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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:02:36 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Elegias + +Author: Teixeira de Pascoaes + +Release Date: October 20, 2007 [EBook #23105] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ELEGIAS *** + + + + +Produced by Vasco Salgado + + + + + +TEIXEIRA DE PASCOAES + + ++ELEGIAS+ + + +1912 + + + + +ELEGIAS + + + + +OBRAS DO AUTOR + + +Sempre--1897 +Terra Prohibida--1899 +Sempre (2.^a edição)--1902 +Jesus e Pan--1903 +Para a Luz--1904 +Vida Etherea--1906 +As Sombras--1907 +Senhora da Noite--1908 +Marános--1911 +Regresso ao Paraiso--1912 +O Espirito Lusitano ou o Saudosismo--1912 +O Doido e a Morte--1913 + + + + +TEIXEIRA DE PASCOAES + + ++ELEGIAS+ + + +1912 + + + + +PREFACIO + + +Não tencionava publicar este livro. A dôr que ele contem, muito embora +arrefecida ao tomar expressão verbal, é sagrada para mim. + +Estes versos, nascidos da morte d'uma creança bem amada, fôram escriptos +para seus Paes e Avós, para as pessoas que a rodearam de carinhos durante +a sua doença e para os meus intimos amigos de alma. + +O soffrimento verdadeiro não ama a luz do mundo. Quem chora, esconde +o rôsto. A dôr oculta-se por conhecer a desharmonia de que é feita. + +Mas quando soube da subscripção nacional aberta a favor do divino Poeta +da "Historia de Jesus" _para as creancinhas lerem_, resolvi pôr á venda +este livro, com o fim de inscrever o seu producto, ainda que modesto, +na subscripção referida. + +Fui _eu_ que resolvi?... Gomes Leal verá no producto das "Elegias" não +a minha pessoa, mas o proprio espirito d'essa Creança... + +É ela a agradecer-lhe a dedicatoria do Poema, sublime de emoção +religiosa, onde murmura, eternamente viva, a alma de Jesus. + + +Março de 1913. + +[Nota do Transcritor: Aqui surge a assinatura do autor.] + + + + + +DEDICATORIA + + +_Este pequeno livro é para ti, +Minha irmã. Has de lê-lo com amor, +Pois nele encontrarás o que soffri +E uma sombra talvez da tua dôr. +E nele, embora em nevoa, encontrarás +A Imagem de teu Filho... + Ó minha irmã, +Sei que és a campa viva onde ele jaz; +Sei que este livro é cinza, poeira vã +Que eu espalho em redor da tua cruz... +Mas ante a negra dôr que me tortura, +Quiz vingar-me da Morte, e ergui á luz, +Cantando, este meu calix de amargura._ + + + + +MÃE DOLOROSA + + +Vi-o doente, ouvi os seus gemidos; +Sinto a memoria negra, ao recordá-lo! +A Mãe baixava os olhos doloridos +Sobre o Filho. E era a Dôr a contemplá-lo! + +Depois, nesses instantes esquecidos, +Ou lhe falava ou punha-se a beijá-lo... +Mas, retomando, subito, os sentidos, +Estremecia toda em grande abalo! + +Fugia de ao pé dele suffocada, +A sua escura trança desgrenhada, +Os seus olhos abertos de terror! + +E então, num desespêro, a Mãe chorava, +E, por entre gemidos, só gritava: +Amôr! amôr! amôr! amôr! amôr! + + + + +JUNTO DELE + + +Que terrivel tragedia ver a gente, +No seu exiguo e doloroso leito, +Uma creança morta, um Inocente, +Um pequenino Amôr inda perfeito! + +Oh que mimosa palidês tremente +A do gélido rôsto contrafeito! +A as mãosinhas de cêra, docemente, +Ó dôr, ó dôr, cruzadas sobre o peito! + +Ó Deus cruel que matas as Creanças! +Auroras para o nosso coração, +Alegrias, alivios, esperanças! + +Não sei quem és; eu não te entendo, Deus! +E penso, com terror, na escuridão +Desse teu Reino tragico dos Céus... + + + + +NAS TREVAS + + +Como estou só no mundo! Como tudo +É lagrima e silencio! + +Ó tristêsa das Cousas, quando é noite +Na terra e em nosso espirito!... Tristêsa +Que se anuncia em vultos de arvoredos, +Em rochas diluidas na penumbra +E soluços de vento perpassando +Na tenebrosa lividez do céu... + +Ó tristêsa das Cousas! Noite morta! +Pavor! Desolação! Escura noite! +Phantastica Paisagem, +Desde o soturno espaço á fria terra +Toda vestida em sombra de amargura! + +Êrma noite fechada! Nem um leve +Riso vago de estrela se adivinha... +Sómente as grossas lagrimas da chuva +Escorrem pela face do Silencio... + +Piedade, noite negra! Não me beijes +Com esses labios mortos de Phantasma! + +Ó Sol, vem alumiar a minha dôr +Que, perdida na sombra, se dilata +E mais profundamente se enraiza +Nesta carne a sangrar que é a minha alma! + +Ilumina-te, ó Noite! Ó Vento, cála-te! +Negras nuvens do sul, limpae os olhos, +Desanuviae a bronzea face morta! + +Oh, mas que noite amarga, toda cheia +Do teu Phantasma angelico e divino; +Espirito que, um dia, em minha irmã, +Tomou corpo infantil, figura de Anjo... +E para que, meu Deus? Para partir, +Com seis annos apenas, no primeiro +Riso da vida, em lagrimas, levando +Toda a luz de esperança que floria +Este êrmo, este remoto em que divago... + +Como estou só no mundo! Como é triste +A solidão que faz a