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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:14:19 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Cidades e Paisagens + +Author: Jaime de Magalhães Lima + +Release Date: March 7, 2008 [EBook #24774] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CIDADES E PAISAGENS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + + +<div class="capa"> +<h2>JAYME DE MAGALHÃES LIMA</h2> +<br> +<br> +<br> +<br> +<h1>CIDADES E PAIZAGENS</h1> +<br> +<br> +<br> +<br> +<h5><em>PORTO</em> <br> +TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA <br> +Cancella Velha, 70 <br> +1880</h5> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pagina_I">[I]</a></span> +<br> +<br> +<br> +<br> +<h3>CIDADES E PAIZAGENS</h3> +<span class="pagenum"><a name="pagina_III">[III]</a></span> +<br> +<br> +<br> +<br> +<h2>JAYME DE MAGALHÃES LIMA</h2> +<br> +<br> +<br> +<br> +<h1>CIDADES E PAIZAGENS</h1> +<br> +<br> +<br> +<br> +<h5><em>PORTO</em> <br> +TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA <br> +Cancella Velha, 70 <br> +1880</h5> +<span class="pagenum"><a name="pagina_V">[V]</a></span> + + +<h2><em>A MEU PAE</em></h2> + +<h3><em>Sebastião de Carvalho Lima</em></h3> + +<p><em>Creio ter chegado a um periodo da vida em que a formação mental do +individuo estaciona, tendo-se completado nos limites da sua capacidade. +O pensamento trabalha talvez com maior actividade e n'um campo d'acção +mais vasto do que no passado; mas a fórma e força dos seus orgãos já não +progridem nem crescem nem diminuem nem mudam, mantêm-se. É porventura a +época de estudo mais fecundo, não é decerto a de maiores prazeres; pois +as emoções intensas do crescimento consciente de vigor foram +substituidas pela repetição <span class="pagenum"><a name="pagina_VI">[VI]</a></span> serena e methodica de esforços e +resultados semelhantes.</em></p> + +<p><em>Breve ou longo, luminoso ou obscuro, tal qual foi com todos os seus +tedios e todas as suas alegrias, percorri esse caminho apoiado na +generosa amizade de meu pae. Por isso lhe dedico estas cartas, primicias +de uma nova idade devidas á gratidão.</em></p> + +<p class="direita">Jayme de Magalhães Lima.</p> +<span class="pagenum"><a name="pagina_VII">[VII]</a></span> + + + + +<h2><em>ADVERTENCIA</em></h2> + + +<p><em>Para repouso do espirito e procurando uma representação exacta de +coisas que conhecia só pela leitura e me interessavam, fiz no outono +passado uma rapida viagem pelo norte da Europa e da Africa. Nos breves +momentos de descanso do meu jornadear impaciente dei conta do que ia +vendo e pensando nas cartas que ora enfeixo n'este livro.</em> <span class="pagenum"><a name="pagina_VIII">[VIII]</a></span> +<em>Accusam-me os amigos e criticos intelligentes de ter sido abstruso, +poupando-me a descripções e á narração dos factos e só cuidando de +apontar as impressões de natureza moral que ficavam no meu espirito. A +accusação é procedente, reconheço-o; mas não tentarei corrigir-me pelo +respeito que devo á sinceridade.</em></p> + +<p><em>Estas cartas são reflexões sobre um limitadissimo numero de factos +porque na verdade o meu espirito é d'este molde; prende-se meramente ao +que se lhe afigura saliente e caracteristico, e despreza e esquece tudo +o mais. Se é boa, se é má, não sei dizel-o; sei apenas que é esta a sua +fórma.</em></p> + +<p><em>Não desprezo o trabalho descriptivo, incomparavel delicia quando é bem +feito, unica base dos conhecimentos geraes; mas, <span class="pagenum"><a name="pagina_IX">[IX]</a></span> além de requerer +aptidões litterarias especiaes que não tenho, demanda ao mesmo tempo +dotes d'um outro genero de que igualmente careço. A descripção, +associada á narrativa e ao dialogo, póde bem aventurar-se no romance sem +outro qualquer auxilio: a descripção simples, por mais brilhante que +seja, é um anachronismo enfadonho se lhe falta a interpretação do lapis +e do carvão que elucida, completa, abrevia e deleita, dando rapidamente +uma impressão extensa.</em></p> + +<p><em>Depois, ha muitos modos de viajar. Ha em primeiro logar o estudo—o +conhecimento interno e externo dos povos nas suas instituições e nas +suas paizagens, na sua vida moral e na sua vida economica, nas suas +qualidades physiologicas e nas suas aptidões artisticas, no seu modo de +<span class="pagenum"><a name="pagina_X">[X]</a></span> ser intimo e nas suas relações com o mundo externo. Esses estudos +carecem de longo tempo e saber paciente e a descripção é um dos seus +elementos; estão feitos para quasi todo o mundo tantas vezes e tão bem +que seria vaidade pueril tentar acrescentar-lhes o que quer que fosse.</em></p> + +<p><em>Um segundo modo é a viagem por curiosidade—vêr muita coisa e coisas +differentes das que habitualmente vemos. É o regalo das sensibilidades +cansadas ou demasiado cubiçosas e um genero de «sport» hoje muito em +voga; o seu valor educativo, porém, é mediocre pela multiplicidade das +impressões e falta de connexão entre si.</em></p> + +<p><em>Entre estes dois modos parece-me haver um terceiro, munido de estudos +prévios para dispensar observação demorada e <span class="pagenum"><a name="pagina_XI">[XI]</a></span> curioso só quanto +baste para a elucidação do estudo. Procura a representação directa +d'aquillo que já conhece, vendo em movimento os corpos vivos cuja +anatomia e physiologia estudou primeiro; vai envolver-se na corrente das +cidades para sentir o calor e o palpitar do seu sangue e uma vez +alcançada esta impressão abandona-as como um parasita irrequieto.</em></p> + +<p><em>Isto pelo que diz respeito ao modo de apreciar as viagens. Pelo que se +refere propriamente ás minhas impressões nada quero acrescentar e muito +pouco tenho que esclarecer.</em></p> + +<p><em>O que escrevi de Berlim fará crêr que não senti lá outra coisa senão um +militarismo brutal absolutamente antipathico ao meu espirito, quando é +verdade que ao seu lado vi com intima admiração a força <span class="pagenum"><a name="pagina_XII">[XII]</a></span> moral d'um +regimen de ferro em que tudo é pautado pela lei severa e obedecida. Não +sei que haja paiz que possua mais profundamente o fetichismo do dever. +Um acto pratica-se porque é obrigação pratical-o e no cumprimento das +obrigações não ha hesitar—tal é o primeiro e mais assombroso resultado +educativo que a severidade allemã alcançou para aquelle povo.</em></p> + +<p><em>Nem mesmo direi antipathico o caracter do actual imperador da +Allemanha, apesar do seu muito contestavel amor filial e d'uma paixão +militar que não deve ficar longe da loucura. Aspirar a constituir uma +patria e uma nação «allemãs» é talvez uma especie de egoismo mas largo e +generoso; póde ser abominavel mas não perde por isso a admiração devida +a todas as coisas grandes. E este é, a meu <span class="pagenum"><a name="pagina_XIII">[XIII]</a></span> vêr, o caso do +imperador da Allemanha.</em></p> + +<p><em>Igualmente receio ter ficado obscura a minha discussão com o conde +Tolstoï.</em></p> + +<p><em>D'accordo quanto á medida do progresso, conformes ambos em que devemos +aferil-o pelo alargamento e mais profunda penetração da fraternidade ou +do amor nas relações sociaes, differiamos no modo pratico da sua +realisação. Tolstoï conclue pelo nihilismo, pela abolição da +propriedade, do estado, de todos os vinculos e de todas as dependencias, +entregando os homens sómente á sua lei divina ou moral; pede uma +dissolução onde eu pediria uma organisação, uma ordem, d'onde derivam a +familia, a communa, a propriedade, o estado, uma subordinação. Historica +e scientificamente está demonstrado, que, abolidos <span class="pagenum"><a name="pagina_XIV">[XIV]</a></span> esses laços, a +sociedade cae na anarchia, na guerra, na livre soberania da lucta pela +vida, negação da fraternidade.</em></p> + +<p><em>E não se diga que esta maneira de vêr contradiz a igualdade, tendencia +evolutiva das sociedades aryanas, historicamente demonstrada. A +igualdade entre os homens, que o christianismo e a philosophia +reconhecem, traduz-se nas instituições politicas n'uma accessibilidade +de estado e de classe e não na abolição de todos os estados sociaes e +das classes, orgãos da humanidade. D'esses orgãos deriva a sua fórma e é +esta que nos cumpre aperfeiçoar sem a destruirmos.</em></p> + +<p><em>De resto, quanto ao modo de viver de Tolstoï, só repetirei que me +merece a mais illimitada admiração. Comprehende-se e admira-se o homem +entregue sem reservas <span class="pagenum"><a name="pagina_XV">[XV]</a></span> a uma paixão sublime, despindo-se +heroicamente de todo o «snobism» com que a fraqueza de todos nós +condescende e curvando-se sobre o arado; absorvido n'esse mysterio +insondavel e fascinante da terra, aureolado da maior de todas as bençãos +divinas—a humildade.</em></p> + +<p><em>Sobre os demais pontos das minhas cartas creio não haver obscuridade +que mereça ser apontada.</em></p> +<span class="pagenum"><a name="pagina_1">[1]</a></span> + + + + +<h1>CIDADES E PAIZAGENS</h1> + + +<h6><em>Salamanca, 1 de Setembro.</em></h6> + +<p>Novamente em terras estranhas, com as velhas malas tisnadas ao sol de +mil combates, isto é, cobertas dos rotulos dos caminhos de ferro e dos +hoteis, que lhes abrem no coiro espesso grandes chagas multicôres; com +essas fieis companheiras que por mim pisaram todo o calvario dos omnibus +e dos wagons e soffreram ás mãos brutaes dos moços de gare, encontro +velhas idéas, velhos programmas de viagem. Não mudei: a bagagem é ainda +a mesma, exterior e interiormente. <span class="pagenum"><a name="pagina_2">[2]</a></span></p> + +<p>A boa ordem e o methodo exigem um programma, exigem que antecipadamente +determinemos um fim e um systema. D'outra forma, a viagem não passa de +uma dissipação, de elegancia ou de vaidade, um regabofe, grandes +empresas, grandes aventuras, para escancarar de pasmo a boca dos +papalvos. <em>Abrenuntio!</em></p> + +<p>Tenho lido e creio que o inglez e o russo viajam de maneira +absolutamente diversa; o inglez vendo tudo, seguindo linha a linha o seu +<em>guia</em>, minuciosa e escrupulosamente, e o russo passeando livremente, sem +guia e sem tutela, correndo cidades e campos, envolvendo n'uma especie +particular de indifferença museus e bibliothecas, cathedraes e +universidades, monumentos e palacios, toda essa interminavel corda com +que é costume enforcar a bolsa e a paciencia do viajante. Emquanto o +inglez procura factos e impressões desconnexos, mas em grande numero, o +russo procuraria poucas ideas geraes; um attenderia ao numero e á +quantidade, outro á grandeza e á qualidade.</p> <span class="pagenum"><a name="pagina_3">[3]</a></span> + +<p>Não sei até que ponto será exacta a distincção como attributo +caracteristico de raça; é certo porém que em geral a podemos considerar +verdadeira. A não ser que viajemos com um fim especial, o estudo de uma +cultura, de uma arte, de um novo processo industrial, ou qualquer outro, +ha apenas dois systemas de viajar, extremos de um dos quaes todo o caso +particular sempre se aproxima: ou procuramos a abundancia e a riqueza de +impressões ou um limitado numero de aspectos e idéas geraes, pondo de +parte os factos inuteis á sua constituição.</p> + +<p>Sobre o valor intellectual dos dois systemas não me parece poder +levantar-se duvida; ha toda a distancia que vai da simples curiosidade +ao pensamento. Um estampa, grava e guarda, no seu estado primitivo, as +percepções recebidas; o outro funde, relaciona, e tira um novo producto +unico residuo duradouro e util.</p> + +<p>Ora, devo advertir aos que tiveram a paciencia de me acompanhar até aqui +que desde longos annos me inscrevi na segunda das categorias <span class="pagenum"><a name="pagina_4">[4]</a></span> que +esbocei e não abjurei nem espero abjurar a primeira confissão. +Temperamentos! Já vê, pois, o leitor o que póde esperar d'estas breves +palestras, escriptas de relogio em punho e sob a respeitavel auctoridade +dos horarios do caminho de ferro; nem poderei despertar-lhe transportes +de enthusiasmo, em segunda mão, pelos quadros e monumentos notaveis, nem +lhe contarei quantos viajantes me acompanhavam, nem como vestiam e +dormiam, nem mesmo poderei dizer-lhe, e isso com verdadeira magua, se, +realmente, n'esta parte da Europa que vou percorrer, é lei universal de +todas as hospedarias deixar á noite os sapatos á porta do quarto de +dormir e encontral-os de manhã bem lustrosos de graxa. Nada d'isto terei +tempo de dizer-lhe; apenas alguns factos e idéas muito geraes.</p> + +<p>Já temos quanto baste de declarações prévias para que possamos +entender-nos; passemos pois á viagem.</p> + +<p>D_ Porto a Salamanca o caminho é bem conhecido. Atravessa^do _ Minho, +nas proximidades <span class="pagenum"><a name="pagina_5">[5]</a></span> de Penafiel, póde observar-se o aspecto bem +differente do Minho suburbano e littoral, como a Maia e Rio Tinto, e o +Minho interior, aproximando-se das montanhas. N'este, a vegetação nos +valles é mais abundante e viçosa, talvez resultado do maior abrigo; os +montes circumvisinhos são mais elevados e muito despidos, +differentemente do que acontece no littoral onde as eminencias são bem +povoadas de pinhal que desce até á margem dos campos. A casa caiada e +branca, construida de argamassa e coberta de telha, deu logar á cabana +de pedra solta e de colmo, defumada e baixa. São de uma grande belleza +as pequenas aldeias do interior do Minho; sombrias pela luz frouxa, pelo +verde carregado da vegetação, pela côr terrea dos montes escassamente +povoados de urze, e pelo colmo e o granito das habitações; mas ha no +quadro uma grande harmonia de tons, deliciosas linhas pittorescas, e, na +falta de arte, uma grande expressão, a que resulta da completa communhão +do homem e da terra. A aldeia e o homem são pouco, quasi nada, a <span class="pagenum"><a name="pagina_6">[6]</a></span> +confundirem-se com os milharaes e com os pampanos.</p> + +<p>Do Minho passamos á margem do Douro e ás suas encostas devastadas pela +phylloxera.</p> + +<p>A meu vêr, a paizagem carece de belleza; a natureza menos consistente +dos terrenos schistosos produz a molleza de contornos; e a cultura, +fazendo dos montes escadarias, destruiu toda a harmonia natural e +substituiu a paizagem, não por outra paizagem mas por cachos d'uvas em +prateleiras. Alem d'isto, os valles são demasiado estreitos e falta por +isso a distancia necessaria para vêr bem as montanhas.</p> + +<p>São de uso e de bom gosto as lamentações sobre a sorte infeliz do Douro; +e, de facto, os olhos menos penetrantes vêem alli a miseria e a +destruição de uma opulenta riqueza que, nos seus melhores tempos, deu ao +lavrador uma vida sumptuosa.