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+The Project Gutenberg EBook of Noticia de livreiros e impressores de
+Lisbôa na 2ª metade do seculo XVI, by José Joaquim Gomes de Brito
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Noticia de livreiros e impressores de Lisbôa na 2ª metade do seculo XVI
+
+Author: José Joaquim Gomes de Brito
+
+Release Date: February 20, 2008 [EBook #24657]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LISBÔA ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
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+
+ *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
+ existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
+ versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Fev. 2008)
+
+
+
+
+GOMES DE BRITO
+
+
+NOTICIA
+
+DE
+
+Livreiros e Impressores em Lisbôa
+
+NA
+
+2.^a METADE DO SECULO XVI
+
+COMPOSTA EM FACE DE UM CODICE DA CAMARA MUNICIPAL DESTA CIDADE
+
+[Figura]
+
+
+1911
+
+Imprensa Libanio da Silva
+_Travessa do Fala-Só, 24_
+LISBOA
+
+
+
+
+Livreiros e Impressores em Lisbôa na 2.^a metade do Seculo XVI
+
+
+
+
+GOMES DE BRITO
+
+
+NOTICIA
+
+DE
+
+Livreiros e Impressores em Lisbôa
+
+NA
+
+2.^a METADE DO SECULO XVI
+
+COMPOSTA EM FACE DE UM CODICE DA CAMARA MUNICIPAL DESTA CIDADE
+
+[Figura]
+
+
+1911
+
+Imprensa Libanio da Silva
+_Travessa do Fala-Só, 24_
+LISBOA
+
+
+
+
+Do _Boletim da Sociedade de Bibliophilos Barbosa Machado_
+
+Tiragem: 50 exemplares
+
+N.^o 44
+
+
+
+
+NOTICIA
+
+DE
+
+Livreiros e Impressores em Lisbôa
+
+NA
+
+2.^a METADE DO SECULO XVI
+
+
+Até o tempo em que o Cardeal D. Henrique, depois rei, procedeu á nova
+circumscripção das parochias de Lisbôa, erijindo mais cinco freguezias a
+ajuntar ás vinte e cinco já existentes (1564 a 1569), demarcando-lhes o
+territorio nos recortes feitos a quatro destas, a secular compartilha
+que resultava deste regimen, estabelecido no intuito de accomodar o
+serviço religioso ás necessidades dos fieis, e sua mais immediata
+satisfação, soffrera tres remodelações. Ordenara a ultima, durante a
+regencia do principe D. João, ausente em França seu pai, o rei D.
+Affonso V, o celebre cardeal de Alpedrinha.
+
+Por effeito daquelle regimen, grande numero de vias públicas lisbonenses
+eram, como ainda hoje o são, compartilhadas por diversas freguezias
+confinantes. O _Summario_ de Christovão Rodrigues de Oliveira, apezar de
+imperfeito neste ponto, nos mostra, pela repetição das _denominações_,
+que não dos _disticos_, porque tal providencia estava ainda por nascer,
+quaes e quantas eram as vias públicas compartilhadas, por effeito da
+remodelação parochial então vigente.
+
+Comprehendia-se entre as deste numero a muito falada «Rua Nova»,
+dividida em dois troços, um mais antigo que o outro; um, o primeiro,
+fazendo parte do territorio da freguezia da Magdalena, o outro
+pertencendo á freguezia de «S. Gião» (S. Julião).
+
+Do mesmo modo, esta notavel rua da Lisbôa medieva, que principiando no
+Pelourinho, ía entroncar na Calcetaria, era conhecida por duas
+denominações, correspondentes á sua compartilha. Á parte oriental,
+territorio da parochia da Magdalena, que terminava no Arco dos Barretes,
+chama Christovão «Rua Nova dos Ferros»; a que desde o predito Arco ía
+embeber-se na Calcetaria, um pouco adiante do Chafariz dos Cavallos, é
+designada na relação do _Summario_, referida á freguezia de S. Gião,
+pela denominação de «Rua Nova dos Mercadores».
+
+
+
+
+I
+
+
+É em toda a extensão da Rua Nova, de um e outro lado della, que, mercê
+de um valioso codice pertencente á Camara Municipal de Lisbôa[1], nós
+vamos encontrar, de porta aberta, nos annos intermedios dos já preditos
+(1565 a 1567), não só alguns dos livreiros e editores já conhecidos dos
+que conversam o passado literario de Portugal, mas outros tambem, ainda
+até agora não mencionados.
+
+Começando a juzante da formosa linha de agua com a qual a Rua Nova
+andava, se pode dizer, parallela, o primeiro que se nos depara é
+Bartholomeu Lopes, que não deixou de si, que saibamos, memoria
+averiguada, mas que poderá ser, porventura, membro de uma notavel
+geração de livreiros deste appelido;--os Lopes.[2]
+
+Em 1563, isto é, dois annos, apenas, antes do primeiro dos dois a que o
+codice de onde extractamos estes apontamentos se refere, havia um
+Christovão Lopes estabelecido «á Porta da Sé», segundo se vê do titulo
+seguinte, que abreviamos, mas se pode ler completo em Innocencio,
+_Diccion. Bibliog._ II, 166:
+
+«_Exposiçam da Regra do glorioso Padre Sancto Augustinho... por frey
+Diogo de Sam Miguel, &--Vendense_ (sic) _á porta da See, em casa de
+Christouam Lopes Liureyro a dous tostões em papel.--Foy impresso em
+Lixboa em casa de Joannes Blavio de Agrippina Colonia--Anno de 1563_».
+
+Vista a propinquidade dos annos, poderá acaso Bartholomeu Lopes ter sido
+irmão, ou filho (?) de Christovão Lopes, e seu successor, passando o
+estabelecimento da Porta da Sé para a Rua Nova, ou estabelecendo-se elle
+ahi de novo.
+
+É possivel tambem que este mesmo livreiro seja pae do livreiro-impressor
+Simão Lopes, que deu em Lisbôa, em 1593, a primeira edição do
+_Itinerario_, de Fr. Pantaleão d'Aveiro, as _Cartas do Japão_, etc., e
+em 1596 reimprimiu a _Chronica de D. João II_, de Garcia de Rezende.
+
+A seguir a Bartholomeu Lopes, seu visinho, estabelecido, até, nas mesmas
+casas, tendo ambos por senhorio um tal Jeronymo Corrêa, tinha a sua
+lojinha Sagramor Fernandes. Era livreiro de modestas posses, a julgar
+pela avaliação que os «lançadores», para tal effeito deputados, deram á
+sua fazenda, na proporção de cuja totalidade deveria, como todos, pagar
+o respectivo escote. O nome baptismal do homem era novellesco, mas as
+_cavallarias_, ao que parece, não eram grandes.
+
+A influencia das novellas de cavallaria faz-se ainda sentir em toda a
+sua pujança no codice que nos facilita esta noticia, imprimindo-lhe um
+matiz pictoresco e variado.
+
+O nome novellesco do obscuro livreiro não é unico entre os seus
+congeneres de ambos os sexos, inscriptos neste curioso recenseamento. A
+par dos Sagramor ha os Lançarote; de envolta com as Ginevras passam as
+Briolanjas. A procedencia francesa e a italiana, dando-se as mãos.
+Lançarote é o «Lancelot» francez; Lancelot du Lac, o heroe cavalheiresco
+de Gauthier Mapp, o amigo de Henrique II de Inglaterra. Sagramor é o
+«Sagromoro» milanez, que Jorge Ferreira aportuguesou, fazendo-o heroe do
+seu _Memorial_; Sagramor Constantino, designado por el-rei Arthur para
+seu successor, se a sorte das armas lhe fôsse adversa.
+
+Por aproposito, lembraremos a dúvida que Barbosa Machado fez nascer,
+ácerca da existencia dos _Triumfos de Sagramor_, novella que, segundo
+elle, teria sido impressa em Coimbra, em 1554, por João Alvarez, mas de
+que parece que nem o douto Abbade de Sever, nem, de certeza, o seu
+successor, o diligente Innocencio, viram jámais exemplar algum. Será
+esta hypotética novella o proprio _Memorial_, assim duplicado pelo
+auctor da _Bibliotheca Lusitana_? Eis um curioso thema, digno, nos
+parece, de attrahir a attenção da nossa Sociedade, e a que o artigo de
+Innocencio (IV, n.^o 2095, pag. 170) prestaria a base.
+
+Em compensação, porém, algumas lojas mais adiante do modesto Sagramor
+achava-se estabelecido o opulento João de Borgonha. Livreiro-editor de
+nomeada, fornecedor de artigos do seu ramo para a fazenda de S. A.,
+proprietario nas visinhanças do seu estabelecimento, e em mais de um
+sitio,[3] os seus teres, como negociante, foram avaliados em «um conto
+de réis».
+
+Na epoca em que o encontrámos, tinha elle por seu «obreiro», talvez o
+que hoje chamariamos seu «director-technico», seu administrador ou seu
+apoderado, a um certo Miguel de Arenas, um castelhano, porventura, como
+da Borgonha seria, com effeito, o patrão; estranjeiros quasi todos,
+estes negociantes das letras portuguezas do seculo XVI, que, vindo
+concorrer com os nacionaes, faziam, ao que parece, mais fortuna que
+elles.[4]
+
+Certo é que Miguel de Arenas estabeleceu-se posteriormente, com o mesmo
+ramo de commercio, de sociedade com João de Molina; tambem, e mais
+vulgarmente conhecido por «João de Hespanha», outro abastado mercador de
+livros, mas não tanto como o seu confrade borgonhez. O negocio de João
+de Hespanha foi avaliado em «duzentos mil réis». Como «obreiro» de João
+de Borgonha, Miguel de Arenas devia fazer bons interesses. Dos seus
+ordenados--e foi por esta circumstancia que o suppuzemos _empregado
+superior_ da casa de seu patrão--foram-lhe arbitrados «cinquo mill rs»,
+para na razão delles pagar o respectivo escote.[5]
+
+A João de Borgonha segue-se, nas tendas de Alvaro de Moraes, o livreiro
+Manoel Carvalho, provavelmente o pae de Sebastião Carvalho, que em 1598
+publicou, em 3.^a edição, a _Recopilaçam das cousas que conuem guardarse
+no modo de preseruar a Cidade de Lisboa_, instrucções redigidas em 1569
+pelos medicos Thomaz Alvarez e Garcia de Salzedo Coronel, e repetidas na
+primeira das datas a que acima nos referimos, «por mandado da cidade de
+Lisbôa», &.[6] Sebastião Carvalho conservaria assim na mesma Rua Nova o
+estabelecimento paterno.
+
+Apresentam-se, logo em seguida a Manoel Carvalho, Diogo Machado, João
+Lopes e «Graviel» de Araujo, dos quaes não viramos ainda noticia, antes
+que o codice que lhes revelou a existencia no'los désse a conhecer. Ao
+ultimo destes segue Diogo Moniz, que por ter apresentado carta de
+familiar do Santo Officio, foi escuso do escote. Porfim, e quasi no
+extremo da parte da rua pertencente á freguezia da Magdalena, o
+«Grafeo», isto é, o livreiro-editor Francisco Grapheo, em cujo
+estabelecimento se vendia a novella _Menina e Moça_, de Bernardim
+Ribeiro, impressa em Colonia, em 1559,[7] e uma das muitas edições da
+_Diana_, do nosso Jorge de Montemor, ao qual ainda não chegara a hora de
+ser incluído nos _Indices expurgatorios_ das duas Inquisições
+peninsulares.
+
+
+
+
+II
+
+
+Continuando na mesma Rua Nova, agora já no territorio da freguezia de
+«S. Giam»; isto é, para a direita do Arco dos Pregos, ainda ahi
+encontramos um Francisco Mendes, que estará no caso de Sagramor
+Fernandes, visto o diminuto do escote, bem como o «framengo» Giraldo de
+Frisa, que pertence tambem, ou nos enganaremos, ao numero dos da sua
+classe, de que não chegára noticia até nossos dias.
+
+Emfim, na mesma Rua Nova, e territorio da sobredita freguezia de «S.
+Giam» (S. Julião), mas da banda das Varandas, encontramos, fronteira ao
+Arco dos Pregos, a «viuva de Salvador Martel», Leonor Nunes, a qual,
+estabelecida, com seu filho, nas casas de Fernão d'Alvarez de Almeida,
+teve pelos lançadores a avaliação de duzentos mil réis.
+
+Salvador Martel foi livreiro conhecido. Deverá ter fallecido no decurso
+das operações do _Lançamento_, de cujo livro tiramos estas singelas
+notas, visto como Tito de Noronha ainda o refere ao anno de 1566.[8]
+
+Algum tanto mais atrás, e tornando ao territorio da freguezia da
+Magdalena, voltando da rua de D. Gil Eanes, pelo «Pelourinho», para a
+rua da Ourivesaria da Prata, em cuja entrada tinham suas lojas os
+«calciteiros», encontramos o livreiro Jeronymo de Aguiar, que tambem não
+conheciamos, e, ali perto, no Poço da Fotéa, o já mencionado João de
+Molina, appelidado no codice que vamos percorrendo «Johão de Espanha»,
+livreiro-editor que rivalisava, sem comtudo o hombrear, como já notámos,
+com o seu opulento confrade João de Borgonha.
+
+Não era, porém, só na famosa Rua Nova, e suas immediações, que se
+encontravam os mercadores de livros. Na rua direita da Porta do
+Ferro,[9] numas casas que ahi possuia a camareira-mór, estava
+estabelecido «Jorge Dagiar» (Aguiar ou Aguilar?) talvez antecessor de
+Antonio de Aguilar, que nesse sitio teve a sua loja em 1576.
+
+Pelas vizinhanças, na «travessa da porta travessa da Madalena», que se
+ligava á «rua do fim do pé da Costa», tinham tambem suas lojas Francisco
+Fernandes e «Bautista da Fonsequa».[10] Lá para a Porta do Mar, entre a
+Mizericordia e a «Fonte da Pregiça»,[11] nas tendas da Cidade que jaziam
+nas costas do Terreiro do Trigo, vendia livros um tal Manoel Francisco,
+lojista de medianos teres, cuja fazenda foi avaliada em 10$000 réis.
+
+Por pouco mais abastado sería tido um Antonio Dias, com estabelecimento
+na rua da Gibetaria,--15$000 réis de fazenda.--E nos mesmos casos Pero
+Castanho, lá para perto de Valverde, numa travessa que vinha de Paio de
+Novaes para aquelle sitio, isto é, por perto do Rocio.
+
+
+
+
+III
+
+
+Estes são os livreiros que encontrámos arrolados em 1565-1567 no _Livro
+do Lançamento_ que nos tem guiado.
+
+São _vinte_, isto é, mais do dobro dos que Tito de Noronha contou em sua
+já lembrada Memoria, referidos aos mesmos annos.
+
+Não poderemos, todavia, affirmar que o João Lopes (1588), da lista
+daquelle auctor, seja o mesmo que figura nestas singelas notas. A
+identidade não se nos afigura improvavel.
+
+Do Christovão Lopes (1563), daquella lista, já dissemos o que temos por
+presumivel. Quanto ao livreiro Antonio Curvete (1565), mencionado tambem
+por Tito, não se nos deparou no longo exame feito ao curioso codice, sob
+este particular ponto de vista. Isto não quere dizer que elle se não
+ache entre os 15:000 nomes contidos no volumoso recenso. Bem poderá,
+porém, ter escapado, por isso que nem sempre as profissões dos fintados
+lhes acompanham os nomes, ou achar-se-ha substituido por outro dos
+arrolados.
+
+Como quer que seja, um e outro do numero total dos livreiros, apontado
+por Tito de Noronha e por nós, como estabelecidos em Lisbôa entre 1565 e
+1567, está muito longe do que mencionou Christovão, onze annos
+antes[12]--«54». Este numero, na verdade, inconcebivel por si só, e sem
+mais explicações, é justificado pelo ignorado auctor da chamada
+_Estatistica de Lisboa_, de 1552, que se guarda na Bibliotheca Nacional,
+de modo assás plausivel, e que, demais, acerta muito satisfatoriamente a
+nossa conta.
+
+Diz, com effeito, o auctor da _Estatistica_:
+
+«Tem XX tendas de livreiros, e [na] maior parte delas i i j, i i i j
+criados e sserã as p^{as} que nellas trabalham huas per outras lx......
+60 p^{as}».
+
+Se em vez de Antonio Curvete, que nos falta, pode estar algum dos
+diversos desconhecidos, de que damos os nomes, hypothese que não parece
+improvavel, haveria nesta capital, de 1565 a 1567, o mesmo numero de
+livreiros que foi contado pelo auctor da _Estatistica_, em 1552.
+
+Adoptada, com effeito, a conta dos «criados» ou «obreyros de livreiros»
+que os lojistas teriam a seu serviço, calculada pelo mesmo auctor, ahi
+teremos o numero de Christovão assaz justificado.
+
+Será a seguinte Noticia dedicada aos _Impressores_.
+
+
+
+
+IV
+
+
+Ao testemunho do curioso codice do Archivo Municipal, que temos seguido,
+na famosa Lisbôa da segunda metade do XVI.^o seculo _seis_ individuos
+exerciam a «arte impressoria», como a denominou Valentim de Moravia, em
+sua traducção do livro de Nicolau Veneto.
+
+O primeiro dos seis «imprimidores», segundo se lhes então chamava, e
+elles a si proprios se designavam, encontrados no alludido codice, é o
+velho João Blavio de Agripina Colonia[13], cujas impressões, conforme a
+tabella organisada por Tito de Noronha, em sua tão curiosa quanto
+instructiva monographia;--_A Imprensa Portugueza durante o seculo XVI_,
+remontam a 1554.
+
+É, porém, de notar que nesta tabella, ou lista chronologica dos
+impressores deste seculo, assigna-se á actividade de João Blavio os onze
+annos, apenas, que começam em 1554, e terminam em 1564.
+
+Ora, o ról do _Livro do Lançamento_, onde apparece este impressor, foi
+recebido pelos _sacadores_ (os encarregados da cobrança da
+extraordinaria imposição) em 11 de março de 1566, e por elles entregue,
+com o producto da cobrança, em 17 de agosto, do mesmo anno.
+
+Vê-se pois que a actividade de João Blavio se prolongou algum tanto mais
+do que o indica a citada lista. O que fica para saber, é que genero de
+trabalhos produziria este typographo durante o lapso de tempo em que se
+averigúa agora ter elle ainda conservado a sua typographia, e a data
+precisa da sua desapparição.[14]
+
+Era pouco importante nesta epoca, segundo parece, a actividade officinal
+de João Blavio. A moderada avaliação de 3$000 réis, que teve, o está
+inculcando.
