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+The Project Gutenberg EBook of O Livro de Elysa, by João de Lemos
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Livro de Elysa
+ Fragmentos
+
+Author: João de Lemos
+
+Release Date: February 19, 2008 [EBook #24646]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O LIVRO DE ELYSA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+JOÃO DE LEMOS
+
+
+O
+
+LIVRO DE ELYSA
+
+Fragmentos
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+COIMBRA
+
+Imprensa da Universidade
+
+1869
+
+
+ADVERTENCIA
+
+O Ill.^mo e Ex.^mo Sr. João de Lemos Seixas Castello Branco dignou-se
+conceder-me licença para publicar este escripto, já impresso na _Revista
+Academica_, jornal litterario e scientifico publicado nesta cidade em 1848.
+
+Coimbra, 24 de Agosto de 1869.
+
+ _J. Mesquita._
+
+
+
+
+O LIVRO DE ELYSA
+
+FRAGMENTOS
+
+
+I
+
+Elysa!--Vou escrever um livro, mas um livro só para ti.
+
+Ha de ser a traducção do pensamento revoando caprichoso por todo esse
+universo; ha de ser o monumento de uma longa saudade ingenhosa a não
+desperdiçar uma hora de remanso, a não sorrir nem suspirar senão comtigo;
+ha de ser um jornal do coração, de que tu serás o unico assignante, o unico
+leitor, e mais ainda o unico entendedor; ha de ser o desapertar incerto de
+ramalhetinhos da minha musa melancolicamente suave ou desesperada, ha de
+ser, emfim, o exercicio de uma devoção sublime do amor, será talvez o de um
+sacerdocio mysterioso, será de certo o de um martyrio de ausencia pungente.
+
+Anjo!--este livro deve ser muito amado por ti.
+
+Quero-o á cabeceira do teu leito, no teu toucador, na mesa do almoço, no
+cestinho da tua costura, nos teus passeios, no theatro, no baile, na côrte,
+na provincia, nos risos, nas lagrimas, na esperança, no desconsôlo, na
+vida, na morte. Em qualquer parte, em qualquer circumstancia que te
+encontres, abre-o; abre-o com a crença supersticiosa do amor e da ternura,
+que nelle beberás uma superstição amorosa e terna, para alegrar-se e para
+gemer comtigo.
+
+Anjo!--este livro deve ser muito amado por ti.
+
+Mas olha que este amor tão pedido para elle não consiste na presença inutil
+e preguiçosa, ou no habito indifferente e quasi que importuno, não: quero-o
+sempre ao teu lado, quero-o ainda mais, muito mais, ia dizendo unicamente
+no teu coração.
+
+Elysa! é com este nome que me apraz escrever-te, porque uma imprudencia, um
+acaso natural da minha vida de mancebo podia revelar com o manuscripto a
+palavra sacramental do meu segredo:--o véo, que é demasiado diaphano aos
+meus olhos, será impenetravel aos de estranhos, e para ti é uma prova do
+meu egoismo ou soffreguidão, que te agradará.
+
+O rei formosissimo de todos os astros nem se offende nem fica menos bello,
+porque a sombra ligeira de uma nuvem lhe passou pela frente.
+
+ * * * * *
+
+Mulher-typo! divindade talvez, ou sonho, ou illusão, ou feitiço, ou sombra,
+realidade, ou nada--eu te amo! E sabes tu como é este amor? escuta:
+
+Já viste duas pombas a devorar o espaço com as brancas azas de seda,
+correndo, voando, internando-se por esse azul da cupula immensa, ou
+pousando á beira d'um lago de saphiras, ditosas na sua loucura, loucas na
+sua innocencia, innocentes nos seus carinhos?--é o amor da pomba; é o meu
+amor.
+
+Já viste ao pé dos corregos do inverno duas plantas indolentemente
+enroscadas, teimosas, viçosas, purissimas, cheias de gozo sem futuro,
+cheias de futuro no gozo?--é o amor da planta; é o meu amor.
+
+Já viste como a rosa, voluptuosamente desabrochada no tugurio verde da sua
+roseira, é, ao despontar da aurora, tão festejada, tão conversada, tão
+abraçada, tão beijada e tão adorada pela briza?--é o amor da briza; é o meu
+amor.
+
+Já viste uma criancinha, que se anda embriagando de folguedos no amanhecer
+da existencia, e que logo os foge, que os engeita desdenhosa, porque a mãe
+lhe choveu entre elles, e que desfeita em sympathia risonha, em meiguice,
+em requebros lhe entreabre os braços e lhe pula ao collo?--é o amor da
+criancinha; é o meu amor.
+
+Já viste essa mãe carinhosa errar anhelante, desalinhada, com os pés e os
+braços nus, o cabello desatado, os olhos em lagrimas, o peito a
+ondular-lhe, os labios roxos e convulsos, a voz embaciada de suspiros, toda
+ella uma louca, ou antes um mysterio, toda ella resumida num sentimento
+indizivel, sublime, divino, a calcar abrolhos, a transpor abysmos, a galgar
+têsos, a olhar, a escutar, a inquirir homens e pedras, a consultar pégadas,
+a ferir o rosto com uma das mãos, a esmagar os seios com a outra, e tudo em
+busca do filhinho, que se lhe perdera?--é o amor da mãe carinhosa; é o meu
+amor.
+
+Já viste o proscripto da patria, assentado tristemente nos pincaros de
+serra estrangeira, comparando cada pedaço de terra, cada arvore, cada
+penedo, cada passaro que lhe descanta, cada choupana, cada homem, cada
+povo, e os ares, e o horisonte, e as nuvens, e as estrellas, e o sol, e o
+céo; bradar depois pela patria, só pela patria?--é o amor do proscripto; é
+o meu amor.
+
+Já viste o marinheiro, nascido e criado nas aguas, identificar-se com
+ellas, namorar-se do seu navio, brincal-o, enfeital-o, acaricial-o sempre,
+beijar-lhe os cabos e velame, os mastros e o leme, contente vagar pelo
+estendal das vagas, sorrir ás procellas, sorrir ás bonanças, anhelar do
+longe uma ilha toda verde, que lhe está acenando na alma, um porto
+fagueiro, que lhe está alvejando no pensamento, uma estrella da noite, que
+lhe está radiando no coração; e atirar-se assim de encantado por esse mundo
+sem raias, a espriguiçar-se nas sensações, a sorver delirios e melancolias
+suavissimas, ainda que rudes e profundas; ora cavando o pelago com olhos
+severos, ora analisando o concavo d'um tecto infinito com olhos
+meditadores; e naquella soidão de que é monarcha, com as suas endeixas e
+com o seu alaúde, apinhoando lá dentro d'alma cada vez mais desprezos da
+terra, mais orgulho e fanatismo pelas suas campinas de crystal?--é o amor
+do marinheiro; é o meu amor.
+
+Já viste o captivo encostado ao marco de pedra, quasi tão quedo como elle,
+com a fronte enrugada e em cada ruga um concentramento de paixão, com a
+vista cravada no ferro, que lhe aperta e ennodoa a perna, uma vista tão
+cravada, tão pegada, que a disseras um martello alli fundido por não poder
+despedaçar aquelle annel; e uma lagrima a resaltar-lhe das faces ao ferro,
+como se fôra o liquido que havia de dissolvel-o, e a mão estendida e tesa,
+e depois um sorriso, um sorriso para a liberdade, para aquelle coração
+outra vez a bater sem abafamentos, para aquelles olhos outra vez erguidos,
+para aquelles braços outra vez seus, para aquelles pés outra vez libertos,
+para aquelle ar que respirava, para aquella casa, aquelles amigos, aquella
+vida, aquelle mundo, que lá lhe ficou?--é o amor do captivo; é o meu amor.
+
+E já viste, finalmente, o condemnado a quem o vento do sepulchro sacode
+sobre a escada do cadafalso, que pende para a morte como a hastea que se
+murcha, e que d'alli, de sobre esse triangulo erguido para vergonha da
+humanidade, escarneo de Deos, e epigramma da civilização, d'alli arremessa
+uma vista infinita, insondavel, incomprehensivel para a turba, que
+brutalmente o festeja, mas para a turba, que elle nunca mais ha de ver:
+para o mar, que lhe rebrame ao pé como se cantara uma nenia execravel, mas
+para o mar, que elle nunca mais ha de ver; para os céos, que recamados de
+sombras como que lhe toldam a esperança desapiedados, mas para os céos, que
+elle nunca mais ha de ver; para a terra, que lhe floreja ao longe alegre e
+formosa como se o quizera insultar no ultimo transe, mas para a terra, que
+elle nunca mais ha de ver; para as memorias d'um passado talvez prenhe de
+sangue e de remorsos, mas um passado, que elle nunca mais ha de ver; e essa
+vista resumida, em fim, a luctar entre a mortalha e o vestido, entre o
+carcere e a corda, entre a corda e a tumba, entre a morte e a vida, alli
+lhe foge toda para a vida; para a vida, que lhe matam, para a vida tão
+querida, tão linda e tão doce olhada do cadafalso, para a vida suspirada,
+gemida, e anciosamente chorada d'aquella altura tremenda, para a vida
+porque é sua, para a vida porque é boa, para a vida ainda que fora má?--é o
+amor do condemnado; é o meu amor.
+
+E como o amor da pomba é innocente a amar a pomba, como o amor da planta é
+viçoso a amar a planta, como o amor da briza é mimoso a amar a rosa, como o
+amor da criancinha é risonho e meigo a amar a mãe, como o amor da mãe é
+desalinhado e louco a amar o filho, como o amor do proscripto é gemedor a
+amar a patria, como o amor do marinheiro é profundo, melancolico e
+dosprezador a amar os mares, como o amor do captivo é meditado e desejoso a
+amar a liberdade, como o amor do condemnado é vehementemente desesperado e
+terrivel a amar a vida, é assim o amor do poeta a uma mulher;--é o meu
+amor.
+
+E tu és a minha pomba, a minha planta e a minha rosa, a minha mãe e o meu
+filho, a minha patria e os meus mares, a minha liberdade e a minha
+vida!--Mulher! eu te amo, eu te amo!
+
+Agora, Elysa, que já te paguei as primicias do livro, não só como senhora
+d'elle, mas como senhora da alma que o dicta e da mão que o escreve; agora
+que já te defini o meu amor, que mil vezes ainda será aqui definido, e que
+nunca o virá a ser ao cabo; agora que tu chegaste, de certo, á janella do
+teu quarto, e te embeveceste nos encantos da noite a recordar-te dos meus
+versos, deixa que me volte para a minha lyra.
+
+São os meus segundos amores: é ella tão minha e tão formosa como tu; é a
+minha companheira e consoladora; é quem me ha de ajudar neste trabalho, que
+te destino:--plantou-m'a Deos dentro da alma para saber amar-te, como te
+plantou a ti no mundo para que te amasse.
+
+Quero muito á minha lyra.
+
+O meu primeiro pensamento ao acordar é sempre teu, o segundo é sempre
+d'ella; nas minhas meditações e nos meus sonhos, nos meus risos e nas
+minhas lagrimas, vindes sempre ambas tão casadas, tão unidas, tão irmãs,
+que eu não sei se és tu que me trazes a lyra, se é a lyra que me conduz a
+ti.
+
+Quero muito á minha lyra.
+
+Vou conversar com ella, e preludiar-lhe ao acaso uns sons desleixados, que
+lhe são queridos, um vagar delicioso por veigas da phantasia, um esquecer a
+delirar por saudosa noite, á margem do Mondego, sob a rama de um salgueiro.
+
+E que mimoso luar de primavera ahi se refrange, e espalha uma poeira de
+prata na superficie das aguas!
+
+É por uma d'estas noites suavissimas de luar que a natureza tem toda a
+lindeza de mulher.
+
+ Canta, vento do sul, teus doces cantos
+ Por concavos do val adormecido,
+ Tange n'harpa de Deos, nessas folhagens,
+ Da noite as harmonias.
+ Farta agora, Mondego, com teus beijos
+ As boninas, que tremulas desmaiam,
+ Que se morrem por ti na sêde louca
+ De lubricos prazeres.
+ Banha-me a accesa fronte, meu salgueiro,
+ De meiga fresquidão, que ha de inspirar-me
+ Desassombros do sol, da luz, do dia,
+ Que se afogou nos mares.
+ E tu, filha d'amor, candida lyra,
+ Um abraço dos teus cinge ao teu bardo,
+ Outro mais.... este só... agora folga,
+ Folga por céos e terra.
+
+
+ Amo o tibio clarão do argenteo disco,
+ Porque a luz do luar não cega os olhos,
+ Como faz a do sol, porque me deixa
+ Nesse lago d'anil, que vai sulcando,
+ Namorar-lhe a belleza;
+ Amo a languida côr do ingente espelho,
+ Onde os olhos d'amantes vão casar-se;
+ Onde crêra talvez Grego ingenhoso
+ Que o velho Jove, requintando as galas,
+ Ia mirar-se, rindo.
+ Eu amo, já pagão, na branca esphera
+ Da casta Delia envergonhado riso,
+ E já lá finjo negrejando os bosques,
+ Onde co'a turba caçadora exerce
+ Seu culto pudibundo.
+ Amo as rosas do céo, que se emmurchecem
+ Quando a lua vaidosa as vai pisando,
+ Amo as nuvens co'os seios bipartidos
+ De respeito alastrando eburnea senda
+ Á rainha dos astros.
+ Amo a grenha voando ao meteóro
+ Quando pallido foge ante os seus passos,
+ Amo tudo o que assim lhe paga um feudo,
+ Outro feudo melhor, que não meus versos
+ Engeitados da vida.
+
+ Noite! noite! que mão te ha desdobrado
+ Tão risonha e fagueira assim no mundo?
+ Do templo do Senhor és véo, que os anjos
+ De infindos orbes d'oiro recamaram?
+ És lavrado padrão da Omnipotencia,
+ Memoria erguida em campos do infinito?
+ Milhões de soes, que ostentas, serão tochas
+ Ardendo ante o teu Deos no altar immenso?
+ Serão letras d'amor com que lhe escreves
+ Nessa pagina azul o ignoto nome?
+ Tuas nuvens que são? são do thuribulo,
+ Que agitam cherubins aos pés do Eterno,
+ Queimado incenso a desfazer-se em fumo?
+ Noite! noite! quem és? d'onde has tu vindo
+ A poisar-te na terra entre mysterios?....
+
+ Não sei que ternas meiguices
+ Falla a noite ao coração;
+ Minhas horas mais felices
+ As horas da noite são:
+ Com ella na solidão
+ Suspiro amor e saudades,
+ E com ella nas cidades
+ Não largo a lyra da mão;
+ Suspiro, canto d'amores
+ Entre os homens, entre as flores
+ De noite, de dia não;
+ Porque a noite tem meiguices,
+ Porque as horas mais felices
+ As horas da noite são.
+
+
+ Como é lindo este Mondego
+ A brincar sobre esta arêa!
+ Como é lindo o bosque verde,
+ Que as verdes margens sombrêa!
+
+ No seu crystal derretido
+ Lá vem, á luz do luar,
+ Outro Narciso, um salgueiro,
+ Um salgueiro a namorar.
+
+ Outra Echo, a briza doida,
+ Que foi por elle engeitada,
+ Anda carpindo, e zelosa
+ Traz a limpha alborotada.
+
+ Cuida que mora lá dentro
+ Escondida uma rival,
+ E por dar-lhe invejas solta
+ Perfumes, que traz do val.
+
+ Raivosa tolda co'as azas
+ O liso espelho brilhante,
+ Cospe co'as azas, raivosa,
+ O Mondego ao seu amante.
+
+ E o pobre, por si perdido,
+ Sacode a fronte singela,
+ Murmura um ai; mas teimoso
+ Busca n'agua a imagem bella.
+
+ Como é lindo este Mondego
+ A brincar sobre esta arêa!
+ Como é lindo o bosque verde,
+ Que as verdes margens sombrêa!
+
+ Como a fonte d'Ignez soluça ao longe!
+ Parece inda chorar-lhe a morte escura,
+ Osculando na pedra eternas manchas
+ Do sangue espadanado[1]
+ Como os cedros a côma baloiçando
+ Inda vergam de dor, inda meditam
+ No caso triste de memoria digno,
+ Que desenterra os mortos!
+ Alli d'um terno amor ternos momentos
+ N'aza do tempo languidos fugiram,
+ Naquelle engano d'alma que a fortuna
+ Não deixa durar muito!
+ Dos suspiros de Ignez na penedia
+ Inda os echos vagando ás horas mortas
+ Murmuram brandos ais, e aos sons da lyra
+ Respondem gemebundos!
+
+ Quero muito á voz solemne
+ Dos echos da solidão;
+ São amigos invisiveis
+ Com quem falla o coração.
+
+ É tão doce nestas horas
+ Poder assim conversar,
+ Ouvir do nosso queixume
+ Novos queixumes brotar!
+
+ Chamar aquella que é longe,
+ Chamar aquella que se ama,
+ E o som d'amor e saudade
+ Não morrer na voz, que a chama!
+
+ Sentar-me ao pé d'esta fonte,
+ Que tão pura se deslisa,
+ Clamando--Elysa!--e dos montes
+ Outra voz clamar--Elysa!--
+
+ Quero muito á voz solemne
+ Dos echos da solidão;
+ São amigos invisiveis
+ Com quem falla o coração.
+
+ Mas quem pode formar taes sons no bosque?
+ Será perdido amante a penar magoas,
+ Desprezos da que amou, desdens de bella,
+ Injurias d'um rival, ou será nympha
+ Que um ingrato engeitou, e alli chorosa
+ Inda, louca d'amor, serve aos amores?
+ Oh! falla, quem és tu, filho da selva?....
+ Silencio... respondeu... maldicto vento!
+ Que só pude escutar--filho da selva!
+ Embora! fique embora isso em segredo,[2]
+ Saiba-o sómente Deos!
+ Tambem segredos, que meu peito encerra,
+ Só se dizem nos céos.
+ A turba ha de escutar-me, e cada nota
+ Será nota d'amor!
+ Mas ouvidos da turba não entendem
+ Carmes do trovador.
