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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:13:54 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Livro de Elysa + Fragmentos + +Author: João de Lemos + +Release Date: February 19, 2008 [EBook #24646] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O LIVRO DE ELYSA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +JOÃO DE LEMOS + + +O + +LIVRO DE ELYSA + +Fragmentos + + + + + * * * * * + + + + +COIMBRA + +Imprensa da Universidade + +1869 + + +ADVERTENCIA + +O Ill.^mo e Ex.^mo Sr. João de Lemos Seixas Castello Branco dignou-se +conceder-me licença para publicar este escripto, já impresso na _Revista +Academica_, jornal litterario e scientifico publicado nesta cidade em 1848. + +Coimbra, 24 de Agosto de 1869. + + _J. Mesquita._ + + + + +O LIVRO DE ELYSA + +FRAGMENTOS + + +I + +Elysa!--Vou escrever um livro, mas um livro só para ti. + +Ha de ser a traducção do pensamento revoando caprichoso por todo esse +universo; ha de ser o monumento de uma longa saudade ingenhosa a não +desperdiçar uma hora de remanso, a não sorrir nem suspirar senão comtigo; +ha de ser um jornal do coração, de que tu serás o unico assignante, o unico +leitor, e mais ainda o unico entendedor; ha de ser o desapertar incerto de +ramalhetinhos da minha musa melancolicamente suave ou desesperada, ha de +ser, emfim, o exercicio de uma devoção sublime do amor, será talvez o de um +sacerdocio mysterioso, será de certo o de um martyrio de ausencia pungente. + +Anjo!--este livro deve ser muito amado por ti. + +Quero-o á cabeceira do teu leito, no teu toucador, na mesa do almoço, no +cestinho da tua costura, nos teus passeios, no theatro, no baile, na côrte, +na provincia, nos risos, nas lagrimas, na esperança, no desconsôlo, na +vida, na morte. Em qualquer parte, em qualquer circumstancia que te +encontres, abre-o; abre-o com a crença supersticiosa do amor e da ternura, +que nelle beberás uma superstição amorosa e terna, para alegrar-se e para +gemer comtigo. + +Anjo!--este livro deve ser muito amado por ti. + +Mas olha que este amor tão pedido para elle não consiste na presença inutil +e preguiçosa, ou no habito indifferente e quasi que importuno, não: quero-o +sempre ao teu lado, quero-o ainda mais, muito mais, ia dizendo unicamente +no teu coração. + +Elysa! é com este nome que me apraz escrever-te, porque uma imprudencia, um +acaso natural da minha vida de mancebo podia revelar com o manuscripto a +palavra sacramental do meu segredo:--o véo, que é demasiado diaphano aos +meus olhos, será impenetravel aos de estranhos, e para ti é uma prova do +meu egoismo ou soffreguidão, que te agradará. + +O rei formosissimo de todos os astros nem se offende nem fica menos bello, +porque a sombra ligeira de uma nuvem lhe passou pela frente. + + * * * * * + +Mulher-typo! divindade talvez, ou sonho, ou illusão, ou feitiço, ou sombra, +realidade, ou nada--eu te amo! E sabes tu como é este amor? escuta: + +Já viste duas pombas a devorar o espaço com as brancas azas de seda, +correndo, voando, internando-se por esse azul da cupula immensa, ou +pousando á beira d'um lago de saphiras, ditosas na sua loucura, loucas na +sua innocencia, innocentes nos seus carinhos?--é o amor da pomba; é o meu +amor. + +Já viste ao pé dos corregos do inverno duas plantas indolentemente +enroscadas, teimosas, viçosas, purissimas, cheias de gozo sem futuro, +cheias de futuro no gozo?--é o amor da planta; é o meu amor. + +Já viste como a rosa, voluptuosamente desabrochada no tugurio verde da sua +roseira, é, ao despontar da aurora, tão festejada, tão conversada, tão +abraçada, tão beijada e tão adorada pela briza?--é o amor da briza; é o meu +amor. + +Já viste uma criancinha, que se anda embriagando de folguedos no amanhecer +da existencia, e que logo os foge, que os engeita desdenhosa, porque a mãe +lhe choveu entre elles, e que desfeita em sympathia risonha, em meiguice, +em requebros lhe entreabre os braços e lhe pula ao collo?--é o amor da +criancinha; é o meu amor. + +Já viste essa mãe carinhosa errar anhelante, desalinhada, com os pés e os +braços nus, o cabello desatado, os olhos em lagrimas, o peito a +ondular-lhe, os labios roxos e convulsos, a voz embaciada de suspiros, toda +ella uma louca, ou antes um mysterio, toda ella resumida num sentimento +indizivel, sublime, divino, a calcar abrolhos, a transpor abysmos, a galgar +têsos, a olhar, a escutar, a inquirir homens e pedras, a consultar pégadas, +a ferir o rosto com uma das mãos, a esmagar os seios com a outra, e tudo em +busca do filhinho, que se lhe perdera?--é o amor da mãe carinhosa; é o meu +amor. + +Já viste o proscripto da patria, assentado tristemente nos pincaros de +serra estrangeira, comparando cada pedaço de terra, cada arvore, cada +penedo, cada passaro que lhe descanta, cada choupana, cada homem, cada +povo, e os ares, e o horisonte, e as nuvens, e as estrellas, e o sol, e o +céo; bradar depois pela patria, só pela patria?--é o amor do proscripto; é +o meu amor. + +Já viste o marinheiro, nascido e criado nas aguas, identificar-se com +ellas, namorar-se do seu navio, brincal-o, enfeital-o, acaricial-o sempre, +beijar-lhe os cabos e velame, os mastros e o leme, contente vagar pelo +estendal das vagas, sorrir ás procellas, sorrir ás bonanças, anhelar do +longe uma ilha toda verde, que lhe está acenando na alma, um porto +fagueiro, que lhe está alvejando no pensamento, uma estrella da noite, que +lhe está radiando no coração; e atirar-se assim de encantado por esse mundo +sem raias, a espriguiçar-se nas sensações, a sorver delirios e melancolias +suavissimas, ainda que rudes e profundas; ora cavando o pelago com olhos +severos, ora analisando o concavo d'um tecto infinito com olhos +meditadores; e naquella soidão de que é monarcha, com as suas endeixas e +com o seu alaúde, apinhoando lá dentro d'alma cada vez mais desprezos da +terra, mais orgulho e fanatismo pelas suas campinas de crystal?--é o amor +do marinheiro; é o meu amor. + +Já viste o captivo encostado ao marco de pedra, quasi tão quedo como elle, +com a fronte enrugada e em cada ruga um concentramento de paixão, com a +vista cravada no ferro, que lhe aperta e ennodoa a perna, uma vista tão +cravada, tão pegada, que a disseras um martello alli fundido por não poder +despedaçar aquelle annel; e uma lagrima a resaltar-lhe das faces ao ferro, +como se fôra o liquido que havia de dissolvel-o, e a mão estendida e tesa, +e depois um sorriso, um sorriso para a liberdade, para aquelle coração +outra vez a bater sem abafamentos, para aquelles olhos outra vez erguidos, +para aquelles braços outra vez seus, para aquelles pés outra vez libertos, +para aquelle ar que respirava, para aquella casa, aquelles amigos, aquella +vida, aquelle mundo, que lá lhe ficou?--é o amor do captivo; é o meu amor. + +E já viste, finalmente, o condemnado a quem o vento do sepulchro sacode +sobre a escada do cadafalso, que pende para a morte como a hastea que se +murcha, e que d'alli, de sobre esse triangulo erguido para vergonha da +humanidade, escarneo de Deos, e epigramma da civilização, d'alli arremessa +uma vista infinita, insondavel, incomprehensivel para a turba, que +brutalmente o festeja, mas para a turba, que elle nunca mais ha de ver: +para o mar, que lhe rebrame ao pé como se cantara uma nenia execravel, mas +para o mar, que elle nunca mais ha de ver; para os céos, que recamados de +sombras como que lhe toldam a esperança desapiedados, mas para os céos, que +elle nunca mais ha de ver; para a terra, que lhe floreja ao longe alegre e +formosa como se o quizera insultar no ultimo transe, mas para a terra, que +elle nunca mais ha de ver; para as memorias d'um passado talvez prenhe de +sangue e de remorsos, mas um passado, que elle nunca mais ha de ver; e essa +vista resumida, em fim, a luctar entre a mortalha e o vestido, entre o +carcere e a corda, entre a corda e a tumba, entre a morte e a vida, alli +lhe foge toda para a vida; para a vida, que lhe matam, para a vida tão +querida, tão linda e tão doce olhada do cadafalso, para a vida suspirada, +gemida, e anciosamente chorada d'aquella altura tremenda, para a vida +porque é sua, para a vida porque é boa, para a vida ainda que fora má?--é o +amor do condemnado; é o meu amor. + +E como o amor da pomba é innocente a amar a pomba, como o amor da planta é +viçoso a amar a planta, como o amor da briza é mimoso a amar a rosa, como o +amor da criancinha é risonho e meigo a amar a mãe, como o amor da mãe é +desalinhado e louco a amar o filho, como o amor do proscripto é gemedor a +amar a patria, como o amor do marinheiro é profundo, melancolico e +dosprezador a amar os mares, como o amor do captivo é meditado e desejoso a +amar a liberdade, como o amor do condemnado é vehementemente desesperado e +terrivel a amar a vida, é assim o amor do poeta a uma mulher;--é o meu +amor. + +E tu és a minha pomba, a minha planta e a minha rosa, a minha mãe e o meu +filho, a minha patria e os meus mares, a minha liberdade e a minha +vida!--Mulher! eu te amo, eu te amo! + +Agora, Elysa, que já te paguei as primicias do livro, não só como senhora +d'elle, mas como senhora da alma que o dicta e da mão que o escreve; agora +que já te defini o meu amor, que mil vezes ainda será aqui definido, e que +nunca o virá a ser ao cabo; agora que tu chegaste, de certo, á janella do +teu quarto, e te embeveceste nos encantos da noite a recordar-te dos meus +versos, deixa que me volte para a minha lyra. + +São os meus segundos amores: é ella tão minha e tão formosa como tu; é a +minha companheira e consoladora; é quem me ha de ajudar neste trabalho, que +te destino:--plantou-m'a Deos dentro da alma para saber amar-te, como te +plantou a ti no mundo para que te amasse. + +Quero muito á minha lyra. + +O meu primeiro pensamento ao acordar é sempre teu, o segundo é sempre +d'ella; nas minhas meditações e nos meus sonhos, nos meus risos e nas +minhas lagrimas, vindes sempre ambas tão casadas, tão unidas, tão irmãs, +que eu não sei se és tu que me trazes a lyra, se é a lyra que me conduz a +ti. + +Quero muito á minha lyra. + +Vou conversar com ella, e preludiar-lhe ao acaso uns sons desleixados, que +lhe são queridos, um vagar delicioso por veigas da phantasia, um esquecer a +delirar por saudosa noite, á margem do Mondego, sob a rama de um salgueiro. + +E que mimoso luar de primavera ahi se refrange, e espalha uma poeira de +prata na superficie das aguas! + +É por uma d'estas noites suavissimas de luar que a natureza tem toda a +lindeza de mulher. + + Canta, vento do sul, teus doces cantos + Por concavos do val adormecido, + Tange n'harpa de Deos, nessas folhagens, + Da noite as harmonias. + Farta agora, Mondego, com teus beijos + As boninas, que tremulas desmaiam, + Que se morrem por ti na sêde louca + De lubricos prazeres. + Banha-me a accesa fronte, meu salgueiro, + De meiga fresquidão, que ha de inspirar-me + Desassombros do sol, da luz, do dia, + Que se afogou nos mares. + E tu, filha d'amor, candida lyra, + Um abraço dos teus cinge ao teu bardo, + Outro mais.... este só... agora folga, + Folga por céos e terra. + + + Amo o tibio clarão do argenteo disco, + Porque a luz do luar não cega os olhos, + Como faz a do sol, porque me deixa + Nesse lago d'anil, que vai sulcando, + Namorar-lhe a belleza; + Amo a languida côr do ingente espelho, + Onde os olhos d'amantes vão casar-se; + Onde crêra talvez Grego ingenhoso + Que o velho Jove, requintando as galas, + Ia mirar-se, rindo. + Eu amo, já pagão, na branca esphera + Da casta Delia envergonhado riso, + E já lá finjo negrejando os bosques, + Onde co'a turba caçadora exerce + Seu culto pudibundo. + Amo as rosas do céo, que se emmurchecem + Quando a lua vaidosa as vai pisando, + Amo as nuvens co'os seios bipartidos + De respeito alastrando eburnea senda + Á rainha dos astros. + Amo a grenha voando ao meteóro + Quando pallido foge ante os seus passos, + Amo tudo o que assim lhe paga um feudo, + Outro feudo melhor, que não meus versos + Engeitados da vida. + + Noite! noite! que mão te ha desdobrado + Tão risonha e fagueira assim no mundo? + Do templo do Senhor és véo, que os anjos + De infindos orbes d'oiro recamaram? + És lavrado padrão da Omnipotencia, + Memoria erguida em campos do infinito? + Milhões de soes, que ostentas, serão tochas + Ardendo ante o teu Deos no altar immenso? + Serão letras d'amor com que lhe escreves + Nessa pagina azul o ignoto nome? + Tuas nuvens que são? são do thuribulo, + Que agitam cherubins aos pés do Eterno, + Queimado incenso a desfazer-se em fumo? + Noite! noite! quem és? d'onde has tu vindo + A poisar-te na terra entre mysterios?.... + + Não sei que ternas meiguices + Falla a noite ao coração; + Minhas horas mais felices + As horas da noite são: + Com ella na solidão + Suspiro amor e saudades, + E com ella nas cidades + Não largo a lyra da mão; + Suspiro, canto d'amores + Entre os homens, entre as flores + De noite, de dia não; + Porque a noite tem meiguices, + Porque as horas mais felices + As horas da noite são. + + + Como é lindo este Mondego + A brincar sobre esta arêa! + Como é lindo o bosque verde, + Que as verdes margens sombrêa! + + No seu crystal derretido + Lá vem, á luz do luar, + Outro Narciso, um salgueiro, + Um salgueiro a namorar. + + Outra Echo, a briza doida, + Que foi por elle engeitada, + Anda carpindo, e zelosa + Traz a limpha alborotada. + + Cuida que mora lá dentro + Escondida uma rival, + E por dar-lhe invejas solta + Perfumes, que traz do val. + + Raivosa tolda co'as azas + O liso espelho brilhante, + Cospe co'as azas, raivosa, + O Mondego ao seu amante. + + E o pobre, por si perdido, + Sacode a fronte singela, + Murmura um ai; mas teimoso + Busca n'agua a imagem bella. + + Como é lindo este Mondego + A brincar sobre esta arêa! + Como é lindo o bosque verde, + Que as verdes margens sombrêa! + + Como a fonte d'Ignez soluça ao longe! + Parece inda chorar-lhe a morte escura, + Osculando na pedra eternas manchas + Do sangue espadanado[1] + Como os cedros a côma baloiçando + Inda vergam de dor, inda meditam + No caso triste de memoria digno, + Que desenterra os mortos! + Alli d'um terno amor ternos momentos + N'aza do tempo languidos fugiram, + Naquelle engano d'alma que a fortuna + Não deixa durar muito! + Dos suspiros de Ignez na penedia + Inda os echos vagando ás horas mortas + Murmuram brandos ais, e aos sons da lyra + Respondem gemebundos! + + Quero muito á voz solemne + Dos echos da solidão; + São amigos invisiveis + Com quem falla o coração. + + É tão doce nestas horas + Poder assim conversar, + Ouvir do nosso queixume + Novos queixumes brotar! + + Chamar aquella que é longe, + Chamar aquella que se ama, + E o som d'amor e saudade + Não morrer na voz, que a chama! + + Sentar-me ao pé d'esta fonte, + Que tão pura se deslisa, + Clamando--Elysa!--e dos montes + Outra voz clamar--Elysa!