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diff --git a/23526-8.txt b/23526-8.txt new file mode 100644 index 0000000..d4c8891 --- /dev/null +++ b/23526-8.txt @@ -0,0 +1,4305 @@ +The Project Gutenberg EBook of A velhice do padre eterno, by Guerra Junqueiro + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A velhice do padre eterno + +Author: Guerra Junqueiro + +Release Date: November 17, 2007 [EBook #23526] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A VELHICE DO PADRE ETERNO *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos + existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à + versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com + o original. No final deste livro encontrará a lista de erros + corrigidos. + + Rita Farinha (Nov. 2007) + + + +GUERRA JUNQUEIRO + +A VELHICE DO PADRE ETERNO + + +EDITORA +LIVRARIA MINERVA + +LISBOA + + + + + +GUERRA JUNQUEIRO + + +A VELHICE DO PADRE ETERNO + + + +EDITORA +LIVRARIA MINERVA + +LISBOA + + + + + +Á MEMORIA DE Guilherme D'Azevedo + + + + +A Eza de Queiroz + + + + +INDICE + + +Aos simples 9 +A vinha do Senhor 17 +A Caridade e a Justiça 25 +O Papão 30 +Parasitas 31 +Resposta ao Sillabus 33 +O Baptismo 37 +Eurico 38 +A Arvore do Mal 39 +A Semana Santa 43 +A Barca de S. Pedro 61 +Ladainha 63 +Como se faz um monstro 65 +Calembour 70 +A agua de Lourdes 71 +Antonelli 73 +O Dinheiro de S. Pedro 75 +Ao nuncio Masella 77 +Ladainha moderna 85 +O Melro 89 +Circular 103 +A benção da locomotiva 109 +A Hidra 111 +A Valla commum 113 +A Sésta do senhor abade 127 +O Genesis 142 +Fantasmas 145 +Post-Scriptum 149 + + + + +AOS SIMPLES + + +Ó almas que viveis puras, immaculadas +Na torre do luar da graça e da illusão, +Vós que ainda conservaes, intactas, perfumadas, +As rosas para nós ha tanto desfolhadas +Na aridez sepulchral do nosso coração; +Almas, filhas da luz das manhãs harmoniosas, +Da luz que acorda o berço e que entreabre as rosas, +Da luz, olhar de Deus, da luz, benção d'amor, +Que faz rir um nectario ao pé de cada abelha, +E faz cantar um ninho ao pé de cada flor; +Almas, onde resplende, almas, onde se espelha +A candura innocente e a bondade christã, +Como n'um céo d'Abril o arco da alliança, +Como n'um lago azul a estrella da manhã; +Almas, urnas de fé, de caridade, e esp'rança, +Vasos d'oiro contendo aberto um lirio santo, +Um lirio immorredoiro, um lirio alabastrino, +Que os anjos do Senhor vem orvalhar com pranto, +E a piedade florir com seu clarão divino; +Almas que atravessaes o lodo da existencia, +Este lodo perverso, iniquo, envenenado, +Levando sobre a fronte o esplendor da innocencia, +Calcando sob os pés o dragão do peccado; +Bemdictas sejaes, vós, almas que est'alma adora, +Almas cheias de paz, humildade e alegria, +Para quem a consciencia é o sol de toda a hora, +Para quem a virtude é o pão de cada dia! +Sois como a luz que doira as trevas d'um monturo, +Ficando sempre branca a sorrir e a cantar; +E tudo quanto em mim ha de bello ou de puro. +--Desde a esmola que eu dou á prece que eu murmuro-- +É vosso: fostes vós o meu primeiro altar. +Lá da minha distante e encantadora infancia, +D'esse ninho d'amor e saudade sem fim, +Chega-me ainda a vossa angelica fragrancia +Como uma harpa éolia a cantar a distancia, +Como um véo branco ao longe inda a acenar por mim! +.................................................. +.................................................. +.................................................. +Minha mãe, minha mãe! ai que saudade immensa, +Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti. +Cahia mansa a noite; e andorinhas aos pares +Cruzavam-se voando em torno dos seus lares, +Suspensos do beiral da casa onde eu nasci. +Era a hora em que já sobre o feno das eiras +Dormia quieto e manso o impavido lebréu. +Vinham-nos das montanhas as canções das ceifeiras, +Como a alma d'um justo, ia em triumpho ao céo!... +E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço, +Vendo a lua subir, muda, alumiando o espaço, +Eu balbuciava a minha infantil oração, +Pedindo a Deus que está no azul do firmamento +Que mandasse um allivio a cada soffrimento, +Que mandasse uma estrella a cada escuridão. +Por todos eu orava e por todos pedia. +Pelos mortos no horror da terra negra e fria, +Por todas as paixões e por todas as magoas... +Pelos míseros que entre os uivos das procellas +Vão em noite sem lua e n'um barco sem vellas +Errantes atravez do turbilhão das aguas. +O meu coração puro, immaculado e santo +Ia ao throno de Deus pedir, como inda vae, +Para toda a nudez um panno do seu manto, +Para toda a miseria o orvalho do seu pranto +E para todo o crime o seu perdão de Pae!... +.................................................. +.................................................. +A minha mãe faltou-me era eu pequenino, +Mas da sua piedade o fulgor diamantino +Ficou sempre abençoando a minha vida inteira +Como junto d'um leão um sorriso divino, +Como sobre uma forca um ramo d'oliveira! + + * * * * * + +Ó crentes, como vós, no intimo do peito +Abrigo a mesma crença e guardo o mesmo ideal. +O horisonte é infinito e o olhar humano é estreito: +Creio que Deus é eterno e que a alma é immortal. + +Toda a alma é clarão e todo o corpo é lama. +Quando a lama apodrece inda o clarão scintilla: +Tirae o corpo--e fica uma lingoa de chamma... +Tirae a alma--e resta um fragmento d'argila. + +E para onde vae esse clarão? Mysterio... +Não sei... Mas sei que sempre ha-de arder e brilhar, +Quer tivesse incendiado o craneo de Tiberio, +Quer tivesse aureolado a fronte de Joanna Darc. + +Sim, creio que depois do derradeiro somno +Ha-de haver uma treva e ha-de haver uma luz +Para o vicio que morre ovante sobre um throno, +Para o santo que expira inerme n'uma cruz. + +Tenho uma crença firme, uma crença robusta +N'um Deus que ha-de guardar por sua propria mão +N'uma jaula de ferro a alma de Lucusta, +N'um relicario d'oiro a alma de Platão. + +Mas tambem acredito, embora isso vos peze, +E me julgueis talvez o maior dos atheus, +Que no universo inteiro ha uma só diocese +E uma só cathedral com um só bispo--Deus. + +E muito embora a vossa egreja se contriste +E a excommunhão papal nos abraze e destrua, +A analyse é feroz como uma lança em riste +E a verdade cruel como uma espada nua. + +Cultos, religiões, biblias, dogmas, assombros, +São como a cinza vã que sepultou Pompeia. +Exhumemos a fé d'esse montão de escombros, +Desentulhemos Deus d'essa aluvião de areia. + +E um dia a humanidade inteira, oceano em calma, +Ha-de fazer, na mesma aspiração reunida, +Da razão e da fé os dois olhos da alma, +Da verdade e da crença os dois polos da vida. + +A crença é como o luar que nas trevas fluctua; +A razão é do céo o explendido pharol: +Para a noite da morte é que Deus nos deu lua... +Para o dia da vida é que Deus fez o sol. + + * * * * * + +Mas, ai eu comprehendo os martyrios secretos +Do pobre camponez, já quasi secular, +Que vê tombar por terra o seu ninho de affectos, +A casa onde nasceu seu pae, e onde os seus netos +Lhe fechariam, morto, o escurecido olhar. +Comprehendo o pavor e a lividez tremente +De quem em noite má, caliginosa e fria +Atravessa a montanha á luz d'um facho ardente +E uma rajada vem alucinadamente +Apagar-lh'o c'o'a aza athletica e sombria, +Deixando-o fulminado e quazi sem sentidos +A ouvir o ulular das feras e os bramidos +Do ciclone que explue rouco do sorvedoiro +E se enrosca furioso aos platanos partidos +A estrangulal-os, como uma giboia um toiro. + +Comprehendo a agonia, o desespero insano +Do naufrago na rocha, entre o abysmo do oceano, +Vendo rolar, rugir os glaucos vagalhões +Como uma cordilheira herculea de montanhas, +Com jaulas collossaes de bronze nas entranhas, +E um domador lá dentro a chicotear trovões. +.................................................. +.................................................. +O vosso facho, o vosso abrigo, o vosso porto, +É um Deus que para nós ha muito que está morto, +E que inda imaginaes no entretanto immortal. +Vivei e adormecei n'essa crença illusoria, +Já não podeis transpôr os mil annos da historia +Que vão do vosso credo absurdo ao nosso ideal. +Vivei e adormecei n'essa illusão sagrada, +Fitando até morrer os olhos de Jesus, +Como o ephemero vão que dura um quasi nada, +Que nasce de manhã n'um raio d'alvorada, +E expira ao pôr do sol n'outro raio de luz. +Eu bem sei que essa crença ignorante e sincera, +Não é a que illumina as bandas do Porvir. +Mas vós sois o Passado, e a crença é como a hera +Que sustenta e dá inda um tom de primavera +Aos velhos torreões gothicos a cahir. +Sim, essa crença é um erro, uma illusão, é certo; +Mas triste de quem vae pelo areal deserto +Vagabundo, esfaímado e nú como Caim, +Sem nunca ver ao longe os palacios radiantes +D'uma cidade d'oiro e marmore e diamantes +No chimerico azul d'essa amplidão sem fim! +Quem ha-de arrancar pois do seu piedoso engaste +O vosso ingenuo ideal, ó tremulos velhinhos, +Se a chimera é uma rosa e a existencia uma haste, +Rosa cheia d'aroma e haste cheia de espinhos! +Quem vos ha-de cortar a flor da vossa esp'rança, +Quem vos ha-de apagar a angelica visão, +Se essa luz para vós é como uma creança +Que guia n'uma estrada um cégo pela mão! +Quem vos ha-de acordar d'esse sonho encantado?! +Quem vos ha-de mostrar a evidencia cruel?! +Ah! deixemos a ave ao ramo já quebrado, +E deixemos fazer ao enxame doirado +No tronco que está morto o seu favo de mel! +Ó velhos aldeões, exhaustos de fadiga, +Que andaes de sol a sol na terra a mourejar, +Roubar-vos da vos'alma a vossa crença antiga +Seria como quem roubasse a uma mendiga +As tres achas que leva á noite para o lar! +Oh, não! guardae-a bem essa crença d'outrora; +É ella quem vos dá a paz benigna e santa, +Como a paz d'um vergel inundado d'aurora, +Onde o trabalho ri e onde a miseria canta. +Guardae-a sim, guardae! E quando a morte em breve +Vos entre na choupana esqualida e feroz, +A agonia será bem rapida e bem leve, +Porque um anjo de Deus mais alvo do que a neve +Ha-de estender sorrindo as azas sobre vós. +E vós conhecereis em seu olhar materno +Que é o anjo que emballou vosso somno infantil, +E que hoje vem do céo mandado pelo Eterno, +Para sorrir na morte ao vosso branco inverno, +Como sorriu no berço ao vosso claro Abril. + +E ao pender-vos gelada a vossa fronte alabastrina +Irá levar a Deus o vosso coração, +Tão manso e virginal, tão novo e tão perfeito, +Que Deus ha-de beijal-o e aquecel-o no peito, +Como se acaso fosse uma pomba divina, +Que viesse cahir-lhe exanime na mão! + + + + +A VINHA DO SENHOR + + +I + + +Existiu n'outro tempo uma vinha piedosa +Doirada pelo sol da alma de Jesus, +Uma vinha que dava uns fructos côr de roza, +Vermelhos como o sangue e puros como a luz. + +Inundavam-n'a d'agua os olhos de Maria, +E os virgens corações dos martyres, dos crentes +Eram a terra funda aonde se embebia +A mystica raiz dos pampanos virentes. + +Produzia um licor balsamico, divino, +Que aos cégos dava luz, aos tristes dava esp'rança, +E que fazia ver na areia do destino +A miragem feliz da bemaventurança. + +Aos mortos restituia o movimento e a falla; +Escravisava a carne, as tentações, a dôr, +E transformou em santa a impura de Magdala, +Como transforma Abril um verme n'uma flôr. + +Bebel-o era beber uma virtuosa essencia +Que ungia o coração de perfumes ideaes, +Pondo no labio um riso ingenuo de innocencia, +Como o d'agua a correr, virgem, dos mananciaes. + +Dava um tal explendor ás almas, tal pureza +Que nos Circos de Roma até se viu baixar +Diante da nudez das virgens sem defeza +Ao magro leão da Nubia o curuscante olhar. + + +II + + +Mas passado algum tempo a humanidade inteira +De tal modo gostou d'esse licor sublime, +Que o extasis christão tornou-se em bebedeira, +E o sonho em pezadello, e o pezadello em crime. + +Nas solidões do claustro as virgens inflamadas +Co'as fortes atracções da mistica ambrozia +Torciam-se febris, convulsas, desvairadas, +Meretrizes de Deus n'uma piedosa orgia. + +É que no vinho antigo ia á noite o demonio +Lançar co'a garra adunca uma infernal mistura +De mandragora e opio e helleboro e stramonio, +Verdenegro e viscoso extracto de loucura. + +Quando uivava de noite o vento nas campinas +Via-se pela sombra, obliquo, Satanaz, +Colhendo aos pés da forca ou buscando entre as ruinas +Hervas, vegetações, prenhes de essencias más. + +Era o filtro subtil d'essas plantas de morte +Que fazia da alma um derviche incoherente, +Uma bussola doida á procura do norte +Uma céga a tatear no vacuo, anciosamente!... + +E a taça do veneno estonteador e amargo +No funebre banquete ia de mão em mão, +Produzindo o delirio, a syncope, o lethargo +E em cada olhar sinistro uma cruel visão. + +Uns viam a espectral sarabanda frenetica +De esqueletos a rir e a dançar com furor +Em torno á Morte podre, impudente, epileptica, +Com dois ossos em cruz rufando n'um tambor. + +Outros viam chegado o pavoroso instante +Em que um monstro do fogo, um dragão areolito, +Dava na terra um nó c'oa cauda flammejante, +Arrebatando-a, a arder, atravez do infinito. + +E então para fugir ao desespero e ao panico +Bebiam com mais ancia o filtro singular. +Até á epilepsia, ao turbilhão tetanico +Do sabat desgrenhado e erotico, a espumar! + +E á força de beber o tragico veneno +Tombou por terra exhausta a humanidade emfim, +Como em Londres, de noite, ao pé d'um antro obsceno +Cáe sob a lama inerte um bebado de gim. + + + +III + + +Mas n'isto despontou a esplendida manhã +D'um mundo juvenil, robusto, afrodisiaco: +A Renascença foi para a embriaguez christã +A excitação vital d'um frasco de amoniaco. + +E na vinha de Deus ainda florescente +Começou a nascer por essa occasião +Um bicho que enterrava escandalosamente +Nos pampanos da crença as unhas da razão. + +Propagou-se o flagello; o mal recrudesceu; +A colheita ficou em duas terças partes; +Chega o oidium Lutero, o verme Galileu, +E cai-lhe o temporal de Newton e Descartes. + +Em balde Carlos nove, Ignacio e Torquemada, +Catando esses pulgões das bíblicas videiras, +Os entregam á roda, ao cadafalso, á espada, +Ou os queimam por junto aos centos nas fogueiras. + +O estrago cada vez era maior, mais forte; +Apezar da realeza, o throno e a sachristia +Andarem sacudindo o enxofrador da morte +No formigueiro vil das pragas da heresia. + +Por ultimo Voltaire--filoxera invade +Essa encosta plantada outr'ora por Jesus, +E das cepas ideaes da escura meia idade +Ficaram simplesmente uns velhos troncos nús. + + +IV + + +Mas como havia ainda alguns consumidores +D'esse vinho que o sol deixou de fecundar, +Uns velhos cardeaes, habeis exploradores, +Reuniram-se em concilio afim de os imitar. + +E é assim que Antonelli, o verdadeiro papa, +O chimico da fé, um grande industrial, +Fabrica para o mundo ingenuo uma zurrapa +Que elle assevera que é o antigo vinho ideal. + +Para isso combina os varios elementos +Que compõem esta droga: o nome de Maria, +Anjos e cherubins, infernos e tormentos, +Bastante estupidez e immensa hypocrizia. + +Põe isto tudo a ferver, liga, combina, mexe, +E, filtrando atravez d'uns textos de latim, +Eis preparado o vinho, ou antes o campeche, +Que a saúde da alma hade arruinar por fim. + +Mas como o paladar de muitos europeus +Quasi prefere já (horrivel impiedade!) +Á falsificação do vinho do bom Deus +O vinho genuino e puro da verdade; + +E como já por isso, (assim como era d'antes) +A Igreja não nos queime e o rei não nos enforque, +A curia procurou mercados mais distantes, +O Japão, o Perú, a Australia e Nova York. + +Os _comis-voiageurs_ de Roma--os Lazaristas +Com as carregações vão atravez do oceano, +Por toda a parte abrindo os armazens papistas, +A fim de dar consumo ao vinho ultramontano. + +Em cada igreja existe uma taberna franca +Para impingir a tal mixordia, o tal horror, +Ou secca ou doce, ou velha ou nova, ou tinta ou branca, +Segundo as condições e a fé do bebedor. + +Para Hespanha vão muito uns vinhos infernaes, +Um