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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:14:06 -0700 |
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diff --git a/24710-h/24710-h.htm b/24710-h/24710-h.htm new file mode 100644 index 0000000..3218ec0 --- /dev/null +++ b/24710-h/24710-h.htm @@ -0,0 +1,6044 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> + +<head> + <title>A Senhora Viscondessa</title> + <meta name="GENERATOR" content="Quanta Plus"> + <meta name="AUTHOR" content="Sebastião de Magalhães Lima"> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1"> + <meta name="KEYWORDS" content=""> + <style type="text/css"> + @media print { + .pagenum { display: none;} + } + @media handheld { + .pagenum { display: none;} + } + body {width: 520px; margin-left: 90px; text-align: justify;} + .pagenum {font-size: 0.8em; color: #999999; position:absolute; left: 630px;} + .capa {text-align: center; border: solid 1px #000000;} + hr { + border: none; + border-bottom: solid 2px #000000; + text-align: center; + } + h2, h3, h4, h5 {text-align: center;} + h1 {text-align: center; margin-top: 2em; margin-bottom: 2em;} + .small-caps { + font-variant: small-caps; + } + .direita { + text-align: right; + } + .centrado { + text-align: center; + } + .citacao { + margin-left: 40%; + margin-right: 5%; + font-size: 0.8em; + text-align: left; + } + .poesia { + margin: 2em; + text-align: left; + } + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000000;} + .corpo { + text-indent: 1em; + } + </style> +</head> +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's A Senhora Viscondessa, by Sebastião de Magalhães Lima + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Senhora Viscondessa + +Author: Sebastião de Magalhães Lima + +Release Date: February 27, 2008 [EBook #24710] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A SENHORA VISCONDESSA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<span class="pagenum"><a name="pag1">[1]</a></span> + +<h1>A SENHORA VISCONDESSA</h1> + +<span class="pagenum"><a name="pag2">[2]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag3">[3]</a></span> + +<div class="capa"> +<br> +<br> +<p style="font-size: 2em;">A SENHORA VISCONDESSA</p> +<br> +<br> +<p style="font-size: 1.2em;">ROMANCE ORIGINAL</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">S. DE MAGALHÃES LIMA</p> +<br> +<br> +<br> +<br> +<hr style="width: 6em;"> +<br> +<br> +<br> +<br> +<p>COIMBRA<br> + +Imprensa Commercial e Industrial<br> + +1875</p> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag5">[5]</a></span> + +<div style="margin: 2em; font-size: 1.2em;"> +<h2>A TI</h2> + + +<p><i>A ti, que hoje és ideal, e que +um dia serás mãe; a ti, que +foste filha e que has de ser +esposa; a ti, mulher, a ti,</i></p> + +<p class="direita">Consagro este livro.</p> + +<p class="direita"><i>Magalhães Lima</i></p> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag7">[7]</a></span> + + + + +<h1><a name="capI">I</a></h1> + +<h2>Um baile</h2> + + +<p>Temos baile em casa da sr.<sup>a</sup> viscondessa de B***.</p> + +<p>Á porta do palacete param trens sem conta. +Descem os convivas, profusamente almiscarados.</p> + +<p>No salão crusam-se os pares: <i>elles</i>, fragrantes, +como uma rosa de Bengalla; <i>ellas</i>, voluptuosas e +tépidas, como uma brisa do Oriente.</p> + +<p>A sala é vasta, enorme, quadrangular. A cada +canto uma mesa de marmore oleosa e de difficil +lavôr. Do tecto dourado e semicircular pende um +<span class="pagenum"><a name="pag8">[8]</a></span> +lustre de sessenta lumes, adornado de flores artificiaes +e de vidrilhos verdes. A mobilia, de um estofo +azul e assetinado, rivalisa em symetria com os +mais encantados jardins de Granada.</p> + +<p>As janellas abertas atraiçoam os segredos dos +namorados. Como relampagos, reflectem-se na praça +as vertigens da walsa.</p> + +<p>Por sobre a sombra do arvoredo ondeia a luz +phantasticamente. A cada um d'estes banhos despertam +as aves nos seus ninhos. E a lua, a doce +companheira da tristeza, vae illuminando o espaço, +o mar e as solidões.</p> + +<p>As flores derramam uns aromas acres e inebriantes. +N'um esplendido vaso de porcellana de +<i>Sévres</i>, abre uma mimosa camelia as suas longas +e avelludadas petalas.</p> + +<p>Umas plantas exoticas, orientaes, adornam o +espaço ladrilhado das janellas de sacada.</p> + +<p>Entra a viscondessa na sala. Os grupos cessam +de falar. Em redor d'ella tudo se apinha, tudo se +confunde, tudo se baralha.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag9">[9]</a></span> + +<p>A valsa recomeça. Nos espelhos de crystal reflectem-se +as estranhas imagens, que, n'esta noite, +povoam o salão. Sobre as piscinas de marmore debruçam-se +as avesinhas artificiaes--pobres avesinhas +implumes feitas de pedra e de calcareo.</p> + +<p>Estremecem docemente os cortinados da janella. +Os peitos arfam de cançados; e na parede +o papel, como que exhala uns mysteriosos e prolongados +calores.</p> + +<p>--Quer v. ex.<sup>a</sup> conceder-me esta valsa?--diz +um cavalheiro, offerecendo o braço a uma gentil +dama de vinte annos.</p> + +<p>E entrou no turbilhão.</p> + +<p>--Mas perdão, senhora viscondessa... bem vê +que na minha posição...</p> + +<p>--Acompanhe-me, Alfredo.</p> + +<p>E os dois seguiram para uma saleta proxima, +situada á direita do salão.</p> + +<p>Os creados serviram o chá. Na varanda fumavam +e conversavam os cavalheiros. Algumas senhoras +<span class="pagenum"><a name="pag10">[10]</a></span> +refaziam a sua <i>toilette</i>, em parte desfeita pelos +ardores da dança.</p> + +<p>--E acredita a senhora viscondessa, que eu +realmente lhe podesse ser affeiçoado nas condições +em que me acho?</p> + +<p>--E por que não, Alfredo, se eu o amo loucamente.</p> + +<p>Um leve ruido interrompeu o dialogo.</p> + +<p>A saleta era assaz confortavel. Uns moveis escuros +a guarneciam tristemente. Ao longo da parede +destacavam uns quadros sombrios, meigos, +phantasticos. Em cima do fogão agitava-se o pendulo +do relogio, como se effectivamente nos quizesse +recordar uma pulsação dolorosa.</p> + +<p>A viscondessa, airosamente sentada n'um fofo +sophá, volvia os olhos nervosos na direcção da +porta do baile.</p> + +<p>--Ninguem nos ouvirá--exclamava ella de si +para si.</p> + +<p>E continuou a fallar para Alfredo, que, a longos +<span class="pagenum"><a name="pag11">[11]</a></span> +passos, percorria a sala de um a outro extremo.</p> + +<p>Entretanto a orchestra convidava a uma quadrilha.</p> + +<p>Um elegante moço entrou na saleta.</p> + +<p>--Venho lembrar a v. ex.<sup>a</sup>, minha senhora, +que esta quadrilha me pertence.</p> + +<p>A viscondessa acompanhou-o.</p> + +<p>Alfredo só, roia um charuto furiosamente, +quando novo ruido o despertou.</p> + +<p>Defronte d'elle, e ameaçando-o com um punhal, +estava um rapaz, cheio de febre, de odio e de vingança.</p> + +<p>--Ouvi tudo--exclamou o intruso. Ou tu me +promettes nunca amar a viscondessa, ou eu te assassino +aqui, como um miseravel que és.</p> + +<p>--Nunca!...--vociferou Alfredo, arrancando-lhe +o punhal da mão. Primeiro cahirás tu, desgraçado. +Já, já fora d'esta casa.......................</p> + +<hr style="border-bottom: dotted 2px #000000;"> + +<p>Este incidente, como é natural, perturbou a +<span class="pagenum"><a name="pag12">[12]</a></span> +quadrilha, que então se dançava. Acorreram todos. +Os dois contendores haviam desapparecido da +saleta.</p> + +<p>O baile continuou. +<span class="pagenum"><a name="pag13">[13]</a></span> + + + + +<h1><a name="capII">II</a></h1> + +<h2>A Senhora Viscondessa</h2> + + +<p>É uma mulher da moda--chlorotica, anemica, +febril.</p> + +<p>Olhar vivo, e transparente, como um chrystal. +Na sua doce pallidez o que quer que seja das visões +de Schiller. No andar, porte altivo, donairoso, +esbelto. As longas insomnias, apaixonadas, tornaram-n'a +triste e contemplativa, como uma virgem +de Murillo.</p> + +<p>É viscondessa; faz muitas esmolas e possue +trens faustuosos. +<span class="pagenum"><a name="pag14">[14]</a></span> + +<p>Acabam de soar duas horas nos relogios da cidade. +Um calor intenso abrasa as calçadas. Corria +o mez de Maio de 1859. No Largo de Camões, o +sol, batendo de chapa, sobre um telhado visinho, +reflectira-se estranhamente nos aposentos da viscondessa.</p> + +<p>No corredor presentira-se o ranger de um leito. +O cortinado de cambraia foi delicadamente afastado +por uma mão de marfim, pequena e esculptural.</p> + +<p>--Virginia, Virginia--gritou uma voz sonora, +de timbre metalico e adocicado.</p> + +<p>A porta do quarto, abrindo-se, deixou entre +vêr o rosto de uma formosa creança, loura como +um cherubim e tentadora como Eva.</p> + +<p>--V. ex.<sup>a</sup> chamou, minha senhora?</p> + +<p>--Sim, chamei.--Traze-me o meu roupão +branco e vem ajudar-me a vestir.</p> + +<p>E a viscondessa, bocejando infantilmente tornou +a cahir no travesseiro, doida de somno e ébria +de amor.</p> + +<p>Adormeceu de novo. +<span class="pagenum"><a name="pag15">[15]</a></span> + +<p>Uma hora volvida veio Virginia encontral-a sentada +n'uma poltrona, defronte do espelho.</p> + +<p>Fingia que lia. Do regaço pendia-lhe um romance +francez. Com a mão direita desviava as tranças +fartas, que, por vezes caprichavam em cahir-lhe +sobre o peito. O braço esquerdo, abraçando o +espaldar da cadeira, servia-lhe de encosto.</p> + +<p>De subito ergueu-se como uma estatua. Procurou +um pente e largou-o com desfastio. Olhou +para o relogio, tocou a campainha, e tornou a sentar-se.</p> + +<p>--Estou aqui, minha senhora. Deseja alguma +cousa?</p> + +<p>--Ah! Estavas aqui. Ora vejam que cabeça a +minha que nem sequer havia dado por tal.--Manda-me +arranjar o almoço, anda.</p> + +<p>--Por mais que me digam a senhora não anda +bôa--murmurava a ladina da creada, correndo +espevitadamente.</p> + +<p>A viscondessa, sempre inquieta, ergueu-se novamente. +Percorreu o corredor e entrou na sala +<span class="pagenum"><a name="pag16">[16]</a></span> +de jantar. Dirigiu se a um periquito, que ali tinha, +tirou-o da gaiola e começou de afagal-o meigamente.</p> + +<p>--Coitadinho do meu <i>bijou</i>--exclamava ella +com doçura.</p> + +<p>Foi-se depois ao canario, trouxe-o para a mesa, +e destribuindo com elle a comida, que mal provava, +introduziu-o no seio.</p> + +<p>Um cão pequeno, felpudo, ensaboado e luzente, +como verniz, fazia <i>pendant</i> com os dois personagens, +acima descriptos. <i>Joli</i> lhe chamava a viscondessa. +Nunca sahia da sala de jantar. Era o seu +theatro d'elle. Ali aprendêra a ser guloso e concupiscente. +Quando a senhora chegava, elle, de um +pulo, saltando lhe ao regaço, para logo principiava +de lamber-lhe as faces e os cabellos. A dona da +casa aceitára, sem repugnancia, este tributo quotidiano.</p> + +<p>Alêm do cão havia um gato maltez, elastico, +como uma serpente e indolente como um chin.</p> + +<p>Entre o cão e o gato existia uma mediadora: +<span class="pagenum"><a name="pag17">[17]</a></span> +era a viscondessa. Por fim os dois rivaes fizeram +tréguas. Chegaram até a comer no mesmo prato, +brincando como dois amigos.</p> + +<p>Nos seus dias de melancholia, a viscondessa, +orphã de pae e mãe, sem parentes, só no mundo +e senhora de ricos haveres, reunindo em redor de +si tão variada e interessante familia, sentia-se mais +feliz, e porventura mais esquecida do que nunca.</p> + +<p>O gato aquecia, o cão lambia, e as aves entretinham, +cantando.</p> + +<p>Emfim bateram quatro horas. A Viscondessa +bocejou mais uma vez.</p> + +<p>--Se elle, ao menos, me amasse...--dizia ella, +erguendo-se.</p> + +<p>E, continuando pelo corredor, entrou no <i>boudoir</i>, +onde a esperava a cabelleireira.</p> + +<p>Vestiu um chambrão de cachemira azul; e, +sentando-se na cadeira que lhe offereceram divagou, +ao acaso, durante uma hora.</p> + +<p>Quando acordou estava realmente encantadora. +<span class="pagenum"><a name="pag18">[18]</a></span> + +<p>O cabello, frisado a capricho, imprimia-lhe um +aspecto senhoril e grave. O rosto desanuviara-se-lhe. +Foi ao espelho, e, como flôr que ao sol desabrocha, +sorriu-se maliciosamente.</p> + +<p>--Achas-me bonita, assim?--perguntou ella +a Virginia.</p> + +<p>--Deslumbrante--minha rica senhora.</p> + +<p>E a viscondessa, toda vaidade e tentação, foi-se +até á cosinha, pretextando umas ordens para o +jantar.</p> + +<p>Voltou depois ao quarto. A um ligeiro impulso +cahira-lhe o roupão. Sorrindo-se, envergou umas +saias pesadas e cheias de gomma. Remirou-se novamente +ao espelho. Com um pincel, mergulhado +em carmim, deu côr ao rosto, naturalmente desmaiado. +Apertado o espartilho e collocada a <i>tournure</i> +enfiou um rico vestido de setim. Chamou Virginia +e pediu alfinetes. Pregou o vestido, pregou +o cabello, pregou as saias, pregou-se a si e sahiu +do <i>boudoir</i>. +<span class="pagenum"><a name="pag19">[19]</a></span> + +<p>--Ora esta! e não me ia agora esquecendo o +<i>crême imperatrice</i>--monologava ella, voltando á +saleta.</p> + +<p>Defronte do espelho, recuando dois passos e +fazendo tregeitos para um o outro lado, empoeirou-se +gravemente.</p> + +<p>Extrahiu do gavetão um lenço de cambraia; +destapou um vidrito de <i>jockey-club</i>, perfumou-se +e entrou na sala do baile.</p> + +<p>O piano estava aberto. A viscondessa sentou-se. +Dedilhou, ao acaso, uma escala e aborreceu-se.</p> + +<p>Olhou para um espelho, mudou um dos ganchos +do cabello e abriu a janella.</p> + +<p>Uma brisa tépida soprava apenas. O sol ia declinando +no horisonte. Nas ruas mexiam-se as multidões +apressadamente. Alguns cavalheiros de chapéu +na mão limpavam o suor da testa. As damas, +mesmo á janella, agitavam os leques phreneticamente. +Os freguezes entravam nos botequins, e +pediam sorvetes. +<span class="pagenum"><a name="pag20">[20]</a></span> + +<p>Estava proxima a hora do passeio, a hora de +luar, a hora de amor.</p> + +<p>Seriam oito horas, quando a viscondessa cerrou +a janella. Chegára-lhe finalmente a vontade de +jantar.</p> + +<p>Caminhou lentamente, deixando após de si um +rumor surdo, e mui semelhante ao remexer de folhas, +agitadas pelo vento.</p> + +<p>Insaciavel, hysterica, nervosa, sentou-se á mesa +pela segunda vez n'aquelle dia. Provou de tudo +sem comer de nada. Bebeu um gólo de <i>malvasia</i> +e fez-lhe uma careta insupportavel. Limpou os labios +de coral e mandou arranjar o trem.</p> + +<p>Prompta a carruagem e calçadas as luvas dirigiu-se +para o theatro de D. Maria.</p> + +<p>Representava-se a <i>Vida de um rapaz</i> pobre n'essa +noite. A Viscondessa admiravel de bellesa e encanto, +provocava de continuo os binoculos das +plateias.</p> + +<p>No fim do 3.<sup>o</sup> acto a porta da frisa abriu-se. +<span class="pagenum"><a name="pag21">[21]</a></span> +Era Alfredo que entrava. A Viscondessa sorriu-se.</p> + +<p>--Sabe, Alfredo, que o esperei hoje todo o +dia?</p> + +<p>--E não o ter eu adivinhado, senhora viscondessa?</p> + +<p>--Se imaginasse o aborrecimento em que vivo +decerto não seria tão cruel para commigo.</p> + +<p>--Mas, minha senhora, a minha posição... emfim... +eu não sei...V. ex.<sup>a</sup>...</p> + +<p>E a orchestra, tocando uma symphonia, deu o +signal de despedida.</p> + +<p>--Alfredo, enleiado e timido, sahiu da frisa. +A Viscondessa cumprimentou-o, e, como sempre +sorriu-se tristemente. O espectaculo continuou.</p> + +<p>Á sahida do theatro, quando a Viscondessa, +acompanhada por um creado, punha o pé direito +no estribo da carruagem um desconhecido, abeirando-se +d'ella entregára-lhe um pequeno bilhete, +ligeiramente perfumado.</p> + +<p>Os cavallos partiram a galope. Apenas chegada +<span class="pagenum"><a name="pag22">[22]</a></span> +a casa, a senhora, toda receio e anciedade, abriu +o bilhete.</p> + +<p>Desengano, desengano cruel! Não era de Alfredo +a letra...</p> + +<p>Mas de quem poderia ser? A quem attribuir +aquellas palavras ardentes?</p> + +<p>«Amo-te--escrevêra o anonymo.--Doidamente +te amo. Tu decidirás da minha sorte. Sou pobre, +sou operario. Embora! Hei de conquistar-te ainda +mesmo atravez do sangue do meu rival.</p> + +<p>--Sempre é muito atrevido!...--exclamava a +viscondessa, despindo-se já.</p> + +<p>Acendeu depois um charuto, um excellente charuto +havano.</p> + +<p>A pouco e pouco foram-se-lhe os olhos estreitando. +Para um lado pendeu a cabeça abrasada, e +para outro o braço, cuja mão deixava cahir o charuto, +quasi apagado.</p> + +<p>Languida, abatida, sensual a senhora adormeceu +finalmente. +<span class="pagenum"><a name="pag23">[23]</a></span> + +<p>Virginia chegára pé ante pé e retirára a luz. +O palacete, envolto em trévas, acompanhára o somno +da sua rainha.</p> + +<p>E assim se passava a vida da Viscondessa. +<span class="pagenum"><a name="pag24">[24]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag25">[25]</a></span> + + + + +<h1><a name="capIII">III</a></h1> + +<h2>Alfredo</h2> + + +<p>Alfredo da Silveira nascêra embalado pelos sorrisos +da fortuna.</p> + +<p>Teve uma casa que vendeu. E que bonita casa! +Situada na orla da praia extendia-se deante d'ella +o oceano como um vasto lençol, cujas dobras phantasticas +se encolhiam e desencolhiam, consoante as +horas e as marés.</p> + +<p>N'essa casa viu a luz Alfredo. Ahi, envolto com +o maternal carinho, aprendera elle a entoar as primeiras +trovas da infancia; ahi tambem suspiroso, +<span class="pagenum"><a name="pag26">[26]</a></span> +como um lago, e candido, como o céu, aprendêra +a ser um filho honrado e um cidadão benemerito.</p> + +<p>Mas a infancia, esvaecida n'uma manhã de rosas, +deixára após de si o lucto de um coração e +a orphandade de uma familia.</p> + +<p>A solitaria vivenda, circundada de festões e +madre-silvas, sentira-se isolada e triste. Na viração +da tarde já as flores silvestres não derramavam, +como outr'ora, uns aromas tão vivos e tão +profundamente salutares e amenos.</p> + +<p>Ausentara-se dali a mulher angelica, boa, virtuosa, +cujo espirito, evolado nas azas da saudade, +fôra perante Deus rogar pela felicidade de seu unico +filho.</p> + +<p>E Alfredo chorou e chorou deveras...</p> + +<p>Estava, porêm, na primavera da vida. Auspiciado +pelas brisas da mocidade demandou a capital, +cujo ruido o captava em extremo.</p> + +<p>Dirigiu-se para Lisbôa e ahi fixou residencia.</p> + +<p>Para qualquer que o visse seria o seu rosto +<span class="pagenum"><a name="pag27">[27]</a></span> +gentil e levemente effeminado o mais seguro passa-porte +de uma fina e aprimorada educação.</p> + +<p>Usava de ordinario fato preto a que dava realçe +uma esplendida camelia, artisticamente collocada +na <i>boutonniére</i>.</p> + +<p>Elegiaco por condição nada havia que o satisfizesse. +Um vacúo immenso lhe torturava a existencia. +Filho do tédio e vivendo para o tédio o seu +espirito, agrilhoado por uma nostalgia sem limites, +experimentava de continúo um mal-estar insupportavel, +atroz, corrosivo, e porventura uma doença +impossivel de definir-se.</p> + +<p>A sua compleição delicada, e consumida pelos +vinhos, agitava-se alternadamente entre dois mundos +infinitos e contradictorios. Amava e não amava, +queria e não queria, pensava e não pensava.</p> + +<p>Alto, magro, nervoso tudo o impressionava +com uma fatalidade irresistivel. O mundo era-lhe +um phantasma sombrio, chimerico, cuja sombra +elle amaldiaçoava, a todas as horas, no café, na rua, +no bordel, na sociedade emfim. +<span class="pagenum"><a name="pag28">[28]</a></span> + +<p>Mulheres havia que sonhavam com o seu bigode +louro, a sua cabelleira phantastica, e os seus +sorrisos provocadores, ingenuos e ligeiramente ironicos.</p> + +<p>Elle, porêm, detestava as mulheres em espirito, +aproveitando-lhes o corpo e a carne, como +um mero passa-tempo social.</p> + +<p>Só uma vez amou, e, como Christo, doidamente, +loucamente, profundamente.</p> + +<p>Então foi ditoso muito ditoso.</p> + +<p>A felicidade mirara-se n'elle, como uma donzella +no seu espelho. Não lhe faltaram nem as crenças +do berço nem as extravagancias da juventude. +Tudo lhe sorrira, desde o leito que primeiro o amamentou +até ao vinho, ao terrivel vinho que ultimamente +o prostituiu.</p> + +<p>Fôra ditoso...</p> + +<p>Viajando viu muita coisa!</p> + +<p>Viu mulheres novas que se abandonavam aos +velhos; creanças loucas que se entregavam ás orgias, +cuspindo na face das mães; politicos mercenarios, +<span class="pagenum"><a name="pag29">[29]</a></span> +que, á maneira das mulheres de Babylonia, +alugavam ao primeiro, que na estrada passava, a +honra e a consciencia; exploradores sem conta, +eternas Shylocks da publica miseria; paes que despresavam +os filhos, irmãos que matavam os irmãos, +mães que vendiam as filhas.</p> + +<p>Viu muita coisa...</p> + +<p>Passeando, admirou muito!</p> + +<p>No Oriente encontrou mulheres formosas, pallidas, +sansuaes. Depois passou á Grecia, a sábia, +a divina mãe, onde Corina mais tarde teve o seu +berço de flores. E ainda percorreu Roma, aquella +Roma dos Cesares e da <i>rocha tarpeia</i> e Verona a +patria de Julietta, e a Escocia o theatro de Macbeth.</p> + +<p>Admirou muito...</p> + +<p>Bebeu sempre!</p> + +<p>Provou o incomparavel tokai, esplendido <i>falerno</i> +dos tempos modernos, encheu-se de absyntho +e saboreou o alcool com delicia.</p> + +<p>Bebeu sempre... +<span class="pagenum"><a name="pag30">[30]</a></span> + +<p>Fumou com ardôr!</p> + +<p>O chibuca, o opio, o havano tudo lhe embriagou +os sentidos, fazendo d'elle uma alma pagã e +um corpo lascivo, môrno, cheio de tédio e de languidez.</p> + +<p>Fumou com ardor...</p> + +<p>Amou delirantemente!</p> + +<p>Lembro-me tão bem...</p> + +<p>A onda brincava travêssa sobre a praia longinqua. +Uma brisa tépida, apenas, semelhando um leque +de plumas, agitava docemente as vagas do +Oceano. Como o arfar de uma mulher aos vinte +annos, assim a natureza suspirava languida, nervosa, +etherea.</p> + +<p>E ao longe, atravez das brumas phantasticas, +scintillaram seus vestidos brancos, suas faces pallidas +e seu olhar azul.</p> + +<p>Sorrira-lhe pela primeira vez o ideal no horisonte +da vida.</p> + +<p>Aproveitou a serenidade do crepusculo para +lhe fallar. Disse-lhe o que sentia. A creança encarou-o +<span class="pagenum"><a name="pag31">[31]</a></span> +duas, tres, quatro, cinco vezes, sorrindo-se +amavelmente.</p> + +<p>Volvidos dias tornou-se a encontrar com ella +n'um immenso, escuro pinhal. Ali confidenciaram +largamente. Juraram amar-se.</p> + +<p>E elle na sua louca estulta ingenuidade ousou +acredital-a.</p> + +<p>Desgraçado do moço, que tinha um coração, +impossivel de esmagar.</p> + +<p>Quando, passados annos, lhe disseram que ella +se havia tornado uma grande mulher do mundo, +a eterna <i>bas-bleu</i> dos salões, sentiu-se inanimado +quasi, imbelle, exangue.</p> + +<p>Tentou afastar de si o gélido phantasma que o +perseguia sem cessar, e que mesmo em vida lhe +seria triste mortalha. Em cata d'ella correu, voou. +Precipitou-se, finalmente n'um theatro, onde, pela +quarta vez, a contemplou mais scintillante que uma +esmeralda e mais loura ainda que um archanjo.</p> + +<p>Á sahida do espectaculo experimentou um estranho +choque no seu hombro direito. Olhou e +<span class="pagenum"><a name="pag32">[32]</a></span> +viu-a a ella que lhe acenava com uma das mãos. +Aproximou-se então. No lagedo da sala existia um +pequeno bilhete que elle apanhou cuidadosamente.</p> + +<p>«Espero-o amanhã, á uma hora da tarde»--escrevêra +ella a lapis.</p> + +<p>E, cheio de anciedade, tambem elle esperou +pela aprazada hora.</p> + +<p>Ao penetrar no seu quarto, d'ella, tremeu involuntariamente. +Um singular ruido lhe captou os +sentidos. Emilia jogava, e, na febre do jogo, ria +descompostamente.</p> + +<p>Sentou-se ao lado de um desconhecido.</p> + +<p>Terminado o jogo seguira-se o <i>Cognac</i>.</p> + +<p>Beberam todos.</p> + +<p>Emilia levantou-se depois, e cerrou hermeticamente +todas as janellas do quarto. Derramaram-se +perfumes em larga escala. No centro foi collocado +um braseiro.</p> + +<p>D'entro em duas horas estavam todos adormecidos. +Só Alfredo, sentindo-se abafado, morto, enraivecido +e não podendo conter mais a asphyxia +<span class="pagenum"><a name="pag33">[33]</a></span> +que lentamente o devorava, começou de gritar terrivelmente, +terminando por desfechar dois tiros de +revolver na direcção da porta de entrada.</p> + +<p>Acorreu muita gente. A porta foi arrombada.</p> + +<p>Entraram todos.</p> + +<p>O feio silencio do tumulo envolvia a casa +d'aquella mulher. Para um lado seis cadaveres de +homens com os olhos arregalados, a bocca semi-aberta +e o corpo ensanguentado; para outro lado +uma mulher com os vestidos rotos, o cabello arrancado +e as faces horrivelmente maceradas.</p> + +<p>«Emilia, Emilia...--exclamava elle repetidas +vezes.</p> + +<p>E só os echos repeliam:</p> + +<p>«Emilia, Emilia...