summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/24774-h
diff options
context:
space:
mode:
authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:14:19 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:14:19 -0700
commitb7daa181a3769618cb2b640de3ecbfa6b569d163 (patch)
tree0e605fb13510a47b32faa0e8927233e9aa1bd8e8 /24774-h
initial commit of ebook 24774HEADmain
Diffstat (limited to '24774-h')
-rw-r--r--24774-h/24774-h.htm2469
1 files changed, 2469 insertions, 0 deletions
diff --git a/24774-h/24774-h.htm b/24774-h/24774-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..206df30
--- /dev/null
+++ b/24774-h/24774-h.htm
@@ -0,0 +1,2469 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd">
+<html>
+<head>
+ <title>Cidades e Paisagens</title>
+ <meta name="AUTHOR" content="Jaime de Magalhães Lima">
+ <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1">
+ <meta name="KEYWORDS" content="">
+ <style type="text/css">
+ @media print {
+ .pagenum { display: none;}
+ }
+ @media handheld {
+ .pagenum { display: none;}
+ }
+ body {width: 520px; margin-left: 90px; text-align: justify;}
+ .pagenum {font-size: 0.6em; font-style: normal;color: #666666; position:absolute; left: 630px;}
+ .capa {text-align: center; border: solid 1px #000000;}
+ hr {
+ border: none;
+ border-bottom: solid 2px #000000;
+ text-align: center;
+ }
+ a {text-decoration: none;}
+ sup {font-size: 80%;}
+ h1 {text-align: center; margin-top: 2em; margin-bottom: 2em;}
+ h2,h3,h4,h5 {text-align: center;}
+ h6 {text-align: right;}
+ .small-caps {
+ font-variant: small-caps;
+ }
+ .direita {
+ text-align: right;
+ }
+ .centrado {
+ text-align: center;
+ }
+ .poesia {
+ margin: 2em;
+ text-align: left;
+ }
+ .rodape {
+ font-size: 80%;
+ margin: 2em;
+ }
+ #corpo p{
+ line-height: 1.5em;
+ }
+ </style>
+</head>
+<body>
+
+
+<pre>
+
+Project Gutenberg's Cidades e Paisagens, by Jaime de Magalhães Lima
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Cidades e Paisagens
+
+Author: Jaime de Magalhães Lima
+
+Release Date: March 7, 2008 [EBook #24774]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CIDADES E PAISAGENS ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div class="capa">
+<h2>JAYME DE MAGALHÃES LIMA</h2>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<h1>CIDADES E PAIZAGENS</h1>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<h5><em>PORTO</em> <br>
+TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA <br>
+Cancella Velha, 70 <br>
+1880</h5>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pagina_I">[I]</a></span>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<h3>CIDADES E PAIZAGENS</h3>
+<span class="pagenum"><a name="pagina_III">[III]</a></span>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<h2>JAYME DE MAGALHÃES LIMA</h2>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<h1>CIDADES E PAIZAGENS</h1>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<h5><em>PORTO</em> <br>
+TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA <br>
+Cancella Velha, 70 <br>
+1880</h5>
+<span class="pagenum"><a name="pagina_V">[V]</a></span>
+
+
+<h2><em>A MEU PAE</em></h2>
+
+<h3><em>Sebastião de Carvalho Lima</em></h3>
+
+<p><em>Creio ter chegado a um periodo da vida em que a formação mental do
+individuo estaciona, tendo-se completado nos limites da sua capacidade.
+O pensamento trabalha talvez com maior actividade e n'um campo d'acção
+mais vasto do que no passado; mas a fórma e força dos seus orgãos já não
+progridem nem crescem nem diminuem nem mudam, mantêm-se. É porventura a
+época de estudo mais fecundo, não é decerto a de maiores prazeres; pois
+as emoções intensas do crescimento consciente de vigor foram
+substituidas pela repetição <span class="pagenum"><a name="pagina_VI">[VI]</a></span> serena e methodica de esforços e
+resultados semelhantes.</em></p>
+
+<p><em>Breve ou longo, luminoso ou obscuro, tal qual foi com todos os seus
+tedios e todas as suas alegrias, percorri esse caminho apoiado na
+generosa amizade de meu pae. Por isso lhe dedico estas cartas, primicias
+de uma nova idade devidas á gratidão.</em></p>
+
+<p class="direita">Jayme de Magalhães Lima.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pagina_VII">[VII]</a></span>
+
+
+
+
+<h2><em>ADVERTENCIA</em></h2>
+
+
+<p><em>Para repouso do espirito e procurando uma representação exacta de
+coisas que conhecia só pela leitura e me interessavam, fiz no outono
+passado uma rapida viagem pelo norte da Europa e da Africa. Nos breves
+momentos de descanso do meu jornadear impaciente dei conta do que ia
+vendo e pensando nas cartas que ora enfeixo n'este livro.</em> <span class="pagenum"><a name="pagina_VIII">[VIII]</a></span>
+<em>Accusam-me os amigos e criticos intelligentes de ter sido abstruso,
+poupando-me a descripções e á narração dos factos e só cuidando de
+apontar as impressões de natureza moral que ficavam no meu espirito. A
+accusação é procedente, reconheço-o; mas não tentarei corrigir-me pelo
+respeito que devo á sinceridade.</em></p>
+
+<p><em>Estas cartas são reflexões sobre um limitadissimo numero de factos
+porque na verdade o meu espirito é d'este molde; prende-se meramente ao
+que se lhe afigura saliente e caracteristico, e despreza e esquece tudo
+o mais. Se é boa, se é má, não sei dizel-o; sei apenas que é esta a sua
+fórma.</em></p>
+
+<p><em>Não desprezo o trabalho descriptivo, incomparavel delicia quando é bem
+feito, unica base dos conhecimentos geraes; mas, <span class="pagenum"><a name="pagina_IX">[IX]</a></span> além de requerer
+aptidões litterarias especiaes que não tenho, demanda ao mesmo tempo
+dotes d'um outro genero de que igualmente careço. A descripção,
+associada á narrativa e ao dialogo, póde bem aventurar-se no romance sem
+outro qualquer auxilio: a descripção simples, por mais brilhante que
+seja, é um anachronismo enfadonho se lhe falta a interpretação do lapis
+e do carvão que elucida, completa, abrevia e deleita, dando rapidamente
+uma impressão extensa.</em></p>
+
+<p><em>Depois, ha muitos modos de viajar. Ha em primeiro logar o estudo&mdash;o
+conhecimento interno e externo dos povos nas suas instituições e nas
+suas paizagens, na sua vida moral e na sua vida economica, nas suas
+qualidades physiologicas e nas suas aptidões artisticas, no seu modo de
+<span class="pagenum"><a name="pagina_X">[X]</a></span> ser intimo e nas suas relações com o mundo externo. Esses estudos
+carecem de longo tempo e saber paciente e a descripção é um dos seus
+elementos; estão feitos para quasi todo o mundo tantas vezes e tão bem
+que seria vaidade pueril tentar acrescentar-lhes o que quer que fosse.</em></p>
+
+<p><em>Um segundo modo é a viagem por curiosidade&mdash;vêr muita coisa e coisas
+differentes das que habitualmente vemos. É o regalo das sensibilidades
+cansadas ou demasiado cubiçosas e um genero de «sport» hoje muito em
+voga; o seu valor educativo, porém, é mediocre pela multiplicidade das
+impressões e falta de connexão entre si.</em></p>
+
+<p><em>Entre estes dois modos parece-me haver um terceiro, munido de estudos
+prévios para dispensar observação demorada e <span class="pagenum"><a name="pagina_XI">[XI]</a></span> curioso só quanto
+baste para a elucidação do estudo. Procura a representação directa
+d'aquillo que já conhece, vendo em movimento os corpos vivos cuja
+anatomia e physiologia estudou primeiro; vai envolver-se na corrente das
+cidades para sentir o calor e o palpitar do seu sangue e uma vez
+alcançada esta impressão abandona-as como um parasita irrequieto.</em></p>
+
+<p><em>Isto pelo que diz respeito ao modo de apreciar as viagens. Pelo que se
+refere propriamente ás minhas impressões nada quero acrescentar e muito
+pouco tenho que esclarecer.</em></p>
+
+<p><em>O que escrevi de Berlim fará crêr que não senti lá outra coisa senão um
+militarismo brutal absolutamente antipathico ao meu espirito, quando é
+verdade que ao seu lado vi com intima admiração a força <span class="pagenum"><a name="pagina_XII">[XII]</a></span> moral d'um
+regimen de ferro em que tudo é pautado pela lei severa e obedecida. Não
+sei que haja paiz que possua mais profundamente o fetichismo do dever.
+Um acto pratica-se porque é obrigação pratical-o e no cumprimento das
+obrigações não ha hesitar&mdash;tal é o primeiro e mais assombroso resultado
+educativo que a severidade allemã alcançou para aquelle povo.</em></p>
+
+<p><em>Nem mesmo direi antipathico o caracter do actual imperador da
+Allemanha, apesar do seu muito contestavel amor filial e d'uma paixão
+militar que não deve ficar longe da loucura. Aspirar a constituir uma
+patria e uma nação «allemãs» é talvez uma especie de egoismo mas largo e
+generoso; póde ser abominavel mas não perde por isso a admiração devida
+a todas as coisas grandes. E este é, a meu <span class="pagenum"><a name="pagina_XIII">[XIII]</a></span> vêr, o caso do
+imperador da Allemanha.</em></p>
+
+<p><em>Igualmente receio ter ficado obscura a minha discussão com o conde
+Tolstoï.</em></p>
+
+<p><em>D'accordo quanto á medida do progresso, conformes ambos em que devemos
+aferil-o pelo alargamento e mais profunda penetração da fraternidade ou
+do amor nas relações sociaes, differiamos no modo pratico da sua
+realisação. Tolstoï conclue pelo nihilismo, pela abolição da
+propriedade, do estado, de todos os vinculos e de todas as dependencias,
+entregando os homens sómente á sua lei divina ou moral; pede uma
+dissolução onde eu pediria uma organisação, uma ordem, d'onde derivam a
+familia, a communa, a propriedade, o estado, uma subordinação. Historica
+e scientificamente está demonstrado, que, abolidos <span class="pagenum"><a name="pagina_XIV">[XIV]</a></span> esses laços, a
+sociedade cae na anarchia, na guerra, na livre soberania da lucta pela
+vida, negação da fraternidade.</em></p>
+
+<p><em>E não se diga que esta maneira de vêr contradiz a igualdade, tendencia
+evolutiva das sociedades aryanas, historicamente demonstrada. A
+igualdade entre os homens, que o christianismo e a philosophia
+reconhecem, traduz-se nas instituições politicas n'uma accessibilidade
+de estado e de classe e não na abolição de todos os estados sociaes e
+das classes, orgãos da humanidade. D'esses orgãos deriva a sua fórma e é
+esta que nos cumpre aperfeiçoar sem a destruirmos.</em></p>
+
+<p><em>De resto, quanto ao modo de viver de Tolstoï, só repetirei que me
+merece a mais illimitada admiração. Comprehende-se e admira-se o homem
+entregue sem reservas <span class="pagenum"><a name="pagina_XV">[XV]</a></span> a uma paixão sublime, despindo-se
+heroicamente de todo o «snobism» com que a fraqueza de todos nós
+condescende e curvando-se sobre o arado; absorvido n'esse mysterio
+insondavel e fascinante da terra, aureolado da maior de todas as bençãos
+divinas&mdash;a humildade.</em></p>
+
+<p><em>Sobre os demais pontos das minhas cartas creio não haver obscuridade
+que mereça ser apontada.</em></p>
+<span class="pagenum"><a name="pagina_1">[1]</a></span>
+
+
+
+
+<h1>CIDADES E PAIZAGENS</h1>
+
+
+<h6><em>Salamanca, 1 de Setembro.</em></h6>
+
+<p>Novamente em terras estranhas, com as velhas malas tisnadas ao sol de
+mil combates, isto é, cobertas dos rotulos dos caminhos de ferro e dos
+hoteis, que lhes abrem no coiro espesso grandes chagas multicôres; com
+essas fieis companheiras que por mim pisaram todo o calvario dos omnibus
+e dos wagons e soffreram ás mãos brutaes dos moços de gare, encontro
+velhas idéas, velhos programmas de viagem. Não mudei: a bagagem é ainda
+a mesma, exterior e interiormente. <span class="pagenum"><a name="pagina_2">[2]</a></span></p>
+
+<p>A boa ordem e o methodo exigem um programma, exigem que antecipadamente
+determinemos um fim e um systema. D'outra forma, a viagem não passa de
+uma dissipação, de elegancia ou de vaidade, um regabofe, grandes
+empresas, grandes aventuras, para escancarar de pasmo a boca dos
+papalvos. <em>Abrenuntio!</em></p>
+
+<p>Tenho lido e creio que o inglez e o russo viajam de maneira
+absolutamente diversa; o inglez vendo tudo, seguindo linha a linha o seu
+<em>guia</em>, minuciosa e escrupulosamente, e o russo passeando livremente, sem
+guia e sem tutela, correndo cidades e campos, envolvendo n'uma especie
+particular de indifferença museus e bibliothecas, cathedraes e
+universidades, monumentos e palacios, toda essa interminavel corda com
+que é costume enforcar a bolsa e a paciencia do viajante. Emquanto o
+inglez procura factos e impressões desconnexos, mas em grande numero, o
+russo procuraria poucas ideas geraes; um attenderia ao numero e á
+quantidade, outro á grandeza e á qualidade.</p> <span class="pagenum"><a name="pagina_3">[3]</a></span>
+
+<p>Não sei até que ponto será exacta a distincção como attributo
+caracteristico de raça; é certo porém que em geral a podemos considerar
+verdadeira. A não ser que viajemos com um fim especial, o estudo de uma
+cultura, de uma arte, de um novo processo industrial, ou qualquer outro,
+ha apenas dois systemas de viajar, extremos de um dos quaes todo o caso
+particular sempre se aproxima: ou procuramos a abundancia e a riqueza de
+impressões ou um limitado numero de aspectos e idéas geraes, pondo de
+parte os factos inuteis á sua constituição.</p>
+
+<p>Sobre o valor intellectual dos dois systemas não me parece poder
+levantar-se duvida; ha toda a distancia que vai da simples curiosidade
+ao pensamento. Um estampa, grava e guarda, no seu estado primitivo, as
+percepções recebidas; o outro funde, relaciona, e tira um novo producto
+unico residuo duradouro e util.</p>
+
+<p>Ora, devo advertir aos que tiveram a paciencia de me acompanhar até aqui
+que desde longos annos me inscrevi na segunda das categorias <span class="pagenum"><a name="pagina_4">[4]</a></span> que
+esbocei e não abjurei nem espero abjurar a primeira confissão.