veneno explosivo e forte que produz +Um delirio tremente--o General Narvaes, +E um vomito de sangue--o cura Santa Cruz. + +Portugal quer vinagre. A Italia quer falerno. +Veuillot quer agua-raz que ponha a lingua em braza. +E John Bull, por exemplo, um pouco mais moderno, +Manda ao diabo a botica, e faz a droga em casa. + +Ao povo, esse animal, que o Padre Eterno monta, +Como é pobre, coitado, então a Santa Sé +Fabrica lhe uma borra incrivel, muito em conta, +Um pouco de melaço e um pouco d'agua-pé. + +A fina flôr christã, a flôr altiva e nobre, +O rico sangue azul do bairro S. Germano, +Para quem o bom Deus é um gentil-homem pobre +A quem se dá de esmola alguns milhões por anno. + +Essa como detesta os vinhos maus, baratos, +Como é de raça illustre e debil compleição, +Mandam-lhe um elixir que serve para os flatos, +Ou para pôr no lenço ao ir á communhão. + +De resto ha quem, bebendo essa tisana impura, +Sinta a impressão que outr'ora o nectar produzia. +São milagres da fé. Ditosa a creatura +Que no ruibarbo encontra o sabor da ambrosia. + +E eu não vos vou magoar, ó almas côr de rosa +Que inda achaes neste vinho o esquecimento e a paz! +Não insulto quem bebe a droga venenosa; +Accuso simplesmente o charlatão que a faz. + + + + +A CARIDADE E A JUSTIÇA + + +No topo do calvario erguia-se uma cruz, +E pregado sobre ella o corpo do Jesus, +Noite sinistra e má. Nuvens esverdeadas +Corriam pelo ar como grandes manadas +De bufalos. A lua ensanguentada e fria, +Triste como um soluço immenso de Maria, +Lançava sobre a paz das coizas naturaes +A merencoria luz feita de brancos ais. +As arvores que outr'ora em dias de calor +Abrigaram Jesus, cheias de magua e dôr, +Sonhavam, na mudez herculea dos heroes. +Deixaram de cantar todos os rouxinoes, +Um silencio pesado amortalhava o mundo. +Unicamente ao longe o velho mar profundo +Descantava chorando os psalmos da agonia. +Jesus, quasi a expirar, cheio de dôr, sorria. +Os abutres crueis pairavam lentamente +A farejar-lhe o corpo; ás vezes de repente +Uma nuvem toldava a face do luar, +E um clarão de gangrena, estranho, singular, +Lançava sob a cruz uns tons esverdeados. +Crucitavam ao longe os corvos esfaimados; +Mas passado um instante a lua branca e pura +Irrompia outra vez da grande nevoa escura, +E inundavam-se então as chagas de Jesus +Nas pulverisações balsamicas da luz. + +No momento em que havia a grande escuridão, +Christo sentiu alguem aproximar-se, e então +Olhou e viu surgir no horror das trevas mudas +O cobarde perfil sacrilego de Judas. +O traidor, contemplando o olhar do Nazareno, +Tão cheio de desdem, tão nobre, tão sereno, +Convulso de terror fugiu... Mas nesse instante +Surgiu-lhe frente a frente um vulto de gigante, +Que bradou: + + --É chegado emfim o teu castigo +O traidor teve medo e balbuciou: + + --Amigo, +Que pretendes de mim? dize, por quem esperas? +Quem és tu?-- + + --«O Remorso, um caçador de féras, +Disse o gigante. Eu ando ha mais de seis mil annos +A caçar pelo mundo as almas dos tiranos, +Do traidor, do ladrão, do vil, do scelerado; +E depois de as prender tenho-as encarcerado +Na enormissima jaula atroz da expiação. +E quando eu entro ali na immensa confusão +De tigres, de leões, d'abutres, de chacaes, +De rugidos febris e de gritos bestiaes, +Fica tudo a tremer, quieto de horror e espanto. +Caim baixa a pupilla e vai deitar-se a um canto. +E quando em summa algum dos monstros quer luctar +Azorrago-o co'a luz febril do meu olhar, +Dando-lhe um pontapé, como n'um cão mendigo. +Já sabes quem eu sou, Judas; anda comigo!» + +Como um preso que quer comprar um carcereiro, +Judas tirou do manto a bolça do dinheiro, +Dizendo-lhe: + + --Aqui tens, e deixa-me partir... + +O gigante fitou-o e começou a rir. + +Houve um grande silencio. O infame Iskariote, +Como um negro que vê a ponta d'um chicote, +Tremia. Finalmente o vulto respondeu: + +«Judas, podes guardar esse dinheiro; é teu. +O oiro da traição pertence-lhe ao traidor, +Como o riso á innocencia e como o aroma á flôr. +Esse oiro é para ti o eterno pesadello. +Oh! guarda-o, guarda-o bem, que eu quero derretel-o, +E lançar-t'o depois caustico, vivo, ardente, +Lançar-t'o gota a gota, inexoravelmente +Em cima da consciencia, a pudrida, a execravel! +Com elle hei de fundir a algema inquebrantavel, +A grilheta que a tua esqualida memoria +Trará, arrastará pelas galés da Historia, +Durante a eternidade illimitada e calma. +Essa bolsa que ahi tens é o cancro da tua alma: +Já se agarrou a ti, ligou-se ao criminoso, +Como a lepra nojenta ao peito do leproso, +Como o iman ao ferro e o verme á podridão. +Não poderás jámais largal-a da tua mão! +És traidor, assassino, hypocrita, perjuro; +A tua alma lançada em cima d'um monturo +Faria nodoa. És tudo o que ha de mais vil, +Desde o ventre do sapo á baba do reptil. +Sahe da existencia! dize á sombra que te acoite. +Monstro, procura a paz! verme, procura a noite! +Que o sol não veja mais um unico momento +O teu olhar obliquo e o teu perfil nojento. +Esse crime, bandido, é um crime que profana, +Todas as grandes leis da vida universal. +Esconde-te na morte, assim como um chacal +No seu covil. Adeus, causas-me nojo e asco. +Deixo dentro de ti, Judas, o teu carrasco! +És livre; adeus. Já brilha o astro matutino, +E eu, caçador feroz, cumprindo o meu destino, +Continuarei caçando os javalis nos matos.» + +E dito isto partiu a procurar Pilatos. + +Vinha rompendo ao longe a fresca madrugada. +Judas, ficando só, meteu-se pela estrada, +Caminhando ligeiro, impavido, terrivel, +Como um homem que leva um fim imprescriptivel +Uma ideia qualquer, heroica e sobranceira; +De repente estacou. Havia uma figueira +Projectando na estrada a larga sombra escura; +Judas, desenrolando a corda da cintura, +Subiu acima, atou-a a um ramo vigoroso, +Dando um laço á garganta. O seu olhar odioso +Tinha n'esse momento um brilho diamantino, +Recto como um juiz, forte como um destino. + +N'isto echoou atravez do negro céo profundo +A voz celestial de Jesus moribundo, +Que lhe disse: + + --«Traidor, concedo-te o perdão. +Além de meu carrasco és inda o meu irmão. +Pregaste-me na cruz; é o mesmo, fica em paz. +Eu costumo esquecer o mal que alguem me faz. +Eu tenho até prazer, bem vês, no sacrificio. +Não te cause remorso o meu atroz suplicio, +Estes golpes crueis, estas horriveis dores. +As chagas para mim são outras tantas flôres!» + +Judas fitou ao longe os cerros do calvario, +E erguendo-se viril, soberbo, extraordinario, +Exclamou: + + --«Não acceito a tua compaixão. +A Justiça dos bons consiste no perdão. +Un justo não perdôa. A justiça é implacavel. +A minha acção é infame, hedionda, miseravel; +Preguei-te nessa cruz, vendi-te aos Farizeus. +Pois bem, sendo eu um monstro e sendo tu um Deus, +Vais vêr como esse monstro, ó pobre Christo nu, +É maior do que Deus, mais justo do que tu: +Á tua caridade humanitaria e doce, +Eu prefiro o dever terrivel!» + + E enforcou-se. + + + + +O PAPÃO + + +As creanças têm medo á noite, ás horas mortas +Do papão que as espera, hediondo, atraz das portas, +Para as levar no bolso ou no capuz d'um frade. +Não te rias da infancia, ó velha humanidade, +Que tu tambem tens medo ao barbaro papão, +Que ruge pela boca enorme do trovão, +Que abençôa os punhaes sangrentos dos tyranos, +Um papão que não faz a barba ha seis mil annos, +E que mora, segundo os bonzos têm escripto, +Lá em cima, de traz da porta do Infinito. + + + + +PARASITAS + + +No meio d'uma feira, uns poucos de palhaços +Andavam a mostrar em cima d'um jumento +Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços, +Aborto que lhes dava um grande rendimento. + +Os magros histriões, hypocritas, devassos, +Exploravam assim a flor do sentimento, +E o monstro arregalava os grandes olhos baços, +Uns olhos sem calor e sem intendimento. + +E toda a gente deu esmola aos taes ciganos; +Deram esmola até mendigos quasi nùs. +E eu, ao ver este quadro, apostolos romanos, + +Eu lembrei-me de vós, funambulos da Cruz. +Que andaes pelo universo ha mil e tantos annos +Exhibindo, explorando o corpo de Jesus. + + + + +RESPOSTA AO SILLABUS + + +Fanaticos, ouvi as coisas que eu vos digo: + +Dentro d'essa prisão cruel do dogma antigo +A consciencia não póde estar paralisada, +Como n'um velho catre uma velha entrevada. +Tudo se modifica e tudo se renova: +Da escura podridão nojenta de uma cova +Sae uma flôr vermelha a rir alegremente. +A ideia tambem muda a pel' como a serpente. +O que era hontem grão é hoje a seara immensa. +A Verdade sahiu d'esse casulo--a Crença, +Assim como sahiu do velho o mundo novo. +Recolher outra vez a aguia no seu ovo +É impossivel; quebrou o involucro ao nascer. +Como é que pòdes tu ó Egreja, pretender, +Cerrando na tua mão um box enorme--o inferno, +Levar aos encontrões o espirito moderno, +Leval-o para traz, para o passado escuro, +Como um bandido leva um homem contra um muro?! +A trajectoria immensa e fulva da verdade +Não se póde suster com a facilidade +Com que Jusué susteve o sol no firmamento. +Atirar a justiça, a ideia, o pensamento +Ás fogueiras da fé, ó bonzos, é impossivel: +Reduzirdes a cinza o que? O incombustivel! +Loucos! ide dizer ao velho Torquemada +Que queime se é capaz n'um forno uma alvorada! +.................................... Sacristas, +Ajuntae, reuni os balandraus papistas, +As fardas sepulcraes do exercito da fé, +A capa de Tartufo, a loba de Claret, +A cogula do monge, enfim, tudo que seja +Côr da nolte; arrancae o velho crepe á egreja, +Dos caixões descosei os panos funerarios, +Tisnae co'a vossa lingua as alvas e os sudarios, +E se inda precisaes mais sombras, mais farrapos, +Pedi ao corvo a aza, o ventre immundo aos sapos, +Fabricae d'isto tudo uma cortina immensa, +E tapando com ella o sol da nossa crença, +Nem mesmo assim fareis o eclipse da aurora! +A consciencia não é a besta d'uma nora. +Lembrai-vos que o Progresso é um carro sem travão, +E que apagar em nós o facho da razão +É o mesmo que apagar o sol quando flameja +Com um apagador de lata d'uma egreja. + +Bonzos, podeis dizer á humanidade--Pára!-- +Co'a foice excomunhão podeis ceifar a ceara +Da heresia; podeis, segundo as ordenanças, +Metter pedras de sal na boca das creanças, +Fazer do Deus do amor o Deus barbaridade, +Chamar á estupidez irmã da caridade +E jesuita a Jesus e Christo a Carlos sete; +Vós podeis discutir junto da campa o frete, +Recoveiros de Deus, o frete que é preciso +Para irdes levar lá cima ao paraiso +A alma d'um defunto; ó bonzos, vós podeis +Ir pedir emprestado um exercito aos reis +E defender com elle o papa, o vaticano, +Do cerco que lhe faz o pensamento humano, +Pondo adiante d'um dogma a boca d'um canhão; +Podeis encarcerar dentro da inquisição +Galileu; vós podeis, anões, contra os ciclopes +Roncar latim, zurrar sermões, brandir hyssopes, +Que não conseguireis que a Liberdade vista +A batina pingada e rota d'um sacrista, +Que o direito se ordene, e que a Justiça queira +Ir a Roma tomar, contricta, o véo de freira! + + + + +O BAPTISMO + + + Exeat de vobis spiritus malignas. RITUAL. + + +Baptisaes: arrancaes d'um anjo um satanaz. +Desinfectaes Ariel banhando-o em aguarraz +De egreja e no latim que um malandro expectora, +Dizeis á noite:--limpa a tunica da aurora, +E ao rouxinol dizeis:--pede a benção da c'ruja. +Daes os lirios em flôr ao rol da roupa suja, +Representaes a farça estupida e sombria +D'um conego a lavar um astro n'uma pia, +Finalmente extrahis da innocencia o pecado, +Que é o mesmo que extrahir d'uma rosa um cevado, +E tudo isto porque? + Porque na biblia um mono +Devora uma maçã sem licença do dono! + + + + +EURICO + + + Cod. civil art. 1057 e 4031 + + +Eurico, Eurico, ó pallida figura, +Lastimoso, romantico levita, +Que nos serros do Calpe em noite escura +Ergues as mãos á abobada infinita; + +Rasga a pagina santa da Escriptura; +O espirito de luz que em nós habita +Já não consente essa ideal loucura +Que faz do amor uma paixão maldita. + +Deixa a soidão dos montes escalvados; +Não soltes mais os threnos inflamados, +Nem tenhas medo ás garras do demonio. + +Beija a Hermengarda, a timida donzella. +E vai de braço dado tu e ella +Contrahir civilmente o matrimonio. + + + + +A ARVORE DO MAL + + +Por debaixo do azul sereno, entre a fragancia + Dos mirtos, dos rosaes, +Viviam n'uma doce e n'uma eterna infancia + Nossos primeiros paes. + +Seus corpos juvenis, mais alvos do que a lua, + Mais puros que os diamantes, +Conservavam ainda a virgindade nua + Das coisas ignorantes. + +Poz Deus n'esse jardim com sua mão astuta + Ao lado da innocencia +A Arvore do Mal que produzia a fructa + Venenosa da sciencia. + +E, apezar de conter venenos homicidas + E o germen do pecado, +Era Deus quem comia á noite, ás escondidas, + Esse fructo vedado. + +Por isso Jehovah tinha sciencia infinda, + Tinha um poder secreto, +E Adão que não provara os fructos era ainda + Um anjo analfabeto. + +Eva colheu um dia o bello fructo impuro, + O fructo da Rasão. +N'esse instante sublime Eva tinha o Futuro + Na palma da sua mão! + +O homem, abandonado a submissão covarde, + Viu o fructo e comeu. +Esse fructo é a luz que a Jupiter mais tarde + Roubará Prometheu. + +E ao vêr igual a si a estatua que creara, + O homem reprobo e nu, +Jehovah exclamou: «Maldita seja a seara +cuja semente és tu!» + +Veio depois a Egreja e repetiu aos crentes + De toda a humanidade: +«Maldito seja sempre o que enterrar os dentes + Nos fructos da Verdade!» + +A Egreja permittia esse vedado pomo + Sòmente aos sacerdotes. +Da arvore do mal fugia o mundo, como + Os lobos dos archotes. + +Se o sabio que buscava o oiro nas retortas + Ia como um ladrão +Roubar timidamente, á noite, ás horas mortas + Algum fructo do chão, + +Tiravam-lhe da boca esse fructo damninho + D'uma maneira suave: +Atando-lhe á garganta uma corda de linho + Suspensa d'uma trave. + +Um dia um visionario, alma vertiginosa, + Espirito immortal, +Foi deitar-se, que horror! á sombra temerosa + Da Arvore do Mal. + +A Egreja ao vêr aquella intrepida heresia + Lança-lhe excomunhões; +Tomba por terra um fructo... e Newton descobria + A lei das atracções! + +Sacudi, sacudi, a arvore maldita, + Que os astros tombarão, +Como se sacudisse a abobada infinita + Deus com a propria mão! + +E quando o mundo inteiro emfim houver comido + Até á saciedade +O fructo que lhe estava ha tanto prohibido, + O fructo da Verdade, + +Homens, dizei então a Jehovah:--«Tirano, + Vai-te embora d'aqui! +Construimos de novo o paraiso humano; + Fizemol-o sem ti. + +«Expulsaste do Olimpo a humanidade outr'ora, + Ó despota feroz; +Pois bem, o Olimpo é nosso, e Jehovah, agora + Expulsamos-te nós! + + + + +A SEMANA SANTA. + + +I + + +Não podendo dormir no horror da sepultura, + Na podridão escura + Da terra immunda e fria, +Voltaire despedaçando o feretro chumbado, +E cingindo o lençol ao corpo esverdeado + Resuscitou um dia. + +Pairava-lhe no labio o riso fulminante +Com que outr'ora gravou nas crenças virginaes, +Como n'um rico espelho a aresta d'um diamante, +Tamanhas abjecções, sarcasmos tão brutaes. +Mas era ao mesmo tempo o riso heroico e bom +Que os tiranos prostrava em misero desmaio, +Riso a que succedeu o verbo de Danton, +Como a um trovão succede o lampejar d'um raio. +Dormira febrilmente um longo somno inquieto +Em quanto andava o mundo a executar-lhe os planos, +E vinha ver emfim, diabolico architeto, +O estado da sua obra ao cabo de cem annos, +Ó satiro divino, ò monstro da ironia, +Genio que Deus conduz e Satanaz impelle, +Que esmagas hoje o _infame_, e escreves no outro dia +Com a tinta do enxurro os versos da Pucelle; +Tu és feito de luz e feito de baixesas, +Feito de heroicidade e de protervias más; +Corromperam-te a alma os braços das duquezas +E encarguilhou-te a face o rir de Satanaz. +Rasgas ao mundo novo a estrada do futuro +Cantando ao mesmo tempo o sordido deboche: +És como um Juvenal dentro d'um Epicuro, +Ó arlequim-titan, ó semi-deus-gavroche. +N'esse labio mordente esso sorriso eterno +Faz