summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/24710-h
diff options
context:
space:
mode:
authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:14:06 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:14:06 -0700
commita156d2d8cd9cb50fb595e2438784b2fc4055672a (patch)
treeeb46c5b5b64622dfbbdd8610fc124270ab6d6bb2 /24710-h
initial commit of ebook 24710HEADmain
Diffstat (limited to '24710-h')
-rw-r--r--24710-h/24710-h.htm6044
1 files changed, 6044 insertions, 0 deletions
diff --git a/24710-h/24710-h.htm b/24710-h/24710-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..3218ec0
--- /dev/null
+++ b/24710-h/24710-h.htm
@@ -0,0 +1,6044 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd">
+<html>
+
+<head>
+ <title>A Senhora Viscondessa</title>
+ <meta name="GENERATOR" content="Quanta Plus">
+ <meta name="AUTHOR" content="Sebastião de Magalhães Lima">
+ <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1">
+ <meta name="KEYWORDS" content="">
+ <style type="text/css">
+ @media print {
+ .pagenum { display: none;}
+ }
+ @media handheld {
+ .pagenum { display: none;}
+ }
+ body {width: 520px; margin-left: 90px; text-align: justify;}
+ .pagenum {font-size: 0.8em; color: #999999; position:absolute; left: 630px;}
+ .capa {text-align: center; border: solid 1px #000000;}
+ hr {
+ border: none;
+ border-bottom: solid 2px #000000;
+ text-align: center;
+ }
+ h2, h3, h4, h5 {text-align: center;}
+ h1 {text-align: center; margin-top: 2em; margin-bottom: 2em;}
+ .small-caps {
+ font-variant: small-caps;
+ }
+ .direita {
+ text-align: right;
+ }
+ .centrado {
+ text-align: center;
+ }
+ .citacao {
+ margin-left: 40%;
+ margin-right: 5%;
+ font-size: 0.8em;
+ text-align: left;
+ }
+ .poesia {
+ margin: 2em;
+ text-align: left;
+ }
+ .rodape {
+ font-size: 0.8em;
+ margin: 2em;
+ }
+ .dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000000;}
+ .corpo {
+ text-indent: 1em;
+ }
+ </style>
+</head>
+<body>
+
+
+<pre>
+
+Project Gutenberg's A Senhora Viscondessa, by Sebastião de Magalhães Lima
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Senhora Viscondessa
+
+Author: Sebastião de Magalhães Lima
+
+Release Date: February 27, 2008 [EBook #24710]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A SENHORA VISCONDESSA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<span class="pagenum"><a name="pag1">[1]</a></span>
+
+<h1>A SENHORA VISCONDESSA</h1>
+
+<span class="pagenum"><a name="pag2">[2]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag3">[3]</a></span>
+
+<div class="capa">
+<br>
+<br>
+<p style="font-size: 2em;">A SENHORA VISCONDESSA</p>
+<br>
+<br>
+<p style="font-size: 1.2em;">ROMANCE ORIGINAL</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">S. DE MAGALHÃES LIMA</p>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<hr style="width: 6em;">
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<p>COIMBRA<br>
+
+Imprensa Commercial e Industrial<br>
+
+1875</p>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag5">[5]</a></span>
+
+<div style="margin: 2em; font-size: 1.2em;">
+<h2>A TI</h2>
+
+
+<p><i>A ti, que hoje és ideal, e que
+um dia serás mãe; a ti, que
+foste filha e que has de ser
+esposa; a ti, mulher, a ti,</i></p>
+
+<p class="direita">Consagro este livro.</p>
+
+<p class="direita"><i>Magalhães Lima</i></p>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag7">[7]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capI">I</a></h1>
+
+<h2>Um baile</h2>
+
+
+<p>Temos baile em casa da sr.<sup>a</sup> viscondessa de B***.</p>
+
+<p>Á porta do palacete param trens sem conta.
+Descem os convivas, profusamente almiscarados.</p>
+
+<p>No salão crusam-se os pares: <i>elles</i>, fragrantes,
+como uma rosa de Bengalla; <i>ellas</i>, voluptuosas e
+tépidas, como uma brisa do Oriente.</p>
+
+<p>A sala é vasta, enorme, quadrangular. A cada
+canto uma mesa de marmore oleosa e de difficil
+lavôr. Do tecto dourado e semicircular pende um
+<span class="pagenum"><a name="pag8">[8]</a></span>
+lustre de sessenta lumes, adornado de flores artificiaes
+e de vidrilhos verdes. A mobilia, de um estofo
+azul e assetinado, rivalisa em symetria com os
+mais encantados jardins de Granada.</p>
+
+<p>As janellas abertas atraiçoam os segredos dos
+namorados. Como relampagos, reflectem-se na praça
+as vertigens da walsa.</p>
+
+<p>Por sobre a sombra do arvoredo ondeia a luz
+phantasticamente. A cada um d'estes banhos despertam
+as aves nos seus ninhos. E a lua, a doce
+companheira da tristeza, vae illuminando o espaço,
+o mar e as solidões.</p>
+
+<p>As flores derramam uns aromas acres e inebriantes.
+N'um esplendido vaso de porcellana de
+<i>Sévres</i>, abre uma mimosa camelia as suas longas
+e avelludadas petalas.</p>
+
+<p>Umas plantas exoticas, orientaes, adornam o
+espaço ladrilhado das janellas de sacada.</p>
+
+<p>Entra a viscondessa na sala. Os grupos cessam
+de falar. Em redor d'ella tudo se apinha, tudo se
+confunde, tudo se baralha.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag9">[9]</a></span>
+
+<p>A valsa recomeça. Nos espelhos de crystal reflectem-se
+as estranhas imagens, que, n'esta noite,
+povoam o salão. Sobre as piscinas de marmore debruçam-se
+as avesinhas artificiaes--pobres avesinhas
+implumes feitas de pedra e de calcareo.</p>
+
+<p>Estremecem docemente os cortinados da janella.
+Os peitos arfam de cançados; e na parede
+o papel, como que exhala uns mysteriosos e prolongados
+calores.</p>
+
+<p>--Quer v. ex.<sup>a</sup> conceder-me esta valsa?--diz
+um cavalheiro, offerecendo o braço a uma gentil
+dama de vinte annos.</p>
+
+<p>E entrou no turbilhão.</p>
+
+<p>--Mas perdão, senhora viscondessa... bem vê
+que na minha posição...</p>
+
+<p>--Acompanhe-me, Alfredo.</p>
+
+<p>E os dois seguiram para uma saleta proxima,
+situada á direita do salão.</p>
+
+<p>Os creados serviram o chá. Na varanda fumavam
+e conversavam os cavalheiros. Algumas senhoras
+<span class="pagenum"><a name="pag10">[10]</a></span>
+refaziam a sua <i>toilette</i>, em parte desfeita pelos
+ardores da dança.</p>
+
+<p>--E acredita a senhora viscondessa, que eu
+realmente lhe podesse ser affeiçoado nas condições
+em que me acho?</p>
+
+<p>--E por que não, Alfredo, se eu o amo loucamente.</p>
+
+<p>Um leve ruido interrompeu o dialogo.</p>
+
+<p>A saleta era assaz confortavel. Uns moveis escuros
+a guarneciam tristemente. Ao longo da parede
+destacavam uns quadros sombrios, meigos,
+phantasticos. Em cima do fogão agitava-se o pendulo
+do relogio, como se effectivamente nos quizesse
+recordar uma pulsação dolorosa.</p>
+
+<p>A viscondessa, airosamente sentada n'um fofo
+sophá, volvia os olhos nervosos na direcção da
+porta do baile.</p>
+
+<p>--Ninguem nos ouvirá--exclamava ella de si
+para si.</p>
+
+<p>E continuou a fallar para Alfredo, que, a longos
+<span class="pagenum"><a name="pag11">[11]</a></span>
+passos, percorria a sala de um a outro extremo.</p>
+
+<p>Entretanto a orchestra convidava a uma quadrilha.</p>
+
+<p>Um elegante moço entrou na saleta.</p>
+
+<p>--Venho lembrar a v. ex.<sup>a</sup>, minha senhora,
+que esta quadrilha me pertence.</p>
+
+<p>A viscondessa acompanhou-o.</p>
+
+<p>Alfredo só, roia um charuto furiosamente,
+quando novo ruido o despertou.</p>
+
+<p>Defronte d'elle, e ameaçando-o com um punhal,
+estava um rapaz, cheio de febre, de odio e de vingança.</p>
+
+<p>--Ouvi tudo--exclamou o intruso. Ou tu me
+promettes nunca amar a viscondessa, ou eu te assassino
+aqui, como um miseravel que és.</p>
+
+<p>--Nunca!...--vociferou Alfredo, arrancando-lhe
+o punhal da mão. Primeiro cahirás tu, desgraçado.
+Já, já fora d'esta casa.......................</p>
+
+<hr style="border-bottom: dotted 2px #000000;">
+
+<p>Este incidente, como é natural, perturbou a
+<span class="pagenum"><a name="pag12">[12]</a></span>
+quadrilha, que então se dançava. Acorreram todos.
+Os dois contendores haviam desapparecido da
+saleta.</p>
+
+<p>O baile continuou.
+<span class="pagenum"><a name="pag13">[13]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capII">II</a></h1>
+
+<h2>A Senhora Viscondessa</h2>
+
+
+<p>É uma mulher da moda--chlorotica, anemica,
+febril.</p>
+
+<p>Olhar vivo, e transparente, como um chrystal.
+Na sua doce pallidez o que quer que seja das visões
+de Schiller. No andar, porte altivo, donairoso,
+esbelto. As longas insomnias, apaixonadas, tornaram-n'a
+triste e contemplativa, como uma virgem
+de Murillo.</p>
+
+<p>É viscondessa; faz muitas esmolas e possue
+trens faustuosos.
+<span class="pagenum"><a name="pag14">[14]</a></span>
+
+<p>Acabam de soar duas horas nos relogios da cidade.
+Um calor intenso abrasa as calçadas. Corria
+o mez de Maio de 1859. No Largo de Camões, o
+sol, batendo de chapa, sobre um telhado visinho,
+reflectira-se estranhamente nos aposentos da viscondessa.</p>
+
+<p>No corredor presentira-se o ranger de um leito.
+O cortinado de cambraia foi delicadamente afastado
+por uma mão de marfim, pequena e esculptural.</p>
+
+<p>--Virginia, Virginia--gritou uma voz sonora,
+de timbre metalico e adocicado.</p>
+
+<p>A porta do quarto, abrindo-se, deixou entre
+vêr o rosto de uma formosa creança, loura como
+um cherubim e tentadora como Eva.</p>
+
+<p>--V. ex.<sup>a</sup> chamou, minha senhora?</p>
+
+<p>--Sim, chamei.--Traze-me o meu roupão
+branco e vem ajudar-me a vestir.</p>
+
+<p>E a viscondessa, bocejando infantilmente tornou
+a cahir no travesseiro, doida de somno e ébria
+de amor.</p>
+
+<p>Adormeceu de novo.
+<span class="pagenum"><a name="pag15">[15]</a></span>
+
+<p>Uma hora volvida veio Virginia encontral-a sentada
+n'uma poltrona, defronte do espelho.</p>
+
+<p>Fingia que lia. Do regaço pendia-lhe um romance
+francez. Com a mão direita desviava as tranças
+fartas, que, por vezes caprichavam em cahir-lhe
+sobre o peito. O braço esquerdo, abraçando o
+espaldar da cadeira, servia-lhe de encosto.</p>
+
+<p>De subito ergueu-se como uma estatua. Procurou
+um pente e largou-o com desfastio. Olhou
+para o relogio, tocou a campainha, e tornou a sentar-se.</p>
+
+<p>--Estou aqui, minha senhora. Deseja alguma
+cousa?</p>
+
+<p>--Ah! Estavas aqui. Ora vejam que cabeça a
+minha que nem sequer havia dado por tal.--Manda-me
+arranjar o almoço, anda.</p>
+
+<p>--Por mais que me digam a senhora não anda
+bôa--murmurava a ladina da creada, correndo
+espevitadamente.</p>
+
+<p>A viscondessa, sempre inquieta, ergueu-se novamente.
+Percorreu o corredor e entrou na sala
+<span class="pagenum"><a name="pag16">[16]</a></span>
+de jantar. Dirigiu se a um periquito, que ali tinha,
+tirou-o da gaiola e começou de afagal-o meigamente.</p>
+
+<p>--Coitadinho do meu <i>bijou</i>--exclamava ella
+com doçura.</p>
+
+<p>Foi-se depois ao canario, trouxe-o para a mesa,
+e destribuindo com elle a comida, que mal provava,
+introduziu-o no seio.</p>
+
+<p>Um cão pequeno, felpudo, ensaboado e luzente,
+como verniz, fazia <i>pendant</i> com os dois personagens,
+acima descriptos. <i>Joli</i> lhe chamava a viscondessa.
+Nunca sahia da sala de jantar. Era o seu
+theatro d'elle. Ali aprendêra a ser guloso e concupiscente.
+Quando a senhora chegava, elle, de um
+pulo, saltando lhe ao regaço, para logo principiava
+de lamber-lhe as faces e os cabellos. A dona da
+casa aceitára, sem repugnancia, este tributo quotidiano.</p>
+
+<p>Alêm do cão havia um gato maltez, elastico,
+como uma serpente e indolente como um chin.</p>
+
+<p>Entre o cão e o gato existia uma mediadora:
+<span class="pagenum"><a name="pag17">[17]</a></span>
+era a viscondessa. Por fim os dois rivaes fizeram
+tréguas. Chegaram até a comer no mesmo prato,
+brincando como dois amigos.</p>
+
+<p>Nos seus dias de melancholia, a viscondessa,
+orphã de pae e mãe, sem parentes, só no mundo
+e senhora de ricos haveres, reunindo em redor de
+si tão variada e interessante familia, sentia-se mais
+feliz, e porventura mais esquecida do que nunca.</p>
+
+<p>O gato aquecia, o cão lambia, e as aves entretinham,
+cantando.</p>
+
+<p>Emfim bateram quatro horas. A Viscondessa
+bocejou mais uma vez.</p>
+
+<p>--Se elle, ao menos, me amasse...--dizia ella,
+erguendo-se.</p>
+
+<p>E, continuando pelo corredor, entrou no <i>boudoir</i>,
+onde a esperava a cabelleireira.</p>
+
+<p>Vestiu um chambrão de cachemira azul; e,
+sentando-se na cadeira que lhe offereceram divagou,
+ao acaso, durante uma hora.</p>
+
+<p>Quando acordou estava realmente encantadora.
+<span class="pagenum"><a name="pag18">[18]</a></span>
+
+<p>O cabello, frisado a capricho, imprimia-lhe um
+aspecto senhoril e grave. O rosto desanuviara-se-lhe.
+Foi ao espelho, e, como flôr que ao sol desabrocha,
+sorriu-se maliciosamente.</p>
+
+<p>--Achas-me bonita, assim?--perguntou ella
+a Virginia.</p>
+
+<p>--Deslumbrante--minha rica senhora.</p>
+
+<p>E a viscondessa, toda vaidade e tentação, foi-se
+até á cosinha, pretextando umas ordens para o
+jantar.</p>
+
+<p>Voltou depois ao quarto. A um ligeiro impulso
+cahira-lhe o roupão. Sorrindo-se, envergou umas
+saias pesadas e cheias de gomma. Remirou-se novamente
+ao espelho. Com um pincel, mergulhado
+em carmim, deu côr ao rosto, naturalmente desmaiado.
+Apertado o espartilho e collocada a <i>tournure</i>
+enfiou um rico vestido de setim. Chamou Virginia
+e pediu alfinetes. Pregou o vestido, pregou
+o cabello, pregou as saias, pregou-se a si e sahiu
+do <i>boudoir</i>.
+<span class="pagenum"><a name="pag19">[19]</a></span>
+
+<p>--Ora esta! e não me ia agora esquecendo o
+<i>crême imperatrice</i>--monologava ella, voltando á
+saleta.</p>
+
+<p>Defronte do espelho, recuando dois passos e
+fazendo tregeitos para um o outro lado, empoeirou-se
+gravemente.</p>
+
+<p>Extrahiu do gavetão um lenço de cambraia;
+destapou um vidrito de <i>jockey-club</i>, perfumou-se
+e entrou na sala do baile.</p>
+
+<p>O piano estava aberto. A viscondessa sentou-se.
+Dedilhou, ao acaso, uma escala e aborreceu-se.</p>
+
+<p>Olhou para um espelho, mudou um dos ganchos
+do cabello e abriu a janella.</p>
+
+<p>Uma brisa tépida soprava apenas. O sol ia declinando
+no horisonte. Nas ruas mexiam-se as multidões
+apressadamente. Alguns cavalheiros de chapéu
+na mão limpavam o suor da testa. As damas,
+mesmo á janella, agitavam os leques phreneticamente.
+Os freguezes entravam nos botequins, e
+pediam sorvetes.
+<span class="pagenum"><a name="pag20">[20]</a></span>
+
+<p>Estava proxima a hora do passeio, a hora de
+luar, a hora de amor.</p>
+
+<p>Seriam oito horas, quando a viscondessa cerrou
+a janella. Chegára-lhe finalmente a vontade de
+jantar.</p>
+
+<p>Caminhou lentamente, deixando após de si um
+rumor surdo, e mui semelhante ao remexer de folhas,
+agitadas pelo vento.</p>
+
+<p>Insaciavel, hysterica, nervosa, sentou-se á mesa
+pela segunda vez n'aquelle dia. Provou de tudo
+sem comer de nada. Bebeu um gólo de <i>malvasia</i>
+e fez-lhe uma careta insupportavel. Limpou os labios
+de coral e mandou arranjar o trem.</p>
+
+<p>Prompta a carruagem e calçadas as luvas dirigiu-se
+para o theatro de D. Maria.</p>
+
+<p>Representava-se a <i>Vida de um rapaz</i> pobre n'essa
+noite. A Viscondessa admiravel de bellesa e encanto,
+provocava de continuo os binoculos das
+plateias.</p>
+
+<p>No fim do 3.<sup>o</sup> acto a porta da frisa abriu-se.
+<span class="pagenum"><a name="pag21">[21]</a></span>
+Era Alfredo que entrava. A Viscondessa sorriu-se.</p>
+
+<p>--Sabe, Alfredo, que o esperei hoje todo o
+dia?</p>
+
+<p>--E não o ter eu adivinhado, senhora viscondessa?</p>
+
+<p>--Se imaginasse o aborrecimento em que vivo
+decerto não seria tão cruel para commigo.</p>
+
+<p>--Mas, minha senhora, a minha posição... emfim...
+eu não sei...V. ex.<sup>a</sup>...</p>
+
+<p>E a orchestra, tocando uma symphonia, deu o
+signal de despedida.</p>
+
+<p>--Alfredo, enleiado e timido, sahiu da frisa.
+A Viscondessa cumprimentou-o, e, como sempre
+sorriu-se tristemente. O espectaculo continuou.</p>
+
+<p>Á sahida do theatro, quando a Viscondessa,
+acompanhada por um creado, punha o pé direito
+no estribo da carruagem um desconhecido, abeirando-se
+d'ella entregára-lhe um pequeno bilhete,
+ligeiramente perfumado.</p>
+
+<p>Os cavallos partiram a galope. Apenas chegada
+<span class="pagenum"><a name="pag22">[22]</a></span>
+a casa, a senhora, toda receio e anciedade, abriu
+o bilhete.</p>
+
+<p>Desengano, desengano cruel! Não era de Alfredo
+a letra...</p>
+
+<p>Mas de quem poderia ser? A quem attribuir
+aquellas palavras ardentes?</p>
+
+<p>«Amo-te--escrevêra o anonymo.--Doidamente
+te amo. Tu decidirás da minha sorte. Sou pobre,
+sou operario. Embora! Hei de conquistar-te ainda
+mesmo atravez do sangue do meu rival.</p>
+
+<p>--Sempre é muito atrevido!...--exclamava a
+viscondessa, despindo-se já.</p>
+
+<p>Acendeu depois um charuto, um excellente charuto
+havano.</p>
+
+<p>A pouco e pouco foram-se-lhe os olhos estreitando.
+Para um lado pendeu a cabeça abrasada, e
+para outro o braço, cuja mão deixava cahir o charuto,
+quasi apagado.</p>
+
+<p>Languida, abatida, sensual a senhora adormeceu
+finalmente.
+<span class="pagenum"><a name="pag23">[23]</a></span>
+
+<p>Virginia chegára pé ante pé e retirára a luz.
+O palacete, envolto em trévas, acompanhára o somno
+da sua rainha.</p>
+
+<p>E assim se passava a vida da Viscondessa.
+<span class="pagenum"><a name="pag24">[24]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag25">[25]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capIII">III</a></h1>
+
+<h2>Alfredo</h2>
+
+
+<p>Alfredo da Silveira nascêra embalado pelos sorrisos
+da fortuna.</p>
+
+<p>Teve uma casa que vendeu. E que bonita casa!
+Situada na orla da praia extendia-se deante d'ella
+o oceano como um vasto lençol, cujas dobras phantasticas
+se encolhiam e desencolhiam, consoante as
+horas e as marés.</p>
+
+<p>N'essa casa viu a luz Alfredo. Ahi, envolto com
+o maternal carinho, aprendera elle a entoar as primeiras
+trovas da infancia; ahi tambem suspiroso,
+<span class="pagenum"><a name="pag26">[26]</a></span>
+como um lago, e candido, como o céu, aprendêra
+a ser um filho honrado e um cidadão benemerito.</p>
+
+<p>Mas a infancia, esvaecida n'uma manhã de rosas,
+deixára após de si o lucto de um coração e
+a orphandade de uma familia.</p>
+
+<p>A solitaria vivenda, circundada de festões e
+madre-silvas, sentira-se isolada e triste. Na viração
+da tarde já as flores silvestres não derramavam,
+como outr'ora, uns aromas tão vivos e tão
+profundamente salutares e amenos.</p>
+
+<p>Ausentara-se dali a mulher angelica, boa, virtuosa,
+cujo espirito, evolado nas azas da saudade,
+fôra perante Deus rogar pela felicidade de seu unico
+filho.</p>
+
+<p>E Alfredo chorou e chorou deveras...</p>
+
+<p>Estava, porêm, na primavera da vida. Auspiciado
+pelas brisas da mocidade demandou a capital,
+cujo ruido o captava em extremo.</p>
+
+<p>Dirigiu-se para Lisbôa e ahi fixou residencia.</p>
+
+<p>Para qualquer que o visse seria o seu rosto
+<span class="pagenum"><a name="pag27">[27]</a></span>
+gentil e levemente effeminado o mais seguro passa-porte
+de uma fina e aprimorada educação.</p>
+
+<p>Usava de ordinario fato preto a que dava realçe
+uma esplendida camelia, artisticamente collocada
+na <i>boutonniére</i>.</p>
+
+<p>Elegiaco por condição nada havia que o satisfizesse.
+Um vacúo immenso lhe torturava a existencia.
+Filho do tédio e vivendo para o tédio o seu
+espirito, agrilhoado por uma nostalgia sem limites,
+experimentava de continúo um mal-estar insupportavel,
+atroz, corrosivo, e porventura uma doença
+impossivel de definir-se.</p>
+
+<p>A sua compleição delicada, e consumida pelos
+vinhos, agitava-se alternadamente entre dois mundos
+infinitos e contradictorios. Amava e não amava,
+queria e não queria, pensava e não pensava.</p>
+
+<p>Alto, magro, nervoso tudo o impressionava
+com uma fatalidade irresistivel. O mundo era-lhe
+um phantasma sombrio, chimerico, cuja sombra
+elle amaldiaçoava, a todas as horas, no café, na rua,
+no bordel, na sociedade emfim.
+<span class="pagenum"><a name="pag28">[28]</a></span>
+
+<p>Mulheres havia que sonhavam com o seu bigode
+louro, a sua cabelleira phantastica, e os seus
+sorrisos provocadores, ingenuos e ligeiramente ironicos.</p>
+
+<p>Elle, porêm, detestava as mulheres em espirito,
+aproveitando-lhes o corpo e a carne, como
+um mero passa-tempo social.</p>
+
+<p>Só uma vez amou, e, como Christo, doidamente,
+loucamente, profundamente.</p>
+
+<p>Então foi ditoso muito ditoso.</p>
+
+<p>A felicidade mirara-se n'elle, como uma donzella
+no seu espelho. Não lhe faltaram nem as crenças
+do berço nem as extravagancias da juventude.
+Tudo lhe sorrira, desde o leito que primeiro o amamentou
+até ao vinho, ao terrivel vinho que ultimamente
+o prostituiu.</p>
+
+<p>Fôra ditoso...</p>
+
+<p>Viajando viu muita coisa!</p>
+
+<p>Viu mulheres novas que se abandonavam aos
+velhos; creanças loucas que se entregavam ás orgias,
+cuspindo na face das mães; politicos mercenarios,
+<span class="pagenum"><a name="pag29">[29]</a></span>
+que, á maneira das mulheres de Babylonia,
+alugavam ao primeiro, que na estrada passava, a
+honra e a consciencia; exploradores sem conta,
+eternas Shylocks da publica miseria; paes que despresavam
+os filhos, irmãos que matavam os irmãos,
+mães que vendiam as filhas.</p>
+
+<p>Viu muita coisa...</p>
+
+<p>Passeando, admirou muito!</p>
+
+<p>No Oriente encontrou mulheres formosas, pallidas,
+sansuaes. Depois passou á Grecia, a sábia,
+a divina mãe, onde Corina mais tarde teve o seu
+berço de flores. E ainda percorreu Roma, aquella
+Roma dos Cesares e da <i>rocha tarpeia</i> e Verona a
+patria de Julietta, e a Escocia o theatro de Macbeth.</p>
+
+<p>Admirou muito...</p>
+
+<p>Bebeu sempre!</p>
+
+<p>Provou o incomparavel tokai, esplendido <i>falerno</i>
+dos tempos modernos, encheu-se de absyntho
+e saboreou o alcool com delicia.</p>
+
+<p>Bebeu sempre...
+<span class="pagenum"><a name="pag30">[30]</a></span>
+
+<p>Fumou com ardôr!</p>
+
+<p>O chibuca, o opio, o havano tudo lhe embriagou
+os sentidos, fazendo d'elle uma alma pagã e
+um corpo lascivo, môrno, cheio de tédio e de languidez.</p>
+
+<p>Fumou com ardor...</p>
+
+<p>Amou delirantemente!</p>
+
+<p>Lembro-me tão bem...</p>
+
+<p>A onda brincava travêssa sobre a praia longinqua.
+Uma brisa tépida, apenas, semelhando um leque
+de plumas, agitava docemente as vagas do
+Oceano. Como o arfar de uma mulher aos vinte
+annos, assim a natureza suspirava languida, nervosa,
+etherea.</p>
+
+<p>E ao longe, atravez das brumas phantasticas,
+scintillaram seus vestidos brancos, suas faces pallidas
+e seu olhar azul.</p>
+
+<p>Sorrira-lhe pela primeira vez o ideal no horisonte
+da vida.</p>
+
+<p>Aproveitou a serenidade do crepusculo para
+lhe fallar. Disse-lhe o que sentia. A creança encarou-o
+<span class="pagenum"><a name="pag31">[31]</a></span>
+duas, tres, quatro, cinco vezes, sorrindo-se
+amavelmente.</p>
+
+<p>Volvidos dias tornou-se a encontrar com ella
+n'um immenso, escuro pinhal. Ali confidenciaram
+largamente. Juraram amar-se.</p>
+
+<p>E elle na sua louca estulta ingenuidade ousou
+acredital-a.</p>
+
+<p>Desgraçado do moço, que tinha um coração,
+impossivel de esmagar.</p>
+
+<p>Quando, passados annos, lhe disseram que ella
+se havia tornado uma grande mulher do mundo,
+a eterna <i>bas-bleu</i> dos salões, sentiu-se inanimado
+quasi, imbelle, exangue.</p>
+
+<p>Tentou afastar de si o gélido phantasma que o
+perseguia sem cessar, e que mesmo em vida lhe
+seria triste mortalha. Em cata d'ella correu, voou.
+Precipitou-se, finalmente n'um theatro, onde, pela
+quarta vez, a contemplou mais scintillante que uma
+esmeralda e mais loura ainda que um archanjo.</p>
+
+<p>Á sahida do espectaculo experimentou um estranho
+choque no seu hombro direito. Olhou e
+<span class="pagenum"><a name="pag32">[32]</a></span>
+viu-a a ella que lhe acenava com uma das mãos.
+Aproximou-se então. No lagedo da sala existia um
+pequeno bilhete que elle apanhou cuidadosamente.</p>
+
+<p>«Espero-o amanhã, á uma hora da tarde»--escrevêra
+ella a lapis.</p>
+
+<p>E, cheio de anciedade, tambem elle esperou
+pela aprazada hora.</p>
+
+<p>Ao penetrar no seu quarto, d'ella, tremeu involuntariamente.