-- + + Quero muito á voz solemne + Dos echos da solidão; + São amigos invisiveis + Com quem falla o coração. + + Mas quem pode formar taes sons no bosque? + Será perdido amante a penar magoas, + Desprezos da que amou, desdens de bella, + Injurias d'um rival, ou será nympha + Que um ingrato engeitou, e alli chorosa + Inda, louca d'amor, serve aos amores? + Oh! falla, quem és tu, filho da selva?.... + Silencio... respondeu... maldicto vento! + Que só pude escutar--filho da selva! + Embora! fique embora isso em segredo,[2] + Saiba-o sómente Deos! + Tambem segredos, que meu peito encerra, + Só se dizem nos céos. + A turba ha de escutar-me, e cada nota + Será nota d'amor! + Mas ouvidos da turba não entendem + Carmes do trovador. + Emmudece-te, ó lyra; e tu, ó noite, + Apaga o teu luar, + Das trevas no pallor deixa-me um sonho + Com Elysa sonhar. + +E a lua ja roça as cumiadas do monte, e pouco a pouco se enterra por elle +abaixo... ahi ficam agora na escuridão as margens do Mondego, tão saudosas +como amante feliz na hora de um _adeos_, sellado com beijos... ahi se +empoleiram as auras pelas hasteas do choupal, cançadas de abraçar a roxa +fronte das violetas... já não se lhe escuta o frémito das azas nos seus +brincos innocentes.... faz-se um silencio longo em toda a natureza... e só +as rãs veladoras continuam na voz unisona e aguda o hymno da creação! + +Elysa, é tempo de pedir a Coimbra uma casa, á casa um leito, ao leito um +somno, ao somno a tua imagem. + +Como o teu livro, Elysa, é fructo das horas roubadas ao remanso, e talvez +ao estudo, nesta bem-aventurada Coimbra, quero fallar-te de Coimbra! + +Cada povo tem a cidade da sua poesia, da sua imaginação, dos seus amores; +cada povo aponta para uma terra, que a tradição vestiu de galas, e diz--lá, +lá! oh! que não ha nada mais bello! + +O portuguez aponta para Coimbra. + +É das recordações d'esta cidade que o velho se nutre, e nutre os filhos ao +serão do seu lar:--quando eu estava em Coimbra! eis-ahi o exordio de todas +as aventuras de um pae; e a saudade, tingindo de roxas e mimosas côres todo +o discurso, engrandecendo tudo, louvando tudo, e chorando por tudo, leva o +ancião á peroração de rigor--não ha já tempo como o meu tempo de Coimbra! + +Para o amor maternal é a terra dos seus sustos, porque é a terra dos +rapazes; mas nesses mesmos sustos, no longo esperar do abraço filial +encarnou-se não sei que doce sympathia para aquella cidade, que faz chorar +e rir toda a casa; é o gosto amargo da saudade, é o + + Delicioso pungir d'acerbo espinho[3] + +Dizei a um aldeão que lhe ides contar uma historia de Coimbra, e logo o +tereis quedo, pendente de vossos labios, já certo do maravilhoso, ou do +travesso do vosso conto. + +Perguntae ás amantes por Coimbra: haveis de vêl-as córar, como tu agora +córaste, Elysa; e depois responder com um suspiro envergonhado--oh! +Coimbra!.... e o resto que lá fica em seu pensamento será uma inveja, mas +não é desamor para a terra que anda sempre casada ao amanhecer e anoitecer +de seu coração. + +Perguntae ao mancebo, que só ouviu o que vai pelas margens do Mondego, sem +nunca ter pisado as suas arêas de oiro, perguntae-lhe por seus desejos, e +elle vos dirá simplesmente--se eu podesse ir a Coimbra! e ahi deixa +resumido o scismar de longas horas. + +Até a sciencia e as letras olham sempre para Coimbra como para a terra da +promissão;--a nossa esperança, dizem ellas, cada dia, cada anno, cada +seculo, a nossa esperança está lá! + +Se aqui vierdes, ouvireis, é certo, a muitos dos que se assentam ao caír da +tarde no _Penedo da Saudade_ a curtir magoas de ausente, ouvir-lhe-heis +maldições contra Coimbra; não os acrediteis, não; é aquelle absurdo do +coração humano, é aquella saciedade na posse, é o nunca-satisfazer dos +desejos do homem, o desprezo do que já tem, trocado pelo anhelar do que +ainda espera; mas, se fordes inquirir esses mesmos, uma hora antes de +deixarem Coimbra para sempre, ou elles não têm alma afinada para as +melodias da terra, ou elles vos dirão com as lagrimas nos olhos--podera eu +nunca deixar Coimbra! É que lhes ficam aqui as horas mais descuidosas, mais +doces, mais felizes da mocidade; é que lhes ficam aqui as amizades, que não +morrem mais, a liberdade, que mais não volta, e estes ares purissimos, este +céo purissimo, estas aguas purissimas, esta Coimbra unica! + +Ah! como lhes ha de apparecer em sonhos este archanjo de pedra assentado no +seu tapete de flores! Coimbra!... hão de descobril-a de longe, vestida de +branco, morbida, formosa, voluptuosa, modesta, a metter seus pés de marmore +na prata do Mondego; a devassar o seio das nuvens com o capacete da sua +torre, como se fôra estatua de Minerva; com seus braços estendidos a +afogarem-se em açafate de esmeraldas; com a sua ponte orlada de vultos +negros, que se debruçam na corrente como os salgueiros da margem; com a +cintura azul de mil outeiros, que ao longe fecham o seu largo horisonte; +com toda esta belleza, este encantamento, esta feminidade de donzella, +esquecida na relva d'um prado a tanger um hymno d'amor, com os olhos no +céo! + +Ahi tendes então os blasphemos arrependidos: Coimbra não é só a +tortuosidade e estreiteza de suas ruas, não é o som lugubre do seu sino +fatal, não é o suspirar por quem vive longe, não é nada d'isto; é a terra +das suas saudades, é a saudade da sua poesia, é a poesia da sua vida! + +Se um d'esses homens for poeta... e quem ha que o não seja depois do +baptismo da sombra d'estes salgueiraes, do perfume d'estes campos, do +crystallino d'este ambiente, da doçura d'estas aguas, da verdura d'estes +montes, da fresquidão d'estas brizas? aqui a poesia bebe-se pelos olhos, +pela bocca, pelos ouvidos, sem o querer, sem o cuidar, sem o sentir; cada +pedra, cada tronco leva inspirações ao amago do seio, que desatina a cantar +como a zagala ao desabrochar do dia, ou como a avesinha, que saúda a +primavera; aqui murmura melodias o ciciar da aragem nas flores da collina; +o scintillar da lua quando num tecto de saphira pende accesa como lampada +de sanctuario; o ardor do sol, quando se alastra em diamantes por cima do +estendal da arêa; o echo a responder sonoro ás palmas d'um folguedo; a vara +do barqueiro a resvalar nos seixinhos do rio; o lavadouro da _tricana_, que +geme debaixo dos seus golpes, menos duros porque os acompanha uma cantiga +de amores!--até os nomes dos sitios têm aqui uma suave harmonia, como +preludio de canção, que deixa adivinhar-lhe toda a lindeza!.... Mas não +vês, Elysa, como eu vou longe do que ia dizendo? era Coimbra, que me +arrebatava nas ondas da sua poesia; foi uma nova prova do seu +poder;--voltemos porém ao primeiro proposito. + +Se um d'esses homens for poeta, irá assentar-se no limiar da sua porta, +quando a tarde vai caíndo nos braços da noite, e alli o vereis a cantar; +segui-lhe o canto... não ouvis? aqui fallou d'aquella fonte, + + Que lagrimas são a agua e o nome amores;[4] + +alli gemeu com a desditosa _Castro_ á sombra dos cedros seculares; agora um +som festival lhe escapa ao recordar-se da _Lapa dos Esteios_, onde se lhe +escoaram deleitosos momentos por sobre alcatifa de violetas e boninas; logo +suspira nas cordas da harpa aquella _Maria Telles_ tão sem ventura, a quem +a mão do esposo ceifa a rosa da vida no descuido da noite; lá se lhe +accende o estro na labareda do enthusiasmo, porque se recordou d'aquelle +cavalleiro d'antes quebrar que torcer,[5] que fecha as portas da cidade ao +rei cheio de vida e de poder, e leva as chaves d'ellas ao rei sem vida e +sem nada; eil-o depois encostado ao tumulo de D. Sisnando, a misturar nos +seus versos o saudoso da religião, inspirado pela fronte carcomida da +cathedral veneranda que viu nascer a patria, e que tem visto morrer tantos +seculos! + +Olhae como vos diz que Coimbra é + + Cidade rica do sancto + Corpo do seu rei primeiro, + Qu'inda vimos com espanto + Ha tão pouco tempo inteiro + Dos annos que podem tanto.[6] + +Silencio... não vêdes como lhes resumbram no seu cantico uns nomes tão +feiticeiros... + + _Da saudade o penedo!_ que amores + Á minh'alma, aos meus olhos não é! + Lindo cesto de graça e verdores, + Verde ramo do monte ao sopé. + + _Dos suspiros a gruta_ mais longe + Recolhida se foi meditar. + Só poeta, só ave, só monge + Póde á gruta os segredos vulgar! + +E aqui lhe escapa depois no fundo arrebatar do pensamento grave um nome +grave como elle--o _Penedo da Meditação!_ mas de volta para a cidade pára +diante da gradaria soberba de soberbo jardim erecto pelas mãos sagradas +d'um Bispo[7] e exclama + + Salve, terra mimosa! a ti meu canto + A ti meu coração, minhas saudades! + +E o echo, ou de cortez, ou de agradecido, responde-lhe de dentro do +arvoredo o derradeiro verso + + A ti meu coração, minhas saudades![8] + +Que é tudo isto, Elysa? que é todo esse cantar d'aquelle homem já longe de +Coimbra? Não é, não póde ser, não ha de ser nunca outra coisa senão o +transumpto das perolas, que a patria de _Sá de Miranda_ lhe engastou na +alma, e que a memoria ha de vasar sempre do seu thesouro todas as vezes que +o poeta pegar na lyra. + +Elysa, eu amo muito esta formosa terra! + +É o coração de Portugal, onde á vontade se revolve o seu sangue mais +ardente. Que viver este do mancebo com o mancebo! + +Crença nas palavras e nos sentimentos; sentimentos e palavras cheias de +verdade e de força; amor e enthusiasmo por tudo o que é nobre e grande; +confiança nas idéas e nos homens; communhão quasi primitiva de bens e de +tudo; homogeneidade de tendencias; existir nos outros, pelos outros, e para +os outros; toda a virtude de quem entra na vida com muita fé no futuro: +eis-ahi o viver do mancebo com o mancebo debaixo d'este céo de Coimbra! + +Elysa, eu amo muito esta formosa terra! + +Depois de ti, da minha lyra... não, não quero que Coimbra seja o terceiro +affecto do meu coração, mas quero querer-lhe bem, porque é um querer que +ella merece. + +Oh! se te eu vira um dia, Elysa, assentada comigo nas ruinas do mosteiro +da _Rainha Sancta_[9], e d'alli, depois de haveres passado teu alvo braço á +roda do meu pescoço, te esquecesses a contemplar Coimbra, como Coimbra se +esquecera, tambem com seu braço lançado ao pescoço do monte, a pasmar na +tua face d'anjo; se a viras tão linda a retratar-se no Mondego e a +sorrir-se para o céo, oh! que tambem tu havias de amar muito Coimbra! + +Elysa, eu bem comprehendo que tu antes quizeras que o teu amante ausente +praguejasse a terra que lhe rouba a sua Elysa; crês que a delicadeza do +sentimento pedia antes isso, seja assim: mas consente aos poetas mais uma +liberdade, deixa-os dizer o que os outros calam por traiçoeiros; não vale +mais esta franqueza? O coração foge para o _bello_ como a mariposa para a +luz; que culpa tem elle? que póde elle, se ha de por força amar o +_bello_:--é um amor fatal. Mas, se te queres vingar d'esta fatalidade, +Elysa, vem, vem comigo assentar-te nas ruinas do velho mosteiro, que tu +olharás para Coimbra, e eu olharei para ti. + + +II + +O nascer e o morrer d'um dia formoso; a profecia do sol e o seu derradeiro +adeos; o ensaiar dos canticos das aves, e o desfallecer d'esses canticos, +que passam e morrem nas tranças da floresta; as aguas, que reflectem o raio +que se alevanta; as aguas que reflectem o raio que se deita; os echos que +despertam; os echos que adormecem; a treva que se adelgaça e a treva que se +condensa; o crepusculo da manhã e o crepusculo da tarde, são duas horas +gemeas nos encantos, na suavidade, na doçura, nas inspirações. + +Elysa, será um erro, uma superstição talvez; mas eu creio que todo o +pensamento nobre, grande, generoso, sublime, que tem brotado da cabeça do +homem, numa d'estas duas horas é que foi concebido. + +Quando o homem, á luz duvidosa da manhã ou da tarde, se assenta no viso +d'um monte, na alcatifa d'um valle, na margem d'um rio, no limiar d'uma +porta, e d'alli, pairando com a vista entre a terra e o céo, abrange todos +os objectos sem se fixar em um só; ouve todos os sons sem escolher um só; +sente todas as sensações sem definir uma só; quando o coração, enfeitiçado +nestas horas pelo incerto da luz, dos objectos, dos sons, e das sensações, +parece embalar-se no peito e adormecer, oh! então, Elysa, então é que o +homem conversa com a Divindade, então os ouvidos da creatura ouvem as +palavras do Creador! + +É por uma donosa madrugada que eu agora escrevo no teu livro, Elysa: é ella +que do seu throno de verdura me está dictando este capitulo;--que não possa +transportar eu para estas paginas essa pagina tão bella do livro do Eterno! +Ainda o sol não desengastou das ondas o seu rosto em braza; uma luz frouxa, +crystallina, mimosa, perfumada, espraia-se, como um regato, por sobre toda +a natureza, enrosca-se á volta de todos os seres alastrando de esmeraldas a +terra e de saphiras o céo; aquelle murmurar monotono, pesado, o enfadonho +do dia ainda se não escuta; e as brizas folheando na selva levam de cada +folha um som, e lá nas alturas compoem um hymno para Deos! + +Elysa, deixa que os ricos da fortuna e os poderosos da terra nasçam, vivam, +e morram sem nunca terem visto a face da madrugada; fatigou-os a noite no +bulicio dos saraus e das orgias, deitaram-se quando o dia se alevantava; +deixa que elles ignorem, que elles não gozem o brilho suavissimo da mais +rica perola do diadema do mundo, deixa-os, e vem tu comigo assistir em +espirito á festa de todos os dias, ao desabrochar da madrugada: + + Eil-a trajando verdores + A linda mãe dos amores, + Com seus volateis cantores + Pelos campos a folgar; + Eil-a folgando na mata, + Que nas aguas se retrata, + Nas aguas de lisa prata, + Na prata do liso mar. + + Salve, rainha formosa! + Festeja-te o lirio, a rosa, + Dos jardins a mariposa, + Do trovador a canção; + Festeja-te a pastorinha, + Que nas côres te adivinha + Um pensamento que tinha, + Que tinha no coração. + + D'aldêa o sino te chama, + E o moço, que deixa a cama + Porque vai ver a quem ama + Ao pé da encosta d'alem; + Suspiram-te sempre os montes, + Abraçam-te os horisontes, + Choram-te rios e fontes, + Nas fontes d'amor, que têm. + + Bemdiz-te o velho, e ensina + Á neta, que é pequenina, + Rezas sanctas da divina + Crença, que tem no Senhor + Bemdiz-te o armento balando, + Do tomilho o cheiro brando, + E o pegureiro cantando, + Cantando magoas d'amor. + + Vem, ó linda madrugada, + Vem de violetas c'roada, + Pelas brizas embalada, + Vem nestes campos folgar; + Folga nos céos e na mata, + Que nas aguas se retrata, + Nas aguas de lisa prata, + Na prata do liso mar. + +Todo o mundo parece corar de puro gozo, parece que sorri com o sorriso da +felicidade quando o primeiro albor da manha lhe corre com mão de jaspe a +cortina da noite; é a amante carinhosa, que vai despertar d'um sonho +d'afflicção o amante adormecido com um beijo na fronte:--Elysa, se por cada +um dos meus sonhos d'afflicção tivesses de me dar um beijo, quantos beijos +me não devias! e crê que então não quizera eu sonhar outros sonhos. + +Mas como são cheias de galas e de thesouros, para os olhos do corpo e para +os olhos da alma, estas horas do alvorecer do dia! O ar que respiramos é +mais puro e embalsamado; uma harmonia deliciosissima desferida nas harpas +dos bosques, dos rochedos e das aguas, reproduz-se inteira nas cordas +intimas do seio, e a poesia acode voluntaria aos labios; é uma poesia +ensinada pelos anjos, porque só falla de Deos; é a verdadeira poesia. + +De todos os argumentos mais gratos ao espirito, mais poderosos, mais +energicos para demonstrar ao homem a existencia d'um Deos, o mais grato, o +mais poderoso, o mais energico é a contemplação da natureza. De todas as +horas do dia as melhores e as mais bellas para esta contemplação são as +horas do crepusculo da manhã e da tarde:--não sei que delicioso anhelar, +que doçura saudosa anda então no pensamento, que nas azas da meditação nos +arrebata para o céo, e nos desata as cadêas mesquinhas da vida mesquinha da +terra! + +Os raciocinios da philosophia convencem quando demonstram a realidade da +causa primaria, mas a natureza faz mais: depois de convencer gera o amor; o +coração não póde deixar de amar a origem das maravilhas que admira. E não +sabes, Elysa, qual é a obra das mãos de Deos, que mais me tem convencido da +sua existencia? Vais talvez dizer-me que são esses mares a revolverem-se +noite e dia á roda dos continentes, esses mares cujas gottas são lettras, +cujas vagas são syllabas, cujos bramidos são palavras, que dizem--existe +Deos! Vais talvez dizer-me que são as montanhas e os promontorios erguidos +como braços da terra apontando para o firmamento! Vais talvez dizer-me que +são esses milhões de mundos luminosos gravitando no espaço, e traçando no +manto azul da esphera a historia da Omnipotencia! Enganas-te! olha para o +teu espelho, Elysa, e lá verás a minha prova mais bella, a minha prova mais +segura da existencia de Deos! + + O Senhor quiz no teu rosto, + Quiz o impio confundir, + Quiz dos céos todo o composto + N'um só ponto resumir; + Nos olhos pôz-te as estrellas, + Inda mais lindos do que ellas + Os vejo d'amor fulgir; + Poz-te nas faces a aurora + Poz o sol no teu sorrir, + E nas tranças côr d'amora + Fez negra noite caír; + Que o Senhor quiz no teu rosto, + Quiz dos céos todo o composto + N'um só ponto resumir. + +Na verdade, Elysa, ver o teu rosto e descrer da Divindade seria o absurdo +do atheu positivo; não, não cuides que o atheismo passe dos labios; ha lá +dentro do atheu um sentimento, uma voz intima, uma quasi fatalidade, que, +mau grado seu, o arrasta e o convence: mas que haja um só tão desgraçado, +que o haja que, mercê da minha dama, lhe provarei que mente apontando-lhe +para a tua face;--a minha Elysa não podia ser fructo de um acaso estupido, +a minha Elysa é a victoria do Eterno! + +E que mais formosa... mais não, a perfeição não tem gráus, que formosa não +és tu quando nestas horas da manhã ou da tarde te embeveces a meditar com a +fronte encostada á mão, os olhos na immensidade, e o peito arfando +brandamente, como superficie de lago ao bafejo das auras! que formosa! + +Nunca viste nos teus sonhos de innocencia o teu anjo da guarda a contemplar +socegado o socego da tua alma, tão pura como elle? Imagina a tua lindeza +pela do teu anjo, assim como pela tua lindeza tenho imaginado a de todos os +anjos! + +Que formosa não és tu nessas horas! + +O pagão se te vira assim na alvorada d'um dia de primavera erguia-te um +altar e chamava-te _Vesta!