+
+Achava-se o velho impressor estabelecido no «Beco de Gaspar das Naus»,
+freguezia de «Sam Giam», nas casas de um tal Bento Gonçalves. Aquella
+minguada arteria de Lisbôa tinha sua entrada na Calcetaria, entre a rua
+dos Fornos, a L. e o beco da Ferraria, a O. Rematando-se, ao N., por uma
+especie de cotovello, sem sahida, bifurcava-se na ligação com a rua dos
+Fornos, a que se chamava «beco do Loureiro». O plano Pombalino,
+assentando sobre esta um tanto emmaranhada topographia, mostra-nos, como
+pode ver-se na _Est. I_ da obra valedora do sr. Vieira da Silva, _As
+Muralhas da Ribeira de Lisboa_, o Beco de Gaspar das Naus atravessado
+transversalmente, de cima para baixo, na entrada da rua do Crucifixo,
+tendo a sua abertura no quarteirão que fica entre a esquina P. da rua do
+Crucifixo e a do N. da rua Nova do Almada, fronteira, por conseguinte, á
+parede lateral esquerda da actual igreja da Conceição Nova.
+
+O personagem que deu o nome a este beco, e provavelmente residiu nelle,
+fôra, a julgar pelo que allega o «_Negro_», na _Pratica de oito
+figuras_, do poeta Chiado, sujeito que empunhara no mercado a vara da
+justiça... policial.
+
+Diz com effeito, «Gama»:
+
+/*
+«Não vou por esse caminho!
+Fallae ao que vos pergunto,
+Dizei, negrinho sandeu:
+saibamos que mal vos fiz,
+porque não me daes perdiz,
+pois que m'a compraes do meu?
+*/
+
+Responde o «Negro»:
+
+/*
+«Nunca elle mim acha...
+Muito caro, nunca bem...
+Mim dá-le treze vintem
+pr'o dôzo; não querê dá.
+A regatêra muito máo!
+Mim dize quére vendê?
+Elle logo saconde...
+medo _Gasapar da náo
+proqu'elle logo prende_.»[15]
+*/
+
+Gaspar das Naus não é o unico a quem tenha sido applicado o cognome.
+Houve por esta epoca um outro individuo, chamado Manoel Lopes, tambem
+cognominado «das Naus». Ainda não sabemos em que se occupasse.
+
+
+
+
+V
+
+
+Segue-se, na ordem da leitura, Marcos Borges, que nos apparece arrolado
+como «imprimidor obreyro», residindo em uma de tres vias públicas,
+enfeixadas pelos _lançadores_ da sobredita imposição num só
+titulo:--«_Rua de quebra q... com travessa de calca_ (calça) _frades e
+Rua de pino vay_»[16].
+
+O rol onde figura Marcos Borges foi entregue aos _sacadores_ em 2 de
+maio de 1566, sendo por elles restituido ao thesoureiro da imposição em
+1 de agosto seguinte.
+
+Ora, «ao primeyro de janeiro de 1566» appareceu a público, impresso por
+este typographo, o «_Paradoxo_», de João Cointha, lendo-se no
+frontispicio da obra, além da sobredita data, mais a seguinte
+indicação:--«_Vede se na empressam detraz de nossa senhora da
+Palma_».[17]
+
+Se, pois, Marcos Borges já no 1.^o de janeiro de 1566 estava
+estabelecido por sua conta, e nos dá testemunho irrecusavel do facto na
+obra que lhe foi, porventura, estreia, como é que elle nos apparece
+classificado como «imprimidor obreyro», em maio, deste mesmo anno? Não
+deviam os individuos que o classificaram conhecer bem a sua posição?
+
+Por outro lado, a indicação um tanto vaga: «detrás de nossa senhora da
+Palma» poderia até agora fazer suppôr que Marcos Borges estava, com
+effeito, estabelecido nalgumas casas situadas na parte posterior da
+capella-mór da ermida daquella invocação, onde, de certeza, havia já
+neste tempo casas para alugar, como as continuava havendo em 1755, e a
+ellas se referiram os engenheiros encarregados das medições dos Bairros,
+ordenadas no começo do anno seguinte pelo ministro do rei D. José.[18]
+
+Desde, porém, que Marcos Borges nos apparece residindo num sitio
+differente do indicado na obra, de que terá sido o proprio editor, como
+tal indicação nos auctorisa a crêr, ainda que ambos os locaes fôssem
+convizinhos, o que parece curial é entender-se que o impressor do
+«_Paradoxo_», tendo, com effeito, a sua officina no sitio que a obra
+indica, residiria no «_Pino Vay_», viela ingreme, quasi fronteira á
+parte posterior da ermida, e que laborava a escarpa, no alto da qual
+passava a «rua detraz de Santa Justa», correspondendo, salvo o actual
+aspecto, á rua da Magdalena, na parte que vae da Betesga ao largo dos
+Caldas. Vamos ver adiante que Antonio Gonçalves, confrade, já agora
+celebre, de Marcos Borges, morava numas casas de certa rua, e tinha
+nella, e perto, em outras, a sua officina.
+
+Mas, encosta acima, enlaçava-se no «_Pino vay_» a «_travessa de quebra
+q..._», que rasgando-se entre a «_rua dos torneiros_» e a «_Correaria_»,
+um tanto mais abaixo da abertura inferior do «_Pino vay_», ía formar com
+esta viella, a meio da encosta, o enlace que fica apontado.
+
+São poucos os contribuintes arrolados no grupo das tres vias públicas em
+questão, e tanto se pode suppôr que Marcos Borges, sempre na hypothese
+de ter a sua officina «_atras de nossa senhora da Palma_», morasse no
+«_Pino vay_» como na travessa predita, ou na _rua de calça frades_.
+
+A circumstancia, porém, de não mencionarem os lançadores pessoa alguma a
+fintar na parte posterior da ermida da Palma, justamente no anno em que
+este impressor se declarara, na obra que citámos, estabelecido nesse
+sitio desde o 1.^o de janeiro, tenta-nos a ver em tal indicação um
+_alibi_, por elle empregado, para remediar um inconveniente a que o
+decoro devia attender. O que se nos afigura por mais certo, é que os
+_sacadores_ encontraram, com effeito, Marcos Borges residindo na mesma
+casa onde teria a sua officina, o que era regra, a bem dizer, geral, não
+«atrás da ermida de nossa senhora da Palma», mas na _travessa de quebra
+costas_, uma das tres do grupo onde o seu nome apparece, entre outros, e
+da qual se pode admitir, sem grande violencia, que ficasse fronteira,
+mas do lado opposto da _Correaria_, á parte posterior daquella ermida.
+
+Quanto á menos exacta qualificação que ao impressor foi attribuida pelos
+_sacadores_, pode entender-se egualmente, ou que houve equivoco da parte
+destes, ou que elles quizeram favorecer o recem-estabelecido
+«imprimidor», conservando-lhe a qualificação de «obreyro», com o fim de
+lhe minorar a importancia do escote. Marcos Borges, typographo
+proprietario de officina, poderia, é verdade, ser avaliado em 3$000
+réis, como o fôra o seu confrade João Blavio, e pagaria 21 rs. de
+escote, mas passando, por favor dos _sacadores_, por méro «imprimidor
+obreyro», alcançava o beneficio da «menor contia», que eram 2$500 rs.,
+correspondendo-lhe a contribuição de 17 rs. Era uma differença
+apreciavel. Valia a pena acceitar o favor. Marcos Borges,
+_encolhendo-se_, ganhava 4 réis, isto é, defraudava S. Alteza em obra de
+30 réis, de hoje.
+
+Este impressor, ainda em 1567; isto é, no anno seguinte áquelle em que
+se estabeleceu por sua conta, continuava a dar como séde da sua
+typographia o mesmo sitio: «_detrás de nossa senhora da Palma_». Assim
+se lê, com effeito, no fim da «_Chronica do valoroso principe e
+invencivel capitão Jorge Castrioto_», de Francisco de Andrade. Era então
+já «impressor delrey nosso senhor».
+
+Não continuou, porém, ahi. Do facto ficou testemunho no depoimento de
+Pero Alberto, flamengo, seu obreiro, que a 5 de novembro de 1571
+declarava seu mestre estabelecido no «Arco dos Carangueijos», se não é
+Arco do Caranguejo, simplesmente.[19]
+
+A indicação é preciosa, porque nos mostra quem foi o successor da viuva
+de Germão Galharde, da qual adiante nos occuparemos com tal qual
+individuação.
+
+
+
+
+VI
+
+
+Ao «imprimidor» Marcos Borges seguem-se, no codice que estamos
+examinando, os seus dois confrades Manoel João e Francisco Corrêa,
+encontrados, este na freguezia de Santa Justa, aquelle, na de S.
+Christovão.
+
+É Manoel João o primeiro, e delle e da sua actividade industrial vamos
+dar os breves respigos por nós colhidos nas duas interessantes e
+eruditas monographias de Tito de Noronha--_A Imprensa Portugueza_, e
+_Ordenações do Reino_, ambas referidas ao seculo XVI.[20]
+
+Manoel João exerceu a sua arte entre os annos de 1565 e 1578. Destes
+quatorze annos, porém, os dois primeiros occupou-os o impressor em
+Lisbôa, transferindo-se após a Vizeu, onde trabalhou durante os
+seguintes déz. Em 1576, provavelmente, Manoel João terá voltado a esta
+capital, publicando nella, datados deste mesmo anno, os _Diesisiete
+coloquios_, de Baltazar Collazos. De 1578 em diante, desapparece.
+
+Deverá ter sido limitada, e pouco sortida, a actividade industrial deste
+impressor, accrescendo que as obras sahidas do seu prélo não se
+distinguem por perfeitas. Para o facto concorria tambem o cançado tipo
+de que dispôs, e o papel em que imprimiu. A decadencia da Arte começava
+a accentuar-se.
+
+Dos dois primeiros annos do estabelecimento de Manoel João em Lisbôa
+conhece-se, impressa no anno de 1565, a 4.^a ed. das _Ordenações do
+Reino_, dada a lume, como as anteriores, por mandado régio[21]. Esta
+edição foi feita á custa do livreiro Francisco Fernandes, e será o mesmo
+que referimos no Cap. II ter encontrado estabelecido na «_Travessa da
+porta travessa da Madalena_»; isto é, por perto da actual calçada do
+Correio Velho.
+
+No anno seguinte dava o nosso impressor a lume a segunda edição da
+_Primeira Parte da Chronica dos Menores_, como lembrámos em uma das
+notas do Cap. IV. A esta obra seguiu-se a _Oração na trasladação dos
+ossos de Affonso de Albuquerque_, e depois os _Artigos das Cizas_,
+edição geralmente desconhecida de nossos bibliographos, e de que Tito de
+Noronha menciona tres exemplares; o da livraria de Lord Stuart, e os de
+dois amadores do Porto[22].
+
+Em Vizeu, onde Tito conjectura se estabelecera Manoel João, a convite do
+bispo D. Jorge de Atayde, deu este impressor, em 1569, o _Compendio de
+Confessores_, e no anno seguinte as _Regulae Cancellariae_, de Pio V.
+
+Tal é a noticia abreviada da actividade officinal de Manoel João.
+Cumpriria agora ver como se exprimiu Bastião de Lucena, o escrivão da
+_voluntaria imposição_, graças á qual nos foi possivel ajuntar as poucas
+noticias que constituem o assumpto de nossas singelas notas, ao lançar
+no volumoso codice que estamos compulsando, o nome deste impressor entre
+os fintados da freguezia de S. Christovão. Antes, porém, importa que o
+benevolo leitor nos consinta um breve relance á topographia lisbonense,
+da epoca a que pertence o interessante _Livro do Lançamento_ que temos
+examinado. Ver-se-ha não ser sem motivo a digressão.
+
+
+
+
+VII
+
+
+Quem percorrer as tão bem ordenadas listas da viação pública parochial
+lisbonense, impressas no _Summario_ de Christovão Rodrigues de Oliveira,
+com as suas tres categorias de becos, ruas e travessas perfeitamente
+distinctas, e os seus sessenta e dois «Postos que nam sam ruas», onde o
+auctor, ou os que taes listas organisaram, accommodam os «sitios», os
+adros das parochias, os arcos, as varandas, os terreiros, ficará de todo
+illudido, se cuidar que tudo na vida administrativa de Lisbôa se passava
+com regularidade tão exemplar, em pleno seculo XVI, que todos os
+habitantes da famosa cidade lhe conheciam as vias públicas,
+destrinçando-as umas das outras, como hoje o fazemos, por suas exactas
+denominações e categorias, sem ser preciso designa-las por signaes, ou
+auxiliar-se de referencias mais ou menos complicadas, para lhes
+descreverem a marcha itineraria.
+
+A prova de que tal regularidade não passou dos «roles» que os parochos
+de Lisbôa ministraram ao guarda-roupa do Arcebispo, por ordem deste, e
+Christovão fez imprimir após as noticias que ía dando das differentes
+freguezias, está neste codice que temos manuseado, e de que vamos dando
+noticia a nossos benignos leitores. No breve espaço dos quinze annos que
+medeiam entre a data que é costume attribuir á curiosa obra do solícito
+famulo do prelado lisbonense, é o _Livro do Lançamento_, do Archivo
+Municipal (1551-1565), um grande numero de vias públicas de todas as
+tres categorias se haviam aggregado ás _quinhentas e vinte e uma_, de
+que o _Summario_ pretende dar a conta, não em somma total, mas em sommas
+parciaes, referidas a cada qual das tres categorias[23].
+
+Estava no seu auge o facto que a _Miscellanea_ de Garcia de Resende
+commemora;
+
+/*
+«Lisboa vimos crescer
+Em povos e em grandeza.
+E muito se nobrecer
+Em edificios, riqueza».
+*/
+
+Lisbôa desenvolvera-se a olhos vistos, e uma nova remodelação do
+territorio parochial, divisão unica, de tal qual regularidade por então
+em vigor, e essa mesma mais para o ecclesiastico, do que para o civil,
+estava imminente. Ora, desde o 1.^o de janeiro de 1560 que a freguezia
+de «Santa Catharina do Monte Sinay» encetava, pelo funccionamento da sua
+parochia, a série de providencias, que o Cardeal Infante resolvera
+promover, para instituir mais cinco freguezias na cidade, recortando-as
+no territorio das vinte e quatro já existentes, segundo lembrámos no
+começo destas singelas Notas.
+
+Pois bem: cinco annos depois de ter começado a funccionar esta parochia,
+ainda a grande maioria das vias públicas que lhe sulcavam o territorio
+carecía de denominações, ou os _lançadores_, freguezes nella, e que
+haviam formado os roes da _voluntaria_ derrama, lh'os não conheciam.
+
+A calçada _do Congro_[24] ahi figura já, na verdade, substituindo se á
+denominação bem mais pictoresca de que dispusera, de calçada da _Boa
+Vista_, no tempo em que, seguindo os roes de Christovão, a vemos
+mencionada na freguezia de Nossa Senhora do Loreto, cujo territorio, já
+no começo da segunda metade do seculo XVI, alcançava até o «Valle das
+Chagas». Nascera igualmente a «Rua do Conde», que em nossos dias
+mandaram appelidar «Travessa do Caldeira»[25], a «Bica do Bello», de
+1551, apparece já em 1565 com a denominação com que ficou, de «Rua da
+Bica de Duarte Bello», Fernão Rodrigues de Almada dá o seu appelido á
+rua que ainda agora conserva tal nome, proximo á antiga «Cruz de Pao»,
+desde 1885, «Rua do Marechal Saldanha».
+
+Em compensação, porém, os roes dos _sacadores_ falam-nos de 4 ruas que
+«vão das Chagas para Santa Catharina», assim como de 2 outras que «vão
+por detrás de Santa Catharina, uma para a Costa, outra para o Valle», e
+destas seis não é em nenhuma maneira facil fixar a situação. Por outro
+lado, se conjecturamos que a «rua dereita [~q] vai p'la calçada do
+congro abaixo» seja a actual rua do Sol, a «rua da Cruz para Santa
+Catharina» a actual rua do Marechal Saldanha, a «rua que vai da cruz da
+esperança para as casas de Christovão de mello» a actual rua dos
+Mastros, e assim como estas, outras ruas ou travessas, apenas indicadas
+por informações, nem sempre estas, se se pretendesse fazer um estudo
+comparativo local, seriam faceis de precisar.
+
+Ora, consoante a taes exemplos, tirados, aliás, do territorio parochial
+de uma freguezia incipiente, muitos outros se offerecem neste codice,
+dispersos por diversas freguezias, e até por algumas das mais antigas.
+
+Mas não é só isto. Palpita-nos que certas vias públicas das listas de
+Christovão passaram a ser indicadas por differentes designações, o que
+se explicaria pela decadencia da respectiva determinante. Exemplos deste
+facto ha-os, até bem mais recentes. A calçada de Damião de Aguiar, do
+seculo XVII, passou a ser denominada «calçada do Lavra» (aliás Lavre),
+quando os Lopes de Lavre, do Concelho Ultramarino, vieram, pela
+infallivel lei das renovações, e consequentes substituições, a entrar na
+posse do palacio e ermida que haviam pertencido áquelle desembargador;
+construcção que fórma a esquina esquerda da referida calçada, sobre a
+rua de S. José. Outra calçada, a de Salvador Corrêa de Sá, trocou o nome
+pelo de S. João Nepomuceno, quando os religiosos protegidos pela rainha
+D. Maria Anna de Austria fundaram o seu hospicio, daquella invocação,
+nas abas occidentaes do monte de Santa Catharina.
+
+De outras vias públicas do codice em exame se pode inferir que se haja
+obliterado a significação do nome que as distinguia, visto como é
+evidente que Bastião de Lucena, o escrivão desta derrama, lhes
+desfigurou as denominações, com a mesma inconsciencia com que deformou o
+nome do velho João Blavio de Agripina Colonia. Uma viela, para exemplo;
+uma viela que recordava o appelido de certo parente do arcebispo de
+Genova, Agostinho Salvago, e que viera estabelecer-se em Lisbôa,
+apparece-nos transformada por Lucena em "Beco da Salvaje», e assim
+outras mais. Do mesmo modo que ha, em summa, no _Livro do Lançamento_
+muitas vias públicas não mencionadas no _Summario_ do guarda-roupa, ha
+neste livro noticia de grande numero de outras, de que aquelle codice
+não conservou memoria.
+
+Torna-se, pois, a conciliação entre os roes do _Summario_, e a
+nomenclatura da viação daquelle repositorio difficil, e não se consegue
+que sáia perfeita. A impossibilidade de identificação é manifesta.
+
+
+
+
+VIII
+
+
+Somos assim chegados ao ponto que nos levou á precedente digressão.
+Onde, em que rua, travessa ou beco, apparece fintado, na freguezia de S.
+Christovão, o «imprimidor» Manoel João?
+
+O titulo desta freguezia lê-se no alto da fol. 406, v.^o, do volumoso
+codice, redigido nos seguintes textuaes termos:
+
+«_T.^o da freguezia De san Xpuão--Começa o primeiro rol No chan Dalcamin
+pera a costa_»[26].
+
+Vae seguindo o recenseamento, e a fls. 407 lê-se:
+
+«_Duas ruas [~q] começão De san Xpuão pera san Lourenço_».
+
+No v.^o desta folha, e no alto della, assentou Bastião de Lucena o 8.^o
+lançamento deste titulo. Diz:
+
+«It Manoel Johão Inprimidor em casas Do doutor João de bairos av.^{do}
+[~e] seis mill rs. paguara rij rs»[27]
+
+Portanto, tudo quanto se colhe de similhante informação, sem nada
+adiantar ao nosso proposito, é que este sitio soffreu, em epoca não
+facil de determinar, ainda que não estejâmos longe de fixa-la de 1756
+para diante, consideravel alteração. Hoje, rua que comece de S.