+ Emmudece-te, ó lyra; e tu, ó noite,
+ Apaga o teu luar,
+ Das trevas no pallor deixa-me um sonho
+ Com Elysa sonhar.
+
+E a lua ja roça as cumiadas do monte, e pouco a pouco se enterra por elle
+abaixo... ahi ficam agora na escuridão as margens do Mondego, tão saudosas
+como amante feliz na hora de um _adeos_, sellado com beijos... ahi se
+empoleiram as auras pelas hasteas do choupal, cançadas de abraçar a roxa
+fronte das violetas... já não se lhe escuta o frémito das azas nos seus
+brincos innocentes.... faz-se um silencio longo em toda a natureza... e só
+as rãs veladoras continuam na voz unisona e aguda o hymno da creação!
+
+Elysa, é tempo de pedir a Coimbra uma casa, á casa um leito, ao leito um
+somno, ao somno a tua imagem.
+
+Como o teu livro, Elysa, é fructo das horas roubadas ao remanso, e talvez
+ao estudo, nesta bem-aventurada Coimbra, quero fallar-te de Coimbra!
+
+Cada povo tem a cidade da sua poesia, da sua imaginação, dos seus amores;
+cada povo aponta para uma terra, que a tradição vestiu de galas, e diz--lá,
+lá! oh! que não ha nada mais bello!
+
+O portuguez aponta para Coimbra.
+
+É das recordações d'esta cidade que o velho se nutre, e nutre os filhos ao
+serão do seu lar:--quando eu estava em Coimbra! eis-ahi o exordio de todas
+as aventuras de um pae; e a saudade, tingindo de roxas e mimosas côres todo
+o discurso, engrandecendo tudo, louvando tudo, e chorando por tudo, leva o
+ancião á peroração de rigor--não ha já tempo como o meu tempo de Coimbra!
+
+Para o amor maternal é a terra dos seus sustos, porque é a terra dos
+rapazes; mas nesses mesmos sustos, no longo esperar do abraço filial
+encarnou-se não sei que doce sympathia para aquella cidade, que faz chorar
+e rir toda a casa; é o gosto amargo da saudade, é o
+
+ Delicioso pungir d'acerbo espinho[3]
+
+Dizei a um aldeão que lhe ides contar uma historia de Coimbra, e logo o
+tereis quedo, pendente de vossos labios, já certo do maravilhoso, ou do
+travesso do vosso conto.
+
+Perguntae ás amantes por Coimbra: haveis de vêl-as córar, como tu agora
+córaste, Elysa; e depois responder com um suspiro envergonhado--oh!
+Coimbra!.... e o resto que lá fica em seu pensamento será uma inveja, mas
+não é desamor para a terra que anda sempre casada ao amanhecer e anoitecer
+de seu coração.
+
+Perguntae ao mancebo, que só ouviu o que vai pelas margens do Mondego, sem
+nunca ter pisado as suas arêas de oiro, perguntae-lhe por seus desejos, e
+elle vos dirá simplesmente--se eu podesse ir a Coimbra! e ahi deixa
+resumido o scismar de longas horas.
+
+Até a sciencia e as letras olham sempre para Coimbra como para a terra da
+promissão;--a nossa esperança, dizem ellas, cada dia, cada anno, cada
+seculo, a nossa esperança está lá!
+
+Se aqui vierdes, ouvireis, é certo, a muitos dos que se assentam ao caír da
+tarde no _Penedo da Saudade_ a curtir magoas de ausente, ouvir-lhe-heis
+maldições contra Coimbra; não os acrediteis, não; é aquelle absurdo do
+coração humano, é aquella saciedade na posse, é o nunca-satisfazer dos
+desejos do homem, o desprezo do que já tem, trocado pelo anhelar do que
+ainda espera; mas, se fordes inquirir esses mesmos, uma hora antes de
+deixarem Coimbra para sempre, ou elles não têm alma afinada para as
+melodias da terra, ou elles vos dirão com as lagrimas nos olhos--podera eu
+nunca deixar Coimbra! É que lhes ficam aqui as horas mais descuidosas, mais
+doces, mais felizes da mocidade; é que lhes ficam aqui as amizades, que não
+morrem mais, a liberdade, que mais não volta, e estes ares purissimos, este
+céo purissimo, estas aguas purissimas, esta Coimbra unica!
+
+Ah! como lhes ha de apparecer em sonhos este archanjo de pedra assentado no
+seu tapete de flores! Coimbra!... hão de descobril-a de longe, vestida de
+branco, morbida, formosa, voluptuosa, modesta, a metter seus pés de marmore
+na prata do Mondego; a devassar o seio das nuvens com o capacete da sua
+torre, como se fôra estatua de Minerva; com seus braços estendidos a
+afogarem-se em açafate de esmeraldas; com a sua ponte orlada de vultos
+negros, que se debruçam na corrente como os salgueiros da margem; com a
+cintura azul de mil outeiros, que ao longe fecham o seu largo horisonte;
+com toda esta belleza, este encantamento, esta feminidade de donzella,
+esquecida na relva d'um prado a tanger um hymno d'amor, com os olhos no
+céo!
+
+Ahi tendes então os blasphemos arrependidos: Coimbra não é só a
+tortuosidade e estreiteza de suas ruas, não é o som lugubre do seu sino
+fatal, não é o suspirar por quem vive longe, não é nada d'isto; é a terra
+das suas saudades, é a saudade da sua poesia, é a poesia da sua vida!
+
+Se um d'esses homens for poeta... e quem ha que o não seja depois do
+baptismo da sombra d'estes salgueiraes, do perfume d'estes campos, do
+crystallino d'este ambiente, da doçura d'estas aguas, da verdura d'estes
+montes, da fresquidão d'estas brizas? aqui a poesia bebe-se pelos olhos,
+pela bocca, pelos ouvidos, sem o querer, sem o cuidar, sem o sentir; cada
+pedra, cada tronco leva inspirações ao amago do seio, que desatina a cantar
+como a zagala ao desabrochar do dia, ou como a avesinha, que saúda a
+primavera; aqui murmura melodias o ciciar da aragem nas flores da collina;
+o scintillar da lua quando num tecto de saphira pende accesa como lampada
+de sanctuario; o ardor do sol, quando se alastra em diamantes por cima do
+estendal da arêa; o echo a responder sonoro ás palmas d'um folguedo; a vara
+do barqueiro a resvalar nos seixinhos do rio; o lavadouro da _tricana_, que
+geme debaixo dos seus golpes, menos duros porque os acompanha uma cantiga
+de amores!--até os nomes dos sitios têm aqui uma suave harmonia, como
+preludio de canção, que deixa adivinhar-lhe toda a lindeza!.... Mas não
+vês, Elysa, como eu vou longe do que ia dizendo? era Coimbra, que me
+arrebatava nas ondas da sua poesia; foi uma nova prova do seu
+poder;--voltemos porém ao primeiro proposito.
+
+Se um d'esses homens for poeta, irá assentar-se no limiar da sua porta,
+quando a tarde vai caíndo nos braços da noite, e alli o vereis a cantar;
+segui-lhe o canto... não ouvis? aqui fallou d'aquella fonte,
+
+ Que lagrimas são a agua e o nome amores;[4]
+
+alli gemeu com a desditosa _Castro_ á sombra dos cedros seculares; agora um
+som festival lhe escapa ao recordar-se da _Lapa dos Esteios_, onde se lhe
+escoaram deleitosos momentos por sobre alcatifa de violetas e boninas; logo
+suspira nas cordas da harpa aquella _Maria Telles_ tão sem ventura, a quem
+a mão do esposo ceifa a rosa da vida no descuido da noite; lá se lhe
+accende o estro na labareda do enthusiasmo, porque se recordou d'aquelle
+cavalleiro d'antes quebrar que torcer,[5] que fecha as portas da cidade ao
+rei cheio de vida e de poder, e leva as chaves d'ellas ao rei sem vida e
+sem nada; eil-o depois encostado ao tumulo de D. Sisnando, a misturar nos
+seus versos o saudoso da religião, inspirado pela fronte carcomida da
+cathedral veneranda que viu nascer a patria, e que tem visto morrer tantos
+seculos!
+
+Olhae como vos diz que Coimbra é
+
+ Cidade rica do sancto
+ Corpo do seu rei primeiro,
+ Qu'inda vimos com espanto
+ Ha tão pouco tempo inteiro
+ Dos annos que podem tanto.[6]
+
+Silencio... não vêdes como lhes resumbram no seu cantico uns nomes tão
+feiticeiros...
+
+ _Da saudade o penedo!_ que amores
+ Á minh'alma, aos meus olhos não é!
+ Lindo cesto de graça e verdores,
+ Verde ramo do monte ao sopé.
+
+ _Dos suspiros a gruta_ mais longe
+ Recolhida se foi meditar.
+ Só poeta, só ave, só monge
+ Póde á gruta os segredos vulgar!
+
+E aqui lhe escapa depois no fundo arrebatar do pensamento grave um nome
+grave como elle--o _Penedo da Meditação!_ mas de volta para a cidade pára
+diante da gradaria soberba de soberbo jardim erecto pelas mãos sagradas
+d'um Bispo[7] e exclama
+
+ Salve, terra mimosa! a ti meu canto
+ A ti meu coração, minhas saudades!
+
+E o echo, ou de cortez, ou de agradecido, responde-lhe de dentro do
+arvoredo o derradeiro verso
+
+ A ti meu coração, minhas saudades![8]
+
+Que é tudo isto, Elysa? que é todo esse cantar d'aquelle homem já longe de
+Coimbra? Não é, não póde ser, não ha de ser nunca outra coisa senão o
+transumpto das perolas, que a patria de _Sá de Miranda_ lhe engastou na
+alma, e que a memoria ha de vasar sempre do seu thesouro todas as vezes que
+o poeta pegar na lyra.
+
+Elysa, eu amo muito esta formosa terra!
+
+É o coração de Portugal, onde á vontade se revolve o seu sangue mais
+ardente. Que viver este do mancebo com o mancebo!
+
+Crença nas palavras e nos sentimentos; sentimentos e palavras cheias de
+verdade e de força; amor e enthusiasmo por tudo o que é nobre e grande;
+confiança nas idéas e nos homens; communhão quasi primitiva de bens e de
+tudo; homogeneidade de tendencias; existir nos outros, pelos outros, e para
+os outros; toda a virtude de quem entra na vida com muita fé no futuro:
+eis-ahi o viver do mancebo com o mancebo debaixo d'este céo de Coimbra!
+
+Elysa, eu amo muito esta formosa terra!
+
+Depois de ti, da minha lyra... não, não quero que Coimbra seja o terceiro
+affecto do meu coração, mas quero querer-lhe bem, porque é um querer que
+ella merece.
+
+Oh! se te eu vira um dia, Elysa, assentada comigo nas ruinas do mosteiro
+da _Rainha Sancta_[9], e d'alli, depois de haveres passado teu alvo braço á
+roda do meu pescoço, te esquecesses a contemplar Coimbra, como Coimbra se
+esquecera, tambem com seu braço lançado ao pescoço do monte, a pasmar na
+tua face d'anjo; se a viras tão linda a retratar-se no Mondego e a
+sorrir-se para o céo, oh! que tambem tu havias de amar muito Coimbra!
+
+Elysa, eu bem comprehendo que tu antes quizeras que o teu amante ausente
+praguejasse a terra que lhe rouba a sua Elysa; crês que a delicadeza do
+sentimento pedia antes isso, seja assim: mas consente aos poetas mais uma
+liberdade, deixa-os dizer o que os outros calam por traiçoeiros; não vale
+mais esta franqueza? O coração foge para o _bello_ como a mariposa para a
+luz; que culpa tem elle? que póde elle, se ha de por força amar o
+_bello_:--é um amor fatal. Mas, se te queres vingar d'esta fatalidade,
+Elysa, vem, vem comigo assentar-te nas ruinas do velho mosteiro, que tu
+olharás para Coimbra, e eu olharei para ti.
+
+
+II
+
+O nascer e o morrer d'um dia formoso; a profecia do sol e o seu derradeiro
+adeos; o ensaiar dos canticos das aves, e o desfallecer d'esses canticos,
+que passam e morrem nas tranças da floresta; as aguas, que reflectem o raio
+que se alevanta; as aguas que reflectem o raio que se deita; os echos que
+despertam; os echos que adormecem; a treva que se adelgaça e a treva que se
+condensa; o crepusculo da manhã e o crepusculo da tarde, são duas horas
+gemeas nos encantos, na suavidade, na doçura, nas inspirações.
+
+Elysa, será um erro, uma superstição talvez; mas eu creio que todo o
+pensamento nobre, grande, generoso, sublime, que tem brotado da cabeça do
+homem, numa d'estas duas horas é que foi concebido.
+
+Quando o homem, á luz duvidosa da manhã ou da tarde, se assenta no viso
+d'um monte, na alcatifa d'um valle, na margem d'um rio, no limiar d'uma
+porta, e d'alli, pairando com a vista entre a terra e o céo, abrange todos
+os objectos sem se fixar em um só; ouve todos os sons sem escolher um só;
+sente todas as sensações sem definir uma só; quando o coração, enfeitiçado
+nestas horas pelo incerto da luz, dos objectos, dos sons, e das sensações,
+parece embalar-se no peito e adormecer, oh! então, Elysa, então é que o
+homem conversa com a Divindade, então os ouvidos da creatura ouvem as
+palavras do Creador!
+
+É por uma donosa madrugada que eu agora escrevo no teu livro, Elysa: é ella
+que do seu throno de verdura me está dictando este capitulo;--que não possa
+transportar eu para estas paginas essa pagina tão bella do livro do Eterno!
+Ainda o sol não desengastou das ondas o seu rosto em braza; uma luz frouxa,
+crystallina, mimosa, perfumada, espraia-se, como um regato, por sobre toda
+a natureza, enrosca-se á volta de todos os seres alastrando de esmeraldas a
+terra e de saphiras o céo; aquelle murmurar monotono, pesado, o enfadonho
+do dia ainda se não escuta; e as brizas folheando na selva levam de cada
+folha um som, e lá nas alturas compoem um hymno para Deos!
+
+Elysa, deixa que os ricos da fortuna e os poderosos da terra nasçam, vivam,
+e morram sem nunca terem visto a face da madrugada; fatigou-os a noite no
+bulicio dos saraus e das orgias, deitaram-se quando o dia se alevantava;
+deixa que elles ignorem, que elles não gozem o brilho suavissimo da mais
+rica perola do diadema do mundo, deixa-os, e vem tu comigo assistir em
+espirito á festa de todos os dias, ao desabrochar da madrugada:
+
+ Eil-a trajando verdores
+ A linda mãe dos amores,
+ Com seus volateis cantores
+ Pelos campos a folgar;
+ Eil-a folgando na mata,
+ Que nas aguas se retrata,
+ Nas aguas de lisa prata,
+ Na prata do liso mar.
+
+ Salve, rainha formosa!
+ Festeja-te o lirio, a rosa,
+ Dos jardins a mariposa,
+ Do trovador a canção;
+ Festeja-te a pastorinha,
+ Que nas côres te adivinha
+ Um pensamento que tinha,
+ Que tinha no coração.
+
+ D'aldêa o sino te chama,
+ E o moço, que deixa a cama
+ Porque vai ver a quem ama
+ Ao pé da encosta d'alem;
+ Suspiram-te sempre os montes,
+ Abraçam-te os horisontes,
+ Choram-te rios e fontes,
+ Nas fontes d'amor, que têm.
+
+ Bemdiz-te o velho, e ensina
+ Á neta, que é pequenina,
+ Rezas sanctas da divina
+ Crença, que tem no Senhor
+ Bemdiz-te o armento balando,
+ Do tomilho o cheiro brando,
+ E o pegureiro cantando,
+ Cantando magoas d'amor.
+
+ Vem, ó linda madrugada,
+ Vem de violetas c'roada,
+ Pelas brizas embalada,
+ Vem nestes campos folgar;
+ Folga nos céos e na mata,
+ Que nas aguas se retrata,
+ Nas aguas de lisa prata,
+ Na prata do liso mar.
+
+Todo o mundo parece corar de puro gozo, parece que sorri com o sorriso da
+felicidade quando o primeiro albor da manha lhe corre com mão de jaspe a
+cortina da noite; é a amante carinhosa, que vai despertar d'um sonho
+d'afflicção o amante adormecido com um beijo na fronte:--Elysa, se por cada
+um dos meus sonhos d'afflicção tivesses de me dar um beijo, quantos beijos
+me não devias! e crê que então não quizera eu sonhar outros sonhos.
+
+Mas como são cheias de galas e de thesouros, para os olhos do corpo e para
+os olhos da alma, estas horas do alvorecer do dia! O ar que respiramos é
+mais puro e embalsamado; uma harmonia deliciosissima desferida nas harpas
+dos bosques, dos rochedos e das aguas, reproduz-se inteira nas cordas
+intimas do seio, e a poesia acode voluntaria aos labios; é uma poesia
+ensinada pelos anjos, porque só falla de Deos; é a verdadeira poesia.
+
+De todos os argumentos mais gratos ao espirito, mais poderosos, mais
+energicos para demonstrar ao homem a existencia d'um Deos, o mais grato, o
+mais poderoso, o mais energico é a contemplação da natureza. De todas as
+horas do dia as melhores e as mais bellas para esta contemplação são as
+horas do crepusculo da manhã e da tarde:--não sei que delicioso anhelar,
+que doçura saudosa anda então no pensamento, que nas azas da meditação nos
+arrebata para o céo, e nos desata as cadêas mesquinhas da vida mesquinha da
+terra!
+
+Os raciocinios da philosophia convencem quando demonstram a realidade da
+causa primaria, mas a natureza faz mais: depois de convencer gera o amor; o
+coração não póde deixar de amar a origem das maravilhas que admira. E não
+sabes, Elysa, qual é a obra das mãos de Deos, que mais me tem convencido da
+sua existencia? Vais talvez dizer-me que são esses mares a revolverem-se
+noite e dia á roda dos continentes, esses mares cujas gottas são lettras,
+cujas vagas são syllabas, cujos bramidos são palavras, que dizem--existe
+Deos! Vais talvez dizer-me que são as montanhas e os promontorios erguidos
+como braços da terra apontando para o firmamento! Vais talvez dizer-me que
+são esses milhões de mundos luminosos gravitando no espaço, e traçando no
+manto azul da esphera a historia da Omnipotencia! Enganas-te! olha para o
+teu espelho, Elysa, e lá verás a minha prova mais bella, a minha prova mais
+segura da existencia de Deos!
