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diff --git a/24344-h/24344-h.htm b/24344-h/24344-h.htm new file mode 100644 index 0000000..9e87de3 --- /dev/null +++ b/24344-h/24344-h.htm @@ -0,0 +1,3279 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" + "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> + +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> + <head> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html;charset=iso-8859-1" /> + <title> + The Project Gutenberg eBook of O Descobrimento do Brazil, by Garcia Redondo. + </title> + <style type="text/css"> +/*<![CDATA[ XML blockout */ +<!-- + p { margin-top: .75em; + text-align: justify; + margin-bottom: .75em; + } + h1,h2,h3,h4,h5,h6 { + text-align: center; /* all headings centered */ + clear: both; + } + hr { width: 33%; + margin-top: 2em; + margin-bottom: 2em; + margin-left: auto; + margin-right: auto; + clear: both; + } + + table {margin-left: auto; margin-right: auto;} + + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + + .pagenum { /* uncomment the next line for invisible page numbers */ + /* visibility: hidden; */ + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + } /* page numbers */ + + .linenum {position: absolute; top: auto; left: 4%;} /* poetry number */ + .blockquot{margin-left: 5%; margin-right: 10%;} + .sidenote {width: 20%; padding-bottom: .5em; padding-top: .5em; + padding-left: .5em; padding-right: .5em; margin-left: 1em; + float: right; clear: right; margin-top: 1em; + font-size: smaller; color: black; background: #eeeeee; border: dashed 1px;} + + .bb {border-bottom: solid 2px;} + .bl {border-left: solid 2px;} + .bt {border-top: solid 2px;} + .br {border-right: solid 2px;} + .bbox {border: solid 2px; padding-left: .5em; padding-right: .5em;} + + .center {text-align: center;} + .smcap {font-variant: small-caps;} + .u {text-decoration: underline;} + + .caption {font-weight: bold;} + + .figcenter {margin: auto; text-align: center;} + + .figleft {float: left; clear: left; margin-left: 0; margin-bottom: 1em; margin-top: + 1em; margin-right: 1em; padding: 0; text-align: center;} + + .figright {float: right; clear: right; margin-left: 1em; margin-bottom: 1em; + margin-top: 1em; margin-right: 0; padding: 0; text-align: center;} + + .footnotes {border: dashed 1px;} + .footnote {margin-left: 10%; margin-right: 10%; font-size: 0.9em;} + .footnote .label {position: absolute; right: 84%; text-align: right;} + .fnanchor {vertical-align: super; font-size: .8em; text-decoration: none;} + + .poem {margin-left:10%; margin-right:10%; text-align: left;} + .poem br {display: none;} + .poem .stanza {margin: 1em 0em 1em 0em;} + .poem span.i0 {display: block; margin-left: 0em; padding-left: 3em; text-indent: -3em;} + .poem span.i2 {display: block; margin-left: 2em; padding-left: 3em; text-indent: -3em;} + .poem span.i4 {display: block; margin-left: 4em; padding-left: 3em; text-indent: -3em;} +.mynote {background-color: #DDE; color: #000; padding: .5em; +margin: 1em 5%; font-family: sans-serif; font-size: 95%;} +.mynote.white {background-color: inherit; color: inherit;} + // --> + /* XML end ]]>*/ + </style> + </head> +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of O Descobrimento do Brazil, by Garcia Redondo + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Descobrimento do Brazil + Prioridade dos Portugueses no Descobrimento da America + +Author: Garcia Redondo + +Release Date: January 17, 2008 [EBook #24344] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL *** + + + + +Produced by Ricardo F. Diogo, Júlio Reis and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This +file was produced from images generously made available +by The Internet Archive) + + + + + + +</pre> + + +<div class = "mynote"> +<!-- Autogenerated TOC. Modify or delete as required. --> +<p> +<a href="#O_DESCOBRIMENTO_DO_BRAZIL"><b>O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL</b></a><br /> +<a href="#NOTAS"><b>NOTAS</b></a><br /> +<a href="#NOTICIAS"><b>NOTICIAS</b></a><br /> +</p> +<!-- End Autogenerated TOC. --> +<p>Notas de transcrição:</p> +<ul> +<li><a href="#Page_26">Pg 26</a>: aspas abertas antes de "a terra achada"; original não tinha aspas. +</li> +<li><a href="#Page_28">Pg 28</a>: em "carta regia de D. João I" trata-se, na verdade, do rei D. João II (não corrigido). +</li> +<li><a href="#Page_37">Pg 37</a>: substituido "em 1742, vinte annos antes de Colombo" por "em 1472, +..."; havia sido corrigido à mão na cópia digitalizada que serviu de base a esta transcrição.</li> +</ul> +</div> + + + + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_3" id="Page_3">[Pg 3]</a></span></p> +<div class="bbox"> +<h3 class="smcap">Garcia Redondo</h3> +<p class="center">(DA ACADEMIA BRASILEIRA)</p> + +<h1>O DESCOBRIMENTO<br />DO<br />BRAZIL</h1> + +<h3>PRIORIDADE DOS PORTUGUEZES +NO DESCOBRIMENTO DA AMERICA</h3> +<hr /> + +<p>Primeira conferencia da serie organisada pelo +Centro Republicano Portuguez de São Paulo, +realizada no Instituto Historico e Geographico +de S. Paulo, na noite de 3 de Junho de 1911</p> +<hr /> + + +<p class="center">SÃO PAULO<br /> +CASA VANORDEN</p> +<p class="center">1911</p> +</div> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_5" id="Page_5">[Pg 5]</a></span> +</p> +<div class="bbox"> +<h3 class="smcap">Garcia Redondo</h3> +<p class="center">(DA ACADEMIA BRASILEIRA)</p> + + +<h1>O DESCOBRIMENTO<br />DO<br />BRAZIL</h1> + +<h3>PRIORIDADE DOS PORTUGUEZES +NO DESCOBRIMENTO DA AMERICA</h3> +<hr /> + +<p>Primeira conferencia da serie organisada pelo +Centro Republicano Portuguez de São Paulo, +realizada no Instituto Historico e Geographico +de S. Paulo, na noite de 3 de Junho de 1911</p> +<hr /> + + +<p class="center">SÃO PAULO<br /> +CASA VANORDEN</p> +<p class="center">1911</p> +</div> + + +<hr style="width: 65%;" /> +<p><span class='pagenum'><a name="Page_7" id="Page_7">[Pg 7]</a></span></p> +<p>Assistiram a esta conferencia, além do ministro de +Portugal, Snr. Dr. Antonio Luiz Gomes, e do seu secretario, +Dr. Bartholomeu Ferreira, que do Rio de Janeiro +vieram especialmente para esse fim, o consul da França, +Snr. Jacques Dupas e sua familia, os consules de Portugal +em S. Paulo e Santos, os consules do Paraguay e +da Guatemala, os representantes do Governo do Estado +e do Governo Federal, a directoria e membros do Centro +Republicano Portuguez de S. Paulo, o director e muitos +lentes da Escola Polytechnica, uma parte da directoria +e muitos socios do Instituto Historico e a fina flor da +sociedade culta e da colonia portugueza de S. Paulo.</p> + + +<div class="blockquot"><p>Esta conferencia é impressa no formato do livro <i>Conferencias</i> do +auctor para que possa ser annexada a esse livro.</p></div> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<p><span class='pagenum'><a name="Page_9" id="Page_9">[Pg 9]</a></span></p> +<h2><a name="O_DESCOBRIMENTO_DO_BRAZIL" id="O_DESCOBRIMENTO_DO_BRAZIL"></a>O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL</h2> +<h3>Prioridade dos portugueses no descobrimento da America</h3> + + +<div class="blockquot"><p><i>O orador, depois de agradecer a presença do numeroso +e luzido auditorio, que affluiu ao salão do Instituto Historico +para ouvir a sua palavra rude e, depois de varias explicações +que deu sobre o grande mappa que organisou para illustrar e +esclarecer a sua conferencia, diz:</i></p></div> + +<p><i>Minhas senhoras, meus senhores:</i></p> + +<p>Na minha ultima viagem ao Velho Mundo, +em 1906, achando-me na Suissa e querendo +visitar a exposição internacional de Milão, em +vez de fazer a viagem directa e curta, indo de +Genebra, onde estava, a Montreux e de Montreux +a Milão, preferi fazer uma grande volta, +indo de Genebra a Lyon e a Marselha e percorrendo +depois toda essa extensa e deliciosa costa +do Mediterraneo que se chama Côte d'Azur.</p> + +<p>Para que? Para entrar na Italia por Genova +e prestar, antes de tudo, a minha homenagem +<span class='pagenum'><a name="Page_10" id="Page_10">[Pg 10]</a></span>de americano á memoria de Christovam Colombo, +visitando a casa onde elle nasceu.</p> + +<p>Alli fui, pois, e alli estive no vetusto predio, onde, +em 1450, viu a luz do dia o audacioso genovez, +conforme reza a placa commemorativa collocada +entre duas janellas antigas desastradamente vestidas +á moderna com venezianas verdes.</p> + +<p>Até então, eu suppunha, pelo que sabia, pelo +que havia lido, que Christovam Colombo era o +descobridor da America, assim como suppunha +tambem que Pedro Alvares Cabral era o descobridor +do Brazil.</p> + +<p>Mas, veio-me depois ás mãos um livro—<i>A +descoberta do Brazil</i>—do sr. Faustino da Fonseca, +e esse livro precioso, feito com o nobilissimo +intuito de reivindicar para Portugal a gloria completa +do descobrimento do Novo Mundo, livro +que, em abono da civilização portugueza, que, em +abono dos nossos maiores, deveria ser traduzido +em todas as linguas vivas para ser distribuido +em todas as escolas do universo, veio mostrar-me, +á luz de documentos authenticos e irrefutaveis, +que nem o navegante genovez foi o primeiro a +chegar ao Novo Mundo, nem Cabral o primeiro +a achar essa parte do Novo Mundo que se chama +o Brazil.</p> + +<p>Colombo e Cabral—o primeiro ao aportar, +em 1492, ás Antilhas, e o segundo, em 1500, +á costa brazileira, não fizeram mais do que <i>reconhecer +e tomar posse</i> officialmente de terras que +<span class='pagenum'><a name="Page_11" id="Page_11">[Pg 11]</a></span>muitos annos antes já haviam sido descobertas +por navegantes portuguezes.</p> + +<p>Baseia-se o precioso livro do sr. Faustino da +Fonseca em doações feitas pelos reis portuguezes +aos primeiros navegantes que sulcaram o Atlantico, +em tratados de limites, em correspondencias +officiaes, roteiros, mappas, relações, cartas de +testemunhas dos acontecimentos e outros documentos +que o autor, no seu louvavel ardor patriotico, +foi descobrir e copiar com uma paciencia +de benedictino nos archivos hespanhóes e açorianos +e na Torre do Tombo.</p> + +<p>É com esse fanal em punho, que dá por +terra com todas as lendas, todos os erros e embustes +dos historiadores que precederam o sr. +Fonseca, que eu venho, hoje, na medida das minhas +fracas forças, ajudal-o a reivindicar para +Portugal, não a gloria de haver descoberto o +Brazil sómente, mas tambem a gloria de haver +descoberto a America.</p> + +<p>Oxalá seja esse meu auxilio efficaz, oxalá possa +elle levar a convicção ao animo dos que me +ouvem e dos que me lerem, para que possamos +dizer todos, <i>una voce</i>, e fazendo a justiça tardia +a que tem direito a velha civilização portugueza: +Gloria a Portugal, descobridor do Novo Mundo!</p> + +<hr style='width: 45%;' /><p><span class='pagenum'><a name="Page_12" id="Page_12">[Pg 12]</a></span></p> + +<p>Os conhecimentos geographicos dos antigos +eram limitadissimos, não conhecendo os europeus +mais do que duas terças partes do seu continente, +o norte da Africa e o sudoeste da Asia, +acreditando Ptolomeu que a Africa se estendia +até ao polo antarctico, reduzindo assim o Oceano +Indico a um simples lago ou pequeno mar interior. +Nessa época, o que se chama India comprehendia +a Indo-China, o Indostão, as ilhas e +regiões do extremo Oriente. Era a India considerada +como um paiz de fabulosas riquezas e +nella dizia-se que habitava o Prestes João, soberano +Christão, que reunia o poder temporal ao +espiritual e era o summo pontifice do Oriente.</p> + +<p>O Oceano Atlantico era tratado por mar tenebroso +e considerado innavegavel, povoado por +monstros, coalhado de escolhos, coberto de nevoa +densa. Era um mar onde, para uns, reinava a +eterna calmaria podre, para outros, era constantemente +açoutado por violentos tufões, de sorte +que era uma barreira á communicação entre os +dois hemispherios.</p> + +<p>Não contentes de limitar a tão pouco os seus +conhecimentos geographicos, os antigos inventavam +lendas, semeavam o oceano de ilhas imaginarias, +de estatuas e de columnas, que impediam +os navegantes de marchar.</p> + +<p>As columnas de Hercules fechavam o caminho +<span class='pagenum'><a name="Page_13" id="Page_13">[Pg 13]</a></span>do Atlantico, outras duas columnas erguiam-se +num estreito, impedindo a entrada do mar da +India. A phantasia não tinha diques e os mappas, +principalmente o de Marco Polo, marcavam +milhares de ilhas em algumas das quaes se localizava +o paraiso, o purgatorio e o inferno! Na +ilha de Salomão, onde se dizia estar o cadaver +desse rei mulherengo, num maravilhoso palacio, +tres estatuas faziam retroceder o navegante sob +pena de morte. O cabo Bojador era um ninho +de serpentes e na ilha de Ceylão estava o tumulo +de Adão!</p> + +<p>Ainda em 1375 a costa africana só era conhecida +de Ceuta até ao Cabo Bojador, e ainda em +1436, já em pleno seculo XV, o mappa de André +Bianco, um mixto de christianismo e de paganismo, +reproduz as lendas e figuras da edade +média, collocando Jerusalém no centro do mundo +e determinando o local do paraiso terrestre!... +Toda a terra conhecida resumia-se num unico +continente. Tudo mais eram ilhas entre as quaes +estava a de Cypango, onde Colombo julgou ter +chegado em 1492, quando aportou ás Antilhas.</p> + +<p>Lendas de origem portugueza só havia duas—a +do gigante Adamastor, no Cabo das Tormentas, +que o grande épico dos Lusiadas tão +lindamente narrou em verso sonoroso, e a do +cavalleiro de pedra, na ilha do Corvo—mas +este, ao contrario dos outros que intimavam o +navegante a retroceder, mandava-o avançar, apon<span class='pagenum'><a name="Page_14" id="Page_14">[Pg 14]</a></span>tava-lhe +o caminho a seguir, demandando novas +regiões.</p> + +<p>Taes eram os conhecimentos geographicos até +ao primeiro terço do seculo XV.</p> + +<p>Foi então que appareceu o famoso projecto +do infante d. Henrique, projecto que revolucionou +o systema do mundo.</p> + +<p>Até ahi só se conheciam dois caminhos para +chegar ao Oriente, ambos por terra, ambos partindo +do Mediterraneo. Conhecida a India como +um paiz de riquezas fabulosas e tendo cessado +para os portuguezes, com a tomada de Ceuta, o +trafico dos generos do sertão pelo Mediterraneo, +cogitou o infante d. Henrique em chegar á India +por um outro caminho—a via maritima, pelo +occidente. Mas, para isso, tinha de affrontar o +Mar Tenebroso, esse oceano inçado de escolhos +e de monstros, impenetravel e mysterioso. Como +o seu intuito era explorar as riquezas indianas +e levar a fé aos musulmanos, com os quaes esperava +combater, elle sentiu a necessidade de um +alliado e o alliado natural era o Prestes João, +o summo pontifice da christianidade indiana.</p> + +<p>Era preciso, pois, procural-o, mas seguindo +pela via maritima.</p> + +<p>«Provêm desta origem, diz o sr. Faustino da +Fonseca na sua obra admiravel, as explorações +para o sul e para o occidente; as grandes viagens +do occidente e do oriente; o encontro de +<span class='pagenum'><a name="Page_15" id="Page_15">[Pg 15]</a></span>duas passagens a leste e a oéste,—o Cabo da +Boa Esperança e o estreito de Magalhães; as +descobertas da costa da Africa e das ilhas do +Atlantico, da America do Norte e do Brazil.»</p> + +<p>«Obedece tudo a este proposito, subordina-se +tudo a este projecto, são tudo soluções ao problema: +os conselhos de Toscanelli e de Monetario, +o erro de Colombo, a audacia de Magalhães.»