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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/24847-8.txt b/24847-8.txt new file mode 100644 index 0000000..6f0a6c1 --- /dev/null +++ b/24847-8.txt @@ -0,0 +1,3389 @@ +The Project Gutenberg EBook of Ramo de Flores, by João de Deus + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Ramo de Flores + acompanhado de varias criticas das Flores do Campo + +Author: João de Deus + +Commentator: Alexandre da Conceição + Luciano Cordeiro + Guiomar D. Torrezão + António Cândido de Figueiredo + +Release Date: March 16, 2008 [EBook #24847] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RAMO DE FLORES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + +RAMO DE FLORES + + + + +RAMO DE FLORES + +POR + +JOÃO DE DEUS + + * * * * * + +ACOMPANHADO DE VARIAS + +CRITICAS DAS FLORES DO CAMPO + + + * * * * * + + +PORTO + +Typ. da Livraria Nacional + +2--Rua do Laranjal--22 + +1869. + + + + +RAMO DE FLORES + + +I + +SÊDE DE AMOR + + + I + + Vi-te uma vez e (novo + Extranho caso foi!) + Por entre tanto povo... + Tanta mulher... Suppõe + + Que mãe estremecida + Via o seu filho andar + Sobre muralha erguida, + Onde o fizesse ir dar + + Aquelle remoinho, + Aquella inquietação + D'um pobre innocentinho + Ainda sem razão! + + E ora estendendo os braços... + Ora apertando as mãos... + Vendo-lhe o gesto, os passos, + Quantos esforços vãos, + + O triste na cimalha + Faz por voltar atraz... + Sem vêr como lhe valha! + A vêr o que elle faz! + + Pallida, exhausta, muda, + Os olhos uns tições, + Com que, a tremer, lhe estuda + As mesmas pulsações... + + (Porque não é mais fundo + O mar no equador, + Nem é todo este mundo + Maior do que esse amor! + + Mais vasto, largo e extenso + Todo esse céo tambem + Do que o amor immenso + D'um coração de mãe!) + + Assim, n'essa agonia... + N'essa intima avidez... + É que entre os mais te eu ia + Seguindo d'essa vez! + + Porque te adoro!... a ponto, + Que ainda hoje, crê! + Escuto e oiço e conto + Os grãos de arêa até, + + Que tu, mulher! andando + Fazias estalar + Já mesmo longe e... quando + Deixei de te avistar! + + + II + + Os olhos são + D'uma expressão! + Que linda bôca! + O pé nem toca, + De leve, o chão! + + Aquelle pé + De leve até + Nem se elle sente! + E sente a gente + Não sei o que é... + + E a graça, o ar, + D'aquelle a andar! + Que véla passa + Com tanta graça + Á flôr do mar! + + Os olhos vêr + Um só volver + De olhar tão dôce, + Que mais não fosse... + Era morrer! + + Os dentes sãos + E tão irmãos + E tão luzentes! + Que bellos dentes! + Que lindas mãos! + + + III + + Estrella, nuvem, ave, + Perfume, aragem, flôr! + Consola-me! distilla, + Da languida pupilla, + O balsamo suave + De um desditoso amor! + Estrella, nuvem, ave, + Perfume, aragem, flôr! + + A flôr, de que és imagem, + A flôr, de que és irmã, + Sacia-se, e desata + O seu collar de prata + Aos beijos da aragem, + Aos risos da manhã!... + A flôr, de que és imagem, + A flôr, de que és irmã! + + A perola que encerra + A flôr, é sua? Não. + O pranto que a amima, + Cahiu-lhe lá de cima + Para cahir na terra, + Para cahir no chão! + A perola que encerra + A flôr, é sua? Não! + + Tu já mataste a sêde, + Mata-me a sêde a mim! + Se em nuvem piedosa + Te refrescaste, rosa! + Tambem em ti eu hei de + Refrigerar-me!... sim! + Tu já mataste a sêde, + Mata-me a sêde a mim! + + É para que me orvalhes + Que te orvalhou o céo! + O liquido que veio + Aljofarar-te o seio + Bem é tambem que o espalhes + No chão... o chão sou eu! + É para que me orvalhes, + Que te orvalhou o céo! + + + + +II + +LAMENTO + + + Senhor! Senhor! que um ai nunca me ouviste + Na minha dôr! + Ai vida, vida minha, como és triste!... + Senhor! Senhor! + + Quando eu nasci, o sol cobriu o rosto + Mal que eu o vi! + Tingiu-se o céo de sangue, e era sol-posto, + Quando eu nasci! + + Pela manhã, a rosa era mais alva + Que a alva lã! + E o cravo desmaiou á estrella-d'alva, + Pela manhã! + + Ao longe, o mar se ouviu, leão piedoso, + Um ai soltar! + Pelas praias, se ouviu gemer ancioso, + Ao longe, o mar! + + Oh roixinol! a ti, nasce-te o dia + Ao pôr do sol! + Mostre-me a campa a luz que te alumia, + Oh roixinol! + + + + +III + +ENLEVO + + + Não brilha o sol, + Nem póde a lua + Brilhar na sua + Presença d'ella!.. + Nenhuma estrella + Brilha deante + Da minha amante, + Da minha amada! + + A madrugada + Quanto não perde! + O campo verde + Quanto esmorece! + Quanto parece + A voz da ave + Menos suave + Que a sua falla! + + A flôr exhala + Menos perfume + Do que é costume + O seu cabello! + Que basta vêl-o, + Prende-se a gente! + Prende-se e sente + Gosto ineffavel! + + Que riso affavel + Aquelle riso! + Que paraíso + Aquella bôca! + Penetra, toca, + Enche de inveja + Um ar que seja + Da sua graça! + + Onde ella passa, + Onde ella chega, + Quem lhe não prega + Olhos avaros! + Ha dotes raros, + Rara doçura + N'aquella pura + Casta existencia! + + Oh! que innocencia + Que ella respira! + A alma aspira + Não sei que aroma + Mal nos assoma + Ao longe aquella + Pallida estrella, + Que rege o mundo!... + + Nunca do fundo + Do oceano + Foi braço humano + Colher tão linda + Perola ainda, + Como a formosa + Candida rosa + Que eu amo tanto! + + Não sei de santo + Que ha no seu gesto! + No ar modesto + D'aquelle todo... + N'aquelle modo... + Que tudo esquece, + E nos parece + Estar no céo! + + + + +IV + +SEMPRE! + + + Pensas que te não vejo a ti? Bom era! + Gravei tão vivamente n'alma a dôce + E bella imagem tua, que eu quizera + Deixar de contemplar-te, só que fosse + Um momento, e não posso, não consigo! + + Foges-me, escondes-te e que importa? Esculpes + Mais fundo ainda os indeleveis traços! + Realça-te o retrato! E não me culpes! + Culpa-te antes a ti!... Sigo-te os passos!... + Vejo-te sempre!... trago-te comigo!... + + + + +V + +ESPERA! + + + Uivaria de amor a féra bruta + Que pela grenha te sentisse a mão! + E eu não sou féra, pomba! Espera! Escuta! + Eu tenho coração! + + Não é mais preto o ébano que as tranças + Que adornam o teu collo seductor! + Ai não me fujas, pomba! que me canças! + Não fujas, meu amor! + + A mim nasceu-me o sol, rompeu-me o dia + Da noite escura d'olhos taes, mulher! + Não me apagues a luz que me alumia + Senão quando eu morrer! + + Eu não te peço a ti que as mãos de neve, + Os dedos afusados d'essas mãos, + Me toquem estas minhas nem de leve... + Seriam rogos vãos! + + Não te peço que os labios nacarados + Me deixem esses dentes alvejar, + Trocando, n'um sorriso, os meus cuidados + Em extasis sem par! + + Mas uivando de amor a bruta féra + Que pela grenha te sentisse a mão, + Eu não sou féra, pomba! escuta, espera! + Eu tenho coração! + + + + +VI + +ADEUS + + + A ti, que em astros desenhei nos céos, + A ti, que em nuvens desenhei nos ares, + A ti, que em ondas desenhei nos mares, + A ti, bom anjo! o derradeiro adeus! + + Parto! Se um dia (que é possivel flôr!) + Vires ao longe negrejar um vulto, + Sou eu que aos olhos d'esta gente occulto + O nosso immenso desgraçado amor. + + Talvez as féras ao ouvir meus ais, + As brutas selvas, as montanhas brutas, + Concavas rochas, solitarias grutas, + Mais se condoam, se commovam mais! + + E lá d'aquellas solidões se aqui + Chegar gemido que uma pedra estala, + Que um cedro vibra, que um carvalho abala, + Sou eu que o solto por amor de ti... + + De ti! que em folha que varrer o ar, + Em rama, em sombra que bandeie a aragem, + De fito sempre n'essa cara imagem + Verei, sorrindo, sentirei passar! + + De ti, que em astros desenhei nos céos! + De ti, que em nuvens desenhei nos ares! + De ti, que em ondas desenhei nos mares, + E a quem envio o derradeiro adeus! + + + + +VII + +MELANCOLIA + + + Oh dôce luz! oh lua! + Que luz suave a tua, + E como se insinua + Em alma que fluctua + De engano em desengano! + Oh creação sublime! + A tua luz reprime + As tentações do crime, + E á dôr que nos opprime + Abres-lhe um oceano! + + É esse céo um lago, + E tu, reflexo vago + D'um sol, como o que eu trago + No seio, onde o afago, + No seio, onde o aperto? + Oh luz orphã do dia! + Que mystica harmonia + Ha n'essa luz tão fria, + E a sombra que me guia + N'este areal deserto! + + Embora as nuvens trajem + De dia outra roupagem, + O sol, de que és imagem, + Não tem essa linguagem + Que encanta, que namora! + Fita-te a gente, estuda, + (Sem mêdo que se illuda) + Essa linguagem muda... + O teu olhar ajuda... + E a gente sente e chora! + + Ah! sempre que descrevas + A orbita que levas, + Confia-me o que escrevas + De quanto vês nas trevas, + Que a luz do sol encobre! + As victimas, que escutas, + De traças mais astutas + Que as d'essas féras brutas... + E as lastimas, as luctas + Da orphã e do pobre! + + + + +VIII + +SYMPATIA + + + Olhas-me tu + Constantemente: + D'ahi concluo + Que essa alma sente!... + Que ama, não zomba, + Como é vulgar; + Que é uma pomba + Que busca o par!... + + Pois ouve; eu gemo + De te não vêr! + E em vendo, tremo + Mas de prazer!... + Foge-me a vista... + Falta-me o ar... + Vê quanto dista + D'aqui a amar! + + + + +IX + +11 DE MAIO + + + Se eu fosse nuvem tinha immensa magoa + Não te servindo d'azas maternaes + Que te podessem abrigar da agoa + Que chovesse das mais! + + E sendo eu onda, tinha magoa summa + Não te podendo a ti, mulher, levar + De praia em praia, sobre a alva espuma. + Sem nunca te molhar! + + E sendo aragem, eu, que pela face + Te roçasse de rijo, alguma vez + Que o Senhor com mais força respirasse, + Que magoa immensa... Vês! + + E a luz do teu olhar que me não lusa + Um rapido momento, a mim, sequer, + Como a aguia no ar... que passa e cruza + A terra sem n'a vêr! + + Mas que me importa a mim! Se me esmagasses + Um dia aos pés o coração a mim, + As vozes que lhe ouviras se escutasses, + Era o teu nome... Sim! + + O teu nome gemido docemente + Com toda a fé d'um martyr em Jesus, + Se acaso já em Christo pôz um crente + A fé que eu em ti puz! + + A fé, mais o amor! Porque elle expira + Sem que a ninguem lhe estale o coração, + E eu, se essa cruz dos olhos me fugira, + Sobrevivia? Não! + + Assim como em ti vivo, morreria + Tambem comtigo, se uma vez (que horror!) + Te visse pôr, oh sol!... sol do meu dia! + Astro do meu amor! + + + + +X + +ATTRACÇÃO + + + Meus olhos sempre inquietos + Que posso até dizer, + Só acham n'alma objectos + Que os possam entreter; + + Meus olhos... coisa rara! + Porque hão de em ti parar + Como a corrente pára + Em encontrando o mar!? + + E penso n'isto, scismo... + Mas é tão natural + Cahir-se no abysmo + D'uma belleza tal!... + + Olhei!... Foi indiscreta + A vista que te puz. + A pobre borboleta + Viu luz... cahiu na luz! + + Uma attracção mais forte + Que toda a reflexão, + (É fado, é sina, é sorte!) + Me arrasta o coração... + + + + +XI + +DESANIMO + + + Que mimos me confortam? + Que doce luz me acena? + Eu tenho muita pena + De ter nascido até! + + Quizera antes ao pé + D'uma arvore frondosa + Ter já em cima a lousa + E descançar emfim! + + Alli, nem tu de mim + De certo te lembravas, + Nem estas feras bravas + Me iriam assaltar! + + Alli, teria um ar + Mais puro e respiravel, + E a paz imperturbavel + De quem, emfim, morreu! + + D'alli, veria o céo + Ora sereno e puro, + Ora toldado e escuro... + Ainda assim melhor, + + Que este areal de amor + Onde ando ao desamparo, + Onde a ninguem sou caro + E nem, a mim, ninguem! + + Alli passára eu bem + A noite derradeira + Á sombra hospitaleira + Que mais ninguem me dá! + + Tu mesma, que não ha + Quem eu mais queira e ame, + Quem a minha alma inflamme + De mais ardente amor, + + Os ais da minha dôr + A ti o que te importam? + Teus olhos nem supportam + A minha vista ao pé! + + Que mimos me confortam? + Que dôce luz me acena? + Eu tenho muita pena + De ter nascido até! + + + + +XII + +N'UM ALBUM + + + É esta vida um mar; e n'este mar + Qual é o astro que nos alumia? + Que norte, estrella ou bussola nos guia? + Um olhar de mulher! um terno olhar! + + + + +XIII + +O SEU NOME + + + I + + Ella não sabe a luz suave e pura + Que derrama n'uma alma acostumada + A não vêr nunca a luz da madrugada + Vir raiando senão com amargura! + + Não sabe a avidez com que a procura + Ver esta vista, de chorar cançada, + A ella... unica nuvem prateada, + Unica estrella d'esta noite escura! + + E mil annos que leve a Providencia + A dar-me este degredo por cumprido, + Por acabada já tão longa ausencia, + + Ainda n'esse instante appetecido + Será meu pensamento essa existencia... + E o seu nome, o meu ultimo gemido + + + II + + Oh! o seu nome + Como eu o digo + E me consola! + Nem uma esmola + Dada ao mendigo + Morto de fome! + + N'um mar de dôres + A mãe que afaga + Fiel retrato + De amante ingrato, + Unica paga + Dos seus amores... + + Que rota e nua, + Tremulos passos, + Só mostra á gente + A innocente + Que traz nos braços + De rua em rua; + + Visto que o laço + Que a prende á vida + E só aquella + Candida estrella + Que achou cahida + No seu regaço; + + (Não que lhe importe + A ella nada... + Que tudo escusa; + E até accusa + De descuidada + Comsigo a morte!) + + Mão bemfazeja + Se por ventura + Encontra um dia, + Com que alegria, + Com que ternura, + Ella a não beija!... + + Mas com mais quanto + Amor te escrevo, + Soletro e leio + Nome de enleio! + Nome de enlevo! + Nome de encanto! + + + III + + Como a agua d'um lago--toda um nivel, + Vae de circulo em circulo ondeando, + Se a andorinha a roça ao ir voando + Atraz d'algum insecto imperceptivel; + + E quebrado esse espelho em mil pedaços + (Que a imagem do céo desapparece) + Em circulos concentricos parece + Tornarem-se a formar novos espaços... + + Ou como d'entre as notas ineffaveis + Dos canticos do céo--todo harmonia-- + Mal sôa o dôce nome de MARIA, + Pasmam as multidões innumeraveis; + + E de onda em onda cada vez mais larga, + De brisa em brisa cada vez mais pura, + O nome d'essa excelsa creatura + Por todo aquelle immenso mar se alarga; + + E tudo quanto cerca o trono eterno + Áquella dôce voz desprende o canto, + Formando um côro universal, em quanto + Reina silencio no profundo inferno... + + Assim, n'esta paixão que me devora, + Se aos labios essas syllabas me assomam, + As negras sombras da minha alma tomam + Gradualmente o explendor da aurora! + + Toda a idéa má recua um passo, + Aplanam-se os dominios do futuro, + E do crystal mais transparente e puro + Se me arqueia a abobada do espaço! + + Desdobra-se o passado á luz do dia, + Em valle ameno, aos olhos da memoria; + E eu acho não ser perfida, illusoria, + A fé que eu punha em certa luz que eu via... + + Vejo que aquelle informe e negro monte, + Que me tapava a mim o fim da vida, + Não era mais que a natural subida + Para se dominar vasto horizonte!... + + Esse horizonte és tu, pombinha brava! + Tu, cujo peito que aliás encerra + O que ha de bello e grande em céo e terra, + Só com duas conchinhas se tapava... + + Mas em quanto não chego áquella altura + D'onde se avista a terra promettida, + Irei cantando, distrahindo a vida + Com essa invocação suave e pura... + + Invocação de nome tão suave + Como esse olhar!... que eu, só de vêr, suspiro! + Mas... que invoco em silencio... como admiro + A luz da lua, e o olhar da ave!... + + + IV + + E se algum dia + Deres abrigo + Ao desgraçado + Pobre mendigo + Expatriado, + Morto de fome, + Dize comtigo: + «Mais consolado + Se elle sentia + Lendo o meu nome!» + + + + +XIV + +SAUDADE + + + Tu és o cálix; + Eu, o orvalho! + Se me não vales, + Eu o que valho? + + Eu se em ti caio + E me acolheste + Torno-me um raio + De luz celeste! + + Tu és o collo + Onde me embalo, + E acho consolo, + Mimo e regalo: + + A folha curva + Que se aljofara, + Não d'agoa turva, + Mas d'agoa clara! + + Quando me passa + Essa existencia, + Que é toda graça, + Toda innocencia, + + Além da raia + D'este horizonte-- + Sem uma faia, + Sem uma fonte; + + O passarinho + Não se consome + Mais no seu ninho + De frio e fome, + + Se ella se ausenta, + A boa amiga, + Ah! que o sustenta + E que o abriga! + + Sinto umas magoas + Que se confundem + Com as que as agoas + Do mar infundem! + + E quem um dia + Passou os mares + É que avalia + Esses pezares! + + Só quem lá anda + Sem achar onde + Sequer expanda + A dôr que esconde; + + Longe do berço, + Morrendo á mingoa, + Paiz diverso... + Diversa lingoa... + + Esse é que sabe + O meu tormento, + Mal se me acabe + Aquelle alento! + + Ah, nuvem branca + Ah, nuvem d'oiro! + Ninguem me estanca + Amargo choro; + + E assim que passes + Mesmo de largo... + Vê n'estas faces + Se ha pranto amargo. + + Tu és o norte + Que me desvias + De ir dar á morte + Todos os dias; + + A larga fita + Que d'alto monte + Cerca e limita + O horizonte! + + Tu és a praia + Que eu sollicito! + Tu és a raia + D'este infinito! + + Se ha uma gruta + Onde me esconda + Á força bruta + Que traz a onda; + + Á força immensa + D'esta corrente + D'alma que pensa, + Alma que sente; + + Se ha uma véla, + Se ha uma aragem, + Se ha uma estrella, + N'esta viagem... + + É quem eu amo, + A quem adoro! + E por quem chamo! + E por quem choro! + + + + +XV + +* * * * + + + Não sei o que ha de vago, + Incoercivel, puro, + No vôo em que divago + Á tua busca, amor! + No vôo em que procuro + O balsamo, o aroma, + Que, se uma fórma toma, + É de impalpavel flôr! + + Oh como te eu aspiro + Na ventania agreste! + Oh como te eu admiro + Nas solidões do mar! + Quando o azul celeste + Descança n'essas agoas + Bem como n'estas magoas + Descança o teu olhar! + + Que placida harmonia + Então a pouco e pouco + Me eleva a fantasia + A novas regiões! + Dando-me ao uivo rouco + Do mar, n'essas cavernas, + O timbre das mais ternas + E pias orações! + + Parece todo o mundo + Só um immenso templo! + O mar já não tem fundo + E não tem fundo o céo! + E, em tudo, o que contemplo, + O que diviso em tudo, + És tu!... esse olhar mudo!... + O mundo... és tu... e eu!... + + +FIM + + + * * * * * + + +CRITICAS + +DAS + +FLORES DO CAMPO + + + * * * * * + + +FLORES DO CAMPO + +POR + +JOÃO DE DEUS + +João de Deus não é sómente um grande poeta, é um iniciador. A estrophe +sahe-lhe do coração não só transparente e limpida, como um veio de +crystal, mas espontanea, harmoniosa e originalissima, como todas as +creações dos espiritos profundamente caracterisados e essencialmente +creadores. + +João de Deus é um grande scismador e um grande artista. Concebe +admiravelmente, e executa melhor ainda. Cada lyrica é uma maravilha, +cada estrophe um mimo, cada verso um primor. Reune á intelligencia +apaixonada de Platão o delicadissimo senso artistico de Cellini. Ha +n'aquella lyra notas e harmonias d'uma frescura e de uma novidade dignas +de Homero ou de Wainamoinen. É que o talento poetico de João de Deus é +essencialmente espontaneo e primitivo, se me permittem a expressão. + +Parece que não ha n'aquelles versos nem estudo de modelos, nem +influencia de escólas, nem escolha de assumptos. + +A natureza poetica de João de Deus é sobre tudo virginal, sincera, +innocente. Canta, não para que o escutem, mas porque nasceu poeta; +chora, não para que o consolem, mas porque nasceu triste; medita, não +para que o considerem, mas porque nasceu scismador. É poeta... e não +póde ser mais nada; fizeram-n'o deputado talvez para fazerem um +epigramma á poesia, que tantos tem feito--epigrammas, entenda-se.--João +de Deus deputado é o mesmo... que um deputado João de Deus, duas +entidades a rirem-se constantemente uma da outra, como os dois +_oraculos_ de que falla Cicero. + +Um João de Deus nasce feito... não se faz d'elle cousa nenhuma; ha de +ser sempre João de Deus, quer o façam rei, quer regedor de parochia. +_Ego sum qui sum_, dizia o espirito mais profundamente original da +humanidade. João de Deus, e os homens de uma individualidade assim tão +caracterisada podem, salvo a irreverencia, dizer o mesmo. + +A João de Deus deu-lhe para ser poeta; se lhe désse para ser diplomata +era Bismark, e tinha a estas horas realisado a união iberica. Foi melhor +assim, ao menos para se não acabar com a possibilidade de termos volumes +como as _Flores do Campo_. + +Dizem-me que João de Deus é um excellente tocador de viola, onde +improvisa devaneios arrebatadores. Esta prenda caracterisa-lhe o talento +artistico. É poeta como guitarrista e quasi improvisador como poeta. +Aquella alma é uma lyra: vibra, estremece e canta ás aragens fugitivas +da impressão. Natureza profundamente sympathica, tem um riso para cada +alegria, uma lagrima para cada amargura, uma consolação para cada +infortunio: + + Despe o lucto da tua soledade + E vem junto de mim, lirio esquecido + Do orvalho do ceu! + Tens nos meus olhos pranto de piedade, + E se és, mulher! irmã dos que hão soffrido, + Mulher! sou irmão teu. + + Consolos não te dou, que não existe + Quem de lagrimas suas nunca enxuto + Possa as d'outro enxugar: + Não póde allivios dar quem vive triste, + Mas é-me dôce a mim chorar, se escuto + Alguem tambem chorar. + +E não ha artificios n'esta poesia, que é singela como todos os grandes +sentimentos, harmoniosa e virginal como um sorriso de creança, suave e +consoladora como uma parabola de Christo, serena e luminosa como um +dialogo de Platão: + + Mulher, mulher! quando eu n'um cemiterio + Levanto o pó dos tumulos sósinho: + Eis, digo, eis o que eu sou, + Mas quando penso bem n'esse mysterio + Da virtude infeliz: Vae teu caminho; + Dois mundos Deus creou. + +É poesia que se sente e que poucos exprimem, são versos que se admiram e +que rarissimos os escrevem. + +As imagens adejam-lhe em torno frescas, vivas, alegres e graciosas, como +um bando de andorinhas em torno dos frisos d'um campanario: + + Quando em silencio finges, + Que um beijo foi furtado, + E o rosto desmaiado + De côr de rosa tinges, + Dir-se-ha que a rosa deve + Assim ficar com pejo, + Quando a furtar-lhe um beijo + O zephiro se atreve. + + ............................ + + A bôca é tão vermelha que, em te rindo, + Lembra-me uma romã aberta ao meio + Quando já de madura está cahindo. + + ...................................... + + Quando a sua mãosinha pondo um dedo + Em seus labios de rosa pouco aberta, + Como timida pomba sempre alerta, + Me impunha ora silencio ora segredo. + +Não ha nada mais gracioso, mais natural, mais espontaneo, mais facil! A +gente chega a pasmar de não encontrar todos aquelles dizeres elegantes, +todos aquelles versos formosissimos nos outros poetas, tal é a fluencia +e a vitalidade d'esta inspiração. + +Na voz de João de Deus ha as inflexões carinhosas de uma creança; os +versos parecem caricias; têm a suavidade affectuosa das orações de uma +santa e aquelle tom amavel e triste, mas nunca pretencioso, dos +verdadeiros scismadores: + + Foi-se-me pouco a pouco amortecendo + A luz que n'esta vida me guiava, + Olhos fitos na qual até contava + Ir os degraus do tumulo descendo. + + .................................. + + Alma gemea da minha, e ingenua e pura + Como os anjos do ceu (se o não sonharam...) + Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura. + + Não sei se me voou, se ma levaram, + Nem saiba eu nunca a minha desventura + Contar aos que inda em vida não choraram. + +Camões não a sentiu mais, nem a escreveu melhor esta poesia da tristeza, +esta melancolia suave d'um scismador, esta saudade resignada de uma alma +nas soledades do infortunio, nos desterros do isolamento. Ha alli poesia +para vinte poemas, ha alli suavidade para vinte idyllios. + +As rhimas parecem beijos, tão estreitas se enlaçam, tão ardentes se +casam, tão apaixonadas se apertam: + + Que magoa ou que receio + Dos olhos te desata + Aljofares de prata + No jaspe do teu seio? + + Bem intima ser deve + A pena que te opprime, + Flôr tenra como o vime, + Flôr pura como a neve! + + ....................... + + Vós, lobos! ide em bando, + Trepae pelo rochedo, + Uivae, mettei-lhe medo, + Levae-a recuando! + + Que faz quem se approxima + D'um precipicio, diz-m'o? + Que buscas tu no abysmo + Se o ceu é lá em cima? + +É só a lyrica intitulada--_Heresta_--que me fornece estes quatro +exemplos; podia fornecer-me trinta e dois, porque são trinta e duas as +quadras d'essa formosa composição. + +Ás vezes o verso deixa de ser uma phrase e transforma-se n'um suspiro, a +estrophe deixa de ser um canto e converte-se n'um arrulho. Tudo alli é +muito amar, profundamente sentir e divinamente cantar: + + Que é d'esses cabellos d'ouro + Do mais subido quilate, + D'esses labios escarlate, + Meu thesouro! + + ............................. + + Que é d'uma flôr da grinalda + Dos teus dourados cabellos, + D'esses olhos, quero vêl-os, + Esmeralda! + + Que é d'essa alma que me deste! + D'um sorriso, um só que fosse. + Da tua bôca tão dôce + Flôr celeste! + + Tua cabeça que é d'ella + A tua cabeça d'ouro, + Minha pomba! meu thesouro! + Minha estrella! + + .......................... + + E as desgraças, podia prevêl-as + Quem a terra sustenta no ar, + Quem sustenta no ar as estrellas, + Quem levanta ás estrellas o mar. + + Deus podia prevêr a desgraça, + Deus podia prevêr e não quiz; + E não quiz, não... se a nuvem que passa + Tambem póde chamar-se infeliz. + +Quem escreve d'isto, sente-o. Um homem não arranca ao seu espirito +d'estas perolas sem as lá ter em sentimento e em amor. E só o alto calor +d'um grande, d'um immenso coração póde _cristallisar_ taes diamantes; o +fogo sómente do craneo não produz d'estes milagres d'inspiração: + + Não se é só pó no fim de tanta magoa, + Senão diga-me alguem que allivio é este + Que sinto, quando á abobada celeste + Alevanto os meus olhos rasos d'agoa. + + .................................... + + Ha depois d'esta vida inda outra vida, + Não se reduz a nada o grão d'areia, + E havia de a nossa alma, a nossa ideia + Nas ruinas do pó ficar perdida? + +Se isto não é inspiração, e alta inspiração, não sei que nome se ha de +dar ás maravilhas do genio de Dante, de Shakspeare, de Camões ou de +Victor Hugo. + +Um espirito que se eleva a taes alturas tem obrigação de produzir um +_Hamlet_, uma _Divina Comedia_ ou uns _Lusiadas_. + +Sente-se pela leitura d'este volume que Camões é o auctor predilecto de +João de Deus. O livro abre até por uma composição que póde considerar-se +uma verdadeira profissão de fé em poesia. A propria fórma poetica da +maior parte das lyricas de João de Deus, um certo geito facil e +correntio na composição grammatical dos periodos, a suavidade das +rhimas, a doçura das expressões, a harmonia cadenciosa dos versos e um +certo tom de intima melancolia que se faz sentir até nas idêas as mais +graciosas revelam a decidida predilecção que o cantor da _Heresta_ tem +pelo desafortunado scismador de Macau. + +É esta a feição seria, a feição elevada e talvez caracteristica do genio +poetico de João de Deus. Como todas as grandes vocações, como todas as +naturezas ricas, João de Deus porém não é menos apreciavel, nem menos +digno de estudo pelo lado alegre, malicioso e a espaços finamente +epigrammatico. Ás vezes chega a ser um observador digno de competir com +Molière ou Tolentino. Os _Caturras_ é composição de emparelhar com a +_Funcção_ ou com o _Bilhar_ do diabolico professor de rhetorica; e o +_Gaspar_ póde pedir meças em ridiculo a qualquer dos _frades_ grotescos +da numerosa collecção de Bocage. E o epigramma aqui é tanto mais +pungente quanto menos grosseiro, e a caricatura tanto mais graciosa +quanto menos exagerada. + +Ha alli o sal attico de Terencio e não a especiaria acinante de Plauto, +a não ser talvez nos versos intitulados--_Uma femea_,--brazileiros no +titulo e no sabor, d'um _piquesinho_ de gosto bastante equivoco. + +E já que entramos no capitulo das maculas, convém dizer-se que João de +Deus é por vezes revolucionario de mais em assumptos de metrificação. Eu +não gosto de absolutistas nem mesmo em poesia, mas tambem não morro de +amores pelos tão republicanos que nos levem á demagogia. É preciso que +sejamos um pouco _constitucionaes_ em tudo. Ora a _constituição_ poetica +tem artigos que se não podem infringir sem se incorrer no crime de leso +bom gosto, porque o bom gosto foi e ha de ser sempre o eterno legislador +d'estes codigos. Um verso frouxo ou manco e uma rhima equivoca ou +violenta hão de ser perpetuamente defeitos. + +Quem disser o contrario ou é tolo ou tem ouvidos de cortiça. João de +Deus cahe por vezes nestes dous peccadilhos, deixando alguns versos +arrastados, e outros duros; estes porém muito menos frequentes do que os +primeiros. Mais frequentes são as rhimas violentas, algumas realmente +d'um mau gosto insustentavel, taes como: _justiça_ rhimando com pinça, +como a paginas 152; _rio_ e _viu_, como a paginas 159, e ainda algumas +outras. + +É da tarifa dizer-se em occasiôes similhantes, como são da tarifa todas +as vulgaridades, que não ha livro sem defeitos. Eu creio piamente na +sentença, e até creio que um livro sem defeitos, se existisse, devia ser +o mais defeituoso de todos os livros, o mais sorna e o mais semsaborão. +Eu porém quando abro um livro não é para lhe andar a catar os defeitos +pagina por pagina, como quem anda ao _pulgão_ pelos vinhedos. O que +busco n'um livro são ensinamentos, calor de vida, fogo de coração e luz +de intelligencia; esplendores de espirito e esplendores de palavra; +genio, alma e sentimento. + +Ora um livro de versos onde ha composição como a _Rachel_, _O Musgo_, +_Ultimo adeus_, _o Remoinho_, _a Carta_, e trinta outras lyricas de tal +novidade e tal merecimento, tem obrigação de ter defeitos, por que sem +elles... seria um livro impossivel, uma verdadeira monstruosidade. +Diga-se aqui pois, e para se pôr ponto ao aranzel, que o livro de João +de Deus tem maculas, mas que estas, como as do sol, desapparecem no meio +dos esplendores d'aquella immensa luz de vida, de genio e de inspiração. +_Flores do Campo_ é finalmente um livro de versos, como ha poucos n'este +paiz, desde que por cá se escrevem versos.