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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Democracia + Estudo sobre o governo representativo + +Author: Jaime de Magalhães Lima + +Release Date: March 3, 2008 [EBook #24748] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A DEMOCRACIA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +JAYME DE MAGALHÃES LIMA + + +A DEMOCRACIA + +ESTUDO + +SOBRE O GOVERNO REPRESENTATIVO + + + + +PORTO + +TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA + +Rua da Cancella Velha, 70 + +1888 + + + + + +A DEMOCRACIA + + + + + + + +JAYME DE MAGALHÃES LIMA + + +A DEMOCRACIA + +ESTUDO + +SOBRE O GOVERNO REPRESENTATIVO + + + + +PORTO + +TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA + +Rua da Cancella Velha, 70 + +1888 + + + + +Creio ser actualmente o momento mais opportuno para discutir o governo +democratico. Embora as questões economicas, vulgarmente denominadas +«questões sociaes», tenham presentemente a preeminencia politica, os +governos representativos apresentam uma tal desordem e corrupção que é +urgente saír d'um estado manifestamente perigoso, cujo ultimo termo é +difficil de prevêr. + +A sciencia politica, se não nos dá um remedio seguro e prompto, auctorisa +pelo menos tentativas de melhoria com probabilidades de bom exito. D'este +numero é a representação por classes, para que lentamente se teem +encaminhado os governos representativos. + +Os recentes desmandos do parlamento e o ultimo congresso agricola reforçam +esta opinião. Todos concordam em que o regimen parlamentar não póde viver +n'este fogo de guerrilhas, ao mesmo tempo que todos reconhecem que o +congresso agricola, embora chegasse a conclusões em grande parte +inacceitaveis, teve a vantagem de nos tornar bem patentes os soffrimentos e +aspirações da lavoura, significando simultaneamente que o paiz não se julga +representado no parlamento. Esta sobreposição de representantes leva-nos a +perguntar quaes são os representantes legitimos. + +Em todo o caso, a situação é difficil e a discussão proveitosa. Por isso +ouso acreditar que não perderei o meu tempo colhendo em duas excellentes +publicações estrangeiras algumas ideias sobre a materia que, sob nova fórma +e coordenação e juntamente com observações proprias, hoje apresento ao +publico portuguez. + +Não precisarei decerto encarecer a auctoridade de Sumner Maine, cujo livro +me serviu de texto principal. A perda recente do sabio investigador das +instituições primitivas, que o mundo scientifico unanimemente deplora, deu +logar a que se recordassem os seus serviços e a que mais uma vez se +reconhecesse que foi um dos homens que maior influencia tiveram no +pensamento contemporaneo. + + + + +A DEMOCRACIA[1] + + + + +I + +O futuro da democracia + + +Quem ha cincoenta annos tivesse a coragem de publicar um livro como o de +Sumner Maine, seria julgado visionario ou apaixonado, que não via ou não +queria vêr os esplendores d'um regimen politico que promettia á humanidade +uma nova era toda radiante de riqueza, de paz e liberdade. Hoje não; o seu +eloquente libello é tido como um livro sincero, que encerra porventura +alguns erros entre punhados de verdades, mas que, não obstante, é credor da +mais larga e serena discussão. + +Perderam-se illusões paradisiacas; e a politica, como a litteratura, +tornou-se realista, consciente das condições da vida real, limpa de +abstracções perigosas e das concepções _a priori_ que tão profundamente +revolveram as instituições e com tão hypotheticos beneficios. + +Já nos é licito perguntar, sem incorrermos no perigo de sermos accusados de +inimigos da civilisação, se as actuaes fórmas de governo democratico estão +destinadas a durar e alargar-se indefinidamente. + +Entretanto, a corrente democratica cresce continuamente, são poucos os que +duvidam e muitos ainda os que teem a democracia como um dogma contra o qual +de nada valem os factos. Para estes, os desastres dos governos democraticos +são qualquer coisa como as manifestações do atheismo que, para os crentes, +em nada prejudicam os attributos dos deuses. + +Todavia este facto, esta crença nas virtudes absolutas mas indemonstradas +d'uma fórma de governo, não é garantia bastante dos progressos da +democracia. Em 1758, escrevia Lord Chesterfield que «todos os symptomas que +jámais tinha visto marcarem na historia a approximação de grandes +transformações ou revoluções, no seio d'um governo, existiam áquella hora e +progrediam diariamente em França.» Os historiadores nossos contemporaneos +pasmam de que «a côrte, a aristocracia e o clero não tivessem comprehendido +que em face da irreligião que cada dia estava mais em voga, a crença nos +privilegios de nascimento não podia manter-se por mais tempo. Deveriam vêr +a ameaça de perturbações imminentes na odienta inveja das differentes +classes. A miseria sordida dos camponezes deveria tel-os preparado a um +formidavel levantamento social. Poderiam ter observado as causas immediatas +d'uma revolução na desordem das finanças e na grosseira desigualdade dos +tributos.» + +As previsões que seriam possiveis ou que se nos afiguram taes, não se +realisaram; e a revolução rebentou, apesar de ser lenta a accumulação dos +seus elementos. É que oito seculos de monarchia absoluta em que os seus +principios se foram radicando gradual e constantemente, tinham posto aos +olhos de naturaes e estranhos a fórma de governo como perpetua, e não se +percebia como um regimen que tinha feito a unidade e a grandeza da França +podesse algum dia ser destruido. Ainda em 1742, Hume attribuia a +prosperidade da nação francesa ao seu regimen politico e «via mais causas +de degeneração nos governos livres como a Inglaterra, do que na França, o +mais perfeito modelo da monarchia absoluta.» + +Assim nós estamos hoje. A democracia victoriosa afigura-se-nos invencivel e +já não concebemos progresso fóra do seu imperio. Mas porque esta cega +confiança? Acaso não nos terá reservado o futuro um desengano semelhante ao +que soffreu a geração que assistiu á Revolução franceza? Não terão os +governos democraticos fermentos de dissolução sufficientes para nos fazerem +duvidar da sua estabilidade? Vejamos. + +Mas antes, convém definir o sentido restricto, talvez excessivamente +restricto, que damos aqui á palavra _democracia_. + + +Maine entende por democracia unicamente uma fórma particular de governo. Ha +duas maneiras de conceber o governo d'uma sociedade, e d'ahi duas +differentes maneiras de apreciar as relações entre governantes e +governados: ou o governante é superior ao vassallo, é seu chefe, tutor e +guia e qualquer que sejam as suas faltas os governados devem-lhe todo o +respeito e em caso algum poderão retirar-lhe a sua auctoridade; ou os +governantes são simples agentes e mandatarios dos governados o n'este caso +a censura é um direito, a origem da auctoridade reside nos governados que a +dão ou a retiram como julgam mais util. + + +Exceptuando a Russia e a Turquia em que a primeira fórma de governo se +mantem ainda em toda a sua pureza, todos os paizes da Europa, embora +tenham adoptado fórmas mixtas, de transição, reconheceram a soberania +popular, isto é, fazem derivar a auctoridade da vontade dos governados. É +esta fórma de governo que Maine chama democracia; e esta mesma significação +lhe attribuirei n'este estudo para evitar uma confusão tão prejudicial como +seria a de me servir d'um termo com valor differente para cada um de nós. + +D'onde nos veio esta fórma de governo? Será difficil dizel-o com rigor, a +meu vêr. A constituição ingleza, a fundação dos Estados-Unidos da America, +a Revolução franceza foram inquestionavelmente dos elementos que mais +concorreram para as transformações politicas em favor da democracia no +ultimo seculo, mas parecem-me insufficientes para darem explicação cabal de +tão largas revoluções. Seria preciso juntar-lhes as obras dos philosophos e +dos sabios que prepararam o espirito popular, e as condições em que o +progresso scientifico collocou a producção da riqueza; seria principalmente +preciso estudar as circumstancias historicas, que determinaram o +estabelecimento da democracia, circumstancias differentes para cada nação. + +Passando da questão de origem á historia dos governos democraticos, vemos +que esta fórma de governo se tem mostrado até hoje d'uma grande +instabilidade; e assim como a sua diffusão rapida através de todos os +paizes da Europa nos leva a suppôr que deveriam existir causas de ordem +geral e communs a todos os paizes, assim tambem a instabilidade do novo +regimen em todas as nações que o adoptaram obriga-nos a suspeitar de que +certamente contraría qualquer tendencia ou elemento essencial das +sociedades modernas. É conhecida a historia da França que, em menos d'um +seculo, está na terceira republica e tem visto alternarem-se monarchias, +imperios e republicas com uma regularidade quasi periodica; a Hespanha, +«entre o primeiro estabelecimento popular em 1812 e a accessão do ultimo +rei, não teve menos de quarenta levantamentos militares de natureza grave, +á maior parte dos quaes se associou a plebe: e sabe-se geralmente o que +teem sido e são ainda as republicas da America. Só na Bolivia, de quatorze +presidentes da republica, treze, morreram assassinados ou no exilio. Se +exceptuarmos a Belgica, os Estados-Unidos e ainda a Italia, poderemos dizer +que por toda a parte os governos populares funccionam mal e não raro são +origem de perturbações sociaes quasi permanentes. + +Podemos concluir da sua historia que a democracia não se nos apresenta como +tendo um largo futuro, e é mesmo a fórma de governo que se tem mostrado +mais fragil, mais facilmente sujeita a constantes mutações. + +«É possivel encontrar as causas d'esta singular falta de equilibrio dos +tempos modernos? É, a meu vêr, em certo modo. É preciso notar que, desde o +começo do seculo presente, dois sentimentos nacionaes bem distinctos actuam +sobre a Europa occidental. Para lhes dar o nome que lhes dão os que os +detestam, um é o Imperialismo e o outro o Radicalismo.» + +Todo o homem observador terá notado que em todas as nações modernas ha uma +larga aspiração de engrandecimento, de ordem e de independencia. Isto que +no individuo adquiriu tal desenvolvimento que chega a constituir um dos +generos mais vulgares de loucura, o delirio das grandezas, a sêde de +riqueza e poder, manifestam-se na sociedade com igual intensidade. E um +paiz para ser grande, para dar realisação a este sonho absorvente, +necessita um grande exercito, precisa «ter em armas uma quantidade de +homens quasi igual á totalidade dos varões na flôr da edade.» Ora o +Imperialismo e a democracia são irreconciliaveis; a condição por +excellencia do primeiro é a obediencia, e a base fundamental dos governos +populares é a liberdade de discussão e a faculdade de revolta. Sempre que +estas duas tendencias oppostas se manifestarem, a desordem será +irremediavel: a victoria porém raro deixará de pertencer ao Imperialismo, +porque o sentimento da paz e ordem é superior á liberdade, começará por +impor violentamente a obediencia e depois a acção educativa, o habito +torna-lhe a sociedade absolutamente docil. + +A segunda das causas de perturbação enumeradas é o Radicalismo. «Não +poderia haver um «signal do tempo» mais formidavel e mais ameaçador, para o +governo popular, do que o nascimento de grupos irreconciliaveis na massa da +população.» Que estes grupos se formem sobre uma illusão ou sobre uma base +realmente justa, e com o ardor bellicoso e a fé indomavel que lhes dão o +aspecto e a rigidez inquebrantavel d'uma seita religiosa, a democracia terá +dentro de si um cancro incuravel. Porque, com a fraqueza d'acção inherente +aos governos populares e que lhes vem da fragmentação e contínua +substituição do poder, e por outro lado com o espirito de guerra +intransigente do Radicalismo, o perigo para a estabilidade da democracia +será tanto maior quanto mais fracos forem os meios de repressão. E aquella, +especie de Radicalismo que nos apparece com o nome de nihilismo, anarchismo +e semelhantes, até hoje, ainda não encontrou fórma de governo que a +satisfizesse; nem encontrará, por certo, pois que não tem outra aspiração +definida que não seja a desordem permanente. As democracias encontram +realmente n'estas fórmas do radicalismo um inimigo que as faz oscillar +constantemente entre a vida e a morte. + +Entre os males constitucionaes dos governos democraticos e que os embaraçam +de alcançar o ideal que no dominio abstracto lhes parecia destinado, é a +pulverisação do poder politico. + +Hobbes pensa que, quando um homem aspira a ser livre, o que realmente +deseja é uma parte do governo. É o que a democracia lhe concede; mas esta +parte no governo é effectiva? Ouçamos as palavras de James Stephen que +Maine transcreve: «O individuo que póde amontoar o maior numero de +fragmentos politicos n'um só monte governará o resto... Em certos momentos +um caracter energico, n'outros a astucia, n'outros a capacidade +administrativa, n'outros a eloquencia, n'outros a posse dos logares communs +e a facilidade de os aproveitar n'um fim pratico, permittem a um homem +trepar pelos hombros dos seus visinhos e dirigil-os n'este ou n'aquelle +sentido; mas em todo o caso os que estão na fileira seguem a direcção dos +chefes d'uma proveniencia ou da outra que tomam o commando da força +collectiva.» + +A historia das eleições é conhecida. É sabido o que significa o alargamento +do suffragio como meio de alcançar uma justa distribuição do poder +politico. Ha uma verdadeira capitalisação politica como a capitalisação +economica; d'esta resulta o agiota, d'aquella o empresario politico, o +nosso influente. A nação mais democratica do mundo, ou pelo menos apontada +como tal, os Estados-Unidos, é o melhor exemplo da significação que tem o +direito de votar; alli, o voto é uma mercancia como o algodão ou os +cereaes, o poder é para quem mais souber capitalisar. Por isso não será +temeridade affirmar que o suffragio universal «torna-se na pratica a base +natural d'uma verdadeira tyrannia.» Infelizmente para nós, temos conhecido +de sobejo estas guerras do feudalismo politico e a era dos marquezados +eleitoraes parece estar muito longe do seu fim. + +Supponhamos porém que este vicio é susceptivel de correcção, supponhamos +que o suffragio universal chega um dia a funccionar em perfeita liberdade. +A hypothese é irrealisavel porque a liberdade implica a concorrencia e, +dada esta, os ambiciosos e os partidos surgem immediatamente nas suas +diligencias de colheita. Mas, se fosse possivel que o suffragio popular +funccionasse em perfeita liberdade, não teriamos n'elle uma garantia de +progresso, porque é sabido quanto o espirito popular é, em regra, adverso +ás transformações que o progresso scientifico indica. Ha mesmo certa +opposição entre a democracia e a sciencia. + +Ao mesmo tempo que a vida dos governos democraticos pela instabilidade e +desordem contínuas, nos faz duvidar do seu futuro e nos deixa sem esperança +de podermos alcançar por meio d'elles a ordem e segurança necessarias ao +progresso, por outro lado as lições da historia dão-nos exemplos d'uma +admiravel prosperidade sob regimens politicos bem diversos e até oppostos. +«A historia é fundiariamente aristocrata», diz Strauss. A mais larga +tentativa de regeneração nacional que ha dois seculos tem apparecido entre +nós, o largo plano do marquez de Pombal, se tivesse podido manter-se, com +certeza nos asseguraria um prospero futuro, mas sob uma fórma de governo +que se parecia bem pouco com a democracia. E, todavia, quasi não ha +portuguez intelligente e sincero que não lamente a sua queda. + +«A democracia atheniense,--cujos dias foram tão curtos, e ao abrigo da qual +a arte, a sciencia e a philosophia lançaram uma vegetação tão +maravilhosa--não era senão uma aristocracia elevada sobre as ruinas d'uma +outra aristocracia muito mais restricta. Os esplendores que attraíam a +Athenas todo o genio original do mundo então civilisado alimentavam-se pela +imposição de impostos desapiedados sobre um milhar de cidades vassallas; e +os operarios habeis que, sob a direcção de Phidias, levantaram o Parthenon, +eram simples escravos.» + +Os Estados-Unidos são dos raros exemplos em que a democracia e o progresso +vão associados. Em capitulo especial veremos o que é na realidade a +democracia na America. + +Maine toca n'este ponto uma das questões mais graves das democracias--as +suas relações com a questão social. Crê que desde o momento em que as +classes laboriosas conquistem o poder hão-de pelos seus mandatarios +exercel-o em proveito d'aquellas mesmas classes. Suppoe que a democracia +pretenderá corrigir a injustiça e desigualdade que hoje se dá na +distribuição da riqueza, e d'esta tentativa poderia resultar a sua +aniquilação. Uma parte d'esta destroe-se constantemente pelo consumo e, +para que essa parte se reproduza, é necessario manter a energia dos mobis +da producção: ora estes baseiam-se principalmente na livre concorrencia. +Reconhece que «os mobis que, na hora presente, excitam a humanidade ao +trabalho e ao labor, para resuscitar a riqueza em quantidade sempre +crescente, são de natureza a arrastar infallivelmente a desigualdade na +propria distribuição d'essa riqueza.» Attribue a prosperidade dos +Estados-Unidos ao ardor da lucta pela vida sob um governo «em que todas as +restricções coercitivas se reduzem ao minimo.» A sua «benefica +prosperidade» baseia-se inteiramente na «santidade do contracto e na +estabilidade da propriedade privada: a primeira, instrumento, a segunda, +recompensa do successo na concorrencia universal.» + +«Existem duas categorias de mobis, diz, e existem só duas, sob a influencia +das quaes até hoje se pôde produzir e reproduzir a enorme quantidade de +materiaes necessarios á subsistencia e ao conforto da humanidade.» «O +primeiro systema é o da livre concorrencia», o systema seguido na America +do Norte; o segundo «consiste em dar conta simplesmente da sua tarefa +ordinaria, tarefa fixada talvez por senhores equitativos e bons, mas +imposta aos recalcitrantes pela prisão ou pelo chicote.» Foi d'este ultimo +systema que brotou a maravilhosa prosperidade do Perú sob os Incas. E +termina: «Tanto quanto nol-o ensina a experiencia, somos forçados a +concluir que toda a sociedade deve adoptar um ou outro systema, sob pena de +caír da penuria na inanição.» + +Examinemos as proposições principaes na sua these. + +Em primeiro logar não se prova que a democracia tenha usado em seu proveito +do poder que conquistou. É verdade que o suffragio universal se tornou «a +base d'uma verdadeira tyrannia», segundo a expressão de Maine. Nos governos +democraticos tem-se formado verdadeiras oligarchias administrando os +negocios do Estado em seu proveito. Entre nós, nos ultimos cincoenta annos, +já tivemos dois exemplos de «tyrannias» d'esta especie, uma apoiando-se na +violencia o no favor real, a outra erigindo a corrupção em systema politico +e vivendo por este meio. Estas oligarchias governam em seu exclusivo +proveito; as crises sociaes e economicas que d'ordinario lhes succedem, +provam-n'o superabundantemente. + +Mas, quando a democracia tiver conseguido governar realmente, como é de +esperar das reformas possiveis das instituições e dos costumes, é claro que +não poderá deixar de governar em seu beneficio. As leis que resultarão +d'esse novo estado, serão de natureza a modificar a livre concorrencia e +não afrouxarão por esse facto os mobis da producção da riqueza. + +Entre uma concorrencia desenfreada e um regimen de escravidão existem +estados intermédios. Está seguro da posse das suas terras o proprietario +cujos bens podem ámanhã ser expropriados em beneficio publico? + +Não é o imposto tambem uma parcella do seu trabalho? E, todavia, não +obstante as muitas restricções que já hoje soffre o direito de propriedade, +a lei ainda deixou estimulo bastante para a tornar appetecida. O systema da +livre concorrencia é que na verdade perturba o trabalho, excluindo a plebe +da apropriação dos fructos, mantendo-a invariavelmente na miseria. Maine +sustenta que ha apenas duas categorias de mobis sob a influencia dos quaes +é possivel a conservação e augmento da riqueza--a livre concorrencia e a +escravidão; mas de facto estes systemas são fundamentalmente iguaes. A +livre concorrencia creou o capitalismo que não differe essencialmente da +escravidão; é o que nos estão mostrando claramente as revoluções sociaes +contemporaneas. + +É necessario manter a apropriação dos fructos, como recompensa do trabalho, +e por isso mesmo é necessario tambem estabelecer a concorrencia sob uma +base de justiça na distribuição. Seria para desesperar de todo o progresso +se a politica se mostrasse incapaz de resolver este problema. + +O contracto deve ser «santo» sem duvida: mas a lei é que regula o +contracto. Reduzindo ao minimo a acção coercitiva da sociedade, elevaremos +ao maximo as probabilidades dos contractos immoraes e injustos. + +Ora eu renunciaria de bom grado a toda a politica que não fosse dominada +por um ideal de justiça. Nem só de pão vive o homem, diz o Evangelho; +sacrificar tudo ao exclusivo desenvolvimento da riqueza é abdicar do que no +homem ha de mais digno. Por isso penso que, se porventura as instituições +que teem por fim normalisar a concorrencia conduzirem a um pequeno +afrouxamento da producção, nada teremos a lamentar. + +Temos apontado alguns dos vicios e perigos da democracia. _Quid inde?