tua Ausencia, +E o terrivel e tragico silencio +Da tua alegre Voz emudecida! + +Ó noite, ó noite triste! Ó minha alma! +Tu, que o viste e beijaste tantas vezes, +Tu, que sentiste bem o que ele tinha +De angelica Creança sobrehumana, +Não vês as proprias cousas como soffrem, +E como as grandes arvores agitam +As ramagens de lagrimas e sombras? + +Repára bem na lugubre tristêsa +Da nossa velha casa abandonada +Da divina Presença da Creança! + +Ah, como as portas gemem e o beiraes +Têm soluços de vento... + +Lá fóra, no terreiro onde brincavas, +A noite escura chora... + + Ó minha alma, +Embebe-te na dôr das Cousas êrmas; +Chora tambem, consome-te, soluça, +Junto á Mãe dolorosa, de joelhos... + + + + +OLHAR ETERNO + + +Aquele olhar tão triste, +Onde ia, feito em lagrima, o que eu sou, +Isto é, tudo o que existe, +No instante em que pousou, +Relampago do Além, +Sobre ti, meu querido e pobre Anjinho, +Já deitado na cama e tão doentinho, +Cercado da afflicção de tua Mãe; +Esse olhar fez-se eterno, +Em meus olhos ficou: é luz do inferno +Que tudo me alumia... + +Parece a luz do dia! + + + + +NO SEU TUMULO + + +Sobre o seu frio berço sepulcral, +Meu espirito resa ajoelhado; +E sente-se perfeito e virginal +Na sua dôr divina concentrado. + +Caí, gotas de orvalho matinal! +Astros, caí do céu todo estrelado! +Sêcas flôres do zéfiro outomnal, +Vinde enfeitar-lhe o tumulo sagrado! + +Ó luar da meia noite, encantamento +De sombra, vem cobri-lo! Ó doido Vento, +Dorme com ele, em paz religiosa... + +Sobre ele, ó terra, sê brandura apenas; +Faze-te luz, toma o calor das pennas; +Sê Mãe perfeita, bôa e carinhosa. + + + + +DELIRIO + + +Não posso crêr na morte do Menino! +E julgo ouvi-lo e vê-lo, a cada passo... +É ele? Não. Sou eu que desatino; +É a minha dôr soffrida, o meu cansaço. + +Delirio que me prendes num abraço, +Emendarás a obra do Destino? +Vê-lo-ei sorrir, de novo, no regaço +Da mãe? Verei seu rosto pequenino? + +Misterio! Sombra imensa! Alto segredo! +Jamais! jamais! Quem sabe? Tenho mêdo! +Que vejo em mim? A treva? a luz futura? + +Ah, que a dôr infinita de o perder +Seja a alegria de o tornar a ver, +Meu Deus, embora noutra creatura! + + + + +REMORSOS + + +Onde comtigo, um dia, me zanguei, +É hoje um sitio escuro que aborreço; +E sempre que ali passo, eu anoiteço!... +Ah, foi um crime, sim, que pratiquei! + +Quantas negras torturas eu padeço +Pelo pequeno mal que te causei! +Se, ao menos, presentisse o que hoje sei? +Mas não; fui mau; fui bruto; reconheço! + +E sôffro mais, por isso, a tua morte, +E dou mais chôro amargo ao vento norte, +Mais trevas se acumulam no meu rôsto... + +Ó vós que n'este mundo amaes alguem, +Seja linda creança ou pae ou mãe, +Não lhe causeis nem sombra de desgôsto! + + + + +NO CREPUSCULO + + +Nasce a luz do luar dos derradeiros, +Êrmos, soturnos pincaros sósinhos... +Andam sombras no ar e murmurinhos +E vagidos de luz... e os Pegureiros +Descem, cantando, a encosta dos outeiros... + +Tangendo amenas frautas amorosas, +Seus vultos, no crepusculo, desmaiam +E assim como os seus canticos, se espraiam +Em ondas de emoção. As fragarosas +Quebradas que o luar beija, misteriosas +Furnas, boccas de terra, murmurantes, +Arvoredos extaticos orando, +Rochedos, na penumbra, meditando, +Desfeitos em ternura, esvoaçantes, +Pairam tambem no espaço comovido, +Das primeiras estrelas já ferido, +Todo em luar e sombra amortalhado... + +E eu choro sobre um monte abandonado... + +E o Phantasma divino da Creança, +Sombra de Anjinho em flor, +Nos longes dos meus olhos aparece, +Como se, por ventura, ele nascesse +Da minha incerta e trémula esperança, +E não da minha firme e eterna dôr! + +E choro; e alem das lagrimas, eu vejo +Aquele dôce Vulto pequenino, +Em seu leito de morte e soffrimento; +Jesus martirisado, inda Menino... +E é como cinza morte o meu desejo +E como extinta luz meu pensamento! + +Depois, a sua Imagem soffredôra +Regressa á Vida, veste-se de aurora; +Os seus labios sorriem para mim... +E aquelles verdes olhos cristalinos +Abrem-se radiosos e divinos, +E vejo-o então brincar no meu jardim! + +Vejo-o como ele foi, como ele existe +No coração da Mãe por toda a vida! +Anjinho tutelar da nossa casa! +A divina Esperança florescida, +Brilhando além de tudo quanto é triste... +Longinquo Alivio, protectora Asa! + +Mas de que serve? Eu choro sem descanço, +No meio da tristêsa indiferente +Das Cousas que têm a alma sempre ausente... + +Só eu na minha dôr nunca me canço. + +Ó brutêsa das Cousas! No infinito +E gélido silencio, eu ouço um grito! +Na funda solidão que me rodeia, +Um sêr apenas, tétrico, vagueia... + +Quem grita? O meu espirito. E que importa? +É ele a errar no mundo solitario, +Sem principio nem fim, sem pae nem mãe! + +Ó céu indiferente! Ó terra morta! +Ó grito