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+The Project Gutenberg EBook of O Descobrimento do Brazil, by Garcia Redondo
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Descobrimento do Brazil
+ Prioridade dos Portugueses no Descobrimento da America
+
+Author: Garcia Redondo
+
+Release Date: January 17, 2008 [EBook #24344]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL ***
+
+
+
+
+Produced by Ricardo F. Diogo, Júlio Reis and the Online
+Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This
+file was produced from images generously made available
+by The Internet Archive)
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+Notas de transcrição:
+
+Pg 26: aspas abertas antes de "a terra achada"; original não tinha
+aspas.
+
+Pg 28: em "carta regia de D. João I" trata-se, na verdade, do rei D.
+João II (não corrigido).
+
+Pg 37: substituido "em 1742, vinte annos antes de Colombo" por "em 1472,
+..."; havia sido corrigido à mão na cópia digitalizada que serviu de
+base a esta transcrição.
+
+
+
+
+ GARCIA REDONDO
+
+ (DA ACADEMIA BRASILEIRA)
+
+ O DESCOBRIMENTO
+ DO
+ BRAZIL
+
+PRIORIDADE DOS PORTUGUEZES NO DESCOBRIMENTO DA AMERICA
+
+
+Primeira conferencia da serie organisada pelo Centro Republicano
+Portuguez de São Paulo, realizada no Instituto Historico e Geographico
+de S. Paulo, na noite de 3 de Junho de 1911
+
+
+ SÃO PAULO
+CASA VANORDEN
+ 1911
+
+
+
+
+ GARCIA REDONDO
+
+(DA ACADEMIA BRASILEIRA)
+
+ O DESCOBRIMENTO
+ DO
+ BRAZIL
+
+PRIORIDADE DOS PORTUGUEZES NO DESCOBRIMENTO DA AMERICA
+
+
+Primeira conferencia da serie organisada pelo Centro Republicano
+Portuguez de São Paulo, realizada no Instituto Historico e Geographico
+de S. Paulo, na noite de 3 de Junho de 1911
+
+
+ SÃO PAULO
+CASA VANORDEN
+ 1911
+
+
+
+
+Assistiram a esta conferencia, além do ministro de Portugal, Snr. Dr.
+Antonio Luiz Gomes, e do seu secretario, Dr. Bartholomeu Ferreira, que
+do Rio de Janeiro vieram especialmente para esse fim, o consul da
+França, Snr. Jacques Dupas e sua familia, os consules de Portugal em S.
+Paulo e Santos, os consules do Paraguay e da Guatemala, os
+representantes do Governo do Estado e do Governo Federal, a directoria e
+membros do Centro Republicano Portuguez de S. Paulo, o director e muitos
+lentes da Escola Polytechnica, uma parte da directoria e muitos socios
+do Instituto Historico e a fina flor da sociedade culta e da colonia
+portugueza de S. Paulo.
+
+
+ Esta conferencia é impressa no formato do livro _Conferencias_ do
+ auctor para que possa ser annexada a esse livro.
+
+
+
+
+O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL
+
+Prioridade dos portugueses no descobrimento da America
+
+
+ _O orador, depois de agradecer a presença do numeroso e luzido
+ auditorio, que affluiu ao salão do Instituto Historico para ouvir a
+ sua palavra rude e, depois de varias explicações que deu sobre o
+ grande mappa que organisou para illustrar e esclarecer a sua
+ conferencia, diz:_
+
+_Minhas senhoras, meus senhores:_
+
+Na minha ultima viagem ao Velho Mundo, em 1906, achando-me na Suissa e
+querendo visitar a exposição internacional de Milão, em vez de fazer a
+viagem directa e curta, indo de Genebra, onde estava, a Montreux e de
+Montreux a Milão, preferi fazer uma grande volta, indo de Genebra a Lyon
+e a Marselha e percorrendo depois toda essa extensa e deliciosa costa do
+Mediterraneo que se chama Côte d'Azur.
+
+Para que? Para entrar na Italia por Genova e prestar, antes de tudo, a
+minha homenagem de americano á memoria de Christovam Colombo, visitando
+a casa onde elle nasceu.
+
+Alli fui, pois, e alli estive no vetusto predio, onde, em 1450, viu a
+luz do dia o audacioso genovez, conforme reza a placa commemorativa
+collocada entre duas janellas antigas desastradamente vestidas á moderna
+com venezianas verdes.
+
+Até então, eu suppunha, pelo que sabia, pelo que havia lido, que
+Christovam Colombo era o descobridor da America, assim como suppunha
+tambem que Pedro Alvares Cabral era o descobridor do Brazil.
+
+Mas, veio-me depois ás mãos um livro--_A descoberta do Brazil_--do sr.
+Faustino da Fonseca, e esse livro precioso, feito com o nobilissimo
+intuito de reivindicar para Portugal a gloria completa do descobrimento
+do Novo Mundo, livro que, em abono da civilização portugueza, que, em
+abono dos nossos maiores, deveria ser traduzido em todas as linguas
+vivas para ser distribuido em todas as escolas do universo, veio
+mostrar-me, á luz de documentos authenticos e irrefutaveis, que nem o
+navegante genovez foi o primeiro a chegar ao Novo Mundo, nem Cabral o
+primeiro a achar essa parte do Novo Mundo que se chama o Brazil.
+
+Colombo e Cabral--o primeiro ao aportar, em 1492, ás Antilhas, e o
+segundo, em 1500, á costa brazileira, não fizeram mais do que
+_reconhecer e tomar posse_ officialmente de terras que muitos annos
+antes já haviam sido descobertas por navegantes portuguezes.
+
+Baseia-se o precioso livro do sr. Faustino da Fonseca em doações feitas
+pelos reis portuguezes aos primeiros navegantes que sulcaram o
+Atlantico, em tratados de limites, em correspondencias officiaes,
+roteiros, mappas, relações, cartas de testemunhas dos acontecimentos e
+outros documentos que o autor, no seu louvavel ardor patriotico, foi
+descobrir e copiar com uma paciencia de benedictino nos archivos
+hespanhóes e açorianos e na Torre do Tombo.
+
+É com esse fanal em punho, que dá por terra com todas as lendas, todos
+os erros e embustes dos historiadores que precederam o sr. Fonseca, que
+eu venho, hoje, na medida das minhas fracas forças, ajudal-o a
+reivindicar para Portugal, não a gloria de haver descoberto o Brazil
+sómente, mas tambem a gloria de haver descoberto a America.
+
+Oxalá seja esse meu auxilio efficaz, oxalá possa elle levar a convicção
+ao animo dos que me ouvem e dos que me lerem, para que possamos dizer
+todos, _una voce_, e fazendo a justiça tardia a que tem direito a velha
+civilização portugueza: Gloria a Portugal, descobridor do Novo Mundo!
+
+ * * * * *
+
+Os conhecimentos geographicos dos antigos eram limitadissimos, não
+conhecendo os europeus mais do que duas terças partes do seu continente,
+o norte da Africa e o sudoeste da Asia, acreditando Ptolomeu que a
+Africa se estendia até ao polo antarctico, reduzindo assim o Oceano
+Indico a um simples lago ou pequeno mar interior. Nessa época, o que se
+chama India comprehendia a Indo-China, o Indostão, as ilhas e regiões do
+extremo Oriente. Era a India considerada como um paiz de fabulosas
+riquezas e nella dizia-se que habitava o Prestes João, soberano
+Christão, que reunia o poder temporal ao espiritual e era o summo
+pontifice do Oriente.
+
+O Oceano Atlantico era tratado por mar tenebroso e considerado
+innavegavel, povoado por monstros, coalhado de escolhos, coberto de
+nevoa densa. Era um mar onde, para uns, reinava a eterna calmaria podre,
+para outros, era constantemente açoutado por violentos tufões, de sorte
+que era uma barreira á communicação entre os dois hemispherios.
+
+Não contentes de limitar a tão pouco os seus conhecimentos geographicos,
+os antigos inventavam lendas, semeavam o oceano de ilhas imaginarias, de
+estatuas e de columnas, que impediam os navegantes de marchar.
+
+As columnas de Hercules fechavam o caminho do Atlantico, outras duas
+columnas erguiam-se num estreito, impedindo a entrada do mar da India. A
+phantasia não tinha diques e os mappas, principalmente o de Marco Polo,
+marcavam milhares de ilhas em algumas das quaes se localizava o paraiso,
+o purgatorio e o inferno! Na ilha de Salomão, onde se dizia estar o
+cadaver desse rei mulherengo, num maravilhoso palacio, tres estatuas
+faziam retroceder o navegante sob pena de morte. O cabo Bojador era um
+ninho de serpentes e na ilha de Ceylão estava o tumulo de Adão!
+
+Ainda em 1375 a costa africana só era conhecida de Ceuta até ao Cabo
+Bojador, e ainda em 1436, já em pleno seculo XV, o mappa de André
+Bianco, um mixto de christianismo e de paganismo, reproduz as lendas e
+figuras da edade média, collocando Jerusalém no centro do mundo e
+determinando o local do paraiso terrestre!... Toda a terra conhecida
+resumia-se num unico continente. Tudo mais eram ilhas entre as quaes
+estava a de Cypango, onde Colombo julgou ter chegado em 1492, quando
+aportou ás Antilhas.
+
+Lendas de origem portugueza só havia duas--a do gigante Adamastor, no
+Cabo das Tormentas, que o grande épico dos Lusiadas tão lindamente
+narrou em verso sonoroso, e a do cavalleiro de pedra, na ilha do
+Corvo--mas este, ao contrario dos outros que intimavam o navegante a
+retroceder, mandava-o avançar, apontava-lhe o caminho a seguir,
+demandando novas regiões.
+
+Taes eram os conhecimentos geographicos até ao primeiro terço do seculo
+XV.
+
+Foi então que appareceu o famoso projecto do infante d. Henrique,
+projecto que revolucionou o systema do mundo.
+
+Até ahi só se conheciam dois caminhos para chegar ao Oriente, ambos por
+terra, ambos partindo do Mediterraneo. Conhecida a India como um paiz de
+riquezas fabulosas e tendo cessado para os portuguezes, com a tomada de
+Ceuta, o trafico dos generos do sertão pelo Mediterraneo, cogitou o
+infante d. Henrique em chegar á India por um outro caminho--a via
+maritima, pelo occidente. Mas, para isso, tinha de affrontar o Mar
+Tenebroso, esse oceano inçado de escolhos e de monstros, impenetravel e
+mysterioso. Como o seu intuito era explorar as riquezas indianas e levar
+a fé aos musulmanos, com os quaes esperava combater, elle sentiu a
+necessidade de um alliado e o alliado natural era o Prestes João, o
+summo pontifice da christianidade indiana.
+
+Era preciso, pois, procural-o, mas seguindo pela via maritima.
+
+«Provêm desta origem, diz o sr. Faustino da Fonseca na sua obra
+admiravel, as explorações para o sul e para o occidente; as grandes
+viagens do occidente e do oriente; o encontro de duas passagens a leste
+e a oéste,--o Cabo da Boa Esperança e o estreito de Magalhães; as
+descobertas da costa da Africa e das ilhas do Atlantico, da America do
+Norte e do Brazil.»
+
+«Obedece tudo a este proposito, subordina-se tudo a este projecto, são
+tudo soluções ao problema: os conselhos de Toscanelli e de Monetario, o
+erro de Colombo, a audacia de Magalhães.»
+
+ * * * * *
+
+Não é difficil provar que Colombo não descobriu a America e que quando
+chegou ás Antilhas, em 1492, já a America havia sido descoberta pelos
+portuguezes, muitos annos antes. O difficil seria provar hoje, em face
+dos documentos encontrados pelo sr. Faustino da Fonseca e dos quaes me
+vou soccorrer nesta conferencia, que o ousado genovez fez tal
+descoberta.
+
+Esmiucemos o interessante assumpto.
+
+Quando o infante d. Henrique fundou a escola de Sagres com observatorio
+astronomico, para o qual fez vir cosmographos e mathematicos
+estrangeiros, e mandou construir nos seus estaleiros as primeiras
+caravelas e ordenou que ellas sahissem, para o mar tenebroso e pelo
+occidente, dizendo aos capitães que avançassem sem receio, fazendo-se ao
+largo, já Gonçalves Zarco havia descoberto a ilha da Madeira e já o
+infante conhecia o livro de Marco Polo, que existia em Portugal desde
+1418, trazido pelo infante d. Pedro, que o recebera como dadiva do
+senado de Veneza, assim como conhecia tambem o mappa do mesmo Marco Polo
+onde se veem as regiões do oriente muito proximas das do occidente. No
+seu livro, Marco Polo assegurava que Catay estava no Atlantico (que elle
+chama o mar de Cyn) a pequena distancia da Europa e que, no Atlantico,
+estavam tambem Cypango e outras ilhas de especiarias.
+
+As primeiras caravelas, construidas e equipadas pelo infante em 1431,
+começam a perscrutar o mar vasto e, um dia, de uma dellas, Gonçalo Velho
+Cabral descobre as _Formigas_. Um anno depois, em 1432, descobre ainda
+_Santa Maria_. As expedições maritimas portuguezas, desde então,
+succedem-se ininterruptamente e, annos depois, é descoberta grande parte
+das ilhas do archipelago dos Açores pelo mesmo Gonçalo Velho e depois as
+do Cabo Verde (1460) por Antonio Gomes e Diogo de Nola.
+
+Em 1435, já o mappa-mundi de Bechario representa a Antilia e outras
+ilhas, a oéste dos Açores, acompanhadas da seguinte legenda:--_Insule de
+novo reperte_ (ilhas recentemente descobertas.)
+
+Em 1436, um anno após, apparecem o mappa-mundi de André Bianco e o seu
+portulano cujas cartas já representam o mar de Baga, o mar dos Sargaços,
+as Antilhas e o Brazil, figurando este como se fosse uma grande ilha. Em
+1447, uma nau parte do Porto e descobre a Groelandia aonde os
+marinheiros desembarcaram.
+
+No entretanto, do celebre promontorio de Sagres, o infante d. Henrique
+vê sumirem-se no mar intermino as caravelas, que successivamente iam
+partindo á descoberta, e já em 1448, numa carta do portulano de André
+Bianco, tratando dos descobrimentos dos portuguezes, se regista o Brazil
+de uma forma precisa, na parte oéste e sul do Cabo de S. Roque, ao sul
+das ilhas do Fogo e Brava de Cabo Verde, na sua verdadeira posição, em
+frente á costa africana, sendo designado por _ilha authentica_ e
+assignalada a sua distancia exacta de 1500 milhas do archipelago de Cabo
+Verde.
+
+Esta carta do portulano de Bianco, bem como os anteriores de 1436
+mostram, pois, meus senhores, que o Brazil foi descoberto em 1435, ou
+antes, por navegantes portuguezes e que até das Antilhas já havia
+noticia nessa época.