frio como a ponta aguda d'uma espada; +O teu genio, Voltaire, é como o sol do inverno, +Dá muitissima luz, mas não aquece nada. +Em vão por sobre a paz dos campos desolados +Elle entorna do azul seus vivos esplendores; +Não cantam rouxinoes nas sebes dos vallados, +Não faz nascer o trigo e germinar as flores. +É que nunca soubeste o que é a dôr profunda +Que estalla fibra a fibra os grandes corações; +É que nunca choraste, ó Prometheu corcunda, +Como Dante chorou, como chorou Camões +Voltaire, ó rachador de velhos preconceitos, +Aos golpes de teu riso, a golpes de machado +Cairam sobre a terra athleticos, desfeitos +Na floresta da noite os cedros do passado. + +Mataste a tradição, o dogma, o privilegio, +Assobiaste a rir a fé de nossos paes, +E andaste pelo azul, hediondo sacrilegio! +A correr á pedrada os deuses immortaes. +Empunhando o alvião terrivel da verdade +Tu minaste, Voltaire, infatigavelmente +O alicerce de bronze à velha sociedade. +Do teu riso cruel a onda dissolvente +Foi como os vagalhões, arietes do mar, +Que cavam sob a rocha um tão profundo abismo +Que a rocha fica quasi assente sobre o ar. +Tu minaste, Voltaire, a rocha despotismo. +E depois de ter feito a excavação noturna, +Como fazem no monte as feras sanguinarias, +Encheste até á bocca essa medonha furna +Com barris de petroleo e bombas incendiarias +E em quanto o niveo pé soberbo de Antonieta +Da França estrangulava a suplicante voz, +Tu lançavas de longe a tragica luneta, +Velho Fauno cruel, rindo com riso atroz. +Até que um dia emfim exausto de cansaço, +Sentindo jà sem força as garras de condor, +Tu chegaste, Arouet, sem te tremer o braço, +Ao rastilho da mina o fogo abrasador. +Cobriu-se então o azul d'uma tormenta escura, +Echoou lugubremente o estrondo de trovão, +Viste arder o rastilho até uma certa altura, +E foste-te esconder, a rir, na sepultura +Mal se ia aproximando a hora da explosão. + +Quando resuscitou Voltaire ficou atonito +Vendo os nossos chapeus e as nossas calças pretas, +Mas como desejava andar no mundo incognito, +E não lêr o seu nome impresso nas gazetas, +Oh, a necessidade a quanto nos obriga! +Voltaire o diplomata, o cortezão taful +Largou a juba d'oiro, a cabelleira antiga +E foi vestir-se á moda aos armasens do Pool. +Na sexta feira santa os templos percorria +Voltaire para observar os crentes verdadeiros +No dia da paixão, no luctuoso dia +Em que se faz de Christo o deus dos confeiteiros. +Arouet, ao vêr aquella estupida farçada, +Foi acordar Jesus na sua campa ignorada +E disse-lhe: + + +II + + + --«Anda vêr ó Christo estes bandidos. + Que rostos tão floridos, + Que bellas digestões! +Ó pallido Jesus, ò scismador antigo, +Levanta-te da campa e vem d'ahi commigo + A vêr estes ladrões. + +Nós vamos passeiar juntos, de braço dado, +Mas vestirás primeiro um frak bem talhado + De fino pano inglez, +E hasde pôr na cabeça este chapeu redondo, +Para ficar gentil, para ficar hediondo + Como qualquer burguez. + +Tu odeias de certo estas casacas pretas, +Mas não quero, Jesus, que tu me compromettas +Com esse balandrau muitissimo ratão. +Se eu fosse ao boulevard comtigo e alguem me visse, +Ninguem oh, flôr do tom! ninguem, oh canalhice! + Me apertaria a mão. + +O talhe d'um colete e os pontos d'uma luva, +A menor frioleira, um simples guarda chuva, +Substituiram hoje as regras de Lavater: +Passando eu por accaso enodoado e roto, +Diriam: «Que chapeu! que pulha! que maroto! +Aquelle homem não tem nem sombras de caracter!» + +Anda, veste a farpella. Agora, sim senhor! +Muito grotesco és, meu pobre Redemptor! +Vais a comprometter-me, ó alma do Diabo! +Que figura infeliz, inteiramente chata!... +Pelo menos corrige o laço da gravata +E põe na _boutoniere_ este jasmim do Cabo. + +Necessitas de ter maneiras delicadas +E a arte de dizer uns pequeninos nadas + Com chic e distincção. Ser Deus é muito bom; +Mas é preciso ser um deus da fina roda, +Um deus do nosso tempo, um deus da ultima moda, +Um deus _petit-crevé_, um deus á _Benoiton_. + +Se amanhã por acaso alguem, medita n'isto, +Te fosse apresentar--Sua Ex. o Christo-- +Nos devotos salões do bairro São-Germano, +Oh escandalo! oh farça! oh padre omnipotente! +As duquezas, sorrindo aristocratamente, +Achavam-te decerto um Deus provinciano. + +Saiamos para a rua. A gente anda de lucto, +Porque consta que outr'ora un visionario, un bruto, +Se deixara morrer pregado n'um madeiro. +E hoje em memoria d'isto os paes compram ás filhas, + Tres caixas de pastilhas + Na loja d'um doceiro. + +Quanta mulher formosa ahi nesses balcões! + Que lindas tentações, + Meu palido judeu! +Deixa por um instante as regiões serenas; + Namora estas pequenas, +Que ellas hão de gostar do teu perfil hebreu. + +Arranja um casamento e aprende a ter juizo. +A noiva pouco importa; o dote é que preciso +Discutil-o. Olha lá, os paes que sejam velhos!... +Que vá para o diabo o reino da Utupia! +E hãode-te nomear socio da academia +E, quem sabe! talvez barão dos Evangelhos. + +Penetremos na egreja a vêr esta farçada. +Uns entram para vêr a casa illuminada, +Os dandys é por _chic_, os velhos por _decôro_; +Estes é para ouvir tocar umas quadrilhas, +E os outros, que sei eu!... para vender as filhas, +Para matar o tempo ou arranjar namoro. + +Lá vai o pregador dizer a seremonata +Tussiu cuspiu, sorriu, bebeu a sua orchata +E começa a fallar. Tem uns bonitos dentes. +E com gesto facundo e voz amaneirada + Receita una enfiada + De tropos excellentes. + + Acabou se. O auditorio + Gostou do farelorio + Como gostámos nós. +Soltam-se exclamações por entre algum rumor: +--_Muito bem! muito bem!_--_É um grande pregador!_-- +--_Foi um rico sermão!_--_E que bonita voz!_ + +E é esta a tua casa, ó meu pobre Jesus! + Não te bastou a cruz; + Era preciso o altar, +Que destino cruel, que tragica ironia! + Nasces na estrebaria, + Vives no lupanar! + +Desfila pela rua immensa multidão. + Saiu a procissão; +Paremos um instante. É curioso isto. +Que farças imbecis, que velhas pompas mudas! +Lá vae pegando ao palio o teu amigo Judas, +Que está, como tu vês, commendador de Christo! + +Os anjos theatraes caminham lentamente +Com azas de galão feitas expressamente + Nas lojas de Pariz. +Pobres anjos do céo! querem martirisal-os: +Vão cheios de suor e apertam-lhe os calos + As botas de verniz. + +Agora passas tu n'um palanquim bordado. + Coidado! +Muito trabalho tem quem faz religiões! +Repara como vais, olha que bella tunica: + É pavorosa, é unica! +Off'receu-t'a um burguez n'um dia de eleições. + +E atraz do velho andor e atraz das velhas opas +Vão desfilando agora os esquadrões das tropas + Com gesto marcial. +Tu que amavas os bons, os simples e as creanças, +Seguido como os reis d'um matagal de lanças, + Meu pobre general! + +Terminou a funcção. É negro o firmamento. + Ai que aborrecimento! + Ó meu Jesus, que tedio! +Para poder dormir, para poder ceiar, +Que hade a gente fazer? vamos ao lupanar, + Não ha outro remedio. + +Alli tens, meu amigo, os conegos vermelhos: +Que rostos joviaes, brunidos como espelhos, +Que riso debochado e gesto vinolento! +E á noite, a esta hora, uns padres sem batinas +Do certo não virão pregar ás concubinas + O 6.^o mandamento! + +Os teus guardas fieis depois da procissão, +Já roucos de cantar um velho cantochão, +Deixaram-te no templo abandonado e só. +Uns vieram beijar as carnes prostituídas, +E os outros foram lêr no quarto, ás escondidas, + Romances de Bollot. + +E como a noite é linda! a branca lua passa, +Ostentando na fronte a pallidez devassa + D'uma infeliz mulher. +Quando tudo fermenta e tudo anda de rastros +Já não deve admirar que a siphilis chegue aos astros +E precisem tambem xarope de Gibert! + +Meu Pae, vamos ceiar. É quasi madrugada; +É a hora do tom, a hora consagrada +Para os ricos festins á viva luz do gaz. +É a hora da morte, a hora do atahude, +E a mesma em que repoisa a candida virtude + Nos braços de Faublas. + +Anda não tenhas medo, entra no restaurante. +A sala está repleta. A purpura brilhante +Dos desejos inflama os sonhos tentadores. +O champanhe sacode os craneos embriagados, +E os crimes sensuaes e os vicios delicados +Rompem n'um turbilhão de venenosas flôres. + +O punch, illuminando as faces cadavericas, +Faz-nos imaginar as saturnaes chimericas +Que á noite deve haver na _morgue_ de Paris, +Aonde as cortezãs, mais roxas que as violetas, +Ao luar cantarão as verdes cançonetas + Das podridões gentis. + +Volteiam pelo ar os ditos picarescos, +Elasticos, febris, doidos, funambulescos, +Como gnomos de luz vestidos de histriões, +Dançando, tilintando os guisos argentinos, +Fazendo á luz do gaz tregeitos libertinos +Com o riso cruel das hallucinações. + +Ceiemos. Manda vir as coisas que preferes; +E que nos vão buscar duas ou tres mulheres, + Que as ha perto d'aqui; +O mais, pede por boca, o meu divino mestre; +Mas escuta, olha lá, não peças mel silvestre, +Porque já se não usa e riem se de ti. + +E agora é destampar a rubra fantasia! +Bebe, pragueja, ri, inventa, calumnia, +Anda! mostra que tens espirito, ladrão! +Não quero vêr chorar os olhos teus contrictos; +Sê canalha com graça, infame com bons ditos, + Vamos, semsaborão! + +Conta-nos em voz alta historias bem galantes, + Segredos irritantes, + Vergonhas sensuaes, +Adulterios da moda, escandalos, miserias, +Tudo isto, já se vê, com optimas pilherias, + Bastante originaes. + +Tu precisas perder esse teu ar de adventicio + E um certo horror ao vicio, + D'um pedantismo ignaro; +Formosura sem vicio é coisa que não tenta; +O vicio, meu amigo, é bom como a pimenta, +E o defeito que tem é ser um pouco caro. + +Conversemos, alegra a tua fronte augusta. +Sê espirituoso, inventa, o que te custa! +Uma infamia qualquer muitissimo engenhosa... +Tens um amigo? bem, vamos calumnial-o; +Tens amantes? melhor, eu dou-te o meu cavallo + E dás-me a mais formosa. + +Parece que o rubor te vai subindo ás faces... + Ó Filho, não me masses! + Ó Filho, tem piedade! +Deixa-te de sermões; no fim de contas eu +Sou muito bom christão... um poucochinho atheu, +Como um christão qualquer da fina sociedade. + +Saiamos; rompe a aurora. A burguezia dorme, + Como a giboia enorme +Que resona, depois de devorar um toiro; +Ó giboia feliz, ó burguezia, ò pança, + Dorme com segurança +Que a forca está de guarda aos teus bezerros d'oiro. + +E chama-se Progresso, ó Deus, esta farçada! +Isto é o cinismo alvar e em pêllo, à desfilada, +É a prostituição ignobil da mulher, +São desejos brutaes, é carne em plena orgia, +Emfim a saturnal da podre burguezia, +Que resa como o papa e ri como Voltaire. + +Morrendo o velho Deus, o velho Deus tirano, +Este mundo burguez, catholico-romano +Encontrou-se sem fé, sem dogma, sem moral; +A justiça era elle o Padre-omnipotente; +Esse Padre morreu; ficou nos simplesmente +Um unico evangelho--o codigo penal. + +A consciencia humana é um monte de destroços. +Foram-se as orações, foram-se os padres-nossos, +Tombou a fé, tombou o céo, tombou o altar; +E o velho Deus-castigo e o velho Deus-receio + É simplesmente um freio +Para conter a raiva á besta popular. + +A crassa burguezia, essa recua fradesca, +Opipara, animal, silenica, grotesca, +Namora a Deuza-carne e adora o Deus-milhão; +E as almas, fermentando assim n'esta impureza, +Resvalam sensuaes do leito para a meza. + Da meza para o chão. + +Vendem-se a peso d'oiro as languidas donzellas, + Mais torpes que as cadellas, +Que ao menos dão de graça o libertino amor, +E o Dever, a Saude, o Justo, o Verdadeiro, +Esses ricos metaes fundem-se no brazeiro +D'um sensualismo espresso, atroz, devorador. + +A agiotagem, a bolsa, a cotação dos fundos, +É o principio rei dominador dos mundos, +É um sangue vital, forte como o cognac. +Engordae, engordae ó bravos _homens serios_, +Que servis para dar esterco aos cemiterios + E musica a Offenbak. + +A vergonha morreu, a dignidade foi-se. +_O mundo official_ è um vergonhoso alcoice, +E a plebe tripudiando em horridas orgias +Lança sobre o Direito um pustulento escarro, +E acende, cambaleando, a ponta do cigarro +Na fogueira que abrasa o Louvre e as Tulherias. + +A familha é um bordel. Os leitos sensuaes +São verdadeiramente esgotos seminaes, + Eroticas latrinas, +Onde entre o tumultuar d'um debochado goso +Se fabrica de noite o sangue escrofuloso + Das raças libertinas. + +Calemo-nos. Eu oiço as ferraduras de Argus. +É a Ordem e a Lei; correm a trotes largos, +Vêm n'esta direcção, esconde-te, Jesus! +Metamo-nos aqui n'um beco, anda ligeiro! +Que, se sabem quem és, meu velho petroleiro, +Mandam-te pendurar segunda vez na cruz. + +E agora, Filho, adeus. Eu vou dormir um pouco, + E tu, meu pobre louco, +Descança inda que seja um breve quarto d'hora; +Tingem-se de vermelho as bandas do Oriente, +É hoje a Alleluia, e necessariamente +Tens de resuscitar logo ao romper d'aurora. + +Eu mais feliz que tu, simples mortal que sou, + Eu, meu amigo, vou +Dormir até que chegue a hora do jantar. +Adeus, e resuscita apenas surja o dia; +Se queres vem dormir á minha hospedaria, + Que eu mando-te acordar.» + +E Arouet partiu, soltando uma cruel risada +E Jesus ficou só na noite desolada, +N'aquella colossal Babilonia impudente, +Entre quatro milhões do almas--quatro milhões +De tigres, do reptis, de abutres e de leões +Agachados na sombra ameaçadoramente!... + +Quem a visse do alto essa Londres deserta +Com a fosforencia esmorecida, incerta +Da luz do gaz a arder sob um cèo tumular, +Julgaria estar vendo um grande monstro escuro, +Como que um Leviatham putrido n'um monturo + Immenso a fermentar. + +A noite era sinistra. Os ventos a galope +Resfolegavam como as forjas d'um ciclope +Com uivos de alienado e rugidos de feras. +E o mar bramia ao longe athletico, espumante +Qual marmita profunda a ferver trovejante + Sobre cem mil crateras. + +E Christo foi andando errante, vagabundo +Atravez dessa vasta imperatriz do mundo, +Opulenta Gomorra hidropica do vicio, +Que Deus não enxofrou talvez, como costuma, +Porque além de estar caro o enxofre, Deus em suma +Já não pode arruinar-se em fogos de artificio. + +E elle ia vendo os mil palacios portentosos +Onde a besta feliz dormia, ebria de gosos, + Um inefavel somno. +Em quanto que a miseria anonima, esfaimada + Ás tres da madrugada +Disputava o jantar no enxurro aos cães sem dono. + +As altas cathedraes, aonde a borguezia +Vai arrotar um pouco á missa do meio dia; +Tinham como que o ar d'um theatro fechado +O aspecto mercantil d'um armazem colosso, +Em que Deus ao balcão vende os dogmas por grosso + E o céo por atacado. + +Os bancos, Pantagrueis do milhão, monumentos +De marmore e granito e bronze, somnolentos +Molochs, cuja pança obesa é um matadouro, +Na virtuosa paz de monstros em descanço + Digeriam de manso +Nos seus ventres de ferro um Himalaia d'oiro. + +Nos mundos hospitaes, onde emfim a desgraça +Tem a consolação do agonisar de graça, +Santos, monstros, heroes,--Tropmans, Valgeans, Phrinés-- +Anciavam no estertôr do tranze derradeiro, +--Lixo que um bonzo vae entregar a um coveiro + Para o calcar aos pés. + +E era aquella immundicie humana a humanidade! +Tinha valido bem a pena na verdade +Pregado n'uma cruz morrer como um ladrão, +Para ao cabo de dois mil annos vir achar +Pilatos sob o throno e Caifaz sobre o altar +De diadema na fronte e baculo na mão! + +Arrazou-se de pranto o olhar do Nazareno, +Aquelle olhar profundo, aquelle olhar sereno +Que outr'ora deu alivio a tantos corações, +E a linha virginal de seu perfil suave +Turbou-se, apresentando o aspecto mudo e grave + Daz nobres afflições. + +E marmoreo, espectral, com a fronte sombria +Banhada no suor sangrento da agonia +Foi deitar-se outra vez na leiva tumular, +Athleta que expirou tranzido de mil dôres +E quer dormir, dormir entre as hervas e as flores +Onde escorre piedosa a branca luz do luar. + +E quando a christandade á volta do meio dia +Correu ao templo a ver o entremez da Alleluia, +Em logar d'um Jesus banal de ciclorama + Subindo ao firmamento, +D'olhos azues n'um