Bemdita sejas tu, bemdita sejas.
+
+ ................................
+ ................................
+
+ Acaso é só dourada, altiva estola
+ Que liga os corpos em as mãos ligando,
+ Confunde corações e faz em summa
+ Que a Deus se elevem duas almas n'uma?
+
+Ahi tendes o apostolo, o campeão social. Não lhe aceiteis, muito embora,
+a doutrina. Acatae-lhe a generosidade, a grandeza da _ideia_, a robustez
+da convicção. Que poema enorme, magestoso e bello não será aquelle!
+
+Colligir as poesias de João de Deus que por ahi andavam dispersas,
+mutiladas e perdidas, foi de certo um grande serviço ás patrias letras.
+
+Prestou-o o snr. José Antonio Garcia Blanco.
+
+Poeta mais original, mais rico, mais verdadeiro do que aquelle, não
+conheço na litteratura portugueza, e tanto como elle, ha de ser difficil
+de encontrar entre nós, na litteratura d'hoje. Um certo _mysticismo_ mal
+definido que recendem as suas poesias, é menos producto da tradicção que
+originalidade genial. João de Deus é um homem do Meio-dia com o vago
+ancear d'um poeta do norte. Opprime-o o _insufficiente_ como ao Faust.
+Se lhe désse para ser philosopho, onde iria parar?...
+
+Como poeta tem alguma cousa de Ossian com alguma cousa de Goëthe...[8]
+
+ *Luciano Cordeiro.*
+
+ [2] «Goethe et Schiller» por E. Rambert. (Revue Suisse--fev. 1869).
+
+ [3] Quando digo «sensações sensoriaes», fallo das sensações
+ «externas e internas», como vulgarmente se classificam, e não excluo
+ as que se dão sem realidade objectiva que as provoque, e que
+ constituem o estado pathologico da «allucinação», estado a que
+ porventura se poderia reduzir algumas vezes, creio, o «mens
+ divinior» dos antigos. Esta ultima observação é minha, as anteriores
+ são de Luys (Recherches sur le système nerveux, etc., etc., cit. par
+ Littré) e E. Littré, De la méthode en psychologie (Phil.
+ posit.--Revue--1.^er vol.)
+
+ [4] Seguia-se a seguinte quadra, que não apparece na collecção e que
+ eu acho não só egual em bellesa ás citadas, mas superior a algumas:
+
+ Quando _o annel_ da bôcca lusidia,
+ Vermelha _como a rosa cheia d'agua_
+ Em beijos á saudade abrindo a magua
+ _Mil rosas_ pelas faces me esparzia;
+
+ [5] Variante:
+
+ Oh lagrima das lagrimas que choro!
+
+ [6] Superiorité des artes modernes.
+
+ [7] Cours fam. de litt.
+
+ [8] Revolução de Setembro (1869) n.^os 8012, 8015 e 8023.
+
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+FLORES DO CAMPO
+
+DE
+
+João de Deus
+
+
+É indispensavel crêr na poesia como se crê no Evangelho, como se
+acredita em Deus. No perpassar d'esta via dolorosa, cortada a todo o
+passo de agrestes sinuosidades, a poesia luzindo de quando em quando ao
+viageiro extenuado como um iris de bonança, significa a mais completa
+redempção da materia pelo espirito.
+
+Aguia sobranceira que elevando-se até perder de vista o lodo em que se
+immergem tantos e tantos seres, vae roçar com a fimbria da aza a crista
+das nuvens, confundindo os seus arrulhos mysteriosos com as melodias dos
+seraphins!
+
+Creou Deus a poesia para que a primavera com os seus canticos e
+perfumes, com a sua opulenta vegetação, encontrasse quem a
+comprehendesse, quem a cantasse: creou Deus a poesia para escarmento ao
+vicio, distanceando-nos do finito que é o começo do scepticismo, para o
+infinito que é Deus! Surgiu a poesia para que nas trevas de um mundo que
+ri de tudo como Democrito, que tudo amesquinha, brilhasse uma luz que só
+de vêl-a a alma se purificasse e o espirito adejasse para o ideal.
+
+Não chamem á poesia trivialidade.
+
+Estudem os seculos; contemplem as nações e digam se a poesia teve ou não
+extraordinaria influencia nos grandes acontecimentos sociaes.
+
+Quem, senão Roger de l'Isle, ergueu palpitante toda a França com umas
+quantas estrophes, a _Marseillaise_?
+
+Não foram os versos de Shakespeare, de Milton, de Pope, que
+poderosamente concorreram a immortalisar a Inglaterra?
+
+Portugal não deve a fama da sua gloria aos _Lusiadas_ de Camões?
+
+Consintam os homens de algarismos, os materialistas que antepõem a carne
+ao espirito, que fazem d'ella o seu credo, que os poetas, os sonhadores
+de chimeras deixem devanear a imaginação por esses horisontes de anil;
+deixem que reclinados á proa do baixel da vida namorem o azul das aguas
+depois de terem contemplado o dos céos.
+
+Ai da humanidade, se o poeta deixar pender a fronte desalentada ao
+partirem-se-lhe as cordas da lyra! a prosa invadirá o sanctuario dos
+mais nobres estimulos, e o sceptico exultará ao soltar a sua risada
+infernal como a dos condemnados do Dante.
+
+Não sei quantas vezes temos lido as _Flores do Campo_, exhaurindo sempre
+novos e exquisitos perfumes.
+
+Tem isso a originalidade, que é o distinctivo d'este poeta. Costumamos
+dizer com referencia a qualquer notavel escriptor nosso: aquelle talento
+tem a suavidade de Lamartine, o sentimento de A. de Musset, o mysticismo
+de Chateaubriand, a ironia de Byron, a energia apaixonada de Victor
+Hugo.
+
+Porque não havemos de dizer que João de Deus tem o cunho original da
+poesia portugueza na sua mais genuina expressão?! Quem se compraz em
+parodiar constantemente os usos e idiomas dos de fóra, deve uma vez por
+outra, ufanar-se do que tem de seu original e portuguez de lei, como o é
+João de Deus em todos os seus escriptos.
+
+Atravez dos versos do mimoso poeta contemplam-se as noites estrelladas
+de Portugal, o Tejo com as risonhas margens, Coimbra com a sua _Fonte
+das Lagrimas_, o clima emfim e a vegetação esplendida d'este pequeno
+eden.
+
+Vê-se que este poeta é portuguez de feição, e comprehende-se quanto na
+patria de Camões e Garrett a poesia se manifesta espontanea e esplendida
+na fórma e ideia!
+
+Começa o livro com a poesia _Camões e Byron_, e termina com o _Cantico
+dos Canticos_: abre pois com chave de prata para fechar com chave de
+ouro.
+
+Ha estrophes de uma suavidade tão nimiamente infantil, tão peculiarmente
+despretenciosa, que a ninguem senão a João de Deus poderiam
+attribuir-se, quando mesmo o seu nome não estivesse engrinaldando
+luxuosamente o adito d'este livro.
+
+Citaremos, entre muitas, estas:
+
+ Maria! vêr-te á porta a fazer meia
+ Olhando para mim de vez em quando,
+ É o que n'esta vida me recreia.
+ ..................................
+
+ Esses olhos azues... que olhar! Receio
+ E desejo estar sempre a contemplal-o;
+ Não ha mais doce e mais custoso enleio.
+
+ ..................................
+
+ Bem poderas, Maria andar tapada
+ Só com o teu cabello, á similhança
+ Do sol em nuvem de manhã doirada.
+
+ ...................................
+
+ A bôca é tão vermelha que, em te rindo,
+ Lembra-me uma romã aberta ao meio,
+ Quando já de madura está caindo.
+
+Na poesia _Innocencia_ revela o poeta, a par de uma finura de sentimento
+e extrema sensibilidade, um preito á virtude, que toda a mulher que a
+lêr deve necessariamente sentir-se attrahida por um sentimento de
+gratidão para quem a escreveu:
+
+ Casta innocencia, de Deus filha e bella
+ Entre as mais bellas! virginal aroma!
+ Rosa ineffavel, que se á luz assoma,
+ Haste e raiz apodreceu com ella!
+
+Percebemos tambem que João de Deus pertence ao numero dos crentes, ainda
+tão mal limitado; prova-o exuberantemente as suas poesias _Luz da Fé_,
+_Fragmento_, e varias outras.
+
+ Deus era inda meu pae. E em quanto pude
+ Li o seu nome em tudo quanto existe;
+ No campo em flor; na praia arida e triste,
+ No céo, no mar, na terra e... na virtude!
+
+Como o poeta adora a poesia e o quanto tem d'ella feito o seu credo,
+dil-o eloquentemente esta quadra:
+
+ Oh! poesia, poesia altissima
+ Como o fecho do impyreo! eu me ajoelho
+ E beijo a tua base, harpa celeste!
+ O coração--a corda que nos deste.
+
+Na alma d'este homem que tem na fronte uma estrella de fogo e talvez um
+martyrio no coração, suspiram ternuras indiziveis que a sua lyra traduz
+em canticos suavissimos:
+
+ É do sangue e das mães que eu fallo, e certo,
+ Que ha na vida mais sancto? O sangue é vida;
+ E as mães fontes de vida: eu nunca esperto
+ Esta lampada d'alma, suspendida
+ Na abobada eterna e que tão perto
+ Parece ter a origem..............
+ ....................senão quando
+ Vejo essa cara imagem suspirando.
+
+Querem dizer, e talvez com razão, que João de Deus abusa da rima
+deixando-a por vezes defeituosa.
+
+A meu vêr esta pecha está na razão das manchas que o sol contém, mas que
+os nossos olhos não descobrem sem o auxilio do telescopio, o que não
+obsta a que o sol seja o astro do dia.
+
+«Marcar balisas á poesia, é impossivel, diz um illustre poeta e critico,
+a poesia é livre como o pensamento, e grande como a immensidade.»
+
+Eis-ahi está o segredo da culpa, e _feliz culpa_!
+
+Se João de Deus pertencesse a um certo numero de poetas que esgravatam
+na areia e folheiam livros alheios primeiro que possam rabiscar algumas
+insulsas linhas, talvez a rima lhe saísse menos incorrecta segundo a
+arte, mas acanhada e rachitica segundo o pensamento.
+
+A verdadeira poesia, como diz C. de Figueiredo, surge livre como a
+natureza; irrompe, inunda de luz de fogo, sem muitas vezes poder
+sujeitar-se aos acanhados moldes da arte.
+
+Apparece-nos o poeta, namorado como Bernardim Ribeiro, n'estas
+dulcissimas estrophes:
+
+ Não ha existencia alguma
+ Que não tenha amor, nenhuma;
+ Porque o amor, é, em summa,
+ Essencia de todo o ser.
+ Ha sempre quem nos attraia,
+ Mil vezes que a onda caia,
+ Ha uma rocha, uma praia
+ Aonde a onda vae ter.
+
+Seria um nunca acabar se fossemos a exarar aqui todas as preciosissimas
+joias d'esta corôa opulenta que veio enriquecer a nossa litteratura.
+
+Apartamo-nos do livro com extrema saudade, recommendando á leitora, que
+por acaso ainda o não possue, a prompta acquisiçao d'elle para
+collocal-o ao lado das rosas, jasmins e violetas com que, durante a
+formosa estação que se avisinha, ha de perfumar o seu _boudoir_.[9]
+
+ *D. Guiomar D. Torrezão.*
+
+ [9] Voz Feminina (1869) n.º 60.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ANNO LITTERARIO DE 1869
+
+
+CARTAS A J. SIMÕES DIAS
+
+
+Á hora dos phantasmas, á meia noite, escreveste o _Anno litterario de
+1868_. A noite é sombria e triste; e por isso as tuas reflexões
+humoristicas não occultam de todo a descrença, a tristeza e o desanimo,
+com que espalhaste a vista pelas coisas litterarias da nossa terra.
+
+Fundado ou infundado, não chamarei eu esse desalento, porque, de onde em
+onde, nos encontrariamos, se eu fosse ajustar o padrão da tua critica ao
+juizo que eu fizesse de producções da arte.
+
+Não posso, comtudo, deixar de querer muito a essa franqueza, que é o teu
+caracter, e a tua regra em materias de critica. E tanto mais lhe quero,
+quanto eu reconheço que a franqueza, hoje em dia, é fazenda de
+contrabando nas nossas alfandegas litterarias.
+
+Quando o anno de 1868 pertencia já ao passado, scismavas á meia noite
+sobre o mau rumo que te pareceu levarem as nossas letras. Eu sou um
+pouco mais crente, e menos atrabiliario: á entrada de 1869, estendo os
+olhos ao futuro, e espero e creio muito, porque já não são de pouca
+monta as primicias que nos offerece o anno litterario de 1869. Fallo das
+_Flores do Campo_ de João de Deus.
+
+Com a analyse d'este livro, abro uma serie de apreciações, em que te
+fallarei das obras poeticas que n'este anno, e em Portugal, se derem á
+estampa. O meu voto, em materia alguma tem força, nem eu procuro
+dar-lh'a, para se insinuar no animo do publico: é um voto individual, em
+que apenas acharás o merito da sinceridade e da franqueza.
+
+Direi de caminho que não sigo a trilha que me deixou o teu _Anno
+litterario_. Não deslembrarei os preceitos da critica analytica, para
+não apreciar, em synthese, obras que exigem demorado exame das suas
+partes.
+
+Tambem não escolho, para te escrever, a hora lugubre dos phantasmas.
+Começo a escrever-te ás horas d'uma esplendida manhã, espalhando os
+olhos por aquellas duas margens do nosso Mondego: a relva rasteira que
+as veste, e que me falla de vagas esperanças, ha de desentranhar-se em
+flores e fructos. Deixa-me crêr muito no dia de ámanhã.
+
+E porque não virão as flôres da poesia derramar perfumes sob este céo de
+Portugal, n'este _jardim da Europa_, onde já suspirou melodias
+Bernardim, Camões, Garrett, Castilho! Não morre a poesia portugueza: a
+estatua da deusa ainda não tremeu na peanha; e quando os iconoclastas do
+bello quizessem contra ella erguer braços profanos, a quantos apostolos
+da arte não teriam de suffocar a voz!
+
+Bem-vindos sejam estes sonhadores de chimeras, estes utopistas cheios de
+alma e coração, luctando de contínuo com o mundo real, e de contínuo
+erguendo-nos a mundos imaginarios, mas bellos d'uma belleza que não é da
+terra!
+
+Fallo-te da poesia individual, e eu sei bem que lhe não queres tanto
+como eu. Desejas que a poesia se concentre no mundo estreito dos fins
+sociaes; entendes que a poesia deve de limitar-se a mostrar o caminho á
+humanidade que marcha, ou á exaltação dos dogmas do seculo. Por certo
+que se não desvirtua a poesia, seguindo por taes veredas; mas o genio
+não tem peias nem limites: veste de luz o lirio dos valles; alumia a
+estrada ao caminheiro da vida; doira as arestas do serro escalvado;
+enche a noite de luz; de fulgores inunda o espirito, e não sei por
+quantos mundos nos leva a alma absorta!
+
+Marcar balisas á poesia, é impossivel, porque a poesia é livre como o
+pensamento.
+
+Deixa pois cantar os poetas que levantaram a vista do pó da terra, onde
+tudo é limitado como a materia, e vil como o gusano das ossadas. Deixa
+que eu te falle de um poeta, cujo espirito é aguia que raro avisinha a
+ponta das azas aos marneis da sociedade. A gente pasma da altura a que
+se eleva aquelle espirito, e acontece ás vezes que a nossa vista não
+póde acompanhar tão levantados vôos: perde-se elle no vacuo, e, quando
+divaga em mares de luz, ficamos nós em trevas, sem vêr a direcção que
+elle toma...
+
+João de Deus não canta para a sociedade, canta para si. Quer discorra
+por vergeis de poesia singela e perfumada, quer se eleve a alturas
+desmedidas, não se importa de que lhe não oiçam nem entendam o canto
+sempre harmonioso. É talvez por isso que elle não publicou, nem
+publicaria as _Flores do Campo_.
+
+Ao amigo que lh'as estampou, muito devemos nós todos os que presamos as
+nossas boas letras.
+
+Agora se me offerece caso para cogitações profundas: as _Flores do
+Campo_ saíram a lume ha quasi um mez, e, até á data em que te escrevo,
+dormem os nossos criticos a bom levar, sem que uma palavra lhes haja
+irrompido dos labios, sobre o merecimento d'este magnifico livro. Aqui,
+ha por força caso virgem, mas... ponto em bôcca.
+
+E pois que os criticos não querem, ou não ousam, pronunciar o seu
+_veredictum_, vou eu mostrar-te o valor em que tenho as _Flores do
+Campo_, por que me digas ao depois se não são ellas, para a nossa
+litteratura, prenuncios d'um outono avergado de fructos.
+
+Quando o visconde de Chateaubriand trabalhava por agremiar em torno da
+cruz as multidões, que ainda sentiam nos ouvidos a voz tentadora de
+Robespierre e Mirabeau, surgia na Inglaterra um homem extraordinario,
+personificação pasmosa do genio e do scepticismo--lord Byron.
+
+Ninguem como o cantor do _Childe Harold_, pôde jámais aliar uma alma de
+poeta ao scepticismo, á duvida, á frieza, que ressumbram de cada verso
+do _Don Juan_:
+
+ For me, I know nought; nothing I deny,
+ Amit, reject, contemn; and what knew you,
+ Except perhaps that you were born to die?
+ And both may after all turn out in true.
+
+Mas... na mente de Byron reflectia-se uma das tendencias mais
+caracteristicas da sociedade contemporanea; o scepticismo apresentou-se
+revestido com a aureóla do genio, ergueu-se como chamma incendiaria, e
+lavrou pela litteratura do seculo.
+
+Que restava aos adeptos da poesia? O maior numero, como os companheiros
+de Ulysses, deixou-se arrastar pelos cantos da sereia, e, se não abordou
+á ilha encantada, d'onde lhe acenava a gloria, mediu a profundeza do
+abysmo que a tentação lhe abriu aos pés...; outros, refugiram á
+attração, e velejaram alegres por onde os não batessem os pampeiros da
+descrença e do scepticismo.
+
+A poesia que abre o livro de João de Deus é o emblema dos dous rumos por
+onde tomam os argonautas da arte, e estrema o scepticismo e crença,
+_Camões_ e _Byron_. Não sei se esta composição vale muito aos olhos dos
+mestres; para mim, é das mais somenos de João de Deus, e, se não fôra
+collocada alli para denunciar, talvez, as crenças litterarias do auctor,
+não a quizera vêr á entrada d'este livro. A arte exige para um edificio
+primoroso um portico lavrado a primor.
+
+Na composição alludida, se a ideia é grande e original, a fórma que a
+reveste não, não é perfeita; sem fórma, não concebo arte, e sem arte não
+se traduz o sentimento do bello.
+
+Não vás porém julgar que estou dando lições de poetica a um poeta como
+João de Deus. Mais do que ninguem, conhece elle por ventura os defeitos
+do seu livro, e, se os poupou, ao limar os seus versos, é que não teve
+em tanta conta, como geralmente se tem, certas exigencias da arte.
+
+ Que vês?--Sóes, de tal sorte
+ Que os crêra tochas _pallidas_,
+ Quando as guedelhas, _madidas_
+ De sangue, arrasta a morte.
+
+ ...........................
+
+ --Falla.--Deus! que harmonia!
+ Aqui a alma _exalta-se_;
+ A alma aqui _dilata-se_...
+ _Camões!_--É a poesia.
+
+Nem a critica imparcial tanto exige, nem eu tenho logar bastante para
+transcrever aqui todas as estrophes, em que as rimas se me deparam
+defeituosas e erradas. Cito-te de passagem _queime_ e _geme_, _deixe_ e
+_feche_, _confesso_ e _immenso_, _cuides_ e _virtudes_, _outro_ e
+_encontro_, _géra_ e _inteira_, _teimo_ e _supremo_, _prega_ e _negra_,
+_avaro_ e _ara_, _sêde_ e _hei-de_, _põe_ e _foi_, _vê_ e _adorei_,
+_inteiro_ e _quero_, etc.
+
+E comtudo João de Deus parece brincar com as maiores difficuldades da
+rima. Para não fallar na poesia _Boas Noites_, basta apontar-te aquelle
+trecho da poesia _O Musgo_:
+
+ Um dia, não sei que tinha...
+ Uma tristeza tamanha!
+ E lembra-me ir á montanha
+ Que temos aqui visinha,
+ Onde em tempo me entretinha
+ Horas e horas sósinha,
+ Quando ainda não se extranha
+ Que n'uma teia de aranha
+ Se prenda uma innocentinha,
+ Ou atrás d'uma avesinha
+ Se cance a vêr se a apanha.
+
+Em metricação tambem as _Flores do Campo_ nos offerecem provas de que
+João de Deus não é, n'este ponto, nimiamente escrupuloso. Assim ficou
+errado este decassyllabo:
+
+ Chamando-os com enternecimento,
+
+e aquelle septissylabo que vae sublinhado:
+
+ Que é a torre exactamente
+ _De David n'esses ares,_
+
+para não citar passagens como estas:
+
+ _Adeus tranças côr de ouro,_
+ Adeus peito côr de neve.
+
+ _Tornaram-se-me em estrellas_
+ _As lagrimas de dôr._
+
+Versos ha tambem nas _Flores do Campo_ defeituosos pela disposição dos
+accentos predominantes. Bastam tres exemplos em versos decassyllabos:
+
+ Ha puros sonhos de imaginação.
+
+ E eu digo, digo á luz scismadora.
+
+ Expôz aos coices... leão moribundo.
+
+Mas um verso completamente errado, e que por certo não sahiu assim da
+penna de João de Deus, é aquelle
+
+ Que fez tremer as abobadas do inferno.
+
+Não é necessario ser auctor das _Flores do Campo_, para condemnar um
+verso tal. Descuido do impressor, e falta de cuidado na revisão,
+occasionaram aquelle erro, a que de prompto se obviaria com a suppressão
+de dous _ss_ inuteis.
+
+O que para alguém não será defeito, mas que para muitos torna
+inintelligiveis algumas passagens, do livro, é, por vezes o abstruso da
+ideia, velada por sombras impenetraveis. Dá-me tu, se podes, a chave
+d'este enigma:
+
+ Oh! ha tres vistas com que as coisas vêmos;
+ Ha tres rasões que as coisas determinam;
+ Uma a dos olhos; outra a que escondemos
+ N'isso ante que os álamos se inclinam;
+ Outra a que dentro no coração temos,
+ Que os limites do espaço só terminam:
+ Coube a primeira em sorte á borboleta;
+ A outra ao homem; a terceira ao poeta.
+
+E quando João de Deus, á vista d'um retrato, exclama:
+
+ És tu! Amo-te e muito! O que fluctua
+ Na fornalha que o sopro eterno acende,
+ Não beija a mão do anjo que o suspende
+ Com mais amor que eu beijo a sombra tua!»
+
+Quem é que fluctua na fornalha acesa pelo sôpro eterno? Será o sol?