+
+Mas, não fica nisto. As caravelas portuguezas continuam a singrar o mar
+tenebroso e, em 1452, Diogo de Teive e seu filho João de Teive descobrem
+as ilhas Corvo e das Flores e chegam á latitude da terra que se chamou
+mais tarde «do Lavrador» (porque a descobriu um portuguez deste nome)
+não desembarcando nella com receio do inverno.
+
+Em 1460 morre o infante d. Henrique, deixando reconhecida toda a costa
+africana até Serra Leôa e legando ainda á sua patria os descobrimentos
+dos archipelagos dos Açores, de Cabo Verde e do Brazil.
+
+A morte do infante não faz, porém, arrefecer o enthusiasmo lusitano
+pelos descobrimentos e já dois annos depois, em 1462, d. Affonso V, por
+carta regia de 29 de outubro, faz doação a seu irmão o infante d.
+Fernando, filho adoptivo de d. Henrique e seu herdeiro universal, de uma
+terra achada no mar alto, a noroeste das ilhas Canarias e da Madeira,
+que Gonçalo Fernandes havia descoberto. Essa terra não podia ser outra
+senão a America.
+
+Mezes antes, por carta régia de 19 de fevereiro, esse mesmo Affonso V
+havia feito doação a João Vogado de duas ilhas por elle descobertas no
+_mar oceano_, ás quaes dera os nomes de Lono e Capraria. Nos documentos
+da época, a expressão _mar oceano_ era usada para designar o mar que
+banhava a America, que então ainda não tinha esse nome. Esta doação a
+João Vogado prova que as duas ilhas Lono e Capraria eram ilhas ou pontos
+da costa americana.
+
+Onze annos depois, em 1473, d. Affonso V, por carta régia de 12 de
+janeiro, faz doação á sua sobrinha d. Beatriz, filha do infante d.
+Fernando, de uma ilha que apparecera, em 1468, através da ilha de
+Santiago, e que era uma das Antilhas, aonde só 24 annos depois aportou
+Colombo. Convém notar que esta descoberta é feita por navegadores
+portuguezes 5 annos antes da chegada de Colombo a Lisboa.
+
+Do exposto se conclue que as proprias Antilhas já tinham sido
+descobertas pelos portuguezes muitos annos antes de Colombo lá ir tomar
+dellas posse para a corôa da Hespanha.
+
+Todas estas consecutivas viagens para o occidente formam uma série que
+já constitue uma brilhante e indiscutivel documentação da prioridade dos
+portuguezes na descoberta da America.
+
+Mas ha ainda outros e valiosos documentos que melhor provam esta
+asserção áquelles a quem ella possa parecer um pouco vaga.
+
+Vejamos quaes são.
+
+Em 1472, tendo vagado a capitania da Ilha Terceira por fallecimento de
+Jacome de Bruges, a infanta d. Beatriz fez doação a João Vaz Côrte Real
+da capitania dessa ilha, na parte de Angra, doando a parte da Praia a
+Alvaro Martins.
+
+Na carta de doação, encontram-se as seguintes palavras: «havendo eu, por
+informação, estar ora vaga a capitania da ilha Terceira de Jesus
+Christo... por se affirmar ser morto Jacome de Bruges... houve por bem
+de a partir entre o dito João Vaz e o dito Alvaro Martins, mandei ao
+dito João Vaz que escolhesse e elle escolheu a parte de Angra... E
+considerando eu, de outra parte, _os muitos e grandes serviços_ que o
+dito João Vaz Côrte Real, fidalgo da casa do dito senhor meu filho, tem
+feito ao infante meu senhor e seu padre que Deus haja (é o infante d.
+Fernando), e depois a mim e a elle, _em galardão_ dos ditos serviços,
+lhe fiz mercê da dita capitania da ilha Terceira.»
+
+Annos após, em 1488, confirmando essa doação, o duque de Vizeu, filho de
+d. Beatriz, alludiu aos _grandes serviços_ de João Vaz Côrte Real a seus
+paes, dizendo: «querendo lhe fazer graça e mercê pelos _muitos serviços_
+que tem feito ao infante meu senhor e padre, que Deus haja, e a mim,
+espero que ao deante fará.»
+
+Quem era esse João Vaz Côrte Real, que assim era galardoado e que
+serviços relevantes eram esses que havia prestado para receber tal
+galardão?
+
+Era um homem que, nesse mesmo anno de 1472, vinha de chegar da _Terra
+Nova_ ou _Terra dos Bacalhaus_, trazendo essa nova descoberta americana
+para a corôa portugueza, vinte annos antes de Colombo aportar ás
+Antilhas.
+
+As provas desta descoberta de João Vaz não escasseiam e encontram-se:
+
+1.º--Na carta relativa á America do Norte do Atlas de Fernão Vaz
+Dourado, existente na Torre do Tombo, onde se lê, na parte referente á
+Terra Nova, a seguinte designação: _B. de João, Terra de João Vaz_.
+
+2.º--No mappa-mundi do Atlas de Jomard, feito em pergaminho por ordem de
+Henrique II da França (1547-1559), onde a mesma designação para a Terra
+Nova se encontra.
+
+3.º--No mappa-mundi de Mercator, do mesmo Atlas de Jomard, onde vem por
+extenso, designando a Terra Nova--_Terra de Joam Vaz_, _Rio de Joam
+Vaz_.
+
+4.º--Num manuscripto feito entre 1672 e 1711 nos Açores, onde melhor se
+conheciam os descobrimentos de João Vaz, no qual é encontrada a seguinte
+referencia á doação de d. Beatriz a João Vaz: «Estando as cousas nesta
+forma, morreu o capitão Bruges, não deixando herdeiros. Chegaram então á
+ilha dois fidalgos que vinham de descobrir a _Terra do Bacalhau_; estes
+pediram a ilha a d. Beatriz, mulher do infante d. Fernando, por serviços
+que lhe tinham feito, lhes fizesse mercê da capitania da ilha Terceira,
+a qual ella lhe concedeu. A João Vaz Côrte Real, que era um destes
+fidalgos, ficou a de Angra.»
+
+5.º--Finalmente, nestes trechos das _Saudades da Terra_, de Gaspar
+Fructuoso, nascido nos Açores em 1522: «João Vaz Côrte Real, primeiro
+capitão da ilha Terceira da parte de Angra, por serviços que fez a
+el-rei de Portugal nas guerras contra Castella, andando por _capitão de
+grossa armada_; do qual dizem que foi _tão grande aventureiro no mar que
+neste Reino não tem segundo_; e alguns querem dizer que descobriu a
+mesma ilha Terceira e _algumas partes do ponente e do Brazil, Cabo
+Verde_, onde foi o primeiro que houve vista da _ilha do Fogo_... e
+vindo, como atrás tenho dito, João Vaz Côrte Real do _descobrimento da
+Terra dos Bacalhaus que, por mandado de el-rei foi fazer_, lhe foi dada
+a capitania de Angra, da Ilha Terceira e da ilha de S. Jorge... Dizem
+alguns que Jacome de Bruges, primeiro capitão da ilha Terceira de Jesus
+Christo, era flamengo... e, estando-a povoando veio ter ahi João Vaz
+Côrte Real... e vinha do _descobrimento da Terra Nova do Bacalhau_ e o
+Jacome de Bruges o recolheu e lhe disse que lhe largaria metade da ilha,
+a qual acceitou, e depois Jacome de Bruges se foi para sua terra e
+desappareceu, de maneira que não tornou mais, e a infanta d. Beatriz,
+por vaga, deu a ilha ao dito João Vaz Côrte Real.»
+
+Não ha nada de mais positivo, de mais claro e comprovante, do que estes
+cinco documentos, que venho de citar, no ultimo dos quaes se allude,
+nada menos de trez vezes, ao descobrimento feito por João Vaz Côrte Real
+da _Terra Nova_ ou _Terra do Bacalhau_, na America do Norte, em 1472,
+vinte annos antes de Colombo aportar ás Antilhas.
+
+Mas, não foram sómente João Vaz e outros navegadores portuguezes, já
+citados, os precursores de Colombo na descoberta da America.
+
+João Vaz Côrte Real tinha tres filhos--Vasco Annes, Miguel e Gaspar
+Côrte Real--os quaes, como o pae, foram ousados navegantes,
+principalmente o ultimo, Gaspar, que ficou captivo dos indigenas numa
+das suas viagens á America. A carta regia de 12 de maio de 1500, fazendo
+doação a Gaspar Côrte Real de terras que vae descobrir (carta passada
+poucos dias após a chegada de Cabral ao Brazil, chegada essa de que
+ainda não havia noticia em Portugal) regista importantes trabalhos do
+mesmo Gaspar, anteriores ás duas viagens suas de que ha noticia e
+refere-se _ás suas explorações maritimas feitas com muito trabalho,
+despeza e perigos, realizadas por Gaspar á sua custa com seus navios e
+homens_. Diz ainda essa carta de doação que _elle vae continuar a
+descobrir_ ou reconhecer _ilhas e terra firme_ das quaes lhe são
+outorgadas as capitanias.
+
+A expressão vae _continuar a descobrir_, empregada na carta regia,
+significa que Gaspar já havia anteriormente feito descobertas.
+
+Infelizmente, Gaspar Côrte Real, partindo de Lisboa em 1501 para uma
+nova exploração na America, por lá ficou captivo dos naturaes, voltando
+todavia ao reino os dois navios que o haviam acompanhado. Em 1502, seu
+irmão Miguel sahiu com outros dois navios no intuito de o procurar e
+remir, mas tambem não regressou. Vasco Annes quiz ainda ir em busca dos
+dois irmãos, mas D. Manoel não lh'o consentiu.
+
+Documentos posteriores ao desapparecimento dos dois irmãos, Gaspar e
+Miguel Côrte Real, registam os seus feitos e os de seu pae João Vaz.
+Taes são: a carta régia de 17 de setembro de 1506 e principalmente a 4
+de maio de 1567, de doação a Manoel Côrte Real, filho de Vasco Annes e
+neto de João Vaz, na qual se encontra a seguinte phrase: «seu pae e tios
+mandaram descobrir a Terra Nova».
+
+Mas, anteriormente, a carta régia de 4 de novembro de 1501, de d.
+Manoel--o venturoso--filho do duque de Vizeu e de d. Beatriz, concedendo
+a tença de 30.000 cruzados a Miguel Côrte Real por serviços feitos a d.
+João II, que falleceu em 1495, fixa ás viagens maritimas dos Côrtes
+Reaes uma data anterior a 1495.
+
+Ora, a sete de junho de 1494, d. João II assignou com a Hespanha o
+tratado de Tordesillas, abrangendo na demarcação portugueza não só a
+costa do Brazil (aonde Pedro Alvares Cabral só aportou _6 annos depois_)
+como a terra dos Côrtes Reaes, isto é, a _Terra Nova_ ou _dos
+Bacalhaus_, o que prova que a descoberta dessa terra é anterior ainda a
+1494. Por ultimo, Bartholomeu las Casas, amigo de Colombo e companheiro
+do genovez numa das suas viagens ás Antilhas, na sua _Historia das
+Indias_, apontando ingenua e sinceramente as indicações que Colombo teve
+para ir ás Antilhas, indicações, aliás, confessadas pelo proprio
+Colombo, cita, entre outras, as viagens dos Côrtes Reaes, empregando
+estas expressões: «Os Côrte Reaes que foram em diversos tempos buscar
+_aquella terra_.»
+
+E isto prova ainda que o descobrimento da _Terra Nova_ ou _dos
+Bacalhaus_ e, portanto, da America, é anterior á primeira viagem de
+Colombo ás Antilhas, isto é, anterior a 1492 e mesmo anterior a 1484,
+porque foi em 1484 que Colombo sahiu de Portugal, onde obteve taes
+indicações e onde viu e conheceu Miguel e Gaspar Côrte Real, filhos de
+João Vaz Côrte Real, e Affonso Sanches, que descobriu as Antilhas de
+1473 a 1484. As expressões que Las Casas emprega, referindo-se ás
+confissões feitas pelo seu amigo Colombo são as seguintes, que reproduzo
+textualmente: «_Disse_, pois, Christovam Colombo entre outras cousas
+_que poz em seus livros por escripto_... e accrescentou mais que tinha
+visto dois filhos do capitão que descobriu a ilha Terceira, que se
+chamavam Miguel e Gaspar Côrte Real, _ir em diversos tempos a buscar
+aquella terra_.»
+
+_Aquella terra_ era a _Terra Nova_ ou _Terra dos Bacalhaus_.
+
+Ainda relatando Las Casas as indicações e informações que conduziram
+Colombo ás Antilhas, cita a viagem de Vicente Dias e mais uma outra a
+respeito da qual assim se exprime: «uma caravela ou navio que tinha
+sahido de um porto de Hespanha (não me recordo ter ouvido indicar qual
+fosse, ainda que creio que do reino de Portugal, se dizia)... veio...
+parar a estas Antilhas e que esta caravela foi a primeira que as
+descobriu. Que isto assim acontecesse alguns argumentos ha para
+demonstral-o.»
+
+E ajunta que o piloto dessa caravela, «que alguns escriptores hespanhóes
+chamam Affonso Sanches e dão como natural de Cascaes, recolhido por
+Colombo em sua residencia na ilha da Madeira, ao sentir perto a morte
+lhe revelara o segredo e lhe dera por escripto os rumos e caminhos que
+tinham levado e trazido por carta de marear e pelas alturas e paragem
+aonde estava a ilha.»
+
+Esta confissão de Las Casas, amigo e companheiro de viagem de Colombo, é
+importantissima.
+
+Diz ainda Las Casas que, quando foi com Colombo ao primeiro
+descobrimento de Cuba, «os indios vizinhos daquella déram noticia de
+terem chegado a esta ilha Hespanhola outros homens brancos e barbados,
+como nós outros, _antes que nós outros não muitos annos_.»
+
+Mas, não fica nisto.
+
+Em 1501, Pietro Pasqualigo, referindo ao senado de Veneza a segunda
+viagem de Gaspar Côrte Real á America, disse que Gaspar e seus
+companheiros acreditavam que «a terra achada era firme e estava ligada
+com a outra (Terra dos Papagaios ou Brazil) que o anno passado (1500)
+foi descoberta por outras caravelas de S. Magestade, acreditando estar
+ligada com as Antilhas.»
+
+Humboldt confirma este conceito, quando diz «que antes mesmo das
+viagens de Colombo a Honduras e Veragua, em outubro de 1501, já se sabia
+em Portugal que as terras do norte eram cobertas de neve e gelo,
+contiguas ás Antilhas e á terra dos Papagaios _novamente_ achada.»
+
+E admiradissimo, Humboldt accrescenta: «esta _adivinhação_ que proclama,
+apesar da ausencia de tantos élos intermediarios, uma ligação
+continental entre o Brazil e as terras geladas do Lavrador _é muito
+surprehendente_.»
