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+The Project Gutenberg EBook of Elegias, by Teixeira de Pascoaes
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Elegias
+
+Author: Teixeira de Pascoaes
+
+Release Date: October 20, 2007 [EBook #23105]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ELEGIAS ***
+
+
+
+
+Produced by Vasco Salgado
+
+
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+
+
+TEIXEIRA DE PASCOAES
+
+
++ELEGIAS+
+
+
+1912
+
+
+
+
+ELEGIAS
+
+
+
+
+OBRAS DO AUTOR
+
+
+Sempre--1897
+Terra Prohibida--1899
+Sempre (2.^a edição)--1902
+Jesus e Pan--1903
+Para a Luz--1904
+Vida Etherea--1906
+As Sombras--1907
+Senhora da Noite--1908
+Marános--1911
+Regresso ao Paraiso--1912
+O Espirito Lusitano ou o Saudosismo--1912
+O Doido e a Morte--1913
+
+
+
+
+TEIXEIRA DE PASCOAES
+
+
++ELEGIAS+
+
+
+1912
+
+
+
+
+PREFACIO
+
+
+Não tencionava publicar este livro. A dôr que ele contem, muito embora
+arrefecida ao tomar expressão verbal, é sagrada para mim.
+
+Estes versos, nascidos da morte d'uma creança bem amada, fôram escriptos
+para seus Paes e Avós, para as pessoas que a rodearam de carinhos durante
+a sua doença e para os meus intimos amigos de alma.
+
+O soffrimento verdadeiro não ama a luz do mundo. Quem chora, esconde
+o rôsto. A dôr oculta-se por conhecer a desharmonia de que é feita.
+
+Mas quando soube da subscripção nacional aberta a favor do divino Poeta
+da "Historia de Jesus" _para as creancinhas lerem_, resolvi pôr á venda
+este livro, com o fim de inscrever o seu producto, ainda que modesto,
+na subscripção referida.
+
+Fui _eu_ que resolvi?... Gomes Leal verá no producto das "Elegias" não
+a minha pessoa, mas o proprio espirito d'essa Creança...
+
+É ela a agradecer-lhe a dedicatoria do Poema, sublime de emoção
+religiosa, onde murmura, eternamente viva, a alma de Jesus.
+
+
+Março de 1913.
+
+[Nota do Transcritor: Aqui surge a assinatura do autor.]
+
+
+
+
+
+DEDICATORIA
+
+
+_Este pequeno livro é para ti,
+Minha irmã. Has de lê-lo com amor,
+Pois nele encontrarás o que soffri
+E uma sombra talvez da tua dôr.
+E nele, embora em nevoa, encontrarás
+A Imagem de teu Filho...
+ Ó minha irmã,
+Sei que és a campa viva onde ele jaz;
+Sei que este livro é cinza, poeira vã
+Que eu espalho em redor da tua cruz...
+Mas ante a negra dôr que me tortura,
+Quiz vingar-me da Morte, e ergui á luz,
+Cantando, este meu calix de amargura._
+
+
+
+
+MÃE DOLOROSA
+
+
+Vi-o doente, ouvi os seus gemidos;
+Sinto a memoria negra, ao recordá-lo!
+A Mãe baixava os olhos doloridos
+Sobre o Filho. E era a Dôr a contemplá-lo!
+
+Depois, nesses instantes esquecidos,
+Ou lhe falava ou punha-se a beijá-lo...
+Mas, retomando, subito, os sentidos,
+Estremecia toda em grande abalo!
+
+Fugia de ao pé dele suffocada,
+A sua escura trança desgrenhada,
+Os seus olhos abertos de terror!
+
+E então, num desespêro, a Mãe chorava,
+E, por entre gemidos, só gritava:
+Amôr! amôr! amôr! amôr! amôr!
+
+
+
+
+JUNTO DELE
+
+
+Que terrivel tragedia ver a gente,
+No seu exiguo e doloroso leito,
+Uma creança morta, um Inocente,
+Um pequenino Amôr inda perfeito!
+
+Oh que mimosa palidês tremente
+A do gélido rôsto contrafeito!
+A as mãosinhas de cêra, docemente,
+Ó dôr, ó dôr, cruzadas sobre o peito!
+
+Ó Deus cruel que matas as Creanças!
+Auroras para o nosso coração,
+Alegrias, alivios, esperanças!
+
+Não sei quem és; eu não te entendo, Deus!
+E penso, com terror, na escuridão
+Desse teu Reino tragico dos Céus...
+
+
+
+
+NAS TREVAS
+
+
+Como estou só no mundo! Como tudo
+É lagrima e silencio!
+
+Ó tristêsa das Cousas, quando é noite
+Na terra e em nosso espirito!... Tristêsa
+Que se anuncia em vultos de arvoredos,
+Em rochas diluidas na penumbra
+E soluços de vento perpassando
+Na tenebrosa lividez do céu...
+
+Ó tristêsa das Cousas! Noite morta!
+Pavor! Desolação! Escura noite!
+Phantastica Paisagem,
+Desde o soturno espaço á fria terra
+Toda vestida em sombra de amargura!
+
+Êrma noite fechada! Nem um leve
+Riso vago de estrela se adivinha...
+Sómente as grossas lagrimas da chuva
+Escorrem pela face do Silencio...
+
+Piedade, noite negra! Não me beijes
+Com esses labios mortos de Phantasma!
+
+Ó Sol, vem alumiar a minha dôr
+Que, perdida na sombra, se dilata
+E mais profundamente se enraiza
+Nesta carne a sangrar que é a minha alma!
+
+Ilumina-te, ó Noite! Ó Vento, cála-te!
+Negras nuvens do sul, limpae os olhos,
+Desanuviae a bronzea face morta!
+
+Oh, mas que noite amarga, toda cheia
+Do teu Phantasma angelico e divino;
+Espirito que, um dia, em minha irmã,
+Tomou corpo infantil, figura de Anjo...
+E para que, meu Deus? Para partir,
+Com seis annos apenas, no primeiro
+Riso da vida, em lagrimas, levando
+Toda a luz de esperança que floria
+Este êrmo, este remoto em que divago...
+
+Como estou só no mundo! Como é triste
+A solidão que faz a tua Ausencia,
+E o terrivel e tragico silencio
+Da tua alegre Voz emudecida!