+
+ O Senhor quiz no teu rosto,
+ Quiz o impio confundir,
+ Quiz dos céos todo o composto
+ N'um só ponto resumir;
+ Nos olhos pôz-te as estrellas,
+ Inda mais lindos do que ellas
+ Os vejo d'amor fulgir;
+ Poz-te nas faces a aurora
+ Poz o sol no teu sorrir,
+ E nas tranças côr d'amora
+ Fez negra noite caír;
+ Que o Senhor quiz no teu rosto,
+ Quiz dos céos todo o composto
+ N'um só ponto resumir.
+
+Na verdade, Elysa, ver o teu rosto e descrer da Divindade seria o absurdo
+do atheu positivo; não, não cuides que o atheismo passe dos labios; ha lá
+dentro do atheu um sentimento, uma voz intima, uma quasi fatalidade, que,
+mau grado seu, o arrasta e o convence: mas que haja um só tão desgraçado,
+que o haja que, mercê da minha dama, lhe provarei que mente apontando-lhe
+para a tua face;--a minha Elysa não podia ser fructo de um acaso estupido,
+a minha Elysa é a victoria do Eterno!
+
+E que mais formosa... mais não, a perfeição não tem gráus, que formosa não
+és tu quando nestas horas da manhã ou da tarde te embeveces a meditar com a
+fronte encostada á mão, os olhos na immensidade, e o peito arfando
+brandamente, como superficie de lago ao bafejo das auras! que formosa!
+
+Nunca viste nos teus sonhos de innocencia o teu anjo da guarda a contemplar
+socegado o socego da tua alma, tão pura como elle? Imagina a tua lindeza
+pela do teu anjo, assim como pela tua lindeza tenho imaginado a de todos os
+anjos!
+
+Que formosa não és tu nessas horas!
+
+O pagão se te vira assim na alvorada d'um dia de primavera erguia-te um
+altar e chamava-te _Vesta!_ Cuidaria ver-te conduzindo pela mão as
+_Estações_ e o _Amor_; veria as choréas das _Nymphas_ á volta do teu carro
+tirado por soberbos leões; veria os _Ventos_ adormecidos ao teu lado, e
+_Ceres_, _Pomona_, e _Flora_ a cingirem-te a fronte com uma corôa de
+rainha!--o pagão erguia-te um altar e chamava-te _Vesta_.
+
+Mas no teu templo, minha _Vesta_... minha Elysa,--enganei-me--no teu templo
+não seriam as donzellas romanas que conservariam o fogo immortal; ahi o
+sacerdocio seria todo meu, a chamma immortal estava no meu coração.
+
+Se fosse á hora da tarde que o pagão te visse, que te visse naquelle estado
+que suspende a alma entre o prazer e a dor, naquelle estado que então te
+exorna como uma aureola mystica; que te visse como a violeta da varzea,
+recatada do mundo e rica e feliz na solidão onde reinas, se elle te vira,
+em vez de te chamar _Vesta_, chamava-te a _Melancolia_.
+
+E o pagão chamava-te um bem doce nome! Fôras uma Deusa bem suave, bem
+mimosa ao coração: _Melancolia!_ que mais feiticeira ficção tem o paganismo
+para te offerecer? que mais puro, mais arroubado, mais ineffavel, mais
+divino sentimento ha ahi na terra?
+
+ Mais que o prazer, que a alegria,
+ Mais que a risonha emoção,
+ É mais doce ao coração
+ A doce melancolia!
+ Como é bello, quando o dia
+ Se afoga no salso mar,
+ Sobre ignota penedia
+ Ir co'as vagas conversar!
+ Ir sósinho suspirar
+ Juncto a fontinha sonora,
+ E nos prantos que ella chora
+ Ir aprender a chorar!
+ Como é bello então scismar
+ N'uma scismada ventura,
+ E aquelles sonhos sonhar
+ Nunca fartos de ternura!
+ Como a harmonia se apura
+ Nas cordas da meiga dor
+ Quando a rola da espessura
+ Poisa n'harpa ao trovador!
+ Quando uns gemidos d'amor,
+ Gemidos que não sabia,
+ Sáem da harpa, e ao redor
+ O echo lh'os repetia!
+ Como então mais que a alegria,
+ Mais que a risonha emoção,
+ É mais doce ao coração
+ A doce melancolia!
+
+Elysa, se o pagão te chamasse a _Melancolia_, o pagão chamava-te um bem
+doce nome!
+
+E as horas da melancolia são as horas da tarde.
+
+Aquelle tibio da luz; aquelle horisonte dourado e bordado de nuvensinhas
+diaphanas côr da espuma dos mares; aquelle hymno immenso da terra, que se
+vai perdendo, perdendo ao longe por seios de cavernas; aquelle vôo da ave,
+que nos passa por cima da cabeça ao ir aninhar-se na roupagem da montanha;
+aquelle canto da zagala, que vem do prado com os seus cordeirinhos tão
+alvos como ella; aquellas brizas perfumadas, que então andam a folgar nas
+aguas do rio, ou na relva das margens, e que nos vêm depois roçar as faces
+com a ponta da aza melindrosa; aquelle rugir da folha secca e caída debaixo
+dos pés do viandante cançado; aquellas vozes confusas que se escutam no
+casal, que augmentam, que diminuem, que recrescem, e finalmente morrem no
+silencio; aquelle agoireiro latir do lebreu repetido pelos echos do valle;
+aquelle fatigado carpir do carro lá ao longe ao subir das encostas; e o
+sino da aldêa, que no alto da serra está assentada, como pastorinha
+esquecida a meditar amores; e os céos azulados a vestirem pouco a pouco o
+manto das sombras; e as sombras a desdobrarem-se nos campanarios; e os
+campanarios a perderem-se da vista; e a vista a resumir-se no coração; e o
+coração a afogar-se inteiro no saudoso da tarde, e a tarde com todas as
+suas galas.... oh! como tudo isto falla á alma uma linguagem ignota, e a
+deixa naquelle estado scismador em que as lagrimas são mais doces do que os
+risos do prazer!
+
+As horas da melancolia são as horas da tarde.
+
+Elysa, a mythologia esqueceu-se de nos dizer em que hora do dia tinha
+nascido o _Amor_; eu só nesta hora mysteriosa da tarde quizera que elle
+tivesse nascido; não podia, não devia nascer noutra hora. Não vês tu como
+ao caír da noite vem sempre um suspiro pendurar-se nos labios em busca d'um
+irmão a quem se abrace? não vês como é então que a mulher desatina a cantar
+sem o cuidar, sem o sentir, sem o querer talvez, e como que respondendo a
+outra voz que a chama? não vês como a donzella, com todos os affectos ainda
+em botão virginal, começa de adivinhar um segredo, um segredo lindo, que
+lhe anda entre nuvens no pensamento?
+
+ Coração de mulher, qual Philomela,
+ É todo amor e canto ao pé da noite:
+ Do amante a voz então entra mais branda,
+ Mais grata, mais feliz, dentro do peito;
+ Toldam sombras o pejo, as faces podem
+ Osculadas córar sem que o triumpho
+ Lá veja o vencedor escripto em rosas;
+ Melhor se escuta o frémito dos labios
+ Suspirando d'amor, pedindo amores:
+ Póde o _sim_ mais sumido então colher-se,
+ Fingir que foi acaso a mão tocada:
+ O rigor feminil, desdens, orgulhos,
+ Da tarde a viração leva-os nas azas.
+
+Elysa, se tu não fôras unica na terra, se não fôras o archanjo impeccavel
+que me Deos mandou dos céos para eu crer devéras na virtude, tremeria com a
+idéa--bastava a idéa--de te veres a sós com um mancebo por tal hora do
+dia:--é a hora dos amores.
+
+Mas tambem é a hora da religião; não ha momento em que a alma de melhor
+vontade se eleve para Deos: a oração, Elysa, é tão consoladora, tão cheia
+de balsamos neste momento! Guarda as tuas preces para esta hora, e dize-me
+depois se não pensas que as sanctas do céo vieram com mais alegre semblante
+ajuntal-as no regaço, como flores de maio, e leval-as mais velozes aos pés
+do Senhor!
+
+A oração é o resultado do amor; o amor é o resultado do conhecimento
+d'aquelle que se ama; que melhor ensejo queres tu para conhecer o Creador?
+Esse mesmo véo, que te vai envolvendo quanto enxergas, esse mesmo é uma das
+suas mais formosas maravilhas:--o silencio que se vai fazendo em toda a
+creação parece que é feito para que o homem falle; calou-se tudo para que
+fallasse o monarcha da terra ao monarcha da terra e do céo! Elysa, para te
+ouvirem as rezas os mesmos anjos se calariam; devem de ser um hymno tão
+melodioso, tão lindo como o que elles cantam, tão fervoroso como o d'elles,
+tão angelical como tu mesma!
+
+Se vivessem hoje os Paladinos cortezes, se ainda esse mundo andassem os
+namorados cavalleiros da edade média, que á ponta de lança vingavam e
+desmentiam as injurias feitas á belleza, não haveria tanto escriptor, tanto
+philosopho e poeta, que desacatasse as mulheres.
+
+A logica d'aquelles tempos era valente, tinha argumentos de _ferro_, que
+não havia resistir-lhes; se então saísse á luz um livro desleal e villão,
+logo o auctor sentiria bater-lhe no rosto um guante de campeador, e
+retinir-lhe nos ouvidos um _mentes!_ d'aquelles, que sempre deixavam uma
+bainha vazia, ou um nome infamado. Hoje não; hoje diz-se e escreve-se
+impunemente quanta loucura e descortezia lembra; tem-se dicto das mulheres
+o que esqueceu a Mafoma, com ser elle dos mais grosseiros _devotos_, que
+nunca jámais ellas tiveram. Que de cousas doidas, Elysa, não tenho tambem
+eu dicto e escripto para ahi a respeito das mulheres?! mas agora cuido que
+d'esse mal estou curado e desculpado--não tinha encontrado uma só Elysa: e
+a quem a não encontra que lhe digam que andam anjos na terra? não o
+acredita. E já que tu foste quem me fizeste renegado, já que a ti devo a
+minha nova crença, quero que seja o teu livro, Elysa, o campo onde levante
+pendão pelo teu sexo; mas antes d'isso consente que eu desculpe alguma
+cousa o meu erro;--não se póde assim deixar um velho defeito sem ter ao
+menos duas palavras para lhe diminuir o feio, para lhe minorar a imputação.
+
+No dizer mal das mulheres não ha tanta maldade como parece, e d'isto me
+convencem duas cousas; não as ter nunca visto _devéras_ agastadas com os
+maldizentes, e serem elles sempre os seus maiores adoradores;--é que ellas
+bem comprehendem que nessas offensas vai mais amor que odio, é que elles só
+offendem porque amam. Parece um absurdo, mas que haja coração d'amante
+capaz de o não admittir, não ha.
+
+Injurias de philosophos, essas não sei eu que se possam justificar ou
+sequer defender; é gente que tem todo o seu viver na cabeça, gente de gêlo,
+gente capaz de _constipar_, como disse um Italiano fallando das mulheres da
+Polonia, e por isso elles offendem porque não amam, offendem porque algum
+raciocinio bastardo pode nelles mais do que a natureza. Um philosopho ha de
+dizer-te, Elysa, em tom dogmatico que _as mulheres não pertencem ao genero
+humano_[10], ha de fallar com toda a seriedade a favor d'essa these
+brilhante no concilio de Mâcon[11], ha de escrever que ella é um ente
+imperfeito na sua organisação[12], e, contente com pertencer á humanidade
+só pelo lado paterno, cravará a fronte entre as duas mãos, e ficará diante
+d'um _in-folio_ abysmado na sua intellectualidade unilateral!
+
+Injurias d'estas, Elysa, não têm perdão; abandono os philosophos á tua
+colera.... ao teu desprezo queria dizer.
+
+Agora poetas, isso é outra casta de gente. Dir-te-hão, é certo, cousas
+terriveis, dir-te-hão:--
+
+ «Mulher pura e fiel não ha, nem houve!
+ ......................................
+ Raça infame de viboras dolosas
+ Podesse uma só nau contel-as todas,
+ E o piloto fosse eu...................[13]
+
+que havia de fazer? deixa lá dizer ao poeta o que quizer; mas crê que se
+elle fosse o piloto guiava de certo a náu a porto de salvamento. Não ha
+gente mais trovejadora em suas iras que são os poetas; com a penna na mão
+todas as vezes que se enfurecem temos _vesperas sicilianas_; mas, chegada a
+occasião, vem logo absolvição papal. Embora te diga que não ha mulher, nem
+houve, pura e fiel, não é cousa em que elle creia; o poeta é todo coração;
+coração de poeta, se não amasse, morria-lhe no peito, e amar sem crer na
+mulher é impossivel. Não sei se _Milton_ disse mal das mulheres, o que sei
+é que elle casou tres vezes.
+
+Elysa, poetas são outra casta de gente que não são os philosophos.
+
+Queres tu ver como elles fallam quando não é o ciume que os inspira? queres
+ver com que delicadeza se elles desculpam das faltas passadas? ouve:--«Um
+sôpro divino formou a alma do homem, a da mulher de um beijo delicioso
+deveu ser formada.... custa a crer como um ente, que é metade da nossa
+especie, que das duas é a mais amavel metade, a mais carinhosa, em tantas
+cousas nosso egual para nos attraír, mas com tantas differenças de nós para
+se nos unir ainda mais; que, se tem defeitos, de nós os recebe, e nos dá em
+troca sem o cuidar tantas das virtudes que possuimos, custa, digo, a crer
+como um tal ente, a quem sua propria fraqueza devêra tornar inviolavel,
+pôde ver-se em todos os tempos, e provavelmente continuará a ser até ao fim
+dos seculos, alvo e emprego das criticas mais desabridas, e mais grosseiras
+calumnias......... Qual póde ser a causa d'esta mais que montezinha
+ferocidade?....... é a causa o mesmo natural instincto, que faz que os
+soldados em tempo de guerra, seroando entre as armas á fogueira ociosa do
+seu rancho, encareçam as derrotas do inimigo, e lhe assaquem fraquezas que
+não tem, para a si proprios accrescentarem animos e determinação para as
+futuras pelejas--»[14].
+
+Ora eis ahi a linguagem dos poetas quando _transfugas dos arraiaes dos
+levantados se recolhem ás trincheiras d'ellas_;--todos esses libellos, que
+lhes saem das mãos, não são d'elles; é o anjo negro, diabolico, sinistro do
+ciume que lhes espremeu fel no tinteiro, e escreveu em nome e por conta dos
+pobres poetas.
+
+E quem não perdoará os furores do ciume?! não sei até se elles são
+necessarios. _Ovidio_, que passa por mestre em taes materias, aconselhou-os
+porque traziam comsigo a _redintegratio amoris_, a doçura da nova paz; e
+tão longe leva elle o conselho, que permitte chegar o amante enfurecido a
+despedaçar os vestidos da sua bella ingrata; tambem _Moliére_, que não foi
+sempre francez com as damas, tambem elle os desculpa e se desculpa
+dizendo:--«ne savez vous pas que les injures des amants n'offensent jamais;
+qu'il est des amours emportés aussi bien que des doucereux; et qu'en de
+pareilles occasions les paroles les plus étranges, _et quelque chose de pis
+encore_, se prennent bien souvent pour des marques d'affection, par celles
+même qui les reçoivent?--»[15].
+
+Não sei se _Moliére_ quiz adoptar o principio de _Ovidio_ naquelle _quelque
+chose de pis encore_; mas o que um e outro quizeram foi cobrir o ciume com
+as azas do amor: se eu pretendesse para isso uma auctoridade mais
+competente do que aquelles dous poetas talvez a tivesse[16]. O que é certo
+porém, Elysa, e seja com isto que eu dê mate á minha defesa, o que é certo
+é que por isso mesmo que na mulher se pretende a perfeição, é mister não a
+lisongear sempre; e o achar todas egualmente sem defeito não sei se é maior
+prova de indifferença que de amor.
+
+Está pois decidido que os poetas são muito melhores do que os philosophos,
+e que no seu dizer mal não ha injuria comparavel áquella injuria fria,
+tremenda, meditada, e infinitamente falsa de que as _mulheres não pertencem
+ao genero humano_:--quem os tivera feito nascer das hervas! Estes taes não
+quizera eu nem que as tetas das lobas os alimentassem.
+
+ Nunca taes homens souberam
+ Ler na face da mulher,
+ Em seus olhos aprender
+ Nunca taes homens quizeram.
+
+ Não viram manar-lhe a flux
+ Dos labios celeste riso?
+ Não viram do paraiso
+ Nos olhos accesa a luz?
+
+ Não é d'anjo a voz macia,
+ Que, vencendo almo pudor,
+ Te diz ternura e amor
+ Com tão mimosa harmonia?
+ Aquelle encanto só seu,
+ Graças e mimos só d'ella,
+ Aquella rosa tão bella
+ Não vem do rosal do céo?
+
+ A quem á terra só veiu
+ Por te servir, por te amar,
+ D'irmã tua lhe chamar
+ Parece que tens receio?[17]
+ Se o teu orgulho não quer
+ Chamar anjo á formosura,
+ Deixando ingrata loucura,
+ Chama-lhe ao menos mulher.
+
+ Não pertence á humanidade
+ Dizes tu, impio! e não vês
+ Do seio caír-lhe aos pés
+ Humanada a Divindade?!
+ Se em ti a crença inda tem
+ Algum poder, pensa n'isto,
+ Pensa tu que Jesus-Christo
+ Foi homem por sua mãe.
+
+O que é admiravel, Elysa, é que na mesma epocha em que se dizia em França
+que _a mulher não tinha alma_, appareceram _Isabel de Baviera_ e _Joanna
+d'Arc_: aquella entregou a França á Inglaterra para mostrar o poder d'uma
+mulher; esta deu de novo a patria aos philosophos para mostrar a
+generosidade feminina; foi Deos que se encarregou de as desafrontar.