_ + +Prosigamos a investigação dos seus elementos de fraqueza e procuraremos +depois as conclusões que d'ahi devemos tirar. + + + + +II + +Natureza da democracia + + +N'este segundo ensaio, Sumner Maine volta a determinar a significação da +palavra «democracia». Andando ligadas a este termo ideias muito +differentes, é sempre indispensavel precisar a que em certo momento lhe +attribuimos. Por isso repetiremos que no presente estudo sobre o governo +popular «democracia» não significa «senão uma fórma especial de governo». É +o governo do Estado pela multidão, em opposição ao governo por um só ou por +um pequeno numero; é como o avesso da monarchia. Assim a democracia, como a +monarchia e todo outro governo «tem as mesmas funcções a cumprir, posto que +as cumpra por meio de orgãos differentes.» + +O primeiro dever de todo o governo é «salvaguardar a existencia nacional.» +Manter a inviolabilidade e a integridade do territorio, e mantel-a sem +quebra do respeito e da auctoridade que constituem a grandeza moral d'um +povo, tal é o primeiro e imprenscindivel dever de todo o governo solido, +forte e digno. é uma verdade de primeira intuição que mal carece de ser +demonstrada; ninguem decerto louvará o regimen que conduzir á morte, ao +desapparecimento e á aniquilação do corpo cuja vida devia alimentar e +engrandecer. + +«Se dos deveres externos d'uma nação passamos aos seus deveres domesticos, +vemos que o primeiro de todos é possuir um governo capaz de impôr o +respeito das leis civis e criminaes.» Essa mesma força destinada a defender +o corpo nacional dos ultrajes estranhos, só se tornará totalmente benefica +quando se applicar á manutenção da ordem dentro da mesma individualidade +politica. D'outra fórma a existencia nacional periga igualmente; que a +morte venha d'uma offensa externa ou da desordem e antagonismo dos +elementos constituintes internos, a decomposição é em ambos os casos +inevitavel. Ora a condição de toda a ordem é a obediencia á lei, e o +governo que deixar de a impôr firmemente, arriscando, a existencia nacional +pela permissão da desordem interna, terá faltado a um dos seus mais +imperiosos deveres. + +Aquelles a cujos principios repugna a acção do Estado, apresentam-nos como +modelo e ideal a realisar certas communidades em que a obediencia á lei +reveste um tal caracter de espontaneidade que bem se poderia julgar inutil +a intervenção de qualquer auctoridade. Esquece-se a influencia educativa da +repressão, esquece-se que desde o momento em que faltasse o poder que os +creou, esses habitos lentamente iriam afrouxando e desapparecendo até que a +regressão á barbarie fosse completa. Se a obediencia se obtem sem esforço é +«unicamente porque, durante o decorrer de seculos sem numero, o Estado +soube, pelo cumprimento rigoroso dos seus deveres essenciaes, crear habitos +e inspirar sentimentos que lhe poupem a necessidade de recorrer aos +castigos legaes.» + +Por vicios de organisação ou por natureza, os governos democraticos que +saíram da Revolução franceza teem vivido n'uma agitação social permanente, +muito ao contrario do que exigem os deveres fundamentaes d'um bom governo. +Devemos reconhecer a sua inferioridade n'este ponto, embora seja licito e +justo investigar as origens de fraqueza e procurar se porventura não haverá +meio de lhe dar remedio dentro do mesmo principio de governo. + +Leva-se em conta das qualidades positivas da democracia, a sua actividade +reformadora nos costumes e nas leis, o que carece de ser confirmado pela +historia, se porventura não é radicalmente contrario ao que ella nos +ensina. «As grandes reformas legislativas tiveram por auctores monarchias +poderosas.» «Nós mesmos vivemos na poeira do Imperialismo romano; a parte +mais importante do direito moderno não é outra coisa senão uma formação +sedimentar depositada pelas reformas legaes dos romanos. Esta regra geral +continua a verificar-se em toda a extensão da historia ulterior. O unico +reformador radical do direito na Edade-Média foi Carlos Magno. Foi tambem o +imperio dos Bonaparte que deu curso á nova legislação franceza, a qual como +que inundou toda a superficie do mundo civilisado, porque os governos +immediatamente saídos da Revolução franceza apenas deixaram atraz de si +projectos de leis ou leis praticamente inapplicaveis em consequencia das +contradicções que encerravam.» A verdade é simplesmente que as fórmas de +governo que se apoiam sobre um principio unico são «eminentemente +destructivas». Revestem um caracter absoluto que não consente a existencia +de lei que não seja subordinada aos seus principios. + +Que dizer do enthusiasmo pela democracia e dos hymnos d'uma comica +ingenuidade que a cada passo se ouvem em seu louvor? A admiração, quando +não seja guiada por uma sã razão, conduz necessariamente a este estado de +imbecilidade em que se apagou toda a luz do mais elementar raciocinio. +Todos os governos teem tido os seus fanaticos; seria despiedoso escarnecer +do que é condição das enfermidades permanentes da humanidade. Não +esqueçamos porém quanto é moderno este enthusiasmo pela democracia que não +partilharam aquelles mesmos que mais concorreram para o estabelecimento dos +governos populares. «Tocqueville considerava a democracia como inevitavel, +mas observava a sua approximação com desconfiança e receio.» Thiers +acceitou a republica sendo monarchico; acceitou-a e, o que é mais, +defendeu-a nas horas de maior perigo. «Grote fez o melhor que pôde para +explicar e dissipar a mediocre opinião que professavam, quanto á democracia +atheniense, os philosophos que enchiam as escólas d'Athenas; e entretanto é +um facto que os fundadores da philosophia politica, collocados em presença +da democracia, consideravam-na como uma fórma má de governo, posto que ella +estivesse então em todo o seu vigor juvenil.» + +«Ha de resto um genero de lisonja que a democracia recebeu sempre e +continúa a receber em extrema abundancia: é a lisonja que dirigem ao rei. +Dêmos os que o temem ou desejam attraíl-o, ou que esperam exploral-o.» E +assim era de prevêr; transferida do rei para o povo a origem do poder, +curvam-se diante do novo idolo os que outr'ora se ajoelhavam nos degraus do +throno. _Parendo vinces._ Entre uma e outra situação não ha differença +fundamental; e, se algumas dissemelhanças existem, são ainda em beneficio +da monarchia. Um só homem, de intenções rectas e intelligencia lucida, +podia encontrar o seu caminho por entre os milhões de reptis que o +obscureciam, mas o povo com que cegueira não julga tanta vez! + +É certo e indubitavel que as baixezas da côrte renasceram e medraram nas +democracias. Conhecer os sentimentos e paixões do povo, lisonjeal-os por +todos os modos, embora vão de encontro aos conselhos mais vulgares da razão +e da sciencia, abaixar-se até ao nivel dos mais baixos abdicando de toda a +franqueza e dignidade, tal é o triste calvario que toda a mediocridade tem +pisado para chegar ás regiões supremas do poder. + +De resto, andaria bem irreflectidamente quem d'este enthusiasmo e d'esta +subserviencia aos caprichos populares concluisse alguma coisa sobre o +futuro da democracia. Enthusiasmo e lisonja são e serão sempre apanagio dos +governantes, em volta dos quaes, de mistura com a ingenuidade, zumbem as +ambições a que nenhum meio repugna. «O imperio romano, as tyrannias +italianas, a monarchia ingleza sob os Tudors, a realeza franceza com a sua +centralisação, o despotismo napoleonico, todos foram saudados por +acclamações, na maioria, d'uma franca sinceridade, ou porque a anarchia +acabava de ser açaimada, ou porque pequenas tyrannias locaes e domesticas +se viam forçadas a abdicar, ou porque uma energia nova ia infundir-se na +politica nacional.» + +Jeremias Bentham «reclamava, para os governos dotados dos caracteres +essenciaes da democracia, o privilegio de escaparem melhor que os outros +governos ao que elle chamava influencias _sinistras_.» Estas influencias +são os motivos que levam a preferir o interesse d'uma classe ou d'um só +homem aos interesses da communidade. Entregue-se o poder á communidade +inteira e será exercido em proveito de todos. + +Sumner Maine pretende que esta vantagem que se reclama para a democracia +pertence igualmente ás outras fórmas de governo. Apresenta em abono da sua +asserção factos historicos em que vemos os imperadores e reis cuidarem do +interesse do maior numero com a solicitude e intelligencia que até hoje não +attingiram os governos democraticos. Mas esse interesse não derivaria +exclusivamente d'um pensamento egoista? Não seria antes a necessidade de +procurar na plebe o apoio que as classes privilegiadas lhes recusavam? +Sendo assim, o desvelo facilmente se converteria em oppressão quando os +interesses dos governantes o exigissem. É d'este perigo que a democracia +deverá livrar-nos. + +Maior peso me parece ter a segunda reflexão que Sumner Maine faz sobre o +raciocinio de Bentham. «O mundo compõe-se de vulgar», diz Machiavel; e por +isso a plebe desconhece os seus interesses. «Assim, a these fundamental de +Bentham volta-se contra elle. Pretende que se confiaes o poder ás mãos d'um +homem, servir-se-ha d'elle em seu proprio interesse. Applicai a regra á +totalidade d'uma communidade politica,--deverieis obter um systema perfeito +de governo. Mas se a ligardes a este facto notorio que as multidões são +demasiado ignorantes para entenderem o seu interesse, fornece o melhor dos +argumentos contra a democracia.» + +D'um e d'outro lado ha uma grande somma de verdade. Não padece duvida que +as monarchias procurarão governar em seu proveito, já apoiando-se n'uma +classe, já associando-se á plebe; e é tambem inquestionavel que a +democracia ainda não logrou extirpar este vicio, substituindo apenas os +interesses dos aventureiros e das oligarchias capitalistas aos interesses +das monarchias e aristocracias d'outro tempo. O problema consiste, não em +rejeitar simplesmente a these de Bentham, fundamentalmente verdadeira, mas +sim em encontrar para as democracias uma maneira de funccionar adequada, +realisando praticamente a abolição das influencias sinistras. + +«De todas as difficuldades que encontra uma democracia, a mais grave, a +mais constante, a mais fundamental, liga-se ás proprias entranhas da +natureza humana. A democracia não é senão uma fórma de governo, e em todo o +governo a acção do Estado é determinada pelo exercicio d'uma vontade. Mas +em que sentido póde a multidão querer?» Julga-se vulgarmente que o povo é +capaz de manifestar claramente a sua vontade sobre as questões que a +politica levanta e de facto assim acontece quando estas se apresentam com +simplicidade. Não é este porém o caso mais vulgar; as questões politicas +mais do que nenhumas outras são em extremo difficeis e complexas, e não só +não podemos esperar que a multidão comprehenda e veja o que muitas vezes +não vêem os melhores e mais experimentados espiritos, mas tambem seria +chimera esperar que em tal obscuridade se podesse chegar a um accordo de +opinião. Quando muito, o povo é capaz de adoptar a opinião d'um homem ou +d'um partido, mas seria erro suppôr que procedeu com madureza e reflexão; +ao contrario, os exemplos de todos os dias mostram-nos que a multidão segue +a opinião d'este ou d'aquelle pelo prestigio que o cerca ou por quaesquer +outros motivos estranhos ao seu ideal politico. O mal é tanto mais grave +quanto em nossos dias a democracia se tem mostrado excessivamente zelosa, +sujeitando á censura do povo os mais pequenos actos publicos e embaraçando +toda a administração. O que seria justo, se o governo do povo fosse +effectivo e se aquillo a que chamamos opinião publica fosse mais do que a +opinião «d'uma qualquer personalidade,--ou o chefe d'um grande partido,--ou +um pequeno influente local,--ou uma associação solidamente organisada,--ou +um jornal impessoal.» + +Como meio de remediar a impossibilidade de confiar a administração do +Estado directamente á multidão, tem-se usado o governo «representativo». + +Ficam remediados em parte os males acima expostos; reduzindo o corpo +eleitoral aos representantes da nação, com a reducção do numero crescem +proporcionalmente as probabilidades de alcançar um accordo de opinião e uma +decisão intelligente e justa. Comtudo, este systema que, em principio, +deixando uma grande liberdade aos representantes do paiz parecia realmente +dever prestar valioso auxilio aos governos democraticos, começa agora a +declinar em vista d'uma nova theoria que julga o representante sujeito a um +«mandato imperativo». Como poderá constituir-se a opinião d'uma camara em +que cada deputado representa a opinião d'um circulo? Onde acabam e onde +começam os poderes do mandato? Porventura o deputado não poderá afastar-se +da circular que de costume dirige aos eleitores em vesperas de eleição? Uma +tal maneira de conceber a representação nacional deve irremissivelmente +conduzir a uma perfeita esterilidade e á mais absoluta desordem. «A +obstrucção que os politicos experimentados deploram com tantas lamentações +e surprezas, não é outra coisa senão um symptoma da doença familiar aos +grandes corpos governativos. Provém do grande numero de deputados e da +diversidade de opiniões que luctam para abrir caminho.» O mal póde muito +bem converter-se no abandono ao poder executivo da maior parte da +auctoridade legislativa das camaras. + +Pretende-se ainda corrigir a grande difficuldade dos governos democraticos +por meio do «plebiscito». N'este caso apresenta-se a todo o paiz as +questões sobre que é preciso conhecer a opinião do povo e todo o eleitor +não terá mais do que responder _sim_ ou _não_. Foi por este meio que um +despota militar obteve do povo francez uma resposta favoravel a tudo quanto +quiz para estabelecer o seu imperio. + +Sob o titulo de _Referendum_ o plebiscito faz parte da constituição federal +da Suissa, e por muitas vezes o povo d'aquelle paiz tem exercido este +direito. Desde que um certo numero de cidadãos o pretende, uma lei +approvada pelo parlamento só entra em vigor depois de ter recebido a +sancção popular. Sem que se possa dizer que a experiencia deu maus +resultados, «em contrario do que se esperava e com o amargo desapontamento +dos auctores do _Referendum_, leis da mais alta importancia, redigidas +muitas vezes manifestamente com um fim de popularidade, soffreram o _veto_ +do povo, depois de terem sido adoptadas pela legislatura.» Maine explica +este resultado pelo cansaço do eleitor que, depois da agitação e das luctas +que um facto d'esta ordem provoca, acaba por dar uma resposta negativa a +quanto lhe propõem. + +Demais, as grandes reformas que principalmente a industria moderna tem +realisado seriam igualmente levadas a effeito se dependessem da approvação +popular? Seja-me permittido duvidar: as grandes reformas demandam +qualidades de intelligencia e caracter de que o povo carece. «O mundo +compõe-se de vulgar», na phrase tão verdadeira de Machiavel. + +Entre as forças que a democracia tem chamado em seu auxilio como meio de +dar á sociedade politica a cohesão indispensavel para que a auctoridade +governativa se exerça energicamente, entre as forças cujo apoio tem +buscado, estão o espirito de partido e a corrupção. + +«Entre as influencias capazes de arregimentar, como o demonstra a historia, +massas de cidadãos sob o jugo d'uma disciplina civil, o espirito de partido +e a corrupção são provavelmente tão velhos como a propria politica. O +grande historiador da Grecia descreveu-nos, em algumas das suas paginas +mais commoventes, a ferocidade selvagem das luctas de partido no seio dos +estados gregos; e nada se approxima, nos tempos modernos, da escala +grandiosa em que se praticava a corrupção, por occasião das eleições da +republica romana, não obstante todos os embaraços accumulados em contrario +por uma fórma antiga de escrutinio.» + +O espirito de partido tem qualquer coisa de religioso e muito de militar; é +religioso pela repugnancia que anda ligada á abjuração d'uma primeira +confissão, é militar pela obediencia que impõe. Se alguma coisa prejudica +os seus beneficios, é simplesmente embaraçar por vezes a pratica da +justiça, da franqueza, da lealdade e de tantas outras virtudes que na vida +particular resumem o que ha de mais nobre no coração humano. Todavia, nos +governos democraticos é o seu principal apoio, o elemento politico de maior +energia que encerram, e seria deploravel que afrouxasse ou desapparecesse +emquanto as sociedades não encontrarem novas bases de cohesão. + +A corrupção é o maior cancro dos governos populares; e, se não lhes é +peculiar, encontra n'elles um terreno tão adequado que tem sido levantada +ás honras de systema politico. De facto, assim acontece; os homens que na +sua vida particular foram d'uma inteira abnegação e desinteresse, na +politica mais do que uma vez recorreram á corrupção, convencidos de que +ella era o unico meio de crear um grupo politico unido e disciplinado, base +essencial a um governo estavel e fecundo. Erige-se a corrupção em systema +politico, na descrença de todo o sentimento nobre e de todo o mobil d'acção +que não seja um sordido e insaciavel egoismo. Tão baixo desceu o nivel +moral das sociedades contemporaneas! + +Os Estados-Unidos da America são famosos pela sua corrupção: são a par da +Russia o paiz em que a corrupção é companheira inseparavel de toda a +funcção publica. Ha porém uma differença: é que na Russia, na opinião d'um +escriptor que a conhece muito bem, aquillo que nós chamamos corrupção, +reveste aos olhos dos naturaes o caracter d'um legitimo tributo, +auctorisado pela tradição oriental. + +Na verdade, os Estados-Unidos, que tantas vezes os democratas nos apontam +para exemplo, teem o primeiro logar no rol da politica de corrupção. E a +França foi mais feliz com a sua republica? Os homens de estado que a +dirigem convenceram-se de que, como na America, na dissolução de todos os +vinculos sociaes só poderiam contar com o egoismo. «A corrupção publica +attinge alli proporções incriveis, com projectos de obras publicas +excessivas e extravagantes, n'uma das extremidades da escala, emquanto no +outro extremo se abre o trafico de votos nas associações eleitoraes, para +os innumeraveis pequenos logares que estão á disposição da administração +franceza, uma das mais centralisadas que se conhece.» + +Sem pretender que a corrupção seja um mal exclusivo dos governos +democraticos, creio que todo o homem observador reconhecerá comigo que as +democracias assentes n'uma base individualista, activando a concorrencia e +dando entrada na vida publica aos mais pequenos, são um terreno +eminentemente favoravel a este desolador espectaculo de ambições e baixezas +que os tempos modernos nos dão incessantemente. + +Resumindo: sem negar muitas das vantagens dos governos populares nem mesmo +contestar a legitimidade do principio em que se baseiam, a representação, +quiz simplesmente mostrar nas presentes considerações as graves +difficuldades do seu exercicio, até agora ainda não resolvidas de maneira a +assegurar a ordem na sociedade e uma administração intelligente e proba. + + + + +III + +A edade do progresso + + +Nos governos populares, um dos erros maiores e mais fecundos em +consequencias desastrosas tem sido a confusão entre mudar e progredir. Os +paizes mais ou menos claramente governados pela democracia, nos ultimos +cincoenta annos, entraram n'este «periodo de legislação contínua» que +accumula reformas sobre reformas e, não contente de ter rompido +violentamente com o possado, á falta d'outro alimento devora hoje o que +hontem creou, n'uma fecundidade apparente, mas n'uma esterilidade real. Os +decretos e leis que os parlamentos da Europa votam cada anno constituiriam +só por si uma immensa bibliotheca; chegamos a uma febre legislativa tão +intensa que as camaras quasi não discutem orçamentos e contas, porque o +tempo mal chega para reformas; não ha partidos conservadores, não se cuida +em consolidar, corrigir e desenvolver; para deante, sempre para deante, +caminhar rapida e incessantemente é a aspiração commum e unica. Nos paizes +em que houve uma aristocracia poderosa, e mesmo em Portugal, não é raro +encontrar vastos palacios, traçados sobre largos planos, mas em grande +parte por concluir; o edificio que a democracia se propõe levantar é +magestoso, mas receio que, se não adoptar melhor systema de administração, +lhe aconteça como aos palacios fidalgos em que estavam lançados alicerces +para tudo, mas não havia parede concluida. + +«Existe uma certa semelhança entre o periodo das reformas politicas no +seculo dezenove e o periodo da reforma religiosa no seculo dezeseis. Hoje, +como então, um pequeno grupo de chefes emprehendedores distingue-se da +multidão dos sectarios dóceis. Hoje, como então, encontra-se um certo +numero de beatos zelosos que desejam mais do que tudo o reino da verdade. +Ha alguns para quem o movimento que activam, não é senão um meio de se +subtraírem ao que é francamente mau; outros vêem alli o meio de saír d'uma +situação apenas supportavel para ganharem uma situação melhor; para um +pequeno numero é incontestavelmente a elevação a um estado ideal, que +concebem umas vezes como um estado natural, outras como uma especie de +millenio cheio de promessas. Mas atraz d'estes, hoje como outr'ora, vem a +multidão que se embriaga com o prazer de mudar por mudar.» Paixão egoista +ou paixão individualmente desinteressada, imitação inconsciente ou fraqueza +e cega sujeição aos instinctos populares, o prazer de mudar apoderou-se da +nossa época com uma força poderosa em constante actividade. Se esta força +se póde tornar effectiva, se a mudança é real e, n'este caso, se tem como +resultado a melhoria promettida, eis o que convém saber para avaliarmos a +sua influencia e beneficios. + +A paixão de mudar é devida «a phenomenos universaes e permanentes da +natureza humana» ou deriva de «causas excepcionaes que affectam +momentaneamente a esphera da politica»? No primeiro caso será invencivel e +a sua acção constante, como a de todos os elementos naturaes; no segundo +caso será susceptivel de destruição e a sua acção transitoria e por vezes +ephemera. Ora, observando a historia dos costumes e instituições, e a vida +social dos differentes povos, somos levados a crer que «o estado normal ou +natural da humanidade não é o estado progressivo; é a estabilidade e não a +instabilidade. A immobilidade da sociedade é a regra, a sua mobilidade a +excepção.» + +A todo o mundo musulmano repugna a mais pequena alteração dos seus costumes +e leis, e os negros da Africa detestam-n'a igualmente. A China ha muitos +seculos que attingiu uma completa immobilidade e, não obstante ter andado +tão intimamente envolvida com as raças de espirito e civilização +differente, conserva as suas tradições com uma fidelidade, maravilhosa em +taes circumstancias. + +Se estes factos podem ser julgados como demonstração insufficiente, por se +referirem a raças que chegaram ao limite do desenvolvimento compativel com +a sua capacidade, voltemo-nos para a Europa e veremos que, á parte a +esphera mais propriamente chamada politica, as mudanças nunca são tão +radicaes e profundas como apparenta a febre legislativa. O inglez em +Portugal, o portuguez na India, na Africa ou no Brazil, todos os emigrados +revelam por todo o mundo a sua origem pela tenacidade com que conservam os +habitos do seu paiz. Ha individuos e raças com um extraordinario poder de +adaptação e que por momentos parecem invalidar a regra; mas não só os +habitos primitivos nunca se transformam completamente, mas apenas encontrem +condições apropriadas voltarão a manifestar-se energicamente. A faculdade +de adaptação a habitos differentes é, em regra, muito limitada +relativamente ao fundo permanente e indestructivel que caracterisa os +diversos ramos da especie humana. + +Passando dos habitos ás maneiras, encontraremos fixidez semelhante. «Um +solecismo de maneiras ou de linguagem», «a irregularidade commettida no uso +d'um garfo», «a pronuncia viciosa d'uma vogal ou d'uma lettra aspirada» são +motivos de antipathia ou repulsão. «Conhecemos de fonte certa a existencia +d'este sentimento. Está longe de ser de apparição moderna; a sua origem é, +pelo contrario, muito antiga, provavelmente tão velha como a humanidade. As +distinções, de antiguidade incalculavel, entre uma raça e uma outra raça, +entre o grego e o barbaro, com toda a reciprocidade de antipathia que +arrastavam, parecem não ter tido, em principio, outro fundamento senão uma +certa repulsão occasionada por variantes de linguagem. Note-se que este +sentimento não se confina nas regiões ociosas, ou, se quizerem, superfinas +da sociedade. Penetra até á mais humilde esphera social em que o quadro das +maneiras, posto que differente, se impõe talvez com mais rigor.» + +N'uma parte muito importante das sociedades europeias, nas mulheres, o +espirito conservador revela-se com inteira franqueza. O facto é digno de +notar-se e de valor, se considerarmos que até agora as mulheres se teem +conservado estranhas á politica, com excepção de certos individuos em que a +paixão politica se apresenta com um caracter morbido. Não se póde negar +que, não obstante os aphorismos em contrario, ninguem é mais constante do +que a mulher. No seu espirito, as regras de cortezia e de moral persistem +com singular tenacidade e a mais pequena infracção reveste aos seus olhos +um caracter bem mais grave do que aos olhos dos homens. Note-se como lhe +repugna abandonar os prejuizos aristocraticos e as distincções +convencionaes de classe. Aquillo mesmo a que chamamos _modas_, e que de +ordinario se julga d'uma instabilidade infinda, não varia afinal tão +radicalmente como se imagina ao simples aspecto d'uma renda posta á direita +ou á esquerda. As figurinhas de Tanagra teem no trajar semelhanças +frisantes com as mulheres do nosso tempo. O espirito conservador da mulher +é um facto incontestavel. + +A prehistoria mostra-nos que as differenças entre o homem selvagem e o +homem civilisado