_ Cuidaria ver-te conduzindo pela mão as +_Estações_ e o _Amor_; veria as choréas das _Nymphas_ á volta do teu carro +tirado por soberbos leões; veria os _Ventos_ adormecidos ao teu lado, e +_Ceres_, _Pomona_, e _Flora_ a cingirem-te a fronte com uma corôa de +rainha!--o pagão erguia-te um altar e chamava-te _Vesta_. + +Mas no teu templo, minha _Vesta_... minha Elysa,--enganei-me--no teu templo +não seriam as donzellas romanas que conservariam o fogo immortal; ahi o +sacerdocio seria todo meu, a chamma immortal estava no meu coração. + +Se fosse á hora da tarde que o pagão te visse, que te visse naquelle estado +que suspende a alma entre o prazer e a dor, naquelle estado que então te +exorna como uma aureola mystica; que te visse como a violeta da varzea, +recatada do mundo e rica e feliz na solidão onde reinas, se elle te vira, +em vez de te chamar _Vesta_, chamava-te a _Melancolia_. + +E o pagão chamava-te um bem doce nome! Fôras uma Deusa bem suave, bem +mimosa ao coração: _Melancolia!_ que mais feiticeira ficção tem o paganismo +para te offerecer? que mais puro, mais arroubado, mais ineffavel, mais +divino sentimento ha ahi na terra? + + Mais que o prazer, que a alegria, + Mais que a risonha emoção, + É mais doce ao coração + A doce melancolia! + Como é bello, quando o dia + Se afoga no salso mar, + Sobre ignota penedia + Ir co'as vagas conversar! + Ir sósinho suspirar + Juncto a fontinha sonora, + E nos prantos que ella chora + Ir aprender a chorar! + Como é bello então scismar + N'uma scismada ventura, + E aquelles sonhos sonhar + Nunca fartos de ternura! + Como a harmonia se apura + Nas cordas da meiga dor + Quando a rola da espessura + Poisa n'harpa ao trovador! + Quando uns gemidos d'amor, + Gemidos que não sabia, + Sáem da harpa, e ao redor + O echo lh'os repetia! + Como então mais que a alegria, + Mais que a risonha emoção, + É mais doce ao coração + A doce melancolia! + +Elysa, se o pagão te chamasse a _Melancolia_, o pagão chamava-te um bem +doce nome! + +E as horas da melancolia são as horas da tarde. + +Aquelle tibio da luz; aquelle horisonte dourado e bordado de nuvensinhas +diaphanas côr da espuma dos mares; aquelle hymno immenso da terra, que se +vai perdendo, perdendo ao longe por seios de cavernas; aquelle vôo da ave, +que nos passa por cima da cabeça ao ir aninhar-se na roupagem da montanha; +aquelle canto da zagala, que vem do prado com os seus cordeirinhos tão +alvos como ella; aquellas brizas perfumadas, que então andam a folgar nas +aguas do rio, ou na relva das margens, e que nos vêm depois roçar as faces +com a ponta da aza melindrosa; aquelle rugir da folha secca e caída debaixo +dos pés do viandante cançado; aquellas vozes confusas que se escutam no +casal, que augmentam, que diminuem, que recrescem, e finalmente morrem no +silencio; aquelle agoireiro latir do lebreu repetido pelos echos do valle; +aquelle fatigado carpir do carro lá ao longe ao subir das encostas; e o +sino da aldêa, que no alto da serra está assentada, como pastorinha +esquecida a meditar amores; e os céos azulados a vestirem pouco a pouco o +manto das sombras; e as sombras a desdobrarem-se nos campanarios; e os +campanarios a perderem-se da vista; e a vista a resumir-se no coração; e o +coração a afogar-se inteiro no saudoso da tarde, e a tarde com todas as +suas galas.... oh! como tudo isto falla á alma uma linguagem ignota, e a +deixa naquelle estado scismador em que as lagrimas são mais doces do que os +risos do prazer! + +As horas da melancolia são as horas da tarde. + +Elysa, a mythologia esqueceu-se de nos dizer em que hora do dia tinha +nascido o _Amor_; eu só nesta hora mysteriosa da tarde quizera que elle +tivesse nascido; não podia, não devia nascer noutra hora. Não vês tu como +ao caír da noite vem sempre um suspiro pendurar-se nos labios em busca d'um +irmão a quem se abrace? não vês como é então que a mulher desatina a cantar +sem o cuidar, sem o sentir, sem o querer talvez, e como que respondendo a +outra voz que a chama? não vês como a donzella, com todos os affectos ainda +em botão virginal, começa de adivinhar um segredo, um segredo lindo, que +lhe anda entre nuvens no pensamento? + + Coração de mulher, qual Philomela, + É todo amor e canto ao pé da noite: + Do amante a voz então entra mais branda, + Mais grata, mais feliz, dentro do peito; + Toldam sombras o pejo, as faces podem + Osculadas córar sem que o triumpho + Lá veja o vencedor escripto em rosas; + Melhor se escuta o frémito dos labios + Suspirando d'amor, pedindo amores: + Póde o _sim_ mais sumido então colher-se, + Fingir que foi acaso a mão tocada: + O rigor feminil, desdens, orgulhos, + Da tarde a viração leva-os nas azas. + +Elysa, se tu não fôras unica na terra, se não fôras o archanjo impeccavel +que me Deos mandou dos céos para eu crer devéras na virtude, tremeria com a +idéa--bastava a idéa--de te veres a sós com um mancebo por tal hora do +dia:--é a hora dos amores. + +Mas tambem é a hora da religião; não ha momento em que a alma de melhor +vontade se eleve para Deos: a oração, Elysa, é tão consoladora, tão cheia +de balsamos neste momento! Guarda as tuas preces para esta hora, e dize-me +depois se não pensas que as sanctas do céo vieram com mais alegre semblante +ajuntal-as no regaço, como flores de maio, e leval-as mais velozes aos pés +do Senhor! + +A oração é o resultado do amor; o amor é o resultado do conhecimento +d'aquelle que se ama; que melhor ensejo queres tu para conhecer o Creador? +Esse mesmo véo, que te vai envolvendo quanto enxergas, esse mesmo é uma das +suas mais formosas maravilhas:--o silencio que se vai fazendo em toda a +creação parece que é feito para que o homem falle; calou-se tudo para que +fallasse o monarcha da terra ao monarcha da terra e do céo! Elysa, para te +ouvirem as rezas os mesmos anjos se calariam; devem de ser um hymno tão +melodioso, tão lindo como o que elles cantam, tão fervoroso como o d'elles, +tão angelical como tu mesma! + +Se vivessem hoje os Paladinos cortezes, se ainda esse mundo andassem os +namorados cavalleiros da edade média, que á ponta de lança vingavam e +desmentiam as injurias feitas á belleza, não haveria tanto escriptor, tanto +philosopho e poeta, que desacatasse as mulheres. + +A logica d'aquelles tempos era valente, tinha argumentos de _ferro_, que +não havia resistir-lhes; se então saísse á luz um livro desleal e villão, +logo o auctor sentiria bater-lhe no rosto um guante de campeador, e +retinir-lhe nos ouvidos um _mentes!_ d'aquelles, que sempre deixavam uma +bainha vazia, ou um nome infamado. Hoje não; hoje diz-se e escreve-se +impunemente quanta loucura e descortezia lembra; tem-se dicto das mulheres +o que esqueceu a Mafoma, com ser elle dos mais grosseiros _devotos_, que +nunca jámais ellas tiveram. Que de cousas doidas, Elysa, não tenho tambem +eu dicto e escripto para ahi a respeito das mulheres?! mas agora cuido que +d'esse mal estou curado e desculpado--não tinha encontrado uma só Elysa: e +a quem a não encontra que lhe digam que andam anjos na terra? não o +acredita. E já que tu foste quem me fizeste renegado, já que a ti devo a +minha nova crença, quero que seja o teu livro, Elysa, o campo onde levante +pendão pelo teu sexo; mas antes d'isso consente que eu desculpe alguma +cousa o meu erro;--não se póde assim deixar um velho defeito sem ter ao +menos duas palavras para lhe diminuir o feio, para lhe minorar a imputação. + +No dizer mal das mulheres não ha tanta maldade como parece, e d'isto me +convencem duas cousas; não as ter nunca visto _devéras_ agastadas com os +maldizentes, e serem elles sempre os seus maiores adoradores;--é que ellas +bem comprehendem que nessas offensas vai mais amor que odio, é que elles só +offendem porque amam. Parece um absurdo, mas que haja coração d'amante +capaz de o não admittir, não ha. + +Injurias de philosophos, essas não sei eu que se possam justificar ou +sequer defender; é gente que tem todo o seu viver na cabeça, gente de gêlo, +gente capaz de _constipar_, como disse um Italiano fallando das mulheres da +Polonia, e por isso elles offendem porque não amam, offendem porque algum +raciocinio bastardo pode nelles mais do que a natureza. Um philosopho ha de +dizer-te, Elysa, em tom dogmatico que _as mulheres não pertencem ao genero +humano_[10], ha de fallar com toda a seriedade a favor d'essa these +brilhante no concilio de Mâcon[11], ha de escrever que ella é um ente +imperfeito na sua organisação[12], e, contente com pertencer á humanidade +só pelo lado paterno, cravará a fronte entre as duas mãos, e ficará diante +d'um _in-folio_ abysmado na sua intellectualidade unilateral! + +Injurias d'estas, Elysa, não têm perdão; abandono os philosophos á tua +colera.... ao teu desprezo queria dizer. + +Agora poetas, isso é outra casta de gente. Dir-te-hão, é certo, cousas +terriveis, dir-te-hão:-- + + «Mulher pura e fiel não ha, nem houve! + ...................................... + Raça infame de viboras dolosas + Podesse uma só nau contel-as todas, + E o piloto fosse eu...................[13] + +que havia de fazer? deixa lá dizer ao poeta o que quizer; mas crê que se +elle fosse o piloto guiava de certo a náu a porto de salvamento. Não ha +gente mais trovejadora em suas iras que são os poetas; com a penna na mão +todas as vezes que se enfurecem temos _vesperas sicilianas_; mas, chegada a +occasião, vem logo absolvição papal. Embora te diga que não ha mulher, nem +houve, pura e fiel, não é cousa em que elle creia; o poeta é todo coração; +coração de poeta, se não amasse, morria-lhe no peito, e amar sem crer na +mulher é impossivel. Não sei se _Milton_ disse mal das mulheres, o que sei +é que elle casou tres vezes. + +Elysa, poetas são outra casta de gente que não são os philosophos. + +Queres tu ver como elles fallam quando não é o ciume que os inspira? queres +ver com que delicadeza se elles desculpam das faltas passadas? ouve:--«Um +sôpro divino formou a alma do homem, a da mulher de um beijo delicioso +deveu ser formada.... custa a crer como um ente, que é metade da nossa +especie, que das duas é a mais amavel metade, a mais carinhosa, em tantas +cousas nosso egual para nos attraír, mas com tantas differenças de nós para +se nos unir ainda mais; que, se tem defeitos, de nós os recebe, e nos dá em +troca sem o cuidar tantas das virtudes que possuimos, custa, digo, a crer +como um tal ente, a quem sua propria fraqueza devêra tornar inviolavel, +pôde ver-se em todos os tempos, e provavelmente continuará a ser até ao fim +dos seculos, alvo e emprego das criticas mais desabridas, e mais grosseiras +calumnias......... Qual póde ser a causa d'esta mais que montezinha +ferocidade?....... é a causa o mesmo natural instincto, que faz que os +soldados em tempo de guerra, seroando entre as armas á fogueira ociosa do +seu rancho, encareçam as derrotas do inimigo, e lhe assaquem fraquezas que +não tem, para a si proprios accrescentarem animos e determinação para as +futuras pelejas--»[14]. + +Ora eis ahi a linguagem dos poetas quando _transfugas dos arraiaes dos +levantados se recolhem ás trincheiras d'ellas_;--todos esses libellos, que +lhes saem das mãos, não são d'elles; é o anjo negro, diabolico, sinistro do +ciume que lhes espremeu fel no tinteiro, e escreveu em nome e por conta dos +pobres poetas. + +E quem não perdoará os furores do ciume?! não sei até se elles são +necessarios. _Ovidio_, que passa por mestre em taes materias, aconselhou-os +porque traziam comsigo a _redintegratio amoris_, a doçura da nova paz; e +tão longe leva elle o conselho, que permitte chegar o amante enfurecido a +despedaçar os vestidos da sua bella ingrata; tambem _Moliére_, que não foi +sempre francez com as damas, tambem elle os desculpa e se desculpa +dizendo:--«ne savez vous pas que les injures des amants n'offensent jamais; +qu'il est des amours emportés aussi bien que des doucereux; et qu'en de +pareilles occasions les paroles les plus étranges, _et quelque chose de pis +encore_, se prennent bien souvent pour des marques d'affection, par celles +même qui les reçoivent?--»[15]. + +Não sei se _Moliére_ quiz adoptar o principio de _Ovidio_ naquelle _quelque +chose de pis encore_; mas o que um e outro quizeram foi cobrir o ciume com +as azas do amor: se eu pretendesse para isso uma auctoridade mais +competente do que aquelles dous poetas talvez a tivesse[16]. O que é certo +porém, Elysa, e seja com isto que eu dê mate á minha defesa, o que é certo +é que por isso mesmo que na mulher se pretende a perfeição, é mister não a +lisongear sempre; e o achar todas egualmente sem defeito não sei se é maior +prova de indifferença que de amor. + +Está pois decidido que os poetas são muito melhores do que os philosophos, +e que no seu dizer mal não ha injuria comparavel áquella injuria fria, +tremenda, meditada, e infinitamente falsa de que as _mulheres não pertencem +ao genero humano_:--quem os tivera feito nascer das hervas! Estes taes não +quizera eu nem que as tetas das lobas os alimentassem. + + Nunca taes homens souberam + Ler na face da mulher, + Em seus olhos aprender + Nunca taes homens quizeram. + + Não viram manar-lhe a flux + Dos labios celeste riso? + Não viram do paraiso + Nos olhos accesa a luz? + + Não é d'anjo a voz macia, + Que, vencendo almo pudor, + Te diz ternura e amor + Com tão mimosa harmonia? + Aquelle encanto só seu, + Graças e mimos só d'ella, + Aquella rosa tão bella + Não vem do rosal do céo? + + A quem á terra só veiu + Por te servir, por te amar, + D'irmã tua lhe chamar + Parece que tens receio?