+
+Se philosophos e poetas tivessem estudado a mulher: a mulher physica, a
+mulher intellectual, a mulher moral, já nem syllogismos nem versos lhe
+seriam tão contrarios; mas que? são como o Marquez que Moliére nos pinta;
+nem se dão ao trabalho de examinar o que sentencêam, e depois--«je la
+trouve détestable, morbleu! détestable, du dernier détestable, ce qu'on
+appele détestable--»[18].
+
+A mulher physica achal-a-hiam na physiologia moderna (na de _Hippocrates_
+não), achal-a-hiam tão perfeita como o homem; e se algum d'estes entes deve
+ser preferido pela delicadeza e maravilhoso da organisação, essa
+preferencia cabe á mulher, sem contar todavia a belleza externa, nem a
+graça das fórmas.
+
+A mulher intellectual haviam de encontral-a em _Sapho_, _Heloiza_,
+_Catharina_, _Semiramis_, _Staël_, _Sevigné_, _Coulanges_, _Lafayette_,
+_Bernier_, _Flaugergues_, e tantas outras, que têm regido o sceptro ou a
+penna com gloria mais que varonil: os preceitos do bello inspirava-os
+_Aspasia_ a _Socrates_ e _Pericles_, _Ninon de Lenclos_ a _Condé_ e _La
+Rochefoucault_:--sem a mulher os conhecimentos do homem seriam imperfeitos;
+elle descobriria o que na natureza ha de forte, de grande, de sublime; mas
+a graça, o mimo, a delicadeza só pela mulher podia ser descoberta. A
+litteratura carece de imaginação, e a mulher tem na imaginação a principal
+natureza da sua alma; aqui a vantagem é toda d'ella:--até se não for ella
+quem povôe o coração do homem das illusões do amor, aonde irá elle
+encontrar as galas da sua litteratura? Entregue ao positivismo da vida
+material, sem o fogo imaginativo, de que flores ha de encher os seus
+livros?
+
+A litteratura e as artes têm sempre devido á mulher ou joias suas, que lhes
+façam o diadema, ou protecção e influencia, que as augmentem e desenvolvam:
+foi na côrte de _Catharina de Médicis_ que _Henrique o grande_, aprendendo
+a amar, aprendeu tambem aquellas maneiras nobres e cavalleirosas, que
+distinguiram o seu reinado, dando á sua lingua uma graça e polidez, que não
+tinha. O gosto e sentimento delicado para as lettras e artes, que _Maria_ e
+_Catharina de Médicis_ levaram da Italia para França foram a origem do
+desenvolvimento das artes e das lettras do seu tempo. E não seria á
+influencia que as mulheres tiveram na côrte de Luiz XIV, que se deveu então
+essa lista immensa de homens celebres, com que a França se honra, e que o
+mundo estuda e admira? E não será para agradar á mulher que o homem gera a
+industria, inventa o canto, a dança, a pintura, amenisa a linguagem com as
+flores da poesia, traja com esmero, e torna affaveis e doces suas maneiras
+e costumes? A mulher intellectual não existe só em si, existe nos outros
+tambem; não se contenta com as suas creações, instiga os outros a crear; e
+é considerando reunido o que a alma da mulher pode tirar de si propria, e o
+que a mulher concorre para as producções da alma do homem; é considerando
+reunido num só ponto o que a mulher é em si e no homem, que eu a vejo tão
+sublime, tão elevada, que, senão tivera o lado moral para a olhar, já por
+este lhe podia chamar anjo.
+
+A mulher moral porem é que é a mulher, ou a mulher da mulher. Ou a nós
+vejamos na sua condição de amante, de irmã, de filha, de _mulher_ e de mãe;
+ou a consideremos no prazer ou na dor, na ventura ou na miseria; ou
+contemplemos o que pode pela mulher ser o homem, em quem é sempre ella que
+imprime a virtude ou o vicio no coração; ou a analysemos no seu throno, que
+é na vida de familia, ou na hasta publica da vida de sociedade; ou a
+vejamos na infancia ser a alegria da casa, na juventude ser as delicias do
+amor, na madureza ser a consolação da alma, e na velhice ser a mestra da
+virtude; ou seja que nos abrace ou que nos fuja, que nos afague ou que nos
+reprehenda, que nos ame ou que nos aborreça, a mulher moral é a parte mais
+augusta da creação.
+
+--«A mulher moral é o infinito--» disse um illustre escriptor[19]; e na
+verdade só assim se pode definir o mysterio da mulher moral!
+
+A mulher é o elemento mais poderoso da ventura social, mas a mulher moral é
+o elemento dos elementos. Indagae a origem dos ciumes e, com leves
+excepções, achal-a-heis na educação, isto é, na mulher; vêdes uma boa
+acção? Procurae-lhe a fonte, e encontrareis a mulher; talvez que não haja
+no mundo um só facto, cujo principio ou fim, se bem o averiguarmos, não
+seja a mulher:--«os homens serão sempre o que as mulheres quizerem que
+elles sejam--» disse _Rousseau_[20], e disse uma grande verdade; porque
+antes que o homem seja cidadão é filho primeiro. A mãe dos _Gracchos_ e dos
+_Corneilles_ tinha uma alma nobre, grande e severa; a mãe de _Voltaire_ era
+escarnecedora e de garridas maneiras; a de _Byron_, até nem os defeitos
+physicos do filho escapavam á sua maldade; _Kant_ dizia que fôra sua mãe
+quem lhe lançara na alma o germen do bem e quem primeiro lhe inspirara o
+amor do Creador, explicando-lhe o que sabia das maravilhas da natureza[21];
+_Cuvier_ deveu a sua mãe os successos brilhantes da sua vida illustre[22];
+_Barnave_ já com um pé sobre o cadafalso bemdiz sua mãe, que lhe deu na
+infancia o valor que alli o anima; _Lamartine_ aprendeu nas harmonias do
+coração materno as harmonias da sua harpa piedosa; em fim, Elysa, se após
+estes nomes tão respeitaveis e tão illustres é permittido citar o meu pobre
+e desconhecido nome, sirva elle de mais uma prova, porque o pouco, o muito
+pouco, de bom que em mim tenho é unicamente a minha mãe, é a ella só que eu
+o devo.
+
+Que augusta não é pois a missão da mulher sobre a terra! Ah! que se
+philosophos e poetas meditassem bem no que é a mulher, e, sobre tudo, no
+que ella pode ser, não haveria um só que não visse nesse ente o oásis
+mimoso dos desertos da vida! Mas elles não curam de tal: arrancam
+desapiedados as pennas alvissimas ás azas do cherubim, e depois, vendo-a
+assim tão ao nivel das cousas da terra, descrêem d'aquillo mesmo em que não
+souberam crer; andastes errados: acreditae primeiro, sabei o que é a
+mulher, e depois julgae-a.
+
+Em quanto não fizerdes isto, sereis sempre uns inimigos desleaes e
+traiçoeiros; tomareis a nuvem por Juno, e direis do phantasma da mulher o
+que pensais dizer da mulher como ella saiu das mãos de Deos, quando viu que
+não era bom que o homem vivesse só:--dizei embora o que quizerdes, mas da
+mulher como a concebo e como ella existe, por mais rios de tinta que
+derrameis, nunca podereis provar a maldade senão com aquellas razões com
+que o citado Marquez da peça de Molière provava a maldade de _L'École des
+Femmes_--» elle est détestable parce qu'elle est détestable--»[23].
+
+Em toda a parte em que o teu sexo, Elysa, não occupa o logar que lhe a
+natureza marcou, ahi os povos são escravos, a ignorancia é profunda, e os
+costumes são barbaros. O adorador de Mafoma compra a mulher, _veda-lhe_ a
+entrada no céo, prohibe-lhe a leitura dos livros religiosos, afasta-a do
+tracto commum, e deixa-lhe só nos ferros do harem os erros da superstição e
+os absurdos da feiticeria: que se segue d'aqui?--que a tyrannia é no
+Oriente um principio, que a civilisação é nulla, e que a moral é uma
+palavra sem significação. Cuidou o Musulmano que, fazendo da mulher uma
+machina, tinha creado a felicidade para si; a felicidade só ella a ha de
+crear, mas é mister que livre e desassombrada, rainha e não escrava, possa,
+como a pomba da primavera, adejar sobre a cabeça do homem, ensinar-lhe as
+aguas mais puras onde deve matar a sêde, e a relva mais macia onde se deve
+assentar; só a mulher sabe, como a abelha, quaes são as flores que dão mel,
+mas não lhe hão de crestar as azas na chamma da impureza, que então,
+materialisado o amor, o homem e a mulher perderão a faisca da divindade que
+os extremava do resto da creação;--«ou os povos se hão de embrutecer em
+seus braços, ou civilisar a seus pés--»[24]. Não é com todos os pensamentos
+cravados na materia que a mulher pode dar ao homem a felicidade; o Oriente
+não comprehendeu a mulher.
+
+Que terá a filha do propheta para dar á alma do homem quando os sentidos
+estiverem saciados?--a ignorancia, as paixões mesquinhas, as astucias, os
+vicios todos da ociosidade, e, na consciencia da sua inferioridade, a
+tristeza da escravidão, ou as traições d'um inimigo.
+
+E o amor? Oh! esse nunca; esse não sabe morar num calabouço.
+
+ Ao cioso mahometano
+ Que vale o fechado harem,
+ Se amor de escrava a tyranno
+ Do coração lhe não vem?
+ Que importam centos de bellas,
+ Se uma só de todas ellas
+ Livre em seu gosto não ha?
+ Que importa matar desejos,
+ Que importam, louco! esses beijos,
+ Se só vendidos t'os dá?
+
+ Com alma núa d'esp'ranças,
+ Como ha de a escrava saber
+ Que alem de jogos e danças
+ Tem mais gozos a mulher?
+ D'esses gozos não sabidos
+ Como ha de trazer-te enchidos
+ Os dias que vão e vêm?
+ Se, dos paes perdida a trilha,
+ Ella não sabe ser filha,
+ Como ha de saber ser mãe?
+
+ Embora os astros lhe apontes,
+ Embora mostres os céos,
+ E uma a uma lhe contes
+ As maravilhas de Deos,
+ Ha de dizer-te--que importa?
+ Se eu tenho fechada a porta
+ Que leva ao reino da luz?
+ Que importa, se em vida e morte
+ Sou proscripta, e minha sorte
+ Nunca propicia reluz?
+
+ Lá quando a dor te accommetta,
+ Quando rir teu coração,
+ As filhas do teu propheta
+ Pranto e risos te darão.
+ Ouvirá co'os teus ouvidos,
+ Sentirá co'os teus sentidos,
+ Viverá no teu viver?
+ Oh que não!--solta-lhe os ferros,
+ Despe-lhe a alma dos teus erros,
+ E a escrava será mulher.
+
+
+FIM
+
+
+ [1] É crença muito antiga que umas pedras vermelhas, que se encontram
+ na _fonte dos amores_, devem a sua côr ao sangue de D. Ignez de Castro.
+
+ [2] Não quero dizer que descreio das leis da _Acustica_; sei que ella
+ não só explica, mas até consegue fazer _echos_:--a palavra _segredo_
+ veiu aqui para symbolisar que neste, como em muitos outros phenomenos
+ naturaes, em se o homem remontando um pouco, chega logo ás _forças
+ centripetas e centrifugas_, ou áquelle celebre _opium facit dormire,
+ quia habet virtutem dormitivam_.
+
+ [3] Garrett
+
+ [4] Camões.
+
+ [5] Martim de Freitas.
+
+ [6] Sá de Miranda.
+
+ [7] D. Francisco de Lemos, Bispo de Coimbra.
+
+ [8] Este echo do jardim botanico de Coimbra repete um verso heroico
+ inteiro.
+
+ [9] A Rainha Sancta Isabel, mulher d'El-Rei D. Diniz.
+
+ [10] _Mulieres homines non esse_. Dissert. anonym. d'Acidalius,--Paris
+ 1693, in 12.
+
+ [11] Gregor. Turonens. Hist. Franc.
+
+ [12] D'anciens philosophes et des médecins, tels qu'Hippocrate,
+ Aristote, ont ausai regardé la femme comme un être imparfait, un
+ demi-homme. _Virey_--_De la Femme_, chap. 1.^er, pag. 15.
+
+ [13] A. F. de Castilho--_Ciumes do Bardo_.
+
+ [14] A. F. de Castilho--_Primavera, Notas á Festa de Maio_.
+
+ [15] _La critiq. de l'Écol des Femm._ Sc. 7.
+
+ [16] Á Sr.^a Marqueza d'........ uma das mais instruidas e amaveis
+ damas que tenho visto, ouvi eu que em materia de ciume era permittido a
+ um homem levar a sua colera até alguma pequena acção violenta. O sexo,
+ a madureza da edade, a penetração, e conhecimento do coração humano,
+ que esta senhora possue, dão-lhe direito a ser muito respeitada a sua
+ sentença.
+
+ [17] Até _Plinio_ se não pejou de lhe chamar animal.
+
+ [18] _La Critiq. de L'Écol. da Femm._--sc, 6.^e
+
+ [19] A. F. de Castilho--_Primavera, Notas á Festa de Maio_
+
+ [20] _Émile--Liv._ 5.º
+
+ [21] Schoen--_Biograph. de Kant._
+
+ [22] _Memoires sur Georges Cuvier_--Mistr. Lee.
+
+ [23] _La Critiq. de l'Écol. des Femm._ sc. 6.^e
+
+ [24] Aimé Martin--_Educat. des Mér. de Fam._.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Livro de Elysa, by João de Lemos
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+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O LIVRO DE ELYSA ***
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+The Project Gutenberg EBook of O Livro de Elysa, by João de Lemos
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: O Livro de Elysa
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+Author: João de Lemos
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+Release Date: February 19, 2008 [EBook #24646]
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O LIVRO DE ELYSA ***
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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+<div class="capa">
+<h3>JOÃO DE LEMOS</h3>
+
+
+<h1>O<br>
+<br>
+LIVRO DE ELYSA</h1>
+
+<h2>Fragmentos</h2>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<hr style="width: 30%;">
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<h5>COIMBRA
+<br>
+Imprensa da Universidade
+<br>
+1869</h5>
+</div>
+
+
+<h2>ADVERTENCIA</h2>
+
+<p>O Ill.<sup>mo</sup> e Ex.<sup>mo</sup> Sr. João de Lemos Seixas Castello
+Branco dignou-se conceder-me licença para publicar este escripto, já
+impresso na <i>Revista Academica</i>, jornal litterario e scientifico
+publicado nesta cidade em 1848.</p>
+
+<p>Coimbra, 24 de Agosto de 1869.</p>
+
+
+<p class="direita"><i>J. Mesquita.</i></p>
+
+
+
+
+<h1>O LIVRO DE ELYSA</h1>
+
+<h2>FRAGMENTOS</h2>
+
+
+<h3>I</h3>
+
+<p>Elysa!--Vou escrever um livro, mas um livro só para ti.</p>
+
+<p>Ha de ser a traducção do pensamento revoando caprichoso por todo esse
+universo; ha de ser o monumento de uma longa saudade ingenhosa a não
+desperdiçar uma hora de remanso, a não sorrir nem suspirar senão comtigo;
+ha de ser um jornal do coração, de que tu serás o unico assignante, o unico
+leitor, e mais ainda o unico entendedor; ha de ser o desapertar incerto de
+ramalhetinhos da minha musa melancolicamente suave ou desesperada, ha de
+ser, emfim, o exercicio de uma devoção sublime do amor, será talvez o de um
+sacerdocio mysterioso, será de certo o de um martyrio de ausencia
+pungente.</p>
+
+<p>Anjo!--este livro deve ser muito amado por ti.</p>
+
+<p>Quero-o á cabeceira do teu leito, no teu toucador, na mesa do almoço, no
+cestinho da tua costura, nos teus passeios, no theatro, no baile, na côrte,
+na provincia, nos risos, nas lagrimas, na esperança, no desconsôlo, na
+vida, na morte. Em qualquer parte, em qualquer circumstancia que te
+encontres, abre-o; abre-o com a crença supersticiosa do amor e da ternura,
+que nelle beberás uma superstição amorosa e terna, para alegrar-se e para
+gemer comtigo.</p>
+
+<p>Anjo!--este livro deve ser muito amado por ti.</p>
+
+<p>Mas olha que este amor tão pedido para elle não consiste na presença
+inutil e preguiçosa, ou no habito indifferente e quasi que importuno, não:
+quero-o sempre ao teu lado, quero-o ainda mais, muito mais, ia dizendo
+unicamente no teu coração.</p>
+
+<p>Elysa! é com este nome que me apraz escrever-te, porque uma imprudencia,
+um acaso natural da minha vida de mancebo podia revelar com o manuscripto a
+palavra sacramental do meu segredo:--o véo, que é demasiado diaphano aos
+meus olhos, será impenetravel aos de estranhos, e para ti é uma prova do
+meu egoismo ou soffreguidão, que te agradará.</p>
+
+<p>O rei formosissimo de todos os astros nem se offende nem fica menos
+bello, porque a sombra ligeira de uma nuvem lhe passou pela frente.</p>
+
+<hr style="width: 15%;">
+
+<p>Mulher-typo! divindade talvez, ou sonho, ou illusão, ou feitiço, ou
+sombra, realidade, ou nada--eu te amo! E sabes tu como é este amor?
