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+The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não
+póde dormir. Nº2 (of 12), by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº2 (of 12)
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: January 31, 2008 [EBook #24464]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
+
+
+NOITES DE INSOMNIA
+
+OFFERECIDAS
+
+A QUEM NÃO PÓDE DORMIR
+
+POR
+
+Camillo Castello Branco
+
+PUBLICAÇÃO MENSAL
+
+
+N.º 2--FEVEREIRO
+
+
+LIVRARIA INTERNACIONAL
+
+DE
+
+ERNESTO CHARDRON
+
+96, Largo dos Clerigos, 98
+
+PORTO
+
+EUGENIO CHARDRON
+
+4, Largo de S. Francisco, 4
+
+BRAGA
+
+1874
+
+
+PORTO
+
+TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
+
+62--Rua da Cancella Velha--62
+
+1874
+
+
+BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
+
+
+NOITES DE INSOMNIA
+
+
+
+
+SUMMARIO
+
+Aquella casa triste... (romance)--Solução do problema historico--Dous
+preconceitos--Lisboa--Ferreira Rangel--As joias de im ministro de D. João
+5.º no prego--O oraculo do marquez de Pombal--O principe perfeito--Ave
+rara--Vergonhas nacionaes--Rancho da Carqueja--Bom humor (resposta ao
+noticiarista da "Actualidade")--Declaração.
+
+
+
+
+AQUELLA CASA TRISTE...
+
+(1872)
+
+
+I
+
+A casa grande das quinze janellas branqueja no espinhaço do monte.
+
+As janellas fecharam-se ha seis mezes, ao mesmo tempo que duas sepulturas
+se abriram.
+
+A sepultura do _Africano_ que chegava ao cemiterio, quando a filha
+expirava; e a sepultura de Deolinda, quando o sino dobrava ainda nos
+funeraes do pai.
+
+ * * * * *
+
+Ao homem, que morreu n'aquella casa triste, chamavam o _Africano_.
+
+Estou-a vendo d'aqui.
+
+As vidraças reberveram o sol poente.
+
+Eu, ha hoje dez annos, vi abrir os alicerces d'aquella casa.
+
+Lidavam operarios a centenares.
+
+Entre os alveneis estava um sujeito, na pujança dos annos, magro, macilento
+e tostado pelo sol da Africa.
+
+Disseram-me que era homem muito rico, e viera do cabo do mundo, e se
+chamava o «Duque» por appellido, e o _Africano_ por alcunha.
+
+Avisinhei-me d'elle com o semblante risonho de cortezias para lhe perguntar
+como ia, em monte assim agro e ermo, fabricar edificio tão grandemente
+cimentado.
+
+Respondeu que tinha em Benguela uma filha, com quem andára viajando na
+Suissa. E que a sua Deolinda, estanciando nas empinadas serras de S.
+Gothard, lhe dissera que seria feliz se morasse no topo d'uma montanha, em
+casa imitante de outra onde pernoitára, e d'onde vira levantar-se o sol do
+seu leito de neve.
+
+E elle, pai extremoso, rico e saudoso da patria, disse á filha que, por
+cima da casinha onde nascera, em um outeiro do Minho, sobranceava um alto
+monte, golpeado de regatos que derivavam por entre arvoredos fresquissimos.
+
+E a filha, cingindo-se-lhe ao pescoço, exclamára:
+
+--E quando vamos?
+
+--Irei fazer a casa no alto do monte, e depois irás tu, e levaremos para a
+capella os ossos de tua mãi. E eu descançarei d'esta labutação em que pude
+grangear mais que o preciso ao teu passadío, visto que preferes a viver em
+Paris uma casa nas serras de Portugal.
+
+E sahiu de Benguela, provido de dinheiro para edificar o ostentoso _chalet_
+que a filha phantasiára.
+
+Ora, os architectos do Minho, como não percebessem a planta do _Africano_,
+construiram-lhe um palacio aldeão, espécie de dormitorio monastico, um
+leviathan de granito zebrado de vidraças enormes e portas alterosas.
+
+Perto d'alli, na outra lombada do mesmo outeiro, está o antigo solar
+torreado dos senhores de Farelães.
+
+E eu que, n'aquelle tempo, me embrenhava nas ruinarias grandiosas do paço
+senhorial de Ruivães, a decifrar a lenda meio historica dos Corrêas de Sá
+nos frescos do tecto apainelado, ao perpassar pelas grossas cantarias do
+_Africano_, dizia entre mim: «O palacio cavalleiroso que desaba, e o
+palacio industrial que se levanta. Aquelle recorda as manhas epicas do
+peito illustre lusitano, a industria da lança que atirou da India para
+alli, na ponta ensanguentada, a pedraria dos reis de Chaul, de Calecut e
+Mombaça. Ergue-se o novo palacio para assignalar á posteridade que o peito
+moderno lusitano é ainda illustre e emprehendedor, differençando-se do
+antigo sómente no que vai entre adaga e azorrague, entre acutilar o indio
+pela frente, ou verberar o ethyope pelas costas.»
+
+Mas eu não sabia se aquelle homem, tão entranhadamente pai, amealhára os
+seus haveres por entre os perigos do cruzeiro. Talvez que não. A riqueza
+não é sempre o estipendio generoso dos homens crueis. E, em corações
+afistulados por peçonha de cubiça--sêde execravel que se apaga em
+lagrimas--não cabe o exaltado e santissimo sentimento do amor paternal.
+Quem chora por um filho não tem olhos que vejam, enxutos, arrancar escravos
+dos braços de suas mães. Verdade é que os praticos d'estes ultrajes a
+Jesus--ser divino em que Deus se manifestou no mais elevado grau da
+consciencia humana--dizem que lá, nas cubatas, não ha mães, nem filhos: ha
+individuos bestialmente rebanhados, e inconscientes de laços de familia. Se
+assim é, meu Deus, porque não déstes á vossa creatura de epiderme negra o
+amor maternal que dulcifica as meiguices da hyena enroscada nos filhos?
+
+ * * * * *
+
+Aprumadas as paredes, delineados os repartimentos, os patins, as portas, a
+capella e o jardim, Duque, o _Africano_, saudoso da filha, deixou a obra em
+meio, e dinheiro de sobra ao seu feitor, pautando-lhe que, no prazo de doze
+mezes, a casa estaria feita.
+
+E voltou a Benguela, onde tinha centenas de escravos, armazéns de café, de
+marfim, de gommas, e as suas vastas sementeiras sobre dez leguas circulares
+de terra, onde o suor da pelle fusca, porejado pelo sol a pique, era um
+como adubo forte, um guano de sangue estillado por entre febras vigorosas e
+distendidas pelo latego.
+
+Vendeu as fazendas, enfeirou as bestas e os negros, abarrotou a galera de
+carregação sua, esquipou a tolda, decorou de frouxeis de sêda o camarim da
+filha, e proejou á patria. Parecia um dos antigos viso-reis que voltavam da
+India, d'uns que não se chamavam João de Castro nem Affonso de Albuquerque.
+
+--Vale duzentos contos a carga da _Deolinda_!--diziam os amigos do
+_Africano_, quando as velas da galera, chamada com o nome da filha de seu
+dono, trapeavam bafejadas por aprazivel briza.
+
+A navegação, por perto da costa, e sempre ajudada por prosperos ventos,
+correu alegre e descuidosa de receios.
+
+Deolinda deleitava-se a remirar a prata das ondas espumantes, ou, enlevada
+em leituras amenas, passava as tardes na tolda, em quanto não chegavam os
+seus amores mais queridos, as estrellas do céo e as phosphorescencias do
+mar.
+
+Ella era mulata, e bella quanto cabe ser, com a face beijada por aquelles
+raios ardentes e o sangue escaldeado das lufadas do deserto--mulata, com as
+feições levemente denunciativas da raça materna, quasi tirante a esmaiado
+amarellido, um bem harmonisado conjuncto de graças, avantajadas ao que se
+diz belleza, debaixo d'este nosso céo de rostos niveos, sangue pobre, e
+epiderme alvacenta.
+
+ * * * * *
+
+Trasmontada a linha, e festejado o passo com descantes da maruja, o céo
+entrou de nublar-se, a nortada a ringir nas gaveas os silvos agoureiros, e
+o piloto esperto a encarar mui fito em um nevoeiro que se acastellava,
+sobre noite, á volta do sol esmaecido. Era em fevereiro de 1889.
+
+Ao repontar a manhã do dia seguinte, o mar urrava acapellado, as nuvens
+desciam a sorver as ondas que se encurvavam, o sol apenas entreluzia frio e
+marmoreo na baça claridade da manhã.
+
+Ao meio dia, o escurecer fez-se rapido e pardacento como um crepusculo de
+noite invernosa.
+
+Bravejou subita furia de mar, apenas colhido o velame.
+
+O piloto vira terra, e cobrára alento na esperança de aproar a Cabo Verde,
+com quanto se temesse d'aquella costa infamada de muitos naufragios, desde
+que portuguezes se andam á cata de ouro e opprobrio por entre os colmilhos
+da morte, na espadoa das tempestades; a braços com a ira de Deus e dos
+homens.
+
+Noite alta, estrondeou no cavername da galera um como estampido de peça que
+detonasse dentro.
+
+Deolinda foi colhida nos braços do pai, quando resvalava da camilha ao
+pavimento, com o livro das suas orações nas mãos convulsas, e o nome da Mãi
+dos afflictos nos labios.
+
+--Morreremos, meu pai?!--perguntou trespassada de horror.
+
+--Animo!--murmurou elle--abraça-te em mim, que eu não quero chorar-te nem
+que me chores, filha... Morreremos juntos.
+
+Em cima estrugia a celeuma dos marinheiros, o rojar rispido das amarras, os
+gritos, as supplicas, os apitos, o troar da peça que pedia soccorro, e o
+dos trovões, que reboavam, e um relampadejar que azulava os abysmos.
+
+E, de subito, a galera, após aquelle repellão que lhe vibrou as cavernas,
+quedou-se arquejante, a roçar nos espigões da restinga.
+
+E as vagas, raivando contra aquelle estorvo, galgavam-no rolando-se,
+refervendo e marulhando de um bordo a outro. O porão descosia-se, bebendo e
+golfando jorros de agua como o monstro dos mares escalavrado pelos arpéos.
+
+O capitão, pallido mas sereno, debruçou-se no corrimão da camara, e disse:
+
+--Encalhou a galera, snr. Duque. É tempo de sahir a terra.
+
+--Nenhuma esperança?--perguntou o _Africano_.
+
+--As vidas salvam-se... talvez...
+
+--Só?...
+
+Perguntou o homem rico; mas aquelle monosyllabo, estrangulado na garganta,
+rouquejou como um arranco da vida. _Só!_ Só a vida? O meu suor de quarenta
+annos, os meus duzentos contos de reis não se salvam? Eu hei de sahir pobre
+d'entre esta riqueza que é minha, que é o repouso da velhice, o patrimonio
+de minha filha? _Só!_
+
+E as lanchas, balançadas no vai-vem das ondas, chofravam nos flancos do
+navio por entre espadanas de espuma.
+
+Deolinda atravessou corajosa, e firmada no braço do pai, até ao portaló. O
+_Africano_ levava no rosto um terror indescriptivel, e nas contorsões e
+visagens de afflicção a agonia da peor morte.
+
+E ella saltou de impeto ao escaler, apenas amparada na mão de um
+passageiro, que lhe disse:
+
+--Adeus...
+
+--Não vem?--perguntou ella.
+
+--Primeiro hão de ir as crianças, as mulheres e os velhos.
+
+Deolinda contemplou-o alguns momentos, e amparou-se na face do pai, onde as
+lagrimas derivavam copiosas.
+
+Os escaleres vararam na areia, revessados no rolo da vaga. Estavam salvos
+os velhos, as mulheres e as crianças.
+
+E, logo, os remadores intrepidos que outra vez se arrostavam com a morte,
+viram a galera a balouçar-se entre o vagalhão, e ouviram o estralejar do
+cavername por sobre os clamores dos naufragos; depois, levantou-se um
+grande mar, e a lancha ficou para além d'essa formidavel montanha; e,
+quando o escarcéo descahiu para solevar a barca, um momento quieta nas
+fauces da voragem, os mareantes já não viram da galera senão o gume da
+quilha, e á volta d'ella o bracejar dos agonisantes.
+
+ * * * * *
+
+Um dos que alli morreram foi aquelle que, dando a mão a Deolinda, lhe
+dissera: «Adeus!»
+
+Era um homem de trinta annos, bem figurado, ares de fina raça e maneiras de
+cortezão, com palavras polidas e muito alheias das usuaes nos homens que
+viandam por aquellas paragens. Não lhe sei o nome, nem que lh'o soubera o
+diria. Foi-lhe tumulo o mar, como se a sorte quizesse que o seu nome se não
+lesse em epitaphio. Sei que elle cumprira sentença de tres annos em Angola,
+porque aspirára ás honras de ser rico, sem escrupulisar nos meios.
+Tinham-lhe dito que os seus conterraneos mais nobilitados se haviam
+enriquecido, trocando as riquezas da sã consciencia por outras que levam ao
+inferno, é verdade, mas pelas portas do paraiso das regalias d'este mundo.
+Via-os saborearem-se em socego dos bens mal adquiridos, sem remorso que
+lhes desvelasse as noites, nem injuria da sociedade que lhes pozesse
+ferrete na testa; ao revez d'isso elles eram a classe mais ao de cima, a
+gente chamada ás honras, sem desconto na estupidez nem proterva reputação,
+quanto á procedencia de seus bens de fortuna.
+
+Nascimento illustre, educação primorosa em letras, e bastante descuidada em
+moral, pobreza repentina por effeito de demandas que o esbulharam do
+patrimonio, impaciencia, ruins exemplos de infames prosperados--todas estas
+cousas se travaram de mão para o perderem. O seu crime foi associar-se
+desaproveitadamente com moedeiros falsos, prestando-se a servir de passador
+de notas no Brazil; no acto, porém, de fazer-se á vela para lá, de um porto
+do archipelago açoriano, foi denunciado, preso, e condemnado.
+
+De volta para Portugal, foi visto por Deolinda a bordo da galera de seu
+pai, que o tratava com desdem, senão desprezo. A filha do
+negreiro--negreiro no começo da vida mercantil, mas depois (bemdita seja a
+civilisação!) philanthropo seguidor das leis humanitarias impostas pelo
+cruzeiro--soube de seu pai o crime do passageiro, e não se compenetrou do
+racional horror de tamanho delicto. Bem que o condemnado não ousasse
+abeirar-se dos mercadores, e menos d'ella, Deolinda usou traças de
+conversar com elle uma fugitiva hora de noite serena, em quanto o pai, no
+seu camarim, formava esquadrões de algarismos, dos quaes tirou a prova real
+de que os seus haveres excediam para muito os duzentos contos que lhe
+attribuiam.
+
+Desde essa hora da noite estrellada em que ella ouvira palavras nunca
+ouvidas, accendeu-se no coração combustivel da mulata o fogo que costuma
+purificar as culpas do homem amado, tanto monta que elle seja moedeiro
+falso, como homicida, quer negreiro, quer ladrão de encruzilhada.
+
+E elle soube que era amado d'aquella mulher que havia de herdar muito ouro,
+e nem por isso lhe deu o galardão de ter descido até ao pobre estigmatisado
+para sempre. Nem palavra de humildade agradecida, nem de animo alvoroçado
+por esperança de ser, a um tempo, amado e rico. Deolinda ousou arguil-o de
+frio e desdenhoso. Elle explicou docemente a sua frialdade, dizendo que só
+havia no mundo uma mulher que não devia desprezal-o, e uma só a quem elle
+devesse amar sem pejo nem temor de ser repellido.
