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+The Project Gutenberg EBook of Suicida, by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Suicida
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: January 17, 2008 [EBook #24339]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SUICIDA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
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+
+
+SUICIDA
+
+
+ PORTO
+ Typographia de A. J. da Silva Teixeira
+ Cancella Velha, 63
+ 1880
+
+
+
+Camillo Castello Branco
+
+
+SUICIDA
+
+
+ Cada suicida é um poema sublime de melancolia.
+
+ Balzac.
+
+
+
+
+ Livraria Internacional
+ de
+ Ernesto Chardron, Editor
+ PORTO E BRAGA
+ 1880
+
+
+
+
+ELISA LOEVE-WEIMAR
+
+
+A senhora, que teve este nome, suicidou-se com um tiro, no Porto, no dia
+30 do mez passado[1].
+
+D'entre os meus escriptos de ha doze annos reproduzo um que a toda gente,
+com certeza, esqueceu, tirante o coração d'aquella que hoje é morta.
+
+Dizia assim:
+
+A Formosa das Violetas
+
+Julio Janin, no folhetim do _Jornal dos Debates_ de 30 de março do corrente
+anno (1863), escreveu o seguinte: «No anno da graça de 1836, o mez de abril
+correu aprazivel e delicioso; e no mez de maio resoaram canções que farte.
+Ora, a ponto de expirar o mavioso abril e repontar o maio (apenas são
+volvidos vinte e sete annos e tres revoluções!) as turbas afanadas e
+curiosas acotovelavam-se no vestibulo do theatro da _Porte-Saint-Martim_. O
+já então popular e glorificado author de HENRIQUE III, de ANTONY, de
+RICARDO DE ARLINGTON, da TORRE DE NESLE e de ANGELO, n'aquella noite,
+puzera em scena um mysterio em que figuravam anjos e demonios. Agrupados á
+porta do theatro, muitos rapazes d'aquelle tempo cediam o passo á multidão
+azafamada, divertiam-se a vêl-a enthusiasmada, e notavam os homens
+conhecidos, os homens celebres, uns no começo, outros no termo da sua
+carreira. Eis senão quando todos os olhos convergiram sobre um soberbissimo
+trem, uma berlinda de Erhler, ajaezada á Brune, e tirada por uma parelha de
+enormes urcos inglezes, sahidos das cavallariças de _madame la Dauphine_.
+Um espadaúdo cocheiro, e um alentado hungaro de sete palmos de altura,
+afóra o pennacho, todo broslado de galões de ouro, completavam a equipagem
+que parou de súbito á porta do theatro. E, aberta logo pelo _keiduque_ a
+portinhola, cahidos estrondosamente os degraus da berlinda, vimos apear um
+elegante moço.
+
+«Não tinha ainda trinta annos; vestia com requintado esmero; gravata branca
+e luvas amarellas; estatura corpulenta e formosamente conformada;
+cabelleira clamistrada; bocca um tanto grande, mas graciosa; olhar ardente,
+e altiva compostura no aspecto. No braço do mancebo apoiava-se a leve mão
+de uma senhora, juvenil como elle, anciosa de volitar por sobre o espaço
+intermedio. Que linda ella estava com o seu vestido de primavera! Violetas
+na mão, violetas como adorno no chapéo de palha, ondulante faxa a
+tira-collo, calçada com extremada perfeição de botinas gaspeadas de
+cinzento e escarlate. Formosa e esbelta a mais não ser! A impaciencia
+tirava por ella; e o irmão caminhava a passo mesurado, com aquelles ares de
+homem que em si escuta a fada benigna da suprema fortuna. Exornavam o peito
+do cavalheiro as mais variegadas côres da pedraria dos ornatos e
+condecorações. Era barão em França, marquez em Hespanha[2], e socio do club
+dos fidalgos florentinos. Contava-se--e era verdade--que o somenos
+utensilio dos seus aposentos era de ouro: o seu lavatorio era de ouro
+armoreado, e dourada a sua camara. E, todavia, creiam-me, se quizerem: a
+sensação que nos causou foi a da admiração sympathica; inveja, não. N'esta
+França, attenta e alheada nos apparecimentos de cada dia, taes como, de
+manhã, AS ORIENTAES, depois A CARNAGEM DE MISSOLONGHI de Eugenio de
+Lacroix; ao meio dia, os discursos de Thiers; á noite, a opera de
+Meyerbeer; no dia seguinte, um romance de Balzac, uma canção de Alfredo de
+Musset,--entre nós, aquelle mancebo tinha, de pouco, revelado Hoffmann e os
+seus contos. Escrevia elle rapido, pouco e bem. Sabia inglez como um
+diplomata, e allemão como um philosopho. Pertencia n'aquelle tempo á
+nascente redacção do _Jornal dos Debates_, e chamava-se LOEVE-WEIMAR».
+
+Até aqui Julio Janin.
+
+ * * * * *
+
+Nos arrabaldes de Londres, em uma quinta de delicias, quantas póde imitar
+da natureza a arte britannica, vivia, n'aquelle tempo, um portuguez que a
+intolerancia politica expatriára em 1828. A fortuna commercial dava-lhe
+desvelados amigos para o espirito, optimos convivas para a mesa e gentis
+mulheres para o coração. O nosso patricio, encarreirado prosperamente no
+trafico mercantil, assentou que lhe era dever acudir aos desterrados
+pobres; e assim, quantos portuguezes se soccorriam de sua valia encontraram
+franco e inexhaurivel aquelle coração de ouro, e o ouro das suas gavetas.
+Os convivas habituaes da sua mesa eram um jurisconsulto dos mais celebrados
+em Londres, e um portuguez de excellentes qualidades, nosso ministro
+actualmente na côrte de Madrid[3].
+
+Um dia, porém, os contubernaes sahiram do encantador abrigo do emigrado,
+porque eram de mais em alegrias, cuja dôce poesia está no resguardo e
+recolhimento de dous. O portuguez fôra o preferido d'aquella «formosa das
+violetas» que Julio Janin relembra no seu folhetim. M.^elle Elisa
+Loeve-Weimar, a irmã do nacionalisador de Hoffmann em França, do barão, do
+marquez, do fidalgo florentino, casára com o nosso patricio, que era então
+um rapaz alegre como a felicidade, descuidado do futuro como criança a
+brincar entre flôres, todo expansibilidade em olhos e palavras do muito bem
+querer que lhe exuberava do coração.
+
+Coração e nome são ainda os mesmos n'aquelle homem, vinte e sete annos
+depois. Porém, ha de reconhecer-se hoje o festejado e amado noivo da irmã
+de Loeve-Weimar n'aquelles cabellos brancos e fronte avincada do jornalista
+portuense? Aqui vol-o apresento agora: estendei a mão áquella mão liberal
+que muitos infelizes beijaram. Abraçai José Joaquim Gonçalves Basto, e
+sentireis pulsar o melhor e mais infeliz dos corações!
+
+ * * * * *
+
+_Infeliz!..._ Com tão prospera monção ao entrar em bonançoso mar? Amado por
+aquella peregrina dama, cujo espirito cultivado em Paris e Londres competia
+com a distincção da belleza?
+
+Infeliz, sim, e porque não? A desgraça, quando colhe de sobresalto os seus
+predilectos, quebra os elos da corrente que parecia forjada por esforço de
+virtudes domesticas para os duradouros contentamentos do amor. Compraz-se
+ella em abater e rasourar ao nivel das baixas condições os mais altos
+espiritos.
+
+Gonçalves Basto, decorridos dous annos de esposo e pai, foi vencido na
+lucta com imprevistas calamidades commerciaes. Empobreceu. Sahiu de
+Inglaterra, e repatriou-se com a sua familia. De repente, e o mais
+logicamente que o puderam fazer, os amigos desampararam-o, desobrigando-se
+da divida, esquecendo o credor. Permaneceu, com tudo, leal no infortunio um
+que se mantivera desprendido na prosperidade: era José Vieira de Carvalho,
+moço portuense abastado, instruido e bom. Deliberára Vieira fundar um
+jornal de parceria com Antonio Bernardo Ferreira, e com o actual deputado e
+integerrimo caracter, o snr. Joaquim Ribeiro de Faria Guimarães[4].
+Fundaram a _Coalisão_, cuja redacção e responsabilidade aceitou Gonçalves
+Basto. Os proprietarios, porém, a pouco e pouco se desligaram de
+compromissos, declinando sobre o redactor o encargo de sustentar
+intellectual e materialmente o jornal. Gonçalves Basto, extincta a
+_Coalisão_, fundou o _Nacional_, faz hoje dezoito annos.
+
+Entretanto, José Vieira, rico e celibatario, antevendo o proximo termo da
+vida, annuncia que a sorte dos filhos de Gonçalves Basto está segura nos
+seus haveres. Morre em Paris, e o testamento é roubado em beneficio de
+parentes remotos.
+
+Na contra-revolução de 1846, Gonçalves Basto, ao serviço da Junta do Porto,
+foi nomeado commandante d'um batalhão de artistas. Reprime a indisciplina,
+e dá no campo o exemplo da coragem um tanto insubordinada, porque
+espingardeava os hespanhoes que transpunham as fronteiras do norte, quando
+a Junta lhe ordenára que respeitasse a intervenção. E, n'este entretanto, a
+familia do jornalista, esposa e tres filhos, bellissimas e adoraveis
+crianças, viviam da gratificação mensal do commandante: _Dez mil
+reis_.....................................
+
+ * * * * *
+
+José Joaquim Gonçalves Basto envelheceu cortado de lancinantes dôres;
+porém, duas vezes tão sómente lhe vi o rosto lavado de lagrimas: foi ao
+resvalarem-lhe dos braços á sepultura dous filhos. A pobreza cerra-o de
+perto ha quinze annos; e elle como que tem minas de diamantes na mais
+risonha philosophia que ainda vi! É sempre com um sorriso que vos elle diz:
+«Não tenho nada». A desgraça tem d'estes sorrisos que são, a dentro do
+peito, unhas de ferro.