+Temperamentos! Já vê, pois, o leitor o que póde esperar d'estas breves
+palestras, escriptas de relogio em punho e sob a respeitavel auctoridade
+dos horarios do caminho de ferro; nem poderei despertar-lhe transportes
+de enthusiasmo, em segunda mão, pelos quadros e monumentos notaveis, nem
+lhe contarei quantos viajantes me acompanhavam, nem como vestiam e
+dormiam, nem mesmo poderei dizer-lhe, e isso com verdadeira magua, se,
+realmente, n'esta parte da Europa que vou percorrer, é lei universal de
+todas as hospedarias deixar á noite os sapatos á porta do quarto de
+dormir e encontral-os de manhã bem lustrosos de graxa. Nada d'isto terei
+tempo de dizer-lhe; apenas alguns factos e idéas muito geraes.</p>
+
+<p>Já temos quanto baste de declarações prévias para que possamos
+entender-nos; passemos pois á viagem.</p>
+
+<p>D_ Porto a Salamanca o caminho é bem conhecido. Atravessa^do _ Minho,
+nas proximidades <span class="pagenum"><a name="pagina_5">[5]</a></span> de Penafiel, póde observar-se o aspecto bem
+differente do Minho suburbano e littoral, como a Maia e Rio Tinto, e o
+Minho interior, aproximando-se das montanhas. N'este, a vegetação nos
+valles é mais abundante e viçosa, talvez resultado do maior abrigo; os
+montes circumvisinhos são mais elevados e muito despidos,
+differentemente do que acontece no littoral onde as eminencias são bem
+povoadas de pinhal que desce até á margem dos campos. A casa caiada e
+branca, construida de argamassa e coberta de telha, deu logar á cabana
+de pedra solta e de colmo, defumada e baixa. São de uma grande belleza
+as pequenas aldeias do interior do Minho; sombrias pela luz frouxa, pelo
+verde carregado da vegetação, pela côr terrea dos montes escassamente
+povoados de urze, e pelo colmo e o granito das habitações; mas ha no
+quadro uma grande harmonia de tons, deliciosas linhas pittorescas, e, na
+falta de arte, uma grande expressão, a que resulta da completa communhão
+do homem e da terra. A aldeia e o homem são pouco, quasi nada, a <span class="pagenum"><a name="pagina_6">[6]</a></span>
+confundirem-se com os milharaes e com os pampanos.</p>
+
+<p>Do Minho passamos á margem do Douro e ás suas encostas devastadas pela
+phylloxera.</p>
+
+<p>A meu vêr, a paizagem carece de belleza; a natureza menos consistente
+dos terrenos schistosos produz a molleza de contornos; e a cultura,
+fazendo dos montes escadarias, destruiu toda a harmonia natural e
+substituiu a paizagem, não por outra paizagem mas por cachos d'uvas em
+prateleiras. Alem d'isto, os valles são demasiado estreitos e falta por
+isso a distancia necessaria para vêr bem as montanhas.</p>
+
+<p>São de uso e de bom gosto as lamentações sobre a sorte infeliz do Douro;
+e, de facto, os olhos menos penetrantes vêem alli a miseria e a
+destruição de uma opulenta riqueza que, nos seus melhores tempos, deu ao
+lavrador uma vida sumptuosa.</p>
+
+<p>Mas está o Douro perdido para sempre? E as florestas, e a acclimatação
+de plantas novas e de novos animaes? Assim como a giesta cresce por
+<span class="pagenum"><a name="pagina_7">[7]</a></span> aquelles montes, não haverá plantas exoticas de maior utilidade que
+supportem igualmente os rigores d'aquella região? Não têm os lavradores
+um vasto campo a explorar na criação dos pequenos animaes como as aves e
+os coelhos? Não seria possivel fazer grandes reservas das aguas que no
+inverno correm em torrentes pelas montanhas? Se me não illudo, os
+grandes males da regeneração agricola do Douro não vem da sua natureza
+physica de que com arte necessariamente poderiamos tirar proveito; o
+grande embaraço é a falta de instrução e de capitaes. Para restituir á
+cultura as suas terras agrestes e hoje em completo abandono, é
+necessario que o lavrador saiba e possa; e, dado que viesse a saber em
+pouco tempo, quantos mil contos de reis não custaria a empresa?</p>
+
+<p>Subindo sempre, entramos em Hespanha, e pouco depois, vinhas e olivaes e
+amendoeiras, tudo nos desapparece para nos internarmos em plena região
+montanhosa. Nenhuma cultura, mas a paizagem é granitica, cheia de
+grandeza, os <span class="pagenum"><a name="pagina_8">[8]</a></span> contornos nitidos e arrojados. Seguem-se planaltos
+arenosos, cultivados na maior parte; rarissimas videiras, os cereaes
+dominam e, parece, formam o tronco, a parte essencial da lavoura, como,
+de resto, succede nas grandes elevações do nosso clima. As aldeias não
+são frequentes, mas os campos murados e extremamente subdivididos.</p>
+
+<p>Sobreveio a noite. Pelos campos do Tormes, imagino que a paizagem não
+muda até Salamanca, pois o que vim encontrar aqui é em tudo semelhante
+ao que deixei, com a simples differença de que as hortas abundam,
+consequencia manifesta das proximidades de um mercado urbano.</p>
+
+<p>Resta-me fallar de Salamanca, falta-me o tempo. De Paris conversaremos.</p>
+
+<hr style="width: 20%"> <p><span class="pagenum"><a name="pagina_9">[9]</a></span> </p>
+
+
+<h6><em>Paris, 5 de Setembro.</em></h6>
+
+<p>Salamanca é uma cidade antiga.</p>
+
+<p>As cidades antigas são como as grandes obras classicas que ora se
+encontram empoeiradas e amarellecidas na edição original, em que o texto
+e a fórma conservam a harmonia e a exactidão primitivas, ora se
+encontram nas edições modernas, annotadas, corrigidas, sob uma nova
+fórma material, corrompidas e alteradas o mais das vezes até se tornarem
+uma obra nova. São raras as velhas edições authenticas, e mais raras
+ainda essas outras especies de livros escriptos em pedra a que se chama
+cidades; porque, n'estas, as alterações são constantes, dia a dia,
+lentas e immediatamente imperceptiveis. Quando assim não é, a cidade
+morreu.</p>
+
+<p>Salamanca, sem ter morrido, estacionou. É como estes velhos enrugados,
+magros, tomando com exactidão rigorosa as suas refeições, o seu jornal e
+o seu passeio, agasalhados n'um casaco <span class="pagenum"><a name="pagina_10">[10]</a></span> que nenhuma tesoura hoje
+sabe talhar, o pescoço envolvido em gravatas cuja vastidão nos assombra:
+vivem ainda e são todavia um documento do passado. Entre elles e as
+cidades ha uma differença apenas: as cidades podem rejuvenescer, os
+homens nunca.</p>
+
+<p>As bilhas da agua d'uma fórma tradicional, archaica; o trajar dos homens
+do campo, de calção e polaina de coiro, jaqueta e larga faixa, o collete
+curto com duas ordens de grandes botões de prata, a camisa sem collar,
+apertada com um só botão de filigrana, o peito todo de rendas; os
+palacios d'outro tempo, com janellas de todo o genero, largos portaes em
+arco e as mais bellas ferragens, agora tão infelizmente substituidas por
+informes pastas de ferro fundido; tudo nos transporta aos seculos
+passados e faz de Salamanca uma cidade interessante pelo valor
+instructivo, agradavel pelo desconhecido da impressão e finalmente bella
+por uma certa harmonia de quadro antigo que a vida moderna não logrou
+apagar.</p>
+
+<p>Não quero especialisar. Era preciso ser artista <span class="pagenum"><a name="pagina_11">[11]</a></span> e historiador e eu
+não passo de simples lavrador, viajando intellectual e materialmente com
+a mesquinha bagagem de estudante.</p>
+
+<p>Duas observações apenas sobre a cathedral que, dizem os <em>guias</em>, é obra
+maravilhosa de gothico moderno. Confesso que não me arrebatou. Os
+rosarios de bispos e santos ornando as arcadas, estes paineis de reis
+magos com sandalias bordadas, elephantes e camêlos, anjos e oliveiras,
+christos e judeus, tudo acamado em muitas folhas de plantas
+desconhecidas, a Paixão e a Palestina inteiras e completas na fachada
+d'uma cathedral, são d'uma belleza que os meus olhos não percebem, por
+demasiado complicada, talvez. Quer-me parecer que a harmonia na obra
+d'arte se estende ás relações da substancia e da fórma e que os
+bordados, que convém ao linho e á sêda, são absolutamente deslocados na
+pedra. Poderão valer de muito como testemunho de perfeição e habilidade
+do artifice, mas da sua belleza desconfio.</p>
+
+<p>Uma ultima observação, antes de deixar Salamanca. <span class="pagenum"><a name="pagina_12">[12]</a></span> Aqui, como em
+toda a Hespanha, abundam as côres vivas no trajar; e os escriptores tem
+por norma basear n'este facto os instinctos artisticos do povo,
+comparando-o com o norte sombrio e melancolico. Não será antes uma prova
+de barbarie? Não demonstra uma inferioridade de sensibilidade physica e
+tendencia a só perceber as côres que ferem a vista com maior
+intensidade? Junte-se a isto um excessivo cuidado no penteado das
+mulheres, tendo sempre em vista que a ethnographia mostra que a
+necessidade do adorno precedeu a necessidade do agasalho, e teremos
+sobre que reflectir. Sobre que reflectir, note-se; ponho uma
+interrogação, não faço uma affirmação categorica.</p>
+
+<p>Os primeiros campos que vi depois de Salamanca foram os de Miranda do
+Ebro; campos de calcareo, poeirentos, com uma vegetação frouxa, aldeias
+raras, distantes, escalavradas, denunciando uma vida estacionaria, a
+provincia bem sarjada de estradas e de ribeiros, ladeados de grandes
+choupos. Amiudam-se as aldeias, o campo e <span class="pagenum"><a name="pagina_13">[13]</a></span> a habitação tem certo
+aspecto de cultura, de ordem, de riqueza, de bem-estar, e entramos em
+Vitoria, uma cidade já muito á moderna, com boas ruas, casas altas e bem
+alumiadas, relvas, jardins, arvores e verdura em torno.</p>
+
+<p>Alteram-se os dois quadros anteriores durante algum tempo, passa-se uma
+série de tunneis. Estamos nos Pyrenéos.</p>
+
+<p>Os Pyrenéos! A Suissa sem neve e sem grandeza, a vida abundante,
+tranquilla, cerrada como aquelles horisontes! Os casaes dispersos, uma
+grande paz, a aldeia não é precisa, vive-se só, os campos em volta da
+cabana, e em baixo, no curral, o ubere farto, generoso e inesgotavel das
+vaccas pacientes com grandes manchas brancas; ao lado o pomar, a
+macieira doirada de pômos, em baixo o campo de milho, senhor feudal
+d'aquelles campos, latejando de opulencia e de vigor, pelas encostas os
+prados, e lá até ao cimo da montanha a floresta espessa e baixa. A
+imagem da vida modesta, estreita, serena, sem miseria e sem paixões.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pagina_14">[14]</a></span>
+
+<p>Depois, até ao cerrar da noite, os pinhaes sem fim da região bordalenga
+e vamos acordar em Paris, Roma de uma nova Igreja a que preside um
+papa&mdash;a Devassidão.</p>
+
+<hr style="width: 20%">
+
+
+<h6><em>Berlim, 5 de Setembro.</em></h6>
+
+<p>Dizem os economistas que a cidade substituiu a feira; ao mercado
+periodico e transitorio succedeu o mercado permanente. Se ha capital
+europeia que justifique este modo de vêr é por certo Paris.</p>
+
+<p>Nenhuma tem mais accentuado caracter de mercado, com barracas de
+todo o genero:&mdash;de espectaculos, de alimentos, de vestuario, de
+prostituição e de politica. Porque&mdash;por exagerada que pareça a
+expressão, é todavia verdadeira&mdash;a politica nos governos democraticos e
+<span class="pagenum"><a name="pagina_15">[15]</a></span> representativos é um mercado, a sua lei a concorrencia; todos são
+livres, todos são iguaes, e para entrar, para vencer, para lançar mão do
+poder tudo é licito e bom, a honestidade, o civismo e a intelligencia, e
+a lisonja, a intriga, a corrupção e a sem-vergonha. Triumphos ephemeros!
+Apenas alguem trepou ao ultimo degrau tem atraz de si um exercito, uma
+multidão, acotovelando-se, rasgando-se, batendo-se furiosamente, e o
+vencedor de hoje vai rolar amanhã na poeira ignorada e infecunda dos
+vencidos.</p>
+
+<p>O governo politico da França contribuiu manifestamente para dar a Paris
+o seu caracter actual.</p>
+
+<p>Dois elementos principaes formam uma cidade: o elemento governativo, o
+funccionario, o militar e a côrte, e o elemento mercantil, o commercio e
+a industria. Theatros, museus, bibliothecas, palacios, escólas, jardins,
+passeios e grandes ruas são a consequencia natural da existencia
+d'aquelles dois elementos; ou representam satisfações de prazer para uma
+população ociosa, ou <span class="pagenum"><a name="pagina_16">[16]</a></span> são condições de trabalho e instrumentos de
+estudo para a população laboriosa: e, em qualquer caso, a sua vastidão e
+grandeza derivam da necessaria proporção que existe entre a intensidade
+da vida social d'um povo e os seus orgãos. Acontece, porém, que nos
+governos monarchicos, mais ou menos absolutos, ao lado do elemento
+mercantil, cuja norma é a concorrencia e o lucro, está um outro,
+igualmente poderoso e influente, que tem por norma a ordem, a sujeição e
+a obediencia e sempre uma apparencia séria e grave, embora muitas vezes
+occulte sentimentos e caracteres intimos que o não são; e este ultimo
+elemento, temperando o que o primeiro tem de excessivamente grosseiro e
+palrador, dava á cidade uns traços ligeiramente sombrios que, sem a
+tornarem triste, corrigiam o que porventura houvesse de demasiado
+estrepitoso e garrido. Ora a França, com a dissolução do segundo
+imperio, escreveu por toda a parte Liberdade, Igualdade, Fraternidade,
+varreu os ultimos restos de dependencia hierarchica, nivelou todas as
+profissões, o <span class="pagenum"><a name="pagina_17">[17]</a></span> sabio, o politico e o mercador; e as instituições
+sociaes e politicas, juntando-se ao caracter inquieto e vivo d'aquelle
+povo, abriram de par em par as portas de uma grande feira franca&mdash;Paris.</p>
+
+<p>Desde a madrugada até alta noite, compra-se e vende-se. Ao romper da
+manhã, os pesados <em>percherons</em> arrastam ao mercado toda a riqueza que os
+campos enviam; depois, vem o politico em busca do poder, comprando por
+todo o preço o voto popular, lisonjeando-lhe no parlamento e na imprensa
+os caprichos e instinctos, cedendo sem pudor á traficancia e á
+corrupção; depois, vem o sportman e o titular, os cavallos e os vestidos
+caros, as carruagens, as rendas e os brilhantes, vem o livro escandaloso
+e o livro desvairado, vem a feira das vaidades, como lhe chamaria o
+romancista inglez; depois, os mercados do amor, a miseria que ri, a
+miseria embriagada da propria miseria; e sempre o marulhar d'esta onda
+constantemente inquieta que geme e apregôa, ameaça e implora.</p>
+
+<p>Á concorrencia desenfreada não ha superioridade <span class="pagenum"><a name="pagina_18">[18]</a></span> de especie alguma
+que resista; os mais bellos caracteres de raça, a lucidez, a alegria, os
+instinctos artisticos, a elegancia, a percepção viva e prompta da fórma
+e da côr, aniquilam-se, pervertem-se. Vencer é o fim ultimo e unico, e
+para lá chegar, a primeira coisa a pôr de parte é a qualidade
+fundamental de todo o espirito são,&mdash;a sinceridade. Importa pouco ao
+estadista o seu proprio pensamento sobre as coisas politicas, não
+precisa tel-o, nem muitas vezes o tem; o essencial é saber o que pensam
+aquelles por cujos hombros tem de trepar. Importa pouco ao artista e ao
+homem de letras ouvir a sua consciencia sobre o que ella lhe diz da
+belleza na obra d'arte; o essencial é saber o que pasma e arrebata
+aquelles que hão de pagar-lhe em incenso e ouro.</p>
+
+<p>A vida consome-se febril e ardentemente, quasi heroicamente, n'um
+esforço ingente&mdash;chamar gente á sua barraca.</p>
+
+<p>Se houvesse de consultar os meus sentimentos sobre a vida de Paris
+cobriria estas folhas de lamentos; mas o critico escuta as vozes
+estranhas <span class="pagenum"><a name="pagina_19">[19]</a></span> sem dar ouvidos á sua voz intima, observa, descreve e
+classifica os phenomenos e as ligações das coisas, esquecendo as suas
+aspirações e desejos. Se porém me é permittida uma pequena desobediencia
+a lei, confessarei quanto me repugna esta inanidade de vida moral, e o
+desprendimento da natureza e de todas as forças intimas e divinas que
+regem o homem e o mundo. Paris afigura-se-me uma fornalha de gelo, rubra
+como a chamma e fria como a neve; consome e não dá calor, como se um dia
+no pólo todas as neves se incendiassem n'uma labareda ingente e em torno
+um frio agudo a prostrar na morte a humanidade.</p>
+
+<p>Sempre a tyrannia do horario dos caminhos de ferro! Tinha ainda duas
+palavras a dizer de Paris, de Berlim, e da viagem até aqui, mas só em
+Moscow poderei fazel-o. Já me resignei a nunca trazer estas notas em
+dia.</p>
+
+<hr style="width: 20%"> <p><span class="pagenum"><a name="pagina_20">[20]</a></span> </p>
+
+
+<h6><em>Moscow, 13 de Setembro.</em></h6>
+
+<p>Ao vêr os arredores de Paris, coalhados de jardins e de pequeninas casas
+tratadas com esmero, dir-se-hia que aquella gente conserva sempre vivo
+um grande amor pelo silencio e pela paz da natureza. Do pequeno burguez
+ao grande banqueiro, todos ambicionam a arvore e a flôr, ou sejam em
+dois palmos de terra, comprados a peso de ouro, ou seja em vastos
+parques, traçados com arte e sabedoria; e ao domingo, o operario, o
+caixeiro, a legião innumera dos humildes vai a Saint Cloud, a Saint
+Germain, a Enghien, ou a qualquer outro arrabalde, onde tenha um retalho
+de relva e um farrapo de sombra para deitar-se um momento.</p>
+
+<p>São porém levados pelo amor da terra? Não são. Todas as grandes cidades
+têm ao lado estes ninhos de verdura onde nas horas de ocio se acoita a
+população extenuada e anemica; são uma necessidade hygienica,
+dependencias obrigadas, <span class="pagenum"><a name="pagina_21">[21]</a></span> como os theatros, os museus e as escólas.
