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+The Project Gutenberg EBook of A velhice do padre eterno, by Guerra Junqueiro
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: A velhice do padre eterno
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+Author: Guerra Junqueiro
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+Release Date: November 17, 2007 [EBook #23526]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A VELHICE DO PADRE ETERNO ***
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+ *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
+ existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
+ versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Nov. 2007)
+
+
+
+GUERRA JUNQUEIRO
+
+A VELHICE DO PADRE ETERNO
+
+
+EDITORA
+LIVRARIA MINERVA
+
+LISBOA
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+
+
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+GUERRA JUNQUEIRO
+
+
+A VELHICE DO PADRE ETERNO
+
+
+
+EDITORA
+LIVRARIA MINERVA
+
+LISBOA
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+
+
+
+Á MEMORIA DE Guilherme D'Azevedo
+
+
+
+
+A Eza de Queiroz
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+Aos simples 9
+A vinha do Senhor 17
+A Caridade e a Justiça 25
+O Papão 30
+Parasitas 31
+Resposta ao Sillabus 33
+O Baptismo 37
+Eurico 38
+A Arvore do Mal 39
+A Semana Santa 43
+A Barca de S. Pedro 61
+Ladainha 63
+Como se faz um monstro 65
+Calembour 70
+A agua de Lourdes 71
+Antonelli 73
+O Dinheiro de S. Pedro 75
+Ao nuncio Masella 77
+Ladainha moderna 85
+O Melro 89
+Circular 103
+A benção da locomotiva 109
+A Hidra 111
+A Valla commum 113
+A Sésta do senhor abade 127
+O Genesis 142
+Fantasmas 145
+Post-Scriptum 149
+
+
+
+
+AOS SIMPLES
+
+
+Ó almas que viveis puras, immaculadas
+Na torre do luar da graça e da illusão,
+Vós que ainda conservaes, intactas, perfumadas,
+As rosas para nós ha tanto desfolhadas
+Na aridez sepulchral do nosso coração;
+Almas, filhas da luz das manhãs harmoniosas,
+Da luz que acorda o berço e que entreabre as rosas,
+Da luz, olhar de Deus, da luz, benção d'amor,
+Que faz rir um nectario ao pé de cada abelha,
+E faz cantar um ninho ao pé de cada flor;
+Almas, onde resplende, almas, onde se espelha
+A candura innocente e a bondade christã,
+Como n'um céo d'Abril o arco da alliança,
+Como n'um lago azul a estrella da manhã;
+Almas, urnas de fé, de caridade, e esp'rança,
+Vasos d'oiro contendo aberto um lirio santo,
+Um lirio immorredoiro, um lirio alabastrino,
+Que os anjos do Senhor vem orvalhar com pranto,
+E a piedade florir com seu clarão divino;
+Almas que atravessaes o lodo da existencia,
+Este lodo perverso, iniquo, envenenado,
+Levando sobre a fronte o esplendor da innocencia,
+Calcando sob os pés o dragão do peccado;
+Bemdictas sejaes, vós, almas que est'alma adora,
+Almas cheias de paz, humildade e alegria,
+Para quem a consciencia é o sol de toda a hora,
+Para quem a virtude é o pão de cada dia!
+Sois como a luz que doira as trevas d'um monturo,
+Ficando sempre branca a sorrir e a cantar;
+E tudo quanto em mim ha de bello ou de puro.
+--Desde a esmola que eu dou á prece que eu murmuro--
+É vosso: fostes vós o meu primeiro altar.
+Lá da minha distante e encantadora infancia,
+D'esse ninho d'amor e saudade sem fim,
+Chega-me ainda a vossa angelica fragrancia
+Como uma harpa éolia a cantar a distancia,
+Como um véo branco ao longe inda a acenar por mim!
+..................................................
+..................................................
+..................................................
+Minha mãe, minha mãe! ai que saudade immensa,
+Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.
+Cahia mansa a noite; e andorinhas aos pares
+Cruzavam-se voando em torno dos seus lares,
+Suspensos do beiral da casa onde eu nasci.
+Era a hora em que já sobre o feno das eiras
+Dormia quieto e manso o impavido lebréu.
+Vinham-nos das montanhas as canções das ceifeiras,
+Como a alma d'um justo, ia em triumpho ao céo!...
+E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,
+Vendo a lua subir, muda, alumiando o espaço,
+Eu balbuciava a minha infantil oração,
+Pedindo a Deus que está no azul do firmamento
+Que mandasse um allivio a cada soffrimento,
+Que mandasse uma estrella a cada escuridão.
+Por todos eu orava e por todos pedia.
+Pelos mortos no horror da terra negra e fria,
+Por todas as paixões e por todas as magoas...
+Pelos míseros que entre os uivos das procellas
+Vão em noite sem lua e n'um barco sem vellas
+Errantes atravez do turbilhão das aguas.
+O meu coração puro, immaculado e santo
+Ia ao throno de Deus pedir, como inda vae,
+Para toda a nudez um panno do seu manto,
+Para toda a miseria o orvalho do seu pranto
+E para todo o crime o seu perdão de Pae!...
+..................................................
+..................................................
+A minha mãe faltou-me era eu pequenino,
+Mas da sua piedade o fulgor diamantino
+Ficou sempre abençoando a minha vida inteira
+Como junto d'um leão um sorriso divino,
+Como sobre uma forca um ramo d'oliveira!
+
+ * * * * *
+
+Ó crentes, como vós, no intimo do peito
+Abrigo a mesma crença e guardo o mesmo ideal.
+O horisonte é infinito e o olhar humano é estreito:
+Creio que Deus é eterno e que a alma é immortal.
+
+Toda a alma é clarão e todo o corpo é lama.
+Quando a lama apodrece inda o clarão scintilla:
+Tirae o corpo--e fica uma lingoa de chamma...
+Tirae a alma--e resta um fragmento d'argila.
+
+E para onde vae esse clarão? Mysterio...
+Não sei... Mas sei que sempre ha-de arder e brilhar,
+Quer tivesse incendiado o craneo de Tiberio,
+Quer tivesse aureolado a fronte de Joanna Darc.
+
+Sim, creio que depois do derradeiro somno
+Ha-de haver uma treva e ha-de haver uma luz
+Para o vicio que morre ovante sobre um throno,
+Para o santo que expira inerme n'uma cruz.
+
+Tenho uma crença firme, uma crença robusta
+N'um Deus que ha-de guardar por sua propria mão
+N'uma jaula de ferro a alma de Lucusta,
+N'um relicario d'oiro a alma de Platão.
+
+Mas tambem acredito, embora isso vos peze,
+E me julgueis talvez o maior dos atheus,
+Que no universo inteiro ha uma só diocese
+E uma só cathedral com um só bispo--Deus.
+
+E muito embora a vossa egreja se contriste
+E a excommunhão papal nos abraze e destrua,
+A analyse é feroz como uma lança em riste
+E a verdade cruel como uma espada nua.
+
+Cultos, religiões, biblias, dogmas, assombros,
+São como a cinza vã que sepultou Pompeia.
+Exhumemos a fé d'esse montão de escombros,
+Desentulhemos Deus d'essa aluvião de areia.
+
+E um dia a humanidade inteira, oceano em calma,
+Ha-de fazer, na mesma aspiração reunida,
+Da razão e da fé os dois olhos da alma,
+Da verdade e da crença os dois polos da vida.
+
+A crença é como o luar que nas trevas fluctua;
+A razão é do céo o explendido pharol:
+Para a noite da morte é que Deus nos deu lua...
+Para o dia da vida é que Deus fez o sol.
+
+ * * * * *
+
+Mas, ai eu comprehendo os martyrios secretos
+Do pobre camponez, já quasi secular,
+Que vê tombar por terra o seu ninho de affectos,
+A casa onde nasceu seu pae, e onde os seus netos
+Lhe fechariam, morto, o escurecido olhar.
+Comprehendo o pavor e a lividez tremente
+De quem em noite má, caliginosa e fria
+Atravessa a montanha á luz d'um facho ardente
+E uma rajada vem alucinadamente
+Apagar-lh'o c'o'a aza athletica e sombria,
+Deixando-o fulminado e quazi sem sentidos
+A ouvir o ulular das feras e os bramidos
+Do ciclone que explue rouco do sorvedoiro
+E se enrosca furioso aos platanos partidos
+A estrangulal-os, como uma giboia um toiro.
+
+Comprehendo a agonia, o desespero insano
+Do naufrago na rocha, entre o abysmo do oceano,
+Vendo rolar, rugir os glaucos vagalhões
+Como uma cordilheira herculea de montanhas,
+Com jaulas collossaes de bronze nas entranhas,
+E um domador lá dentro a chicotear trovões.
+..................................................
+..................................................
+O vosso facho, o vosso abrigo, o vosso porto,
+É um Deus que para nós ha muito que está morto,
+E que inda imaginaes no entretanto immortal.
+Vivei e adormecei n'essa crença illusoria,
+Já não podeis transpôr os mil annos da historia
+Que vão do vosso credo absurdo ao nosso ideal.
+Vivei e adormecei n'essa illusão sagrada,
+Fitando até morrer os olhos de Jesus,
+Como o ephemero vão que dura um quasi nada,
+Que nasce de manhã n'um raio d'alvorada,
+E expira ao pôr do sol n'outro raio de luz.
+Eu bem sei que essa crença ignorante e sincera,
+Não é a que illumina as bandas do Porvir.
+Mas vós sois o Passado, e a crença é como a hera
+Que sustenta e dá inda um tom de primavera
+Aos velhos torreões gothicos a cahir.
+Sim, essa crença é um erro, uma illusão, é certo;
+Mas triste de quem vae pelo areal deserto
+Vagabundo, esfaímado e nú como Caim,
+Sem nunca ver ao longe os palacios radiantes
+D'uma cidade d'oiro e marmore e diamantes
+No chimerico azul d'essa amplidão sem fim!
+Quem ha-de arrancar pois do seu piedoso engaste
+O vosso ingenuo ideal, ó tremulos velhinhos,
+Se a chimera é uma rosa e a existencia uma haste,
+Rosa cheia d'aroma e haste cheia de espinhos!
+Quem vos ha-de cortar a flor da vossa esp'rança,
+Quem vos ha-de apagar a angelica visão,
+Se essa luz para vós é como uma creança
+Que guia n'uma estrada um cégo pela mão!
+Quem vos ha-de acordar d'esse sonho encantado?!
+Quem vos ha-de mostrar a evidencia cruel?!
+Ah! deixemos a ave ao ramo já quebrado,
+E deixemos fazer ao enxame doirado
+No tronco que está morto o seu favo de mel!
+Ó velhos aldeões, exhaustos de fadiga,
+Que andaes de sol a sol na terra a mourejar,
+Roubar-vos da vos'alma a vossa crença antiga
+Seria como quem roubasse a uma mendiga
+As tres achas que leva á noite para o lar!
+Oh, não! guardae-a bem essa crença d'outrora;
+É ella quem vos dá a paz benigna e santa,
+Como a paz d'um vergel inundado d'aurora,
+Onde o trabalho ri e onde a miseria canta.
+Guardae-a sim, guardae! E quando a morte em breve
+Vos entre na choupana esqualida e feroz,
+A agonia será bem rapida e bem leve,
+Porque um anjo de Deus mais alvo do que a neve
+Ha-de estender sorrindo as azas sobre vós.
+E vós conhecereis em seu olhar materno
+Que é o anjo que emballou vosso somno infantil,
+E que hoje vem do céo mandado pelo Eterno,
+Para sorrir na morte ao vosso branco inverno,
+Como sorriu no berço ao vosso claro Abril.
+
+E ao pender-vos gelada a vossa fronte alabastrina
+Irá levar a Deus o vosso coração,
+Tão manso e virginal, tão novo e tão perfeito,
+Que Deus ha-de beijal-o e aquecel-o no peito,
+Como se acaso fosse uma pomba divina,
+Que viesse cahir-lhe exanime na mão!
+
+
+
+
+A VINHA DO SENHOR
+
+
+I
+
+
+Existiu n'outro tempo uma vinha piedosa
+Doirada pelo sol da alma de Jesus,
+Uma vinha que dava uns fructos côr de roza,
+Vermelhos como o sangue e puros como a luz.
+
+Inundavam-n'a d'agua os olhos de Maria,
+E os virgens corações dos martyres, dos crentes
+Eram a terra funda aonde se embebia
+A mystica raiz dos pampanos virentes.
+
+Produzia um licor balsamico, divino,
+Que aos cégos dava luz, aos tristes dava esp'rança,
+E que fazia ver na areia do destino
+A miragem feliz da bemaventurança.
+
+Aos mortos restituia o movimento e a falla;
+Escravisava a carne, as tentações, a dôr,
+E transformou em santa a impura de Magdala,
+Como transforma Abril um verme n'uma flôr.
+
+Bebel-o era beber uma virtuosa essencia
+Que ungia o coração de perfumes ideaes,
+Pondo no labio um riso ingenuo de innocencia,
+Como o d'agua a correr, virgem, dos mananciaes.
+
+Dava um tal explendor ás almas, tal pureza
+Que nos Circos de Roma até se viu baixar
+Diante da nudez das virgens sem defeza
+Ao magro leão da Nubia o curuscante olhar.
+
+
+II
+
+
+Mas passado algum tempo a humanidade inteira
+De tal modo gostou d'esse licor sublime,
+Que o extasis christão tornou-se em bebedeira,
+E o sonho em pezadello, e o pezadello em crime.
+
+Nas solidões do claustro as virgens inflamadas
+Co'as fortes atracções da mistica ambrozia
+Torciam-se febris, convulsas, desvairadas,
+Meretrizes de Deus n'uma piedosa orgia.
+
+É que no vinho antigo ia á noite o demonio
+Lançar co'a garra adunca uma infernal mistura
+De mandragora e opio e helleboro e stramonio,
+Verdenegro e viscoso extracto de loucura.
+
+Quando uivava de noite o vento nas campinas
+Via-se pela sombra, obliquo, Satanaz,
+Colhendo aos pés da forca ou buscando entre as ruinas
+Hervas, vegetações, prenhes de essencias más.
+
+Era o filtro subtil d'essas plantas de morte
+Que fazia da alma um derviche incoherente,
+Uma bussola doida á procura do norte
+Uma céga a tatear no vacuo, anciosamente!...
+
+E a taça do veneno estonteador e amargo
+No funebre banquete ia de mão em mão,
+Produzindo o delirio, a syncope, o lethargo
+E em cada olhar sinistro uma cruel visão.
+
+Uns viam a espectral sarabanda frenetica
+De esqueletos a rir e a dançar com furor
+Em torno á Morte podre, impudente, epileptica,
+Com dois ossos em cruz rufando n'um tambor.
+
+Outros viam chegado o pavoroso instante
+Em que um monstro do fogo, um dragão areolito,
+Dava na terra um nó c'oa cauda flammejante,
+Arrebatando-a, a arder, atravez do infinito.
+
+E então para fugir ao desespero e ao panico
+Bebiam com mais ancia o filtro singular.
+Até á epilepsia, ao turbilhão tetanico
+Do sabat desgrenhado e erotico, a espumar!
+
+E á força de beber o tragico veneno
+Tombou por terra exhausta a humanidade emfim,
+Como em Londres, de noite, ao pé d'um antro obsceno
+Cáe sob a lama inerte um bebado de gim.
+
+
+
+III
+
+
+Mas n'isto despontou a esplendida manhã
+D'um mundo juvenil, robusto, afrodisiaco:
+A Renascença foi para a embriaguez christã
+A excitação vital d'um frasco de amoniaco.
+
+E na vinha de Deus ainda florescente
+Começou a nascer por essa occasião
+Um bicho que enterrava escandalosamente
+Nos pampanos da crença as unhas da razão.
+
+Propagou-se o flagello; o mal recrudesceu;
+A colheita ficou em duas terças partes;
+Chega o oidium Lutero, o verme Galileu,
+E cai-lhe o temporal de Newton e Descartes.
+
+Em balde Carlos nove, Ignacio e Torquemada,
+Catando esses pulgões das bíblicas videiras,
+Os entregam á roda, ao cadafalso, á espada,
+Ou os queimam por junto aos centos nas fogueiras.
+
+O estrago cada vez era maior, mais forte;
+Apezar da realeza, o throno e a sachristia
+Andarem sacudindo o enxofrador da morte
+No formigueiro vil das pragas da heresia.
+
+Por ultimo Voltaire--filoxera invade
+Essa encosta plantada outr'ora por Jesus,
+E das cepas ideaes da escura meia idade
+Ficaram simplesmente uns velhos troncos nús.
+
+
+IV
+
+
+Mas como havia ainda alguns consumidores
+D'esse vinho que o sol deixou de fecundar,
+Uns velhos cardeaes, habeis exploradores,
+Reuniram-se em concilio afim de os imitar.
+
+E é assim que Antonelli, o verdadeiro papa,
+O chimico da fé, um grande industrial,
+Fabrica para o mundo ingenuo uma zurrapa
+Que elle assevera que é o antigo vinho ideal.
+
+Para isso combina os varios elementos
+Que compõem esta droga: o nome de Maria,
+Anjos e cherubins, infernos e tormentos,
+Bastante estupidez e immensa hypocrizia.
+
+Põe isto tudo a ferver, liga, combina, mexe,
+E, filtrando atravez d'uns textos de latim,
+Eis preparado o vinho, ou antes o campeche,
+Que a saúde da alma hade arruinar por fim.
+
+Mas como o paladar de muitos europeus
+Quasi prefere já (horrivel impiedade!)
+Á falsificação do vinho do bom Deus
+O vinho genuino e puro da verdade;
+
+E como já por isso, (assim como era d'antes)
+A Igreja não nos queime e o rei não nos enforque,
+A curia procurou mercados mais distantes,
+O Japão, o Perú, a Australia e Nova York.
+
+Os _comis-voiageurs_ de Roma--os Lazaristas
+Com as carregações vão atravez do oceano,
+Por toda a parte abrindo os armazens papistas,
+A fim de dar consumo ao vinho ultramontano.
+
+Em cada igreja existe uma taberna franca
+Para impingir a tal mixordia, o tal horror,
+Ou secca ou doce, ou velha ou nova, ou tinta ou branca,
+Segundo as condições e a fé do bebedor.
+
+Para Hespanha vão muito uns vinhos infernaes,
+Um veneno explosivo e forte que produz
+Um delirio tremente--o General Narvaes,
+E um vomito de sangue--o cura Santa Cruz.
+
+Portugal quer vinagre. A Italia quer falerno.
+Veuillot quer agua-raz que ponha a lingua em braza.
+E John Bull, por exemplo, um pouco mais moderno,
+Manda ao diabo a botica, e faz a droga em casa.
+
+Ao povo, esse animal, que o Padre Eterno monta,
+Como é pobre, coitado, então a Santa Sé
+Fabrica lhe uma borra incrivel, muito em conta,
+Um pouco de melaço e um pouco d'agua-pé.
+
+A fina flôr christã, a flôr altiva e nobre,
+O rico sangue azul do bairro S. Germano,
+Para quem o bom Deus é um gentil-homem pobre
+A quem se dá de esmola alguns milhões por anno.
+
+Essa como detesta os vinhos maus, baratos,
+Como é de raça illustre e debil compleição,
+Mandam-lhe um elixir que serve para os flatos,
+Ou para pôr no lenço ao ir á communhão.
+
+De resto ha quem, bebendo essa tisana impura,
+Sinta a impressão que outr'ora o nectar produzia.