<sup><a href="#nota1" name="bnota1">[1]</a></sup></p> + +<p>Desde então para cá Alfredo, endurecido no +cynismo e na indifferença, tem arrastado uma vida +monotona, semsabor, aborrecida.</p> +<span class="pagenum"><a name="pag34">[34]</a></span> + +<p>Levanta-se ordinariamente á uma hora da tarde +doente, triste, sonhando uns males terriveis, imaginarios.</p> + +<p>Não almoça nunca. O appetite fugiu-lhe com +as extravagancias do estomago. Nem mesmo tem +já paladar.</p> + +<p>Percorre as ruas authomaticamente olhando as +<i>vitrines</i> das lojas, a cujas esquinas estaciona.</p> + +<p>Frequenta os bailes, mais por uma necessidade +de espirito do que por um enthusiasmo juvenil.</p> + +<p>Como Falstaff ceia muito: espantosamente, loucamente. +Pela madrugada recolhe-se a um quarto +solitario, que alugou e onde vive só, sem creado +nem creada.</p> + +<p>Lê e escreve no restaurante, sua habitual residencia.</p> + +<p>Na noite em que o encontrámos no salão da +viscondessa, recolhia-se elle a casa mais melancholico +do que o costume.</p> + +<p>--Mas quem será o maldito rival?--monologava +<span class="pagenum"><a name="pag35">[35]</a></span> +elle de si para comsigo. Acham pouco ainda? +pois bem. Tambem tu cahirás, minha querida viscondessa. +Tentou-te o demonio estupido: serás +uma das suas victimas.</p> + +<p>E entrou no café. + +<div class="rodape"> +<p><a href="#bnota1" name="nota1">[1]</a> Este facto que para muitos passará por inverosimil, deu-se, todavia, +proximo de Lisbôa, em 1854.</p> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag36">[36]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag37">[37]</a></span> + + + + +<h1><a name="capIV">IV</a></h1> + +<h2>Contrastes</h2> + + +<p>O amor é o laço que une duas almas.</p> + +<p>Quando as tempestades rugem, e os ventos bramem, +e os mares se encapellam, a mãe, candido +alento, apertando o filho contra o peito, diz amor; +e o amor que é medo, afujenta o medo, e o amor, +que é aprehensão, combate a aprehensão, e o amor, +que é timidez, destróe a timidez.</p> + +<p>Felizes, mil vezes, aquelles, que sabem amar e +que tambem são amados!</p> + +<p>A vida, sombria em si desabrocha por um +<span class="pagenum"><a name="pag38">[38]</a></span> +beijo de mãe; e n'esse beijo, sêllo de Deus sobre +a terra, que immensa effusão de affectos e que +nobilissimo trasbordar de enthusiasmo.</p> + +<p>Ó minha mãe, ó meu abrigo, tu, com o teu +coração, foste o anjo providencial, que em mim +encarnaste o sentimento do bem.</p> + +<p>No esplendido poema da creação, em que tomam +parte as aves com os seus cantos maviosos +e os homens com o seu trabalho, quasi se poderia +dizer que um suave perfume, ethereo e subtil, põe +a terra em communicação com o céu.</p> + +<p>Perguntae ao rio, porque geme, e ao oceano, +porque brame, e ás arvores, porque crescem, e á +terra, porque produz, e á nuvem, porque corre, e +á flor, porque perfúma? Perguntae...</p> + +<p>Amar, ser amado...--que sublime virtude, minhas +senhoras.</p> + +<p>Ás horas da tristesa, á tardinha, n'aquelles raros +momentos, em que as arvores, estatuas da melancholia, +nos deixam ouvir um funebre soluço; á +hora em que o gentil pegureiro desfere na frauta +<span class="pagenum"><a name="pag39">[39]</a></span> +umas sentidas notas; n'essa hora em que os crentes, +saudando o creador, ajoelham aos pés da cruz:--como +não é esplendida a visão do nosso espirito, +iriada pelas mil côres da ventura e do amor.</p> + +<p>Apparecei, sonhos da mocidade! Surgi de novo, +ó santas crenças da minha vida!</p> + +<p>Porque é que, com os primeiros raios do amor, +desapparecem as alegrias primeiras, os indiscretos +descuidos da infancia, os mimosos cantares da meninice?</p> + +<p>Porque é que a mulher, amando, deixa de se +pertencer a si, perdendo a individualidade e a iniciativa, +a fim de se consagrar exclusivamente a um +homem, ideal de perfeição e de virtude?</p> + +<p>Porque é que o amor nos faz tristes, abatidos +e concentrados?</p> + +<p>Quem não sentiria, uma vez, ao menos, na sua +vida, a dôr, que nos arrebata o coração e as lagrimas +que nos inundam os olhos, ao despedir-mo-nos +da pessoa que amamos?</p> + +<p>Mulheres, que tendes amado o que na austeridade +<span class="pagenum"><a name="pag40">[40]</a></span> +do sacrificio, tendes aprendido a virtude e o +desinteresse--fallae por mim.</p> + +<p>Homens, que em meio de vossos trabalhos e +avergados ao peso das paixões vos sentis, muitas +vezes, desfallecer--abri o coração, mostrae a dôr +que vos opprime.</p> + +<p>É doce o amor--pensa o mundo. Mas para +amar, quantas inquietações, quantos supplicios!</p> + +<p>É verdade que todos invejam uma mulher amada; +é verdade que todos anceiam esse ineffavel +momento, de poder dizer a um ser bom, generoso, +sincero, sympathico, um ser, que nos delicia pelo +seu olhar e que nos apraz pela sua bellesa--amo-te, +sou teu; sim, sou teu, porque tu és o bom +amigo sonhado em noites de intimos affectos; adoro-te, +porque tu és a minha inspiração, a minha +alma, a minha vida, o meu eterno pensamento: +mas para tudo isto que lucta, que enorme lucta, +meu Deus!</p> + +<p>Amar é comprehender: comprehender a verdade, +elevar-se ao bem pela contemplação do que é +<span class="pagenum"><a name="pag41">[41]</a></span> +perfeito, subir até ao bello, guindar-se até ás luminosas +regiões da arte e da consciencia.</p> + +<p>O mundo fica-nos para traz; esquecem-nos as +ambições; perdem-se os enthusiasmos; fojem-nos +as lucidas chimeras da juventude: tudo se desvanece +pelo amor.</p> + +<p>Amar, ter um filho... que superior ventura se +póde comparar a esta?</p> + +<p>Um filho é uma parte de nós mesmo, uma +continuação do nosso nome, da nossa existencia, +do nosso viver.</p> + +<p>Um filho?!... Quem se não terá enternecido +ao contemplar essas louras creanças, vestidas de +branco, e que, durante o dia, brincam nos jardins?</p> + +<p>Um filho?!</p> + +<p>Como é bella esta palavra e como ella sôa bem +aos nossos ouvidos.</p> + +<p>Ó santo amor paternal, ó paes, ó mães--vós +que tendes chorado com as dores de vossos filhos +<span class="pagenum"><a name="pag42">[42]</a></span> +e rido com as suas alegrias--dizei-nos--haverá, +porventura, n'este mundo felicidade que se vos +compare?</p> + +<p>O amor de mãe é muito, mas não é tudo. Aos +quinze annos, todos nós sentimos um vago ideal, +que nos illumina o espirito, umas seductoras imagens +que nos transportam a um ser longinqúo, mas +realmente existente, um ser que é nosso, porque +o sonhamos e que nos pertence, porque desde a +infancia o anteviramos, claro, limpido, transparente, +á semelhança de um horisonte que um dia +contemplamos e que não mais nos esquece.</p> + +<p>Esse ser é um marido; esse ser é uma esposa: +um vinculo os prende--o amor; um ideal os incita--os +filhos; uma virtude os reune--a conveniencia.</p> + +<p>Á viscondessa tambem lhe chegára a sua vez. +Sonhára e fora feliz. Alfredo era o doce amante, +que lhe alimentava a phantasia ardente; Alfredo, +o louro rapaz, era a formosa visão, que aos quinze +<span class="pagenum"><a name="pag43">[43]</a></span> +annos, ella tivera por companheira inseparavel da +sua vida.</p> + +<p>Sejamos como a viscondessa. Amemos e seremos +felizes. +<span class="pagenum"><a name="pag44">[44]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag45">[45]</a></span> + + + + +<h1><a name="capV">V</a></h1> + +<h2>No restaurante</h2> + + +<p>Um mez volvido, após os acontecimentos, acima +descriptos,--em Junho de 59--entrava eu casualmente +n'um café do <i>Caes do Sodré</i>, situado por +baixo do <i>Grand Hotel Central</i>--quando ouvi a +voz de Alfredo, que de longe me chamava.</p> + +<p>Ebrio e tumultuoso extendeu-me a mão direita, +offerecendo-me um banco de palhinha em um dos +extremos da mesa.</p> + +<p>Com elle estavam quatro amigos, por egual risonhos +e embriagados. +<span class="pagenum"><a name="pag46">[46]</a></span> + +<p>Sobre a pedra de marmore, pegajosa e cheia +de cinsa de charuto, viam-se entre outras cousas +cinco chavenas de café, quasi esgotadas, duas garrafas +de cognac e uma de absyntho.</p> + +<p>--Não podias vir em melhor occasião--exclamava +Alfredo com o cotovello direito apoiado sobre +a mesa e a cabeça inclinada sobre a mão.</p> + +<p>--Antes de mais, vae-me bebendo esse cognac +e ouve-me depois.</p> + +<p>Alfredo tirou em seguida um masso de cartas +do bolso interior da sobrecasaca, e desatando uma +fita verde que as envolvia, começou de abrir uma +por uma.</p> + +<p>--Mal sabem vocês que temos por aqui uma +paixão fidalga. Nem mais nem menos do que de +uma viscondessa.</p> + +<p>Esgotou um calix de absyntho, accendeu o charuto +e encetou a leitura.</p> + +<hr style="border-bottom: dotted 2px #000000;"> + +<p>«Meu bom Alfredo.--Sabes que te amo e que +te amo devéras. Não se passa uma hora, um minuto, +<span class="pagenum"><a name="pag47">[47]</a></span> +um instante em que a tua doce imagem, +pura como Eva...</p> + +<p>--Devem notar que este pura como Eva tem +sua graça e é original--reflexionava Alfredo.--Ah! +Evas! ah, puras! ah, vestaes do lodo e da +chocarrice...</p> + +<p>«... pura como Eva, não venha irradiar-se sobre +mim como luz redemptora e supremo consolo. +Nem eu sei dizer-te o que sinto, meu amigo. Tenho +ciumes dos que te acompanham. E não ser eu +tambem homem para te seguir sempre e por toda +a parte!</p> + +<p>--Variante á mulher-homem de Girardin... +Adeante.</p> + +<p>«Que triste condição a da mulher, impellida a +viver isolada do mundo e da sociedade...</p> + +<p>--Sim, sim, bem te entendo, meu anjo.</p> + +<p>«Vem, Alfredo, vem; vem ver-me muitas vezes, +se queres que eu viva feliz e alegre.»</p> + +<p>«A Viscondessa de B***.» +<span class="pagenum"><a name="pag48">[48]</a></span> + +<p>--Ora aqui teem Vocês o primeiro specimen +da feminil intelligencia. Vamos ás outras e sem +commentarios.</p> + +<p>E n'isto Alfredo esvasiou de novo um calix de +absyntho.</p> + +<p>«Meu unico amigo.--Uma immensa, uma profunda +saudade me agita o espirito. Sinto que me +és e serás sempre um alento magnanimo.</p> + +<p>«Á meia noite, quando a lua campeia no seu +eterno throno de magestade e de bellesa, apraz-me +pensar em ti, nos teus caprichosos desejos, e +nas tuas phantasticas promessas.</p> + +<p>«Eu amo o silencio, porque é vago, ethereo e +cheio de sombras. Ha dias, entrando n'um pinheiral, +cuja verde ramagem se agitava doce e harmoniosamente, +como uma harpa do céu,--lembrei-me +de ti.</p> + +<p>«Ao acaso procurei um outeiro, onde me sentasse. +Ao longe o oceano, como um leão esfaimado, +enchia a terra com a sua musica rouquenha e +<span class="pagenum"><a name="pag49">[49]</a></span> +sepulchral. Aproximava-se o crepusculo. Umas nuvens +ainda, retintas pelos raios afogueados do sol, +percorriam o espaço de norte a sul.</p> + +<p>«Sentindo-me isolada e só, tremi involuntariamente. +Soltei um grito e vi uma creança que para +mim corria de braços abertos. Foi uma apparição +de Deus.</p> + +<p>«Que linda, que formosissima creança!</p> + +<p>«Pensei, então, em ti, meu amigo, mais do +que nunca; e, Deus me perdôe, pensei na creança, +que, um dia, fructo das minhas entranhas, +uniria para sempre as nossas duas existencias, n'um +unico beijo, n'um unico abraço, n'uma unica ideia.</p> + +<p>«Adeus, meu filho. Crê em mim, crê no futuro.</p> + +<p>«A Viscondessa de B***.»</p> + +<p>Alfredo, não podendo mais suster o riso, soltou +uma furiosa gargalhada, deixando, ao mesmo +tempo, cahir a carta que mal sustinha entre os dedos +frouxos e nervosos.</p> + +<p>--Ah! Ah! Ah!... Parecia-me mesmo um lyrio +<span class="pagenum"><a name="pag50">[50]</a></span> +esta viscondessa, um lyrio a desabrochar. Se +não fosse eu, ainda hoje estaria romantica. Ora oiçam +esta, que é a ultima.</p> + +<hr style="border-bottom: dotted 2px #000000;"> + +<p>«Meu Alfredo.--A tua convivencia modificou-me +fortemente. Comtigo murcharam as doces illusões +que outr'ora me sorriam como estrellas do +céu.</p> + +<p>«Como a flor tristemente pisada pelo pé do +viandante, assim o meu espirito succumbiu, sob +a influencia do teu halito febril.</p> + +<p>«Sem embargo, eu adoro-te, Alfredo.</p> + +<p>«Tu polluiste-me as faces com os teus beijos +escaldados, profanaste-me o corpo com as tuas paixões +impuras, fizeste de mim uma mulher material, +viciosa, corrupta.</p> + +<p>«Eu pedia-te um amor puro, nobre, immaculado, +e tu só me deste um desejo vil, trivial, insensato.</p> + +<p>«Que fizeste da minha honra, Alfredo?</p> + +<p>«Porque me não amaste d'outro modo? +<span class="pagenum"><a name="pag51">[51]</a></span> + +<p>«E queres-me ainda assim? pois bem: serei +tua, tua para sempre.</p> + +<p>«A Viscondessa de B***.</p> + +<p>--Absyntho, rapaz--gritou o amante da viscondessa, +batendo com a bengala no marmore da +mesa.</p> + +<p>E o creado, desarrolhando uma garrafa, offereceu-a +ao freguez.</p> + +<p>No relogio do restaurante soaram, então, 2 horas +da madrugada.</p> + +<p>Alfredo, bebendo sempre, resmungava imperceptivelmente. +Ao lado d'elle os amigos proseguiam +na mesma tarefa,</p> + +<p>O dono do restaurante, vendo que o caso se +demorava, mandou vir um trem.</p> + +<p>Sobraçou Alfredo, a este tempo, já quasi debaixo +da mesa, e introduziu-o na carruagem, cuja +almofada era simultaneamente occupada por um +cocheiro e um policia.</p> + +<p>Fez o mesmo aos restantes e fechou as portas +do estabelecimento. +<span class="pagenum"><a name="pag52">[52]</a></span> + +<p>Eu sahi tambem; mas, ao contrario dos outros, +aterrado e confuso, com o que ali havia presenciado +e ouvido.</p> + +<p>Pensei em Luiz Veuillot e segui para casa. +<span class="pagenum"><a name="pag53">[53]</a></span> + + + + +<h1><a name="capVI">VI</a></h1> + +<h2>Sem sahir do mundo</h2> + + +<p>Alfredo era um rapaz do seu tempo, e, como +tal, um filho dedicado dos cafés, um amador do +fumo e um apreciador exaggerado <i>du vieux cognac</i>.</p> + +<p>No proprio desalinho ostentava elle uma generosidade +fidalga, que o tornava sympathico e bem +quisto por todos os que com elle mais de perto +privavam.</p> + +<p>Era exaltado em extremo, inconstante e leviano. +Quando lhe fallavam em amor sorria-se meigamente.--Amor?...--respondia +<span class="pagenum"><a name="pag54">[54]</a></span> +elle, como que acordando +de um longo somno--Sim! já gostei d'elle. +Hoje troquei as boas amigas pelos bons manjares.</p> + +<p>E virava costas de aborrecido,</p> + +<p>E, no entanto, as mulheres gostavam d'elle--talvez +por essa rasão.--Não gostam as flores das +borboletas?</p> + +<p>A vida exterior, activa, intelligente é que, por +via de regra, gera a inconstancia. De modo que +aquillo que n'uma mulher constitue um crime de +lesa-dignidade, é para o homem uma quasi urgencia, +filha, sem duvida, das circumstancias especiaes +que o rodeiam.</p> + +<p>O homem obedece, em geral, mais ao seu organismo +do que á sua vontade. A leviandade provêm, +muitas vezes, de um impulso de temperamento. +A imaginação nem sempre póde ser domada. +Á uniformidade oppõe-se a variedade. A +phantasia aprecia melhor esta do que aquella.</p> + +<p>Ora semelhantes rasões não se dão já na mulher. +A mulher tem uma vida limitada, restricta, +<span class="pagenum"><a name="pag55">[55]</a></span> +puramente interior e domestica. Deve ter na sua +existencia um unico amor, um unico interesse, um +unico pensamento. E desde o momento que isto se +despresar--podeis acreditar-me--em vez de uma +mãe, em vez de uma esposa, em vez de uma irmã, +apenas tereis deante de vós uma amante, isto é, +uma companheira para alguns meses de praser e +de sensualidade.</p> + +<p>Creio porêm que tal vicio é puramente peninsular. +Em Portugal é costume fazer a côrte da rua +para as janellas. O namoro, se existe, é simplesmente +no olhar. Tudo falla, menos o coração. E +só depois de casados, reconhecem, então os noivos, +que realmente os não fadára Deus um para o +outro. Triste inconsequencia, na verdade, que muitas +vezes traz comsigo o divorcio e emquanto a +nós o peior de todos os desgostos, o desgosto do +lar domestico.</p> + +<p>Entre nós é a educação da mulher um fado +quasi secundario. Que aprendem ellas nos collegios? +que sabem ellas quando se casam? Por ventura +<span class="pagenum"><a name="pag56">[56]</a></span> +saberão talhar os seus vestidos? porventura +saberão manter o aceio e a limpesa, tão necessarios +á cosinha como ao resto da sociedade conjugal?</p> + +<p>Tudo, menos isso. Diz-se mulher do <i>high-life</i>, +aquella que melhor valsa n'uma sala, a que mais +prende pelos arrebiques do <i>coquettismo</i>, emfim, a +que fôr mais imaginosa, a que tiver lido alguns +romances francezes e a que mais amada souber +fazer-se, n'um salão. Pouco monta que seja dedicada +a seus filhos, e amiga do seu marido. A questão +é ter côrte. O resto de nada vale, porque está +abaixo dos sentidos; e os sentidos, são, n'este assumpto, +uns mui respeitados directores.</p> + +<p>Não quero eu com isto dizer que a educação +do homem seja superior á educação da mulher. +Os rapases nascem egoistas. Não amam o desinteresse, +porque são naturalmente utilitarios e desconfiados. +Desejam uma esposa, mais pelo dinheiro +que ella lhes traz do que pela estima que os póde +tornar felizes. D'esta maneira o casamento entre +<span class="pagenum"><a name="pag57">[57]</a></span> +nós é um acto de commercio uma garantia de futuros +interesses, muito de preferencia a uma garantia +de amor.</p> + +<p>Alfredo, porêm, desviára-se d'esta norma. De +creança aprendêra elle a sondar a sociedade com +todas as suas corrupções e inconsequencias. De +sobejo sabia que a dança, toda exterior e ficticia, +era a perversão do ideal conjugal. Por instincto +aborrecêra o salão, soalheiro de intriga e de pequeninas +miserias. Conhecedor dos homens, e das +cousas cahira, finalmente, n'um indifferentismo, até +certo ponto, deploravel, para um rapaz, mas, de +certo, necessario e fatal para todo o organismo, +digno de outra aspiração que não fosse a do animal, +por naturesa inerte e estupido.</p> + +<p>Alfredo resumia, portanto, uma energica reacção +contra o estabelecido, e um vago aspirar para +um futuro, ainda não bem definido.</p> + +<p>Saudemos esse futuro. +<span class="pagenum"><a name="pag58">[58]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag59">[59]</a></span> + + + + +<h1><a name="capVII">VII</a></h1> + +<h2>Entre amigos</h2> + + +<p>Tudo disposto e preparado.</p> + +<p>Somos quarenta convivas á mesa. A viscondessa +está bella, verdadeiramente bella, sem os artificios +que deslumbram, nem as vaidades que enojam. +Completa agora vinte e seis annos, volvidos entre o +regaço da mãe que se finou e os beijos do pae cuja +existencia, por duvidosa, se ignora. Alfredo está +tambem, mas triste, acabrunhado, pesaroso, olhando +indifferentemente as pessoas que o rodêam, comendo +pouco, bocejando muito e bebendo mais. +<span class="pagenum"><a name="pag60">[60]</a></span> + +<p>Dois creados serviam a sôpa. Pelo lado direito +da mesa, parallelo-grammo, offerecia-se a sôpa <i>Julienne</i> +alternada pela esquerda com a sôpa <i>allemã</i>.</p> + +<p>Um mysterioso silencio envolvia quasi todos +os hospedes. Umas leves palavras apenas se trocavam +de par para par. Nos calices transparecia o +<i>xerez</i>--o louro e ingenuo xerez dos estomagos +delicados.</p> + +<p>Esgotados os primeiros copos e retirada a primeira +coberta de peixe com molho á ingleza, appareceu +o <i>Chateau-Lafitte</i>. Alfredo, reclinando-se +na cadeira, sorriu-se meigamente. Um cavalheiro +importuno, levantando-se, de cópo erguido, disse:</p> + +<p>«Minhas senhoras e meus senhores: n'este vinho, +eu saúdo a França, mãe desvelada do pensamento +moderno.»</p> + +<p>E todos beberam.</p> + +<p>Entretanto o silencio recomeçara novamente. +Os creados, em nervoso phrenesi, retiravam os pratos +sujos para logo os substituir por outros lavados. +Telintavam os talheres de prata. Quatro bicos +<span class="pagenum"><a name="pag61">[61]</a></span> +de gaz alumiavam a mesa, matisada de flôres, cuja +côr deliciava todos os olhos e cujo perfume embriagava +todas as pituitarias. Na parede, pintada a +azul-dourado, destacavam uns quadros comicos, +alegres, folgasões, uns quadros de caçador logrado, +perfeitamente pittorescos, perfeitamente escolhidos.</p> + +<p>Estava-se n'um <i>vol-au-vent</i> de frangos. O vinho +correspondente era, se bem me lembro, Madeira +sêcco. Conversava-se já de extremo para extremo. +Algumas damas, agitando os leques, abriam os olhos, +afogueadas em calor. Por ordem da viscondessa +abriram-se as janellas. Uns cégos, que, então, passavam +na rua, começaram de tocar uns velhos landúns, +perfeitamente detestaveis e anachronicos.</p> + +<p>«O fado! o fado!--gritou Alfredo.</p> + +<p>E os homens principiaram a tocar o fadinho +das salas.</p> + +<p>Servida uma <i>mayonnaise</i> de linguados, servida +ainda uma <i>galantina</i> de gallinha com aspic, passou-se +a um <i>ponche à la romaine</i>. As rolhas do +champague saltavam ferventes e impetuosas, como +<span class="pagenum"><a name="pag62">[62]</a></span> +uma catadupa de topasios. Os creados corriam +como possessos. As senhoras apoiavam as faces +rubras, sobre o hombro direito dos namorados. +No espaço campeava a lua, na sua doce pallidez, +espreitando meigamente o festim da viscondessa.</p> + +<p>Seriam dez horas da noite, quando, depois de +concluidos os assados--patos com azeitonas, perús +com truffas e espargos--se começou a tirar +o doce. Comiam uns podim <i>saboyon au rhum</i> e +outros <i>bavaroise</i> de fruta. O licôr escolhido era o +<i>Chartreusse</i>. Alfredo, erguendo-se, propôz um +brinde.</p> + +<p>«Bebo á saude da senhora viscondessa--exclamou +elle--á saude da sua felicidade, e á saude +de seu futuro filho.»</p> + +<p>E, sem mais poder suster-se de pé, cahiu sentado +na cadeira. Todos o olharam com um olhar +interrogativo. A viscondessa, encarou-o, com uma +santa e terna delicadesa. Os outros, por prudencia, +calaram-se.</p> + +<p>Cá fóra numerosas tropas atravessavam as ruas. +<span class="pagenum"><a name="pag63">[63]</a></span> +Portugal, constitucional, saùdava o seu nunca--esquecido +vinte e quatro de Julho.</p> + +<p>Terminados os brindes, que foram immensos +e ruidosos, continuaram todos para o salão. Só +Alfredo, por confiança na casa, ousou ficar á mesa, +a cujo extremo adormeceu. E, suspeitando que +fumava, dormiu um longo e pesado somno.</p> + +<p>Quando realmente deu por si soavam tres horas +nos relogios da casa. Meio adormecido e meio +acordado, olhou e viu duas sombras, que, a um +recanto do aparador, se agitavam docemente. Aproximando-se +mais reconheceu então uma das creadas +da casa, conversando airosamente com um garboso +gentil homem.</p> + +<p>--Ora pois!--regougou elle.--Nem mais nem +menos. Tudo corre bem e todos teem rasão...</p> + +<p>E sahiu, assobiando a carta adorada da Grã-Duquesa.</p> + +<p>Na carta que eu tive, Amelia formosa,</p> + +<p>Me disseste amor... +<span class="pagenum"><a name="pag64">[64]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag65">[65]</a></span> + + + + +<h1><a name="capVIII">VIII</a></h1> + +<h2>De passagem</h2> + + +<p>Entre um bom jantar e um bom espirito existe, +ao que parece, uma profunda analogia. <i>Tous les +gens d'esprit sont gastronomes</i>--dizia Balzac. De +todos os animaes, o unico, que sabe comer, é o +homem--escrevia um outro auctor francez. D'este +modo o jantar entre amigos é uma quasi necessidade +da nossa existencia e um salutar incentivo a +duas ou tres horas de boa e franca jovialidade.</p> + +<p>Em Portugal dão-se jantares, mais como ostentação +vã, do que verdadeiramente como meio +<span class="pagenum"><a name="pag66">[66]</a></span> +de melhor expandirmos os nossos affectos, as nossas +ideias, os nossos desejos, as nossas ambições. +A nossa mesa distingue-se das mesas estrangeiras, +não só pela má escolha das comidas, senão tambem +pela exaggerada seriedade com que costumamos +assistir a taes solemnidades. Dir-se-hia que, +em taes momentos, estamos presenciando o enterro +de nossos paes.</p> + +<p>Ora o jantar, o bom jantar, sadio e leve, deve +sobretudo correr alegre, isento de malquerenças, +semeado de phrases espirituosas e de anecdotas +interessantes. O jantar é, por via de regra, um pretexto +para solidificar velhas relações de amisade; +um pretexto para nos rirmos á vontade, um pretexto +para conversarmos intimamente.</p> + +<p>Os estrangeiros, comprehendem de ordinario +estas festas, tirando os casacos, bebendo bem e +comendo melhor. Nós outros, os portuguezes que, +não obstante sermos uma caricatura viva de tudo +quanto vem de fóra, tanto queremos primar pela +gravidade que comprehendemos perfeitamente o +<span class="pagenum"><a name="pag67">[67]</a></span> +contrario. Mal nos rimos, porque nem mesmo rir +sabemos. O espirito nem sempre se amolda com +todas as modulações de linguagem. Parece que á lingua +portugueza foi vedado o dizer ligeiro, amavel, +faceto, que tanto distingue a França moderna. Nós +somos um povo, naturalmente indolente, um povo +de <i>apaixonados</i>, como tão bem nos definiu M.