+Mas o que ahi se procura não é a satisfação d'um sentimento ha muito
+perdido no tumulto das ruas e na anciedade de enriquecer e gozar;
+procura-se saude, recuperar forças, um tonico, um alimento substancial,
+especie de ferro e de extracto de carne.</p>
+
+<p>Transportam-se para o campo os habitos da cidade, não se vai para o
+campo a fugir da cidade; e na arvore mysteriosa e sagrada não se adora
+um deus que o cerebro exangue já não percebe nem sente, vê-se uma
+pomada, um balsamo que dá frescura e vigor á pelle, abrazada por um ar
+empestado e por uma actividade excessiva. A cidade é uma fornalha, o
+campo um hospital.</p>
+
+<p>Duas coisas admiro todavia n'uma cidade como Paris&mdash;a organisação e a
+intensidade do movimento, e o poder instructivo.</p>
+
+<p>Ha qualquer coisa de assombroso n'este rio immenso em que
+simultaneamente se agitam e movem tantissimas correntes sem se
+aniquilarem; <span class="pagenum"><a name="pagina_22">[22]</a></span> toda a grandeza da antiguidade é mesquinhez ao seu
+lado. De longe em longe, um desastre, uma pequenina mola que se partiu,
+um abalo ligeiro, quasi imperceptivel. Que foi? Um incendio, um
+naufragio, uma guerra, quinhentas, mil ou trezentas mil pessoas que
+desappareceram. Um movimento de espanto: a grande corrente não pára,
+segue no seu leito tenebroso e revolto, e nas nevoas espessas da sua
+vastidão sumiu-se ephemera a hecatombe que por longos annos faria
+estremecer de horror a velha Roma.</p>
+
+<p>A vida patriarchal e simples póde gerar todos os sentimentos bons e
+abrir ao espirito horisontes sufficientemente largos para lhe despertar
+o desinteresse de descobrir a ordem e as leis das coisas; mas, por isso
+mesmo que é simples, equilibrada e serena, nunca poderá suggerir-lhe
+noções dos typos excentricos. Para attingir estes pontos extremos é
+necessario levar o espirito a um estado de vibração nervosa que não é
+outra coisa senão a loucura em differentes graus; e os casos d'essa
+ordem, esporadicos nas civilisações <span class="pagenum"><a name="pagina_23">[23]</a></span> passadas, são frequentes e
+quasi normaes na vida febril contemporanea. É n'este sentido que reputo
+muito alto o valor instructivo das cidades, que nos vicios, na miseria e
+nas paixões mostram uma complexidade e largueza da alma humana que em
+outras condições se não vêem, por isso que não existem. Por este lado, a
+cidade moderna tornou-se um estudo essencial ao philosopho, ao poeta e a
+todos os que por qualquer motivo tem de lidar com os phenomenos
+psychologicos; as obras d'aquelles que porventura carecerem d'este
+elemento serão necessariamente incompletas e imperfeitas.</p>
+
+<p>De Paris fui a Berlim. Parti á noite, amanheceu-me nas proximidades de
+Liège e logo alli encontrei duas coisas que não temos e que deveriamos
+ter,&mdash;a lavoura feita por cavallos,&mdash;n'uma terra polvilhada de branco.
+Nem lavramos com cavallos, nem usamos esses pós brancos que são adubos
+mineraes.</p>
+
+<p>A utilidade d'estes não padece duvida e, se os applicamos em tão
+limitada escala, não é por <span class="pagenum"><a name="pagina_24">[24]</a></span> que geralmente se ponha em duvida o seu
+proveito; mas as condições legaes e economicas do fabrico acarretam
+falsificações e preços que fazem recuar o nosso lavrador, e com razão.
+Que o estado dê garantias de genuinidade e estabeleça um regimen que
+abaixe os preços até os tornar accessiveis á nossa lavoura, e tenho por
+seguro que os adubos mineraes terão entre nós tão larga e proveitosa
+applicação como nos paizes estrangeiros. Fora d'essas condições é inutil
+prégar melhoramentos agricolas; a lavoura, mesmo sem contabilidade,
+arruina ou enriquece e, sendo uma industria e não um capricho, só no
+ultimo caso poderá viver.</p>
+
+<p>Sobre o segundo ponto, a introducção do cavallo como principal motor
+agricola, divergem os lavradores, e são-lhe contrarios na sua grande
+maioria, exceptuando o Alemtejo, em que o clima obriga ao serviço por
+muares. Todo o norte porém classificará de utopia o meu pensamento.
+Porque? Nenhuma razão economica bem fundamentada se allega; o unico
+motivo é de natureza <span class="pagenum"><a name="pagina_25">[25]</a></span> historica, a tradição e o habito.
+Reconheço-lhe a grandeza, sei o que vale como factor da educação do
+operario: póde muito em todo o mundo, vale muitissimo n'uma terra em que
+a educação agricola é exclusivamente caseira. Mas se a aptidão e os
+conhecimentos do operario nos incitam a proseguir na rotina, a
+concorrencia impõe-nos tentativas de reforma. Todos os paizes
+estrangeiros praticamente adoptaram esta fórma de divisão de trabalho
+agricola, o gado cavallar como motor, o gado vaccum para a carne e para
+o leite. É um caso de divisão de trabalho e nada mais; essencial, a meu
+vêr, porque para supportarmos a concorrencia e voltarmos aos tempos
+aureos da exportação de gado, é manifestamente necessaria a melhoria das
+raças; e uma das suas condições é um bom regimen hygienico de que faz
+parte a singularidade do destino do animal. Trabalho, engorda e leite
+serão sempre mediocres emquanto forem individualmente simultaneos.</p>
+
+<p>O terreno accidentado d'esta região de Liège, os prados nas encostas, as
+mattas nas elevações e <span class="pagenum"><a name="pagina_26">[26]</a></span> a estreiteza dos valles recordam-me o que vi
+nos Pyrenéos; todavia é grande a differença. É possivel que o não seja
+physicamente, quanto á natureza da terra e do clima, mas faltam lá os
+symptomas de riqueza que existem aqui&mdash;cultura esmerada, pujança de
+vegetação nos prados, abundancia de gados, frequencia e boa construcção
+dos casaes, e finalmente jardins, <em>villas</em> e pequenos palacios de gente
+rica.</p>
+
+<p>Pouco e pouco vai decahindo de intensidade a paizagem agricola, perdendo
+ao mesmo tempo em belleza; atravessam-se regiões sem caracter em que a
+granja aceiada e o campo verdejante ladeiam a cabana na terra descuidada
+e inculta; só adiante, internando-nos na Allemanha, encontramos um novo
+typo. Estamos perto do Hanover, se me não illudo; o campo é vasto,
+ligeiramente ondulado, quasi plano, mediocre, sem fartura nem
+esterilidade; as casas de lavoura espaçosas e sombrias com os seus altos
+telhados de ardosia destacando frouxamente no céo nublado; com os prados
+alterna a floresta de lamigueiro <span class="pagenum"><a name="pagina_27">[27]</a></span> escura, fechada, a folhagem
+tingida de negro, os ramos erectos. A vastidão, sem luz, sem brilho,
+pesada, asphyxiante! Preoccupação scientifica ou evidencia de relações,
+prendemos o caracter d'este povo ao aspecto da sua terra. Resta saber se
+ha sabedoria capaz de fazer partilha entre a natureza e a historia.</p>
+
+<p>Sempre attento ás coisas agricolas, para que me levam velhos e
+enraizados affectos, ao vêr como aqui se alternam o prado e o arvoredo,
+lembrei-me do mediocre resultado que temos tirado das poucas tentativas
+de creação de prados e do nosso despovoamento florestal. Ha entre a
+floresta e o prado uma relação intima e manifesta; e não será talvez
+ousadia affirmar que este ultimo só poderá viver inteiramente são sob o
+bafejo da arvore, tépido e humido. As condições climatericas favoraveis
+aos pastos só poderão alcançar-se pelo repovoamento florestal,
+principalmente nas regiões do interior, ao abrigo das brisas e orvalhos
+maritimos.</p>
+
+<p>Foi em caminho de Berlim que tive o prazer <span class="pagenum"><a name="pagina_28">[28]</a></span> de me encontrar com o
+snr. George Saunders correspondente do <em>Morning Post</em> n'aquella cidade e
+um dos principaes collaboradores da <em>Pall Mall Gazette</em>. É um rapaz muito
+intelligente, instruido, possuindo em alto grau (creio ser o seu
+caracter intellectual dominante) esse espirito de critica serena e
+desapaixonada, que chamarei sympathico, e que faz vêr os homens e as
+coisas na sua verdadeira luz. As observações sobre Berlim e a Allemanha,
+que tão generosamente me communicou, pareceram-me singularmente justas
+e, por isso que d'ellas colhi proveito, manda a probidade e a gratidão
+que faça menção d'este nome.</p>
+
+<hr style="width: 20%"> <p><span class="pagenum"><a name="pagina_29">[29]</a></span> </p>
+
+
+<h6><em>Moscow, 14 de Setembro.</em></h6>
+
+<p>Em Paris deixamos uma feira; todas as cidades mais ou menos o são,
+porque isso é da sua essencia, dentro de termos entre os quaes oscillam.
+O ponto da escala em que se encontram determina o seu caracter. Ora,
+suppondo que esses termos ultimos são o estado-maior da politica e a
+feira, quem vier de Paris a Berlim cahiu de um no outro extremo.</p>
+
+<p>Á vozeria da rua, á confusão dos pregões e ao labutar dos mercadores
+succede o aprumo dos continuos e um caminhar pausado e surdo sobre
+tapetes, cortado de breves notas estridentes, ao sacudir das esporas.</p>
+
+<p>Berlim é a antecamara d'um imperador; muita farda e um grande silencio,
+sempre armada e sempre calada, perpetuamente preoccupada da força e da
+auctoridade. Sobre a cidade pesa um braço de ferro, a multidão abdicou
+nas mãos de uma vontade; só ella a move.</p> <span class="pagenum"><a name="pagina_30">[30]</a></span>
+
+<p>A graça e a elegancia, a vivacidade e o riso foram banidos; o povo vai
+taciturno e lento.</p>
+
+<p>Ás vezes pára, observa, contempla; luziu-lhe no coração um momento de
+aurora e sorriu. Olhava o retrato do imperador diante de tres crianças,
+seus filhos, em continencia militar; e tirou uma vibração de jubilo,
+ingenuo, intimo, d'onde nós tirariamos uma gargalhada a tombar o maior
+dos cesares. O seu primeiro museu é o de artilheria; levam-se alli as
+crianças, collegios inteiros, a vêr os canhões francezes rasgados como
+um farrapo pela metralha do Krupp. Um criado de hospedaria que diante da
+qualquer se curva até ao chão, perante um capitão ou um coronel dobra-se
+attonito, fulminado.</p>
+
+<p>A piedade e a doçura, revelada no affecto da mulher, para que? A mulher
+é um animal, a sua lei a escravidão. Se não fosse... poderia
+supprimir-se, não representa nada.</p>
+
+<p>A Allemanha, que Berlim nos mostra, afigura-se-me um elephante, a
+intelligencia e a força em <span class="pagenum"><a name="pagina_31">[31]</a></span> um corpo informe. Toda a sua alma
+crystallisou n'esta aspiração&mdash;ser forte, invencivel.</p>
+
+<p>Conta-se que Cellini, para fundir não sei qual das suas estatuas,
+lançára no fogo toda a baixella; a Allemanha de hoje fundiu n'um só
+sentimento todas as joias do coração do seu povo. Adora o exercito e o
+imperador, a expressão concreta da sua alma, entregou-se-lhes manietada
+e n'uma obediencia absoluta.</p>
+
+<p>Conseguiu ser forte. As doutrinas dos philosophos de mãos dadas com o
+genio militar alcançaram emfim dar-lhe uma rara força politica.</p>
+
+<p>Póde viver-se assim? É esta a ultima palavra da civilisação ou
+simplesmente uma gloria ephemera, sahida da coincidencia das aptidões
+d'um povo com as necessidades do momento historico? A revolução
+franceza, iniciando-nos no conhecimento dos direitos individuaes,
+simultaneamente deu aos estados constituições que conduzem á fraqueza e
+impotencia politicas; a Allemanha mostrou-nos novas vias conduzindo ao
+pólo opposto. Assim como só nós pudemos vêr os povos <span class="pagenum"><a name="pagina_32">[32]</a></span> educados nas
+instituições derivadas da revolução, só os nossos filhos poderão saber o
+que é um paiz educado na admiração da força. Todas as prophecias serão
+prematuras, embora vagamente presintamos que a civilisação é mais alguma
+coisa do que a força.</p>
+
+<p>Dizia-me o snr. Saunders, fallando de musica, que as pequenas côrtes dos
+ducados e monarchias allemães eram favoraveis ás letras e ás artes.