[1] + +Guarda, 4 de fevereiro de 1869. + + *Alexandre da Conceição.* + + [1]Jornal do Porto (1869) n.º 33. + + + + +LIVROS + + +REVISTA CRITICA BIBLIOGRAPHICA + + +Flores do campo, _por João de Deus, publicadas pelo seu amigo José +Antonio Garcia Blanco_--Lisboa, typ. Franco-portugueza, 1868--Em casa de +Ferin & Robin--1 vol. in-16.º--271. + + +João de Deus é um personagem semi-lendario na tradicção academica, e +apesar de homem do nosso tempo, e tão do nosso que até com um diploma de +deputado se nos apresentou ha pouco, anda-lhe o nome rodeado de quasi os +mesmos fulgores e as mesmas sombras em que uma historia superficial ou +mentirosa envolveu os velhos trovadores da Provença. + +Permittam-me uma digressão. + +Ha n'esta sociedade portugueza--já agora, ao que parece--condemnada a +refocilhar em monturo de sanefas lantejouladas e rotas que lhe deixou o +passado, e a dar ao mundo o triste espectaculo d'uma nacionalidade sem +_idêa_ que a represente na historia philosophica de amanhã, sem _ideal_ +que lhe seja pharol e bussola na tormentosa navegação das sociedades +d'hoje; ha, digo, n'esta nossa sociedade amortecida: extraordinarias +visões, mysteriosos anceios, esforços convulsivos como que filhos de +ignotos impulsos, que bem poderiam passar por agonias e paroxismos +annunciadores da proxima dissolução, se um diagnostico escrupuloso não +encontrasse antes n'aquillo promessas de reacção proxima, de +rejuvenescimento que não vem longe, de evolução fatal, que, em Portugal +como em toda a parte, denuncia por aquellas aberrações e anormalidades a +sua sublime prenhez d'uma nova idêa, d'uma era nova. + +Erguem-se no meio da grasnada petulante ou esteril da litteratura, vozes +persistentes... doces ou enthusiasticas, sympathicas ou ameaçadoras... +frescas, novas, _originaes_--_raræ voces!_--que parece irem na turba +desmoralisada pôr em vibração alguma cellulasinha não contaminada do +mal. + +E a turba põe-se a escutar, a applaudir, a aspirar soffregamente os +frescores e doçuras, que tão enormemente se distanceiam dos miasmas do +ambiente habitual, do sabor da habitual pitança. + +Alteiam-se, no meio da calaçaria geral, do geral e natural desanimo, +vontades energicas que a pedraria da mestrança ignorante, intolerante e +madraça não consegue desviar um momento da faina do estudo e da +evangelisação scientifica. + +E a turba vae attentando n'ellas, vae sympathisando com aquelles +revolucionarios heroicos do marasmo, vae comparando-os com os idolos +anões que, sem ella saber como nem porque se grudaram aos altares da sua +admiração, vae fitando os novos horizontes para onde lhe apontam os +novos chefes, vae-os seguindo já ao impulso d'uma necessidade +indefinivel mas fatal. Ha n'isto, já se vê, alguma cousa d'allucinação +infantil. Crê-se que os novos Moysés levam comsigo, completas, as +verdadeiras taboas da lei, e rasgarão com a magica varinha as brumas que +envolvem a terra da promissão. + +Engano. Não lhes dão as forças para mais que para um terço do caminho, +se tanto. Mas isso mesmo é muito, é o que basta. Hão de apparecer novos +guias. A questão é saír da esterilidade do deserto. + +Citemos porém dois factos, tiremos dois exemplos, apenas, de tantos que +podiamos apresentar da revolução litteraria que se realisa surdamente no +seio da nossa pequena sociedade. + +Sejam elles, por hoje, dois poetas: Theophilo Braga e João de Deus; dois +verdadeiros revolucionarios como outros de que para o diante terei de +fallar. Um, apesar do mal que dizem d'elle, e do mal, que é maior +talvez, que elle a si proprio faz, é inegavelmente um dos nossos poucos +talentos originaes na concepção e na manifestação litteraria, na _idêa_ +e na _fórma_, e se não é marco que no futuro atteste um grande e +brilhante progresso na litteratura patria, é como que atrio imperfeito e +tosco, mas espaçoso e altaneiro que póde servir d'entrada a _pantheon_ +de explendidos engenhos. + +E grande engenho é Theophilo, de certo. + +Por entre uma saraivada d'apodos e improperios de _mau gosto_ ou _má +fé_, conquistou elle um logar elevado, na poesia portugueza d'hoje, +cujos magnates na maxima parte, persistem, com risivel teimosia, em +trazer-lhe engastada na corôa á laia de fina joia, o carvão da +ignorancia, ou em mascararem-na com um falso e retrogrado +_classissismo_. + +Theophilo porém avançou menos do que devia. + +O _idealismo_ desvairou-o, o _romancismo_ perdeu-o. + +Um dia a voz sympathica, insinuante, ora melancholica e dolorida, +ora--bem poucas vezes!--alegre e enthusiastica de João de Deus começou +de fluctuar por sobre o borburinho cançado e monotono das nossas letras. +Não se sabe como nem quando foi. Perdeu-se a chronologia biographica nos +encantos do _quasi_--extasis. Sabe-se sómente que a reputação do poeta +não nos entrou na terra, dentro do cavallo de pau d'algum chefe _grego_, +mestrão consummado n'estas maquinações. Sabe-se tambem que João de Deus +não andou por salas e officinas, annunciando a fazenda que tempos +depois, atirada ao mercado, podia realisar o caso da _mons parturiens_. + +João de Deus apparecia-nos uma ou outra vez n'um periodico de Coimbra; +ora nos segredava uma estrophe singela e melodiosa pelo postigo de uma +typographia alemtejana; ora surgia em um periodico da capital a +contar-nos umas duvidas que o magoavam, umas saudades indefiniveis que o +pungiam, uns vagos amores que lhe andavam rumorejando lá dentro em vagas +harmonias. + +E ninguem sabia quem era João de Deus. E ninguem procurava saber quem +fosse. Ou antes, julgavam todos sabel-o. Conheciam-no todos. Era um +cerebro em ebullição, um coração em ataxia permanente, um estomago que +valia por uma adega. + +João de Deus era um doudo que forrava as paredes do albergue com as +folhas das _sebentas_, que dormia dentro da enxerga, porque achava mais +commodo isto do que dormir-lhe em cima, que se matriculava todos os +annos na faculdade em que o secretario-universitario se lembrava de +matriculal-o, que fôra de Coimbra a casa, d'algibeira vasia e lapis +constantemente occupado em fazer magnificos versos ou magnificos +desenhos, que se fizera um dia sachristão, e pozera n'outro, todo um +bairro em sobresalto, subindo aos telhados para apostrophar a lua, etc., +etc. + +E as anecdotas galantes succediam-se, e a cada nova poesia annexava-se +uma historieta, e quando as poesias escaceavam, attribuiam-se ao poeta +novas doudices, novas excentricidades, como a certo honrado e já +defuncto general se attribuiam quantos dispauterios o soalheiro burguez +produzia. Se eu fosse biographo de João de Deus havia talvez de lavrar +aqui um protesto esmagador. + +Como não sou, limito-me a dizer o que penso do illustre algarviense. +_Mais_ ou _menos_ todos somos poetas. N'este _mais_ e n'este _menos_ +está, creio eu, o segredo da organisação _sensorial_, se póde dizer-se +assim, organisação modificada é certo, mas não completamente +transformada pelo _meio_ e pelo _habito_. + +Tal _sensação_ que n'uns individuos poria o cerebro n'um estado de +effervescencia que lhe _exagerasse_ a realidade, a ponto muitas vezes de +a substituir por uma concepção puramente subjectiva, em taes outros póde +dar apenas o facto funccional em condições normaes e ordinarias, e, +concentrando-se, converter-se em reflexão. Precisava isto longo +desenvolvimento. Ora como o primeiro modo de ser _sensorial_ póde dar-se +em todos, mas com mais ou _menos_ intensidade, com _maior_ ou _menor_ +frequencia, digo eu (e dizem bons escriptores) que todos são _mais_ ou +_menos_ poetas. Isto quanto ao facto intellectivo. Quanto á expressão, o +mesmo se póde dizer sem receio de contestação seria. + +Pois na concepção como na palavra eu tenho João de Deus por verdadeiro +poeta. + +Dizia Merck, homem de profundo bom senso, a Goëthe, seu amigo: + +«A tendencia irresistivel do teu genio é a de imprimir a fórma poetica +ás cousas _reaes_. Outros procuram uma _soi-disant_ poesia tranformando +em realidades, puras _imaginações_, o que só produz disparates.»[2] + +Sem concordar incondicionalmente com a primeira phrase do sensato +allemão, sem querer acceitar a segunda como lei comprovada de critica +litteraria, parece-me que de João de Deus se poderá dizer que reune as +duas tendencias, as duas feições designadas, a _idealisação_ (phrase +consagrada e porventura inexacta) do _real_, e a personificação, melhor +talvez, a realisação plastica do _imaginario_. + +Como que as sensações sensoriaes[3] n'aquelle cerebro delicado, ou +atravez d'aquelle organismo exageradamente impressionavel se destacam +algumas vezes do estimulo, ou alteram a natureza da propria +objectividade e criam um mundo novo, um mundo mystico, permittam-me a +expressão, a que o poeta dá uma realidade objectiva moldando-o pelas +manifestações plasticas do mundo em que vive. Acontece porém, poucas +vezes, nem podia deixar de ser assim, quando a indole da época e a +illustração do poeta se estão oppondo á formação e sustentação d'estas +concepções puramente subjectivas. Adivinha-se aqui ou alli a lucta +tremenda que vae no cerebro de João de Deus, lucta que é a feição +caracteristica do seculo, e que o manto esfarrapado do eclectismo +immoral não consegue abafar, lucta entre o velho _crêr_ e a _duvida_, a +duvida, que como a hydra da mythologia surge após cada decepamento, e +que não é possivel destruir como aquella decepando-lhe o tronco. Ouvide +um exemplo: + + Prestes, se inda na rocha de granito + D'onde em tempo me vias, te sentares, + Não olhes para a terra, ou para os mares, + _Olha sim para o céo, que é lá que habito._ + + _Lá, tão longe de ti mas não do terno,_ + _Bondoso pae que os dois nos ha gerado,_ + _Só para magoas não, que bem guardado_ + _Nos tem tambem no céo prazer eterno._ + +Que profunda crença, que certeza _mystica_, se póde dizer-se assim, não +rescende a suave _morbidezza_ d'estes versos! Ha alli alguma cousa do +cantor da Bice. Vêde porém a tempestade que se annuncia; a duvida +atravessou como um relampago o cerebro do poeta. Ouvide: + + Não se é só pó no fim de tanta magoa. + _Senão_, diga-me alguem que allivio é este + Que sinto quando á abobada celeste + Alevanto os meus olhos rasos d'agua? + + Mentem os céos _tambem_? Os céos maldigo. + Feras, tigres _tambem_ o céo povoam? + _Tambem_ os labios lá sorrindo coam + Veneno desleal em beijo amigo? + + _Mas na dôr é que os astros nos sorriem,_ + E os homens não sorriem na desdita. + Astros! fio-me em vós, e Deus permitta + Que os infelizes sempre em vós se fiem. + +Refaz-se a crença, resurge a esperança consoladora: + + Ha depois d'esta vida uma outra vida. + _Não se reduz a nada um grão d'areia,_ + _E havia de a nossa alma, a nossa ideia,_ + Nas ruinas do pó ficar perdida? + +Pobre sonhador! Aquelle segundo verso é um protesto ironico contra o teu +ideal mystico, é o _grão d'areia_ que ha de intorpecer e desmandar todo +o machinismo psycologico da tua crença! + +Continúa: + + _Isso que pensa e quer_ (até me admiro) + Isso que a luz nos traz, que a luz nos leva, etc. + +e accrescenta: + + _Onde_, não sei eu bem, mas sei que existe + Deus remunerador. Depois de mortos + Hemos de vêr-nos e um no outro absortos + Fartar de glorias este amor tão triste. + + Tão triste e... (o coração que me adivinha?) + N'este supplicio nosso, _este tormento_, + Nunca dos labios teus minimo alento + Num só beijo bebi em vida minha! + +Fulge de novo o relampago, baqueia o edificio da crença, vêde que +tormento: + + _E morro sem te vêr!_ Cabeça douda + Desasissado amor? sonhar afflicto + Um sonho até morrer... + +Pobre Hamlet! + + _... the rest is silence_ + + Um sonho até morrer... Não: resuscito; + Morto tenho vivido a vida toda. + +Pobre Faust! O _insufficiente_ (das Unzuloengliche) atormenta-te, porque +te fascina o _inenarravel_ (das Unberchreiblichee). Que tempo precioso +perde comtigo o sensato Mephistopheles! + +Preferes á gargalhada que te chama á realidade da vida, o _chorus +mysticus_ que te amargura a existencia com a mentira da miragem! + + +João de Deus é rigorosamente um artista _insaciavel_: «Satiari artis +cupiditate non quit,» como diria Plinio. + +Adivinha-se em cada estrophe d'elle um ancear indefinivel, um vago +aspirar, se póde dizer-se assim, uma como que miragem que atráe o poeta, +que o alenta umas vezes e o desespera não poucas, que parece enviar-lhe +dos visos do horisonte uns suaves frescores envoltos em deliciosos +perfumes, e que como a miragem do deserto, lhe foge sempre aos labios +sequiosos. + +E o pobre viandante vae caminhando e cantando sempre. É um descantar +dolorido geralmente, como que descantar de saudade do que sonhou e não +acha, e não gosa, e não encontra no caminho, como que de _saudade_ do +que lhe foge sempre, deixem-me usar a dôce palavra que bem sei eu que +não fica ella bem lexicographicamente applicada. + +E assim com a imaginação embalada por um vago _ideal_ vae João de Deus +_poetisando_ como Goëthe na opinião do seu, já citado amigo, tudo o que +no caminho encontra. Poucas vezes se lhe altera a harmonia cerebral ao +impulso d'uma vibração mais violenta. Os successivos amores--fundem +quasi n'uma abstracção, parecem subtilisar-se até no _feminino eterno_ +do cantor do Fausto. Hoje Margarida, amanhã Helena, depois... Depois +quem sabe? + +Hoje Marina. É uma recordação. + + Como esse olhar é dôce! + Dôce dâ mesma sorte + Como se nunca fosse + Toldado pela morte, + + Como se alumiasse + O sol ainda em vida + As rosas d'essa face + Agora carcomida. + + Colhesse-as eu mais cedo + E logo que alvorece, + Já não tivesse mêdo + Que a terra m'as comesse. + ......................... + + Se um dia nos meus braços + Te desbotasse as côres, + Passavam os abraços... + Passavam os amores!... + + Oh não: mil vezes antes + No céo lá onde habitas + E os rapidos instantes + Que vens e me visitas + + N'este degredo nosso + Que tanta gente estima, + E eu, só porque não posso + Não largo e vou lá cima. + + Vem tu cá baixo, abala, etc. + + ....................... + + Ha uma hora ou mais, + Marina! que contemplo + A casa de teus paes + Que é para mim um templo. + + É esta vida um mar + E bem se póde a gente + Marina, comparar + A rapida corrente + + Que vae de lado a lado + Por esses valles fóra + Sem nunca lhe ser dado + Ter a menor demora: + + Pára quando a engole + Aquelle mar sem fundo; + Nem pára, é como o sol + E como todo o mundo. + + ....................... + +Custa a resistir á tentação de transplantar para aqui completas, estas +magnificas _singelesas_. Não ha n'aquillo alguma coisa do que é +espontaneo e bello na _Vita Nuova_? + +Mas, como dissemos, o poeta approxima-se tambem do _Faust_ na +volubilidade artistica. + + Maria! vêr-te á porta a fazer meia + Olhando para mim de vez em quando + É o que n'esta vida me recreia. + + ................................... + + E eu pallido, Maria! o pensamento + Não é trabalho que nos dê saude, + Esta imaginação é um tormento. + + ................................... + + É que a gente na sua mocidade + Não cabe em si, não pára de contente + E assim fui eu na flôr da minha edade. + + Tu eras n'esse tempo simplesmente + A flôr que vae nascendo e mais valia + Seres tão terna ainda e innocente. + + Já esse lindo pé que tens, Maria! + Esse quadril tão largo e cinta estreita + Me não vinha á ideia noite e dia; + + Esses encontros de mulher perfeita, + Esse peito redondo e arqueado + Como a pomba farta e satisfeita; + + Talvez vivesse então mais socegado + Ou já que a minha sorte é sempre triste + Ao menos não andasse enfeitiçado. + ................................... + +Depois é Margarida: + + Oh! que formosos dias, Margarida! + Esses, etc. etc. + +Depois... Ha nomes que não se proferem, que não se denunciam. São como +certo nome do Deus judaico. + +O poeta diz simplesmente: _No leito nupcial._ Um nome depois d'isto fôra +mais que uma profanação, fôra uma infamia. Julgaes porém que ides ouvir +uma recriminação amarga ou uma indiscripção villã? + + Dorme, estatua de neve, + Vergontea de marfim, + Tocar que impio se atreve + No que é sagrado assim! + + Dois são: o mais, mysterio + Vedado á terra, Deus + Talvez do solio ethereo + Nem baixe os olhos seus. + + Respeita-os, tapa-os, como + Japhet e Sem, o pae... + Pende sagrado pomo, + A vista ergue-se e cáe. + + Ergue-se e cáe, conforme + A lei que o manda assim, + _Ergue-se_ e... dorme, dorme, + Vergontea de marfim! + + ....................... + + Não segue acaso a sombra + Teu corpo sempre, flôr? + E pois porque te assombra + Meu insensato amor? + + ....................... + +Depois é Beatriz: + + Tu és o cheiro que exhala + Ao ir-se abrindo uma flôr; + Tu és o collo que embala + Suas primicias d'amor. + + Tu és um beijo materno, + Tu és um riso infantil; + Sol entre as nuvens do inverno, + Rosa entre as flôres d'abril. + + Tu és a rosa de maio, + Tua és a flamula azul + Que atam á flecha do raio + As nuvens negras do sul. + + ....................... + +E assim vae cantando sempre, de nome em nome, e de mysterio em mysterio +e d'amor em amor, de duvida em duvida, de saudade em saudade, d'anceio +em anceio. Não ha Beatriz que o retenha e lhe oiça o _Ecce Deos fortior +me veniens dominabitur mihi_. + +Um dia encontra uma mulher formosa, joven, alegre. Ama. Será amado? + + Amas-me a mim! perdoa, + É impossivel! Não, + Não ha quem se condoa + Da minha solidão. + + Como podia eu triste, + Ah! inspirar-te amor, + Um dia que me viste, + Se é que me viste... flôr! + + ....................... + + Via-te arfar o seio... + Córar... mudar de côr, + E embora, ah! não, não creio, + Tu não me tens amor! + +E o sonho foi-se e a visão desappareceu. Como se chamava aquella mulher? +Vão lá saber como se chama a estrella cadente que rasga a amplidão do +espaço e desapparece n'ella? + +E foi uma estrella cadente, aquella. Perdoem a indiscripção. + +Outro dia é o poeta que se afasta, que foge, porque receia macular com o +seu halito o puro fulgor da estrella. + + Tenho-te muito amor, + E amas-me muito, creio, + Mas ouve-me, receio + Tornar-te desgraçada. + O homem, minha amada, + Não perde nada, gosa; + Mas a mulher é rosa... + Sim, a mulher é flôr! + + Ora, e a flôr, vê tu, + No que ella se resume... + Faltando-lhe o perfume. + Que é a essencia d'ella, + A mais viçosa e bella, + Vê-a a gente e... basta. + Sê sempre, sempre casta! + Terás... quanto possuo! + +Vou findar com as transcripções, que bastam as que ficam feitas para +comprovar o que ácerca d'estas mimosas poesias e d'este original poeta +tenho dito e hei de para o diante dizer. Não posso porém resistir á +tentação de citar ainda uns trechos d'uma das mais bellas e +caracteristicas composições de João de Deus. Podesse eu transcrevel-a +toda! + +Não tem nome. Chamam-lhe alguns «A vida». Innumeras vezes tem ella feito +cessar as alegrias das salas e interrompido brilhantes festas como o +austero bispo de certa poesia de Thomaz Ribeiro, para mendigar ao +sentimento das damas um condoimento de triste sympathia pelas intimas +amarguras do poeta. Tem por epigraphe aquellas formosas palavras do +Tasso: + + Cosi trapassa al trapassar d'um giorno, etc. + +e começa: + + Foi-se-me pouco a pouco amortecendo + A luz que n'esta vida me guiava, + Olhos fitos na qual até contava + Ir os degraus do tumulo descendo. + + Em se ella annuveando, em a não vendo, + Já se me a luz de tudo anuveava; + Despontava ella apenas, despontava + Logo em minha alma a luz que ia perdendo. + + Alma gemea da minha, e ingenua e pura, + Como os anjos do céo (_se o não sonharam..._) + Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura. + + Não sei se me voou, se m'a levaram, + Nem saiba eu nunca a minha desventura + Contar aos que inda em vida não choraram. + +Estas linhas fazem recordar Camões. Ha n'este tristuras que se +manifestam por versos parecidos, mas eu prefiro estes ao tão conhecido +soneto da «Alma minha gentil,» etc. Parece denunciar-se n'esta singelesa +_morbida_, se póde dizer-se assim, mais sentimento e espontaneidade. + +Vamos mais além. Que superabundancia de ímagens! Que riquesa e variedade +de _sensação_! Que esplendidos quadros! Que magnificencia de colorido! + + Ah! quando no seu collo reclinado + --Collo mais puro e candido _que arminho_, + _Como abelha na flôr do rosmaninho_ + Osculava seu labio perfumado; + + Quando _á luz dos seus olhos_... (que era vêl-os, + E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!) + Lia na sua bôcca a _Biblia santa_ + Escripta em letra _côr dos seus cabellos_: + + Quando aquella mãosinha pondo um dedo + Em seus labios de _rosa pouco aberta_, + _Como timida pomba_ sempre alerta, + Me impunha ora silencio, ora segredo; + + Quando, _como a alveloa_, delicada, + E linda _como a flôr_ que haja mais linda + Passava _como o cysne_ ou _como ainda_ + Antes do sol raiar, _nuvem dourada_; + + ................................... + + Quando a _cruz_ do collar do seu pescoço, + _Estendendo-me os braços, como estende_ + _O symbolo d'amor que as almas prende,_ + _Me dizia_... o que ás mais dizer não ouço; + + ............................................... + + Quando o _ouro da trança_ aos ventos dando + E a _neve_ do seu collo e seu vestido + --_Pomba_ que do seu par se ia perdido, + Já de longe lhe ouvia o peito arfando;[4] + + Tinha o _céo_ da minha alma as sete cores, etc. + + ........................................... + ........................................... + + Que é d'esses cabellos d'ouro + Do mais subido quilate, + D'esses labios escarlate, + Meu thesouro! + + Que é d'esse halito, que ainda + O coração me perfuma! + Que é de teu collo de espuma, + Pomba linda! + + .............................. + .............................. + + De dia a estrella d'alva empallidece; + E a luz do dia eterno te ha ferido. + Em teu languido olhar adormecido + Nunca me um dia em vida me amanhece. + + Foste a concha da praia. A flôr parece + Mais ditosa que tu. Quem te ha partido, + Meu calix de crystal, onde hei bebido + Os nectares do céo... _se um céo houvesse!