céu d'anil, tunica ao vento, +Sobre nuvens de gloria, de algodão em rama, + +Viu-se na tela um Christo em furia, um visionario, +Truculento, febril, colerico, incendiario, +Como que um salteador fugido das galés, +Na bôca uma blasfemia e no olhar um archote, +Expulsando da egreja os christãos a chicote +E expulsando do altar o papa a pontapés! + + + + +A BARCA DE S. PEDRO + + +Na barca de S. Pedro ex-santo, hoje banqueiro, +São tantos os caixões com bulas da cruzada, +E tanto o oiro em barra, as joias, o dinheiro, +O navio é tão velho e a carga é tão pesada; + +Os anneis, os setins, as purpuras, as rendas, +As mitras d'oiro fino, os bentos, as imagens, +As pratas, os cristaes, os vinhos, as of'rendas, +Os meninos do côro, os famulos, os pagens; + +O macisso tropel de conegos vermelhos, +De sacristas, bedeis, archeiros, missionarios, +E o damasco, o velludo, os bronzes, os espelhos, +o silabus, a curia, as forcas, os rosarios; + +As pipas e os toneis com aguas milagrosas, +Que ainda causam hoje o mais profundo assombro; +Dos velhos cardeaes as cortezãs formosas, +E o cura Santa Cruz de bacamarte ao hombro; + +Esta orgia pagã, esta riqueza immensa +Atulham de tal forma a barca ultramontana, +É tão desenfreado o vento da descrença, +E o mar é tão revolto, a carga é tão mundana; + +Que a barca do senhor, outr'ora dirigida +Por doze galileus descalços, quasi nus, +Ella que atravessava o grande mar da vida +Tendo só por farol os olhos de Jesus; + +A barca que atravez do horror da tempestade, +Arvorando no mastro o pavilhão da Esp'rança, +Levava os corações de toda a cristandade +Ao grande porto ideal da Bemaventurança; + +Hoje ao peso cruel d'este deboche hediondo +Essa barca da Egreja, esse colosso antigo +Sossobrará, o Deus, com pavoroso estrondo, +Indo dormir ao pé dos _galeões de Vigo_. + + + + +LADAINHA + + +S. Ignacio + + Bemdicto quem nos dá o pão de cada dia. + + +Coro de Santos + + Bemdicta a Estupidez, bemdicta a Hipocrisia. + + +S. Ignacio + + Bemdicta seja a forca erguida sobre o mundo. + + +Coro de Santos + + Bemdicto Carlos sete e D. Miguel segundo. + + +S. Ignacio + + Bemdicto seja o tigre e o lobo carniceiro. + + +Coro de Santos + + Bemdicto seja el-rei D. João terceiro. + + +S. Ignacio + +Bemdictas sejaes vós, ovelhas de Maria. + + +Coro de Santos + + E mais a vossa lã, e mais quem n'a tosquia. + + +S. Ignacio + + Bemdictos os chacaes, bemdictas as toupeiras. + + +Coro de Santos + + E a lingua da verdade e as linguas das fogueiras. + + +S. Ignacio + + Bemdictos os febris venenos orientaes. + + +Coro de Santos + + E o Santo padre Borgia e muitos Santos mais... + + +S. Ignacio + + Bemdicta a nossa Fé, bemdicta a nossa Egreja. + + +Coro de Santos + +Bemdicto o nosso ventre! Amen. Bemdicto seja! + + + + +COMO SE FAZ UM MONSTRO + + +I + + +Elle era n'esse tempo uma creança loira +Vivendo na abundancia agreste da lavoira, +Ao vento, a chuva, ao sol, pastoreando os gados, +Deitando-se ao luar nas pedras dos eirados, +Atravessando á noite os solitarios montes, +Dormindo a boa sésta ao pé das claras fontes, +Trepando aos pinheiraes, ás fragas, aos barrancos, +No rijo e negro pão cravando os dentes brancos, +Radioso como a aurora e bom como a alegria. +Quando no azul do céo cantava a cotovia, +Aos primeiros clarões vibrantes da alvorada +Transportava ao casebre o leite da manada, +Acordando, a assobiar e a rir pelos caminhos, +Os lebreus nos portaes e as aves nos seus ninhos. +E á tarde quando o sol, extraordinario Rubens, +Na fantasmagoria esplendida das nuvens, +Colorista febril, lança, desfaz, derrama +O topasio, o rubi, a prata, o oiro, a chama, +Elle ia então sosinho, alegre intemerato, +Conduzindo a beber ao tremulo regato, +A golpes de verdasca e gritos estridentes, +N'um ruidoso tropel os grandes bois pacientes. +O seu olhar azul de limpidez virtuosa, +Onde brilhava a audacia heroica e valorosa +A candura infantil e a intelligencia rara, +O timbre da sua voz imperiosa e clara, +A linha do seu corpo altivamente recta, +Tudo lhe dava o ar soberbo d'um athleta +Em miniatura. + + +II + + + Um dia o pae, um bravo aldeão, +Chamou-o ao pé de si, e disse-lhe: + + «João: + +Á força de trabalho e a força de canceiras +A moirejar no monte e a levar gado ás feiras, +Consegui ajuntar ao canto do bahù +Alguns pintos. Vocês são dois rapazes; tu, +Além de ser mais novo, és mais intelligente. +Vou botarte ao latim; quero fazer-te agente. +Hasde-me dar ainda um grande prégador. +Hoje padre é melhor talvez que ser doutor. +Aquillo è grande vida; é vida regalada. +Olha, sabes que mais? manda ao diabo a enxada. +Aquillo é que é vidinha! aquillo é que é descanço! +Arrecada-se a congrua, engrola-se o ripanço, +Arranja-se um sermão ahi com quatro tretas, +Vai-se escorropichando o vinho das galhetas, + +E a missa seis vintens e doze os baptisados. +Depois independente e sem nenhuns cuidados! +Olha, João, vê tu o nosso padre cura: +É, sem tirar nem pôr, uma cavalgadura. +Vi-o chegar aqui mais roto que os ciganos; +Pois tem feito um casão em meia duzia d'annos. +Isto é desenganar; padres sabem-na toda... +É o sermão, é a missa, é o enterro, é a boda, +É pinga da melhor, é tudo quando ha! +Quando o abade morrer hasde vir tu p'ra cá. +Despacha-te o doutor nas côrtes; quando não +Votamos contra elle, e foi-se-lhe a eleição. +Mas que é isso, rapaz? Nada de choradeira! +É tratar da merenda, e quinta ou sexta-feira +Toca pr'o seminario. Eu quero ir para a cova +Só depois de ti ouvir cantar a missa nova.» + + +III + + +N'uma tarde d'outomno a somnolente trote +Um macho conduzia em cima do albardão, +Já columna da egreja, o novo sacerdote, +O muitissimo illustre e digno padre João. +Ao entrarem na aldeia os dois irracionaes, +Dos foguetes ao grande e jubiloso estrepito +Um velho recebeu nos braços paternaes, +Em vez do alegre filho, um monstro já decrepito +Que acabava de vir das jaulas clericaes. +Que transfigurão! que radical mudança! +Em logar da innocente, angelica creança, +Voltava um chimpanzé estupido e bisonho. +Com o ar de quem anda hallucinadamente +Preso nas espiraes diabolicas d'um sonho. +Seu corpo juvenil, robusto e florescente +Vergava para o chão exhausto de cansaço: +Os dogmas são de bronze, e a lã d'uma batina +Já vai pesando mais que as armaduras d'aço. +A ignorancia profunda, a estupidez suina +A luxuria d'egreja, ardente, clandestina, +O remorso, o terror, o fanatismo inquieto, +Tudo isto perpassava em turbilhão confuso +Na atonia cruel d'aquelle hediondo aspecto, +Na morna fixidez d'aquelle olhar obtuso. +Metida nas prisões escuras de Loyola +A sua alma infantil, não tendo luz nem ar. +Foi com os rouxinoes, que dentro da gaiola +Perdem toda alegria, e morrem sem cantar. + + +IV + + +Como ninguem ignora, os sordidos palhaços +Compram, roubam às mães as loiras creancinhas, +Torcem-lhes o pescoço, as mãos, os pés, os braços, +Transformam-lhes n'um juco elastico as espinhas, +E exhibem-nas depois nos palcos das barracas +Dando saltos mortaes e devorando facas +Ante o espanto imbecil da ingenua multidão; +E para lhes cobrir a lividez plangente +Costumam-lhes pintar carnavalescamente +Na face de alvaiade um rir de vermelhão. +Tambem o jesuitismo hipocrita-romano, +Palhaço clerical, anda pelos caminhos +A comprar, a furtar, assim como um cigano, +As creanças ás mães, os rouxinoes aos ninhos. +Vão leval-as depois ao negro seminario, +Ás terriveis galés, ao sacro matadoiro, +E escondem-nas da luz, assim como o usurario +Esconde tambem d'ella os seus punhados d'oiro. +Dentro da estupidez e da superstição, +Casamata da fé, guardam-lhes a razão, +A analize, esse forte e venenoso fluido, +Que, andando em liberdade, ao minimo descuido +Poderia estoirar com tragica explosão. +O que o palhaço faz ao corpo da creança +Fazem-lh'o á alma, até que d'ella reste emfim, +Em logar do histrião que nas barracas dança, +O pobre missionario, o inutil manequim, +O histrião que nos prega a bemaventurança +A murros do missal e a roncos de latim. +As almas infantis são brandas como a neve, +São perolas de leite em urnas virginaes. +Tudo quanto se grava e quanto ali se escreve +Cristalisa em seguida e não se apaga mais. +D'esta forma consegue o astucioso clero +Transformar de repente uma creança loira +N'um passaro nocturno estupido e sincero. +É abrir-lhe na cabeça a golpes de tesoira +A marca industrial do fabricante--um zero! + + + + +CALEMBOUR + + +Ó Jesuitas, vois sois dum faro tão astuto, +Tendes tal corrupção e tal velhacaria, +Que é incrivel até que o filho de Maria +Não seja inda velhaco e não seja corrupto, +Andando ha tanto tempo em tão má _companhia_. + + + + +A AGUA DE LOURDES + + +Se ergueis uma capella á agua milagrosa, + Esse elixir divino, +Então erguei tambem um templo á caparosa + E outro templo ao quinino. + +Se a agua faz milagre, o que eu vos não discuto, + E por isso a adorais, +Ajoelhemos então em face do bismuto + E d'outras drogas mais. + +Façamos da magnesia e cloroformio e arnica + As hostias do sacrario; +Transformemos o templo emfim n'uma botica + E Deus n'um boticario. + +Que a vossa agua opere immensas maravilhas + Eu não duvido nada: +É o Espirito Santo engarrafado em bilhas, + É o milagre á canada. + +Desde que se espalhou pelo universo o echo + Do milagre feliz, +Tartufo nunca mais encheu o seu caneco + Em outro chafariz! + + + + +ANTONELLI + + +Uma loba emprenhou um dia de Tartufo, +E Antonelli nasceu d'este consorcio bufo. + +O seu labio despresa; o seu olhar dardeja. +Cassagnac de Deus, guarda-costas da Egreja, + +Redige as pastoraes brutaes de que se nutre +Co'um tinteiro de treva e uma penna de abutre. + +Bossuet-Ferrabraz e Falstaf-Isaias. +Bebe petroleo negro e gim nas sacristias. + +Não ha pomba mais tigre ou Santo mais demonio: +Fera,--como Caim! rato,--como Polonio! + +N'aquelle olhar nocturno, inquizidor, que assusta, +Ha Nero a murmurar nas sombras com Locusta. + +O cabeção que traz na batina de lilla +Erriçam-no punhaes: era d'um cão de fila. + +O tigre deu-lhe o amor e o bode a castidade, +Para um dia expulsar do mundo a Liberdade + +Fez um latego atroz, que corta e que esfarrapa, +Atando uma serpente ao baculo de um papa. + +Quando observo esse monstro, essa alimária brava, +Hercules que talhou d'um hyssope uma clava, + +Ao vêr-lhe os rins de bronze, e ao vêr-lhe a erecta fronte, +Creio estar contemplando ao longe, no horisonte, + +Entre o rubro esplendor d'uma manhã sonora, +Um bufalo de treva ás cornadas na aurora! + + + + +O DINHEIRO DE S. PEDRO + + +De tal modo imitou o papa a singileza + Do martyr do Calvario, +Que á força de gastar os bens com a pobreza + Tornou-se milionario. + +Tu hoje pódes vêr, ó filho de Maria, + O teu vigario humilde +Conversando na bolsa em fundos da Turquia +Com o Barão Rotschild. + +A cruz da redempção, que deu ao mundo a vida + Por te aver dado a morte. +Tem-a no seu _bureau_ o padre santo erguida + Sobre uma caixa forte. + +E toda essa riqueza immensa, acumulada + Por tantos financeiros, +O que é a economia, oh Deus! foi começada + Só com trinta dinheiros! + + + + +AO NUNCIO MASELLA + + +O Padre Eterno está coberto do masellas, +E tu, (teu nome o atesta, ó bonzo,) és uma d'ellas. +Masella, escuta: + + Deus, o Deus em que acredito, +Essa luz que allumina essa noite--o infinito, +Esse efluvio d'amor que em tudo anda disperso, +Espirito que, enchendo o abismo do universo. +Cabe com todo o seu vastissimo esplendor +N'um olhar de creança ou n'um calix de flor, +Esse Deus immortal, unico, bom, clemente, +O Deus de quem tu es o hereje e eu sou o crente, +Esse Deus ó Masella, é um Deus plebeu e humilde, +Cuja firma não dá nos banqueiros Rotschild +Credito algum, um Deus descalço e proletario. +Que em vez de libras guarda em seu profundo erario +Montões d'astros, um Deus do tal maneira vil, +Que não tem cortezãos, não tem lista civil, +Nem bispos, nem cardiaes, nem sacristães, nem tropa, +Nem nuncios para dar pelas côrtes da Europa +Em doirados salões e esplendidas estufas +Festins onde se serve o Evangelho com trufas, +A Biblia com champagne, e a alma de Jesus, +Bem picada, recheiando os faisões e os perus! + +Embaixador de quem? de Christo? não; do papa. +Quem é o papa? + + Um Deus inventado á sucapa, +Um Deus para fazer o qual bastam apenas +Quatro coisas:--cardeaes, papel, tinteiro e pennas. +Deita-se n'uma saca uma lista qualquer. +Qualquer nome--Gregorio, ou Borgia, ou Lacenaire, +Ou Papavoine--e prompto! em dois minutos fica +Manipulado um Deus authentico, obra rica, +Tonsurado, sagrado, infalivel, divino... +Quer dizer, sahiu Deus d'uma bolsa do quino! +É um Deus por concurso, um Deus feitos por tretas, +E em cuja divindade ideal ha favas pretas! +Apezar disso é Deus. Vai pousar-lhe no seio +O Espirito Santo, esse pombo correio +Da Providencia. É elle o redemptor e o oraculo. +A humnidade vai adiante do seu baculo, +Soluçando, ululando, exhausta, ensanguentada +Pavoroso tropel de sombras pela estrada +Do destino fatal. O pensamento humano +É simplesmente um cão sabujo e ultramontano, +Um cão vadio, um cão faminto, um cão impuro, +Que o papa recolheu de noite n'um monturo, +E a quem ás vezes dá com parcimonia biblica, +A pitança d'um Breve e o osso d'uma Enciclica. +Um papa é isto:--um juiz sem lei; omnipotente. +Czar das consciencias. Póde irremessivelmente +Chamuscal-as em fogo, ou torral-as em brazas, +Ou fazer-lhes nascer das costas um par d'azas. +O globo é para elle a bôla d'um bilhar. +Domina os reis. O Throno é o lacaio do Altar. +Seus templos são prisões e seus dogmas algemas. +Cingem-lhe a fronte augusta e nobre os tres diademas, +E na potente mão, invencivel harpeu, +Tem as chaves do inferno... e a gazua do céu. + +Masella, o theatro é velho, a receita é pequena, +E ha mil annos que está a mesma farça em scena. +Abaixo a farça! Abaixo o pardieiro divino, +O céo, que já não tem nem sombras de inquilino. +Serafins, cherubins, anjos, legião eterna +Dos eleitos, tudo isso andou, poz-se na perna, +Deixando lá ficar, ó cafila d'ingratos! +O cadaver d'um Deus roido pelos ratos. +Abaixo o inferno, aonde os démos, meus Irmãos, +Não têm fogo se quer para aquecer as mãos; +Porquê lá onde a curia os rebeldes despenha +Ha sobra do infieis, mas ha falta de lenha. +Já nem é forno; aquillo é adega sombria, +Onde o defluxo faz a côrte á pneumonia, +E onde não ha nariz precito que ande enxuto. +Cada heresiarca suja um lenço por minuto, +De modo que hoje o inferno (oxalá que m'o evites, +Masella!) é de temer por causa das bronchites. +Abaixo o purgatorio! Entre chamma ex-faminta, +Que reclama com ancia algumas mãos de tinta, +Gelam reprobos nus, reprobos em pelote, +Que precisam d'um fogo, ó céos, ou d'um capote! +Abaixo a farça! abaixo o entremez da paixão, +Porque o Christo é de gesso e a cruz de papelão. +Abaixo essa parodia infame em que agonisa +N'um Golgota de lona um clown sem camisa +Que, depois d'expirar convulso, de repente +Salta abaixo da cruz funambulescamente, +E arranca às multidões assombradas e mudas +A esportula--que cai no saquitel do Judas. + +Não! o martyr que fez com o seu olhar sublime +O luar do Perdão para a noite do Crime, +E que abriu com a luz da bemaventurança +N'este carcere--a vida, esta janella--a Esp'rança, +O semi-deus que està, com um farol de gloria +No topo da montanha escalvada da historia +Contemplando o infinito e illuminando a terra, +Essa alma que a flôr da alma humana encerra, +Não é vossa, não é de qualquer confraria +Que dispõe d'uma adega escura, d'uma pia +E d'um padre, não tem o domicilio em Roma, +Não é vinho nem pão que se beba ou se coma, +Merendando, em familia. Ess'alma Universal, +Essa concentração divina do Ideal +É de quem soffre, é de quem geme, é de quem chora, +É de todos que vão pela existencia fóra +Tristes--santo, ou heròe, ou escravo, ou proscripto, +Calcando o lodo e olhando os astros no Infinito. +Quando Christo inclinou, morrendo, a fronte calma, +Foi a Egreja buscar-lhe o corpo e o mundo a alma. +A Egreja recolheu a