+
+Nem foi _adivinhação_ nem _cousa para surprehender_; os élos
+intermediarios, estabelecendo a ligação continental entre o Brazil e as
+terras geladas do Lavrador, existiam e eram conhecidos dos portuguezes
+pelas viagens e descobrimentos que haviam feito na sua pertinancia de
+procurar o caminho para a India, navegando constantemente para o
+occidente e para o sul, desde 1431. Ora, todos os documentos que citamos
+demonstram de um modo cabal e decisivo que os descobridores da Terra
+Nova e portanto da America do Norte foram João Vaz Côrte Real e seus
+filhos e que este descobrimento foi feito muitos annos antes que Colombo
+aportasse ás Antilhas.
+
+Mas o estudo dos documentos portuguezes e castelhanos que o sr. Faustino
+da Fonseca exhumou da Torre do Tombo, dos archivos açorianos e
+hespanhóes e a que deu publicidade no seu luminoso livro, referentes ás
+viagens maritimas dos seus antepassados, provam de um modo
+incontestavel que desde 1435, ou antes havia em Portugal conhecimento
+perfeito de terras americanas (o Brazil ou terra dos Papagaios com a sua
+posição determinada no mappa de Bianco e a sua distancia de 1500 milhas
+entre as ilhas de Cabo Verde e o Cabo de S. Roque precisamente marcada
+no mesmo mappa) e tambem que, desde 1475, as viagens dos portuguezes
+para o occidente já se realizavam, não tanto no empenho de procurar por
+ahi o caminho para chegar á India, como no de «colonizar, de aproveitar
+as terras americanas e nellas commerciar, como se commerciava na costa
+africana e nas ilhas dos seus mares.»
+
+Era pelo sul da costa da Africa que os navios da corôa portugueza
+procuravam o caminho do oriente e as viagens á Guiné eram então
+privativas dos navios reaes, não podendo os particulares emprehendel-as.
+Já para o occidente a navegação era francamente aberta ás naus dos
+particulares, dando-lhes ensejo ás descobertas e explorações
+commerciaes.
+
+A carta de doação a Fernão Dulmo, em 1486 e a confirmação do seu
+contracto com João Affonso Estreito, feita pela carta regia de D. João
+I, vem demonstrar de um modo cabal, como muito bem diz o sr. Faustino da
+Fonseca, «a existencia de trabalhos de mór importancia relativos á
+America em que se não trata já da descoberta, mas da posse effectiva,
+da conquista, da occupação.»
+
+Nessa carta de doação diz o rei que Fernão Dulmo, capitão da ilha
+Terceira, «lhe queria dar achada ao occidente uma grande ilha, ou ilhas,
+ou terra firme por costa», ilha essa que se presumia ser a das Sete
+Cidades, e isto prova «que não se julgava ser a India, como pensava
+Colombo, nem Catay, nem Cypango, terras do oriente, que o genovez
+procurava e que até morrer julgou ter descoberto.»
+
+Era uma outra terra a que se dava o nome de Sete Cidades por causa de
+uma velha lenda. Effectivamente, o que Fernão Dulmo queria dar ao rei
+_achada_ era, não uma ilha, mas terra firme, isto é, um continente.
+
+Dava-lhe a carta regia poder e autoridade para tomar posse real e autual
+de todas ilhas e terra firme que descobrisse, «podendo enforcar, matar e
+applicar toda outra pena criminal» e accrescentava que, «se as ilhas e
+terra firme não quizessem sujeitar-se, elle rei mandaria com Fernão
+Dulmo gentes e armadas de navios para as sujeitar.»
+
+Tão amplas eram as autorizações e poderes conferidos a Fernão Dulmo,
+contrastando com as restricções feitas nas doações anteriores, nas quaes
+a corôa reservava para si «a alçada de morte ou talhamento de membro,»
+que taes concessões levam a crer, com relativa segurança, que na terra,
+que Dulmo queria dar _achada_ ao seu rei, já elle havia estado, havendo
+encontrado resistencia á occupação por parte da população indigena.
+
+Nessa terra do occidente, ou America, que Dulmo queria dar _achada_ á
+corôa portugueza, já elle estivera, portanto, em 1486, ou antes. Que
+tinha havido luctas na America entre os donatarios e os indigenas
+prova-o ainda a carta de doação a Vasco Annes Côrte Real na qual se
+refere que Miguel Côrte Real (irmão de Vasco Annes), ao partir, em busca
+de seu irmão Gaspar, que ficara captivo das tribus americanas na terra
+onde aportara, ia «buscar, achar e remir o dito seu irmão.» Que Fernão
+Dulmo estivera na America em 1486, ou antes, prova-o ainda o contracto
+por elle feito com João Affonso Estreito pelo qual este fazia todas as
+despesas da expedição, e ainda o prazo marcado para irem e voltarem,
+ficando Dulmo com o commando da frota durante os primeiros 40 dias e
+assumindo-o João Affonso após esse tempo, o que significa que Fernão
+Dulmo estava seguro de attingir a terra achada em 40 dias e que João
+Affonso não receiava empregar o seu capital numa empresa temeraria,
+seguindo com o seu socio para o desconhecido.
+
+Estabelecia o contracto que as caravelas seriam abastecidas para 6 mezes
+ou 180 dias approximadamente. E dahi se deduz que, sendo precisos 80
+dias para a viagem de ida e de volta, ficavam 100 dias para a
+permanencia na America, para a exploração, marcação e divisão das
+capitanias de que eram donatarios os dois associados e, finalmente, para
+a sujeição dos indigenas.
+
+A confiança de João Affonso Estreito na expedição era tal que, além de
+todas as despesas com o abastecimento das caravelas e sua equipagem,
+ainda deu 6.000 reaes brancos a Fernão Dulmo.
+
+Ora, o conhecimento que temos de Colombo ter gasto, posteriormente, 48
+dias na sua primeira viagem de regresso das Antilhas, com atrasos
+devidos a temporaes e a uma arribada á ilha de Santa Maria, e ainda o
+facto de Pedro Alvares Cabral ter gasto 43 dias na sua viagem ao Brazil,
+_apesar da calmaria que encontrou_, e ainda a circumstancia de ter gasto
+Colombo, exactamente, 40 dias na sua viagem de Cadiz á Dominica, prova
+que 40 dias era o tempo, em média, preciso para ir da Europa á America e
+que, portanto, o facto de tal prazo ter sido fixado no contracto de
+Dulmo com João Affonso Estreito mostra que Dulmo tinha perfeito
+conhecimento do tempo que era preciso para chegar á terra _achada_ por
+elle em 1486, ou antes, e que essa terra era positivamente a America.
+
+Desta expedição de Dulmo fazia parte um allemão chamado Martim Behaim,
+que o Dr. Monetario, ou Montaro, na sua carta a d. João II, chama
+Martinho Bohemio. Ora, este allemão, que, de 1484 a 1486, acompanhou
+Diogo Cão, como cosmographo, rezidindo nos Açores de 1486 até 1490,
+seguia a opinião dos antigos de que o caminho para a India era pelo
+occidente. Foi, pois, nesta viagem de Dulmo que Behaim obteve o
+conhecimento da costa Americana, o qual registou depois no globo que
+construiu ao regressar á Europa e que tambem representou no mappa, que
+existia no erario do rei de Portugal e ao qual allude Pigaffeta. Nesse
+globo terraqueo de Behaim foram representados a peninsula da Florida, o
+golfo do Mexico e as Antilhas, embora sem estas denominações. Estes
+trabalhos geographicos de Behaim confirmam que Dulmo estivera na America
+do Norte e estabelecem de um modo preciso que as terras achadas por elle
+eram a Florida, as Antilhas e o golfo do Mexico.
+
+Em 1499 fez d. Manuel doação a João Fernandes Lavrador da capitania da
+ilha ou ilhas que elle _descobrir ou achar novamente_. Não tendo meios
+para custear a expedição, João Fernandes Lavrador associou-se a
+Francisco Fernandes e João Gonçalves, escudeiros, naturaes dos Açores, e
+com tres negociantes inglezes de Bristol, os quaes, provavelmente,
+forneceram o capital preciso, e com elles obteve do rei Henrique VII da
+Inglaterra nova carta de doação das terras que descobrisse.
+
+A expedição seguiu a sua rota e conseguiu descobrir a terra avistada em
+1452 por Diogo de Teive e seu filho João de Teive, á qual foi dada o
+nome de Terra do Lavrador, que era o do seu novo descobridor e
+donatario.
+
+Ora, João Fernandes Lavrador, quando organizou a expedição, já sabia da
+existencia da terra que _ia achar_ porque nella estivera com Pedro de
+Barcellos de janeiro a abril de 1492, e o fim de sua expedição com os
+negociantes de Bristol não era outro senão tomar posse da terra
+anteriormente achada.
+
+Portanto, ainda alguns mezes antes de Colombo, que só a 8 de agosto de
+1492 partiu para as Antilhas, dois navegantes portuguezes, João
+Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos haviam estado na America.
+
+Assim, synthetizando esta série de provas de ida e estada de navegantes
+portuguezes na America, anteriormente a Colombo, encontra-se o seguinte
+quadro chronologico registador dessas viagens e descobrimentos:
+
+1436--Regista André Bianco nas suas cartas e no seu portulano as
+descobertas do Brazil ou Antilia, Mar de Baga e Mar de Sargaços.
+
+1447--Um navio parte do Porto e vae á Groelandia onde os marinheiros
+desembarcam.
+
+1448--Regista André Bianco nas suas cartas a existencia do Brazil á
+distancia precisa de 1500 milhas comprehendidas entre as ilhas do Cabo
+Verde e o Cabo de S. Roque.
+
+1452--Diogo de Teive e seu filho João descobrem a ilha das Flores e
+chegam á latitude da terra do Lavrador.
+
+1472--Descobre João Vaz Corte Real a Terra de João Vaz, ou Terra Nova,
+ou Terra dos Bacalhaus, na America do Norte.
+
+1473-1484--Affonso Sanches descobre as Antilhas.
+
+1487--Viagem á America de Fernão Dulmo e João Affonso Estreito,
+acompanhados de Martim Behaim, que registou, depois, no globo terraqueo
+que construiu e no mappa do erario real portuguez, a existencia da
+peninsula da Florida, das Antilhas e do golfo do Mexico.
+
+1492--Descoberta, entre 30 de Janeiro e 14 de abril, da terra do
+Lavrador, por João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos.
+
+Todas estas viagens, todos estes descobrimentos são anteriores á
+primeira viagem de Colombo, realizada a 8 de Agosto de 1492 e
+estabelecem a prioridade dos navegantes portuguezes no descobrimento da
+America.
+
+A carta do dr. Jeronymo Montaro, ou Monetario, de Nuremberg, a d. João
+II, em 1493, quando ainda ignorava a primeira viagem de Colombo ás
+Antilhas, aconselhando o monarcha lusitano a que demandasse a India pelo
+caminho do occidente, confirma o conhecimento que tinham os portuguezes
+das terras americanas.
+
+Ignorando, como Colombo (que até morrer suppoz sempre que chegando ás
+Antilhas havia chegado á India) que as terras do occidente constituiam
+um novo continente, formando a parte quarta do universo até então
+conhecido, o dr. Montaro elogia na sua carta o saber dos mareantes
+portuguezes, usando das seguintes expressões: «sabios que navegaram a
+_largura do mar_, que tomaram o caminho dos Açores por quadrantes
+chilindricos e astrolabio e outros engenhos, onde _nem frio nem calma os
+anojara_ e mais navegaram a _praia oriental_ sob uma temperança
+(temperatura) muito temperada do ar e do mar.»
+
+Nestas expressões--_navegaram a largura do mar, tomando o caminho dos
+Açores_--(que era o ponto de partida dos navegantes que iam ao novo
+continente) põe Montaro em evidencia as viagens dos portuguezes á
+America, muito embora ignorasse que essa terra era o Novo Mundo.
+Empregou a expressão _praia oriental_ suppondo sempre que era a India
+cujo caminho pelo oriente já havia sido descoberto, cinco annos antes,
+por Bartholomeu Dias, quando em 1487 dobrara o cabo da Boa Esperança,
+indo em busca do reino do Prestes João.
+
+Não admira que o dr. Montaro estivesse nessa ignorancia quando Colombo
+permanecia nella e insistia em acreditar que a America era a Asia e que,
+atravez della, havia um caminho por agua, que abreviava a viagem pelo
+occidente para a India.
+
+Esse caminho, que o audaz e astuto genovez embalde procurou até morrer,
+existia de facto, mas, em vez de abreviar, alongava a viagem para a
+India. Esse caminho, que elle nunca conseguiu achar, descobriu-o ainda
+um portuguez, Fernão de Magalhães, quando, a soldo da Hespanha, mas com
+marinheiros portuguezes e com o cosmographo portuguez Ruy Faleiro,
+transpoz o estreito a que ligou o seu nome, no extremo sul da America, e
+fez a primeira viagem de circumnavegação, dando a volta ao mundo e
+confirmando a doutrina da espheroicidade da terra.
+
+De tudo o que fica exposto resulta, meus senhores, de um modo
+indiscutivel, com uma veracidade esmagadora, que não foi Colombo quem
+teve a prioridade na descoberta da America e que essa grande gloria cabe
+de direito e de facto aos destemidos e desinteressados navegantes
+portuguezes do seculo XV, que á America foram e que na America estiveram
+muito antes do genovez.
+
+Qual delles, qual desses ousados lusos, precursores de Colombo, foi o
+primeiro a pôr o pé no solo americano?
+
+Evidentemente, aquelle que, em 1435, ou antes, segundo o registo de
+André Bianco, descobriu o Brazil. Desse, infelizmente, a historia não
+guardou o nome. Mas, daquelles que foram á parte norte da America e que
+lá estiveram, dando-lhe o seu nome, ha noticia; e o que firmou o direito
+á prioridade na descoberta foi evidentemente João Vaz Corte Real que, em
+1472, vinte annos antes de Colombo, descobriu a _Terra Nova_, que os
+mappas, portulanos e manuscriptos da época designaram por essa
+denominação, pela de _Terra dos Bacalhaus_, pela de _Terra de João Vaz_
+e ainda de _Terra dos Corte Reaes_, em homenagem ao grande navegante
+luso e a seus filhos, que á mesma terra foram, no mesmo ardor empenhados
+de engrandecerem a sua patria.
+
+ * * * * *
+
+Mas, vejamos agora quem era Colombo e o que fez elle, não para
+_descobrir_, mas para _chegar_ á America e de uma parte della tomar
+posse official para a corôa de Hespanha.
+
+Por uma ironia da sorte, Colombo, nascido em Genova em 1450, veio ao
+mundo dois annos depois daquelle (1448) em que André Bianco registou no
+seu mappa a existencia do Brazil a 1.500 milhas das ilhas de Cabo Verde,
+tres annos depois que um navio portuguez foi á Groenlandia, e apenas
+dois annos antes daquelle em que o navegante portuguez Diogo de Teive
+chegou á latitude da Terra do Lavrador, terra americana que João
+Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos ainda descobriram e della
+tomaram posse em 1492, mezes antes de Colombo chegar pela primeira vez
+ás Antilhas.
