diff options
Diffstat (limited to '24464-8.txt')
| -rw-r--r-- | 24464-8.txt | 2633 |
1 files changed, 2633 insertions, 0 deletions
diff --git a/24464-8.txt b/24464-8.txt new file mode 100644 index 0000000..1c7fbaf --- /dev/null +++ b/24464-8.txt @@ -0,0 +1,2633 @@ +The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não +póde dormir. Nº2 (of 12), by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº2 (of 12) + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: January 31, 2008 [EBook #24464] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA + + +NOITES DE INSOMNIA + +OFFERECIDAS + +A QUEM NÃO PÓDE DORMIR + +POR + +Camillo Castello Branco + +PUBLICAÇÃO MENSAL + + +N.º 2--FEVEREIRO + + +LIVRARIA INTERNACIONAL + +DE + +ERNESTO CHARDRON + +96, Largo dos Clerigos, 98 + +PORTO + +EUGENIO CHARDRON + +4, Largo de S. Francisco, 4 + +BRAGA + +1874 + + +PORTO + +TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA + +62--Rua da Cancella Velha--62 + +1874 + + +BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA + + +NOITES DE INSOMNIA + + + + +SUMMARIO + +Aquella casa triste... (romance)--Solução do problema historico--Dous +preconceitos--Lisboa--Ferreira Rangel--As joias de im ministro de D. João +5.º no prego--O oraculo do marquez de Pombal--O principe perfeito--Ave +rara--Vergonhas nacionaes--Rancho da Carqueja--Bom humor (resposta ao +noticiarista da "Actualidade")--Declaração. + + + + +AQUELLA CASA TRISTE... + +(1872) + + +I + +A casa grande das quinze janellas branqueja no espinhaço do monte. + +As janellas fecharam-se ha seis mezes, ao mesmo tempo que duas sepulturas +se abriram. + +A sepultura do _Africano_ que chegava ao cemiterio, quando a filha +expirava; e a sepultura de Deolinda, quando o sino dobrava ainda nos +funeraes do pai. + + * * * * * + +Ao homem, que morreu n'aquella casa triste, chamavam o _Africano_. + +Estou-a vendo d'aqui. + +As vidraças reberveram o sol poente. + +Eu, ha hoje dez annos, vi abrir os alicerces d'aquella casa. + +Lidavam operarios a centenares. + +Entre os alveneis estava um sujeito, na pujança dos annos, magro, macilento +e tostado pelo sol da Africa. + +Disseram-me que era homem muito rico, e viera do cabo do mundo, e se +chamava o «Duque» por appellido, e o _Africano_ por alcunha. + +Avisinhei-me d'elle com o semblante risonho de cortezias para lhe perguntar +como ia, em monte assim agro e ermo, fabricar edificio tão grandemente +cimentado. + +Respondeu que tinha em Benguela uma filha, com quem andára viajando na +Suissa. E que a sua Deolinda, estanciando nas empinadas serras de S. +Gothard, lhe dissera que seria feliz se morasse no topo d'uma montanha, em +casa imitante de outra onde pernoitára, e d'onde vira levantar-se o sol do +seu leito de neve. + +E elle, pai extremoso, rico e saudoso da patria, disse á filha que, por +cima da casinha onde nascera, em um outeiro do Minho, sobranceava um alto +monte, golpeado de regatos que derivavam por entre arvoredos fresquissimos. + +E a filha, cingindo-se-lhe ao pescoço, exclamára: + +--E quando vamos? + +--Irei fazer a casa no alto do monte, e depois irás tu, e levaremos para a +capella os ossos de tua mãi. E eu descançarei d'esta labutação em que pude +grangear mais que o preciso ao teu passadío, visto que preferes a viver em +Paris uma casa nas serras de Portugal. + +E sahiu de Benguela, provido de dinheiro para edificar o ostentoso _chalet_ +que a filha phantasiára. + +Ora, os architectos do Minho, como não percebessem a planta do _Africano_, +construiram-lhe um palacio aldeão, espécie de dormitorio monastico, um +leviathan de granito zebrado de vidraças enormes e portas alterosas. + +Perto d'alli, na outra lombada do mesmo outeiro, está o antigo solar +torreado dos senhores de Farelães. + +E eu que, n'aquelle tempo, me embrenhava nas ruinarias grandiosas do paço +senhorial de Ruivães, a decifrar a lenda meio historica dos Corrêas de Sá +nos frescos do tecto apainelado, ao perpassar pelas grossas cantarias do +_Africano_, dizia entre mim: «O palacio cavalleiroso que desaba, e o +palacio industrial que se levanta. Aquelle recorda as manhas epicas do +peito illustre lusitano, a industria da lança que atirou da India para +alli, na ponta ensanguentada, a pedraria dos reis de Chaul, de Calecut e +Mombaça. Ergue-se o novo palacio para assignalar á posteridade que o peito +moderno lusitano é ainda illustre e emprehendedor, differençando-se do +antigo sómente no que vai entre adaga e azorrague, entre acutilar o indio +pela frente, ou verberar o ethyope pelas costas.» + +Mas eu não sabia se aquelle homem, tão entranhadamente pai, amealhára os +seus haveres por entre os perigos do cruzeiro. Talvez que não. A riqueza +não é sempre o estipendio generoso dos homens crueis. E, em corações +afistulados por peçonha de cubiça--sêde execravel que se apaga em +lagrimas--não cabe o exaltado e santissimo sentimento do amor paternal. +Quem chora por um filho não tem olhos que vejam, enxutos, arrancar escravos +dos braços de suas mães. Verdade é que os praticos d'estes ultrajes a +Jesus--ser divino em que Deus se manifestou no mais elevado grau da +consciencia humana--dizem que lá, nas cubatas, não ha mães, nem filhos: ha +individuos bestialmente rebanhados, e inconscientes de laços de familia. Se +assim é, meu Deus, porque não déstes á vossa creatura de epiderme negra o +amor maternal que dulcifica as meiguices da hyena enroscada nos filhos? + + * * * * * + +Aprumadas as paredes, delineados os repartimentos, os patins, as portas, a +capella e o jardim, Duque, o _Africano_, saudoso da filha, deixou a obra em +meio, e dinheiro de sobra ao seu feitor, pautando-lhe que, no prazo de doze +mezes, a casa estaria feita. + +E voltou a Benguela, onde tinha centenas de escravos, armazéns de café, de +marfim, de gommas, e as suas vastas sementeiras sobre dez leguas circulares +de terra, onde o suor da pelle fusca, porejado pelo sol a pique, era um +como adubo forte, um guano de sangue estillado por entre febras vigorosas e +distendidas pelo latego. + +Vendeu as fazendas, enfeirou as bestas e os negros, abarrotou a galera de +carregação sua, esquipou a tolda, decorou de frouxeis de sêda o camarim da +filha, e proejou á patria. Parecia um dos antigos viso-reis que voltavam da +India, d'uns que não se chamavam João de Castro nem Affonso de Albuquerque. + +--Vale duzentos contos a carga da _Deolinda_!--diziam os amigos do +_Africano_, quando as velas da galera, chamada com o nome da filha de seu +dono, trapeavam bafejadas por aprazivel briza. + +A navegação, por perto da costa, e sempre ajudada por prosperos ventos, +correu alegre e descuidosa de receios. + +Deolinda deleitava-se a remirar a prata das ondas espumantes, ou, enlevada +em leituras amenas, passava as tardes na tolda, em quanto não chegavam os +seus amores mais queridos, as estrellas do céo e as phosphorescencias do +mar. + +Ella era mulata, e bella quanto cabe ser, com a face beijada por aquelles +raios ardentes e o sangue escaldeado das lufadas do deserto--mulata, com as +feições levemente denunciativas da raça materna, quasi tirante a esmaiado +amarellido, um bem harmonisado conjuncto de graças, avantajadas ao que se +diz belleza, debaixo d'este nosso céo de rostos niveos, sangue pobre, e +epiderme alvacenta. + + * * * * * + +Trasmontada a linha, e festejado o passo com descantes da maruja, o céo +entrou de nublar-se, a nortada a ringir nas gaveas os silvos agoureiros, e +o piloto esperto a encarar mui fito em um nevoeiro que se acastellava, +sobre noite, á volta do sol esmaecido. Era em fevereiro de 1889. + +Ao repontar a manhã do dia seguinte, o mar urrava acapellado, as nuvens +desciam a sorver as ondas que se encurvavam, o sol apenas entreluzia frio e +marmoreo na baça claridade da manhã. + +Ao meio dia, o escurecer fez-se rapido e pardacento como um crepusculo de +noite invernosa. + +Bravejou subita furia de mar, apenas colhido o velame. + +O piloto vira terra, e cobrára alento na esperança de aproar a Cabo Verde, +com quanto se temesse d'aquella costa infamada de muitos naufragios, desde +que portuguezes se andam á cata de ouro e opprobrio por entre os colmilhos +da morte, na espadoa das tempestades; a braços com a ira de Deus e dos +homens. + +Noite alta, estrondeou no cavername da galera um como estampido de peça que +detonasse dentro. + +Deolinda foi colhida nos braços do pai, quando resvalava da camilha ao +pavimento, com o livro das suas orações nas mãos convulsas, e o nome da Mãi +dos afflictos nos labios. + +--Morreremos, meu pai?!--perguntou trespassada de horror. + +--Animo!--murmurou elle--abraça-te em mim, que eu não quero chorar-te nem +que me chores, filha... Morreremos juntos. + +Em cima estrugia a celeuma dos marinheiros, o rojar rispido das amarras, os +gritos, as supplicas, os apitos, o troar da peça que pedia soccorro, e o +dos trovões, que reboavam, e um relampadejar que azulava os abysmos. + +E, de subito, a galera, após aquelle repellão que lhe vibrou as cavernas, +quedou-se arquejante, a roçar nos espigões da restinga. + +E as vagas, raivando contra aquelle estorvo, galgavam-no rolando-se, +refervendo e marulhando de um bordo a outro. O porão descosia-se, bebendo e +golfando jorros de agua como o monstro dos mares escalavrado pelos arpéos. + +O capitão, pallido mas sereno, debruçou-se no corrimão da camara, e disse: + +--Encalhou a galera, snr. Duque. É tempo de sahir a terra. + +--Nenhuma esperança?--perguntou o _Africano_. + +--As vidas salvam-se... talvez... + +--Só?... + +Perguntou o homem rico; mas aquelle monosyllabo, estrangulado na garganta, +rouquejou como um arranco da vida. _Só!_ Só a vida? O meu suor de quarenta +annos, os meus duzentos contos de reis não se salvam? Eu hei de sahir pobre +d'entre esta riqueza que é minha, que é o repouso da velhice, o patrimonio +de minha filha? _Só!_ + +E as lanchas, balançadas no vai-vem das ondas, chofravam nos flancos do +navio por entre espadanas de espuma. + +Deolinda atravessou corajosa, e firmada no braço do pai, até ao portaló. O +_Africano_ levava no rosto um terror indescriptivel, e nas contorsões e +visagens de afflicção a agonia da peor morte. + +E ella saltou de impeto ao escaler, apenas amparada na mão de um +passageiro, que lhe disse: + +--Adeus... + +--Não vem?--perguntou ella. + +--Primeiro hão de ir as crianças, as mulheres e os velhos. + +Deolinda contemplou-o alguns momentos, e amparou-se na face do pai, onde as +lagrimas derivavam copiosas. + +Os escaleres vararam na areia, revessados no rolo da vaga. Estavam salvos +os velhos, as mulheres e as crianças. + +E, logo, os remadores intrepidos que outra vez se arrostavam com a morte, +viram a galera a balouçar-se entre o vagalhão, e ouviram o estralejar do +cavername por sobre os clamores dos naufragos; depois, levantou-se um +grande mar, e a lancha ficou para além d'essa formidavel montanha; e, +quando o escarcéo descahiu para solevar a barca, um momento quieta nas +fauces da voragem, os mareantes já não viram da galera senão o gume da +quilha, e á volta d'ella o bracejar dos agonisantes. + + * * * * * + +Um dos que alli morreram foi aquelle que, dando a mão a Deolinda, lhe +dissera: «Adeus!» + +Era um homem de trinta annos, bem figurado, ares de fina raça e maneiras de +cortezão, com palavras polidas e muito alheias das usuaes nos homens que +viandam por aquellas paragens. Não lhe sei o nome, nem que lh'o soubera o +diria. Foi-lhe tumulo o mar, como se a sorte quizesse que o seu nome se não +lesse em epitaphio. Sei que elle cumprira sentença de tres annos em Angola, +porque aspirára ás honras de ser rico, sem escrupulisar nos meios. +Tinham-lhe dito que os seus conterraneos mais nobilitados se haviam +enriquecido, trocando as riquezas da sã consciencia por outras que levam ao +inferno, é verdade, mas pelas portas do paraiso das regalias d'este mundo. +Via-os saborearem-se em socego dos bens mal adquiridos, sem remorso que +lhes desvelasse as noites, nem injuria da sociedade que lhes pozesse +ferrete na testa; ao revez d'isso elles eram a classe mais ao de cima, a +gente chamada ás honras, sem desconto na estupidez nem proterva reputação, +quanto á procedencia de seus bens de fortuna. + +Nascimento illustre, educação primorosa em letras, e bastante descuidada em +moral, pobreza repentina por effeito de demandas que o esbulharam do +patrimonio, impaciencia, ruins exemplos de infames prosperados--todas estas +cousas se travaram de mão para o perderem. O seu crime foi associar-se +desaproveitadamente com moedeiros falsos, prestando-se a servir de passador +de notas no Brazil; no acto, porém, de fazer-se á vela para lá, de um porto +do archipelago açoriano, foi denunciado, preso, e condemnado. + +De volta para Portugal, foi visto por Deolinda a bordo da galera de seu +pai, que o tratava com desdem, senão desprezo. A filha do +negreiro--negreiro no começo da vida mercantil, mas depois (bemdita seja a +civilisação!) philanthropo seguidor das leis humanitarias impostas pelo +cruzeiro--soube de seu pai o crime do passageiro, e não se compenetrou do +racional horror de tamanho delicto. Bem que o condemnado não ousasse +abeirar-se dos mercadores, e menos d'ella, Deolinda usou traças de +conversar com elle uma fugitiva hora de noite serena, em quanto o pai, no +seu camarim, formava esquadrões de algarismos, dos quaes tirou a prova real +de que os seus haveres excediam para muito os duzentos contos que lhe +attribuiam. + +Desde essa hora da noite estrellada em que ella ouvira palavras nunca +ouvidas, accendeu-se no coração combustivel da mulata o fogo que costuma +purificar as culpas do homem amado, tanto monta que elle seja moedeiro +falso, como homicida, quer negreiro, quer ladrão de encruzilhada. + +E elle soube que era amado d'aquella mulher que havia de herdar muito ouro, +e nem por isso lhe deu o galardão de ter descido até ao pobre estigmatisado +para sempre. Nem palavra de humildade agradecida, nem de animo alvoroçado +por esperança de ser, a um tempo, amado e rico. Deolinda ousou arguil-o de +frio e desdenhoso. Elle explicou docemente a sua frialdade, dizendo que só +havia no mundo uma mulher que não devia desprezal-o, e uma só a quem elle +devesse amar sem pejo nem temor de ser repellido. + +--Quem é?