+Alargando o seu pensamento direi tambem que a Allemanha actual, com todo
+o seu saber e profundeza, sahiu d'essas côrtes minusculas; os que vierem
+depois de nós saberão o que deu a Allemanha imperial.</p>
+
+<p>E visto que o leitor já deve estar habituado a vêr as minhas sympathias
+de permeio com a exposição dos factos, impenitente, recahindo na velha
+falta, acrescentarei que a Allemanha, que vi em Berlim, produziu
+inesperada antipathia no meu espirito, educado n'outras idéas, n'outros
+costumes sobretudo. Dizem-me que Berlim não é a Allemanha e que n'esse
+vasto imperio encontrarei <span class="pagenum"><a name="pagina_33">[33]</a></span> costumes e idéas absolutamente oppostos;
+se assim não fôr garanto aos allemães a antipathia dos povos
+peninsulares. Não existiriam talvez na Europa caracteres mais
+accentuadamente antagonicos.</p>
+
+<hr style="width: 20%">
+
+
+<h6><em>S. Petersburgo, 18 de Setembro.</em></h6>
+
+<p>Em caminho de Berlim para Varsovia, a alfandega russa, com uma
+severidade desusada, obriga-me a parar seis horas em Alexandrowo. A
+visita das bagagens é minuciosa, os passaportes são apresentados e
+registados; o comboio vinha com atrazo, partiu quando muito bem quiz, e
+os viajantes que não tinham ainda as suas coisas em ordem alli ficaram
+até novo comboio. Eram quarenta ou cincoenta, pelo menos; e este facto,
+que em qualquer parte da Europa levantaria <span class="pagenum"><a name="pagina_34">[34]</a></span> uma tremenda algazarra,
+não provocou um protesto. Aqui comecei a vêr a paciencia e a
+indifferença russas.</p>
+
+<p>Para mim não foi desagradavel, antes me deu prazer, pois tive occasião
+de passear nos campos d'essa desventurada Polonia, que desde as margens
+do Vistula vinha observando.</p>
+
+<p>São grandes lavouras arenosas e planas, n'esta época cobertas de
+beterrabas e de pastos, cortadas de mattas de pinheiro de Riga, terrenos
+baixos, soltos como as dunas. A gente do campo anda geralmente descalça,
+e os cavallos desferrados, o que o commum dos viajantes attribue á
+miseria, mas que a meu vêr provém unicamente da natureza da terra; tal
+qual acontece no littoral norte do nosso paiz. Repete-se ahi o mesmo
+facto, sem que por isso as povoações sejam mais ou menos ricas do que as
+do interior com habitos differentes.</p>
+
+<p>Uma arvore dá caracter a esta paizagem, o salgueiro, que com invariavel
+insistencia circumda os casaes cobertos de colmo, soltos e isolados,
+<span class="pagenum"><a name="pagina_35">[35]</a></span> com largos intervallos, pelo meio das terras. N'estas planicies em
+que não se avista uma montanha, sem uma unica nódoa intensa e viva na
+verdura desmaiada a prender-se ao céo nublado, o salgueiro, sem destruir
+a harmonia, dá á paizagem o brilho que comporta com a sua folhagem alva,
+replandecente e leve como a nuvem. A paizagem do occidente é tecida de
+ouro candente; esta é de prata polida e fria.</p>
+
+<p>Ao contrario do salgueiro, o pinhal, máte, sem brilho algum,
+assemelha-se na côr ás estatuas de bronze expostas ao tempo, o que
+reunido á brevidade das folhas e dos ramos, nivelando a superficie, o
+torna absolutamente differente do nosso pinhal, carregado na côr e
+cavado de manchas largas e profundas; resultado da ramagem longa e
+distante. Um é unido e plano, um lago coberto de cinza, o outro ondeado
+como as encostas do Vesuvio, feitas da tortura gigante da sua lava.</p>
+
+<p>Já acclimado n'uma inteira passividade e resignação, segui de
+Alexandrowo a Varsovia com <span class="pagenum"><a name="pagina_36">[36]</a></span> todos os atrazos e delongas proprios dos
+caminhos de ferro russos.</p>
+
+<p>Era um domingo e cêrca da meia noite quando cheguei. Por isso não pasmei
+do extraordinario movimento das ruas, julgando que seria o terminar de
+um dia de festa e de repouso. Mas logo mudei de pensar na manhã
+seguinte: o que eu vira, era habitual e ordinario.</p>
+
+<p>Que contraste com a enfadonha e sombria Berlim! Mulheres bonitas,
+elegantes, trajando bem, animadas, vivas, um fuzilar de carruagens em
+correrias doidas, e as ruas atulhadas de gente, fallando, gesticulando,
+movendo-se emfim;&mdash;tem tudo isto Varsovia. E tem ainda mais: desordem,
+immundicie, igrejas a cada passo com grande abundancia de devotos,
+ajoelhados á porta ou benzendo-se na passagem. A um carro coberto de
+lama atrella-se um cavallo estropiado, com uns arreios inqualificaveis,
+mas onde falta coiro e graxa sobejam adornos e ferragens; e por aqui
+imagino o resto, imagino o que vai por casa d'estas mulheres que na rua
+vejo tão airosas. <span class="pagenum"><a name="pagina_37">[37]</a></span> Para nós, do sul da Europa, a vida intima das
+cidades como Varsovia ou Napoles, comprehende-se immediatamente.</p>
+
+<p>São os instinctos artisticos, o amor do luxo, das festas e da elegancia,
+alliados á desordem e á devassidão dos povos excessivamente nervosos;
+são a ociosidade e a imprevidencia revelados na devoção que entrega ás
+mãos de Deus o que não sabe conquistar pelo seu esforço. Folia emquanto
+ha dinheiro e saude, e valha-nos Deus, Nosso Senhor nos acuda para os
+tempos de miseria... Vivem n'um sensualismo irreprimido, no desgoverno
+de todos os impulsos e de todos os instinctos; o luxo para elles não é,
+como por vezes succede na Inglaterra, o florir proporcionado de uma
+planta que tem no sólo boas e solidas raizes e nos ramos uma seiva
+abundante; não é a coroação da riqueza, é uma flôr precoce n'uma planta
+exhausta, consumindo todo o alimento e todo o vigor que devia nutrir o
+tronco, os ramos e a folhagem. Essas plantas florescem e como ellas
+morrem tambem as sociedades que <span class="pagenum"><a name="pagina_38">[38]</a></span> não souberam equilibrar a
+distribuição da sua seiva.</p>
+
+<p>Grande lição a da Polonia para quem souber e quizer aproveital-a!</p>
+
+<hr style="width: 20%">
+
+
+<h6><em>A bordo do Finland, 19 de Setembro.</em></h6>
+
+<p>O vapor vai sereno e o tempo calmo; aproveitemos este serão passado
+sobre o Baltico e conversemos.</p>
+
+<p>Deixando Varsovia, em poucas horas temos a paizagem do norte da Russia,
+que durante longas horas e longos dias nos ha de acompanhar com uma
+inquebrantavel monotonia. O que particularmente a distingue é a
+frequencia do vidoeiro, absorvendo e dominando completamente as
+restantes arvores, o abeto, a tilia, o carvalho, o pinheiro e outras
+poucas especies que apparecem <span class="pagenum"><a name="pagina_39">[39]</a></span> raras e por isso não têm valor
+apreciavel. A ramagem pendente e o desbotado das folhas do vidoeiro, ao
+mesmo tempo que dão á floresta um aspecto compacto, roubam-lhe toda a
+rutilancia das ramagens horisontaes e os angulos e nitidez de linhas
+proprios das arvores resistentes e firmes como o carvalho, por exemplo.
+A floresta é ligada e unida, as curvas suaves, nem sombras profundas nem
+resplendor; entre o claro e escuro, como entre os differentes tons, as
+transições são imperceptiveis.</p>
+
+<p>Disse que a paizagem da Russia se distinguia pela predominancia do
+vidoeiro e não disse talvez a inteira verdade. Superior e porventura
+influindo muito intimamente na feição esthetica do arvoredo, está a
+configuração do terreno, um immenso Alemtejo, em planicies infindas, que
+assim se podem chamar umas depressões tão pequenas que não prejudicam a
+linha do horisonte.</p>
+
+<p>Sobre essa vastidão assentam aldeias, agglomerações de casebres baixos e
+abafados, construidos de madeira e cobertos de colmo, sem divisões <span class="pagenum"><a name="pagina_40">[40]</a></span>
+interiores; em cada um ha, em regra, um pequeno ponto branco, a chaminé
+do forno sobre que no inverno dorme toda a familia. Ao lado, n'um
+pequeno pateo, intransitavel de esterco e de lama, estão as córtes dos
+gados, não mais vastas do que a habitação do dono. Tambem ás vezes falta
+o forno e então o lavrador e os gados vivem promiscuamente sob o mesmo
+tecto.</p>
+
+<p>Mas, sob esta apparencia miseravel, existe frequentes vezes o aceio e a
+ordem e não raro tambem a abundancia. As necessidades são poucas, toda a
+industria é caseira; se o anno foi abundante de trigo e de batatas, com
+isso e com o leite das vaccas tem a familia boa escudela.</p>
+
+<p>Todo o paiz é assim até Moscow; aldeias, mattas e lavouras em terras
+sempre ouduladas mas quasi planas. Posso até dizer que em toda a região
+da Russia que atravessei não conheci outra paizagem.</p>
+
+<p>Por taes caminhos chegei a Moscow, cidade tão gabada, sobre que o
+oriente tem dispendido <span class="pagenum"><a name="pagina_41">[41]</a></span> tanto ouro como o occidente rhetorica
+enthusiastica.</p>
+
+<p>Olhei-a de longe com ancidade, passeei-a, subi ao monte a que Napoleão
+subiu para a vêr antes de a conquistar, mirei-a muito emfim. Pois de
+quanto por lá pensei e observei conclui que para nós, latinos,
+enamorados da harmonia, da simplicidade, da proporção e da graça, não
+tem belleza. Interessa e enthusiasma pelas evocações historicas que
+d'ella brotam aos cardumes e prende pela estranheza e pelo pittoresco
+d'um mundo novo; mas que seja um prazer esthetico o que ella nós dá,
+desconfio.</p>
+
+<p>É uma cidade sem plano, sem principio nem fim, sem um centro de
+convergencia, caprichosa e emmaranhada, como a imaginação oriental.
+Chamo a tudo aquillo byzantino, n'este sentido, que, á força de
+distinguir, confunde e enreda a mais não poder resolver. Cada rua
+deseatranha-se em mil bêcos e ruas tão grandes ou maiores que a via-mãe;
+de cada florão de architectura rebentam novos florões que se emendam,
+sobrepõem, <span class="pagenum"><a name="pagina_42">[42]</a></span> sobem, descem, voltam ao ponto de partida para
+recomeçarem a mesma teia; taes quaes as discussões da nossa camara dos
+deputados. São as imaginações insaciaveis de subtilezas no pensamento,
+nas artes e em tudo, porque o espirito humano é um para cada povo e para
+cada época; são a negação da lucidez e da precisão.</p>
+
+<p>Com esta concepção da fórma esthetica coincide o brilho anteposto á côr.
+Indifferente ás delicadezas de colorido, o moscovita adora o ouro e as
+pedrarias: o bronze, a prata e o aço são pouco, é preciso doural-os. As
+igrejas estão recamadas de ouro, nos bazares abundam os bronzes
+trabalhados no paiz, mas sempre dourados; o thesouro do palacio imperial
+não terá maravilhas de Cellini, mas tem ouro e pedras preciosas que
+bastam a adornar todas as côrtes da Europa.</p>
+
+<p>Pelos atalhos d'essa montanha de riquezas anda uma população mesclada,
+cossacos e chinezes, circassianos e finios; porque Moscow, uma terra de
+commercio, um bazar, um genuino e simples mercado, tem de notavel sobre
+os seus <span class="pagenum"><a name="pagina_43">[43]</a></span> congeneres do occidente e do centro da Europa, ser
+intercontinental e trazer ás suas barracas uma população que dos mais
+remotos cantos da Europa vai quasi a tocar na America. Quasi, agora;
+quem sabe se um dia a tocará de facto, e que medonha convulsão reserva
+ao mundo esse combate.</p>
+
+<p>Dizem ter mil e seiscentas igrejas, e creio ter devoção para edificar
+outras tantas. Não ha casa sem uma imagem do Christo; nem os
+restaurantes com frequencia muito suspeita lhe escapam. As offrendas não
+têm numero, tudo se faz por milagre. Direi todavia que esta é a maior
+força d'aquelle povo.</p>
+
+<p>Entre Paris, o epicurismo, Berlim, a força, e Moscow, a religião, eu
+preferirei a ultima, porque n'este reconhecimento de uma vontade
+superior, de quem tudo dimana e provém, está o germen e o fundamento da
+paciencia, da resignação e da obediencia, forças invenciveis que os
+factos externos deixam intactas e não quebram.</p>
+
+<p>É difficil dizer onde termina a fraqueza e onde <span class="pagenum"><a name="pagina_44">[44]</a></span> começa a doçura e a
+piedade, que dimanam d'essa essencia, mas é certo que a maior de todas
+as forças é a força de soffrer. Não ha obstaculo mortal para a
+actividade de quem a possuir, e por isso o russo, apathico, soffredor,
+todo confiado á vontade de Deus, tem sobre todos nós, racionalistas do
+occidente, a maior das vantagens.</p>
+
+<hr style="width: 20%">
+
+
+<h6><em>Stockholmo, 22 de Setembro.</em></h6>
+
+<p>Vindo á Russia, não pude roubar-me o prazer de visitar o conde Tolstoï,
+o famoso romancista que hoje todo o mundo conhece. Como tantos outros
+estrangeiros, dirigi-me pois á cidade de Tula e d'ahi a Yasuya Polyand,
+propriedade e habitação de Tolstoï.</p>
+
+<p>Em torno d'este nome fez-se uma verdadeira lenda que representa o conde
+como um louco, <span class="pagenum"><a name="pagina_45">[45]</a></span> fazendo sapatos e lavrando as terras. E na verdade
+tem não sei que de singular e de poetico a sua vida.</p>
+
+<p>Um dia, um conde d'esse dourado imperio dos czars vestiu-se de <em>moujik</em>, e
+mais do que simplesmente, pobremente, foi esconder-se na sua aldeia e
+começou a ceifar o trigo, semear o grão e construir a cabana. Tinha tudo
+o que a vaidade ambiciona, uma fortuna immensa, um nome illustre, uma
+mulher formosa e, sob traços grosseiros, uma rudeza viril alliada ao
+encanto d'um olhar limpido em que brilhava a doçura que lhe vinha da
+alma. Sobre tantos dons da natureza e da fortuna tinha ainda um
+prodigioso talento de artista. Nada lhe faltava para conquistar a
+lisonja e a veneração do seu tempo, e esse homem, que podia ter uma
+côrte de admiradores e thuriferarios, tudo deixou pelo trabalho da terra
+e pela companhia do aldeão, que ha pouco ainda era seu escravo.</p>
+
+<p>O mundo viu com espanto tamanha abnegação, sorriu e, sem ousar dizel-o,
+chamou-lhe loucura. <span class="pagenum"><a name="pagina_46">[46]</a></span> Não o é; mas uma tal energia em conformar o
+sentimento e a acção surprehende n'uma época em que a simplicidade, a
+modestia, a religião e o christianismo, são essencias preciosas para uso
+verbal e devaneios litterarios apenas. E todavia o proceder de Tolstoï
+está ainda muito longe do ascetismo de outras eras em que princezas e
+fidalgos abandonaram familia, os palacios e o luxo, trocaram todos os
+prazeres, os prazeres santos e os prazeres impuros, pelo extasi divino e
+pela solidão do claustro.</p>
+
+<p>Vejamos brevemente que idéas e sentimentos levaram o conde ao novo
+claustro em que se encerrou.</p>
+
+<p>Dizia-me: Não conheço nações, ha homens apenas; e a sua lei divina e
+christã é a fraternidade. Por ahi devemos regular as nossas acções e
+aferir o seu valor.</p>
+
+<p>Respondi-lhe que não me parecia que o espirito nacional fosse
+incompativel com a fraternidade. Tomemos um exemplo, a protecção
+industrial aduaneira, uma consequencia do nacionalismo. <span class="pagenum"><a name="pagina_47">[47]</a></span> Destroe a
+fraternidade? Não; pelo contrario, realisa praticamente uma equitativa
+distribuição de riqueza entre os differentes povos e, se não,
+lembremo-nos dos effeitos da liberdade commercial que seria
+manifestamente a miseria para uns e a opulencia para outros. Concedendo
+que dos motivos concorrentes na actividade humana, os motivos de ordem
+moral devem governar os da ordem natural ou physica, temos que a
+fraternidade, o amor, ou como melhor deva dizer-se, carecem de dar aos
+ultimos a satisfação devida para completa realisação dos primeiros. E
+assim é necessario que para os povos haja nações, como para cada familia
+uma casa.</p>
+
+<p>Erro! replíca Tolstoï. Para lançar uma pedra sobre determinado ponto
+carecemos de apontar mais longe, e assim tambem, para vivermos segundo o
+christianismo, precisamos não contar com os motivos de ordem natural.
+Elles se manifestarão espontaneamente; pensar n'elles é mal empregar a
+razão que deve guardar-se para as coisas superiores.</p> <span class="pagenum"><a name="pagina_48">[48]</a></span>
+
+<p>Singular raciocinio, direi eu, que não quer contar com um elemento cuja
+existencia reconhece! Por este caminho vamos ao nihilismo, e Tolstoï era
+perfeitamente logico quando acrescentava: Para que servem os governos?
+Se ámanhã Moscow e Petersburgo desabassem, que importava a esta aldeia?