+escuta:</p>
+
+<p>Já viste duas pombas a devorar o espaço com as brancas azas de seda,
+correndo, voando, internando-se por esse azul da cupula immensa, ou
+pousando á beira d'um lago de saphiras, ditosas na sua loucura, loucas na
+sua innocencia, innocentes nos seus carinhos?--é o amor da pomba; é o meu
+amor.</p>
+
+<p>Já viste ao pé dos corregos do inverno duas plantas indolentemente
+enroscadas, teimosas, viçosas, purissimas, cheias de gozo sem futuro,
+cheias de futuro no gozo?--é o amor da planta; é o meu amor.</p>
+
+<p>Já viste como a rosa, voluptuosamente desabrochada no tugurio verde da
+sua roseira, é, ao despontar da aurora, tão festejada, tão conversada, tão
+abraçada, tão beijada e tão adorada pela briza?--é o amor da briza; é o meu
+amor.</p>
+
+<p>Já viste uma criancinha, que se anda embriagando de folguedos no
+amanhecer da existencia, e que logo os foge, que os engeita desdenhosa,
+porque a mãe lhe choveu entre elles, e que desfeita em sympathia risonha,
+em meiguice, em requebros lhe entreabre os braços e lhe pula ao collo?--é o
+amor da criancinha; é o meu amor.</p>
+
+<p>Já viste essa mãe carinhosa errar anhelante, desalinhada, com os pés e
+os braços nus, o cabello desatado, os olhos em lagrimas, o peito a
+ondular-lhe, os labios roxos e convulsos, a voz embaciada de suspiros, toda
+ella uma louca, ou antes um mysterio, toda ella resumida num sentimento
+indizivel, sublime, divino, a calcar abrolhos, a transpor abysmos, a galgar
+têsos, a olhar, a escutar, a inquirir homens e pedras, a consultar pégadas,
+a ferir o rosto com uma das mãos, a esmagar os seios com a outra, e tudo em
+busca do filhinho, que se lhe perdera?--é o amor da mãe carinhosa; é o meu
+amor.</p>
+
+<p>Já viste o proscripto da patria, assentado tristemente nos pincaros de
+serra estrangeira, comparando cada pedaço de terra, cada arvore, cada
+penedo, cada passaro que lhe descanta, cada choupana, cada homem, cada
+povo, e os ares, e o horisonte, e as nuvens, e as estrellas, e o sol, e o
+céo; bradar depois pela patria, só pela patria?--é o amor do proscripto; é
+o meu amor.</p>
+
+<p>Já viste o marinheiro, nascido e criado nas aguas, identificar-se com
+ellas, namorar-se do seu navio, brincal-o, enfeital-o, acaricial-o sempre,
+beijar-lhe os cabos e velame, os mastros e o leme, contente vagar pelo
+estendal das vagas, sorrir ás procellas, sorrir ás bonanças, anhelar do
+longe uma ilha toda verde, que lhe está acenando na alma, um porto
+fagueiro, que lhe está alvejando no pensamento, uma estrella da noite, que
+lhe está radiando no coração; e atirar-se assim de encantado por esse mundo
+sem raias, a espriguiçar-se nas sensações, a sorver delirios e melancolias
+suavissimas, ainda que rudes e profundas; ora cavando o pelago com olhos
+severos, ora analisando o concavo d'um tecto infinito com olhos
+meditadores; e naquella soidão de que é monarcha, com as suas endeixas e
+com o seu alaúde, apinhoando lá dentro d'alma cada vez mais desprezos da
+terra, mais orgulho e fanatismo pelas suas campinas de crystal?--é o amor
+do marinheiro; é o meu amor.</p>
+
+<p>Já viste o captivo encostado ao marco de pedra, quasi tão quedo como
+elle, com a fronte enrugada e em cada ruga um concentramento de paixão, com
+a vista cravada no ferro, que lhe aperta e ennodoa a perna, uma vista tão
+cravada, tão pegada, que a disseras um martello alli fundido por não poder
+despedaçar aquelle annel; e uma lagrima a resaltar-lhe das faces ao ferro,
+como se fôra o liquido que havia de dissolvel-o, e a mão estendida e tesa,
+e depois um sorriso, um sorriso para a liberdade, para aquelle coração
+outra vez a bater sem abafamentos, para aquelles olhos outra vez erguidos,
+para aquelles braços outra vez seus, para aquelles pés outra vez libertos,
+para aquelle ar que respirava, para aquella casa, aquelles amigos, aquella
+vida, aquelle mundo, que lá lhe ficou?--é o amor do captivo; é o meu
+amor.</p>
+
+<p>E já viste, finalmente, o condemnado a quem o vento do sepulchro sacode
+sobre a escada do cadafalso, que pende para a morte como a hastea que se
+murcha, e que d'alli, de sobre esse triangulo erguido para vergonha da
+humanidade, escarneo de Deos, e epigramma da civilização, d'alli arremessa
+uma vista infinita, insondavel, incomprehensivel para a turba, que
+brutalmente o festeja, mas para a turba, que elle nunca mais ha de ver:
+para o mar, que lhe rebrame ao pé como se cantara uma nenia execravel, mas
+para o mar, que elle nunca mais ha de ver; para os céos, que recamados de
+sombras como que lhe toldam a esperança desapiedados, mas para os céos, que
+elle nunca mais ha de ver; para a terra, que lhe floreja ao longe alegre e
+formosa como se o quizera insultar no ultimo transe, mas para a terra, que
+elle nunca mais ha de ver; para as memorias d'um passado talvez prenhe de
+sangue e de remorsos, mas um passado, que elle nunca mais ha de ver; e essa
+vista resumida, em fim, a luctar entre a mortalha e o vestido, entre o
+carcere e a corda, entre a corda e a tumba, entre a morte e a vida, alli
+lhe foge toda para a vida; para a vida, que lhe matam, para a vida tão
+querida, tão linda e tão doce olhada do cadafalso, para a vida suspirada,
+gemida, e anciosamente chorada d'aquella altura tremenda, para a vida
+porque é sua, para a vida porque é boa, para a vida ainda que fora má?--é o
+amor do condemnado; é o meu amor.</p>
+
+<p>E como o amor da pomba é innocente a amar a pomba, como o amor da planta
+é viçoso a amar a planta, como o amor da briza é mimoso a amar a rosa, como
+o amor da criancinha é risonho e meigo a amar a mãe, como o amor da mãe é
+desalinhado e louco a amar o filho, como o amor do proscripto é gemedor a
+amar a patria, como o amor do marinheiro é profundo, melancolico e
+dosprezador a amar os mares, como o amor do captivo é meditado e desejoso a
+amar a liberdade, como o amor do condemnado é vehementemente desesperado e
+terrivel a amar a vida, é assim o amor do poeta a uma mulher;--é o meu
+amor.</p>
+
+<p>E tu és a minha pomba, a minha planta e a minha rosa, a minha mãe e o
+meu filho, a minha patria e os meus mares, a minha liberdade e a minha
+vida!--Mulher! eu te amo, eu te amo!</p>
+
+<p>Agora, Elysa, que já te paguei as primicias do livro, não só como
+senhora d'elle, mas como senhora da alma que o dicta e da mão que o
+escreve; agora que já te defini o meu amor, que mil vezes ainda será aqui
+definido, e que nunca o virá a ser ao cabo; agora que tu chegaste, de
+certo, á janella do teu quarto, e te embeveceste nos encantos da noite a
+recordar-te dos meus versos, deixa que me volte para a minha lyra.</p>
+
+<p>São os meus segundos amores: é ella tão minha e tão formosa como tu; é a
+minha companheira e consoladora; é quem me ha de ajudar neste trabalho, que
+te destino:--plantou-m'a Deos dentro da alma para saber amar-te, como te
+plantou a ti no mundo para que te amasse.</p>
+
+<p>Quero muito á minha lyra.</p>
+
+<p>O meu primeiro pensamento ao acordar é sempre teu, o segundo é sempre
+d'ella; nas minhas meditações e nos meus sonhos, nos meus risos e nas
+minhas lagrimas, vindes sempre ambas tão casadas, tão unidas, tão irmãs,
+que eu não sei se és tu que me trazes a lyra, se é a lyra que me conduz a
+ti.</p>
+
+<p>Quero muito á minha lyra.</p>
+
+<p>Vou conversar com ella, e preludiar-lhe ao acaso uns sons desleixados,
+que lhe são queridos, um vagar delicioso por veigas da phantasia, um
+esquecer a delirar por saudosa noite, á margem do Mondego, sob a rama de um
+salgueiro.</p>
+
+<p>E que mimoso luar de primavera ahi se refrange, e espalha uma poeira de
+prata na superficie das aguas!</p>
+
+<p>É por uma d'estas noites suavissimas de luar que a natureza tem toda a
+lindeza de mulher.</p>
+
+<div class="poesia">
+  Canta, vento do sul, teus doces cantos<br>
+Por concavos do val adormecido,<br>
+Tange n'harpa de Deos, nessas folhagens,<br>
+     Da noite as harmonias.<br>
+  Farta agora, Mondego, com teus beijos<br>
+As boninas, que tremulas desmaiam,<br>
+Que se morrem por ti na sêde louca<br>
+     De lubricos prazeres.<br>
+  Banha-me a accesa fronte, meu salgueiro,<br>
+De meiga fresquidão, que ha de inspirar-me<br>
+Desassombros do sol, da luz, do dia,<br>
+     Que se afogou nos mares.<br>
+  E tu, filha d'amor, candida lyra,<br>
+Um abraço dos teus cinge ao teu bardo,<br>
+Outro mais.... este só... agora folga,<br>
+     Folga por céos e terra.<br>
+<br>
+<br>
+  Amo o tibio clarão do argenteo disco,<br>
+Porque a luz do luar não cega os olhos,<br>
+Como faz a do sol, porque me deixa<br>
+Nesse lago d'anil, que vai sulcando,<br>
+     Namorar-lhe a belleza;<br>
+  Amo a languida côr do ingente espelho,<br>
+Onde os olhos d'amantes vão casar-se;<br>
+Onde crêra talvez Grego ingenhoso<br>
+Que o velho Jove, requintando as galas,<br>
+     Ia mirar-se, rindo.<br>
+  Eu amo, já pagão, na branca esphera<br>
+Da casta Delia envergonhado riso,<br>
+E já lá finjo negrejando os bosques,<br>
+Onde co'a turba caçadora exerce<br>
+     Seu culto pudibundo.<br>
+  Amo as rosas do céo, que se emmurchecem<br>
+Quando a lua vaidosa as vai pisando,<br>
+Amo as nuvens co'os seios bipartidos<br>
+De respeito alastrando eburnea senda<br>
+     Á rainha dos astros.<br>
+  Amo a grenha voando ao meteóro<br>
+Quando pallido foge ante os seus passos,<br>
+Amo tudo o que assim lhe paga um feudo,<br>
+Outro feudo melhor, que não meus versos<br>
+     Engeitados da vida.<br>
+<br>
+  Noite! noite! que mão te ha desdobrado<br>
+Tão risonha e fagueira assim no mundo?<br>
+Do templo do Senhor és véo, que os anjos<br>
+De infindos orbes d'oiro recamaram?<br>
+És lavrado padrão da Omnipotencia,<br>
+Memoria erguida em campos do infinito?<br>
+Milhões de soes, que ostentas, serão tochas<br>
+Ardendo ante o teu Deos no altar immenso?<br>
+Serão letras d'amor com que lhe escreves<br>
+Nessa pagina azul o ignoto nome?<br>
+Tuas nuvens que são? são do thuribulo,<br>
+Que agitam cherubins aos pés do Eterno,<br>
+Queimado incenso a desfazer-se em fumo?<br>
+Noite! noite! quem és? d'onde has tu vindo<br>
+A poisar-te na terra entre mysterios?....<br>
+<br>
+      Não sei que ternas meiguices<br>
+    Falla a noite ao coração;<br>
+    Minhas horas mais felices<br>
+    As horas da noite são:<br>
+    Com ella na solidão<br>
+    Suspiro amor e saudades,<br>
+    E com ella nas cidades<br>
+    Não largo a lyra da mão;<br>
+    Suspiro, canto d'amores<br>
+    Entre os homens, entre as flores<br>
+    De noite, de dia não;<br>
+    Porque a noite tem meiguices,<br>
+    Porque as horas mais felices<br>
+    As horas da noite são.<br>
+<br>
+<br>
+      Como é lindo este Mondego<br>
+    A brincar sobre esta arêa!<br>
+    Como é lindo o bosque verde,<br>
+    Que as verdes margens sombrêa!<br>
+<br>
+      No seu crystal derretido<br>
+    Lá vem, á luz do luar,<br>
+    Outro Narciso, um salgueiro,<br>
+    Um salgueiro a namorar.<br>
+<br>
+      Outra Echo, a briza doida,<br>
+    Que foi por elle engeitada,<br>
+    Anda carpindo, e zelosa<br>
+    Traz a limpha alborotada.<br>
+<br>
+      Cuida que mora lá dentro<br>
+    Escondida uma rival,<br>
+    E por dar-lhe invejas solta<br>
+    Perfumes, que traz do val.<br>
+<br>
+      Raivosa tolda co'as azas<br>
+    O liso espelho brilhante,<br>
+    Cospe co'as azas, raivosa,<br>
+    O Mondego ao seu amante.<br>
+<br>
+      E o pobre, por si perdido,<br>
+    Sacode a fronte singela,<br>
+    Murmura um ai; mas teimoso<br>
+    Busca n'agua a imagem bella.<br>
+<br>
+      Como é lindo este Mondego<br>
+    A brincar sobre esta arêa!<br>
+    Como é lindo o bosque verde,<br>
+    Que as verdes margens sombrêa!<br>
+<br>
+  Como a fonte d'Ignez soluça ao longe!<br>
+Parece inda chorar-lhe a morte escura,<br>
+Osculando na pedra eternas manchas<br>
+     Do sangue espadanado<a href="#rodape1" name="nota1"><sup>1</sup></a><br>
+  Como os cedros a côma baloiçando<br>
+Inda vergam de dor, inda meditam<br>
+No caso triste de memoria digno,<br>
+     Que desenterra os mortos!<br>
+  Alli d'um terno amor ternos momentos<br>
+N'aza do tempo languidos fugiram,<br>
+Naquelle engano d'alma que a fortuna<br>
+     Não deixa durar muito!<br>
+  Dos suspiros de Ignez na penedia<br>
+Inda os echos vagando ás horas mortas<br>
+Murmuram brandos ais, e aos sons da lyra<br>
+     Respondem gemebundos!<br>
+<br>
+      Quero muito á voz solemne<br>
+    Dos echos da solidão;<br>
+    São amigos invisiveis<br>
+    Com quem falla o coração.<br>
+<br>
+      É tão doce nestas horas<br>
+    Poder assim conversar,<br>
+    Ouvir do nosso queixume<br>
+    Novos queixumes brotar!<br>
+<br>
+      Chamar aquella que é longe,<br>
+    Chamar aquella que se ama,<br>
+    E o som d'amor e saudade<br>
+    Não morrer na voz, que a chama!<br>
+<br>
+      Sentar-me ao pé d'esta fonte,<br>
+    Que tão pura se deslisa,<br>
+    Clamando--Elysa!--e dos montes<br>
+    Outra voz clamar--Elysa!--<br>
+<br>
+      Quero muito á voz solemne<br>
+    Dos echos da solidão;<br>
+    São amigos invisiveis<br>
+    Com quem falla o coração.<br>
+<br>
+  Mas quem pode formar taes sons no bosque?<br>
+Será perdido amante a penar magoas,<br>
+Desprezos da que amou, desdens de bella,<br>
+Injurias d'um rival, ou será nympha<br>
+Que um ingrato engeitou, e alli chorosa<br>
+Inda, louca d'amor, serve aos amores?<br>
+Oh! falla, quem és tu, filho da selva?....<br>
+Silencio... respondeu... maldicto vento!<br>
+Que só pude escutar--filho da selva!<br>
+Embora! fique embora isso em segredo,<a href="#rodape2" name="nota2"><sup>2</sup></a><br>
+        Saiba-o sómente Deos!<br>
+Tambem segredos, que meu peito encerra,<br>
+        Só se dizem nos céos.<br>
+A turba ha de escutar-me, e cada nota<br>
+        Será nota d'amor!<br>
+Mas ouvidos da turba não entendem<br>
+        Carmes do trovador.<br>
+Emmudece-te, ó lyra; e tu, ó noite,<br>
+        Apaga o teu luar,<br>
+Das trevas no pallor deixa-me um sonho<br>
+        Com Elysa sonhar.<br>
+</div>
+
+<p>E a lua ja roça as cumiadas do monte, e pouco a pouco se enterra por
+elle abaixo... ahi ficam agora na escuridão as margens do Mondego, tão
+saudosas como amante feliz na hora de um <i>adeos</i>, sellado com
+beijos... ahi se empoleiram as auras pelas hasteas do choupal, cançadas de
+abraçar a roxa fronte das violetas... já não se lhe escuta o frémito das
+azas nos seus brincos innocentes.... faz-se um silencio longo em toda a
+natureza... e só as rãs veladoras continuam na voz unisona e aguda o hymno
+da creação!</p>
+
+<p>Elysa, é tempo de pedir a Coimbra uma casa, á casa um leito, ao leito um
+somno, ao somno a tua imagem.</p>
+
+<p>Como o teu livro, Elysa, é fructo das horas roubadas ao remanso, e
+talvez ao estudo, nesta bem-aventurada Coimbra, quero fallar-te de
+Coimbra!</p>
+
+<p>Cada povo tem a cidade da sua poesia, da sua imaginação, dos seus
+amores; cada povo aponta para uma terra, que a tradição vestiu de galas, e
+diz--lá, lá! oh! que não ha nada mais bello!</p>
+
+<p>O portuguez aponta para Coimbra.</p>
+
+<p>É das recordações d'esta cidade que o velho se nutre, e nutre os filhos
+ao serão do seu lar:--quando eu estava em Coimbra! eis-ahi o exordio de
+todas as aventuras de um pae; e a saudade, tingindo de roxas e mimosas
+côres todo o discurso, engrandecendo tudo, louvando tudo, e chorando por
+tudo, leva o ancião á peroração de rigor--não ha já tempo como o meu tempo
+de Coimbra!</p>
+
+<p>Para o amor maternal é a terra dos seus sustos, porque é a terra dos
+rapazes; mas nesses mesmos sustos, no longo esperar do abraço filial
+encarnou-se não sei que doce sympathia para aquella cidade, que faz chorar
+e rir toda a casa; é o gosto amargo da saudade, é o</p>
+
+<div class="poesia">
+Delicioso pungir d'acerbo espinho<a href="#rodape3" name="nota3"><sup>3</sup></a>
+</div>
+
+<p>Dizei a um aldeão que lhe ides contar uma historia de Coimbra, e logo o
+tereis quedo, pendente de vossos labios, já certo do maravilhoso, ou do
+travesso do vosso conto.</p>
+
+<p>Perguntae ás amantes por Coimbra: haveis de vêl-as córar, como tu agora
+córaste, Elysa; e depois responder com um suspiro envergonhado--oh!