de Jesus sobre o Calvario, +A subir no Infinito, cada vez +Mais cercado de tragica mudez, +Mas afflicto, mais alto, mais além!... + +Cousas que já fizestes companhia +A este espirito meu que, em vós, se via, +Porque me abandonastes? Êrmo Vento, +Insonia do ar correndo o Firmamento, +Só vejo, em ti, loucura inanimada, +Revolta inconsciencia destruidora! + +Alta estrela, na noite, incendiada, +Passarinhos do céu, cantos da aurora, +Já não palpita em vós meu coração... +Sois o silencio, a treva, a solidão. + +Além de mim já nada avisto. As cousas, +Arvores, nuvens, serras pedregosas, +São penumbras que á luz do meu olhar +Se dissipam, de subito, no ar. + +De tal forma meu sêr se concentrou +Na visão da Creança, que além d'ela, +Não vejo flôr ou ave ou luz de estrela, +Limpido céu azul, verde paisagem! +Dir-se-á que o seu Espectro reencarnou +Em mim,--que não sou mais que a sua Imagem! + + + + +SOBRESALTO + + +Quantas horas passava contemplando +Seu pequenino Vulto. Era um Anjinho +Dentro de nossa casa, abençoando... +Era uma Flôr, um Astro, um Amorzinho. + +Um dia, em que ele, ao pé de mim, sósinho +Brincava, estes meus olhos inundando +De graça, de inocencia e de carinho, +De tudo o que é celeste, alegre e brando, + +Vi tremer sua Imagem, de repente, +No ar, como se fôra Aparição. +E para mim eu disse tristemente: + +"Pertences a outro mundo, a um céu mais alto; +Partirás dentro em breve." E desde então +Eu fiquei num constante sobresalto! + + + + +ENCANTAMENTO + + +Quantas vezes, ficava a olhar, a olhar +A tua dôce e angelica Figura, +Esquecido, embebido num luar, +Num enlêvo perfeito e graça pura! + +E á força de sorrir, de me encantar, +Deante de ti, mimosa Creatura, +Suavemente sentia-me apagar... +E eu era sombra apenas e ternura. + +Que inocencia! que aurora! que alegria! +Tua figura de Anjo radiava! +Sob os teus pés a terra florescia, + +E até meu proprio espirito cantava! +Nessas horas divinas, quem diria +A sorte que já Deus te destinava! + + + + +O QUE EU SOU + + +Nocturna e dubia luz +Meu sêr esboça e tudo quanto existe... +Sou, num alto de monte, negra cruz, +Onde bate o luar em noite triste... + +Sou o espirito triste que murmura +Neste silencio lúgubre das Cousas... +Eu é que sou o Espectro, a Sombra escura +De falecidas formas mentirosas. + +E tu, Sombra infantil do meu Amôr, +És o Sêr vivo, o Sêr Espiritual, +A Presença radiosa... + Eu sou a Dôr, +Sou a tragica Ausencia glacial... + +Pois tu vives, em mim, a vida nova, +E eu já não vivo em ti... + Mas quem morreu? +Fôste tu que baixaste á fria cova? +Oh, não! Fui eu! Fui eu! + +Horrivel cataclismo e negra sorte! +Tu fôste um mundo ideal que se desfez +E onde sonhei viver apoz a morte! +Vendo teus lindos olhos, quanta vez, +Dizia para mim: eis o logar +Da minha espiritual, futura imagem... +E viverei á luz daquele olhar, +Divino sol de mistica Paisagem. + +Era minha ambição primordial +Legar-lhe a minha imagem de saudade; +Mas um vento cruel de temporal, +Vento de eternidade, +Arrebatou meu sonho! E fugitiva +Deste mundo se fez minha alegria; +Mais morta do que viva, +Partiu comtigo, Amôr, á luz do dia +Que doirou de tristêsa o teu caixão... +Partiu comtigo, ao pé de ti murmura; +É maguada voz na solidão, +Dôce alvor de luar na noite escura... +E beija o teu sepulcro pequenino; +Sobre ele vôa e erra, +Porque o teu Sêr amado é já divino +E o teu sepulcro, abrindo-se na terra, +Penetrou-a de luz e santidade... +E para mim a terra é um grande templo +E, dentro dele, a Imagem da Saudade... +E reso de joelhos, e contemplo +Meu triste coração, saudoso altar +Alumiado de sombra, escura luz... +Nele deitado estás como a sonhar, +Meu pequenino e mistico Jesus... +Lagrimas dos meus olhos são as flôres +Que a teus pés eu deponho... +Enfeitam tua Imagem minhas dôres, +E alumia-te, ás noites, o meu sonho. + +Todo me dou em sacrificio á tua +Imagem que eu adoro. +Sou branco incenso á triste luz da lua: +Eu sou, em nevoa, as lagrimas que choro... + + + + +MINHA ALEGRIA + + +Minha alegria foi no teu caixão; +Deitou-se ao pé de ti, na sepultura, +A fim de acalentar teu coração +E tornar-te mais branda a terra dura. + +Por isso, é para mim consolação +Esta sombria dôr que me tortura! +E ponho-me a cantar na solidão, +Meu cantico esculpido em noite escura! + +Consola-me saber minha alegria +Longe de mim, perto de ti, na fria +Cova a que tu baixaste apoz a morte. + +Fôste tu que m'a deste, meu amôr; +Agora, dou-t'a eu: é a minha flôr; +Eu quero que ela soffra a tua sorte. + + + + +TRISTÊSA + + +O sol do outomno, as folhas a cair, +A minha voz baixinho soluçando, +Os meus olhos, em lagrimas, beijando +A terra, e o meu espirito a sorrir... + +Eis como a minha vida vae passando +Em frente ao seu Phantasma... E fico a ouvir +Silencios da