cinza e nós a luz. +E, louca! julgou ser a esposa de Jesus, +Porque estreitava ao peito um cadaver gelado! +Dez seculos durou na treva esse noivado. +Dez seculos passou a funebre bacante +N'um sepulchro a oscular as gangrenas do amante, +Unido a cada chaga immunda um beijo em flôr, +Tentando reviver ao furioso calor +D'esses beijos um corpo inanimado e frio. +Que tragedia dantesca esse himeneu sombrio! +Pobre Heloisa da morte, o teu casto Abeillard +Nem para ti abriu o azul do seu olhar, +Nem murmurou baixinho uma palavra só! +E o Deus tornou-se em lodo abjecto e o lodo em pó! +E na campa nupcial, no talamo--sentina, +Da carcassa d'um Deus funebre Messalina, +Putrefacta expiraste ao pé da podridão. +É que um cadaver, seja ou d'um Christo ou d'um cão. +Materia morta, exhala a mesma pestilencia. +Só a alma é immortal; só essa pura essencia, +Jámais se decompõe ou jàmais se aniquila. +O corpo é simplesmente a alampada de argila; +A alma, eis o clarão. Por isso o Nazareno +Pertence ao mundo. Tu escolheste o veneno, +O cadaver, e nós o Espirito, a alvorada. +E foi com essa hostia esplendida e sagrada, +Com a alma de luz do Filho e Maria +Que o mundo celebrou a grande eucharistia, +Egreja!... O coração da victima innocente +Comungamol-o nós: diluiu-se ethereamente, +Cheio de paz e amor, no coração humano. +Foi um sol que expirou. Onde tombou? No oceano. + +Mas como, p'ra poder explorar sem canceira +Com o inferno--essa mina, a terra--essa melgueira, +O velho Padre-Santo, o Redemptor-Tichborue, +Precisa d'um Jesus sangrento que lhe adorne +O altar, e aos pés do altar necessita que esteja +Toda banhada em pranto a noiva eterna, a Egreja, +E como o noivo e a noiva ambos tinham morrido, +O Padre Santo, que é um padre divertido, +Mandou escripturar então por um cornaca +Uma Egreja a um bordel e um Christo a uma barraca. + +Fóra esse Deus! Abaixo esse Deus salafrario, +Deus com ramo de loiro á porta do Calvario, +Deus que marcha ao suplicio, á epopeia da Dôr +Com Cyreneu na frente a rufar n'um tambor, +Deus de quem Harpagão é caixeiro e Tartufo +Guarda livros, um Deus palhaço, um Christo bufo, +Um martyr de aluguel, ebrio, que se apregoa +Com guisos atinir nos espinhos da c'roa, +Um Deus a quem Mandrin passou folha corrida, +Um Deus que fez da morte o seu modo de vida, +Um Deus que representa a farça da Paixão +Pintado, ensanguentado a vinho e a vermelhão, +Um Deus que sobe ao céo, acrobata farnesio, +Em aerostato, a vai no banho d'um trapesio +A fazer o signal da cruz e a prancha com limpeza +Identica, arrojando á multidão surpreza +Bençãos anjelicaes variadas e embrulhadas +Em prospectos, e emfim descendo ás gargalhadas, +Para ir repartir em qualquer sacristia +Os lucros da função por toda a companhia! + +Que regabofe! O Christo, um magro actor de fama, +Estropeado galan senil depois do drama, +Lava o gesso e o zarcão da tromoia sangrenta +Com a esponja do fel na pia da agua benta. +A Magdalena, vesga e sordida rameira, +Guarba os seios de estopa, o prato, a cabelleira, +Limpa a maceração do olhar, que causa asco, +Feita a rolha queimada e inutil d'algum frasco +De mercurio ou de absinto, e, como uma alcateia, +Atira-se esfaimada ao bacalhau da ceia. +O bom do Cyrineu, a transpirar, pragueja; +Manda aos quintos a cruz e manda ao diabo a egreja; +Despe a farpela, e bebe a rir alegremente, +D'um trago só, canada e meia de aguardente. +Pilatos o pançudo e calvo safardana +Ronca, dormindo. A vil soldadesca romana +Tira as barbas, e põe muitissimo pacata +N'um bahu--os morriões e espadagões de lata. +O bom e o máo ladrão jogam a bisca. O anjo +Que partira o sepulchro, um robusto marmanjo, +Desaparafusando as azas d'oiro e o nimbo, +Pede ao velho Caiphaz lume para o cachimbo +E grave e silencioso, a um canto o thesoureiro +--Judas--reparte, empilha em montes o dinheiro +Da recita, tirando o quinhão do empresario +--O Papa--a quem pertence o Theatro do Calvario. +E dividida a prosa e ruminada a orgia, +Ao sagrado e doirado alvorescer do dia, +Lá vai esse roldão de sevandijas podres, +Cambaleante tropel de ventres feitos odres. +Indo dormir talvez, oh pandega, oh delicia! +Jesus co'a Magdalena--á esquadra de policia. + +Vamos! basta de farça, e basta de farçantes! +Mil bombas a vapor jorrem desinfectantes +N'esse velho bordel da Egreja--o vaticano, +Colera! faz-te mar, Justiça! faz-te oceano, +E inundae, submergi o Versalhes maldito +De Jehovah--Rei-sol macrobio do infinito. +Vamos, fogo ao covil! E emquanto os salteadores, +Nuncios, bispos, cardeaes, conegos, monsenhores, +--Truculenta manada obesa de hipopotamos-- +Virgem-mãe dos heróes, ó Liberdade! enxotam'os, +E faze-m'os transpor, a grunhir, sem demoras +As fronteiras do globo em vinte e quatro horas! + + + + +LADAINHA MODERNA + + +S. Leão 13--dai-nos bons bispados, +S. Leão 13--que nos possam dar +S. Leão 13--vinte mil crusados. +S. Leão 13--fòra o pé d'altar. + +Santo Antonelli--dai-nos confessadas +Santo Antonelli--novas, já se vê; +Santo Antonelli--é melhor casadas, +Santo Antonelli--bem sabeis porque... + +Ó Santo Borgia--ha tanta gente avara!... +Ó Santo Borgia--ha tantos imbecis!... +Ó Santo Borgia--como se prepara, +Ó Santo Borgia--o tal xarope... diz!... + +Santa de Lourdes--sois incomparavel! +Santa de Lourdes--muita agua deita +Santa de Lourdes--vossa inexgotavel +Santa de Lourdes--fonte... de receita! + +Ó Santa madre--miseros, mesquinhos, +Ó Santa madre--vemo-nos atonitos, +Ó Santa madre--p'ra educar sobrinhos +Ó Santa madre que tem paes incognitos. + +Ó Santa egreja mete-nos, no buxo +Ó Santa egreja--p'ra dár tom á fibra, +Ó Santa egreja--alguns te-deuns de luxo +Ó Santa egreja--e muita missa a libra + +Santo Cinismo--chapa-nos nas faces +Santo Cinismo--um tal estanho emfim, +Santo Cinismo--que tu mesmo embaces +Santo Cinismo--ao vêr cinismo assim. + +Santa Intrugice--entrega as almas toscas +Santa Intrugice--ás nossas artimanhas... +Santa Intrugice--Deus destina as moscas +Santa Intrugice--ao papo das aranhas. + +S. Regabofe--dai-nos bambochatas +S. Regabofe--até rollar não chão... +S. Regabofe--pipa e sermonatas! +S. Regabofe--porco e cantochão! + +Santa Barriga--unica santa nossa, +Santa Barriga--grande santa és! +Santa Barriga--alarga, estende, engrossa +Santa Barriga--e vai da boca aos pés + +Santa Preguiça--Santa que consolas, +Santa Preguiça--não ha nada igual +Santa Preguiça--a um bom colchão de molas +Santa Preguiça--e mais etcet'ra e tal!... + +S. Venha-a-nós--realisa este desejo, +S. Venha-a-nós--ingenuo e timorato: +S. Venha-a-nós--faz do universo um queijo +S. Venha-a-nós--e faz de nós um rato! + + + + +O MELRO + + + O melro, eu conheci-o: +Era negro, vibrante, luzidio, + Madrugador, jovial; + Logo de manhã cedo +Começava a soltar d'entre o arvoredo +Verdadeiras risadas de cristal. +E assim que o padre cura abria a porta + Que dá para o passal, +Repicando umas finas ironias, + O melro d'entre a horta + Dizia-lhe: «Bons dias!» + E o velho padre cura +Não gostava d'aquellas cortezias. + +O cura era um velhote conservado, +Malicioso, alegre, prasenteiro; +Não tinha pombas brancas no telhado, + Nem rosas no canteiro; +Andava ás lebres pelo monte, a pé, + Livre de rheumatismos, +Graças a Deus, e graças a Noé. +O melro despresava os exorcismos + Que o padre lhe dizia: +Cantava, assobiava alegremente, + Até que ultimamente + O velho disse um dia: + +«Nada, já não tem geito! este ladrão + Dá cabo dos trigaes! + Qual seria a rasão +Porque Deus fez os melros e os pardaes?!» + + E o melro no entretanto, + Honesto como um santo, + Mal vinha no oriente + A madrugada clara +Já elle andava jovial, inquieto, +Comendo alegremente, honradamente, +Todos os parasitas da seara +Desde a formiga ao mais pequeno insecto. +E apezar d'isto o rude proletario, + O bom trabalhador, +Nunca exigiu augmento de salario. + +Que grande tolo o padre confessor! + + Foi para a eira o trigo; + E armando uns espantalhos + Disse o abbade comsigo: +«Acabaram-se as penas e os trabalhos.» +Mas logo do manhã, maldito espanto! + O abbade, inda na cama, +Ouviu do melro o costumado canto, + Ficou ardendo em chamma; + Pega na caçadeira, + Levanta-se d'um salto, +E vê o melro a assobiar na eira +Em cima do seu velho chapéu alto! + + Chegou a coisa a termo +Que o bom do padre cura andava enfermo, + Não fallava nem ria, +Minado por tão intimo desgosto; +E o vermelho oleoso do seu rosto +Tornava-se amarello dia a dia. +E foi tal a paixão, a desventura, +(Muito embora o leitor não me acredite) + Que o bom do padre cura + Perdera... o appetite! + + * * * * * + +Andando no quintal um certo dia +Lendo em voz alta o _Velho Testamento_ +Enxergou por acaso (que alegria! + Que ditoso momento!) +Um ninho com seis melros escondido + Entre uma carvalheira. + +E ao vel-os exclamou enfurecido: + +«A mãe comeu o fructo prohibido; +Esse fructo era a minha sementeira: + Era o pão, e era o milho; + Transmittiu-se o peccado. +E, se a mãe não pagou, que pague o filho, +É doutrina da Egreja. Estou vingado!» + +E engaiolando os pobres passaritos + Soltava exclamações: + «É uma praga. Maldictos! +Dão-me cabo de tudo estes ladrões! +Raios os partam! andai lá que emfim...» + +E deixando a gaiola pendurada +Continuou a ler o seu latim + Fungando uma pitada. + + * * * * * + +Vinha tombando a noite silenciosa; +E caia por sobre a naturesa +Uma serena paz religiosa, + Uma bella tristesa +Harmonica, viril, indefinida. + A luz crepuscular +Infiltra-nos na alma dolorida +Um mysticismo heroico e salutar. +As arvores, de luz inda doiradas, +Sobre os montes longiquos, solitarios, +Tinham tomado as fórmas rendilhadas + Das plantas dos herbarios. +Recolhiam-se a casa os lavradores. +Dormiam virginaes as coisas mansas: + Os rebanhos e as flores, + As aves e as creanças. + +Ia subindo a escada o velho abbade; +A sua negra, athletica figura +Destacava na frouxa claridade, + Como uma nodoa escura. +E introduzindo a chave no portal + Murmurou entre dentes: + + «Tal e qual... tal e qual!... +Guisados com arroz são excellentes.» + + * * * * * + +Nasceu a lua. As folhas dos arbustos +Tinham o brilho meigo, avelludado +Do sorriso dos martyres, dos justos. +Um effluvio dormente e perfumado +Embebedava as seivas luxuriantes. +Todas as forças vivas da materia +Murmuravam dialogos gigantes + Pela amplidão etherea. +São precisos silencios virginaes, +Disposições sympathicas, nervosas, +Para ouvir estas fallas silenciosas + Dos mudos vegetaes. +As orvalhadas, frescas espessuras +Presentiam-se quasi a germinar. +Desmaiavam-se as candidas verduras +Nos Magnetismos brancos do luar. +................................... + + * * * * * + +E n'isto o melro foi direito ao ninho. +Para o agasalhar andou buscando +Umas pennugens doces como arminho, +Um feltrosito assetinado e brando. + Chegou lá, e viu tudo. +Partiu como uma frecha; e louco e mudo +Correu por todo o matagal; em vão! +Mas eis que solta de repente um grito +Indo encontrar os filhos na prisão. + +«Quem vos metteu aqui?!» O mais velhito +Todo tremente, murmurou então: + +«Foi aquelle homem negro.--Quando veio +Chamei, chamei... Andavas tu na horta... +Ai que susto, que susto! Elle é tão feio!... +Tive-lhe tanto medo!... Abre esta porta, +E esconde-nos debaixo da tua aza! +Olha, já vão florindo as assucenas; +Vamos a construir a nossa casa + N'um bonito logar... +Ai! quem me dera, minha mãe, ter pennas + Para vôar, vôar!» + + E o melro hallucinado + Clamou: + + «Senhor! Senhor! +É por ventura crime ou é peccado + Que eu tenha muito amor + A estes innocentes?! +Ó natureza, ó Deus, como consentes +Que me roubem assim os meus filhinhos, + Os filhos que eu criei! +Quanta dôr, quanto amor, quantos carinhos, + Quanta noite perdida + Nem eu sei... + E tudo, tudo em vão! + Filhos da minha vida! + Filhos do coração!!... +Não bastaria a natureza inteira, +Não bastaria o céo para voardes, +E prendem-vos assim d'esta maneira!... + Covardes! +A luz, a luz, o movimento insano +Eis o aguilhão, a fé que nos abraza... + Encarcerar a aza +É encarcerar o pensamento humano. +A culpa tive-a eu! quasi á noitinha + Parti, deixei-os sós ... +A culpa tive-a eu, a culpa é minha, + De mais ninguem!... Que atroz! + E eu devia sabel-o! +Eu tinha obrigação de adivinhar... +Remorso eterno! eterno pesadello!... +........................................... +Falta-me a luz e o ar!... Oh, quem me dera + Ser abutre ou ser féra +Para partir o carcere maldicto!... +E como a noite é limpida e formosa! + Nem um ai, nem um grito... +Que noite triste! oh noite silenciosa!...» + + * * * * * + +E a natureza fresca, omnipotente, + Sorria castamente +Com o sorriso alegre dos heroes. + Nas sebes orvalhadas, +Entre folhas luzentes como espadas, + Cantavam rouxinoes. + + Os vegetaes felizes +Mergulhavam as sofregas raizes +A procurar na terra as seivas boas, +Com a avidez e as raivas tenebrosas +Das pequeninas feras vigorosas +Sugando á noite os peitos das leoas. +A lua triste, a lua merencorea, + Desdemona marmorea, +Rolava pelo azul da immensidade, +Immersa n'uma luz serena e fria, + Branca como a harmonia, + Pura como a verdade. +E entre a luz do luar e os sons e as flores, +Na atonia cruel das grandes dores, + O melro solitario +Jazia inerte, exanime, sereno, +Bem como outr'ora a mãe do Nazareno + Na noite do calvario!... +Segundo o seu costume habitual, + Logo de madrugada +O padre-cura foi para o quintal, +Levando a biblia e sobraçando a enxada. + Antes de dizer missa, +O velho abade inevitavelmente + Tratava da hortaliça +E resava a Deus Padre Onipotente + Varios trechos latinos, +Salvando d'esta forma juntamente +As ervilhas, as almas e os pepinos. + +E já de longe ia bradando: + + --«Olé! + Dormiram bem?... Estimo... + Eu lhes darei o mimo, +Canalha vil, grandissima ralè! +Então vocês, seus almas do diabo, +Julgavam que isto que era só dar cabo, + Da horta e do pomar, +E bico alegre e estomago contente, +E o camello do cura que se aguente, +Que engrolle o seu latim e vá bugiar!... +Grandes larapios!... Era o que faltava. + Vocês irem ao milho, + E a mim mandar-me á fava! +Pois muito bem, agora que vos pilho +Eu vos ensinarei, meus safardanas! +Vocês são mariolões, são ratazanas, +Tem bico é certo, mas não tem tonsura... +E nas manhas um melro nunca chega +Ás manhas naturaes d'um padre-cura. +O melhor vinho que encontrar na adega +É para hoje, olé!... Que bambochata! +Que petisqueira! Melros com chouriço!... + E então a Fortunata +Que tem um dedo e um geito para isso!... +Heide comer-vos todos um a um, +Lambendo os beiços, com tal gana enfim +Que comendo-vos todos, mesmo assim +Eu fico ainda quasi que em jejum! +E depois de vos ter dentro da pança, + Depois de vos jantar, +Vocês verão como o velhote dança, +Como elle é melro e sabe assobiar!...» + +Mas n'isto o padre cura titubiante, + Quasi desfallecendo, +Atonito de horror, parou deante + D'este drama estupendo: + +O melro, ao ver aproximar o abade, + Despertou da atonia, +Lançando-se furioso contra a grade + Do carcere. Torcia, +Para os partir os ferros da prisão, +Crispando as unhas convulsivamente + Com a furia d'um leão, +Batalha inutil, desespero ardente! +Quebrou as garras, depenou as azas + E hallucinado, exangue, + Os olhos como brazas, +Heroe febril, a gotejar em sangue, +Partiu n'um vôo arrebatado e louco. + Trazendo dentro em pouco +Preso no bico um ramo de veneno, +E bello e grande e tragico e sereno +Disse: + «Meus filhos, a existencia é boa +Só quando é livre. A liberdade é a lei. +Prende-se a aza, mas a alma vôa... +Ó filhos, voemos pelo azul!... Comei!