são bem menos profundas do que nos fazia suppôr o atrazo +scientifico. Sem duvida, as differenças são grandes, mas a prehistoria pôz +a descoberto o fundo inalteravel da natureza humana, e as semelhanças e o +remanescente do estado selvagem surprehendem-nos pela sua largueza. «A +gente civilisada entrega-se com a maior diligencia a occupações, e +abandona-se com o maior prazer a distracções que seria incapaz de explicar +sob o ponto de vista racional, ou de conciliar com os preceitos da moral +corrente. Estas occupações e estas distracções são, em geral, communs ao +homem civilisado e ao selvagem.» Ambos combatem, caçam e dançam; ambos se +deixam seduzir pela rhetorica; e ambos finalmente permanecem, fetichistas, +um com seu amuleto, o outro com «as palavras, phrases, maximas, proposições +geraes cuja raiz se crava em theorias politicas tao completamente +esquecidas da maior parte da humanidade como se remontassem á mais +longinqua antiguidade.» Verdadeiro fetichismo, porque, quando buscamos as +causas d'este estado de espirito que no dominio da politica nos leva á +reforma legislativa continua, «parece não provir senão em pequenissima +parte de convicções intelligentes, e derivaria antes, e de largo modo, do +effeito que produzem ainda formulas e noções emprestadas a theorias +politicas completamente arruinadas.» + +As doutrinas de Rousseau, dando á sociedade uma nova base, tinham como +consequencia uma organisação inteiramente nova; d'ahi a reforma radical da +legislação. O _Contracto social_ requeria a intervenção do povo a cada +instante, este despotismo do numero, tão fecundo em catastrophes; toda a +lei carece de ser _referendada_ pela multidão para que a soberania popular +se mantenha. Era assim que se devia chegar á sonhada liberdade e igualdade +absoluta. O tempo mostrou a inanidade de taes especulações, hoje +inteiramente caducas na mente dos publicistas, dos philosophos e de quantos +vêem a politica com olhos intelligentes, desvendados das perigosas +concepções _a priori_. Como acontece que theorias por completo refutadas +continuem ainda a alimentar a actividade legislativa, com um fim manifesto +de transferir para a multidão todos os poderes, banindo toda a influencia +corporativa e buscando uma igualdade que existe na lei mas que na realidade +é escravidão? A theoria morreu, mas ficaram as divindades que creou. As +theorias politicas «dão origem a uma quantidade de phrases e de ideias +associadas a essas phrases, cuja actividade e caracter aggressivo persistem +muito tempo depois da mutilação ou da morte da especulação-mãe.» +Encontramos aqui uma série de phrases sonoras, vazias de sentido, mas +conservando uma influencia que sobreviveu ás ideias; encontramos, n'uma +palavra, o fetichismo politico, a causa principal d'este legislar +ininterrompido e infindo. + +Entre as causas secundarias do movimento reformador deveremos tambem +apontar a associação entre o progresso politico e o progresso scientifico e +o desenvolvimento industrial correlativo. Com os caminhos de ferro, a +machina de vapor e o telegrapho imagina-se que devem coexistir innovações +politicas parallelas. O que não é exacto: sem duvida, o progresso +industrial por muitos modos influe vantajosamente no desenvolvimento +intellectual e seria grave erro pretender contestal-o; mas, tendo a +politica e a sciencia campos d'acção distinctos e separados, posto que +dependentes em parte, segue-se que as transformações d'um lado não envolvem +necessariamente identicas transformações do outro lado, senão n'aquella +parte restricta e limitada em que as duas espheras se tocam. A sciencia +estabelece as relações do homem com a natureza, a politica as relações +sociaes entre os homens; e, por conseguinte, a sciencia poderá ser factor +politico, mas a politica não deverá em boa logica ser-lhe subordinada, +dadas as relações heterogeneas que respectivamente as constituem. Os factos +scientificos correntes estão a mostrar-nos a cada passo o perigo d'uma tal +associação. Se do desenvolvimento scientifico alguma coisa houvessemos de +trazer para a politica, seria tudo em prejuizo da democracia; pois não só a +sciencia nos indica que a fórma de governo natural é a escravidão, mas +temos visto quanto são ás vezes impopulares as reformas industriaes que +acarretam á humanidade larga somma de bem-estar. + +Não confundamos: a politica não deve ser subordinada á sciencia, mas o +desenvolvimento scientifico póde em certos casos exigir transformações +politicas. Assim, presentemente, tendo crescido a riqueza e tendo a sua +producção ficado nas condições inteiramente novas que lhe estabeleceram as +applicações industriaes das modernas descobertas scientificas, é claro que, +variando os processos de producção, as instituições economicas terão de se +adaptar a este novo estado; mas vae longe d'aqui e de factos semelhantes a +estabelecer paridade e relação necessaria entre o progresso scientifico e +reforma legislativa. + +Considerando o caracter estavel da humanidade em geral, e tendo em vista +que a presente actividade reformadora deriva de theorias politicas que a +razão e a experiencia mostraram completamente destituidas de verdade e não +susceptiveis de applicação, seremos levados a concluir que a democracia +erra tomando toda a mudança por um progresso, e, ao contrario, deveria +attender a que o progresso é lento e limitado. «Nem a experiencia nem o +senso commum nos permittem crêr que se possa votar infinitamente innovações +legislativas ao mesmo tempo prudentes e beneficas. Seria, pelo contrario, +mais sensato conjecturar que as reformas possiveis são em numero +estrictamente limitado. O calor possivel, diz-se, póde atigir 2000° +centigrados; o frio possivel póde descer a 300° abaixo de 0. Mas toda a +vida organica seria impossivel n'este mundo, se os acasos da circulação +athmospherica não mantivessem a temperatura entre um maximo de 120° e um +minimo de alguns graus abaixo de zero centigrado. Tanto quanto nos é dado +saber, as mudanças legislativas de que parece susceptivel a estructura da +sociedade humana poderiam conter-se n'um limite igualmente estreito. E, +porque certas reformas succederam no passado, não deveremos pretender que +todas as reformas succederão no futuro, do mesmo modo que não podemos +sustentar que o corpo humano póde supportar uma elevação indefinida de +temperatura, desde que póde supportar uma certa quantidade de calor.» + +O radicalismo democratico, inspirando-se em simples presumpções, abandonou +a tradição, isto é, todo o thesouro accumulado por longos seculos de +experiencia politica. Restaural-a em grande parte é hoje uma necessidade; é +o que nos aconselha o exemplo dos paizes que, mais bem avisados, se +recusaram a destruir as suas constituições historicas e, sem preoccupações +philosophicas nem prejuizos de logica, se contentaram com transformal-as ao +passo e medida que as necessidades publicas o reclamavam. + + + + +IV + +Os Estados-Unidos da America + + +Em quasi todas as profissões, o noviço precisa de padrinho, precisa do +apoio d'alguem, já admittido na classe, para lhe dar credito e abonar as +suas aptidões e qualidades; entregue ás proprias forças, corre grande risco +de ficar sempre n'uma posição inferior, a não ser que tenha uma capacidade +e talento excepcional. Na historia dos governos populares, os +Estados-Unidos da America foram e são no espirito dos republicanos a +garantia da estabilidade, ordem, riqueza, liberdade e segurança dos +governos democraticos. Vejamos pois rapidamente que estranha constituição é +a d'esse paiz, e até que ponto é justificado o desejo e a anciedade de a +transportar e aclimar na Europa. + +É de facto maravilhosa a vitalidade d'aquella fórma de governo que pôde +atravessar incolume uma época em que as republicas mereceram tão pouco +credito. Emquanto a primeira republica franceza. lançando mão dos mais +tristes expedientes, não se embaraçando nem com o desterro nem a +guilhotina, cahiu em completo desprezo e teve por epilogo uma severa +tyrannia militar, os Estados-Unidos, na perplexidade e tumulto que deixam +uma guerra e emancipação recentes, prosperavam e acreditavam-se sob um +governo que, na opinião vulgar, era igual ao que na Europa se mostrava +absolutamente impotente. É que analysando a constituição federal a os +debates que precederam e seguiram o seu estabelecimento, vemos que a +republica na America é muito differente d'aquillo que geralmente se suppõe; +foi um governo traçado pelos velhos moldes da monarchia britannica e tão +rigorosamente conforme com esta quanto o permittiam as condições +particulares d'aquelle paiz. Os homens que o crearam, tinham sido educados +nas instituições inglezas e não tinham motivo algum para as menosprezar; +procuraram e alcançaram a independencia mas, satisfeito este primeiro +desejo, não conheceram outro modelo a seguir no seu regimen politico +interno senão aquelle que uma longa experiencia lhes tinha mostrado bom. +Naturalmente, não podia levantar-se a questão d'um rei hereditario n'um +paiz que acabava de se livrar do unico rei que tinha conhecido, e a eleição +do supremo magistrado da nação surgiu naturalmente como a unica solução nas +condições particulares d'aquelle momento. Semelhantemente ao que aconteceu +na França, que Thiers destinava á monarchia constitucional, mas a quem as +circumstancias mostraram que a republica era a melhor solução n'aquelle +momento. A 8 de junho de 1871 dizia á assembleia nacional que «toda a sua +vida tinha pousado no governo que o seu paiz podia desejar, e, se tivesse o +poder que mortal algum teve jámais, teria dado ao seu paiz o que, na medida +das suas forças, durante quarenta annos diligenciára assegurar-lhe sem +poder conseguil-o--a monarchia constitucional da Inglaterra»; e a 15 de +setembro de 1872 escrevia, depois d'uma viagem ao Havre, que «ficára +convencido de que só com a ideia da republica se podia agremiar a nação e +fazel-a um todo governavel.» «É em mim uma convicção sincera e +desinteressada, e as numerosas cartas que recebo, confirmam-me n'este +pensamento.»[2] Assim na America os fundadores da republica prefeririam a +monarchia, e mostravam-no bem, creando uma republica tão semelhante á +monarchia quanto n'aquelle caso o podia ser. + +«É preciso ter sempre presente ao espirito que a edificação da constituição +americana differe absolutamente do processo para fundar uma constituição +nova, que podemos vêr applicado hoje na Europa continental, com intervallos +de poucos annos, e que se assemelha ainda menos á fundação d'uma republica +nova no sentido actual da palavra. Qualquer que seja a occasião que dê +nascimento a uma d'estas constituições europeias, as instituições novas são +sempre affeiçoadas a um espirito de amargo resentimento contra as antigas +que, no melhor caso, passam por uma dura prova. Mas os colonos da America, +recentemente libertos, estavam mais do que satisfeitos com a maioria das +suas instituições, que eram, em summa, as instituições das diversas +colonias a que pertenciam. E posto que tivessem supportado uma guerra feliz +para se libertarem do rei da Grã-Bretanha e do parlamento britannico, não +sentiam nenhuma antipathia especial contra os reis ou os parlamentos +propriamente ditos. Pretendiam sómente que o rei da Inglaterra e o +parlamento britannico tinham merecido, por causa de usurpação, a perda dos +direitos que poderiam ter, e que tinham soffrido justa punição sendo +desapossados d'esses direitos. Nascidos livres e inglezes, não deviam +provavelmente ser inclinados a negar o valor dos parlamentos; e, quanto aos +proprios reis, é provavel que a maior parte, dos _insurgentes_ tivessem +partilhado algum tempo, por sua conta, a opinião juvenil de Alexandre +Hamilton que, negando o direito da supremacia parlamentar sobre as colonias +britannicas, salvo nos limites em que estas o reconheciam, sustentava que +«o principio connexivo, o principio penetrante», necessario para ligar um +certo numero de communidades individuaes sob um só chefe, não podia +encontrar-se senão sob a pessoa e prerogativa d'um rei...» E porque a +America não tinha esse rei, teve de recorrer á eleição. Mas vae longe +d'aqui ao estabelecimento d'uma republica tal qual modernamente se entende, +isto é, baseada n'uma larga extensão do suffragio intervindo nos negocios +publicos a cada instante. Passando os olhos pelas principaes instituições +da constituição americana--presidencia da republica, supremo tribunal, +senado, camara dos representantes--veremos quanto os Estados-Unidos estão +distantes da moderna concepção da republica e se approximam das +instituições da monarchia ingleza de ha um seculo. + +É manifesta a semelhança entre o presidente dos Estados-Unidos e o rei da +Grã-Bretanha. Ao presidente compete todo o poder executivo; é commandante +em chefe do exercito e da marinha; e com o conselho e consentimento do +senado conclue tratados, nomeia os embaixadores, os ministros, os juizes e +os demais titulares das funcções superiores. Possue um direito de veto +limitado e a faculdade de convocar o congresso, quando não houver sido +determinada uma época especial para a sua reunião. A semelhança entre o +presidente e o rei é tão estreita que este era um dos argumentos dos +adversarios da constituição. Hamilton respondia-lhes que não havia a +escolher senão entre um presidente e um conselho executivo, mas, n'este +ultimo caso, receava que o espirito de opposição e de partido paralysasse +toda a acção executiva d'uma corporação d'esta ordem: e insistia nas +differenças--a duração temporaria das funcções presidenciaes, a +participação do senado nos seus poderes e o veto limitado. Comtudo a origem +é manifesta e não póde haver duvida de que, ao determinar as funcções do +presidente da republica americana, o legislador tinha diante dos olhos a +constituição da Grã-Bretanha. A semelhança é tão grande que no plano +original, posto que a eleição fosse de quatro em quatro annos, o presidente +era indefinidamente reelegivel e só muito posteriormente foi estabelecido o +periodo maximo de oito annos. + +«Se Hamilton tivesse vivido cem annos mais tarde, a sua comparação do +presidente com o rei seria apoiada sobre traços inteiramente differentes. +Deveria confessar que dos dois o funccionario republicano era bem mais +poderoso. Teria de notar que o veto real contra a legislação, veto que, em +1789, não se julgava ainda inteiramente perdido, tinha depois desapparecido +para sempre. Teria a observar que os poderes partilhados entre o presidente +e o senado eram absolutamente retirados ao rei; que o rei não podia mais +declarar a guerra nem concluir tratados; que não podia nomear embaixador +nem juiz; que não podia mesmo escolher o seu primeiro ministro. Não poderia +praticar nenhum acto executivo. Todos os seus poderes passaram no que +Bagehot chama um _comité_ do parlamento. Mas, ha um seculo, a unica +differença real e essencial entre as funcções do rei e do presidente era +que esta ultima não tinha caracter hereditario.» + +O supremo tribunal é uma das instituições mais importantes dos +Estados-Unidos e, embora derivada da experiencia e da philosophia europeia, +póde dizer-se americana porque foi a America quem primeiro lhe deu plena +realisação. A constituição, tendo limitado distinctamente os poderes das +auctoridades legislativa e executiva, para o caso em que esses poderes +fossem transgredidos por um estado ou pela federação, incumbiu a annullação +d'esses actos ao supremo tribunal ou aos tribunaes que em certo momento +fossem instituidos pelo congresso. Esta prerogativa, porém, só poderá +exercer-se em casos determinados, isto é, quando haja litigio definido +entre individuos, estados particulares ou a união. + +«O successo d'esta experiencia cega-nos sobre a sua novidade. Não lhe +encontramos precedente exacto nem na historia do mundo antigo nem na do +mundo moderno. Os fabricantes de constituições prevêem d'ordinario a +violação das clausulas constitucionaes; mas, em geral, não tinham procurado +o remedio exclusivo senão no direito criminal, procedendo contra os +culpados, e não no direito civil. E nos governos populares, o temor e os +zelos de toda a auctoridade que não fosse directamente delegada pelo povo é +causa de que a solução da difficuldade tenha sido muitas vezes abandonada +ao acaso ou á arbitragem das armas.» + +Note-se todavia que esta instituição, que praticamente se mostrou +maravilhosa, não é tão original como á primeira vista se poderia julgar. É +facil descobrir as suas origens na Europa, Em primeiro logar, parece fóra +de duvida que os principaes auctores da constituição federal eram muito +lidos nas doutrinas de Montesquieu e ouviram em grande parte os seus +conselhos; ora é Montesquieu que nos affirma ser necessaria uma separação +essencial entre os poderes legislativo, executivo e judicial, distincção +que hoje é moeda corrente em politica por tal modo que nos é difficil +acreditar «que a differença de natureza entre os poderes legislativo e +executivo fosse ignorada até ao seculo quatorze.» Depois, esta mesma +confusão entre os differentes poderes do estado tinha dado logar em +Inglaterra a longos e frequentes debates sobre questões de direito +constitucional, e era de prevêr que os americanos, com a sagacidade e +lucidez que empenharam na fundação da sua lei organica, não deixassem de +tentar remedio ao que na Europa era a esse tempo um mal reconhecido. +N'estes dois factos poderemos encontrar as origens europeias das +prerogativas do supremo tribunal em questões de direito constitucional. + +O congresso compõe-se do senado e da camara dos representantes. E. Freeman +vê n'este facto uma das provas mais cabaes da proxima filiação da +constituição federal nas instituições inglezas. Concebe-se que n'um paiz +novo e sem tradições independentes se tivesse estabelecido uma, tres ou +quatro camaras, mas a escolha de duas demonstra que os legisladores tinham +em vista os modelos britannicos. + +O senado americano compõe-se de dois senadores por cada estado, eleitos por +seis annos pelas legislaturas locaes. É presentemente um dos corpos +politicos mais poderosos do mundo. A camara dos representantes a quem +juntamente com o senado pertence o poder legislativo, é composta de membros +eleitos todos os dois annos; os eleitores são, em cada estado, os que +tiverem «as qualidades requeridas dos eleitores encarregados de nomear o +ramo mais numeroso da legislatura do estado.» A camara dos representantes é +um corpo mais exclusivamente legislativo do que o senado; emquanto este tem +o direito de se oppôr ao presidente, cujos actos em muitos casos precisam +do seu consentimento, a camara dos representantes, com quanto tenha o +direito de vigiar os actos do poder executivo, possue-o em condições que +devem surprehender os parlamentos do nosso continente, habituados a +intervir a cada instante no que é da attribuição exclusiva do poder +executivo. Eis summariamente o caminho que no parlamento federal segue a +interpellação d'um ministro, como vulgarmente lhe chamamos: A camara está +dividida em muitas commissões, abrangendo todos os ramos do governo. +«Primeiro, quando se deseja informações do secretario d'estado ou de +qualquer outro ministro, é preciso obter o assentimento da camara. Uma vez +por semana, e n'esse dia sómente, «as questões a dirigir aos chefes dos +departamentos executivos devem fazer parte da ordem do dia para serem +enviadas ás commissoes especiaes; e as sobreditas questões devem ser +objecto d'um relatorio á camara na semana immediata.» Ás vezes, se me não +engano, o ministro vem á commissão; mas, se o preferir, póde limitar-se a +responder á decisão da camara por uma communicação em fórma dirigida ao +_Speaker_. Este processo cuidadosamente calculado corresponde ao nosso uso +mal definido, e tão pouco regular, de apresentar as questões e obter a sua +resposta em plena camara.» + +As propostas de lei teem um processo semelhante. Como os ministros não teem +assento na camara, as propostas hão de provir necessariamente d'um membro +do parlamento. Uma vez apresentadas serão invariavelmente submettidas á +respectiva commissão, d'onde podem voltar á camara convenientemente +relatadas, sendo porém raro o numero d'aquellas a que isto acontece. +Systema prudente, que tem por consequencia dar ás relações do poder +executivo e legislativo um caracter inteiramente differente do que tem nas +democracias da Europa. + +Não sei por que estranha perversão politica, entre nós substituiram-se +mutuamente os poderes legislativo e executivo. A iniciativa das leis parte +dos governos; e das camaras cae permanentemente uma chuva cerrada de +interpellações, pedindo contas de tudo, por tudo, d'aquelles actos para que +a reserva é uma condição de successo. Qual o resultado? O poder legislativo +não legisla, mas intervem e embaraça a cada passo a acção do governo, +nomeia e demitte os ministros, que d'ordinario teem a sua sorte ligada ás +propostas de lei que apresentam. D'aqui resulta uma completa inversão de +funcções e a desordem, anarchia e fraqueza consequentes. Nada d'isto +acontece nos Estados-Unidos, onde, estando os poderes precisamente +limitados, o governo nada tem que vêr com as deliberações da camara dos +representantes e a approvação ou rejeição d'uma proposta de lei não +embaraça a sua marcha. + +Se ao que temos apontado sobre o caracter e a organisação dos differentes +poderes accrescentarmos que a constituição federal difficulta toda a +reforma da lei organica da nação, teremos uma ideia approximada da fórma e +dos elementos do governo politico que durante um seculo permittiram a +ininterrompida prosperidade dos Estados-Unidos; constituição tão +convenientemente adaptada ás circumstancias locaes, e porventura ás +necessidades essenciaes e permanentes de todo o governo, que presentemente +nada nos indica a sua proxima abolição ou reforma. + +O art. 5.