_ + + Fonte pura das lagrimas que choro![5] + Quem tão menina e moça desmanchado + Te ha pelas nuvens os cabellos d'ouro! + ..................................... + + A vida é o dia d'hoje, + A vida é ai que mal sôa, + A vida é sombra que foge, + A vida é nuvem que vôa; + A vida é sonho tão leve + Que se desfaz como a neve + E como o fumo se esvae: + A vida dura um momento; + Mais leve que o pensamento, + A vida leva-a o vento, + A vida é folha que cáe! + + A vida é flôr na corrente, + A vida é sopro suave, + A vida é estrella cadente, + Vôa mais leve que a ave; + Nuvem que o vento nos ares, + Onda que o vento nos mares + Uma apoz outra lançou, + A vida--penna cahida + Da aza da ave ferida, + De valle em valle impellida + A vida o vento a levou! + + .............................. + .............................. + + _Talvez_, é hoje a Biblia, o livro aberto + Que eu só ponho ante mim nas rochas, quando + Vou pelo mundo vêr se a posso vêr; + E onde, como a palmeira do deserto, + Apenas vejo aos pés inquieta ondeando + A sombra do meu ser. + + .............................. + +Depois d'isto comprehendeu-se que João de Deus se propozesse a traduzir +o _Cantico dos Canticos_. + +Como, se bem me lembro, diz Herder, os elementos primordiaes da poesia +hebraica são a _sensação_ e a _imagem_, e posto que, no meu entender, a +boa critica não possa monopolisar aquella feição em favor apenas +d'aquella poesia, porque ella é caracteristica de todas as litteraturas +na sua genese, e nos primeiros periodos de constituição, em quanto +predominam no homem os sentimentos elementares como diz Veron[6], +comtudo a poesia hebraica propriamente tal quasi não chega a ultrapassar +o periodo d'aquelle predominio. Poderiam talvez accusar-se os versos que +acabo de transcrever de certo _garridismo_ que mal iria ao sentimento +que exprimem, se a violencia d'esse sentimento, o estado de exaltação +sensorial não estivessem justificando o que parece defeito aos leitores +que não sintam a transfusão psychologica que muitos hão de experimentar +ante aquelles versos magnificos. + +A poesia de João de Deus é verdadeira musica. Se eu estivesse agora para +combater os que julgam como Lamartine[7] que a _versificação_, o +rhythmo, a cadencia, a rima, são cousas indifferentes á poesia na «época +adiantada e verdadeiramente intellectual dos povos modernos», os que +teem tudo isso, como Heine (cit. por Max. Buchon) por completa +puerilidade, para valente comprovação me podiam servir os versos do +nosso poeta. + +São elles geralmente como que uma psalmodía. Allia-se a musica e a +poesia que tantos querem distancear, como se o rythmo fosse apenas +elemento especial d'uma arte. João de Deus como que tem uma rhythmopêa +espontanea. Sahe-lhe o verso moldado pela ideia e pelo sentimento, e +n'este como n'aquelle a modulação existe pelas fataes variantes dos +estimulos e das vibrações cerebraes. Procuraram os gregos systematisar +as relações do rhythmo para com a idêa e o sentimento, como se fôra +possivel marcar limite numerico aos modos de ser do pensamento, ou aos +productos da actividade intellectual e esthetica. Se, pois, em muitos +casos, são acceitaveis as velhas regras, geralmente a rhythmopêa deve +ser producto espontaneo, e não _canon_ de escóla. E porque se dá o +primeiro caso em João de Deus, é que talvez se revela nos seus versos, +bem salientemente o cunho da personalidade, condição essencial d'uma +obra poetica. É necessario não perder aquella de vista, porque, como diz +o critico francez, que atraz citei, o verdadeiro merecimento, na poesia, +está antes na esthesia do poeta de que na do leitor. Ora bastam as +transcripções que fiz para vêr como a personalidade do poeta, o seu +sentir e pensar se patentêam na expressão, na _fórma_, que em outros +escriptores mal disfarça com arrebiques e ouropeis a carencia da +sensibilidade e inspiração pessoal. + +Ha mais poesia n'algumas _singelezas_ de João de Deus do que em muitos +_versos_ laureados que por ahi correm como modêlos de _metrificação_, e +que bem podem sêl-o, o que não basta de certo. + + Mais poesia em pobre margarida + Que aos pés se pisa, enthesourada vejo, + Que em muita madreperola polida + Que as cinzas guarda de finado arpejo. + +Toquei eu agora n'uma das melhores poesias de João de Deus, poesia que +elle diz ser fragmento, e fragmento que bem faz desejar a apparição da +obra toda. + +Vou ainda transcrever alguns trechos que lançam de certo muita luz sobre +o vulto, quasi lendario do poeta, em pontos menos esclarecidos pelas +transcripções anteriores. + + Padre, ministro do Crucificado + É bom ferreiro afeiçoando o ferro + Com que ha de prestes ir rompendo o arado + Os campos d'este secular desterro... + + .................................... + + Na montanha da Fé, mulher formosa + Se ante mim a meus pés desenrolasse + Como o demonio a vastidão pasmosa + Que elle dava a Jesus se o adorasse + E me pedisse em premio uma só cousa + Ás mãos de minha mãe furtar a face; + Eu lançava-lhe cuspo... + + ................................... + + Vêde-a ao berço, sofrega de vida + Que a sua é pouca para dar ao filho; + _Ella_ em cama de espinhos, mal vestida, + _Elle_ enfaxado, em berço de tomilho; + _Ella_ em continua, asafamada lida, + _Elle_ vendo se apanha á luz o brilho... + _Já descobrindo em tão tenrinha edade_ + _Que toda a sua sêde é de verdade._ + + ................................. + ................................. + + Irmãs da Caridade! A caridade + Tem só duas irmãs--a Fé e a Esperança: + Não traja as côres só d'uma irmandade, + Traja as côres do Arco d'alliança; + Leva sósinha o pão da piedade, + Tira da roda essa infeliz creança... + Roda da vida que anda de tal sorte + Que, em se lhe dando, é já contar com a morte. + + Bemdita sejas tu, victima triste + D'um peito amante e d'um amante ingrato! + Que nunca á mesma loba lançar viste + Inda mamando o cachorrinho ao mato; + Bemdita sejas tu, que o que pariste + Teu fructo, imagem tua e teu retrato + Conservas como espelho onde te vejas; + Bemdita sejas tu, bemdita sejas. + + ................................ + ................................ + + Acaso é só dourada, altiva estola + Que liga os corpos em as mãos ligando, + Confunde corações e faz em summa + Que a Deus se elevem duas almas n'uma? + +Ahi tendes o apostolo, o campeão social. Não lhe aceiteis, muito embora, +a doutrina. Acatae-lhe a generosidade, a grandeza da _ideia_, a robustez +da convicção. Que poema enorme, magestoso e bello não será aquelle! + +Colligir as poesias de João de Deus que por ahi andavam dispersas, +mutiladas e perdidas, foi de certo um grande serviço ás patrias letras. + +Prestou-o o snr. José Antonio Garcia Blanco. + +Poeta mais original, mais rico, mais verdadeiro do que aquelle, não +conheço na litteratura portugueza, e tanto como elle, ha de ser difficil +de encontrar entre nós, na litteratura d'hoje. Um certo _mysticismo_ mal +definido que recendem as suas poesias, é menos producto da tradicção que +originalidade genial. João de Deus é um homem do Meio-dia com o vago +ancear d'um poeta do norte. Opprime-o o _insufficiente_ como ao Faust. +Se lhe désse para ser philosopho, onde iria parar?... + +Como poeta tem alguma cousa de Ossian com alguma cousa de Goëthe...[8] + + *Luciano Cordeiro.* + + [2] «Goethe et Schiller» por E. Rambert. (Revue Suisse--fev. 1869). + + [3] Quando digo «sensações sensoriaes», fallo das sensações + «externas e internas», como vulgarmente se classificam, e não excluo + as que se dão sem realidade objectiva que as provoque, e que + constituem o estado pathologico da «allucinação», estado a que + porventura se poderia reduzir algumas vezes, creio, o «mens + divinior» dos antigos. Esta ultima observação é minha, as anteriores + são de Luys (Recherches sur le système nerveux, etc., etc., cit. par + Littré) e E. Littré, De la méthode en psychologie (Phil. + posit.--Revue--1.^er vol.) + + [4] Seguia-se a seguinte quadra, que não apparece na collecção e que + eu acho não só egual em bellesa ás citadas, mas superior a algumas: + + Quando _o annel_ da bôcca lusidia, + Vermelha _como a rosa cheia d'agua_ + Em beijos á saudade abrindo a magua + _Mil rosas_ pelas faces me esparzia; + + [5] Variante: + + Oh lagrima das lagrimas que choro! + + [6] Superiorité des artes modernes. + + [7] Cours fam. de litt. + + [8] Revolução de Setembro (1869) n.^os 8012, 8015 e 8023. + + + * * * * * + + + + +FLORES DO CAMPO + +DE + +João de Deus + + +É indispensavel crêr na poesia como se crê no Evangelho, como se +acredita em Deus. No perpassar d'esta via dolorosa, cortada a todo o +passo de agrestes sinuosidades, a poesia luzindo de quando em quando ao +viageiro extenuado como um iris de bonança, significa a mais completa +redempção da materia pelo espirito. + +Aguia sobranceira que elevando-se até perder de vista o lodo em que se +immergem tantos e tantos seres, vae roçar com a fimbria da aza a crista +das nuvens, confundindo os seus arrulhos mysteriosos com as melodias dos +seraphins! + +Creou Deus a poesia para que a primavera com os seus canticos e +perfumes, com a sua opulenta vegetação, encontrasse quem a +comprehendesse, quem a cantasse: creou Deus a poesia para escarmento ao +vicio, distanceando-nos do finito que é o começo do scepticismo, para o +infinito que é Deus! Surgiu a poesia para que nas trevas de um mundo que +ri de tudo como Democrito, que tudo amesquinha, brilhasse uma luz que só +de vêl-a a alma se purificasse e o espirito adejasse para o ideal. + +Não chamem á poesia trivialidade. + +Estudem os seculos; contemplem as nações e digam se a poesia teve ou não +extraordinaria influencia nos grandes acontecimentos sociaes. + +Quem, senão Roger de l'Isle, ergueu palpitante toda a França com umas +quantas estrophes, a _Marseillaise_? + +Não foram os versos de Shakespeare, de Milton, de Pope, que +poderosamente concorreram a immortalisar a Inglaterra? + +Portugal não deve a fama da sua gloria aos _Lusiadas_ de Camões? + +Consintam os homens de algarismos, os materialistas que antepõem a carne +ao espirito, que fazem d'ella o seu credo, que os poetas, os sonhadores +de chimeras deixem devanear a imaginação por esses horisontes de anil; +deixem que reclinados á proa do baixel da vida namorem o azul das aguas +depois de terem contemplado o dos céos. + +Ai da humanidade, se o poeta deixar pender a fronte desalentada ao +partirem-se-lhe as cordas da lyra! a prosa invadirá o sanctuario dos +mais nobres estimulos, e o sceptico exultará ao soltar a sua risada +infernal como a dos condemnados do Dante. + +Não sei quantas vezes temos lido as _Flores do Campo_, exhaurindo sempre +novos e exquisitos perfumes. + +Tem isso a originalidade, que é o distinctivo d'este poeta. Costumamos +dizer com referencia a qualquer notavel escriptor nosso: aquelle talento +tem a suavidade de Lamartine, o sentimento de A. de Musset, o mysticismo +de Chateaubriand, a ironia de Byron, a energia apaixonada de Victor +Hugo. + +Porque não havemos de dizer que João de Deus tem o cunho original da +poesia portugueza na sua mais genuina expressão?! Quem se compraz em +parodiar constantemente os usos e idiomas dos de fóra, deve uma vez por +outra, ufanar-se do que tem de seu original e portuguez de lei, como o é +João de Deus em todos os seus escriptos. + +Atravez dos versos do mimoso poeta contemplam-se as noites estrelladas +de Portugal, o Tejo com as risonhas margens, Coimbra com a sua _Fonte +das Lagrimas_, o clima emfim e a vegetação esplendida d'este pequeno +eden. + +Vê-se que este poeta é portuguez de feição, e comprehende-se quanto na +patria de Camões e Garrett a poesia se manifesta espontanea e esplendida +na fórma e ideia! + +Começa o livro com a poesia _Camões e Byron_, e termina com o _Cantico +dos Canticos_: abre pois com chave de prata para fechar com chave de +ouro. + +Ha estrophes de uma suavidade tão nimiamente infantil, tão peculiarmente +despretenciosa, que a ninguem senão a João de Deus poderiam +attribuir-se, quando mesmo o seu nome não estivesse engrinaldando +luxuosamente o adito d'este livro. + +Citaremos, entre muitas, estas: + + Maria! vêr-te á porta a fazer meia + Olhando para mim de vez em quando, + É o que n'esta vida me recreia. + .................................. + + Esses olhos azues... que olhar! Receio + E desejo estar sempre a contemplal-o; + Não ha mais doce e mais custoso enleio. + + .................................. + + Bem poderas, Maria andar tapada + Só com o teu cabello, á similhança + Do sol em nuvem de manhã doirada. + + ................................... + + A bôca é tão vermelha que, em te rindo, + Lembra-me uma romã aberta ao meio, + Quando já de madura está caindo. + +Na poesia _Innocencia_ revela o poeta, a par de uma finura de sentimento +e extrema sensibilidade, um preito á virtude, que toda a mulher que a +lêr deve necessariamente sentir-se attrahida por um sentimento de +gratidão para quem a escreveu: + + Casta innocencia, de Deus filha e bella + Entre as mais bellas! virginal aroma! + Rosa ineffavel, que se á luz assoma, + Haste e raiz apodreceu com ella! + +Percebemos tambem que João de Deus pertence ao numero dos crentes, ainda +tão mal limitado; prova-o exuberantemente as suas poesias _Luz da Fé_, +_Fragmento_, e varias outras. + + Deus era inda meu pae. E em quanto pude + Li o seu nome em tudo quanto existe; + No campo em flor; na praia arida e triste, + No céo, no mar, na terra e... na virtude! + +Como o poeta adora a poesia e o quanto tem d'ella feito o seu credo, +dil-o eloquentemente esta quadra: + + Oh! poesia, poesia altissima + Como o fecho do impyreo! eu me ajoelho + E beijo a tua base, harpa celeste! + O coração--a corda que nos deste. + +Na alma d'este homem que tem na fronte uma estrella de fogo e talvez um +martyrio no coração, suspiram ternuras indiziveis que a sua lyra traduz +em canticos suavissimos: + + É do sangue e das mães que eu fallo, e certo, + Que ha na vida mais sancto? O sangue é vida; + E as mães fontes de vida: eu nunca esperto + Esta lampada d'alma, suspendida + Na abobada eterna e que tão perto + Parece ter a origem.............. + ....................senão quando + Vejo essa cara imagem suspirando. + +Querem dizer, e talvez com razão, que João de Deus abusa da rima +deixando-a por vezes defeituosa. + +A meu vêr esta pecha está na razão das manchas que o sol contém, mas que +os nossos olhos não descobrem sem o auxilio do telescopio, o que não +obsta a que o sol seja o astro do dia. + +«Marcar balisas á poesia, é impossivel, diz um illustre poeta e critico, +a poesia é livre como o pensamento, e grande como a immensidade.» + +Eis-ahi está o segredo da culpa, e _feliz culpa_! + +Se João de Deus pertencesse a um certo numero de poetas que esgravatam +na areia e folheiam livros alheios primeiro que possam rabiscar algumas +insulsas linhas, talvez a rima lhe saísse menos incorrecta segundo a +arte, mas acanhada e rachitica segundo o pensamento. + +A verdadeira poesia, como diz C. de Figueiredo, surge livre como a +natureza; irrompe, inunda de luz de fogo, sem muitas vezes poder +sujeitar-se aos acanhados moldes da arte. + +Apparece-nos o poeta, namorado como Bernardim Ribeiro, n'estas +dulcissimas estrophes: + + Não ha existencia alguma + Que não tenha amor, nenhuma; + Porque o amor, é, em summa, + Essencia de todo o ser. + Ha sempre quem nos attraia, + Mil vezes que a onda caia, + Ha uma rocha, uma praia + Aonde a onda vae ter. + +Seria um nunca acabar se fossemos a exarar aqui todas as preciosissimas +joias d'esta corôa opulenta que veio enriquecer a nossa litteratura. + +Apartamo-nos do livro com extrema saudade, recommendando á leitora, que +por acaso ainda o não possue, a prompta acquisiçao d'elle para +collocal-o ao lado das rosas, jasmins e violetas com que, durante a +formosa estação que se avisinha, ha de perfumar o seu _boudoir_.[9] + + *D. Guiomar D. Torrezão.* + + [9] Voz Feminina (1869) n.º 60. + + * * * * * + + + + +ANNO LITTERARIO DE 1869 + + +CARTAS A J. SIMÕES DIAS + + +Á hora dos phantasmas, á meia noite, escreveste o _Anno litterario de +1868_. A noite é sombria e triste; e por isso as tuas reflexões +humoristicas não occultam de todo a descrença, a tristeza e o desanimo, +com que espalhaste a vista pelas coisas litterarias da nossa terra. + +Fundado ou infundado, não chamarei eu esse desalento, porque, de onde em +onde, nos encontrariamos, se eu fosse ajustar o padrão da tua critica ao +juizo que eu fizesse de producções da arte. + +Não posso, comtudo, deixar de querer muito a essa franqueza, que é o teu +caracter, e a tua regra em materias de critica. E tanto mais lhe quero, +quanto eu reconheço que a franqueza, hoje em dia, é fazenda de +contrabando nas nossas alfandegas litterarias. + +Quando o anno de 1868 pertencia já ao passado, scismavas á meia noite +sobre o mau rumo que te pareceu levarem as nossas letras. Eu sou um +pouco mais crente, e menos atrabiliario: á entrada de 1869, estendo os +olhos ao futuro, e espero e creio muito, porque já não são de pouca +monta as primicias que nos offerece o anno litterario de 1869. Fallo das +_Flores do Campo_ de João de Deus. + +Com a analyse d'este livro, abro uma serie de apreciações, em que te +fallarei das obras poeticas que n'este anno, e em Portugal, se derem á +estampa. O meu voto, em materia alguma tem força, nem eu procuro +dar-lh'a, para se insinuar no animo do publico: é um voto individual, em +que apenas acharás o merito da sinceridade e da franqueza. + +Direi de caminho que não sigo a trilha que me deixou o teu _Anno +litterario_. Não deslembrarei os preceitos da critica analytica, para +não apreciar, em synthese, obras que exigem demorado exame das suas +partes. + +Tambem não escolho, para te escrever, a hora lugubre dos phantasmas. +Começo a escrever-te ás horas d'uma esplendida manhã, espalhando os +olhos por aquellas duas margens do nosso Mondego: a relva rasteira que +as veste, e que me falla de vagas esperanças, ha de desentranhar-se em +flores e fructos. Deixa-me crêr muito no dia de ámanhã. + +E porque não virão as flôres da poesia derramar perfumes sob este céo de +Portugal, n'este _jardim da Europa_, onde já suspirou melodias +Bernardim, Camões, Garrett, Castilho! Não morre a poesia portugueza: a +estatua da deusa ainda não tremeu na peanha; e quando os iconoclastas do +bello quizessem contra ella erguer braços profanos, a quantos apostolos +da arte não teriam de suffocar a voz! + +Bem-vindos sejam estes sonhadores de chimeras, estes utopistas cheios de +alma e coração, luctando de contínuo com o mundo real, e de contínuo +erguendo-nos a mundos imaginarios, mas bellos d'uma belleza que não é da +terra! + +Fallo-te da poesia individual, e eu sei bem que lhe não queres tanto +como eu. Desejas que a poesia se concentre no mundo estreito dos fins +sociaes; entendes que a poesia deve de limitar-se a mostrar o caminho á +humanidade que marcha, ou á exaltação dos dogmas do seculo. Por certo +que se não desvirtua a poesia, seguindo por taes veredas; mas o genio +não tem peias nem limites: veste de luz o lirio dos valles; alumia a +estrada ao caminheiro da vida; doira as arestas do serro escalvado; +enche a noite de luz; de fulgores inunda o espirito, e não sei por +quantos mundos nos leva a alma absorta! + +Marcar balisas á poesia, é impossivel, porque a poesia é livre como o +pensamento. + +Deixa pois cantar os poetas que levantaram a vista do pó da terra, onde +tudo é limitado como a materia, e vil como o gusano das ossadas. Deixa +que eu te falle de um poeta, cujo espirito é aguia que raro avisinha a +ponta das azas aos marneis da sociedade. A gente pasma da altura a que +se eleva aquelle espirito, e acontece ás vezes que a nossa vista não +póde acompanhar tão levantados vôos: perde-se elle no vacuo, e, quando +divaga em mares de luz, ficamos nós em trevas, sem vêr a direcção que +elle toma... + +João de Deus não canta para a sociedade, canta para si. Quer discorra +por vergeis de poesia singela e perfumada, quer se eleve a alturas +desmedidas, não se importa de que lhe não oiçam nem entendam o canto +sempre harmonioso. É talvez por isso que elle não publicou, nem +publicaria as _Flores do Campo_. + +Ao amigo que lh'as estampou, muito devemos nós todos os que presamos as +nossas boas letras. + +Agora se me offerece caso para cogitações profundas: as _Flores do +Campo_ saíram a lume ha quasi um mez, e, até á data em que te escrevo, +dormem os nossos criticos a bom levar, sem que uma palavra lhes haja +irrompido dos labios, sobre o merecimento d'este magnifico livro. Aqui, +ha por força caso virgem, mas... ponto em bôcca. + +E pois que os criticos não querem, ou não ousam, pronunciar o seu +_veredictum_, vou eu mostrar-te o valor em que tenho as _Flores do +Campo_, por que me digas ao depois se não são ellas, para a nossa +litteratura, prenuncios d'um outono avergado de fructos. + +Quando o visconde de Chateaubriand trabalhava por agremiar em torno da +cruz as multidões, que ainda sentiam nos ouvidos a voz tentadora de +Robespierre e Mirabeau, surgia na Inglaterra um homem extraordinario, +personificação pasmosa do genio e do scepticismo--lord Byron. + +Ninguem como o cantor do _Childe Harold_, pôde jámais aliar uma alma de +poeta ao scepticismo, á duvida, á frieza, que ressumbram de cada verso +do _Don Juan_: + + For me, I know nought; nothing I deny, + Amit, reject, contemn; and what knew you, + Except perhaps that you were born to die? + And both may after all turn out in true. + +Mas... na mente de Byron reflectia-se uma das tendencias mais +caracteristicas da sociedade contemporanea; o scepticismo apresentou-se +revestido com a aureóla do genio, ergueu-se como chamma incendiaria, e +lavrou pela litteratura do seculo. + +Que restava aos adeptos da poesia? O maior numero, como os companheiros +de Ulysses, deixou-se arrastar pelos cantos da sereia, e, se não abordou +á ilha encantada, d'onde lhe acenava a gloria, mediu a profundeza do +abysmo que a tentação lhe abriu aos pés...; outros, refugiram á +attração, e velejaram alegres por onde os não batessem os pampeiros da +descrença e do scepticismo. + +A poesia que abre o livro de João de Deus é o emblema dos dous rumos por +onde tomam os argonautas da arte, e estrema o scepticismo e crença, +_Camões_ e _Byron_. Não sei se esta composição vale muito aos olhos dos +mestres; para mim, é das mais somenos de João de Deus, e, se não fôra +collocada alli para denunciar, talvez, as crenças litterarias do auctor, +não a quizera vêr á entrada d'este livro. A arte exige para um edificio +primoroso um portico lavrado a primor. + +Na composição alludida, se a ideia é grande e original, a fórma que a +reveste não, não é perfeita; sem fórma, não concebo arte, e sem arte não +se traduz o sentimento do bello. + +Não vás porém julgar que estou dando lições de poetica a um poeta como +João de Deus. Mais do que ninguem, conhece elle por ventura os defeitos +do seu livro, e, se os poupou, ao limar os seus versos, é que não teve +em tanta conta, como geralmente se tem, certas exigencias da arte. + + Que vês?--Sóes, de tal sorte + Que os crêra tochas _pallidas_, + Quando as guedelhas, _madidas_ + De sangue, arrasta a morte. + + ........................... + + --Falla.--Deus! que harmonia! + Aqui a alma _exalta-se_; + A alma aqui _dilata-se_... + _Camões!_--É a poesia. + +Nem a critica imparcial tanto exige, nem eu tenho logar bastante para +transcrever aqui todas as estrophes, em que as rimas se me deparam +defeituosas e erradas. Cito-te de passagem _queime_ e _geme_, _deixe_ e +_feche_, _confesso_ e _immenso_, _cuides_ e _virtudes_, _outro_ e +_encontro_, _géra_ e _inteira_, _teimo_ e _supremo_, _prega_ e _negra_, +_avaro_ e _ara_, _sêde_ e _hei-de_, _põe_ e _foi_, _vê_ e _adorei_, +_inteiro_ e _quero_, etc. + +E comtudo João de Deus parece brincar com as maiores difficuldades da +rima. Para não fallar na poesia _Boas Noites_, basta apontar-te aquelle +trecho da poesia _O Musgo_: + + Um dia, não sei que tinha... + Uma tristeza tamanha! + E lembra-me ir á montanha + Que temos aqui visinha, + Onde em tempo me entretinha + Horas e horas sósinha, + Quando ainda não se extranha + Que n'uma teia de aranha + Se prenda uma innocentinha, + Ou atrás d'uma avesinha + Se cance a vêr se a apanha. + +Em metricação tambem as _Flores do Campo_ nos offerecem provas de que +João de Deus não é, n'este ponto, nimiamente escrupuloso. Assim ficou +errado este decassyllabo: + + Chamando-os com enternecimento, + +e aquelle septissylabo que vae sublinhado: + + Que é a torre exactamente + _De David n'esses ares,_ + +para não citar passagens como estas: + + _Adeus tranças côr de ouro,_ + Adeus peito côr de neve. + + _Tornaram-se-me em estrellas_ + _As lagrimas de dôr._ + +Versos ha tambem nas _Flores do Campo_ defeituosos pela disposição dos +accentos predominantes. Bastam tres exemplos em versos decassyllabos: + + Ha puros sonhos de imaginação. + + E eu digo, digo á luz scismadora. + + Expôz aos coices... leão moribundo. + +Mas um verso completamente errado, e que por certo não sahiu assim da +penna de João de Deus, é aquelle + + Que fez tremer as abobadas do inferno. + +Não é necessario ser auctor das _Flores do Campo_, para condemnar um +verso tal. Descuido do impressor, e falta de cuidado na revisão, +occasionaram aquelle erro, a que de prompto se obviaria com a suppressão +de dous _ss_ inuteis. + +O que para alguém não será defeito, mas que para muitos torna +inintelligiveis algumas passagens, do livro, é, por vezes o abstruso da +ideia, velada por sombras impenetraveis. Dá-me tu, se podes, a chave +d'este enigma: + + Oh! ha tres vistas com que as coisas vêmos; + Ha tres rasões que as coisas determinam; + Uma a dos olhos; outra a que escondemos + N'isso ante que os álamos se inclinam; + Outra a que dentro no coração temos, + Que os limites do espaço só terminam: + Coube a primeira em sorte á borboleta; + A outra ao homem; a terceira ao poeta. + +E quando João de Deus, á vista d'um retrato, exclama: + + És tu! Amo-te e muito! O que fluctua + Na fornalha que o sopro eterno acende, + Não beija a mão do anjo que o suspende + Com mais amor que eu beijo a sombra tua!» + +Quem é que fluctua na fornalha acesa pelo sôpro eterno? Será o sol? + +Especialmente n'aquelle fragmento que principia na pagina 130, mais +alguns pontos se me deparam, para cuja interpretação me não sinto com +forças. Não te faço mais citações, a este proposito, porque bem póde ser +que toda a gente penetre o que para mim é escuro. Demais d'isto, +parece-me que o poeta nem sempre tem obrigação restricta de moldar os +vôos da sua imaginação pela myopia dos que só podem curvar-se diante das +nuvens que velam a sarça ardente... + +Agora, vaes talvez esquecer as manchas que divisastes n'esta joia +litteraria, para festejares comigo quadros esplendidos de poesia +originalissima, rica de sentimento, de graça e de harmonia. + +Originalidades litterarias, poucos ha, já agora, que n'ellas creiam. +Escorre de vez em quando, por ahi uma sanie de novidade tão asquerosa +pelas folhas volantes da nossa litteratura de hoje, que os apreciadores +de pituitaria melindrosa, não ha quem os desatrelle da sentença de que +_tudo o que é novo é mau, e que tudo o que é bom é velho_. + +_Nihil sub sole novum!_--cantava o Gessner biblico, asseguravam os +juizes de Galileu, e rouqueja Boileau com os demais amphyctiões da +litteratura. Respeitemos o talento; mas aos que duvidam da grandeza do +genio, e pedem ao passado a chave do futuro, atiremos-lhe á face com a +resposta de Galileu:--_E pur si muove._-- + +Admittida a originalidade, moldada pelo bom gosto, devemos saudal-a em +João de Deus, o poeta mais original que eu conheço entre os nossos +homens de letras. Estudo João de Deus, dês que leio versos, e ainda não +pude encontrar o segredo d'aquella harmonia tão sua, d'aquella elegancia +tão despretenciosa, d'aquelle sentimento que tanto nos captiva a alma, +sem sabermos como. + +Ou eu me engano muito, ou da poesia de João de Deus me vêm uns aromas +que não desdizem d'aquella fragrancia que o esposo dos _Canticos_ +aspirava nos jardins da Sulamite biblica; d'aquella gravidade scismadora +que resaltava das cordas do psalterio de David; d'aquelle adejar sublime +e vago da aguia de Páthmos. Tranemos agora o mar dos seculos, ponhamos +ao lado das _Flores do Campo_ as fantazias de Schiller a Laura, e verás +que muitos arrojos da imaginação do bardo portuguez não desmerecem a +companhia dos do bardo do norte. + +Mas, sobretudo, o que mais me enfeitiça nas _Flores do Campo_ é aquelle +mimo e suavidade que matizam estrophes como estas: + + Ah! quando no seu collo reclinado + --Collo mais puro e candido que arminho,-- + Como abelha na flôr do rosmaninho + Osculava seu labio perfumado; + + Quando á luz dos seus olhos... (que era vêl-os, + E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!) + Lia na sua bôca a Biblia Santa + Escripta em letra côr dos seus cabellos; + + Quando a sua mãosinha pondo um dedo + Em seus labios de rosa pouco aberta, + Como timida pomba sempre álerta, + Me impunha ora silencio, ora segredo; + + ..................................... + + Quando em balsamo d'alma piedosa + Ungia as mãos da supplice indigencia, + Como a nuvem nas mãos da Providencia + Um lagrima estila em flôr sequiosa; + + Quando a cruz do collar do seu pescoço + Estendendo-me os braços, como estende + O symbolo d'amor que as almas prende, + Me dizia... o que ás mais dizer não ouço; + + ........................................ + + Tinha o céo da minha alma as sete côres, + Valia-me este mundo um paraizo, + Distillava-se a alma em dôce riso, + Debaixo dos meus pés nasciam flôres. + +É assim que João de Deus se recorda da visão fugitiva que lhe doirou os +sonhos de poeta e moço. Mais adiante, parece esquecer o lucto da +saudade, mas não perde a doçura da harmonia: + + Como os teus pés são lindos! como é doce + A curva do teu peito! + Oh! se o meu coração fosse o teu leito, + E o teu amado eu fosse! + + Que preciosas perolas descobre + Teu meigo, humilde labio! + E virgem! como Deus foi justo e sabio + Em te deixar tão pobre! + + .................................... + ........................ + Tu não tens mais do que uma pobre saia, + E essa, curtinha e leve. + + Onde o corpo te alteia, a saia avulta; + Onde te abaixa, desce... + És como a rosa! A rosa nasce e cresce, + Não para estar occulta. + + O que te falta, pois? os teus desejos + Quaes são? de que precisas? + Ah! não ser eu o marmore que pisas... + Calçava-te de beijos! + +Ao terminar a transcripção d'este mimosissimo trecho, sinto não poder +attribuir a João de Deus a chave que o fecha. O aprimorado e suave +oratoriano Manoel Bernardes já tinha dito na sua excellente _Luz e +Calor_, fallando a Jesus menino: + + «Menino da minha alma, meu eterno nascido de ainda agora, meu + gracioso molhinho de amores perfeytos, minhas bellezas encantadoras + do coração humano: faze-me Serafim, para que te ame muito: dá-me + limpeza grande em meus labios _para calçar teus pésinhos de mil + osculos santos_: deyxa cahir das conchinhas de teus olhos hua + lagryma sobre meu peyto, etc.» (Pag, 556, ediç. 1724.) + +Mas que importa isso? Prouvera a Deus que os plagiatos, de que a +litteratura anda eivada, se pautassem por este! + +Vivacidade de expressão, galanteria e graça, podes vêr d'isso um modelo +no madrigal, epigramma, ou como quizeres chamar-lhe, feito _A uns olhos +azues_: + + Cáe a folha da rosa pudibunda, + Cáe a rosa da face virginal, + Cáe das nuvens a aguia moribunda, + Cáe o sol na montanha occidental. + + ................................. + + Cáe do céo a centelha incendiaria, + A nuvem cáe, se um sopro Deus lhe dá, + Cáe ante o dia a noite solitaria + Como o falso Dagon ante Jehovah. + + Cáe tudo, flôr! cáe tudo; eu só não caio: + Mais do que um rei, que o sol, egual a Deus, + Cahir, mulher! só posso á luz d'um raio + Se elle cahir do céo dos olhos teus! + +De vez em quando, o poeta apparece-nos pensador e philosopho; mas, ainda +assim, a razão não vence o sentimento: + + Irmãs da Caridade! A Caridade + Tem só duas irmãs--a Fé e a Esperança: + Não traja as côres só d'uma irmandade, + Traja as côres do Arco da Alliança; + Leva sósinha o pão da piedade; + Tira da roda essa infeliz criança... + + .................................... + +Mais longe iria eu, se me propozesse trancrever tudo o que nas _Flores +do Campo_ se apresenta digno dos mais levantados encomios. Assim, por +não alongar em demasia a presente carta, recommendo-te a leitura da +_Heresta_, da _Rachel_, do _Ultimo adeus_, da _Marina_, do _Remoinho_, +do _Leito nupcial_, da _Innocencia_, da _Joven captiva_, e, muito +especialmente, do _Cantico dos canticos de Salomão_. + +Lamennais e Renan haviam traduzido esplendidamente o _Cantico dos +canticos_; João de Deus inspirou-se da pastoral de Sulem, e fez um poema +quasi seu: seu pela fórma, pelo colorido, e pela disposição das scenas. + +O _Cantico dos canticos_ pertence, como sabes, ao numero dos livros +sagrados, e é ponto inconcusso, entre os padres da Egreja, que os +desposorios de que falla Salomão exprimem a união mystica do Verbo +incarnado com a natureza humana, com a Egreja e com as almas justas. + +Os presidentes da synagoga judaica prohibiam a leitura d'este livro a +quem não tivesse mais de trinta annos; e, ainda em tempos do piedoso +João Gerson, nem os doutores o liam antes d'essa edade. E de feito nem +Theocrito nem Florian deram jámais aos seus idylios aquelle perfume +voluptuoso que, por entre flôres de poesia immorredoira, livremente se +respira no idylio de Salomão. + +Theodoro Mopsueste teve o ousio de ligar a esse idylio um sentido +exterior, e não mystico, interpretando-o litteralmente, mas foi +condemnado pelo segundo concilio de Constantinopla. Hoje não ha temor de +que a Egreja condemne João de Deus, e todos os que separam da poesia o +dogma, talvez porque a Egreja, boa mãe, não quer vêr o mundo coalhado de +herejes. + +E que importam ao leitor as convicções de João de Deus? A alma piedosa +que se edificava na contemplação dos amores da Sulamite, pela versão de +S. Jeronymo, que perde ella contemplando-os na lingua de Camões? «Para +um coração puro, tudo é puro.»--É palavra de Deus, com que o poeta se +auctorisa para trazer a lume a interpretação litteral do _Cantico dos +canticos_. + +Já agora, apezar da extensão d'esta carta, deixa-me ainda expôr á tua +vista algumas das paizagens mais seductoras d'este paraizo de amor, onde +a volupia oriental se escoa semi-nua por ondulantes pradarias em flôr. +Ouve: + + A SALUMENSE. + + Sou trigueira, mas formosa, + Moças de Jerusalem! + Senão, vêde o pavilhão + Que arma em campo Salomão, + Se ha coisa mais preciosa, + E por fóra a cór que tem; + Vêde as barracas dos moiros, + Por dentro tantos thesoiros, + Por fóra, negras tambem. + + Não vos dê pois isso pena + Ter assim a côr morena: + Minha mãe mandou-me pôr, + Por culpa de meus irmãos, + De guarda á vinha; o calor + Queimou-me o rosto e as mãos + E eu, a vinha, é escusado + Dizer-vos que nem eu tinha + Senão agora o cuidado + De estar a guardar a vinha. + Oh! para que banda vás + Com o gado, meus amores! + E pela folga onde estás? + Bem vês os outros pastores, + E a gente não adivinha. + Eu não hei de andar atrás + D'esses rebanhos sósinha. + + ......................... + + + SALOMÃO. + + Que enlevo! que formosura! + A pomba não tem de certo + No olhar tanta doçura: + E fóra o que anda encoberto. + + O cabello, em quantidade + E tamanho, é singular; + E não me lembra senão + Das cabras de Galaad + Ques lhes roja pelo chão + Em ellas indo a andar. + + Os dentes, em tu abrindo + A tua boca, que lindo! + Nem um rebanho de ovelhas + Todas brancas e parelhas + Quando em sendo tosquiadas + Vêem sahindo do banho + D'uma em uma, enfileiradas, + E atrás d'ellas cada uma + Seus dois gemeos d'um tamanho, + Sem ser maninha nenhuma. + + Pois a boca é comparada + A uma fita encarnada. + A voz, ouvil-a é um gosto. + Parte a romã pelo meio + Verás as rosas do rosto; + E fóra no que eu receio + Fallar, que me não é dado. + + O pescoço, pensa a gente, + Em o vendo de collares, + Que é a torre exactamente + De David n'esses ares, + De baluartes, e toda, + Lá cima, escudos á roda. + + Os peitos, é um casal + De corcinhas, que o seu pasto + São açucenas do valle: + Nada mais timido e casto. + E deitam um cheiro á gomma + Da myrrha mais do incenso, + A ponto que ás vezes penso + Que elles são duas collinas + Por onde aquellas resinas + Espalham aquelle aroma. + +Se a esta hora me não accusasses de abuso de paciencia, ainda te repetia +toda aquella mimosa _carta_ que principia: + + Maria! vêr-te á porta a fazer meia, + Olhando para mim de vez em quando, + É o que n'esta vida me recreia. + + Acordo até de noite, suspirando + Por que rompa a manhã, e tenha o gosto + De te vêr já tão cedo trabalhando. + + Desde pela manhã até sol posto, + Que não tens de descanço um só momento; + Por isso tens tão bella côr do rosto! + + E eu pallido, Maria! o pensamento + Não é trabalho que nos dê saude, + --Esta imaginação é um tormento!...[10] + +Mas... basta. O livro de João de Deus tem defeitos: escaceia a revezes a +ligação dos pensamentos, a clareza das ideias, a exactidão do metro, a +perfeição da rima, e não metteria uma lança em Africa o linguista que +nas _Flores do Campo_ descortinasse, uma vez por outra, impureza e +incorrecções de linguagem. Se, porém, eu mirasse a comprovar, n'esta +rapida e singela revista, com os versos de João de Deus a sympathia e a +admiração que elles me devem, não seria este o espaço que abrangesse +tudo o que alli me pareceu filho d'uma inspiração verdadeira e original. +Demais, o poeta não lucraria com estas transcripções a esmo, sobre não +poderes fazer do livro uma ideia exacta, á mingua de apreciador +conspicuo. + +Alexandre Herculano diz bem: a critica em Portugal é impossivel. Mas se +nós todos cruzarmos os braços diante dos Ananias da litteratura que +introduzem a mercancia do encomio, o servilismo e a chocarrice no +santuario das letras, quem expulsará ámanhã os vendilhões, do templo? Já +que me não ouvem, prega tu a estas multidões que não sabem o que amam, +nem o que detestam; e praza a Deus que a tua voz não seja a voz do que +bradava no deserto. + + +Post-scriptum + +Bem avisado andei eu, quando, a proposito dos versos obscuros de João de +Deus, tive a franqueza de conceder que toda a gente penetrasse o que +para mim era obscuro. Os versos nublosos que lá citei, eram, pelo que me +dizem, claros como agua. Um amigo nosso, optimo charadista ao que +parece, pôz-me tudo em pratos limpos; e, pelos modos, o nosso OEdipo tem +artes para desdar o nó aos mais envencilhados enigmas da mais implacavel +Sphynge. Ora eu, que respeito o mysterio mas desadoro o enigma, e a quem +nunca charadas desvelaram as noites, não pasmei de vêr luz onde se me +antolhavam trevas. O discipulo amado de Jesus não jubilaria tanto, se +visse quebrar os sete sêllos do livro que elle viu na visão do +Apocalypse, como eu jubilei quando, a par de outras revelações, soube +que o individuo que _fluctua na fornalha accêsa pelo sopro eterno_ é o +anjo que as lendas piedosas figuram no purgatorio, dando a mão aos que +lá se purgam das culpas temporaes para subirem ás regiões do premio +eterno. + +Pelo que vejo, a decifração não era para fazer suar o cabello; mas +confesso-te que, se cem braços eu tivera, como Briareu, para revolver o +embotado escalpello da minha critica, cem braços me desfalleceriam +diante dos cem olhos d'estes Argos que espreitam maliciosos o rumo +indeciso dos mineiros obscuros da justiça e da verdade... + +Seguiu-se-me noite de insomnia. Visões estranhas vieram povoar-me o +leito. Sobre o meu travesseiro dormiam comigo as magestosas _Torrentes_ +de Theophilo Braga, livro de que, em seguida ás _Flores do Campo_, eu +contava fallar-te. Por cima de mim, por cima do livro, emtorno do meu +leito, adejavam uns demoniosinhos, microscopicos como os lilliputianos +de Gulliver: uns expediam risadinhas agudas, como de feiticeiras em +noites de S. João; outros folheavam o livro e dobravam os joelhos por +baixo das estrophes de mais levantada inspiração; estes murmuravam +monotono kyrie em volta do livro, arrancando-m'o da mão, como da mão +d'um profano se arranca a hostia sacrosanta; aquelles desfaziam o livro +em tiras, entreteciam com ellas uma corôa, e collocavam-n'a na cabeça. +Se me voltava para a direita, os da esquerda escouceavam-me com um +arreganho diabolico; se me voltava para a esquerda, os da direita +afiavam a pequenina dentadura, e arranhavam-me as pantorrilhas. O +equilibrio era impossivel: esmagava-me um pesadelo! Acordei. + +Sobre a minha meza de trabalho estava um livro, notavel pela +despretenção e suavidade do estylo, e pelo primor da versificação, sobre +ser escripto em portuguez sem mistura; mas apenas no frontispicio li o +nome de Antonio Feliciano de Castilho, passou-me pela mente a visão das +_Torrentes_, e os lilliputianos da noite acercaram-se do _Medico á +força_, reproduzindo os sarcasmos ou as ovações, os afagos ou as +mordeduras, consoante as tendencias de cada qual. + +Estava entre a bigorna e o martello, entre a cruz e a caldeirinha. Quem +me salvaria de posição tão melindrosa? Um esforço supremo: fechar as +_Torrentes_ e o _Medico á força_, e não aventurar juizo sobre estes +notaveis livros. + +Suspendo, pois, a revista do anno litterario de 1869, em quanto me vier +á ideia aquella visão aterradora. Sinto-me com algumas forças para +luctar com os lilliputianos da visão, mas não me sinto com paciencia +para lhes soffrer os motejos e os tripudios, as risadinhas e as +beliscaduras. Quero dormir a somno solto, e levar estas noites de +Coimbra a sonhar sem pesadêlos, em paz com anjos e demonios, e até com +os individuos das mais infimas classes animaes. + +Não quero luctar como Chatterton. Chatterton luctou, mas teve depois +Vigny que o cingiu de louros, immortalisando-o. A troco da +immortalidade, ainda eu me atiraria á lucta: ve lá se queres ser o meu +Alfred de Vigny.[11] + + *Candido de Figueiredo.* + + [10] Já que ao generoso critico merece especial menção a _carta_, + advertiremos que o primeiro verso da ultima quadra é assim: + + Nas asas da ventura atravessando. + + [11] A Folha, (1869) n.º 7, 8, 9 e 10. + + +Fim das criticas das "Flores do Campo." + + * * * * * + + + + +INDEX + + +RAMO DE FLORES + +I--Sede de amor 5 + +II--Lamento 13 + +III--Enlevo 15 + +IV--Sempre 19 + +V--Espera 21 + +VI--Adeos 23 + +VII--Melancholia 25 + +VIII--Sympathia 29 + +IX--11 de Maio 31 + +X--Attracção 35 + +XI--Desânimo 37 + +XII--N'um Album 41 + +XIII--O seu nome 43 + +XIV--Saudade 51 + +XV--* * * 57 + + +Criticas das Flores do Campo + +Flores do Campo, por Alexandre da Conceição 63 + +Livros--Revista critica-bibliographica, por Luciano Cordeiro 75 + +Flores do Campo, por D. Guiomar D. Torrezão 105 + +Anno litterario de 1869, por Candido de Figueiredo 113 + + +FIM DO INDEX. + + + * * * * * + + + + +Á VENDA + +NA + +LIVRARIA INTERNACIONAL + +DE + +ERNESTO CHARDRON + + +Obras de fundo e edições: + + *Memorias* de Fr. João de S. Joseph Queiroz, bispo do Gran-Pará. Com + uma introducção e muitas notas illustrativas, por C. C. Branco. + 1 volume. 500 + + *Poesias e prosas ineditas* de Fernão Rodrigues Lobo Soropita, com uma + introducção e notas por Camillo Castello Branco. 1 volume. 500 + + *Ponson du Terrail.*--Os Filhos de Judas, Tomo 1.º Um conto das mil e + uma noites.--2.º O amor fatal. 2 volumes. 1$000 + + *Estudos de Escripturação Mercantil*, por J. M. Outeiro. Segunda + edição consideravelmente augmentada. 1 vol. 1000 + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Ramo de Flores, by João de Deus + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RAMO DE FLORES *** + +***** This file should be named 24847-8.txt or 24847-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/8/4/24847/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit http://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/24847-8.zip b/24847-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..764881a --- /dev/null +++ b/24847-8.zip diff --git a/24847-h.zip b/24847-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..47d9486 --- /dev/null +++ b/24847-h.zip diff --git a/24847-h/24847-h.htm b/24847-h/24847-h.htm new file mode 100644 index 0000000..a665d9c --- /dev/null +++ b/24847-h/24847-h.htm @@ -0,0 +1,4069 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> + +<head> + <title>Ramo de Flores</title> + <meta name="AUTHOR" content="João de Deus"> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1"> + <meta name="KEYWORDS" content=""> + <style type="text/css"> +@media print { +.pagenum { display: none;} +} +@media handheld { +.pagenum { display: none;} +} +body {width: 520px; margin-left: 90px;} +.pagenum {font-size: 0.8em; color: #999999; position:absolute; left: 630px;} +.capa {text-align: center; border: solid 1px #000000;} +hr { + border: none; + border-bottom: solid 2px #000000; +} +h2, h3, h4, h5 {margin-top: 2em; text-align: center;} +h1 {text-align: center; margin-top: 2em; margin-bottom: 2em;} +p {text-indent: 1em; text-align: justify;} +.small-caps { +font-variant: small-caps; +} +a {text-decoration: none; font-size: 70%;} +.direita { +text-align: right; +} +.centrado { +text-align: center; +} +.citacao { +margin-left: 40%; +margin-right: 5%; +font-size: 0.8em; +text-align: left; +} +.poesia { +margin: 2em; +text-align: left; +} + +#parte2 .poesia { +margin: 2em; +text-align: left; +font-size: 0.9em; +} + +.rodape { +margin: 2em; +} +.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000000;} +.corpo { +text-indent: 1em; +} +</style> +</head> +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Ramo de Flores, by João de Deus + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Ramo de Flores + acompanhado de varias criticas das Flores do Campo + +Author: João de Deus + +Commentator: Alexandre da Conceição + Luciano Cordeiro + Guiomar D. Torrezão + António Cândido de Figueiredo + +Release Date: March 16, 2008 [EBook #24847] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RAMO DE FLORES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<br> +<br> +<br> +<br> +<h1>RAMO DE FLORES</h1> +<br> +<br> +<br> +<br> +<div class="capa"> +<h1>RAMO DE FLORES</h1> + +<h5>POR</h5> + +<h2>JOÃO DE DEUS</h2> + +<hr style="width: 20%"> + +<h3>ACOMPANHADO DE VARIAS</h3> + +<h3>CRITICAS DAS FLORES DO CAMPO</h3> +<br> +<br> +<br> +<br> +<hr style="width: 20%"> +<br> +<br> +<br> +<br> +<h5>PORTO +<br> +<SPAN class="small-caps">Typ. da Livraria Nacional</SPAN> +<br> +2—Rua do Laranjal—22 +<br> +1869.</h5> +</div> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag5">[5]</a></span> + + +<h1>RAMO DE FLORES</h1> + + +<hr style="width: 20%"> + + +<h2>I</h2> + +<h2>SÊDE DE AMOR</h2> + + +<h3>I</h3> + +<div class="poesia"> +Vi-te uma vez e (novo<br> +Extranho caso foi!)<br> +Por entre tanto povo...<br> +Tanta mulher... Suppõe<br> +<span class="pagenum"><a name="pag6">[6]</a></span> +<br> +Que mãe estremecida<br> +Via o seu filho andar<br> +Sobre muralha erguida,<br> +Onde o fizesse ir dar<br> +<br> +Aquelle remoinho,<br> +Aquella inquietação<br> +D'um pobre innocentinho<br> +Ainda sem razão!<br> +<br> +E ora estendendo os braços...<br> +Ora apertando as mãos...<br> +Vendo-lhe o gesto, os passos,<br> +Quantos esforços vãos,<br> +<br> +O triste na cimalha<br> +Faz por voltar atraz...<br> +Sem vêr como lhe valha!<br> +A vêr o que elle faz!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag7">[7]</a></span> +<br> +Pallida, exhausta, muda,<br> +Os olhos uns tições,<br> +Com que, a tremer, lhe estuda<br> +As mesmas pulsações...<br> +<br> +(Porque não é mais fundo<br> +O mar no equador,<br> +Nem é todo este mundo<br> +Maior do que esse amor!<br> +<br> +Mais vasto, largo e extenso<br> +Todo esse céo tambem<br> +Do que o amor immenso<br> +D'um coração de mãe!)<br> +<br> +Assim, n'essa agonia...<br> +N'essa intima avidez...<br> +É que entre os mais te eu ia<br> +Seguindo d'essa vez!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag8">[8]</a></span> +<br> +Porque te adoro!... a ponto,<br> +Que ainda hoje, crê!<br> +Escuto e oiço e conto<br> +Os grãos de arêa até,<br> +<br> +Que tu, mulher! andando<br> +Fazias estalar<br> +Já mesmo longe e... quando<br> +Deixei de te avistar!<br> +</div> + +<h3>II</h3> + +<div class="poesia"> + Os olhos são<br> + D'uma expressão!<br> + Que linda bôca!<br> + O pé nem toca,<br> + De leve, o chão!<br> +<br> + Aquelle pé<br> + De leve até<br> +<span class="pagenum"><a name="pag9">[9]</a></span> + Nem se elle sente!<br> + E sente a gente<br> + Não sei o que é...<br> +<br> + E a graça, o ar,<br> + D'aquelle a andar!<br> + Que véla passa<br> + Com tanta graça<br> + Á flôr do mar!<br> +<br> + Os olhos vêr<br> + Um só volver<br> + De olhar tão dôce,<br> + Que mais não fosse...<br> + Era morrer!<br> +<br> + Os dentes sãos<br> + E tão irmãos<br> + E tão luzentes!<br> + Que bellos dentes!<br> + Que lindas mãos!<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag10">[10]</a></span> + + +<h3>III</h3> + +<div class="poesia"> +Estrella, nuvem, ave,<br> +Perfume, aragem, flôr!<br> +Consola-me! distilla,<br> +Da languida pupilla,<br> +O balsamo suave<br> +De um desditoso amor!<br> + Estrella, nuvem, ave,<br> +Perfume, aragem, flôr!<br> +<br> +A flôr, de que és imagem,<br> +A flôr, de que és irmã,<br> +Sacia-se, e desata<br> +O seu collar de prata<br> +Aos beijos da aragem,<br> +Aos risos da manhã!...<br> + A flôr, de que és imagem,<br> +A flôr, de que és irmã!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag11">[11]</a></span> +<br> +A perola que encerra<br> +A flôr, é sua? Não.<br> +O pranto que a amima,<br> +Cahiu-lhe lá de cima<br> +Para cahir na terra,<br> +Para cahir no chão!<br> + A perola que encerra<br> +A flôr, é sua? Não!<br> +<br> +Tu já mataste a sêde,<br> +Mata-me a sêde a mim!<br> +Se em nuvem piedosa<br> +Te refrescaste, rosa!<br> +Tambem em ti eu hei de<br> +Refrigerar-me!... sim!<br> + Tu já mataste a sêde,<br> +Mata-me a sêde a mim!<br> +<br> +É para que me orvalhes<br> +Que te orvalhou o céo!<br> +O liquido que veio<br> +Aljofarar-te o seio<br> +<span class="pagenum"><a name="pag12">[12]</a></span> +Bem é tambem que o espalhes<br> +No chão... o chão sou eu!<br> + É para que me orvalhes,<br> +Que te orvalhou o céo!<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag13">[13]</a></span> + + + + +<h2>II</h2> + +<h2>LAMENTO</h2> + + +<div class="poesia"> +Senhor! Senhor! que um ai nunca me ouviste<br> + Na minha dôr!<br> +Ai vida, vida minha, como és triste!...<br> + Senhor! Senhor!<br> +<br> +Quando eu nasci, o sol cobriu o rosto<br> + Mal que eu o vi!<br> +Tingiu-se o céo de sangue, e era sol-posto,<br> + Quando eu nasci!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag14">[14]</a></span> +<br> +Pela manhã, a rosa era mais alva<br> + Que a alva lã!<br> +E o cravo desmaiou á estrella-d'alva,<br> + Pela manhã!<br> +<br> +Ao longe, o mar se ouviu, leão piedoso,<br> + Um ai soltar!<br> +Pelas praias, se ouviu gemer ancioso,<br> + Ao longe, o mar!<br> +<br> +Oh roixinol! a ti, nasce-te o dia<br> + Ao pôr do sol!<br> +Mostre-me a campa a luz que te alumia,<br> + Oh roixinol!<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag15">[15]</a></span> + + + + +<h2>III</h2> + +<h2>ENLEVO</h2> + + +<div class="poesia"> +Não brilha o sol,<br> +Nem póde a lua<br> +Brilhar na sua<br> +Presença d'ella!..<br> +Nenhuma estrella<br> +Brilha deante<br> +Da minha amante,<br> +Da minha amada!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag16">[16]</a></span> +<br> +A madrugada<br> +Quanto não perde!<br> +O campo verde<br> +Quanto esmorece!<br> +Quanto parece<br> +A voz da ave<br> +Menos suave<br> +Que a sua falla!<br> +<br> +A flôr exhala<br> +Menos perfume<br> +Do que é costume<br> +O seu cabello!<br> +Que basta vêl-o,<br> +Prende-se a gente!<br> +Prende-se e sente<br> +Gosto ineffavel!<br> +<br> +Que riso affavel<br> +Aquelle riso!<br> +Que paraíso<br> +Aquella bôca!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag17">[17]</a></span> +Penetra, toca,<br> +Enche de inveja<br> +Um ar que seja<br> +Da sua graça!<br> +<br> +Onde ella passa,<br> +Onde ella chega,<br> +Quem lhe não prega<br> +Olhos avaros!<br> +Ha dotes raros,<br> +Rara doçura<br> +N'aquella pura<br> +Casta existencia!<br> +<br> +Oh! que innocencia<br> +Que ella respira!<br> +A alma aspira<br> +Não sei que aroma<br> +Mal nos assoma<br> +Ao longe aquella<br> +Pallida estrella,<br> +Que rege o mundo!...<br> +<span class="pagenum"><a name="pag18">[18]</a></span> +<br> +Nunca do fundo<br> +Do oceano<br> +Foi braço humano<br> +Colher tão linda<br> +Perola ainda,<br> +Como a formosa<br> +Candida rosa<br> +Que eu amo tanto!<br> +<br> +Não sei de santo<br> +Que ha no seu gesto!<br> +No ar modesto<br> +D'aquelle todo...<br> +N'aquelle modo...<br> +Que tudo esquece,<br> +E nos parece<br> +Estar no céo!<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag19">[19]</a></span> + + +<h2>IV</h2> + +<h2>SEMPRE!</h2> + +<div class="poesia"> +Pensas que te não vejo a ti? Bom era!<br> +Gravei tão vivamente n'alma a dôce<br> +E bella imagem tua, que eu quizera<br> +Deixar de contemplar-te, só que fosse<br> +Um momento, e não posso, não consigo!<br> +<br> +Foges-me, escondes-te e que importa? Esculpes<br> +Mais fundo ainda os indeleveis traços!<br> +Realça-te o retrato! E não me culpes!<br> +Culpa-te antes a ti!... Sigo-te os passos!...<br> +Vejo-te sempre!... trago-te comigo!...<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag20">[20]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag21">[21]</a></span> + + +<h2>V</h2> + +<h2>ESPERA!</h2> + +<div class="poesia"> +Uivaria de amor a féra bruta<br> +Que pela grenha te sentisse a mão!<br> +E eu não sou féra, pomba! Espera! Escuta!<br> + Eu tenho coração!<br> +<br> +Não é mais preto o ébano que as tranças<br> +Que adornam o teu collo seductor!<br> +Ai não me fujas, pomba! que me canças!<br> + Não fujas, meu amor!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag22">[22]</a></span> +<br> +A mim nasceu-me o sol, rompeu-me o dia<br> +Da noite escura d'olhos taes, mulher!<br> +Não me apagues a luz que me alumia<br> + Senão quando eu morrer!<br> +<br> +Eu não te peço a ti que as mãos de neve,<br> +Os dedos afusados d'essas mãos,<br> +Me toquem estas minhas nem de leve...<br> + Seriam rogos vãos!<br> +<br> +Não te peço que os labios nacarados<br> +Me deixem esses dentes alvejar,<br> +Trocando, n'um sorriso, os meus cuidados<br> + Em extasis sem par!<br> +<br> +Mas uivando de amor a bruta féra<br> +Que pela grenha te sentisse a mão,<br> +Eu não sou féra, pomba! escuta, espera!<br> + Eu tenho coração!<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag23">[23]</a></span> + + +<h2>VI</h2> + +<h2>ADEUS</h2> + +<div class="poesia"> +A ti, que em astros desenhei nos céos,<br> +A ti, que em nuvens desenhei nos ares,<br> +A ti, que em ondas desenhei nos mares,<br> +A ti, bom anjo! o derradeiro adeus!<br> +<br> +Parto! Se um dia (que é possivel flôr!)<br> +Vires ao longe negrejar um vulto,<br> +Sou eu que aos olhos d'esta gente occulto<br> +O nosso immenso desgraçado amor.<br> +<span class="pagenum"><a name="pag24">[24]</a></span> +<br> +Talvez as féras ao ouvir meus ais,<br> +As brutas selvas, as montanhas brutas,<br> +Concavas rochas, solitarias grutas,<br> +Mais se condoam, se commovam mais!<br> +<br> +E lá d'aquellas solidões se aqui<br> +Chegar gemido que uma pedra estala,<br> +Que um cedro vibra, que um carvalho abala,<br> +Sou eu que o solto por amor de ti...<br> +<br> +De ti! que em folha que varrer o ar,<br> +Em rama, em sombra que bandeie a aragem,<br> +De fito sempre n'essa cara imagem<br> +Verei, sorrindo, sentirei passar!