+São milagres da fé. Ditosa a creatura
+Que no ruibarbo encontra o sabor da ambrosia.
+
+E eu não vos vou magoar, ó almas côr de rosa
+Que inda achaes neste vinho o esquecimento e a paz!
+Não insulto quem bebe a droga venenosa;
+Accuso simplesmente o charlatão que a faz.
+
+
+
+
+A CARIDADE E A JUSTIÇA
+
+
+No topo do calvario erguia-se uma cruz,
+E pregado sobre ella o corpo do Jesus,
+Noite sinistra e má. Nuvens esverdeadas
+Corriam pelo ar como grandes manadas
+De bufalos. A lua ensanguentada e fria,
+Triste como um soluço immenso de Maria,
+Lançava sobre a paz das coizas naturaes
+A merencoria luz feita de brancos ais.
+As arvores que outr'ora em dias de calor
+Abrigaram Jesus, cheias de magua e dôr,
+Sonhavam, na mudez herculea dos heroes.
+Deixaram de cantar todos os rouxinoes,
+Um silencio pesado amortalhava o mundo.
+Unicamente ao longe o velho mar profundo
+Descantava chorando os psalmos da agonia.
+Jesus, quasi a expirar, cheio de dôr, sorria.
+Os abutres crueis pairavam lentamente
+A farejar-lhe o corpo; ás vezes de repente
+Uma nuvem toldava a face do luar,
+E um clarão de gangrena, estranho, singular,
+Lançava sob a cruz uns tons esverdeados.
+Crucitavam ao longe os corvos esfaimados;
+Mas passado um instante a lua branca e pura
+Irrompia outra vez da grande nevoa escura,
+E inundavam-se então as chagas de Jesus
+Nas pulverisações balsamicas da luz.
+
+No momento em que havia a grande escuridão,
+Christo sentiu alguem aproximar-se, e então
+Olhou e viu surgir no horror das trevas mudas
+O cobarde perfil sacrilego de Judas.
+O traidor, contemplando o olhar do Nazareno,
+Tão cheio de desdem, tão nobre, tão sereno,
+Convulso de terror fugiu... Mas nesse instante
+Surgiu-lhe frente a frente um vulto de gigante,
+Que bradou:
+
+ --É chegado emfim o teu castigo
+O traidor teve medo e balbuciou:
+
+ --Amigo,
+Que pretendes de mim? dize, por quem esperas?
+Quem és tu?--
+
+ --«O Remorso, um caçador de féras,
+Disse o gigante. Eu ando ha mais de seis mil annos
+A caçar pelo mundo as almas dos tiranos,
+Do traidor, do ladrão, do vil, do scelerado;
+E depois de as prender tenho-as encarcerado
+Na enormissima jaula atroz da expiação.
+E quando eu entro ali na immensa confusão
+De tigres, de leões, d'abutres, de chacaes,
+De rugidos febris e de gritos bestiaes,
+Fica tudo a tremer, quieto de horror e espanto.
+Caim baixa a pupilla e vai deitar-se a um canto.
+E quando em summa algum dos monstros quer luctar
+Azorrago-o co'a luz febril do meu olhar,
+Dando-lhe um pontapé, como n'um cão mendigo.
+Já sabes quem eu sou, Judas; anda comigo!»
+
+Como um preso que quer comprar um carcereiro,
+Judas tirou do manto a bolça do dinheiro,
+Dizendo-lhe:
+
+ --Aqui tens, e deixa-me partir...
+
+O gigante fitou-o e começou a rir.
+
+Houve um grande silencio. O infame Iskariote,
+Como um negro que vê a ponta d'um chicote,
+Tremia. Finalmente o vulto respondeu:
+
+«Judas, podes guardar esse dinheiro; é teu.
+O oiro da traição pertence-lhe ao traidor,
+Como o riso á innocencia e como o aroma á flôr.
+Esse oiro é para ti o eterno pesadello.
+Oh! guarda-o, guarda-o bem, que eu quero derretel-o,
+E lançar-t'o depois caustico, vivo, ardente,
+Lançar-t'o gota a gota, inexoravelmente
+Em cima da consciencia, a pudrida, a execravel!
+Com elle hei de fundir a algema inquebrantavel,
+A grilheta que a tua esqualida memoria
+Trará, arrastará pelas galés da Historia,
+Durante a eternidade illimitada e calma.
+Essa bolsa que ahi tens é o cancro da tua alma:
+Já se agarrou a ti, ligou-se ao criminoso,
+Como a lepra nojenta ao peito do leproso,
+Como o iman ao ferro e o verme á podridão.
+Não poderás jámais largal-a da tua mão!
+És traidor, assassino, hypocrita, perjuro;
+A tua alma lançada em cima d'um monturo
+Faria nodoa. És tudo o que ha de mais vil,
+Desde o ventre do sapo á baba do reptil.
+Sahe da existencia! dize á sombra que te acoite.
+Monstro, procura a paz! verme, procura a noite!
+Que o sol não veja mais um unico momento
+O teu olhar obliquo e o teu perfil nojento.
+Esse crime, bandido, é um crime que profana,
+Todas as grandes leis da vida universal.
+Esconde-te na morte, assim como um chacal
+No seu covil. Adeus, causas-me nojo e asco.
+Deixo dentro de ti, Judas, o teu carrasco!
+És livre; adeus. Já brilha o astro matutino,
+E eu, caçador feroz, cumprindo o meu destino,
+Continuarei caçando os javalis nos matos.»
+
+E dito isto partiu a procurar Pilatos.
+
+Vinha rompendo ao longe a fresca madrugada.
+Judas, ficando só, meteu-se pela estrada,
+Caminhando ligeiro, impavido, terrivel,
+Como um homem que leva um fim imprescriptivel
+Uma ideia qualquer, heroica e sobranceira;
+De repente estacou. Havia uma figueira
+Projectando na estrada a larga sombra escura;
+Judas, desenrolando a corda da cintura,
+Subiu acima, atou-a a um ramo vigoroso,
+Dando um laço á garganta. O seu olhar odioso
+Tinha n'esse momento um brilho diamantino,
+Recto como um juiz, forte como um destino.
+
+N'isto echoou atravez do negro céo profundo
+A voz celestial de Jesus moribundo,
+Que lhe disse:
+
+ --«Traidor, concedo-te o perdão.
+Além de meu carrasco és inda o meu irmão.
+Pregaste-me na cruz; é o mesmo, fica em paz.
+Eu costumo esquecer o mal que alguem me faz.
+Eu tenho até prazer, bem vês, no sacrificio.
+Não te cause remorso o meu atroz suplicio,
+Estes golpes crueis, estas horriveis dores.
+As chagas para mim são outras tantas flôres!»
+
+Judas fitou ao longe os cerros do calvario,
+E erguendo-se viril, soberbo, extraordinario,
+Exclamou:
+
+ --«Não acceito a tua compaixão.
+A Justiça dos bons consiste no perdão.
+Un justo não perdôa. A justiça é implacavel.
+A minha acção é infame, hedionda, miseravel;
+Preguei-te nessa cruz, vendi-te aos Farizeus.
+Pois bem, sendo eu um monstro e sendo tu um Deus,
+Vais vêr como esse monstro, ó pobre Christo nu,
+É maior do que Deus, mais justo do que tu:
+Á tua caridade humanitaria e doce,
+Eu prefiro o dever terrivel!»
+
+ E enforcou-se.
+
+
+
+
+O PAPÃO
+
+
+As creanças têm medo á noite, ás horas mortas
+Do papão que as espera, hediondo, atraz das portas,
+Para as levar no bolso ou no capuz d'um frade.
+Não te rias da infancia, ó velha humanidade,
+Que tu tambem tens medo ao barbaro papão,
+Que ruge pela boca enorme do trovão,
+Que abençôa os punhaes sangrentos dos tyranos,
+Um papão que não faz a barba ha seis mil annos,
+E que mora, segundo os bonzos têm escripto,
+Lá em cima, de traz da porta do Infinito.
+
+
+
+
+PARASITAS
+
+
+No meio d'uma feira, uns poucos de palhaços
+Andavam a mostrar em cima d'um jumento
+Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
+Aborto que lhes dava um grande rendimento.
+
+Os magros histriões, hypocritas, devassos,
+Exploravam assim a flor do sentimento,
+E o monstro arregalava os grandes olhos baços,
+Uns olhos sem calor e sem intendimento.
+
+E toda a gente deu esmola aos taes ciganos;
+Deram esmola até mendigos quasi nùs.
+E eu, ao ver este quadro, apostolos romanos,
+
+Eu lembrei-me de vós, funambulos da Cruz.
+Que andaes pelo universo ha mil e tantos annos
+Exhibindo, explorando o corpo de Jesus.
+
+
+
+
+RESPOSTA AO SILLABUS
+
+
+Fanaticos, ouvi as coisas que eu vos digo:
+
+Dentro d'essa prisão cruel do dogma antigo
+A consciencia não póde estar paralisada,
+Como n'um velho catre uma velha entrevada.
+Tudo se modifica e tudo se renova:
+Da escura podridão nojenta de uma cova
+Sae uma flôr vermelha a rir alegremente.
+A ideia tambem muda a pel' como a serpente.
+O que era hontem grão é hoje a seara immensa.
+A Verdade sahiu d'esse casulo--a Crença,
+Assim como sahiu do velho o mundo novo.
+Recolher outra vez a aguia no seu ovo
+É impossivel; quebrou o involucro ao nascer.
+Como é que pòdes tu ó Egreja, pretender,
+Cerrando na tua mão um box enorme--o inferno,
+Levar aos encontrões o espirito moderno,
+Leval-o para traz, para o passado escuro,
+Como um bandido leva um homem contra um muro?!
+A trajectoria immensa e fulva da verdade
+Não se póde suster com a facilidade
+Com que Jusué susteve o sol no firmamento.
+Atirar a justiça, a ideia, o pensamento
+Ás fogueiras da fé, ó bonzos, é impossivel:
+Reduzirdes a cinza o que? O incombustivel!
+Loucos! ide dizer ao velho Torquemada
+Que queime se é capaz n'um forno uma alvorada!
+.................................... Sacristas,
+Ajuntae, reuni os balandraus papistas,
+As fardas sepulcraes do exercito da fé,
+A capa de Tartufo, a loba de Claret,
+A cogula do monge, enfim, tudo que seja
+Côr da nolte; arrancae o velho crepe á egreja,
+Dos caixões descosei os panos funerarios,
+Tisnae co'a vossa lingua as alvas e os sudarios,
+E se inda precisaes mais sombras, mais farrapos,
+Pedi ao corvo a aza, o ventre immundo aos sapos,
+Fabricae d'isto tudo uma cortina immensa,
+E tapando com ella o sol da nossa crença,
+Nem mesmo assim fareis o eclipse da aurora!
+A consciencia não é a besta d'uma nora.
+Lembrai-vos que o Progresso é um carro sem travão,
+E que apagar em nós o facho da razão
+É o mesmo que apagar o sol quando flameja
+Com um apagador de lata d'uma egreja.
+
+Bonzos, podeis dizer á humanidade--Pára!--
+Co'a foice excomunhão podeis ceifar a ceara
+Da heresia; podeis, segundo as ordenanças,
+Metter pedras de sal na boca das creanças,
+Fazer do Deus do amor o Deus barbaridade,
+Chamar á estupidez irmã da caridade
+E jesuita a Jesus e Christo a Carlos sete;
+Vós podeis discutir junto da campa o frete,
+Recoveiros de Deus, o frete que é preciso
+Para irdes levar lá cima ao paraiso
+A alma d'um defunto; ó bonzos, vós podeis
+Ir pedir emprestado um exercito aos reis
+E defender com elle o papa, o vaticano,
+Do cerco que lhe faz o pensamento humano,
+Pondo adiante d'um dogma a boca d'um canhão;
+Podeis encarcerar dentro da inquisição
+Galileu; vós podeis, anões, contra os ciclopes
+Roncar latim, zurrar sermões, brandir hyssopes,
+Que não conseguireis que a Liberdade vista
+A batina pingada e rota d'um sacrista,
+Que o direito se ordene, e que a Justiça queira
+Ir a Roma tomar, contricta, o véo de freira!
+
+
+
+
+O BAPTISMO
+
+
+ Exeat de vobis spiritus malignas. RITUAL.
+
+
+Baptisaes: arrancaes d'um anjo um satanaz.
+Desinfectaes Ariel banhando-o em aguarraz
+De egreja e no latim que um malandro expectora,
+Dizeis á noite:--limpa a tunica da aurora,
+E ao rouxinol dizeis:--pede a benção da c'ruja.
+Daes os lirios em flôr ao rol da roupa suja,
+Representaes a farça estupida e sombria
+D'um conego a lavar um astro n'uma pia,
+Finalmente extrahis da innocencia o pecado,
+Que é o mesmo que extrahir d'uma rosa um cevado,
+E tudo isto porque?
+ Porque na biblia um mono
+Devora uma maçã sem licença do dono!
+
+
+
+
+EURICO
+
+
+ Cod. civil art. 1057 e 4031
+
+
+Eurico, Eurico, ó pallida figura,
+Lastimoso, romantico levita,
+Que nos serros do Calpe em noite escura
+Ergues as mãos á abobada infinita;
+
+Rasga a pagina santa da Escriptura;
+O espirito de luz que em nós habita
+Já não consente essa ideal loucura
+Que faz do amor uma paixão maldita.
+
+Deixa a soidão dos montes escalvados;
+Não soltes mais os threnos inflamados,
+Nem tenhas medo ás garras do demonio.
+
+Beija a Hermengarda, a timida donzella.
+E vai de braço dado tu e ella
+Contrahir civilmente o matrimonio.
+
+
+
+
+A ARVORE DO MAL
+
+
+Por debaixo do azul sereno, entre a fragancia
+ Dos mirtos, dos rosaes,
+Viviam n'uma doce e n'uma eterna infancia
+ Nossos primeiros paes.
+
+Seus corpos juvenis, mais alvos do que a lua,
+ Mais puros que os diamantes,
+Conservavam ainda a virgindade nua
+ Das coisas ignorantes.
+
+Poz Deus n'esse jardim com sua mão astuta
+ Ao lado da innocencia
+A Arvore do Mal que produzia a fructa
+ Venenosa da sciencia.
+
+E, apezar de conter venenos homicidas
+ E o germen do pecado,
+Era Deus quem comia á noite, ás escondidas,
+ Esse fructo vedado.
+
+Por isso Jehovah tinha sciencia infinda,
+ Tinha um poder secreto,
+E Adão que não provara os fructos era ainda
+ Um anjo analfabeto.
+
+Eva colheu um dia o bello fructo impuro,
+ O fructo da Rasão.
+N'esse instante sublime Eva tinha o Futuro
+ Na palma da sua mão!
+
+O homem, abandonado a submissão covarde,
+ Viu o fructo e comeu.
+Esse fructo é a luz que a Jupiter mais tarde
+ Roubará Prometheu.
+
+E ao vêr igual a si a estatua que creara,
+ O homem reprobo e nu,
+Jehovah exclamou: «Maldita seja a seara
+cuja semente és tu!»
+
+Veio depois a Egreja e repetiu aos crentes
+ De toda a humanidade:
+«Maldito seja sempre o que enterrar os dentes
+ Nos fructos da Verdade!»
+
+A Egreja permittia esse vedado pomo
+ Sòmente aos sacerdotes.
+Da arvore do mal fugia o mundo, como
+ Os lobos dos archotes.
+
+Se o sabio que buscava o oiro nas retortas
+ Ia como um ladrão
+Roubar timidamente, á noite, ás horas mortas
+ Algum fructo do chão,
+
+Tiravam-lhe da boca esse fructo damninho
+ D'uma maneira suave:
+Atando-lhe á garganta uma corda de linho
+ Suspensa d'uma trave.
+
+Um dia um visionario, alma vertiginosa,
+ Espirito immortal,
+Foi deitar-se, que horror! á sombra temerosa
+ Da Arvore do Mal.
+
+A Egreja ao vêr aquella intrepida heresia
+ Lança-lhe excomunhões;
+Tomba por terra um fructo... e Newton descobria
+ A lei das atracções!
+
+Sacudi, sacudi, a arvore maldita,
+ Que os astros tombarão,
+Como se sacudisse a abobada infinita
+ Deus com a propria mão!
+
+E quando o mundo inteiro emfim houver comido
+ Até á saciedade
+O fructo que lhe estava ha tanto prohibido,
+ O fructo da Verdade,
+
+Homens, dizei então a Jehovah:--«Tirano,
+ Vai-te embora d'aqui!
+Construimos de novo o paraiso humano;
+ Fizemol-o sem ti.
+
+«Expulsaste do Olimpo a humanidade outr'ora,
+ Ó despota feroz;
+Pois bem, o Olimpo é nosso, e Jehovah, agora
+ Expulsamos-te nós!
+
+
+
+
+A SEMANA SANTA.
+
+
+I
+
+
+Não podendo dormir no horror da sepultura,
+ Na podridão escura
+ Da terra immunda e fria,
+Voltaire despedaçando o feretro chumbado,
+E cingindo o lençol ao corpo esverdeado
+ Resuscitou um dia.
+
+Pairava-lhe no labio o riso fulminante
+Com que outr'ora gravou nas crenças virginaes,
+Como n'um rico espelho a aresta d'um diamante,
+Tamanhas abjecções, sarcasmos tão brutaes.
+Mas era ao mesmo tempo o riso heroico e bom
+Que os tiranos prostrava em misero desmaio,
+Riso a que succedeu o verbo de Danton,
+Como a um trovão succede o lampejar d'um raio.
+Dormira febrilmente um longo somno inquieto
+Em quanto andava o mundo a executar-lhe os planos,
+E vinha ver emfim, diabolico architeto,
+O estado da sua obra ao cabo de cem annos,
+Ó satiro divino, ò monstro da ironia,
+Genio que Deus conduz e Satanaz impelle,
+Que esmagas hoje o _infame_, e escreves no outro dia
+Com a tinta do enxurro os versos da Pucelle;
+Tu és feito de luz e feito de baixesas,
+Feito de heroicidade e de protervias más;
+Corromperam-te a alma os braços das duquezas
+E encarguilhou-te a face o rir de Satanaz.
+Rasgas ao mundo novo a estrada do futuro
+Cantando ao mesmo tempo o sordido deboche:
+És como um Juvenal dentro d'um Epicuro,
+Ó arlequim-titan, ó semi-deus-gavroche.
+N'esse labio mordente esso sorriso eterno
+Faz frio como a ponta aguda d'uma espada;
+O teu genio, Voltaire, é como o sol do inverno,
+Dá muitissima luz, mas não aquece nada.
+Em vão por sobre a paz dos campos desolados
+Elle entorna do azul seus vivos esplendores;
+Não cantam rouxinoes nas sebes dos vallados,
+Não faz nascer o trigo e germinar as flores.
+É que nunca soubeste o que é a dôr profunda
+Que estalla fibra a fibra os grandes corações;
+É que nunca choraste, ó Prometheu corcunda,
+Como Dante chorou, como chorou Camões
+Voltaire, ó rachador de velhos preconceitos,
+Aos golpes de teu riso, a golpes de machado
+Cairam sobre a terra athleticos, desfeitos
+Na floresta da noite os cedros do passado.
+
+Mataste a tradição, o dogma, o privilegio,
+Assobiaste a rir a fé de nossos paes,
+E andaste pelo azul, hediondo sacrilegio!