+Seria inteira e completamente o que hoje é. E contava-me, como
+esclarecimento e demonstração, que da Russia emigram familias inteiras,
+e na simples carroça que leva todos os seus bens vão muito longe, á
+Siberia e quasi á China, fazer as colheitas. Com o producto d'esse
+trabalho levantam a casa, estabelecem uma lavoura n'esses desertos
+incultos e são felizes até que o governo os descobre para lhes pedir
+impostos e os filhos para o exercito.</p>
+
+<p>Nova illusão, a meu vêr. Para que esta especie de nihilismo seja
+possivel são precisas duas condições, terra em extensão superior ao
+pedido e a simplicidade de costumes do <em>moujik</em>. Desde o momento em que a
+terra necessite partilha, ahi temos inevitavelmente um principio de
+governo; <span class="pagenum"><a name="pagina_49">[49]</a></span> e desde que a vida se complique, igualmente apparece a
+necessidade de uma actividade collectiva, uma força que mantenha a
+ordem, e preste os serviços communs. Ora pelo que respeita á terra todos
+sabemos se ella abunda, e pelo que respeita á simplicidade de vida a
+historia e a observação dos instinctos naturaes são sufficientemente
+claros. O desenvolvimento e complexidade da civilisação demonstram
+historicamente uma tendencia irreprimivel e, se esta prova não
+existisse, bastava attender aos appetites e desejos dos mais simples,
+para descobrirmos um inicio de evolução para a complexidade. Na choupana
+do <em>moujik</em> vamos encontrar um mealheiro e estampas coloridas a adornarem
+as paredes; entre essa choupana e a galeria de quadros do capitalista a
+relação é manifesta, uma contém o germen da outra.</p>
+
+<p>De fórma que essa simplicidade, individualmente possivel, é
+collectivamente impossivel. O que não importa a negação de uma vida mais
+simples do que a actual, como fim ultimo da civilisação; <span class="pagenum"><a name="pagina_50">[50]</a></span> o balanço
+dos prazeres e penas da plena expansão natural, combinado com os
+sentimentos piedosos e aspirações christãs, conduzem a uma reducção
+reflectida das nossas necessidades, mas entre esta e o estado primitivo
+ha uma enorme differença que devemos vêr e pesar; e, sendo a
+simplicidade consciente um producto superior da civilisação, seria erro
+esperal-a do vulgo que para a attingir carece de ser educado. D'este
+ultimo facto a necessidade de governo e instituições educativas, que não
+serão portanto um mal e uma desobediencia á doutrina christã, mas sim a
+condição da sua realisação pratica.</p>
+
+<p>Como é de uso n'esta especie de palestra viemos de parte a parte a um
+interrogatorio sobre o estado social de Portugal e da Russia. Repeti o
+que disse na minha ultima carta, que a religião me parecia a maior força
+do moscovita.</p>
+
+<p>É e não é religioso, respondeu-me o conde. Entre Gogol e Beliensky
+levantou-se um dia essa questão e estou em dizer que ambos tinham razão.
+Se julga pelo numero das igrejas e pela sua <span class="pagenum"><a name="pagina_51">[51]</a></span> concorrencia,
+dir-lhe-hei que o russo não é religioso; isso é um habito, como o alcool
+ou o chá, sem maior significação psychologica. Mas acontece que,
+differentemente do que succedeu com a Igreja romana, traduzimos o
+evangelho ha novecentos annos e as suas maximas divulgaram-se no povo em
+que ainda agora actuam energicamente. Por este lado a Russia é um paiz
+religioso.</p>
+
+<p>Se me é dado acrescentar alguma coisa, direi que o é ainda por outro
+lado, o fundo fatalista, Deus, Acaso, Providencia, negação da
+previdencia e reconhecimento de uma vontade superior incognoscivel. O
+proprio conde Tolstoï representa esta feição. Mostra-a nas suas obras e
+conversando commigo sobre as fórmas futuras da propriedade, disse
+singelamente:&mdash;Quem póde prever o que acontecerá d'aqui a vinte annos?</p>
+
+<p>Ao vêr o enthusiasmo com que Tolstoï me mostrava a aldeia e as
+habitações do <em>moujik</em>, ouvindo fallar dos campos e das seáras, fazendo a
+apologia ardente do trabalho braçal como tonico <span class="pagenum"><a name="pagina_52">[52]</a></span> indispensavel para
+o corpo e para o espirito, comparando os actos e as palavras, pareceu-me
+que os grandes sentimentos que determinaram o seu modo de viver tão
+anormal, foram o amor da terra e a humildade christã. Conhecendo
+profundamente toda a sociedade e a alma humana, só ahi encontrou paz e
+satisfação á sua consciencia, e por isso envergou o habito e professou
+n'essa nova religião.</p>
+
+<p>Quizera reproduzir todo o longo discurso de Tolstoï, mas a memoria nunca
+me ajuda e muito menos n'este momento, em que a successão e diversidade
+de materias a contrariam. Ficou-me porém esta impressão&mdash;que o
+pensamento vôa mais alto em duas horas de palestra com um homem de genio
+do que em dois annos de meditação solitaria.</p>
+
+<hr style="width: 20%"> <p><span class="pagenum"><a name="pagina_53">[53]</a></span> </p>
+
+
+<h6><em>Copenhague, 26 de Setembro.</em></h6>
+
+<p>Deixamos em Moscow uma cidade, producto espontaneo, e portanto
+caracteristico, do genio d'um povo em cujo sangue se amalgamam
+differentes raças, e em S. Petersburgo vamos encontrar a capital d'um
+grande imperio consciente da sua grandeza; a primeira é uma construcção
+historica, a segunda a revelação do pensamento e dos sonhos d'um
+imperador. A igreja da Assumpção, no Kremlim, na sua pequenez, com a
+profusão dos seus adornos e do seu ouro, é gigante como documento da
+concepção artistica do moscovita; Santo Isac, de Petersburgo, com os
+seus monolithos de vinte metros de altura, singela, sobria e grande, foi
+traçada por um francez e, se demonstra alguma coisa, é a victoria da
+architectura greco-romana em todo o mundo civilisado. Aquella infinita
+variedade de fórmas e de linhas em que se fundiam ou baralhavam a China,
+a Persia, o Oriente e a Italia, perdeu-se <span class="pagenum"><a name="pagina_54">[54]</a></span> nas margens do Neva,
+entregues á imitação do occidente; e emquanto Moscow parece ter sahido
+da terra como o desenvolvimento natural e facil dos germens que
+continha, S. Petersburgo mostra uma vontade, um esforço de adaptação a
+habitos, costumes e fórmas estranhas, reflectidamente julgados melhores.
+É uma cidade afrancezada, como de resto o são todas as cidades modernas.</p>
+
+<p>Ha muito passou ao dominio da banalidade extasiar-se a gente perante a
+vastidão de Petersburgo; mas essa vastidão é unica no mundo, e por isso
+não importa repetir o facto, porque vêl-a será sempre uma impressão
+surprehendente. Entre o Neva abundante e profundo a espraiar-se n'um
+amor barbaro, insaciavel de terra, ao fundo d'essas planicies infindas
+povoadas de florestas e aldeias, para encerrar a corôa que liga as neves
+do Himalaya ás neves do Baltico era necessaria uma cidade, cuja vastidão
+eclipsasse todas as capitaes do mundo. Ruas, igrejas, palacios, pontes e
+caes, tudo é d'uma largueza unica.</p> <span class="pagenum"><a name="pagina_55">[55]</a></span>
+
+<p>Todavia, através d'essa grandeza, que é porventura espontanea, e através
+da imitação do occidente, que é manifestamente pensada e deliberada,
+transparece certo sabor do torrão, qualquer coisa de barbaro. Muitas
+vezes o pensei ao atravessar a perspectiva Nevsky. No <em>isvochik</em> ligeiro e
+rapido, o cavallo ligado por uma especie de bridão (<em>pavotkin</em>) ao arco
+(<em>duga</em>) que liga os varaes, o cocheiro envolvido n'um amplo <em>caftan</em>,
+curvado para a frente, braços abertos, cada uma das guias em sua mão,
+vai levado como o vento ao trote solto dos seus formosissimos animaes, A
+rua é um hippodromo de barbaros, no trenó o quadro será completo; a
+carruagem não é ainda uma commodidade, é um meio de andar rapidamente.
+N'essa vastidão da Russia é preciso voar para não morrer antes de chegar
+ao ponto de destino.</p>
+
+<p>De repente, no breve espaço de uma noite, que contraste! Para atravessar
+o Baltico vim embarcar em Helsingfords, capital da Finlandia; do ruido e
+da vastidão cahi na estreiteza e <span class="pagenum"><a name="pagina_56">[56]</a></span> no silencio. Ou seja porque não
+chegou até aqui o sangue oriental ou sómente porque as condições da
+terra e do clima são outras, o finio é absolutamente differente do
+moscovita e mais se aproxima dos seus irmãos do outro lado do mar do que
+d'aquelles a que está sujeito. É possivel qne a constituição e quasi
+independencia da Finlandia proviesse simultaneamente de circumstancias
+historicas e do reconhecimento de insuperaveis difficuldades na
+russificação d'este reino.</p>
+
+<p>Descendo o golfo, viemos a Abo, ainda na Finlandia, e d'ahi a Stockolmo.
+Com excepção de poucas horas, navegamos sempre por meio de ilhas de uma
+deliciosa belleza. Bem povoadas de abetos e vidoeiros, não muito
+elevadas mas com as inclinações abruptas, que só a firmeza das rochas
+graniticas permitte, aqui e além cabanas de pescadores, raros animaes na
+pastagem, e sempre um mar tranquillo em volta, essas bahias e ilhas têm
+uma paizagem rica de sensações e aspectos.</p> <span class="pagenum"><a name="pagina_57">[57]</a></span>
+
+<p>Além, na planicie, o vidoeiro absorvia os abetos, aqui na collina e na
+montanha separaram-se, e cada um apparece com as suas fórmas. São
+paizagens d'um genero que geralmente se aprecia e, a meu vêr, por esta
+razão são as que encerram maior riqueza. Emquanto a planicie nos dá a
+maxima repetição na minima e constante variedade, uma successão de
+manchas repetindo-se innumeras vezes mas variando constantemente na
+successão (como demonstração offerecerei o effeito das pinturas
+japonezas em sêda), na montanha temos toda a belleza linear possivel na
+paizagem, resultante da nitidez de traços com que se desenha no espaço e
+do isolamento que no arvoredo provém da disposição. Belleza a que o mar
+e os lagos dão maior relevo ainda, porque introduzindo novos tons e
+novas côres ao mesmo tempo destacam, emmolduram, dão luz. É o que
+n'essas ilhas acontece.</p>
+
+<p>Não lhes chamarei marinhas, porque o mar aqui é accidental ou pelos
+menos não tem maior valor do que os outros elementos constituintes.
+<span class="pagenum"><a name="pagina_58">[58]</a></span> Esse nome reservo eu aos quadros que nos mostram o mar em toda a
+sua immensidade, tendo para mim que o prazer que em nós despertam provém
+não tanto da côr ou da fórma, que é nulla, como de uma sensação de
+grandeza de espaço e intensidade de luz. E se me perguntam porque razão
+sobre esse espaço põe tamanha belleza uma nuvem, uma vela, um ponto
+negro que seja, responderei que é um effeito de contraste para dar
+relevo ao elemento capital. Na escóla hollandeza encontraremos
+maravilhosos quadros n'este genero: grandes barcos no primeiro plano,
+uma torre ou um mastro no extremo horisonte, o mar, o céo e nada mais; e
+os olhos naturalmente fixam-se no espaço que medeia entre o primeiro
+plano e o horisonte contemplando a sua vastidão, cheia de luz.</p>
+
+<p>A riqueza da paizagem nas ilhas e costas da Finlandia e da Suecia não
+póde porém comparar-se com a riqueza das paizagens similares do
+occidente; a vegetação é comparativamente pobre de vigor e de variedade,
+e a luz é frouxa. <span class="pagenum"><a name="pagina_59">[59]</a></span> Ás horas do poente, em vão procurei a onda
+trespassada de esmeralda das minhas praias; apenas um collar de perolas
+desbotadas sobre o dorso negro da vaga.</p>
+
+<hr style="width: 20%">
+
+
+<h6><em>Paris, 29 de Setembro.</em></h6>
+
+<p>«Com o seu sólo e o seu clima, a Scandinavia não póde ter senão uma
+vegetação pobre e uniforme.»</p>
+
+<p>Nos breves dias que passei em Stockolmo muitas vezes me lembraram estas
+palavras do meu <em>B&oelig;deker</em>; pois não é só a vegetação mas toda a vida
+da Scandinavia que deriva das condições do seu sólo e do seu clima. Nem
+conheço paiz em que a natureza physica tenha mais clara influencia na
+determinação do caracter do povo.</p> <span class="pagenum"><a name="pagina_60">[60]</a></span>
+
+<p><em>Epiphania</em> não é a creação da phantasia de um poeta. O «sangue côr de
+rosa», a «cinza que lhe inunda os hombros» quando pelos seus cabellos
+passa uma briza, os olhos «puros de sombra e de desejos» que «nunca
+sorriram e nunca choraram», esse typo de candidez impassivel coube em
+sorte a Scandinavia; todos os seus povos tiveram quinhão no thesouro,
+embora a partilha fosse individualmente desigual como é regra em taes
+casos. E só uma terra pobre e um clima frio podiam dar-lh'o; um sangue
+mais rubro e uma circulação mais activa prejudical-o-hiam inteiramente.</p>
+
+<p>D'ahi vem todas as suas qualidades moraes, a doçura, a serenidade, o
+bom-senso, que constituem o caracter scandinavo e são a base da
+felicidade d'aquelles povos. A debilidade physica parou n'um justo
+equilibrio da actividade sem descer tão baixo que chegasse á inacção e
+ao idiotismo; são felizes porque são fracos. Transportem-no a um clima
+ardente, dêem-lhe uma alimentação abundante e toda a excitação do calor
+<span class="pagenum"><a name="pagina_61">[61]</a></span> e da luz, e o homem apparecerá apaixonado, cruel e febril. A vida
+será torrencial, sempre em correntes espumosas, edificando e destruindo,
+revolvendo e cavando a terra e a alma até ás suas mais intimas
+profundezas, heroica na natureza e no homem.</p>
+
+<p>Essas torrentes nunca passaram nos valles estreitos e frios da
+Scandinavia. Os olhos flammejantes de um gaiato de Napoles e a meiguice
+timida de uma criança de Stockolmo dizem-nos tudo o que as duas almas
+encerram.</p>
+
+<p>A fraqueza conduz á serenidade e á doçura; a reacção do individuo contra
+os accidentes da vida social e physica é proporcional á sua
+sensibilidade e á sua actividade. Por isso o scandinavo não se revolta
+contra os homens e contra as coisas, difficilmente vulneravel, entre a
+indifferença e o perdão.</p>
+
+<p>Os seus sentimentos são os que se conformam com este temperamento que
+lhe vem da terra, são a familia, a paz domestica, a fidelidade, tudo o
+que não exija um grande esforço e dê <span class="pagenum"><a name="pagina_62">[62]</a></span> o prazer que cabe na medida e
+esphera da sua capacidade; um prazer superior ou heterogeneo seria
+indifferente, porque não poderia ser percebido. Passemos pelos museus: o
+parisiense pára diante dos quadros que lhe recordam a vida sensual; o
+prusso extasia-se perante os campos de batalha coalhados de trophéos e
+de cadaveres; o russo prefere os grandes dramas intimos, a dôr da viuvez
+ou o olhar allucinado do remorso; o scandinavo contenta-se com menos, o
+desembarcar do pescado n'um recanto da praia, a sopa fumegante sobre a
+mesa e a familia em torno. Abençoada fraqueza! Limitando a vida
+damos-lhe a maior garantia de felicidade. A maior? Não, a unica. Sem
+esses limites a inquietação é inevitavel, os tormentos são tão grandes
+como as aspirações.</p>
+
+<p>Este mesmo clima que produziu um typo de actividade physica e
+psychologica de intensidade mediocre, mas por isso mesmo regular e
+equilibrada, porque não tendo oppressões congestivas não tem igualmente
+as depressões consequentes, <span class="pagenum"><a name="pagina_63">[63]</a></span> esse mesmo clima concorre para manter
+intactos os costumes nacionaes, actuando constantemente sobre a sua
+base, o caracter do povo. Concorre apenas; pois n'este ponto a causa
+determinante principal póde com bons motivos encontrar-se na situação
+geographica&mdash;quasi uma ilha, nos confins da Europa, desligada do
+continente pelo mar e pelo gelo, e durante longos mezes de inverno
+inteiramente isolada. O povo é pacifico e moderadamente trabalhador; nem
+guerras nem expansão commercial que alterem o sangue primitivo pelo
+contacto ou liga de outro sangue. E assim o typo nacional, filho do
+clima e auxiliado pelo isolamento, conserva-se puro.</p>
+
+<p>Pureza relativa, já se vê; as mesmas causas geraes que crearam o
+cosmopolitismo, tendendo a fundir n'um só os caracteres e costumes dos
+differentes povos, essas mesmas causas actuam alli, contrariadas todavia
+por forças indestructiveis, d'onde vem a fixidez quasi unanimemente
+reconhecida pelos viajantes. Na Hespanha temos um caso que esclarece e
+completa o da Scandinavia: <span class="pagenum"><a name="pagina_64">[64]</a></span> alli os costumes nacionaes apparecem
+como simples reminiscencias do passado que a civilisação ainda não
+logrou destruir, mas sem caracter algum de fixidez, condemnados a
+completa extincção. As guerras interiores, a pobreza e a difficuldade de
+communicações prolongaram modos e fórmas de vida, que de futuro irão
+provavelmente refundir-se nos cadinhos communs a todo o mundo.</p>
+
+<p>Do que fica dito facilmente se deprehende a feição de Stockolmo, uma
+cidade burgueza, pacifica, aceiada, em ordem, sem grandes palacios nem
+grandes ruas, parcamente animada de commercio e de prazeres.</p>
+
+<p>Já assim não é Copenhague, em que parei no regresso a Paris. Differe o
+povo e differe a cidade.</p>
+
+<p>Perdeu-se a delicadeza de traços e pureza de linhas que tinhamos
+frequentemente nas raparigas da Suecia, a dinamarqueza é mais corpulenta
+e grosseira, mais flamenga. Talvez ainda consequencias da natureza do
+sólo, pois descendo a <span class="pagenum"><a name="pagina_65">[65]</a></span> Suecia, amiudam-se as planicies que na
+Dinamarca se aproximam e assemelham ás da Allemanha, e além tinhamos um
+terreno accidentado e granitico, proprio a crear o musculo enxuto
+produzido pelo esforço de uma imperceptivel mas constante gymnastica.</p>
+
+<p>A cidade participa principalmente do aspecto commercial maritimo, ao
+contrario de Stockolmo que, sendo na realidade porto de mar, parece
+ainda um mercado interno.</p>
+
+<p>Só as cidades maritimas podem dar-nos a impressão n'um grande movimento
+commercial, porque só ahi se produz a accumulação indispensavel a esse
+fim; só ahi se encontram as massas fabulosas que, distribuidas pelos
+mercados interiores, perderam esse effeito pelo facto de dispersão. Por
+este lado, as cidades do interior, por grandes que sejam, são sempre
+inferiores ás cidades maritimas. O movimento de povo nas ruas de uma
+cidade de prazer como Paris ou de uma grande secretaria de estado como
+Berlim, é mesquinho ao lado das montanhas de mercadorias <span class="pagenum"><a name="pagina_66">[66]</a></span> que
+fluctuam nas cidades de Inglaterra, por exemplo. Umas movem-se como
+formigas, as outras como rhinocerontes; á superficie do mar vem de
+espaço a espaço um monstro e encostando-se á terra, começa a vomitar
+riquezas com uma prodigalidade que entontece de pasmo e esmaga de
+abundancia. Exceptúo Moscow, cidade do interior com o movimento das
+cidades maritimas; e, se as minhas viagens fossem mais longe, era
+possivel que tivesse de exceptuar todos os grandes mercados da Asia. A
+raridade e a distancia poderão produzir accumulações semelhantes ás que
+resultam do abastecimento de densos e frequentes povoados.</p>
+
+<p>Copenhague estabelece uma transição para o grande bulicio do occidente,
+mas a posição insular e as affinidades de raça deixam transparentes
+grandes laivos de parentesco com a Scandinavia e a Flandres. Direi mesmo
+que, emquanto por lá andei, lembrei-me mais frequentemente de Amsterdam
+do que de Stockolmo. <span class="pagenum"><a name="pagina_67">[67]</a></span> </p>
+
+<hr style="width: 20%">
+
+
+<h6><em>Marselha, 2 de Outubro.</em></h6>
+
+<p>Fui descansar a Paris das longas jornadas da Russia.</p>
+
+<p>Poucas coisas me interessam mais n'uma cidade do que percorrer os
+mercados de toda a especie, vêr o que se produz e o que se consome; e o
+interesse ordinario aggravava-se agora com a circumstancia de vêr Paris
+immediatamente a impressões diversas das que trazia da minha terra.