+Um singular ruido lhe captou os
+sentidos. Emilia jogava, e, na febre do jogo, ria
+descompostamente.</p>
+
+<p>Sentou-se ao lado de um desconhecido.</p>
+
+<p>Terminado o jogo seguira-se o <i>Cognac</i>.</p>
+
+<p>Beberam todos.</p>
+
+<p>Emilia levantou-se depois, e cerrou hermeticamente
+todas as janellas do quarto. Derramaram-se
+perfumes em larga escala. No centro foi collocado
+um braseiro.</p>
+
+<p>D'entro em duas horas estavam todos adormecidos.
+Só Alfredo, sentindo-se abafado, morto, enraivecido
+e não podendo conter mais a asphyxia
+<span class="pagenum"><a name="pag33">[33]</a></span>
+que lentamente o devorava, começou de gritar terrivelmente,
+terminando por desfechar dois tiros de
+revolver na direcção da porta de entrada.</p>
+
+<p>Acorreu muita gente. A porta foi arrombada.</p>
+
+<p>Entraram todos.</p>
+
+<p>O feio silencio do tumulo envolvia a casa
+d'aquella mulher. Para um lado seis cadaveres de
+homens com os olhos arregalados, a bocca semi-aberta
+e o corpo ensanguentado; para outro lado
+uma mulher com os vestidos rotos, o cabello arrancado
+e as faces horrivelmente maceradas.</p>
+
+<p>«Emilia, Emilia...--exclamava elle repetidas
+vezes.</p>
+
+<p>E só os echos repeliam:</p>
+
+<p>«Emilia, Emilia...<sup><a href="#nota1" name="bnota1">[1]</a></sup></p>
+
+<p>Desde então para cá Alfredo, endurecido no
+cynismo e na indifferença, tem arrastado uma vida
+monotona, semsabor, aborrecida.</p>
+<span class="pagenum"><a name="pag34">[34]</a></span>
+
+<p>Levanta-se ordinariamente á uma hora da tarde
+doente, triste, sonhando uns males terriveis, imaginarios.</p>
+
+<p>Não almoça nunca. O appetite fugiu-lhe com
+as extravagancias do estomago. Nem mesmo tem
+já paladar.</p>
+
+<p>Percorre as ruas authomaticamente olhando as
+<i>vitrines</i> das lojas, a cujas esquinas estaciona.</p>
+
+<p>Frequenta os bailes, mais por uma necessidade
+de espirito do que por um enthusiasmo juvenil.</p>
+
+<p>Como Falstaff ceia muito: espantosamente, loucamente.
+Pela madrugada recolhe-se a um quarto
+solitario, que alugou e onde vive só, sem creado
+nem creada.</p>
+
+<p>Lê e escreve no restaurante, sua habitual residencia.</p>
+
+<p>Na noite em que o encontrámos no salão da
+viscondessa, recolhia-se elle a casa mais melancholico
+do que o costume.</p>
+
+<p>--Mas quem será o maldito rival?--monologava
+<span class="pagenum"><a name="pag35">[35]</a></span>
+elle de si para comsigo. Acham pouco ainda?
+pois bem. Tambem tu cahirás, minha querida viscondessa.
+Tentou-te o demonio estupido: serás
+uma das suas victimas.</p>
+
+<p>E entrou no café.
+
+<div class="rodape">
+<p><a href="#bnota1" name="nota1">[1]</a> Este facto que para muitos passará por inverosimil, deu-se, todavia,
+proximo de Lisbôa, em 1854.</p>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag36">[36]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag37">[37]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capIV">IV</a></h1>
+
+<h2>Contrastes</h2>
+
+
+<p>O amor é o laço que une duas almas.</p>
+
+<p>Quando as tempestades rugem, e os ventos bramem,
+e os mares se encapellam, a mãe, candido
+alento, apertando o filho contra o peito, diz amor;
+e o amor que é medo, afujenta o medo, e o amor,
+que é aprehensão, combate a aprehensão, e o amor,
+que é timidez, destróe a timidez.</p>
+
+<p>Felizes, mil vezes, aquelles, que sabem amar e
+que tambem são amados!</p>
+
+<p>A vida, sombria em si desabrocha por um
+<span class="pagenum"><a name="pag38">[38]</a></span>
+beijo de mãe; e n'esse beijo, sêllo de Deus sobre
+a terra, que immensa effusão de affectos e que
+nobilissimo trasbordar de enthusiasmo.</p>
+
+<p>Ó minha mãe, ó meu abrigo, tu, com o teu
+coração, foste o anjo providencial, que em mim
+encarnaste o sentimento do bem.</p>
+
+<p>No esplendido poema da creação, em que tomam
+parte as aves com os seus cantos maviosos
+e os homens com o seu trabalho, quasi se poderia
+dizer que um suave perfume, ethereo e subtil, põe
+a terra em communicação com o céu.</p>
+
+<p>Perguntae ao rio, porque geme, e ao oceano,
+porque brame, e ás arvores, porque crescem, e á
+terra, porque produz, e á nuvem, porque corre, e
+á flor, porque perfúma? Perguntae...</p>
+
+<p>Amar, ser amado...--que sublime virtude, minhas
+senhoras.</p>
+
+<p>Ás horas da tristesa, á tardinha, n'aquelles raros
+momentos, em que as arvores, estatuas da melancholia,
+nos deixam ouvir um funebre soluço; á
+hora em que o gentil pegureiro desfere na frauta
+<span class="pagenum"><a name="pag39">[39]</a></span>
+umas sentidas notas; n'essa hora em que os crentes,
+saudando o creador, ajoelham aos pés da cruz:--como
+não é esplendida a visão do nosso espirito,
+iriada pelas mil côres da ventura e do amor.</p>
+
+<p>Apparecei, sonhos da mocidade! Surgi de novo,
+ó santas crenças da minha vida!</p>
+
+<p>Porque é que, com os primeiros raios do amor,
+desapparecem as alegrias primeiras, os indiscretos
+descuidos da infancia, os mimosos cantares da meninice?</p>
+
+<p>Porque é que a mulher, amando, deixa de se
+pertencer a si, perdendo a individualidade e a iniciativa,
+a fim de se consagrar exclusivamente a um
+homem, ideal de perfeição e de virtude?</p>
+
+<p>Porque é que o amor nos faz tristes, abatidos
+e concentrados?</p>
+
+<p>Quem não sentiria, uma vez, ao menos, na sua
+vida, a dôr, que nos arrebata o coração e as lagrimas
+que nos inundam os olhos, ao despedir-mo-nos
+da pessoa que amamos?</p>
+
+<p>Mulheres, que tendes amado o que na austeridade
+<span class="pagenum"><a name="pag40">[40]</a></span>
+do sacrificio, tendes aprendido a virtude e o
+desinteresse--fallae por mim.</p>
+
+<p>Homens, que em meio de vossos trabalhos e
+avergados ao peso das paixões vos sentis, muitas
+vezes, desfallecer--abri o coração, mostrae a dôr
+que vos opprime.</p>
+
+<p>É doce o amor--pensa o mundo. Mas para
+amar, quantas inquietações, quantos supplicios!</p>
+
+<p>É verdade que todos invejam uma mulher amada;
+é verdade que todos anceiam esse ineffavel
+momento, de poder dizer a um ser bom, generoso,
+sincero, sympathico, um ser, que nos delicia pelo
+seu olhar e que nos apraz pela sua bellesa--amo-te,
+sou teu; sim, sou teu, porque tu és o bom
+amigo sonhado em noites de intimos affectos; adoro-te,
+porque tu és a minha inspiração, a minha
+alma, a minha vida, o meu eterno pensamento:
+mas para tudo isto que lucta, que enorme lucta,
+meu Deus!</p>
+
+<p>Amar é comprehender: comprehender a verdade,
+elevar-se ao bem pela contemplação do que é
+<span class="pagenum"><a name="pag41">[41]</a></span>
+perfeito, subir até ao bello, guindar-se até ás luminosas
+regiões da arte e da consciencia.</p>
+
+<p>O mundo fica-nos para traz; esquecem-nos as
+ambições; perdem-se os enthusiasmos; fojem-nos
+as lucidas chimeras da juventude: tudo se desvanece
+pelo amor.</p>
+
+<p>Amar, ter um filho... que superior ventura se
+póde comparar a esta?</p>
+
+<p>Um filho é uma parte de nós mesmo, uma
+continuação do nosso nome, da nossa existencia,
+do nosso viver.</p>
+
+<p>Um filho?!... Quem se não terá enternecido
+ao contemplar essas louras creanças, vestidas de
+branco, e que, durante o dia, brincam nos jardins?</p>
+
+<p>Um filho?!</p>
+
+<p>Como é bella esta palavra e como ella sôa bem
+aos nossos ouvidos.</p>
+
+<p>Ó santo amor paternal, ó paes, ó mães--vós
+que tendes chorado com as dores de vossos filhos
+<span class="pagenum"><a name="pag42">[42]</a></span>
+e rido com as suas alegrias--dizei-nos--haverá,
+porventura, n'este mundo felicidade que se vos
+compare?</p>
+
+<p>O amor de mãe é muito, mas não é tudo. Aos
+quinze annos, todos nós sentimos um vago ideal,
+que nos illumina o espirito, umas seductoras imagens
+que nos transportam a um ser longinqúo, mas
+realmente existente, um ser que é nosso, porque
+o sonhamos e que nos pertence, porque desde a
+infancia o anteviramos, claro, limpido, transparente,
+á semelhança de um horisonte que um dia
+contemplamos e que não mais nos esquece.</p>
+
+<p>Esse ser é um marido; esse ser é uma esposa:
+um vinculo os prende--o amor; um ideal os incita--os
+filhos; uma virtude os reune--a conveniencia.</p>
+
+<p>Á viscondessa tambem lhe chegára a sua vez.
+Sonhára e fora feliz. Alfredo era o doce amante,
+que lhe alimentava a phantasia ardente; Alfredo,
+o louro rapaz, era a formosa visão, que aos quinze
+<span class="pagenum"><a name="pag43">[43]</a></span>
+annos, ella tivera por companheira inseparavel da
+sua vida.</p>
+
+<p>Sejamos como a viscondessa. Amemos e seremos
+felizes.
+<span class="pagenum"><a name="pag44">[44]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag45">[45]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capV">V</a></h1>
+
+<h2>No restaurante</h2>
+
+
+<p>Um mez volvido, após os acontecimentos, acima
+descriptos,--em Junho de 59--entrava eu casualmente
+n'um café do <i>Caes do Sodré</i>, situado por
+baixo do <i>Grand Hotel Central</i>--quando ouvi a
+voz de Alfredo, que de longe me chamava.</p>
+
+<p>Ebrio e tumultuoso extendeu-me a mão direita,
+offerecendo-me um banco de palhinha em um dos
+extremos da mesa.</p>
+
+<p>Com elle estavam quatro amigos, por egual risonhos
+e embriagados.
+<span class="pagenum"><a name="pag46">[46]</a></span>
+
+<p>Sobre a pedra de marmore, pegajosa e cheia
+de cinsa de charuto, viam-se entre outras cousas
+cinco chavenas de café, quasi esgotadas, duas garrafas
+de cognac e uma de absyntho.</p>
+
+<p>--Não podias vir em melhor occasião--exclamava
+Alfredo com o cotovello direito apoiado sobre
+a mesa e a cabeça inclinada sobre a mão.</p>
+
+<p>--Antes de mais, vae-me bebendo esse cognac
+e ouve-me depois.</p>
+
+<p>Alfredo tirou em seguida um masso de cartas
+do bolso interior da sobrecasaca, e desatando uma
+fita verde que as envolvia, começou de abrir uma
+por uma.</p>
+
+<p>--Mal sabem vocês que temos por aqui uma
+paixão fidalga. Nem mais nem menos do que de
+uma viscondessa.</p>
+
+<p>Esgotou um calix de absyntho, accendeu o charuto
+e encetou a leitura.</p>
+
+<hr style="border-bottom: dotted 2px #000000;">
+
+<p>«Meu bom Alfredo.--Sabes que te amo e que
+te amo devéras. Não se passa uma hora, um minuto,
+<span class="pagenum"><a name="pag47">[47]</a></span>
+um instante em que a tua doce imagem,
+pura como Eva...</p>
+
+<p>--Devem notar que este pura como Eva tem
+sua graça e é original--reflexionava Alfredo.--Ah!
+Evas! ah, puras! ah, vestaes do lodo e da
+chocarrice...</p>
+
+<p>«... pura como Eva, não venha irradiar-se sobre
+mim como luz redemptora e supremo consolo.
+Nem eu sei dizer-te o que sinto, meu amigo. Tenho
+ciumes dos que te acompanham. E não ser eu
+tambem homem para te seguir sempre e por toda
+a parte!</p>
+
+<p>--Variante á mulher-homem de Girardin...
+Adeante.</p>
+
+<p>«Que triste condição a da mulher, impellida a
+viver isolada do mundo e da sociedade...</p>
+
+<p>--Sim, sim, bem te entendo, meu anjo.</p>
+
+<p>«Vem, Alfredo, vem; vem ver-me muitas vezes,
+se queres que eu viva feliz e alegre.»</p>
+
+<p>«A Viscondessa de B***.»
+<span class="pagenum"><a name="pag48">[48]</a></span>
+
+<p>--Ora aqui teem Vocês o primeiro specimen
+da feminil intelligencia. Vamos ás outras e sem
+commentarios.</p>
+
+<p>E n'isto Alfredo esvasiou de novo um calix de
+absyntho.</p>
+
+<p>«Meu unico amigo.--Uma immensa, uma profunda
+saudade me agita o espirito. Sinto que me
+és e serás sempre um alento magnanimo.</p>
+
+<p>«Á meia noite, quando a lua campeia no seu
+eterno throno de magestade e de bellesa, apraz-me
+pensar em ti, nos teus caprichosos desejos, e
+nas tuas phantasticas promessas.</p>
+
+<p>«Eu amo o silencio, porque é vago, ethereo e
+cheio de sombras. Ha dias, entrando n'um pinheiral,
+cuja verde ramagem se agitava doce e harmoniosamente,
+como uma harpa do céu,--lembrei-me
+de ti.</p>
+
+<p>«Ao acaso procurei um outeiro, onde me sentasse.
+Ao longe o oceano, como um leão esfaimado,
+enchia a terra com a sua musica rouquenha e
+<span class="pagenum"><a name="pag49">[49]</a></span>
+sepulchral. Aproximava-se o crepusculo. Umas nuvens
+ainda, retintas pelos raios afogueados do sol,
+percorriam o espaço de norte a sul.</p>
+
+<p>«Sentindo-me isolada e só, tremi involuntariamente.
+Soltei um grito e vi uma creança que para
+mim corria de braços abertos. Foi uma apparição
+de Deus.</p>
+
+<p>«Que linda, que formosissima creança!</p>
+
+<p>«Pensei, então, em ti, meu amigo, mais do
+que nunca; e, Deus me perdôe, pensei na creança,
+que, um dia, fructo das minhas entranhas,
+uniria para sempre as nossas duas existencias, n'um
+unico beijo, n'um unico abraço, n'uma unica ideia.</p>
+
+<p>«Adeus, meu filho. Crê em mim, crê no futuro.</p>
+
+<p>«A Viscondessa de B***.»</p>
+
+<p>Alfredo, não podendo mais suster o riso, soltou
+uma furiosa gargalhada, deixando, ao mesmo
+tempo, cahir a carta que mal sustinha entre os dedos
+frouxos e nervosos.</p>
+
+<p>--Ah! Ah! Ah!... Parecia-me mesmo um lyrio
+<span class="pagenum"><a name="pag50">[50]</a></span>
+esta viscondessa, um lyrio a desabrochar. Se
+não fosse eu, ainda hoje estaria romantica. Ora oiçam
+esta, que é a ultima.</p>
+
+<hr style="border-bottom: dotted 2px #000000;">
+
+<p>«Meu Alfredo.--A tua convivencia modificou-me
+fortemente. Comtigo murcharam as doces illusões
+que outr'ora me sorriam como estrellas do
+céu.</p>
+
+<p>«Como a flor tristemente pisada pelo pé do
+viandante, assim o meu espirito succumbiu, sob
+a influencia do teu halito febril.</p>
+
+<p>«Sem embargo, eu adoro-te, Alfredo.</p>
+
+<p>«Tu polluiste-me as faces com os teus beijos
+escaldados, profanaste-me o corpo com as tuas paixões
+impuras, fizeste de mim uma mulher material,
+viciosa, corrupta.</p>
+
+<p>«Eu pedia-te um amor puro, nobre, immaculado,
+e tu só me deste um desejo vil, trivial, insensato.</p>
+
+<p>«Que fizeste da minha honra, Alfredo?</p>
+
+<p>«Porque me não amaste d'outro modo?
+<span class="pagenum"><a name="pag51">[51]</a></span>
+
+<p>«E queres-me ainda assim? pois bem: serei
+tua, tua para sempre.</p>
+
+<p>«A Viscondessa de B***.</p>
+
+<p>--Absyntho, rapaz--gritou o amante da viscondessa,
+batendo com a bengala no marmore da
+mesa.</p>
+
+<p>E o creado, desarrolhando uma garrafa, offereceu-a
+ao freguez.</p>
+
+<p>No relogio do restaurante soaram, então, 2 horas
+da madrugada.</p>
+
+<p>Alfredo, bebendo sempre, resmungava imperceptivelmente.
+Ao lado d'elle os amigos proseguiam
+na mesma tarefa,</p>
+
+<p>O dono do restaurante, vendo que o caso se
+demorava, mandou vir um trem.</p>
+
+<p>Sobraçou Alfredo, a este tempo, já quasi debaixo
+da mesa, e introduziu-o na carruagem, cuja
+almofada era simultaneamente occupada por um
+cocheiro e um policia.</p>
+
+<p>Fez o mesmo aos restantes e fechou as portas
+do estabelecimento.
+<span class="pagenum"><a name="pag52">[52]</a></span>
+
+<p>Eu sahi tambem; mas, ao contrario dos outros,
+aterrado e confuso, com o que ali havia presenciado
+e ouvido.</p>
+
+<p>Pensei em Luiz Veuillot e segui para casa.
+<span class="pagenum"><a name="pag53">[53]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capVI">VI</a></h1>
+
+<h2>Sem sahir do mundo</h2>
+
+
+<p>Alfredo era um rapaz do seu tempo, e, como
+tal, um filho dedicado dos cafés, um amador do
+fumo e um apreciador exaggerado <i>du vieux cognac</i>.</p>
+
+<p>No proprio desalinho ostentava elle uma generosidade
+fidalga, que o tornava sympathico e bem
+quisto por todos os que com elle mais de perto
+privavam.</p>
+
+<p>Era exaltado em extremo, inconstante e leviano.
+Quando lhe fallavam em amor sorria-se meigamente.--Amor?...--respondia
+<span class="pagenum"><a name="pag54">[54]</a></span>
+elle, como que acordando
+de um longo somno--Sim! já gostei d'elle.
+Hoje troquei as boas amigas pelos bons manjares.</p>
+
+<p>E virava costas de aborrecido,</p>
+
+<p>E, no entanto, as mulheres gostavam d'elle--talvez
+por essa rasão.--Não gostam as flores das
+borboletas?</p>
+
+<p>A vida exterior, activa, intelligente é que, por
+via de regra, gera a inconstancia. De modo que
+aquillo que n'uma mulher constitue um crime de
+lesa-dignidade, é para o homem uma quasi urgencia,
+filha, sem duvida, das circumstancias especiaes
+que o rodeiam.</p>
+
+<p>O homem obedece, em geral, mais ao seu organismo
+do que á sua vontade. A leviandade provêm,
+muitas vezes, de um impulso de temperamento.
+A imaginação nem sempre póde ser domada.
+Á uniformidade oppõe-se a variedade. A
+phantasia aprecia melhor esta do que aquella.</p>
+
+<p>Ora semelhantes rasões não se dão já na mulher.
+A mulher tem uma vida limitada, restricta,
+<span class="pagenum"><a name="pag55">[55]</a></span>
+puramente interior e domestica. Deve ter na sua
+existencia um unico amor, um unico interesse, um
+unico pensamento. E desde o momento que isto se
+despresar--podeis acreditar-me--em vez de uma
+mãe, em vez de uma esposa, em vez de uma irmã,
+apenas tereis deante de vós uma amante, isto é,
+uma companheira para alguns meses de praser e
+de sensualidade.</p>
+
+<p>Creio porêm que tal vicio é puramente peninsular.
+Em Portugal é costume fazer a côrte da rua
+para as janellas. O namoro, se existe, é simplesmente
+no olhar. Tudo falla, menos o coração. E
+só depois de casados, reconhecem, então os noivos,
+que realmente os não fadára Deus um para o
+outro. Triste inconsequencia, na verdade, que muitas
+vezes traz comsigo o divorcio e emquanto a
+nós o peior de todos os desgostos, o desgosto do
+lar domestico.</p>
+
+<p>Entre nós é a educação da mulher um fado
+quasi secundario. Que aprendem ellas nos collegios?
+que sabem ellas quando se casam? Por ventura
+<span class="pagenum"><a name="pag56">[56]</a></span>
+saberão talhar os seus vestidos? porventura
+saberão manter o aceio e a limpesa, tão necessarios
+á cosinha como ao resto da sociedade conjugal?</p>
+
+<p>Tudo, menos isso. Diz-se mulher do <i>high-life</i>,
+aquella que melhor valsa n'uma sala, a que mais
+prende pelos arrebiques do <i>coquettismo</i>, emfim, a
+que fôr mais imaginosa, a que tiver lido alguns
+romances francezes e a que mais amada souber
+fazer-se, n'um salão. Pouco monta que seja dedicada
+a seus filhos, e amiga do seu marido. A questão
+é ter côrte. O resto de nada vale, porque está
+abaixo dos sentidos; e os sentidos, são, n'este assumpto,
+uns mui respeitados directores.</p>
+
+<p>Não quero eu com isto dizer que a educação
+do homem seja superior á educação da mulher.
+Os rapases nascem egoistas. Não amam o desinteresse,
+porque são naturalmente utilitarios e desconfiados.
+Desejam uma esposa, mais pelo dinheiro
+que ella lhes traz do que pela estima que os póde
+tornar felizes. D'esta maneira o casamento entre
+<span class="pagenum"><a name="pag57">[57]</a></span>
+nós é um acto de commercio uma garantia de futuros
+interesses, muito de preferencia a uma garantia
+de amor.</p>
+
+<p>Alfredo, porêm, desviára-se d'esta norma. De
+creança aprendêra elle a sondar a sociedade com
+todas as suas corrupções e inconsequencias. De
+sobejo sabia que a dança, toda exterior e ficticia,
+era a perversão do ideal conjugal. Por instincto
+aborrecêra o salão, soalheiro de intriga e de pequeninas
+miserias. Conhecedor dos homens, e das
+cousas cahira, finalmente, n'um indifferentismo, até
+certo ponto, deploravel, para um rapaz, mas, de
+certo, necessario e fatal para todo o organismo,
+digno de outra aspiração que não fosse a do animal,
+por naturesa inerte e estupido.</p>
+
+<p>Alfredo resumia, portanto, uma energica reacção
+contra o estabelecido, e um vago aspirar para
+um futuro, ainda não bem definido.</p>
+
+<p>Saudemos esse futuro.
+<span class="pagenum"><a name="pag58">[58]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag59">[59]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capVII">VII</a></h1>
+
+<h2>Entre amigos</h2>
+
+
+<p>Tudo disposto e preparado.</p>
+
+<p>Somos quarenta convivas á mesa. A viscondessa
+está bella, verdadeiramente bella, sem os artificios
+que deslumbram, nem as vaidades que enojam.
+Completa agora vinte e seis annos, volvidos entre o
+regaço da mãe que se finou e os beijos do pae cuja
+existencia, por duvidosa, se ignora. Alfredo está
+tambem, mas triste, acabrunhado, pesaroso, olhando
+indifferentemente as pessoas que o rodêam, comendo
+pouco, bocejando muito e bebendo mais.
+<span class="pagenum"><a name="pag60">[60]</a></span>
+
+<p>Dois creados serviam a sôpa. Pelo lado direito
+da mesa, parallelo-grammo, offerecia-se a sôpa <i>Julienne</i>
+alternada pela esquerda com a sôpa <i>allemã</i>.</p>
+
+<p>Um mysterioso silencio envolvia quasi todos
+os hospedes. Umas leves palavras apenas se trocavam
+de par para par. Nos calices transparecia o
+<i>xerez</i>--o louro e ingenuo xerez dos estomagos
+delicados.</p>
+
+<p>Esgotados os primeiros copos e retirada a primeira
+coberta de peixe com molho á ingleza, appareceu
+o <i>Chateau-Lafitte</i>. Alfredo, reclinando-se
+na cadeira, sorriu-se meigamente. Um cavalheiro
+importuno, levantando-se, de cópo erguido, disse:</p>
+
+<p>«Minhas senhoras e meus senhores: n'este vinho,
+eu saúdo a França, mãe desvelada do pensamento
+moderno.»</p>
+
+<p>E todos beberam.</p>
+
+<p>Entretanto o silencio recomeçara novamente.
+Os creados, em nervoso phrenesi, retiravam os pratos
+sujos para logo os substituir por outros lavados.
+Telintavam os talheres de prata. Quatro bicos
+<span class="pagenum"><a name="pag61">[61]</a></span>
+de gaz alumiavam a mesa, matisada de flôres, cuja
+côr deliciava todos os olhos e cujo perfume embriagava
+todas as pituitarias. Na parede, pintada a
+azul-dourado, destacavam uns quadros comicos,
+alegres, folgasões, uns quadros de caçador logrado,
+perfeitamente pittorescos, perfeitamente escolhidos.</p>
+
+<p>Estava-se n'um <i>vol-au-vent</i> de frangos. O vinho
+correspondente era, se bem me lembro, Madeira
+sêcco. Conversava-se já de extremo para extremo.
+Algumas damas, agitando os leques, abriam os olhos,
+afogueadas em calor. Por ordem da viscondessa
+abriram-se as janellas. Uns cégos, que, então, passavam
+na rua, começaram de tocar uns velhos landúns,
+perfeitamente detestaveis e anachronicos.</p>
+
+<p>«O fado! o fado!--gritou Alfredo.</p>
+
+<p>E os homens principiaram a tocar o fadinho
+das salas.</p>
+
+<p>Servida uma <i>mayonnaise</i> de linguados, servida
+ainda uma <i>galantina</i> de gallinha com aspic, passou-se
+a um <i>ponche à la romaine</i>. As rolhas do
+champague saltavam ferventes e impetuosas, como
+<span class="pagenum"><a name="pag62">[62]</a></span>
+uma catadupa de topasios. Os creados corriam
+como possessos. As senhoras apoiavam as faces
+rubras, sobre o hombro direito dos namorados.
+No espaço campeava a lua, na sua doce pallidez,
+espreitando meigamente o festim da viscondessa.</p>
+
+<p>Seriam dez horas da noite, quando, depois de
+concluidos os assados--patos com azeitonas, perús
+com truffas e espargos--se começou a tirar
+o doce. Comiam uns podim <i>saboyon au rhum</i> e
+outros <i>bavaroise</i> de fruta. O licôr escolhido era o
+<i>Chartreusse</i>. Alfredo, erguendo-se, propôz um
+brinde.</p>
+
+<p>«Bebo á saude da senhora viscondessa--exclamou
+elle--á saude da sua felicidade, e á saude
+de seu futuro filho.»</p>
+
+<p>E, sem mais poder suster-se de pé, cahiu sentado
+na cadeira. Todos o olharam com um olhar
+interrogativo. A viscondessa, encarou-o, com uma
+santa e terna delicadesa. Os outros, por prudencia,
+calaram-se.</p>
+
+<p>Cá fóra numerosas tropas atravessavam as ruas.
+<span class="pagenum"><a name="pag63">[63]</a></span>
+Portugal, constitucional, saùdava o seu nunca--esquecido
+vinte e quatro de Julho.</p>
+
+<p>Terminados os brindes, que foram immensos
+e ruidosos, continuaram todos para o salão. Só
+Alfredo, por confiança na casa, ousou ficar á mesa,
+a cujo extremo adormeceu. E, suspeitando que
+fumava, dormiu um longo e pesado somno.</p>
+
+<p>Quando realmente deu por si soavam tres horas
+nos relogios da casa. Meio adormecido e meio
+acordado, olhou e viu duas sombras, que, a um
+recanto do aparador, se agitavam docemente. Aproximando-se
+mais reconheceu então uma das creadas
+da casa, conversando airosamente com um garboso
+gentil homem.</p>
+
+<p>--Ora pois!--regougou elle.--Nem mais nem
+menos. Tudo corre bem e todos teem rasão...</p>
+
+<p>E sahiu, assobiando a carta adorada da Grã-Duquesa.</p>
+
+<p>Na carta que eu tive, Amelia formosa,</p>
+
+<p>Me disseste amor...