--perguntou ella em sobresalto. + +--É minha mãi. Vou procural-a, e pedir-lhe perdão, porque puz a minha +ignominia á cabeceira do seu leito de moribunda. Se a não mataram vergonhas +e saudades, é porque Deus quer que eu a veja. + + * * * * * + +Quem sabe ahi dizer o que Deus quer de nós? + +O degredado, na volta da patria; alli morreu n'aquelle naufragio, depois +que ajudou a salvar as crianças, as mulheres e os anciãos, despedindo-se de +todos com aquelle sereno adeus que dissera á filha do _Africano_. + +E Deolinda, quando soube que elle era um dos vinte e cinco cadaveres +escalavrados na costa de Cabo Verde, chorou poucas lagrimas, e parecia +querer romper no seio uma represa d'ellas, que lhe deliam os estames da +vida. + +--Estamos pobres!--exclamava o pai. + +--Temos de mais para o que havemos de viver--respondia ella com uma alegre +serenidade. + +--Porque has de tu morrer, minha filha?--volvia elle já conformado com a +desgraça. + +--Porque senti ha pouco um estalo no coração, e cuidei que morria abafada. +Passou esta ancia, mas sei que hei de morrer d'isto. Parece que vejo a +sepultura aberta, e que o frio do cadaver me trespassa. + +O pai aconchegou-a no seio, como quem aquece uma criança enregelada, e +soluçou: + +--Ó meu Deus! levai-me minha filha, quando eu me queixar da vossa vontade +que me reduziu a esta pobreza! + + +II + +Quando soou em Ruivães a nova de haver chegado ao Porto o _Africano_, com a +filha, os homens ricos e pobres, da terra e de fóra, contribuiram com mais +ou menos para se lhes fazer uma espera de estrondo em Famalicão. +Contractaram-se as bandas musicaes mais em voga, ou _mais na berra_, como +diziam os antigos. Parece que a phrase seiscentista foi inventada +particularmente para as orchestras d'aquelles sitios, as quaes _berram_ +pelas suas guelas de metal, quando a paixão philarmonica as não exalta do +berro ao mugido, do mugido ao urro, e do urro ao bramido. Ha alli trombetas +que parecem ter assistido ao arrazar-se da Jericó da Biblia, e se reservam +para trovejarem o horrendo signal da resurreição em Josaphat. + +Eram quatro as philarmonicas chamadas a festejarem a entrada de Antonio +Duque no concelho. A musica de Landim, famosa por seis cornetas de chaves, +que executavam valsas e peças theatraes, de modo que, se Ducis as ouvisse, +diria que a opera lyrica balbuciára os seus primordios entre as florestas +druidicas. A banda de Fafião competia com a de Guinfões na substancia das +trompas e troada das caixas. A de Ruivães avantajava-se ás tres rivaes na +delicadeza das modas e sentimentalismo com que as charamelas respiravam o +sopro d'aquelles musicos, cujas bochechas pareciam estar cheias de alma e +castanhas assadas. + +Sou um homem feliz e digno de inveja. Tenho saboreado os innocentes +deleites que prodigalisam ao seu auditorio as quatro bandas musicaes de +Landim, Fafião, Ruivães e Guinfões. Quando algum amigo vai alegrar o ermo +de S. Miguel de Seide, chamo logo a musica mais delicada, a de Ruivães; +principalmente se o amigo é de Lisboa, e frequentador de S. Carlos. O +senhor visconde de Castilho e seu filho Eugenio são chamados a depôr n'este +processo da immortalidade que vou instaurando ao figle e á requinta, +principalmente á requinta de Ruivães. Não vi o senhor visconde chorar de +prazer, mas observei que s. exc.^a estava commovido quando a requinta +assobiava uns guinchos estridentes da _Maria Caxuxa_. + +Thomaz Ribeiro, o poeta eminente, recolhia-se ás vezes, não ao seu quarto a +calafetar os ouvidos, mas ao intimo de sua alma a fazer viveiro de +inspirações. Eugenio de Castilho, o poeta das phantasias louras, quer a +musica de Ruivães lhe amolentasse a sensibilidade, quer os rouxinoes das +ramarias lhe déssem invejas dos seus amores, fosse o que fosse, foi +assaltado e vencido d'uma paixão. + +Esta paixão tem uma historia. Não sei se elle tenciona escrevel-a nas suas +memorias posthumas; e, assim, contal-a eu, é esbulhal-o da novidade e +primazia; desconfio, porém, que o meu hospede e amigo desconhece a historia +d'aquella raparigaça de cabellos de ouro e ancas boleadas que deslumbrava a +duzia de moças requebradas que lhe apresentei na eira. + +Chamava-se ella Amelia de Landim. Contava-se que tinha vindo para alli da +roda dos expostos de Barcellos. Naturalmente, porque era linda e pobre, ou +se vendera ou tinha sido vendida. Assim se disse; mas o certo foi que um +filho de lavrador rico lhe dera o impulso no alto da ladeira, ao fundo da +qual estava a voragem. Póde ser que a alma se abysmasse e requeimasse no +fogo dos infernos por onde resvala a mulher perdida. Póde ser. Do corpo é +que ella não perdera a menor belleza; nem sequer o viçor dos dezoito annos. + +Teria então vinte e cinco. Não era belleza peninsular. Aquelle escarlate, +os olhos azues, os opulentos cabellos louros, a pujança das fórmas, a +musculatura rosada e rija, a elegancia congenita, o riso, a desenvoltura +sem despejo, a graça lubrica do trajo, em fim, a mulher, os arvoredos, a +musica de Ruivães, nomeadamente a requinta, e em meio de tudo isto um rapaz +de vinte e dous annos, poeta porque é Castilho, e ardente porque é +trigueiro, e apaixonado porque é ardente, eis aqui o porquê d'aquelles +amores. + +Castilho carecia de um confidente com ouvidos e critica. A poesia não lhe +deu para se confidenciar com os sobreiros da mata, nem me consta que elle +se andasse a entalhar na cortiça iniciaes e datas. + +O seu confidente foi o morgado de Pereira, ultimo senhor da honra e couto +de Esmeriz, um rapaz de grande coração, que eu apresentei, no Limoeiro, a +José Cardoso Vieira de Castro, que, em 5 de outubro do anno passado, morreu +no degredo, para onde o acompanhou aquelle morgado. Este neto dos Ferreiras +Eças, e dos remotos castellões de Riba d'Ave, é hoje em Cassengo, na +Africa, negociante de café, de marfim, de gommas, de farinhas, etc. Depois +de haver bandarreado vida de fausto, com muitas illusões perdidas, mas +pouquissimas lagrimas, porque a desgraça lhe anda sempre a morder os tacões +das botas, em dia de fieis defuntos, ajoelhava, e então chorava, no +cemiterio de Loanda, defronte do cómoro onde jaz Vieira de Castro, o mais +sublime desgraçado que os homens injuriaram, desde que o sol de Deus aquece +condições de feras dentro dos covis que se chamam arcas do peito. + +Ó meu caro morgado, estas linhas não chegam ao seu sertão, nem eu desejo +que as leia, para lhe não darem rebates de saudade d'aquellas noites de +1866, quando vossê e mais o seu gentil confidente, com intervenção da lua, +fallavam da Amelia de Landim, em quanto os meus queridos visconde de +Castilho e Thomaz Ribeiro se embellezavam nas trovas da Custodia da Feira, +que seria Hypathias, se nascesse na Grecia, ou Corina, se os amavíos de +Italia lhe coassem no seio cousas mais limpas do que as coplas que a +trovadora do Minho tirava do estomago em perfumes de vinho verde. + +Não sei como Eugenio de Castilho sahiu de S. Miguel de Seide, pelo que +respeita á alma. Lá dizia-se que Amelia, a douda, vehementemente +apaixonada, iria depós elle. Eu receei o lanço de fino amor, d'onde +adviriam ao meu hospede agros desgostos. Se os de Lisboa lh'a vissem, +quantos rivaes, que mordentissimos ciumes! Aquillo era mulher para destinos +extravagantes. Que a sentassem n'uma friza de S. Carlos! Os binoculos +assestados n'ella seriam tantos como as paixões, e ao outro dia a engeitada +de Landim, se não fizesse ministerios, havia de fazer muito amanuense de +secretaria, e dar vazão ao estanque de muito bacharel. + +Não foi: estava-lhe reservado menos brilhante, mas mais pacifico destino. + +Um dia, appareceu em Landim um homem de Barcellos, procurando a mulher, que +trouxera da roda dos expostos, em 1851, uma menina chamada Amelia. Vivia +ainda a ama que a creára. Foi chamada a exposta á presença do homem que se +dizia portador de uma fausta nova. + +Chegou Amelia, o recebeu do velho desconhecido o tratamento de +_excellencia_. Cuidou-se ella ludibrio do sujeito, e riu-se ás casquinadas +para lhe agorentar o prazer da zombaria. + +No em tanto, o velho, composto gravemente o aspecto, disse-lhe: + +--Minha senhora, não é para gargalhadas a missão que venho cumprir... + +--Pois v. s.^a está a dar-me _excellencia_!--volveu Amelia. + +--Dou-lhe o tratamento de seu pai e seus avós. Seu pai, o snr. Alvaro de +Mendanha, antiquissimo fidalgo e representante dos alcaides-móres de +Barcellos, falleceu ha tres dias com testamento, em que declara que houvera +de uma sua parenta, áquelle tempo freira no mosteiro de Vayrão, uma filha, +que por justos motivos expozera, assignalando-a com o nome e outras +circumstancias. Acrescenta que tem noticia de existir em Landim essa +menina, que elle reconhece sua filha, e a institue sua universal herdeira. +É v. exc.^a por tanto a herdeira do snr. Alvaro de Mendanha. + +A ama abriu a bocca e despediu um _ah_ surdo, que vinha da garganta afogada +pelo jubilo. + +Amelia quedou-se immovel, pensativa, triste, e murmurou: + +--Se meu pai sabia que eu estava aqui, porque me não levou para a sua +companhia? + +--Respondo, minha senhora. Quando v. exc.^a tinha dezoito annos, seu pai +indagou e descobriu que a snr.^a D. Amelia estava aqui; porém, ao mesmo +tempo, exactas ou inexactas informações lhe asseveraram que a senhora +levava uma vida pessima, deshonrada e cheia de opprobrio. Receou, com algum +fundamento, o snr. Alvaro de Mendanha que o aviltamento de sua filha +desluzisse o lustre do seu nome, e por isso abafou o coração e o remorso +debaixo do peso da dignidade, ou recuou diante da irrisão do mundo... + +--Mas...--interrompeu Amelia--se eu estava perdida, foi porque elle me +atirou ao mundo e á sorte sem amparo de ninguem... + +--Tem razão, minha senhora, e foi essa mesma a razão que moveu seu pai a +deixar-lhe todos os seus bens. + +--Mas eu antes queria conhecel-o e ser pobre, que ser rica por morte +d'elle. + +--Já que não é remediavel essa nobre dôr--tornou o testamenteiro de +Mendanha--receba v. exc.^a a suprema prova do arrependimento de seu pai. +N'este legado dos bens está o legado do coração. Seja de hoje em diante v. +exc.^a digna d'elle, já que desde esta hora os seus appellidos são dos mais +illustres d'esta provincia. + +N'este mesmo dia, D. Amelia de Mendanha sahiu para Barcellos, onde entrou a +occultas para o palacete de seu pai, a fim de trajar luto e apparecer +convenientemente aos numerosos parentes que confluiam a desanojal-a. + +Os bens eram grandes em terras e fóros. Casa antiga e solida. Alfaias do +tempo de D. João V a dourarem os salões de tecto apainelado, com +reposteiros brazonados. Na parte mais velha do edificio cadeiras repregadas +de bronze, contadores atauxiados de prata e enxadrezados a côres, +guadalmesins nas paredes, amplas mesas de pés torneados, leitos rendilhados +com as armas dos Mendanhas na espalda, bufetes, jarras da India com as +iniciaes de um governador de Chaul, oriundo de Mendanhas, retratos de +familia a começarem em D. Gil Gutierres de Mendanha, solarengo de +Barcellos. Em meio d'isto, e senhora de tudo isto, aquella Amelia de +Landim, ó meu amigo Eugenio de Castilho! aquella Amelia, que sarabandeava a +_cana verde_, o _Leva agua o regadinho_, e descantava umas _torradas com +manteiga_ que não ha ahi mais que se diga. + +--Onde estava ella? + +Perguntavam entre si as primas e os primos. + +E diziam exactamente onde ella estivera e de que infectos paues se +levantára com azas de ouro aquella borboleta sahida de tão feio casulo! +Relatavam-se os pormenores da sua desgraçada vida, encareciam-se, como se +fosse preciso, as deshonestidades... e visitavam-na. + +Volvidos alguns mezes, tres padres, á compíta, lhe sahiram a propôr tres +casamentos: rapazes, parentes, abastados ou arruinados, mas fidalgos e +gentilissimos de suas pessoas. + +Rejeitou-os. + +Um dia, sahiu D. Amelia de Barcellos, na sua sege, apeou em Famalicão, +sahiu a pé, e parou perto de Landim, á porta de um lavrador. Procurou por +um homem que dava pelo nome de Antonio do Couto-de-baixo. + +Sahiu a fallar-lhe no quinteiro, ou alpendre, um sujeito de trinta annos, +boa figura de camponio, estupidez em barda por todo aquelle carão. + +--Antonio--disse ella--conheces-me? + +--A senhora, a senhora... acho que é...