º da constituição diz: «O congresso, todas as vezes que os dois +terços das duas camaras o julgarem necessario, poderá propôr reformas +n'esta constituição; ou, mediante o pedido das legislaturas dos dois terços +dos estados particulares, reunirá uma convenção encarregada de propôr as +reformas que, n'um e n'outro caso, só validamente farão parte d'esta +constituição, sob todos os pontos de vista e para todas as necessidades +possiveis, se foram ratificadas pelas legislaturas dos tres quartos dos +diversos estados, ou por convenções especiaes nos tres quartos de entre +elles, segundo um ou outro modo de ratificação houver sido proposto pelo +congresso.» Tal é a disposição pela qual a constituição federal procurou +dar estabilidade ás suas instituições e precavêr-se contra as reformas +impensadas e prematuras. O futuro justificou a esperança dos fundadores; as +reformas teem sido raras e na maioria de pouca importancia. De 1804 a 1865 +não houve mesmo reforma alguma. + +Recapitulando: A constituição dos Estados-Unidos teve a sua origem nas +constituições europeias e particularmente nas instituições britannicas. +«Mas a constituição britannica que lhe serviu de modelo foi a que existia +entre 1760 e 1787. As modificações introduzidas foram aquellas, e essas +sómente, que suggeriam as novas condições de existencia das colonias +americanas, de futuro independentes. As circumstancias excluiam um rei +hereditario, e virtualmente excluiam, além d'isso, uma nobreza +hereditaria.» O successo innegavel da constituição dos Estados-Unidos é +devido em grande parte á intelligencia e sagacidade com que os legisladores +souberam aproveitar as instituições inglezas e toda a experiencia que +encerram, ao mesmo tempo que repudiavam e sanavam quanto era incompativel +com as circumstancias d'aquelle povo. O traço final e caracteristico que +nos apresenta este breve exame da republica americana, é o d'uma democracia +em que a ordem conseguiu estabelecer-se pela força, auctoridade e estricta +limitação e independencia de todos os poderes do estado. + + + + +V + +Conclusões[3] + + +Antes de passarmos ás conclusões que devemos tirar dos erros e causas de +fraqueza dos governos populares, precedentemente apontados, não será ocioso +recordar uma das mais deploraveis consequencias da sua instabilidade sobre +que Prins insiste com extrema verdade e clareza. + +Á inversão das attribuições do poder legislativo e executivo temos a juntar +o apparecimento d'um quarto poder do estado, monopolisando funcções d'uma +importancia capital na vida dos povos. «Ao lado dos tres +poderes--legislativo, executivo e judiciario, equilibrando-se, segundo a +theoria de Montesquieu, existe d'ora ávante um quarto poder, o +administrativo.» + +«Á medida que se estreita o campo de actividade dos corpos representativos, +alarga-se o das repartições dos corpos administrativos. Á medida que a +auctoridade se enfraquece nas mãos dos ministros e dos deputados, o obscuro +e irresponsavel empregado das repartições ministeriaes sente crescer o seu +poder. + +O snr. Humbolt que, n'um paiz de poder forte, estudava de perto a +burocracia, chamava-lhe um «vampiro devorador», e Bagehot diz com razão que +«o mais triste fetiche que podemos adorar é um empregado subalterno.» + +Sob o reino da democracia, e até sob a inspecção do suffragio universal, +este fetiche levantou-se. + +A verdadeira direcção do paiz encontra-se nas repartições dos ministerios. +A vitalidade, abandonando os orgãos essenciaes, reflue para os orgãos +accessorios, e a persistencia, a firmeza, a decisão que faltam á sociedade, +ás assembleias e aos governos, refugiam-se na administração.» + +É o que na verdade estamos a vêr, d'alto a baixo, das repartições centraes +até á mais pequena junta de parochia. O director geral d'um ministerio é o +ministro effectivo, como o secretario da camara municipal é quem realmente +administra os bens do municipio. Tão intima, tão profunda é a necessidade +de persistencia que a sociedade, para manter-se, descobre este meio de +remediar a instabilidade que provém das eleições continuadas! + +E por isso não poderemos dizer que a influencia administrativa é nas +circumstancias actuaes das democracias absolutamente illegitima, porque «no +meio das tendencias politicas que variam, dos ministerios e das maiorias +que se succedem, o modesto empregado que permanece, representa, n'este +cahos perpetuo, a tradição, a experiencia e a estabilidade.» E como estas +virtudes são condições essenciais de vida politica, os seus depositarios +terão a importancia social correspondente á utilidade das suas funcções. + +Passando finalmente a procurar se dentro do principio fundamental dos +governos populares não haverá meio de fundar um governo forte, duradouro e +moral, lembrarei pela ultima vez que temos discutido aqui a +democracia--fórma especial de governo--e não essa outra democracia que +significa a tendencia a um determinado estado social. + +A democracia, sociedade livre baseada no reconhecimento da igualdade de +todos os cidadãos, é realmente inevitavel e o ponto capital da evolução e +do progresso politico. Só pretenderá negal-o quem desconhecer as mais +elementares lições da Historia. Através de todos os estados sociaes que a +raça aryana tem atravessado, encontramos sempre a Igualdade como norma e +fim das transformações sociaes. A escravidão, a servidão e o salariado são +differentes degraus por que vamos subindo á altura desejada. O +individualismo, embora tenha errado o seu alvo, creando uma escravidão de +nova especie, tinha comtudo entre as suas aspirações a esperança do +nivelamento das condições sociaes por meio da livre concorrencia. O meio +mostrou-se praticamente impotente e, como tal, foi abandonado; mas o fim +permanece o mesmo. + +Semelhantemente, a democracia--governo da multidão em opposição ao governo +d'alguns ou d'um só--era um meio de alcançar a igualdade politica que a +experiencia tem mostrado insufficiente ou incapaz. Não que o seu principio +fundamental possa ser facilmente invalidado ou substituido. Agora que, póde +dizer-se, os povos do continente europeu alcançaram a maioridade e o +progresso economico aniquilou em grande parte as necessidades e instinctos +guerreiros, não descobrimos outra origem legitima do poder que não seja a +vontade dos governados; mas na maneira de constituir por esta fórma um +governo efficaz reside o principal problema da democracia. + +Não padece duvida que as fórmas até agora encontradas não satisfazem. É o +que acabamos de vêr nas observações de Sumner Maine, posto que seja +necessario descontar-lhes os defeitos inevitaveis de toda a fórma de +governo. Seria injusto julgar apanagio das democracias o que é commum a +todo o governo politico. Assim, tivemos occasião de vêr que o espirito de +adulação e de lisonja que tem erguido aos primeiros cargos do estado homens +que nem pelo caracter nem pela intelligencia deveriam jámais passar das +mais infimas condições, ou o encontremos na côrte ou nos _meetings_, é +sempre a mesma ambição isenta de escrupulos, rojando-se aos pés d'um deus +omnipotente. + +A democracia, vimos, tem dois inimigos que até hoje não lhe permittiram +estabelecer-se solidamente--o Imperialismo e o Radicalismo. Ora é +exactamente a natureza e caracter dos vencedores dos governos populares que +nos esclarecem sobre as faltas d'estes. As democracias teem morrido ás mãos +do imperialismo, porque não teem sabido dar-nos a ordem, segurança e +grandeza que esta fórma de governo representa: e teem morrido tambem ás +mãos do radicalismo, ou porque igualmente não souberam estabelecer a ordem +e n'este caso o radicalismo é apenas symptoma de anarchia; ou porque, por +um vicio de funccionamento, permittiram a formação de oligarchias +capitalistas e identicas, e n'este caso o radicalismo é a consequencia d'um +justo sentimento de justiça, a equidade na distribuição da riqueza. É +necessario pois que a democracia se inspire nestas duas necessidades para +que possa resistir á ruina que, na experiencia de quasi um seculo, tem +seguido tão de perto o estabelecimento dos governos populares. + +Os meios que a razão e a historia nos indicam para chegar a este fim não +differem essencialmente dos que nos aconselhavam os philosophos que tiveram +tão grande parte nas revoluções contemporaneas. Demonstrada a +impossibilidade do exercicio directo da soberania popular, a representação +por meio de delegados surge naturalmente como o unico meio de governo +democratico. Não ha, não póde haver outro, emquanto se não transferir a +origem do governo. + +Vimos porém que a representação não evitou as «influencias sinistras» de +que falla Bentham; pelo contrario, no regimen representativo, essas +influencias mudaram de classe mas resurgiram com a força que talvez nunca +tivessem tido sob o antigo regimen. E não só resurgiram mas +multiplicaram-se; veja-se de quantas especies parasitas estão eivadas as +democracias, desde os deputados directores de grandes companhias até aos +empresarios politicos da aldeia. Parece pois que a questão capital é, pela +segunda vez, livrar a politica das «influencias sinistras», isto é, tornar +legitima a representação nacional, de fórma que ao interesse das +oligarchias se substitua o interesse da collectividade. + +Para isso qual deverá ser a base da representação? O suffragio universal +está julgado. Sendo impossivel constituir o quer que seja de homogeneo com +elementos heterogeneos, todo o interesse social desapparece, e fica livre o +campo á formação das tyrannias que a corrupção mantém. Isto é hoje um facto +repetido centenas de vezes; já não são simples presumpções. + +«Na sua obra célebre sobre as origens do governo representativo na Europa, +Guizot adopta, como base do systema, a Razão.[4] Ha, segundo elle, na +sociedade uma somma de ideias justas, de sabedoria, de intelligencia. Estes +elementos estão dispersos; é preciso saber colhel-os, concentral-os, +constituil-os em governo e assentar a auctoridade sobre a capacidade.» + +Mas por onde aferir a capacidade? Quaes as provas necessarias para admittir +o cidadão a intervir directamente nos negocios publicos? Sobre que +basearemos a presumpção de que votará reflectida, livre e +conscienciosamente? O censo? A instrucção? + +A propriedade suppõe capacidade administrativa e independencia desde que +attinja certas proporções; mas para muitos, para o maior numero talvez, «o +censo é simplesmente uma presumpção de fortuna, não tendo coisa alguma de +commum com as aptidões politicas e consagrando arbitrariamente o privilegio +d'uma oligarchia de ricos com exclusão do resto da nação.» + +A instrucção fornece uma prova de capacidade talvez mais fallivel ainda do +que o censo. Por maiores que sejam as provas de intelligencia não podem +garantir-nos a capacidade politica. «Um sabio de primeira ordem póde ser um +mau eleitor, um operario póde tornar-se um excellente eleitor. Tudo depende +de saber a que se applica o seu voto e em que condições o vae dar.» + +Não havendo meio de reconhecer a capacidade, torna-se pois necessario +adoptar uma outra base de representação. E não póde ser senão a que a razão +e a historia nos aconselham--o interesse social. + +Para o podermos acceitar como fundamento da representação, carecemos +primeiro de distinguir entre duas noções absolutamente differentes e tão +frequentes vezes confundidas--a eleição e a representação. + +Para nós, e em geral para todos os que acceitaram o systema representativo, +«a eleição e a representação são noções identicas, confundimol-as +intencionalmente; não concebemos mesmo uma sem a outra, e não admittimos +que um cidadão possa representar outros cidadãos se não é eleito por elles. + +Em theoria, estas duas noções da representação e da eleição são todavia +absolutamente distinctas; podemos, com a eleição directa, ter mandatarios +que em nada representam a opinião de todos os votantes. Podemos, com a +representação das collectividades de interesses, obter um corpo +representativo fiel e sincero, posto que poucos eleitores tenham tido parte +no voto. + +O mandatario eleito pelos seus concidadãos por maioria de votos, sobre uma +questão de principio; não representa nem a minoria, nem todas as _nuances_ +da maioria; nada garante que elle comprehendeu ou não atraiçoará a vontade +dos seus eleitores. O delegado d'um grupo, ou seja eleito ou deva o seu +mandato á antiguidade, á sorte, á sua funcção, á capacidade, á situação +preponderante, etc., tem não só as convicções mas os interesses do seu +grupo, e não deixa de estar d'accordo com os seus mandantes senão +traíndo-se a si proprio.» + +O fundamento racional da representação das collectividades de interesses, +em vez da representação do numero, é esta coincidencia dos interesses +individuaes dos representantes com os interesses da collectividade, O bem +publico é uma abstracção que, com excepção d'um numero muito restricto de +pensadores, não tem realidade, nem valor objectivo; debalde o invocaremos +para sollicitar uma politica intelligente e justa. Mas appellemos para o +interesse, fundamos n'um só o interesse do individuo e da collectividade, e +os conselhos do egoismo não permittirão que os representantes se afastem do +bom caminho. + +Depois, ainda no campo racional, que significa o voto individual? Como sêr +politico, é porventura o individuo alguma coisa independente das relações +sociaes? Para que a representação seja legitima e verdadeira é preciso +representar essas relações e não um numero composto de unidades que só por +si não teem existencia social. + +Se do campo racional passamos ao terreno historico, procurando as origens +do systema representativo vemos que em principio não fôra outra coisa senão +a representação das corporações e demais collectividades; e só por +corrupção e em grande parte por effeito do liberalismo individualista, caíu +na desordem presente, saída muito logicamente da dissolução de todos os +vinculos sociaes. + +Para que possa dar-se a representação das collectividades de interesses, é +necessario pois reatar os laços dissolvidos, é necessario organisar de novo +e sob as novas bases que as condições actuaes da industria exigem, os +agrupamentos que os erros politicos destruiram em vez de transformar. + +Tivemos occasião de vêr quanto o homem é radicalmente conservador. Os +homens que implantaram na Europa as instituições liberaes, desconheceram +esta verdade, e por isso a sua obra tem sido até agora sempre pouco solida, +por vezes ephemera; abandonaram a tradição, que o mesmo é que abandonar +toda a experiencia politica de largos seculos, para se guiarem por +presumpções assentes na abstracção incerta e vaga. Ora as relações sociaes +não mudam nem progridem tão rapida e largamente que as instituições que +durante tanto tempo se mostraram beneficas tenham hoje perdido todo o seu +valor; as necessidades sociaes são hoje o que eram d'antes, com as +modificações, talvez bem menos profundas do que se imagina, que o +desenvolvimento scientifico impoz á producção da riqueza. Urge portanto +restaurar a tradição, na medida em que convém ás necessidades sociaes +permanentes. + +Assim, procurando uma base legitima para a representação, novamente fomos +encontrar a questão politica dependente da questão social, como ha pouco +investigando as causas de instabilidade da democracia, encontravamos o +radicalismo, um dos seus mais terriveis inimigos. Na verdade, todos os +grandes problemas politicos da actualidade teem a sua raiz nas questões +sociaes. + +A representação só será legitima quando representar as forças sociaes; mas +para isso é indispensavel que essas forças se organisem e se agremiem, e +entrem n'um funccionamento normal, em vez do tumulto, desordem e +consequente instabilidade de governo em que actualmente se apresentam. + +E então a democracia será um governo estavel? Não. Terá vencido um dos seus +mais terriveis inimigos, essa especie de radicalismo que julgo uma +aspiração justa. Já não haverá plebes desvairadas, mendigando d'um dictador +um pedaço de pão, porque a protecção, a caridade, a dependencia social +estarão organisadas devidamente. Mas resta ainda o imperialismo, ameaçando +derrubar todo o governo fraco, incapaz de manter a ordem e a grandeza +nacional. + +Quem nos diz que os novos parlamentos não serão a imagem dos actuaes? Quem +nos afiança que a ambição, a inveja, a facilidade de chegar aos primeiros +cargos do estado não terão só por si força sufficiente para manterem +manietado o poder executivo, como estamos vendo todos os dias nos +deploraveis espectaculos que nos dão os parlamentos da Europa? A +legitimidade da representação corrigiria em grande parte os males do +parlamentarismo, mas é de crêr que deixasse ainda margem bastante para esse +obstruccionismo tão prejudicial a toda a acção governativa. + +D'esta vez, iremos procurar o remedio a uma democracia, e á mais famosa, á +que mais vezes é apontada como garantia da solidez dos governos +populares--os Estados-Unidos. É a republica americana que nos diz, e um +seculo de politica liberal confirma-o plenamente, que para manter a ordem é +preciso que o poder executivo execute, que o poder legislativo legisle, que +o poder judicial julgue. O contrario, a inversão e intervenção mutua +d'estes tres poderes, é o enfraquecimento reciproco, d'onde resulta +invariavelmente a anarchia na sociedade. + +Quando por estes meios a democracia se tiver tornado senhora dos seus dois +mais terriveis adversarios, será então um governo estavel, duradouro e +benefico. + + [1] _Essais sur le gouvernement populaire_ par Sir Henri Sumner Maine, + tr. f. Paris; E. Thorin, 1887. + + [2] Jules Simon. _Thiers, Guizot, Rémusat_, pag. 87 e 93. + + [3] Adolphe Prins. _La Démocratie et le Regime parlamentaire_, 2^éme + édition, Bruxelles, 1887. + + [4] Guizot. _Histoire des origines du gouvernement representatif en + Europe_, vol. I, pag. 73; vol. II, pag. 110. + + + + + +INDICE + + + Introducção V + + I. *O futuro da democracia* 9 + + O passado e o presente 9 + + Significação do movimento democratico 10 + + A democracia--fórma de governo 12 + + Origem das democracias 12 + + A sua historia 13 + + Causas da sua instabilidade 14 + + O imperialismo 14 + + O radicalismo 15 + + A pulverisação do poder e as eleições 16 + + A democracia e a historia 17 + + O governo popular e a questão social 18 + + A livre concorrencia e a riqueza 19 + + II. *Natureza da democracia* 23 + + Os deveres do governo e a democracia 23 + + A actividade reformadora 25 + + O enthusiasmo pela democracia 26 + + A lisonja 27 + + As influencias sinistras 28 + + Como se manifesta a vontade popular 30 + + A representação 31 + + O plebiscito 32 + + Espirito de partido e corrupção 33 + + III. *A edade do progresso* 37 + + Legislação contínua e paixão de mudar 37 + + O estado normal é a estabilidade 39 + + Progresso politico e progresso scientifico 44 + + Conclusão 45 + + O valor da tradição 46 + + IV. *Os Estados-Unidos da America* 47 + + Circumstancias em que foi creada esta republica 48 + + A presidencia 51 + + O supremo tribunal 52 + + O congresso 54 + + Difficuldade de reformas constitucionaes 57 + + Resumo e conclusão 58 + + V. *Conclusões* 59 + + O poder administrativo 59 + + Os remedios 63 + + A representação 64 + + Eleição e representação 66 + + Representação de classes 67 + + Separação de poderes 69 + + + + +Do mesmo auctor: + +Estudos sobre a litteratura contemporanea..... 1 vol. + +O Snr. Oliveira Martins e o seu projecto de lei sobre o fomento +rural........ Folh. + + +Em preparação: + +As leis da agricultura. + +Da educação. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Democracia, by Jaime de Magalhães Lima + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A DEMOCRACIA *** + +***** This file should be named 24748-8.txt or 24748-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/7/4/24748/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/24748-8.zip b/24748-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..18cc122 --- /dev/null +++ b/24748-8.zip diff --git a/24748-h.zip b/24748-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..8cecf5b --- /dev/null +++ b/24748-h.zip diff --git a/24748-h/24748-h.htm b/24748-h/24748-h.htm new file mode 100644 index 0000000..f97a8f5 --- /dev/null +++ b/24748-h/24748-h.htm @@ -0,0 +1,2188 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" +"http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> +<head> + <title>A Democracia</title> + <meta name="AUTHOR" content="Jaime de Magalhães Lima"> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1"> + <meta name="KEYWORDS" content=""> + <style type="text/css"> + @media print { + .pagenum { display: none;} + } + @media handheld { + .pagenum { display: none;} + } + body {width: 520px; margin-left: 90px; text-align: justify;} + .pagenum {font-size: 0.6em; font-style: normal;color: #666666; +position:absolute; left: 630px;} + .capa {text-align: center; border: solid 1px #000000;} + hr { + border: none; + border-bottom: solid 2px #000000; + text-align: center; + } + a {text-decoration: none;} + sup {font-size: x-small;} + h2, h3, h4, h5, h6 {text-align: center;} + h1 {text-align: center; margin-top: 2em;} + .small-caps { + font-variant: small-caps; + } + .direita { + text-align: right; + } + .centrado { + text-align: center; + } + .poesia { + margin: 2em; + text-align: left; + } + .citacao { + margin-left: 50%; + text-align: left; + } + blockquote { + font-size: 0.8em; + } + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + #corpo p{ + text-indent: 1em; + } + #corpo h2{ + margin-top: 4em; + } + .dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000000;} + </style> +</head> +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of A Democracia, by Jaime de Magalhães Lima + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Democracia + Estudo sobre o governo representativo + +Author: Jaime de Magalhães Lima + +Release Date: March 3, 2008 [EBook #24748] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A DEMOCRACIA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<br> +<div class="capa"> +<h3>JAYME DE MAGALHÃES LIMA</h3> + +<hr style="width: 20%"> + +<h1>A DEMOCRACIA</h1> + +<h5>ESTUDO</h5> + +<h6>SOBRE O GOVERNO REPRESENTATIVO</h6> +<br> +<br> +<br> +<br> +<hr style="width: 20%"> +<br> +<br> +<br> +<br> +<h6>PORTO +<br> +TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA +<br> +Rua da Cancella Velha, 70 +<br> +1888</h6> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pagI">[I]</a></span> +<br> +<br> +<br> +<br> +<h3>A DEMOCRACIA</h3> +<br> +<br> +<br> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pagII">[II]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pagIII">[III]</a></span> +<h3>JAYME DE MAGALHÃES LIMA</h3> + +<hr style="width: 20%"> + +<h1>A DEMOCRACIA</h1> + +<h5>ESTUDO</h5> + +<h6>SOBRE O GOVERNO REPRESENTATIVO</h6> +<br> +<br> +<br> +<br> +<hr style="width: 20%"> +<br> +<br> +<br> +<br> +<h6>PORTO +<br> +TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA +<br> +Rua da Cancella Velha, 70 +<br> +1888</h6> +<span class="pagenum"><a name="pagIV">[IV]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pagV">[V]</a></span> +<div id="corpo"> +<p>Creio ser actualmente o momento mais opportuno para discutir o governo +democratico. Embora as questões economicas, vulgarmente denominadas +«questões sociaes», tenham presentemente a preeminencia politica, os +governos representativos apresentam uma tal desordem e corrupção que é +urgente saír d'um estado manifestamente perigoso, cujo ultimo termo é +difficil de prevêr.</p> + +<p>A sciencia politica, se não nos dá um remedio seguro e prompto, +auctorisa pelo menos tentativas de melhoria com probabilidades de bom +exito. D'este numero é a representação por classes, para que lentamente se +teem encaminhado os governos representativos.</p> + +<span class="pagenum"><a name="pagVII">[VII]</a></span> <p>Os recentes +desmandos do parlamento e o ultimo congresso agricola reforçam esta +opinião. Todos concordam em que o regimen parlamentar não póde viver n'este +fogo de guerrilhas, ao mesmo tempo que todos reconhecem que o congresso +agricola, embora chegasse a conclusões em grande parte inacceitaveis, teve +a vantagem de nos tornar bem patentes os soffrimentos e aspirações da +lavoura, significando simultaneamente que o paiz não se julga representado +no parlamento. Esta sobreposição de representantes leva-nos a perguntar +quaes são os representantes legitimos.</p> + +<p>Em todo o caso, a situação é difficil e a discussão proveitosa. Por isso +ouso acreditar que não perderei o meu tempo colhendo em duas excellentes +publicações estrangeiras algumas ideias sobre a materia que, sob nova fórma +e coordenação e juntamente com observações proprias, hoje apresento ao +publico portuguez.</p> + +<p>Não precisarei decerto encarecer a auctoridade de Sumner Maine, cujo +livro me serviu de texto principal. A perda recente do sabio investigador +das instituições primitivas, que o <span class="pagenum"><a +name="pagVII">[VII]</a></span> mundo scientifico unanimemente deplora, deu +logar a que se recordassem os seus serviços e a que mais uma vez se +reconhecesse que foi um dos homens que maior influencia tiveram no +pensamento contemporaneo.