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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 01:54:37 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 01:54:37 -0700
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+ <title>Chronica de El-Rei D. Affonso II</title>
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+ <meta name="AUTHOR" content="Rui de Pina" />
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+
+<pre>
+
+Project Gutenberg's Chronica de El-Rey D. Affonso II, by Rui de Pina
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Chronica de El-Rey D. Affonso II
+
+Author: Rui de Pina
+
+Release Date: October 2, 2007 [EBook #22826]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REY D. AFFONSO II ***
+
+
+
+
+Produced by Manuela Alves and Rita Farinha (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES</h3>
+
+<h2>Propriet&aacute;rio e fundador--Mello d'Azevedo
+</h2>
+
+<h1>(VOLUME LIII)</h1>
+
+<h1>CHRONICA DE EL-REI D. AFFONSO II</h1>
+
+<h1>POR</h1>
+
+<h1>RUY DE PINA</h1>
+
+<h2><em>ESCRIPTORIO</em><br />
+
+147--Rua dos Retrozeiros--147</h2>
+
+<h2>LISBOA<br />
+
+1906</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox">
+<div style="text-align: center;"><br />
+
+<br />
+
+CHRONICA<br />
+
+<br />
+
+DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE<br />
+
+<br />
+
+D. AFFONSO II.<br />
+
+<br />
+
+TERCEIRO REY DE PORTUGAL,<br />
+
+<br />
+
+COMPOSTA<br />
+
+<br />
+
+POR RUY DE PINA,<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Fidalgo da Casa Real, e Chronista M&ocirc;r do Reyno.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+FIELMENTE COPIADA DE SEU ORIGINAL,<br />
+
+Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+OFFERECIDA<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREI<br />
+
+<br />
+
+D. JOA&Otilde; V.<br />
+
+<br />
+
+NOSSO SENHOR<br />
+
+<br />
+
+POR MIGUEL LOPES FERREYRA<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+LISBOA OCCIDENTAL.<br />
+
+<br />
+
+Na Officina FERREYRIANA.<br />
+
+<br />
+
+M.DCC.XXVII.<br />
+
+<br />
+
+<em>Com todas as licen&ccedil;as
+necessarias</em>.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1>SENHOR</h1>
+
+Ponho na Real presen&ccedil;a de V. Magestade a Chronica do Senhor
+Rei D. Affonso II que ainda que breve no volume, &eacute; larga na
+qualidade dos successos. Nella ver&aacute; V. Magestade que os seus
+gloriosos
+Predeccessores n&atilde;o cessaram em tempo algum do augmento dos
+seus Estados, e
+da Religi&atilde;o Christ&atilde; pois a este fim vestiam as
+armas, e tomavam a
+lan&ccedil;a com perigo das suas Reaes vidas, como o experimentou
+este mesmo principe, vendo-se quasi suffocado na campanha. Aceite V.
+Magestade este tributo do meu obsequio, que prostrado a seus Reaes
+p&eacute;s lhe deseja todas
+aquellas felicidades, que s&oacute; podem vir da m&atilde;o de
+Deos que
+guarde a Real Pessoa de V. Magestade por muitos annos, como seus
+vassallos lhe dezejamos.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">Miguel
+Lopes Ferreira.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>
+AO EXCELLENTISSIMO SENHOR<br />
+
+FERN&Atilde;O TELLES DA SILVA</h2>
+
+<br />
+
+<div class="quote">Marquez de
+Alegrete dos Concelhos de Estado, e Guerra del-Rei Nosso Senhor, Gentil
+homem de
+sua Camara, V&eacute;dor de sua fazenda, seu Embaixador
+extraordinario na
+Corte de Vienna, ao Serenissimo Emperador Jos&eacute;,
+Condutor da Serenissima Rainha Nossa Senhora a estes Reinos, Academico,
+e
+Censor da Academia Real da Historia
+Portuguesa,
+&amp;c.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Terceira vez busco a V. Excellencia como protector, e amparo commum dos
+que servem a Patria. A benignidade natural de V. Excellencia tem a
+culpa desta repeti&ccedil;&atilde;o. Offere&ccedil;o a V.