+<span class="pagenum"><a name="pag64">[64]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag65">[65]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capVIII">VIII</a></h1>
+
+<h2>De passagem</h2>
+
+
+<p>Entre um bom jantar e um bom espirito existe,
+ao que parece, uma profunda analogia. <i>Tous les
+gens d'esprit sont gastronomes</i>--dizia Balzac. De
+todos os animaes, o unico, que sabe comer, é o
+homem--escrevia um outro auctor francez. D'este
+modo o jantar entre amigos é uma quasi necessidade
+da nossa existencia e um salutar incentivo a
+duas ou tres horas de boa e franca jovialidade.</p>
+
+<p>Em Portugal dão-se jantares, mais como ostentação
+vã, do que verdadeiramente como meio
+<span class="pagenum"><a name="pag66">[66]</a></span>
+de melhor expandirmos os nossos affectos, as nossas
+ideias, os nossos desejos, as nossas ambições.
+A nossa mesa distingue-se das mesas estrangeiras,
+não só pela má escolha das comidas, senão tambem
+pela exaggerada seriedade com que costumamos
+assistir a taes solemnidades. Dir-se-hia que,
+em taes momentos, estamos presenciando o enterro
+de nossos paes.</p>
+
+<p>Ora o jantar, o bom jantar, sadio e leve, deve
+sobretudo correr alegre, isento de malquerenças,
+semeado de phrases espirituosas e de anecdotas
+interessantes. O jantar é, por via de regra, um pretexto
+para solidificar velhas relações de amisade;
+um pretexto para nos rirmos á vontade, um pretexto
+para conversarmos intimamente.</p>
+
+<p>Os estrangeiros, comprehendem de ordinario
+estas festas, tirando os casacos, bebendo bem e
+comendo melhor. Nós outros, os portuguezes que,
+não obstante sermos uma caricatura viva de tudo
+quanto vem de fóra, tanto queremos primar pela
+gravidade que comprehendemos perfeitamente o
+<span class="pagenum"><a name="pag67">[67]</a></span>
+contrario. Mal nos rimos, porque nem mesmo rir
+sabemos. O espirito nem sempre se amolda com
+todas as modulações de linguagem. Parece que á lingua
+portugueza foi vedado o dizer ligeiro, amavel,
+faceto, que tanto distingue a França moderna. Nós
+somos um povo, naturalmente indolente, um povo
+de <i>apaixonados</i>, como tão bem nos definiu M.<sup>me</sup>
+de Sevigné.</p>
+
+<p>Voltemos, porém, á cosinha.</p>
+
+<p>Tem um grande defeito: falta-lhe como em geral
+ao nosso viver, a boa elegancia, o sabor, a pimenta,
+que torna as comidas mais gostosas e mais
+facilmente digestivas. Não temos originalidade, e
+por isso imitamos. O unico prato que a meu vêr
+existe classicamente portuguez, mas soberanamente
+enjoativo, é o leitão. Na provincia, sobretudo, assa-se
+um leitão a proposito de qualquer festa. São nossos,
+exclusivamente nossos, o leitão e os foguetes.</p>
+
+<p>Depois note-se--na nossa mesa não ha aquelle
+aceio que tanto seria para desejar, e que tão proverbial
+é entre os ingleses. Uma toalha, perfeitamente
+<span class="pagenum"><a name="pag68">[68]</a></span>
+branca, aromatica, transparente, é já de si
+um notavel passo para um bom jantar. As indigestões
+nascem quasi sempre do mau tempero das comidas:
+parece que se odeia a agua e lavam-se os
+mantimentos como em baptismo de mouros.</p>
+
+<p>Entre as classes mais altas da sociedade são
+despresadas as comidas vegetaes. Só o povo as
+aprecia; e porisso tambem é elle em geral mais
+robusto, mais fortemente organisado, e mais naturalmente
+atreito á espontaneidade e ás alegrias
+da vida.</p>
+
+<p>O temperamento depende das condições alimenticias
+em que nos encontramos. O bom e o mau
+humor tambem d'ellas provêm. No modo, porque
+nos alimentamos reside, pois, uma grande parte da
+nossa felicidade.</p>
+
+<p>As comidas, demasiadamente gordas, geram a
+obesidade tão peculiar aos nossos provincianos; ao
+passo que o alimento vegetal torna o homem ligeiro,
+amavel e espirituoso.</p>
+
+<p>Á mesa da viscondessa respirava-se um invejavel
+<span class="pagenum"><a name="pag69">[69]</a></span>
+aceio e uma limpesa pouco vulgar entre nós.
+A propria toalha attrahia, não só pela sua extrema
+brancura, senão tambem por uma deliciosa fresquidão,
+que de ordinario exhalava.</p>
+
+<p>Grave era a viscondessa, mas espirituosa. Ninguem
+sabia tratar melhor os seus hospedes, nem
+com mais liberdade. Como aphorismo passava já
+em julgado que eram bons, substanciosos e alegres
+os jantares da viscondessa.</p>
+
+<p>É que, á parte os seus caprichos, a viscondessa
+comprehendeu a vida moderna, tal qual ella deve
+ser: commoda, aceiada e elegante.</p>
+
+<p>Nem porisso lhe queiramos mal, mas antes façamos
+por imital-a.
+<span class="pagenum"><a name="pag70">[70]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag71">[71]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capIX">IX</a></h1>
+
+<h2>Pobresa e miseria</h2>
+
+
+<p>É singelo o quadro; tocante até.</p>
+
+<p>Uma pobre velha, habitando uma alcova humida
+e sombria, treme de frio, gemendo por vezes.
+Serve-lhe de leito uma pouca de palha enxarcada
+e nauseabunda. Ao lado uma panella velha, tosca
+e ligeira, cuja grande utilidade é aparar a agua,
+que a miudo se despenha do telhado.</p>
+
+<p>Por uma fresta, lavrada no alto da parede,
+côam-se tristemente uns tenues raios de luz. Dir-se-hia
+que á desgraça até o sol é vedado.
+<span class="pagenum"><a name="pag72">[72]</a></span>
+
+<p>Pelo soalho esburacado e carcomido occultam-se
+uns bichos infernaes, molles, gellalinosos. O tecto,
+artisticamente cinzelado pelo longo e imperioso
+trabalho da aranha, quasi se não distingue
+d'entre a escuridão que cerca o aposento.</p>
+
+<p>E Maria, a desventurada creatura, jaz immersa
+em intima dôr, abandonada aos vermes que lhe
+róem as carnes syphiliticas, negras, cobertas de
+pustullas e de putrefacção. Querem conhecel-a?</p>
+
+<p>Rica e formosa, fôra esta mulher. Cheia de
+venturas e mimos deslisára a sua vida, sem mais
+attritos do que aquelles que ordinariamente nos dá
+o tempo e a natureza.</p>
+
+<p>Acariciada pelo anjo do amor e embalada nos
+sonhos gentis da opulencia, Maria sentiu-se a um
+tempo admirada e requestada pela mais guapa fidalguia
+do seu paiz.</p>
+
+<p>Seus paes, habituados áquelle unico thesouro,
+eram inexoraveis no cumprimento das suas profundas
+e intimas affeições. Nada exigia, que para
+logo não fosse satisfeito. O mais leve capricho tentavam-no
+<span class="pagenum"><a name="pag73">[73]</a></span>
+elles realisar com a satisfação de um escravo,
+que por sua senhora arriscára a vida.</p>
+
+<p>Assim cresceu aquelle arbusto. Descuidado e
+candido, não houve vento que lhe açoutasse as tenras
+vergontesa. O sol, saúdava-o todas as manhãs,
+e a primavera encontrou-o viçoso, coberto de flôr
+e de esperanças.</p>
+
+<p>Veiu, porém, a tempestade. O sul rugiu temeroso.
+No espaço precipitaram-se as nuvens, prenhes
+de electricidade. A arvore, mal segara, tremeu
+na sua raiz, e desappareceu da terra.</p>
+
+<p>Onde estava Maria? Porventura iria ella em
+busca de algum anjo bom, seu irmão?</p>
+
+<p>Fragil, como qualquer mulher, Maria não ousára
+resistir á fatalidade que a dominava. Fugiu.
+Fugiu romanticamente, por um lençol, atado á janella
+de sacada, e á meia-noite.</p>
+
+<p>Como quer que fosse o facto, em si escandaloso,
+excitou naturalmente a indignação publica.
+A burguesia commentou-o á noite nos clubs e cafés,
+concluindo por ver n'elle uns laivos de obscenidade,
+<span class="pagenum"><a name="pag74">[74]</a></span>
+impossivel de admittir-se no seio de uma
+familia honesta e séria.</p>
+
+<p>Em que pese, porém, aos nossos indigenas sociaes,
+o caso era mundano, e frequentissimo até em
+mulheres demasiadamente imaginosas.</p>
+
+<p>Ao cabo de dois annos, Maria resuscitou; não
+para a vida, mas para a morte.</p>
+
+<p>O rosado do rosto transformára-se-lhe subitamente
+numa pallidez transparente, sepulchral, doentia.
+Os olhos, encovados, haviam perdido o seu
+primitivo brilho. Nada existia já que não fosse
+triste e profundamente doloroso.</p>
+
+<p>A mulher virtuosa cahira victima indefesa, ás
+mãos de um maltrapilho infame. O miseravel seductor,
+retirára comsigo o seu dinheiro e o seu
+carinho.</p>
+
+<p>Abandonada a si, Maria, refractaria ao trabalho,
+sem pae, sem mãe, sem irmãos, sem amigos,
+olhou em redor de si, e viu a sociedade que de
+longe lhe acenava.</p>
+
+<p>Correu a ella com um filho nos braços. Engolphou-se
+<span class="pagenum"><a name="pag75">[75]</a></span>
+nos seus prazeres, trocou a honra pelo
+pão quotidiano, pôz em almoeda a consciencia pelo
+futuro do innocente, que ao lado d'ella soffria e
+chorava tambem.</p>
+
+<p>Era nobre, e pagava pela corrupção commum...</p>
+
+<p>A mocidade ganhou-a, como poude. Viveu-a, e
+tanto bastava.</p>
+
+<p>Depois chegou a velhice e a tristesa; depois a
+pobresa e a miseria.</p>
+
+<p>Julio, a este tempo já era crescido, e velava
+pela mãe sollicitamente.</p>
+
+<p>De que poderiam comtudo valer os minguados
+ceitis com que lhe era remunerado o seu trabalho
+de todos os dias?</p>
+
+<p>Se elle e ella adoecessem, quem mais os trataria?
+quem, porventura, se amerciaria d'aquella
+terrivel indigencia?</p>
+
+<p>--Ninguem!...--respondia-lhe logo a consciencia.</p>
+
+<p>E a consciencia não costuma mentir.</p>
+
+<hr style="width: 6em;">
+
+<span class="pagenum"><a name="pag76">[76]</a></span>
+
+<p>Julio viera, pois, da fabrica e encontrára sua
+pobre mãe moribunda, sem remedio, sem medico
+e sem dinheiro.</p>
+
+<p>Parou no limiar da porta. Encarou a velha de
+frente e viu-lhe os braços estendidos em signal de
+compaixão. Extactico, cego, allucinado, entrou-se
+o desventurado moço em profundo scismar.</p>
+
+<p>Ao descerrar as palpebras amortecidas por um
+somnambulismo infernal--Julio, emxugando os
+olhos, com uma ponta da blusa, sorriu-se, como
+se do céu houvera baixado uma inspiração sagrada.</p>
+
+<p>--Desgraçado de mim!--exclamava elle doridamente.--Trabalhar
+um dia inteiro e não ter á
+noite que comer... É triste... muito triste... Esgotar
+o sangue das minhas veias, em alheio proveito,
+e receber, no fim da semana, um vil salario, que
+mal me chega ás primeiras necessidades da vida...
+É infame... muito infame... Alugar as minhas faculdades
+e o meu pensamento, sem outro fim que
+não seja o proprio aviltamento e a propria degradação...
+<span class="pagenum"><a name="pag77">[77]</a></span>
+É vil... muito vil.. Oh! meu Deus!... antes
+a morte! mil vezes a morte...</p>
+
+<p>E assim cahiu inanimado o honrado moço sobre
+o desventurado cadaver de sua santa mãe.</p>
+
+<p>A scena era realmente tão obscura, que mal
+poderia provocar as vistas d'esse mundo, que é
+louco e grande.--Passou, como tudo o que é modesto,
+desapercebida e ignorada.</p>
+
+<hr style="width: 6em;">
+
+<p>No dia immediato um raio de sol, espreitando
+muito de soslaio pela fresta do telhado, apenas
+encontrára a solidão e a ruina, na mesma alcova,
+onde Julio e sua mãe, por tanto tempo agonisaram.</p>
+
+<p>No cemiterio mexia-se uma porção de terra,
+afim de occultar aos olhos do mundo o desditoso
+cadaver d'aquella santa e virtuosa velha.</p>
+
+<p>Julio nem sequer achára uma mortalha, para
+envolver o corpo de sua mãe.</p>
+
+<p>Rasgou a blusa n'umas poucas de tiras, e, assim
+auxiliado, por mais alguns farrapos, que ainda
+lhe restavam d'outr'ora, arranjou a cobrir o corpo
+<span class="pagenum"><a name="pag78">[78]</a></span>
+infectado e pestilente de sua mãe. Porque o principal
+effectivamente era occultar o crime <i>d'esta
+grande peccadora</i>...</p>
+
+<p>Entretanto a sociedade ria-se nos botequins, e
+as tabernas continuavam sempre atulhadas de povo.</p>
+
+<p>O mesmo Julio teve a coragem de transportar
+o cadaver para o cemiterio e de ahi lhe prestar
+as derradeiras homenagens.</p>
+
+<p>Como não havia carniça, não appareceu o abutre!</p>
+
+<p>Consciencia de Cain é jóia que só se mercadeja
+no alto mercado.</p>
+
+<p>Foi mais uma lei do mundo.</p>
+
+<p>Convêm, comtudo, registral-a para desafogo de
+todos nós.
+<span class="pagenum"><a name="pag79">[79]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capX">X</a></h1>
+
+<h2>Cousas dos Homens</h2>
+
+
+<p>Permitta-nos a leitora que um pouco nos demoremos
+sobre este incidente do nosso romance.
+Mais tarde volveremos a fallar da viscondessa. Por
+agora historiemos os factos que mais concorreram
+para o triumpho da nossa heroina.</p>
+
+<p>Quem era Julio? quem era Maria? e porque
+motivo foram elles chamados para aqui?</p>
+
+<p>Leitor: conheces a miseria? porventura já te
+foi dado contemplar esse estranho espectaculo, que
+a cada passo se nos representa diante dos olhos?
+<span class="pagenum"><a name="pag80">[80]</a></span>
+
+<p>Á beira da estrada, <i>ella</i>, estendendo-te a mão
+carcomida e triste, pede-te esmola; na escuridão
+do templo, cheia de vergonha, <i>ella</i> occulta-se ás
+vistas da gentalha; no recesso das florestas, arrasta-se
+como um reptil, de tal maneira que nós não
+sabemos quem <i>ella</i> é, se um animal, se um homem.</p>
+
+<p>E, todavia, <i>ella</i>, a canalha, é filha de Deus
+como nós.</p>
+
+<p>E, todavia, <i>elle</i>, o <i>Ninguem</i> errante da sociedade,
+o <i>anonymo</i> sublime do universo, elle, o,
+<i>trabalhador</i>, tambem, como nós, tem intelligencia
+sentimento e vontade.</p>
+
+<p>Quantas vezes, ao passar por uma rua escura
+e humida não tropeçamos nós com um d'esses
+desherdados, de faces lividas o aspecto sombrio,
+que, não tendo um travesseiro, onde repousar a
+cabeça, nem uma bilha d'agua, onde refrigerar a
+sede, nem um vestido, onde aquecer as carnes,
+vive ao acaso, alumiado, apenas, pela luz das estrellas
+<span class="pagenum"><a name="pag81">[81]</a></span>
+da noite, alentado pelo orvalho do céu e ao
+abrigo vil das lageas das escadas?!</p>
+
+<p>E, no entretanto, este ser existe.</p>
+
+<p>Existe nas officinas do trabalho, e chama-se proletario;
+existe nos campos, e chama-se jornaleiro;
+existe nos hospitaes, e chama-se miseravel; existe
+nas prisões, e chama-se criminoso; existe nas rodas
+e nos hospicios, e chama-se engeitado; existe
+nas ruas e nas escadas, e chama-se maltrapilho;
+existe no universo, por toda a parte espalhado, e
+chama-se escravo.</p>
+
+<p>Sim! o escravo é o leproso sem familia, a quem
+só é dado sentir a dôr das suas chagas. Elle, coitado!
+não tem casa, nem tem jardim, nem flores,
+nem amigos, nem alegrias; elle, o escravo, tem
+apenas, como um magro cão vadio, uns ossos que
+róe durante o dia e umas tristesas que o acompanham
+durante a noite.</p>
+
+<p>E nada mais tem, o escravo!</p>
+
+<p>O vicio é, em geral, uma triste consequencia
+da falta de meios. Perguntae ao pobre, porque se
+<span class="pagenum"><a name="pag82">[82]</a></span>
+embriaga, á mulher porque se prostitue, e ao escravo
+porque se vende.</p>
+
+<p>Embriago-me--responder-vos-ha o pobre--porque
+me quero esquecer do sangue que vertem
+as minhas feridas.</p>
+
+<p>Prostituo-me--dir-vos-ha a mulher--porque
+tenho fome.</p>
+
+<p>Vendo-me--exclamará o escravo--porque a
+sociedade me repudia.</p>
+
+<p>E teem razão. Todos tres procuram o vicio,
+como alivio, como necessidade do seu espirito.</p>
+
+<p>Julio era um d'esses: pertencia á rara pleiade
+dos independentes, d'aquelles que o Estabelecido
+odeia e renéga.</p>
+
+<p>Muitas vezes, em creança, o pobre moço, sentado
+na areia da praia, e olhando o mar além, dissera
+em conversa intima, em que o homem interroga
+a consciencia, a razão, e tudo quanto o cerca:</p>
+
+<p>«Como é grande o mundo, meu Deus!»</p>
+
+<p>E n'uma esperança eterna, e n'uma ambição
+sem limites, Julio ficava-se horas e horas em prodigiosa
+<span class="pagenum"><a name="pag83">[83]</a></span>
+concentração, que bem lhe denunciava a
+lucta, a cada passo travada no espirito nervoso e
+inquieto.</p>
+
+<p>Mas n'este mundo são as ambições como as espumas
+do mar: um vento as traz e um vento as leva.</p>
+
+<p>Que importavam as illusôes, se com as primeiras
+folhas do outomno, ellas tinham de cahir uma
+a uma?</p>
+
+<p>As flores d'alma vão-se com o outomno da vida.</p>
+
+<p>Nem sempre porém as borboletas adejam sobre
+as flôres; nem sempre o mesmo sol illumina
+as campinas.</p>
+
+<p>Ante o cadaver de sua mãe, Julio emmudecera.
+Quando a sério, e a sós comsigo mesmo pensou
+na vida que no futuro o esperava, quasi instinctivamente
+teve vontade de se suicidar.</p>
+
+<p>Olhando, porém, para o céu, ajoelhou. Um
+raio de esperança lhe illuminava a alma, até então
+em trévas.</p>
+
+<p>Felizes os que, como elle, sabem esperar!</p>
+
+<p>A esperança conduz Colombo, e descobre mundos!
+<span class="pagenum"><a name="pag84">[84]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag85">[85]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXI">XI</a></h1>
+
+<h2>Na taberna</h2>
+
+<p>Entrava-se por um beco immundo, torcia-se á
+direita, e estava-se lá, no antro do crime, em que
+a vida e a fortuna se joga, o bem estar, a tranquilidade,
+o socego, toda a harmonia da existencia
+humana.</p>
+
+<p>Exteriormente, apresentava a taberna um aspecto
+mesquinho e lugubre. Um distico, apenas, no
+alto da parede indicava aos transeuntes que ali «<i>se
+vendia vinho verde</i>.»
+<span class="pagenum"><a name="pag86">[86]</a></span>
+
+<p>No largo portal da entrada, coroado por um
+ramo de louro, viam-se uns traços obscenos, riscados
+a giz, e, ao parecer, escriptos em maré de
+embriaguez.</p>
+
+<p>Portas a d'entro, reinava uma alegria feroz,
+confusa e tristemente desconsoladora.</p>
+
+<p>Uns jogavam, riam outros, e gritavam todos.</p>
+
+<p>--Salto no valete--dizia um.</p>
+
+<p>--Mico no terno--interrompia outro.</p>
+
+<p>E assim, ébrios de vinho e ambiciosos de fortuna,
+jogavam elles, sem outro alento que não
+fosse o vicio e o esquecimento.</p>
+
+<p>De subito, uma gargalhada estrugiu pelos ares.</p>
+
+<p>Por uma das mesas, esgravatada e cebenta, rolou
+veloz um enorme cangirão de vinho, por onde
+á porfia bebiam os convivas alegres.</p>
+
+<p>A taberneira, mulher roliça e de cabello na
+venta, servia com respeito os freguezes, na maioria
+lavradores e campinos.</p>
+
+<p>A um canto, e sobre o junco, que cobria o lagedo
+<span class="pagenum"><a name="pag87">[87]</a></span>
+da sala, estava um berço, onde uma creança
+dormia tranquillamente, em companhia de um gato
+malhado, velho hospede na casa.</p>
+
+<p>Ao lado do berço um cão, apoiado sobre as
+mãos e com a orelha levantada, olhava filamente
+na direcção da porta de entrada.</p>
+
+<p>Para além do balcão, duas pipas de vinho e
+uma pratelleira, cujas divisões continham pão,
+queijo e figos; tudo, já se vê, velho, amarellecido
+pelo tempo, e modico no preço.</p>
+
+<p>--Viva o nosso Julio!... viva!...--exclamaram
+os jogadores, voz em grita.</p>
+
+<p>O saúdado moço, de braços crusados e em mangas
+de camisa, nem sequer lhes respondeu.</p>
+
+<p>Entrou, passeou a vista pela sala, e quedando-se
+com pesar, vociferou:</p>
+
+<p>--Nem mãe, nem... dinheiro...</p>
+
+<p>Como por encanto, fez-se um silencio sepulchral
+na taberna. O jogo parou; e instinctivamente
+erguidos, correram todos á presença do Julio.</p>
+
+<p>Prestes, porém, se apagou a mudez, a fim de
+<span class="pagenum"><a name="pag88">[88]</a></span>
+novamente ser interrompida pela mais temerosa
+de todas as vozerias.</p>
+
+<p>--Não póde ser; não póde ser. Abaixo a tyrannia.
+Vamos a acabar com elles. Malhados de
+uma figa... Queremos sangue e mais sangue... que
+nem um só escape... Querem-nos roubar o nosso
+trabalho... os infames... Ladrões abaixo... Não queremos
+ladrões... A elles... todos a elles...</p>
+
+<p>A taberneira exasperada, pedia ordem, levantando
+os braços. Em cima do balcão latia o rafeiro
+agudamente. O gato, espreguiçando-se, escoara-se
+com mysteriosa perfidia, por entre as pipas
+vasias. Um raio de lua, reflectindo-se phantasticamente
+sobre a cara da creança, que chorava,
+produzia um contraste singular, e sobremaneira
+interessante. Dir-se-hia que pela innocencia
+velava o céu em toda a sua magestade e grandesa.</p>
+
+<p>N'um momento a porta rangeu nos gonzos.</p>
+
+<p>--Em nome da lei declaro presos os desordeiros--bradou
+um vulto.
+<span class="pagenum"><a name="pag89">[89]</a></span>
+
+<p>--Em nome de que lei?--retorquiu um dos
+agitadores.</p>
+
+<p>--Em nome da nossa lei, em nome da lei
+portugueza--insistiu o primeiro, descobrindo-se.</p>
+
+<p>Á vista do policia, até a taberneira gritou. Vergado
+ao peso de uma mão de ferro, aspera e cortante,
+e apanhado a sós, o espião do governo,
+atravessado por tres fortes navalhadas, rolou immediatamente
+aos pés de Julio, que para elle olhava
+desconsoladamente.</p>
+
+<p>Momentos depois a taberna estava só, escura,
+e triste.</p>
+
+<hr style="width: 6em;">
+
+<p>Quem, dois dias depois, entrasse n'esta mesma
+casa, e attentasse nos personagens, ali reunidos,
+pouca differença de certo havia de notar.</p>
+
+<p>Lia um dos operarios em voz alta a <i>Revolução
+de Setembro</i>, quando inopinadamente se lhe deparou
+a seguinte local:</p>
+
+<p>«Ante-hontem, cerca da meia noite, deu-se um
+grave tumulto n'uma taberna situada para as bandas
+<span class="pagenum"><a name="pag90">[90]</a></span>
+de Alfama. A policia anda em cata dos desordeiros,
+e de crêr é que, em breve, elles soffram o
+justo castigo das suas loucuras.»</p>
+
+<p>Taes palavras foram, como é natural, ouvidas
+com terror, da parte dos circumstantes.</p>
+
+<p>Um silencio profundo envolvera a taberna.
+Mudos e reflexivos, ninguem ousava proferir uma
+palavra.</p>
+
+<p>De repente apagou-se o gaz. O ruido tornara-se
+insupportavel, medonho, confuso.</p>
+
+<p>--Traição... traição...--repetiram todos.</p>
+
+<p>E o silencio recomeçou de novo.
+<span class="pagenum"><a name="pag91">[91]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXII">XII</a></h1>
+
+<h2>Perigos e consequencias</h2>
+
+
+<p>N'este nosso paiz ficam muitas vezes impunes
+os crimes mais graves, castigando-se os mais insignificantes.</p>
+
+<p>A lei penal muitas vezes dá existencia aos crimes,
+imaginando penas para delictos imaginaveis.</p>
+
+<p>Parece que a justiça social nem sempre cumpre
+o seu dever. O roubo corre muitas veses authorisado
+pela lei, n'um inpudor por tal fórma insólito,
+que de vergonha faria córar uma bachante.</p>
+
+<p>A cada passo, e com a maior facilidade, se
+<span class="pagenum"><a name="pag92">[92]</a></span>
+sancciona uma injustiça. Quem não tem padrinho,
+morre mouro--diz o rifão. E o certo é que o pobre,
+o eterno Job da orphandade,--se não morre
+mouro, morre, pelo menos, de atrophia, indigente,
+sem pão, sem agua, e o que é mais, sem espirito.</p>
+
+<p>Ao percorrer as humidas cavernas--morada e
+abrigo dos proletarios--de dó se nos enlucta o
+sentimento. Como é que a Providencia tão prodiga
+e generosa; como é que o sol, alargando seus
+raios encantadores, tanto pelas cumiadas das montanhas
+mais longinquas como pela escuridão dos
+valles mais reconditos--como é que todo este
+mixto de luz e de céu, póde consentir o infortunio
+no mundo?</p>
+
+<p>A aspiração é sêde que se não extingue. Mas
+aspirar sem esperança; anceiar sem uma possibilidade
+de realisação final, deve ser triste, muito
+triste, para já não dizer desesperador.</p>
+
+<p>Para voar, concede a naturesa azas á aguia.
+Assim tambem para sermos livres, rigorosamente
+livres, para executarmos os vastos planos da nossa
+<span class="pagenum"><a name="pag93">[93]</a></span>
+vontade, carecemos nós de meios, sem os quaes
+tudo nos seria baldado e inutil.</p>
+
+<p>E dizem que a lei é egual para todos!</p>
+
+<p>Entre dois cidadãos--um casado, outro solteiro,
+um pobre outro rico--que soffrem a mesma
+pena, onde é que está a egualdade?</p>
+
+<p>Divagando, porém, iamos fugindo do nosso caminho.
+Voltemos ao romance.</p>
+
+<p>A policia não afrouxára nos seus esforços. Indagou,
+correu, perguntou. Ao cabo de uma semana,
+estavam seis individuos dados por suspeitos.
+Entre elles indigitára-se Julio como um dos principaes
+cumplices no crime acima descripto. Se
+fôra ou não acertada a escolha, isso só os factos
+posteriores o poderão affirmar. Por agora basta
+que o leitor nos acompanhe.</p>
+
+<p>Dolorosa é a recordação do carcere. Sem luz
+e sem ventilação, são as nossas cadeias uns verdadeiros
+antros, cuja atmosphera impregnada de particulas
+venenosas, quasi sempre gera no seu seio
+<span class="pagenum"><a name="pag94">[94]</a></span>
+os vicios mais execrandos e as doenças mais incuraveis.</p>
+
+<p>Um drama simples e vulgar ao mesmo tempo,
+poderá, talvez, iniciar-nos nos verdadeiros mysterios
+d'este inferno.</p>
+
+<p>Ouçamol-o.</p>
+
+<p>Um homem rico decahira um dia da sua fortuna.
+Habituado ás commodidades da vida, encontrou-se
+repentinamente privado do necessario. Acostumado
+aos falsos amigos, viu-se sem amigos. Olhou.
+Quatro filhos o encaravam. Uma esposa lhe sorria.
+Fôra bom o seu coração. Nunca até ali se dera
+um unico facto que lhe manchasse a consciencia.
+Examinou os bolsos. Dinheiro não havia já. Recorreu
+ao trabalho. O trabalho fez-se esperar. Mendigou.