</p> + +<hr style='width: 45%;' /> + +<p>Não é difficil provar que Colombo não descobriu +a America e que quando chegou ás Antilhas, +em 1492, já a America havia sido descoberta +pelos portuguezes, muitos annos antes. O +difficil seria provar hoje, em face dos documentos +encontrados pelo sr. Faustino da Fonseca e +dos quaes me vou soccorrer nesta conferencia, +que o ousado genovez fez tal descoberta.</p> + +<p>Esmiucemos o interessante assumpto.</p> + +<p>Quando o infante d. Henrique fundou a escola +de Sagres com observatorio astronomico, para o +qual fez vir cosmographos e mathematicos estrangeiros, +e mandou construir nos seus estaleiros as +primeiras caravelas e ordenou que ellas sahissem, +para o mar tenebroso e pelo occidente, dizendo +aos capitães que avançassem sem receio, fazendo-se +ao largo, já Gonçalves Zarco havia descoberto +a ilha da Madeira e já o infante conhecia +o livro de Marco Polo, que existia em Portugal +desde 1418, trazido pelo infante d. Pedro, que o +<span class='pagenum'><a name="Page_16" id="Page_16">[Pg 16]</a></span>recebera como dadiva do senado de Veneza, assim +como conhecia tambem o mappa do mesmo Marco +Polo onde se veem as regiões do oriente muito proximas +das do occidente. No seu livro, Marco Polo +assegurava que Catay estava no Atlantico (que +elle chama o mar de Cyn) a pequena distancia +da Europa e que, no Atlantico, estavam tambem +Cypango e outras ilhas de especiarias.</p> + +<p>As primeiras caravelas, construidas e equipadas +pelo infante em 1431, começam a perscrutar +o mar vasto e, um dia, de uma dellas, Gonçalo +Velho Cabral descobre as <i>Formigas</i>. Um anno +depois, em 1432, descobre ainda <i>Santa Maria</i>. +As expedições maritimas portuguezas, desde então, +succedem-se ininterruptamente e, annos depois, +é descoberta grande parte das ilhas do archipelago +dos Açores pelo mesmo Gonçalo Velho e +depois as do Cabo Verde (1460) por Antonio +Gomes e Diogo de Nola.</p> + +<p>Em 1435, já o mappa-mundi de Bechario +representa a Antilia e outras ilhas, a oéste dos +Açores, acompanhadas da seguinte legenda:—<i>Insule +de novo reperte</i> (ilhas recentemente descobertas.)</p> + +<p>Em 1436, um anno após, apparecem o mappa-mundi +de André Bianco e o seu portulano +cujas cartas já representam o mar de Baga, o +mar dos Sargaços, as Antilhas e o Brazil, figurando +este como se fosse uma grande ilha. Em +1447, uma nau parte do Porto e descobre a +Groelandia aonde os marinheiros desembarcaram.</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_17" id="Page_17">[Pg 17]</a></span>No entretanto, do celebre promontorio de +Sagres, o infante d. Henrique vê sumirem-se no +mar intermino as caravelas, que successivamente +iam partindo á descoberta, e já em 1448, numa +carta do portulano de André Bianco, tratando +dos descobrimentos dos portuguezes, se regista o +Brazil de uma forma precisa, na parte oéste e +sul do Cabo de S. Roque, ao sul das ilhas do +Fogo e Brava de Cabo Verde, na sua verdadeira +posição, em frente á costa africana, sendo designado +por <i>ilha authentica</i> e assignalada a sua +distancia exacta de 1500 milhas do archipelago +de Cabo Verde.</p> + +<p>Esta carta do portulano de Bianco, bem como +os anteriores de 1436 mostram, pois, meus senhores, +que o Brazil foi descoberto em 1435, ou antes, por +navegantes portuguezes e que até das Antilhas já +havia noticia nessa época.</p> + +<p>Mas, não fica nisto. As caravelas portuguezas +continuam a singrar o mar tenebroso e, em +1452, Diogo de Teive e seu filho João de +Teive descobrem as ilhas Corvo e das Flores +e chegam á latitude da terra que se chamou +mais tarde «do Lavrador» (porque a descobriu +um portuguez deste nome) não desembarcando +nella com receio do inverno.</p> + +<p>Em 1460 morre o infante d. Henrique, +deixando reconhecida toda a costa africana até +Serra Leôa e legando ainda á sua patria os +<span class='pagenum'><a name="Page_18" id="Page_18">[Pg 18]</a></span>descobrimentos dos archipelagos dos Açores, de +Cabo Verde e do Brazil.</p> + +<p>A morte do infante não faz, porém, arrefecer +o enthusiasmo lusitano pelos descobrimentos e já +dois annos depois, em 1462, d. Affonso V, por +carta regia de 29 de outubro, faz doação a seu +irmão o infante d. Fernando, filho adoptivo de +d. Henrique e seu herdeiro universal, de uma +terra achada no mar alto, a noroeste das ilhas +Canarias e da Madeira, que Gonçalo Fernandes +havia descoberto. Essa terra não podia ser outra +senão a America.</p> + +<p>Mezes antes, por carta régia de 19 de fevereiro, +esse mesmo Affonso V havia feito doação +a João Vogado de duas ilhas por elle descobertas +no <i>mar oceano</i>, ás quaes dera os nomes de Lono +e Capraria. Nos documentos da época, a expressão +<i>mar oceano</i> era usada para designar o mar que +banhava a America, que então ainda não tinha +esse nome. Esta doação a João Vogado prova +que as duas ilhas Lono e Capraria eram ilhas ou +pontos da costa americana.</p> + +<p>Onze annos depois, em 1473, d. Affonso V, +por carta régia de 12 de janeiro, faz doação á +sua sobrinha d. Beatriz, filha do infante d. Fernando, +de uma ilha que apparecera, em 1468, +através da ilha de Santiago, e que era uma das +Antilhas, aonde só 24 annos depois aportou Colombo. +Convém notar que esta descoberta é feita +<span class='pagenum'><a name="Page_19" id="Page_19">[Pg 19]</a></span>por navegadores portuguezes 5 annos antes da +chegada de Colombo a Lisboa.</p> + +<p>Do exposto se conclue que as proprias Antilhas +já tinham sido descobertas pelos portuguezes +muitos annos antes de Colombo lá ir +tomar dellas posse para a corôa da Hespanha.</p> + +<p>Todas estas consecutivas viagens para o occidente +formam uma série que já constitue uma +brilhante e indiscutivel documentação da prioridade +dos portuguezes na descoberta da America.</p> + +<p>Mas ha ainda outros e valiosos documentos +que melhor provam esta asserção áquelles a quem +ella possa parecer um pouco vaga.</p> + +<p>Vejamos quaes são.</p> + +<p>Em 1472, tendo vagado a capitania da Ilha +Terceira por fallecimento de Jacome de Bruges, +a infanta d. Beatriz fez doação a João Vaz Côrte +Real da capitania dessa ilha, na parte de Angra, +doando a parte da Praia a Alvaro Martins.</p> + +<p>Na carta de doação, encontram-se as seguintes +palavras: «havendo eu, por informação, estar ora +vaga a capitania da ilha Terceira de Jesus Christo... +por se affirmar ser morto Jacome de Bruges... +houve por bem de a partir entre o dito João +Vaz e o dito Alvaro Martins, mandei ao dito +João Vaz que escolhesse e elle escolheu a parte +de Angra... E considerando eu, de outra parte, +<i>os muitos e grandes serviços</i> que o dito João Vaz +Côrte Real, fidalgo da casa do dito senhor meu +filho, tem feito ao infante meu senhor e seu +<span class='pagenum'><a name="Page_20" id="Page_20">[Pg 20]</a></span>padre que Deus haja (é o infante d. Fernando), +e depois a mim e a elle, <i>em galardão</i> dos ditos +serviços, lhe fiz mercê da dita capitania da ilha +Terceira.»</p> + +<p>Annos após, em 1488, confirmando essa doação, +o duque de Vizeu, filho de d. Beatriz, alludiu +aos <i>grandes serviços</i> de João Vaz Côrte Real a +seus paes, dizendo: «querendo lhe fazer graça e +mercê pelos <i>muitos serviços</i> que tem feito ao infante +meu senhor e padre, que Deus haja, e a +mim, espero que ao deante fará.»</p> + +<p>Quem era esse João Vaz Côrte Real, que assim +era galardoado e que serviços relevantes eram +esses que havia prestado para receber tal galardão?</p> + +<p>Era um homem que, nesse mesmo anno de +1472, vinha de chegar da <i>Terra Nova</i> ou <i>Terra +dos Bacalhaus</i>, trazendo essa nova descoberta americana +para a corôa portugueza, vinte annos antes +de Colombo aportar ás Antilhas.</p> + +<p>As provas desta descoberta de João Vaz não +escasseiam e encontram-se:</p> + +<p>1.º—Na carta relativa á America do Norte +do Atlas de Fernão Vaz Dourado, existente na +Torre do Tombo, onde se lê, na parte referente +á Terra Nova, a seguinte designação: <i>B. de João, +Terra de João Vaz</i>.</p> + +<p>2.º—No mappa-mundi do Atlas de Jomard, +feito em pergaminho por ordem de Henrique II +<span class='pagenum'><a name="Page_21" id="Page_21">[Pg 21]</a></span>da França (1547-1559), onde a mesma designação +para a Terra Nova se encontra.</p> + +<p>3.º—No mappa-mundi de Mercator, do mesmo +Atlas de Jomard, onde vem por extenso, designando +a Terra Nova—<i>Terra de Joam Vaz</i>, +<i>Rio de Joam Vaz</i>.</p> + +<p>4.º—Num manuscripto feito entre 1672 e +1711 nos Açores, onde melhor se conheciam os +descobrimentos de João Vaz, no qual é encontrada +a seguinte referencia á doação de d. Beatriz +a João Vaz: «Estando as cousas nesta forma, +morreu o capitão Bruges, não deixando herdeiros. +Chegaram então á ilha dois fidalgos que vinham +de descobrir a <i>Terra do Bacalhau</i>; estes pediram +a ilha a d. Beatriz, mulher do infante d. Fernando, +por serviços que lhe tinham feito, lhes +fizesse mercê da capitania da ilha Terceira, a +qual ella lhe concedeu. A João Vaz Côrte Real, +que era um destes fidalgos, ficou a de Angra.»</p> + +<p>5.º—Finalmente, nestes trechos das <i>Saudades +da Terra</i>, de Gaspar Fructuoso, nascido nos Açores +em 1522: «João Vaz Côrte Real, primeiro capitão +da ilha Terceira da parte de Angra, por serviços +que fez a el-rei de Portugal nas guerras contra +Castella, andando por <i>capitão de grossa armada</i>; +do qual dizem que foi <i>tão grande aventureiro no +mar que neste Reino não tem segundo</i>; e alguns +querem dizer que descobriu a mesma ilha Terceira +e <i>algumas partes do ponente e do Brazil, Cabo +Verde</i>, onde foi o primeiro que houve vista da +<span class='pagenum'><a name="Page_22" id="Page_22">[Pg 22]</a></span><i>ilha do Fogo</i>... e vindo, como atrás tenho dito, +João Vaz Côrte Real do <i>descobrimento da Terra +dos Bacalhaus que, por mandado de el-rei foi fazer</i>, +lhe foi dada a capitania de Angra, da Ilha Terceira +e da ilha de S. Jorge... Dizem alguns que +Jacome de Bruges, primeiro capitão da ilha Terceira +de Jesus Christo, era flamengo... e, estando-a +povoando veio ter ahi João Vaz Côrte +Real... e vinha do <i>descobrimento da Terra Nova +do Bacalhau</i> e o Jacome de Bruges o recolheu e +lhe disse que lhe largaria metade da ilha, a qual +acceitou, e depois Jacome de Bruges se foi para +sua terra e desappareceu, de maneira que não +tornou mais, e a infanta d. Beatriz, por vaga, +deu a ilha ao dito João Vaz Côrte Real.»</p> + +<p>Não ha nada de mais positivo, de mais claro +e comprovante, do que estes cinco documentos, +que venho de citar, no ultimo dos quaes se allude, +nada menos de trez vezes, ao descobrimento +feito por João Vaz Côrte Real da <i>Terra Nova</i> ou +<i>Terra do Bacalhau</i>, na America do Norte, em +1472, vinte annos antes de Colombo aportar +ás Antilhas.</p> + +<p>Mas, não foram sómente João Vaz e outros +navegadores portuguezes, já citados, os precursores +de Colombo na descoberta da America.</p> + +<p>João Vaz Côrte Real tinha tres filhos—Vasco +Annes, Miguel e Gaspar Côrte Real—os quaes, como +o pae, foram ousados navegantes, principalmente +o ultimo, Gaspar, que ficou captivo dos indigenas +<span class='pagenum'><a name="Page_23" id="Page_23">[Pg 23]</a></span>numa das suas viagens á America. A carta regia +de 12 de maio de 1500, fazendo doação a Gaspar +Côrte Real de terras que vae descobrir (carta +passada poucos dias após a chegada de Cabral +ao Brazil, chegada essa de que ainda não havia +noticia em Portugal) regista importantes trabalhos +do mesmo Gaspar, anteriores ás duas viagens +suas de que ha noticia e refere-se <i>ás suas explorações +maritimas feitas com muito trabalho, despeza +e perigos, realizadas por Gaspar á sua custa com +seus navios e homens</i>. Diz ainda essa carta de +doação que <i>elle vae continuar a descobrir</i> ou reconhecer +<i>ilhas e terra firme</i> das quaes lhe são +outorgadas as capitanias.</p> + +<p>A expressão vae <i>continuar a descobrir</i>, empregada +na carta regia, significa que Gaspar já havia +anteriormente feito descobertas.</p> + +<p>Infelizmente, Gaspar Côrte Real, partindo de +Lisboa em 1501 para uma nova exploração na +America, por lá ficou captivo dos naturaes, voltando +todavia ao reino os dois navios que o +haviam acompanhado. Em 1502, seu irmão +Miguel sahiu com outros dois navios no intuito +de o procurar e remir, mas tambem não regressou. +Vasco Annes quiz ainda ir em busca dos +dois irmãos, mas D. Manoel não lh'o consentiu.</p> + +<p>Documentos posteriores ao desapparecimento +dos dois irmãos, Gaspar e Miguel Côrte Real, +registam os seus feitos e os de seu pae João Vaz. +<span class='pagenum'><a name="Page_24" id="Page_24">[Pg 24]</a></span>Taes são: a carta régia de 17 de setembro de +1506 e principalmente a 4 de maio de 1567, de +doação a Manoel Côrte Real, filho de Vasco +Annes e neto de João Vaz, na qual se encontra a +seguinte phrase: «seu pae e tios mandaram descobrir +a Terra Nova».</p> + +<p>Mas, anteriormente, a carta régia de 4 de +novembro de 1501, de d. Manoel—o venturoso—filho +do duque de Vizeu e de d. Beatriz, +concedendo a tença de 30.000 cruzados a Miguel +Côrte Real por serviços feitos a d. João II, que +falleceu em 1495, fixa ás viagens maritimas dos +Côrtes Reaes uma data anterior a 1495.</p> + +<p>Ora, a sete de junho de 1494, d. João II +assignou com a Hespanha o tratado de Tordesillas, +abrangendo na demarcação portugueza não +só a costa do Brazil (aonde Pedro Alvares Cabral +só aportou <i>6 annos depois</i>) como a terra dos Côrtes +Reaes, isto é, a <i>Terra Nova</i> ou <i>dos Bacalhaus</i>, o +que prova que a descoberta dessa terra é anterior +ainda a 1494. Por ultimo, Bartholomeu las Casas, +amigo de Colombo e companheiro do genovez +numa das suas viagens ás Antilhas, na sua <i>Historia +das Indias</i>, apontando ingenua e sinceramente +as indicações que Colombo teve para ir +ás Antilhas, indicações, aliás, confessadas pelo +proprio Colombo, cita, entre outras, as viagens +dos Côrtes Reaes, empregando estas expressões: +«Os Côrte Reaes que foram em diversos tempos +buscar <i>aquella terra</i>.»</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_25" id="Page_25">[Pg 25]</a></span>E isto prova ainda que o descobrimento da +<i>Terra Nova</i> ou <i>dos Bacalhaus</i> e, portanto, da +America, é anterior á primeira viagem de Colombo +ás Antilhas, isto é, anterior a 1492 e mesmo +anterior a 1484, porque foi em 1484 que Colombo +sahiu de Portugal, onde obteve taes indicações +e onde viu e conheceu Miguel e Gaspar +Côrte Real, filhos de João Vaz Côrte Real, e Affonso +Sanches, que descobriu as Antilhas de 1473 a +1484. As expressões que Las Casas emprega, referindo-se +ás confissões feitas pelo seu amigo Colombo +são as seguintes, que reproduzo textualmente: +«<i>Disse</i>, pois, Christovam Colombo entre +outras cousas <i>que poz em seus livros por escripto</i>... +e accrescentou mais que tinha visto dois filhos +do capitão que descobriu a ilha Terceira, que se +chamavam Miguel e Gaspar Côrte Real, <i>ir em +diversos tempos a buscar aquella terra</i>.»</p> + +<p><i>Aquella terra</i> era a <i>Terra Nova</i> ou <i>Terra dos +Bacalhaus</i>.