+Excellencia esta Chronica del-Rei D. Affonso II chamado vulgarmente o
+<em>Gordo</em>, para que V. Excellencia se digne de a
+p&ocirc;r na Real presen&ccedil;a de Sua Magestade.
+Espero que lembrado V. Excellencia de j&aacute; me haver feito duas
+vezes este mesmo
+beneficio, mo queira continuar agora, porque &eacute; certo que
+suprir&aacute; a grandeza da Pessoa de V. Excellencia o que eu
+n&atilde;o mere&ccedil;o. A
+Excellentissima Pessoa de V. Excellencia guarde Deos muitos annos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right;">Criado de V. Excellencia<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">Miguel Lopes Ferreira.<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1>PROLOGO AO LEITOR</h1>
+
+<br />
+
+N&atilde;o te admires vendo uma Chronica t&atilde;o pequena de
+um Rei t&atilde;o grande. Em oito capitulos a deo por acabada o seu
+Chronista, ou o reformador da sua Chronica antiga. Mas aqui
+&eacute; que se ha de estimar o livro
+pelo pezo, e n&atilde;o pelo volume. Ver&aacute;s nesta
+Chronica o que podem
+as paix&otilde;es: ver&aacute;s o zelo da Religi&atilde;o
+obrigando a um Principe a entrar na
+campanha quando a sua demasiada corpulencia que lhe deo o nome <em>de
+Gordo</em>, justamente o desobrigava de t&atilde;o violento
+exercicio; mas o augmento da
+F&eacute; o fazia esquecer des impedimentos da natureza.
+Ver&aacute;s como no seu
+tempo vieram miraculosamente para a Cidade de Coimbra as Reliquias dos
+cinco Religiosos de S&atilde;o Francisco, que pela F&eacute;
+deram o
+sangue em Marrocos, e ver&aacute;s como o mesmo Rei pessoalmente os
+foi receber.
+L&ecirc;, e n&atilde;o te mostres ingrato ao meu cuidado que
+n&atilde;o cessa de procurar modos de
+satisfazer &aacute; tua curiosidade, como brevemente o
+ver&aacute;s. <br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">Vale.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1>LICEN&Ccedil;AS DO SANTO OFFICIO</h1>
+
+<div class="quote">Approva&ccedil;&atilde;o do
+Reverendissimo
+Padre Mestre D. Antonio Caetano de Souza, Clerigo Regular da
+Divina Providencia, Qualificador do Santo Officio, e Academico do
+Numero
+da Academia Real da Historia Portugueza<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">EMINENTISSIMO SENHOR<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Esta Chronica del-Rei D. Affonso II que V. Eminencia me manda ver, que
+anda em nome de Ruy de Pina Chronista m&oacute;r em tempo de El Rei
+D. Manoel, e agora manda imprimir Miguel Lopes Ferreira, depois de
+passados dous seculos, n&atilde;o contem cousa alguma contra a
+nossa Santa
+F&eacute;, ou bons costumes. N&atilde;o s&oacute; esta
+Chronica, mas todas as que
+temos antigas desde El-Rei D. Affonso I e o Conde D. Henrique seu pai,
+at&eacute;
+El-Rei D. Duarte, conforme
+<span class="pagenum"><a id="Page_11" name="Page_11">[11]</a></span>
+a observa&ccedil;&atilde;o que tem
+feito os Eruditos
+da nossa Historia, todas foram escritas por Fern&atilde;o Lopes
+primeiro Chronista
+m&oacute;r do Reino, que depois milhorou em estillo o dito Ruy de
+Pina, e publicou em seu nome, com que agora se imprimiram, com a
+licen&ccedil;a de V. Eminencia,
+a que n&atilde;o tenho duvida se lhe conceda. Lisboa Occidental na
+Caza de N. Senhora da Divina Providencia, 8 de Mar&ccedil;o de 1726.<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">D. Antonio Caetano de Souza C. R.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote">Approva&ccedil;&atilde;o do
+Reverendissimo
+Padre Mestre Fr. Vicente das Chagas, Religioso da Provincia de
+Santo Antonio dos Capuchos, Lente Jubilado na Sagrada Theologia,
+e Qualificador do Santo Officio, &amp;c.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">EMINENTISSIMO SENHOR<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Li por ordem de V. Eminencia esta Chronica del-Rei D. Affonso o II.
