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+ The Project Gutenberg eBook of O Descobrimento do Brazil, by Garcia Redondo.
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of O Descobrimento do Brazil, by Garcia Redondo
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Descobrimento do Brazil
+ Prioridade dos Portugueses no Descobrimento da America
+
+Author: Garcia Redondo
+
+Release Date: January 17, 2008 [EBook #24344]
+
+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL ***
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+Produced by Ricardo F. Diogo, Júlio Reis and the Online
+Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This
+file was produced from images generously made available
+by The Internet Archive)
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+<div class = "mynote">
+<!-- Autogenerated TOC. Modify or delete as required. -->
+<p>
+<a href="#O_DESCOBRIMENTO_DO_BRAZIL"><b>O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL</b></a><br />
+<a href="#NOTAS"><b>NOTAS</b></a><br />
+<a href="#NOTICIAS"><b>NOTICIAS</b></a><br />
+</p>
+<!-- End Autogenerated TOC. -->
+<p>Notas de transcrição:</p>
+<ul>
+<li><a href="#Page_26">Pg 26</a>: aspas abertas antes de "a terra achada"; original não tinha aspas.
+</li>
+<li><a href="#Page_28">Pg 28</a>: em "carta regia de D. João I" trata-se, na verdade, do rei D. João II (não corrigido).
+</li>
+<li><a href="#Page_37">Pg 37</a>: substituido "em 1742, vinte annos antes de Colombo" por "em 1472,
+..."; havia sido corrigido à mão na cópia digitalizada que serviu de base a esta transcrição.</li>
+</ul>
+</div>
+
+
+
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_3" id="Page_3">[Pg 3]</a></span></p>
+<div class="bbox">
+<h3 class="smcap">Garcia Redondo</h3>
+<p class="center">(DA ACADEMIA BRASILEIRA)</p>
+
+<h1>O DESCOBRIMENTO<br />DO<br />BRAZIL</h1>
+
+<h3>PRIORIDADE DOS PORTUGUEZES
+NO DESCOBRIMENTO DA AMERICA</h3>
+<hr />
+
+<p>Primeira conferencia da serie organisada pelo
+Centro Republicano Portuguez de S&atilde;o Paulo,
+realizada no Instituto Historico e Geographico
+de S. Paulo, na noite de 3 de Junho de 1911</p>
+<hr />
+
+
+<p class="center">S&Atilde;O PAULO<br />
+CASA VANORDEN</p>
+<p class="center">1911</p>
+</div>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_5" id="Page_5">[Pg 5]</a></span>
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+<h1>O DESCOBRIMENTO<br />DO<br />BRAZIL</h1>
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+<h3>PRIORIDADE DOS PORTUGUEZES
+NO DESCOBRIMENTO DA AMERICA</h3>
+<hr />
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+<p>Primeira conferencia da serie organisada pelo
+Centro Republicano Portuguez de S&atilde;o Paulo,
+realizada no Instituto Historico e Geographico
+de S. Paulo, na noite de 3 de Junho de 1911</p>
+<hr />
+
+
+<p class="center">S&Atilde;O PAULO<br />
+CASA VANORDEN</p>
+<p class="center">1911</p>
+</div>
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_7" id="Page_7">[Pg 7]</a></span></p>
+<p>Assistiram a esta conferencia, al&eacute;m do ministro de
+Portugal, Snr. Dr. Antonio Luiz Gomes, e do seu secretario,
+Dr. Bartholomeu Ferreira, que do Rio de Janeiro
+vieram especialmente para esse fim, o consul da Fran&ccedil;a,
+Snr. Jacques Dupas e sua familia, os consules de Portugal
+em S. Paulo e Santos, os consules do Paraguay e
+da Guatemala, os representantes do Governo do Estado
+e do Governo Federal, a directoria e membros do Centro
+Republicano Portuguez de S. Paulo, o director e muitos
+lentes da Escola Polytechnica, uma parte da directoria
+e muitos socios do Instituto Historico e a fina flor da
+sociedade culta e da colonia portugueza de S. Paulo.</p>
+
+
+<div class="blockquot"><p>Esta conferencia &eacute; impressa no formato do livro <i>Conferencias</i> do
+auctor para que possa ser annexada a esse livro.</p></div>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_9" id="Page_9">[Pg 9]</a></span></p>
+<h2><a name="O_DESCOBRIMENTO_DO_BRAZIL" id="O_DESCOBRIMENTO_DO_BRAZIL"></a>O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL</h2>
+<h3>Prioridade dos portugueses no descobrimento da America</h3>
+
+
+<div class="blockquot"><p><i>O orador, depois de agradecer a presen&ccedil;a do numeroso
+e luzido auditorio, que affluiu ao sal&atilde;o do Instituto Historico
+para ouvir a sua palavra rude e, depois de varias explica&ccedil;&otilde;es
+que deu sobre o grande mappa que organisou para illustrar e
+esclarecer a sua conferencia, diz:</i></p></div>
+
+<p><i>Minhas senhoras, meus senhores:</i></p>
+
+<p>Na minha ultima viagem ao Velho Mundo,
+em 1906, achando-me na Suissa e querendo
+visitar a exposi&ccedil;&atilde;o internacional de Mil&atilde;o, em
+vez de fazer a viagem directa e curta, indo de
+Genebra, onde estava, a Montreux e de Montreux
+a Mil&atilde;o, preferi fazer uma grande volta,
+indo de Genebra a Lyon e a Marselha e percorrendo
+depois toda essa extensa e deliciosa costa
+do Mediterraneo que se chama C&ocirc;te d'Azur.</p>
+
+<p>Para que? Para entrar na Italia por Genova
+e prestar, antes de tudo, a minha homenagem
+<span class='pagenum'><a name="Page_10" id="Page_10">[Pg 10]</a></span>de americano &aacute; memoria de Christovam Colombo,
+visitando a casa onde elle nasceu.</p>
+
+<p>Alli fui, pois, e alli estive no vetusto predio, onde,
+em 1450, viu a luz do dia o audacioso genovez,
+conforme reza a placa commemorativa collocada
+entre duas janellas antigas desastradamente vestidas
+&aacute; moderna com venezianas verdes.</p>
+
+<p>At&eacute; ent&atilde;o, eu suppunha, pelo que sabia, pelo
+que havia lido, que Christovam Colombo era o
+descobridor da America, assim como suppunha
+tambem que Pedro Alvares Cabral era o descobridor
+do Brazil.</p>
+
+<p>Mas, veio-me depois &aacute;s m&atilde;os um livro&mdash;<i>A
+descoberta do Brazil</i>&mdash;do sr. Faustino da Fonseca,
+e esse livro precioso, feito com o nobilissimo
+intuito de reivindicar para Portugal a gloria completa
+do descobrimento do Novo Mundo, livro
+que, em abono da civiliza&ccedil;&atilde;o portugueza, que, em
+abono dos nossos maiores, deveria ser traduzido
+em todas as linguas vivas para ser distribuido
+em todas as escolas do universo, veio mostrar-me,
+&aacute; luz de documentos authenticos e irrefutaveis,
+que nem o navegante genovez foi o primeiro a
+chegar ao Novo Mundo, nem Cabral o primeiro
+a achar essa parte do Novo Mundo que se chama
+o Brazil.</p>
+
+<p>Colombo e Cabral&mdash;o primeiro ao aportar,
+em 1492, &aacute;s Antilhas, e o segundo, em 1500,
+&aacute; costa brazileira, n&atilde;o fizeram mais do que <i>reconhecer
+e tomar posse</i> officialmente de terras que
+<span class='pagenum'><a name="Page_11" id="Page_11">[Pg 11]</a></span>muitos annos antes j&aacute; haviam sido descobertas
+por navegantes portuguezes.</p>
+
+<p>Baseia-se o precioso livro do sr. Faustino da
+Fonseca em doa&ccedil;&otilde;es feitas pelos reis portuguezes
+aos primeiros navegantes que sulcaram o Atlantico,
+em tratados de limites, em correspondencias
+officiaes, roteiros, mappas, rela&ccedil;&otilde;es, cartas de
+testemunhas dos acontecimentos e outros documentos
+que o autor, no seu louvavel ardor patriotico,
+foi descobrir e copiar com uma paciencia
+de benedictino nos archivos hespanh&oacute;es e a&ccedil;orianos
+e na Torre do Tombo.</p>
+
+<p>&Eacute; com esse fanal em punho, que d&aacute; por
+terra com todas as lendas, todos os erros e embustes
+dos historiadores que precederam o sr.
+Fonseca, que eu venho, hoje, na medida das minhas
+fracas for&ccedil;as, ajudal-o a reivindicar para
+Portugal, n&atilde;o a gloria de haver descoberto o
+Brazil s&oacute;mente, mas tambem a gloria de haver
+descoberto a America.</p>
+
+<p>Oxal&aacute; seja esse meu auxilio efficaz, oxal&aacute; possa
+elle levar a convic&ccedil;&atilde;o ao animo dos que me
+ouvem e dos que me lerem, para que possamos
+dizer todos, <i>una voce</i>, e fazendo a justi&ccedil;a tardia
+a que tem direito a velha civiliza&ccedil;&atilde;o portugueza:
+Gloria a Portugal, descobridor do Novo Mundo!</p>
+
+<hr style='width: 45%;' /><p><span class='pagenum'><a name="Page_12" id="Page_12">[Pg 12]</a></span></p>
+
+<p>Os conhecimentos geographicos dos antigos
+eram limitadissimos, n&atilde;o conhecendo os europeus
+mais do que duas ter&ccedil;as partes do seu continente,
+o norte da Africa e o sudoeste da Asia,
+acreditando Ptolomeu que a Africa se estendia
+at&eacute; ao polo antarctico, reduzindo assim o Oceano
+Indico a um simples lago ou pequeno mar interior.
+Nessa &eacute;poca, o que se chama India comprehendia
+a Indo-China, o Indost&atilde;o, as ilhas e
+regi&otilde;es do extremo Oriente. Era a India considerada
+como um paiz de fabulosas riquezas e
+nella dizia-se que habitava o Prestes Jo&atilde;o, soberano
+Christ&atilde;o, que reunia o poder temporal ao
+espiritual e era o summo pontifice do Oriente.</p>
+
+<p>O Oceano Atlantico era tratado por mar tenebroso
+e considerado innavegavel, povoado por
+monstros, coalhado de escolhos, coberto de nevoa
+densa. Era um mar onde, para uns, reinava a
+eterna calmaria podre, para outros, era constantemente
+a&ccedil;outado por violentos tuf&otilde;es, de sorte
+que era uma barreira &aacute; communica&ccedil;&atilde;o entre os
+dois hemispherios.</p>
+
+<p>N&atilde;o contentes de limitar a t&atilde;o pouco os seus
+conhecimentos geographicos, os antigos inventavam
+lendas, semeavam o oceano de ilhas imaginarias,
+de estatuas e de columnas, que impediam
+os navegantes de marchar.</p>
+
+<p>As columnas de Hercules fechavam o caminho
+<span class='pagenum'><a name="Page_13" id="Page_13">[Pg 13]</a></span>do Atlantico, outras duas columnas erguiam-se
+num estreito, impedindo a entrada do mar da
+India. A phantasia n&atilde;o tinha diques e os mappas,
+principalmente o de Marco Polo, marcavam
+milhares de ilhas em algumas das quaes se localizava
+o paraiso, o purgatorio e o inferno! Na
+ilha de Salom&atilde;o, onde se dizia estar o cadaver
+desse rei mulherengo, num maravilhoso palacio,
+tres estatuas faziam retroceder o navegante sob
+pena de morte. O cabo Bojador era um ninho
+de serpentes e na ilha de Ceyl&atilde;o estava o tumulo
+de Ad&atilde;o!</p>
+
+<p>Ainda em 1375 a costa africana s&oacute; era conhecida
+de Ceuta at&eacute; ao Cabo Bojador, e ainda em
+1436, j&aacute; em pleno seculo XV, o mappa de Andr&eacute;
+Bianco, um mixto de christianismo e de paganismo,
+reproduz as lendas e figuras da edade
+m&eacute;dia, collocando Jerusal&eacute;m no centro do mundo
+e determinando o local do paraiso terrestre!...
+Toda a terra conhecida resumia-se num unico
+continente. Tudo mais eram ilhas entre as quaes
+estava a de Cypango, onde Colombo julgou ter
+chegado em 1492, quando aportou &aacute;s Antilhas.</p>
+
+<p>Lendas de origem portugueza s&oacute; havia duas&mdash;a
+do gigante Adamastor, no Cabo das Tormentas,
+que o grande &eacute;pico dos Lusiadas t&atilde;o
+lindamente narrou em verso sonoroso, e a do
+cavalleiro de pedra, na ilha do Corvo&mdash;mas
+este, ao contrario dos outros que intimavam o
+navegante a retroceder, mandava-o avan&ccedil;ar, apon<span class='pagenum'><a name="Page_14" id="Page_14">[Pg 14]</a></span>tava-lhe
+o caminho a seguir, demandando novas
+regi&otilde;es.</p>
+
+<p>Taes eram os conhecimentos geographicos at&eacute;
+ao primeiro ter&ccedil;o do seculo XV.</p>
+
+<p>Foi ent&atilde;o que appareceu o famoso projecto
+do infante d. Henrique, projecto que revolucionou
+o systema do mundo.</p>
+
+<p>At&eacute; ahi s&oacute; se conheciam dois caminhos para
+chegar ao Oriente, ambos por terra, ambos partindo
+do Mediterraneo. Conhecida a India como
+um paiz de riquezas fabulosas e tendo cessado
+para os portuguezes, com a tomada de Ceuta, o
+trafico dos generos do sert&atilde;o pelo Mediterraneo,
+cogitou o infante d. Henrique em chegar &aacute; India
+por um outro caminho&mdash;a via maritima, pelo
+occidente. Mas, para isso, tinha de affrontar o
+Mar Tenebroso, esse oceano in&ccedil;ado de escolhos
+e de monstros, impenetravel e mysterioso. Como
+o seu intuito era explorar as riquezas indianas
+e levar a f&eacute; aos musulmanos, com os quaes esperava
+combater, elle sentiu a necessidade de um
+alliado e o alliado natural era o Prestes Jo&atilde;o,
+o summo pontifice da christianidade indiana.</p>
+
+<p>Era preciso, pois, procural-o, mas seguindo
+pela via maritima.</p>
+
+<p>&laquo;Prov&ecirc;m desta origem, diz o sr. Faustino da
+Fonseca na sua obra admiravel, as explora&ccedil;&otilde;es
+para o sul e para o occidente; as grandes viagens
+do occidente e do oriente; o encontro de
+<span class='pagenum'><a name="Page_15" id="Page_15">[Pg 15]</a></span>duas passagens a leste e a o&eacute;ste,&mdash;o Cabo da
+Boa Esperan&ccedil;a e o estreito de Magalh&atilde;es; as
+descobertas da costa da Africa e das ilhas do
+Atlantico, da America do Norte e do Brazil.&raquo;</p>
+
+<p>&laquo;Obedece tudo a este proposito, subordina-se
+tudo a este projecto, s&atilde;o tudo solu&ccedil;&otilde;es ao problema:
+os conselhos de Toscanelli e de Monetario,
+o erro de Colombo, a audacia de Magalh&atilde;es.&raquo;</p>
+
+<hr style='width: 45%;' />
+
+<p>N&atilde;o &eacute; difficil provar que Colombo n&atilde;o descobriu
+a America e que quando chegou &aacute;s Antilhas,
+em 1492, j&aacute; a America havia sido descoberta
+pelos portuguezes, muitos annos antes. O
+difficil seria provar hoje, em face dos documentos
+encontrados pelo sr. Faustino da Fonseca e
+dos quaes me vou soccorrer nesta conferencia,
+que o ousado genovez fez tal descoberta.</p>
+
+<p>Esmiucemos o interessante assumpto.</p>
+
+<p>Quando o infante d. Henrique fundou a escola
+de Sagres com observatorio astronomico, para o
+qual fez vir cosmographos e mathematicos estrangeiros,
+e mandou construir nos seus estaleiros as
+primeiras caravelas e ordenou que ellas sahissem,
+para o mar tenebroso e pelo occidente, dizendo
+aos capit&atilde;es que avan&ccedil;assem sem receio, fazendo-se
+ao largo, j&aacute; Gon&ccedil;alves Zarco havia descoberto
+a ilha da Madeira e j&aacute; o infante conhecia
+o livro de Marco Polo, que existia em Portugal
+desde 1418, trazido pelo infante d. Pedro, que o
+<span class='pagenum'><a name="Page_16" id="Page_16">[Pg 16]</a></span>recebera como dadiva do senado de Veneza, assim
+como conhecia tambem o mappa do mesmo Marco
+Polo onde se veem as regi&otilde;es do oriente muito proximas
+das do occidente. No seu livro, Marco Polo
+assegurava que Catay estava no Atlantico (que
+elle chama o mar de Cyn) a pequena distancia
+da Europa e que, no Atlantico, estavam tambem
+Cypango e outras ilhas de especiarias.</p>
+
+<p>As primeiras caravelas, construidas e equipadas
+pelo infante em 1431, come&ccedil;am a perscrutar
+o mar vasto e, um dia, de uma dellas, Gon&ccedil;alo
+Velho Cabral descobre as <i>Formigas</i>. Um anno
+depois, em 1432, descobre ainda <i>Santa Maria</i>.