[17] + Se o teu orgulho não quer + Chamar anjo á formosura, + Deixando ingrata loucura, + Chama-lhe ao menos mulher. + + Não pertence á humanidade + Dizes tu, impio! e não vês + Do seio caír-lhe aos pés + Humanada a Divindade?! + Se em ti a crença inda tem + Algum poder, pensa n'isto, + Pensa tu que Jesus-Christo + Foi homem por sua mãe. + +O que é admiravel, Elysa, é que na mesma epocha em que se dizia em França +que _a mulher não tinha alma_, appareceram _Isabel de Baviera_ e _Joanna +d'Arc_: aquella entregou a França á Inglaterra para mostrar o poder d'uma +mulher; esta deu de novo a patria aos philosophos para mostrar a +generosidade feminina; foi Deos que se encarregou de as desafrontar. + +Se philosophos e poetas tivessem estudado a mulher: a mulher physica, a +mulher intellectual, a mulher moral, já nem syllogismos nem versos lhe +seriam tão contrarios; mas que? são como o Marquez que Moliére nos pinta; +nem se dão ao trabalho de examinar o que sentencêam, e depois--«je la +trouve détestable, morbleu! détestable, du dernier détestable, ce qu'on +appele détestable--»[18]. + +A mulher physica achal-a-hiam na physiologia moderna (na de _Hippocrates_ +não), achal-a-hiam tão perfeita como o homem; e se algum d'estes entes deve +ser preferido pela delicadeza e maravilhoso da organisação, essa +preferencia cabe á mulher, sem contar todavia a belleza externa, nem a +graça das fórmas. + +A mulher intellectual haviam de encontral-a em _Sapho_, _Heloiza_, +_Catharina_, _Semiramis_, _Staël_, _Sevigné_, _Coulanges_, _Lafayette_, +_Bernier_, _Flaugergues_, e tantas outras, que têm regido o sceptro ou a +penna com gloria mais que varonil: os preceitos do bello inspirava-os +_Aspasia_ a _Socrates_ e _Pericles_, _Ninon de Lenclos_ a _Condé_ e _La +Rochefoucault_:--sem a mulher os conhecimentos do homem seriam imperfeitos; +elle descobriria o que na natureza ha de forte, de grande, de sublime; mas +a graça, o mimo, a delicadeza só pela mulher podia ser descoberta. A +litteratura carece de imaginação, e a mulher tem na imaginação a principal +natureza da sua alma; aqui a vantagem é toda d'ella:--até se não for ella +quem povôe o coração do homem das illusões do amor, aonde irá elle +encontrar as galas da sua litteratura? Entregue ao positivismo da vida +material, sem o fogo imaginativo, de que flores ha de encher os seus +livros? + +A litteratura e as artes têm sempre devido á mulher ou joias suas, que lhes +façam o diadema, ou protecção e influencia, que as augmentem e desenvolvam: +foi na côrte de _Catharina de Médicis_ que _Henrique o grande_, aprendendo +a amar, aprendeu tambem aquellas maneiras nobres e cavalleirosas, que +distinguiram o seu reinado, dando á sua lingua uma graça e polidez, que não +tinha. O gosto e sentimento delicado para as lettras e artes, que _Maria_ e +_Catharina de Médicis_ levaram da Italia para França foram a origem do +desenvolvimento das artes e das lettras do seu tempo. E não seria á +influencia que as mulheres tiveram na côrte de Luiz XIV, que se deveu então +essa lista immensa de homens celebres, com que a França se honra, e que o +mundo estuda e admira? E não será para agradar á mulher que o homem gera a +industria, inventa o canto, a dança, a pintura, amenisa a linguagem com as +flores da poesia, traja com esmero, e torna affaveis e doces suas maneiras +e costumes? A mulher intellectual não existe só em si, existe nos outros +tambem; não se contenta com as suas creações, instiga os outros a crear; e +é considerando reunido o que a alma da mulher pode tirar de si propria, e o +que a mulher concorre para as producções da alma do homem; é considerando +reunido num só ponto o que a mulher é em si e no homem, que eu a vejo tão +sublime, tão elevada, que, senão tivera o lado moral para a olhar, já por +este lhe podia chamar anjo. + +A mulher moral porem é que é a mulher, ou a mulher da mulher. Ou a nós +vejamos na sua condição de amante, de irmã, de filha, de _mulher_ e de mãe; +ou a consideremos no prazer ou na dor, na ventura ou na miseria; ou +contemplemos o que pode pela mulher ser o homem, em quem é sempre ella que +imprime a virtude ou o vicio no coração; ou a analysemos no seu throno, que +é na vida de familia, ou na hasta publica da vida de sociedade; ou a +vejamos na infancia ser a alegria da casa, na juventude ser as delicias do +amor, na madureza ser a consolação da alma, e na velhice ser a mestra da +virtude; ou seja que nos abrace ou que nos fuja, que nos afague ou que nos +reprehenda, que nos ame ou que nos aborreça, a mulher moral é a parte mais +augusta da creação. + +--«A mulher moral é o infinito--» disse um illustre escriptor[19]; e na +verdade só assim se pode definir o mysterio da mulher moral! + +A mulher é o elemento mais poderoso da ventura social, mas a mulher moral é +o elemento dos elementos. Indagae a origem dos ciumes e, com leves +excepções, achal-a-heis na educação, isto é, na mulher; vêdes uma boa +acção? Procurae-lhe a fonte, e encontrareis a mulher; talvez que não haja +no mundo um só facto, cujo principio ou fim, se bem o averiguarmos, não +seja a mulher:--«os homens serão sempre o que as mulheres quizerem que +elles sejam--» disse _Rousseau_[20], e disse uma grande verdade; porque +antes que o homem seja cidadão é filho primeiro. A mãe dos _Gracchos_ e dos +_Corneilles_ tinha uma alma nobre, grande e severa; a mãe de _Voltaire_ era +escarnecedora e de garridas maneiras; a de _Byron_, até nem os defeitos +physicos do filho escapavam á sua maldade; _Kant_ dizia que fôra sua mãe +quem lhe lançara na alma o germen do bem e quem primeiro lhe inspirara o +amor do Creador, explicando-lhe o que sabia das maravilhas da natureza[21]; +_Cuvier_ deveu a sua mãe os successos brilhantes da sua vida illustre[22]; +_Barnave_ já com um pé sobre o cadafalso bemdiz sua mãe, que lhe deu na +infancia o valor que alli o anima; _Lamartine_ aprendeu nas harmonias do +coração materno as harmonias da sua harpa piedosa; em fim, Elysa, se após +estes nomes tão respeitaveis e tão illustres é permittido citar o meu pobre +e desconhecido nome, sirva elle de mais uma prova, porque o pouco, o muito +pouco, de bom que em mim tenho é unicamente a minha mãe, é a ella só que eu +o devo. + +Que augusta não é pois a missão da mulher sobre a terra! Ah! que se +philosophos e poetas meditassem bem no que é a mulher, e, sobre tudo, no +que ella pode ser, não haveria um só que não visse nesse ente o oásis +mimoso dos desertos da vida! Mas elles não curam de tal: arrancam +desapiedados as pennas alvissimas ás azas do cherubim, e depois, vendo-a +assim tão ao nivel das cousas da terra, descrêem d'aquillo mesmo em que não +souberam crer; andastes errados: acreditae primeiro, sabei o que é a +mulher, e depois julgae-a. + +Em quanto não fizerdes isto, sereis sempre uns inimigos desleaes e +traiçoeiros; tomareis a nuvem por Juno, e direis do phantasma da mulher o +que pensais dizer da mulher como ella saiu das mãos de Deos, quando viu que +não era bom que o homem vivesse só:--dizei embora o que quizerdes, mas da +mulher como a concebo e como ella existe, por mais rios de tinta que +derrameis, nunca podereis provar a maldade senão com aquellas razões com +que o citado Marquez da peça de Molière provava a maldade de _L'École des +Femmes_--» elle est détestable parce qu'elle est détestable--»[23]. + +Em toda a parte em que o teu sexo, Elysa, não occupa o logar que lhe a +natureza marcou, ahi os povos são escravos, a ignorancia é profunda, e os +costumes são barbaros. O adorador de Mafoma compra a mulher, _veda-lhe_ a +entrada no céo, prohibe-lhe a leitura dos livros religiosos, afasta-a do +tracto commum, e deixa-lhe só nos ferros do harem os erros da superstição e +os absurdos da feiticeria: que se segue d'aqui?--que a tyrannia é no +Oriente um principio, que a civilisação é nulla, e que a moral é uma +palavra sem significação. Cuidou o Musulmano que, fazendo da mulher uma +machina, tinha creado a felicidade para si; a felicidade só ella a ha de +crear, mas é mister que livre e desassombrada, rainha e não escrava, possa, +como a pomba da primavera, adejar sobre a cabeça do homem, ensinar-lhe as +aguas mais puras onde deve matar a sêde, e a relva mais macia onde se deve +assentar; só a mulher sabe, como a abelha, quaes são as flores que dão mel, +mas não lhe hão de crestar as azas na chamma da impureza, que então, +materialisado o amor, o homem e a mulher perderão a faisca da divindade que +os extremava do resto da creação;--«ou os povos se hão de embrutecer em +seus braços, ou civilisar a seus pés--»[24]. Não é com todos os pensamentos +cravados na materia que a mulher pode dar ao homem a felicidade; o Oriente +não comprehendeu a mulher. + +Que terá a filha do propheta para dar á alma do homem quando os sentidos +estiverem saciados?--a ignorancia, as paixões mesquinhas, as astucias, os +vicios todos da ociosidade, e, na consciencia da sua inferioridade, a +tristeza da escravidão, ou as traições d'um inimigo. + +E o amor? Oh! esse nunca; esse não sabe morar num calabouço. + + Ao cioso mahometano + Que vale o fechado harem, + Se amor de escrava a tyranno + Do coração lhe não vem? + Que importam centos de bellas, + Se uma só de todas ellas + Livre em seu gosto não ha? + Que importa matar desejos, + Que importam, louco! esses beijos, + Se só vendidos t'os dá? + + Com alma núa d'esp'ranças, + Como ha de a escrava saber + Que alem de jogos e danças + Tem mais gozos a mulher? + D'esses gozos não sabidos + Como ha de trazer-te enchidos + Os dias que vão e vêm? + Se, dos paes perdida a trilha, + Ella não sabe ser filha, + Como ha de saber ser mãe? + + Embora os astros lhe apontes, + Embora mostres os céos, + E uma a uma lhe contes + As maravilhas de Deos, + Ha de dizer-te--que importa? + Se eu tenho fechada a porta + Que leva ao reino da luz? + Que importa, se em vida e morte + Sou proscripta, e minha sorte + Nunca propicia reluz? + + Lá quando a dor te accommetta, + Quando rir teu coração, + As filhas do teu propheta + Pranto e risos te darão. + Ouvirá co'os teus ouvidos, + Sentirá co'os teus sentidos, + Viverá no teu viver? + Oh que não!--solta-lhe os ferros, + Despe-lhe a alma dos teus erros, + E a escrava será mulher. + + +FIM + + + [1] É crença muito antiga que umas pedras vermelhas, que se encontram + na _fonte dos amores_, devem a sua côr ao sangue de D. Ignez de Castro. + + [2] Não quero dizer que descreio das leis da _Acustica_; sei que ella + não só explica, mas até consegue fazer _echos_:--a palavra _segredo_ + veiu aqui para symbolisar que neste, como em muitos outros phenomenos + naturaes, em se o homem remontando um pouco, chega logo ás _forças + centripetas e centrifugas_, ou áquelle celebre _opium facit dormire, + quia habet virtutem dormitivam_. + + [3] Garrett + + [4] Camões. + + [5] Martim de Freitas. + + [6] Sá de Miranda. + + [7] D. Francisco de Lemos, Bispo de Coimbra. + + [8] Este echo do jardim botanico de Coimbra repete um verso heroico + inteiro. + + [9] A Rainha Sancta Isabel, mulher d'El-Rei D. Diniz. + + [10] _Mulieres homines non esse_. Dissert. anonym. d'Acidalius,--Paris + 1693, in 12. + + [11] Gregor. Turonens. Hist. Franc. + + [12] D'anciens philosophes et des médecins, tels qu'Hippocrate, + Aristote, ont ausai regardé la femme comme un être imparfait, un + demi-homme. _Virey_--_De la Femme_, chap. 1.^er, pag. 15. + + [13] A. F. de Castilho--_Ciumes do Bardo_. + + [14] A. F. de Castilho--_Primavera, Notas á Festa de Maio_. + + [15] _La critiq. de l'Écol des Femm._ Sc. 7. + + [16] Á Sr.^a Marqueza d'........ uma das mais instruidas e amaveis + damas que tenho visto, ouvi eu que em materia de ciume era permittido a + um homem levar a sua colera até alguma pequena acção violenta. O sexo, + a madureza da edade, a penetração, e conhecimento do coração humano, + que esta senhora possue, dão-lhe direito a ser muito respeitada a sua + sentença. + + [17] Até _Plinio_ se não pejou de lhe chamar animal. + + [18] _La Critiq. de L'Écol. da Femm._--sc, 6.^e + + [19] A. F. de Castilho--_Primavera, Notas á Festa de Maio_ + + [20] _Émile--Liv._ 5.º + + [21] Schoen--_Biograph. de Kant._ + + [22] _Memoires sur Georges Cuvier_--Mistr. Lee. + + [23] _La Critiq. de l'Écol. des Femm._ sc. 6.^e + + [24] Aimé Martin--_Educat. des Mér. de Fam._. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Livro de Elysa, by João de Lemos + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O LIVRO DE ELYSA *** + +***** This file should be named 24646-8.txt or 24646-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/6/4/24646/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Livro de Elysa + Fragmentos + +Author: João de Lemos + +Release Date: February 19, 2008 [EBook #24646] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O LIVRO DE ELYSA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + + +<div class="capa"> +<h3>JOÃO DE LEMOS</h3> + + +<h1>O<br> +<br> +LIVRO DE ELYSA</h1> + +<h2>Fragmentos</h2> +<br> +<br> +<br> +<br> +<hr style="width: 30%;"> +<br> +<br> +<br> +<br> +<h5>COIMBRA +<br> +Imprensa da Universidade +<br> +1869</h5> +</div> + + +<h2>ADVERTENCIA</h2> + +<p>O Ill.<sup>mo</sup> e Ex.<sup>mo</sup> Sr. João de Lemos Seixas Castello +Branco dignou-se conceder-me licença para publicar este escripto, já +impresso na <i>Revista Academica</i>, jornal litterario e scientifico +publicado nesta cidade em 1848.</p> + +<p>Coimbra, 24 de Agosto de 1869.</p> + + +<p class="direita"><i>J. Mesquita.</i></p> + + + + +<h1>O LIVRO DE ELYSA</h1> + +<h2>FRAGMENTOS</h2> + + +<h3>I</h3> + +<p>Elysa!--Vou escrever um livro, mas um livro só para ti.</p> + +<p>Ha de ser a traducção do pensamento revoando caprichoso por todo esse +universo; ha de ser o monumento de uma longa saudade ingenhosa a não +desperdiçar uma hora de remanso, a não sorrir nem suspirar senão comtigo; +ha de ser um jornal do coração, de que tu serás o unico assignante, o unico +leitor, e mais ainda o unico entendedor; ha de ser o desapertar incerto de +ramalhetinhos da minha musa melancolicamente suave ou desesperada, ha de +ser, emfim, o exercicio de uma devoção sublime do amor, será talvez o de um +sacerdocio mysterioso, será de certo o de um martyrio de ausencia +pungente.</p> + +<p>Anjo!--este livro deve ser muito amado por ti.</p> + +<p>Quero-o á cabeceira do teu leito, no teu toucador, na mesa do almoço, no +cestinho da tua costura, nos teus passeios, no theatro, no baile, na côrte, +na provincia, nos risos, nas lagrimas, na esperança, no desconsôlo, na +vida, na morte. Em qualquer parte, em qualquer circumstancia que te +encontres, abre-o; abre-o com a crença supersticiosa do amor e da ternura, +que nelle beberás uma superstição amorosa e terna, para alegrar-se e para +gemer comtigo.</p> + +<p>Anjo!--este livro deve ser muito amado por ti.</p> + +<p>Mas olha que este amor tão pedido para elle não consiste na presença +inutil e preguiçosa, ou no habito indifferente e quasi que importuno, não: +quero-o sempre ao teu lado, quero-o ainda mais, muito mais, ia dizendo +unicamente no teu coração.</p> + +<p>Elysa! é com este nome que me apraz escrever-te, porque uma imprudencia, +um acaso natural da minha vida de mancebo podia revelar com o manuscripto a +palavra sacramental do meu segredo:--o véo, que é demasiado diaphano aos +meus olhos, será impenetravel aos de estranhos, e para ti é uma prova do +meu egoismo ou soffreguidão, que te agradará.