+
+Especialmente n'aquelle fragmento que principia na pagina 130, mais
+alguns pontos se me deparam, para cuja interpretação me não sinto com
+forças. Não te faço mais citações, a este proposito, porque bem póde ser
+que toda a gente penetre o que para mim é escuro. Demais d'isto,
+parece-me que o poeta nem sempre tem obrigação restricta de moldar os
+vôos da sua imaginação pela myopia dos que só podem curvar-se diante das
+nuvens que velam a sarça ardente...
+
+Agora, vaes talvez esquecer as manchas que divisastes n'esta joia
+litteraria, para festejares comigo quadros esplendidos de poesia
+originalissima, rica de sentimento, de graça e de harmonia.
+
+Originalidades litterarias, poucos ha, já agora, que n'ellas creiam.
+Escorre de vez em quando, por ahi uma sanie de novidade tão asquerosa
+pelas folhas volantes da nossa litteratura de hoje, que os apreciadores
+de pituitaria melindrosa, não ha quem os desatrelle da sentença de que
+_tudo o que é novo é mau, e que tudo o que é bom é velho_.
+
+_Nihil sub sole novum!_--cantava o Gessner biblico, asseguravam os
+juizes de Galileu, e rouqueja Boileau com os demais amphyctiões da
+litteratura. Respeitemos o talento; mas aos que duvidam da grandeza do
+genio, e pedem ao passado a chave do futuro, atiremos-lhe á face com a
+resposta de Galileu:--_E pur si muove._--
+
+Admittida a originalidade, moldada pelo bom gosto, devemos saudal-a em
+João de Deus, o poeta mais original que eu conheço entre os nossos
+homens de letras. Estudo João de Deus, dês que leio versos, e ainda não
+pude encontrar o segredo d'aquella harmonia tão sua, d'aquella elegancia
+tão despretenciosa, d'aquelle sentimento que tanto nos captiva a alma,
+sem sabermos como.
+
+Ou eu me engano muito, ou da poesia de João de Deus me vêm uns aromas
+que não desdizem d'aquella fragrancia que o esposo dos _Canticos_
+aspirava nos jardins da Sulamite biblica; d'aquella gravidade scismadora
+que resaltava das cordas do psalterio de David; d'aquelle adejar sublime
+e vago da aguia de Páthmos. Tranemos agora o mar dos seculos, ponhamos
+ao lado das _Flores do Campo_ as fantazias de Schiller a Laura, e verás
+que muitos arrojos da imaginação do bardo portuguez não desmerecem a
+companhia dos do bardo do norte.
+
+Mas, sobretudo, o que mais me enfeitiça nas _Flores do Campo_ é aquelle
+mimo e suavidade que matizam estrophes como estas:
+
+ Ah! quando no seu collo reclinado
+ --Collo mais puro e candido que arminho,--
+ Como abelha na flôr do rosmaninho
+ Osculava seu labio perfumado;
+
+ Quando á luz dos seus olhos... (que era vêl-os,
+ E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!)
+ Lia na sua bôca a Biblia Santa
+ Escripta em letra côr dos seus cabellos;
+
+ Quando a sua mãosinha pondo um dedo
+ Em seus labios de rosa pouco aberta,
+ Como timida pomba sempre álerta,
+ Me impunha ora silencio, ora segredo;
+
+ .....................................
+
+ Quando em balsamo d'alma piedosa
+ Ungia as mãos da supplice indigencia,
+ Como a nuvem nas mãos da Providencia
+ Um lagrima estila em flôr sequiosa;
+
+ Quando a cruz do collar do seu pescoço
+ Estendendo-me os braços, como estende
+ O symbolo d'amor que as almas prende,
+ Me dizia... o que ás mais dizer não ouço;
+
+ ........................................
+
+ Tinha o céo da minha alma as sete côres,
+ Valia-me este mundo um paraizo,
+ Distillava-se a alma em dôce riso,
+ Debaixo dos meus pés nasciam flôres.
+
+É assim que João de Deus se recorda da visão fugitiva que lhe doirou os
+sonhos de poeta e moço. Mais adiante, parece esquecer o lucto da
+saudade, mas não perde a doçura da harmonia:
+
+ Como os teus pés são lindos! como é doce
+ A curva do teu peito!
+ Oh! se o meu coração fosse o teu leito,
+ E o teu amado eu fosse!
+
+ Que preciosas perolas descobre
+ Teu meigo, humilde labio!
+ E virgem! como Deus foi justo e sabio
+ Em te deixar tão pobre!
+
+ ....................................
+ ........................
+ Tu não tens mais do que uma pobre saia,
+ E essa, curtinha e leve.
+
+ Onde o corpo te alteia, a saia avulta;
+ Onde te abaixa, desce...
+ És como a rosa! A rosa nasce e cresce,
+ Não para estar occulta.
+
+ O que te falta, pois? os teus desejos
+ Quaes são? de que precisas?
+ Ah! não ser eu o marmore que pisas...
+ Calçava-te de beijos!
+
+Ao terminar a transcripção d'este mimosissimo trecho, sinto não poder
+attribuir a João de Deus a chave que o fecha. O aprimorado e suave
+oratoriano Manoel Bernardes já tinha dito na sua excellente _Luz e
+Calor_, fallando a Jesus menino:
+
+ «Menino da minha alma, meu eterno nascido de ainda agora, meu
+ gracioso molhinho de amores perfeytos, minhas bellezas encantadoras
+ do coração humano: faze-me Serafim, para que te ame muito: dá-me
+ limpeza grande em meus labios _para calçar teus pésinhos de mil
+ osculos santos_: deyxa cahir das conchinhas de teus olhos hua
+ lagryma sobre meu peyto, etc.» (Pag, 556, ediç. 1724.)
+
+Mas que importa isso? Prouvera a Deus que os plagiatos, de que a
+litteratura anda eivada, se pautassem por este!
+
+Vivacidade de expressão, galanteria e graça, podes vêr d'isso um modelo
+no madrigal, epigramma, ou como quizeres chamar-lhe, feito _A uns olhos
+azues_:
+
+ Cáe a folha da rosa pudibunda,
+ Cáe a rosa da face virginal,
+ Cáe das nuvens a aguia moribunda,
+ Cáe o sol na montanha occidental.
+
+ .................................
+
+ Cáe do céo a centelha incendiaria,
+ A nuvem cáe, se um sopro Deus lhe dá,
+ Cáe ante o dia a noite solitaria
+ Como o falso Dagon ante Jehovah.
+
+ Cáe tudo, flôr! cáe tudo; eu só não caio:
+ Mais do que um rei, que o sol, egual a Deus,
+ Cahir, mulher! só posso á luz d'um raio
+ Se elle cahir do céo dos olhos teus!
+
+De vez em quando, o poeta apparece-nos pensador e philosopho; mas, ainda
+assim, a razão não vence o sentimento:
+
+ Irmãs da Caridade! A Caridade
+ Tem só duas irmãs--a Fé e a Esperança:
+ Não traja as côres só d'uma irmandade,
+ Traja as côres do Arco da Alliança;
+ Leva sósinha o pão da piedade;
+ Tira da roda essa infeliz criança...
+
+ ....................................
+
+Mais longe iria eu, se me propozesse trancrever tudo o que nas _Flores
+do Campo_ se apresenta digno dos mais levantados encomios. Assim, por
+não alongar em demasia a presente carta, recommendo-te a leitura da
+_Heresta_, da _Rachel_, do _Ultimo adeus_, da _Marina_, do _Remoinho_,
+do _Leito nupcial_, da _Innocencia_, da _Joven captiva_, e, muito
+especialmente, do _Cantico dos canticos de Salomão_.
+
+Lamennais e Renan haviam traduzido esplendidamente o _Cantico dos
+canticos_; João de Deus inspirou-se da pastoral de Sulem, e fez um poema
+quasi seu: seu pela fórma, pelo colorido, e pela disposição das scenas.
+
+O _Cantico dos canticos_ pertence, como sabes, ao numero dos livros
+sagrados, e é ponto inconcusso, entre os padres da Egreja, que os
+desposorios de que falla Salomão exprimem a união mystica do Verbo
+incarnado com a natureza humana, com a Egreja e com as almas justas.
+
+Os presidentes da synagoga judaica prohibiam a leitura d'este livro a
+quem não tivesse mais de trinta annos; e, ainda em tempos do piedoso
+João Gerson, nem os doutores o liam antes d'essa edade. E de feito nem
+Theocrito nem Florian deram jámais aos seus idylios aquelle perfume
+voluptuoso que, por entre flôres de poesia immorredoira, livremente se
+respira no idylio de Salomão.
+
+Theodoro Mopsueste teve o ousio de ligar a esse idylio um sentido
+exterior, e não mystico, interpretando-o litteralmente, mas foi
+condemnado pelo segundo concilio de Constantinopla. Hoje não ha temor de
+que a Egreja condemne João de Deus, e todos os que separam da poesia o
+dogma, talvez porque a Egreja, boa mãe, não quer vêr o mundo coalhado de
+herejes.
+
+E que importam ao leitor as convicções de João de Deus? A alma piedosa
+que se edificava na contemplação dos amores da Sulamite, pela versão de
+S. Jeronymo, que perde ella contemplando-os na lingua de Camões? «Para
+um coração puro, tudo é puro.»--É palavra de Deus, com que o poeta se
+auctorisa para trazer a lume a interpretação litteral do _Cantico dos
+canticos_.
+
+Já agora, apezar da extensão d'esta carta, deixa-me ainda expôr á tua
+vista algumas das paizagens mais seductoras d'este paraizo de amor, onde
+a volupia oriental se escoa semi-nua por ondulantes pradarias em flôr.
+Ouve:
+
+ A SALUMENSE.
+
+ Sou trigueira, mas formosa,
+ Moças de Jerusalem!
+ Senão, vêde o pavilhão
+ Que arma em campo Salomão,
+ Se ha coisa mais preciosa,
+ E por fóra a cór que tem;
+ Vêde as barracas dos moiros,
+ Por dentro tantos thesoiros,
+ Por fóra, negras tambem.
+
+ Não vos dê pois isso pena
+ Ter assim a côr morena:
+ Minha mãe mandou-me pôr,
+ Por culpa de meus irmãos,
+ De guarda á vinha; o calor
+ Queimou-me o rosto e as mãos
+ E eu, a vinha, é escusado
+ Dizer-vos que nem eu tinha
+ Senão agora o cuidado
+ De estar a guardar a vinha.
+ Oh! para que banda vás
+ Com o gado, meus amores!
+ E pela folga onde estás?
+ Bem vês os outros pastores,
+ E a gente não adivinha.
+ Eu não hei de andar atrás
+ D'esses rebanhos sósinha.
+
+ .........................
+
+
+ SALOMÃO.
+
+ Que enlevo! que formosura!
+ A pomba não tem de certo
+ No olhar tanta doçura:
+ E fóra o que anda encoberto.
+
+ O cabello, em quantidade
+ E tamanho, é singular;
+ E não me lembra senão
+ Das cabras de Galaad
+ Ques lhes roja pelo chão
+ Em ellas indo a andar.
+
+ Os dentes, em tu abrindo
+ A tua boca, que lindo!
+ Nem um rebanho de ovelhas
+ Todas brancas e parelhas
+ Quando em sendo tosquiadas
+ Vêem sahindo do banho
+ D'uma em uma, enfileiradas,
+ E atrás d'ellas cada uma
+ Seus dois gemeos d'um tamanho,
+ Sem ser maninha nenhuma.
+
+ Pois a boca é comparada
+ A uma fita encarnada.
+ A voz, ouvil-a é um gosto.
+ Parte a romã pelo meio
+ Verás as rosas do rosto;
+ E fóra no que eu receio
+ Fallar, que me não é dado.
+
+ O pescoço, pensa a gente,
+ Em o vendo de collares,
+ Que é a torre exactamente
+ De David n'esses ares,
+ De baluartes, e toda,
+ Lá cima, escudos á roda.
+
+ Os peitos, é um casal
+ De corcinhas, que o seu pasto
+ São açucenas do valle:
+ Nada mais timido e casto.
+ E deitam um cheiro á gomma
+ Da myrrha mais do incenso,
+ A ponto que ás vezes penso
+ Que elles são duas collinas
+ Por onde aquellas resinas
+ Espalham aquelle aroma.
+
+Se a esta hora me não accusasses de abuso de paciencia, ainda te repetia
+toda aquella mimosa _carta_ que principia:
+
+ Maria! vêr-te á porta a fazer meia,
+ Olhando para mim de vez em quando,
+ É o que n'esta vida me recreia.
+
+ Acordo até de noite, suspirando
+ Por que rompa a manhã, e tenha o gosto
+ De te vêr já tão cedo trabalhando.
+
+ Desde pela manhã até sol posto,
+ Que não tens de descanço um só momento;
+ Por isso tens tão bella côr do rosto!
+
+ E eu pallido, Maria! o pensamento
+ Não é trabalho que nos dê saude,
+ --Esta imaginação é um tormento!...[10]
+
+Mas... basta. O livro de João de Deus tem defeitos: escaceia a revezes a
+ligação dos pensamentos, a clareza das ideias, a exactidão do metro, a
+perfeição da rima, e não metteria uma lança em Africa o linguista que
+nas _Flores do Campo_ descortinasse, uma vez por outra, impureza e
+incorrecções de linguagem. Se, porém, eu mirasse a comprovar, n'esta
+rapida e singela revista, com os versos de João de Deus a sympathia e a
+admiração que elles me devem, não seria este o espaço que abrangesse
+tudo o que alli me pareceu filho d'uma inspiração verdadeira e original.
+Demais, o poeta não lucraria com estas transcripções a esmo, sobre não
+poderes fazer do livro uma ideia exacta, á mingua de apreciador
+conspicuo.
+
+Alexandre Herculano diz bem: a critica em Portugal é impossivel. Mas se
+nós todos cruzarmos os braços diante dos Ananias da litteratura que
+introduzem a mercancia do encomio, o servilismo e a chocarrice no
+santuario das letras, quem expulsará ámanhã os vendilhões, do templo? Já
+que me não ouvem, prega tu a estas multidões que não sabem o que amam,
+nem o que detestam; e praza a Deus que a tua voz não seja a voz do que
+bradava no deserto.
+
+
+Post-scriptum
+
+Bem avisado andei eu, quando, a proposito dos versos obscuros de João de
+Deus, tive a franqueza de conceder que toda a gente penetrasse o que
+para mim era obscuro. Os versos nublosos que lá citei, eram, pelo que me
+dizem, claros como agua. Um amigo nosso, optimo charadista ao que
+parece, pôz-me tudo em pratos limpos; e, pelos modos, o nosso OEdipo tem
+artes para desdar o nó aos mais envencilhados enigmas da mais implacavel
+Sphynge. Ora eu, que respeito o mysterio mas desadoro o enigma, e a quem
+nunca charadas desvelaram as noites, não pasmei de vêr luz onde se me
+antolhavam trevas. O discipulo amado de Jesus não jubilaria tanto, se
+visse quebrar os sete sêllos do livro que elle viu na visão do
+Apocalypse, como eu jubilei quando, a par de outras revelações, soube
+que o individuo que _fluctua na fornalha accêsa pelo sopro eterno_ é o
+anjo que as lendas piedosas figuram no purgatorio, dando a mão aos que
+lá se purgam das culpas temporaes para subirem ás regiões do premio
+eterno.
+
+Pelo que vejo, a decifração não era para fazer suar o cabello; mas
+confesso-te que, se cem braços eu tivera, como Briareu, para revolver o
+embotado escalpello da minha critica, cem braços me desfalleceriam
+diante dos cem olhos d'estes Argos que espreitam maliciosos o rumo
+indeciso dos mineiros obscuros da justiça e da verdade...
+
+Seguiu-se-me noite de insomnia. Visões estranhas vieram povoar-me o
+leito. Sobre o meu travesseiro dormiam comigo as magestosas _Torrentes_
+de Theophilo Braga, livro de que, em seguida ás _Flores do Campo_, eu
+contava fallar-te. Por cima de mim, por cima do livro, emtorno do meu
+leito, adejavam uns demoniosinhos, microscopicos como os lilliputianos
+de Gulliver: uns expediam risadinhas agudas, como de feiticeiras em
+noites de S. João; outros folheavam o livro e dobravam os joelhos por
+baixo das estrophes de mais levantada inspiração; estes murmuravam
+monotono kyrie em volta do livro, arrancando-m'o da mão, como da mão
+d'um profano se arranca a hostia sacrosanta; aquelles desfaziam o livro
+em tiras, entreteciam com ellas uma corôa, e collocavam-n'a na cabeça.
+Se me voltava para a direita, os da esquerda escouceavam-me com um
+arreganho diabolico; se me voltava para a esquerda, os da direita
+afiavam a pequenina dentadura, e arranhavam-me as pantorrilhas. O
+equilibrio era impossivel: esmagava-me um pesadelo! Acordei.
+
+Sobre a minha meza de trabalho estava um livro, notavel pela
+despretenção e suavidade do estylo, e pelo primor da versificação, sobre
+ser escripto em portuguez sem mistura; mas apenas no frontispicio li o
+nome de Antonio Feliciano de Castilho, passou-me pela mente a visão das
+_Torrentes_, e os lilliputianos da noite acercaram-se do _Medico á
+força_, reproduzindo os sarcasmos ou as ovações, os afagos ou as
+mordeduras, consoante as tendencias de cada qual.
+
+Estava entre a bigorna e o martello, entre a cruz e a caldeirinha. Quem
+me salvaria de posição tão melindrosa? Um esforço supremo: fechar as
+_Torrentes_ e o _Medico á força_, e não aventurar juizo sobre estes
+notaveis livros.
+
+Suspendo, pois, a revista do anno litterario de 1869, em quanto me vier
+á ideia aquella visão aterradora. Sinto-me com algumas forças para
+luctar com os lilliputianos da visão, mas não me sinto com paciencia
+para lhes soffrer os motejos e os tripudios, as risadinhas e as
+beliscaduras. Quero dormir a somno solto, e levar estas noites de
+Coimbra a sonhar sem pesadêlos, em paz com anjos e demonios, e até com
+os individuos das mais infimas classes animaes.
+
+Não quero luctar como Chatterton. Chatterton luctou, mas teve depois
+Vigny que o cingiu de louros, immortalisando-o. A troco da
+immortalidade, ainda eu me atiraria á lucta: ve lá se queres ser o meu
+Alfred de Vigny.[11]
+
+ *Candido de Figueiredo.*
+
+ [10] Já que ao generoso critico merece especial menção a _carta_,
+ advertiremos que o primeiro verso da ultima quadra é assim:
+
+ Nas asas da ventura atravessando.
+
+ [11] A Folha, (1869) n.º 7, 8, 9 e 10.
+
+
+Fim das criticas das "Flores do Campo."
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+INDEX
+
+
+RAMO DE FLORES
+
+I--Sede de amor 5
+
+II--Lamento 13
+
+III--Enlevo 15
+
+IV--Sempre 19
+
+V--Espera 21
+
+VI--Adeos 23
+
+VII--Melancholia 25
+
+VIII--Sympathia 29
+
+IX--11 de Maio 31
+
+X--Attracção 35
+
+XI--Desânimo 37
+
+XII--N'um Album 41
+
+XIII--O seu nome 43
+
+XIV--Saudade 51
+
+XV--* * * 57
+
+
+Criticas das Flores do Campo
+
+Flores do Campo, por Alexandre da Conceição 63
+
+Livros--Revista critica-bibliographica, por Luciano Cordeiro 75
+
+Flores do Campo, por D. Guiomar D. Torrezão 105
+
+Anno litterario de 1869, por Candido de Figueiredo 113
+
+
+FIM DO INDEX.
+
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Á VENDA
+
+NA
+
+LIVRARIA INTERNACIONAL
+
+DE
+
+ERNESTO CHARDRON
+
+
+Obras de fundo e edições:
+
+ *Memorias* de Fr. João de S. Joseph Queiroz, bispo do Gran-Pará. Com
+ uma introducção e muitas notas illustrativas, por C. C. Branco.