+As expedi&ccedil;&otilde;es maritimas portuguezas, desde ent&atilde;o,
+succedem-se ininterruptamente e, annos depois,
+&eacute; descoberta grande parte das ilhas do archipelago
+dos A&ccedil;ores pelo mesmo Gon&ccedil;alo Velho e
+depois as do Cabo Verde (1460) por Antonio
+Gomes e Diogo de Nola.</p>
+
+<p>Em 1435, j&aacute; o mappa-mundi de Bechario
+representa a Antilia e outras ilhas, a o&eacute;ste dos
+A&ccedil;ores, acompanhadas da seguinte legenda:&mdash;<i>Insule
+de novo reperte</i> (ilhas recentemente descobertas.)</p>
+
+<p>Em 1436, um anno ap&oacute;s, apparecem o mappa-mundi
+de Andr&eacute; Bianco e o seu portulano
+cujas cartas j&aacute; representam o mar de Baga, o
+mar dos Sarga&ccedil;os, as Antilhas e o Brazil, figurando
+este como se fosse uma grande ilha. Em
+1447, uma nau parte do Porto e descobre a
+Groelandia aonde os marinheiros desembarcaram.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_17" id="Page_17">[Pg 17]</a></span>No entretanto, do celebre promontorio de
+Sagres, o infante d. Henrique v&ecirc; sumirem-se no
+mar intermino as caravelas, que successivamente
+iam partindo &aacute; descoberta, e j&aacute; em 1448, numa
+carta do portulano de Andr&eacute; Bianco, tratando
+dos descobrimentos dos portuguezes, se regista o
+Brazil de uma forma precisa, na parte o&eacute;ste e
+sul do Cabo de S. Roque, ao sul das ilhas do
+Fogo e Brava de Cabo Verde, na sua verdadeira
+posi&ccedil;&atilde;o, em frente &aacute; costa africana, sendo designado
+por <i>ilha authentica</i> e assignalada a sua
+distancia exacta de 1500 milhas do archipelago
+de Cabo Verde.</p>
+
+<p>Esta carta do portulano de Bianco, bem como
+os anteriores de 1436 mostram, pois, meus senhores,
+que o Brazil foi descoberto em 1435, ou antes, por
+navegantes portuguezes e que at&eacute; das Antilhas j&aacute;
+havia noticia nessa &eacute;poca.</p>
+
+<p>Mas, n&atilde;o fica nisto. As caravelas portuguezas
+continuam a singrar o mar tenebroso e, em
+1452, Diogo de Teive e seu filho Jo&atilde;o de
+Teive descobrem as ilhas Corvo e das Flores
+e chegam &aacute; latitude da terra que se chamou
+mais tarde &laquo;do Lavrador&raquo; (porque a descobriu
+um portuguez deste nome) n&atilde;o desembarcando
+nella com receio do inverno.</p>
+
+<p>Em 1460 morre o infante d. Henrique,
+deixando reconhecida toda a costa africana at&eacute;
+Serra Le&ocirc;a e legando ainda &aacute; sua patria os
+<span class='pagenum'><a name="Page_18" id="Page_18">[Pg 18]</a></span>descobrimentos dos archipelagos dos A&ccedil;ores, de
+Cabo Verde e do Brazil.</p>
+
+<p>A morte do infante n&atilde;o faz, por&eacute;m, arrefecer
+o enthusiasmo lusitano pelos descobrimentos e j&aacute;
+dois annos depois, em 1462, d. Affonso V, por
+carta regia de 29 de outubro, faz doa&ccedil;&atilde;o a seu
+irm&atilde;o o infante d. Fernando, filho adoptivo de
+d. Henrique e seu herdeiro universal, de uma
+terra achada no mar alto, a noroeste das ilhas
+Canarias e da Madeira, que Gon&ccedil;alo Fernandes
+havia descoberto. Essa terra n&atilde;o podia ser outra
+sen&atilde;o a America.</p>
+
+<p>Mezes antes, por carta r&eacute;gia de 19 de fevereiro,
+esse mesmo Affonso V havia feito doa&ccedil;&atilde;o
+a Jo&atilde;o Vogado de duas ilhas por elle descobertas
+no <i>mar oceano</i>, &aacute;s quaes dera os nomes de Lono
+e Capraria. Nos documentos da &eacute;poca, a express&atilde;o
+<i>mar oceano</i> era usada para designar o mar que
+banhava a America, que ent&atilde;o ainda n&atilde;o tinha
+esse nome. Esta doa&ccedil;&atilde;o a Jo&atilde;o Vogado prova
+que as duas ilhas Lono e Capraria eram ilhas ou
+pontos da costa americana.</p>
+
+<p>Onze annos depois, em 1473, d. Affonso V,
+por carta r&eacute;gia de 12 de janeiro, faz doa&ccedil;&atilde;o &aacute;
+sua sobrinha d. Beatriz, filha do infante d. Fernando,
+de uma ilha que apparecera, em 1468,
+atrav&eacute;s da ilha de Santiago, e que era uma das
+Antilhas, aonde s&oacute; 24 annos depois aportou Colombo.
+Conv&eacute;m notar que esta descoberta &eacute; feita
+<span class='pagenum'><a name="Page_19" id="Page_19">[Pg 19]</a></span>por navegadores portuguezes 5 annos antes da
+chegada de Colombo a Lisboa.</p>
+
+<p>Do exposto se conclue que as proprias Antilhas
+j&aacute; tinham sido descobertas pelos portuguezes
+muitos annos antes de Colombo l&aacute; ir
+tomar dellas posse para a cor&ocirc;a da Hespanha.</p>
+
+<p>Todas estas consecutivas viagens para o occidente
+formam uma s&eacute;rie que j&aacute; constitue uma
+brilhante e indiscutivel documenta&ccedil;&atilde;o da prioridade
+dos portuguezes na descoberta da America.</p>
+
+<p>Mas ha ainda outros e valiosos documentos
+que melhor provam esta asser&ccedil;&atilde;o &aacute;quelles a quem
+ella possa parecer um pouco vaga.</p>
+
+<p>Vejamos quaes s&atilde;o.</p>
+
+<p>Em 1472, tendo vagado a capitania da Ilha
+Terceira por fallecimento de Jacome de Bruges,
+a infanta d. Beatriz fez doa&ccedil;&atilde;o a Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte
+Real da capitania dessa ilha, na parte de Angra,
+doando a parte da Praia a Alvaro Martins.</p>
+
+<p>Na carta de doa&ccedil;&atilde;o, encontram-se as seguintes
+palavras: &laquo;havendo eu, por informa&ccedil;&atilde;o, estar ora
+vaga a capitania da ilha Terceira de Jesus Christo...
+por se affirmar ser morto Jacome de Bruges...
+houve por bem de a partir entre o dito Jo&atilde;o
+Vaz e o dito Alvaro Martins, mandei ao dito
+Jo&atilde;o Vaz que escolhesse e elle escolheu a parte
+de Angra... E considerando eu, de outra parte,
+<i>os muitos e grandes servi&ccedil;os</i> que o dito Jo&atilde;o Vaz
+C&ocirc;rte Real, fidalgo da casa do dito senhor meu
+filho, tem feito ao infante meu senhor e seu
+<span class='pagenum'><a name="Page_20" id="Page_20">[Pg 20]</a></span>padre que Deus haja (&eacute; o infante d. Fernando),
+e depois a mim e a elle, <i>em galard&atilde;o</i> dos ditos
+servi&ccedil;os, lhe fiz merc&ecirc; da dita capitania da ilha
+Terceira.&raquo;</p>
+
+<p>Annos ap&oacute;s, em 1488, confirmando essa doa&ccedil;&atilde;o,
+o duque de Vizeu, filho de d. Beatriz, alludiu
+aos <i>grandes servi&ccedil;os</i> de Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real a
+seus paes, dizendo: &laquo;querendo lhe fazer gra&ccedil;a e
+merc&ecirc; pelos <i>muitos servi&ccedil;os</i> que tem feito ao infante
+meu senhor e padre, que Deus haja, e a
+mim, espero que ao deante far&aacute;.&raquo;</p>
+
+<p>Quem era esse Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real, que assim
+era galardoado e que servi&ccedil;os relevantes eram
+esses que havia prestado para receber tal galard&atilde;o?</p>
+
+<p>Era um homem que, nesse mesmo anno de
+1472, vinha de chegar da <i>Terra Nova</i> ou <i>Terra
+dos Bacalhaus</i>, trazendo essa nova descoberta americana
+para a cor&ocirc;a portugueza, vinte annos antes
+de Colombo aportar &aacute;s Antilhas.</p>
+
+<p>As provas desta descoberta de Jo&atilde;o Vaz n&atilde;o
+escasseiam e encontram-se:</p>
+
+<p>1.º&mdash;Na carta relativa &aacute; America do Norte
+do Atlas de Fern&atilde;o Vaz Dourado, existente na
+Torre do Tombo, onde se l&ecirc;, na parte referente
+&aacute; Terra Nova, a seguinte designa&ccedil;&atilde;o: <i>B. de Jo&atilde;o,
+Terra de Jo&atilde;o Vaz</i>.</p>
+
+<p>2.º&mdash;No mappa-mundi do Atlas de Jomard,
+feito em pergaminho por ordem de Henrique II
+<span class='pagenum'><a name="Page_21" id="Page_21">[Pg 21]</a></span>da Fran&ccedil;a (1547-1559), onde a mesma designa&ccedil;&atilde;o
+para a Terra Nova se encontra.</p>
+
+<p>3.º&mdash;No mappa-mundi de Mercator, do mesmo
+Atlas de Jomard, onde vem por extenso, designando
+a Terra Nova&mdash;<i>Terra de Joam Vaz</i>,
+<i>Rio de Joam Vaz</i>.</p>
+
+<p>4.º&mdash;Num manuscripto feito entre 1672 e
+1711 nos A&ccedil;ores, onde melhor se conheciam os
+descobrimentos de Jo&atilde;o Vaz, no qual &eacute; encontrada
+a seguinte referencia &aacute; doa&ccedil;&atilde;o de d. Beatriz
+a Jo&atilde;o Vaz: &laquo;Estando as cousas nesta forma,
+morreu o capit&atilde;o Bruges, n&atilde;o deixando herdeiros.
+Chegaram ent&atilde;o &aacute; ilha dois fidalgos que vinham
+de descobrir a <i>Terra do Bacalhau</i>; estes pediram
+a ilha a d. Beatriz, mulher do infante d. Fernando,
+por servi&ccedil;os que lhe tinham feito, lhes
+fizesse merc&ecirc; da capitania da ilha Terceira, a
+qual ella lhe concedeu. A Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real,
+que era um destes fidalgos, ficou a de Angra.&raquo;</p>
+
+<p>5.º&mdash;Finalmente, nestes trechos das <i>Saudades
+da Terra</i>, de Gaspar Fructuoso, nascido nos A&ccedil;ores
+em 1522: &laquo;Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real, primeiro capit&atilde;o
+da ilha Terceira da parte de Angra, por servi&ccedil;os
+que fez a el-rei de Portugal nas guerras contra
+Castella, andando por <i>capit&atilde;o de grossa armada</i>;
+do qual dizem que foi <i>t&atilde;o grande aventureiro no
+mar que neste Reino n&atilde;o tem segundo</i>; e alguns
+querem dizer que descobriu a mesma ilha Terceira
+e <i>algumas partes do ponente e do Brazil, Cabo
+Verde</i>, onde foi o primeiro que houve vista da
+<span class='pagenum'><a name="Page_22" id="Page_22">[Pg 22]</a></span><i>ilha do Fogo</i>... e vindo, como atr&aacute;s tenho dito,
+Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real do <i>descobrimento da Terra
+dos Bacalhaus que, por mandado de el-rei foi fazer</i>,
+lhe foi dada a capitania de Angra, da Ilha Terceira
+e da ilha de S. Jorge... Dizem alguns que
+Jacome de Bruges, primeiro capit&atilde;o da ilha Terceira
+de Jesus Christo, era flamengo... e, estando-a
+povoando veio ter ahi Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte
+Real... e vinha do <i>descobrimento da Terra Nova
+do Bacalhau</i> e o Jacome de Bruges o recolheu e
+lhe disse que lhe largaria metade da ilha, a qual
+acceitou, e depois Jacome de Bruges se foi para
+sua terra e desappareceu, de maneira que n&atilde;o
+tornou mais, e a infanta d. Beatriz, por vaga,
+deu a ilha ao dito Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real.&raquo;</p>
+
+<p>N&atilde;o ha nada de mais positivo, de mais claro
+e comprovante, do que estes cinco documentos,
+que venho de citar, no ultimo dos quaes se allude,
+nada menos de trez vezes, ao descobrimento
+feito por Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real da <i>Terra Nova</i> ou
+<i>Terra do Bacalhau</i>, na America do Norte, em
+1472, vinte annos antes de Colombo aportar
+&aacute;s Antilhas.</p>
+
+<p>Mas, n&atilde;o foram s&oacute;mente Jo&atilde;o Vaz e outros
+navegadores portuguezes, j&aacute; citados, os precursores
+de Colombo na descoberta da America.</p>
+
+<p>Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real tinha tres filhos&mdash;Vasco
+Annes, Miguel e Gaspar C&ocirc;rte Real&mdash;os quaes, como
+o pae, foram ousados navegantes, principalmente
+o ultimo, Gaspar, que ficou captivo dos indigenas
+<span class='pagenum'><a name="Page_23" id="Page_23">[Pg 23]</a></span>numa das suas viagens &aacute; America. A carta regia
+de 12 de maio de 1500, fazendo doa&ccedil;&atilde;o a Gaspar
+C&ocirc;rte Real de terras que vae descobrir (carta
+passada poucos dias ap&oacute;s a chegada de Cabral
+ao Brazil, chegada essa de que ainda n&atilde;o havia
+noticia em Portugal) regista importantes trabalhos
+do mesmo Gaspar, anteriores &aacute;s duas viagens
+suas de que ha noticia e refere-se <i>&aacute;s suas explora&ccedil;&otilde;es
+maritimas feitas com muito trabalho, despeza
+e perigos, realizadas por Gaspar &aacute; sua custa com
+seus navios e homens</i>. Diz ainda essa carta de
+doa&ccedil;&atilde;o que <i>elle vae continuar a descobrir</i> ou reconhecer
+<i>ilhas e terra firme</i> das quaes lhe s&atilde;o
+outorgadas as capitanias.</p>
+
+<p>A express&atilde;o vae <i>continuar a descobrir</i>, empregada
+na carta regia, significa que Gaspar j&aacute; havia
+anteriormente feito descobertas.</p>
+
+<p>Infelizmente, Gaspar C&ocirc;rte Real, partindo de
+Lisboa em 1501 para uma nova explora&ccedil;&atilde;o na
+America, por l&aacute; ficou captivo dos naturaes, voltando
+todavia ao reino os dois navios que o
+haviam acompanhado. Em 1502, seu irm&atilde;o
+Miguel sahiu com outros dois navios no intuito
+de o procurar e remir, mas tambem n&atilde;o regressou.
+Vasco Annes quiz ainda ir em busca dos
+dois irm&atilde;os, mas D. Manoel n&atilde;o lh'o consentiu.</p>
+
+<p>Documentos posteriores ao desapparecimento
+dos dois irm&atilde;os, Gaspar e Miguel C&ocirc;rte Real,
+registam os seus feitos e os de seu pae Jo&atilde;o Vaz.
+<span class='pagenum'><a name="Page_24" id="Page_24">[Pg 24]</a></span>Taes s&atilde;o: a carta r&eacute;gia de 17 de setembro de
+1506 e principalmente a 4 de maio de 1567, de
+doa&ccedil;&atilde;o a Manoel C&ocirc;rte Real, filho de Vasco
+Annes e neto de Jo&atilde;o Vaz, na qual se encontra a
+seguinte phrase: &laquo;seu pae e tios mandaram descobrir
+a Terra Nova&raquo;.</p>
+
+<p>Mas, anteriormente, a carta r&eacute;gia de 4 de
+novembro de 1501, de d. Manoel&mdash;o venturoso&mdash;filho
+do duque de Vizeu e de d. Beatriz,
+concedendo a ten&ccedil;a de 30.000 cruzados a Miguel
+C&ocirc;rte Real por servi&ccedil;os feitos a d. Jo&atilde;o II, que
+falleceu em 1495, fixa &aacute;s viagens maritimas dos
+C&ocirc;rtes Reaes uma data anterior a 1495.</p>
+
+<p>Ora, a sete de junho de 1494, d. Jo&atilde;o II
+assignou com a Hespanha o tratado de Tordesillas,
+abrangendo na demarca&ccedil;&atilde;o portugueza n&atilde;o
+s&oacute; a costa do Brazil (aonde Pedro Alvares Cabral
+s&oacute; aportou <i>6 annos depois</i>) como a terra dos C&ocirc;rtes
+Reaes, isto &eacute;, a <i>Terra Nova</i> ou <i>dos Bacalhaus</i>, o
+que prova que a descoberta dessa terra &eacute; anterior
+ainda a 1494. Por ultimo, Bartholomeu las Casas,
+amigo de Colombo e companheiro do genovez
+numa das suas viagens &aacute;s Antilhas, na sua <i>Historia
+das Indias</i>, apontando ingenua e sinceramente
+as indica&ccedil;&otilde;es que Colombo teve para ir
+&aacute;s Antilhas, indica&ccedil;&otilde;es, ali&aacute;s, confessadas pelo
+proprio Colombo, cita, entre outras, as viagens
+dos C&ocirc;rtes Reaes, empregando estas express&otilde;es:
+&laquo;Os C&ocirc;rte Reaes que foram em diversos tempos
+buscar <i>aquella terra</i>.&raquo;</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_25" id="Page_25">[Pg 25]</a></span>E isto prova ainda que o descobrimento da
+<i>Terra Nova</i> ou <i>dos Bacalhaus</i> e, portanto, da
+America, &eacute; anterior &aacute; primeira viagem de Colombo
+&aacute;s Antilhas, isto &eacute;, anterior a 1492 e mesmo
+anterior a 1484, porque foi em 1484 que Colombo
+sahiu de Portugal, onde obteve taes indica&ccedil;&otilde;es
+e onde viu e conheceu Miguel e Gaspar
+C&ocirc;rte Real, filhos de Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real, e Affonso
+Sanches, que descobriu as Antilhas de 1473 a
+1484. As express&otilde;es que Las Casas emprega, referindo-se
+&aacute;s confiss&otilde;es feitas pelo seu amigo Colombo
+s&atilde;o as seguintes, que reproduzo textualmente:
+&laquo;<i>Disse</i>, pois, Christovam Colombo entre
+outras cousas <i>que poz em seus livros por escripto</i>...
+e accrescentou mais que tinha visto dois filhos
+do capit&atilde;o que descobriu a ilha Terceira, que se
+chamavam Miguel e Gaspar C&ocirc;rte Real, <i>ir em
+diversos tempos a buscar aquella terra</i>.&raquo;</p>
+
+<p><i>Aquella terra</i> era a <i>Terra Nova</i> ou <i>Terra dos
+Bacalhaus</i>.</p>
+
+<p>Ainda relatando Las Casas as indica&ccedil;&otilde;es e informa&ccedil;&otilde;es
+que conduziram Colombo &aacute;s Antilhas,
+cita a viagem de Vicente Dias e mais uma outra
+a respeito da qual assim se exprime: &laquo;uma caravela
+ou navio que tinha sahido de um porto
+de Hespanha (n&atilde;o me recordo ter ouvido indicar
+qual fosse, ainda que creio que do reino de Portugal,
+se dizia)... veio... parar a estas Antilhas
+e que esta caravela foi a primeira que as des<span class='pagenum'><a name="Page_26" id="Page_26">[Pg 26]</a></span>cobriu.
+Que isto assim acontecesse alguns argumentos
+ha para demonstral-o.&raquo;</p>
+
+<p>E ajunta que o piloto dessa caravela, &laquo;que
+alguns escriptores hespanh&oacute;es chamam Affonso
+Sanches e d&atilde;o como natural de Cascaes, recolhido
+por Colombo em sua residencia na ilha da Madeira,
+ao sentir perto a morte lhe revelara o segredo
+e lhe dera por escripto os rumos e caminhos
+que tinham levado e trazido por carta
+de marear e pelas alturas e paragem aonde estava
+a ilha.&raquo;</p>
+
+<p>Esta confiss&atilde;o de Las Casas, amigo e companheiro
+de viagem de Colombo, &eacute; importantissima.</p>
+
+<p>Diz ainda Las Casas que, quando foi com Colombo
+ao primeiro descobrimento de Cuba, &laquo;os
+indios vizinhos daquella d&eacute;ram noticia de terem
+chegado a esta ilha Hespanhola outros homens
+brancos e barbados, como n&oacute;s outros, <i>antes que
+n&oacute;s outros n&atilde;o muitos annos</i>.&raquo;</p>
+
+<p>Mas, n&atilde;o fica nisto.</p>
+
+<p>Em 1501, Pietro Pasqualigo, referindo ao senado
+de Veneza a segunda viagem de Gaspar
+C&ocirc;rte Real &aacute; America, disse que Gaspar e seus
+companheiros acreditavam que &laquo;a terra achada era
+firme e estava ligada com a outra (Terra dos
+Papagaios ou Brazil) que o anno passado (1500)
+foi descoberta por outras caravelas de S. Magestade,
+acreditando estar ligada com as Antilhas.&raquo;</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_27" id="Page_27">[Pg 27]</a></span>Humboldt confirma este conceito, quando diz
+&laquo;que antes mesmo das viagens de Colombo a
+Honduras e Veragua, em outubro de 1501, j&aacute; se
+sabia em Portugal que as terras do norte eram
+cobertas de neve e gelo, contiguas &aacute;s Antilhas e
+&aacute; terra dos Papagaios <i>novamente</i> achada.&raquo;</p>
+
+<p>E admiradissimo, Humboldt accrescenta: &laquo;esta
+<i>adivinha&ccedil;&atilde;o</i> que proclama, apesar da ausencia de
+tantos &eacute;los intermediarios, uma liga&ccedil;&atilde;o continental
+entre o Brazil e as terras geladas do Lavrador
+<i>&eacute; muito surprehendente</i>.&raquo;</p>
+
+<p>Nem foi <i>adivinha&ccedil;&atilde;o</i> nem <i>cousa para surprehender</i>;
+os &eacute;los intermediarios, estabelecendo a
+liga&ccedil;&atilde;o continental entre o Brazil e as terras geladas
+do Lavrador, existiam e eram conhecidos
+dos portuguezes pelas viagens e descobrimentos
+que haviam feito na sua pertinancia de procurar
+o caminho para a India, navegando constantemente
+para o occidente e para o sul, desde 1431.