--» + +E mais sublime do que Christo quando +Morreu na cruz, maior do que Catão, +Matou os quatros filhos, trespassando +Quatro vezes o proprio coração! +Soltou, fitando o abade, uma pungente +Gargalhada de lagrimas, de dôr, +E partiu pelo espaço heroicamente, +Indo cahir, já morto, de repente +N'um carcavão com silveiraes em flôr. + +E o velho abade, livido d'espanto, + Exclamou afinal: + +«Tudo que existe é immaculado e é santo! +Ha em toda a miseria o mesmo pranto, +E em todo o coração ha um grito igual. +Deus semeou d'almas o universo todo. +Tudo o que vive ri e canta e chora... +Tudo foi feito com o mesmo lodo, +Purificado com a mesma aurora. +Ó misterio sagrado da existencia, + Só hoje te adivinho, +Ao vêr que a alma tom a mesma essencia +Pela dôr, pelo amor, pela innocencia, +Quer guarde um berço, quer proteja um ninho! +Só hoje sei que em toda a creatura. +Desde a mais bella até á mais impura, +Ou n'uma pomba ou n'uma fera brava, +Deus habita, Deus sonha, Deus murmura!... +.......................................... +.......................................... +Ah, Deus é bem maior do que eu julgava!...» + +E quedou silencioso. O velho mundo, +Das suas crenças antigas, n'um momento, +Viu-o sumir exhausto, moribundo + Nos abysmos sem fundo +Do tenebroso mar do Pensamento. +E chorou e chorou... A Egreja, a Crença. +Rude montanha pavorosa, escura, +Que enchia o globo com a sombra immensa +Dos seus setenta seculos d'altura; +O Himalaia de dogmas triumphantes, +Mais eternos que o bronze e que o granito, +Onde aos prophetas Deus falava d'antes +Entre raios e nuvens trovejantes +Lá dos confins siderios do infinito; +Esse colosso enorme, em dois instantes +Viu-o tremer, fender-se e desabar + N'uma ruina espantosa, +Só de tocar-lhe a aza vaporosa +D'uma avesinha tremula, a expirar!... +...................................... +...................................... +E, arremessando a biblia, o velho abade +Murmurou: + + «Ha mais fé e ha mais verdade + Ha mais Deus com certeza +Nos cardos secos d'um rochedo nú +Que n'essa biblia antiga... Ó Natureza, +A unica biblia verdadeira és tu!...» + + + + +Nota + + +O facto em que se baseia este poemeto, com quanto pouco conhecido, é +absolutamente verdadeiro. + +Os melros e algumas outras aves, como os pintasilgos e os rouxinoes, +quando lhes encarceram os filhos, envenenam-n'os. Muitas vezes, +(sarcasmo tragico, crueldade sublime!) deixando-os vivos, arrancam-lhes +a lingua! + +Ora nem todos os melros, pintasilgos e rouxinoes assassinam os filhos, +quando lh'os prendem. Só o fazem os mais extraordinarios, os mais +heroicos. O que nos demonstra que a acção é livre e responsavel, e não +um simples producto d'uma fatalidade organica. + +É pena que Michelet ignorasse este facto. Que paginas divinas que elle +não teria escripto! _L'Oiseau_ ficou incompleto. + + + + +CIRCULAR + +(_Fragmento_) + + +Deus & Filho. Bazar da fé. Venda forçada. +Pela barca de Pedro, a Judas consignada, +Chega um rico sortido em modas da estação. +Vêr para crêr! Surpreza! Attenção, occasião +Unica! aproveitai, comprai! Pechincha certa! +Ao bazar do Calvario! Ao Nazareno! Alerta, +Christãos! É o desfazer da feira. Ultimo dia! +Toda a casta de objecto ou de quinquilharia +Que esteja em relação com negocios de egreja. +Vellas especiaes para quando troveja, +Aplacando de prompto a colera divina. +Sem cheiro e sem mistura alguma de stearina. +Santa Barbara, a quem a fé christã se roja, +Quando atrôa, não gasta as vellas d'outra loja, +Nem outras recommenda o concilio de Trento. +Em pacotes de seis. Por junto abatimento. + +Agua de Lourdes, fresca. Em pipas, ao quartilho +E em garrafa. Exigir a marca--Deus & Filho-- +Na etiqueta, e na rolha, a fogo--Providencia-- +Genuina só a ha á venda n'esta agencia. +Dez annos de successo e mil milhões de curas +Efficaz contra a caspa e contra as mordeduras +De cobra cascavel ou cão damnado ou pulga +Ou percevejo. Faz, Tartufo assim o julga, +Nascer ao mesmo tempo o apetite e o cabello, +Bôa no hemorroidal e util no serampello. +Reumatismos, terçãs e outras molestias varias +Cura-as n'um prompo. Expulsa as bichas solitarias +E expulsa o Demo. Purga: os ventres desentupe-os. +Sem colicas, com tres ou quatro semicupios. +Em cegos de nascença e tisicos de peito +Isso então é instantaneo, é certo o seu effeito. +Uma perna amputada unta-se, e em dois instantes +Torna a crescer e fica inda maior que d'antes. +Em leicenços não falha. Em dôr de dentes, isso +É bebel-a e ficar sem dôr. Não ha feitiço +Que resista. Uma vez uma morta tomou-a, +Espirrou e ficou inteiramente boa! +Prevenimos no entanto o publico defuncto +Que casos d'estes ha uns trinta e dois por junto +Apenas. Endireita a espinhela cahida, +Extrae callos, reduz fleimões, prolonga a vida, +Marca a roupa, e sem damno algum e sem fedor +Tórna o cabello e a barba á primitiva côr. + +Reliquias. Sortimento a capricho. Em ossadas +Dos apostolos, hoje as mais acreditadas +No mercado, chegou variedade infinita, +Cabeças de S. João, só vendo se acredita, +Onze mil! onze mil, e damol-as sem ganho! +Os preços é segundo o feitio e o tamanho. +(E convem declarar e advertir desde já +Que ossos de imitação não se encontra por cá. +Atestados legaes e autenticos o provam.) +Ha um monumental e rico S. Christovam, +Oito metros de largo e uns oitenta de altura, +Que, como não tem tido até hoje procura, +Decidimos vender, para liquidação, +A retalho. É de graça: o kilo a meio tostão. +O publico achará sempre n'este bazar +De qualquer santo, ainda o mais particular, +Um esqueleto ou dois continuamente á venda. +Desejando porção, fazem-se de encommenda. +Desconto extraordinario em transações por grosso. +Garante-se o fabrico e a solidez do osso +Que empregamos. A todo o esqueleto montado +N'esta casa vai junto, e em forma, um atestado +Escripto sobre a pel' e pela propria mão +Do proprio santo, a quem a carcassa em questão +Pertencera, e que diz:--Eu juro á fè de Deus +Que estes ossos, tal qual estão, eram os meus.-- +Aviso: é bom comprar peças sobrecellentes: +Pelo menos um sacro, um nariz e alguns dentes. +Encontram-se tambem avulso qualquer d'ellas +Coccixs, peroneus, omoplatas, costellas. +Tibias, tarsos, enfim tudo que uma alma pia +Possa achar n'um manual christão de osteologia. +Em dedos do Destino ha um soberbo exemplar: +É o mesmo que escreveu outr'ora a Balthasar +No salão do festim a tragica sentença, +Dá-se por dez tostões essa caneta immensa +Do Destino ha tambem o olho verdadeiro, +Em vidro ou em cristal, por duzia ou por milheiro, +Negros, verdes, azues, obra muito barata, +Engastado em oiro, em nickel ou em lata. +E hoje a grande moda, e são d'um bello effeito +Para botões de punho e alfinetes de peito. +Ha emfim mais de dez milhões de toneladas, +De craneos sem valor, e de antigas ossadas, +Que o caruncho roeu e converteu em cisco, +Como são vinte mil braços de S. Francisco, +Et cet'ra... Esse calcareo, (inutil n'esta casa,) +Vende-se para esterco a trez vintens a raza. + +Vera-cruz. Qualidade esplendida, extra-fina +Authentica; a melhor que vem da Palestina. +Em pó, em serradura, em lascas, aos boccados, +E posta em obra--desde a cama de casados, +Desde o piano d'Erard ou da credencia até +Ao baculo do bispo e ao _steeck_ do _crevé_. +Trabalhada a primor em mil objectos varios: +Em facas de cortar papel ou em rosarios, +Em imagens do papa ou em boquilhas, em +Cabides, castiçaes, prezepes de Bethlem, +Bandejas para chá, agnus-Dei, cruxifixos, +Lavatorios, etc. Ao _rabais_. Preços fixos. +Nos nossos armazens com serras a vapor +Vendemol-a igualmente, a cruz do Redemptor, +Em ripas; em pranchões e em traves collossaes +Para marcenaria e construcções navaes. +........................................... +........................................... + +Como hoje o negocio está muito bicudo, +Trespassa-se o armazem do Calvario com tudo +Que tem dentro. Escrever para o nosso bazar, +Largo dos Intrujões, 5, 1.^o andar. + + + + +A BENÇÃO DA LOCOMOTIVA + + +A obra está completa. A machina flameja, +Desenrolando o fumo em ondas pelo ar. +Mas antes de partir mandem chamar a Egreja +Que é preciso que um bispo a venha baptizar. + +Como ella é com certeza o fructo de Cain, +A filha da razão, da independencia humana, +Botem-lhe na fornalha uns trechos em latim, +E convertam-n'a á fé Catholica Romana. + +Devem n'ella existir diabolicos peccados, +Porque é feita de cobre e ferro; e estes metaes +Sahem da natureza, impios, escommungados, +Como sahimos nós dos ventres maternaes! + +Vamos, esconjurai-lhe o demo que ella encerra, +Extrahi a heresia ao aço lampejante! +Ella acaba de vir das forjas d'Inglaterra, +E hade ser com certeza um pouco protestante. + +Para que o monstro corra em fervido galope, +Como um sonho febril, n'um doido turbilhão, +Além do machinista e necessario o hyssope, +E muita theologia... além d'algum carvão. + +Atirem-lhe uma hostia á bocca famulenta, +Preguem-lhe alguns sermões, ensinem-n'a a resar, +E lancem na caldeira um jorro d'agua benta, +Que com agua do céo talvez não possa andar. + + + + +A HYDRA + +(Vendo passar seminaristas) + + +Olhae, vede-os passar em legiões escuras, +Intonsos, apezar de todas as tonsuras, +Com um ar imbecil, caliginoso, estranho, +Marcados a tesoira assim como um rebanho, +E envoltos em crueis balandraus de entremez, +--As lobas, sob as quaes ha lobos muita vez!... +Ó galuchos da Fé, recrutas do Divino, +Que um chocalho de bronze hiperbolico--um sino-- +Faz erguer, faz dormir, faz deitar, faz andar, +Eu não sinto por vós, _marionetes_ do altar, +Nem odio nem rancor. Sois victimas. Loyola +Dobra-vos a cerviz com a canga da estola, +E jungindo-vos, bois nocturnos, ao arado, +Rasga comvosco o negro e funebre vallado +Aonde o vosso Deus semeia para a infancia +A flôr da estupidez e o trigo da ignorancia. +A Egreja, a cortezã sensual de ventre obeso, +Hontem mulher de Christo e hoje mulher de Creso, +Para a rapina odiosa e vil de que se nutre +Mochos, deu-vos a calva ortodoxa do abutre! +Matilha de Leão XIII a vossa preza é o mundo, +Tartufo, bode obsceno e theologo profundo, +Ensina-vos, conforme o ritual mais perfeito, +A cruzar, como S. Francisco, as mãos no peito, +Sob a sotaina arqueando a gravidez das panças, +A impor jejuns, benzer caixões salgar creanças, +A grunhir, a ladrar sermões, missas cantadas, +E a escripturar o céo por partidas dobradas. +Não vos odeio não, palidos salafrarios; +Vós sois unicamente os comparsas mortuarios +Do papa, esse Barnum que assombra a multidão, +Com o Espirito Santo a vir comer-lhe a mão +Satanaz a frigir (sarrabulhada tragica!) +Heresiarchas de estopa em caldeirão de magica, +E Jehovah, um urso estupido e cruel +A lamber-lhe a sandalia, a babojar-lhe o anel, +E a ameaçar furibundo este mundo precito +A rufos de trovões no tambor do infinito. +A Egreja é uma serpente escura, bicho immundo, +Gigantesco reptil que dá a volta ao mundo, +E em cujas espiraes ebrias de raiva insana +Um Lacconte immortal--a consciencia humana; +Ha seculo se estorce em convulsão atroz. +Os ellos d'esse monstro implacavel sois vós, +Sacristas. A cabeça é o papa. + Ora as serpentes +Tem a força na cauda e o veneno nos dentes. + + + + +A VALLA COMMUM + + +I + + +Valla commum--tasca nojenta, +Mesa redonda sepulchral, +Aonde a toalha crapulenta +É um lençol roto do hospital, + +E aonde as larvas proletarias +Devoram--lugubres festins!-- +Craneos de heroes, ventres de parias, +Carcassas podres de arlequins, + +Ao contemplar-te, ó libertina, +Um nojo immenso me accomette: +Tens a avidez de Messalina +Na boca negra de Machbet! + +Na treva aziaga o crime o os vicios, +Para o _menu_ do teu jantar, +Dão-te as creanças dos hospicios +E as barregãs do lupanar. + +Em teu estomago de hyena +Vão-se abysmar, monstro cruel, +Rios de sangue com gangrena +E ondas de lagrima com fel. + +Cloaca putrida e funerea, +Feira da ladra edionda e vil, +És o saguão onde a miseria +Despeja á noite o seu barril. + +Trituras, lobrega sargeta, +Sem que o horror te engasgue e abafe +Os seios virgens de Julieta +E a pança obscena de Faltstaff. + +Cinismo atroz que a alma oprime, +Fetida e funebre impudencia! +A boca esqualida do crime +Posta na boca da innocencia! + +O abutre e a pomba, o cardo e a anemona +Na mesma leiva apodrecida: +Tropman chegando-se a Desdemona, +E Papavoine a Margarida! + +Virtude, amor, crime, deboche +Promiscuamente a fermentar! +Mimi Pinson e Rigolboche! +Cain e Abel! estrume e luar! + +Oh, _bulimia_ tenebrosa! +Monstruosidade apocalyptica +Tudo te serve: ou cancro ou rosa, +Ou flôr doirada ou flôr syphlitica. + +Anjos que vem do paraiso, +Candura etherea e perfumada, +Feitos d'um beijo e d'um sorriso, +N'algum jardim, de madrugada. + +Vão confundir-se n'essa guella, +N'essa pestifera anarchia +Com quantas lepras uma viella +Possa escarrar n'uma enxovia! + +As guilhotinas homicidas +Pelo carrasco, o fiel criado, +Mandam-te o _lunch_ ás escondidas +No seu _panier_ ensanguentado, + +E o cadafalso, um salteador, +Na noite livida estrangula +Feras, que arroja no estertor +Aos antros podres da tua gulla. + +Nada que te encha ou te sufoque. +Monstro, absorver é o teu destino. +Depois da ceia de Moloch, +Ruges co'a fome de Hugolino + +Sempre a comer, monstro insensato, +E a boca sempre escancarada! +O esquife, harpia, eis o teu prato! +E o teu talher--a pá e a enxada! + +Valla commum, despenhadeiro +De lirios brancos e de sapos, +Furna onde o Nada, esse trapeiro, +Faz o armazem dos seus farrapos. + +Quantos heroes--oh raiva, oh odio! +Teu lobo amargo apodreceu +Desde Aristogiton e Harmodio +Até Camões e Galileu! + +Deus que te fez sempre esfaimada, +Deu-te tambem, pança gigante, +Por cosinheiro Torquemada, +E Bonaparte por marchante. + +Atila e Nero--o tigre e o lobo, +Noventa e tres, Saint Barthelemy, +Eis hecatombes para o globo +Que são banquetes para ti. + +Quando famelica te nutres +D'um Warterloo, grandiosa prosa, +Sustentas todos os abutres +Só co'as migalhas da tua mesa! + +Para o teu ultimo festim, +Gargantua sordido e voraz, +Foi aos açougues de Berlim +A Morte a encher o seu cabaz. + +Es magro e funebre molosso +Ha milhões d'annos sempre a uivar: +Ó Guerra, traz-me o meu almoço! +Ó Peste, traz-me o meu jantar! + +Servo, Fellah, Moujik, Escravo, +Plebe sem pão, mendigos nús, +Bocas que tem ainda o travo +Do fel da esponja de Jesus; + +Martyres, victimas, proscriptos, +Legião de heroes resplandecente, +Que ensanguentados e maldictos +Revoluteiam febrilmente, + +Raios no olhar, grilhões nos pulsos, +Ao céo em brasa a fronte erguida, +Nos sete circulos convulsos, +Do inferno tragico da Vida; + +Todo esse exercito ululante +Quo em rouco e pavido tropel +Vem pela historia humana adiante, +Desde Cain até Rossel; + +Tudo que estoira de miseria, +Tudo o que ruge na oppressão, +Desde o grilheta da Siberia +Até ao paria do Indostão; + +Todo esse barbaro massacre, +Da guerra, enorme Leviatan, +Zama, Farsalia, S. João d'Acre, +Jena, Austerlitz, Sedan; + +Todo esse vomito de horrores +E do catastrophes sombrias, +Profundo atlantico de dores, +Negro Himalaia de agonias, + +Todo esse lodo Deus impelle-o +Ao teu estomago sem dó: +És a barriga de Vitellio, +Cheia das pustulas de Job!... + + +II + + +E entre esse tabidos fermentos, +Entre esses horror de coisa más, +Fóssa á procura de alimentos, +Um porco immundo--Satanaz. + +Essa latrina de Pandora, +Pensando bem, é a final +A escarradeira onde expectora +Jehovah a bilis immortal. + +Como elle é velho, com o frio +Tósse; o Prudhome diz-lhe então: +--Deus, aqui tens este bacio... +Não vás cuspir no meu salão. + +E ás vezes do alto do infinito, +Talvez depois d'um mau jantar, +O Padre Eterno faz cabrito +E enche o bacio a transbordar. + +E o pote enorme onde cuspinha +O truculento Manitu, +Sem ninguem vêr, logo á noitinha +Vai despejal-o Belzebut. + +Vai despejal-o, ó crueldade! +Lá nessas torridas galés, +Onde Deus assa a humanidade +No fogo--a que elle aquece os pés! + +Porque, ó eternos desherdados +Da raça impura de Cain, +Morrendo sois encaixotados +Sem agua benta e sem latim. + +Se algum vos dão é já com ranço, +É já latim para hospitaes, +Feito com cisco de ripanso +E as varreduras dos missaes. + +A egreja dá, barata feira! +Ao vosso ultimo estertor +Oleos de azeite de purgueira +E ostias de trapos com bolor. + +Por isso a valla é um alçapão +De d'onde rue a todo instante +Um tremedal