+Christovão para S. Lourenço, apenas conhecemos todos _uma_; a rua das
+Farinhas, á qual o auctor do _Summario_, ou quem para elle escreveu esta
+parte do livro, chama «Rua das Farinheiras». Poderia, porém, ter-se em
+consideração que no terreno que fica entre a parochial de S. Christovão
+e a garganta por onde se penetra na rua das Farinhas, e é denominado
+«rua de S. Christovão», haveria modo de existir nas eras remotas que nos
+occupam, qualquer viela que, embebendo-se em outra similhante, déssem
+ambas as «duas ruas que começam de S. Christovão para S. Lourenço»,
+segundo o abreviado modo de exprimir-se dos lançadores da imposição. É,
+pelo menos, o que resulta das medições do Tombo do _Bairro do Rocio_,
+(1756), a fls. 121, onde se lê: «Largo da Igreja de S. Christovão--Corre
+o seu comprimento N. S. Tem de comprimento desde a rua do Regedor até _á
+travessa que vai para a rua das Farinhas_, 214 p.; de largura pelo N. 35
+p., e pelo S. 45».
+
+Ora, a lista das vias públicas, do _Summario_, que laboravam o
+territorio parochial de S. Christovão comporta 9 ruas, 3 travessas, 1
+adro, 2 terreiros, 1 beco e 1 arco.
+
+De toda esta estatistica de viação, apenas uma rua, a «do Crucifixo»,
+uma travessa, e os dois terreiros se não podem identificar com a actual
+topographia da parochia[28]. E como naquelle tratado, a disposição das
+«Ruas», tal qual quem ordenou a lista das vias públicas della as foi
+escrevendo, nos mostra que se começou do N. para o S. da freguezia, isto
+é da «Rua das Fontainhas», compartilhada pelas parochias de S. Lourenço
+e de Santa Justa, para a extrema opposta; para a «Rua do chão dalcamim»,
+segue-se que a «Rua do Crucifixo», por maior que seja o nosso desejo de
+precisar qual das «duas ruas que vão de S. Christovão para S. Lourenço»
+era a que habitava, com a sua officina, o tipographo Manoel João, não
+parece que possa ser a designada, visto como se apresenta na lista
+parochial após a «Rua do Regedor», isto é, do lado diametralmente
+opposto á provavel situação daquellas duas ruas.
+
+Assim pois, se a tal «travessa que vai para a rua das Farinhas», do
+Tombo Pombalino, não era, como, de facto, não parece ter sido, a «rua do
+Crucifixo», do _Summario_ de Christovão, ainda existente, e conhecida
+por esta denominação em 1712, como se mostra na _Corografia_ de Carvalho
+da Costa, e se não era, portanto, nella que Manoel João estava arrolado,
+tudo que se póde concluir, é que o nosso impressor teve a sua officina
+no territorio da freguezia de S. Christovão, e numa via pública muito
+proxima á séde da parochia, mas para o N. do territorio desta.
+
+Em algum dos proximos capitulos veremos que a fórma imperfeita como os
+_lançadores_ organisaram os roes da derrama dá motivo a iguaes
+hesitações e perplexidades que nos não deixam satisfeito, quanto ao
+sitio em que teve a sua operosa officina tipographica o celebre Germão
+Galharde, e onde vamos ainda encontrar a sua viuva.
+
+
+
+
+IX
+
+
+Como o seu confrade Manoel João, tambem Francisco Corrêa, seguindo as
+noticias que deste impressor nos dá Deslandes, em sua _Historia da
+Typographia Portugueza_, exerceu a sua arte fóra de Lisbôa.
+
+Provavel «obreiro de imprimidor» de Germão Galharde, acaso foi convidado
+para ir dirigir em Coimbra a officina do Estudo Real, estabelecida na
+rua da Sophia, como seu presumivel mestre o fôra igualmente, para ir
+organisar a imprensa dos Cruzios, daquella cidade.
+
+Em tal situação ali se demorou, com effeito, Francisco Corrêa desde o
+anno de 1549, em que principia a apparecer, até 1555. Passando por este
+tempo ao Porto, ali deu á estampa o compendio de arithmetica, de Bento
+Fernandes[29]. Transferindo-se em seguida a Lisbôa, onde assentou prélos
+até 1585, anno que parece ter sido o do seu fallecimento, ainda em 1580
+imprimiu em Almeirim, de parceria com seu confrade Antonio Ribeiro,
+segundo informações de Tito de Noronha, _in A Imprensa Portugueza_, as
+_Allegações de direito_ por parte da Infanta D. Catharina, sobrinha do
+Cardeal Infante.
+
+Além destas noticias, publíca tambem Deslandes em sua predita obra o
+Alv. de 12 de novembro de 1566, concedendo a Francisco Corrêa isenção de
+direitos, até certa quantia, do papel que despachasse em cada anno, a
+começar no de 1565. Pelo restante teor deste diploma se prova, outrosim,
+que Francisco Corrêa foi arrendatario das officinas que, por morte de
+João Blavio, ficaram em Lisboa e na India, em Gôa, muito mais que
+provavelmente, sendo-lhe concedidos os 40$000 réis que os herdeiros
+daquelle impressor haviam alcançado se descontassem nos direitos do
+papel que despachassem para o expediente das preditas duas officinas.
+
+Taes são em breve resumo, e salvo a supposição de que Francisco Corrêa
+fôsse compositor na officina de Germão Galharde, que é nossa, as
+noticias colhidas nas obras de Deslandes e de Tito de Noronha, acima
+apontadas, ácerca deste notavel tipographo, cujos trabalhos, além de
+numerosos, se avantajam, a testemunho do segundo daquelles dois
+auctores, em sua tão curiosa monographia das _Ordenações do Reino_, em
+nitidez e satisfactorio aspecto, aos do seu confrade Manoel João.
+
+
+Ao percorrermos no _Livro do Lançamento_ o «3.^o rol da freguezia de
+Santa Justa», ahi se nos deparou a «Rua de Valverde», e nella, como
+16.^o contribuinte:
+
+«Francisco corea [~e]presor [~e] casas de margaida de matos avaliado
+[~e] seis mill rs paguara Rij rs.»
+
+O rol a que nos referimos teve começo na rua que ía do mosteiro de S.
+Domingos para a Porta de Santo Antão. Comprehendia a rua do Chafariz do
+Rocio para a Mancebia, a que ía da estrebaria del-rei ao longo do muro
+para a Porta de Santo Antão, a «rua do beco» do chafariz do Rocio, e
+finalmente, a rua de Valverde, que laborou, provavelmente, parte da
+actual Praça dos Restauradores, da banda do S., e vindo imbeber-se,
+talvez, na rua de Mestre Gonçalo, isto é, no terreno da rua do Principe,
+e por perto da actual calçada do Duque.
+
+Para o seguinte estudo, a viuva de Germão Galharde, a que acima
+alludimos, e o glorioso impressor da primeira edição dos Lusiadas,
+Antonio Gonçalves.
+
+
+
+
+X
+
+
+Vamos folheando o volumoso recenseamento, onde colhemos as informações
+que temos transmitido a nossos benignos leitores, e achamo-nos agora em
+face do 7.^o e ultimo rol da freguezia da Magdalena[30].
+
+Começam os sucintos apontamentos itinerarios dados neste rol aos
+_sacadores_ encarregados da cobrança das _voluntarias_ fintas, pela:
+
+«_Rua Dos torneyros [~q] travessa para as pedras negras pela rua de
+Ilusuarte Peris[31] ate a rua drt.^a da Costa_».
+
+Não ocorreu ao escrivão desta derrama, escrevendo para comparochianos,
+conhecedores como aos seus dedos de todas as enredadas arterias da sua
+freguezia, que alguns seculos depois, compatricios seus viriam que
+tivessem interesse em perceber, mais do que as suas garatujas
+pictorescas, as suas abreviadas, e até menos exactas indicações do
+territorio parochial a que se referiam!
+
+Se tal, com effeito, se houvera dado, não só Bastião de Lucena não
+estabeleceria, contra a exacta nomenclatura local, que a _rua_ dos
+Torneiros atravessava para as Pedras Negras, vertendo assim uma confusão
+de desnortear na compartilha parochial, mas não sacrificaria á extrema
+concisão que adoptou a precisa clareza, para sabermos agora a que via
+pública, entre as comprehendidas na sua abreviada indicação, viria a
+pertencer o 35.^o lançamento, dos 38 lançados sob o correspondente
+enunciado, e que é o seguinte:
+
+«_It A molher de germão galharde [~e]primidor em casas suas avaliada
+[~e] settenta mill rs paguará i i i j c l v rs_»[32].
+
+Com effeito, uma vez que se nos deparára aqui a viuva do celebre
+impressor francês, que tanto realce deu á typographia lisbonense do
+XVI.^o seculo, e tão util foi ás letras portuguesas destas afastadas
+eras, bem natural fôra que desejassemos precisar o sitio, a rua, a
+travessa ou beco onde a digna matrona residisse. O mesmo seria que
+ficarmos sabendo precisamente onde seu defuncto marido terá tido a sua
+operosa officina.
+
+A difficuldade, porém, mostra-se insuperavel, ainda quando reponhamos,
+até, em seu logar a desfigurada topographia local, e se, posteriormente,
+nenhum outro indicio nos não fizer suspeitar onde possa ter estado
+estabelecida esta tão interessante imprensa, teremos o desgosto de nos
+contentarmos, á semelhança do que nos aconteceu, tratando de Manoel
+João, com as vagas indicações que ficam expressas.
+
+Procurando formar idéa da ordem que presidiu á elaboração dos roes desta
+freguezia, concluímos que os lançadores adoptaram a orientação
+topographico-descriptiva do sul para o norte, isto é, das muralhas
+marginaes da cidade para cima; «Rua Nova dos Ferros», «Porta d'Erva» e
+«Porta da Ribeira», «Carnaçarias Velhas», «Pelourinho», «Misericordia»,
+«Rua do Principe», «Rua da Ferraria Velha, por detrás da Conceição»,
+«Cristaleiras», «Rua dos Fanqueiros», «Rua dos Corrieiros de obra grossa
+e delgada», &, &. Todos estes sitios, todas estas vias públicas entram
+nos seis anteriores roes, com outras que, por abreviar, se não
+mencionam. Este 7.^o rol comprehende, portanto, a zona alta da
+freguezia, e dentro delle observa-se disposição igual á que se adoptou
+para os anteriores.
+
+Se bem entendemos, pois, o breve apontamento de Bastião de Lucena, havia
+na freguezia da Magdalena uma via pública, uma viella, como tantas
+outras deste tempo, que, partindo de qualquer ponto, por agora
+indeterminado, atravessava, mas não directamente, para as Pedras Negras.
+A travessia fazia-se com o auxilio da rua de Ilusuarte Peris. Portanto,
+o que se queria indicar aos _sacadores_, é que, principiando _as suas
+visitas_ pela tal via pública, erradamente classificada e denominada
+«Rua dos Torneiros», e continuando-as pela rua de Ilusuarte Peris, que
+se lhe seguia, fôssem indo até alcançar a rua direita da Costa, nesse
+tempo, como agora e sob a denominação de calçada do Correio Velho,
+limite léste da predita freguezia. Uma vez chegados áquella rua, os
+_sacadores_, conforme se deprehende da continuação da leitura deste 7.^o
+rol, descê-la-íam, entrariam na rua do Arco de Dona Tareja; isto é,
+retrocederiam para Oeste, e desta rua continuariam o seu itinerario por
+onde já nos não importa segui-los.
+
+Está tudo muito bem, menos uma circumstancia importante. Não houve em
+Lisbôa, em tempo algum, nenhuma «rua dos Torneiros», nem na freguezia da
+Magdalena, nem em nenhuma outra freguezia da cidade. Existiu, sim, a
+«rua da Tornoaria», mas essa pertencia á freguezia de S. Nicolau.
+Passava pela parte posterior do edificio parochial deste orago, e era,
+por conseguinte, o mais septemtrional dos successivos tramos em que se
+fraccionava a longa, e em parte alcantilada via pública que ligava uma á
+outra as duas sédes parochiaes.
+
+Para se ir da Magdalena a S. Nicolau, haveria de percorrer-se a
+Correaria, a Fancaria, a Tornoaria, e ainda quando se quizesse admittir
+que os _lançadores_, e Bastião de Lucena com elles, haviam chamado «rua
+dos Torneiros» á rua da Tornoaria, daqui se vê que tal rua não podia ser
+compartilhavel entre a freguezia de S. Nicolau e a da Magdalena, como o
+não eram as suas duas parceiras, a Correaria e a Fancaria.
+
+Temos, pois, de recorrer ao Summario, de Christovão Rodrigues de
+Oliveira, para destramar a meada.
+
+Em boa hora o fazemos, porque a via pública que o solicito guarda-roupa
+do arcebispo D. Fernando nos aponta como situada na freguezia da
+Magdalena, em 1551, é a «_travessa dos Torneiros_». Ora, é evidentemente
+tal «_travessa_» aquella a que se referem os lançadores, porque
+partindo, cá em baixo, da Tornoaria, em sentido transversal para L.,
+galgava a barreira que separava o valle da Baixa das cumiadas que iam
+terminar na Alcaçova, e surdindo muito proximamente no local fronteiro á
+actual Travessa das Pedras Negras, ía soldar-se á Rua de Ilusuarte
+Peris. Cumpre, no emtanto, advertir que o sitio que no seculo XVI.^o deu
+origem á denominação «Pedras Negras» não era precisamente onde se
+rasgam, pela planta Pombalina, a rua e a travessa d'esta denominação, e
+que a rua de Ilusuarte Peris, ou desapparecera nos provaveis aspectos
+diversos que o sitio apresentou entre os seculos XVI.^o e XVIII.^o, ou
+se conservava ainda, acaso, ás vesperas do terremoto de 1755, mas com
+differente denominação; o que não seria de extranhar, como já
+observámos. As «Pedras Negras», como era o sitio a que deram o nome,
+anteriormente ainda ao seculo XVI.^o, póde vêr-se a configuração
+provavel que tiveram em mais escuras eras, na planta que acompanha a
+obra valedora do sr. Vieira da Silva:--As Muralhas da Ribeira de Lisboa.
+
+A «rua de Ilusuarte Peris» é que na mencionada planta não apparece, e
+mal se suppõe onde possa ter sido[33]. A travessa dos Torneiros é o
+«Beco de Nossa Senhora da Conceição», da sobredita planta, muito mais
+que provavelmente.
+
+
+
+
+XI
+
+
+Fixados como é, já agora, possivel fazê-lo, a muito perto de trezentos e
+cincoenta annos de distancia, e com tão escassos elementos
+topographicos, estes indispensaveis pormenores, digamos agora o que se
+sabe do activo industrial de quem fôra «molher» a pessoa a quem se
+referiu o lançamento que é assumpto ao nosso despretencioso estudo.
+
+
+Germão Galharde, francês de nação, o que elle não deixou de recordar-nos
+em algumas de suas assignaturas[34], foi, como anda sabido, o mais
+operoso impressor que teve o XVI.^o seculo português. Estabelecido em
+Lisbôa pelos primeiros annos delle, conhecem-se, executadas no espaço de
+mais de quarenta annos, e até 1560, data da sua morte, «70 edições»
+sahidas da sua officina, sem contar as leis avulsas, impressas, em
+geral, numa folha apenas[35].
+
+Quem poderá dizer quantas mais obras Germão Galharde terá executado, de
+que o seculo ultimo e o acual não lograram já ter
+conhecimento?--Interrogação é esta que terá de ficar sem resposta.
+Sabe-se apenas que da sua officina começaram a apparecer edições datadas
+de 1519, e que um lapso de revisão, importante, levou alguns
+bibliophilos a retro-fixar o começo da operosa actividade do celebre
+impressor no ultimo anno da primeira década do seculo que o viu
+trabalhar; no de 1509.
+
+Foi o caso que o _Missal_ da igreja de Evora, de que se guarda um bom
+exemplar na Bibliotheca Nacional, apresenta como data de impressão este
+predito anno. Notou-se o facto, e houve quem, não lhe occorrendo de
+quantos lapsos anda tecida a historia da typographia, em geral, tirasse
+delle irreflectido motivo para declarar Galharde estabelecido desde
+aquelle supposto anno. O academico Silva Tullio, que tanto no caso
+estava de desilludir os menos avisados, constituiu-se exactamente o
+paladino d'elles, sustentando contra Tito de Noronha a hypothetica
+possibilidade de ter o _Missal_ sahido das officinas de Galharde no anno
+impugnado.
+
+Rebateu Tito, a nosso ver humilde com raciocinios de pêso, as razões que
+Tullio bem escusára de ter produzido, visto como, se a verdade historica
+bem pouco poderia ganhar com semelhante improvavel accrescimo á
+actividade officinal do impressor francês, assás mal parados ficaram, em
+troca, os créditos do prestante conservador, insistindo em sustentar a
+méra presumpção que tudo se conjurava para invalidar[36].
+
+Tito, tendo feito notar o isolamento em que a data de 1509, attribuida
+áquelle livro, ficava das obras por Galharde impressas em 1520, e quão
+pouco provavel era que entre um e outro anno obra alguma, naquella
+typographia impressa, viesse quebrar o largo periodo de onze annos de
+inactividade officinal, lembrou que o _Missal Eborense_ poderá ter sido
+impresso em _1529_, tendo faltado na subscripção latina o vocabulo
+«_vigesimo_»[37]. Esta probabilidade nada tem, com effeito, contra si
+que a invalide, e um facto, porque assim o digâmos hodierno, a vem
+demonstrar plausivel:
+
+Convidou o editor Fernandes Lopes a Innocencio Francisco da Silva para
+dirigir a reimpressão do _Elucidario_, de Santa Rosa de Viterbo. Em 1865
+sahiu, com effeito, a lume esta obra dividida em dois tomos, como a 1.^a
+edição, imprimindo-se no 1.^o uma «Advertencia preliminar» do illustre
+bibliographo, a qual elle datou do «1.^o de junho de 1865». Pois bem;...
+na capa e no frontispicio de cada um dos dois tomos assignou-se a esta
+reimpressão, por data, o anno de MCCCLXV! Este lapso, sendo tão patente,
+salta para logo aos olhos de quem manuzear a obra[38].
+
+Continuemos agora a examinar quanto se nos offereça, do pouco
+aproveitavel que nos tem sido possivel ajuntar, que se relacione com a
+vida deste grande trabalhador typographo, que tanto illustrou a sua
+arte, e tantos testemunhos nos deixou, apesar das muito mais que certas
+lacunas da lista das suas impressões, da perfeição com que sustentou os
+créditos da sua officina.
+
+
+
+
+XII
+
+
+Dos antecedentes do operoso impressor nada se conhece. Que terra de
+França lhe fôsse a terra natal; quando tenha vindo para Lisbôa, e se
+para esta cidade veiu, acaso, contratado como «_obreiro de imprimidor_»
+de algum de seus tres antecessores, Valentim de Moravia, João Pedro de
+Cremona ou Hermann de Kempis, que entre nós ficou «Armão de Campos»,
+hypotheses que nos não parecem descabidas, outras tantas interrogações
+são que teem de ficar sem resposta.