+
+Ó noite, ó noite triste! Ó minha alma!
+Tu, que o viste e beijaste tantas vezes,
+Tu, que sentiste bem o que ele tinha
+De angelica Creança sobrehumana,
+Não vês as proprias cousas como soffrem,
+E como as grandes arvores agitam
+As ramagens de lagrimas e sombras?
+
+Repára bem na lugubre tristêsa
+Da nossa velha casa abandonada
+Da divina Presença da Creança!
+
+Ah, como as portas gemem e o beiraes
+Têm soluços de vento...
+
+Lá fóra, no terreiro onde brincavas,
+A noite escura chora...
+
+ Ó minha alma,
+Embebe-te na dôr das Cousas êrmas;
+Chora tambem, consome-te, soluça,
+Junto á Mãe dolorosa, de joelhos...
+
+
+
+
+OLHAR ETERNO
+
+
+Aquele olhar tão triste,
+Onde ia, feito em lagrima, o que eu sou,
+Isto é, tudo o que existe,
+No instante em que pousou,
+Relampago do Além,
+Sobre ti, meu querido e pobre Anjinho,
+Já deitado na cama e tão doentinho,
+Cercado da afflicção de tua Mãe;
+Esse olhar fez-se eterno,
+Em meus olhos ficou: é luz do inferno
+Que tudo me alumia...
+
+Parece a luz do dia!
+
+
+
+
+NO SEU TUMULO
+
+
+Sobre o seu frio berço sepulcral,
+Meu espirito resa ajoelhado;
+E sente-se perfeito e virginal
+Na sua dôr divina concentrado.
+
+Caí, gotas de orvalho matinal!
+Astros, caí do céu todo estrelado!
+Sêcas flôres do zéfiro outomnal,
+Vinde enfeitar-lhe o tumulo sagrado!
+
+Ó luar da meia noite, encantamento
+De sombra, vem cobri-lo! Ó doido Vento,
+Dorme com ele, em paz religiosa...
+
+Sobre ele, ó terra, sê brandura apenas;
+Faze-te luz, toma o calor das pennas;
+Sê Mãe perfeita, bôa e carinhosa.
+
+
+
+
+DELIRIO
+
+
+Não posso crêr na morte do Menino!
+E julgo ouvi-lo e vê-lo, a cada passo...
+É ele? Não. Sou eu que desatino;
+É a minha dôr soffrida, o meu cansaço.
+
+Delirio que me prendes num abraço,
+Emendarás a obra do Destino?
+Vê-lo-ei sorrir, de novo, no regaço
+Da mãe? Verei seu rosto pequenino?
+
+Misterio! Sombra imensa! Alto segredo!
+Jamais! jamais! Quem sabe? Tenho mêdo!
+Que vejo em mim? A treva? a luz futura?
+
+Ah, que a dôr infinita de o perder
+Seja a alegria de o tornar a ver,
+Meu Deus, embora noutra creatura!
+
+
+
+
+REMORSOS
+
+
+Onde comtigo, um dia, me zanguei,
+É hoje um sitio escuro que aborreço;
+E sempre que ali passo, eu anoiteço!...
+Ah, foi um crime, sim, que pratiquei!
+
+Quantas negras torturas eu padeço
+Pelo pequeno mal que te causei!
+Se, ao menos, presentisse o que hoje sei?
+Mas não; fui mau; fui bruto; reconheço!
+
+E sôffro mais, por isso, a tua morte,
+E dou mais chôro amargo ao vento norte,
+Mais trevas se acumulam no meu rôsto...
+
+Ó vós que n'este mundo amaes alguem,
+Seja linda creança ou pae ou mãe,
+Não lhe causeis nem sombra de desgôsto!
+
+
+
+
+NO CREPUSCULO
+
+
+Nasce a luz do luar dos derradeiros,
+Êrmos, soturnos pincaros sósinhos...
+Andam sombras no ar e murmurinhos
+E vagidos de luz... e os Pegureiros
+Descem, cantando, a encosta dos outeiros...
+
+Tangendo amenas frautas amorosas,
+Seus vultos, no crepusculo, desmaiam
+E assim como os seus canticos, se espraiam
+Em ondas de emoção. As fragarosas
+Quebradas que o luar beija, misteriosas
+Furnas, boccas de terra, murmurantes,
+Arvoredos extaticos orando,
+Rochedos, na penumbra, meditando,
+Desfeitos em ternura, esvoaçantes,
+Pairam tambem no espaço comovido,
+Das primeiras estrelas já ferido,
+Todo em luar e sombra amortalhado...
+
+E eu choro sobre um monte abandonado...
+
+E o Phantasma divino da Creança,
+Sombra de Anjinho em flor,
+Nos longes dos meus olhos aparece,
+Como se, por ventura, ele nascesse
+Da minha incerta e trémula esperança,
+E não da minha firme e eterna dôr!
+
+E choro; e alem das lagrimas, eu vejo
+Aquele dôce Vulto pequenino,
+Em seu leito de morte e soffrimento;
+Jesus martirisado, inda Menino...
+E é como cinza morte o meu desejo
+E como extinta luz meu pensamento!
+
+Depois, a sua Imagem soffredôra
+Regressa á Vida, veste-se de aurora;
+Os seus labios sorriem para mim...
+E aquelles verdes olhos cristalinos
+Abrem-se radiosos e divinos,
+E vejo-o então brincar no meu jardim!
+
+Vejo-o como ele foi, como ele existe
+No coração da Mãe por toda a vida!
+Anjinho tutelar da nossa casa!
+A divina Esperança florescida,
+Brilhando além de tudo quanto é triste...
+Longinquo Alivio, protectora Asa!
+
+Mas de que serve? Eu choro sem descanço,
+No meio da tristêsa indiferente
+Das Cousas que têm a alma sempre ausente...
+
+Só eu na minha dôr nunca me canço.
+
+Ó brutêsa das Cousas! No infinito
+E gélido silencio, eu ouço um grito!
+Na funda solidão que me rodeia,
+Um sêr apenas, tétrico, vagueia...
+
+Quem grita? O meu espirito. E que importa?
+É ele a errar no mundo solitario,
+Sem principio nem fim, sem pae nem mãe!