<br> +<br> +De ti, que em astros desenhei nos céos!<br> +De ti, que em nuvens desenhei nos ares!<br> +De ti, que em ondas desenhei nos mares,<br> +E a quem envio o derradeiro adeus!<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag25">[25]</a></span> + + +<h2>VII</h2> + +<h2>MELANCOLIA</h2> + +<div class="poesia"> +Oh dôce luz! oh lua!<br> +Que luz suave a tua,<br> +E como se insinua<br> +Em alma que fluctua<br> +De engano em desengano!<br> + Oh creação sublime!<br> +A tua luz reprime<br> +As tentações do crime,<br> +E á dôr que nos opprime<br> +Abres-lhe um oceano!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag26">[26]</a></span> +<br> +É esse céo um lago,<br> +E tu, reflexo vago<br> +D'um sol, como o que eu trago<br> +No seio, onde o afago,<br> +No seio, onde o aperto?<br> + Oh luz orphã do dia!<br> +Que mystica harmonia<br> +Ha n'essa luz tão fria,<br> +E a sombra que me guia<br> +N'este areal deserto!<br> +<br> +Embora as nuvens trajem<br> +De dia outra roupagem,<br> +O sol, de que és imagem,<br> +Não tem essa linguagem<br> +Que encanta, que namora!<br> + Fita-te a gente, estuda,<br> +(Sem mêdo que se illuda)<br> +Essa linguagem muda...<br> +O teu olhar ajuda...<br> +E a gente sente e chora!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag27">[27]</a></span> +<br> +Ah! sempre que descrevas<br> +A orbita que levas,<br> +Confia-me o que escrevas<br> +De quanto vês nas trevas,<br> +Que a luz do sol encobre!<br> + As victimas, que escutas,<br> +De traças mais astutas<br> +Que as d'essas féras brutas...<br> +E as lastimas, as luctas<br> +Da orphã e do pobre!<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag28">[28]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag29">[29]</a></span> + + +<h2>VIII</h2> + +<h2>SYMPATIA</h2> + +<div class="poesia"> +Olhas-me tu<br> +Constantemente:<br> +D'ahi concluo<br> +Que essa alma sente!...<br> +Que ama, não zomba,<br> +Como é vulgar;<br> +Que é uma pomba<br> +Que busca o par!...<br> +<span class="pagenum"><a name="pag30">[30]</a></span> +<br> + Pois ouve; eu gemo<br> +De te não vêr!<br> +E em vendo, tremo<br> +Mas de prazer!...<br> +Foge-me a vista...<br> +Falta-me o ar...<br> +Vê quanto dista<br> +D'aqui a amar!<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag31">[31]</a></span> + + +<h2>IX</h2> + +<h2>11 DE MAIO</h2> + +<div class="poesia"> +Se eu fosse nuvem tinha immensa magoa<br> +Não te servindo d'azas maternaes<br> +Que te podessem abrigar da agoa<br> + Que chovesse das mais!<br> +<br> +E sendo eu onda, tinha magoa summa<br> +Não te podendo a ti, mulher, levar<br> +De praia em praia, sobre a alva espuma.<br> + Sem nunca te molhar!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag32">[32]</a></span> +<br> +E sendo aragem, eu, que pela face<br> +Te roçasse de rijo, alguma vez<br> +Que o Senhor com mais força respirasse,<br> + Que magoa immensa... Vês!<br> +<br> +E a luz do teu olhar que me não lusa<br> +Um rapido momento, a mim, sequer,<br> +Como a aguia no ar... que passa e cruza<br> + A terra sem n'a vêr!<br> +<br> +Mas que me importa a mim! Se me esmagasses<br> +Um dia aos pés o coração a mim,<br> +As vozes que lhe ouviras se escutasses,<br> + Era o teu nome... Sim!<br> +<br> +O teu nome gemido docemente<br> +Com toda a fé d'um martyr em Jesus,<br> +Se acaso já em Christo pôz um crente<br> + A fé que eu em ti puz!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag33">[33]</a></span> +<br> +A fé, mais o amor! Porque elle expira<br> +Sem que a ninguem lhe estale o coração,<br> +E eu, se essa cruz dos olhos me fugira,<br> + Sobrevivia? Não!<br> +<br> +Assim como em ti vivo, morreria<br> +Tambem comtigo, se uma vez (que horror!)<br> +Te visse pôr, oh sol!... sol do meu dia!<br> + Astro do meu amor!<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag34">[34]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag35">[35]</a></span> + + +<h2>X</h2> + +<h2>ATTRACÇÃO</h2> + +<div class="poesia"> + Meus olhos sempre inquietos<br> +Que posso até dizer,<br> +Só acham n'alma objectos<br> +Que os possam entreter;<br> +<br> + Meus olhos... coisa rara!<br> +Porque hão de em ti parar<br> +Como a corrente pára<br> +Em encontrando o mar!?<br> +<span class="pagenum"><a name="pag36">[36]</a></span> +<br> + E penso n'isto, scismo...<br> +Mas é tão natural<br> +Cahir-se no abysmo<br> +D'uma belleza tal!...<br> +<br> + Olhei!... Foi indiscreta<br> +A vista que te puz.<br> +A pobre borboleta<br> +Viu luz... cahiu na luz!<br> +<br> + Uma attracção mais forte<br> +Que toda a reflexão,<br> +(É fado, é sina, é sorte!)<br> +Me arrasta o coração...<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag37">[37]</a></span> + + +<h2>XI</h2> + +<h2>DESANIMO</h2> + +<div class="poesia"> +Que mimos me confortam?<br> +Que doce luz me acena?<br> +Eu tenho muita pena<br> +De ter nascido até!<br> +<br> +Quizera antes ao pé<br> +D'uma arvore frondosa<br> +Ter já em cima a lousa<br> +E descançar emfim!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag38">[38]</a></span> +<br> +Alli, nem tu de mim<br> +De certo te lembravas,<br> +Nem estas feras bravas<br> +Me iriam assaltar!<br> +<br> +Alli, teria um ar<br> +Mais puro e respiravel,<br> +E a paz imperturbavel<br> +De quem, emfim, morreu!<br> +<br> +D'alli, veria o céo<br> +Ora sereno e puro,<br> +Ora toldado e escuro...<br> +Ainda assim melhor,<br> +<br> +Que este areal de amor<br> +Onde ando ao desamparo,<br> +Onde a ninguem sou caro<br> +E nem, a mim, ninguem!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag39">[39]</a></span> +<br> +Alli passára eu bem<br> +A noite derradeira<br> +Á sombra hospitaleira<br> +Que mais ninguem me dá!<br> +<br> +Tu mesma, que não ha<br> +Quem eu mais queira e ame,<br> +Quem a minha alma inflamme<br> +De mais ardente amor,<br> +<br> +Os ais da minha dôr<br> +A ti o que te importam?<br> +Teus olhos nem supportam<br> +A minha vista ao pé!<br> +<br> +Que mimos me confortam?<br> +Que dôce luz me acena?<br> +Eu tenho muita pena<br> +De ter nascido até!<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag40">[40]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag41">[41]</a></span> + + +<h2>XII</h2> + +<h2>N'UM ALBUM</h2> + +<div class="poesia"> +É esta vida um mar; e n'este mar<br> +Qual é o astro que nos alumia?<br> +Que norte, estrella ou bussola nos guia?<br> +Um olhar de mulher! um terno olhar!<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag42">[42]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag43">[43]</a></span> + + +<h2>XIII</h2> + +<h2>O SEU NOME</h2> + + +<h3>I</h3> + +<div class="poesia"> +Ella não sabe a luz suave e pura<br> +Que derrama n'uma alma acostumada<br> +A não vêr nunca a luz da madrugada<br> +Vir raiando senão com amargura!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag44">[44]</a></span> +<br> +Não sabe a avidez com que a procura<br> +Ver esta vista, de chorar cançada,<br> +A ella... unica nuvem prateada,<br> +Unica estrella d'esta noite escura!<br> +<br> +E mil annos que leve a Providencia<br> +A dar-me este degredo por cumprido,<br> +Por acabada já tão longa ausencia,<br> +<br> +Ainda n'esse instante appetecido<br> +Será meu pensamento essa existencia...<br> +E o seu nome, o meu ultimo gemido<br> +</div> + + +<h3>II</h3> + +<div class="poesia"> + Oh! o seu nome<br> + Como eu o digo<br> + E me consola!<br> + Nem uma esmola<br> + Dada ao mendigo<br> + Morto de fome!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag45">[45]</a></span> +<br> + N'um mar de dôres<br> + A mãe que afaga<br> + Fiel retrato<br> + De amante ingrato,<br> + Unica paga<br> + Dos seus amores...<br> +<br> + Que rota e nua,<br> + Tremulos passos,<br> + Só mostra á gente<br> + A innocente<br> + Que traz nos braços<br> + De rua em rua;<br> +<br> + Visto que o laço<br> + Que a prende á vida<br> + E só aquella<br> + Candida estrella<br> + Que achou cahida<br> + No seu regaço;<br> +<span class="pagenum"><a name="pag46">[46]</a></span> +<br> + (Não que lhe importe<br> + A ella nada...<br> + Que tudo escusa;<br> + E até accusa<br> + De descuidada<br> + Comsigo a morte!)<br> +<br> + Mão bemfazeja<br> + Se por ventura<br> + Encontra um dia,<br> + Com que alegria,<br> + Com que ternura,<br> + Ella a não beija!...<br> +<br> + Mas com mais quanto<br> + Amor te escrevo,<br> + Soletro e leio<br> + Nome de enleio!<br> + Nome de enlevo!<br> + Nome de encanto!<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag47">[47]</a></span> + + +<h3>III</h3> + +<div class="poesia"> +Como a agua d'um lago—toda um nivel,<br> +Vae de circulo em circulo ondeando,<br> +Se a andorinha a roça ao ir voando<br> +Atraz d'algum insecto imperceptivel;<br> +<br> +E quebrado esse espelho em mil pedaços<br> +(Que a imagem do céo desapparece)<br> +Em circulos concentricos parece<br> +Tornarem-se a formar novos espaços...<br> +<br> +Ou como d'entre as notas ineffaveis<br> +Dos canticos do céo—todo harmonia—<br> +Mal sôa o dôce nome de <span class="small-caps">Maria</span>,<br> +Pasmam as multidões innumeraveis;<br> +<span class="pagenum"><a name="pag48">[48]</a></span> +<br> +E de onda em onda cada vez mais larga,<br> +De brisa em brisa cada vez mais pura,<br> +O nome d'essa excelsa creatura<br> +Por todo aquelle immenso mar se alarga;<br> +<br> +E tudo quanto cerca o trono eterno<br> +Áquella dôce voz desprende o canto,<br> +Formando um côro universal, em quanto<br> +Reina silencio no profundo inferno...<br> +<br> +Assim, n'esta paixão que me devora,<br> +Se aos labios essas syllabas me assomam,<br> +As negras sombras da minha alma tomam<br> +Gradualmente o explendor da aurora!<br> +<br> +Toda a idéa má recua um passo,<br> +Aplanam-se os dominios do futuro,<br> +E do crystal mais transparente e puro<br> +Se me arqueia a abobada do espaço!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag49">[49]</a></span> +<br> +Desdobra-se o passado á luz do dia,<br> +Em valle ameno, aos olhos da memoria;<br> +E eu acho não ser perfida, illusoria,<br> +A fé que eu punha em certa luz que eu via...<br> +<br> +Vejo que aquelle informe e negro monte,<br> +Que me tapava a mim o fim da vida,<br> +Não era mais que a natural subida<br> +Para se dominar vasto horizonte!...<br> +<br> +Esse horizonte és tu, pombinha brava!<br> +Tu, cujo peito que aliás encerra<br> +O que ha de bello e grande em céo e terra,<br> +Só com duas conchinhas se tapava...<br> +<br> +Mas em quanto não chego áquella altura<br> +D'onde se avista a terra promettida,<br> +Irei cantando, distrahindo a vida<br> +Com essa invocação suave e pura...<br> +<span class="pagenum"><a name="pag50">[50]</a></span> +<br> +Invocação de nome tão suave<br> +Como esse olhar!... que eu, só de vêr, suspiro!<br> +Mas... que invoco em silencio... como admiro<br> +A luz da lua, e o olhar da ave!...<br> +</div> + + +<h3>IV</h3> + +<div class="poesia"> + E se algum dia<br> + Deres abrigo<br> + Ao desgraçado<br> + Pobre mendigo<br> + Expatriado,<br> + Morto de fome,<br> + Dize comtigo:<br> + «Mais consolado<br> + Se elle sentia<br> + Lendo o meu nome!»<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag51">[51]</a></span> + + +<h2>XIV</h2> + +<h2>SAUDADE</h2> + +<div class="poesia"> +Tu és o cálix;<br> +Eu, o orvalho!<br> +Se me não vales,<br> +Eu o que valho?<br> +<br> +Eu se em ti caio<br> +E me acolheste<br> +Torno-me um raio<br> +De luz celeste!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag52">[52]</a></span> +<br> +Tu és o collo<br> +Onde me embalo,<br> +E acho consolo,<br> +Mimo e regalo:<br> +<br> +A folha curva<br> +Que se aljofara,<br> +Não d'agoa turva,<br> +Mas d'agoa clara!<br> +<br> +Quando me passa<br> +Essa existencia,<br> +Que é toda graça,<br> +Toda innocencia,<br> +<br> +Além da raia<br> +D'este horizonte—<br> +Sem uma faia,<br> +Sem uma fonte;<br> +<span class="pagenum"><a name="pag53">[53]</a></span> +<br> +O passarinho<br> +Não se consome<br> +Mais no seu ninho<br> +De frio e fome,<br> +<br> +Se ella se ausenta,<br> +A boa amiga,<br> +Ah! que o sustenta<br> +E que o abriga!<br> +<br> +Sinto umas magoas<br> +Que se confundem<br> +Com as que as agoas<br> +Do mar infundem!<br> +<br> +E quem um dia<br> +Passou os mares<br> +É que avalia<br> +Esses pezares!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag54">[54]</a></span> +<br> +Só quem lá anda<br> +Sem achar onde<br> +Sequer expanda<br> +A dôr que esconde;<br> +<br> +Longe do berço,<br> +Morrendo á mingoa,<br> +Paiz diverso...<br> +Diversa lingoa...<br> +<br> +Esse é que sabe<br> +O meu tormento,<br> +Mal se me acabe<br> +Aquelle alento!<br> +<br> +Ah, nuvem branca<br> +Ah, nuvem d'oiro!<br> +Ninguem me estanca<br> +Amargo choro;<br> +<span class="pagenum"><a name="pag55">[55]</a></span> +<br> +E assim que passes<br> +Mesmo de largo...<br> +Vê n'estas faces<br> +Se ha pranto amargo.<br> +<br> +Tu és o norte<br> +Que me desvias<br> +De ir dar á morte<br> +Todos os dias;<br> +<br> +A larga fita<br> +Que d'alto monte<br> +Cerca e limita<br> +O horizonte!<br> +<br> +Tu és a praia<br> +Que eu sollicito!<br> +Tu és a raia<br> +D'este infinito!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag56">[56]</a></span> +<br> +Se ha uma gruta<br> +Onde me esconda<br> +Á força bruta<br> +Que traz a onda;<br> +<br> +Á força immensa<br> +D'esta corrente<br> +D'alma que pensa,<br> +Alma que sente;<br> +<br> +Se ha uma véla,<br> +Se ha uma aragem,<br> +Se ha uma estrella,<br> +N'esta viagem...<br> +<br> +É quem eu amo,<br> +A quem adoro!<br> +E por quem chamo!<br> +E por quem choro!<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag57">[57]</a></span> + + +<h2>XV</h2> + +<h2>* * * *</h2> + +<div class="poesia"> +Não sei o que ha de vago,<br> +Incoercivel, puro,<br> +No vôo em que divago<br> +Á tua busca, amor!<br> +No vôo em que procuro<br> +O balsamo, o aroma,<br> +Que, se uma fórma toma,<br> +É de impalpavel flôr!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag58">[58]</a></span> +<br> +Oh como te eu aspiro<br> +Na ventania agreste!<br> +Oh como te eu admiro<br> +Nas solidões do mar!<br> +Quando o azul celeste<br> +Descança n'essas agoas<br> +Bem como n'estas magoas<br> +Descança o teu olhar!<br> +<br> +Que placida harmonia<br> +Então a pouco e pouco<br> +Me eleva a fantasia<br> +A novas regiões!<br> +Dando-me ao uivo rouco<br> +Do mar, n'essas cavernas,<br> +O timbre das mais ternas<br> +E pias orações!<br> +<br> +Parece todo o mundo<br> +Só um immenso templo!<br> +O mar já não tem fundo<br> +E não tem fundo o céo!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag59">[59]</a></span> +E, em tudo, o que contemplo,<br> +O que diviso em tudo,<br> +És tu!... esse olhar mudo!...<br> +O mundo... és tu... e eu!...<br> +</div> + + +<h4>FIM</h4> +<span class="pagenum"><a name="pag60">[60]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag61">[61]</a></span> +<hr> + + +<h2>CRITICAS</h2> + +<h3>DAS</h3> + +<h1>FLORES DO CAMPO</h1> +<span class="pagenum"><a name="pag62">[62]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag63">[63]</a></span> +<hr> +<div id="parte2"> + + +<h2>FLORES DO CAMPO</h2> + +<h4>POR</h4> + +<h3>JOÃO DE DEUS</h3> + +<p>João de Deus não é sómente um grande poeta, +é um iniciador. A estrophe sahe-lhe do coração +não só transparente e limpida, como um veio de +crystal, mas espontanea, harmoniosa e originalissima, +como todas as creações dos espiritos profundamente +caracterisados e essencialmente creadores.</p> + +<p>João de Deus é um grande scismador e um +grande artista. Concebe admiravelmente, e executa +melhor ainda. Cada lyrica é uma maravilha, +cada estrophe um mimo, cada verso um primor. +Reune á intelligencia apaixonada de Platão o delicadissimo +senso artistico de Cellini. Ha n'aquella +lyra notas e harmonias d'uma frescura e de uma +novidade dignas de Homero ou de Wainamoinen. +É que o talento poetico de João de Deus é essencialmente +<span class="pagenum"><a name="pag64">[64]</a></span> +espontaneo e primitivo, se me permittem +a expressão.</p> + +<p>Parece que não ha n'aquelles versos nem estudo +de modelos, nem influencia de escólas, nem escolha +de assumptos.</p> + +<p>A natureza poetica de João de Deus é sobre +tudo virginal, sincera, innocente. Canta, não para +que o escutem, mas porque nasceu poeta; chora, +não para que o consolem, mas porque nasceu triste; +medita, não para que o considerem, mas porque +nasceu scismador. É poeta... e não póde ser +mais nada; fizeram-n'o deputado talvez para fazerem +um epigramma á poesia, que tantos tem feito—epigrammas, +entenda-se.—João de Deus deputado +é o mesmo... que um deputado João de +Deus, duas entidades a rirem-se constantemente +uma da outra, como os dois <i>oraculos</i> de que falla +Cicero.</p> + +<p>Um João de Deus nasce feito... não se faz d'elle +cousa nenhuma; ha de ser sempre João de Deus, +quer o façam rei, quer regedor de parochia. <i>Ego +sum qui sum</i>, dizia o espirito mais profundamente +original da humanidade. João de Deus, e os homens +de uma individualidade assim tão caracterisada +podem, salvo a irreverencia, dizer o mesmo.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag65">[65]</a></span> + +<p>A João de Deus deu-lhe para ser poeta; se lhe +désse para ser diplomata era Bismark, e tinha a +estas horas realisado a união iberica. Foi melhor +assim, ao menos para se não acabar com a possibilidade +de termos volumes como as <i>Flores do +Campo</i>.</p> + +<p>Dizem-me que João de Deus é um excellente +tocador de viola, onde improvisa devaneios arrebatadores. +Esta prenda caracterisa-lhe o talento artistico. +É poeta como guitarrista e quasi improvisador +como poeta. Aquella alma é uma lyra: vibra, +estremece e canta ás aragens fugitivas da impressão. +Natureza profundamente sympathica, tem +um riso para cada alegria, uma lagrima para cada +amargura, uma consolação para cada infortunio:</p> + +<div class="poesia"> +Despe o lucto da tua soledade<br> +E vem junto de mim, lirio esquecido<br> + Do orvalho do ceu!<br> +Tens nos meus olhos pranto de piedade,<br> +E se és, mulher! irmã dos que hão soffrido,<br> + Mulher! sou irmão teu.<br> +<br> +Consolos não te dou, que não existe<br> +Quem de lagrimas suas nunca enxuto<br> + Possa as d'outro enxugar:<br> +Não póde allivios dar quem vive triste,<br> +Mas é-me dôce a mim chorar, se escuto<br> + Alguem tambem chorar.<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag66">[66]</a></span> + +<p>E não ha artificios n'esta poesia, que é singela +como todos os grandes sentimentos, harmoniosa e +virginal como um sorriso de creança, suave e consoladora +como uma parabola de Christo, serena e +luminosa como um dialogo de Platão:</p> + +<div class="poesia"> +Mulher, mulher! quando eu n'um cemiterio<br> +Levanto o pó dos tumulos sósinho:<br> + Eis, digo, eis o que eu sou,<br> +Mas quando penso bem n'esse mysterio<br> +Da virtude infeliz: Vae teu caminho;<br> + Dois mundos Deus creou.<br> +</div> + +<p>É poesia que se sente e que poucos exprimem, +são versos que se admiram e que rarissimos os +escrevem.</p> + +<p>As imagens adejam-lhe em torno frescas, vivas, +alegres e graciosas, como um bando de andorinhas +em torno dos frisos d'um campanario:</p> + +<div class="poesia"> +Quando em silencio finges,<br> +Que um beijo foi furtado,<br> +E o rosto desmaiado<br> +De côr de rosa tinges,<br> + Dir-se-ha que a rosa deve<br> +Assim ficar com pejo,<br> +Quando a furtar-lhe um beijo<br> +O zephiro se atreve.<br> +<br> +............................<br> +<span class="pagenum"><a name="pag67">[67]</a></span> +<br> +A bôca é tão vermelha que, em te rindo,<br> +Lembra-me uma romã aberta ao meio<br> +Quando já de madura está cahindo.<br> +<br> +......................................<br> +<br> +Quando a sua mãosinha pondo um dedo<br> +Em seus labios de rosa pouco aberta,<br> +Como timida pomba sempre alerta,<br> +Me impunha ora silencio ora segredo.<br> +</div> + +<p>Não ha nada mais gracioso, mais natural, mais +espontaneo, mais facil! A gente chega a pasmar +de não encontrar todos aquelles dizeres elegantes, +todos aquelles versos formosissimos nos outros poetas, +tal é a fluencia e a vitalidade d'esta inspiração.</p> + +<p>Na voz de João de Deus ha as inflexões carinhosas +de uma creança; os versos parecem caricias; +têm a suavidade affectuosa das orações de +uma santa e aquelle tom amavel e triste, mas nunca +pretencioso, dos verdadeiros scismadores:</p> + +<div class="poesia"> +Foi-se-me pouco a pouco amortecendo<br> +A luz que n'esta vida me guiava,<br> +Olhos fitos na qual até contava<br> +Ir os degraus do tumulo descendo.<br> +<br> +..................................<br> +<br> +Alma gemea da minha, e ingenua e pura<br> +Como os anjos do ceu (se o não sonharam...)<br> +Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura.<br> +<span class="pagenum"><a name="pag68">[68]</a></span> +<br> +Não sei se me voou, se ma levaram,<br> +Nem saiba eu nunca a minha desventura<br> +Contar aos que inda em vida não choraram.<br> +</div> + +<p>Camões não a sentiu mais, nem a escreveu melhor +esta poesia da tristeza, esta melancolia suave +d'um scismador, esta saudade resignada de uma +alma nas soledades do infortunio, nos desterros do +isolamento. Ha alli poesia para vinte poemas, ha +alli suavidade para vinte idyllios.</p> + +<p>As rhimas parecem beijos, tão estreitas se enlaçam, +tão ardentes se casam, tão apaixonadas se +apertam:</p> + +<div class="poesia"> + Que magoa ou que receio<br> + Dos olhos te desata<br> + Aljofares de prata<br> + No jaspe do teu seio?<br> +<br> + Bem intima ser deve<br> + A pena que te opprime,<br> + Flôr tenra como o vime,<br> + Flôr pura como a neve!<br> +<br> + .......................<br> +<br> + Vós, lobos! ide em bando,<br> + Trepae pelo rochedo,<br> + Uivae, mettei-lhe medo,<br> + Levae-a recuando!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag69">[69]</a></span> +<br> + Que faz quem se approxima<br> + D'um precipicio, diz-m'o?<br> + Que buscas tu no abysmo<br> + Se o ceu é lá em cima?<br> +</div> + +<p>É só a lyrica intitulada—<i>Heresta</i>—que me +fornece estes quatro exemplos; podia fornecer-me +trinta e dois, porque são trinta e duas as quadras +d'essa formosa composição.</p> + +<p>Ás vezes o verso deixa de ser uma phrase e +transforma-se n'um suspiro, a estrophe deixa de +ser um canto e converte-se n'um arrulho. Tudo +alli é muito amar, profundamente sentir e divinamente +cantar:</p> + +<div class="poesia"> + Que é d'esses cabellos d'ouro<br> + Do mais subido quilate,<br> + D'esses labios escarlate,<br> + Meu thesouro!<br> +<br> + .............................<br> +<br> + Que é d'uma flôr da grinalda<br> + Dos teus dourados cabellos,<br> + D'esses olhos, quero vêl-os,<br> + Esmeralda!<br> +<br> + Que é d'essa alma que me deste!<br> + D'um sorriso, um só que fosse.<br> + Da tua bôca tão dôce<br> + Flôr celeste!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag70">[70]</a></span> +<br> + Tua cabeça que é d'ella<br> + A tua cabeça d'ouro,<br> + Minha pomba! meu thesouro!<br> + Minha estrella!<br> +<br> + ..........................<br> +<br> + E as desgraças, podia prevêl-as<br> + Quem a terra sustenta no ar,<br> + Quem sustenta no ar as estrellas,<br> + Quem levanta ás estrellas o mar.<br> +<br> + Deus podia prevêr a desgraça,<br> + Deus podia prevêr e não quiz;<br> + E não quiz, não... se a nuvem que passa<br> + Tambem póde chamar-se infeliz.<br> +</div> + +<p>Quem escreve d'isto, sente-o. Um homem não +arranca ao seu espirito d'estas perolas sem as lá +ter em sentimento e em amor. E só o alto calor +d'um grande, d'um immenso coração póde <i>cristallisar</i> +taes diamantes; o fogo sómente do craneo +não produz d'estes milagres d'inspiração:</p> + +<div class="poesia"> +Não se é só pó no fim de tanta magoa,<br> +Senão diga-me alguem que allivio é este<br> +Que sinto, quando á abobada celeste<br> +Alevanto os meus olhos rasos d'agoa.<br> +<br> +....................................<br> +<br> +Ha depois d'esta vida inda outra vida,<br> +Não se reduz a nada o grão d'areia,<br> +E havia de a nossa alma, a nossa ideia<br> +Nas ruinas do pó ficar perdida?<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag71">[71]</a></span> + +<p>Se isto não é inspiração, e alta inspiração, não +sei que nome se ha de dar ás maravilhas do genio +de Dante, de Shakspeare, de Camões ou de Victor +Hugo.</p> + +<p>Um espirito que se eleva a taes alturas tem +obrigação de produzir um <i>Hamlet</i>, uma <i>Divina +Comedia</i> ou uns <i>Lusiadas</i>.</p> + +<p>Sente-se pela leitura d'este volume que Camões +é o auctor predilecto de João de Deus. O livro +abre até por uma composição que póde considerar-se +uma verdadeira profissão de fé em poesia. A +propria fórma poetica da maior parte das lyricas +de João de Deus, um certo geito facil e correntio +na composição grammatical dos periodos, a suavidade +das rhimas, a doçura das expressões, a harmonia +cadenciosa dos versos e um certo tom de +intima melancolia que se faz sentir até nas idêas +as mais graciosas revelam a decidida predilecção +que o cantor da <i>Heresta</i> tem pelo desafortunado +scismador de Macau.</p> + +<p>É esta a feição seria, a feição elevada e talvez +caracteristica do genio poetico de João de Deus. +Como todas as grandes vocações, como todas as +naturezas ricas, João de Deus porém não é menos +apreciavel, nem menos digno de estudo pelo lado +<span class="pagenum"><a name="pag72">[72]</a></span> +alegre, malicioso e a espaços finamente epigrammatico. +Ás vezes chega a ser um observador digno +de competir com Molière ou Tolentino. Os +<i>Caturras</i> é composição de emparelhar com a <i>Funcção</i> +ou com o <i>Bilhar</i> do diabolico professor de +rhetorica; e o <i>Gaspar</i> póde pedir meças em ridiculo +a qualquer dos <i>frades</i> grotescos da numerosa +collecção de Bocage. E o epigramma aqui é tanto +mais pungente quanto menos grosseiro, e a caricatura +tanto mais graciosa quanto menos exagerada.</p> + +<p>Ha alli o sal attico de Terencio e não a especiaria +acinante de Plauto, a não ser talvez nos versos +intitulados—<i>Uma femea</i>,—brazileiros no +titulo e no sabor, d'um <i>piquesinho</i> de gosto bastante +equivoco.</p> + +<p>E já que entramos no capitulo das maculas, +convém dizer-se que João de Deus é por vezes +revolucionario de mais em assumptos de metrificação. +Eu não gosto de absolutistas nem mesmo em +poesia, mas tambem não morro de amores pelos +tão republicanos que nos levem á demagogia. É +preciso que sejamos um pouco <i>constitucionaes</i> em +tudo. Ora a <i>constituição</i> poetica tem artigos que +se não podem infringir sem se incorrer no crime +de leso bom gosto, porque o bom gosto foi e ha +<span class="pagenum"><a name="pag73">[73]</a></span> +de ser sempre o eterno legislador d'estes codigos. +Um verso frouxo ou manco e uma rhima equivoca +ou violenta hão de ser perpetuamente defeitos.