+A correr á pedrada os deuses immortaes.
+Empunhando o alvião terrivel da verdade
+Tu minaste, Voltaire, infatigavelmente
+O alicerce de bronze à velha sociedade.
+Do teu riso cruel a onda dissolvente
+Foi como os vagalhões, arietes do mar,
+Que cavam sob a rocha um tão profundo abismo
+Que a rocha fica quasi assente sobre o ar.
+Tu minaste, Voltaire, a rocha despotismo.
+E depois de ter feito a excavação noturna,
+Como fazem no monte as feras sanguinarias,
+Encheste até á bocca essa medonha furna
+Com barris de petroleo e bombas incendiarias
+E em quanto o niveo pé soberbo de Antonieta
+Da França estrangulava a suplicante voz,
+Tu lançavas de longe a tragica luneta,
+Velho Fauno cruel, rindo com riso atroz.
+Até que um dia emfim exausto de cansaço,
+Sentindo jà sem força as garras de condor,
+Tu chegaste, Arouet, sem te tremer o braço,
+Ao rastilho da mina o fogo abrasador.
+Cobriu-se então o azul d'uma tormenta escura,
+Echoou lugubremente o estrondo de trovão,
+Viste arder o rastilho até uma certa altura,
+E foste-te esconder, a rir, na sepultura
+Mal se ia aproximando a hora da explosão.
+
+Quando resuscitou Voltaire ficou atonito
+Vendo os nossos chapeus e as nossas calças pretas,
+Mas como desejava andar no mundo incognito,
+E não lêr o seu nome impresso nas gazetas,
+Oh, a necessidade a quanto nos obriga!
+Voltaire o diplomata, o cortezão taful
+Largou a juba d'oiro, a cabelleira antiga
+E foi vestir-se á moda aos armasens do Pool.
+Na sexta feira santa os templos percorria
+Voltaire para observar os crentes verdadeiros
+No dia da paixão, no luctuoso dia
+Em que se faz de Christo o deus dos confeiteiros.
+Arouet, ao vêr aquella estupida farçada,
+Foi acordar Jesus na sua campa ignorada
+E disse-lhe:
+
+
+II
+
+
+ --«Anda vêr ó Christo estes bandidos.
+ Que rostos tão floridos,
+ Que bellas digestões!
+Ó pallido Jesus, ò scismador antigo,
+Levanta-te da campa e vem d'ahi commigo
+ A vêr estes ladrões.
+
+Nós vamos passeiar juntos, de braço dado,
+Mas vestirás primeiro um frak bem talhado
+ De fino pano inglez,
+E hasde pôr na cabeça este chapeu redondo,
+Para ficar gentil, para ficar hediondo
+ Como qualquer burguez.
+
+Tu odeias de certo estas casacas pretas,
+Mas não quero, Jesus, que tu me compromettas
+Com esse balandrau muitissimo ratão.
+Se eu fosse ao boulevard comtigo e alguem me visse,
+Ninguem oh, flôr do tom! ninguem, oh canalhice!
+ Me apertaria a mão.
+
+O talhe d'um colete e os pontos d'uma luva,
+A menor frioleira, um simples guarda chuva,
+Substituiram hoje as regras de Lavater:
+Passando eu por accaso enodoado e roto,
+Diriam: «Que chapeu! que pulha! que maroto!
+Aquelle homem não tem nem sombras de caracter!»
+
+Anda, veste a farpella. Agora, sim senhor!
+Muito grotesco és, meu pobre Redemptor!
+Vais a comprometter-me, ó alma do Diabo!
+Que figura infeliz, inteiramente chata!...
+Pelo menos corrige o laço da gravata
+E põe na _boutoniere_ este jasmim do Cabo.
+
+Necessitas de ter maneiras delicadas
+E a arte de dizer uns pequeninos nadas
+ Com chic e distincção. Ser Deus é muito bom;
+Mas é preciso ser um deus da fina roda,
+Um deus do nosso tempo, um deus da ultima moda,
+Um deus _petit-crevé_, um deus á _Benoiton_.
+
+Se amanhã por acaso alguem, medita n'isto,
+Te fosse apresentar--Sua Ex. o Christo--
+Nos devotos salões do bairro São-Germano,
+Oh escandalo! oh farça! oh padre omnipotente!
+As duquezas, sorrindo aristocratamente,
+Achavam-te decerto um Deus provinciano.
+
+Saiamos para a rua. A gente anda de lucto,
+Porque consta que outr'ora un visionario, un bruto,
+Se deixara morrer pregado n'um madeiro.
+E hoje em memoria d'isto os paes compram ás filhas,
+ Tres caixas de pastilhas
+ Na loja d'um doceiro.
+
+Quanta mulher formosa ahi nesses balcões!
+ Que lindas tentações,
+ Meu palido judeu!
+Deixa por um instante as regiões serenas;
+ Namora estas pequenas,
+Que ellas hão de gostar do teu perfil hebreu.
+
+Arranja um casamento e aprende a ter juizo.
+A noiva pouco importa; o dote é que preciso
+Discutil-o. Olha lá, os paes que sejam velhos!...
+Que vá para o diabo o reino da Utupia!
+E hãode-te nomear socio da academia
+E, quem sabe! talvez barão dos Evangelhos.
+
+Penetremos na egreja a vêr esta farçada.
+Uns entram para vêr a casa illuminada,
+Os dandys é por _chic_, os velhos por _decôro_;
+Estes é para ouvir tocar umas quadrilhas,
+E os outros, que sei eu!... para vender as filhas,
+Para matar o tempo ou arranjar namoro.
+
+Lá vai o pregador dizer a seremonata
+Tussiu cuspiu, sorriu, bebeu a sua orchata
+E começa a fallar. Tem uns bonitos dentes.
+E com gesto facundo e voz amaneirada
+ Receita una enfiada
+ De tropos excellentes.
+
+ Acabou se. O auditorio
+ Gostou do farelorio
+ Como gostámos nós.
+Soltam-se exclamações por entre algum rumor:
+--_Muito bem! muito bem!_--_É um grande pregador!_--
+--_Foi um rico sermão!_--_E que bonita voz!_
+
+E é esta a tua casa, ó meu pobre Jesus!
+ Não te bastou a cruz;
+ Era preciso o altar,
+Que destino cruel, que tragica ironia!
+ Nasces na estrebaria,
+ Vives no lupanar!
+
+Desfila pela rua immensa multidão.
+ Saiu a procissão;
+Paremos um instante. É curioso isto.
+Que farças imbecis, que velhas pompas mudas!
+Lá vae pegando ao palio o teu amigo Judas,
+Que está, como tu vês, commendador de Christo!
+
+Os anjos theatraes caminham lentamente
+Com azas de galão feitas expressamente
+ Nas lojas de Pariz.
+Pobres anjos do céo! querem martirisal-os:
+Vão cheios de suor e apertam-lhe os calos
+ As botas de verniz.
+
+Agora passas tu n'um palanquim bordado.
+ Coidado!
+Muito trabalho tem quem faz religiões!
+Repara como vais, olha que bella tunica:
+ É pavorosa, é unica!
+Off'receu-t'a um burguez n'um dia de eleições.
+
+E atraz do velho andor e atraz das velhas opas
+Vão desfilando agora os esquadrões das tropas
+ Com gesto marcial.
+Tu que amavas os bons, os simples e as creanças,
+Seguido como os reis d'um matagal de lanças,
+ Meu pobre general!
+
+Terminou a funcção. É negro o firmamento.
+ Ai que aborrecimento!
+ Ó meu Jesus, que tedio!
+Para poder dormir, para poder ceiar,
+Que hade a gente fazer? vamos ao lupanar,
+ Não ha outro remedio.
+
+Alli tens, meu amigo, os conegos vermelhos:
+Que rostos joviaes, brunidos como espelhos,
+Que riso debochado e gesto vinolento!
+E á noite, a esta hora, uns padres sem batinas
+Do certo não virão pregar ás concubinas
+ O 6.^o mandamento!
+
+Os teus guardas fieis depois da procissão,
+Já roucos de cantar um velho cantochão,
+Deixaram-te no templo abandonado e só.
+Uns vieram beijar as carnes prostituídas,
+E os outros foram lêr no quarto, ás escondidas,
+ Romances de Bollot.
+
+E como a noite é linda! a branca lua passa,
+Ostentando na fronte a pallidez devassa
+ D'uma infeliz mulher.
+Quando tudo fermenta e tudo anda de rastros
+Já não deve admirar que a siphilis chegue aos astros
+E precisem tambem xarope de Gibert!
+
+Meu Pae, vamos ceiar. É quasi madrugada;
+É a hora do tom, a hora consagrada
+Para os ricos festins á viva luz do gaz.
+É a hora da morte, a hora do atahude,
+E a mesma em que repoisa a candida virtude
+ Nos braços de Faublas.
+
+Anda não tenhas medo, entra no restaurante.
+A sala está repleta. A purpura brilhante
+Dos desejos inflama os sonhos tentadores.
+O champanhe sacode os craneos embriagados,
+E os crimes sensuaes e os vicios delicados
+Rompem n'um turbilhão de venenosas flôres.
+
+O punch, illuminando as faces cadavericas,
+Faz-nos imaginar as saturnaes chimericas
+Que á noite deve haver na _morgue_ de Paris,
+Aonde as cortezãs, mais roxas que as violetas,
+Ao luar cantarão as verdes cançonetas
+ Das podridões gentis.
+
+Volteiam pelo ar os ditos picarescos,
+Elasticos, febris, doidos, funambulescos,
+Como gnomos de luz vestidos de histriões,
+Dançando, tilintando os guisos argentinos,
+Fazendo á luz do gaz tregeitos libertinos
+Com o riso cruel das hallucinações.
+
+Ceiemos. Manda vir as coisas que preferes;
+E que nos vão buscar duas ou tres mulheres,
+ Que as ha perto d'aqui;
+O mais, pede por boca, o meu divino mestre;
+Mas escuta, olha lá, não peças mel silvestre,
+Porque já se não usa e riem se de ti.
+
+E agora é destampar a rubra fantasia!
+Bebe, pragueja, ri, inventa, calumnia,
+Anda! mostra que tens espirito, ladrão!
+Não quero vêr chorar os olhos teus contrictos;
+Sê canalha com graça, infame com bons ditos,
+ Vamos, semsaborão!
+
+Conta-nos em voz alta historias bem galantes,
+ Segredos irritantes,
+ Vergonhas sensuaes,
+Adulterios da moda, escandalos, miserias,
+Tudo isto, já se vê, com optimas pilherias,
+ Bastante originaes.
+
+Tu precisas perder esse teu ar de adventicio
+ E um certo horror ao vicio,
+ D'um pedantismo ignaro;
+Formosura sem vicio é coisa que não tenta;
+O vicio, meu amigo, é bom como a pimenta,
+E o defeito que tem é ser um pouco caro.
+
+Conversemos, alegra a tua fronte augusta.
+Sê espirituoso, inventa, o que te custa!
+Uma infamia qualquer muitissimo engenhosa...
+Tens um amigo? bem, vamos calumnial-o;
+Tens amantes? melhor, eu dou-te o meu cavallo
+ E dás-me a mais formosa.
+
+Parece que o rubor te vai subindo ás faces...
+ Ó Filho, não me masses!
+ Ó Filho, tem piedade!
+Deixa-te de sermões; no fim de contas eu
+Sou muito bom christão... um poucochinho atheu,
+Como um christão qualquer da fina sociedade.
+
+Saiamos; rompe a aurora. A burguezia dorme,
+ Como a giboia enorme
+Que resona, depois de devorar um toiro;
+Ó giboia feliz, ó burguezia, ò pança,
+ Dorme com segurança
+Que a forca está de guarda aos teus bezerros d'oiro.
+
+E chama-se Progresso, ó Deus, esta farçada!
+Isto é o cinismo alvar e em pêllo, à desfilada,
+É a prostituição ignobil da mulher,
+São desejos brutaes, é carne em plena orgia,
+Emfim a saturnal da podre burguezia,
+Que resa como o papa e ri como Voltaire.
+
+Morrendo o velho Deus, o velho Deus tirano,
+Este mundo burguez, catholico-romano
+Encontrou-se sem fé, sem dogma, sem moral;
+A justiça era elle o Padre-omnipotente;
+Esse Padre morreu; ficou nos simplesmente
+Um unico evangelho--o codigo penal.
+
+A consciencia humana é um monte de destroços.
+Foram-se as orações, foram-se os padres-nossos,
+Tombou a fé, tombou o céo, tombou o altar;
+E o velho Deus-castigo e o velho Deus-receio
+ É simplesmente um freio
+Para conter a raiva á besta popular.
+
+A crassa burguezia, essa recua fradesca,
+Opipara, animal, silenica, grotesca,
+Namora a Deuza-carne e adora o Deus-milhão;
+E as almas, fermentando assim n'esta impureza,
+Resvalam sensuaes do leito para a meza.
+ Da meza para o chão.
+
+Vendem-se a peso d'oiro as languidas donzellas,
+ Mais torpes que as cadellas,
+Que ao menos dão de graça o libertino amor,
+E o Dever, a Saude, o Justo, o Verdadeiro,
+Esses ricos metaes fundem-se no brazeiro
+D'um sensualismo espresso, atroz, devorador.
+
+A agiotagem, a bolsa, a cotação dos fundos,
+É o principio rei dominador dos mundos,
+É um sangue vital, forte como o cognac.
+Engordae, engordae ó bravos _homens serios_,
+Que servis para dar esterco aos cemiterios
+ E musica a Offenbak.
+
+A vergonha morreu, a dignidade foi-se.
+_O mundo official_ è um vergonhoso alcoice,
+E a plebe tripudiando em horridas orgias
+Lança sobre o Direito um pustulento escarro,
+E acende, cambaleando, a ponta do cigarro
+Na fogueira que abrasa o Louvre e as Tulherias.
+
+A familha é um bordel. Os leitos sensuaes
+São verdadeiramente esgotos seminaes,
+ Eroticas latrinas,
+Onde entre o tumultuar d'um debochado goso
+Se fabrica de noite o sangue escrofuloso
+ Das raças libertinas.
+
+Calemo-nos. Eu oiço as ferraduras de Argus.
+É a Ordem e a Lei; correm a trotes largos,
+Vêm n'esta direcção, esconde-te, Jesus!
+Metamo-nos aqui n'um beco, anda ligeiro!
+Que, se sabem quem és, meu velho petroleiro,
+Mandam-te pendurar segunda vez na cruz.
+
+E agora, Filho, adeus. Eu vou dormir um pouco,
+ E tu, meu pobre louco,
+Descança inda que seja um breve quarto d'hora;
+Tingem-se de vermelho as bandas do Oriente,
+É hoje a Alleluia, e necessariamente
+Tens de resuscitar logo ao romper d'aurora.
+
+Eu mais feliz que tu, simples mortal que sou,
+ Eu, meu amigo, vou
+Dormir até que chegue a hora do jantar.
+Adeus, e resuscita apenas surja o dia;
+Se queres vem dormir á minha hospedaria,
+ Que eu mando-te acordar.»
+
+E Arouet partiu, soltando uma cruel risada
+E Jesus ficou só na noite desolada,
+N'aquella colossal Babilonia impudente,
+Entre quatro milhões do almas--quatro milhões
+De tigres, do reptis, de abutres e de leões
+Agachados na sombra ameaçadoramente!...
+
+Quem a visse do alto essa Londres deserta
+Com a fosforencia esmorecida, incerta
+Da luz do gaz a arder sob um cèo tumular,
+Julgaria estar vendo um grande monstro escuro,
+Como que um Leviatham putrido n'um monturo
+ Immenso a fermentar.
+
+A noite era sinistra. Os ventos a galope
+Resfolegavam como as forjas d'um ciclope
+Com uivos de alienado e rugidos de feras.
+E o mar bramia ao longe athletico, espumante
+Qual marmita profunda a ferver trovejante
+ Sobre cem mil crateras.
+
+E Christo foi andando errante, vagabundo
+Atravez dessa vasta imperatriz do mundo,
+Opulenta Gomorra hidropica do vicio,
+Que Deus não enxofrou talvez, como costuma,
+Porque além de estar caro o enxofre, Deus em suma
+Já não pode arruinar-se em fogos de artificio.
+
+E elle ia vendo os mil palacios portentosos
+Onde a besta feliz dormia, ebria de gosos,
+ Um inefavel somno.
+Em quanto que a miseria anonima, esfaimada
+ Ás tres da madrugada
+Disputava o jantar no enxurro aos cães sem dono.
+
+As altas cathedraes, aonde a borguezia
+Vai arrotar um pouco á missa do meio dia;
+Tinham como que o ar d'um theatro fechado
+O aspecto mercantil d'um armazem colosso,
+Em que Deus ao balcão vende os dogmas por grosso
+ E o céo por atacado.
+
+Os bancos, Pantagrueis do milhão, monumentos
+De marmore e granito e bronze, somnolentos
+Molochs, cuja pança obesa é um matadouro,
+Na virtuosa paz de monstros em descanço
+ Digeriam de manso
+Nos seus ventres de ferro um Himalaia d'oiro.
+
+Nos mundos hospitaes, onde emfim a desgraça
+Tem a consolação do agonisar de graça,
+Santos, monstros, heroes,--Tropmans, Valgeans, Phrinés--
+Anciavam no estertôr do tranze derradeiro,
+--Lixo que um bonzo vae entregar a um coveiro
+ Para o calcar aos pés.
+
+E era aquella immundicie humana a humanidade!
+Tinha valido bem a pena na verdade
+Pregado n'uma cruz morrer como um ladrão,
+Para ao cabo de dois mil annos vir achar
+Pilatos sob o throno e Caifaz sobre o altar
+De diadema na fronte e baculo na mão!
+
+Arrazou-se de pranto o olhar do Nazareno,
+Aquelle olhar profundo, aquelle olhar sereno
+Que outr'ora deu alivio a tantos corações,
+E a linha virginal de seu perfil suave
+Turbou-se, apresentando o aspecto mudo e grave
+ Daz nobres afflições.
+
+E marmoreo, espectral, com a fronte sombria
+Banhada no suor sangrento da agonia
+Foi deitar-se outra vez na leiva tumular,
+Athleta que expirou tranzido de mil dôres
+E quer dormir, dormir entre as hervas e as flores
+Onde escorre piedosa a branca luz do luar.
+
+E quando a christandade á volta do meio dia
+Correu ao templo a ver o entremez da Alleluia,
+Em logar d'um Jesus banal de ciclorama
+ Subindo ao firmamento,
+D'olhos azues n'um céu d'anil, tunica ao vento,
+Sobre nuvens de gloria, de algodão em rama,
+
+Viu-se na tela um Christo em furia, um visionario,
+Truculento, febril, colerico, incendiario,
+Como que um salteador fugido das galés,
+Na bôca uma blasfemia e no olhar um archote,
+Expulsando da egreja os christãos a chicote
+E expulsando do altar o papa a pontapés!