+
+Filho de uma familia de operarios, era Colombo um tecelão, que apenas
+apprendera a ler e a escrever e que, até aos 23 annos de edade, se
+conservara sem fazer estudos universitarios, sem seguir a carreira
+maritima, sem nada saber de cosmographia nem de pilotagem. Indo para
+Savone, em 1470, ahi estabeleceu uma taverna e ahi se conservou durante
+dois annos. Não lhe sorrindo a fortuna como taverneiro, foi, em 1473,
+para Portugal, e fixou-se na ilha da Madeira, onde abriu uma casa de
+pasto, e onde casou com uma rapariga portugueza, filha de um tal
+Bartholomeu Perestrello, mareante, já então fallecido. Na Madeira
+nasceu-lhe o primeiro filho e na Madeira começou elle a apprender
+nautica nos documentos, instrumentos e mappas de Perestrello, que a
+sogra lhe forneceu. Mais tarde, ficou sabedor da exacta situação das
+Antilhas pelos papeis de Affonso Sanches[1], que as descobriu, que em
+sua casa de pasto se hospedou e que ahi falleceu. Creio que ainda existe
+na Madeira essa casa que Colombo habitou. É Bartholomeu de las Casas, o
+amigo e companheiro de Colombo numa das suas viagens, quem, na sua
+_Historia das Indias_, nos dá conta desse episodio da vida do genovez em
+Portugal. Referindo-se aos objectos de Perestrello, que a sogra dera a
+Colombo, diz: «eram instrumentos e escriptos e pinturas (cartas e
+mappas), convenientes á navegação, os quaes deu a sogra ao dito Colombo,
+que com a vista delles muito se alegrou.» E accrescenta: «_com estes se
+crê haver sido instigada a sua natural inclinação_.»
+
+[Nota de rodapé 1: Affonso Sanches descobriu as Antilhas de 1473 a
+1484.]
+
+Quando Colombo chegou a Portugal já ahi eram conhecidas as cartas
+hydrographicas planas inventadas pelo infante d. Henrique, e foi durante
+a sua permanencia no reino que o portuguez Fernando construiu a primeira
+bussola completa com a rosa dos ventos e que a junta dos cosmographos do
+rei aperfeiçou o astrolabio, assim como as taboas astronomicas
+applicadas á navegação.
+
+Vivendo no meio de uma grande familia de navegadores, sabios, como o
+testemunhou mais tarde o sabio dr. Montaro, de Nuremberg, conhecedor das
+viagens e descobertas dos portuguezes, é natural que Colombo, instigado
+pela mulher e pela sogra, fascinado pelos instrumentos e documentos que
+recebeu e por outros que manuseou e consultou depois, estimulado pelas
+audacias felizes dos mareantes lusos, quizesse tentar fortuna pelo mar e
+procurasse obter a pratica da navegação que de todo lhe faltava. Para
+isso conseguir, embarcou em navios portuguezes e com pilotos
+portuguezes apprendeu a navegar.
+
+É ainda Las Casas quem nol-o affirma, quando diz, na sua já citada
+_Historia das Indias_: «resolveu ter por experiencia o que então do
+mundo pela de Ethiopia se andava e praticava pelo mar e assim navegou
+algumas vezes aquelle caminho em companhia de portuguezes, como pessoa
+já residente e quasi natural de Portugal.»
+
+Foi, portanto, em Portugal que Colombo apprendeu a navegar e foi ainda
+em Portugal que teve conhecimento exacto de terras ao occidente, terras
+que, obcecado pelas theorias de Toscanelli, Marco Polo e outros
+geographos e cosmographos antigos, elle suppoz sempre que fossem
+asiaticas.
+
+Foi então, depois de adquirida esta instrucção theorica e pratica,
+ministrada pelos portuguezes, que o genovez affagou a idéa de descobrir
+o caminho da India pelo occidente, indo á terra onde já havia chegado
+Affonso Sanches.
+
+Para conseguir os seus fins, procurou desde logo fazer relações com d.
+João II, rei de Portugal, o qual, longe de esconder delle as provas que
+possuia da existencia de terras ao occidente e ao sul, lh'as mostrou,
+como o proprio Colombo confessa, indicando-lhe nos mappas a situação da
+Terra Nova ou de João Vaz e a do Brazil ou Terra dos Papagaios.
+
+Ora, aconteceu, segundo informa Las Casas, que um dia, «soprando fortes
+ventos do poente, o mar trouxe ás costas das ilhas do Fayal e da
+Graciosa alguns troncos de pinheiros e ás da ilha das Flores dois
+cadaveres de caras mui largas e de feições differentes das dos
+christãos.»
+
+Guiado por estes indicios, e tendo conhecimento, como ainda informa Las
+Casas, da viagem do navio portuense que em 1447 tinha ido á Groelandia,
+da ida de Diogo de Teive em 1452 á latitude da Terra do Lavrador, das
+viagens de Vicente Dias, de Antonio Teive e de Affonso Sanches, de 1473
+a 1484, da concessão a Fernão Domingues do Arco, em 1484, e das viagens
+de João Vaz Côrte Real e seus filhos, começadas em 1472, resolveu
+Colombo, certo da existencia de terras ao occidente, procurar um
+principe christão que o ajudasse e protegesse na empresa do
+descobrimento da India pelo poente.
+
+Foi então a Castella offerecer os seus serviços á corôa hespanhola.
+
+Diz Las Casas que, guiado pelas informações que possuia, «_Colombo tinha
+a certeza que havia de descobrir terras e gentes nellas, como si nellas
+pessoalmente tivesse estado_.»
+
+E foi isso, provavelmente, o que Colombo, munido de copias dos mappas
+que viu em Portugal, e conhecedor das viagens e das doações alli feitas,
+affirmou aos reis de Castella, assegurando-lhes, não que ia achar ou
+descobrir, mas tomar posse para a Hespanha de terras anteriormente
+descobertas pelos portuguezes, dessas Antilhas que Affonso Sanches
+descobrira, cuja situação os seus mappas e papeis lhe revelaram.
+
+Tal offerta elle não podia fazel-a ao rei de Portugal, porque tinha a
+certeza de que seria recusada. Que poderia elle offerecer á corôa
+portugueza, que esta já não conhecesse?
+
+Accresce que, achando-se individado e sendo perseguido pelos credores,
+elle sentia necessidade urgente de sahir de Portugal e procurar no
+estrangeiro os meios de solver os seus compromissos.
+
+Eis ahi as razões pelas quaes deixou Portugal e foi á Hespanha, não no
+nobre intuito de descobrir terras e de praticar feitos que lhe dessem
+renome, mas no de ganhar dinheiro.
+
+Os que, como Humbolt, affirmam que Colombo foi, _por inveja_, maltratado
+em Portugal e, por isso, de lá sahiu, fugindo, faltam á verdade.
+
+Inveja de que? Que feitos, que emprehendimentos, que descobertas havia
+elle feito, quando deixou o reino portuguez, onde tudo foi apprender,
+para que delle alli tivessem inveja? Inveja poderia elle ter, e
+certamente tinha, daquelles que, arriscando a vida e a fortuna, já
+haviam dilatado o mundo, quando elle nada tinha feito até então.
+
+Mas, é elle proprio quem desmente os que affirmam que foi a inveja que o
+fez sahir de Portugal, quando, em uma carta ao rei de Castella, diz:
+«fui aportar a Portugal cujo rei entendia de descobrimentos mais do que
+nenhum outro.» E, em outra carta, accrescenta: «o grande coração dos
+principes de Portugal que ha tanto tempo proseguem na empresa de Guiné e
+tambem na de Africa onde gastaram metade da gente do reino...»
+
+Não teria elle feito taes elogios aos reis portuguezes se, _por inveja_,
+tivesse sido maltratado em Portugal. Que a causa principal da sua
+precipitada sahida de Portugal foram as dividas, deprehende-se
+claramente dos seguintes trechos da amistosa e protectora carta que d.
+João II, em 1488, lhe dirigiu: «E porque por ventura tereis algum receio
+das nossas justiças _por razão de algumas cousas a que sejaes obrigado_,
+nós por esta carta vos asseguramos pela vinda, estada e tornada, que não
+sejaes preso, retido, accusado, citado nem demandado por nenhuma cousa
+ou seja civil ou criminal de qualquer penalidade. E por ella mesmo
+mandamos as nossas justiças que a cumpram assim.»
+
+Eis ahi como cáe por terra a invencionice da inveja e como fica patente
+que as dividas foram a causa principal da fuga do genovez.
+
+Munido dessa generosa carta de D. João II, que é um salvo conducto,
+Colombo volta a Portugal e vae então offerecer ao rei os seus serviços
+na empresa dos descobrimentos e o rei os acceita, não para aproveitar-se
+delles, mas para reter Colombo junto a si, evitando que, por meio delle,
+Castella se apropriasse de terras que a Portugal já pertenciam.
+
+Mas, o astuto genovez, nem pelo facto de ficar ao serviço do rei de
+Portugal, deixa de conservar-se ao serviço da Hespanha de cujo thesouro
+havia recebido 14.000 maravedis[2] em 1487, mais 3.000 pouco depois e
+ainda 3.000 em junho de 1488, isto é, mezes depois de receber a carta de
+d. João II que lhe dava o salvo conducto para voltar ao reino!!...
+
+[Nota de rodapé 2: O maravedi valia cerca de 25 réis fortes.]
+
+Eis ahi patente a dualidade ambiciosa de Colombo, que fica ao serviço de
+Portugal e ao da Hespanha, simultaneamente, explorando a ambos sem
+escrupulos!...
+
+Essa dualidade elle a revelou ainda no proprio nome, pois assignava-se
+_Colon_ na Hespanha e _Colombo_ na Italia e em Portugal!!!...
+
+Ao fim de quatro annos dessa dupla exploração, consegue Colombo assignar
+um tratado com a corôa de Hespanha, obtendo della as tres caravelas de
+que carecia para ir á India pelo occidente e _achar_ terras que já
+tinham sido achadas pelos navegantes portuguezes. Por esse tratado, elle
+obteve as seguintes vantagens: «o grau de cavalleiro da espada dourada,
+os cargos de almirante mór do mar oceano, de vice-rei e governador
+perpetuo das terras que descobrisse, a decima de todas as rendas, e o
+direito de poder concorrer com o oitavo das despesas de todas as
+frotas, recebendo o oitavo dos lucros.»
+
+Que contraste resalta do procedimento deste aventureiro com o dos
+navegantes portuguezes que, antes delle, haviam ido á America,--como os
+Corte Reaes, Fernão Dulmo e Lavrador--que armavam as caravelas á sua
+custa, que, nisso consumiam as suas fortunas e se individavam, vindo, ao
+depois, offerecer ao seu rei e ao seu paiz as terras achadas, sem pedir
+favor nem retribuição alguma!
+
+Havia no tratado entre Colombo e os reis de Castella uma clausula pela
+qual fora estipulado que 10.000 maravedis seriam dados pela corôa e de
+alviçaras ao marinheiro da frota columbina que primeiro avistasse e
+annunciasse terra ao commandante. Esse marinheiro foi Rodrigo de Triana.
+Mas quando elle, do cesto da gavea, enthusiasmado apontou para o
+horizonte onde apparecia o relevo da terra desejada e, alegremente, a
+annunciou a Colombo, este declarou logo que, na noite anterior, já havia
+visto uma _luz_ e, estabelecendo com essa _luz_ a prioridade, apossou-se
+da gratificação que ao seu subordinado competia!
+
+Os que pela rama estudaram a vida deste aventureiro audaz exaltam a sua
+caridade christã, esquecendo: que, na sua primeira viagem ás Antilhas,
+nem padre elle levou na frota para chamar o gentio ao gremio da egreja;
+que, ao chegar ao golfo de Samaná, fez logo correr sangue, atacando os
+indigenas nús e quasi desarmados; que, não podendo enviar aos reis de
+Castella as promettidas e almejadas riquezas em especiarias, pedras e
+metaes preciosos, mandou navios carregados de escravos para serem
+vendidos e com o preço obtido pagar-se a despesa da viagem; que, de 1493
+a 1496, governando a Hespaniola, que é o Haiti de hoje, exterminou
+barbaramente a terça parte da população; que, quando mandou Pedro
+Margarite reconhecer a ilha de Cuba, deu-lhe ordem para mutilar os
+indigenas que lá encontrasse; que, finalmente, quando ordenou a Hojeda
+(um dos pretensos descobridores do Brazil) que fosse prender o cacique
+Cahonaboa, deu-lhe instrucções para que o fizesse á traição,
+attrahindo-o com presentes, illudindo-o com fingida amizade e
+apoderando-se delle em seguida!!...
+
+Eis ahi o quilate da caridade christã de Colombo.
+
+Parece que a cavalheiresca Hespanha, a despeito de Colombo a ter
+enriquecido, sempre suspeitou desse _descobridor_, que a seu soldo
+trazia, pois, logo após a sua segunda viagem á America, perseguiu-o
+tenazmente, submettendo-o a um tribunal e, quando elle regressou da
+terceira, após dois mezes de prisão em calabouço, mandou que viesse a
+bordo preso a uma grilheta, como se fosse um bandido!
+
+Morto em 1506, ignorando sempre que a terra que alcançara para a
+Hespanha era a America, pois viveu sempre convicto de que era a Asia,
+nem depois de morto conseguiu descansar, pois os seus ossos andaram em
+viagens continuas de Valladolid, onde primeiro foi sepultado, para
+Sevilha, depois para o Haiti, depois para Cuba e, finalmente, de Cuba,
+de novo, para a Hespanha, onde actualmente param.
+
+E sendo genovez, a Italia, que aliás lhe ergueu uma estatua, não
+reclamou jamais as suas atormentadas cinzas, talvez por desconfiar da
+authenticidade desse pretenso filho cuja nacionalidade é ainda hoje
+discutida.[3]
+
+[Nota de rodapé 3: Vide _Nota A_ no fim da conferencia.]
+
+Eis ahi senhores, quem foi Colombo, e como foi que elle deu á Hespanha
+terras dessa America que os portuguezes haviam descoberto.
+
+Conhecidos os factos que venho de narrar, posso dizer agora, sem receio
+de contestação séria, que Colombo não descobriu a America, porque, 15
+annos, pelo menos, antes delle nascer, já a America havia sido
+descoberta pelos navegantes lusos do primeiro terço do seculo XV.
+
+Como nota elucidativa e de importancia historica, cumpre-me accrescentar
+que, quando Colombo regressou da sua primeira viagem ás Antilhas e
+communicou a sua descoberta ao rei de Portugal, d. João II, logo este
+monarcha protestou energicamente, dizendo-lhe: «Que aquella conquista
+lhe pertencia e que suas eram as terras aonde elle chegára.»