+
+--Quem é?--perguntou ella em sobresalto.
+
+--É minha mãi. Vou procural-a, e pedir-lhe perdão, porque puz a minha
+ignominia á cabeceira do seu leito de moribunda. Se a não mataram vergonhas
+e saudades, é porque Deus quer que eu a veja.
+
+ * * * * *
+
+Quem sabe ahi dizer o que Deus quer de nós?
+
+O degredado, na volta da patria; alli morreu n'aquelle naufragio, depois
+que ajudou a salvar as crianças, as mulheres e os anciãos, despedindo-se de
+todos com aquelle sereno adeus que dissera á filha do _Africano_.
+
+E Deolinda, quando soube que elle era um dos vinte e cinco cadaveres
+escalavrados na costa de Cabo Verde, chorou poucas lagrimas, e parecia
+querer romper no seio uma represa d'ellas, que lhe deliam os estames da
+vida.
+
+--Estamos pobres!--exclamava o pai.
+
+--Temos de mais para o que havemos de viver--respondia ella com uma alegre
+serenidade.
+
+--Porque has de tu morrer, minha filha?--volvia elle já conformado com a
+desgraça.
+
+--Porque senti ha pouco um estalo no coração, e cuidei que morria abafada.
+Passou esta ancia, mas sei que hei de morrer d'isto. Parece que vejo a
+sepultura aberta, e que o frio do cadaver me trespassa.
+
+O pai aconchegou-a no seio, como quem aquece uma criança enregelada, e
+soluçou:
+
+--Ó meu Deus! levai-me minha filha, quando eu me queixar da vossa vontade
+que me reduziu a esta pobreza!
+
+
+II
+
+Quando soou em Ruivães a nova de haver chegado ao Porto o _Africano_, com a
+filha, os homens ricos e pobres, da terra e de fóra, contribuiram com mais
+ou menos para se lhes fazer uma espera de estrondo em Famalicão.
+Contractaram-se as bandas musicaes mais em voga, ou _mais na berra_, como
+diziam os antigos. Parece que a phrase seiscentista foi inventada
+particularmente para as orchestras d'aquelles sitios, as quaes _berram_
+pelas suas guelas de metal, quando a paixão philarmonica as não exalta do
+berro ao mugido, do mugido ao urro, e do urro ao bramido. Ha alli trombetas
+que parecem ter assistido ao arrazar-se da Jericó da Biblia, e se reservam
+para trovejarem o horrendo signal da resurreição em Josaphat.
+
+Eram quatro as philarmonicas chamadas a festejarem a entrada de Antonio
+Duque no concelho. A musica de Landim, famosa por seis cornetas de chaves,
+que executavam valsas e peças theatraes, de modo que, se Ducis as ouvisse,
+diria que a opera lyrica balbuciára os seus primordios entre as florestas
+druidicas. A banda de Fafião competia com a de Guinfões na substancia das
+trompas e troada das caixas. A de Ruivães avantajava-se ás tres rivaes na
+delicadeza das modas e sentimentalismo com que as charamelas respiravam o
+sopro d'aquelles musicos, cujas bochechas pareciam estar cheias de alma e
+castanhas assadas.
+
+Sou um homem feliz e digno de inveja. Tenho saboreado os innocentes
+deleites que prodigalisam ao seu auditorio as quatro bandas musicaes de
+Landim, Fafião, Ruivães e Guinfões. Quando algum amigo vai alegrar o ermo
+de S. Miguel de Seide, chamo logo a musica mais delicada, a de Ruivães;
+principalmente se o amigo é de Lisboa, e frequentador de S. Carlos. O
+senhor visconde de Castilho e seu filho Eugenio são chamados a depôr n'este
+processo da immortalidade que vou instaurando ao figle e á requinta,
+principalmente á requinta de Ruivães. Não vi o senhor visconde chorar de
+prazer, mas observei que s. exc.^a estava commovido quando a requinta
+assobiava uns guinchos estridentes da _Maria Caxuxa_.
+
+Thomaz Ribeiro, o poeta eminente, recolhia-se ás vezes, não ao seu quarto a
+calafetar os ouvidos, mas ao intimo de sua alma a fazer viveiro de
+inspirações. Eugenio de Castilho, o poeta das phantasias louras, quer a
+musica de Ruivães lhe amolentasse a sensibilidade, quer os rouxinoes das
+ramarias lhe déssem invejas dos seus amores, fosse o que fosse, foi
+assaltado e vencido d'uma paixão.
+
+Esta paixão tem uma historia. Não sei se elle tenciona escrevel-a nas suas
+memorias posthumas; e, assim, contal-a eu, é esbulhal-o da novidade e
+primazia; desconfio, porém, que o meu hospede e amigo desconhece a historia
+d'aquella raparigaça de cabellos de ouro e ancas boleadas que deslumbrava a
+duzia de moças requebradas que lhe apresentei na eira.
+
+Chamava-se ella Amelia de Landim. Contava-se que tinha vindo para alli da
+roda dos expostos de Barcellos. Naturalmente, porque era linda e pobre, ou
+se vendera ou tinha sido vendida. Assim se disse; mas o certo foi que um
+filho de lavrador rico lhe dera o impulso no alto da ladeira, ao fundo da
+qual estava a voragem. Póde ser que a alma se abysmasse e requeimasse no
+fogo dos infernos por onde resvala a mulher perdida. Póde ser. Do corpo é
+que ella não perdera a menor belleza; nem sequer o viçor dos dezoito annos.
+
+Teria então vinte e cinco. Não era belleza peninsular. Aquelle escarlate,
+os olhos azues, os opulentos cabellos louros, a pujança das fórmas, a
+musculatura rosada e rija, a elegancia congenita, o riso, a desenvoltura
+sem despejo, a graça lubrica do trajo, em fim, a mulher, os arvoredos, a
+musica de Ruivães, nomeadamente a requinta, e em meio de tudo isto um rapaz
+de vinte e dous annos, poeta porque é Castilho, e ardente porque é
+trigueiro, e apaixonado porque é ardente, eis aqui o porquê d'aquelles
+amores.
+
+Castilho carecia de um confidente com ouvidos e critica. A poesia não lhe
+deu para se confidenciar com os sobreiros da mata, nem me consta que elle
+se andasse a entalhar na cortiça iniciaes e datas.
+
+O seu confidente foi o morgado de Pereira, ultimo senhor da honra e couto
+de Esmeriz, um rapaz de grande coração, que eu apresentei, no Limoeiro, a
+José Cardoso Vieira de Castro, que, em 5 de outubro do anno passado, morreu
+no degredo, para onde o acompanhou aquelle morgado. Este neto dos Ferreiras
+Eças, e dos remotos castellões de Riba d'Ave, é hoje em Cassengo, na
+Africa, negociante de café, de marfim, de gommas, de farinhas, etc. Depois
+de haver bandarreado vida de fausto, com muitas illusões perdidas, mas
+pouquissimas lagrimas, porque a desgraça lhe anda sempre a morder os tacões
+das botas, em dia de fieis defuntos, ajoelhava, e então chorava, no
+cemiterio de Loanda, defronte do cómoro onde jaz Vieira de Castro, o mais
+sublime desgraçado que os homens injuriaram, desde que o sol de Deus aquece
+condições de feras dentro dos covis que se chamam arcas do peito.
+
+Ó meu caro morgado, estas linhas não chegam ao seu sertão, nem eu desejo
+que as leia, para lhe não darem rebates de saudade d'aquellas noites de
+1866, quando vossê e mais o seu gentil confidente, com intervenção da lua,
+fallavam da Amelia de Landim, em quanto os meus queridos visconde de
+Castilho e Thomaz Ribeiro se embellezavam nas trovas da Custodia da Feira,
+que seria Hypathias, se nascesse na Grecia, ou Corina, se os amavíos de
+Italia lhe coassem no seio cousas mais limpas do que as coplas que a
+trovadora do Minho tirava do estomago em perfumes de vinho verde.
+
+Não sei como Eugenio de Castilho sahiu de S. Miguel de Seide, pelo que
+respeita á alma. Lá dizia-se que Amelia, a douda, vehementemente
+apaixonada, iria depós elle. Eu receei o lanço de fino amor, d'onde
+adviriam ao meu hospede agros desgostos. Se os de Lisboa lh'a vissem,
+quantos rivaes, que mordentissimos ciumes! Aquillo era mulher para destinos
+extravagantes. Que a sentassem n'uma friza de S. Carlos! Os binoculos
+assestados n'ella seriam tantos como as paixões, e ao outro dia a engeitada
+de Landim, se não fizesse ministerios, havia de fazer muito amanuense de
+secretaria, e dar vazão ao estanque de muito bacharel.
+
+Não foi: estava-lhe reservado menos brilhante, mas mais pacifico destino.
+
+Um dia, appareceu em Landim um homem de Barcellos, procurando a mulher, que
+trouxera da roda dos expostos, em 1851, uma menina chamada Amelia. Vivia
+ainda a ama que a creára. Foi chamada a exposta á presença do homem que se
+dizia portador de uma fausta nova.
+
+Chegou Amelia, o recebeu do velho desconhecido o tratamento de
+_excellencia_. Cuidou-se ella ludibrio do sujeito, e riu-se ás casquinadas
+para lhe agorentar o prazer da zombaria.
+
+No em tanto, o velho, composto gravemente o aspecto, disse-lhe:
+
+--Minha senhora, não é para gargalhadas a missão que venho cumprir...
+
+--Pois v. s.^a está a dar-me _excellencia_!--volveu Amelia.
+
+--Dou-lhe o tratamento de seu pai e seus avós. Seu pai, o snr. Alvaro de
+Mendanha, antiquissimo fidalgo e representante dos alcaides-móres de
+Barcellos, falleceu ha tres dias com testamento, em que declara que houvera
+de uma sua parenta, áquelle tempo freira no mosteiro de Vayrão, uma filha,
+que por justos motivos expozera, assignalando-a com o nome e outras
+circumstancias. Acrescenta que tem noticia de existir em Landim essa
+menina, que elle reconhece sua filha, e a institue sua universal herdeira.
+É v. exc.^a por tanto a herdeira do snr. Alvaro de Mendanha.
+
+A ama abriu a bocca e despediu um _ah_ surdo, que vinha da garganta afogada
+pelo jubilo.
+
+Amelia quedou-se immovel, pensativa, triste, e murmurou:
+
+--Se meu pai sabia que eu estava aqui, porque me não levou para a sua
+companhia?
+
+--Respondo, minha senhora. Quando v. exc.^a tinha dezoito annos, seu pai
+indagou e descobriu que a snr.^a D. Amelia estava aqui; porém, ao mesmo
+tempo, exactas ou inexactas informações lhe asseveraram que a senhora
+levava uma vida pessima, deshonrada e cheia de opprobrio. Receou, com algum
+fundamento, o snr. Alvaro de Mendanha que o aviltamento de sua filha
+desluzisse o lustre do seu nome, e por isso abafou o coração e o remorso
+debaixo do peso da dignidade, ou recuou diante da irrisão do mundo...
+
+--Mas...--interrompeu Amelia--se eu estava perdida, foi porque elle me
+atirou ao mundo e á sorte sem amparo de ninguem...
+
+--Tem razão, minha senhora, e foi essa mesma a razão que moveu seu pai a
+deixar-lhe todos os seus bens.
+
+--Mas eu antes queria conhecel-o e ser pobre, que ser rica por morte
+d'elle.
+
+--Já que não é remediavel essa nobre dôr--tornou o testamenteiro de
+Mendanha--receba v. exc.^a a suprema prova do arrependimento de seu pai.
+N'este legado dos bens está o legado do coração. Seja de hoje em diante v.
+exc.^a digna d'elle, já que desde esta hora os seus appellidos são dos mais
+illustres d'esta provincia.
+
+N'este mesmo dia, D. Amelia de Mendanha sahiu para Barcellos, onde entrou a
+occultas para o palacete de seu pai, a fim de trajar luto e apparecer
+convenientemente aos numerosos parentes que confluiam a desanojal-a.
+
+Os bens eram grandes em terras e fóros. Casa antiga e solida. Alfaias do
+tempo de D. João V a dourarem os salões de tecto apainelado, com
+reposteiros brazonados. Na parte mais velha do edificio cadeiras repregadas
+de bronze, contadores atauxiados de prata e enxadrezados a côres,
+guadalmesins nas paredes, amplas mesas de pés torneados, leitos rendilhados
+com as armas dos Mendanhas na espalda, bufetes, jarras da India com as
+iniciaes de um governador de Chaul, oriundo de Mendanhas, retratos de
+familia a começarem em D. Gil Gutierres de Mendanha, solarengo de
+Barcellos. Em meio d'isto, e senhora de tudo isto, aquella Amelia de
+Landim, ó meu amigo Eugenio de Castilho! aquella Amelia, que sarabandeava a
+_cana verde_, o _Leva agua o regadinho_, e descantava umas _torradas com
+manteiga_ que não ha ahi mais que se diga.
+
+--Onde estava ella?
+
+Perguntavam entre si as primas e os primos.
+
+E diziam exactamente onde ella estivera e de que infectos paues se
+levantára com azas de ouro aquella borboleta sahida de tão feio casulo!
+Relatavam-se os pormenores da sua desgraçada vida, encareciam-se, como se
+fosse preciso, as deshonestidades... e visitavam-na.
+
+Volvidos alguns mezes, tres padres, á compíta, lhe sahiram a propôr tres
+casamentos: rapazes, parentes, abastados ou arruinados, mas fidalgos e
+gentilissimos de suas pessoas.
+
+Rejeitou-os.
+
+Um dia, sahiu D. Amelia de Barcellos, na sua sege, apeou em Famalicão,
+sahiu a pé, e parou perto de Landim, á porta de um lavrador. Procurou por
+um homem que dava pelo nome de Antonio do Couto-de-baixo.
+
+Sahiu a fallar-lhe no quinteiro, ou alpendre, um sujeito de trinta annos,
+boa figura de camponio, estupidez em barda por todo aquelle carão.
+
+--Antonio--disse ella--conheces-me?
+
+--A senhora, a senhora... acho que é...--tartamudeou o lavrador agadanhando
+no occipital.
+
+--Sou a Amelia de Landim. Quando eu tinha 15 annos, amei-te. Era então
+innocente. Esperava ser tua mulher, e perdi-me. Teu pai não te quiz deixar
+casar commigo, porque eu era pobre. Sei que soffreste, e quizeste fugir
+para o Brazil, a fim de ganhares dinheiro, para depois me receberes. Eu não
+te deixei ir. Sabes qual foi a minha vida depois. Hoje estou rica, ainda te
+amo, porque foste a origem da minha desventura. Queres casar commigo?
+Responde.
+
+--Quero.
+
+--Então segue-me.
+
+--Deixa-me ir dizer a minha mãi; que essa queria que eu casasse comtigo.
+
+--Podes dizel-o a teu pai, que esse tambem quer agora.
+
+E, d'ahi a momentos, o pai e a mãi sahiram ao alpendre a recebel-a, e
+levaram-na para o sobrado entre caricias.
+
+Ahi pernoitou.
+
+O velho nunca pôde desarticular os queixos da apostura do espasmo, desde
+que D. Amelia principiou a contar por milhares de alqueires de milho o
+rendimento de sua casa.