minh'alma e o resurgir +De mortos que me fôram sepultando... + +E fico mudo, extatico, parado +E quasi sem sentidos, mergulhando +Na minha viva e funda intimidade... + +Só a longinqua estrela em mim actua... +Sou rocha harmoniosa á luz da lua, +Petreficada esphinge de saudade... + + + + +A MINHA DÔR + + +Tua morte feriu-me no mais fundo, +Remoto da minh'alma que eu julgava +Já fóra desta vida e deste mundo! + +E vejo agora quanto me enganava, +Imaginando possuir em mim +Alma que fôsse livre e não escrava! + +Meu espirito é treva e dôr sem fim. +Todo eu sou dôr e morte. Sou franquêsa. +Sou o enviado da Sombra. Ao mundo vim + +Prégar a noite, a lagrima, a incertêsa, +A luz que, para sempre, anoiteceu... +Esta envolvente, essencial tristêsa, + +Tristêsa original donde nasceu +O sol caindo em lagrimas de luz, +Chôro de oiro inundando terra e céu! + +Sou o enviado da Sombra. Em negra cruz, +Meu ilusorio sêr crucificado +Lembra um morto phantasma de Jesus... + +E aos pés da minha cruz, no chão maguado, +A tua Ausencia é a Virgem Dolorosa, +Com tenebroso olhar no meu pregado. + +Ah! quanto a minha vida religiosa, +Depois que te perdeste no sol-pôsto, +Se fez incerta, fragil e enganosa! + +Em meu sêr desenhou-se um novo rôsto. +Sou outro agora; e vejo com pavor +Minha máscara interna de desgôsto. + +Vejo sombras á luz da minha dôr... +Sombras talvez de eternas Creaturas +Que vivem na alegria do Senhor... + +E quem sabe se os Mortos, nas Alturas, +Vivem na paz de Deus, em sitios êrmos, +Entre flôres, sorrisos e venturas?... + +E quem sabe se as dôres que soffremos +E nosso corpo e alma, não são mais +Que as suas vagas sombras irreaes?... + +Ah, nós sômos ainda o que perdemos... + + + + +A MÃE E O FILHO + + +Teu sêr tragicamente enternecido, +Em desespero de alma transformado, +Vae através do espaço escurecido +E pousa no seu tumulo sagrado. + +E ele acorda, sentindo-o; e, comovido, +Chora ao vêr teu espirito adorado, +Assim tão só na noite e arrefecido +E todo de êrmas lagrimas molhado! + +E eis que ele diz: "Ó Mãe, não chores mais! +Em vez dos teus suspiros, dos teus ais, +Quero que venha a mim tua alegria!" + +E só nas horas em que a Mãe descança, +É que ele inclina a fronte de creança +E dorme ao pé de ti, Virgem Maria! + + + + +AUSENCIA + + +Lúgubre solidão! Ó noite triste! +Como sinto que falta a tua Imagem +A tudo quanto para mim existe! + +Tua bemdita e efémera passagem +No mundo, deu ao mundo em que viveste, +Á nossa bôa e maternal Paisagem, + +Um espirito novo mais celeste; +Nova Forma a abraçou e nova Côr +Beijou, sorrindo, o seu perfil agreste! + +E ei-la agora tão triste e sem verdor! +Depois da tua morte, regressou +Ao seu velhinho estado anterior. + +E esta saudosa casa, onde brilhou +Tua voz num instante sempiterno, +Em negra, intima noite se occultou. + +Quando chego á janela, vejo o inverno; +E, á luz da lua, as sombras do arvoredo +Lembram as sombras pálidas do Inferno. + +Dos recantos escuros, em segredo, +Nascem Visões saudosas, diluidos +Traços da tua Imagem, arremêdo + +Que a Sombra faz, em gestos doloridos, +Do teu Vulto de sol a amanhecer... +A Sombra quer mostrar-se aos meus sentidos... + +Mas eu que vejo? A luz escurecer; +O imperfeito, o indeciso que, em nós, deixa +A amargura de olhar e de não vêr... + +A voz da minha dôr, da minha queixa, +Em vão, por ti, na fria noite clama! +Dir-se-á que o céu e a terra, tudo fecha + +Os ouvidos de pedra! Mas quem ama, +Embora no silencio mais profundo, +Grita por seu amor: é voz de chama! + +E eu grito! E encontro apenas sobre o mundo, +Para onde quer que eu olhe, aqui, além, +A tua Ausencia tragica! E no fundo + +De mim proprio que vejo? Acaso alguem? +Só vejo a tua Ausencia, a Desventura +Que fez da noite a imagem de tua Mãe! + +A tua Ausencia é tudo o que murmura, +E mostra a face triste á luz da aurora, +E se espraia na terra em sombra escura... + +Quem traz o outomno ao meu jardim agora? +Quem muda em cinza o fogo do meu lar? +E quem soluça em mim? Quem é que chora? + +É a tua Ausencia, Amôr, que vem turbar +Esta alegria etérea, nuvem, asa +De Anjo que, ás vezes, passa em nosso olhar! + +O Sol é a tua Ausencia que se abrasa, +A Lua é tua Ausencia enfraquecida... +Da tua Ausencia é feita a minha vida +E os meus versos tambem e a minha casa. + + + + +TRAGICA RECORDAÇÃO + + +Meu Deus! meu Deus! quando me lembro agora +De o ver brincar, e avisto novamente +Seu pequenino Vulto transcendente, +Mas tão perfeito e vivo como outrora! + +Julgo que ele ainda vive; e que, lá fóra, +Fala em voz alta e brinca alegremente, +E volve os olhos verdes para a gente, +Dois berços de embalar a luz da aurora! + +Julgo que ele ainda vive, mas já perto +Da Morte: sombra escura, abysmo aberto... +Pesadêlo de treva e nevoeiro! + +Ó visão da Creança