+Della consta s&oacute; a discordia, que houve entre o dito Rei, e
+suas irm&atilde;s, mas ainda assim (depois de obrigado) estudou
+como se havia de concordar, como concordou, com ellas, sinal de ser Rei
+sabio, e virtuoso; Sabio como diz Santo Ambrosio: &laquo;Lib. 2. de
+Abraham c. 6. ante
+medium col. 1013. B. Sapienti pacis, &amp; conc&oacute;rdiae
+est studium,
+imprudenti amica jurgia&raquo;; e virtuoso como d&aacute; a
+entender S.
+Jo&atilde;o Chrysostomo &laquo;Homil. 45. ante a medi[~u] col.
+373, D. Ubi concordia, ibi bonorum confluxus, ibi pax, ibi charitas,
+ibi spiritualis laetitia nullum bellum, nulla rixa, nus quam
+inimicitior, &amp; contentio&raquo;. Esta concordia,
+paz, caridade, alegria espiritual, &amp;c vemos por experiencia
+neste nosso Reino
+agora de prezente, mas como n&atilde;o ha de ser assim, se temos
+por Rei o
+Invitissimo, e Augustissimo Monarcha o Senhor D. Jo&atilde;o <span class="pagenum"><a id="Page_12" name="Page_12">[12]</a></span>
+o V,
+que Deos
+guarde por muitos annos, de quem com muita propriedade se
+p&oacute;de dizer o que
+l&aacute; disse Cicero (sen&atilde;o em tudo, em parte)
+&laquo;Orat. 42. pro Rege
+Dejotaro in princip. num. I. tom 2. Rex concors, pacificus, fortis,
+justus, severus, gravis, magnanimus largus, beneficus, liberalis,
+&amp;c.&raquo;
+N&atilde;o tem a Chronica cousa contra a F&eacute;, ou bons
+costumes, e assim julgo que se
+p&oacute;de imprimir. Santo Antonio dos Capuchos, 21 de
+Mar&ccedil;o de 1726.<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">Fr. Vicente das Chagas.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Vistas as informa&ccedil;&otilde;es, pode-se imprimir a
+Chronica del-Rei D. Affonso II e depois de impressa tornar&aacute;
+para se conferir, e dar
+licen&ccedil;a que corra, sem a qual n&atilde;o
+correr&aacute;. Lisboa Occidental, 22 de
+Mar&ccedil;o de 1726.<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">Rocha, Fr. Lancastre. Teixeira.
+Silva.
+Cabedo.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">
+<h2>DO ORDINARIO</h2>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<div class="quote">Approva&ccedil;&atilde;o do
+Reverendissimo
+Padre Mestre D. Jos&eacute; Barbosa Clerigo Regular da Divima
+Providencia,
+Examinador das Tres Ordens Militares, Chronista da
+Serenissima Caza de Bragan&ccedil;a, e Academico do Numero da
+Academia Real da
+Historia Portugueza</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">ILLUSTRISSIMO E
+REVERENDISSIMO SENHOR<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Por mandado de V. Illustrissima vi a Chronica del-Rei D. Affonso II que
+escreveo Ruy de Pina, e nella n&atilde;o achei por onde se
+n&atilde;o lhe deva dar a licen&ccedil;a para se imprimir. V.
+Illustrissima
+ordenar&aacute; o que for servido. Nesta Caza de N. Senhora da
+Divina Providencia, 18 de Agosto de 1726.<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">D. Jos&eacute; Barbosa C. R.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+Vista a informa&ccedil;&atilde;o pode-se imprimir a Chronica de
+que se trata, e depois de impressa tornar&aacute; para se conferir,
+e dar
+licen&ccedil;a que corra sem a qual n&atilde;o
+correr&aacute;. Lisboa Occidental, 27 de Setembro de
+1726.<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">D. J. A. L.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>DO PA&Ccedil;O</h2>
+
+<br />
+
+<div class="quote">Approva&ccedil;&atilde;o do
+Reverendo
+Beneficiado Diogo Barbosa Machado Presbytero do Habito de S.