+
+Ao outro dia, que era domingo, leram-se os primeiros banhos, e, com
+dispensa dos immediatos, casaram-se na igreja de Santa Maria de Abbade.
+
+ * * * * *
+
+Mas a que proposito cahiu este conto, que não tem que vêr com AQUELLA CASA
+TRISTE!...
+
+Ah! foi por amor da requinta da musica de Ruivães, que está agora silvando
+na Barca da Trofa, á espera de Antonio Duque, o _Africano_.
+
+
+III
+
+As quatro musicas reunidas na Ponte da Trofa, depois de espavorirem os
+passarinhos, que, ao descer da tarde, se emboscavam nas ramarias do rio
+Ave, retrocederam, porque o Duque não chegou. Os promotores da festa,
+mandando sobraçar os feixes de foguetes de tres estouros, disseram entre si
+que o _Africano_, faltando á hora da espera triumphal, bem demonstrava ser
+filho do capador da Lamela. Outro era de parecer que o Duque, tratando de
+resto as pessoas que o obsequiavam, dava a perceber que não queria
+amigos... do seu dinheiro.
+
+O _Africano_ havia escripto de Lisboa ao seu feitor, annunciando-lhe o dia
+em que tencionava chegar á sua casa de Ruivães, com recommendação de lhe
+ter preparados os leitos e assoldadada uma boa criada para o quarto de sua
+filha.
+
+Divulgou o feitor a nova, sem propalar a do naufragio, porque a não sabia.
+Se o homem lesse gazetas, informaria os seus visinhos do desastre de seu
+amo, da riqueza engolida pelas guelas da tormenta, da quasi pobreza em que
+ficára o naufrago, e, em fim, das piedosas lastimas com que os periodicos
+deploravam a catastrophe de duzentos contos grangeados honestamente. Se
+isto se soubesse em Ruivães, não haveria quem se afanasse em busca de
+musicas, competindo entre si os obsequiadores sobre qual arranjaria aquella
+que maiores gritos fazia dar á fama pelos buracos da requinta. Quanto ás
+vinte e quatro duzias de foguetes de tres estouros, que os rapazinhos de
+Ruivães tinham carregado até á Ponte da Trofa, é bem de vêr que ninguem se
+abalançaria a tamanho estrondo de generosidade, se se soubesse que o Duque
+não vinha em circumstancias de chorar de ternura abraçado ao peito
+magnanimo d'onde rabiavam tantos foguetes.
+
+No dia marcado ao feitor, devia o _Africano_ chegar á Ponte, onde era
+esperado; porém, apeando na estalagem da Carriça, legua e meia distante,
+ouviu dizer que na Trofa estava o poder do mundo, com quatro musicas, e
+muito fogo do ar, á espera de um brazileiro que vinha da Africa.
+
+Ouvido isto, Duque disse ao boleeiro que recolhesse a parelha da sege,
+porque resolvera sahir de madrugada.
+
+Depois, foi contar á filha o que ouvira, e o desgosto que queria evitar no
+encontro de festas, tão desapropositadas da tristeza de ambos.
+
+Deolinda, prostrada no leito, approvou a resolução do pai, queixando-se de
+agonias, suffocações e desmaios do coração, que mal a deixavam seguir a
+jornada.
+
+Passou o pai o restante do dia e parte da noite á beira da cama, inventando
+com santo esforço alegrias que divertissem Deolinda da concentração que uma
+ou outra lagrima desafogava por momentos. Alegrias!...
+
+Que heroismos cabem em peito de pai! Quantos ha que são suppliciados por
+esse amor que parece vir da mão de Deus! Que maiores angustias tem esta
+vida, se comparamos todas á d'aquelle pai que alli estava ao pé da filha
+que os medicos de Lisboa lhe haviam auscultado e considerado perdida!
+
+Mas elle, acreditando na sciencia que tem a certeza de ser lesão mortal a
+hypertrophia do coração, afigurava-se-lhe que a Providencia o não
+castigaria tão severamente, fazendo-o sobreviver ao perdimento dos bens,
+para depois amparar em seus braços a filha agonisante. Nunca discutira
+entre si se Deus era preciso, ou que parte lhe coubesse no regimento d'este
+mundo. São meditações estas que, em Africa, passam rapidas como o sirôco,
+mas não abrazam, nem obrigam as caravanas a curvar o corpo até bater com as
+faces nos areaes. Os que por alli veniagam, á imitação do pai de Deolinda,
+pensam, se acaso pensam, que a justiça do céo tem alçada em mais amenos
+climas, e descura saber se lá o homem tem mais ou menos semelhança com o
+tigre. Porém, depois que o céo se azula e estrella, áquem da linha, e a
+briza refrigera o sangue, os expatriados, maiormente os ricos, não recusam
+crêr que ha Deus, dadas certas condições; fazem-lhe o obsequio de o
+conjecturar sentado á mão direita do Padre Eterno, e absorvido na perennal
+gloria de sua divindade, sem entender nas trivialidades d'este globo, mais
+pequeno que os milhares de mundos que lhe circumvalam á ourela do throno.
+Esta philosophia é grandiosa e barata. Cançam-se os mestres em a propagar,
+e todavia qualquer sandeu bem engraxado a tem espontanea na alma, como
+tortulho em lodaçal, sem que os philosophos lh'a inculquem. Estudem Ario,
+Spinosa, Renan, e outros, afóra o meu bacalhoeiro, que tem dentro de si
+tres philosophos, um portico, um lyceu, dentro de si, repito, porque o
+_si_, o _elle_, são as cedulas bancarias, a burra, que tem um nome de
+predestinação para aviso e escarmento de sabios que se burrificam, não
+querendo acabar de entender que saber, honras, regalos, respeitos,
+inviolabilidades, vem tudo da burra.
+
+Succede, porém, uma vez ou outra, encrespar-se uma onda, que logo se
+arqueia em vagalhão, e se abre em voragem. Ahi resvala a riqueza do homem,
+que se arrodelára com ella das farpas do mundo. Os brilhantes impenetraveis
+do arnez cahiram e rolam na profundidade do abysmo. Aqui está o homem a
+pensar em Deus, porque está pobre, está sósinho, já se não vê idolo dos
+outros e divindade de si proprio. A desgraça, que traz sempre comsigo um
+anjo vestido no céo com uma luz que arde inextinguivel no tumulo de Silvio
+Pellico, assenta-se ao lado do infeliz, e começa por lhe dizer:
+
+«Que eram esses bens da vida, se tão depressa te reduziste a esta pobreza?
+Olha tu para as estrellas que scintillam serenamente sobre a voragem que
+t'os devorou, e pede ao meu anjo que te diga o que ha d'estes milhões de
+mundos para além!»
+
+Ah! quando esta voz repercute na consciencia de um pai, e ao mesmo tempo a
+aza da morte roça e tinge de rubor febril a face de sua filha, então sim,
+Deus entreluz na treva, a alma crê, mas crê para pedir de mãos erguidas.
+Isto é fé, é fé que relampagueia; mas eu não sei se alguma hora a razão dos
+grandes desgraçados foi alumiada por esse relampago.
+
+Pelo que, assim orava o _Africano_, ás quatro horas da manhã, em pé,
+defronte do leito da filha adormecida.
+
+ * * * * *
+
+Entraram na casa apalaçada de Ruivães, inesperadamente.
+
+Quando o souberam os visinhos, um correu á igreja a repicar o sino e a
+sineta, outro rompeu as nuvens com girandolas, a orchestra da terra, que
+andava dispersa a sachar os milharaes, confluiu de galope a casa do mestre,
+escodeou as mãos do regato, travou dos metaes, e prorompeu estridulamente á
+porta do _Africano_, tocando o hymno de 20, o hymno do snr. Costa Cabral, o
+hymno da snr.^a Maria da Fonte, o hymno do snr. duque de Saldanha, e o do
+Santo Padre Pio IX.
+
+O _Africano_ sahiu á janella com sua filha, cortejou o publico, assistiu a
+duas mazurkas tocadas com variações de requinta, e pediu venia para
+recolher-se em razão de sua filha se sentir mal com o sol que lhe dava no
+rosto.
+
+O publico murmurou, tregeitando uns momos significativos de menos respeito.
+
+O feitor foi dizer a seu amo que era preciso dar de beber aos musicos, e
+receber a visita dos parentes e mais lavradores.
+
+O Duque respondeu:
+
+--Vá ahi fóra ao pateo, e diga bem alto que eu estou pobre.
+
+--Pobre!--acudiu o feitor casquinando um riso perspicaz--Bem me fio eu
+n'isso! V. s.^a está a mangar!...
+
+--Faça o que lhe digo--volveu severamente o amo.
+
+E, de facto, o criado foi ao pateo, chamou a si os lavradores mais grados,
+o mestre da musica, o boticario de Délães, e o boticario de Landim, e o
+regedor de Vermoim, e disse-lhes:
+
+--O ill.^mo snr. Duque manda-me dizer a vossemecês que está pobre.
+
+Os circumstautes olharam uns para os outros, embrutecidos pelo mesmo
+choque. Um d'elles, porém, que eu presumo fosse um dos dous boticarios, deu
+aos beiços um geito de quem vai orar. Encararam-o todos, e o boticario
+tirou do peito estas duas palavras:
+
+--Ora bolas!
+
+E sahiu do pateo.
+
+Tenho esquadrinhado o melhor sentido d'aquellas palavras do attico
+pharmaceutico. Consultei philologos, que mais convisinham d'este sujeito, e
+apenas colhi que as expressões «ora bolas» montavam tanto como dizer: ora
+bolas.
+
+Eu, porém, dou mais lata interpretação ao epiphonema, sabendo que todo
+aquelle gentio _boloirou_ para casa[1].
+
+O _Africano_, passados seis mezes, procurou um brazileiro rico de Ninães,
+recentemente chegado, e disse-lhe:
+
+--Sei que o senhor está resolvido a edificar uma casa. Se quer poupar-se a
+grandes despezas, incommodos e desgostos, compre-me a minha. Vendo-lh'a por
+metade do que me custou, com uma condição: se eu e minha filha não tivermos
+morrido dentro de seis mezes, serei obrigado a dar-lhe a casa no fim d'este
+prazo; mas, n'estes primeiros seis mezes, o senhor não poderá occupal-a.
+
+Pediu o brazileiro explicações de tão estranha clausula.
+
+O Duque respondeu:
+
+--Minha filha está mortalmente enferma. Tem um aneurisma. Eu tambem me
+sinto no termo da vida. Vou morrendo a cada hora que a doença me deixa vêr
+a morte na face de minha filha. Não hei de sobreviver-lhe, se Deus me não
+fizer o beneficio de me levar adiante.
+
+Consolou-o o brazileiro conforme soube, aceitou a proposta, e assignou as
+escripturas no dia seguinte, entregando ao vendedor alguns contos de reis.
+
+Pagou o _Africano_ as dividas contrahidas em Cabo-Verde, encerrou-se na
+ante-camara do quarto de sua filha, e deu-se pressa em aggravar os seus
+padecimentos á custa de se remirar no seu infortunio, de cortar bem dentro
+as fibras ainda rijas do coração, antecipando a imagem da filha morta,
+repulsando todo o allivio da esperança, furtando-se a todo o desafogo,
+matando-se com a lentidão de um desvairado que se encavernasse n'um antro,
+esperando sem terror a entrada da fera, e anciando-a para se lhe rasgar nas
+presas.
+
+Ao quinto mez do contracto, os padecimentos de Deolinda tocaram nos
+extremos symptomas da morte. As hemorrhagias amiudaram-se. Estava já
+entorpecida, immovel, salvo quando arrancava do seio as aspirações, que
+revelavam ao través das coberturas da cama os arquejos do coração.
+
+N'esta conjunctura, o pai estabeleceu entre si e Deus uma convenção que era
+já delirio precursor da demencia ou da morte: «Se ella hoje morrer, ou Deus
+me mata ámanhã, ou, quando ella estiver sepultada, eu me matarei.»
+
+O parocho, que sacramentára Deolinda, ouviu estas vozes, e disse aos botões
+da sua batina: «Este homem está no inferno.»
+
+Quando ficou sósinha, Deolinda chamou o pai e disse-lhe:
+
+--Não quero ir d'esta vida, sem dizer-lhe um segredo com que não devo
+morrer. No meu bahú está uma caixinha de folha, que o mar lançou á praia,
+depois do naufragio. Levaram-me em Cabo-Verde esta caixinha, cuidando um
+marujo que fosse minha. Abri-a, e vi que encerrava cartas de uma mãi muito
+extremosa para seu filho. O filho era aquelle rapaz que vinha do degredo, e
+salvou os velhos, e as crianças, antes de morrer. A mãi, que lhe escrevia,
+diz-lhe em algumas cartas que tem sentido as angustias da fome. Chama-se
+ella... Meu pai lhe verá o nome e a terra onde vivia... Se tiver morrido,
+feliz d'ella. Se ainda viver, meu pai, mande-lhe como esmola o que ficar do
+meu espolio, e diga-lhe que eu... lhe amei o seu infeliz filho... até
+morrer... por elle!...
+
+--Cumprirei a tua vontade, minha filha--respondeu o pai.
+
+ * * * * *
+
+Ditas aquellas palavras, o _Africano_ encarou na filha com a fixidez torva
+de um amaurotico. Depois, como se sentisse dobrar sobre os joelhos, sabiu
+da alcova, atirou-se como ebrio para o leito, e murmurou estas vozes:
+
+--Meu Deus! morro por amor de minha filha, e ella... morre por outro... Bem
+podia consentir a desgraça que eu morresse sem este desengano... Vinte
+annos a adorar esta filha, um anno a agonisar ao pé da sua agonia... e a
+final ouço-lhe dizer que morre por um homem... que não era seu pai...
+
+Escabujou em ancias muito afflictivas, pedindo a Deus com dilacerante
+esforço que lhe abreviasse o transe. Rompeu em soluços; e, suffocado pelo
+choro ou por um golfo de sangue, arrancou da vida n'um estremecimento
+instantaneo.
+
+Deolinda ouviu o murmurio rouco d'esta convulsão da morte, e voltou a face
+para onde suppunha que estava o pai.
+
+Chamou-o. Sentou-se no leito com supremo esforço. Tangeu a campainha.
+Acudiu a criada, a quem ella pediu que lhe désse o seu vestido. Foi nos
+braços da criada á sala contigua, onde o pai tinha o seu leito. Dobrou-se
+sobre o peito d'elle, colhendo-lhe nos labios um halito ainda quente, como
+vestigio da alma que passára queimando as fibras por onde abrira a fuga do
+seu inferno.
+
+--Morto!--bradou ella, golfando-lhe no seio o derradeiro sangue.
+
+Transportada ao canapé fronteiro, alli se quedou empedernida. Não houve
+rogos que a tirassem de lá. Viu amortalhar o cadaver de seu pai, viu-o
+sahir no esquife para ser depositado na capella da casa, ouviu o ultimo
+dobre da sepultura; e então, comprimindo o seio esquerdo com ambas as mãos,
+invocou a compaixão da Virgem Santissima, e expirou.
+
+ * * * * *
+
+Lá está em cima aquella casa triste... O brazileiro, que a comprou, não a
+quiz habitar. As janellas nunca mais se abriram. O vestido, que despiram do
+cadaver de Deolinda, pende ainda da espalda do canapé em que ella morreu.
+
+ [1] Não se procure _boloirar_ nos diccionarios, em quanto os
+ diccionaristas ignorarem a linguagem popular do classico povo do Minho
+ e Traz-os-Montes. Lá, fazer rolar uma bola, é _boloirar_.