</p> + +<p>Mas está o Douro perdido para sempre? E as florestas, e a acclimatação +de plantas novas e de novos animaes? Assim como a giesta cresce por +<span class="pagenum"><a name="pagina_7">[7]</a></span> aquelles montes, não haverá plantas exoticas de maior utilidade que +supportem igualmente os rigores d'aquella região? Não têm os lavradores +um vasto campo a explorar na criação dos pequenos animaes como as aves e +os coelhos? Não seria possivel fazer grandes reservas das aguas que no +inverno correm em torrentes pelas montanhas? Se me não illudo, os +grandes males da regeneração agricola do Douro não vem da sua natureza +physica de que com arte necessariamente poderiamos tirar proveito; o +grande embaraço é a falta de instrução e de capitaes. Para restituir á +cultura as suas terras agrestes e hoje em completo abandono, é +necessario que o lavrador saiba e possa; e, dado que viesse a saber em +pouco tempo, quantos mil contos de reis não custaria a empresa?</p> + +<p>Subindo sempre, entramos em Hespanha, e pouco depois, vinhas e olivaes e +amendoeiras, tudo nos desapparece para nos internarmos em plena região +montanhosa. Nenhuma cultura, mas a paizagem é granitica, cheia de +grandeza, os <span class="pagenum"><a name="pagina_8">[8]</a></span> contornos nitidos e arrojados. Seguem-se planaltos +arenosos, cultivados na maior parte; rarissimas videiras, os cereaes +dominam e, parece, formam o tronco, a parte essencial da lavoura, como, +de resto, succede nas grandes elevações do nosso clima. As aldeias não +são frequentes, mas os campos murados e extremamente subdivididos.</p> + +<p>Sobreveio a noite. Pelos campos do Tormes, imagino que a paizagem não +muda até Salamanca, pois o que vim encontrar aqui é em tudo semelhante +ao que deixei, com a simples differença de que as hortas abundam, +consequencia manifesta das proximidades de um mercado urbano.</p> + +<p>Resta-me fallar de Salamanca, falta-me o tempo. De Paris conversaremos.</p> + +<hr style="width: 20%"> <p><span class="pagenum"><a name="pagina_9">[9]</a></span> </p> + + +<h6><em>Paris, 5 de Setembro.</em></h6> + +<p>Salamanca é uma cidade antiga.</p> + +<p>As cidades antigas são como as grandes obras classicas que ora se +encontram empoeiradas e amarellecidas na edição original, em que o texto +e a fórma conservam a harmonia e a exactidão primitivas, ora se +encontram nas edições modernas, annotadas, corrigidas, sob uma nova +fórma material, corrompidas e alteradas o mais das vezes até se tornarem +uma obra nova. São raras as velhas edições authenticas, e mais raras +ainda essas outras especies de livros escriptos em pedra a que se chama +cidades; porque, n'estas, as alterações são constantes, dia a dia, +lentas e immediatamente imperceptiveis. Quando assim não é, a cidade +morreu.</p> + +<p>Salamanca, sem ter morrido, estacionou. É como estes velhos enrugados, +magros, tomando com exactidão rigorosa as suas refeições, o seu jornal e +o seu passeio, agasalhados n'um casaco <span class="pagenum"><a name="pagina_10">[10]</a></span> que nenhuma tesoura hoje +sabe talhar, o pescoço envolvido em gravatas cuja vastidão nos assombra: +vivem ainda e são todavia um documento do passado. Entre elles e as +cidades ha uma differença apenas: as cidades podem rejuvenescer, os +homens nunca.</p> + +<p>As bilhas da agua d'uma fórma tradicional, archaica; o trajar dos homens +do campo, de calção e polaina de coiro, jaqueta e larga faixa, o collete +curto com duas ordens de grandes botões de prata, a camisa sem collar, +apertada com um só botão de filigrana, o peito todo de rendas; os +palacios d'outro tempo, com janellas de todo o genero, largos portaes em +arco e as mais bellas ferragens, agora tão infelizmente substituidas por +informes pastas de ferro fundido; tudo nos transporta aos seculos +passados e faz de Salamanca uma cidade interessante pelo valor +instructivo, agradavel pelo desconhecido da impressão e finalmente bella +por uma certa harmonia de quadro antigo que a vida moderna não logrou +apagar.</p> + +<p>Não quero especialisar. Era preciso ser artista <span class="pagenum"><a name="pagina_11">[11]</a></span> e historiador e eu +não passo de simples lavrador, viajando intellectual e materialmente com +a mesquinha bagagem de estudante.</p> + +<p>Duas observações apenas sobre a cathedral que, dizem os <em>guias</em>, é obra +maravilhosa de gothico moderno. Confesso que não me arrebatou. Os +rosarios de bispos e santos ornando as arcadas, estes paineis de reis +magos com sandalias bordadas, elephantes e camêlos, anjos e oliveiras, +christos e judeus, tudo acamado em muitas folhas de plantas +desconhecidas, a Paixão e a Palestina inteiras e completas na fachada +d'uma cathedral, são d'uma belleza que os meus olhos não percebem, por +demasiado complicada, talvez. Quer-me parecer que a harmonia na obra +d'arte se estende ás relações da substancia e da fórma e que os +bordados, que convém ao linho e á sêda, são absolutamente deslocados na +pedra. Poderão valer de muito como testemunho de perfeição e habilidade +do artifice, mas da sua belleza desconfio.</p> + +<p>Uma ultima observação, antes de deixar Salamanca. <span class="pagenum"><a name="pagina_12">[12]</a></span> Aqui, como em +toda a Hespanha, abundam as côres vivas no trajar; e os escriptores tem +por norma basear n'este facto os instinctos artisticos do povo, +comparando-o com o norte sombrio e melancolico. Não será antes uma prova +de barbarie? Não demonstra uma inferioridade de sensibilidade physica e +tendencia a só perceber as côres que ferem a vista com maior +intensidade? Junte-se a isto um excessivo cuidado no penteado das +mulheres, tendo sempre em vista que a ethnographia mostra que a +necessidade do adorno precedeu a necessidade do agasalho, e teremos +sobre que reflectir. Sobre que reflectir, note-se; ponho uma +interrogação, não faço uma affirmação categorica.</p> + +<p>Os primeiros campos que vi depois de Salamanca foram os de Miranda do +Ebro; campos de calcareo, poeirentos, com uma vegetação frouxa, aldeias +raras, distantes, escalavradas, denunciando uma vida estacionaria, a +provincia bem sarjada de estradas e de ribeiros, ladeados de grandes +choupos. Amiudam-se as aldeias, o campo e <span class="pagenum"><a name="pagina_13">[13]</a></span> a habitação tem certo +aspecto de cultura, de ordem, de riqueza, de bem-estar, e entramos em +Vitoria, uma cidade já muito á moderna, com boas ruas, casas altas e bem +alumiadas, relvas, jardins, arvores e verdura em torno.</p> + +<p>Alteram-se os dois quadros anteriores durante algum tempo, passa-se uma +série de tunneis. Estamos nos Pyrenéos.</p> + +<p>Os Pyrenéos! A Suissa sem neve e sem grandeza, a vida abundante, +tranquilla, cerrada como aquelles horisontes! Os casaes dispersos, uma +grande paz, a aldeia não é precisa, vive-se só, os campos em volta da +cabana, e em baixo, no curral, o ubere farto, generoso e inesgotavel das +vaccas pacientes com grandes manchas brancas; ao lado o pomar, a +macieira doirada de pômos, em baixo o campo de milho, senhor feudal +d'aquelles campos, latejando de opulencia e de vigor, pelas encostas os +prados, e lá até ao cimo da montanha a floresta espessa e baixa. A +imagem da vida modesta, estreita, serena, sem miseria e sem paixões.</p> +<span class="pagenum"><a name="pagina_14">[14]</a></span> + +<p>Depois, até ao cerrar da noite, os pinhaes sem fim da região bordalenga +e vamos acordar em Paris, Roma de uma nova Igreja a que preside um +papa—a Devassidão.</p> + +<hr style="width: 20%"> + + +<h6><em>Berlim, 5 de Setembro.</em></h6> + +<p>Dizem os economistas que a cidade substituiu a feira; ao mercado +periodico e transitorio succedeu o mercado permanente. Se ha capital +europeia que justifique este modo de vêr é por certo Paris.</p> + +<p>Nenhuma tem mais accentuado caracter de mercado, com barracas de +todo o genero:—de espectaculos, de alimentos, de vestuario, de +prostituição e de politica. Porque—por exagerada que pareça a +expressão, é todavia verdadeira—a politica nos governos democraticos e +<span class="pagenum"><a name="pagina_15">[15]</a></span> representativos é um mercado, a sua lei a concorrencia; todos são +livres, todos são iguaes, e para entrar, para vencer, para lançar mão do +poder tudo é licito e bom, a honestidade, o civismo e a intelligencia, e +a lisonja, a intriga, a corrupção e a sem-vergonha. Triumphos ephemeros! +Apenas alguem trepou ao ultimo degrau tem atraz de si um exercito, uma +multidão, acotovelando-se, rasgando-se, batendo-se furiosamente, e o +vencedor de hoje vai rolar amanhã na poeira ignorada e infecunda dos +vencidos.</p> + +<p>O governo politico da França contribuiu manifestamente para dar a Paris +o seu caracter actual.</p> + +<p>Dois elementos principaes formam uma cidade: o elemento governativo, o +funccionario, o militar e a côrte, e o elemento mercantil, o commercio e +a industria. Theatros, museus, bibliothecas, palacios, escólas, jardins, +passeios e grandes ruas são a consequencia natural da existencia +d'aquelles dois elementos; ou representam satisfações de prazer para uma +população ociosa, ou <span class="pagenum"><a name="pagina_16">[16]</a></span> são condições de trabalho e instrumentos de +estudo para a população laboriosa: e, em qualquer caso, a sua vastidão e +grandeza derivam da necessaria proporção que existe entre a intensidade +da vida social d'um povo e os seus orgãos. Acontece, porém, que nos +governos monarchicos, mais ou menos absolutos, ao lado do elemento +mercantil, cuja norma é a concorrencia e o lucro, está um outro, +igualmente poderoso e influente, que tem por norma a ordem, a sujeição e +a obediencia e sempre uma apparencia séria e grave, embora muitas vezes +occulte sentimentos e caracteres intimos que o não são; e este ultimo +elemento, temperando o que o primeiro tem de excessivamente grosseiro e +palrador, dava á cidade uns traços ligeiramente sombrios que, sem a +tornarem triste, corrigiam o que porventura houvesse de demasiado +estrepitoso e garrido. Ora a França, com a dissolução do segundo +imperio, escreveu por toda a parte Liberdade, Igualdade, Fraternidade, +varreu os ultimos restos de dependencia hierarchica, nivelou todas as +profissões, o <span class="pagenum"><a name="pagina_17">[17]</a></span> sabio, o politico e o mercador; e as instituições +sociaes e politicas, juntando-se ao caracter inquieto e vivo d'aquelle +povo, abriram de par em par as portas de uma grande feira franca—Paris.</p> + +<p>Desde a madrugada até alta noite, compra-se e vende-se. Ao romper da +manhã, os pesados <em>percherons</em> arrastam ao mercado toda a riqueza que os +campos enviam; depois, vem o politico em busca do poder, comprando por +todo o preço o voto popular, lisonjeando-lhe no parlamento e na imprensa +os caprichos e instinctos, cedendo sem pudor á traficancia e á +corrupção; depois, vem o sportman e o titular, os cavallos e os vestidos +caros, as carruagens, as rendas e os brilhantes, vem o livro escandaloso +e o livro desvairado, vem a feira das vaidades, como lhe chamaria o +romancista inglez; depois, os mercados do amor, a miseria que ri, a +miseria embriagada da propria miseria; e sempre o marulhar d'esta onda +constantemente inquieta que geme e apregôa, ameaça e implora.</p> + +<p>Á concorrencia desenfreada não ha superioridade <span class="pagenum"><a name="pagina_18">[18]</a></span> de especie alguma +que resista; os mais bellos caracteres de raça, a lucidez, a alegria, os +instinctos artisticos, a elegancia, a percepção viva e prompta da fórma +e da côr, aniquilam-se, pervertem-se. Vencer é o fim ultimo e unico, e +para lá chegar, a primeira coisa a pôr de parte é a qualidade +fundamental de todo o espirito são,—a sinceridade. Importa pouco ao +estadista o seu proprio pensamento sobre as coisas politicas, não +precisa tel-o, nem muitas vezes o tem; o essencial é saber o que pensam +aquelles por cujos hombros tem de trepar. Importa pouco ao artista e ao +homem de letras ouvir a sua consciencia sobre o que ella lhe diz da +belleza na obra d'arte; o essencial é saber o que pasma e arrebata +aquelles que hão de pagar-lhe em incenso e ouro.</p> + +<p>A vida consome-se febril e ardentemente, quasi heroicamente, n'um +esforço ingente—chamar gente á sua barraca.</p> + +<p>Se houvesse de consultar os meus sentimentos sobre a vida de Paris +cobriria estas folhas de lamentos; mas o critico escuta as vozes +estranhas <span class="pagenum"><a name="pagina_19">[19]</a></span> sem dar ouvidos á sua voz intima, observa, descreve e +classifica os phenomenos e as ligações das coisas, esquecendo as suas +aspirações e desejos. Se porém me é permittida uma pequena desobediencia +a lei, confessarei quanto me repugna esta inanidade de vida moral, e o +desprendimento da natureza e de todas as forças intimas e divinas que +regem o homem e o mundo. Paris afigura-se-me uma fornalha de gelo, rubra +como a chamma e fria como a neve; consome e não dá calor, como se um dia +no pólo todas as neves se incendiassem n'uma labareda ingente e em torno +um frio agudo a prostrar na morte a humanidade.</p> + +<p>Sempre a tyrannia do horario dos caminhos de ferro! Tinha ainda duas +palavras a dizer de Paris, de Berlim, e da viagem até aqui, mas só em +Moscow poderei fazel-o. Já me resignei a nunca trazer estas notas em +dia.</p> + +<hr style="width: 20%"> <p><span class="pagenum"><a name="pagina_20">[20]</a></span> </p> + + +<h6><em>Moscow, 13 de Setembro.</em></h6> + +<p>Ao vêr os arredores de Paris, coalhados de jardins e de pequeninas casas +tratadas com esmero, dir-se-hia que aquella gente conserva sempre vivo +um grande amor pelo silencio e pela paz da natureza. Do pequeno burguez +ao grande banqueiro, todos ambicionam a arvore e a flôr, ou sejam em +dois palmos de terra, comprados a peso de ouro, ou seja em vastos +parques, traçados com arte e sabedoria; e ao domingo, o operario, o +caixeiro, a legião innumera dos humildes vai a Saint Cloud, a Saint +Germain, a Enghien, ou a qualquer outro arrabalde, onde tenha um retalho +de relva e um farrapo de sombra para deitar-se um momento.</p> + +<p>São porém levados pelo amor da terra? Não são. Todas as grandes cidades +têm ao lado estes ninhos de verdura onde nas horas de ocio se acoita a +população extenuada e anemica; são uma necessidade hygienica, +dependencias obrigadas, <span class="pagenum"><a name="pagina_21">[21]</a></span> como os theatros, os museus e as escólas. +Mas o que ahi se procura não é a satisfação d'um sentimento ha muito +perdido no tumulto das ruas e na anciedade de enriquecer e gozar; +procura-se saude, recuperar forças, um tonico, um alimento substancial, +especie de ferro e de extracto de carne.