+Involuntariamente referia o que observava ao que tinha deixado na Suecia
+e na Dinamarca principalmente e, em quanto respeita a artes industriaes,
+essa comparação era desvantajosa para a França.</p>
+
+<p>Não tanto como na Allemanha, que em mau gosto na materia leva a palma a
+todos os paizes do mundo, as lojas de Paris, entre productos da <span class="pagenum"><a name="pagina_68">[68]</a></span>
+mais fina e pura belleza, encerram, em grande quantidade, o que a
+imaginação póde crear de mais absurdo e incoherente. Combinam-se e
+ligam-se as fórmas mais oppostas, juntam-se as côres mais desharmonicas;
+casa-se a simplicidade grega com os monstros japonezes e sobre os
+tapetes e porcelanas dansam desconchavadamente todas as côres. Nenhuma
+sabe do seu par.</p>
+
+<p>Já assim não acontece com as rendas e porcelanas da Suecia e da
+Dinamarca, que me encantaram e surprehenderam (na minha ignorancia
+desconhecia o que, parece, é sabido de todo o mundo e até famoso).
+Combinações de duas ou tres côres, desenhos simples, nada variados,
+repetindo-se com frequencia, e de tão parcos elementos, esses paizes
+souberam tirar effeitos que a industria franceza não conseguiu gastando
+e torturando a imaginação.</p>
+
+<p>É bem simples a razão, a meu vêr. Quiz o acaso que em Stockolmo parasse
+no deposito da mais afamada das suas fabricas de porcelana e faianças,
+justamente no momento em que me dirigia <span class="pagenum"><a name="pagina_69">[69]</a></span> ao museu nacional; e pude
+vêr quanto os productos modernos differiam pouco dos modelos historicos.
+Muito de proposito aponto a ordem da observação para que não se julgue
+que no meu juizo houve preoccupações de tradicionalista. Não houve
+realmente; foi a evidencia de facto que me levou a crêr que,
+inspirando-se na tradição, a industria encontrára alli o mais seguro
+guia de belleza e bom-gosto.</p>
+
+<p>Não direi exactamente o mesmo do que vi em Copenhague. Ahi, embora as
+rendas e bordados se não afastem tambem de modelos que têm seculos de
+existencia, a pintura em louça tomou para base a cópia do natural. E
+inutil será acrescentar que, explorando esta via, não chegou a
+resultados menos brilhantes do que os seus visinhos seguindo na
+tradição.</p>
+
+<p>A nenhum d'estes tutores se quer sujeitar a moderna industria franceza,
+e, emancipada, entrega-se á phantasia excitada pela concorrencia que lhe
+pede novidade, invenção. É talvez uma maneira de traduzir o espirito de
+liberdade n'este <span class="pagenum"><a name="pagina_70">[70]</a></span> terreno, mas a extrema liberdade aqui como em tudo
+não foi mais feliz do que a obediencia sensata e justa, consciente e
+reflectida. E, se não, vejam-se os productos preciosos que, em França
+mesmo, nos apresentam as industrias que se não afastaram da tradição, o
+ferro forjado, por exemplo. É mais uma resurreição dos antigos modelos
+do que uma industria nova; pois não sei que se possa inventar coisa
+alguma de mais bello, e estou certo de que os estrangeiros que vierem a
+Paris hão de dar-me razão.</p>
+
+<p>Venho a concluir que das tres fontes de inspiração apontadas, a natureza
+vegetal, a tradição e a phantasia, só as duas primeiras nos levam por
+caminho seguro. A natureza vegetal não tem desharmonias; filhas do mesmo
+solo e do mesmo clima, creadas com o mesmo alimento, a mesma humidade e
+a mesma luz, as plantas têm a harmonia necessaria de productos dos
+mesmos factores. É isto que nos faz dizer bellas as flôres mais exoticas
+e extravagantes. Demais o homem recebe a educação natural d'esses mesmos
+elementos <span class="pagenum"><a name="pagina_71">[71]</a></span> e goza com o que é lhes conforme, soffre com o que os
+contraría.</p>
+
+<p>A tradição, perpetuando fórmas e combinações, demonstra <em>ipso facto</em> a sua
+concordancia com a maneira intima de sentir de uma raça. D'outra fórma,
+desappareceriam como desapparece tudo o que é contrario ao seu caracter
+permanente, ainda que por qualquer motivo tivessem tido uma existencia
+mais ou menos duradoura.</p>
+
+<p>Mas a novidade e a phantasia são perigosas, pois diz-nos a razão e a
+historia que o poder creador não é infinito, encerrado como está entre
+os limites objectivos, a constancia dos materiaes, e os limites
+subjectivos, a capacidade e a fórma de sentir de cada raça.</p>
+
+<p>As artes exoticas, que são um dos muitos elementos que a sciencia e as
+descobertas modernas deram á phantasia, despertarão sempre curiosidade
+intellectual como revelações de civilisações estranhas, mas, passado
+este primeiro deslumbramento, não entrarão nos museus, deixando no <span class="pagenum"><a name="pagina_72">[72]</a></span>
+adorno domestico só o que se conforma com as nossas concepções
+estheticas?</p>
+
+<hr style="width: 20%">
+
+
+<h6><em>Oran, 6 de Outubro.</em></h6>
+
+<p>Despedi-me de Paris com saudades, digo-o com franqueza, por muito
+incoherentes que pareçam estas sympathias com o que disse nas minhas
+cartas anteriores; saudades aggravadas pela tristeza da cidade no dia da
+partida, um domingo, quasi tão despovoado e silencioso como em Londres.
+Todo o mundo emigra e vai dispersar-se pelos arrabaldes.</p>
+
+<p>É ainda um pequenino facto a notar a differença do domingo entre Paris e
+Stockolmo. Alli o domingo, na cidade, é animado, os passeios, os museus
+e os espectaculos apinhados de povo; a vida dos dias de trabalho não é
+tão absolutamente <span class="pagenum"><a name="pagina_73">[73]</a></span> extenuante como em Paris e por isso não appareceu
+ainda a necessidade de tão pleno repouso; nos prazeres e no trabalho
+mantem-se a sabedoria da modestia, que nem carece de se esfalfar na
+conquista de riquezas, nem demanda requintes de gozo. E, como nas
+aldeias, o domingo é para a palestra e para vêr os amigos, que na
+verdade o corpo não se sente fatigado, só o espirito necessita de
+alimento e expansão.</p>
+
+<p>Não continuemos n'este thema; já muito tenho dito do que em Paris me
+magôa. É tempo de dar razão das minhas saudades.</p>
+
+<p>Disse que Paris carecia de vida moral, nem outra coisa podia succeder a
+uma terra que, entre muitas outras causas d'esse estado, tem uma
+alluvião de estrangeiros em busca de prazeres, incessantemente renovada.
+Mas, se o homem não vive só de pão, não vive tambem só do coração e do
+amor divino; tem aspirações complexas e irreductiveis, e embora em sua
+consciencia reconheça certa ordem dominante, nem ignora a existencia das
+outras tendencias concorrentes nem, <span class="pagenum"><a name="pagina_74">[74]</a></span> quando é sincero, nega o prazer
+de as sentir satisfeitas.</p>
+
+<p>Vem isto a dizer que, independentemente da vida intima social ha uma
+outra vida social mais larga e menos profunda, que é uma necessidade e
+um prazer, e em que a sympathia rege o que na primeira é regulado pela
+amizade, e a urbanidade substitue a dedicação paciente. Ora a este
+genero de vida, cuja actividade sentimos todos os dias e, póde dizer-se,
+todas as horas, a este genero de vida Paris deu todo o encanto real e
+attingivel, com as suas formulas de polidez e com uma comprehensão
+instinctiva das pequeninas coisas que podem ferir ou magoar. Muito
+francez&mdash;diz-se como significando falta de sinceridade, e é possivel que
+um longo habito tornasse inconscientes actos e palavras que d'outro modo
+teriam valor moral; mas é incontestavel que embora essas formulas, esse
+modo de ser externo, não tenham valor moral positivo, não deixam por
+isso de ter reduzido ao minimo os espinhos e asperezas da convivencia;
+podem não ser virtude <span class="pagenum"><a name="pagina_75">[75]</a></span> nem peccado, mas são em todo o caso uma arte
+com todos os prazeres de tal natureza. E, quando alguem os sente,
+abandona-os com a mesma tristeza com que os bons bebedores abandonam os
+bons vinhedos, onde por baixo preço sorvem com delicia todos os dias o
+precioso perfume a que mais querem.</p>
+
+<p>Emquanto assim pensava, aproximavam-se as bocas do Rhodano, cuja
+paizagem me deixou indifferente. Os campos são largos, vastos, e por
+vezes viçosos e ferteis, e ao longe descobrem-se as ultimas ramificações
+dos Alpes, mas os montes estão excessivamente distantes para que possam
+entrar como valor importante, e a planicie, muito cultivada, tem uma
+variedade de vegetação e regularidade de plantações que destroe toda a
+harmonia natural. A paizagem carece pois de movimento.</p>
+
+<p>Parecerá absurda esta expressão&mdash;movimento da paizagem&mdash;mas, observando
+e reflectindo, veremos que a repetição de uma mesma curva acompanhada da
+repetição simultanea dos <span class="pagenum"><a name="pagina_76">[76]</a></span> mesmos tons de colorido e dos mesmos
+reflexos dá na realidade a impressão de uma determinada ondulação, um
+mesmo movimento, como acontece nas montanhas ou planicies povoadas de
+uma só especie vegetal, ou, pelo menos, de uma só especie dominante. Ora
+este effeito perde-se nas terras em que a cultura obriga á variedade.</p>
+
+<p>Voltando ao Rhodano&mdash;não quero dizer que não tenha quadros encantadores,
+para o que lhe basta a abundancia de luz. São todavia limitados e sem
+relação entre si; são para a grande paizagem o mesmo que os innumeros
+quadros da vida domestica são para a grande pintura historica que
+condensa a epopêa d'um povo, lançando n'uma tela estreita seculos de
+vida.</p>
+
+<p>Caminhemos. Adiante encontramos Marselha, e á paizagem vem juntar-se a
+cidade para nos lembrar a distancia a que estamos de Paris e um pouco
+tambem para nos avivar as saudades. Marselha é um prenuncio da Hespanha:
+reappareceu o penteado tão cuidado que não tornára a vêr desde
+Salamanca, os cabellos pretos e a desenvoltura. <span class="pagenum"><a name="pagina_77">[77]</a></span> Esta gente é
+irrequieta, o que é uma coisa bem differente da vivacidade franceza. A
+vivacidade, para mim, é constituida por gestos e movimentos da
+physionomia, breves em intensidade e duração mas repetidos e revelando
+uma actividade de espirito simultanea e semelhante; a desenvoltura é
+prodiga de movimentos que nada dizem das suas relações psychologicas. A
+vivacidade, quando ri, scintilla de sympathia; a desenvoltura, rindo, é
+egoista se não encerra um sarcasmo. Os francezes são mais vivos, a gente
+de Marselha mais desenvolta, como os hespanhoes.</p>
+
+<p>Estamos á beira-mar; mais vinte e quatro horas e bateremos ás portas do
+mundo arabe.</p>
+
+<p>Pela manhã trovejou, e das bandas de Africa sopra um vento asphyxiante e
+morno.</p>
+
+<p>A um canto do vapor uma criança ao collo repete com o olhar fixo de
+mysterioso scismar que as crianças têm ás vezes: Pa... pá, pa... pá...
+Ao lado, uma mulher nova e galante conversa com o capitão, brandamente,
+n'um tom meigo de saudade. <span class="pagenum"><a name="pagina_78">[78]</a></span> </p>
+
+<p>&mdash;Vamos, disse elle.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Bon voyage.</em></p>
+
+<p>&mdash;<em>Au revoir.</em> E abraçaram-se, silenciosos, mudos, sem uma lagrima.</p>
+
+<p>Ella seguiu pelo caes, voltou-se e olhou quando o vapor partia e
+perdeu-se no borborinho da rua, caminhando ao lado do filho, lenta,
+tranquillamente, o coração envolto na dôr, na esperança a na virtude.</p>
+
+<p>Vi ainda uns vagalhões titanicos e cambaleando deixei-me rolar como um
+fardo no canto de um divan. Na ancia e na fraqueza semi-febril
+obscurecem-se os limites do sonho e do pensamento consciente.</p>
+
+<p>Via o enterro d'um amigo; um enterro civil. A porta desconjuntada e
+carunchosa d'um quintalejo, n'um sitio ermo, veio uma carroça empoeirada
+de cal, puxada por um macho escuro, somnolento, orelha derrubada, uns
+arreios sujos, de pregos amarellos, resequidos e gretados do sol. O
+caixão appareceu sobre a carroça, não sei como, e sobre elle, o
+carroceiro, um soldado francez, de <span class="pagenum"><a name="pagina_79">[79]</a></span> largas calças vermelhas e
+jaqueta azul, sentou-se, perna bamboleante, costas para o macho.