+ 1 volume. 500
+
+ *Poesias e prosas ineditas* de Fernão Rodrigues Lobo Soropita, com uma
+ introducção e notas por Camillo Castello Branco. 1 volume. 500
+
+ *Ponson du Terrail.*--Os Filhos de Judas, Tomo 1.º Um conto das mil e
+ uma noites.--2.º O amor fatal. 2 volumes. 1$000
+
+ *Estudos de Escripturação Mercantil*, por J. M. Outeiro. Segunda
+ edição consideravelmente augmentada. 1 vol. 1000
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Ramo de Flores, by João de Deus
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RAMO DE FLORES ***
+
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+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
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+distribution of electronic works, by using or distributing this work
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
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+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
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+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
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+ Dr. Gregory B. Newby
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+Literary Archive Foundation
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+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
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+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
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+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
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+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+The Project Gutenberg EBook of Ramo de Flores, by João de Deus
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+Title: Ramo de Flores
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+Author: João de Deus
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+Commentator: Alexandre da Conceição
+ Luciano Cordeiro
+ Guiomar D. Torrezão
+ António Cândido de Figueiredo
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+Release Date: March 16, 2008 [EBook #24847]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RAMO DE FLORES ***
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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+</pre>
+
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<h1>RAMO DE FLORES</h1>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<div class="capa">
+<h1>RAMO DE FLORES</h1>
+
+<h5>POR</h5>
+
+<h2>JOÃO DE DEUS</h2>
+
+<hr style="width: 20%">
+
+<h3>ACOMPANHADO DE VARIAS</h3>
+
+<h3>CRITICAS DAS FLORES DO CAMPO</h3>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<hr style="width: 20%">
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<h5>PORTO
+<br>
+<SPAN class="small-caps">Typ. da Livraria Nacional</SPAN>
+<br>
+2&mdash;Rua do Laranjal&mdash;22
+<br>
+1869.</h5>
+</div>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag5">[5]</a></span>
+
+
+<h1>RAMO DE FLORES</h1>
+
+
+<hr style="width: 20%">
+
+
+<h2>I</h2>
+
+<h2>SÊDE DE AMOR</h2>
+
+
+<h3>I</h3>
+
+<div class="poesia">
+Vi-te uma vez e (novo<br>
+Extranho caso foi!)<br>
+Por entre tanto povo...<br>
+Tanta mulher... Suppõe<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag6">[6]</a></span>
+<br>
+Que mãe estremecida<br>
+Via o seu filho andar<br>
+Sobre muralha erguida,<br>
+Onde o fizesse ir dar<br>
+<br>
+Aquelle remoinho,<br>
+Aquella inquietação<br>
+D'um pobre innocentinho<br>
+Ainda sem razão!<br>
+<br>
+E ora estendendo os braços...<br>
+Ora apertando as mãos...<br>
+Vendo-lhe o gesto, os passos,<br>
+Quantos esforços vãos,<br>
+<br>
+O triste na cimalha<br>
+Faz por voltar atraz...<br>
+Sem vêr como lhe valha!<br>
+A vêr o que elle faz!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag7">[7]</a></span>
+<br>
+Pallida, exhausta, muda,<br>
+Os olhos uns tições,<br>
+Com que, a tremer, lhe estuda<br>
+As mesmas pulsações...<br>
+<br>
+(Porque não é mais fundo<br>
+O mar no equador,<br>
+Nem é todo este mundo<br>
+Maior do que esse amor!<br>
+<br>
+Mais vasto, largo e extenso<br>
+Todo esse céo tambem<br>
+Do que o amor immenso<br>
+D'um coração de mãe!)<br>
+<br>
+Assim, n'essa agonia...<br>
+N'essa intima avidez...<br>
+É que entre os mais te eu ia<br>
+Seguindo d'essa vez!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag8">[8]</a></span>
+<br>
+Porque te adoro!... a ponto,<br>
+Que ainda hoje, crê!<br>
+Escuto e oiço e conto<br>
+Os grãos de arêa até,<br>
+<br>
+Que tu, mulher! andando<br>
+Fazias estalar<br>
+Já mesmo longe e... quando<br>
+Deixei de te avistar!<br>
+</div>
+
+<h3>II</h3>
+
+<div class="poesia">
+   Os olhos são<br>
+   D'uma expressão!<br>
+   Que linda bôca!<br>
+   O pé nem toca,<br>
+   De leve, o chão!<br>
+<br>
+   Aquelle pé<br>
+   De leve até<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag9">[9]</a></span>
+   Nem se elle sente!<br>
+   E sente a gente<br>
+   Não sei o que é...<br>
+<br>
+   E a graça, o ar,<br>
+   D'aquelle a andar!<br>
+   Que véla passa<br>
+   Com tanta graça<br>
+   Á flôr do mar!<br>
+<br>
+   Os olhos vêr<br>
+   Um só volver<br>
+   De olhar tão dôce,<br>
+   Que mais não fosse...<br>
+   Era morrer!<br>
+<br>
+   Os dentes sãos<br>
+   E tão irmãos<br>
+   E tão luzentes!<br>
+   Que bellos dentes!<br>
+   Que lindas mãos!<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag10">[10]</a></span>
+
+
+<h3>III</h3>
+
+<div class="poesia">
+Estrella, nuvem, ave,<br>
+Perfume, aragem, flôr!<br>
+Consola-me! distilla,<br>
+Da languida pupilla,<br>
+O balsamo suave<br>
+De um desditoso amor!<br>
+  Estrella, nuvem, ave,<br>
+Perfume, aragem, flôr!<br>
+<br>
+A flôr, de que és imagem,<br>
+A flôr, de que és irmã,<br>
+Sacia-se, e desata<br>
+O seu collar de prata<br>
+Aos beijos da aragem,<br>
+Aos risos da manhã!...<br>
+  A flôr, de que és imagem,<br>
+A flôr, de que és irmã!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag11">[11]</a></span>
+<br>
+A perola que encerra<br>
+A flôr, é sua? Não.<br>
+O pranto que a amima,<br>
+Cahiu-lhe lá de cima<br>
+Para cahir na terra,<br>
+Para cahir no chão!<br>
+  A perola que encerra<br>
+A flôr, é sua? Não!<br>
+<br>
+Tu já mataste a sêde,<br>
+Mata-me a sêde a mim!<br>
+Se em nuvem piedosa<br>
+Te refrescaste, rosa!<br>
+Tambem em ti eu hei de<br>
+Refrigerar-me!... sim!<br>
+  Tu já mataste a sêde,<br>
+Mata-me a sêde a mim!<br>
+<br>
+É para que me orvalhes<br>
+Que te orvalhou o céo!<br>
+O liquido que veio<br>
+Aljofarar-te o seio<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag12">[12]</a></span>
+Bem é tambem que o espalhes<br>
+No chão... o chão sou eu!<br>
+  É para que me orvalhes,<br>
+Que te orvalhou o céo!<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag13">[13]</a></span>
+
+
+
+
+<h2>II</h2>
+
+<h2>LAMENTO</h2>
+
+
+<div class="poesia">
+Senhor! Senhor! que um ai nunca me ouviste<br>
+          Na minha dôr!<br>
+Ai vida, vida minha, como és triste!...<br>
+          Senhor! Senhor!<br>
+<br>
+Quando eu nasci, o sol cobriu o rosto<br>
+          Mal que eu o vi!<br>
+Tingiu-se o céo de sangue, e era sol-posto,<br>
+          Quando eu nasci!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag14">[14]</a></span>
+<br>
+Pela manhã, a rosa era mais alva<br>
+          Que a alva lã!<br>
+E o cravo desmaiou á estrella-d'alva,<br>
+          Pela manhã!<br>
+<br>
+Ao longe, o mar se ouviu, leão piedoso,<br>
+          Um ai soltar!<br>
+Pelas praias, se ouviu gemer ancioso,<br>
+          Ao longe, o mar!<br>
+<br>
+Oh roixinol! a ti, nasce-te o dia<br>
+          Ao pôr do sol!<br>
+Mostre-me a campa a luz que te alumia,<br>
+          Oh roixinol!<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag15">[15]</a></span>
+
+
+
+
+<h2>III</h2>
+
+<h2>ENLEVO</h2>
+
+
+<div class="poesia">
+Não brilha o sol,<br>
+Nem póde a lua<br>
+Brilhar na sua<br>
+Presença d'ella!..<br>
+Nenhuma estrella<br>
+Brilha deante<br>
+Da minha amante,<br>
+Da minha amada!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag16">[16]</a></span>
+<br>
+A madrugada<br>
+Quanto não perde!<br>
+O campo verde<br>
+Quanto esmorece!<br>
+Quanto parece<br>
+A voz da ave<br>
+Menos suave<br>
+Que a sua falla!<br>
+<br>
+A flôr exhala<br>
+Menos perfume<br>
+Do que é costume<br>
+O seu cabello!<br>
+Que basta vêl-o,<br>
+Prende-se a gente!<br>
+Prende-se e sente<br>
+Gosto ineffavel!<br>
+<br>
+Que riso affavel<br>
+Aquelle riso!<br>
+Que paraíso<br>
+Aquella bôca!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag17">[17]</a></span>
+Penetra, toca,<br>
+Enche de inveja<br>
+Um ar que seja<br>
+Da sua graça!<br>
+<br>
+Onde ella passa,<br>
+Onde ella chega,<br>
+Quem lhe não prega<br>
+Olhos avaros!<br>
+Ha dotes raros,<br>
+Rara doçura<br>
+N'aquella pura<br>
+Casta existencia!<br>
+<br>
+Oh! que innocencia<br>
+Que ella respira!<br>
+A alma aspira<br>
+Não sei que aroma<br>
+Mal nos assoma<br>
+Ao longe aquella<br>
+Pallida estrella,<br>
+Que rege o mundo!...<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag18">[18]</a></span>
+<br>
+Nunca do fundo<br>
+Do oceano<br>
+Foi braço humano<br>
+Colher tão linda<br>
+Perola ainda,<br>
+Como a formosa<br>
+Candida rosa<br>
+Que eu amo tanto!<br>
+<br>
+Não sei de santo<br>
+Que ha no seu gesto!<br>
+No ar modesto<br>
+D'aquelle todo...<br>
+N'aquelle modo...<br>
+Que tudo esquece,<br>
+E nos parece<br>
+Estar no céo!<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag19">[19]</a></span>
+
+
+<h2>IV</h2>
+
+<h2>SEMPRE!</h2>
+
+<div class="poesia">
+Pensas que te não vejo a ti? Bom era!<br>
+Gravei tão vivamente n'alma a dôce<br>
+E bella imagem tua, que eu quizera<br>
+Deixar de contemplar-te, só que fosse<br>
+Um momento, e não posso, não consigo!<br>
+<br>
+Foges-me, escondes-te e que importa? Esculpes<br>
+Mais fundo ainda os indeleveis traços!<br>
+Realça-te o retrato! E não me culpes!<br>
+Culpa-te antes a ti!... Sigo-te os passos!...<br>
+Vejo-te sempre!... trago-te comigo!...<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag20">[20]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag21">[21]</a></span>
+
+
+<h2>V</h2>
+
+<h2>ESPERA!</h2>
+
+<div class="poesia">
+Uivaria de amor a féra bruta<br>
+Que pela grenha te sentisse a mão!<br>
+E eu não sou féra, pomba! Espera! Escuta!<br>
+       Eu tenho coração!<br>
+<br>
+Não é mais preto o ébano que as tranças<br>
+Que adornam o teu collo seductor!<br>
+Ai não me fujas, pomba! que me canças!<br>
+       Não fujas, meu amor!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag22">[22]</a></span>
+<br>
+A mim nasceu-me o sol, rompeu-me o dia<br>
+Da noite escura d'olhos taes, mulher!<br>
+Não me apagues a luz que me alumia<br>
+       Senão quando eu morrer!<br>
+<br>
+Eu não te peço a ti que as mãos de neve,<br>
+Os dedos afusados d'essas mãos,<br>
+Me toquem estas minhas nem de leve...<br>
+       Seriam rogos vãos!<br>
+<br>
+Não te peço que os labios nacarados<br>
+Me deixem esses dentes alvejar,<br>
+Trocando, n'um sorriso, os meus cuidados<br>
+       Em extasis sem par!<br>
+<br>
+Mas uivando de amor a bruta féra<br>
+Que pela grenha te sentisse a mão,<br>
+Eu não sou féra, pomba! escuta, espera!<br>
+       Eu tenho coração!<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag23">[23]</a></span>
+
+
+<h2>VI</h2>
+
+<h2>ADEUS</h2>
+
+<div class="poesia">
+A ti, que em astros desenhei nos céos,<br>
+A ti, que em nuvens desenhei nos ares,<br>
+A ti, que em ondas desenhei nos mares,<br>
+A ti, bom anjo! o derradeiro adeus!<br>
+<br>
+Parto! Se um dia (que é possivel flôr!)<br>
+Vires ao longe negrejar um vulto,<br>
+Sou eu que aos olhos d'esta gente occulto<br>
+O nosso immenso desgraçado amor.<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag24">[24]</a></span>
+<br>
+Talvez as féras ao ouvir meus ais,<br>
+As brutas selvas, as montanhas brutas,<br>
+Concavas rochas, solitarias grutas,<br>
+Mais se condoam, se commovam mais!<br>
+<br>
+E lá d'aquellas solidões se aqui<br>
+Chegar gemido que uma pedra estala,<br>
+Que um cedro vibra, que um carvalho abala,<br>
+Sou eu que o solto por amor de ti...<br>
+<br>
+De ti! que em folha que varrer o ar,<br>
+Em rama, em sombra que bandeie a aragem,<br>
+De fito sempre n'essa cara imagem<br>
+Verei, sorrindo, sentirei passar!<br>
+<br>
+De ti, que em astros desenhei nos céos!<br>
+De ti, que em nuvens desenhei nos ares!<br>
+De ti, que em ondas desenhei nos mares,<br>
+E a quem envio o derradeiro adeus!<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag25">[25]</a></span>
+
+
+<h2>VII</h2>
+
+<h2>MELANCOLIA</h2>
+
+<div class="poesia">
+Oh dôce luz! oh lua!<br>
+Que luz suave a tua,<br>
+E como se insinua<br>
+Em alma que fluctua<br>
+De engano em desengano!<br>
+   Oh creação sublime!<br>
+A tua luz reprime<br>
+As tentações do crime,<br>
+E á dôr que nos opprime<br>
+Abres-lhe um oceano!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag26">[26]</a></span>
+<br>
+É esse céo um lago,<br>
+E tu, reflexo vago<br>
+D'um sol, como o que eu trago<br>
+No seio, onde o afago,<br>
+No seio, onde o aperto?<br>
+   Oh luz orphã do dia!<br>
+Que mystica harmonia<br>
+Ha n'essa luz tão fria,<br>
+E a sombra que me guia<br>
+N'este areal deserto!<br>
+<br>
+Embora as nuvens trajem<br>
+De dia outra roupagem,<br>
+O sol, de que és imagem,<br>
+Não tem essa linguagem<br>
+Que encanta, que namora!<br>
+   Fita-te a gente, estuda,<br>
+(Sem mêdo que se illuda)<br>
+Essa linguagem muda...<br>
+O teu olhar ajuda...<br>
+E a gente sente e chora!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag27">[27]</a></span>
+<br>
+Ah! sempre que descrevas<br>
+A orbita que levas,<br>
+Confia-me o que escrevas<br>
+De quanto vês nas trevas,<br>
+Que a luz do sol encobre!<br>
+   As victimas, que escutas,<br>
+De traças mais astutas<br>
+Que as d'essas féras brutas...<br>
+E as lastimas, as luctas<br>
+Da orphã e do pobre!<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag28">[28]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag29">[29]</a></span>
+
+
+<h2>VIII</h2>
+
+<h2>SYMPATIA</h2>
+
+<div class="poesia">
+Olhas-me tu<br>
+Constantemente:<br>
+D'ahi concluo<br>
+Que essa alma sente!...<br>
+Que ama, não zomba,<br>
+Como é vulgar;<br>
+Que é uma pomba<br>
+Que busca o par!...<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag30">[30]</a></span>
+<br>
+  Pois ouve; eu gemo<br>
+De te não vêr!<br>
+E em vendo, tremo<br>
+Mas de prazer!...<br>
+Foge-me a vista...<br>
+Falta-me o ar...<br>
+Vê quanto dista<br>
+D'aqui a amar!<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag31">[31]</a></span>
+
+
+<h2>IX</h2>
+
+<h2>11 DE MAIO</h2>
+
+<div class="poesia">
+Se eu fosse nuvem tinha immensa magoa<br>
+Não te servindo d'azas maternaes<br>
+Que te podessem abrigar da agoa<br>
+     Que chovesse das mais!<br>
+<br>
+E sendo eu onda, tinha magoa summa<br>
+Não te podendo a ti, mulher, levar<br>
+De praia em praia, sobre a alva espuma.<br>
+     Sem nunca te molhar!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag32">[32]</a></span>
+<br>
+E sendo aragem, eu, que pela face<br>
+Te roçasse de rijo, alguma vez<br>
+Que o Senhor com mais força respirasse,<br>
+     Que magoa immensa... Vês!<br>
+<br>
+E a luz do teu olhar que me não lusa<br>
+Um rapido momento, a mim, sequer,<br>
+Como a aguia no ar... que passa e cruza<br>
+     A terra sem n'a vêr!<br>
+<br>
+Mas que me importa a mim! Se me esmagasses<br>
+Um dia aos pés o coração a mim,<br>
+As vozes que lhe ouviras se escutasses,<br>
+     Era o teu nome... Sim!<br>
+<br>
+O teu nome gemido docemente<br>
+Com toda a fé d'um martyr em Jesus,<br>
+Se acaso já em Christo pôz um crente<br>
+     A fé que eu em ti puz!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag33">[33]</a></span>
+<br>
+A fé, mais o amor! Porque elle expira<br>
+Sem que a ninguem lhe estale o coração,<br>
+E eu, se essa cruz dos olhos me fugira,<br>
+     Sobrevivia? Não!<br>
+<br>
+Assim como em ti vivo, morreria<br>
+Tambem comtigo, se uma vez (que horror!)<br>
+Te visse pôr, oh sol!... sol do meu dia!<br>
+     Astro do meu amor!<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag34">[34]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag35">[35]</a></span>
+
+
+<h2>X</h2>
+
+<h2>ATTRACÇÃO</h2>
+
+<div class="poesia">
+  Meus olhos sempre inquietos<br>
+Que posso até dizer,<br>
+Só acham n'alma objectos<br>
+Que os possam entreter;<br>
+<br>
+  Meus olhos... coisa rara!<br>
+Porque hão de em ti parar<br>
+Como a corrente pára<br>
+Em encontrando o mar!?<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag36">[36]</a></span>
+<br>
+  E penso n'isto, scismo...<br>
+Mas é tão natural<br>
+Cahir-se no abysmo<br>
+D'uma belleza tal!...<br>
+<br>
+  Olhei!... Foi indiscreta<br>
+A vista que te puz.<br>
+A pobre borboleta<br>
+Viu luz... cahiu na luz!<br>
+<br>
+  Uma attracção mais forte<br>
+Que toda a reflexão,<br>
+(É fado, é sina, é sorte!)<br>
+Me arrasta o coração...<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag37">[37]</a></span>
+
+
+<h2>XI</h2>
+
+<h2>DESANIMO</h2>
+
+<div class="poesia">
+Que mimos me confortam?<br>
+Que doce luz me acena?<br>
+Eu tenho muita pena<br>
+De ter nascido até!<br>
+<br>
+Quizera antes ao pé<br>
+D'uma arvore frondosa<br>
+Ter já em cima a lousa<br>
+E descançar emfim!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag38">[38]</a></span>
+<br>
+Alli, nem tu de mim<br>
+De certo te lembravas,<br>
+Nem estas feras bravas<br>
+Me iriam assaltar!<br>
+<br>
+Alli, teria um ar<br>
+Mais puro e respiravel,<br>
+E a paz imperturbavel<br>
+De quem, emfim, morreu!<br>
+<br>
+D'alli, veria o céo<br>
+Ora sereno e puro,<br>
+Ora toldado e escuro...<br>
+Ainda assim melhor,<br>
+<br>
+Que este areal de amor<br>
+Onde ando ao desamparo,<br>
+Onde a ninguem sou caro<br>
+E nem, a mim, ninguem!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag39">[39]</a></span>
+<br>
+Alli passára eu bem<br>
+A noite derradeira<br>
+Á sombra hospitaleira<br>
+Que mais ninguem me dá!<br>
+<br>
+Tu mesma, que não ha<br>
+Quem eu mais queira e ame,<br>
+Quem a minha alma inflamme<br>
+De mais ardente amor,<br>
+<br>
+Os ais da minha dôr<br>
+A ti o que te importam?<br>
+Teus olhos nem supportam<br>
+A minha vista ao pé!<br>
+<br>
+Que mimos me confortam?<br>
+Que dôce luz me acena?<br>
+Eu tenho muita pena<br>
+De ter nascido até!<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag40">[40]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag41">[41]</a></span>
+
+
+<h2>XII</h2>
+
+<h2>N'UM ALBUM</h2>
+
+<div class="poesia">
+É esta vida um mar; e n'este mar<br>
+Qual é o astro que nos alumia?<br>
+Que norte, estrella ou bussola nos guia?<br>
+Um olhar de mulher! um terno olhar!<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag42">[42]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag43">[43]</a></span>
+
+
+<h2>XIII</h2>
+
+<h2>O SEU NOME</h2>
+
+
+<h3>I</h3>
+
+<div class="poesia">
+Ella não sabe a luz suave e pura<br>
+Que derrama n'uma alma acostumada<br>
+A não vêr nunca a luz da madrugada<br>
+Vir raiando senão com amargura!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag44">[44]</a></span>
+<br>
+Não sabe a avidez com que a procura<br>
+Ver esta vista, de chorar cançada,<br>
+A ella... unica nuvem prateada,<br>
+Unica estrella d'esta noite escura!<br>
+<br>
+E mil annos que leve a Providencia<br>
+A dar-me este degredo por cumprido,<br>
+Por acabada já tão longa ausencia,<br>
+<br>
+Ainda n'esse instante appetecido<br>
+Será meu pensamento essa existencia...<br>
+E o seu nome, o meu ultimo gemido<br>
+</div>
+
+
+<h3>II</h3>
+
+<div class="poesia">
+        Oh! o seu nome<br>
+        Como eu o digo<br>
+        E me consola!<br>
+        Nem uma esmola<br>
+        Dada ao mendigo<br>
+        Morto de fome!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag45">[45]</a></span>
+<br>
+        N'um mar de dôres<br>
+        A mãe que afaga<br>
+        Fiel retrato<br>
+        De amante ingrato,<br>
+        Unica paga<br>
+        Dos seus amores...<br>
+<br>
+        Que rota e nua,<br>
+        Tremulos passos,<br>
+        Só mostra á gente<br>
+        A innocente<br>
+        Que traz nos braços<br>
+        De rua em rua;<br>
+<br>
+        Visto que o laço<br>
+        Que a prende á vida<br>
+        E só aquella<br>
+        Candida estrella<br>
+        Que achou cahida<br>
+        No seu regaço;<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag46">[46]</a></span>
+<br>
+        (Não que lhe importe<br>
+        A ella nada...<br>
+        Que tudo escusa;<br>
+        E até accusa<br>
+        De descuidada<br>
+        Comsigo a morte!)<br>
+<br>
+        Mão bemfazeja<br>
+        Se por ventura<br>
+        Encontra um dia,<br>
+        Com que alegria,<br>
+        Com que ternura,<br>
+        Ella a não beija!...<br>
+<br>
+        Mas com mais quanto<br>
+        Amor te escrevo,<br>
+        Soletro e leio<br>
+        Nome de enleio!<br>
+        Nome de enlevo!<br>
+        Nome de encanto!<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag47">[47]</a></span>
+
+
+<h3>III</h3>
+
+<div class="poesia">
+Como a agua d'um lago&mdash;toda um nivel,<br>
+Vae de circulo em circulo ondeando,<br>
+Se a andorinha a roça ao ir voando<br>
+Atraz d'algum insecto imperceptivel;<br>
+<br>
+E quebrado esse espelho em mil pedaços<br>
+(Que a imagem do céo desapparece)<br>
+Em circulos concentricos parece<br>
+Tornarem-se a formar novos espaços...<br>
+<br>
+Ou como d'entre as notas ineffaveis<br>
+Dos canticos do céo&mdash;todo harmonia&mdash;<br>
+Mal sôa o dôce nome de <span class="small-caps">Maria</span>,<br>
+Pasmam as multidões innumeraveis;<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag48">[48]</a></span>
+<br>
+E de onda em onda cada vez mais larga,<br>
+De brisa em brisa cada vez mais pura,<br>
+O nome d'essa excelsa creatura<br>
+Por todo aquelle immenso mar se alarga;<br>
+<br>
+E tudo quanto cerca o trono eterno<br>
+Áquella dôce voz desprende o canto,<br>
+Formando um côro universal, em quanto<br>
+Reina silencio no profundo inferno...<br>
+<br>
+Assim, n'esta paixão que me devora,<br>
+Se aos labios essas syllabas me assomam,<br>
+As negras sombras da minha alma tomam<br>
+Gradualmente o explendor da aurora!<br>
+<br>
+Toda a idéa má recua um passo,<br>
+Aplanam-se os dominios do futuro,<br>
+E do crystal mais transparente e puro<br>
+Se me arqueia a abobada do espaço!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag49">[49]</a></span>
+<br>
+Desdobra-se o passado á luz do dia,<br>
+Em valle ameno, aos olhos da memoria;<br>
+E eu acho não ser perfida, illusoria,<br>
+A fé que eu punha em certa luz que eu via...<br>
+<br>
+Vejo que aquelle informe e negro monte,<br>
+Que me tapava a mim o fim da vida,<br>
+Não era mais que a natural subida<br>
+Para se dominar vasto horizonte!...<br>
+<br>
+Esse horizonte és tu, pombinha brava!<br>
+Tu, cujo peito que aliás encerra<br>
+O que ha de bello e grande em céo e terra,<br>
+Só com duas conchinhas se tapava...<br>
+<br>
+Mas em quanto não chego áquella altura<br>
+D'onde se avista a terra promettida,<br>
+Irei cantando, distrahindo a vida<br>
+Com essa invocação suave e pura...<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag50">[50]</a></span>
+<br>
+Invocação de nome tão suave<br>
+Como esse olhar!... que eu, só de vêr, suspiro!<br>
+Mas... que invoco em silencio... como admiro<br>
+A luz da lua, e o olhar da ave!...<br>
+</div>
+
+
+<h3>IV</h3>
+
+<div class="poesia">
+        E se algum dia<br>
+        Deres abrigo<br>
+        Ao desgraçado<br>
+        Pobre mendigo<br>
+        Expatriado,<br>
+        Morto de fome,<br>
+        Dize comtigo:<br>
+        «Mais consolado<br>
+        Se elle sentia<br>
+        Lendo o meu nome!»<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag51">[51]</a></span>
+
+
+<h2>XIV</h2>
+
+<h2>SAUDADE</h2>
+
+<div class="poesia">
+Tu és o cálix;<br>
+Eu, o orvalho!<br>
+Se me não vales,<br>
+Eu o que valho?<br>
+<br>
+Eu se em ti caio<br>
+E me acolheste<br>
+Torno-me um raio<br>
+De luz celeste!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag52">[52]</a></span>
+<br>
+Tu és o collo<br>
+Onde me embalo,<br>
+E acho consolo,<br>
+Mimo e regalo:<br>
+<br>
+A folha curva<br>
+Que se aljofara,<br>
+Não d'agoa turva,<br>
+Mas d'agoa clara!<br>
+<br>
+Quando me passa<br>
+Essa existencia,<br>
+Que é toda graça,<br>
+Toda innocencia,<br>
+<br>
+Além da raia<br>
+D'este horizonte&mdash;<br>
+Sem uma faia,<br>
+Sem uma fonte;<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag53">[53]</a></span>
+<br>
+O passarinho<br>
+Não se consome<br>
+Mais no seu ninho<br>
+De frio e fome,<br>
+<br>
+Se ella se ausenta,<br>
+A boa amiga,<br>
+Ah! que o sustenta<br>
+E que o abriga!<br>
+<br>
+Sinto umas magoas<br>
+Que se confundem<br>
+Com as que as agoas<br>
+Do mar infundem!<br>
+<br>
+E quem um dia<br>
+Passou os mares<br>
+É que avalia<br>
+Esses pezares!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag54">[54]</a></span>
+<br>
+Só quem lá anda<br>
+Sem achar onde<br>
+Sequer expanda<br>
+A dôr que esconde;<br>
+<br>
+Longe do berço,<br>
+Morrendo á mingoa,<br>
+Paiz diverso...<br>
+Diversa lingoa...<br>
+<br>
+Esse é que sabe<br>
+O meu tormento,<br>
+Mal se me acabe<br>
+Aquelle alento!<br>
+<br>
+Ah, nuvem branca<br>
+Ah, nuvem d'oiro!<br>
+Ninguem me estanca<br>
+Amargo choro;<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag55">[55]</a></span>
+<br>
+E assim que passes<br>
+Mesmo de largo...<br>
+Vê n'estas faces<br>
+Se ha pranto amargo.<br>
+<br>
+Tu és o norte<br>
+Que me desvias<br>
+De ir dar á morte<br>
+Todos os dias;<br>
+<br>
+A larga fita<br>
+Que d'alto monte<br>
+Cerca e limita<br>
+O horizonte!<br>
+<br>
+Tu és a praia<br>
+Que eu sollicito!<br>
+Tu és a raia<br>
+D'este infinito!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag56">[56]</a></span>
+<br>
+Se ha uma gruta<br>
+Onde me esconda<br>
+Á força bruta<br>
+Que traz a onda;<br>
+<br>
+Á força immensa<br>
+D'esta corrente<br>
+D'alma que pensa,<br>
+Alma que sente;<br>
+<br>
+Se ha uma véla,<br>
+Se ha uma aragem,<br>
+Se ha uma estrella,<br>
+N'esta viagem...<br>
+<br>
+É quem eu amo,<br>
+A quem adoro!<br>
+E por quem chamo!<br>
+E por quem choro!<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag57">[57]</a></span>
+
+
+<h2>XV</h2>
+
+<h2>* * * *</h2>
+
+<div class="poesia">
+Não sei o que ha de vago,<br>
+Incoercivel, puro,<br>
+No vôo em que divago<br>
+Á tua busca, amor!<br>
+No vôo em que procuro<br>
+O balsamo, o aroma,<br>
+Que, se uma fórma toma,<br>
+É de impalpavel flôr!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag58">[58]</a></span>
+<br>
+Oh como te eu aspiro<br>
+Na ventania agreste!<br>
+Oh como te eu admiro<br>
+Nas solidões do mar!<br>
+Quando o azul celeste<br>
+Descança n'essas agoas<br>
+Bem como n'estas magoas<br>
+Descança o teu olhar!<br>
+<br>
+Que placida harmonia<br>
+Então a pouco e pouco<br>
+Me eleva a fantasia<br>
+A novas regiões!<br>
+Dando-me ao uivo rouco<br>
+Do mar, n'essas cavernas,<br>
+O timbre das mais ternas<br>
+E pias orações!<br>
+<br>
+Parece todo o mundo<br>
+Só um immenso templo!<br>
+O mar já não tem fundo<br>
+E não tem fundo o céo!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag59">[59]</a></span>
+E, em tudo, o que contemplo,<br>
+O que diviso em tudo,<br>
+És tu!... esse olhar mudo!...<br>
+O mundo... és tu... e eu!...<br>
+</div>
+
+
+<h4>FIM</h4>
+<span class="pagenum"><a name="pag60">[60]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag61">[61]</a></span>
+<hr>
+
+
+<h2>CRITICAS</h2>
+
+<h3>DAS</h3>
+
+<h1>FLORES DO CAMPO</h1>
+<span class="pagenum"><a name="pag62">[62]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag63">[63]</a></span>
+<hr>
+<div id="parte2">
+
+
+<h2>FLORES DO CAMPO</h2>
+
+<h4>POR</h4>
+
+<h3>JOÃO DE DEUS</h3>
+
+<p>João de Deus não é sómente um grande poeta,
+é um iniciador. A estrophe sahe-lhe do coração
+não só transparente e limpida, como um veio de
+crystal, mas espontanea, harmoniosa e originalissima,
+como todas as creações dos espiritos profundamente
+caracterisados e essencialmente creadores.</p>
+
+<p>João de Deus é um grande scismador e um
+grande artista. Concebe admiravelmente, e executa
+melhor ainda. Cada lyrica é uma maravilha,
+cada estrophe um mimo, cada verso um primor.