</p> + +<p>Transportam-se para o campo os habitos da cidade, não se vai para o +campo a fugir da cidade; e na arvore mysteriosa e sagrada não se adora +um deus que o cerebro exangue já não percebe nem sente, vê-se uma +pomada, um balsamo que dá frescura e vigor á pelle, abrazada por um ar +empestado e por uma actividade excessiva. A cidade é uma fornalha, o +campo um hospital.</p> + +<p>Duas coisas admiro todavia n'uma cidade como Paris—a organisação e a +intensidade do movimento, e o poder instructivo.</p> + +<p>Ha qualquer coisa de assombroso n'este rio immenso em que +simultaneamente se agitam e movem tantissimas correntes sem se +aniquilarem; <span class="pagenum"><a name="pagina_22">[22]</a></span> toda a grandeza da antiguidade é mesquinhez ao seu +lado. De longe em longe, um desastre, uma pequenina mola que se partiu, +um abalo ligeiro, quasi imperceptivel. Que foi? Um incendio, um +naufragio, uma guerra, quinhentas, mil ou trezentas mil pessoas que +desappareceram. Um movimento de espanto: a grande corrente não pára, +segue no seu leito tenebroso e revolto, e nas nevoas espessas da sua +vastidão sumiu-se ephemera a hecatombe que por longos annos faria +estremecer de horror a velha Roma.</p> + +<p>A vida patriarchal e simples póde gerar todos os sentimentos bons e +abrir ao espirito horisontes sufficientemente largos para lhe despertar +o desinteresse de descobrir a ordem e as leis das coisas; mas, por isso +mesmo que é simples, equilibrada e serena, nunca poderá suggerir-lhe +noções dos typos excentricos. Para attingir estes pontos extremos é +necessario levar o espirito a um estado de vibração nervosa que não é +outra coisa senão a loucura em differentes graus; e os casos d'essa +ordem, esporadicos nas civilisações <span class="pagenum"><a name="pagina_23">[23]</a></span> passadas, são frequentes e +quasi normaes na vida febril contemporanea. É n'este sentido que reputo +muito alto o valor instructivo das cidades, que nos vicios, na miseria e +nas paixões mostram uma complexidade e largueza da alma humana que em +outras condições se não vêem, por isso que não existem. Por este lado, a +cidade moderna tornou-se um estudo essencial ao philosopho, ao poeta e a +todos os que por qualquer motivo tem de lidar com os phenomenos +psychologicos; as obras d'aquelles que porventura carecerem d'este +elemento serão necessariamente incompletas e imperfeitas.</p> + +<p>De Paris fui a Berlim. Parti á noite, amanheceu-me nas proximidades de +Liège e logo alli encontrei duas coisas que não temos e que deveriamos +ter,—a lavoura feita por cavallos,—n'uma terra polvilhada de branco. +Nem lavramos com cavallos, nem usamos esses pós brancos que são adubos +mineraes.</p> + +<p>A utilidade d'estes não padece duvida e, se os applicamos em tão +limitada escala, não é por <span class="pagenum"><a name="pagina_24">[24]</a></span> que geralmente se ponha em duvida o seu +proveito; mas as condições legaes e economicas do fabrico acarretam +falsificações e preços que fazem recuar o nosso lavrador, e com razão. +Que o estado dê garantias de genuinidade e estabeleça um regimen que +abaixe os preços até os tornar accessiveis á nossa lavoura, e tenho por +seguro que os adubos mineraes terão entre nós tão larga e proveitosa +applicação como nos paizes estrangeiros. Fora d'essas condições é inutil +prégar melhoramentos agricolas; a lavoura, mesmo sem contabilidade, +arruina ou enriquece e, sendo uma industria e não um capricho, só no +ultimo caso poderá viver.</p> + +<p>Sobre o segundo ponto, a introducção do cavallo como principal motor +agricola, divergem os lavradores, e são-lhe contrarios na sua grande +maioria, exceptuando o Alemtejo, em que o clima obriga ao serviço por +muares. Todo o norte porém classificará de utopia o meu pensamento. +Porque? Nenhuma razão economica bem fundamentada se allega; o unico +motivo é de natureza <span class="pagenum"><a name="pagina_25">[25]</a></span> historica, a tradição e o habito. +Reconheço-lhe a grandeza, sei o que vale como factor da educação do +operario: póde muito em todo o mundo, vale muitissimo n'uma terra em que +a educação agricola é exclusivamente caseira. Mas se a aptidão e os +conhecimentos do operario nos incitam a proseguir na rotina, a +concorrencia impõe-nos tentativas de reforma. Todos os paizes +estrangeiros praticamente adoptaram esta fórma de divisão de trabalho +agricola, o gado cavallar como motor, o gado vaccum para a carne e para +o leite. É um caso de divisão de trabalho e nada mais; essencial, a meu +vêr, porque para supportarmos a concorrencia e voltarmos aos tempos +aureos da exportação de gado, é manifestamente necessaria a melhoria das +raças; e uma das suas condições é um bom regimen hygienico de que faz +parte a singularidade do destino do animal. Trabalho, engorda e leite +serão sempre mediocres emquanto forem individualmente simultaneos.</p> + +<p>O terreno accidentado d'esta região de Liège, os prados nas encostas, as +mattas nas elevações e <span class="pagenum"><a name="pagina_26">[26]</a></span> a estreiteza dos valles recordam-me o que vi +nos Pyrenéos; todavia é grande a differença. É possivel que o não seja +physicamente, quanto á natureza da terra e do clima, mas faltam lá os +symptomas de riqueza que existem aqui—cultura esmerada, pujança de +vegetação nos prados, abundancia de gados, frequencia e boa construcção +dos casaes, e finalmente jardins, <em>villas</em> e pequenos palacios de gente +rica.</p> + +<p>Pouco e pouco vai decahindo de intensidade a paizagem agricola, perdendo +ao mesmo tempo em belleza; atravessam-se regiões sem caracter em que a +granja aceiada e o campo verdejante ladeiam a cabana na terra descuidada +e inculta; só adiante, internando-nos na Allemanha, encontramos um novo +typo. Estamos perto do Hanover, se me não illudo; o campo é vasto, +ligeiramente ondulado, quasi plano, mediocre, sem fartura nem +esterilidade; as casas de lavoura espaçosas e sombrias com os seus altos +telhados de ardosia destacando frouxamente no céo nublado; com os prados +alterna a floresta de lamigueiro <span class="pagenum"><a name="pagina_27">[27]</a></span> escura, fechada, a folhagem +tingida de negro, os ramos erectos. A vastidão, sem luz, sem brilho, +pesada, asphyxiante! Preoccupação scientifica ou evidencia de relações, +prendemos o caracter d'este povo ao aspecto da sua terra. Resta saber se +ha sabedoria capaz de fazer partilha entre a natureza e a historia.</p> + +<p>Sempre attento ás coisas agricolas, para que me levam velhos e +enraizados affectos, ao vêr como aqui se alternam o prado e o arvoredo, +lembrei-me do mediocre resultado que temos tirado das poucas tentativas +de creação de prados e do nosso despovoamento florestal. Ha entre a +floresta e o prado uma relação intima e manifesta; e não será talvez +ousadia affirmar que este ultimo só poderá viver inteiramente são sob o +bafejo da arvore, tépido e humido. As condições climatericas favoraveis +aos pastos só poderão alcançar-se pelo repovoamento florestal, +principalmente nas regiões do interior, ao abrigo das brisas e orvalhos +maritimos.</p> + +<p>Foi em caminho de Berlim que tive o prazer <span class="pagenum"><a name="pagina_28">[28]</a></span> de me encontrar com o +snr. George Saunders correspondente do <em>Morning Post</em> n'aquella cidade e +um dos principaes collaboradores da <em>Pall Mall Gazette</em>. É um rapaz muito +intelligente, instruido, possuindo em alto grau (creio ser o seu +caracter intellectual dominante) esse espirito de critica serena e +desapaixonada, que chamarei sympathico, e que faz vêr os homens e as +coisas na sua verdadeira luz. As observações sobre Berlim e a Allemanha, +que tão generosamente me communicou, pareceram-me singularmente justas +e, por isso que d'ellas colhi proveito, manda a probidade e a gratidão +que faça menção d'este nome.</p> + +<hr style="width: 20%"> <p><span class="pagenum"><a name="pagina_29">[29]</a></span> </p> + + +<h6><em>Moscow, 14 de Setembro.</em></h6> + +<p>Em Paris deixamos uma feira; todas as cidades mais ou menos o são, +porque isso é da sua essencia, dentro de termos entre os quaes oscillam. +O ponto da escala em que se encontram determina o seu caracter. Ora, +suppondo que esses termos ultimos são o estado-maior da politica e a +feira, quem vier de Paris a Berlim cahiu de um no outro extremo.</p> + +<p>Á vozeria da rua, á confusão dos pregões e ao labutar dos mercadores +succede o aprumo dos continuos e um caminhar pausado e surdo sobre +tapetes, cortado de breves notas estridentes, ao sacudir das esporas.</p> + +<p>Berlim é a antecamara d'um imperador; muita farda e um grande silencio, +sempre armada e sempre calada, perpetuamente preoccupada da força e da +auctoridade. Sobre a cidade pesa um braço de ferro, a multidão abdicou +nas mãos de uma vontade; só ella a move.</p> <span class="pagenum"><a name="pagina_30">[30]</a></span> + +<p>A graça e a elegancia, a vivacidade e o riso foram banidos; o povo vai +taciturno e lento.</p> + +<p>Ás vezes pára, observa, contempla; luziu-lhe no coração um momento de +aurora e sorriu. Olhava o retrato do imperador diante de tres crianças, +seus filhos, em continencia militar; e tirou uma vibração de jubilo, +ingenuo, intimo, d'onde nós tirariamos uma gargalhada a tombar o maior +dos cesares. O seu primeiro museu é o de artilheria; levam-se alli as +crianças, collegios inteiros, a vêr os canhões francezes rasgados como +um farrapo pela metralha do Krupp. Um criado de hospedaria que diante da +qualquer se curva até ao chão, perante um capitão ou um coronel dobra-se +attonito, fulminado.</p> + +<p>A piedade e a doçura, revelada no affecto da mulher, para que? A mulher +é um animal, a sua lei a escravidão. Se não fosse... poderia +supprimir-se, não representa nada.</p> + +<p>A Allemanha, que Berlim nos mostra, afigura-se-me um elephante, a +intelligencia e a força em <span class="pagenum"><a name="pagina_31">[31]</a></span> um corpo informe. Toda a sua alma +crystallisou n'esta aspiração—ser forte, invencivel.</p> + +<p>Conta-se que Cellini, para fundir não sei qual das suas estatuas, +lançára no fogo toda a baixella; a Allemanha de hoje fundiu n'um só +sentimento todas as joias do coração do seu povo. Adora o exercito e o +imperador, a expressão concreta da sua alma, entregou-se-lhes manietada +e n'uma obediencia absoluta.</p> + +<p>Conseguiu ser forte. As doutrinas dos philosophos de mãos dadas com o +genio militar alcançaram emfim dar-lhe uma rara força politica.</p> + +<p>Póde viver-se assim? É esta a ultima palavra da civilisação ou +simplesmente uma gloria ephemera, sahida da coincidencia das aptidões +d'um povo com as necessidades do momento historico? A revolução +franceza, iniciando-nos no conhecimento dos direitos individuaes, +simultaneamente deu aos estados constituições que conduzem á fraqueza e +impotencia politicas; a Allemanha mostrou-nos novas vias conduzindo ao +pólo opposto. Assim como só nós pudemos vêr os povos <span class="pagenum"><a name="pagina_32">[32]</a></span> educados nas +instituições derivadas da revolução, só os nossos filhos poderão saber o +que é um paiz educado na admiração da força. Todas as prophecias serão +prematuras, embora vagamente presintamos que a civilisação é mais alguma +coisa do que a força.</p> + +<p>Dizia-me o snr. Saunders, fallando de musica, que as pequenas côrtes dos +ducados e monarchias allemães eram favoraveis ás letras e ás artes. +Alargando o seu pensamento direi tambem que a Allemanha actual, com todo +o seu saber e profundeza, sahiu d'essas côrtes minusculas; os que vierem +depois de nós saberão o que deu a Allemanha imperial.</p> + +<p>E visto que o leitor já deve estar habituado a vêr as minhas sympathias +de permeio com a exposição dos factos, impenitente, recahindo na velha +falta, acrescentarei que a Allemanha, que vi em Berlim, produziu +inesperada antipathia no meu espirito, educado n'outras idéas, n'outros +costumes sobretudo. Dizem-me que Berlim não é a Allemanha e que n'esse +vasto imperio encontrarei <span class="pagenum"><a name="pagina_33">[33]</a></span> costumes e idéas absolutamente oppostos; +se assim não fôr garanto aos allemães a antipathia dos povos +peninsulares. Não existiriam talvez na Europa caracteres mais +accentuadamente antagonicos.</p> + +<hr style="width: 20%"> + + +<h6><em>S. Petersburgo, 18 de Setembro.</em></h6> + +<p>Em caminho de Berlim para Varsovia, a alfandega russa, com uma +severidade desusada, obriga-me a parar seis horas em Alexandrowo. A +visita das bagagens é minuciosa, os passaportes são apresentados e +registados; o comboio vinha com atrazo, partiu quando muito bem quiz, e +os viajantes que não tinham ainda as suas coisas em ordem alli ficaram +até novo comboio. Eram quarenta ou cincoenta, pelo menos; e este facto, +que em qualquer parte da Europa levantaria <span class="pagenum"><a name="pagina_34">[34]</a></span> uma tremenda algazarra, +não provocou um protesto. Aqui comecei a vêr a paciencia e a +indifferença russas.</p> + +<p>Para mim não foi desagradavel, antes me deu prazer, pois tive occasião +de passear nos campos d'essa desventurada Polonia, que desde as margens +do Vistula vinha observando.</p> + +<p>São grandes lavouras arenosas e planas, n'esta época cobertas de +beterrabas e de pastos, cortadas de mattas de pinheiro de Riga, terrenos +baixos, soltos como as dunas. A gente do campo anda geralmente descalça, +e os cavallos desferrados, o que o commum dos viajantes attribue á +miseria, mas que a meu vêr provém unicamente da natureza da terra; tal +qual acontece no littoral norte do nosso paiz. Repete-se ahi o mesmo +facto, sem que por isso as povoações sejam mais ou menos ricas do que as +do interior com habitos differentes.</p> + +<p>Uma arvore dá caracter a esta paizagem, o salgueiro, que com invariavel +insistencia circumda os casaes cobertos de colmo, soltos e isolados, +<span class="pagenum"><a name="pagina_35">[35]</a></span> com largos intervallos, pelo meio das terras. N'estas planicies em +que não se avista uma montanha, sem uma unica nódoa intensa e viva na +verdura desmaiada a prender-se ao céo nublado, o salgueiro, sem destruir +a harmonia, dá á paizagem o brilho que comporta com a sua folhagem alva, +replandecente e leve como a nuvem. A paizagem do occidente é tecida de +ouro candente; esta é de prata polida e fria.</p> + +<p>Ao contrario do salgueiro, o pinhal, máte, sem brilho algum, +assemelha-se na côr ás estatuas de bronze expostas ao tempo, o que +reunido á brevidade das folhas e dos ramos, nivelando a superficie, o +torna absolutamente differente do nosso pinhal, carregado na côr e +cavado de manchas largas e profundas; resultado da ramagem longa e +distante. Um é unido e plano, um lago coberto de cinza, o outro ondeado +como as encostas do Vesuvio, feitas da tortura gigante da sua lava.