--tartamudeou o lavrador agadanhando +no occipital. + +--Sou a Amelia de Landim. Quando eu tinha 15 annos, amei-te. Era então +innocente. Esperava ser tua mulher, e perdi-me. Teu pai não te quiz deixar +casar commigo, porque eu era pobre. Sei que soffreste, e quizeste fugir +para o Brazil, a fim de ganhares dinheiro, para depois me receberes. Eu não +te deixei ir. Sabes qual foi a minha vida depois. Hoje estou rica, ainda te +amo, porque foste a origem da minha desventura. Queres casar commigo? +Responde. + +--Quero. + +--Então segue-me. + +--Deixa-me ir dizer a minha mãi; que essa queria que eu casasse comtigo. + +--Podes dizel-o a teu pai, que esse tambem quer agora. + +E, d'ahi a momentos, o pai e a mãi sahiram ao alpendre a recebel-a, e +levaram-na para o sobrado entre caricias. + +Ahi pernoitou. + +O velho nunca pôde desarticular os queixos da apostura do espasmo, desde +que D. Amelia principiou a contar por milhares de alqueires de milho o +rendimento de sua casa. + +Ao outro dia, que era domingo, leram-se os primeiros banhos, e, com +dispensa dos immediatos, casaram-se na igreja de Santa Maria de Abbade. + + * * * * * + +Mas a que proposito cahiu este conto, que não tem que vêr com AQUELLA CASA +TRISTE!... + +Ah! foi por amor da requinta da musica de Ruivães, que está agora silvando +na Barca da Trofa, á espera de Antonio Duque, o _Africano_. + + +III + +As quatro musicas reunidas na Ponte da Trofa, depois de espavorirem os +passarinhos, que, ao descer da tarde, se emboscavam nas ramarias do rio +Ave, retrocederam, porque o Duque não chegou. Os promotores da festa, +mandando sobraçar os feixes de foguetes de tres estouros, disseram entre si +que o _Africano_, faltando á hora da espera triumphal, bem demonstrava ser +filho do capador da Lamela. Outro era de parecer que o Duque, tratando de +resto as pessoas que o obsequiavam, dava a perceber que não queria +amigos... do seu dinheiro. + +O _Africano_ havia escripto de Lisboa ao seu feitor, annunciando-lhe o dia +em que tencionava chegar á sua casa de Ruivães, com recommendação de lhe +ter preparados os leitos e assoldadada uma boa criada para o quarto de sua +filha. + +Divulgou o feitor a nova, sem propalar a do naufragio, porque a não sabia. +Se o homem lesse gazetas, informaria os seus visinhos do desastre de seu +amo, da riqueza engolida pelas guelas da tormenta, da quasi pobreza em que +ficára o naufrago, e, em fim, das piedosas lastimas com que os periodicos +deploravam a catastrophe de duzentos contos grangeados honestamente. Se +isto se soubesse em Ruivães, não haveria quem se afanasse em busca de +musicas, competindo entre si os obsequiadores sobre qual arranjaria aquella +que maiores gritos fazia dar á fama pelos buracos da requinta. Quanto ás +vinte e quatro duzias de foguetes de tres estouros, que os rapazinhos de +Ruivães tinham carregado até á Ponte da Trofa, é bem de vêr que ninguem se +abalançaria a tamanho estrondo de generosidade, se se soubesse que o Duque +não vinha em circumstancias de chorar de ternura abraçado ao peito +magnanimo d'onde rabiavam tantos foguetes. + +No dia marcado ao feitor, devia o _Africano_ chegar á Ponte, onde era +esperado; porém, apeando na estalagem da Carriça, legua e meia distante, +ouviu dizer que na Trofa estava o poder do mundo, com quatro musicas, e +muito fogo do ar, á espera de um brazileiro que vinha da Africa. + +Ouvido isto, Duque disse ao boleeiro que recolhesse a parelha da sege, +porque resolvera sahir de madrugada. + +Depois, foi contar á filha o que ouvira, e o desgosto que queria evitar no +encontro de festas, tão desapropositadas da tristeza de ambos. + +Deolinda, prostrada no leito, approvou a resolução do pai, queixando-se de +agonias, suffocações e desmaios do coração, que mal a deixavam seguir a +jornada. + +Passou o pai o restante do dia e parte da noite á beira da cama, inventando +com santo esforço alegrias que divertissem Deolinda da concentração que uma +ou outra lagrima desafogava por momentos. Alegrias!... + +Que heroismos cabem em peito de pai! Quantos ha que são suppliciados por +esse amor que parece vir da mão de Deus! Que maiores angustias tem esta +vida, se comparamos todas á d'aquelle pai que alli estava ao pé da filha +que os medicos de Lisboa lhe haviam auscultado e considerado perdida! + +Mas elle, acreditando na sciencia que tem a certeza de ser lesão mortal a +hypertrophia do coração, afigurava-se-lhe que a Providencia o não +castigaria tão severamente, fazendo-o sobreviver ao perdimento dos bens, +para depois amparar em seus braços a filha agonisante. Nunca discutira +entre si se Deus era preciso, ou que parte lhe coubesse no regimento d'este +mundo. São meditações estas que, em Africa, passam rapidas como o sirôco, +mas não abrazam, nem obrigam as caravanas a curvar o corpo até bater com as +faces nos areaes. Os que por alli veniagam, á imitação do pai de Deolinda, +pensam, se acaso pensam, que a justiça do céo tem alçada em mais amenos +climas, e descura saber se lá o homem tem mais ou menos semelhança com o +tigre. Porém, depois que o céo se azula e estrella, áquem da linha, e a +briza refrigera o sangue, os expatriados, maiormente os ricos, não recusam +crêr que ha Deus, dadas certas condições; fazem-lhe o obsequio de o +conjecturar sentado á mão direita do Padre Eterno, e absorvido na perennal +gloria de sua divindade, sem entender nas trivialidades d'este globo, mais +pequeno que os milhares de mundos que lhe circumvalam á ourela do throno. +Esta philosophia é grandiosa e barata. Cançam-se os mestres em a propagar, +e todavia qualquer sandeu bem engraxado a tem espontanea na alma, como +tortulho em lodaçal, sem que os philosophos lh'a inculquem. Estudem Ario, +Spinosa, Renan, e outros, afóra o meu bacalhoeiro, que tem dentro de si +tres philosophos, um portico, um lyceu, dentro de si, repito, porque o +_si_, o _elle_, são as cedulas bancarias, a burra, que tem um nome de +predestinação para aviso e escarmento de sabios que se burrificam, não +querendo acabar de entender que saber, honras, regalos, respeitos, +inviolabilidades, vem tudo da burra. + +Succede, porém, uma vez ou outra, encrespar-se uma onda, que logo se +arqueia em vagalhão, e se abre em voragem. Ahi resvala a riqueza do homem, +que se arrodelára com ella das farpas do mundo. Os brilhantes impenetraveis +do arnez cahiram e rolam na profundidade do abysmo. Aqui está o homem a +pensar em Deus, porque está pobre, está sósinho, já se não vê idolo dos +outros e divindade de si proprio. A desgraça, que traz sempre comsigo um +anjo vestido no céo com uma luz que arde inextinguivel no tumulo de Silvio +Pellico, assenta-se ao lado do infeliz, e começa por lhe dizer: + +«Que eram esses bens da vida, se tão depressa te reduziste a esta pobreza? +Olha tu para as estrellas que scintillam serenamente sobre a voragem que +t'os devorou, e pede ao meu anjo que te diga o que ha d'estes milhões de +mundos para além!» + +Ah! quando esta voz repercute na consciencia de um pai, e ao mesmo tempo a +aza da morte roça e tinge de rubor febril a face de sua filha, então sim, +Deus entreluz na treva, a alma crê, mas crê para pedir de mãos erguidas. +Isto é fé, é fé que relampagueia; mas eu não sei se alguma hora a razão dos +grandes desgraçados foi alumiada por esse relampago. + +Pelo que, assim orava o _Africano_, ás quatro horas da manhã, em pé, +defronte do leito da filha adormecida. + + * * * * * + +Entraram na casa apalaçada de Ruivães, inesperadamente. + +Quando o souberam os visinhos, um correu á igreja a repicar o sino e a +sineta, outro rompeu as nuvens com girandolas, a orchestra da terra, que +andava dispersa a sachar os milharaes, confluiu de galope a casa do mestre, +escodeou as mãos do regato, travou dos metaes, e prorompeu estridulamente á +porta do _Africano_, tocando o hymno de 20, o hymno do snr. Costa Cabral, o +hymno da snr.^a Maria da Fonte, o hymno do snr. duque de Saldanha, e o do +Santo Padre Pio IX. + +O _Africano_ sahiu á janella com sua filha, cortejou o publico, assistiu a +duas mazurkas tocadas com variações de requinta, e pediu venia para +recolher-se em razão de sua filha se sentir mal com o sol que lhe dava no +rosto. + +O publico murmurou, tregeitando uns momos significativos de menos respeito. + +O feitor foi dizer a seu amo que era preciso dar de beber aos musicos, e +receber a visita dos parentes e mais lavradores. + +O Duque respondeu: + +--Vá ahi fóra ao pateo, e diga bem alto que eu estou pobre. + +--Pobre!--acudiu o feitor casquinando um riso perspicaz--Bem me fio eu +n'isso! V. s.^a está a mangar!... + +--Faça o que lhe digo--volveu severamente o amo. + +E, de facto, o criado foi ao pateo, chamou a si os lavradores mais grados, +o mestre da musica, o boticario de Délães, e o boticario de Landim, e o +regedor de Vermoim, e disse-lhes: + +--O ill.^mo snr. Duque manda-me dizer a vossemecês que está pobre. + +Os circumstautes olharam uns para os outros, embrutecidos pelo mesmo +choque. Um d'elles, porém, que eu presumo fosse um dos dous boticarios, deu +aos beiços um geito de quem vai orar. Encararam-o todos, e o boticario +tirou do peito estas duas palavras: + +--Ora bolas! + +E sahiu do pateo. + +Tenho esquadrinhado o melhor sentido d'aquellas palavras do attico +pharmaceutico. Consultei philologos, que mais convisinham d'este sujeito, e +apenas colhi que as expressões «ora bolas» montavam tanto como dizer: ora +bolas. + +Eu, porém, dou mais lata interpretação ao epiphonema, sabendo que todo +aquelle gentio _boloirou_ para casa[1]. + +O _Africano_, passados seis mezes, procurou um brazileiro rico de Ninães, +recentemente chegado, e disse-lhe: + +--Sei que o senhor está resolvido a edificar uma casa. Se quer poupar-se a +grandes despezas, incommodos e desgostos, compre-me a minha. Vendo-lh'a por +metade do que me custou, com uma condição: se eu e minha filha não tivermos +morrido dentro de seis mezes, serei obrigado a dar-lhe a casa no fim d'este +prazo; mas, n'estes primeiros seis mezes, o senhor não poderá occupal-a. + +Pediu o brazileiro explicações de tão estranha clausula. + +O Duque respondeu: + +--Minha filha está mortalmente enferma. Tem um aneurisma. Eu tambem me +sinto no termo da vida. Vou morrendo a cada hora que a doença me deixa vêr +a morte na face de minha filha. Não hei de sobreviver-lhe, se Deus me não +fizer o beneficio de me levar adiante. + +Consolou-o o brazileiro conforme soube, aceitou a proposta, e assignou as +escripturas no dia seguinte, entregando ao vendedor alguns contos de reis. + +Pagou o _Africano_ as dividas contrahidas em Cabo-Verde, encerrou-se na +ante-camara do quarto de sua filha, e deu-se pressa em aggravar os seus +padecimentos á custa de se remirar no seu infortunio, de cortar bem dentro +as fibras ainda rijas do coração, antecipando a imagem da filha morta, +repulsando todo o allivio da esperança, furtando-se a todo o desafogo, +matando-se com a lentidão de um desvairado que se encavernasse n'um antro, +esperando sem terror a entrada da fera, e anciando-a para se lhe rasgar nas +presas. + +Ao quinto mez do contracto, os padecimentos de Deolinda tocaram nos +extremos symptomas da morte. As hemorrhagias amiudaram-se. Estava já +entorpecida, immovel, salvo quando arrancava do seio as aspirações, que +revelavam ao través das coberturas da cama os arquejos do coração. + +N'esta conjunctura, o pai estabeleceu entre si e Deus uma convenção que era +já delirio precursor da demencia ou da morte: «Se ella hoje morrer, ou Deus +me mata ámanhã, ou, quando ella estiver sepultada, eu me matarei.» + +O parocho, que sacramentára Deolinda, ouviu estas vozes, e disse aos botões +da sua batina: «Este homem está no inferno.» + +Quando ficou sósinha, Deolinda chamou o pai e disse-lhe: + +--Não quero ir d'esta vida, sem dizer-lhe um segredo com que não devo +morrer. No meu bahú está uma caixinha de folha, que o mar lançou á praia, +depois do naufragio. Levaram-me em Cabo-Verde esta caixinha, cuidando um +marujo que fosse minha. Abri-a, e vi que encerrava cartas de uma mãi muito +extremosa para seu filho. O filho era aquelle rapaz que vinha do degredo, e +salvou os velhos, e as crianças, antes de morrer. A mãi, que lhe escrevia, +diz-lhe em algumas cartas que tem sentido as angustias da fome. Chama-se +ella... Meu pai lhe verá o nome e a terra onde vivia... Se tiver morrido, +feliz d'ella. Se ainda viver, meu pai, mande-lhe como esmola o que ficar do +meu espolio, e diga-lhe que eu... lhe amei o seu infeliz filho... até +morrer... por elle!... + +--Cumprirei a tua vontade, minha filha--respondeu o pai. + + * * * * * + +Ditas aquellas palavras, o _Africano_ encarou na filha com a fixidez torva +de um amaurotico. Depois, como se sentisse dobrar sobre os joelhos, sabiu +da alcova, atirou-se como ebrio para o leito, e murmurou estas vozes: + +--Meu Deus! morro por amor de minha filha, e ella... morre por outro... Bem +podia consentir a desgraça que eu morresse sem este desengano... Vinte +annos a adorar esta filha, um anno a agonisar ao pé da sua agonia... e a +final ouço-lhe dizer que morre por um homem... que não era seu pai... + +Escabujou em ancias muito afflictivas, pedindo a Deus com dilacerante +esforço que lhe abreviasse o transe. Rompeu em soluços; e, suffocado pelo +choro ou por um golfo de sangue, arrancou da vida n'um estremecimento +instantaneo. + +Deolinda ouviu o murmurio rouco d'esta convulsão da morte, e voltou a face +para onde suppunha que estava o pai. + +Chamou-o. Sentou-se no leito com supremo esforço. Tangeu a campainha. +Acudiu a criada, a quem ella pediu que lhe désse o seu vestido. Foi nos +braços da criada á sala contigua, onde o pai tinha o seu leito. Dobrou-se +sobre o peito d'elle, colhendo-lhe nos labios um halito ainda quente, como +vestigio da alma que passára queimando as fibras por onde abrira a fuga do +seu inferno. + +--Morto!