+Ainda era pouco. Os filhos continuavam a
+chorar. A esposa continuava a morrer. Que fazer,
+pois? Roubar. E roubou. Roubou um pão porque tinha
+fome. E dois. E tres. E quatro. A lei, inexoravel
+como a Parca, encontrou-o uma noite. Levou-o para
+<span class="pagenum"><a name="pag95">[95]</a></span>
+o Limoeiro. Pediu-se, sollicitou-se, em nome da
+desgraça. Tudo embalde! Os poderes publicos cumpriam
+o seu dever. N'uma casita humida, situada
+ao Salitre, definhavam, ao cabo de cinco dias, quatro
+creanças e uma mulher. No Limoeiro creava-se
+mais um monstro, e inutilisava-se um homem. E
+tudo isto com uma prodigiosa simplicidade.</p>
+
+<p>É a historia de Valjean sem o auxilio do arcebispo!</p>
+
+<p>Ao moço-operario não succedeu, felizmente,
+outro tanto. A Providencia encarregou-se de velar
+por elle. E o certo é que a evasão de cinco presos
+deu-se rigorosamente n'esta época. Julio foi
+um dos que, a salvo da prudencia, recuperaram a
+liberdade.
+<span class="pagenum"><a name="pag96">[96]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag97">[97]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXIII">XIII</a></h1>
+
+<h2>Continuação</h2>
+
+
+<p>Seriam 2 horas da madrugada. A lua brilhava
+em pleno espaço. O Tejo era Sereno. Apenas de
+longe em longe um rumor surdo, vago, incomprehensivel,
+acordava a naturesa do seu pacifico somno
+nocturno.</p>
+
+<p>Por sobre as mansas aguas deslisava um bote
+suavemente. As estrellas, reflectindo-se na bahia,
+similhavam, pela vivacidade irrequieta do brilho,
+um cardume de peixes em debandada. A viração
+era fresca, e deliciosamente salutar.
+<span class="pagenum"><a name="pag98">[98]</a></span>
+
+<p>Cantavam os remeiros, umas tristes canções,
+repassadas de melancholia e de patriotismo. Os remos,
+batendo na agua, produziam o effeito de um
+chrystal facetado, em desordem, mas atrahente.</p>
+
+<p>Nem uma dissonancia sequer apparecia n'este
+immenso panorama, a um tempo eloquente e respeitavel.</p>
+
+<p>É que a alma da naturesa, symbolo do infinito
+sobre a terra, é incomparavelmente superior á alma
+do homem, expressão do contingente e do relativo.</p>
+
+<p>As montanhas, elevavam-se a distancia, na firme
+immobilidade de phantasmas. Dormia a cidade socegadamente.
+No convez de um navio mercante
+ladrava um cão da Terra-Nova. Nas embarcações
+de guerra ouvia-se distinctamente e com rarissimos
+intervallos o passo moroso das sentinellas.</p>
+
+<p>Os catraeiros cantavam sempre:</p>
+
+<div class="poesia">
+«Vai alta a lua! na mansão da morte<br>
+Já meia noite com vagar soou;<br>
+Que paz tranquilla! dos vaivens da sorte<br>
+Só tem descanço quem ali baixou.»<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag99">[99]</a></span>
+
+<p>E ao longe os echos repetiam a ballada do
+poeta.</p>
+
+<p>O escaler abicou, emfim, á praia. A aurora começava
+a roxear o horisonte. Uma luz delicada,
+fina, como a porcellana, transparecia por entre
+nuvens.</p>
+
+<p>Um vulto de homem, embuçado n'um largo
+capote, saltou á praia.</p>
+
+<p>Julio, fugitivo, tomára a prompta resolução de
+por algum tempo se occultar no bairro de Alcantara.</p>
+
+<p>Duas palavras ainda sobre elle:</p>
+
+<p>Julio era um rapaz ambicioso. Amava egualmente
+a liberdade e o trabalho.</p>
+
+<p>De têmpera rija, era o seu caracter. Odiando
+o jesuitismo, por instincto, não poucas vezes chegára
+a commetter excessos e desvarios.</p>
+
+<p>Frequentava a taberna, do mesmo modo que
+nós frequentamos o café; ali discursava com os
+companheiros, concluindo sempre em favor da liberdade
+e contra a reacção.
+<span class="pagenum"><a name="pag100">[100]</a></span>
+
+<p>Na noite em que o prenderam exclamára elle
+para os camaradas de trabalho:</p>
+
+<p>«Nem sempre a escravidão ha de pesar sobre
+nós. Quem tiver coragem, acompanhe-me. Uma
+vez que não querem a paz, acceitaremos a guerra,
+mas uma guerra sem tréguas, uma guerra eterna
+e violenta.»</p>
+
+<p>D'este modo Julio era a perfeita personificação
+do escravo, que, sentindo a grilheta ao pé, deseja
+emancipar-se e tornar-se homem, como os seus
+similhantes.</p>
+
+<p>Alfredo, não tendo coragem para realisar os
+seus planos, embora bom e generoso no fundo, tornara-se
+devasso, e adormecera inconscientemente
+nos braços da sensualidade estupida. Julio, não!
+Julio estava puro; reagia ainda com heroicidade
+contra a geral corrupção da sociedade.</p>
+
+<p>Entre estes dois homens, ambos moços e sympathicos,
+existia uma differença apenas: Alfredo
+pertencia á mocidade dos cafés, incomparavelmente
+mais inutil que a mocidade da taberna, composta,
+<span class="pagenum"><a name="pag101">[101]</a></span>
+na generalidade, por operarios honestos, como
+Julio.</p>
+
+<p>Mais tarde, porém, nos encontraremos novamente
+com Alfredo.
+<span class="pagenum"><a name="pag102">[102]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag103">[103]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXIV">XIV</a></h1>
+
+<h2>Novos mundos</h2>
+
+
+<p>Penetremos em Alcantara.</p>
+
+<p>É um bairro pobre, habitado por operarios,
+n'uma grande parte, e por homens do mar.</p>
+
+<p>Na extrema do riacho, para a direita, alveja
+uma pequena casa, situada na falda de um monte.</p>
+
+<p>Para ahi entrou Julio, a fim de se occultar
+ás pesquisas da policia.</p>
+
+<p>Durante o dia conservava-se fechada a casa,
+como querendo demonstrar ao publico, que ella
+era realmente deshabitada.
+<span class="pagenum"><a name="pag104">[104]</a></span>
+
+<p>Á noite quatro operarios, voltando do trabalho,
+batiam de mansinho á porta.--Julio percebendo
+pelo toque ser os companheiros, levantava-se
+da enxerga em que de ordinario jazia, e dava
+volta á chave.</p>
+
+<p>No interior da habitação reinava a miseria em
+toda a sua hediondez.</p>
+
+<p>Uma enxerga apenas, abrigava, durante a noite,
+cinco esqueletos de homens, sem alegria, sem pão
+e sem futuro. Os mumias da desgraça!</p>
+
+<p>De manhã, ao levantar, reuniam quatro ou seis
+trapos velhos, e, por vergonha, occultavam á multidão
+os proprios ossos do corpo.</p>
+
+<p>Na cosinha existiam, por acaso, duas côdeas de
+brôa, arrancadas aos dentes das cadellas leprosas,
+uma bilha com agua e um pequeno ramo de carqueja.</p>
+
+<p>A estes quatro animaes, trabalhadores n'uma
+fabrica de lanificios, se incorporara Julio.</p>
+
+<p>Pouco tempo, porém, durou similhante situação.
+Ao cabo de alguns mezes a policia lançára as
+<span class="pagenum"><a name="pag105">[105]</a></span>
+suas vistas para os lados de Alcantara. Isto soube-se,
+e chegou aos ouvidos de Julio, a este tempo já
+viciado por toda a casta de corrupção.</p>
+
+<p>Com nova tão para desesperar, quasi endoideceu
+o moço-operario. Uma noite mesmo, encontrando
+um policia civil, e tomando-lhe da mão direita,
+disse:</p>
+
+<p>--Olé--sabe quem eu sou? Ah! não sabe?
+pois bem: fique sabendo...</p>
+
+<p>E fugindo, estendeu-o no chão com uma fortissima
+bofetada.</p>
+
+<p>Assim se passaram alguns dias, de louca anciedade.
+Por tradicção conhecia Julio um velho aldeão,
+de quem a mãe repetidas vezes lhe fallára.
+Uma noite, deixando o casebre de Alcantara, demandou
+a provincia, onde lhe sorriram os primeiros
+raios de felicidade.</p>
+
+<p>Mas Julio já não era o mesmo homem. O desanimo
+ganhara-o por momentos. É condão da miseria
+transformar o homem physica e moralmente
+num monstro de paixões.
+<span class="pagenum"><a name="pag106">[106]</a></span>
+
+<p>A barba crescera-lhe. O corpo definhava-se-lhe
+a olhos vistos. No coração principiavam os espinhos
+a crescer e a vegetar. Emfim, aos pés do
+operario um abysmo, um immenso abysmo se
+abria.</p>
+
+<p>E ai do homem, que um momento escorregar
+no precipicio; porque para esse não haverá salvação
+possivel.</p>
+
+<p>A mulher, que uma vez peccou, habilita-se a
+ser uma eterna peccadora. O homem que um dia
+se prostituiu, fica para sempre prostituido.</p>
+
+<p>Nem sempre, porém, nos abandonam os anjos
+do céu.</p>
+
+<p>Á beira do despenhadeiro tivera Julio o seu
+anjo da guarda.</p>
+
+<p>Abençoada a mão, que n'um raio de amor
+nos traz a esperança e a consolação!
+<span class="pagenum"><a name="pag107">[107]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXV">XV</a></h1>
+
+<h2>Primeiros amores</h2>
+
+
+<p>Um sol ardente batia de chapa sobre um eirado
+de pedra, em cujo espaço se abrigava cuidadosamente
+o fructo de uma boa colheita de milho.</p>
+
+<p>Ao lado, e fóra do alpendre, elevavam-se tres
+medas de palha, unico alimento annual, aos pacientes
+trabalhadores d'aquelle campo.</p>
+
+<p>Por entre as louras e amontoadas espigas brincavam
+em candida innocencia duas formosas e galantes
+creanças.</p>
+
+<p>A tarde declinava docemente. No pinheiral longinquo
+<span class="pagenum"><a name="pag108">[108]</a></span>
+gemia a rôla uns tristes e magoados queixumes.
+Os cantos jubilosos dos lavradores iam
+perder-se nas solidões distantes. O céu era sem
+nuvens; e as aguas de chrystal, mansas e innocentes,
+como as lagrimas de uma creança, deslisavam
+com ligeiros attritos, atravez dos terrenos pedregosos.</p>
+
+<p>Um cão preto, guardador de gados, saltando
+alegremente, annunciára em repetidas curvas, a
+proxima chegada de seu dono.</p>
+
+<p>A pouca distancia d'ali assomou logo um velhote
+de rosto prasenteiro e agradavel. As duas
+creanças, erguendo-se de um pulo, desappareceram
+por entre a sombra do arvoredo.</p>
+
+<p>Apenas um moço, altivo, de tez morena e bronseada,
+permanecêra na mesma posição sem dar por
+cousa alguma do que em de redor d'elle se havia
+passado.</p>
+
+<p>O velho chegou, trazendo os dois pequenos
+pela mão. Olhou com piedade para a estatua da
+tristesa, que tão profundamente o impressionava,
+<span class="pagenum"><a name="pag109">[109]</a></span>
+abeirou-se d'ella, e prorompeu nos seguintes e
+magoados termos:</p>
+
+<p>--Então que é isso, meu Julio? tão triste e
+pesaroso? já lhe não valem de nada as palavras
+d'este velhote, que tanto do coração lhe quer? e
+esta familia que é a sua? Ora vamos, mostre-se
+alegre para comnosco. Aperte-me esta mão que é
+rude, mas honrada. Seja-me franco, se alguma
+cousa o afflige. Nada receie. Olhe que todos nós
+o estimamos devéras.</p>
+
+<p>--Meu Pae...--exclamava Julio, debulhado
+em lagrimas,--meu bom Pae...</p>
+
+<p>O lavrador, puxando por um lenço encarnado,
+que habitualmente trazia no bolso direito da jaqueta,
+muito de soslaio limpou os olhos humedecidos.
+As duas creanças, acompanhando-o, como
+que por instincto lhe beijavam as mãos bemfazejas.</p>
+
+<p>O sol, atufando-se nas aguas do oceano, reverberava
+por sobre a terra silenciosa os seus derradeiros
+raios. A brisa era tépida, como a noite. Algumas
+<span class="pagenum"><a name="pag110">[110]</a></span>
+folhas sêccas, prenuncio do outomno, alastravam
+o sólo.</p>
+
+<p>Julio entrara-se em doloroso scismar. A sós
+comsigo mesmo, pensou muitas vezes no suicidio,
+companheiro e amparo dos que soffrem. Mas não.
+Uma esperança o alimentava. Um vago ideal o seduzia.</p>
+
+<p>Após profundo meditar alçou a cabeça para o
+céu. A imaginação cedera o seu logar á intelligencia.
+Julio estava salvo. A seu lado respirava um
+archanjo celeste.</p>
+
+<p>Olhou. Cecilia, a pomba immaculada, depositara
+aos pés do seu amante uma bolsa, cheia de
+libras, thesouro de trabalho e de economia.</p>
+
+<p>Que esplendida creança! e que nobilissima abnegação!</p>
+
+<p>--Tu aqui, Cecilia?...</p>
+
+<p>--Sim, aqui, ao pé de ti, meu Julio. Tudo adivinhei.
+Se é preciso que partas, parte: vae procurar
+a fortuna, por que tanto anceias. No entanto
+lembra-te sempre de que deixas n'esta casa não
+<span class="pagenum"><a name="pag111">[111]</a></span>
+só um pae que te estima mas tambem uma mulher
+que te ama.</p>
+
+<p>--Cecilia, meu doce amor, como eu quizera
+ser feliz comtigo. Mas tu bem vês, minha filha:
+sou pobre, nada tenho. Repudiado pela sociedade,
+que me julga um criminoso, apenas a tua e a
+minha desgraça poderia fazer n'este momento. Parto
+ámanhã. Com o nome mudado, entrarei n'uma
+fabrica. Trabalharei, trabalharei muito. E tu, Cecilia,
+que és boa e meiga, como as estrellas do
+céu, não me esqueças nunca nas tuas piedosas orações.
+Deus ha de ouvir-te, porque Deus tambem
+é bom. Um dia, quem sabe? voltarei rico a esta
+casa. Tenho fé em Deus que hei de voltar. E tu
+tambem tens fé, não é assim, Cecilia?</p>
+
+<p>--Fé, meu amigo, só eu tenho na morte. Alguma
+cousa me diz que a felicidade não foi feita
+para nós. Paciencia. Que, ao menos, o céu nos
+receba!--é este o meu maior desejo.</p>
+
+<p>Um curto, mas doloroso intervallo se seguiu
+a estas palavras. Cecilia, sufocada pelos soluços
+<span class="pagenum"><a name="pag112">[112]</a></span>
+rasgava com os proprios dentes as pontas do avental,
+chorando amargamente.</p>
+
+<p>Julio envidava todos os seus esforços afim de
+a consolar. Nem um nem outro, porém, sabiam
+o que faziam.</p>
+
+<p>--Vamos, meu Julio, assim é preciso. Animo,
+animo e adeus...</p>
+
+<p>Um abraço os reuniu; e um beijo--um prolongado
+e triste beijo os separou.</p>
+
+<hr style="border-bottom: dotted 2px #000000;">
+
+<p>Oito dias depois, Cecilia mostrava a seu pae
+uma carta de Julio, cuja leitura elle terminou chorando.</p>
+
+<p>--Pobre rapaz!--exclamava o bom do velho,
+limpando os olhos com as costas da mão.</p>
+
+<p>E voltando-se para sua filha, começou de beijal-a
+ardentemente.</p>
+
+<p>Doce esperança do céu lhe illuminára a fronte,
+encanecida na virtude e no trabalho!
+<span class="pagenum"><a name="pag113">[113]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXVI">XVI</a></h1>
+
+<h2>Transformações</h2>
+
+
+<p>Eu não sei qual seja melhor: se o ar do campo,
+se o ar da cidade.</p>
+
+<p>É certo que muitos preferem a provincia á
+capital. Tambem é certo que os doentes, por via
+de regra, se não dão bem nos grandes centros:
+Entretanto a cidade, se bem que despida da ingenuidade
+nativa da aldeia, tem para mim o supremo
+encanto da actividade e do trabalho. O silencio
+prolongado degenera as mais das vezes n'um aborrecimento
+<span class="pagenum"><a name="pag114">[114]</a></span>
+deploravel, quando não é elle o gerador
+de graves e dolorosas molestias.</p>
+
+<p>A cidade tem as suas ruas illuminadas. Os restaurantes
+attrahem-nos docemente. O ruido dos
+cafés desperta em nós o desejo da mutua confraternidade.
+Se por acaso atravessamos uma rua
+bastante concorrida, paramos instinctivamente; olhamos
+para as <i>vitrines</i> das lojas, admiramos um objecto
+mais do nosso agrado, e com isso nos deleitamos.</p>
+
+<p>Sobretudo apraz-nos a cidade no inverno, no
+tempo em que as arvores, despidas das esplendidas
+<i>toilettes</i> do verão, se nos mostram tristes e
+sombrias como a velhice. Então é-nos o calor mui
+doce e suave lenitivo. Á luz pallida do gaz distendem-se-nos
+os musculos enregelados, e enchem-se-nos
+de vida os membros confrangidos.</p>
+
+<p>O café é uma invenção puramente da cidade.
+<i>Rendez-vous</i> de todas as classes sociaes, é elle
+para a humanidade o mesmo que a familia é para
+<span class="pagenum"><a name="pag115">[115]</a></span>
+o homem. Á noite, ao cahir da tarde, quando as
+tristesas--aquellas vagas e mysteriosas tristesas
+do crepusculo--começam de entrar comnosco, nós,
+incitados por um desejo ardente de meigas e salutares
+expansões, procuramos o café naturalmente.
+Para alli nos dirigimos, como se elle nos fôra
+um templo sagrado; lá temos a nossa communhão
+de ideias e interesses--uma profunda e natural
+communhão, onde os amigos se encontram e os estranhos
+se abraçam.</p>
+
+<p>E o theatro? e os circos? e os passeios? e a
+musica?</p>
+
+<p>Imagine-se, pois, o leitor no theatro de D. Maria.
+A récita é dada em beneficio de um asylo. A
+plateia está replecta de espectadores, e nos camarotes,
+como que resplandecem, em glorioso desafio,
+as mais encantadoras formosuras de Lisboa:
+Como se disse no segundo capitulo d'este romance,
+o drama escolhido para esta noite era a <i>Vida de
+um rapaz pobre</i>. Apparecêra a Viscondessa, n'uma
+das frisas da frente, ostentando, um delicado decote,
+<span class="pagenum"><a name="pag116">[116]</a></span>
+um cóllo d'alabrasto, ao qual estava cingido
+um valioso collar de pérolas. Proxima d'ella, e na
+frisa immediata, uma condessa rica, enlêvo dos negociantes
+accreditados, mostrava uns braços gordos,
+a cujos pulsos, por egual gordos e sadios, se
+enroscavam umas pulseiras de diamantes, compradas
+na mais afamada ourivesaria de Paris. Mais
+além uma menina loura, ha pouco sahida do collegio,
+tomava <i>poses</i> incontestavelmente estudadas
+ao espelho, olhando de soslaio para um moço
+ainda imberbe, <i>soi-disant</i> litterato de botequim e
+<i>claqueur</i> improvisado.</p>
+
+<p>E assim succediam os factos, as pessoas e as
+cousas. Nas torrinhas estavam, segundo o costume,
+alguns rapazes, ao parecer entendedores--uns bons
+rapazes despretenciosos, á mistura com alguns operarios
+zelosos e trabalhadores.</p>
+
+<p>No fim do 3.<sup>o</sup> acto, quando Alfredo entrava na
+frisa da Viscondessa, um ignorado personagem se
+levantou nas torrinhas, replecto de amor e de febre.
+Desceu as escadas com desusada precipitação,
+<span class="pagenum"><a name="pag117">[117]</a></span>
+e entrou no restaurante. Pediu aguardente de
+canna e bebeu, bebeu sempre... Pediu uma folha
+de papel de carta, e com um lapis que trazia no
+bolso do casaco, escreveu um bilhete.</p>
+
+<p>Embuçado e trémulo, esperou que o espectaculo
+terminasse. Quando, por entre a multidão
+que sahia do theatro, lobrigou a Viscondessa, sem
+atinar com a intenção dos seus actos, allucinado,
+doido, perdido--acercou-se della, entregou-lhe
+o bilhete, e fugiu.</p>
+
+<p>Pobre de ti, meu Julio, espirito leviano e generoso,
+e agora já transformado em José Xavier,
+em virtude das leis do teu paiz.</p>
+
+<p>O ar da cidade, para ti renovado, foi o abysmo
+que se te abriu aos pés.</p>
+
+<p>Sem mesmo querer, olvidavas a aldeia, que te
+fôra consolação momentanea nas agruras da vida;
+e n'esse esquecimento involuntario ia-se-te a alma
+partida com a doce imagem da mulher honrada
+que por ti velava dia e noite.</p>
+
+<p>Pobre de ti, meu poeta! e pobre d'aquelles,
+<span class="pagenum"><a name="pag118">[118]</a></span>
+que, como tu, soffrem as mesmas e tristes inconstancias,
+a cujo horrivel imperio não ha nunca resistir
+n'este mundo de phantasmas e de vadios.</p>
+
+<p>Pobre de ti!
+<span class="pagenum"><a name="pag119">[119]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXVII">XVII</a></h1>
+
+<h2>Allucinações</h2>
+
+
+<p>Quando alguma ideia nos preoccupa o espirito
+fortemente, o nosso primeiro movimento é estar
+só, isolado, em intimo colloquio com os nossos
+desejos.</p>
+
+<p>Momentos ha em que aborrecemos a luz, como
+supremo escarneo aos nossos soffrimentos. N'este
+caso é a conversa de estranhos muitas vezes levada
+á conta de uma ironia pungente. Queremos fallar,
+e não podemos. Desejamos abrir os olhos, e conservamol-os
+fechados. Esforçamo-nos por chorar, e
+<span class="pagenum"><a name="pag120">[120]</a></span>
+as lagrimas não correm. Então, sequestrados da
+sociedade, e a sós com a nossa dor, imploramos
+de Deus o soccorro da morte e a hora suave do
+passamento.</p>
+
+<p>Julio estava perdido. Tentou ser homem, mas
+embalde.</p>
+
+<p>Pela primeira vez na sua vida entrou n'uma
+casa de jogo. A sorte foi-lhe adversa.</p>
+
+<p>Com os cabellos em desalinho, os olhos chammejantes,
+e o corpo numa ancia infernal, entrou
+o apaixonado moço n'um botequim.</p>
+
+<p>Bebeu, e embriagou-se.</p>
+
+<p>A paixão é muitas vezes creança. O amor é
+caprichoso, quasi sempre doentio, e por via de regra
+em extremo exigente.</p>
+
+<p>Ora a febre tem um periodo de excitação, o
+qual, apenas terminado, gera o aborrecimento e
+um indefinivel mal-estar.</p>
+
+<p>É louco o homem que ama sem raciocinio, doidamente
+entregue aos excessos da imaginação e
+da phantasia. Acima do amor está a amisade.
+<span class="pagenum"><a name="pag121">[121]</a></span>
+
+<p>O amor é um relampago em céu de trovoada:
+passa, e não dura.</p>
+
+<p>A amisade é um sol que, mesmo atravez das
+tempestades, se conserva: não tem azas como a
+aguia, mas em compensação tem raizes como a arvore.</p>
+
+<p>A amisade é sempre amorosa; o amor nem
+sempre é amigo.</p>
+
+<p>Para amar basta que se seja um bom amigo;
+para ser amigo é que não basta só o amor.</p>
+
+<p>O amor é um capricho, que póde provir de
+uma apparencia mal entendida.</p>
+
+<p>A amisade não! A amisade nasce da reflexão
+combinada com o tempo.</p>
+
+<p>Quantas vezes não é o amor filho do ciume?</p>
+
+<p>Quantas vezes nos não deixamos nós arrastar
+por uma simples exaltação do nosso temperamento?</p>
+
+<p>A nossa esposa deve ser a nossa primeira amiga.
+Na convivencia ha tempo para estudo. Ai!
+d'aquelle que se deixar arrastar pelo fogo das paixões,
+<span class="pagenum"><a name="pag122">[122]</a></span>
+porque para esse devem ser as as desillusões
+um quasi assassinato moral.</p>
+
+<p>Julio estava cego; caminhando ás apalpadellas
+mal podia atinar com o caminho.</p>
+
+<p>Depois de ter jogado, depois de ter bebido, sahia
+para a rua.</p>
+
+<p>Se o jogo é como o vinho uma embriaguez,
+nem porisso o amor deixa de o ser tambem.</p>
+
+<p>Quasi nunca a paixão apparece só. Um homem
+apaixonado é um aventureiro, um espadachim, que
+anda atraz da sorte, desafiando-a. E porisso é que
+os tres irmãos gemeos--o jogo, o vinho e o amor--caminham sempre unidos e
+accordes.</p>
+
+<p>Julio, ébrio, ameaçou as estrellas, riu-se da
+lua, escarneceu do céu, e insultou-se a si.</p>
+
+<p>A embriaguez tem d'estas oscillações inexplicaveis:
+no principio é vigorosa, athletica, muscular,
+até que a pouco e pouco enfraquece, tornando-se
+inerte, covarde, miseravel: similhante a um
+homem que, cahindo no abysmo, solta a principio
+<span class="pagenum"><a name="pag123">[123]</a></span>
+uns gritos agudos, lancinantes, e que a final, desesperado
+e sem força, se deixa escorregar para
+o fundo, onde adormece no leito do universal esquecimento.</p>
+
+<p>Julio, sem ser cadaver, era no entretanto um
+alucinado. E o alucinado só dista do cadaver, em
+que aquelle é um morto ambulante, ao passo que
+este é apenas um morto inerte, estupido e incapaz
+de movimento.
+<span class="pagenum"><a name="pag124">[124]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag125">[125]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXVIII">XVIII</a></h1>
+
+<h2>O escudeiro da senhora Viscondessa</h2>
+
+
+<p>Apenas sahido do theatro o primeiro pensamento
+de Julio fôra suicidar-se.</p>
+
+<p>Alguma cousa, porém, impossivel de explicar-se,
+o prendia á vida. Demais elle era novo; contava
+vinte e seis annos, se tanto; possuia aspirações
+em larga escala; vastos affectos lhe referviam
+na mente escaldada. É verdade que até ahi a pobresa
+o não deixára sahir do seu silencio. Que lhe
+importava, comtudo, a obscuridade do presente,
+se o futuro lhe podia ser de amor e de rosas?
+<span class="pagenum"><a name="pag126">[126]</a></span>
+
+<p>Uma lucta desesperadora se lhe travou então
+no espirito irrequieto.</p>
+
+<p>--Sim! a vida--exclamava elle--oh a vida...
+e chama-se a isto vida... Mas se ella de facto me
+pertence, porque me não hei de eu desfazer della?
+se por naturesa, Deus me creou livre; se para mim
+nada existe na terra, além d'este fardo importuno
+a que chamam miseria, para que persistir n'elle.
+Não! É mister sahir d'este salão, d'este vil salão!
+cuja área denominam universo: procurar um outro,
+cujo começo é o cemiterio, e o fim, talvez, a
+eternidade da materia... Os homens... que são os
+homens? uns tristes egoistas sem consciencia e sem
+pundonor, uns mercenarios torpes, altivos invejosos
+e estupidos... perfeitamente como os outros
+animaes... Mas aquella mulher! e qual? Cecilia?
+oh, Cecilia é uma andorinha cheia de castidade,
+muito pura e muito simples. E depois--que lhe
+devo eu? se me teve amor, tambem eu a amei... se
+me deu affectos, tambem eu lh'os retribui. Acima
+d'ella, porém, está a Viscondessa. Comparál-as? oh!
+<span class="pagenum"><a name="pag127">[127]</a></span>
+não, por Deus, Cecilia é uma pobre rapariga sem
+arte; falta-lhe a elegancia da Viscondessa, não sabe
+fallar, não se sabe vestir, não se sabe pentear... para
+que hesitar, pois? Ah! louco, que eu sou na verdade!
+mas se esta imagem me persegue por toda
+a parte, se a não posso apagar da memoria, porque
+me está aqui parada, aqui, aqui bem dentro,
+n'este coração maldicto... Sou pobre! Embora! tornar-me-hei
+rico; irei ao Brazil; amontoarei dinheiro
+sobre dinheiro; far-me-hei negociante e vendedor
+de café.</p>
+
+<p>Assim monologava o moço operario, de si para
+comsigo, sem outro alento que não fosse uma paixão
+profunda, ardente, vulcanica. Sobre a espaçosa
+fronte cahira-lhe o cabello n'um singular desalinho.