+
+Por igual, destinadas estão ao mesmo resultado as que se referem ao modo
+como o activo «imprimidor» constituiu familia. Germão Galharde casou
+aqui, e tarde, ou veiu já casado para Lisbôa, o que não parece? Sua
+mulher era estrangeira, ou nascera em Portugal? Que o velho typographo
+deixou um filho, por ventura continuador da sua prole, eis o de que não
+resta dúvida. E que falleceu deixando-o ainda menor, tambem não é menos
+certo. O livro que estamos examinando no-lo confirmará.
+
+Suppondo que nascera em 1490, por exemplo, Germão Galharde poderia
+contar vinte e tres annos, quando, ao que Tito de Noronha conjectura,
+veiu a fallecer Valentim Fernandes[39]. E se tal data estivesse certa
+pouco teriam sobrevivido ao Patriarcha da Imprensa em Portugal os seus
+consocios João Pedro de Cremona e «Armão de Campos, bombardeiro de
+el-rei», successivamente desapparecidos, em 1514, o primeiro, em 1518 o
+segundo.
+
+Valentim Fernandes, porém, segundo adiante vai ver-se, ainda n'este
+último anno trabalhava, e se este, afinal, tem de ser considerado o
+último da sua vida, bem poderá ter-se dado que Germão Galharde,
+obreiro--quem sabe?--de qualquer d'estes seus tres antecessores, se
+habilitasse com o material do celebre impressor da viuva de D. João II,
+para começar a sua laboração de conta propria, logo no anno seguinte ao
+do desapparecimento d'este. Em 1519, com effeito, parece ter-se Germão
+Galharde estreiado com a primeira edição da _Arismetyca_, de Gaspar
+Nicolas,[40] levando desde então a vida cheia de laboriosa occupação até
+os provaveis setenta annos, se exceptuarmos os dois que passou em
+Coimbra, em Lisboa, e, porventura, na mesma casa.
+
+Aonde era ella situada?
+
+Vêr-se-ha n'este estudo se é possivel responder, por presumpções, a tal
+pergunta.
+
+
+
+
+XIII
+
+
+Chamou-se Anna Picaya a mulher do operoso impressor, e se não foi
+portuguesa, que a não deixa parecer compatriota nossa o appelido,
+arriscado será attribuir-se-lhe esta ou aquella nacionalidade.
+Confessemos, emtanto, que se um desengano d'esta ordem pudesse
+admittir-se _por palpite_, inclinados temos sempre estado a que Anna
+Picaya haja sido biscainha.
+
+Casou Germão Galharde moço ainda? Esperou, pelo contrario, a idade da
+experiencia, para dar-se ao matrimonio? Não temos, como já ficou
+observado, modo de responder desenganadamente a taes perguntas. Tudo que
+pudémos conjecturar, é que o filho que deixou menor terá vindo ao mundo,
+adiantado já seu pae em annos, se muito não erra a conta que lhe démos,
+ao vir busca-lo a Morte.
+
+Esta circumstancia, comtudo, não se oppõe a que já houvesse outros
+filhos, e até poderia parecer que os houve, com effeito, se fôsse
+possivel interpretar um tanto latitudinariamente certas expressões de um
+documento que não tarda a vir transcripto a este estudo.
+
+No emtanto, e posto que a typographia da _Viuva de Germão Galharde_ se
+sustentasse ainda durante alguns annos, depois do fallecimento do seu
+celebre fundador, o seu material veiu a passar a novo proprietario, e
+nada nos indica terem-se filhos maiores, se os havia, ou ter-se o menor
+que ficou ao tempo do obito paterno, occupado, homem feito, na arte, que
+o progenitor tanto illustrou.
+
+Este appelido, a partir d'então, mergulha no esquecimento, pelo menos
+aqui, em Lisbôa; e apenas a meio do seculo XVII o nosso illustre
+polygrapho D. Francisco Manoel se lembrára, escrevendo ao seu amigo
+Azevedo, da lenda dos _Galhardos_ da Serra da Estrella, que aliás
+nenhuma relação tem com os de que aqui tratamos, para comparação da
+brevidade com que fizera um seu livrinho. Esta carta, porém, inédita
+ficára, com a collecção a que pertence, até que um distincto cultor da
+memoria de tão infeliz quão abalisado epistolographo a trouxe a lume em
+nossos dias[41].
+
+Assim continúa o esquecimento, sem interrupção, por esses tempos fóra. A
+meiados porém do XVII.^o seculo apparece-nos, de repente, um typographo
+«Galhardo». Diplomava-se com o titulo de «_Impressor do sr. Cardeal
+Patriarcha_»; chamou-se Antonio Rodrigues Galhardo, e teve a sua casa,
+com capella, horta e mais officinas, no Pateo a que a sua familia dava o
+nome;--o _Pateo dos Galhardos_, a Santa Izabel[42]. Muito depois, (1837)
+filhos seus, ligados sob a firma «_Galhardo & Irmãos_», imprimem na rua
+da Procissão, n.^o 45, entre outros livros, a «_Chronica de El-Rei D.
+Sebastião, por Fr. Bernardo da Cruz, publicada por A. Herculano e o Dr.
+A. C. Payva._»
+
+Antonio Rodrigues Galhardo é descendente do «imprimidor» francês Germão
+Galharde? Quem, já agora, poderá affirma-lo, ou quem estará habilitado
+para nega-lo?
+
+Emtanto, a coincidencia é para notar, e para notar fica sendo, tambem,
+que esta familia Galhardo veiu a apparentar-se com Alexandre Herculano,
+pelo casamento de um amigo de juventude do Grande Escriptor, e depois
+seu camarada na emigração, o fallecido general da arma de artilharia,
+que foi, quando coronel, director da Escola do Exercito, Joaquim Antonio
+Rodrigues Galhardo, com a irmã do Auctor da Historia de Portugal.
+
+
+
+
+XIV
+
+
+Quando Germão Galharde falleceu, andava-se imprimindo na sua officina a
+_quarta_ edição do «_Reportorio dos Tempos em linguajem portugues_».
+
+Este Repertorio, composto pelo saragoçano André de Ly, fôra vertido em
+linguagem, com addições, por Valentim Fernandes, que dedicou a traducção
+a Antonio Carneiro, secretario do rei D. Manoel.
+
+Ora acontece--e n'este passo se patenteia quão arriscadas são
+affirmativas peremptorias em especies tão dubitativas--; acontece, íamos
+dizendo, que em _Documentos para a Historia da Typographia Portugueza_,
+impressos em 1888, affirmou o tão sabedor Deslandes «não ser conhecido
+exemplar algum da impressão d'este _Repertorio_ feita por Valentim
+Fernandes, comquanto se deva ter por certo que a houvesse dado á estampa
+em sua vida.»
+
+--Que veiu a dar-se então?--Veiu a dar-se facto igual ao succedido com o
+exemplar do _Testamento da Infanta D. Maria_, impresso em 1610, e que o
+catalogo da Livraria Fernando Palha, ao descrever o exemplar que aquelle
+bibliophilo possuía declara «_seul exemplaire connu d'une pièce non
+citée par les bibliographes_».
+
+Succede, porém, que em 1907, percorrendo nós um Inventario de Codices
+adquiridos pela Bibliotheca Nacional, publicado no _Boletim das
+Bibliothecas e Archivos_, N.^o 1--3.^o anno, 1904, depara-se-nos a
+menção de certo Codice da Coll. Vimieiro, em cujo miôlo viémos a
+encontrar um exemplar do predito _Testamento_, da mesma edição de 1610!
+
+Tal achado annulou, por conseguinte, o privilegio de «_seul exemplaire
+connu..._», attribuido pelo catalogo sobredito ao exemplar que
+descreveu!
+
+Ao diligente bio-bibliophilo Deslandes outro tanto acontecera. Não lhe
+fôra dado conhecer a bibliotheca do curioso architecto José Maria
+Nepomuceno, e eis que, fallecido este, divulga-se em 1897 o catalogo da
+famosa livraria de que era possuidor intelligente. Ora, sob o N.^o 683,
+ahi appareceu minuciosamente descripto um exemplar do _Reportorio dos
+tempos_, que «posto não traga indicado o logar da impressão, nem o anno,
+se póde quasi affirmar ter sido composto em Lisbôa, e no anno de 1518,
+por isso que as taboas (astronomicas) indicam começarem «no presente
+anno»,--o predito.
+
+E já agora, observaremos que, sendo este _Reportorio_, como no rosto
+indica, «trelladado e empremido por Val[~e]tym fernãdes alemam», está
+n'estes termos implicito o testemunho formal de que o celebre impressor,
+contra o que julga Tito de Noronha, _in_ Ordenações do Reino, ainda
+cinco annos após o de 1513 era vivo, e exercia a arte.
+
+
+Por voltar a Germão Galharde, sabe-se que por A. de 17 de março de 1539,
+lhe foi outorgado privilegio de déz annos, para imprimir de novo o
+_Reportorio_ de que se trata. Deslandes, porém, affirma, e d'esta vez
+ainda não se apresentou facto que o contradiga, não conhecer, nem lhe
+constar que outrem conhecesse, exemplar algum da impressão d'este livro,
+tirada durante os déz annos do mencionado privilegio.
+
+Declara, comtudo, em contraposição, _ter visto_ exemplares sahidos da
+officina de Galharde em 1521 e 1528; edições estas que não andam notadas
+por nossos bibliographos.
+
+Por fórma que, havendo já _tres_ edições conhecidas do _Reportorio dos
+tempos_, bem parece que sêja, por ora, capitulada _quarta_, como o
+fizémos, a de que se está tratando. Isto, em obsequio ás que se dizem
+datadas de 1519, bem como á de 1557, citada por Barbosa, das quaes, até
+agora, não se achou porque se confirme a existencia.
+
+
+
+
+XV
+
+
+Foi Anna Picaya que terminou a impressão do _Reportorio_, objecto do
+anterior capitulo.
+
+Na Nota[43] _infra_ trasladâmos a competente subscripção.
+
+A seguir a este livro, vem em 1561, editado pelo opulento João de
+Borgonha, o tão fallado elogio da Sigéa, de Mestre André de Resende; em
+1563, nova edição do precioso _Reportorio_, especie de _Diario
+Ecclesiastico_, dos Oratorianos, sem o qual nossos avós do XVIII.^o
+seculo não podiam passar. Finalmente, em 1564, dá ainda a Viuva de
+Germão Galharde o _Exemplo pera bien bivir_, de Fernão Peres de Gusmão,
+obra acabada a 21 de março do predito anno[44].
+
+D'esta data em diante, até 5 de setembro de 1898, nada mais se soube que
+se relacionasse com a officina typographica da viuva Galharde. Naquelle
+dia, porém, publica o dr. Sousa Viterbo, como notámos no fêcho do Cap.
+V. e correspondente nota, destes _Estudos_, resumido e commentado, o
+depoimento, por denúncia feita na Inquisição em 5 de novembro de 1571,
+do flamengo Pero Alberto, obreiro de Marcos Borges.[45] Resulta de tal
+depoimento o ficarem desde então confirmados dois factos; mais proximo
+um, mais remoto o outro. Pelo primeiro, corrobora-se a existencia da
+typographia da viuva Galharde em 1563. Este não é essencial. Que a
+celebre typographia funccionava ainda 1564 já nós sabiamos, e o leitor
+comnosco. O que tem valôr é o outro facto; o que revela a transferencia
+da imprensa de Marcos Borges de «_detrás de nossa Senhora da Palma_»
+para o Arco do Carangueijo. A indicação considerámo-la preciosa, porque
+nos indicava quem fôra o successor da viuva Galharde; isto é, porque
+vinha concorrer, ainda que de modo indirecto, para nos fortalecer na
+presumpção de que era no Arco do Carangueijo, com effeito, onde vamos
+dentro em pouco encontrar Anna Picaya, com seu filho menor, que Germão
+Galharde fundára a officina por elle mantida durante 41 annos.
+
+
+Que terá, porém, succedido entre 21 de março de 1564, data do ultimo
+livro, conhecido, impresso pela «Viuva Galharde», e 1571, anno em que
+Marcos Borges nos apparece estabelecido, segundo todas as
+probabilidades, na casa que ella occupara?
+
+Tudo que é possivel responder, resume-se no seguinte:
+
+Qualquer que haja sido o motivo, o velho estabelecimento typographico
+pouco mais terá produzido, depois de 1564, sob a gerencia da viuva de
+Germão Galharde, e se mais alguma obra veiu a lume, após a de Fernão
+Peres de Gusmão, perdeu-se, como quasi de certeza outras se perderam,
+impressas pelo fundador da casa.[46]
+
+Certo é que a meiados de 1566, e contra o que estabeleceu Tito de
+Noronha, já Antonio Gonçalves, o nomeado impressor da 1.^a ed. dos
+Lusiadas, trabalhava por sua conta, muito distante do Arco do
+Carangueijo, com material que pertencêra á officina de Galharde.
+
+Com effeito, do exame comparativo de algumas das obras impressas em uma
+e outra das duas officinas resulta absoluta certeza que Antonio
+Gonçalves utilisou frontispicios e letras iniciaes de phantasia que
+pertenceram áquelle. Já Tito de Noronha deixára notado o facto, em uma
+de suas tão copiosas quanto instructivas monographias.
+
+Por nossa parte, temos por bem possivel que o 4.^o de dez folhas n. n.,
+onde se acha impresso o _Auto das Regateiras_, de Antonio Ribeiro, o
+_Chiado_, e que não tendo segundo Innocencio narra, logar, data, nem
+nome de impressor, apresenta, comtudo, na portada letras que parece
+quererem designar _Germão Galharde_, haja saído da officina de Antonio
+Gonçalves, applicando-lhe este alguma gravura de frontispicio que haja
+feito parte do material daquelle impressor.
+
+Não temos, nesta occasião, o vagar preciso para examinar este folheto,
+que se acha na Bibliotheca Nacional, e pertenceu á livraria de D.
+Francisco de Mello Manoel da Camara. Acaso do exame resultaria alguma
+cousa de mais positivo. Seja, porém, como fôr, uma prova de decidir é a
+propria composição do frontispicio dos Lusiadas, impressos por Antonio
+Gonçalves em 1572. As peças que o compõem pertenceram ao material de
+Germão Galharde. Esta asserção comprova-se, pondo em conspecto o
+frontispicio da edição _princeps_ dos Lusiadas (a do pelicano com o
+collo para a esquerda do leitor, bem entendido), e a do _Summario_, de
+Christovão Rodrigues de Oliveira, sahido a lume procedente da officina
+de Galharde, depois de 1551, com toda a certeza, e talvez em 1554.
+
+Já em 1570 Antonio Gonçalves aproveitára este mesmo frontispicio no
+_Reportorio dos tempos_, que lhe coube imprimir tambem, edição que a
+Innocencio parece ter escapado, mas de que ha um exemplar nos Reservados
+da Bibliotheca Nacional. Este sempre lembrado impressor terá começado
+por ser «imprimidor-obreiro» do velho typographo francês, sendo bem
+possivel que se haja conservado na casa, após a morte de seu mestre.
+Resolvida Anna Picaya a fechar a officina, ou, porventura, fallecida,
+terá o seu official, disposto a estabelecer-se, uma vez que a casa
+acabava, comprado os aprestos desta. Tudo parece conciliar-se para
+acreditar tal supposição.
+
+Mais difficil é o precisar desde quando Marcos Borges terá passado a
+occupar as casas da viuva, e o motivo que lhe facilitaria o
+estabelecer-se nellas. Não parece, com effeito, que as duas
+operações--venda do material a um, e cedencia da casa a outro, se
+cedencia foi, hajam resúltado da mesma causa;--o desfazer da velha
+officina. Lembremo-nos que em 1567, isto é, um anno após o
+estabelecer-se Antonio Gonçalves, como provaremos, ainda Marcos Borges
+imprimia a _Chronica de Jorge Castrioto_ no mesmo sitio onde começára a
+sua laboração; «_atrás de nossa senhora da Palma_». Presumivel será,
+pois, que Anna Picaya se haja conservado, com seu filho, nas suas casas,
+após ter acabado com a officina, vindo, porventura, a fallecer depois de
+1568, adquirindo--quem sabe?--Marcos Borges a propriedade, e
+estabelecendo-se nella.
+
+Como quere que sêja, vamos ver agora como se chegou a presumir que a
+typographia de que temos tratado haja sido no Arco do Caranguejo.
+
+
+
+
+XVI
+
+
+Fallecido Germão Galharde, procedeu-se a inventario, sendo Anna Picaya
+nomeada «titor» de seu filho Antonio. Concorriam mais filhos, já
+maiores, á herança? Eis o de que não ha certeza. Das quatro obras unicas
+de que nos restam exemplares, sahidas da officina do extincto, após a
+morte deste, tres dizem-se impressas «_em casa da viuva molher que foi
+de Germão Galharde_.» No titulo e subscripção da quarta, porém, segunda
+na ordem chronologica da impressão, lê-se:
+
+«_Lvdovicae Sigaeae_ | _Tvmvlvs_ | ¶ _L. Andrea Resendio_ | _Auctore_ |
+¶ _Apvd haeredes Germani_ | _Galiardi. An._ | _MDLXI_ | ¶ _Olyssippone_
+| ¶ _Venalis apud Iohannem de Borgo_ | _Regium Bibliopolam, in vico
+nouo_.»[47]
+
+Ora, esta excepção, «_haeredes_», que aliás não resolve a dúvida, por
+isso que realisado o casamento de Galharde «á moda do reino»,
+co-herdeira com o filho menor era a viuva, meieira na casa, parece-nos
+ter sido muito de proposito empregada naquelle impresso por motivo que a
+occasião tornava perfeitamente plausivel. Corria por esse tempo o
+inventario seus termos, e habilitavam se á herança do chefe da familia a
+sua viuva e o filho menor. A expressão _haeredes_, posta na subscripção
+do _Elogio_, de Mestre André de Resende, em 1561, era, portanto, de todo
+o ponto bem cabida; exprimia a situação de ambos, como inventariantes e
+como industriaes. Por isso se empregou.
+
+Quando os saccadores, em desempenho do seu cargo, _convidaram_ a viuva
+impressora a entregar-lhes a importancia do escote que lhe coubera na
+_voluntaria_ imposição, (entre 15 de fevereiro e 31 de outubro de 1566)
+pagou ella, sem repugnar, os 455 rs. em que foi fintada. Especie de
+contribuição extraordinaria de maneio, a que só escapavam os
+privilegiados;--familiares do Santo Officio, servidores de S. A. e quem
+quer que tivesse armas e cavallo, e «jogasse lança de dezoito palmos
+para cima»[48],--era para todos os mais a commum sorte; não havia
+fugir-lhe.
+
+Mas, fechara-se, emfim, o inventario, julgara-se a partilha, e
+liquidou-se o que vinha a tocar ao menor; a sua legitima. Importava em
+«cincoenta e nove mil, quinhentos e vinte e dois réis». Havia mais
+orphãos em semelhantes circumstancias. A provisão de S. A.