--bradou ella, golfando-lhe no seio o derradeiro sangue. + +Transportada ao canapé fronteiro, alli se quedou empedernida. Não houve +rogos que a tirassem de lá. Viu amortalhar o cadaver de seu pai, viu-o +sahir no esquife para ser depositado na capella da casa, ouviu o ultimo +dobre da sepultura; e então, comprimindo o seio esquerdo com ambas as mãos, +invocou a compaixão da Virgem Santissima, e expirou. + + * * * * * + +Lá está em cima aquella casa triste... O brazileiro, que a comprou, não a +quiz habitar. As janellas nunca mais se abriram. O vestido, que despiram do +cadaver de Deolinda, pende ainda da espalda do canapé em que ella morreu. + + [1] Não se procure _boloirar_ nos diccionarios, em quanto os + diccionaristas ignorarem a linguagem popular do classico povo do Minho + e Traz-os-Montes. Lá, fazer rolar uma bola, é _boloirar_. + + + + +SOLUÇÃO DO PROBLEMA HISTORICO (I) + + +_Snr. redactor das NOITES DE INSOMNIA_. + +Conseguiu vossê que eu adormecesse antes de lêr a terceira sentença a favor +d'el-rei D. Sebastião. Muito obrigado a vossê e aos tres papas. + +Aquelle D. Sebastião que em 1630, com 76 annos de idade, tinha uns filhos, +que ninguem depois conheceu, seria causa a eu descrer da authenticidade das +sentenças, se não soubesse que santo Isidoro, arcebispo de Sevilha, o +prophetisou assim, tal e quejando, com filhos, netos e bisnetos, um dos +quaes afianço a vossê que não sou eu. + +Palavras de santo Isidoro: _Muitos filhos e filhas terá o Encoberto de +legitimo matrimonio, e sempre seus descendentes, uns depois dos outros, +reinarão pacificamente_ (não diz o santo onde se passa esta reinação); _e o +sceptro sagrado do temporal será administrado e regido por elles; e a +final, fazendo-se pagens do povo, tornarão do deserto_. + +Não ha nada mais claro. Os descendentes de D. Sebastião, voltando do +deserto, serão pagens do povo. Por «pagens do povo» percebo eu que o +vidente de Sevilha queria fallar nos demagogos d'este paiz, nos oradores do +Casino, no Guerra Junqueiro, nos redactores do _Diario da Tarde_, no Eça e +no Ortigão, nos satanicos, e nos mais socialistas sobre quem pesam o gladio +do Zêzere, os pés do conselheiro Arrobas e o redenho do conselheiro Viale. +Os descendentes do Encoberto vem, pelos modos, a ser aquelles. Quanto a +virem do deserto, como resa a prophecia, é obvia a interpretação. «Deserto» +aqui, entende-se o conteúdo pelo continente. Veja se me percebe. Deserto é +o vasio da algibeira. Isto percebe vossê bem. Um homem está no deserto +quando não tem no bolso a voz que clama no mesmo. Deserto é estar homem só +como succede a toda a pessoa que não tem + +_Aquillo com que mais se accende o engenho,_ + +como disse um a quem o predilecto dos tres papas mandou dar 15$000 reis por +anno em paga de ter perdido um olho em Africa e ter feito os _Lusiadas_ na +India. + +Já vê vossê que, por este lado, as sentenças dos tres bispos de Roma são +invulneraveis. D. Sebastião, com toda a certeza, de quinze em quinze annos, +ia até Roma mostrar ao papa que tinha uma perna maior que a outra, um tufo +de pello no hombro esquerdo, o joanete no dedo mendinho, e um dente de +menos na queixada de baixo. Quando lá foi aos 76 annos, aposto que já não +tinha dente nenhum. + +Os documentos pontificios que vossê apresentou resistiriam á critica de +João Pedro Ribeiro e Theophilo Braga. Este sabio e vossê são os dous homens +que n'este seculo tem achado as melhores peças historicas. Vossê achou as +sentenças a favor do Encoberto; o doutor Theophilo achou a carta de Ayres +Barbosa a André de Rezende. Eu achei a vossês, os dous, dous odres de +sciencia em que espero exercitar o meu intellecto como os touros exercitam +a força nos ôdres de vento. Creio que está dada a solução do problema +historico. Mande-me o premio pelo portador. E quando achar outra cousa, com +esse faro de Herder que Deus lhe deu, abra torneio aos talentos, e faça +invejas ao Theophilo a vêr se elle descobre agora a resposta de André de +Rezende a Ayres Barbosa. + + * * * * * + +Entreguei o premio, antes que venha outra carta mais insensata. N'este paiz +quem, como Theophilo Braga e eu, achar alguma cousa, está perdido. + + + + +DOUS PRECONCEITOS + + +O primeiro, é dizer-se que, no governo absoluto, as condecorações, os fóros +de fidalguia e os tratamentos eram judiciosamente dados e com muita +parcimonia a quem os merecia. + + * * * * * + +O segundo, é dizer-se absolutamente que a mudança do regimen politico de +1834 empobreceu de repente os fidalgos, esbulhando-os dos seus rendimentos +provindos de privilegios, encargos, commendas, etc. + + * * * * * + +Quanto ao primeiro preconceito, ouça-se o depoimento de um notavel fidalgo, +que estudou cincoenta annos, e meditou dezesete nas lobregas cavernas da +Junqueira. Era D. João José Ansberto de Noronha, conde de S. Lourenço, que +morreu em 1804, com 79 annos de idade. No penultimo anno de sua vida, +escreveu a sua ultima obra, que ainda não sahiu das gavetas avarentas dos +curiosos de manuscriptos, e intitulou-a _Apontamentos politicos_. + +Seja o conde de S. Lourenço quem impugne a arguição injusta que se faz ao +governo representativo, doestando-o de perdulario de titulos e +nobilitações. Observe-se que o fidalgo escrevia em 1803, e que as ultimas +linhas d'este trecho do seu escripto são uma prophecia; que, n'aquelle +tempo, a raros espiritos se prefiguravam idéas de liberdade, e menos ainda +aos que haviam de ser apeados por ella do pedestal de sete seculos. + +Eis a passagem que tem por epigraphe--_Dos ennobrecidos_: + + +«Os serviços ordinarios, e por assim dizer materiaes, pagam-se com +dinheiro, que se tarifa como qualquer salario, á proporção do trabalho. Os +serviços relevantes, isto é, os que são feitos com perigo de vida, com +força de engenho, ou com espirito de patriotismo, e de que resultam grandes +vantagens ou de facto, ou de exemplo, pagam-se com signaes honorificos, com +distincções, e com titulos, porque se julga, que não tendo preço, se não +podem remunerar senão com honras. E segue-se d'isto, que a moeda mais +preciosa do thesouro do soberano é a faculdade de distinguir e honrar, +porque alcança com ella o que não póde comprar com dinheiro. Mas se ha +facilidade em conceder honras, se se alcançam sem sacrificios, nem +habilidade, n'esse caso todos as querem, muitos as conseguem, e ninguem +fica contente; uns porque querem mais, outros porque ainda não tiveram, e +outros que as tem por seus justos cabaes, porque se acham confundidos na +inundação dos nobres de _acaso_. As consequencias são, que as distincções +deixam de o ser, porque se fazem geraes; que empobrece o thesouro politico +do soberano, porque a moeda mais preciosa perde o seu valor, e que se perde +o espirito da gloria, porque os individuos vem a achar por fim mais +vantagens em buscar conveniencia, do que signaes, que pela sua +multiplicidade, e modo por que se alcançaram vieram a ser de estimação +incerta. + +«Com effeito tem-se vulgarisado as honras, não só á força de concessões +avulsas, mas até de tarifas. Na divisão das tres ordens militares deram-se +tantos habitos de S. Thiago, que apesar de ser uma ordem tão respeitavel, +já ninguem a quer. Concedea-se o fôro de fidalgo a quem no emprestimo real +entrasse com porções avultadas, sem embargo de ficar ganhando juros. +Concedeu-se o mesmo fôro a quem lavrasse certa porção de sêda para vender. +Os officiaes de secretaria, cujo numero tem crescido tanto, tem o habito de +Christo no primeiro anno de serviço, e o fôro de escudeiro no decimo. Os +officiaes do erario tem o habito de Christo, etc., etc., etc. + +«Esta quantidade de tarifas em muito poucos annos reduz os tres milhões de +habitantes a tres milhões de nobres: n'este caso a maior distincção, que +póde haver, é não ser nobre; e o modo de a conseguir é não servindo o +estado de modo nenhum. Parecerá isto um paradoxo, mas a experiencia já vai +mostrando que o não é. + +«As leis do tratamento já não tem vigor, e a arrogação de senhorias, e +excellencias é geral. + +«É da maior difficuldade achar gente para trabalhar, e tanto que no anno de +1801 querendo-se expulsar os gallegos em razão da guerra, não se fez porque +o intendente geral da policia representou, que se se mandassem embora, não +haveria quem servisse a cidade de Lisboa e a do Porto. + +«Se um corpo de nação não póde passar sem tomar criados estrangeiros, não +para as artes, mas para o serviço ordinario, ou é a nação mais fidalga do +mundo, ou a mais paralytica, _e em todo o caso a que mais velozmente corre +para o systema da igualdade, e que mais velozmente se afasta da +monarchia_.» + + +Até aqui o descendente de el-rei D. Fernando no que respeita á +prodigalidade das mercês. Agora, pelo que é da pobreza dos fidalgos, cumpre +saber que a maioria das casas titulares de primeira plana já principiava a +esboroar-se no principio d'este seculo. O golpe da extincção das commendas +pouco sangue já encontrou nos corpos dos commendadores. Se ainda no +_Torneio real_ de 1795, escripto pelo senhor de Pancas, encontramos trinta +e dous fidalgos pompeando as galanices da Asia, indaguemos hoje a paragem +dos netos d'esses homens, que eram os primeiros nomes de Portugal. Onde +estão os haveres do conde de Aveiras? o grande patrimonio do marquez de +Abrantes? de Lavradio? de José Telles da Silva? do marquez de Angeja? do de +Ponte de Lima? do conde da Ega? do de Obidos? do marquez de Nisa? do de +Penalva? do conde de S. Lourenço? do visconde de Barbacena? do marquez de +Tancos? do conde de Sabugal? Estes eram do numero dos trinta e dous +fidalgos que resplandeceram nas cavalhadas no anno de 1795 para festejar o +nascimento do principe D. Antonio. E dos restantes, exceptuada a casa de +Cadaval, com pesar de ss. exc.^as, força é declarar que não ha ahi barão +moderno que lhes inveje a riqueza. + +A santa casa da Misericordia de Lisboa abre-nos o seu livro de creditos, no +anno de 1813, e mostra-nos a voragem da parte ainda hypothecavel dos bens +d'esses fidalgos que, em nossos dias, vimos inteiramente desbaratados. +Entre 1813 e 1833 rodaram vinte annos, e a ladeira que resvalava os +dissipadores á voragem era cada vez mais escorregadia. O proprio conde de +S. Lourenço, que presentira o naufragio da nobreza, levada a pique pela +rajada da liberdade, não educou seus filhos melhormente que os seus iguaes +em fidalguia, e desigualissimos em intelligencia. Se elle anteviu a +borrasca, devera colher as velas á nau, que se desmantelou, como as outras +norteadas por palinuros, ignorantes e cegos. + +Na lista dos devedores á Misericordia, encontramos algum raro fidalgo, cuja +casa se teve no balanço, e hoje mantém o antigo luzimento. Esse tal +achal-o-hemos acostado á restauração liberal de 1833, e quinhoeiro, por +tanto, das regalias que auferiram os parciaes do imperador. No entanto, dos +que serviram a liberdade, houve d'elles que nem assim lograram reparar as +ruinas. + +O leitor curioso poderá estremal-os na seguinte lista: + + +A casa de Rezende devia á Misericordia de Lisboa com vencimento de juros, +no dia 8 de março de 1813 9:991$509 + +A de Ponte de Lima 1:270$442 + +A de Abrantes 8:978$105 + +A de Tancos 11:750$000 + +A de Louriçal 9:600$000 + +A de Obidos 101:490$899[2] + +A de S. Vicente 4:000$00 + +A de Soure 21:080$698 + +A de Borba 1:278$154 + +A de Pombeiro 18:508$500 + +A de Coculim 9:400$000 + +A de Loulé 5:715$494 + +A de Lavradio 11:700$000 + +A de Unhão 4:655$011 + +A de Vidigueira 353$128[3] + +A de Alorna 40:665$011 + +A de Atouguia 3:989$115 + +A de S. Miguel 10:295$565 + +A de Tavora 7:289$433[4] + +Seguem-se Antonio Telles da Silva, D. Antonio Soares de Noronha, o conde de +Alvor, dos Arcos, de José Felix da Canha, de D. Diniz d'Almeida, de D. Luiz +de Portugal da Gama, de D. Rodrigo Xavier Pedro de Sousa, e outros, +perfazendo 340:359$700. + +O empregado da secretaria da Misericordia, que passou a certidão n'aquelle +mesmo anno de 1813, acrescenta de lavra sua: «Alguns d'estes capitaes se +consideram perdidos, porque os devedores tem provisões com tempo +illimilado, e não possuem bens livres. Ha outros litigiosos e duvidados +pelos devedores; de sorte que são muito poucos os que se podem manifestar +como liquidos.» + +Por onde se conclue que a minguada fortuna dos pobresinhos cahira em +honradas mãos! Eu, contra o parecer do escripturario, creio que os +fidalgos, menoscabados de insoluveis, pagaram todos com mais ou menos +pontualidade; e, se não pagaram, desculpe-se-lhes o começarem a +misericordia por si. + +Eu sei que os fidalgos do _acaso_, como acima lhes chama o conde de S. +Lourenço, se rejubilam de ter estirado as camadas do seu lodo por cima dos +honrosos vestigios dos outros. Ouso, porém, a liberdade de lembrar a suas +excellencias que a tradição da raça e as pêas dos vinculos conservaram +através dos seculos os nomes historicos; ao passo que estes adventicios +afidalgados, á falta do vinculo que os tenha alguns seculos pendurados no +esgalho do tronco velho, bem póde ser que se estejam desentranhando em +filhos para futuras tripeças. + +Se assim fôr, que Deus os faça sapateiros engenhosos, para que a comedia +humana não seja de todo em todo ridicula e inutil ás artes. + + [2] O palacio d'esta familia foi comprado ha pouco pelo rei, e dado a + uma senhora d'esta casa aia do principe. + + [3] O fallecido marques de Nisa succedera na posse de duas riquissimas + casas, a de Vidigueira e a de Cascaes. O Paul, vastissima propriedade + vendida ao capitalista Eugenio de Almeida, havia sido dado por D. João + I a João das Regras, ascendente dos senhores de Cascaes. O marques + morreu pobre. Deixou dous nobilissimos filhos: um é aprendiz de + negociante no Brasil, o outro tem um engenho de fazer cigarros depois + de ter tido perto de Paris um restaurante, em que era caixeiro um filho + de José Estevão. Ó Vasco da Gama!... Ó Demosthenes lusitano! + + [4] Estas quatro ultimas casas estão ementadas na lista como extinctas. + + + + +LISBOA + + +Ha mais de dous seculos que um viajante francez de grande qualidade esteve +em Lisboa. Volvidos trinta annos, o filho do companheiro de viagem d'esse +incognito senhor mandou imprimir em Hollanda as viagens que seu pai +escrevera, e deu este titulo ao livro: _Voyages faits en divers temps en +Espagne, en Portugal, en Allemagne, en France et ailleurs. Par Monsieur M. +**** A Amsterdam, MDCC_. + +Entraram os viajantes em Lisboa, no dia 18 de maio de 1669. Em sete paginas +de oitavo pequeno esgotaram as impressões que Portugal lhes suggeriu; mas +não nos detrahiram nem