<sup>me</sup> +de Sevigné.</p> + +<p>Voltemos, porém, á cosinha.</p> + +<p>Tem um grande defeito: falta-lhe como em geral +ao nosso viver, a boa elegancia, o sabor, a pimenta, +que torna as comidas mais gostosas e mais +facilmente digestivas. Não temos originalidade, e +por isso imitamos. O unico prato que a meu vêr +existe classicamente portuguez, mas soberanamente +enjoativo, é o leitão. Na provincia, sobretudo, assa-se +um leitão a proposito de qualquer festa. São nossos, +exclusivamente nossos, o leitão e os foguetes.</p> + +<p>Depois note-se--na nossa mesa não ha aquelle +aceio que tanto seria para desejar, e que tão proverbial +é entre os ingleses. Uma toalha, perfeitamente +<span class="pagenum"><a name="pag68">[68]</a></span> +branca, aromatica, transparente, é já de si +um notavel passo para um bom jantar. As indigestões +nascem quasi sempre do mau tempero das comidas: +parece que se odeia a agua e lavam-se os +mantimentos como em baptismo de mouros.</p> + +<p>Entre as classes mais altas da sociedade são +despresadas as comidas vegetaes. Só o povo as +aprecia; e porisso tambem é elle em geral mais +robusto, mais fortemente organisado, e mais naturalmente +atreito á espontaneidade e ás alegrias +da vida.</p> + +<p>O temperamento depende das condições alimenticias +em que nos encontramos. O bom e o mau +humor tambem d'ellas provêm. No modo, porque +nos alimentamos reside, pois, uma grande parte da +nossa felicidade.</p> + +<p>As comidas, demasiadamente gordas, geram a +obesidade tão peculiar aos nossos provincianos; ao +passo que o alimento vegetal torna o homem ligeiro, +amavel e espirituoso.</p> + +<p>Á mesa da viscondessa respirava-se um invejavel +<span class="pagenum"><a name="pag69">[69]</a></span> +aceio e uma limpesa pouco vulgar entre nós. +A propria toalha attrahia, não só pela sua extrema +brancura, senão tambem por uma deliciosa fresquidão, +que de ordinario exhalava.</p> + +<p>Grave era a viscondessa, mas espirituosa. Ninguem +sabia tratar melhor os seus hospedes, nem +com mais liberdade. Como aphorismo passava já +em julgado que eram bons, substanciosos e alegres +os jantares da viscondessa.</p> + +<p>É que, á parte os seus caprichos, a viscondessa +comprehendeu a vida moderna, tal qual ella deve +ser: commoda, aceiada e elegante.</p> + +<p>Nem porisso lhe queiramos mal, mas antes façamos +por imital-a. +<span class="pagenum"><a name="pag70">[70]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag71">[71]</a></span> + + + + +<h1><a name="capIX">IX</a></h1> + +<h2>Pobresa e miseria</h2> + + +<p>É singelo o quadro; tocante até.</p> + +<p>Uma pobre velha, habitando uma alcova humida +e sombria, treme de frio, gemendo por vezes. +Serve-lhe de leito uma pouca de palha enxarcada +e nauseabunda. Ao lado uma panella velha, tosca +e ligeira, cuja grande utilidade é aparar a agua, +que a miudo se despenha do telhado.</p> + +<p>Por uma fresta, lavrada no alto da parede, +côam-se tristemente uns tenues raios de luz. Dir-se-hia +que á desgraça até o sol é vedado. +<span class="pagenum"><a name="pag72">[72]</a></span> + +<p>Pelo soalho esburacado e carcomido occultam-se +uns bichos infernaes, molles, gellalinosos. O tecto, +artisticamente cinzelado pelo longo e imperioso +trabalho da aranha, quasi se não distingue +d'entre a escuridão que cerca o aposento.</p> + +<p>E Maria, a desventurada creatura, jaz immersa +em intima dôr, abandonada aos vermes que lhe +róem as carnes syphiliticas, negras, cobertas de +pustullas e de putrefacção. Querem conhecel-a?</p> + +<p>Rica e formosa, fôra esta mulher. Cheia de +venturas e mimos deslisára a sua vida, sem mais +attritos do que aquelles que ordinariamente nos dá +o tempo e a natureza.</p> + +<p>Acariciada pelo anjo do amor e embalada nos +sonhos gentis da opulencia, Maria sentiu-se a um +tempo admirada e requestada pela mais guapa fidalguia +do seu paiz.</p> + +<p>Seus paes, habituados áquelle unico thesouro, +eram inexoraveis no cumprimento das suas profundas +e intimas affeições. Nada exigia, que para +logo não fosse satisfeito. O mais leve capricho tentavam-no +<span class="pagenum"><a name="pag73">[73]</a></span> +elles realisar com a satisfação de um escravo, +que por sua senhora arriscára a vida.</p> + +<p>Assim cresceu aquelle arbusto. Descuidado e +candido, não houve vento que lhe açoutasse as tenras +vergontesa. O sol, saúdava-o todas as manhãs, +e a primavera encontrou-o viçoso, coberto de flôr +e de esperanças.</p> + +<p>Veiu, porém, a tempestade. O sul rugiu temeroso. +No espaço precipitaram-se as nuvens, prenhes +de electricidade. A arvore, mal segara, tremeu +na sua raiz, e desappareceu da terra.</p> + +<p>Onde estava Maria? Porventura iria ella em +busca de algum anjo bom, seu irmão?</p> + +<p>Fragil, como qualquer mulher, Maria não ousára +resistir á fatalidade que a dominava. Fugiu. +Fugiu romanticamente, por um lençol, atado á janella +de sacada, e á meia-noite.</p> + +<p>Como quer que fosse o facto, em si escandaloso, +excitou naturalmente a indignação publica. +A burguesia commentou-o á noite nos clubs e cafés, +concluindo por ver n'elle uns laivos de obscenidade, +<span class="pagenum"><a name="pag74">[74]</a></span> +impossivel de admittir-se no seio de uma +familia honesta e séria.</p> + +<p>Em que pese, porém, aos nossos indigenas sociaes, +o caso era mundano, e frequentissimo até em +mulheres demasiadamente imaginosas.</p> + +<p>Ao cabo de dois annos, Maria resuscitou; não +para a vida, mas para a morte.</p> + +<p>O rosado do rosto transformára-se-lhe subitamente +numa pallidez transparente, sepulchral, doentia. +Os olhos, encovados, haviam perdido o seu +primitivo brilho. Nada existia já que não fosse +triste e profundamente doloroso.</p> + +<p>A mulher virtuosa cahira victima indefesa, ás +mãos de um maltrapilho infame. O miseravel seductor, +retirára comsigo o seu dinheiro e o seu +carinho.</p> + +<p>Abandonada a si, Maria, refractaria ao trabalho, +sem pae, sem mãe, sem irmãos, sem amigos, +olhou em redor de si, e viu a sociedade que de +longe lhe acenava.</p> + +<p>Correu a ella com um filho nos braços. Engolphou-se +<span class="pagenum"><a name="pag75">[75]</a></span> +nos seus prazeres, trocou a honra pelo +pão quotidiano, pôz em almoeda a consciencia pelo +futuro do innocente, que ao lado d'ella soffria e +chorava tambem.</p> + +<p>Era nobre, e pagava pela corrupção commum...</p> + +<p>A mocidade ganhou-a, como poude. Viveu-a, e +tanto bastava.</p> + +<p>Depois chegou a velhice e a tristesa; depois a +pobresa e a miseria.</p> + +<p>Julio, a este tempo já era crescido, e velava +pela mãe sollicitamente.</p> + +<p>De que poderiam comtudo valer os minguados +ceitis com que lhe era remunerado o seu trabalho +de todos os dias?</p> + +<p>Se elle e ella adoecessem, quem mais os trataria? +quem, porventura, se amerciaria d'aquella +terrivel indigencia?</p> + +<p>--Ninguem!...--respondia-lhe logo a consciencia.</p> + +<p>E a consciencia não costuma mentir.</p> + +<hr style="width: 6em;"> + +<span class="pagenum"><a name="pag76">[76]</a></span> + +<p>Julio viera, pois, da fabrica e encontrára sua +pobre mãe moribunda, sem remedio, sem medico +e sem dinheiro.</p> + +<p>Parou no limiar da porta. Encarou a velha de +frente e viu-lhe os braços estendidos em signal de +compaixão. Extactico, cego, allucinado, entrou-se +o desventurado moço em profundo scismar.</p> + +<p>Ao descerrar as palpebras amortecidas por um +somnambulismo infernal--Julio, emxugando os +olhos, com uma ponta da blusa, sorriu-se, como +se do céu houvera baixado uma inspiração sagrada.</p> + +<p>--Desgraçado de mim!--exclamava elle doridamente.--Trabalhar +um dia inteiro e não ter á +noite que comer... É triste... muito triste... Esgotar +o sangue das minhas veias, em alheio proveito, +e receber, no fim da semana, um vil salario, que +mal me chega ás primeiras necessidades da vida... +É infame... muito infame... Alugar as minhas faculdades +e o meu pensamento, sem outro fim que +não seja o proprio aviltamento e a propria degradação... +<span class="pagenum"><a name="pag77">[77]</a></span> +É vil... muito vil.. Oh! meu Deus!... antes +a morte! mil vezes a morte...</p> + +<p>E assim cahiu inanimado o honrado moço sobre +o desventurado cadaver de sua santa mãe.</p> + +<p>A scena era realmente tão obscura, que mal +poderia provocar as vistas d'esse mundo, que é +louco e grande.--Passou, como tudo o que é modesto, +desapercebida e ignorada.</p> + +<hr style="width: 6em;"> + +<p>No dia immediato um raio de sol, espreitando +muito de soslaio pela fresta do telhado, apenas +encontrára a solidão e a ruina, na mesma alcova, +onde Julio e sua mãe, por tanto tempo agonisaram.</p> + +<p>No cemiterio mexia-se uma porção de terra, +afim de occultar aos olhos do mundo o desditoso +cadaver d'aquella santa e virtuosa velha.</p> + +<p>Julio nem sequer achára uma mortalha, para +envolver o corpo de sua mãe.</p> + +<p>Rasgou a blusa n'umas poucas de tiras, e, assim +auxiliado, por mais alguns farrapos, que ainda +lhe restavam d'outr'ora, arranjou a cobrir o corpo +<span class="pagenum"><a name="pag78">[78]</a></span> +infectado e pestilente de sua mãe. Porque o principal +effectivamente era occultar o crime <i>d'esta +grande peccadora</i>...</p> + +<p>Entretanto a sociedade ria-se nos botequins, e +as tabernas continuavam sempre atulhadas de povo.</p> + +<p>O mesmo Julio teve a coragem de transportar +o cadaver para o cemiterio e de ahi lhe prestar +as derradeiras homenagens.</p> + +<p>Como não havia carniça, não appareceu o abutre!</p> + +<p>Consciencia de Cain é jóia que só se mercadeja +no alto mercado.</p> + +<p>Foi mais uma lei do mundo.</p> + +<p>Convêm, comtudo, registral-a para desafogo de +todos nós. +<span class="pagenum"><a name="pag79">[79]</a></span> + + + + +<h1><a name="capX">X</a></h1> + +<h2>Cousas dos Homens</h2> + + +<p>Permitta-nos a leitora que um pouco nos demoremos +sobre este incidente do nosso romance. +Mais tarde volveremos a fallar da viscondessa. Por +agora historiemos os factos que mais concorreram +para o triumpho da nossa heroina.</p> + +<p>Quem era Julio? quem era Maria? e porque +motivo foram elles chamados para aqui?</p> + +<p>Leitor: conheces a miseria? porventura já te +foi dado contemplar esse estranho espectaculo, que +a cada passo se nos representa diante dos olhos? +<span class="pagenum"><a name="pag80">[80]</a></span> + +<p>Á beira da estrada, <i>ella</i>, estendendo-te a mão +carcomida e triste, pede-te esmola; na escuridão +do templo, cheia de vergonha, <i>ella</i> occulta-se ás +vistas da gentalha; no recesso das florestas, arrasta-se +como um reptil, de tal maneira que nós não +sabemos quem <i>ella</i> é, se um animal, se um homem.</p> + +<p>E, todavia, <i>ella</i>, a canalha, é filha de Deus +como nós.</p> + +<p>E, todavia, <i>elle</i>, o <i>Ninguem</i> errante da sociedade, +o <i>anonymo</i> sublime do universo, elle, o, +<i>trabalhador</i>, tambem, como nós, tem intelligencia +sentimento e vontade.</p> + +<p>Quantas vezes, ao passar por uma rua escura +e humida não tropeçamos nós com um d'esses +desherdados, de faces lividas o aspecto sombrio, +que, não tendo um travesseiro, onde repousar a +cabeça, nem uma bilha d'agua, onde refrigerar a +sede, nem um vestido, onde aquecer as carnes, +vive ao acaso, alumiado, apenas, pela luz das estrellas +<span class="pagenum"><a name="pag81">[81]</a></span> +da noite, alentado pelo orvalho do céu e ao +abrigo vil das lageas das escadas?!</p> + +<p>E, no entretanto, este ser existe.</p> + +<p>Existe nas officinas do trabalho, e chama-se proletario; +existe nos campos, e chama-se jornaleiro; +existe nos hospitaes, e chama-se miseravel; existe +nas prisões, e chama-se criminoso; existe nas rodas +e nos hospicios, e chama-se engeitado; existe +nas ruas e nas escadas, e chama-se maltrapilho; +existe no universo, por toda a parte espalhado, e +chama-se escravo.</p> + +<p>Sim! o escravo é o leproso sem familia, a quem +só é dado sentir a dôr das suas chagas. Elle, coitado! +não tem casa, nem tem jardim, nem flores, +nem amigos, nem alegrias; elle, o escravo, tem +apenas, como um magro cão vadio, uns ossos que +róe durante o dia e umas tristesas que o acompanham +durante a noite.</p> + +<p>E nada mais tem, o escravo!</p> + +<p>O vicio é, em geral, uma triste consequencia +da falta de meios. Perguntae ao pobre, porque se +<span class="pagenum"><a name="pag82">[82]</a></span> +embriaga, á mulher porque se prostitue, e ao escravo +porque se vende.</p> + +<p>Embriago-me--responder-vos-ha o pobre--porque +me quero esquecer do sangue que vertem +as minhas feridas.</p> + +<p>Prostituo-me--dir-vos-ha a mulher--porque +tenho fome.</p> + +<p>Vendo-me--exclamará o escravo--porque a +sociedade me repudia.</p> + +<p>E teem razão. Todos tres procuram o vicio, +como alivio, como necessidade do seu espirito.</p> + +<p>Julio era um d'esses: pertencia á rara pleiade +dos independentes, d'aquelles que o Estabelecido +odeia e renéga.</p> + +<p>Muitas vezes, em creança, o pobre moço, sentado +na areia da praia, e olhando o mar além, dissera +em conversa intima, em que o homem interroga +a consciencia, a razão, e tudo quanto o cerca:</p> + +<p>«Como é grande o mundo, meu Deus!»</p> + +<p>E n'uma esperança eterna, e n'uma ambição +sem limites, Julio ficava-se horas e horas em prodigiosa +<span class="pagenum"><a name="pag83">[83]</a></span> +concentração, que bem lhe denunciava a +lucta, a cada passo travada no espirito nervoso e +inquieto.</p> + +<p>Mas n'este mundo são as ambições como as espumas +do mar: um vento as traz e um vento as leva.</p> + +<p>Que importavam as illusôes, se com as primeiras +folhas do outomno, ellas tinham de cahir uma +a uma?</p> + +<p>As flores d'alma vão-se com o outomno da vida.</p> + +<p>Nem sempre porém as borboletas adejam sobre +as flôres; nem sempre o mesmo sol illumina +as campinas.</p> + +<p>Ante o cadaver de sua mãe, Julio emmudecera. +Quando a sério, e a sós comsigo mesmo pensou +na vida que no futuro o esperava, quasi instinctivamente +teve vontade de se suicidar.</p> + +<p>Olhando, porém, para o céu, ajoelhou. Um +raio de esperança lhe illuminava a alma, até então +em trévas.</p> + +<p>Felizes os que, como elle, sabem esperar!</p> + +<p>A esperança conduz Colombo, e descobre mundos! +<span class="pagenum"><a name="pag84">[84]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag85">[85]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXI">XI</a></h1> + +<h2>Na taberna</h2> + +<p>Entrava-se por um beco immundo, torcia-se á +direita, e estava-se lá, no antro do crime, em que +a vida e a fortuna se joga, o bem estar, a tranquilidade, +o socego, toda a harmonia da existencia +humana.</p> + +<p>Exteriormente, apresentava a taberna um aspecto +mesquinho e lugubre. Um distico, apenas, no +alto da parede indicava aos transeuntes que ali «<i>se +vendia vinho verde</i>.» +<span class="pagenum"><a name="pag86">[86]</a></span> + +<p>No largo portal da entrada, coroado por um +ramo de louro, viam-se uns traços obscenos, riscados +a giz, e, ao parecer, escriptos em maré de +embriaguez.</p> + +<p>Portas a d'entro, reinava uma alegria feroz, +confusa e tristemente desconsoladora.</p> + +<p>Uns jogavam, riam outros, e gritavam todos.</p> + +<p>--Salto no valete--dizia um.</p> + +<p>--Mico no terno--interrompia outro.</p> + +<p>E assim, ébrios de vinho e ambiciosos de fortuna, +jogavam elles, sem outro alento que não +fosse o vicio e o esquecimento.</p> + +<p>De subito, uma gargalhada estrugiu pelos ares.</p> + +<p>Por uma das mesas, esgravatada e cebenta, rolou +veloz um enorme cangirão de vinho, por onde +á porfia bebiam os convivas alegres.</p> + +<p>A taberneira, mulher roliça e de cabello na +venta, servia com respeito os freguezes, na maioria +lavradores e campinos.</p> + +<p>A um canto, e sobre o junco, que cobria o lagedo +<span class="pagenum"><a name="pag87">[87]</a></span> +da sala, estava um berço, onde uma creança +dormia tranquillamente, em companhia de um gato +malhado, velho hospede na casa.</p> + +<p>Ao lado do berço um cão, apoiado sobre as +mãos e com a orelha levantada, olhava filamente +na direcção da porta de entrada.</p> + +<p>Para além do balcão, duas pipas de vinho e +uma pratelleira, cujas divisões continham pão, +queijo e figos; tudo, já se vê, velho, amarellecido +pelo tempo, e modico no preço.</p> + +<p>--Viva o nosso Julio!... viva!...--exclamaram +os jogadores, voz em grita.</p> + +<p>O saúdado moço, de braços crusados e em mangas +de camisa, nem sequer lhes respondeu.</p> + +<p>Entrou, passeou a vista pela sala, e quedando-se +com pesar, vociferou:</p> + +<p>--Nem mãe, nem... dinheiro...</p> + +<p>Como por encanto, fez-se um silencio sepulchral +na taberna. O jogo parou; e instinctivamente +erguidos, correram todos á presença do Julio.</p> + +<p>Prestes, porém, se apagou a mudez, a fim de +<span class="pagenum"><a name="pag88">[88]</a></span> +novamente ser interrompida pela mais temerosa +de todas as vozerias.</p> + +<p>--Não póde ser; não póde ser. Abaixo a tyrannia. +Vamos a acabar com elles. Malhados de +uma figa... Queremos sangue e mais sangue... que +nem um só escape... Querem-nos roubar o nosso +trabalho... os infames... Ladrões abaixo... Não queremos +ladrões... A elles... todos a elles...</p> + +<p>A taberneira exasperada, pedia ordem, levantando +os braços. Em cima do balcão latia o rafeiro +agudamente. O gato, espreguiçando-se, escoara-se +com mysteriosa perfidia, por entre as pipas +vasias. Um raio de lua, reflectindo-se phantasticamente +sobre a cara da creança, que chorava, +produzia um contraste singular, e sobremaneira +interessante. Dir-se-hia que pela innocencia +velava o céu em toda a sua magestade e grandesa.</p> + +<p>N'um momento a porta rangeu nos gonzos.</p> + +<p>--Em nome da lei declaro presos os desordeiros--bradou +um vulto. +<span class="pagenum"><a name="pag89">[89]</a></span> + +<p>--Em nome de que lei?--retorquiu um dos +agitadores.</p> + +<p>--Em nome da nossa lei, em nome da lei +portugueza--insistiu o primeiro, descobrindo-se.</p> + +<p>Á vista do policia, até a taberneira gritou. Vergado +ao peso de uma mão de ferro, aspera e cortante, +e apanhado a sós, o espião do governo, +atravessado por tres fortes navalhadas, rolou immediatamente +aos pés de Julio, que para elle olhava +desconsoladamente.</p> + +<p>Momentos depois a taberna estava só, escura, +e triste.</p> + +<hr style="width: 6em;"> + +<p>Quem, dois dias depois, entrasse n'esta mesma +casa, e attentasse nos personagens, ali reunidos, +pouca differença de certo havia de notar.</p> + +<p>Lia um dos operarios em voz alta a <i>Revolução +de Setembro</i>, quando inopinadamente se lhe deparou +a seguinte local:</p> + +<p>«Ante-hontem, cerca da meia noite, deu-se um +grave tumulto n'uma taberna situada para as bandas +<span class="pagenum"><a name="pag90">[90]</a></span> +de Alfama. A policia anda em cata dos desordeiros, +e de crêr é que, em breve, elles soffram o +justo castigo das suas loucuras.»</p> + +<p>Taes palavras foram, como é natural, ouvidas +com terror, da parte dos circumstantes.</p> + +<p>Um silencio profundo envolvera a taberna. +Mudos e reflexivos, ninguem ousava proferir uma +palavra.</p> + +<p>De repente apagou-se o gaz. O ruido tornara-se +insupportavel, medonho, confuso.</p> + +<p>--Traição... traição...--repetiram todos.</p> + +<p>E o silencio recomeçou de novo. +<span class="pagenum"><a name="pag91">[91]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXII">XII</a></h1> + +<h2>Perigos e consequencias</h2> + + +<p>N'este nosso paiz ficam muitas vezes impunes +os crimes mais graves, castigando-se os mais insignificantes.</p> + +<p>A lei penal muitas vezes dá existencia aos crimes, +imaginando penas para delictos imaginaveis.</p> + +<p>Parece que a justiça social nem sempre cumpre +o seu dever. O roubo corre muitas veses authorisado +pela lei, n'um inpudor por tal fórma insólito, +que de vergonha faria córar uma bachante.</p> + +<p>A cada passo, e com a maior facilidade, se +<span class="pagenum"><a name="pag92">[92]</a></span> +sancciona uma injustiça. Quem não tem padrinho, +morre mouro--diz o rifão. E o certo é que o pobre, +o eterno Job da orphandade,--se não morre +mouro, morre, pelo menos, de atrophia, indigente, +sem pão, sem agua, e o que é mais, sem espirito.</p> + +<p>Ao percorrer as humidas cavernas--morada e +abrigo dos proletarios--de dó se nos enlucta o +sentimento. Como é que a Providencia tão prodiga +e generosa; como é que o sol, alargando seus +raios encantadores, tanto pelas cumiadas das montanhas +mais longinquas como pela escuridão dos +valles mais reconditos--como é que todo este +mixto de luz e de céu, póde consentir o infortunio +no mundo?</p> + +<p>A aspiração é sêde que se não extingue. Mas +aspirar sem esperança; anceiar sem uma possibilidade +de realisação final, deve ser triste, muito +triste, para já não dizer desesperador.</p> + +<p>Para voar, concede a naturesa azas á aguia. +Assim tambem para sermos livres, rigorosamente +livres, para executarmos os vastos planos da nossa +<span class="pagenum"><a name="pag93">[93]</a></span> +vontade, carecemos nós de meios, sem os quaes +tudo nos seria baldado e inutil.</p> + +<p>E dizem que a lei é egual para todos!</p> + +<p>Entre dois cidadãos--um casado, outro solteiro, +um pobre outro rico--que soffrem a mesma +pena, onde é que está a egualdade?</p> + +<p>Divagando, porém, iamos fugindo do nosso caminho. +Voltemos ao romance.</p> + +<p>A policia não afrouxára nos seus esforços. Indagou, +correu, perguntou. Ao cabo de uma semana, +estavam seis individuos dados por suspeitos. +Entre elles indigitára-se Julio como um dos principaes +cumplices no crime acima descripto. Se +fôra ou não acertada a escolha, isso só os factos +posteriores o poderão affirmar. Por agora basta +que o leitor nos acompanhe.</p> + +<p>Dolorosa é a recordação do carcere. Sem luz +e sem ventilação, são as nossas cadeias uns verdadeiros +antros, cuja atmosphera impregnada de particulas +venenosas, quasi sempre gera no seu seio +<span class="pagenum"><a name="pag94">[94]</a></span> +os vicios mais execrandos e as doenças mais incuraveis.</p> + +<p>Um drama simples e vulgar ao mesmo tempo, +poderá, talvez, iniciar-nos nos verdadeiros mysterios +d'este inferno.</p> + +<p>Ouçamol-o.</p> + +<p>Um homem rico decahira um dia da sua fortuna. +Habituado ás commodidades da vida, encontrou-se +repentinamente privado do necessario. Acostumado +aos falsos amigos, viu-se sem amigos. Olhou. +Quatro filhos o encaravam. Uma esposa lhe sorria. +Fôra bom o seu coração. Nunca até ali se dera +um unico facto que lhe manchasse a consciencia. +Examinou os bolsos. Dinheiro não havia já. Recorreu +ao trabalho. O trabalho fez-se esperar. Mendigou. +Ainda era pouco. Os filhos continuavam a +chorar. A esposa continuava a morrer. Que fazer, +pois? Roubar. E roubou. Roubou um pão porque tinha +fome. E dois. E tres. E quatro. A lei, inexoravel +como a Parca, encontrou-o uma noite. Levou-o para +<span class="pagenum"><a name="pag95">[95]</a></span> +o Limoeiro. Pediu-se, sollicitou-se, em nome da +desgraça. Tudo embalde! Os poderes publicos cumpriam +o seu dever. N'uma casita humida, situada +ao Salitre, definhavam, ao cabo de cinco dias, quatro +creanças e uma mulher. No Limoeiro creava-se +mais um monstro, e inutilisava-se um homem. E +tudo isto com uma prodigiosa simplicidade.</p> + +<p>É a historia de Valjean sem o auxilio do arcebispo!</p> + +<p>Ao moço-operario não succedeu, felizmente, +outro tanto. A Providencia encarregou-se de velar +por elle. E o certo é que a evasão de cinco presos +deu-se rigorosamente n'esta época. Julio foi +um dos que, a salvo da prudencia, recuperaram a +liberdade. +<span class="pagenum"><a name="pag96">[96]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag97">[97]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXIII">XIII</a></h1> + +<h2>Continuação</h2> + + +<p>Seriam 2 horas da madrugada. A lua brilhava +em pleno espaço. O Tejo era Sereno. Apenas de +longe em longe um rumor surdo, vago, incomprehensivel, +acordava a naturesa do seu pacifico somno +nocturno.</p> + +<p>Por sobre as mansas aguas deslisava um bote +suavemente. As estrellas, reflectindo-se na bahia, +similhavam, pela vivacidade irrequieta do brilho, +um cardume de peixes em debandada. A viração +era fresca, e deliciosamente salutar. +<span class="pagenum"><a name="pag98">[98]</a></span> + +<p>Cantavam os remeiros, umas tristes canções, +repassadas de melancholia e de patriotismo. Os remos, +batendo na agua, produziam o effeito de um +chrystal facetado, em desordem, mas atrahente.