+beneficiava-os, para os effeitos da _voluntaria_ derrama, com o desconto
+do «terço» do valor total apurado, para que sobre o remanescente
+recahisse o talho. Anna Picaya, tutora de seu filho, teria de pagar por
+elle «duzentos e oitenta réis». Reclamou. Agora, não era a obrigação do
+estabelecimento; era a legitima do orphão, despiedada,--provaria
+até--illegalmente desfalcada. O menor Antonio Galharde era filho de um
+homem que durante mais de quarenta annos tinha prestado assignalados
+serviços ás letras do país que adoptara por patria. Os seus prélos não
+tinham gemido só em serviço de quantos praticavam a nobre arte de
+escrever, senão que tinham tambem trabalhado para a corôa. Antonio
+Galharde era filho de um «official impressor da casa real»[49]; a
+isenção de que seu pae, se vivo fôra, gosaria, porque não mandava S. A.
+que aproveitasse ao filho menor?
+
+Que S. A., pois, «inclinasse por um pouco a magestade.» Á triste viuva,
+sobrecarregada com os encargos da tutella e ao filho orphão
+devia-se-lhes contemplação. Ambos receberiam mercê no favoravel despacho
+com que S. A. se servisse attende-los.
+
+E se isto assim se passou, pode affirmar-se que a «titor» do menor
+Antonio Galharde venceu! No traslado da certidão do orphanologico que
+baixara aos encarregados da cobrança, e foi lançado a fl.^s 685 e segg.,
+do _Livro do Lançamento_, riscou-se a designação do escote, escripta na
+margem esquerda, averbando-se na direita a significativa cota, constante
+do proprio documento remissor que segue:
+
+
+«ORFFAÃOS»
+
+«T^o Dos orfãos que Johão Do sal escrivão Delles Mandou a esta cassa do
+lançam.^{to} per sua sua certidão»
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+«It Ant.^o filho de Jermão Galharde Imprimidor tem de ligitima cinquoèta
+e noue mill e quinhètos e vinte e dous rs abatido o terco paguara
+dozètos e oytenta rs e sua titor[50] Ana Picaya sua may m^{or} ao arquo
+do cangreijo»
+
+A margem direita do livro está escripto: «abatido p.^{la} provisão de S.
+A. não vay a Rol»
+
+
+Parece, pois, poder concluir-se do teor desta certidão que a casa que
+Germão Galharde possuia, e onde residia e tinha a sua officina
+typographica, era _ao Arco do Carangueijo_, isto é, no extremo N. da rua
+deste nome, para além da actual rua das Pedras Negras, partindo em linha
+obliqua do começo da travessa do Almada. O chanfro existente no cunhal
+posterior do predio que faz face ao Largo da Magdalena, do lado de L., e
+que todos podem notar, é quanto resta do Arco de Dona Thereza, de onde
+ascendia para o N. a «Rua do Arco do Carangueijo.»
+
+Passaremos agora a tratar de Antonio Gonçalves, e findaremos.
+
+
+
+
+XVII
+
+
+Affirmámos no cap. XV.^o d'estes _Estudos_ que a meiados de 1566 já
+Antonio Gonçalves, o nomeado impressor da 1.^a ed. dos Lusiadas,
+trabalhava por sua conta, muito distante do Arco do Caranguejo.
+
+Vamos procurar dizer onde era.
+
+Preliminarmente, porém, preciso se torna lembrar que na segunda metade
+do seculo XVI, correspondente ao anno supra mencionado, Lisbôa, sob o
+ponto de vista da sua divisão ecclesiastica, a unica por então
+estabelecida, achava-se, de um modo geral, dividida em tres grandes
+zonas; a oriental, a central e a septentrional. Confrangidas em torno
+dos pendores da primitiva cidade, e descendo para a vertente sul que
+lhes corresponde, todas as parochias de limitado territorio,
+successivamente fundadas durante os quatro seculos anteriores. Na
+extrema esquerda, imminente ao Tejo, a de Santo Estevão,
+excepcionando-se do acanhado territorio de todas as mais, pela tira
+enorme que a alongava até Enxobregas[51]. Ao centro, S. Nicolau e Santas
+Justa e Rufina, soffregas de territorio, dominando tudo, abrangendo
+tudo, reservando apenas cada uma d'ellas para si as eminencias
+correspondentes á orientação das respectivas sédes. A primeira,
+alastrando-se por boa parte do valle central da cidade, e trepando para
+o «Bairro do Almirante», o Carmo e circumvisinhanças, bracejava, a
+oeste, para os ferragiaes atinentes ás muralhas, dando a mão ás suas
+duas convisinhas dos Martyres e do Loreto. A freguezia de Santa Justa,
+mais extensa ainda do que a de S. Nicolau, dominando, ao septemtrião, o
+resto da chãa que aquella lhe deixava, investia pelo povoado em fóra até
+á Areia Gorda, por um lado, até Arroios, pelo outro, galgava o monte de
+Sant'Anna, laborava as cumiadas que a aproximavam da Alcaçova, mal
+permittindo, suzerana desdenhosa, como a sua possante companheira, que
+algumas pequenas parochias circumstantes affirmassem a desvaliosa
+existencia.
+
+Eis porque se lê no «Livro do Lançamento» que temos manuseado, a fls.
+539, v.^o, o seguinte titulo:
+
+«_Começa o quatorzeno Rol Da freguezia De Santa Justa: Na Rua das Casas
+de Manoel a.^o_ (Affonso) _até ao postiguo De Santo André_».
+
+Estamos, pois, junto ao, de nossos dias, chamado Arco de Santo André,
+que acaba de ser derribado, e que a Divisão Parochial do Patriarcha D.
+Fernando de Sousa e Silva, de 1780, mandou considerar, por dentro e por
+fóra, no territorio da freguezia daquella invocação constituindo em 1566
+extremas de N. E. da parochia de Santa Justa.
+
+Por escusado temos affirmar que nas listas da viação parochial,
+estampadas no Summario de Christovão Rodrigues d'Oliveira, organisadas
+em 1551, ou pouco depois,[52] não se encontra semelhante denominação de
+rua, se tal modo de indicar uma via pública pode ser classificado
+«denominação». É, com effeito, evidente que o redactor d'esta especie de
+matriz, conteúda no «Livro do Lançamento» em exame, sabia bem quem era o
+individuo a quem chamou «Manoel Affonso», seu contemporaneo ou não. Por
+nossa parte estamos persuadidos que Bastião de Lucena grandemente se
+equivocou, atribuindo o baptismal «Manoel» a um individuo que se chamou
+Estevão, pois que esse é que teve casas na rua de que se trata, tendo
+ambos o mesmo sobrenome. Manoel Affonso, que foi um dos sacadores deste
+«Quatorzeno Rol», era proprietario, sim, mas no Beco do Poço do Ceitil.
+Tinha ahi uma _atafana_[53] e n'ella residia. Da coincidencia de
+sobrenomes terá, porventura, nascido o equivoco.
+
+Como quer que seja, o designar semelhante indicação a rua onde deviam
+começar as operações da cobrança, apresenta-se, tanto para o lançador
+das fintas como para os sacadores d'ellas, facto natural, correntio. A
+via pública de que se tracta poderia ter outra qualquer denominação, que
+para uns e outros esta que lhe foi attribuida bastou.
+
+E bastou tambem para nós.
+
+De facto, se esta cobrança devia começar n'uma rua que ia até o postigo
+de Santo André, que importa que lançador e sacadores lhe chamassem, ou
+verdadeira ou equivocadamente, «Rua das casas de Manoel Affonso», se
+dúvida não pode haver que tal via pública outra não é, senão o troço
+mais ou menos modificado, no material e no aspecto topographico, da
+actual Costa do Castello que vae do baluarte de S. Lourenço ao agora já
+derribado Arco de Santo André?
+
+Aquelle baluarte, entreposto nos lanços do norte da _cêrca velha_ da
+primitiva Lisboa, foi aproveitado pelos constructores da cêrca de D.
+Fernando, para lhe apoiarem no paramento o arco do postigo que tomou
+aquella denominação, tambem conhecido por «Postigo da Rosa», depois da
+fundação do mosteiro da rua das Farinhas.[54] Qualquer de nossos
+benevolos leitores pode ver ainda agora os vestigios das nervuras do
+arco embebidas no vetusto panno do baluarte, assim como, do lado
+opposto, os restos desfigurados do cubello onde o mesmo arco ia
+assentar. Tudo isto foi arrasado no ultimo anno do seculo XVIII.
+
+Do postigo de S. Lourenço, a _cêrca nova_ descia a escarpa que vinha
+confundir-se no labiryntho de vielas que demoravam, como ainda agora,
+entre o vetusto edificio do chamado Colleginho e a Mouraria. Era-lhes
+canal de communicação com a «rua de Manoel Affonso» a «Rua do Poço do
+Ceitil», entalada entre a muralha nova e os muros da cêrca da Casa de
+«Santo Antão», a que depois se chamou «o Velho» para o distinguir da
+nova casa dos jesuitas, actual Hospital de S. José. Esta «Rua do Poço do
+Ceitil», desde muito desapparecida, mas de que a carta topographica da
+Commissão Geodesica, dada a lume em 1875, ainda nos quere parecer que
+marca os vestigios, constituiu a cabeceira do «Trezeno rol» da freguezia
+de Santa Justa.
+
+Conclue-se daqui pois que os arroladores continuavam a adoptar a marcha
+ascencional, como em nosso anterior estudo vimos, por isso que,
+explorada a zona de que aquella rua era o começo, passaram a encabeçar o
+14.^o Rol pela via publica immediata.
+
+
+
+
+XVIII
+
+
+Além destas razões de congruencia, confirmando ser, com effeito, a «Rua
+das casas de Manoel Affonso» o troço da atual Costa do Castello que
+ficou indicado, outros testemunhos positivos existem que nos asseguram a
+identidade da rua do seculo XVI com a via publica do seculo XX.
+
+Não podemos dispensar-nos de os apresentar, por muito que tal resolução
+possa parecer extranha ao nosso objecto. Ver-se-ha que o não é.
+
+Por Alv. datado de Evora, a 8 de junho de 1573, foi commettida ao
+Licenceado Luiz Lourenço a organisação do tombo das propriedades
+foreiras á Camara desta cidade. De tal diligencia se conservam os
+respectivos Livros no Archivo Municipal. Examinando o segundo destes
+Livros, que tem seu começo na «Rua do Arco do Rosio, da banda da praça
+da palha», na freguezia de Santa Justa, averigua-se que de 1547 a 1565
+havia a Cidade effectuado dez aforamentos na «rua que vai da porta de
+Santo André para o postigo de Sam Lourenço, que por outro nome se chama
+Villa Quente»[55].
+
+Confrontado este titulo com o que Bastião de Lucena escreveu no Livro
+que estamos estudando, acha-se que a situação da via pública do Tombo da
+Cidade é de todo o ponto a mesma que se lê naquelle Livro, salvo a
+orientação, que diametralmente diverge, visto que o juiz do Tombo partiu
+do postigo de Santo André para o de S. Lourenço, e Bastião de Lucena fez
+o contrario, para o que, segundo acabamos de ver, teve uma excellente
+razão de ordem.
+
+Ora, que tanto uma como outra das duas descripções se accomodam sem
+obice algum á topographia actual, não resta dúvida, pois que o caminho
+de nossos dias municipalmente chamado Costa do Castello, começando na
+sua extrema oriental no fim da rua do Milagre de Santo Antonio, passa,
+ao inflectir para o N., rente ao panno de muralha do baluarte de S.
+Lourenço, e continúa até terminar junto do agora derruido Arco de Santo
+André.
+
+Se o leitor paciente o seguir comnosco, encontrará, á sua direita, antes
+da rampa que termina a Costa e atinente a um lanço de muralha que
+sustenta um pequeno quintal, uma porta, tendo o n.^o de policia 92 A,
+dando accésso a extenso escadorio, que torneja, lá no alto, á direita, e
+segue em varios e apertados lanços até encontrar, á esquerda, a
+famigerada _Porta do Moniz_, aquella porta do Castello, origem da lenda
+que Herculano pulverisou.[56] No Tombo do Licenceado Luiz Lourenço, as
+escadas alludidas são a «Rua que vai da rua direyta para o Postigo do
+Moniz». As casas que ladeavam a entrada de tal «Rua» foram levantadas em
+chãos pertencentes á Cidade.
+
+As da banda do Postigo de S. Lourenço, na frente do muro do quintal
+acima alludido, e vinham a ser as «derradeiras casinhas quando querem
+voltar da dita rua pelo caminho que vai ao Postigo do Moniz», possuia-as
+um casal, Antonio Fernandes e sua mulher Barbara Gonçalves, «parda». As
+da banda do Postigo de Santo André pertenciam a Estevão Affonso,
+porteiro. E eis porque desta circumstancia nos veiu a tentação de achar
+que Bastião de Lucena se equivocou, atribuindo a Manoel Affonso as casas
+deste Estevão. Se o porteiro foi dos primeiros edificadores que teve
+este troço da Costa do Castello (1547), é bem provavel que o seu nome
+servisse de conhecença para a _sua_ rua, então quando era este individuo
+o segundo de quantos foreiros a Cidade teve n'aquelle sitio, e aquelle o
+modo de distinguir as vias publicas lisbonenses umas das outras.
+
+Alem dos emphiteutas da Camara acima mencionados, outros havia que
+figuram em ambos os documentos que temos citado. Assim, a Cidade tinha
+aforado ao dr. Affonso Figueira, desembargador da Casa do Civel e
+Ouvidor do crime, em dois annos diversos, 1555 e 1557, tres chãos, sobre
+os quaes este magistrado levantara casas, e um quarto que elle reservara
+para seu quintal, e que o era ao tempo do Tombo que vamos seguindo. A
+loja de uma das casas estava em 1566 ocupada pelo tecelão «João
+Francisquo», conservando-se senhorio, o magistrado sobredito. Este ahi
+mesmo residiria, mas a toga excepcionou-o da obrigação do escote, e por
+isso só naquella qualidade apparece no rol da derrama. Do mesmo modo
+aforara a Cidade, em 1542 e 1547, dois outros chãos perto dos
+antecedentes, a uma Guiomar Dias. Esta, precedendo a competente licença,
+fez venda, em 1561, de uma das casas que n'elles edificara a Ambrosio
+Luis, feitor da imposição dos vinhos.
+
+Ora, tanto o magistrado Affonso Figueira como o funccionario fiscal
+apparecem em sua devida altura no Rol de Bastião de Lucena, isto é, são
+mencionados como proprietarios das respectivas casas, indo do Postigo de
+Santo André para o baluarte de S. Lourenço, sendo a concordancia
+perfeita entre os dois documentos, por isso que umas das casas do dr.
+Affonso Figueira são no Tombo da Cidade, as primeiras, indo do Arco de
+Santo André, partindo pelo N. E. com as de Ambrosio Luis e com outras de
+outro aforamento, realisado por aquelle magistrado dois annos
+depois.[57]
+
+Absolutamente certos, pois, de que dizer «Rua das Casas de Manoel
+Affonso até o Postigo de Santo André», e «Rua que vai da Porta de Santo
+André para o Postigo de Sam Lourenço» é referir-se a uma mesma via
+pública, e que tal referencia corresponde ao troço actual da Costa do
+Castello, que vai do Baluarte de S. Lourenço até o desembocar da mesma
+Costa no alto da calçada de Santo André, pedimos ao leitor benigno nos
+perdoe a longa e porventura enfadonha digressão topographica, na
+consideração de ser necessaria a nosso empenho:--o precisar, sem especie
+nenhuma de dúvida, onde foi que teve a sua officina typographica o já
+agora tão nomeado Antonio Gonçalves, «imprimidor» da notavel edição
+_princeps_ do poema Os Lusiadas, do Grande Epico Luis de Camões, das
+duas que trazem a data de 1572, a que apresenta o _Pelicano_
+frontispicial com o collo voltado para a esquerda do leitor.
+
+
+
+
+XIX
+
+
+A 17 de setembro de 1566, Manoel Affonso, atafaneiro, morador ao Poço do
+Ceitil e Jeronymo Gonçalves, serralheiro, morador na rua dos
+Cavalleiros, escolhidos para _sacadores_ do «quatorzeno» rol da
+freguezia de Santa Justa, receberam nos Paços do concelho desta «mui
+nobre, sempre leal cidade de Lisboa», onde se tratava de dar execução ao
+Regimento da cobrança do _voluntario_ imposto a que nos temos referido,
+as competentes copias do predito Rol, e trataram de avial-as.
+
+Deviam começar, como vimos, da extrema superior da «Rua do Poço do
+Ceitil,» que desembocava, segundo dissemos, proximo do Baluarte de S.
+Lourenço, pela parte posterior do Postigo da _Cerca nova_, sendo a
+primeira do «trezeno» Rol.
+
+Percorrendo toda a rua até o Postigo de Santo André, voltavam os dois
+_sacadores_ para a calçada desta denominação, internavam-se na Rua da
+Amendoeira, davam volta á travessa desta rua, que lá vimos ainda hoje, e
+sahindo pela rua das Tendas, que parece não lográra ainda um qualquer
+nome, vinham á dos Cavalleiros, findando-lhes a tarefa no «Beco de Thomé
+Correa»; um beco sem sahida, de nossos dias chamado _Beco do Forno_,
+primeiro á esquerda naquella rua, indo da Mouraria, e que tem lá, não
+sabemos porque bullas, advertencia de ser «_logradouro particular_»(!).
+
+Acompanhemos os honrados exactores na sua perigrinação pela rua que ía
+do «Baluarte de Sam Lourenço ao Postigo de Santo André».
+Despedir-mo-nos-hemos ahi d'elles. O que deste Postigo por diante
+haveriam de fazer não nos interessa. Depois veremos, por simples
+curiosidade, qual foi o importe da sua cobrança na area que lhes fôra
+designada.
+
+Por agora, attentemos um momento na feição da discutida via publica
+lisbonense, como ella parece ter sido no 2.^o semestre do anno de 1566.
+
+Devia apresentar, ao menos por partes, mais largura do que hoje vemos
+ter, posto que não se avantajasse grandemente, neste particular, ás
+convisinhas. Muito mais desafogada era ella, por certo, do que é hoje.
+
+Ao longo da sua margem direita, indo para Santo André, e até
+alcançar-lhe o Postigo, 21 propriedades, se a tal classificação poderiam
+aspirar as modestas casinhas que se iam encostando á barbacã do
+Castello, tendo na sua frente uma larga perspectiva panoramica, de
+surprehendente effeito. Da esquerda, a ondulada ribanceira, por onde,
+ainda 35 annos antes, se espreguiçava a miseranda Villa Quente, até ir
+topar com a cêrca do Colleginho. Lá quasi ao começar o forte declive
+que, tal qual hoje, terminava a rua, o postigo aberto na muralha por
+onde se começava a subir para o do Moniz. Diante d'elle, atravessada no
+caminho, a cruz de pao, demarcatoria nos titulos do Tombo municipal. Por
+ahi perto, talvez, sempre da esquerda, algum pequeno grupo de casinhas,
+restos da subvertida povoação. Após, os declives sobre os quaes se
+levantou, no seculo seguinte, o palacete que assenta no espigão da
+calçada de Santo André.