ao pé da Morte! +E a da Mãe, tendo ao lado a negra sorte +A calcular-lhe o golpe traiçoeiro! + + + + +IDILIO + + +Sinto que, ás vezes, choras, minha Irmã, +No teu sombrio quarto recolhida... +É que ele vem rompendo a sombra vã +Da Morte, e lhe aparece á luz da vida! + +E afflicta, como choras, minha Irmã... +Teu chôro é tua voz emudecida, +Ante a imagem do Filho, essa Manhã +Em profunda saudade amanhecida. + +Silencio! Não palpites, coração; +Nem canto de ave ou mistica oração +Um tal idilio venham perturbar! + +Deixae o Filho amado e a Mãe saudosa: +O Filho a rir, de face carinhosa, +E a Mãe, tão triste e pálida, a chorar... + + + + +DE NOITE + + +Quando me deito ao pé da minha dôr, +Minha Noiva-phantasma; e em derredor +Do meu leito, a penumbra se condensa, +E já não vejo mais que a noite imensa, +Ante os meus olhos intimos, acêsos, +Extaticos, surprêsos, +Aparece-me o Reino Espiritual... +E ali, despido o habito carnal, +Tu brincas e passeias; não comigo, +Mas com a minha dôr... o amôr antigo. + +A minha dôr está comtigo ali, +Como, outrora, eu estava ao pé de ti... +Se fôsse a minha dôr, com que alegria, +De novo, a tua face beijaria! + +Mas eu não sou a dôr, a dôr etérea... +Sou a Carne que soffre; esta miseria +Que no silencio clama! + +A Sombra, o Corpo doloroso, o Drama... + + + + +NOITES EM CLARO + + +Passas em claro as noites a chorar; +Dia a dia, teu rosto empalidece... +Faze tu, pobre Mãe, por serenar, +Santa Resignação sobre ela desce! + +Rochedo que a penumbra desvanece, +Tu, por acaso, não lhe podes dar +Um pouco d'esse frio que entorpece +O coração e o deixa descançar?... + +Jamais! Não ha remedio! Nem as horas +Que passam! Toda a fria noite choras; +Tua sombra, no chão, é mais escura. + +Soffres! E sinto bem que a tua dôr, +Como se fôra um beijo, acêso amôr, +Vae-lhe aquecer, ao longe, a sepultura. + + + + +DUAS SOMBRAS + + +Pelas tardes divinas, +Quando a côr se dissolve em lagrimas doiradas, +Eu vejo duas Sombras pequeninas, +Andando de mãos dadas. +Como duas creanças que elas são, +Percorrem, a brincar, +Esta minha infinita solidão; +E extatico e suspenso, eu fico a olhar, a olhar... +Bate-me o coração; caminho... Na distancia, +Através do crepusculo divino, +Vejo a Sombra infantil da minha infancia +E a Sombra do Menino! +E d'elas me aproximo; e paro; tenho mêdo +De as vêr fugir, assim... +Seus Vultos de chimera e de segrêdo +Tremem deante de mim... +E como se parecem! +O mesmo adeus no olhar, o mesmo rôsto e altura... +E ao pé d'elas as cousas se enternecem, +E este meu coração aberto em sepultura. + +Durante a tua vida, meu Amôr, +Quantas vezes, ao ver-te, imaginava +Olhar de perto, a minha infancia toda em flôr! +E ainda mais: pensava +Que eras a minha propria Infancia novamente, +Mesmo deante de mim, resuscitada +E brincando comigo alegremente, +N'esta velha Paisagem bem amada, +Terra da meia noite, alma do outomno... +N'esta casa velhinha, evocadora, +Tocada de luar, de sombra e de abandono, +Da alegria de outrora... +E por isso, no dia em que morreste, +Quando tudo era lagrima, a distancia, +Coração, duas cruzes padeceste; +Duas mortes soffreu a minha infancia. + + + + +LAGRIMA + + +Bate-me o luar na face, e o meu olhar +Em lagrima saudosa se condensa... +Vejo-a deante de mim, como suspensa +Na sombra do ar. + +E em seu liquido seio de esplendor, +Tua Imagem começa a alvorecer, +Pois toma corpo e vida no meu sêr, +Quando a beija, sorrindo, a minha dôr... + +Ébria do teu espirito sagrado, +A radiosa lagrima estremece, +Emquanto a minha face empalidece +E o luar e a noite scismam ao meu lado... + +E a comovida lagrima crepita... +Relampago de dôr... E nada vejo; +Pois nela está presente o meu desejo +E a minha vida fragil e infinita. + +E a lagrima scintila, num adeus... +E, desprendida de meus olhos, ei-la +Já distante, no espaço: é nova estrela +Subindo aos céus... + + + + +MEDITAÇÃO + + +A nocturna lembrança consumida +Da tua horrivel morte dolorosa, +Enevôa de lagrimas a vida... + +E sinto a luz tornar-se duvidosa, +Tocando a minha fronte que lhe gasta +A seiva etérea, a fluida côr viçosa. + +O meu olhar maldito logo afasta +O Sêr que ás suas lagrimas empece, +E o perfil animado lhe desgasta! + +O meu olhar as cousas anoitece... +E elas choram na sombra e na incertêsa, +A minha propria dôr... E eis que aparece, + +Deante de mim, o Espectro da Tristêsa... +E tudo transfigura... E eu fico a vêr, +Como através da Morte, a Naturêsa... + +O berço é cova. Que é nascer? Morrer. +Quem abre ao sol os olhos, escravisa +A alma, a luz espiritual do sêr... + +Um rio de emoção, em mim, deslisa... +Para cantar se fez pequena fonte; +Seu canto é bruma pálida e indecisa. + +E fito, de olhos tristes, o horisonte: +Nele me perco em nevoa: sou distancia... +Intima cruz a