+Coimbra!.... e o resto que lá fica em seu pensamento será uma inveja, mas
+não é desamor para a terra que anda sempre casada ao amanhecer e anoitecer
+de seu coração.</p>
+
+<p>Perguntae ao mancebo, que só ouviu o que vai pelas margens do Mondego,
+sem nunca ter pisado as suas arêas de oiro, perguntae-lhe por seus desejos,
+e elle vos dirá simplesmente--se eu podesse ir a Coimbra! e ahi deixa
+resumido o scismar de longas horas.</p>
+
+<p>Até a sciencia e as letras olham sempre para Coimbra como para a terra
+da promissão;--a nossa esperança, dizem ellas, cada dia, cada anno, cada
+seculo, a nossa esperança está lá!</p>
+
+<p>Se aqui vierdes, ouvireis, é certo, a muitos dos que se assentam ao caír
+da tarde no <i>Penedo da Saudade</i> a curtir magoas de ausente,
+ouvir-lhe-heis maldições contra Coimbra; não os acrediteis, não; é aquelle
+absurdo do coração humano, é aquella saciedade na posse, é o
+nunca-satisfazer dos desejos do homem, o desprezo do que já tem, trocado
+pelo anhelar do que ainda espera; mas, se fordes inquirir esses mesmos, uma
+hora antes de deixarem Coimbra para sempre, ou elles não têm alma afinada
+para as melodias da terra, ou elles vos dirão com as lagrimas nos
+olhos--podera eu nunca deixar Coimbra! É que lhes ficam aqui as horas mais
+descuidosas, mais doces, mais felizes da mocidade; é que lhes ficam aqui as
+amizades, que não morrem mais, a liberdade, que mais não volta, e estes
+ares purissimos, este céo purissimo, estas aguas purissimas, esta Coimbra
+unica!</p>
+
+<p>Ah! como lhes ha de apparecer em sonhos este archanjo de pedra assentado
+no seu tapete de flores! Coimbra!... hão de descobril-a de longe, vestida
+de branco, morbida, formosa, voluptuosa, modesta, a metter seus pés de
+marmore na prata do Mondego; a devassar o seio das nuvens com o capacete da
+sua torre, como se fôra estatua de Minerva; com seus braços estendidos a
+afogarem-se em açafate de esmeraldas; com a sua ponte orlada de vultos
+negros, que se debruçam na corrente como os salgueiros da margem; com a
+cintura azul de mil outeiros, que ao longe fecham o seu largo horisonte;
+com toda esta belleza, este encantamento, esta feminidade de donzella,
+esquecida na relva d'um prado a tanger um hymno d'amor, com os olhos no
+céo!</p>
+
+<p>Ahi tendes então os blasphemos arrependidos: Coimbra não é só a
+tortuosidade e estreiteza de suas ruas, não é o som lugubre do seu sino
+fatal, não é o suspirar por quem vive longe, não é nada d'isto; é a terra
+das suas saudades, é a saudade da sua poesia, é a poesia da sua vida!</p>
+
+<p>Se um d'esses homens for poeta... e quem ha que o não seja depois do
+baptismo da sombra d'estes salgueiraes, do perfume d'estes campos, do
+crystallino d'este ambiente, da doçura d'estas aguas, da verdura d'estes
+montes, da fresquidão d'estas brizas? aqui a poesia bebe-se pelos olhos,
+pela bocca, pelos ouvidos, sem o querer, sem o cuidar, sem o sentir; cada
+pedra, cada tronco leva inspirações ao amago do seio, que desatina a cantar
+como a zagala ao desabrochar do dia, ou como a avesinha, que saúda a
+primavera; aqui murmura melodias o ciciar da aragem nas flores da collina;
+o scintillar da lua quando num tecto de saphira pende accesa como lampada
+de sanctuario; o ardor do sol, quando se alastra em diamantes por cima do
+estendal da arêa; o echo a responder sonoro ás palmas d'um folguedo; a vara
+do barqueiro a resvalar nos seixinhos do rio; o lavadouro da
+<i>tricana</i>, que geme debaixo dos seus golpes, menos duros porque os
+acompanha uma cantiga de amores!--até os nomes dos sitios têm aqui uma
+suave harmonia, como preludio de canção, que deixa adivinhar-lhe toda a
+lindeza!.... Mas não vês, Elysa, como eu vou longe do que ia dizendo? era
+Coimbra, que me arrebatava nas ondas da sua poesia; foi uma nova prova do
+seu poder;--voltemos porém ao primeiro proposito.</p>
+
+<p>Se um d'esses homens for poeta, irá assentar-se no limiar da sua porta,
+quando a tarde vai caíndo nos braços da noite, e alli o vereis a cantar;
+segui-lhe o canto... não ouvis? aqui fallou d'aquella fonte,</p>
+
+<div class="poesia">
+Que lagrimas são a agua e o nome amores;<a href="#rodape4" name="nota4"><sup>4</sup></a>
+</div>
+
+<p style="text-indent: 0">alli gemeu com a desditosa <i>Castro</i> á sombra
+dos cedros seculares; agora um som festival lhe escapa ao recordar-se da
+<i>Lapa dos Esteios</i>, onde se lhe escoaram deleitosos momentos por sobre
+alcatifa de violetas e boninas; logo suspira nas cordas da harpa aquella
+<i>Maria Telles</i> tão sem ventura, a quem a mão do esposo ceifa a rosa da
+vida no descuido da noite; lá se lhe accende o estro na labareda do
+enthusiasmo, porque se recordou d'aquelle cavalleiro d'antes quebrar que
+torcer,<a href="#rodape5" name="nota5"><sup>5</sup></a> que fecha as portas
+da cidade ao rei cheio de vida e de poder, e leva as chaves d'ellas ao rei
+sem vida e sem nada; eil-o depois encostado ao tumulo de D. Sisnando, a
+misturar nos seus versos o saudoso da religião, inspirado pela fronte
+carcomida da cathedral veneranda que viu nascer a patria, e que tem visto
+morrer tantos seculos!</p>
+
+<p>Olhae como vos diz que Coimbra é</p>
+
+<div class="poesia">
+Cidade rica do sancto<br>
+Corpo do seu rei primeiro,<br>
+Qu'inda vimos com espanto<br>
+Ha tão pouco tempo inteiro<br>
+Dos annos que podem tanto.<a href="#rodape6" name="nota6"><sup>6</sup></a>
+</div>
+
+<p style="text-indent: 0">Silencio... não vêdes como lhes resumbram no seu
+cantico uns nomes tão feiticeiros...</p>
+
+<div class="poesia">
+  <i>Da saudade o penedo!</i> que amores<br>
+Á minh'alma, aos meus olhos não é!<br>
+Lindo cesto de graça e verdores,<br>
+Verde ramo do monte ao sopé.<br>
+<br>
+  <i>Dos suspiros a gruta</i> mais longe<br>
+Recolhida se foi meditar.<br>
+Só poeta, só ave, só monge<br>
+Póde á gruta os segredos vulgar!<br>
+</div>
+
+<p>E aqui lhe escapa depois no fundo arrebatar do pensamento grave um nome
+grave como elle--o <i>Penedo da Meditação!</i> mas de volta para a cidade
+pára diante da gradaria soberba de soberbo jardim erecto pelas mãos
+sagradas d'um Bispo<a href="#rodape7" name="nota7"><sup>7</sup></a> e
+exclama</p>
+
+<div class="poesia">
+Salve, terra mimosa! a ti meu canto<br>
+A ti meu coração, minhas saudades!
+</div>
+
+<p>E o echo, ou de cortez, ou de agradecido, responde-lhe de dentro do
+arvoredo o derradeiro verso</p>
+
+<div class="poesia">
+A ti meu coração, minhas saudades!<a href="#rodape8" name="nota8"><sup>8</sup></a>
+</div>
+
+<p>Que é tudo isto, Elysa? que é todo esse cantar d'aquelle homem já longe
+de Coimbra? Não é, não póde ser, não ha de ser nunca outra coisa senão o
+transumpto das perolas, que a patria de <i>Sá de Miranda</i> lhe engastou
+na alma, e que a memoria ha de vasar sempre do seu thesouro todas as vezes
+que o poeta pegar na lyra.</p>
+
+<p>Elysa, eu amo muito esta formosa terra!</p>
+
+<p>É o coração de Portugal, onde á vontade se revolve o seu sangue mais
+ardente. Que viver este do mancebo com o mancebo!</p>
+
+<p>Crença nas palavras e nos sentimentos; sentimentos e palavras cheias de
+verdade e de força; amor e enthusiasmo por tudo o que é nobre e grande;
+confiança nas idéas e nos homens; communhão quasi primitiva de bens e de
+tudo; homogeneidade de tendencias; existir nos outros, pelos outros, e para
+os outros; toda a virtude de quem entra na vida com muita fé no futuro:
+eis-ahi o viver do mancebo com o mancebo debaixo d'este céo de Coimbra!</p>
+
+<p>Elysa, eu amo muito esta formosa terra!</p>
+
+<p>Depois de ti, da minha lyra... não, não quero que Coimbra seja o
+terceiro affecto do meu coração, mas quero querer-lhe bem, porque é um
+querer que ella merece.</p>
+
+<p>Oh! se te eu vira um dia, Elysa, assentada comigo nas ruinas do
+mosteiro da <i>Rainha Sancta</i><a href="#rodape9"
+name="nota9"><sup>9</sup></a>, e d'alli, depois de haveres passado teu alvo
+braço á roda do meu pescoço, te esquecesses a contemplar Coimbra, como
+Coimbra se esquecera, tambem com seu braço lançado ao pescoço do monte, a
+pasmar na tua face d'anjo; se a viras tão linda a retratar-se no Mondego e
+a sorrir-se para o céo, oh! que tambem tu havias de amar muito Coimbra!</p>
+
+<p>Elysa, eu bem comprehendo que tu antes quizeras que o teu amante ausente
+praguejasse a terra que lhe rouba a sua Elysa; crês que a delicadeza do
+sentimento pedia antes isso, seja assim: mas consente aos poetas mais uma
+liberdade, deixa-os dizer o que os outros calam por traiçoeiros; não vale
+mais esta franqueza? O coração foge para o <i>bello</i> como a mariposa
+para a luz; que culpa tem elle? que póde elle, se ha de por força amar o
+<i>bello</i>:--é um amor fatal. Mas, se te queres vingar d'esta fatalidade,
+Elysa, vem, vem comigo assentar-te nas ruinas do velho mosteiro, que tu
+olharás para Coimbra, e eu olharei para ti.</p>
+
+
+<h3>II</h3>
+
+<p>O nascer e o morrer d'um dia formoso; a profecia do sol e o seu
+derradeiro adeos; o ensaiar dos canticos das aves, e o desfallecer d'esses
+canticos, que passam e morrem nas tranças da floresta; as aguas, que
+reflectem o raio que se alevanta; as aguas que reflectem o raio que se
+deita; os echos que despertam; os echos que adormecem; a treva que se
+adelgaça e a treva que se condensa; o crepusculo da manhã e o crepusculo da
+tarde, são duas horas gemeas nos encantos, na suavidade, na doçura, nas
+inspirações.</p>
+
+<p>Elysa, será um erro, uma superstição talvez; mas eu creio que todo o
+pensamento nobre, grande, generoso, sublime, que tem brotado da cabeça do
+homem, numa d'estas duas horas é que foi concebido.</p>
+
+<p>Quando o homem, á luz duvidosa da manhã ou da tarde, se assenta no viso
+d'um monte, na alcatifa d'um valle, na margem d'um rio, no limiar d'uma
+porta, e d'alli, pairando com a vista entre a terra e o céo, abrange todos
+os objectos sem se fixar em um só; ouve todos os sons sem escolher um só;
+sente todas as sensações sem definir uma só; quando o coração, enfeitiçado
+nestas horas pelo incerto da luz, dos objectos, dos sons, e das sensações,
+parece embalar-se no peito e adormecer, oh! então, Elysa, então é que o
+homem conversa com a Divindade, então os ouvidos da creatura ouvem as
+palavras do Creador!</p>
+
+<p>É por uma donosa madrugada que eu agora escrevo no teu livro, Elysa: é
+ella que do seu throno de verdura me está dictando este capitulo;--que não
+possa transportar eu para estas paginas essa pagina tão bella do livro do
+Eterno! Ainda o sol não desengastou das ondas o seu rosto em braza; uma luz
+frouxa, crystallina, mimosa, perfumada, espraia-se, como um regato, por
+sobre toda a natureza, enrosca-se á volta de todos os seres alastrando de
+esmeraldas a terra e de saphiras o céo; aquelle murmurar monotono, pesado,
+o enfadonho do dia ainda se não escuta; e as brizas folheando na selva
+levam de cada folha um som, e lá nas alturas compoem um hymno para
+Deos!</p>
+
+<p>Elysa, deixa que os ricos da fortuna e os poderosos da terra nasçam,
+vivam, e morram sem nunca terem visto a face da madrugada; fatigou-os a
+noite no bulicio dos saraus e das orgias, deitaram-se quando o dia se
+alevantava; deixa que elles ignorem, que elles não gozem o brilho
+suavissimo da mais rica perola do diadema do mundo, deixa-os, e vem tu
+comigo assistir em espirito á festa de todos os dias, ao desabrochar da
+madrugada:</p>
+
+<div class="poesia">
+  Eil-a trajando verdores<br>
+A linda mãe dos amores,<br>
+Com seus volateis cantores<br>
+Pelos campos a folgar;<br>
+Eil-a folgando na mata,<br>
+Que nas aguas se retrata,<br>
+Nas aguas de lisa prata,<br>
+Na prata do liso mar.<br>
+<br>
+  Salve, rainha formosa!<br>
+Festeja-te o lirio, a rosa,<br>
+Dos jardins a mariposa,<br>
+Do trovador a canção;<br>
+Festeja-te a pastorinha,<br>
+Que nas côres te adivinha<br>
+Um pensamento que tinha,<br>
+Que tinha no coração.<br>
+<br>
+  D'aldêa o sino te chama,<br>
+E o moço, que deixa a cama<br>
+Porque vai ver a quem ama<br>
+Ao pé da encosta d'alem;<br>
+Suspiram-te sempre os montes,<br>
+Abraçam-te os horisontes,<br>
+Choram-te rios e fontes,<br>
+Nas fontes d'amor, que têm.<br>
+<br>
+  Bemdiz-te o velho, e ensina<br>
+Á neta, que é pequenina,<br>
+Rezas sanctas da divina<br>
+Crença, que tem no Senhor<br>
+Bemdiz-te o armento balando,<br>
+Do tomilho o cheiro brando,<br>
+E o pegureiro cantando,<br>
+Cantando magoas d'amor.<br>
+<br>
+  Vem, ó linda madrugada,<br>
+Vem de violetas c'roada,<br>
+Pelas brizas embalada,<br>
+Vem nestes campos folgar;<br>
+Folga nos céos e na mata,<br>
+Que nas aguas se retrata,<br>
+Nas aguas de lisa prata,<br>
+Na prata do liso mar.<br>
+</div>
+
+<p>Todo o mundo parece corar de puro gozo, parece que sorri com o sorriso
+da felicidade quando o primeiro albor da manha lhe corre com mão de jaspe a
+cortina da noite; é a amante carinhosa, que vai despertar d'um sonho
+d'afflicção o amante adormecido com um beijo na fronte:--Elysa, se por cada
+um dos meus sonhos d'afflicção tivesses de me dar um beijo, quantos beijos
+me não devias! e crê que então não quizera eu sonhar outros sonhos.</p>
+
+<p>Mas como são cheias de galas e de thesouros, para os olhos do corpo e
+para os olhos da alma, estas horas do alvorecer do dia! O ar que respiramos
+é mais puro e embalsamado; uma harmonia deliciosissima desferida nas harpas
+dos bosques, dos rochedos e das aguas, reproduz-se inteira nas cordas
+intimas do seio, e a poesia acode voluntaria aos labios; é uma poesia
+ensinada pelos anjos, porque só falla de Deos; é a verdadeira poesia.</p>
+
+<p>De todos os argumentos mais gratos ao espirito, mais poderosos, mais
+energicos para demonstrar ao homem a existencia d'um Deos, o mais grato, o
+mais poderoso, o mais energico é a contemplação da natureza. De todas as
+horas do dia as melhores e as mais bellas para esta contemplação são as
+horas do crepusculo da manhã e da tarde:--não sei que delicioso anhelar,
+que doçura saudosa anda então no pensamento, que nas azas da meditação nos
+arrebata para o céo, e nos desata as cadêas mesquinhas da vida mesquinha da
+terra!</p>
+
+<p>Os raciocinios da philosophia convencem quando demonstram a realidade da
+causa primaria, mas a natureza faz mais: depois de convencer gera o amor; o
+coração não póde deixar de amar a origem das maravilhas que admira. E não
+sabes, Elysa, qual é a obra das mãos de Deos, que mais me tem convencido da
+sua existencia? Vais talvez dizer-me que são esses mares a revolverem-se
+noite e dia á roda dos continentes, esses mares cujas gottas são lettras,
+cujas vagas são syllabas, cujos bramidos são palavras, que dizem--existe
+Deos! Vais talvez dizer-me que são as montanhas e os promontorios erguidos
+como braços da terra apontando para o firmamento! Vais talvez dizer-me que
+são esses milhões de mundos luminosos gravitando no espaço, e traçando no
+manto azul da esphera a historia da Omnipotencia! Enganas-te! olha para o
+teu espelho, Elysa, e lá verás a minha prova mais bella, a minha prova mais
+segura da existencia de Deos!</p>
+
+<div class="poesia">
+  O Senhor quiz no teu rosto,<br>
+Quiz o impio confundir,<br>
+Quiz dos céos todo o composto<br>
+N'um só ponto resumir;<br>
+Nos olhos pôz-te as estrellas,<br>
+Inda mais lindos do que ellas<br>
+Os vejo d'amor fulgir;<br>
+Poz-te nas faces a aurora<br>
+Poz o sol no teu sorrir,<br>
+E nas tranças côr d'amora<br>
+Fez negra noite caír;<br>
+Que o Senhor quiz no teu rosto,<br>
+Quiz dos céos todo o composto<br>
+N'um só ponto resumir.