+
+Isto, quanto á topographia local.
+
+Vejamos agora quanto respeita ás construcções, e, porfim, aos que as
+habitavam.
+
+As 21 casas da margem direita, que a rua contava pertenciam a outros
+tantos proprietarios. Destes, 12 habitavam nas proprias casas, ou sós,
+ou tendo inquilinos. De todos os 21, o senhorio mais importante, era o
+clerigo Francisco Dias. O seu predio--algumas barraquitas,
+provavelmente--alojava 9 inquilinos, entre os quaes, 2 cegos. De
+consideração, na ordem social, Joanne Fernandes, moço da camara da
+Infanta D. Isabel, tendo na loja por inquilino um «sapateiro remendão».
+Joanne Fernandes morava nas proprias casas de que era dono, e foram-lhe
+avaliadas em 30$000 réis. Pegado ao postigo de Santo André, não esqueça
+o nosso conhecido magistrado Affonso Figueira, e confrontando com elle,
+o Ambrosio Luiz, que superintendia na imposição dos vinhos. Algures, ali
+perto, um Joanes, cantor de el-rei, que nem por ser tal, se esquivou ao
+escote. Fecham a lista três senhoras do appelido Viegas; Filippa,
+Antonia e Anna.--Tres irmãas?--Que sabemos nós? Os predios das duas
+primeiras, avaliados em 50$000 réis cada um, obrigaram-nas a 350 réis de
+contribuição. As casas de Anna Viegas,--coisa parecida, é mais que
+certo--com as barracas do Padre Dias, foram computadas no dobro; em
+100$000 réis, e por isso teve de pagar 700 réis.
+
+O predio devia valer a somma em que foi avaliado. Alem da senhoria,
+habitavam n'elle mais 6 inquilinos; 3 varões e 3 femeas, como se diz em
+estatistica de população. Entre as femeas, duas eram viuvas; dos varões,
+um fallecera ao tempo de chegarem lá os _sacadores_, outro abalara para
+parte incerta. O terceiro era typographo;--chamava-se Antonio Gonçalves,
+e tinha aqui a sua officina. Elle e Maria Luiz, sua mulher, moravam mais
+abaixo, para o lado de Santo André, no predio do pintor Garcia
+Fernandes.
+
+
+
+
+XX
+
+
+Estava, pois, Antonio Gonçalves estabelecido já em setembro de 1566,
+isto é, dois annos mais cedo, do que o que lhe suppôs Tito de Noronha,
+na tabella com que enriqueceu a sua tão valiosa monographia _A Imprensa
+Portugueza durante o seculo XVI_.
+
+É evidente que o auctor se governou, para a inscripção da data «1568»,
+pela data do primeiro livro que se conhece, sahido dos prélos deste
+impressor;--as obras poeticas de Cadaval Gravio. (Pag. 82). O facto,
+porém, corrobora o asserto já por nós enunciado nestas Notas; convem a
+saber: que hemos de convencer-nos, todos os que perlustramos estas
+materias, que, assim como a nenhum habitante da Terra será jámais
+permittido ver a outra face do globo lunar, assim nos está vedado, e aos
+que depois de nós vierem, o descortinar quantas obras, e quaes assumptos
+vieram a lume, só no seculo XVI que seja, em Lisboa, que para sempre de
+nós e dos porvindouros ficarão ignorados.
+
+É provavel que Antonio Gonçalves continuasse a residir na Costa do
+Castello, e ahi mantivesse egualmente a sua officina, até passar a
+melhor vida. Nestas afastadas eras, o _inquilinato_ ainda tinha mui
+fracas as azas. Voejava pouco, e com pouco se contentava. Ahi onde se
+constituia familia, ahi onde se ganhava a vida, ahi se criavam affectos;
+ahi se lançavam raizes. Na mesma parochia, onde marido e mulher uma vez
+se desobrigavam, até o ultimo dia da vida se ficavam desobrigando.
+N'ella recebiam a agua lustral do baptismo, n'ella se casavam, n'ella
+continuavam a prole. Depois, no chão sagrado que todos os fieis pisavam,
+vindo adorar a Deus, tinham todos, quantas vezes de geração em
+geração!--o proprio e final encerro.
+
+Pela nota com que fechamos, emfim, estes singellos apontamentos, que um
+acaso nos permittiu redigir, se verá desde quando e até quando se
+conhecem impressões sahidas da officina de Antonio Gonçalves, e quaes as
+obras que se sabe terem sido objecto d'ellas.
+
+Não esqueça referir que a officina de Antonio Gonçalves foi avaliada em
+5$000 réis, pagando o futuro impressor dos Lusiadas o escote de 35 réis
+para as necessidades da corôa.
+
+A 26 de abril de 1567 deram os honrados _sacadores_ do «Quatorzeno Rol
+da Freguezia de Santa Justa» por finda a sua tarefa, entregando, com a
+nota de 239 addições cobradas, ao Thesoureiro da Cidade, André Luiz,
+recebedor do dinheiro deste Lançamento, a quantia de 26$476 réis, em que
+ellas importaram, jurando aos Santos Evangelhos terem procedido como
+homens de bem.
+
+Eis a Nota das impressões conhecidas, sahidas dos prélos de Antonio
+Gonçalves, redigida por simples apontamentos, por se não ter prestado a
+occasião a uma minuciosa e integra descripção bibliographica das que
+será ainda possivel ver.
+
+ 1568--_Pythographia e Brachyologia_--Poemas publicados por Cadaval
+ Gravio, segundo Tito de Noronha, in _A Primeira Edição dos
+ Lusiadas_, pag. 82.
+
+ 1569--_Constituições Extravagantes do Arcebispado de Lisboa_ (3.^a
+ ed.)--aos 7 dias do mes de Fevereiro. Mencionadas por Innocencio,
+ _Diccion_, Tom. II, 105.
+
+ » --_Leis extravagantes_ collegidas e relatadas por mandado do
+ muito alto e muito poderoso rey D. Sebastiam, nosso senhor, por
+ Duarte Nunes do Liam.--Innoc. II, 210.
+
+ 1570--_Repertorio dos Tempos_. Visto por nós na Sala dos
+ _Reservados_ da Bibliotheca Nacional--B--11. Tem o frontispicio
+ dois annos após empregado pelo mesmo impressor _in_ Lusiadas, de
+ Luiz de Camões. Material que pertenceu a Germão Galharde.
+
+ 1571--_De Rebus Emmanuelis_, do Bispo D. Jeronymo Osorio. Cit. por
+ Innocencio--Letra J. pag. 272.
+
+ 1572--Os Lusiadas--por Luiz de Camões. Frontispicio que pertenceu a
+ Germão Galharde--(_Pelicano tendo o pescoço voltado para a esquerda
+ do leitor_).
+
+ 1572--_Primeira Parte do Compendio da Chronica da Ordem... do Monte
+ do Carmo_, por Fr. Simão Coelho. Deve cotejar-se a noticia de
+ Innocencio com a descripção impressa no _Catalogo_ n.^o 7 da
+ Livraria de José dos Santos & Irmão.
+
+ 1573--_Commentario do cêrco de Goa e Chaul_, &--Ha um exemplar na
+ Livraria da Torre do Tombo.
+
+ 1574--_Successo do Segundo Cêrco de Diu_, de Jeronymo
+ Côrte-Real.--Ha um exemplar entre os _Reservados_ da Bibliotheca
+ Nacional, mas não chegámos a vê-lo, por falta de occasião.
+
+ » --_Regras que ensinam a maneira de escrever a orthographia
+ portuguesa_, por Pedro de Magalhães de Gandavo. Informações de
+ Innocencio, pois se não conhece exemplar algum.
+
+ 1576--_Historia da provincia de Sancta Cruz_, &, pelo mesmo auctor
+ supra-citado. É util ler a informação de Innocencio, ácerca deste
+ rarissimo livro.
+
+Por muito satisfeito nos daremos, que esta _Noticia_ logre alcançar o
+agrado de nossos consocios, mais certos leitores que ella poderá ter.
+Por sua especial bondade nos relevarão elles, de certo, as deficiencias
+que se nella notarem, antes filhas da mingua de recursos, do que da
+falta de boa vontade em alcançar o impossivel;--dá-las completas.
+
+
+ Julho, 1913.
+
+ Gomes de Brito.
+
+
+
+
+ADDENDA
+
+
+«Aos cinquo dias do mes de novembro de mil e qujnhentos setenta e hum
+annos em Lisboa nos estaos na casa do despacho da Santa Inquisiçam
+estando hi os senhores jnquisidores perante elles pareceo Pero Alberto,
+flamengo de naçam, natural de Envres de jdade que dise ser de vimte e
+dous pera vimte e tres annos e dise que hee jmpremidor e trabalha na
+jmpresã de Marcos Borjes ao Arco de Cramgejo e pera em todo dizer
+verdade lhe deu juramento dos Santos Evangelhos e prometeu de a dizer e
+denunciando dise que elle vinha a este Santo Officio pera desencarregar
+sua consciencia e dizer o que sabja o qual hee que avera oito annos que
+elle partio desta cidade pera Arrochella com hum João de Leam, frances
+lyurejro o qual lhe disseram em Castella que estava nesta cidade e que
+fora ja preso pollo Santo Officio e jsto de preso lhe diseram aquj em
+Lisboa e tambem ffoj com elles hum cornelio flamengo de naçam, naturall
+de Olanda que tambem hee jmprimidor e trabalhava en casa da viuva de
+Germam Galhardo e asj foj com elles hum frances por nome Pierres
+d'Alltabel casado nesta cidade com hua criada ou paremta de Njcolao
+Botardo que viuja na rua noua e vende papel e tambem era jmpresor ajnda
+que o nam usaua muito os quaes todos quatro hiam determjnados pera
+jmpremjr huas horas de Nosa Senhora em portugues e o João de Leam fazia
+o gasto e o Pierres e elle confesante e outro hiam por obrejros e
+chegando Arrochella por lhe nam quererem dar licença pera as jmprjmjr as
+não jmprimjram e jmprimjram em lugar das oras ha gramatica de Joannes
+Espauterio e dizendo elle denunciante ao Cornelio em hum domjnguo se
+jriam ouvir mjssa e ouvindo jsto João de Leam perguntou ao Cornelio que
+era o que elle denunciante dezja e o Cornelio lhe respondeo que elle
+denunciante querja jr ouvjr mjssa ao que respondeo o dito João de Leam
+dizendo que senam podia ouvir mjssa na Arrochella porem queriam a
+pregaçam e dizendo jsto antes de jamtar ás oito ou noue horas o dito
+Joam de Leam os leuou todos tres a hua casa grande onde estaua muita
+gente e muitos banquuos e começarão a camtar por huns libros que tinham
+nas mãos e dezião Joam de Leam e Cornelio que aquillo que cantavam eram
+Salmos mas elle denunciante nam entendeo a linguoa e despois se pos hum
+homem em hua cadejra alta a ler por hum liuro em frances espaço de hua
+hora e o que leo elle denunciante nam entendeo e acabado de ler se
+sajram todos da dita casa e se foram a jamtar e dahj a tres ou quatro
+dias elle denunciante, dejxou a dita companhia na Arrochella e se foj
+pera Leam de França, perguntado que gente era aquela que estaua na casa
+da Arrochella onde elle denunciante foj com ho dito Joam de Leam e
+Cornelio e Pierres ouvjr cantar os salmos, disse que eram lutheranos,
+perguntado que doutrjna era a que se lia na dita casa ou se lho diseram,
+dise que Joam de Leam lhe disera que aquela era doutrjna e lej de
+Christo e toda aquela gente se chamavam ugunotes, perguntado se era
+aquella doutrjna que aly se jnsinaua a gente a jgreja catholica Romana
+disse que aquella doutrjna nam era da jgreja Romana porque nem a casa
+onde se lia era jgreja se nam hua casa sem santos como cavalaryza,
+perguntado se allgua pesoa o presuadio ou lhe dise que crese aquella
+doutrjna que alj ensinavã, dise que nam, perguntado com quem entrara na
+dita casa e onde estiveram sentados dise que com Joam de Leam e Cornelio
+e o Pierres e todos quatro se sentaram juntos em hum banquo e estiueram
+todos asj atee o cabo da predica que se sajram perguntado se sabe que
+allgua pesoa aprouaua a dita doutrjna que se lia na dita casa disse que
+soomente Joam de Leam lhe disse que aquella doutrjna era muito boa e lej
+de Christo e que os papistas chamavam aquella gente ugunotes e o mesmo
+lhe dise Pierres d'Alltabel perguntado quãntas vezes foram a dita casa
+onde se lia a dita doutrjna dise que hua soo vez foj la com os que dito
+tem, perguntado se vira jr allgua pesoa aos ditos ajuntamentos majs
+vezes, dise que nam, que os companhejros nam sabe se tornaram laa majs
+vezes porque elle se partio como dito tem pera Leam de França e dispois
+destar seis ou sete meses em Leam de França se tornou a Espanha onde foj
+preso pollo Santo Officio de Toledo e saio reconciliado com habito que
+lhe tiraram loguo no cadafalso e lhe deram em pena que estivesse alj em
+Toledo hun anno o qual esteue e despois pedio licença pera jr trabalhar
+a Salamanqua e outras partes e lhe diserã que podia andar por toda
+Espanha e porem que se nam embarcasse pera outro reyno sem sua licença e
+que ho principall intento que o trouxe a esta casa ffoj por lhe parecer
+que se podia saber nella que elle foj, estando na Arrochella aquela casa
+com ho dito Joam de Leam e os companhejros ouvir a doutrjna dos
+lutheranos por quãoto hum Alexandre Lopez christão novo e outros que a
+ese tempo la estavam lhe diseram que elle denunciante fora ouvir a dita
+doutrjna e que se vem dasemto pera trabalhar aquj em seu officio e que
+ja isto confesou em Toledo com ho majs hall nam dise e do costume dise
+estava bem com todos e lhe ffoj mandado ter segredo no caso e elle o
+prometeo sob carguo do dito juramento e por o promottor fiscal requerer
+a elles senhores inquisidores que por ser o dito denunciante estrangeiro
+e se poder absentar pera lugar nam certo lhe reteficasemos em fforma
+elles senhores mandaram chamar os muito reverendos padres frej Belchior
+de Sam Mjguel e frej Estevam Caveira, ambos da ordem do bem aventurado
+Sam Domingos e pregadores perante os quaes despois de tomarem juramento
+de ter segredo em forma o dito denunciante disse que o dito contheudo em
+esta sua denunciaçam que eu notario lhe li toda de verbo ad verbum e
+lida e por elle entendida disse que asj o disera e estava escripto na
+verdade e afirma e ratefica e de nouo torna a dizer e asjnou com os
+ditos senhores inquisidores e os ditos padres que estiveram presentes
+por honestas e religiosas pesoas e eu Joam Velho notario appostolico o
+sprevi, diz no riscado Symam de Saa Pereira e declarou sendo perguntado
+que na dita casa onde estava o dito ajuntamento de gente segundo seu
+parecer, Pierres tinha hum liuro na mam e que todos os ditos seus
+companhejros a saber Joam de Leam e Pierres e Cornelio cantavam com ha
+majs gente os ditos Sallmos em frances que elle denunciante nam entendia
+e asynou com elles Senhores padres e eu Joam Velho notario appostolico o
+sprevi (aa.) _Jorge Gonsallvez Ribeiro_--_Pedro Alberto_--_Simão de Saa
+Pereira_--_Frej Belchior de São Miguel_--_Frej Estevão Caveira_».
+
+_Livro de Denuncias do Santo Officio_ (n.^o 106).
+
+
+
+
+Notas:
+
+[1] O _Livro do Lançamento e Serviço que a Cidade de Lisboa fez a El-Rei
+Nosso Senhor_, de que démos abreviada noticia no jornal _Novidades_, de
+9 de junho de 1897, tendo começado em 15 de abril de 1565, e terminado
+em 6 de setembro de 1567 as operações da cobrança, de que o alludido
+_Livro_ é muito curioso registo.
+
+[2] «_T.^o da fr. Da Madalena--Rua Nova dos feros Danbas as bandas_»
+f.^o 44, V.
+
+[3] João de Borgonha era proprietario de umas casas na «rua da
+Gibetaria», que tinham 5 inquilinos. Tinha outras casas na «rua do
+Terreiro da Portagem», onde eram seus inquilinos um Pedro de Sousa,
+ourives de ouro, e um João Fernandes, mercador, recem-chegado do Peru.
+
+Os outros dois inquilinos, dos 4 que o predio tinha, não são de
+importancia.
+
+Finalmente, este abastado livreiro-editor ainda possuia umas «tendas»
+nas costas do Terreiro do Trigo.
+
+[4] Ás vezes, tambem não eram de todo bem succedidos em suas um tanto
+arriscadas especulações; testemunha, Alonso de Leon, que, em 1575, foi
+denunciado á Inquisição por um tal Raphael Perestrello, porque entre os
+livros de que era mercador, em Lisbôa, vendia alguns, impressos em
+Flandres ou em França, «_e falavam contra o officio divino e contra a
+missa_».
+
+_Arch. Histor. Portug._ fasc. n.^{os} 75 e 76, pag. 153.
+
+[5] «It Migel darenas liureiro seu obreiro......... avaliado [~e] cinquo
+mil rs...» (fol. 45 do cit. codice).
+
+Ácerca deste Miguel de Arenas e de seu parceiro João de Molina, assim
+como de João de Borgonha, e outros livreiros e impressores de que esta
+Noticia se occupa, leem-se com fructo os artigos que lhes respeitem _in
+Docum. para a Hist. da Typogr. Portug. &_, de Venancio Deslandes,
+Lisboa, Imp. Nac., 1888.
+
+[6] A _Recopilaçam_ tivera, segundo as primordiaes informações de
+Barbosa Machado, posteriormente ampliadas por Innocencio, duas edições;
+uma, de Coimbra, por Antonio de Maris, 1569, outra, de Lisbôa, por
+Marcos Borges, 158O. Nem de uma, nem de outra apparece, desde muito,
+exemplar algum.
+
+De uma terceira edição,--aquella a que o texto se refere--apenas existia
+um exemplar na copiosa livraria do convento de S. Francisco da Cidade.
+Delle se serviu Alexandre das Neves Portugal, para ajuntar á 2.^a ed.
+das _Advertencias dos meios que os particulares podem usar para
+preservar-se da peste, &_, por aquelle naturalista redigidas, e mandadas
+publicar pela Academia, em 1797 (?)
+
+Exhausta, com effeito, esta 1.^a ed., voltou a douta corporação a fazer
+reimprimir 2.^a, em 1801, ajuntando-lhe, porém, agora, mas com rosto e
+paginação especial, o opusculo dos dois medicos sevilhanos, o qual na
+1.^a apenas fôra objecto de simples referencia, impressa no Prologo. O
+formato das duas edições das _Advertencias_ é de 12.^o
+
+Ficou, pois, a _Recopilaçam_ em 4.^a ed., copiada da de 1598, conforme
+se vê na folha do rosto.