+
+E ella, a «formosa das violetas,» de 1836, a irmã do barão em França, do
+fidalgo em Florença e do marquez em Hespanha? Elisa Loeve-Weimar vai,
+algumas vezes, ao cemiterio da Foz, onde vicejam umas flôres plantadas por
+sua mão sobre a sepultura de um dos seus filhos. Alli, de certo lhe
+esquecem as pompas e as vaidades de sua brilhante mocidade. Aquelle cômoro
+de terra separa esta mãi das gloriosas presumpçoes da irmã do fastuoso
+litterato, da formosa que o principe dos folhetinistas francezes recordava
+vinte e sete annos depois com as calorosas expressões d'uma saudade que
+parece o reflexo do amor. Que tem que vêr no cemiterio da Foz aquella Nióbe
+com a sua belleza preconisada em Paris? Ai! formosura! flôr d'um dia,
+queimada pelo gear de uma noite! E tu, talento! flamma esplendente que mais
+nos cerras a escuridão, quando nos não alumias a vereda por onde o
+infortunio nos assalta! Ó santa de todas as dôres de mulher que é mãi! quem
+saberá contar as cruzes do teu calvario? quaes almas, sequer, se inquietam,
+pensando o que foste, o que és, e que paragem final te assignalou o
+destino!
+
+ * * * * *
+
+Meu caro Basto, releva ao teu amigo de dezeseis annos o vir elle dizer dos
+teus infortunios em face d'uma gente que os ha de lêr por ser isto em
+folhetim e ageitado á guisa de romance. Quando entrei n'esta vida dolorosa
+das letras, achei-me comtigo. Encontrei-te n'este tormento de Sisypho e ahi
+te vejo ainda agora a rolar o penedo. Se ás vezes paras um instante na
+ladeira, é para contemplares como a estupidez e a infamia trazem
+avassallados os fiscaes da republica, e como elles galgam arreiados de
+placas e fitas, em quanto tu vaes descendo á margem do rio da morte,
+olhando em ti, e antevendo próximo o dia em que não terás um pão para
+repartir com tua familia. Ha trinta annos que esperas e trabalhas por
+affecto á patria e por forçada violencia de operario d'esta galé. Deves ter
+desmaios de angustia quando em ti reparas e não vês homem que possa
+dizer-te: «Soffri e lidei tanto como tu, e recebi dos governos do meu paiz
+a retribuição de igual desprezo». Lucta, meu amigo; e, quando mais não
+puderes, vinga-te morrendo como o soldado do padre Vieira, e vai saber nos
+segredos da divina Providencia que mal devias fazer à patria e aos teus
+concidadãos para que elles te beneficiassem».
+
+ * * * * *
+
+Algum tempo depois, José Joaquim Gonçalves Basto, quando o circulo de ferro
+da penuria se apertava, encontrou a mão poderosa de um ministro que lh'o
+partiu. A salvadora chamava-se a _Justiça_, e o ministro era o snr. Fontes
+Pereira de Mello.
+
+ * * * * *
+
+Ora, como em 30 de setembro d'este anno se suicidasse, no Porto, com um
+tiro, a minha «formosa das violetas», pareceu-me apropositada a ampliação e
+complemento do meu folhetim de 1863.
+
+Elisa Weimar nasceu em Paris em 1805. O barão Nemi Loeve-Weimar, seu pai,
+era allemão, oriundo de israelitas. Exercera funcções importantes na côrte
+de Luiz XVIII. Em 1814, quando o exercito prussiano infestou o territorio
+francez, a familia Loeve-Weimar retirou para Hamburgo. O futuro
+nacionalisador de Hoffmann seguiu alguns annos a carreira commercial;
+depois, apostatou do judaismo, converteu-se á fé catholica, e regressou a
+Paris, ao mesmo tempo que M.^elle Elisa foi completar em Londres a sua
+educação litteraria.
+
+Conhecedor dos idiomas e litteraturas do norte, o moço escriptor alistou-se
+vantajosamente de par com os litteratos de mais voga. Entrou seguidamente
+na redacção do _Album_, da _Revue encyclopedique_ e do _Figaro_. Muitos
+livros allemães desconhecidos em França trasladou-os elle com estylo
+seductor; e da litteratura d'além-Rheno publicou em 1826 um compendio.
+Traduziu depois, com excellente exito, romances de Vander-Velde, CONTOS de
+Zschokke, de que auferiu renome e dinheiro a granel. Na _Revista de Paris_,
+cujo fundador foi, publicou novellas e artigos de esthetica. Em 1830
+substituiu no _Tempo_ o celebrado Imbert na redacção dos folhetins
+theatraes, e excedeu-o na graça mordente e na dicacidade engenhosa. A
+pujança do critico era tal que um empresario e director da opera lhe deu
+sociedade nos lucros do theatro, a fim de o amaciar e polir com o attrito
+do ouro. «É inutil acrescentar, diz um biographo, que, no conceito do
+folhetinista, o modo como era dirigida a scena lyrica não deixava nada a
+desejar».
+
+Volvido um anno, solicitou-o a _Revista dos dous mundos_ para escrever a
+«chronica politica». N'esta ardua missão houve-se com rara fortuna e
+dexteridade, flagellando os personagens mais graduados. Os ministros
+galardoaram-lhe a satyra, enviando-o diplomaticamente á Russia com uma
+missão temporaria e especial ao imperador Nicolau.
+
+Esta enviatura acresceu ás despezas dos negocios estrangeiros 60:000
+francos annuaes: era cara a mordaça. Regressando a Paris, foi nomeado
+consul de França em Bagdad.
+
+A revolução de 1848 esbulhou da brilhante posição o apostata da republica
+mal rebuçada; quando porém Loeve-Weimar chegou demittido a Paris, já a
+reacção vingou repôl-o na diplomacia, indemnisando-o da injustiça com o
+consulado geral de Caracas (America do Sul). Chegado á capital da republica
+de Venezuela, Loeve-Weimar, receando a febre amarella, pediu licença, e
+veio a Paris requerer a transferencia para o consulado geral de Lima, que
+lhe foi dado.
+
+Preparava-se para a viagem quando a morte o arrebatou em Paris no dia 7 de
+novembro de 1854.
+
+Acrescenta o biographo em phrases pouco funerarias: «A morte é de crêr que
+o apanhasse com as madeixas encaracoladas em papelotes; porquanto o seu
+trajar, o apontado da sua pessoa, e mormente os esmeros que punha na sua
+cabelleira loura, lhe haviam sido a constante preoccupação da vida. A tal
+respeito, se conta que o primeiro dividendo que recebeu na empresa lyrica,
+empregou-o na compra de um vestido completo de velludo escarlate lavrado
+que lhe custou 25:000 francos. É o que faria, nem mais nem menos, uma
+_lorette!_ Não custa, pois, a crêr que elle, sempre narcisando-se e sempre
+_rapaz_, acabasse, já em annos outoniços, por esposar uma estrangeira rica.
+Luiz Filippe fizera-o barão. Um dia, deu-lhe na veneta de abrir o seu
+brazão de fresca data em um manto de arminho com a corôa de duque; fez-se,
+pois, _enducalisar_, mediante dinheiro, pelo governo hespanhol. Afóra as
+obras já referidas, deixou SCENAS CONTEMPORANEAS, publicadas com o
+pseudonymo de _Comtesse de Chamilly_. O livreiro Ladvocat tambem imprimiu
+em 1840, sob o titulo homerico de NÉPENTHÈS, uma selecta de seus artigos de
+jornaes e revistas».
+
+Um dos admiradores mais exaltados de Loeve-Weimar foi o insigne Philarète
+Chasles, professor do Collegio de França, ha pouco mais d'um anno
+fallecido, com reputação europêa. Nos seus ESTUDOS SOBRE A ALLEMANHA NO XIX
+SECULO, publicados em 1861, recorda-se de Loeve-Weimar, no capitulo
+intitulado _Os tres magos do norte_. Um dos tres magos era o nacionalisador
+de Hoffmann.
+
+São estas aproximadamente as palavras de Philarète Chasles: «... Vêde-me
+este personagemzinho[5] franzino e louro, gracioso e fino, melodioso e
+sardonico, taful, garrido, esbelto, refinadamente casquilho. Casou
+romanticamente. Assim se casavam quasi todos os litteratos do nosso tempo.
+É Loeve-Weimar, aquelle que escreveu o NÉPENTHÈS, e collaborou na _Revista
+dos dous mundos_ com o doutor Véron, Charles Nodier e commigo. Acabou por
+ser em Bassora ou Badgad não sei que sultão oriental bochechudo,
+pantafaçudo, enojado, somnolento e amodorrado. Este pintalegrete, este
+chasqueador, aliás amabilissimo, que foi o adail, o porta-bandeira do motim
+litterario de 1815, não nascera para contemplações absortas nem aventuras
+grandiosas. O salão do seculo XVIII era a mais frizante moldura da sua vida
+e o theatro que mais lhe quadrava à indole. Procedia de Champfort, de
+Champcenetz e de Cazzotte. Tinha o desempeno social, o conhecimento dos
+homens, a flexibilidade, a solercia. Como _Congrève_, pavoneava-se de não
+ser homem de letras. Arreda! Não que a tinta suja os dedos...
+
+«Delatouche introduzira Hoffmann, e Loeve-Weimar nacionalisára-o francez.
+Loeve arregaçou os punhos, adelgaçou-lhe as grosserias, recobriu as côres
+dubias, encurtou as demasias, elidiu os destemperos, amenisou as asperezas
+e recompoz, sob pretexto de versão, um novo Hoffmann, que deu brado em
+Paris. Inventou-se então uma palavra para tamanho exito: o _fantastico_...
+A França morreu de amores por Hoffmann falsificado por Loeve e apregoado
+por Koraff...»
+
+ * * * * *
+
+Ahi está o que sei do irmão da suicida.