+</div>
+
+<p>Na verdade, Elysa, ver o teu rosto e descrer da Divindade seria o
+absurdo do atheu positivo; não, não cuides que o atheismo passe dos labios;
+ha lá dentro do atheu um sentimento, uma voz intima, uma quasi fatalidade,
+que, mau grado seu, o arrasta e o convence: mas que haja um só tão
+desgraçado, que o haja que, mercê da minha dama, lhe provarei que mente
+apontando-lhe para a tua face;--a minha Elysa não podia ser fructo de um
+acaso estupido, a minha Elysa é a victoria do Eterno!</p>
+
+<p>E que mais formosa... mais não, a perfeição não tem gráus, que formosa
+não és tu quando nestas horas da manhã ou da tarde te embeveces a meditar
+com a fronte encostada á mão, os olhos na immensidade, e o peito arfando
+brandamente, como superficie de lago ao bafejo das auras! que formosa!</p>
+
+<p>Nunca viste nos teus sonhos de innocencia o teu anjo da guarda a
+contemplar socegado o socego da tua alma, tão pura como elle? Imagina a tua
+lindeza pela do teu anjo, assim como pela tua lindeza tenho imaginado a de
+todos os anjos!</p>
+
+<p>Que formosa não és tu nessas horas!</p>
+
+<p>O pagão se te vira assim na alvorada d'um dia de primavera erguia-te um
+altar e chamava-te <i>Vesta!</i> Cuidaria ver-te conduzindo pela mão as
+<i>Estações</i> e o <i>Amor</i>; veria as choréas das <i>Nymphas</i> á
+volta do teu carro tirado por soberbos leões; veria os <i>Ventos</i>
+adormecidos ao teu lado, e <i>Ceres</i>, <i>Pomona</i>, e <i>Flora</i> a
+cingirem-te a fronte com uma corôa de rainha!--o pagão erguia-te um altar e
+chamava-te <i>Vesta</i>.</p>
+
+<p>Mas no teu templo, minha <i>Vesta</i>... minha Elysa,--enganei-me--no
+teu templo não seriam as donzellas romanas que conservariam o fogo
+immortal; ahi o sacerdocio seria todo meu, a chamma immortal estava no meu
+coração.</p>
+
+<p>Se fosse á hora da tarde que o pagão te visse, que te visse naquelle
+estado que suspende a alma entre o prazer e a dor, naquelle estado que
+então te exorna como uma aureola mystica; que te visse como a violeta da
+varzea, recatada do mundo e rica e feliz na solidão onde reinas, se elle te
+vira, em vez de te chamar <i>Vesta</i>, chamava-te a <i>Melancolia</i>.</p>
+
+<p>E o pagão chamava-te um bem doce nome! Fôras uma Deusa bem suave, bem
+mimosa ao coração: <i>Melancolia!</i> que mais feiticeira ficção tem o
+paganismo para te offerecer? que mais puro, mais arroubado, mais ineffavel,
+mais divino sentimento ha ahi na terra?</p>
+
+<div class="poesia">
+  Mais que o prazer, que a alegria,<br>
+Mais que a risonha emoção,<br>
+É mais doce ao coração<br>
+A doce melancolia!<br>
+Como é bello, quando o dia<br>
+Se afoga no salso mar,<br>
+Sobre ignota penedia<br>
+Ir co'as vagas conversar!<br>
+Ir sósinho suspirar<br>
+Juncto a fontinha sonora,<br>
+E nos prantos que ella chora<br>
+Ir aprender a chorar!<br>
+Como é bello então scismar<br>
+N'uma scismada ventura,<br>
+E aquelles sonhos sonhar<br>
+Nunca fartos de ternura!<br>
+Como a harmonia se apura<br>
+Nas cordas da meiga dor<br>
+Quando a rola da espessura<br>
+Poisa n'harpa ao trovador!<br>
+Quando uns gemidos d'amor,<br>
+Gemidos que não sabia,<br>
+Sáem da harpa, e ao redor<br>
+O echo lh'os repetia!<br>
+Como então mais que a alegria,<br>
+Mais que a risonha emoção,<br>
+É mais doce ao coração<br>
+A doce melancolia!<br>
+</div>
+
+<p>Elysa, se o pagão te chamasse a <i>Melancolia</i>, o pagão chamava-te um
+bem doce nome!</p>
+
+<p>E as horas da melancolia são as horas da tarde.</p>
+
+<p>Aquelle tibio da luz; aquelle horisonte dourado e bordado de nuvensinhas
+diaphanas côr da espuma dos mares; aquelle hymno immenso da terra, que se
+vai perdendo, perdendo ao longe por seios de cavernas; aquelle vôo da ave,
+que nos passa por cima da cabeça ao ir aninhar-se na roupagem da montanha;
+aquelle canto da zagala, que vem do prado com os seus cordeirinhos tão
+alvos como ella; aquellas brizas perfumadas, que então andam a folgar nas
+aguas do rio, ou na relva das margens, e que nos vêm depois roçar as faces
+com a ponta da aza melindrosa; aquelle rugir da folha secca e caída debaixo
+dos pés do viandante cançado; aquellas vozes confusas que se escutam no
+casal, que augmentam, que diminuem, que recrescem, e finalmente morrem no
+silencio; aquelle agoireiro latir do lebreu repetido pelos echos do valle;
+aquelle fatigado carpir do carro lá ao longe ao subir das encostas; e o
+sino da aldêa, que no alto da serra está assentada, como pastorinha
+esquecida a meditar amores; e os céos azulados a vestirem pouco a pouco o
+manto das sombras; e as sombras a desdobrarem-se nos campanarios; e os
+campanarios a perderem-se da vista; e a vista a resumir-se no coração; e o
+coração a afogar-se inteiro no saudoso da tarde, e a tarde com todas as
+suas galas.... oh! como tudo isto falla á alma uma linguagem ignota, e a
+deixa naquelle estado scismador em que as lagrimas são mais doces do que os
+risos do prazer!</p>
+
+<p>As horas da melancolia são as horas da tarde.</p>
+
+<p>Elysa, a mythologia esqueceu-se de nos dizer em que hora do dia tinha
+nascido o <i>Amor</i>; eu só nesta hora mysteriosa da tarde quizera que
+elle tivesse nascido; não podia, não devia nascer noutra hora. Não vês tu
+como ao caír da noite vem sempre um suspiro pendurar-se nos labios em busca
+d'um irmão a quem se abrace? não vês como é então que a mulher desatina a
+cantar sem o cuidar, sem o sentir, sem o querer talvez, e como que
+respondendo a outra voz que a chama? não vês como a donzella, com todos os
+affectos ainda em botão virginal, começa de adivinhar um segredo, um
+segredo lindo, que lhe anda entre nuvens no pensamento?</p>
+
+<div class="poesia">
+Coração de mulher, qual Philomela,<br>
+É todo amor e canto ao pé da noite:<br>
+Do amante a voz então entra mais branda,<br>
+Mais grata, mais feliz, dentro do peito;<br>
+Toldam sombras o pejo, as faces podem<br>
+Osculadas córar sem que o triumpho<br>
+Lá veja o vencedor escripto em rosas;<br>
+Melhor se escuta o frémito dos labios<br>
+Suspirando d'amor, pedindo amores:<br>
+Póde o <i>sim</i> mais sumido então colher-se,<br>
+Fingir que foi acaso a mão tocada:<br>
+O rigor feminil, desdens, orgulhos,<br>
+Da tarde a viração leva-os nas azas.<br>
+</div>
+
+<p>Elysa, se tu não fôras unica na terra, se não fôras o archanjo
+impeccavel que me Deos mandou dos céos para eu crer devéras na virtude,
+tremeria com a idéa--bastava a idéa--de te veres a sós com um mancebo por
+tal hora do dia:--é a hora dos amores.</p>
+
+<p>Mas tambem é a hora da religião; não ha momento em que a alma de melhor
+vontade se eleve para Deos: a oração, Elysa, é tão consoladora, tão cheia
+de balsamos neste momento! Guarda as tuas preces para esta hora, e dize-me
+depois se não pensas que as sanctas do céo vieram com mais alegre semblante
+ajuntal-as no regaço, como flores de maio, e leval-as mais velozes aos pés
+do Senhor!</p>
+
+<p>A oração é o resultado do amor; o amor é o resultado do conhecimento
+d'aquelle que se ama; que melhor ensejo queres tu para conhecer o Creador?
+Esse mesmo véo, que te vai envolvendo quanto enxergas, esse mesmo é uma das
+suas mais formosas maravilhas:--o silencio que se vai fazendo em toda a
+creação parece que é feito para que o homem falle; calou-se tudo para que
+fallasse o monarcha da terra ao monarcha da terra e do céo! Elysa, para te
+ouvirem as rezas os mesmos anjos se calariam; devem de ser um hymno tão
+melodioso, tão lindo como o que elles cantam, tão fervoroso como o d'elles,
+tão angelical como tu mesma!</p>
+
+<p>Se vivessem hoje os Paladinos cortezes, se ainda esse mundo andassem os
+namorados cavalleiros da edade média, que á ponta de lança vingavam e
+desmentiam as injurias feitas á belleza, não haveria tanto escriptor, tanto
+philosopho e poeta, que desacatasse as mulheres.</p>
+
+<p>A logica d'aquelles tempos era valente, tinha argumentos de
+<i>ferro</i>, que não havia resistir-lhes; se então saísse á luz um livro
+desleal e villão, logo o auctor sentiria bater-lhe no rosto um guante de
+campeador, e retinir-lhe nos ouvidos um <i>mentes!</i> d'aquelles, que
+sempre deixavam uma bainha vazia, ou um nome infamado. Hoje não; hoje
+diz-se e escreve-se impunemente quanta loucura e descortezia lembra; tem-se
+dicto das mulheres o que esqueceu a Mafoma, com ser elle dos mais
+grosseiros <i>devotos</i>, que nunca jámais ellas tiveram. Que de cousas
+doidas, Elysa, não tenho tambem eu dicto e escripto para ahi a respeito das
+mulheres?! mas agora cuido que d'esse mal estou curado e desculpado--não
+tinha encontrado uma só Elysa: e a quem a não encontra que lhe digam que
+andam anjos na terra? não o acredita. E já que tu foste quem me fizeste
+renegado, já que a ti devo a minha nova crença, quero que seja o teu livro,
+Elysa, o campo onde levante pendão pelo teu sexo; mas antes d'isso consente
+que eu desculpe alguma cousa o meu erro;--não se póde assim deixar um velho
+defeito sem ter ao menos duas palavras para lhe diminuir o feio, para lhe
+minorar a imputação.</p>
+
+<p>No dizer mal das mulheres não ha tanta maldade como parece, e d'isto me
+convencem duas cousas; não as ter nunca visto <i>devéras</i> agastadas com
+os maldizentes, e serem elles sempre os seus maiores adoradores;--é que
+ellas bem comprehendem que nessas offensas vai mais amor que odio, é que
+elles só offendem porque amam. Parece um absurdo, mas que haja coração
+d'amante capaz de o não admittir, não ha.</p>
+
+<p>Injurias de philosophos, essas não sei eu que se possam justificar ou
+sequer defender; é gente que tem todo o seu viver na cabeça, gente de gêlo,
+gente capaz de <i>constipar</i>, como disse um Italiano fallando das
+mulheres da Polonia, e por isso elles offendem porque não amam, offendem
+porque algum raciocinio bastardo pode nelles mais do que a natureza. Um
+philosopho ha de dizer-te, Elysa, em tom dogmatico que <i>as mulheres não
+pertencem ao genero humano</i><a href="#rodape10"
+name="nota10"><sup>10</sup></a>, ha de fallar com toda a seriedade a favor
+d'essa these brilhante no concilio de Mâcon<a href="#rodape11"
+name="nota11"><sup>11</sup></a>, ha de escrever que ella é um ente
+imperfeito na sua organisação<a href="#rodape12"
+name="nota12"><sup>12</sup></a>, e, contente com pertencer á humanidade só
+pelo lado paterno, cravará a fronte entre as duas mãos, e ficará diante
+d'um <i>in-folio</i> abysmado na sua intellectualidade unilateral!</p>
+
+<p>Injurias d'estas, Elysa, não têm perdão; abandono os philosophos á tua
+colera.... ao teu desprezo queria dizer.</p>
+
+<p>Agora poetas, isso é outra casta de gente. Dir-te-hão, é certo, cousas
+terriveis, dir-te-hão:--</p>
+
+<div class="poesia">
+«Mulher pura e fiel não ha, nem houve!<br>
+......................................<br>
+Raça infame de viboras dolosas<br>
+Podesse uma só nau contel-as todas,<br>
+E o piloto fosse eu...................<a href="#rodape13" name="nota13"><sup>13</sup></a>
+</div>
+
+<p style="text-indent: 0">que havia de fazer? deixa lá dizer ao poeta o que
+quizer; mas crê que se elle fosse o piloto guiava de certo a náu a porto de
+salvamento. Não ha gente mais trovejadora em suas iras que são os poetas;
+com a penna na mão todas as vezes que se enfurecem temos <i>vesperas
+sicilianas</i>; mas, chegada a occasião, vem logo absolvição papal. Embora
+te diga que não ha mulher, nem houve, pura e fiel, não é cousa em que elle
+creia; o poeta é todo coração; coração de poeta, se não amasse, morria-lhe
+no peito, e amar sem crer na mulher é impossivel. Não sei se <i>Milton</i>
+disse mal das mulheres, o que sei é que elle casou tres vezes.</p>
+
+<p>Elysa, poetas são outra casta de gente que não são os philosophos.</p>
+
+<p>Queres tu ver como elles fallam quando não é o ciume que os inspira?
+queres ver com que delicadeza se elles desculpam das faltas passadas?