+
+[7] Parece ser esta a 3.^a edição, havendo entre esta e a de Ferrara,
+1554, uma de Evora, 1557-58. Nas edições de Ferrara, e de Colonia
+chama-se á novella: _Hystoria de Menina e Moça_. Veja-se no pref. de
+_Menina e Moça_, ed. do Porto, 1891, a Nota ^1 de pag. LXXVIII, do punho
+do nosso consocio, sr. D. José Pessanha. Innocencio não mencionou a ed.
+de Ferrara, por onde entende ser 2.^a esta de Colonia.
+
+[8] _A Imprensa Portugueza no Seculo XVI_, cap. 4.^o--Livreiros. No
+Archivo da Camara desta capital ha uma carta de venda, em que interessa
+a corporação dos livreiros da Irmandade de Santa Catharina, datada de 11
+de maio de 1557, e na qual Salvador Martel assigna como testemunha de
+certas diligencias. Vid. _Elem. para a Hist. do Mun. de Lisboa_, Tom.
+II, 584, nota da pag. anter.
+
+[9] «_T.^o da freguezia da See_», fol. 9.
+
+[10] A «rua da Costa», da relação de Christovão, na freguezia da
+Magdalena. Nesta freguezia dá a mesma relação «Duas travessas que não
+tem nome». Uma destas poderá ser aquella onde estavam estabelecidos os
+dois livreiros.
+
+[11] Como se vê por este exemplo e o outro supra, Bastião de Lucena,
+escrivão deste recenceamento, obrigava a syllaba «gi» a soar como «gui»,
+o que não é peregrino entre a gente menos letrada deste seculo.
+
+A Fonte da Preguiça ficava «além da Porta do Mar», para oeste das casas
+de Affonso de Albuquerque «que tem as pontas de diamantes», e logo a
+seguir a outras que pertenciam á Cidade, segundo o que se lê no _L.^o
+1.^o do Tombo das propriedades foreiras á Camara_, codice do Archivo
+Municipal.
+
+Sobre a fonte erguiam-se umas casas, onde, na occasião deste arrolamento
+(1565), morava um tal Francisco d'Arruda, de quem, infelizmente, Bastião
+de Lucena não mencionou a occupação.
+
+[12] Temos a opinião de que o _Summario_ não sahiu a lume antes de 1554,
+embora se haja inferido das expressões de seu antes compilador, do que
+auctor, a data de 1551.
+
+[13] É forçoso confessar que Bastião de Lucena, o escrivão deste
+recenseamento, teria feito, se de tal se lhe quizesse suppôr o
+proposito, quanto houvera sido preciso para negar á posteridade a
+existencia do velho Johanes Blavius, tão mal affirmada nas folhas
+amarelladas do codice, onde lhe foi desfigurado o nome.
+
+O respectivo lançamento diz, com effeito, e em verdade, o seguinte:
+
+«It cladio colon Inprimidor em cassas de bento giz av^{do} [~e] tres
+mill rs paguara xxj rs»
+
+Ora, não só não houve nenhum impressor estabelecido, deste tempo, que se
+chamasse Claudio, querendo ver a falta de um «u» no nome proprio escrito
+por Lucena, nem o «imprimidor» arrolado era simples «obreyro»; isto é,
+official typographo, para nós desconhecido, porque, nesse caso, o
+escrivão do recenseamento o declararia tal, como o fizera a respeito de
+Miguel de Arenas, e o fez, referindo-se a Marcos Borges, segundo adiante
+veremos.
+
+O presumivel, pois, será que Bastião de Lucena haja desfigurado o nome
+de João Blavio, reunindo em dois inintelligiveis vocabulos o appelido do
+impressor, e a indicação da sua terra natal.
+
+[14] De certeza, temos que a «_Primeira Parte da Chronica dos Menores_»,
+de Fr. Marcos de Lisboa, que João Blavio imprimira em 1557, editada por
+João de Borgonha, foi reimpressa por Manoel João, em 1566. Pareceria
+curial que o impressor da 1.^a edição, estando ainda vivo, e
+estabelecido, como o vemos pelo texto, fosse o encarregado da
+reimpressão, tanto mais que foi o mesmo João Blavio que em 1562
+imprimiu, por conta daquelle opulento editor, a _Segunda Parte_ da
+indicada _Chronica_.
+
+Pelo numero de obras, de que ha noticia terem existido, sem que
+chegassem até nós, se póde fazer idéa de quantas se terão perdido, em
+edições que se não repetiram, e não conheceremos jamais.
+
+Não anda liquido qual fôsse a 1.^a ed. do _Palmeirim_, em linguagem
+portuguêsa, sendo certo que, se o conselheiro Macedo teve a que dizia
+ser 3.^a ed., impressa em 1564, outras duas anteriores houvera já, que
+assim como esta, se não conhecem.
+
+Tampouco se conhece a 1.^a ed. da _Aulegraphia_, de Jorge Ferreira de
+Vasconcellos, deduzindo-se apenas pelo titulo da de 1561 dever ser esta
+a 2.^a, pelo menos.
+
+Da _Comedia Ulysipo_, do mesmo Jorge Ferreira, tambem se não conhece a
+1.^a ed., muito anterior, por certo, á que seu genro D. Antonio de
+Noronha emprehendeu em 1619. Quanto aos _Triumphos de Sagramor_, do
+mesmo Ferreira, resta saber se as conjecturas de Innocencio, ácerca da
+existencia desta obra prevalecerão, ou não.
+
+Enfim, uma prova, ainda que indirecta, de que se imprimiram no seculo
+XVI^o. obras, de que nenhuma noticia resta, é que ha, applicados a
+outras obras conhecidas, frontispicios que decerto não foram feitos para
+ellas, senão para outras, em que pela primeira vez appareceriam, sem se
+saber quaes fossem, e quem hajam sido seus autores.
+
+[15] Obras do Poeta Chiado, colligidas, &, por Alberto Pimentel.
+
+[16] «_T^o Da freguesia De San Nicoláo_», fol. 176.
+
+«It Marcos Borjes Inprimidor obreyro em cassas da molher do doutor ant^o
+medis/Bracal paguara x b j i rs»
+
+[17] Eis o texto completo do rosto desta obra:
+
+«_Paradoxo ou sentença philosophica contra a opinião do vulgo: Que a
+natureza não fez o homem senão a industria. Dirigido ao muy alto &
+inuictissimo Rey de Portugal dom Sebastião Primeyr_ (sic) _deste nome.
+Por Jo Cointha Senhor des Boulez Fidalgo frances... Agora nouamente,
+feyto & impresso nesta cidade de Lixboa em casa de Marcos Borges
+empressor del Rey nosso senhor. Ao primeyr_ (sic) _de Janeyro de 1566.
+Vede se na empressão detras de nossa senhora da Palma_».
+
+Em 29 quartos de papel, sem numeração. Innocencio descreve o exemplar
+deste raro opusculo pertencente a Figanière.
+
+[18] «Arcos por traz da Ermida da Palma.» Lado de L. 4 propriedades;
+lado do S. outras 4. _Tombo do Bairro do Rocio, fls. 156 e 156 v.^o_
+
+Como simples esclarecimento, que facilite o ajuisar da situação desta
+ermida, diremos que ficava por muito proximo do pequeno largo ainda
+agora conhecido por largo dos Torneiros, rasgando-se na rua dos
+Fanqueiros, na extrema L. da rua de S. Nicolau.
+
+[19] «_A Imprensa em Portugal no seculo XVI_», artigo de Sousa Viterbo
+_in Diario de Noticias_, de 5 de setembro de 1898.
+
+[20] O segundo destes valiosos estudos foi dado a lume na _Archeologia
+Artistica_, 1.^o anno, vol. I, fasc. II, publicada pelo sr. Joaquim de
+Vasconcellos--Porto, 1873.
+
+[21] Manoel João rubricou os fêchos do 1.^o e do 2.^o Livros desta
+compilação, imprimindo «Manoel», empregando, comtudo, o «u» nos tres
+ultimos. Notemos que Tito de Noronha é tambem um de nossos diversos
+auctores modernos que seguem o exemplo dos que, nomeadamente no seculo
+XVII.^o, adoptaram o «o» na graphia do nome proprio «Manoel»,
+distinguindo-o assim, e crêmos que bem, do seu igual castelhano.
+
+Francisco Manoel, Bocage, que adoptou para distinctivo academico o
+anagrama do seu baptismal: _Elmano_, e já bem proximo a nós o estadista
+Manoel da Silva Passos, ortographaram com «o» o seu nome proprio. A
+mesma pratica se observa entre as familias nobres que usam deste nome
+proprio, por appellido ou sobre-nome.
+
+[22] Uma anterior edição deste _Regimento_, datada de 1542, sahira dos
+prélos de Germão Galharde. Innocencio cita-a na letra A (Artigos), e
+Tito igualmente se lhe refere na monographia _Ordenações do Reino_, pag.
+82.
+
+[23] O pobre do guarda-roupa, improvisado pregoeiro das grandezas de
+Lisbôa, não attendendo a mais nada, sommou os «roles» das vias públicas
+das 23 freguezias que os tiveram (porque S. Martinho não teve «role»), e
+achou o total das 521, das tres categorias, que pormenorisou quasi no
+final do livro, sem contar as 2 calçadas e alguns «adros» que elle, ou
+outrem, fez entrar na especial dos «62 Postos», a que no texto se fez
+referencia.
+
+Não attentou, porém, o diligente chronista lisbonense na _compartilha
+parochial_, e sommando, sem mais exame, as 23 relações de vias públicas
+que os priores e curas da cidade lhe facilitaram, por ordem do
+Arcebispo, não deu porque 38 destas, obedecendo áquelle sistema, se
+apresentam _80 vezes_ repetidas por 2 e 3 freguezias, o que reduziu, por
+conseguinte, a 479 o numero verdadeiro das vias públicas constantes do
+_Summario_.
+
+Deve porém advertir-se que na Lisbôa do tempo deste livro havia já muito
+antigas vias públicas que, por qualquer circumstancia, nelle não
+figuram. Daremos para exemplo, por ter adquirido a particular
+notoriedade que lhe vem de figurar no _Monge de Cister_, a celebre «rua
+de D. Mafalda», que os lançadores de 1565 arrolaram, «com suas travessas
+e hospital» (o dos Palmeiros), na freguezia da «Madanela».
+
+[24] Já deixámos explicado como o vocabulo «congro» traduz, neste caso,
+um acentuado barbarismo. Ao vulgo, é mais que certo, escapou
+naturalmente o termo letrado «combro», de que poucos estariam, neste
+tempo; como ainda agora, no caso de alcançar o significado. A ignorancia
+dos letreireiros que, ao alvorejar o seculo transcurso, foram
+encarregados pela Administração Geral dos Correios de appôr os disticos
+nas vias públicas da nossa capital, foi origem a muitos desconcertos
+desta ordem. Assim, o Pateo do «Porcili», appelido italiano, foi
+convertido em Pateo do «Pocildes», o beco dos «Beguinos» ficou-se
+chamando beco dos «Biguinhos»; outro beco, o da «Calheta»,
+transformou-se em beco da «Galheta», a Praça dos «Remolares» foi muito
+tempo conhecida por Praça dos «Romulares», &. Infelizmente, não occorreu
+verificar se a graphia dos _artistas_ saíra triumphante da prova, e por
+isso, ainda agora se andam remediando estas aberrações ortographicas
+municipaes.
+
+[25] Este _Conde_ era um Domingos Fernandes, que tinha por alcunha «_o
+conde_». Era «porteiro do concelho», e morava na rua a que déra a
+alcunha, em casas suas.
+
+Pela coincidencia, notaremos que, ha quarenta e tantos annos,
+estacionava na então denominada Rua de S. Francisco, um moço de fretes,
+chamado tambem Domingos Fernandes, e que tendo sido criado de Almeida
+Garrett, era conhecido pela alcunha: _o visconde_, do titulo daquelle
+que fôra seu patrão.
+
+[26] Não se nos afigura fóra de proposito esclarecer que o Chão
+d'Alcamim («Alcamim, hortaliça sêcca», segundo Fr. João de Sousa, _in
+Vestigios da Lingua Arabica_), antigo cemiterio mourisco, e
+posteriormente provavel cemiterio da freguezia de S. Mamede, formava a
+divisoria territorial das duas freguezias, esta, e a de S. Christovão,
+uma das suas convisinhas. Ficava sobranceiro ao modesto mas antiquissimo
+edificio parochial daquella invocação; isto é, occupava o terreno por
+onde agora discorre a calçada do conde de Penafiel, e ligava-se á Costa
+do Castello, tal qual esta calçada se liga á juncção da extrema da rua
+do Milagre de Santo Antonio com o principio da sobredita Costa. A igreja
+parochial de S. Mamede assentava no sitio da meia laranja, denominada
+Largo do Correio-Mor.
+
+Ainda em principios da segunda metade do seculo passado, o terreno
+montuoso onde fôra o Chão d'Alcamim era vulgarmente conhecido pela
+denominação de _Entulhos da rua de S. Mamede_. No alto da rampa que se
+rasga sobre a Costa, e no rez-do-chão do predio que para ella faz
+esquina, á esquerda de quem sobe, estava estabelecida, na face de leste,
+sob o n.^o 5, a tipographia de Luis Correia da Cunha, onde se imprimia,
+em 1860, a edição em 16.^o dos Lusiadas, de Luis de Camões, adoptada
+para texto poetico nos Institutos de ensino livre, daquella época. Esta
+edição foi repetida pelo mesmo tipographo, em 1864, em formato igual, e
+igual numero de paginas.
+
+[27] Como estamos no terreno resvaladio das supposições e das
+probabilidades, seja-nos permittido aventurar a supposição de que este
+dr. João de Barros possa ser o proprio homonymo do auctor das _Decadas_,
+com quem alguma vez foi confundido, e que em 1540 deu a lume na cidade
+do Porto o _Espelho de Casados_, impresso por Vasco Dias Tanco de
+Frexenal. Dr. João de Barros ou nasceu no Porto ou em Braga, e vivia
+ainda em 1553, mas, se como informa Barbosa Machado, elle foi do
+Desembargo do rei D. João III, e seu escrivão da camara, não sería
+impossivel que, fixando residencia, por tal facto, era Lisbôa,
+adquirisse para sua habitação a casa onde Manoel João estabeleceu a sua
+officina.
+
+[28] É patente que todo aquelle plaino, aquella _achada_ de que ahi
+perto se perpetúa a secular recordação (largo e rua assim denominados)
+passou, e por mais de uma vez, por grande transformação, depois do
+terremoto de 1755. Os antigos paços de S. Christovão, que occupavam na
+parte posterior muito maior area, do que a do actual palacio que foi dos
+Vagos, ficaram circumscriptos ao que ahi vemos. O lado esquerdo das ruas
+do Regedor e de S. Christovão foi refeito. O proprio adro da parochia,
+onde havia _dois_ cruzeiros, foi modificado. A medieval «travessa do
+monturo do benete» converteu-se, se não no todo, em parte ao menos, nas
+Escadinhas de S. Christovão; o «arco de João Corrêa», que se encostava á
+esquina dos velhos paços, donde a gentil princeza, irmã de Affonso V,
+sahiu desposada para Allemanha, refeito com o palacio novo, desappareceu
+posteriormente, deixando por testemunha da sua existencia ali o grande
+chanfro que modificou o cunhal do palacio, tal qual o lá vemos.
+
+[29] Esta noticia, transcripta como no texto advertimos, do livro
+opportunissimo de Venancio Deslandes, e se lê a pag. 42, nota 1,
+conjugada com os largos esclarecimentos da pag. 63 e seg. nota 1, da
+mesma obra, ácerca do rarissimo _Tratado_ de Bento Fernandes, vem
+esclarecer o intrincado caso a que Innocencio se refere, ao registar
+este auctor, no vol. II do seu _Diccionario_.
+
+Após ter inscripto a obra, sob o n.^o 1858, seguindo a indicação de
+Antonio Ribeiro dos Santos, que em suas _Memorias_, a pag. 108, déra
+noticia della, como impressa no Porto, em 1541, por Vasco Dias Tanco de
+Frexenal, parecendo, todavia, não a ter visto, nota, com effeito, o
+experiente bibliographo que Barbosa já se referira a esta mesma obra,
+como impressa em 1555. Innocencio fecha a sua noticia, confessando que
+tambem nunca vira o _Tratado_, nem sabia onde existisse.
+
+Agora se concilia, pois, tudo. Bento Fernandes terá, com effeito, dada
+uma 1.^a edição em 1541, tirada dos prélos de Vasco Dias Tanco,
+repetindo 2.^a no proprio anno em que parece ter fallecido, a julgar
+pelo que escreveu o auctor da _Descripção Topographica do Porto_; isto
+é, em 1555, utilisando agora os serviços de Francisco Corrêa.
+
+Accrescente se que Noronha, no final das _Tabellas_ da _Imprensa
+Portugueza no Seculo XVI_, pag. 29, assigna a Vasco Dias Tanco os annos
+de 1540 1541, como os da sua permanencia no Porto, onde teria impresso 3
+obras. Do mesmo modo, na Introdução do _Espelho de Casados_, do dr. João
+de Barros, fol. 7, v.^o, regista a presença de Francisco Corrêa naquella
+cidade em 1555.
+
+Vê-se, pois, que os dois auctores estão perfeitamente concordes, no
+tocante a cada uma das phases da vida dos dois tipographos, supra
+alludidas.
+
+[30] «T.^o da fr. da Magdalena», f.^o 82 v.^o
+
+[31] Aliás _Lisarte_, de que, definitivamente, veíu a formar-se
+_Lisardo_, por ex. «_Silvya de Lysardo_» (1597), passando assim o que
+parece ter sido nome proprio a appelido, como o seu consimilhante
+_Jusarte_, que de ambos os modos foi, de frequencia, empregado.
+
+A Jusarte Pacheco, morto no accomettimento de Calecut, filho do grande
+Duarte Pacheco, chama Gaspar Corrêa «Lisuarte Pacheco», segundo se lê na
+_Lenda de Affonso de Albuquerque_, pag. 19. Na descendencia do genovês
+«Salvago», naturalisado pelo rei D. Manoel, anda um Jusarte Salvago, a
+quem D. João III nomeou Almoxarife dos Armazens de Lisboa.
+
+De Jusarte, appellido, se deriva Zuzarte, e assim o nota o sr. Anselmo
+Braamcamp Freire, descrevendo o Brasão dos Jusartes na _Armaria
+Portuguesa_, pag. 284, da folha appensa ao Arch. Hist. Port., vol. VIII,
+fasc. 87 e 88.
+
+Ao passo, porém, que Jusarte alterna com Lisuarte ou Lisarte, como nomes
+proprios, vêmos Jusarte empregado n'este mesmo seculo, e muito proximo
+aos tempos dos Pachecos, na India, como appelido.
+
+Assim, o proprio Gaspar Corrêa, além de outros de menos nomeada, se
+occupa extensamente na _Lenda_ do 5.^o Governador D. Duarte de Meneses,
+de Martim Affonso de Mello Jusarte, capitão de Ormuz, cujos trabalhos em
+Malaca e outras partes narra com individuação.