+Ora, todos os documentos que citamos demonstram
+de um modo cabal e decisivo que os descobridores
+da Terra Nova e portanto da America do
+Norte foram Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real e seus filhos
+e que este descobrimento foi feito muitos annos
+antes que Colombo aportasse &aacute;s Antilhas.</p>
+
+<p>Mas o estudo dos documentos portuguezes
+e castelhanos que o sr. Faustino da Fonseca
+exhumou da Torre do Tombo, dos archivos
+a&ccedil;orianos e hespanh&oacute;es e a que deu publicidade
+no seu luminoso livro, referentes &aacute;s viagens
+<span class='pagenum'><a name="Page_28" id="Page_28">[Pg 28]</a></span>maritimas dos seus antepassados, provam de
+um modo incontestavel que desde 1435, ou antes
+havia em Portugal conhecimento perfeito de terras
+americanas (o Brazil ou terra dos Papagaios com
+a sua posi&ccedil;&atilde;o determinada no mappa de Bianco
+e a sua distancia de 1500 milhas entre as ilhas de
+Cabo Verde e o Cabo de S. Roque precisamente
+marcada no mesmo mappa) e tambem que,
+desde 1475, as viagens dos portuguezes para
+o occidente j&aacute; se realizavam, n&atilde;o tanto no empenho
+de procurar por ahi o caminho para
+chegar &aacute; India, como no de &laquo;colonizar, de aproveitar
+as terras americanas e nellas commerciar,
+como se commerciava na costa africana e nas
+ilhas dos seus mares.&raquo;</p>
+
+<p>Era pelo sul da costa da Africa que os
+navios da cor&ocirc;a portugueza procuravam o caminho
+do oriente e as viagens &aacute; Guin&eacute; eram ent&atilde;o
+privativas dos navios reaes, n&atilde;o podendo os
+particulares emprehendel-as. J&aacute; para o occidente
+a navega&ccedil;&atilde;o era francamente aberta &aacute;s naus
+dos particulares, dando-lhes ensejo &aacute;s descobertas
+e explora&ccedil;&otilde;es commerciaes.</p>
+
+<p>A carta de doa&ccedil;&atilde;o a Fern&atilde;o Dulmo, em 1486
+e a confirma&ccedil;&atilde;o do seu contracto com Jo&atilde;o
+Affonso Estreito, feita pela carta regia de D.
+Jo&atilde;o I, vem demonstrar de um modo cabal,
+como muito bem diz o sr. Faustino da Fonseca,
+&laquo;a existencia de trabalhos de m&oacute;r importancia
+relativos &aacute; America em que se n&atilde;o trata j&aacute; da
+<span class='pagenum'><a name="Page_29" id="Page_29">[Pg 29]</a></span>descoberta, mas da posse effectiva, da conquista,
+da occupa&ccedil;&atilde;o.&raquo;</p>
+
+<p>Nessa carta de doa&ccedil;&atilde;o diz o rei que Fern&atilde;o
+Dulmo, capit&atilde;o da ilha Terceira, &laquo;lhe queria
+dar achada ao occidente uma grande ilha, ou
+ilhas, ou terra firme por costa&raquo;, ilha essa que
+se presumia ser a das Sete Cidades, e isto prova
+&laquo;que n&atilde;o se julgava ser a India, como pensava
+Colombo, nem Catay, nem Cypango, terras
+do oriente, que o genovez procurava e que at&eacute;
+morrer julgou ter descoberto.&raquo;</p>
+
+<p>Era uma outra terra a que se dava o nome
+de Sete Cidades por causa de uma velha lenda.
+Effectivamente, o que Fern&atilde;o Dulmo queria dar
+ao rei <i>achada</i> era, n&atilde;o uma ilha, mas terra
+firme, isto &eacute;, um continente.</p>
+
+<p>Dava-lhe a carta regia poder e autoridade
+para tomar posse real e autual de todas ilhas
+e terra firme que descobrisse, &laquo;podendo enforcar,
+matar e applicar toda outra pena criminal&raquo;
+e accrescentava que, &laquo;se as ilhas e terra firme
+n&atilde;o quizessem sujeitar-se, elle rei mandaria com
+Fern&atilde;o Dulmo gentes e armadas de navios
+para as sujeitar.&raquo;</p>
+
+<p>T&atilde;o amplas eram as autoriza&ccedil;&otilde;es e poderes
+conferidos a Fern&atilde;o Dulmo, contrastando com
+as restric&ccedil;&otilde;es feitas nas doa&ccedil;&otilde;es anteriores, nas
+quaes a cor&ocirc;a reservava para si &laquo;a al&ccedil;ada de
+morte ou talhamento de membro,&raquo; que taes
+concess&otilde;es levam a crer, com relativa segu<span class='pagenum'><a name="Page_30" id="Page_30">[Pg 30]</a></span>ran&ccedil;a,
+que na terra, que Dulmo queria dar
+<i>achada</i> ao seu rei, j&aacute; elle havia estado, havendo
+encontrado resistencia &aacute; occupa&ccedil;&atilde;o por parte da
+popula&ccedil;&atilde;o indigena.</p>
+
+<p>Nessa terra do occidente, ou America, que
+Dulmo queria dar <i>achada</i> &aacute; cor&ocirc;a portugueza,
+j&aacute; elle estivera, portanto, em 1486, ou antes.
+Que tinha havido luctas na America entre os
+donatarios e os indigenas prova-o ainda a carta
+de doa&ccedil;&atilde;o a Vasco Annes C&ocirc;rte Real na qual
+se refere que Miguel C&ocirc;rte Real (irm&atilde;o de
+Vasco Annes), ao partir, em busca de seu irm&atilde;o
+Gaspar, que ficara captivo das tribus americanas
+na terra onde aportara, ia &laquo;buscar, achar
+e remir o dito seu irm&atilde;o.&raquo; Que Fern&atilde;o Dulmo
+estivera na America em 1486, ou antes, prova-o
+ainda o contracto por elle feito com Jo&atilde;o
+Affonso Estreito pelo qual este fazia todas as
+despesas da expedi&ccedil;&atilde;o, e ainda o prazo marcado
+para irem e voltarem, ficando Dulmo
+com o commando da frota durante os primeiros
+40 dias e assumindo-o Jo&atilde;o Affonso ap&oacute;s
+esse tempo, o que significa que Fern&atilde;o Dulmo
+estava seguro de attingir a terra achada em
+40 dias e que Jo&atilde;o Affonso n&atilde;o receiava empregar
+o seu capital numa empresa temeraria,
+seguindo com o seu socio para o desconhecido.</p>
+
+<p>Estabelecia o contracto que as caravelas
+seriam abastecidas para 6 mezes ou 180 dias
+approximadamente. E dahi se deduz que, sendo
+<span class='pagenum'><a name="Page_31" id="Page_31">[Pg 31]</a></span>precisos 80 dias para a viagem de ida e de
+volta, ficavam 100 dias para a permanencia
+na America, para a explora&ccedil;&atilde;o, marca&ccedil;&atilde;o e divis&atilde;o
+das capitanias de que eram donatarios os
+dois associados e, finalmente, para a sujei&ccedil;&atilde;o
+dos indigenas.</p>
+
+<p>A confian&ccedil;a de Jo&atilde;o Affonso Estreito na
+expedi&ccedil;&atilde;o era tal que, al&eacute;m de todas as despesas
+com o abastecimento das caravelas e
+sua equipagem, ainda deu 6.000 reaes brancos
+a Fern&atilde;o Dulmo.</p>
+
+<p>Ora, o conhecimento que temos de Colombo
+ter gasto, posteriormente, 48 dias na sua primeira
+viagem de regresso das Antilhas, com
+atrasos devidos a temporaes e a uma arribada
+&aacute; ilha de Santa Maria, e ainda o facto de
+Pedro Alvares Cabral ter gasto 43 dias na sua
+viagem ao Brazil, <i>apesar da calmaria que encontrou</i>,
+e ainda a circumstancia de ter gasto
+Colombo, exactamente, 40 dias na sua viagem
+de Cadiz &aacute; Dominica, prova que 40 dias era
+o tempo, em m&eacute;dia, preciso para ir da Europa
+&aacute; America e que, portanto, o facto de tal prazo
+ter sido fixado no contracto de Dulmo com
+Jo&atilde;o Affonso Estreito mostra que Dulmo tinha
+perfeito conhecimento do tempo que era preciso
+para chegar &aacute; terra <i>achada</i> por elle em
+1486, ou antes, e que essa terra era positivamente
+a America.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_32" id="Page_32">[Pg 32]</a></span>Desta expedi&ccedil;&atilde;o de Dulmo fazia parte um
+allem&atilde;o chamado Martim Behaim, que o Dr.
+Monetario, ou Montaro, na sua carta a d. Jo&atilde;o II,
+chama Martinho Bohemio. Ora, este allem&atilde;o,
+que, de 1484 a 1486, acompanhou Diogo C&atilde;o,
+como cosmographo, rezidindo nos A&ccedil;ores de
+1486 at&eacute; 1490, seguia a opini&atilde;o dos antigos
+de que o caminho para a India era pelo occidente.
+Foi, pois, nesta viagem de Dulmo que
+Behaim obteve o conhecimento da costa Americana,
+o qual registou depois no globo que
+construiu ao regressar &aacute; Europa e que tambem
+representou no mappa, que existia no erario do
+rei de Portugal e ao qual allude Pigaffeta. Nesse
+globo terraqueo de Behaim foram representados
+a peninsula da Florida, o golfo do Mexico e
+as Antilhas, embora sem estas denomina&ccedil;&otilde;es.
+Estes trabalhos geographicos de Behaim confirmam
+que Dulmo estivera na America do
+Norte e estabelecem de um modo preciso que
+as terras achadas por elle eram a Florida, as
+Antilhas e o golfo do Mexico.</p>
+
+<p>Em 1499 fez d. Manuel doa&ccedil;&atilde;o a Jo&atilde;o Fernandes
+Lavrador da capitania da ilha ou ilhas
+que elle <i>descobrir ou achar novamente</i>. N&atilde;o tendo
+meios para custear a expedi&ccedil;&atilde;o, Jo&atilde;o Fernandes
+Lavrador associou-se a Francisco Fernandes
+e Jo&atilde;o Gon&ccedil;alves, escudeiros, naturaes dos A&ccedil;ores,
+e com tres negociantes inglezes de Bristol, os
+quaes, provavelmente, forneceram o capital pre<span class='pagenum'><a name="Page_33" id="Page_33">[Pg 33]</a></span>ciso,
+e com elles obteve do rei Henrique VII
+da Inglaterra nova carta de doa&ccedil;&atilde;o das terras
+que descobrisse.</p>
+
+<p>A expedi&ccedil;&atilde;o seguiu a sua rota e conseguiu
+descobrir a terra avistada em 1452 por Diogo
+de Teive e seu filho Jo&atilde;o de Teive, &aacute; qual foi
+dada o nome de Terra do Lavrador, que era
+o do seu novo descobridor e donatario.</p>
+
+<p>Ora, Jo&atilde;o Fernandes Lavrador, quando organizou
+a expedi&ccedil;&atilde;o, j&aacute; sabia da existencia da
+terra que <i>ia achar</i> porque nella estivera com
+Pedro de Barcellos de janeiro a abril de 1492,
+e o fim de sua expedi&ccedil;&atilde;o com os negociantes
+de Bristol n&atilde;o era outro sen&atilde;o tomar posse da
+terra anteriormente achada.</p>
+
+<p>Portanto, ainda alguns mezes antes de Colombo,
+que s&oacute; a 8 de agosto de 1492 partiu
+para as Antilhas, dois navegantes portuguezes,
+Jo&atilde;o Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos
+haviam estado na America.</p>
+
+<p>Assim, synthetizando esta s&eacute;rie de provas de
+ida e estada de navegantes portuguezes na America,
+anteriormente a Colombo, encontra-se o
+seguinte quadro chronologico registador dessas
+viagens e descobrimentos:</p>
+
+<p>1436&mdash;Regista Andr&eacute; Bianco nas suas cartas
+e no seu portulano as descobertas do Brazil
+ou Antilia, Mar de Baga e Mar de Sarga&ccedil;os.</p>
+
+<p>1447&mdash;Um navio parte do Porto e vae &aacute;
+Groelandia onde os marinheiros desembarcam.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_34" id="Page_34">[Pg 34]</a></span>1448&mdash;Regista Andr&eacute; Bianco nas suas cartas
+a existencia do Brazil &aacute; distancia precisa de
+1500 milhas comprehendidas entre as ilhas do
+Cabo Verde e o Cabo de S. Roque.</p>
+
+<p>1452&mdash;Diogo de Teive e seu filho Jo&atilde;o
+descobrem a ilha das Flores e chegam &aacute; latitude
+da terra do Lavrador.</p>
+
+<p>1472&mdash;Descobre Jo&atilde;o Vaz Corte Real a
+Terra de Jo&atilde;o Vaz, ou Terra Nova, ou Terra
+dos Bacalhaus, na America do Norte.</p>
+
+<p>1473-1484&mdash;Affonso Sanches descobre as Antilhas.</p>
+
+<p>1487&mdash;Viagem &aacute; America de Fern&atilde;o Dulmo
+e Jo&atilde;o Affonso Estreito, acompanhados de Martim
+Behaim, que registou, depois, no globo terraqueo
+que construiu e no mappa do erario
+real portuguez, a existencia da peninsula da
+Florida, das Antilhas e do golfo do Mexico.</p>
+
+<p>1492&mdash;Descoberta, entre 30 de Janeiro e 14
+de abril, da terra do Lavrador, por Jo&atilde;o Fernandes
+Lavrador e Pedro de Barcellos.</p>
+
+<p>Todas estas viagens, todos estes descobrimentos
+s&atilde;o anteriores &aacute; primeira viagem de
+Colombo, realizada a 8 de Agosto de 1492 e
+estabelecem a prioridade dos navegantes portuguezes
+no descobrimento da America.</p>
+
+<p>A carta do dr. Jeronymo Montaro, ou Monetario,
+de Nuremberg, a d. Jo&atilde;o II, em 1493,
+quando ainda ignorava a primeira viagem de
+<span class='pagenum'><a name="Page_35" id="Page_35">[Pg 35]</a></span>Colombo &aacute;s Antilhas, aconselhando o monarcha
+lusitano a que demandasse a India pelo caminho
+do occidente, confirma o conhecimento que
+tinham os portuguezes das terras americanas.</p>
+
+<p>Ignorando, como Colombo (que at&eacute; morrer
+suppoz sempre que chegando &aacute;s Antilhas havia
+chegado &aacute; India) que as terras do occidente
+constituiam um novo continente, formando a
+parte quarta do universo at&eacute; ent&atilde;o conhecido,
+o dr. Montaro elogia na sua carta o saber dos
+mareantes portuguezes, usando das seguintes
+express&otilde;es: &laquo;sabios que navegaram a <i>largura
+do mar</i>, que tomaram o caminho dos A&ccedil;ores
+por quadrantes chilindricos e astrolabio e outros
+engenhos, onde <i>nem frio nem calma os anojara</i>
+e mais navegaram a <i>praia oriental</i> sob uma
+temperan&ccedil;a (temperatura) muito temperada do
+ar e do mar.&raquo;</p>
+
+<p>Nestas express&otilde;es&mdash;<i>navegaram a largura do
+mar, tomando o caminho dos A&ccedil;ores</i>&mdash;(que era
+o ponto de partida dos navegantes que iam ao
+novo continente) p&otilde;e Montaro em evidencia as
+viagens dos portuguezes &aacute; America, muito embora
+ignorasse que essa terra era o Novo Mundo.
+Empregou a express&atilde;o <i>praia oriental</i> suppondo
+sempre que era a India cujo caminho pelo
+oriente j&aacute; havia sido descoberto, cinco annos
+antes, por Bartholomeu Dias, quando em 1487
+dobrara o cabo da Boa Esperan&ccedil;a, indo em
+busca do reino do Prestes Jo&atilde;o.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_36" id="Page_36">[Pg 36]</a></span>N&atilde;o admira que o dr. Montaro estivesse nessa
+ignorancia quando Colombo permanecia nella e
+insistia em acreditar que a America era a Asia
+e que, atravez della, havia um caminho por
+agua, que abreviava a viagem pelo occidente
+para a India.</p>
+
+<p>Esse caminho, que o audaz e astuto genovez
+embalde procurou at&eacute; morrer, existia de
+facto, mas, em vez de abreviar, alongava a
+viagem para a India. Esse caminho, que elle
+nunca conseguiu achar, descobriu-o ainda um
+portuguez, Fern&atilde;o de Magalh&atilde;es, quando, a soldo
+da Hespanha, mas com marinheiros portuguezes
+e com o cosmographo portuguez Ruy Faleiro,
+transpoz o estreito a que ligou o seu
+nome, no extremo sul da America, e fez a
+primeira viagem de circumnavega&ccedil;&atilde;o, dando a
+volta ao mundo e confirmando a doutrina da
+espheroicidade da terra.</p>
+
+<p>De tudo o que fica exposto resulta, meus
+senhores, de um modo indiscutivel, com uma veracidade
+esmagadora, que n&atilde;o foi Colombo quem
+teve a prioridade na descoberta da America e que
+essa grande gloria cabe de direito e de facto aos
+destemidos e desinteressados navegantes portuguezes
+do seculo XV, que &aacute; America foram e que
+na America estiveram muito antes do genovez.</p>
+
+<p>Qual delles, qual desses ousados lusos, precursores
+de Colombo, foi o primeiro a p&ocirc;r o p&eacute; no
+solo americano?</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_37" id="Page_37">[Pg 37]</a></span>Evidentemente, aquelle que, em 1435, ou antes,
+segundo o registo de Andr&eacute; Bianco, descobriu
+o Brazil. Desse, infelizmente, a historia n&atilde;o guardou
+o nome. Mas, daquelles que foram &aacute; parte
+norte da America e que l&aacute; estiveram, dando-lhe
+o seu nome, ha noticia; e o que firmou o direito
+&aacute; prioridade na descoberta foi evidentemente Jo&atilde;o
+Vaz Corte Real que, em 1472, vinte annos antes de
+Colombo, descobriu a <i>Terra Nova</i>, que os mappas,
+portulanos e manuscriptos da &eacute;poca designaram
+por essa denomina&ccedil;&atilde;o, pela de <i>Terra dos Bacalhaus</i>,
+pela de <i>Terra de Jo&atilde;o Vaz</i> e ainda de <i>Terra dos
+Corte Reaes</i>, em homenagem ao grande navegante
+luso e a seus filhos, que &aacute; mesma terra foram,
+no mesmo ardor empenhados de engrandecerem
+a sua patria.</p>
+
+<hr style='width: 45%;' />
+
+<p>Mas, vejamos agora quem era Colombo e o
+que fez elle, n&atilde;o para <i>descobrir</i>, mas para <i>chegar</i>
+&aacute; America e de uma parte della tomar posse official
+para a cor&ocirc;a de Hespanha.</p>
+
+<p>Por uma ironia da sorte, Colombo, nascido em
+Genova em 1450, veio ao mundo dois annos depois
+daquelle (1448) em que Andr&eacute; Bianco registou
+no seu mappa a existencia do Brazil a 1.500
+milhas das ilhas de Cabo Verde, tres annos depois
+que um navio portuguez foi &aacute; Groenlandia, e
+apenas dois annos antes daquelle em que o navegante
+portuguez Diogo de Teive chegou &aacute; latitude
+<span class='pagenum'><a name="Page_38" id="Page_38">[Pg 38]</a></span>da Terra do Lavrador, terra americana que Jo&atilde;o
+Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos ainda
+descobriram e della tomaram posse em 1492, mezes
+antes de Colombo chegar pela primeira vez
+&aacute;s Antilhas.</p>
+
+<p>Filho de uma familia de operarios, era Colombo
+um tecel&atilde;o, que apenas apprendera a ler
+e a escrever e que, at&eacute; aos 23 annos de edade, se
+conservara sem fazer estudos universitarios, sem
+seguir a carreira maritima, sem nada saber de
+cosmographia nem de pilotagem. Indo para Savone,
+em 1470, ahi estabeleceu uma taverna e ahi se
+conservou durante dois annos. N&atilde;o lhe sorrindo
+a fortuna como taverneiro, foi, em 1473, para
+Portugal, e fixou-se na ilha da Madeira, onde abriu
+uma casa de pasto, e onde casou com uma rapariga
+portugueza, filha de um tal Bartholomeu Perestrello,
+mareante, j&aacute; ent&atilde;o fallecido. Na Madeira
+nasceu-lhe o primeiro filho e na Madeira come&ccedil;ou
+elle a apprender nautica nos documentos, instrumentos
+e mappas de Perestrello, que a sogra lhe
+forneceu. Mais tarde, ficou sabedor da exacta situa&ccedil;&atilde;o
+das Antilhas pelos papeis de Affonso Sanches<a name="FNanchor_1_1" id="FNanchor_1_1"></a><a href="#Footnote_1_1" class="fnanchor">[1]</a>,
+que as descobriu, que em sua casa de pasto se
+hospedou e que ahi falleceu. Creio que ainda
+existe na Madeira essa casa que Colombo habitou.