+ouve:--«Um sôpro divino formou a alma do homem, a da mulher de um beijo
+delicioso deveu ser formada.... custa a crer como um ente, que é metade da
+nossa especie, que das duas é a mais amavel metade, a mais carinhosa, em
+tantas cousas nosso egual para nos attraír, mas com tantas differenças de
+nós para se nos unir ainda mais; que, se tem defeitos, de nós os recebe, e
+nos dá em troca sem o cuidar tantas das virtudes que possuimos, custa,
+digo, a crer como um tal ente, a quem sua propria fraqueza devêra tornar
+inviolavel, pôde ver-se em todos os tempos, e provavelmente continuará a
+ser até ao fim dos seculos, alvo e emprego das criticas mais desabridas, e
+mais grosseiras calumnias......... Qual póde ser a causa d'esta mais que
+montezinha ferocidade?....... é a causa o mesmo natural instincto, que faz
+que os soldados em tempo de guerra, seroando entre as armas á fogueira
+ociosa do seu rancho, encareçam as derrotas do inimigo, e lhe assaquem
+fraquezas que não tem, para a si proprios accrescentarem animos e
+determinação para as futuras pelejas--»<a href="#rodape14"
+name="nota14"><sup>14</sup></a>.</p>
+
+<p>Ora eis ahi a linguagem dos poetas quando <i>transfugas dos arraiaes dos
+levantados se recolhem ás trincheiras d'ellas</i>;--todos esses libellos,
+que lhes saem das mãos, não são d'elles; é o anjo negro, diabolico,
+sinistro do ciume que lhes espremeu fel no tinteiro, e escreveu em nome e
+por conta dos pobres poetas.</p>
+
+<p>E quem não perdoará os furores do ciume?! não sei até se elles são
+necessarios. <i>Ovidio</i>, que passa por mestre em taes materias,
+aconselhou-os porque traziam comsigo a <i>redintegratio amoris</i>, a
+doçura da nova paz; e tão longe leva elle o conselho, que permitte chegar o
+amante enfurecido a despedaçar os vestidos da sua bella ingrata; tambem
+<i>Moliére</i>, que não foi sempre francez com as damas, tambem elle os
+desculpa e se desculpa dizendo:--«ne savez vous pas que les injures des
+amants n'offensent jamais; qu'il est des amours emportés aussi bien que des
+doucereux; et qu'en de pareilles occasions les paroles les plus étranges,
+<i>et quelque chose de pis encore</i>, se prennent bien souvent pour des
+marques d'affection, par celles même qui les reçoivent?--»<a
+href="#rodape15" name="nota15"><sup>15</sup></a>.</p>
+
+<p>Não sei se <i>Moliére</i> quiz adoptar o principio de <i>Ovidio</i>
+naquelle <i>quelque chose de pis encore</i>; mas o que um e outro quizeram
+foi cobrir o ciume com as azas do amor: se eu pretendesse para isso uma
+auctoridade mais competente do que aquelles dous poetas talvez a tivesse<a
+href="#rodape16" name="nota16"><sup>16</sup></a>. O que é certo porém,
+Elysa, e seja com isto que eu dê mate á minha defesa, o que é certo é que
+por isso mesmo que na mulher se pretende a perfeição, é mister não a
+lisongear sempre; e o achar todas egualmente sem defeito não sei se é maior
+prova de indifferença que de amor.</p>
+
+<p>Está pois decidido que os poetas são muito melhores do que os
+philosophos, e que no seu dizer mal não ha injuria comparavel áquella
+injuria fria, tremenda, meditada, e infinitamente falsa de que as
+<i>mulheres não pertencem ao genero humano</i>:--quem os tivera feito
+nascer das hervas! Estes taes não quizera eu nem que as tetas das lobas os
+alimentassem.</p>
+
+<div class="poesia">
+  Nunca taes homens souberam<br>
+Ler na face da mulher,<br>
+Em seus olhos aprender<br>
+Nunca taes homens quizeram.<br>
+<br>
+  Não viram manar-lhe a flux<br>
+Dos labios celeste riso?<br>
+Não viram do paraiso<br>
+Nos olhos accesa a luz?<br>
+<br>
+  Não é d'anjo a voz macia,<br>
+Que, vencendo almo pudor,<br>
+Te diz ternura e amor<br>
+Com tão mimosa harmonia?<br>
+Aquelle encanto só seu,<br>
+Graças e mimos só d'ella,<br>
+Aquella rosa tão bella<br>
+Não vem do rosal do céo?<br>
+<br>
+  A quem á terra só veiu<br>
+Por te servir, por te amar,<br>
+D'irmã tua lhe chamar<br>
+Parece que tens receio?<a href="#rodape17" name="nota17"><sup>17</sup></a><br>
+Se o teu orgulho não quer<br>
+Chamar anjo á formosura,<br>
+Deixando ingrata loucura,<br>
+Chama-lhe ao menos mulher.<br>
+<br>
+  Não pertence á humanidade<br>
+Dizes tu, impio! e não vês<br>
+Do seio caír-lhe aos pés<br>
+Humanada a Divindade?!<br>
+Se em ti a crença inda tem<br>
+Algum poder, pensa n'isto,<br>
+Pensa tu que Jesus-Christo<br>
+Foi homem por sua mãe.<br>
+</div>
+
+<p>O que é admiravel, Elysa, é que na mesma epocha em que se dizia em
+França que <i>a mulher não tinha alma</i>, appareceram <i>Isabel de
+Baviera</i> e <i>Joanna d'Arc</i>: aquella entregou a França á Inglaterra
+para mostrar o poder d'uma mulher; esta deu de novo a patria aos
+philosophos para mostrar a generosidade feminina; foi Deos que se
+encarregou de as desafrontar.</p>
+
+<p>Se philosophos e poetas tivessem estudado a mulher: a mulher physica, a
+mulher intellectual, a mulher moral, já nem syllogismos nem versos lhe
+seriam tão contrarios; mas que? são como o Marquez que Moliére nos pinta;
+nem se dão ao trabalho de examinar o que sentencêam, e depois--«je la
+trouve détestable, morbleu! détestable, du dernier détestable, ce qu'on
+appele détestable--»<a href="#rodape18"
+name="nota18"><sup>18</sup></a>.</p>
+
+<p>A mulher physica achal-a-hiam na physiologia moderna (na de
+<i>Hippocrates</i> não), achal-a-hiam tão perfeita como o homem; e se algum
+d'estes entes deve ser preferido pela delicadeza e maravilhoso da
+organisação, essa preferencia cabe á mulher, sem contar todavia a belleza
+externa, nem a graça das fórmas.</p>
+
+<p>A mulher intellectual haviam de encontral-a em <i>Sapho</i>,
+<i>Heloiza</i>, <i>Catharina</i>, <i>Semiramis</i>, <i>Staël</i>,
+<i>Sevigné</i>, <i>Coulanges</i>, <i>Lafayette</i>, <i>Bernier</i>,
+<i>Flaugergues</i>, e tantas outras, que têm regido o sceptro ou a penna
+com gloria mais que varonil: os preceitos do bello inspirava-os
+<i>Aspasia</i> a <i>Socrates</i> e <i>Pericles</i>, <i>Ninon de Lenclos</i>
+a <i>Condé</i> e <i>La Rochefoucault</i>:--sem a mulher os conhecimentos do
+homem seriam imperfeitos; elle descobriria o que na natureza ha de forte,
+de grande, de sublime; mas a graça, o mimo, a delicadeza só pela mulher
+podia ser descoberta. A litteratura carece de imaginação, e a mulher tem na
+imaginação a principal natureza da sua alma; aqui a vantagem é toda
+d'ella:--até se não for ella quem povôe o coração do homem das illusões do
+amor, aonde irá elle encontrar as galas da sua litteratura? Entregue ao
+positivismo da vida material, sem o fogo imaginativo, de que flores ha de
+encher os seus livros?</p>
+
+<p>A litteratura e as artes têm sempre devido á mulher ou joias suas, que
+lhes façam o diadema, ou protecção e influencia, que as augmentem e
+desenvolvam: foi na côrte de <i>Catharina de Médicis</i> que <i>Henrique o
+grande</i>, aprendendo a amar, aprendeu tambem aquellas maneiras nobres e
+cavalleirosas, que distinguiram o seu reinado, dando á sua lingua uma graça
+e polidez, que não tinha. O gosto e sentimento delicado para as lettras e
+artes, que <i>Maria</i> e <i>Catharina de Médicis</i> levaram da Italia
+para França foram a origem do desenvolvimento das artes e das lettras do
+seu tempo. E não seria á influencia que as mulheres tiveram na côrte de
+Luiz XIV, que se deveu então essa lista immensa de homens celebres, com que
+a França se honra, e que o mundo estuda e admira? E não será para agradar á
+mulher que o homem gera a industria, inventa o canto, a dança, a pintura,
+amenisa a linguagem com as flores da poesia, traja com esmero, e torna
+affaveis e doces suas maneiras e costumes? A mulher intellectual não existe
+só em si, existe nos outros tambem; não se contenta com as suas creações,
+instiga os outros a crear; e é considerando reunido o que a alma da mulher
+pode tirar de si propria, e o que a mulher concorre para as producções da
+alma do homem; é considerando reunido num só ponto o que a mulher é em si e
+no homem, que eu a vejo tão sublime, tão elevada, que, senão tivera o lado
+moral para a olhar, já por este lhe podia chamar anjo.</p>
+
+<p>A mulher moral porem é que é a mulher, ou a mulher da mulher. Ou a nós
+vejamos na sua condição de amante, de irmã, de filha, de <i>mulher</i> e de
+mãe; ou a consideremos no prazer ou na dor, na ventura ou na miseria; ou
+contemplemos o que pode pela mulher ser o homem, em quem é sempre ella que
+imprime a virtude ou o vicio no coração; ou a analysemos no seu throno, que
+é na vida de familia, ou na hasta publica da vida de sociedade; ou a
+vejamos na infancia ser a alegria da casa, na juventude ser as delicias do
+amor, na madureza ser a consolação da alma, e na velhice ser a mestra da
+virtude; ou seja que nos abrace ou que nos fuja, que nos afague ou que nos
+reprehenda, que nos ame ou que nos aborreça, a mulher moral é a parte mais
+augusta da creação.</p>
+
+<p>--«A mulher moral é o infinito--» disse um illustre escriptor<a
+href="#rodape19" name="nota19"><sup>19</sup></a>; e na verdade só assim se
+pode definir o mysterio da mulher moral!</p>
+
+<p>A mulher é o elemento mais poderoso da ventura social, mas a mulher
+moral é o elemento dos elementos. Indagae a origem dos ciumes e, com leves
+excepções, achal-a-heis na educação, isto é, na mulher; vêdes uma boa
+acção? Procurae-lhe a fonte, e encontrareis a mulher; talvez que não haja
+no mundo um só facto, cujo principio ou fim, se bem o averiguarmos, não
+seja a mulher:--«os homens serão sempre o que as mulheres quizerem que
+elles sejam--» disse <i>Rousseau</i><a href="#rodape20"
+name="nota20"><sup>20</sup></a>, e disse uma grande verdade; porque antes
+que o homem seja cidadão é filho primeiro. A mãe dos <i>Gracchos</i> e dos
+<i>Corneilles</i> tinha uma alma nobre, grande e severa; a mãe de
+<i>Voltaire</i> era escarnecedora e de garridas maneiras; a de
+<i>Byron</i>, até nem os defeitos physicos do filho escapavam á sua
+maldade; <i>Kant</i> dizia que fôra sua mãe quem lhe lançara na alma o
+germen do bem e quem primeiro lhe inspirara o amor do Creador,
+explicando-lhe o que sabia das maravilhas da natureza<a href="#rodape21"
+name="nota21"><sup>21</sup></a>; <i>Cuvier</i> deveu a sua mãe os successos
+brilhantes da sua vida illustre<a href="#rodape22"
+name="nota22"><sup>22</sup></a>; <i>Barnave</i> já com um pé sobre o
+cadafalso bemdiz sua mãe, que lhe deu na infancia o valor que alli o anima;
+<i>Lamartine</i> aprendeu nas harmonias do coração materno as harmonias da
+sua harpa piedosa; em fim, Elysa, se após estes nomes tão respeitaveis e
+tão illustres é permittido citar o meu pobre e desconhecido nome, sirva
+elle de mais uma prova, porque o pouco, o muito pouco, de bom que em mim
+tenho é unicamente a minha mãe, é a ella só que eu o devo.</p>
+
+<p>Que augusta não é pois a missão da mulher sobre a terra! Ah! que se
+philosophos e poetas meditassem bem no que é a mulher, e, sobre tudo, no
+que ella pode ser, não haveria um só que não visse nesse ente o oásis
+mimoso dos desertos da vida! Mas elles não curam de tal: arrancam
+desapiedados as pennas alvissimas ás azas do cherubim, e depois, vendo-a
+assim tão ao nivel das cousas da terra, descrêem d'aquillo mesmo em que não
+souberam crer; andastes errados: acreditae primeiro, sabei o que é a
+mulher, e depois julgae-a.</p>
+
+<p>Em quanto não fizerdes isto, sereis sempre uns inimigos desleaes e
+traiçoeiros; tomareis a nuvem por Juno, e direis do phantasma da mulher o
+que pensais dizer da mulher como ella saiu das mãos de Deos, quando viu que
+não era bom que o homem vivesse só:--dizei embora o que quizerdes, mas da
+mulher como a concebo e como ella existe, por mais rios de tinta que
+derrameis, nunca podereis provar a maldade senão com aquellas razões com
+que o citado Marquez da peça de Molière provava a maldade de <i>L'École des
+Femmes</i>--» elle est détestable parce qu'elle est détestable--»<a
+href="#rodape23" name="nota23"><sup>23</sup></a>.</p>
+
+<p>Em toda a parte em que o teu sexo, Elysa, não occupa o logar que lhe a
+natureza marcou, ahi os povos são escravos, a ignorancia é profunda, e os
+costumes são barbaros. O adorador de Mafoma compra a mulher,
+<i>veda-lhe</i> a entrada no céo, prohibe-lhe a leitura dos livros
+religiosos, afasta-a do tracto commum, e deixa-lhe só nos ferros do harem
+os erros da superstição e os absurdos da feiticeria: que se segue
+d'aqui?--que a tyrannia é no Oriente um principio, que a civilisação é
+nulla, e que a moral é uma palavra sem significação. Cuidou o Musulmano
+que, fazendo da mulher uma machina, tinha creado a felicidade para si; a
+felicidade só ella a ha de crear, mas é mister que livre e desassombrada,
+rainha e não escrava, possa, como a pomba da primavera, adejar sobre a
+cabeça do homem, ensinar-lhe as aguas mais puras onde deve matar a sêde, e
+a relva mais macia onde se deve assentar; só a mulher sabe, como a abelha,
+quaes são as flores que dão mel, mas não lhe hão de crestar as azas na
+chamma da impureza, que então, materialisado o amor, o homem e a mulher
+perderão a faisca da divindade que os extremava do resto da creação;--«ou
+os povos se hão de embrutecer em seus braços, ou civilisar a seus pés--»<a
+href="#rodape24" name="nota24"><sup>24</sup></a>. Não é com todos os
+pensamentos cravados na materia que a mulher pode dar ao homem a
+felicidade; o Oriente não comprehendeu a mulher.</p> <p>Que terá a filha do
+propheta para dar á alma do homem quando os sentidos estiverem saciados?--a
+ignorancia, as paixões mesquinhas, as astucias, os vicios todos da
+ociosidade, e, na consciencia da sua inferioridade, a tristeza da
+escravidão, ou as traições d'um inimigo.</p>
+
+<p>E o amor? Oh! esse nunca; esse não sabe morar num calabouço.</p>
+
+<div class="poesia">
+  Ao cioso mahometano<br>
+Que vale o fechado harem,<br>
+Se amor de escrava a tyranno<br>
+Do coração lhe não vem?<br>
+Que importam centos de bellas,<br>
+Se uma só de todas ellas<br>
+Livre em seu gosto não ha?<br>
+Que importa matar desejos,<br>
+Que importam, louco! esses beijos,<br>
+Se só vendidos t'os dá?<br>
+<br>
+  Com alma núa d'esp'ranças,<br>
+Como ha de a escrava saber<br>
+Que alem de jogos e danças<br>
+Tem mais gozos a mulher?<br>
+D'esses gozos não sabidos<br>
+Como ha de trazer-te enchidos<br>
+Os dias que vão e vêm?<br>
+Se, dos paes perdida a trilha,<br>
+Ella não sabe ser filha,<br>
+Como ha de saber ser mãe?<br>
+<br>
+  Embora os astros lhe apontes,<br>
+Embora mostres os céos,<br>
+E uma a uma lhe contes<br>
+As maravilhas de Deos,<br>
+Ha de dizer-te--que importa?<br>
+Se eu tenho fechada a porta<br>
+Que leva ao reino da luz?<br>
+Que importa, se em vida e morte<br>
+Sou proscripta, e minha sorte<br>
+Nunca propicia reluz?<br>
+<br>
+  Lá quando a dor te accommetta,<br>
+Quando rir teu coração,<br>
+As filhas do teu propheta<br>
+Pranto e risos te darão.<br>
+Ouvirá co'os teus ouvidos,<br>
+Sentirá co'os teus sentidos,<br>
+Viverá no teu viver?<br>
+Oh que não!--solta-lhe os ferros,<br>
+Despe-lhe a alma dos teus erros,<br>
+E a escrava será mulher.<br>
+</div>
+
+<p class="centrado">FIM</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="rodape1" href="#nota1"><sup>1</sup></a>É crença muito antiga
+que umas pedras vermelhas, que se encontram na <i>fonte dos amores</i>,
+devem a sua côr ao sangue de D. Ignez de Castro.</p>
+
+<p><a name="rodape2" href="#nota2"><sup>2</sup></a>Não quero dizer que
+descreio das leis da <i>Acustica</i>; sei que ella não só explica, mas até
+consegue fazer <i>echos</i>:--a palavra <i>segredo</i> veiu aqui para
+symbolisar que neste, como em muitos outros phenomenos naturaes, em se o
+homem remontando um pouco, chega logo ás <i>forças centripetas e
+centrifugas</i>, ou áquelle celebre <i>opium facit dormire, quia habet
+virtutem dormitivam</i>.</p>
+
+<p><a name="rodape3" href="#nota3"><sup>3</sup></a>Garrett</p>
+
+<p><a name="rodape4" href="#nota4"><sup>4</sup></a>Camões.</p>
+
+<p><a name="rodape5" href="#nota5"><sup>5</sup></a>Martim de Freitas.</p>
+
+<p><a name="rodape6" href="#nota6"><sup>6</sup></a>Sá de Miranda.</p>
+
+<p><a name="rodape7" href="#nota7"><sup>7</sup></a>D. Francisco de Lemos,
+Bispo de Coimbra.</p>
+
+<p><a name="rodape8" href="#nota8"><sup>8</sup></a>Este echo do jardim
+botanico de Coimbra repete um verso heroico inteiro.</p>
+
+<p><a name="rodape9" href="#nota9"><sup>9</sup></a>A Rainha Sancta Isabel,
+mulher d'El-Rei D. Diniz.</p>
+
+<p><a name="rodape10" href="#nota10"><sup>10</sup></a><i>Mulieres homines
+non esse</i>. Dissert. anonym. d'Acidalius,--Paris 1693, in 12.</p>
+
+<p><a name="rodape11" href="#nota11"><sup>11</sup></a>Gregor. Turonens. Hist. Franc.</p>
+
+<p><a name="rodape12" href="#nota12"><sup>12</sup></a>D'anciens philosophes
+et des médecins, tels qu'Hippocrate, Aristote, ont ausai regardé la femme
+comme un être imparfait, un demi-homme. <i>Virey</i>--<i>De la Femme</i>,
+chap. 1.<sup>er</sup>, pag. 15.</p>
+
+<p><a name="rodape13" href="#nota13"><sup>13</sup></a>A. F. de
+Castilho--<i>Ciumes do Bardo</i>.</p>
+
+<p><a name="rodape14" href="#nota14"><sup>14</sup></a>A. F. de
+Castilho--<i>Primavera, Notas á Festa de Maio</i>.</p>
+
+<p><a name="rodape15" href="#nota15"><sup>15</sup></a><i>La critiq. de
+l'Écol des Femm.</i> Sc. 7.</p>
+
+<p><a name="rodape16" href="#nota16"><sup>16</sup></a>Á Sr.<sup>a</sup>
+Marqueza d'........ uma das mais instruidas e amaveis damas que tenho
+visto, ouvi eu que em materia de ciume era permittido a um homem levar a
+sua colera até alguma pequena acção violenta. O sexo, a madureza da edade,
+a penetração, e conhecimento do coração humano, que esta senhora possue,
+dão-lhe direito a ser muito respeitada a sua sentença.</p>
+
+<p><a name="rodape17" href="#nota17"><sup>17</sup></a>Até <i>Plinio</i> se
+não pejou de lhe chamar animal.</p>
+
+<p><a name="rodape18" href="#nota18"><sup>18</sup></a><i>La Critiq. de
+L'Écol. da Femm.</i>--sc, 6.<sup>e</sup></p>
+
+<p><a name="rodape19" href="#nota19"><sup>19</sup></a>A. F. de
+Castilho--<i>Primavera, Notas á Festa de Maio</i></p>
+
+<p><a name="rodape20" href="#nota20"><sup>20</sup></a><i>Émile--Liv.</i>
+5.º</p>
+
+<p><a name="rodape21" href="#nota21"><sup>21</sup></a>Schoen--<i>Biograph.
+de Kant.</i></p>
+
+<p><a name="rodape22" href="#nota22"><sup>22</sup></a><i>Memoires sur
+Georges Cuvier</i>--Mistr. Lee.</p>
+
+<p><a name="rodape23" href="#nota23"><sup>23</sup></a><i>La Critiq. de
+l'Écol. des Femm.</i> sc. 6.<sup>e</sup></p>
+
+<p><a name="rodape24" href="#nota24"><sup>24</sup></a>Aimé
+Martin--<i>Educat. des Mér. de Fam.</i>.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Livro de Elysa, by João de Lemos
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O LIVRO DE ELYSA ***
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+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
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+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
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+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
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+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
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+status under the laws that apply to them.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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