+Pedro, e Academico do Numero da Academia Real da Historia
+Portugueza</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">SENHOR<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Obedecendo ao Real preceito de V. Magestade, li a Chronica do
+Serenissimo Rei D. Affonso II do nome, e terceiro Rei de Portugal,
+composta por Ruy de Pina Chronista m&oacute;r deste Reino, e Guarda
+m&oacute;r da Torre do Tombo, um dos mais deligentes Escritores,
+que venerou a sua idade. Nella, como em pequeno mappa recopilou este
+Author parte das heroicas ac&ccedil;&otilde;es, que exercitou
+aquelle Principe,<span class="pagenum"><a id="Page_15" name="Page_15">[15]</a></span>
+cujo cora&ccedil;&atilde;o foi sempre animado pelos espiritos
+marciaes, que com a Coroa herdara de seus augustissimos Predecessores,
+illustrando a sua Real purpura
+n&atilde;o com o barbaro sangue Mauritano, derramado na famosa
+conquista de Alcacere, como inferior &aacute; sua grandeza, mas com
+aquelle que
+sagradamente prodigos
+verteram em obsequio da Religi&atilde;o sobre as aras do Martyrio
+cinco heroicos Soldados nas adustas campanhas de Marrocos, que sendo
+benevolamente hospedados em Coimbra, e Alemquer pela generosa piedade
+da Rainha Dona Urraca, e da Ifanta Dona Sancha, uma Esposa, e outra
+Irm&atilde; deste Monarcha, quizeram satisfazer aquella piedosa
+hospitalidade com a posse das suas sagradas cinzas conduzidas ao Real
+Convento de Santa Cruz de Coimbra pelo ferveroso zelo do Ifante D.
+Pedro. Certamente agora recebe nova gloria, e maior esplendor o nome
+n&atilde;o
+s&oacute; daquelle Principe, mas ainda do seu Chronista, pois se
+faz publica, e patente aos olhos do mundo uma Historia, que ha mais de
+dous Seculos estava occulta nos Archivos, e nas Bibliothecas, e ainda
+que era conhecida por alguns eruditos, n&atilde;o tinha a fortuna
+de lograr o beneficio da luz
+publica eternizada nos caracteres da Impress&atilde;o mais
+perduraveis, que
+aquelles, que a vaidade dos homens abrio nos marmores, e esculpio nos
+bronzes. Desta t&atilde;o grande, e t&atilde;o heroica
+felicidade o
+unico, e Soberano Author &eacute; V. Magestade, pois com a
+altissima providencia, com que criou a Academia da Historia Portugueza
+intruduzio nova vida no corpo historico desta Monarchia, que jazia
+sepultado nas injuriosas cinzas do esquecimento. Erigio um Capitolio
+litterario para nelle se coroarem os
+Var&otilde;es benemeritos da immortalidade. Abrio uma douta
+Officina para se lavrarem as Estatuas aos Heroes Portuguezes. Correo as
+cortinas ao veneravel Santuario das antiguidades <span class="pagenum"><a id="Page_16" name="Page_16">[16]</a></span>
+Ecclisiasticas desta
+Coroa. Descobrio os thesouros da erudi&ccedil;&atilde;o
+Historica
+at&eacute;gora fechados &aacute; perspicacia de muitos
+engenhos. Declarou formidavel guerra ao Imperio da ignorancia, e fez
+communicavel a todo o genero de pessoas o comercio das Letras. Toda
+esta gloria estava mysteriosamente reservada para o feliz reinado de V.
+Magestade, pois n&atilde;o lhe bastando para complemento da sua
+Real grandeza o suave dominio, que tem nos
+cora&ccedil;&otilde;es de seus
+vassallos, o quiz tambem dilatar aos entendimentos, como parte mais
+nobre, e superior de todo o homem. Animados com os generosos alentos,
+com que V. Magestade inspira, e protege as Sciencias, s&atilde;o
+innumeraveis os Escritores, que
+com judiciosa critica, e vastissima erudi&ccedil;&atilde;o tem
+publicado os partos de seus fecundos engenhos, n&atilde;o sendo
+inferior a estes a zeloza
+diligencia com que Miguel Lopes Ferreira se empenhou em obsequio deste
+Reino a mandar
+imprimir as Chronicas dos Reaes Predecessores de V. Magestade das quaes
+&eacute; esta a Terceira, sendo egualmente digno da
+atten&ccedil;&atilde;o de V. Magestade o seu zelo com que
+pretende eternizar as glorias desta Monarchia, como benemerito da
+licen&ccedil;a este livro pelo nome de seu author. V.