</p> + +<p>Nem uma dissonancia sequer apparecia n'este +immenso panorama, a um tempo eloquente e respeitavel.</p> + +<p>É que a alma da naturesa, symbolo do infinito +sobre a terra, é incomparavelmente superior á alma +do homem, expressão do contingente e do relativo.</p> + +<p>As montanhas, elevavam-se a distancia, na firme +immobilidade de phantasmas. Dormia a cidade socegadamente. +No convez de um navio mercante +ladrava um cão da Terra-Nova. Nas embarcações +de guerra ouvia-se distinctamente e com rarissimos +intervallos o passo moroso das sentinellas.</p> + +<p>Os catraeiros cantavam sempre:</p> + +<div class="poesia"> +«Vai alta a lua! na mansão da morte<br> +Já meia noite com vagar soou;<br> +Que paz tranquilla! dos vaivens da sorte<br> +Só tem descanço quem ali baixou.»<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag99">[99]</a></span> + +<p>E ao longe os echos repetiam a ballada do +poeta.</p> + +<p>O escaler abicou, emfim, á praia. A aurora começava +a roxear o horisonte. Uma luz delicada, +fina, como a porcellana, transparecia por entre +nuvens.</p> + +<p>Um vulto de homem, embuçado n'um largo +capote, saltou á praia.</p> + +<p>Julio, fugitivo, tomára a prompta resolução de +por algum tempo se occultar no bairro de Alcantara.</p> + +<p>Duas palavras ainda sobre elle:</p> + +<p>Julio era um rapaz ambicioso. Amava egualmente +a liberdade e o trabalho.</p> + +<p>De têmpera rija, era o seu caracter. Odiando +o jesuitismo, por instincto, não poucas vezes chegára +a commetter excessos e desvarios.</p> + +<p>Frequentava a taberna, do mesmo modo que +nós frequentamos o café; ali discursava com os +companheiros, concluindo sempre em favor da liberdade +e contra a reacção. +<span class="pagenum"><a name="pag100">[100]</a></span> + +<p>Na noite em que o prenderam exclamára elle +para os camaradas de trabalho:</p> + +<p>«Nem sempre a escravidão ha de pesar sobre +nós. Quem tiver coragem, acompanhe-me. Uma +vez que não querem a paz, acceitaremos a guerra, +mas uma guerra sem tréguas, uma guerra eterna +e violenta.»</p> + +<p>D'este modo Julio era a perfeita personificação +do escravo, que, sentindo a grilheta ao pé, deseja +emancipar-se e tornar-se homem, como os seus +similhantes.</p> + +<p>Alfredo, não tendo coragem para realisar os +seus planos, embora bom e generoso no fundo, tornara-se +devasso, e adormecera inconscientemente +nos braços da sensualidade estupida. Julio, não! +Julio estava puro; reagia ainda com heroicidade +contra a geral corrupção da sociedade.</p> + +<p>Entre estes dois homens, ambos moços e sympathicos, +existia uma differença apenas: Alfredo +pertencia á mocidade dos cafés, incomparavelmente +mais inutil que a mocidade da taberna, composta, +<span class="pagenum"><a name="pag101">[101]</a></span> +na generalidade, por operarios honestos, como +Julio.</p> + +<p>Mais tarde, porém, nos encontraremos novamente +com Alfredo. +<span class="pagenum"><a name="pag102">[102]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag103">[103]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXIV">XIV</a></h1> + +<h2>Novos mundos</h2> + + +<p>Penetremos em Alcantara.</p> + +<p>É um bairro pobre, habitado por operarios, +n'uma grande parte, e por homens do mar.</p> + +<p>Na extrema do riacho, para a direita, alveja +uma pequena casa, situada na falda de um monte.</p> + +<p>Para ahi entrou Julio, a fim de se occultar +ás pesquisas da policia.</p> + +<p>Durante o dia conservava-se fechada a casa, +como querendo demonstrar ao publico, que ella +era realmente deshabitada. +<span class="pagenum"><a name="pag104">[104]</a></span> + +<p>Á noite quatro operarios, voltando do trabalho, +batiam de mansinho á porta.--Julio percebendo +pelo toque ser os companheiros, levantava-se +da enxerga em que de ordinario jazia, e dava +volta á chave.</p> + +<p>No interior da habitação reinava a miseria em +toda a sua hediondez.</p> + +<p>Uma enxerga apenas, abrigava, durante a noite, +cinco esqueletos de homens, sem alegria, sem pão +e sem futuro. Os mumias da desgraça!</p> + +<p>De manhã, ao levantar, reuniam quatro ou seis +trapos velhos, e, por vergonha, occultavam á multidão +os proprios ossos do corpo.</p> + +<p>Na cosinha existiam, por acaso, duas côdeas de +brôa, arrancadas aos dentes das cadellas leprosas, +uma bilha com agua e um pequeno ramo de carqueja.</p> + +<p>A estes quatro animaes, trabalhadores n'uma +fabrica de lanificios, se incorporara Julio.</p> + +<p>Pouco tempo, porém, durou similhante situação. +Ao cabo de alguns mezes a policia lançára as +<span class="pagenum"><a name="pag105">[105]</a></span> +suas vistas para os lados de Alcantara. Isto soube-se, +e chegou aos ouvidos de Julio, a este tempo já +viciado por toda a casta de corrupção.</p> + +<p>Com nova tão para desesperar, quasi endoideceu +o moço-operario. Uma noite mesmo, encontrando +um policia civil, e tomando-lhe da mão direita, +disse:</p> + +<p>--Olé--sabe quem eu sou? Ah! não sabe? +pois bem: fique sabendo...</p> + +<p>E fugindo, estendeu-o no chão com uma fortissima +bofetada.</p> + +<p>Assim se passaram alguns dias, de louca anciedade. +Por tradicção conhecia Julio um velho aldeão, +de quem a mãe repetidas vezes lhe fallára. +Uma noite, deixando o casebre de Alcantara, demandou +a provincia, onde lhe sorriram os primeiros +raios de felicidade.</p> + +<p>Mas Julio já não era o mesmo homem. O desanimo +ganhara-o por momentos. É condão da miseria +transformar o homem physica e moralmente +num monstro de paixões. +<span class="pagenum"><a name="pag106">[106]</a></span> + +<p>A barba crescera-lhe. O corpo definhava-se-lhe +a olhos vistos. No coração principiavam os espinhos +a crescer e a vegetar. Emfim, aos pés do +operario um abysmo, um immenso abysmo se +abria.</p> + +<p>E ai do homem, que um momento escorregar +no precipicio; porque para esse não haverá salvação +possivel.</p> + +<p>A mulher, que uma vez peccou, habilita-se a +ser uma eterna peccadora. O homem que um dia +se prostituiu, fica para sempre prostituido.</p> + +<p>Nem sempre, porém, nos abandonam os anjos +do céu.</p> + +<p>Á beira do despenhadeiro tivera Julio o seu +anjo da guarda.</p> + +<p>Abençoada a mão, que n'um raio de amor +nos traz a esperança e a consolação! +<span class="pagenum"><a name="pag107">[107]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXV">XV</a></h1> + +<h2>Primeiros amores</h2> + + +<p>Um sol ardente batia de chapa sobre um eirado +de pedra, em cujo espaço se abrigava cuidadosamente +o fructo de uma boa colheita de milho.</p> + +<p>Ao lado, e fóra do alpendre, elevavam-se tres +medas de palha, unico alimento annual, aos pacientes +trabalhadores d'aquelle campo.</p> + +<p>Por entre as louras e amontoadas espigas brincavam +em candida innocencia duas formosas e galantes +creanças.</p> + +<p>A tarde declinava docemente. No pinheiral longinquo +<span class="pagenum"><a name="pag108">[108]</a></span> +gemia a rôla uns tristes e magoados queixumes. +Os cantos jubilosos dos lavradores iam +perder-se nas solidões distantes. O céu era sem +nuvens; e as aguas de chrystal, mansas e innocentes, +como as lagrimas de uma creança, deslisavam +com ligeiros attritos, atravez dos terrenos pedregosos.</p> + +<p>Um cão preto, guardador de gados, saltando +alegremente, annunciára em repetidas curvas, a +proxima chegada de seu dono.</p> + +<p>A pouca distancia d'ali assomou logo um velhote +de rosto prasenteiro e agradavel. As duas +creanças, erguendo-se de um pulo, desappareceram +por entre a sombra do arvoredo.</p> + +<p>Apenas um moço, altivo, de tez morena e bronseada, +permanecêra na mesma posição sem dar por +cousa alguma do que em de redor d'elle se havia +passado.</p> + +<p>O velho chegou, trazendo os dois pequenos +pela mão. Olhou com piedade para a estatua da +tristesa, que tão profundamente o impressionava, +<span class="pagenum"><a name="pag109">[109]</a></span> +abeirou-se d'ella, e prorompeu nos seguintes e +magoados termos:</p> + +<p>--Então que é isso, meu Julio? tão triste e +pesaroso? já lhe não valem de nada as palavras +d'este velhote, que tanto do coração lhe quer? e +esta familia que é a sua? Ora vamos, mostre-se +alegre para comnosco. Aperte-me esta mão que é +rude, mas honrada. Seja-me franco, se alguma +cousa o afflige. Nada receie. Olhe que todos nós +o estimamos devéras.</p> + +<p>--Meu Pae...--exclamava Julio, debulhado +em lagrimas,--meu bom Pae...</p> + +<p>O lavrador, puxando por um lenço encarnado, +que habitualmente trazia no bolso direito da jaqueta, +muito de soslaio limpou os olhos humedecidos. +As duas creanças, acompanhando-o, como +que por instincto lhe beijavam as mãos bemfazejas.</p> + +<p>O sol, atufando-se nas aguas do oceano, reverberava +por sobre a terra silenciosa os seus derradeiros +raios. A brisa era tépida, como a noite. Algumas +<span class="pagenum"><a name="pag110">[110]</a></span> +folhas sêccas, prenuncio do outomno, alastravam +o sólo.</p> + +<p>Julio entrara-se em doloroso scismar. A sós +comsigo mesmo, pensou muitas vezes no suicidio, +companheiro e amparo dos que soffrem. Mas não. +Uma esperança o alimentava. Um vago ideal o seduzia.</p> + +<p>Após profundo meditar alçou a cabeça para o +céu. A imaginação cedera o seu logar á intelligencia. +Julio estava salvo. A seu lado respirava um +archanjo celeste.</p> + +<p>Olhou. Cecilia, a pomba immaculada, depositara +aos pés do seu amante uma bolsa, cheia de +libras, thesouro de trabalho e de economia.</p> + +<p>Que esplendida creança! e que nobilissima abnegação!</p> + +<p>--Tu aqui, Cecilia?...</p> + +<p>--Sim, aqui, ao pé de ti, meu Julio. Tudo adivinhei. +Se é preciso que partas, parte: vae procurar +a fortuna, por que tanto anceias. No entanto +lembra-te sempre de que deixas n'esta casa não +<span class="pagenum"><a name="pag111">[111]</a></span> +só um pae que te estima mas tambem uma mulher +que te ama.</p> + +<p>--Cecilia, meu doce amor, como eu quizera +ser feliz comtigo. Mas tu bem vês, minha filha: +sou pobre, nada tenho. Repudiado pela sociedade, +que me julga um criminoso, apenas a tua e a +minha desgraça poderia fazer n'este momento. Parto +ámanhã. Com o nome mudado, entrarei n'uma +fabrica. Trabalharei, trabalharei muito. E tu, Cecilia, +que és boa e meiga, como as estrellas do +céu, não me esqueças nunca nas tuas piedosas orações. +Deus ha de ouvir-te, porque Deus tambem +é bom. Um dia, quem sabe? voltarei rico a esta +casa. Tenho fé em Deus que hei de voltar. E tu +tambem tens fé, não é assim, Cecilia?</p> + +<p>--Fé, meu amigo, só eu tenho na morte. Alguma +cousa me diz que a felicidade não foi feita +para nós. Paciencia. Que, ao menos, o céu nos +receba!--é este o meu maior desejo.</p> + +<p>Um curto, mas doloroso intervallo se seguiu +a estas palavras. Cecilia, sufocada pelos soluços +<span class="pagenum"><a name="pag112">[112]</a></span> +rasgava com os proprios dentes as pontas do avental, +chorando amargamente.</p> + +<p>Julio envidava todos os seus esforços afim de +a consolar. Nem um nem outro, porém, sabiam +o que faziam.</p> + +<p>--Vamos, meu Julio, assim é preciso. Animo, +animo e adeus...</p> + +<p>Um abraço os reuniu; e um beijo--um prolongado +e triste beijo os separou.</p> + +<hr style="border-bottom: dotted 2px #000000;"> + +<p>Oito dias depois, Cecilia mostrava a seu pae +uma carta de Julio, cuja leitura elle terminou chorando.</p> + +<p>--Pobre rapaz!--exclamava o bom do velho, +limpando os olhos com as costas da mão.</p> + +<p>E voltando-se para sua filha, começou de beijal-a +ardentemente.</p> + +<p>Doce esperança do céu lhe illuminára a fronte, +encanecida na virtude e no trabalho! +<span class="pagenum"><a name="pag113">[113]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXVI">XVI</a></h1> + +<h2>Transformações</h2> + + +<p>Eu não sei qual seja melhor: se o ar do campo, +se o ar da cidade.</p> + +<p>É certo que muitos preferem a provincia á +capital. Tambem é certo que os doentes, por via +de regra, se não dão bem nos grandes centros: +Entretanto a cidade, se bem que despida da ingenuidade +nativa da aldeia, tem para mim o supremo +encanto da actividade e do trabalho. O silencio +prolongado degenera as mais das vezes n'um aborrecimento +<span class="pagenum"><a name="pag114">[114]</a></span> +deploravel, quando não é elle o gerador +de graves e dolorosas molestias.</p> + +<p>A cidade tem as suas ruas illuminadas. Os restaurantes +attrahem-nos docemente. O ruido dos +cafés desperta em nós o desejo da mutua confraternidade. +Se por acaso atravessamos uma rua +bastante concorrida, paramos instinctivamente; olhamos +para as <i>vitrines</i> das lojas, admiramos um objecto +mais do nosso agrado, e com isso nos deleitamos.</p> + +<p>Sobretudo apraz-nos a cidade no inverno, no +tempo em que as arvores, despidas das esplendidas +<i>toilettes</i> do verão, se nos mostram tristes e +sombrias como a velhice. Então é-nos o calor mui +doce e suave lenitivo. Á luz pallida do gaz distendem-se-nos +os musculos enregelados, e enchem-se-nos +de vida os membros confrangidos.</p> + +<p>O café é uma invenção puramente da cidade. +<i>Rendez-vous</i> de todas as classes sociaes, é elle +para a humanidade o mesmo que a familia é para +<span class="pagenum"><a name="pag115">[115]</a></span> +o homem. Á noite, ao cahir da tarde, quando as +tristesas--aquellas vagas e mysteriosas tristesas +do crepusculo--começam de entrar comnosco, nós, +incitados por um desejo ardente de meigas e salutares +expansões, procuramos o café naturalmente. +Para alli nos dirigimos, como se elle nos fôra +um templo sagrado; lá temos a nossa communhão +de ideias e interesses--uma profunda e natural +communhão, onde os amigos se encontram e os estranhos +se abraçam.</p> + +<p>E o theatro? e os circos? e os passeios? e a +musica?</p> + +<p>Imagine-se, pois, o leitor no theatro de D. Maria. +A récita é dada em beneficio de um asylo. A +plateia está replecta de espectadores, e nos camarotes, +como que resplandecem, em glorioso desafio, +as mais encantadoras formosuras de Lisboa: +Como se disse no segundo capitulo d'este romance, +o drama escolhido para esta noite era a <i>Vida de +um rapaz pobre</i>. Apparecêra a Viscondessa, n'uma +das frisas da frente, ostentando, um delicado decote, +<span class="pagenum"><a name="pag116">[116]</a></span> +um cóllo d'alabrasto, ao qual estava cingido +um valioso collar de pérolas. Proxima d'ella, e na +frisa immediata, uma condessa rica, enlêvo dos negociantes +accreditados, mostrava uns braços gordos, +a cujos pulsos, por egual gordos e sadios, se +enroscavam umas pulseiras de diamantes, compradas +na mais afamada ourivesaria de Paris. Mais +além uma menina loura, ha pouco sahida do collegio, +tomava <i>poses</i> incontestavelmente estudadas +ao espelho, olhando de soslaio para um moço +ainda imberbe, <i>soi-disant</i> litterato de botequim e +<i>claqueur</i> improvisado.</p> + +<p>E assim succediam os factos, as pessoas e as +cousas. Nas torrinhas estavam, segundo o costume, +alguns rapazes, ao parecer entendedores--uns bons +rapazes despretenciosos, á mistura com alguns operarios +zelosos e trabalhadores.</p> + +<p>No fim do 3.<sup>o</sup> acto, quando Alfredo entrava na +frisa da Viscondessa, um ignorado personagem se +levantou nas torrinhas, replecto de amor e de febre. +Desceu as escadas com desusada precipitação, +<span class="pagenum"><a name="pag117">[117]</a></span> +e entrou no restaurante. Pediu aguardente de +canna e bebeu, bebeu sempre... Pediu uma folha +de papel de carta, e com um lapis que trazia no +bolso do casaco, escreveu um bilhete.</p> + +<p>Embuçado e trémulo, esperou que o espectaculo +terminasse. Quando, por entre a multidão +que sahia do theatro, lobrigou a Viscondessa, sem +atinar com a intenção dos seus actos, allucinado, +doido, perdido--acercou-se della, entregou-lhe +o bilhete, e fugiu.</p> + +<p>Pobre de ti, meu Julio, espirito leviano e generoso, +e agora já transformado em José Xavier, +em virtude das leis do teu paiz.</p> + +<p>O ar da cidade, para ti renovado, foi o abysmo +que se te abriu aos pés.</p> + +<p>Sem mesmo querer, olvidavas a aldeia, que te +fôra consolação momentanea nas agruras da vida; +e n'esse esquecimento involuntario ia-se-te a alma +partida com a doce imagem da mulher honrada +que por ti velava dia e noite.</p> + +<p>Pobre de ti, meu poeta! e pobre d'aquelles, +<span class="pagenum"><a name="pag118">[118]</a></span> +que, como tu, soffrem as mesmas e tristes inconstancias, +a cujo horrivel imperio não ha nunca resistir +n'este mundo de phantasmas e de vadios.</p> + +<p>Pobre de ti! +<span class="pagenum"><a name="pag119">[119]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXVII">XVII</a></h1> + +<h2>Allucinações</h2> + + +<p>Quando alguma ideia nos preoccupa o espirito +fortemente, o nosso primeiro movimento é estar +só, isolado, em intimo colloquio com os nossos +desejos.</p> + +<p>Momentos ha em que aborrecemos a luz, como +supremo escarneo aos nossos soffrimentos. N'este +caso é a conversa de estranhos muitas vezes levada +á conta de uma ironia pungente. Queremos fallar, +e não podemos. Desejamos abrir os olhos, e conservamol-os +fechados. Esforçamo-nos por chorar, e +<span class="pagenum"><a name="pag120">[120]</a></span> +as lagrimas não correm. Então, sequestrados da +sociedade, e a sós com a nossa dor, imploramos +de Deus o soccorro da morte e a hora suave do +passamento.</p> + +<p>Julio estava perdido. Tentou ser homem, mas +embalde.</p> + +<p>Pela primeira vez na sua vida entrou n'uma +casa de jogo. A sorte foi-lhe adversa.</p> + +<p>Com os cabellos em desalinho, os olhos chammejantes, +e o corpo numa ancia infernal, entrou +o apaixonado moço n'um botequim.</p> + +<p>Bebeu, e embriagou-se.</p> + +<p>A paixão é muitas vezes creança. O amor é +caprichoso, quasi sempre doentio, e por via de regra +em extremo exigente.</p> + +<p>Ora a febre tem um periodo de excitação, o +qual, apenas terminado, gera o aborrecimento e +um indefinivel mal-estar.</p> + +<p>É louco o homem que ama sem raciocinio, doidamente +entregue aos excessos da imaginação e +da phantasia. Acima do amor está a amisade. +<span class="pagenum"><a name="pag121">[121]</a></span> + +<p>O amor é um relampago em céu de trovoada: +passa, e não dura.</p> + +<p>A amisade é um sol que, mesmo atravez das +tempestades, se conserva: não tem azas como a +aguia, mas em compensação tem raizes como a arvore.</p> + +<p>A amisade é sempre amorosa; o amor nem +sempre é amigo.</p> + +<p>Para amar basta que se seja um bom amigo; +para ser amigo é que não basta só o amor.</p> + +<p>O amor é um capricho, que póde provir de +uma apparencia mal entendida.</p> + +<p>A amisade não! A amisade nasce da reflexão +combinada com o tempo.</p> + +<p>Quantas vezes não é o amor filho do ciume?</p> + +<p>Quantas vezes nos não deixamos nós arrastar +por uma simples exaltação do nosso temperamento?</p> + +<p>A nossa esposa deve ser a nossa primeira amiga. +Na convivencia ha tempo para estudo. Ai! +d'aquelle que se deixar arrastar pelo fogo das paixões, +<span class="pagenum"><a name="pag122">[122]</a></span> +porque para esse devem ser as as desillusões +um quasi assassinato moral.</p> + +<p>Julio estava cego; caminhando ás apalpadellas +mal podia atinar com o caminho.</p> + +<p>Depois de ter jogado, depois de ter bebido, sahia +para a rua.</p> + +<p>Se o jogo é como o vinho uma embriaguez, +nem porisso o amor deixa de o ser tambem.</p> + +<p>Quasi nunca a paixão apparece só. Um homem +apaixonado é um aventureiro, um espadachim, que +anda atraz da sorte, desafiando-a. E porisso é que +os tres irmãos gemeos--o jogo, o vinho e o amor--caminham sempre unidos e +accordes.</p> + +<p>Julio, ébrio, ameaçou as estrellas, riu-se da +lua, escarneceu do céu, e insultou-se a si.</p> + +<p>A embriaguez tem d'estas oscillações inexplicaveis: +no principio é vigorosa, athletica, muscular, +até que a pouco e pouco enfraquece, tornando-se +inerte, covarde, miseravel: similhante a um +homem que, cahindo no abysmo, solta a principio +<span class="pagenum"><a name="pag123">[123]</a></span> +uns gritos agudos, lancinantes, e que a final, desesperado +e sem força, se deixa escorregar para +o fundo, onde adormece no leito do universal esquecimento.</p> + +<p>Julio, sem ser cadaver, era no entretanto um +alucinado. E o alucinado só dista do cadaver, em +que aquelle é um morto ambulante, ao passo que +este é apenas um morto inerte, estupido e incapaz +de movimento. +<span class="pagenum"><a name="pag124">[124]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag125">[125]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXVIII">XVIII</a></h1> + +<h2>O escudeiro da senhora Viscondessa</h2> + + +<p>Apenas sahido do theatro o primeiro pensamento +de Julio fôra suicidar-se.</p> + +<p>Alguma cousa, porém, impossivel de explicar-se, +o prendia á vida. Demais elle era novo; contava +vinte e seis annos, se tanto; possuia aspirações +em larga escala; vastos affectos lhe referviam +na mente escaldada. É verdade que até ahi a pobresa +o não deixára sahir do seu silencio. Que lhe +importava, comtudo, a obscuridade do presente, +se o futuro lhe podia ser de amor e de rosas? +<span class="pagenum"><a name="pag126">[126]</a></span> + +<p>Uma lucta desesperadora se lhe travou então +no espirito irrequieto.</p> + +<p>--Sim! a vida--exclamava elle--oh a vida... +e chama-se a isto vida... Mas se ella de facto me +pertence, porque me não hei de eu desfazer della? +se por naturesa, Deus me creou livre; se para mim +nada existe na terra, além d'este fardo importuno +a que chamam miseria, para que persistir n'elle. +Não! É mister sahir d'este salão, d'este vil salão! +cuja área denominam universo: procurar um outro, +cujo começo é o cemiterio, e o fim, talvez, a +eternidade da materia... Os homens... que são os +homens? uns tristes egoistas sem consciencia e sem +pundonor, uns mercenarios torpes, altivos invejosos +e estupidos... perfeitamente como os outros +animaes... Mas aquella mulher! e qual? Cecilia? +oh, Cecilia é uma andorinha cheia de castidade, +muito pura e muito simples. E depois--que lhe +devo eu? se me teve amor, tambem eu a amei... se +me deu affectos, tambem eu lh'os retribui. Acima +d'ella, porém, está a Viscondessa. Comparál-as? oh! +<span class="pagenum"><a name="pag127">[127]</a></span> +não, por Deus, Cecilia é uma pobre rapariga sem +arte; falta-lhe a elegancia da Viscondessa, não sabe +fallar, não se sabe vestir, não se sabe pentear... para +que hesitar, pois? Ah! louco, que eu sou na verdade! +mas se esta imagem me persegue por toda +a parte, se a não posso apagar da memoria, porque +me está aqui parada, aqui, aqui bem dentro, +n'este coração maldicto... Sou pobre! Embora! tornar-me-hei +rico; irei ao Brazil; amontoarei dinheiro +sobre dinheiro; far-me-hei negociante e vendedor +de café.</p> + +<p>Assim monologava o moço operario, de si para +comsigo, sem outro alento que não fosse uma paixão +profunda, ardente, vulcanica. Sobre a espaçosa +fronte cahira-lhe o cabello n'um singular desalinho. +Os braços, crusados ao longo da mesa, +bem patenteavam a afflicçao que n'aquelle momento +o devorava. No interior do peito referviam-lhe +as negras chammas do supplicio--aquellas chammas +infernaes, remordentes, que nos são, como +que o appêlo de Satan sobre a terra. +<span class="pagenum"><a name="pag128">[128]</a></span> + +<p>Adormeceu. Um languido torpôr se lhe apossou +dos membros cançados. N'esses raros momentos +de nervosa agitação, uma hora de somno vale +mais positivamente, muito mais, do que uma noite +bem dormida.</p> + +<p>Quando voltou a si era dia claro no horisonte. +Abriu a janella, e tomado d'uma ancia incuravel, +alongou os olhos pelas montanhas longinquas. Similhante +ao peregrino, que, com os olhos ávidos, +mede a extensão do deserto, assim elle tambem +mediu a extensão da sua dôr. Se era grande ou +pequena, só o espirito ao certo lh'o poderia affirmar.</p> + +<p>Entretanto a Viscondessa, nem sequer se lembrára +mais do bilhete recebido no theatro. No dia +seguinte, porém, seriam quatro horas da tarde, +quando Virginia lhe annunciou a visita de um operario.</p> + +<p>A Viscondessa, na sua proverbial delicadesa, +mandou-o entrar para a sala.</p> + +<p>Um minuto depois parava ao limiar da porta +<span class="pagenum"><a name="pag129">[129]</a></span> +um sympathico rapaz de bigode preto, macillento +e moreno. Trajava modestamente uma bluza azul +e uma calça côr de cinza.</p> + +<p>--Disseram-me que a senhora Viscondessa precisava +de um creado--principiou o desconhecido.</p> + +<p>--Como se chama?--interrompeu a senhora.</p> + +<p>--José Xavier.</p> + +<p>--José! pois bem: agrada-me o nome. Póde +ficar. Virginia que lhe diga o que tem a fazer.