+
+
+
+
+A BARCA DE S. PEDRO
+
+
+Na barca de S. Pedro ex-santo, hoje banqueiro,
+São tantos os caixões com bulas da cruzada,
+E tanto o oiro em barra, as joias, o dinheiro,
+O navio é tão velho e a carga é tão pesada;
+
+Os anneis, os setins, as purpuras, as rendas,
+As mitras d'oiro fino, os bentos, as imagens,
+As pratas, os cristaes, os vinhos, as of'rendas,
+Os meninos do côro, os famulos, os pagens;
+
+O macisso tropel de conegos vermelhos,
+De sacristas, bedeis, archeiros, missionarios,
+E o damasco, o velludo, os bronzes, os espelhos,
+o silabus, a curia, as forcas, os rosarios;
+
+As pipas e os toneis com aguas milagrosas,
+Que ainda causam hoje o mais profundo assombro;
+Dos velhos cardeaes as cortezãs formosas,
+E o cura Santa Cruz de bacamarte ao hombro;
+
+Esta orgia pagã, esta riqueza immensa
+Atulham de tal forma a barca ultramontana,
+É tão desenfreado o vento da descrença,
+E o mar é tão revolto, a carga é tão mundana;
+
+Que a barca do senhor, outr'ora dirigida
+Por doze galileus descalços, quasi nus,
+Ella que atravessava o grande mar da vida
+Tendo só por farol os olhos de Jesus;
+
+A barca que atravez do horror da tempestade,
+Arvorando no mastro o pavilhão da Esp'rança,
+Levava os corações de toda a cristandade
+Ao grande porto ideal da Bemaventurança;
+
+Hoje ao peso cruel d'este deboche hediondo
+Essa barca da Egreja, esse colosso antigo
+Sossobrará, o Deus, com pavoroso estrondo,
+Indo dormir ao pé dos _galeões de Vigo_.
+
+
+
+
+LADAINHA
+
+
+S. Ignacio
+
+ Bemdicto quem nos dá o pão de cada dia.
+
+
+Coro de Santos
+
+ Bemdicta a Estupidez, bemdicta a Hipocrisia.
+
+
+S. Ignacio
+
+ Bemdicta seja a forca erguida sobre o mundo.
+
+
+Coro de Santos
+
+ Bemdicto Carlos sete e D. Miguel segundo.
+
+
+S. Ignacio
+
+ Bemdicto seja o tigre e o lobo carniceiro.
+
+
+Coro de Santos
+
+ Bemdicto seja el-rei D. João terceiro.
+
+
+S. Ignacio
+
+Bemdictas sejaes vós, ovelhas de Maria.
+
+
+Coro de Santos
+
+ E mais a vossa lã, e mais quem n'a tosquia.
+
+
+S. Ignacio
+
+ Bemdictos os chacaes, bemdictas as toupeiras.
+
+
+Coro de Santos
+
+ E a lingua da verdade e as linguas das fogueiras.
+
+
+S. Ignacio
+
+ Bemdictos os febris venenos orientaes.
+
+
+Coro de Santos
+
+ E o Santo padre Borgia e muitos Santos mais...
+
+
+S. Ignacio
+
+ Bemdicta a nossa Fé, bemdicta a nossa Egreja.
+
+
+Coro de Santos
+
+Bemdicto o nosso ventre! Amen. Bemdicto seja!
+
+
+
+
+COMO SE FAZ UM MONSTRO
+
+
+I
+
+
+Elle era n'esse tempo uma creança loira
+Vivendo na abundancia agreste da lavoira,
+Ao vento, a chuva, ao sol, pastoreando os gados,
+Deitando-se ao luar nas pedras dos eirados,
+Atravessando á noite os solitarios montes,
+Dormindo a boa sésta ao pé das claras fontes,
+Trepando aos pinheiraes, ás fragas, aos barrancos,
+No rijo e negro pão cravando os dentes brancos,
+Radioso como a aurora e bom como a alegria.
+Quando no azul do céo cantava a cotovia,
+Aos primeiros clarões vibrantes da alvorada
+Transportava ao casebre o leite da manada,
+Acordando, a assobiar e a rir pelos caminhos,
+Os lebreus nos portaes e as aves nos seus ninhos.
+E á tarde quando o sol, extraordinario Rubens,
+Na fantasmagoria esplendida das nuvens,
+Colorista febril, lança, desfaz, derrama
+O topasio, o rubi, a prata, o oiro, a chama,
+Elle ia então sosinho, alegre intemerato,
+Conduzindo a beber ao tremulo regato,
+A golpes de verdasca e gritos estridentes,
+N'um ruidoso tropel os grandes bois pacientes.
+O seu olhar azul de limpidez virtuosa,
+Onde brilhava a audacia heroica e valorosa
+A candura infantil e a intelligencia rara,
+O timbre da sua voz imperiosa e clara,
+A linha do seu corpo altivamente recta,
+Tudo lhe dava o ar soberbo d'um athleta
+Em miniatura.
+
+
+II
+
+
+ Um dia o pae, um bravo aldeão,
+Chamou-o ao pé de si, e disse-lhe:
+
+ «João:
+
+Á força de trabalho e a força de canceiras
+A moirejar no monte e a levar gado ás feiras,
+Consegui ajuntar ao canto do bahù
+Alguns pintos. Vocês são dois rapazes; tu,
+Além de ser mais novo, és mais intelligente.
+Vou botarte ao latim; quero fazer-te agente.
+Hasde-me dar ainda um grande prégador.
+Hoje padre é melhor talvez que ser doutor.
+Aquillo è grande vida; é vida regalada.
+Olha, sabes que mais? manda ao diabo a enxada.
+Aquillo é que é vidinha! aquillo é que é descanço!
+Arrecada-se a congrua, engrola-se o ripanço,
+Arranja-se um sermão ahi com quatro tretas,
+Vai-se escorropichando o vinho das galhetas,
+
+E a missa seis vintens e doze os baptisados.
+Depois independente e sem nenhuns cuidados!
+Olha, João, vê tu o nosso padre cura:
+É, sem tirar nem pôr, uma cavalgadura.
+Vi-o chegar aqui mais roto que os ciganos;
+Pois tem feito um casão em meia duzia d'annos.
+Isto é desenganar; padres sabem-na toda...
+É o sermão, é a missa, é o enterro, é a boda,
+É pinga da melhor, é tudo quando ha!
+Quando o abade morrer hasde vir tu p'ra cá.
+Despacha-te o doutor nas côrtes; quando não
+Votamos contra elle, e foi-se-lhe a eleição.
+Mas que é isso, rapaz? Nada de choradeira!
+É tratar da merenda, e quinta ou sexta-feira
+Toca pr'o seminario. Eu quero ir para a cova
+Só depois de ti ouvir cantar a missa nova.»
+
+
+III
+
+
+N'uma tarde d'outomno a somnolente trote
+Um macho conduzia em cima do albardão,
+Já columna da egreja, o novo sacerdote,
+O muitissimo illustre e digno padre João.
+Ao entrarem na aldeia os dois irracionaes,
+Dos foguetes ao grande e jubiloso estrepito
+Um velho recebeu nos braços paternaes,
+Em vez do alegre filho, um monstro já decrepito
+Que acabava de vir das jaulas clericaes.
+Que transfigurão! que radical mudança!
+Em logar da innocente, angelica creança,
+Voltava um chimpanzé estupido e bisonho.
+Com o ar de quem anda hallucinadamente
+Preso nas espiraes diabolicas d'um sonho.
+Seu corpo juvenil, robusto e florescente
+Vergava para o chão exhausto de cansaço:
+Os dogmas são de bronze, e a lã d'uma batina
+Já vai pesando mais que as armaduras d'aço.
+A ignorancia profunda, a estupidez suina
+A luxuria d'egreja, ardente, clandestina,
+O remorso, o terror, o fanatismo inquieto,
+Tudo isto perpassava em turbilhão confuso
+Na atonia cruel d'aquelle hediondo aspecto,
+Na morna fixidez d'aquelle olhar obtuso.
+Metida nas prisões escuras de Loyola
+A sua alma infantil, não tendo luz nem ar.
+Foi com os rouxinoes, que dentro da gaiola
+Perdem toda alegria, e morrem sem cantar.
+
+
+IV
+
+
+Como ninguem ignora, os sordidos palhaços
+Compram, roubam às mães as loiras creancinhas,
+Torcem-lhes o pescoço, as mãos, os pés, os braços,
+Transformam-lhes n'um juco elastico as espinhas,
+E exhibem-nas depois nos palcos das barracas
+Dando saltos mortaes e devorando facas
+Ante o espanto imbecil da ingenua multidão;
+E para lhes cobrir a lividez plangente
+Costumam-lhes pintar carnavalescamente
+Na face de alvaiade um rir de vermelhão.
+Tambem o jesuitismo hipocrita-romano,
+Palhaço clerical, anda pelos caminhos
+A comprar, a furtar, assim como um cigano,
+As creanças ás mães, os rouxinoes aos ninhos.
+Vão leval-as depois ao negro seminario,
+Ás terriveis galés, ao sacro matadoiro,
+E escondem-nas da luz, assim como o usurario
+Esconde tambem d'ella os seus punhados d'oiro.
+Dentro da estupidez e da superstição,
+Casamata da fé, guardam-lhes a razão,
+A analize, esse forte e venenoso fluido,
+Que, andando em liberdade, ao minimo descuido
+Poderia estoirar com tragica explosão.
+O que o palhaço faz ao corpo da creança
+Fazem-lh'o á alma, até que d'ella reste emfim,
+Em logar do histrião que nas barracas dança,
+O pobre missionario, o inutil manequim,
+O histrião que nos prega a bemaventurança
+A murros do missal e a roncos de latim.
+As almas infantis são brandas como a neve,
+São perolas de leite em urnas virginaes.
+Tudo quanto se grava e quanto ali se escreve
+Cristalisa em seguida e não se apaga mais.
+D'esta forma consegue o astucioso clero
+Transformar de repente uma creança loira
+N'um passaro nocturno estupido e sincero.
+É abrir-lhe na cabeça a golpes de tesoira
+A marca industrial do fabricante--um zero!
+
+
+
+
+CALEMBOUR
+
+
+Ó Jesuitas, vois sois dum faro tão astuto,
+Tendes tal corrupção e tal velhacaria,
+Que é incrivel até que o filho de Maria
+Não seja inda velhaco e não seja corrupto,
+Andando ha tanto tempo em tão má _companhia_.
+
+
+
+
+A AGUA DE LOURDES
+
+
+Se ergueis uma capella á agua milagrosa,
+ Esse elixir divino,
+Então erguei tambem um templo á caparosa
+ E outro templo ao quinino.
+
+Se a agua faz milagre, o que eu vos não discuto,
+ E por isso a adorais,
+Ajoelhemos então em face do bismuto
+ E d'outras drogas mais.
+
+Façamos da magnesia e cloroformio e arnica
+ As hostias do sacrario;
+Transformemos o templo emfim n'uma botica
+ E Deus n'um boticario.
+
+Que a vossa agua opere immensas maravilhas
+ Eu não duvido nada:
+É o Espirito Santo engarrafado em bilhas,
+ É o milagre á canada.
+
+Desde que se espalhou pelo universo o echo
+ Do milagre feliz,
+Tartufo nunca mais encheu o seu caneco
+ Em outro chafariz!
+
+
+
+
+ANTONELLI
+
+
+Uma loba emprenhou um dia de Tartufo,
+E Antonelli nasceu d'este consorcio bufo.
+
+O seu labio despresa; o seu olhar dardeja.
+Cassagnac de Deus, guarda-costas da Egreja,
+
+Redige as pastoraes brutaes de que se nutre
+Co'um tinteiro de treva e uma penna de abutre.
+
+Bossuet-Ferrabraz e Falstaf-Isaias.
+Bebe petroleo negro e gim nas sacristias.
+
+Não ha pomba mais tigre ou Santo mais demonio:
+Fera,--como Caim! rato,--como Polonio!
+
+N'aquelle olhar nocturno, inquizidor, que assusta,
+Ha Nero a murmurar nas sombras com Locusta.
+
+O cabeção que traz na batina de lilla
+Erriçam-no punhaes: era d'um cão de fila.
+
+O tigre deu-lhe o amor e o bode a castidade,
+Para um dia expulsar do mundo a Liberdade
+
+Fez um latego atroz, que corta e que esfarrapa,
+Atando uma serpente ao baculo de um papa.
+
+Quando observo esse monstro, essa alimária brava,
+Hercules que talhou d'um hyssope uma clava,
+
+Ao vêr-lhe os rins de bronze, e ao vêr-lhe a erecta fronte,
+Creio estar contemplando ao longe, no horisonte,
+
+Entre o rubro esplendor d'uma manhã sonora,
+Um bufalo de treva ás cornadas na aurora!
+
+
+
+
+O DINHEIRO DE S. PEDRO
+
+
+De tal modo imitou o papa a singileza
+ Do martyr do Calvario,
+Que á força de gastar os bens com a pobreza
+ Tornou-se milionario.
+
+Tu hoje pódes vêr, ó filho de Maria,
+ O teu vigario humilde
+Conversando na bolsa em fundos da Turquia
+Com o Barão Rotschild.
+
+A cruz da redempção, que deu ao mundo a vida
+ Por te aver dado a morte.
+Tem-a no seu _bureau_ o padre santo erguida
+ Sobre uma caixa forte.
+
+E toda essa riqueza immensa, acumulada
+ Por tantos financeiros,
+O que é a economia, oh Deus! foi começada
+ Só com trinta dinheiros!
+
+
+
+
+AO NUNCIO MASELLA
+
+
+O Padre Eterno está coberto do masellas,
+E tu, (teu nome o atesta, ó bonzo,) és uma d'ellas.
+Masella, escuta:
+
+ Deus, o Deus em que acredito,
+Essa luz que allumina essa noite--o infinito,
+Esse efluvio d'amor que em tudo anda disperso,
+Espirito que, enchendo o abismo do universo.
+Cabe com todo o seu vastissimo esplendor
+N'um olhar de creança ou n'um calix de flor,
+Esse Deus immortal, unico, bom, clemente,
+O Deus de quem tu es o hereje e eu sou o crente,
+Esse Deus ó Masella, é um Deus plebeu e humilde,
+Cuja firma não dá nos banqueiros Rotschild
+Credito algum, um Deus descalço e proletario.
+Que em vez de libras guarda em seu profundo erario
+Montões d'astros, um Deus do tal maneira vil,
+Que não tem cortezãos, não tem lista civil,
+Nem bispos, nem cardiaes, nem sacristães, nem tropa,
+Nem nuncios para dar pelas côrtes da Europa
+Em doirados salões e esplendidas estufas
+Festins onde se serve o Evangelho com trufas,
+A Biblia com champagne, e a alma de Jesus,
+Bem picada, recheiando os faisões e os perus!
+
+Embaixador de quem? de Christo? não; do papa.
+Quem é o papa?
+
+ Um Deus inventado á sucapa,
+Um Deus para fazer o qual bastam apenas
+Quatro coisas:--cardeaes, papel, tinteiro e pennas.
+Deita-se n'uma saca uma lista qualquer.
+Qualquer nome--Gregorio, ou Borgia, ou Lacenaire,
+Ou Papavoine--e prompto! em dois minutos fica
+Manipulado um Deus authentico, obra rica,
+Tonsurado, sagrado, infalivel, divino...
+Quer dizer, sahiu Deus d'uma bolsa do quino!
+É um Deus por concurso, um Deus feitos por tretas,
+E em cuja divindade ideal ha favas pretas!
+Apezar disso é Deus. Vai pousar-lhe no seio
+O Espirito Santo, esse pombo correio
+Da Providencia. É elle o redemptor e o oraculo.
+A humnidade vai adiante do seu baculo,
+Soluçando, ululando, exhausta, ensanguentada
+Pavoroso tropel de sombras pela estrada
+Do destino fatal. O pensamento humano
+É simplesmente um cão sabujo e ultramontano,
+Um cão vadio, um cão faminto, um cão impuro,
+Que o papa recolheu de noite n'um monturo,
+E a quem ás vezes dá com parcimonia biblica,
+A pitança d'um Breve e o osso d'uma Enciclica.
+Um papa é isto:--um juiz sem lei; omnipotente.
+Czar das consciencias. Póde irremessivelmente
+Chamuscal-as em fogo, ou torral-as em brazas,
+Ou fazer-lhes nascer das costas um par d'azas.
+O globo é para elle a bôla d'um bilhar.
+Domina os reis. O Throno é o lacaio do Altar.
+Seus templos são prisões e seus dogmas algemas.
+Cingem-lhe a fronte augusta e nobre os tres diademas,
+E na potente mão, invencivel harpeu,
+Tem as chaves do inferno... e a gazua do céu.
+
+Masella, o theatro é velho, a receita é pequena,
+E ha mil annos que está a mesma farça em scena.
+Abaixo a farça! Abaixo o pardieiro divino,
+O céo, que já não tem nem sombras de inquilino.
+Serafins, cherubins, anjos, legião eterna
+Dos eleitos, tudo isso andou, poz-se na perna,
+Deixando lá ficar, ó cafila d'ingratos!
+O cadaver d'um Deus roido pelos ratos.
+Abaixo o inferno, aonde os démos, meus Irmãos,
+Não têm fogo se quer para aquecer as mãos;
+Porquê lá onde a curia os rebeldes despenha
+Ha sobra do infieis, mas ha falta de lenha.
+Já nem é forno; aquillo é adega sombria,
+Onde o defluxo faz a côrte á pneumonia,
+E onde não ha nariz precito que ande enxuto.
+Cada heresiarca suja um lenço por minuto,
+De modo que hoje o inferno (oxalá que m'o evites,
+Masella!) é de temer por causa das bronchites.
+Abaixo o purgatorio! Entre chamma ex-faminta,
+Que reclama com ancia algumas mãos de tinta,
+Gelam reprobos nus, reprobos em pelote,
+Que precisam d'um fogo, ó céos, ou d'um capote!
+Abaixo a farça! abaixo o entremez da paixão,
+Porque o Christo é de gesso e a cruz de papelão.
+Abaixo essa parodia infame em que agonisa
+N'um Golgota de lona um clown sem camisa
+Que, depois d'expirar convulso, de repente
+Salta abaixo da cruz funambulescamente,
+E arranca às multidões assombradas e mudas
+A esportula--que cai no saquitel do Judas.
+
+Não! o martyr que fez com o seu olhar sublime
+O luar do Perdão para a noite do Crime,
+E que abriu com a luz da bemaventurança
+N'este carcere--a vida, esta janella--a Esp'rança,
+O semi-deus que està, com um farol de gloria
+No topo da montanha escalvada da historia
+Contemplando o infinito e illuminando a terra,
+Essa alma que a flôr da alma humana encerra,
+Não é vossa, não é de qualquer confraria
+Que dispõe d'uma adega escura, d'uma pia
+E d'um padre, não tem o domicilio em Roma,
+Não é vinho nem pão que se beba ou se coma,
+Merendando, em familia. Ess'alma Universal,
+Essa concentração divina do Ideal
+É de quem soffre, é de quem geme, é de quem chora,
+É de todos que vão pela existencia fóra
+Tristes--santo, ou heròe, ou escravo, ou proscripto,
+Calcando o lodo e olhando os astros no Infinito.
+Quando Christo inclinou, morrendo, a fronte calma,
+Foi a Egreja buscar-lhe o corpo e o mundo a alma.
+A Egreja recolheu a cinza e nós a luz.
+E, louca! julgou ser a esposa de Jesus,
+Porque estreitava ao peito um cadaver gelado!
+Dez seculos durou na treva esse noivado.
+Dez seculos passou a funebre bacante
+N'um sepulchro a oscular as gangrenas do amante,
+Unido a cada chaga immunda um beijo em flôr,
+Tentando reviver ao furioso calor
+D'esses beijos um corpo inanimado e frio.
+Que tragedia dantesca esse himeneu sombrio!