calumniaram. D'essas sete paginas, provavelmente +desconhecidas ao commum dos leitores, a substancia é esta: + + +«Lisboa é muitissimo povoada, pois que todas as nações alli trazem gente, +sendo muita a mourisma que lá é escrava, e procede de Guiné. As liteiras +são mais que as carroças; mas são magnificas. E, porque a cidade se fórma +de outeiros, o que mais se usa são cavallos e mulas. As igrejas são +aceadissimas e formosas. Os portuguezes andam armados de espada e punhal. + +«São os portuguezes mais ciosos de suas esposas que os hespanhoes. As +mulheres sahem de casa menos vezes que as de Madrid: o que faz que lá se +diga que ellas vão á igreja tres vezes no anno: baptisar-se, casar-se e +enterrar-se. + +«É notório que o marido, apenas suspeita do proceder da mulher, trata logo +de a esfaquear; d'onde lhes urge a ellas estarem muito de sobreaviso, e +haverem-se com grande precate no logro dos maridos, vingando-se assim da +escravidão em que vivem. + +«Sobre a tarde, fomos vêr o convento da Esperança onde a rainha esteve +encerrada seis mezes[5] quando deixou o rei que está na ilha Terceira, a +trezentas leguas distante de Lisboa. D. Pedro, seu irmão, governa +actualmente, e casou com a cunhada, filha do fallecido principe de Nemours +da casa de Saboya. Ella vai ao conselho, e assiste com o marido ás +audiencias. D. Pedro não quiz ainda ir ao paço para ser coroado. Vive em +sua casa, que foi confiscada ao marquez de Castello Rodrigo, que seguiu o +partido de Castella quando Portugal se rebellou. Segundo os tratados, os +bens já deviam ter sido restituidos ao marquez; mas até agora nem n'isso +pensam. Esta casa está situada á ourela do Tejo, perto do palacio real. +Guardam-na vigilantemente trezentas sentinellas vestidas de pardo agaloado +de verde. O paço é quadrado, e cheio de mercearias(?): é edificio pouco +distincto. Tem dentro uma praça limpamente areada, e um chafariz no centro. + +«É ahi a praça dos touros. O paço estava desalfaiado. A capella, rica de +azul e ouro, é bellissima. Os armazens dos utensis destinados á marinha de +guerra, são ahi ao pé. Navios mercantis tem poucos. Mandam apenas cinco ou +seis ao Brazil, e servem-se dos inglezes e hollandezes para importar +assucar e outros generos a Lisboa. Ahi perto andam a edificar-se dous +salões, em que os mercadores se ajuntam a negociar. Vimos uma igreja que a +rainha-mãi fandou, e onde está enterrada[6]. Todo o tecto é de ebano, bem +como as columnas de laçarias douradas. Os pavimentos de todas as igrejas de +Lisboa são de adobes azulejados com figuras. Ha ahi uma, onde se veem +retratadas as cabeças das pessoas condemnadas e queimadas pela inquisição. +Presentemente não ha inquisidor geral. + +«O palacio onde mora D. Pedro e a rainha é composto de quatro pavilhões +pequenos e dous eirados onde aquella princeza vai de tarde tomar ar com as +damas. Está ahi sempre o «regimento da armada.» As ante-camaras estão +sempre atalaiadas. + +«O principe e ella dão audiencia todas as terças feiras. Elle é corpulento, +rosto magro e trigueiro. Desde que esteve doente, usa cabelleira. Sahe +pouco acompanhado, e dizem ser affavel e cortez. A rainha traja á +hespanhola com guarda-infante, com os cabellos soltos pelas costas, +encaracolados, e laçados de fitas. Tem uma filha que parece lindissima, +cuja aia é a condessa de Añon (Unhão). Segue-a o seu mordomo duque de +Cadaval. A rainha tem um anão indio que anda sempre com ella: é tão bem +proporcionado que parece uma criança, visto pelas costas; mas pela frente +não, que já tem barba. Já tinha sido da rainha-mãi, e goza da fama de +engraçado... A rua dos Mercadores é muito bonita. Ha ahi bons acepipes, e +confeitos excellentes. A 18 de maio comemos cerejas e damascos já maduros. +O que é incommodo é não haver neve, nem as bebidas refrigerantes de +Hespanha.» + + +E nada mais que mereça menção. + +A respeito da Lisboa de 1669, que era, pouco menos, a Lisboa de 1754, um +anno antes do terremoto, darei alguns pormenores. O que tenho visto +impresso não satisfaz a curiosidade. João Baptista de Castro, o author do +_Mappa de Portugal_, conheceu a velha Lisboa, e o que nos disse é tão +diminuto que pouco vale. No _Panorama_ e _Archivo_ ha artigos de bons +investigadores; mas pouco mais fazem que distender as noticias de Nicolau +de Oliveira e outros que viram a Lisboa do seculo XVII. + +O inedito, que tenho, ácerca da capital, dá noticias que provam ser +escripto em 1754. Não lhe conheço author. Foi homem que, viajando, escrevia +uma geographia da Europa alphabeticamente e levava a sua obra na letra _L_ +(_LIXA, chamada pelos europeus LARACHE_), quando, talvez, o terremoto lhe +colheu de golpe a vida, ou lhe esfriou o ardor do trabalho. + +No proximo numero trasladarei o que me parecer menos sabido. + + [5] A mulher de Affonso VI e de Pedro II. + + [6] Era a de Corpus-Christi dos carmelitas descalços, fundada no sitio + em que Domingos Leite Pereira tentou matar D. João IV. Esta igreja + desappareceu no terremoto e incendio de 1755. + + + + +FERREIRA RANGEL + + +Vivia aqui no Porto, ha pouco mais de mez, um homem que, ha vinte annos, +atroava o café-Guichard com o trovão da sua voz. Chamava-se Francisco +Ferreira Ribeiro Pinto Rangel. + +Era liberal como um dos mais egregios romanos que morreram no templo de +Diana, á beira de Caio Gracco. Era valente caudilho do povo; e das +primeiras cutiladas do sabre dos esquadrões, nos motins anteriores a 1846, +tinha elle as cicatrizes na cabeça. Era poeta da escóla antiga de Filinto e +Diniz, como se demonstra no seu poema intitalado _D. Sebastião_. Era +versado na lição dos socialistas, cujas doutrinas apregoava nos botequins, +com um fogo de convicção, que lhe afusilava através dos oculos, e mettia +medo nos peitos de mais fino aço. + +Teve um irmão que lhe foi antipoda na esphera politica. As pessoas do tempo +de D. Miguel conheceram-o, vivendo faustamente. Chamavam-lhe o +_escrivão-fidalgo_, porque era escrivão e tratava-se á lei da nobreza. Este +homem conheci eu chefe de estado-maior do general realista Macdonell. +Morreu briosamente, em uma madrugada de janeiro de 1847, ao lado do +general, desfechando um par de pistolas de pederneira, cuja escorva a neve +d'aquella noite humedecera. O morto deixou dous filhos, e tres ou quatro +esbeltas meninas. Parece-me que os vi e conheci na minha mocidade. Ouvi +dizer que voltaram ricos do Brazil. Se bem me lembro, já escrevi a +necrologia de um, que por signal estava vivo, e nem sequer me agradeceu, +com um bilhete de visita, ser eu a unica pessoa de Portugal que lhe ajuntou +ao nome esquecido quatro palavras de saudade e dó. + +Agora, faço o mesmo ao tio, que morreu ha pouco mais de mez, e ninguem +perguntou que pobretão era um que levaram na tumba dos pobres, entre quatro +tochas, desde a rua Chã até ao Prado. + +Pois era, era aquelle Ferreira Rangel que todos ouviamos e respeitavamos, ó +rapazes de ha vinte annos! + +A imprensa diária tem olheiros que superintendem em estupros, facadas, +roubos e incestos; mas a alçada d'estes espias não chega até ao esquife do +defunto sem testamento. + +Ferreira Rangel chegou ao cemiterio ao fechar de uma noite orvalhada de +dezembro. O coveiro estava prevenido e a postos. Não havia que esperar +garganteações de psalmos. A fossa da valla dos pobres estava aberta. Na +gleba desaterrada alvejava ainda o craneo e as vertebras cervicaes d'outro +pobre. Tresandava o fartum da podridão abafada. Aquillo fez-se depressa. O +caixão baqueou, desamparado de alto. Deu uma toada cava na terra fôfa. Os +portadores d'aquelle pobre aconchegaram os capuzes das orelhas cortadas do +suão, e sahiram de corrida. O coveiro deixou ao relento o caixão, e foi no +dia seguinte, aquecido com aguardente, volver sobre as taboas chuviscadas o +comoro de terra, que alisou com a pata da enxada. + +Depois, o eterno silencio. + +................................................... +................................................... + +Envio os meus sentimentos aos sobrinhos ricos d'este homem, e dispenso-os +do bilhete de visita. + + + + +AS JOIAS D'UM MINISTRO DE D. JOÃO V NO PREGO + + +Este ministro era Alexandre de Gusmão. + +Nasceu no Brazil, em Santos, provincia de S. Paulo, por 1695, e falleceu em +Lisboa, em 1753. + +Foi cavalleiro professo na ordem de Christo; + +Fidalgo da casa real; + +Secretario particular de D. João V--_o Dissipador_; + +Conselheiro de capa e espada do conselho ultramarino: + +E, quando morreu, parte dos seus haveres, as joias de sua defunta mulher +estavam empenhadas, e foram vendidas em hasta publica. + +Tenho a triste satisfação de enviar esta novidade aos biographos d'aquelle +varão illustre, e nomeadamente aos escriptores brazileiros, os snrs. +Pereira da Silva e Fernandes Pinheiro, solicitos averiguadores da +accidentada vida do seu conterraneo. + +S. exc.^as dizem que Alexandre de Gusmão morreu pobre, tendo perdido os +bens e dous filhos no incendio de sua casa. Os documentos que, pela +primeira vez se escavam no veio inexplorado das secretarias, ajustam-se á +opinião d'aquelles notaveis escriptores; mas o ex-secretario de D. João V +morreu sem ter conhecido as necessidades dos que se dizem pobres. + +Do _Livro dos registros_, ou _Copiador_ dos officios remettidos do gabinete +do duque-regedor ás corregedorias, trasladamos o seguinte: + + +«Para o corregedor do civel da côrte Francisco Xavier de Mattos Broa. Sua +Magestade é servido ordenar que vm.^ce, em cumprimento do precatorio que +lhe passou o desembargador Antonio de Sousa Bermudes de Torres, como juiz +do inventario dos bens de Alexandre de Gusmão, faça logo remetter para o +juizo do inventario para n'elle ser vendido um laço, fita de pescoço, e uns +brincos de diamantes e rubins que se acham no deposito geral da côrte, a +requerimento de Anna Maria do Vencimento, conservando-se no preço d'estas +joias a mesma hypotheca e direito que esta credora tem pela penhora que +n'elles fez. Deus Guarde a vm.^ce Paço 13 de maio de 1755.» + + +Segue-se, com data do dia anterior, outro officio ao mesmo proposito: + + +«Para Amador Antonio de Sousa Bermudes de Torres. Sua Magestade deferindo +ao requerimento que lhe fez Miguel de Avilez Carneiro foi servido ordenar +que o corregedor do civel da côrte remettesse ao juizo do inventario dos +bens de Alexandre de Gusmão as joias que se acham no deposito da côrte, com +penhora feita por Anna Maria do Vencimento. É o mesmo senhor servido que +vm.^ce as faça vender em o leilão que se está fazendo dos ditos bens, com a +declaração, porém, que o procedido das ditas joias se não confundirá com o +preço dos outros bens, ficando no valor d'estes conservada a penhora e +hypotheca especial que n'ellas tinha a credora, para se lhe reservar n'esta +parte o direito que tiver para a preferencia. Deus Guarde a vm.^ce Paço 12 +de maio de 1755.» + + +Os descendentes d'esta snr.^a Anna Maria, se a sorte lhes bafejou mais +propicia que ao ministro de D. João V, devem estar hoje de posse das joias +de Alexandre de Gusmão. Regosijem-se. + +Quaes seriam os outros bens leiloados? Uma quinta já eu descobri folheando +um grosso volume manuscripto, intitulado: _Tombo das herdades de Nossa +Senhora da Ajuda, de Val de Figueira, e da Atalaia, sitas no termo da villa +de Cabrella, que são do ill.^mo e exc.^mo conde de Oeiras, feito por ordem +de S. M. que Deus guarde. Anno de 1763._ + +Vejam que cousas eu folheio no intervallo de dous capitulos de romance em +que ha meninas louras e mancebos de pupilla ardente a dialogarem á +competencia com a calhandra portugueza e o sabiá brazileiro! + +Pois d'este tombo a pag. 46 v. consta que uma herdade do valido de D. José +partia _com a quinta que foi de Alexandre de Gusmão em Val de Figueira_. + +Quem possue hoje a quinta do privado de D. João V? + +Não me recordo onde li que elle tivera boa quinta de recreio no valle de +Alcantara, e era convisinha de outra que pertencera ao grande escriptor D. +Francisco Manoel de Mello, que lá se finou, mais pobre que Alexandre de +Gusmão, um victima da libertinagem de D. João IV, outro victima da +ingratidão de D. João V e de seu augusto filho. + +Este ministro, irmão do padre Bartholomeu de Gusmão, alcunhado o _Voador_, +foi sempre malquisto dos frades que perseguiram como necromante o inventor +dos balões. Tres homens affectos a D. João V foram grandemente satyrisados +n'aquelle tempo: o marquez de Gouvêa, D. Martinho Mascarenhas, pai do que +depois foi duque de Aveiro, e morreu no patibulo como regicida; frei Gaspar +Moscoso, ou da Encarnação, da mesma familia, e Alexandre de Gusmão. + +Eis aqui um _specimen_ das satyras: + +/* + _Quem destruir-nos idéa?--Gouvêa._ + _Quem merece a Inquisição?--Gusmão._ + _Quem o deve acompanhar?--Gaspar._ + _Pois, meu rei, acautelar!_ + _Olho aberto, e vêde bem,_ + _Que no reino não convém._ + _Gouvêa, Gusmão, Gaspar._ +*/ + + + + +O ORACULO DO MARQUEZ DE POMBAL + + +Costumavam os nossos avós queimar os judeus--(não assevero que os avós de +quem isto escreve não fossem tambem queimados). Se os não colhiam ás mãos, +confiscavam-lhes os bens. Mas, dado caso que os judeus fugitivos enviassem +lá do exilio aos reis ou aos ministros bons alvitres da arte de governar, +aceitavam-lhes o favor e praticavam o seu parecer; mas não lhes concediam +voltarem ao reino, sem a condição de se deixarem torrar. Isto aconteceu +nomeadamente com o famoso Antonio Nunes Ribeiro Sanches, medico portuguez, +nascido em Penamacor em 1699, e fallecido em Paris, por 1783. Vivendo 84 +annos, grande parte dos quaes curtiu nos invernos da Russia, não precisa +exhibir melhores certidões de bom medico. Se se deixa ficar na patria, +havia de custar-lhe a resistir á temperatura alta que os frades dominicanos +faziam no campo da Lã em obsequio á hygiene da alma. + +Antonio Nunes Ribeiro Sanches, conselheiro de estado da imperatriz da +Russia, correspondia-se com os estadistas portuguezes, christãos velhos. O +marquez de Pombal, ou não quiz, ou apesar da sua omnipotencia, não logrou +assegurar repouso na patria ao seu douto oraculo, em paga dos conselhos e +projectos de boa administração que o neto de hebreus lhe suggeriu de Paris, +e o valido ingrato aproveitou, occultando-lhes a procedencia. A creação do +_collegio dos nobres_, por carta de lei de 7 de março de 1761, havia sido +aconselhada por carta de Ribeiro Sanches, datada em Paris, em 19 de +novembro de 1759. + +Possuo esta carta autographa. Contém 129 paginas em 4.