+
+Este appelido, revivescendo no seculo XVII na pessoa do escriptor Fr.
+Pedro da Cruz Jusarte, vem até nossos dias ligado a uma das familias
+mais consideradas do Alemtejo; a dos Condes de Avillez, cujos
+antepassados e descendentes o empregam logo a seguir ao sobrenome--p.
+ex.: «Jorge d'Avillez Jusarte de Sousa Tavares de Campos».
+
+Quanto ao ramo dos Zuzartes, vemos, ainda no _Tombo Pombalino_ D.
+Marianna da Silva Zuzarte, proprietaria em 1755 de casas no beco do
+Bugio. Quando, posteriormente, se formou a rua da Saúdade, derrubada a
+parte do beco onde taes casas eram, foi-lhes marcado terreno e
+alinhamento na nova rua, para a reconstrucção, que veiu a receber o
+numero de policia 8. Em nossos dias, era proprietario d'estas casas um
+cavalheiro Araujo Zuzarte, antigo administrador de um dos Bairros d'esta
+Cidade.
+
+[32] Isto é: 455 réis.
+
+[33] Este «Ilusuarte Peris», cujo nome e appelido parecem ter soffrido a
+truculenta sorte de João Blavio de Agripina Colonia, sob a pena barbara
+de Bastião de Lucena, era proprietario na rua que tinha o seu nome,
+sendo elle que, provavelmente, a _fundou_, á semelhança de outros muitos
+exemplos mais, quer por aforamentos feitos á corôa dos terrenos onde se
+edificavam as primeiras casas, quer por qualquer outro modo que
+attribuísse aos _fundadores_ um tal qual direito de propriedade no
+denominar das vias públicas.
+
+As casas de Ilusuarte Peris constam dos lançamentos 27 a 29 do grupo
+comprehendido no titulo expresso no texto, e tinham por inquilinos:
+
+«Margaida Ribeyra, Francisca Anriquez, molher cortezan e Eytor
+Fernandes, Indio».
+
+O mesmo Ilusuarte Peris tinha tambem outras casas na «rua das
+Cristaleyras» e ahi eram seus inquilinos uma viuva e um tintureiro. Esta
+rua apparece já nos roes de Christovão (1554?). A de «Ilusuarte Peris»
+deve ter-se formado nos annos que separam a obra do guarda-roupa do
+Arcebispo lisbonense do recenseamento que estamos examinando.
+
+[34] Em qualquer das duas edições da _Pratica Darismetyca_ (1519 e
+1530), impressas por Galharde, se declara este «_frãcez_», passando a
+primeira por ter sido a sua estreia, como chefe de officina. Por igual
+lhe declara a nacionalidade a subscripção do Livro 2.^o das
+_Ordenações_, bem como a do 3.^o, e ainda a dos _Statutos da Ordem de
+Santiago_, não sendo difficil que se registem mais exemplos.
+
+Tambem no _Memorial de Pecados_, de Garcia de Resende, impresso em 1521,
+apparece o appelido d'este impressor composto, em parte, á
+francesa;--«_Gaillarde_», e nas _Ordenações_, «_Galhard_». Além d'estas,
+ha outras variantes, taes como, a da _Cronica llamada el triunfo, &_,
+onde parece que se lê «_Gallarde_», e a do _Cerimonial da missa_, que
+imprime «_Gallardo_». Na _Cartilha que cont[~e] breuem[~e]te_ é que o
+appelido do celebre impressor apparece como veiu a ficar:--«_Galhardo_».
+
+Na diplomatica de D. João III chama se-lhe: «_Germão Galharte_».
+
+[35] Affirma-o, como facto por elle proprio verificado, o conspicuo
+bibliographo Tito de Noronha, _in_ Ordenações do Reino--Seculo XVI,
+_apud_ Archeologia Artistica, _1.^o anno, vol. 1, fasc. II, cap. XI_,
+pag. 76 (1873).
+
+Repetiu a affirmativa _in_ A Primeira Edição dos Lusiadas, Porto, 1880,
+a pag. 80, nota (68), _in fine_.
+
+[36] _Jornal do Commercio_, de 2 de maio do 1871.
+
+[37] Mais outra vez vem a lume o titulo d'este livro quasi quatro vezes
+secular. É como segue:
+
+«Missale secumdum consuetudinem Elborensis ecclesiae noviter impressum».
+
+Na subscripção final lê-se:
+
+«Impressum Ulixipone expensis magistri Antonii Lermet Elborensis
+civitatis librarius per Germanus Galhardum. Anno salutis nostre
+millessimo _quingentessimo nono_. Pridie Kalendas martii. Deo Gratias».
+
+Assim, pelo plausivel alvitre de Tito de Noronha, entre
+«_quingentessimo_» e «_nono_» devia ter-se composto _vigesimo_, falta
+que só quem não sabe quanto é facil de escapar, ainda ao mais attento
+revisor, o salto da composição de um vocabulo entalado entre outros, e
+n'uma data, principalmente, não comprehenderá. No texto se exemplifica
+um curioso similhante caso de nossos dias.
+
+[38] Em sua Bibliographia Historica Portugueza consigna Figanière ter
+visto em um exemplar da terceira Decada da *Asia*, de João de Barros,
+impresso por João de Barreira em 1563, a omissão typographica M. D.
+LIII.
+
+[39] Isto é, em 1513-«Ordenações do Reino--Seculo XVI», pag. 31.
+
+Adiante veremos que a conjectura não se confirma.
+
+[40] Gaspar Nicolas, natural de Guimarães, foi escrivão da tabola de
+Coimbra e das cizas da mesma cidade, como consta de varios diplomas de
+nomeação e quitação, das chancellarias de D. Manoel e D. João III, no
+Arch. Nac. da Torre do Tombo.
+
+Era, pois, como hoje diriamos, um funccionario de fazenda, e, portanto,
+no caso de se occupar da materia que foi assumpto ao seu, desde seculos,
+rarissimo livro.
+
+Tito de Noronha determinou, em 1874, o começo da actividade officinal de
+Germão Galharde, pelo conhecimento que teve do exemplar e edição citados
+no texto; exemplar, pertencente, ou que veiu a pertencer ao sr. visconde
+de Azevedo. Innocencio, porém já em 1859 notava que no catalogo da
+livraria de Joaquim Pereira da Costa andava descripto um exemplar da
+_Pratica Darismetyca_, com a data de 1519. Ao diligente bibliographo,
+parecia, comtudo, _erro_ semelhante data, e aqui vêmos como se enganou!
+
+Germão Galharde, como está registado no começo da nota ^1, de pag. 44,
+fez 2.^a edic. do Tratado sobredito em 1530.
+
+[41] Eis as expressões do fecundissimo polygrapho:
+
+«Duvido se tem V. m. já noticia de outro livrinho que estou imprimindo,
+e o fiz mais depressa do que a _Calsada dos Galhardos_. Chamo-lhe
+Pantheon, terá quatro até sinco folhas, com 2500 versos.»
+
+Bibliot. Nacion. de Lisbôa--MM s.--Fundo antigo, 155. «Cartas de D.
+Francisco Manuel de Mello a Antonio Luiz de Azevedo, com introd. e
+notas, por Edgar Prestage--Imp. Nac. 1911». É a n.^o 24, e o passo lê-se
+a pag. 70.
+
+[42] Este pateo é o primeiro, á esquerda, na rua de Santo Ambrosio,
+tendo o portão que lhe dá entrada o n.^o 17. Depois que os Galhardos o
+largaram, habitaram ahi _as Patinhas_, isto é, as filhas de um Don José
+Patiño que exerceu aqui, em Lisbôa, qualquer cargo official do seu
+país.--Um appelido estrangeiro convertido em assumpto de galhofa.
+
+Morreram _as Patinhas_, e succedeu na denominação do pateo um tal José
+Alexandre, que ahi persistiu até ha pouco.
+
+Hoje, o Pateo é _Villa_, porque os estrangeirismos, ainda que prestem a
+riso, são-nos mais bem acceitos, do que o que sempre teve sabor
+nacional. Já o dizia, ainda que por fórma muito mais conceituosa, no
+seculo XVII, um dos nossos mais distinctos escriptores.
+
+Emfim, a _Villa_ appellida-se «_Domingues_», e voltará a andar por ali
+outra vez o dominio castelhano...
+
+[43] Frontispicio:
+
+«_Reportorio dos tempos em linguajem português.
+
+Foy impresso em Lixboa em casa de Germão Galharde, Anno 1560._»
+
+Fecho:
+
+«_Acabou-se o Reportorio dos Tempos em linguagem português. Agora
+nouamente emendado e impresso cõ muytas cousas acrescentadas de nouo_,
+etc., _O qual foy impresso em a muy nobre e s[~e]pre leal cidade de
+Lixboa, em casa da viuua, molher que foi de Germão Galharde [~q] sancta
+gloria aja. Anno de 1560._»
+
+[44] Reservados da Bibliotheca Nacional--A--443.
+
+[45] Tendo nosso presado amigo, sr. dr. Antonio Baião, publicado no
+Archivo Historico Portuguez, vol. VII, pag. 150 e seg., (1909) o
+extracto desta denuncia, como fazendo parte de suas noticias ácerca da
+_Inquisição em Portugal e Brazil_, appensaremos aos presentes _Estudos_
+o seu teor, na integra, para que nossos benignos leitores possam ajuisar
+plenamente do valor deste documento, não só quanto ao caso que nos
+occupa, senão tambem quanto ao que elle revela, sob o ponto de vista do
+triste estado dos espiritos em Portugal, na época tão bem retratada no
+predito documento.
+
+Ao nosso presado amigo muito agradecemos o grande obsequio que lhe
+ficámos devendo, com a copia deste depoimento, que tão amavel quão
+solicitamente se serviu communicar-nos.
+
+[46] Entre as gravuras frontispiciaes conhecidas do seculo XVI algumas
+ha que foram executadas para obras que não chegaram até nós. Lembra-nos,
+por exemplo, a que se vê na Sala dos Reservados da Bibliotheca Nacional,
+n.^o A--149, que deve ter sido expressamente aberta para obra differente
+daquella em que ali se nos patenteia, e que todavia, se não conhece.
+
+Porventura se terá presente o que, referindo-nos em uma das Notas do
+Cap. IV, á _Primeira Parte da Chronica dos Menores_, de Fr. Marcos de
+Lisboa, se nos offereceu ponderar, a respeito de obras que se sabe terem
+sido impressas, mas que de todo desappareceram.
+
+[47] Nosso venerado Patrono, Diogo Barbosa Machado, já déra noticia
+desta obra, com a competente indicação, _ipsis verbis_, do respectivo
+titulo.
+
+A ella se referiu, repetindo-o, ainda que menos pontualmente, o
+incançavel Innocencio, notando, com assás de razão, as imperfeições
+infelismente commettidas pelo douto Antonio Ribeiro dos Santos, no
+tocante a este particular motivo.
+
+Ultimamente, o Sr. Anselmo Braamcamp Freire deu a descripção da obra, e
+seu titulo, imprimindo este com toda a perfeição, _in_ Archivo Historico
+Portuguez, vol. VIII, n.^{os} 8 a 11 (92 a 95--1911), fielmente
+transcriptos uma e outro dos que lhe deu a Sr.^a D. Carolina Michaëlis
+de Vasconcellos, por copia do exemplar que a S. Ex.^a pertence. É este
+mesmo titulo que está presente na occasião, e se transcreve de
+preferencia aos dois citados _supra_.
+
+[48] Manda, todavia, a Ordenação, no Liv. II, Tit. 61, «que qualquer
+pessoa que de nós tiver Privilegio, de qualquer sorte que seja, ou que o
+tenha por respeito da pessoa com quem viver, em qualquer maneira que
+pelo Privilegio da tal pessoa guardado fôr, tenha lança de _vinte
+palmos_, ou dahi para cima, em sua casa».--Isto é, tenha lança de
+4,^{m}40, ou superior a esta medida.
+
+Vê-se, portanto, do confronto dos dois textos que a medida-padrão destas
+armas diminuira, pelo discurso do tempo, muito perto de 0,50.
+
+Na Europa do XIV.^o seculo, a medida mais commum das lanças com que se
+armava a gente collecticia a soldo de qualquer procer, era, segundo
+Cibrario, _in_ Economia Politica da Meia Edade, de _dezoito pés_, o que
+corresponde a 5,^{m}94.
+
+[49] Carta de 14 de fevereiro de 1530, _in_ Deslandes, Doc. para a Hist.
+da Typ. Portug.
+
+[50] Este vocabulo, e o seguinte em abreviatura, «morador», denunciam
+uns restos de barbarismos de concordancia, que ainda nesta epoca já
+adiantada do seculo, e até no seguinte, transparecem aqui, ali, no
+commum falar e escrever.
+
+Reinava uma como especie de preguiça em acommodar á fórma feminina os
+vocabulos em _or_, e um que outro mais.
+
+A materia foi superiormente versada pelo tão infeliz, quão abalisado
+philologo Francisco Dias Gomes, que em sua «_Analyse sobre a elocução e
+estylo de Sá de Miranda_», deu, entre varios exemplos, um, com o
+primeiro dos dois apontados vocabulos, tirado de Ruy de Pina:--«E a
+entregou aa Ifante Dona Briatriz como _titor_ que era do duque Dom Diogo
+seu filho.»
+
+Correlativamente, os determinativos não acompanhavam a fórma feminina
+que designavam, como n'aquelle caso que nos occorre do informador de
+Christovão Rodrigues de Oliveira: «_Os_ dignidades que ha na See.»
+
+A Memoria de Francisco Dias lê-se entre as de Litteratura da Academia,
+tom. IV, pag. 26 e segg.
+
+[51] A freguezia de Santa Engracia só teve Breve de desannexação da de
+Santo Estevão em 1568. Só depois de 1606 é que o edificio parochial foi
+patente ao culto. O parocho de Santo Estevão pastoreou durante _trinta e
+um annos_ ambas as freguezias cummulativamente; isto é, desde 1576, anno
+em que começou, emfim, a vigorar a desannexação, até 1607, em que havia
+já na nova parochia cartorio proprio, e independente da parochia
+_mater_. Veja-se o que escrevemos no vol. VIII, pag. 5, do Archivo
+Historico Portuguez--1910--Art. _As Tenças Testamentarias da Infanta D.
+Maria_.
+
+[52] Já temos advertido que o livro do guarda-roupa do Arcebispo de
+Lisboa não pode ser da data que anda em costume attribuir-se-lhe;--1551.
+O proprio livro contém em alguma de suas paginas, ao referir-se á
+Misericordia, e ás esmolas que esta Instituição recebia, a confirmação
+do que affirmamos.
+
+Como, porém, o auctor conta ter sido no anno de 1551 que o Arcebispo lhe
+commetteu o encargo de fazer o livro, nada se oppõe a que desde este
+anno elle começasse a colligir os materiaes para elle, dirigindo-se aos
+parochos, para alcançar os «roles» das vias publicas, feitos--é
+evidente--á face das _desobrigas_. E como entre encommenda-los e o
+conseguir have-los á mão sempre mediaria algum tempo, sendo 25 os
+parochos collaboradores n'esta obra de louvores ás grandezas e
+magnificencias lisbonenses, pareceu-nos que pelos termos que empregámos
+alcançariamos exprimir com exacção o nosso pensamento.
+
+[53] E portanto _atafaneiro_. É vóz arabica;--«_atahana_».
+
+[54] O traçado descrito e os pormenores são os que resultam da leitura
+do passo respectivo no Tom. VIII dos _Elementos para a Historia do
+Municipio de Lisboa_, de nosso tão distinto colega, sr. Freire de
+Oliveira, aliada á do muito elucidativo texto tecnico da valedora
+monografia _A Cêrca Moura de Lisboa_, do nosso prestante amigo sr.
+Vieira da Silva.
+
+Nossa, é só a conjectura de que os edificadores da cêrca de D. Fernando
+apoiariam o postigo de Santo André á torre que a _barbacã_ ou cinta
+muralhada que circundava o monte do Castello ali poderia ter,
+aproveitando os lanços d'esta para ligarem á velha a nova cêrca,
+partindo, para a continuação da obra, do baluarte de S. Lourenço. Resta
+uma pergunta:--Tinha _toda_ a muralha que abraçava o monte do Castello,
+desde a Porta de D. Fradique até á porta da Alcaçova ou de S. Jorge ou
+vice-versa, antiguidade egual á do baluarte de S. Lourenço? Por outra, é
+tudo obra mourisca, ou anterior, se tal baluarte o é tambem?
+
+[55] Villa Quente, que um desagregamento do solo pendurado do monte do
+Castello subvertera em 1531, e passa, a nosso vêr, menos
+justificadamente, por um _tremor de terra_ mais, a ajuntar á longa lista
+dos que tem affligido Lisboa, no decorrer dos seculos, era um punhado de
+humildes casas, semeadas entre o começo da actual calçada de Santo
+André, e o «caminho que ía ao postigo do Monis», diante de cuja entrada
+havia uma «cruz de pao». A rampa que o pequeno povoado occupava para o
+N. da cinta muralhada que circumdava o monte do Castello, e o abrangia
+como um annel, em toda a sua circumferencia, estendia-se pelo limitado
+espaço que servia de recosto á cêrca de Santo Antão (Colleginho), vindo
+confundir-se com os meandros de betesgas e encruzilhadas que o separavam
+da Mouraria, constituindo o que alguma vez se chamou «o bairro da rua
+suja».
+
+[56] _Historia de Portugal_, vol. I, 3.^a ed. MDCCCLXIII; nota XXIII, a
+pag. 531.
+
+[57] Aforamento de um chão junto da Porta de Santo André, da banda de
+fóra, no principio da rua que vai da dita Porta para o postigo de Sam
+Lourenço, feito pela cidade ao dr. Affonso Figueira, onde este
+magistrado edificara umas casas que partiam da banda do Poente _com muro
+e torre da cidade, &_.
+
+Esta _torre_ é a que suppomos existir já na barbacã do Castello, no
+angulo formado pelo lanço que devia descer da Porta de D. Fradique a
+entestar com a parte que se continuava na rua que ia ao baluarte de S.
+Lourenço.
+
+Deveria jazer pela parte posterior do actual _Passo_, e terá sido
+aproveitada para guarda do Postigo de Santo André. Dominava assim a
+aspera calçada que se lhe desenrolava em frente, e vinha ligar-se á
+muito antiga «Rua dos Cavalleiros.»
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 11| Bernaldim | Bernardim |
+ |#pág. 16| testemunh | testemunho |
+ |#pág. 22| ondo | onde |
+ |#pág. 22| admtitir | admitir |
+ |#pág. 46| typographfa | typographia |
+ |#pág. 57| quo | que |
+ |#pág. 66| persuadido | persuadidos |
+ | | | |
+ |#nota 38| Portugteza | Portugueza |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+
+Os símbolos de igual (da pág. 81) foram substituídos por traços longos
+('--').
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Noticia de livreiros e impressores de
+Lisbôa na 2ª metade do seculo XVI, by José Joaquim Gomes de Brito
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LISBÔA ***
+
+***** This file should be named 24657-8.txt or 24657-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
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+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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+will be renamed.
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
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+
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+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
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+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
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+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
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+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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