+&Eacute; Bartholomeu de las Casas, o amigo e compa<span class='pagenum'><a name="Page_39" id="Page_39">[Pg 39]</a></span>nheiro
+de Colombo numa das suas viagens, quem,
+na sua <i>Historia das Indias</i>, nos d&aacute; conta desse
+episodio da vida do genovez em Portugal. Referindo-se
+aos objectos de Perestrello, que a sogra
+dera a Colombo, diz: &laquo;eram instrumentos e escriptos
+e pinturas (cartas e mappas), convenientes
+&aacute; navega&ccedil;&atilde;o, os quaes deu a sogra ao dito Colombo,
+que com a vista delles muito se alegrou.&raquo;
+E accrescenta: &laquo;<i>com estes se cr&ecirc; haver sido instigada
+a sua natural inclina&ccedil;&atilde;o</i>.&raquo;</p>
+
+<div class="footnote"><p><a name="Footnote_1_1" id="Footnote_1_1"></a><a href="#FNanchor_1_1"><span class="label">[1]</span></a> Affonso Sanches descobriu as Antilhas de 1473
+a 1484.</p></div>
+
+<p>Quando Colombo chegou a Portugal j&aacute; ahi
+eram conhecidas as cartas hydrographicas planas
+inventadas pelo infante d. Henrique, e foi durante
+a sua permanencia no reino que o portuguez
+Fernando construiu a primeira bussola completa
+com a rosa dos ventos e que a junta dos cosmographos
+do rei aperfei&ccedil;ou o astrolabio, assim como
+as taboas astronomicas applicadas &aacute; navega&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Vivendo no meio de uma grande familia de
+navegadores, sabios, como o testemunhou mais
+tarde o sabio dr. Montaro, de Nuremberg, conhecedor
+das viagens e descobertas dos portuguezes,
+&eacute; natural que Colombo, instigado pela mulher
+e pela sogra, fascinado pelos instrumentos e documentos
+que recebeu e por outros que manuseou
+e consultou depois, estimulado pelas audacias
+felizes dos mareantes lusos, quizesse tentar
+fortuna pelo mar e procurasse obter a pratica da
+navega&ccedil;&atilde;o que de todo lhe faltava. Para isso con<span class='pagenum'><a name="Page_40" id="Page_40">[Pg 40]</a></span>seguir,
+embarcou em navios portuguezes e com
+pilotos portuguezes apprendeu a navegar.</p>
+
+<p>&Eacute; ainda Las Casas quem nol-o affirma, quando
+diz, na sua j&aacute; citada <i>Historia das Indias</i>: &laquo;resolveu
+ter por experiencia o que ent&atilde;o do mundo
+pela de Ethiopia se andava e praticava pelo mar
+e assim navegou algumas vezes aquelle caminho
+em companhia de portuguezes, como pessoa j&aacute;
+residente e quasi natural de Portugal.&raquo;</p>
+
+<p>Foi, portanto, em Portugal que Colombo apprendeu
+a navegar e foi ainda em Portugal que teve
+conhecimento exacto de terras ao occidente, terras
+que, obcecado pelas theorias de Toscanelli,
+Marco Polo e outros geographos e cosmographos
+antigos, elle suppoz sempre que fossem asiaticas.</p>
+
+<p>Foi ent&atilde;o, depois de adquirida esta instruc&ccedil;&atilde;o
+theorica e pratica, ministrada pelos portuguezes,
+que o genovez affagou a id&eacute;a de descobrir o caminho
+da India pelo occidente, indo &aacute; terra onde
+j&aacute; havia chegado Affonso Sanches.</p>
+
+<p>Para conseguir os seus fins, procurou desde
+logo fazer rela&ccedil;&otilde;es com d. Jo&atilde;o II, rei de Portugal,
+o qual, longe de esconder delle as provas
+que possuia da existencia de terras ao occidente
+e ao sul, lh'as mostrou, como o proprio Colombo
+confessa, indicando-lhe nos mappas a situa&ccedil;&atilde;o da
+Terra Nova ou de Jo&atilde;o Vaz e a do Brazil ou Terra
+dos Papagaios.</p>
+
+<p>Ora, aconteceu, segundo informa Las Casas, que
+um dia, &laquo;soprando fortes ventos do poente, o mar
+<span class='pagenum'><a name="Page_41" id="Page_41">[Pg 41]</a></span>trouxe &aacute;s costas das ilhas do Fayal e da Graciosa
+alguns troncos de pinheiros e &aacute;s da ilha das Flores
+dois cadaveres de caras mui largas e de fei&ccedil;&otilde;es differentes
+das dos christ&atilde;os.&raquo;</p>
+
+<p>Guiado por estes indicios, e tendo conhecimento,
+como ainda informa Las Casas, da viagem do navio
+portuense que em 1447 tinha ido &aacute; Groelandia, da
+ida de Diogo de Teive em 1452 &aacute; latitude da Terra
+do Lavrador, das viagens de Vicente Dias, de Antonio
+Teive e de Affonso Sanches, de 1473 a 1484,
+da concess&atilde;o a Fern&atilde;o Domingues do Arco, em 1484,
+e das viagens de Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real e seus filhos,
+come&ccedil;adas em 1472, resolveu Colombo, certo da
+existencia de terras ao occidente, procurar um principe
+christ&atilde;o que o ajudasse e protegesse na empresa
+do descobrimento da India pelo poente.</p>
+
+<p>Foi ent&atilde;o a Castella offerecer os seus servi&ccedil;os
+&aacute; cor&ocirc;a hespanhola.</p>
+
+<p>Diz Las Casas que, guiado pelas informa&ccedil;&otilde;es
+que possuia, &laquo;<i>Colombo tinha a certeza que havia
+de descobrir terras e gentes nellas, como si nellas
+pessoalmente tivesse estado</i>.&raquo;</p>
+
+<p>E foi isso, provavelmente, o que Colombo,
+munido de copias dos mappas que viu em Portugal,
+e conhecedor das viagens e das doa&ccedil;&otilde;es
+alli feitas, affirmou aos reis de Castella, assegurando-lhes,
+n&atilde;o que ia achar ou descobrir, mas
+tomar posse para a Hespanha de terras anteriormente
+descobertas pelos portuguezes, dessas Anti<span class='pagenum'><a name="Page_42" id="Page_42">[Pg 42]</a></span>lhas
+que Affonso Sanches descobrira, cuja situa&ccedil;&atilde;o
+os seus mappas e papeis lhe revelaram.</p>
+
+<p>Tal offerta elle n&atilde;o podia fazel-a ao rei de
+Portugal, porque tinha a certeza de que seria
+recusada. Que poderia elle offerecer &aacute; cor&ocirc;a
+portugueza, que esta j&aacute; n&atilde;o conhecesse?</p>
+
+<p>Accresce que, achando-se individado e sendo
+perseguido pelos credores, elle sentia necessidade
+urgente de sahir de Portugal e procurar no estrangeiro
+os meios de solver os seus compromissos.</p>
+
+<p>Eis ahi as raz&otilde;es pelas quaes deixou Portugal
+e foi &aacute; Hespanha, n&atilde;o no nobre intuito de descobrir
+terras e de praticar feitos que lhe dessem
+renome, mas no de ganhar dinheiro.</p>
+
+<p>Os que, como Humbolt, affirmam que Colombo
+foi, <i>por inveja</i>, maltratado em Portugal e,
+por isso, de l&aacute; sahiu, fugindo, faltam &aacute; verdade.</p>
+
+<p>Inveja de que? Que feitos, que emprehendimentos,
+que descobertas havia elle feito, quando
+deixou o reino portuguez, onde tudo foi apprender,
+para que delle alli tivessem inveja?
+Inveja poderia elle ter, e certamente tinha, daquelles
+que, arriscando a vida e a fortuna, j&aacute;
+haviam dilatado o mundo, quando elle nada tinha
+feito at&eacute; ent&atilde;o.</p>
+
+<p>Mas, &eacute; elle proprio quem desmente os que affirmam
+que foi a inveja que o fez sahir de Portugal,
+quando, em uma carta ao rei de Castella,
+diz: &laquo;fui aportar a Portugal cujo rei entendia de
+<span class='pagenum'><a name="Page_43" id="Page_43">[Pg 43]</a></span>descobrimentos mais do que nenhum outro.&raquo; E,
+em outra carta, accrescenta: &laquo;o grande cora&ccedil;&atilde;o
+dos principes de Portugal que ha tanto tempo
+proseguem na empresa de Guin&eacute; e tambem na
+de Africa onde gastaram metade da gente do
+reino...&raquo;</p>
+
+<p>N&atilde;o teria elle feito taes elogios aos reis portuguezes
+se, <i>por inveja</i>, tivesse sido maltratado em
+Portugal. Que a causa principal da sua precipitada
+sahida de Portugal foram as dividas,
+deprehende-se claramente dos seguintes trechos da
+amistosa e protectora carta que d. Jo&atilde;o II, em
+1488, lhe dirigiu: &laquo;E porque por ventura tereis
+algum receio das nossas justi&ccedil;as <i>por raz&atilde;o de
+algumas cousas a que sejaes obrigado</i>, n&oacute;s por esta
+carta vos asseguramos pela vinda, estada e tornada,
+que n&atilde;o sejaes preso, retido, accusado, citado
+nem demandado por nenhuma cousa ou seja
+civil ou criminal de qualquer penalidade. E por
+ella mesmo mandamos as nossas justi&ccedil;as que a
+cumpram assim.&raquo;</p>
+
+<p>Eis ahi como c&aacute;e por terra a invencionice da
+inveja e como fica patente que as dividas foram a
+causa principal da fuga do genovez.</p>
+
+<p>Munido dessa generosa carta de D. Jo&atilde;o II,
+que &eacute; um salvo conducto, Colombo volta a Portugal
+e vae ent&atilde;o offerecer ao rei os seus servi&ccedil;os
+na empresa dos descobrimentos e o rei os acceita,
+n&atilde;o para aproveitar-se delles, mas para reter
+Colombo junto a si, evitando que, por meio delle,
+<span class='pagenum'><a name="Page_44" id="Page_44">[Pg 44]</a></span>Castella se apropriasse de terras que a Portugal
+j&aacute; pertenciam.</p>
+
+<p>Mas, o astuto genovez, nem pelo facto de
+ficar ao servi&ccedil;o do rei de Portugal, deixa de conservar-se
+ao servi&ccedil;o da Hespanha de cujo thesouro
+havia recebido 14.000 maravedis<a name="FNanchor_2_2" id="FNanchor_2_2"></a><a href="#Footnote_2_2" class="fnanchor">[2]</a> em
+1487, mais 3.000 pouco depois e ainda 3.000
+em junho de 1488, isto &eacute;, mezes depois de receber
+a carta de d. Jo&atilde;o II que lhe dava o salvo
+conducto para voltar ao reino!!...</p>
+
+<div class="footnote"><p><a name="Footnote_2_2" id="Footnote_2_2"></a><a href="#FNanchor_2_2"><span class="label">[2]</span></a> O maravedi valia cerca de 25 r&eacute;is fortes.</p></div>
+
+<p>Eis ahi patente a dualidade ambiciosa de Colombo,
+que fica ao servi&ccedil;o de Portugal e ao da
+Hespanha, simultaneamente, explorando a ambos
+sem escrupulos!...</p>
+
+<p>Essa dualidade elle a revelou ainda no proprio
+nome, pois assignava-se <i>Colon</i> na Hespanha e
+<i>Colombo</i> na Italia e em Portugal!!!...</p>
+
+<p>Ao fim de quatro annos dessa dupla explora&ccedil;&atilde;o,
+consegue Colombo assignar um tratado
+com a cor&ocirc;a de Hespanha, obtendo della as
+tres caravelas de que carecia para ir &aacute; India
+pelo occidente e <i>achar</i> terras que j&aacute; tinham
+sido achadas pelos navegantes portuguezes. Por
+esse tratado, elle obteve as seguintes vantagens:
+&laquo;o grau de cavalleiro da espada dourada, os
+cargos de almirante m&oacute;r do mar oceano, de
+vice-rei e governador perpetuo das terras que
+descobrisse, a decima de todas as rendas, e o
+<span class='pagenum'><a name="Page_45" id="Page_45">[Pg 45]</a></span>direito de poder concorrer com o oitavo das
+despesas de todas as frotas, recebendo o oitavo
+dos lucros.&raquo;</p>
+
+<p>Que contraste resalta do procedimento deste
+aventureiro com o dos navegantes portuguezes
+que, antes delle, haviam ido &aacute; America,&mdash;como
+os Corte Reaes, Fern&atilde;o Dulmo e Lavrador&mdash;que
+armavam as caravelas &aacute; sua custa, que,
+nisso consumiam as suas fortunas e se individavam,
+vindo, ao depois, offerecer ao seu rei e
+ao seu paiz as terras achadas, sem pedir favor
+nem retribui&ccedil;&atilde;o alguma!</p>
+
+<p>Havia no tratado entre Colombo e os reis de
+Castella uma clausula pela qual fora estipulado
+que 10.000 maravedis seriam dados pela cor&ocirc;a e
+de alvi&ccedil;aras ao marinheiro da frota columbina
+que primeiro avistasse e annunciasse terra ao
+commandante. Esse marinheiro foi Rodrigo de
+Triana. Mas quando elle, do cesto da gavea,
+enthusiasmado apontou para o horizonte onde
+apparecia o relevo da terra desejada e, alegremente,
+a annunciou a Colombo, este declarou
+logo que, na noite anterior, j&aacute; havia visto uma
+<i>luz</i> e, estabelecendo com essa <i>luz</i> a prioridade,
+apossou-se da gratifica&ccedil;&atilde;o que ao seu subordinado
+competia!</p>
+
+<p>Os que pela rama estudaram a vida deste
+aventureiro audaz exaltam a sua caridade christ&atilde;,
+esquecendo: que, na sua primeira viagem &aacute;s Antilhas,
+nem padre elle levou na frota para cha<span class='pagenum'><a name="Page_46" id="Page_46">[Pg 46]</a></span>mar
+o gentio ao gremio da egreja; que, ao chegar
+ao golfo de Saman&aacute;, fez logo correr sangue,
+atacando os indigenas n&uacute;s e quasi desarmados;
+que, n&atilde;o podendo enviar aos reis de Castella as
+promettidas e almejadas riquezas em especiarias,
+pedras e metaes preciosos, mandou navios carregados
+de escravos para serem vendidos e com o
+pre&ccedil;o obtido pagar-se a despesa da viagem; que,
+de 1493 a 1496, governando a Hespaniola, que &eacute;
+o Haiti de hoje, exterminou barbaramente a ter&ccedil;a
+parte da popula&ccedil;&atilde;o; que, quando mandou Pedro
+Margarite reconhecer a ilha de Cuba, deu-lhe
+ordem para mutilar os indigenas que l&aacute; encontrasse;
+que, finalmente, quando ordenou a Hojeda
+(um dos pretensos descobridores do Brazil) que
+fosse prender o cacique Cahonaboa, deu-lhe instruc&ccedil;&otilde;es
+para que o fizesse &aacute; trai&ccedil;&atilde;o, attrahindo-o
+com presentes, illudindo-o com fingida amizade e
+apoderando-se delle em seguida!!...</p>
+
+<p>Eis ahi o quilate da caridade christ&atilde; de Colombo.</p>
+
+<p>Parece que a cavalheiresca Hespanha, a despeito
+de Colombo a ter enriquecido, sempre suspeitou
+desse <i>descobridor</i>, que a seu soldo trazia,
+pois, logo ap&oacute;s a sua segunda viagem &aacute; America,
+perseguiu-o tenazmente, submettendo-o a um tribunal
+e, quando elle regressou da terceira, ap&oacute;s dois
+mezes de pris&atilde;o em calabou&ccedil;o, mandou que viesse
+a bordo preso a uma grilheta, como se fosse um
+bandido!</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_47" id="Page_47">[Pg 47]</a></span>Morto em 1506, ignorando sempre que a terra
+que alcan&ccedil;ara para a Hespanha era a America,
+pois viveu sempre convicto de que era a Asia,
+nem depois de morto conseguiu descansar, pois
+os seus ossos andaram em viagens continuas de
+Valladolid, onde primeiro foi sepultado, para Sevilha,
+depois para o Haiti, depois para Cuba
+e, finalmente, de Cuba, de novo, para a Hespanha,
+onde actualmente param.</p>
+
+<p>E sendo genovez, a Italia, que ali&aacute;s lhe ergueu
+uma estatua, n&atilde;o reclamou jamais as suas
+atormentadas cinzas, talvez por desconfiar da authenticidade
+desse pretenso filho cuja nacionalidade
+&eacute; ainda hoje discutida.<a name="FNanchor_3_3" id="FNanchor_3_3"></a><a href="#Footnote_3_3" class="fnanchor">[3]</a></p>
+
+<div class="footnote"><p><a name="Footnote_3_3" id="Footnote_3_3"></a><a href="#FNanchor_3_3"><span class="label">[3]</span></a> Vide <i>Nota A</i> no fim da conferencia.</p></div>
+
+<p>Eis ahi senhores, quem foi Colombo, e como
+foi que elle deu &aacute; Hespanha terras dessa America
+que os portuguezes haviam descoberto.</p>
+
+<p>Conhecidos os factos que venho de narrar,
+posso dizer agora, sem receio de contesta&ccedil;&atilde;o s&eacute;ria,
+que Colombo n&atilde;o descobriu a America, porque,
+15 annos, pelo menos, antes delle nascer, j&aacute; a
+America havia sido descoberta pelos navegantes
+lusos do primeiro ter&ccedil;o do seculo XV.</p>
+
+<p>Como nota elucidativa e de importancia historica,
+cumpre-me accrescentar que, quando Colombo
+regressou da sua primeira viagem &aacute;s Antilhas
+e communicou a sua descoberta ao rei de
+Portugal, d. Jo&atilde;o II, logo este monarcha protestou
+<span class='pagenum'><a name="Page_48" id="Page_48">[Pg 48]</a></span>energicamente, dizendo-lhe: &laquo;Que aquella conquista