+
+Esta senhora, quando eu a conheci em 1849, mostrava ainda uns traços
+esmaecidos de belleza rara. Representava trinta e cinco annos, tinha
+quarenta e quatro, e redigia uma folha em francez, cujo titulo me esqueceu.
+Collaborava n'esse semanario ameno o consul de França Mr. _d'Estrées_, que
+pereceu no naufragio do vapor _Porto_, em 1852. Eram tres os seus filhos,
+lindos e louros como ella e como o pai. Gonçalves Basto havia sido um homem
+gentilissimo. Dava ares de inglez, e nascera em Cabeceiras de Basto, onde
+florece uma raça de homens celtas esculpturaes, e de mulheres fortes, raça
+callaica, ás quaes sobejam as exigencias musculosas da estatuaria.
+
+N'aquelle tempo, ouvi dizer que a paz domestica do proprietario e
+collaborador do _Nacional_ não era invejavel. De feito, Gonçalves Basto
+alimentava-se nos _restaurantes_, desculpando a irregularidade insalubre e
+estouvanada d'este viver parisiense com a faina jornalistica.
+
+Elisa era mãi extremosa. Quando lhe morreu o terceiro genito, a criança
+mais angelical que ainda vi--uma menina de nove annos,--a mãi, n'um impeto
+de desvario, fugiu para a Foz com os outros dous filhos, e alfaiou
+elegantemente uma casinha contigua ao cemiterio, que então se andava
+construindo. Uma das primeiras lapides que alli se assentaram cobriu o
+cadaver d'um dos dous filhos. Este menino, se bem me recordo, era afilhado
+de Lamartine.
+
+Visitei com frequencia esta senhora n'esse anno de luto e desesperação. Era
+solidamente instruida. Lia os livros portuguezes com rara intelligencia.
+Achava os romances peninsulares fastidiosos como a CÔRTE NA ALDÊA de
+Rodrigues Lobo. Dizia que nós apenas tinhamos um céo azul com uma bonita
+lua, e na terra muitas flôres e ribeiros crystallinos que nos inspirassem;
+mas que o romancista carece de sociedade viva, com as suas boas e ruins
+paixões. E acrescentava que Portugal era geographicamente obrigado a ser um
+alfobre de lyristas.
+
+Mostrou-me o seu album de autographos. Os mais preciosos dera-lh'os o
+irmão, que se carteára com parte dos seus contemporaneos illustrados.
+Tinha-os de alto valor historico, escriptos por Maria Antoinette, por Luiz
+XVI, por Chateaubriand, por M.^me de Staël, pelos estadistas das grandes
+tradições. A sua livraria era pequena, e quasi toda ingleza. Não sabia o
+allemão; tencionava porém estudal-o, quando serenasse a tempestade que
+ainda rugia á volta da sua alma articulando-lhe os nomes dos filhos. Foi
+ella quem me deu o ADOLPHO, romance de Benjamin Constant, e me disse:
+«Leia-o em quanto lhe póde ser proveitoso». Li-o, e não aproveitei nada;
+nem ella, que o lêra tres vezes, aproveitára muito. Os livros nada ensinam
+na alçada do coração. A experiencia, sim; mas a lição vem tarde. Quem
+ensina tudo é a velhice. Ainda bem, se nos salva dos espectaculos do riso,
+e nos tira o pincel do bigode.
+
+Henri de Weimar Basto, o filho primogenito, quando frequentava
+distinctamente a escola polytechnica e auxiliava o pai traduzindo o
+_Times_, morreu tisico aos dezoito annos de idade, nos arrabaldes de
+Lisboa.
+
+Fez-se então o crepusculo da noite infinita na razão de Elisa Basto; a
+treva, todavia, condensou-se vagarosamente, porque a intelligencia reagiu
+com as suas poderosas energias á paixão que a dementava.
+
+Principiou a estudar o idioma germanico de tão phrenetico modo que ahi
+mesmo denunciava o desconcerto do seu espirito. Gonçalves Basto raras vezes
+a visitava. Depois da morte do ultimo filho, deslaçaram-se de todo os
+frouxos vinculos que os ligavam. Encontravam-se n'aquelle filho os dous
+amores dos corações divorciados; era de ambos aquelle sêr querido e
+disputado á competencia de caricias. Morreu o incentivo, apagou-se a luz
+que ainda lhes mostrava ao longe a saudade na penumbra do passado amor: a
+pedra que o cobriu abafou tudo o mais!--acabaram alli com elle todas as
+recordações e esperanças. D'ahi em diante, cada qual habitava sua casa;
+ella na Foz, e elle na rua 29 de Julho.
+
+Entretanto, Elisa pernoitava sobre os lexicons allemães, e decifrava a
+traducção biblica de Luthero. D'este afanoso estudo tenho á vista a prova
+no fragmento d'uma carta que me ella escreveu por esse tempo. Eu tinha
+publicado um folhetim de má prosa ácerca dos PROVERBIOS E CANTARES. Dos
+PROVERBIOS extrahira eu estes periodos dos capitulos XII, XIV e XV:
+
+
+_A mulher diligente é a corôa de seu marido; e a que obra cousas dignas de
+confusão far-lhe-ha apodrecer os ossos._
+
+_A saude do coração é a vida da carne, a inveja é a podridão dos ossos._
+
+_A luz dos olhos alegra a alma; a boa reputação engorda os ossos._
+
+
+Isto, bom ou mau, está assim, em osso, nas versões biblicas portuguezas;
+porém, a illustrada e talvez religiosa dama, acudindo pelo siso do poeta
+hebreu, arguiu de muito paraphrastica e cavillosa a minha interpretação, e
+corrigiu-a nos seguintes termos:
+
+
+_...... La meilleure, la plus exacte, la plus élegante traduction de la
+Bible c'est la traduction allemande de Martin Luther. Or voici, mot pour
+mot, les versets que Mr. C. C. B. a cité:_
+
+_La femme déligente est la couronne de son mari, la nonchalante est
+l'ulcère de son corps[6]._
+
+_Un bon c[oe]ur est la vie de la complexion_ (constitution du corps);
+_l'envie est l'ulcère des os._
+
+_Un c[oe]ur joyeux rend la vie agréable; mais une humeur sombre desséche le
+corps._
+
+_Une visage amicale rejouit le c[oe]ur, une bonne renommée engraisse le
+corps._
+
+_Le langage affectueux est du miel qui conforte l'âme et rafraichit le
+corps._
+
+
+Na verdade, o monge augustiniano, vertendo para _corpo_ o que os SETENTA
+_ossificaram_ desgraçiadamente, expungiu dos versiculos a parte picaresca.
+Bom foi isso.
+
+ * * * * *
+
+A demencia de Elisa Weimar manifestou-se n'um lance que, a não ter a
+irresponsabilidade da loucura, seria o maximo desdouro--uma catastrophe
+moral. Foi ella pessoalmente delatar á authoridade civil que seu marido e
+outras pessoas conjuravam contra a dynastia e elaboravam tramas
+sanguinolentos nos subterraneos da officina do _Nacional_. O magistrado,
+como se a respiração da mentecapta o contagiasse provisoriamente, lançou
+inculcas, adestrou espias, afuroou certas luras onde os conspiradores
+poderiam alapardar-se. Afinal relaxou-se um pouco, confiando a sorte da
+dynastia ás fatalidades indeclinaveis do destino.
+
+D'outra vez, a deploravel senhora, quando o meu querido amigo José Cardoso
+Vieira de Castro era já fallecido em Loanda, denunciou ao administrador do
+bairro de Cedofeita que, em casa de seu marido, estava escondido Vieira de
+Castro, fugitivo de Angola, onde, de accordo com as authoridades, dera
+morto por si. Esta denuncia foi desprezada com bastante admiração minha.
+Varias pessoas me disseram por esse tempo que Vieira de Castro passeava
+vivissimo na America ingleza; não seria, pois, absurdo fazel-o viajar até
+casa de Gonçalves Basto, na Ramada Alta.
+
+N'esta visualidade de Elisa ha uma coincidencia memoravel. Na casa que ella
+indicára como escondrijo do condemnado, hospedára-se Vieira de Castro com
+sua senhora, quando chegaram a Portugal. Morava então alli seu irmão
+Antonio. No anno seguinte, foi habital-a Gonçalves Basto, attrahido pela
+belleza do sitio e prazeres da jardinagem em que se occupava todas as horas
+vagas dos seus labores de escrivão de fazenda.
+
+Aqui viveu tres alegres annos o fatigado lidador do jornalismo, cultivando
+flôres, morangaes, parreiras, e fabricando elle mesmo, na qualidade de
+lagareiro, o seu vinho, com que, no estio, deliciava os hospedes.
+
+N'esta innocencia de patriarcha, o assalteou um dia a esposa, ao cabo de
+nove annos de divorcio, intimando-lhe que sahisse d'aquella casa que era
+d'ella. O fleugmatico marido enfardelou alguns objectos de primeira
+necessidade e mudou-se, como quem foge. Tinha juizo. Aquella visão etherea
+de J. Janin, olorosa de violetas, recendia agora á polvora e phosphoro dos
+rewolvers, desde que o rapazio da Foz lhe pegou de apupar as abas amorphas
+e infinitas de uns chapéos de palha mastreados de escumilhas variegadas.