</p> + +<p>Ainda relatando Las Casas as indicações e informações +que conduziram Colombo ás Antilhas, +cita a viagem de Vicente Dias e mais uma outra +a respeito da qual assim se exprime: «uma caravela +ou navio que tinha sahido de um porto +de Hespanha (não me recordo ter ouvido indicar +qual fosse, ainda que creio que do reino de Portugal, +se dizia)... veio... parar a estas Antilhas +e que esta caravela foi a primeira que as des<span class='pagenum'><a name="Page_26" id="Page_26">[Pg 26]</a></span>cobriu. +Que isto assim acontecesse alguns argumentos +ha para demonstral-o.»</p> + +<p>E ajunta que o piloto dessa caravela, «que +alguns escriptores hespanhóes chamam Affonso +Sanches e dão como natural de Cascaes, recolhido +por Colombo em sua residencia na ilha da Madeira, +ao sentir perto a morte lhe revelara o segredo +e lhe dera por escripto os rumos e caminhos +que tinham levado e trazido por carta +de marear e pelas alturas e paragem aonde estava +a ilha.»</p> + +<p>Esta confissão de Las Casas, amigo e companheiro +de viagem de Colombo, é importantissima.</p> + +<p>Diz ainda Las Casas que, quando foi com Colombo +ao primeiro descobrimento de Cuba, «os +indios vizinhos daquella déram noticia de terem +chegado a esta ilha Hespanhola outros homens +brancos e barbados, como nós outros, <i>antes que +nós outros não muitos annos</i>.»</p> + +<p>Mas, não fica nisto.</p> + +<p>Em 1501, Pietro Pasqualigo, referindo ao senado +de Veneza a segunda viagem de Gaspar +Côrte Real á America, disse que Gaspar e seus +companheiros acreditavam que «a terra achada era +firme e estava ligada com a outra (Terra dos +Papagaios ou Brazil) que o anno passado (1500) +foi descoberta por outras caravelas de S. Magestade, +acreditando estar ligada com as Antilhas.»</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_27" id="Page_27">[Pg 27]</a></span>Humboldt confirma este conceito, quando diz +«que antes mesmo das viagens de Colombo a +Honduras e Veragua, em outubro de 1501, já se +sabia em Portugal que as terras do norte eram +cobertas de neve e gelo, contiguas ás Antilhas e +á terra dos Papagaios <i>novamente</i> achada.»</p> + +<p>E admiradissimo, Humboldt accrescenta: «esta +<i>adivinhação</i> que proclama, apesar da ausencia de +tantos élos intermediarios, uma ligação continental +entre o Brazil e as terras geladas do Lavrador +<i>é muito surprehendente</i>.»</p> + +<p>Nem foi <i>adivinhação</i> nem <i>cousa para surprehender</i>; +os élos intermediarios, estabelecendo a +ligação continental entre o Brazil e as terras geladas +do Lavrador, existiam e eram conhecidos +dos portuguezes pelas viagens e descobrimentos +que haviam feito na sua pertinancia de procurar +o caminho para a India, navegando constantemente +para o occidente e para o sul, desde 1431. +Ora, todos os documentos que citamos demonstram +de um modo cabal e decisivo que os descobridores +da Terra Nova e portanto da America do +Norte foram João Vaz Côrte Real e seus filhos +e que este descobrimento foi feito muitos annos +antes que Colombo aportasse ás Antilhas.</p> + +<p>Mas o estudo dos documentos portuguezes +e castelhanos que o sr. Faustino da Fonseca +exhumou da Torre do Tombo, dos archivos +açorianos e hespanhóes e a que deu publicidade +no seu luminoso livro, referentes ás viagens +<span class='pagenum'><a name="Page_28" id="Page_28">[Pg 28]</a></span>maritimas dos seus antepassados, provam de +um modo incontestavel que desde 1435, ou antes +havia em Portugal conhecimento perfeito de terras +americanas (o Brazil ou terra dos Papagaios com +a sua posição determinada no mappa de Bianco +e a sua distancia de 1500 milhas entre as ilhas de +Cabo Verde e o Cabo de S. Roque precisamente +marcada no mesmo mappa) e tambem que, +desde 1475, as viagens dos portuguezes para +o occidente já se realizavam, não tanto no empenho +de procurar por ahi o caminho para +chegar á India, como no de «colonizar, de aproveitar +as terras americanas e nellas commerciar, +como se commerciava na costa africana e nas +ilhas dos seus mares.»</p> + +<p>Era pelo sul da costa da Africa que os +navios da corôa portugueza procuravam o caminho +do oriente e as viagens á Guiné eram então +privativas dos navios reaes, não podendo os +particulares emprehendel-as. Já para o occidente +a navegação era francamente aberta ás naus +dos particulares, dando-lhes ensejo ás descobertas +e explorações commerciaes.</p> + +<p>A carta de doação a Fernão Dulmo, em 1486 +e a confirmação do seu contracto com João +Affonso Estreito, feita pela carta regia de D. +João I, vem demonstrar de um modo cabal, +como muito bem diz o sr. Faustino da Fonseca, +«a existencia de trabalhos de mór importancia +relativos á America em que se não trata já da +<span class='pagenum'><a name="Page_29" id="Page_29">[Pg 29]</a></span>descoberta, mas da posse effectiva, da conquista, +da occupação.»</p> + +<p>Nessa carta de doação diz o rei que Fernão +Dulmo, capitão da ilha Terceira, «lhe queria +dar achada ao occidente uma grande ilha, ou +ilhas, ou terra firme por costa», ilha essa que +se presumia ser a das Sete Cidades, e isto prova +«que não se julgava ser a India, como pensava +Colombo, nem Catay, nem Cypango, terras +do oriente, que o genovez procurava e que até +morrer julgou ter descoberto.»</p> + +<p>Era uma outra terra a que se dava o nome +de Sete Cidades por causa de uma velha lenda. +Effectivamente, o que Fernão Dulmo queria dar +ao rei <i>achada</i> era, não uma ilha, mas terra +firme, isto é, um continente.</p> + +<p>Dava-lhe a carta regia poder e autoridade +para tomar posse real e autual de todas ilhas +e terra firme que descobrisse, «podendo enforcar, +matar e applicar toda outra pena criminal» +e accrescentava que, «se as ilhas e terra firme +não quizessem sujeitar-se, elle rei mandaria com +Fernão Dulmo gentes e armadas de navios +para as sujeitar.»</p> + +<p>Tão amplas eram as autorizações e poderes +conferidos a Fernão Dulmo, contrastando com +as restricções feitas nas doações anteriores, nas +quaes a corôa reservava para si «a alçada de +morte ou talhamento de membro,» que taes +concessões levam a crer, com relativa segu<span class='pagenum'><a name="Page_30" id="Page_30">[Pg 30]</a></span>rança, +que na terra, que Dulmo queria dar +<i>achada</i> ao seu rei, já elle havia estado, havendo +encontrado resistencia á occupação por parte da +população indigena.</p> + +<p>Nessa terra do occidente, ou America, que +Dulmo queria dar <i>achada</i> á corôa portugueza, +já elle estivera, portanto, em 1486, ou antes. +Que tinha havido luctas na America entre os +donatarios e os indigenas prova-o ainda a carta +de doação a Vasco Annes Côrte Real na qual +se refere que Miguel Côrte Real (irmão de +Vasco Annes), ao partir, em busca de seu irmão +Gaspar, que ficara captivo das tribus americanas +na terra onde aportara, ia «buscar, achar +e remir o dito seu irmão.» Que Fernão Dulmo +estivera na America em 1486, ou antes, prova-o +ainda o contracto por elle feito com João +Affonso Estreito pelo qual este fazia todas as +despesas da expedição, e ainda o prazo marcado +para irem e voltarem, ficando Dulmo +com o commando da frota durante os primeiros +40 dias e assumindo-o João Affonso após +esse tempo, o que significa que Fernão Dulmo +estava seguro de attingir a terra achada em +40 dias e que João Affonso não receiava empregar +o seu capital numa empresa temeraria, +seguindo com o seu socio para o desconhecido.</p> + +<p>Estabelecia o contracto que as caravelas +seriam abastecidas para 6 mezes ou 180 dias +approximadamente. E dahi se deduz que, sendo +<span class='pagenum'><a name="Page_31" id="Page_31">[Pg 31]</a></span>precisos 80 dias para a viagem de ida e de +volta, ficavam 100 dias para a permanencia +na America, para a exploração, marcação e divisão +das capitanias de que eram donatarios os +dois associados e, finalmente, para a sujeição +dos indigenas.</p> + +<p>A confiança de João Affonso Estreito na +expedição era tal que, além de todas as despesas +com o abastecimento das caravelas e +sua equipagem, ainda deu 6.000 reaes brancos +a Fernão Dulmo.</p> + +<p>Ora, o conhecimento que temos de Colombo +ter gasto, posteriormente, 48 dias na sua primeira +viagem de regresso das Antilhas, com +atrasos devidos a temporaes e a uma arribada +á ilha de Santa Maria, e ainda o facto de +Pedro Alvares Cabral ter gasto 43 dias na sua +viagem ao Brazil, <i>apesar da calmaria que encontrou</i>, +e ainda a circumstancia de ter gasto +Colombo, exactamente, 40 dias na sua viagem +de Cadiz á Dominica, prova que 40 dias era +o tempo, em média, preciso para ir da Europa +á America e que, portanto, o facto de tal prazo +ter sido fixado no contracto de Dulmo com +João Affonso Estreito mostra que Dulmo tinha +perfeito conhecimento do tempo que era preciso +para chegar á terra <i>achada</i> por elle em +1486, ou antes, e que essa terra era positivamente +a America.</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_32" id="Page_32">[Pg 32]</a></span>Desta expedição de Dulmo fazia parte um +allemão chamado Martim Behaim, que o Dr. +Monetario, ou Montaro, na sua carta a d. João II, +chama Martinho Bohemio. Ora, este allemão, +que, de 1484 a 1486, acompanhou Diogo Cão, +como cosmographo, rezidindo nos Açores de +1486 até 1490, seguia a opinião dos antigos +de que o caminho para a India era pelo occidente. +Foi, pois, nesta viagem de Dulmo que +Behaim obteve o conhecimento da costa Americana, +o qual registou depois no globo que +construiu ao regressar á Europa e que tambem +representou no mappa, que existia no erario do +rei de Portugal e ao qual allude Pigaffeta. Nesse +globo terraqueo de Behaim foram representados +a peninsula da Florida, o golfo do Mexico e +as Antilhas, embora sem estas denominações. +Estes trabalhos geographicos de Behaim confirmam +que Dulmo estivera na America do +Norte e estabelecem de um modo preciso que +as terras achadas por elle eram a Florida, as +Antilhas e o golfo do Mexico.</p> + +<p>Em 1499 fez d. Manuel doação a João Fernandes +Lavrador da capitania da ilha ou ilhas +que elle <i>descobrir ou achar novamente</i>. Não tendo +meios para custear a expedição, João Fernandes +Lavrador associou-se a Francisco Fernandes +e João Gonçalves, escudeiros, naturaes dos Açores, +e com tres negociantes inglezes de Bristol, os +quaes, provavelmente, forneceram o capital pre<span class='pagenum'><a name="Page_33" id="Page_33">[Pg 33]</a></span>ciso, +e com elles obteve do rei Henrique VII +da Inglaterra nova carta de doação das terras +que descobrisse.</p> + +<p>A expedição seguiu a sua rota e conseguiu +descobrir a terra avistada em 1452 por Diogo +de Teive e seu filho João de Teive, á qual foi +dada o nome de Terra do Lavrador, que era +o do seu novo descobridor e donatario.</p> + +<p>Ora, João Fernandes Lavrador, quando organizou +a expedição, já sabia da existencia da +terra que <i>ia achar</i> porque nella estivera com +Pedro de Barcellos de janeiro a abril de 1492, +e o fim de sua expedição com os negociantes +de Bristol não era outro senão tomar posse da +terra anteriormente achada.</p> + +<p>Portanto, ainda alguns mezes antes de Colombo, +que só a 8 de agosto de 1492 partiu +para as Antilhas, dois navegantes portuguezes, +João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos +haviam estado na America.</p> + +<p>Assim, synthetizando esta série de provas de +ida e estada de navegantes portuguezes na America, +anteriormente a Colombo, encontra-se o +seguinte quadro chronologico registador dessas +viagens e descobrimentos:</p> + +<p>1436—Regista André Bianco nas suas cartas +e no seu portulano as descobertas do Brazil +ou Antilia, Mar de Baga e Mar de Sargaços.</p> + +<p>1447—Um navio parte do Porto e vae á +Groelandia onde os marinheiros desembarcam.</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_34" id="Page_34">[Pg 34]</a></span>1448—Regista André Bianco nas suas cartas +a existencia do Brazil á distancia precisa de +1500 milhas comprehendidas entre as ilhas do +Cabo Verde e o Cabo de S. Roque.</p> + +<p>1452—Diogo de Teive e seu filho João +descobrem a ilha das Flores e chegam á latitude +da terra do Lavrador.</p> + +<p>1472—Descobre João Vaz Corte Real a +Terra de João Vaz, ou Terra Nova, ou Terra +dos Bacalhaus, na America do Norte.</p> + +<p>1473-1484—Affonso Sanches descobre as Antilhas.</p> + +<p>1487—Viagem á America de Fernão Dulmo +e João Affonso Estreito, acompanhados de Martim +Behaim, que registou, depois, no globo terraqueo +que construiu e no mappa do erario +real portuguez, a existencia da peninsula da +Florida, das Antilhas e do golfo do Mexico.</p> + +<p>1492—Descoberta, entre 30 de Janeiro e 14 +de abril, da terra do Lavrador, por João Fernandes +Lavrador e Pedro de Barcellos.</p> + +<p>Todas estas viagens, todos estes descobrimentos +são anteriores á primeira viagem de +Colombo, realizada a 8 de Agosto de 1492 e +estabelecem a prioridade dos navegantes portuguezes +no descobrimento da America.</p> + +<p>A carta do dr. Jeronymo Montaro, ou Monetario, +de Nuremberg, a d. João II, em 1493, +quando ainda ignorava a primeira viagem de +<span class='pagenum'><a name="Page_35" id="Page_35">[Pg 35]</a></span>Colombo ás Antilhas, aconselhando o monarcha +lusitano a que demandasse a India pelo caminho +do occidente, confirma o conhecimento que +tinham os portuguezes das terras americanas.</p> + +<p>Ignorando, como Colombo (que até morrer +suppoz sempre que chegando ás Antilhas havia +chegado á India) que as terras do occidente +constituiam um novo continente, formando a +parte quarta do universo até então conhecido, +o dr. Montaro elogia na sua carta o saber dos +mareantes portuguezes, usando das seguintes +expressões: «sabios que navegaram a <i>largura +do mar</i>, que tomaram o caminho dos Açores +por quadrantes chilindricos e astrolabio e outros +engenhos, onde <i>nem frio nem calma os anojara</i> +e mais navegaram a <i>praia oriental</i> sob uma +temperança (temperatura) muito temperada do +ar e do mar.»</p> + +<p>Nestas expressões—<i>navegaram a largura do +mar, tomando o caminho dos Açores</i>—(que era +o ponto de partida dos navegantes que iam ao +novo continente) põe Montaro em evidencia as +viagens dos portuguezes á America, muito embora +ignorasse que essa terra era o Novo Mundo. +Empregou a expressão <i>praia oriental</i> suppondo +sempre que era a India cujo caminho pelo +oriente já havia sido descoberto, cinco annos +antes, por Bartholomeu Dias, quando em 1487 +dobrara o cabo da Boa Esperança, indo em +busca do reino do Prestes João.</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_36" id="Page_36">[Pg 36]</a></span>Não admira que o dr. Montaro estivesse nessa +ignorancia quando Colombo permanecia nella e +insistia em acreditar que a America era a Asia +e que, atravez della, havia um caminho por +agua, que abreviava a viagem pelo occidente +para a India.</p> + +<p>Esse caminho, que o audaz e astuto genovez +embalde procurou até morrer, existia de +facto, mas, em vez de abreviar, alongava a +viagem para a India. Esse caminho, que elle +nunca conseguiu achar, descobriu-o ainda um +portuguez, Fernão de Magalhães, quando, a soldo +da Hespanha, mas com marinheiros portuguezes +e com o cosmographo portuguez Ruy Faleiro, +transpoz o estreito a que ligou o seu +nome, no extremo sul da America, e fez a +primeira viagem de circumnavegação, dando a +volta ao mundo e confirmando a doutrina da +espheroicidade da terra.