+
+
+
+
+SOLUÇÃO DO PROBLEMA HISTORICO (I)
+
+
+_Snr. redactor das NOITES DE INSOMNIA_.
+
+Conseguiu vossê que eu adormecesse antes de lêr a terceira sentença a favor
+d'el-rei D. Sebastião. Muito obrigado a vossê e aos tres papas.
+
+Aquelle D. Sebastião que em 1630, com 76 annos de idade, tinha uns filhos,
+que ninguem depois conheceu, seria causa a eu descrer da authenticidade das
+sentenças, se não soubesse que santo Isidoro, arcebispo de Sevilha, o
+prophetisou assim, tal e quejando, com filhos, netos e bisnetos, um dos
+quaes afianço a vossê que não sou eu.
+
+Palavras de santo Isidoro: _Muitos filhos e filhas terá o Encoberto de
+legitimo matrimonio, e sempre seus descendentes, uns depois dos outros,
+reinarão pacificamente_ (não diz o santo onde se passa esta reinação); _e o
+sceptro sagrado do temporal será administrado e regido por elles; e a
+final, fazendo-se pagens do povo, tornarão do deserto_.
+
+Não ha nada mais claro. Os descendentes de D. Sebastião, voltando do
+deserto, serão pagens do povo. Por «pagens do povo» percebo eu que o
+vidente de Sevilha queria fallar nos demagogos d'este paiz, nos oradores do
+Casino, no Guerra Junqueiro, nos redactores do _Diario da Tarde_, no Eça e
+no Ortigão, nos satanicos, e nos mais socialistas sobre quem pesam o gladio
+do Zêzere, os pés do conselheiro Arrobas e o redenho do conselheiro Viale.
+Os descendentes do Encoberto vem, pelos modos, a ser aquelles. Quanto a
+virem do deserto, como resa a prophecia, é obvia a interpretação. «Deserto»
+aqui, entende-se o conteúdo pelo continente. Veja se me percebe. Deserto é
+o vasio da algibeira. Isto percebe vossê bem. Um homem está no deserto
+quando não tem no bolso a voz que clama no mesmo. Deserto é estar homem só
+como succede a toda a pessoa que não tem
+
+_Aquillo com que mais se accende o engenho,_
+
+como disse um a quem o predilecto dos tres papas mandou dar 15$000 reis por
+anno em paga de ter perdido um olho em Africa e ter feito os _Lusiadas_ na
+India.
+
+Já vê vossê que, por este lado, as sentenças dos tres bispos de Roma são
+invulneraveis. D. Sebastião, com toda a certeza, de quinze em quinze annos,
+ia até Roma mostrar ao papa que tinha uma perna maior que a outra, um tufo
+de pello no hombro esquerdo, o joanete no dedo mendinho, e um dente de
+menos na queixada de baixo. Quando lá foi aos 76 annos, aposto que já não
+tinha dente nenhum.
+
+Os documentos pontificios que vossê apresentou resistiriam á critica de
+João Pedro Ribeiro e Theophilo Braga. Este sabio e vossê são os dous homens
+que n'este seculo tem achado as melhores peças historicas. Vossê achou as
+sentenças a favor do Encoberto; o doutor Theophilo achou a carta de Ayres
+Barbosa a André de Rezende. Eu achei a vossês, os dous, dous odres de
+sciencia em que espero exercitar o meu intellecto como os touros exercitam
+a força nos ôdres de vento. Creio que está dada a solução do problema
+historico. Mande-me o premio pelo portador. E quando achar outra cousa, com
+esse faro de Herder que Deus lhe deu, abra torneio aos talentos, e faça
+invejas ao Theophilo a vêr se elle descobre agora a resposta de André de
+Rezende a Ayres Barbosa.
+
+ * * * * *
+
+Entreguei o premio, antes que venha outra carta mais insensata. N'este paiz
+quem, como Theophilo Braga e eu, achar alguma cousa, está perdido.
+
+
+
+
+DOUS PRECONCEITOS
+
+
+O primeiro, é dizer-se que, no governo absoluto, as condecorações, os fóros
+de fidalguia e os tratamentos eram judiciosamente dados e com muita
+parcimonia a quem os merecia.
+
+ * * * * *
+
+O segundo, é dizer-se absolutamente que a mudança do regimen politico de
+1834 empobreceu de repente os fidalgos, esbulhando-os dos seus rendimentos
+provindos de privilegios, encargos, commendas, etc.
+
+ * * * * *
+
+Quanto ao primeiro preconceito, ouça-se o depoimento de um notavel fidalgo,
+que estudou cincoenta annos, e meditou dezesete nas lobregas cavernas da
+Junqueira. Era D. João José Ansberto de Noronha, conde de S. Lourenço, que
+morreu em 1804, com 79 annos de idade. No penultimo anno de sua vida,
+escreveu a sua ultima obra, que ainda não sahiu das gavetas avarentas dos
+curiosos de manuscriptos, e intitulou-a _Apontamentos politicos_.
+
+Seja o conde de S. Lourenço quem impugne a arguição injusta que se faz ao
+governo representativo, doestando-o de perdulario de titulos e
+nobilitações. Observe-se que o fidalgo escrevia em 1803, e que as ultimas
+linhas d'este trecho do seu escripto são uma prophecia; que, n'aquelle
+tempo, a raros espiritos se prefiguravam idéas de liberdade, e menos ainda
+aos que haviam de ser apeados por ella do pedestal de sete seculos.
+
+Eis a passagem que tem por epigraphe--_Dos ennobrecidos_:
+
+
+«Os serviços ordinarios, e por assim dizer materiaes, pagam-se com
+dinheiro, que se tarifa como qualquer salario, á proporção do trabalho. Os
+serviços relevantes, isto é, os que são feitos com perigo de vida, com
+força de engenho, ou com espirito de patriotismo, e de que resultam grandes
+vantagens ou de facto, ou de exemplo, pagam-se com signaes honorificos, com
+distincções, e com titulos, porque se julga, que não tendo preço, se não
+podem remunerar senão com honras. E segue-se d'isto, que a moeda mais
+preciosa do thesouro do soberano é a faculdade de distinguir e honrar,
+porque alcança com ella o que não póde comprar com dinheiro. Mas se ha
+facilidade em conceder honras, se se alcançam sem sacrificios, nem
+habilidade, n'esse caso todos as querem, muitos as conseguem, e ninguem
+fica contente; uns porque querem mais, outros porque ainda não tiveram, e
+outros que as tem por seus justos cabaes, porque se acham confundidos na
+inundação dos nobres de _acaso_. As consequencias são, que as distincções
+deixam de o ser, porque se fazem geraes; que empobrece o thesouro politico
+do soberano, porque a moeda mais preciosa perde o seu valor, e que se perde
+o espirito da gloria, porque os individuos vem a achar por fim mais
+vantagens em buscar conveniencia, do que signaes, que pela sua
+multiplicidade, e modo por que se alcançaram vieram a ser de estimação
+incerta.
+
+«Com effeito tem-se vulgarisado as honras, não só á força de concessões
+avulsas, mas até de tarifas. Na divisão das tres ordens militares deram-se
+tantos habitos de S. Thiago, que apesar de ser uma ordem tão respeitavel,
+já ninguem a quer. Concedea-se o fôro de fidalgo a quem no emprestimo real
+entrasse com porções avultadas, sem embargo de ficar ganhando juros.
+Concedeu-se o mesmo fôro a quem lavrasse certa porção de sêda para vender.
+Os officiaes de secretaria, cujo numero tem crescido tanto, tem o habito de
+Christo no primeiro anno de serviço, e o fôro de escudeiro no decimo. Os
+officiaes do erario tem o habito de Christo, etc., etc., etc.
+
+«Esta quantidade de tarifas em muito poucos annos reduz os tres milhões de
+habitantes a tres milhões de nobres: n'este caso a maior distincção, que
+póde haver, é não ser nobre; e o modo de a conseguir é não servindo o
+estado de modo nenhum. Parecerá isto um paradoxo, mas a experiencia já vai
+mostrando que o não é.
+
+«As leis do tratamento já não tem vigor, e a arrogação de senhorias, e
+excellencias é geral.
+
+«É da maior difficuldade achar gente para trabalhar, e tanto que no anno de
+1801 querendo-se expulsar os gallegos em razão da guerra, não se fez porque
+o intendente geral da policia representou, que se se mandassem embora, não
+haveria quem servisse a cidade de Lisboa e a do Porto.
+
+«Se um corpo de nação não póde passar sem tomar criados estrangeiros, não
+para as artes, mas para o serviço ordinario, ou é a nação mais fidalga do
+mundo, ou a mais paralytica, _e em todo o caso a que mais velozmente corre
+para o systema da igualdade, e que mais velozmente se afasta da
+monarchia_.»
+
+
+Até aqui o descendente de el-rei D. Fernando no que respeita á
+prodigalidade das mercês. Agora, pelo que é da pobreza dos fidalgos, cumpre
+saber que a maioria das casas titulares de primeira plana já principiava a
+esboroar-se no principio d'este seculo. O golpe da extincção das commendas
+pouco sangue já encontrou nos corpos dos commendadores. Se ainda no
+_Torneio real_ de 1795, escripto pelo senhor de Pancas, encontramos trinta
+e dous fidalgos pompeando as galanices da Asia, indaguemos hoje a paragem
+dos netos d'esses homens, que eram os primeiros nomes de Portugal. Onde
+estão os haveres do conde de Aveiras? o grande patrimonio do marquez de
+Abrantes? de Lavradio? de José Telles da Silva? do marquez de Angeja? do de
+Ponte de Lima? do conde da Ega? do de Obidos? do marquez de Nisa? do de
+Penalva? do conde de S. Lourenço? do visconde de Barbacena? do marquez de
+Tancos? do conde de Sabugal? Estes eram do numero dos trinta e dous
+fidalgos que resplandeceram nas cavalhadas no anno de 1795 para festejar o
+nascimento do principe D. Antonio. E dos restantes, exceptuada a casa de
+Cadaval, com pesar de ss. exc.^as, força é declarar que não ha ahi barão
+moderno que lhes inveje a riqueza.
+
+A santa casa da Misericordia de Lisboa abre-nos o seu livro de creditos, no
+anno de 1813, e mostra-nos a voragem da parte ainda hypothecavel dos bens
+d'esses fidalgos que, em nossos dias, vimos inteiramente desbaratados.
+Entre 1813 e 1833 rodaram vinte annos, e a ladeira que resvalava os
+dissipadores á voragem era cada vez mais escorregadia. O proprio conde de
+S. Lourenço, que presentira o naufragio da nobreza, levada a pique pela
+rajada da liberdade, não educou seus filhos melhormente que os seus iguaes
+em fidalguia, e desigualissimos em intelligencia. Se elle anteviu a
+borrasca, devera colher as velas á nau, que se desmantelou, como as outras
+norteadas por palinuros, ignorantes e cegos.
+
+Na lista dos devedores á Misericordia, encontramos algum raro fidalgo, cuja
+casa se teve no balanço, e hoje mantém o antigo luzimento. Esse tal
+achal-o-hemos acostado á restauração liberal de 1833, e quinhoeiro, por
+tanto, das regalias que auferiram os parciaes do imperador. No entanto, dos
+que serviram a liberdade, houve d'elles que nem assim lograram reparar as
+ruinas.
+
+O leitor curioso poderá estremal-os na seguinte lista:
+
+
+A casa de Rezende devia á Misericordia de Lisboa com vencimento de juros,
+no dia 8 de março de 1813 9:991$509
+
+A de Ponte de Lima 1:270$442
+
+A de Abrantes 8:978$105
+
+A de Tancos 11:750$000
+
+A de Louriçal 9:600$000
+
+A de Obidos 101:490$899[2]
+
+A de S. Vicente 4:000$00
+
+A de Soure 21:080$698
+
+A de Borba 1:278$154
+
+A de Pombeiro 18:508$500
+
+A de Coculim 9:400$000
+
+A de Loulé 5:715$494
+
+A de Lavradio 11:700$000
+
+A de Unhão 4:655$011
+
+A de Vidigueira 353$128[3]
+
+A de Alorna 40:665$011
+
+A de Atouguia 3:989$115
+
+A de S. Miguel 10:295$565
+
+A de Tavora 7:289$433[4]
+
+Seguem-se Antonio Telles da Silva, D. Antonio Soares de Noronha, o conde de
+Alvor, dos Arcos, de José Felix da Canha, de D. Diniz d'Almeida, de D. Luiz
+de Portugal da Gama, de D. Rodrigo Xavier Pedro de Sousa, e outros,
+perfazendo 340:359$700.
+
+O empregado da secretaria da Misericordia, que passou a certidão n'aquelle
+mesmo anno de 1813, acrescenta de lavra sua: «Alguns d'estes capitaes se
+consideram perdidos, porque os devedores tem provisões com tempo
+illimilado, e não possuem bens livres. Ha outros litigiosos e duvidados
+pelos devedores; de sorte que são muito poucos os que se podem manifestar
+como liquidos.»
+
+Por onde se conclue que a minguada fortuna dos pobresinhos cahira em
+honradas mãos! Eu, contra o parecer do escripturario, creio que os
+fidalgos, menoscabados de insoluveis, pagaram todos com mais ou menos
+pontualidade; e, se não pagaram, desculpe-se-lhes o começarem a
+misericordia por si.
+
+Eu sei que os fidalgos do _acaso_, como acima lhes chama o conde de S.
+Lourenço, se rejubilam de ter estirado as camadas do seu lodo por cima dos
+honrosos vestigios dos outros. Ouso, porém, a liberdade de lembrar a suas
+excellencias que a tradição da raça e as pêas dos vinculos conservaram
+através dos seculos os nomes historicos; ao passo que estes adventicios
+afidalgados, á falta do vinculo que os tenha alguns seculos pendurados no
+esgalho do tronco velho, bem póde ser que se estejam desentranhando em
+filhos para futuras tripeças.
+
+Se assim fôr, que Deus os faça sapateiros engenhosos, para que a comedia
+humana não seja de todo em todo ridicula e inutil ás artes.
+
+ [2] O palacio d'esta familia foi comprado ha pouco pelo rei, e dado a
+ uma senhora d'esta casa aia do principe.
+
+ [3] O fallecido marques de Nisa succedera na posse de duas riquissimas
+ casas, a de Vidigueira e a de Cascaes. O Paul, vastissima propriedade
+ vendida ao capitalista Eugenio de Almeida, havia sido dado por D. João
+ I a João das Regras, ascendente dos senhores de Cascaes. O marques
+ morreu pobre. Deixou dous nobilissimos filhos: um é aprendiz de
+ negociante no Brasil, o outro tem um engenho de fazer cigarros depois
+ de ter tido perto de Paris um restaurante, em que era caixeiro um filho
+ de José Estevão. Ó Vasco da Gama!... Ó Demosthenes lusitano!
+
+ [4] Estas quatro ultimas casas estão ementadas na lista como extinctas.
+
+
+
+
+LISBOA
+
+
+Ha mais de dous seculos que um viajante francez de grande qualidade esteve
+em Lisboa. Volvidos trinta annos, o filho do companheiro de viagem d'esse
+incognito senhor mandou imprimir em Hollanda as viagens que seu pai
+escrevera, e deu este titulo ao livro: _Voyages faits en divers temps en
+Espagne, en Portugal, en Allemagne, en France et ailleurs. Par Monsieur M.
+**** A Amsterdam, MDCC_.