</p> + +<p>E, sem mais, virou-se a viscondessa para o +outro lado, retomando a primitiva posição.</p> + +<p>Ao jantar alguns incidentes notaveis se deram. +Julio servia á mesa. Com os olhos sempre fitos +na Viscondessa mal pestanejava, o pobre do rapaz. +Por algumas vezes lhe cahiram os pratos da mão; +por algumas vezes substituiu um prato lavado por +um outro sujo; por algumas vezes se riu Virginia +a bom rir. Para tal, porém, nem sequer a ama reparou +em meio das suas caprichosas divagações.</p> + +<p>Os dias iam correndo em silencio. Julio, ardendo +em amor, seguia, como um cão, os mais insignificantes +<span class="pagenum"><a name="pag130">[130]</a></span> +passos da Viscondessa. Quando ella +passava pelo corredor, occultava-se atraz das portas; +se podia, beijava-lhe a fimbria do vestido; +quando ella sahia, entrava-lhe no quarto de vestir +e ali se ficava horas esquecidas n'uma d'estas allucinações +que só conhecem os espiritos febris e +nervosos. N'um momento de cegueira, roubara-lhe o, +retracto do album; com elle adormecia todos os dias, +e com elle tambem entrava no serviço da casa.</p> + +<p>Entretanto o diabo arma-as, quando menos a +gente as espera.</p> + +<p>Julio penetrára no quarto de sua ama. Involuntariamente +se demorou mais do que o costume. +A Viscondessa entrou cêdo n'esse dia. O escudeiro +mal tivera tempo de se esconder d'entro de um +guarda-roupa.</p> + +<p>Ia Virginia, segundo o seu habito, a abrir +o armario; quando Julio, dando um pulo para +fóra, deixou espavoridas ama e creada.</p> + +<p>--Ai! credo! Jesus! gritou Virginia--Ladrões +em casa; ladrões, minha senhora. +<span class="pagenum"><a name="pag131">[131]</a></span> + +<p>--Que é? que é?--exclamou a Viscondessa.</p> + +<p>--Pois não viu? O tratante do José aqui fechado!</p> + +<p>--O José--retorquiu a senhora!</p> + +<p>--O José, sim, minha senhora, o José...</p> + +<p>--É verdade, senhora Viscondessa; fui eu, fui +eu que commetti este enorme attentado--obtemperou +Julio, trémulo de colera e de raiva. E para +prova, aqui me tem a seus pés, sollicitando-lhe +perdão.</p> + +<p>--Virginia, disse a Viscondessa, paga a este +miseravel, o manda-o embora.</p> + +<p>--Já, minha senhora.</p> + +<p>--Bem me queria a mim parecer--murmurava +a esperta da creada--que aqui andava sua +cousa encoberta. +<span class="pagenum"><a name="pag132">[132]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag133">[133]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXIX">XIX</a></h1> + +<h2>Falla o coração</h2> + + +<p>Será verdade que o coração tambem falla?</p> + +<p>Uma cousa é amar, outra cousa é desejar. O +amor deriva do coração, foco de toda a vida humana; +o desejo nasce dos sentidos. Ao primeiro +pertence o amor-sentimento, ao segundo o amor-sensação. +Até aos trinta annos o amor póde dizer-se +sentimento; o que, por via da regra, não succede +já d'ahi por deante, em que elle se transforma +n'um desejo material.</p> + +<p>O amor depende, sobretudo, da educação; e +<span class="pagenum"><a name="pag134">[134]</a></span> +assim póde ser maior ou menor, consoante o estado +moral do individuo em que elle se manifesta.</p> + +<p>O amor mais verdadeiro é aquelle que se não +exprime. A attracção de sympathias deve dar-se +naturalmente sem necessidade de expansões, que +lhes viciem a puresa inicial.</p> + +<p>O selvagem, por exemplo, ama até ao ciume. +Quando não póde saciar os seus desejos, apunhala-se +a si ou apunhala a amante. É que o selvagem, +na sua natureza desordenada, é um diamante por +lapidar.</p> + +<p>O ciume accusa falta de confiança na mulher +a que nos dedicamos, só por um inconcebivel +egoismo poderemos ser arrastados a um vicio tão +execrando, como abjecto.</p> + +<p>Julio amava a Viscondessa com um amor selvagem, +forte, violento. Tinha ciumes della; seguia-a +por toda a parte; e não raro succedia fechar-se +n'um quarto, e ahi, com o retracto deante +de si, chorár e chorar copiosamente.</p> + +<p>Ora a Viscondessa era de facto uma mulher +<span class="pagenum"><a name="pag135">[135]</a></span> +bem educada, mas soberanamente viciada pela lisonja +dos homens.</p> + +<p>Tres são de ordinario as causas do orgulho +na mulher: a formosura, a riquesa e o nascimento.</p> + +<p>A formosura, pela demasiada contemplação das +proprias qualidades, gera o <i>coquettismo</i>; a riquesa +a vaidade; o nascimento a soberba.</p> + +<p>A mulher formosa tem em si mesmo a causa +da sua destruição. Lisonjeada pelos homens, torna-se +inconstante. Depois, note-se--a inconstancia +é um excesso de ternura, uma superabundancia +de bondade.</p> + +<p>A simulação é propria ás mulheres. Ao amor +fingido de uma mulher corresponde de ordinario o +amor mentiroso de um homem. As mulheres fingem, +porque, desde creanças, as ensinaram a fingir. +É um vicio de educação.</p> + +<p>A riquesa é a antithese da virtude. Foi a pobresa +que gerou a caridade. Mulher rica é mulher, +quasi sempre, voluntariosa; muito senhora de +si, deseja ser obedecida como rainha. +<span class="pagenum"><a name="pag136">[136]</a></span> + +<p>O nascimento nem sempre é um prejuizo. Ha +mulheres aristocraticas em cujas acções se revela +a suprema distincção. É mais para temer-se o excesso +de republicanismo, do que o excesso de aristocracia.</p> + +<p>A Viscondessa era simultaneamente formosa, +rica e nobre. Se desattendia as expansões do operario, +invisiveis para ella, não era tanto por orgulho, +que realmente não tinha, como, e principalmente, +por uns ligeiros, mas inapagaveis, vestigios +da infancia.</p> + +<p>É justo que o coração do homem seja equilibrado +pela intelligencia da mulher. Mas Julio amava +sem ser amado, o que é decerto uma loucura, +baptisada com o nome de martyrio.</p> + +<p>Amor não correspondido, é amor que degenera +em odio.</p> + +<p>Homem allucinado não reconhece meio termo: +ou ama com paixão, ou odeia com rancor.</p> + +<p>Julio, qual outro viajante, deixara-se seduzir +por uma miragem doce e agradavel. Olhou. A vertigem +<span class="pagenum"><a name="pag137">[137]</a></span> +toldára-lhe a vista. Quando descerrou as +palpebras á luz do dia, um peso enorme lhe obscurecia +o cerebro. Quiz pensar e não pôde.--Mas +que terei eu, interrogava a si mesmo. E, em redor +d'elle, tudo annunciava um vago e mysterioso silencio.</p> + +<p>Estava apaixonado.</p> + +<p>O coração batia-lhe d'entro do peito com viva +e prolongada violencia. A cabeça era fria, e os +sentidos mal davam accordo de si.</p> + +<p>Ai! d'aquelles que só a voz do coração escutam, +porque para esses é a paixão um ignorado +martyrio e a vida um tristissimo cemiterio. +<span class="pagenum"><a name="pag138">[138]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag139">[139]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXX">XX</a></h1> + +<h2>Casa burguesa</h2> + + +<p>Era um gosto entrar a gente em casa do sr. +Francisco Alves. Tudo respirava ali um aceio, por +tal fórma invejavel, que o espirito em verdade se +sentia bem, muito bem, ante aquella limpesa, tão +rara em Portugal como prodiga em qualquer outro +paiz.</p> + +<p>No bairro de Alcantara era o sr. Francisco conhecido +como um modelo de philantropia e de +bons sentimentos. Os jornaes por vezes resavam +<span class="pagenum"><a name="pag140">[140]</a></span> +da sua pessoa, assim como da sua catholica esposa, +a sr.<sup>a</sup> Felisbella de Menezes.</p> + +<p>Emfim o sr. Alves era modesto sem ostentação, +simples sem atavios, e amavel sem rancor.</p> + +<p>O sr. Francisco Alves era o que em boa linguagem +se póde dizer--um portuguez de lei.</p> + +<p>De um rico tio provinciano herdára elle uns +dez contos de reis, em metal sonante, com os +quaes comprou uma mercearia bem fornecida e +já bem accreditada na capital.</p> + +<p>Atirou-se, pois, o sr. Francisco ao negocio, +e sempre com fortuna e sempre com bons auspicios.</p> + +<p>Um dia virou-se elle para a esposa, e disse:</p> + +<p>--Ó Felisbella, se tu quizesses, uma vez que +foi esteril o nosso matrimonio, traziamos um rapasito +para casa, e adoptavamol-o como nosso filho? +Que dizes?</p> + +<p>--Olha, menino--tu bem sabes que eu estou +por tudo o que tu quizeres. Vae tu mesmo a um +<span class="pagenum"><a name="pag141">[141]</a></span> +asylo se assim te apraz, e escolhe-me lá um pequenote; +mas que seja bonito, entendes?</p> + +<p>--Pois está dito, mulher! amanhã tratarei d'isso.</p> + +<p>E, com taes intenções, deitou-se á noite o sr. +Francisco Alves, n'um bello colxão de commoda +lã.</p> + +<p>Veio o rapaz para casa. A sr.<sup>a</sup> Felisbella queria-o +para doutor, o sr. Francisco, para merceeiro.</p> + +<p>O pequerrucho era engraçado, muito engraçado, +cheio de bons ditos e de palavras amaveis.</p> + +<p>Á sr.<sup>a</sup> Felisbella tratava elle por <i>mamã</i>, e ao +sr. Francisco por <i>papá</i>.</p> + +<p>--Sempre tem uma graça, este pequeno!--dizia +o Alves, ás vezes para a mulher.</p> + +<p>--E os ditos então? se tu lh'os ouvisses... +retorquia a bondosa da sr.<sup>a</sup> Felisbella.</p> + +<p>--Pois, menina, parece-me que dá em doutor +o diabo do rapazelho.</p> + +<p>--Ora! se eu bem t'o dizia.</p> + +<p>--E tinhas razão, tinhas, lá isso tinhas. E ha +de ser um doutor, assim elle queira. +<span class="pagenum"><a name="pag142">[142]</a></span> + +<p>O rapaz cresceu. Foi para a escola, e deu boa +conta de si. Foi para Coimbra, e tomou grau em +direito. Depois metteu-se advogado, e é hoje um +dos mais distinctos homens de lettras do nosso +paiz. Sempre grato á sr.<sup>a</sup> Felisbella, visita-a todos +os dias. Ao sr. Francisco Alves já advogou algumas +questões, e, ao parecer, com gloria para +ambos.</p> + +<p>Não parava, porém, aqui a abnegação do sr. +Francisco.</p> + +<p>Acontecia frequentemente elle vir para casa +mais tarde do que desejava. Se por acaso encontrava +algum pobre estendido na rua, ao relento e +ao frio, levantava-o, e trazia-o comsigo. Chegado +ao lar mandava-lhe arranjar uma boa ceia, vestia-o +no dia seguinte, e deixava-o seguir o seu caminho.</p> + +<p>E a isto, leitor generoso, chama o mundo ser +boçal. +<span class="pagenum"><a name="pag143">[143]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXI">XXI</a></h1> + +<h2>Considerações</h2> + + +<p>A nossa sociedade é essencialmente burguesa. +Actualmente todos gritam contra o burguezismo, +e entretanto ninguem está isento d'esse peccado, +se peccado se lhe póde chamar. E cousa singular! +ao passo que a aristocracia vai descendo até ás regiões +do plebeismo, a burguezia, por seu turno, +eleva-se, e tenta em breve ser a Excellencia do paiz.</p> + +<p>O moderno fidalgo portuguez não existe já. +Antigamente um aristocrata, <i>pur sang</i>, tornava-se +respeitavel por uma educação sisuda e por uma +<span class="pagenum"><a name="pag144">[144]</a></span> +illustração opulenta. Hoje dá-se perfeitamente o +contrario. O bom fidalgo, <i>faia</i> de recente data, +abandalha-se na convivencia dos cocheiros, tocando +o fado pelas ruas, durante a noite, picando touros, +usando jaqueta e facha de seda e vivendo entregue +á ociosidade, que é o vicio, e á embriaguez, +que é a doença e muitas vezes a morte.</p> + +<p>Outr'ora havia um certo pundonor em conservar +intactas as tradições de familia, demonstrando-se +assim que a honradez do nome é um dever +sacrosanto para verdadeiros fidalgos.</p> + +<p>Agora não! Uma pateada, dada num theatro +a uma actriz, um conflicto levantado em qualquer +praça publica, uma desobediencia á authoridade, +um adulterio commettido com a mulher do seu +amigo intimo: tudo isto são peripecias galantes +para a nossa mocidade, que, á falta d'outro, tem +o estimulo do egoismo e da arruaça.</p> + +<p>Ora eu peço licença a s. ex.<sup>as</sup>, os srs. viscondes, +para lhes notar que não é esse o caminho da +nobresa. Deus me defenda de offender melindres, +<span class="pagenum"><a name="pag145">[145]</a></span> +que muito longe estão d'esta regra. Excepções +existem, e aliás excepções respeitaveis.</p> + +<p>Afigura-se-nos, porém, que a instrucção é presentemente +mais peculiar á burguesia do que á +aristocracia. D'entre os burgueses raro é aquelle +que não tem a sua livraria sufficientemente enriquecida +de bons auctores, e rarissimo ainda mais +aquelle que não lê tres ou quatro jornaes todos os +dias.</p> + +<p>Os filhos da burguesia seguem as escolas publicas, +occupam os primeiros logares do estado, e +possuem actividade e intelligencia em larga escala.</p> + +<p>Onde existe maior gráu de moralidade: na +aristocracia ou na burguesia? E o trabalho, d'onde +sahe elle? E as revoluções, a quem as devemos +nós, senão á burguesia?</p> + +<p>Não ha classe alguma da sociedade que, passado +um certo numero de annos, se não corrompa.</p> + +<p>As classes são na sociedade como as instituições: +<span class="pagenum"><a name="pag146">[146]</a></span> +gastam-se e aniquilam-se, decorrida uma certa +phase historica.</p> + +<p>A burguesia vai cahindo nos mesmos defeitos +da antiga nobresa--sabemol-o; sem embargo a +burguesia tem ainda vantagens sobre a aristocracia.</p> + +<p>Entre a burguesia e a plebe existe, porém, uma +outra classe, que ao mesmo tempo participa da segunda +pelo seu nascimento e da primeira pela sua +actividade: esta classe não tem nome; vive do +producto das suas lojas, das suas propriedades e +da sua economia. A ella pertencia o sr. Francisco +Alves, expressão de bondade christã e de virtude +evangelica.</p> + +<p>Aos domingos encontram-se estes <i>pequenos negociantes</i>--que +outro nome não sei eu que elles +tenham--em longo e aturado passeio pelos campos +e pelas estradas. Ahi, reunidos em familia, +comem o seu pedaço de queijo com pão, e bebem +o seu meio quartilho de vinho. E isto apenas aos +<span class="pagenum"><a name="pag147">[147]</a></span> +domingos, que, aos dias de semana, a alvorada +vem quasi sempre encontral-os no trabalho.</p> + +<p>O sr. Alves enfileirara-se n'este grupo ignorado, +e delle herdára os habitos e as tradicções.</p> + +<p>E o certo é que se não foi um anjo, na verdadeira +acepção da palavra, foi pelo menos um bom +homem, honrado e caritativo. +<span class="pagenum"><a name="pag148">[148]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag149">[149]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXII">XXII</a></h1> + +<h2>Um hospede</h2> + + +<p>N'uma noite tempestuosa em que a caridade, +silenciosa sempre e occulta quasi sempre se encarrega +de velar pela miseria sobre a terra,--voltava +o sr. Francisco Alves a Alcantara, onde anciosamente +o esperava a carissima metade da sua alma.</p> + +<p>Na occasião, porém, em que descia a calçada +da Pampulha, notou elle vagamente uma sombra +que a um recanto permanecia n'uma mudez quasi +sepulchral. Aproximando-se, reconheceu um homem, +mais cadaver do que outra cousa. A tristesa tomou-o, +<span class="pagenum"><a name="pag150">[150]</a></span> +então, dos pés á cabeça. Cheio de terror, livido, +nervoso, lembrou-se o senhor Alves de chamar a +policia. Não era essa, todavia, a tendencia do seu +coração generoso e leal. Emfim esperou. Casualmente +passava um trem de praça. Chamou o cocheiro, +e levantando o homem que elle supposéra +ebrio, introduziu-o na carruagem.</p> + +<p>A sr.<sup>a</sup> Felisbella, como de antiga e patriarchal +usança era n'aquella casa, resava a sua corôa, correndo +o rosario entre os dois dedos da mão direita--o +index e o polgar. Auxiliava-a em tão piedoso, +quanto catholico mister, uma creada velha, beata +pelos modos, quarentona já, mas amiga da sua ama.</p> + +<p>A sala, em que ellas estavam, chamada casa +de engommar, representava um quadrado perfeito, +com vinte pés de comprido sobre vinte de largo, +rodeada por doze cadeiras de coiro, antigas, segundo +todas as apparencias, herdadas de parentella abonada.</p> + +<p>Ao centro, uma mesa de páu preto, caprichosamente +torneada, recebia invariavelmente, todas +<span class="pagenum"><a name="pag151">[151]</a></span> +as noites, um velho candieiro de metal amarello, +comprado n'um leilão de ferros velhos.</p> + +<p>O sr. Francisco Alves, entrando em casa, nem +sequer se déra ao trabalho de incommodar sua mulher. +Arrastou o moribundo para um quarto, cuja +cama principalmente sobresahia pela alvura da roupa, +e foi elle mesmo chamar um medico.</p> + +<p>N'este comenos concluía a sr.<sup>a</sup> Felisbella a sua +nocturna devoção. Ignorando tudo o que em volta +d'ella se passava, pegou no candieiro, pela aza superior; +e, arrastando-se com difficuldade--porque +a sr.<sup>a</sup> Felisbella era gorda e rheumatica--dirigiu-se +para o quarto, parando no corredor umas tres ou +quatro vezes.</p> + +<p>A ausencia do marido incommodava-a, porém, +sobremaneira. Terá elle sido preso?--monologava +ella de si para comsigo.--Mas o meu Francisco nunca +foi atreito a barulhos. Nada. E quem me diz a +mim que algum namorico...</p> + +<p>E n'estas duvidas adormeceu a esposa do sr. Alves, +merceeiro. +<span class="pagenum"><a name="pag152">[152]</a></span> + +<p>A noite, como todos os contrastes d'este mundo, +corrêra alegre para uns e triste para outros. A sr.<sup>a</sup> +Felisbella dormira umas boas oito horas, ao cabo +das quaes acordou, pensando no sr. Francisco.</p> + +<p>--Ó Francisco, Francisco!--gritava a pobre +da mulher com toda a força dos seus pulmões.</p> + +<p>E o sr. Francisco Alves assomou ao limiar da +porta.</p> + +<p>--Queres-me alguma cousa, Felisbella?--respondeu +elle.</p> + +<p>A mulhersinha enfiou, apenas viu o marido. Não +sabendo com que desculpar-se, calou-se. Porque a +sr.<sup>a</sup> Felisbella--diga-se já de passagem--respeitava +devéras o sr. Francisco, a quem na sua mocidade +entregára o coração e a vontade.</p> + +<p>Como quer que fosse, porém, o sr. Francisco, prudente +como os que o sabem ser, entrou por si +mesmo em explicações. Contou tudo o que durante +a noite lhe havia occorrido; recommendou finalmente +o rapaz á vigilancia de sua mulher, e sahiu.</p> + +<p>Quando á tarde voltou a casa, communicaram-lhe +<span class="pagenum"><a name="pag153">[153]</a></span> +que o doente já fallava. Alegrou-se. N'esse dia +bebeu mais um cópo de vinho ao jantar, e deu um +beijo na face direita da sr.<sup>a</sup> Felisbella.</p> + +<p>Decorrêra um mez.</p> + +<p>Em casa do sr. Francisco Alves reina uma alegria +desusada. É domingo. Preparam-se todos +para ir jantar ao campo. A sr.<sup>a</sup> Felisbella dobra +o seu <i>chale de toukin</i> branco e calça a sua luva +de retroz preto. O sr. Alves leva um chapéu de +palha do Chili. E o nosso doente--agora já restabelecido +e companheiro de passeio--traja modestamente +um fato preto.</p> + +<p>A comitiva, assim composta, seguia para Queluz. +Impossivel nos fôra descrever a amizade que +n'esse dia reuniu aquelles tres entes queridos.</p> + +<p>O sr. Francisco Alves brindou o seu hospede, +appellidando-o com o doce nome de filho. A sr.<sup>a</sup> +Felisbella sorriu devotamente; e a creada, a velha +creada, exclamou sentenciosamente:</p> + +<p>«Deus sabe o que faz!» +<span class="pagenum"><a name="pag154">[154]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag155">[155]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXIII">XXIII</a></h1> + +<h2>Transição</h2> + + +<p>Na escolha do espectaculo manifesta-se, em geral, +o bom gosto do espectador. Não quero eu com +isto dizer que, muitas vezes, não seja a curiosidade +o motor das nossas acções; mas, emfim, o que +cumpre saber-se é que n'um theatro, n'um circo, +n'uma exposição está, por via de regra, representada +a civilisação de um povo.</p> + +<p>O theatro é hoje o <i>rendez vous</i> da moda. Nos +espectaculos, e á vista de dramas perfeitamente +phantasticos e inuteis, aprendem as nossas elegantes +<span class="pagenum"><a name="pag156">[156]</a></span> +a soletrar os primeiros rudimentos do amor, +do <i>coquettismo</i> e as supremas illusões.</p> + +<p>Durante a representação, que devia ser eschola +e estudo, occupam-se os rapases em averiguar procedencias +amorosas, em discutir escandalos, em +calumniar mulheres, em fomentar pequenas intrigas +de bastidor, emfim, em passar a vida, rindo á custa +dos similhantes.</p> + +<p>Ora a missão do theatro não póde, por fórma +alguma, estar reduzida a um mero passa-tempo, sem +realidade e sem vantagem, que se possa dizer immediata. +O theatro não é simplesmente um divertimento +para os olhos, mas ainda mais uma lição +para o espirito. Não se tracta apenas de seguir a +moda, o figurino, com receio de que os outros +nos taxem de retrogados, de inconvenientes, de +provincianos. Por modo algum. Aqui o caso muda +um tanto de figura. É preciso que da nossa parte, +haja o bom gosto na escolha e o bom-senso da critica. +Aliás não passaremos nunca de uns miseraveis authomatos, +sem consciencia, sem dignidade e sem brio. +<span class="pagenum"><a name="pag157">[157]</a></span> + +<p>Um dos primeiros empenhos do nosso seculo +é agradar. E se é certo que o habito não faz o +monge, tambem não é menos certo que o monge +se conhece pelo habito.</p> + +<p>É á França, aquella França egualmente grande +pelo pensamento e pela frivolidade, que nós devemos +a introducção dos figurinos na sociedade europêa. +E note-se que o figurino em tudo preside +actualmente, por infelicidade nossa--na mesa, +na litteratura, na industria, no commercio, nas +artes, na sciencia, absolutamente em tudo. Nas altas +classes sociaes pelo trajo de um homem avalia-se +o trajo de todos os outros homens. No campo da +poesia pelo realismo de um poeta avalia-se o realismo +de todos os outros poetas. E assim seguidamente; +porque a uniformidade, embora o não queiram, +é uma lei dos nossos costumes e das nossas +cousas.</p> + +<p>A elegancia é uma prova de bom gosto, indubitavelmente. +Mas a elegancia, como tudo o que +nos pertence, deve ser individual, variada, como o +<span class="pagenum"><a name="pag158">[158]</a></span> +sentimento humano, e distincta, como o gosto de +cada um, isto é deve ser original.</p> + +<p>Durante o inverno, por exemplo, vai-se ao +theatro lyrico, não tanto porque a musica nos delicie +o ouvido e nos eleve o espirito, obrigando-nos +á concentração e á melancholia, mas, sim, e principalmente, +porque é do bom-tom, é <i>chic</i> ter assignatura +em S. Carlos.</p> + +<p>E apregoam-se já os beneficios da musica classica, +como se a nossa educação e o nosso temperamento +nos permittissem ser uns perfeitos entendedores +das harmonias eminentemente profundas de Mozart, +de Beethowen, de Sthephenheller, de Schubert e +d'outros mais.</p> + +<p>D'aqui infere-se naturalmente que nós, um +povo peninsular em quem deviam brotar as magneticas +expansões e os ardentes enthusiasmos, apenas +somos uns meros escravos da moda, indolentes +por habito, sem o ideal que seduz, e privados do +raciocinio que illustra.</p> + +<p>Os risos, francamente abertos e sinceramente +<span class="pagenum"><a name="pag159">[159]</a></span> +verdadeiros, sóem ainda encontrar-se nas classes +medias, semi-burguesas, para assim o dizer. Só o +trabalho póde dar alegria. E porisso os que não +trabalham conservam o sorriso quasi permanentemente +ao canto da bocca, um sorriso amarello, +felino, sorriso desgostoso e desconfiado.</p> + +<p>O sr. Francisco Alves sabia rir, porque tambem +sabia trabalhar. Não frequentava os theatros, +porque, á similhança dos da sua egualha, desconhecia +a moda totalmente. Vivia para a familia e +com ella se divertia. Tambem tinha amigos. Aos +domingos chamava-os, reunia-os a si, e ia para o +campo, ficando-se por lá até á noite.</p> + +<p>Comendo, bebendo e rindo á vontade, o sr. Alves +estava no seu paraiso, longe da serpente que +tentou Eva a comer do fructo prohibido, perfeitamente +a bem com Deus e comsigo mesmo.</p> + +<p>Bem hajam os que, como elle, comprehendem +por este modo a felicidade sobre a terra! +<span class="pagenum"><a name="pag160">[160]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag161">[161]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXIV">XXIV</a></h1> + +<h2>Confidencia</h2> + + +<p>Um dia a sr.<sup>a</sup> Felisbella apparecêra de luto na +missa da Ajuda, dando o braço direito a um sympathico +moço, alto e moreno.</p> + +<p>Francisco Alves já não era d'este mundo. A +mercearia passára a outro dono.</p> + +<p>«E uma vez que tanto lhe devo, sr.<sup>a</sup> Felisbella--dizia +o desconhecido uma noite--forçoso se +me torna narrar-lhe toda a minha vida. Fui pobre, +sem recursos. Minha mãe morreu-me nos +braços. Coitada! Por amor de mim soffreu e por +<span class="pagenum"><a name="pag162">[162]</a></span> +amor de mim morreu tambem. Eu quiz trabalhar, +e não encontrei trabalho. Um dia prenderam-me +sem culpa formada. Evadi-me da cadeia. Vagueei incerto +até que um honrado camponez me acolheu em +sua casa. Amei-lhe a filha, com quem prometti casar. +Era uma boa rapariga; chamava-se Cecilia. Envergonhei-me +de estar n'aquella casa sem nada +fazer. Ella comprehendeu-me. Juntou as suas economias, +e atirou-mas ao regaço. Que prodigiosa +abnegação, sr.