+
+Ó céu indiferente! Ó terra morta!
+Ó grito de Jesus sobre o Calvario,
+A subir no Infinito, cada vez
+Mais cercado de tragica mudez,
+Mas afflicto, mais alto, mais além!...
+
+Cousas que já fizestes companhia
+A este espirito meu que, em vós, se via,
+Porque me abandonastes? Êrmo Vento,
+Insonia do ar correndo o Firmamento,
+Só vejo, em ti, loucura inanimada,
+Revolta inconsciencia destruidora!
+
+Alta estrela, na noite, incendiada,
+Passarinhos do céu, cantos da aurora,
+Já não palpita em vós meu coração...
+Sois o silencio, a treva, a solidão.
+
+Além de mim já nada avisto. As cousas,
+Arvores, nuvens, serras pedregosas,
+São penumbras que á luz do meu olhar
+Se dissipam, de subito, no ar.
+
+De tal forma meu sêr se concentrou
+Na visão da Creança, que além d'ela,
+Não vejo flôr ou ave ou luz de estrela,
+Limpido céu azul, verde paisagem!
+Dir-se-á que o seu Espectro reencarnou
+Em mim,--que não sou mais que a sua Imagem!
+
+
+
+
+SOBRESALTO
+
+
+Quantas horas passava contemplando
+Seu pequenino Vulto. Era um Anjinho
+Dentro de nossa casa, abençoando...
+Era uma Flôr, um Astro, um Amorzinho.
+
+Um dia, em que ele, ao pé de mim, sósinho
+Brincava, estes meus olhos inundando
+De graça, de inocencia e de carinho,
+De tudo o que é celeste, alegre e brando,
+
+Vi tremer sua Imagem, de repente,
+No ar, como se fôra Aparição.
+E para mim eu disse tristemente:
+
+"Pertences a outro mundo, a um céu mais alto;
+Partirás dentro em breve." E desde então
+Eu fiquei num constante sobresalto!
+
+
+
+
+ENCANTAMENTO
+
+
+Quantas vezes, ficava a olhar, a olhar
+A tua dôce e angelica Figura,
+Esquecido, embebido num luar,
+Num enlêvo perfeito e graça pura!
+
+E á força de sorrir, de me encantar,
+Deante de ti, mimosa Creatura,
+Suavemente sentia-me apagar...
+E eu era sombra apenas e ternura.
+
+Que inocencia! que aurora! que alegria!
+Tua figura de Anjo radiava!
+Sob os teus pés a terra florescia,
+
+E até meu proprio espirito cantava!
+Nessas horas divinas, quem diria
+A sorte que já Deus te destinava!
+
+
+
+
+O QUE EU SOU
+
+
+Nocturna e dubia luz
+Meu sêr esboça e tudo quanto existe...
+Sou, num alto de monte, negra cruz,
+Onde bate o luar em noite triste...
+
+Sou o espirito triste que murmura
+Neste silencio lúgubre das Cousas...
+Eu é que sou o Espectro, a Sombra escura
+De falecidas formas mentirosas.
+
+E tu, Sombra infantil do meu Amôr,
+És o Sêr vivo, o Sêr Espiritual,
+A Presença radiosa...
+ Eu sou a Dôr,
+Sou a tragica Ausencia glacial...
+
+Pois tu vives, em mim, a vida nova,
+E eu já não vivo em ti...
+ Mas quem morreu?
+Fôste tu que baixaste á fria cova?
+Oh, não! Fui eu! Fui eu!
+
+Horrivel cataclismo e negra sorte!
+Tu fôste um mundo ideal que se desfez
+E onde sonhei viver apoz a morte!
+Vendo teus lindos olhos, quanta vez,
+Dizia para mim: eis o logar
+Da minha espiritual, futura imagem...
+E viverei á luz daquele olhar,
+Divino sol de mistica Paisagem.
+
+Era minha ambição primordial
+Legar-lhe a minha imagem de saudade;
+Mas um vento cruel de temporal,
+Vento de eternidade,
+Arrebatou meu sonho! E fugitiva
+Deste mundo se fez minha alegria;
+Mais morta do que viva,
+Partiu comtigo, Amôr, á luz do dia
+Que doirou de tristêsa o teu caixão...
+Partiu comtigo, ao pé de ti murmura;
+É maguada voz na solidão,
+Dôce alvor de luar na noite escura...
+E beija o teu sepulcro pequenino;
+Sobre ele vôa e erra,
+Porque o teu Sêr amado é já divino
+E o teu sepulcro, abrindo-se na terra,
+Penetrou-a de luz e santidade...
+E para mim a terra é um grande templo
+E, dentro dele, a Imagem da Saudade...
+E reso de joelhos, e contemplo
+Meu triste coração, saudoso altar
+Alumiado de sombra, escura luz...
+Nele deitado estás como a sonhar,
+Meu pequenino e mistico Jesus...
+Lagrimas dos meus olhos são as flôres
+Que a teus pés eu deponho...
+Enfeitam tua Imagem minhas dôres,
+E alumia-te, ás noites, o meu sonho.
+
+Todo me dou em sacrificio á tua
+Imagem que eu adoro.
+Sou branco incenso á triste luz da lua:
+Eu sou, em nevoa, as lagrimas que choro...
+
+
+
+
+MINHA ALEGRIA
+
+
+Minha alegria foi no teu caixão;
+Deitou-se ao pé de ti, na sepultura,
+A fim de acalentar teu coração
+E tornar-te mais branda a terra dura.
+
+Por isso, é para mim consolação
+Esta sombria dôr que me tortura!
+E ponho-me a cantar na solidão,
+Meu cantico esculpido em noite escura!
+
+Consola-me saber minha alegria
+Longe de mim, perto de ti, na fria
+Cova a que tu baixaste apoz a morte.
+
+Fôste tu que m'a deste, meu amôr;
+Agora, dou-t'a eu: é a minha flôr;
+Eu quero que ela soffra a tua sorte.
+
+
+
+
+TRISTÊSA
+
+
+O sol do outomno, as folhas a cair,
+A minha voz baixinho soluçando,
+Os meus olhos, em lagrimas, beijando
+A terra, e o meu espirito a sorrir...