</p> +<span class="pagenum"><a name="pagVIII">[VIII]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag9">[9]</a></span> +<br> +<br> +<br> +<br> +<h1>A DEMOCRACIA<sup><A href="#nota1" name="mnota1">1</A></sup></h1> + +<hr style="width: 20%;"> + + +<h2>I<br> + +O futuro da democracia</h2> + + +<p>Quem ha cincoenta annos tivesse a coragem de publicar um livro como o de +Sumner Maine, seria julgado visionario ou apaixonado, que não via ou não +queria vêr os esplendores d'um regimen politico que promettia á humanidade +uma nova era toda radiante de riqueza, de paz e liberdade. Hoje não; o seu +eloquente libello é tido como um livro sincero, que encerra porventura +alguns erros entre punhados de verdades, mas que, não obstante, é credor da +mais larga e serena discussão.</p> + +<p>Perderam-se illusões paradisiacas; e a politica, <span +class="pagenum"><a name="pag10">[10]</a></span> como a litteratura, +tornou-se realista, consciente das condições da vida real, limpa de +abstracções perigosas e das concepções <em>a priori</em> que tão +profundamente revolveram as instituições e com tão hypotheticos +beneficios.</p> + +<p>Já nos é licito perguntar, sem incorrermos no perigo de sermos accusados +de inimigos da civilisação, se as actuaes fórmas de governo democratico +estão destinadas a durar e alargar-se indefinidamente.</p> + +<p>Entretanto, a corrente democratica cresce continuamente, são poucos os +que duvidam e muitos ainda os que teem a democracia como um dogma contra o +qual de nada valem os factos. Para estes, os desastres dos governos +democraticos são qualquer coisa como as manifestações do atheismo que, para +os crentes, em nada prejudicam os attributos dos deuses.</p> + +<p>Todavia este facto, esta crença nas virtudes absolutas mas +indemonstradas d'uma fórma de governo, não é garantia bastante dos +progressos da democracia. Em 1758, escrevia Lord Chesterfield que «todos os +symptomas que jámais tinha visto marcarem na historia a approximação de +grandes transformações ou revoluções, no seio d'um governo, existiam +áquella hora e progrediam diariamente em França.» Os historiadores nossos +contemporaneos pasmam de que «a côrte, a aristocracia e o clero não +tivessem comprehendido que em face da irreligião que cada dia estava mais +em voga, a crença nos privilegios de nascimento não podia manter-se por +mais tempo. Deveriam <span class="pagenum"><a name="pag11">[11]</a></span> +vêr a ameaça de perturbações imminentes na odienta inveja das differentes +classes. A miseria sordida dos camponezes deveria tel-os preparado a um +formidavel levantamento social. Poderiam ter observado as causas immediatas +d'uma revolução na desordem das finanças e na grosseira desigualdade dos +tributos.»</p> + +<p>As previsões que seriam possiveis ou que se nos afiguram taes, não se +realisaram; e a revolução rebentou, apesar de ser lenta a accumulação dos +seus elementos. É que oito seculos de monarchia absoluta em que os seus +principios se foram radicando gradual e constantemente, tinham posto aos +olhos de naturaes e estranhos a fórma de governo como perpetua, e não se +percebia como um regimen que tinha feito a unidade e a grandeza da França +podesse algum dia ser destruido. Ainda em 1742, Hume attribuia a +prosperidade da nação francesa ao seu regimen politico e «via mais causas +de degeneração nos governos livres como a Inglaterra, do que na França, o +mais perfeito modelo da monarchia absoluta.»</p> + +<p>Assim nós estamos hoje. A democracia victoriosa afigura-se-nos +invencivel e já não concebemos progresso fóra do seu imperio. Mas porque +esta cega confiança? Acaso não nos terá reservado o futuro um desengano +semelhante ao que soffreu a geração que assistiu á Revolução franceza? Não +terão os governos democraticos fermentos de dissolução sufficientes para +nos fazerem duvidar da sua estabilidade? Vejamos.</p> + +<span class="pagenum"><a name="pag12">[12]</a></span> Mas antes, convém +definir o sentido restricto, talvez excessivamente restricto, que damos +aqui á palavra <em>democracia</em>. + +<p>Maine entende por democracia unicamente uma fórma particular de governo. +Ha duas maneiras de conceber o governo d'uma sociedade, e d'ahi duas +differentes maneiras de apreciar as relações entre governantes e +governados: ou o governante é superior ao vassallo, é seu chefe, tutor e +guia e qualquer que sejam as suas faltas os governados devem-lhe todo o +respeito e em caso algum poderão retirar-lhe a sua auctoridade; ou os +governantes são simples agentes e mandatarios dos governados o n'este caso +a censura é um direito, a origem da auctoridade reside nos governados que a +dão ou a retiram como julgam mais util.</p> + +<p>Exceptuando a Russia e a Turquia em que a primeira fórma de governo se +mantem ainda em toda a sua pureza, todos os paizes da Europa, embora +tenham adoptado fórmas mixtas, de transição, reconheceram a soberania +popular, isto é, fazem derivar a auctoridade da vontade dos governados. É +esta fórma de governo que Maine chama democracia; e esta mesma significação +lhe attribuirei n'este estudo para evitar uma confusão tão prejudicial como +seria a de me servir d'um termo com valor differente para cada um de +nós.</p> + +<p>D'onde nos veio esta fórma de governo? Será difficil dizel-o com rigor, +a meu vêr. A constituição ingleza, a fundação dos Estados-Unidos da +America, <span class="pagenum"><a name="pag13">[13]</a></span> a Revolução +franceza foram inquestionavelmente dos elementos que mais concorreram para +as transformações politicas em favor da democracia no ultimo seculo, mas +parecem-me insufficientes para darem explicação cabal de tão largas +revoluções. Seria preciso juntar-lhes as obras dos philosophos e dos sabios +que prepararam o espirito popular, e as condições em que o progresso +scientifico collocou a producção da riqueza; seria principalmente preciso +estudar as circumstancias historicas, que determinaram o estabelecimento da +democracia, circumstancias differentes para cada nação.</p> + +<p>Passando da questão de origem á historia dos governos democraticos, +vemos que esta fórma de governo se tem mostrado até hoje d'uma grande +instabilidade; e assim como a sua diffusão rapida através de todos os +paizes da Europa nos leva a suppôr que deveriam existir causas de ordem +geral e communs a todos os paizes, assim tambem a instabilidade do novo +regimen em todas as nações que o adoptaram obriga-nos a suspeitar de que +certamente contraría qualquer tendencia ou elemento essencial das +sociedades modernas. É conhecida a historia da França que, em menos d'um +seculo, está na terceira republica e tem visto alternarem-se monarchias, +imperios e republicas com uma regularidade quasi periodica; a Hespanha, +«entre o primeiro estabelecimento popular em 1812 e a accessão do ultimo +rei, não teve menos de quarenta levantamentos militares de natureza grave, +á maior parte dos quaes se associou a plebe: <span class="pagenum"><a +name="pag14">[14]</a></span> e sabe-se geralmente o que teem sido e são +ainda as republicas da America. Só na Bolivia, de quatorze presidentes da +republica, treze, morreram assassinados ou no exilio. Se exceptuarmos a +Belgica, os Estados-Unidos e ainda a Italia, poderemos dizer que por toda a +parte os governos populares funccionam mal e não raro são origem de +perturbações sociaes quasi permanentes.</p> + +<p>Podemos concluir da sua historia que a democracia não se nos apresenta +como tendo um largo futuro, e é mesmo a fórma de governo que se tem +mostrado mais fragil, mais facilmente sujeita a constantes mutações.</p> + +<p>«É possivel encontrar as causas d'esta singular falta de equilibrio dos +tempos modernos? É, a meu vêr, em certo modo. É preciso notar que, desde o +começo do seculo presente, dois sentimentos nacionaes bem distinctos actuam +sobre a Europa occidental. Para lhes dar o nome que lhes dão os que os +detestam, um é o Imperialismo e o outro o Radicalismo.»</p> + +<p>Todo o homem observador terá notado que em todas as nações modernas ha +uma larga aspiração de engrandecimento, de ordem e de independencia. Isto +que no individuo adquiriu tal desenvolvimento que chega a constituir um dos +generos mais vulgares de loucura, o delirio das grandezas, a sêde de +riqueza e poder, manifestam-se na sociedade com igual intensidade. E um +paiz para ser grande, para dar realisação a este sonho absorvente, +necessita um grande exercito, precisa «ter em armas uma quantidade de <span +class="pagenum"><a name="pag15">[15]</a></span> homens quasi igual á +totalidade dos varões na flôr da edade.» Ora o Imperialismo e a democracia +são irreconciliaveis; a condição por excellencia do primeiro é a +obediencia, e a base fundamental dos governos populares é a liberdade de +discussão e a faculdade de revolta. Sempre que estas duas tendencias +oppostas se manifestarem, a desordem será irremediavel: a victoria porém +raro deixará de pertencer ao Imperialismo, porque o sentimento da paz e +ordem é superior á liberdade, começará por impor violentamente a obediencia +e depois a acção educativa, o habito torna-lhe a sociedade absolutamente +docil.</p> + +<p>A segunda das causas de perturbação enumeradas é o Radicalismo. «Não +poderia haver um «signal do tempo» mais formidavel e mais ameaçador, para o +governo popular, do que o nascimento de grupos irreconciliaveis na massa da +população.» Que estes grupos se formem sobre uma illusão ou sobre uma base +realmente justa, e com o ardor bellicoso e a fé indomavel que lhes dão o +aspecto e a rigidez inquebrantavel d'uma seita religiosa, a democracia terá +dentro de si um cancro incuravel. Porque, com a fraqueza d'acção inherente +aos governos populares e que lhes vem da fragmentação e contínua +substituição do poder, e por outro lado com o espirito de guerra +intransigente do Radicalismo, o perigo para a estabilidade da democracia +será tanto maior quanto mais fracos forem os meios de repressão. E aquella, +especie de Radicalismo que nos apparece com o nome de nihilismo, anarchismo +e semelhantes, até <span class="pagenum"><a name="pag16">[16]</a></span> +hoje, ainda não encontrou fórma de governo que a satisfizesse; nem +encontrará, por certo, pois que não tem outra aspiração definida que não +seja a desordem permanente. As democracias encontram realmente n'estas +fórmas do radicalismo um inimigo que as faz oscillar constantemente entre a +vida e a morte.</p> + +<p>Entre os males constitucionaes dos governos democraticos e que os +embaraçam de alcançar o ideal que no dominio abstracto lhes parecia +destinado, é a pulverisação do poder politico.</p> + +<p>Hobbes pensa que, quando um homem aspira a ser livre, o que realmente +deseja é uma parte do governo. É o que a democracia lhe concede; mas esta +parte no governo é effectiva? Ouçamos as palavras de James Stephen que +Maine transcreve: «O individuo que póde amontoar o maior numero de +fragmentos politicos n'um só monte governará o resto... Em certos momentos +um caracter energico, n'outros a astucia, n'outros a capacidade +administrativa, n'outros a eloquencia, n'outros a posse dos logares communs +e a facilidade de os aproveitar n'um fim pratico, permittem a um homem +trepar pelos hombros dos seus visinhos e dirigil-os n'este ou n'aquelle +sentido; mas em todo o caso os que estão na fileira seguem a direcção dos +chefes d'uma proveniencia ou da outra que tomam o commando da força +collectiva.»</p> + +<p>A historia das eleições é conhecida. É sabido o que significa o +alargamento do suffragio como meio de alcançar uma justa distribuição do +poder politico. Ha uma verdadeira capitalisação politica como a +capitalisação <span class="pagenum"><a name="pag17">[17]</a></span> +economica; d'esta resulta o agiota, d'aquella o empresario politico, o +nosso influente. A nação mais democratica do mundo, ou pelo menos apontada +como tal, os Estados-Unidos, é o melhor exemplo da significação que tem o +direito de votar; alli, o voto é uma mercancia como o algodão ou os +cereaes, o poder é para quem mais souber capitalisar. Por isso não será +temeridade affirmar que o suffragio universal «torna-se na pratica a base +natural d'uma verdadeira tyrannia.» Infelizmente para nós, temos conhecido +de sobejo estas guerras do feudalismo politico e a era dos marquezados +eleitoraes parece estar muito longe do seu fim.</p> + +<p>Supponhamos porém que este vicio é susceptivel de correcção, supponhamos +que o suffragio universal chega um dia a funccionar em perfeita liberdade. +A hypothese é irrealisavel porque a liberdade implica a concorrencia e, +dada esta, os ambiciosos e os partidos surgem immediatamente nas suas +diligencias de colheita. Mas, se fosse possivel que o suffragio popular +funccionasse em perfeita liberdade, não teriamos n'elle uma garantia de +progresso, porque é sabido quanto o espirito popular é, em regra, adverso +ás transformações que o progresso scientifico indica. Ha mesmo certa +opposição entre a democracia e a sciencia.</p> + +<p>Ao mesmo tempo que a vida dos governos democraticos pela instabilidade e +desordem contínuas, nos faz duvidar do seu futuro e nos deixa sem esperança +de podermos alcançar por meio d'elles a ordem <span class="pagenum"><a +name="pag18">[18]</a></span> e segurança necessarias ao progresso, por +outro lado as lições da historia dão-nos exemplos d'uma admiravel +prosperidade sob regimens politicos bem diversos e até oppostos. «A +historia é fundiariamente aristocrata», diz Strauss. A mais larga tentativa +de regeneração nacional que ha dois seculos tem apparecido entre nós, o +largo plano do marquez de Pombal, se tivesse podido manter-se, com certeza +nos asseguraria um prospero futuro, mas sob uma fórma de governo que se +parecia bem pouco com a democracia. E, todavia, quasi não ha portuguez +intelligente e sincero que não lamente a sua queda.</p> + +<p>«A democracia atheniense,--cujos dias foram tão curtos, e ao abrigo da +qual a arte, a sciencia e a philosophia lançaram uma vegetação tão +maravilhosa--não era senão uma aristocracia elevada sobre as ruinas d'uma +outra aristocracia muito mais restricta. Os esplendores que attraíam a +Athenas todo o genio original do mundo então civilisado alimentavam-se pela +imposição de impostos desapiedados sobre um milhar de cidades vassallas; e +os operarios habeis que, sob a direcção de Phidias, levantaram o Parthenon, +eram simples escravos.»</p> + +<p>Os Estados-Unidos são dos raros exemplos em que a democracia e o +progresso vão associados. Em capitulo especial veremos o que é na realidade +a democracia na America.</p> + +<p>Maine toca n'este ponto uma das questões mais graves das democracias--as +suas relações com a questão social. Crê que desde o momento em que as <span +class="pagenum"><a name="pag19">[19]</a></span> classes laboriosas +conquistem o poder hão-de pelos seus mandatarios exercel-o em proveito +d'aquellas mesmas classes. Suppoe que a democracia pretenderá corrigir a +injustiça e desigualdade que hoje se dá na distribuição da riqueza, e +d'esta tentativa poderia resultar a sua aniquilação. Uma parte d'esta +destroe-se constantemente pelo consumo e, para que essa parte se reproduza, +é necessario manter a energia dos mobis da producção: ora estes baseiam-se +principalmente na livre concorrencia. Reconhece que «os mobis que, na hora +presente, excitam a humanidade ao trabalho e ao labor, para resuscitar a +riqueza em quantidade sempre crescente, são de natureza a arrastar +infallivelmente a desigualdade na propria distribuição d'essa riqueza.» +Attribue a prosperidade dos Estados-Unidos ao ardor da lucta pela vida sob +um governo «em que todas as restricções coercitivas se reduzem ao minimo.» +A sua «benefica prosperidade» baseia-se inteiramente na «santidade do +contracto e na estabilidade da propriedade privada: a primeira, +instrumento, a segunda, recompensa do successo na concorrencia +universal.»</p> + +<p>«Existem duas categorias de mobis, diz, e existem só duas, sob a +influencia das quaes até hoje se pôde produzir e reproduzir a enorme +quantidade de materiaes necessarios á subsistencia e ao conforto da +humanidade.» «O primeiro systema é o da livre concorrencia», o systema +seguido na America do Norte; o segundo «consiste em dar conta simplesmente +da sua tarefa ordinaria, tarefa fixada talvez por senhores <span +class="pagenum"><a name="pag20">[20]</a></span> equitativos e bons, mas +imposta aos recalcitrantes pela prisão ou pelo chicote.» Foi d'este ultimo +systema que brotou a maravilhosa prosperidade do Perú sob os Incas. E +termina: «Tanto quanto nol-o ensina a experiencia, somos forçados a +concluir que toda a sociedade deve adoptar um ou outro systema, sob pena de +caír da penuria na inanição.»</p> + +<p>Examinemos as proposições principaes na sua these.</p> + +<p>Em primeiro logar não se prova que a democracia tenha usado em seu +proveito do poder que conquistou. É verdade que o suffragio universal se +tornou «a base d'uma verdadeira tyrannia», segundo a expressão de Maine. +Nos governos democraticos tem-se formado verdadeiras oligarchias +administrando os negocios do Estado em seu proveito. Entre nós, nos ultimos +cincoenta annos, já tivemos dois exemplos de «tyrannias» d'esta especie, +uma apoiando-se na violencia o no favor real, a outra erigindo a corrupção +em systema politico e vivendo por este meio. Estas oligarchias governam em +seu exclusivo proveito; as crises sociaes e economicas que d'ordinario lhes +succedem, provam-n'o superabundantemente.</p> + +<p>Mas, quando a democracia tiver conseguido governar realmente, como é de +esperar das reformas possiveis das instituições e dos costumes, é claro que +não poderá deixar de governar em seu beneficio. As leis que resultarão +d'esse novo estado, serão de natureza a modificar a livre concorrencia e +não afrouxarão por esse facto os mobis da producção da riqueza. <span +class="pagenum"><a name="pag21">[21]</a></span> Entre uma concorrencia +desenfreada e um regimen de escravidão existem estados intermédios. Está +seguro da posse das suas terras o proprietario cujos bens podem ámanhã ser +expropriados em beneficio publico?</p> + +<p>Não é o imposto tambem uma parcella do seu trabalho? E, todavia, não +obstante as muitas restricções que já hoje soffre o direito de propriedade, +a lei ainda deixou estimulo bastante para a tornar appetecida. O systema da +livre concorrencia é que na verdade perturba o trabalho, excluindo a plebe +da apropriação dos fructos, mantendo-a invariavelmente na miseria. Maine +sustenta que ha apenas duas categorias de mobis sob a influencia dos quaes +é possivel a conservação e augmento da riqueza--a livre concorrencia e a +escravidão; mas de facto estes systemas são fundamentalmente iguaes. A +livre concorrencia creou o capitalismo que não differe essencialmente da +escravidão; é o que nos estão mostrando claramente as revoluções sociaes +contemporaneas.</p> + +<p>É necessario manter a apropriação dos fructos, como recompensa do +trabalho, e por isso mesmo é necessario tambem estabelecer a concorrencia +sob uma base de justiça na distribuição. Seria para desesperar de todo o +progresso se a politica se mostrasse incapaz de resolver este problema.</p> + +<p>O contracto deve ser «santo» sem duvida: mas a lei é que regula o +contracto. Reduzindo ao minimo a acção coercitiva da sociedade, elevaremos +ao maximo as probabilidades dos contractos immoraes e injustos. <span +class="pagenum"><a name="pag22">[22]</a></span> Ora eu renunciaria de bom +grado a toda a politica que não fosse dominada por um ideal de justiça. Nem +só de pão vive o homem, diz o Evangelho; sacrificar tudo ao exclusivo +desenvolvimento da riqueza é abdicar do que no homem ha de mais digno. Por +isso penso que, se porventura as instituições que teem por fim normalisar a +concorrencia conduzirem a um pequeno afrouxamento da producção, nada +teremos a lamentar.</p> + +<p>Temos apontado alguns dos vicios e perigos da democracia. <em>Quid +inde?</em></p> + +<p>Prosigamos a investigação dos seus elementos de fraqueza e procuraremos +depois as conclusões que d'ahi devemos tirar.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag23">[23]</a></span> + + + + +<h2>II +<br> +Natureza da democracia</h2> + + +<p>N'este segundo ensaio, Sumner Maine volta a determinar a significação da +palavra «democracia». Andando ligadas a este termo ideias muito +differentes, é sempre indispensavel precisar a que em certo momento lhe +attribuimos. Por isso repetiremos que no presente estudo sobre o governo +popular «democracia» não significa «senão uma fórma especial de governo». É +o governo do Estado pela multidão, em opposição ao governo por um só ou por +um pequeno numero; é como o avesso da monarchia. Assim a democracia, como a +monarchia e todo outro governo «tem as mesmas funcções a cumprir, posto que +as cumpra por meio de orgãos differentes.»</p> + +<p>O primeiro dever de todo o governo é «salvaguardar a existencia +nacional.» Manter a inviolabilidade <span class="pagenum"><a +name="pag24">[24]</a></span> e a integridade do territorio, e mantel-a sem +quebra do respeito e da auctoridade que constituem a grandeza moral d'um +povo, tal é o primeiro e imprenscindivel dever de todo o governo solido, +forte e digno. é uma verdade de primeira intuição que mal carece de ser +demonstrada; ninguem decerto louvará o regimen que conduzir á morte, ao +desapparecimento e á aniquilação do corpo cuja vida devia alimentar e +engrandecer.</p> + +<p>«Se dos deveres externos d'uma nação passamos aos seus deveres +domesticos, vemos que o primeiro de todos é possuir um governo capaz de +impôr o respeito das leis civis e criminaes.» Essa mesma força destinada a +defender o corpo nacional dos ultrajes estranhos, só se tornará totalmente +benefica quando se applicar á manutenção da ordem dentro da mesma +individualidade politica. D'outra fórma a existencia nacional periga +igualmente; que a morte venha d'uma offensa externa ou da desordem e +antagonismo dos elementos constituintes internos, a decomposição é em ambos +os casos inevitavel. Ora a condição de toda a ordem é a obediencia á lei, e +o governo que deixar de a impôr firmemente, arriscando, a existencia +nacional pela permissão da desordem interna, terá faltado a um dos seus +mais imperiosos deveres.</p> + +<p>Aquelles a cujos principios repugna a acção do Estado, apresentam-nos +como modelo e ideal a realisar certas communidades em que a obediencia á +lei reveste um tal caracter de espontaneidade que <span class="pagenum"><a +name="pag25">[25]</a></span> bem se poderia julgar inutil a intervenção de +qualquer auctoridade. Esquece-se a influencia educativa da repressão, +esquece-se que desde o momento em que faltasse o poder que os creou, esses +habitos lentamente iriam afrouxando e desapparecendo até que a regressão á +barbarie fosse completa. Se a obediencia se obtem sem esforço é «unicamente +porque, durante o decorrer de seculos sem numero, o Estado soube, pelo +cumprimento rigoroso dos seus deveres essenciaes, crear habitos e inspirar +sentimentos que lhe poupem a necessidade de recorrer aos castigos +legaes.»</p> + +<p>Por vicios de organisação ou por natureza, os governos democraticos que +saíram da Revolução franceza teem vivido n'uma agitação social permanente, +muito ao contrario do que exigem os deveres fundamentaes d'um bom governo. +Devemos reconhecer a sua inferioridade n'este ponto, embora seja licito e +justo investigar as origens de fraqueza e procurar se porventura não haverá +meio de lhe dar remedio dentro do mesmo principio de governo.