<sup>a</sup> Felisbella! E eu que até então me +chamava Julio vim para a cidade com este nome +supposto. Alguns mezes se passaram. Uma noite--que +maldita noite aquella, minha senhora!--fui +ao theatro de D. Maria. Olhei para um camarote, +e fiquei fascinado com o rosto de uma Viscondessa. +Depois vieram as allucinações. Tentei +esquecer-me d'ella, mas embalde! Fiz-me seu escudeiro. +Apanhado n'um armario, fui despedido +por ladrão. Depois, oh! depois, cahi doente. O +sr. Alves encontrou-me...</p> + +<p>(A sr.<sup>a</sup> Felisbella limpou uma lagrima). +<span class="pagenum"><a name="pag163">[163]</a></span> + +<p>... e encontrar-me elle, o mesmo foi que estar +eu com a Providencia. Passou-me a loja--que +me deu fortuna, e sobretudo passou-me o seu nobilissimo +espirito, que Deus tem em sua santa +paz. A sr.<sup>a</sup> Felisbella sabe como eu o amei. Se +nunca lhe pedi que me tratasse por Julio, e não +por José Xavier, foi--Deus me perdoe,--por +suspeitar que elle se irritasse contra mim.</p> + +<p>E Julio, ajoelhando, beijou as mãos convulsas +da sr.<sup>a</sup> Felisbella de Menezes. +<span class="pagenum"><a name="pag164">[164]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag165">[165]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXV">XXV</a></h1> + +<h2>Mais confidencias</h2> + +<p>Para muito se amar, quer-se silencio e solidão--dizia Balzac.</p> + +<p>O amor é por natureza melancholico. Quem +ama, soffre. A melancholia não é uma doença physica, +é apenas uma enfermidade moral.</p> + +<p>Uma cousa é a tristesa, outra cousa é a melancholia: +a primeira parte da intelligencia e é, por +via de regra, filha de intimas preoccupações; a segunda +origina-se no coração, e nasce de um sentimento, +que só por meio da pallidez do rosto +<span class="pagenum"><a name="pag166">[166]</a></span> +exteriormente se manifesta. A velhice é quasi sempre +melancholica.</p> + +<p>Entre a melancholia e a saudade existe uma +profunda analogia: ambas se concentram e ambas +se alimentam no mesmo ideal, no amor.</p> + +<p>A sr.<sup>a</sup> Felisbella de Menezes, nos seus dias de +vagar, sentava-se á janella, e apoiando o queixo +sobre as mãos, olhava vagamente as montanhas, os +rios e o céu.</p> + +<p>Atravez a nuvem que passa e a estrella que +scintilla e a lua que enbranquece, existe sempre +uma doce esperança infinita, ethérea, incommensuravel, +que nos é como que o acordar de um sonho +de primavera.</p> + +<p>Esperar é desesperar--diz o rifão. E entretanto +todos esperam; porque a esperança é o futuro, o +glorioso amanhã da humanidade que soffre.</p> + +<p>Para a mulher não existe o passado. Que importa +o amor, que hontem se finou com a ingratidão +de um amante?</p> + +<p>Deixae-nos correr um véu sobre as alegrias +<span class="pagenum"><a name="pag167">[167]</a></span> +de hontem. Deixae-nos esquecer, fingindo ignorancia +e despreso.</p> + +<p>O presente é um logogripho, que ninguem decifra. +Se agora somos felizes, quem nos diz, todavia, +que essa felicidade se ha de prolongar, tornando-se +eterna e duradoura?</p> + +<p>Ao passo que a curiosidade nos estimula o espirito +em differentes direcções, a esperança, pelo +contrario, apenas nos incita na direcção de uma +linha recta, cuja extensão é o infinito, vagamente +illuminado pelo sol do futuro.</p> + +<p>Oh! o futuro é a dourada cadeia, que põe directamente +a terra em communicação com o céu; o +futuro, o que ha de vir, é sempre um orvalho, +que dulcifica os amargores da desventura.</p> + +<p>Perguntae ao desgraçado que força occulta e +mysteriosa o prende ainda a este mundo de miserias.</p> + +<p>Perguntae ao sabio porque estuda, e ao operario +porque trabalha, e á mãe porque ama, e +ao filho porque obedece. +<span class="pagenum"><a name="pag168">[168]</a></span> + +<p>A esperança, para espiritos bem-formados, não +é simplesmente uma suave illusão, mas ainda +mais uma verdadeira necessidade da nossa existencia.</p> + +<p>Esperar é trabalhar com ardôr, viver com fé, +existir com crença e amizade.</p> + +<p>De todas as virtudes sociaes a primeira inquestionavelmente +é a esperança.</p> + +<p>O homem, de ordinario, procura a felicidade; a +mulher espera-a. Por isso a condição da mulher, +embora mais triste e desconsolada que a do homem, +não deixa ainda assim de ser suavemente +acariciada pelo balsamo do céu.</p> + +<p>Ser feliz é saber esperar,</p> + +<p>Julio adquirira em pouco tempo esta sciencia +da vida, graças aos bons conselhos da sr.<sup>a</sup> Felisbella +de Menezes.</p> + +<p>Crêr, esperar e amar--taes são as tres joias +preciosas, sem as quaes a educação se tornaria esteril +e inutil.</p> + +<p>Sem crença não póde existir a sublime dedicação +<span class="pagenum"><a name="pag169">[169]</a></span> +de esposa nem a adoravel abnegação da +mãe.</p> + +<p>Sem amor, impossivel seria a vida da mulher, +cuja missão é christãmente consoladora e amiga.</p> + +<p>Mulheres, que viveis na desgraça, se quereis +ser felizes--acreditae no santo amor de um filho, +esperae de Deus a crença na maternidade, e vivei +na intima e doce consolação de vossos maridos.</p> + +<p>A familia é amparo da misaria e arrimo dos que +soffrem.</p> + +<p>Felizes os que sabem cumprir sobre a terra a +primeira e a mais indiscutivel lei da natureza! +<span class="pagenum"><a name="pag170">[170]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag171">[171]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXVI">XXVI</a></h1> + +<h2>A Viscondessa</h2> + + +<p>São decorridos quatro annos.</p> + +<p>A Viscondessa, docemente reclinada numa <i>chaise +longue</i>, lê os annuncios do <i>Diario de Noticias</i>, +sorvendo, de quando em quando, uns gólos de +café, com a evangelica paciencia de uma mulher +aborrecida.</p> + +<p>Ao longo da parede do quarto destacam alguns +quadros, representando, entre outras, as magestosas +imagens de Ninon de Lenclos, de Marion Delorme, +<span class="pagenum"><a name="pag172">[172]</a></span> +de Madame Pompadour, da Dama das Camelias, +etc.</p> + +<p>São nove horas da noite. Alfredo chega; põe o +chapéu em cima d'uma <i>ètagere</i>, onde, por acaso, +se encontram algumas musicas em desalinho, e, +accendendo resignadamente um charuto havano, +vem sentar-se n'uma cadeira, defronte da Viscondessa.</p> + +<p>Virginia, entrando pouco depois, trouxe uma +bandeja de prata, coberta de pequenas garrafas de +licôr.</p> + +<p>Alfredo sorri-se, o, com os dedos da mão esquerda, +dá um geito gracioso ás guias do bigode.</p> + +<p>A Viscondessa, erguendo-se, dirige-se, a passo +lento e medido, na direção da porta de entrada.</p> + +<p>--Então já Mabilia? (Era este o nome da Viscondessa.) +Porque eu entrei, assim te retiras immediatamente. +Comprehendo tudo. Declaraste-me +um amor profundo, ethéreo, como só o sabe ter +uma virgem, e hoje nem sequer alimentas por +<span class="pagenum"><a name="pag173">[173]</a></span> +mim uma indifferença vulgar, uma d'estas indifferenças +que um estranho facilmente dispensaria a +outro estranho. Pobre de ti, desgraçada, que jámais +serás feliz n'esta vida... Quizeste ser rainha, não +é verdade? ao meu amor unico preferiste uma <i>coterie</i> +numerosa, aduladora, que te lisongiasse o paladar +já extincto? Pois bem: tu te arrependerás +um dia. Até lá, porém, lembra-te que será eterna +e implacavel a minha vingança, eterna como a +Providencia e implacavel como a tyrannia.</p> + +<p>--E és tu quem me falla em vingança; tu, +Alfredo, a quem eu, ainda pura, loucamente entreguei +o meu coração e o que é mais ainda a minha +honra... tu! o miseravel, que jurando amar-me +te rias de mim nos botequins e nos restaurantes; +tu, emfim, o cynico seductor da minha ingenuidade +e da minha singelesa... oh! não... por +Deus, não...</p> + +<p>Alfredo, levantando-se, aproximou-se da Viscondessa, +e, tomando-lhe a mão direita, que elle +<span class="pagenum"><a name="pag174">[174]</a></span> +apaixonadamente comprimiu contra o peito, prorompeu +nos seguintes termos:</p> + +<p>--Mas ouve, Mabilia--tu bem vês que eu te +amo; pois não reparas como enlouqueço, se me +negas a tua affeição? oh! não! tu não has de ser +tão cruel, que me despreses assim de um momento +para o outro, não é verdade! Ora escuta: não vês +como bate este nobre coração? e tu has de deixal-o +assim... não... tu és boa, eu bem sei, e serias +incapaz de commetter um crime...</p> + +<p>--Alfredo!... Alfredo!...</p> + +<p>--Falla, Mabilia... dize, dize que ainda me +amas só uma vez... e eu serei teu, teu para sempre...</p> + +<p>--Que te amo!... oh! se te amo!...</p> + +<p>E a Viscondessa, pallida, cahiu desmaiada nos +braços do seu amante.</p> + +<p>No horisonte uma nuvem, passando, toldara +momentaneamente o reflexo do luar. Um doce silencio +envolvia o aposento da Viscondessa, cuja +<span class="pagenum"><a name="pag175">[175]</a></span> +face livida se reflectira de um modo estranho á +superficie de um longo espelho de Venesa. Junto +d'ella, ajoelhado quasi, estava Alfredo, singularmente +excitado e nervoso.</p> + +<p>Um ignorado personagem, de longa barba até +ao peito, baixo e gordo, assomou ao limiar da +porta.</p> + +<p>--É a segunda vez, senhor Alfredo, que tenho +a honra de o convidar a sahir d'esta casa, disse +o intruso.</p> + +<p>--Com que direito?--retorquiu Alfredo, virando-se.</p> + +<p>--Com o direito que me dá a minha honradez +sobre a sua miseravel corrupção.</p> + +<p>--Senhor!..</p> + +<p>--Duas palavras ainda; por Deus! não vale zangar: +esta senhora que ahi está prostrada e quasi +morta, foi uma victima do seu cynismo, entende? +É mister que tudo isso seja pago e quanto antes. +Aqui tem.</p> + +<p>E passando-lhe uma pistola para a mão, o desconhecido, +<span class="pagenum"><a name="pag176">[176]</a></span> +medindo dez passos na sala, tomou a +defensiva.</p> + +<p>--Espero que a sua covardia se não estenderá +ao ponto--continuou elle--de fazer com que, +em vez de um duello, se dê um assassinato n'esta +casa.</p> + +<p>A Viscondessa, languida e sensual, descerrou +as palpebras com infinda morbidez.</p> + +<p>No relogio da sala soavam onze horas da noite.</p> + +<p>No céu a lua era sem mancha.</p> + +<p>Um leve ruido apenas se deixava ouvir, produzido +pelos passos na calçada.</p> + +<p>Subito uma detonação feriu os ares.</p> + +<p>Alfredo, allucinado, desfechára a pistola sobre +o desconhecido.</p> + +<p>Uma nuvem de fumo envolveu, conjunctamente, +a Viscondessa, a este tempo já restabelecida, e o +seu mysterioso protector, inanimado, ferido e quasi +cadaver.</p> + +<p>Virginia correu veloz.</p> + +<p>A Viscondessa, soluçando tristemente, chamava +<span class="pagenum"><a name="pag177">[177]</a></span> +ainda Alfredo, sem de modo algum haver notado +a sua rapida fuga.</p> + +<p>--Como eu sou infeliz, meu Deus!--exclamou +ella.</p> + +<p>E ao longe só os echos lhe repetiram os queixumes +magoados. +<span class="pagenum"><a name="pag178">[178]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag179">[179]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXVII">XXVII</a></h1> + +<h2>Digressão</h2> + + +<p>A mulher nasceu para realisar a sua felicidade +por meio do matrimonio.</p> + +<p>Sem familia, pedra angular do grande edificio, +chamado humanidade, o progresso seria uma vã +mentira e a civilisação um triste retrocesso.</p> + +<p>O matrimonio é um complemento da vida humana. +Se é verdade que para o desenvolvimento +do corpo carecemos de alimento e de hygiène, +tambem não é menos verdade que para o desenvolvimento +<span class="pagenum"><a name="pag180">[180]</a></span> +do espirito carecemos de amisade e de +consolações.</p> + +<p>Não ter familia o mesmo é que sentir o vacuo +do espirito, isto é, o isolamento da propria existencia +e o horror da propria vida.</p> + +<p>A prostituição da mulher não é simplesmente +um vicio, por todos os titulos condemnavel: é +mais ainda--é a ausencia da familia.</p> + +<p>Quantas mulheres se não terão perdido á mingoa +do carinho maternal!</p> + +<p>Entrae nos bordeis. Percorrei serenamente esses +antros sombrios, onde a sordidez se enlaça com o +crime. Analysae o riso bestial da mulher perdida. +Não! Ella não se ri, porque ella, filha bastarda de +uma sociedade, que a repudia--ella, apenas, sabe +contrahir-se, agitar-se, fingir, e á maneira de uma +féra, aproximar-se dos que lhe trazem comida.</p> + +<p>A mulher, que uma noite se vê sem pão, sem +officio, sem familia, prostitue-se ao amanhecer.</p> + +<p>E o mundo--que ingrato mundo!--cospe-lhe +<span class="pagenum"><a name="pag181">[181]</a></span> +na face o negro anathema do desdem o do desamor.</p> + +<p>Mulheres, que habitaes a lobrega mansão da desgraça, +sabei que se a opinião vos condemna--o +coração absolve-vos!</p> + +<p>E depois, de que vos vale a opinião? Que vos +trouxe ella na hora da desdita? Sabe condemnar-vos? +Pois bem, em vez da maldição pedi-lhe virtude +e amor.</p> + +<p>Oh! a opinião! sua excellencia a deusa opinião, +essa é que é de facto a grande prostituta.</p> + +<p>A necessidade conduz a mulher pelo caminho +da perdição. É um fado de todos os dias. Tambem +é a necessidade quem conduz o homem pelos atalhos +do crime. Sabiamol-o. Ganhar para comer é +uma lei da naturesa. Se os meios são máos os +fins é que são rigorosamente os mesmos. Deixemos +as lamentações para os Jeremias do seculo.</p> + +<p>A opinião que se aproxime. Mas quem é ella?--o +dinheiro que suborna? a politica que corrompe? +os parasitas que avassalam? o impudor que exulta? +<span class="pagenum"><a name="pag182">[182]</a></span> +o vicio que contamina? o luxo que esterilisa? a +infamia que cresce?</p> + +<p>E sabes tu, minha <i>cocotte</i>, porque te chamam +mulher perdida, sem honra e sem pundonor? Pois +bem, fica aprendendo--é porque tu és simplesmente +uma filha da desgraça.</p> + +<p>Queres, porém, ser honesta, virtuosa e candida?</p> + +<p>Procura uma familia; trabalha na doce companhia +de teu marido; mostra ao mundo os teus filhos--os +filhos das tuas entranhas e do teu amor: +que te importa depois a voz da opinião--a opinião +está como a realesa, está gasta e pôdre.</p> + +<p>A Viscondessa não estava, de certo, n'este caso. +Uma boa mãe, um bom marido, um filho terno, +tel-a-iam salvado do abysmo que a esperava.</p> + +<p>E quantas vezes não é o instincto da maternidade +a causa do vicio e do crime? +<span class="pagenum"><a name="pag183">[183]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXVIII">XXVIII</a></h1> + +<h2>Ainda a Viscondessa</h2> + + +<p>No meio de todas as suas loucuras era a Viscondessa +uma nobre e esplendida mulher.</p> + +<p>Uma trança preta, côr de azeviche, lhe cobria +o cóllo de cysne. A bôcca esculpturalmente pequena, +quasi se desfazia n'um beijo, ethéreo, imperceptivel, +como o ar. Uns olhos verdes e profundos, +como os abysmos do mar, a tornavam simultaneamente +imperiosa e meiga. A pequena mão +aristocratica, eclipsava-se-lhe por vezes sob as rendas +e os <i>puffs</i> do vestido. E o pé, ai, o pé era um +<span class="pagenum"><a name="pag184">[184]</a></span> +primor, um verdadeiro primor. Calçava de ordinario +um sapato de setim azul, perfeitamente ajustado +a uma meia de seda, cuja transparencia nos +faria logo perguntar com Alphonse Karr, onde ella +collocava a liga--se abaixo se acima do joelho. O +seio arfava-lhe debaixo do espartilho n'uma suave +e doce ondulação, symptoma evidente de uns vedados +e amorosos paraisos.</p> + +<p>Ás vezes a Viscondessa sahia a cavallo, trajando +de amazona. Um véu azul lhe encobria as feições +gentis--similhantemente ao sol, que de subito se +vê surprehendido por uma nuvem. Os admiradores +seguiam-lhe o trote do cavallo, até que ella se +perdia na sombra das estradas.</p> + +<p>Na praia, a Viscondessa, com os cabellos desgrenhados +aos ventos, poder-se-hia dizer uma actriz +sublime, que, no ardor da tragedia, embriaga os +espectadores. E era de vêl-a depois, sahir do banho, +com as fórmas do corpo, exteriormente desenhadas +n'um vestido de baetilha... um encanto...</p> + +<p>Depois dos successos precedentemente narrados, +<span class="pagenum"><a name="pag185">[185]</a></span> +a Viscondessa entrára-se n'uma mysteriosa e +doce melancholia. Ninguem, absolutamente ninguem, +lhe poderá adivinhar os intimos pensamentos. +Em que pensaria ella? que fatal preoccupação +a distrahia constantemente?</p> + +<p>Imagine-se o leitor no mesmo quarto, onde se +deu o triste incidente de alguns dias. O desconhecido +duellista, mais que restabelecido, devora um +charuto com solemne lentidão.</p> + +<p>--E agora que estou melhor--dizia elle--deixe-me +vossa excellencia declarar-lhe tudo o que +penso, tudo o que sinto e tudo o que quero. Eu--senhora +Viscondessa--era um negociante de poucos +recursos.--Um dia tive a fatalidade de a vêr. +Segui-a, frustradamente. V. ex.<sup>a</sup>, em meio dos +seus esplendores, nem sequer me notáva. Soube +que havia um baile em casa da senhora Viscondessa. +Consegui ser-lhe apresentado. Entrei. Creio que V. +ex.<sup>a</sup> nem attentou na minha pessoa. Desgraçado de +mim! Estava irremediavelmente perdido. E perdão, +senhora Viscondessa! Occultei-me indiscretamente +<span class="pagenum"><a name="pag186">[186]</a></span> +atraz de um reposteiro. Depois... ai de mim... um +punhal se me cravára no coração. Louco, estupidamente +louco, arremetti contra Alfredo. Elle intimou-me +a sahida. Fugi. Por todos os modos tentei +fazer-me observado por V. ex.<sup>a</sup>. Vendo a impossibilidade +dos meus esforços, recorri a este ultimo +expediente. Fui eu a victima. V. ex.<sup>a</sup> na sua +generosidade, tratou-me e prestou-me todo o auxilio +que humanamente podia offertar-me. Pois bem. +O meu nome é Henrique, e sou eu que hoje lh'o +declaro, e a sós, sem testemunhas--Amo-a, minha +senhora, e amo-a muito.</p> + +<p>Perdão, senhor Henrique,--retorquiu gravemente +a Viscondessa. O sr. é meu hospede, e abusa +tristemente da minha confiança. Depois da provocação +feita pelo sr. Henrique a Alfredo, o unico +privilegiado do meu coração, ser-me-ia de todo impossivel +ter por V. ex.<sup>a</sup> a minima sympathia...</p> + +<p>Henrique, exasperado e colérico, aproximando-se +da Viscondessa, segredou-lhe ao ouvido as seguintes +palavras: +<span class="pagenum"><a name="pag187">[187]</a></span> + +<p>--Assim como soube amal-a, saberei tambem +odial-a.</p> + +<p>N'este comenos entrava Alfredo.</p> + +<p>--Muito folgo--minha senhora e meu senhor--em +os encontrar aqui juntos--dialogou elle.--Á +senhora Viscondessa, a quem sou devedor dos +maiores beneficios, venho pedir perdão do lamentavel +facto aqui succedido. A este senhor nada +direi. Em breve conto partir para a America; e +n'este sentido me despeço de V. ex.<sup>a</sup> minha senhora, +jurando-lhe a minha gratidão que será eterna.</p> + +<p>--Então parte?--exclamou anciosamente a +Viscondessa.</p> + +<p>--Sim, minha senhora; negocios impreteriveis +me chamam ao Rio de Janeiro.</p> + +<p>--E é, pois, irrevogavel a sua partida?</p> + +<p>--Sem duvida; irrevogabilissima, senhora Viscondessa.</p> + +<p>E Alfredo, despedindo-se da amante, sahiu.--Henrique +<span class="pagenum"><a name="pag188">[188]</a></span> +acompanhou-o. Cá fóra. porém, cada +um tomou pela sua rua.</p> + +<p>Mabilia ainda veiu á janella. Máu grado seu, +Alfredo havia desapparecido.</p> + +<p>Julgando-se para todo sempre perdida, chorou +então a Viscondessa, e chorou como poucas mulheres +talvez tenham chorado n'este mundo. +<span class="pagenum"><a name="pag189">[189]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXIX">XXIX</a></h1> + +<h2>Indecisões</h2> + + +<p>O orvalho vem do céu á terra; as lagrimas sóbem da terra ao céu.</p> + +<p>Mulher que chora, é mulher que sabe amar.</p> + +<p>Porque muito chorou, perdoou Christo á Magdalena +do Evangelho.</p> + +<p>As lagrimas são como o balsamo: retemperam +e dulcificam.</p> + +<p>Felizes os que sabem chorar!</p> + +<p>A creança é como a aurora: ambas choram e +ambas alegram. +<span class="pagenum"><a name="pag190">[190]</a></span> + +<p>Em pranto de mulher não se póde crêr--diz +o rifão.</p> + +<p>Será verdade que ás lagrimas dos olhos nem +sempre correspondem as lagrimas do coração?</p> + +<p>Chorar sempre é chorar--affirma um poeta e +com razão.</p> + +<p>Nada mais facil do que calumniar uma mulher. +A nossa sociedade está colmada de espadachins. +Todos os nossos rapazes se apresentam com ares +de Juans Tenorios in <i>nomine</i>. Todos têm aventuras +a contar. Poucos ha que se não julguem com +direito a insultar as mulheres, coitadas! que, em +verdade, pouco mais têm do que muita paciencia +para os aturar.</p> + +<p>As lagrimas, em espiritos delicados, são uma +necessidade dos seus corações privilegiados. Não +ha odio que ás lagrimas não cêda.</p> + +<p>A Viscondessa via fugir-lhe a felicidade. Chorava.</p> + +<p>A esposa tambem chora, ao ver desapparecer +o navio, que, ao longe, lhe conduz o esposo querido. +<span class="pagenum"><a name="pag191">[191]</a></span> + +<p>Santas e doces lagrimas, que tantas vezes tendes +suavisado sobre a terra os intimos e dolorosos +soffrimentos, como é grandioso o vosso poder!</p> + +<p>E vós mesmos, ó scepticos mascarados, que +tão estupida e egoistamente sabeis illudir as pobres +victimas da vossa stulticia--dizei-nos--em +quantos escriptos, arrancados a corações honestos +e indefesos, não tendes vós encontrado o vestigio +de uma lagrima?</p> + +<p>Não ha sympathia que pela lagrima não brote +e se enraize.</p> + +<p>A lagrima é como um lago, na serenidade do +seu correr e no reflectir das suas imagens.</p> + +<p>Para esse sangue d'alma--na suave expressão +de um poeta--apenas ha um remedio--a consolação.</p> + +<p>A Viscondessa chorava e continuava indecisa.</p> + +<p>Semelhante a um arbusto, que, açoutado pelo +vento, deixa cahir sobre a terra o orvalho; assim +<span class="pagenum"><a name="pag192">[192]</a></span> +a Viscondessa, ao dar accôrdo de si, deixou cahir +no seu candido seio as perolas consoladoras do seu +espirito.</p> + +<p>Bemaventuradas perolas! e oxalá que todos +assim as tivessem!... +<span class="pagenum"><a name="pag193">[193]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXX">XXX</a></h1> + +<h2>Glorias do operario</h2> + + +<p>Entretanto o nosso operario, agora já transformado +em negociante, vai seguindo o seu caminho, +a despeito da intriga e da inveja, com que a sociedade, +em geral, costuma premiar o trabalho e a +honradez.</p> + +<p>Julio, retemperado no cadinho dos grandes +soffrimentos, fizera-se homem repentinamente. Julgando +apagada a imagem da Viscondessa no seu +espirito, dedicou-se ao trabalho com fervôr. Levantava-se +<span class="pagenum"><a name="pag194">[194]</a></span> +habitualmente ás seis horas da manhã, +ia receber as ordens da sr.<sup>a</sup> Felisbella, e partia. Só +regressava a casa ás oito ou nove da noite, hora +em que elle tomava chá. E este programma, assim +praticado, com a regularidade de um pendulo de +relogio, poucas vezes era transgredido, a não ser +n'um ou outro domingo.</p> + +<p>A mercearia prosperara a olhos vistos. Diziam +os freguezes, e com razão, que a bôa alma de Francisco +Alves em nada ficára a dever ao sr. José Xavier.</p> + +<p>Além da loja tinha, porém, Julio um escriptorio +de commissões maritimas, de cuja responsabilidade +auferia annualmente sólidos e lucrativos interesses.</p> + +<p>Em poucos annos adquirira Julio o senso pratico, +tão prudente, como indispensavel nas cousas +da vida. O nome de José Xavier acreditara-se +solidamente na <i>praça do commercio</i>. Muitos invejavam +já a fortuna do mercieiro; muitos o calumniavam +<span class="pagenum"><a name="pag195">[195]</a></span> +tambem. Entretanto Julio, com aquelle orgulho +que só a consciencia sabe dar, era invariavel, +senão implacavel, na missão que voluntariamente +se imposera.</p> + +<p>Um dia apparecera-lhe na loja um conhecido, +parasita do Chiado.</p> + +<p>--Desejo fallar ao sr. José Xavier, começou o +<i>Maryalva</i>.</p> + +<p>--Um seu creado, respondeu Julio.</p> + +<p>O recem-vindo descobriu-se solemnemente.</p> + +<p>--Um negocio importante me traz aqui, continuou. +Acabo de saber por um amigo intimo que é +V. Ex.<sup>a</sup> não só um dos mais generosos cavalheiros +d'esta cidade, senão tambem que são brilhantes as +qualidades que adornam o elevado espirito de V. +Ex.<sup>a</sup>...</p> + +<p>--Bem! e depois..., interrompeu o mercieiro.</p> + +<p>--E depois, precisando eu de dinheiro, estou +certo que V. Ex.<sup>a</sup> m'o não negará...</p> + +<p>--A outra porta, amigo, rematou Julio. +<span class="pagenum"><a name="pag196">[196]</a></span> + +<p>--Sempre é bem malcreado..., rosnou o pretendente.</p> + +<p>E sahiu.