</p> + +<p>Já acclimado n'uma inteira passividade e resignação, segui de +Alexandrowo a Varsovia com <span class="pagenum"><a name="pagina_36">[36]</a></span> todos os atrazos e delongas proprios dos +caminhos de ferro russos.</p> + +<p>Era um domingo e cêrca da meia noite quando cheguei. Por isso não pasmei +do extraordinario movimento das ruas, julgando que seria o terminar de +um dia de festa e de repouso. Mas logo mudei de pensar na manhã +seguinte: o que eu vira, era habitual e ordinario.</p> + +<p>Que contraste com a enfadonha e sombria Berlim! Mulheres bonitas, +elegantes, trajando bem, animadas, vivas, um fuzilar de carruagens em +correrias doidas, e as ruas atulhadas de gente, fallando, gesticulando, +movendo-se emfim;—tem tudo isto Varsovia. E tem ainda mais: desordem, +immundicie, igrejas a cada passo com grande abundancia de devotos, +ajoelhados á porta ou benzendo-se na passagem. A um carro coberto de +lama atrella-se um cavallo estropiado, com uns arreios inqualificaveis, +mas onde falta coiro e graxa sobejam adornos e ferragens; e por aqui +imagino o resto, imagino o que vai por casa d'estas mulheres que na rua +vejo tão airosas. <span class="pagenum"><a name="pagina_37">[37]</a></span> Para nós, do sul da Europa, a vida intima das +cidades como Varsovia ou Napoles, comprehende-se immediatamente.</p> + +<p>São os instinctos artisticos, o amor do luxo, das festas e da elegancia, +alliados á desordem e á devassidão dos povos excessivamente nervosos; +são a ociosidade e a imprevidencia revelados na devoção que entrega ás +mãos de Deus o que não sabe conquistar pelo seu esforço. Folia emquanto +ha dinheiro e saude, e valha-nos Deus, Nosso Senhor nos acuda para os +tempos de miseria... Vivem n'um sensualismo irreprimido, no desgoverno +de todos os impulsos e de todos os instinctos; o luxo para elles não é, +como por vezes succede na Inglaterra, o florir proporcionado de uma +planta que tem no sólo boas e solidas raizes e nos ramos uma seiva +abundante; não é a coroação da riqueza, é uma flôr precoce n'uma planta +exhausta, consumindo todo o alimento e todo o vigor que devia nutrir o +tronco, os ramos e a folhagem. Essas plantas florescem e como ellas +morrem tambem as sociedades que <span class="pagenum"><a name="pagina_38">[38]</a></span> não souberam equilibrar a +distribuição da sua seiva.</p> + +<p>Grande lição a da Polonia para quem souber e quizer aproveital-a!</p> + +<hr style="width: 20%"> + + +<h6><em>A bordo do Finland, 19 de Setembro.</em></h6> + +<p>O vapor vai sereno e o tempo calmo; aproveitemos este serão passado +sobre o Baltico e conversemos.</p> + +<p>Deixando Varsovia, em poucas horas temos a paizagem do norte da Russia, +que durante longas horas e longos dias nos ha de acompanhar com uma +inquebrantavel monotonia. O que particularmente a distingue é a +frequencia do vidoeiro, absorvendo e dominando completamente as +restantes arvores, o abeto, a tilia, o carvalho, o pinheiro e outras +poucas especies que apparecem <span class="pagenum"><a name="pagina_39">[39]</a></span> raras e por isso não têm valor +apreciavel. A ramagem pendente e o desbotado das folhas do vidoeiro, ao +mesmo tempo que dão á floresta um aspecto compacto, roubam-lhe toda a +rutilancia das ramagens horisontaes e os angulos e nitidez de linhas +proprios das arvores resistentes e firmes como o carvalho, por exemplo. +A floresta é ligada e unida, as curvas suaves, nem sombras profundas nem +resplendor; entre o claro e escuro, como entre os differentes tons, as +transições são imperceptiveis.</p> + +<p>Disse que a paizagem da Russia se distinguia pela predominancia do +vidoeiro e não disse talvez a inteira verdade. Superior e porventura +influindo muito intimamente na feição esthetica do arvoredo, está a +configuração do terreno, um immenso Alemtejo, em planicies infindas, que +assim se podem chamar umas depressões tão pequenas que não prejudicam a +linha do horisonte.</p> + +<p>Sobre essa vastidão assentam aldeias, agglomerações de casebres baixos e +abafados, construidos de madeira e cobertos de colmo, sem divisões <span class="pagenum"><a name="pagina_40">[40]</a></span> +interiores; em cada um ha, em regra, um pequeno ponto branco, a chaminé +do forno sobre que no inverno dorme toda a familia. Ao lado, n'um +pequeno pateo, intransitavel de esterco e de lama, estão as córtes dos +gados, não mais vastas do que a habitação do dono. Tambem ás vezes falta +o forno e então o lavrador e os gados vivem promiscuamente sob o mesmo +tecto.</p> + +<p>Mas, sob esta apparencia miseravel, existe frequentes vezes o aceio e a +ordem e não raro tambem a abundancia. As necessidades são poucas, toda a +industria é caseira; se o anno foi abundante de trigo e de batatas, com +isso e com o leite das vaccas tem a familia boa escudela.</p> + +<p>Todo o paiz é assim até Moscow; aldeias, mattas e lavouras em terras +sempre ouduladas mas quasi planas. Posso até dizer que em toda a região +da Russia que atravessei não conheci outra paizagem.</p> + +<p>Por taes caminhos chegei a Moscow, cidade tão gabada, sobre que o +oriente tem dispendido <span class="pagenum"><a name="pagina_41">[41]</a></span> tanto ouro como o occidente rhetorica +enthusiastica.</p> + +<p>Olhei-a de longe com ancidade, passeei-a, subi ao monte a que Napoleão +subiu para a vêr antes de a conquistar, mirei-a muito emfim. Pois de +quanto por lá pensei e observei conclui que para nós, latinos, +enamorados da harmonia, da simplicidade, da proporção e da graça, não +tem belleza. Interessa e enthusiasma pelas evocações historicas que +d'ella brotam aos cardumes e prende pela estranheza e pelo pittoresco +d'um mundo novo; mas que seja um prazer esthetico o que ella nós dá, +desconfio.</p> + +<p>É uma cidade sem plano, sem principio nem fim, sem um centro de +convergencia, caprichosa e emmaranhada, como a imaginação oriental. +Chamo a tudo aquillo byzantino, n'este sentido, que, á força de +distinguir, confunde e enreda a mais não poder resolver. Cada rua +deseatranha-se em mil bêcos e ruas tão grandes ou maiores que a via-mãe; +de cada florão de architectura rebentam novos florões que se emendam, +sobrepõem, <span class="pagenum"><a name="pagina_42">[42]</a></span> sobem, descem, voltam ao ponto de partida para +recomeçarem a mesma teia; taes quaes as discussões da nossa camara dos +deputados. São as imaginações insaciaveis de subtilezas no pensamento, +nas artes e em tudo, porque o espirito humano é um para cada povo e para +cada época; são a negação da lucidez e da precisão.</p> + +<p>Com esta concepção da fórma esthetica coincide o brilho anteposto á côr. +Indifferente ás delicadezas de colorido, o moscovita adora o ouro e as +pedrarias: o bronze, a prata e o aço são pouco, é preciso doural-os. As +igrejas estão recamadas de ouro, nos bazares abundam os bronzes +trabalhados no paiz, mas sempre dourados; o thesouro do palacio imperial +não terá maravilhas de Cellini, mas tem ouro e pedras preciosas que +bastam a adornar todas as côrtes da Europa.</p> + +<p>Pelos atalhos d'essa montanha de riquezas anda uma população mesclada, +cossacos e chinezes, circassianos e finios; porque Moscow, uma terra de +commercio, um bazar, um genuino e simples mercado, tem de notavel sobre +os seus <span class="pagenum"><a name="pagina_43">[43]</a></span> congeneres do occidente e do centro da Europa, ser +intercontinental e trazer ás suas barracas uma população que dos mais +remotos cantos da Europa vai quasi a tocar na America. Quasi, agora; +quem sabe se um dia a tocará de facto, e que medonha convulsão reserva +ao mundo esse combate.</p> + +<p>Dizem ter mil e seiscentas igrejas, e creio ter devoção para edificar +outras tantas. Não ha casa sem uma imagem do Christo; nem os +restaurantes com frequencia muito suspeita lhe escapam. As offrendas não +têm numero, tudo se faz por milagre. Direi todavia que esta é a maior +força d'aquelle povo.</p> + +<p>Entre Paris, o epicurismo, Berlim, a força, e Moscow, a religião, eu +preferirei a ultima, porque n'este reconhecimento de uma vontade +superior, de quem tudo dimana e provém, está o germen e o fundamento da +paciencia, da resignação e da obediencia, forças invenciveis que os +factos externos deixam intactas e não quebram.</p> + +<p>É difficil dizer onde termina a fraqueza e onde <span class="pagenum"><a name="pagina_44">[44]</a></span> começa a doçura e a +piedade, que dimanam d'essa essencia, mas é certo que a maior de todas +as forças é a força de soffrer. Não ha obstaculo mortal para a +actividade de quem a possuir, e por isso o russo, apathico, soffredor, +todo confiado á vontade de Deus, tem sobre todos nós, racionalistas do +occidente, a maior das vantagens.</p> + +<hr style="width: 20%"> + + +<h6><em>Stockholmo, 22 de Setembro.</em></h6> + +<p>Vindo á Russia, não pude roubar-me o prazer de visitar o conde Tolstoï, +o famoso romancista que hoje todo o mundo conhece. Como tantos outros +estrangeiros, dirigi-me pois á cidade de Tula e d'ahi a Yasuya Polyand, +propriedade e habitação de Tolstoï.</p> + +<p>Em torno d'este nome fez-se uma verdadeira lenda que representa o conde +como um louco, <span class="pagenum"><a name="pagina_45">[45]</a></span> fazendo sapatos e lavrando as terras. E na verdade +tem não sei que de singular e de poetico a sua vida.</p> + +<p>Um dia, um conde d'esse dourado imperio dos czars vestiu-se de <em>moujik</em>, e +mais do que simplesmente, pobremente, foi esconder-se na sua aldeia e +começou a ceifar o trigo, semear o grão e construir a cabana. Tinha tudo +o que a vaidade ambiciona, uma fortuna immensa, um nome illustre, uma +mulher formosa e, sob traços grosseiros, uma rudeza viril alliada ao +encanto d'um olhar limpido em que brilhava a doçura que lhe vinha da +alma. Sobre tantos dons da natureza e da fortuna tinha ainda um +prodigioso talento de artista. Nada lhe faltava para conquistar a +lisonja e a veneração do seu tempo, e esse homem, que podia ter uma +côrte de admiradores e thuriferarios, tudo deixou pelo trabalho da terra +e pela companhia do aldeão, que ha pouco ainda era seu escravo.</p> + +<p>O mundo viu com espanto tamanha abnegação, sorriu e, sem ousar dizel-o, +chamou-lhe loucura. <span class="pagenum"><a name="pagina_46">[46]</a></span> Não o é; mas uma tal energia em conformar o +sentimento e a acção surprehende n'uma época em que a simplicidade, a +modestia, a religião e o christianismo, são essencias preciosas para uso +verbal e devaneios litterarios apenas. E todavia o proceder de Tolstoï +está ainda muito longe do ascetismo de outras eras em que princezas e +fidalgos abandonaram familia, os palacios e o luxo, trocaram todos os +prazeres, os prazeres santos e os prazeres impuros, pelo extasi divino e +pela solidão do claustro.</p> + +<p>Vejamos brevemente que idéas e sentimentos levaram o conde ao novo +claustro em que se encerrou.</p> + +<p>Dizia-me: Não conheço nações, ha homens apenas; e a sua lei divina e +christã é a fraternidade. Por ahi devemos regular as nossas acções e +aferir o seu valor.</p> + +<p>Respondi-lhe que não me parecia que o espirito nacional fosse +incompativel com a fraternidade. Tomemos um exemplo, a protecção +industrial aduaneira, uma consequencia do nacionalismo. <span class="pagenum"><a name="pagina_47">[47]</a></span> Destroe a +fraternidade? Não; pelo contrario, realisa praticamente uma equitativa +distribuição de riqueza entre os differentes povos e, se não, +lembremo-nos dos effeitos da liberdade commercial que seria +manifestamente a miseria para uns e a opulencia para outros. Concedendo +que dos motivos concorrentes na actividade humana, os motivos de ordem +moral devem governar os da ordem natural ou physica, temos que a +fraternidade, o amor, ou como melhor deva dizer-se, carecem de dar aos +ultimos a satisfação devida para completa realisação dos primeiros. E +assim é necessario que para os povos haja nações, como para cada familia +uma casa.</p> + +<p>Erro! replíca Tolstoï. Para lançar uma pedra sobre determinado ponto +carecemos de apontar mais longe, e assim tambem, para vivermos segundo o +christianismo, precisamos não contar com os motivos de ordem natural. +Elles se manifestarão espontaneamente; pensar n'elles é mal empregar a +razão que deve guardar-se para as coisas superiores.</p> <span class="pagenum"><a name="pagina_48">[48]</a></span> + +<p>Singular raciocinio, direi eu, que não quer contar com um elemento cuja +existencia reconhece! Por este caminho vamos ao nihilismo, e Tolstoï era +perfeitamente logico quando acrescentava: Para que servem os governos? +Se ámanhã Moscow e Petersburgo desabassem, que importava a esta aldeia? +Seria inteira e completamente o que hoje é. E contava-me, como +esclarecimento e demonstração, que da Russia emigram familias inteiras, +e na simples carroça que leva todos os seus bens vão muito longe, á +Siberia e quasi á China, fazer as colheitas. Com o producto d'esse +trabalho levantam a casa, estabelecem uma lavoura n'esses desertos +incultos e são felizes até que o governo os descobre para lhes pedir +impostos e os filhos para o exercito.</p> + +<p>Nova illusão, a meu vêr. Para que esta especie de nihilismo seja +possivel são precisas duas condições, terra em extensão superior ao +pedido e a simplicidade de costumes do <em>moujik</em>. Desde o momento em que a +terra necessite partilha, ahi temos inevitavelmente um principio de +governo; <span class="pagenum"><a name="pagina_49">[49]</a></span> e desde que a vida se complique, igualmente apparece a +necessidade de uma actividade collectiva, uma força que mantenha a +ordem, e preste os serviços communs. Ora pelo que respeita á terra todos +sabemos se ella abunda, e pelo que respeita á simplicidade de vida a +historia e a observação dos instinctos naturaes são sufficientemente +claros. O desenvolvimento e complexidade da civilisação demonstram +historicamente uma tendencia irreprimivel e, se esta prova não +existisse, bastava attender aos appetites e desejos dos mais simples, +para descobrirmos um inicio de evolução para a complexidade. Na choupana +do <em>moujik</em> vamos encontrar um mealheiro e estampas coloridas a adornarem +as paredes; entre essa choupana e a galeria de quadros do capitalista a +relação é manifesta, uma contém o germen da outra.