+Os braços, crusados ao longo da mesa,
+bem patenteavam a afflicçao que n'aquelle momento
+o devorava. No interior do peito referviam-lhe
+as negras chammas do supplicio--aquellas chammas
+infernaes, remordentes, que nos são, como
+que o appêlo de Satan sobre a terra.
+<span class="pagenum"><a name="pag128">[128]</a></span>
+
+<p>Adormeceu. Um languido torpôr se lhe apossou
+dos membros cançados. N'esses raros momentos
+de nervosa agitação, uma hora de somno vale
+mais positivamente, muito mais, do que uma noite
+bem dormida.</p>
+
+<p>Quando voltou a si era dia claro no horisonte.
+Abriu a janella, e tomado d'uma ancia incuravel,
+alongou os olhos pelas montanhas longinquas. Similhante
+ao peregrino, que, com os olhos ávidos,
+mede a extensão do deserto, assim elle tambem
+mediu a extensão da sua dôr. Se era grande ou
+pequena, só o espirito ao certo lh'o poderia affirmar.</p>
+
+<p>Entretanto a Viscondessa, nem sequer se lembrára
+mais do bilhete recebido no theatro. No dia
+seguinte, porém, seriam quatro horas da tarde,
+quando Virginia lhe annunciou a visita de um operario.</p>
+
+<p>A Viscondessa, na sua proverbial delicadesa,
+mandou-o entrar para a sala.</p>
+
+<p>Um minuto depois parava ao limiar da porta
+<span class="pagenum"><a name="pag129">[129]</a></span>
+um sympathico rapaz de bigode preto, macillento
+e moreno. Trajava modestamente uma bluza azul
+e uma calça côr de cinza.</p>
+
+<p>--Disseram-me que a senhora Viscondessa precisava
+de um creado--principiou o desconhecido.</p>
+
+<p>--Como se chama?--interrompeu a senhora.</p>
+
+<p>--José Xavier.</p>
+
+<p>--José! pois bem: agrada-me o nome. Póde
+ficar. Virginia que lhe diga o que tem a fazer.</p>
+
+<p>E, sem mais, virou-se a viscondessa para o
+outro lado, retomando a primitiva posição.</p>
+
+<p>Ao jantar alguns incidentes notaveis se deram.
+Julio servia á mesa. Com os olhos sempre fitos
+na Viscondessa mal pestanejava, o pobre do rapaz.
+Por algumas vezes lhe cahiram os pratos da mão;
+por algumas vezes substituiu um prato lavado por
+um outro sujo; por algumas vezes se riu Virginia
+a bom rir. Para tal, porém, nem sequer a ama reparou
+em meio das suas caprichosas divagações.</p>
+
+<p>Os dias iam correndo em silencio. Julio, ardendo
+em amor, seguia, como um cão, os mais insignificantes
+<span class="pagenum"><a name="pag130">[130]</a></span>
+passos da Viscondessa. Quando ella
+passava pelo corredor, occultava-se atraz das portas;
+se podia, beijava-lhe a fimbria do vestido;
+quando ella sahia, entrava-lhe no quarto de vestir
+e ali se ficava horas esquecidas n'uma d'estas allucinações
+que só conhecem os espiritos febris e
+nervosos. N'um momento de cegueira, roubara-lhe o,
+retracto do album; com elle adormecia todos os dias,
+e com elle tambem entrava no serviço da casa.</p>
+
+<p>Entretanto o diabo arma-as, quando menos a
+gente as espera.</p>
+
+<p>Julio penetrára no quarto de sua ama. Involuntariamente
+se demorou mais do que o costume.
+A Viscondessa entrou cêdo n'esse dia. O escudeiro
+mal tivera tempo de se esconder d'entro de um
+guarda-roupa.</p>
+
+<p>Ia Virginia, segundo o seu habito, a abrir
+o armario; quando Julio, dando um pulo para
+fóra, deixou espavoridas ama e creada.</p>
+
+<p>--Ai! credo! Jesus! gritou Virginia--Ladrões
+em casa; ladrões, minha senhora.
+<span class="pagenum"><a name="pag131">[131]</a></span>
+
+<p>--Que é? que é?--exclamou a Viscondessa.</p>
+
+<p>--Pois não viu? O tratante do José aqui fechado!</p>
+
+<p>--O José--retorquiu a senhora!</p>
+
+<p>--O José, sim, minha senhora, o José...</p>
+
+<p>--É verdade, senhora Viscondessa; fui eu, fui
+eu que commetti este enorme attentado--obtemperou
+Julio, trémulo de colera e de raiva. E para
+prova, aqui me tem a seus pés, sollicitando-lhe
+perdão.</p>
+
+<p>--Virginia, disse a Viscondessa, paga a este
+miseravel, o manda-o embora.</p>
+
+<p>--Já, minha senhora.</p>
+
+<p>--Bem me queria a mim parecer--murmurava
+a esperta da creada--que aqui andava sua
+cousa encoberta.
+<span class="pagenum"><a name="pag132">[132]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag133">[133]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXIX">XIX</a></h1>
+
+<h2>Falla o coração</h2>
+
+
+<p>Será verdade que o coração tambem falla?</p>
+
+<p>Uma cousa é amar, outra cousa é desejar. O
+amor deriva do coração, foco de toda a vida humana;
+o desejo nasce dos sentidos. Ao primeiro
+pertence o amor-sentimento, ao segundo o amor-sensação.
+Até aos trinta annos o amor póde dizer-se
+sentimento; o que, por via da regra, não succede
+já d'ahi por deante, em que elle se transforma
+n'um desejo material.</p>
+
+<p>O amor depende, sobretudo, da educação; e
+<span class="pagenum"><a name="pag134">[134]</a></span>
+assim póde ser maior ou menor, consoante o estado
+moral do individuo em que elle se manifesta.</p>
+
+<p>O amor mais verdadeiro é aquelle que se não
+exprime. A attracção de sympathias deve dar-se
+naturalmente sem necessidade de expansões, que
+lhes viciem a puresa inicial.</p>
+
+<p>O selvagem, por exemplo, ama até ao ciume.
+Quando não póde saciar os seus desejos, apunhala-se
+a si ou apunhala a amante. É que o selvagem,
+na sua natureza desordenada, é um diamante por
+lapidar.</p>
+
+<p>O ciume accusa falta de confiança na mulher
+a que nos dedicamos, só por um inconcebivel
+egoismo poderemos ser arrastados a um vicio tão
+execrando, como abjecto.</p>
+
+<p>Julio amava a Viscondessa com um amor selvagem,
+forte, violento. Tinha ciumes della; seguia-a
+por toda a parte; e não raro succedia fechar-se
+n'um quarto, e ahi, com o retracto deante
+de si, chorár e chorar copiosamente.</p>
+
+<p>Ora a Viscondessa era de facto uma mulher
+<span class="pagenum"><a name="pag135">[135]</a></span>
+bem educada, mas soberanamente viciada pela lisonja
+dos homens.</p>
+
+<p>Tres são de ordinario as causas do orgulho
+na mulher: a formosura, a riquesa e o nascimento.</p>
+
+<p>A formosura, pela demasiada contemplação das
+proprias qualidades, gera o <i>coquettismo</i>; a riquesa
+a vaidade; o nascimento a soberba.</p>
+
+<p>A mulher formosa tem em si mesmo a causa
+da sua destruição. Lisonjeada pelos homens, torna-se
+inconstante. Depois, note-se--a inconstancia
+é um excesso de ternura, uma superabundancia
+de bondade.</p>
+
+<p>A simulação é propria ás mulheres. Ao amor
+fingido de uma mulher corresponde de ordinario o
+amor mentiroso de um homem. As mulheres fingem,
+porque, desde creanças, as ensinaram a fingir.
+É um vicio de educação.</p>
+
+<p>A riquesa é a antithese da virtude. Foi a pobresa
+que gerou a caridade. Mulher rica é mulher,
+quasi sempre, voluntariosa; muito senhora de
+si, deseja ser obedecida como rainha.
+<span class="pagenum"><a name="pag136">[136]</a></span>
+
+<p>O nascimento nem sempre é um prejuizo. Ha
+mulheres aristocraticas em cujas acções se revela
+a suprema distincção. É mais para temer-se o excesso
+de republicanismo, do que o excesso de aristocracia.</p>
+
+<p>A Viscondessa era simultaneamente formosa,
+rica e nobre. Se desattendia as expansões do operario,
+invisiveis para ella, não era tanto por orgulho,
+que realmente não tinha, como, e principalmente,
+por uns ligeiros, mas inapagaveis, vestigios
+da infancia.</p>
+
+<p>É justo que o coração do homem seja equilibrado
+pela intelligencia da mulher. Mas Julio amava
+sem ser amado, o que é decerto uma loucura,
+baptisada com o nome de martyrio.</p>
+
+<p>Amor não correspondido, é amor que degenera
+em odio.</p>
+
+<p>Homem allucinado não reconhece meio termo:
+ou ama com paixão, ou odeia com rancor.</p>
+
+<p>Julio, qual outro viajante, deixara-se seduzir
+por uma miragem doce e agradavel. Olhou. A vertigem
+<span class="pagenum"><a name="pag137">[137]</a></span>
+toldára-lhe a vista. Quando descerrou as
+palpebras á luz do dia, um peso enorme lhe obscurecia
+o cerebro. Quiz pensar e não pôde.--Mas
+que terei eu, interrogava a si mesmo. E, em redor
+d'elle, tudo annunciava um vago e mysterioso silencio.</p>
+
+<p>Estava apaixonado.</p>
+
+<p>O coração batia-lhe d'entro do peito com viva
+e prolongada violencia. A cabeça era fria, e os
+sentidos mal davam accordo de si.</p>
+
+<p>Ai! d'aquelles que só a voz do coração escutam,
+porque para esses é a paixão um ignorado
+martyrio e a vida um tristissimo cemiterio.
+<span class="pagenum"><a name="pag138">[138]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag139">[139]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXX">XX</a></h1>
+
+<h2>Casa burguesa</h2>
+
+
+<p>Era um gosto entrar a gente em casa do sr.
+Francisco Alves. Tudo respirava ali um aceio, por
+tal fórma invejavel, que o espirito em verdade se
+sentia bem, muito bem, ante aquella limpesa, tão
+rara em Portugal como prodiga em qualquer outro
+paiz.</p>
+
+<p>No bairro de Alcantara era o sr. Francisco conhecido
+como um modelo de philantropia e de
+bons sentimentos. Os jornaes por vezes resavam
+<span class="pagenum"><a name="pag140">[140]</a></span>
+da sua pessoa, assim como da sua catholica esposa,
+a sr.<sup>a</sup> Felisbella de Menezes.</p>
+
+<p>Emfim o sr. Alves era modesto sem ostentação,
+simples sem atavios, e amavel sem rancor.</p>
+
+<p>O sr. Francisco Alves era o que em boa linguagem
+se póde dizer--um portuguez de lei.</p>
+
+<p>De um rico tio provinciano herdára elle uns
+dez contos de reis, em metal sonante, com os
+quaes comprou uma mercearia bem fornecida e
+já bem accreditada na capital.</p>
+
+<p>Atirou-se, pois, o sr. Francisco ao negocio,
+e sempre com fortuna e sempre com bons auspicios.</p>
+
+<p>Um dia virou-se elle para a esposa, e disse:</p>
+
+<p>--Ó Felisbella, se tu quizesses, uma vez que
+foi esteril o nosso matrimonio, traziamos um rapasito
+para casa, e adoptavamol-o como nosso filho?
+Que dizes?</p>
+
+<p>--Olha, menino--tu bem sabes que eu estou
+por tudo o que tu quizeres. Vae tu mesmo a um
+<span class="pagenum"><a name="pag141">[141]</a></span>
+asylo se assim te apraz, e escolhe-me lá um pequenote;
+mas que seja bonito, entendes?</p>
+
+<p>--Pois está dito, mulher! amanhã tratarei d'isso.</p>
+
+<p>E, com taes intenções, deitou-se á noite o sr.
+Francisco Alves, n'um bello colxão de commoda
+lã.</p>
+
+<p>Veio o rapaz para casa. A sr.<sup>a</sup> Felisbella queria-o
+para doutor, o sr. Francisco, para merceeiro.</p>
+
+<p>O pequerrucho era engraçado, muito engraçado,
+cheio de bons ditos e de palavras amaveis.</p>
+
+<p>Á sr.<sup>a</sup> Felisbella tratava elle por <i>mamã</i>, e ao
+sr. Francisco por <i>papá</i>.</p>
+
+<p>--Sempre tem uma graça, este pequeno!--dizia
+o Alves, ás vezes para a mulher.</p>
+
+<p>--E os ditos então? se tu lh'os ouvisses...
+retorquia a bondosa da sr.<sup>a</sup> Felisbella.</p>
+
+<p>--Pois, menina, parece-me que dá em doutor
+o diabo do rapazelho.</p>
+
+<p>--Ora! se eu bem t'o dizia.</p>
+
+<p>--E tinhas razão, tinhas, lá isso tinhas. E ha
+de ser um doutor, assim elle queira.
+<span class="pagenum"><a name="pag142">[142]</a></span>
+
+<p>O rapaz cresceu. Foi para a escola, e deu boa
+conta de si. Foi para Coimbra, e tomou grau em
+direito. Depois metteu-se advogado, e é hoje um
+dos mais distinctos homens de lettras do nosso
+paiz. Sempre grato á sr.<sup>a</sup> Felisbella, visita-a todos
+os dias. Ao sr. Francisco Alves já advogou algumas
+questões, e, ao parecer, com gloria para
+ambos.</p>
+
+<p>Não parava, porém, aqui a abnegação do sr.
+Francisco.</p>
+
+<p>Acontecia frequentemente elle vir para casa
+mais tarde do que desejava. Se por acaso encontrava
+algum pobre estendido na rua, ao relento e
+ao frio, levantava-o, e trazia-o comsigo. Chegado
+ao lar mandava-lhe arranjar uma boa ceia, vestia-o
+no dia seguinte, e deixava-o seguir o seu caminho.</p>
+
+<p>E a isto, leitor generoso, chama o mundo ser
+boçal.
+<span class="pagenum"><a name="pag143">[143]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXI">XXI</a></h1>
+
+<h2>Considerações</h2>
+
+
+<p>A nossa sociedade é essencialmente burguesa.
+Actualmente todos gritam contra o burguezismo,
+e entretanto ninguem está isento d'esse peccado,
+se peccado se lhe póde chamar. E cousa singular!
+ao passo que a aristocracia vai descendo até ás regiões
+do plebeismo, a burguezia, por seu turno,
+eleva-se, e tenta em breve ser a Excellencia do paiz.</p>
+
+<p>O moderno fidalgo portuguez não existe já.
+Antigamente um aristocrata, <i>pur sang</i>, tornava-se
+respeitavel por uma educação sisuda e por uma
+<span class="pagenum"><a name="pag144">[144]</a></span>
+illustração opulenta. Hoje dá-se perfeitamente o
+contrario. O bom fidalgo, <i>faia</i> de recente data,
+abandalha-se na convivencia dos cocheiros, tocando
+o fado pelas ruas, durante a noite, picando touros,
+usando jaqueta e facha de seda e vivendo entregue
+á ociosidade, que é o vicio, e á embriaguez,
+que é a doença e muitas vezes a morte.</p>
+
+<p>Outr'ora havia um certo pundonor em conservar
+intactas as tradições de familia, demonstrando-se
+assim que a honradez do nome é um dever
+sacrosanto para verdadeiros fidalgos.</p>
+
+<p>Agora não! Uma pateada, dada num theatro
+a uma actriz, um conflicto levantado em qualquer
+praça publica, uma desobediencia á authoridade,
+um adulterio commettido com a mulher do seu
+amigo intimo: tudo isto são peripecias galantes
+para a nossa mocidade, que, á falta d'outro, tem
+o estimulo do egoismo e da arruaça.</p>
+
+<p>Ora eu peço licença a s. ex.<sup>as</sup>, os srs. viscondes,
+para lhes notar que não é esse o caminho da
+nobresa. Deus me defenda de offender melindres,
+<span class="pagenum"><a name="pag145">[145]</a></span>
+que muito longe estão d'esta regra. Excepções
+existem, e aliás excepções respeitaveis.</p>
+
+<p>Afigura-se-nos, porém, que a instrucção é presentemente
+mais peculiar á burguesia do que á
+aristocracia. D'entre os burgueses raro é aquelle
+que não tem a sua livraria sufficientemente enriquecida
+de bons auctores, e rarissimo ainda mais
+aquelle que não lê tres ou quatro jornaes todos os
+dias.</p>
+
+<p>Os filhos da burguesia seguem as escolas publicas,
+occupam os primeiros logares do estado, e
+possuem actividade e intelligencia em larga escala.</p>
+
+<p>Onde existe maior gráu de moralidade: na
+aristocracia ou na burguesia? E o trabalho, d'onde
+sahe elle? E as revoluções, a quem as devemos
+nós, senão á burguesia?</p>
+
+<p>Não ha classe alguma da sociedade que, passado
+um certo numero de annos, se não corrompa.</p>
+
+<p>As classes são na sociedade como as instituições:
+<span class="pagenum"><a name="pag146">[146]</a></span>
+gastam-se e aniquilam-se, decorrida uma certa
+phase historica.</p>
+
+<p>A burguesia vai cahindo nos mesmos defeitos
+da antiga nobresa--sabemol-o; sem embargo a
+burguesia tem ainda vantagens sobre a aristocracia.</p>
+
+<p>Entre a burguesia e a plebe existe, porém, uma
+outra classe, que ao mesmo tempo participa da segunda
+pelo seu nascimento e da primeira pela sua
+actividade: esta classe não tem nome; vive do
+producto das suas lojas, das suas propriedades e
+da sua economia. A ella pertencia o sr. Francisco
+Alves, expressão de bondade christã e de virtude
+evangelica.</p>
+
+<p>Aos domingos encontram-se estes <i>pequenos negociantes</i>--que
+outro nome não sei eu que elles
+tenham--em longo e aturado passeio pelos campos
+e pelas estradas. Ahi, reunidos em familia,
+comem o seu pedaço de queijo com pão, e bebem
+o seu meio quartilho de vinho. E isto apenas aos
+<span class="pagenum"><a name="pag147">[147]</a></span>
+domingos, que, aos dias de semana, a alvorada
+vem quasi sempre encontral-os no trabalho.</p>
+
+<p>O sr. Alves enfileirara-se n'este grupo ignorado,
+e delle herdára os habitos e as tradicções.</p>
+
+<p>E o certo é que se não foi um anjo, na verdadeira
+acepção da palavra, foi pelo menos um bom
+homem, honrado e caritativo.
+<span class="pagenum"><a name="pag148">[148]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag149">[149]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXII">XXII</a></h1>
+
+<h2>Um hospede</h2>
+
+
+<p>N'uma noite tempestuosa em que a caridade,
+silenciosa sempre e occulta quasi sempre se encarrega
+de velar pela miseria sobre a terra,--voltava
+o sr. Francisco Alves a Alcantara, onde anciosamente
+o esperava a carissima metade da sua alma.</p>
+
+<p>Na occasião, porém, em que descia a calçada
+da Pampulha, notou elle vagamente uma sombra
+que a um recanto permanecia n'uma mudez quasi
+sepulchral. Aproximando-se, reconheceu um homem,
+mais cadaver do que outra cousa. A tristesa tomou-o,
+<span class="pagenum"><a name="pag150">[150]</a></span>
+então, dos pés á cabeça. Cheio de terror, livido,
+nervoso, lembrou-se o senhor Alves de chamar a
+policia. Não era essa, todavia, a tendencia do seu
+coração generoso e leal. Emfim esperou. Casualmente
+passava um trem de praça. Chamou o cocheiro,
+e levantando o homem que elle supposéra
+ebrio, introduziu-o na carruagem.</p>
+
+<p>A sr.<sup>a</sup> Felisbella, como de antiga e patriarchal
+usança era n'aquella casa, resava a sua corôa, correndo
+o rosario entre os dois dedos da mão direita--o
+index e o polgar. Auxiliava-a em tão piedoso,
+quanto catholico mister, uma creada velha, beata
+pelos modos, quarentona já, mas amiga da sua ama.</p>
+
+<p>A sala, em que ellas estavam, chamada casa
+de engommar, representava um quadrado perfeito,
+com vinte pés de comprido sobre vinte de largo,
+rodeada por doze cadeiras de coiro, antigas, segundo
+todas as apparencias, herdadas de parentella abonada.</p>
+
+<p>Ao centro, uma mesa de páu preto, caprichosamente
+torneada, recebia invariavelmente, todas
+<span class="pagenum"><a name="pag151">[151]</a></span>
+as noites, um velho candieiro de metal amarello,
+comprado n'um leilão de ferros velhos.</p>
+
+<p>O sr. Francisco Alves, entrando em casa, nem
+sequer se déra ao trabalho de incommodar sua mulher.
+Arrastou o moribundo para um quarto, cuja
+cama principalmente sobresahia pela alvura da roupa,
+e foi elle mesmo chamar um medico.</p>
+
+<p>N'este comenos concluía a sr.<sup>a</sup> Felisbella a sua
+nocturna devoção. Ignorando tudo o que em volta
+d'ella se passava, pegou no candieiro, pela aza superior;
+e, arrastando-se com difficuldade--porque
+a sr.<sup>a</sup> Felisbella era gorda e rheumatica--dirigiu-se
+para o quarto, parando no corredor umas tres ou
+quatro vezes.</p>
+
+<p>A ausencia do marido incommodava-a, porém,
+sobremaneira. Terá elle sido preso?--monologava
+ella de si para comsigo.--Mas o meu Francisco nunca
+foi atreito a barulhos. Nada. E quem me diz a
+mim que algum namorico...</p>
+
+<p>E n'estas duvidas adormeceu a esposa do sr. Alves,
+merceeiro.
+<span class="pagenum"><a name="pag152">[152]</a></span>
+
+<p>A noite, como todos os contrastes d'este mundo,
+corrêra alegre para uns e triste para outros. A sr.<sup>a</sup>
+Felisbella dormira umas boas oito horas, ao cabo
+das quaes acordou, pensando no sr. Francisco.</p>
+
+<p>--Ó Francisco, Francisco!--gritava a pobre
+da mulher com toda a força dos seus pulmões.</p>
+
+<p>E o sr. Francisco Alves assomou ao limiar da
+porta.</p>
+
+<p>--Queres-me alguma cousa, Felisbella?--respondeu
+elle.</p>
+
+<p>A mulhersinha enfiou, apenas viu o marido. Não
+sabendo com que desculpar-se, calou-se. Porque a
+sr.<sup>a</sup> Felisbella--diga-se já de passagem--respeitava
+devéras o sr. Francisco, a quem na sua mocidade
+entregára o coração e a vontade.</p>
+
+<p>Como quer que fosse, porém, o sr. Francisco, prudente
+como os que o sabem ser, entrou por si
+mesmo em explicações. Contou tudo o que durante
+a noite lhe havia occorrido; recommendou finalmente
+o rapaz á vigilancia de sua mulher, e sahiu.</p>
+
+<p>Quando á tarde voltou a casa, communicaram-lhe
+<span class="pagenum"><a name="pag153">[153]</a></span>
+que o doente já fallava. Alegrou-se. N'esse dia
+bebeu mais um cópo de vinho ao jantar, e deu um
+beijo na face direita da sr.<sup>a</sup> Felisbella.</p>
+
+<p>Decorrêra um mez.</p>
+
+<p>Em casa do sr. Francisco Alves reina uma alegria
+desusada. É domingo. Preparam-se todos
+para ir jantar ao campo. A sr.<sup>a</sup> Felisbella dobra
+o seu <i>chale de toukin</i> branco e calça a sua luva
+de retroz preto. O sr. Alves leva um chapéu de
+palha do Chili. E o nosso doente--agora já restabelecido
+e companheiro de passeio--traja modestamente
+um fato preto.</p>
+
+<p>A comitiva, assim composta, seguia para Queluz.
+Impossivel nos fôra descrever a amizade que
+n'esse dia reuniu aquelles tres entes queridos.</p>
+
+<p>O sr. Francisco Alves brindou o seu hospede,
+appellidando-o com o doce nome de filho. A sr.<sup>a</sup>
+Felisbella sorriu devotamente; e a creada, a velha
+creada, exclamou sentenciosamente:</p>
+
+<p>«Deus sabe o que faz!»
+<span class="pagenum"><a name="pag154">[154]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag155">[155]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXIII">XXIII</a></h1>
+
+<h2>Transição</h2>
+
+
+<p>Na escolha do espectaculo manifesta-se, em geral,
+o bom gosto do espectador. Não quero eu com
+isto dizer que, muitas vezes, não seja a curiosidade
+o motor das nossas acções; mas, emfim, o que
+cumpre saber-se é que n'um theatro, n'um circo,
+n'uma exposição está, por via de regra, representada
+a civilisação de um povo.</p>
+
+<p>O theatro é hoje o <i>rendez vous</i> da moda. Nos
+espectaculos, e á vista de dramas perfeitamente
+phantasticos e inuteis, aprendem as nossas elegantes
+<span class="pagenum"><a name="pag156">[156]</a></span>
+a soletrar os primeiros rudimentos do amor,
+do <i>coquettismo</i> e as supremas illusões.</p>
+
+<p>Durante a representação, que devia ser eschola
+e estudo, occupam-se os rapases em averiguar procedencias
+amorosas, em discutir escandalos, em
+calumniar mulheres, em fomentar pequenas intrigas
+de bastidor, emfim, em passar a vida, rindo á custa
+dos similhantes.</p>
+
+<p>Ora a missão do theatro não póde, por fórma
+alguma, estar reduzida a um mero passa-tempo, sem
+realidade e sem vantagem, que se possa dizer immediata.
+O theatro não é simplesmente um divertimento
+para os olhos, mas ainda mais uma lição
+para o espirito. Não se tracta apenas de seguir a
+moda, o figurino, com receio de que os outros
+nos taxem de retrogados, de inconvenientes, de
+provincianos. Por modo algum. Aqui o caso muda
+um tanto de figura. É preciso que da nossa parte,
+haja o bom gosto na escolha e o bom-senso da critica.
+Aliás não passaremos nunca de uns miseraveis authomatos,
+sem consciencia, sem dignidade e sem brio.
+<span class="pagenum"><a name="pag157">[157]</a></span>
+
+<p>Um dos primeiros empenhos do nosso seculo
+é agradar. E se é certo que o habito não faz o
+monge, tambem não é menos certo que o monge
+se conhece pelo habito.</p>
+
+<p>É á França, aquella França egualmente grande
+pelo pensamento e pela frivolidade, que nós devemos
+a introducção dos figurinos na sociedade europêa.
+E note-se que o figurino em tudo preside
+actualmente, por infelicidade nossa--na mesa,
+na litteratura, na industria, no commercio, nas
+artes, na sciencia, absolutamente em tudo. Nas altas
+classes sociaes pelo trajo de um homem avalia-se
+o trajo de todos os outros homens. No campo da
+poesia pelo realismo de um poeta avalia-se o realismo
+de todos os outros poetas. E assim seguidamente;
+porque a uniformidade, embora o não queiram,
+é uma lei dos nossos costumes e das nossas
+cousas.</p>
+
+<p>A elegancia é uma prova de bom gosto, indubitavelmente.
+Mas a elegancia, como tudo o que
+nos pertence, deve ser individual, variada, como o
+<span class="pagenum"><a name="pag158">[158]</a></span>
+sentimento humano, e distincta, como o gosto de
+cada um, isto é deve ser original.</p>
+
+<p>Durante o inverno, por exemplo, vai-se ao
+theatro lyrico, não tanto porque a musica nos delicie
+o ouvido e nos eleve o espirito, obrigando-nos
+á concentração e á melancholia, mas, sim, e principalmente,
+porque é do bom-tom, é <i>chic</i> ter assignatura
+em S. Carlos.</p>
+
+<p>E apregoam-se já os beneficios da musica classica,
+como se a nossa educação e o nosso temperamento
+nos permittissem ser uns perfeitos entendedores
+das harmonias eminentemente profundas de Mozart,
+de Beethowen, de Sthephenheller, de Schubert e
+d'outros mais.</p>
+
+<p>D'aqui infere-se naturalmente que nós, um
+povo peninsular em quem deviam brotar as magneticas
+expansões e os ardentes enthusiasmos, apenas
+somos uns meros escravos da moda, indolentes
+por habito, sem o ideal que seduz, e privados do
+raciocinio que illustra.</p>
+
+<p>Os risos, francamente abertos e sinceramente
+<span class="pagenum"><a name="pag159">[159]</a></span>
+verdadeiros, sóem ainda encontrar-se nas classes
+medias, semi-burguesas, para assim o dizer. Só o
+trabalho póde dar alegria. E porisso os que não
+trabalham conservam o sorriso quasi permanentemente
+ao canto da bocca, um sorriso amarello,
+felino, sorriso desgostoso e desconfiado.</p>
+
+<p>O sr. Francisco Alves sabia rir, porque tambem
+sabia trabalhar. Não frequentava os theatros,
+porque, á similhança dos da sua egualha, desconhecia
+a moda totalmente. Vivia para a familia e
+com ella se divertia. Tambem tinha amigos. Aos
+domingos chamava-os, reunia-os a si, e ia para o
+campo, ficando-se por lá até á noite.</p>
+
+<p>Comendo, bebendo e rindo á vontade, o sr. Alves
+estava no seu paraiso, longe da serpente que
+tentou Eva a comer do fructo prohibido, perfeitamente
+a bem com Deus e comsigo mesmo.</p>
+
+<p>Bem hajam os que, como elle, comprehendem
+por este modo a felicidade sobre a terra!