</p> + +<p>Com estes factos, porém, contrastavam outros, +dignos do maior elogio.</p> + +<p>Amanhecera-lhe um mendigo á porta do escriptorio.</p> + +<p>--Que quer aqui?, perguntou Julio.</p> + +<p>--Eu senhor, sou pobre, não tenho cama, nem +pão...--respondeu o desgraçado.</p> + +<p>E Julio, tirando uma libra do bolso, disse:</p> + +<p>--Póde procurar-me todos os mezes para receber +egual quantia.</p> + +<p>E seguiu para o trabalho.</p> + +<p>Julio transformára-se, pois, n'um homem severo, +sem as paixões que arrebatam, nem os egoismos que +offendem. Á parte a propria felicidade e a da sr.<sup>a</sup> +Felisbella, a quem elle tratava por mãe, pouco +mais lhe interessava n'este mundo.</p> + +<p>Com a convivencia dos homens tornara-se concentrado, +<span class="pagenum"><a name="pag197">[197]</a></span> +desconfiando de tudo e de todos. Advogando +de preferencia os proprios interesses, era, +todavia, generoso, para quem o devia ser.</p> + +<p>Os pobres conheciam-no de longe. E Deus +abençoava-lhe as acções, tornando-o um homem +rico, forte e corajoso. +<span class="pagenum"><a name="pag198">[198]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag199">[199]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXXI">XXXI</a></h1> + +<h2>O que faz o talento</h2> + + +<p>Uns sóbem e outros descem: é a roda do +mundo. Á dos alcatruzes se similha, segundo Sá +de Miranda: uns para baixo, outros para cima, +uns cheios, outros vazios.</p> + +<p>A vontade conduz á felicidade. Homem que +sabe querer é homem de talento ordinariamente.</p> + +<p>O talento, por si, deixará de ser uma superioridade; +quando a egualdade, sob o mesmo grau, +nivelar a educação e a instrucção.</p> + +<p>O talento, comtudo, é variavel e complexo: +para uns, ter talento é saber grangear fortuna; +para outros, é saber escrever e orar e discutir; +<span class="pagenum"><a name="pag200">[200]</a></span> +para outros ainda, o talento cifra-se na gravidade +da apparencia, e no modo austero da vida.</p> + +<p>A mulher resume por via de regra o seu talento +n'um olhar profundo, num sorriso angelico +e n'um espirito facilmente maleavel e insinuante.</p> + +<p>A educação faz com que só o homem se ostente +em meio do viver social.</p> + +<p>A mulher tem uma esphera limitada: o seu +mundo é a familia; a sua convivencia o marido, os +filhos, os parentes e os creados. Porisso se crê, +embora erradamente, que só ao homem aprouve +Deus conceder o talento.</p> + +<p>A curiosidade é a fonte, não só da sciencia, +em geral, como tambem de toda a humana descoberta. +Ora a mulher é sobretudo curiosa. D'aqui +a sua aptidão para todo e qualquer ramo da actividade +social.</p> + +<p>Somos pela emancipação da mulher. Desejára-mos +vel-a ao lado de um doente, consolando-o e +distrahindo-o; desejáramos que as creanças recebessem +d'ella os primeiros rudimentos da linguagem; +<span class="pagenum"><a name="pag201">[201]</a></span> +desejáramos, é verdade, que por ella fossem +exercidos muitos dos mesteres da vida: mas, a par +de tudo isto, somos abertamente contra a sua emancipação +politica.</p> + +<p>O talento não tem sexo. Ante a critica, ante a +illustração, ante o bom-senso, todos somos eguaes.</p> + +<p>Joanna d'Arc, o typo da virilidade e do patriotismo, +é por ventura tamanha como Victor-Hugo, +o grande, Victor-Hugo, o humanitario; George +Sand cathedra á altura de Byron, o primeiro poeta +do universo.</p> + +<p>Para que hesitar, pois? Onde o direito de menospresar +aquillo que, ao contrario, e em consciencia, +devêramos santificar?</p> + +<p>O que perde o homem é o orgulho, quando não +é a inveja. A par de tantas ambições vale-nos a +preguiça, que as domina e refreia.</p> + +<p>Porque subira Julio? que força occulta o tornava +sympathico e favorecido da fortuna?</p> + +<p>Perguntae á felicidade quem a creou, quem lhe +deu origem, quem a tornou forte e independente! +<span class="pagenum"><a name="pag202">[202]</a></span> + +<p>O acaso é, muitas vezes, e sem o sabermos, +a causa da nossa ventura e das nossas acções.</p> + +<p>Mas o acaso não é cego. Depende de uma certa +presciencia do futuro.</p> + +<p>Julio era modesto, primeiro titulo de recommendação. +A modestia torna sympathicos o talento +e a virtude.</p> + +<p>Depois, havia n'elle o bom-senso de esperar +com resignação tudo o que, durante a vida, lhe +podesse sobrevir. Nada o surprehendia. Estava +sempre prompto para qualquer eventualidade, fosse +ella de que natureza fosse.</p> + +<p>Tinha, portanto, a rara sciencia de conciliar com +a prudencia o bom-senso.</p> + +<p>Porisso tambem subiu, e porisso tambem subirão +todos aquelles que assim procederem.</p> + +<p>O mundo depende de geito, apenas. Tão despresiveis +são os demasiadamente Catões como os demasiadamente +relaxados.</p> + +<p>No meio-termo está a lei de toda a sociedade +humana. +<span class="pagenum"><a name="pag203">[203]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXXII">XXXII</a></h1> + +<h2>Vestigios e ruinas</h2> + + +<p>Similhante a um velho castello roqueiro, coberto +de hera e parietarias, assim Alfredo vivia, doente, +sem dinheiro, arruinado, mas generoso no fundo.</p> + +<p>O seu fato preto, invariavel em todas as estações +do anno, principiara de tornar-se velho e esverdeado +pela acção corrosiva das chuvas doentias +e dos sóes abrasadores. A camelia desapparecera-lhe +para sempre do seu logar habitual. Emfim Alfredo, +esgotados os derradeiros recursos patrimoniaes, +<span class="pagenum"><a name="pag204">[204]</a></span> +era mais um authomato da indigencia, do +que verdadeiramente um homem de espirito, critico +e mordaz, qual n'outros tempos o havia sido.</p> + +<p>A sua extrema liberalidade, com os donos dos +restaurantes e cafés, fez com que, ainda durante +algum tempo, elle podesse frequentar gratuitamente +estas casas. Passados mezes, porém, os donos dos +botequins, attentando-lhe nas botas rotas e nas calças +fragmentadas, quasi o despediram de vez, mostrando-lhe +uma má e feia catadura.</p> + +<p>Em tão afflictivo lance recorreu aos camaradas +d'outr'ora. Nenhum delles apparecia já. Todos--e cada +um por sua vez,--o tentavam afastar.</p> + +<p>Finalmente Alfredo, envergonhado de si e enfastiado +do mundo, só de noite apparecia. Evitando +os credores, e cosendo-se com a sombra das paredes, +elle, o filho da luz e do magnetismo da vida, +sollictou dos amigos o pão ázimo da desventura. +Á sahida dos theatros--pois que em casa difficilmente +os encontrava--esperava resignadamente a +<span class="pagenum"><a name="pag205">[205]</a></span> +turba jubilosa dos espectadores conhecidos; por +vezes conseguira d'ella uns magros vintens; por +vezes tambem lhe sahira mallograda a tentativa.</p> + +<p>Lembrou-se da Viscondessa, a quem, por um +louco capricho, mentindo, affirmára que partiria +para o Brazil. Tudo em vão. O orgulho--desgraçado +orgulho!--abafára-lhe no peito esse passo +miseravel.</p> + +<p>Começou, então, o desalento, como um vidro +moido, de consumir-lhe a, já de si, inutil existencia.</p> + +<p>N'um momento lucido em que o espectro da +fome, esqualido e magro como Satan, se lhe desenhava +deante dos olhos com as cem boccas hediondas, +Alfredo, a par de um suor glacialmente +cortante, experimentou o que jámais e em sua +vida experimentára--uma ancia de trabalho, para +o qual, em verdade, nunca se sentira predisposto.</p> + +<p>Embalde, porém, lhe foram essas visões. Passageiro +<span class="pagenum"><a name="pag206">[206]</a></span> +e ephemero se lhe antolhou o iris da redempção +sobre a terra.</p> + +<p>Sonharia acaso? Trabalhar... e em que? A intelligencia +havia-se-lhe apagado, ao contacto de uma +embriaguez quasi habitual. Sentir, era-lhe impossivel, +uma vez que do coração nada mais restava, +além de uma sensação perfeitamente estupida e +material: e vontade, se a tinha, quasi nem já se +revelava.</p> + +<p>Do rapaz d'outros tempos, galanteador e elegante, +apenas restava uma sombra. A barba medrára +a esmo. O cabello, cobrindo-lhe a góla do casaco, +imprimia-lhe um aspecto singularmente triste +e repugnante. Encaral-o de frente o mesmo era +que tomal-o por um salteador disfarçado.</p> + +<p>Um dia, foi Julio casualmente surprehendido, +no seu escriptorio, por esta desgraçada victima de +uma exaggerada e dolorosa ociosidade.</p> + +<p>--Que me quer? interrogou o negociante.</p> + +<p>--Eu, senhor, fui rico, e sou hoje pobre, Em +<span class="pagenum"><a name="pag207">[207]</a></span> +nome da mulher, que ambos amámos, venho pedir-lhe +um emprestimo de duzentos mil réis...</p> + +<p>--Em nome da mulher que só eu amei e que +o senhor perdeu--convido-o a retirar-se d'esta casa.</p> + +<p>--Muito bem! uma vez que assim o querem, +far-me-hei ladrão--exclamou Alfredo.</p> + +<p>E fez-se fabricante de notas falsas. +<span class="pagenum"><a name="pag208">[208]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag209">[209]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXXIII">XXXIII</a></h1> + +<h2>Causas e motivos</h2> + + +<p>Diz-se geralmente que a humanidade esta enfêrma.</p> + +<p>A mocidade padece uma horrivel molestia--o +tédio.</p> + +<p>A corrupção physica caminha a par da corrupção +moral. As aguas são detestaveis; o ar pouco +sadio, contaminado de miasmas e de putrefacção. +De modo que as nossas cidades modernas são uns +verdadeiros sorvedouros de existencias humanas, +<span class="pagenum"><a name="pag210">[210]</a></span> +onde os obitos crescem sobre os nascimentos na +razão de um por mil.</p> + +<p>Com o movimento das calçadas o pó levantado, +introduzindo-se pelos olhos, pela bocca, pelo nariz, +é tambem uma causa de lenta, mas real, consumpção.</p> + +<p>As phthisicas abundam. As molestias de garganta +são quasi geraes. Os homens sentem-se tristes, +abatidos, sem espirito e sem vitalidade. As +mulheres, na maioria franzinas e chloroticas, arrastam +uma vida authomatica, sem consciencia nem +utilidade.</p> + +<p>Faltam os grandes prazeres do campo, os robustos +passeios da caça, as salutares digressões +pelos pinheiraes, onde os pulmões se purificam +ao contacto do ar resinoso e sadio.</p> + +<p>As praias frequentam-se por moda. Toma-se o +banho, e vai-se a um salão, eschola de dança e de +galanteria. Ninguem pensa em passeiar á beira-mar; +e mesmo quando casualmente se passeia pela praia +<span class="pagenum"><a name="pag211">[211]</a></span> +é mais por comprazer do que por uma natural necessidade +do organismo.</p> + +<p>Ora tanto o mar como o campo são bons pelo +resultado, que d'elles se tiram. Não só o corpo, mas +tambem o espirito devem tomar parte nos vastos +panoramas, nos horisontes limpidos e no vago da +natureza.</p> + +<p>É verdade que a demasiada concentração póde +conduzir a uma nostalgia perigosa; entretanto, entre +dois males, é muito preferivel a tristesa, embora +sombria e consumidora, á alegria extravagante, +brutal e insensata.</p> + +<p>Não, meus bons rapases, não é assim que se +vive. Vocês são doentes, porque não têm um ideal, +um trabalho util, uma missão civilisadora.</p> + +<p>De que vos servem os cafés, com os seus jogos +de <i>dominó</i>?--Antigamente conversava-se, contavam-se +anecdotas interessantes, e ria-se a gente com +a familia, mas com aquelle bom riso infantil, que +é a demonstração de festa e de regosijo. Hoje não. +Hoje, como nos bons tempos romanescos, ha a cima +<span class="pagenum"><a name="pag212">[212]</a></span> +de tudo isto o aborrecimento de tudo e por +tudo.</p> + +<p>Ora, minhas senhoras, se a vida em si é triste, +façamos por tornal-a agradavel e util--util sobretudo.</p> + +<p>Alfredo era a perfeita imagem do que deixamos +dito. A syphilis contaminara-lhe o organismo. +Á pobresa de sangue reunira-se a pobresa de espirito.</p> + +<p>É o que succede com a maioria dos rapazes: +quando chegam a completar um curso estão velhos +na intelligencia e gastos no corpo.</p> + +<p>Para tamanha molestia um unico remedio ousamos +aconselhar:</p> + +<p class="centrado"><i>--limpeza--</i></p> + +<p>isto é:</p> + +<p class="centrado"><i>--campo e mar--</i></p> + +<p>Que s. s.<sup>as</sup>, os senhores facultativos, se não irritem +comnosco por tão interessante descoberta. +<span class="pagenum"><a name="pag213">[213]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXXIV">XXXIV</a></h1> + +<h2>Latet anguis</h2> + + +<p>A primavera, a doce filha da harmonia e da luz, +desentranhava-se em flôres e fructos. Rejubilavam +as aves no arvoredo frondente. O céu era azul, +limpido. Nem uma nuvem lhe maculava a superficie +chrystallina e pura.</p> + +<p>Nada mais delicioso do que esta rapida transição +de uma estação, agreste e fria, para uma outra +agradavel e sympathica. Dir-se-hia que um velho, +sulcado do rugas, se metamorphoseára subitamente, +<span class="pagenum"><a name="pag214">[214]</a></span> +como o Fausto, n'um elegante moço, +cheio de vida e de aspirações.</p> + +<p>As arvores, toucadas de flôr, recebiam das auras +vaporosas o amoroso abraço de todos os annos. +O sol, dourando com as suas palhetas luminosas +os arbustos vividos e scintillantes--reflectia-se +suavemente sobre as aguas do ribeiro, que, +em amoravel ondulação, serpeavam atravez os terrenos +pedregosos, parando, ora atraz de um rochedo, +com o qual confidenciavam ternamente, ora +atraz de uma planta, com a qual se enroscavam +de passagem.</p> + +<p>Ao longe os pinheiraes acordavam as solidões +com as vibrações da sua harpa plangente. O rouxinol, +casto como a andorinha, desferia a medo o +seu eloquente hymno de amor. É que elle o artista, +filho do céu e do canto, pressentira, primeiro que +nenhum outro ser da creação, o aproximar alegre +do sol e da vida.</p> + +<p>Meiga como uma mãe dedicada, a pomba, symbolo +<span class="pagenum"><a name="pag215">[215]</a></span> +de virgindade, arrulhava de manso, muito de +manso, como amante que não deseja ser escutada. +E a aguia, a altiva rainha do espaço, guindara-se, +por entre nuvens, até ás ignotas regiões do infinito.</p> + +<p>Entretanto--e como que para contrastar--o +peixe, o maldicto das trevas, mal elevara a gélida +escama ao lume d'agua, para logo a mergulhar de +novo, no lodo, sua morada habitual. O insecto, o +desprotegido do dia, esperava a noite, sua irmã, +para assim deixar em paz o lobrego buraco, para +onde um raio de sol prestes o afugentara.</p> + +<p>Os campos eram verdes e promettedores. Percorria-os +o boi, quasi sem cessar, na extrema paciencia +dos animaes possantes.</p> + +<p>A montanha, despindo o lençol, que durante +mezes a envolvera--deixara de alvejar, afim de +se tornar um throno de contemplação e de magestade.</p> + +<p>E de facto subia o lavrador á cumiada do seu +monte, e de lá, passeando os olhos avidos em +<span class="pagenum"><a name="pag216">[216]</a></span> +volta do campo, com o qual, em verdes annos, se +matrimoniára--entoava cantos jubilosos e amigaveis.</p> + +<p>E a aldeã, resplandecendo de feliz contentamento, +apurava a sua saia de chita que para os dias santos +havia sido feita e arranjada.</p> + +<p>Cecilia, porém, está de lucto. Os olhos verdes, +fartos de chorar, brilham profundamente como o +abysmo dos mares. Ella é triste, coitada! e sem +esperança. Morrera-lhe o pai.</p> + +<p>--Olha, Cecilia--dizia-lhe o velho na sua derradeira +hora--parece-me que o teu noivado só no +céu poderá ter logar. Perdôa tu ao ingrato assim +como eu lhe perdôo...</p> + +<p>E expirou.</p> + +<p>Quatro mezes volvidos sobre este caso estava +a pobre rapariga profundamente mergulhada nos +seus mais intimos pensamentos, quando uma leve +pancada, vibrada sobre o vidro da janella, a fez +estremecer e agitar.</p> + +<p>Mal se levantara ella e já uma sombra, abrindo +<span class="pagenum"><a name="pag217">[217]</a></span> +a vidraça, saltava de um pulo para o centro da +casa.</p> + +<p>--O senhor prior por aqui?--exclamou a +ingenua catholica.</p> + +<p>--É verdade, minha filha. É justamente o teu +prior que Deus manda a esta casa... Sabia que estavas +triste. Haviam-m'o dicto as estrellas do céu. +Consolar os tristes é um dever do bom parocho.</p> + +<p>--E minha mãe, senhor padre João, consentirá +ella...</p> + +<p>--A cima de tua mãe está a voz do céu que +aqui me traz. Conta-me a tua vida, Cecilia. Não +tenhas receio de mim. Eu saberei aconselhar-te.</p> + +<p>A Egreja para tudo tem remedio. Só Deus sabe +premiar os bons e castigar os máus.</p> + +<p>E o padre, procurando um escabello, foi sentar-se +ao pé de Cecilia.</p> + +<p>A rapariga, córando de pejo, conservára os +olhos cravados no chão.</p> + +<p>Assim durou, por alguns minutos, esta scena. +<span class="pagenum"><a name="pag218">[218]</a></span> + +<p>--Como tu és boa, minha filha--rompeu alfim +o padre.</p> + +<p>E, sem mais, imprimiu-lhe um beijo na face.</p> + +<p>Assim, como a pomba ferida por caçador experiente, +assim tambem Cecilia tentara esquivar-se +ás grosseiras amabilidades do seu respeitavel parocho.</p> + +<p>--Embalde--gritava o padre. É Deus que assim +m'o ordena!...</p> + +<p>E, ao longe, um guitarrista que passava cantava +tristemente a seguinte quadra de Gonçalves Dias:</p> + +<div class="poesia"> +«O amor da mulher é qual nuvem<br> +Que o vento impelle no ar;<br> +O amor da mulher é voluvel<br> +É tão vario, como a onda do mar.»<br> +</div> +<span class="pagenum"><a name="pag219">[219]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXXV">XXXV</a></h1> + +<h2>Critica</h2> + + +<p>Nós não somos d'aquelles que exageradamente +comdemnam o clero.</p> + +<p>Nada mais santo, nada mais suavemente consolador +do que o bom padre, especie de medianeiro +entre Deus e os homens.</p> + +<p>Para quem não tem um pai natural; para aquelles +que a Providencia exilou do seu lado, e que a +miseria acolheu no seu seio; para aquelles que, +longe do ruido e das alegrias do mundo, a sós +comsigo mesmo sentem o gottejar das proprias +<span class="pagenum"><a name="pag220">[220]</a></span> +chagas; para os desgraçados, para os infelizes, +para os tristes, o padre, pela sua apparencia christãmente +cariciadora, é mais do que um companheiro, +porque é um pai, enviado pelos anjos do céu +aos anjos da terra.</p> + +<p>Não foram um simples vicio, uma vã ostentação, +e um estulto prurido que nos levaram a condemnar +aquillo que, por sua natureza, deve ser +exemplar, vivo e sacro-santo.</p> + +<p>Não! Se condemnámos o máu padre, como +planta nociva á humanidade, foi por um dever.</p> + +<p>Quem tem irmãos, e filhas e esposa, não póde +existir ao acaso, sem a necessaria superintendencia +em todos os actos da sua vida, d'ellas.</p> + +<p>A mulher, que do collegio não tirou a educação +conveniente, que um dia experimentou a immoralidade +do confessionario e os espinhos do mundo, +póde ser tudo, menos uma esposa, menos uma irmã, +menos uma mãe.</p> + +<p>O padre toma parte nas scenas mais luctuosas +da familia: se adoecemos, é elle que nos traz o +<span class="pagenum"><a name="pag221">[221]</a></span> +balsamo ao espirito em trévas; se desesperamos, é +elle que nos faz ver o iris da bonança; se hesitamos, +é elle que nos encaminha e nos dirige.</p> + +<p>Então, e porisso mesmo, é que o padre deve +ser um bom homem.</p> + +<p>O esboço que no precedente capitulo deixámos +delineado, posto que excepção, foi por nós fielmente +observado.</p> + +<p>Que se não illudam os espiritos timoratos e frageis. +Quando máu, ninguem mais severamente +merece ser condemnado do que o padre.</p> + +<p>Nas aldeias os exemplos multiplicam-se. A ociosidade, +por um lado, e o celibato, por outro, muito +têm concorrido para essa cadeia de lorpesas, a +cada passo relatadas na imprensa e nas differentes +casas de reuniões publicas.</p> + +<p>O fanatismo nunca foi religião. Seguir os preceitos +do Evangelho, não é perfilhar as doutrinas +do sr. Sousa Monteiro nem as diatribes da <i>Palavra</i>. +<span class="pagenum"><a name="pag222">[222]</a></span> + +<p>Amae-vos uns aos outros como eu vos amei--disse +Christo.</p> + +<p>Amemo-nos, sim, mas sem corrupção, sem +egoismo, sem impuresa.</p> + +<p>Que a esposa seja uma conselheira de seu marido +e uma perceptora de seus filhos--tal deve +ser o desejo do bom padre.--Porque um padre +é acima de tudo um educador, e como tal carece +de muita illustração, de muito bom senso e de +muita heroicidade.</p> + +<p>Se os rapases não podem satisfazer a esta nobre +missão, escolham-se os velhos. Se com o clero +periga a honestidade das mulheres, acautellem-se +os homens, e aprendam por uma vez a distinguir +o bom do mau, aquillo que lhes convém d'aquillo +que lhes não convém.</p> + +<p>D'outro modo continuaremos eternamente divididos, +odiando-nos como inimigos, e pelejando +uns contra aos outros, cegamente, loucamente, sem +ideal, sem raciocinio e sem vontade. +<span class="pagenum"><a name="pag223">[223]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXXVI">XXXVI</a></h1> + +<h2>Toldam-se os horisontes</h2> + + +<p>Nem sempre a felicidade nos sorri. Quando +menos o acreditamos, embacia-se o prisma que sonhavamos +perpetuo e immorredoiro, e as illusões +começam de cahir uma por uma.</p> + +<p>É assim a vida; é assim o mundo: rodeado +de formosas apparencias e colmado de negra podridão.</p> + +<p>Áquelles que possuem o raro condão de saber +disfarçar as mais intimas tristesas da vida; áquelles +a quem Deus não dotou com o precioso instincto +<span class="pagenum"><a name="pag224">[224]</a></span> +da arte; áquelles, emfim, para quem a paciencia +é a norma, e que se não apaixonam, que se +não arrebatam, que se não enthusiasmam, gelados, +mudos, frios como o sepulchro.--a esses, pouco +pódem importar as tristesas do poeta e as suas +profundas melancholias, que são como que o lento +e sombrio finar da existencia.</p> + +<p>Ó noites de agonia, noites de isolamento--como +vós sois tristes e duras de passar! O mundo, +que vos detesta, ó doces e amargosas horas da +experiencia, foje de vós! Ao vosso lado só tendes +os poetas e os artistas e os sábios e todos aquelles +que no horror da noite procuram o ideal da +humana perigrinação.</p> + +<p>Bemdictas sejaes vós, companheiras do tumulo, +porque me ensinastes o soffrer!</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>A Viscondessa era um d'esses raros typos angelicos, +que despresando a opinião das maiorias, +porventura o mais estupido de todos os preconceitos. +<span class="pagenum"><a name="pag225">[225]</a></span> +se entregam febril e vertiginosamente nas azas do +seu capricho, sem outro intento que não seja o +louco voar atravez as idealidades que de continuo +se lhe desenham na mente esbraseada.</p> + +<p>Eu gósto d'estas mulheres, d'estas candidas andorinhas, +que, superiormente ás outras mulheres, +suas irmãs, se alimentam no tepido halito da primavera, +embriagadas e seduzidas pela doce irradiação +do céu.</p> + +<p>Se péccam não é d'ellas a culpa. Quem poderá +dizer á ave, á meiga filha da luz: tu voarás para +aqui? e ao rouxinol, o adoravel amigo dos poetas: +tu cantarás a taes horas? e ao oceano, o titanico +athleta da creação: tu não correrás? Quem?</p> + +<p>A Viscondessa era uma creança com sêde de +amor, boa e ingenua como todas as creanças. Infeliz +ou não--o certo é que um dia ella se encontrou +sem amante e sem dinheiro. Alfredo roubara-lhe +o coração, e o que é mais ainda--a crença +no amor; Henrique, ingrato explorador, subtrahira-lhe +os titulos da sua fortuna. N'estes termos, +que fazer? A quem recorrer se o amor, assim e +<span class="pagenum"><a name="pag226">[226]</a></span> +tão de subito--se lhe transformára em inimisade +e a fortuna em pobreza?</p> + +<p>A Viscondessa, perplexa, hesitante, nervosa, +chamou pela sua creada.</p> + +<p>--Sabes Virginia--dizia ella á sua amiga--que +estamos roubadas?</p> + +<p>--Roubadas... minha senhora?!</p> + +<p>--Sim, roubadas... e roubadas por Henrique, +a quem nós n'esta casa tratamos com um carinho +de irmãs...</p> + +<p>--Oh! meu Deus!... meu Deus!... e que havemos +de fazer, minha senhora?</p> + +<p>E Virginia beijou pela primeira vez na sua +vida a angelica fronte da Viscondessa.</p> + +<p>A desgraça tem este condão mysterioso: torna-nos +irmãos involuntariamente.</p> + +<p>--Não é verdade, Virginia, que tu nunca me +has de abandonar?</p> + +<p>--E quem pensará em tal, senhora Viscondessa?</p> + +<p>--Pois bem: espera um bocadinho, que me +has de levar uma carta á rua da Emenda. +<span class="pagenum"><a name="pag227">[227]</a></span> + +<p>--O que V. Ex.<sup>a</sup> quizer, minha senhora.</p> + +<p>A Viscondessa sentou-se á mesa; tomou uma +folha de papel e principiou a escrever nos seguintes +termos:</p> + +<p class="direita">«Excellentissimo senhor Barão:</p> + +<p>«Pela primeira vez ouso incommodal-o. Se Vossa +Excellencia, porém, adivinhasse a triste situação +em que actualmente me encontro, por certo me +desculparia estas instantes linhas. Entretanto, impellida +pelas circumstancias, quero acreditar que +Vossa Excellencia se não furtará a vir procurar-me +hoje mesmo.