</p> + +<p>De tudo o que fica exposto resulta, meus +senhores, de um modo indiscutivel, com uma veracidade +esmagadora, que não foi Colombo quem +teve a prioridade na descoberta da America e que +essa grande gloria cabe de direito e de facto aos +destemidos e desinteressados navegantes portuguezes +do seculo XV, que á America foram e que +na America estiveram muito antes do genovez.</p> + +<p>Qual delles, qual desses ousados lusos, precursores +de Colombo, foi o primeiro a pôr o pé no +solo americano?</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_37" id="Page_37">[Pg 37]</a></span>Evidentemente, aquelle que, em 1435, ou antes, +segundo o registo de André Bianco, descobriu +o Brazil. Desse, infelizmente, a historia não guardou +o nome. Mas, daquelles que foram á parte +norte da America e que lá estiveram, dando-lhe +o seu nome, ha noticia; e o que firmou o direito +á prioridade na descoberta foi evidentemente João +Vaz Corte Real que, em 1472, vinte annos antes de +Colombo, descobriu a <i>Terra Nova</i>, que os mappas, +portulanos e manuscriptos da época designaram +por essa denominação, pela de <i>Terra dos Bacalhaus</i>, +pela de <i>Terra de João Vaz</i> e ainda de <i>Terra dos +Corte Reaes</i>, em homenagem ao grande navegante +luso e a seus filhos, que á mesma terra foram, +no mesmo ardor empenhados de engrandecerem +a sua patria.</p> + +<hr style='width: 45%;' /> + +<p>Mas, vejamos agora quem era Colombo e o +que fez elle, não para <i>descobrir</i>, mas para <i>chegar</i> +á America e de uma parte della tomar posse official +para a corôa de Hespanha.</p> + +<p>Por uma ironia da sorte, Colombo, nascido em +Genova em 1450, veio ao mundo dois annos depois +daquelle (1448) em que André Bianco registou +no seu mappa a existencia do Brazil a 1.500 +milhas das ilhas de Cabo Verde, tres annos depois +que um navio portuguez foi á Groenlandia, e +apenas dois annos antes daquelle em que o navegante +portuguez Diogo de Teive chegou á latitude +<span class='pagenum'><a name="Page_38" id="Page_38">[Pg 38]</a></span>da Terra do Lavrador, terra americana que João +Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos ainda +descobriram e della tomaram posse em 1492, mezes +antes de Colombo chegar pela primeira vez +ás Antilhas.</p> + +<p>Filho de uma familia de operarios, era Colombo +um tecelão, que apenas apprendera a ler +e a escrever e que, até aos 23 annos de edade, se +conservara sem fazer estudos universitarios, sem +seguir a carreira maritima, sem nada saber de +cosmographia nem de pilotagem. Indo para Savone, +em 1470, ahi estabeleceu uma taverna e ahi se +conservou durante dois annos. Não lhe sorrindo +a fortuna como taverneiro, foi, em 1473, para +Portugal, e fixou-se na ilha da Madeira, onde abriu +uma casa de pasto, e onde casou com uma rapariga +portugueza, filha de um tal Bartholomeu Perestrello, +mareante, já então fallecido. Na Madeira +nasceu-lhe o primeiro filho e na Madeira começou +elle a apprender nautica nos documentos, instrumentos +e mappas de Perestrello, que a sogra lhe +forneceu. Mais tarde, ficou sabedor da exacta situação +das Antilhas pelos papeis de Affonso Sanches<a name="FNanchor_1_1" id="FNanchor_1_1"></a><a href="#Footnote_1_1" class="fnanchor">[1]</a>, +que as descobriu, que em sua casa de pasto se +hospedou e que ahi falleceu. Creio que ainda +existe na Madeira essa casa que Colombo habitou. +É Bartholomeu de las Casas, o amigo e compa<span class='pagenum'><a name="Page_39" id="Page_39">[Pg 39]</a></span>nheiro +de Colombo numa das suas viagens, quem, +na sua <i>Historia das Indias</i>, nos dá conta desse +episodio da vida do genovez em Portugal. Referindo-se +aos objectos de Perestrello, que a sogra +dera a Colombo, diz: «eram instrumentos e escriptos +e pinturas (cartas e mappas), convenientes +á navegação, os quaes deu a sogra ao dito Colombo, +que com a vista delles muito se alegrou.» +E accrescenta: «<i>com estes se crê haver sido instigada +a sua natural inclinação</i>.»</p> + +<div class="footnote"><p><a name="Footnote_1_1" id="Footnote_1_1"></a><a href="#FNanchor_1_1"><span class="label">[1]</span></a> Affonso Sanches descobriu as Antilhas de 1473 +a 1484.</p></div> + +<p>Quando Colombo chegou a Portugal já ahi +eram conhecidas as cartas hydrographicas planas +inventadas pelo infante d. Henrique, e foi durante +a sua permanencia no reino que o portuguez +Fernando construiu a primeira bussola completa +com a rosa dos ventos e que a junta dos cosmographos +do rei aperfeiçou o astrolabio, assim como +as taboas astronomicas applicadas á navegação.</p> + +<p>Vivendo no meio de uma grande familia de +navegadores, sabios, como o testemunhou mais +tarde o sabio dr. Montaro, de Nuremberg, conhecedor +das viagens e descobertas dos portuguezes, +é natural que Colombo, instigado pela mulher +e pela sogra, fascinado pelos instrumentos e documentos +que recebeu e por outros que manuseou +e consultou depois, estimulado pelas audacias +felizes dos mareantes lusos, quizesse tentar +fortuna pelo mar e procurasse obter a pratica da +navegação que de todo lhe faltava. Para isso con<span class='pagenum'><a name="Page_40" id="Page_40">[Pg 40]</a></span>seguir, +embarcou em navios portuguezes e com +pilotos portuguezes apprendeu a navegar.</p> + +<p>É ainda Las Casas quem nol-o affirma, quando +diz, na sua já citada <i>Historia das Indias</i>: «resolveu +ter por experiencia o que então do mundo +pela de Ethiopia se andava e praticava pelo mar +e assim navegou algumas vezes aquelle caminho +em companhia de portuguezes, como pessoa já +residente e quasi natural de Portugal.»</p> + +<p>Foi, portanto, em Portugal que Colombo apprendeu +a navegar e foi ainda em Portugal que teve +conhecimento exacto de terras ao occidente, terras +que, obcecado pelas theorias de Toscanelli, +Marco Polo e outros geographos e cosmographos +antigos, elle suppoz sempre que fossem asiaticas.</p> + +<p>Foi então, depois de adquirida esta instrucção +theorica e pratica, ministrada pelos portuguezes, +que o genovez affagou a idéa de descobrir o caminho +da India pelo occidente, indo á terra onde +já havia chegado Affonso Sanches.</p> + +<p>Para conseguir os seus fins, procurou desde +logo fazer relações com d. João II, rei de Portugal, +o qual, longe de esconder delle as provas +que possuia da existencia de terras ao occidente +e ao sul, lh'as mostrou, como o proprio Colombo +confessa, indicando-lhe nos mappas a situação da +Terra Nova ou de João Vaz e a do Brazil ou Terra +dos Papagaios.</p> + +<p>Ora, aconteceu, segundo informa Las Casas, que +um dia, «soprando fortes ventos do poente, o mar +<span class='pagenum'><a name="Page_41" id="Page_41">[Pg 41]</a></span>trouxe ás costas das ilhas do Fayal e da Graciosa +alguns troncos de pinheiros e ás da ilha das Flores +dois cadaveres de caras mui largas e de feições differentes +das dos christãos.»</p> + +<p>Guiado por estes indicios, e tendo conhecimento, +como ainda informa Las Casas, da viagem do navio +portuense que em 1447 tinha ido á Groelandia, da +ida de Diogo de Teive em 1452 á latitude da Terra +do Lavrador, das viagens de Vicente Dias, de Antonio +Teive e de Affonso Sanches, de 1473 a 1484, +da concessão a Fernão Domingues do Arco, em 1484, +e das viagens de João Vaz Côrte Real e seus filhos, +começadas em 1472, resolveu Colombo, certo da +existencia de terras ao occidente, procurar um principe +christão que o ajudasse e protegesse na empresa +do descobrimento da India pelo poente.</p> + +<p>Foi então a Castella offerecer os seus serviços +á corôa hespanhola.</p> + +<p>Diz Las Casas que, guiado pelas informações +que possuia, «<i>Colombo tinha a certeza que havia +de descobrir terras e gentes nellas, como si nellas +pessoalmente tivesse estado</i>.»</p> + +<p>E foi isso, provavelmente, o que Colombo, +munido de copias dos mappas que viu em Portugal, +e conhecedor das viagens e das doações +alli feitas, affirmou aos reis de Castella, assegurando-lhes, +não que ia achar ou descobrir, mas +tomar posse para a Hespanha de terras anteriormente +descobertas pelos portuguezes, dessas Anti<span class='pagenum'><a name="Page_42" id="Page_42">[Pg 42]</a></span>lhas +que Affonso Sanches descobrira, cuja situação +os seus mappas e papeis lhe revelaram.</p> + +<p>Tal offerta elle não podia fazel-a ao rei de +Portugal, porque tinha a certeza de que seria +recusada. Que poderia elle offerecer á corôa +portugueza, que esta já não conhecesse?</p> + +<p>Accresce que, achando-se individado e sendo +perseguido pelos credores, elle sentia necessidade +urgente de sahir de Portugal e procurar no estrangeiro +os meios de solver os seus compromissos.</p> + +<p>Eis ahi as razões pelas quaes deixou Portugal +e foi á Hespanha, não no nobre intuito de descobrir +terras e de praticar feitos que lhe dessem +renome, mas no de ganhar dinheiro.</p> + +<p>Os que, como Humbolt, affirmam que Colombo +foi, <i>por inveja</i>, maltratado em Portugal e, +por isso, de lá sahiu, fugindo, faltam á verdade.</p> + +<p>Inveja de que? Que feitos, que emprehendimentos, +que descobertas havia elle feito, quando +deixou o reino portuguez, onde tudo foi apprender, +para que delle alli tivessem inveja? +Inveja poderia elle ter, e certamente tinha, daquelles +que, arriscando a vida e a fortuna, já +haviam dilatado o mundo, quando elle nada tinha +feito até então.</p> + +<p>Mas, é elle proprio quem desmente os que affirmam +que foi a inveja que o fez sahir de Portugal, +quando, em uma carta ao rei de Castella, +diz: «fui aportar a Portugal cujo rei entendia de +<span class='pagenum'><a name="Page_43" id="Page_43">[Pg 43]</a></span>descobrimentos mais do que nenhum outro.» E, +em outra carta, accrescenta: «o grande coração +dos principes de Portugal que ha tanto tempo +proseguem na empresa de Guiné e tambem na +de Africa onde gastaram metade da gente do +reino...»</p> + +<p>Não teria elle feito taes elogios aos reis portuguezes +se, <i>por inveja</i>, tivesse sido maltratado em +Portugal. Que a causa principal da sua precipitada +sahida de Portugal foram as dividas, +deprehende-se claramente dos seguintes trechos da +amistosa e protectora carta que d. João II, em +1488, lhe dirigiu: «E porque por ventura tereis +algum receio das nossas justiças <i>por razão de +algumas cousas a que sejaes obrigado</i>, nós por esta +carta vos asseguramos pela vinda, estada e tornada, +que não sejaes preso, retido, accusado, citado +nem demandado por nenhuma cousa ou seja +civil ou criminal de qualquer penalidade. E por +ella mesmo mandamos as nossas justiças que a +cumpram assim.»</p> + +<p>Eis ahi como cáe por terra a invencionice da +inveja e como fica patente que as dividas foram a +causa principal da fuga do genovez.</p> + +<p>Munido dessa generosa carta de D. João II, +que é um salvo conducto, Colombo volta a Portugal +e vae então offerecer ao rei os seus serviços +na empresa dos descobrimentos e o rei os acceita, +não para aproveitar-se delles, mas para reter +Colombo junto a si, evitando que, por meio delle, +<span class='pagenum'><a name="Page_44" id="Page_44">[Pg 44]</a></span>Castella se apropriasse de terras que a Portugal +já pertenciam.</p> + +<p>Mas, o astuto genovez, nem pelo facto de +ficar ao serviço do rei de Portugal, deixa de conservar-se +ao serviço da Hespanha de cujo thesouro +havia recebido 14.000 maravedis<a name="FNanchor_2_2" id="FNanchor_2_2"></a><a href="#Footnote_2_2" class="fnanchor">[2]</a> em +1487, mais 3.000 pouco depois e ainda 3.000 +em junho de 1488, isto é, mezes depois de receber +a carta de d. João II que lhe dava o salvo +conducto para voltar ao reino!!...</p> + +<div class="footnote"><p><a name="Footnote_2_2" id="Footnote_2_2"></a><a href="#FNanchor_2_2"><span class="label">[2]</span></a> O maravedi valia cerca de 25 réis fortes.</p></div> + +<p>Eis ahi patente a dualidade ambiciosa de Colombo, +que fica ao serviço de Portugal e ao da +Hespanha, simultaneamente, explorando a ambos +sem escrupulos!...</p> + +<p>Essa dualidade elle a revelou ainda no proprio +nome, pois assignava-se <i>Colon</i> na Hespanha e +<i>Colombo</i> na Italia e em Portugal!!!...</p> + +<p>Ao fim de quatro annos dessa dupla exploração, +consegue Colombo assignar um tratado +com a corôa de Hespanha, obtendo della as +tres caravelas de que carecia para ir á India +pelo occidente e <i>achar</i> terras que já tinham +sido achadas pelos navegantes portuguezes. Por +esse tratado, elle obteve as seguintes vantagens: +«o grau de cavalleiro da espada dourada, os +cargos de almirante mór do mar oceano, de +vice-rei e governador perpetuo das terras que +descobrisse, a decima de todas as rendas, e o +<span class='pagenum'><a name="Page_45" id="Page_45">[Pg 45]</a></span>direito de poder concorrer com o oitavo das +despesas de todas as frotas, recebendo o oitavo +dos lucros.»</p> + +<p>Que contraste resalta do procedimento deste +aventureiro com o dos navegantes portuguezes +que, antes delle, haviam ido á America,—como +os Corte Reaes, Fernão Dulmo e Lavrador—que +armavam as caravelas á sua custa, que, +nisso consumiam as suas fortunas e se individavam, +vindo, ao depois, offerecer ao seu rei e +ao seu paiz as terras achadas, sem pedir favor +nem retribuição alguma!</p> + +<p>Havia no tratado entre Colombo e os reis de +Castella uma clausula pela qual fora estipulado +que 10.000 maravedis seriam dados pela corôa e +de alviçaras ao marinheiro da frota columbina +que primeiro avistasse e annunciasse terra ao +commandante. Esse marinheiro foi Rodrigo de +Triana. Mas quando elle, do cesto da gavea, +enthusiasmado apontou para o horizonte onde +apparecia o relevo da terra desejada e, alegremente, +a annunciou a Colombo, este declarou +logo que, na noite anterior, já havia visto uma +<i>luz</i> e, estabelecendo com essa <i>luz</i> a prioridade, +apossou-se da gratificação que ao seu subordinado +competia!</p> + +<p>Os que pela rama estudaram a vida deste +aventureiro audaz exaltam a sua caridade christã, +esquecendo: que, na sua primeira viagem ás Antilhas, +nem padre elle levou na frota para cha<span class='pagenum'><a name="Page_46" id="Page_46">[Pg 46]</a></span>mar +o gentio ao gremio da egreja; que, ao chegar +ao golfo de Samaná, fez logo correr sangue, +atacando os indigenas nús e quasi desarmados; +que, não podendo enviar aos reis de Castella as +promettidas e almejadas riquezas em especiarias, +pedras e metaes preciosos, mandou navios carregados +de escravos para serem vendidos e com o +preço obtido pagar-se a despesa da viagem; que, +de 1493 a 1496, governando a Hespaniola, que é +o Haiti de hoje, exterminou barbaramente a terça +parte da população; que, quando mandou Pedro +Margarite reconhecer a ilha de Cuba, deu-lhe +ordem para mutilar os indigenas que lá encontrasse; +que, finalmente, quando ordenou a Hojeda +(um dos pretensos descobridores do Brazil) que +fosse prender o cacique Cahonaboa, deu-lhe instrucções +para que o fizesse á traição, attrahindo-o +com presentes, illudindo-o com fingida amizade e +apoderando-se delle em seguida!!...</p> + +<p>Eis ahi o quilate da caridade christã de Colombo.</p> + +<p>Parece que a cavalheiresca Hespanha, a despeito +de Colombo a ter enriquecido, sempre suspeitou +desse <i>descobridor</i>, que a seu soldo trazia, +pois, logo após a sua segunda viagem á America, +perseguiu-o tenazmente, submettendo-o a um tribunal +e, quando elle regressou da terceira, após dois +mezes de prisão em calabouço, mandou que viesse +a bordo preso a uma grilheta, como se fosse um +bandido!