+Pobre Heloisa da morte, o teu casto Abeillard
+Nem para ti abriu o azul do seu olhar,
+Nem murmurou baixinho uma palavra só!
+E o Deus tornou-se em lodo abjecto e o lodo em pó!
+E na campa nupcial, no talamo--sentina,
+Da carcassa d'um Deus funebre Messalina,
+Putrefacta expiraste ao pé da podridão.
+É que um cadaver, seja ou d'um Christo ou d'um cão.
+Materia morta, exhala a mesma pestilencia.
+Só a alma é immortal; só essa pura essencia,
+Jámais se decompõe ou jàmais se aniquila.
+O corpo é simplesmente a alampada de argila;
+A alma, eis o clarão. Por isso o Nazareno
+Pertence ao mundo. Tu escolheste o veneno,
+O cadaver, e nós o Espirito, a alvorada.
+E foi com essa hostia esplendida e sagrada,
+Com a alma de luz do Filho e Maria
+Que o mundo celebrou a grande eucharistia,
+Egreja!... O coração da victima innocente
+Comungamol-o nós: diluiu-se ethereamente,
+Cheio de paz e amor, no coração humano.
+Foi um sol que expirou. Onde tombou? No oceano.
+
+Mas como, p'ra poder explorar sem canceira
+Com o inferno--essa mina, a terra--essa melgueira,
+O velho Padre-Santo, o Redemptor-Tichborue,
+Precisa d'um Jesus sangrento que lhe adorne
+O altar, e aos pés do altar necessita que esteja
+Toda banhada em pranto a noiva eterna, a Egreja,
+E como o noivo e a noiva ambos tinham morrido,
+O Padre Santo, que é um padre divertido,
+Mandou escripturar então por um cornaca
+Uma Egreja a um bordel e um Christo a uma barraca.
+
+Fóra esse Deus! Abaixo esse Deus salafrario,
+Deus com ramo de loiro á porta do Calvario,
+Deus que marcha ao suplicio, á epopeia da Dôr
+Com Cyreneu na frente a rufar n'um tambor,
+Deus de quem Harpagão é caixeiro e Tartufo
+Guarda livros, um Deus palhaço, um Christo bufo,
+Um martyr de aluguel, ebrio, que se apregoa
+Com guisos atinir nos espinhos da c'roa,
+Um Deus a quem Mandrin passou folha corrida,
+Um Deus que fez da morte o seu modo de vida,
+Um Deus que representa a farça da Paixão
+Pintado, ensanguentado a vinho e a vermelhão,
+Um Deus que sobe ao céo, acrobata farnesio,
+Em aerostato, a vai no banho d'um trapesio
+A fazer o signal da cruz e a prancha com limpeza
+Identica, arrojando á multidão surpreza
+Bençãos anjelicaes variadas e embrulhadas
+Em prospectos, e emfim descendo ás gargalhadas,
+Para ir repartir em qualquer sacristia
+Os lucros da função por toda a companhia!
+
+Que regabofe! O Christo, um magro actor de fama,
+Estropeado galan senil depois do drama,
+Lava o gesso e o zarcão da tromoia sangrenta
+Com a esponja do fel na pia da agua benta.
+A Magdalena, vesga e sordida rameira,
+Guarba os seios de estopa, o prato, a cabelleira,
+Limpa a maceração do olhar, que causa asco,
+Feita a rolha queimada e inutil d'algum frasco
+De mercurio ou de absinto, e, como uma alcateia,
+Atira-se esfaimada ao bacalhau da ceia.
+O bom do Cyrineu, a transpirar, pragueja;
+Manda aos quintos a cruz e manda ao diabo a egreja;
+Despe a farpela, e bebe a rir alegremente,
+D'um trago só, canada e meia de aguardente.
+Pilatos o pançudo e calvo safardana
+Ronca, dormindo. A vil soldadesca romana
+Tira as barbas, e põe muitissimo pacata
+N'um bahu--os morriões e espadagões de lata.
+O bom e o máo ladrão jogam a bisca. O anjo
+Que partira o sepulchro, um robusto marmanjo,
+Desaparafusando as azas d'oiro e o nimbo,
+Pede ao velho Caiphaz lume para o cachimbo
+E grave e silencioso, a um canto o thesoureiro
+--Judas--reparte, empilha em montes o dinheiro
+Da recita, tirando o quinhão do empresario
+--O Papa--a quem pertence o Theatro do Calvario.
+E dividida a prosa e ruminada a orgia,
+Ao sagrado e doirado alvorescer do dia,
+Lá vai esse roldão de sevandijas podres,
+Cambaleante tropel de ventres feitos odres.
+Indo dormir talvez, oh pandega, oh delicia!
+Jesus co'a Magdalena--á esquadra de policia.
+
+Vamos! basta de farça, e basta de farçantes!
+Mil bombas a vapor jorrem desinfectantes
+N'esse velho bordel da Egreja--o vaticano,
+Colera! faz-te mar, Justiça! faz-te oceano,
+E inundae, submergi o Versalhes maldito
+De Jehovah--Rei-sol macrobio do infinito.
+Vamos, fogo ao covil! E emquanto os salteadores,
+Nuncios, bispos, cardeaes, conegos, monsenhores,
+--Truculenta manada obesa de hipopotamos--
+Virgem-mãe dos heróes, ó Liberdade! enxotam'os,
+E faze-m'os transpor, a grunhir, sem demoras
+As fronteiras do globo em vinte e quatro horas!
+
+
+
+
+LADAINHA MODERNA
+
+
+S. Leão 13--dai-nos bons bispados,
+S. Leão 13--que nos possam dar
+S. Leão 13--vinte mil crusados.
+S. Leão 13--fòra o pé d'altar.
+
+Santo Antonelli--dai-nos confessadas
+Santo Antonelli--novas, já se vê;
+Santo Antonelli--é melhor casadas,
+Santo Antonelli--bem sabeis porque...
+
+Ó Santo Borgia--ha tanta gente avara!...
+Ó Santo Borgia--ha tantos imbecis!...
+Ó Santo Borgia--como se prepara,
+Ó Santo Borgia--o tal xarope... diz!...
+
+Santa de Lourdes--sois incomparavel!
+Santa de Lourdes--muita agua deita
+Santa de Lourdes--vossa inexgotavel
+Santa de Lourdes--fonte... de receita!
+
+Ó Santa madre--miseros, mesquinhos,
+Ó Santa madre--vemo-nos atonitos,
+Ó Santa madre--p'ra educar sobrinhos
+Ó Santa madre que tem paes incognitos.
+
+Ó Santa egreja mete-nos, no buxo
+Ó Santa egreja--p'ra dár tom á fibra,
+Ó Santa egreja--alguns te-deuns de luxo
+Ó Santa egreja--e muita missa a libra
+
+Santo Cinismo--chapa-nos nas faces
+Santo Cinismo--um tal estanho emfim,
+Santo Cinismo--que tu mesmo embaces
+Santo Cinismo--ao vêr cinismo assim.
+
+Santa Intrugice--entrega as almas toscas
+Santa Intrugice--ás nossas artimanhas...
+Santa Intrugice--Deus destina as moscas
+Santa Intrugice--ao papo das aranhas.
+
+S. Regabofe--dai-nos bambochatas
+S. Regabofe--até rollar não chão...
+S. Regabofe--pipa e sermonatas!
+S. Regabofe--porco e cantochão!
+
+Santa Barriga--unica santa nossa,
+Santa Barriga--grande santa és!
+Santa Barriga--alarga, estende, engrossa
+Santa Barriga--e vai da boca aos pés
+
+Santa Preguiça--Santa que consolas,
+Santa Preguiça--não ha nada igual
+Santa Preguiça--a um bom colchão de molas
+Santa Preguiça--e mais etcet'ra e tal!...
+
+S. Venha-a-nós--realisa este desejo,
+S. Venha-a-nós--ingenuo e timorato:
+S. Venha-a-nós--faz do universo um queijo
+S. Venha-a-nós--e faz de nós um rato!
+
+
+
+
+O MELRO
+
+
+ O melro, eu conheci-o:
+Era negro, vibrante, luzidio,
+ Madrugador, jovial;
+ Logo de manhã cedo
+Começava a soltar d'entre o arvoredo
+Verdadeiras risadas de cristal.
+E assim que o padre cura abria a porta
+ Que dá para o passal,
+Repicando umas finas ironias,
+ O melro d'entre a horta
+ Dizia-lhe: «Bons dias!»
+ E o velho padre cura
+Não gostava d'aquellas cortezias.
+
+O cura era um velhote conservado,
+Malicioso, alegre, prasenteiro;
+Não tinha pombas brancas no telhado,
+ Nem rosas no canteiro;
+Andava ás lebres pelo monte, a pé,
+ Livre de rheumatismos,
+Graças a Deus, e graças a Noé.
+O melro despresava os exorcismos
+ Que o padre lhe dizia:
+Cantava, assobiava alegremente,
+ Até que ultimamente
+ O velho disse um dia:
+
+«Nada, já não tem geito! este ladrão
+ Dá cabo dos trigaes!
+ Qual seria a rasão
+Porque Deus fez os melros e os pardaes?!»
+
+ E o melro no entretanto,
+ Honesto como um santo,
+ Mal vinha no oriente
+ A madrugada clara
+Já elle andava jovial, inquieto,
+Comendo alegremente, honradamente,
+Todos os parasitas da seara
+Desde a formiga ao mais pequeno insecto.
+E apezar d'isto o rude proletario,
+ O bom trabalhador,
+Nunca exigiu augmento de salario.
+
+Que grande tolo o padre confessor!
+
+ Foi para a eira o trigo;
+ E armando uns espantalhos
+ Disse o abbade comsigo:
+«Acabaram-se as penas e os trabalhos.»
+Mas logo do manhã, maldito espanto!
+ O abbade, inda na cama,
+Ouviu do melro o costumado canto,
+ Ficou ardendo em chamma;
+ Pega na caçadeira,
+ Levanta-se d'um salto,
+E vê o melro a assobiar na eira
+Em cima do seu velho chapéu alto!
+
+ Chegou a coisa a termo
+Que o bom do padre cura andava enfermo,
+ Não fallava nem ria,
+Minado por tão intimo desgosto;
+E o vermelho oleoso do seu rosto
+Tornava-se amarello dia a dia.
+E foi tal a paixão, a desventura,
+(Muito embora o leitor não me acredite)
+ Que o bom do padre cura
+ Perdera... o appetite!
+
+ * * * * *
+
+Andando no quintal um certo dia
+Lendo em voz alta o _Velho Testamento_
+Enxergou por acaso (que alegria!
+ Que ditoso momento!)
+Um ninho com seis melros escondido
+ Entre uma carvalheira.
+
+E ao vel-os exclamou enfurecido:
+
+«A mãe comeu o fructo prohibido;
+Esse fructo era a minha sementeira:
+ Era o pão, e era o milho;
+ Transmittiu-se o peccado.
+E, se a mãe não pagou, que pague o filho,
+É doutrina da Egreja. Estou vingado!»
+
+E engaiolando os pobres passaritos
+ Soltava exclamações:
+ «É uma praga. Maldictos!
+Dão-me cabo de tudo estes ladrões!
+Raios os partam! andai lá que emfim...»
+
+E deixando a gaiola pendurada
+Continuou a ler o seu latim
+ Fungando uma pitada.
+
+ * * * * *
+
+Vinha tombando a noite silenciosa;
+E caia por sobre a naturesa
+Uma serena paz religiosa,
+ Uma bella tristesa
+Harmonica, viril, indefinida.
+ A luz crepuscular
+Infiltra-nos na alma dolorida
+Um mysticismo heroico e salutar.
+As arvores, de luz inda doiradas,
+Sobre os montes longiquos, solitarios,
+Tinham tomado as fórmas rendilhadas
+ Das plantas dos herbarios.
+Recolhiam-se a casa os lavradores.
+Dormiam virginaes as coisas mansas:
+ Os rebanhos e as flores,
+ As aves e as creanças.
+
+Ia subindo a escada o velho abbade;
+A sua negra, athletica figura
+Destacava na frouxa claridade,
+ Como uma nodoa escura.
+E introduzindo a chave no portal
+ Murmurou entre dentes:
+
+ «Tal e qual... tal e qual!...
+Guisados com arroz são excellentes.»
+
+ * * * * *
+
+Nasceu a lua. As folhas dos arbustos
+Tinham o brilho meigo, avelludado
+Do sorriso dos martyres, dos justos.
+Um effluvio dormente e perfumado
+Embebedava as seivas luxuriantes.
+Todas as forças vivas da materia
+Murmuravam dialogos gigantes
+ Pela amplidão etherea.
+São precisos silencios virginaes,
+Disposições sympathicas, nervosas,
+Para ouvir estas fallas silenciosas
+ Dos mudos vegetaes.
+As orvalhadas, frescas espessuras
+Presentiam-se quasi a germinar.
+Desmaiavam-se as candidas verduras
+Nos Magnetismos brancos do luar.
+...................................
+
+ * * * * *
+
+E n'isto o melro foi direito ao ninho.
+Para o agasalhar andou buscando
+Umas pennugens doces como arminho,
+Um feltrosito assetinado e brando.
+ Chegou lá, e viu tudo.
+Partiu como uma frecha; e louco e mudo
+Correu por todo o matagal; em vão!
+Mas eis que solta de repente um grito
+Indo encontrar os filhos na prisão.
+
+«Quem vos metteu aqui?!» O mais velhito
+Todo tremente, murmurou então:
+
+«Foi aquelle homem negro.--Quando veio
+Chamei, chamei... Andavas tu na horta...
+Ai que susto, que susto! Elle é tão feio!...
+Tive-lhe tanto medo!... Abre esta porta,
+E esconde-nos debaixo da tua aza!
+Olha, já vão florindo as assucenas;
+Vamos a construir a nossa casa
+ N'um bonito logar...
+Ai! quem me dera, minha mãe, ter pennas
+ Para vôar, vôar!»
+
+ E o melro hallucinado
+ Clamou:
+
+ «Senhor! Senhor!
+É por ventura crime ou é peccado
+ Que eu tenha muito amor
+ A estes innocentes?!
+Ó natureza, ó Deus, como consentes
+Que me roubem assim os meus filhinhos,
+ Os filhos que eu criei!
+Quanta dôr, quanto amor, quantos carinhos,
+ Quanta noite perdida
+ Nem eu sei...
+ E tudo, tudo em vão!
+ Filhos da minha vida!
+ Filhos do coração!!...
+Não bastaria a natureza inteira,
+Não bastaria o céo para voardes,
+E prendem-vos assim d'esta maneira!...
+ Covardes!
+A luz, a luz, o movimento insano
+Eis o aguilhão, a fé que nos abraza...
+ Encarcerar a aza
+É encarcerar o pensamento humano.
+A culpa tive-a eu! quasi á noitinha
+ Parti, deixei-os sós ...
+A culpa tive-a eu, a culpa é minha,
+ De mais ninguem!... Que atroz!
+ E eu devia sabel-o!
+Eu tinha obrigação de adivinhar...
+Remorso eterno! eterno pesadello!...
+...........................................
+Falta-me a luz e o ar!... Oh, quem me dera
+ Ser abutre ou ser féra
+Para partir o carcere maldicto!...
+E como a noite é limpida e formosa!
+ Nem um ai, nem um grito...
+Que noite triste! oh noite silenciosa!...»
+
+ * * * * *
+
+E a natureza fresca, omnipotente,
+ Sorria castamente
+Com o sorriso alegre dos heroes.
+ Nas sebes orvalhadas,
+Entre folhas luzentes como espadas,
+ Cantavam rouxinoes.
+
+ Os vegetaes felizes
+Mergulhavam as sofregas raizes
+A procurar na terra as seivas boas,
+Com a avidez e as raivas tenebrosas
+Das pequeninas feras vigorosas
+Sugando á noite os peitos das leoas.
+A lua triste, a lua merencorea,
+ Desdemona marmorea,
+Rolava pelo azul da immensidade,
+Immersa n'uma luz serena e fria,
+ Branca como a harmonia,
+ Pura como a verdade.
+E entre a luz do luar e os sons e as flores,
+Na atonia cruel das grandes dores,
+ O melro solitario
+Jazia inerte, exanime, sereno,
+Bem como outr'ora a mãe do Nazareno
+ Na noite do calvario!...
+Segundo o seu costume habitual,
+ Logo de madrugada
+O padre-cura foi para o quintal,
+Levando a biblia e sobraçando a enxada.
+ Antes de dizer missa,
+O velho abade inevitavelmente
+ Tratava da hortaliça
+E resava a Deus Padre Onipotente
+ Varios trechos latinos,
+Salvando d'esta forma juntamente
+As ervilhas, as almas e os pepinos.
+
+E já de longe ia bradando:
+
+ --«Olé!
+ Dormiram bem?... Estimo...
+ Eu lhes darei o mimo,
+Canalha vil, grandissima ralè!
+Então vocês, seus almas do diabo,
+Julgavam que isto que era só dar cabo,
+ Da horta e do pomar,
+E bico alegre e estomago contente,
+E o camello do cura que se aguente,
+Que engrolle o seu latim e vá bugiar!...
+Grandes larapios!... Era o que faltava.
+ Vocês irem ao milho,
+ E a mim mandar-me á fava!
+Pois muito bem, agora que vos pilho
+Eu vos ensinarei, meus safardanas!
+Vocês são mariolões, são ratazanas,
+Tem bico é certo, mas não tem tonsura...
+E nas manhas um melro nunca chega
+Ás manhas naturaes d'um padre-cura.
+O melhor vinho que encontrar na adega
+É para hoje, olé!... Que bambochata!
+Que petisqueira! Melros com chouriço!...
+ E então a Fortunata
+Que tem um dedo e um geito para isso!...
+Heide comer-vos todos um a um,
+Lambendo os beiços, com tal gana enfim
+Que comendo-vos todos, mesmo assim
+Eu fico ainda quasi que em jejum!
+E depois de vos ter dentro da pança,
+ Depois de vos jantar,
+Vocês verão como o velhote dança,
+Como elle é melro e sabe assobiar!...»
+
+Mas n'isto o padre cura titubiante,
+ Quasi desfallecendo,
+Atonito de horror, parou deante
+ D'este drama estupendo:
+
+O melro, ao ver aproximar o abade,
+ Despertou da atonia,
+Lançando-se furioso contra a grade
+ Do carcere. Torcia,
+Para os partir os ferros da prisão,
+Crispando as unhas convulsivamente
+ Com a furia d'um leão,
+Batalha inutil, desespero ardente!
+Quebrou as garras, depenou as azas
+ E hallucinado, exangue,
+ Os olhos como brazas,
+Heroe febril, a gotejar em sangue,
+Partiu n'um vôo arrebatado e louco.
+ Trazendo dentro em pouco
+Preso no bico um ramo de veneno,
+E bello e grande e tragico e sereno
+Disse:
+ «Meus filhos, a existencia é boa
+Só quando é livre. A liberdade é a lei.
+Prende-se a aza, mas a alma vôa...
+Ó filhos, voemos pelo azul!... Comei!--»
+
+E mais sublime do que Christo quando
+Morreu na cruz, maior do que Catão,
+Matou os quatros filhos, trespassando
+Quatro vezes o proprio coração!
+Soltou, fitando o abade, uma pungente
+Gargalhada de lagrimas, de dôr,
+E partiu pelo espaço heroicamente,
+Indo cahir, já morto, de repente
+N'um carcavão com silveiraes em flôr.