</p> + +<p>O rei formosissimo de todos os astros nem se offende nem fica menos +bello, porque a sombra ligeira de uma nuvem lhe passou pela frente.</p> + +<hr style="width: 15%;"> + +<p>Mulher-typo! divindade talvez, ou sonho, ou illusão, ou feitiço, ou +sombra, realidade, ou nada--eu te amo! E sabes tu como é este amor? +escuta:</p> + +<p>Já viste duas pombas a devorar o espaço com as brancas azas de seda, +correndo, voando, internando-se por esse azul da cupula immensa, ou +pousando á beira d'um lago de saphiras, ditosas na sua loucura, loucas na +sua innocencia, innocentes nos seus carinhos?--é o amor da pomba; é o meu +amor.</p> + +<p>Já viste ao pé dos corregos do inverno duas plantas indolentemente +enroscadas, teimosas, viçosas, purissimas, cheias de gozo sem futuro, +cheias de futuro no gozo?--é o amor da planta; é o meu amor.</p> + +<p>Já viste como a rosa, voluptuosamente desabrochada no tugurio verde da +sua roseira, é, ao despontar da aurora, tão festejada, tão conversada, tão +abraçada, tão beijada e tão adorada pela briza?--é o amor da briza; é o meu +amor.</p> + +<p>Já viste uma criancinha, que se anda embriagando de folguedos no +amanhecer da existencia, e que logo os foge, que os engeita desdenhosa, +porque a mãe lhe choveu entre elles, e que desfeita em sympathia risonha, +em meiguice, em requebros lhe entreabre os braços e lhe pula ao collo?--é o +amor da criancinha; é o meu amor.</p> + +<p>Já viste essa mãe carinhosa errar anhelante, desalinhada, com os pés e +os braços nus, o cabello desatado, os olhos em lagrimas, o peito a +ondular-lhe, os labios roxos e convulsos, a voz embaciada de suspiros, toda +ella uma louca, ou antes um mysterio, toda ella resumida num sentimento +indizivel, sublime, divino, a calcar abrolhos, a transpor abysmos, a galgar +têsos, a olhar, a escutar, a inquirir homens e pedras, a consultar pégadas, +a ferir o rosto com uma das mãos, a esmagar os seios com a outra, e tudo em +busca do filhinho, que se lhe perdera?--é o amor da mãe carinhosa; é o meu +amor.</p> + +<p>Já viste o proscripto da patria, assentado tristemente nos pincaros de +serra estrangeira, comparando cada pedaço de terra, cada arvore, cada +penedo, cada passaro que lhe descanta, cada choupana, cada homem, cada +povo, e os ares, e o horisonte, e as nuvens, e as estrellas, e o sol, e o +céo; bradar depois pela patria, só pela patria?--é o amor do proscripto; é +o meu amor.</p> + +<p>Já viste o marinheiro, nascido e criado nas aguas, identificar-se com +ellas, namorar-se do seu navio, brincal-o, enfeital-o, acaricial-o sempre, +beijar-lhe os cabos e velame, os mastros e o leme, contente vagar pelo +estendal das vagas, sorrir ás procellas, sorrir ás bonanças, anhelar do +longe uma ilha toda verde, que lhe está acenando na alma, um porto +fagueiro, que lhe está alvejando no pensamento, uma estrella da noite, que +lhe está radiando no coração; e atirar-se assim de encantado por esse mundo +sem raias, a espriguiçar-se nas sensações, a sorver delirios e melancolias +suavissimas, ainda que rudes e profundas; ora cavando o pelago com olhos +severos, ora analisando o concavo d'um tecto infinito com olhos +meditadores; e naquella soidão de que é monarcha, com as suas endeixas e +com o seu alaúde, apinhoando lá dentro d'alma cada vez mais desprezos da +terra, mais orgulho e fanatismo pelas suas campinas de crystal?--é o amor +do marinheiro; é o meu amor.</p> + +<p>Já viste o captivo encostado ao marco de pedra, quasi tão quedo como +elle, com a fronte enrugada e em cada ruga um concentramento de paixão, com +a vista cravada no ferro, que lhe aperta e ennodoa a perna, uma vista tão +cravada, tão pegada, que a disseras um martello alli fundido por não poder +despedaçar aquelle annel; e uma lagrima a resaltar-lhe das faces ao ferro, +como se fôra o liquido que havia de dissolvel-o, e a mão estendida e tesa, +e depois um sorriso, um sorriso para a liberdade, para aquelle coração +outra vez a bater sem abafamentos, para aquelles olhos outra vez erguidos, +para aquelles braços outra vez seus, para aquelles pés outra vez libertos, +para aquelle ar que respirava, para aquella casa, aquelles amigos, aquella +vida, aquelle mundo, que lá lhe ficou?--é o amor do captivo; é o meu +amor.</p> + +<p>E já viste, finalmente, o condemnado a quem o vento do sepulchro sacode +sobre a escada do cadafalso, que pende para a morte como a hastea que se +murcha, e que d'alli, de sobre esse triangulo erguido para vergonha da +humanidade, escarneo de Deos, e epigramma da civilização, d'alli arremessa +uma vista infinita, insondavel, incomprehensivel para a turba, que +brutalmente o festeja, mas para a turba, que elle nunca mais ha de ver: +para o mar, que lhe rebrame ao pé como se cantara uma nenia execravel, mas +para o mar, que elle nunca mais ha de ver; para os céos, que recamados de +sombras como que lhe toldam a esperança desapiedados, mas para os céos, que +elle nunca mais ha de ver; para a terra, que lhe floreja ao longe alegre e +formosa como se o quizera insultar no ultimo transe, mas para a terra, que +elle nunca mais ha de ver; para as memorias d'um passado talvez prenhe de +sangue e de remorsos, mas um passado, que elle nunca mais ha de ver; e essa +vista resumida, em fim, a luctar entre a mortalha e o vestido, entre o +carcere e a corda, entre a corda e a tumba, entre a morte e a vida, alli +lhe foge toda para a vida; para a vida, que lhe matam, para a vida tão +querida, tão linda e tão doce olhada do cadafalso, para a vida suspirada, +gemida, e anciosamente chorada d'aquella altura tremenda, para a vida +porque é sua, para a vida porque é boa, para a vida ainda que fora má?--é o +amor do condemnado; é o meu amor.</p> + +<p>E como o amor da pomba é innocente a amar a pomba, como o amor da planta +é viçoso a amar a planta, como o amor da briza é mimoso a amar a rosa, como +o amor da criancinha é risonho e meigo a amar a mãe, como o amor da mãe é +desalinhado e louco a amar o filho, como o amor do proscripto é gemedor a +amar a patria, como o amor do marinheiro é profundo, melancolico e +dosprezador a amar os mares, como o amor do captivo é meditado e desejoso a +amar a liberdade, como o amor do condemnado é vehementemente desesperado e +terrivel a amar a vida, é assim o amor do poeta a uma mulher;--é o meu +amor.</p> + +<p>E tu és a minha pomba, a minha planta e a minha rosa, a minha mãe e o +meu filho, a minha patria e os meus mares, a minha liberdade e a minha +vida!--Mulher! eu te amo, eu te amo!</p> + +<p>Agora, Elysa, que já te paguei as primicias do livro, não só como +senhora d'elle, mas como senhora da alma que o dicta e da mão que o +escreve; agora que já te defini o meu amor, que mil vezes ainda será aqui +definido, e que nunca o virá a ser ao cabo; agora que tu chegaste, de +certo, á janella do teu quarto, e te embeveceste nos encantos da noite a +recordar-te dos meus versos, deixa que me volte para a minha lyra.</p> + +<p>São os meus segundos amores: é ella tão minha e tão formosa como tu; é a +minha companheira e consoladora; é quem me ha de ajudar neste trabalho, que +te destino:--plantou-m'a Deos dentro da alma para saber amar-te, como te +plantou a ti no mundo para que te amasse.</p> + +<p>Quero muito á minha lyra.</p> + +<p>O meu primeiro pensamento ao acordar é sempre teu, o segundo é sempre +d'ella; nas minhas meditações e nos meus sonhos, nos meus risos e nas +minhas lagrimas, vindes sempre ambas tão casadas, tão unidas, tão irmãs, +que eu não sei se és tu que me trazes a lyra, se é a lyra que me conduz a +ti.</p> + +<p>Quero muito á minha lyra.</p> + +<p>Vou conversar com ella, e preludiar-lhe ao acaso uns sons desleixados, +que lhe são queridos, um vagar delicioso por veigas da phantasia, um +esquecer a delirar por saudosa noite, á margem do Mondego, sob a rama de um +salgueiro.</p> + +<p>E que mimoso luar de primavera ahi se refrange, e espalha uma poeira de +prata na superficie das aguas!</p> + +<p>É por uma d'estas noites suavissimas de luar que a natureza tem toda a +lindeza de mulher.</p> + +<div class="poesia"> + Canta, vento do sul, teus doces cantos<br> +Por concavos do val adormecido,<br> +Tange n'harpa de Deos, nessas folhagens,<br> + Da noite as harmonias.<br> + Farta agora, Mondego, com teus beijos<br> +As boninas, que tremulas desmaiam,<br> +Que se morrem por ti na sêde louca<br> + De lubricos prazeres.<br> + Banha-me a accesa fronte, meu salgueiro,<br> +De meiga fresquidão, que ha de inspirar-me<br> +Desassombros do sol, da luz, do dia,<br> + Que se afogou nos mares.<br> + E tu, filha d'amor, candida lyra,<br> +Um abraço dos teus cinge ao teu bardo,<br> +Outro mais.... este só... agora folga,<br> + Folga por céos e terra.<br> +<br> +<br> + Amo o tibio clarão do argenteo disco,<br> +Porque a luz do luar não cega os olhos,<br> +Como faz a do sol, porque me deixa<br> +Nesse lago d'anil, que vai sulcando,<br> + Namorar-lhe a belleza;<br> + Amo a languida côr do ingente espelho,<br> +Onde os olhos d'amantes vão casar-se;<br> +Onde crêra talvez Grego ingenhoso<br> +Que o velho Jove, requintando as galas,<br> + Ia mirar-se, rindo.<br> + Eu amo, já pagão, na branca esphera<br> +Da casta Delia envergonhado riso,<br> +E já lá finjo negrejando os bosques,<br> +Onde co'a turba caçadora exerce<br> + Seu culto pudibundo.<br> + Amo as rosas do céo, que se emmurchecem<br> +Quando a lua vaidosa as vai pisando,<br> +Amo as nuvens co'os seios bipartidos<br> +De respeito alastrando eburnea senda<br> + Á rainha dos astros.<br> + Amo a grenha voando ao meteóro<br> +Quando pallido foge ante os seus passos,<br> +Amo tudo o que assim lhe paga um feudo,<br> +Outro feudo melhor, que não meus versos<br> + Engeitados da vida.<br> +<br> + Noite! noite! que mão te ha desdobrado<br> +Tão risonha e fagueira assim no mundo?<br> +Do templo do Senhor és véo, que os anjos<br> +De infindos orbes d'oiro recamaram?<br> +És lavrado padrão da Omnipotencia,<br> +Memoria erguida em campos do infinito?<br> +Milhões de soes, que ostentas, serão tochas<br> +Ardendo ante o teu Deos no altar immenso?<br> +Serão letras d'amor com que lhe escreves<br> +Nessa pagina azul o ignoto nome?<br> +Tuas nuvens que são? são do thuribulo,<br> +Que agitam cherubins aos pés do Eterno,<br> +Queimado incenso a desfazer-se em fumo?<br> +Noite! noite! quem és? d'onde has tu vindo<br> +A poisar-te na terra entre mysterios?....<br> +<br> + Não sei que ternas meiguices<br> + Falla a noite ao coração;<br> + Minhas horas mais felices<br> + As horas da noite são:<br> + Com ella na solidão<br> + Suspiro amor e saudades,<br> + E com ella nas cidades<br> + Não largo a lyra da mão;<br> + Suspiro, canto d'amores<br> + Entre os homens, entre as flores<br> + De noite, de dia não;<br> + Porque a noite tem meiguices,<br> + Porque as horas mais felices<br> + As horas da noite são.<br> +<br> +<br> + Como é lindo este Mondego<br> + A brincar sobre esta arêa!<br> + Como é lindo o bosque verde,<br> + Que as verdes margens sombrêa!<br> +<br> + No seu crystal derretido<br> + Lá vem, á luz do luar,<br> + Outro Narciso, um salgueiro,<br> + Um salgueiro a namorar.<br> +<br> + Outra Echo, a briza doida,<br> + Que foi por elle engeitada,<br> + Anda carpindo, e zelosa<br> + Traz a limpha alborotada.<br> +<br> + Cuida que mora lá dentro<br> + Escondida uma rival,<br> + E por dar-lhe invejas solta<br> + Perfumes, que traz do val.<br> +<br> + Raivosa tolda co'as azas<br> + O liso espelho brilhante,<br> + Cospe co'as azas, raivosa,<br> + O Mondego ao seu amante.<br> +<br> + E o pobre, por si perdido,<br> + Sacode a fronte singela,<br> + Murmura um ai; mas teimoso<br> + Busca n'agua a imagem bella.<br> +<br> + Como é lindo este Mondego<br> + A brincar sobre esta arêa!<br> + Como é lindo o bosque verde,<br> + Que as verdes margens sombrêa!<br> +<br> + Como a fonte d'Ignez soluça ao longe!<br> +Parece inda chorar-lhe a morte escura,<br> +Osculando na pedra eternas manchas<br> + Do sangue espadanado<a href="#rodape1" name="nota1"><sup>1</sup></a><br> + Como os cedros a côma baloiçando<br> +Inda vergam de dor, inda meditam<br> +No caso triste de memoria digno,<br> + Que desenterra os mortos!<br> + Alli d'um terno amor ternos momentos<br> +N'aza do tempo languidos fugiram,<br> +Naquelle engano d'alma que a fortuna<br> + Não deixa durar muito!<br> + Dos suspiros de Ignez na penedia<br> +Inda os echos vagando ás horas mortas<br> +Murmuram brandos ais, e aos sons da lyra<br> + Respondem gemebundos!<br> +<br> + Quero muito á voz solemne<br> + Dos echos da solidão;<br> + São amigos invisiveis<br> + Com quem falla o coração.<br> +<br> + É tão doce nestas horas<br> + Poder assim conversar,<br> + Ouvir do nosso queixume<br> + Novos queixumes brotar!<br> +<br> + Chamar aquella que é longe,<br> + Chamar aquella que se ama,<br> + E o som d'amor e saudade<br> + Não morrer na voz, que a chama!<br> +<br> + Sentar-me ao pé d'esta fonte,<br> + Que tão pura se deslisa,<br> + Clamando--Elysa!--e dos montes<br> + Outra voz clamar--Elysa!--<br> +<br> + Quero muito á voz solemne<br> + Dos echos da solidão;<br> + São amigos invisiveis<br> + Com quem falla o coração.<br> +<br> + Mas quem pode formar taes sons no bosque?<br> +Será perdido amante a penar magoas,<br> +Desprezos da que amou, desdens de bella,<br> +Injurias d'um rival, ou será nympha<br> +Que um ingrato engeitou, e alli chorosa<br> +Inda, louca d'amor, serve aos amores?<br> +Oh! falla, quem és tu, filho da selva?....<br> +Silencio... respondeu... maldicto vento!<br> +Que só pude escutar--filho da selva!<br> +Embora! fique embora isso em segredo,<a href="#rodape2" name="nota2"><sup>2</sup></a><br> + Saiba-o sómente Deos!<br> +Tambem segredos, que meu peito encerra,<br> + Só se dizem nos céos.<br> +A turba ha de escutar-me, e cada nota<br> + Será nota d'amor!<br> +Mas ouvidos da turba não entendem<br> + Carmes do trovador.<br> +Emmudece-te, ó lyra; e tu, ó noite,<br> + Apaga o teu luar,<br> +Das trevas no pallor deixa-me um sonho<br> + Com Elysa sonhar.<br> +</div> + +<p>E a lua ja roça as cumiadas do monte, e pouco a pouco se enterra por +elle abaixo... ahi ficam agora na escuridão as margens do Mondego, tão +saudosas como amante feliz na hora de um <i>adeos</i>, sellado com +beijos... ahi se empoleiram as auras pelas hasteas do choupal, cançadas de +abraçar a roxa fronte das violetas... já não se lhe escuta o frémito das +azas nos seus brincos innocentes.... faz-se um silencio longo em toda a +natureza... e só as rãs veladoras continuam na voz unisona e aguda o hymno +da creação!</p> + +<p>Elysa, é tempo de pedir a Coimbra uma casa, á casa um leito, ao leito um +somno, ao somno a tua imagem.</p> + +<p>Como o teu livro, Elysa, é fructo das horas roubadas ao remanso, e +talvez ao estudo, nesta bem-aventurada Coimbra, quero fallar-te de +Coimbra!</p> + +<p>Cada povo tem a cidade da sua poesia, da sua imaginação, dos seus +amores; cada povo aponta para uma terra, que a tradição vestiu de galas, e +diz--lá, lá! oh! que não ha nada mais bello!</p> + +<p>O portuguez aponta para Coimbra.</p> + +<p>É das recordações d'esta cidade que o velho se nutre, e nutre os filhos +ao serão do seu lar:--quando eu estava em Coimbra! eis-ahi o exordio de +todas as aventuras de um pae; e a saudade, tingindo de roxas e mimosas +côres todo o discurso, engrandecendo tudo, louvando tudo, e chorando por +tudo, leva o ancião á peroração de rigor--não ha já tempo como o meu tempo +de Coimbra!