</p> + +<p>De fórma que essa simplicidade, individualmente possivel, é +collectivamente impossivel. O que não importa a negação de uma vida mais +simples do que a actual, como fim ultimo da civilisação; <span class="pagenum"><a name="pagina_50">[50]</a></span> o balanço +dos prazeres e penas da plena expansão natural, combinado com os +sentimentos piedosos e aspirações christãs, conduzem a uma reducção +reflectida das nossas necessidades, mas entre esta e o estado primitivo +ha uma enorme differença que devemos vêr e pesar; e, sendo a +simplicidade consciente um producto superior da civilisação, seria erro +esperal-a do vulgo que para a attingir carece de ser educado. D'este +ultimo facto a necessidade de governo e instituições educativas, que não +serão portanto um mal e uma desobediencia á doutrina christã, mas sim a +condição da sua realisação pratica.</p> + +<p>Como é de uso n'esta especie de palestra viemos de parte a parte a um +interrogatorio sobre o estado social de Portugal e da Russia. Repeti o +que disse na minha ultima carta, que a religião me parecia a maior força +do moscovita.</p> + +<p>É e não é religioso, respondeu-me o conde. Entre Gogol e Beliensky +levantou-se um dia essa questão e estou em dizer que ambos tinham razão. +Se julga pelo numero das igrejas e pela sua <span class="pagenum"><a name="pagina_51">[51]</a></span> concorrencia, +dir-lhe-hei que o russo não é religioso; isso é um habito, como o alcool +ou o chá, sem maior significação psychologica. Mas acontece que, +differentemente do que succedeu com a Igreja romana, traduzimos o +evangelho ha novecentos annos e as suas maximas divulgaram-se no povo em +que ainda agora actuam energicamente. Por este lado a Russia é um paiz +religioso.</p> + +<p>Se me é dado acrescentar alguma coisa, direi que o é ainda por outro +lado, o fundo fatalista, Deus, Acaso, Providencia, negação da +previdencia e reconhecimento de uma vontade superior incognoscivel. O +proprio conde Tolstoï representa esta feição. Mostra-a nas suas obras e +conversando commigo sobre as fórmas futuras da propriedade, disse +singelamente:—Quem póde prever o que acontecerá d'aqui a vinte annos?</p> + +<p>Ao vêr o enthusiasmo com que Tolstoï me mostrava a aldeia e as +habitações do <em>moujik</em>, ouvindo fallar dos campos e das seáras, fazendo a +apologia ardente do trabalho braçal como tonico <span class="pagenum"><a name="pagina_52">[52]</a></span> indispensavel para +o corpo e para o espirito, comparando os actos e as palavras, pareceu-me +que os grandes sentimentos que determinaram o seu modo de viver tão +anormal, foram o amor da terra e a humildade christã. Conhecendo +profundamente toda a sociedade e a alma humana, só ahi encontrou paz e +satisfação á sua consciencia, e por isso envergou o habito e professou +n'essa nova religião.</p> + +<p>Quizera reproduzir todo o longo discurso de Tolstoï, mas a memoria nunca +me ajuda e muito menos n'este momento, em que a successão e diversidade +de materias a contrariam. Ficou-me porém esta impressão—que o +pensamento vôa mais alto em duas horas de palestra com um homem de genio +do que em dois annos de meditação solitaria.</p> + +<hr style="width: 20%"> <p><span class="pagenum"><a name="pagina_53">[53]</a></span> </p> + + +<h6><em>Copenhague, 26 de Setembro.</em></h6> + +<p>Deixamos em Moscow uma cidade, producto espontaneo, e portanto +caracteristico, do genio d'um povo em cujo sangue se amalgamam +differentes raças, e em S. Petersburgo vamos encontrar a capital d'um +grande imperio consciente da sua grandeza; a primeira é uma construcção +historica, a segunda a revelação do pensamento e dos sonhos d'um +imperador. A igreja da Assumpção, no Kremlim, na sua pequenez, com a +profusão dos seus adornos e do seu ouro, é gigante como documento da +concepção artistica do moscovita; Santo Isac, de Petersburgo, com os +seus monolithos de vinte metros de altura, singela, sobria e grande, foi +traçada por um francez e, se demonstra alguma coisa, é a victoria da +architectura greco-romana em todo o mundo civilisado. Aquella infinita +variedade de fórmas e de linhas em que se fundiam ou baralhavam a China, +a Persia, o Oriente e a Italia, perdeu-se <span class="pagenum"><a name="pagina_54">[54]</a></span> nas margens do Neva, +entregues á imitação do occidente; e emquanto Moscow parece ter sahido +da terra como o desenvolvimento natural e facil dos germens que +continha, S. Petersburgo mostra uma vontade, um esforço de adaptação a +habitos, costumes e fórmas estranhas, reflectidamente julgados melhores. +É uma cidade afrancezada, como de resto o são todas as cidades modernas.</p> + +<p>Ha muito passou ao dominio da banalidade extasiar-se a gente perante a +vastidão de Petersburgo; mas essa vastidão é unica no mundo, e por isso +não importa repetir o facto, porque vêl-a será sempre uma impressão +surprehendente. Entre o Neva abundante e profundo a espraiar-se n'um +amor barbaro, insaciavel de terra, ao fundo d'essas planicies infindas +povoadas de florestas e aldeias, para encerrar a corôa que liga as neves +do Himalaya ás neves do Baltico era necessaria uma cidade, cuja vastidão +eclipsasse todas as capitaes do mundo. Ruas, igrejas, palacios, pontes e +caes, tudo é d'uma largueza unica.</p> <span class="pagenum"><a name="pagina_55">[55]</a></span> + +<p>Todavia, através d'essa grandeza, que é porventura espontanea, e através +da imitação do occidente, que é manifestamente pensada e deliberada, +transparece certo sabor do torrão, qualquer coisa de barbaro. Muitas +vezes o pensei ao atravessar a perspectiva Nevsky. No <em>isvochik</em> ligeiro e +rapido, o cavallo ligado por uma especie de bridão (<em>pavotkin</em>) ao arco +(<em>duga</em>) que liga os varaes, o cocheiro envolvido n'um amplo <em>caftan</em>, +curvado para a frente, braços abertos, cada uma das guias em sua mão, +vai levado como o vento ao trote solto dos seus formosissimos animaes, A +rua é um hippodromo de barbaros, no trenó o quadro será completo; a +carruagem não é ainda uma commodidade, é um meio de andar rapidamente. +N'essa vastidão da Russia é preciso voar para não morrer antes de chegar +ao ponto de destino.</p> + +<p>De repente, no breve espaço de uma noite, que contraste! Para atravessar +o Baltico vim embarcar em Helsingfords, capital da Finlandia; do ruido e +da vastidão cahi na estreiteza e <span class="pagenum"><a name="pagina_56">[56]</a></span> no silencio. Ou seja porque não +chegou até aqui o sangue oriental ou sómente porque as condições da +terra e do clima são outras, o finio é absolutamente differente do +moscovita e mais se aproxima dos seus irmãos do outro lado do mar do que +d'aquelles a que está sujeito. É possivel qne a constituição e quasi +independencia da Finlandia proviesse simultaneamente de circumstancias +historicas e do reconhecimento de insuperaveis difficuldades na +russificação d'este reino.</p> + +<p>Descendo o golfo, viemos a Abo, ainda na Finlandia, e d'ahi a Stockolmo. +Com excepção de poucas horas, navegamos sempre por meio de ilhas de uma +deliciosa belleza. Bem povoadas de abetos e vidoeiros, não muito +elevadas mas com as inclinações abruptas, que só a firmeza das rochas +graniticas permitte, aqui e além cabanas de pescadores, raros animaes na +pastagem, e sempre um mar tranquillo em volta, essas bahias e ilhas têm +uma paizagem rica de sensações e aspectos.</p> <span class="pagenum"><a name="pagina_57">[57]</a></span> + +<p>Além, na planicie, o vidoeiro absorvia os abetos, aqui na collina e na +montanha separaram-se, e cada um apparece com as suas fórmas. São +paizagens d'um genero que geralmente se aprecia e, a meu vêr, por esta +razão são as que encerram maior riqueza. Emquanto a planicie nos dá a +maxima repetição na minima e constante variedade, uma successão de +manchas repetindo-se innumeras vezes mas variando constantemente na +successão (como demonstração offerecerei o effeito das pinturas +japonezas em sêda), na montanha temos toda a belleza linear possivel na +paizagem, resultante da nitidez de traços com que se desenha no espaço e +do isolamento que no arvoredo provém da disposição. Belleza a que o mar +e os lagos dão maior relevo ainda, porque introduzindo novos tons e +novas côres ao mesmo tempo destacam, emmolduram, dão luz. É o que +n'essas ilhas acontece.</p> + +<p>Não lhes chamarei marinhas, porque o mar aqui é accidental ou pelos +menos não tem maior valor do que os outros elementos constituintes. +<span class="pagenum"><a name="pagina_58">[58]</a></span> Esse nome reservo eu aos quadros que nos mostram o mar em toda a +sua immensidade, tendo para mim que o prazer que em nós despertam provém +não tanto da côr ou da fórma, que é nulla, como de uma sensação de +grandeza de espaço e intensidade de luz. E se me perguntam porque razão +sobre esse espaço põe tamanha belleza uma nuvem, uma vela, um ponto +negro que seja, responderei que é um effeito de contraste para dar +relevo ao elemento capital. Na escóla hollandeza encontraremos +maravilhosos quadros n'este genero: grandes barcos no primeiro plano, +uma torre ou um mastro no extremo horisonte, o mar, o céo e nada mais; e +os olhos naturalmente fixam-se no espaço que medeia entre o primeiro +plano e o horisonte contemplando a sua vastidão, cheia de luz.</p> + +<p>A riqueza da paizagem nas ilhas e costas da Finlandia e da Suecia não +póde porém comparar-se com a riqueza das paizagens similares do +occidente; a vegetação é comparativamente pobre de vigor e de variedade, +e a luz é frouxa. <span class="pagenum"><a name="pagina_59">[59]</a></span> Ás horas do poente, em vão procurei a onda +trespassada de esmeralda das minhas praias; apenas um collar de perolas +desbotadas sobre o dorso negro da vaga.</p> + +<hr style="width: 20%"> + + +<h6><em>Paris, 29 de Setembro.</em></h6> + +<p>«Com o seu sólo e o seu clima, a Scandinavia não póde ter senão uma +vegetação pobre e uniforme.»</p> + +<p>Nos breves dias que passei em Stockolmo muitas vezes me lembraram estas +palavras do meu <em>Bœdeker</em>; pois não é só a vegetação mas toda a vida +da Scandinavia que deriva das condições do seu sólo e do seu clima. Nem +conheço paiz em que a natureza physica tenha mais clara influencia na +determinação do caracter do povo.</p> <span class="pagenum"><a name="pagina_60">[60]</a></span> + +<p><em>Epiphania</em> não é a creação da phantasia de um poeta. O «sangue côr de +rosa», a «cinza que lhe inunda os hombros» quando pelos seus cabellos +passa uma briza, os olhos «puros de sombra e de desejos» que «nunca +sorriram e nunca choraram», esse typo de candidez impassivel coube em +sorte a Scandinavia; todos os seus povos tiveram quinhão no thesouro, +embora a partilha fosse individualmente desigual como é regra em taes +casos. E só uma terra pobre e um clima frio podiam dar-lh'o; um sangue +mais rubro e uma circulação mais activa prejudical-o-hiam inteiramente.</p> + +<p>D'ahi vem todas as suas qualidades moraes, a doçura, a serenidade, o +bom-senso, que constituem o caracter scandinavo e são a base da +felicidade d'aquelles povos. A debilidade physica parou n'um justo +equilibrio da actividade sem descer tão baixo que chegasse á inacção e +ao idiotismo; são felizes porque são fracos. Transportem-no a um clima +ardente, dêem-lhe uma alimentação abundante e toda a excitação do calor +<span class="pagenum"><a name="pagina_61">[61]</a></span> e da luz, e o homem apparecerá apaixonado, cruel e febril. A vida +será torrencial, sempre em correntes espumosas, edificando e destruindo, +revolvendo e cavando a terra e a alma até ás suas mais intimas +profundezas, heroica na natureza e no homem.</p> + +<p>Essas torrentes nunca passaram nos valles estreitos e frios da +Scandinavia. Os olhos flammejantes de um gaiato de Napoles e a meiguice +timida de uma criança de Stockolmo dizem-nos tudo o que as duas almas +encerram.</p> + +<p>A fraqueza conduz á serenidade e á doçura; a reacção do individuo contra +os accidentes da vida social e physica é proporcional á sua +sensibilidade e á sua actividade. Por isso o scandinavo não se revolta +contra os homens e contra as coisas, difficilmente vulneravel, entre a +indifferença e o perdão.</p> + +<p>Os seus sentimentos são os que se conformam com este temperamento que +lhe vem da terra, são a familia, a paz domestica, a fidelidade, tudo o +que não exija um grande esforço e dê <span class="pagenum"><a name="pagina_62">[62]</a></span> o prazer que cabe na medida e +esphera da sua capacidade; um prazer superior ou heterogeneo seria +indifferente, porque não poderia ser percebido. Passemos pelos museus: o +parisiense pára diante dos quadros que lhe recordam a vida sensual; o +prusso extasia-se perante os campos de batalha coalhados de trophéos e +de cadaveres; o russo prefere os grandes dramas intimos, a dôr da viuvez +ou o olhar allucinado do remorso; o scandinavo contenta-se com menos, o +desembarcar do pescado n'um recanto da praia, a sopa fumegante sobre a +mesa e a familia em torno. Abençoada fraqueza! Limitando a vida +damos-lhe a maior garantia de felicidade. A maior? Não, a unica. Sem +esses limites a inquietação é inevitavel, os tormentos são tão grandes +como as aspirações.</p> + +<p>Este mesmo clima que produziu um typo de actividade physica e +psychologica de intensidade mediocre, mas por isso mesmo regular e +equilibrada, porque não tendo oppressões congestivas não tem igualmente +as depressões consequentes, <span class="pagenum"><a name="pagina_63">[63]</a></span> esse mesmo clima concorre para manter +intactos os costumes nacionaes, actuando constantemente sobre a sua +base, o caracter do povo. Concorre apenas; pois n'este ponto a causa +determinante principal póde com bons motivos encontrar-se na situação +geographica—quasi uma ilha, nos confins da Europa, desligada do +continente pelo mar e pelo gelo, e durante longos mezes de inverno +inteiramente isolada. O povo é pacifico e moderadamente trabalhador; nem +guerras nem expansão commercial que alterem o sangue primitivo pelo +contacto ou liga de outro sangue. E assim o typo nacional, filho do +clima e auxiliado pelo isolamento, conserva-se puro.</p> + +<p>Pureza relativa, já se vê; as mesmas causas geraes que crearam o +cosmopolitismo, tendendo a fundir n'um só os caracteres e costumes dos +differentes povos, essas mesmas causas actuam alli, contrariadas todavia +por forças indestructiveis, d'onde vem a fixidez quasi unanimemente +reconhecida pelos viajantes. Na Hespanha temos um caso que esclarece e +completa o da Scandinavia: <span class="pagenum"><a name="pagina_64">[64]</a></span> alli os costumes nacionaes apparecem +como simples reminiscencias do passado que a civilisação ainda não +logrou destruir, mas sem caracter algum de fixidez, condemnados a +completa extincção. As guerras interiores, a pobreza e a difficuldade de +communicações prolongaram modos e fórmas de vida, que de futuro irão +provavelmente refundir-se nos cadinhos communs a todo o mundo.