+lhe pertencia e que suas eram as terras
+aonde elle cheg&aacute;ra.&raquo;</p>
+
+<p>A este protesto do rei portuguez, respondeu
+Colombo hypocritamente, &laquo;que o n&atilde;o sabia e que
+os reis de Castella apenas lhe haviam ordenado
+que n&atilde;o fosse &aacute; Guin&eacute; nem &aacute; Mina.&raquo;</p>
+
+<p>Ao que retrucou d. Jo&atilde;o II: &laquo;Que tinha a
+certeza que nisso n&atilde;o haveria mist&eacute;r de terceiros&raquo;.</p>
+
+<p>Este dialogo, extrahido do diario da primeira
+viagem de Colombo, por elle proprio escripto,
+mostra que o usurpador da gloria alheia esquivava-se
+&aacute; responsabilidade directa do delicto por
+elle commettido, sciente e conscientemente, e que
+atirava essa responsabilidade para os hombros
+dos reis de Castella, como se fossem estes que
+tivessem ido &aacute;s Antilhas ou que o tivessem induzido
+a ir at&eacute; l&aacute;!...</p>
+
+<p>Mas, deixemos Colombo e vejamos agora
+como foi descoberta esta parte do continente
+americano que se chama o Brazil.</p>
+
+<p>Desde o come&ccedil;o desta conferencia, vos disse
+que n&atilde;o foi Pedro Alvares Cabral quem descobriu
+o Brazil, pois o Brazil j&aacute; estava designado e marcado
+nos mappas que a cor&ocirc;a portugueza possuia
+desde 1436, fixando Andr&eacute; Bianco, desde 1448,
+a sua distancia das ilhas de Cabo Verde em 1500
+milhas.</p>
+
+<p>Nesse mappa de 1448, que Andr&eacute; Bianco
+tra&ccedil;ou em Londres, <i>depois de haver passado por
+<span class='pagenum'><a name="Page_49" id="Page_49">[Pg 49]</a></span>Portugal</i>, estava o Brazil representado ao sul das
+ilhas dos Hermanos do archipelago de Cabo
+Verde, ilhas que t&ecirc;m hoje a denomina&ccedil;&atilde;o de
+Brava e do Fogo. Na parte referente ao Brazil
+e correspondente ao Cabo de S. Roque, havia no
+mappa esta legenda: <i>Ixola otincticha xe longa a
+ponente 1500 mia</i>, cuja traduc&ccedil;&atilde;o &eacute; esta: &laquo;Ilha
+authentica (ou Antilia) 1500 milhas ao poente.&raquo;</p>
+
+<p>Ora, o cabo de S. Roque, como todos sabem,
+dista exactamente 1520 milhas das ilhas de Cabo
+Verde.</p>
+
+<p>Estes dois documentos bastam para deixar
+patente que, quando, em 1500, Pedro Alvares
+Cabral aportou a Porto Seguro da costa brazileira,
+fazia, no minimo, 65 annos que essa parte da
+America tinha sido descoberta.</p>
+
+<p>Foram ainda navegantes portuguezes que a
+descobriram e at&eacute; o testamento de Jo&atilde;o Ramalho,
+escripto nas notas do tabelli&atilde;o Louren&ccedil;o
+Vaz, na villa de S. Paulo, em 3 de maio de
+1580, segundo o testemunho do frei Gaspar da
+Madre de Deus, que delle teve uma copia, o
+prova, pois, ahi, Ramalho, na presen&ccedil;a do dito
+tabelli&atilde;o, do juiz ordinario Pedro Dias e de
+quatro testemunhas, declarou que estava no Brazil
+ha 90 annos, isto &eacute;, desde 1490, dois annos antes
+da ida de Colombo &aacute;s Antilhas e dez annos antes
+da chegada de Cabral a Porto Seguro.</p>
+
+<p>Prova-o ainda o tratado de Tordesillas, assignado
+em 1494 entre Portugal e a Hespanha, o
+<span class='pagenum'><a name="Page_50" id="Page_50">[Pg 50]</a></span>qual, marcando para limites entre os dois reinos
+uma linha divisoria, do polo artico ao antarctico,
+distante 370 leguas das ilhas de Cabo Verde,
+abrangia na parte portugueza o Brazil, cujos limites
+foram tra&ccedil;ados por esse meridiano.</p>
+
+<p>O mappa de Cantino, de 1502, regista essa
+linha divisoria e inclue, de accordo com o tratado,
+na parte portugueza, n&atilde;o s&oacute; o Brazil como
+a Terra Nova ou de Jo&atilde;o Vaz e a Groelandia,
+assignalando tudo o que ficava &aacute; direita da linha
+divisoria com a bandeira portugueza e a parte
+&aacute; esquerda com a de Castella, com a seguinte
+legenda:&mdash;&laquo;Este &eacute; o marco dantre Castella e
+Portugal.&raquo;</p>
+
+<p>O a&ccedil;oriano Fructuoso, tratando de Jo&atilde;o Vaz
+C&ocirc;rte Real, diz que elle &laquo;descobriu algumas partes
+do Poente e do Brazil&raquo;, devendo, portanto, esta
+ultima descoberta ser anterior a 1500, pois Jo&atilde;o
+Vaz falleceu em 1496.</p>
+
+<p>Por um manuscripto de frei Diogo das Chagas,
+citado por Drumond nos seus <i>Annaes da Ilha
+Terceira</i>, sabe-se que, antes de 1496, tambem
+o navegante Jo&atilde;o Coelho veio ao Brazil.</p>
+
+<p>Em 1514, Estevam Fr&oacute;es confirma este asserto,
+numa carta ao rei de Portugal, na qual lhe
+diz: &laquo;alegravamos que vossa alteza possuia esta
+terra ha vinte annos e mais (portanto, desde
+antes de 1494), e que j&aacute; Jo&atilde;o Coelho... viera
+ter por onde n&oacute;s outros vinhamos a descobrir
+<span class='pagenum'><a name="Page_51" id="Page_51">[Pg 51]</a></span>e que vossa alteza estava em posse destas terras
+por muitos tempos.&raquo;</p>
+
+<p>O proprio Vasco da Gama, na sua primeira
+viagem &aacute; India, em 1497, passou proximo do
+Brazil, tendo signaes de terra em 22 de agosto,
+isto &eacute;, 19 dias depois que sahiu de Cabo Verde,
+como se verifica no Roteiro dessa sua viagem.</p>
+
+<p>No seu <i>Esmeraldo de situ orbis</i> refere Duarte
+Pacheco, o celebre cosmographo, <i>que em 1498 estivera
+no Brazil</i>, provavelmente, como supp&otilde;e plausivelmente
+o sr. Faustino da Fonseca, no intuito de
+verificar, por ordem da cor&ocirc;a portugueza, os
+limites determinados pela linha divisoria do tratado
+de Tordesillas.</p>
+
+<p>Mestre Jo&atilde;o, physico m&oacute;r de d. Manoel, e
+cosmographo da frota de Cabral, que na sua
+interessante carta ao rei, escripta de Porto Seguro,
+regista o Cruzeiro do Sul e marca para o
+Brazil a latitude de 17 graus, diz, entre outras
+cousas interessantes, referindo-se &aacute; terra brazileira,
+que a terra onde chegara, <i>j&aacute; se achava tra&ccedil;ada
+no mappa-mundi de Pedro Vaz da Cunha Bisagudo</i>,
+affirmando-o categoricamente na seguinte passagem
+da carta: &laquo;quanto, senhor, ao sitio desta terra,
+mande vossa alteza trazer um mappa-mundi, que
+tem Pedro Vaz Bisagudo, e por ahi poder&aacute; ver
+vossa alteza o sitio desta terra, ainda que aquelle
+mappa-mundi n&atilde;o certifica si esta terra &eacute; habitada
+ou n&atilde;o: &eacute; mappa-mundi antigo e ahi achar&aacute;
+vossa alteza escripta tambem a Mina...&raquo;</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_52" id="Page_52">[Pg 52]</a></span>Portanto, o proprio cosmographo da frota de
+Cabral sabia, desde antes da viagem de 1500,
+que havia terra nesse rumo de sudoeste que a
+frota cabralina seguiu, como o sabia tambem
+Duarte Pacheco, o qual j&aacute; nessa terra tinha
+estado em 1498.</p>
+
+<p>Tudo isto vem provar que, se Cabral n&atilde;o
+descobriu o Brazil, tambem o n&atilde;o descobriram
+os pretensos descobridores Vicente Yanez Pinzon,
+Diogo de Lepe e Alonso Hojeda, aventureiros,
+que s&oacute; chegaram &aacute; costa americana em 1499,
+n&atilde;o podendo tomar posse da terra brazileira
+porque o tratado de Tordesillas de 1494 n&atilde;o
+consentia em tal. As proprias instruc&ccedil;&otilde;es que
+o rei de Castella lhes deu em 1499, determinavam
+&laquo;que n&atilde;o tocassem nas terras de Portugal&raquo;.</p>
+
+<p>Elles estiveram, de facto, em terras do Brazil,
+antes de Cabral, mas a descoberta dessas terras
+n&atilde;o lhes pertence.</p>
+
+<p>N&atilde;o foram, pois, Cabral, nem Pinzon, nem
+Lepe, nem Hojeda, os descobridores do Brazil,
+podendo-se, por&eacute;m, assegurar que essa gloria
+cabe incontestavelmente a navegantes portuguezes
+do seculo XV, embora seja difficil determinar
+qual foi desses intrepidos argonautas o primeiro
+que pisou o solo brazileiro.</p>
+
+<p>&Aacute; vista das cartas e portulanos de Andr&eacute;
+Bianco, de 1436 e de 1448, pode-se affirmar
+que essa descoberta foi feita, como j&aacute; disse,
+em 1435, ou antes.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_53" id="Page_53">[Pg 53]</a></span>Vejamos, agora, como Cabral aportou a esta
+terra e della tomou posse official para a cor&ocirc;a
+de Portugal.</p>
+
+<p>O fim ostensivo, o fim apparente da expedi&ccedil;&atilde;o
+de Cabral era ir &aacute; India. O fim real,
+o fim verdadeiro era ir, primeiro, ao Brazil,
+delle tomar posse official, e, em seguida, fazer
+rumo para o Cabo da Boa Esperan&ccedil;a, em demanda
+da India.</p>
+
+<p>Como j&aacute; referi, a cor&ocirc;a portugueza, anteriormente
+&aacute; viagem de Cabral, havia enviado
+ao Brazil Duarte Pacheco, eminente cosmographo,
+que tambem veio na frota cabralina. O
+autor do <i>Esmeraldo de situ orbis</i> aqui estivera,
+pois, em 1498, para verificar os limites da linha
+divisoria do tratado de Tordesillas, que, na parte
+portugueza, abrangia as terras dos Corte Reaes,
+a Groelandia e o Brazil, mas deste n&atilde;o havia
+tomado posse official.</p>
+
+<p>Tornava-se, pois, indispensavel a Portugal
+reconhecer e tomar posse, sem demora, dessa
+terra e, assim, guiando-se pelas informa&ccedil;&otilde;es
+de Duarte Pacheco e do proprio Vasco da
+Gama, bem como pelas de outros seus navegantes,
+que haviam aportado &aacute; Terra dos Papagaios,
+aproveitava a expedi&ccedil;&atilde;o &aacute; India para,
+de passagem, tomar posse official do Brazil.
+O Brasil era, portanto, um ponto de escala da
+viagem de Cabral &aacute; India, mas um ponto de
+escala for&ccedil;ado e j&aacute; conhecido, pois sabia tam<span class='pagenum'><a name="Page_54" id="Page_54">[Pg 54]</a></span>bem
+a cor&ocirc;a portugueza, pelos mappas e portulanos
+de Bianco, que essa &laquo;Ilha authentica
+ou Antilia&raquo; ficava a 1500 milhas de distancia
+das ilhas Brava e do Fogo, do archipelago
+de Cabo Verde.</p>
+
+<p>Era a frota de Cabral composta de 13 naus,
+uma das quaes com mantimentos, e nellas embarcaram
+1.200 homens, entre os quaes o capit&atilde;o-m&oacute;r
+Pedro Alvares Cabral, que commandava
+a nau capitanea, os capit&atilde;es das outras naus
+Sancho de Toar, Sim&atilde;o de Miranda de Azevedo,
+Ayres Gomes da Silva, Nicolau Coelho, Bartholomeu
+Dias (o descobridor do Cabo da Boa
+Esperan&ccedil;a), Diogo Dias, Gaspar de Lemos,
+Luiz Pires, Sim&atilde;o de Pina, Pedro de Atayde
+Inferno, Vasco de Atayde e Nuno Leit&atilde;o da
+Cunha.</p>
+
+<p>Iam tambem na frota: Duarte Pacheco, autor
+do <i>Esmeraldo de situ orbis</i>, Mestre Jo&atilde;o, physico
+m&oacute;r do rei, que ia como cosmographo, o escriv&atilde;o
+Pero Vaz Caminha, diversos frades, entre os quaes
+frei Henrique de Coimbra, os pilotos Affonso
+Lopes, Pedro Escolar e outros que Vasco da
+Gama trouxera da India, diversos indios, um
+grumete negro da Guin&eacute;, alguns interpretes e
+varios degredados.</p>
+
+<p>Iam os navios de Cabral apparelhados e
+munidos do necessario para anno e meio de
+viagem, bem providos de artilheria, de muni&ccedil;&otilde;es
+de bocca, de armas brancas, como espadas
+<span class='pagenum'><a name="Page_55" id="Page_55">[Pg 55]</a></span>e lan&ccedil;as, e, em cada nau, havia uma botica.
+Para o commercio, levavam as caravelas, velludos,
+setins, damascos, pannos de l&atilde;, coral,
+cobre, vermelh&atilde;o, mercurio e ambar. Al&eacute;m
+disso, levavam os padres comsigo um org&atilde;o e
+alfaias de prata.</p>
+
+<p>Era, evidentemente, a maior, a melhor apparelhada
+e a mais garrida frota que partia da
+Europa.</p>
+
+<p>Em 15 de fevereiro de 1500 recebeu Cabral
+a carta de capit&atilde;o m&oacute;r e dos poderes de que
+ia revestido. Com essa carta foi-lhe dado o regimento
+pelo qual se devia guiar na viagem e,
+nesse regimento, que, na parte relativa ao rumo,
+f&ocirc;ra organizado por Vasco da Gama, estava
+tra&ccedil;ada a rota que devia seguir.</p>
+
+<p>Nesse documento minucioso, recommendava-se
+ao capit&atilde;o m&oacute;r que &laquo;se afastasse da costa da Africa
+para encurtar a via e que, ao partir da ilha de Santiago
+em Cabo Verde, deviam os navios fazer o seu
+caminho pelo sul, <i>bordejando pelas bandas do sudoeste</i>...
+e, depois, na volta do mar, at&eacute; metterem o
+Cabo da Boa Esperan&ccedil;a, em leste franco.&raquo;</p>
+
+<p>O regimento n&atilde;o fala claramente em aportar &aacute;
+Terra dos Papagaios, mas estipula que, ao deixar
+Cabo Verde, &laquo;f&aacute;&ccedil;a a frota caminho pelo sul, bordejando
+pelas bandas de sudoeste&raquo; e sendo a miss&atilde;o
+secreta de Cabral tomar posse official dessa terra e
+devendo elle de ter necessidade de arribar a uma
+terra qualquer, antes da chegada ao Cabo ou &aacute;
+<span class='pagenum'><a name="Page_56" id="Page_56">[Pg 56]</a></span>India, para abastecer a frota de agua e lenha e dar
+descanso &aacute; marinhagem, a terra do Brazil estava
+naturalmente indicada para tal fim. Accresce que,
+na frota, ia Duarte Pacheco que, tendo j&aacute; estado no
+Brazil, saberia guiar Cabral com seguran&ccedil;a a esse
+ponto de escala for&ccedil;ada da gran viagem, de antem&atilde;o
+indicada pelo Gama.</p>
+
+<p>A rota tra&ccedil;ada nas linhas e entrelinhas do regimento
+era, pois: seguir a frota de Lisboa &aacute; ilha de
+Santiago, de Cabo Verde, dahi seguir pelo sul, bordejando
+pelo sudoeste, at&eacute; alcan&ccedil;ar a costa da Terra
+dos Papagaios, dahi zarpar para o Cabo, dobral-o e
+seguir para a India.</p>
+
+<p>Esse rumo inda &eacute; o mesmo que hoje seguem
+os navios que v&ecirc;m de Lisboa ao Brazil. Prompta a
+frota de Cabral, partiu ella do Tejo aos 9 de mar&ccedil;o
+de 1500, acompanhando-a o rei d. Manuel at&eacute; fora
+da barra. Cinco dias depois, a 14 de mar&ccedil;o, passa
+a frota pelas Canarias onde encontra calmaria e
+onde permanece um dia; a 22, chega a Cabo Verde
+e, exactamente um mez depois, a 22 de abril, avista
+a terra brazileira, gastando, de Lisboa a Porto Seguro,
+43 dias.<a name="FNanchor_4_4" id="FNanchor_4_4"></a><a href="#Footnote_4_4" class="fnanchor">[4]</a></p>
+
+<div class="footnote"><p><a name="Footnote_4_4" id="Footnote_4_4"></a><a href="#FNanchor_4_4"><span class="label">[4]</span></a> Vide <i>Nota C</i> no fim da Conferencia</p></div>
+
+<p>Dos historiadores que consultei, e n&atilde;o poucos
+foram, sobre a viagem de Cabral ao Brazil, attribuem
+uns ao <i>acaso</i> esse feito, dizem outros que a
+frota f&ocirc;ra impellida para a nossa costa por um
+<i>forte temporal</i>, que a apanhou.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_57" id="Page_57">[Pg 57]</a></span>Nenhum delles por&eacute;m, explica em que altura a
+frota foi apanhada pelo temporal nem quanto tempo
+este durou.</p>
+
+<p>Ora, contra esse <i>forte temporal</i> protestam energicamente
+os dois melhores documentos que possuimos
+da viagem de Cabral: as cartas que Mestre
+Jo&atilde;o, o cosmographo da frota, e Vaz Caminha, o
+escriv&atilde;o, enviaram ao rei d. Manuel, de Porto Seguro,
+pela nau que dahi partiu a 1.º de maio, de
+regresso a Lisboa, para dar conta do feito ao monarcha.</p>
+
+<p>Nem o cosmographo nem Caminha falam de
+tal temporal, pelo contrario, o que dizem &eacute; que,
+durante a viagem, houve calmaria e que por causa
+della perdeu a frota um dia em frente &aacute;s Canarias.