+Magestade ordenar&aacute; o que for servido. Lisboa Occidental 20
+de
+Mar&ccedil;o de 1727.<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">Diogo Barbosa Machado.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Que se possa imprimir, vistas as licen&ccedil;as do Santo Officio,
+e Ordinario, e depois de impressa torne &aacute; meza para se
+conferir, e taxar,
+e dar licen&ccedil;a que corra, sem a qual n&atilde;o
+correr&aacute;. Lisboa Occidental 5 de Junho de 1727.<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">Marques P. Pereira.
+Galv&atilde;o. Oliveira.
+Teixeira Bonicho<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a id="Page_17" name="Page_17">[17]</a></span>
+<h2><em>Coronica do muito alto, e esclarecido Principe D.
+Affonso II, terceiro</em></h2>
+
+<h2><em>Rei de Portugal</em></h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1><a name="CAPITULO_I"></a>CAPITULO I</h1>
+
+<div class="quote">Como o
+Ifante Dom Affonso foi alevantado por Rei e como foi
+cazado, e com quem, e que
+filhos legitimos houve</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">El-Rei</span> Dom Sancho de
+louvada memoria deste nome o primeiro, e dos Reis de Portugal o
+segundo, faleceo em Coimbra na era de N. Senhor de mil e
+duzentos e doze; (1212) o Principe Dom Affonso como primogenito, e
+herdeiro foi logo alevantado, e obedecido por Rei, em idade de vinte e
+cinco annos, havendo j&aacute; quatro annos que era cazado com a
+Rainha Dona Orraca filha legitima del-Rei Dom Affonso deste nome e
+noveno de Castella, e neste tempo sendo Ifante, depois que sua idade o
+premitio, e em Reinando El-Rei Dom Sancho seu padre, foi com elle em
+muitas cousas notaveis, e grandes feitos darmas, que naquelles tempos
+concorreram, em que por <span class="pagenum"><a id="Page_18" name="Page_18">[18]</a></span>
+seu corpo, e bra&ccedil;o assi o fez sempre
+como bom, e
+esfor&ccedil;ado Cavalleiro, que bem pareceo ser filho, e neto do
+pai de que descendia, e para claramente se ver que a Real Caza de
+Portugal dantigamente foi liada, e conjunta em sangue com todas as
+Cazas de todos os Reis, e Principes Christ&atilde;os, &eacute;
+de saber, que El-Rei Dom
+Affonso noveno de Castella, sogro deste Rei Dom Affonso de Portugal foi
+cazado com a Rainha Dona Lianor filha del-Rei Dom Anrique Dinglaterra,
+e della houve dous filhos, e cinco filhas; todos legitimos, a saber,
+dous filhos o Ifante Dom Fernando primeiro, e herdeiro, que em idade de
+dezaseis annos sem ser cazado faleceo em vida de seu pai antes um pouco
+da batalha das Naves de Tolosa, e o Ifante Dom Anrique, que apoz elle
+depois de sua morte o soccedeo, e sem leixar herdeiro, que o soccedesse
+faleceo mui mo&ccedil;o, como atraz na Coronica del-Rei D. Sancho
+&eacute;
+declarado, e das cinco filhas que houve uma foi a Ifanta Dona
+Constan&ccedil;a primeira
+Senhora do Moesteiro das Holgas de Burgos, que El-Rei seu padre
+novamente fundou, onde ella falleceo sem cazar, e as outras quatro
+filhas foram Rainhas, a saber, a Rainha Dona Branca, filha maior, que
+cazou com El-Rei Luis de Fran&ccedil;a, filho del-Rei Felippe, o
+que disseram Augusto, e
+houveram herdeiro de Fran&ccedil;a El-Rei S&atilde;o Luis, e
+outros
+filhos, e a segunda Rainha, foi Dona Lianor, que foi cazada com El-Rei
+Dom James, deste nome o primeiro Rei de Arag&atilde;o, de que houve
+filho o Ifante D.