</p> + +<p>Quem disser o contrario ou é tolo ou tem ouvidos +de cortiça. João de Deus cahe por vezes nestes +dous peccadilhos, deixando alguns versos arrastados, +e outros duros; estes porém muito menos +frequentes do que os primeiros. Mais frequentes +são as rhimas violentas, algumas realmente +d'um mau gosto insustentavel, taes como: <i>justiça</i> +rhimando com pinça, como a paginas 152; <i>rio</i> e +<i>viu</i>, como a paginas 159, e ainda algumas outras.</p> + +<p>É da tarifa dizer-se em occasiôes similhantes, +como são da tarifa todas as vulgaridades, que não +ha livro sem defeitos. Eu creio piamente na sentença, +e até creio que um livro sem defeitos, se +existisse, devia ser o mais defeituoso de todos os +livros, o mais sorna e o mais semsaborão. Eu porém +quando abro um livro não é para lhe andar +a catar os defeitos pagina por pagina, como quem +anda ao <i>pulgão</i> pelos vinhedos. O que busco n'um +livro são ensinamentos, calor de vida, fogo de coração +e luz de intelligencia; esplendores de espirito +e esplendores de palavra; genio, alma e sentimento.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag74">[74]</a></span> + +<p>Ora um livro de versos onde ha composição +como a <i>Rachel</i>, <i>O Musgo</i>, <i>Ultimo adeus</i>, <i>o +Remoinho</i>, +<i>a Carta</i>, e trinta outras lyricas de tal novidade +e tal merecimento, tem obrigação de ter defeitos, +por que sem elles... seria um livro impossivel, +uma verdadeira monstruosidade. Diga-se +aqui pois, e para se pôr ponto ao aranzel, que o +livro de João de Deus tem maculas, mas que estas, +como as do sol, desapparecem no meio dos +esplendores d'aquella immensa luz de vida, de genio +e de inspiração. <i>Flores do Campo</i> é finalmente +um livro de versos, como ha poucos n'este paiz, +desde que por cá se escrevem versos.<sup><a name="mnota1" href="#nota1">1</a></sup></p> + +<p>Guarda, 4 de fevereiro de 1869.</p> + +<p class="direita"><b>Alexandre da Conceição.</b></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="nota1" href="#mnota1">1</a></sup>Jornal do Porto (1869) n.º 33.</p> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag75">[75]</a></span> + + + + +<h2>LIVROS</h2> + +<hr style="width: 15%;"> + +<h3>REVISTA CRITICA BIBLIOGRAPHICA</h3> + +<hr style="width: 15%;"> + +<p><span class="small-caps">Flores do campo</span>, <i>por João de Deus, publicadas +pelo seu amigo José Antonio Garcia Blanco</i>—Lisboa, +typ. Franco-portugueza, 1868—Em +casa de Ferin & Robin—1 vol. in-16.º—271.</p> + +<br> + +<p>João de Deus é um personagem semi-lendario +na tradicção academica, e apesar de homem do +nosso tempo, e tão do nosso que até com um diploma +de deputado se nos apresentou ha pouco, +anda-lhe o nome rodeado de quasi os mesmos fulgores +e as mesmas sombras em que uma historia +superficial ou mentirosa envolveu os velhos trovadores +da Provença.</p> + +<p>Permittam-me uma digressão.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag76">[76]</a></span> + +<p>Ha n'esta sociedade portugueza—já agora, ao +que parece—condemnada a refocilhar em monturo +de sanefas lantejouladas e rotas que lhe deixou +o passado, e a dar ao mundo o triste espectaculo +d'uma nacionalidade sem <i>idêa</i> que a represente +na historia philosophica de amanhã, sem +<i>ideal</i> que lhe seja pharol e bussola na tormentosa +navegação das sociedades d'hoje; ha, digo, n'esta +nossa sociedade amortecida: extraordinarias visões, +mysteriosos anceios, esforços convulsivos como +que filhos de ignotos impulsos, que bem poderiam +passar por agonias e paroxismos annunciadores +da proxima dissolução, se um diagnostico +escrupuloso não encontrasse antes n'aquillo promessas +de reacção proxima, de rejuvenescimento +que não vem longe, de evolução fatal, que, em +Portugal como em toda a parte, denuncia por +aquellas aberrações e anormalidades a sua sublime +prenhez d'uma nova idêa, d'uma era nova.</p> + +<p>Erguem-se no meio da grasnada petulante ou +esteril da litteratura, vozes persistentes... doces +ou enthusiasticas, sympathicas ou ameaçadoras... +frescas, novas, <i>originaes</i>—<i>raræ voces!</i>—que +parece irem na turba desmoralisada pôr em vibração +alguma cellulasinha não contaminada do mal.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag77">[77]</a></span> + +<p>E a turba põe-se a escutar, a applaudir, a aspirar +soffregamente os frescores e doçuras, que tão +enormemente se distanceiam dos miasmas do ambiente +habitual, do sabor da habitual pitança.</p> + +<p>Alteiam-se, no meio da calaçaria geral, do geral +e natural desanimo, vontades energicas que a +pedraria da mestrança ignorante, intolerante e +madraça não consegue desviar um momento da +faina do estudo e da evangelisação scientifica.</p> + +<p>E a turba vae attentando n'ellas, vae sympathisando +com aquelles revolucionarios heroicos do +marasmo, vae comparando-os com os idolos anões +que, sem ella saber como nem porque se grudaram +aos altares da sua admiração, vae fitando os novos +horizontes para onde lhe apontam os novos +chefes, vae-os seguindo já ao impulso d'uma necessidade +indefinivel mas fatal. Ha n'isto, já se +vê, alguma cousa d'allucinação infantil. Crê-se +que os novos Moysés levam comsigo, completas, +as verdadeiras taboas da lei, e rasgarão com a +magica varinha as brumas que envolvem a terra +da promissão.</p> + +<p>Engano. Não lhes dão as forças para mais que +para um terço do caminho, se tanto. Mas isso +mesmo é muito, é o que basta. Hão de apparecer +<span class="pagenum"><a name="pag78">[78]</a></span> +novos guias. A questão é saír da esterilidade do +deserto.</p> + +<p>Citemos porém dois factos, tiremos dois exemplos, +apenas, de tantos que podiamos apresentar +da revolução litteraria que se realisa surdamente +no seio da nossa pequena sociedade.</p> + +<p>Sejam elles, por hoje, dois poetas: Theophilo +Braga e João de Deus; dois verdadeiros revolucionarios +como outros de que para o diante terei +de fallar. Um, apesar do mal que dizem d'elle, e +do mal, que é maior talvez, que elle a si proprio +faz, é inegavelmente um dos nossos poucos talentos +originaes na concepção e na manifestação litteraria, +na <i>idêa</i> e na <i>fórma</i>, e se não é marco que +no futuro atteste um grande e brilhante progresso +na litteratura patria, é como que atrio imperfeito +e tosco, mas espaçoso e altaneiro que póde servir +d'entrada a <i>pantheon</i> de explendidos engenhos.</p> + +<p>E grande engenho é Theophilo, de certo.</p> + +<p>Por entre uma saraivada d'apodos e improperios +de <i>mau gosto</i> ou <i>má fé</i>, conquistou elle um logar +elevado, na poesia portugueza d'hoje, cujos magnates +na maxima parte, persistem, com risivel +teimosia, em trazer-lhe engastada na corôa á laia +de fina joia, o carvão da ignorancia, ou em mascararem-na +<span class="pagenum"><a name="pag79">[79]</a></span> +com um falso e retrogrado <i>classissismo</i>.</p> + +<p>Theophilo porém avançou menos do que devia.</p> + +<p>O <i>idealismo</i> desvairou-o, o <i>romancismo</i> perdeu-o.</p> + +<p>Um dia a voz sympathica, insinuante, ora melancholica +e dolorida, ora—bem poucas vezes!—alegre +e enthusiastica de João de Deus começou +de fluctuar por sobre o borburinho cançado e monotono +das nossas letras. Não se sabe como nem +quando foi. Perdeu-se a chronologia biographica +nos encantos do <i>quasi</i>—extasis. Sabe-se sómente +que a reputação do poeta não nos entrou na +terra, dentro do cavallo de pau d'algum chefe +<i>grego</i>, mestrão consummado n'estas maquinações. +Sabe-se tambem que João de Deus não andou por +salas e officinas, annunciando a fazenda que tempos +depois, atirada ao mercado, podia realisar o +caso da <i>mons parturiens</i>.</p> + +<p>João de Deus apparecia-nos uma ou outra vez +n'um periodico de Coimbra; ora nos segredava +uma estrophe singela e melodiosa pelo postigo de +uma typographia alemtejana; ora surgia em um +periodico da capital a contar-nos umas duvidas +que o magoavam, umas saudades indefiniveis que +o pungiam, uns vagos amores que lhe andavam +rumorejando lá dentro em vagas harmonias.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag80">[80]</a></span> + +<p>E ninguem sabia quem era João de Deus. E +ninguem procurava saber quem fosse. Ou antes, +julgavam todos sabel-o. Conheciam-no todos. Era +um cerebro em ebullição, um coração em ataxia +permanente, um estomago que valia por uma adega.</p> + +<p>João de Deus era um doudo que forrava as paredes +do albergue com as folhas das <i>sebentas</i>, que +dormia dentro da enxerga, porque achava mais +commodo isto do que dormir-lhe em cima, que se +matriculava todos os annos na faculdade em que +o secretario-universitario se lembrava de matriculal-o, +que fôra de Coimbra a casa, d'algibeira vasia +e lapis constantemente occupado em fazer magnificos +versos ou magnificos desenhos, que se fizera +um dia sachristão, e pozera n'outro, todo um +bairro em sobresalto, subindo aos telhados para +apostrophar a lua, etc., etc.</p> + +<p>E as anecdotas galantes succediam-se, e a cada +nova poesia annexava-se uma historieta, e quando +as poesias escaceavam, attribuiam-se ao poeta novas +doudices, novas excentricidades, como a certo +honrado e já defuncto general se attribuiam quantos +dispauterios o soalheiro burguez produzia. Se +eu fosse biographo de João de Deus havia talvez +de lavrar aqui um protesto esmagador.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag81">[81]</a></span> + +<p>Como não sou, limito-me a dizer o que penso +do illustre algarviense. <i>Mais</i> ou <i>menos</i> todos somos +poetas. N'este <i>mais</i> e n'este <i>menos</i> está, creio +eu, o segredo da organisação <i>sensorial</i>, se póde dizer-se +assim, organisação modificada é certo, mas +não completamente transformada pelo <i>meio</i> e pelo +<i>habito</i>.</p> + +<p>Tal <i>sensação</i> que n'uns individuos poria o cerebro +n'um estado de effervescencia que lhe <i>exagerasse</i> +a realidade, a ponto muitas vezes de a +substituir por uma concepção puramente subjectiva, +em taes outros póde dar apenas o facto funccional +em condições normaes e ordinarias, e, concentrando-se, +converter-se em reflexão. Precisava +isto longo desenvolvimento. Ora como o primeiro +modo de ser <i>sensorial</i> póde dar-se em todos, mas +com mais ou <i>menos</i> intensidade, com <i>maior</i> ou <i>menor</i> +frequencia, digo eu (e dizem bons escriptores) +que todos são <i>mais</i> ou <i>menos</i> poetas. Isto quanto +ao facto intellectivo. Quanto á expressão, o mesmo +se póde dizer sem receio de contestação seria.</p> + +<p>Pois na concepção como na palavra eu tenho +João de Deus por verdadeiro poeta.</p> + +<p>Dizia Merck, homem de profundo bom senso, +a Goëthe, seu amigo:</p> +<span class="pagenum"><a name="pag82">[82]</a></span> + +<p>«A tendencia irresistivel do teu genio é a de +imprimir a fórma poetica ás cousas <i>reaes</i>. Outros +procuram uma <i>soi-disant</i> poesia tranformando +em realidades, puras <i>imaginações</i>, o que só +produz disparates.»<sup><a name="mnota2" href="#nota2">2</a></sup></p> + +<p>Sem concordar incondicionalmente com a primeira +phrase do sensato allemão, sem querer acceitar +a segunda como lei comprovada de critica +litteraria, parece-me que de João de Deus se poderá +dizer que reune as duas tendencias, as duas +feições designadas, a <i>idealisação</i> (phrase consagrada +e porventura inexacta) do <i>real</i>, e a personificação, +melhor talvez, a realisação plastica do +<i>imaginario</i>.</p> + +<p>Como que as sensações sensoriaes<sup><a name="mnota3" href="#nota3">3</a></sup> n'aquelle +cerebro delicado, ou atravez d'aquelle organismo +exageradamente impressionavel se destacam algumas +vezes do estimulo, ou alteram a natureza +<span class="pagenum"><a name="pag83">[83]</a></span> +da propria objectividade e criam um mundo novo, +um mundo mystico, permittam-me a expressão, a +que o poeta dá uma realidade objectiva moldando-o +pelas manifestações plasticas do mundo em +que vive. Acontece porém, poucas vezes, nem podia +deixar de ser assim, quando a indole da época +e a illustração do poeta se estão oppondo á formação +e sustentação d'estas concepções puramente +subjectivas. Adivinha-se aqui ou alli a lucta tremenda +que vae no cerebro de João de Deus, lucta +que é a feição caracteristica do seculo, e que o +manto esfarrapado do eclectismo immoral não consegue +abafar, lucta entre o velho <i>crêr</i> e a <i>duvida</i>, +a duvida, que como a hydra da mythologia surge +após cada decepamento, e que não é possivel destruir +como aquella decepando-lhe o tronco. +Ouvide um exemplo:</p> + +<div class="poesia"> +Prestes, se inda na rocha de granito<br> +D'onde em tempo me vias, te sentares,<br> +Não olhes para a terra, ou para os mares,<br> +<i>Olha sim para o céo, que é lá que habito.</i><br> +<br> +<i>Lá, tão longe de ti mas não do terno,</i><br> +<i>Bondoso pae que os dois nos ha gerado,</i><br> +<i>Só para magoas não, que bem guardado</i><br> +<i>Nos tem tambem no céo prazer eterno.</i><br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag84">[84]</a></span> + +<p>Que profunda crença, que certeza <i>mystica</i>, se +póde dizer-se assim, não rescende a suave <i>morbidezza</i> +d'estes versos! Ha alli alguma cousa do +cantor da Bice. Vêde porém a tempestade que se +annuncia; a duvida atravessou como um relampago +o cerebro do poeta. Ouvide:</p> + +<div class="poesia"> +Não se é só pó no fim de tanta magoa.<br> +<i>Senão</i>, diga-me alguem que allivio é este<br> +Que sinto quando á abobada celeste<br> +Alevanto os meus olhos rasos d'agua?<br> +<br> +Mentem os céos <i>tambem</i>? Os céos maldigo.<br> +Feras, tigres <i>tambem</i> o céo povoam?<br> +<i>Tambem</i> os labios lá sorrindo coam<br> +Veneno desleal em beijo amigo?<br> +<br> +<i>Mas na dôr é que os astros nos sorriem,</i><br> +E os homens não sorriem na desdita.<br> +Astros! fio-me em vós, e Deus permitta<br> +Que os infelizes sempre em vós se fiem.<br> +</div> + +<p>Refaz-se a crença, resurge a esperança consoladora:</p> + +<div class="poesia"> +Ha depois d'esta vida uma outra vida.<br> +<i>Não se reduz a nada um grão d'areia,</i><br> +<i>E havia de a nossa alma, a nossa ideia,</i><br> +Nas ruinas do pó ficar perdida?<br> +</div> + +<p>Pobre sonhador! Aquelle segundo verso é um +protesto ironico contra o teu ideal mystico, é o +<span class="pagenum"><a name="pag85">[85]</a></span> +<i>grão d'areia</i> que ha de intorpecer e desmandar +todo o machinismo psycologico da tua crença!</p> + +<p>Continúa:</p> + +<div class="poesia"> +<i>Isso que pensa e quer</i> (até me admiro)<br> +Isso que a luz nos traz, que a luz nos leva, etc.<br> +</div> + +<p style="text-indent: 0px;">e accrescenta:</p> + +<div class="poesia"> +<i>Onde</i>, não sei eu bem, mas sei que existe<br> +Deus remunerador. Depois de mortos<br> +Hemos de vêr-nos e um no outro absortos<br> +Fartar de glorias este amor tão triste.<br> +<br> +Tão triste e... (o coração que me adivinha?)<br> +N'este supplicio nosso, <i>este tormento</i>,<br> +Nunca dos labios teus minimo alento<br> +Num só beijo bebi em vida minha!<br> +</div> + +<p>Fulge de novo o relampago, baqueia o edificio +da crença, vêde que tormento:</p> + +<div class="poesia"> +<i>E morro sem te vêr!</i> Cabeça douda<br> +Desasissado amor? sonhar afflicto<br> +Um sonho até morrer...<br> +</div> + +<p>Pobre Hamlet!</p> + +<p style="margin-left: 2em;"><i>... the rest is silence</i><br></p> + +<div class="poesia"> +Um sonho até morrer... Não: resuscito;<br> +Morto tenho vivido a vida toda.<br> +</div> + +<p>Pobre Faust! O <i>insufficiente</i> (das Unzuloengliche) +atormenta-te, porque te fascina o <i>inenarravel</i> +<span class="pagenum"><a name="pag86">[86]</a></span> +(das Unberchreiblichee). Que tempo precioso perde +comtigo o sensato Mephistopheles!</p> + +<p>Preferes á gargalhada que te chama á realidade +da vida, o <i>chorus mysticus</i> que te amargura a +existencia com a mentira da miragem!</p> + +<br> + +<p>João de Deus é rigorosamente um artista <i>insaciavel</i>: +«Satiari artis cupiditate non quit,» como +diria Plinio.</p> + +<p>Adivinha-se em cada estrophe d'elle um ancear +indefinivel, um vago aspirar, se póde dizer-se assim, +uma como que miragem que atráe o poeta, +que o alenta umas vezes e o desespera não poucas, +que parece enviar-lhe dos visos do horisonte uns +suaves frescores envoltos em deliciosos perfumes, +e que como a miragem do deserto, lhe foge sempre +aos labios sequiosos.</p> + +<p>E o pobre viandante vae caminhando e cantando +sempre. É um descantar dolorido geralmente, +como que descantar de saudade do que sonhou e +não acha, e não gosa, e não encontra no caminho, +como que de <i>saudade</i> do que lhe foge sempre, +deixem-me usar a dôce palavra que bem sei eu +que não fica ella bem lexicographicamente applicada.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag87">[87]</a></span> + +<p>E assim com a imaginação embalada por um +vago <i>ideal</i> vae João de Deus <i>poetisando</i> como +Goëthe na opinião do seu, já citado amigo, tudo +o que no caminho encontra. Poucas vezes se lhe +altera a harmonia cerebral ao impulso d'uma vibração +mais violenta. Os successivos amores—fundem +quasi n'uma abstracção, parecem subtilisar-se +até no <i>feminino eterno</i> do cantor do Fausto. +Hoje Margarida, amanhã Helena, depois... Depois +quem sabe?</p> + +<p>Hoje Marina. É uma recordação.</p> + +<div class="poesia"> +Como esse olhar é dôce!<br> +Dôce dâ mesma sorte<br> +Como se nunca fosse<br> +Toldado pela morte,<br> +<br> +Como se alumiasse<br> +O sol ainda em vida<br> +As rosas d'essa face<br> +Agora carcomida.<br> +<br> +Colhesse-as eu mais cedo<br> +E logo que alvorece,<br> +Já não tivesse mêdo<br> +Que a terra m'as comesse.<br> +.........................<br> +<br> +Se um dia nos meus braços<br> +Te desbotasse as côres,<br> +Passavam os abraços...<br> +Passavam os amores!...<br> +<span class="pagenum"><a name="pag88">[88]</a></span> +<br> +Oh não: mil vezes antes<br> +No céo lá onde habitas<br> +E os rapidos instantes<br> +Que vens e me visitas<br> +<br> +N'este degredo nosso<br> +Que tanta gente estima,<br> +E eu, só porque não posso<br> +Não largo e vou lá cima.<br> +<br> +Vem tu cá baixo, abala, etc.<br> +<br> +.......................<br> +<br> +Ha uma hora ou mais,<br> +Marina! que contemplo<br> +A casa de teus paes<br> +Que é para mim um templo.<br> +<br> +É esta vida um mar<br> +E bem se póde a gente<br> +Marina, comparar<br> +A rapida corrente<br> +<br> +Que vae de lado a lado<br> +Por esses valles fóra<br> +Sem nunca lhe ser dado<br> +Ter a menor demora:<br> +<br> +Pára quando a engole<br> +Aquelle mar sem fundo;<br> +Nem pára, é como o sol<br> +E como todo o mundo.<br> +<br> +.......................<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag89">[89]</a></span> + +<p>Custa a resistir á tentação de transplantar para +aqui completas, estas magnificas <i>singelesas</i>. Não +ha n'aquillo alguma coisa do que é espontaneo e +bello na <i>Vita Nuova</i>?</p> + +<p>Mas, como dissemos, o poeta approxima-se tambem +do <i>Faust</i> na volubilidade artistica.</p> + +<div class="poesia"> +Maria! vêr-te á porta a fazer meia<br> +Olhando para mim de vez em quando<br> +É o que n'esta vida me recreia.<br> +<br> +...................................<br> +<br> +E eu pallido, Maria! o pensamento<br> +Não é trabalho que nos dê saude,<br> +Esta imaginação é um tormento.<br> +<br> +...................................<br> +<br> +É que a gente na sua mocidade<br> +Não cabe em si, não pára de contente<br> +E assim fui eu na flôr da minha edade.<br> +<br> +Tu eras n'esse tempo simplesmente<br> +A flôr que vae nascendo e mais valia<br> +Seres tão terna ainda e innocente.<br> +<br> +Já esse lindo pé que tens, Maria!<br> +Esse quadril tão largo e cinta estreita<br> +Me não vinha á ideia noite e dia;<br> +<br> +Esses encontros de mulher perfeita,<br> +Esse peito redondo e arqueado<br> +Como a pomba farta e satisfeita;<br> +<span class="pagenum"><a name="pag90">[90]</a></span> +<br> +Talvez vivesse então mais socegado<br> +Ou já que a minha sorte é sempre triste<br> +Ao menos não andasse enfeitiçado.<br> +...................................<br> +</div> + +<p>Depois é Margarida:</p> + +<div class="poesia"> +Oh! que formosos dias, Margarida!<br> +Esses, etc. etc.<br> +</div> + +<p>Depois... Ha nomes que não se proferem, que +não se denunciam. São como certo nome do Deus +judaico.</p> + +<p>O poeta diz simplesmente: <i>No leito nupcial.</i> +Um nome depois d'isto fôra mais que uma profanação, +fôra uma infamia. Julgaes porém que ides +ouvir uma recriminação amarga ou uma indiscripção +villã?</p> + +<div class="poesia"> +Dorme, estatua de neve,<br> +Vergontea de marfim,<br> +Tocar que impio se atreve<br> +No que é sagrado assim!<br> +<br> +Dois são: o mais, mysterio<br> +Vedado á terra, Deus<br> +Talvez do solio ethereo<br> +Nem baixe os olhos seus.<br> +<br> +Respeita-os, tapa-os, como<br> +Japhet e Sem, o pae...<br> +Pende sagrado pomo,<br> +A vista ergue-se e cáe.<br> +<span class="pagenum"><a name="pag91">[91]</a></span> +<br> +Ergue-se e cáe, conforme<br> +A lei que o manda assim,<br> +<i>Ergue-se</i> e... dorme, dorme,<br> +Vergontea de marfim!<br> +<br> +.......................<br> +<br> +Não segue acaso a sombra<br> +Teu corpo sempre, flôr?<br> +E pois porque te assombra<br> +Meu insensato amor?<br> +<br> +.......................<br> +</div> + +<p>Depois é Beatriz:</p> + +<div class="poesia"> +Tu és o cheiro que exhala<br> +Ao ir-se abrindo uma flôr;<br> +Tu és o collo que embala<br> +Suas primicias d'amor.<br> +<br> +Tu és um beijo materno,<br> +Tu és um riso infantil;<br> +Sol entre as nuvens do inverno,<br> +Rosa entre as flôres d'abril.<br> +<br> +Tu és a rosa de maio,<br> +Tua és a flamula azul<br> +Que atam á flecha do raio<br> +As nuvens negras do sul.<br> +<br> +.......................<br> +</div> + +<p>E assim vae cantando sempre, de nome em nome, +e de mysterio em mysterio e d'amor em amor, +de duvida em duvida, de saudade em saudade, +<span class="pagenum"><a name="pag92">[92]</a></span> +d'anceio em anceio. Não ha Beatriz que o retenha +e lhe oiça o <i>Ecce Deos fortior me veniens dominabitur +mihi</i>.</p> + +<p>Um dia encontra uma mulher formosa, joven, +alegre. Ama. Será amado?</p> + +<div class="poesia"> +Amas-me a mim! perdoa,<br> +É impossivel! Não,<br> +Não ha quem se condoa<br> +Da minha solidão.<br> +<br> +Como podia eu triste,<br> +Ah! inspirar-te amor,<br> +Um dia que me viste,<br> +Se é que me viste... flôr!<br> +<br> +.......................<br> +<br> +Via-te arfar o seio...<br> +Córar... mudar de côr,<br> +E embora, ah! não, não creio,<br> +Tu não me tens amor!<br> +</div> + +<p>E o sonho foi-se e a visão desappareceu. Como +se chamava aquella mulher? Vão lá saber como +se chama a estrella cadente que rasga a amplidão +do espaço e desapparece n'ella?</p> + +<p>E foi uma estrella cadente, aquella. Perdoem a +indiscripção.</p> + +<p>Outro dia é o poeta que se afasta, que foge, +<span class="pagenum"><a name="pag93">[93]</a></span> +porque receia macular com o seu halito o puro fulgor +da estrella.</p> + +<div class="poesia"> +Tenho-te muito amor,<br> +E amas-me muito, creio,<br> +Mas ouve-me, receio<br> +Tornar-te desgraçada.<br> +O homem, minha amada,<br> +Não perde nada, gosa;<br> +Mas a mulher é rosa...<br> +Sim, a mulher é flôr!<br> +<br> +Ora, e a flôr, vê tu,<br> +No que ella se resume...<br> +Faltando-lhe o perfume.<br> +Que é a essencia d'ella,<br> +A mais viçosa e bella,<br> +Vê-a a gente e... basta.<br> +Sê sempre, sempre casta!<br> +Terás... quanto possuo!<br> +</div> + +<p>Vou findar com as transcripções, que bastam as +que ficam feitas para comprovar o que ácerca d'estas +mimosas poesias e d'este original poeta tenho +dito e hei de para o diante dizer. Não posso porém +resistir á tentação de citar ainda uns trechos +d'uma das mais bellas e caracteristicas composições +de João de Deus. Podesse eu transcrevel-a +toda!</p> + +<p>Não tem nome. Chamam-lhe alguns «A vida». +Innumeras vezes tem ella feito cessar as alegrias +<span class="pagenum"><a name="pag94">[94]</a></span> +das salas e interrompido brilhantes festas como o +austero bispo de certa poesia de Thomaz Ribeiro, +para mendigar ao sentimento das damas um condoimento +de triste sympathia pelas intimas amarguras +do poeta. Tem por epigraphe aquellas formosas +palavras do Tasso:</p> + +<div class="poesia"> +Cosi trapassa al trapassar d'um giorno, etc.<br> +</div> + +<p style="text-indent: 0px;">e começa:</p> + +<div class="poesia"> +Foi-se-me pouco a pouco amortecendo<br> +A luz que n'esta vida me guiava,<br> +Olhos fitos na qual até contava<br> +Ir os degraus do tumulo descendo.<br> +<br> +Em se ella annuveando, em a não vendo,<br> +Já se me a luz de tudo anuveava;<br> +Despontava ella apenas, despontava<br> +Logo em minha alma a luz que ia perdendo.<br> +<br> +Alma gemea da minha, e ingenua e pura,<br> +Como os anjos do céo (<i>se o não sonharam...</i>)<br> +Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura.<br> +<br> +Não sei se me voou, se m'a levaram,<br> +Nem saiba eu nunca a minha desventura<br> +Contar aos que inda em vida não choraram.<br> +</div> + +<p>Estas linhas fazem recordar Camões. Ha n'este +tristuras que se manifestam por versos parecidos, +mas eu prefiro estes ao tão conhecido soneto da +<span class="pagenum"><a name="pag95">[95]</a></span> +«Alma minha gentil,» etc. Parece denunciar-se +n'esta singelesa <i>morbida</i>, se póde dizer-se assim, +mais sentimento e espontaneidade.</p> + +<p>Vamos mais além. Que superabundancia de ímagens! +Que riquesa e variedade de <i>sensação</i>! Que +esplendidos quadros! Que magnificencia de colorido!</p> + +<div class="poesia"> +Ah! quando no seu collo reclinado<br> +—Collo mais puro e candido <i>que arminho</i>,<br> +<i>Como abelha na flôr do rosmaninho</i><br> +Osculava seu labio perfumado;<br> +<br> +Quando <i>á luz dos seus olhos</i>... (que era vêl-os,<br> +E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!)<br> +Lia na sua bôcca a <i>Biblia santa</i><br> +Escripta em letra <i>côr dos seus cabellos</i>:<br> +<br> +Quando aquella mãosinha pondo um dedo<br> +Em seus labios de <i>rosa pouco aberta</i>,<br> +<i>Como timida pomba</i> sempre alerta,<br> +Me impunha ora silencio, ora segredo;<br> +<br> +Quando, <i>como a alveloa</i>, delicada,<br> +E linda <i>como a flôr</i> que haja mais linda<br> +Passava <i>como o cysne</i> ou <i>como ainda</i><br> +Antes do sol raiar, <i>nuvem dourada</i>;<br> +<br> +...................................<br> +<br> +Quando a <i>cruz</i> do collar do seu pescoço,<br> +<i>Estendendo-me os braços, como estende</i><br> +<i>O symbolo d'amor que as almas prende,</i><br> +<i>Me dizia</i>... o que ás mais dizer não ouço;<br> +<br> +...............................................