+
+Magôa-me verdadeiramente desfazer algum tanto na sentimentalidade com que,
+em alguns periodicos, se lastimou a miseria de Elisa Weimar. Vi escripto
+que a suicida experimentára as agonias da fome, da casa sem aconchego, do
+desamparo dos indigentes. Não é exacto isto. Ha de haver quatorze annos que
+ella foi a Paris instaurar um pleito sobre a herança de seu irmão. A acção
+intentada terminou por conciliação, lucrando a irmã de Loeve-Weimar uma
+pensão annual e vitalicia de 3:000 francos. Além d'isso, recebia 18$000
+reis mensaes que lhe dava o marido. 750$000 reis bastariam ao decente
+passadio de uma senhora com regular entendimento para governar-se; porém,
+se os proprietarios dos predios que ella habitava recorriam ao expediente
+das penhoras, é porque M.^me Elisa Weimar não pensava normalmente ácerca
+dos senhorios; ou, no estado informe das suas idéas embaralhadas, não podia
+conciliar as obrigações impostas pelo Codigo civil, no artigo 1608, que
+reza: _O arrendatario é obrigado a satisfazer a renda, etc._
+
+De mais a mais, esta senhora presumia-se muito rica e muito perseguida
+pelos jesuitas--talvez reminiscencias delirantes da familia do general
+Simon de E. Sue. Á volta do Porto, reputava propriedades suas, rusticas e
+urbanas, as campinas mais ferteis e os _chalets_ mais imbrincados. Afóra
+isto, dava-se como directa senhora e emphyteuta de terrenos na Foz e outros
+pontos convidativos a edificação. De modo que, se lia no _Primeiro de
+Janeiro_ ou _Commercio do Porto_ o annuncio d'uma propriedade á venda, no
+dia seguinte contra-annunciava que a propriedade era sua, ainda mesmo que a
+não tivesse arrolado no tombo imaginario dos seus haveres litigiosos. Aqui
+ha mezes, um padre que se dizia procurador do meu amigo Custodio Teixeira
+Pinto Basto, replicando a um desses contra-annuncios, allegou, na imprensa,
+que a snr.ª D. Elisa Loewe-Weimar estava enganada; pois que os predios,
+quintas e chãos que ella reputava seus, eram indisputavelmente do seu
+constituinte o snr. Pinto Basto. Em resultado d'este desmentido, _assignado
+por um padre_, me escreveu M.^me Elisa confirmando-me na guerra que os
+jesuitas lhe moviam, confederados em espolial-a porque era protestante e
+estrangeira desprotegida das authoridades portuguezas. Em virtude do que me
+rogava que sahisse em sua defeza e lhe communicasse os alvitres a seguir
+mediante cartas que, a uma hora determinada, eu devia introduzir pela
+fresta d'uma das suas janellas ao rez do chão, visto que a sua
+correspondencia lhe era subtrahida no correio pela Companhia de Jesus.
+
+Ás vezes, parava na rua, e detinha-se a examinar a frontaria d'um predio. A
+final, recordava-se que era um dos seus, entrava no pateo, sacudia
+rijamente a campainha, e fazia saber ao morador que estava alli a senhoria
+para vêr se eram precisas obras na sua casa. Era inoffensiva; mas não
+deixava de ser incommoda esta maneira de doudice.
+
+Ha quatro annos ainda, vestia-se singularmente. Quando a saia era azul com
+requifes encarnados, o corpete era branco, e verde o filó do chapéo.
+Gostava muito do vestido de velludo preto e botinas brancas. Os transeuntes
+paravam descaridosamente a rir, e ella passava, triste e solemne como o
+symbolo da desgraça n'um baile de carnaval. N'estes dous annos derradeiros,
+trajava menos que modesta, pobremente, um capotilho côr de castanha,
+apresilhado na cintura, e um chapéo campestre de palha côr de bronze. Não
+erguia os olhos, nem correspondia aos cortejos, quando algum raro
+encontradiço com memoria e coração reconhecia, n'aquella mulher encanecida
+e trôpega, a esbelta e irrequieta franceza de ha trinta annos, e
+machinalmente se descobria como se faz a um esquife coberto de crepe e
+assignalado por uma cruz amarella.
+
+ * * * * *
+
+José Joaquim Gonçalves Basto, no fim do anno passado, alegrou a minha mesa
+com a sua jovialidade, com as suas épicas faculdades digestivas. Estava
+comnosco Placido de Freitas Costa, um galhardo espirito com todas as graças
+petulantes dos rapazes de 1850. Não tem ainda trinta annos, e protesta
+contra o marasmo dos homens da sua geração--uma gente que tem o coração em
+modôrra e a alma anhelante no dominio de quatro inscripções.
+
+Não havia ahi distinguir entre os dous na competencia de festivas
+rapazices. Alta noite, sahiram de braço dado, percorreram os theatros e
+passearam as ruas até ao romper da aurora. Gonçalves Basto perfizera
+setenta annos n'esse mez. Ao outro dia, Placido de Freitas dava um jantar
+ao decano da imprensa portuense no _Hotel do Louvre_. Os commensaes eram
+todos rapazes e alguns estrangeiros. Gonçalves Basto brindava-os nas suas
+linguas, e as risadas estrondeavam quando elle salgava os discursos com as
+facecias que se usam lá fóra nos lautos banquetes britannicos em que o
+corpo, mais debil que o espirito, resvala para debaixo da mesa, e todo
+homem se fica então parecendo com Horacio ou Numentano a resonar no
+triclinio.
+
+Dous mezes depois, estando eu enfermo, disseram-me que José Joaquim
+Gonçalves Basto adoecera, pela primeira vez na sua vida. Ao outro dia,
+mandei saber como passára a noite. Tinha morrido ás cinco horas da manhã.
+
+ * * * * *
+
+A viuva, participando-me que seu marido era defunto, relatava o caso tão
+glacialmente como se historiasse o trespasse do seu quinto avô. Todavia,
+tinha magoados toques o seu estylo quando o arguia de haver deixado
+hypothecadas fraudulentamente as propriedades em beneficio de varias
+mancebas.
+
+A falta do marido, que para ella representava quatro libras mensaes,
+verdadeiramente não authorisa a hypothese da pobreza. Os numerosos e
+extensos annuncios que publicava, em resalva das suas propriedades, eram
+pagos. Visitava as livrarias e comprava livros. Tinha uma casa decentemente
+trastejada, e servia-se com criados a quem pagava talvez, não os
+confundindo com os senhorios.
+
+Quando o proprietario da casa lhe enviou mandado de despejo e sequestro no
+dia ultimo de setembro, Elisa Weimar fez trancar as avenidas. N'esse
+momento, a sua alma aterrada pelo estrondo dos esbirros que arrombavam as
+portas, estremeceu, e... acordou. Eis o momento da lucidez! Ao cabo de seis
+annos de demencia, relampagueou-lhe na razão o fulgor d'um corisco; e
+então, vendo-se desgraçada e ridicula, matou-se.
+
+ * * * * *
+
+Adeus, minha «formosa das violetas»! O teu Julio Janin, o teu cantor,
+quantos te amaram e admiraram são já mortos, desde Henri Heine até
+Philarète Chasles. Como devias ter morrido antes da velhice, a tua alma
+sempre juvenil desamparou-te; e emquanto ella gemia nos cyprestaes do
+_Père-la-Chaise_ a cada sahimento dos teus amigos da mocidade, o teu corpo
+inerte e estupido immergia no pesadêlo das sonhadas riquezas! Ias ser
+baldeada aos apódos das turbas, e levada pela policia á caverna das doudas,
+quando a tua alma regressou nas suas azas de luz, radiou por sobre a área
+negra da tua suprema desgraça, e ahi te alumiou o suave reclinatorio da
+sepultura. Era a hora bemdita ou maldita da morte. Abraçaste-a. Descansas.
+Em uma das tuas cartas me escreveste ha vinte annos, estas palavras de
+Balzac: _Cada suicida é um poema sublime de melancolia..._ Adeus! quando eu
+souber onde a caridade te sepultou, irei levar-te um ramo de violetas.
+
+
+FIM
+
+
+[1] Setembro de 1875.
+
+[2] Outro biographo, peor informado, diz _duque_.
+
+[3] O snr. visconde de Soveral.
+
+[4] Fallecido no dia 2 d'abril de 1879.
+
+[5] Julio Janin pintou-nol-o _corpulento_. Modos de vêr; mas M.^me Elisa
+Loeve-Weimar disse-me que seu irmão era de baixa estatura.
+
+[6] Traslada a versão de Luthero correspondente a cada verso.