+
+Eis como a minha vida vae passando
+Em frente ao seu Phantasma... E fico a ouvir
+Silencios da minh'alma e o resurgir
+De mortos que me fôram sepultando...
+
+E fico mudo, extatico, parado
+E quasi sem sentidos, mergulhando
+Na minha viva e funda intimidade...
+
+Só a longinqua estrela em mim actua...
+Sou rocha harmoniosa á luz da lua,
+Petreficada esphinge de saudade...
+
+
+
+
+A MINHA DÔR
+
+
+Tua morte feriu-me no mais fundo,
+Remoto da minh'alma que eu julgava
+Já fóra desta vida e deste mundo!
+
+E vejo agora quanto me enganava,
+Imaginando possuir em mim
+Alma que fôsse livre e não escrava!
+
+Meu espirito é treva e dôr sem fim.
+Todo eu sou dôr e morte. Sou franquêsa.
+Sou o enviado da Sombra. Ao mundo vim
+
+Prégar a noite, a lagrima, a incertêsa,
+A luz que, para sempre, anoiteceu...
+Esta envolvente, essencial tristêsa,
+
+Tristêsa original donde nasceu
+O sol caindo em lagrimas de luz,
+Chôro de oiro inundando terra e céu!
+
+Sou o enviado da Sombra. Em negra cruz,
+Meu ilusorio sêr crucificado
+Lembra um morto phantasma de Jesus...
+
+E aos pés da minha cruz, no chão maguado,
+A tua Ausencia é a Virgem Dolorosa,
+Com tenebroso olhar no meu pregado.
+
+Ah! quanto a minha vida religiosa,
+Depois que te perdeste no sol-pôsto,
+Se fez incerta, fragil e enganosa!
+
+Em meu sêr desenhou-se um novo rôsto.
+Sou outro agora; e vejo com pavor
+Minha máscara interna de desgôsto.
+
+Vejo sombras á luz da minha dôr...
+Sombras talvez de eternas Creaturas
+Que vivem na alegria do Senhor...
+
+E quem sabe se os Mortos, nas Alturas,
+Vivem na paz de Deus, em sitios êrmos,
+Entre flôres, sorrisos e venturas?...
+
+E quem sabe se as dôres que soffremos
+E nosso corpo e alma, não são mais
+Que as suas vagas sombras irreaes?...
+
+Ah, nós sômos ainda o que perdemos...
+
+
+
+
+A MÃE E O FILHO
+
+
+Teu sêr tragicamente enternecido,
+Em desespero de alma transformado,
+Vae através do espaço escurecido
+E pousa no seu tumulo sagrado.
+
+E ele acorda, sentindo-o; e, comovido,
+Chora ao vêr teu espirito adorado,
+Assim tão só na noite e arrefecido
+E todo de êrmas lagrimas molhado!
+
+E eis que ele diz: "Ó Mãe, não chores mais!
+Em vez dos teus suspiros, dos teus ais,
+Quero que venha a mim tua alegria!"
+
+E só nas horas em que a Mãe descança,
+É que ele inclina a fronte de creança
+E dorme ao pé de ti, Virgem Maria!
+
+
+
+
+AUSENCIA
+
+
+Lúgubre solidão! Ó noite triste!
+Como sinto que falta a tua Imagem
+A tudo quanto para mim existe!
+
+Tua bemdita e efémera passagem
+No mundo, deu ao mundo em que viveste,
+Á nossa bôa e maternal Paisagem,
+
+Um espirito novo mais celeste;
+Nova Forma a abraçou e nova Côr
+Beijou, sorrindo, o seu perfil agreste!
+
+E ei-la agora tão triste e sem verdor!
+Depois da tua morte, regressou
+Ao seu velhinho estado anterior.
+
+E esta saudosa casa, onde brilhou
+Tua voz num instante sempiterno,
+Em negra, intima noite se occultou.
+
+Quando chego á janela, vejo o inverno;
+E, á luz da lua, as sombras do arvoredo
+Lembram as sombras pálidas do Inferno.
+
+Dos recantos escuros, em segredo,
+Nascem Visões saudosas, diluidos
+Traços da tua Imagem, arremêdo
+
+Que a Sombra faz, em gestos doloridos,
+Do teu Vulto de sol a amanhecer...
+A Sombra quer mostrar-se aos meus sentidos...
+
+Mas eu que vejo? A luz escurecer;
+O imperfeito, o indeciso que, em nós, deixa
+A amargura de olhar e de não vêr...
+
+A voz da minha dôr, da minha queixa,
+Em vão, por ti, na fria noite clama!
+Dir-se-á que o céu e a terra, tudo fecha
+
+Os ouvidos de pedra! Mas quem ama,
+Embora no silencio mais profundo,
+Grita por seu amor: é voz de chama!
+
+E eu grito! E encontro apenas sobre o mundo,
+Para onde quer que eu olhe, aqui, além,
+A tua Ausencia tragica! E no fundo
+
+De mim proprio que vejo? Acaso alguem?
+Só vejo a tua Ausencia, a Desventura
+Que fez da noite a imagem de tua Mãe!
+
+A tua Ausencia é tudo o que murmura,
+E mostra a face triste á luz da aurora,
+E se espraia na terra em sombra escura...
+
+Quem traz o outomno ao meu jardim agora?
+Quem muda em cinza o fogo do meu lar?
+E quem soluça em mim? Quem é que chora?
+
+É a tua Ausencia, Amôr, que vem turbar
+Esta alegria etérea, nuvem, asa
+De Anjo que, ás vezes, passa em nosso olhar!
+
+O Sol é a tua Ausencia que se abrasa,
+A Lua é tua Ausencia enfraquecida...
+Da tua Ausencia é feita a minha vida
+E os meus versos tambem e a minha casa.
+
+
+
+
+TRAGICA RECORDAÇÃO
+
+
+Meu Deus! meu Deus! quando me lembro agora
+De o ver brincar, e avisto novamente
+Seu pequenino Vulto transcendente,
+Mas tão perfeito e vivo como outrora!
+
+Julgo que ele ainda vive; e que, lá fóra,
+Fala em voz alta e brinca alegremente,
+E volve os olhos verdes para a gente,
+Dois berços de embalar a luz da aurora!
+
+Julgo que ele ainda vive, mas já perto
+Da Morte: sombra escura, abysmo aberto...