+
+A este protesto do rei portuguez, respondeu Colombo hypocritamente, «que
+o não sabia e que os reis de Castella apenas lhe haviam ordenado que não
+fosse á Guiné nem á Mina.»
+
+Ao que retrucou d. João II: «Que tinha a certeza que nisso não haveria
+mistér de terceiros».
+
+Este dialogo, extrahido do diario da primeira viagem de Colombo, por
+elle proprio escripto, mostra que o usurpador da gloria alheia
+esquivava-se á responsabilidade directa do delicto por elle commettido,
+sciente e conscientemente, e que atirava essa responsabilidade para os
+hombros dos reis de Castella, como se fossem estes que tivessem ido ás
+Antilhas ou que o tivessem induzido a ir até lá!...
+
+Mas, deixemos Colombo e vejamos agora como foi descoberta esta parte do
+continente americano que se chama o Brazil.
+
+Desde o começo desta conferencia, vos disse que não foi Pedro Alvares
+Cabral quem descobriu o Brazil, pois o Brazil já estava designado e
+marcado nos mappas que a corôa portugueza possuia desde 1436, fixando
+André Bianco, desde 1448, a sua distancia das ilhas de Cabo Verde em
+1500 milhas.
+
+Nesse mappa de 1448, que André Bianco traçou em Londres, _depois de
+haver passado por Portugal_, estava o Brazil representado ao sul das
+ilhas dos Hermanos do archipelago de Cabo Verde, ilhas que têm hoje a
+denominação de Brava e do Fogo. Na parte referente ao Brazil e
+correspondente ao Cabo de S. Roque, havia no mappa esta legenda: _Ixola
+otincticha xe longa a ponente 1500 mia_, cuja traducção é esta: «Ilha
+authentica (ou Antilia) 1500 milhas ao poente.»
+
+Ora, o cabo de S. Roque, como todos sabem, dista exactamente 1520 milhas
+das ilhas de Cabo Verde.
+
+Estes dois documentos bastam para deixar patente que, quando, em 1500,
+Pedro Alvares Cabral aportou a Porto Seguro da costa brazileira, fazia,
+no minimo, 65 annos que essa parte da America tinha sido descoberta.
+
+Foram ainda navegantes portuguezes que a descobriram e até o testamento
+de João Ramalho, escripto nas notas do tabellião Lourenço Vaz, na villa
+de S. Paulo, em 3 de maio de 1580, segundo o testemunho do frei Gaspar
+da Madre de Deus, que delle teve uma copia, o prova, pois, ahi, Ramalho,
+na presença do dito tabellião, do juiz ordinario Pedro Dias e de quatro
+testemunhas, declarou que estava no Brazil ha 90 annos, isto é, desde
+1490, dois annos antes da ida de Colombo ás Antilhas e dez annos antes
+da chegada de Cabral a Porto Seguro.
+
+Prova-o ainda o tratado de Tordesillas, assignado em 1494 entre Portugal
+e a Hespanha, o qual, marcando para limites entre os dois reinos uma
+linha divisoria, do polo artico ao antarctico, distante 370 leguas das
+ilhas de Cabo Verde, abrangia na parte portugueza o Brazil, cujos
+limites foram traçados por esse meridiano.
+
+O mappa de Cantino, de 1502, regista essa linha divisoria e inclue, de
+accordo com o tratado, na parte portugueza, não só o Brazil como a Terra
+Nova ou de João Vaz e a Groelandia, assignalando tudo o que ficava á
+direita da linha divisoria com a bandeira portugueza e a parte á
+esquerda com a de Castella, com a seguinte legenda:--«Este é o marco
+dantre Castella e Portugal.»
+
+O açoriano Fructuoso, tratando de João Vaz Côrte Real, diz que elle
+«descobriu algumas partes do Poente e do Brazil», devendo, portanto,
+esta ultima descoberta ser anterior a 1500, pois João Vaz falleceu em
+1496.
+
+Por um manuscripto de frei Diogo das Chagas, citado por Drumond nos seus
+_Annaes da Ilha Terceira_, sabe-se que, antes de 1496, tambem o
+navegante João Coelho veio ao Brazil.
+
+Em 1514, Estevam Fróes confirma este asserto, numa carta ao rei de
+Portugal, na qual lhe diz: «alegravamos que vossa alteza possuia esta
+terra ha vinte annos e mais (portanto, desde antes de 1494), e que já
+João Coelho... viera ter por onde nós outros vinhamos a descobrir e que
+vossa alteza estava em posse destas terras por muitos tempos.»
+
+O proprio Vasco da Gama, na sua primeira viagem á India, em 1497, passou
+proximo do Brazil, tendo signaes de terra em 22 de agosto, isto é, 19
+dias depois que sahiu de Cabo Verde, como se verifica no Roteiro dessa
+sua viagem.
+
+No seu _Esmeraldo de situ orbis_ refere Duarte Pacheco, o celebre
+cosmographo, _que em 1498 estivera no Brazil_, provavelmente, como
+suppõe plausivelmente o sr. Faustino da Fonseca, no intuito de
+verificar, por ordem da corôa portugueza, os limites determinados pela
+linha divisoria do tratado de Tordesillas.
+
+Mestre João, physico mór de d. Manoel, e cosmographo da frota de Cabral,
+que na sua interessante carta ao rei, escripta de Porto Seguro, regista
+o Cruzeiro do Sul e marca para o Brazil a latitude de 17 graus, diz,
+entre outras cousas interessantes, referindo-se á terra brazileira, que
+a terra onde chegara, _já se achava traçada no mappa-mundi de Pedro Vaz
+da Cunha Bisagudo_, affirmando-o categoricamente na seguinte passagem da
+carta: «quanto, senhor, ao sitio desta terra, mande vossa alteza trazer
+um mappa-mundi, que tem Pedro Vaz Bisagudo, e por ahi poderá ver vossa
+alteza o sitio desta terra, ainda que aquelle mappa-mundi não certifica
+si esta terra é habitada ou não: é mappa-mundi antigo e ahi achará vossa
+alteza escripta tambem a Mina...»
+
+Portanto, o proprio cosmographo da frota de Cabral sabia, desde antes
+da viagem de 1500, que havia terra nesse rumo de sudoeste que a frota
+cabralina seguiu, como o sabia tambem Duarte Pacheco, o qual já nessa
+terra tinha estado em 1498.
+
+Tudo isto vem provar que, se Cabral não descobriu o Brazil, tambem o não
+descobriram os pretensos descobridores Vicente Yanez Pinzon, Diogo de
+Lepe e Alonso Hojeda, aventureiros, que só chegaram á costa americana em
+1499, não podendo tomar posse da terra brazileira porque o tratado de
+Tordesillas de 1494 não consentia em tal. As proprias instrucções que o
+rei de Castella lhes deu em 1499, determinavam «que não tocassem nas
+terras de Portugal».
+
+Elles estiveram, de facto, em terras do Brazil, antes de Cabral, mas a
+descoberta dessas terras não lhes pertence.
+
+Não foram, pois, Cabral, nem Pinzon, nem Lepe, nem Hojeda, os
+descobridores do Brazil, podendo-se, porém, assegurar que essa gloria
+cabe incontestavelmente a navegantes portuguezes do seculo XV, embora
+seja difficil determinar qual foi desses intrepidos argonautas o
+primeiro que pisou o solo brazileiro.
+
+Á vista das cartas e portulanos de André Bianco, de 1436 e de 1448,
+pode-se affirmar que essa descoberta foi feita, como já disse, em 1435,
+ou antes.
+
+Vejamos, agora, como Cabral aportou a esta terra e della tomou posse
+official para a corôa de Portugal.
+
+O fim ostensivo, o fim apparente da expedição de Cabral era ir á India.
+O fim real, o fim verdadeiro era ir, primeiro, ao Brazil, delle tomar
+posse official, e, em seguida, fazer rumo para o Cabo da Boa Esperança,
+em demanda da India.
+
+Como já referi, a corôa portugueza, anteriormente á viagem de Cabral,
+havia enviado ao Brazil Duarte Pacheco, eminente cosmographo, que tambem
+veio na frota cabralina. O autor do _Esmeraldo de situ orbis_ aqui
+estivera, pois, em 1498, para verificar os limites da linha divisoria do
+tratado de Tordesillas, que, na parte portugueza, abrangia as terras dos
+Corte Reaes, a Groelandia e o Brazil, mas deste não havia tomado posse
+official.
+
+Tornava-se, pois, indispensavel a Portugal reconhecer e tomar posse, sem
+demora, dessa terra e, assim, guiando-se pelas informações de Duarte
+Pacheco e do proprio Vasco da Gama, bem como pelas de outros seus
+navegantes, que haviam aportado á Terra dos Papagaios, aproveitava a
+expedição á India para, de passagem, tomar posse official do Brazil. O
+Brasil era, portanto, um ponto de escala da viagem de Cabral á India,
+mas um ponto de escala forçado e já conhecido, pois sabia tambem a
+corôa portugueza, pelos mappas e portulanos de Bianco, que essa «Ilha
+authentica ou Antilia» ficava a 1500 milhas de distancia das ilhas Brava
+e do Fogo, do archipelago de Cabo Verde.
+
+Era a frota de Cabral composta de 13 naus, uma das quaes com
+mantimentos, e nellas embarcaram 1.200 homens, entre os quaes o
+capitão-mór Pedro Alvares Cabral, que commandava a nau capitanea, os
+capitães das outras naus Sancho de Toar, Simão de Miranda de Azevedo,
+Ayres Gomes da Silva, Nicolau Coelho, Bartholomeu Dias (o descobridor do
+Cabo da Boa Esperança), Diogo Dias, Gaspar de Lemos, Luiz Pires, Simão
+de Pina, Pedro de Atayde Inferno, Vasco de Atayde e Nuno Leitão da
+Cunha.
+
+Iam tambem na frota: Duarte Pacheco, autor do _Esmeraldo de situ orbis_,
+Mestre João, physico mór do rei, que ia como cosmographo, o escrivão
+Pero Vaz Caminha, diversos frades, entre os quaes frei Henrique de
+Coimbra, os pilotos Affonso Lopes, Pedro Escolar e outros que Vasco da
+Gama trouxera da India, diversos indios, um grumete negro da Guiné,
+alguns interpretes e varios degredados.
+
+Iam os navios de Cabral apparelhados e munidos do necessario para anno e
+meio de viagem, bem providos de artilheria, de munições de bocca, de
+armas brancas, como espadas e lanças, e, em cada nau, havia uma botica.
+Para o commercio, levavam as caravelas, velludos, setins, damascos,
+pannos de lã, coral, cobre, vermelhão, mercurio e ambar. Além disso,
+levavam os padres comsigo um orgão e alfaias de prata.
+
+Era, evidentemente, a maior, a melhor apparelhada e a mais garrida frota
+que partia da Europa.
+
+Em 15 de fevereiro de 1500 recebeu Cabral a carta de capitão mór e dos
+poderes de que ia revestido. Com essa carta foi-lhe dado o regimento
+pelo qual se devia guiar na viagem e, nesse regimento, que, na parte
+relativa ao rumo, fôra organizado por Vasco da Gama, estava traçada a
+rota que devia seguir.
+
+Nesse documento minucioso, recommendava-se ao capitão mór que «se
+afastasse da costa da Africa para encurtar a via e que, ao partir da
+ilha de Santiago em Cabo Verde, deviam os navios fazer o seu caminho
+pelo sul, _bordejando pelas bandas do sudoeste_... e, depois, na volta
+do mar, até metterem o Cabo da Boa Esperança, em leste franco.»
+
+O regimento não fala claramente em aportar á Terra dos Papagaios, mas
+estipula que, ao deixar Cabo Verde, «fáça a frota caminho pelo sul,
+bordejando pelas bandas de sudoeste» e sendo a missão secreta de Cabral
+tomar posse official dessa terra e devendo elle de ter necessidade de
+arribar a uma terra qualquer, antes da chegada ao Cabo ou á India, para
+abastecer a frota de agua e lenha e dar descanso á marinhagem, a terra
+do Brazil estava naturalmente indicada para tal fim. Accresce que, na
+frota, ia Duarte Pacheco que, tendo já estado no Brazil, saberia guiar
+Cabral com segurança a esse ponto de escala forçada da gran viagem, de
+antemão indicada pelo Gama.
+
+A rota traçada nas linhas e entrelinhas do regimento era, pois: seguir a
+frota de Lisboa á ilha de Santiago, de Cabo Verde, dahi seguir pelo sul,
+bordejando pelo sudoeste, até alcançar a costa da Terra dos Papagaios,
+dahi zarpar para o Cabo, dobral-o e seguir para a India.
+
+Esse rumo inda é o mesmo que hoje seguem os navios que vêm de Lisboa ao
+Brazil. Prompta a frota de Cabral, partiu ella do Tejo aos 9 de março de
+1500, acompanhando-a o rei d. Manuel até fora da barra. Cinco dias
+depois, a 14 de março, passa a frota pelas Canarias onde encontra
+calmaria e onde permanece um dia; a 22, chega a Cabo Verde e,
+exactamente um mez depois, a 22 de abril, avista a terra brazileira,
+gastando, de Lisboa a Porto Seguro, 43 dias.[4]
+
+[Nota de rodapé 4: Vide _Nota C_ no fim da Conferencia]
+
+Dos historiadores que consultei, e não poucos foram, sobre a viagem de
+Cabral ao Brazil, attribuem uns ao _acaso_ esse feito, dizem outros que
+a frota fôra impellida para a nossa costa por um _forte temporal_, que a
+apanhou.
+
+Nenhum delles porém, explica em que altura a frota foi apanhada pelo
+temporal nem quanto tempo este durou.
+
+Ora, contra esse _forte temporal_ protestam energicamente os dois
+melhores documentos que possuimos da viagem de Cabral: as cartas que
+Mestre João, o cosmographo da frota, e Vaz Caminha, o escrivão, enviaram
+ao rei d. Manuel, de Porto Seguro, pela nau que dahi partiu a 1.º de
+maio, de regresso a Lisboa, para dar conta do feito ao monarcha.
+
+Nem o cosmographo nem Caminha falam de tal temporal, pelo contrario, o
+que dizem é que, durante a viagem, houve calmaria e que por causa della
+perdeu a frota um dia em frente ás Canarias. Temporal soffreu a frota,
+mas depois que deixou o Brazil e se fez vella para o Cabo, onde falleceu
+o seu descobridor Bartholomeu Dias.
+
+Não houve, pois, temporal na travessia até ao Brazil, nem o acaso
+interveio na chegada da frota cabralina a esta terra. O rumo a seguir
+tinha-lhe sido traçado; além disso, já nessa época tinham os portuguezes
+perfeito conhecimento das correntes maritimas e dos ventos geraes e
+sabiam aproveital-os de accôrdo com as rotas a seguir. O duplo fim de
+Cabral, tomando o rumo seguido e aportando ao Brazil, éra, como já o
+disse, abastecer-se de lenha e agua, dando descanso á marinhagem e tomar
+posse official da Terra dos Papagaios para a corôa portugueza.