+Affonso, que faleceo mo&ccedil;o, e n&atilde;o Reinou, e a
+terceira filha
+foi a Rainha Dona Biringela mulher del-Rei Dom Affonso de
+Li&atilde;o de que houve
+filhos El-Rei Dom Fernando Rei de Castella, e de Li&atilde;o, que
+dizem o Santo,
+e o que ganhou dos Mouros Cordova, e Sevilha, e muita parte Dandaluzia,
+e o Ifante Dom Affonso de Molina, como na Coronica<span class="pagenum"><a id="Page_19" name="Page_19">[19]</a></span>
+del-Rei Dom Sancho
+brevemente se disse, e na Coronica de Castella mais largamente se
+contem.<br />
+
+<br />
+
+E a quarta filha foi a Rainha Dona Orraca molher deste Rei Dom Affonso
+de Portugal de que houveram dous filhos, e uma filha a saber, o Ifante
+D. Sancho o que disseram o Capello, que a poz elle logo Reinou, e o
+Ifante Dom Affonso que foi Conde de Bolonha em Fran&ccedil;a, que
+apoz Dom Sancho por n&atilde;o ter legitimo herdeiro tambem Reinou
+em
+Portugal, e o Ifante Dom Fernando, que se disse Ifante de Serpa, e
+segundo se brevemente acha, este cazou em Castella com Sancha
+Fernandes, filha de Dom Fernando, de que houve uma filha chamada Dona
+Lianor, que foi
+depois cazada com El-Rei de Dacia, e l&aacute; faleceo sem filhos,
+e houve
+mais o dito Rei Dom Affonso da Rainha Dona Orraca sua molher a Ifanta
+Dona Lianor, que cazou com o filho herdeiro del-Rei de Dinamarca, que
+depois da morte de seu padre herdou o Reino, mas quando, e como, e por
+quem estes Ifantes Dom Fernando, e Dona Lianor cazaram, n&atilde;o
+se acha
+escrito, somente parece que segundo o pouco tempo que El-Rei Dom
+Affonso seu padre viveo, que elles cazaram depois de sua morte, e por
+aderencias das Cazas Reaes de Fran&ccedil;a, e Dinglaterra, com que
+por sangue
+eram mui conjuntos.<br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o dou muita f&eacute;, nem authoridade ao que destas
+Rainhas Dona Orraca de Portugal, e Dona Branca de Fran&ccedil;a
+vulgarmente se diz, e
+alguns escreveram, que os Embaixadores del-Rei de Fran&ccedil;a, e
+del-Rei
+de Portugal, que juntamente vieram a Castella a requerer cazamentos
+destas Rainhas filhas del-Rei Dom Affonso, que os de Fran&ccedil;a
+quizeram antes a Dona Branca, posto que era mais mo&ccedil;a, e de
+menos estima, e
+leixaram a Portugal Dona Orraca por ser nome feo, para
+Fran&ccedil;a, por que
+isto tem duas grandes<span class="pagenum"><a id="Page_20" name="Page_20">[20]</a></span>
+contradi&ccedil;&otilde;es, a primeira
+que a
+Rainha Dona Branca n&atilde;o era a mais mo&ccedil;a, mas a
+mais velha, e nas contendas, que depois
+houve antre os Reis de Fran&ccedil;a, e Castella, sobre
+socess&atilde;o de
+Castella, que vinha de filhas, e n&atilde;o de filhos, se prova
+isto muito craro, porque
+El-Rei S&atilde;o Luis de Fran&ccedil;a pertendia ter direito
+em Castella, por ser
+filho da Rainha Dona Branca, filha maior del-Rei Dom Affonso noveno, e
+queria excludir a El-Rei D. Affonso deste nome o decimo de Castella,
+filho del-Rei Dom Fernando, neto da Rainha Dona Biringela, por ser
+filha menor del-Rei D. Affonso noveno, e se a Rainha Dona Orraca fora
+filha maior, este direito pertencia a El-Rei Dom Sancho Capelo, e a
+El-Rei D. Affonso Conde de Bolonha, Reis de Portugal, e filhos da dita
+Rainha Dona Orraca, o que n&atilde;o foi, e a segunda
+contradi&ccedil;&atilde;o
+&eacute; que este nome Dona Orraca era nome a Rainhas mui
+costumado, e de muita estima, e tal de que se muitas honraram, e
+leixando outras muitas, estas que me aqui occorrem apontarei, a
+m&atilde;i do Emperador Despanha D. Affonso deste nome
+o outavo de Castella, e molher do Conde Dom Reym&atilde;o de Tolosa
+havia nome
+Dona Orraca, que foi a Rainha Despanha, e a Rainha de Li&atilde;o,
+molher
+del-Rei Dom Fernando, e filha del-Rei Dom Affonso Anriques, tambem
+havia nome Dona Orraca, que foi Princeza mui singular, e a molher de
+Dom
+Reym&atilde;o Conde de Barcelona, e Rei de Arag&atilde;o, que
+era da Caza, e Reino de
+Fran&ccedil;a, que no mesmo Reino havia nome Dona Prona, e mudou o
+nome, escolhendo outro por milhor, se chamou Dona Orraca, e desta veo
+D. Affonso deste nome o segundo Rei Darag&atilde;o, e a Rainha Dona
+Doce molher del-Rei D.