+
+Entraram os viajantes em Lisboa, no dia 18 de maio de 1669. Em sete paginas
+de oitavo pequeno esgotaram as impressões que Portugal lhes suggeriu; mas
+não nos detrahiram nem calumniaram. D'essas sete paginas, provavelmente
+desconhecidas ao commum dos leitores, a substancia é esta:
+
+
+«Lisboa é muitissimo povoada, pois que todas as nações alli trazem gente,
+sendo muita a mourisma que lá é escrava, e procede de Guiné. As liteiras
+são mais que as carroças; mas são magnificas. E, porque a cidade se fórma
+de outeiros, o que mais se usa são cavallos e mulas. As igrejas são
+aceadissimas e formosas. Os portuguezes andam armados de espada e punhal.
+
+«São os portuguezes mais ciosos de suas esposas que os hespanhoes. As
+mulheres sahem de casa menos vezes que as de Madrid: o que faz que lá se
+diga que ellas vão á igreja tres vezes no anno: baptisar-se, casar-se e
+enterrar-se.
+
+«É notório que o marido, apenas suspeita do proceder da mulher, trata logo
+de a esfaquear; d'onde lhes urge a ellas estarem muito de sobreaviso, e
+haverem-se com grande precate no logro dos maridos, vingando-se assim da
+escravidão em que vivem.
+
+«Sobre a tarde, fomos vêr o convento da Esperança onde a rainha esteve
+encerrada seis mezes[5] quando deixou o rei que está na ilha Terceira, a
+trezentas leguas distante de Lisboa. D. Pedro, seu irmão, governa
+actualmente, e casou com a cunhada, filha do fallecido principe de Nemours
+da casa de Saboya. Ella vai ao conselho, e assiste com o marido ás
+audiencias. D. Pedro não quiz ainda ir ao paço para ser coroado. Vive em
+sua casa, que foi confiscada ao marquez de Castello Rodrigo, que seguiu o
+partido de Castella quando Portugal se rebellou. Segundo os tratados, os
+bens já deviam ter sido restituidos ao marquez; mas até agora nem n'isso
+pensam. Esta casa está situada á ourela do Tejo, perto do palacio real.
+Guardam-na vigilantemente trezentas sentinellas vestidas de pardo agaloado
+de verde. O paço é quadrado, e cheio de mercearias(?): é edificio pouco
+distincto. Tem dentro uma praça limpamente areada, e um chafariz no centro.
+
+«É ahi a praça dos touros. O paço estava desalfaiado. A capella, rica de
+azul e ouro, é bellissima. Os armazens dos utensis destinados á marinha de
+guerra, são ahi ao pé. Navios mercantis tem poucos. Mandam apenas cinco ou
+seis ao Brazil, e servem-se dos inglezes e hollandezes para importar
+assucar e outros generos a Lisboa. Ahi perto andam a edificar-se dous
+salões, em que os mercadores se ajuntam a negociar. Vimos uma igreja que a
+rainha-mãi fandou, e onde está enterrada[6]. Todo o tecto é de ebano, bem
+como as columnas de laçarias douradas. Os pavimentos de todas as igrejas de
+Lisboa são de adobes azulejados com figuras. Ha ahi uma, onde se veem
+retratadas as cabeças das pessoas condemnadas e queimadas pela inquisição.
+Presentemente não ha inquisidor geral.
+
+«O palacio onde mora D. Pedro e a rainha é composto de quatro pavilhões
+pequenos e dous eirados onde aquella princeza vai de tarde tomar ar com as
+damas. Está ahi sempre o «regimento da armada.» As ante-camaras estão
+sempre atalaiadas.
+
+«O principe e ella dão audiencia todas as terças feiras. Elle é corpulento,
+rosto magro e trigueiro. Desde que esteve doente, usa cabelleira. Sahe
+pouco acompanhado, e dizem ser affavel e cortez. A rainha traja á
+hespanhola com guarda-infante, com os cabellos soltos pelas costas,
+encaracolados, e laçados de fitas. Tem uma filha que parece lindissima,
+cuja aia é a condessa de Añon (Unhão). Segue-a o seu mordomo duque de
+Cadaval. A rainha tem um anão indio que anda sempre com ella: é tão bem
+proporcionado que parece uma criança, visto pelas costas; mas pela frente
+não, que já tem barba. Já tinha sido da rainha-mãi, e goza da fama de
+engraçado... A rua dos Mercadores é muito bonita. Ha ahi bons acepipes, e
+confeitos excellentes. A 18 de maio comemos cerejas e damascos já maduros.
+O que é incommodo é não haver neve, nem as bebidas refrigerantes de
+Hespanha.»
+
+
+E nada mais que mereça menção.
+
+A respeito da Lisboa de 1669, que era, pouco menos, a Lisboa de 1754, um
+anno antes do terremoto, darei alguns pormenores. O que tenho visto
+impresso não satisfaz a curiosidade. João Baptista de Castro, o author do
+_Mappa de Portugal_, conheceu a velha Lisboa, e o que nos disse é tão
+diminuto que pouco vale. No _Panorama_ e _Archivo_ ha artigos de bons
+investigadores; mas pouco mais fazem que distender as noticias de Nicolau
+de Oliveira e outros que viram a Lisboa do seculo XVII.
+
+O inedito, que tenho, ácerca da capital, dá noticias que provam ser
+escripto em 1754. Não lhe conheço author. Foi homem que, viajando, escrevia
+uma geographia da Europa alphabeticamente e levava a sua obra na letra _L_
+(_LIXA, chamada pelos europeus LARACHE_), quando, talvez, o terremoto lhe
+colheu de golpe a vida, ou lhe esfriou o ardor do trabalho.
+
+No proximo numero trasladarei o que me parecer menos sabido.
+
+ [5] A mulher de Affonso VI e de Pedro II.
+
+ [6] Era a de Corpus-Christi dos carmelitas descalços, fundada no sitio
+ em que Domingos Leite Pereira tentou matar D. João IV. Esta igreja
+ desappareceu no terremoto e incendio de 1755.
+
+
+
+
+FERREIRA RANGEL
+
+
+Vivia aqui no Porto, ha pouco mais de mez, um homem que, ha vinte annos,
+atroava o café-Guichard com o trovão da sua voz. Chamava-se Francisco
+Ferreira Ribeiro Pinto Rangel.
+
+Era liberal como um dos mais egregios romanos que morreram no templo de
+Diana, á beira de Caio Gracco. Era valente caudilho do povo; e das
+primeiras cutiladas do sabre dos esquadrões, nos motins anteriores a 1846,
+tinha elle as cicatrizes na cabeça. Era poeta da escóla antiga de Filinto e
+Diniz, como se demonstra no seu poema intitalado _D. Sebastião_. Era
+versado na lição dos socialistas, cujas doutrinas apregoava nos botequins,
+com um fogo de convicção, que lhe afusilava através dos oculos, e mettia
+medo nos peitos de mais fino aço.
+
+Teve um irmão que lhe foi antipoda na esphera politica. As pessoas do tempo
+de D. Miguel conheceram-o, vivendo faustamente. Chamavam-lhe o
+_escrivão-fidalgo_, porque era escrivão e tratava-se á lei da nobreza. Este
+homem conheci eu chefe de estado-maior do general realista Macdonell.
+Morreu briosamente, em uma madrugada de janeiro de 1847, ao lado do
+general, desfechando um par de pistolas de pederneira, cuja escorva a neve
+d'aquella noite humedecera. O morto deixou dous filhos, e tres ou quatro
+esbeltas meninas. Parece-me que os vi e conheci na minha mocidade. Ouvi
+dizer que voltaram ricos do Brazil. Se bem me lembro, já escrevi a
+necrologia de um, que por signal estava vivo, e nem sequer me agradeceu,
+com um bilhete de visita, ser eu a unica pessoa de Portugal que lhe ajuntou
+ao nome esquecido quatro palavras de saudade e dó.
+
+Agora, faço o mesmo ao tio, que morreu ha pouco mais de mez, e ninguem
+perguntou que pobretão era um que levaram na tumba dos pobres, entre quatro
+tochas, desde a rua Chã até ao Prado.
+
+Pois era, era aquelle Ferreira Rangel que todos ouviamos e respeitavamos, ó
+rapazes de ha vinte annos!
+
+A imprensa diária tem olheiros que superintendem em estupros, facadas,
+roubos e incestos; mas a alçada d'estes espias não chega até ao esquife do
+defunto sem testamento.
+
+Ferreira Rangel chegou ao cemiterio ao fechar de uma noite orvalhada de
+dezembro. O coveiro estava prevenido e a postos. Não havia que esperar
+garganteações de psalmos. A fossa da valla dos pobres estava aberta. Na
+gleba desaterrada alvejava ainda o craneo e as vertebras cervicaes d'outro
+pobre. Tresandava o fartum da podridão abafada. Aquillo fez-se depressa. O
+caixão baqueou, desamparado de alto. Deu uma toada cava na terra fôfa. Os
+portadores d'aquelle pobre aconchegaram os capuzes das orelhas cortadas do
+suão, e sahiram de corrida. O coveiro deixou ao relento o caixão, e foi no
+dia seguinte, aquecido com aguardente, volver sobre as taboas chuviscadas o
+comoro de terra, que alisou com a pata da enxada.
+
+Depois, o eterno silencio.
+
+...................................................
+...................................................
+
+Envio os meus sentimentos aos sobrinhos ricos d'este homem, e dispenso-os
+do bilhete de visita.
+
+
+
+
+AS JOIAS D'UM MINISTRO DE D. JOÃO V NO PREGO
+
+
+Este ministro era Alexandre de Gusmão.
+
+Nasceu no Brazil, em Santos, provincia de S. Paulo, por 1695, e falleceu em
+Lisboa, em 1753.
+
+Foi cavalleiro professo na ordem de Christo;
+
+Fidalgo da casa real;
+
+Secretario particular de D. João V--_o Dissipador_;
+
+Conselheiro de capa e espada do conselho ultramarino:
+
+E, quando morreu, parte dos seus haveres, as joias de sua defunta mulher
+estavam empenhadas, e foram vendidas em hasta publica.
+
+Tenho a triste satisfação de enviar esta novidade aos biographos d'aquelle
+varão illustre, e nomeadamente aos escriptores brazileiros, os snrs.
+Pereira da Silva e Fernandes Pinheiro, solicitos averiguadores da
+accidentada vida do seu conterraneo.
+
+S. exc.^as dizem que Alexandre de Gusmão morreu pobre, tendo perdido os
+bens e dous filhos no incendio de sua casa. Os documentos que, pela
+primeira vez se escavam no veio inexplorado das secretarias, ajustam-se á
+opinião d'aquelles notaveis escriptores; mas o ex-secretario de D. João V
+morreu sem ter conhecido as necessidades dos que se dizem pobres.
+
+Do _Livro dos registros_, ou _Copiador_ dos officios remettidos do gabinete
+do duque-regedor ás corregedorias, trasladamos o seguinte:
+
+
+«Para o corregedor do civel da côrte Francisco Xavier de Mattos Broa. Sua
+Magestade é servido ordenar que vm.^ce, em cumprimento do precatorio que
+lhe passou o desembargador Antonio de Sousa Bermudes de Torres, como juiz
+do inventario dos bens de Alexandre de Gusmão, faça logo remetter para o
+juizo do inventario para n'elle ser vendido um laço, fita de pescoço, e uns
+brincos de diamantes e rubins que se acham no deposito geral da côrte, a
+requerimento de Anna Maria do Vencimento, conservando-se no preço d'estas
+joias a mesma hypotheca e direito que esta credora tem pela penhora que
+n'elles fez. Deus Guarde a vm.^ce Paço 13 de maio de 1755.»
+
+
+Segue-se, com data do dia anterior, outro officio ao mesmo proposito:
+
+
+«Para Amador Antonio de Sousa Bermudes de Torres. Sua Magestade deferindo
+ao requerimento que lhe fez Miguel de Avilez Carneiro foi servido ordenar
+que o corregedor do civel da côrte remettesse ao juizo do inventario dos
+bens de Alexandre de Gusmão as joias que se acham no deposito da côrte, com
+penhora feita por Anna Maria do Vencimento. É o mesmo senhor servido que
+vm.^ce as faça vender em o leilão que se está fazendo dos ditos bens, com a
+declaração, porém, que o procedido das ditas joias se não confundirá com o
+preço dos outros bens, ficando no valor d'estes conservada a penhora e
+hypotheca especial que n'ellas tinha a credora, para se lhe reservar n'esta
+parte o direito que tiver para a preferencia. Deus Guarde a vm.^ce Paço 12
+de maio de 1755.»
+
+
+Os descendentes d'esta snr.^a Anna Maria, se a sorte lhes bafejou mais
+propicia que ao ministro de D. João V, devem estar hoje de posse das joias
+de Alexandre de Gusmão. Regosijem-se.
+
+Quaes seriam os outros bens leiloados? Uma quinta já eu descobri folheando
+um grosso volume manuscripto, intitulado: _Tombo das herdades de Nossa
+Senhora da Ajuda, de Val de Figueira, e da Atalaia, sitas no termo da villa
+de Cabrella, que são do ill.^mo e exc.^mo conde de Oeiras, feito por ordem
+de S. M. que Deus guarde. Anno de 1763._
+
+Vejam que cousas eu folheio no intervallo de dous capitulos de romance em
+que ha meninas louras e mancebos de pupilla ardente a dialogarem á
+competencia com a calhandra portugueza e o sabiá brazileiro!
+
+Pois d'este tombo a pag. 46 v. consta que uma herdade do valido de D. José
+partia _com a quinta que foi de Alexandre de Gusmão em Val de Figueira_.
+
+Quem possue hoje a quinta do privado de D. João V?
+
+Não me recordo onde li que elle tivera boa quinta de recreio no valle de
+Alcantara, e era convisinha de outra que pertencera ao grande escriptor D.
+Francisco Manoel de Mello, que lá se finou, mais pobre que Alexandre de
+Gusmão, um victima da libertinagem de D. João IV, outro victima da
+ingratidão de D. João V e de seu augusto filho.
+
+Este ministro, irmão do padre Bartholomeu de Gusmão, alcunhado o _Voador_,
+foi sempre malquisto dos frades que perseguiram como necromante o inventor
+dos balões. Tres homens affectos a D. João V foram grandemente satyrisados
+n'aquelle tempo: o marquez de Gouvêa, D. Martinho Mascarenhas, pai do que
+depois foi duque de Aveiro, e morreu no patibulo como regicida; frei Gaspar
+Moscoso, ou da Encarnação, da mesma familia, e Alexandre de Gusmão.
+
+Eis aqui um _specimen_ das satyras:
+
+/*
+ _Quem destruir-nos idéa?--Gouvêa._
+ _Quem merece a Inquisição?--Gusmão._
+ _Quem o deve acompanhar?--Gaspar._
+ _Pois, meu rei, acautelar!_
+ _Olho aberto, e vêde bem,_
+ _Que no reino não convém._
+ _Gouvêa, Gusmão, Gaspar._
+*/
+
+
+
+
+O ORACULO DO MARQUEZ DE POMBAL
+
+
+Costumavam os nossos avós queimar os judeus--(não assevero que os avós de
+quem isto escreve não fossem tambem queimados). Se os não colhiam ás mãos,
+confiscavam-lhes os bens. Mas, dado caso que os judeus fugitivos enviassem
+lá do exilio aos reis ou aos ministros bons alvitres da arte de governar,
+aceitavam-lhes o favor e praticavam o seu parecer; mas não lhes concediam
+voltarem ao reino, sem a condição de se deixarem torrar. Isto aconteceu
+nomeadamente com o famoso Antonio Nunes Ribeiro Sanches, medico portuguez,
+nascido em Penamacor em 1699, e fallecido em Paris, por 1783. Vivendo 84
+annos, grande parte dos quaes curtiu nos invernos da Russia, não precisa
+exhibir melhores certidões de bom medico. Se se deixa ficar na patria,
+havia de custar-lhe a resistir á temperatura alta que os frades dominicanos
+faziam no campo da Lã em obsequio á hygiene da alma.