</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_47" id="Page_47">[Pg 47]</a></span>Morto em 1506, ignorando sempre que a terra +que alcançara para a Hespanha era a America, +pois viveu sempre convicto de que era a Asia, +nem depois de morto conseguiu descansar, pois +os seus ossos andaram em viagens continuas de +Valladolid, onde primeiro foi sepultado, para Sevilha, +depois para o Haiti, depois para Cuba +e, finalmente, de Cuba, de novo, para a Hespanha, +onde actualmente param.</p> + +<p>E sendo genovez, a Italia, que aliás lhe ergueu +uma estatua, não reclamou jamais as suas +atormentadas cinzas, talvez por desconfiar da authenticidade +desse pretenso filho cuja nacionalidade +é ainda hoje discutida.<a name="FNanchor_3_3" id="FNanchor_3_3"></a><a href="#Footnote_3_3" class="fnanchor">[3]</a></p> + +<div class="footnote"><p><a name="Footnote_3_3" id="Footnote_3_3"></a><a href="#FNanchor_3_3"><span class="label">[3]</span></a> Vide <i>Nota A</i> no fim da conferencia.</p></div> + +<p>Eis ahi senhores, quem foi Colombo, e como +foi que elle deu á Hespanha terras dessa America +que os portuguezes haviam descoberto.</p> + +<p>Conhecidos os factos que venho de narrar, +posso dizer agora, sem receio de contestação séria, +que Colombo não descobriu a America, porque, +15 annos, pelo menos, antes delle nascer, já a +America havia sido descoberta pelos navegantes +lusos do primeiro terço do seculo XV.</p> + +<p>Como nota elucidativa e de importancia historica, +cumpre-me accrescentar que, quando Colombo +regressou da sua primeira viagem ás Antilhas +e communicou a sua descoberta ao rei de +Portugal, d. João II, logo este monarcha protestou +<span class='pagenum'><a name="Page_48" id="Page_48">[Pg 48]</a></span>energicamente, dizendo-lhe: «Que aquella conquista +lhe pertencia e que suas eram as terras +aonde elle chegára.»</p> + +<p>A este protesto do rei portuguez, respondeu +Colombo hypocritamente, «que o não sabia e que +os reis de Castella apenas lhe haviam ordenado +que não fosse á Guiné nem á Mina.»</p> + +<p>Ao que retrucou d. João II: «Que tinha a +certeza que nisso não haveria mistér de terceiros».</p> + +<p>Este dialogo, extrahido do diario da primeira +viagem de Colombo, por elle proprio escripto, +mostra que o usurpador da gloria alheia esquivava-se +á responsabilidade directa do delicto por +elle commettido, sciente e conscientemente, e que +atirava essa responsabilidade para os hombros +dos reis de Castella, como se fossem estes que +tivessem ido ás Antilhas ou que o tivessem induzido +a ir até lá!...</p> + +<p>Mas, deixemos Colombo e vejamos agora +como foi descoberta esta parte do continente +americano que se chama o Brazil.</p> + +<p>Desde o começo desta conferencia, vos disse +que não foi Pedro Alvares Cabral quem descobriu +o Brazil, pois o Brazil já estava designado e marcado +nos mappas que a corôa portugueza possuia +desde 1436, fixando André Bianco, desde 1448, +a sua distancia das ilhas de Cabo Verde em 1500 +milhas.</p> + +<p>Nesse mappa de 1448, que André Bianco +traçou em Londres, <i>depois de haver passado por +<span class='pagenum'><a name="Page_49" id="Page_49">[Pg 49]</a></span>Portugal</i>, estava o Brazil representado ao sul das +ilhas dos Hermanos do archipelago de Cabo +Verde, ilhas que têm hoje a denominação de +Brava e do Fogo. Na parte referente ao Brazil +e correspondente ao Cabo de S. Roque, havia no +mappa esta legenda: <i>Ixola otincticha xe longa a +ponente 1500 mia</i>, cuja traducção é esta: «Ilha +authentica (ou Antilia) 1500 milhas ao poente.»</p> + +<p>Ora, o cabo de S. Roque, como todos sabem, +dista exactamente 1520 milhas das ilhas de Cabo +Verde.</p> + +<p>Estes dois documentos bastam para deixar +patente que, quando, em 1500, Pedro Alvares +Cabral aportou a Porto Seguro da costa brazileira, +fazia, no minimo, 65 annos que essa parte da +America tinha sido descoberta.</p> + +<p>Foram ainda navegantes portuguezes que a +descobriram e até o testamento de João Ramalho, +escripto nas notas do tabellião Lourenço +Vaz, na villa de S. Paulo, em 3 de maio de +1580, segundo o testemunho do frei Gaspar da +Madre de Deus, que delle teve uma copia, o +prova, pois, ahi, Ramalho, na presença do dito +tabellião, do juiz ordinario Pedro Dias e de +quatro testemunhas, declarou que estava no Brazil +ha 90 annos, isto é, desde 1490, dois annos antes +da ida de Colombo ás Antilhas e dez annos antes +da chegada de Cabral a Porto Seguro.</p> + +<p>Prova-o ainda o tratado de Tordesillas, assignado +em 1494 entre Portugal e a Hespanha, o +<span class='pagenum'><a name="Page_50" id="Page_50">[Pg 50]</a></span>qual, marcando para limites entre os dois reinos +uma linha divisoria, do polo artico ao antarctico, +distante 370 leguas das ilhas de Cabo Verde, +abrangia na parte portugueza o Brazil, cujos limites +foram traçados por esse meridiano.</p> + +<p>O mappa de Cantino, de 1502, regista essa +linha divisoria e inclue, de accordo com o tratado, +na parte portugueza, não só o Brazil como +a Terra Nova ou de João Vaz e a Groelandia, +assignalando tudo o que ficava á direita da linha +divisoria com a bandeira portugueza e a parte +á esquerda com a de Castella, com a seguinte +legenda:—«Este é o marco dantre Castella e +Portugal.»</p> + +<p>O açoriano Fructuoso, tratando de João Vaz +Côrte Real, diz que elle «descobriu algumas partes +do Poente e do Brazil», devendo, portanto, esta +ultima descoberta ser anterior a 1500, pois João +Vaz falleceu em 1496.</p> + +<p>Por um manuscripto de frei Diogo das Chagas, +citado por Drumond nos seus <i>Annaes da Ilha +Terceira</i>, sabe-se que, antes de 1496, tambem +o navegante João Coelho veio ao Brazil.</p> + +<p>Em 1514, Estevam Fróes confirma este asserto, +numa carta ao rei de Portugal, na qual lhe +diz: «alegravamos que vossa alteza possuia esta +terra ha vinte annos e mais (portanto, desde +antes de 1494), e que já João Coelho... viera +ter por onde nós outros vinhamos a descobrir +<span class='pagenum'><a name="Page_51" id="Page_51">[Pg 51]</a></span>e que vossa alteza estava em posse destas terras +por muitos tempos.»</p> + +<p>O proprio Vasco da Gama, na sua primeira +viagem á India, em 1497, passou proximo do +Brazil, tendo signaes de terra em 22 de agosto, +isto é, 19 dias depois que sahiu de Cabo Verde, +como se verifica no Roteiro dessa sua viagem.</p> + +<p>No seu <i>Esmeraldo de situ orbis</i> refere Duarte +Pacheco, o celebre cosmographo, <i>que em 1498 estivera +no Brazil</i>, provavelmente, como suppõe plausivelmente +o sr. Faustino da Fonseca, no intuito de +verificar, por ordem da corôa portugueza, os +limites determinados pela linha divisoria do tratado +de Tordesillas.</p> + +<p>Mestre João, physico mór de d. Manoel, e +cosmographo da frota de Cabral, que na sua +interessante carta ao rei, escripta de Porto Seguro, +regista o Cruzeiro do Sul e marca para o +Brazil a latitude de 17 graus, diz, entre outras +cousas interessantes, referindo-se á terra brazileira, +que a terra onde chegara, <i>já se achava traçada +no mappa-mundi de Pedro Vaz da Cunha Bisagudo</i>, +affirmando-o categoricamente na seguinte passagem +da carta: «quanto, senhor, ao sitio desta terra, +mande vossa alteza trazer um mappa-mundi, que +tem Pedro Vaz Bisagudo, e por ahi poderá ver +vossa alteza o sitio desta terra, ainda que aquelle +mappa-mundi não certifica si esta terra é habitada +ou não: é mappa-mundi antigo e ahi achará +vossa alteza escripta tambem a Mina...»</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_52" id="Page_52">[Pg 52]</a></span>Portanto, o proprio cosmographo da frota de +Cabral sabia, desde antes da viagem de 1500, +que havia terra nesse rumo de sudoeste que a +frota cabralina seguiu, como o sabia tambem +Duarte Pacheco, o qual já nessa terra tinha +estado em 1498.</p> + +<p>Tudo isto vem provar que, se Cabral não +descobriu o Brazil, tambem o não descobriram +os pretensos descobridores Vicente Yanez Pinzon, +Diogo de Lepe e Alonso Hojeda, aventureiros, +que só chegaram á costa americana em 1499, +não podendo tomar posse da terra brazileira +porque o tratado de Tordesillas de 1494 não +consentia em tal. As proprias instrucções que +o rei de Castella lhes deu em 1499, determinavam +«que não tocassem nas terras de Portugal».</p> + +<p>Elles estiveram, de facto, em terras do Brazil, +antes de Cabral, mas a descoberta dessas terras +não lhes pertence.</p> + +<p>Não foram, pois, Cabral, nem Pinzon, nem +Lepe, nem Hojeda, os descobridores do Brazil, +podendo-se, porém, assegurar que essa gloria +cabe incontestavelmente a navegantes portuguezes +do seculo XV, embora seja difficil determinar +qual foi desses intrepidos argonautas o primeiro +que pisou o solo brazileiro.</p> + +<p>Á vista das cartas e portulanos de André +Bianco, de 1436 e de 1448, pode-se affirmar +que essa descoberta foi feita, como já disse, +em 1435, ou antes.</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_53" id="Page_53">[Pg 53]</a></span>Vejamos, agora, como Cabral aportou a esta +terra e della tomou posse official para a corôa +de Portugal.</p> + +<p>O fim ostensivo, o fim apparente da expedição +de Cabral era ir á India. O fim real, +o fim verdadeiro era ir, primeiro, ao Brazil, +delle tomar posse official, e, em seguida, fazer +rumo para o Cabo da Boa Esperança, em demanda +da India.</p> + +<p>Como já referi, a corôa portugueza, anteriormente +á viagem de Cabral, havia enviado +ao Brazil Duarte Pacheco, eminente cosmographo, +que tambem veio na frota cabralina. O +autor do <i>Esmeraldo de situ orbis</i> aqui estivera, +pois, em 1498, para verificar os limites da linha +divisoria do tratado de Tordesillas, que, na parte +portugueza, abrangia as terras dos Corte Reaes, +a Groelandia e o Brazil, mas deste não havia +tomado posse official.</p> + +<p>Tornava-se, pois, indispensavel a Portugal +reconhecer e tomar posse, sem demora, dessa +terra e, assim, guiando-se pelas informações +de Duarte Pacheco e do proprio Vasco da +Gama, bem como pelas de outros seus navegantes, +que haviam aportado á Terra dos Papagaios, +aproveitava a expedição á India para, +de passagem, tomar posse official do Brazil. +O Brasil era, portanto, um ponto de escala da +viagem de Cabral á India, mas um ponto de +escala forçado e já conhecido, pois sabia tam<span class='pagenum'><a name="Page_54" id="Page_54">[Pg 54]</a></span>bem +a corôa portugueza, pelos mappas e portulanos +de Bianco, que essa «Ilha authentica +ou Antilia» ficava a 1500 milhas de distancia +das ilhas Brava e do Fogo, do archipelago +de Cabo Verde.</p> + +<p>Era a frota de Cabral composta de 13 naus, +uma das quaes com mantimentos, e nellas embarcaram +1.200 homens, entre os quaes o capitão-mór +Pedro Alvares Cabral, que commandava +a nau capitanea, os capitães das outras naus +Sancho de Toar, Simão de Miranda de Azevedo, +Ayres Gomes da Silva, Nicolau Coelho, Bartholomeu +Dias (o descobridor do Cabo da Boa +Esperança), Diogo Dias, Gaspar de Lemos, +Luiz Pires, Simão de Pina, Pedro de Atayde +Inferno, Vasco de Atayde e Nuno Leitão da +Cunha.</p> + +<p>Iam tambem na frota: Duarte Pacheco, autor +do <i>Esmeraldo de situ orbis</i>, Mestre João, physico +mór do rei, que ia como cosmographo, o escrivão +Pero Vaz Caminha, diversos frades, entre os quaes +frei Henrique de Coimbra, os pilotos Affonso +Lopes, Pedro Escolar e outros que Vasco da +Gama trouxera da India, diversos indios, um +grumete negro da Guiné, alguns interpretes e +varios degredados.</p> + +<p>Iam os navios de Cabral apparelhados e +munidos do necessario para anno e meio de +viagem, bem providos de artilheria, de munições +de bocca, de armas brancas, como espadas +<span class='pagenum'><a name="Page_55" id="Page_55">[Pg 55]</a></span>e lanças, e, em cada nau, havia uma botica. +Para o commercio, levavam as caravelas, velludos, +setins, damascos, pannos de lã, coral, +cobre, vermelhão, mercurio e ambar. Além +disso, levavam os padres comsigo um orgão e +alfaias de prata.</p> + +<p>Era, evidentemente, a maior, a melhor apparelhada +e a mais garrida frota que partia da +Europa.</p> + +<p>Em 15 de fevereiro de 1500 recebeu Cabral +a carta de capitão mór e dos poderes de que +ia revestido. Com essa carta foi-lhe dado o regimento +pelo qual se devia guiar na viagem e, +nesse regimento, que, na parte relativa ao rumo, +fôra organizado por Vasco da Gama, estava +traçada a rota que devia seguir.</p> + +<p>Nesse documento minucioso, recommendava-se +ao capitão mór que «se afastasse da costa da Africa +para encurtar a via e que, ao partir da ilha de Santiago +em Cabo Verde, deviam os navios fazer o seu +caminho pelo sul, <i>bordejando pelas bandas do sudoeste</i>... +e, depois, na volta do mar, até metterem o +Cabo da Boa Esperança, em leste franco.»</p> + +<p>O regimento não fala claramente em aportar á +Terra dos Papagaios, mas estipula que, ao deixar +Cabo Verde, «fáça a frota caminho pelo sul, bordejando +pelas bandas de sudoeste» e sendo a missão +secreta de Cabral tomar posse official dessa terra e +devendo elle de ter necessidade de arribar a uma +terra qualquer, antes da chegada ao Cabo ou á +<span class='pagenum'><a name="Page_56" id="Page_56">[Pg 56]</a></span>India, para abastecer a frota de agua e lenha e dar +descanso á marinhagem, a terra do Brazil estava +naturalmente indicada para tal fim. Accresce que, +na frota, ia Duarte Pacheco que, tendo já estado no +Brazil, saberia guiar Cabral com segurança a esse +ponto de escala forçada da gran viagem, de antemão +indicada pelo Gama.</p> + +<p>A rota traçada nas linhas e entrelinhas do regimento +era, pois: seguir a frota de Lisboa á ilha de +Santiago, de Cabo Verde, dahi seguir pelo sul, bordejando +pelo sudoeste, até alcançar a costa da Terra +dos Papagaios, dahi zarpar para o Cabo, dobral-o e +seguir para a India.</p> + +<p>Esse rumo inda é o mesmo que hoje seguem +os navios que vêm de Lisboa ao Brazil. Prompta a +frota de Cabral, partiu ella do Tejo aos 9 de março +de 1500, acompanhando-a o rei d. Manuel até fora +da barra. Cinco dias depois, a 14 de março, passa +a frota pelas Canarias onde encontra calmaria e +onde permanece um dia; a 22, chega a Cabo Verde +e, exactamente um mez depois, a 22 de abril, avista +a terra brazileira, gastando, de Lisboa a Porto Seguro, +43 dias.<a name="FNanchor_4_4" id="FNanchor_4_4"></a><a href="#Footnote_4_4" class="fnanchor">[4]</a></p> + +<div class="footnote"><p><a name="Footnote_4_4" id="Footnote_4_4"></a><a href="#FNanchor_4_4"><span class="label">[4]</span></a> Vide <i>Nota C</i> no fim da Conferencia</p></div> + +<p>Dos historiadores que consultei, e não poucos +foram, sobre a viagem de Cabral ao Brazil, attribuem +uns ao <i>acaso</i> esse feito, dizem outros que a +frota fôra impellida para a nossa costa por um +<i>forte temporal</i>, que a apanhou.</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_57" id="Page_57">[Pg 57]</a></span>Nenhum delles porém, explica em que altura a +frota foi apanhada pelo temporal nem quanto tempo +este durou.</p> + +<p>Ora, contra esse <i>forte temporal</i> protestam energicamente +os dois melhores documentos que possuimos +da viagem de Cabral: as cartas que Mestre +João, o cosmographo da frota, e Vaz Caminha, o +escrivão, enviaram ao rei d. Manuel, de Porto Seguro, +pela nau que dahi partiu a 1.º de maio, de +regresso a Lisboa, para dar conta do feito ao monarcha.