<br> +<span class="pagenum"><a name="pag96">[96]</a></span> +<br> +Quando o <i>ouro da trança</i> aos ventos dando<br> +E a <i>neve</i> do seu collo e seu vestido<br> +—<i>Pomba</i> que do seu par se ia perdido,<br> +Já de longe lhe ouvia o peito arfando;<sup><a name="mnota4" href="#nota4">4</a></sup><br> +<br> +Tinha o <i>céo</i> da minha alma as sete cores, etc.<br> +<br> +...........................................<br> +...........................................<br> +<br> + Que é d'esses cabellos d'ouro<br> + Do mais subido quilate,<br> + D'esses labios escarlate,<br> + Meu thesouro!<br> +<br> + Que é d'esse halito, que ainda<br> + O coração me perfuma!<br> + Que é de teu collo de espuma,<br> + Pomba linda!<br> +<br> + ..............................<br> + ..............................<br> +<br> +De dia a estrella d'alva empallidece;<br> +E a luz do dia eterno te ha ferido.<br> +Em teu languido olhar adormecido<br> +Nunca me um dia em vida me amanhece.<br> +<span class="pagenum"><a name="pag97">[97]</a></span> +<br> +Foste a concha da praia. A flôr parece<br> +Mais ditosa que tu. Quem te ha partido,<br> +Meu calix de crystal, onde hei bebido<br> +Os nectares do céo... <i>se um céo houvesse!</i><br> +<br> +Fonte pura das lagrimas que choro!<sup><a name="mnota5" href="#nota5">5</a></sup><br> +Quem tão menina e moça desmanchado<br> +Te ha pelas nuvens os cabellos d'ouro!<br> +.....................................<br> +<br> + A vida é o dia d'hoje,<br> + A vida é ai que mal sôa,<br> + A vida é sombra que foge,<br> + A vida é nuvem que vôa;<br> + A vida é sonho tão leve<br> + Que se desfaz como a neve<br> + E como o fumo se esvae:<br> + A vida dura um momento;<br> + Mais leve que o pensamento,<br> + A vida leva-a o vento,<br> + A vida é folha que cáe!<br> +<br> + A vida é flôr na corrente,<br> + A vida é sopro suave,<br> + A vida é estrella cadente,<br> + Vôa mais leve que a ave;<br> + Nuvem que o vento nos ares,<br> + Onda que o vento nos mares<br> + Uma apoz outra lançou,<br> + A vida—penna cahida<br> + Da aza da ave ferida,<br> + De valle em valle impellida<br> + A vida o vento a levou!<br> +<span class="pagenum"><a name="pag98">[98]</a></span> +<br> +..............................<br> +..............................<br> + +<i>Talvez</i>, é hoje a Biblia, o livro aberto<br> +Que eu só ponho ante mim nas rochas, quando<br> +Vou pelo mundo vêr se a posso vêr;<br> +E onde, como a palmeira do deserto,<br> +Apenas vejo aos pés inquieta ondeando<br> + A sombra do meu ser.<br> +<br> +..............................<br> +</div> + +<p>Depois d'isto comprehendeu-se que João de Deus +se propozesse a traduzir o <i>Cantico dos Canticos</i>.</p> + +<p>Como, se bem me lembro, diz Herder, os elementos +primordiaes da poesia hebraica são a <i>sensação</i> +e a <i>imagem</i>, e posto que, no meu entender, +a boa critica não possa monopolisar aquella feição +em favor apenas d'aquella poesia, porque ella é caracteristica +de todas as litteraturas na sua genese, +e nos primeiros periodos de constituição, em quanto +predominam no homem os sentimentos elementares +como diz Veron<sup><a name="mnota6" href="#nota6">6</a></sup>, comtudo a poesia hebraica +propriamente tal quasi não chega a ultrapassar +o periodo d'aquelle predominio. Poderiam +talvez accusar-se os versos que acabo de transcrever +de certo <i>garridismo</i> que mal iria ao sentimento +<span class="pagenum"><a name="pag99">[99]</a></span> +que exprimem, se a violencia d'esse sentimento, +o estado de exaltação sensorial não estivessem +justificando o que parece defeito aos leitores que +não sintam a transfusão psychologica que muitos +hão de experimentar ante aquelles versos magnificos.</p> + +<p>A poesia de João de Deus é verdadeira musica. +Se eu estivesse agora para combater os que +julgam como Lamartine<sup><a name="mnota7" href="#nota7">7</a></sup> que a <i>versificação</i>, o +rhythmo, a cadencia, a rima, são cousas indifferentes +á poesia na «época adiantada e verdadeiramente +intellectual dos povos modernos», os que +teem tudo isso, como Heine (cit. por Max. Buchon) +por completa puerilidade, para valente comprovação +me podiam servir os versos do nosso poeta.</p> + +<p>São elles geralmente como que uma psalmodía. +Allia-se a musica e a poesia que tantos querem +distancear, como se o rythmo fosse apenas elemento +especial d'uma arte. João de Deus como que +tem uma rhythmopêa espontanea. Sahe-lhe o verso +moldado pela ideia e pelo sentimento, e n'este +<span class="pagenum"><a name="pag100">[100]</a></span> +como n'aquelle a modulação existe pelas fataes variantes +dos estimulos e das vibrações cerebraes. +Procuraram os gregos systematisar as relações +do rhythmo para com a idêa e o sentimento, como +se fôra possivel marcar limite numerico aos modos +de ser do pensamento, ou aos productos da actividade +intellectual e esthetica. Se, pois, em muitos +casos, são acceitaveis as velhas regras, geralmente +a rhythmopêa deve ser producto espontaneo, +e não <i>canon</i> de escóla. E porque se dá o primeiro +caso em João de Deus, é que talvez se revela +nos seus versos, bem salientemente o cunho +da personalidade, condição essencial d'uma obra +poetica. É necessario não perder aquella de vista, +porque, como diz o critico francez, que atraz +citei, o verdadeiro merecimento, na poesia, está +antes na esthesia do poeta de que na do leitor. +Ora bastam as transcripções que fiz para vêr como +a personalidade do poeta, o seu sentir e pensar +se patentêam na expressão, na <i>fórma</i>, que em outros +escriptores mal disfarça com arrebiques e ouropeis +a carencia da sensibilidade e inspiração +pessoal.</p> + +<p>Ha mais poesia n'algumas <i>singelezas</i> de João +de Deus do que em muitos <i>versos</i> laureados que +<span class="pagenum"><a name="pag101">[101]</a></span> +por ahi correm como modêlos de <i>metrificação</i>, e +que bem podem sêl-o, o que não basta de certo.</p> + +<div class="poesia"> +Mais poesia em pobre margarida<br> +Que aos pés se pisa, enthesourada vejo,<br> +Que em muita madreperola polida<br> +Que as cinzas guarda de finado arpejo.<br> +</div> + +<p>Toquei eu agora n'uma das melhores poesias de +João de Deus, poesia que elle diz ser fragmento, +e fragmento que bem faz desejar a apparição da +obra toda.</p> + +<p>Vou ainda transcrever alguns trechos que lançam +de certo muita luz sobre o vulto, quasi lendario +do poeta, em pontos menos esclarecidos pelas +transcripções anteriores.</p> + +<div class="poesia"> +Padre, ministro do Crucificado<br> +É bom ferreiro afeiçoando o ferro<br> +Com que ha de prestes ir rompendo o arado<br> +Os campos d'este secular desterro...<br> +<br> +....................................<br> +<br> +Na montanha da Fé, mulher formosa<br> +Se ante mim a meus pés desenrolasse<br> +Como o demonio a vastidão pasmosa<br> +Que elle dava a Jesus se o adorasse<br> +E me pedisse em premio uma só cousa<br> +Ás mãos de minha mãe furtar a face;<br> +Eu lançava-lhe cuspo...<br> +<br> +...................................<br> +<span class="pagenum"><a name="pag102">[102]</a></span> +<br> +Vêde-a ao berço, sofrega de vida<br> +Que a sua é pouca para dar ao filho;<br> +<i>Ella</i> em cama de espinhos, mal vestida,<br> +<i>Elle</i> enfaxado, em berço de tomilho;<br> +<i>Ella</i> em continua, asafamada lida,<br> +<i>Elle</i> vendo se apanha á luz o brilho...<br> +<i>Já descobrindo em tão tenrinha edade</i><br> +<i>Que toda a sua sêde é de verdade.</i><br> +<br> +.................................<br> +.................................<br> +<br> +Irmãs da Caridade! A caridade<br> +Tem só duas irmãs—a Fé e a Esperança:<br> +Não traja as côres só d'uma irmandade,<br> +Traja as côres do Arco d'alliança;<br> +Leva sósinha o pão da piedade,<br> +Tira da roda essa infeliz creança...<br> +Roda da vida que anda de tal sorte<br> +Que, em se lhe dando, é já contar com a morte.<br> +<br> +Bemdita sejas tu, victima triste<br> +D'um peito amante e d'um amante ingrato!<br> +Que nunca á mesma loba lançar viste<br> +Inda mamando o cachorrinho ao mato;<br> +Bemdita sejas tu, que o que pariste<br> +Teu fructo, imagem tua e teu retrato<br> +Conservas como espelho onde te vejas;<br> +Bemdita sejas tu, bemdita sejas.<br> +<br> +................................<br> +................................<br> +<br> +Acaso é só dourada, altiva estola<br> +Que liga os corpos em as mãos ligando,<br> +Confunde corações e faz em summa<br> +Que a Deus se elevem duas almas n'uma?<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag103">[103]</a></span> + +<p>Ahi tendes o apostolo, o campeão social. Não +lhe aceiteis, muito embora, a doutrina. Acatae-lhe +a generosidade, a grandeza da <i>ideia</i>, a robustez +da convicção. Que poema enorme, magestoso e +bello não será aquelle!</p> + +<p>Colligir as poesias de João de Deus que por ahi +andavam dispersas, mutiladas e perdidas, foi de +certo um grande serviço ás patrias letras.</p> + +<p>Prestou-o o snr. José Antonio Garcia Blanco.</p> + +<p>Poeta mais original, mais rico, mais verdadeiro +do que aquelle, não conheço na litteratura portugueza, +e tanto como elle, ha de ser difficil de encontrar +entre nós, na litteratura d'hoje. Um certo +<i>mysticismo</i> mal definido que recendem as suas +poesias, é menos producto da tradicção que originalidade +genial. João de Deus é um homem do +Meio-dia com o vago ancear d'um poeta do norte. +Opprime-o o <i>insufficiente</i> como ao Faust. Se lhe +désse para ser philosopho, onde iria parar?...</p> + +<p>Como poeta tem alguma cousa de Ossian com +alguma cousa de Goëthe...<sup><a name="mnota8" href="#nota8">8</a></sup></p> + +<p class="direita"><b>Luciano Cordeiro.</b></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="nota2" href="#mnota2">2</a></sup> «Goethe et Schiller» por E. Rambert. (Revue Suisse—fev. +1869).</p> + +<p><sup><a name="nota3" href="#mnota3">3</a></sup> Quando digo «sensações sensoriaes», fallo das sensações +«externas +e internas», como vulgarmente se classificam, e não excluo as +que se dão sem realidade objectiva que as provoque, e que constituem +o estado pathologico da «allucinação», estado a que porventura se +poderia reduzir algumas vezes, creio, o «mens divinior» dos antigos. +Esta ultima observação é minha, as anteriores são de Luys (Recherches +sur le système nerveux, etc., etc., cit. par Littré) e E. Littré, +De la méthode en psychologie (Phil. posit.—Revue—1.<sup>er</sup> vol.)</p> + +<p><sup><a name="nota4" href="#mnota4">4</a></sup> Seguia-se a seguinte quadra, que não apparece na collecção +e que eu acho não só egual em bellesa ás citadas, mas superior a algumas:</p> + +<div style="margin-left: 10%;"> +Quando <i>o annel</i> da bôcca lusidia,<br> +Vermelha <i>como a rosa cheia d'agua</i><br> +Em beijos á saudade abrindo a magua<br> +<i>Mil rosas</i> pelas faces me esparzia;<br> +</div> + +<p><sup><a name="nota5" href="#mnota5">5</a></sup> Variante:</p> + +<div style="margin-left: 10%;"> +Oh lagrima das lagrimas que choro!<br> +</div> + +<p><sup><a name="nota6" href="#mnota6">6</a></sup> Superiorité des artes modernes.</p> + +<p><sup><a name="nota7" href="#mnota7">7</a></sup> Cours fam. de litt.</p> + +<p><sup><a name="nota8" href="#mnota8">8</a></sup> Revolução de Setembro (1869) n.<sup>os</sup> 8012, 8015 e 8023.</p> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag104">[104]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag105">[105]</a></span> + + + + +<h2>FLORES DO CAMPO</h2> + +<h5>DE</h5> + +<h3>João de Deus</h3> + + +<p>É indispensavel crêr na poesia como se crê no +Evangelho, como se acredita em Deus. No perpassar +d'esta via dolorosa, cortada a todo o passo +de agrestes sinuosidades, a poesia luzindo de +quando em quando ao viageiro extenuado como +um iris de bonança, significa a mais completa redempção +da materia pelo espirito.</p> + +<p>Aguia sobranceira que elevando-se até perder +de vista o lodo em que se immergem tantos e tantos +seres, vae roçar com a fimbria da aza a crista +das nuvens, confundindo os seus arrulhos mysteriosos +com as melodias dos seraphins!</p> + +<p>Creou Deus a poesia para que a primavera com +os seus canticos e perfumes, com a sua opulenta +<span class="pagenum"><a name="pag106">[106]</a></span> +vegetação, encontrasse quem a comprehendesse, +quem a cantasse: creou Deus a poesia para escarmento +ao vicio, distanceando-nos do finito que é o +começo do scepticismo, para o infinito que é Deus! +Surgiu a poesia para que nas trevas de um mundo +que ri de tudo como Democrito, que tudo amesquinha, +brilhasse uma luz que só de vêl-a a alma se +purificasse e o espirito adejasse para o ideal.</p> + +<p>Não chamem á poesia trivialidade.</p> + +<p>Estudem os seculos; contemplem as nações e +digam se a poesia teve ou não extraordinaria influencia +nos grandes acontecimentos sociaes.</p> + +<p>Quem, senão Roger de l'Isle, ergueu palpitante +toda a França com umas quantas estrophes, a +<i>Marseillaise</i>?</p> + +<p>Não foram os versos de Shakespeare, de Milton, +de Pope, que poderosamente concorreram a immortalisar +a Inglaterra?</p> + +<p>Portugal não deve a fama da sua gloria aos +<i>Lusiadas</i> de Camões?</p> + +<p>Consintam os homens de algarismos, os materialistas +que antepõem a carne ao espirito, que fazem +d'ella o seu credo, que os poetas, os sonhadores +de chimeras deixem devanear a imaginação +por esses horisontes de anil; deixem que reclinados +<span class="pagenum"><a name="pag107">[107]</a></span> +á proa do baixel da vida namorem o azul das +aguas depois de terem contemplado o dos céos.</p> + +<p>Ai da humanidade, se o poeta deixar pender a +fronte desalentada ao partirem-se-lhe as cordas da +lyra! a prosa invadirá o sanctuario dos mais nobres +estimulos, e o sceptico exultará ao soltar a +sua risada infernal como a dos condemnados do +Dante.</p> + +<p>Não sei quantas vezes temos lido as <i>Flores do +Campo</i>, exhaurindo sempre novos e exquisitos perfumes.</p> + +<p>Tem isso a originalidade, que é o distinctivo +d'este poeta. Costumamos dizer com referencia a +qualquer notavel escriptor nosso: aquelle talento +tem a suavidade de Lamartine, o sentimento de +A. de Musset, o mysticismo de Chateaubriand, a +ironia de Byron, a energia apaixonada de Victor +Hugo.</p> + +<p>Porque não havemos de dizer que João de Deus +tem o cunho original da poesia portugueza na sua +mais genuina expressão?! Quem se compraz em +parodiar constantemente os usos e idiomas dos de +fóra, deve uma vez por outra, ufanar-se do que +tem de seu original e portuguez de lei, como o é +João de Deus em todos os seus escriptos.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag108">[108]</a></span> + +<p>Atravez dos versos do mimoso poeta contemplam-se +as noites estrelladas de Portugal, o Tejo +com as risonhas margens, Coimbra com a sua +<i>Fonte das Lagrimas</i>, o clima emfim e a vegetação +esplendida d'este pequeno eden.</p> + +<p>Vê-se que este poeta é portuguez de feição, e +comprehende-se quanto na patria de Camões e +Garrett a poesia se manifesta espontanea e esplendida +na fórma e ideia!</p> + +<p>Começa o livro com a poesia <i>Camões e Byron</i>, +e termina com o <i>Cantico dos Canticos</i>: abre pois +com chave de prata para fechar com chave de +ouro.</p> + +<p>Ha estrophes de uma suavidade tão nimiamente +infantil, tão peculiarmente despretenciosa, que +a ninguem senão a João de Deus poderiam attribuir-se, +quando mesmo o seu nome não estivesse +engrinaldando luxuosamente o adito d'este livro.</p> + +<p>Citaremos, entre muitas, estas:</p> + +<div class="poesia"> +Maria! vêr-te á porta a fazer meia<br> +Olhando para mim de vez em quando,<br> +É o que n'esta vida me recreia.<br> +..................................<br> +<br> +Esses olhos azues... que olhar! Receio<br> +E desejo estar sempre a contemplal-o;<br> +Não ha mais doce e mais custoso enleio.<br> +<span class="pagenum"><a name="pag109">[109]</a></span> +<br> +..................................<br> +<br> +Bem poderas, Maria andar tapada<br> +Só com o teu cabello, á similhança<br> +Do sol em nuvem de manhã doirada.<br> +<br> +...................................<br> +<br> +A bôca é tão vermelha que, em te rindo,<br> +Lembra-me uma romã aberta ao meio,<br> +Quando já de madura está caindo.<br> +</div> + +<p>Na poesia <i>Innocencia</i> revela o poeta, a par de +uma finura de sentimento e extrema sensibilidade, +um preito á virtude, que toda a mulher que a lêr +deve necessariamente sentir-se attrahida por um +sentimento de gratidão para quem a escreveu:</p> + +<div class="poesia"> +Casta innocencia, de Deus filha e bella<br> +Entre as mais bellas! virginal aroma!<br> +Rosa ineffavel, que se á luz assoma,<br> +Haste e raiz apodreceu com ella!<br> +</div> + +<p>Percebemos tambem que João de Deus pertence +ao numero dos crentes, ainda tão mal limitado; +prova-o exuberantemente as suas poesias <i>Luz +da Fé</i>, <i>Fragmento</i>, e varias outras.</p> + +<div class="poesia"> +Deus era inda meu pae. E em quanto pude<br> +Li o seu nome em tudo quanto existe;<br> +No campo em flor; na praia arida e triste,<br> +No céo, no mar, na terra e... na virtude!<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag110">[110]</a></span> + +<p>Como o poeta adora a poesia e o quanto tem +d'ella feito o seu credo, dil-o eloquentemente esta +quadra:</p> + +<div class="poesia"> +Oh! poesia, poesia altissima<br> +Como o fecho do impyreo! eu me ajoelho<br> +E beijo a tua base, harpa celeste!<br> +O coração—a corda que nos deste.<br> +</div> + +<p>Na alma d'este homem que tem na fronte uma +estrella de fogo e talvez um martyrio no coração, +suspiram ternuras indiziveis que a sua lyra traduz +em canticos suavissimos:</p> + +<div class="poesia"> +É do sangue e das mães que eu fallo, e certo,<br> +Que ha na vida mais sancto? O sangue é vida;<br> +E as mães fontes de vida: eu nunca esperto<br> +Esta lampada d'alma, suspendida<br> +Na abobada eterna e que tão perto<br> +Parece ter a origem..............<br> +....................senão quando<br> +Vejo essa cara imagem suspirando.<br> +</div> + +<p>Querem dizer, e talvez com razão, que João de +Deus abusa da rima deixando-a por vezes defeituosa.</p> + +<p>A meu vêr esta pecha está na razão das manchas +que o sol contém, mas que os nossos olhos +não descobrem sem o auxilio do telescopio, o que +não obsta a que o sol seja o astro do dia.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag111">[111]</a></span> + +<p>«Marcar balisas á poesia, é impossivel, diz um +illustre poeta e critico, a poesia é livre como o +pensamento, e grande como a immensidade.»</p> + +<p>Eis-ahi está o segredo da culpa, e <i>feliz culpa</i>!</p> + +<p>Se João de Deus pertencesse a um certo numero +de poetas que esgravatam na areia e folheiam +livros alheios primeiro que possam rabiscar algumas +insulsas linhas, talvez a rima lhe saísse menos +incorrecta segundo a arte, mas acanhada e rachitica +segundo o pensamento.</p> + +<p>A verdadeira poesia, como diz C. de Figueiredo, +surge livre como a natureza; irrompe, inunda +de luz de fogo, sem muitas vezes poder sujeitar-se +aos acanhados moldes da arte.</p> + +<p>Apparece-nos o poeta, namorado como Bernardim +Ribeiro, n'estas dulcissimas estrophes:</p> + +<div class="poesia"> +Não ha existencia alguma<br> +Que não tenha amor, nenhuma;<br> +Porque o amor, é, em summa,<br> +Essencia de todo o ser.<br> +Ha sempre quem nos attraia,<br> +Mil vezes que a onda caia,<br> +Ha uma rocha, uma praia<br> +Aonde a onda vae ter.<br> +</div> + +<p>Seria um nunca acabar se fossemos a exarar aqui +todas as preciosissimas joias d'esta corôa opulenta +que veio enriquecer a nossa litteratura.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag112">[112]</a></span> + +<p>Apartamo-nos do livro com extrema saudade, recommendando +á leitora, que por acaso ainda o não +possue, a prompta acquisiçao d'elle para collocal-o +ao lado das rosas, jasmins e violetas com que, durante +a formosa estação que se avisinha, ha de +perfumar o seu <i>boudoir</i>.<sup><a name="mnota9" href="#nota9">9</a></sup></p> + +<p class="direita"><b>D. Guiomar D. Torrezão.</b></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="nota9" href="#mnota9">9</a></sup> Voz Feminina (1869) n.º 60.</p> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag113">[113]</a></span> + + + + +<h2>ANNO LITTERARIO DE 1869</h2> + +<hr style="15%"> + +<h3>CARTAS A J. SIMÕES DIAS</h3> + +<hr style="15%"> + +<p>Á hora dos phantasmas, á meia noite, escreveste +o <i>Anno litterario de 1868</i>. A noite é sombria e +triste; e por isso as tuas reflexões humoristicas +não occultam de todo a descrença, a tristeza e o +desanimo, com que espalhaste a vista pelas coisas +litterarias da nossa terra.</p> + +<p>Fundado ou infundado, não chamarei eu esse +desalento, porque, de onde em onde, nos encontrariamos, +se eu fosse ajustar o padrão da tua critica +ao juizo que eu fizesse de producções da arte.</p> + +<p>Não posso, comtudo, deixar de querer muito a +essa franqueza, que é o teu caracter, e a tua regra +em materias de critica. E tanto mais lhe quero, +quanto eu reconheço que a franqueza, hoje em dia, +<span class="pagenum"><a name="pag114">[114]</a></span> +é fazenda de contrabando nas nossas alfandegas +litterarias.</p> + +<p>Quando o anno de 1868 pertencia já ao passado, +scismavas á meia noite sobre o mau rumo que +te pareceu levarem as nossas letras. Eu sou um +pouco mais crente, e menos atrabiliario: á entrada +de 1869, estendo os olhos ao futuro, e espero +e creio muito, porque já não são de pouca monta +as primicias que nos offerece o anno litterario de +1869. Fallo das <i>Flores do Campo</i> de João de +Deus.</p> + +<p>Com a analyse d'este livro, abro uma serie de +apreciações, em que te fallarei das obras poeticas +que n'este anno, e em Portugal, se derem á estampa. +O meu voto, em materia alguma tem força, +nem eu procuro dar-lh'a, para se insinuar no animo +do publico: é um voto individual, em que apenas +acharás o merito da sinceridade e da franqueza.</p> + +<p>Direi de caminho que não sigo a trilha que me +deixou o teu <i>Anno litterario</i>. Não deslembrarei +os preceitos da critica analytica, para não apreciar, +em synthese, obras que exigem demorado exame +das suas partes.</p> + +<p>Tambem não escolho, para te escrever, a hora +lugubre dos phantasmas. Começo a escrever-te ás +<span class="pagenum"><a name="pag115">[115]</a></span> +horas d'uma esplendida manhã, espalhando os +olhos por aquellas duas margens do nosso Mondego: +a relva rasteira que as veste, e que me falla +de vagas esperanças, ha de desentranhar-se em +flores e fructos. Deixa-me crêr muito no dia de +ámanhã.</p> + +<p>E porque não virão as flôres da poesia derramar +perfumes sob este céo de Portugal, n'este <i>jardim +da Europa</i>, onde já suspirou melodias Bernardim, +Camões, Garrett, Castilho! Não morre a +poesia portugueza: a estatua da deusa ainda não +tremeu na peanha; e quando os iconoclastas do +bello quizessem contra ella erguer braços profanos, +a quantos apostolos da arte não teriam de +suffocar a voz!</p> + +<p>Bem-vindos sejam estes sonhadores de chimeras, +estes utopistas cheios de alma e coração, luctando +de contínuo com o mundo real, e de contínuo +erguendo-nos a mundos imaginarios, mas bellos +d'uma belleza que não é da terra!</p> + +<p>Fallo-te da poesia individual, e eu sei bem que +lhe não queres tanto como eu. Desejas que a poesia +se concentre no mundo estreito dos fins sociaes; +entendes que a poesia deve de limitar-se a mostrar +o caminho á humanidade que marcha, ou á +<span class="pagenum"><a name="pag116">[116]</a></span> +exaltação dos dogmas do seculo. Por certo que se +não desvirtua a poesia, seguindo por taes veredas; +mas o genio não tem peias nem limites: veste de +luz o lirio dos valles; alumia a estrada ao caminheiro +da vida; doira as arestas do serro escalvado; +enche a noite de luz; de fulgores inunda o +espirito, e não sei por quantos mundos nos leva a +alma absorta!</p> + +<p>Marcar balisas á poesia, é impossivel, porque a +poesia é livre como o pensamento.</p> + +<p>Deixa pois cantar os poetas que levantaram a +vista do pó da terra, onde tudo é limitado como a +materia, e vil como o gusano das ossadas. Deixa +que eu te falle de um poeta, cujo espirito é aguia +que raro avisinha a ponta das azas aos marneis da +sociedade. A gente pasma da altura a que se eleva +aquelle espirito, e acontece ás vezes que a nossa +vista não póde acompanhar tão levantados vôos: +perde-se elle no vacuo, e, quando divaga em mares +de luz, ficamos nós em trevas, sem vêr a direcção +que elle toma...</p> + +<p>João de Deus não canta para a sociedade, canta +para si. Quer discorra por vergeis de poesia singela +e perfumada, quer se eleve a alturas desmedidas, +não se importa de que lhe não oiçam nem +<span class="pagenum"><a name="pag117">[117]</a></span> +entendam o canto sempre harmonioso. É talvez +por isso que elle não publicou, nem publicaria as +<i>Flores do Campo</i>.</p> + +<p>Ao amigo que lh'as estampou, muito devemos +nós todos os que presamos as nossas boas letras.</p> + +<p>Agora se me offerece caso para cogitações profundas: +as <i>Flores do Campo</i> saíram a lume ha +quasi um mez, e, até á data em que te escrevo, +dormem os nossos criticos a bom levar, sem que +uma palavra lhes haja irrompido dos labios, sobre +o merecimento d'este magnifico livro. Aqui, +ha por força caso virgem, mas... ponto em bôcca.</p> + +<p>E pois que os criticos não querem, ou não ousam, +pronunciar o seu <i>veredictum</i>, vou eu mostrar-te +o valor em que tenho as <i>Flores do Campo</i>, +por que me digas ao depois se não são ellas, para +a nossa litteratura, prenuncios d'um outono avergado +de fructos.</p> + +<p>Quando o visconde de Chateaubriand trabalhava +por agremiar em torno da cruz as multidões, +que ainda sentiam nos ouvidos a voz tentadora de +Robespierre e Mirabeau, surgia na Inglaterra um +homem extraordinario, personificação pasmosa do +genio e do scepticismo—lord Byron.</p> + +<p>Ninguem como o cantor do <i>Childe Harold</i>, pôde +<span class="pagenum"><a name="pag118">[118]</a></span> +jámais aliar uma alma de poeta ao scepticismo, +á duvida, á frieza, que ressumbram de cada verso +do <i>Don Juan</i>:</p> + +<div class="poesia"> +For me, I know nought; nothing I deny,<br> +Amit, reject, contemn; and what knew you,<br> +Except perhaps that you were born to die?<br> +And both may after all turn out in true.<br> +</div> + +<p>Mas... na mente de Byron reflectia-se uma das +tendencias mais caracteristicas da sociedade contemporanea; +o scepticismo apresentou-se revestido +com a aureóla do genio, ergueu-se como chamma +incendiaria, e lavrou pela litteratura do seculo.</p> + +<p>Que restava aos adeptos da poesia? O maior +numero, como os companheiros de Ulysses, deixou-se +arrastar pelos cantos da sereia, e, se não abordou +á ilha encantada, d'onde lhe acenava a gloria, +mediu a profundeza do abysmo que a tentação lhe +abriu aos pés...; outros, refugiram á attração, e +velejaram alegres por onde os não batessem os +pampeiros da descrença e do scepticismo.