+<span class="pagenum"><a name="pag160">[160]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag161">[161]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXIV">XXIV</a></h1>
+
+<h2>Confidencia</h2>
+
+
+<p>Um dia a sr.<sup>a</sup> Felisbella apparecêra de luto na
+missa da Ajuda, dando o braço direito a um sympathico
+moço, alto e moreno.</p>
+
+<p>Francisco Alves já não era d'este mundo. A
+mercearia passára a outro dono.</p>
+
+<p>«E uma vez que tanto lhe devo, sr.<sup>a</sup> Felisbella--dizia
+o desconhecido uma noite--forçoso se
+me torna narrar-lhe toda a minha vida. Fui pobre,
+sem recursos. Minha mãe morreu-me nos
+braços. Coitada! Por amor de mim soffreu e por
+<span class="pagenum"><a name="pag162">[162]</a></span>
+amor de mim morreu tambem. Eu quiz trabalhar,
+e não encontrei trabalho. Um dia prenderam-me
+sem culpa formada. Evadi-me da cadeia. Vagueei incerto
+até que um honrado camponez me acolheu em
+sua casa. Amei-lhe a filha, com quem prometti casar.
+Era uma boa rapariga; chamava-se Cecilia. Envergonhei-me
+de estar n'aquella casa sem nada
+fazer. Ella comprehendeu-me. Juntou as suas economias,
+e atirou-mas ao regaço. Que prodigiosa
+abnegação, sr.<sup>a</sup> Felisbella! E eu que até então me
+chamava Julio vim para a cidade com este nome
+supposto. Alguns mezes se passaram. Uma noite--que
+maldita noite aquella, minha senhora!--fui
+ao theatro de D. Maria. Olhei para um camarote,
+e fiquei fascinado com o rosto de uma Viscondessa.
+Depois vieram as allucinações. Tentei
+esquecer-me d'ella, mas embalde! Fiz-me seu escudeiro.
+Apanhado n'um armario, fui despedido
+por ladrão. Depois, oh! depois, cahi doente. O
+sr. Alves encontrou-me...</p>
+
+<p>(A sr.<sup>a</sup> Felisbella limpou uma lagrima).
+<span class="pagenum"><a name="pag163">[163]</a></span>
+
+<p>... e encontrar-me elle, o mesmo foi que estar
+eu com a Providencia. Passou-me a loja--que
+me deu fortuna, e sobretudo passou-me o seu nobilissimo
+espirito, que Deus tem em sua santa
+paz. A sr.<sup>a</sup> Felisbella sabe como eu o amei. Se
+nunca lhe pedi que me tratasse por Julio, e não
+por José Xavier, foi--Deus me perdoe,--por
+suspeitar que elle se irritasse contra mim.</p>
+
+<p>E Julio, ajoelhando, beijou as mãos convulsas
+da sr.<sup>a</sup> Felisbella de Menezes.
+<span class="pagenum"><a name="pag164">[164]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag165">[165]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXV">XXV</a></h1>
+
+<h2>Mais confidencias</h2>
+
+<p>Para muito se amar, quer-se silencio e solidão--dizia Balzac.</p>
+
+<p>O amor é por natureza melancholico. Quem
+ama, soffre. A melancholia não é uma doença physica,
+é apenas uma enfermidade moral.</p>
+
+<p>Uma cousa é a tristesa, outra cousa é a melancholia:
+a primeira parte da intelligencia e é, por
+via de regra, filha de intimas preoccupações; a segunda
+origina-se no coração, e nasce de um sentimento,
+que só por meio da pallidez do rosto
+<span class="pagenum"><a name="pag166">[166]</a></span>
+exteriormente se manifesta. A velhice é quasi sempre
+melancholica.</p>
+
+<p>Entre a melancholia e a saudade existe uma
+profunda analogia: ambas se concentram e ambas
+se alimentam no mesmo ideal, no amor.</p>
+
+<p>A sr.<sup>a</sup> Felisbella de Menezes, nos seus dias de
+vagar, sentava-se á janella, e apoiando o queixo
+sobre as mãos, olhava vagamente as montanhas, os
+rios e o céu.</p>
+
+<p>Atravez a nuvem que passa e a estrella que
+scintilla e a lua que enbranquece, existe sempre
+uma doce esperança infinita, ethérea, incommensuravel,
+que nos é como que o acordar de um sonho
+de primavera.</p>
+
+<p>Esperar é desesperar--diz o rifão. E entretanto
+todos esperam; porque a esperança é o futuro, o
+glorioso amanhã da humanidade que soffre.</p>
+
+<p>Para a mulher não existe o passado. Que importa
+o amor, que hontem se finou com a ingratidão
+de um amante?</p>
+
+<p>Deixae-nos correr um véu sobre as alegrias
+<span class="pagenum"><a name="pag167">[167]</a></span>
+de hontem. Deixae-nos esquecer, fingindo ignorancia
+e despreso.</p>
+
+<p>O presente é um logogripho, que ninguem decifra.
+Se agora somos felizes, quem nos diz, todavia,
+que essa felicidade se ha de prolongar, tornando-se
+eterna e duradoura?</p>
+
+<p>Ao passo que a curiosidade nos estimula o espirito
+em differentes direcções, a esperança, pelo
+contrario, apenas nos incita na direcção de uma
+linha recta, cuja extensão é o infinito, vagamente
+illuminado pelo sol do futuro.</p>
+
+<p>Oh! o futuro é a dourada cadeia, que põe directamente
+a terra em communicação com o céu; o
+futuro, o que ha de vir, é sempre um orvalho,
+que dulcifica os amargores da desventura.</p>
+
+<p>Perguntae ao desgraçado que força occulta e
+mysteriosa o prende ainda a este mundo de miserias.</p>
+
+<p>Perguntae ao sabio porque estuda, e ao operario
+porque trabalha, e á mãe porque ama, e
+ao filho porque obedece.
+<span class="pagenum"><a name="pag168">[168]</a></span>
+
+<p>A esperança, para espiritos bem-formados, não
+é simplesmente uma suave illusão, mas ainda
+mais uma verdadeira necessidade da nossa existencia.</p>
+
+<p>Esperar é trabalhar com ardôr, viver com fé,
+existir com crença e amizade.</p>
+
+<p>De todas as virtudes sociaes a primeira inquestionavelmente
+é a esperança.</p>
+
+<p>O homem, de ordinario, procura a felicidade; a
+mulher espera-a. Por isso a condição da mulher,
+embora mais triste e desconsolada que a do homem,
+não deixa ainda assim de ser suavemente
+acariciada pelo balsamo do céu.</p>
+
+<p>Ser feliz é saber esperar,</p>
+
+<p>Julio adquirira em pouco tempo esta sciencia
+da vida, graças aos bons conselhos da sr.<sup>a</sup> Felisbella
+de Menezes.</p>
+
+<p>Crêr, esperar e amar--taes são as tres joias
+preciosas, sem as quaes a educação se tornaria esteril
+e inutil.</p>
+
+<p>Sem crença não póde existir a sublime dedicação
+<span class="pagenum"><a name="pag169">[169]</a></span>
+de esposa nem a adoravel abnegação da
+mãe.</p>
+
+<p>Sem amor, impossivel seria a vida da mulher,
+cuja missão é christãmente consoladora e amiga.</p>
+
+<p>Mulheres, que viveis na desgraça, se quereis
+ser felizes--acreditae no santo amor de um filho,
+esperae de Deus a crença na maternidade, e vivei
+na intima e doce consolação de vossos maridos.</p>
+
+<p>A familia é amparo da misaria e arrimo dos que
+soffrem.</p>
+
+<p>Felizes os que sabem cumprir sobre a terra a
+primeira e a mais indiscutivel lei da natureza!
+<span class="pagenum"><a name="pag170">[170]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag171">[171]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXVI">XXVI</a></h1>
+
+<h2>A Viscondessa</h2>
+
+
+<p>São decorridos quatro annos.</p>
+
+<p>A Viscondessa, docemente reclinada numa <i>chaise
+longue</i>, lê os annuncios do <i>Diario de Noticias</i>,
+sorvendo, de quando em quando, uns gólos de
+café, com a evangelica paciencia de uma mulher
+aborrecida.</p>
+
+<p>Ao longo da parede do quarto destacam alguns
+quadros, representando, entre outras, as magestosas
+imagens de Ninon de Lenclos, de Marion Delorme,
+<span class="pagenum"><a name="pag172">[172]</a></span>
+de Madame Pompadour, da Dama das Camelias,
+etc.</p>
+
+<p>São nove horas da noite. Alfredo chega; põe o
+chapéu em cima d'uma <i>ètagere</i>, onde, por acaso,
+se encontram algumas musicas em desalinho, e,
+accendendo resignadamente um charuto havano,
+vem sentar-se n'uma cadeira, defronte da Viscondessa.</p>
+
+<p>Virginia, entrando pouco depois, trouxe uma
+bandeja de prata, coberta de pequenas garrafas de
+licôr.</p>
+
+<p>Alfredo sorri-se, o, com os dedos da mão esquerda,
+dá um geito gracioso ás guias do bigode.</p>
+
+<p>A Viscondessa, erguendo-se, dirige-se, a passo
+lento e medido, na direção da porta de entrada.</p>
+
+<p>--Então já Mabilia? (Era este o nome da Viscondessa.)
+Porque eu entrei, assim te retiras immediatamente.
+Comprehendo tudo. Declaraste-me
+um amor profundo, ethéreo, como só o sabe ter
+uma virgem, e hoje nem sequer alimentas por
+<span class="pagenum"><a name="pag173">[173]</a></span>
+mim uma indifferença vulgar, uma d'estas indifferenças
+que um estranho facilmente dispensaria a
+outro estranho. Pobre de ti, desgraçada, que jámais
+serás feliz n'esta vida... Quizeste ser rainha, não
+é verdade? ao meu amor unico preferiste uma <i>coterie</i>
+numerosa, aduladora, que te lisongiasse o paladar
+já extincto? Pois bem: tu te arrependerás
+um dia. Até lá, porém, lembra-te que será eterna
+e implacavel a minha vingança, eterna como a
+Providencia e implacavel como a tyrannia.</p>
+
+<p>--E és tu quem me falla em vingança; tu,
+Alfredo, a quem eu, ainda pura, loucamente entreguei
+o meu coração e o que é mais ainda a minha
+honra... tu! o miseravel, que jurando amar-me
+te rias de mim nos botequins e nos restaurantes;
+tu, emfim, o cynico seductor da minha ingenuidade
+e da minha singelesa... oh! não... por
+Deus, não...</p>
+
+<p>Alfredo, levantando-se, aproximou-se da Viscondessa,
+e, tomando-lhe a mão direita, que elle
+<span class="pagenum"><a name="pag174">[174]</a></span>
+apaixonadamente comprimiu contra o peito, prorompeu
+nos seguintes termos:</p>
+
+<p>--Mas ouve, Mabilia--tu bem vês que eu te
+amo; pois não reparas como enlouqueço, se me
+negas a tua affeição? oh! não! tu não has de ser
+tão cruel, que me despreses assim de um momento
+para o outro, não é verdade! Ora escuta: não vês
+como bate este nobre coração? e tu has de deixal-o
+assim... não... tu és boa, eu bem sei, e serias
+incapaz de commetter um crime...</p>
+
+<p>--Alfredo!... Alfredo!...</p>
+
+<p>--Falla, Mabilia... dize, dize que ainda me
+amas só uma vez... e eu serei teu, teu para sempre...</p>
+
+<p>--Que te amo!... oh! se te amo!...</p>
+
+<p>E a Viscondessa, pallida, cahiu desmaiada nos
+braços do seu amante.</p>
+
+<p>No horisonte uma nuvem, passando, toldara
+momentaneamente o reflexo do luar. Um doce silencio
+envolvia o aposento da Viscondessa, cuja
+<span class="pagenum"><a name="pag175">[175]</a></span>
+face livida se reflectira de um modo estranho á
+superficie de um longo espelho de Venesa. Junto
+d'ella, ajoelhado quasi, estava Alfredo, singularmente
+excitado e nervoso.</p>
+
+<p>Um ignorado personagem, de longa barba até
+ao peito, baixo e gordo, assomou ao limiar da
+porta.</p>
+
+<p>--É a segunda vez, senhor Alfredo, que tenho
+a honra de o convidar a sahir d'esta casa, disse
+o intruso.</p>
+
+<p>--Com que direito?--retorquiu Alfredo, virando-se.</p>
+
+<p>--Com o direito que me dá a minha honradez
+sobre a sua miseravel corrupção.</p>
+
+<p>--Senhor!..</p>
+
+<p>--Duas palavras ainda; por Deus! não vale zangar:
+esta senhora que ahi está prostrada e quasi
+morta, foi uma victima do seu cynismo, entende?
+É mister que tudo isso seja pago e quanto antes.
+Aqui tem.</p>
+
+<p>E passando-lhe uma pistola para a mão, o desconhecido,
+<span class="pagenum"><a name="pag176">[176]</a></span>
+medindo dez passos na sala, tomou a
+defensiva.</p>
+
+<p>--Espero que a sua covardia se não estenderá
+ao ponto--continuou elle--de fazer com que,
+em vez de um duello, se dê um assassinato n'esta
+casa.</p>
+
+<p>A Viscondessa, languida e sensual, descerrou
+as palpebras com infinda morbidez.</p>
+
+<p>No relogio da sala soavam onze horas da noite.</p>
+
+<p>No céu a lua era sem mancha.</p>
+
+<p>Um leve ruido apenas se deixava ouvir, produzido
+pelos passos na calçada.</p>
+
+<p>Subito uma detonação feriu os ares.</p>
+
+<p>Alfredo, allucinado, desfechára a pistola sobre
+o desconhecido.</p>
+
+<p>Uma nuvem de fumo envolveu, conjunctamente,
+a Viscondessa, a este tempo já restabelecida, e o
+seu mysterioso protector, inanimado, ferido e quasi
+cadaver.</p>
+
+<p>Virginia correu veloz.</p>
+
+<p>A Viscondessa, soluçando tristemente, chamava
+<span class="pagenum"><a name="pag177">[177]</a></span>
+ainda Alfredo, sem de modo algum haver notado
+a sua rapida fuga.</p>
+
+<p>--Como eu sou infeliz, meu Deus!--exclamou
+ella.</p>
+
+<p>E ao longe só os echos lhe repetiram os queixumes
+magoados.
+<span class="pagenum"><a name="pag178">[178]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag179">[179]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXVII">XXVII</a></h1>
+
+<h2>Digressão</h2>
+
+
+<p>A mulher nasceu para realisar a sua felicidade
+por meio do matrimonio.</p>
+
+<p>Sem familia, pedra angular do grande edificio,
+chamado humanidade, o progresso seria uma vã
+mentira e a civilisação um triste retrocesso.</p>
+
+<p>O matrimonio é um complemento da vida humana.
+Se é verdade que para o desenvolvimento
+do corpo carecemos de alimento e de hygiène,
+tambem não é menos verdade que para o desenvolvimento
+<span class="pagenum"><a name="pag180">[180]</a></span>
+do espirito carecemos de amisade e de
+consolações.</p>
+
+<p>Não ter familia o mesmo é que sentir o vacuo
+do espirito, isto é, o isolamento da propria existencia
+e o horror da propria vida.</p>
+
+<p>A prostituição da mulher não é simplesmente
+um vicio, por todos os titulos condemnavel: é
+mais ainda--é a ausencia da familia.</p>
+
+<p>Quantas mulheres se não terão perdido á mingoa
+do carinho maternal!</p>
+
+<p>Entrae nos bordeis. Percorrei serenamente esses
+antros sombrios, onde a sordidez se enlaça com o
+crime. Analysae o riso bestial da mulher perdida.
+Não! Ella não se ri, porque ella, filha bastarda de
+uma sociedade, que a repudia--ella, apenas, sabe
+contrahir-se, agitar-se, fingir, e á maneira de uma
+féra, aproximar-se dos que lhe trazem comida.</p>
+
+<p>A mulher, que uma noite se vê sem pão, sem
+officio, sem familia, prostitue-se ao amanhecer.</p>
+
+<p>E o mundo--que ingrato mundo!--cospe-lhe
+<span class="pagenum"><a name="pag181">[181]</a></span>
+na face o negro anathema do desdem o do desamor.</p>
+
+<p>Mulheres, que habitaes a lobrega mansão da desgraça,
+sabei que se a opinião vos condemna--o
+coração absolve-vos!</p>
+
+<p>E depois, de que vos vale a opinião? Que vos
+trouxe ella na hora da desdita? Sabe condemnar-vos?
+Pois bem, em vez da maldição pedi-lhe virtude
+e amor.</p>
+
+<p>Oh! a opinião! sua excellencia a deusa opinião,
+essa é que é de facto a grande prostituta.</p>
+
+<p>A necessidade conduz a mulher pelo caminho
+da perdição. É um fado de todos os dias. Tambem
+é a necessidade quem conduz o homem pelos atalhos
+do crime. Sabiamol-o. Ganhar para comer é
+uma lei da naturesa. Se os meios são máos os
+fins é que são rigorosamente os mesmos. Deixemos
+as lamentações para os Jeremias do seculo.</p>
+
+<p>A opinião que se aproxime. Mas quem é ella?--o
+dinheiro que suborna? a politica que corrompe?
+os parasitas que avassalam? o impudor que exulta?
+<span class="pagenum"><a name="pag182">[182]</a></span>
+o vicio que contamina? o luxo que esterilisa? a
+infamia que cresce?</p>
+
+<p>E sabes tu, minha <i>cocotte</i>, porque te chamam
+mulher perdida, sem honra e sem pundonor? Pois
+bem, fica aprendendo--é porque tu és simplesmente
+uma filha da desgraça.</p>
+
+<p>Queres, porém, ser honesta, virtuosa e candida?</p>
+
+<p>Procura uma familia; trabalha na doce companhia
+de teu marido; mostra ao mundo os teus filhos--os
+filhos das tuas entranhas e do teu amor:
+que te importa depois a voz da opinião--a opinião
+está como a realesa, está gasta e pôdre.</p>
+
+<p>A Viscondessa não estava, de certo, n'este caso.
+Uma boa mãe, um bom marido, um filho terno,
+tel-a-iam salvado do abysmo que a esperava.</p>
+
+<p>E quantas vezes não é o instincto da maternidade
+a causa do vicio e do crime?
+<span class="pagenum"><a name="pag183">[183]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXVIII">XXVIII</a></h1>
+
+<h2>Ainda a Viscondessa</h2>
+
+
+<p>No meio de todas as suas loucuras era a Viscondessa
+uma nobre e esplendida mulher.</p>
+
+<p>Uma trança preta, côr de azeviche, lhe cobria
+o cóllo de cysne. A bôcca esculpturalmente pequena,
+quasi se desfazia n'um beijo, ethéreo, imperceptivel,
+como o ar. Uns olhos verdes e profundos,
+como os abysmos do mar, a tornavam simultaneamente
+imperiosa e meiga. A pequena mão
+aristocratica, eclipsava-se-lhe por vezes sob as rendas
+e os <i>puffs</i> do vestido. E o pé, ai, o pé era um
+<span class="pagenum"><a name="pag184">[184]</a></span>
+primor, um verdadeiro primor. Calçava de ordinario
+um sapato de setim azul, perfeitamente ajustado
+a uma meia de seda, cuja transparencia nos
+faria logo perguntar com Alphonse Karr, onde ella
+collocava a liga--se abaixo se acima do joelho. O
+seio arfava-lhe debaixo do espartilho n'uma suave
+e doce ondulação, symptoma evidente de uns vedados
+e amorosos paraisos.</p>
+
+<p>Ás vezes a Viscondessa sahia a cavallo, trajando
+de amazona. Um véu azul lhe encobria as feições
+gentis--similhantemente ao sol, que de subito se
+vê surprehendido por uma nuvem. Os admiradores
+seguiam-lhe o trote do cavallo, até que ella se
+perdia na sombra das estradas.</p>
+
+<p>Na praia, a Viscondessa, com os cabellos desgrenhados
+aos ventos, poder-se-hia dizer uma actriz
+sublime, que, no ardor da tragedia, embriaga os
+espectadores. E era de vêl-a depois, sahir do banho,
+com as fórmas do corpo, exteriormente desenhadas
+n'um vestido de baetilha... um encanto...</p>
+
+<p>Depois dos successos precedentemente narrados,
+<span class="pagenum"><a name="pag185">[185]</a></span>
+a Viscondessa entrára-se n'uma mysteriosa e
+doce melancholia. Ninguem, absolutamente ninguem,
+lhe poderá adivinhar os intimos pensamentos.
+Em que pensaria ella? que fatal preoccupação
+a distrahia constantemente?</p>
+
+<p>Imagine-se o leitor no mesmo quarto, onde se
+deu o triste incidente de alguns dias. O desconhecido
+duellista, mais que restabelecido, devora um
+charuto com solemne lentidão.</p>
+
+<p>--E agora que estou melhor--dizia elle--deixe-me
+vossa excellencia declarar-lhe tudo o que
+penso, tudo o que sinto e tudo o que quero. Eu--senhora
+Viscondessa--era um negociante de poucos
+recursos.--Um dia tive a fatalidade de a vêr.
+Segui-a, frustradamente. V. ex.<sup>a</sup>, em meio dos
+seus esplendores, nem sequer me notáva. Soube
+que havia um baile em casa da senhora Viscondessa.
+Consegui ser-lhe apresentado. Entrei. Creio que V.
+ex.<sup>a</sup> nem attentou na minha pessoa. Desgraçado de
+mim! Estava irremediavelmente perdido. E perdão,
+senhora Viscondessa! Occultei-me indiscretamente
+<span class="pagenum"><a name="pag186">[186]</a></span>
+atraz de um reposteiro. Depois... ai de mim... um
+punhal se me cravára no coração. Louco, estupidamente
+louco, arremetti contra Alfredo. Elle intimou-me
+a sahida. Fugi. Por todos os modos tentei
+fazer-me observado por V. ex.<sup>a</sup>. Vendo a impossibilidade
+dos meus esforços, recorri a este ultimo
+expediente. Fui eu a victima. V. ex.<sup>a</sup> na sua
+generosidade, tratou-me e prestou-me todo o auxilio
+que humanamente podia offertar-me. Pois bem.
+O meu nome é Henrique, e sou eu que hoje lh'o
+declaro, e a sós, sem testemunhas--Amo-a, minha
+senhora, e amo-a muito.</p>
+
+<p>Perdão, senhor Henrique,--retorquiu gravemente
+a Viscondessa. O sr. é meu hospede, e abusa
+tristemente da minha confiança. Depois da provocação
+feita pelo sr. Henrique a Alfredo, o unico
+privilegiado do meu coração, ser-me-ia de todo impossivel
+ter por V. ex.<sup>a</sup> a minima sympathia...</p>
+
+<p>Henrique, exasperado e colérico, aproximando-se
+da Viscondessa, segredou-lhe ao ouvido as seguintes
+palavras:
+<span class="pagenum"><a name="pag187">[187]</a></span>
+
+<p>--Assim como soube amal-a, saberei tambem
+odial-a.</p>
+
+<p>N'este comenos entrava Alfredo.</p>
+
+<p>--Muito folgo--minha senhora e meu senhor--em
+os encontrar aqui juntos--dialogou elle.--Á
+senhora Viscondessa, a quem sou devedor dos
+maiores beneficios, venho pedir perdão do lamentavel
+facto aqui succedido. A este senhor nada
+direi. Em breve conto partir para a America; e
+n'este sentido me despeço de V. ex.<sup>a</sup> minha senhora,
+jurando-lhe a minha gratidão que será eterna.</p>
+
+<p>--Então parte?--exclamou anciosamente a
+Viscondessa.</p>
+
+<p>--Sim, minha senhora; negocios impreteriveis
+me chamam ao Rio de Janeiro.</p>
+
+<p>--E é, pois, irrevogavel a sua partida?</p>
+
+<p>--Sem duvida; irrevogabilissima, senhora Viscondessa.</p>
+
+<p>E Alfredo, despedindo-se da amante, sahiu.--Henrique
+<span class="pagenum"><a name="pag188">[188]</a></span>
+acompanhou-o. Cá fóra. porém, cada
+um tomou pela sua rua.</p>
+
+<p>Mabilia ainda veiu á janella. Máu grado seu,
+Alfredo havia desapparecido.</p>
+
+<p>Julgando-se para todo sempre perdida, chorou
+então a Viscondessa, e chorou como poucas mulheres
+talvez tenham chorado n'este mundo.
+<span class="pagenum"><a name="pag189">[189]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXIX">XXIX</a></h1>
+
+<h2>Indecisões</h2>
+
+
+<p>O orvalho vem do céu á terra; as lagrimas sóbem da terra ao céu.</p>
+
+<p>Mulher que chora, é mulher que sabe amar.</p>
+
+<p>Porque muito chorou, perdoou Christo á Magdalena
+do Evangelho.</p>
+
+<p>As lagrimas são como o balsamo: retemperam
+e dulcificam.</p>
+
+<p>Felizes os que sabem chorar!</p>
+
+<p>A creança é como a aurora: ambas choram e
+ambas alegram.
+<span class="pagenum"><a name="pag190">[190]</a></span>
+
+<p>Em pranto de mulher não se póde crêr--diz
+o rifão.</p>
+
+<p>Será verdade que ás lagrimas dos olhos nem
+sempre correspondem as lagrimas do coração?</p>
+
+<p>Chorar sempre é chorar--affirma um poeta e
+com razão.</p>
+
+<p>Nada mais facil do que calumniar uma mulher.
+A nossa sociedade está colmada de espadachins.
+Todos os nossos rapazes se apresentam com ares
+de Juans Tenorios in <i>nomine</i>. Todos têm aventuras
+a contar. Poucos ha que se não julguem com
+direito a insultar as mulheres, coitadas! que, em
+verdade, pouco mais têm do que muita paciencia
+para os aturar.</p>
+
+<p>As lagrimas, em espiritos delicados, são uma
+necessidade dos seus corações privilegiados. Não
+ha odio que ás lagrimas não cêda.</p>
+
+<p>A Viscondessa via fugir-lhe a felicidade. Chorava.</p>
+
+<p>A esposa tambem chora, ao ver desapparecer
+o navio, que, ao longe, lhe conduz o esposo querido.
+<span class="pagenum"><a name="pag191">[191]</a></span>
+
+<p>Santas e doces lagrimas, que tantas vezes tendes
+suavisado sobre a terra os intimos e dolorosos
+soffrimentos, como é grandioso o vosso poder!</p>
+
+<p>E vós mesmos, ó scepticos mascarados, que
+tão estupida e egoistamente sabeis illudir as pobres
+victimas da vossa stulticia--dizei-nos--em
+quantos escriptos, arrancados a corações honestos
+e indefesos, não tendes vós encontrado o vestigio
+de uma lagrima?</p>
+
+<p>Não ha sympathia que pela lagrima não brote
+e se enraize.</p>
+
+<p>A lagrima é como um lago, na serenidade do
+seu correr e no reflectir das suas imagens.</p>
+
+<p>Para esse sangue d'alma--na suave expressão
+de um poeta--apenas ha um remedio--a consolação.</p>
+
+<p>A Viscondessa chorava e continuava indecisa.</p>
+
+<p>Semelhante a um arbusto, que, açoutado pelo
+vento, deixa cahir sobre a terra o orvalho; assim
+<span class="pagenum"><a name="pag192">[192]</a></span>
+a Viscondessa, ao dar accôrdo de si, deixou cahir
+no seu candido seio as perolas consoladoras do seu
+espirito.</p>
+
+<p>Bemaventuradas perolas! e oxalá que todos
+assim as tivessem!...