+Fallou-lhe e partiu. Ao lado da carroça pendia uma lanterna; no limiar
+da porta ficára uma mulher da Beira, morena, espadaúda e baixa, o
+cabello empastado na testa e as mãos cruzadas debaixo do avental.</p>
+
+<p>&mdash;Não quer a lanterna accesa, tio Manoel?</p>
+
+<p>&mdash;Não é preciso, a noite está clara.</p>
+
+<p>E n'aquelle silencio sentiu-se só o estremecer da carroça sacudida no
+macadam da estrada á beira d'um juncal, caminho do cemiterio.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Monsieur, nous sommes à Alger</em>, disse alguem perto de mim.</p>
+
+<p>Levantei-me e subi. Na noite escura, mais escuro ainda um grande panno
+negro, uma montanha semeada de luzes; e em baixo sob um rosario de bicos
+de gaz, pernas e faces negras e nuas entre gorros vermelhos e farrapos
+brancos enxovalhados&mdash;foi o meu despertar no mundo arabe.</p>
+
+<p>Um sonho mau entre um quadro de amor domestico <span class="pagenum"><a name="pagina_80">[80]</a></span> e um quadro de
+miseria&mdash;são todas as minhas impressões d'esse Mediterraneo azul,
+limpido, sereno, dissolução filtrada de anilina que em tempos que já la
+vão faria a delicia dos janotas e a fortuna das engommadeiras de Lisboa,
+vendido a retalho.</p>
+
+<hr style="width: 20%">
+
+
+<h6><em>Granada, 9 de Outubro.</em></h6>
+
+<p>Argel, vista de noite, nas sombras da luz escassa, dá-nos a impressão de
+uma grande miseria; mas, vindo a manhã, no movimento das ruas e dos
+mercados, essa miseria conver-te-se n'uma grande mascarada para os olhos
+surprehendidos do viajante europeu, pouco habituado ao contacto das
+civilisações mescladas e exoticas. Rimos d'essa confusão de arabes, de
+turcos, de francezes e marroquinos e rimos ainda mais do albornoz <span class="pagenum"><a name="pagina_81">[81]</a></span> e
+do turbante; associados ao chapéo de sol e ás botas de elastico, vivendo
+em santa paz na mesma pessoa. Ao lado da franceza toda encalmada, de
+manga curta e collo descoberto, vêm as mulheres da terra, embiocadas em
+leves roupas brancas que a imaginação do nosso povo escolheria para
+trajo das almas do outro mundo; entre os mercadores de blusa azul, de
+pé, lestos em attender o freguez, como os vemos pelas nossas praças,
+está o arabe, sentado, de pernas cruzadas, indifferente e moroso, com um
+lento pestanejar de ruminante.</p>
+
+<p>Rimos emquanto o pensamento não nos inicia em caminho differente; porque
+logo, reflectindo, entre o grotesco e o comico de associações disparates
+descobrimos o orgulho do vencedor, dominando imperioso e inflexivel, e,
+em baixo, a seus pés, a babugem de uma onda outr'ora forte e temerosa,
+agora fraca e quasi extincta, agitando-se semi-morta nas prisões de
+ferro em que a Europa a lançou. N'uma cidade, como Argel, em que
+passeiam hombro a hombro vencedor e vencido, <span class="pagenum"><a name="pagina_82">[82]</a></span> a derrota é patente
+todo o dia como na hora do combate. Quando a Allemanha venceu a França,
+cada um recolheu ás suas terras e ahi recobrou altivez; mas Argel
+vencida foi tambem conquistada e o povo arrasta as algemas de uma
+escravidão mais ou menos real e mais ou menos consciente. Por aquellas
+ruas anda uma população que se agita e move, livre, risonha, altiva,
+calcando uma terra que lhe pertence, e rasteja tambem um denso rebanho
+que o pastor conduz, mas a que não falla senão para ordenar. N'uma
+hospedaria, um criado europeu manda vir o <em>arabe</em> para acarretar as
+bagagens com a mesma entonação com que mandaria vir um jumento.</p>
+
+<p>Respondem-me que essa gente vive livre e feliz, sómente sob as leis e
+regulamentos que foi necessario dar-lhes. Nem tanto mereciam.</p>
+
+<p>Não derramarei lagrimas sob a sua sorte nem mesmo direi que seja má a
+sua condição material e que tivessem merecimentos para melhor. Apenas
+aponto um facto; é que no momento actual Argel nos da o espectaculo
+altamente interessante <span class="pagenum"><a name="pagina_83">[83]</a></span> e instructivo do aviltamento moral de uma
+raça conquistada em frente dos seus senhores.</p>
+
+<p>Uma outra coisa nos offerece Argel, não menos interessante. É um bairro
+arabe, quasi uma cidade, que o camartello europeu ainda não alcançou e
+em que os costumes, a gente, e as habitações indigenas são ainda de
+grande pureza.</p>
+
+<p>Nada direi d'essas viellas ingremes em que as casas quasi se tocam de um
+ao outro lado, especie de fortalezas com uma pequenina porta e raras
+frestas nos muros. Tudo está minuciosamente descripto em muitos livros
+e, de resto, esses recintos são vedados aos simples viajantes.
+Deixaram-me uma pequena impressão&mdash;pequenez e frescura. Tudo me pareceu
+acanhado e pequenino, fresco e humido como os logares profundos onde o
+sol não penetra.</p>
+
+<p>O arabe vem descendo até aos bairros europeus, e ahi abundam as lojas e
+officinas. Bordam, tecem, costuram, têm as suas cozinhas e cafés e tudo
+aquillo se assemelha tanto á nossa regularidade que naturalmente
+perguntamos como tende <span class="pagenum"><a name="pagina_84">[84]</a></span> a aniquilar-se uma raça que chegou a
+organisar o trabalho, a arte, a familia, a religião, a politica, que
+creou uma civilisação, uma ordem social, funccionando e correspondendo
+na sua organisação á capacidade ethnica. Parece que um povo que chegou a
+este estado não deveria ser tão facilmente destruido e dominado dentro
+do seu proprio <em>habitat</em>.</p>
+
+<p>Não soube defender-se&mdash;é a resposta que mais immediatamente encontramos
+no nosso espirito; se tivessem inventado os canhões de Krupp talvez os
+seus destinos fossem outros. E vamos a dar razão á Allemanha: Pois a
+primeira necessidade de um povo não é ser forte? Virtude, grandeza
+d'alma, um ideal, para que? Se não tem musculos sãos, armados d'aço e
+lançando fogo, esse povo será devorado pelos lobos sempre á espreita das
+ovelhas.</p>
+
+<p>Mas lançados n'esta ordem de cogitações encontramos a Allemanha receiosa
+e timida diante do cossaco esfarrapado que vi nos acampamentos da
+Polonia. Já não vale a força; tudo ameaça <span class="pagenum"><a name="pagina_85">[85]</a></span> dissolver-se n'essa
+infinita vastidão em que já um dia se perderam setecentos mil homens.
+«Vive em paz com a Russia», recommendára, diz-se, o velho Guilherme
+moribundo a Frederico, seu filho; no seu espirito fluctuava já o
+desanimo com que Napoleão voltou de Moscow ás margens do Niemen e
+antecipadamente se entregava a essa amizade obrigada.</p>
+
+<p>E o espirito perde-se buscando em vão uma base de força duradoura,
+eterna, indestructivel! Não pensará assim o arabe, que tudo aceita sem
+espanto, como derivado da ordem logica e natural das coisas, se é que
+podemos aventurar-nos a penetrar tão intimamente no espirito de uma raça
+estranha. Duvido.</p>
+
+<p>Muitas vezes na Argelia, pensando no arabe mysterioso, surgiu no meu
+espirito esta duvida. Podemos comprehender inteiramente a psychologia de
+uma raça estranha? Modos de vêr e de sentir differentes devem conduzir a
+differentes ordens de pensamento e, embora vejamos as suas conclusões
+externas e praticas, no modo de funccionar <span class="pagenum"><a name="pagina_86">[86]</a></span> intimo poderá existir
+qualquer coisa mysteriosa que nos escapa. Comprehendemos claramente a
+psychologia da criança; não ha entre ella e nós senão graus de
+desenvolvimento e de actividade sendo iguaes a tendencia evolutiva e o
+modo de funccionar, tendencia e modos que devem variar de raça para
+raça. É verdade que o nosso espirito não concebe duas logicas, mas fóra
+d'esse estreito terreno commum que margem não fica para variantes
+incomprehensiveis? Pasmamos muitas vezes da logica excentrica de certos
+espiritos, da maneira por que n'elles se prendem e ligam as idéas, e
+este facto, combinado com uma reconhecida differença de base physica,
+não basta para nos levar a qualquer conclusão mas deixa no espirito
+certa desconfiança quanto a affirmações positivas sobre a psychologia
+das differentes raças.</p>
+
+<p>Talvez que sobre o espirito arabe o juizo mais acertado seja o de uma
+senhora americana muito instruida com quem conversei largamente sobre
+essa gente. «Só gostava de saber o que <span class="pagenum"><a name="pagina_87">[87]</a></span> elles pensam...»&mdash;«Creio que
+pensam muito pouco», respondeu-me.</p>
+
+<p>É possivel que n'estas palavras se resuma toda a sua psychologia. Um
+clima ardente congestiona e opprime, como o frio entorpece; em qualquer
+caso ha uma paralysação de vida. A indifferença arabe não seria como a
+do russo uma conclusão final do cogitar sobre a inanidade de todas as
+previsões, seria uma abdicação por indolencia, seria a aceitação das
+coisas sobre o que o pensamento se nega a reflectir. Mata e morre
+friamente, n'um torpor de somnolencia invencivel. Sabe lavrar e conduzir
+os rebanhos na pastagem, caminha arrastadamente, e apto para o trabalho
+lento; não sabe cavar, repugna-lhe o trabalho activo e diligente.</p>
+
+<p>Este mesmo clima que produziu uma raça avassallada pelo ardor do sol,
+movendo-se sob impulsos mysteriosos, creou a paizagem que deslumbra e
+cega os olhos do artista europeu educados na luz coada pelas nevoas do
+norte. Deu á sensualidade tudo o que ella podia exigir de <span class="pagenum"><a name="pagina_88">[88]</a></span> mais
+intenso e vivo; e por isso se comprehende que a paizagem da Argelia
+tenha na pintura um culto reservado e distincto. Para a poder sentir é
+necessario ter olhos insaciavelmente cubiçosos e nem todos attingem
+tamanho vigor de Sensualidade visual. Para os que ficam áquem, esses
+prazeres perdem-se despercebidos, quando não repugnam, ferindo e
+maguando. Uma luz abundantissima n'uma atmosphera sêcca; e todas as
+impressões virão aos nossos olhos nitidas, precisas, distinctas,
+vibrando rijamente, soltas e desvendadas da humidade attenuante que
+modera, corrige e confunde, mostrando-nos toda a natureza através d'uma
+atmosphera transparente sim, mas uniformemente colorida.</p>
+
+<p>A atmosphera tem portanto côr? Pela primeira vez surgiu no meu espirito
+este pensamento quando em Copenhague encontrei na exposição pinturas
+japonezas em sêda, esboços grosseiros de paizagens sobre um fundo sem
+nuvens, unicolor. E todavia transmittiam-me a impressão de uma paizagem
+por muito que me repugnasse <span class="pagenum"><a name="pagina_89">[89]</a></span> crêr na realidade do céo e do ar
+amarello ou verde. Parece que da terra e do céo, de todos os reflexos
+fundidos resulta um prisma distincto para cada paizagem, através do qual
+a vemos e conhecemos.</p>
+
+<p>Talvez resultado d'este scismar, uma noite, em Argel,&mdash;ainda outro
+sonho!&mdash;vi essa terra como as ruinas do Coliseu de Roma. Era uma enorme
+bacia formada de montanhas escalvadas, de uma argilla vermelha que
+descia em degraus até ao fundo e sobre a terra, immoveis, equidistantes,
+os albornós brancos dos arabes; um espaço vermelho e cavado, maculado de
+pontos brancos. Assim toda a paizagem da Argelia estaria envolvida
+n'essa atmosphera vermelha.</p>
+
+<p>Não contradiz este sonho o que acima disse relativamente á intensidade
+de impressão resultante da seccura atmospherica. Uma coisa é o colorido
+ligeiro que provém da fusão dos reflexos ambientes, outra a decomposição
+da paizagem através da nevoa mais ou menos densa; essa attenua e
+confunde profundamente, a outra dá <span class="pagenum"><a name="pagina_90">[90]</a></span> apenas um ligeiro colorido sem
+prejudicar a predominancia das impressões primitivas; uma sente-se
+principalmente nos espaços vazios, a outra actua com igual força sobre
+toda a natureza terrestre.</p>
+
+<p>A paizagem da Argelia, pois, com a sua atmosphera propria, como as
+demais paizagens, e a sensualidade requintada da riqueza e intensidade
+de impressões visuaes que resultam da seccura do ar associada á
+abundancia de luz. Explica-se d'esta fórma como nos quadros dos pintores
+que têm estudado essas regiões apparecem com tão grande frequencia as
+montanhas, as ruinas e o mar; são aquelles elementos em que este
+caracter de nitidez, de transparencia e de variedade consequente
+apparece mais distinctamente.</p>
+
+<p>Para nós, porém, a paizagem da Argelia não tem o valor que lhe dá a
+gente do norte. Estes crepusculos em braza que se prolongam n'um
+esmorecer lento, a luz que á tarde doura o arvoredo, como com tanta
+saudade a vi nas mattas de pinheiros de Alepo, em Orleansville, nada
+d'isso <span class="pagenum"><a name="pagina_91">[91]</a></span> é novo para nós com quem a natureza foi tão prodiga.</p>
+
+<hr style="width: 20%">
+
+
+<h6><em>Sevilha, 13 de Outubro.</em></h6>
+
+<p>Duas coisas bem differentes temos que vêr no sul da Hespanha, os
+monumentos arabes e a Andaluzia, os vestigios d'uma raça e d'uma
+civilisação extinctas n'esta parte do mundo e os povos e a civilisação
+agora existentes na mesma região. Ambas igualmente interessantes; a
+primeira porque encerra documentos de primeira ordem no seu genero, e a
+segunda pela importancia de todo o elemento activo contemporaneo.</p>
+
+<p>Nem a Alhambra nem a mesquita de Cordova nem o alcaçar de Sevilha
+destruiram a impressão que a Argelia me tinha deixado da arte arabe;
+antes confirmaram o que ahi tinha pensado e que em certo modo se
+relaciona com o que em <span class="pagenum"><a name="pagina_92">[92]</a></span> Moscow julguei de todo o Oriente. Aqui
+tambem como alli, encontrei uma concepção esthetica que não é da nossa
+raça e não se conforma com o nosso modo de sentir. N'este ponto as duas
+impressões são identicas. Differem porém: emquanto no moscovita domina a
+imaginação insaciavel, um enredar infindo, parecendo que o seu
+pensamento não consegue definir-se em certa ordem de linhas geraes, o
+arabe alcançou esse ultimo estado, definiu o seu conceito em fórmas
+precisas e determinadas. Depois de termos visitado os monumentos arabes,
+por longo tempo nos ficam diante dos olhos certas proporções e direi
+mesmo certos angulos, embora tenha a certeza de que os seus angulos
+variam de grandeza em numero infinito. Ha manifestamente uma tendencia,
+um movimento n'uma direcção fixa.</p>
+
+<p>D'esse conceito, d'essa visão ultima e final, producto de series de
+impressões successivas, resultam para mim duas idéas&mdash;a ausencia de
+grandeza e a preferencia do adorno sobre a estructura. <span class="pagenum"><a name="pagina_93">[93]</a></span> </p>
+
+<p>Sobre esta creio não haver duvida. <em>Dentelle</em>&mdash;foi a palavra que mais
+vezes ouvi do guarda da Alhambra que me acompanhava; rendas são na
+verdade todos esses minusculos trabalhos em gesso de que os seus muros
+estão cobertos. Para lhes dar todo o relevo estenderam-se sobre o ouro e
+as côres mais vivas, um azul intenso e um vermelho rutilante, e não se
+pouparam as perspectivas que os projectassem sobre a grandeza do espaço
+e da luz; e, depois de os ter despendido com uma prodigalidade
+infatigavel, cobriram-se os intervallos que restavam com azulejos e
+couros de Cordova, rendas ainda, posto que d'outra materia. Não se
+levantaram palacios, atapetaram-se alcovas de sultana.</p>
+
+<p>É de crer que me neguem a falta de grandeza nos monumentos arabes,
+adduzindo como primeira prova de contestação a mesquita de Cordova. Ao
+que responderei que é d'esse mesmo documento que pretendo tirar a melhor
+prova do meu pensamento.</p>
+
+<p>Quando lá entrei, lembrou-me um pomar de <span class="pagenum"><a name="pagina_94">[94]</a></span> macieiras frondosas e bem
+alinhadas, d'esses que os brazileiros da minha terra têm alli pela Villa
+da Feira. Li depois que Theophilo Gautier a comparára a uma floresta,
+mas as florestas bracejam á vontade, erguem-se ao sol e desconhecem a
+linha recta, errando gigantes por onde a luz e a terra mysteriosamente
+as conduzem. Transcrevo as proporções d'esse edificio e o leitor dirá se
+n'ellas cabe grandeza.</p>
+
+<p>Supprimamos a capella-mór e vejamos só as proporções da mesquita no seu
+estado primitivo. Um quadrilatero, cento e sessenta e sete metros de
+comprimento, cento e dezenove de largura, dez d'altura; dezenove naves
+n'uma direcção e trinta e seis na outra, arcos mouriscos assentes em
+columnas de cerca de tres metros. É facil de imaginar o aspecto de tanta
+galeria tão baixa, tão estreita e tão longa.</p>
+
+<p>A isto chamou-se grandeza, sendo aliás a sua negação. A grandeza está
+nas proporções d'um só conceito, e o arabe, não podendo alcançal-a,
+vingou-se na extensão, repetindo n'um vasto campo <span class="pagenum"><a name="pagina_95">[95]</a></span> o mesmo conceito.