+Pesadêlo de treva e nevoeiro!
+
+Ó visão da Creança ao pé da Morte!
+E a da Mãe, tendo ao lado a negra sorte
+A calcular-lhe o golpe traiçoeiro!
+
+
+
+
+IDILIO
+
+
+Sinto que, ás vezes, choras, minha Irmã,
+No teu sombrio quarto recolhida...
+É que ele vem rompendo a sombra vã
+Da Morte, e lhe aparece á luz da vida!
+
+E afflicta, como choras, minha Irmã...
+Teu chôro é tua voz emudecida,
+Ante a imagem do Filho, essa Manhã
+Em profunda saudade amanhecida.
+
+Silencio! Não palpites, coração;
+Nem canto de ave ou mistica oração
+Um tal idilio venham perturbar!
+
+Deixae o Filho amado e a Mãe saudosa:
+O Filho a rir, de face carinhosa,
+E a Mãe, tão triste e pálida, a chorar...
+
+
+
+
+DE NOITE
+
+
+Quando me deito ao pé da minha dôr,
+Minha Noiva-phantasma; e em derredor
+Do meu leito, a penumbra se condensa,
+E já não vejo mais que a noite imensa,
+Ante os meus olhos intimos, acêsos,
+Extaticos, surprêsos,
+Aparece-me o Reino Espiritual...
+E ali, despido o habito carnal,
+Tu brincas e passeias; não comigo,
+Mas com a minha dôr... o amôr antigo.
+
+A minha dôr está comtigo ali,
+Como, outrora, eu estava ao pé de ti...
+Se fôsse a minha dôr, com que alegria,
+De novo, a tua face beijaria!
+
+Mas eu não sou a dôr, a dôr etérea...
+Sou a Carne que soffre; esta miseria
+Que no silencio clama!
+
+A Sombra, o Corpo doloroso, o Drama...
+
+
+
+
+NOITES EM CLARO
+
+
+Passas em claro as noites a chorar;
+Dia a dia, teu rosto empalidece...
+Faze tu, pobre Mãe, por serenar,
+Santa Resignação sobre ela desce!
+
+Rochedo que a penumbra desvanece,
+Tu, por acaso, não lhe podes dar
+Um pouco d'esse frio que entorpece
+O coração e o deixa descançar?...
+
+Jamais! Não ha remedio! Nem as horas
+Que passam! Toda a fria noite choras;
+Tua sombra, no chão, é mais escura.
+
+Soffres! E sinto bem que a tua dôr,
+Como se fôra um beijo, acêso amôr,
+Vae-lhe aquecer, ao longe, a sepultura.
+
+
+
+
+DUAS SOMBRAS
+
+
+Pelas tardes divinas,
+Quando a côr se dissolve em lagrimas doiradas,
+Eu vejo duas Sombras pequeninas,
+Andando de mãos dadas.
+Como duas creanças que elas são,
+Percorrem, a brincar,
+Esta minha infinita solidão;
+E extatico e suspenso, eu fico a olhar, a olhar...
+Bate-me o coração; caminho... Na distancia,
+Através do crepusculo divino,
+Vejo a Sombra infantil da minha infancia
+E a Sombra do Menino!
+E d'elas me aproximo; e paro; tenho mêdo
+De as vêr fugir, assim...
+Seus Vultos de chimera e de segrêdo
+Tremem deante de mim...
+E como se parecem!
+O mesmo adeus no olhar, o mesmo rôsto e altura...
+E ao pé d'elas as cousas se enternecem,
+E este meu coração aberto em sepultura.
+
+Durante a tua vida, meu Amôr,
+Quantas vezes, ao ver-te, imaginava
+Olhar de perto, a minha infancia toda em flôr!
+E ainda mais: pensava
+Que eras a minha propria Infancia novamente,
+Mesmo deante de mim, resuscitada
+E brincando comigo alegremente,
+N'esta velha Paisagem bem amada,
+Terra da meia noite, alma do outomno...
+N'esta casa velhinha, evocadora,
+Tocada de luar, de sombra e de abandono,
+Da alegria de outrora...
+E por isso, no dia em que morreste,
+Quando tudo era lagrima, a distancia,
+Coração, duas cruzes padeceste;
+Duas mortes soffreu a minha infancia.
+
+
+
+
+LAGRIMA
+
+
+Bate-me o luar na face, e o meu olhar
+Em lagrima saudosa se condensa...
+Vejo-a deante de mim, como suspensa
+Na sombra do ar.
+
+E em seu liquido seio de esplendor,
+Tua Imagem começa a alvorecer,
+Pois toma corpo e vida no meu sêr,
+Quando a beija, sorrindo, a minha dôr...
+
+Ébria do teu espirito sagrado,
+A radiosa lagrima estremece,
+Emquanto a minha face empalidece
+E o luar e a noite scismam ao meu lado...
+
+E a comovida lagrima crepita...
+Relampago de dôr... E nada vejo;
+Pois nela está presente o meu desejo
+E a minha vida fragil e infinita.
+
+E a lagrima scintila, num adeus...
+E, desprendida de meus olhos, ei-la
+Já distante, no espaço: é nova estrela
+Subindo aos céus...
+
+
+
+
+MEDITAÇÃO
+
+
+A nocturna lembrança consumida
+Da tua horrivel morte dolorosa,
+Enevôa de lagrimas a vida...
+
+E sinto a luz tornar-se duvidosa,
+Tocando a minha fronte que lhe gasta
+A seiva etérea, a fluida côr viçosa.
+
+O meu olhar maldito logo afasta
+O Sêr que ás suas lagrimas empece,
+E o perfil animado lhe desgasta!
+
+O meu olhar as cousas anoitece...
+E elas choram na sombra e na incertêsa,
+A minha propria dôr... E eis que aparece,
+
+Deante de mim, o Espectro da Tristêsa...
+E tudo transfigura... E eu fico a vêr,
+Como através da Morte, a Naturêsa...
+
+O berço é cova. Que é nascer? Morrer.
+Quem abre ao sol os olhos, escravisa
+A alma, a luz espiritual do sêr...
+
+Um rio de emoção, em mim, deslisa...
+Para cantar se fez pequena fonte;
+Seu canto é bruma pálida e indecisa.