erguer-se em tôsco monte... + +Vésper, sorriso de oiro, luz, fragancia +Da noite que amanhece, ao teu fulgôr, +Vejo Espectros que são da minha infancia... + +Formas mortas que nem meu proprio Amôr +Anima,--ele que d'antes animava +A sombra, a pedra, as arvores em flôr! + +E como outrora tudo me encantava! +Como perdi no turbilhão dos dias +O sabôr que nas cousas eu gostava! + +Tristêsas são phantasmas de alegrias... +E entre Phantasmas vivo... Ó meus amôres, +Folhas mortas, outomno, ventanias!... + +Sombras da meia noite! Mãe das Dôres +Em teu altar sósinho, na capela +Do monte sem romeiros e sem flôres! + +Ó Noite! Virgem triste! Êrma Donzela! +Se eu fôra sombra de alma adormecida, +Silencio de alma, solidão de estrela?... + +Mas não; eu vivo e penso n'esta Vida; +No Mal victorioso e na Bondade +Quasi sempre ultrajada e perseguida! + +Vejo a Inocencia ás mãos da Crueldade +Morta, desbaratada, e vejo a aurora +Alumiando esta negra, ferrea edade! + +Vejo um pequeno Anjinho que enamora +Meu comovido espírito encantado... +E divinos sorrisos ele chora, + +E só de vê-lo, eu sinto-me sagrado! +E fica todo em flôr meu coração, +Paraiso astral, Jardim de Deus, Sol nado! + +E, súbito, lá vae: é sonho vão! +E sobre mim, afflicta, a noite desce: +Maré cheia de treva e solidão. + +E o sangue em minhas veias arrefece... +Á altura do meu rôsto, vejo o Mêdo +Que, nos êrmos crepusculos, me empece! + +E como tudo é sombra, dôr, segrêdo! +De longe, aspectos de alma que nos falam; +De perto, brutas formas de rochedo! + +Quantas intimas dôres nos abalam! +Porque não ha no mundo quem as ouça, +As dolorosas vozes que se calam! + +Ó gente enamorada! Ó gente môça! +Que, de repente, ao tumulo baixaes, +Qual o vosso pecado? a culpa vossa? + +Ó Procissão das lagrimas, dos ais, +Deante de mim, passando eternamente +A caminho das sombras sepulcraes! + +Dôr sem fim, sem principio, dôr presente, +Martirisando as almas, e sobre elas +O sorriso de Deus indiferente! + +O Deus que põe na face das estrelas +Nodoas de sombra e enfeita com as flôres +Da morte, as brancas Noivas e as Donzelas; + +O Deus acêso em tragicos furôres, +Que mata as creancinhas sem peccado +E parece viver das nossas dôres, + +E fez do nosso chôro o mar salgado, +E fez da nossa angustia um êrmo outeiro, +E sobre ele Jesus crucificado; + +O Deus que me tornou prisioneiro, +E que transforma tudo quanto eu amo +Em desfeita visão de nevoeiro; + +Ah, esse Deus que, quando por Deus chamo, +É profundo silencio, indiferença, +A propria sombra morta que eu derramo... + +Remoto Deus--Phantasma, sem presença, +Que em materia de dôr edificou +As arvores, o Sol, a noite imensa, + +E em doloroso barro alevantou +Minha figura tragica e reprêsa, +Num impotente, empedernido vôo; + +É o Deus do Abysmo, o Pae da Naturêsa, +Nocturno Deus da vida material, +Divindade da fúnebre Tristêsa; + +O Deus creador das Trevas, contra o qual +Sósinho, se ergue em mim, mas sem temor, +O meu divino Sêr espiritual; + +Meu Sêr heroico acêso em puro amor! +Sol comovido, ardente meio dia, +Trespassando de luz a noite e a dôr! + +Meu Sêr, onde se muda em alegria +A corporea tristêsa; onde a Materia +Se faz alma perfeita de harmonia; + +Meu Sêr que afirma o Bem, ante a miseria +Das transitorias cousas; que alevanta, +Contra a sombra do inferno, a Luz etérea! + +Meu Sêr espiritual que, alegre, canta, +Se, por ventura, eu choro desolado, +E que os Phantasmas lúgubres espanta; + +Meu Sêr creador do Espírito sagrado, +O Redemptor das lagrimas, dos ais; +Senhor dum novo Olimpo sublimado... + +Novo Orféu nos Abysmos infernaes. + + + + +ESPERANÇA E TRISTÊSA + + +Minha tristêsa é peor que a tua dôr. +Um dia, no teu ventre sentirás +Reencarnar para o mundo o teu amor: +A mesma alma, o mesmo olhar... verás!... + +Eu sei que ha de voltar; e assim terás +A alegria primeira, ainda maior... +E então, de novo, alegre ficarás; +Será primeiro o teu segundo amôr! + +Mas eu que, antes do tempo, já declino, +Quem sabe se verei o teu Menino, +Numa edade em que possa compreender? + +E partirei talvez sem lhe deixar, +Na memoria, esse interno e fundo olhar, +A comovida imagem do meu sêr... + + + + +SÓSINHO + + +Tarde. Vagueio só por um outeiro. +Sua Imgem chimerica fluctua, +Deante de mim, no espaço: é nevoeiro +Vestindo de emoção a terra nua... + +E como na minh'alma se insinua +Aquele etéreo Vulto... amôr primeiro! +Ouço-o falar, lá fóra, á luz da lua. +Vejo-o brincar na sombra do terreiro. + +Apenas vêm meus olhos, n'este mundo, +O seu perfil angelico, o seu fundo, +Misterioso, verde negro olhar... + +Vejo uma estrela? É ele. Vejo um lirio? +É ele. Tudo é ele. E o meu delirio +É ele: é o seu espírito a cantar! + + + + +DEPOIS DA VIDA + + +Quando meu coração parar desfeito +Em sombra, na profunda