</p> + +<p>Leva-se em conta das qualidades positivas da democracia, a sua +actividade reformadora nos costumes e nas leis, o que carece de ser +confirmado pela historia, se porventura não é radicalmente contrario ao que +ella nos ensina. «As grandes reformas legislativas tiveram por auctores +monarchias poderosas.» «Nós mesmos vivemos na poeira do Imperialismo +romano; a parte mais importante do direito moderno não é outra coisa senão +uma formação sedimentar <span class="pagenum"><a +name="pag26">[26]</a></span> depositada pelas reformas legaes dos romanos. +Esta regra geral continua a verificar-se em toda a extensão da historia +ulterior. O unico reformador radical do direito na Edadee-Média foi Carlos +Magno. Foi tambem o imperio dos Bonaparte que deu curso á nova legislação +franceza, a qual como que inundou toda a superficie do mundo civilisado, +porque os governos immediatamente saídos da Revolução franceza apenas +deixaram atraz de si projectos de leis ou leis praticamente inapplicaveis +em consequencia das contradicções que encerravam.» A verdade é simplesmente +que as fórmas de governo que se apoiam sobre um principio unico são +«eminentemente destructivas». Revestem um caracter absoluto que não +consente a existencia de lei que não seja subordinada aos seus +principios.</p> + +<p>Que dizer do enthusiasmo pela democracia e dos hymnos d'uma comica +ingenuidade que a cada passo se ouvem em seu louvor? A admiração, quando +não seja guiada por uma sã razão, conduz necessariamente a este estado de +imbecilidade em que se apagou toda a luz do mais elementar raciocinio. +Todos os governos teem tido os seus fanaticos; seria despiedoso escarnecer +do que é condição das enfermidades permanentes da humanidade. Não +esqueçamos porém quanto é moderno este enthusiasmo pela democracia que não +partilharam aquelles mesmos que mais concorreram para o estabelecimento dos +governos populares. «Tocqueville considerava a democracia como inevitavel, +mas observava a sua approximação <span class="pagenum"><a +name="pag27">[27]</a></span> com desconfiança e receio.» Thiers acceitou a +republica sendo monarchico; acceitou-a e, o que é mais, defendeu-a nas +horas de maior perigo. «Grote fez o melhor que pôde para explicar e +dissipar a mediocre opinião que professavam, quanto á democracia +atheniense, os philosophos que enchiam as escólas d'Athenas; e entretanto é +um facto que os fundadores da philosophia politica, collocados em presença +da democracia, consideravam-na como uma fórma má de governo, posto que ella +estivesse então em todo o seu vigor juvenil.»</p> + +<p>«Ha de resto um genero de lisonja que a democracia recebeu sempre e +continúa a receber em extrema abundancia: é a lisonja que dirigem ao rei. +Dêmos os que o temem ou desejam attraíl-o, ou que esperam exploral-o.» E +assim era de prevêr; transferida do rei para o povo a origem do poder, +curvam-se diante do novo idolo os que outr'ora se ajoelhavam nos degraus do +throno. <em>Parendo vinces.</em> Entre uma e outra situação não ha +differença fundamental; e, se algumas dissemelhanças existem, são ainda em +beneficio da monarchia. Um só homem, de intenções rectas e intelligencia +lucida, podia encontrar o seu caminho por entre os milhões de reptis que o +obscureciam, mas o povo com que cegueira não julga tanta vez!</p> + +<p>É certo e indubitavel que as baixezas da côrte renasceram e medraram nas +democracias. Conhecer os sentimentos e paixões do povo, lisonjeal-os por +todos os modos, embora vão de encontro aos conselhos <span +class="pagenum"><a name="pag28">[28]</a></span> mais vulgares da razão e da +sciencia, abaixar-se até ao nivel dos mais baixos abdicando de toda a +franqueza e dignidade, tal é o triste calvario que toda a mediocridade tem +pisado para chegar ás regiões supremas do poder.</p> + +<p>De resto, andaria bem irreflectidamente quem d'este enthusiasmo e d'esta +subserviencia aos caprichos populares concluisse alguma coisa sobre o +futuro da democracia. Enthusiasmo e lisonja são e serão sempre apanagio dos +governantes, em volta dos quaes, de mistura com a ingenuidade, zumbem as +ambições a que nenhum meio repugna. «O imperio romano, as tyrannias +italianas, a monarchia ingleza sob os Tudors, a realeza franceza com a sua +centralisação, o despotismo napoleonico, todos foram saudados por +acclamações, na maioria, d'uma franca sinceridade, ou porque a anarchia +acabava de ser açaimada, ou porque pequenas tyrannias locaes e domesticas +se viam forçadas a abdicar, ou porque uma energia nova ia infundir-se na +politica nacional.»</p> + +<p>Jeremias Bentham «reclamava, para os governos dotados dos caracteres +essenciaes da democracia, o privilegio de escaparem melhor que os outros +governos ao que elle chamava influencias <em>sinistras</em>.» Estas +influencias são os motivos que levam a preferir o interesse d'uma classe ou +d'um só homem aos interesses da communidade. Entregue-se o poder á +communidade inteira e será exercido em proveito de todos.</p> + +<p>Sumner Maine pretende que esta vantagem que <span class="pagenum"><a +name="pag29">[29]</a></span> se reclama para a democracia pertence +igualmente ás outras fórmas de governo. Apresenta em abono da sua asserção +factos historicos em que vemos os imperadores e reis cuidarem do interesse +do maior numero com a solicitude e intelligencia que até hoje não +attingiram os governos democraticos. Mas esse interesse não derivaria +exclusivamente d'um pensamento egoista? Não seria antes a necessidade de +procurar na plebe o apoio que as classes privilegiadas lhes recusavam? +Sendo assim, o desvelo facilmente se converteria em oppressão quando os +interesses dos governantes o exigissem. É d'este perigo que a democracia +deverá livrar-nos.</p> + +<p>Maior peso me parece ter a segunda reflexão que Sumner Maine faz sobre o +raciocinio de Bentham. «O mundo compõe-se de vulgar», diz Machiavel; e por +isso a plebe desconhece os seus interesses. «Assim, a these fundamental de +Bentham volta-se contra elle. Pretende que se confiaes o poder ás mãos d'um +homem, servir-se-ha d'elle em seu proprio interesse. Applicai a regra á +totalidade d'uma communidade politica,--deverieis obter um systema perfeito +de governo. Mas se a ligardes a este facto notorio que as multidões são +demasiado ignorantes para entenderem o seu interesse, fornece o melhor dos +argumentos contra a democracia.»</p> + +<p>D'um e d'outro lado ha uma grande somma de verdade. Não padece duvida +que as monarchias procurarão governar em seu proveito, já apoiando-se n'uma +classe, já associando-se á plebe; e é tambem <span class="pagenum"><a +name="pag30">[30]</a></span> inquestionavel que a democracia ainda não +logrou extirpar este vicio, substituindo apenas os interesses dos +aventureiros e das oligarchias capitalistas aos interesses das monarchias e +aristocracias d'outro tempo. O problema consiste, não em rejeitar +simplesmente a these de Bentham, fundamentalmente verdadeira, mas sim em +encontrar para as democracias uma maneira de funccionar adequada, +realisando praticamente a abolição das influencias sinistras.</p> + +<p>«De todas as difficuldades que encontra uma democracia, a mais grave, a +mais constante, a mais fundamental, liga-se ás proprias entranhas da +natureza humana. A democracia não é senão uma fórma de governo, e em todo o +governo a acção do Estado é determinada pelo exercicio d'uma vontade. Mas +em que sentido póde a multidão querer?» Julga-se vulgarmente que o povo é +capaz de manifestar claramente a sua vontade sobre as questões que a +politica levanta e de facto assim acontece quando estas se apresentam com +simplicidade. Não é este porém o caso mais vulgar; as questões politicas +mais do que nenhumas outras são em extremo difficeis e complexas, e não só +não podemos esperar que a multidão comprehenda e veja o que muitas vezes +não vêem os melhores e mais experimentados espiritos, mas tambem seria +chimera esperar que em tal obscuridade se podesse chegar a um accordo de +opinião. Quando muito, o povo é capaz de adoptar a opinião d'um homem ou +d'um partido, mas seria erro suppôr que procedeu com madureza e reflexão; +ao contrario, <span class="pagenum"><a name="pag31">[31]</a></span> os +exemplos de todos os dias mostram-nos que a multidão segue a opinião d'este +ou d'aquelle pelo prestigio que o cerca ou por quaesquer outros motivos +estranhos ao seu ideal politico. O mal é tanto mais grave quanto em nossos +dias a democracia se tem mostrado excessivamente zelosa, sujeitando á +censura do povo os mais pequenos actos publicos e embaraçando toda a +administração. O que seria justo, se o governo do povo fosse effectivo e se +aquillo a que chamamos opinião publica fosse mais do que a opinião «d'uma +qualquer personalidade,--ou o chefe d'um grande partido,--ou um pequeno +influente local,--ou uma associação solidamente organisada,--ou um jornal +impessoal.»</p> + +<p>Como meio de remediar a impossibilidade de confiar a administração do +Estado directamente á multidão, tem-se usado o governo +«representativo».</p> + +<p>Ficam remediados em parte os males acima expostos; reduzindo o corpo +eleitoral aos representantes da nação, com a reducção do numero crescem +proporcionalmente as probabilidades de alcançar um accordo de opinião e uma +decisão intelligente e justa. Comtudo, este systema que, em principio, +deixando uma grande liberdade aos representantes do paiz parecia realmente +dever prestar valioso auxilio aos governos democraticos, começa agora a +declinar em vista d'uma nova theoria que julga o representante sujeito a um +«mandato imperativo». Como poderá constituir-se a opinião d'uma camara em +que cada deputado representa a opinião d'um circulo? Onde <span +class="pagenum"><a name="pag32">[32]</a></span> acabam e onde começam os +poderes do mandato? Porventura o deputado não poderá afastar-se da circular +que de costume dirige aos eleitores em vesperas de eleição? Uma tal maneira +de conceber a representação nacional deve irremissivelmente conduzir a uma +perfeita esterilidade e á mais absoluta desordem. «A obstrucção que os +politicos experimentados deploram com tantas lamentações e surprezas, não é +outra coisa senão um symptoma da doença familiar aos grandes corpos +governativos. Provém do grande numero de deputados e da diversidade de +opiniões que luctam para abrir caminho.» O mal póde muito bem converter-se +no abandono ao poder executivo da maior parte da auctoridade legislativa +das camaras.</p> + +<p>Pretende-se ainda corrigir a grande difficuldade dos governos +democraticos por meio do «plebiscito». N'este caso apresenta-se a todo o +paiz as questões sobre que é preciso conhecer a opinião do povo e todo o +eleitor não terá mais do que responder <em>sim</em> ou <em>não</em>. Foi +por este meio que um despota militar obteve do povo francez uma resposta +favoravel a tudo quanto quiz para estabelecer o seu imperio.</p> + +<p>Sob o titulo de <em>Referendum</em> o plebiscito faz parte da +constituição federal da Suissa, e por muitas vezes o povo d'aquelle paiz +tem exercido este direito. Desde que um certo numero de cidadãos o +pretende, uma lei approvada pelo parlamento só entra em vigor depois de ter +recebido a sancção popular. Sem que se possa dizer que a experiencia deu +maus resultados, «em contrario do que se esperava e com o <span +class="pagenum"><a name="pag33">[33]</a></span> amargo desapontamento dos +auctores do <em>Referendum</em>, leis da mais alta importancia, redigidas +muitas vezes manifestamente com um fim de popularidade, soffreram o +<em>veto</em> do povo, depois de terem sido adoptadas pela legislatura.» +Maine explica este resultado pelo cansaço do eleitor que, depois da +agitação e das luctas que um facto d'esta ordem provoca, acaba por dar uma +resposta negativa a quanto lhe propõem.</p> + +<p>Demais, as grandes reformas que principalmente a industria moderna tem +realisado seriam igualmente levadas a effeito se dependessem da approvação +popular? Seja-me permittido duvidar: as grandes reformas demandam +qualidades de intelligencia e caracter de que o povo carece. «O mundo +compõe-se de vulgar», na phrase tão verdadeira de Machiavel.</p> + +<p>Entre as forças que a democracia tem chamado em seu auxilio como meio de +dar á sociedade politica a cohesão indispensavel para que a auctoridade +governativa se exerça energicamente, entre as forças cujo apoio tem +buscado, estão o espirito de partido e a corrupção.</p> + +<p>«Entre as influencias capazes de arregimentar, como o demonstra a +historia, massas de cidadãos sob o jugo d'uma disciplina civil, o espirito +de partido e a corrupção são provavelmente tão velhos como a propria +politica. O grande historiador da Grecia descreveu-nos, em algumas das suas +paginas mais commoventes, a ferocidade selvagem das luctas de partido no +seio dos estados gregos; e nada se approxima, nos tempos modernos, da +escala grandiosa em <span class="pagenum"><a name="pag34">[34]</a></span> +que se praticava a corrupção, por occasião das eleições da republica +romana, não obstante todos os embaraços accumulados em contrario por uma +fórma antiga de escrutinio.»</p> + +<p>O espirito de partido tem qualquer coisa de religioso e muito de +militar; é religioso pela repugnancia que anda ligada á abjuração d'uma +primeira confissão, é militar pela obediencia que impõe. Se alguma coisa +prejudica os seus beneficios, é simplesmente embaraçar por vezes a pratica +da justiça, da franqueza, da lealdade e de tantas outras virtudes que na +vida particular resumem o que ha de mais nobre no coração humano. Todavia, +nos governos democraticos é o seu principal apoio, o elemento politico de +maior energia que encerram, e seria deploravel que afrouxasse ou +desapparecesse emquanto as sociedades não encontrarem novas bases de +cohesão.</p> + +<p>A corrupção é o maior cancro dos governos populares; e, se não lhes é +peculiar, encontra n'elles um terreno tão adequado que tem sido levantada +ás honras de systema politico. De facto, assim acontece; os homens que na +sua vida particular foram d'uma inteira abnegação e desinteresse, na +politica mais do que uma vez recorreram á corrupção, convencidos de que +ella era o unico meio de crear um grupo politico unido e disciplinado, base +essencial a um governo estavel e fecundo. Erige-se a corrupção em systema +politico, na descrença de todo o sentimento nobre e de todo o mobil d'acção +que não seja <span class="pagenum"><a name="pag35">[35]</a></span> um +sordido e insaciavel egoismo. Tão baixo desceu o nivel moral das sociedades +contemporaneas!</p> + +<p>Os Estados-Unidos da America são famosos pela sua corrupção: são a par +da Russia o paiz em que a corrupção é companheira inseparavel de toda a +funcção publica. Ha porém uma differença: é que na Russia, na opinião d'um +escriptor que a conhece muito bem, aquillo que nós chamamos corrupção, +reveste aos olhos dos naturaes o caracter d'um legitimo tributo, +auctorisado pela tradição oriental.</p> + +<p>Na verdade, os Estados-Unidos, que tantas vezes os democratas nos +apontam para exemplo, teem o primeiro logar no rol da politica de +corrupção. E a França foi mais feliz com a sua republica? Os homens de +estado que a dirigem convenceram-se de que, como na America, na dissolução +de todos os vinculos sociaes só poderiam contar com o egoismo. «A corrupção +publica attinge alli proporções incriveis, com projectos de obras publicas +excessivas e extravagantes, n'uma das extremidades da escala, emquanto no +outro extremo se abre o trafico de votos nas associações eleitoraes, para +os innumeraveis pequenos logares que estão á disposição da administração +franceza, uma das mais centralisadas que se conhece.»</p> + +<p>Sem pretender que a corrupção seja um mal exclusivo dos governos +democraticos, creio que todo o homem observador reconhecerá comigo que as +democracias assentes n'uma base individualista, activando a concorrencia e +dando entrada na vida publica <span class="pagenum"><a +name="pag36">[36]</a></span> aos mais pequenos, são um terreno +eminentemente favoravel a este desolador espectaculo de ambições e baixezas +que os tempos modernos nos dão incessantemente.</p> + +<p>Resumindo: sem negar muitas das vantagens dos governos populares nem +mesmo contestar a legitimidade do principio em que se baseiam, a +representação, quiz simplesmente mostrar nas presentes considerações as +graves difficuldades do seu exercicio, até agora ainda não resolvidas de +maneira a assegurar a ordem na sociedade e uma administração intelligente e +proba.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag37">[37]</a></span> + + + + +<h2>III +<br> +A edade do progresso</h2> + + +<p>Nos governos populares, um dos erros maiores e mais fecundos em +consequencias desastrosas tem sido a confusão entre mudar e progredir. Os +paizes mais ou menos claramente governados pela democracia, nos ultimos +cincoenta annos, entraram n'este «periodo de legislação contínua» que +accumula reformas sobre reformas e, não contente de ter rompido +violentamente com o passado, á falta d'outro alimento devora hoje o que +hontem creou, n'uma fecundidade apparente, mas n'uma esterilidade real. Os +decretos e leis que os parlamentos da Europa votam cada anno constituiriam +só por si uma immensa bibliotheca; chegamos a uma febre legislativa tão +intensa que as camaras quasi não discutem orçamentos e contas, porque o +tempo mal chega para reformas; não ha partidos <span class="pagenum"><a +name="pag38">[38]</a></span> conservadores, não se cuida em consolidar, +corrigir e desenvolver; para deante, sempre para deante, caminhar rapida e +incessantemente é a aspiração commum e unica. Nos paizes em que houve uma +aristocracia poderosa, e mesmo em Portugal, não é raro encontrar vastos +palacios, traçados sobre largos planos, mas em grande parte por concluir; o +edificio que a democracia se propõe levantar é magestoso, mas receio que, +se não adoptar melhor systema de administração, lhe aconteça como aos +palacios fidalgos em que estavam lançados alicerces para tudo, mas não +havia parede concluida.</p> + +<p>«Existe uma certa semelhança entre o periodo das reformas politicas no +seculo dezenove e o periodo da reforma religiosa no seculo dezeseis. Hoje, +como então, um pequeno grupo de chefes emprehendedores distingue-se da +multidão dos sectarios dóceis. Hoje, como então, encontra-se um certo +numero de beatos zelosos que desejam mais do que tudo o reino da verdade. +Ha alguns para quem o movimento que activam, não é senão um meio de se +subtraírem ao que é francamente mau; outros vêem alli o meio de saír d'uma +situação apenas supportavel para ganharem uma situação melhor; para um +pequeno numero é incontestavelmente a elevação a um estado ideal, que +concebem umas vezes como um estado natural, outras como uma especie de +millenio cheio de promessas. Mas atraz d'estes, hoje como outr'ora, vem a +multidão que se embriaga com o prazer de mudar por mudar.» Paixão egoista +ou paixão individualmente <span class="pagenum"><a +name="pag39">[39]</a></span> desinteressada, imitação inconsciente ou +fraqueza e cega sujeição aos instinctos populares, o prazer de mudar +apoderou-se da nossa época com uma força poderosa em constante actividade. +Se esta força se póde tornar effectiva, se a mudança é real e, n'este caso, +se tem como resultado a melhoria promettida, eis o que convém saber para +avaliarmos a sua influencia e beneficios.</p> + +<p>A paixão de mudar é devida «a phenomenos universaes e permanentes da +natureza humana» ou deriva de «causas excepcionaes que affectam +momentaneamente a esphera da politica»? No primeiro caso será invencivel e +a sua acção constante, como a de todos os elementos naturaes; no segundo +caso será susceptivel de destruição e a sua acção transitoria e por vezes +ephemera. Ora, observando a historia dos costumes e instituições, e a vida +social dos differentes povos, somos levados a crer que «o estado normal ou +natural da humanidade não é o estado progressivo; é a estabilidade e não a +instabilidade. A immobilidade da sociedade é a regra, a sua mobilidade a +excepção.»</p> + +<p>A todo o mundo musulmano repugna a mais pequena alteração dos seus +costumes e leis, e os negros da Africa detestam-n'a igualmente. A China ha +muitos seculos que attingiu uma completa immobilidade e, não obstante ter +andado tão intimamente envolvida com as raças de espirito e civilização +differente, conserva as suas tradições com uma fidelidade, maravilhosa em +taes circumstancias.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag40">[40]</a></span> Se estes factos +podem ser julgados como demonstração insufficiente, por se referirem a +raças que chegaram ao limite do desenvolvimento compativel com a sua +capacidade, voltemo-nos para a Europa e veremos que, á parte a esphera mais +propriamente chamada politica, as mudanças nunca são tão radicaes e +profundas como apparenta a febre legislativa. O inglez em Portugal, o +portuguez na India, na Africa ou no Brazil, todos os emigrados revelam por +todo o mundo a sua origem pela tenacidade com que conservam os habitos do +seu paiz. Ha individuos e raças com um extraordinario poder de adaptação e +que por momentos parecem invalidar a regra; mas não só os habitos +primitivos nunca se transformam completamente, mas apenas encontrem +condições apropriadas voltarão a manifestar-se energicamente. A faculdade +de adaptação a habitos differentes é, em regra, muito limitada +relativamente ao fundo permanente e indestructivel que caracterisa os +diversos ramos da especie humana.</p> + +<p>Passando dos habitos ás maneiras, encontraremos fixidez semelhante. «Um +solecismo de maneiras ou de linguagem», «a irregularidade commettida no uso +d'um garfo», «a pronuncia viciosa d'uma vogal ou d'uma lettra aspirada» são +motivos de antipathia ou repulsão. «Conhecemos de fonte certa a existencia +d'este sentimento. Está longe de ser de apparição moderna; a sua origem é, +pelo contrario, muito antiga, provavelmente tão velha como a humanidade. As +distinções, de antiguidade incalculavel, entre uma <span class="pagenum"><a +name="pag41">[41]</a></span> raça e uma outra raça, entre o grego e o +barbaro, com toda a reciprocidade de antipathia que arrastavam, parecem não +ter tido, em principio, outro fundamento senão uma certa repulsão +occasionada por variantes de linguagem. Note-se que este sentimento não se +confina nas regiões ociosas, ou, se quizerem, superfinas da sociedade. +Penetra até á mais humilde esphera social em que o quadro das maneiras, +posto que differente, se impõe talvez com mais rigor.»</p> + +<p>N'uma parte muito importante das sociedades europeias, nas mulheres, o +espirito conservador revela-se com inteira franqueza. O facto é digno de +notar-se e de valor, se considerarmos que até agora as mulheres se teem +conservado estranhas á politica, com excepção de certos individuos em que a +paixão politica se apresenta com um caracter morbido. Não se póde negar +que, não obstante os aphorismos em contrario, ninguem é mais constante do +que a mulher. No seu espirito, as regras de cortezia e de moral persistem +com singular tenacidade e a mais pequena infracção reveste aos seus olhos +um caracter bem mais grave do que aos olhos dos homens. Note-se como lhe +repugna abandonar os prejuizos aristocraticos e as distincções +convencionaes de classe. Aquillo mesmo a que chamamos <em>modas</em>, e que +de ordinario se julga d'uma instabilidade infinda, não varia afinal tão +radicalmente como se imagina ao simples aspecto d'uma renda posta á direita +ou á esquerda. As figurinhas de Tanagra teem no trajar semelhanças +frisantes com as mulheres do nosso tempo. O espirito <span +class="pagenum"><a name="pag42">[42]</a></span> conservador da mulher é um +facto incontestavel.