+Temporal soffreu a frota, mas depois que deixou o
+Brazil e se fez vella para o Cabo, onde falleceu o
+seu descobridor Bartholomeu Dias.</p>
+
+<p>N&atilde;o houve, pois, temporal na travessia at&eacute; ao
+Brazil, nem o acaso interveio na chegada da frota
+cabralina a esta terra. O rumo a seguir tinha-lhe
+sido tra&ccedil;ado; al&eacute;m disso, j&aacute; nessa &eacute;poca tinham
+os portuguezes perfeito conhecimento das correntes
+maritimas e dos ventos geraes e sabiam aproveital-os
+de acc&ocirc;rdo com as rotas a seguir. O duplo fim de
+Cabral, tomando o rumo seguido e aportando ao
+Brazil, &eacute;ra, como j&aacute; o disse, abastecer-se de lenha e
+agua, dando descanso &aacute; marinhagem e tomar posse
+official da Terra dos Papagaios para a cor&ocirc;a portugueza.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_58" id="Page_58">[Pg 58]</a></span>O <i>acaso</i> e o <i>temporal</i> t&ecirc;m, portanto, de ser banidos
+dos livros que se occupam do descobrimento
+da terra de Vera Cruz.</p>
+
+<p>O primeiro e grande historiador que o Brazil
+teve, ainda hoje o mais sincero e veridico, &eacute; Pero
+Vaz Caminha, o modesto escriv&atilde;o, que narrou ao
+rei d. Manoel, numa commovente e encantadora
+carta, onde a minucia corre parelhas com a simplicidade,
+a historia da travessia, da chegada e da
+permanencia de Cabral na terra brazileira.</p>
+
+<p>Nessa longa missiva, escripta de Porto Seguro e
+datada de 1.º de maio de 1500, o consciencioso
+historiador d&aacute; conta ao seu rei e senhor de
+todas as peripecias da viagem, desde a partida
+de Lisboa at&eacute; ao Brazil e ainda de tudo o que
+se passou durante os 12 dias em que a frota
+ficou ancorada em frente &aacute; costa brazileira. Persuadido
+de que o que mais interessaria a D.
+Manuel era o conhecimento exacto da terra reconhecida,
+da gente que a habitava, dos seus
+costumes e indole, das riquezas que possuia e
+da facilidade que poderia offerecer &aacute; coloniza&ccedil;&atilde;o,
+n&atilde;o poupou minucias para p&ocirc;r o rei ao
+corrente do que vira e do que lhe poderia ser
+proveitoso.</p>
+
+<p>&Eacute; assim que elle descreveu com enthusiasmo
+e cores vivas o esplendor da natureza brazileira,
+a frescura, abundancia e potabilidade das
+nossas aguas, a brandura do clima, a belleza
+do nosso c&eacute;o, onde rutilava o cruzeiro, refe<span class='pagenum'><a name="Page_59" id="Page_59">[Pg 59]</a></span>rindo-se
+com interesse e insistencia &aacute; indole pacifica
+dos nossos indigenas, aos seus habitos e
+costumes, &aacute; belleza das suas formas, &aacute; sua completa
+innocencia, deprehendida da sua completa
+nudez, e &aacute; facilidade com que acceitavam a cathechese,
+parecendo-lhe empresa de pequeno esfor&ccedil;o
+fazel-os christ&atilde;os, chamando-os ao gremio
+da egreja. Tratando dos productos naturaes, descreveu
+a fauna e a flora que encontrou, accentuando
+que os incolas, haviam dado demonstra&ccedil;&otilde;es
+evidentes aos da frota de que em terra
+havia ouro, prata e papagaios.</p>
+
+<p>Descrevendo o que fizeram os indigenas, que
+acudiram &aacute; praia, quando das naus partiram
+as primeiras almadias para o transporte de agua,
+diz que &laquo;os indios logo trouxeram caba&ccedil;as e
+tomavam alguns barris que n&oacute;s levavamos, enchiam-os
+de agua e traziam-os aos bateis&raquo;.</p>
+
+<p>Este trecho da carta de Caminha prova que
+a frota cabralina come&ccedil;ou logo por fazer aguada
+e prova tambem que os indigenas vinham offerecer
+agua aos homens brancos, como se j&aacute;
+estivessem habituados a praticar esse servi&ccedil;o, repetindo
+actos praticados anteriormente; o que
+demonstra que n&atilde;o era a primeira vez que viam
+homens brancos e naus.</p>
+
+<p>A facilidade com que alguns dos naturaes
+se deixaram capturar e levar a bordo da nau
+capitanea, alli permanecendo e dormindo tranquilamente
+durante uma noite, como narra
+<span class='pagenum'><a name="Page_60" id="Page_60">[Pg 60]</a></span>Caminha, prova ainda que os nossos indigenas
+j&aacute; estavam familiarizados com os europeus, que
+j&aacute; os conheciam, que conheciam os seus habitos
+e costumes, que delles n&atilde;o tinham receio.</p>
+
+<p>E isso &eacute; ainda uma prova indirecta de que
+os portuguezes j&aacute; haviam estado no Brazil antes
+de Cabral aqui chegar. E, de facto, c&aacute; estiveram,
+porque j&aacute; aqui estava Jo&atilde;o Ramalho,
+que havia chegado 10 annos antes e que tanto
+facilitou a miss&atilde;o de Martim Affonso, quando
+este aportou &aacute; antiga capitania de S. Vicente.</p>
+
+<p>Ao primeiro monte que avistou deu Cabral
+o nome de Monte Paschoal, &aacute; terra o nome de
+Vera Cruz, porque no c&eacute;o rutilava o cruzeiro,
+e ao porto, onde definitivamente fundeou, o de
+Porto Seguro. Chegou o domingo de paschoela,
+e, narra Caminha, que o capit&atilde;o m&oacute;r deliberou
+ouvir missa e serm&atilde;o em um ilh&eacute;o de Porto
+Seguro. Logo alli se armou o altar e frei Henrique
+de Coimbra officiou, cercado de todos os
+padres da frota. Foi essa a primeira missa, de
+que temos noticia exacta e circumstanciada, dita
+no Brazil, que forneceu assumpto para um dos
+mais bellos e suggestivos quadros de Victor
+Meirelles. Terminada a missa, frei Henrique
+subiu a uma cadeira alta, que lhe serviu de
+pulpito e dahi pr&eacute;gou, fazendo a historia do
+Evangelho, descrevendo a travessia e pondo a
+terra reconhecida por Cabral sob a protec&ccedil;&atilde;o da
+Cruz. &Aacute; missa e ao serm&atilde;o assistiram os na<span class='pagenum'><a name="Page_61" id="Page_61">[Pg 61]</a></span>turaes
+que ao ilh&eacute;o acudiram e que ao depois,
+folgaram, fraternizando com os tripulantes da
+frota. Na nau capitanea discutiu-se depois se
+conviria tomar dois indigenas para envial-os ao
+reino, ou se seria preferivel deixar entre elles
+alguns degredados, sendo por grande maioria,
+adoptado de preferencia este ultimo alvitre, pois
+os degredados, ficando alli, apprenderiam a lingua
+dos naturaes e poderiam servir de interpretes,
+quando o rei mandasse nova frota ao Brazil
+para o colonizar; accresce que era do plano de
+Cabral, como foi mais tarde do de Martim Affonso,
+n&atilde;o hostilizar os indigenas, n&atilde;o lhes incutir
+desconfian&ccedil;a alguma, tratando-os com carinho
+e brandura, sem os violentar j&aacute;mais, para
+assim n&atilde;o sahir dos preceitos da caridade christ&atilde;
+e tel-os sempre como alliados. Para os ir habituando
+&aacute; vida com os brancos, que deviam
+ficar definitivamente com elles, foram logo enviados
+&aacute; praia e ahi deixados dois degredados,
+que deviam passar a noite com os naturaes;
+mas estes, sem os molestar, coagiram-nos a voltar
+&aacute;s naus. Quando os da frota ergueram
+num ponto elevado da costa, dominando o mar,
+a primeira cruz, que ficou em terra brazileira
+e que confirmou o nome de Vera Cruz, que Cabral
+lhe havia dado, os indigenas auxiliaram depois &aacute;
+abastecer as naus de lenha e de agua. E quando
+a maruja beijou a cruz erguida, os indios tambem
+a beijaram, pondo-se de joelhos, gestos que le<span class='pagenum'><a name="Page_62" id="Page_62">[Pg 62]</a></span>varam
+Caminha a affirmar &laquo;que era gente de
+tal innocencia que, se os intendessemos e elles
+a n&oacute;s, seriam logo christ&atilde;os, porque, segundo
+parece, n&atilde;o t&ecirc;m nenhuma cren&ccedil;a&raquo;. E accrescenta,
+logo depois, na sua luminosa carta ao rei: &laquo;se
+os degredados, que h&atilde;o de ficar, aprenderem
+bem a sua fala, n&atilde;o duvido, <i>segundo a santa
+ten&ccedil;&atilde;o de vossa alteza</i>, fazerem-se christ&atilde;os e crerem
+a nossa santa f&eacute; &aacute; qual praza Nosso Senhor
+que os traga, porque decerto esta gente
+&eacute; boa e imprimir-se-&aacute; ligeiramente nelles qualquer
+cunho que lhe quizerem dar... e, portanto
+v. alteza, pois tanto deseja accrescentar na santa
+f&eacute; catholica, deve entender na sua salva&ccedil;&atilde;o, e
+prazer&aacute; a Deus que com pouco trabalho ser&aacute;
+assim.&raquo;</p>
+
+<p>Prova este trecho de carta do escriv&atilde;o da
+frota que elle conhecia a ten&ccedil;&atilde;o do rei, que
+sabia que o seu intento era chamar os naturaes
+das terras, por onde passasse a frota, ao
+gremio da egreja e que, ao contrario do que
+fizeram Colombo, Pinzon, Hojeda, Lepe e outros,
+era do seu programma assegurar a posse da terra
+reconhecida, conquistando os naturaes pela brandura
+e carinho, incutindo-lhes a f&eacute; christ&atilde;.</p>
+
+<p>No dia primeiro de maio de 1500, vespera da
+partida de Cabral para o Cabo, nova missa foi
+dita por frei Henrique de Coimbra, n&atilde;o mais
+no ilh&eacute;u em que diss&eacute;ra a primeira, mas junto
+<span class='pagenum'><a name="Page_63" id="Page_63">[Pg 63]</a></span>&aacute; cruz erguida em terra e &aacute; qual foi pregado o
+escudo das armas de Portugal.</p>
+
+<p>Ainda a essa missa assistiram os indigenas,
+imitando todos os gestos que viram fazer aos
+portuguezes e, depois do serm&atilde;o, frei Henrique
+lan&ccedil;ou ao pesco&ccedil;o de todos os que alli estavam,
+pequenos crucifixos de metal, que elles
+beijaram com satisfa&ccedil;&atilde;o e receberam com visivel
+empenho.</p>
+
+<p>Em seguida, foram-se os mareantes para as
+naus, deixando em terra dois degredados e no
+dia immediato, 2 de maio, a frota fez-se de
+v&eacute;la para o Cabo da Boa Esperan&ccedil;a, tendo regressado
+ao reino uma das caravelas, capitaneada
+por Gaspar de Lemos, para levar ao rei a noticia
+do reconhecimento officialmente feito da terra do
+Brazil e da sua posse para a cor&ocirc;a portugueza.</p>
+
+<p>A essa terra, que era conhecida pelo nome
+de Terra dos Papagaios e que Cabral denominou
+Vera Cruz, poz d. Manoel, em 1502, o
+nome de Santa Cruz, que foi posteriormente
+substituido pelo de Brazil, devido ao grande
+commercio do pau brazil que ella produzia.</p>
+
+<p>Dando conta, em carta, ao rei da Hespanha
+do reconhecimento do Brazil feito por Cabral,
+disse d. Manoel: &laquo;o capit&atilde;o deixou alli dois
+degredados &aacute; merc&ecirc; de Deus.&raquo; Um dos pilotos
+da frota explicou depois que esses degredados
+puzeram-se a chorar e que logo os naturaes os
+animaram, mostrando ter piedade delles.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_64" id="Page_64">[Pg 64]</a></span>Vaz Caminha, na sua deliciosa carta, revela,
+que, al&eacute;m desses dois degredados, que foram
+abandonados em terra, dois grumetes da frota
+para ella fugiram e nella ficaram por sua livre
+vontade, o que significa que a gente que a
+habitava era pacifica e hospitaleira.</p>
+
+<p>Vem talvez dahi a heran&ccedil;a dessa proverbial
+hospitalidade brazileira, que tanto surprehende e
+encanta os estrangeiros que visitam o nosso paiz.</p>
+
+<p>Eis, senhores, como foi descoberto o Brazil e
+como Cabral, 65 annos depois do seu descobrimento,
+o reconheceu e delle officialmente tomou
+posse para a cor&ocirc;a de Portugal, &aacute; qual ali&aacute;s j&aacute;
+pertencia pelo tratado de Tordesillas.</p>
+
+<p>N&atilde;o coube, pois, a Cabral a grande gloria de
+descobrir o Brazil, mas coube-lhe a n&atilde;o pequena
+gloria de fazer o seu reconhecimento e delle tomar
+posse para o paiz que o descobrira, realizando o
+memoravel feito sem hostilizar os filhos dessas
+regi&otilde;es incultas, sem inflingir um ligeiro castigo,
+sem despertar nelles o odio que Colombo e os
+hespanhoes, que depois vieram &aacute; conquista da
+America, accenderam entre os indigenas, dizimando-os,
+submettendo-os a ferro e fogo, ca&ccedil;ando-os
+barbara e deshumanamente <i>com c&atilde;es amestrados
+na ca&ccedil;a do homem</i>, como quem ca&ccedil;a hyenas
+e lobos!</p>
+
+<p>Essa imperecivel gloria coube a Cabral e basta
+ella para que se justifique o preito de admira&ccedil;&atilde;o
+que lhe rendemos, sem olvidar os servi&ccedil;os inesti<span class='pagenum'><a name="Page_65" id="Page_65">[Pg 65]</a></span>maveis
+dos seus maiores na busca e descobrimento
+desta terra aben&ccedil;oada.</p>
+
+<p>Bastava a sua caridade christ&atilde; para com os
+filhos deste paiz para que lhe devessemos o monumento
+que no Rio de Janeiro se acha erguido
+em frente ao mar glauco e luminoso, perpetuando a
+sua memoria immaculada e a do seu feito incruento.</p>
+
+<p>Com o reconhecimento do Brazil em 1500,
+fechou Portugal com &eacute;lo de ouro o ciclo grandioso
+das suas descobertas no seculo XV com as
+quaes dilatou o mundo e fez avan&ccedil;ar a civiliza&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Nesse seculo de estupenda actividade maritima,
+em que os lusos mareantes, guiados e instigados
+pela voz prophetica do infante d. Henrique,
+avan&ccedil;aram sem pavor pelo mar immenso e tenebroso,
+que devia estar cheio de escolhos, de bruma
+negra e povoado de monstros assustadores, descobriram
+elles, caminhando para o desconhecido, a
+ilha da Madeira, as Formigas, todas as ilhas do
+archipelago dos A&ccedil;ores, todas as de Cabo Verde,
+o mar de Sarga&ccedil;os, uma grande parte do Brazil,
+uma parte da America Central e da America do
+Norte e, caminhando de ousadia em ousadia, dobraram
+o Cabo das Tormentas, descobriram e
+atravessaram o estreito de Magalh&atilde;es, fizeram a
+primeira viagem em redor do mundo, apoderaram-se
+de uma parte da Asia e de uma parte da
+Africa, enchendo o mappa com conquistas suas!...</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_66" id="Page_66">[Pg 66]</a></span>E tudo isto foi feito do decurso de menos
+de um seculo por um punhado de homens que
+partiram, affrontando a morte, de uma insignificante
+nesga de terra erguida &aacute; beira mar, no
+occidente da vasta Europa!...</p>
+
+<p>Olhae para o mappa que vos apresento e
+nelle vereis, em c&ocirc;r vermelha, tra&ccedil;ada a epop&eacute;a
+desses grandiosos feitos.</p>
+
+<p>Podeis dizer agora commigo, senhores, sem
+hesita&ccedil;&atilde;o e com ufania:&mdash;Gloria aos portuguezes,
+mestres de Colombo, precursores de Colombo,
+incontestaveis e unicos descobridores do
+Novo Mundo!<a name="FNanchor_5_5" id="FNanchor_5_5"></a><a href="#Footnote_5_5" class="fnanchor">[5]</a></p>
+
+<div class="footnote"><p><a name="Footnote_5_5" id="Footnote_5_5"></a><a href="#FNanchor_5_5"><span class="label">[5]</span></a> Vide <i>Nota B</i> no fim da conferencia.</p></div>
+
+<hr style='width: 45%;' />
+
+<p>Portuguezes que me ouvis, meus amigos e
+meus irm&atilde;os; a monarchia tradicional que, por
+tantos seculos, regeu os vossos destinos, come&ccedil;ou
+a dissolver-se na batalha de Alcacer Kibir,
+e, combalida, ruiu de todo com a qu&eacute;da e
+com a fuga do ultimo Bragan&ccedil;a, em 5 de outubro
+de 1910.</p>
+
+<p>Depois de tanta luz offuscante, que o seculo
+XV projectou da occidental praia lusitana,
+veio a sombra e veio o marasmo, que vos n&atilde;o
+deixou avan&ccedil;ar mais.</p>
+
+<p>Dir-se-ia que, desde 1500 at&eacute; ha pouco, vivestes
+acorrentados, manietados, sem poder dar
+<span class='pagenum'><a name="Page_67" id="Page_67">[Pg 67]</a></span>expans&atilde;o ao vosso genio irrequieto e aventuroso,
+sem poder tirar partido das conquistas
+feitas com tanto sacrificio e perigo.</p>
+
+<p>Raiou para v&oacute;s agora a aurora da liberdade
+com a proclama&ccedil;&atilde;o da Republica em vossa terra.</p>
+
+<p>Uma nova era, promissora e fecunda, apresenta-se,
+durante a qual podeis resgatar os erros
+de quatro seculos e achar as energias precisas
+para conquistar o antigo esplendor.</p>
+
+<p>Vejo-vos, com pesar, divididos nos campos
+maninhos da politica esteril, da politica dissolvente
+dos partidos. Que quereis obter com a
+lucta perturbadora neste momento em que a vossa
+patria mais precisa de paz, de dedica&ccedil;&otilde;es e de tino?
+A reconquista de um regimen que vos amesquinhou,
+que vos empobreceu, que vos fez descer
+do alto da columna onde j&aacute; estivestes erguidos,
+dominando o universe? A reconquista de um
+regimen que vos deu o jugo da Hespanha, por
+60 annos, a vergonha da fuga da vossa familia
+real e da sua c&ocirc;rte para o Brazil, e o
+abandono da vossa patria &aacute; invas&atilde;o estrangeira?