</p> + +<p>Do que fica dito facilmente se deprehende a feição de Stockolmo, uma +cidade burgueza, pacifica, aceiada, em ordem, sem grandes palacios nem +grandes ruas, parcamente animada de commercio e de prazeres.</p> + +<p>Já assim não é Copenhague, em que parei no regresso a Paris. Differe o +povo e differe a cidade.</p> + +<p>Perdeu-se a delicadeza de traços e pureza de linhas que tinhamos +frequentemente nas raparigas da Suecia, a dinamarqueza é mais corpulenta +e grosseira, mais flamenga. Talvez ainda consequencias da natureza do +sólo, pois descendo a <span class="pagenum"><a name="pagina_65">[65]</a></span> Suecia, amiudam-se as planicies que na +Dinamarca se aproximam e assemelham ás da Allemanha, e além tinhamos um +terreno accidentado e granitico, proprio a crear o musculo enxuto +produzido pelo esforço de uma imperceptivel mas constante gymnastica.</p> + +<p>A cidade participa principalmente do aspecto commercial maritimo, ao +contrario de Stockolmo que, sendo na realidade porto de mar, parece +ainda um mercado interno.</p> + +<p>Só as cidades maritimas podem dar-nos a impressão n'um grande movimento +commercial, porque só ahi se produz a accumulação indispensavel a esse +fim; só ahi se encontram as massas fabulosas que, distribuidas pelos +mercados interiores, perderam esse effeito pelo facto de dispersão. Por +este lado, as cidades do interior, por grandes que sejam, são sempre +inferiores ás cidades maritimas. O movimento de povo nas ruas de uma +cidade de prazer como Paris ou de uma grande secretaria de estado como +Berlim, é mesquinho ao lado das montanhas de mercadorias <span class="pagenum"><a name="pagina_66">[66]</a></span> que +fluctuam nas cidades de Inglaterra, por exemplo. Umas movem-se como +formigas, as outras como rhinocerontes; á superficie do mar vem de +espaço a espaço um monstro e encostando-se á terra, começa a vomitar +riquezas com uma prodigalidade que entontece de pasmo e esmaga de +abundancia. Exceptúo Moscow, cidade do interior com o movimento das +cidades maritimas; e, se as minhas viagens fossem mais longe, era +possivel que tivesse de exceptuar todos os grandes mercados da Asia. A +raridade e a distancia poderão produzir accumulações semelhantes ás que +resultam do abastecimento de densos e frequentes povoados.</p> + +<p>Copenhague estabelece uma transição para o grande bulicio do occidente, +mas a posição insular e as affinidades de raça deixam transparentes +grandes laivos de parentesco com a Scandinavia e a Flandres. Direi mesmo +que, emquanto por lá andei, lembrei-me mais frequentemente de Amsterdam +do que de Stockolmo. <span class="pagenum"><a name="pagina_67">[67]</a></span> </p> + +<hr style="width: 20%"> + + +<h6><em>Marselha, 2 de Outubro.</em></h6> + +<p>Fui descansar a Paris das longas jornadas da Russia.</p> + +<p>Poucas coisas me interessam mais n'uma cidade do que percorrer os +mercados de toda a especie, vêr o que se produz e o que se consome; e o +interesse ordinario aggravava-se agora com a circumstancia de vêr Paris +immediatamente a impressões diversas das que trazia da minha terra. +Involuntariamente referia o que observava ao que tinha deixado na Suecia +e na Dinamarca principalmente e, em quanto respeita a artes industriaes, +essa comparação era desvantajosa para a França.</p> + +<p>Não tanto como na Allemanha, que em mau gosto na materia leva a palma a +todos os paizes do mundo, as lojas de Paris, entre productos da <span class="pagenum"><a name="pagina_68">[68]</a></span> +mais fina e pura belleza, encerram, em grande quantidade, o que a +imaginação póde crear de mais absurdo e incoherente. Combinam-se e +ligam-se as fórmas mais oppostas, juntam-se as côres mais desharmonicas; +casa-se a simplicidade grega com os monstros japonezes e sobre os +tapetes e porcelanas dansam desconchavadamente todas as côres. Nenhuma +sabe do seu par.</p> + +<p>Já assim não acontece com as rendas e porcelanas da Suecia e da +Dinamarca, que me encantaram e surprehenderam (na minha ignorancia +desconhecia o que, parece, é sabido de todo o mundo e até famoso). +Combinações de duas ou tres côres, desenhos simples, nada variados, +repetindo-se com frequencia, e de tão parcos elementos, esses paizes +souberam tirar effeitos que a industria franceza não conseguiu gastando +e torturando a imaginação.</p> + +<p>É bem simples a razão, a meu vêr. Quiz o acaso que em Stockolmo parasse +no deposito da mais afamada das suas fabricas de porcelana e faianças, +justamente no momento em que me dirigia <span class="pagenum"><a name="pagina_69">[69]</a></span> ao museu nacional; e pude +vêr quanto os productos modernos differiam pouco dos modelos historicos. +Muito de proposito aponto a ordem da observação para que não se julgue +que no meu juizo houve preoccupações de tradicionalista. Não houve +realmente; foi a evidencia de facto que me levou a crêr que, +inspirando-se na tradição, a industria encontrára alli o mais seguro +guia de belleza e bom-gosto.</p> + +<p>Não direi exactamente o mesmo do que vi em Copenhague. Ahi, embora as +rendas e bordados se não afastem tambem de modelos que têm seculos de +existencia, a pintura em louça tomou para base a cópia do natural. E +inutil será acrescentar que, explorando esta via, não chegou a +resultados menos brilhantes do que os seus visinhos seguindo na +tradição.</p> + +<p>A nenhum d'estes tutores se quer sujeitar a moderna industria franceza, +e, emancipada, entrega-se á phantasia excitada pela concorrencia que lhe +pede novidade, invenção. É talvez uma maneira de traduzir o espirito de +liberdade n'este <span class="pagenum"><a name="pagina_70">[70]</a></span> terreno, mas a extrema liberdade aqui como em tudo +não foi mais feliz do que a obediencia sensata e justa, consciente e +reflectida. E, se não, vejam-se os productos preciosos que, em França +mesmo, nos apresentam as industrias que se não afastaram da tradição, o +ferro forjado, por exemplo. É mais uma resurreição dos antigos modelos +do que uma industria nova; pois não sei que se possa inventar coisa +alguma de mais bello, e estou certo de que os estrangeiros que vierem a +Paris hão de dar-me razão.</p> + +<p>Venho a concluir que das tres fontes de inspiração apontadas, a natureza +vegetal, a tradição e a phantasia, só as duas primeiras nos levam por +caminho seguro. A natureza vegetal não tem desharmonias; filhas do mesmo +solo e do mesmo clima, creadas com o mesmo alimento, a mesma humidade e +a mesma luz, as plantas têm a harmonia necessaria de productos dos +mesmos factores. É isto que nos faz dizer bellas as flôres mais exoticas +e extravagantes. Demais o homem recebe a educação natural d'esses mesmos +elementos <span class="pagenum"><a name="pagina_71">[71]</a></span> e goza com o que é lhes conforme, soffre com o que os +contraría.</p> + +<p>A tradição, perpetuando fórmas e combinações, demonstra <em>ipso facto</em> a sua +concordancia com a maneira intima de sentir de uma raça. D'outra fórma, +desappareceriam como desapparece tudo o que é contrario ao seu caracter +permanente, ainda que por qualquer motivo tivessem tido uma existencia +mais ou menos duradoura.</p> + +<p>Mas a novidade e a phantasia são perigosas, pois diz-nos a razão e a +historia que o poder creador não é infinito, encerrado como está entre +os limites objectivos, a constancia dos materiaes, e os limites +subjectivos, a capacidade e a fórma de sentir de cada raça.</p> + +<p>As artes exoticas, que são um dos muitos elementos que a sciencia e as +descobertas modernas deram á phantasia, despertarão sempre curiosidade +intellectual como revelações de civilisações estranhas, mas, passado +este primeiro deslumbramento, não entrarão nos museus, deixando no <span class="pagenum"><a name="pagina_72">[72]</a></span> +adorno domestico só o que se conforma com as nossas concepções +estheticas?</p> + +<hr style="width: 20%"> + + +<h6><em>Oran, 6 de Outubro.</em></h6> + +<p>Despedi-me de Paris com saudades, digo-o com franqueza, por muito +incoherentes que pareçam estas sympathias com o que disse nas minhas +cartas anteriores; saudades aggravadas pela tristeza da cidade no dia da +partida, um domingo, quasi tão despovoado e silencioso como em Londres. +Todo o mundo emigra e vai dispersar-se pelos arrabaldes.</p> + +<p>É ainda um pequenino facto a notar a differença do domingo entre Paris e +Stockolmo. Alli o domingo, na cidade, é animado, os passeios, os museus +e os espectaculos apinhados de povo; a vida dos dias de trabalho não é +tão absolutamente <span class="pagenum"><a name="pagina_73">[73]</a></span> extenuante como em Paris e por isso não appareceu +ainda a necessidade de tão pleno repouso; nos prazeres e no trabalho +mantem-se a sabedoria da modestia, que nem carece de se esfalfar na +conquista de riquezas, nem demanda requintes de gozo. E, como nas +aldeias, o domingo é para a palestra e para vêr os amigos, que na +verdade o corpo não se sente fatigado, só o espirito necessita de +alimento e expansão.</p> + +<p>Não continuemos n'este thema; já muito tenho dito do que em Paris me +magôa. É tempo de dar razão das minhas saudades.</p> + +<p>Disse que Paris carecia de vida moral, nem outra coisa podia succeder a +uma terra que, entre muitas outras causas d'esse estado, tem uma +alluvião de estrangeiros em busca de prazeres, incessantemente renovada. +Mas, se o homem não vive só de pão, não vive tambem só do coração e do +amor divino; tem aspirações complexas e irreductiveis, e embora em sua +consciencia reconheça certa ordem dominante, nem ignora a existencia das +outras tendencias concorrentes nem, <span class="pagenum"><a name="pagina_74">[74]</a></span> quando é sincero, nega o prazer +de as sentir satisfeitas.</p> + +<p>Vem isto a dizer que, independentemente da vida intima social ha uma +outra vida social mais larga e menos profunda, que é uma necessidade e +um prazer, e em que a sympathia rege o que na primeira é regulado pela +amizade, e a urbanidade substitue a dedicação paciente. Ora a este +genero de vida, cuja actividade sentimos todos os dias e, póde dizer-se, +todas as horas, a este genero de vida Paris deu todo o encanto real e +attingivel, com as suas formulas de polidez e com uma comprehensão +instinctiva das pequeninas coisas que podem ferir ou magoar. Muito +francez—diz-se como significando falta de sinceridade, e é possivel que +um longo habito tornasse inconscientes actos e palavras que d'outro modo +teriam valor moral; mas é incontestavel que embora essas formulas, esse +modo de ser externo, não tenham valor moral positivo, não deixam por +isso de ter reduzido ao minimo os espinhos e asperezas da convivencia; +podem não ser virtude <span class="pagenum"><a name="pagina_75">[75]</a></span> nem peccado, mas são em todo o caso uma arte +com todos os prazeres de tal natureza. E, quando alguem os sente, +abandona-os com a mesma tristeza com que os bons bebedores abandonam os +bons vinhedos, onde por baixo preço sorvem com delicia todos os dias o +precioso perfume a que mais querem.</p> + +<p>Emquanto assim pensava, aproximavam-se as bocas do Rhodano, cuja +paizagem me deixou indifferente. Os campos são largos, vastos, e por +vezes viçosos e ferteis, e ao longe descobrem-se as ultimas ramificações +dos Alpes, mas os montes estão excessivamente distantes para que possam +entrar como valor importante, e a planicie, muito cultivada, tem uma +variedade de vegetação e regularidade de plantações que destroe toda a +harmonia natural. A paizagem carece pois de movimento.</p> + +<p>Parecerá absurda esta expressão—movimento da paizagem—mas, observando +e reflectindo, veremos que a repetição de uma mesma curva acompanhada da +repetição simultanea dos <span class="pagenum"><a name="pagina_76">[76]</a></span> mesmos tons de colorido e dos mesmos +reflexos dá na realidade a impressão de uma determinada ondulação, um +mesmo movimento, como acontece nas montanhas ou planicies povoadas de +uma só especie vegetal, ou, pelo menos, de uma só especie dominante. Ora +este effeito perde-se nas terras em que a cultura obriga á variedade.</p> + +<p>Voltando ao Rhodano—não quero dizer que não tenha quadros encantadores, +para o que lhe basta a abundancia de luz. São todavia limitados e sem +relação entre si; são para a grande paizagem o mesmo que os innumeros +quadros da vida domestica são para a grande pintura historica que +condensa a epopêa d'um povo, lançando n'uma tela estreita seculos de +vida.</p> + +<p>Caminhemos. Adiante encontramos Marselha, e á paizagem vem juntar-se a +cidade para nos lembrar a distancia a que estamos de Paris e um pouco +tambem para nos avivar as saudades. Marselha é um prenuncio da Hespanha: +reappareceu o penteado tão cuidado que não tornára a vêr desde +Salamanca, os cabellos pretos e a desenvoltura. <span class="pagenum"><a name="pagina_77">[77]</a></span> Esta gente é +irrequieta, o que é uma coisa bem differente da vivacidade franceza. A +vivacidade, para mim, é constituida por gestos e movimentos da +physionomia, breves em intensidade e duração mas repetidos e revelando +uma actividade de espirito simultanea e semelhante; a desenvoltura é +prodiga de movimentos que nada dizem das suas relações psychologicas. A +vivacidade, quando ri, scintilla de sympathia; a desenvoltura, rindo, é +egoista se não encerra um sarcasmo. Os francezes são mais vivos, a gente +de Marselha mais desenvolta, como os hespanhoes.</p> + +<p>Estamos á beira-mar; mais vinte e quatro horas e bateremos ás portas do +mundo arabe.</p> + +<p>Pela manhã trovejou, e das bandas de Africa sopra um vento asphyxiante e +morno.</p> + +<p>A um canto do vapor uma criança ao collo repete com o olhar fixo de +mysterioso scismar que as crianças têm ás vezes: Pa... pá, pa... pá... +Ao lado, uma mulher nova e galante conversa com o capitão, brandamente, +n'um tom meigo de saudade. <span class="pagenum"><a name="pagina_78">[78]</a></span> </p> + +<p>—Vamos, disse elle.</p> + +<p>—<em>Bon voyage.</em></p> + +<p>—<em>Au revoir.</em> E abraçaram-se, silenciosos, mudos, sem uma lagrima.</p> + +<p>Ella seguiu pelo caes, voltou-se e olhou quando o vapor partia e +perdeu-se no borborinho da rua, caminhando ao lado do filho, lenta, +tranquillamente, o coração envolto na dôr, na esperança a na virtude.</p> + +<p>Vi ainda uns vagalhões titanicos e cambaleando deixei-me rolar como um +fardo no canto de um divan. Na ancia e na fraqueza semi-febril +obscurecem-se os limites do sonho e do pensamento consciente.