+Reune á intelligencia apaixonada de Platão o delicadissimo
+senso artistico de Cellini. Ha n'aquella
+lyra notas e harmonias d'uma frescura e de uma
+novidade dignas de Homero ou de Wainamoinen.
+É que o talento poetico de João de Deus é essencialmente
+<span class="pagenum"><a name="pag64">[64]</a></span>
+espontaneo e primitivo, se me permittem
+a expressão.</p>
+
+<p>Parece que não ha n'aquelles versos nem estudo
+de modelos, nem influencia de escólas, nem escolha
+de assumptos.</p>
+
+<p>A natureza poetica de João de Deus é sobre
+tudo virginal, sincera, innocente. Canta, não para
+que o escutem, mas porque nasceu poeta; chora,
+não para que o consolem, mas porque nasceu triste;
+medita, não para que o considerem, mas porque
+nasceu scismador. É poeta... e não póde ser
+mais nada; fizeram-n'o deputado talvez para fazerem
+um epigramma á poesia, que tantos tem feito&mdash;epigrammas,
+entenda-se.&mdash;João de Deus deputado
+é o mesmo... que um deputado João de
+Deus, duas entidades a rirem-se constantemente
+uma da outra, como os dois <i>oraculos</i> de que falla
+Cicero.</p>
+
+<p>Um João de Deus nasce feito... não se faz d'elle
+cousa nenhuma; ha de ser sempre João de Deus,
+quer o façam rei, quer regedor de parochia. <i>Ego
+sum qui sum</i>, dizia o espirito mais profundamente
+original da humanidade. João de Deus, e os homens
+de uma individualidade assim tão caracterisada
+podem, salvo a irreverencia, dizer o mesmo.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag65">[65]</a></span>
+
+<p>A João de Deus deu-lhe para ser poeta; se lhe
+désse para ser diplomata era Bismark, e tinha a
+estas horas realisado a união iberica. Foi melhor
+assim, ao menos para se não acabar com a possibilidade
+de termos volumes como as <i>Flores do
+Campo</i>.</p>
+
+<p>Dizem-me que João de Deus é um excellente
+tocador de viola, onde improvisa devaneios arrebatadores.
+Esta prenda caracterisa-lhe o talento artistico.
+É poeta como guitarrista e quasi improvisador
+como poeta. Aquella alma é uma lyra: vibra,
+estremece e canta ás aragens fugitivas da impressão.
+Natureza profundamente sympathica, tem
+um riso para cada alegria, uma lagrima para cada
+amargura, uma consolação para cada infortunio:</p>
+
+<div class="poesia">
+Despe o lucto da tua soledade<br>
+E vem junto de mim, lirio esquecido<br>
+       Do orvalho do ceu!<br>
+Tens nos meus olhos pranto de piedade,<br>
+E se és, mulher! irmã dos que hão soffrido,<br>
+       Mulher! sou irmão teu.<br>
+<br>
+Consolos não te dou, que não existe<br>
+Quem de lagrimas suas nunca enxuto<br>
+       Possa as d'outro enxugar:<br>
+Não póde allivios dar quem vive triste,<br>
+Mas é-me dôce a mim chorar, se escuto<br>
+       Alguem tambem chorar.<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag66">[66]</a></span>
+
+<p>E não ha artificios n'esta poesia, que é singela
+como todos os grandes sentimentos, harmoniosa e
+virginal como um sorriso de creança, suave e consoladora
+como uma parabola de Christo, serena e
+luminosa como um dialogo de Platão:</p>
+
+<div class="poesia">
+Mulher, mulher! quando eu n'um cemiterio<br>
+Levanto o pó dos tumulos sósinho:<br>
+       Eis, digo, eis o que eu sou,<br>
+Mas quando penso bem n'esse mysterio<br>
+Da virtude infeliz: Vae teu caminho;<br>
+       Dois mundos Deus creou.<br>
+</div>
+
+<p>É poesia que se sente e que poucos exprimem,
+são versos que se admiram e que rarissimos os
+escrevem.</p>
+
+<p>As imagens adejam-lhe em torno frescas, vivas,
+alegres e graciosas, como um bando de andorinhas
+em torno dos frisos d'um campanario:</p>
+
+<div class="poesia">
+Quando em silencio finges,<br>
+Que um beijo foi furtado,<br>
+E o rosto desmaiado<br>
+De côr de rosa tinges,<br>
+  Dir-se-ha que a rosa deve<br>
+Assim ficar com pejo,<br>
+Quando a furtar-lhe um beijo<br>
+O zephiro se atreve.<br>
+<br>
+............................<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag67">[67]</a></span>
+<br>
+A bôca é tão vermelha que, em te rindo,<br>
+Lembra-me uma romã aberta ao meio<br>
+Quando já de madura está cahindo.<br>
+<br>
+......................................<br>
+<br>
+Quando a sua mãosinha pondo um dedo<br>
+Em seus labios de rosa pouco aberta,<br>
+Como timida pomba sempre alerta,<br>
+Me impunha ora silencio ora segredo.<br>
+</div>
+
+<p>Não ha nada mais gracioso, mais natural, mais
+espontaneo, mais facil! A gente chega a pasmar
+de não encontrar todos aquelles dizeres elegantes,
+todos aquelles versos formosissimos nos outros poetas,
+tal é a fluencia e a vitalidade d'esta inspiração.</p>
+
+<p>Na voz de João de Deus ha as inflexões carinhosas
+de uma creança; os versos parecem caricias;
+têm a suavidade affectuosa das orações de
+uma santa e aquelle tom amavel e triste, mas nunca
+pretencioso, dos verdadeiros scismadores:</p>
+
+<div class="poesia">
+Foi-se-me pouco a pouco amortecendo<br>
+A luz que n'esta vida me guiava,<br>
+Olhos fitos na qual até contava<br>
+Ir os degraus do tumulo descendo.<br>
+<br>
+..................................<br>
+<br>
+Alma gemea da minha, e ingenua e pura<br>
+Como os anjos do ceu (se o não sonharam...)<br>
+Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura.<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag68">[68]</a></span>
+<br>
+Não sei se me voou, se ma levaram,<br>
+Nem saiba eu nunca a minha desventura<br>
+Contar aos que inda em vida não choraram.<br>
+</div>
+
+<p>Camões não a sentiu mais, nem a escreveu melhor
+esta poesia da tristeza, esta melancolia suave
+d'um scismador, esta saudade resignada de uma
+alma nas soledades do infortunio, nos desterros do
+isolamento. Ha alli poesia para vinte poemas, ha
+alli suavidade para vinte idyllios.</p>
+
+<p>As rhimas parecem beijos, tão estreitas se enlaçam,
+tão ardentes se casam, tão apaixonadas se
+apertam:</p>
+
+<div class="poesia">
+    Que magoa ou que receio<br>
+    Dos olhos te desata<br>
+    Aljofares de prata<br>
+    No jaspe do teu seio?<br>
+<br>
+    Bem intima ser deve<br>
+    A pena que te opprime,<br>
+    Flôr tenra como o vime,<br>
+    Flôr pura como a neve!<br>
+<br>
+    .......................<br>
+<br>
+    Vós, lobos! ide em bando,<br>
+    Trepae pelo rochedo,<br>
+    Uivae, mettei-lhe medo,<br>
+    Levae-a recuando!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag69">[69]</a></span>
+<br>
+    Que faz quem se approxima<br>
+    D'um precipicio, diz-m'o?<br>
+    Que buscas tu no abysmo<br>
+    Se o ceu é lá em cima?<br>
+</div>
+
+<p>É só a lyrica intitulada&mdash;<i>Heresta</i>&mdash;que me
+fornece estes quatro exemplos; podia fornecer-me
+trinta e dois, porque são trinta e duas as quadras
+d'essa formosa composição.</p>
+
+<p>Ás vezes o verso deixa de ser uma phrase e
+transforma-se n'um suspiro, a estrophe deixa de
+ser um canto e converte-se n'um arrulho. Tudo
+alli é muito amar, profundamente sentir e divinamente
+cantar:</p>
+
+<div class="poesia">
+  Que é d'esses cabellos d'ouro<br>
+  Do mais subido quilate,<br>
+  D'esses labios escarlate,<br>
+       Meu thesouro!<br>
+<br>
+  .............................<br>
+<br>
+  Que é d'uma flôr da grinalda<br>
+  Dos teus dourados cabellos,<br>
+  D'esses olhos, quero vêl-os,<br>
+       Esmeralda!<br>
+<br>
+  Que é d'essa alma que me deste!<br>
+  D'um sorriso, um só que fosse.<br>
+  Da tua bôca tão dôce<br>
+       Flôr celeste!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag70">[70]</a></span>
+<br>
+  Tua cabeça que é d'ella<br>
+  A tua cabeça d'ouro,<br>
+  Minha pomba! meu thesouro!<br>
+       Minha estrella!<br>
+<br>
+  ..........................<br>
+<br>
+  E as desgraças, podia prevêl-as<br>
+  Quem a terra sustenta no ar,<br>
+  Quem sustenta no ar as estrellas,<br>
+  Quem levanta ás estrellas o mar.<br>
+<br>
+  Deus podia prevêr a desgraça,<br>
+  Deus podia prevêr e não quiz;<br>
+  E não quiz, não... se a nuvem que passa<br>
+  Tambem póde chamar-se infeliz.<br>
+</div>
+
+<p>Quem escreve d'isto, sente-o. Um homem não
+arranca ao seu espirito d'estas perolas sem as lá
+ter em sentimento e em amor. E só o alto calor
+d'um grande, d'um immenso coração póde <i>cristallisar</i>
+taes diamantes; o fogo sómente do craneo
+não produz d'estes milagres d'inspiração:</p>
+
+<div class="poesia">
+Não se é só pó no fim de tanta magoa,<br>
+Senão diga-me alguem que allivio é este<br>
+Que sinto, quando á abobada celeste<br>
+Alevanto os meus olhos rasos d'agoa.<br>
+<br>
+....................................<br>
+<br>
+Ha depois d'esta vida inda outra vida,<br>
+Não se reduz a nada o grão d'areia,<br>
+E havia de a nossa alma, a nossa ideia<br>
+Nas ruinas do pó ficar perdida?<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag71">[71]</a></span>
+
+<p>Se isto não é inspiração, e alta inspiração, não
+sei que nome se ha de dar ás maravilhas do genio
+de Dante, de Shakspeare, de Camões ou de Victor
+Hugo.</p>
+
+<p>Um espirito que se eleva a taes alturas tem
+obrigação de produzir um <i>Hamlet</i>, uma <i>Divina
+Comedia</i> ou uns <i>Lusiadas</i>.</p>
+
+<p>Sente-se pela leitura d'este volume que Camões
+é o auctor predilecto de João de Deus. O livro
+abre até por uma composição que póde considerar-se
+uma verdadeira profissão de fé em poesia. A
+propria fórma poetica da maior parte das lyricas
+de João de Deus, um certo geito facil e correntio
+na composição grammatical dos periodos, a suavidade
+das rhimas, a doçura das expressões, a harmonia
+cadenciosa dos versos e um certo tom de
+intima melancolia que se faz sentir até nas idêas
+as mais graciosas revelam a decidida predilecção
+que o cantor da <i>Heresta</i> tem pelo desafortunado
+scismador de Macau.</p>
+
+<p>É esta a feição seria, a feição elevada e talvez
+caracteristica do genio poetico de João de Deus.
+Como todas as grandes vocações, como todas as
+naturezas ricas, João de Deus porém não é menos
+apreciavel, nem menos digno de estudo pelo lado
+<span class="pagenum"><a name="pag72">[72]</a></span>
+alegre, malicioso e a espaços finamente epigrammatico.
+Ás vezes chega a ser um observador digno
+de competir com Molière ou Tolentino. Os
+<i>Caturras</i> é composição de emparelhar com a <i>Funcção</i>
+ou com o <i>Bilhar</i> do diabolico professor de
+rhetorica; e o <i>Gaspar</i> póde pedir meças em ridiculo
+a qualquer dos <i>frades</i> grotescos da numerosa
+collecção de Bocage. E o epigramma aqui é tanto
+mais pungente quanto menos grosseiro, e a caricatura
+tanto mais graciosa quanto menos exagerada.</p>
+
+<p>Ha alli o sal attico de Terencio e não a especiaria
+acinante de Plauto, a não ser talvez nos versos
+intitulados&mdash;<i>Uma femea</i>,&mdash;brazileiros no
+titulo e no sabor, d'um <i>piquesinho</i> de gosto bastante
+equivoco.</p>
+
+<p>E já que entramos no capitulo das maculas,
+convém dizer-se que João de Deus é por vezes
+revolucionario de mais em assumptos de metrificação.
+Eu não gosto de absolutistas nem mesmo em
+poesia, mas tambem não morro de amores pelos
+tão republicanos que nos levem á demagogia. É
+preciso que sejamos um pouco <i>constitucionaes</i> em
+tudo. Ora a <i>constituição</i> poetica tem artigos que
+se não podem infringir sem se incorrer no crime
+de leso bom gosto, porque o bom gosto foi e ha
+<span class="pagenum"><a name="pag73">[73]</a></span>
+de ser sempre o eterno legislador d'estes codigos.
+Um verso frouxo ou manco e uma rhima equivoca
+ou violenta hão de ser perpetuamente defeitos.</p>
+
+<p>Quem disser o contrario ou é tolo ou tem ouvidos
+de cortiça. João de Deus cahe por vezes nestes
+dous peccadilhos, deixando alguns versos arrastados,
+e outros duros; estes porém muito menos
+frequentes do que os primeiros. Mais frequentes
+são as rhimas violentas, algumas realmente
+d'um mau gosto insustentavel, taes como: <i>justiça</i>
+rhimando com pinça, como a paginas 152; <i>rio</i> e
+<i>viu</i>, como a paginas 159, e ainda algumas outras.</p>
+
+<p>É da tarifa dizer-se em occasiôes similhantes,
+como são da tarifa todas as vulgaridades, que não
+ha livro sem defeitos. Eu creio piamente na sentença,
+e até creio que um livro sem defeitos, se
+existisse, devia ser o mais defeituoso de todos os
+livros, o mais sorna e o mais semsaborão. Eu porém
+quando abro um livro não é para lhe andar
+a catar os defeitos pagina por pagina, como quem
+anda ao <i>pulgão</i> pelos vinhedos. O que busco n'um
+livro são ensinamentos, calor de vida, fogo de coração
+e luz de intelligencia; esplendores de espirito
+e esplendores de palavra; genio, alma e sentimento.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag74">[74]</a></span>
+
+<p>Ora um livro de versos onde ha composição
+como a <i>Rachel</i>, <i>O Musgo</i>, <i>Ultimo adeus</i>, <i>o
+Remoinho</i>,
+<i>a Carta</i>, e trinta outras lyricas de tal novidade
+e tal merecimento, tem obrigação de ter defeitos,
+por que sem elles... seria um livro impossivel,
+uma verdadeira monstruosidade. Diga-se
+aqui pois, e para se pôr ponto ao aranzel, que o
+livro de João de Deus tem maculas, mas que estas,
+como as do sol, desapparecem no meio dos
+esplendores d'aquella immensa luz de vida, de genio
+e de inspiração. <i>Flores do Campo</i> é finalmente
+um livro de versos, como ha poucos n'este paiz,
+desde que por cá se escrevem versos.<sup><a name="mnota1" href="#nota1">1</a></sup></p>
+
+<p>Guarda, 4 de fevereiro de 1869.</p>
+
+<p class="direita"><b>Alexandre da Conceição.</b></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="nota1" href="#mnota1">1</a></sup>Jornal do Porto (1869) n.º 33.</p>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag75">[75]</a></span>
+
+
+
+
+<h2>LIVROS</h2>
+
+<hr style="width: 15%;">
+
+<h3>REVISTA CRITICA BIBLIOGRAPHICA</h3>
+
+<hr style="width: 15%;">
+
+<p><span class="small-caps">Flores do campo</span>, <i>por João de Deus, publicadas
+pelo seu amigo José Antonio Garcia Blanco</i>&mdash;Lisboa,
+typ. Franco-portugueza, 1868&mdash;Em
+casa de Ferin &amp; Robin&mdash;1 vol. in-16.º&mdash;271.</p>
+
+<br>
+
+<p>João de Deus é um personagem semi-lendario
+na tradicção academica, e apesar de homem do
+nosso tempo, e tão do nosso que até com um diploma
+de deputado se nos apresentou ha pouco,
+anda-lhe o nome rodeado de quasi os mesmos fulgores
+e as mesmas sombras em que uma historia
+superficial ou mentirosa envolveu os velhos trovadores
+da Provença.</p>
+
+<p>Permittam-me uma digressão.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag76">[76]</a></span>
+
+<p>Ha n'esta sociedade portugueza&mdash;já agora, ao
+que parece&mdash;condemnada a refocilhar em monturo
+de sanefas lantejouladas e rotas que lhe deixou
+o passado, e a dar ao mundo o triste espectaculo
+d'uma nacionalidade sem <i>idêa</i> que a represente
+na historia philosophica de amanhã, sem
+<i>ideal</i> que lhe seja pharol e bussola na tormentosa
+navegação das sociedades d'hoje; ha, digo, n'esta
+nossa sociedade amortecida: extraordinarias visões,
+mysteriosos anceios, esforços convulsivos como
+que filhos de ignotos impulsos, que bem poderiam
+passar por agonias e paroxismos annunciadores
+da proxima dissolução, se um diagnostico
+escrupuloso não encontrasse antes n'aquillo promessas
+de reacção proxima, de rejuvenescimento
+que não vem longe, de evolução fatal, que, em
+Portugal como em toda a parte, denuncia por
+aquellas aberrações e anormalidades a sua sublime
+prenhez d'uma nova idêa, d'uma era nova.</p>
+
+<p>Erguem-se no meio da grasnada petulante ou
+esteril da litteratura, vozes persistentes... doces
+ou enthusiasticas, sympathicas ou ameaçadoras...