º maior. Não sei se +um rarissimo livro intitulado _Cartas sobre a educação da mocidade_, +impresso em Colonia em 1760, é o traslado d'este manuscripto. Não vi ainda +exemplar algum. Entre as obras ineditas do illustre medico, nomeadas na +biographia que Vicq-d'Azir lhe escreveu e Francisco Manoel do Nascimento +traduziu, ha uma intitulada: _Plano para a educação de um fidalgo moço._ O +manuscripto, de qualquer modo precioso, que possuo, deve ser o original de +alguma das duas obras. + +Dous escriptores portuguezes de subida reputação, ambos ministros de estado +honorarios, os snrs. José Silvestre Ribeiro e D. Antonio da Costa, +enriqueceram recentemente a litteratura patria, com os seus livros +intitulados _Historia da instrucção popular em Portugal desde a fundação da +monarchia até aos nossos dias_, e _Historia dos estabelecimentos +scientificos, litterarios e artisticos de Portugal nos successivos reinados +da monarchia_. Os doutissimos authores, com certeza, aproveitariam optimos +subsidios da leitura do raro livro de Ribeiro Sanches, se o manuscripto, +que tenho, é o rascunho do livro impresso em Colonia, cuja raridade o snr. +Innocencio F. da Silva encarece. O senhor conselheiro José Silvestre +Ribeiro, quando louva o progresso das letras e artes no reinado de D. José +I, recordaria com menção gloriosa o nome obscurecido do medico portuguez, e +daria ao marquez de Pombal a parte mediana que lhe cabe no alvidramento da +reforma da universidade, do collegio dos nobres, nas escólas militares, e +no mais, respeitante aos beneficios que a historia lhe desconta na +ferocissima condição. + +Ribeiro Sanches, antes de indicar o methodo proficuo na educação dos +fidalgos, discorre ácerca da educação antiga, e chegando ao meado do seculo +XVI, escreve: + + +«.... Vimos acima que, desde o anno 1500 até o anno de 1570, existiu o +maior luxo que jámais viu Portugal. El-rei D. Manoel introduziu-o na côrte, +e foi o primeiro que se vestiu umas vezes á franceza, outras á flamenga[7]. +Como não teve guerra na Europa, nem seu filho, nem seu bisneto el-rei D. +Sebastião, com as riquezas do Oriente cahiu a fidalguia no maior luxo, e +por consequencia n'aquelle total esquecimento da boa educação que tinha ou +na paço dos reis antigos ou em casa de seus paes. No tempo d'el-rei D. +Pedro, _o Justiceiro_, tanto que se sabia no paço que tinha nascido algum +filho de fidalgo, mandava logo el-rei a sua casa a provisão da moradia ou +fôro que deixava em poder da mãi ou da ama que creava o menino, e n'estes +tempos se chamavam os reis paes de seus vassallos. Depois, crescendo o +numero, se ordenou que sómente se usasse d'esta graça com o primogenito, e +d'esta resolução veio a descahir aquelle amor da patria, porque faltou a +boa educação que tinham no paço todos os filhos de fidalgos com moradia. + + «Era já de quasi 80 annos quando o imperador da Ethiopia mandou a +Lisboa um embaixador com grandes presentes para el-rei D. Manoel procurando +sua amizade e propondo reciprocos interesses; e, querendo el-rei +corresponder-lhe, entrou na consideração de quem seria a pessoa que lá +mandasse por embaixador. Succedeu depois, estando el-rei em Evora, mandar +fazer um gibão de uma fazenda rara que lhe chegára da India; e, no dia em +que o vestiu, sahiu a uma sala em que estavam varios fidalgos, a cada um +foi mostrando o gibão, que todos gabavam por comprazer a el-rei; e, como +fosse um d'elles Duarte Galvão, só este o não lisongeou, dizendo-lhe que os +reis de Portugal seus antecessores cuidavam menos em atavios do que em +cumprirem com os encargos que Deus impunha aos reis. Seria melhor que não +fallasse assim para seu descanço, porque isto decidiu a eleição do +embaixador que havia de ir á Ethiopia; e logo el-rei, com palavrosos termos +de honra e conceito, nomeou o pobre ancião; mas assentando que morreria no +caminho como succedeu na altura da ilha do Camarão em 9 de junho de 1517.» + +«No tempo d'el-rei D. João II lhe representaram em côrtes que ordenasse se +creassem os fidalgos no paço como era costume antigamente: signal certo que +se educava alli a primeira mocidade do reino. Já dissemos acima que a +educação da nobreza toda se reduzia a fazer o corpo robusto, e fortissimo, +o animo ousado, e destemido; além d'aquelle agrado que reinava no +galanteio, e serviço das senhoras, não deixavam de instruir o animo com +aquelles poucos conhecimentos scientificos que se conheciam: sómente na +familia do infante D. Henrique foi esta educação mais consideravel, porque +sahiram muitos do paço d'aquelle famoso principe excellentemente instruidos +nas mathematicas e boas letras, como foi o grande Albuquerque, e D. João de +Castro.» + + +Discorre o medico ácerca das causas que abastardaram a educação dos +fidalgos: + + +«Mas tanto que os reis tiveram mais que dar que as terras da corôa; tanto +que tiveram commendas, governos, e cargos lucrativos, tanto nas conquistas, +como no reino, logo os fidalgos começaram a cercar os reis, e ficarem na +côrte; porque pela adulação, pelo agrado, e pelas artes dos cortezãos +sabiam ganhar as vontades dos reis, não tendo aquellas occasiões forçosas +de obrarem acções illustres para serem premiados por ellas. Isto vêmos +succedeu no tempo d'el-rei D. Duarte, quando ordenou que todo o fidalgo que +não tivesse cargo na côrte que fosse a viver nas suas terras. + +«Logo que todos os fidalgos fizeram a sua assistencia na côrte no tempo da +paz, logo que seus filhos eram educados em suas casas, já ricas, e +poderosas pelas dadivas dos reis em commendas, pensões, governos e cargos, +necessariamente se havia de seguir uma educação estragada; a meninice +entregue na mão das amas, e de mulheres communs; a puericia entre as mãos +dos criados, e dos escravos; até o tempo d'el-rei D. Sebastião poucos +sabiam mais que lêr e escrever; porque já a escóla do infante D. Henrique +estava acabada; e toda a educação se reduzia a saber os mysterios da fé, +porque os seus mestres sendo ecclesiasticos e ignorantes da obrigação de +subdito, de filho, e de marido, chegavam á idade da adolescencia com o +animo depravado: sem humanidade, porque não conheciam igual; sem +subordinação, porque eram educados por escravas, e escravos, ficava aquelle +animo possuido da soberba, e vangloria, sem conhecimento da vida civil, nem +com a minima idéa do bem commum. Assim degenerou aquella educação do paço, +na qual pelo menos aprendiam a obedecer, na mais insolente tyrannia de +todos aquelles com quem tratavam.» + + +E, vindo ao ponto da reforma urgente na educação da nobreza, escreve: + + +«Parece-me que vistos os notaveis inconvenientes da educação domestica, e +das escolas ordinarias, que não fica outro modo para educar a nobreza, e a +fidalgia do que aprender em sociedade, ou em collegios: e como não é cousa +nova hoje em Europa esta sorte de ensino, com o titulo de _corpo de +cadetes_, ou escóla militar, ou _collegio dos nobres_, atrevo-me a propôr á +minha patria esta sorte de collegios, não sómente pela summa utilidade que +tirará d'esta educação a nobreza, mas sobre tudo, o estado, e todo o povo.» + + +Ahi está o aviso do christão novo, seguido, e executado dous annos depois, +quanto á fundação do _collegio dos nobres_. + +Depois, indica o doutor Ribeiro Sanches as sciencias que devem ensinar-se +já no collegio, já nas aulas militares. Todas entraram na organisação dos +estatutos. + +Em um §. intitulado: _Em que idade deveriam entrar os educandos na escóla +real militar_, divaga o insigne medico por considerações a respeito das +mães. Transcrevo o que me parece digno de ser lido por ellas: + + +«Tanto que as riquezas da Africa e do Oriente entraram em Portugal, logo +começou a mostrar-se o luxo nos vestidos, comidas, e mais commodidades +estrangeiras; começou a esfriar-se o amor das familias, e por ultimo da +patria. El-rei D. João III foi o ultimo rei que foi creado com ama nobre, e +já seus filhos, nem seu neto el-rei D. Sebastião, tiveram amas, mais que da +classe plebêa; indicio certo que as senhoras não creavam já seus filhos, +como nos tempos anteriores: introduziu-se este destructivo costume da raça +humana, do amor filial, e dos bons costumes; e apesar de tanto sermão, +missões, e praticas espirituaes, nenhuma senhora quer sacrificar a sua +formosura. Seria loucura persuadir o que ninguem quer abraçar. + +«Tem para si estas mães, que não criam, que conservarão por mais tempo a +formosura, e que dilatarão a vida com mais vigor e forças, e que perderiam +a sua boa constituição creando por dezoito mezes ou dous annos. Mas é +engano manifesto, e o contrario se sabe pela experiencia, e pela boa +physica. + +«A mulher que deu á luz um filho, e que não o cria, em pouco tempo vem a +conceber de novo: a gravidez de nove mezes é uma enfermidade, que +enfraquece mais o corpo, do que crear aos peitos por anno e meio: e como +concebem antes que as partes da geração adquirissem pelo repouso a sua +natural consistencia, succede, que estas senhoras abortam mais +frequentemente: enfermidade tão consideravel, que muitas ou perdem a vida, +ou ficam achacadas; perdendo em poucos annos o idolo da sua belleza, +ficando frustradas do seu intento, e expostas a viverem por toda a vida com +mil desgostos, e pezares.» + +......................................... + +«Até agora os damnos que soffrem as mães. Mas os mais consideraveis e +lamentaveis são aquelles que se imprimem no animo das crianças creadas por +amas. Se fôramos nascidos para viver nos desertos da Africa, ou nos bosques +da America, pouco importava que as amas imprimissem no nosso animo aquellas +idéas de terror de feitiços, de feiticeiras, de duendes, de crueldade, e de +vingança; mas somos nascidos em sociedade civil, e christã; aquellas idéas +que nos dão as amas são destructivas de tudo o que devemos crêr, e obrar: +ficam aquellas crianças expostas ao ensino de mulheres ignorantes, +supersticiosas; são os primeiros mestres da lingua, dos desejos, dos +appetites, e das paixões depravadas: chegou o menino a fallar, já está +cercado de duas ou tres mulheres mais ignorantes, mais supersticiosas do +que a ama; porque estas são mais velhas, e sabem mais para destruir aquella +primeira intelligencia do menino: chega á idade de caminhar, já tem seu +mocinho, ordinariamente escravo, e como foram pelas mães creados por taes +amas, e velhas, são os terceiros mestres até á idade de seis ou sete annos: +e se o mau exemplo do pai e da mãi põem o sello a esta educação, fica o +menino embebido n'estes detestaveis principios, que mui difficilmente os +melhores mestres podem arrancar aquelles vicios pelo discurso da idade +pueril. + +«Será impossivel introduzir-se a boa educação na fidalguia portugueza em +quanto não houver um collegio, ou recolhimento, quero dizer, uma escóla com +clausura para se educarem alli as meninas fidalgas desde a mais tenra +idade: porque por ultimo as mães, e o sexo feminino são os primeiros +mestres do nosso; todas as primeiras idéas que temos provém da creação que +temos das mães, amas, e aias; e se estas forem bem educadas nos +conhecimentos da verdadeira religião, da vida civil, e das nossas +obrigações, reduzindo todo o ensino d'estas meninas fidalgas á geographia, +á historia sagrada, e profana, e ao trabalho de mãos senhoril, que se +emprega no risco, no bordar, pintar, e estofar, não perderiam tanto tempo +em lêr novellas amorosas, versos, que nem todos são sagrados, e em outros +passatempos onde o animo não só se dissipa, mas ás vezes se corrompe; mas o +peor d'esta vida assim empregada é que se communica aos filhos, aos irmãos +e aos maridos. D'aqui vem, que sendo da mesma nação, da mesma familia, e da +mesma casa, estão introduzidas duas sortes de lingua, ou modos de fallar: a +conversação que se deve ter com as senhoras, não ha de ser sobre materia +grave, séria; estas conversações judiciosas ficam reservadas para algum +velho, ou para algum notado de extravagante: e assim succede que ficam as +senhoras por toda a vida (ordinariamente) meninas no modo de pensar, e com +tão miseraveis principios vem ellas as suas amas, as suas aias, e donas a +serem os mestres d'aquelles destinados a servir os reis. + +«Não me accuse v. ill.^ma que sahi fóra do intento que lhe prometti: achei +que tratar da educação que deviam ter as meninas nobres e fidalgas merecia +a maior attenção, porque por ultimo vem a ser os primeiros mestres de seus +filhos, irmãos, e maridos. V. ill.^ma sabe muito melhor do que eu aquelles +monumentos que temos na historia romana, e tambem na nossa, de tantas mães +que por crearem, e ensinarem seus filhos foram as que salvaram a patria, e +a illustraram: houve em Roma muitas Cornelias, como em Portugal muitas +Philippas de Vilhena. Mas n'aquelle tempo ainda o luxo, ou a dissolução não +se tinha apoderado do animo portuguez, porque as riquezas não eram tão +appetecidas. A connexão que tem a educação da mocidade nobre que prometti a +v. ill.