+
+
+
+
+
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+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
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+
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+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+ <title>Suicida</title>
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+The Project Gutenberg EBook of Suicida, by Camilo Castelo Branco
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
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+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Suicida
+
+Author: Camilo Castelo Branco
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+Release Date: January 17, 2008 [EBook #24339]
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+Language: Portuguese
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SUICIDA ***
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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+<p style="border: solid 1px #000000; margin: 1em; font-size: 4em; text-align: center">
+SUICIDA
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+<div style="text-align: center; font-size: 0.8em;">
+<hr style="width: 10em;">
+<p>PORTO<br>
+
+Typographia de A. J. da Silva Teixeira<br>
+
+Cancella Velha, 63<br>
+
+1880</p>
+<hr style="width: 10em;">
+</div>
+
+<div class="capa">
+
+<p style="font-size: 2em;">Camillo Castello Branco</p>
+
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+<hr style="width: 80%;" >
+
+<p style="font-size: 4em;">SUICIDA</p>
+
+<div class="citacao">
+<p>Cada suicida é um poema sublime de melancolia.</p>
+
+<p class="small-caps" style="text-align: right; margin-right: 4em;">Balzac.</p>
+</div>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<p>
+<span class="small-caps">
+Livraria Internacional
+<br>
+de
+<br>
+Ernesto Chardron, Editor
+<br>
+PORTO E BRAGA
+</span>
+<br>
+1880</p>
+</div>
+<span class='pagenum'>[5]</span>
+<div class="corpo">
+
+
+
+
+<h1>ELISA LOEVE-WEIMAR</h1>
+
+
+<p>A senhora, que teve este nome, suicidou-se com um tiro, no Porto, no dia
+30 do mez passado<sup><a href="#fn1" name="fnb1">[1]</a></sup>.</p>
+
+<p>D'entre os meus escriptos de ha doze annos reproduzo um que a toda
+gente, com certeza, esqueceu, tirante o coração d'aquella que hoje é
+morta.</p>
+
+<p>Dizia assim:</p>
+
+<p class="small-caps" style="text-align:center;">A Formosa das Violetas</p>
+
+<p>Julio Janin, no folhetim do <i>Jornal dos Debates</i> de 30 de março do
+corrente anno (1863), escreveu <span class='pagenum'>[6]</span> o seguinte: «No anno da graça de
+1836, o mez de abril correu aprazivel e delicioso; e no mez de maio
+resoaram canções que farte. Ora, a ponto de expirar o mavioso abril e
+repontar o maio (apenas são volvidos vinte e sete annos e tres
+revoluções!) as turbas afanadas e curiosas acotovelavam-se no vestibulo
+do theatro da <i>Porte-Saint-Martim</i>. O já então popular e glorificado
+author de <span class="small-caps">Henrique III</span>, de <span class="small-caps">Antony</span>, de <span class="small-caps">Ricardo de Arlington</span>, da <span class="small-caps">Torre de
+Nesle</span> e de <span class="small-caps">Angelo</span>, n'aquella noite, puzera em scena um mysterio em que
+figuravam anjos e demonios. Agrupados á porta do theatro, muitos rapazes
+d'aquelle tempo cediam o passo á multidão azafamada, divertiam-se a
+vêl-a enthusiasmada, e notavam os homens conhecidos, os homens celebres,
+uns no começo, outros no termo da sua carreira. Eis senão quando todos
+os olhos convergiram sobre um soberbissimo trem, uma berlinda de Erhler,
+ajaezada á Brune, e tirada por uma parelha de enormes urcos inglezes,
+sahidos das cavallariças de <i>madame la Dauphine</i>. Um espadaúdo cocheiro,
+e um alentado hungaro de sete palmos de altura, afóra o pennacho, todo
+broslado de galões de ouro, completavam a equipagem que parou de súbito
+á porta do theatro. E, aberta logo pelo <i>keiduque</i> a portinhola, cahidos
+estrondosamente os degraus da berlinda, vimos apear um elegante moço.</p>
+<span class='pagenum'>[7]</span>
+
+<p>«Não tinha ainda trinta annos; vestia com requintado esmero; gravata
+branca e luvas amarellas; estatura corpulenta e formosamente conformada;
+cabelleira clamistrada; bocca um tanto grande, mas graciosa; olhar
+ardente, e altiva compostura no aspecto. No braço do mancebo apoiava-se
+a leve mão de uma senhora, juvenil como elle, anciosa de volitar por
+sobre o espaço intermedio. Que linda ella estava com o seu vestido de
+primavera! Violetas na mão, violetas como adorno no chapéo de palha,
+ondulante faxa a tira-collo, calçada com extremada perfeição de botinas
+gaspeadas de cinzento e escarlate. Formosa e esbelta a mais não ser! A
+impaciencia tirava por ella; e o irmão caminhava a passo mesurado, com
+aquelles ares de homem que em si escuta a fada benigna da suprema
+fortuna. Exornavam o peito do cavalheiro as mais variegadas côres da
+pedraria dos ornatos e condecorações. Era barão em França, marquez em
+Hespanha<sup><a href="#fn2" name="fnb2">[2]</a></sup>, e socio do club dos fidalgos florentinos. Contava-se--e era
+verdade--que o somenos utensilio dos seus aposentos era de ouro: o seu
+lavatorio era de ouro armoreado, e dourada a sua camara. E, todavia,
+creiam-me, se quizerem: a sensação que nos causou foi a da admiração
+<span class='pagenum'>[8]</span> sympathica; inveja, não. N'esta França, attenta e alheada nos
+apparecimentos de cada dia, taes como, de manhã, <span class="small-caps">As orientaes</span>, depois
+<span class="small-caps">A carnagem de Missolonghi</span> de Eugenio de Lacroix; ao meio dia, os
+discursos de Thiers; á noite, a opera de Meyerbeer; no dia seguinte, um
+romance de Balzac, uma canção de Alfredo de Musset,--entre nós, aquelle
+mancebo tinha, de pouco, revelado Hoffmann e os seus contos. Escrevia
+elle rapido, pouco e bem. Sabia inglez como um diplomata, e allemão como
+um philosopho. Pertencia n'aquelle tempo á nascente redacção do <i>Jornal
+dos Debates</i>, e chamava-se <span class="small-caps">Loeve-Weimar</span>».</p>
+
+<p>Até aqui Julio Janin.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p>Nos arrabaldes de Londres, em uma quinta de delicias, quantas póde
+imitar da natureza a arte britannica, vivia, n'aquelle tempo, um
+portuguez que a intolerancia politica expatriára em 1828. A fortuna
+commercial dava-lhe desvelados amigos para o espirito, optimos convivas
+para a mesa e gentis mulheres para o coração. O nosso patricio,
+encarreirado prosperamente no trafico mercantil, assentou que lhe era
+dever acudir aos desterrados pobres; e assim, <span class='pagenum'>[9]</span> quantos portuguezes se
+soccorriam de sua valia encontraram franco e inexhaurivel aquelle
+coração de ouro, e o ouro das suas gavetas. Os convivas habituaes da sua
+mesa eram um jurisconsulto dos mais celebrados em Londres, e um
+portuguez de excellentes qualidades, nosso ministro actualmente na côrte
+de Madrid<sup><a href="#fn3" name="fnb3">[3]</a></sup>.</p>
+
+<p>Um dia, porém, os contubernaes sahiram do encantador abrigo do emigrado,
+porque eram de mais em alegrias, cuja dôce poesia está no resguardo e
+recolhimento de dous. O portuguez fôra o preferido d'aquella «formosa
+das violetas» que Julio Janin relembra no seu folhetim. M.<sup>elle</sup> Elisa
+Loeve-Weimar, a irmã do nacionalisador de Hoffmann em França, do barão,
+do marquez, do fidalgo florentino, casára com o nosso patricio, que era
+então um rapaz alegre como a felicidade, descuidado do futuro como
+criança a brincar entre flôres, todo expansibilidade em olhos e palavras
+do muito bem querer que lhe exuberava do coração.</p>
+
+<p>Coração e nome são ainda os mesmos n'aquelle homem, vinte e sete annos
+depois. Porém, ha de reconhecer-se hoje o festejado e amado noivo da
+irmã de Loeve-Weimar n'aquelles cabellos brancos e fronte <span class='pagenum'>[10]</span> avincada
+do jornalista portuense? Aqui vol-o apresento agora: estendei a mão
+áquella mão liberal que muitos infelizes beijaram. Abraçai José Joaquim
+Gonçalves Basto, e sentireis pulsar o melhor e mais infeliz dos
+corações!</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p><i>Infeliz!...</i> Com tão prospera monção ao entrar em bonançoso mar? Amado
+por aquella peregrina dama, cujo espirito cultivado em Paris e Londres
+competia com a distincção da belleza?</p>
+
+<p>Infeliz, sim, e porque não? A desgraça, quando colhe de sobresalto os
+seus predilectos, quebra os elos da corrente que parecia forjada por
+esforço de virtudes domesticas para os duradouros contentamentos do
+amor. Compraz-se ella em abater e rasourar ao nivel das baixas condições
+os mais altos espiritos.</p>
+
+<p>Gonçalves Basto, decorridos dous annos de esposo e pai, foi vencido na
+lucta com imprevistas calamidades commerciaes. Empobreceu. Sahiu de
+Inglaterra, e repatriou-se com a sua familia. De repente, e o mais
+logicamente que o puderam fazer, os amigos desampararam-o,
+desobrigando-se da divida, esquecendo o credor. Permaneceu, com tudo,
+leal no infortunio um que se mantivera desprendido na prosperidade:
+<span class='pagenum'>[11]</span> era José Vieira de Carvalho, moço portuense abastado, instruido e
+bom. Deliberára Vieira fundar um jornal de parceria com Antonio Bernardo
+Ferreira, e com o actual deputado e integerrimo caracter, o snr. Joaquim
+Ribeiro de Faria Guimarães<sup><a href="#fn4" name="fnb4">[4]</a></sup>. Fundaram a <i>Coalisão</i>, cuja redacção e
+responsabilidade aceitou Gonçalves Basto. Os proprietarios, porém, a
+pouco e pouco se desligaram de compromissos, declinando sobre o redactor
+o encargo de sustentar intellectual e materialmente o jornal. Gonçalves
+Basto, extincta a <i>Coalisão</i>, fundou o <i>Nacional</i>, faz hoje dezoito
+annos.</p>
+
+<p>Entretanto, José Vieira, rico e celibatario, antevendo o proximo termo
+da vida, annuncia que a sorte dos filhos de Gonçalves Basto está segura