+frescas, novas, <i>originaes</i>&mdash;<i>rar&aelig; voces!</i>&mdash;que
+parece irem na turba desmoralisada pôr em vibração
+alguma cellulasinha não contaminada do mal.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag77">[77]</a></span>
+
+<p>E a turba põe-se a escutar, a applaudir, a aspirar
+soffregamente os frescores e doçuras, que tão
+enormemente se distanceiam dos miasmas do ambiente
+habitual, do sabor da habitual pitança.</p>
+
+<p>Alteiam-se, no meio da calaçaria geral, do geral
+e natural desanimo, vontades energicas que a
+pedraria da mestrança ignorante, intolerante e
+madraça não consegue desviar um momento da
+faina do estudo e da evangelisação scientifica.</p>
+
+<p>E a turba vae attentando n'ellas, vae sympathisando
+com aquelles revolucionarios heroicos do
+marasmo, vae comparando-os com os idolos anões
+que, sem ella saber como nem porque se grudaram
+aos altares da sua admiração, vae fitando os novos
+horizontes para onde lhe apontam os novos
+chefes, vae-os seguindo já ao impulso d'uma necessidade
+indefinivel mas fatal. Ha n'isto, já se
+vê, alguma cousa d'allucinação infantil. Crê-se
+que os novos Moysés levam comsigo, completas,
+as verdadeiras taboas da lei, e rasgarão com a
+magica varinha as brumas que envolvem a terra
+da promissão.</p>
+
+<p>Engano. Não lhes dão as forças para mais que
+para um terço do caminho, se tanto. Mas isso
+mesmo é muito, é o que basta. Hão de apparecer
+<span class="pagenum"><a name="pag78">[78]</a></span>
+novos guias. A questão é saír da esterilidade do
+deserto.</p>
+
+<p>Citemos porém dois factos, tiremos dois exemplos,
+apenas, de tantos que podiamos apresentar
+da revolução litteraria que se realisa surdamente
+no seio da nossa pequena sociedade.</p>
+
+<p>Sejam elles, por hoje, dois poetas: Theophilo
+Braga e João de Deus; dois verdadeiros revolucionarios
+como outros de que para o diante terei
+de fallar. Um, apesar do mal que dizem d'elle, e
+do mal, que é maior talvez, que elle a si proprio
+faz, é inegavelmente um dos nossos poucos talentos
+originaes na concepção e na manifestação litteraria,
+na <i>idêa</i> e na <i>fórma</i>, e se não é marco que
+no futuro atteste um grande e brilhante progresso
+na litteratura patria, é como que atrio imperfeito
+e tosco, mas espaçoso e altaneiro que póde servir
+d'entrada a <i>pantheon</i> de explendidos engenhos.</p>
+
+<p>E grande engenho é Theophilo, de certo.</p>
+
+<p>Por entre uma saraivada d'apodos e improperios
+de <i>mau gosto</i> ou <i>má fé</i>, conquistou elle um logar
+elevado, na poesia portugueza d'hoje, cujos magnates
+na maxima parte, persistem, com risivel
+teimosia, em trazer-lhe engastada na corôa á laia
+de fina joia, o carvão da ignorancia, ou em mascararem-na
+<span class="pagenum"><a name="pag79">[79]</a></span>
+com um falso e retrogrado <i>classissismo</i>.</p>
+
+<p>Theophilo porém avançou menos do que devia.</p>
+
+<p>O <i>idealismo</i> desvairou-o, o <i>romancismo</i> perdeu-o.</p>
+
+<p>Um dia a voz sympathica, insinuante, ora melancholica
+e dolorida, ora&mdash;bem poucas vezes!&mdash;alegre
+e enthusiastica de João de Deus começou
+de fluctuar por sobre o borburinho cançado e monotono
+das nossas letras. Não se sabe como nem
+quando foi. Perdeu-se a chronologia biographica
+nos encantos do <i>quasi</i>&mdash;extasis. Sabe-se sómente
+que a reputação do poeta não nos entrou na
+terra, dentro do cavallo de pau d'algum chefe
+<i>grego</i>, mestrão consummado n'estas maquinações.
+Sabe-se tambem que João de Deus não andou por
+salas e officinas, annunciando a fazenda que tempos
+depois, atirada ao mercado, podia realisar o
+caso da <i>mons parturiens</i>.</p>
+
+<p>João de Deus apparecia-nos uma ou outra vez
+n'um periodico de Coimbra; ora nos segredava
+uma estrophe singela e melodiosa pelo postigo de
+uma typographia alemtejana; ora surgia em um
+periodico da capital a contar-nos umas duvidas
+que o magoavam, umas saudades indefiniveis que
+o pungiam, uns vagos amores que lhe andavam
+rumorejando lá dentro em vagas harmonias.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag80">[80]</a></span>
+
+<p>E ninguem sabia quem era João de Deus. E
+ninguem procurava saber quem fosse. Ou antes,
+julgavam todos sabel-o. Conheciam-no todos. Era
+um cerebro em ebullição, um coração em ataxia
+permanente, um estomago que valia por uma adega.</p>
+
+<p>João de Deus era um doudo que forrava as paredes
+do albergue com as folhas das <i>sebentas</i>, que
+dormia dentro da enxerga, porque achava mais
+commodo isto do que dormir-lhe em cima, que se
+matriculava todos os annos na faculdade em que
+o secretario-universitario se lembrava de matriculal-o,
+que fôra de Coimbra a casa, d'algibeira vasia
+e lapis constantemente occupado em fazer magnificos
+versos ou magnificos desenhos, que se fizera
+um dia sachristão, e pozera n'outro, todo um
+bairro em sobresalto, subindo aos telhados para
+apostrophar a lua, etc., etc.</p>
+
+<p>E as anecdotas galantes succediam-se, e a cada
+nova poesia annexava-se uma historieta, e quando
+as poesias escaceavam, attribuiam-se ao poeta novas
+doudices, novas excentricidades, como a certo
+honrado e já defuncto general se attribuiam quantos
+dispauterios o soalheiro burguez produzia. Se
+eu fosse biographo de João de Deus havia talvez
+de lavrar aqui um protesto esmagador.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag81">[81]</a></span>
+
+<p>Como não sou, limito-me a dizer o que penso
+do illustre algarviense. <i>Mais</i> ou <i>menos</i> todos somos
+poetas. N'este <i>mais</i> e n'este <i>menos</i> está, creio
+eu, o segredo da organisação <i>sensorial</i>, se póde dizer-se
+assim, organisação modificada é certo, mas
+não completamente transformada pelo <i>meio</i> e pelo
+<i>habito</i>.</p>
+
+<p>Tal <i>sensação</i> que n'uns individuos poria o cerebro
+n'um estado de effervescencia que lhe <i>exagerasse</i>
+a realidade, a ponto muitas vezes de a
+substituir por uma concepção puramente subjectiva,
+em taes outros póde dar apenas o facto funccional
+em condições normaes e ordinarias, e, concentrando-se,
+converter-se em reflexão. Precisava
+isto longo desenvolvimento. Ora como o primeiro
+modo de ser <i>sensorial</i> póde dar-se em todos, mas
+com mais ou <i>menos</i> intensidade, com <i>maior</i> ou <i>menor</i>
+frequencia, digo eu (e dizem bons escriptores)
+que todos são <i>mais</i> ou <i>menos</i> poetas. Isto quanto
+ao facto intellectivo. Quanto á expressão, o mesmo
+se póde dizer sem receio de contestação seria.</p>
+
+<p>Pois na concepção como na palavra eu tenho
+João de Deus por verdadeiro poeta.</p>
+
+<p>Dizia Merck, homem de profundo bom senso,
+a Goëthe, seu amigo:</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag82">[82]</a></span>
+
+<p>«A tendencia irresistivel do teu genio é a de
+imprimir a fórma poetica ás cousas <i>reaes</i>. Outros
+procuram uma <i>soi-disant</i> poesia tranformando
+em realidades, puras <i>imaginações</i>, o que só
+produz disparates.»<sup><a name="mnota2" href="#nota2">2</a></sup></p>
+
+<p>Sem concordar incondicionalmente com a primeira
+phrase do sensato allemão, sem querer acceitar
+a segunda como lei comprovada de critica
+litteraria, parece-me que de João de Deus se poderá
+dizer que reune as duas tendencias, as duas
+feições designadas, a <i>idealisação</i> (phrase consagrada
+e porventura inexacta) do <i>real</i>, e a personificação,
+melhor talvez, a realisação plastica do
+<i>imaginario</i>.</p>
+
+<p>Como que as sensações sensoriaes<sup><a name="mnota3" href="#nota3">3</a></sup> n'aquelle
+cerebro delicado, ou atravez d'aquelle organismo
+exageradamente impressionavel se destacam algumas
+vezes do estimulo, ou alteram a natureza
+<span class="pagenum"><a name="pag83">[83]</a></span>
+da propria objectividade e criam um mundo novo,
+um mundo mystico, permittam-me a expressão, a
+que o poeta dá uma realidade objectiva moldando-o
+pelas manifestações plasticas do mundo em
+que vive. Acontece porém, poucas vezes, nem podia
+deixar de ser assim, quando a indole da época
+e a illustração do poeta se estão oppondo á formação
+e sustentação d'estas concepções puramente
+subjectivas. Adivinha-se aqui ou alli a lucta tremenda
+que vae no cerebro de João de Deus, lucta
+que é a feição caracteristica do seculo, e que o
+manto esfarrapado do eclectismo immoral não consegue
+abafar, lucta entre o velho <i>crêr</i> e a <i>duvida</i>,
+a duvida, que como a hydra da mythologia surge
+após cada decepamento, e que não é possivel destruir
+como aquella decepando-lhe o tronco.
+Ouvide um exemplo:</p>
+
+<div class="poesia">
+Prestes, se inda na rocha de granito<br>
+D'onde em tempo me vias, te sentares,<br>
+Não olhes para a terra, ou para os mares,<br>
+<i>Olha sim para o céo, que é lá que habito.</i><br>
+<br>
+<i>Lá, tão longe de ti mas não do terno,</i><br>
+<i>Bondoso pae que os dois nos ha gerado,</i><br>
+<i>Só para magoas não, que bem guardado</i><br>
+<i>Nos tem tambem no céo prazer eterno.</i><br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag84">[84]</a></span>
+
+<p>Que profunda crença, que certeza <i>mystica</i>, se
+póde dizer-se assim, não rescende a suave <i>morbidezza</i>
+d'estes versos! Ha alli alguma cousa do
+cantor da Bice. Vêde porém a tempestade que se
+annuncia; a duvida atravessou como um relampago
+o cerebro do poeta. Ouvide:</p>
+
+<div class="poesia">
+Não se é só pó no fim de tanta magoa.<br>
+<i>Senão</i>, diga-me alguem que allivio é este<br>
+Que sinto quando á abobada celeste<br>
+Alevanto os meus olhos rasos d'agua?<br>
+<br>
+Mentem os céos <i>tambem</i>? Os céos maldigo.<br>
+Feras, tigres <i>tambem</i> o céo povoam?<br>
+<i>Tambem</i> os labios lá sorrindo coam<br>
+Veneno desleal em beijo amigo?<br>
+<br>
+<i>Mas na dôr é que os astros nos sorriem,</i><br>
+E os homens não sorriem na desdita.<br>
+Astros! fio-me em vós, e Deus permitta<br>
+Que os infelizes sempre em vós se fiem.<br>
+</div>
+
+<p>Refaz-se a crença, resurge a esperança consoladora:</p>
+
+<div class="poesia">
+Ha depois d'esta vida uma outra vida.<br>
+<i>Não se reduz a nada um grão d'areia,</i><br>
+<i>E havia de a nossa alma, a nossa ideia,</i><br>
+Nas ruinas do pó ficar perdida?<br>
+</div>
+
+<p>Pobre sonhador! Aquelle segundo verso é um
+protesto ironico contra o teu ideal mystico, é o
+<span class="pagenum"><a name="pag85">[85]</a></span>
+<i>grão d'areia</i> que ha de intorpecer e desmandar
+todo o machinismo psycologico da tua crença!</p>
+
+<p>Continúa:</p>
+
+<div class="poesia">
+<i>Isso que pensa e quer</i> (até me admiro)<br>
+Isso que a luz nos traz, que a luz nos leva, etc.<br>
+</div>
+
+<p style="text-indent: 0px;">e accrescenta:</p>
+
+<div class="poesia">
+<i>Onde</i>, não sei eu bem, mas sei que existe<br>
+Deus remunerador. Depois de mortos<br>
+Hemos de vêr-nos e um no outro absortos<br>
+Fartar de glorias este amor tão triste.<br>
+<br>
+Tão triste e... (o coração que me adivinha?)<br>
+N'este supplicio nosso, <i>este tormento</i>,<br>
+Nunca dos labios teus minimo alento<br>
+Num só beijo bebi em vida minha!<br>
+</div>
+
+<p>Fulge de novo o relampago, baqueia o edificio
+da crença, vêde que tormento:</p>
+
+<div class="poesia">
+<i>E morro sem te vêr!</i> Cabeça douda<br>
+Desasissado amor? sonhar afflicto<br>
+Um sonho até morrer...<br>
+</div>
+
+<p>Pobre Hamlet!</p>
+
+<p style="margin-left: 2em;"><i>... the rest is silence</i><br></p>
+
+<div class="poesia">
+Um sonho até morrer... Não: resuscito;<br>
+Morto tenho vivido a vida toda.<br>
+</div>
+
+<p>Pobre Faust! O <i>insufficiente</i> (das Unzuloengliche)
+atormenta-te, porque te fascina o <i>inenarravel</i>
+<span class="pagenum"><a name="pag86">[86]</a></span>
+(das Unberchreiblichee). Que tempo precioso perde
+comtigo o sensato Mephistopheles!</p>
+
+<p>Preferes á gargalhada que te chama á realidade
+da vida, o <i>chorus mysticus</i> que te amargura a
+existencia com a mentira da miragem!</p>
+
+<br>
+
+<p>João de Deus é rigorosamente um artista <i>insaciavel</i>:
+«Satiari artis cupiditate non quit,» como
+diria Plinio.</p>
+
+<p>Adivinha-se em cada estrophe d'elle um ancear
+indefinivel, um vago aspirar, se póde dizer-se assim,
+uma como que miragem que atráe o poeta,
+que o alenta umas vezes e o desespera não poucas,
+que parece enviar-lhe dos visos do horisonte uns
+suaves frescores envoltos em deliciosos perfumes,
+e que como a miragem do deserto, lhe foge sempre
+aos labios sequiosos.</p>
+
+<p>E o pobre viandante vae caminhando e cantando
+sempre. É um descantar dolorido geralmente,
+como que descantar de saudade do que sonhou e
+não acha, e não gosa, e não encontra no caminho,
+como que de <i>saudade</i> do que lhe foge sempre,
+deixem-me usar a dôce palavra que bem sei eu
+que não fica ella bem lexicographicamente applicada.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag87">[87]</a></span>
+
+<p>E assim com a imaginação embalada por um
+vago <i>ideal</i> vae João de Deus <i>poetisando</i> como
+Goëthe na opinião do seu, já citado amigo, tudo
+o que no caminho encontra. Poucas vezes se lhe
+altera a harmonia cerebral ao impulso d'uma vibração
+mais violenta. Os successivos amores&mdash;fundem
+quasi n'uma abstracção, parecem subtilisar-se
+até no <i>feminino eterno</i> do cantor do Fausto.
+Hoje Margarida, amanhã Helena, depois... Depois
+quem sabe?</p>
+
+<p>Hoje Marina. É uma recordação.</p>
+
+<div class="poesia">
+Como esse olhar é dôce!<br>
+Dôce dâ mesma sorte<br>
+Como se nunca fosse<br>
+Toldado pela morte,<br>
+<br>
+Como se alumiasse<br>
+O sol ainda em vida<br>
+As rosas d'essa face<br>
+Agora carcomida.<br>
+<br>
+Colhesse-as eu mais cedo<br>
+E logo que alvorece,<br>
+Já não tivesse mêdo<br>
+Que a terra m'as comesse.<br>
+.........................<br>
+<br>
+Se um dia nos meus braços<br>
+Te desbotasse as côres,<br>
+Passavam os abraços...<br>
+Passavam os amores!...<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag88">[88]</a></span>
+<br>
+Oh não: mil vezes antes<br>
+No céo lá onde habitas<br>
+E os rapidos instantes<br>
+Que vens e me visitas<br>
+<br>
+N'este degredo nosso<br>
+Que tanta gente estima,<br>
+E eu, só porque não posso<br>
+Não largo e vou lá cima.<br>
+<br>
+Vem tu cá baixo, abala, etc.<br>
+<br>
+.......................<br>
+<br>
+Ha uma hora ou mais,<br>
+Marina! que contemplo<br>
+A casa de teus paes<br>
+Que é para mim um templo.<br>
+<br>
+É esta vida um mar<br>
+E bem se póde a gente<br>
+Marina, comparar<br>
+A rapida corrente<br>
+<br>
+Que vae de lado a lado<br>
+Por esses valles fóra<br>
+Sem nunca lhe ser dado<br>
+Ter a menor demora:<br>
+<br>
+Pára quando a engole<br>
+Aquelle mar sem fundo;<br>
+Nem pára, é como o sol<br>
+E como todo o mundo.<br>
+<br>
+.......................<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag89">[89]</a></span>
+
+<p>Custa a resistir á tentação de transplantar para
+aqui completas, estas magnificas <i>singelesas</i>. Não
+ha n'aquillo alguma coisa do que é espontaneo e
+bello na <i>Vita Nuova</i>?</p>
+
+<p>Mas, como dissemos, o poeta approxima-se tambem
+do <i>Faust</i> na volubilidade artistica.</p>
+
+<div class="poesia">
+Maria! vêr-te á porta a fazer meia<br>
+Olhando para mim de vez em quando<br>
+É o que n'esta vida me recreia.<br>
+<br>
+...................................<br>
+<br>
+E eu pallido, Maria! o pensamento<br>
+Não é trabalho que nos dê saude,<br>
+Esta imaginação é um tormento.<br>
+<br>
+...................................<br>
+<br>
+É que a gente na sua mocidade<br>
+Não cabe em si, não pára de contente<br>
+E assim fui eu na flôr da minha edade.<br>
+<br>
+Tu eras n'esse tempo simplesmente<br>
+A flôr que vae nascendo e mais valia<br>
+Seres tão terna ainda e innocente.<br>
+<br>
+Já esse lindo pé que tens, Maria!<br>
+Esse quadril tão largo e cinta estreita<br>
+Me não vinha á ideia noite e dia;<br>
+<br>
+Esses encontros de mulher perfeita,<br>
+Esse peito redondo e arqueado<br>
+Como a pomba farta e satisfeita;<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag90">[90]</a></span>
+<br>
+Talvez vivesse então mais socegado<br>
+Ou já que a minha sorte é sempre triste<br>
+Ao menos não andasse enfeitiçado.<br>
+...................................<br>
+</div>
+
+<p>Depois é Margarida:</p>
+
+<div class="poesia">
+Oh! que formosos dias, Margarida!<br>
+Esses, etc. etc.<br>
+</div>
+
+<p>Depois... Ha nomes que não se proferem, que
+não se denunciam. São como certo nome do Deus
+judaico.</p>
+
+<p>O poeta diz simplesmente: <i>No leito nupcial.</i>
+Um nome depois d'isto fôra mais que uma profanação,
+fôra uma infamia. Julgaes porém que ides
+ouvir uma recriminação amarga ou uma indiscripção
+villã?</p>
+
+<div class="poesia">
+Dorme, estatua de neve,<br>
+Vergontea de marfim,<br>
+Tocar que impio se atreve<br>
+No que é sagrado assim!<br>
+<br>
+Dois são: o mais, mysterio<br>
+Vedado á terra, Deus<br>
+Talvez do solio ethereo<br>
+Nem baixe os olhos seus.<br>
+<br>
+Respeita-os, tapa-os, como<br>
+Japhet e Sem, o pae...<br>
+Pende sagrado pomo,<br>
+A vista ergue-se e cáe.<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag91">[91]</a></span>
+<br>
+Ergue-se e cáe, conforme<br>
+A lei que o manda assim,<br>
+<i>Ergue-se</i> e... dorme, dorme,<br>
+Vergontea de marfim!<br>
+<br>
+.......................<br>
+<br>
+Não segue acaso a sombra<br>
+Teu corpo sempre, flôr?<br>
+E pois porque te assombra<br>
+Meu insensato amor?<br>
+<br>
+.......................<br>
+</div>
+
+<p>Depois é Beatriz:</p>
+
+<div class="poesia">
+Tu és o cheiro que exhala<br>
+Ao ir-se abrindo uma flôr;<br>
+Tu és o collo que embala<br>
+Suas primicias d'amor.<br>
+<br>
+Tu és um beijo materno,<br>
+Tu és um riso infantil;<br>
+Sol entre as nuvens do inverno,<br>
+Rosa entre as flôres d'abril.<br>
+<br>
+Tu és a rosa de maio,<br>
+Tua és a flamula azul<br>
+Que atam á flecha do raio<br>
+As nuvens negras do sul.<br>
+<br>
+.......................<br>
+</div>
+
+<p>E assim vae cantando sempre, de nome em nome,
+e de mysterio em mysterio e d'amor em amor,
+de duvida em duvida, de saudade em saudade,
+<span class="pagenum"><a name="pag92">[92]</a></span>
+d'anceio em anceio. Não ha Beatriz que o retenha
+e lhe oiça o <i>Ecce Deos fortior me veniens dominabitur
+mihi</i>.</p>
+
+<p>Um dia encontra uma mulher formosa, joven,
+alegre. Ama. Será amado?</p>
+
+<div class="poesia">
+Amas-me a mim! perdoa,<br>
+É impossivel! Não,<br>
+Não ha quem se condoa<br>
+Da minha solidão.<br>
+<br>
+Como podia eu triste,<br>
+Ah! inspirar-te amor,<br>
+Um dia que me viste,<br>
+Se é que me viste... flôr!<br>
+<br>
+.......................<br>
+<br>
+Via-te arfar o seio...<br>
+Córar... mudar de côr,<br>
+E embora, ah! não, não creio,<br>
+Tu não me tens amor!<br>
+</div>
+
+<p>E o sonho foi-se e a visão desappareceu. Como
+se chamava aquella mulher? Vão lá saber como
+se chama a estrella cadente que rasga a amplidão
+do espaço e desapparece n'ella?</p>
+
+<p>E foi uma estrella cadente, aquella. Perdoem a
+indiscripção.</p>
+
+<p>Outro dia é o poeta que se afasta, que foge,
+<span class="pagenum"><a name="pag93">[93]</a></span>
+porque receia macular com o seu halito o puro fulgor
+da estrella.</p>
+
+<div class="poesia">
+Tenho-te muito amor,<br>
+E amas-me muito, creio,<br>
+Mas ouve-me, receio<br>
+Tornar-te desgraçada.<br>
+O homem, minha amada,<br>
+Não perde nada, gosa;<br>
+Mas a mulher é rosa...<br>
+Sim, a mulher é flôr!<br>
+<br>
+Ora, e a flôr, vê tu,<br>
+No que ella se resume...<br>
+Faltando-lhe o perfume.<br>
+Que é a essencia d'ella,<br>
+A mais viçosa e bella,<br>
+Vê-a a gente e... basta.<br>
+Sê sempre, sempre casta!<br>
+Terás... quanto possuo!<br>
+</div>
+
+<p>Vou findar com as transcripções, que bastam as
+que ficam feitas para comprovar o que ácerca d'estas
+mimosas poesias e d'este original poeta tenho
+dito e hei de para o diante dizer. Não posso porém
+resistir á tentação de citar ainda uns trechos
+d'uma das mais bellas e caracteristicas composições
+de João de Deus. Podesse eu transcrevel-a
+toda!</p>
+
+<p>Não tem nome. Chamam-lhe alguns «A vida».