+
+E o velho abade, livido d'espanto,
+ Exclamou afinal:
+
+«Tudo que existe é immaculado e é santo!
+Ha em toda a miseria o mesmo pranto,
+E em todo o coração ha um grito igual.
+Deus semeou d'almas o universo todo.
+Tudo o que vive ri e canta e chora...
+Tudo foi feito com o mesmo lodo,
+Purificado com a mesma aurora.
+Ó misterio sagrado da existencia,
+ Só hoje te adivinho,
+Ao vêr que a alma tom a mesma essencia
+Pela dôr, pelo amor, pela innocencia,
+Quer guarde um berço, quer proteja um ninho!
+Só hoje sei que em toda a creatura.
+Desde a mais bella até á mais impura,
+Ou n'uma pomba ou n'uma fera brava,
+Deus habita, Deus sonha, Deus murmura!...
+..........................................
+..........................................
+Ah, Deus é bem maior do que eu julgava!...»
+
+E quedou silencioso. O velho mundo,
+Das suas crenças antigas, n'um momento,
+Viu-o sumir exhausto, moribundo
+ Nos abysmos sem fundo
+Do tenebroso mar do Pensamento.
+E chorou e chorou... A Egreja, a Crença.
+Rude montanha pavorosa, escura,
+Que enchia o globo com a sombra immensa
+Dos seus setenta seculos d'altura;
+O Himalaia de dogmas triumphantes,
+Mais eternos que o bronze e que o granito,
+Onde aos prophetas Deus falava d'antes
+Entre raios e nuvens trovejantes
+Lá dos confins siderios do infinito;
+Esse colosso enorme, em dois instantes
+Viu-o tremer, fender-se e desabar
+ N'uma ruina espantosa,
+Só de tocar-lhe a aza vaporosa
+D'uma avesinha tremula, a expirar!...
+......................................
+......................................
+E, arremessando a biblia, o velho abade
+Murmurou:
+
+ «Ha mais fé e ha mais verdade
+ Ha mais Deus com certeza
+Nos cardos secos d'um rochedo nú
+Que n'essa biblia antiga... Ó Natureza,
+A unica biblia verdadeira és tu!...»
+
+
+
+
+Nota
+
+
+O facto em que se baseia este poemeto, com quanto pouco conhecido, é
+absolutamente verdadeiro.
+
+Os melros e algumas outras aves, como os pintasilgos e os rouxinoes,
+quando lhes encarceram os filhos, envenenam-n'os. Muitas vezes,
+(sarcasmo tragico, crueldade sublime!) deixando-os vivos, arrancam-lhes
+a lingua!
+
+Ora nem todos os melros, pintasilgos e rouxinoes assassinam os filhos,
+quando lh'os prendem. Só o fazem os mais extraordinarios, os mais
+heroicos. O que nos demonstra que a acção é livre e responsavel, e não
+um simples producto d'uma fatalidade organica.
+
+É pena que Michelet ignorasse este facto. Que paginas divinas que elle
+não teria escripto! _L'Oiseau_ ficou incompleto.
+
+
+
+
+CIRCULAR
+
+(_Fragmento_)
+
+
+Deus & Filho. Bazar da fé. Venda forçada.
+Pela barca de Pedro, a Judas consignada,
+Chega um rico sortido em modas da estação.
+Vêr para crêr! Surpreza! Attenção, occasião
+Unica! aproveitai, comprai! Pechincha certa!
+Ao bazar do Calvario! Ao Nazareno! Alerta,
+Christãos! É o desfazer da feira. Ultimo dia!
+Toda a casta de objecto ou de quinquilharia
+Que esteja em relação com negocios de egreja.
+Vellas especiaes para quando troveja,
+Aplacando de prompto a colera divina.
+Sem cheiro e sem mistura alguma de stearina.
+Santa Barbara, a quem a fé christã se roja,
+Quando atrôa, não gasta as vellas d'outra loja,
+Nem outras recommenda o concilio de Trento.
+Em pacotes de seis. Por junto abatimento.
+
+Agua de Lourdes, fresca. Em pipas, ao quartilho
+E em garrafa. Exigir a marca--Deus & Filho--
+Na etiqueta, e na rolha, a fogo--Providencia--
+Genuina só a ha á venda n'esta agencia.
+Dez annos de successo e mil milhões de curas
+Efficaz contra a caspa e contra as mordeduras
+De cobra cascavel ou cão damnado ou pulga
+Ou percevejo. Faz, Tartufo assim o julga,
+Nascer ao mesmo tempo o apetite e o cabello,
+Bôa no hemorroidal e util no serampello.
+Reumatismos, terçãs e outras molestias varias
+Cura-as n'um prompo. Expulsa as bichas solitarias
+E expulsa o Demo. Purga: os ventres desentupe-os.
+Sem colicas, com tres ou quatro semicupios.
+Em cegos de nascença e tisicos de peito
+Isso então é instantaneo, é certo o seu effeito.
+Uma perna amputada unta-se, e em dois instantes
+Torna a crescer e fica inda maior que d'antes.
+Em leicenços não falha. Em dôr de dentes, isso
+É bebel-a e ficar sem dôr. Não ha feitiço
+Que resista. Uma vez uma morta tomou-a,
+Espirrou e ficou inteiramente boa!
+Prevenimos no entanto o publico defuncto
+Que casos d'estes ha uns trinta e dois por junto
+Apenas. Endireita a espinhela cahida,
+Extrae callos, reduz fleimões, prolonga a vida,
+Marca a roupa, e sem damno algum e sem fedor
+Tórna o cabello e a barba á primitiva côr.
+
+Reliquias. Sortimento a capricho. Em ossadas
+Dos apostolos, hoje as mais acreditadas
+No mercado, chegou variedade infinita,
+Cabeças de S. João, só vendo se acredita,
+Onze mil! onze mil, e damol-as sem ganho!
+Os preços é segundo o feitio e o tamanho.
+(E convem declarar e advertir desde já
+Que ossos de imitação não se encontra por cá.
+Atestados legaes e autenticos o provam.)
+Ha um monumental e rico S. Christovam,
+Oito metros de largo e uns oitenta de altura,
+Que, como não tem tido até hoje procura,
+Decidimos vender, para liquidação,
+A retalho. É de graça: o kilo a meio tostão.
+O publico achará sempre n'este bazar
+De qualquer santo, ainda o mais particular,
+Um esqueleto ou dois continuamente á venda.
+Desejando porção, fazem-se de encommenda.
+Desconto extraordinario em transações por grosso.
+Garante-se o fabrico e a solidez do osso
+Que empregamos. A todo o esqueleto montado
+N'esta casa vai junto, e em forma, um atestado
+Escripto sobre a pel' e pela propria mão
+Do proprio santo, a quem a carcassa em questão
+Pertencera, e que diz:--Eu juro á fè de Deus
+Que estes ossos, tal qual estão, eram os meus.--
+Aviso: é bom comprar peças sobrecellentes:
+Pelo menos um sacro, um nariz e alguns dentes.
+Encontram-se tambem avulso qualquer d'ellas
+Coccixs, peroneus, omoplatas, costellas.
+Tibias, tarsos, enfim tudo que uma alma pia
+Possa achar n'um manual christão de osteologia.
+Em dedos do Destino ha um soberbo exemplar:
+É o mesmo que escreveu outr'ora a Balthasar
+No salão do festim a tragica sentença,
+Dá-se por dez tostões essa caneta immensa
+Do Destino ha tambem o olho verdadeiro,
+Em vidro ou em cristal, por duzia ou por milheiro,
+Negros, verdes, azues, obra muito barata,
+Engastado em oiro, em nickel ou em lata.
+E hoje a grande moda, e são d'um bello effeito
+Para botões de punho e alfinetes de peito.
+Ha emfim mais de dez milhões de toneladas,
+De craneos sem valor, e de antigas ossadas,
+Que o caruncho roeu e converteu em cisco,
+Como são vinte mil braços de S. Francisco,
+Et cet'ra... Esse calcareo, (inutil n'esta casa,)
+Vende-se para esterco a trez vintens a raza.
+
+Vera-cruz. Qualidade esplendida, extra-fina
+Authentica; a melhor que vem da Palestina.
+Em pó, em serradura, em lascas, aos boccados,
+E posta em obra--desde a cama de casados,
+Desde o piano d'Erard ou da credencia até
+Ao baculo do bispo e ao _steeck_ do _crevé_.
+Trabalhada a primor em mil objectos varios:
+Em facas de cortar papel ou em rosarios,
+Em imagens do papa ou em boquilhas, em
+Cabides, castiçaes, prezepes de Bethlem,
+Bandejas para chá, agnus-Dei, cruxifixos,
+Lavatorios, etc. Ao _rabais_. Preços fixos.
+Nos nossos armazens com serras a vapor
+Vendemol-a igualmente, a cruz do Redemptor,
+Em ripas; em pranchões e em traves collossaes
+Para marcenaria e construcções navaes.
+...........................................
+...........................................
+
+Como hoje o negocio está muito bicudo,
+Trespassa-se o armazem do Calvario com tudo
+Que tem dentro. Escrever para o nosso bazar,
+Largo dos Intrujões, 5, 1.^o andar.
+
+
+
+
+A BENÇÃO DA LOCOMOTIVA
+
+
+A obra está completa. A machina flameja,
+Desenrolando o fumo em ondas pelo ar.
+Mas antes de partir mandem chamar a Egreja
+Que é preciso que um bispo a venha baptizar.
+
+Como ella é com certeza o fructo de Cain,
+A filha da razão, da independencia humana,
+Botem-lhe na fornalha uns trechos em latim,
+E convertam-n'a á fé Catholica Romana.
+
+Devem n'ella existir diabolicos peccados,
+Porque é feita de cobre e ferro; e estes metaes
+Sahem da natureza, impios, escommungados,
+Como sahimos nós dos ventres maternaes!
+
+Vamos, esconjurai-lhe o demo que ella encerra,
+Extrahi a heresia ao aço lampejante!
+Ella acaba de vir das forjas d'Inglaterra,
+E hade ser com certeza um pouco protestante.
+
+Para que o monstro corra em fervido galope,
+Como um sonho febril, n'um doido turbilhão,
+Além do machinista e necessario o hyssope,
+E muita theologia... além d'algum carvão.
+
+Atirem-lhe uma hostia á bocca famulenta,
+Preguem-lhe alguns sermões, ensinem-n'a a resar,
+E lancem na caldeira um jorro d'agua benta,
+Que com agua do céo talvez não possa andar.
+
+
+
+
+A HYDRA
+
+(Vendo passar seminaristas)
+
+
+Olhae, vede-os passar em legiões escuras,
+Intonsos, apezar de todas as tonsuras,
+Com um ar imbecil, caliginoso, estranho,
+Marcados a tesoira assim como um rebanho,
+E envoltos em crueis balandraus de entremez,
+--As lobas, sob as quaes ha lobos muita vez!...
+Ó galuchos da Fé, recrutas do Divino,
+Que um chocalho de bronze hiperbolico--um sino--
+Faz erguer, faz dormir, faz deitar, faz andar,
+Eu não sinto por vós, _marionetes_ do altar,
+Nem odio nem rancor. Sois victimas. Loyola
+Dobra-vos a cerviz com a canga da estola,
+E jungindo-vos, bois nocturnos, ao arado,
+Rasga comvosco o negro e funebre vallado
+Aonde o vosso Deus semeia para a infancia
+A flôr da estupidez e o trigo da ignorancia.
+A Egreja, a cortezã sensual de ventre obeso,
+Hontem mulher de Christo e hoje mulher de Creso,
+Para a rapina odiosa e vil de que se nutre
+Mochos, deu-vos a calva ortodoxa do abutre!
+Matilha de Leão XIII a vossa preza é o mundo,
+Tartufo, bode obsceno e theologo profundo,
+Ensina-vos, conforme o ritual mais perfeito,
+A cruzar, como S. Francisco, as mãos no peito,
+Sob a sotaina arqueando a gravidez das panças,
+A impor jejuns, benzer caixões salgar creanças,
+A grunhir, a ladrar sermões, missas cantadas,
+E a escripturar o céo por partidas dobradas.
+Não vos odeio não, palidos salafrarios;
+Vós sois unicamente os comparsas mortuarios
+Do papa, esse Barnum que assombra a multidão,
+Com o Espirito Santo a vir comer-lhe a mão
+Satanaz a frigir (sarrabulhada tragica!)
+Heresiarchas de estopa em caldeirão de magica,
+E Jehovah, um urso estupido e cruel
+A lamber-lhe a sandalia, a babojar-lhe o anel,
+E a ameaçar furibundo este mundo precito
+A rufos de trovões no tambor do infinito.
+A Egreja é uma serpente escura, bicho immundo,
+Gigantesco reptil que dá a volta ao mundo,
+E em cujas espiraes ebrias de raiva insana
+Um Lacconte immortal--a consciencia humana;
+Ha seculo se estorce em convulsão atroz.
+Os ellos d'esse monstro implacavel sois vós,
+Sacristas. A cabeça é o papa.
+ Ora as serpentes
+Tem a força na cauda e o veneno nos dentes.
+
+
+
+
+A VALLA COMMUM
+
+
+I
+
+
+Valla commum--tasca nojenta,
+Mesa redonda sepulchral,
+Aonde a toalha crapulenta
+É um lençol roto do hospital,
+
+E aonde as larvas proletarias
+Devoram--lugubres festins!--
+Craneos de heroes, ventres de parias,
+Carcassas podres de arlequins,
+
+Ao contemplar-te, ó libertina,
+Um nojo immenso me accomette:
+Tens a avidez de Messalina
+Na boca negra de Machbet!
+
+Na treva aziaga o crime o os vicios,
+Para o _menu_ do teu jantar,
+Dão-te as creanças dos hospicios
+E as barregãs do lupanar.
+
+Em teu estomago de hyena
+Vão-se abysmar, monstro cruel,
+Rios de sangue com gangrena
+E ondas de lagrima com fel.
+
+Cloaca putrida e funerea,
+Feira da ladra edionda e vil,
+És o saguão onde a miseria
+Despeja á noite o seu barril.
+
+Trituras, lobrega sargeta,
+Sem que o horror te engasgue e abafe
+Os seios virgens de Julieta
+E a pança obscena de Faltstaff.
+
+Cinismo atroz que a alma oprime,
+Fetida e funebre impudencia!
+A boca esqualida do crime
+Posta na boca da innocencia!
+
+O abutre e a pomba, o cardo e a anemona
+Na mesma leiva apodrecida:
+Tropman chegando-se a Desdemona,
+E Papavoine a Margarida!
+
+Virtude, amor, crime, deboche
+Promiscuamente a fermentar!
+Mimi Pinson e Rigolboche!
+Cain e Abel! estrume e luar!
+
+Oh, _bulimia_ tenebrosa!
+Monstruosidade apocalyptica
+Tudo te serve: ou cancro ou rosa,
+Ou flôr doirada ou flôr syphlitica.
+
+Anjos que vem do paraiso,
+Candura etherea e perfumada,
+Feitos d'um beijo e d'um sorriso,
+N'algum jardim, de madrugada.
+
+Vão confundir-se n'essa guella,
+N'essa pestifera anarchia
+Com quantas lepras uma viella
+Possa escarrar n'uma enxovia!
+
+As guilhotinas homicidas
+Pelo carrasco, o fiel criado,
+Mandam-te o _lunch_ ás escondidas
+No seu _panier_ ensanguentado,
+
+E o cadafalso, um salteador,
+Na noite livida estrangula
+Feras, que arroja no estertor
+Aos antros podres da tua gulla.
+
+Nada que te encha ou te sufoque.
+Monstro, absorver é o teu destino.
+Depois da ceia de Moloch,
+Ruges co'a fome de Hugolino
+
+Sempre a comer, monstro insensato,
+E a boca sempre escancarada!
+O esquife, harpia, eis o teu prato!
+E o teu talher--a pá e a enxada!
+
+Valla commum, despenhadeiro
+De lirios brancos e de sapos,
+Furna onde o Nada, esse trapeiro,
+Faz o armazem dos seus farrapos.
+
+Quantos heroes--oh raiva, oh odio!
+Teu lobo amargo apodreceu
+Desde Aristogiton e Harmodio
+Até Camões e Galileu!
+
+Deus que te fez sempre esfaimada,
+Deu-te tambem, pança gigante,
+Por cosinheiro Torquemada,
+E Bonaparte por marchante.
+
+Atila e Nero--o tigre e o lobo,
+Noventa e tres, Saint Barthelemy,
+Eis hecatombes para o globo
+Que são banquetes para ti.
+
+Quando famelica te nutres
+D'um Warterloo, grandiosa prosa,
+Sustentas todos os abutres
+Só co'as migalhas da tua mesa!
+
+Para o teu ultimo festim,
+Gargantua sordido e voraz,
+Foi aos açougues de Berlim
+A Morte a encher o seu cabaz.
+
+Es magro e funebre molosso
+Ha milhões d'annos sempre a uivar:
+Ó Guerra, traz-me o meu almoço!
+Ó Peste, traz-me o meu jantar!
+
+Servo, Fellah, Moujik, Escravo,
+Plebe sem pão, mendigos nús,
+Bocas que tem ainda o travo
+Do fel da esponja de Jesus;
+
+Martyres, victimas, proscriptos,
+Legião de heroes resplandecente,
+Que ensanguentados e maldictos
+Revoluteiam febrilmente,
+
+Raios no olhar, grilhões nos pulsos,
+Ao céo em brasa a fronte erguida,
+Nos sete circulos convulsos,
+Do inferno tragico da Vida;
+
+Todo esse exercito ululante
+Quo em rouco e pavido tropel
+Vem pela historia humana adiante,
+Desde Cain até Rossel;
+
+Tudo que estoira de miseria,
+Tudo o que ruge na oppressão,
+Desde o grilheta da Siberia
+Até ao paria do Indostão;
+
+Todo esse barbaro massacre,
+Da guerra, enorme Leviatan,
+Zama, Farsalia, S. João d'Acre,
+Jena, Austerlitz, Sedan;
+
+Todo esse vomito de horrores
+E do catastrophes sombrias,
+Profundo atlantico de dores,
+Negro Himalaia de agonias,
+
+Todo esse lodo Deus impelle-o
+Ao teu estomago sem dó:
+És a barriga de Vitellio,
+Cheia das pustulas de Job!...
+
+
+II
+
+
+E entre esse tabidos fermentos,
+Entre esses horror de coisa más,
+Fóssa á procura de alimentos,
+Um porco immundo--Satanaz.
+
+Essa latrina de Pandora,
+Pensando bem, é a final
+A escarradeira onde expectora
+Jehovah a bilis immortal.
+
+Como elle é velho, com o frio
+Tósse; o Prudhome diz-lhe então:
+--Deus, aqui tens este bacio...
+Não vás cuspir no meu salão.
+
+E ás vezes do alto do infinito,
+Talvez depois d'um mau jantar,
+O Padre Eterno faz cabrito
+E enche o bacio a transbordar.
+
+E o pote enorme onde cuspinha
+O truculento Manitu,
+Sem ninguem vêr, logo á noitinha
+Vai despejal-o Belzebut.
+
+Vai despejal-o, ó crueldade!
+Lá nessas torridas galés,
+Onde Deus assa a humanidade
+No fogo--a que elle aquece os pés!
+
+Porque, ó eternos desherdados
+Da raça impura de Cain,
+Morrendo sois encaixotados
+Sem agua benta e sem latim.