+<span class="pagenum"><a name="pag193">[193]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXX">XXX</a></h1>
+
+<h2>Glorias do operario</h2>
+
+
+<p>Entretanto o nosso operario, agora já transformado
+em negociante, vai seguindo o seu caminho,
+a despeito da intriga e da inveja, com que a sociedade,
+em geral, costuma premiar o trabalho e a
+honradez.</p>
+
+<p>Julio, retemperado no cadinho dos grandes
+soffrimentos, fizera-se homem repentinamente. Julgando
+apagada a imagem da Viscondessa no seu
+espirito, dedicou-se ao trabalho com fervôr. Levantava-se
+<span class="pagenum"><a name="pag194">[194]</a></span>
+habitualmente ás seis horas da manhã,
+ia receber as ordens da sr.<sup>a</sup> Felisbella, e partia. Só
+regressava a casa ás oito ou nove da noite, hora
+em que elle tomava chá. E este programma, assim
+praticado, com a regularidade de um pendulo de
+relogio, poucas vezes era transgredido, a não ser
+n'um ou outro domingo.</p>
+
+<p>A mercearia prosperara a olhos vistos. Diziam
+os freguezes, e com razão, que a bôa alma de Francisco
+Alves em nada ficára a dever ao sr. José Xavier.</p>
+
+<p>Além da loja tinha, porém, Julio um escriptorio
+de commissões maritimas, de cuja responsabilidade
+auferia annualmente sólidos e lucrativos interesses.</p>
+
+<p>Em poucos annos adquirira Julio o senso pratico,
+tão prudente, como indispensavel nas cousas
+da vida. O nome de José Xavier acreditara-se
+solidamente na <i>praça do commercio</i>. Muitos invejavam
+já a fortuna do mercieiro; muitos o calumniavam
+<span class="pagenum"><a name="pag195">[195]</a></span>
+tambem. Entretanto Julio, com aquelle orgulho
+que só a consciencia sabe dar, era invariavel,
+senão implacavel, na missão que voluntariamente
+se imposera.</p>
+
+<p>Um dia apparecera-lhe na loja um conhecido,
+parasita do Chiado.</p>
+
+<p>--Desejo fallar ao sr. José Xavier, começou o
+<i>Maryalva</i>.</p>
+
+<p>--Um seu creado, respondeu Julio.</p>
+
+<p>O recem-vindo descobriu-se solemnemente.</p>
+
+<p>--Um negocio importante me traz aqui, continuou.
+Acabo de saber por um amigo intimo que é
+V. Ex.<sup>a</sup> não só um dos mais generosos cavalheiros
+d'esta cidade, senão tambem que são brilhantes as
+qualidades que adornam o elevado espirito de V.
+Ex.<sup>a</sup>...</p>
+
+<p>--Bem! e depois..., interrompeu o mercieiro.</p>
+
+<p>--E depois, precisando eu de dinheiro, estou
+certo que V. Ex.<sup>a</sup> m'o não negará...</p>
+
+<p>--A outra porta, amigo, rematou Julio.
+<span class="pagenum"><a name="pag196">[196]</a></span>
+
+<p>--Sempre é bem malcreado..., rosnou o pretendente.</p>
+
+<p>E sahiu.</p>
+
+<p>Com estes factos, porém, contrastavam outros,
+dignos do maior elogio.</p>
+
+<p>Amanhecera-lhe um mendigo á porta do escriptorio.</p>
+
+<p>--Que quer aqui?, perguntou Julio.</p>
+
+<p>--Eu senhor, sou pobre, não tenho cama, nem
+pão...--respondeu o desgraçado.</p>
+
+<p>E Julio, tirando uma libra do bolso, disse:</p>
+
+<p>--Póde procurar-me todos os mezes para receber
+egual quantia.</p>
+
+<p>E seguiu para o trabalho.</p>
+
+<p>Julio transformára-se, pois, n'um homem severo,
+sem as paixões que arrebatam, nem os egoismos que
+offendem. Á parte a propria felicidade e a da sr.<sup>a</sup>
+Felisbella, a quem elle tratava por mãe, pouco
+mais lhe interessava n'este mundo.</p>
+
+<p>Com a convivencia dos homens tornara-se concentrado,
+<span class="pagenum"><a name="pag197">[197]</a></span>
+desconfiando de tudo e de todos. Advogando
+de preferencia os proprios interesses, era,
+todavia, generoso, para quem o devia ser.</p>
+
+<p>Os pobres conheciam-no de longe. E Deus
+abençoava-lhe as acções, tornando-o um homem
+rico, forte e corajoso.
+<span class="pagenum"><a name="pag198">[198]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag199">[199]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXXI">XXXI</a></h1>
+
+<h2>O que faz o talento</h2>
+
+
+<p>Uns sóbem e outros descem: é a roda do
+mundo. Á dos alcatruzes se similha, segundo Sá
+de Miranda: uns para baixo, outros para cima,
+uns cheios, outros vazios.</p>
+
+<p>A vontade conduz á felicidade. Homem que
+sabe querer é homem de talento ordinariamente.</p>
+
+<p>O talento, por si, deixará de ser uma superioridade;
+quando a egualdade, sob o mesmo grau,
+nivelar a educação e a instrucção.</p>
+
+<p>O talento, comtudo, é variavel e complexo:
+para uns, ter talento é saber grangear fortuna;
+para outros, é saber escrever e orar e discutir;
+<span class="pagenum"><a name="pag200">[200]</a></span>
+para outros ainda, o talento cifra-se na gravidade
+da apparencia, e no modo austero da vida.</p>
+
+<p>A mulher resume por via de regra o seu talento
+n'um olhar profundo, num sorriso angelico
+e n'um espirito facilmente maleavel e insinuante.</p>
+
+<p>A educação faz com que só o homem se ostente
+em meio do viver social.</p>
+
+<p>A mulher tem uma esphera limitada: o seu
+mundo é a familia; a sua convivencia o marido, os
+filhos, os parentes e os creados. Porisso se crê,
+embora erradamente, que só ao homem aprouve
+Deus conceder o talento.</p>
+
+<p>A curiosidade é a fonte, não só da sciencia,
+em geral, como tambem de toda a humana descoberta.
+Ora a mulher é sobretudo curiosa. D'aqui
+a sua aptidão para todo e qualquer ramo da actividade
+social.</p>
+
+<p>Somos pela emancipação da mulher. Desejára-mos
+vel-a ao lado de um doente, consolando-o e
+distrahindo-o; desejáramos que as creanças recebessem
+d'ella os primeiros rudimentos da linguagem;
+<span class="pagenum"><a name="pag201">[201]</a></span>
+desejáramos, é verdade, que por ella fossem
+exercidos muitos dos mesteres da vida: mas, a par
+de tudo isto, somos abertamente contra a sua emancipação
+politica.</p>
+
+<p>O talento não tem sexo. Ante a critica, ante a
+illustração, ante o bom-senso, todos somos eguaes.</p>
+
+<p>Joanna d'Arc, o typo da virilidade e do patriotismo,
+é por ventura tamanha como Victor-Hugo,
+o grande, Victor-Hugo, o humanitario; George
+Sand cathedra á altura de Byron, o primeiro poeta
+do universo.</p>
+
+<p>Para que hesitar, pois? Onde o direito de menospresar
+aquillo que, ao contrario, e em consciencia,
+devêramos santificar?</p>
+
+<p>O que perde o homem é o orgulho, quando não
+é a inveja. A par de tantas ambições vale-nos a
+preguiça, que as domina e refreia.</p>
+
+<p>Porque subira Julio? que força occulta o tornava
+sympathico e favorecido da fortuna?</p>
+
+<p>Perguntae á felicidade quem a creou, quem lhe
+deu origem, quem a tornou forte e independente!
+<span class="pagenum"><a name="pag202">[202]</a></span>
+
+<p>O acaso é, muitas vezes, e sem o sabermos,
+a causa da nossa ventura e das nossas acções.</p>
+
+<p>Mas o acaso não é cego. Depende de uma certa
+presciencia do futuro.</p>
+
+<p>Julio era modesto, primeiro titulo de recommendação.
+A modestia torna sympathicos o talento
+e a virtude.</p>
+
+<p>Depois, havia n'elle o bom-senso de esperar
+com resignação tudo o que, durante a vida, lhe
+podesse sobrevir. Nada o surprehendia. Estava
+sempre prompto para qualquer eventualidade, fosse
+ella de que natureza fosse.</p>
+
+<p>Tinha, portanto, a rara sciencia de conciliar com
+a prudencia o bom-senso.</p>
+
+<p>Porisso tambem subiu, e porisso tambem subirão
+todos aquelles que assim procederem.</p>
+
+<p>O mundo depende de geito, apenas. Tão despresiveis
+são os demasiadamente Catões como os demasiadamente
+relaxados.</p>
+
+<p>No meio-termo está a lei de toda a sociedade
+humana.
+<span class="pagenum"><a name="pag203">[203]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXXII">XXXII</a></h1>
+
+<h2>Vestigios e ruinas</h2>
+
+
+<p>Similhante a um velho castello roqueiro, coberto
+de hera e parietarias, assim Alfredo vivia, doente,
+sem dinheiro, arruinado, mas generoso no fundo.</p>
+
+<p>O seu fato preto, invariavel em todas as estações
+do anno, principiara de tornar-se velho e esverdeado
+pela acção corrosiva das chuvas doentias
+e dos sóes abrasadores. A camelia desapparecera-lhe
+para sempre do seu logar habitual. Emfim Alfredo,
+esgotados os derradeiros recursos patrimoniaes,
+<span class="pagenum"><a name="pag204">[204]</a></span>
+era mais um authomato da indigencia, do
+que verdadeiramente um homem de espirito, critico
+e mordaz, qual n'outros tempos o havia sido.</p>
+
+<p>A sua extrema liberalidade, com os donos dos
+restaurantes e cafés, fez com que, ainda durante
+algum tempo, elle podesse frequentar gratuitamente
+estas casas. Passados mezes, porém, os donos dos
+botequins, attentando-lhe nas botas rotas e nas calças
+fragmentadas, quasi o despediram de vez, mostrando-lhe
+uma má e feia catadura.</p>
+
+<p>Em tão afflictivo lance recorreu aos camaradas
+d'outr'ora. Nenhum delles apparecia já. Todos--e cada
+um por sua vez,--o tentavam afastar.</p>
+
+<p>Finalmente Alfredo, envergonhado de si e enfastiado
+do mundo, só de noite apparecia. Evitando
+os credores, e cosendo-se com a sombra das paredes,
+elle, o filho da luz e do magnetismo da vida,
+sollictou dos amigos o pão ázimo da desventura.
+Á sahida dos theatros--pois que em casa difficilmente
+os encontrava--esperava resignadamente a
+<span class="pagenum"><a name="pag205">[205]</a></span>
+turba jubilosa dos espectadores conhecidos; por
+vezes conseguira d'ella uns magros vintens; por
+vezes tambem lhe sahira mallograda a tentativa.</p>
+
+<p>Lembrou-se da Viscondessa, a quem, por um
+louco capricho, mentindo, affirmára que partiria
+para o Brazil. Tudo em vão. O orgulho--desgraçado
+orgulho!--abafára-lhe no peito esse passo
+miseravel.</p>
+
+<p>Começou, então, o desalento, como um vidro
+moido, de consumir-lhe a, já de si, inutil existencia.</p>
+
+<p>N'um momento lucido em que o espectro da
+fome, esqualido e magro como Satan, se lhe desenhava
+deante dos olhos com as cem boccas hediondas,
+Alfredo, a par de um suor glacialmente
+cortante, experimentou o que jámais e em sua
+vida experimentára--uma ancia de trabalho, para
+o qual, em verdade, nunca se sentira predisposto.</p>
+
+<p>Embalde, porém, lhe foram essas visões. Passageiro
+<span class="pagenum"><a name="pag206">[206]</a></span>
+e ephemero se lhe antolhou o iris da redempção
+sobre a terra.</p>
+
+<p>Sonharia acaso? Trabalhar... e em que? A intelligencia
+havia-se-lhe apagado, ao contacto de uma
+embriaguez quasi habitual. Sentir, era-lhe impossivel,
+uma vez que do coração nada mais restava,
+além de uma sensação perfeitamente estupida e
+material: e vontade, se a tinha, quasi nem já se
+revelava.</p>
+
+<p>Do rapaz d'outros tempos, galanteador e elegante,
+apenas restava uma sombra. A barba medrára
+a esmo. O cabello, cobrindo-lhe a góla do casaco,
+imprimia-lhe um aspecto singularmente triste
+e repugnante. Encaral-o de frente o mesmo era
+que tomal-o por um salteador disfarçado.</p>
+
+<p>Um dia, foi Julio casualmente surprehendido,
+no seu escriptorio, por esta desgraçada victima de
+uma exaggerada e dolorosa ociosidade.</p>
+
+<p>--Que me quer? interrogou o negociante.</p>
+
+<p>--Eu, senhor, fui rico, e sou hoje pobre, Em
+<span class="pagenum"><a name="pag207">[207]</a></span>
+nome da mulher, que ambos amámos, venho pedir-lhe
+um emprestimo de duzentos mil réis...</p>
+
+<p>--Em nome da mulher que só eu amei e que
+o senhor perdeu--convido-o a retirar-se d'esta casa.</p>
+
+<p>--Muito bem! uma vez que assim o querem,
+far-me-hei ladrão--exclamou Alfredo.</p>
+
+<p>E fez-se fabricante de notas falsas.
+<span class="pagenum"><a name="pag208">[208]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag209">[209]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXXIII">XXXIII</a></h1>
+
+<h2>Causas e motivos</h2>
+
+
+<p>Diz-se geralmente que a humanidade esta enfêrma.</p>
+
+<p>A mocidade padece uma horrivel molestia--o
+tédio.</p>
+
+<p>A corrupção physica caminha a par da corrupção
+moral. As aguas são detestaveis; o ar pouco
+sadio, contaminado de miasmas e de putrefacção.
+De modo que as nossas cidades modernas são uns
+verdadeiros sorvedouros de existencias humanas,
+<span class="pagenum"><a name="pag210">[210]</a></span>
+onde os obitos crescem sobre os nascimentos na
+razão de um por mil.</p>
+
+<p>Com o movimento das calçadas o pó levantado,
+introduzindo-se pelos olhos, pela bocca, pelo nariz,
+é tambem uma causa de lenta, mas real, consumpção.</p>
+
+<p>As phthisicas abundam. As molestias de garganta
+são quasi geraes. Os homens sentem-se tristes,
+abatidos, sem espirito e sem vitalidade. As
+mulheres, na maioria franzinas e chloroticas, arrastam
+uma vida authomatica, sem consciencia nem
+utilidade.</p>
+
+<p>Faltam os grandes prazeres do campo, os robustos
+passeios da caça, as salutares digressões
+pelos pinheiraes, onde os pulmões se purificam
+ao contacto do ar resinoso e sadio.</p>
+
+<p>As praias frequentam-se por moda. Toma-se o
+banho, e vai-se a um salão, eschola de dança e de
+galanteria. Ninguem pensa em passeiar á beira-mar;
+e mesmo quando casualmente se passeia pela praia
+<span class="pagenum"><a name="pag211">[211]</a></span>
+é mais por comprazer do que por uma natural necessidade
+do organismo.</p>
+
+<p>Ora tanto o mar como o campo são bons pelo
+resultado, que d'elles se tiram. Não só o corpo, mas
+tambem o espirito devem tomar parte nos vastos
+panoramas, nos horisontes limpidos e no vago da
+natureza.</p>
+
+<p>É verdade que a demasiada concentração póde
+conduzir a uma nostalgia perigosa; entretanto, entre
+dois males, é muito preferivel a tristesa, embora
+sombria e consumidora, á alegria extravagante,
+brutal e insensata.</p>
+
+<p>Não, meus bons rapases, não é assim que se
+vive. Vocês são doentes, porque não têm um ideal,
+um trabalho util, uma missão civilisadora.</p>
+
+<p>De que vos servem os cafés, com os seus jogos
+de <i>dominó</i>?--Antigamente conversava-se, contavam-se
+anecdotas interessantes, e ria-se a gente com
+a familia, mas com aquelle bom riso infantil, que
+é a demonstração de festa e de regosijo. Hoje não.
+Hoje, como nos bons tempos romanescos, ha a cima
+<span class="pagenum"><a name="pag212">[212]</a></span>
+de tudo isto o aborrecimento de tudo e por
+tudo.</p>
+
+<p>Ora, minhas senhoras, se a vida em si é triste,
+façamos por tornal-a agradavel e util--util sobretudo.</p>
+
+<p>Alfredo era a perfeita imagem do que deixamos
+dito. A syphilis contaminara-lhe o organismo.
+Á pobresa de sangue reunira-se a pobresa de espirito.</p>
+
+<p>É o que succede com a maioria dos rapazes:
+quando chegam a completar um curso estão velhos
+na intelligencia e gastos no corpo.</p>
+
+<p>Para tamanha molestia um unico remedio ousamos
+aconselhar:</p>
+
+<p class="centrado"><i>--limpeza--</i></p>
+
+<p>isto é:</p>
+
+<p class="centrado"><i>--campo e mar--</i></p>
+
+<p>Que s. s.<sup>as</sup>, os senhores facultativos, se não irritem
+comnosco por tão interessante descoberta.
+<span class="pagenum"><a name="pag213">[213]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXXIV">XXXIV</a></h1>
+
+<h2>Latet anguis</h2>
+
+
+<p>A primavera, a doce filha da harmonia e da luz,
+desentranhava-se em flôres e fructos. Rejubilavam
+as aves no arvoredo frondente. O céu era azul,
+limpido. Nem uma nuvem lhe maculava a superficie
+chrystallina e pura.</p>
+
+<p>Nada mais delicioso do que esta rapida transição
+de uma estação, agreste e fria, para uma outra
+agradavel e sympathica. Dir-se-hia que um velho,
+sulcado do rugas, se metamorphoseára subitamente,
+<span class="pagenum"><a name="pag214">[214]</a></span>
+como o Fausto, n'um elegante moço,
+cheio de vida e de aspirações.</p>
+
+<p>As arvores, toucadas de flôr, recebiam das auras
+vaporosas o amoroso abraço de todos os annos.
+O sol, dourando com as suas palhetas luminosas
+os arbustos vividos e scintillantes--reflectia-se
+suavemente sobre as aguas do ribeiro, que,
+em amoravel ondulação, serpeavam atravez os terrenos
+pedregosos, parando, ora atraz de um rochedo,
+com o qual confidenciavam ternamente, ora
+atraz de uma planta, com a qual se enroscavam
+de passagem.</p>
+
+<p>Ao longe os pinheiraes acordavam as solidões
+com as vibrações da sua harpa plangente. O rouxinol,
+casto como a andorinha, desferia a medo o
+seu eloquente hymno de amor. É que elle o artista,
+filho do céu e do canto, pressentira, primeiro que
+nenhum outro ser da creação, o aproximar alegre
+do sol e da vida.</p>
+
+<p>Meiga como uma mãe dedicada, a pomba, symbolo
+<span class="pagenum"><a name="pag215">[215]</a></span>
+de virgindade, arrulhava de manso, muito de
+manso, como amante que não deseja ser escutada.
+E a aguia, a altiva rainha do espaço, guindara-se,
+por entre nuvens, até ás ignotas regiões do infinito.</p>
+
+<p>Entretanto--e como que para contrastar--o
+peixe, o maldicto das trevas, mal elevara a gélida
+escama ao lume d'agua, para logo a mergulhar de
+novo, no lodo, sua morada habitual. O insecto, o
+desprotegido do dia, esperava a noite, sua irmã,
+para assim deixar em paz o lobrego buraco, para
+onde um raio de sol prestes o afugentara.</p>
+
+<p>Os campos eram verdes e promettedores. Percorria-os
+o boi, quasi sem cessar, na extrema paciencia
+dos animaes possantes.</p>
+
+<p>A montanha, despindo o lençol, que durante
+mezes a envolvera--deixara de alvejar, afim de
+se tornar um throno de contemplação e de magestade.</p>
+
+<p>E de facto subia o lavrador á cumiada do seu
+monte, e de lá, passeando os olhos avidos em
+<span class="pagenum"><a name="pag216">[216]</a></span>
+volta do campo, com o qual, em verdes annos, se
+matrimoniára--entoava cantos jubilosos e amigaveis.</p>
+
+<p>E a aldeã, resplandecendo de feliz contentamento,
+apurava a sua saia de chita que para os dias santos
+havia sido feita e arranjada.</p>
+
+<p>Cecilia, porém, está de lucto. Os olhos verdes,
+fartos de chorar, brilham profundamente como o
+abysmo dos mares. Ella é triste, coitada! e sem
+esperança. Morrera-lhe o pai.</p>
+
+<p>--Olha, Cecilia--dizia-lhe o velho na sua derradeira
+hora--parece-me que o teu noivado só no
+céu poderá ter logar. Perdôa tu ao ingrato assim
+como eu lhe perdôo...</p>
+
+<p>E expirou.</p>
+
+<p>Quatro mezes volvidos sobre este caso estava
+a pobre rapariga profundamente mergulhada nos
+seus mais intimos pensamentos, quando uma leve
+pancada, vibrada sobre o vidro da janella, a fez
+estremecer e agitar.</p>
+
+<p>Mal se levantara ella e já uma sombra, abrindo
+<span class="pagenum"><a name="pag217">[217]</a></span>
+a vidraça, saltava de um pulo para o centro da
+casa.</p>
+
+<p>--O senhor prior por aqui?--exclamou a
+ingenua catholica.</p>
+
+<p>--É verdade, minha filha. É justamente o teu
+prior que Deus manda a esta casa... Sabia que estavas
+triste. Haviam-m'o dicto as estrellas do céu.
+Consolar os tristes é um dever do bom parocho.</p>
+
+<p>--E minha mãe, senhor padre João, consentirá
+ella...</p>
+
+<p>--A cima de tua mãe está a voz do céu que
+aqui me traz. Conta-me a tua vida, Cecilia. Não
+tenhas receio de mim. Eu saberei aconselhar-te.</p>
+
+<p>A Egreja para tudo tem remedio. Só Deus sabe
+premiar os bons e castigar os máus.</p>
+
+<p>E o padre, procurando um escabello, foi sentar-se
+ao pé de Cecilia.</p>
+
+<p>A rapariga, córando de pejo, conservára os
+olhos cravados no chão.</p>
+
+<p>Assim durou, por alguns minutos, esta scena.
+<span class="pagenum"><a name="pag218">[218]</a></span>
+
+<p>--Como tu és boa, minha filha--rompeu alfim
+o padre.</p>
+
+<p>E, sem mais, imprimiu-lhe um beijo na face.</p>
+
+<p>Assim, como a pomba ferida por caçador experiente,
+assim tambem Cecilia tentara esquivar-se
+ás grosseiras amabilidades do seu respeitavel parocho.</p>
+
+<p>--Embalde--gritava o padre. É Deus que assim
+m'o ordena!...</p>
+
+<p>E, ao longe, um guitarrista que passava cantava
+tristemente a seguinte quadra de Gonçalves Dias:</p>
+
+<div class="poesia">
+«O amor da mulher é qual nuvem<br>
+Que o vento impelle no ar;<br>
+O amor da mulher é voluvel<br>
+É tão vario, como a onda do mar.»<br>
+</div>
+<span class="pagenum"><a name="pag219">[219]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXXV">XXXV</a></h1>
+
+<h2>Critica</h2>
+
+
+<p>Nós não somos d'aquelles que exageradamente
+comdemnam o clero.</p>
+
+<p>Nada mais santo, nada mais suavemente consolador
+do que o bom padre, especie de medianeiro
+entre Deus e os homens.</p>
+
+<p>Para quem não tem um pai natural; para aquelles
+que a Providencia exilou do seu lado, e que a
+miseria acolheu no seu seio; para aquelles que,
+longe do ruido e das alegrias do mundo, a sós
+comsigo mesmo sentem o gottejar das proprias
+<span class="pagenum"><a name="pag220">[220]</a></span>
+chagas; para os desgraçados, para os infelizes,
+para os tristes, o padre, pela sua apparencia christãmente
+cariciadora, é mais do que um companheiro,
+porque é um pai, enviado pelos anjos do céu
+aos anjos da terra.</p>
+
+<p>Não foram um simples vicio, uma vã ostentação,
+e um estulto prurido que nos levaram a condemnar
+aquillo que, por sua natureza, deve ser
+exemplar, vivo e sacro-santo.</p>
+
+<p>Não! Se condemnámos o máu padre, como
+planta nociva á humanidade, foi por um dever.</p>
+
+<p>Quem tem irmãos, e filhas e esposa, não póde
+existir ao acaso, sem a necessaria superintendencia
+em todos os actos da sua vida, d'ellas.</p>
+
+<p>A mulher, que do collegio não tirou a educação
+conveniente, que um dia experimentou a immoralidade
+do confessionario e os espinhos do mundo,
+póde ser tudo, menos uma esposa, menos uma irmã,
+menos uma mãe.</p>
+
+<p>O padre toma parte nas scenas mais luctuosas
+da familia: se adoecemos, é elle que nos traz o
+<span class="pagenum"><a name="pag221">[221]</a></span>
+balsamo ao espirito em trévas; se desesperamos, é
+elle que nos faz ver o iris da bonança; se hesitamos,
+é elle que nos encaminha e nos dirige.</p>
+
+<p>Então, e porisso mesmo, é que o padre deve
+ser um bom homem.</p>
+
+<p>O esboço que no precedente capitulo deixámos
+delineado, posto que excepção, foi por nós fielmente
+observado.</p>
+
+<p>Que se não illudam os espiritos timoratos e frageis.
+Quando máu, ninguem mais severamente
+merece ser condemnado do que o padre.</p>
+
+<p>Nas aldeias os exemplos multiplicam-se. A ociosidade,
+por um lado, e o celibato, por outro, muito
+têm concorrido para essa cadeia de lorpesas, a
+cada passo relatadas na imprensa e nas differentes
+casas de reuniões publicas.</p>
+
+<p>O fanatismo nunca foi religião. Seguir os preceitos
+do Evangelho, não é perfilhar as doutrinas
+do sr. Sousa Monteiro nem as diatribes da <i>Palavra</i>.
+<span class="pagenum"><a name="pag222">[222]</a></span>
+
+<p>Amae-vos uns aos outros como eu vos amei--disse
+Christo.</p>
+
+<p>Amemo-nos, sim, mas sem corrupção, sem
+egoismo, sem impuresa.</p>
+
+<p>Que a esposa seja uma conselheira de seu marido
+e uma perceptora de seus filhos--tal deve
+ser o desejo do bom padre.--Porque um padre
+é acima de tudo um educador, e como tal carece
+de muita illustração, de muito bom senso e de
+muita heroicidade.</p>
+
+<p>Se os rapases não podem satisfazer a esta nobre
+missão, escolham-se os velhos. Se com o clero
+periga a honestidade das mulheres, acautellem-se
+os homens, e aprendam por uma vez a distinguir
+o bom do mau, aquillo que lhes convém d'aquillo
+que lhes não convém.</p>
+
+<p>D'outro modo continuaremos eternamente divididos,
+odiando-nos como inimigos, e pelejando
+uns contra aos outros, cegamente, loucamente, sem
+ideal, sem raciocinio e sem vontade.
+<span class="pagenum"><a name="pag223">[223]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXXVI">XXXVI</a></h1>
+
+<h2>Toldam-se os horisontes</h2>
+
+
+<p>Nem sempre a felicidade nos sorri. Quando
+menos o acreditamos, embacia-se o prisma que sonhavamos
+perpetuo e immorredoiro, e as illusões
+começam de cahir uma por uma.</p>
+
+<p>É assim a vida; é assim o mundo: rodeado
+de formosas apparencias e colmado de negra podridão.</p>
+
+<p>Áquelles que possuem o raro condão de saber
+disfarçar as mais intimas tristesas da vida; áquelles
+a quem Deus não dotou com o precioso instincto
+<span class="pagenum"><a name="pag224">[224]</a></span>
+da arte; áquelles, emfim, para quem a paciencia
+é a norma, e que se não apaixonam, que se
+não arrebatam, que se não enthusiasmam, gelados,
+mudos, frios como o sepulchro.--a esses, pouco
+pódem importar as tristesas do poeta e as suas
+profundas melancholias, que são como que o lento
+e sombrio finar da existencia.</p>
+
+<p>Ó noites de agonia, noites de isolamento--como
+vós sois tristes e duras de passar! O mundo,
+que vos detesta, ó doces e amargosas horas da
+experiencia, foje de vós! Ao vosso lado só tendes
+os poetas e os artistas e os sábios e todos aquelles
+que no horror da noite procuram o ideal da
+humana perigrinação.</p>
+
+<p>Bemdictas sejaes vós, companheiras do tumulo,
+porque me ensinastes o soffrer!</p>
+
+<p class="centrado">*<br>* &nbsp; &nbsp; &nbsp; *</p>
+
+<p>A Viscondessa era um d'esses raros typos angelicos,
+que despresando a opinião das maiorias,
+porventura o mais estupido de todos os preconceitos.