+Innumeras vezes tem ella feito cessar as alegrias
+<span class="pagenum"><a name="pag94">[94]</a></span>
+das salas e interrompido brilhantes festas como o
+austero bispo de certa poesia de Thomaz Ribeiro,
+para mendigar ao sentimento das damas um condoimento
+de triste sympathia pelas intimas amarguras
+do poeta. Tem por epigraphe aquellas formosas
+palavras do Tasso:</p>
+
+<div class="poesia">
+Cosi trapassa al trapassar d'um giorno, etc.<br>
+</div>
+
+<p style="text-indent: 0px;">e começa:</p>
+
+<div class="poesia">
+Foi-se-me pouco a pouco amortecendo<br>
+A luz que n'esta vida me guiava,<br>
+Olhos fitos na qual até contava<br>
+Ir os degraus do tumulo descendo.<br>
+<br>
+Em se ella annuveando, em a não vendo,<br>
+Já se me a luz de tudo anuveava;<br>
+Despontava ella apenas, despontava<br>
+Logo em minha alma a luz que ia perdendo.<br>
+<br>
+Alma gemea da minha, e ingenua e pura,<br>
+Como os anjos do céo (<i>se o não sonharam...</i>)<br>
+Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura.<br>
+<br>
+Não sei se me voou, se m'a levaram,<br>
+Nem saiba eu nunca a minha desventura<br>
+Contar aos que inda em vida não choraram.<br>
+</div>
+
+<p>Estas linhas fazem recordar Camões. Ha n'este
+tristuras que se manifestam por versos parecidos,
+mas eu prefiro estes ao tão conhecido soneto da
+<span class="pagenum"><a name="pag95">[95]</a></span>
+«Alma minha gentil,» etc. Parece denunciar-se
+n'esta singelesa <i>morbida</i>, se póde dizer-se assim,
+mais sentimento e espontaneidade.</p>
+
+<p>Vamos mais além. Que superabundancia de ímagens!
+Que riquesa e variedade de <i>sensação</i>! Que
+esplendidos quadros! Que magnificencia de colorido!</p>
+
+<div class="poesia">
+Ah! quando no seu collo reclinado<br>
+&mdash;Collo mais puro e candido <i>que arminho</i>,<br>
+<i>Como abelha na flôr do rosmaninho</i><br>
+Osculava seu labio perfumado;<br>
+<br>
+Quando <i>á luz dos seus olhos</i>... (que era vêl-os,<br>
+E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!)<br>
+Lia na sua bôcca a <i>Biblia santa</i><br>
+Escripta em letra <i>côr dos seus cabellos</i>:<br>
+<br>
+Quando aquella mãosinha pondo um dedo<br>
+Em seus labios de <i>rosa pouco aberta</i>,<br>
+<i>Como timida pomba</i> sempre alerta,<br>
+Me impunha ora silencio, ora segredo;<br>
+<br>
+Quando, <i>como a alveloa</i>, delicada,<br>
+E linda <i>como a flôr</i> que haja mais linda<br>
+Passava <i>como o cysne</i> ou <i>como ainda</i><br>
+Antes do sol raiar, <i>nuvem dourada</i>;<br>
+<br>
+...................................<br>
+<br>
+Quando a <i>cruz</i> do collar do seu pescoço,<br>
+<i>Estendendo-me os braços, como estende</i><br>
+<i>O symbolo d'amor que as almas prende,</i><br>
+<i>Me dizia</i>... o que ás mais dizer não ouço;<br>
+<br>
+...............................................<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag96">[96]</a></span>
+<br>
+Quando o <i>ouro da trança</i> aos ventos dando<br>
+E a <i>neve</i> do seu collo e seu vestido<br>
+&mdash;<i>Pomba</i> que do seu par se ia perdido,<br>
+Já de longe lhe ouvia o peito arfando;<sup><a name="mnota4" href="#nota4">4</a></sup><br>
+<br>
+Tinha o <i>céo</i> da minha alma as sete cores, etc.<br>
+<br>
+...........................................<br>
+...........................................<br>
+<br>
+    Que é d'esses cabellos d'ouro<br>
+    Do mais subido quilate,<br>
+    D'esses labios escarlate,<br>
+        Meu thesouro!<br>
+<br>
+    Que é d'esse halito, que ainda<br>
+    O coração me perfuma!<br>
+    Que é de teu collo de espuma,<br>
+        Pomba linda!<br>
+<br>
+    ..............................<br>
+    ..............................<br>
+<br>
+De dia a estrella d'alva empallidece;<br>
+E a luz do dia eterno te ha ferido.<br>
+Em teu languido olhar adormecido<br>
+Nunca me um dia em vida me amanhece.<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag97">[97]</a></span>
+<br>
+Foste a concha da praia. A flôr parece<br>
+Mais ditosa que tu. Quem te ha partido,<br>
+Meu calix de crystal, onde hei bebido<br>
+Os nectares do céo... <i>se um céo houvesse!</i><br>
+<br>
+Fonte pura das lagrimas que choro!<sup><a name="mnota5" href="#nota5">5</a></sup><br>
+Quem tão menina e moça desmanchado<br>
+Te ha pelas nuvens os cabellos d'ouro!<br>
+.....................................<br>
+<br>
+  A vida é o dia d'hoje,<br>
+  A vida é ai que mal sôa,<br>
+  A vida é sombra que foge,<br>
+  A vida é nuvem que vôa;<br>
+  A vida é sonho tão leve<br>
+  Que se desfaz como a neve<br>
+  E como o fumo se esvae:<br>
+  A vida dura um momento;<br>
+  Mais leve que o pensamento,<br>
+  A vida leva-a o vento,<br>
+  A vida é folha que cáe!<br>
+<br>
+  A vida é flôr na corrente,<br>
+  A vida é sopro suave,<br>
+  A vida é estrella cadente,<br>
+  Vôa mais leve que a ave;<br>
+  Nuvem que o vento nos ares,<br>
+  Onda que o vento nos mares<br>
+  Uma apoz outra lançou,<br>
+  A vida&mdash;penna cahida<br>
+  Da aza da ave ferida,<br>
+  De valle em valle impellida<br>
+  A vida o vento a levou!<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag98">[98]</a></span>
+<br>
+..............................<br>
+..............................<br>
+
+<i>Talvez</i>, é hoje a Biblia, o livro aberto<br>
+Que eu só ponho ante mim nas rochas, quando<br>
+Vou pelo mundo vêr se a posso vêr;<br>
+E onde, como a palmeira do deserto,<br>
+Apenas vejo aos pés inquieta ondeando<br>
+        A sombra do meu ser.<br>
+<br>
+..............................<br>
+</div>
+
+<p>Depois d'isto comprehendeu-se que João de Deus
+se propozesse a traduzir o <i>Cantico dos Canticos</i>.</p>
+
+<p>Como, se bem me lembro, diz Herder, os elementos
+primordiaes da poesia hebraica são a <i>sensação</i>
+e a <i>imagem</i>, e posto que, no meu entender,
+a boa critica não possa monopolisar aquella feição
+em favor apenas d'aquella poesia, porque ella é caracteristica
+de todas as litteraturas na sua genese,
+e nos primeiros periodos de constituição, em quanto
+predominam no homem os sentimentos elementares
+como diz Veron<sup><a name="mnota6" href="#nota6">6</a></sup>, comtudo a poesia hebraica
+propriamente tal quasi não chega a ultrapassar
+o periodo d'aquelle predominio. Poderiam
+talvez accusar-se os versos que acabo de transcrever
+de certo <i>garridismo</i> que mal iria ao sentimento
+<span class="pagenum"><a name="pag99">[99]</a></span>
+que exprimem, se a violencia d'esse sentimento,
+o estado de exaltação sensorial não estivessem
+justificando o que parece defeito aos leitores que
+não sintam a transfusão psychologica que muitos
+hão de experimentar ante aquelles versos magnificos.</p>
+
+<p>A poesia de João de Deus é verdadeira musica.
+Se eu estivesse agora para combater os que
+julgam como Lamartine<sup><a name="mnota7" href="#nota7">7</a></sup> que a <i>versificação</i>, o
+rhythmo, a cadencia, a rima, são cousas indifferentes
+á poesia na «época adiantada e verdadeiramente
+intellectual dos povos modernos», os que
+teem tudo isso, como Heine (cit. por Max. Buchon)
+por completa puerilidade, para valente comprovação
+me podiam servir os versos do nosso poeta.</p>
+
+<p>São elles geralmente como que uma psalmodía.
+Allia-se a musica e a poesia que tantos querem
+distancear, como se o rythmo fosse apenas elemento
+especial d'uma arte. João de Deus como que
+tem uma rhythmopêa espontanea. Sahe-lhe o verso
+moldado pela ideia e pelo sentimento, e n'este
+<span class="pagenum"><a name="pag100">[100]</a></span>
+como n'aquelle a modulação existe pelas fataes variantes
+dos estimulos e das vibrações cerebraes.
+Procuraram os gregos systematisar as relações
+do rhythmo para com a idêa e o sentimento, como
+se fôra possivel marcar limite numerico aos modos
+de ser do pensamento, ou aos productos da actividade
+intellectual e esthetica. Se, pois, em muitos
+casos, são acceitaveis as velhas regras, geralmente
+a rhythmopêa deve ser producto espontaneo,
+e não <i>canon</i> de escóla. E porque se dá o primeiro
+caso em João de Deus, é que talvez se revela
+nos seus versos, bem salientemente o cunho
+da personalidade, condição essencial d'uma obra
+poetica. É necessario não perder aquella de vista,
+porque, como diz o critico francez, que atraz
+citei, o verdadeiro merecimento, na poesia, está
+antes na esthesia do poeta de que na do leitor.
+Ora bastam as transcripções que fiz para vêr como
+a personalidade do poeta, o seu sentir e pensar
+se patentêam na expressão, na <i>fórma</i>, que em outros
+escriptores mal disfarça com arrebiques e ouropeis
+a carencia da sensibilidade e inspiração
+pessoal.</p>
+
+<p>Ha mais poesia n'algumas <i>singelezas</i> de João
+de Deus do que em muitos <i>versos</i> laureados que
+<span class="pagenum"><a name="pag101">[101]</a></span>
+por ahi correm como modêlos de <i>metrificação</i>, e
+que bem podem sêl-o, o que não basta de certo.</p>
+
+<div class="poesia">
+Mais poesia em pobre margarida<br>
+Que aos pés se pisa, enthesourada vejo,<br>
+Que em muita madreperola polida<br>
+Que as cinzas guarda de finado arpejo.<br>
+</div>
+
+<p>Toquei eu agora n'uma das melhores poesias de
+João de Deus, poesia que elle diz ser fragmento,
+e fragmento que bem faz desejar a apparição da
+obra toda.</p>
+
+<p>Vou ainda transcrever alguns trechos que lançam
+de certo muita luz sobre o vulto, quasi lendario
+do poeta, em pontos menos esclarecidos pelas
+transcripções anteriores.</p>
+
+<div class="poesia">
+Padre, ministro do Crucificado<br>
+É bom ferreiro afeiçoando o ferro<br>
+Com que ha de prestes ir rompendo o arado<br>
+Os campos d'este secular desterro...<br>
+<br>
+....................................<br>
+<br>
+Na montanha da Fé, mulher formosa<br>
+Se ante mim a meus pés desenrolasse<br>
+Como o demonio a vastidão pasmosa<br>
+Que elle dava a Jesus se o adorasse<br>
+E me pedisse em premio uma só cousa<br>
+Ás mãos de minha mãe furtar a face;<br>
+Eu lançava-lhe cuspo...<br>
+<br>
+...................................<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag102">[102]</a></span>
+<br>
+Vêde-a ao berço, sofrega de vida<br>
+Que a sua é pouca para dar ao filho;<br>
+<i>Ella</i> em cama de espinhos, mal vestida,<br>
+<i>Elle</i> enfaxado, em berço de tomilho;<br>
+<i>Ella</i> em continua, asafamada lida,<br>
+<i>Elle</i> vendo se apanha á luz o brilho...<br>
+<i>Já descobrindo em tão tenrinha edade</i><br>
+<i>Que toda a sua sêde é de verdade.</i><br>
+<br>
+.................................<br>
+.................................<br>
+<br>
+Irmãs da Caridade! A caridade<br>
+Tem só duas irmãs&mdash;a Fé e a Esperança:<br>
+Não traja as côres só d'uma irmandade,<br>
+Traja as côres do Arco d'alliança;<br>
+Leva sósinha o pão da piedade,<br>
+Tira da roda essa infeliz creança...<br>
+Roda da vida que anda de tal sorte<br>
+Que, em se lhe dando, é já contar com a morte.<br>
+<br>
+Bemdita sejas tu, victima triste<br>
+D'um peito amante e d'um amante ingrato!<br>
+Que nunca á mesma loba lançar viste<br>
+Inda mamando o cachorrinho ao mato;<br>
+Bemdita sejas tu, que o que pariste<br>
+Teu fructo, imagem tua e teu retrato<br>
+Conservas como espelho onde te vejas;<br>
+Bemdita sejas tu, bemdita sejas.<br>
+<br>
+................................<br>
+................................<br>
+<br>
+Acaso é só dourada, altiva estola<br>
+Que liga os corpos em as mãos ligando,<br>
+Confunde corações e faz em summa<br>
+Que a Deus se elevem duas almas n'uma?<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag103">[103]</a></span>
+
+<p>Ahi tendes o apostolo, o campeão social. Não
+lhe aceiteis, muito embora, a doutrina. Acatae-lhe
+a generosidade, a grandeza da <i>ideia</i>, a robustez
+da convicção. Que poema enorme, magestoso e
+bello não será aquelle!</p>
+
+<p>Colligir as poesias de João de Deus que por ahi
+andavam dispersas, mutiladas e perdidas, foi de
+certo um grande serviço ás patrias letras.</p>
+
+<p>Prestou-o o snr. José Antonio Garcia Blanco.</p>
+
+<p>Poeta mais original, mais rico, mais verdadeiro
+do que aquelle, não conheço na litteratura portugueza,
+e tanto como elle, ha de ser difficil de encontrar
+entre nós, na litteratura d'hoje. Um certo
+<i>mysticismo</i> mal definido que recendem as suas
+poesias, é menos producto da tradicção que originalidade
+genial. João de Deus é um homem do
+Meio-dia com o vago ancear d'um poeta do norte.
+Opprime-o o <i>insufficiente</i> como ao Faust. Se lhe
+désse para ser philosopho, onde iria parar?...</p>
+
+<p>Como poeta tem alguma cousa de Ossian com
+alguma cousa de Goëthe...<sup><a name="mnota8" href="#nota8">8</a></sup></p>
+
+<p class="direita"><b>Luciano Cordeiro.</b></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="nota2" href="#mnota2">2</a></sup> «Goethe et Schiller» por E. Rambert. (Revue Suisse&mdash;fev.
+1869).</p>
+
+<p><sup><a name="nota3" href="#mnota3">3</a></sup> Quando digo «sensações sensoriaes», fallo das sensações
+«externas
+e internas», como vulgarmente se classificam, e não excluo as
+que se dão sem realidade objectiva que as provoque, e que constituem
+o estado pathologico da «allucinação», estado a que porventura se
+poderia reduzir algumas vezes, creio, o «mens divinior» dos antigos.
+Esta ultima observação é minha, as anteriores são de Luys (Recherches
+sur le système nerveux, etc., etc., cit. par Littré) e E. Littré,
+De la méthode en psychologie (Phil. posit.&mdash;Revue&mdash;1.<sup>er</sup> vol.)</p>
+
+<p><sup><a name="nota4" href="#mnota4">4</a></sup> Seguia-se a seguinte quadra, que não apparece na collecção
+e que eu acho não só egual em bellesa ás citadas, mas superior a algumas:</p>
+
+<div style="margin-left: 10%;">
+Quando <i>o annel</i> da bôcca lusidia,<br>
+Vermelha <i>como a rosa cheia d'agua</i><br>
+Em beijos á saudade abrindo a magua<br>
+<i>Mil rosas</i> pelas faces me esparzia;<br>
+</div>
+
+<p><sup><a name="nota5" href="#mnota5">5</a></sup> Variante:</p>
+
+<div style="margin-left: 10%;">
+Oh lagrima das lagrimas que choro!<br>
+</div>
+
+<p><sup><a name="nota6" href="#mnota6">6</a></sup> Superiorité des artes modernes.</p>
+
+<p><sup><a name="nota7" href="#mnota7">7</a></sup> Cours fam. de litt.</p>
+
+<p><sup><a name="nota8" href="#mnota8">8</a></sup> Revolução de Setembro (1869) n.<sup>os</sup> 8012, 8015 e 8023.</p>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag104">[104]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag105">[105]</a></span>
+
+
+
+
+<h2>FLORES DO CAMPO</h2>
+
+<h5>DE</h5>
+
+<h3>João de Deus</h3>
+
+
+<p>É indispensavel crêr na poesia como se crê no
+Evangelho, como se acredita em Deus. No perpassar
+d'esta via dolorosa, cortada a todo o passo
+de agrestes sinuosidades, a poesia luzindo de
+quando em quando ao viageiro extenuado como
+um iris de bonança, significa a mais completa redempção
+da materia pelo espirito.</p>
+
+<p>Aguia sobranceira que elevando-se até perder
+de vista o lodo em que se immergem tantos e tantos
+seres, vae roçar com a fimbria da aza a crista
+das nuvens, confundindo os seus arrulhos mysteriosos
+com as melodias dos seraphins!</p>
+
+<p>Creou Deus a poesia para que a primavera com
+os seus canticos e perfumes, com a sua opulenta
+<span class="pagenum"><a name="pag106">[106]</a></span>
+vegetação, encontrasse quem a comprehendesse,
+quem a cantasse: creou Deus a poesia para escarmento
+ao vicio, distanceando-nos do finito que é o
+começo do scepticismo, para o infinito que é Deus!