</p> + +<p>Para o amor maternal é a terra dos seus sustos, porque é a terra dos +rapazes; mas nesses mesmos sustos, no longo esperar do abraço filial +encarnou-se não sei que doce sympathia para aquella cidade, que faz chorar +e rir toda a casa; é o gosto amargo da saudade, é o</p> + +<div class="poesia"> +Delicioso pungir d'acerbo espinho<a href="#rodape3" name="nota3"><sup>3</sup></a> +</div> + +<p>Dizei a um aldeão que lhe ides contar uma historia de Coimbra, e logo o +tereis quedo, pendente de vossos labios, já certo do maravilhoso, ou do +travesso do vosso conto.</p> + +<p>Perguntae ás amantes por Coimbra: haveis de vêl-as córar, como tu agora +córaste, Elysa; e depois responder com um suspiro envergonhado--oh! +Coimbra!.... e o resto que lá fica em seu pensamento será uma inveja, mas +não é desamor para a terra que anda sempre casada ao amanhecer e anoitecer +de seu coração.</p> + +<p>Perguntae ao mancebo, que só ouviu o que vai pelas margens do Mondego, +sem nunca ter pisado as suas arêas de oiro, perguntae-lhe por seus desejos, +e elle vos dirá simplesmente--se eu podesse ir a Coimbra! e ahi deixa +resumido o scismar de longas horas.</p> + +<p>Até a sciencia e as letras olham sempre para Coimbra como para a terra +da promissão;--a nossa esperança, dizem ellas, cada dia, cada anno, cada +seculo, a nossa esperança está lá!</p> + +<p>Se aqui vierdes, ouvireis, é certo, a muitos dos que se assentam ao caír +da tarde no <i>Penedo da Saudade</i> a curtir magoas de ausente, +ouvir-lhe-heis maldições contra Coimbra; não os acrediteis, não; é aquelle +absurdo do coração humano, é aquella saciedade na posse, é o +nunca-satisfazer dos desejos do homem, o desprezo do que já tem, trocado +pelo anhelar do que ainda espera; mas, se fordes inquirir esses mesmos, uma +hora antes de deixarem Coimbra para sempre, ou elles não têm alma afinada +para as melodias da terra, ou elles vos dirão com as lagrimas nos +olhos--podera eu nunca deixar Coimbra! É que lhes ficam aqui as horas mais +descuidosas, mais doces, mais felizes da mocidade; é que lhes ficam aqui as +amizades, que não morrem mais, a liberdade, que mais não volta, e estes +ares purissimos, este céo purissimo, estas aguas purissimas, esta Coimbra +unica!</p> + +<p>Ah! como lhes ha de apparecer em sonhos este archanjo de pedra assentado +no seu tapete de flores! Coimbra!... hão de descobril-a de longe, vestida +de branco, morbida, formosa, voluptuosa, modesta, a metter seus pés de +marmore na prata do Mondego; a devassar o seio das nuvens com o capacete da +sua torre, como se fôra estatua de Minerva; com seus braços estendidos a +afogarem-se em açafate de esmeraldas; com a sua ponte orlada de vultos +negros, que se debruçam na corrente como os salgueiros da margem; com a +cintura azul de mil outeiros, que ao longe fecham o seu largo horisonte; +com toda esta belleza, este encantamento, esta feminidade de donzella, +esquecida na relva d'um prado a tanger um hymno d'amor, com os olhos no +céo!</p> + +<p>Ahi tendes então os blasphemos arrependidos: Coimbra não é só a +tortuosidade e estreiteza de suas ruas, não é o som lugubre do seu sino +fatal, não é o suspirar por quem vive longe, não é nada d'isto; é a terra +das suas saudades, é a saudade da sua poesia, é a poesia da sua vida!</p> + +<p>Se um d'esses homens for poeta... e quem ha que o não seja depois do +baptismo da sombra d'estes salgueiraes, do perfume d'estes campos, do +crystallino d'este ambiente, da doçura d'estas aguas, da verdura d'estes +montes, da fresquidão d'estas brizas? aqui a poesia bebe-se pelos olhos, +pela bocca, pelos ouvidos, sem o querer, sem o cuidar, sem o sentir; cada +pedra, cada tronco leva inspirações ao amago do seio, que desatina a cantar +como a zagala ao desabrochar do dia, ou como a avesinha, que saúda a +primavera; aqui murmura melodias o ciciar da aragem nas flores da collina; +o scintillar da lua quando num tecto de saphira pende accesa como lampada +de sanctuario; o ardor do sol, quando se alastra em diamantes por cima do +estendal da arêa; o echo a responder sonoro ás palmas d'um folguedo; a vara +do barqueiro a resvalar nos seixinhos do rio; o lavadouro da +<i>tricana</i>, que geme debaixo dos seus golpes, menos duros porque os +acompanha uma cantiga de amores!--até os nomes dos sitios têm aqui uma +suave harmonia, como preludio de canção, que deixa adivinhar-lhe toda a +lindeza!.... Mas não vês, Elysa, como eu vou longe do que ia dizendo? era +Coimbra, que me arrebatava nas ondas da sua poesia; foi uma nova prova do +seu poder;--voltemos porém ao primeiro proposito.</p> + +<p>Se um d'esses homens for poeta, irá assentar-se no limiar da sua porta, +quando a tarde vai caíndo nos braços da noite, e alli o vereis a cantar; +segui-lhe o canto... não ouvis? aqui fallou d'aquella fonte,</p> + +<div class="poesia"> +Que lagrimas são a agua e o nome amores;<a href="#rodape4" name="nota4"><sup>4</sup></a> +</div> + +<p style="text-indent: 0">alli gemeu com a desditosa <i>Castro</i> á sombra +dos cedros seculares; agora um som festival lhe escapa ao recordar-se da +<i>Lapa dos Esteios</i>, onde se lhe escoaram deleitosos momentos por sobre +alcatifa de violetas e boninas; logo suspira nas cordas da harpa aquella +<i>Maria Telles</i> tão sem ventura, a quem a mão do esposo ceifa a rosa da +vida no descuido da noite; lá se lhe accende o estro na labareda do +enthusiasmo, porque se recordou d'aquelle cavalleiro d'antes quebrar que +torcer,<a href="#rodape5" name="nota5"><sup>5</sup></a> que fecha as portas +da cidade ao rei cheio de vida e de poder, e leva as chaves d'ellas ao rei +sem vida e sem nada; eil-o depois encostado ao tumulo de D. Sisnando, a +misturar nos seus versos o saudoso da religião, inspirado pela fronte +carcomida da cathedral veneranda que viu nascer a patria, e que tem visto +morrer tantos seculos!</p> + +<p>Olhae como vos diz que Coimbra é</p> + +<div class="poesia"> +Cidade rica do sancto<br> +Corpo do seu rei primeiro,<br> +Qu'inda vimos com espanto<br> +Ha tão pouco tempo inteiro<br> +Dos annos que podem tanto.<a href="#rodape6" name="nota6"><sup>6</sup></a> +</div> + +<p style="text-indent: 0">Silencio... não vêdes como lhes resumbram no seu +cantico uns nomes tão feiticeiros...</p> + +<div class="poesia"> + <i>Da saudade o penedo!</i> que amores<br> +Á minh'alma, aos meus olhos não é!<br> +Lindo cesto de graça e verdores,<br> +Verde ramo do monte ao sopé.<br> +<br> + <i>Dos suspiros a gruta</i> mais longe<br> +Recolhida se foi meditar.<br> +Só poeta, só ave, só monge<br> +Póde á gruta os segredos vulgar!<br> +</div> + +<p>E aqui lhe escapa depois no fundo arrebatar do pensamento grave um nome +grave como elle--o <i>Penedo da Meditação!</i> mas de volta para a cidade +pára diante da gradaria soberba de soberbo jardim erecto pelas mãos +sagradas d'um Bispo<a href="#rodape7" name="nota7"><sup>7</sup></a> e +exclama</p> + +<div class="poesia"> +Salve, terra mimosa! a ti meu canto<br> +A ti meu coração, minhas saudades! +</div> + +<p>E o echo, ou de cortez, ou de agradecido, responde-lhe de dentro do +arvoredo o derradeiro verso</p> + +<div class="poesia"> +A ti meu coração, minhas saudades!<a href="#rodape8" name="nota8"><sup>8</sup></a> +</div> + +<p>Que é tudo isto, Elysa? que é todo esse cantar d'aquelle homem já longe +de Coimbra? Não é, não póde ser, não ha de ser nunca outra coisa senão o +transumpto das perolas, que a patria de <i>Sá de Miranda</i> lhe engastou +na alma, e que a memoria ha de vasar sempre do seu thesouro todas as vezes +que o poeta pegar na lyra.</p> + +<p>Elysa, eu amo muito esta formosa terra!</p> + +<p>É o coração de Portugal, onde á vontade se revolve o seu sangue mais +ardente. Que viver este do mancebo com o mancebo!</p> + +<p>Crença nas palavras e nos sentimentos; sentimentos e palavras cheias de +verdade e de força; amor e enthusiasmo por tudo o que é nobre e grande; +confiança nas idéas e nos homens; communhão quasi primitiva de bens e de +tudo; homogeneidade de tendencias; existir nos outros, pelos outros, e para +os outros; toda a virtude de quem entra na vida com muita fé no futuro: +eis-ahi o viver do mancebo com o mancebo debaixo d'este céo de Coimbra!</p> + +<p>Elysa, eu amo muito esta formosa terra!</p> + +<p>Depois de ti, da minha lyra... não, não quero que Coimbra seja o +terceiro affecto do meu coração, mas quero querer-lhe bem, porque é um +querer que ella merece.</p> + +<p>Oh! se te eu vira um dia, Elysa, assentada comigo nas ruinas do +mosteiro da <i>Rainha Sancta</i><a href="#rodape9" +name="nota9"><sup>9</sup></a>, e d'alli, depois de haveres passado teu alvo +braço á roda do meu pescoço, te esquecesses a contemplar Coimbra, como +Coimbra se esquecera, tambem com seu braço lançado ao pescoço do monte, a +pasmar na tua face d'anjo; se a viras tão linda a retratar-se no Mondego e +a sorrir-se para o céo, oh! que tambem tu havias de amar muito Coimbra!</p> + +<p>Elysa, eu bem comprehendo que tu antes quizeras que o teu amante ausente +praguejasse a terra que lhe rouba a sua Elysa; crês que a delicadeza do +sentimento pedia antes isso, seja assim: mas consente aos poetas mais uma +liberdade, deixa-os dizer o que os outros calam por traiçoeiros; não vale +mais esta franqueza? O coração foge para o <i>bello</i> como a mariposa +para a luz; que culpa tem elle? que póde elle, se ha de por força amar o +<i>bello</i>:--é um amor fatal. Mas, se te queres vingar d'esta fatalidade, +Elysa, vem, vem comigo assentar-te nas ruinas do velho mosteiro, que tu +olharás para Coimbra, e eu olharei para ti.</p> + + +<h3>II</h3> + +<p>O nascer e o morrer d'um dia formoso; a profecia do sol e o seu +derradeiro adeos; o ensaiar dos canticos das aves, e o desfallecer d'esses +canticos, que passam e morrem nas tranças da floresta; as aguas, que +reflectem o raio que se alevanta; as aguas que reflectem o raio que se +deita; os echos que despertam; os echos que adormecem; a treva que se +adelgaça e a treva que se condensa; o crepusculo da manhã e o crepusculo da +tarde, são duas horas gemeas nos encantos, na suavidade, na doçura, nas +inspirações.</p> + +<p>Elysa, será um erro, uma superstição talvez; mas eu creio que todo o +pensamento nobre, grande, generoso, sublime, que tem brotado da cabeça do +homem, numa d'estas duas horas é que foi concebido.</p> + +<p>Quando o homem, á luz duvidosa da manhã ou da tarde, se assenta no viso +d'um monte, na alcatifa d'um valle, na margem d'um rio, no limiar d'uma +porta, e d'alli, pairando com a vista entre a terra e o céo, abrange todos +os objectos sem se fixar em um só; ouve todos os sons sem escolher um só; +sente todas as sensações sem definir uma só; quando o coração, enfeitiçado +nestas horas pelo incerto da luz, dos objectos, dos sons, e das sensações, +parece embalar-se no peito e adormecer, oh! então, Elysa, então é que o +homem conversa com a Divindade, então os ouvidos da creatura ouvem as +palavras do Creador!</p> + +<p>É por uma donosa madrugada que eu agora escrevo no teu livro, Elysa: é +ella que do seu throno de verdura me está dictando este capitulo;--que não +possa transportar eu para estas paginas essa pagina tão bella do livro do +Eterno! Ainda o sol não desengastou das ondas o seu rosto em braza; uma luz +frouxa, crystallina, mimosa, perfumada, espraia-se, como um regato, por +sobre toda a natureza, enrosca-se á volta de todos os seres alastrando de +esmeraldas a terra e de saphiras o céo; aquelle murmurar monotono, pesado, +o enfadonho do dia ainda se não escuta; e as brizas folheando na selva +levam de cada folha um som, e lá nas alturas compoem um hymno para +Deos!</p> + +<p>Elysa, deixa que os ricos da fortuna e os poderosos da terra nasçam, +vivam, e morram sem nunca terem visto a face da madrugada; fatigou-os a +noite no bulicio dos saraus e das orgias, deitaram-se quando o dia se +alevantava; deixa que elles ignorem, que elles não gozem o brilho +suavissimo da mais rica perola do diadema do mundo, deixa-os, e vem tu +comigo assistir em espirito á festa de todos os dias, ao desabrochar da +madrugada:</p> + +<div class="poesia"> + Eil-a trajando verdores<br> +A linda mãe dos amores,<br> +Com seus volateis cantores<br> +Pelos campos a folgar;<br> +Eil-a folgando na mata,<br> +Que nas aguas se retrata,<br> +Nas aguas de lisa prata,<br> +Na prata do liso mar.<br> +<br> + Salve, rainha formosa!<br> +Festeja-te o lirio, a rosa,<br> +Dos jardins a mariposa,<br> +Do trovador a canção;<br> +Festeja-te a pastorinha,<br> +Que nas côres te adivinha<br> +Um pensamento que tinha,<br> +Que tinha no coração.<br> +<br> + D'aldêa o sino te chama,<br> +E o moço, que deixa a cama<br> +Porque vai ver a quem ama<br> +Ao pé da encosta d'alem;<br> +Suspiram-te sempre os montes,<br> +Abraçam-te os horisontes,<br> +Choram-te rios e fontes,<br> +Nas fontes d'amor, que têm.<br> +<br> + Bemdiz-te o velho, e ensina<br> +Á neta, que é pequenina,<br> +Rezas sanctas da divina<br> +Crença, que tem no Senhor<br> +Bemdiz-te o armento balando,<br> +Do tomilho o cheiro brando,<br> +E o pegureiro cantando,<br> +Cantando magoas d'amor.<br> +<br> + Vem, ó linda madrugada,<br> +Vem de violetas c'roada,<br> +Pelas brizas embalada,<br> +Vem nestes campos folgar;<br> +Folga nos céos e na mata,<br> +Que nas aguas se retrata,<br> +Nas aguas de lisa prata,<br> +Na prata do liso mar.<br> +</div> + +<p>Todo o mundo parece corar de puro gozo, parece que sorri com o sorriso +da felicidade quando o primeiro albor da manha lhe corre com mão de jaspe a +cortina da noite; é a amante carinhosa, que vai despertar d'um sonho +d'afflicção o amante adormecido com um beijo na fronte:--Elysa, se por cada +um dos meus sonhos d'afflicção tivesses de me dar um beijo, quantos beijos +me não devias! e crê que então não quizera eu sonhar outros sonhos.</p> + +<p>Mas como são cheias de galas e de thesouros, para os olhos do corpo e +para os olhos da alma, estas horas do alvorecer do dia! O ar que respiramos +é mais puro e embalsamado; uma harmonia deliciosissima desferida nas harpas +dos bosques, dos rochedos e das aguas, reproduz-se inteira nas cordas +intimas do seio, e a poesia acode voluntaria aos labios; é uma poesia +ensinada pelos anjos, porque só falla de Deos; é a verdadeira poesia.</p> + +<p>De todos os argumentos mais gratos ao espirito, mais poderosos, mais +energicos para demonstrar ao homem a existencia d'um Deos, o mais grato, o +mais poderoso, o mais energico é a contemplação da natureza. De todas as +horas do dia as melhores e as mais bellas para esta contemplação são as +horas do crepusculo da manhã e da tarde:--não sei que delicioso anhelar, +que doçura saudosa anda então no pensamento, que nas azas da meditação nos +arrebata para o céo, e nos desata as cadêas mesquinhas da vida mesquinha da +terra!</p> + +<p>Os raciocinios da philosophia convencem quando demonstram a realidade da +causa primaria, mas a natureza faz mais: depois de convencer gera o amor; o +coração não póde deixar de amar a origem das maravilhas que admira. E não +sabes, Elysa, qual é a obra das mãos de Deos, que mais me tem convencido da +sua existencia? Vais talvez dizer-me que são esses mares a revolverem-se +noite e dia á roda dos continentes, esses mares cujas gottas são lettras, +cujas vagas são syllabas, cujos bramidos são palavras, que dizem--existe +Deos! Vais talvez dizer-me que são as montanhas e os promontorios erguidos +como braços da terra apontando para o firmamento! Vais talvez dizer-me que +são esses milhões de mundos luminosos gravitando no espaço, e traçando no +manto azul da esphera a historia da Omnipotencia! Enganas-te! olha para o +teu espelho, Elysa, e lá verás a minha prova mais bella, a minha prova mais +segura da existencia de Deos!