+
+Antonio Nunes Ribeiro Sanches, conselheiro de estado da imperatriz da
+Russia, correspondia-se com os estadistas portuguezes, christãos velhos. O
+marquez de Pombal, ou não quiz, ou apesar da sua omnipotencia, não logrou
+assegurar repouso na patria ao seu douto oraculo, em paga dos conselhos e
+projectos de boa administração que o neto de hebreus lhe suggeriu de Paris,
+e o valido ingrato aproveitou, occultando-lhes a procedencia. A creação do
+_collegio dos nobres_, por carta de lei de 7 de março de 1761, havia sido
+aconselhada por carta de Ribeiro Sanches, datada em Paris, em 19 de
+novembro de 1759.
+
+Possuo esta carta autographa. Contém 129 paginas em 4.º maior. Não sei se
+um rarissimo livro intitulado _Cartas sobre a educação da mocidade_,
+impresso em Colonia em 1760, é o traslado d'este manuscripto. Não vi ainda
+exemplar algum. Entre as obras ineditas do illustre medico, nomeadas na
+biographia que Vicq-d'Azir lhe escreveu e Francisco Manoel do Nascimento
+traduziu, ha uma intitulada: _Plano para a educação de um fidalgo moço._ O
+manuscripto, de qualquer modo precioso, que possuo, deve ser o original de
+alguma das duas obras.
+
+Dous escriptores portuguezes de subida reputação, ambos ministros de estado
+honorarios, os snrs. José Silvestre Ribeiro e D. Antonio da Costa,
+enriqueceram recentemente a litteratura patria, com os seus livros
+intitulados _Historia da instrucção popular em Portugal desde a fundação da
+monarchia até aos nossos dias_, e _Historia dos estabelecimentos
+scientificos, litterarios e artisticos de Portugal nos successivos reinados
+da monarchia_. Os doutissimos authores, com certeza, aproveitariam optimos
+subsidios da leitura do raro livro de Ribeiro Sanches, se o manuscripto,
+que tenho, é o rascunho do livro impresso em Colonia, cuja raridade o snr.
+Innocencio F. da Silva encarece. O senhor conselheiro José Silvestre
+Ribeiro, quando louva o progresso das letras e artes no reinado de D. José
+I, recordaria com menção gloriosa o nome obscurecido do medico portuguez, e
+daria ao marquez de Pombal a parte mediana que lhe cabe no alvidramento da
+reforma da universidade, do collegio dos nobres, nas escólas militares, e
+no mais, respeitante aos beneficios que a historia lhe desconta na
+ferocissima condição.
+
+Ribeiro Sanches, antes de indicar o methodo proficuo na educação dos
+fidalgos, discorre ácerca da educação antiga, e chegando ao meado do seculo
+XVI, escreve:
+
+
+«.... Vimos acima que, desde o anno 1500 até o anno de 1570, existiu o
+maior luxo que jámais viu Portugal. El-rei D. Manoel introduziu-o na côrte,
+e foi o primeiro que se vestiu umas vezes á franceza, outras á flamenga[7].
+Como não teve guerra na Europa, nem seu filho, nem seu bisneto el-rei D.
+Sebastião, com as riquezas do Oriente cahiu a fidalguia no maior luxo, e
+por consequencia n'aquelle total esquecimento da boa educação que tinha ou
+na paço dos reis antigos ou em casa de seus paes. No tempo d'el-rei D.
+Pedro, _o Justiceiro_, tanto que se sabia no paço que tinha nascido algum
+filho de fidalgo, mandava logo el-rei a sua casa a provisão da moradia ou
+fôro que deixava em poder da mãi ou da ama que creava o menino, e n'estes
+tempos se chamavam os reis paes de seus vassallos. Depois, crescendo o
+numero, se ordenou que sómente se usasse d'esta graça com o primogenito, e
+d'esta resolução veio a descahir aquelle amor da patria, porque faltou a
+boa educação que tinham no paço todos os filhos de fidalgos com moradia.
+
+ «Era já de quasi 80 annos quando o imperador da Ethiopia mandou a
+Lisboa um embaixador com grandes presentes para el-rei D. Manoel procurando
+sua amizade e propondo reciprocos interesses; e, querendo el-rei
+corresponder-lhe, entrou na consideração de quem seria a pessoa que lá
+mandasse por embaixador. Succedeu depois, estando el-rei em Evora, mandar
+fazer um gibão de uma fazenda rara que lhe chegára da India; e, no dia em
+que o vestiu, sahiu a uma sala em que estavam varios fidalgos, a cada um
+foi mostrando o gibão, que todos gabavam por comprazer a el-rei; e, como
+fosse um d'elles Duarte Galvão, só este o não lisongeou, dizendo-lhe que os
+reis de Portugal seus antecessores cuidavam menos em atavios do que em
+cumprirem com os encargos que Deus impunha aos reis. Seria melhor que não
+fallasse assim para seu descanço, porque isto decidiu a eleição do
+embaixador que havia de ir á Ethiopia; e logo el-rei, com palavrosos termos
+de honra e conceito, nomeou o pobre ancião; mas assentando que morreria no
+caminho como succedeu na altura da ilha do Camarão em 9 de junho de 1517.»
+
+«No tempo d'el-rei D. João II lhe representaram em côrtes que ordenasse se
+creassem os fidalgos no paço como era costume antigamente: signal certo que
+se educava alli a primeira mocidade do reino. Já dissemos acima que a
+educação da nobreza toda se reduzia a fazer o corpo robusto, e fortissimo,
+o animo ousado, e destemido; além d'aquelle agrado que reinava no
+galanteio, e serviço das senhoras, não deixavam de instruir o animo com
+aquelles poucos conhecimentos scientificos que se conheciam: sómente na
+familia do infante D. Henrique foi esta educação mais consideravel, porque
+sahiram muitos do paço d'aquelle famoso principe excellentemente instruidos
+nas mathematicas e boas letras, como foi o grande Albuquerque, e D. João de
+Castro.»
+
+
+Discorre o medico ácerca das causas que abastardaram a educação dos
+fidalgos:
+
+
+«Mas tanto que os reis tiveram mais que dar que as terras da corôa; tanto
+que tiveram commendas, governos, e cargos lucrativos, tanto nas conquistas,
+como no reino, logo os fidalgos começaram a cercar os reis, e ficarem na
+côrte; porque pela adulação, pelo agrado, e pelas artes dos cortezãos
+sabiam ganhar as vontades dos reis, não tendo aquellas occasiões forçosas
+de obrarem acções illustres para serem premiados por ellas. Isto vêmos
+succedeu no tempo d'el-rei D. Duarte, quando ordenou que todo o fidalgo que
+não tivesse cargo na côrte que fosse a viver nas suas terras.
+
+«Logo que todos os fidalgos fizeram a sua assistencia na côrte no tempo da
+paz, logo que seus filhos eram educados em suas casas, já ricas, e
+poderosas pelas dadivas dos reis em commendas, pensões, governos e cargos,
+necessariamente se havia de seguir uma educação estragada; a meninice
+entregue na mão das amas, e de mulheres communs; a puericia entre as mãos
+dos criados, e dos escravos; até o tempo d'el-rei D. Sebastião poucos
+sabiam mais que lêr e escrever; porque já a escóla do infante D. Henrique
+estava acabada; e toda a educação se reduzia a saber os mysterios da fé,
+porque os seus mestres sendo ecclesiasticos e ignorantes da obrigação de
+subdito, de filho, e de marido, chegavam á idade da adolescencia com o
+animo depravado: sem humanidade, porque não conheciam igual; sem
+subordinação, porque eram educados por escravas, e escravos, ficava aquelle
+animo possuido da soberba, e vangloria, sem conhecimento da vida civil, nem
+com a minima idéa do bem commum. Assim degenerou aquella educação do paço,
+na qual pelo menos aprendiam a obedecer, na mais insolente tyrannia de
+todos aquelles com quem tratavam.»
+
+
+E, vindo ao ponto da reforma urgente na educação da nobreza, escreve:
+
+
+«Parece-me que vistos os notaveis inconvenientes da educação domestica, e
+das escolas ordinarias, que não fica outro modo para educar a nobreza, e a
+fidalgia do que aprender em sociedade, ou em collegios: e como não é cousa
+nova hoje em Europa esta sorte de ensino, com o titulo de _corpo de
+cadetes_, ou escóla militar, ou _collegio dos nobres_, atrevo-me a propôr á
+minha patria esta sorte de collegios, não sómente pela summa utilidade que
+tirará d'esta educação a nobreza, mas sobre tudo, o estado, e todo o povo.»
+
+
+Ahi está o aviso do christão novo, seguido, e executado dous annos depois,
+quanto á fundação do _collegio dos nobres_.
+
+Depois, indica o doutor Ribeiro Sanches as sciencias que devem ensinar-se
+já no collegio, já nas aulas militares. Todas entraram na organisação dos
+estatutos.
+
+Em um §. intitulado: _Em que idade deveriam entrar os educandos na escóla
+real militar_, divaga o insigne medico por considerações a respeito das
+mães. Transcrevo o que me parece digno de ser lido por ellas:
+
+
+«Tanto que as riquezas da Africa e do Oriente entraram em Portugal, logo
+começou a mostrar-se o luxo nos vestidos, comidas, e mais commodidades
+estrangeiras; começou a esfriar-se o amor das familias, e por ultimo da
+patria. El-rei D. João III foi o ultimo rei que foi creado com ama nobre, e
+já seus filhos, nem seu neto el-rei D. Sebastião, tiveram amas, mais que da
+classe plebêa; indicio certo que as senhoras não creavam já seus filhos,
+como nos tempos anteriores: introduziu-se este destructivo costume da raça
+humana, do amor filial, e dos bons costumes; e apesar de tanto sermão,
+missões, e praticas espirituaes, nenhuma senhora quer sacrificar a sua
+formosura. Seria loucura persuadir o que ninguem quer abraçar.
+
+«Tem para si estas mães, que não criam, que conservarão por mais tempo a
+formosura, e que dilatarão a vida com mais vigor e forças, e que perderiam
+a sua boa constituição creando por dezoito mezes ou dous annos. Mas é
+engano manifesto, e o contrario se sabe pela experiencia, e pela boa
+physica.
+
+«A mulher que deu á luz um filho, e que não o cria, em pouco tempo vem a
+conceber de novo: a gravidez de nove mezes é uma enfermidade, que
+enfraquece mais o corpo, do que crear aos peitos por anno e meio: e como
+concebem antes que as partes da geração adquirissem pelo repouso a sua
+natural consistencia, succede, que estas senhoras abortam mais
+frequentemente: enfermidade tão consideravel, que muitas ou perdem a vida,
+ou ficam achacadas; perdendo em poucos annos o idolo da sua belleza,
+ficando frustradas do seu intento, e expostas a viverem por toda a vida com
+mil desgostos, e pezares.»
+
+.........................................
+
+«Até agora os damnos que soffrem as mães. Mas os mais consideraveis e
+lamentaveis são aquelles que se imprimem no animo das crianças creadas por
+amas. Se fôramos nascidos para viver nos desertos da Africa, ou nos bosques
+da America, pouco importava que as amas imprimissem no nosso animo aquellas
+idéas de terror de feitiços, de feiticeiras, de duendes, de crueldade, e de
+vingança; mas somos nascidos em sociedade civil, e christã; aquellas idéas
+que nos dão as amas são destructivas de tudo o que devemos crêr, e obrar:
+ficam aquellas crianças expostas ao ensino de mulheres ignorantes,
+supersticiosas; são os primeiros mestres da lingua, dos desejos, dos
+appetites, e das paixões depravadas: chegou o menino a fallar, já está
+cercado de duas ou tres mulheres mais ignorantes, mais supersticiosas do
+que a ama; porque estas são mais velhas, e sabem mais para destruir aquella
+primeira intelligencia do menino: chega á idade de caminhar, já tem seu
+mocinho, ordinariamente escravo, e como foram pelas mães creados por taes
+amas, e velhas, são os terceiros mestres até á idade de seis ou sete annos:
+e se o mau exemplo do pai e da mãi põem o sello a esta educação, fica o
+menino embebido n'estes detestaveis principios, que mui difficilmente os
+melhores mestres podem arrancar aquelles vicios pelo discurso da idade
+pueril.
+
+«Será impossivel introduzir-se a boa educação na fidalguia portugueza em
+quanto não houver um collegio, ou recolhimento, quero dizer, uma escóla com
+clausura para se educarem alli as meninas fidalgas desde a mais tenra
+idade: porque por ultimo as mães, e o sexo feminino são os primeiros
+mestres do nosso; todas as primeiras idéas que temos provém da creação que
+temos das mães, amas, e aias; e se estas forem bem educadas nos
+conhecimentos da verdadeira religião, da vida civil, e das nossas
+obrigações, reduzindo todo o ensino d'estas meninas fidalgas á geographia,
+á historia sagrada, e profana, e ao trabalho de mãos senhoril, que se
+emprega no risco, no bordar, pintar, e estofar, não perderiam tanto tempo
+em lêr novellas amorosas, versos, que nem todos são sagrados, e em outros
+passatempos onde o animo não só se dissipa, mas ás vezes se corrompe; mas o
+peor d'esta vida assim empregada é que se communica aos filhos, aos irmãos
+e aos maridos. D'aqui vem, que sendo da mesma nação, da mesma familia, e da
+mesma casa, estão introduzidas duas sortes de lingua, ou modos de fallar: a
+conversação que se deve ter com as senhoras, não ha de ser sobre materia
+grave, séria; estas conversações judiciosas ficam reservadas para algum
+velho, ou para algum notado de extravagante: e assim succede que ficam as
+senhoras por toda a vida (ordinariamente) meninas no modo de pensar, e com
+tão miseraveis principios vem ellas as suas amas, as suas aias, e donas a
+serem os mestres d'aquelles destinados a servir os reis.
+
+«Não me accuse v. ill.^ma que sahi fóra do intento que lhe prometti: achei
+que tratar da educação que deviam ter as meninas nobres e fidalgas merecia
+a maior attenção, porque por ultimo vem a ser os primeiros mestres de seus
+filhos, irmãos, e maridos. V. ill.^ma sabe muito melhor do que eu aquelles
+monumentos que temos na historia romana, e tambem na nossa, de tantas mães
+que por crearem, e ensinarem seus filhos foram as que salvaram a patria, e
+a illustraram: houve em Roma muitas Cornelias, como em Portugal muitas
+Philippas de Vilhena. Mas n'aquelle tempo ainda o luxo, ou a dissolução não
+se tinha apoderado do animo portuguez, porque as riquezas não eram tão
+appetecidas. A connexão que tem a educação da mocidade nobre que prometti a
+v. ill.^ma me obriga a ponderar, se não seria mais util para a conservação
+e augmento da religião catholica transformarem-se tantos conventos de
+freiras, e das ordens, principalmente militares sem exercicio algum da sua
+destinação, n'estes estabelecimentos que proponho, tanto para a mocidade
+nobre masculina, como feminina? Com o exemplo das educandas, ou _Filles de
+St.-Cyr_, fundação perto de Versailles, e com o da escóla real militar, se
+poderiam fundar no reino outros ainda mais vantajosos para a mesma nobreza,
+e para a conservação e augmento da religião e do reino. Mas espero ainda
+vêr nos meus dias estabelecimentos semelhantes em tudo, ou em parte que
+satisfaçam todo o meu desejo.»