+
+E fito, de olhos tristes, o horisonte:
+Nele me perco em nevoa: sou distancia...
+Intima cruz a erguer-se em tôsco monte...
+
+Vésper, sorriso de oiro, luz, fragancia
+Da noite que amanhece, ao teu fulgôr,
+Vejo Espectros que são da minha infancia...
+
+Formas mortas que nem meu proprio Amôr
+Anima,--ele que d'antes animava
+A sombra, a pedra, as arvores em flôr!
+
+E como outrora tudo me encantava!
+Como perdi no turbilhão dos dias
+O sabôr que nas cousas eu gostava!
+
+Tristêsas são phantasmas de alegrias...
+E entre Phantasmas vivo... Ó meus amôres,
+Folhas mortas, outomno, ventanias!...
+
+Sombras da meia noite! Mãe das Dôres
+Em teu altar sósinho, na capela
+Do monte sem romeiros e sem flôres!
+
+Ó Noite! Virgem triste! Êrma Donzela!
+Se eu fôra sombra de alma adormecida,
+Silencio de alma, solidão de estrela?...
+
+Mas não; eu vivo e penso n'esta Vida;
+No Mal victorioso e na Bondade
+Quasi sempre ultrajada e perseguida!
+
+Vejo a Inocencia ás mãos da Crueldade
+Morta, desbaratada, e vejo a aurora
+Alumiando esta negra, ferrea edade!
+
+Vejo um pequeno Anjinho que enamora
+Meu comovido espírito encantado...
+E divinos sorrisos ele chora,
+
+E só de vê-lo, eu sinto-me sagrado!
+E fica todo em flôr meu coração,
+Paraiso astral, Jardim de Deus, Sol nado!
+
+E, súbito, lá vae: é sonho vão!
+E sobre mim, afflicta, a noite desce:
+Maré cheia de treva e solidão.
+
+E o sangue em minhas veias arrefece...
+Á altura do meu rôsto, vejo o Mêdo
+Que, nos êrmos crepusculos, me empece!
+
+E como tudo é sombra, dôr, segrêdo!
+De longe, aspectos de alma que nos falam;
+De perto, brutas formas de rochedo!
+
+Quantas intimas dôres nos abalam!
+Porque não ha no mundo quem as ouça,
+As dolorosas vozes que se calam!
+
+Ó gente enamorada! Ó gente môça!
+Que, de repente, ao tumulo baixaes,
+Qual o vosso pecado? a culpa vossa?
+
+Ó Procissão das lagrimas, dos ais,
+Deante de mim, passando eternamente
+A caminho das sombras sepulcraes!
+
+Dôr sem fim, sem principio, dôr presente,
+Martirisando as almas, e sobre elas
+O sorriso de Deus indiferente!
+
+O Deus que põe na face das estrelas
+Nodoas de sombra e enfeita com as flôres
+Da morte, as brancas Noivas e as Donzelas;
+
+O Deus acêso em tragicos furôres,
+Que mata as creancinhas sem peccado
+E parece viver das nossas dôres,
+
+E fez do nosso chôro o mar salgado,
+E fez da nossa angustia um êrmo outeiro,
+E sobre ele Jesus crucificado;
+
+O Deus que me tornou prisioneiro,
+E que transforma tudo quanto eu amo
+Em desfeita visão de nevoeiro;
+
+Ah, esse Deus que, quando por Deus chamo,
+É profundo silencio, indiferença,
+A propria sombra morta que eu derramo...
+
+Remoto Deus--Phantasma, sem presença,
+Que em materia de dôr edificou
+As arvores, o Sol, a noite imensa,
+
+E em doloroso barro alevantou
+Minha figura tragica e reprêsa,
+Num impotente, empedernido vôo;
+
+É o Deus do Abysmo, o Pae da Naturêsa,
+Nocturno Deus da vida material,
+Divindade da fúnebre Tristêsa;
+
+O Deus creador das Trevas, contra o qual
+Sósinho, se ergue em mim, mas sem temor,
+O meu divino Sêr espiritual;
+
+Meu Sêr heroico acêso em puro amor!
+Sol comovido, ardente meio dia,
+Trespassando de luz a noite e a dôr!
+
+Meu Sêr, onde se muda em alegria
+A corporea tristêsa; onde a Materia
+Se faz alma perfeita de harmonia;
+
+Meu Sêr que afirma o Bem, ante a miseria
+Das transitorias cousas; que alevanta,
+Contra a sombra do inferno, a Luz etérea!
+
+Meu Sêr espiritual que, alegre, canta,
+Se, por ventura, eu choro desolado,
+E que os Phantasmas lúgubres espanta;
+
+Meu Sêr creador do Espírito sagrado,
+O Redemptor das lagrimas, dos ais;
+Senhor dum novo Olimpo sublimado...
+
+Novo Orféu nos Abysmos infernaes.
+
+
+
+
+ESPERANÇA E TRISTÊSA
+
+
+Minha tristêsa é peor que a tua dôr.
+Um dia, no teu ventre sentirás
+Reencarnar para o mundo o teu amor:
+A mesma alma, o mesmo olhar... verás!...
+
+Eu sei que ha de voltar; e assim terás
+A alegria primeira, ainda maior...
+E então, de novo, alegre ficarás;
+Será primeiro o teu segundo amôr!
+
+Mas eu que, antes do tempo, já declino,
+Quem sabe se verei o teu Menino,
+Numa edade em que possa compreender?
+
+E partirei talvez sem lhe deixar,
+Na memoria, esse interno e fundo olhar,
+A comovida imagem do meu sêr...
+
+
+
+
+SÓSINHO
+
+
+Tarde. Vagueio só por um outeiro.
+Sua Imgem chimerica fluctua,
+Deante de mim, no espaço: é nevoeiro
+Vestindo de emoção a terra nua...
+
+E como na minh'alma se insinua
+Aquele etéreo Vulto... amôr primeiro!
+Ouço-o falar, lá fóra, á luz da lua.
+Vejo-o brincar na sombra do terreiro.
+
+Apenas vêm meus olhos, n'este mundo,
+O seu perfil angelico, o seu fundo,
+Misterioso, verde negro olhar...
+
+Vejo uma estrela? É ele. Vejo um lirio?