+Incapacidade de espirito ou consequencia de um mau ponto de partida? Foi
+o espirito arabe que carecia de grandeza ou a grandeza era incompativel
+com a fórma d'arco que adoptára e que mais amava? E questão que por
+certo os homens do officio terão resolvido ha muito, e elles saberão
+dizer-nos se com o arco arabe poderemos ir muito longe; para os meus
+olhos desprevenidos e ignorantissimos aquelle arco parece concluir
+sempre o edificio, tornando impossivel uma sobreposição equilibrada
+apparentemente, já se vê, porque quanto á realidade não ha duvida.</p>
+
+<p>Perdôem-me os expertos se n'isto vai grande barbaridade, mas em tempos
+de suffragio universal é permittido ouvir-se a voz do vulgo. De resto,
+questão incidente; prosigamos. Ausencia de grandeza e abuso do adorno
+não são qualidades de gente guerreira, e por isso comprehendo Carlos V
+mandando arrasar parte da Alhambra e construindo no seu logar um palacio
+da mais bella renascença; foi ingenuamente o homem da <span class="pagenum"><a name="pagina_96">[96]</a></span> sua raça.
+Quem dos jardins do Generalife vir os telhados da Alhambra, baixos como
+cabanas ao lado do palacio sumptuoso e altivo, comprehenderá porque
+razão <em>isto</em> venceu <em>aquillo</em>. Estão alli duas architecturas e duas almas.</p>
+
+<p>Lamentamos e com razão que se houvessem destruido tão boas fontes de
+saber. Penetrar o espirito alheio, abranger na extensão do nosso
+pensamento a vida de toda a terra e de todo o universo, se possivel, é
+para nós um tão grande prazer como a contemplação de quanto nos deleita
+a vista: e n'este sentido são justas as lamentações de todo o monumento
+perdido. Mas não é menos justa a sympathia pela expansão forte, viril e
+inconsciente dos instinctos de uma raça, ainda não pervertida pela
+largueza intellectual que conduz ao scepticismo, pondo o <em>cant</em> no logar
+da admiração sincera: e então os actos barbaros como o de Carlos V têm
+seus laivos de grandeza.</p>
+
+<p>E todavia quem falla d'esta fórma da arte arabe ainda hontem poderia ser
+surprehendido <span class="pagenum"><a name="pagina_97">[97]</a></span> em flagrante delicto de admiração diante da entrada
+de um casino de Sevilha. Que singeleza! Um vestibulo rectangular,
+ladrilhado de marmore, as paredes com uma cercadura de um metro de
+azulejo e depois gobelinos até ao tecto de madeira, apainelado; ao
+centro tres arcos sobre quatro columnas de marmore branco dando entrada
+para o pateo, quadrado, com uma ornamentação semelhante á do vestibulo.
+Não ha n'isto grandes reminiscencias dos mouros? Ha, decerto; toda a
+differença consiste não em desconhecermos a belleza da sua arte mas em a
+tornarmos como subordinada a uma concepção mais alta. De fim ultimo e
+principal, os seus mais bellos elementos transformam-se ás nossas mãos
+em accidente e complemento.</p>
+
+<p>É tempo de passarmos á formosa Andaluzia, formosa nas suas mulheres, no
+pittoresco dos costumes, retardatarios da desnacionalisação, porque a
+formosura dos seus campos soffre grandes reservas.</p>
+
+<p>Pelos montes e outeiros predominam os olivaes, <span class="pagenum"><a name="pagina_98">[98]</a></span> e a palmeira
+(<em>chamærops humilis</em>), as agaves, o esparto, a giesta, e as lavouras de
+trigo preenchem os intervallos; as terras baixas são mimosas, onde têm
+agua, mas com esta indecifravel confusão de plantas dos terrenos bem
+cultivados, perdem toda a fôrça e caracter como paizagem. Para esta
+ficam só as terras altas e que pouco dizem porque as oliveiras estão
+muito distantes entre si e as outras plantas muito dispersas para darem
+qualquer fórma ou colorido definido. Ainda assim, onde o olival é basto
+accentua-se certo caracter de calor e suavidade; a folha da oliveira,
+leve de colorido e pouco brilhante, semelhando cobre velho oxydado,
+desenrola sobre a terra um tapete que se sente profundo e leve, sem a
+dureza polida e fria das vastas superficies luzentes. Caracter que as
+restantes plantas partilham: o brilho é proprio das plantas viçosas e
+aqui não as ha, têm falta d'agua. A propria palmeira é bem differente
+d'aquillo que parece nos nossos jardins, mais coriacea, não se expande
+nesse viço que é uma phase brilhante de estiolamento.</p> <span class="pagenum"><a name="pagina_99">[99]</a></span>
+
+<p>E todavia não faltará quem se extasie diante do Guadalquivir e do Genil
+em que se reflecte a alvura da Serra Nevada. Se me não illudo, é o caso
+tão frequente da confuzão do bem-estar physico com a belleza da
+paizagem. Para os que vêm dos montes abrazados, o valle humido e tepido
+dá uma sensação balsamica que nos induz a chamar bello a quanto nos
+rodeia. Esta sensação associada á cubiça de riquezas, foi talvez uma das
+grandes forças da conquista arabe; por aquellas veigas sorria um prazer
+que para lá do mar era bem raro e o mouro vinha buscal-o, impetuoso,
+como uma onda negra espumando sangue.</p>
+
+<p>N'estes climas tão ricos, a vegetação vai desde o trigo até á vinha, a
+oliveira, a laranjeira e a tamara; nos poucos metros d'um jardim
+percorrem-se quasi completamente as zonas de todo o mundo.</p>
+
+<p>D'aqui a belleza da gente, creada na abundancia, com os frios moderados
+que avigoram, sem a molleza lymphatica dos calores excessivos. O clima
+tudo lhes deu: uma alimentação variada, <span class="pagenum"><a name="pagina_100">[100]</a></span> abundante e sã, e as
+alternativas e graduações de temperatura convenientes para dar ao corpo
+plena expansão de vigor.</p>
+
+<p>Vigor indomavel, latejante e transparente: a belleza das raparigas do
+norte palpita apenas; na andaluza, os olhos e os cabellos negros, a
+pelle mimosa e branca, têm relampagos de sensualidade.</p>
+
+<p>Mas a mocidade é breve, segue-se uma vida mais sedentaria, e quando na
+casa a mesa é farta e a doença e o trabalho não castigam, um corpo tão
+são tem comsigo um inimigo invencivel da belleza&mdash;a obesidade. É ahi que
+vai naufragar o melhor da formosura da Andaluzia; nas ruas, nos passeios
+e nos caminhos de ferro encontra-se esta phylloxera em todos os estados,
+desde a mulher de trinta annos de uma redondeza acabada, até á
+sexagenaria informe.</p>
+
+<p>Mudou a physionomia mas o caracter é sempre o mesmo, é em toda a idade a
+desenvoltura de que já em Marselha tivemos prenuncios. Dar exercicio aos
+musculos, palrando com grandes <span class="pagenum"><a name="pagina_101">[101]</a></span> gestos, saracoteando-se e cantando,
+constitue a primeira necessidade d'esta gente. É sabido como os
+hespanhoes adoram a rua e os cafés. Pois não é porque bebam muito; o que
+precisam é fallar e agitar-se, ruido e movimento.</p>
+
+<p>A mesma musica tem este caracter de agilidade; as depressões alternadas
+de andamento rapido e lento são manifestas como na musica italiana a
+predilecção pela cadencia prolongada. Parece que só a Allemanha tirou da
+musica a expressão d'uma paixão intima e moral; os outros povos
+contentam-se em reduzil-a á simples traducção do seu modo de ser
+sensual.</p>
+
+<p>Para que tudo esteja d'harmonia&mdash;e esta harmonia é para mim o mais bello
+da Andaluzia&mdash;a habitação é tambem o que melhor se podia conformar com o
+clima. O pateo, com a fonte de marmore ao centro, rodeado por uma
+galeria em arcos ou sobre columnas é quasi geral nas casas da Andaluzia;
+adornado com plantas dá um canto de frescura para passar no verão as
+horas de calma, ao mesmo tempo que é um elemento de <span class="pagenum"><a name="pagina_102">[102]</a></span> belleza. Não
+foi a Andaluzia que o inventou, é romano ou arabe, é talvez de todos os
+povos. Adoptal-o, porém, foi o grande impulso de bom-senso.</p>
+
+<p>Porque não fizemos o mesmo em Lisboa, preferindo a imitação parisiense,
+tão pouco justificada? Porque não teremos o pateo alumiado, fresco e
+aceiado em logar da escada sombria, abafada e negra? Porque não fizemos
+uma avenida ladeada de casas peninsulares em logar d'um <em>boulevard</em>?</p>
+
+<p>Descuidadamente, fui a fallar das coisas de casa. Pois não voltarei
+atraz. Recolho ao ninho, que já não é sem saudade.</p>
+
+<p>Ao abeirar-me d'essa natureza que encerra o vidoeiro e a palmeira, com
+tanto amor bafejada da fertilidade e belleza, ao contacto d'essa alma
+tão nobre que na corrupção e na miseria tem ainda scintillações de
+heroismo, esmorece a sympathia pela gente que deixei para além dos
+Pyrenéos e dos Alpes.</p>
+
+<p>A sua alegria é um sorriso frouxo na sombra <span class="pagenum"><a name="pagina_103">[103]</a></span> tremula e fria do
+vidoeiro e do abeto, e a alegria da minha terra vai desde a alvorada de
+primavera rutilante e fresca até á gargalhada estridente e pagã, entre o
+perfume do louro e o vigor do pampano. A sua melancolia é o brando
+palpitar d'um crepusculo de outono, e a melancolia da minha terra é
+ardente e ampla, um clamor de bronze vibrado nas labaredas do estio.</p>
+
+<p>Bem vindo seja pois esse ninho tecido de miserias e de grandeza!</p>
+
+<span class="pagenum"><a name="pagina_104">[104]</a></span> <br>
+<span class="pagenum"><a name="pagina_105">[105]</a></span>
+
+<h2>INDICE</h2>
+
+<table width="90%">
+<tr><td></td><td>Pag.</td></tr>
+
+<tr><td>Dedicatoria</td><td><a href="#pagina_V">V</a></td></tr>
+
+<tr><td>Advertencia</td><td><a href="#pagina_VII">VII</a></td></tr>
+
+<tr><td>Modos de viajar</td><td><a href="#pagina_2">2</a></td></tr>
+
+<tr><td>O Minho</td><td><a href="#pagina_4">4</a></td></tr>
+
+<tr><td>O Douro</td><td><a href="#pagina_6">6</a></td></tr>
+
+<tr><td>Entrada em Hespanha</td><td><a href="#pagina_7">7</a></td></tr>
+
+<tr><td>Salamanca</td><td><a href="#pagina_9">9</a></td></tr>
+
+<tr><td>Miranda do Ebro</td><td><a href="#pagina_12">12</a></td></tr>
+
+<tr><td>Os Pyrenéos</td><td><a href="#pagina_13">13</a></td></tr>
+
+<tr><td>Paris</td><td><a href="#pagina_14">14</a></td></tr>
+
+<tr><td>Liège</td><td><a href="#pagina_23">23</a></td></tr>
+
+<tr><td>Lavoura por cavallos</td><td><a href="#pagina_24">24</a></td></tr>
+
+<tr><td>Campos de Liège</td><td><a href="#pagina_25">25</a></td></tr>
+
+<tr><td>O Hanover</td><td><a href="#pagina_26">26</a></td></tr>
+
+<tr><td>Prados e florestas</td><td><a href="#pagina_27">27</a></td></tr>
+
+<tr><td>O snr. G. Saunders</td><td><a href="#pagina_28">28</a></td></tr>
+
+<tr><td>Berlim</td><td><a href="#pagina_29">29</a></td></tr>
+
+<tr><td>De Berlim a Varsovia; a alfandega russa</td><td><a href="#pagina_33">33</a></td></tr>
+
+<tr><td>A paisagem da Polonia</td><td><a href="#pagina_34">34</a></td></tr>
+
+<tr><td>Varsovia</td><td><a href="#pagina_36">36</a></td></tr>
+
+<tr><td>A paizagem do norte da Russia</td><td><a href="#pagina_38">38</a></td></tr>
+
+<tr><td>A aldeia da Russia</td><td><a href="#pagina_39">39</a></td></tr>
+
+<tr><td>Moscow</td><td><a href="#pagina_40">40</a></td></tr>
+
+<tr><td>Visita a Tolstoï</td><td><a href="#pagina_44">44</a></td></tr>
+
+<tr><td>S. Petersburgo</td><td><a href="#pagina_53">53</a></td></tr>
+
+<tr><td>A Finlandia</td><td><a href="#pagina_55">55</a></td></tr>
+
+<tr><td>A paizagem</td><td><a href="#pagina_56">56</a></td></tr>
+
+<tr><td>A Scandinavia</td><td><a href="#pagina_59">59</a></td></tr>
+
+<tr><td>Copenhague</td><td><a href="#pagina_64">64</a></td></tr>
+
+<tr><td>A industria moderna</td><td><a href="#pagina_67">67</a></td></tr>
+
+<tr><td>O domingo em Paris</td><td><a href="#pagina_72">72</a></td></tr>
+
+<tr><td>Seducções de Paris</td><td><a href="#pagina_73">73</a></td></tr>
+
+<tr><td>Paizagem do Rhodano</td><td><a href="#pagina_75">75</a></td></tr>
+
+<tr><td>Marselha</td><td><a href="#pagina_76">76</a></td></tr>
+
+<tr><td>Caminho d'Argel</td><td><a href="#pagina_77">77</a></td></tr>
+
+<tr><td>Argel</td><td><a href="#pagina_80">80</a></td></tr>
+
+<tr><td>Paizagens</td><td><a href="#pagina_87">87</a></td></tr>
+
+<tr><td>Os monumentos arabes</td><td><a href="#pagina_91">91</a></td></tr>
+
+<tr><td>A Andaluzia</td><td><a href="#pagina_97">97</a></td></tr>
+</table>
+
+
+<h2>DO MESMO AUCTOR:</h2>
+
+<p><em>Estudos sobre litteratura contemporanea</em> 1 vol.</p>
+
+<p><em>O Snr. Oliveira Martins e o seu projecto de lei sobre o fomento
+rural</em> Folh.</p>
+
+<p><em>A arte d'estudar</em> (versão do inglez) 1 vol.</p>
+
+<p><em>A Democracia</em> Folh.</p>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Cidades e Paisagens, by Jaime de Magalhães Lima
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CIDADES E PAISAGENS ***
+
+***** This file should be named 24774-h.htm or 24774-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/2/4/7/7/24774/
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+http://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>