+nos seus haveres. Morre em Paris, e o testamento é roubado em beneficio
+de parentes remotos.</p>
+
+<p>Na contra-revolução de 1846, Gonçalves Basto, ao serviço da Junta do
+Porto, foi nomeado commandante d'um batalhão de artistas. Reprime a
+indisciplina, e dá no campo o exemplo da coragem um tanto insubordinada,
+porque espingardeava os hespanhoes que transpunham as fronteiras do
+norte, quando a Junta lhe ordenára que respeitasse a intervenção. E,
+n'este <span class='pagenum'>[12]</span> entretanto, a familia do jornalista, esposa e tres filhos,
+bellissimas e adoraveis crianças, viviam da gratificação mensal do
+commandante: <i>Dez mil reis</i>............</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p>José Joaquim Gonçalves Basto envelheceu cortado de lancinantes dôres;
+porém, duas vezes tão sómente lhe vi o rosto lavado de lagrimas: foi ao
+resvalarem-lhe dos braços á sepultura dous filhos. A pobreza cerra-o de
+perto ha quinze annos; e elle como que tem minas de diamantes na mais
+risonha philosophia que ainda vi! É sempre com um sorriso que vos elle
+diz: «Não tenho nada». A desgraça tem d'estes sorrisos que são, a dentro
+do peito, unhas de ferro.</p>
+
+<p>E ella, a «formosa das violetas,» de 1836, a irmã do barão em França, do
+fidalgo em Florença e do marquez em Hespanha? Elisa Loeve-Weimar vai,
+algumas vezes, ao cemiterio da Foz, onde vicejam umas flôres plantadas
+por sua mão sobre a sepultura de um dos seus filhos. Alli, de certo lhe
+esquecem as pompas e as vaidades de sua brilhante mocidade. Aquelle
+cômoro de terra separa esta mãi das gloriosas presumpçoes da irmã do
+fastuoso litterato, da formosa que o principe dos folhetinistas
+francezes recordava vinte e sete annos depois com as calorosas
+expressões <span class='pagenum'>[13]</span> d'uma saudade que parece o reflexo do amor. Que tem que
+vêr no cemiterio da Foz aquella Nióbe com a sua belleza preconisada em
+Paris? Ai! formosura! flôr d'um dia, queimada pelo gear de uma noite! E
+tu, talento! flamma esplendente que mais nos cerras a escuridão, quando
+nos não alumias a vereda por onde o infortunio nos assalta! Ó santa de
+todas as dôres de mulher que é mãi! quem saberá contar as cruzes do teu
+calvario? quaes almas, sequer, se inquietam, pensando o que foste, o que
+és, e que paragem final te assignalou o destino!</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p>Meu caro Basto, releva ao teu amigo de dezeseis annos o vir elle dizer
+dos teus infortunios em face d'uma gente que os ha de lêr por ser isto
+em folhetim e ageitado á guisa de romance. Quando entrei n'esta vida
+dolorosa das letras, achei-me comtigo. Encontrei-te n'este tormento de
+Sisypho e ahi te vejo ainda agora a rolar o penedo. Se ás vezes paras um
+instante na ladeira, é para contemplares como a estupidez e a infamia
+trazem avassallados os fiscaes da republica, e como elles galgam
+arreiados de placas e fitas, em quanto tu vaes descendo á margem do rio
+da morte, olhando em ti, e antevendo próximo o dia em que não terás um
+pão para repartir com tua familia. <span class='pagenum'>[14]</span> Ha trinta annos que esperas e
+trabalhas por affecto á patria e por forçada violencia de operario
+d'esta galé. Deves ter desmaios de angustia quando em ti reparas e não
+vês homem que possa dizer-te: «Soffri e lidei tanto como tu, e recebi
+dos governos do meu paiz a retribuição de igual desprezo». Lucta, meu
+amigo; e, quando mais não puderes, vinga-te morrendo como o soldado do
+padre Vieira, e vai saber nos segredos da divina Providencia que mal
+devias fazer à patria e aos teus concidadãos para que elles te
+beneficiassem».</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p>Algum tempo depois, José Joaquim Gonçalves Basto, quando o circulo de
+ferro da penuria se apertava, encontrou a mão poderosa de um ministro
+que lh'o partiu. A salvadora chamava-se a <i>Justiça</i>, e o ministro era o
+snr. Fontes Pereira de Mello.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p>Ora, como em 30 de setembro d'este anno se suicidasse, no Porto, com um
+tiro, a minha «formosa das violetas», pareceu-me apropositada a
+ampliação e complemento do meu folhetim de 1863.</p>
+
+<p>Elisa Weimar nasceu em Paris em 1805. O barão Nemi Loeve-Weimar, seu
+pai, era allemão, oriundo <span class='pagenum'>[15]</span> de israelitas. Exercera funcções
+importantes na côrte de Luiz XVIII. Em 1814, quando o exercito prussiano
+infestou o territorio francez, a familia Loeve-Weimar retirou para
+Hamburgo. O futuro nacionalisador de Hoffmann seguiu alguns annos a
+carreira commercial; depois, apostatou do judaismo, converteu-se á fé
+catholica, e regressou a Paris, ao mesmo tempo que M.<sup>elle</sup> Elisa foi
+completar em Londres a sua educação litteraria.</p>
+
+<p>Conhecedor dos idiomas e litteraturas do norte, o moço escriptor
+alistou-se vantajosamente de par com os litteratos de mais voga. Entrou
+seguidamente na redacção do <i>Album</i>, da <i>Revue encyclopedique</i> e do
+<i>Figaro</i>. Muitos livros allemães desconhecidos em França trasladou-os
+elle com estylo seductor; e da litteratura d'além-Rheno publicou em 1826
+um compendio. Traduziu depois, com excellente exito, romances de
+Vander-Velde, <span class="small-caps">Contos</span> de Zschokke, de que auferiu renome e dinheiro a
+granel. Na <i>Revista de Paris</i>, cujo fundador foi, publicou novellas e
+artigos de esthetica. Em 1830 substituiu no <i>Tempo</i> o celebrado Imbert
+na redacção dos folhetins theatraes, e excedeu-o na graça mordente e na
+dicacidade engenhosa. A pujança do critico era tal que um empresario e
+director da opera lhe deu sociedade nos lucros do theatro, a fim de o
+amaciar e polir com o attrito do ouro. «É inutil acrescentar, diz um
+biographo, <span class='pagenum'>[16]</span> que, no conceito do folhetinista, o modo como era
+dirigida a scena lyrica não deixava nada a desejar».</p>
+
+<p>Volvido um anno, solicitou-o a <i>Revista dos dous mundos</i> para escrever a
+«chronica politica». N'esta ardua missão houve-se com rara fortuna e
+dexteridade, flagellando os personagens mais graduados. Os ministros
+galardoaram-lhe a satyra, enviando-o diplomaticamente á Russia com uma
+missão temporaria e especial ao imperador Nicolau.</p>
+
+<p>Esta enviatura acresceu ás despezas dos negocios estrangeiros 60:000
+francos annuaes: era cara a mordaça. Regressando a Paris, foi nomeado
+consul de França em Bagdad.</p>
+
+<p>A revolução de 1848 esbulhou da brilhante posição o apostata da
+republica mal rebuçada; quando porém Loeve-Weimar chegou demittido a
+Paris, já a reacção vingou repôl-o na diplomacia, indemnisando-o da
+injustiça com o consulado geral de Caracas (America do Sul). Chegado á
+capital da republica de Venezuela, Loeve-Weimar, receando a febre
+amarella, pediu licença, e veio a Paris requerer a transferencia para o
+consulado geral de Lima, que lhe foi dado.</p>
+
+<p>Preparava-se para a viagem quando a morte o arrebatou em Paris no dia 7
+de novembro de 1854.</p>
+
+<p>Acrescenta o biographo em phrases pouco funerarias: «A morte é de crêr
+que o apanhasse com <span class='pagenum'>[17]</span> as madeixas encaracoladas em papelotes;
+porquanto o seu trajar, o apontado da sua pessoa, e mormente os esmeros
+que punha na sua cabelleira loura, lhe haviam sido a constante
+preoccupação da vida. A tal respeito, se conta que o primeiro dividendo
+que recebeu na empresa lyrica, empregou-o na compra de um vestido
+completo de velludo escarlate lavrado que lhe custou 25:000 francos. É o
+que faria, nem mais nem menos, uma <i>lorette!</i> Não custa, pois, a crêr
+que elle, sempre narcisando-se e sempre <i>rapaz</i>, acabasse, já em annos
+outoniços, por esposar uma estrangeira rica. Luiz Filippe fizera-o
+barão. Um dia, deu-lhe na veneta de abrir o seu brazão de fresca data em
+um manto de arminho com a corôa de duque; fez-se, pois, <i>enducalisar</i>,
+mediante dinheiro, pelo governo hespanhol. Afóra as obras já referidas,
+deixou <span class="small-caps">Scenas contemporaneas</span>, publicadas com o pseudonymo de <i>Comtesse
+de Chamilly</i>. O livreiro Ladvocat tambem imprimiu em 1840, sob o titulo
+homerico de <span class="small-caps">Népenthès</span>, uma selecta de seus artigos de jornaes e
+revistas».</p>
+
+<p>Um dos admiradores mais exaltados de Loeve-Weimar foi o insigne
+Philarète Chasles, professor do Collegio de França, ha pouco mais d'um
+anno fallecido, com reputação europêa. Nos seus <span class="small-caps">Estudos sobre a
+Allemanha no xix seculo</span>, publicados em 1861, recorda-se de Loeve-Weimar,
+no capitulo intitulado <span class='pagenum'>[18]</span> <i>Os tres magos do norte</i>. Um dos tres magos
+era o nacionalisador de Hoffmann.</p>
+
+<p>São estas aproximadamente as palavras de Philarète Chasles: «... Vêde-me
+este personagemzinho<sup><a href="#fn5" name="fnb5">[5]</a></sup> franzino e louro, gracioso e fino, melodioso e
+sardonico, taful, garrido, esbelto, refinadamente casquilho. Casou
+romanticamente. Assim se casavam quasi todos os litteratos do nosso
+tempo. É Loeve-Weimar, aquelle que escreveu o <span class="small-caps">Népenthès</span>, e collaborou na
+<i>Revista dos dous mundos</i> com o doutor Véron, Charles Nodier e commigo.
+Acabou por ser em Bassora ou Badgad não sei que sultão oriental
+bochechudo, pantafaçudo, enojado, somnolento e amodorrado. Este
+pintalegrete, este chasqueador, aliás amabilissimo, que foi o adail, o
+porta-bandeira do motim litterario de 1815, não nascera para
+contemplações absortas nem aventuras grandiosas. O salão do seculo XVIII
+era a mais frizante moldura da sua vida e o theatro que mais lhe
+quadrava à indole. Procedia de Champfort, de Champcenetz e de Cazzotte.
+Tinha o desempeno social, o conhecimento dos homens, a flexibilidade, a
+solercia. Como <i>Congrève</i>, pavoneava-se de <span class='pagenum'>[19]</span> não ser homem de letras.