+
+
+Eu tinha vontade de prolongar o traslado; mas a leitora que é mãi, joven e
+formosa, desdenha os conselhos do medico; a que não é mãi, de certo não
+percebeu as theorias physiologicas em que se fundamentam as censuras; e o
+leitor que de certo leu á esposa as paginas impregnadas de maternidade,
+n'aquelle tom circumspecto de nossos avós patriarchaes, dorme...
+patriarchalmente.
+
+Boa noite.
+
+ [7] Diogo de Paiva de Andrade, o sobrinho, confirma nas soas _Memorias_
+ ineditas, esta passagem com a seguinte anecdota: «Duarte Galvão, um dos
+ benemeritos varões do seu tempo, foi secretario d'el-rei D. João II, e
+ por elle e seu successor el-rei D. Manoel mandado muitas vezes por
+ embaixador a differentes côrtes da Europa. Encarregado pelo emprego de
+ chronista-mór de ordenar as chronicas dos reis d'este reino, escreveu
+ nove desde D. Affonso Henriques até el-rei D. Fernando, servindo em
+ toda a sua vida com muita aceitação dos seus principes os empregos que
+ lhe confiaram.
+
+
+
+
+O PRINCIPE PERFEITO
+
+
+O snr. Pinheiro Chagas, na sua estimadissima _Historia de Portugal_, tomo
+III, pag. 155, relatando vigorosamente a ferocidade de D. João II, escreve:
+
+
+«Estamos bem longe d'applaudir, com Ruy de Pina e Garcia de Rezende, estas
+ferocissimas repressões, mas tambem não podemos concordar com o snr.
+Camillo Castello Branco, que escreve o seguinte a respeito d'el-rei D. João
+II:
+
+«O real carrasco, a quem infamissimos aduladores da corôa chamaram
+_principe perfeito_, surge hediondo diante da posteridade, alçando-se por
+sobre a nuvem dos incensos, com que thuribularios abjectos cuidavam
+escondel-o á execração dos vindouros. Raro ha quem se canse em esgaravatar
+razões d'estado, que contrapesem a ferocidade do filho d'Affonso V. A
+historia, á volta d'elle, o que encontra é cadaveres, oitenta cadaveres de
+homens illustres, uns estrangulados, outros decapitados, estes mortos a
+punhal, aquelles a peçonha. _Oitenta_, confessou elle o numero, quando a
+morte lhe acenava de perto, e se lhe desabafava a consciencia, supplicando
+ao papa contritamente o perdão dos seus peccados.
+
+«Os lances capitaes de tão má alma contou-os a historia á tragedia. O
+theatro portuguez já se enlutou com os quadros de canibalismo, trazidos á
+rampa e ao grande brilho dos lustres, para que o povo visse justificada a
+razão que teve a villanagem dos chronistas d'alligarem ao assassino do
+duque de Vizeu o antonomastico epitheto de _principe perfeito_.»
+
+«O illustre escriptor é demasiadamente severo com o grande rei a quem
+Portugal deve tanto. Que a energia de D. João II degenerava em ferocidade,
+é incontestavel, e não pretendemos absolvel-o dos crimes que pesam sobre a
+sua memoria. Mas qual dos grandes homens, que figuram na historia, se
+apresenta immaculado no tribunal da posteridade? No assassinio do duque de
+Vizeu achamos, devemos confessal-o, em attenção aos costumes da época, D.
+João II, menos hediondo do que no caso do duque de Bragança. É uma luta a
+todo a transe entre D. João II e a nobreza, e el-rei, que teve por tantas
+vezes a morte diante dos olhos e que sempre a affrontou sem empallidecer,
+pôde, quando se lhe offereceu ensejo, antecipar-se aos seus adversarios, e
+voltar contra elles o punhal com que o ameaçavam. O duque de Vizeu foi
+ferido pela catastrophe que trazia pendente sobre a cabeça do seu
+adversario; foi vencido na batalha. Se D. João II abusou da victoria, e não
+soube, como nunca soubera, perdoar, culpemos d'isso a imperfeição humana.
+Perdoar! Parece que no mundo só Christo soube cumprir essa maxima sublime,
+que debalde prégou na sua santa doutrina. A civilisação, abrandando os
+costumes e modificando as paixões, tem introduzido felizmente, no espirito
+do homem, o horror do sangue derramado, mas, nos fins do seculo XV, ainda a
+vida das creaturas da nossa especie estava longe de ter o caracter
+inviolavel que hoje possue. Por tanto D. João II, aceitando de rosto
+descoberto a batalha, e vibrando o punhal como vibraria a espada, tem uma
+certa grandeza selvagem, que não desculpa mas attenua o crime.»
+
+
+Até aqui o destro escriptor. Agora, a historia que os reis e as camarilhas
+não deixavam estampar.
+
+O punhal que D. João II vibrou ao peito do duque de Vizeu foi acto cobarde
+que não póde ser attenuado por grandeza selvagem. O rei apunhalava o
+adversario em quanto os braços possantes de um valente alcaide prendiam
+pelas costas a victima desarmada.
+
+Nas _Memorias_ ineditas de Diogo de Paiva e Andrade, author do _Casamento
+perfeito_, faz-se menção do conflicto, e encarece-se a bravura do
+coadjuctor de D. João II com uma anecdota bastante significativa da coragem
+do fidalgo e da cobardia do rei.
+
+Diz assim:
+
+
+«D. Pedro de Eça, alcaide-mór de Moura, foi um fidalgo a quem a natureza
+dotou de muito animo e grandes forças, e por isto el-rei D. João II o
+escolheu, quando quiz matar a D. Diogo, duque de Vizeu, a quem abraçou por
+detraz. Acontecendo em Moura matarem um homem uns criados seus, foram-se
+dous irmãos do morto queixarem a el-rei e disseram-lhe que D. Pedro lh'o
+mandára; pelo que o mandou vir á côrte, e esteve n'ella mais de dous annos,
+posto que, tirada a devassa, o não acharam culpado. Enfadado D. Pedro disse
+a el-rei que, pois sua alteza não queria crêr que elle não tinha culpa na
+morte do homem, e os que o accusavam eram dous, que lhe fizesse mercê de
+lhe mandar dar campo com ambos para assim se purificar; do que,
+agastando-se el-rei, lhe disse que tomára elle ser um dos dous. E D. Pedro
+lhe respondeu: «não fôra vossa alteza meu rei, e fosse com elles o
+terceiro.»
+
+
+Não temos o desvanecimento de sobre-excitar contra D. João II o animo do
+nosso talentoso amigo; todavia, insinuamos-lhe a suspeita de que o homem
+não era capaz de matar outro sem lh'o agarrarem pelas costas, tendo ainda
+por cautela mais dous bravos que se chamavam Diogo de Azambuja e Lopo
+Mendes do Rio.
+
+
+
+
+AVE RARA
+
+
+O poeta satyrico Antonio Lobo de Carvalho, fallecido em Lisboa aos 26 de
+outubro de 1787, nasceu em Guimarães, não se sabe precisamente quando. Era
+filho illegitimo de fidalgo, e tinha em Villa Real parentes maternos que o
+educaram nas letras, consoante os frades da terra podiam ministrar-lh'as. O
+bom que os frades tinham não o aprendeu o rapaz. Era poeta de lingua
+farpada, da escóla de Gregorio de Mattos Guerra, o maior e mais sujo
+talento que deram as plagas de Santa Cruz, desde a cidade de Jequitinhonha
+até á cidade de Pindamonhamgaba.
+
+Os cavalheiros villa-realenses andavam mordidos pelas vespas das suas
+trovas. Lobo não perdia lanço de os satyrisar.
+
+Em uma procissão de Corpus-Christi, o senado da terra ordenou que S. Jorge
+fosse em andor e não em cavallo. A razão d'este descavalgamento não é bem
+liquida. Ha muitos mysterios que nunca se hão de dilucidar, mormente em
+cousas de cavalgaduras.
+
+N'essa occasião, Antonio Lobo de Carvalho escreveu e divulgou o seguinte
+soneto:
+
+ _Patria de valentões, paiz guerreiro,_
+ _Só tu, Villa Real! comtigo fallo!_
+ _Vão Panças e Roldões jogar o talo,_
+ _Ou vão na tua escóla andar primeiro._
+
+ _Quem ha que os teus aguente no terreiro,_
+ _Se até S. Jorge foram desmontal-o!_
+ _Pois, indo nas mais terras a cavallo,_
+ _N'esta é capucho o santo cavalleiro!_
+
+ _Nos triumphos de Baccho a villa armada_
+ _Uns com brancos arnezes, outros tintos,_
+ _As meretrizes levam de assaltada._
+
+ _Fez-lhe o entrudo os broqueis, compoz-lhe os cintos,_
+ _E soltou um pendão co'esta fachada:_
+ _«Todos são pobretões; mas mui distinctos.»_
+
+Os fidalgos da villa dilecta d'el-rei D. Diniz,--que eram muitos, a julgar
+pelos brazões musgosos em que as andorinhas dormem de verão e as corujas
+assobiam de inverno--assanharam-se contra o poeta, fazendo-se representar
+no desforço pelos seus moxillas.
+
+Espancado e fugitivo, foi parar a Lisboa Antonio Lobo, onde conhecia um tal
+Anacleto, que mais tarde foi juiz de fóra em Angeja.
+
+A mãi do poeta era remediada de bens da fortuna, e quanto tinha quanto deu
+ao estouvanado filho, que nunca procurou modo de vida, nem bajulou os
+grandes, á imitação dos vates do seu tempo.
+
+O duque de Cadaval, D. Miguel, ouvindo recitar versos de Antonio Lobo,
+disse aos seus criados que lh'o levassem ao palacio... para se divertir. Um
+lacaio de s. exc.^a procurou o poeta e deu conta do recado. Lobo mandou-o
+esperar, improvisou um soneto, e remetteu-o ao duque. É o mais galhardo
+feito de poeta do seculo XVIII. Dizia assim:
+
+ _Se eu fôra, excelso duque, homem perito,_
+ _Capinha, ferrador, cabelleireiro,_
+ _De cães decurião ou cozinheiro,_
+ _Em sopas mestre, em massas erudito:_
+
+ _Se em letra antiga visse o que anda escripto_
+ _Do vosso grande avô, João Primeiro,_
+ _Que o gothico mostrasse ao mau caseiro;_
+ _Que o tombo velho nunca está prescripto._
+
+ _N'este caso, senhor, a vossa graça_
+ _Mais quizera alcançar, que ter mil burras,_
+ _Do metal louro que se ri da traça._
+
+ _Mas como a sorte me tem dado surras,_
+ _Não vou servir-vos só por não ter praça_
+ _No livro mestre dos santões caturras._
+
+Antonio Lobo indispoz-se em Lisboa com fidalgos e frades. A mezada que a
+mãi lhe enviava permittia-lhe dispensar-se das sympathias de clero e
+nobreza. Foi muito soado e mordido um soneto que elle dardejou contra um
+frade leigo, dado a libações de certa taverna. Era d'esta laia o poema:
+
+ _Borracha de estamenha, ôdre sarrento,_
+ _Mil parabens te dou ao novo estado;_
+ _Pois de estupido leigo a um jubilado_
+ _Lente de rolhas vaes em largo vento._
+
+ _Se ha longos annos mettes fogo lento_
+ _N'essa pança que é mãi de vinho aguado,_
+ _Frei Bourdeaux será hoje o teu prelado,_
+ _A adega d'esta casa o teu convento._
+
+ _Bebe, esponja claustral, té que a fumaça_
+ _Das vasilhas de França encha as pichorras_
+ _De umas bebadas tripas de outra raça;_
+
+ _E, antes que os limos dos toneis escorras,_
+ _Fuja o do Carmo, fuja o Leão da Graça,_
+ _Que hoje o que reina é o Leão dos Borras._
+
+Ao odio do clero e nobreza, ajuntou o poeta o odio do povo representado nas
+pessoas dos capellistas, acirrados por estes versos:
+
+ _Um rapaz a gritar como um cabrito_
+ _Com saudades da mãi sobre o vallado,_
+ _Que entre duas canastras vem deitado,_
+ _Em burro de almocreve, ancioso e afflicto;_
+
+ _Com rosario ao pescoço mui bonito,_
+ _Descalço, de barrete e de cajado,_
+ _C'um sacco á cinta, onde traz (coitado!)_
+ _A sua côdda, o seu bacalhau frito._
+
+ _Posto a pé este misero mamote_
+ _Ora cahe, ora treme, ora encordôa,_
+ _Um lhe prega um sopapo, outro um calote._
+
+ _Pois esta figurinha ou má ou boa_
+ _Faz qualquer capellista franchinote_
+ _Quando vem do sertão para Lisboa._
+
+N'esta vida de odios e irritações, viveu Antonio Lobo de Carvalho até aos
+cincoenta annos. Se nos merecesse credito o que João Bernardo da Rocha
+escreveu no _Portuguez_, tom. X, pag. 356, o atrevido vate haveria sido
+aleivosamente assassinado por ordem de um tio do marquez de Olhão, a quem o
+maldizente frechára com um soneto que abria assim:
+
+ _Ferrabras, Satanaz, Fernão Zarolho,_
+ _Cruel harpia das que o inferno encerra..._
+
+Mas o snr. Innocencio Francisco da Silva, posto que não decida qual haja
+sido a morte do poeta, com justificados motivos desabona a affirmativa de
+João Bernardo da Rocha.
+
+Eu tambem não sei. Ando n'essas pesquizas; e receio ir dar com elle no
+hospital, expirando envolto em gloria... de cataplasmas de linhaça.
+
+
+
+
+VERGONHAS NACIONAES
+
+
+É notorio que o capitão Vicente Lunardi, natural de Luca, e empregado na
+embaixada napolitana em Londres, effectuou em Lisboa, na tarde de 24 de
+agosto de 1794, uma viagem aerea.
+
+Mas ainda ninguem disse que o aeronauta, antes da ascensão, esteve preso á
+ordem do intendente geral da policia Diogo Ignacio de Pina Manique, pelo
+motivo de vir com tal novidade a Lisboa, onde a inquisição, por causa
+identica, desejára queimar o padre Bartholomeu de Gusmão.
+
+Os documentos que sobrevivem a tamanho opprobio são autographos,
+authenticados pela assignatura do famigerado intendente.
+
+Lunardi chegou a Lisboa em fins de maio de 1794. N'esse mesmo anno, em
+janeiro, tinha elle em Madrid subido no seu balão, que desceu na provincia
+da Mancha, onde os camponezes o receberam tão benignamente que o levaram em
+triumpho á igreja parochial da villa de Orcajo.
+
+Cuidou elle que a familia real portugueza o recebesse com igual agrado ao
+da côrte hespanhola.
+
+Logo que chegou a Lisboa, foi intimado a comparecer na corregedoria do
+bairro, e obrigado a assignar termo de não subir ao ar, sem que a machina
+fosse examinada por peritos. Este exame levava em vista satisfazer as
+suspeitas do publico, receoso de artes diabolicas.