</p> + +<p>Nem o cosmographo nem Caminha falam de +tal temporal, pelo contrario, o que dizem é que, +durante a viagem, houve calmaria e que por causa +della perdeu a frota um dia em frente ás Canarias. +Temporal soffreu a frota, mas depois que deixou o +Brazil e se fez vella para o Cabo, onde falleceu o +seu descobridor Bartholomeu Dias.</p> + +<p>Não houve, pois, temporal na travessia até ao +Brazil, nem o acaso interveio na chegada da frota +cabralina a esta terra. O rumo a seguir tinha-lhe +sido traçado; além disso, já nessa época tinham +os portuguezes perfeito conhecimento das correntes +maritimas e dos ventos geraes e sabiam aproveital-os +de accôrdo com as rotas a seguir. O duplo fim de +Cabral, tomando o rumo seguido e aportando ao +Brazil, éra, como já o disse, abastecer-se de lenha e +agua, dando descanso á marinhagem e tomar posse +official da Terra dos Papagaios para a corôa portugueza.</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_58" id="Page_58">[Pg 58]</a></span>O <i>acaso</i> e o <i>temporal</i> têm, portanto, de ser banidos +dos livros que se occupam do descobrimento +da terra de Vera Cruz.</p> + +<p>O primeiro e grande historiador que o Brazil +teve, ainda hoje o mais sincero e veridico, é Pero +Vaz Caminha, o modesto escrivão, que narrou ao +rei d. Manoel, numa commovente e encantadora +carta, onde a minucia corre parelhas com a simplicidade, +a historia da travessia, da chegada e da +permanencia de Cabral na terra brazileira.</p> + +<p>Nessa longa missiva, escripta de Porto Seguro e +datada de 1.º de maio de 1500, o consciencioso +historiador dá conta ao seu rei e senhor de +todas as peripecias da viagem, desde a partida +de Lisboa até ao Brazil e ainda de tudo o que +se passou durante os 12 dias em que a frota +ficou ancorada em frente á costa brazileira. Persuadido +de que o que mais interessaria a D. +Manuel era o conhecimento exacto da terra reconhecida, +da gente que a habitava, dos seus +costumes e indole, das riquezas que possuia e +da facilidade que poderia offerecer á colonização, +não poupou minucias para pôr o rei ao +corrente do que vira e do que lhe poderia ser +proveitoso.</p> + +<p>É assim que elle descreveu com enthusiasmo +e cores vivas o esplendor da natureza brazileira, +a frescura, abundancia e potabilidade das +nossas aguas, a brandura do clima, a belleza +do nosso céo, onde rutilava o cruzeiro, refe<span class='pagenum'><a name="Page_59" id="Page_59">[Pg 59]</a></span>rindo-se +com interesse e insistencia á indole pacifica +dos nossos indigenas, aos seus habitos e +costumes, á belleza das suas formas, á sua completa +innocencia, deprehendida da sua completa +nudez, e á facilidade com que acceitavam a cathechese, +parecendo-lhe empresa de pequeno esforço +fazel-os christãos, chamando-os ao gremio +da egreja. Tratando dos productos naturaes, descreveu +a fauna e a flora que encontrou, accentuando +que os incolas, haviam dado demonstrações +evidentes aos da frota de que em terra +havia ouro, prata e papagaios.</p> + +<p>Descrevendo o que fizeram os indigenas, que +acudiram á praia, quando das naus partiram +as primeiras almadias para o transporte de agua, +diz que «os indios logo trouxeram cabaças e +tomavam alguns barris que nós levavamos, enchiam-os +de agua e traziam-os aos bateis».</p> + +<p>Este trecho da carta de Caminha prova que +a frota cabralina começou logo por fazer aguada +e prova tambem que os indigenas vinham offerecer +agua aos homens brancos, como se já +estivessem habituados a praticar esse serviço, repetindo +actos praticados anteriormente; o que +demonstra que não era a primeira vez que viam +homens brancos e naus.</p> + +<p>A facilidade com que alguns dos naturaes +se deixaram capturar e levar a bordo da nau +capitanea, alli permanecendo e dormindo tranquilamente +durante uma noite, como narra +<span class='pagenum'><a name="Page_60" id="Page_60">[Pg 60]</a></span>Caminha, prova ainda que os nossos indigenas +já estavam familiarizados com os europeus, que +já os conheciam, que conheciam os seus habitos +e costumes, que delles não tinham receio.</p> + +<p>E isso é ainda uma prova indirecta de que +os portuguezes já haviam estado no Brazil antes +de Cabral aqui chegar. E, de facto, cá estiveram, +porque já aqui estava João Ramalho, +que havia chegado 10 annos antes e que tanto +facilitou a missão de Martim Affonso, quando +este aportou á antiga capitania de S. Vicente.</p> + +<p>Ao primeiro monte que avistou deu Cabral +o nome de Monte Paschoal, á terra o nome de +Vera Cruz, porque no céo rutilava o cruzeiro, +e ao porto, onde definitivamente fundeou, o de +Porto Seguro. Chegou o domingo de paschoela, +e, narra Caminha, que o capitão mór deliberou +ouvir missa e sermão em um ilhéo de Porto +Seguro. Logo alli se armou o altar e frei Henrique +de Coimbra officiou, cercado de todos os +padres da frota. Foi essa a primeira missa, de +que temos noticia exacta e circumstanciada, dita +no Brazil, que forneceu assumpto para um dos +mais bellos e suggestivos quadros de Victor +Meirelles. Terminada a missa, frei Henrique +subiu a uma cadeira alta, que lhe serviu de +pulpito e dahi prégou, fazendo a historia do +Evangelho, descrevendo a travessia e pondo a +terra reconhecida por Cabral sob a protecção da +Cruz. Á missa e ao sermão assistiram os na<span class='pagenum'><a name="Page_61" id="Page_61">[Pg 61]</a></span>turaes +que ao ilhéo acudiram e que ao depois, +folgaram, fraternizando com os tripulantes da +frota. Na nau capitanea discutiu-se depois se +conviria tomar dois indigenas para envial-os ao +reino, ou se seria preferivel deixar entre elles +alguns degredados, sendo por grande maioria, +adoptado de preferencia este ultimo alvitre, pois +os degredados, ficando alli, apprenderiam a lingua +dos naturaes e poderiam servir de interpretes, +quando o rei mandasse nova frota ao Brazil +para o colonizar; accresce que era do plano de +Cabral, como foi mais tarde do de Martim Affonso, +não hostilizar os indigenas, não lhes incutir +desconfiança alguma, tratando-os com carinho +e brandura, sem os violentar jámais, para +assim não sahir dos preceitos da caridade christã +e tel-os sempre como alliados. Para os ir habituando +á vida com os brancos, que deviam +ficar definitivamente com elles, foram logo enviados +á praia e ahi deixados dois degredados, +que deviam passar a noite com os naturaes; +mas estes, sem os molestar, coagiram-nos a voltar +ás naus. Quando os da frota ergueram +num ponto elevado da costa, dominando o mar, +a primeira cruz, que ficou em terra brazileira +e que confirmou o nome de Vera Cruz, que Cabral +lhe havia dado, os indigenas auxiliaram depois á +abastecer as naus de lenha e de agua. E quando +a maruja beijou a cruz erguida, os indios tambem +a beijaram, pondo-se de joelhos, gestos que le<span class='pagenum'><a name="Page_62" id="Page_62">[Pg 62]</a></span>varam +Caminha a affirmar «que era gente de +tal innocencia que, se os intendessemos e elles +a nós, seriam logo christãos, porque, segundo +parece, não têm nenhuma crença». E accrescenta, +logo depois, na sua luminosa carta ao rei: «se +os degredados, que hão de ficar, aprenderem +bem a sua fala, não duvido, <i>segundo a santa +tenção de vossa alteza</i>, fazerem-se christãos e crerem +a nossa santa fé á qual praza Nosso Senhor +que os traga, porque decerto esta gente +é boa e imprimir-se-á ligeiramente nelles qualquer +cunho que lhe quizerem dar... e, portanto +v. alteza, pois tanto deseja accrescentar na santa +fé catholica, deve entender na sua salvação, e +prazerá a Deus que com pouco trabalho será +assim.»</p> + +<p>Prova este trecho de carta do escrivão da +frota que elle conhecia a tenção do rei, que +sabia que o seu intento era chamar os naturaes +das terras, por onde passasse a frota, ao +gremio da egreja e que, ao contrario do que +fizeram Colombo, Pinzon, Hojeda, Lepe e outros, +era do seu programma assegurar a posse da terra +reconhecida, conquistando os naturaes pela brandura +e carinho, incutindo-lhes a fé christã.</p> + +<p>No dia primeiro de maio de 1500, vespera da +partida de Cabral para o Cabo, nova missa foi +dita por frei Henrique de Coimbra, não mais +no ilhéu em que disséra a primeira, mas junto +<span class='pagenum'><a name="Page_63" id="Page_63">[Pg 63]</a></span>á cruz erguida em terra e á qual foi pregado o +escudo das armas de Portugal.</p> + +<p>Ainda a essa missa assistiram os indigenas, +imitando todos os gestos que viram fazer aos +portuguezes e, depois do sermão, frei Henrique +lançou ao pescoço de todos os que alli estavam, +pequenos crucifixos de metal, que elles +beijaram com satisfação e receberam com visivel +empenho.</p> + +<p>Em seguida, foram-se os mareantes para as +naus, deixando em terra dois degredados e no +dia immediato, 2 de maio, a frota fez-se de +véla para o Cabo da Boa Esperança, tendo regressado +ao reino uma das caravelas, capitaneada +por Gaspar de Lemos, para levar ao rei a noticia +do reconhecimento officialmente feito da terra do +Brazil e da sua posse para a corôa portugueza.</p> + +<p>A essa terra, que era conhecida pelo nome +de Terra dos Papagaios e que Cabral denominou +Vera Cruz, poz d. Manoel, em 1502, o +nome de Santa Cruz, que foi posteriormente +substituido pelo de Brazil, devido ao grande +commercio do pau brazil que ella produzia.</p> + +<p>Dando conta, em carta, ao rei da Hespanha +do reconhecimento do Brazil feito por Cabral, +disse d. Manoel: «o capitão deixou alli dois +degredados á mercê de Deus.» Um dos pilotos +da frota explicou depois que esses degredados +puzeram-se a chorar e que logo os naturaes os +animaram, mostrando ter piedade delles.</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_64" id="Page_64">[Pg 64]</a></span>Vaz Caminha, na sua deliciosa carta, revela, +que, além desses dois degredados, que foram +abandonados em terra, dois grumetes da frota +para ella fugiram e nella ficaram por sua livre +vontade, o que significa que a gente que a +habitava era pacifica e hospitaleira.</p> + +<p>Vem talvez dahi a herança dessa proverbial +hospitalidade brazileira, que tanto surprehende e +encanta os estrangeiros que visitam o nosso paiz.</p> + +<p>Eis, senhores, como foi descoberto o Brazil e +como Cabral, 65 annos depois do seu descobrimento, +o reconheceu e delle officialmente tomou +posse para a corôa de Portugal, á qual aliás já +pertencia pelo tratado de Tordesillas.</p> + +<p>Não coube, pois, a Cabral a grande gloria de +descobrir o Brazil, mas coube-lhe a não pequena +gloria de fazer o seu reconhecimento e delle tomar +posse para o paiz que o descobrira, realizando o +memoravel feito sem hostilizar os filhos dessas +regiões incultas, sem inflingir um ligeiro castigo, +sem despertar nelles o odio que Colombo e os +hespanhoes, que depois vieram á conquista da +America, accenderam entre os indigenas, dizimando-os, +submettendo-os a ferro e fogo, caçando-os +barbara e deshumanamente <i>com cães amestrados +na caça do homem</i>, como quem caça hyenas +e lobos!</p> + +<p>Essa imperecivel gloria coube a Cabral e basta +ella para que se justifique o preito de admiração +que lhe rendemos, sem olvidar os serviços inesti<span class='pagenum'><a name="Page_65" id="Page_65">[Pg 65]</a></span>maveis +dos seus maiores na busca e descobrimento +desta terra abençoada.</p> + +<p>Bastava a sua caridade christã para com os +filhos deste paiz para que lhe devessemos o monumento +que no Rio de Janeiro se acha erguido +em frente ao mar glauco e luminoso, perpetuando a +sua memoria immaculada e a do seu feito incruento.</p> + +<p>Com o reconhecimento do Brazil em 1500, +fechou Portugal com élo de ouro o ciclo grandioso +das suas descobertas no seculo XV com as +quaes dilatou o mundo e fez avançar a civilização.</p> + +<p>Nesse seculo de estupenda actividade maritima, +em que os lusos mareantes, guiados e instigados +pela voz prophetica do infante d. Henrique, +avançaram sem pavor pelo mar immenso e tenebroso, +que devia estar cheio de escolhos, de bruma +negra e povoado de monstros assustadores, descobriram +elles, caminhando para o desconhecido, a +ilha da Madeira, as Formigas, todas as ilhas do +archipelago dos Açores, todas as de Cabo Verde, +o mar de Sargaços, uma grande parte do Brazil, +uma parte da America Central e da America do +Norte e, caminhando de ousadia em ousadia, dobraram +o Cabo das Tormentas, descobriram e +atravessaram o estreito de Magalhães, fizeram a +primeira viagem em redor do mundo, apoderaram-se +de uma parte da Asia e de uma parte da +Africa, enchendo o mappa com conquistas suas!...</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_66" id="Page_66">[Pg 66]</a></span>E tudo isto foi feito do decurso de menos +de um seculo por um punhado de homens que +partiram, affrontando a morte, de uma insignificante +nesga de terra erguida á beira mar, no +occidente da vasta Europa!...</p> + +<p>Olhae para o mappa que vos apresento e +nelle vereis, em côr vermelha, traçada a epopéa +desses grandiosos feitos.</p> + +<p>Podeis dizer agora commigo, senhores, sem +hesitação e com ufania:—Gloria aos portuguezes, +mestres de Colombo, precursores de Colombo, +incontestaveis e unicos descobridores do +Novo Mundo!<a name="FNanchor_5_5" id="FNanchor_5_5"></a><a href="#Footnote_5_5" class="fnanchor">[5]</a></p> + +<div class="footnote"><p><a name="Footnote_5_5" id="Footnote_5_5"></a><a href="#FNanchor_5_5"><span class="label">[5]</span></a> Vide <i>Nota B</i> no fim da conferencia.</p></div> + +<hr style='width: 45%;' /> + +<p>Portuguezes que me ouvis, meus amigos e +meus irmãos; a monarchia tradicional que, por +tantos seculos, regeu os vossos destinos, começou +a dissolver-se na batalha de Alcacer Kibir, +e, combalida, ruiu de todo com a quéda e +com a fuga do ultimo Bragança, em 5 de outubro +de 1910.</p> + +<p>Depois de tanta luz offuscante, que o seculo +XV projectou da occidental praia lusitana, +veio a sombra e veio o marasmo, que vos não +deixou avançar mais.</p> + +<p>Dir-se-ia que, desde 1500 até ha pouco, vivestes +acorrentados, manietados, sem poder dar +<span class='pagenum'><a name="Page_67" id="Page_67">[Pg 67]</a></span>expansão ao vosso genio irrequieto e aventuroso, +sem poder tirar partido das conquistas +feitas com tanto sacrificio e perigo.</p> + +<p>Raiou para vós agora a aurora da liberdade +com a proclamação da Republica em vossa terra.</p> + +<p>Uma nova era, promissora e fecunda, apresenta-se, +durante a qual podeis resgatar os erros +de quatro seculos e achar as energias precisas +para conquistar o antigo esplendor.</p> + +<p>Vejo-vos, com pesar, divididos nos campos +maninhos da politica esteril, da politica dissolvente +dos partidos. Que quereis obter com a +lucta perturbadora neste momento em que a vossa +patria mais precisa de paz, de dedicações e de tino? +A reconquista de um regimen que vos amesquinhou, +que vos empobreceu, que vos fez descer +do alto da columna onde já estivestes erguidos, +dominando o universe? A reconquista de um +regimen que vos deu o jugo da Hespanha, por +60 annos, a vergonha da fuga da vossa familia +real e da sua côrte para o Brazil, e o +abandono da vossa patria á invasão estrangeira? +a reconquista de um regimen que vos +deu o vergonhoso «ultimatum» de 1890? Sois +ainda hoje os depositarios de dois legados sagrados, +que vos deixou o creador fecundo da +Escola de Sagres e o grande épico, que, em +verso estridente, cantou as vossas glorias e descortinou +ao mundo o vosso saber e as vossas +gloriosas jornadas.