+
+Se algum vos dão é já com ranço,
+É já latim para hospitaes,
+Feito com cisco de ripanso
+E as varreduras dos missaes.
+
+A egreja dá, barata feira!
+Ao vosso ultimo estertor
+Oleos de azeite de purgueira
+E ostias de trapos com bolor.
+
+Por isso a valla é um alçapão
+De d'onde rue a todo instante
+Um tremedal de podridão
+N'um mar de enxofre flammejante.
+
+Castigo barbaro e nefando!
+Em monstruozos caldeirões
+Ondas de pez tonitruando,
+Roucos, uivando, aos borbotões,
+
+E dentro vós, pobres captivos,
+Em sangue, em chagas, todos nus,
+A morrer sempre e sempre vivos,
+Sempre a coser e sempre crus!
+
+Em lagos rutilos de estanho,
+Bramindo pragas em latim,
+Milhões de herejes tomam banho...
+Olhae que espiga um banho assim!...
+
+Estes frigidos em certans,
+Dentro do azeite que extravasa.
+Outros perneando, como rans,
+Na empalação d'um raio em brasa!
+
+Uns são torrados sobre grelhas.
+E os diabos vem continuamente
+N'aquellas nadegas vermelhas
+Cravar com furia o seu tridente!
+
+Muitos estoira-lhes a pança
+Entre os colericos anneis
+De vinte cilhas, que lembrança!
+Feitas de cobras cascaveis!
+
+E em torno aos fulgidos brazeiros
+Onde um bom Deus, poderoso e justo
+Rebenta as almas aos milheiros,
+Como as castanhas n'um magusto,
+
+Pincham selvaticos fandangos
+Satans freneticos e maus,
+Rabudos como ourangotangos,
+Cornudos como Menelaus!
+
+E é por não dar uns seis ou sete
+Tostões ao odre de um abade
+Que a Providencia vos derrete,
+Impios, por toda a eternidade!
+
+Congrua e folar--palha e bolota
+Ao teu abade, impio, não dás?
+Pois bem, Deus põe-te de compota
+N'um molho ardente de aguarraz.
+
+Ah, tu rebelde, ah, tu faminto,
+Nunca a chorar foste depor
+Tres mil remorsos com um pinto
+Nas mãos d'um padre confessor?
+
+Ah, tu mandaste a Egreja á fava?
+Nunca compraste uma cartilha?
+Cose-te em pez, torra-te em lava.
+Anda, meu besta, meu pandilha!
+
+É em quanto Deus te frita os untos
+E o coração n'uma panella,
+Que vida airada os bons defunctos
+Passam no céo!... que vida aquella!
+
+Pois cá por baixo aos maganões
+Nunca tambem lhes faltou nada;
+Tiveram crenças e milhões...
+Deus gosta assim de gente honrada.
+
+Comeram optimos jantares,
+Perfeitamente digeridos;
+Foram christãos e titulares.
+Bons paes, bons filhos, bons maridos.
+
+Aos seus palacios luculianos
+(O que é virtude e pundonor!)
+Durante quasi oitenta annos
+Não bateu nunca um só credor!
+
+Amaram todos os pecados,
+Que são mortaes, mas são gentis,
+Com todo o encanto fabricados
+Para os banqueiros, em Pariz.
+
+Dormira sempre n'um bom leito
+Co'as mais formosas cortezãs.
+E o ventre sempre satisfeito,
+E livre... todas as manhãs.
+
+Gozaram sim, mas na verdade
+Foram á missa muitas vezes,
+Com toda a pompa e magestade
+Dentro dos seus _landeaus_ inglezes.
+
+Se algum remorso impertinente
+As almas castas lhes mordia,
+Catava-o logo com um pente
+Um bispo n'uma sacristia.
+
+Crendo nos dogmas mais profundos,
+E achando a vida um bom lameiro
+Tiveram sempre Auctor dos Mundos
+Por um perfeito cavalheiro.
+
+Deram de graça a varios santos,
+A Jesus Christo e á mãe das Dôres
+C'roas, chinós, tunicas, mantos,
+Burseguins d'oiro e resplendores.
+
+Por isso o tal Author, que acabo
+Do vos citar, os tratou bem;
+Deus é levado do diabo
+Só para os pulhas sem vintem.
+
+E quando ao cabo da funcção,
+--Velhos sem dentes, já na espinha,
+A Morte, de chapeu na mão,
+Lhes foi tocar á campainha,
+
+Para espicharem dignamente,
+Agasalhados na sua cama,
+O papa enviou-lhes de presente
+A benção n'este telegrama:
+
+«Remete benção Divindade.
+Legado Pedro quinze contos.
+Escrevi céo Hotel Trindade
+Tenham chegada quartos promptos.»
+
+E após um grande funeral,
+A que assistiu o _high-life_ inteiro,
+Desde o arcebispo ao general
+E desde o principe ao banqueiro,
+
+Seus corpos, onde não remexe
+O verme vil que trinca os parias
+Embalsamados do escabeche
+Em grandes latas funerarias,
+
+No palacete d'uma campa
+Foram guardados, qual thesoiro,
+Dentro d'um cofre em cuja tampa
+Ha versos maus em letras d'oiro.
+
+E as almas, promptas para a festa
+Do seu olimpico noivado,
+Com uma aureola na testa
+E azas soberbas no costado,
+
+Partiram leves, subrepticias.
+Entre o esplendor de cem auroras,
+Lá para o Reino de Delicias.
+Onde estarão a estas horas
+
+Feitas bebés, comendo um keque,
+Tocando frauta ou tamboril,
+Ou arrastando a aza em leque
+Ingenuamente... ás _onze mil_.
+
+Ah, miseravel, ah precito,
+Que lá dos baratros christãos
+Ergues ao Tigre do infinito
+Os dois archotes das tuas mãos,
+
+Vê tu como é conveniente,
+E justo em todos os sentidos,
+Herdar um homem d'um parente
+Seiscentos contos garantidos,
+
+Gozar, sem medo á vida eterna,
+Toda esta bella patuscada,
+Desde a luxuria mais moderna
+Á gula mais civilisada,
+
+E ao terminar tão bom fadario
+Morrer, ouvindo alguns latins,
+Com treze kilos de calcareo,
+--Onze na alma, e dois nos rins;
+
+E, na mais intima harmonia
+Com Satanaz e com Jesus,
+Ir para a cova á luz do dia,
+De farda rica e de gran-cruz,
+
+E entre tocheiros deslumbrantes
+Ser bem comido e bem jantado
+Por alguns vermes elegantes
+N'um gabinete reservado!...
+
+
+
+
+A SÈSTA DO SNR. ABADE
+
+
+O meio dia bateu já na torre da Egreja.
+A aldeia é silenciosa e triste. O sol flameja.
+Entre o surdo murmurio abrasador da luz,
+Como n'um grande forno, os grandes montes nus
+Recosem-se, espirrando as urzes d'entre as fragas.
+Um mendigo demente e coberto de chagas
+Dorme estirado ao sol n'uma modorra espessa;
+E o mosqueiro febril nas lepras da cabeça
+Enterra-lhe zumbindo o caustico das lanças.
+Andam só pela rua os porcos e as creanças.
+Fome, desolação, luto, viuvez, miseria
+Na aldeia morta. A terra esqualida e funerea
+Em logar das canções da abundancia e do amor,
+Do trigo verde a rir dentro da sebe em flor,
+Calcinada e cruel cospe violentamente
+Só o cardo torcido, epilectico, ardente,
+Rompendo duro e hostil, como a praga blasfema
+D'um assassino quando um carcereiro o algema.
+Secaram-se de todo as fontes e os regatos.
+As cobras na aridez crepitante dos matos
+Silvam. O ar carboniza as arvores sequiosas
+N'uma rutila poeira intensa de ventosas.
+Dos montes nus além nas seccas epidermes
+Os rebanhos são como um pulular de vermes.
+E a bobada do céo, concha de zinco em braza,
+Onde não passa a nodoa aerea d'uma aza,
+Implacavel contempla a terra solitaria,
+Como um sultão fitando a carcassa d'um paria!
+
+E o tifo germinou n'esta miseria adusta.
+A epedimia, a alma errante de Locusta.
+Diabolica e subtil fermenta envenenada
+No asfixiante esplendor da atmosphera esbrazeada.
+D'entro da escuridão soturna dos casebres
+Os velhos aldeões, minados pelas febres.
+Agonisam; e em seu delirio derradeiro,
+Entre o concavo som da enxada do coveiro
+E o rouco psalmodear dos latins agoirentos,
+Ouvem loucos de dor os funebres lamentos
+Dos magros bois de olhar moribundo e sereno.
+Que estão là baixo ao pè do estabulo sem feno,
+A mugir, a mugir, por terra, abandonados
+Juncto ao velho esqueleto inutil dos arados!
+
+A espaços da profunda e tragica nudez
+D'uma choupana irrompe um grito de viuvez,
+Um clamor de orfandade... E o sino chora então
+Lagrimas sepulcraes de bronze na amplidão.
+A colera de Deus, cujo olhar encendeia,
+Correu como uma loba hidrophoba na aldeia.
+Não ha lume no lar, nem ha pão nos armarios.
+Entre os dedos das mães famintas os rosarios
+Passam piedosamente e inutilmente, em quanto
+A Morte, a hiena magra e vesga, espreita a um canto
+Um berço onde agonisa um anjo, ho dor cruel!
+Como um roto mendigo á porta d'um vergel
+Sofregamente espreita algum fructo outoniço
+A tombar já sem côr d'um ramo já sem viço!
+
+E a aldeia invoca, implora os anjos tutelares.
+Morre de fome e veste as santas nos altares
+Com oiro e com brocado, Os cirios noite e dia
+Alumiam a branca imagem de Maria,
+Como tremulos ais de luz agonisantes
+A erguer-se para o céo! Procissões ululantes
+De penitencias vão convulsas, desgrenhadas,
+Esfacellando os pés nas pedras das calçadas,
+Dilacerando o peito, arrancando os cabellos.
+E com mil visões torvas de pesadellos,
+Uivando a Deus em rouco e barbaro clamor
+Que seja pae que veja essa infinita dór,
+E lânce áquella immensa angostia, áquella magoa
+Um olhar onde emfim brilhe uma gota d'agua!
+...............................................
+Em vão, em vão, em vão! A tarde o sol frenetico
+Morre congestionado, estonteado, apopletico,
+E de manhã explue na lividez do oriente,
+Caustico, a chammejar como um remorso ardente!
+E nas noites febris, sem ar, sem roxinoes,
+E que o azul é um brazeiro esplendido de soes
+E em que parece que ha dispersas na atmosphera
+As vaporisações surdas d'uma cratera,
+Por detraz da montanha asperrima, escalvada,
+A lua cheia, rubra, opaca, ensanguentada,
+N'um silencio soturno, esmagador, que opprime,
+Rompe sinistra--como a apparição d'um crime!
+
+E comtudo n'aquella aridez flamejante,
+Sem um ramo frondoso em que uma ave cante,
+N'aquelle illimitado incendio abrasador,
+Oh sarcasmo cruel! ha dois oasis em flor,
+Com duas tropicaes plethoras de verdura:
+
+Um é o cemiterio, o outro o passal do cura.
+
+No cemiterio a Vida impetuosa e forte
+Rompe a cantar do ventre uberrimo da Morte.
+Pampanos, silveiraes, cardos, ortigas, rosas,
+Plantas meigas de idilio e plantas tenebrosas,
+A mandragora, a murta, a madresilva, o feto,
+Tudo isto a latejar, a fecundar, repleto,
+N'um emaranhamento anarchico pulula
+Doido de sol, febril de seiva, ebrio de gula!
+Ha uma saturnal juncto de cada cova,
+Um cadaver que chega é uma iguaria nova,
+Que os vermes decompõem em gangrenas protervas
+Para a sofreguidão muda, obscura das hervas.
+E quando do seu antro a larva tumular
+Diz á planta: «Aqui tens na meza o teu jantar,
+Vem comel-o!» milhões de raizes--reptis,
+Sanguesugas que tem por bocas bisturis,
+Vão haurir, absorver, vampirisar no fundo
+D'essa cloaca obscena esse banquete immundo,
+Um fetido e viscoso esterquelinio de horrores,
+Que é o pão que Deus fez para engordar as flores!
+E da tumba do hospicio hora a hora resvalla
+Uma carga de entulho humano para a valla.
+Juntam-se aos nove e aos dez, rimas de carne morta,
+Na mesma cova. A edade e o sexo pouco importa.
+Confundem-se no podre açougue subterraneo.
+E em quanto uma raiz de lirio suga um craneo
+E uma pustula dá o perfume a um nectario,
+No azul celeste paira o corvo sanguinario,
+O tumulo suspenso, o esquife que se eleva,
+Brandindo em cada flanco uma foice de treva!
+.................... Dir-se-hia que o Destino,
+O velho Thug, o velho e tragico assassino,
+Depois de uma hecatombe insensata e brutal,
+A escondera, lançando em cima um madrigal,
+Um manto de verdura e corolas vermelhas,
+Todo estrellado do oiro em brasa das abelhas.
+
+E o presbiterio? Olhae:
+
+ Branco como um noivado.
+Trepadeiras á porta e pombas no telhado.
+Ha n'esse ninho occulto em verdura frondosa
+Como que um bem-estar simples e côr de rosa.
+Era um ninho discreto, um bom ninho fiel,
+Para sugar um favo a tres luas de mel.
+Anacreonte, o velho erotico divino,
+Contente encerraria alli o seu destino,
+Pobre, alegre, feliz, sem remorsos, sem dores,
+A calvicie jovial sob um chinó de flores,
+O copo sobre a meza, a musa sob os joelhos,
+Ao ar livre, a cantar os desejos vermelhos,
+A belleza, o prazer, a juventude e o sól,
+Com a graça d'um merlo e a voz d'um rouxinol.
+
+Vejamos essa estancia idilica e tranquilla.
+Mas cuidado! ha lá dentro um padre e um cão de fila.
+E ambos mordem. Mas, como ambos roncam a sesta,
+Entremos. Logo aqui no pateo pela fresta
+Da tenebrosa adega aberto um poucachinho
+Sahe um aroma intenso e rico de bom vinho.
+O abade é beberrão. Casca-lhe muito e bem.
+Lá pinga como a d'elle isso ninguem na tem.
+Sabe da poda, é mestre! A adega até dá gosto
+Entrar a gente lá n'uma tarde de Agosto.
+Que frescura, que aceio e que nectar! Noé
+Precisaria ali da capa de Japhet
+A todo o instante, e o proprio abade e mais a ama
+Tem feito d'essa adega o seu quarto de cama
+Varias vezes... O amor pella-se por bom vinho.
+Se Venus foi sua mãe, Bacho foi seu padrinho.
+Sensata opinião que o nosso abade aprova,
+Sobretudo se o vinho é velho e a mulher nova.
+Nos rotundos toneis e nas cubas inchadas,
+Panças monumentaes prenhes de gargalhadas,
+Dormem alegremente e silenciosamente
+Os trinta mil pifões que o Padre-Omnipotente,
+Em seu alto designio e enfinita bondade,
+Destinou para o odre insaciavel do abade.
+E na fresqueira--um rico e secular thesoiro--
+Ambrosias ideas velhissimas, côr do oiro,
+Mormuram baixo em voz cristalina e maviosa
+Uma canção de amor entre um beijo e uma rosa,
+E em que a rosa abre ao beijo as petalas vermelhas
+Sob frèmito alado e diaphano de abelhas.
+Com tão raro elixir, que è como um sol poente,
+Que já não dá calor, mas que illumina a gente,
+O proprio Satamaz, faço-lhe essa justiça,
+Não tinha repugnancia alguma em dizer missa,
+E eu mesmo, é minha vergonhosa conficção,
+Mas em suma, que diabo!... eu dava em sachristão!
+
+E junto á dega existe a tulha sempre cheia...
+Mas subamos depressa emquanto o abade orneia
+A dormir pois se acorda e me conhece, foi-se
+A visita e per cima arruma-me algum coice.
+Vamos pé ante pé, de vagarinho. A salla
+É vasta e branca. Tem nos muros a adornal-a
+Sagrados corações de Jesus flamejantes,
+Mães, de Deus com olhar no céo e dez trinchantes,
+A traspassar-lhe o peito, um Pio nono a cores.
+Cordeirinhos pascaes, anjos, araras, flores,
+Tudo em missanga, e emfim um D. Miguel primeiro
+A froque, que eu comprava a peso de dinheiro.
+Do tecto enegrecido em bategas jucundas
+Pendem bellas maçãs camoesas rubicundas,
+Cachos d'uvas ainda a rir, peras marmelas,
+Encaixilhado tudo á volta com morcellas.
+Em seis bahús de coiro e em arcas de castanho
+Guarda o cura o bragal precioso, o rico amanho
+Caseirinho,--lençoes d'uma finura extrema,
+Ás grozas, rescendendo alecrim e alfazema!
+E, segundo se diz, tambem deve haver n'essas
+Arcas monumentaes muita somma de peças.
+Ao fundo a livraria: uma pequena estante
+N'uma banca ordinaria e simples de estudante.
+No centro tem um vão com um Christo inaudito
+Nas vascas do caruncho agonisando afflicto,
+Burlesco manipanço alvar de fórmas toscas,
+Negro--das dejecções sacrilegas das moscas.
+Soltos na estante em quatro ou cinco pratelleiras
+Ripanços de orações, de sermões e de asneiras,
+Que fornecem ha já trinta annos exactos
+Pão de espirito ao cura e pão do corpo aos ratos.
+E entre os livros ha tudo. É uma loja de adéllo.
+Pacotes com rapé, um baralho, um marmelo,
+Esporas, saquiteis com semente, de ervilha,
+Garfos, um grande corno, um copo, uma rodilha.
+Malgas com marmelada e frascos com compotas,
+E até mesmo um chapeu sebento e um par de botas!
+Sobre a mesa o tinteiro e o solideo. E aberto
+Um breviario tal, que cheirado de perto
+Fulmina, um breviario exotico, onde emfim
+Ha já muito mais sebo e traça que latim!
+
+E a todo e qualquer canto em rumas assassinas,
+Marmeleiros, bordões e mócas e clavinas.
+E pendendo sombria e, tragica d'um muro,
+Come se fosse a pel' d'um grande monstro escuro,
+A loba, um balandrau de dobra espectraes,
+Feito para espantar as almas e os pardaes,
+
+Contigua á salla existe a alcova. É lá que dorme
+O hipopotamo. Vede: O catre e desconforme;
+Cabiam n'esse vasto enxergão á vontade
+A preguiça d'um porco e a luxuria d'um frade,
+O cura espapaçado, esbandalhado, ronca,
+Inuda-lhe o suor odioso a testa bronca,
+O cachaço taurino e as papeiras que vão
+Desde o queixo ao umbigo em graça ondulação.
+A bôca comilona, erotica, sensual
+Traz á lembrança o fauno obsceno e o canibal.
+E a dentadura podre, esse armazem de guano,
+É qual desmantelado aqueducto romano.
+Que sordido animal! que bandulho! que bojo!
+Tem cerdas na cabeça e nas orelhas tojo!
+E o nariz? o nariz! que farol! que obelisco!
+Pantagruel deu-lhe a cor, Gargantua deu-lhe o risco.
+É o nariz de Falstaff, epico, em grando gala,
+Purpureado e incendiado a fogos de bengala.