+É ele. Tudo é ele. E o meu delirio
+É ele: é o seu espírito a cantar!
+
+
+
+
+DEPOIS DA VIDA
+
+
+Quando meu coração parar desfeito
+Em sombra, na profunda sepultura,
+E o meu sêr, já phantastico e perfeito,
+Vaguear entre o Infinito e a terra dura;
+
+Quando eu sentir, emfim, todo o meu peito
+A transformar-se em constelada Altura;
+Eu, divino Phantasma, o claro Eleito,
+O Enviado da Vida á Morte escura;
+
+Quando eu fôr para mim minha esperança,
+Meu proprio amôr jamais anoitecido,
+E a minha sombra apenas fôr lembrança;
+
+Quando eu fôr um Espectro de Saudade,
+Entre o luar e a nevoa amanhecido,
+Serei comtigo, Amôr, na Eternidade.
+
+
+
+
+O ENCONTRO COM O RETRATO
+
+
+Receio o teu encontro, pobre Mãe,
+Com o retrato de teu Filho. Vaes
+Contemplar suas formas materiaes,
+O que pertence á morte e a mais ninguem...
+
+Mas para que exaltar ainda mais
+Aquela dôr que é só do mundo? Tem
+Paciencia. Não o vejas. Olha bem:
+De que servem as lagrimas e os ais?...
+
+Essa dôr não a ames, que é profana.
+Sim: não adores nele a forma humana,
+A ilusoria aparencia, o sonho vão...
+
+Pois é verdade, ó Mãe, que tens presente
+Seu imortal espírito inocente
+Em ti mesma, em teu proprio coração!...
+
+
+
+
+NA MINHA SOLEDADE
+
+
+Aqui, por estes sitios onde nós
+Vivêmos; tu brincando no jardim;
+Eu a ouvir encantado a tua voz
+E vendo em ti um Anjo, um sonho, ao pé de mim;
+
+Aqui, por estes vales de alegria
+Emquanto tu viveste,
+E agora escuras, êrmas terras de elegia
+Batidas do nordeste,
+Eu ando á minha sombra redusido
+E mais a tua Imagem.
+E quem nos vê, de longe, diz entristecido:
+Dois Espectros, além, vagueando na Paisagem...
+
+
+
+
+A TUA IMAGEM
+
+
+Os meus olhos abrigam como um templo,
+Tua divina Imagem que os eleva
+E os enche de purêsa e santidade;
+São os meus olhos intimos, aqueles
+Que entre as nuvens avistam, certas horas,
+Azas de Anjos, relampagos de Deus,
+E não meus pobres olhos materiaes
+Na côr, nos formas vãs crucificados.
+
+E tu vives e falas nesse mundo,
+Ao pé do qual meu corpo de tragedia
+É sua antiga e vaga Nebulosa...
+
+E em meu nocturno espirito rebôa
+Aquela tua voz amanhecente
+Que espalhava alegrias pelo ar.
+
+E a tua voz divina, por encanto,
+Se espêlha em minhas lagrimas que ficam
+Todas, por dentro, acêsas num sorriso.
+
+A lagrima vê tudo: a propria voz,
+Pousando á sua tôrva superficie,
+Nela desenha, em ondas, o seu Vulto.
+
+Meu doloroso sêr com tua Imagem
+Eterna comunica. A minha vida
+Na tua morte assim se continua...
+Embora exista entre elas a distancia
+De sombras lampejantes, que separa
+Nosso corpo mortal do nosso espirito.
+
+E eu canto, e me deslumbro em minha dôr!
+De subito, anoiteço, e me disperso,
+E vejo-me Phantasma... e, a sós, divago
+Pelos caminhos lúgubres da Morte...
+E chego á porta em flôr do teu sepulcro;
+E uma alegria misteriosa vem
+Doirar a sombra vã de que sou feito...
+
+E esta alegria és tu... que me apareces!...
+Minha segunda vida transcendente
+Nasceu da tua Ausencia que lhe imprime
+O drama eterno, a acção divina e triste.
+
+Tua morte refez meu sêr: abriu-lhe
+Novo sentido de alma; aquele olhar
+Que no seio das lagrimas desperta,
+E veste de infinito e de saudade
+A tôsca rocha bruta que se torna
+Espirito vivente no crepusculo:
+Esphinge em cujos labios a tristêsa
+Das cousas interroga a dôr humana.
+
+E vós, ó brutas cousas reviveis
+Perante o meu olhar que vos penetra
+De seu liquido lume visionario.
+Tornastes a viver. As vossas almas
+Que a minha dôr primeira afugentou,
+São presentes, de novo, em vosso corpo.
+Ei-lo scismando, triste, á luz do luar,
+Na projectada sombra que, a seus pés,
+Desenha ignotas formas de silencio...
+Ei-lo embebido em mistica ternura,
+Tremulo de emoção, reverdecendo,
+Esculpindo, no ar, melancolias...
+
+E a tua Imagem paira sobre mim...
+Todo eu palpito em ondas de anciedade!
+Abysmo de emoção, em mim me perco!
+E minh'alma exaltada e comovida,
+D'este meu sêr trasborda e inunda tudo!
+Arde no fogo virgem das estrelas,
+Em cada humana lagrima scintila,
+Chora nas nuvens, no êrmo vento geme!
+
+E julgo haver, meu Deus, resuscitado
+Da morte que soffri para nascer!
+
+Sim: o meu berço é irmão do teu sepulcro;
+Teu cadaver baixou áquele abysmo
+Donde subi outrora á luz da morte...
+E lá tu me encontraste ainda em vida,
+Na Aurora que precede o nascimento,
+E parece doirar a nossa Infancia...
+
+Sinto que estou comtigo em outro mundo.
+Lá vivemos os dois em companhia,
+Muito embora eu arraste sobre a terra,
+Que teu cadaver, tão mimoso! esconde,
+Esta minha Presença de afflição!
+
+E beijo a tua Imagem, de joelhos...
+E, em meu silencio, reso... E a tua Imagem
+Agora é grave, séria, quasi triste,
+Porque se fez sagrada além da Morte.
+
+
+
+
+A NOSSA DÔR
+
+
+Emquanto chora a Mãe desventurada,
+Sobre o seu coração, de noite e dia,
+Eu canto a minha dôr; e a dôr cantada
+Como que intimamente se alumia...