</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_68" id="Page_68">[Pg 68]</a></span>Que quereis fazer dessa herança, levando-a +á labareda das vossas disputas domesticas? Enfraquecer +mais a patria, desprestigial-a, deixar +que, considerada ingovernavel, vá parar ás mãos +do estrangeiro, ávido e cobiçoso, que já pensa +como repartir entre si o precioso legado do +previdente infante? Não, não! Deixae o velho +regimen sepultado nas trévas do passado, cessae +as vossas luctas fratricidas, e, unidos todos, +em blóco, trabalhae pela rehabilitação do vosso +formoso paiz, pela consolidação das suas actuaes +instituições, sendo sempre portuguezes, mais portuguezes +ainda no regimen da democracia e da liberdade, +sendo sempre os briosos descendentes de +d. Henrique, que mandou a descobrir esta formosa +terra que, em vinte annos de Republica, tem +avançado sempre e tem sabido sempre impor-se +ao respeito e á admiração das potencias.</p> + +<p>Tenho dito.</p> + + + +<hr style="width: 65%;" /><p><span class='pagenum'><a name="Page_69" id="Page_69">[Pg 69]</a></span></p> +<h2><a name="Notas_e_Noticias" id="Notas_e_Noticias"></a>Notas e Noticias</h2> + + + +<hr style="width: 65%;" /> +<p><span class='pagenum'><a name="Page_71" id="Page_71">[Pg 71]</a></span></p> +<h2><a name="NOTAS" id="NOTAS"></a>NOTAS</h2> + + +<h2>NOTA A</h2> + +<p>A revista hespanhola <i>España Moderna</i>, de Junho de +1910, consagrou um longo artigo, á nacionalidade de Colombo +e chegou á conclusão de que elle era hespanhol, +natural de Pontevedra e, portanto, gallego. Entre os +argumentos apresentados para firmar a sua asserção, cita +o facto da caravela <i>Santa Maria</i>, uma das trez da frota +com que Colombo foi ás Antilhas, ser appellidada vulgarmente +<i>La Gallega</i>.</p> + +<p>O historiador hespanhol D. Celso Garcia de la Riega, +filho de Pontevedra, sustentou a affirmação da <i>España +Moderna</i> em um longo artigo que, posteriormente, em +Janeiro de 1911, publicou no <i>Heraldo</i>, de Madrid.</p> + +<p>A Hespanha reclama, pois, para si, a gloria de ter +dado nascimento a Colombo, que ainda é lá conhecido +por Colon.</p> + +<p>Todavia, Las Casas, amigo intimo de Colombo, affirma +que este era genovez e Toscanelli, em uma das suas +cartas ao proprio Colombo, considera-o portuguez!...</p> + +<p>Eis ahi porque dissemos que a nacionalidade de +Colombo ainda hoje é discutida.</p> + + + +<hr style="width: 65%;" /><p><span class='pagenum'><a name="Page_72" id="Page_72">[Pg 72]</a></span></p> +<h2><a name="NOTA_B" id="NOTA_B"></a>NOTA B</h2> + +<p>Não se tractou nesta conferencia de Americo Vespucio +porque, a despeito de affirmarem que elle legou o seu +nome á America, della ainda foi menos descobridor do +que Colombo. Quem se lembrou de baptisar com o +nome de America a terra, que João Vaz Corte Real e +outros navegantes lusos descobriram, foi o cosmographo +francez Mathias Ringmann que, na sua <i>Cosmographiae +introductio in super quatuor Americi navigationes</i>, publicada +em 1507, em Saint-Dié, na Alsacia franceza, escreveu:<a name="FNanchor_6_6" id="FNanchor_6_6"></a><a href="#Footnote_6_6" class="fnanchor">[6]</a></p> + +<div class="footnote"><p><a name="Footnote_6_6" id="Footnote_6_6"></a><a href="#FNanchor_6_6"><span class="label">[6]</span></a> A Cosmographia de Ringmann foi publicada em Saint-Dié a +25 de Abril de 1507. Ringmann falleceu em Strasburgo em 1511. A +França, querendo perpetuar a leviandade de Ringmann, festejou este +anno o quarto anniversario da sua morte, sob o pretexto de ter sido +elle o baptizador do Novo Mundo! Eis ahi como se escreve e como +se faz a Historia!...</p></div> + +<p>«No mundo existe mais uma quarta parte que Americo +Vespucio descobriu e que, por essa razão, poderiamos +chamar America, isto é, Terra de Americo.»</p> + +<p>O alvitre de Ringmann foi aceito e á nova terra descoberta +deu-se o nome desse usurpador da gloria alheia, +que nunca passou de um cosmographo, que veio ás terras<span class='pagenum'><a name="Page_73" id="Page_73">[Pg 73]</a></span> +americanas com Hojeda, muito depois que os Corte +Reaes, Lavrador, Dulmo, Affonso Sanches e outros navegantes +lusos nellas estiveram e ainda mesmo depois de +Colombo, que já foi um retardatario.</p> + +<p>Accresce que ha quem affirme (é o erudito Snr. H. +Vart) que o nome America, dado ao Novo Mundo, provêm, +não do prenome de Vespucio, mas da denominação que +os indios de Nicaragua davam ás «terras altas» dessa +região americana de onde extrahiam o ouro que empregavam +nos seus utensilios e adornos, terras essas que +elles chamavam America, expressão equivalente a Eldorado +ou Terra do Ouro, que, primeiro, os companheiros +de Colombo e, depois, todos os outros navegadores +foram acceitando e que serviu para designar, não só as +terras altas de Nicaragua, mas todo o novo continente.</p> + +<p>A ser verdadeira a affirmação de H. Vart, o nome +America é de origem americana.</p> + + + +<hr style="width: 65%;" /><p><span class='pagenum'><a name="Page_74" id="Page_74">[Pg 74]</a></span></p> +<h2><a name="NOTA_C" id="NOTA_C"></a>NOTA C</h2> + +<p>A 6 de Maio de 1895, quando eu ainda desconhecia o +livro do Snr. Faustino da Fonseca, que só veio a lume +muitos annos depois, publiquei no <i>O Paiz</i> da Capital +Federal o seguinte artigo sobre a commemoração official +da data do pretenso descobrimento do Brazil, feito por +Pedro Alvares Cabral, em 1500:</p> + +<p>«O dia 3 de Maio é officialmente commemorado como +data anniversaria do descobrimento do Brazil. E todavia +é um erro, é um anniversario falso, porque a verdadeira +data anniversaria desse descobrimento é 22 de Abril, +pois foi a 22 de Abril de 1500, que Pedro Alvares Cabral, +em demanda das terras da India, avistou na frente da +sua frota um morro elevado da terra brazileira para o +qual mandou aproar fundeando a seis leguas de distancia.</p> + +<p>Celebrava então a igreja catholica as festas da Paschoa +e d'ahi a razão porque Cabral deu a esse morro o nome +do Monte Paschoal.</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_75" id="Page_75">[Pg 75]</a></span>Os historiadores dos seculos XVII e XVIII e notadamente +a obra de Fr. Gaspar da Madre de Deus é que, +no dizer de Pereira da Silva, induziram os estadistas +fundadores do imperio brazileiro ao erro de estabelecerem +a data de 3 de Maio como a do descobrimento. +Todavia a carta de Pero Vaz Caminha, publicada pela +Academia Real de Sciencias de Lisboa e escripta a el-rei +D. Manoel em 1.º de maio de 1500, annunciando-lhe a +descoberta e os documentos deixados pelo physico-mór +da armada de Cabral e por um piloto que fazia parte +da frota, não deixam duvida sobre o dia exacto em que +o almirante viu e mandou aproar para a terra brazileira.</p> + +<p>Basta a circumstancia de ser a carta de Pero Vaz +Caminha, que ia n'uma das treze náos da frota de Cabral +como futuro escrivão do almoxarifado que o almirante +devia fundar nas Indias, datada de 1.º de maio, para +tornar patente a impossibilidade do descobrimento a 3 +desse mez. Nessa carta, onde Vaz Caminha dá conta +do descobrimento, lê-se que elle foi effectuado a 22 de abril. +Nesse dia, que era uma quarta-feira, Cabral limitou-se a +approximar-se de terra, fundeando ás 4 horas da tarde, +em ponto em que havia 19 braças de profundidade. Só +no dia seguinte, 23 de abril, aproximou-se mais de terra +com as precisas cautelas e, ao chegar á desembocadura +de um rio, mandou que Nicoláo Coelho fosse em uma +almadia explorar as plagas que se avistavam da frota. +Partiu Coelho e vendo homens nús na praia, sem comtudo +desembarcar, atirou-lhes alguns objectos que levara +comsigo e delles recebeu outros em troca, entabolando +assim relações amistosas com os naturaes da terra.</p> + +<p>Voltou a bordo e deu conta do succedido ao almirante. +Nessa noite, porém, levantou-se forte vento do +sueste e Cabral, não se considerando seguro no ponto +em que estava, tratou de procurar um ancoradouro para +abrigo dos navios e, continuando a navegação em rumo +de norte, mas sempre á vista da costa, foi fundear de +<span class='pagenum'><a name="Page_76" id="Page_76">[Pg 76]</a></span>novo, dez leguas adiante, em uma bella enseada á qual +deu o nome de Porto Seguro. Isto passava-se n'uma +sexta-feira, 24 de abril de 1500. Essa enseada, mais tarde, +passou a denominar-se bahia Cabralia, sendo transferido +o seu primitivo nome de Porto Seguro para a povoação +que se fundou nas suas proximidades.</p> + +<p>Na enseada de Porto Seguro appareceu logo uma +piroga com indigenas e, aos poucos, a costa foi-se enchendo +de gentios, manifestando intenções pacificas. Só +no dia 25 o almirante dirigiu-se a terra. No dia 26, +que era domingo de Paschoela, foi erguido um altar em +terra e ahi celebrada a primeira missa no Brazil, acontecimento +este que Victor Meirelles celebrisou e commemorou +n'um magnifico quadro, o melhor e o mais commovente +que o seu pincel produziu.</p> + +<p>A essa missa assistiu o gentio que dansou e cantou +após a cerimonia, fraternisando com os portuguezes.</p> + +<p>Só no dia 1.º de maio é que o almirante resolveu +dar conta a D. Manoel do seu feito e nesse dia, +depois de mandar dizer segunda missa, tomou posse +official da terra e despachou para Lisboa a nao que +devia levar ao rei a noticia da nova terra descoberta, a +que elle deu o nome de Vera Cruz, mais tarde substituido +por Santa Cruz e ainda depois por Brazil.</p> + +<p>Foi nessa nao, commandada por Gaspar Lemos, que +seguiu para o reino a carta de Pero Vaz Caminha +escripta nesse mesmo dia 1.º de maio de 1500.</p> + +<p>Tal é, em resumo, a narração contida nos tres documentos +da época, aos quaes allude com interesse e perfeito +conhecimento do assumpto o conselheiro Pereira +da Silva na segunda serie dos interessantes escriptos +que denominou <i>A Historia e a Legenda</i>.</p> + +<p>Ora, se isto é assim, se hoje não pode restar mais +duvida a ninguem, em presença desses documentos do +seculo XVI, que determinam com perfeita exactidão a +data da chegada de Cabral ao Brazil, por que havemos de +<span class='pagenum'><a name="Page_77" id="Page_77">[Pg 77]</a></span>conservar officialmente um anniversario falso, que, se +ao tempo em que foi decretado pelos estadistas fundadores +do imperio, se justificava pela ignorancia em que +viviam desses documentos, não se justifica nem se explica +mais hoje, que estão publicados e ao alcance de +toda a gente?</p> + +<p>É que os estadistas da Republica, que conservaram +o erro, fundam-se na correcção que soffreu o calendario +Juliano mandado executar pelo papa Gregorio XIII, que, +em 1582, mandou supprimir 10 dias a esse anno, ordenando +que o dia 5 de outubro fosse designado pelo +numero 15, o immediato 16 e assim por diante, encurtando +esse anno de dez dias para compensar a differença +para mais desse mesmo espaço de tempo, que o calendario +Juliano já accusava no fim do seculo XVI.</p> + +<p>E assim, em virtude dessa corrigenda, o dia 22 de +abril de 1500 passou a ser, em qualquer dos annos +posteriores a 1582, correspondente ao dia 3 de maio.</p> + +<p>Mas tal razão será sufficiente para manter na tradição +popular uma crença falsa? Pensamos que não. Officialmente, +o dia consagrado como data anniversaria do descobrimento +do Brazil é o dia 3 de maio. E assim o +povo, que não sabe das correcções que soffreu o calendario +Juliano, nem dos motivos que as determinaram, +fica persuadido que effectivamente foi no dia 3 de maio +de 1500 que se realizou o descobrimento, quando os +documentos do seculo XVI, que as historias populares +do Brazil já registram, não consignam tal data, mas +sim a de 22 de abril.</p> + +<p>Sou de parecer que, se ao tempo da descoberta +ainda não existia no calendario Juliano a correcção +ordenada por Gregorio XIII, que só se realizou 82 annos +depois, se para Pedro Alvares Cabral o dia desse feliz +successo foi o de 22 de abril, essa é a data que deve ser +officialmente consagrada para assim manter-se na tradição +popular.</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_78" id="Page_78">[Pg 78]</a></span>De 1500 a 1582 acontecimentos houve que ficaram +registrados na historia da nossa terra e, todavia, ninguem +se lembrou de applicar aos seus respectivos anniversarios +a correcção ordenada por Gregorio XIII, limitando-se +a corrigenda tão sómente ao successo, isto é, á data +da chegada de Cabral ao Brazil.</p> + +<p>Ora, uma de duas, ou os estadistas da Republica têm +de mandar fazer uma revisão completa de todas as datas +mais ou menos celebres da historia, e principalmente +da nossa, no periodo comprehendido entre 1500 e 1582, +ou, para serem coherentes, têm de mantel-as taes como +ainda hoje a tradição as conserva; mas, nesse caso, preciso +se torna que a consagração do feito de Cabral seja +feita não mais a 3 de maio, mas sim a 22 de abril.</p> + +<p>Tal é o meu modo de ver, salvo melhor juizo.»</p> + +<p> +<span class="smcap">Garcia Redondo</span><br /> +</p> + + + +<hr style="width: 65%;" /><p><span class='pagenum'><a name="Page_79" id="Page_79">[Pg 79]</a></span></p> +<h2><a name="NOTICIAS" id="NOTICIAS"></a>NOTICIAS</h2> + + +<h2>Conferencias portuguezas</h2> + +<p>Não podia ser mais auspiciosa a inauguração +da primeira série das conferencias portuguezas, +promovidas pelo Centro Republicano +Portuguez desta capital.</p> + +<p>A despeito da noite fria e chuvosa, o amplo +salão do Instituto Historico e Geographico +encheu-se completamente, de uma assistencia +distincta e brilhante, quer pela quantidade, quer +pela qualidade.</p> + +<p>Além de muitas senhoras e senhoritas, compareceram +tambem á primeira conferencia do Centro +Republicano Portuguez os srs. Jacques Dupas, consul +da França, Daniel Monteiro de Abreu, +consul do Paraguay e encarregado de negocios +de Portugal, o representante do sr. general +Ferreira de Abreu, inspector da decima região +militar, o dr. Paula Souza, director da Escola +Polytechnica, commendador Mondim Pestana, +official de gabinete do sr. dr. secretario do +interior, dr. Bettencourt Rodrigues, dr. Rodolpho +de Santiago, dr. Ricardo Severo, dr. Eugenio +Egas, e muitas outras pessoas gradas.</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_80" id="Page_80">[Pg 80]</a></span>O sr. Antonio Luiz Gomes, Ministro de Portugal, +chegou ao Instituto Historico ás 8 e meia +da noite, em companhia do dr. Bartholomeu +Ferreira, secretario da Legação Portugueza, sendo +recebido á porta pela directoria do Centro.</p> + +<p>Em seguida, s. exa. foi introduzido no salão +pelos srs. drs. Bettencourt Rodrigues e Ricardo +Severo, tomando assento na mesa, ao lado da +directoria do Centro, e tendo á sua esquerda +o dr. Bettencourt Rodrigues.</p> + +<p>Abrindo a sessão, o sr. Joaquim Dias da Cunha +Barbosa, presidente do Centro R. Portuguez, explicou +o fim das conferencias portuguezas, dizendo +que, antes de apresentar á assistencia o conferencista +sr. dr. Garcia Redondo, cumpria lhe o +dever de agradecer á directoria do Instituto Historico, +que promptamente poz á disposição do +Centro o seu salão, afim de ahi serem realisadas +as conferencias. Agradece tambem a honrosa +visita do sr. ministro portuguez, que, com sua +presença, veio dar maior solennidade á primeira +conferencia.