</p> + +<div class="poesia"> + O Senhor quiz no teu rosto,<br> +Quiz o impio confundir,<br> +Quiz dos céos todo o composto<br> +N'um só ponto resumir;<br> +Nos olhos pôz-te as estrellas,<br> +Inda mais lindos do que ellas<br> +Os vejo d'amor fulgir;<br> +Poz-te nas faces a aurora<br> +Poz o sol no teu sorrir,<br> +E nas tranças côr d'amora<br> +Fez negra noite caír;<br> +Que o Senhor quiz no teu rosto,<br> +Quiz dos céos todo o composto<br> +N'um só ponto resumir. +</div> + +<p>Na verdade, Elysa, ver o teu rosto e descrer da Divindade seria o +absurdo do atheu positivo; não, não cuides que o atheismo passe dos labios; +ha lá dentro do atheu um sentimento, uma voz intima, uma quasi fatalidade, +que, mau grado seu, o arrasta e o convence: mas que haja um só tão +desgraçado, que o haja que, mercê da minha dama, lhe provarei que mente +apontando-lhe para a tua face;--a minha Elysa não podia ser fructo de um +acaso estupido, a minha Elysa é a victoria do Eterno!</p> + +<p>E que mais formosa... mais não, a perfeição não tem gráus, que formosa +não és tu quando nestas horas da manhã ou da tarde te embeveces a meditar +com a fronte encostada á mão, os olhos na immensidade, e o peito arfando +brandamente, como superficie de lago ao bafejo das auras! que formosa!</p> + +<p>Nunca viste nos teus sonhos de innocencia o teu anjo da guarda a +contemplar socegado o socego da tua alma, tão pura como elle? Imagina a tua +lindeza pela do teu anjo, assim como pela tua lindeza tenho imaginado a de +todos os anjos!</p> + +<p>Que formosa não és tu nessas horas!</p> + +<p>O pagão se te vira assim na alvorada d'um dia de primavera erguia-te um +altar e chamava-te <i>Vesta!</i> Cuidaria ver-te conduzindo pela mão as +<i>Estações</i> e o <i>Amor</i>; veria as choréas das <i>Nymphas</i> á +volta do teu carro tirado por soberbos leões; veria os <i>Ventos</i> +adormecidos ao teu lado, e <i>Ceres</i>, <i>Pomona</i>, e <i>Flora</i> a +cingirem-te a fronte com uma corôa de rainha!--o pagão erguia-te um altar e +chamava-te <i>Vesta</i>.</p> + +<p>Mas no teu templo, minha <i>Vesta</i>... minha Elysa,--enganei-me--no +teu templo não seriam as donzellas romanas que conservariam o fogo +immortal; ahi o sacerdocio seria todo meu, a chamma immortal estava no meu +coração.</p> + +<p>Se fosse á hora da tarde que o pagão te visse, que te visse naquelle +estado que suspende a alma entre o prazer e a dor, naquelle estado que +então te exorna como uma aureola mystica; que te visse como a violeta da +varzea, recatada do mundo e rica e feliz na solidão onde reinas, se elle te +vira, em vez de te chamar <i>Vesta</i>, chamava-te a <i>Melancolia</i>.</p> + +<p>E o pagão chamava-te um bem doce nome! Fôras uma Deusa bem suave, bem +mimosa ao coração: <i>Melancolia!</i> que mais feiticeira ficção tem o +paganismo para te offerecer? que mais puro, mais arroubado, mais ineffavel, +mais divino sentimento ha ahi na terra?</p> + +<div class="poesia"> + Mais que o prazer, que a alegria,<br> +Mais que a risonha emoção,<br> +É mais doce ao coração<br> +A doce melancolia!<br> +Como é bello, quando o dia<br> +Se afoga no salso mar,<br> +Sobre ignota penedia<br> +Ir co'as vagas conversar!<br> +Ir sósinho suspirar<br> +Juncto a fontinha sonora,<br> +E nos prantos que ella chora<br> +Ir aprender a chorar!<br> +Como é bello então scismar<br> +N'uma scismada ventura,<br> +E aquelles sonhos sonhar<br> +Nunca fartos de ternura!<br> +Como a harmonia se apura<br> +Nas cordas da meiga dor<br> +Quando a rola da espessura<br> +Poisa n'harpa ao trovador!<br> +Quando uns gemidos d'amor,<br> +Gemidos que não sabia,<br> +Sáem da harpa, e ao redor<br> +O echo lh'os repetia!<br> +Como então mais que a alegria,<br> +Mais que a risonha emoção,<br> +É mais doce ao coração<br> +A doce melancolia!<br> +</div> + +<p>Elysa, se o pagão te chamasse a <i>Melancolia</i>, o pagão chamava-te um +bem doce nome!</p> + +<p>E as horas da melancolia são as horas da tarde.</p> + +<p>Aquelle tibio da luz; aquelle horisonte dourado e bordado de nuvensinhas +diaphanas côr da espuma dos mares; aquelle hymno immenso da terra, que se +vai perdendo, perdendo ao longe por seios de cavernas; aquelle vôo da ave, +que nos passa por cima da cabeça ao ir aninhar-se na roupagem da montanha; +aquelle canto da zagala, que vem do prado com os seus cordeirinhos tão +alvos como ella; aquellas brizas perfumadas, que então andam a folgar nas +aguas do rio, ou na relva das margens, e que nos vêm depois roçar as faces +com a ponta da aza melindrosa; aquelle rugir da folha secca e caída debaixo +dos pés do viandante cançado; aquellas vozes confusas que se escutam no +casal, que augmentam, que diminuem, que recrescem, e finalmente morrem no +silencio; aquelle agoireiro latir do lebreu repetido pelos echos do valle; +aquelle fatigado carpir do carro lá ao longe ao subir das encostas; e o +sino da aldêa, que no alto da serra está assentada, como pastorinha +esquecida a meditar amores; e os céos azulados a vestirem pouco a pouco o +manto das sombras; e as sombras a desdobrarem-se nos campanarios; e os +campanarios a perderem-se da vista; e a vista a resumir-se no coração; e o +coração a afogar-se inteiro no saudoso da tarde, e a tarde com todas as +suas galas.... oh! como tudo isto falla á alma uma linguagem ignota, e a +deixa naquelle estado scismador em que as lagrimas são mais doces do que os +risos do prazer!</p> + +<p>As horas da melancolia são as horas da tarde.</p> + +<p>Elysa, a mythologia esqueceu-se de nos dizer em que hora do dia tinha +nascido o <i>Amor</i>; eu só nesta hora mysteriosa da tarde quizera que +elle tivesse nascido; não podia, não devia nascer noutra hora. Não vês tu +como ao caír da noite vem sempre um suspiro pendurar-se nos labios em busca +d'um irmão a quem se abrace? não vês como é então que a mulher desatina a +cantar sem o cuidar, sem o sentir, sem o querer talvez, e como que +respondendo a outra voz que a chama? não vês como a donzella, com todos os +affectos ainda em botão virginal, começa de adivinhar um segredo, um +segredo lindo, que lhe anda entre nuvens no pensamento?</p> + +<div class="poesia"> +Coração de mulher, qual Philomela,<br> +É todo amor e canto ao pé da noite:<br> +Do amante a voz então entra mais branda,<br> +Mais grata, mais feliz, dentro do peito;<br> +Toldam sombras o pejo, as faces podem<br> +Osculadas córar sem que o triumpho<br> +Lá veja o vencedor escripto em rosas;<br> +Melhor se escuta o frémito dos labios<br> +Suspirando d'amor, pedindo amores:<br> +Póde o <i>sim</i> mais sumido então colher-se,<br> +Fingir que foi acaso a mão tocada:<br> +O rigor feminil, desdens, orgulhos,<br> +Da tarde a viração leva-os nas azas.<br> +</div> + +<p>Elysa, se tu não fôras unica na terra, se não fôras o archanjo +impeccavel que me Deos mandou dos céos para eu crer devéras na virtude, +tremeria com a idéa--bastava a idéa--de te veres a sós com um mancebo por +tal hora do dia:--é a hora dos amores.</p> + +<p>Mas tambem é a hora da religião; não ha momento em que a alma de melhor +vontade se eleve para Deos: a oração, Elysa, é tão consoladora, tão cheia +de balsamos neste momento! Guarda as tuas preces para esta hora, e dize-me +depois se não pensas que as sanctas do céo vieram com mais alegre semblante +ajuntal-as no regaço, como flores de maio, e leval-as mais velozes aos pés +do Senhor!</p> + +<p>A oração é o resultado do amor; o amor é o resultado do conhecimento +d'aquelle que se ama; que melhor ensejo queres tu para conhecer o Creador? +Esse mesmo véo, que te vai envolvendo quanto enxergas, esse mesmo é uma das +suas mais formosas maravilhas:--o silencio que se vai fazendo em toda a +creação parece que é feito para que o homem falle; calou-se tudo para que +fallasse o monarcha da terra ao monarcha da terra e do céo! Elysa, para te +ouvirem as rezas os mesmos anjos se calariam; devem de ser um hymno tão +melodioso, tão lindo como o que elles cantam, tão fervoroso como o d'elles, +tão angelical como tu mesma!</p> + +<p>Se vivessem hoje os Paladinos cortezes, se ainda esse mundo andassem os +namorados cavalleiros da edade média, que á ponta de lança vingavam e +desmentiam as injurias feitas á belleza, não haveria tanto escriptor, tanto +philosopho e poeta, que desacatasse as mulheres.</p> + +<p>A logica d'aquelles tempos era valente, tinha argumentos de +<i>ferro</i>, que não havia resistir-lhes; se então saísse á luz um livro +desleal e villão, logo o auctor sentiria bater-lhe no rosto um guante de +campeador, e retinir-lhe nos ouvidos um <i>mentes!</i> d'aquelles, que +sempre deixavam uma bainha vazia, ou um nome infamado. Hoje não; hoje +diz-se e escreve-se impunemente quanta loucura e descortezia lembra; tem-se +dicto das mulheres o que esqueceu a Mafoma, com ser elle dos mais +grosseiros <i>devotos</i>, que nunca jámais ellas tiveram. Que de cousas +doidas, Elysa, não tenho tambem eu dicto e escripto para ahi a respeito das +mulheres?! mas agora cuido que d'esse mal estou curado e desculpado--não +tinha encontrado uma só Elysa: e a quem a não encontra que lhe digam que +andam anjos na terra? não o acredita. E já que tu foste quem me fizeste +renegado, já que a ti devo a minha nova crença, quero que seja o teu livro, +Elysa, o campo onde levante pendão pelo teu sexo; mas antes d'isso consente +que eu desculpe alguma cousa o meu erro;--não se póde assim deixar um velho +defeito sem ter ao menos duas palavras para lhe diminuir o feio, para lhe +minorar a imputação.</p> + +<p>No dizer mal das mulheres não ha tanta maldade como parece, e d'isto me +convencem duas cousas; não as ter nunca visto <i>devéras</i> agastadas com +os maldizentes, e serem elles sempre os seus maiores adoradores;--é que +ellas bem comprehendem que nessas offensas vai mais amor que odio, é que +elles só offendem porque amam. Parece um absurdo, mas que haja coração +d'amante capaz de o não admittir, não ha.</p> + +<p>Injurias de philosophos, essas não sei eu que se possam justificar ou +sequer defender; é gente que tem todo o seu viver na cabeça, gente de gêlo, +gente capaz de <i>constipar</i>, como disse um Italiano fallando das +mulheres da Polonia, e por isso elles offendem porque não amam, offendem +porque algum raciocinio bastardo pode nelles mais do que a natureza. Um +philosopho ha de dizer-te, Elysa, em tom dogmatico que <i>as mulheres não +pertencem ao genero humano</i><a href="#rodape10" +name="nota10"><sup>10</sup></a>, ha de fallar com toda a seriedade a favor +d'essa these brilhante no concilio de Mâcon<a href="#rodape11" +name="nota11"><sup>11</sup></a>, ha de escrever que ella é um ente +imperfeito na sua organisação<a href="#rodape12" +name="nota12"><sup>12</sup></a>, e, contente com pertencer á humanidade só +pelo lado paterno, cravará a fronte entre as duas mãos, e ficará diante +d'um <i>in-folio</i> abysmado na sua intellectualidade unilateral!</p> + +<p>Injurias d'estas, Elysa, não têm perdão; abandono os philosophos á tua +colera.... ao teu desprezo queria dizer.</p> + +<p>Agora poetas, isso é outra casta de gente. Dir-te-hão, é certo, cousas +terriveis, dir-te-hão:--</p> + +<div class="poesia"> +«Mulher pura e fiel não ha, nem houve!<br> +......................................<br> +Raça infame de viboras dolosas<br> +Podesse uma só nau contel-as todas,<br> +E o piloto fosse eu...................<a href="#rodape13" name="nota13"><sup>13</sup></a> +</div> + +<p style="text-indent: 0">que havia de fazer? deixa lá dizer ao poeta o que +quizer; mas crê que se elle fosse o piloto guiava de certo a náu a porto de +salvamento. Não ha gente mais trovejadora em suas iras que são os poetas; +com a penna na mão todas as vezes que se enfurecem temos <i>vesperas +sicilianas</i>; mas, chegada a occasião, vem logo absolvição papal. Embora +te diga que não ha mulher, nem houve, pura e fiel, não é cousa em que elle +creia; o poeta é todo coração; coração de poeta, se não amasse, morria-lhe +no peito, e amar sem crer na mulher é impossivel. Não sei se <i>Milton</i> +disse mal das mulheres, o que sei é que elle casou tres vezes.</p> + +<p>Elysa, poetas são outra casta de gente que não são os philosophos.</p> + +<p>Queres tu ver como elles fallam quando não é o ciume que os inspira? +queres ver com que delicadeza se elles desculpam das faltas passadas? +ouve:--«Um sôpro divino formou a alma do homem, a da mulher de um beijo +delicioso deveu ser formada.... custa a crer como um ente, que é metade da +nossa especie, que das duas é a mais amavel metade, a mais carinhosa, em +tantas cousas nosso egual para nos attraír, mas com tantas differenças de +nós para se nos unir ainda mais; que, se tem defeitos, de nós os recebe, e +nos dá em troca sem o cuidar tantas das virtudes que possuimos, custa, +digo, a crer como um tal ente, a quem sua propria fraqueza devêra tornar +inviolavel, pôde ver-se em todos os tempos, e provavelmente continuará a +ser até ao fim dos seculos, alvo e emprego das criticas mais desabridas, e +mais grosseiras calumnias......... Qual póde ser a causa d'esta mais que +montezinha ferocidade?....... é a causa o mesmo natural instincto, que faz +que os soldados em tempo de guerra, seroando entre as armas á fogueira +ociosa do seu rancho, encareçam as derrotas do inimigo, e lhe assaquem +fraquezas que não tem, para a si proprios accrescentarem animos e +determinação para as futuras pelejas--»<a href="#rodape14" +name="nota14"><sup>14</sup></a>.</p> + +<p>Ora eis ahi a linguagem dos poetas quando <i>transfugas dos arraiaes dos +levantados se recolhem ás trincheiras d'ellas</i>;--todos esses libellos, +que lhes saem das mãos, não são d'elles; é o anjo negro, diabolico, +sinistro do ciume que lhes espremeu fel no tinteiro, e escreveu em nome e +por conta dos pobres poetas.</p> + +<p>E quem não perdoará os furores do ciume?! não sei até se elles são +necessarios. <i>Ovidio</i>, que passa por mestre em taes materias, +aconselhou-os porque traziam comsigo a <i>redintegratio amoris</i>, a +doçura da nova paz; e tão longe leva elle o conselho, que permitte chegar o +amante enfurecido a despedaçar os vestidos da sua bella ingrata; tambem +<i>Moliére</i>, que não foi sempre francez com as damas, tambem elle os +desculpa e se desculpa dizendo:--«ne savez vous pas que les injures des +amants n'offensent jamais; qu'il est des amours emportés aussi bien que des +doucereux; et qu'en de pareilles occasions les paroles les plus étranges, +<i>et quelque chose de pis encore</i>, se prennent bien souvent pour des +marques d'affection, par celles même qui les reçoivent?--»<a +href="#rodape15" name="nota15"><sup>15</sup></a>.</p> + +<p>Não sei se <i>Moliére</i> quiz adoptar o principio de <i>Ovidio</i> +naquelle <i>quelque chose de pis encore</i>; mas o que um e outro quizeram +foi cobrir o ciume com as azas do amor: se eu pretendesse para isso uma +auctoridade mais competente do que aquelles dous poetas talvez a tivesse<a +href="#rodape16" name="nota16"><sup>16</sup></a>. O que é certo porém, +Elysa, e seja com isto que eu dê mate á minha defesa, o que é certo é que +por isso mesmo que na mulher se pretende a perfeição, é mister não a +lisongear sempre; e o achar todas egualmente sem defeito não sei se é maior +prova de indifferença que de amor.</p> + +<p>Está pois decidido que os poetas são muito melhores do que os +philosophos, e que no seu dizer mal não ha injuria comparavel áquella +injuria fria, tremenda, meditada, e infinitamente falsa de que as +<i>mulheres não pertencem ao genero humano</i>:--quem os tivera feito +nascer das hervas! Estes taes não quizera eu nem que as tetas das lobas os +alimentassem.