sepultura, +E o meu sêr, já phantastico e perfeito, +Vaguear entre o Infinito e a terra dura; + +Quando eu sentir, emfim, todo o meu peito +A transformar-se em constelada Altura; +Eu, divino Phantasma, o claro Eleito, +O Enviado da Vida á Morte escura; + +Quando eu fôr para mim minha esperança, +Meu proprio amôr jamais anoitecido, +E a minha sombra apenas fôr lembrança; + +Quando eu fôr um Espectro de Saudade, +Entre o luar e a nevoa amanhecido, +Serei comtigo, Amôr, na Eternidade. + + + + +O ENCONTRO COM O RETRATO + + +Receio o teu encontro, pobre Mãe, +Com o retrato de teu Filho. Vaes +Contemplar suas formas materiaes, +O que pertence á morte e a mais ninguem... + +Mas para que exaltar ainda mais +Aquela dôr que é só do mundo? Tem +Paciencia. Não o vejas. Olha bem: +De que servem as lagrimas e os ais?... + +Essa dôr não a ames, que é profana. +Sim: não adores nele a forma humana, +A ilusoria aparencia, o sonho vão... + +Pois é verdade, ó Mãe, que tens presente +Seu imortal espírito inocente +Em ti mesma, em teu proprio coração!... + + + + +NA MINHA SOLEDADE + + +Aqui, por estes sitios onde nós +Vivêmos; tu brincando no jardim; +Eu a ouvir encantado a tua voz +E vendo em ti um Anjo, um sonho, ao pé de mim; + +Aqui, por estes vales de alegria +Emquanto tu viveste, +E agora escuras, êrmas terras de elegia +Batidas do nordeste, +Eu ando á minha sombra redusido +E mais a tua Imagem. +E quem nos vê, de longe, diz entristecido: +Dois Espectros, além, vagueando na Paisagem... + + + + +A TUA IMAGEM + + +Os meus olhos abrigam como um templo, +Tua divina Imagem que os eleva +E os enche de purêsa e santidade; +São os meus olhos intimos, aqueles +Que entre as nuvens avistam, certas horas, +Azas de Anjos, relampagos de Deus, +E não meus pobres olhos materiaes +Na côr, nos formas vãs crucificados. + +E tu vives e falas nesse mundo, +Ao pé do qual meu corpo de tragedia +É sua antiga e vaga Nebulosa... + +E em meu nocturno espirito rebôa +Aquela tua voz amanhecente +Que espalhava alegrias pelo ar. + +E a tua voz divina, por encanto, +Se espêlha em minhas lagrimas que ficam +Todas, por dentro, acêsas num sorriso. + +A lagrima vê tudo: a propria voz, +Pousando á sua tôrva superficie, +Nela desenha, em ondas, o seu Vulto. + +Meu doloroso sêr com tua Imagem +Eterna comunica. A minha vida +Na tua morte assim se continua... +Embora exista entre elas a distancia +De sombras lampejantes, que separa +Nosso corpo mortal do nosso espirito. + +E eu canto, e me deslumbro em minha dôr! +De subito, anoiteço, e me disperso, +E vejo-me Phantasma... e, a sós, divago +Pelos caminhos lúgubres da Morte... +E chego á porta em flôr do teu sepulcro; +E uma alegria misteriosa vem +Doirar a sombra vã de que sou feito... + +E esta alegria és tu... que me apareces!... +Minha segunda vida transcendente +Nasceu da tua Ausencia que lhe imprime +O drama eterno, a acção divina e triste. + +Tua morte refez meu sêr: abriu-lhe +Novo sentido de alma; aquele olhar +Que no seio das lagrimas desperta, +E veste de infinito e de saudade +A tôsca rocha bruta que se torna +Espirito vivente no crepusculo: +Esphinge em cujos labios a tristêsa +Das cousas interroga a dôr humana. + +E vós, ó brutas cousas reviveis +Perante o meu olhar que vos penetra +De seu liquido lume visionario. +Tornastes a viver. As vossas almas +Que a minha dôr primeira afugentou, +São presentes, de novo, em vosso corpo. +Ei-lo scismando, triste, á luz do luar, +Na projectada sombra que, a seus pés, +Desenha ignotas formas de silencio... +Ei-lo embebido em mistica ternura, +Tremulo de emoção, reverdecendo, +Esculpindo, no ar, melancolias... + +E a tua Imagem paira sobre mim... +Todo eu palpito em ondas de anciedade! +Abysmo de emoção, em mim me perco! +E minh'alma exaltada e comovida, +D'este meu sêr trasborda e inunda tudo! +Arde no fogo virgem das estrelas, +Em cada humana lagrima scintila, +Chora nas nuvens, no êrmo vento geme! + +E julgo haver, meu Deus, resuscitado +Da morte que soffri para nascer! + +Sim: o meu berço é irmão do teu sepulcro; +Teu cadaver baixou áquele abysmo +Donde subi outrora á luz da morte... +E lá tu me encontraste ainda em vida, +Na Aurora que precede o nascimento, +E parece doirar a nossa Infancia... + +Sinto que estou comtigo em outro mundo. +Lá vivemos os dois em companhia, +Muito embora eu arraste sobre a terra, +Que teu cadaver, tão mimoso! esconde, +Esta minha Presença de afflição! + +E beijo a tua Imagem, de joelhos... +E, em meu silencio, reso... E a tua Imagem +Agora é grave, séria, quasi triste, +Porque se fez sagrada além da Morte. + + + + +A NOSSA DÔR + + +Emquanto chora a Mãe desventurada, +Sobre o seu coração, de noite e dia, +Eu canto a minha dôr; e a dôr cantada +Como que intimamente se alumia... + +Se me levanto cêdo e a madrugada +Já vem doirando os longes de harmonia, +Sinto que estás ainda despertada +E eu ouço, em mim, cantar nova elegia. + +Abre-te a dôr os olhos sem piedade, +Durante as longas noites de amargura... +Mas para mim a dôr é já saudade. + +A dôr, em mim, é canto que murmura; +A dôr, em ti, é negra tempestade: +Sou a noitinha, e tu, a noite escura! + + + + +VIDA ETERNA + + +Nele adora somente o que não passa; +O que é imortal, perfeito, e no teu sêr +É fonte de orações, de luz e graça. + +Adora a sua Imagem a viver, +Numa perpetua infancia florescendo, +Perpetuamente isenta de soffrer. + +Dia a dia, nós vamos falecendo; +Esta vida carnal é um arremêdo +Da Vida, á luz da qual eu não entendo + +Nem morte ou aparencia ou dôr ou mêdo... +Teu Filho agora é luz, revelação; +E tu, ó Mãe, crepusculo e segrêdo! + +Adora, sim, teu proprio coração +Se desejas amar teu Filho. Resa +E não chores, que a luz duma oração + +Mostra-te bem melhor sua belêsa, +Seus verdes olhos de alma, a fronte e o rôsto +Que as lagrimas sombrias de tristêsa. + +Seja alegria eterna o teu desgôsto +Corporeo, transitorio! Seja aurora +De idilio o teu dramatico sol-pôsto! + +A alma ajoelha e resa, mas não chora. + + + + +MEMORIA + + +Memoria, Elisios Campos, Paraiso, +Espirituaes Paisagens! +Vales de luz, outeiros de sorriso, +Onde vivem as misticas Imagens. + +Jardim florido de Almas que o estortôr +Da Morte libertou! Jardim povoado +De luminosas Sombras que em amôr +E sonho iluminado, +Dando-se as mãos de luz e intimidade, +Vagueiam pelas verdes avenidas, +Ao luar misterioso da Saudade, +Evocando outros mundos, outras vidas... + +Vejo, em grupos, os velhos conversando... +E murmuram palavras... voz de outomno +Que se vae em silencios desfolhando +Num êrmo chão doirado, ao abandono. + +Mais adeante, em dôce companhia, +Caminha enamorada a gente nova: +O Heroe caido, morto, á luz do dia, +A Noiva que baixou á fria cova! + +E mais adeante ainda, em mais ruidosos +E alvoroçados grupos, as Creanças +Falam alto, têm gestos luminosos... +São bandos de esperanças, +Tão cêdo á luz do mundo arrebatadas +E aos braços maternaes! +E brincam a sorrir, inda molhadas +Das lagrimas eternas de seus Paes... + +E com um ar de riso, +As beija o Sol do Alem... +Nem se lembram das mães, no Paraiso; +São Almas, sim, e as Almas não têm Mãe! + +Ao Sol espiritual que as faz corar +Durante os seus brinquedos, +Somente Deus as pode contemplar +Do seu trôno de trevas e segrêdos. + +Deus contempla as Creanças que roubou +Ao fundo amôr materno... E bem se vê +Nos seus olhos a nuvem que os toldou... +E a si mesmo pergunta: Para quê? + +E á luz do eterno dia, +Os Phantasmas divinos das Creanças +Fazem os seus bailados de alegria, +Elas que são tristissimas Lembranças! + +E a nova formosura que elas têm! +O novo e estranho encanto! +Assim tocadas já do sol do Alem, +Até aos pés vestidas do meu Canto! + +Memoria, Jardim de Almas todo em flôr +Que as canções e os perfumes enevôam, +Se para mim és dôr, és luz e amôr, +Para os sêres amados que o povoam! + +E eis tudo quanto resta á Creatura: +Saber que o seu tormento +É perfeita alegria, alta ventura, +Em outro Firmamento! + +Quando os meus olhos intimos, em sonho, +Esse mundo ideal conseguem vêr, +Fico tão deslumbrado que suponho +Haver morrido já sem o saber! + +E eis que sou na Paisagem da Memoria! +Lembrança de mim mesmo, eu já penetro +Na cidade phantastica e ilusoria... +Já sou Aparição, Visão, Espectro! + +Que é da minha Presença? Não me vejo! +Ah, não me encontro em mim! Sou a Oração +Redimida, sem Deus e sem desejo; +Amôr sem coração! +Sonho liberto, ascendo no Infinito. +A propria Altura é já profundidade! +Onde estás? onde estás? ó corpo aflicto! +Meu sêr perdeu-se em alma: ei-lo saudade! + + +Outubro de 1912 + + + + +INDICE + + +Prefacio +Dedicatoria +Mãe dolorosa +Junto dele +Nas trevas +Olhar eterno +No seu tumulo +Delirio +Remorsos +No crepusculo +Sobresalto +Encantamento +O que eu sou +Minha alegria +Tristêsa +A minha dôr +A Mãe e o Filho +Ausencia +Tragica recordação +Idilio +De noite +Noites em claro +Duas sombras +Lagrima +Meditação +Esperança e tristêsa +Sósinho +Depois da vida +O encontro com o retrato +Na minha soledade +A tua imagem +A nossa dôr +Vida eterna +Memoria + + + + +ACABOU DE IMPRIMIR-SE +AOS 21 DE JUNHO DE 1913 +NA TYPOGRAPHIA COSTA +CARREGAL TRAVESSA PASSOS +MANUEL, 27--PORTO. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Elegias, by Teixeira de Pascoaes + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ELEGIAS *** + +***** This file should be named 23105-8.txt or 23105-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/3/1/0/23105/ + +Produced by Vasco Salgado + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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