</p> + +<p>Alludindo á pessoa do conferencista, o sr. presidente +diz que o dr. Garcia Redondo é por demais +conhecido do auditorio que, sobejamente, conhece +a sua bagagem literaria, pelo que se dispensa de +apresental-o.</p> + +<p>Em seguida, é dada a palavra ao sr. dr. Garcia +Redondo para proceder á leitura de sua conferencia +sobre «O descobrimento do Brasil—Prioridade +dos portuguezes no descobrimento da +America.»</p> + +<p>Por ser muito longo o trabalho do dr. Garcia +Redondo, e não dispomos, hoje, do necessario +espaço, só amanhan poderemos dar na integra a +sua conferencia.</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_81" id="Page_81">[Pg 81]</a></span>As ultimas palavras do conferencista foram +abafadas com uma grande salva de palmas, sendo +s. s. abraçado e cumprimentado pela directoria +do Centro e pelo sr. ministro de Portugal.</p> + +<p>Antes de ser encerrada a sessão, o sr. ministro +de Portugal solicita a palavra pronunciando +um discurso do qual damos o resumo que se +segue:</p> + +<p>O sr. Antonio Luiz Gomes começa dizendo +que não vinha com a intenção de tomar a palavra +nesta assembléa. Vinha apenas, na qualidade +de representante do seu paiz, trazer as +saudações mais affectuosas ao Gremio Republicano +Portuguez de S. Paulo e aos iniciadores +destas magnificas conferencias.</p> + +<p>«Quando vi o assumpto de que se ia tratar, diz o +orador, despertou-se logo no meu espirito e na minha +alma a certeza absoluta de que estas conferencias +deviam ter uma influencia muitissimo grande +na pacificação dos espiritos dos portuguezes, um +pouco revoltados, e que ellas teriam, como conclusão +final, approximar ainda mais a familia +portugueza da familia brazileira.</p> + +<p>E, senão bastara isso, eu tambem não podia conservar-me +calado depois de ouvir a palavra brilhantissima +do sr. dr. Garcia Redondo. Seria uma +crueldade, uma injustiça que eu, em publico, deixasse +de attestar, não só o meu reconhecimento, +mas, o que é mais, o reconhecimento do meu +paiz, por este formosissimo e esplendido trabalho. +(Muito bem).</p> + +<p>Se por ventura o nome do dr. Garcia Redondo +não fosse sufficientemente conhecido, não só nas +boas letras, como na sciencia, bastava esta conferencia +para justificar o elevadissimo conceito +<span class='pagenum'><a name="Page_82" id="Page_82">[Pg 82]</a></span>em que o seu nome é tido entre portuguezes e +brazileiros.</p> + +<p>Trabalho magnifico, soberbo, onde se alliam, +indiscutivelmente, altos pensamentos com uma +forma burilada e perfeita, e que vem coroar a +sua já larga obra na sciencia e nas letras.</p> + +<p>E depois de prestar um enorme serviço, de +vir levantar a minha patria á altura a que indiscutivelmente +ella tem direito, porque Portugal, +embora pequeno como disse s. exa., aquella mancha +pequena, que se encontra no ponto occidental +da Europa, prestou serviços á humanidade, e +á civilisação humana, que, positivamente, não +foram excedidos por povo algum do mundo. +(Muito bem.)</p> + +<p>A civilisação do mundo, meus senhores, firma-se +em tres peninsulas, nos tres pontos que +observaes naquelle mappa.</p> + +<p>Se na Grecia nasce a civilisação, nascem as +artes, a philosophia, a sciencia; se naquella peninsula +italica nasce o direito, porque o direito +romano, pode-se dizer, é a propria razão humana +feita lei; foi naquella pequenina peninsula iberica, +naquelle extremo do occidente, que, numa época +em que os grandes povos de hoje viviam uma +vida inteiramente apagada, numa época em que +a valorosa Inglaterra ainda não tinha historia; +em que a Allemanha apenas se preparava para +esse movimento augusto e sublime que proclamava +perante o mundo inteiro a liberdade de +consciencia; em que a França fazia os ultimos +retoques na sua lingua e se preparava para escrever +paginas brilhantissimas sobre a historia da +humanidade, é certo, entretanto, que nenhuma +dellas, por assim dizer, tinha ainda firmada a +sua civilisação.</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_83" id="Page_83">[Pg 83]</a></span>Por esse tempo, naquelle «pontinho» se +levantava um povo pequenino de lavradores e +de guerreiros, que deixava a patria, para levar o +pendão das Quinas aos extremos mais remotos, +aos confins do mundo.</p> + +<p>Essa historia é assombrosa: é inacreditavel.</p> + +<p>Custa a acreditar que esse povo, como disse +um dos grandes philosophos contemporaneos, +Max Nordau, fosse o precursor em todos os +grandes acontecimentos.</p> + +<p>Elle tinha dispersado os arabes sem que a +Hespanha o conseguisse em duzentos annos.</p> + +<p>É que durante esse tempo a essa grande +raça nada faltava: tinha força, tinha talento, +tinha sciencia.</p> + +<p>Foi precisamente esse povo pequenino que +deixou sementes por toda a parte da grandesa +do genio de sua raça.</p> + +<p>Por isso, meus senhores, espero que a invocação +do dr. Garcia Redondo produza bem +rapidamente seus frutos.</p> + +<p>Estas lutas não podem continuar, e não podem +continuar, sobretudo, no campo em que +infelizmente foram postas.</p> + +<p>Eu, quando vim representar a Republica +Portugueza, não vim com o desejo de que +todos os portuguezes se fizessem republicanos: +não precisamos de tanto. A unica coisa que +desejamos, que eu desejo, como patriota, é que +todos sejamos bons portuguezes. (Muito bem, +muito bem.)</p> + +<p>Eu louvo até, com a franqueza que me caracteriza, +que hajam convicções monarchicas no meio +de portuguezes. O que é necessario é que os re<span class='pagenum'><a name="Page_84" id="Page_84">[Pg 84]</a></span>publicanos +respeitem os monarchistas e que os +monarchistas respeitem os republicanos (Muito +bem).</p> + +<p>O que nós pedimos é muito pouco: é que nunca +confundam as glorias da patria, da terra onde +nasceram com as pequeninas paixões que possam +viver no nosso espirito. (Muito bem, muito bem).</p> + +<p>E, posta a luta nestes termos, como é facil todos +nos entendermos! Basta que cada um de nós se +esforce para ser o melhor portuguez que possa +ser; trabalhe pelo engrandecimento do seu paiz; +honre o nome portuguez por toda a parte; defenda +as suas convicções politicas, mas honradamente, +honestamente.» (Muito bem. Palmas).</p> + +<p>Depois de varias considerações termina o sr. +Antonio Luiz Gomes.</p> + +<p>«Para realisar a nossa obra não queremos que +todos sejam republicanos; o que queremos apenas +é que ninguem se esqueça que a patria está acima +das paixões de cada um. (Muito bem).</p> + +<p>E eu estou convencido de que esse tempo +vae chegar rapidamente.</p> + +<p>A Republica vae, dentro de pouco tempo, ter +a sua constituinte, a sua constituição.</p> + +<p>Nas ultimas eleições, que foram feitas em condições +excepcionaes, depois de uma revolução, +depois de boatos aterradores, a Republica já teve +a sua consagração.</p> + +<p>Nunca as urnas portuguezas foram tão concorridas +como neste momento: 80 por cento do +corpo eleitoral de Lisboa foi votar.</p> + +<p>O Porto, considerado como reaccionario, não +para nós republicanos, porque foi precisamente lá +que tiveram inicio todos os grandes movimentos +de Portugal, no proprio Porto, a votação foi maior +do que em qualquer outro ponto.</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_85" id="Page_85">[Pg 85]</a></span>Portanto, todos vêm a situação definida e clara +em que se encontra hoje Portugal.</p> + +<p>Vindo a S. Paulo, eu dirijo as minhas saudações +mais affectuosas não só ao povo de S. +Paulo, mas tambem á auctoridades do Estado, +que nos deram a alta honra de se fazer representar +nesta conferencia, e remato por agradecer +a todas as senhoras, a todos os cidadãos que +aqui vieram e, finalmente de novo, dirijo os +meus agradecimentos mais sinceros e profundos +ao dr. Garcia Redondo, não só em meu nome, +como no de Portugal, que tenho a honra de +representar.»</p> + +<p>As ultimas palavras do dr. Antonio Luiz Gomes +foram abafadas com uma estrepitosa e prolongada +salva de palmas da grande assistencia.</p> + +<p>(<i>Noticia do</i> <span class="smcap">Estado de S. Paulo</span> <i>de 4 de Junho de 1911</i>).</p> + + +<h2>Conferencias portuguezas</h2> + +<p>Em carro reservado ligado ao nocturno de +luxo, chegou hontem a esta capital, conforme +era esperado, o dr. Antonio Luiz Gomes, ministro +de Portugal junto ao nosso governo, acompanhado +de seu secretario, sr. dr. Bartholomeu Ferreira.</p> + +<p>Á noite s. exc. assistiu á conferencia que o +sr. dr. Garcia Redondo, com grande successo e +brilhantismo, realizou no salão nobre do Instituto +Historico e Geographico, tendo por thema: «O +descobrimento do Brazil e a prioridade dos portuguezes +no descobrimento da America».</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_86" id="Page_86">[Pg 86]</a></span>Publicaremos amanhã, na integra, esse importante +trabalho do distincto membro da Academia +Brazileira de Letras, que foi, pelo successo que +alcançou, vivamente applaudido e felicitado.</p> + +<p>Depois da conferencia do dr. Garcia Redondo, +o dr. Antonio Luiz Gomes, usou da palavra, produzindo +bellissima allocução, durante a qual era +constantemente interrompido por estrepitosa salva +de palmas.</p> + +<p>(<i>Noticia do</i> <span class="smcap">São Paulo</span> <i>de 4 de Junho de 1911</i>).</p> + + +<h2>Conferencias portuguezas</h2> + +<p>No salão nobre do Instituto Historico e Geographico +de S. Paulo, realizou-se hontem á noite, +conforme se annunciára, a primeira conferencia +da série promovida pelo Centro Republicano Portuguez, +desta capital.</p> + +<p>Coube o inicio das conferencias ao dr. Garcia +Redondo, que tomou por thema de sua oração—«O +descobrimento do Brazil» «Prioridade dos +portuguezes, no descobrimento da America».</p> + +<p>Precisamente ás 8 horas e meia, constituida a +mesa da presidencia pelo sr. Joaquim Dias da +Cunha Barbosa, tendo a seu lado o ministro plenipotenciario +de Portugal no Rio de Janeiro, sr. +Dr. Antonio Luiz Gomes, que para tal fim veio a +esta capital; dr. Bitencourt Rodrigues, e membros +da directoria do Centro Republicano Portuguez, +era o conferencista introduzido no salão, que já +regorgitava de numerosos cavalheiros e gentilissimas +senhoras e senhoritas.</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_87" id="Page_87">[Pg 87]</a></span>Pudemos mesmo notar entre os assistentes, os +seguintes:</p> + +<p>Commendador Tiburtino Mondim Pestana, segundo-tenente +Carlos Rocha, representando o general +Ferreira de Abreu, inspector da 10.ª região +militar, com séde nesta capital; major Arthur da +Graça Martins, secretario do commando geral, da +Força Publica; Jacques Dupas, consul da França, +e sua familia; commendador Daniel Monteiro de +Abreu, consul do Paraguay e encarregado do +consulado de Portugal; dr. Eugenio Egas, Arthur +Vautier, Nestor Rangel Pestana, Gelasio Pimenta, +José Vicente Sobrinho, dr. Antonio Francisco de +Paula Sousa, director da Escola Polytechnica; +dr. Rodolpho S. Thiago, lente da mesma escola; +dr. Ricardo Severo, dr. Leopoldo de Freitas, consul +de Guatemala, dr. Alfredo Redondo, dr. Manoel +Redondo, Jayme Redondo e sua familia.</p> + +<p>Abriu a sessão o sr. Cunha Barbosa.</p> + +<p>Referiu-se s. s. com palavras elogiosas ao +dr. Bettencourt Rodrigues, de quem partira a idéa +das conferencias, cujo grande valor salientou, +pois ellas viriam cada vez mais estreitar os vinculos +que unem os dois povos portuguez e +brazileiro.</p> + +<p>Saudava a patria portugueza, alli directamente +representada na pessoa do seu ministro plenipotenciario, +cuja presença, agradecia.</p> + +<p>Á directoria do Instituto Historico e Geographico +agradecia tambem, penhorada, a gentileza +de haver cedido o salão da sua séde, para a +realização da conferencia.</p> + +<p>Isto dito, e como não desejava prender por +mais tempo a attenção do auditorio, naturalmente +ancioso, dava a palavra ao dr. Garcia Redondo, +<span class='pagenum'><a name="Page_88" id="Page_88">[Pg 88]</a></span>cuja apresentação julgava desnecessario fazer, +pois tinha absoluta certeza de que nem uma +só pessoa alli presente, desconhecia, quer através +da imprensa ou da literatura, os altos meritos +do conferencista.</p> + +<p>Uma prolongada salva de palmas ecôa pela sala.</p> + +<p>Levanta-se então o dr. Garcia Redondo que +começa agradecendo aos circumstantes a sua +temeridade em affrontar os rigores daquella +noite humida e fria, não para ouvir a sua modesta +palavra, pois não tinha sobre isso illusão +alguma, mas para corresponder ao appello que +lhes dirigiram os promotores daquella conferencia.</p> + +<p>Sobretudo, era-lhe grato constatar alli a presença +das representantes do sexo gentil, que á +festa emprestavam a nota brilhante.</p> + +<p>Diz que o thema da sua conferencia havia +sido para elle objecto de longos e profundos +estudos. Poderia por isso dissertar sobre elle sem +ter necessidade de ler, nem mesmo simples +annotações.</p> + +<p>Mas, importando o que tinha de dizer responsabilidades +que queria assumir e receiando que a +memoria o trahisse, considerava mais prudente +ler a sua conferencia.</p> + +<p>Em seguida, offerece alguns esclarecimentos +sobre um grande mappa que está ao seu lado, +e que elle organizou para illustrar a conferencia, +e entra finalmente no assumpto.</p> + +<p>Ás ultimas palavras da brilhante oração do +dr. Garcia Redondo, uma calorosa e prolongada +salva de palmas se fez ouvir no salão.</p> + +<p>S. s. foi distinguido com a offerta de um lindo +«bouquet» de flôres naturaes.</p> + +<p><span class='pagenum'><a name="Page_89" id="Page_89">[Pg 89]</a></span>Levantou-se então o ministro plenipotenciario +da Republica de Portugal, sr. Antonio Luiz Gomes.</p> + +<p>Recáe sobre a sala um profundo silencio.</p> + +<p>O illustrado diplomata começa affirmando +que não comparecera áquella reunião com o +intuito de falar.</p> + +<p>Mas, cumpria-lhe o dever de agradecer em +nome de Portugal, que tinha a honra de representar, +o bello trabalho do dr. Garcia Redondo.</p> + +<p>Tratando da moderna phase da sua patria, +fala sobre o Portugal antigo, cujos feitos enchem +as paginas da historia universal.</p> + +<p>Refere-se á Monarchia, dizendo que ella teve +tempo mais que sufficiente para demonstrar a +capacidade dos seus homens.</p> + +<p>Por occasião do assassinato de d. Carlos, levaram +os republicanos a sua generosidade ao ponto +de prestigiar—sem o sacrificio, porém, das +suas convicções politicas—as instituições então +vigentes, desde que isso concorresse para o bem +do paiz.</p> + +<p>Entretanto a Monarchia mostrou-se impotente; +nada fez porque nada poude fazer para +manter o prestigio de Portugal.</p> + +<p>As crises ministeriaes succediam-se de um +modo assustador e a situação chegou a tal +ponto que só a Republica poderia salvar as +gloriosas tradições do paiz.</p> + +<p>E a Republica veio, não a Republica do +terror, das perseguições, como apraz aos boateiros +vulgares, mas a Republica que tem por +lemma o levantamento moral do tradicional paiz +das quinas.</p> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's O Descobrimento do Brazil, by Garcia Redondo + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL *** + +***** This file should be named 24344-h.htm or 24344-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/3/4/24344/ + +Produced by Ricardo F. 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