</p> + +<div class="poesia"> + Nunca taes homens souberam<br> +Ler na face da mulher,<br> +Em seus olhos aprender<br> +Nunca taes homens quizeram.<br> +<br> + Não viram manar-lhe a flux<br> +Dos labios celeste riso?<br> +Não viram do paraiso<br> +Nos olhos accesa a luz?<br> +<br> + Não é d'anjo a voz macia,<br> +Que, vencendo almo pudor,<br> +Te diz ternura e amor<br> +Com tão mimosa harmonia?<br> +Aquelle encanto só seu,<br> +Graças e mimos só d'ella,<br> +Aquella rosa tão bella<br> +Não vem do rosal do céo?<br> +<br> + A quem á terra só veiu<br> +Por te servir, por te amar,<br> +D'irmã tua lhe chamar<br> +Parece que tens receio?<a href="#rodape17" name="nota17"><sup>17</sup></a><br> +Se o teu orgulho não quer<br> +Chamar anjo á formosura,<br> +Deixando ingrata loucura,<br> +Chama-lhe ao menos mulher.<br> +<br> + Não pertence á humanidade<br> +Dizes tu, impio! e não vês<br> +Do seio caír-lhe aos pés<br> +Humanada a Divindade?!<br> +Se em ti a crença inda tem<br> +Algum poder, pensa n'isto,<br> +Pensa tu que Jesus-Christo<br> +Foi homem por sua mãe.<br> +</div> + +<p>O que é admiravel, Elysa, é que na mesma epocha em que se dizia em +França que <i>a mulher não tinha alma</i>, appareceram <i>Isabel de +Baviera</i> e <i>Joanna d'Arc</i>: aquella entregou a França á Inglaterra +para mostrar o poder d'uma mulher; esta deu de novo a patria aos +philosophos para mostrar a generosidade feminina; foi Deos que se +encarregou de as desafrontar.</p> + +<p>Se philosophos e poetas tivessem estudado a mulher: a mulher physica, a +mulher intellectual, a mulher moral, já nem syllogismos nem versos lhe +seriam tão contrarios; mas que? são como o Marquez que Moliére nos pinta; +nem se dão ao trabalho de examinar o que sentencêam, e depois--«je la +trouve détestable, morbleu! détestable, du dernier détestable, ce qu'on +appele détestable--»<a href="#rodape18" +name="nota18"><sup>18</sup></a>.</p> + +<p>A mulher physica achal-a-hiam na physiologia moderna (na de +<i>Hippocrates</i> não), achal-a-hiam tão perfeita como o homem; e se algum +d'estes entes deve ser preferido pela delicadeza e maravilhoso da +organisação, essa preferencia cabe á mulher, sem contar todavia a belleza +externa, nem a graça das fórmas.</p> + +<p>A mulher intellectual haviam de encontral-a em <i>Sapho</i>, +<i>Heloiza</i>, <i>Catharina</i>, <i>Semiramis</i>, <i>Staël</i>, +<i>Sevigné</i>, <i>Coulanges</i>, <i>Lafayette</i>, <i>Bernier</i>, +<i>Flaugergues</i>, e tantas outras, que têm regido o sceptro ou a penna +com gloria mais que varonil: os preceitos do bello inspirava-os +<i>Aspasia</i> a <i>Socrates</i> e <i>Pericles</i>, <i>Ninon de Lenclos</i> +a <i>Condé</i> e <i>La Rochefoucault</i>:--sem a mulher os conhecimentos do +homem seriam imperfeitos; elle descobriria o que na natureza ha de forte, +de grande, de sublime; mas a graça, o mimo, a delicadeza só pela mulher +podia ser descoberta. A litteratura carece de imaginação, e a mulher tem na +imaginação a principal natureza da sua alma; aqui a vantagem é toda +d'ella:--até se não for ella quem povôe o coração do homem das illusões do +amor, aonde irá elle encontrar as galas da sua litteratura? Entregue ao +positivismo da vida material, sem o fogo imaginativo, de que flores ha de +encher os seus livros?</p> + +<p>A litteratura e as artes têm sempre devido á mulher ou joias suas, que +lhes façam o diadema, ou protecção e influencia, que as augmentem e +desenvolvam: foi na côrte de <i>Catharina de Médicis</i> que <i>Henrique o +grande</i>, aprendendo a amar, aprendeu tambem aquellas maneiras nobres e +cavalleirosas, que distinguiram o seu reinado, dando á sua lingua uma graça +e polidez, que não tinha. O gosto e sentimento delicado para as lettras e +artes, que <i>Maria</i> e <i>Catharina de Médicis</i> levaram da Italia +para França foram a origem do desenvolvimento das artes e das lettras do +seu tempo. E não seria á influencia que as mulheres tiveram na côrte de +Luiz XIV, que se deveu então essa lista immensa de homens celebres, com que +a França se honra, e que o mundo estuda e admira? E não será para agradar á +mulher que o homem gera a industria, inventa o canto, a dança, a pintura, +amenisa a linguagem com as flores da poesia, traja com esmero, e torna +affaveis e doces suas maneiras e costumes? A mulher intellectual não existe +só em si, existe nos outros tambem; não se contenta com as suas creações, +instiga os outros a crear; e é considerando reunido o que a alma da mulher +pode tirar de si propria, e o que a mulher concorre para as producções da +alma do homem; é considerando reunido num só ponto o que a mulher é em si e +no homem, que eu a vejo tão sublime, tão elevada, que, senão tivera o lado +moral para a olhar, já por este lhe podia chamar anjo.</p> + +<p>A mulher moral porem é que é a mulher, ou a mulher da mulher. Ou a nós +vejamos na sua condição de amante, de irmã, de filha, de <i>mulher</i> e de +mãe; ou a consideremos no prazer ou na dor, na ventura ou na miseria; ou +contemplemos o que pode pela mulher ser o homem, em quem é sempre ella que +imprime a virtude ou o vicio no coração; ou a analysemos no seu throno, que +é na vida de familia, ou na hasta publica da vida de sociedade; ou a +vejamos na infancia ser a alegria da casa, na juventude ser as delicias do +amor, na madureza ser a consolação da alma, e na velhice ser a mestra da +virtude; ou seja que nos abrace ou que nos fuja, que nos afague ou que nos +reprehenda, que nos ame ou que nos aborreça, a mulher moral é a parte mais +augusta da creação.</p> + +<p>--«A mulher moral é o infinito--» disse um illustre escriptor<a +href="#rodape19" name="nota19"><sup>19</sup></a>; e na verdade só assim se +pode definir o mysterio da mulher moral!</p> + +<p>A mulher é o elemento mais poderoso da ventura social, mas a mulher +moral é o elemento dos elementos. Indagae a origem dos ciumes e, com leves +excepções, achal-a-heis na educação, isto é, na mulher; vêdes uma boa +acção? Procurae-lhe a fonte, e encontrareis a mulher; talvez que não haja +no mundo um só facto, cujo principio ou fim, se bem o averiguarmos, não +seja a mulher:--«os homens serão sempre o que as mulheres quizerem que +elles sejam--» disse <i>Rousseau</i><a href="#rodape20" +name="nota20"><sup>20</sup></a>, e disse uma grande verdade; porque antes +que o homem seja cidadão é filho primeiro. A mãe dos <i>Gracchos</i> e dos +<i>Corneilles</i> tinha uma alma nobre, grande e severa; a mãe de +<i>Voltaire</i> era escarnecedora e de garridas maneiras; a de +<i>Byron</i>, até nem os defeitos physicos do filho escapavam á sua +maldade; <i>Kant</i> dizia que fôra sua mãe quem lhe lançara na alma o +germen do bem e quem primeiro lhe inspirara o amor do Creador, +explicando-lhe o que sabia das maravilhas da natureza<a href="#rodape21" +name="nota21"><sup>21</sup></a>; <i>Cuvier</i> deveu a sua mãe os successos +brilhantes da sua vida illustre<a href="#rodape22" +name="nota22"><sup>22</sup></a>; <i>Barnave</i> já com um pé sobre o +cadafalso bemdiz sua mãe, que lhe deu na infancia o valor que alli o anima; +<i>Lamartine</i> aprendeu nas harmonias do coração materno as harmonias da +sua harpa piedosa; em fim, Elysa, se após estes nomes tão respeitaveis e +tão illustres é permittido citar o meu pobre e desconhecido nome, sirva +elle de mais uma prova, porque o pouco, o muito pouco, de bom que em mim +tenho é unicamente a minha mãe, é a ella só que eu o devo.</p> + +<p>Que augusta não é pois a missão da mulher sobre a terra! Ah! que se +philosophos e poetas meditassem bem no que é a mulher, e, sobre tudo, no +que ella pode ser, não haveria um só que não visse nesse ente o oásis +mimoso dos desertos da vida! Mas elles não curam de tal: arrancam +desapiedados as pennas alvissimas ás azas do cherubim, e depois, vendo-a +assim tão ao nivel das cousas da terra, descrêem d'aquillo mesmo em que não +souberam crer; andastes errados: acreditae primeiro, sabei o que é a +mulher, e depois julgae-a.</p> + +<p>Em quanto não fizerdes isto, sereis sempre uns inimigos desleaes e +traiçoeiros; tomareis a nuvem por Juno, e direis do phantasma da mulher o +que pensais dizer da mulher como ella saiu das mãos de Deos, quando viu que +não era bom que o homem vivesse só:--dizei embora o que quizerdes, mas da +mulher como a concebo e como ella existe, por mais rios de tinta que +derrameis, nunca podereis provar a maldade senão com aquellas razões com +que o citado Marquez da peça de Molière provava a maldade de <i>L'École des +Femmes</i>--» elle est détestable parce qu'elle est détestable--»<a +href="#rodape23" name="nota23"><sup>23</sup></a>.</p> + +<p>Em toda a parte em que o teu sexo, Elysa, não occupa o logar que lhe a +natureza marcou, ahi os povos são escravos, a ignorancia é profunda, e os +costumes são barbaros. O adorador de Mafoma compra a mulher, +<i>veda-lhe</i> a entrada no céo, prohibe-lhe a leitura dos livros +religiosos, afasta-a do tracto commum, e deixa-lhe só nos ferros do harem +os erros da superstição e os absurdos da feiticeria: que se segue +d'aqui?--que a tyrannia é no Oriente um principio, que a civilisação é +nulla, e que a moral é uma palavra sem significação. Cuidou o Musulmano +que, fazendo da mulher uma machina, tinha creado a felicidade para si; a +felicidade só ella a ha de crear, mas é mister que livre e desassombrada, +rainha e não escrava, possa, como a pomba da primavera, adejar sobre a +cabeça do homem, ensinar-lhe as aguas mais puras onde deve matar a sêde, e +a relva mais macia onde se deve assentar; só a mulher sabe, como a abelha, +quaes são as flores que dão mel, mas não lhe hão de crestar as azas na +chamma da impureza, que então, materialisado o amor, o homem e a mulher +perderão a faisca da divindade que os extremava do resto da creação;--«ou +os povos se hão de embrutecer em seus braços, ou civilisar a seus pés--»<a +href="#rodape24" name="nota24"><sup>24</sup></a>. Não é com todos os +pensamentos cravados na materia que a mulher pode dar ao homem a +felicidade; o Oriente não comprehendeu a mulher.</p> <p>Que terá a filha do +propheta para dar á alma do homem quando os sentidos estiverem saciados?--a +ignorancia, as paixões mesquinhas, as astucias, os vicios todos da +ociosidade, e, na consciencia da sua inferioridade, a tristeza da +escravidão, ou as traições d'um inimigo.</p> + +<p>E o amor? Oh! esse nunca; esse não sabe morar num calabouço.</p> + +<div class="poesia"> + Ao cioso mahometano<br> +Que vale o fechado harem,<br> +Se amor de escrava a tyranno<br> +Do coração lhe não vem?<br> +Que importam centos de bellas,<br> +Se uma só de todas ellas<br> +Livre em seu gosto não ha?<br> +Que importa matar desejos,<br> +Que importam, louco! esses beijos,<br> +Se só vendidos t'os dá?<br> +<br> + Com alma núa d'esp'ranças,<br> +Como ha de a escrava saber<br> +Que alem de jogos e danças<br> +Tem mais gozos a mulher?<br> +D'esses gozos não sabidos<br> +Como ha de trazer-te enchidos<br> +Os dias que vão e vêm?<br> +Se, dos paes perdida a trilha,<br> +Ella não sabe ser filha,<br> +Como ha de saber ser mãe?<br> +<br> + Embora os astros lhe apontes,<br> +Embora mostres os céos,<br> +E uma a uma lhe contes<br> +As maravilhas de Deos,<br> +Ha de dizer-te--que importa?<br> +Se eu tenho fechada a porta<br> +Que leva ao reino da luz?<br> +Que importa, se em vida e morte<br> +Sou proscripta, e minha sorte<br> +Nunca propicia reluz?<br> +<br> + Lá quando a dor te accommetta,<br> +Quando rir teu coração,<br> +As filhas do teu propheta<br> +Pranto e risos te darão.<br> +Ouvirá co'os teus ouvidos,<br> +Sentirá co'os teus sentidos,<br> +Viverá no teu viver?<br> +Oh que não!--solta-lhe os ferros,<br> +Despe-lhe a alma dos teus erros,<br> +E a escrava será mulher.<br> +</div> + +<p class="centrado">FIM</p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="rodape1" href="#nota1"><sup>1</sup></a>É crença muito antiga +que umas pedras vermelhas, que se encontram na <i>fonte dos amores</i>, +devem a sua côr ao sangue de D. Ignez de Castro.</p> + +<p><a name="rodape2" href="#nota2"><sup>2</sup></a>Não quero dizer que +descreio das leis da <i>Acustica</i>; sei que ella não só explica, mas até +consegue fazer <i>echos</i>:--a palavra <i>segredo</i> veiu aqui para +symbolisar que neste, como em muitos outros phenomenos naturaes, em se o +homem remontando um pouco, chega logo ás <i>forças centripetas e +centrifugas</i>, ou áquelle celebre <i>opium facit dormire, quia habet +virtutem dormitivam</i>.</p> + +<p><a name="rodape3" href="#nota3"><sup>3</sup></a>Garrett</p> + +<p><a name="rodape4" href="#nota4"><sup>4</sup></a>Camões.</p> + +<p><a name="rodape5" href="#nota5"><sup>5</sup></a>Martim de Freitas.</p> + +<p><a name="rodape6" href="#nota6"><sup>6</sup></a>Sá de Miranda.</p> + +<p><a name="rodape7" href="#nota7"><sup>7</sup></a>D. Francisco de Lemos, +Bispo de Coimbra.</p> + +<p><a name="rodape8" href="#nota8"><sup>8</sup></a>Este echo do jardim +botanico de Coimbra repete um verso heroico inteiro.</p> + +<p><a name="rodape9" href="#nota9"><sup>9</sup></a>A Rainha Sancta Isabel, +mulher d'El-Rei D. Diniz.</p> + +<p><a name="rodape10" href="#nota10"><sup>10</sup></a><i>Mulieres homines +non esse</i>. Dissert. anonym. d'Acidalius,--Paris 1693, in 12.</p> + +<p><a name="rodape11" href="#nota11"><sup>11</sup></a>Gregor. Turonens. Hist. Franc.</p> + +<p><a name="rodape12" href="#nota12"><sup>12</sup></a>D'anciens philosophes +et des médecins, tels qu'Hippocrate, Aristote, ont ausai regardé la femme +comme un être imparfait, un demi-homme. <i>Virey</i>--<i>De la Femme</i>, +chap. 1.<sup>er</sup>, pag. 15.</p> + +<p><a name="rodape13" href="#nota13"><sup>13</sup></a>A. F. de +Castilho--<i>Ciumes do Bardo</i>.</p> + +<p><a name="rodape14" href="#nota14"><sup>14</sup></a>A. F. de +Castilho--<i>Primavera, Notas á Festa de Maio</i>.</p> + +<p><a name="rodape15" href="#nota15"><sup>15</sup></a><i>La critiq. de +l'Écol des Femm.</i> Sc. 7.</p> + +<p><a name="rodape16" href="#nota16"><sup>16</sup></a>Á Sr.<sup>a</sup> +Marqueza d'........ uma das mais instruidas e amaveis damas que tenho +visto, ouvi eu que em materia de ciume era permittido a um homem levar a +sua colera até alguma pequena acção violenta. O sexo, a madureza da edade, +a penetração, e conhecimento do coração humano, que esta senhora possue, +dão-lhe direito a ser muito respeitada a sua sentença.</p> + +<p><a name="rodape17" href="#nota17"><sup>17</sup></a>Até <i>Plinio</i> se +não pejou de lhe chamar animal.</p> + +<p><a name="rodape18" href="#nota18"><sup>18</sup></a><i>La Critiq. de +L'Écol. da Femm.</i>--sc, 6.<sup>e</sup></p> + +<p><a name="rodape19" href="#nota19"><sup>19</sup></a>A. F. de +Castilho--<i>Primavera, Notas á Festa de Maio</i></p> + +<p><a name="rodape20" href="#nota20"><sup>20</sup></a><i>Émile--Liv.</i> +5.º</p> + +<p><a name="rodape21" href="#nota21"><sup>21</sup></a>Schoen--<i>Biograph. +de Kant.</i></p> + +<p><a name="rodape22" href="#nota22"><sup>22</sup></a><i>Memoires sur +Georges Cuvier</i>--Mistr. Lee.</p> + +<p><a name="rodape23" href="#nota23"><sup>23</sup></a><i>La Critiq. de +l'Écol. des Femm.</i> sc. 6.<sup>e</sup></p> + +<p><a name="rodape24" href="#nota24"><sup>24</sup></a>Aimé +Martin--<i>Educat. des Mér. de Fam.</i>.</p> +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Livro de Elysa, by João de Lemos + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O LIVRO DE ELYSA *** + +***** This file should be named 24646-h.htm or 24646-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/6/4/24646/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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