</p> + +<p>«E n'esta esperança fecho esta carta, tendo a +honra de ser</p> + +<p>De vossa excellencia<br> + +serva respeitosa</p> + +<p>S. C.<br> + +Lisbôa<br> + +Largo de Camões</p> + +<p>A Viscondessa de B***</p> + +<p>..............................</p> + +<p>Virginia, tomando das mãos da Viscondessa +este bilhete, competentemente sellado com o carimbo +da casa, sahiu na direcção acima indicada. +<span class="pagenum"><a name="pag228">[228]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag229">[229]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXXVII">XXXVII</a></h1> + +<h2>Uma victima</h2> + + +<p>E Cecilia? que será feito d'ella?</p> + +<p>Pela callada das trévas, á meia noite, ha sombras +que vagueiam pelas ruas como visões informes, +famintas, esqueleticas. Á sahida dos theatros abeiram-se +de nós vultos esfarrapados, cheios de dôr +e de vergonha, que nos estendem a mão carcomida +e triste. Cada um d'esses vultos representa, +no grande drama social, uma consciencia offendida +ou uma crença ludibriada. Não se descobrem nunca +esses desgraçados, porque não desejam ser reconhecidos. +<span class="pagenum"><a name="pag230">[230]</a></span> +Se é mãe e tem filhos, pede em nome +dos filhos; se é pae e tem familia, pede em nome +da familia; se é só e miseravel, pede em nome da +miseria.</p> + +<p>Cecilia não estava precisamente n'este caso. +Cedendo, ainda que violentada, ás seducções do +parocho, que por toda a parte a seguia com a +voracidade de um lobo,--a joven aldeã, para quem +o ideal se não havia de todo extinguido, veiu para +a capital. Pobre mulher inexperiente, coitada! que +media o mundo pela craveira da sua innocencia...</p> + +<p>Emfim, depois de muito indagar, de muito ouvir +e muito procurar, soube ella que o Sr. José +Xavier era negociante e residia em Alcantara.</p> + +<p>Sem delongas deu-se pressa a rapariga em chegar +ao almejado paraiso. Quando subia a escada, +açodada e veloz, como uma gazella, um creado +a reteve.</p> + +<p>--Que quer vm.<sup>cê</sup>--perguntou-lhe o guarda +portão.</p> + +<p>--Desejo fallar ao Sr. Julio--retorquiu Cecilia. +<span class="pagenum"><a name="pag231">[231]</a></span> + +<p>--Não é aqui que elle mora; póde procurar +n'outra parte.</p> + +<p>--Ai! não, enganei-me; é ao Sr. José Xavier +que eu pretendo...</p> + +<p>E n'isto Julio descia a escada. Cecilia nem sequer +o reconhecêra. De passagem, perguntou Julio +ao creado quem era aquella mulher.</p> + +<p>--Uma desgraçada que pretende esmola--respondeu +o interrogado.</p> + +<p>--Pois bem: mande-lhe dar dez tostões.</p> + +<p>E o amo sahiu, sem, ao menos, virar a cabeça.</p> + +<p>O primeiro pensamento de Cecilia foi correr +atraz de Julio. Mas não! Ella estava vexada, profundamente +vexada de si mesmo. Até quasi chegou +a duvidar que fosse aquelle o seu antigo amante.</p> + +<p>--Não, decerto não é elle... reflexionava ella +comsigo.</p> + +<p>--Aqui tem--exclamava o creado, offerecendo-lhe +dez tostões--aqui tem, póde retirar-se. +<span class="pagenum"><a name="pag232">[232]</a></span> + +<p>Cecilia acceitou a esmola authomaticamente. Muda, +sem proferir uma palavra, olhou para o homem +como uma alucinada. Só depois, cá fóra, trémula +e nervosa, reconheceu a degradação por que havia +passado. Uma dolorosa agitação lhe percorria os +membros febris. Não podendo mais conter-se, transbordando +de raiva e de agonia, desmaiou sobre +as pedras da calçada.</p> + +<p>Ó sociedade, ó mysterio dos mysterios, quanta +victima tua, não terá perecido assim, á fome, ao +relento e ao frio?</p> + +<p>Ó humanidade, ó triste e ignorado <i>Ashawerus</i>, +como é espinhosa a tua sorte e tremendo o teu +fadario! +<span class="pagenum"><a name="pag233">[233]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXXVIII">XXXVIII</a></h1> + +<h2>Julio feito barão</h2> + + +<p>--Póde vossa excellencia acreditar, senhora +Viscondessa, que emquanto eu viver nada faltará +n'esta casa.</p> + +<p>--Oh! Deus o abençoe, senhor barão...</p> + +<p>--Agora--e antes de me retirar, permitta-me +vossa excellencia, que sem abusar da sua generosidade +eu lhe narre em breves traços uma +pequena e eloquente historia ha pouco succedida +entre nós: «Ha de haver já bastantes annos que +um homem ignorado (nada importa o nome) veiu +<span class="pagenum"><a name="pag234">[234]</a></span> +procurar trabalho em Lisboa. Fugido á lei que o +perseguia e afastado da mulher que amava--entrou +n'um theatro. Entre as damas que pela sua +belleza mais realçavam destacava-se uma a quem +esse desgraçado entregou o coração e a vida. Mas, +ai d'elle! A sorte perseguia-o horrivelmente. Elle, +coitado, era apenas um operario, um modesto operario, +e ella uma aristocrata, uma distinctissima +aristocrata. Correram os dias. O miseravel, vendo-se +fortemente abalado na sua dolorosa existencia, +abandonou a fabrica, e fez-se escudeiro d'essa +senhora. Nem um gesto sequer elle perdera, emquanto +lhe fôra dado viver n'aquella casa. Tudo +aproveitou o desventurado, curtindo a sós comsigo +a immensa paixão que tristemente o devorava. Um +dia, porém, em que elle, porventura mais agitado +do que nunca, pretendêra subtrahir-se aos fidalgos +olhares da sua ama, uma fatal circumstancia o +obrigou a deixar aquella casa.</p> + +<p>--Então foi o sr. barão...</p> + +<p>--Mais duas palavras, minha senhora, e eu +<span class="pagenum"><a name="pag235">[235]</a></span> +termino: «Infamado e corrido de vergonha entregou-se +o desventurado moço ao trabalho com ardor. +Próspera lhe correra a fortuna. Amparado por +dois velhos, hoje mortos, que durante os primeiros +annos lhe serviram de paes progrediu José Xavier +tornando-se honrado e bem quisto dos seus semelhantes. +Depois... oh! depois... Vossa excellencia +sabe o resto...</p> + +<p>--Sim! depois José Xavier foi feito barão, +encontrando na Viscondessa de B*** a sua mais +pura e desinteressada amiga.</p> + +<p>E Julio, curvando-se, beijou solemnemente a +mão da Viscondessa. +<span class="pagenum"><a name="pag236">[236]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag237">[237]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXXXIX">XXXIX</a></h1> + +<h2>Denuncias e suspeitas</h2> + + +<p>Alfredo, sem recursos, recorreu ao ultimo expediente +de um vadio bem educado: tornou-se +falsificador de notas.</p> + +<p>Os proprios amigos d'outros tempos, ao saberem +d'este facto, denunciaram-n'o á policia.</p> + +<p>Dahi em deante principiaram as indagações e +as pesquisas. A lei não afrouxára em seus esforços. +E o certo é que uma manhã Alfredo acordou +n'um calabouço, quasi sem luz e abandonado aos +vermes. +<span class="pagenum"><a name="pag238">[238]</a></span> + +<p>O processo correu perante o ministerio publico. +Abundaram as provas. Alfredo era realmente +um criminoso. O jury, dando o seu <i>veredictum</i>, +houve por bem coudemnal-o a degredo perpetuo, +para as costas de Africa.</p> + +<p>Embalde lhe foi a appellação interposta pelo +advogado para o Supremo tribunal de justiça. Confirmada +a pena o réu teve de partir.</p> + +<p>No dia aprasado para a partida, Alfredo, inquieto, +nervoso, tremulo, agitado, pediu papel e +tinta. Por uma graça especial fôra-lhe deferido o +requerimento.</p> + +<p>Tomando a penna o degredado traçou no papel +as seguintes linhas:</p> + +<p>«Excellentissima senhora Viscondessa, e minha +dedicada amiga.--Seria vil, e muito vil, que eu, +ao deixar esta cidade, me não lembrasse de Vossa +Excellencia. Cheio do contricção e de arrependimento +permitta-me pois, Vossa excellencia, que, por +um pouco, ajoelhe ante a sua imagem generosa.</p> + +<p>«É um criminoso que lhe falla, minha Senhora. +<span class="pagenum"><a name="pag239">[239]</a></span> +É um triste e miseravel peccador que vem pedir-lhe +perdão. Conceder-lh'o-ha Vossa excellencia?</p> + +<p>Sim! Alfredo não existe já. Condemnou-o a +sociedade em nome da lei. Condemnaram-n'o os +seus crimes.</p> + +<p>«Dentro em pouco, vestida a estamenha do +degredo, o meu nome não terá razão alguma de +ser. Vegetarei como um cadaver, que, privado do +espirito, se vai decompondo fibra a fibra.</p> + +<p>«Os homens não me perdoaram. Foi-me negada +a honra: tudo me foi negado. E entretanto +eu tinha de viver...</p> + +<p>«Vossa excellencia de certo comprehende este +terrivel problema do mundo. Entre duas infamias +preferi esta, justamente por ser a maior.</p> + +<p>«E assim como os homens foram ingratos para +commigo, assim tambem eu fui ingrato para com +Vossa excellencia.</p> + +<p>«Perdão, perdão para mim, minha santa amiga, +perdão para mim que não pensava! +<span class="pagenum"><a name="pag240">[240]</a></span> + +<p>«Eu era apenas um triste alucinado, que á maneira +de uma sombra, errava vagamente pelo mundo, +com o doloroso pesadello de uma longa enfermidade.</p> + +<p>«E porque não morri eu, então, céus?</p> + +<p>«Para que mais prolongar este acerbo calix de +amargura?</p> + +<p>«Não creio nos homens como não creio em +Deus.</p> + +<p>Deus!... Mas porque infinita maldição me sahe +esta palavra dos labios?</p> + +<p>«Ah! sim, está ali... bem o vejo... o infernal +carcereiro...</p> + +<p>«Mas como? Deus com aquella barba? Deus +tão velho? Será possivel?</p> + +<p>«Ai! senhora Viscondessa, que a febre escalda-me +os labios resequidos. Se ao menos, Deus +me trouxesse agua...</p> + +<p>«Adeus, minha boa e dedicada amiga; adeus +para sempre. +<span class="pagenum"><a name="pag241">[241]</a></span> + +<p>«Nas suas noites de prazer não s'esqueça de +libar por mim--por mim, pelo miseravel condemnado +da sociedade, sua irmã.</p> + +<p class="direita"><i>Alfredo.</i>»</p> + +<hr style="border-bottom: dotted 2px #000000;"> + +<p>--Um pobre rapaz, coitado!--exclamou a +Viscondessa, ao terminar a leitura d'esta carta. +<span class="pagenum"><a name="pag242">[242]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag243">[243]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXL">XL</a></h1> + +<h2>Ao hospital</h2> + + +<p>Do calabouço passaremos ao hospital. Tudo é +enfermidade: com uma differença apenas--e é +que, n'uns adoece o espirito, ao passo que n'outros +adoece o corpo.</p> + +<p>Ao percorrermos aquelles longos salões, onde +só a doença tem o seu throno e a morte o seu +prestigio; ao pararmos junto d'aquelles leitos empobrecidos, +onde os gemidos da miseria se cazam +tristemente com a dolorosa suavidade da esperança; +ao palparmos as chagas, as desventuras e as +mil angustias porque passa a humanidade n'este +<span class="pagenum"><a name="pag244">[244]</a></span> +mundo; ao vermos tudo isto, o espirito vacilla +realmente, e o coração sente-se fatal e impetuosamente +abalado em tudo o que ha de mais santo, +de mais nobre e de mais digno á superficie da +terra.</p> + +<p>Adoecer na flor da edade, sem protecção, sem +carinho, sem a meiguice de uma irmã, de uma +esposa, de uma filha--isso, só a pobreza o poderá +verdadeiramente avaliar.</p> + +<p>Ha dores que se não exprimem, que se não +definem, e que estão muito acima das mundanas +velleidades.</p> + +<p>Como quer que seja, porém, Cecilia encontrou-se +uma manhã no hospital de S. José, doente, +triste e perdida a esperança de melhores dias.</p> + +<p>Uma phthisica fatal lhe devorava as entranhas, +profundamente abaladas. A tosse augmentava de +minuto para minuto. As convulsões recrudesciam. +Os medicos desesperavam da cura. E os enfermeiros, +os vis mercenarios do corpo humano, abanavam +as orelhas da cançados e aborrecidos. +<span class="pagenum"><a name="pag245">[245]</a></span> + +<p>Emfim soou a hora fatal. Após uma longa hemoptise, +Cecilia abrio muito os olhos, tornou-se +verde--de um verde-negro e sombrio--fez um +esforço sobre si, regougou algumas palavras imperceptiveis, +e cahiu para o lado.</p> + +<p>Tinha expirado finalmente.</p> + +<p>A aurora era então sem mancha; a cotovia annunciava +um dia formoso. Tudo vivia; a luz era o +prologo do amor.</p> + +<p>Arrastada para uma sala especial, unicamente +destinada aos mortos, ficou o seu cadaver em deposito, +até que um esquife o levasse para o cemiterio.</p> + +<p>Sobre o corpo putrefacto d'aquella victima +desventurada não houve sequer quem derramasse +uma lagrima.</p> + +<p>É que o mundo, no seu estupido cynismo, +pensa de ordinario mais em rir do que em chorar! +<span class="pagenum"><a name="pag246">[246]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag247">[247]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXLI">XLI</a></h1> + +<h2>Sorrisos e lagrimas</h2> + + +<p>--Acredita-me, Mabilia: esta felicidade para nós +é inalteravel. Deixa que o mundo murmure no seu +louco e estupido egoismo. Nada importa! A openião +das maiorias é, em quanto a mim, uma vil +e dolorosa mentira. Tendo-te a ti, que mais poderei +eu ambicionar? Desafio os rios e os mares para +que venham arrebatar-me do coração a tua terna +e doce imagem. Que venham! E eu, impavido, arrostarei +com elles, braço a braço, se tanto fôr preciso. +<span class="pagenum"><a name="pag248">[248]</a></span> + +<p>--Oh! Julio, meu bom amigo, por Deus, não +sejas mentiroso; não digas aquillo que não sentes; +se devéras me não amas, para que fallar em tal? +Olha que a experiencia, meu amigo, tem-me sido +uma triste e dolorosa desillusão n'esta vida...</p> + +<p>--E és tu quem assim falla? Mas não vês, desgraçada, +que essas palavras me fazem escaldar o +coração? Oh! por piedade, não me mates, Mabilia:</p> + +<p>N'este comenos Virginia entrou na saleta. Interrompido +o dialogo, o nosso barão tomou, ao +acaso, um jornal, que ligeiramente passou pela +vista.</p> + +<p>Antes, porém, de o pousar, estacou em uma +das locaes, e leu o seguinte:</p> + +<p>«Falleceu hontem no hospital de S. José, victima +de uma phthisica pulmonar, uma pobre rapariga, +por nome Cecilia da Silva. Parece que uns +amores mal correspondidos foram a causa de similhante +infortunio. Por se ignorar o nome do pae, +que se suppõe viver na aldeia, foi o seu cadaver sepultado +no cemiterio dos Prazeres, com uma simples +<span class="pagenum"><a name="pag249">[249]</a></span> +inscripção, gravada n'uma pequena cruz de +madeira.»</p> + +<p>--Se me não engano já vi algures esta mulher!--regougou +o barão, repoltreando-se na cadeira, e +lançando do seu excellente charuto <i>havano</i> uma +longa e deliciosa bafurada de fumo. +<span class="pagenum"><a name="pag250">[250]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag251">[251]</a></span> + + + + +<h1><a name="capXLII">XLII</a></h1> + +<h2>Tableau</h2> + + +<p>Agora o quadro.</p> + +<p>Atravez os quatro personagens, distingue-se um +mundo de miserias.</p> + +<p>O barão dá o braço á Viscondessa; o dinheiro +acaricia a formosura.</p> + +<p>Eis a luz.</p> + +<p>A doença caminha a par do degredado: o corpo +corre parallelo com o espirito.</p> + +<p>Eis a sombra!</p> + +<hr style="width: 4em;"> + +<p>O espectador que ajuize. +<span class="pagenum"><a name="pag252">[252]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag253">[253]</a></span> + + + + +<h1><a name="capEpilogo">Epilogo</a></h1> + + +<p>Hontem o amor; hoje a pobreza; amanhã o +esquecimento. +<span class="pagenum"><a name="pag254">[254]</a></span> +<br> +<span class="pagenum"><a name="pag255">[255]</a></span> + + + + +<h1><a name="capPost-scriptum">Post-scriptum</a></h1> + +<h2>(Ao leitor)</h2> + + +<p>Este romance não mira aos applausos da galeria. +Tão pouco prima, nem pelo complicado do enredo +nem pelo difficil das situações. São capitulos singelos, +estes, que acabam de lêr-se, só pela arte +inspirados e por amor d'ella concluidos.</p> + +<p>E a arte é a verdade.</p> + +<p>Por muitos hão de estas paginas ser aborrecidas. +Por muitos hão de ellas ser odiadas. Nada +importa. A consciencia acima de tudo.</p> + +<p>Entendeu o auctor que era sobre tudo <i>descriptivo</i> +<span class="pagenum"><a name="pag256">[256]</a></span> +o romance moderno, profundamente descriptivo, +cheio de analyse, critica, de bom-senso e da naturalidade; +de pouco dialogo e de muita observação; +havendo todo o escrupulo em pôr de parte o devaneio, +na dissecação dos homens e das cousas.</p> + +<p>Ao ideal d'este livro presidiram, pois, as realidades +presentes e passadas. O typo da Viscondessa, +atraz esboçado, poderá não agradar a todos, é verdade; +mas é, no entanto, um typo real, perfeitamente +real. Uma mulher ingenua, simples, caprichosa, +sacrifica o seu coração, a sua tranquillidade, +o seu amor a um elegante rapaz, filho dos restaurantes, +e, como os restaurantes, viciado e corrupto. +D'aqui a perdição da heroina e o triumpho do galã.</p> + +<p>Outro tanto succede com a figura angelica da +aldeã. Victima do confessionario, cahiu, andorinha +ferida, a quem roubam o ninho e os filhos; sedenta +de prazer, resvalou no abysmo.</p> + +<p>Alfredo, se bem que generoso e sympathico, é, +todavia, um moço perdido, alucinado pelos vinhos +e pelas grandes ceias, incapaz de conceber outros +<span class="pagenum"><a name="pag257">[257]</a></span> +pensamentos que não sejam o da sua indolencia e +o do seu bem-estar. Acaba porisso como, naturalmente, +devia acabar--nas costas d'Africa.</p> + +<p>O contrario quasi se dá com Julio. Trabalhando, +vence os escolhos da adversidade; convivendo +com o mundo, torna-se como o mundo, calvo na +corrupção e no cynismo.</p> + +<p>E muito de proposito, pois que não fallo aqui +na mãe e na esposa, dediquei este livro ás boas mães +e ás boas esposas: ás boas mães, para que sejam esmeradas +na educação das filhas, e ás boas esposas, afim +de que saibam estimar a virtude, como a primeira e +a mais indestructivel de todas as riquezas.</p> + +<p>A maternidade é uma fonte de boas acções. +Quem sabe se foi este o defeito da Viscondessa e +de Cecilia? O santo amor de mãe despertaria incontestavelmente +n'estas duas mulheres outros +mundos muito diversos que não os da imaginação +e os do capricho.</p> + +<p>A logica não foi, pois, sacrificada. Antes pelo +<span class="pagenum"><a name="pag258">[258]</a></span> +contrario temos fé em que será ella a gloriosa redemptora +d'este <i>enormissimo peccado</i>.</p> + +<p>Coimbra,<br> + +4 de Fevereiro<br> + +da 1874</p> + +<p class="direita"><i>O Auctor.</i></p> + + +<h4>FIM.</h4> +<span class="pagenum"><a name="pag259">[259]</a></span> + + + + +<h1><a name="indece">INDECE</a></h1> + +<table border=0 width="100%"> + +<tr><td> </td><td> </td><td> </td><td>Pag.</td></tr> + +<tr><td> </td><td> </td><td><a href="#pag5">Dedicatoria</a></td><td><a href="#pag5">5</a></td></tr> + +<tr><td>Cap.</td><td>I</td><td><a href="#capI">Um baile</a></td><td><a href="#pag7">7</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>II</td><td><a href="#capII">A senhora Viscondessa</a></td><td><a href="#pag13">13</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>III</td><td><a href="#capIII">Alfredo</a></td><td><a href="#pag25">25</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>IV</td><td><a href="#capIV">Contrastes</a></td><td><a href="#pag37">37</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>V</td><td><a href="#capV">No restaurante</a></td><td><a href="#pag45">45</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>VI</td><td><a href="#capVI">Sem sahir do mundo</a></td><td><a href="#pag53">53</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>VII</td><td><a href="#capVII">Entre amigos</a></td><td><a href="#pag59">59</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>VIII</td><td><a href="#capVIII">De passagem</a></td><td><a href="#pag65">65</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>IX</td><td><a href="#capIX">Pobreza e miseria</a></td><td><a href="#pag71">71</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>X</td><td><a href="#capX">Cousas dos homens</a></td><td><a href="#pag79">79</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XI</td><td><a href="#capXI">Na taberna</a></td><td><a href="#pag85">85</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XII</td><td><a href="#capXII">Perigos e consequencias</a></td><td><a href="#pag91">91</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XIII</td><td><a href="#capXIII">Continuação</a></td><td><a href="#pag97">97</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XIV</td><td><a href="#capXIV">Novos mundos</a></td><td><a href="#pag103">103</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XV</td><td><a href="#capXV">Primeiros amores</a></td><td><a href="#pag107">107</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XVI</td><td><a href="#capXVI">Transformações</a></td><td><a href="#pag113">113</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XVII</td><td><a href="#capXVII">Allucinações</a></td><td><a href="#pag119">119</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XVIII</td><td><a href="#capXVIII">O escudeiro da senhora Viscondessa</a></td><td><a href="#pag125">125</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XIX</td><td><a href="#capXIX">Falla o coração</a></td><td><a href="#pag133">133</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XX</td><td><a href="#capXX">Casa burgueza</a></td><td><a href="#pag139">139</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXI</td><td><a href="#capXXI">Considerações</a></td><td><a href="#pag143">143</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXII</td><td><a href="#capXXII">Um hospede</a></td><td><a href="#pag149">149</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXIII</td><td><a href="#capXXIII">Transição</a></td><td><a href="#pag155">155</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXIV</td><td><a href="#capXXIV">Confidencia</a></td><td><a href="#pag161">161</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXV</td><td><a href="#capXXV">Mais confidencias</a></td><td><a href="#pag165">165</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXVI</td><td><a href="#capXXVI">A Viscondessa</a></td><td><a href="#pag171">171</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXVII</td><td><a href="#capXXVII">Digressão</a></td><td><a href="#pag170">170</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXVIII</td><td><a href="#capXXVIII">Ainda a Viscondessa</a></td><td><a href="#pag183">183</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXIX</td><td><a href="#capXXIX">Indecisões</a></td><td><a href="#pag189">189</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXX</td><td><a href="#capXXX">Glorias do operario</a></td><td><a href="#pag193">193</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXXI</td><td><a href="#capXXXI">O que faz o talento</a></td><td><a href="#pag190">190</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXXII</td><td><a href="#capXXXII">Vestigios e ruinas</a></td><td><a href="#pag203">203</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXXIII</td><td><a href="#capXXXIII">Causas e motivos</a></td><td><a href="#pag209">209</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXXIV</td><td><a href="#capXXXIV">Latet anguis</a></td><td><a href="#pag213">213</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXXV</td><td><a href="#capXXXV">Critica</a></td><td><a href="#pag219">219</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXXVI</td><td><a href="#capXXXVI">Toldam-se os horisontes</a></td><td><a href="#pag223">223</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXXVII</td><td><a href="#capXXXVII">Uma victima</a></td><td><a href="#pag229">229</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXXVIII</td><td><a href="#capXXXVIII">Julio feito barão</a></td><td><a href="#pag233">233</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XXXIX</td><td><a href="#capXXXIX">Denuncias e suspeitas</a></td><td><a href="#pag237">237</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XL</td><td><a href="#capXL">No hospital</a></td><td><a href="#pag243">243</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XLI</td><td><a href="#capXLI">Sorrisos e lagrimas</a></td><td><a href="#pag247">247</a></td></tr> + +<tr><td>«</td><td>XLII</td><td><a href="#capXLII">Tableau</a></td><td><a href="#pag251">251</a></td></tr> + +<tr><td> </td><td> </td><td><a href="#capEpilogo">Epilogo</a></td><td><a href="#pag253">253</a></td></tr> + +<tr><td> </td><td> </td><td><a href="#capPost-scriptum">Post-scriptum</a></td><td><a href="#pag255">255</a></td></tr> +</table> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Senhora Viscondessa, by +Sebastião de Magalhães Lima + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A SENHORA VISCONDESSA *** + +***** This file should be named 24710-h.htm or 24710-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/7/1/24710/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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