+a reconquista de um regimen que vos
+deu o vergonhoso &laquo;ultimatum&raquo; de 1890? Sois
+ainda hoje os depositarios de dois legados sagrados,
+que vos deixou o creador fecundo da
+Escola de Sagres e o grande &eacute;pico, que, em
+verso estridente, cantou as vossas glorias e descortinou
+ao mundo o vosso saber e as vossas
+gloriosas jornadas.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_68" id="Page_68">[Pg 68]</a></span>Que quereis fazer dessa heran&ccedil;a, levando-a
+&aacute; labareda das vossas disputas domesticas? Enfraquecer
+mais a patria, desprestigial-a, deixar
+que, considerada ingovernavel, v&aacute; parar &aacute;s m&atilde;os
+do estrangeiro, &aacute;vido e cobi&ccedil;oso, que j&aacute; pensa
+como repartir entre si o precioso legado do
+previdente infante? N&atilde;o, n&atilde;o! Deixae o velho
+regimen sepultado nas tr&eacute;vas do passado, cessae
+as vossas luctas fratricidas, e, unidos todos,
+em bl&oacute;co, trabalhae pela rehabilita&ccedil;&atilde;o do vosso
+formoso paiz, pela consolida&ccedil;&atilde;o das suas actuaes
+institui&ccedil;&otilde;es, sendo sempre portuguezes, mais portuguezes
+ainda no regimen da democracia e da liberdade,
+sendo sempre os briosos descendentes de
+d. Henrique, que mandou a descobrir esta formosa
+terra que, em vinte annos de Republica, tem
+avan&ccedil;ado sempre e tem sabido sempre impor-se
+ao respeito e &aacute; admira&ccedil;&atilde;o das potencias.</p>
+
+<p>Tenho dito.</p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" /><p><span class='pagenum'><a name="Page_69" id="Page_69">[Pg 69]</a></span></p>
+<h2><a name="Notas_e_Noticias" id="Notas_e_Noticias"></a>Notas e Noticias</h2>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_71" id="Page_71">[Pg 71]</a></span></p>
+<h2><a name="NOTAS" id="NOTAS"></a>NOTAS</h2>
+
+
+<h2>NOTA A</h2>
+
+<p>A revista hespanhola <i>Espa&ntilde;a Moderna</i>, de Junho de
+1910, consagrou um longo artigo, &aacute; nacionalidade de Colombo
+e chegou &aacute; conclus&atilde;o de que elle era hespanhol,
+natural de Pontevedra e, portanto, gallego. Entre os
+argumentos apresentados para firmar a sua asser&ccedil;&atilde;o, cita
+o facto da caravela <i>Santa Maria</i>, uma das trez da frota
+com que Colombo foi &aacute;s Antilhas, ser appellidada vulgarmente
+<i>La Gallega</i>.</p>
+
+<p>O historiador hespanhol D. Celso Garcia de la Riega,
+filho de Pontevedra, sustentou a affirma&ccedil;&atilde;o da <i>Espa&ntilde;a
+Moderna</i> em um longo artigo que, posteriormente, em
+Janeiro de 1911, publicou no <i>Heraldo</i>, de Madrid.</p>
+
+<p>A Hespanha reclama, pois, para si, a gloria de ter
+dado nascimento a Colombo, que ainda &eacute; l&aacute; conhecido
+por Colon.</p>
+
+<p>Todavia, Las Casas, amigo intimo de Colombo, affirma
+que este era genovez e Toscanelli, em uma das suas
+cartas ao proprio Colombo, considera-o portuguez!...</p>
+
+<p>Eis ahi porque dissemos que a nacionalidade de
+Colombo ainda hoje &eacute; discutida.</p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" /><p><span class='pagenum'><a name="Page_72" id="Page_72">[Pg 72]</a></span></p>
+<h2><a name="NOTA_B" id="NOTA_B"></a>NOTA B</h2>
+
+<p>N&atilde;o se tractou nesta conferencia de Americo Vespucio
+porque, a despeito de affirmarem que elle legou o seu
+nome &aacute; America, della ainda foi menos descobridor do
+que Colombo. Quem se lembrou de baptisar com o
+nome de America a terra, que Jo&atilde;o Vaz Corte Real e
+outros navegantes lusos descobriram, foi o cosmographo
+francez Mathias Ringmann que, na sua <i>Cosmographiae
+introductio in super quatuor Americi navigationes</i>, publicada
+em 1507, em Saint-Di&eacute;, na Alsacia franceza, escreveu:<a name="FNanchor_6_6" id="FNanchor_6_6"></a><a href="#Footnote_6_6" class="fnanchor">[6]</a></p>
+
+<div class="footnote"><p><a name="Footnote_6_6" id="Footnote_6_6"></a><a href="#FNanchor_6_6"><span class="label">[6]</span></a> A Cosmographia de Ringmann foi publicada em Saint-Di&eacute; a
+25 de Abril de 1507. Ringmann falleceu em Strasburgo em 1511. A
+Fran&ccedil;a, querendo perpetuar a leviandade de Ringmann, festejou este
+anno o quarto anniversario da sua morte, sob o pretexto de ter sido
+elle o baptizador do Novo Mundo! Eis ahi como se escreve e como
+se faz a Historia!...</p></div>
+
+<p>&laquo;No mundo existe mais uma quarta parte que Americo
+Vespucio descobriu e que, por essa raz&atilde;o, poderiamos
+chamar America, isto &eacute;, Terra de Americo.&raquo;</p>
+
+<p>O alvitre de Ringmann foi aceito e &aacute; nova terra descoberta
+deu-se o nome desse usurpador da gloria alheia,
+que nunca passou de um cosmographo, que veio &aacute;s terras<span class='pagenum'><a name="Page_73" id="Page_73">[Pg 73]</a></span>
+americanas com Hojeda, muito depois que os Corte
+Reaes, Lavrador, Dulmo, Affonso Sanches e outros navegantes
+lusos nellas estiveram e ainda mesmo depois de
+Colombo, que j&aacute; foi um retardatario.</p>
+
+<p>Accresce que ha quem affirme (&eacute; o erudito Snr. H.
+Vart) que o nome America, dado ao Novo Mundo, prov&ecirc;m,
+n&atilde;o do prenome de Vespucio, mas da denomina&ccedil;&atilde;o que
+os indios de Nicaragua davam &aacute;s &laquo;terras altas&raquo; dessa
+regi&atilde;o americana de onde extrahiam o ouro que empregavam
+nos seus utensilios e adornos, terras essas que
+elles chamavam America, express&atilde;o equivalente a Eldorado
+ou Terra do Ouro, que, primeiro, os companheiros
+de Colombo e, depois, todos os outros navegadores
+foram acceitando e que serviu para designar, n&atilde;o s&oacute; as
+terras altas de Nicaragua, mas todo o novo continente.</p>
+
+<p>A ser verdadeira a affirma&ccedil;&atilde;o de H. Vart, o nome
+America &eacute; de origem americana.</p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" /><p><span class='pagenum'><a name="Page_74" id="Page_74">[Pg 74]</a></span></p>
+<h2><a name="NOTA_C" id="NOTA_C"></a>NOTA C</h2>
+
+<p>A 6 de Maio de 1895, quando eu ainda desconhecia o
+livro do Snr. Faustino da Fonseca, que s&oacute; veio a lume
+muitos annos depois, publiquei no <i>O Paiz</i> da Capital
+Federal o seguinte artigo sobre a commemora&ccedil;&atilde;o official
+da data do pretenso descobrimento do Brazil, feito por
+Pedro Alvares Cabral, em 1500:</p>
+
+<p>&laquo;O dia 3 de Maio &eacute; officialmente commemorado como
+data anniversaria do descobrimento do Brazil. E todavia
+&eacute; um erro, &eacute; um anniversario falso, porque a verdadeira
+data anniversaria desse descobrimento &eacute; 22 de Abril,
+pois foi a 22 de Abril de 1500, que Pedro Alvares Cabral,
+em demanda das terras da India, avistou na frente da
+sua frota um morro elevado da terra brazileira para o
+qual mandou aproar fundeando a seis leguas de distancia.</p>
+
+<p>Celebrava ent&atilde;o a igreja catholica as festas da Paschoa
+e d'ahi a raz&atilde;o porque Cabral deu a esse morro o nome
+do Monte Paschoal.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_75" id="Page_75">[Pg 75]</a></span>Os historiadores dos seculos XVII e XVIII e notadamente
+a obra de Fr. Gaspar da Madre de Deus &eacute; que,
+no dizer de Pereira da Silva, induziram os estadistas
+fundadores do imperio brazileiro ao erro de estabelecerem
+a data de 3 de Maio como a do descobrimento.
+Todavia a carta de Pero Vaz Caminha, publicada pela
+Academia Real de Sciencias de Lisboa e escripta a el-rei
+D. Manoel em 1.º de maio de 1500, annunciando-lhe a
+descoberta e os documentos deixados pelo physico-m&oacute;r
+da armada de Cabral e por um piloto que fazia parte
+da frota, n&atilde;o deixam duvida sobre o dia exacto em que
+o almirante viu e mandou aproar para a terra brazileira.</p>
+
+<p>Basta a circumstancia de ser a carta de Pero Vaz
+Caminha, que ia n'uma das treze n&aacute;os da frota de Cabral
+como futuro escriv&atilde;o do almoxarifado que o almirante
+devia fundar nas Indias, datada de 1.º de maio, para
+tornar patente a impossibilidade do descobrimento a 3
+desse mez. Nessa carta, onde Vaz Caminha d&aacute; conta
+do descobrimento, l&ecirc;-se que elle foi effectuado a 22 de abril.
+Nesse dia, que era uma quarta-feira, Cabral limitou-se a
+approximar-se de terra, fundeando &aacute;s 4 horas da tarde,
+em ponto em que havia 19 bra&ccedil;as de profundidade. S&oacute;
+no dia seguinte, 23 de abril, aproximou-se mais de terra
+com as precisas cautelas e, ao chegar &aacute; desembocadura
+de um rio, mandou que Nicol&aacute;o Coelho fosse em uma
+almadia explorar as plagas que se avistavam da frota.
+Partiu Coelho e vendo homens n&uacute;s na praia, sem comtudo
+desembarcar, atirou-lhes alguns objectos que levara
+comsigo e delles recebeu outros em troca, entabolando
+assim rela&ccedil;&otilde;es amistosas com os naturaes da terra.</p>
+
+<p>Voltou a bordo e deu conta do succedido ao almirante.
+Nessa noite, por&eacute;m, levantou-se forte vento do
+sueste e Cabral, n&atilde;o se considerando seguro no ponto
+em que estava, tratou de procurar um ancoradouro para
+abrigo dos navios e, continuando a navega&ccedil;&atilde;o em rumo
+de norte, mas sempre &aacute; vista da costa, foi fundear de
+<span class='pagenum'><a name="Page_76" id="Page_76">[Pg 76]</a></span>novo, dez leguas adiante, em uma bella enseada &aacute; qual
+deu o nome de Porto Seguro. Isto passava-se n'uma
+sexta-feira, 24 de abril de 1500. Essa enseada, mais tarde,
+passou a denominar-se bahia Cabralia, sendo transferido
+o seu primitivo nome de Porto Seguro para a povoa&ccedil;&atilde;o
+que se fundou nas suas proximidades.</p>
+
+<p>Na enseada de Porto Seguro appareceu logo uma
+piroga com indigenas e, aos poucos, a costa foi-se enchendo
+de gentios, manifestando inten&ccedil;&otilde;es pacificas. S&oacute;
+no dia 25 o almirante dirigiu-se a terra. No dia 26,
+que era domingo de Paschoela, foi erguido um altar em
+terra e ahi celebrada a primeira missa no Brazil, acontecimento
+este que Victor Meirelles celebrisou e commemorou
+n'um magnifico quadro, o melhor e o mais commovente
+que o seu pincel produziu.</p>
+
+<p>A essa missa assistiu o gentio que dansou e cantou
+ap&oacute;s a cerimonia, fraternisando com os portuguezes.</p>
+
+<p>S&oacute; no dia 1.º de maio &eacute; que o almirante resolveu
+dar conta a D. Manoel do seu feito e nesse dia,
+depois de mandar dizer segunda missa, tomou posse
+official da terra e despachou para Lisboa a nao que
+devia levar ao rei a noticia da nova terra descoberta, a
+que elle deu o nome de Vera Cruz, mais tarde substituido
+por Santa Cruz e ainda depois por Brazil.</p>
+
+<p>Foi nessa nao, commandada por Gaspar Lemos, que
+seguiu para o reino a carta de Pero Vaz Caminha
+escripta nesse mesmo dia 1.º de maio de 1500.</p>
+
+<p>Tal &eacute;, em resumo, a narra&ccedil;&atilde;o contida nos tres documentos
+da &eacute;poca, aos quaes allude com interesse e perfeito
+conhecimento do assumpto o conselheiro Pereira
+da Silva na segunda serie dos interessantes escriptos
+que denominou <i>A Historia e a Legenda</i>.</p>
+
+<p>Ora, se isto &eacute; assim, se hoje n&atilde;o pode restar mais
+duvida a ninguem, em presen&ccedil;a desses documentos do
+seculo XVI, que determinam com perfeita exactid&atilde;o a
+data da chegada de Cabral ao Brazil, por que havemos de
+<span class='pagenum'><a name="Page_77" id="Page_77">[Pg 77]</a></span>conservar officialmente um anniversario falso, que, se
+ao tempo em que foi decretado pelos estadistas fundadores
+do imperio, se justificava pela ignorancia em que
+viviam desses documentos, n&atilde;o se justifica nem se explica
+mais hoje, que est&atilde;o publicados e ao alcance de
+toda a gente?</p>
+
+<p>&Eacute; que os estadistas da Republica, que conservaram
+o erro, fundam-se na correc&ccedil;&atilde;o que soffreu o calendario
+Juliano mandado executar pelo papa Gregorio XIII, que,
+em 1582, mandou supprimir 10 dias a esse anno, ordenando
+que o dia 5 de outubro fosse designado pelo
+numero 15, o immediato 16 e assim por diante, encurtando
+esse anno de dez dias para compensar a differen&ccedil;a
+para mais desse mesmo espa&ccedil;o de tempo, que o calendario
+Juliano j&aacute; accusava no fim do seculo XVI.</p>
+
+<p>E assim, em virtude dessa corrigenda, o dia 22 de
+abril de 1500 passou a ser, em qualquer dos annos
+posteriores a 1582, correspondente ao dia 3 de maio.</p>
+
+<p>Mas tal raz&atilde;o ser&aacute; sufficiente para manter na tradi&ccedil;&atilde;o
+popular uma cren&ccedil;a falsa? Pensamos que n&atilde;o. Officialmente,
+o dia consagrado como data anniversaria do descobrimento
+do Brazil &eacute; o dia 3 de maio. E assim o
+povo, que n&atilde;o sabe das correc&ccedil;&otilde;es que soffreu o calendario
+Juliano, nem dos motivos que as determinaram,
+fica persuadido que effectivamente foi no dia 3 de maio
+de 1500 que se realizou o descobrimento, quando os
+documentos do seculo XVI, que as historias populares
+do Brazil j&aacute; registram, n&atilde;o consignam tal data, mas
+sim a de 22 de abril.</p>
+
+<p>Sou de parecer que, se ao tempo da descoberta
+ainda n&atilde;o existia no calendario Juliano a correc&ccedil;&atilde;o
+ordenada por Gregorio XIII, que s&oacute; se realizou 82 annos
+depois, se para Pedro Alvares Cabral o dia desse feliz
+successo foi o de 22 de abril, essa &eacute; a data que deve ser
+officialmente consagrada para assim manter-se na tradi&ccedil;&atilde;o
+popular.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_78" id="Page_78">[Pg 78]</a></span>De 1500 a 1582 acontecimentos houve que ficaram
+registrados na historia da nossa terra e, todavia, ninguem
+se lembrou de applicar aos seus respectivos anniversarios
+a correc&ccedil;&atilde;o ordenada por Gregorio XIII, limitando-se
+a corrigenda t&atilde;o s&oacute;mente ao successo, isto &eacute;, &aacute; data
+da chegada de Cabral ao Brazil.</p>
+
+<p>Ora, uma de duas, ou os estadistas da Republica t&ecirc;m
+de mandar fazer uma revis&atilde;o completa de todas as datas
+mais ou menos celebres da historia, e principalmente
+da nossa, no periodo comprehendido entre 1500 e 1582,
+ou, para serem coherentes, t&ecirc;m de mantel-as taes como
+ainda hoje a tradi&ccedil;&atilde;o as conserva; mas, nesse caso, preciso
+se torna que a consagra&ccedil;&atilde;o do feito de Cabral seja
+feita n&atilde;o mais a 3 de maio, mas sim a 22 de abril.</p>
+
+<p>Tal &eacute; o meu modo de ver, salvo melhor juizo.&raquo;</p>
+
+<p>
+<span class="smcap">Garcia Redondo</span><br />
+</p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" /><p><span class='pagenum'><a name="Page_79" id="Page_79">[Pg 79]</a></span></p>
+<h2><a name="NOTICIAS" id="NOTICIAS"></a>NOTICIAS</h2>
+
+
+<h2>Conferencias portuguezas</h2>
+
+<p>N&atilde;o podia ser mais auspiciosa a inaugura&ccedil;&atilde;o
+da primeira s&eacute;rie das conferencias portuguezas,
+promovidas pelo Centro Republicano
+Portuguez desta capital.</p>
+
+<p>A despeito da noite fria e chuvosa, o amplo
+sal&atilde;o do Instituto Historico e Geographico
+encheu-se completamente, de uma assistencia
+distincta e brilhante, quer pela quantidade, quer
+pela qualidade.</p>
+
+<p>Al&eacute;m de muitas senhoras e senhoritas, compareceram
+tambem &aacute; primeira conferencia do Centro
+Republicano Portuguez os srs. Jacques Dupas, consul
+da Fran&ccedil;a, Daniel Monteiro de Abreu,
+consul do Paraguay e encarregado de negocios
+de Portugal, o representante do sr. general
+Ferreira de Abreu, inspector da decima regi&atilde;o
+militar, o dr. Paula Souza, director da Escola
+Polytechnica, commendador Mondim Pestana,
+official de gabinete do sr. dr. secretario do
+interior, dr. Bettencourt Rodrigues, dr. Rodolpho
+de Santiago, dr. Ricardo Severo, dr. Eugenio
+Egas, e muitas outras pessoas gradas.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_80" id="Page_80">[Pg 80]</a></span>O sr. Antonio Luiz Gomes, Ministro de Portugal,
+chegou ao Instituto Historico &aacute;s 8 e meia
+da noite, em companhia do dr. Bartholomeu
+Ferreira, secretario da Lega&ccedil;&atilde;o Portugueza, sendo
+recebido &aacute; porta pela directoria do Centro.</p>
+
+<p>Em seguida, s. exa. foi introduzido no sal&atilde;o
+pelos srs. drs. Bettencourt Rodrigues e Ricardo
+Severo, tomando assento na mesa, ao lado da
+directoria do Centro, e tendo &aacute; sua esquerda
+o dr. Bettencourt Rodrigues.</p>
+
+<p>Abrindo a sess&atilde;o, o sr. Joaquim Dias da Cunha
+Barbosa, presidente do Centro R. Portuguez, explicou
+o fim das conferencias portuguezas, dizendo
+que, antes de apresentar &aacute; assistencia o conferencista
+sr. dr. Garcia Redondo, cumpria lhe o
+dever de agradecer &aacute; directoria do Instituto Historico,
+que promptamente poz &aacute; disposi&ccedil;&atilde;o do
+Centro o seu sal&atilde;o, afim de ahi serem realisadas
+as conferencias. Agradece tambem a honrosa
+visita do sr. ministro portuguez, que, com sua
+presen&ccedil;a, veio dar maior solennidade &aacute; primeira
+conferencia.</p>
+
+<p>Alludindo &aacute; pessoa do conferencista, o sr. presidente
+diz que o dr. Garcia Redondo &eacute; por demais
+conhecido do auditorio que, sobejamente, conhece
+a sua bagagem literaria, pelo que se dispensa de
+apresental-o.</p>
+
+<p>Em seguida, &eacute; dada a palavra ao sr. dr. Garcia
+Redondo para proceder &aacute; leitura de sua conferencia
+sobre &laquo;O descobrimento do Brasil&mdash;Prioridade
+dos portuguezes no descobrimento da
+America.&raquo;</p>
+
+<p>Por ser muito longo o trabalho do dr. Garcia
+Redondo, e n&atilde;o dispomos, hoje, do necessario
+espa&ccedil;o, s&oacute; amanhan poderemos dar na integra a
+sua conferencia.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_81" id="Page_81">[Pg 81]</a></span>As ultimas palavras do conferencista foram
+abafadas com uma grande salva de palmas, sendo
+s. s. abra&ccedil;ado e cumprimentado pela directoria
+do Centro e pelo sr. ministro de Portugal.</p>
+
+<p>Antes de ser encerrada a sess&atilde;o, o sr. ministro
+de Portugal solicita a palavra pronunciando
+um discurso do qual damos o resumo que se
+segue:</p>
+
+<p>O sr. Antonio Luiz Gomes come&ccedil;a dizendo
+que n&atilde;o vinha com a inten&ccedil;&atilde;o de tomar a palavra
+nesta assembl&eacute;a. Vinha apenas, na qualidade
+de representante do seu paiz, trazer as
+sauda&ccedil;&otilde;es mais affectuosas ao Gremio Republicano
+Portuguez de S. Paulo e aos iniciadores
+destas magnificas conferencias.</p>
+
+<p>&laquo;Quando vi o assumpto de que se ia tratar, diz o
+orador, despertou-se logo no meu espirito e na minha
+alma a certeza absoluta de que estas conferencias
+deviam ter uma influencia muitissimo grande
+na pacifica&ccedil;&atilde;o dos espiritos dos portuguezes, um
+pouco revoltados, e que ellas teriam, como conclus&atilde;o
+final, approximar ainda mais a familia
+portugueza da familia brazileira.</p>
+
+<p>E, sen&atilde;o bastara isso, eu tambem n&atilde;o podia conservar-me
+calado depois de ouvir a palavra brilhantissima
+do sr. dr. Garcia Redondo. Seria uma
+crueldade, uma injusti&ccedil;a que eu, em publico, deixasse
+de attestar, n&atilde;o s&oacute; o meu reconhecimento,
+mas, o que &eacute; mais, o reconhecimento do meu
+paiz, por este formosissimo e esplendido trabalho.