+
+Assignou Lunardi o termo, e entendeu que dava plena satisfação ás
+authoridades e ao publico, expondo o balão com todos os seus aprestos. E,
+para isso, construiu uma barraca na praça do Commercio, e grudou nas
+esquinas das ruas mais concorridas um cartaz em que minudenciosamente
+explicava o balão exposto, e os mais instrumentos necessarios ás viagens
+aereas. (Veja o _Panorama_, tom. VIII, pag. 15).
+
+Apenas o estirado cartaz appareceu, o intendente geral da policia, officiou
+ao desembargador Luiz Dias Pereira, corregedor do bairro dos Romulares, no
+theor seguinte, e textual orthographia:
+
+
+«Vm.^ce logo mandará hir seguro á sua presença Vicente Leonardi, Author da
+Maquina Aereostatica, e na presença de um dos escrivães dos Lugares, que
+vm.^ce está servindo, lhe perguntará, com que authoridade fixou os editaes,
+contra o que se havia determinado no termo que elle assignou perante vm.^ce
+por ordem d'esta intendencia; e não apresentando ordem por escripto,
+_emenada_ (sic) das Secretarias de Estado, ou do seu Real Gabinete, ou
+Gentil Homem da Camara ou _Garda_ (sic) Roupa do Dito senhor; vm.^ce o
+mandará prender, mandando-lhe abrir assento á minha ordem; e dar-me[8]
+parte do resultado d'esta diligencia acompanhando o Auto da declaração que
+o mesmo Vicente Leonardi fizer. Deus guarde a vm.^ce Lisboa 10 de junho de
+1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina Manique.==Snr. Dz.^or Luiz Dias Pereira._»
+
+
+Lunardi, conduzido pelos quadrilheiros ao corregedor, e interrogado, disse
+que, tendo assignado termo de não funccionar sem que o balão fosse
+examinado, cuidára dar a maxima prova de boa fé e sciencia estreme de
+sortilegio, exhibindo ao exame de toda a gente a sua machina.
+
+O corregedor achou-lhe razão. Não obstante, mandou-o esperar, em custodia,
+novas ordens da intendencia, em quanto elle officiava e a resposta vinha.
+
+Eis a resposta do Manique:
+
+
+«Vm.^ce executará sem exhitação, ou duvida alguma, a diligencia que lhe
+encarreguei em aviso da data de hontem a respeito do estrangeiro Leonardi,
+author da maquina aereostatica; pois me consta com toda a certeza não ter o
+mesmo Estrangeiro licença alguma de Sua Alteza Real o Principe Nosso Senhor
+para o referido fim: e vm.^ce me dará conta por escripto da execução da
+sobredita diligencia, na conformidade que lhe tinha ordenado. Deus guarde a
+vm.^ce Lisboa 11 de junho de 1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina Manique.==Snr.
+Dz.^or Luiz Dias Pereira._»
+
+
+Em vista d'isto, o aeronauta foi conduzido ao Limoeiro; e, n'esse mesmo
+dia, o intendente elogiava o corregedor n'estes termos:
+
+
+«Li a conta que vm.^ce me deu em que me participava a prisão do estrangeiro
+Leonardi, o que vm.^ce tem executado com todo o acerto; agora porém vm.^ce
+mandará arrancar todos os editaes, que o mesmo tinha afixado. Deus guarde a
+vm.^ce Lisboa 11 de junho de 1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina Manique.==Snr.
+Dz.^or Luiz Dias Pereira._»
+
+
+Não sei que tempo esteve o italiano em ferros; mas tenho plausiveis razões
+para presumir que o principe regente o mandou soltar, pois que, volvidos
+dous mezes, foi sua alteza que lhe deu licença para subir no balão.
+
+Aos ouvidos do intendente chegaram rumores sinistros. Segredava-se que
+algumas pessoas, influenciadas pelos frades de mais selvagem ignorancia e
+acrisolada religião, tencionavam despedaçar a machina e o aeronauta,
+suspeito de feiticeria. E, visto que sua alteza licenciára a subida do
+balão, cumpria a elle intendente obstar que os fanaticos insultassem o
+estrangeiro. No entanto, o sagaz magistrado, que tinha mais velhacaria que
+syntaxe, não queria indispôr-se com o povo intimidando-o com o poder
+armado, nem indispôr-se com o principe abandonando o aeronauta á ferocidade
+das turbas. Neste proposito, officiou assim ao corregedor na véspera da
+ascensão:
+
+
+«Vou a prevenir a vm.^ce que não deve levar official algum de capote ámanhã
+de tarde para hir assistir na Praça do Commercio, nem ainda mesmo os
+quadrilheiros, e aquelle que não tiver cazaca o dispense vm.^ce e lhe dê
+positiva ordem para não apparecer na mesma Praça do Commercio: o mesmo
+tambem ordenará vm.^ce aos Cabos geraes do seu Bairro para não haver alguma
+confuzão e obviar, que alguns malvados se queiram mascarar affectando serem
+officiaes, para levarem as armas a seu salvo.
+
+«Recomendo a vm.^ce a prudencia, procurando não comprometter a authoridade,
+e respeito da justiça, e só, no caso indispensavel que ameace consequencias
+é que deve vm.^ce ter o procedimento, pedindo auxilio da tropa para rebater
+qualquer insulto que se queira praticar: o modo nestas occasiões, e a
+polidez conduzem muito para se concluir o dia sem que seja preciso praticar
+procedimento algum, e sem que tambem se suscitem conflictos de jurisdicção.
+Tudo isto quer a prudencia, que recomendo a vm.^ce se pratique como sem
+hesitação espero; e outro sim que não separe de si os seus officiaes para
+que não vão fazer acção alguma que não seja por vm.^ce regulada. Deus
+guarde a vm.^ce Lisboa 23 de agosto de 1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina
+Manique.==Snr. Luiz Dias Pereira._»
+
+
+Na pagina em branco d'este officio, escreveu o corregedor: _Subiu no dia 24
+d'agosto na real praça do Commercio depois das quatro horas e meia da
+tarde. Eu o vi subir. Foi pelas oito horas e meia da noite cahir ás Vendas
+Novas, voando depois a Magaina(?) sem que elle a podesse segurar, a qual
+foi depois cahir a Veiros._
+
+Vicente Lunardi escreveu depois a sua _Viagem aerea_, impressa no mesmo mez
+e anno em Lisboa. Da sua escripta não transpira queixume dos portuguezes.
+Apenas estas expressões denotam uma alma nobremente magoada: _Os applausos,
+com que me tem honrado a nação portugueza, me fazem esquecer «as minhas
+passadas desgraças» e me obrigam a dar-lhe, em prova do meu reconhecimento,
+uma exacta narração de toda a minha viagem aerea_, etc. (Veja o _Panorama_,
+tom. VIII, pag. 21 e seg.)
+
+Estes «applausos» consistiram em uns endecasyllabos _anonymos_, publicados
+n'essa occasião. Quem quer que fosse, o author não teve a coragem de
+assignar os seus aleijados versos. Além d'isto, uma epistola do padre José
+Agostinho de Macedo a Stochler; e, sobre tudo o _elogio_ que lhe consagrou
+Bocage, em versos esplendidos, que podem aferir-se por esta estancia:
+
+ _Portentoso mortal, que á summa altura_
+ _Vaes no ethereo baixel subindo ousado;_
+ _Que illusão, que prestigio, que loucura_
+ _Te arrisca a fim tremendo e desastrado?_
+ _Teu espirito insano, ah! que procura_
+ _Pela estrada do Olympo alcantilado?_
+ _Não temes, despenhando-te dos ares,_
+ _Qual Icaro infeliz, dar nome aos mares?_
+
+Lunardi descrevendo os trabalhos que passou até embarcar em Aldeia Gallega,
+conclue assim a narrativa da sua viagem:
+
+
+«Embarquei finalmente ás quatro horas da manhã, e com uma feliz viagem;
+cheguei ás 7 horas da mesma manhã ao caes do Terreiro do Paço, onde achei
+um grande numero de pessoas que me esperavam, e no meio de vivas de alegria
+me conduziram á minha habitação.
+
+«Estes signaes de verdadeiro contentamento, e o concurso continuo de
+pessoas ainda das ordens mais respeitaveis, provam assás os sentimentos,
+que produziu a minha viagem aerea, que tanto é mais famosa, quanto mereceu
+os applausos de uma nação illustre, que pelo muito, que se empenha agora em
+honrar-me, tem adquirido incontrastaveis direitos ao meu reconhecimento, e
+eterna gratidão.
+
+«Esta a narração fiel da minha viagem, e dos seus successos: e posto que
+ella não contenha em si nada de extraordinario para os corações
+indifferentes, deve com tudo interessar as almas sensiveis, e compadecidas,
+que saberão estimar em seu justo valor as minhas fadigas, e os meus
+soffrimentos. Para estas pois é que eu escrevo, na certeza de que, se não
+lhes merecer os seus louvores, conseguirei ao menos a sua compaixão, e o
+seu affecto, que é toda a minha ambição e o unico objecto d'esta pequena
+descripção.--_Vicente Lunardi._»
+
+
+Seduzido pelas ovações, que alguns poetas e rapazes lhe fizeram no Terreiro
+do Paço, cuidou o aeronauta que lhe seria permittido renovar a ascensão, e
+auferir d'ahi recursos com que voltar a Inglaterra onde tinha o seu emprego
+na embaixada napolitana. Embalado pelas poesias de Bocage e Macedo, lhe
+sorria a esperança, quando na madrugada do dia 29 de agosto, cinco dias
+depois da primeira subida, o acordaram para lhe noticiarem que o seu
+barracão na praça do Commercio se derruia esphacelado pelos machados de
+quarenta carpinteiros, á ordem do corregedor.
+
+Aqui tem o leitor, como coronal d'este padrão de vergonha patria, o officio
+do intendente Manique ao corregedor que executou brutalmente a demolição da
+barraca em que Lunardi gastára os seus poucos recursos:
+
+
+«Vm.^ce logo mandará chamar o mestre carpinteiro Joaquim Pereira, que o foi
+da Praça construida para a machina aereostatica de ordem do capitão Vicente
+Leonardi, para dar logo principio a demoli-la e deita-la abaixo, não lhe
+admittindo subterfugio algum a este fim, e devendo amanhan sesta feira dar
+principio á demolição para o que lhe mandará embargar os carpinteiros de
+obra branca e de machado, que lhe forem necessarios: igualmente mandará
+vm.^ce notificar o dito capitão Vicente Leonardi para este mesmo fim. Deus
+guarde a vm.^ce Lisboa 28 de agosto de 1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina
+Manique.==Snr. Luiz Dias Pereira[9]._»
+
+
+Os frades e a estupidez tinham vencido.
+
+Não sei se lhe abriram subscripção ao pobre italiano para o livrarem de
+Portugal e das presas do Manique. O que sei é que os poucos, que o
+applaudiram, apenas podiam dar-lhe... versos.
+
+E, depois, a gente irrita-se quando os estrangeiros nos não enfileiram na
+vanguarda da civilisação!...
+
+ [8] Que grammatica a d'este afamado intendente geral!
+
+ [9] Estes documentos autographos podem vêr-se na livraria do insigne
+ bibliophilo, o snr. Innocencio Francisco da Silva, que me fez a honra
+ de os aceitar.
+
+
+
+
+RANCHO DA CARQUEJA
+
+
+São justas as reflexões do estudioso antiquario o snr. Joaquim Martins de
+Carvalho, redactor do _Conimbricense_.
+
+Agora direi os argumentos, bem que menos valiosos, em que eu assentava o
+meu erro.
+
+Em 1805 divulgou-se em Vizeu um poema ou pasquim, injuriando os
+magistrados. Houve devassa e um dos pronunciados foi o doutor Ferro, que
+viveu no Porto, e aqui falleceu ha vinte annos, deixando, como prova do seu
+mal empregado engenho, um notavel poema que diz respeito á invasão
+franceza.
+
+Em um volume de manuscriptos, tenho a celebrada satyra do Ferro, precedida
+da seguinte nota: _Este libello é dedicado á memoria do Estopa e Carqueja,
+dous heroes que tudo levavam a pau e espada em Vizeu, ahi pelos annos de
+mil setecentos e tantos, e de um d'esses valentões tomaram o cognome os
+estudantes de Coimbra chamados o Rancho do Carqueja._
+
+Isto não obstante, a correcção do snr. Martins de Carvalho deve antepor-se,
+visto que a sentença condemnatoria diz: «_Rancho que denominaram DA
+Carqueja, originando este nome de haverem queimado com ella uma porta,
+etc._»
+
+
+
+
+BOM HUMOR
+
+(AO NOTICIARISTA DA _ACTUALIDADE_)
+
+
+Chamar a D. João III _principe perfeito_ podia ser lapso, sem ser
+ignorancia; mas nem sequer foi lapso: foi proposito.
+
+Vá o noticiarista ao escriptorio da typographia, onde as _Noites de
+insomnia_ são impressas. Peça ao snr. Antonio José da Silva Teixeira,
+honrado proprietario da typographia, que lhe mostre a primeira prova do
+artigo intitulado D. JOÃO III, e encontrará _piedoso_, como estava no
+original, emendado para _principe perfeito_, como está no livro. Se quer
+saber por que motivo corrigi o que havia escripto em harmonia com a
+historia official, respondo-lhe que está no meu arbitrio alterar os
+cognomes que não derivam de razão justificada; e á luz da historia, tanto
+monta para mim a _perfeição_ de D. João II, o algoz, como a _piedade_ de D.
+João III, o fanatico. Uns historiadores chamaram ao filho de D. Manoel o
+_Pai da patria_; outros o _Filho da igreja_; outros, authorisados por Paulo
+III, o _Zelador da fé_. Eu chamei-lhe o _principe perfeito_, e cancellei na
+prova o titulo de _piedoso_, que lhe dera de camaradagem com o snr. Viale,
+por não querer manchar um adjectivo digno de S. Francisco Xavier ou de S.
+João de Deus.
+
+Além de quê: está rigosamente estatuido que sejam dogmas historicos a
+_perfeição_ e a _piedade_ do D. João II e D. João III? Poderemos, com
+juizo, associar-lhes taes epithetos, fóra de ironia? Ora assim como uns
+historiadores cognominaram D. João III com variados titulos, dá-me o
+noticiarista licença que eu chame _perfeito_ ao principe, e _sabio_ a sua
+senhoria? A patarata é a mesma.
+
+N'isto de acolchetar antonomasias, tanto aos reis como aos subditos, quero
+e peço que haja liberdade plena. Por exemplo: o redactor da noticia da
+_Actualidade_, conhecido entre os seus parceiros por um epitheto qualquer,
+está sujeito a que a posteridade lh'o altere ou inverta. Eu, por em quanto,
+circumscrevo os limites da minha phantasia a chamar-lhe tolo.
+
+
+
+
+DECLARAÇÃO
+
+
+Apesar de superfluo o meu testemunho, depois da asseveração do snr. Camillo
+Castello Branco, declaro que é verdade ter o mesmo snr. escripto no
+original: D. JOÃO III, _o piedoso_, e na prova que lhe enviei, e que
+conservo em meu poder, ter o author emendado: D. JOÃO III, o _principe
+perfeito_.
+
+Não obstante attentar na emenda feita, mandei, como devia, que o typographo
+a observasse.
+
+ _A. J. da Silva Teixeira._
+
+
+FIM DO 2.º NUMERO
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem
+não póde dormir. Nº2 (of 12), by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA ***
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+Produced by Pedro Saborano
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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