+Surgiu a poesia para que nas trevas de um mundo
+que ri de tudo como Democrito, que tudo amesquinha,
+brilhasse uma luz que só de vêl-a a alma se
+purificasse e o espirito adejasse para o ideal.</p>
+
+<p>Não chamem á poesia trivialidade.</p>
+
+<p>Estudem os seculos; contemplem as nações e
+digam se a poesia teve ou não extraordinaria influencia
+nos grandes acontecimentos sociaes.</p>
+
+<p>Quem, senão Roger de l'Isle, ergueu palpitante
+toda a França com umas quantas estrophes, a
+<i>Marseillaise</i>?</p>
+
+<p>Não foram os versos de Shakespeare, de Milton,
+de Pope, que poderosamente concorreram a immortalisar
+a Inglaterra?</p>
+
+<p>Portugal não deve a fama da sua gloria aos
+<i>Lusiadas</i> de Camões?</p>
+
+<p>Consintam os homens de algarismos, os materialistas
+que antepõem a carne ao espirito, que fazem
+d'ella o seu credo, que os poetas, os sonhadores
+de chimeras deixem devanear a imaginação
+por esses horisontes de anil; deixem que reclinados
+<span class="pagenum"><a name="pag107">[107]</a></span>
+á proa do baixel da vida namorem o azul das
+aguas depois de terem contemplado o dos céos.</p>
+
+<p>Ai da humanidade, se o poeta deixar pender a
+fronte desalentada ao partirem-se-lhe as cordas da
+lyra! a prosa invadirá o sanctuario dos mais nobres
+estimulos, e o sceptico exultará ao soltar a
+sua risada infernal como a dos condemnados do
+Dante.</p>
+
+<p>Não sei quantas vezes temos lido as <i>Flores do
+Campo</i>, exhaurindo sempre novos e exquisitos perfumes.</p>
+
+<p>Tem isso a originalidade, que é o distinctivo
+d'este poeta. Costumamos dizer com referencia a
+qualquer notavel escriptor nosso: aquelle talento
+tem a suavidade de Lamartine, o sentimento de
+A. de Musset, o mysticismo de Chateaubriand, a
+ironia de Byron, a energia apaixonada de Victor
+Hugo.</p>
+
+<p>Porque não havemos de dizer que João de Deus
+tem o cunho original da poesia portugueza na sua
+mais genuina expressão?! Quem se compraz em
+parodiar constantemente os usos e idiomas dos de
+fóra, deve uma vez por outra, ufanar-se do que
+tem de seu original e portuguez de lei, como o é
+João de Deus em todos os seus escriptos.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag108">[108]</a></span>
+
+<p>Atravez dos versos do mimoso poeta contemplam-se
+as noites estrelladas de Portugal, o Tejo
+com as risonhas margens, Coimbra com a sua
+<i>Fonte das Lagrimas</i>, o clima emfim e a vegetação
+esplendida d'este pequeno eden.</p>
+
+<p>Vê-se que este poeta é portuguez de feição, e
+comprehende-se quanto na patria de Camões e
+Garrett a poesia se manifesta espontanea e esplendida
+na fórma e ideia!</p>
+
+<p>Começa o livro com a poesia <i>Camões e Byron</i>,
+e termina com o <i>Cantico dos Canticos</i>: abre pois
+com chave de prata para fechar com chave de
+ouro.</p>
+
+<p>Ha estrophes de uma suavidade tão nimiamente
+infantil, tão peculiarmente despretenciosa, que
+a ninguem senão a João de Deus poderiam attribuir-se,
+quando mesmo o seu nome não estivesse
+engrinaldando luxuosamente o adito d'este livro.</p>
+
+<p>Citaremos, entre muitas, estas:</p>
+
+<div class="poesia">
+Maria! vêr-te á porta a fazer meia<br>
+Olhando para mim de vez em quando,<br>
+É o que n'esta vida me recreia.<br>
+..................................<br>
+<br>
+Esses olhos azues... que olhar! Receio<br>
+E desejo estar sempre a contemplal-o;<br>
+Não ha mais doce e mais custoso enleio.<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag109">[109]</a></span>
+<br>
+..................................<br>
+<br>
+Bem poderas, Maria andar tapada<br>
+Só com o teu cabello, á similhança<br>
+Do sol em nuvem de manhã doirada.<br>
+<br>
+...................................<br>
+<br>
+A bôca é tão vermelha que, em te rindo,<br>
+Lembra-me uma romã aberta ao meio,<br>
+Quando já de madura está caindo.<br>
+</div>
+
+<p>Na poesia <i>Innocencia</i> revela o poeta, a par de
+uma finura de sentimento e extrema sensibilidade,
+um preito á virtude, que toda a mulher que a lêr
+deve necessariamente sentir-se attrahida por um
+sentimento de gratidão para quem a escreveu:</p>
+
+<div class="poesia">
+Casta innocencia, de Deus filha e bella<br>
+Entre as mais bellas! virginal aroma!<br>
+Rosa ineffavel, que se á luz assoma,<br>
+Haste e raiz apodreceu com ella!<br>
+</div>
+
+<p>Percebemos tambem que João de Deus pertence
+ao numero dos crentes, ainda tão mal limitado;
+prova-o exuberantemente as suas poesias <i>Luz
+da Fé</i>, <i>Fragmento</i>, e varias outras.</p>
+
+<div class="poesia">
+Deus era inda meu pae. E em quanto pude<br>
+Li o seu nome em tudo quanto existe;<br>
+No campo em flor; na praia arida e triste,<br>
+No céo, no mar, na terra e... na virtude!<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag110">[110]</a></span>
+
+<p>Como o poeta adora a poesia e o quanto tem
+d'ella feito o seu credo, dil-o eloquentemente esta
+quadra:</p>
+
+<div class="poesia">
+Oh! poesia, poesia altissima<br>
+Como o fecho do impyreo! eu me ajoelho<br>
+E beijo a tua base, harpa celeste!<br>
+O coração&mdash;a corda que nos deste.<br>
+</div>
+
+<p>Na alma d'este homem que tem na fronte uma
+estrella de fogo e talvez um martyrio no coração,
+suspiram ternuras indiziveis que a sua lyra traduz
+em canticos suavissimos:</p>
+
+<div class="poesia">
+É do sangue e das mães que eu fallo, e certo,<br>
+Que ha na vida mais sancto? O sangue é vida;<br>
+E as mães fontes de vida: eu nunca esperto<br>
+Esta lampada d'alma, suspendida<br>
+Na abobada eterna e que tão perto<br>
+Parece ter a origem..............<br>
+....................senão quando<br>
+Vejo essa cara imagem suspirando.<br>
+</div>
+
+<p>Querem dizer, e talvez com razão, que João de
+Deus abusa da rima deixando-a por vezes defeituosa.</p>
+
+<p>A meu vêr esta pecha está na razão das manchas
+que o sol contém, mas que os nossos olhos
+não descobrem sem o auxilio do telescopio, o que
+não obsta a que o sol seja o astro do dia.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag111">[111]</a></span>
+
+<p>«Marcar balisas á poesia, é impossivel, diz um
+illustre poeta e critico, a poesia é livre como o
+pensamento, e grande como a immensidade.»</p>
+
+<p>Eis-ahi está o segredo da culpa, e <i>feliz culpa</i>!</p>
+
+<p>Se João de Deus pertencesse a um certo numero
+de poetas que esgravatam na areia e folheiam
+livros alheios primeiro que possam rabiscar algumas
+insulsas linhas, talvez a rima lhe saísse menos
+incorrecta segundo a arte, mas acanhada e rachitica
+segundo o pensamento.</p>
+
+<p>A verdadeira poesia, como diz C. de Figueiredo,
+surge livre como a natureza; irrompe, inunda
+de luz de fogo, sem muitas vezes poder sujeitar-se
+aos acanhados moldes da arte.</p>
+
+<p>Apparece-nos o poeta, namorado como Bernardim
+Ribeiro, n'estas dulcissimas estrophes:</p>
+
+<div class="poesia">
+Não ha existencia alguma<br>
+Que não tenha amor, nenhuma;<br>
+Porque o amor, é, em summa,<br>
+Essencia de todo o ser.<br>
+Ha sempre quem nos attraia,<br>
+Mil vezes que a onda caia,<br>
+Ha uma rocha, uma praia<br>
+Aonde a onda vae ter.<br>
+</div>
+
+<p>Seria um nunca acabar se fossemos a exarar aqui
+todas as preciosissimas joias d'esta corôa opulenta
+que veio enriquecer a nossa litteratura.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag112">[112]</a></span>
+
+<p>Apartamo-nos do livro com extrema saudade, recommendando
+á leitora, que por acaso ainda o não
+possue, a prompta acquisiçao d'elle para collocal-o
+ao lado das rosas, jasmins e violetas com que, durante
+a formosa estação que se avisinha, ha de
+perfumar o seu <i>boudoir</i>.<sup><a name="mnota9" href="#nota9">9</a></sup></p>
+
+<p class="direita"><b>D. Guiomar D. Torrezão.</b></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="nota9" href="#mnota9">9</a></sup> Voz Feminina (1869) n.º 60.</p>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag113">[113]</a></span>
+
+
+
+
+<h2>ANNO LITTERARIO DE 1869</h2>
+
+<hr style="15%">
+
+<h3>CARTAS A J. SIMÕES DIAS</h3>
+
+<hr style="15%">
+
+<p>Á hora dos phantasmas, á meia noite, escreveste
+o <i>Anno litterario de 1868</i>. A noite é sombria e
+triste; e por isso as tuas reflexões humoristicas
+não occultam de todo a descrença, a tristeza e o
+desanimo, com que espalhaste a vista pelas coisas
+litterarias da nossa terra.</p>
+
+<p>Fundado ou infundado, não chamarei eu esse
+desalento, porque, de onde em onde, nos encontrariamos,
+se eu fosse ajustar o padrão da tua critica
+ao juizo que eu fizesse de producções da arte.</p>
+
+<p>Não posso, comtudo, deixar de querer muito a
+essa franqueza, que é o teu caracter, e a tua regra
+em materias de critica. E tanto mais lhe quero,
+quanto eu reconheço que a franqueza, hoje em dia,
+<span class="pagenum"><a name="pag114">[114]</a></span>
+é fazenda de contrabando nas nossas alfandegas
+litterarias.</p>
+
+<p>Quando o anno de 1868 pertencia já ao passado,
+scismavas á meia noite sobre o mau rumo que
+te pareceu levarem as nossas letras. Eu sou um
+pouco mais crente, e menos atrabiliario: á entrada
+de 1869, estendo os olhos ao futuro, e espero
+e creio muito, porque já não são de pouca monta
+as primicias que nos offerece o anno litterario de
+1869. Fallo das <i>Flores do Campo</i> de João de
+Deus.</p>
+
+<p>Com a analyse d'este livro, abro uma serie de
+apreciações, em que te fallarei das obras poeticas
+que n'este anno, e em Portugal, se derem á estampa.
+O meu voto, em materia alguma tem força,
+nem eu procuro dar-lh'a, para se insinuar no animo
+do publico: é um voto individual, em que apenas
+acharás o merito da sinceridade e da franqueza.</p>
+
+<p>Direi de caminho que não sigo a trilha que me
+deixou o teu <i>Anno litterario</i>. Não deslembrarei
+os preceitos da critica analytica, para não apreciar,
+em synthese, obras que exigem demorado exame
+das suas partes.</p>
+
+<p>Tambem não escolho, para te escrever, a hora
+lugubre dos phantasmas. Começo a escrever-te ás
+<span class="pagenum"><a name="pag115">[115]</a></span>
+horas d'uma esplendida manhã, espalhando os
+olhos por aquellas duas margens do nosso Mondego:
+a relva rasteira que as veste, e que me falla
+de vagas esperanças, ha de desentranhar-se em
+flores e fructos. Deixa-me crêr muito no dia de
+ámanhã.</p>
+
+<p>E porque não virão as flôres da poesia derramar
+perfumes sob este céo de Portugal, n'este <i>jardim
+da Europa</i>, onde já suspirou melodias Bernardim,
+Camões, Garrett, Castilho! Não morre a
+poesia portugueza: a estatua da deusa ainda não
+tremeu na peanha; e quando os iconoclastas do
+bello quizessem contra ella erguer braços profanos,
+a quantos apostolos da arte não teriam de
+suffocar a voz!</p>
+
+<p>Bem-vindos sejam estes sonhadores de chimeras,
+estes utopistas cheios de alma e coração, luctando
+de contínuo com o mundo real, e de contínuo
+erguendo-nos a mundos imaginarios, mas bellos
+d'uma belleza que não é da terra!</p>
+
+<p>Fallo-te da poesia individual, e eu sei bem que
+lhe não queres tanto como eu. Desejas que a poesia
+se concentre no mundo estreito dos fins sociaes;
+entendes que a poesia deve de limitar-se a mostrar
+o caminho á humanidade que marcha, ou á
+<span class="pagenum"><a name="pag116">[116]</a></span>
+exaltação dos dogmas do seculo. Por certo que se
+não desvirtua a poesia, seguindo por taes veredas;
+mas o genio não tem peias nem limites: veste de
+luz o lirio dos valles; alumia a estrada ao caminheiro
+da vida; doira as arestas do serro escalvado;
+enche a noite de luz; de fulgores inunda o
+espirito, e não sei por quantos mundos nos leva a
+alma absorta!</p>
+
+<p>Marcar balisas á poesia, é impossivel, porque a
+poesia é livre como o pensamento.</p>
+
+<p>Deixa pois cantar os poetas que levantaram a
+vista do pó da terra, onde tudo é limitado como a
+materia, e vil como o gusano das ossadas. Deixa
+que eu te falle de um poeta, cujo espirito é aguia
+que raro avisinha a ponta das azas aos marneis da
+sociedade. A gente pasma da altura a que se eleva
+aquelle espirito, e acontece ás vezes que a nossa
+vista não póde acompanhar tão levantados vôos:
+perde-se elle no vacuo, e, quando divaga em mares
+de luz, ficamos nós em trevas, sem vêr a direcção
+que elle toma...</p>
+
+<p>João de Deus não canta para a sociedade, canta
+para si. Quer discorra por vergeis de poesia singela
+e perfumada, quer se eleve a alturas desmedidas,
+não se importa de que lhe não oiçam nem
+<span class="pagenum"><a name="pag117">[117]</a></span>
+entendam o canto sempre harmonioso. É talvez
+por isso que elle não publicou, nem publicaria as
+<i>Flores do Campo</i>.</p>
+
+<p>Ao amigo que lh'as estampou, muito devemos
+nós todos os que presamos as nossas boas letras.</p>
+
+<p>Agora se me offerece caso para cogitações profundas:
+as <i>Flores do Campo</i> saíram a lume ha
+quasi um mez, e, até á data em que te escrevo,
+dormem os nossos criticos a bom levar, sem que
+uma palavra lhes haja irrompido dos labios, sobre
+o merecimento d'este magnifico livro. Aqui,
+ha por força caso virgem, mas... ponto em bôcca.</p>
+
+<p>E pois que os criticos não querem, ou não ousam,
+pronunciar o seu <i>veredictum</i>, vou eu mostrar-te
+o valor em que tenho as <i>Flores do Campo</i>,
+por que me digas ao depois se não são ellas, para
+a nossa litteratura, prenuncios d'um outono avergado
+de fructos.</p>
+
+<p>Quando o visconde de Chateaubriand trabalhava
+por agremiar em torno da cruz as multidões,
+que ainda sentiam nos ouvidos a voz tentadora de
+Robespierre e Mirabeau, surgia na Inglaterra um
+homem extraordinario, personificação pasmosa do
+genio e do scepticismo&mdash;lord Byron.</p>
+
+<p>Ninguem como o cantor do <i>Childe Harold</i>, pôde
+<span class="pagenum"><a name="pag118">[118]</a></span>
+jámais aliar uma alma de poeta ao scepticismo,
+á duvida, á frieza, que ressumbram de cada verso
+do <i>Don Juan</i>:</p>
+
+<div class="poesia">
+For me, I know nought; nothing I deny,<br>
+Amit, reject, contemn; and what knew you,<br>
+Except perhaps that you were born to die?<br>
+And both may after all turn out in true.<br>
+</div>
+
+<p>Mas... na mente de Byron reflectia-se uma das
+tendencias mais caracteristicas da sociedade contemporanea;
+o scepticismo apresentou-se revestido
+com a aureóla do genio, ergueu-se como chamma
+incendiaria, e lavrou pela litteratura do seculo.</p>
+
+<p>Que restava aos adeptos da poesia? O maior
+numero, como os companheiros de Ulysses, deixou-se
+arrastar pelos cantos da sereia, e, se não abordou
+á ilha encantada, d'onde lhe acenava a gloria,
+mediu a profundeza do abysmo que a tentação lhe
+abriu aos pés...; outros, refugiram á attração, e
+velejaram alegres por onde os não batessem os
+pampeiros da descrença e do scepticismo.</p>
+
+<p>A poesia que abre o livro de João de Deus é o
+emblema dos dous rumos por onde tomam os argonautas
+da arte, e estrema o scepticismo e crença,
+<i>Camões</i> e <i>Byron</i>. Não sei se esta composição
+<span class="pagenum"><a name="pag119">[119]</a></span>
+vale muito aos olhos dos mestres; para mim, é das
+mais somenos de João de Deus, e, se não fôra collocada
+alli para denunciar, talvez, as crenças litterarias
+do auctor, não a quizera vêr á entrada
+d'este livro. A arte exige para um edificio primoroso
+um portico lavrado a primor.</p>
+
+<p>Na composição alludida, se a ideia é grande e
+original, a fórma que a reveste não, não é perfeita;
+sem fórma, não concebo arte, e sem arte não
+se traduz o sentimento do bello.</p>
+
+<p>Não vás porém julgar que estou dando lições
+de poetica a um poeta como João de Deus. Mais
+do que ninguem, conhece elle por ventura os defeitos
+do seu livro, e, se os poupou, ao limar os
+seus versos, é que não teve em tanta conta, como
+geralmente se tem, certas exigencias da arte.</p>
+
+<div class="poesia">
+Que vês?&mdash;Sóes, de tal sorte<br>
+Que os crêra tochas <i>pallidas</i>,<br>
+Quando as guedelhas, <i>madidas</i><br>
+De sangue, arrasta a morte.<br>
+<br>
+...........................<br>
+<br>
+&mdash;Falla.&mdash;Deus! que harmonia!<br>
+Aqui a alma <i>exalta-se</i>;<br>
+A alma aqui <i>dilata-se</i>...<br>
+<i>Camões!</i>&mdash;É a poesia.<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag120">[120]</a></span>
+
+<p>Nem a critica imparcial tanto exige, nem eu tenho
+logar bastante para transcrever aqui todas as
+estrophes, em que as rimas se me deparam defeituosas
+e erradas. Cito-te de passagem <i>queime</i> e <i>geme</i>,
+<i>deixe</i> e <i>feche</i>, <i>confesso</i> e <i>immenso</i>,
+<i>cuides</i> e <i>virtudes</i>,
+<i>outro</i> e <i>encontro</i>, <i>géra</i> e <i>inteira</i>, <i>teimo</i>
+e <i>supremo</i>,
+<i>prega</i> e <i>negra</i>, <i>avaro</i> e <i>ara</i>, <i>sêde</i> e
+<i>hei-de</i>,
+<i>põe</i> e <i>foi</i>, <i>vê</i> e <i>adorei</i>, <i>inteiro</i> e
+<i>quero</i>, etc.</p>
+
+<p>E comtudo João de Deus parece brincar com as
+maiores difficuldades da rima. Para não fallar na
+poesia <i>Boas Noites</i>, basta apontar-te aquelle trecho
+da poesia <i>O Musgo</i>:</p>
+
+<div class="poesia">
+Um dia, não sei que tinha...<br>
+Uma tristeza tamanha!<br>
+E lembra-me ir á montanha<br>
+Que temos aqui visinha,<br>
+Onde em tempo me entretinha<br>
+Horas e horas sósinha,<br>
+Quando ainda não se extranha<br>
+Que n'uma teia de aranha<br>
+Se prenda uma innocentinha,<br>
+Ou atrás d'uma avesinha<br>
+Se cance a vêr se a apanha.<br>
+</div>
+
+<p>Em metricação tambem as <i>Flores do Campo</i> nos
+offerecem provas de que João de Deus não é,
+n'este ponto, nimiamente escrupuloso. Assim ficou
+errado este decassyllabo:</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag121">[121]</a></span>
+
+<div class="poesia">
+Chamando-os com enternecimento,<br>
+</div>
+
+<p>e aquelle septissylabo que vae sublinhado:</p>
+
+<div class="poesia">
+Que é a torre exactamente<br>
+<i>De David n'esses ares,</i><br>
+</div>
+
+<p>para não citar passagens como estas:</p>
+
+<div class="poesia">
+<i>Adeus tranças côr de ouro,</i><br>
+Adeus peito côr de neve.<br>
+<br>
+<i>Tornaram-se-me em estrellas</i><br>
+<i>As lagrimas de dôr.</i><br>
+</div>
+
+<p>Versos ha tambem nas <i>Flores do Campo</i> defeituosos
+pela disposição dos accentos predominantes.
+Bastam tres exemplos em versos decassyllabos:</p>
+
+<div class="poesia">
+Ha puros sonhos de imaginação.<br>
+<br>
+E eu digo, digo á luz scismadora.<br>
+<br>
+Expôz aos coices... leão moribundo.<br>
+</div>
+
+<p>Mas um verso completamente errado, e que por
+certo não sahiu assim da penna de João de Deus,
+é aquelle</p>
+
+<div class="poesia">
+Que fez tremer as abobadas do inferno.<br>
+</div>
+
+<p>Não é necessario ser auctor das <i>Flores do Campo</i>,
+para condemnar um verso tal. Descuido do
+<span class="pagenum"><a name="pag122">[122]</a></span>
+impressor, e falta de cuidado na revisão, occasionaram
+aquelle erro, a que de prompto se obviaria
+com a suppressão de dous <i>ss</i> inuteis.</p>
+
+<p>O que para alguém não será defeito, mas que
+para muitos torna inintelligiveis algumas passagens,
+do livro, é, por vezes o abstruso da ideia, velada
+por sombras impenetraveis. Dá-me tu, se podes,
+a chave d'este enigma:</p>
+
+<div class="poesia">
+Oh! ha tres vistas com que as coisas vêmos;<br>
+Ha tres rasões que as coisas determinam;<br>
+Uma a dos olhos; outra a que escondemos<br>
+N'isso ante que os álamos se inclinam;<br>
+Outra a que dentro no coração temos,<br>
+Que os limites do espaço só terminam:<br>
+Coube a primeira em sorte á borboleta;<br>
+A outra ao homem; a terceira ao poeta.<br>
+</div>
+
+<p>E quando João de Deus, á vista d'um retrato,
+exclama:</p>
+
+<div class="poesia">
+És tu! Amo-te e muito! O que fluctua<br>
+Na fornalha que o sopro eterno acende,<br>
+Não beija a mão do anjo que o suspende<br>
+Com mais amor que eu beijo a sombra tua!»<br>
+</div>
+
+<p>Quem é que fluctua na fornalha acesa pelo sôpro
+eterno? Será o sol?</p>
+
+<p>Especialmente n'aquelle fragmento que principia
+na pagina 130, mais alguns pontos se me deparam,
+para cuja interpretação me não sinto com
+<span class="pagenum"><a name="pag123">[123]</a></span>
+forças. Não te faço mais citações, a este proposito,
+porque bem póde ser que toda a gente penetre
+o que para mim é escuro. Demais d'isto, parece-me
+que o poeta nem sempre tem obrigação
+restricta de moldar os vôos da sua imaginação pela
+myopia dos que só podem curvar-se diante das
+nuvens que velam a sarça ardente...</p>
+
+<p>Agora, vaes talvez esquecer as manchas que divisastes
+n'esta joia litteraria, para festejares comigo
+quadros esplendidos de poesia originalissima,
+rica de sentimento, de graça e de harmonia.</p>
+
+<p>Originalidades litterarias, poucos ha, já agora,
+que n'ellas creiam. Escorre de vez em quando,
+por ahi uma sanie de novidade tão asquerosa pelas
+folhas volantes da nossa litteratura de hoje, que
+os apreciadores de pituitaria melindrosa, não ha
+quem os desatrelle da sentença de que <i>tudo o que
+é novo é mau, e que tudo o que é bom é velho</i>.</p>
+
+<p><i>Nihil sub sole novum!</i>&mdash;cantava o Gessner biblico,
+asseguravam os juizes de Galileu, e rouqueja
+Boileau com os demais amphyctiões da litteratura.
+Respeitemos o talento; mas aos que duvidam da
+grandeza do genio, e pedem ao passado a chave
+do futuro, atiremos-lhe á face com a resposta de
+Galileu:&mdash;<i>E pur si muove.</i>&mdash;</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag124">[124]</a></span>
+
+<p>Admittida a originalidade, moldada pelo bom
+gosto, devemos saudal-a em João de Deus, o poeta
+mais original que eu conheço entre os nossos homens
+de letras. Estudo João de Deus, dês que leio
+versos, e ainda não pude encontrar o segredo d'aquella
+harmonia tão sua, d'aquella elegancia tão
+despretenciosa, d'aquelle sentimento que tanto nos
+captiva a alma, sem sabermos como.</p>
+
+<p>Ou eu me engano muito, ou da poesia de João
+de Deus me vêm uns aromas que não desdizem
+d'aquella fragrancia que o esposo dos <i>Canticos</i> aspirava
+nos jardins da Sulamite biblica; d'aquella
+gravidade scismadora que resaltava das cordas do
+psalterio de David; d'aquelle adejar sublime e
+vago da aguia de Páthmos. Tranemos agora o
+mar dos seculos, ponhamos ao lado das <i>Flores do
+Campo</i> as fantazias de Schiller a Laura, e verás
+que muitos arrojos da imaginação do bardo portuguez
+não desmerecem a companhia dos do bardo
+do norte.</p>
+
+<p>Mas, sobretudo, o que mais me enfeitiça nas
+<i>Flores do Campo</i> é aquelle mimo e suavidade que
+matizam estrophes como estas:</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag125">[125]</a></span>
+
+<div class="poesia">
+Ah! quando no seu collo reclinado<br>
+&mdash;Collo mais puro e candido que arminho,&mdash;<br>
+Como abelha na flôr do rosmaninho<br>
+Osculava seu labio perfumado;<br>
+<br>
+Quando á luz dos seus olhos... (que era vêl-os,<br>
+E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!)<br>
+Lia na sua bôca a Biblia Santa<br>
+Escripta em letra côr dos seus cabellos;<br>
+<br>
+Quando a sua mãosinha pondo um dedo<br>
+Em seus labios de rosa pouco aberta,<br>
+Como timida pomba sempre álerta,<br>
+Me impunha ora silencio, ora segredo;<br>
+<br>
+.....................................<br>
+<br>
+Quando em balsamo d'alma piedosa<br>
+Ungia as mãos da supplice indigencia,<br>
+Como a nuvem nas mãos da Providencia<br>
+Um lagrima estila em flôr sequiosa;<br>
+<br>
+Quando a cruz do collar do seu pescoço<br>
+Estendendo-me os braços, como estende<br>
+O symbolo d'amor que as almas prende,<br>
+Me dizia... o que ás mais dizer não ouço;<br>
+<br>
+........................................<br>
+<br>
+Tinha o céo da minha alma as sete côres,<br>
+Valia-me este mundo um paraizo,<br>
+Distillava-se a alma em dôce riso,<br>
+Debaixo dos meus pés nasciam flôres.<br>
+</div>
+
+<p>É assim que João de Deus se recorda da visão
+fugitiva que lhe doirou os sonhos de poeta e moço.