</p> + +<p>Via o enterro d'um amigo; um enterro civil. A porta desconjuntada e +carunchosa d'um quintalejo, n'um sitio ermo, veio uma carroça empoeirada +de cal, puxada por um macho escuro, somnolento, orelha derrubada, uns +arreios sujos, de pregos amarellos, resequidos e gretados do sol. O +caixão appareceu sobre a carroça, não sei como, e sobre elle, o +carroceiro, um soldado francez, de <span class="pagenum"><a name="pagina_79">[79]</a></span> largas calças vermelhas e +jaqueta azul, sentou-se, perna bamboleante, costas para o macho. +Fallou-lhe e partiu. Ao lado da carroça pendia uma lanterna; no limiar +da porta ficára uma mulher da Beira, morena, espadaúda e baixa, o +cabello empastado na testa e as mãos cruzadas debaixo do avental.</p> + +<p>—Não quer a lanterna accesa, tio Manoel?</p> + +<p>—Não é preciso, a noite está clara.</p> + +<p>E n'aquelle silencio sentiu-se só o estremecer da carroça sacudida no +macadam da estrada á beira d'um juncal, caminho do cemiterio.</p> + +<p>—<em>Monsieur, nous sommes à Alger</em>, disse alguem perto de mim.</p> + +<p>Levantei-me e subi. Na noite escura, mais escuro ainda um grande panno +negro, uma montanha semeada de luzes; e em baixo sob um rosario de bicos +de gaz, pernas e faces negras e nuas entre gorros vermelhos e farrapos +brancos enxovalhados—foi o meu despertar no mundo arabe.</p> + +<p>Um sonho mau entre um quadro de amor domestico <span class="pagenum"><a name="pagina_80">[80]</a></span> e um quadro de +miseria—são todas as minhas impressões d'esse Mediterraneo azul, +limpido, sereno, dissolução filtrada de anilina que em tempos que já la +vão faria a delicia dos janotas e a fortuna das engommadeiras de Lisboa, +vendido a retalho.</p> + +<hr style="width: 20%"> + + +<h6><em>Granada, 9 de Outubro.</em></h6> + +<p>Argel, vista de noite, nas sombras da luz escassa, dá-nos a impressão de +uma grande miseria; mas, vindo a manhã, no movimento das ruas e dos +mercados, essa miseria conver-te-se n'uma grande mascarada para os olhos +surprehendidos do viajante europeu, pouco habituado ao contacto das +civilisações mescladas e exoticas. Rimos d'essa confusão de arabes, de +turcos, de francezes e marroquinos e rimos ainda mais do albornoz <span class="pagenum"><a name="pagina_81">[81]</a></span> e +do turbante; associados ao chapéo de sol e ás botas de elastico, vivendo +em santa paz na mesma pessoa. Ao lado da franceza toda encalmada, de +manga curta e collo descoberto, vêm as mulheres da terra, embiocadas em +leves roupas brancas que a imaginação do nosso povo escolheria para +trajo das almas do outro mundo; entre os mercadores de blusa azul, de +pé, lestos em attender o freguez, como os vemos pelas nossas praças, +está o arabe, sentado, de pernas cruzadas, indifferente e moroso, com um +lento pestanejar de ruminante.</p> + +<p>Rimos emquanto o pensamento não nos inicia em caminho differente; porque +logo, reflectindo, entre o grotesco e o comico de associações disparates +descobrimos o orgulho do vencedor, dominando imperioso e inflexivel, e, +em baixo, a seus pés, a babugem de uma onda outr'ora forte e temerosa, +agora fraca e quasi extincta, agitando-se semi-morta nas prisões de +ferro em que a Europa a lançou. N'uma cidade, como Argel, em que +passeiam hombro a hombro vencedor e vencido, <span class="pagenum"><a name="pagina_82">[82]</a></span> a derrota é patente +todo o dia como na hora do combate. Quando a Allemanha venceu a França, +cada um recolheu ás suas terras e ahi recobrou altivez; mas Argel +vencida foi tambem conquistada e o povo arrasta as algemas de uma +escravidão mais ou menos real e mais ou menos consciente. Por aquellas +ruas anda uma população que se agita e move, livre, risonha, altiva, +calcando uma terra que lhe pertence, e rasteja tambem um denso rebanho +que o pastor conduz, mas a que não falla senão para ordenar. N'uma +hospedaria, um criado europeu manda vir o <em>arabe</em> para acarretar as +bagagens com a mesma entonação com que mandaria vir um jumento.</p> + +<p>Respondem-me que essa gente vive livre e feliz, sómente sob as leis e +regulamentos que foi necessario dar-lhes. Nem tanto mereciam.</p> + +<p>Não derramarei lagrimas sob a sua sorte nem mesmo direi que seja má a +sua condição material e que tivessem merecimentos para melhor. Apenas +aponto um facto; é que no momento actual Argel nos da o espectaculo +altamente interessante <span class="pagenum"><a name="pagina_83">[83]</a></span> e instructivo do aviltamento moral de uma +raça conquistada em frente dos seus senhores.</p> + +<p>Uma outra coisa nos offerece Argel, não menos interessante. É um bairro +arabe, quasi uma cidade, que o camartello europeu ainda não alcançou e +em que os costumes, a gente, e as habitações indigenas são ainda de +grande pureza.</p> + +<p>Nada direi d'essas viellas ingremes em que as casas quasi se tocam de um +ao outro lado, especie de fortalezas com uma pequenina porta e raras +frestas nos muros. Tudo está minuciosamente descripto em muitos livros +e, de resto, esses recintos são vedados aos simples viajantes. +Deixaram-me uma pequena impressão—pequenez e frescura. Tudo me pareceu +acanhado e pequenino, fresco e humido como os logares profundos onde o +sol não penetra.</p> + +<p>O arabe vem descendo até aos bairros europeus, e ahi abundam as lojas e +officinas. Bordam, tecem, costuram, têm as suas cozinhas e cafés e tudo +aquillo se assemelha tanto á nossa regularidade que naturalmente +perguntamos como tende <span class="pagenum"><a name="pagina_84">[84]</a></span> a aniquilar-se uma raça que chegou a +organisar o trabalho, a arte, a familia, a religião, a politica, que +creou uma civilisação, uma ordem social, funccionando e correspondendo +na sua organisação á capacidade ethnica. Parece que um povo que chegou a +este estado não deveria ser tão facilmente destruido e dominado dentro +do seu proprio <em>habitat</em>.</p> + +<p>Não soube defender-se—é a resposta que mais immediatamente encontramos +no nosso espirito; se tivessem inventado os canhões de Krupp talvez os +seus destinos fossem outros. E vamos a dar razão á Allemanha: Pois a +primeira necessidade de um povo não é ser forte? Virtude, grandeza +d'alma, um ideal, para que? Se não tem musculos sãos, armados d'aço e +lançando fogo, esse povo será devorado pelos lobos sempre á espreita das +ovelhas.</p> + +<p>Mas lançados n'esta ordem de cogitações encontramos a Allemanha receiosa +e timida diante do cossaco esfarrapado que vi nos acampamentos da +Polonia. Já não vale a força; tudo ameaça <span class="pagenum"><a name="pagina_85">[85]</a></span> dissolver-se n'essa +infinita vastidão em que já um dia se perderam setecentos mil homens. +«Vive em paz com a Russia», recommendára, diz-se, o velho Guilherme +moribundo a Frederico, seu filho; no seu espirito fluctuava já o +desanimo com que Napoleão voltou de Moscow ás margens do Niemen e +antecipadamente se entregava a essa amizade obrigada.</p> + +<p>E o espirito perde-se buscando em vão uma base de força duradoura, +eterna, indestructivel! Não pensará assim o arabe, que tudo aceita sem +espanto, como derivado da ordem logica e natural das coisas, se é que +podemos aventurar-nos a penetrar tão intimamente no espirito de uma raça +estranha. Duvido.</p> + +<p>Muitas vezes na Argelia, pensando no arabe mysterioso, surgiu no meu +espirito esta duvida. Podemos comprehender inteiramente a psychologia de +uma raça estranha? Modos de vêr e de sentir differentes devem conduzir a +differentes ordens de pensamento e, embora vejamos as suas conclusões +externas e praticas, no modo de funccionar <span class="pagenum"><a name="pagina_86">[86]</a></span> intimo poderá existir +qualquer coisa mysteriosa que nos escapa. Comprehendemos claramente a +psychologia da criança; não ha entre ella e nós senão graus de +desenvolvimento e de actividade sendo iguaes a tendencia evolutiva e o +modo de funccionar, tendencia e modos que devem variar de raça para +raça. É verdade que o nosso espirito não concebe duas logicas, mas fóra +d'esse estreito terreno commum que margem não fica para variantes +incomprehensiveis? Pasmamos muitas vezes da logica excentrica de certos +espiritos, da maneira por que n'elles se prendem e ligam as idéas, e +este facto, combinado com uma reconhecida differença de base physica, +não basta para nos levar a qualquer conclusão mas deixa no espirito +certa desconfiança quanto a affirmações positivas sobre a psychologia +das differentes raças.</p> + +<p>Talvez que sobre o espirito arabe o juizo mais acertado seja o de uma +senhora americana muito instruida com quem conversei largamente sobre +essa gente. «Só gostava de saber o que <span class="pagenum"><a name="pagina_87">[87]</a></span> elles pensam...»—«Creio que +pensam muito pouco», respondeu-me.</p> + +<p>É possivel que n'estas palavras se resuma toda a sua psychologia. Um +clima ardente congestiona e opprime, como o frio entorpece; em qualquer +caso ha uma paralysação de vida. A indifferença arabe não seria como a +do russo uma conclusão final do cogitar sobre a inanidade de todas as +previsões, seria uma abdicação por indolencia, seria a aceitação das +coisas sobre o que o pensamento se nega a reflectir. Mata e morre +friamente, n'um torpor de somnolencia invencivel. Sabe lavrar e conduzir +os rebanhos na pastagem, caminha arrastadamente, e apto para o trabalho +lento; não sabe cavar, repugna-lhe o trabalho activo e diligente.</p> + +<p>Este mesmo clima que produziu uma raça avassallada pelo ardor do sol, +movendo-se sob impulsos mysteriosos, creou a paizagem que deslumbra e +cega os olhos do artista europeu educados na luz coada pelas nevoas do +norte. Deu á sensualidade tudo o que ella podia exigir de <span class="pagenum"><a name="pagina_88">[88]</a></span> mais +intenso e vivo; e por isso se comprehende que a paizagem da Argelia +tenha na pintura um culto reservado e distincto. Para a poder sentir é +necessario ter olhos insaciavelmente cubiçosos e nem todos attingem +tamanho vigor de Sensualidade visual. Para os que ficam áquem, esses +prazeres perdem-se despercebidos, quando não repugnam, ferindo e +maguando. Uma luz abundantissima n'uma atmosphera sêcca; e todas as +impressões virão aos nossos olhos nitidas, precisas, distinctas, +vibrando rijamente, soltas e desvendadas da humidade attenuante que +modera, corrige e confunde, mostrando-nos toda a natureza através d'uma +atmosphera transparente sim, mas uniformemente colorida.</p> + +<p>A atmosphera tem portanto côr? Pela primeira vez surgiu no meu espirito +este pensamento quando em Copenhague encontrei na exposição pinturas +japonezas em sêda, esboços grosseiros de paizagens sobre um fundo sem +nuvens, unicolor. E todavia transmittiam-me a impressão de uma paizagem +por muito que me repugnasse <span class="pagenum"><a name="pagina_89">[89]</a></span> crêr na realidade do céo e do ar +amarello ou verde. Parece que da terra e do céo, de todos os reflexos +fundidos resulta um prisma distincto para cada paizagem, através do qual +a vemos e conhecemos.</p> + +<p>Talvez resultado d'este scismar, uma noite, em Argel,—ainda outro +sonho!—vi essa terra como as ruinas do Coliseu de Roma. Era uma enorme +bacia formada de montanhas escalvadas, de uma argilla vermelha que +descia em degraus até ao fundo e sobre a terra, immoveis, equidistantes, +os albornós brancos dos arabes; um espaço vermelho e cavado, maculado de +pontos brancos. Assim toda a paizagem da Argelia estaria envolvida +n'essa atmosphera vermelha.</p> + +<p>Não contradiz este sonho o que acima disse relativamente á intensidade +de impressão resultante da seccura atmospherica. Uma coisa é o colorido +ligeiro que provém da fusão dos reflexos ambientes, outra a decomposição +da paizagem através da nevoa mais ou menos densa; essa attenua e +confunde profundamente, a outra dá <span class="pagenum"><a name="pagina_90">[90]</a></span> apenas um ligeiro colorido sem +prejudicar a predominancia das impressões primitivas; uma sente-se +principalmente nos espaços vazios, a outra actua com igual força sobre +toda a natureza terrestre.</p> + +<p>A paizagem da Argelia, pois, com a sua atmosphera propria, como as +demais paizagens, e a sensualidade requintada da riqueza e intensidade +de impressões visuaes que resultam da seccura do ar associada á +abundancia de luz. Explica-se d'esta fórma como nos quadros dos pintores +que têm estudado essas regiões apparecem com tão grande frequencia as +montanhas, as ruinas e o mar; são aquelles elementos em que este +caracter de nitidez, de transparencia e de variedade consequente +apparece mais distinctamente.</p> + +<p>Para nós, porém, a paizagem da Argelia não tem o valor que lhe dá a +gente do norte. Estes crepusculos em braza que se prolongam n'um +esmorecer lento, a luz que á tarde doura o arvoredo, como com tanta +saudade a vi nas mattas de pinheiros de Alepo, em Orleansville, nada +d'isso <span class="pagenum"><a name="pagina_91">[91]</a></span> é novo para nós com quem a natureza foi tão prodiga.</p> + +<hr style="width: 20%"> + + +<h6><em>Sevilha, 13 de Outubro.</em></h6> + +<p>Duas coisas bem differentes temos que vêr no sul da Hespanha, os +monumentos arabes e a Andaluzia, os vestigios d'uma raça e d'uma +civilisação extinctas n'esta parte do mundo e os povos e a civilisação +agora existentes na mesma região. Ambas igualmente interessantes; a +primeira porque encerra documentos de primeira ordem no seu genero, e a +segunda pela importancia de todo o elemento activo contemporaneo.</p> + +<p>Nem a Alhambra nem a mesquita de Cordova nem o alcaçar de Sevilha +destruiram a impressão que a Argelia me tinha deixado da arte arabe; +antes confirmaram o que ahi tinha pensado e que em certo modo se +relaciona com o que em <span class="pagenum"><a name="pagina_92">[92]</a></span> Moscow julguei de todo o Oriente. Aqui +tambem como alli, encontrei uma concepção esthetica que não é da nossa +raça e não se conforma com o nosso modo de sentir. N'este ponto as duas +impressões são identicas. Differem porém: emquanto no moscovita domina a +imaginação insaciavel, um enredar infindo, parecendo que o seu +pensamento não consegue definir-se em certa ordem de linhas geraes, o +arabe alcançou esse ultimo estado, definiu o seu conceito em fórmas +precisas e determinadas. Depois de termos visitado os monumentos arabes, +por longo tempo nos ficam diante dos olhos certas proporções e direi +mesmo certos angulos, embora tenha a certeza de que os seus angulos +variam de grandeza em numero infinito. Ha manifestamente uma tendencia, +um movimento n'uma direcção fixa.