+(Muito bem).</p>
+
+<p>Se por ventura o nome do dr. Garcia Redondo
+n&atilde;o fosse sufficientemente conhecido, n&atilde;o s&oacute; nas
+boas letras, como na sciencia, bastava esta conferencia
+para justificar o elevadissimo conceito
+<span class='pagenum'><a name="Page_82" id="Page_82">[Pg 82]</a></span>em que o seu nome &eacute; tido entre portuguezes e
+brazileiros.</p>
+
+<p>Trabalho magnifico, soberbo, onde se alliam,
+indiscutivelmente, altos pensamentos com uma
+forma burilada e perfeita, e que vem coroar a
+sua j&aacute; larga obra na sciencia e nas letras.</p>
+
+<p>E depois de prestar um enorme servi&ccedil;o, de
+vir levantar a minha patria &aacute; altura a que indiscutivelmente
+ella tem direito, porque Portugal,
+embora pequeno como disse s. exa., aquella mancha
+pequena, que se encontra no ponto occidental
+da Europa, prestou servi&ccedil;os &aacute; humanidade, e
+&aacute; civilisa&ccedil;&atilde;o humana, que, positivamente, n&atilde;o
+foram excedidos por povo algum do mundo.
+(Muito bem.)</p>
+
+<p>A civilisa&ccedil;&atilde;o do mundo, meus senhores, firma-se
+em tres peninsulas, nos tres pontos que
+observaes naquelle mappa.</p>
+
+<p>Se na Grecia nasce a civilisa&ccedil;&atilde;o, nascem as
+artes, a philosophia, a sciencia; se naquella peninsula
+italica nasce o direito, porque o direito
+romano, pode-se dizer, &eacute; a propria raz&atilde;o humana
+feita lei; foi naquella pequenina peninsula iberica,
+naquelle extremo do occidente, que, numa &eacute;poca
+em que os grandes povos de hoje viviam uma
+vida inteiramente apagada, numa &eacute;poca em que
+a valorosa Inglaterra ainda n&atilde;o tinha historia;
+em que a Allemanha apenas se preparava para
+esse movimento augusto e sublime que proclamava
+perante o mundo inteiro a liberdade de
+consciencia; em que a Fran&ccedil;a fazia os ultimos
+retoques na sua lingua e se preparava para escrever
+paginas brilhantissimas sobre a historia da
+humanidade, &eacute; certo, entretanto, que nenhuma
+dellas, por assim dizer, tinha ainda firmada a
+sua civilisa&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_83" id="Page_83">[Pg 83]</a></span>Por esse tempo, naquelle &laquo;pontinho&raquo; se
+levantava um povo pequenino de lavradores e
+de guerreiros, que deixava a patria, para levar o
+pend&atilde;o das Quinas aos extremos mais remotos,
+aos confins do mundo.</p>
+
+<p>Essa historia &eacute; assombrosa: &eacute; inacreditavel.</p>
+
+<p>Custa a acreditar que esse povo, como disse
+um dos grandes philosophos contemporaneos,
+Max Nordau, fosse o precursor em todos os
+grandes acontecimentos.</p>
+
+<p>Elle tinha dispersado os arabes sem que a
+Hespanha o conseguisse em duzentos annos.</p>
+
+<p>&Eacute; que durante esse tempo a essa grande
+ra&ccedil;a nada faltava: tinha for&ccedil;a, tinha talento,
+tinha sciencia.</p>
+
+<p>Foi precisamente esse povo pequenino que
+deixou sementes por toda a parte da grandesa
+do genio de sua ra&ccedil;a.</p>
+
+<p>Por isso, meus senhores, espero que a invoca&ccedil;&atilde;o
+do dr. Garcia Redondo produza bem
+rapidamente seus frutos.</p>
+
+<p>Estas lutas n&atilde;o podem continuar, e n&atilde;o podem
+continuar, sobretudo, no campo em que
+infelizmente foram postas.</p>
+
+<p>Eu, quando vim representar a Republica
+Portugueza, n&atilde;o vim com o desejo de que
+todos os portuguezes se fizessem republicanos:
+n&atilde;o precisamos de tanto. A unica coisa que
+desejamos, que eu desejo, como patriota, &eacute; que
+todos sejamos bons portuguezes. (Muito bem,
+muito bem.)</p>
+
+<p>Eu louvo at&eacute;, com a franqueza que me caracteriza,
+que hajam convic&ccedil;&otilde;es monarchicas no meio
+de portuguezes. O que &eacute; necessario &eacute; que os re<span class='pagenum'><a name="Page_84" id="Page_84">[Pg 84]</a></span>publicanos
+respeitem os monarchistas e que os
+monarchistas respeitem os republicanos (Muito
+bem).</p>
+
+<p>O que n&oacute;s pedimos &eacute; muito pouco: &eacute; que nunca
+confundam as glorias da patria, da terra onde
+nasceram com as pequeninas paix&otilde;es que possam
+viver no nosso espirito. (Muito bem, muito bem).</p>
+
+<p>E, posta a luta nestes termos, como &eacute; facil todos
+nos entendermos! Basta que cada um de n&oacute;s se
+esforce para ser o melhor portuguez que possa
+ser; trabalhe pelo engrandecimento do seu paiz;
+honre o nome portuguez por toda a parte; defenda
+as suas convic&ccedil;&otilde;es politicas, mas honradamente,
+honestamente.&raquo; (Muito bem. Palmas).</p>
+
+<p>Depois de varias considera&ccedil;&otilde;es termina o sr.
+Antonio Luiz Gomes.</p>
+
+<p>&laquo;Para realisar a nossa obra n&atilde;o queremos que
+todos sejam republicanos; o que queremos apenas
+&eacute; que ninguem se esque&ccedil;a que a patria est&aacute; acima
+das paix&otilde;es de cada um. (Muito bem).</p>
+
+<p>E eu estou convencido de que esse tempo
+vae chegar rapidamente.</p>
+
+<p>A Republica vae, dentro de pouco tempo, ter
+a sua constituinte, a sua constitui&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Nas ultimas elei&ccedil;&otilde;es, que foram feitas em condi&ccedil;&otilde;es
+excepcionaes, depois de uma revolu&ccedil;&atilde;o,
+depois de boatos aterradores, a Republica j&aacute; teve
+a sua consagra&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Nunca as urnas portuguezas foram t&atilde;o concorridas
+como neste momento: 80 por cento do
+corpo eleitoral de Lisboa foi votar.</p>
+
+<p>O Porto, considerado como reaccionario, n&atilde;o
+para n&oacute;s republicanos, porque foi precisamente l&aacute;
+que tiveram inicio todos os grandes movimentos
+de Portugal, no proprio Porto, a vota&ccedil;&atilde;o foi maior
+do que em qualquer outro ponto.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_85" id="Page_85">[Pg 85]</a></span>Portanto, todos v&ecirc;m a situa&ccedil;&atilde;o definida e clara
+em que se encontra hoje Portugal.</p>
+
+<p>Vindo a S. Paulo, eu dirijo as minhas sauda&ccedil;&otilde;es
+mais affectuosas n&atilde;o s&oacute; ao povo de S.
+Paulo, mas tambem &aacute; auctoridades do Estado,
+que nos deram a alta honra de se fazer representar
+nesta conferencia, e remato por agradecer
+a todas as senhoras, a todos os cidad&atilde;os que
+aqui vieram e, finalmente de novo, dirijo os
+meus agradecimentos mais sinceros e profundos
+ao dr. Garcia Redondo, n&atilde;o s&oacute; em meu nome,
+como no de Portugal, que tenho a honra de
+representar.&raquo;</p>
+
+<p>As ultimas palavras do dr. Antonio Luiz Gomes
+foram abafadas com uma estrepitosa e prolongada
+salva de palmas da grande assistencia.</p>
+
+<p>(<i>Noticia do</i> <span class="smcap">Estado de S. Paulo</span> <i>de 4 de Junho de 1911</i>).</p>
+
+
+<h2>Conferencias portuguezas</h2>
+
+<p>Em carro reservado ligado ao nocturno de
+luxo, chegou hontem a esta capital, conforme
+era esperado, o dr. Antonio Luiz Gomes, ministro
+de Portugal junto ao nosso governo, acompanhado
+de seu secretario, sr. dr. Bartholomeu Ferreira.</p>
+
+<p>&Aacute; noite s. exc. assistiu &aacute; conferencia que o
+sr. dr. Garcia Redondo, com grande successo e
+brilhantismo, realizou no sal&atilde;o nobre do Instituto
+Historico e Geographico, tendo por thema: &laquo;O
+descobrimento do Brazil e a prioridade dos portuguezes
+no descobrimento da America&raquo;.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_86" id="Page_86">[Pg 86]</a></span>Publicaremos amanh&atilde;, na integra, esse importante
+trabalho do distincto membro da Academia
+Brazileira de Letras, que foi, pelo successo que
+alcan&ccedil;ou, vivamente applaudido e felicitado.</p>
+
+<p>Depois da conferencia do dr. Garcia Redondo,
+o dr. Antonio Luiz Gomes, usou da palavra, produzindo
+bellissima allocu&ccedil;&atilde;o, durante a qual era
+constantemente interrompido por estrepitosa salva
+de palmas.</p>
+
+<p>(<i>Noticia do</i> <span class="smcap">S&atilde;o Paulo</span> <i>de 4 de Junho de 1911</i>).</p>
+
+
+<h2>Conferencias portuguezas</h2>
+
+<p>No sal&atilde;o nobre do Instituto Historico e Geographico
+de S. Paulo, realizou-se hontem &aacute; noite,
+conforme se annunci&aacute;ra, a primeira conferencia
+da s&eacute;rie promovida pelo Centro Republicano Portuguez,
+desta capital.</p>
+
+<p>Coube o inicio das conferencias ao dr. Garcia
+Redondo, que tomou por thema de sua ora&ccedil;&atilde;o&mdash;&laquo;O
+descobrimento do Brazil&raquo; &laquo;Prioridade dos
+portuguezes, no descobrimento da America&raquo;.</p>
+
+<p>Precisamente &aacute;s 8 horas e meia, constituida a
+mesa da presidencia pelo sr. Joaquim Dias da
+Cunha Barbosa, tendo a seu lado o ministro plenipotenciario
+de Portugal no Rio de Janeiro, sr.
+Dr. Antonio Luiz Gomes, que para tal fim veio a
+esta capital; dr. Bitencourt Rodrigues, e membros
+da directoria do Centro Republicano Portuguez,
+era o conferencista introduzido no sal&atilde;o, que j&aacute;
+regorgitava de numerosos cavalheiros e gentilissimas
+senhoras e senhoritas.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_87" id="Page_87">[Pg 87]</a></span>Pudemos mesmo notar entre os assistentes, os
+seguintes:</p>
+
+<p>Commendador Tiburtino Mondim Pestana, segundo-tenente
+Carlos Rocha, representando o general
+Ferreira de Abreu, inspector da 10.ª regi&atilde;o
+militar, com s&eacute;de nesta capital; major Arthur da
+Gra&ccedil;a Martins, secretario do commando geral, da
+For&ccedil;a Publica; Jacques Dupas, consul da Fran&ccedil;a,
+e sua familia; commendador Daniel Monteiro de
+Abreu, consul do Paraguay e encarregado do
+consulado de Portugal; dr. Eugenio Egas, Arthur
+Vautier, Nestor Rangel Pestana, Gelasio Pimenta,
+Jos&eacute; Vicente Sobrinho, dr. Antonio Francisco de
+Paula Sousa, director da Escola Polytechnica;
+dr. Rodolpho S. Thiago, lente da mesma escola;
+dr. Ricardo Severo, dr. Leopoldo de Freitas, consul
+de Guatemala, dr. Alfredo Redondo, dr. Manoel
+Redondo, Jayme Redondo e sua familia.</p>
+
+<p>Abriu a sess&atilde;o o sr. Cunha Barbosa.</p>
+
+<p>Referiu-se s. s. com palavras elogiosas ao
+dr. Bettencourt Rodrigues, de quem partira a id&eacute;a
+das conferencias, cujo grande valor salientou,
+pois ellas viriam cada vez mais estreitar os vinculos
+que unem os dois povos portuguez e
+brazileiro.</p>
+
+<p>Saudava a patria portugueza, alli directamente
+representada na pessoa do seu ministro plenipotenciario,
+cuja presen&ccedil;a, agradecia.</p>
+
+<p>&Aacute; directoria do Instituto Historico e Geographico
+agradecia tambem, penhorada, a gentileza
+de haver cedido o sal&atilde;o da sua s&eacute;de, para a
+realiza&ccedil;&atilde;o da conferencia.</p>
+
+<p>Isto dito, e como n&atilde;o desejava prender por
+mais tempo a atten&ccedil;&atilde;o do auditorio, naturalmente
+ancioso, dava a palavra ao dr. Garcia Redondo,
+<span class='pagenum'><a name="Page_88" id="Page_88">[Pg 88]</a></span>cuja apresenta&ccedil;&atilde;o julgava desnecessario fazer,
+pois tinha absoluta certeza de que nem uma
+s&oacute; pessoa alli presente, desconhecia, quer atrav&eacute;s
+da imprensa ou da literatura, os altos meritos
+do conferencista.</p>
+
+<p>Uma prolongada salva de palmas ec&ocirc;a pela sala.</p>
+
+<p>Levanta-se ent&atilde;o o dr. Garcia Redondo que
+come&ccedil;a agradecendo aos circumstantes a sua
+temeridade em affrontar os rigores daquella
+noite humida e fria, n&atilde;o para ouvir a sua modesta
+palavra, pois n&atilde;o tinha sobre isso illus&atilde;o
+alguma, mas para corresponder ao appello que
+lhes dirigiram os promotores daquella conferencia.</p>
+
+<p>Sobretudo, era-lhe grato constatar alli a presen&ccedil;a
+das representantes do sexo gentil, que &aacute;
+festa emprestavam a nota brilhante.</p>
+
+<p>Diz que o thema da sua conferencia havia
+sido para elle objecto de longos e profundos
+estudos. Poderia por isso dissertar sobre elle sem
+ter necessidade de ler, nem mesmo simples
+annota&ccedil;&otilde;es.</p>
+
+<p>Mas, importando o que tinha de dizer responsabilidades
+que queria assumir e receiando que a
+memoria o trahisse, considerava mais prudente
+ler a sua conferencia.</p>
+
+<p>Em seguida, offerece alguns esclarecimentos
+sobre um grande mappa que est&aacute; ao seu lado,
+e que elle organizou para illustrar a conferencia,
+e entra finalmente no assumpto.</p>
+
+<p>&Aacute;s ultimas palavras da brilhante ora&ccedil;&atilde;o do
+dr. Garcia Redondo, uma calorosa e prolongada
+salva de palmas se fez ouvir no sal&atilde;o.</p>
+
+<p>S. s. foi distinguido com a offerta de um lindo
+&laquo;bouquet&raquo; de fl&ocirc;res naturaes.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_89" id="Page_89">[Pg 89]</a></span>Levantou-se ent&atilde;o o ministro plenipotenciario
+da Republica de Portugal, sr. Antonio Luiz Gomes.</p>
+
+<p>Rec&aacute;e sobre a sala um profundo silencio.</p>
+
+<p>O illustrado diplomata come&ccedil;a affirmando
+que n&atilde;o comparecera &aacute;quella reuni&atilde;o com o
+intuito de falar.</p>
+
+<p>Mas, cumpria-lhe o dever de agradecer em
+nome de Portugal, que tinha a honra de representar,
+o bello trabalho do dr. Garcia Redondo.</p>
+
+<p>Tratando da moderna phase da sua patria,
+fala sobre o Portugal antigo, cujos feitos enchem
+as paginas da historia universal.</p>
+
+<p>Refere-se &aacute; Monarchia, dizendo que ella teve
+tempo mais que sufficiente para demonstrar a
+capacidade dos seus homens.</p>
+
+<p>Por occasi&atilde;o do assassinato de d. Carlos, levaram
+os republicanos a sua generosidade ao ponto
+de prestigiar&mdash;sem o sacrificio, por&eacute;m, das
+suas convic&ccedil;&otilde;es politicas&mdash;as institui&ccedil;&otilde;es ent&atilde;o
+vigentes, desde que isso concorresse para o bem
+do paiz.</p>
+
+<p>Entretanto a Monarchia mostrou-se impotente;
+nada fez porque nada poude fazer para
+manter o prestigio de Portugal.</p>
+
+<p>As crises ministeriaes succediam-se de um
+modo assustador e a situa&ccedil;&atilde;o chegou a tal
+ponto que s&oacute; a Republica poderia salvar as
+gloriosas tradi&ccedil;&otilde;es do paiz.</p>
+
+<p>E a Republica veio, n&atilde;o a Republica do
+terror, das persegui&ccedil;&otilde;es, como apraz aos boateiros
+vulgares, mas a Republica que tem por
+lemma o levantamento moral do tradicional paiz
+das quinas.</p>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's O Descobrimento do Brazil, by Garcia Redondo
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL ***
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+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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