de podridão +N'um mar de enxofre flammejante. + +Castigo barbaro e nefando! +Em monstruozos caldeirões +Ondas de pez tonitruando, +Roucos, uivando, aos borbotões, + +E dentro vós, pobres captivos, +Em sangue, em chagas, todos nus, +A morrer sempre e sempre vivos, +Sempre a coser e sempre crus! + +Em lagos rutilos de estanho, +Bramindo pragas em latim, +Milhões de herejes tomam banho... +Olhae que espiga um banho assim!... + +Estes frigidos em certans, +Dentro do azeite que extravasa. +Outros perneando, como rans, +Na empalação d'um raio em brasa! + +Uns são torrados sobre grelhas. +E os diabos vem continuamente +N'aquellas nadegas vermelhas +Cravar com furia o seu tridente! + +Muitos estoira-lhes a pança +Entre os colericos anneis +De vinte cilhas, que lembrança! +Feitas de cobras cascaveis! + +E em torno aos fulgidos brazeiros +Onde um bom Deus, poderoso e justo +Rebenta as almas aos milheiros, +Como as castanhas n'um magusto, + +Pincham selvaticos fandangos +Satans freneticos e maus, +Rabudos como ourangotangos, +Cornudos como Menelaus! + +E é por não dar uns seis ou sete +Tostões ao odre de um abade +Que a Providencia vos derrete, +Impios, por toda a eternidade! + +Congrua e folar--palha e bolota +Ao teu abade, impio, não dás? +Pois bem, Deus põe-te de compota +N'um molho ardente de aguarraz. + +Ah, tu rebelde, ah, tu faminto, +Nunca a chorar foste depor +Tres mil remorsos com um pinto +Nas mãos d'um padre confessor? + +Ah, tu mandaste a Egreja á fava? +Nunca compraste uma cartilha? +Cose-te em pez, torra-te em lava. +Anda, meu besta, meu pandilha! + +É em quanto Deus te frita os untos +E o coração n'uma panella, +Que vida airada os bons defunctos +Passam no céo!... que vida aquella! + +Pois cá por baixo aos maganões +Nunca tambem lhes faltou nada; +Tiveram crenças e milhões... +Deus gosta assim de gente honrada. + +Comeram optimos jantares, +Perfeitamente digeridos; +Foram christãos e titulares. +Bons paes, bons filhos, bons maridos. + +Aos seus palacios luculianos +(O que é virtude e pundonor!) +Durante quasi oitenta annos +Não bateu nunca um só credor! + +Amaram todos os pecados, +Que são mortaes, mas são gentis, +Com todo o encanto fabricados +Para os banqueiros, em Pariz. + +Dormira sempre n'um bom leito +Co'as mais formosas cortezãs. +E o ventre sempre satisfeito, +E livre... todas as manhãs. + +Gozaram sim, mas na verdade +Foram á missa muitas vezes, +Com toda a pompa e magestade +Dentro dos seus _landeaus_ inglezes. + +Se algum remorso impertinente +As almas castas lhes mordia, +Catava-o logo com um pente +Um bispo n'uma sacristia. + +Crendo nos dogmas mais profundos, +E achando a vida um bom lameiro +Tiveram sempre Auctor dos Mundos +Por um perfeito cavalheiro. + +Deram de graça a varios santos, +A Jesus Christo e á mãe das Dôres +C'roas, chinós, tunicas, mantos, +Burseguins d'oiro e resplendores. + +Por isso o tal Author, que acabo +Do vos citar, os tratou bem; +Deus é levado do diabo +Só para os pulhas sem vintem. + +E quando ao cabo da funcção, +--Velhos sem dentes, já na espinha, +A Morte, de chapeu na mão, +Lhes foi tocar á campainha, + +Para espicharem dignamente, +Agasalhados na sua cama, +O papa enviou-lhes de presente +A benção n'este telegrama: + +«Remete benção Divindade. +Legado Pedro quinze contos. +Escrevi céo Hotel Trindade +Tenham chegada quartos promptos.» + +E após um grande funeral, +A que assistiu o _high-life_ inteiro, +Desde o arcebispo ao general +E desde o principe ao banqueiro, + +Seus corpos, onde não remexe +O verme vil que trinca os parias +Embalsamados do escabeche +Em grandes latas funerarias, + +No palacete d'uma campa +Foram guardados, qual thesoiro, +Dentro d'um cofre em cuja tampa +Ha versos maus em letras d'oiro. + +E as almas, promptas para a festa +Do seu olimpico noivado, +Com uma aureola na testa +E azas soberbas no costado, + +Partiram leves, subrepticias. +Entre o esplendor de cem auroras, +Lá para o Reino de Delicias. +Onde estarão a estas horas + +Feitas bebés, comendo um keque, +Tocando frauta ou tamboril, +Ou arrastando a aza em leque +Ingenuamente... ás _onze mil_. + +Ah, miseravel, ah precito, +Que lá dos baratros christãos +Ergues ao Tigre do infinito +Os dois archotes das tuas mãos, + +Vê tu como é conveniente, +E justo em todos os sentidos, +Herdar um homem d'um parente +Seiscentos contos garantidos, + +Gozar, sem medo á vida eterna, +Toda esta bella patuscada, +Desde a luxuria mais moderna +Á gula mais civilisada, + +E ao terminar tão bom fadario +Morrer, ouvindo alguns latins, +Com treze kilos de calcareo, +--Onze na alma, e dois nos rins; + +E, na mais intima harmonia +Com Satanaz e com Jesus, +Ir para a cova á luz do dia, +De farda rica e de gran-cruz, + +E entre tocheiros deslumbrantes +Ser bem comido e bem jantado +Por alguns vermes elegantes +N'um gabinete reservado!... + + + + +A SÈSTA DO SNR. ABADE + + +O meio dia bateu já na torre da Egreja. +A aldeia é silenciosa e triste. O sol flameja. +Entre o surdo murmurio abrasador da luz, +Como n'um grande forno, os grandes montes nus +Recosem-se, espirrando as urzes d'entre as fragas. +Um mendigo demente e coberto de chagas +Dorme estirado ao sol n'uma modorra espessa; +E o mosqueiro febril nas lepras da cabeça +Enterra-lhe zumbindo o caustico das lanças. +Andam só pela rua os porcos e as creanças. +Fome, desolação, luto, viuvez, miseria +Na aldeia morta. A terra esqualida e funerea +Em logar das canções da abundancia e do amor, +Do trigo verde a rir dentro da sebe em flor, +Calcinada e cruel cospe violentamente +Só o cardo torcido, epilectico, ardente, +Rompendo duro e hostil, como a praga blasfema +D'um assassino quando um carcereiro o algema. +Secaram-se de todo as fontes e os regatos. +As cobras na aridez crepitante dos matos +Silvam. O ar carboniza as arvores sequiosas +N'uma rutila poeira intensa de ventosas. +Dos montes nus além nas seccas epidermes +Os rebanhos são como um pulular de vermes. +E a bobada do céo, concha de zinco em braza, +Onde não passa a nodoa aerea d'uma aza, +Implacavel contempla a terra solitaria, +Como um sultão fitando a carcassa d'um paria! + +E o tifo germinou n'esta miseria adusta. +A epedimia, a alma errante de Locusta. +Diabolica e subtil fermenta envenenada +No asfixiante esplendor da atmosphera esbrazeada. +D'entro da escuridão soturna dos casebres +Os velhos aldeões, minados pelas febres. +Agonisam; e em seu delirio derradeiro, +Entre o concavo som da enxada do coveiro +E o rouco psalmodear dos latins agoirentos, +Ouvem loucos de dor os funebres lamentos +Dos magros bois de olhar moribundo e sereno. +Que estão là baixo ao pè do estabulo sem feno, +A mugir, a mugir, por terra, abandonados +Juncto ao velho esqueleto inutil dos arados! + +A espaços da profunda e tragica nudez +D'uma choupana irrompe um grito de viuvez, +Um clamor de orfandade... E o sino chora então +Lagrimas sepulcraes de bronze na amplidão. +A colera de Deus, cujo olhar encendeia, +Correu como uma loba hidrophoba na aldeia. +Não ha lume no lar, nem ha pão nos armarios. +Entre os dedos das mães famintas os rosarios +Passam piedosamente e inutilmente, em quanto +A Morte, a hiena magra e vesga, espreita a um canto +Um berço onde agonisa um anjo, ho dor cruel! +Como um roto mendigo á porta d'um vergel +Sofregamente espreita algum fructo outoniço +A tombar já sem côr d'um ramo já sem viço! + +E a aldeia invoca, implora os anjos tutelares. +Morre de fome e veste as santas nos altares +Com oiro e com brocado, Os cirios noite e dia +Alumiam a branca imagem de Maria, +Como tremulos ais de luz agonisantes +A erguer-se para o céo! Procissões ululantes +De penitencias vão convulsas, desgrenhadas, +Esfacellando os pés nas pedras das calçadas, +Dilacerando o peito, arrancando os cabellos. +E com mil visões torvas de pesadellos, +Uivando a Deus em rouco e barbaro clamor +Que seja pae que veja essa infinita dór, +E lânce áquella immensa angostia, áquella magoa +Um olhar onde emfim brilhe uma gota d'agua! +............................................... +Em vão, em vão, em vão! A tarde o sol frenetico +Morre congestionado, estonteado, apopletico, +E de manhã explue na lividez do oriente, +Caustico, a chammejar como um remorso ardente! +E nas noites febris, sem ar, sem roxinoes, +E que o azul é um brazeiro esplendido de soes +E em que parece que ha dispersas na atmosphera +As vaporisações surdas d'uma cratera, +Por detraz da montanha asperrima, escalvada, +A lua cheia, rubra, opaca, ensanguentada, +N'um silencio soturno, esmagador, que opprime, +Rompe sinistra--como a apparição d'um crime! + +E comtudo n'aquella aridez flamejante, +Sem um ramo frondoso em que uma ave cante, +N'aquelle illimitado incendio abrasador, +Oh sarcasmo cruel! ha dois oasis em flor, +Com duas tropicaes plethoras de verdura: + +Um é o cemiterio, o outro o passal do cura. + +No cemiterio a Vida impetuosa e forte +Rompe a cantar do ventre uberrimo da Morte. +Pampanos, silveiraes, cardos, ortigas, rosas, +Plantas meigas de idilio e plantas tenebrosas, +A mandragora, a murta, a madresilva, o feto, +Tudo isto a latejar, a fecundar, repleto, +N'um emaranhamento anarchico pulula +Doido de sol, febril de seiva, ebrio de gula! +Ha uma saturnal juncto de cada cova, +Um cadaver que chega é uma iguaria nova, +Que os vermes decompõem em gangrenas protervas +Para a sofreguidão muda, obscura das hervas. +E quando do seu antro a larva tumular +Diz á planta: «Aqui tens na meza o teu jantar, +Vem comel-o!» milhões de raizes--reptis, +Sanguesugas que tem por bocas bisturis, +Vão haurir, absorver, vampirisar no fundo +D'essa cloaca obscena esse banquete immundo, +Um fetido e viscoso esterquelinio de horrores, +Que é o pão que Deus fez para engordar as flores! +E da tumba do hospicio hora a hora resvalla +Uma carga de entulho humano para a valla. +Juntam-se aos nove e aos dez, rimas de carne morta, +Na mesma cova. A edade e o sexo pouco importa. +Confundem-se no podre açougue subterraneo. +E em quanto uma raiz de lirio suga um craneo +E uma pustula dá o perfume a um nectario, +No azul celeste paira o corvo sanguinario, +O tumulo suspenso, o esquife que se eleva, +Brandindo em cada flanco uma foice de treva! +.................... Dir-se-hia que o Destino, +O velho Thug, o velho e tragico assassino, +Depois de uma hecatombe insensata e brutal, +A escondera, lançando em cima um madrigal, +Um manto de verdura e corolas vermelhas, +Todo estrellado do oiro em brasa das abelhas. + +E o presbiterio? Olhae: + + Branco como um noivado. +Trepadeiras á porta e pombas no telhado. +Ha n'esse ninho occulto em verdura frondosa +Como que um bem-estar simples e côr de rosa. +Era um ninho discreto, um bom ninho fiel, +Para sugar um favo a tres luas de mel. +Anacreonte, o velho erotico divino, +Contente encerraria alli o seu destino, +Pobre, alegre, feliz, sem remorsos, sem dores, +A calvicie jovial sob um chinó de flores, +O copo sobre a meza, a musa sob os joelhos, +Ao ar livre, a cantar os desejos vermelhos, +A belleza, o prazer, a juventude e o sól, +Com a graça d'um merlo e a voz d'um rouxinol. + +Vejamos essa estancia idilica e tranquilla. +Mas cuidado! ha lá dentro um padre e um cão de fila. +E ambos mordem. Mas, como ambos roncam a sesta, +Entremos. Logo aqui no pateo pela fresta +Da tenebrosa adega aberto um poucachinho +Sahe um aroma intenso e rico de bom vinho. +O abade é beberrão. Casca-lhe muito e bem. +Lá pinga como a d'elle isso ninguem na tem. +Sabe da poda, é mestre! A adega até dá gosto +Entrar a gente lá n'uma tarde de Agosto. +Que frescura, que aceio e que nectar! Noé +Precisaria ali da capa de Japhet +A todo o instante, e o proprio abade e mais a ama +Tem feito d'essa adega o seu quarto de cama +Varias vezes... O amor pella-se por bom vinho. +Se Venus foi sua mãe, Bacho foi seu padrinho. +Sensata opinião que o nosso abade aprova, +Sobretudo se o vinho é velho e a mulher nova. +Nos rotundos toneis e nas cubas inchadas, +Panças monumentaes prenhes de gargalhadas, +Dormem alegremente e silenciosamente +Os trinta mil pifões que o Padre-Omnipotente, +Em seu alto designio e enfinita bondade, +Destinou para o odre insaciavel do abade. +E na fresqueira--um rico e secular thesoiro-- +Ambrosias ideas velhissimas, côr do oiro, +Mormuram baixo em voz cristalina e maviosa +Uma canção de amor entre um beijo e uma rosa, +E em que a rosa abre ao beijo as petalas vermelhas +Sob frèmito alado e diaphano de abelhas. +Com tão raro elixir, que è como um sol poente, +Que já não dá calor, mas que illumina a gente, +O proprio Satamaz, faço-lhe essa justiça, +Não tinha repugnancia alguma em dizer missa, +E eu mesmo, é minha vergonhosa conficção, +Mas em suma, que diabo!... eu dava em sachristão! + +E junto á dega existe a tulha sempre cheia... +Mas subamos depressa emquanto o abade orneia +A dormir pois se acorda e me conhece, foi-se +A visita e per cima arruma-me algum coice. +Vamos pé ante pé, de vagarinho. A salla +É vasta e branca. Tem nos muros a adornal-a +Sagrados corações de Jesus flamejantes, +Mães, de Deus com olhar no céo e dez trinchantes, +A traspassar-lhe o peito, um Pio nono a cores. +Cordeirinhos pascaes, anjos, araras, flores, +Tudo em missanga, e emfim um D. Miguel primeiro +A froque, que eu comprava a peso de dinheiro. +Do tecto enegrecido em bategas jucundas +Pendem bellas maçãs camoesas rubicundas, +Cachos d'uvas ainda a rir, peras marmelas, +Encaixilhado tudo á volta com morcellas. +Em seis bahús de coiro e em arcas de castanho +Guarda o cura o bragal precioso, o rico amanho +Caseirinho,--lençoes d'uma finura extrema, +Ás grozas, rescendendo alecrim e alfazema! +E, segundo se diz, tambem deve haver n'essas +Arcas monumentaes muita somma de peças. +Ao fundo a livraria: uma pequena estante +N'uma banca ordinaria e simples de estudante. +No centro tem um vão com um Christo inaudito +Nas vascas do caruncho agonisando afflicto, +Burlesco manipanço alvar de fórmas toscas, +Negro--das dejecções sacrilegas das moscas. +Soltos na estante em quatro ou cinco pratelleiras +Ripanços de orações, de sermões e de asneiras, +Que fornecem ha já trinta annos exactos +Pão de espirito ao cura e pão do corpo aos ratos. +E entre os livros ha tudo. É uma loja de adéllo. +Pacotes com rapé, um baralho, um marmelo, +Esporas, saquiteis com semente, de ervilha, +Garfos, um grande corno, um copo, uma rodilha. +Malgas com marmelada e frascos com compotas, +E até mesmo um chapeu sebento e um par de botas! +Sobre a mesa o tinteiro e o solideo. E aberto +Um breviario tal, que cheirado de perto +Fulmina, um breviario exotico, onde emfim +Ha já muito mais sebo e traça que latim! + +E a todo e qualquer canto em rumas assassinas, +Marmeleiros, bordões e mócas e clavinas. +E pendendo sombria e, tragica d'um muro, +Come se fosse a pel' d'um grande monstro escuro, +A loba, um balandrau de dobra espectraes, +Feito para espantar as almas e os pardaes, + +Contigua á salla existe a alcova. É lá que dorme +O hipopotamo. Vede: O catre e desconforme; +Cabiam n'esse vasto enxergão á vontade +A preguiça d'um porco e a luxuria d'um frade, +O cura espapaçado, esbandalhado, ronca, +Inuda-lhe o suor odioso a testa bronca, +O cachaço taurino e as papeiras que vão +Desde o queixo ao umbigo em graça ondulação. +A bôca comilona, erotica, sensual +Traz á lembrança o fauno obsceno e o canibal. +E a dentadura podre, esse armazem de guano, +É qual desmantelado aqueducto romano. +Que sordido animal! que bandulho! que bojo! +Tem cerdas na cabeça e nas orelhas tojo! +E o nariz? o nariz! que farol! que obelisco! +Pantagruel deu-lhe a cor, Gargantua deu-lhe o risco. +É o nariz de Falstaff, epico, em grando gala, +Purpureado e incendiado a fogos de bengala. +De quando em quando a ama, herculea mocetona, +--Um peixão!