</p> + +<p>A prehistoria mostra-nos que as differenças entre o homem selvagem e o +homem civilisado são bem menos profundas do que nos fazia suppôr o atrazo +scientifico. Sem duvida, as differenças são grandes, mas a prehistoria pôz +a descoberto o fundo inalteravel da natureza humana, e as semelhanças e o +remanescente do estado selvagem surprehendem-nos pela sua largueza. «A +gente civilisada entrega-se com a maior diligencia a occupações, e +abandona-se com o maior prazer a distracções que seria incapaz de explicar +sob o ponto de vista racional, ou de conciliar com os preceitos da moral +corrente. Estas occupações e estas distracções são, em geral, communs ao +homem civilisado e ao selvagem.» Ambos combatem, caçam e dançam; ambos se +deixam seduzir pela rhetorica; e ambos finalmente permanecem, fetichistas, +um com seu amuleto, o outro com «as palavras, phrases, maximas, proposições +geraes cuja raiz se crava em theorias politicas tao completamente +esquecidas da maior parte da humanidade como se remontassem á mais +longinqua antiguidade.» Verdadeiro fetichismo, porque, quando buscamos as +causas d'este estado de espirito que no dominio da politica nos leva á +reforma legislativa continua, «parece não provir senão em pequenissima +parte de convicções intelligentes, e derivaria antes, e de largo modo, do +effeito que produzem ainda formulas e noções emprestadas a theorias +politicas completamente arruinadas.»</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag43">[43]</a></span> As doutrinas de +Rousseau, dando á sociedade uma nova base, tinham como consequencia uma +organisação inteiramente nova; d'ahi a reforma radical da legislação. O +<em>Contracto social</em> requeria a intervenção do povo a cada instante, +este despotismo do numero, tão fecundo em catastrophes; toda a lei carece +de ser <em>referendada</em> pela multidão para que a soberania popular se +mantenha. Era assim que se devia chegar á sonhada liberdade e igualdade +absoluta. O tempo mostrou a inanidade de taes especulações, hoje +inteiramente caducas na mente dos publicistas, dos philosophos e de quantos +vêem a politica com olhos intelligentes, desvendados das perigosas +concepções <em>a priori</em>. Como acontece que theorias por completo +refutadas continuem ainda a alimentar a actividade legislativa, com um fim +manifesto de transferir para a multidão todos os poderes, banindo toda a +influencia corporativa e buscando uma igualdade que existe na lei mas que +na realidade é escravidão? A theoria morreu, mas ficaram as divindades que +creou. As theorias politicas «dão origem a uma quantidade de phrases e de +ideias associadas a essas phrases, cuja actividade e caracter aggressivo +persistem muito tempo depois da mutilação ou da morte da especulação-mãe.» +Encontramos aqui uma série de phrases sonoras, vazias de sentido, mas +conservando uma influencia que sobreviveu ás ideias; encontramos, n'uma +palavra, o fetichismo politico, a causa principal d'este legislar +ininterrompido e infindo.</p> + +<p>Entre as causas secundarias do movimento reformador <span +class="pagenum"><a name="pag44">[44]</a></span> deveremos tambem apontar a +associação entre o progresso politico e o progresso scientifico e o +desenvolvimento industrial correlativo. Com os caminhos de ferro, a machina +de vapor e o telegrapho imagina-se que devem coexistir innovações politicas +parallelas. O que não é exacto: sem duvida, o progresso industrial por +muitos modos influe vantajosamente no desenvolvimento intellectual e seria +grave erro pretender contestal-o; mas, tendo a politica e a sciencia campos +d'acção distinctos e separados, posto que dependentes em parte, segue-se +que as transformações d'um lado não envolvem necessariamente identicas +transformações do outro lado, senão n'aquella parte restricta e limitada em +que as duas espheras se tocam. A sciencia estabelece as relações do homem +com a natureza, a politica as relações sociaes entre os homens; e, por +conseguinte, a sciencia poderá ser factor politico, mas a politica não +deverá em boa logica ser-lhe subordinada, dadas as relações heterogeneas +que respectivamente as constituem. Os factos scientificos correntes estão a +mostrar-nos a cada passo o perigo d'uma tal associação. Se do +desenvolvimento scientifico alguma coisa houvessemos de trazer para a +politica, seria tudo em prejuizo da democracia; pois não só a sciencia nos +indica que a fórma de governo natural é a escravidão, mas temos visto +quanto são ás vezes impopulares as reformas industriaes que acarretam á +humanidade larga somma de bem-estar.</p> + +<p>Não confundamos: a politica não deve ser subordinada <span +class="pagenum"><a name="pag45">[45]</a></span> á sciencia, mas o +desenvolvimento scientifico póde em certos casos exigir transformações +politicas. Assim, presentemente, tendo crescido a riqueza e tendo a sua +producção ficado nas condições inteiramente novas que lhe estabeleceram as +applicações industriaes das modernas descobertas scientificas, é claro que, +variando os processos de producção, as instituições economicas terão de se +adaptar a este novo estado; mas vae longe d'aqui e de factos semelhantes a +estabelecer paridade e relação necessaria entre o progresso scientifico e +reforma legislativa.</p> + +<p>Considerando o caracter estavel da humanidade em geral, e tendo em vista +que a presente actividade reformadora deriva de theorias politicas que a +razão e a experiencia mostraram completamente destituidas de verdade e não +susceptiveis de applicação, seremos levados a concluir que a democracia +erra tomando toda a mudança por um progresso, e, ao contrario, deveria +attender a que o progresso é lento e limitado. «Nem a experiencia nem o +senso commum nos permittem crêr que se possa votar infinitamente innovações +legislativas ao mesmo tempo prudentes e beneficas. Seria, pelo contrario, +mais sensato conjecturar que as reformas possiveis são em numero +estrictamente limitado. O calor possivel, diz-se, póde atigir 2000° +centigrados; o frio possivel póde descer a 300° abaixo de 0. Mas toda a +vida organica seria impossivel n'este mundo, se os acasos da circulação +athmospherica não mantivessem a temperatura entre um maximo de 120° e um +minimo de alguns graus <span class="pagenum"><a +name="pag46">[46]</a></span> abaixo de zero centigrado. Tanto quanto nos é +dado saber, as mudanças legislativas de que parece susceptivel a estructura +da sociedade humana poderiam conter-se n'um limite igualmente estreito. E, +porque certas reformas succederam no passado, não deveremos pretender que +todas as reformas succederão no futuro, do mesmo modo que não podemos +sustentar que o corpo humano póde supportar uma elevação indefinida de +temperatura, desde que póde supportar uma certa quantidade de calor.»</p> + +<p>O radicalismo democratico, inspirando-se em simples presumpções, +abandonou a tradição, isto é, todo o thesouro accumulado por longos seculos +de experiencia politica. Restaural-a em grande parte é hoje uma +necessidade; é o que nos aconselha o exemplo dos paizes que, mais bem +avisados, se recusaram a destruir as suas constituições historicas e, sem +preoccupações philosophicas nem prejuizos de logica, se contentaram com +transformal-as ao passo e medida que as necessidades publicas o +reclamavam.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag47">[47]</a></span> + + + + +<h2>IV +<br> +Os Estados-Unidos da America</h2> + + +<p>Em quasi todas as profissões, o noviço precisa de padrinho, precisa do +apoio d'alguem, já admittido na classe, para lhe dar credito e abonar as +suas aptidões e qualidades; entregue ás proprias forças, corre grande risco +de ficar sempre n'uma posição inferior, a não ser que tenha uma capacidade +e talento excepcional. Na historia dos governos populares, os +Estados-Unidos da America foram e são no espirito dos republicanos a +garantia da estabilidade, ordem, riqueza, liberdade e segurança dos +governos democraticos. Vejamos pois rapidamente que estranha constituição é +a d'esse paiz, e até que ponto é justificado o desejo e a anciedade de a +transportar e aclimar na Europa.</p> + +<p>É de facto maravilhosa a vitalidade d'aquella <span class="pagenum"><a +name="pag48">[48]</a></span> fórma de governo que pôde atravessar incolume +uma época em que as republicas mereceram tão pouco credito. Emquanto a +primeira republica franceza. lançando mão dos mais tristes expedientes, não +se embaraçando nem com o desterro nem a guilhotina, cahiu em completo +desprezo e teve por epilogo uma severa tyrannia militar, os Estados-Unidos, +na perplexidade e tumulto que deixam uma guerra e emancipação recentes, +prosperavam e acreditavam-se sob um governo que, na opinião vulgar, era +igual ao que na Europa se mostrava absolutamente impotente. É que +analysando a constituição federal a os debates que precederam e seguiram o +seu estabelecimento, vemos que a republica na America é muito differente +d'aquillo que geralmente se suppõe; foi um governo traçado pelos velhos +moldes da monarchia britannica e tão rigorosamente conforme com esta quanto +o permittiam as condições particulares d'aquelle paiz. Os homens que o +crearam, tinham sido educados nas instituições inglezas e não tinham motivo +algum para as menosprezar; procuraram e alcançaram a independencia mas, +satisfeito este primeiro desejo, não conheceram outro modelo a seguir no +seu regimen politico interno senão aquelle que uma longa experiencia lhes +tinha mostrado bom. Naturalmente, não podia levantar-se a questão d'um rei +hereditario n'um paiz que acabava de se livrar do unico rei que tinha +conhecido, e a eleição do supremo magistrado da nação surgiu naturalmente +como a unica solução nas condições particulares d'aquelle <span +class="pagenum"><a name="pag49">[49]</a></span> momento. Semelhantemente ao +que aconteceu na França, que Thiers destinava á monarchia constitucional, +mas a quem as circumstancias mostraram que a republica era a melhor solução +n'aquelle momento. A 8 de junho de 1871 dizia á assembleia nacional que +«toda a sua vida tinha pousado no governo que o seu paiz podia desejar, e, +se tivesse o poder que mortal algum teve jámais, teria dado ao seu paiz o +que, na medida das suas forças, durante quarenta annos diligenciára +assegurar-lhe sem poder conseguil-o--a monarchia constitucional da +Inglaterra»; e a 15 de setembro de 1872 escrevia, depois d'uma viagem ao +Havre, que «ficára convencido de que só com a ideia da republica se podia +agremiar a nação e fazel-a um todo governavel.» «É em mim uma convicção +sincera e desinteressada, e as numerosas cartas que recebo, confirmam-me +n'este pensamento.»<sup><A href="#nota2" name="mnota2">2</A></sup> Assim na +America os fundadores da republica prefeririam a monarchia, e mostravam-no +bem, creando uma republica tão semelhante á monarchia quanto n'aquelle caso +o podia ser.</p> + +<p>«É preciso ter sempre presente ao espirito que a edificação da +constituição americana differe absolutamente do processo para fundar uma +constituição nova, que podemos vêr applicado hoje na Europa continental, +com intervallos de poucos annos, e que se assemelha ainda menos á fundação +d'uma <span class="pagenum"><a name="pag50">[50]</a></span> republica nova +no sentido actual da palavra. Qualquer que seja a occasião que dê +nascimento a uma d'estas constituições europeias, as instituições novas são +sempre affeiçoadas a um espirito de amargo resentimento contra as antigas +que, no melhor caso, passam por uma dura prova. Mas os colonos da America, +recentemente libertos, estavam mais do que satisfeitos com a maioria das +suas instituições, que eram, em summa, as instituições das diversas +colonias a que pertenciam. E posto que tivessem supportado uma guerra feliz +para se libertarem do rei da Grã-Bretanha e do parlamento britannico, não +sentiam nenhuma antipathia especial contra os reis ou os parlamentos +propriamente ditos. Pretendiam sómente que o rei da Inglaterra e o +parlamento britannico tinham merecido, por causa de usurpação, a perda dos +direitos que poderiam ter, e que tinham soffrido justa punição sendo +desapossados d'esses direitos. Nascidos livres e inglezes, não deviam +provavelmente ser inclinados a negar o valor dos parlamentos; e, quanto aos +proprios reis, é provavel que a maior parte, dos <em>insurgentes</em> +tivessem partilhado algum tempo, por sua conta, a opinião juvenil de +Alexandre Hamilton que, negando o direito da supremacia parlamentar sobre +as colonias britannicas, salvo nos limites em que estas o reconheciam, +sustentava que «o principio connexivo, o principio penetrante», necessario +para ligar um certo numero de communidades individuaes sob um só chefe, não +podia encontrar-se senão sob a pessoa e prerogativa <span +class="pagenum"><a name="pag51">[51]</a></span> d'um rei...» E porque a +America não tinha esse rei, teve de recorrer á eleição. Mas vae longe +d'aqui ao estabelecimento d'uma republica tal qual modernamente se entende, +isto é, baseada n'uma larga extensão do suffragio intervindo nos negocios +publicos a cada instante. Passando os olhos pelas principaes instituições +da constituição americana--presidencia da republica, supremo tribunal, +senado, camara dos representantes--veremos quanto os Estados-Unidos estão +distantes da moderna concepção da republica e se approximam das +instituições da monarchia ingleza de ha um seculo.</p> + +<p>É manifesta a semelhança entre o presidente dos Estados-Unidos e o rei +da Grã-Bretanha. Ao presidente compete todo o poder executivo; é +commandante em chefe do exercito e da marinha; e com o conselho e +consentimento do senado conclue tratados, nomeia os embaixadores, os +ministros, os juizes e os demais titulares das funcções superiores. Possue +um direito de veto limitado e a faculdade de convocar o congresso, quando +não houver sido determinada uma época especial para a sua reunião. A +semelhança entre o presidente e o rei é tão estreita que este era um dos +argumentos dos adversarios da constituição. Hamilton respondia-lhes que não +havia a escolher senão entre um presidente e um conselho executivo, mas, +n'este ultimo caso, receava que o espirito de opposição e de partido +paralysasse toda a acção executiva d'uma corporação d'esta ordem: e +insistia nas differenças--a duração temporaria das funcções presidenciaes, +<span class="pagenum"><a name="pag52">[52]</a></span> a participação do +senado nos seus poderes e o veto limitado. Comtudo a origem é manifesta e +não póde haver duvida de que, ao determinar as funcções do presidente da +republica americana, o legislador tinha diante dos olhos a constituição da +Grã-Bretanha. A semelhança é tão grande que no plano original, posto que a +eleição fosse de quatro em quatro annos, o presidente era indefinidamente +reelegivel e só muito posteriormente foi estabelecido o periodo maximo de +oito annos.</p> + +<p>«Se Hamilton tivesse vivido cem annos mais tarde, a sua comparação do +presidente com o rei seria apoiada sobre traços inteiramente differentes. +Deveria confessar que dos dois o funccionario republicano era bem mais +poderoso. Teria de notar que o veto real contra a legislação, veto que, em +1789, não se julgava ainda inteiramente perdido, tinha depois desapparecido +para sempre. Teria a observar que os poderes partilhados entre o presidente +e o senado eram absolutamente retirados ao rei; que o rei não podia mais +declarar a guerra nem concluir tratados; que não podia nomear embaixador +nem juiz; que não podia mesmo escolher o seu primeiro ministro. Não poderia +praticar nenhum acto executivo. Todos os seus poderes passaram no que +Bagehot chama um <em>comité</em> do parlamento. Mas, ha um seculo, a unica +differença real e essencial entre as funcções do rei e do presidente era +que esta ultima não tinha caracter hereditario.»</p> + +<p>O supremo tribunal é uma das instituições mais <span class="pagenum"><a +name="pag53">[53]</a></span> importantes dos Estados-Unidos e, embora +derivada da experiencia e da philosophia europeia, póde dizer-se americana +porque foi a America quem primeiro lhe deu plena realisação. A +constituição, tendo limitado distinctamente os poderes das auctoridades +legislativa e executiva, para o caso em que esses poderes fossem +transgredidos por um estado ou pela federação, incumbiu a annullação +d'esses actos ao supremo tribunal ou aos tribunaes que em certo momento +fossem instituidos pelo congresso. Esta prerogativa, porém, só poderá +exercer-se em casos determinados, isto é, quando haja litigio definido +entre individuos, estados particulares ou a união.</p> + +<p>«O successo d'esta experiencia cega-nos sobre a sua novidade. Não lhe +encontramos precedente exacto nem na historia do mundo antigo nem na do +mundo moderno. Os fabricantes de constituições prevêem d'ordinario a +violação das clausulas constitucionaes; mas, em geral, não tinham procurado +o remedio exclusivo senão no direito criminal, procedendo contra os +culpados, e não no direito civil. E nos governos populares, o temor e os +zelos de toda a auctoridade que não fosse directamente delegada pelo povo é +causa de que a solução da difficuldade tenha sido muitas vezes abandonada +ao acaso ou á arbitragem das armas.»</p> + +<p>Note-se todavia que esta instituição, que praticamente se mostrou +maravilhosa, não é tão original como á primeira vista se poderia julgar. É +facil descobrir as suas origens na Europa, Em primeiro logar, <span +class="pagenum"><a name="pag54">[54]</a></span> parece fóra de duvida que +os principaes auctores da constituição federal eram muito lidos nas +doutrinas de Montesquieu e ouviram em grande parte os seus conselhos; ora é +Montesquieu que nos affirma ser necessaria uma separação essencial entre os +poderes legislativo, executivo e judicial, distincção que hoje é moeda +corrente em politica por tal modo que nos é difficil acreditar «que a +differença de natureza entre os poderes legislativo e executivo fosse +ignorada até ao seculo quatorze.» Depois, esta mesma confusão entre os +differentes poderes do estado tinha dado logar em Inglaterra a longos e +frequentes debates sobre questões de direito constitucional, e era de +prevêr que os americanos, com a sagacidade e lucidez que empenharam na +fundação da sua lei organica, não deixassem de tentar remedio ao que na +Europa era a esse tempo um mal reconhecido. N'estes dois factos poderemos +encontrar as origens europeias das prerogativas do supremo tribunal em +questões de direito constitucional.</p> + +<p>O congresso compõe-se do senado e da camara dos representantes. E. +Freeman vê n'este facto uma das provas mais cabaes da proxima filiação da +constituição federal nas instituições inglezas. Concebe-se que n'um paiz +novo e sem tradições independentes se tivesse estabelecido uma, tres ou +quatro camaras, mas a escolha de duas demonstra que os legisladores tinham +em vista os modelos britannicos.</p> + +<p>O senado americano compõe-se de dois senadores por cada estado, eleitos +por seis annos pelas legislaturas <span class="pagenum"><a +name="pag55">[55]</a></span> locaes. É presentemente um dos corpos +politicos mais poderosos do mundo. A camara dos representantes a quem +juntamente com o senado pertence o poder legislativo, é composta de membros +eleitos todos os dois annos; os eleitores são, em cada estado, os que +tiverem «as qualidades requeridas dos eleitores encarregados de nomear o +ramo mais numeroso da legislatura do estado.» A camara dos representantes é +um corpo mais exclusivamente legislativo do que o senado; emquanto este tem +o direito de se oppôr ao presidente, cujos actos em muitos casos precisam +do seu consentimento, a camara dos representantes, com quanto tenha o +direito de vigiar os actos do poder executivo, possue-o em condições que +devem surprehender os parlamentos do nosso continente, habituados a +intervir a cada instante no que é da attribuição exclusiva do poder +executivo. Eis summariamente o caminho que no parlamento federal segue a +interpellação d'um ministro, como vulgarmente lhe chamamos: A camara está +dividida em muitas commissões, abrangendo todos os ramos do governo. +«Primeiro, quando se deseja informações do secretario d'estado ou de +qualquer outro ministro, é preciso obter o assentimento da camara. Uma vez +por semana, e n'esse dia sómente, «as questões a dirigir aos chefes dos +departamentos executivos devem fazer parte da ordem do dia para serem +enviadas ás commissoes especiaes; e as sobreditas questões devem ser +objecto d'um relatorio á camara na semana immediata.» Ás vezes, se me não +engano, o ministro <span class="pagenum"><a name="pag56">[56]</a></span> +vem á commissão; mas, se o preferir, póde limitar-se a responder á decisão +da camara por uma communicação em fórma dirigida ao <em>Speaker</em>. Este +processo cuidadosamente calculado corresponde ao nosso uso mal definido, e +tão pouco regular, de apresentar as questões e obter a sua resposta em +plena camara.»</p> + +<p>As propostas de lei teem um processo semelhante. Como os ministros não +teem assento na camara, as propostas hão de provir necessariamente d'um +membro do parlamento. Uma vez apresentadas serão invariavelmente +submettidas á respectiva commissão, d'onde podem voltar á camara +convenientemente relatadas, sendo porém raro o numero d'aquellas a que isto +acontece. Systema prudente, que tem por consequencia dar ás relações do +poder executivo e legislativo um caracter inteiramente differente do que +tem nas democracias da Europa.</p> + +<p>Não sei por que estranha perversão politica, entre nós substituiram-se +mutuamente os poderes legislativo e executivo. A iniciativa das leis parte +dos governos; e das camaras cae permanentemente uma chuva cerrada de +interpellações, pedindo contas de tudo, por tudo, d'aquelles actos para que +a reserva é uma condição de successo. Qual o resultado? O poder legislativo +não legisla, mas intervem e embaraça a cada passo a acção do governo, +nomeia e demitte os ministros, que d'ordinario teem a sua sorte ligada ás +propostas de lei que apresentam. D'aqui resulta uma completa inversão de +funcções e a desordem, <span class="pagenum"><a +name="pag57">[57]</a></span> anarchia e fraqueza consequentes. Nada d'isto +acontece nos Estados-Unidos, onde, estando os poderes precisamente +limitados, o governo nada tem que vêr com as deliberações da camara dos +representantes e a approvação ou rejeição d'uma proposta de lei não +embaraça a sua marcha.</p> + +<p>Se ao que temos apontado sobre o caracter e a organisação dos +differentes poderes accrescentarmos que a constituição federal difficulta +toda a reforma da lei organica da nação, teremos uma ideia approximada da +fórma e dos elementos do governo politico que durante um seculo permittiram +a ininterrompida prosperidade dos Estados-Unidos; constituição tão +convenientemente adaptada ás circumstancias locaes, e porventura ás +necessidades essenciaes e permanentes de todo o governo, que presentemente +nada nos indica a sua proxima abolição ou reforma.</p> + +<p>O art. 5.º da constituição diz: «O congresso, todas as vezes que os dois +terços das duas camaras o julgarem necessario, poderá propôr reformas +n'esta constituição; ou, mediante o pedido das legislaturas dos dois terços +dos estados particulares, reunirá uma convenção encarregada de propôr as +reformas que, n'um e n'outro caso, só validamente farão parte d'esta +constituição, sob todos os pontos de vista e para todas as necessidades +possiveis, se foram ratificadas pelas legislaturas dos tres quartos dos +diversos estados, ou por convenções especiaes nos tres quartos de entre +elles, segundo um ou outro modo de ratificação houver sido proposto pelo +congresso.» Tal é a disposição <span class="pagenum"><a +name="pag58">[58]</a></span> pela qual a constituição federal procurou dar +estabilidade ás suas instituições e precavêr-se contra as reformas +impensadas e prematuras. O futuro justificou a esperança dos fundadores; as +reformas teem sido raras e na maioria de pouca importancia. De 1804 a 1865 +não houve mesmo reforma alguma.