+De quando em quando a ama, herculea mocetona,
+--Um peixão!--sempre alegre e sempre brincalhona,
+Vem ligeiro enxotar com precauções imensas
+Os insectos sem fè e os moscamos sem crenças,
+Que ousam depòr, que horror! a tal coisa indecente
+Nos rubros alcantis d'esse nariz ingente.
+Eu nunca vi, meu Deus, nariz tão exquisito!
+Ruge como um trovão, silva com um apito!
+É talvez o nariz por onde tocará
+Trombeta o Creador no val' de Josaphat!
+Dos mais complexos sons percorre a escala... alcoolica:
+Umas vezes imita uma frauta bucolica
+E outras um cavernoso orgão de Rilhafolles,
+Com um grande Titan bebado a dar as folles.
+As vezes um fragor rouco de temporal
+Quer bramir atravez do Himalaia nasal
+Do abade, mas achando os dois toneis do monte
+Entupido de esterco infecto e de simonte,
+Retrocede e lá vai por outro sorvedoiro
+Expluir--com profundo e tremebundo estoiro!...
+..............................................
+Mas que sastifação beatifica se nota
+Na vasta estupidez d'aquella cara idiota!
+E sabeis porque dorme olimpico e risonho
+O abade? É porque teve inda ha pouco esse sonho:
+Sonhou ver desfilar, oh ventura illusoria!
+Um prestito pagão, um cortejo de gloria,
+A acclamal-o. Na frente uma vara sombria
+De bacoros roncava em côro esta poesia:
+
+ Deus fez o porco para o frade.
+ Deus destinou-nos os presuntos
+ Para os seus untos,
+ Senhor abade.
+ Grunhamos, pois, grunhamos todos juntos:
+ Viva o abade! Viva o abade!!
+
+Succediam-se logo em manadas e em bando
+Perdizes e perus e patos conclamando:
+
+ Patos, perus, galinhas e perdizes
+ Somos felizes!
+ Oh, que ventura!
+ Como é doce morrer tendo a certeza
+ De bem assados em manteiga ingleza
+ Ir para a meza
+ Do senhor cura!
+ Oh, que ventura! oh, que ventura!...
+
+N'um carro triumphal trovejava depois
+Um tonel arrastado a cem juntas de bois:
+
+ O sonho, o canto e a dança
+ Vivem na minha pança,
+ Que trilogia!
+ Sonhar, dançar, cantar!
+ A tristeza morreu um bello dia
+ N'um lagar.
+ Vá, Padre-mestre, com bizarria!
+ Cantaro á bôca, toca a virar!
+
+ Meu Padre mestre, nunca o teu bico
+ Provou ainda vinho tão rico,
+ Sem confeição!
+ Vinho como este
+ Nunca o bebeste,
+ Não!
+
+ Vá Padre-mestre, põe-me um repuxo,
+ Muda-me todo para o seu buxo,
+ Meu tubarão!
+ Depois rolemos, ás gargalhadas,
+ Dando umbigadas,
+ Dando pançadas
+ No chão!...
+
+Um gracioso tropel de donzellas formosas,
+Frescas e virginaes como botões de rosas,
+A saia curta, o rir breigeiro, o arzinho honesto,
+Deixando vêr a perna e fantasiar o resto,
+Vinha cantando atraz esta canção feliz,
+Ao som de theorbas d'oiro e avénas pastoris:
+
+ Somos tresentas sessenta e seis,
+ Olhos maganos, bocas em flor...
+ Dignas de reis!
+ E vimos todas, senhor Prior,
+ Dar-vos aquillo que vós sabeis...
+ Somos tresentas sessenta e seis!
+ Um calendario d'anno bisexto,
+ Feito d'amor!
+ Livro novinho!... papel e testo!...
+ Abra-lhe as folhas sem medo ao sexto,
+ Abra-lhe as folhas, Padre Prior!
+
+Caminhavam por fim, ronceiros, de vagar,
+Os grandes carroções da Congrua e Pé de Altar,
+Puxados a duas mil parelhas de jumentos,
+Zurrando esta epopeia heroica aos quatro ventos:
+
+ Senhor Parocho, toda a freguezia,
+ Uns quatro mil onagros,
+ Muito magros
+ Vem trazer isto a Vossa Senhoria.
+ Desculpe, senhor Parocho, a ousadia...
+ A offerta é bem mesquinha, é desgraçada.
+ Uns oitocentos moios simplesmente
+ De milho, de feijão, trigo e cevada.
+ E nós sabemos que um tão mau presente
+ Para o seu dente
+ Não chega a nada! não chega a nada!
+ Mas é boa a intenção:
+ Nós reservamos para si o grão,
+ E para nós a palha unicamente
+ Dar ao senhor Prior
+ Miseria assim, é vergonhoso até...
+ Mas aceite este mimo sem valor...
+ Senhor Parocho aceite-o, por quem é!...
+ E agora, senhor Parocho, a sua benção,
+ Porque os onagros pensão
+ Que ella salva das chammas infernaes;
+ E em paga de tal dom, de tal carinho
+ Rogaremos ao céo pelo focinho
+ Lhe permitta engordar cada vez mais.
+ Boa pinga e bom porco alentejano,
+ E sempre nedio e alegre e satisfeito!...
+ Senhor Parocho, viva!... até p'ró anno...
+ Até p'ró anno... e muito bom proveito!...
+
+O abade, vendo aquella espandosa ovação,
+Cresceu como uma torre e inchou como um balão.
+E ao mirar-se com garbo heroico e triumphal
+Surprehendeu-se de annel e cruz episcopal!
+E, impando de vangloria e atonito de espanto,
+Inchou mais meia legua e cresceu outro tanto!
+Contemplou-se depois com magestade ufana,
+E, oh céos! viu-se vestido em porpura romana!
+Cardeal! cardeal! cardeal! que honra, que posição!
+E subiu de tal forma ovante na amplidão
+Que o Himalaia, envolto em suas neves eternas,
+Disse a um condor:--Vai ver lá cima aquellas pernas;--
+--Cardeal! Não será sonho ou magico feitiço?!
+Eu Cardeal!!...--Apertou entre as mãos o tontiço,
+E em logar d'um chapeu tingido com zurrapas,
+Encontrou o diadema olimpico dos papas!
+Papa!... E de tal maneira ergueu a fronte sua
+Que com ella partiu os chavelhos da lua!
+Em torno do nariz e á volta das orelhas
+Zumbiam-lhe tremendo os astros, como abelhas.
+Ser papa! ser rei do céo e o rei do mundo!
+E lá do alto do abysmo esplendido e profundo
+Lançou o mar e á terra a sua benção sagrada.
+E o mar mudou-se em vinho e a terra n'uma empada!
+E o colosso voraz, de vêr coisas tão bellas,
+Debruçou-se, agachou-se, escancarou as guelhas,
+E enguliu d'uma vez o assombroso follar,
+Bebendo-lhe por cima o vinho todo--o mar!
+Depois empanturrado, inflado, um pouco torto,
+Atirou-se a dormir mais pesado que um morto,
+Arrotando trovões..............................
+...............................................
+E em quanto o abade ronca e grunhe sem cuidados
+Dobram plangentemente os sinos afinados,
+Cortam o espaço os ais do estertor derradeiro,
+E entre as germinações frescas do bom lameiro
+A ègoa abacial c'oa respectiva cria,
+(A quem, se fosse d'elle, o abade chamaria
+Afilhada) lanzuda opipara, pacata,
+Livre, sem albardão, sem freio e sem arreata.
+Na monastica paz dos ventres satisfeitos
+Com luserna viçosa e tenra até os peitos
+Envolta no esplendor fulvo do sol poente,
+Mansa, fitando o azul,--rincha orthodoxamente!
+
+
+
+
+O GENESIS
+
+
+Jehovah, por alcunha antiga--o Padre Eterno
+Deus muitissimo padre e muito pouco eterno,
+Teve uma ideia suja, uma ideia infeliz:
+Poz-se a esgaravatar co-o dedo no nariz,
+Tirou d'esse nariz o que um nariz encerra,
+Deitou depois isso cá baixo, e fez a terra.
+Em seguida tirou da cabeça o chapeu,
+Pol-o em cima da terra, e zás, formou o céo.
+Mas o chapéu azul do Padre Omnipotente
+Era um velho penante, um penante indecente,
+Já muito carcomido e muito esburacado,
+E eis ahi porque o céo ficou todo estrellado.
+Depois o Creador (honra lhe seja feita!)
+Achou a sua obra uma obra imperfeita,
+Mundo serrafaçal, globo de fancaria,
+Que nem um aprendiz de Deus assignaria,
+E furioso escarrou no mundo sublumar,
+E a saliva ao cahir na terra fez o mar.
+Depois, para que a Egreja arranjasse entre os povos
+Com bulas da cruzada alguns cruzados novos,
+E Tartufo podesse inda d'essa maneira
+Jejuar, sem comer de carne á sexta feira,
+Jehovah fez então para a crença devota
+A enguia, o bacalhau e a pescada marmota.
+Em seguida metteu a mão pelo sovaco,
+Mais profundo e maior que a caverna de Caco,
+E arrancando de lá parasitas extranhos,
+De toda a qualidade e todos os tamanhos
+Lançou sobre a terra, e d'este modo insonte
+Fez elle o megatheiro e fez o mastodonte.
+Depois, para provar em summa quanto póde
+Um Creador, tirou dois pellos do bigode,
+Cortou-os em milhões e milhões de bocados,
+(Obra em que elle estragou quatrocentos machados)
+Dispersou-os no globo, e foi d'esta maneira
+Que nasceu o carvalho o platano e a palmeira.
+..................................................
+
+Por fim com barro vil, assombro da olaria!
+O que é que imaginaes que o Creador faria?
+Um pote? não; um bicho, um bipede com rabo,
+A que uns chamam Adão e outros Simão. Ao cabo
+O pobre Creador sentindo-se já fraco.
+(Coitado, tinha feito o universo e um macaco
+Em seis dias!) pensou:--Deixem-nos de asneiras.
+Trago já uma dôr horrivel nas cadeiras,
+Fastio... Isto dá cabo até d'uma pessoa...
+Nada, toca a dormir uma sonata boa!--
+Descalçou-se, tirou os oc'los e chinó,
+Pitadeou com delicia alguns trovões em pó,
+Abriu, para cahir n'um somno repentino,
+O alfarrabio chamado o livro do Destino.
+E enflanelando bem a carcassa caduca,
+Com o barrete azul celeste até á nuca,
+Fez ortodoxamente o seu signal da cruz
+Como qualquer de nós, tossiu, soprou á luz,
+E de pança p'ro ar, n'um repoiso bemdicto,
+Espojou-se, estirou-se ao longe do infinito
+N'um immenso enxergão de nevoa e luz doirada.
+
+E até hoje, que eu saiba, inda não fez mais nada.
+
+
+
+
+FANTASMAS
+
+
+I
+
+
+O vigario de Deus na terra disse um dia
+ Aos batalhões do clero:
+Tragam-me o manto d'oiro e seda que cobria
+ As espaduas de Nero.
+
+E trouxeram-lhe o manto, um manto do brocado,
+ Da purpura mais fina,
+Com escarros de lodo obsceno, inda empastado
+ No sangue de Agripina.
+
+E o papa continuou: «Preciso armar o braço,
+ Para dictar as leis;
+Fabriquem-me uma espada enorme com o aço
+ Das espadas dos réis.»
+
+E trouxeram-lhe o gladio. O papa ficou mudo,
+ N'um assombro d'espectro.
+De subito exclamou: «Ainda não é tudo;
+ Tragam-me agora um sceptro!»
+
+Trouxeram-lh'o. E depois d'um silencio profundo
+ Rugiu como um leão:
+«Tragam-me agora o mundo!» E pozeram-lhe o mundo
+ Na palma da sua mão.
+
+E sopesando o globo e arrancando o montante
+ Enorme da bainha,
+Bradou pela amplidão: «Sou Jupiter-tonante!
+ Humanidade, és minha!
+
+Eu tenho o gladio e o sceptro, a excomunhão e a bulla;
+ Sou o Deus, sou a Fé.
+Miseravel reptil, Humanidade, oscula
+ A ponta do meu pé!»
+
+E sentando-se sobre o coração da Italia
+ O satrapa romano
+Estendeu desdenhoso o bico da sandalia
+ Para o genero humano!
+
+
+II
+
+
+ N'esse instante um fantasma entrou nos regios paços.
+ Sereno e formidavel.
+ Encarou fixamente o rei, cruzando os braços
+ No peito inabalavel,
+
+ E trovejou, deixando o papa sacrosanto
+ Livido, espavorido:
+ «Sou a Fraternidade. Entrega-me esse manto
+ E essa espada bandido!»
+
+ Despedaçou-lhe o gladio e a tunica purpurea,
+ E sahiu triumfal.
+ E o papa horrorisado, espumando de furia,
+ Uivou como um chacal:
+
+ «N'esta invencivel mão d'abutre encarquilhada
+ Guarda o melhor thesoiro.
+ Ficou-me ainda o sceptro. Era de ferro a espada...
+ Prefiro o sceptro... é d'oiro!»
+
+ E o papa viu então, oh tragica anciedade
+ Um vulto sobrehumano
+ Avançar e bramir:--O meu nome é Egualdade;
+ Dá-me o sceptro, tyranno!--
+
+ Quebrou o sceptro e foi-se. E o papa, como um lobo
+ Sombrio respondeu:
+ «Na minha forte mão ainda sustento o globo...
+ Ainda o globo é meu!...»
+
+ E desatou a rir... um riso sanguinario
+ De panthera. Depois
+Surgiu novo fantasma herculeo, extraordinario,
+ Maior que os outros dois.
+
+ E como o rebentar potente d'um trovão
+ Que abala a immensidade
+ O fantasma rugiu:--Não me conheces, não!
+ Chamo-me a Liberdade!
+
+ «Venho buscar o mundo. Entrega-o, salteador!
+ É meu o globo, harpia!»
+ E arrancou-lh'o. Soltando um grito, no estertor
+ Convulso da agonia,
+
+ Tombou por terra o papa. E repentinamente
+ Viu surgir-lhe do lado
+ Um esqueleto a rir, todo fosforecente,
+ Podre, desengonçado,
+
+ Que he disse:--Morreu, ó Papa, o nosso imperio,
+ Morreu o mundo antigo.
+ Tu chamas-te Alexandre, eu chamo-me Tiberio...
+ Vem-te deitar commigo!...
+
+ E como um caçador fantastico que leva,
+ Sangrenta e moribunda,
+ Uma hyena a gemer, de rastos, pela treva
+ N'uma noite profunda,
+
+ O esqueleto levou para a crypta sombria
+ O cadaver do irmão,
+ Indo dormir os dois na eterna mancebia
+ Da mesma podridão!
+
+
+
+
+Post scriptum
+
+
+Quando eu morrer abram-me o peito
+E d'esta jaula, onde houve um leão,
+Tirem, o carcere era estreito,
+Meu velho e altivo coração.
+
+Depois sem dó e sem respeito,
+Sem um murmurio de oração,
+Lancem-no assim, vai satisfeito,
+Á valla obscura, á podridão,
+
+Para que durma e se desfaça
+No lodo amargo da Desgraça,
+Por quem bateu continuamente,
+
+Como um tambor que entre a metralha
+Estoira ao fim d'uma batalha,
+Rouco, furioso, ancioso, ardente!
+
+
+
+
+Nota
+
+
+Em seguida á _morte de D. João_ comecei a escrever um novo poema--_A
+Morte do Padre Eterno_,[1] cujo plano completo, até aos minimos
+detalhes, estava de ha muito elaborado no meu espirito.
+
+Mas em torno d'esta ideia principal germinou um grande numero de ideias
+acessorias, d'onde nasceu um livro novo _A Velhice do Padre Eterno_,
+collecção de 50 poesias, que são 50 balas que, partindo de diversos
+pontos, vão todas bater no mesmo alvo.
+
+Em 1879 estava adiantada a _Morte do Padre Eterno_ e quasi concluida a
+_Velhice_.
+
+Uma enfermidade de quatro annos successivos interrompeu a obra.
+
+Volvendo a saude, voltou o trabalho. O trabalho nasce espontaneamente da
+alegria, como um fructo nasce espontaneamente d'uma flôr.
+
+Publico hoje o 1^o volume da _Velhice do Padre Eterno_. O 2.^o, já na
+imprensa, sahirá a luz com brevidade. No 1.^o volume predomina a satyra,
+no segundo a epopeia. Os dois completam-se. A critica, só reunidos, os
+poderá julgar inteiramente.
+
+Creio, se a saude me não faltar, que a _Morte do Padre Eterno_ dentro de
+um anno estará impressa.
+
+E depois de morto D. João e morto Jehovah, resta-me resuscitar Jesus e
+desagrilhoar Prometheu.
+
+Esse ultimo poema, o _Prometheu Libertado_, será o fecho da trilogia, o
+complemento da minha obra.
+
+Terei os annos de vida necessarios para escrever esse livro? Não sei; no
+entanto rogo a Deus do fundo da minha alma que me deixe terminar com um
+hymno de esperança e de harmonia uma batalha de coleras e de sarcasmos.
+
+O plano está concebido ha muito. A ideia é simples e creio que bella. A
+primeira parte é a epopeia do Trabalho, a glorificação de Prometheu pela
+humanidade e pela natureza.
+
+Na segunda parte de Jesus Christo, levantando-se do seu tumulo, vem
+fulminar o abutre e desacorrentar Prometheu.
+
+O heroe é libertado pelo santo. A crença e a sciencia, a rasão e a fé,
+depois d'um combate do milhares de seculos reunem-se finalmente n'uma
+paz luminosa, n'uma communhão indestructivel.
+
+A liberdade de Prometheu significa o desaparecimento de todas as
+tyranias, e a resurreição de Jesus a morte de todos os dogmas. Um é a
+justiça humana, e outro a aspiração immortal para uma justiça absoluta.
+O Caucaso e o Golgotha ficam sendo para a humanidade os dois grandes
+altares da religião eterna Futuro!
+
+Julho--1885.
+
+Guerra Junqueiro.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +---------+--------------------+--------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +---------+--------------------+--------------------+
+ |#pág. 26| da ladrão | do ladrão |
+ |#pág. 33| Atrajectoria | A trajectoria |
+ |#pág. 34| nolte | noite |
+ |#pág. 59| Daz | Das |
+ |#pág. 67| haptisados | haptisados |
+ |#pág. 69| flu'do | fluido |
+ |#pág. 86| rollar não chão | rollar no chão |
+ |#pág. 90| Acharam-se | Acabaram-se |
+ |#pág. 112| babojar-lhe á anel | babojar-lhe o anel |
+ |#pág. 142| feitia | feita |
+ |#pág. 146| sandalla | sandalia |
+ |#pág. 147| encar | encarquilhada |
+ |#pág. 150| espontaneanente | espontaneamente |
+ +---------+--------------------+--------------------+
+
+
+
+A indicação da primeira secção dos poemas "_Como se faz um monstro_" e
+"_Fantasmas_" foi adicionada, uma vez que existia referência a uma
+segunda secção.
+
+
+Foram efectuadas correcções no índice, onde os títulos de poemas se
+encontravam omissos ou trocados e onde as páginas indicadas não estavam
+associadas correctamente.
+
+
+Todos os _n_ e _u_ trocados, encontrados no texto, foram rectificados.
+
+Os hífens "supostamente" em falta não foram adicionados.
+
+
+
+
+
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+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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