^ma me obriga a ponderar, se não seria mais util para a conservação +e augmento da religião catholica transformarem-se tantos conventos de +freiras, e das ordens, principalmente militares sem exercicio algum da sua +destinação, n'estes estabelecimentos que proponho, tanto para a mocidade +nobre masculina, como feminina? Com o exemplo das educandas, ou _Filles de +St.-Cyr_, fundação perto de Versailles, e com o da escóla real militar, se +poderiam fundar no reino outros ainda mais vantajosos para a mesma nobreza, +e para a conservação e augmento da religião e do reino. Mas espero ainda +vêr nos meus dias estabelecimentos semelhantes em tudo, ou em parte que +satisfaçam todo o meu desejo.» + + +Eu tinha vontade de prolongar o traslado; mas a leitora que é mãi, joven e +formosa, desdenha os conselhos do medico; a que não é mãi, de certo não +percebeu as theorias physiologicas em que se fundamentam as censuras; e o +leitor que de certo leu á esposa as paginas impregnadas de maternidade, +n'aquelle tom circumspecto de nossos avós patriarchaes, dorme... +patriarchalmente. + +Boa noite. + + [7] Diogo de Paiva de Andrade, o sobrinho, confirma nas soas _Memorias_ + ineditas, esta passagem com a seguinte anecdota: «Duarte Galvão, um dos + benemeritos varões do seu tempo, foi secretario d'el-rei D. João II, e + por elle e seu successor el-rei D. Manoel mandado muitas vezes por + embaixador a differentes côrtes da Europa. Encarregado pelo emprego de + chronista-mór de ordenar as chronicas dos reis d'este reino, escreveu + nove desde D. Affonso Henriques até el-rei D. Fernando, servindo em + toda a sua vida com muita aceitação dos seus principes os empregos que + lhe confiaram. + + + + +O PRINCIPE PERFEITO + + +O snr. Pinheiro Chagas, na sua estimadissima _Historia de Portugal_, tomo +III, pag. 155, relatando vigorosamente a ferocidade de D. João II, escreve: + + +«Estamos bem longe d'applaudir, com Ruy de Pina e Garcia de Rezende, estas +ferocissimas repressões, mas tambem não podemos concordar com o snr. +Camillo Castello Branco, que escreve o seguinte a respeito d'el-rei D. João +II: + +«O real carrasco, a quem infamissimos aduladores da corôa chamaram +_principe perfeito_, surge hediondo diante da posteridade, alçando-se por +sobre a nuvem dos incensos, com que thuribularios abjectos cuidavam +escondel-o á execração dos vindouros. Raro ha quem se canse em esgaravatar +razões d'estado, que contrapesem a ferocidade do filho d'Affonso V. A +historia, á volta d'elle, o que encontra é cadaveres, oitenta cadaveres de +homens illustres, uns estrangulados, outros decapitados, estes mortos a +punhal, aquelles a peçonha. _Oitenta_, confessou elle o numero, quando a +morte lhe acenava de perto, e se lhe desabafava a consciencia, supplicando +ao papa contritamente o perdão dos seus peccados. + +«Os lances capitaes de tão má alma contou-os a historia á tragedia. O +theatro portuguez já se enlutou com os quadros de canibalismo, trazidos á +rampa e ao grande brilho dos lustres, para que o povo visse justificada a +razão que teve a villanagem dos chronistas d'alligarem ao assassino do +duque de Vizeu o antonomastico epitheto de _principe perfeito_.» + +«O illustre escriptor é demasiadamente severo com o grande rei a quem +Portugal deve tanto. Que a energia de D. João II degenerava em ferocidade, +é incontestavel, e não pretendemos absolvel-o dos crimes que pesam sobre a +sua memoria. Mas qual dos grandes homens, que figuram na historia, se +apresenta immaculado no tribunal da posteridade? No assassinio do duque de +Vizeu achamos, devemos confessal-o, em attenção aos costumes da época, D. +João II, menos hediondo do que no caso do duque de Bragança. É uma luta a +todo a transe entre D. João II e a nobreza, e el-rei, que teve por tantas +vezes a morte diante dos olhos e que sempre a affrontou sem empallidecer, +pôde, quando se lhe offereceu ensejo, antecipar-se aos seus adversarios, e +voltar contra elles o punhal com que o ameaçavam. O duque de Vizeu foi +ferido pela catastrophe que trazia pendente sobre a cabeça do seu +adversario; foi vencido na batalha. Se D. João II abusou da victoria, e não +soube, como nunca soubera, perdoar, culpemos d'isso a imperfeição humana. +Perdoar! Parece que no mundo só Christo soube cumprir essa maxima sublime, +que debalde prégou na sua santa doutrina. A civilisação, abrandando os +costumes e modificando as paixões, tem introduzido felizmente, no espirito +do homem, o horror do sangue derramado, mas, nos fins do seculo XV, ainda a +vida das creaturas da nossa especie estava longe de ter o caracter +inviolavel que hoje possue. Por tanto D. João II, aceitando de rosto +descoberto a batalha, e vibrando o punhal como vibraria a espada, tem uma +certa grandeza selvagem, que não desculpa mas attenua o crime.» + + +Até aqui o destro escriptor. Agora, a historia que os reis e as camarilhas +não deixavam estampar. + +O punhal que D. João II vibrou ao peito do duque de Vizeu foi acto cobarde +que não póde ser attenuado por grandeza selvagem. O rei apunhalava o +adversario em quanto os braços possantes de um valente alcaide prendiam +pelas costas a victima desarmada. + +Nas _Memorias_ ineditas de Diogo de Paiva e Andrade, author do _Casamento +perfeito_, faz-se menção do conflicto, e encarece-se a bravura do +coadjuctor de D. João II com uma anecdota bastante significativa da coragem +do fidalgo e da cobardia do rei. + +Diz assim: + + +«D. Pedro de Eça, alcaide-mór de Moura, foi um fidalgo a quem a natureza +dotou de muito animo e grandes forças, e por isto el-rei D. João II o +escolheu, quando quiz matar a D. Diogo, duque de Vizeu, a quem abraçou por +detraz. Acontecendo em Moura matarem um homem uns criados seus, foram-se +dous irmãos do morto queixarem a el-rei e disseram-lhe que D. Pedro lh'o +mandára; pelo que o mandou vir á côrte, e esteve n'ella mais de dous annos, +posto que, tirada a devassa, o não acharam culpado. Enfadado D. Pedro disse +a el-rei que, pois sua alteza não queria crêr que elle não tinha culpa na +morte do homem, e os que o accusavam eram dous, que lhe fizesse mercê de +lhe mandar dar campo com ambos para assim se purificar; do que, +agastando-se el-rei, lhe disse que tomára elle ser um dos dous. E D. Pedro +lhe respondeu: «não fôra vossa alteza meu rei, e fosse com elles o +terceiro.» + + +Não temos o desvanecimento de sobre-excitar contra D. João II o animo do +nosso talentoso amigo; todavia, insinuamos-lhe a suspeita de que o homem +não era capaz de matar outro sem lh'o agarrarem pelas costas, tendo ainda +por cautela mais dous bravos que se chamavam Diogo de Azambuja e Lopo +Mendes do Rio. + + + + +AVE RARA + + +O poeta satyrico Antonio Lobo de Carvalho, fallecido em Lisboa aos 26 de +outubro de 1787, nasceu em Guimarães, não se sabe precisamente quando. Era +filho illegitimo de fidalgo, e tinha em Villa Real parentes maternos que o +educaram nas letras, consoante os frades da terra podiam ministrar-lh'as. O +bom que os frades tinham não o aprendeu o rapaz. Era poeta de lingua +farpada, da escóla de Gregorio de Mattos Guerra, o maior e mais sujo +talento que deram as plagas de Santa Cruz, desde a cidade de Jequitinhonha +até á cidade de Pindamonhamgaba. + +Os cavalheiros villa-realenses andavam mordidos pelas vespas das suas +trovas. Lobo não perdia lanço de os satyrisar. + +Em uma procissão de Corpus-Christi, o senado da terra ordenou que S. Jorge +fosse em andor e não em cavallo. A razão d'este descavalgamento não é bem +liquida. Ha muitos mysterios que nunca se hão de dilucidar, mormente em +cousas de cavalgaduras. + +N'essa occasião, Antonio Lobo de Carvalho escreveu e divulgou o seguinte +soneto: + + _Patria de valentões, paiz guerreiro,_ + _Só tu, Villa Real! comtigo fallo!_ + _Vão Panças e Roldões jogar o talo,_ + _Ou vão na tua escóla andar primeiro._ + + _Quem ha que os teus aguente no terreiro,_ + _Se até S. Jorge foram desmontal-o!_ + _Pois, indo nas mais terras a cavallo,_ + _N'esta é capucho o santo cavalleiro!_ + + _Nos triumphos de Baccho a villa armada_ + _Uns com brancos arnezes, outros tintos,_ + _As meretrizes levam de assaltada._ + + _Fez-lhe o entrudo os broqueis, compoz-lhe os cintos,_ + _E soltou um pendão co'esta fachada:_ + _«Todos são pobretões; mas mui distinctos.»_ + +Os fidalgos da villa dilecta d'el-rei D. Diniz,--que eram muitos, a julgar +pelos brazões musgosos em que as andorinhas dormem de verão e as corujas +assobiam de inverno--assanharam-se contra o poeta, fazendo-se representar +no desforço pelos seus moxillas. + +Espancado e fugitivo, foi parar a Lisboa Antonio Lobo, onde conhecia um tal +Anacleto, que mais tarde foi juiz de fóra em Angeja. + +A mãi do poeta era remediada de bens da fortuna, e quanto tinha quanto deu +ao estouvanado filho, que nunca procurou modo de vida, nem bajulou os +grandes, á imitação dos vates do seu tempo. + +O duque de Cadaval, D. Miguel, ouvindo recitar versos de Antonio Lobo, +disse aos seus criados que lh'o levassem ao palacio... para se divertir. Um +lacaio de s. exc.^a procurou o poeta e deu conta do recado. Lobo mandou-o +esperar, improvisou um soneto, e remetteu-o ao duque. É o mais galhardo +feito de poeta do seculo XVIII. Dizia assim: + + _Se eu fôra, excelso duque, homem perito,_ + _Capinha, ferrador, cabelleireiro,_ + _De cães decurião ou cozinheiro,_ + _Em sopas mestre, em massas erudito:_ + + _Se em letra antiga visse o que anda escripto_ + _Do vosso grande avô, João Primeiro,_ + _Que o gothico mostrasse ao mau caseiro;_ + _Que o tombo velho nunca está prescripto._ + + _N'este caso, senhor, a vossa graça_ + _Mais quizera alcançar, que ter mil burras,_ + _Do metal louro que se ri da traça._ + + _Mas como a sorte me tem dado surras,_ + _Não vou servir-vos só por não ter praça_ + _No livro mestre dos santões caturras._ + +Antonio Lobo indispoz-se em Lisboa com fidalgos e frades. A mezada que a +mãi lhe enviava permittia-lhe dispensar-se das sympathias de clero e +nobreza. Foi muito soado e mordido um soneto que elle dardejou contra um +frade leigo, dado a libações de certa taverna. Era d'esta laia o poema: + + _Borracha de estamenha, ôdre sarrento,_ + _Mil parabens te dou ao novo estado;_ + _Pois de estupido leigo a um jubilado_ + _Lente de rolhas vaes em largo vento._ + + _Se ha longos annos mettes fogo lento_ + _N'essa pança que é mãi de vinho aguado,_ + _Frei Bourdeaux será hoje o teu prelado,_ + _A adega d'esta casa o teu convento._ + + _Bebe, esponja claustral, té que a fumaça_ + _Das vasilhas de França encha as pichorras_ + _De umas bebadas tripas de outra raça;_ + + _E, antes que os limos dos toneis escorras,_ + _Fuja o do Carmo, fuja o Leão da Graça,_ + _Que hoje o que reina é o Leão dos Borras._ + +Ao odio do clero e nobreza, ajuntou o poeta o odio do povo representado nas +pessoas dos capellistas, acirrados por estes versos: + + _Um rapaz a gritar como um cabrito_ + _Com saudades da mãi sobre o vallado,_ + _Que entre duas canastras vem deitado,_ + _Em burro de almocreve, ancioso e afflicto;_ + + _Com rosario ao pescoço mui bonito,_ + _Descalço, de barrete e de cajado,_ + _C'um sacco á cinta, onde traz (coitado!)_ + _A sua côdda, o seu bacalhau frito._ + + _Posto a pé este misero mamote_ + _Ora cahe, ora treme, ora encordôa,_ + _Um lhe prega um sopapo, outro um calote._ + + _Pois esta figurinha ou má ou boa_ + _Faz qualquer capellista franchinote_ + _Quando vem do sertão para Lisboa._ + +N'esta vida de odios e irritações, viveu Antonio Lobo de Carvalho até aos +cincoenta annos. Se nos merecesse credito o que João Bernardo da Rocha +escreveu no _Portuguez_, tom. X, pag. 356, o atrevido vate haveria sido +aleivosamente assassinado por ordem de um tio do marquez de Olhão, a quem o +maldizente frechára com um soneto que abria assim: + + _Ferrabras, Satanaz, Fernão Zarolho,_ + _Cruel harpia das que o inferno encerra..._ + +Mas o snr. Innocencio Francisco da Silva, posto que não decida qual haja +sido a morte do poeta, com justificados motivos desabona a affirmativa de +João Bernardo da Rocha. + +Eu tambem não sei. Ando n'essas pesquizas; e receio ir dar com elle no +hospital, expirando envolto em gloria... de cataplasmas de linhaça. + + + + +VERGONHAS NACIONAES + + +É notorio que o capitão Vicente Lunardi, natural de Luca, e empregado na +embaixada napolitana em Londres, effectuou em Lisboa, na tarde de 24 de +agosto de 1794, uma viagem aerea. + +Mas ainda ninguem disse que o aeronauta, antes da ascensão, esteve preso á +ordem do intendente geral da policia Diogo Ignacio de Pina Manique, pelo +motivo de vir com tal novidade a Lisboa, onde a inquisição, por causa +identica, desejára queimar o padre Bartholomeu de Gusmão. + +Os documentos que sobrevivem a tamanho opprobio são autographos, +authenticados pela assignatura do famigerado intendente. + +Lunardi chegou a Lisboa em fins de maio de 1794. N'esse mesmo anno, em +janeiro, tinha elle em Madrid subido no seu balão, que desceu na provincia +da Mancha, onde os camponezes o receberam tão benignamente que o levaram em +triumpho á igreja parochial da villa de Orcajo. + +Cuidou elle que a familia real portugueza o recebesse com igual agrado ao +da côrte hespanhola. + +Logo que chegou a Lisboa, foi intimado a comparecer na corregedoria do +bairro, e obrigado a assignar termo de não subir ao ar, sem que a machina +fosse examinada por peritos. Este exame levava em vista satisfazer as +suspeitas do publico, receoso de artes diabolicas. + +Assignou Lunardi o termo, e entendeu que dava plena satisfação ás +authoridades e ao publico, expondo o balão com todos os seus aprestos. E, +para isso, construiu uma barraca na praça do Commercio, e grudou nas +esquinas das ruas mais concorridas um cartaz em que minudenciosamente +explicava o balão exposto, e os mais instrumentos necessarios ás viagens +aereas. (Veja o _Panorama_, tom. VIII, pag. 15). + +Apenas o estirado cartaz appareceu, o intendente geral da policia, officiou +ao desembargador Luiz Dias Pereira, corregedor do bairro dos Romulares, no +theor seguinte, e textual orthographia: + + +«Vm.