--sempre alegre e sempre brincalhona, +Vem ligeiro enxotar com precauções imensas +Os insectos sem fè e os moscamos sem crenças, +Que ousam depòr, que horror! a tal coisa indecente +Nos rubros alcantis d'esse nariz ingente. +Eu nunca vi, meu Deus, nariz tão exquisito! +Ruge como um trovão, silva com um apito! +É talvez o nariz por onde tocará +Trombeta o Creador no val' de Josaphat! +Dos mais complexos sons percorre a escala... alcoolica: +Umas vezes imita uma frauta bucolica +E outras um cavernoso orgão de Rilhafolles, +Com um grande Titan bebado a dar as folles. +As vezes um fragor rouco de temporal +Quer bramir atravez do Himalaia nasal +Do abade, mas achando os dois toneis do monte +Entupido de esterco infecto e de simonte, +Retrocede e lá vai por outro sorvedoiro +Expluir--com profundo e tremebundo estoiro!... +.............................................. +Mas que sastifação beatifica se nota +Na vasta estupidez d'aquella cara idiota! +E sabeis porque dorme olimpico e risonho +O abade? É porque teve inda ha pouco esse sonho: +Sonhou ver desfilar, oh ventura illusoria! +Um prestito pagão, um cortejo de gloria, +A acclamal-o. Na frente uma vara sombria +De bacoros roncava em côro esta poesia: + + Deus fez o porco para o frade. + Deus destinou-nos os presuntos + Para os seus untos, + Senhor abade. + Grunhamos, pois, grunhamos todos juntos: + Viva o abade! Viva o abade!! + +Succediam-se logo em manadas e em bando +Perdizes e perus e patos conclamando: + + Patos, perus, galinhas e perdizes + Somos felizes! + Oh, que ventura! + Como é doce morrer tendo a certeza + De bem assados em manteiga ingleza + Ir para a meza + Do senhor cura! + Oh, que ventura! oh, que ventura!... + +N'um carro triumphal trovejava depois +Um tonel arrastado a cem juntas de bois: + + O sonho, o canto e a dança + Vivem na minha pança, + Que trilogia! + Sonhar, dançar, cantar! + A tristeza morreu um bello dia + N'um lagar. + Vá, Padre-mestre, com bizarria! + Cantaro á bôca, toca a virar! + + Meu Padre mestre, nunca o teu bico + Provou ainda vinho tão rico, + Sem confeição! + Vinho como este + Nunca o bebeste, + Não! + + Vá Padre-mestre, põe-me um repuxo, + Muda-me todo para o seu buxo, + Meu tubarão! + Depois rolemos, ás gargalhadas, + Dando umbigadas, + Dando pançadas + No chão!... + +Um gracioso tropel de donzellas formosas, +Frescas e virginaes como botões de rosas, +A saia curta, o rir breigeiro, o arzinho honesto, +Deixando vêr a perna e fantasiar o resto, +Vinha cantando atraz esta canção feliz, +Ao som de theorbas d'oiro e avénas pastoris: + + Somos tresentas sessenta e seis, + Olhos maganos, bocas em flor... + Dignas de reis! + E vimos todas, senhor Prior, + Dar-vos aquillo que vós sabeis... + Somos tresentas sessenta e seis! + Um calendario d'anno bisexto, + Feito d'amor! + Livro novinho!... papel e testo!... + Abra-lhe as folhas sem medo ao sexto, + Abra-lhe as folhas, Padre Prior! + +Caminhavam por fim, ronceiros, de vagar, +Os grandes carroções da Congrua e Pé de Altar, +Puxados a duas mil parelhas de jumentos, +Zurrando esta epopeia heroica aos quatro ventos: + + Senhor Parocho, toda a freguezia, + Uns quatro mil onagros, + Muito magros + Vem trazer isto a Vossa Senhoria. + Desculpe, senhor Parocho, a ousadia... + A offerta é bem mesquinha, é desgraçada. + Uns oitocentos moios simplesmente + De milho, de feijão, trigo e cevada. + E nós sabemos que um tão mau presente + Para o seu dente + Não chega a nada! não chega a nada! + Mas é boa a intenção: + Nós reservamos para si o grão, + E para nós a palha unicamente + Dar ao senhor Prior + Miseria assim, é vergonhoso até... + Mas aceite este mimo sem valor... + Senhor Parocho aceite-o, por quem é!... + E agora, senhor Parocho, a sua benção, + Porque os onagros pensão + Que ella salva das chammas infernaes; + E em paga de tal dom, de tal carinho + Rogaremos ao céo pelo focinho + Lhe permitta engordar cada vez mais. + Boa pinga e bom porco alentejano, + E sempre nedio e alegre e satisfeito!... + Senhor Parocho, viva!... até p'ró anno... + Até p'ró anno... e muito bom proveito!... + +O abade, vendo aquella espandosa ovação, +Cresceu como uma torre e inchou como um balão. +E ao mirar-se com garbo heroico e triumphal +Surprehendeu-se de annel e cruz episcopal! +E, impando de vangloria e atonito de espanto, +Inchou mais meia legua e cresceu outro tanto! +Contemplou-se depois com magestade ufana, +E, oh céos! viu-se vestido em porpura romana! +Cardeal! cardeal! cardeal! que honra, que posição! +E subiu de tal forma ovante na amplidão +Que o Himalaia, envolto em suas neves eternas, +Disse a um condor:--Vai ver lá cima aquellas pernas;-- +--Cardeal! Não será sonho ou magico feitiço?! +Eu Cardeal!!...--Apertou entre as mãos o tontiço, +E em logar d'um chapeu tingido com zurrapas, +Encontrou o diadema olimpico dos papas! +Papa!... E de tal maneira ergueu a fronte sua +Que com ella partiu os chavelhos da lua! +Em torno do nariz e á volta das orelhas +Zumbiam-lhe tremendo os astros, como abelhas. +Ser papa! ser rei do céo e o rei do mundo! +E lá do alto do abysmo esplendido e profundo +Lançou o mar e á terra a sua benção sagrada. +E o mar mudou-se em vinho e a terra n'uma empada! +E o colosso voraz, de vêr coisas tão bellas, +Debruçou-se, agachou-se, escancarou as guelhas, +E enguliu d'uma vez o assombroso follar, +Bebendo-lhe por cima o vinho todo--o mar! +Depois empanturrado, inflado, um pouco torto, +Atirou-se a dormir mais pesado que um morto, +Arrotando trovões.............................. +............................................... +E em quanto o abade ronca e grunhe sem cuidados +Dobram plangentemente os sinos afinados, +Cortam o espaço os ais do estertor derradeiro, +E entre as germinações frescas do bom lameiro +A ègoa abacial c'oa respectiva cria, +(A quem, se fosse d'elle, o abade chamaria +Afilhada) lanzuda opipara, pacata, +Livre, sem albardão, sem freio e sem arreata. +Na monastica paz dos ventres satisfeitos +Com luserna viçosa e tenra até os peitos +Envolta no esplendor fulvo do sol poente, +Mansa, fitando o azul,--rincha orthodoxamente! + + + + +O GENESIS + + +Jehovah, por alcunha antiga--o Padre Eterno +Deus muitissimo padre e muito pouco eterno, +Teve uma ideia suja, uma ideia infeliz: +Poz-se a esgaravatar co-o dedo no nariz, +Tirou d'esse nariz o que um nariz encerra, +Deitou depois isso cá baixo, e fez a terra. +Em seguida tirou da cabeça o chapeu, +Pol-o em cima da terra, e zás, formou o céo. +Mas o chapéu azul do Padre Omnipotente +Era um velho penante, um penante indecente, +Já muito carcomido e muito esburacado, +E eis ahi porque o céo ficou todo estrellado. +Depois o Creador (honra lhe seja feita!) +Achou a sua obra uma obra imperfeita, +Mundo serrafaçal, globo de fancaria, +Que nem um aprendiz de Deus assignaria, +E furioso escarrou no mundo sublumar, +E a saliva ao cahir na terra fez o mar. +Depois, para que a Egreja arranjasse entre os povos +Com bulas da cruzada alguns cruzados novos, +E Tartufo podesse inda d'essa maneira +Jejuar, sem comer de carne á sexta feira, +Jehovah fez então para a crença devota +A enguia, o bacalhau e a pescada marmota. +Em seguida metteu a mão pelo sovaco, +Mais profundo e maior que a caverna de Caco, +E arrancando de lá parasitas extranhos, +De toda a qualidade e todos os tamanhos +Lançou sobre a terra, e d'este modo insonte +Fez elle o megatheiro e fez o mastodonte. +Depois, para provar em summa quanto póde +Um Creador, tirou dois pellos do bigode, +Cortou-os em milhões e milhões de bocados, +(Obra em que elle estragou quatrocentos machados) +Dispersou-os no globo, e foi d'esta maneira +Que nasceu o carvalho o platano e a palmeira. +.................................................. + +Por fim com barro vil, assombro da olaria! +O que é que imaginaes que o Creador faria? +Um pote? não; um bicho, um bipede com rabo, +A que uns chamam Adão e outros Simão. Ao cabo +O pobre Creador sentindo-se já fraco. +(Coitado, tinha feito o universo e um macaco +Em seis dias!) pensou:--Deixem-nos de asneiras. +Trago já uma dôr horrivel nas cadeiras, +Fastio... Isto dá cabo até d'uma pessoa... +Nada, toca a dormir uma sonata boa!-- +Descalçou-se, tirou os oc'los e chinó, +Pitadeou com delicia alguns trovões em pó, +Abriu, para cahir n'um somno repentino, +O alfarrabio chamado o livro do Destino. +E enflanelando bem a carcassa caduca, +Com o barrete azul celeste até á nuca, +Fez ortodoxamente o seu signal da cruz +Como qualquer de nós, tossiu, soprou á luz, +E de pança p'ro ar, n'um repoiso bemdicto, +Espojou-se, estirou-se ao longe do infinito +N'um immenso enxergão de nevoa e luz doirada. + +E até hoje, que eu saiba, inda não fez mais nada. + + + + +FANTASMAS + + +I + + +O vigario de Deus na terra disse um dia + Aos batalhões do clero: +Tragam-me o manto d'oiro e seda que cobria + As espaduas de Nero. + +E trouxeram-lhe o manto, um manto do brocado, + Da purpura mais fina, +Com escarros de lodo obsceno, inda empastado + No sangue de Agripina. + +E o papa continuou: «Preciso armar o braço, + Para dictar as leis; +Fabriquem-me uma espada enorme com o aço + Das espadas dos réis.» + +E trouxeram-lhe o gladio. O papa ficou mudo, + N'um assombro d'espectro. +De subito exclamou: «Ainda não é tudo; + Tragam-me agora um sceptro!» + +Trouxeram-lh'o. E depois d'um silencio profundo + Rugiu como um leão: +«Tragam-me agora o mundo!» E pozeram-lhe o mundo + Na palma da sua mão. + +E sopesando o globo e arrancando o montante + Enorme da bainha, +Bradou pela amplidão: «Sou Jupiter-tonante! + Humanidade, és minha! + +Eu tenho o gladio e o sceptro, a excomunhão e a bulla; + Sou o Deus, sou a Fé. +Miseravel reptil, Humanidade, oscula + A ponta do meu pé!» + +E sentando-se sobre o coração da Italia + O satrapa romano +Estendeu desdenhoso o bico da sandalia + Para o genero humano! + + +II + + + N'esse instante um fantasma entrou nos regios paços. + Sereno e formidavel. + Encarou fixamente o rei, cruzando os braços + No peito inabalavel, + + E trovejou, deixando o papa sacrosanto + Livido, espavorido: + «Sou a Fraternidade. Entrega-me esse manto + E essa espada bandido!» + + Despedaçou-lhe o gladio e a tunica purpurea, + E sahiu triumfal. + E o papa horrorisado, espumando de furia, + Uivou como um chacal: + + «N'esta invencivel mão d'abutre encarquilhada + Guarda o melhor thesoiro. + Ficou-me ainda o sceptro. Era de ferro a espada... + Prefiro o sceptro... é d'oiro!» + + E o papa viu então, oh tragica anciedade + Um vulto sobrehumano + Avançar e bramir:--O meu nome é Egualdade; + Dá-me o sceptro, tyranno!-- + + Quebrou o sceptro e foi-se. E o papa, como um lobo + Sombrio respondeu: + «Na minha forte mão ainda sustento o globo... + Ainda o globo é meu!...» + + E desatou a rir... um riso sanguinario + De panthera. Depois +Surgiu novo fantasma herculeo, extraordinario, + Maior que os outros dois. + + E como o rebentar potente d'um trovão + Que abala a immensidade + O fantasma rugiu:--Não me conheces, não! + Chamo-me a Liberdade! + + «Venho buscar o mundo. Entrega-o, salteador! + É meu o globo, harpia!» + E arrancou-lh'o. Soltando um grito, no estertor + Convulso da agonia, + + Tombou por terra o papa. E repentinamente + Viu surgir-lhe do lado + Um esqueleto a rir, todo fosforecente, + Podre, desengonçado, + + Que he disse:--Morreu, ó Papa, o nosso imperio, + Morreu o mundo antigo. + Tu chamas-te Alexandre, eu chamo-me Tiberio... + Vem-te deitar commigo!... + + E como um caçador fantastico que leva, + Sangrenta e moribunda, + Uma hyena a gemer, de rastos, pela treva + N'uma noite profunda, + + O esqueleto levou para a crypta sombria + O cadaver do irmão, + Indo dormir os dois na eterna mancebia + Da mesma podridão! + + + + +Post scriptum + + +Quando eu morrer abram-me o peito +E d'esta jaula, onde houve um leão, +Tirem, o carcere era estreito, +Meu velho e altivo coração. + +Depois sem dó e sem respeito, +Sem um murmurio de oração, +Lancem-no assim, vai satisfeito, +Á valla obscura, á podridão, + +Para que durma e se desfaça +No lodo amargo da Desgraça, +Por quem bateu continuamente, + +Como um tambor que entre a metralha +Estoira ao fim d'uma batalha, +Rouco, furioso, ancioso, ardente! + + + + +Nota + + +Em seguida á _morte de D. João_ comecei a escrever um novo poema--_A +Morte do Padre Eterno_,[1] cujo plano completo, até aos minimos +detalhes, estava de ha muito elaborado no meu espirito. + +Mas em torno d'esta ideia principal germinou um grande numero de ideias +acessorias, d'onde nasceu um livro novo _A Velhice do Padre Eterno_, +collecção de 50 poesias, que são 50 balas que, partindo de diversos +pontos, vão todas bater no mesmo alvo. + +Em 1879 estava adiantada a _Morte do Padre Eterno_ e quasi concluida a +_Velhice_. + +Uma enfermidade de quatro annos successivos interrompeu a obra. + +Volvendo a saude, voltou o trabalho. O trabalho nasce espontaneamente da +alegria, como um fructo nasce espontaneamente d'uma flôr. + +Publico hoje o 1^o volume da _Velhice do Padre Eterno_. O 2.^o, já na +imprensa, sahirá a luz com brevidade. No 1.^o volume predomina a satyra, +no segundo a epopeia. Os dois completam-se. A critica, só reunidos, os +poderá julgar inteiramente. + +Creio, se a saude me não faltar, que a _Morte do Padre Eterno_ dentro de +um anno estará impressa. + +E depois de morto D. João e morto Jehovah, resta-me resuscitar Jesus e +desagrilhoar Prometheu. + +Esse ultimo poema, o _Prometheu Libertado_, será o fecho da trilogia, o +complemento da minha obra. + +Terei os annos de vida necessarios para escrever esse livro? Não sei; no +entanto rogo a Deus do fundo da minha alma que me deixe terminar com um +hymno de esperança e de harmonia uma batalha de coleras e de sarcasmos. + +O plano está concebido ha muito. A ideia é simples e creio que bella. A +primeira parte é a epopeia do Trabalho, a glorificação de Prometheu pela +humanidade e pela natureza. + +Na segunda parte de Jesus Christo, levantando-se do seu tumulo, vem +fulminar o abutre e desacorrentar Prometheu. + +O heroe é libertado pelo santo. A crença e a sciencia, a rasão e a fé, +depois d'um combate do milhares de seculos reunem-se finalmente n'uma +paz luminosa, n'uma communhão indestructivel. + +A liberdade de Prometheu significa o desaparecimento de todas as +tyranias, e a resurreição de Jesus a morte de todos os dogmas. Um é a +justiça humana, e outro a aspiração immortal para uma justiça absoluta. +O Caucaso e o Golgotha ficam sendo para a humanidade os dois grandes +altares da religião eterna Futuro! + +Julho--1885. + +Guerra Junqueiro. + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +---------+--------------------+--------------------+ + | | Original | Correcção | + +---------+--------------------+--------------------+ + |#pág. 26| da ladrão | do ladrão | + |#pág. 33| Atrajectoria | A trajectoria | + |#pág. 34| nolte | noite | + |#pág. 59| Daz | Das | + |#pág. 67| haptisados | haptisados | + |#pág. 69| flu'do | fluido | + |#pág. 86| rollar não chão | rollar no chão | + |#pág. 90| Acharam-se | Acabaram-se | + |#pág. 112| babojar-lhe á anel | babojar-lhe o anel | + |#pág. 142| feitia | feita | + |#pág. 146| sandalla | sandalia | + |#pág. 147| encar | encarquilhada | + |#pág. 150| espontaneanente | espontaneamente | + +---------+--------------------+--------------------+ + + + +A indicação da primeira secção dos poemas "_Como se faz um monstro_" e +"_Fantasmas_" foi adicionada, uma vez que existia referência a uma +segunda secção. + + +Foram efectuadas correcções no índice, onde os títulos de poemas se +encontravam omissos ou trocados e onde as páginas indicadas não estavam +associadas correctamente. + + +Todos os _n_ e _u_ trocados, encontrados no texto, foram rectificados. + +Os hífens "supostamente" em falta não foram adicionados. + + + + + +End of Project Gutenberg's A velhice do padre eterno, by Guerra Junqueiro + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A VELHICE DO PADRE ETERNO *** + +***** This file should be named 23526-8.txt or 23526-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/3/5/2/23526/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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