+<span class="pagenum"><a name="pag126">[126]</a></span>
+Mais adiante, parece esquecer o lucto da saudade,
+mas não perde a doçura da harmonia:</p>
+
+<div class="poesia">
+Como os teus pés são lindos! como é doce<br>
+      A curva do teu peito!<br>
+Oh! se o meu coração fosse o teu leito,<br>
+      E o teu amado eu fosse!<br>
+<br>
+Que preciosas perolas descobre<br>
+      Teu meigo, humilde labio!<br>
+E virgem! como Deus foi justo e sabio<br>
+      Em te deixar tão pobre!<br>
+<br>
+....................................<br>
+      ........................<br>
+Tu não tens mais do que uma pobre saia,<br>
+      E essa, curtinha e leve.<br>
+<br>
+Onde o corpo te alteia, a saia avulta;<br>
+      Onde te abaixa, desce...<br>
+És como a rosa! A rosa nasce e cresce,<br>
+      Não para estar occulta.<br>
+<br>
+O que te falta, pois? os teus desejos<br>
+      Quaes são? de que precisas?<br>
+Ah! não ser eu o marmore que pisas...<br>
+      Calçava-te de beijos!<br>
+</div>
+
+<p>Ao terminar a transcripção d'este mimosissimo
+trecho, sinto não poder attribuir a João de Deus
+a chave que o fecha. O aprimorado e suave oratoriano
+Manoel Bernardes já tinha dito na sua excellente
+<i>Luz e Calor</i>, fallando a Jesus menino:</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag127">[127]</a></span>
+
+<blockquote>
+<p>«Menino da minha alma, meu eterno nascido de ainda agora,
+meu gracioso molhinho de amores perfeytos, minhas bellezas encantadoras
+do coração humano: faze-me Serafim, para que te ame
+muito: dá-me limpeza grande em meus labios <i>para calçar teus pésinhos
+de mil osculos santos</i>: deyxa cahir das conchinhas de teus
+olhos hua lagryma sobre meu peyto, etc.» (Pag, 556, ediç. 1724.)</p>
+</blockquote>
+
+<p>Mas que importa isso? Prouvera a Deus que
+os plagiatos, de que a litteratura anda eivada, se
+pautassem por este!</p>
+
+<p>Vivacidade de expressão, galanteria e graça,
+podes vêr d'isso um modelo no madrigal, epigramma,
+ou como quizeres chamar-lhe, feito <i>A
+uns olhos azues</i>:</p>
+
+<div class="poesia">
+Cáe a folha da rosa pudibunda,<br>
+Cáe a rosa da face virginal,<br>
+Cáe das nuvens a aguia moribunda,<br>
+Cáe o sol na montanha occidental.<br>
+<br>
+.................................<br>
+<br>
+Cáe do céo a centelha incendiaria,<br>
+A nuvem cáe, se um sopro Deus lhe dá,<br>
+Cáe ante o dia a noite solitaria<br>
+Como o falso Dagon ante Jehovah.<br>
+<br>
+Cáe tudo, flôr! cáe tudo; eu só não caio:<br>
+Mais do que um rei, que o sol, egual a Deus,<br>
+Cahir, mulher! só posso á luz d'um raio<br>
+Se elle cahir do céo dos olhos teus!<br>
+</div>
+
+<p>De vez em quando, o poeta apparece-nos pensador
+<span class="pagenum"><a name="pag128">[128]</a></span>
+e philosopho; mas, ainda assim, a razão não
+vence o sentimento:</p>
+
+<div class="poesia">
+Irmãs da Caridade! A Caridade<br>
+Tem só duas irmãs&mdash;a Fé e a Esperança:<br>
+Não traja as côres só d'uma irmandade,<br>
+Traja as côres do Arco da Alliança;<br>
+Leva sósinha o pão da piedade;<br>
+Tira da roda essa infeliz criança...<br>
+<br>
+....................................<br>
+</div>
+
+<p>Mais longe iria eu, se me propozesse trancrever
+tudo o que nas <i>Flores do Campo</i> se apresenta digno
+dos mais levantados encomios. Assim, por
+não alongar em demasia a presente carta, recommendo-te
+a leitura da <i>Heresta</i>, da <i>Rachel</i>, do <i>Ultimo
+adeus</i>, da <i>Marina</i>, do <i>Remoinho</i>, do <i>Leito
+nupcial</i>, da <i>Innocencia</i>, da <i>Joven captiva</i>, e, muito
+especialmente, do <i>Cantico dos canticos de Salomão</i>.</p>
+
+<p>Lamennais e Renan haviam traduzido esplendidamente
+o <i>Cantico dos canticos</i>; João de Deus
+inspirou-se da pastoral de Sulem, e fez um poema
+quasi seu: seu pela fórma, pelo colorido, e pela
+disposição das scenas.</p>
+
+<p>O <i>Cantico dos canticos</i> pertence, como sabes,
+ao numero dos livros sagrados, e é ponto inconcusso,
+<span class="pagenum"><a name="pag129">[129]</a></span>
+entre os padres da Egreja, que os desposorios
+de que falla Salomão exprimem a união
+mystica do Verbo incarnado com a natureza humana,
+com a Egreja e com as almas justas.</p>
+
+<p>Os presidentes da synagoga judaica prohibiam
+a leitura d'este livro a quem não tivesse mais de
+trinta annos; e, ainda em tempos do piedoso João
+Gerson, nem os doutores o liam antes d'essa edade.
+E de feito nem Theocrito nem Florian deram
+jámais aos seus idylios aquelle perfume voluptuoso
+que, por entre flôres de poesia immorredoira, livremente
+se respira no idylio de Salomão.</p>
+
+<p>Theodoro Mopsueste teve o ousio de ligar a esse
+idylio um sentido exterior, e não mystico, interpretando-o
+litteralmente, mas foi condemnado pelo
+segundo concilio de Constantinopla. Hoje não ha
+temor de que a Egreja condemne João de Deus,
+e todos os que separam da poesia o dogma, talvez
+porque a Egreja, boa mãe, não quer vêr o mundo
+coalhado de herejes.</p>
+
+<p>E que importam ao leitor as convicções de João
+de Deus? A alma piedosa que se edificava na contemplação
+dos amores da Sulamite, pela versão de
+S. Jeronymo, que perde ella contemplando-os na
+lingua de Camões? «Para um coração puro, tudo
+<span class="pagenum"><a name="pag130">[130]</a></span>
+é puro.»&mdash;É palavra de Deus, com que o poeta
+se auctorisa para trazer a lume a interpretação litteral
+do <i>Cantico dos canticos</i>.</p>
+
+<p>Já agora, apezar da extensão d'esta carta, deixa-me
+ainda expôr á tua vista algumas das paizagens
+mais seductoras d'este paraizo de amor, onde
+a volupia oriental se escoa semi-nua por ondulantes
+pradarias em flôr. Ouve:</p>
+
+<div class="poesia">
+A SALUMENSE.<br>
+<br>
+Sou trigueira, mas formosa,<br>
+Moças de Jerusalem!<br>
+Senão, vêde o pavilhão<br>
+Que arma em campo Salomão,<br>
+Se ha coisa mais preciosa,<br>
+E por fóra a cór que tem;<br>
+Vêde as barracas dos moiros,<br>
+Por dentro tantos thesoiros,<br>
+Por fóra, negras tambem.<br>
+<br>
+Não vos dê pois isso pena<br>
+Ter assim a côr morena:<br>
+Minha mãe mandou-me pôr,<br>
+Por culpa de meus irmãos,<br>
+De guarda á vinha; o calor<br>
+Queimou-me o rosto e as mãos<br>
+E eu, a vinha, é escusado<br>
+Dizer-vos que nem eu tinha<br>
+Senão agora o cuidado<br>
+De estar a guardar a vinha.<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag131">[131]</a></span>
+Oh! para que banda vás<br>
+Com o gado, meus amores!<br>
+E pela folga onde estás?<br>
+Bem vês os outros pastores,<br>
+E a gente não adivinha.<br>
+Eu não hei de andar atrás<br>
+D'esses rebanhos sósinha.<br>
+<br>
+.........................<br>
+<br>
+<br>
+SALOMÃO.<br>
+<br>
+Que enlevo! que formosura!<br>
+A pomba não tem de certo<br>
+No olhar tanta doçura:<br>
+E fóra o que anda encoberto.<br>
+<br>
+O cabello, em quantidade<br>
+E tamanho, é singular;<br>
+E não me lembra senão<br>
+Das cabras de Galaad<br>
+Ques lhes roja pelo chão<br>
+Em ellas indo a andar.<br>
+<br>
+Os dentes, em tu abrindo<br>
+A tua boca, que lindo!<br>
+Nem um rebanho de ovelhas<br>
+Todas brancas e parelhas<br>
+Quando em sendo tosquiadas<br>
+Vêem sahindo do banho<br>
+D'uma em uma, enfileiradas,<br>
+E atrás d'ellas cada uma<br>
+Seus dois gemeos d'um tamanho,<br>
+Sem ser maninha nenhuma.<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag132">[132]</a></span>
+<br>
+Pois a boca é comparada<br>
+A uma fita encarnada.<br>
+A voz, ouvil-a é um gosto.<br>
+Parte a romã pelo meio<br>
+Verás as rosas do rosto;<br>
+E fóra no que eu receio<br>
+Fallar, que me não é dado.<br>
+<br>
+O pescoço, pensa a gente,<br>
+Em o vendo de collares,<br>
+Que é a torre exactamente<br>
+De David n'esses ares,<br>
+De baluartes, e toda,<br>
+Lá cima, escudos á roda.<br>
+<br>
+Os peitos, é um casal<br>
+De corcinhas, que o seu pasto<br>
+São açucenas do valle:<br>
+Nada mais timido e casto.<br>
+E deitam um cheiro á gomma<br>
+Da myrrha mais do incenso,<br>
+A ponto que ás vezes penso<br>
+Que elles são duas collinas<br>
+Por onde aquellas resinas<br>
+Espalham aquelle aroma.<br>
+</div>
+
+<p>Se a esta hora me não accusasses de abuso de
+paciencia, ainda te repetia toda aquella mimosa
+<i>carta</i> que principia:</p>
+
+<div class="poesia">
+Maria! vêr-te á porta a fazer meia,<br>
+Olhando para mim de vez em quando,<br>
+É o que n'esta vida me recreia.<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag133">[133]</a></span>
+<br>
+Acordo até de noite, suspirando<br>
+Por que rompa a manhã, e tenha o gosto<br>
+De te vêr já tão cedo trabalhando.<br>
+<br>
+Desde pela manhã até sol posto,<br>
+Que não tens de descanço um só momento;<br>
+Por isso tens tão bella côr do rosto!<br>
+<br>
+E eu pallido, Maria! o pensamento<br>
+Não é trabalho que nos dê saude,<br>
+&mdash;Esta imaginação é um tormento!...<sup><a name="mnota10" href="#nota10">10</a></sup><br>
+</div>
+
+<p>Mas... basta. O livro de João de Deus tem
+defeitos: escaceia a revezes a ligação dos pensamentos,
+a clareza das ideias, a exactidão do metro,
+a perfeição da rima, e não metteria uma lança em
+Africa o linguista que nas <i>Flores do Campo</i> descortinasse,
+uma vez por outra, impureza e incorrecções
+de linguagem. Se, porém, eu mirasse a
+comprovar, n'esta rapida e singela revista, com os
+versos de João de Deus a sympathia e a admiração
+que elles me devem, não seria este o espaço
+que abrangesse tudo o que alli me pareceu filho
+d'uma inspiração verdadeira e original. Demais,
+o poeta não lucraria com estas transcripções a esmo,
+<span class="pagenum"><a name="pag134">[134]</a></span>
+sobre não poderes fazer do livro uma ideia
+exacta, á mingua de apreciador conspicuo.</p>
+
+<p>Alexandre Herculano diz bem: a critica em
+Portugal é impossivel. Mas se nós todos cruzarmos
+os braços diante dos Ananias da litteratura
+que introduzem a mercancia do encomio, o servilismo
+e a chocarrice no santuario das letras, quem
+expulsará ámanhã os vendilhões, do templo? Já
+que me não ouvem, prega tu a estas multidões que
+não sabem o que amam, nem o que detestam; e
+praza a Deus que a tua voz não seja a voz do que
+bradava no deserto.</p>
+
+
+<h2>Post-scriptum</h2>
+
+<p>Bem avisado andei eu, quando, a proposito dos
+versos obscuros de João de Deus, tive a franqueza
+de conceder que toda a gente penetrasse o que para
+<span class="pagenum"><a name="pag135">[135]</a></span>
+mim era obscuro. Os versos nublosos que lá citei,
+eram, pelo que me dizem, claros como agua. Um
+amigo nosso, optimo charadista ao que parece,
+pôz-me tudo em pratos limpos; e, pelos modos, o
+nosso &OElig;dipo tem artes para desdar o nó aos mais
+envencilhados enigmas da mais implacavel Sphynge.
+Ora eu, que respeito o mysterio mas desadoro
+o enigma, e a quem nunca charadas desvelaram
+as noites, não pasmei de vêr luz onde se me antolhavam
+trevas. O discipulo amado de Jesus não
+jubilaria tanto, se visse quebrar os sete sêllos do
+livro que elle viu na visão do Apocalypse, como eu
+jubilei quando, a par de outras revelações, soube
+que o individuo que <i>fluctua na fornalha accêsa
+pelo sopro eterno</i> é o anjo que as lendas piedosas
+figuram no purgatorio, dando a mão aos que lá se
+purgam das culpas temporaes para subirem ás regiões
+do premio eterno.</p>
+
+<p>Pelo que vejo, a decifração não era para fazer
+suar o cabello; mas confesso-te que, se cem braços
+eu tivera, como Briareu, para revolver o embotado
+escalpello da minha critica, cem braços me
+desfalleceriam diante dos cem olhos d'estes Argos
+que espreitam maliciosos o rumo indeciso dos mineiros
+obscuros da justiça e da verdade...</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag136">[136]</a></span>
+
+<p>Seguiu-se-me noite de insomnia. Visões estranhas
+vieram povoar-me o leito. Sobre o meu travesseiro
+dormiam comigo as magestosas <i>Torrentes</i>
+de Theophilo Braga, livro de que, em seguida ás
+<i>Flores do Campo</i>, eu contava fallar-te. Por cima
+de mim, por cima do livro, emtorno do meu leito,
+adejavam uns demoniosinhos, microscopicos como
+os lilliputianos de Gulliver: uns expediam risadinhas
+agudas, como de feiticeiras em noites de S.
+João; outros folheavam o livro e dobravam os
+joelhos por baixo das estrophes de mais levantada
+inspiração; estes murmuravam monotono kyrie em
+volta do livro, arrancando-m'o da mão, como da
+mão d'um profano se arranca a hostia sacrosanta;
+aquelles desfaziam o livro em tiras, entreteciam
+com ellas uma corôa, e collocavam-n'a na cabeça.
+Se me voltava para a direita, os da esquerda escouceavam-me
+com um arreganho diabolico; se
+me voltava para a esquerda, os da direita afiavam
+a pequenina dentadura, e arranhavam-me as pantorrilhas.
+O equilibrio era impossivel: esmagava-me
+um pesadelo! Acordei.</p>
+
+<p>Sobre a minha meza de trabalho estava um livro,
+notavel pela despretenção e suavidade do estylo,
+e pelo primor da versificação, sobre ser escripto
+<span class="pagenum"><a name="pag137">[137]</a></span>
+em portuguez sem mistura; mas apenas no
+frontispicio li o nome de Antonio Feliciano de Castilho,
+passou-me pela mente a visão das <i>Torrentes</i>,
+e os lilliputianos da noite acercaram-se do <i>Medico
+á força</i>, reproduzindo os sarcasmos ou as ovações,
+os afagos ou as mordeduras, consoante as tendencias
+de cada qual.</p>
+
+<p>Estava entre a bigorna e o martello, entre a
+cruz e a caldeirinha. Quem me salvaria de posição
+tão melindrosa? Um esforço supremo: fechar
+as <i>Torrentes</i> e o <i>Medico á força</i>, e não aventurar
+juizo sobre estes notaveis livros.</p>
+
+<p>Suspendo, pois, a revista do anno litterario de
+1869, em quanto me vier á ideia aquella visão
+aterradora. Sinto-me com algumas forças para luctar
+com os lilliputianos da visão, mas não me sinto
+com paciencia para lhes soffrer os motejos e os
+tripudios, as risadinhas e as beliscaduras. Quero
+dormir a somno solto, e levar estas noites de Coimbra
+a sonhar sem pesadêlos, em paz com anjos e
+demonios, e até com os individuos das mais infimas
+classes animaes.</p>
+
+<p>Não quero luctar como Chatterton. Chatterton
+luctou, mas teve depois Vigny que o cingiu de
+louros, immortalisando-o. A troco da immortalidade,
+<span class="pagenum"><a name="pag138">[138]</a></span>
+ainda eu me atiraria á lucta: ve lá se queres
+ser o meu Alfred de Vigny.<sup><a name="mnota11" href="#nota11">11</a></sup></p>
+
+<p class="direita"><b>Candido de Figueiredo.</b></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="nota10" href="#mnota10">10</a></sup> Já que ao generoso critico merece especial menção a <i>carta</i>,
+advertiremos que o primeiro verso da ultima quadra é assim:</p>
+
+<div style="margin-left: 10%;">
+Nas asas da ventura atravessando.
+</div>
+
+<p><sup><a name="nota11" href="#mnota11">11</a></sup> A Folha, (1869) n.º 7, 8, 9 e 10.</p>
+</div>
+
+<p class="centrado">Fim das criticas das "Flores do Campo."</p>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag139">[139]</a></span>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<h2>INDEX</h2>
+
+
+<h1>RAMO DE FLORES</h1>
+
+<table width="80%" align="center">
+<tr><td>I&mdash;Sede de amor</td> <td><a href="#pag5">5</a></td></tr>
+
+<tr><td>II&mdash;Lamento</td> <td><a href="#pag13">13</a></td></tr>
+
+<tr><td>III&mdash;Enlevo</td> <td><a href="#pag15">15</a></td></tr>
+
+<tr><td>IV&mdash;Sempre</td> <td><a href="#pag19">19</a></td></tr>
+
+<tr><td>V&mdash;Espera</td> <td><a href="#pag21">21</a></td></tr>
+
+<tr><td>VI&mdash;Adeos</td> <td><a href="#pag23">23</a></td></tr>
+
+<tr><td>VII&mdash;Melancholia</td> <td><a href="#pag25">25</a></td></tr>
+
+<tr><td>VIII&mdash;Sympathia</td> <td><a href="#pag29">29</a></td></tr>
+
+<tr><td>IX&mdash;11 de Maio</td> <td><a href="#pag31">31</a></td></tr>
+
+<tr><td>X&mdash;Attracção</td> <td><a href="#pag35">35</a></td></tr>
+
+<tr><td>XI&mdash;Desânimo</td> <td><a href="#pag37">37</a></td></tr>
+
+<tr><td>XII&mdash;N'um Album</td> <td><a href="#pag41">41</a></td></tr>
+
+<tr><td>XIII&mdash;O seu nome</td> <td><a href="#pag43">43</a></td></tr>
+
+<tr><td>XIV&mdash;Saudade</td> <td><a href="#pag51">51</a></td></tr>
+
+<tr><td>XV&mdash;* * *</td> <td><a href="#pag57">57</a></td></tr>
+
+<tr><td colspan="2"><h3>Criticas das Flores do Campo</h3></td></tr>
+
+<tr><td>Flores do Campo, por Alexandre da Conceição</td> <td><a href="#pag63">63</a></td></tr>
+
+<tr><td>Livros&mdash;Revista critica-bibliographica, por Luciano
+Cordeiro</td> <td><a href="#pag75">75</a></td></tr>
+
+<tr><td>Flores do Campo, por D. Guiomar D. Torrezão</td> <td><a href="#pag105">105</a></td></tr>
+
+<tr><td>Anno litterario de 1869, por Candido de Figueiredo</td> <td><a href="#pag113">113</a></td></tr>
+</table>
+
+<h4>FIM DO INDEX.</h4>
+<span class="pagenum"><a name="pag140">[140]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag141">[141]</a></span>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+
+<h3>Á VENDA</h3>
+
+<h5>NA</h5>
+
+<h1>LIVRARIA INTERNACIONAL</h1>
+
+<h5>DE</h5>
+
+<h4>ERNESTO CHARDRON</h4>
+
+<hr style="width: 20%">
+
+<p class="centrado">Obras de fundo e edições:</p>
+
+<table width="80%" align="center">
+<tr><td><b>Memorias</b> de Fr. João de S. Joseph Queiroz, bispo do
+Gran-Pará. Com uma introducção e muitas notas illustrativas,
+por C. C. Branco. 1 volume.</td> <td>500</td></tr>
+
+<tr><td><b>Poesias e prosas ineditas</b> de Fernão Rodrigues Lobo
+Soropita, com uma introducção e notas por Camillo
+Castello Branco. 1 volume.</td> <td>500</td></tr>
+
+<tr><td><b>Ponson du Terrail.</b>&mdash;Os Filhos de Judas, Tomo 1.º
+Um conto das mil e uma noites.&mdash;2.º O amor fatal.
+2 volumes.</td> <td>1$000</td></tr>
+
+<tr><td><b>Estudos de Escripturação Mercantil</b>, por J. M. Outeiro.
+Segunda edição consideravelmente augmentada. 1
+vol.</td> <td>1000</td></tr>
+</table>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Ramo de Flores, by João de Deus
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RAMO DE FLORES ***
+
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+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
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+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
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+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
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+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+1.F.
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
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+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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