+<span class="pagenum"><a name="pag225">[225]</a></span>
+se entregam febril e vertiginosamente nas azas do
+seu capricho, sem outro intento que não seja o
+louco voar atravez as idealidades que de continuo
+se lhe desenham na mente esbraseada.</p>
+
+<p>Eu gósto d'estas mulheres, d'estas candidas andorinhas,
+que, superiormente ás outras mulheres,
+suas irmãs, se alimentam no tepido halito da primavera,
+embriagadas e seduzidas pela doce irradiação
+do céu.</p>
+
+<p>Se péccam não é d'ellas a culpa. Quem poderá
+dizer á ave, á meiga filha da luz: tu voarás para
+aqui? e ao rouxinol, o adoravel amigo dos poetas:
+tu cantarás a taes horas? e ao oceano, o titanico
+athleta da creação: tu não correrás? Quem?</p>
+
+<p>A Viscondessa era uma creança com sêde de
+amor, boa e ingenua como todas as creanças. Infeliz
+ou não--o certo é que um dia ella se encontrou
+sem amante e sem dinheiro. Alfredo roubara-lhe
+o coração, e o que é mais ainda--a crença
+no amor; Henrique, ingrato explorador, subtrahira-lhe
+os titulos da sua fortuna. N'estes termos,
+que fazer? A quem recorrer se o amor, assim e
+<span class="pagenum"><a name="pag226">[226]</a></span>
+tão de subito--se lhe transformára em inimisade
+e a fortuna em pobreza?</p>
+
+<p>A Viscondessa, perplexa, hesitante, nervosa,
+chamou pela sua creada.</p>
+
+<p>--Sabes Virginia--dizia ella á sua amiga--que
+estamos roubadas?</p>
+
+<p>--Roubadas... minha senhora?!</p>
+
+<p>--Sim, roubadas... e roubadas por Henrique,
+a quem nós n'esta casa tratamos com um carinho
+de irmãs...</p>
+
+<p>--Oh! meu Deus!... meu Deus!... e que havemos
+de fazer, minha senhora?</p>
+
+<p>E Virginia beijou pela primeira vez na sua
+vida a angelica fronte da Viscondessa.</p>
+
+<p>A desgraça tem este condão mysterioso: torna-nos
+irmãos involuntariamente.</p>
+
+<p>--Não é verdade, Virginia, que tu nunca me
+has de abandonar?</p>
+
+<p>--E quem pensará em tal, senhora Viscondessa?</p>
+
+<p>--Pois bem: espera um bocadinho, que me
+has de levar uma carta á rua da Emenda.
+<span class="pagenum"><a name="pag227">[227]</a></span>
+
+<p>--O que V. Ex.<sup>a</sup> quizer, minha senhora.</p>
+
+<p>A Viscondessa sentou-se á mesa; tomou uma
+folha de papel e principiou a escrever nos seguintes
+termos:</p>
+
+<p class="direita">«Excellentissimo senhor Barão:</p>
+
+<p>«Pela primeira vez ouso incommodal-o. Se Vossa
+Excellencia, porém, adivinhasse a triste situação
+em que actualmente me encontro, por certo me
+desculparia estas instantes linhas. Entretanto, impellida
+pelas circumstancias, quero acreditar que
+Vossa Excellencia se não furtará a vir procurar-me
+hoje mesmo.</p>
+
+<p>«E n'esta esperança fecho esta carta, tendo a
+honra de ser</p>
+
+<p>De vossa excellencia<br>
+
+serva respeitosa</p>
+
+<p>S. C.<br>
+
+Lisbôa<br>
+
+Largo de Camões</p>
+
+<p>A Viscondessa de B***</p>
+
+<p>..............................</p>
+
+<p>Virginia, tomando das mãos da Viscondessa
+este bilhete, competentemente sellado com o carimbo
+da casa, sahiu na direcção acima indicada.
+<span class="pagenum"><a name="pag228">[228]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag229">[229]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXXVII">XXXVII</a></h1>
+
+<h2>Uma victima</h2>
+
+
+<p>E Cecilia? que será feito d'ella?</p>
+
+<p>Pela callada das trévas, á meia noite, ha sombras
+que vagueiam pelas ruas como visões informes,
+famintas, esqueleticas. Á sahida dos theatros abeiram-se
+de nós vultos esfarrapados, cheios de dôr
+e de vergonha, que nos estendem a mão carcomida
+e triste. Cada um d'esses vultos representa,
+no grande drama social, uma consciencia offendida
+ou uma crença ludibriada. Não se descobrem nunca
+esses desgraçados, porque não desejam ser reconhecidos.
+<span class="pagenum"><a name="pag230">[230]</a></span>
+Se é mãe e tem filhos, pede em nome
+dos filhos; se é pae e tem familia, pede em nome
+da familia; se é só e miseravel, pede em nome da
+miseria.</p>
+
+<p>Cecilia não estava precisamente n'este caso.
+Cedendo, ainda que violentada, ás seducções do
+parocho, que por toda a parte a seguia com a
+voracidade de um lobo,--a joven aldeã, para quem
+o ideal se não havia de todo extinguido, veiu para
+a capital. Pobre mulher inexperiente, coitada! que
+media o mundo pela craveira da sua innocencia...</p>
+
+<p>Emfim, depois de muito indagar, de muito ouvir
+e muito procurar, soube ella que o Sr. José
+Xavier era negociante e residia em Alcantara.</p>
+
+<p>Sem delongas deu-se pressa a rapariga em chegar
+ao almejado paraiso. Quando subia a escada,
+açodada e veloz, como uma gazella, um creado
+a reteve.</p>
+
+<p>--Que quer vm.<sup>cê</sup>--perguntou-lhe o guarda
+portão.</p>
+
+<p>--Desejo fallar ao Sr. Julio--retorquiu Cecilia.
+<span class="pagenum"><a name="pag231">[231]</a></span>
+
+<p>--Não é aqui que elle mora; póde procurar
+n'outra parte.</p>
+
+<p>--Ai! não, enganei-me; é ao Sr. José Xavier
+que eu pretendo...</p>
+
+<p>E n'isto Julio descia a escada. Cecilia nem sequer
+o reconhecêra. De passagem, perguntou Julio
+ao creado quem era aquella mulher.</p>
+
+<p>--Uma desgraçada que pretende esmola--respondeu
+o interrogado.</p>
+
+<p>--Pois bem: mande-lhe dar dez tostões.</p>
+
+<p>E o amo sahiu, sem, ao menos, virar a cabeça.</p>
+
+<p>O primeiro pensamento de Cecilia foi correr
+atraz de Julio. Mas não! Ella estava vexada, profundamente
+vexada de si mesmo. Até quasi chegou
+a duvidar que fosse aquelle o seu antigo amante.</p>
+
+<p>--Não, decerto não é elle... reflexionava ella
+comsigo.</p>
+
+<p>--Aqui tem--exclamava o creado, offerecendo-lhe
+dez tostões--aqui tem, póde retirar-se.
+<span class="pagenum"><a name="pag232">[232]</a></span>
+
+<p>Cecilia acceitou a esmola authomaticamente. Muda,
+sem proferir uma palavra, olhou para o homem
+como uma alucinada. Só depois, cá fóra, trémula
+e nervosa, reconheceu a degradação por que havia
+passado. Uma dolorosa agitação lhe percorria os
+membros febris. Não podendo mais conter-se, transbordando
+de raiva e de agonia, desmaiou sobre
+as pedras da calçada.</p>
+
+<p>Ó sociedade, ó mysterio dos mysterios, quanta
+victima tua, não terá perecido assim, á fome, ao
+relento e ao frio?</p>
+
+<p>Ó humanidade, ó triste e ignorado <i>Ashawerus</i>,
+como é espinhosa a tua sorte e tremendo o teu
+fadario!
+<span class="pagenum"><a name="pag233">[233]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXXVIII">XXXVIII</a></h1>
+
+<h2>Julio feito barão</h2>
+
+
+<p>--Póde vossa excellencia acreditar, senhora
+Viscondessa, que emquanto eu viver nada faltará
+n'esta casa.</p>
+
+<p>--Oh! Deus o abençoe, senhor barão...</p>
+
+<p>--Agora--e antes de me retirar, permitta-me
+vossa excellencia, que sem abusar da sua generosidade
+eu lhe narre em breves traços uma
+pequena e eloquente historia ha pouco succedida
+entre nós: «Ha de haver já bastantes annos que
+um homem ignorado (nada importa o nome) veiu
+<span class="pagenum"><a name="pag234">[234]</a></span>
+procurar trabalho em Lisboa. Fugido á lei que o
+perseguia e afastado da mulher que amava--entrou
+n'um theatro. Entre as damas que pela sua
+belleza mais realçavam destacava-se uma a quem
+esse desgraçado entregou o coração e a vida. Mas,
+ai d'elle! A sorte perseguia-o horrivelmente. Elle,
+coitado, era apenas um operario, um modesto operario,
+e ella uma aristocrata, uma distinctissima
+aristocrata. Correram os dias. O miseravel, vendo-se
+fortemente abalado na sua dolorosa existencia,
+abandonou a fabrica, e fez-se escudeiro d'essa
+senhora. Nem um gesto sequer elle perdera, emquanto
+lhe fôra dado viver n'aquella casa. Tudo
+aproveitou o desventurado, curtindo a sós comsigo
+a immensa paixão que tristemente o devorava. Um
+dia, porém, em que elle, porventura mais agitado
+do que nunca, pretendêra subtrahir-se aos fidalgos
+olhares da sua ama, uma fatal circumstancia o
+obrigou a deixar aquella casa.</p>
+
+<p>--Então foi o sr. barão...</p>
+
+<p>--Mais duas palavras, minha senhora, e eu
+<span class="pagenum"><a name="pag235">[235]</a></span>
+termino: «Infamado e corrido de vergonha entregou-se
+o desventurado moço ao trabalho com ardor.
+Próspera lhe correra a fortuna. Amparado por
+dois velhos, hoje mortos, que durante os primeiros
+annos lhe serviram de paes progrediu José Xavier
+tornando-se honrado e bem quisto dos seus semelhantes.
+Depois... oh! depois... Vossa excellencia
+sabe o resto...</p>
+
+<p>--Sim! depois José Xavier foi feito barão,
+encontrando na Viscondessa de B*** a sua mais
+pura e desinteressada amiga.</p>
+
+<p>E Julio, curvando-se, beijou solemnemente a
+mão da Viscondessa.
+<span class="pagenum"><a name="pag236">[236]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag237">[237]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXXXIX">XXXIX</a></h1>
+
+<h2>Denuncias e suspeitas</h2>
+
+
+<p>Alfredo, sem recursos, recorreu ao ultimo expediente
+de um vadio bem educado: tornou-se
+falsificador de notas.</p>
+
+<p>Os proprios amigos d'outros tempos, ao saberem
+d'este facto, denunciaram-n'o á policia.</p>
+
+<p>Dahi em deante principiaram as indagações e
+as pesquisas. A lei não afrouxára em seus esforços.
+E o certo é que uma manhã Alfredo acordou
+n'um calabouço, quasi sem luz e abandonado aos
+vermes.
+<span class="pagenum"><a name="pag238">[238]</a></span>
+
+<p>O processo correu perante o ministerio publico.
+Abundaram as provas. Alfredo era realmente
+um criminoso. O jury, dando o seu <i>veredictum</i>,
+houve por bem coudemnal-o a degredo perpetuo,
+para as costas de Africa.</p>
+
+<p>Embalde lhe foi a appellação interposta pelo
+advogado para o Supremo tribunal de justiça. Confirmada
+a pena o réu teve de partir.</p>
+
+<p>No dia aprasado para a partida, Alfredo, inquieto,
+nervoso, tremulo, agitado, pediu papel e
+tinta. Por uma graça especial fôra-lhe deferido o
+requerimento.</p>
+
+<p>Tomando a penna o degredado traçou no papel
+as seguintes linhas:</p>
+
+<p>«Excellentissima senhora Viscondessa, e minha
+dedicada amiga.--Seria vil, e muito vil, que eu,
+ao deixar esta cidade, me não lembrasse de Vossa
+Excellencia. Cheio do contricção e de arrependimento
+permitta-me pois, Vossa excellencia, que, por
+um pouco, ajoelhe ante a sua imagem generosa.</p>
+
+<p>«É um criminoso que lhe falla, minha Senhora.
+<span class="pagenum"><a name="pag239">[239]</a></span>
+É um triste e miseravel peccador que vem pedir-lhe
+perdão. Conceder-lh'o-ha Vossa excellencia?</p>
+
+<p>Sim! Alfredo não existe já. Condemnou-o a
+sociedade em nome da lei. Condemnaram-n'o os
+seus crimes.</p>
+
+<p>«Dentro em pouco, vestida a estamenha do
+degredo, o meu nome não terá razão alguma de
+ser. Vegetarei como um cadaver, que, privado do
+espirito, se vai decompondo fibra a fibra.</p>
+
+<p>«Os homens não me perdoaram. Foi-me negada
+a honra: tudo me foi negado. E entretanto
+eu tinha de viver...</p>
+
+<p>«Vossa excellencia de certo comprehende este
+terrivel problema do mundo. Entre duas infamias
+preferi esta, justamente por ser a maior.</p>
+
+<p>«E assim como os homens foram ingratos para
+commigo, assim tambem eu fui ingrato para com
+Vossa excellencia.</p>
+
+<p>«Perdão, perdão para mim, minha santa amiga,
+perdão para mim que não pensava!
+<span class="pagenum"><a name="pag240">[240]</a></span>
+
+<p>«Eu era apenas um triste alucinado, que á maneira
+de uma sombra, errava vagamente pelo mundo,
+com o doloroso pesadello de uma longa enfermidade.</p>
+
+<p>«E porque não morri eu, então, céus?</p>
+
+<p>«Para que mais prolongar este acerbo calix de
+amargura?</p>
+
+<p>«Não creio nos homens como não creio em
+Deus.</p>
+
+<p>Deus!... Mas porque infinita maldição me sahe
+esta palavra dos labios?</p>
+
+<p>«Ah! sim, está ali... bem o vejo... o infernal
+carcereiro...</p>
+
+<p>«Mas como? Deus com aquella barba? Deus
+tão velho? Será possivel?</p>
+
+<p>«Ai! senhora Viscondessa, que a febre escalda-me
+os labios resequidos. Se ao menos, Deus
+me trouxesse agua...</p>
+
+<p>«Adeus, minha boa e dedicada amiga; adeus
+para sempre.
+<span class="pagenum"><a name="pag241">[241]</a></span>
+
+<p>«Nas suas noites de prazer não s'esqueça de
+libar por mim--por mim, pelo miseravel condemnado
+da sociedade, sua irmã.</p>
+
+<p class="direita"><i>Alfredo.</i>»</p>
+
+<hr style="border-bottom: dotted 2px #000000;">
+
+<p>--Um pobre rapaz, coitado!--exclamou a
+Viscondessa, ao terminar a leitura d'esta carta.
+<span class="pagenum"><a name="pag242">[242]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag243">[243]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXL">XL</a></h1>
+
+<h2>Ao hospital</h2>
+
+
+<p>Do calabouço passaremos ao hospital. Tudo é
+enfermidade: com uma differença apenas--e é
+que, n'uns adoece o espirito, ao passo que n'outros
+adoece o corpo.</p>
+
+<p>Ao percorrermos aquelles longos salões, onde
+só a doença tem o seu throno e a morte o seu
+prestigio; ao pararmos junto d'aquelles leitos empobrecidos,
+onde os gemidos da miseria se cazam
+tristemente com a dolorosa suavidade da esperança;
+ao palparmos as chagas, as desventuras e as
+mil angustias porque passa a humanidade n'este
+<span class="pagenum"><a name="pag244">[244]</a></span>
+mundo; ao vermos tudo isto, o espirito vacilla
+realmente, e o coração sente-se fatal e impetuosamente
+abalado em tudo o que ha de mais santo,
+de mais nobre e de mais digno á superficie da
+terra.</p>
+
+<p>Adoecer na flor da edade, sem protecção, sem
+carinho, sem a meiguice de uma irmã, de uma
+esposa, de uma filha--isso, só a pobreza o poderá
+verdadeiramente avaliar.</p>
+
+<p>Ha dores que se não exprimem, que se não
+definem, e que estão muito acima das mundanas
+velleidades.</p>
+
+<p>Como quer que seja, porém, Cecilia encontrou-se
+uma manhã no hospital de S. José, doente,
+triste e perdida a esperança de melhores dias.</p>
+
+<p>Uma phthisica fatal lhe devorava as entranhas,
+profundamente abaladas. A tosse augmentava de
+minuto para minuto. As convulsões recrudesciam.
+Os medicos desesperavam da cura. E os enfermeiros,
+os vis mercenarios do corpo humano, abanavam
+as orelhas da cançados e aborrecidos.
+<span class="pagenum"><a name="pag245">[245]</a></span>
+
+<p>Emfim soou a hora fatal. Após uma longa hemoptise,
+Cecilia abrio muito os olhos, tornou-se
+verde--de um verde-negro e sombrio--fez um
+esforço sobre si, regougou algumas palavras imperceptiveis,
+e cahiu para o lado.</p>
+
+<p>Tinha expirado finalmente.</p>
+
+<p>A aurora era então sem mancha; a cotovia annunciava
+um dia formoso. Tudo vivia; a luz era o
+prologo do amor.</p>
+
+<p>Arrastada para uma sala especial, unicamente
+destinada aos mortos, ficou o seu cadaver em deposito,
+até que um esquife o levasse para o cemiterio.</p>
+
+<p>Sobre o corpo putrefacto d'aquella victima
+desventurada não houve sequer quem derramasse
+uma lagrima.</p>
+
+<p>É que o mundo, no seu estupido cynismo,
+pensa de ordinario mais em rir do que em chorar!
+<span class="pagenum"><a name="pag246">[246]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag247">[247]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXLI">XLI</a></h1>
+
+<h2>Sorrisos e lagrimas</h2>
+
+
+<p>--Acredita-me, Mabilia: esta felicidade para nós
+é inalteravel. Deixa que o mundo murmure no seu
+louco e estupido egoismo. Nada importa! A openião
+das maiorias é, em quanto a mim, uma vil
+e dolorosa mentira. Tendo-te a ti, que mais poderei
+eu ambicionar? Desafio os rios e os mares para
+que venham arrebatar-me do coração a tua terna
+e doce imagem. Que venham! E eu, impavido, arrostarei
+com elles, braço a braço, se tanto fôr preciso.
+<span class="pagenum"><a name="pag248">[248]</a></span>
+
+<p>--Oh! Julio, meu bom amigo, por Deus, não
+sejas mentiroso; não digas aquillo que não sentes;
+se devéras me não amas, para que fallar em tal?
+Olha que a experiencia, meu amigo, tem-me sido
+uma triste e dolorosa desillusão n'esta vida...</p>
+
+<p>--E és tu quem assim falla? Mas não vês, desgraçada,
+que essas palavras me fazem escaldar o
+coração? Oh! por piedade, não me mates, Mabilia:</p>
+
+<p>N'este comenos Virginia entrou na saleta. Interrompido
+o dialogo, o nosso barão tomou, ao
+acaso, um jornal, que ligeiramente passou pela
+vista.</p>
+
+<p>Antes, porém, de o pousar, estacou em uma
+das locaes, e leu o seguinte:</p>
+
+<p>«Falleceu hontem no hospital de S. José, victima
+de uma phthisica pulmonar, uma pobre rapariga,
+por nome Cecilia da Silva. Parece que uns
+amores mal correspondidos foram a causa de similhante
+infortunio. Por se ignorar o nome do pae,
+que se suppõe viver na aldeia, foi o seu cadaver sepultado
+no cemiterio dos Prazeres, com uma simples
+<span class="pagenum"><a name="pag249">[249]</a></span>
+inscripção, gravada n'uma pequena cruz de
+madeira.»</p>
+
+<p>--Se me não engano já vi algures esta mulher!--regougou
+o barão, repoltreando-se na cadeira, e
+lançando do seu excellente charuto <i>havano</i> uma
+longa e deliciosa bafurada de fumo.
+<span class="pagenum"><a name="pag250">[250]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag251">[251]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capXLII">XLII</a></h1>
+
+<h2>Tableau</h2>
+
+
+<p>Agora o quadro.</p>
+
+<p>Atravez os quatro personagens, distingue-se um
+mundo de miserias.</p>
+
+<p>O barão dá o braço á Viscondessa; o dinheiro
+acaricia a formosura.</p>
+
+<p>Eis a luz.</p>
+
+<p>A doença caminha a par do degredado: o corpo
+corre parallelo com o espirito.</p>
+
+<p>Eis a sombra!</p>
+
+<hr style="width: 4em;">
+
+<p>O espectador que ajuize.
+<span class="pagenum"><a name="pag252">[252]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag253">[253]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capEpilogo">Epilogo</a></h1>
+
+
+<p>Hontem o amor; hoje a pobreza; amanhã o
+esquecimento.
+<span class="pagenum"><a name="pag254">[254]</a></span>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag255">[255]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="capPost-scriptum">Post-scriptum</a></h1>
+
+<h2>(Ao leitor)</h2>
+
+
+<p>Este romance não mira aos applausos da galeria.
+Tão pouco prima, nem pelo complicado do enredo
+nem pelo difficil das situações. São capitulos singelos,
+estes, que acabam de lêr-se, só pela arte
+inspirados e por amor d'ella concluidos.</p>
+
+<p>E a arte é a verdade.</p>
+
+<p>Por muitos hão de estas paginas ser aborrecidas.
+Por muitos hão de ellas ser odiadas. Nada
+importa. A consciencia acima de tudo.</p>
+
+<p>Entendeu o auctor que era sobre tudo <i>descriptivo</i>
+<span class="pagenum"><a name="pag256">[256]</a></span>
+o romance moderno, profundamente descriptivo,
+cheio de analyse, critica, de bom-senso e da naturalidade;
+de pouco dialogo e de muita observação;
+havendo todo o escrupulo em pôr de parte o devaneio,
+na dissecação dos homens e das cousas.</p>
+
+<p>Ao ideal d'este livro presidiram, pois, as realidades
+presentes e passadas. O typo da Viscondessa,
+atraz esboçado, poderá não agradar a todos, é verdade;
+mas é, no entanto, um typo real, perfeitamente
+real. Uma mulher ingenua, simples, caprichosa,
+sacrifica o seu coração, a sua tranquillidade,
+o seu amor a um elegante rapaz, filho dos restaurantes,
+e, como os restaurantes, viciado e corrupto.
+D'aqui a perdição da heroina e o triumpho do galã.</p>
+
+<p>Outro tanto succede com a figura angelica da
+aldeã. Victima do confessionario, cahiu, andorinha
+ferida, a quem roubam o ninho e os filhos; sedenta
+de prazer, resvalou no abysmo.</p>
+
+<p>Alfredo, se bem que generoso e sympathico, é,
+todavia, um moço perdido, alucinado pelos vinhos
+e pelas grandes ceias, incapaz de conceber outros
+<span class="pagenum"><a name="pag257">[257]</a></span>
+pensamentos que não sejam o da sua indolencia e
+o do seu bem-estar. Acaba porisso como, naturalmente,
+devia acabar--nas costas d'Africa.</p>
+
+<p>O contrario quasi se dá com Julio. Trabalhando,
+vence os escolhos da adversidade; convivendo
+com o mundo, torna-se como o mundo, calvo na
+corrupção e no cynismo.</p>
+
+<p>E muito de proposito, pois que não fallo aqui
+na mãe e na esposa, dediquei este livro ás boas mães
+e ás boas esposas: ás boas mães, para que sejam esmeradas
+na educação das filhas, e ás boas esposas, afim
+de que saibam estimar a virtude, como a primeira e
+a mais indestructivel de todas as riquezas.</p>
+
+<p>A maternidade é uma fonte de boas acções.
+Quem sabe se foi este o defeito da Viscondessa e
+de Cecilia? O santo amor de mãe despertaria incontestavelmente
+n'estas duas mulheres outros
+mundos muito diversos que não os da imaginação
+e os do capricho.</p>
+
+<p>A logica não foi, pois, sacrificada. Antes pelo
+<span class="pagenum"><a name="pag258">[258]</a></span>
+contrario temos fé em que será ella a gloriosa redemptora
+d'este <i>enormissimo peccado</i>.</p>
+
+<p>Coimbra,<br>
+
+4 de Fevereiro<br>
+
+da 1874</p>
+
+<p class="direita"><i>O Auctor.</i></p>
+
+
+<h4>FIM.</h4>
+<span class="pagenum"><a name="pag259">[259]</a></span>
+
+
+
+
+<h1><a name="indece">INDECE</a></h1>
+
+<table border=0 width="100%">
+
+<tr><td>&nbsp;</td><td>&nbsp;</td><td>&nbsp;</td><td>Pag.</td></tr>
+
+<tr><td>&nbsp;</td><td>&nbsp;</td><td><a href="#pag5">Dedicatoria</a></td><td><a href="#pag5">5</a></td></tr>
+
+<tr><td>Cap.</td><td>I</td><td><a href="#capI">Um baile</a></td><td><a href="#pag7">7</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>II</td><td><a href="#capII">A senhora Viscondessa</a></td><td><a href="#pag13">13</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>III</td><td><a href="#capIII">Alfredo</a></td><td><a href="#pag25">25</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>IV</td><td><a href="#capIV">Contrastes</a></td><td><a href="#pag37">37</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>V</td><td><a href="#capV">No restaurante</a></td><td><a href="#pag45">45</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>VI</td><td><a href="#capVI">Sem sahir do mundo</a></td><td><a href="#pag53">53</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>VII</td><td><a href="#capVII">Entre amigos</a></td><td><a href="#pag59">59</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>VIII</td><td><a href="#capVIII">De passagem</a></td><td><a href="#pag65">65</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>IX</td><td><a href="#capIX">Pobreza e miseria</a></td><td><a href="#pag71">71</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>X</td><td><a href="#capX">Cousas dos homens</a></td><td><a href="#pag79">79</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XI</td><td><a href="#capXI">Na taberna</a></td><td><a href="#pag85">85</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XII</td><td><a href="#capXII">Perigos e consequencias</a></td><td><a href="#pag91">91</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XIII</td><td><a href="#capXIII">Continuação</a></td><td><a href="#pag97">97</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XIV</td><td><a href="#capXIV">Novos mundos</a></td><td><a href="#pag103">103</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XV</td><td><a href="#capXV">Primeiros amores</a></td><td><a href="#pag107">107</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XVI</td><td><a href="#capXVI">Transformações</a></td><td><a href="#pag113">113</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XVII</td><td><a href="#capXVII">Allucinações</a></td><td><a href="#pag119">119</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XVIII</td><td><a href="#capXVIII">O escudeiro da senhora Viscondessa</a></td><td><a href="#pag125">125</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XIX</td><td><a href="#capXIX">Falla o coração</a></td><td><a href="#pag133">133</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XX</td><td><a href="#capXX">Casa burgueza</a></td><td><a href="#pag139">139</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXI</td><td><a href="#capXXI">Considerações</a></td><td><a href="#pag143">143</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXII</td><td><a href="#capXXII">Um hospede</a></td><td><a href="#pag149">149</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXIII</td><td><a href="#capXXIII">Transição</a></td><td><a href="#pag155">155</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXIV</td><td><a href="#capXXIV">Confidencia</a></td><td><a href="#pag161">161</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXV</td><td><a href="#capXXV">Mais confidencias</a></td><td><a href="#pag165">165</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXVI</td><td><a href="#capXXVI">A Viscondessa</a></td><td><a href="#pag171">171</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXVII</td><td><a href="#capXXVII">Digressão</a></td><td><a href="#pag170">170</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXVIII</td><td><a href="#capXXVIII">Ainda a Viscondessa</a></td><td><a href="#pag183">183</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXIX</td><td><a href="#capXXIX">Indecisões</a></td><td><a href="#pag189">189</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXX</td><td><a href="#capXXX">Glorias do operario</a></td><td><a href="#pag193">193</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXXI</td><td><a href="#capXXXI">O que faz o talento</a></td><td><a href="#pag190">190</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXXII</td><td><a href="#capXXXII">Vestigios e ruinas</a></td><td><a href="#pag203">203</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXXIII</td><td><a href="#capXXXIII">Causas e motivos</a></td><td><a href="#pag209">209</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXXIV</td><td><a href="#capXXXIV">Latet anguis</a></td><td><a href="#pag213">213</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXXV</td><td><a href="#capXXXV">Critica</a></td><td><a href="#pag219">219</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXXVI</td><td><a href="#capXXXVI">Toldam-se os horisontes</a></td><td><a href="#pag223">223</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXXVII</td><td><a href="#capXXXVII">Uma victima</a></td><td><a href="#pag229">229</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXXVIII</td><td><a href="#capXXXVIII">Julio feito barão</a></td><td><a href="#pag233">233</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XXXIX</td><td><a href="#capXXXIX">Denuncias e suspeitas</a></td><td><a href="#pag237">237</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XL</td><td><a href="#capXL">No hospital</a></td><td><a href="#pag243">243</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XLI</td><td><a href="#capXLI">Sorrisos e lagrimas</a></td><td><a href="#pag247">247</a></td></tr>
+
+<tr><td>«</td><td>XLII</td><td><a href="#capXLII">Tableau</a></td><td><a href="#pag251">251</a></td></tr>
+
+<tr><td>&nbsp;</td><td>&nbsp;</td><td><a href="#capEpilogo">Epilogo</a></td><td><a href="#pag253">253</a></td></tr>
+
+<tr><td>&nbsp;</td><td>&nbsp;</td><td><a href="#capPost-scriptum">Post-scriptum</a></td><td><a href="#pag255">255</a></td></tr>
+</table>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Senhora Viscondessa, by
+Sebastião de Magalhães Lima
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A SENHORA VISCONDESSA ***
+
+***** This file should be named 24710-h.htm or 24710-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/2/4/7/1/24710/
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+http://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>