</p> + +<p>A poesia que abre o livro de João de Deus é o +emblema dos dous rumos por onde tomam os argonautas +da arte, e estrema o scepticismo e crença, +<i>Camões</i> e <i>Byron</i>. Não sei se esta composição +<span class="pagenum"><a name="pag119">[119]</a></span> +vale muito aos olhos dos mestres; para mim, é das +mais somenos de João de Deus, e, se não fôra collocada +alli para denunciar, talvez, as crenças litterarias +do auctor, não a quizera vêr á entrada +d'este livro. A arte exige para um edificio primoroso +um portico lavrado a primor.</p> + +<p>Na composição alludida, se a ideia é grande e +original, a fórma que a reveste não, não é perfeita; +sem fórma, não concebo arte, e sem arte não +se traduz o sentimento do bello.</p> + +<p>Não vás porém julgar que estou dando lições +de poetica a um poeta como João de Deus. Mais +do que ninguem, conhece elle por ventura os defeitos +do seu livro, e, se os poupou, ao limar os +seus versos, é que não teve em tanta conta, como +geralmente se tem, certas exigencias da arte.</p> + +<div class="poesia"> +Que vês?—Sóes, de tal sorte<br> +Que os crêra tochas <i>pallidas</i>,<br> +Quando as guedelhas, <i>madidas</i><br> +De sangue, arrasta a morte.<br> +<br> +...........................<br> +<br> +—Falla.—Deus! que harmonia!<br> +Aqui a alma <i>exalta-se</i>;<br> +A alma aqui <i>dilata-se</i>...<br> +<i>Camões!</i>—É a poesia.<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag120">[120]</a></span> + +<p>Nem a critica imparcial tanto exige, nem eu tenho +logar bastante para transcrever aqui todas as +estrophes, em que as rimas se me deparam defeituosas +e erradas. Cito-te de passagem <i>queime</i> e <i>geme</i>, +<i>deixe</i> e <i>feche</i>, <i>confesso</i> e <i>immenso</i>, +<i>cuides</i> e <i>virtudes</i>, +<i>outro</i> e <i>encontro</i>, <i>géra</i> e <i>inteira</i>, <i>teimo</i> +e <i>supremo</i>, +<i>prega</i> e <i>negra</i>, <i>avaro</i> e <i>ara</i>, <i>sêde</i> e +<i>hei-de</i>, +<i>põe</i> e <i>foi</i>, <i>vê</i> e <i>adorei</i>, <i>inteiro</i> e +<i>quero</i>, etc.</p> + +<p>E comtudo João de Deus parece brincar com as +maiores difficuldades da rima. Para não fallar na +poesia <i>Boas Noites</i>, basta apontar-te aquelle trecho +da poesia <i>O Musgo</i>:</p> + +<div class="poesia"> +Um dia, não sei que tinha...<br> +Uma tristeza tamanha!<br> +E lembra-me ir á montanha<br> +Que temos aqui visinha,<br> +Onde em tempo me entretinha<br> +Horas e horas sósinha,<br> +Quando ainda não se extranha<br> +Que n'uma teia de aranha<br> +Se prenda uma innocentinha,<br> +Ou atrás d'uma avesinha<br> +Se cance a vêr se a apanha.<br> +</div> + +<p>Em metricação tambem as <i>Flores do Campo</i> nos +offerecem provas de que João de Deus não é, +n'este ponto, nimiamente escrupuloso. Assim ficou +errado este decassyllabo:</p> +<span class="pagenum"><a name="pag121">[121]</a></span> + +<div class="poesia"> +Chamando-os com enternecimento,<br> +</div> + +<p>e aquelle septissylabo que vae sublinhado:</p> + +<div class="poesia"> +Que é a torre exactamente<br> +<i>De David n'esses ares,</i><br> +</div> + +<p>para não citar passagens como estas:</p> + +<div class="poesia"> +<i>Adeus tranças côr de ouro,</i><br> +Adeus peito côr de neve.<br> +<br> +<i>Tornaram-se-me em estrellas</i><br> +<i>As lagrimas de dôr.</i><br> +</div> + +<p>Versos ha tambem nas <i>Flores do Campo</i> defeituosos +pela disposição dos accentos predominantes. +Bastam tres exemplos em versos decassyllabos:</p> + +<div class="poesia"> +Ha puros sonhos de imaginação.<br> +<br> +E eu digo, digo á luz scismadora.<br> +<br> +Expôz aos coices... leão moribundo.<br> +</div> + +<p>Mas um verso completamente errado, e que por +certo não sahiu assim da penna de João de Deus, +é aquelle</p> + +<div class="poesia"> +Que fez tremer as abobadas do inferno.<br> +</div> + +<p>Não é necessario ser auctor das <i>Flores do Campo</i>, +para condemnar um verso tal. Descuido do +<span class="pagenum"><a name="pag122">[122]</a></span> +impressor, e falta de cuidado na revisão, occasionaram +aquelle erro, a que de prompto se obviaria +com a suppressão de dous <i>ss</i> inuteis.</p> + +<p>O que para alguém não será defeito, mas que +para muitos torna inintelligiveis algumas passagens, +do livro, é, por vezes o abstruso da ideia, velada +por sombras impenetraveis. Dá-me tu, se podes, +a chave d'este enigma:</p> + +<div class="poesia"> +Oh! ha tres vistas com que as coisas vêmos;<br> +Ha tres rasões que as coisas determinam;<br> +Uma a dos olhos; outra a que escondemos<br> +N'isso ante que os álamos se inclinam;<br> +Outra a que dentro no coração temos,<br> +Que os limites do espaço só terminam:<br> +Coube a primeira em sorte á borboleta;<br> +A outra ao homem; a terceira ao poeta.<br> +</div> + +<p>E quando João de Deus, á vista d'um retrato, +exclama:</p> + +<div class="poesia"> +És tu! Amo-te e muito! O que fluctua<br> +Na fornalha que o sopro eterno acende,<br> +Não beija a mão do anjo que o suspende<br> +Com mais amor que eu beijo a sombra tua!»<br> +</div> + +<p>Quem é que fluctua na fornalha acesa pelo sôpro +eterno? Será o sol?</p> + +<p>Especialmente n'aquelle fragmento que principia +na pagina 130, mais alguns pontos se me deparam, +para cuja interpretação me não sinto com +<span class="pagenum"><a name="pag123">[123]</a></span> +forças. Não te faço mais citações, a este proposito, +porque bem póde ser que toda a gente penetre +o que para mim é escuro. Demais d'isto, parece-me +que o poeta nem sempre tem obrigação +restricta de moldar os vôos da sua imaginação pela +myopia dos que só podem curvar-se diante das +nuvens que velam a sarça ardente...</p> + +<p>Agora, vaes talvez esquecer as manchas que divisastes +n'esta joia litteraria, para festejares comigo +quadros esplendidos de poesia originalissima, +rica de sentimento, de graça e de harmonia.</p> + +<p>Originalidades litterarias, poucos ha, já agora, +que n'ellas creiam. Escorre de vez em quando, +por ahi uma sanie de novidade tão asquerosa pelas +folhas volantes da nossa litteratura de hoje, que +os apreciadores de pituitaria melindrosa, não ha +quem os desatrelle da sentença de que <i>tudo o que +é novo é mau, e que tudo o que é bom é velho</i>.</p> + +<p><i>Nihil sub sole novum!</i>—cantava o Gessner biblico, +asseguravam os juizes de Galileu, e rouqueja +Boileau com os demais amphyctiões da litteratura. +Respeitemos o talento; mas aos que duvidam da +grandeza do genio, e pedem ao passado a chave +do futuro, atiremos-lhe á face com a resposta de +Galileu:—<i>E pur si muove.</i>—</p> +<span class="pagenum"><a name="pag124">[124]</a></span> + +<p>Admittida a originalidade, moldada pelo bom +gosto, devemos saudal-a em João de Deus, o poeta +mais original que eu conheço entre os nossos homens +de letras. Estudo João de Deus, dês que leio +versos, e ainda não pude encontrar o segredo d'aquella +harmonia tão sua, d'aquella elegancia tão +despretenciosa, d'aquelle sentimento que tanto nos +captiva a alma, sem sabermos como.</p> + +<p>Ou eu me engano muito, ou da poesia de João +de Deus me vêm uns aromas que não desdizem +d'aquella fragrancia que o esposo dos <i>Canticos</i> aspirava +nos jardins da Sulamite biblica; d'aquella +gravidade scismadora que resaltava das cordas do +psalterio de David; d'aquelle adejar sublime e +vago da aguia de Páthmos. Tranemos agora o +mar dos seculos, ponhamos ao lado das <i>Flores do +Campo</i> as fantazias de Schiller a Laura, e verás +que muitos arrojos da imaginação do bardo portuguez +não desmerecem a companhia dos do bardo +do norte.</p> + +<p>Mas, sobretudo, o que mais me enfeitiça nas +<i>Flores do Campo</i> é aquelle mimo e suavidade que +matizam estrophes como estas:</p> +<span class="pagenum"><a name="pag125">[125]</a></span> + +<div class="poesia"> +Ah! quando no seu collo reclinado<br> +—Collo mais puro e candido que arminho,—<br> +Como abelha na flôr do rosmaninho<br> +Osculava seu labio perfumado;<br> +<br> +Quando á luz dos seus olhos... (que era vêl-os,<br> +E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!)<br> +Lia na sua bôca a Biblia Santa<br> +Escripta em letra côr dos seus cabellos;<br> +<br> +Quando a sua mãosinha pondo um dedo<br> +Em seus labios de rosa pouco aberta,<br> +Como timida pomba sempre álerta,<br> +Me impunha ora silencio, ora segredo;<br> +<br> +.....................................<br> +<br> +Quando em balsamo d'alma piedosa<br> +Ungia as mãos da supplice indigencia,<br> +Como a nuvem nas mãos da Providencia<br> +Um lagrima estila em flôr sequiosa;<br> +<br> +Quando a cruz do collar do seu pescoço<br> +Estendendo-me os braços, como estende<br> +O symbolo d'amor que as almas prende,<br> +Me dizia... o que ás mais dizer não ouço;<br> +<br> +........................................<br> +<br> +Tinha o céo da minha alma as sete côres,<br> +Valia-me este mundo um paraizo,<br> +Distillava-se a alma em dôce riso,<br> +Debaixo dos meus pés nasciam flôres.<br> +</div> + +<p>É assim que João de Deus se recorda da visão +fugitiva que lhe doirou os sonhos de poeta e moço. +<span class="pagenum"><a name="pag126">[126]</a></span> +Mais adiante, parece esquecer o lucto da saudade, +mas não perde a doçura da harmonia:</p> + +<div class="poesia"> +Como os teus pés são lindos! como é doce<br> + A curva do teu peito!<br> +Oh! se o meu coração fosse o teu leito,<br> + E o teu amado eu fosse!<br> +<br> +Que preciosas perolas descobre<br> + Teu meigo, humilde labio!<br> +E virgem! como Deus foi justo e sabio<br> + Em te deixar tão pobre!<br> +<br> +....................................<br> + ........................<br> +Tu não tens mais do que uma pobre saia,<br> + E essa, curtinha e leve.<br> +<br> +Onde o corpo te alteia, a saia avulta;<br> + Onde te abaixa, desce...<br> +És como a rosa! A rosa nasce e cresce,<br> + Não para estar occulta.<br> +<br> +O que te falta, pois? os teus desejos<br> + Quaes são? de que precisas?<br> +Ah! não ser eu o marmore que pisas...<br> + Calçava-te de beijos!<br> +</div> + +<p>Ao terminar a transcripção d'este mimosissimo +trecho, sinto não poder attribuir a João de Deus +a chave que o fecha. O aprimorado e suave oratoriano +Manoel Bernardes já tinha dito na sua excellente +<i>Luz e Calor</i>, fallando a Jesus menino:</p> +<span class="pagenum"><a name="pag127">[127]</a></span> + +<blockquote> +<p>«Menino da minha alma, meu eterno nascido de ainda agora, +meu gracioso molhinho de amores perfeytos, minhas bellezas encantadoras +do coração humano: faze-me Serafim, para que te ame +muito: dá-me limpeza grande em meus labios <i>para calçar teus pésinhos +de mil osculos santos</i>: deyxa cahir das conchinhas de teus +olhos hua lagryma sobre meu peyto, etc.» (Pag, 556, ediç. 1724.)</p> +</blockquote> + +<p>Mas que importa isso? Prouvera a Deus que +os plagiatos, de que a litteratura anda eivada, se +pautassem por este!</p> + +<p>Vivacidade de expressão, galanteria e graça, +podes vêr d'isso um modelo no madrigal, epigramma, +ou como quizeres chamar-lhe, feito <i>A +uns olhos azues</i>:</p> + +<div class="poesia"> +Cáe a folha da rosa pudibunda,<br> +Cáe a rosa da face virginal,<br> +Cáe das nuvens a aguia moribunda,<br> +Cáe o sol na montanha occidental.<br> +<br> +.................................<br> +<br> +Cáe do céo a centelha incendiaria,<br> +A nuvem cáe, se um sopro Deus lhe dá,<br> +Cáe ante o dia a noite solitaria<br> +Como o falso Dagon ante Jehovah.<br> +<br> +Cáe tudo, flôr! cáe tudo; eu só não caio:<br> +Mais do que um rei, que o sol, egual a Deus,<br> +Cahir, mulher! só posso á luz d'um raio<br> +Se elle cahir do céo dos olhos teus!<br> +</div> + +<p>De vez em quando, o poeta apparece-nos pensador +<span class="pagenum"><a name="pag128">[128]</a></span> +e philosopho; mas, ainda assim, a razão não +vence o sentimento:</p> + +<div class="poesia"> +Irmãs da Caridade! A Caridade<br> +Tem só duas irmãs—a Fé e a Esperança:<br> +Não traja as côres só d'uma irmandade,<br> +Traja as côres do Arco da Alliança;<br> +Leva sósinha o pão da piedade;<br> +Tira da roda essa infeliz criança...<br> +<br> +....................................<br> +</div> + +<p>Mais longe iria eu, se me propozesse trancrever +tudo o que nas <i>Flores do Campo</i> se apresenta digno +dos mais levantados encomios. Assim, por +não alongar em demasia a presente carta, recommendo-te +a leitura da <i>Heresta</i>, da <i>Rachel</i>, do <i>Ultimo +adeus</i>, da <i>Marina</i>, do <i>Remoinho</i>, do <i>Leito +nupcial</i>, da <i>Innocencia</i>, da <i>Joven captiva</i>, e, muito +especialmente, do <i>Cantico dos canticos de Salomão</i>.</p> + +<p>Lamennais e Renan haviam traduzido esplendidamente +o <i>Cantico dos canticos</i>; João de Deus +inspirou-se da pastoral de Sulem, e fez um poema +quasi seu: seu pela fórma, pelo colorido, e pela +disposição das scenas.</p> + +<p>O <i>Cantico dos canticos</i> pertence, como sabes, +ao numero dos livros sagrados, e é ponto inconcusso, +<span class="pagenum"><a name="pag129">[129]</a></span> +entre os padres da Egreja, que os desposorios +de que falla Salomão exprimem a união +mystica do Verbo incarnado com a natureza humana, +com a Egreja e com as almas justas.</p> + +<p>Os presidentes da synagoga judaica prohibiam +a leitura d'este livro a quem não tivesse mais de +trinta annos; e, ainda em tempos do piedoso João +Gerson, nem os doutores o liam antes d'essa edade. +E de feito nem Theocrito nem Florian deram +jámais aos seus idylios aquelle perfume voluptuoso +que, por entre flôres de poesia immorredoira, livremente +se respira no idylio de Salomão.</p> + +<p>Theodoro Mopsueste teve o ousio de ligar a esse +idylio um sentido exterior, e não mystico, interpretando-o +litteralmente, mas foi condemnado pelo +segundo concilio de Constantinopla. Hoje não ha +temor de que a Egreja condemne João de Deus, +e todos os que separam da poesia o dogma, talvez +porque a Egreja, boa mãe, não quer vêr o mundo +coalhado de herejes.</p> + +<p>E que importam ao leitor as convicções de João +de Deus? A alma piedosa que se edificava na contemplação +dos amores da Sulamite, pela versão de +S. Jeronymo, que perde ella contemplando-os na +lingua de Camões? «Para um coração puro, tudo +<span class="pagenum"><a name="pag130">[130]</a></span> +é puro.»—É palavra de Deus, com que o poeta +se auctorisa para trazer a lume a interpretação litteral +do <i>Cantico dos canticos</i>.</p> + +<p>Já agora, apezar da extensão d'esta carta, deixa-me +ainda expôr á tua vista algumas das paizagens +mais seductoras d'este paraizo de amor, onde +a volupia oriental se escoa semi-nua por ondulantes +pradarias em flôr. Ouve:</p> + +<div class="poesia"> +A SALUMENSE.<br> +<br> +Sou trigueira, mas formosa,<br> +Moças de Jerusalem!<br> +Senão, vêde o pavilhão<br> +Que arma em campo Salomão,<br> +Se ha coisa mais preciosa,<br> +E por fóra a cór que tem;<br> +Vêde as barracas dos moiros,<br> +Por dentro tantos thesoiros,<br> +Por fóra, negras tambem.<br> +<br> +Não vos dê pois isso pena<br> +Ter assim a côr morena:<br> +Minha mãe mandou-me pôr,<br> +Por culpa de meus irmãos,<br> +De guarda á vinha; o calor<br> +Queimou-me o rosto e as mãos<br> +E eu, a vinha, é escusado<br> +Dizer-vos que nem eu tinha<br> +Senão agora o cuidado<br> +De estar a guardar a vinha.<br> +<span class="pagenum"><a name="pag131">[131]</a></span> +Oh! para que banda vás<br> +Com o gado, meus amores!<br> +E pela folga onde estás?<br> +Bem vês os outros pastores,<br> +E a gente não adivinha.<br> +Eu não hei de andar atrás<br> +D'esses rebanhos sósinha.<br> +<br> +.........................<br> +<br> +<br> +SALOMÃO.<br> +<br> +Que enlevo! que formosura!<br> +A pomba não tem de certo<br> +No olhar tanta doçura:<br> +E fóra o que anda encoberto.<br> +<br> +O cabello, em quantidade<br> +E tamanho, é singular;<br> +E não me lembra senão<br> +Das cabras de Galaad<br> +Ques lhes roja pelo chão<br> +Em ellas indo a andar.<br> +<br> +Os dentes, em tu abrindo<br> +A tua boca, que lindo!<br> +Nem um rebanho de ovelhas<br> +Todas brancas e parelhas<br> +Quando em sendo tosquiadas<br> +Vêem sahindo do banho<br> +D'uma em uma, enfileiradas,<br> +E atrás d'ellas cada uma<br> +Seus dois gemeos d'um tamanho,<br> +Sem ser maninha nenhuma.<br> +<span class="pagenum"><a name="pag132">[132]</a></span> +<br> +Pois a boca é comparada<br> +A uma fita encarnada.<br> +A voz, ouvil-a é um gosto.<br> +Parte a romã pelo meio<br> +Verás as rosas do rosto;<br> +E fóra no que eu receio<br> +Fallar, que me não é dado.<br> +<br> +O pescoço, pensa a gente,<br> +Em o vendo de collares,<br> +Que é a torre exactamente<br> +De David n'esses ares,<br> +De baluartes, e toda,<br> +Lá cima, escudos á roda.<br> +<br> +Os peitos, é um casal<br> +De corcinhas, que o seu pasto<br> +São açucenas do valle:<br> +Nada mais timido e casto.<br> +E deitam um cheiro á gomma<br> +Da myrrha mais do incenso,<br> +A ponto que ás vezes penso<br> +Que elles são duas collinas<br> +Por onde aquellas resinas<br> +Espalham aquelle aroma.<br> +</div> + +<p>Se a esta hora me não accusasses de abuso de +paciencia, ainda te repetia toda aquella mimosa +<i>carta</i> que principia:</p> + +<div class="poesia"> +Maria! vêr-te á porta a fazer meia,<br> +Olhando para mim de vez em quando,<br> +É o que n'esta vida me recreia.<br> +<span class="pagenum"><a name="pag133">[133]</a></span> +<br> +Acordo até de noite, suspirando<br> +Por que rompa a manhã, e tenha o gosto<br> +De te vêr já tão cedo trabalhando.<br> +<br> +Desde pela manhã até sol posto,<br> +Que não tens de descanço um só momento;<br> +Por isso tens tão bella côr do rosto!<br> +<br> +E eu pallido, Maria! o pensamento<br> +Não é trabalho que nos dê saude,<br> +—Esta imaginação é um tormento!...<sup><a name="mnota10" href="#nota10">10</a></sup><br> +</div> + +<p>Mas... basta. O livro de João de Deus tem +defeitos: escaceia a revezes a ligação dos pensamentos, +a clareza das ideias, a exactidão do metro, +a perfeição da rima, e não metteria uma lança em +Africa o linguista que nas <i>Flores do Campo</i> descortinasse, +uma vez por outra, impureza e incorrecções +de linguagem. Se, porém, eu mirasse a +comprovar, n'esta rapida e singela revista, com os +versos de João de Deus a sympathia e a admiração +que elles me devem, não seria este o espaço +que abrangesse tudo o que alli me pareceu filho +d'uma inspiração verdadeira e original. Demais, +o poeta não lucraria com estas transcripções a esmo, +<span class="pagenum"><a name="pag134">[134]</a></span> +sobre não poderes fazer do livro uma ideia +exacta, á mingua de apreciador conspicuo.</p> + +<p>Alexandre Herculano diz bem: a critica em +Portugal é impossivel. Mas se nós todos cruzarmos +os braços diante dos Ananias da litteratura +que introduzem a mercancia do encomio, o servilismo +e a chocarrice no santuario das letras, quem +expulsará ámanhã os vendilhões, do templo? Já +que me não ouvem, prega tu a estas multidões que +não sabem o que amam, nem o que detestam; e +praza a Deus que a tua voz não seja a voz do que +bradava no deserto.</p> + + +<h2>Post-scriptum</h2> + +<p>Bem avisado andei eu, quando, a proposito dos +versos obscuros de João de Deus, tive a franqueza +de conceder que toda a gente penetrasse o que para +<span class="pagenum"><a name="pag135">[135]</a></span> +mim era obscuro. Os versos nublosos que lá citei, +eram, pelo que me dizem, claros como agua. Um +amigo nosso, optimo charadista ao que parece, +pôz-me tudo em pratos limpos; e, pelos modos, o +nosso Œdipo tem artes para desdar o nó aos mais +envencilhados enigmas da mais implacavel Sphynge. +Ora eu, que respeito o mysterio mas desadoro +o enigma, e a quem nunca charadas desvelaram +as noites, não pasmei de vêr luz onde se me antolhavam +trevas. O discipulo amado de Jesus não +jubilaria tanto, se visse quebrar os sete sêllos do +livro que elle viu na visão do Apocalypse, como eu +jubilei quando, a par de outras revelações, soube +que o individuo que <i>fluctua na fornalha accêsa +pelo sopro eterno</i> é o anjo que as lendas piedosas +figuram no purgatorio, dando a mão aos que lá se +purgam das culpas temporaes para subirem ás regiões +do premio eterno.</p> + +<p>Pelo que vejo, a decifração não era para fazer +suar o cabello; mas confesso-te que, se cem braços +eu tivera, como Briareu, para revolver o embotado +escalpello da minha critica, cem braços me +desfalleceriam diante dos cem olhos d'estes Argos +que espreitam maliciosos o rumo indeciso dos mineiros +obscuros da justiça e da verdade...</p> +<span class="pagenum"><a name="pag136">[136]</a></span> + +<p>Seguiu-se-me noite de insomnia. Visões estranhas +vieram povoar-me o leito. Sobre o meu travesseiro +dormiam comigo as magestosas <i>Torrentes</i> +de Theophilo Braga, livro de que, em seguida ás +<i>Flores do Campo</i>, eu contava fallar-te. Por cima +de mim, por cima do livro, emtorno do meu leito, +adejavam uns demoniosinhos, microscopicos como +os lilliputianos de Gulliver: uns expediam risadinhas +agudas, como de feiticeiras em noites de S. +João; outros folheavam o livro e dobravam os +joelhos por baixo das estrophes de mais levantada +inspiração; estes murmuravam monotono kyrie em +volta do livro, arrancando-m'o da mão, como da +mão d'um profano se arranca a hostia sacrosanta; +aquelles desfaziam o livro em tiras, entreteciam +com ellas uma corôa, e collocavam-n'a na cabeça. +Se me voltava para a direita, os da esquerda escouceavam-me +com um arreganho diabolico; se +me voltava para a esquerda, os da direita afiavam +a pequenina dentadura, e arranhavam-me as pantorrilhas. +O equilibrio era impossivel: esmagava-me +um pesadelo! Acordei.</p> + +<p>Sobre a minha meza de trabalho estava um livro, +notavel pela despretenção e suavidade do estylo, +e pelo primor da versificação, sobre ser escripto +<span class="pagenum"><a name="pag137">[137]</a></span> +em portuguez sem mistura; mas apenas no +frontispicio li o nome de Antonio Feliciano de Castilho, +passou-me pela mente a visão das <i>Torrentes</i>, +e os lilliputianos da noite acercaram-se do <i>Medico +á força</i>, reproduzindo os sarcasmos ou as ovações, +os afagos ou as mordeduras, consoante as tendencias +de cada qual.</p> + +<p>Estava entre a bigorna e o martello, entre a +cruz e a caldeirinha. Quem me salvaria de posição +tão melindrosa? Um esforço supremo: fechar +as <i>Torrentes</i> e o <i>Medico á força</i>, e não aventurar +juizo sobre estes notaveis livros.</p> + +<p>Suspendo, pois, a revista do anno litterario de +1869, em quanto me vier á ideia aquella visão +aterradora. Sinto-me com algumas forças para luctar +com os lilliputianos da visão, mas não me sinto +com paciencia para lhes soffrer os motejos e os +tripudios, as risadinhas e as beliscaduras. Quero +dormir a somno solto, e levar estas noites de Coimbra +a sonhar sem pesadêlos, em paz com anjos e +demonios, e até com os individuos das mais infimas +classes animaes.</p> + +<p>Não quero luctar como Chatterton. Chatterton +luctou, mas teve depois Vigny que o cingiu de +louros, immortalisando-o. A troco da immortalidade, +<span class="pagenum"><a name="pag138">[138]</a></span> +ainda eu me atiraria á lucta: ve lá se queres +ser o meu Alfred de Vigny.<sup><a name="mnota11" href="#nota11">11</a></sup></p> + +<p class="direita"><b>Candido de Figueiredo.</b></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="nota10" href="#mnota10">10</a></sup> Já que ao generoso critico merece especial menção a <i>carta</i>, +advertiremos que o primeiro verso da ultima quadra é assim:</p> + +<div style="margin-left: 10%;"> +Nas asas da ventura atravessando. +</div> + +<p><sup><a name="nota11" href="#mnota11">11</a></sup> A Folha, (1869) n.º 7, 8, 9 e 10.</p> +</div> + +<p class="centrado">Fim das criticas das "Flores do Campo."</p> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag139">[139]</a></span> +<br> +<br> +<br> +<br> + +<h2>INDEX</h2> + + +<h1>RAMO DE FLORES</h1> + +<table width="80%" align="center"> +<tr><td>I—Sede de amor</td> <td><a href="#pag5">5</a></td></tr> + +<tr><td>II—Lamento</td> <td><a href="#pag13">13</a></td></tr> + +<tr><td>III—Enlevo</td> <td><a href="#pag15">15</a></td></tr> + +<tr><td>IV—Sempre</td> <td><a href="#pag19">19</a></td></tr> + +<tr><td>V—Espera</td> <td><a href="#pag21">21</a></td></tr> + +<tr><td>VI—Adeos</td> <td><a href="#pag23">23</a></td></tr> + +<tr><td>VII—Melancholia</td> <td><a href="#pag25">25</a></td></tr> + +<tr><td>VIII—Sympathia</td> <td><a href="#pag29">29</a></td></tr> + +<tr><td>IX—11 de Maio</td> <td><a href="#pag31">31</a></td></tr> + +<tr><td>X—Attracção</td> <td><a href="#pag35">35</a></td></tr> + +<tr><td>XI—Desânimo</td> <td><a href="#pag37">37</a></td></tr> + +<tr><td>XII—N'um Album</td> <td><a href="#pag41">41</a></td></tr> + +<tr><td>XIII—O seu nome</td> <td><a href="#pag43">43</a></td></tr> + +<tr><td>XIV—Saudade</td> <td><a href="#pag51">51</a></td></tr> + +<tr><td>XV—* * *</td> <td><a href="#pag57">57</a></td></tr> + +<tr><td colspan="2"><h3>Criticas das Flores do Campo</h3></td></tr> + +<tr><td>Flores do Campo, por Alexandre da Conceição</td> <td><a href="#pag63">63</a></td></tr> + +<tr><td>Livros—Revista critica-bibliographica, por Luciano +Cordeiro</td> <td><a href="#pag75">75</a></td></tr> + +<tr><td>Flores do Campo, por D. Guiomar D. Torrezão</td> <td><a href="#pag105">105</a></td></tr> + +<tr><td>Anno litterario de 1869, por Candido de Figueiredo</td> <td><a href="#pag113">113</a></td></tr> +</table> + +<h4>FIM DO INDEX.</h4> +<span class="pagenum"><a name="pag140">[140]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag141">[141]</a></span> +<br> +<br> +<br> +<br> + + +<h3>Á VENDA</h3> + +<h5>NA</h5> + +<h1>LIVRARIA INTERNACIONAL</h1> + +<h5>DE</h5> + +<h4>ERNESTO CHARDRON</h4> + +<hr style="width: 20%"> + +<p class="centrado">Obras de fundo e edições:</p> + +<table width="80%" align="center"> +<tr><td><b>Memorias</b> de Fr. João de S. Joseph Queiroz, bispo do +Gran-Pará. Com uma introducção e muitas notas illustrativas, +por C. C. Branco. 1 volume.</td> <td>500</td></tr> + +<tr><td><b>Poesias e prosas ineditas</b> de Fernão Rodrigues Lobo +Soropita, com uma introducção e notas por Camillo +Castello Branco. 1 volume.</td> <td>500</td></tr> + +<tr><td><b>Ponson du Terrail.</b>—Os Filhos de Judas, Tomo 1.º +Um conto das mil e uma noites.—2.º O amor fatal. +2 volumes.</td> <td>1$000</td></tr> + +<tr><td><b>Estudos de Escripturação Mercantil</b>, por J. M. Outeiro. +Segunda edição consideravelmente augmentada. 1 +vol.</td> <td>1000</td></tr> +</table> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Ramo de Flores, by João de Deus + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RAMO DE FLORES *** + +***** This file should be named 24847-h.htm or 24847-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/8/4/24847/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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