+Arreda! Não que a tinta suja os dedos...</p>
+
+<p>«Delatouche introduzira Hoffmann, e Loeve-Weimar nacionalisára-o
+francez. Loeve arregaçou os punhos, adelgaçou-lhe as grosserias,
+recobriu as côres dubias, encurtou as demasias, elidiu os destemperos,
+amenisou as asperezas e recompoz, sob pretexto de versão, um novo
+Hoffmann, que deu brado em Paris. Inventou-se então uma palavra para
+tamanho exito: o <i>fantastico</i>... A França morreu de amores por Hoffmann
+falsificado por Loeve e apregoado por Koraff...»</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p>Ahi está o que sei do irmão da suicida.</p>
+
+<p>Esta senhora, quando eu a conheci em 1849, mostrava ainda uns traços
+esmaecidos de belleza rara. Representava trinta e cinco annos, tinha
+quarenta e quatro, e redigia uma folha em francez, cujo titulo me
+esqueceu. Collaborava n'esse semanario ameno o consul de França Mr.
+<i>d'Estrées</i>, que pereceu no naufragio do vapor <i>Porto</i>, em 1852. Eram
+tres os seus filhos, lindos e louros como ella e como o pai. Gonçalves
+Basto havia sido um homem gentilissimo. Dava ares de inglez, e nascera
+em Cabeceiras de Basto, <span class='pagenum'>[20]</span> onde florece uma raça de homens celtas
+esculpturaes, e de mulheres fortes, raça callaica, ás quaes sobejam as
+exigencias musculosas da estatuaria.</p>
+
+<p>N'aquelle tempo, ouvi dizer que a paz domestica do proprietario e
+collaborador do <i>Nacional</i> não era invejavel. De feito, Gonçalves Basto
+alimentava-se nos <i>restaurantes</i>, desculpando a irregularidade insalubre
+e estouvanada d'este viver parisiense com a faina jornalistica.</p>
+
+<p>Elisa era mãi extremosa. Quando lhe morreu o terceiro genito, a criança
+mais angelical que ainda vi--uma menina de nove annos,--a mãi, n'um
+impeto de desvario, fugiu para a Foz com os outros dous filhos, e
+alfaiou elegantemente uma casinha contigua ao cemiterio, que então se
+andava construindo. Uma das primeiras lapides que alli se assentaram
+cobriu o cadaver d'um dos dous filhos. Este menino, se bem me recordo,
+era afilhado de Lamartine.</p>
+
+<p>Visitei com frequencia esta senhora n'esse anno de luto e desesperação.
+Era solidamente instruida. Lia os livros portuguezes com rara
+intelligencia. Achava os romances peninsulares fastidiosos como a <span class="small-caps">Côrte
+na aldêa</span> de Rodrigues Lobo. Dizia que nós apenas tinhamos um céo azul
+com uma bonita lua, e na terra muitas flôres e ribeiros crystallinos que
+nos inspirassem; mas que o romancista carece de sociedade viva, com as
+suas boas e ruins paixões. E <span class='pagenum'>[21]</span> acrescentava que Portugal era
+geographicamente obrigado a ser um alfobre de lyristas.</p>
+
+<p>Mostrou-me o seu album de autographos. Os mais preciosos dera-lh'os o
+irmão, que se carteára com parte dos seus contemporaneos illustrados.
+Tinha-os de alto valor historico, escriptos por Maria Antoinette, por
+Luiz XVI, por Chateaubriand, por M.<sup>me</sup> de Staël, pelos estadistas das
+grandes tradições. A sua livraria era pequena, e quasi toda ingleza. Não
+sabia o allemão; tencionava porém estudal-o, quando serenasse a
+tempestade que ainda rugia á volta da sua alma articulando-lhe os nomes
+dos filhos. Foi ella quem me deu o <span class="small-caps">Adolpho</span>, romance de Benjamin
+Constant, e me disse: «Leia-o em quanto lhe póde ser proveitoso». Li-o,
+e não aproveitei nada; nem ella, que o lêra tres vezes, aproveitára
+muito. Os livros nada ensinam na alçada do coração. A experiencia, sim;
+mas a lição vem tarde. Quem ensina tudo é a velhice. Ainda bem, se nos
+salva dos espectaculos do riso, e nos tira o pincel do bigode.</p>
+
+<p>Henri de Weimar Basto, o filho primogenito, quando frequentava
+distinctamente a escola polytechnica e auxiliava o pai traduzindo o
+<i>Times</i>, morreu tisico aos dezoito annos de idade, nos arrabaldes de
+Lisboa.</p>
+
+<p>Fez-se então o crepusculo da noite infinita na razão de Elisa Basto; a
+treva, todavia, condensou-se <span class='pagenum'>[22]</span> vagarosamente, porque a intelligencia
+reagiu com as suas poderosas energias á paixão que a dementava.</p>
+
+<p>Principiou a estudar o idioma germanico de tão phrenetico modo que ahi
+mesmo denunciava o desconcerto do seu espirito. Gonçalves Basto raras
+vezes a visitava. Depois da morte do ultimo filho, deslaçaram-se de todo
+os frouxos vinculos que os ligavam. Encontravam-se n'aquelle filho os
+dous amores dos corações divorciados; era de ambos aquelle sêr querido e
+disputado á competencia de caricias. Morreu o incentivo, apagou-se a luz
+que ainda lhes mostrava ao longe a saudade na penumbra do passado amor:
+a pedra que o cobriu abafou tudo o mais!--acabaram alli com elle todas
+as recordações e esperanças. D'ahi em diante, cada qual habitava sua
+casa; ella na Foz, e elle na rua 29 de Julho.</p>
+
+<p>Entretanto, Elisa pernoitava sobre os lexicons allemães, e decifrava a
+traducção biblica de Luthero. D'este afanoso estudo tenho á vista a
+prova no fragmento d'uma carta que me ella escreveu por esse tempo. Eu
+tinha publicado um folhetim de má prosa ácerca dos <span class="small-caps">Proverbios e
+Cantares</span>. Dos <span class="small-caps">Proverbios</span> extrahira eu estes periodos dos capitulos XII,
+XIV e XV:</p> <br>
+
+<p><i>A mulher diligente é a corôa de seu marido; e a que obra cousas dignas
+de confusão far-lhe-ha apodrecer os ossos.</i></p> <span class='pagenum'>[23]</span>
+
+<p><i>A saude do coração é a vida da carne, a inveja é a podridão dos ossos.</i></p>
+
+<p><i>A luz dos olhos alegra a alma; a boa reputação engorda os ossos.</i></p> <br>
+
+<p>Isto, bom ou mau, está assim, em osso, nas versões biblicas portuguezas;
+porém, a illustrada e talvez religiosa dama, acudindo pelo siso do poeta
+hebreu, arguiu de muito paraphrastica e cavillosa a minha interpretação,
+e corrigiu-a nos seguintes termos:</p> <br>
+
+<p><i>...... La meilleure, la plus exacte, la plus élegante traduction de la
+Bible c'est la traduction allemande de Martin Luther. Or voici, mot pour
+mot, les versets que Mr. C. C. B. a cité:</i></p>
+
+<p><i>La femme déligente est la couronne de son mari, la nonchalante est
+l'ulcère de son corps<sup><a href="#fn6" name="fnb6">[6]</a></sup>.</i></p>
+
+<p><i>Un bon c[oe]ur est la vie de la complexion</i> (constitution du corps);
+<i>l'envie est l'ulcère des os.</i></p>
+
+<p><i>Un c[oe]ur joyeux rend la vie agréable; mais une humeur sombre desséche
+le corps.</i></p>
+
+<p><i>Une visage amicale rejouit le c[oe]ur, une bonne renommée engraisse le
+corps.</i></p>
+
+<p><i>Le langage affectueux est du miel qui conforte l'âme et rafraichit le
+corps.</i></p>
+<br>
+<span class='pagenum'>[24]</span>
+
+<p>Na verdade, o monge augustiniano, vertendo para <i>corpo</i> o que os <span class="small-caps">setenta</span>
+<i>ossificaram</i> desgraçiadamente, expungiu dos versiculos a parte
+picaresca. Bom foi isso.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p>A demencia de Elisa Weimar manifestou-se n'um lance que, a não ter a
+irresponsabilidade da loucura, seria o maximo desdouro--uma catastrophe
+moral. Foi ella pessoalmente delatar á authoridade civil que seu marido
+e outras pessoas conjuravam contra a dynastia e elaboravam tramas
+sanguinolentos nos subterraneos da officina do <i>Nacional</i>. O magistrado,
+como se a respiração da mentecapta o contagiasse provisoriamente, lançou
+inculcas, adestrou espias, afuroou certas luras onde os conspiradores
+poderiam alapardar-se. Afinal relaxou-se um pouco, confiando a sorte da
+dynastia ás fatalidades indeclinaveis do destino.</p>
+
+<p>D'outra vez, a deploravel senhora, quando o meu querido amigo José
+Cardoso Vieira de Castro era já fallecido em Loanda, denunciou ao
+administrador do bairro de Cedofeita que, em casa de seu marido, estava
+escondido Vieira de Castro, fugitivo de Angola, onde, de accordo com as
+authoridades, dera morto por si. Esta denuncia foi desprezada com
+bastante <span class='pagenum'>[25]</span> admiração minha. Varias pessoas me disseram por esse tempo
+que Vieira de Castro passeava vivissimo na America ingleza; não seria,
+pois, absurdo fazel-o viajar até casa de Gonçalves Basto, na Ramada
+Alta.</p>
+
+<p>N'esta visualidade de Elisa ha uma coincidencia memoravel. Na casa que
+ella indicára como escondrijo do condemnado, hospedára-se Vieira de
+Castro com sua senhora, quando chegaram a Portugal. Morava então alli
+seu irmão Antonio. No anno seguinte, foi habital-a Gonçalves Basto,
+attrahido pela belleza do sitio e prazeres da jardinagem em que se
+occupava todas as horas vagas dos seus labores de escrivão de fazenda.</p>
+
+<p>Aqui viveu tres alegres annos o fatigado lidador do jornalismo,
+cultivando flôres, morangaes, parreiras, e fabricando elle mesmo, na
+qualidade de lagareiro, o seu vinho, com que, no estio, deliciava os
+hospedes.</p>
+
+<p>N'esta innocencia de patriarcha, o assalteou um dia a esposa, ao cabo de
+nove annos de divorcio, intimando-lhe que sahisse d'aquella casa que era
+d'ella. O fleugmatico marido enfardelou alguns objectos de primeira
+necessidade e mudou-se, como quem foge. Tinha juizo. Aquella visão
+etherea de J. Janin, olorosa de violetas, recendia agora á polvora e
+phosphoro dos rewolvers, desde que o rapazio da Foz lhe pegou de apupar
+as abas amorphas e infinitas <span class='pagenum'>[26]</span> de uns chapéos de palha mastreados de
+escumilhas variegadas.</p>
+
+<p>Magôa-me verdadeiramente desfazer algum tanto na sentimentalidade com
+que, em alguns periodicos, se lastimou a miseria de Elisa Weimar. Vi
+escripto que a suicida experimentára as agonias da fome, da casa sem
+aconchego, do desamparo dos indigentes. Não é exacto isto. Ha de haver
+quatorze annos que ella foi a Paris instaurar um pleito sobre a herança
+de seu irmão. A acção intentada terminou por conciliação, lucrando a
+irmã de Loeve-Weimar uma pensão annual e vitalicia de 3:000 francos.