+
+Se me levanto cêdo e a madrugada
+Já vem doirando os longes de harmonia,
+Sinto que estás ainda despertada
+E eu ouço, em mim, cantar nova elegia.
+
+Abre-te a dôr os olhos sem piedade,
+Durante as longas noites de amargura...
+Mas para mim a dôr é já saudade.
+
+A dôr, em mim, é canto que murmura;
+A dôr, em ti, é negra tempestade:
+Sou a noitinha, e tu, a noite escura!
+
+
+
+
+VIDA ETERNA
+
+
+Nele adora somente o que não passa;
+O que é imortal, perfeito, e no teu sêr
+É fonte de orações, de luz e graça.
+
+Adora a sua Imagem a viver,
+Numa perpetua infancia florescendo,
+Perpetuamente isenta de soffrer.
+
+Dia a dia, nós vamos falecendo;
+Esta vida carnal é um arremêdo
+Da Vida, á luz da qual eu não entendo
+
+Nem morte ou aparencia ou dôr ou mêdo...
+Teu Filho agora é luz, revelação;
+E tu, ó Mãe, crepusculo e segrêdo!
+
+Adora, sim, teu proprio coração
+Se desejas amar teu Filho. Resa
+E não chores, que a luz duma oração
+
+Mostra-te bem melhor sua belêsa,
+Seus verdes olhos de alma, a fronte e o rôsto
+Que as lagrimas sombrias de tristêsa.
+
+Seja alegria eterna o teu desgôsto
+Corporeo, transitorio! Seja aurora
+De idilio o teu dramatico sol-pôsto!
+
+A alma ajoelha e resa, mas não chora.
+
+
+
+
+MEMORIA
+
+
+Memoria, Elisios Campos, Paraiso,
+Espirituaes Paisagens!
+Vales de luz, outeiros de sorriso,
+Onde vivem as misticas Imagens.
+
+Jardim florido de Almas que o estortôr
+Da Morte libertou! Jardim povoado
+De luminosas Sombras que em amôr
+E sonho iluminado,
+Dando-se as mãos de luz e intimidade,
+Vagueiam pelas verdes avenidas,
+Ao luar misterioso da Saudade,
+Evocando outros mundos, outras vidas...
+
+Vejo, em grupos, os velhos conversando...
+E murmuram palavras... voz de outomno
+Que se vae em silencios desfolhando
+Num êrmo chão doirado, ao abandono.
+
+Mais adeante, em dôce companhia,
+Caminha enamorada a gente nova:
+O Heroe caido, morto, á luz do dia,
+A Noiva que baixou á fria cova!
+
+E mais adeante ainda, em mais ruidosos
+E alvoroçados grupos, as Creanças
+Falam alto, têm gestos luminosos...
+São bandos de esperanças,
+Tão cêdo á luz do mundo arrebatadas
+E aos braços maternaes!
+E brincam a sorrir, inda molhadas
+Das lagrimas eternas de seus Paes...
+
+E com um ar de riso,
+As beija o Sol do Alem...
+Nem se lembram das mães, no Paraiso;
+São Almas, sim, e as Almas não têm Mãe!
+
+Ao Sol espiritual que as faz corar
+Durante os seus brinquedos,
+Somente Deus as pode contemplar
+Do seu trôno de trevas e segrêdos.
+
+Deus contempla as Creanças que roubou
+Ao fundo amôr materno... E bem se vê
+Nos seus olhos a nuvem que os toldou...
+E a si mesmo pergunta: Para quê?
+
+E á luz do eterno dia,
+Os Phantasmas divinos das Creanças
+Fazem os seus bailados de alegria,
+Elas que são tristissimas Lembranças!
+
+E a nova formosura que elas têm!
+O novo e estranho encanto!
+Assim tocadas já do sol do Alem,
+Até aos pés vestidas do meu Canto!
+
+Memoria, Jardim de Almas todo em flôr
+Que as canções e os perfumes enevôam,
+Se para mim és dôr, és luz e amôr,
+Para os sêres amados que o povoam!
+
+E eis tudo quanto resta á Creatura:
+Saber que o seu tormento
+É perfeita alegria, alta ventura,
+Em outro Firmamento!
+
+Quando os meus olhos intimos, em sonho,
+Esse mundo ideal conseguem vêr,
+Fico tão deslumbrado que suponho
+Haver morrido já sem o saber!
+
+E eis que sou na Paisagem da Memoria!
+Lembrança de mim mesmo, eu já penetro
+Na cidade phantastica e ilusoria...
+Já sou Aparição, Visão, Espectro!
+
+Que é da minha Presença? Não me vejo!
+Ah, não me encontro em mim! Sou a Oração
+Redimida, sem Deus e sem desejo;
+Amôr sem coração!
+Sonho liberto, ascendo no Infinito.
+A propria Altura é já profundidade!
+Onde estás? onde estás? ó corpo aflicto!
+Meu sêr perdeu-se em alma: ei-lo saudade!
+
+
+Outubro de 1912
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+Prefacio
+Dedicatoria
+Mãe dolorosa
+Junto dele
+Nas trevas
+Olhar eterno
+No seu tumulo
+Delirio
+Remorsos
+No crepusculo
+Sobresalto
+Encantamento
+O que eu sou
+Minha alegria
+Tristêsa
+A minha dôr
+A Mãe e o Filho
+Ausencia
+Tragica recordação
+Idilio
+De noite
+Noites em claro
+Duas sombras
+Lagrima
+Meditação
+Esperança e tristêsa
+Sósinho
+Depois da vida
+O encontro com o retrato
+Na minha soledade
+A tua imagem
+A nossa dôr
+Vida eterna
+Memoria
+
+
+
+
+ACABOU DE IMPRIMIR-SE
+AOS 21 DE JUNHO DE 1913
+NA TYPOGRAPHIA COSTA
+CARREGAL TRAVESSA PASSOS
+MANUEL, 27--PORTO.
+
+
+
+
+
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+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ELEGIAS ***
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+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
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+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
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+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
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+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
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+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
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+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
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+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
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+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
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+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
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+ License. You must require such a user to return or
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+ and discontinue all use of and all access to other copies of
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+
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
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+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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