+
+O _acaso_ e o _temporal_ têm, portanto, de ser banidos dos livros que
+se occupam do descobrimento da terra de Vera Cruz.
+
+O primeiro e grande historiador que o Brazil teve, ainda hoje o mais
+sincero e veridico, é Pero Vaz Caminha, o modesto escrivão, que narrou
+ao rei d. Manoel, numa commovente e encantadora carta, onde a minucia
+corre parelhas com a simplicidade, a historia da travessia, da chegada e
+da permanencia de Cabral na terra brazileira.
+
+Nessa longa missiva, escripta de Porto Seguro e datada de 1.º de maio de
+1500, o consciencioso historiador dá conta ao seu rei e senhor de todas
+as peripecias da viagem, desde a partida de Lisboa até ao Brazil e ainda
+de tudo o que se passou durante os 12 dias em que a frota ficou ancorada
+em frente á costa brazileira. Persuadido de que o que mais interessaria
+a D. Manuel era o conhecimento exacto da terra reconhecida, da gente que
+a habitava, dos seus costumes e indole, das riquezas que possuia e da
+facilidade que poderia offerecer á colonização, não poupou minucias para
+pôr o rei ao corrente do que vira e do que lhe poderia ser proveitoso.
+
+É assim que elle descreveu com enthusiasmo e cores vivas o esplendor da
+natureza brazileira, a frescura, abundancia e potabilidade das nossas
+aguas, a brandura do clima, a belleza do nosso céo, onde rutilava o
+cruzeiro, referindo-se com interesse e insistencia á indole pacifica
+dos nossos indigenas, aos seus habitos e costumes, á belleza das suas
+formas, á sua completa innocencia, deprehendida da sua completa nudez, e
+á facilidade com que acceitavam a cathechese, parecendo-lhe empresa de
+pequeno esforço fazel-os christãos, chamando-os ao gremio da egreja.
+Tratando dos productos naturaes, descreveu a fauna e a flora que
+encontrou, accentuando que os incolas, haviam dado demonstrações
+evidentes aos da frota de que em terra havia ouro, prata e papagaios.
+
+Descrevendo o que fizeram os indigenas, que acudiram á praia, quando das
+naus partiram as primeiras almadias para o transporte de agua, diz que
+«os indios logo trouxeram cabaças e tomavam alguns barris que nós
+levavamos, enchiam-os de agua e traziam-os aos bateis».
+
+Este trecho da carta de Caminha prova que a frota cabralina começou logo
+por fazer aguada e prova tambem que os indigenas vinham offerecer agua
+aos homens brancos, como se já estivessem habituados a praticar esse
+serviço, repetindo actos praticados anteriormente; o que demonstra que
+não era a primeira vez que viam homens brancos e naus.
+
+A facilidade com que alguns dos naturaes se deixaram capturar e levar a
+bordo da nau capitanea, alli permanecendo e dormindo tranquilamente
+durante uma noite, como narra Caminha, prova ainda que os nossos
+indigenas já estavam familiarizados com os europeus, que já os
+conheciam, que conheciam os seus habitos e costumes, que delles não
+tinham receio.
+
+E isso é ainda uma prova indirecta de que os portuguezes já haviam
+estado no Brazil antes de Cabral aqui chegar. E, de facto, cá estiveram,
+porque já aqui estava João Ramalho, que havia chegado 10 annos antes e
+que tanto facilitou a missão de Martim Affonso, quando este aportou á
+antiga capitania de S. Vicente.
+
+Ao primeiro monte que avistou deu Cabral o nome de Monte Paschoal, á
+terra o nome de Vera Cruz, porque no céo rutilava o cruzeiro, e ao
+porto, onde definitivamente fundeou, o de Porto Seguro. Chegou o domingo
+de paschoela, e, narra Caminha, que o capitão mór deliberou ouvir missa
+e sermão em um ilhéo de Porto Seguro. Logo alli se armou o altar e frei
+Henrique de Coimbra officiou, cercado de todos os padres da frota. Foi
+essa a primeira missa, de que temos noticia exacta e circumstanciada,
+dita no Brazil, que forneceu assumpto para um dos mais bellos e
+suggestivos quadros de Victor Meirelles. Terminada a missa, frei
+Henrique subiu a uma cadeira alta, que lhe serviu de pulpito e dahi
+prégou, fazendo a historia do Evangelho, descrevendo a travessia e pondo
+a terra reconhecida por Cabral sob a protecção da Cruz. Á missa e ao
+sermão assistiram os naturaes que ao ilhéo acudiram e que ao depois,
+folgaram, fraternizando com os tripulantes da frota. Na nau capitanea
+discutiu-se depois se conviria tomar dois indigenas para envial-os ao
+reino, ou se seria preferivel deixar entre elles alguns degredados,
+sendo por grande maioria, adoptado de preferencia este ultimo alvitre,
+pois os degredados, ficando alli, apprenderiam a lingua dos naturaes e
+poderiam servir de interpretes, quando o rei mandasse nova frota ao
+Brazil para o colonizar; accresce que era do plano de Cabral, como foi
+mais tarde do de Martim Affonso, não hostilizar os indigenas, não lhes
+incutir desconfiança alguma, tratando-os com carinho e brandura, sem os
+violentar jámais, para assim não sahir dos preceitos da caridade christã
+e tel-os sempre como alliados. Para os ir habituando á vida com os
+brancos, que deviam ficar definitivamente com elles, foram logo enviados
+á praia e ahi deixados dois degredados, que deviam passar a noite com os
+naturaes; mas estes, sem os molestar, coagiram-nos a voltar ás naus.
+Quando os da frota ergueram num ponto elevado da costa, dominando o mar,
+a primeira cruz, que ficou em terra brazileira e que confirmou o nome de
+Vera Cruz, que Cabral lhe havia dado, os indigenas auxiliaram depois á
+abastecer as naus de lenha e de agua. E quando a maruja beijou a cruz
+erguida, os indios tambem a beijaram, pondo-se de joelhos, gestos que
+levaram Caminha a affirmar «que era gente de tal innocencia que, se os
+intendessemos e elles a nós, seriam logo christãos, porque, segundo
+parece, não têm nenhuma crença». E accrescenta, logo depois, na sua
+luminosa carta ao rei: «se os degredados, que hão de ficar, aprenderem
+bem a sua fala, não duvido, _segundo a santa tenção de vossa alteza_,
+fazerem-se christãos e crerem a nossa santa fé á qual praza Nosso Senhor
+que os traga, porque decerto esta gente é boa e imprimir-se-á
+ligeiramente nelles qualquer cunho que lhe quizerem dar... e, portanto
+v. alteza, pois tanto deseja accrescentar na santa fé catholica, deve
+entender na sua salvação, e prazerá a Deus que com pouco trabalho será
+assim.»
+
+Prova este trecho de carta do escrivão da frota que elle conhecia a
+tenção do rei, que sabia que o seu intento era chamar os naturaes das
+terras, por onde passasse a frota, ao gremio da egreja e que, ao
+contrario do que fizeram Colombo, Pinzon, Hojeda, Lepe e outros, era do
+seu programma assegurar a posse da terra reconhecida, conquistando os
+naturaes pela brandura e carinho, incutindo-lhes a fé christã.
+
+No dia primeiro de maio de 1500, vespera da partida de Cabral para o
+Cabo, nova missa foi dita por frei Henrique de Coimbra, não mais no
+ilhéu em que disséra a primeira, mas junto á cruz erguida em terra e á
+qual foi pregado o escudo das armas de Portugal.
+
+Ainda a essa missa assistiram os indigenas, imitando todos os gestos que
+viram fazer aos portuguezes e, depois do sermão, frei Henrique lançou ao
+pescoço de todos os que alli estavam, pequenos crucifixos de metal, que
+elles beijaram com satisfação e receberam com visivel empenho.
+
+Em seguida, foram-se os mareantes para as naus, deixando em terra dois
+degredados e no dia immediato, 2 de maio, a frota fez-se de véla para o
+Cabo da Boa Esperança, tendo regressado ao reino uma das caravelas,
+capitaneada por Gaspar de Lemos, para levar ao rei a noticia do
+reconhecimento officialmente feito da terra do Brazil e da sua posse
+para a corôa portugueza.
+
+A essa terra, que era conhecida pelo nome de Terra dos Papagaios e que
+Cabral denominou Vera Cruz, poz d. Manoel, em 1502, o nome de Santa
+Cruz, que foi posteriormente substituido pelo de Brazil, devido ao
+grande commercio do pau brazil que ella produzia.
+
+Dando conta, em carta, ao rei da Hespanha do reconhecimento do Brazil
+feito por Cabral, disse d. Manoel: «o capitão deixou alli dois
+degredados á mercê de Deus.» Um dos pilotos da frota explicou depois que
+esses degredados puzeram-se a chorar e que logo os naturaes os animaram,
+mostrando ter piedade delles.
+
+Vaz Caminha, na sua deliciosa carta, revela, que, além desses dois
+degredados, que foram abandonados em terra, dois grumetes da frota para
+ella fugiram e nella ficaram por sua livre vontade, o que significa que
+a gente que a habitava era pacifica e hospitaleira.
+
+Vem talvez dahi a herança dessa proverbial hospitalidade brazileira, que
+tanto surprehende e encanta os estrangeiros que visitam o nosso paiz.
+
+Eis, senhores, como foi descoberto o Brazil e como Cabral, 65 annos
+depois do seu descobrimento, o reconheceu e delle officialmente tomou
+posse para a corôa de Portugal, á qual aliás já pertencia pelo tratado
+de Tordesillas.
+
+Não coube, pois, a Cabral a grande gloria de descobrir o Brazil, mas
+coube-lhe a não pequena gloria de fazer o seu reconhecimento e delle
+tomar posse para o paiz que o descobrira, realizando o memoravel feito
+sem hostilizar os filhos dessas regiões incultas, sem inflingir um
+ligeiro castigo, sem despertar nelles o odio que Colombo e os
+hespanhoes, que depois vieram á conquista da America, accenderam entre
+os indigenas, dizimando-os, submettendo-os a ferro e fogo, caçando-os
+barbara e deshumanamente _com cães amestrados na caça do homem_, como
+quem caça hyenas e lobos!
+
+Essa imperecivel gloria coube a Cabral e basta ella para que se
+justifique o preito de admiração que lhe rendemos, sem olvidar os
+serviços inestimaveis dos seus maiores na busca e descobrimento desta
+terra abençoada.
+
+Bastava a sua caridade christã para com os filhos deste paiz para que
+lhe devessemos o monumento que no Rio de Janeiro se acha erguido em
+frente ao mar glauco e luminoso, perpetuando a sua memoria immaculada e
+a do seu feito incruento.
+
+Com o reconhecimento do Brazil em 1500, fechou Portugal com élo de ouro
+o ciclo grandioso das suas descobertas no seculo XV com as quaes dilatou
+o mundo e fez avançar a civilização.
+
+Nesse seculo de estupenda actividade maritima, em que os lusos
+mareantes, guiados e instigados pela voz prophetica do infante d.
+Henrique, avançaram sem pavor pelo mar immenso e tenebroso, que devia
+estar cheio de escolhos, de bruma negra e povoado de monstros
+assustadores, descobriram elles, caminhando para o desconhecido, a ilha
+da Madeira, as Formigas, todas as ilhas do archipelago dos Açores, todas
+as de Cabo Verde, o mar de Sargaços, uma grande parte do Brazil, uma
+parte da America Central e da America do Norte e, caminhando de ousadia
+em ousadia, dobraram o Cabo das Tormentas, descobriram e atravessaram o
+estreito de Magalhães, fizeram a primeira viagem em redor do mundo,
+apoderaram-se de uma parte da Asia e de uma parte da Africa, enchendo o
+mappa com conquistas suas!...
+
+E tudo isto foi feito do decurso de menos de um seculo por um punhado
+de homens que partiram, affrontando a morte, de uma insignificante nesga
+de terra erguida á beira mar, no occidente da vasta Europa!...
+
+Olhae para o mappa que vos apresento e nelle vereis, em côr vermelha,
+traçada a epopéa desses grandiosos feitos.
+
+Podeis dizer agora commigo, senhores, sem hesitação e com
+ufania:--Gloria aos portuguezes, mestres de Colombo, precursores de
+Colombo, incontestaveis e unicos descobridores do Novo Mundo![5]
+
+[Nota de rodapé 5: Vide _Nota B_ no fim da conferencia.]
+
+ * * * * *
+
+Portuguezes que me ouvis, meus amigos e meus irmãos; a monarchia
+tradicional que, por tantos seculos, regeu os vossos destinos, começou a
+dissolver-se na batalha de Alcacer Kibir, e, combalida, ruiu de todo com
+a quéda e com a fuga do ultimo Bragança, em 5 de outubro de 1910.
+
+Depois de tanta luz offuscante, que o seculo XV projectou da occidental
+praia lusitana, veio a sombra e veio o marasmo, que vos não deixou
+avançar mais.
+
+Dir-se-ia que, desde 1500 até ha pouco, vivestes acorrentados,
+manietados, sem poder dar expansão ao vosso genio irrequieto e
+aventuroso, sem poder tirar partido das conquistas feitas com tanto
+sacrificio e perigo.
+
+Raiou para vós agora a aurora da liberdade com a proclamação da
+Republica em vossa terra.
+
+Uma nova era, promissora e fecunda, apresenta-se, durante a qual podeis
+resgatar os erros de quatro seculos e achar as energias precisas para
+conquistar o antigo esplendor.
+
+Vejo-vos, com pesar, divididos nos campos maninhos da politica esteril,
+da politica dissolvente dos partidos. Que quereis obter com a lucta
+perturbadora neste momento em que a vossa patria mais precisa de paz, de
+dedicações e de tino? A reconquista de um regimen que vos amesquinhou,
+que vos empobreceu, que vos fez descer do alto da columna onde já
+estivestes erguidos, dominando o universe? A reconquista de um regimen
+que vos deu o jugo da Hespanha, por 60 annos, a vergonha da fuga da
+vossa familia real e da sua côrte para o Brazil, e o abandono da vossa
+patria á invasão estrangeira? a reconquista de um regimen que vos deu o
+vergonhoso «ultimatum» de 1890? Sois ainda hoje os depositarios de dois
+legados sagrados, que vos deixou o creador fecundo da Escola de Sagres e
+o grande épico, que, em verso estridente, cantou as vossas glorias e
+descortinou ao mundo o vosso saber e as vossas gloriosas jornadas.