+Além d'isso, recebia 18$000 reis mensaes que lhe dava o marido. 750$000
+reis bastariam ao decente passadio de uma senhora com regular
+entendimento para governar-se; porém, se os proprietarios dos predios
+que ella habitava recorriam ao expediente das penhoras, é porque M.<sup>me</sup>
+Elisa Weimar não pensava normalmente ácerca dos senhorios; ou, no estado
+informe das suas idéas embaralhadas, não podia conciliar as obrigações
+impostas pelo Codigo civil, no artigo 1608, que reza: <i>O arrendatario é
+obrigado a satisfazer a renda, etc.</i></p>
+
+<p>De mais a mais, esta senhora presumia-se muito rica e muito perseguida
+pelos jesuitas--talvez reminiscencias delirantes da familia do general
+Simon de E. Sue. Á volta do Porto, reputava propriedades suas, <span class='pagenum'>[27]</span>
+rusticas e urbanas, as campinas mais ferteis e os <i>chalets</i> mais
+imbrincados. Afóra isto, dava-se como directa senhora e emphyteuta de
+terrenos na Foz e outros pontos convidativos a edificação. De modo que,
+se lia no <i>Primeiro de Janeiro</i> ou <i>Commercio do Porto</i> o annuncio d'uma
+propriedade á venda, no dia seguinte contra-annunciava que a propriedade
+era sua, ainda mesmo que a não tivesse arrolado no tombo imaginario dos
+seus haveres litigiosos. Aqui ha mezes, um padre que se dizia procurador
+do meu amigo Custodio Teixeira Pinto Basto, replicando a um desses
+contra-annuncios, allegou, na imprensa, que a snr.ª D. Elisa
+Loewe-Weimar estava enganada; pois que os predios, quintas e chãos que
+ella reputava seus, eram indisputavelmente do seu constituinte o snr.
+Pinto Basto. Em resultado d'este desmentido, <i>assignado por um padre</i>,
+me escreveu M.<sup>me</sup> Elisa confirmando-me na guerra que os jesuitas lhe
+moviam, confederados em espolial-a porque era protestante e estrangeira
+desprotegida das authoridades portuguezas. Em virtude do que me rogava
+que sahisse em sua defeza e lhe communicasse os alvitres a seguir
+mediante cartas que, a uma hora determinada, eu devia introduzir pela
+fresta d'uma das suas janellas ao rez do chão, visto que a sua
+correspondencia lhe era subtrahida no correio pela Companhia de Jesus.</p>
+<span class='pagenum'>[28]</span>
+
+<p>Ás vezes, parava na rua, e detinha-se a examinar a frontaria d'um
+predio. A final, recordava-se que era um dos seus, entrava no pateo,
+sacudia rijamente a campainha, e fazia saber ao morador que estava alli
+a senhoria para vêr se eram precisas obras na sua casa. Era inoffensiva;
+mas não deixava de ser incommoda esta maneira de doudice.</p>
+
+<p>Ha quatro annos ainda, vestia-se singularmente. Quando a saia era azul
+com requifes encarnados, o corpete era branco, e verde o filó do chapéo.
+Gostava muito do vestido de velludo preto e botinas brancas. Os
+transeuntes paravam descaridosamente a rir, e ella passava, triste e
+solemne como o symbolo da desgraça n'um baile de carnaval. N'estes dous
+annos derradeiros, trajava menos que modesta, pobremente, um capotilho
+côr de castanha, apresilhado na cintura, e um chapéo campestre de palha
+côr de bronze. Não erguia os olhos, nem correspondia aos cortejos,
+quando algum raro encontradiço com memoria e coração reconhecia,
+n'aquella mulher encanecida e trôpega, a esbelta e irrequieta franceza
+de ha trinta annos, e machinalmente se descobria como se faz a um
+esquife coberto de crepe e assignalado por uma cruz amarella.</p>
+
+<p class="centrado">*</p> <span class='pagenum'>[29]</span>
+
+<p>José Joaquim Gonçalves Basto, no fim do anno passado, alegrou a minha
+mesa com a sua jovialidade, com as suas épicas faculdades digestivas.
+Estava comnosco Placido de Freitas Costa, um galhardo espirito com todas
+as graças petulantes dos rapazes de 1850. Não tem ainda trinta annos, e
+protesta contra o marasmo dos homens da sua geração--uma gente que tem o
+coração em modôrra e a alma anhelante no dominio de quatro inscripções.</p>
+
+<p>Não havia ahi distinguir entre os dous na competencia de festivas
+rapazices. Alta noite, sahiram de braço dado, percorreram os theatros e
+passearam as ruas até ao romper da aurora. Gonçalves Basto perfizera
+setenta annos n'esse mez. Ao outro dia, Placido de Freitas dava um
+jantar ao decano da imprensa portuense no <i>Hotel do Louvre</i>. Os
+commensaes eram todos rapazes e alguns estrangeiros. Gonçalves Basto
+brindava-os nas suas linguas, e as risadas estrondeavam quando elle
+salgava os discursos com as facecias que se usam lá fóra nos lautos
+banquetes britannicos em que o corpo, mais debil que o espirito, resvala
+para debaixo da mesa, e todo homem se fica então parecendo com Horacio
+ou Numentano a resonar no triclinio.</p>
+
+<p>Dous mezes depois, estando eu enfermo, disseram-me que José Joaquim
+Gonçalves Basto adoecera, pela primeira vez na sua vida. Ao outro dia,
+mandei <span class='pagenum'>[30]</span> saber como passára a noite. Tinha morrido ás cinco horas da
+manhã.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p>A viuva, participando-me que seu marido era defunto, relatava o caso tão
+glacialmente como se historiasse o trespasse do seu quinto avô. Todavia,
+tinha magoados toques o seu estylo quando o arguia de haver deixado
+hypothecadas fraudulentamente as propriedades em beneficio de varias
+mancebas.</p>
+
+<p>A falta do marido, que para ella representava quatro libras mensaes,
+verdadeiramente não authorisa a hypothese da pobreza. Os numerosos e
+extensos annuncios que publicava, em resalva das suas propriedades, eram
+pagos. Visitava as livrarias e comprava livros. Tinha uma casa
+decentemente trastejada, e servia-se com criados a quem pagava talvez,
+não os confundindo com os senhorios.</p>
+
+<p>Quando o proprietario da casa lhe enviou mandado de despejo e sequestro
+no dia ultimo de setembro, Elisa Weimar fez trancar as avenidas. N'esse
+momento, a sua alma aterrada pelo estrondo dos esbirros que arrombavam
+as portas, estremeceu, e... acordou. Eis o momento da lucidez! Ao cabo
+de seis annos de demencia, relampagueou-lhe na razão o fulgor <span class='pagenum'>[31]</span> d'um
+corisco; e então, vendo-se desgraçada e ridicula, matou-se.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p>Adeus, minha «formosa das violetas»! O teu Julio Janin, o teu cantor,
+quantos te amaram e admiraram são já mortos, desde Henri Heine até
+Philarète Chasles. Como devias ter morrido antes da velhice, a tua alma
+sempre juvenil desamparou-te; e emquanto ella gemia nos cyprestaes do
+<i>Père-la-Chaise</i> a cada sahimento dos teus amigos da mocidade, o teu
+corpo inerte e estupido immergia no pesadêlo das sonhadas riquezas! Ias
+ser baldeada aos apódos das turbas, e levada pela policia á caverna das
+doudas, quando a tua alma regressou nas suas azas de luz, radiou por
+sobre a área negra da tua suprema desgraça, e ahi te alumiou o suave
+reclinatorio da sepultura. Era a hora bemdita ou maldita da morte.
+Abraçaste-a. Descansas. Em uma das tuas cartas me escreveste ha vinte
+annos, estas palavras de Balzac: <i>Cada suicida é um poema sublime de
+melancolia...</i> Adeus! quando eu souber onde a caridade te sepultou, irei
+levar-te um ramo de violetas.</p>
+<br>
+
+<p class="centrado">FIM</p>
+</div>
+
+<div class="rodape">
+<p><a href="#fnb1" name="fn1">[1]</a> Setembro de 1875.</p>
+
+<p><a href="#fnb2" name="fn2">[2]</a> Outro biographo, peor informado, diz <i>duque</i>.</p>
+
+<p><a href="#fnb3" name="fn3">[3]</a> O snr. visconde de Soveral.</p>
+
+<p><a href="#fnb4" name="fn4">[4]</a> Fallecido no dia 2 d'abril de 1879.</p>
+
+<p><a href="#fnb5" name="fn5">[5]</a> Julio Janin pintou-nol-o <i>corpulento</i>. Modos de vêr; mas M.<sup>me</sup> Elisa
+Loeve-Weimar disse-me que seu irmão era de baixa estatura.</p>
+
+<p><a href="#fnb6" name="fn6">[6]</a> Traslada a versão de Luthero correspondente a cada verso.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Suicida, by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SUICIDA ***
+
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+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
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+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
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+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
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+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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