</p> + +<p>Recapitulando: A constituição dos Estados-Unidos teve a sua origem nas +constituições europeias e particularmente nas instituições britannicas. +«Mas a constituição britannica que lhe serviu de modelo foi a que existia +entre 1760 e 1787. As modificações introduzidas foram aquellas, e essas +sómente, que suggeriam as novas condições de existencia das colonias +americanas, de futuro independentes. As circumstancias excluiam um rei +hereditario, e virtualmente excluiam, além d'isso, uma nobreza +hereditaria.» O successo innegavel da constituição dos Estados-Unidos é +devido em grande parte á intelligencia e sagacidade com que os legisladores +souberam aproveitar as instituições inglezas e toda a experiencia que +encerram, ao mesmo tempo que repudiavam e sanavam quanto era incompativel +com as circumstancias d'aquelle povo. O traço final e caracteristico que +nos apresenta este breve exame da republica americana, é o d'uma democracia +em que a ordem conseguiu estabelecer-se pela força, auctoridade e estricta +limitação e independencia de todos os poderes do estado.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag59">[59]</a></span> + + + + +<h2>V +<br> +Conclusões<sup><A href="#nota3" name="mnota3">3</A></sup></h2> + + +<p>Antes de passarmos ás conclusões que devemos tirar dos erros e causas de +fraqueza dos governos populares, precedentemente apontados, não será ocioso +recordar uma das mais deploraveis consequencias da sua instabilidade sobre +que Prins insiste com extrema verdade e clareza.</p> + +<p>Á inversão das attribuições do poder legislativo e executivo temos a +juntar o apparecimento d'um quarto poder do estado, monopolisando funcções +d'uma importancia capital na vida dos povos. «Ao lado dos tres +poderes--legislativo, executivo e judiciario, <span class="pagenum"><a +name="pag60">[60]</a></span> equilibrando-se, segundo a theoria de +Montesquieu, existe d'ora ávante um quarto poder, o administrativo.»</p> + +<p>«Á medida que se estreita o campo de actividade dos corpos +representativos, alarga-se o das repartições dos corpos administrativos. Á +medida que a auctoridade se enfraquece nas mãos dos ministros e dos +deputados, o obscuro e irresponsavel empregado das repartições ministeriaes +sente crescer o seu poder.</p> + +<p>O snr. Humbolt que, n'um paiz de poder forte, estudava de perto a +burocracia, chamava-lhe um «vampiro devorador», e Bagehot diz com razão que +«o mais triste fetiche que podemos adorar é um empregado subalterno.»</p> + +<p>Sob o reino da democracia, e até sob a inspecção do suffragio universal, +este fetiche levantou-se.</p> + +<p>A verdadeira direcção do paiz encontra-se nas repartições dos +ministerios. A vitalidade, abandonando os orgãos essenciaes, reflue para os +orgãos accessorios, e a persistencia, a firmeza, a decisão que faltam á +sociedade, ás assembleias e aos governos, refugiam-se na +administração.»</p> + +<p>É o que na verdade estamos a vêr, d'alto a baixo, das repartições +centraes até á mais pequena junta de parochia. O director geral d'um +ministerio é o ministro effectivo, como o secretario da camara municipal é +quem realmente administra os bens do municipio. Tão intima, tão profunda é +a necessidade de persistencia que a sociedade, para manter-se, descobre +<span class="pagenum"><a name="pag61">[61]</a></span> este meio de remediar +a instabilidade que provém das eleições continuadas!</p> + +<p>E por isso não poderemos dizer que a influencia administrativa é nas +circumstancias actuaes das democracias absolutamente illegitima, porque «no +meio das tendencias politicas que variam, dos ministerios e das maiorias +que se succedem, o modesto empregado que permanece, representa, n'este +cahos perpetuo, a tradição, a experiencia e a estabilidade.» E como estas +virtudes são condições essenciais de vida politica, os seus depositarios +terão a importancia social correspondente á utilidade das suas +funcções.</p> + +<p>Passando finalmente a procurar se dentro do principio fundamental dos +governos populares não haverá meio de fundar um governo forte, duradouro e +moral, lembrarei pela ultima vez que temos discutido aqui a +democracia--fórma especial de governo--e não essa outra democracia que +significa a tendencia a um determinado estado social.</p> + +<p>A democracia, sociedade livre baseada no reconhecimento da igualdade de +todos os cidadãos, é realmente inevitavel e o ponto capital da evolução e +do progresso politico. Só pretenderá negal-o quem desconhecer as mais +elementares lições da Historia. Através de todos os estados sociaes que a +raça aryana tem atravessado, encontramos sempre a Igualdade como norma e +fim das transformações sociaes. A escravidão, a servidão e o salariado são +differentes degraus por que vamos subindo á altura desejada. O +individualismo, embora tenha errado o seu alvo, <span class="pagenum"><a +name="pag62">[62]</a></span> creando uma escravidão de nova especie, tinha +comtudo entre as suas aspirações a esperança do nivelamento das condições +sociaes por meio da livre concorrencia. O meio mostrou-se praticamente +impotente e, como tal, foi abandonado; mas o fim permanece o mesmo.</p> + +<p>Semelhantemente, a democracia--governo da multidão em opposição ao +governo d'alguns ou d'um só--era um meio de alcançar a igualdade politica +que a experiencia tem mostrado insufficiente ou incapaz. Não que o seu +principio fundamental possa ser facilmente invalidado ou substituido. Agora +que, póde dizer-se, os povos do continente europeu alcançaram a maioridade +e o progresso economico aniquilou em grande parte as necessidades e +instinctos guerreiros, não descobrimos outra origem legitima do poder que +não seja a vontade dos governados; mas na maneira de constituir por esta +fórma um governo efficaz reside o principal problema da democracia.</p> + +<p>Não padece duvida que as fórmas até agora encontradas não satisfazem. É +o que acabamos de vêr nas observações de Sumner Maine, posto que seja +necessario descontar-lhes os defeitos inevitaveis de toda a fórma de +governo. Seria injusto julgar apanagio das democracias o que é commum a +todo o governo politico. Assim, tivemos occasião de vêr que o espirito de +adulação e de lisonja que tem erguido aos primeiros cargos do estado homens +que nem pelo caracter nem pela intelligencia deveriam jámais passar das +mais infimas condições, ou o encontremos <span class="pagenum"><a +name="pag63">[63]</a></span> na côrte ou nos <em>meetings</em>, é sempre a +mesma ambição isenta de escrupulos, rojando-se aos pés d'um deus +omnipotente.</p> + +<p>A democracia, vimos, tem dois inimigos que até hoje não lhe permittiram +estabelecer-se solidamente--o Imperialismo e o Radicalismo. Ora é +exactamente a natureza e caracter dos vencedores dos governos populares que +nos esclarecem sobre as faltas d'estes. As democracias teem morrido ás mãos +do imperialismo, porque não teem sabido dar-nos a ordem, segurança e +grandeza que esta fórma de governo representa: e teem morrido tambem ás +mãos do radicalismo, ou porque igualmente não souberam estabelecer a ordem +e n'este caso o radicalismo é apenas symptoma de anarchia; ou porque, por +um vicio de funccionamento, permittiram a formação de oligarchias +capitalistas e identicas, e n'este caso o radicalismo é a consequencia d'um +justo sentimento de justiça, a equidade na distribuição da riqueza. É +necessario pois que a democracia se inspire nestas duas necessidades para +que possa resistir á ruina que, na experiencia de quasi um seculo, tem +seguido tão de perto o estabelecimento dos governos populares.</p> + +<p>Os meios que a razão e a historia nos indicam para chegar a este fim não +differem essencialmente dos que nos aconselhavam os philosophos que tiveram +tão grande parte nas revoluções contemporaneas. Demonstrada a +impossibilidade do exercicio directo da soberania popular, a representação +por meio de delegados surge naturalmente como o unico meio <span +class="pagenum"><a name="pag64">[64]</a></span> de governo democratico. Não +ha, não póde haver outro, emquanto se não transferir a origem do +governo.</p> + +<p>Vimos porém que a representação não evitou as «influencias sinistras» de +que falla Bentham; pelo contrario, no regimen representativo, essas +influencias mudaram de classe mas resurgiram com a força que talvez nunca +tivessem tido sob o antigo regimen. E não só resurgiram mas +multiplicaram-se; veja-se de quantas especies parasitas estão eivadas as +democracias, desde os deputados directores de grandes companhias até aos +empresarios politicos da aldeia. Parece pois que a questão capital é, pela +segunda vez, livrar a politica das «influencias sinistras», isto é, tornar +legitima a representação nacional, de fórma que ao interesse das +oligarchias se substitua o interesse da collectividade.</p> + +<p>Para isso qual deverá ser a base da representação? O suffragio universal +está julgado. Sendo impossivel constituir o quer que seja de homogeneo com +elementos heterogeneos, todo o interesse social desapparece, e fica livre o +campo á formação das tyrannias que a corrupção mantém. Isto é hoje um facto +repetido centenas de vezes; já não são simples presumpções.</p> + +<p>«Na sua obra célebre sobre as origens do governo representativo na +Europa, Guizot adopta, como base do systema, a Razão.<sup><A href="#nota4" +name="mnota4">4</A></sup> Ha, segundo elle, na sociedade <span +class="pagenum"><a name="pag65">[65]</a></span> uma somma de ideias justas, +de sabedoria, de intelligencia. Estes elementos estão dispersos; é preciso +saber colhel-os, concentral-os, constituil-os em governo e assentar a +auctoridade sobre a capacidade.»</p> + +<p>Mas por onde aferir a capacidade? Quaes as provas necessarias para +admittir o cidadão a intervir directamente nos negocios publicos? Sobre que +basearemos a presumpção de que votará reflectida, livre e +conscienciosamente? O censo? A instrucção?</p> + +<p>A propriedade suppõe capacidade administrativa e independencia desde que +attinja certas proporções; mas para muitos, para o maior numero talvez, «o +censo é simplesmente uma presumpção de fortuna, não tendo coisa alguma de +commum com as aptidões politicas e consagrando arbitrariamente o privilegio +d'uma oligarchia de ricos com exclusão do resto da nação.»</p> + +<p>A instrucção fornece uma prova de capacidade talvez mais fallivel ainda +do que o censo. Por maiores que sejam as provas de intelligencia não podem +garantir-nos a capacidade politica. «Um sabio de primeira ordem póde ser um +mau eleitor, um operario póde tornar-se um excellente eleitor. Tudo depende +de saber a que se applica o seu voto e em que condições o vae dar.»</p> + +<p>Não havendo meio de reconhecer a capacidade, torna-se pois necessario +adoptar uma outra base de representação. E não póde ser senão a que a razão +e a historia nos aconselham--o interesse social.</p> + +<p><span class="pagenum"><a name="pag66">[66]</a></span> Para o podermos +acceitar como fundamento da representação, carecemos primeiro de distinguir +entre duas noções absolutamente differentes e tão frequentes vezes +confundidas--a eleição e a representação.</p> + +<p>Para nós, e em geral para todos os que acceitaram o systema +representativo, «a eleição e a representação são noções identicas, +confundimol-as intencionalmente; não concebemos mesmo uma sem a outra, e +não admittimos que um cidadão possa representar outros cidadãos se não é +eleito por elles.</p> + +<p>Em theoria, estas duas noções da representação e da eleição são todavia +absolutamente distinctas; podemos, com a eleição directa, ter mandatarios +que em nada representam a opinião de todos os votantes. Podemos, com a +representação das collectividades de interesses, obter um corpo +representativo fiel e sincero, posto que poucos eleitores tenham tido parte +no voto.</p> + +<p>O mandatario eleito pelos seus concidadãos por maioria de votos, sobre +uma questão de principio; não representa nem a minoria, nem todas as +<em>nuances</em> da maioria; nada garante que elle comprehendeu ou não +atraiçoará a vontade dos seus eleitores. O delegado d'um grupo, ou seja +eleito ou deva o seu mandato á antiguidade, á sorte, á sua funcção, á +capacidade, á situação preponderante, etc., tem não só as convicções mas os +interesses do seu grupo, e não deixa de estar d'accordo com os seus +mandantes senão traíndo-se a si proprio.»</p> + +<p>O fundamento racional da representação das collectividades <span +class="pagenum"><a name="pag67">[67]</a></span> de interesses, em vez da +representação do numero, é esta coincidencia dos interesses individuaes dos +representantes com os interesses da collectividade, O bem publico é uma +abstracção que, com excepção d'um numero muito restricto de pensadores, não +tem realidade, nem valor objectivo; debalde o invocaremos para sollicitar +uma politica intelligente e justa. Mas appellemos para o interesse, +fundamos n'um só o interesse do individuo e da collectividade, e os +conselhos do egoismo não permittirão que os representantes se afastem do +bom caminho.</p> + +<p>Depois, ainda no campo racional, que significa o voto individual? Como +sêr politico, é porventura o individuo alguma coisa independente das +relações sociaes? Para que a representação seja legitima e verdadeira é +preciso representar essas relações e não um numero composto de unidades que +só por si não teem existencia social.</p> + +<p>Se do campo racional passamos ao terreno historico, procurando as +origens do systema representativo vemos que em principio não fôra outra +coisa senão a representação das corporações e demais collectividades; e só +por corrupção e em grande parte por effeito do liberalismo individualista, +caíu na desordem presente, saída muito logicamente da dissolução de todos +os vinculos sociaes.</p> + +<p>Para que possa dar-se a representação das collectividades de interesses, +é necessario pois reatar os laços dissolvidos, é necessario organisar de +novo e sob as novas bases que as condições actuaes da industria <span +class="pagenum"><a name="pag68">[68]</a></span> exigem, os agrupamentos que +os erros politicos destruiram em vez de transformar.</p> + +<p>Tivemos occasião de vêr quanto o homem é radicalmente conservador. Os +homens que implantaram na Europa as instituições liberaes, desconheceram +esta verdade, e por isso a sua obra tem sido até agora sempre pouco solida, +por vezes ephemera; abandonaram a tradição, que o mesmo é que abandonar +toda a experiencia politica de largos seculos, para se guiarem por +presumpções assentes na abstracção incerta e vaga. Ora as relações sociaes +não mudam nem progridem tão rapida e largamente que as instituições que +durante tanto tempo se mostraram beneficas tenham hoje perdido todo o seu +valor; as necessidades sociaes são hoje o que eram d'antes, com as +modificações, talvez bem menos profundas do que se imagina, que o +desenvolvimento scientifico impoz á producção da riqueza. Urge portanto +restaurar a tradição, na medida em que convém ás necessidades sociaes +permanentes.</p> + +<p>Assim, procurando uma base legitima para a representação, novamente +fomos encontrar a questão politica dependente da questão social, como ha +pouco investigando as causas de instabilidade da democracia, encontravamos +o radicalismo, um dos seus mais terriveis inimigos. Na verdade, todos os +grandes problemas politicos da actualidade teem a sua raiz nas questões +sociaes.</p> + +<p>A representação só será legitima quando representar as forças sociaes; +mas para isso é indispensavel <span class="pagenum"><a +name="pag69">[69]</a></span> que essas forças se organisem e se agremiem, e +entrem n'um funccionamento normal, em vez do tumulto, desordem e +consequente instabilidade de governo em que actualmente se apresentam.</p> + +<p>E então a democracia será um governo estavel? Não. Terá vencido um dos +seus mais terriveis inimigos, essa especie de radicalismo que julgo uma +aspiração justa. Já não haverá plebes desvairadas, mendigando d'um dictador +um pedaço de pão, porque a protecção, a caridade, a dependencia social +estarão organisadas devidamente. Mas resta ainda o imperialismo, ameaçando +derrubar todo o governo fraco, incapaz de manter a ordem e a grandeza +nacional.</p> + +<p>Quem nos diz que os novos parlamentos não serão a imagem dos actuaes? +Quem nos afiança que a ambição, a inveja, a facilidade de chegar aos +primeiros cargos do estado não terão só por si força sufficiente para +manterem manietado o poder executivo, como estamos vendo todos os dias nos +deploraveis espectaculos que nos dão os parlamentos da Europa? A +legitimidade da representação corrigiria em grande parte os males do +parlamentarismo, mas é de crêr que deixasse ainda margem bastante para esse +obstruccionismo tão prejudicial a toda a acção governativa.</p> + +<p>D'esta vez, iremos procurar o remedio a uma democracia, e á mais famosa, +á que mais vezes é apontada como garantia da solidez dos governos +populares--os Estados-Unidos. É a republica americana que nos diz, e um +seculo de politica liberal confirma-o <span class="pagenum"><a +name="pag70">[70]</a></span> plenamente, que para manter a ordem é preciso +que o poder executivo execute, que o poder legislativo legisle, que o poder +judicial julgue. O contrario, a inversão e intervenção mutua d'estes tres +poderes, é o enfraquecimento reciproco, d'onde resulta invariavelmente a +anarchia na sociedade.</p> + +<p>Quando por estes meios a democracia se tiver tornado senhora dos seus +dois mais terriveis adversarios, será então um governo estavel, duradouro e +benefico.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><A href="#mnota1" name="nota1">1</A></sup> <em>Essais sur le +gouvernement populaire</em> par Sir Henri Sumner Maine, tr. f. Paris; E. +Thorin, 1887.</p> + +<p><sup><A href="#mnota2" name="nota2">2</A></sup> Jules Simon. <em>Thiers, +Guizot, Rémusat</em>, pag. 87 e 93.</p> + +<p><sup><A href="#mnota3" name="nota3">3</A></sup> Adolphe Prins. <em>La +Démocratie et le Regime parlamentaire</em>, 2<sup>éme</sup> édition, +Bruxelles, 1887.</p> + +<p><sup><A href="#mnota4" name="nota4">4</A></sup> Guizot. <em>Histoire des +origines du gouvernement representatif en Europe</em>, vol. I, pag. 73; +vol. II, pag. 110.</p> +</div> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag71">[71]</a></span> + + + + +<h2>INDICE</h2> + +<TABLE width="90%"> + +<tr><td></td><td>Introducção</td> <td><a href="#pagV">V</a></td></tr> + +<tr><td>I.</td> <td><strong>O futuro da democracia</strong></td> <td><a +href="#pag9">9</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>O passado e o presente</td> <td><a +href="#pag9">9</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>Significação do movimento democratico</td> <td><a +href="#pag10">10</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>A democracia--fórma de governo</td> <td><a +href="#pag12">12</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>Origem das democracias</td> <td><a +href="#pag12">12</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>A sua historia</td> <td><a href="#pag13">13</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>Causas da sua instabilidade</td> <td><a +href="#pag14">14</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>O imperialismo</td> <td><a href="#pag14">14</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>O radicalismo</td> <td><a href="#pag15">15</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>A pulverisação do poder e as eleições</td> <td><a +href="#pag16">16</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>A democracia e a historia</td> <td><a +href="#pag17">17</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>O governo popular e a questão social</td> <td><a +href="#pag18">18</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>A livre concorrencia e a riqueza</td> <td><a +href="#pag19">19</a></td></tr> + +<tr><td>II.</td> <td><strong>Natureza da democracia</strong></td> <td><a +href="#pag23">23</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>Os deveres do governo e a democracia</td> <td><a +href="#pag23">23</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>A actividade reformadora</td> <td><a +href="#pag25">25</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>O enthusiasmo pela democracia</td> <td><a +href="#pag26">26</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>A lisonja</td> <td><a href="#pag27">27</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>As influencias sinistras</td> <td><a +href="#pag28">28</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>Como se manifesta a vontade popular</td> <td><a +href="#pag30">30</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>A representação</td> <td><a href="#pag31">31</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>O plebiscito</td> <td><a href="#pag32">32</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>Espirito de partido e corrupção</td> <td><a +href="#pag33">33</a></td></tr> + +<tr><td>III.</td> <td><strong>A edade do progresso</strong></td> <td><a +href="#pag37">37</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>Legislação contínua e paixão de mudar</td> <td><a +href="#pag37">37</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>O estado normal é a estabilidade</td> <td><a +href="#pag39">39</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>Progresso politico e progresso scientifico</td> <td><a +href="#pag44">44</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>Conclusão</td> <td><a href="#pag45">45</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>O valor da tradição</td> <td><a +href="#pag46">46</a></td></tr> + +<tr><td>IV.</td> <td><strong>Os Estados-Unidos da America</strong></td> +<td><a href="#pag47">47</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>Circumstancias em que foi creada esta republica</td> +<td><a href="#pag48">48</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>A presidencia</td> <td><a href="#pag51">51</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>O supremo tribunal</td> <td><a +href="#pag52">52</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>O congresso</td> <td><a href="#pag54">54</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>Difficuldade de reformas constitucionaes</td> <td><a +href="#pag57">57</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>Resumo e conclusão</td> <td><a +href="#pag58">58</a></td></tr> + +<tr><td>V.</td> <td><strong>Conclusões</strong></td> <td><a +href="#pag59">59</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>O poder administrativo</td> <td><a +href="#pag59">59</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>Os remedios</td> <td><a href="#pag63">63</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>A representação</td> <td><a href="#pag64">64</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>Eleição e representação</td> <td><a +href="#pag66">66</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>Representação de classes</td> <td><a +href="#pag67">67</a></td></tr> + +<tr><td></td><td>Separação de poderes</td> <td><a +href="#pag69">69</a></td></tr> +</TABLE> + +<span class="pagenum"><a name="pag73">[73]</a></span> +<br> +<br> +<br> +<br> +<h3>Do mesmo auctor:</h3> + +<p>Estudos sobre a litteratura contemporanea..... 1 vol.</p> + +<p>O Snr. Oliveira Martins e o seu projecto de lei sobre o +fomento rural............. Folh.</p> + +<h4>Em preparação:</h4> + +<p>As leis da agricultura.</p> + +<p>Da educação.</p> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Democracia, by Jaime de Magalhães Lima + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A DEMOCRACIA *** + +***** This file should be named 24748-h.htm or 24748-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/7/4/24748/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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