+
+Que quereis fazer dessa herança, levando-a á labareda das vossas
+disputas domesticas? Enfraquecer mais a patria, desprestigial-a, deixar
+que, considerada ingovernavel, vá parar ás mãos do estrangeiro, ávido e
+cobiçoso, que já pensa como repartir entre si o precioso legado do
+previdente infante? Não, não! Deixae o velho regimen sepultado nas
+trévas do passado, cessae as vossas luctas fratricidas, e, unidos todos,
+em blóco, trabalhae pela rehabilitação do vosso formoso paiz, pela
+consolidação das suas actuaes instituições, sendo sempre portuguezes,
+mais portuguezes ainda no regimen da democracia e da liberdade, sendo
+sempre os briosos descendentes de d. Henrique, que mandou a descobrir
+esta formosa terra que, em vinte annos de Republica, tem avançado sempre
+e tem sabido sempre impor-se ao respeito e á admiração das potencias.
+
+Tenho dito.
+
+
+
+
+Notas e Noticias
+
+
+
+
+NOTAS
+
+
+NOTA A
+
+A revista hespanhola _España Moderna_, de Junho de 1910, consagrou um
+longo artigo, á nacionalidade de Colombo e chegou á conclusão de que
+elle era hespanhol, natural de Pontevedra e, portanto, gallego. Entre os
+argumentos apresentados para firmar a sua asserção, cita o facto da
+caravela _Santa Maria_, uma das trez da frota com que Colombo foi ás
+Antilhas, ser appellidada vulgarmente _La Gallega_.
+
+O historiador hespanhol D. Celso Garcia de la Riega, filho de
+Pontevedra, sustentou a affirmação da _España Moderna_ em um longo
+artigo que, posteriormente, em Janeiro de 1911, publicou no _Heraldo_,
+de Madrid.
+
+A Hespanha reclama, pois, para si, a gloria de ter dado nascimento a
+Colombo, que ainda é lá conhecido por Colon.
+
+Todavia, Las Casas, amigo intimo de Colombo, affirma que este era
+genovez e Toscanelli, em uma das suas cartas ao proprio Colombo,
+considera-o portuguez!...
+
+Eis ahi porque dissemos que a nacionalidade de Colombo ainda hoje é
+discutida.
+
+
+
+
+NOTA B
+
+Não se tractou nesta conferencia de Americo Vespucio porque, a despeito
+de affirmarem que elle legou o seu nome á America, della ainda foi menos
+descobridor do que Colombo. Quem se lembrou de baptisar com o nome de
+America a terra, que João Vaz Corte Real e outros navegantes lusos
+descobriram, foi o cosmographo francez Mathias Ringmann que, na sua
+_Cosmographiae introductio in super quatuor Americi navigationes_,
+publicada em 1507, em Saint-Dié, na Alsacia franceza, escreveu:[6]
+
+[Nota de rodapé 6: A Cosmographia de Ringmann foi publicada em Saint-Dié
+a 25 de Abril de 1507. Ringmann falleceu em Strasburgo em 1511. A
+França, querendo perpetuar a leviandade de Ringmann, festejou este anno
+o quarto anniversario da sua morte, sob o pretexto de ter sido elle o
+baptizador do Novo Mundo! Eis ahi como se escreve e como se faz a
+Historia!...]
+
+«No mundo existe mais uma quarta parte que Americo Vespucio descobriu e
+que, por essa razão, poderiamos chamar America, isto é, Terra de
+Americo.»
+
+O alvitre de Ringmann foi aceito e á nova terra descoberta deu-se o nome
+desse usurpador da gloria alheia, que nunca passou de um cosmographo,
+que veio ás terras americanas com Hojeda, muito depois que os Corte
+Reaes, Lavrador, Dulmo, Affonso Sanches e outros navegantes lusos nellas
+estiveram e ainda mesmo depois de Colombo, que já foi um retardatario.
+
+Accresce que ha quem affirme (é o erudito Snr. H. Vart) que o nome
+America, dado ao Novo Mundo, provêm, não do prenome de Vespucio, mas da
+denominação que os indios de Nicaragua davam ás «terras altas» dessa
+região americana de onde extrahiam o ouro que empregavam nos seus
+utensilios e adornos, terras essas que elles chamavam America, expressão
+equivalente a Eldorado ou Terra do Ouro, que, primeiro, os companheiros
+de Colombo e, depois, todos os outros navegadores foram acceitando e que
+serviu para designar, não só as terras altas de Nicaragua, mas todo o
+novo continente.
+
+A ser verdadeira a affirmação de H. Vart, o nome America é de origem
+americana.
+
+
+
+
+NOTA C
+
+A 6 de Maio de 1895, quando eu ainda desconhecia o livro do Snr.
+Faustino da Fonseca, que só veio a lume muitos annos depois, publiquei
+no _O Paiz_ da Capital Federal o seguinte artigo sobre a commemoração
+official da data do pretenso descobrimento do Brazil, feito por Pedro
+Alvares Cabral, em 1500:
+
+«O dia 3 de Maio é officialmente commemorado como data anniversaria do
+descobrimento do Brazil. E todavia é um erro, é um anniversario falso,
+porque a verdadeira data anniversaria desse descobrimento é 22 de Abril,
+pois foi a 22 de Abril de 1500, que Pedro Alvares Cabral, em demanda das
+terras da India, avistou na frente da sua frota um morro elevado da
+terra brazileira para o qual mandou aproar fundeando a seis leguas de
+distancia.
+
+Celebrava então a igreja catholica as festas da Paschoa e d'ahi a razão
+porque Cabral deu a esse morro o nome do Monte Paschoal.
+
+Os historiadores dos seculos XVII e XVIII e notadamente a obra de Fr.
+Gaspar da Madre de Deus é que, no dizer de Pereira da Silva, induziram
+os estadistas fundadores do imperio brazileiro ao erro de estabelecerem
+a data de 3 de Maio como a do descobrimento. Todavia a carta de Pero Vaz
+Caminha, publicada pela Academia Real de Sciencias de Lisboa e escripta
+a el-rei D. Manoel em 1.º de maio de 1500, annunciando-lhe a descoberta
+e os documentos deixados pelo physico-mór da armada de Cabral e por um
+piloto que fazia parte da frota, não deixam duvida sobre o dia exacto em
+que o almirante viu e mandou aproar para a terra brazileira.
+
+Basta a circumstancia de ser a carta de Pero Vaz Caminha, que ia n'uma
+das treze náos da frota de Cabral como futuro escrivão do almoxarifado
+que o almirante devia fundar nas Indias, datada de 1.º de maio, para
+tornar patente a impossibilidade do descobrimento a 3 desse mez. Nessa
+carta, onde Vaz Caminha dá conta do descobrimento, lê-se que elle foi
+effectuado a 22 de abril. Nesse dia, que era uma quarta-feira, Cabral
+limitou-se a approximar-se de terra, fundeando ás 4 horas da tarde, em
+ponto em que havia 19 braças de profundidade. Só no dia seguinte, 23 de
+abril, aproximou-se mais de terra com as precisas cautelas e, ao chegar
+á desembocadura de um rio, mandou que Nicoláo Coelho fosse em uma
+almadia explorar as plagas que se avistavam da frota. Partiu Coelho e
+vendo homens nús na praia, sem comtudo desembarcar, atirou-lhes alguns
+objectos que levara comsigo e delles recebeu outros em troca,
+entabolando assim relações amistosas com os naturaes da terra.
+
+Voltou a bordo e deu conta do succedido ao almirante. Nessa noite,
+porém, levantou-se forte vento do sueste e Cabral, não se considerando
+seguro no ponto em que estava, tratou de procurar um ancoradouro para
+abrigo dos navios e, continuando a navegação em rumo de norte, mas
+sempre á vista da costa, foi fundear de novo, dez leguas adiante, em
+uma bella enseada á qual deu o nome de Porto Seguro. Isto passava-se
+n'uma sexta-feira, 24 de abril de 1500. Essa enseada, mais tarde, passou
+a denominar-se bahia Cabralia, sendo transferido o seu primitivo nome de
+Porto Seguro para a povoação que se fundou nas suas proximidades.
+
+Na enseada de Porto Seguro appareceu logo uma piroga com indigenas e,
+aos poucos, a costa foi-se enchendo de gentios, manifestando intenções
+pacificas. Só no dia 25 o almirante dirigiu-se a terra. No dia 26, que
+era domingo de Paschoela, foi erguido um altar em terra e ahi celebrada
+a primeira missa no Brazil, acontecimento este que Victor Meirelles
+celebrisou e commemorou n'um magnifico quadro, o melhor e o mais
+commovente que o seu pincel produziu.
+
+A essa missa assistiu o gentio que dansou e cantou após a cerimonia,
+fraternisando com os portuguezes.
+
+Só no dia 1.º de maio é que o almirante resolveu dar conta a D. Manoel
+do seu feito e nesse dia, depois de mandar dizer segunda missa, tomou
+posse official da terra e despachou para Lisboa a nao que devia levar ao
+rei a noticia da nova terra descoberta, a que elle deu o nome de Vera
+Cruz, mais tarde substituido por Santa Cruz e ainda depois por Brazil.
+
+Foi nessa nao, commandada por Gaspar Lemos, que seguiu para o reino a
+carta de Pero Vaz Caminha escripta nesse mesmo dia 1.º de maio de 1500.
+
+Tal é, em resumo, a narração contida nos tres documentos da época, aos
+quaes allude com interesse e perfeito conhecimento do assumpto o
+conselheiro Pereira da Silva na segunda serie dos interessantes
+escriptos que denominou _A Historia e a Legenda_.
+
+Ora, se isto é assim, se hoje não pode restar mais duvida a ninguem, em
+presença desses documentos do seculo XVI, que determinam com perfeita
+exactidão a data da chegada de Cabral ao Brazil, por que havemos de
+conservar officialmente um anniversario falso, que, se ao tempo em que
+foi decretado pelos estadistas fundadores do imperio, se justificava
+pela ignorancia em que viviam desses documentos, não se justifica nem se
+explica mais hoje, que estão publicados e ao alcance de toda a gente?
+
+É que os estadistas da Republica, que conservaram o erro, fundam-se na
+correcção que soffreu o calendario Juliano mandado executar pelo papa
+Gregorio XIII, que, em 1582, mandou supprimir 10 dias a esse anno,
+ordenando que o dia 5 de outubro fosse designado pelo numero 15, o
+immediato 16 e assim por diante, encurtando esse anno de dez dias para
+compensar a differença para mais desse mesmo espaço de tempo, que o
+calendario Juliano já accusava no fim do seculo XVI.
+
+E assim, em virtude dessa corrigenda, o dia 22 de abril de 1500 passou a
+ser, em qualquer dos annos posteriores a 1582, correspondente ao dia 3
+de maio.
+
+Mas tal razão será sufficiente para manter na tradição popular uma
+crença falsa? Pensamos que não. Officialmente, o dia consagrado como
+data anniversaria do descobrimento do Brazil é o dia 3 de maio. E assim
+o povo, que não sabe das correcções que soffreu o calendario Juliano,
+nem dos motivos que as determinaram, fica persuadido que effectivamente
+foi no dia 3 de maio de 1500 que se realizou o descobrimento, quando os
+documentos do seculo XVI, que as historias populares do Brazil já
+registram, não consignam tal data, mas sim a de 22 de abril.
+
+Sou de parecer que, se ao tempo da descoberta ainda não existia no
+calendario Juliano a correcção ordenada por Gregorio XIII, que só se
+realizou 82 annos depois, se para Pedro Alvares Cabral o dia desse feliz
+successo foi o de 22 de abril, essa é a data que deve ser officialmente
+consagrada para assim manter-se na tradição popular.
+
+De 1500 a 1582 acontecimentos houve que ficaram registrados na historia
+da nossa terra e, todavia, ninguem se lembrou de applicar aos seus
+respectivos anniversarios a correcção ordenada por Gregorio XIII,
+limitando-se a corrigenda tão sómente ao successo, isto é, á data da
+chegada de Cabral ao Brazil.
+
+Ora, uma de duas, ou os estadistas da Republica têm de mandar fazer uma
+revisão completa de todas as datas mais ou menos celebres da historia, e
+principalmente da nossa, no periodo comprehendido entre 1500 e 1582, ou,
+para serem coherentes, têm de mantel-as taes como ainda hoje a tradição
+as conserva; mas, nesse caso, preciso se torna que a consagração do
+feito de Cabral seja feita não mais a 3 de maio, mas sim a 22 de abril.
+
+Tal é o meu modo de ver, salvo melhor juizo.»
+
+GARCIA REDONDO
+
+
+
+
+NOTICIAS
+
+
+Conferencias portuguezas
+
+Não podia ser mais auspiciosa a inauguração da primeira série das
+conferencias portuguezas, promovidas pelo Centro Republicano Portuguez
+desta capital.
+
+A despeito da noite fria e chuvosa, o amplo salão do Instituto Historico
+e Geographico encheu-se completamente, de uma assistencia distincta e
+brilhante, quer pela quantidade, quer pela qualidade.
+
+Além de muitas senhoras e senhoritas, compareceram tambem á primeira
+conferencia do Centro Republicano Portuguez os srs. Jacques Dupas,
+consul da França, Daniel Monteiro de Abreu, consul do Paraguay e
+encarregado de negocios de Portugal, o representante do sr. general
+Ferreira de Abreu, inspector da decima região militar, o dr. Paula
+Souza, director da Escola Polytechnica, commendador Mondim Pestana,
+official de gabinete do sr. dr. secretario do interior, dr. Bettencourt
+Rodrigues, dr. Rodolpho de Santiago, dr. Ricardo Severo, dr. Eugenio
+Egas, e muitas outras pessoas gradas.
+
+O sr. Antonio Luiz Gomes, Ministro de Portugal, chegou ao Instituto
+Historico ás 8 e meia da noite, em companhia do dr. Bartholomeu
+Ferreira, secretario da Legação Portugueza, sendo recebido á porta pela
+directoria do Centro.
+
+Em seguida, s. exa. foi introduzido no salão pelos srs. drs. Bettencourt
+Rodrigues e Ricardo Severo, tomando assento na mesa, ao lado da
+directoria do Centro, e tendo á sua esquerda o dr. Bettencourt
+Rodrigues.
+
+Abrindo a sessão, o sr. Joaquim Dias da Cunha Barbosa, presidente do
+Centro R. Portuguez, explicou o fim das conferencias portuguezas,
+dizendo que, antes de apresentar á assistencia o conferencista sr. dr.
+Garcia Redondo, cumpria lhe o dever de agradecer á directoria do
+Instituto Historico, que promptamente poz á disposição do Centro o seu
+salão, afim de ahi serem realisadas as conferencias. Agradece tambem a
+honrosa visita do sr. ministro portuguez, que, com sua presença, veio
+dar maior solennidade á primeira conferencia.
+
+Alludindo á pessoa do conferencista, o sr. presidente diz que o dr.
+Garcia Redondo é por demais conhecido do auditorio que, sobejamente,
+conhece a sua bagagem literaria, pelo que se dispensa de apresental-o.
+
+Em seguida, é dada a palavra ao sr. dr. Garcia Redondo para proceder á
+leitura de sua conferencia sobre «O descobrimento do Brasil--Prioridade
+dos portuguezes no descobrimento da America.»