</p> + +<p>D'esse conceito, d'essa visão ultima e final, producto de series de +impressões successivas, resultam para mim duas idéas—a ausencia de +grandeza e a preferencia do adorno sobre a estructura. <span class="pagenum"><a name="pagina_93">[93]</a></span> </p> + +<p>Sobre esta creio não haver duvida. <em>Dentelle</em>—foi a palavra que mais +vezes ouvi do guarda da Alhambra que me acompanhava; rendas são na +verdade todos esses minusculos trabalhos em gesso de que os seus muros +estão cobertos. Para lhes dar todo o relevo estenderam-se sobre o ouro e +as côres mais vivas, um azul intenso e um vermelho rutilante, e não se +pouparam as perspectivas que os projectassem sobre a grandeza do espaço +e da luz; e, depois de os ter despendido com uma prodigalidade +infatigavel, cobriram-se os intervallos que restavam com azulejos e +couros de Cordova, rendas ainda, posto que d'outra materia. Não se +levantaram palacios, atapetaram-se alcovas de sultana.</p> + +<p>É de crer que me neguem a falta de grandeza nos monumentos arabes, +adduzindo como primeira prova de contestação a mesquita de Cordova. Ao +que responderei que é d'esse mesmo documento que pretendo tirar a melhor +prova do meu pensamento.</p> + +<p>Quando lá entrei, lembrou-me um pomar de <span class="pagenum"><a name="pagina_94">[94]</a></span> macieiras frondosas e bem +alinhadas, d'esses que os brazileiros da minha terra têm alli pela Villa +da Feira. Li depois que Theophilo Gautier a comparára a uma floresta, +mas as florestas bracejam á vontade, erguem-se ao sol e desconhecem a +linha recta, errando gigantes por onde a luz e a terra mysteriosamente +as conduzem. Transcrevo as proporções d'esse edificio e o leitor dirá se +n'ellas cabe grandeza.</p> + +<p>Supprimamos a capella-mór e vejamos só as proporções da mesquita no seu +estado primitivo. Um quadrilatero, cento e sessenta e sete metros de +comprimento, cento e dezenove de largura, dez d'altura; dezenove naves +n'uma direcção e trinta e seis na outra, arcos mouriscos assentes em +columnas de cerca de tres metros. É facil de imaginar o aspecto de tanta +galeria tão baixa, tão estreita e tão longa.</p> + +<p>A isto chamou-se grandeza, sendo aliás a sua negação. A grandeza está +nas proporções d'um só conceito, e o arabe, não podendo alcançal-a, +vingou-se na extensão, repetindo n'um vasto campo <span class="pagenum"><a name="pagina_95">[95]</a></span> o mesmo conceito. +Incapacidade de espirito ou consequencia de um mau ponto de partida? Foi +o espirito arabe que carecia de grandeza ou a grandeza era incompativel +com a fórma d'arco que adoptára e que mais amava? E questão que por +certo os homens do officio terão resolvido ha muito, e elles saberão +dizer-nos se com o arco arabe poderemos ir muito longe; para os meus +olhos desprevenidos e ignorantissimos aquelle arco parece concluir +sempre o edificio, tornando impossivel uma sobreposição equilibrada +apparentemente, já se vê, porque quanto á realidade não ha duvida.</p> + +<p>Perdôem-me os expertos se n'isto vai grande barbaridade, mas em tempos +de suffragio universal é permittido ouvir-se a voz do vulgo. De resto, +questão incidente; prosigamos. Ausencia de grandeza e abuso do adorno +não são qualidades de gente guerreira, e por isso comprehendo Carlos V +mandando arrasar parte da Alhambra e construindo no seu logar um palacio +da mais bella renascença; foi ingenuamente o homem da <span class="pagenum"><a name="pagina_96">[96]</a></span> sua raça. +Quem dos jardins do Generalife vir os telhados da Alhambra, baixos como +cabanas ao lado do palacio sumptuoso e altivo, comprehenderá porque +razão <em>isto</em> venceu <em>aquillo</em>. Estão alli duas architecturas e duas almas.</p> + +<p>Lamentamos e com razão que se houvessem destruido tão boas fontes de +saber. Penetrar o espirito alheio, abranger na extensão do nosso +pensamento a vida de toda a terra e de todo o universo, se possivel, é +para nós um tão grande prazer como a contemplação de quanto nos deleita +a vista: e n'este sentido são justas as lamentações de todo o monumento +perdido. Mas não é menos justa a sympathia pela expansão forte, viril e +inconsciente dos instinctos de uma raça, ainda não pervertida pela +largueza intellectual que conduz ao scepticismo, pondo o <em>cant</em> no logar +da admiração sincera: e então os actos barbaros como o de Carlos V têm +seus laivos de grandeza.</p> + +<p>E todavia quem falla d'esta fórma da arte arabe ainda hontem poderia ser +surprehendido <span class="pagenum"><a name="pagina_97">[97]</a></span> em flagrante delicto de admiração diante da entrada +de um casino de Sevilha. Que singeleza! Um vestibulo rectangular, +ladrilhado de marmore, as paredes com uma cercadura de um metro de +azulejo e depois gobelinos até ao tecto de madeira, apainelado; ao +centro tres arcos sobre quatro columnas de marmore branco dando entrada +para o pateo, quadrado, com uma ornamentação semelhante á do vestibulo. +Não ha n'isto grandes reminiscencias dos mouros? Ha, decerto; toda a +differença consiste não em desconhecermos a belleza da sua arte mas em a +tornarmos como subordinada a uma concepção mais alta. De fim ultimo e +principal, os seus mais bellos elementos transformam-se ás nossas mãos +em accidente e complemento.</p> + +<p>É tempo de passarmos á formosa Andaluzia, formosa nas suas mulheres, no +pittoresco dos costumes, retardatarios da desnacionalisação, porque a +formosura dos seus campos soffre grandes reservas.</p> + +<p>Pelos montes e outeiros predominam os olivaes, <span class="pagenum"><a name="pagina_98">[98]</a></span> e a palmeira +(<em>chamærops humilis</em>), as agaves, o esparto, a giesta, e as lavouras de +trigo preenchem os intervallos; as terras baixas são mimosas, onde têm +agua, mas com esta indecifravel confusão de plantas dos terrenos bem +cultivados, perdem toda a fôrça e caracter como paizagem. Para esta +ficam só as terras altas e que pouco dizem porque as oliveiras estão +muito distantes entre si e as outras plantas muito dispersas para darem +qualquer fórma ou colorido definido. Ainda assim, onde o olival é basto +accentua-se certo caracter de calor e suavidade; a folha da oliveira, +leve de colorido e pouco brilhante, semelhando cobre velho oxydado, +desenrola sobre a terra um tapete que se sente profundo e leve, sem a +dureza polida e fria das vastas superficies luzentes. Caracter que as +restantes plantas partilham: o brilho é proprio das plantas viçosas e +aqui não as ha, têm falta d'agua. A propria palmeira é bem differente +d'aquillo que parece nos nossos jardins, mais coriacea, não se expande +nesse viço que é uma phase brilhante de estiolamento.</p> <span class="pagenum"><a name="pagina_99">[99]</a></span> + +<p>E todavia não faltará quem se extasie diante do Guadalquivir e do Genil +em que se reflecte a alvura da Serra Nevada. Se me não illudo, é o caso +tão frequente da confuzão do bem-estar physico com a belleza da +paizagem. Para os que vêm dos montes abrazados, o valle humido e tepido +dá uma sensação balsamica que nos induz a chamar bello a quanto nos +rodeia. Esta sensação associada á cubiça de riquezas, foi talvez uma das +grandes forças da conquista arabe; por aquellas veigas sorria um prazer +que para lá do mar era bem raro e o mouro vinha buscal-o, impetuoso, +como uma onda negra espumando sangue.</p> + +<p>N'estes climas tão ricos, a vegetação vai desde o trigo até á vinha, a +oliveira, a laranjeira e a tamara; nos poucos metros d'um jardim +percorrem-se quasi completamente as zonas de todo o mundo.</p> + +<p>D'aqui a belleza da gente, creada na abundancia, com os frios moderados +que avigoram, sem a molleza lymphatica dos calores excessivos. O clima +tudo lhes deu: uma alimentação variada, <span class="pagenum"><a name="pagina_100">[100]</a></span> abundante e sã, e as +alternativas e graduações de temperatura convenientes para dar ao corpo +plena expansão de vigor.</p> + +<p>Vigor indomavel, latejante e transparente: a belleza das raparigas do +norte palpita apenas; na andaluza, os olhos e os cabellos negros, a +pelle mimosa e branca, têm relampagos de sensualidade.</p> + +<p>Mas a mocidade é breve, segue-se uma vida mais sedentaria, e quando na +casa a mesa é farta e a doença e o trabalho não castigam, um corpo tão +são tem comsigo um inimigo invencivel da belleza—a obesidade. É ahi que +vai naufragar o melhor da formosura da Andaluzia; nas ruas, nos passeios +e nos caminhos de ferro encontra-se esta phylloxera em todos os estados, +desde a mulher de trinta annos de uma redondeza acabada, até á +sexagenaria informe.</p> + +<p>Mudou a physionomia mas o caracter é sempre o mesmo, é em toda a idade a +desenvoltura de que já em Marselha tivemos prenuncios. Dar exercicio aos +musculos, palrando com grandes <span class="pagenum"><a name="pagina_101">[101]</a></span> gestos, saracoteando-se e cantando, +constitue a primeira necessidade d'esta gente. É sabido como os +hespanhoes adoram a rua e os cafés. Pois não é porque bebam muito; o que +precisam é fallar e agitar-se, ruido e movimento.</p> + +<p>A mesma musica tem este caracter de agilidade; as depressões alternadas +de andamento rapido e lento são manifestas como na musica italiana a +predilecção pela cadencia prolongada. Parece que só a Allemanha tirou da +musica a expressão d'uma paixão intima e moral; os outros povos +contentam-se em reduzil-a á simples traducção do seu modo de ser +sensual.</p> + +<p>Para que tudo esteja d'harmonia—e esta harmonia é para mim o mais bello +da Andaluzia—a habitação é tambem o que melhor se podia conformar com o +clima. O pateo, com a fonte de marmore ao centro, rodeado por uma +galeria em arcos ou sobre columnas é quasi geral nas casas da Andaluzia; +adornado com plantas dá um canto de frescura para passar no verão as +horas de calma, ao mesmo tempo que é um elemento de <span class="pagenum"><a name="pagina_102">[102]</a></span> belleza. Não +foi a Andaluzia que o inventou, é romano ou arabe, é talvez de todos os +povos. Adoptal-o, porém, foi o grande impulso de bom-senso.</p> + +<p>Porque não fizemos o mesmo em Lisboa, preferindo a imitação parisiense, +tão pouco justificada? Porque não teremos o pateo alumiado, fresco e +aceiado em logar da escada sombria, abafada e negra? Porque não fizemos +uma avenida ladeada de casas peninsulares em logar d'um <em>boulevard</em>?</p> + +<p>Descuidadamente, fui a fallar das coisas de casa. Pois não voltarei +atraz. Recolho ao ninho, que já não é sem saudade.</p> + +<p>Ao abeirar-me d'essa natureza que encerra o vidoeiro e a palmeira, com +tanto amor bafejada da fertilidade e belleza, ao contacto d'essa alma +tão nobre que na corrupção e na miseria tem ainda scintillações de +heroismo, esmorece a sympathia pela gente que deixei para além dos +Pyrenéos e dos Alpes.</p> + +<p>A sua alegria é um sorriso frouxo na sombra <span class="pagenum"><a name="pagina_103">[103]</a></span> tremula e fria do +vidoeiro e do abeto, e a alegria da minha terra vai desde a alvorada de +primavera rutilante e fresca até á gargalhada estridente e pagã, entre o +perfume do louro e o vigor do pampano. A sua melancolia é o brando +palpitar d'um crepusculo de outono, e a melancolia da minha terra é +ardente e ampla, um clamor de bronze vibrado nas labaredas do estio.</p> + +<p>Bem vindo seja pois esse ninho tecido de miserias e de grandeza!</p> + +<span class="pagenum"><a name="pagina_104">[104]</a></span> <br> +<span class="pagenum"><a name="pagina_105">[105]</a></span> + +<h2>INDICE</h2> + +<table width="90%"> +<tr><td></td><td>Pag.</td></tr> + +<tr><td>Dedicatoria</td><td><a href="#pagina_V">V</a></td></tr> + +<tr><td>Advertencia</td><td><a href="#pagina_VII">VII</a></td></tr> + +<tr><td>Modos de viajar</td><td><a href="#pagina_2">2</a></td></tr> + +<tr><td>O Minho</td><td><a href="#pagina_4">4</a></td></tr> + +<tr><td>O Douro</td><td><a href="#pagina_6">6</a></td></tr> + +<tr><td>Entrada em Hespanha</td><td><a href="#pagina_7">7</a></td></tr> + +<tr><td>Salamanca</td><td><a href="#pagina_9">9</a></td></tr> + +<tr><td>Miranda do Ebro</td><td><a href="#pagina_12">12</a></td></tr> + +<tr><td>Os Pyrenéos</td><td><a href="#pagina_13">13</a></td></tr> + +<tr><td>Paris</td><td><a href="#pagina_14">14</a></td></tr> + +<tr><td>Liège</td><td><a href="#pagina_23">23</a></td></tr> + +<tr><td>Lavoura por cavallos</td><td><a href="#pagina_24">24</a></td></tr> + +<tr><td>Campos de Liège</td><td><a href="#pagina_25">25</a></td></tr> + +<tr><td>O Hanover</td><td><a href="#pagina_26">26</a></td></tr> + +<tr><td>Prados e florestas</td><td><a href="#pagina_27">27</a></td></tr> + +<tr><td>O snr. G. Saunders</td><td><a href="#pagina_28">28</a></td></tr> + +<tr><td>Berlim</td><td><a href="#pagina_29">29</a></td></tr> + +<tr><td>De Berlim a Varsovia; a alfandega russa</td><td><a href="#pagina_33">33</a></td></tr> + +<tr><td>A paisagem da Polonia</td><td><a href="#pagina_34">34</a></td></tr> + +<tr><td>Varsovia</td><td><a href="#pagina_36">36</a></td></tr> + +<tr><td>A paizagem do norte da Russia</td><td><a href="#pagina_38">38</a></td></tr> + +<tr><td>A aldeia da Russia</td><td><a href="#pagina_39">39</a></td></tr> + +<tr><td>Moscow</td><td><a href="#pagina_40">40</a></td></tr> + +<tr><td>Visita a Tolstoï</td><td><a href="#pagina_44">44</a></td></tr> + +<tr><td>S. Petersburgo</td><td><a href="#pagina_53">53</a></td></tr> + +<tr><td>A Finlandia</td><td><a href="#pagina_55">55</a></td></tr> + +<tr><td>A paizagem</td><td><a href="#pagina_56">56</a></td></tr> + +<tr><td>A Scandinavia</td><td><a href="#pagina_59">59</a></td></tr> + +<tr><td>Copenhague</td><td><a href="#pagina_64">64</a></td></tr> + +<tr><td>A industria moderna</td><td><a href="#pagina_67">67</a></td></tr> + +<tr><td>O domingo em Paris</td><td><a href="#pagina_72">72</a></td></tr> + +<tr><td>Seducções de Paris</td><td><a href="#pagina_73">73</a></td></tr> + +<tr><td>Paizagem do Rhodano</td><td><a href="#pagina_75">75</a></td></tr> + +<tr><td>Marselha</td><td><a href="#pagina_76">76</a></td></tr> + +<tr><td>Caminho d'Argel</td><td><a href="#pagina_77">77</a></td></tr> + +<tr><td>Argel</td><td><a href="#pagina_80">80</a></td></tr> + +<tr><td>Paizagens</td><td><a href="#pagina_87">87</a></td></tr> + +<tr><td>Os monumentos arabes</td><td><a href="#pagina_91">91</a></td></tr> + +<tr><td>A Andaluzia</td><td><a href="#pagina_97">97</a></td></tr> +</table> + + +<h2>DO MESMO AUCTOR:</h2> + +<p><em>Estudos sobre litteratura contemporanea</em> 1 vol.</p> + +<p><em>O Snr. Oliveira Martins e o seu projecto de lei sobre o fomento +rural</em> Folh.</p> + +<p><em>A arte d'estudar</em> (versão do inglez) 1 vol.</p> + +<p><em>A Democracia</em> Folh.</p> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Cidades e Paisagens, by Jaime de Magalhães Lima + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CIDADES E PAISAGENS *** + +***** This file should be named 24774-h.htm or 24774-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/7/7/24774/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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