^ce logo mandará hir seguro á sua presença Vicente Leonardi, Author da +Maquina Aereostatica, e na presença de um dos escrivães dos Lugares, que +vm.^ce está servindo, lhe perguntará, com que authoridade fixou os editaes, +contra o que se havia determinado no termo que elle assignou perante vm.^ce +por ordem d'esta intendencia; e não apresentando ordem por escripto, +_emenada_ (sic) das Secretarias de Estado, ou do seu Real Gabinete, ou +Gentil Homem da Camara ou _Garda_ (sic) Roupa do Dito senhor; vm.^ce o +mandará prender, mandando-lhe abrir assento á minha ordem; e dar-me[8] +parte do resultado d'esta diligencia acompanhando o Auto da declaração que +o mesmo Vicente Leonardi fizer. Deus guarde a vm.^ce Lisboa 10 de junho de +1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina Manique.==Snr. Dz.^or Luiz Dias Pereira._» + + +Lunardi, conduzido pelos quadrilheiros ao corregedor, e interrogado, disse +que, tendo assignado termo de não funccionar sem que o balão fosse +examinado, cuidára dar a maxima prova de boa fé e sciencia estreme de +sortilegio, exhibindo ao exame de toda a gente a sua machina. + +O corregedor achou-lhe razão. Não obstante, mandou-o esperar, em custodia, +novas ordens da intendencia, em quanto elle officiava e a resposta vinha. + +Eis a resposta do Manique: + + +«Vm.^ce executará sem exhitação, ou duvida alguma, a diligencia que lhe +encarreguei em aviso da data de hontem a respeito do estrangeiro Leonardi, +author da maquina aereostatica; pois me consta com toda a certeza não ter o +mesmo Estrangeiro licença alguma de Sua Alteza Real o Principe Nosso Senhor +para o referido fim: e vm.^ce me dará conta por escripto da execução da +sobredita diligencia, na conformidade que lhe tinha ordenado. Deus guarde a +vm.^ce Lisboa 11 de junho de 1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina Manique.==Snr. +Dz.^or Luiz Dias Pereira._» + + +Em vista d'isto, o aeronauta foi conduzido ao Limoeiro; e, n'esse mesmo +dia, o intendente elogiava o corregedor n'estes termos: + + +«Li a conta que vm.^ce me deu em que me participava a prisão do estrangeiro +Leonardi, o que vm.^ce tem executado com todo o acerto; agora porém vm.^ce +mandará arrancar todos os editaes, que o mesmo tinha afixado. Deus guarde a +vm.^ce Lisboa 11 de junho de 1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina Manique.==Snr. +Dz.^or Luiz Dias Pereira._» + + +Não sei que tempo esteve o italiano em ferros; mas tenho plausiveis razões +para presumir que o principe regente o mandou soltar, pois que, volvidos +dous mezes, foi sua alteza que lhe deu licença para subir no balão. + +Aos ouvidos do intendente chegaram rumores sinistros. Segredava-se que +algumas pessoas, influenciadas pelos frades de mais selvagem ignorancia e +acrisolada religião, tencionavam despedaçar a machina e o aeronauta, +suspeito de feiticeria. E, visto que sua alteza licenciára a subida do +balão, cumpria a elle intendente obstar que os fanaticos insultassem o +estrangeiro. No entanto, o sagaz magistrado, que tinha mais velhacaria que +syntaxe, não queria indispôr-se com o povo intimidando-o com o poder +armado, nem indispôr-se com o principe abandonando o aeronauta á ferocidade +das turbas. Neste proposito, officiou assim ao corregedor na véspera da +ascensão: + + +«Vou a prevenir a vm.^ce que não deve levar official algum de capote ámanhã +de tarde para hir assistir na Praça do Commercio, nem ainda mesmo os +quadrilheiros, e aquelle que não tiver cazaca o dispense vm.^ce e lhe dê +positiva ordem para não apparecer na mesma Praça do Commercio: o mesmo +tambem ordenará vm.^ce aos Cabos geraes do seu Bairro para não haver alguma +confuzão e obviar, que alguns malvados se queiram mascarar affectando serem +officiaes, para levarem as armas a seu salvo. + +«Recomendo a vm.^ce a prudencia, procurando não comprometter a authoridade, +e respeito da justiça, e só, no caso indispensavel que ameace consequencias +é que deve vm.^ce ter o procedimento, pedindo auxilio da tropa para rebater +qualquer insulto que se queira praticar: o modo nestas occasiões, e a +polidez conduzem muito para se concluir o dia sem que seja preciso praticar +procedimento algum, e sem que tambem se suscitem conflictos de jurisdicção. +Tudo isto quer a prudencia, que recomendo a vm.^ce se pratique como sem +hesitação espero; e outro sim que não separe de si os seus officiaes para +que não vão fazer acção alguma que não seja por vm.^ce regulada. Deus +guarde a vm.^ce Lisboa 23 de agosto de 1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina +Manique.==Snr. Luiz Dias Pereira._» + + +Na pagina em branco d'este officio, escreveu o corregedor: _Subiu no dia 24 +d'agosto na real praça do Commercio depois das quatro horas e meia da +tarde. Eu o vi subir. Foi pelas oito horas e meia da noite cahir ás Vendas +Novas, voando depois a Magaina(?) sem que elle a podesse segurar, a qual +foi depois cahir a Veiros._ + +Vicente Lunardi escreveu depois a sua _Viagem aerea_, impressa no mesmo mez +e anno em Lisboa. Da sua escripta não transpira queixume dos portuguezes. +Apenas estas expressões denotam uma alma nobremente magoada: _Os applausos, +com que me tem honrado a nação portugueza, me fazem esquecer «as minhas +passadas desgraças» e me obrigam a dar-lhe, em prova do meu reconhecimento, +uma exacta narração de toda a minha viagem aerea_, etc. (Veja o _Panorama_, +tom. VIII, pag. 21 e seg.) + +Estes «applausos» consistiram em uns endecasyllabos _anonymos_, publicados +n'essa occasião. Quem quer que fosse, o author não teve a coragem de +assignar os seus aleijados versos. Além d'isto, uma epistola do padre José +Agostinho de Macedo a Stochler; e, sobre tudo o _elogio_ que lhe consagrou +Bocage, em versos esplendidos, que podem aferir-se por esta estancia: + + _Portentoso mortal, que á summa altura_ + _Vaes no ethereo baixel subindo ousado;_ + _Que illusão, que prestigio, que loucura_ + _Te arrisca a fim tremendo e desastrado?_ + _Teu espirito insano, ah! que procura_ + _Pela estrada do Olympo alcantilado?_ + _Não temes, despenhando-te dos ares,_ + _Qual Icaro infeliz, dar nome aos mares?_ + +Lunardi descrevendo os trabalhos que passou até embarcar em Aldeia Gallega, +conclue assim a narrativa da sua viagem: + + +«Embarquei finalmente ás quatro horas da manhã, e com uma feliz viagem; +cheguei ás 7 horas da mesma manhã ao caes do Terreiro do Paço, onde achei +um grande numero de pessoas que me esperavam, e no meio de vivas de alegria +me conduziram á minha habitação. + +«Estes signaes de verdadeiro contentamento, e o concurso continuo de +pessoas ainda das ordens mais respeitaveis, provam assás os sentimentos, +que produziu a minha viagem aerea, que tanto é mais famosa, quanto mereceu +os applausos de uma nação illustre, que pelo muito, que se empenha agora em +honrar-me, tem adquirido incontrastaveis direitos ao meu reconhecimento, e +eterna gratidão. + +«Esta a narração fiel da minha viagem, e dos seus successos: e posto que +ella não contenha em si nada de extraordinario para os corações +indifferentes, deve com tudo interessar as almas sensiveis, e compadecidas, +que saberão estimar em seu justo valor as minhas fadigas, e os meus +soffrimentos. Para estas pois é que eu escrevo, na certeza de que, se não +lhes merecer os seus louvores, conseguirei ao menos a sua compaixão, e o +seu affecto, que é toda a minha ambição e o unico objecto d'esta pequena +descripção.--_Vicente Lunardi._» + + +Seduzido pelas ovações, que alguns poetas e rapazes lhe fizeram no Terreiro +do Paço, cuidou o aeronauta que lhe seria permittido renovar a ascensão, e +auferir d'ahi recursos com que voltar a Inglaterra onde tinha o seu emprego +na embaixada napolitana. Embalado pelas poesias de Bocage e Macedo, lhe +sorria a esperança, quando na madrugada do dia 29 de agosto, cinco dias +depois da primeira subida, o acordaram para lhe noticiarem que o seu +barracão na praça do Commercio se derruia esphacelado pelos machados de +quarenta carpinteiros, á ordem do corregedor. + +Aqui tem o leitor, como coronal d'este padrão de vergonha patria, o officio +do intendente Manique ao corregedor que executou brutalmente a demolição da +barraca em que Lunardi gastára os seus poucos recursos: + + +«Vm.^ce logo mandará chamar o mestre carpinteiro Joaquim Pereira, que o foi +da Praça construida para a machina aereostatica de ordem do capitão Vicente +Leonardi, para dar logo principio a demoli-la e deita-la abaixo, não lhe +admittindo subterfugio algum a este fim, e devendo amanhan sesta feira dar +principio á demolição para o que lhe mandará embargar os carpinteiros de +obra branca e de machado, que lhe forem necessarios: igualmente mandará +vm.^ce notificar o dito capitão Vicente Leonardi para este mesmo fim. Deus +guarde a vm.^ce Lisboa 28 de agosto de 1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina +Manique.==Snr. Luiz Dias Pereira[9]._» + + +Os frades e a estupidez tinham vencido. + +Não sei se lhe abriram subscripção ao pobre italiano para o livrarem de +Portugal e das presas do Manique. O que sei é que os poucos, que o +applaudiram, apenas podiam dar-lhe... versos. + +E, depois, a gente irrita-se quando os estrangeiros nos não enfileiram na +vanguarda da civilisação!... + + [8] Que grammatica a d'este afamado intendente geral! + + [9] Estes documentos autographos podem vêr-se na livraria do insigne + bibliophilo, o snr. Innocencio Francisco da Silva, que me fez a honra + de os aceitar. + + + + +RANCHO DA CARQUEJA + + +São justas as reflexões do estudioso antiquario o snr. Joaquim Martins de +Carvalho, redactor do _Conimbricense_. + +Agora direi os argumentos, bem que menos valiosos, em que eu assentava o +meu erro. + +Em 1805 divulgou-se em Vizeu um poema ou pasquim, injuriando os +magistrados. Houve devassa e um dos pronunciados foi o doutor Ferro, que +viveu no Porto, e aqui falleceu ha vinte annos, deixando, como prova do seu +mal empregado engenho, um notavel poema que diz respeito á invasão +franceza. + +Em um volume de manuscriptos, tenho a celebrada satyra do Ferro, precedida +da seguinte nota: _Este libello é dedicado á memoria do Estopa e Carqueja, +dous heroes que tudo levavam a pau e espada em Vizeu, ahi pelos annos de +mil setecentos e tantos, e de um d'esses valentões tomaram o cognome os +estudantes de Coimbra chamados o Rancho do Carqueja._ + +Isto não obstante, a correcção do snr. Martins de Carvalho deve antepor-se, +visto que a sentença condemnatoria diz: «_Rancho que denominaram DA +Carqueja, originando este nome de haverem queimado com ella uma porta, +etc._» + + + + +BOM HUMOR + +(AO NOTICIARISTA DA _ACTUALIDADE_) + + +Chamar a D. João III _principe perfeito_ podia ser lapso, sem ser +ignorancia; mas nem sequer foi lapso: foi proposito. + +Vá o noticiarista ao escriptorio da typographia, onde as _Noites de +insomnia_ são impressas. Peça ao snr. Antonio José da Silva Teixeira, +honrado proprietario da typographia, que lhe mostre a primeira prova do +artigo intitulado D. JOÃO III, e encontrará _piedoso_, como estava no +original, emendado para _principe perfeito_, como está no livro. Se quer +saber por que motivo corrigi o que havia escripto em harmonia com a +historia official, respondo-lhe que está no meu arbitrio alterar os +cognomes que não derivam de razão justificada; e á luz da historia, tanto +monta para mim a _perfeição_ de D. João II, o algoz, como a _piedade_ de D. +João III, o fanatico. Uns historiadores chamaram ao filho de D. Manoel o +_Pai da patria_; outros o _Filho da igreja_; outros, authorisados por Paulo +III, o _Zelador da fé_. Eu chamei-lhe o _principe perfeito_, e cancellei na +prova o titulo de _piedoso_, que lhe dera de camaradagem com o snr. Viale, +por não querer manchar um adjectivo digno de S. Francisco Xavier ou de S. +João de Deus. + +Além de quê: está rigosamente estatuido que sejam dogmas historicos a +_perfeição_ e a _piedade_ do D. João II e D. João III? Poderemos, com +juizo, associar-lhes taes epithetos, fóra de ironia? Ora assim como uns +historiadores cognominaram D. João III com variados titulos, dá-me o +noticiarista licença que eu chame _perfeito_ ao principe, e _sabio_ a sua +senhoria? A patarata é a mesma. + +N'isto de acolchetar antonomasias, tanto aos reis como aos subditos, quero +e peço que haja liberdade plena. Por exemplo: o redactor da noticia da +_Actualidade_, conhecido entre os seus parceiros por um epitheto qualquer, +está sujeito a que a posteridade lh'o altere ou inverta. Eu, por em quanto, +circumscrevo os limites da minha phantasia a chamar-lhe tolo. + + + + +DECLARAÇÃO + + +Apesar de superfluo o meu testemunho, depois da asseveração do snr. Camillo +Castello Branco, declaro que é verdade ter o mesmo snr. escripto no +original: D. JOÃO III, _o piedoso_, e na prova que lhe enviei, e que +conservo em meu poder, ter o author emendado: D. JOÃO III, o _principe +perfeito_. + +Não obstante attentar na emenda feita, mandei, como devia, que o typographo +a observasse. + + _A. J. da Silva Teixeira._ + + +FIM DO 2.º NUMERO + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem +não póde dormir. Nº2 (of 12), by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA *** + +***** This file should be named 24464-8.txt or 24464-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/4/6/24464/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit http://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. +To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. |