+
+Por ser muito longo o trabalho do dr. Garcia Redondo, e não dispomos,
+hoje, do necessario espaço, só amanhan poderemos dar na integra a sua
+conferencia.
+
+As ultimas palavras do conferencista foram abafadas com uma grande
+salva de palmas, sendo s. s. abraçado e cumprimentado pela directoria do
+Centro e pelo sr. ministro de Portugal.
+
+Antes de ser encerrada a sessão, o sr. ministro de Portugal solicita a
+palavra pronunciando um discurso do qual damos o resumo que se segue:
+
+O sr. Antonio Luiz Gomes começa dizendo que não vinha com a intenção de
+tomar a palavra nesta assembléa. Vinha apenas, na qualidade de
+representante do seu paiz, trazer as saudações mais affectuosas ao
+Gremio Republicano Portuguez de S. Paulo e aos iniciadores destas
+magnificas conferencias.
+
+«Quando vi o assumpto de que se ia tratar, diz o orador, despertou-se
+logo no meu espirito e na minha alma a certeza absoluta de que estas
+conferencias deviam ter uma influencia muitissimo grande na pacificação
+dos espiritos dos portuguezes, um pouco revoltados, e que ellas teriam,
+como conclusão final, approximar ainda mais a familia portugueza da
+familia brazileira.
+
+E, senão bastara isso, eu tambem não podia conservar-me calado depois de
+ouvir a palavra brilhantissima do sr. dr. Garcia Redondo. Seria uma
+crueldade, uma injustiça que eu, em publico, deixasse de attestar, não
+só o meu reconhecimento, mas, o que é mais, o reconhecimento do meu
+paiz, por este formosissimo e esplendido trabalho. (Muito bem).
+
+Se por ventura o nome do dr. Garcia Redondo não fosse sufficientemente
+conhecido, não só nas boas letras, como na sciencia, bastava esta
+conferencia para justificar o elevadissimo conceito em que o seu nome é
+tido entre portuguezes e brazileiros.
+
+Trabalho magnifico, soberbo, onde se alliam, indiscutivelmente, altos
+pensamentos com uma forma burilada e perfeita, e que vem coroar a sua já
+larga obra na sciencia e nas letras.
+
+E depois de prestar um enorme serviço, de vir levantar a minha patria á
+altura a que indiscutivelmente ella tem direito, porque Portugal, embora
+pequeno como disse s. exa., aquella mancha pequena, que se encontra no
+ponto occidental da Europa, prestou serviços á humanidade, e á
+civilisação humana, que, positivamente, não foram excedidos por povo
+algum do mundo. (Muito bem.)
+
+A civilisação do mundo, meus senhores, firma-se em tres peninsulas, nos
+tres pontos que observaes naquelle mappa.
+
+Se na Grecia nasce a civilisação, nascem as artes, a philosophia, a
+sciencia; se naquella peninsula italica nasce o direito, porque o
+direito romano, pode-se dizer, é a propria razão humana feita lei; foi
+naquella pequenina peninsula iberica, naquelle extremo do occidente,
+que, numa época em que os grandes povos de hoje viviam uma vida
+inteiramente apagada, numa época em que a valorosa Inglaterra ainda não
+tinha historia; em que a Allemanha apenas se preparava para esse
+movimento augusto e sublime que proclamava perante o mundo inteiro a
+liberdade de consciencia; em que a França fazia os ultimos retoques na
+sua lingua e se preparava para escrever paginas brilhantissimas sobre a
+historia da humanidade, é certo, entretanto, que nenhuma dellas, por
+assim dizer, tinha ainda firmada a sua civilisação.
+
+Por esse tempo, naquelle «pontinho» se levantava um povo pequenino de
+lavradores e de guerreiros, que deixava a patria, para levar o pendão
+das Quinas aos extremos mais remotos, aos confins do mundo.
+
+Essa historia é assombrosa: é inacreditavel.
+
+Custa a acreditar que esse povo, como disse um dos grandes philosophos
+contemporaneos, Max Nordau, fosse o precursor em todos os grandes
+acontecimentos.
+
+Elle tinha dispersado os arabes sem que a Hespanha o conseguisse em
+duzentos annos.
+
+É que durante esse tempo a essa grande raça nada faltava: tinha força,
+tinha talento, tinha sciencia.
+
+Foi precisamente esse povo pequenino que deixou sementes por toda a
+parte da grandesa do genio de sua raça.
+
+Por isso, meus senhores, espero que a invocação do dr. Garcia Redondo
+produza bem rapidamente seus frutos.
+
+Estas lutas não podem continuar, e não podem continuar, sobretudo, no
+campo em que infelizmente foram postas.
+
+Eu, quando vim representar a Republica Portugueza, não vim com o desejo
+de que todos os portuguezes se fizessem republicanos: não precisamos de
+tanto. A unica coisa que desejamos, que eu desejo, como patriota, é que
+todos sejamos bons portuguezes. (Muito bem, muito bem.)
+
+Eu louvo até, com a franqueza que me caracteriza, que hajam convicções
+monarchicas no meio de portuguezes. O que é necessario é que os
+republicanos respeitem os monarchistas e que os monarchistas respeitem
+os republicanos (Muito bem).
+
+O que nós pedimos é muito pouco: é que nunca confundam as glorias da
+patria, da terra onde nasceram com as pequeninas paixões que possam
+viver no nosso espirito. (Muito bem, muito bem).
+
+E, posta a luta nestes termos, como é facil todos nos entendermos! Basta
+que cada um de nós se esforce para ser o melhor portuguez que possa ser;
+trabalhe pelo engrandecimento do seu paiz; honre o nome portuguez por
+toda a parte; defenda as suas convicções politicas, mas honradamente,
+honestamente.» (Muito bem. Palmas).
+
+Depois de varias considerações termina o sr. Antonio Luiz Gomes.
+
+«Para realisar a nossa obra não queremos que todos sejam republicanos; o
+que queremos apenas é que ninguem se esqueça que a patria está acima das
+paixões de cada um. (Muito bem).
+
+E eu estou convencido de que esse tempo vae chegar rapidamente.
+
+A Republica vae, dentro de pouco tempo, ter a sua constituinte, a sua
+constituição.
+
+Nas ultimas eleições, que foram feitas em condições excepcionaes, depois
+de uma revolução, depois de boatos aterradores, a Republica já teve a
+sua consagração.
+
+Nunca as urnas portuguezas foram tão concorridas como neste momento: 80
+por cento do corpo eleitoral de Lisboa foi votar.
+
+O Porto, considerado como reaccionario, não para nós republicanos,
+porque foi precisamente lá que tiveram inicio todos os grandes
+movimentos de Portugal, no proprio Porto, a votação foi maior do que em
+qualquer outro ponto.
+
+Portanto, todos vêm a situação definida e clara em que se encontra hoje
+Portugal.
+
+Vindo a S. Paulo, eu dirijo as minhas saudações mais affectuosas não só
+ao povo de S. Paulo, mas tambem á auctoridades do Estado, que nos deram
+a alta honra de se fazer representar nesta conferencia, e remato por
+agradecer a todas as senhoras, a todos os cidadãos que aqui vieram e,
+finalmente de novo, dirijo os meus agradecimentos mais sinceros e
+profundos ao dr. Garcia Redondo, não só em meu nome, como no de
+Portugal, que tenho a honra de representar.»
+
+As ultimas palavras do dr. Antonio Luiz Gomes foram abafadas com uma
+estrepitosa e prolongada salva de palmas da grande assistencia.
+
+(_Noticia do_ ESTADO DE S. PAULO _de 4 de Junho de 1911_).
+
+
+Conferencias portuguezas
+
+Em carro reservado ligado ao nocturno de luxo, chegou hontem a esta
+capital, conforme era esperado, o dr. Antonio Luiz Gomes, ministro de
+Portugal junto ao nosso governo, acompanhado de seu secretario, sr. dr.
+Bartholomeu Ferreira.
+
+Á noite s. exc. assistiu á conferencia que o sr. dr. Garcia Redondo, com
+grande successo e brilhantismo, realizou no salão nobre do Instituto
+Historico e Geographico, tendo por thema: «O descobrimento do Brazil e a
+prioridade dos portuguezes no descobrimento da America».
+
+Publicaremos amanhã, na integra, esse importante trabalho do distincto
+membro da Academia Brazileira de Letras, que foi, pelo successo que
+alcançou, vivamente applaudido e felicitado.
+
+Depois da conferencia do dr. Garcia Redondo, o dr. Antonio Luiz Gomes,
+usou da palavra, produzindo bellissima allocução, durante a qual era
+constantemente interrompido por estrepitosa salva de palmas.
+
+(_Noticia do_ SÃO PAULO _de 4 de Junho de 1911_).
+
+
+Conferencias portuguezas
+
+No salão nobre do Instituto Historico e Geographico de S. Paulo,
+realizou-se hontem á noite, conforme se annunciára, a primeira
+conferencia da série promovida pelo Centro Republicano Portuguez, desta
+capital.
+
+Coube o inicio das conferencias ao dr. Garcia Redondo, que tomou por
+thema de sua oração--«O descobrimento do Brazil» «Prioridade dos
+portuguezes, no descobrimento da America».
+
+Precisamente ás 8 horas e meia, constituida a mesa da presidencia pelo
+sr. Joaquim Dias da Cunha Barbosa, tendo a seu lado o ministro
+plenipotenciario de Portugal no Rio de Janeiro, sr. Dr. Antonio Luiz
+Gomes, que para tal fim veio a esta capital; dr. Bitencourt Rodrigues, e
+membros da directoria do Centro Republicano Portuguez, era o
+conferencista introduzido no salão, que já regorgitava de numerosos
+cavalheiros e gentilissimas senhoras e senhoritas.
+
+Pudemos mesmo notar entre os assistentes, os seguintes:
+
+Commendador Tiburtino Mondim Pestana, segundo-tenente Carlos Rocha,
+representando o general Ferreira de Abreu, inspector da 10.ª região
+militar, com séde nesta capital; major Arthur da Graça Martins,
+secretario do commando geral, da Força Publica; Jacques Dupas, consul da
+França, e sua familia; commendador Daniel Monteiro de Abreu, consul do
+Paraguay e encarregado do consulado de Portugal; dr. Eugenio Egas,
+Arthur Vautier, Nestor Rangel Pestana, Gelasio Pimenta, José Vicente
+Sobrinho, dr. Antonio Francisco de Paula Sousa, director da Escola
+Polytechnica; dr. Rodolpho S. Thiago, lente da mesma escola; dr. Ricardo
+Severo, dr. Leopoldo de Freitas, consul de Guatemala, dr. Alfredo
+Redondo, dr. Manoel Redondo, Jayme Redondo e sua familia.
+
+Abriu a sessão o sr. Cunha Barbosa.
+
+Referiu-se s. s. com palavras elogiosas ao dr. Bettencourt Rodrigues, de
+quem partira a idéa das conferencias, cujo grande valor salientou, pois
+ellas viriam cada vez mais estreitar os vinculos que unem os dois povos
+portuguez e brazileiro.
+
+Saudava a patria portugueza, alli directamente representada na pessoa do
+seu ministro plenipotenciario, cuja presença, agradecia.
+
+Á directoria do Instituto Historico e Geographico agradecia tambem,
+penhorada, a gentileza de haver cedido o salão da sua séde, para a
+realização da conferencia.
+
+Isto dito, e como não desejava prender por mais tempo a attenção do
+auditorio, naturalmente ancioso, dava a palavra ao dr. Garcia Redondo,
+cuja apresentação julgava desnecessario fazer, pois tinha absoluta
+certeza de que nem uma só pessoa alli presente, desconhecia, quer
+através da imprensa ou da literatura, os altos meritos do conferencista.
+
+Uma prolongada salva de palmas ecôa pela sala.
+
+Levanta-se então o dr. Garcia Redondo que começa agradecendo aos
+circumstantes a sua temeridade em affrontar os rigores daquella noite
+humida e fria, não para ouvir a sua modesta palavra, pois não tinha
+sobre isso illusão alguma, mas para corresponder ao appello que lhes
+dirigiram os promotores daquella conferencia.
+
+Sobretudo, era-lhe grato constatar alli a presença das representantes do
+sexo gentil, que á festa emprestavam a nota brilhante.
+
+Diz que o thema da sua conferencia havia sido para elle objecto de
+longos e profundos estudos. Poderia por isso dissertar sobre elle sem
+ter necessidade de ler, nem mesmo simples annotações.
+
+Mas, importando o que tinha de dizer responsabilidades que queria
+assumir e receiando que a memoria o trahisse, considerava mais prudente
+ler a sua conferencia.
+
+Em seguida, offerece alguns esclarecimentos sobre um grande mappa que
+está ao seu lado, e que elle organizou para illustrar a conferencia, e
+entra finalmente no assumpto.
+
+Ás ultimas palavras da brilhante oração do dr. Garcia Redondo, uma
+calorosa e prolongada salva de palmas se fez ouvir no salão.
+
+S. s. foi distinguido com a offerta de um lindo «bouquet» de flôres
+naturaes.
+
+Levantou-se então o ministro plenipotenciario da Republica de Portugal,
+sr. Antonio Luiz Gomes.
+
+Recáe sobre a sala um profundo silencio.
+
+O illustrado diplomata começa affirmando que não comparecera áquella
+reunião com o intuito de falar.
+
+Mas, cumpria-lhe o dever de agradecer em nome de Portugal, que tinha a
+honra de representar, o bello trabalho do dr. Garcia Redondo.
+
+Tratando da moderna phase da sua patria, fala sobre o Portugal antigo,
+cujos feitos enchem as paginas da historia universal.
+
+Refere-se á Monarchia, dizendo que ella teve tempo mais que sufficiente
+para demonstrar a capacidade dos seus homens.
+
+Por occasião do assassinato de d. Carlos, levaram os republicanos a sua
+generosidade ao ponto de prestigiar--sem o sacrificio, porém, das suas
+convicções politicas--as instituições então vigentes, desde que isso
+concorresse para o bem do paiz.
+
+Entretanto a Monarchia mostrou-se impotente; nada fez porque nada poude
+fazer para manter o prestigio de Portugal.
+
+As crises ministeriaes succediam-se de um modo assustador e a situação
+chegou a tal ponto que só a Republica poderia salvar as gloriosas
+tradições do paiz.
+
+E a Republica veio, não a Republica do terror, das perseguições, como
+apraz aos boateiros vulgares, mas a Republica que tem por lemma o
+levantamento moral do tradicional paiz das quinas.
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's O Descobrimento do Brazil, by Garcia Redondo
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL ***
+
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+ http://www.gutenberg.org/2/4/3/4/24344/
+
+Produced by Ricardo F. Diogo, Júlio Reis and the Online
+Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This
+file was produced from images generously made available
+by The Internet Archive)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
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+
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+used on or associated in any way with an electronic work by people who
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
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+
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+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
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+received the work on a physical medium, you must return the medium with
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+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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