+Sancho de Portugal, de que em sua Coronica se disse.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a id="Page_21" name="Page_21">[21]</a></span>
+<h1><a name="CAPITULO_II"></a>CAPITULO II</h1>
+
+<div class="quote">Das
+desaven&ccedil;as que houve antre El-Rei D. Affonso, e as Ifantes
+suas irm&atilde;s, e da
+guerra que sobre esso se moveo</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">No</span> primeiro anno do
+Reinado deste Rei Dom Affonso de Portugal, era o
+prazo da batalha das Naves de Toloza, que El-Rei Dom Affonso seu sogro
+tinha posto com Mirabolim de Marrocos, filho de outro Mirabolim, que
+fora vencedor na outra batalha Delharcos, para que o Papa concedeo
+geral Cruzada, que o Ifante D. Fernando primogenito herdeiro do dito
+Rei D. Affonso em pessoa foi pedir, e trouxe de Roma, e logo faleceo,
+como
+j&aacute; disse, e por ganharem os perd&otilde;es, e
+remiss&otilde;es de
+peccados grandes outros Senhores, e outras muitas e nobres gentes de
+toda Christandade vieram a esta batalha em pessoas &aacute; qual
+n&atilde;o se acha, que
+fosse em pessoa este Rei Dom Affonso de Portugal, mas que enviou gentes
+suas, e a cauza delle
+n&atilde;o ir em pessoa, diz, que foi porque neste proprio anno
+come&ccedil;ou
+de Reinar em Portugal, e assi por boli&ccedil;os, e desassocegos
+que dantre
+elle, e suas irm&atilde;s se moveram, como ao diante se
+dir&aacute;. E este
+Rei Dom Affonso de Castella ao tempo desta batalha era de cincoenta e
+seis annos, e no anno seguinte tendo Cortes em Burgos, se diz que
+mandou a ellas chamar a este Rei de Portugal seu genro, &aacute;s
+quaes elle n&atilde;o quiz
+ir, e elle anojado desso, determinou fazer-lhe guerra, e tomar-lhe os
+Reinos se podesse, e que com este fundamento indo para
+Prazen&ccedil;a adoeceo no termo
+de Revaldo em uma Aldea, que se diz Martim Manhos, e ahi faleceo, e foi
+dahi levado, e sepultado no Moesteiro<span class="pagenum"><a id="Page_22" name="Page_22">[22]</a></span>
+das Holgas de Burgos, que elle
+novamente fundou, e outros dizem que vinha para se ver no extremo de
+Portugal com seu genro para o aconselhar em suas couzas, e debates em
+que andava, com suas irm&atilde;s, e que todavia faleceo no dito
+lugar, porque tambem este Rei Dom Affonso de Portugal logo como Reinou
+n&atilde;o
+lhe faleceram grandes necessidades, e afrontas de
+excommunh&otilde;es
+do Papa, e de guerras, e desaven&ccedil;as que houve com suas
+irm&atilde;s a
+Rainha Dona Tareja, molher que fora del-Rei Dom Affonso de
+Li&atilde;o, e da Ifante
+Dona Sancha, de que a cauza brevemente foi esta.<br />
+
+<br />
+
+El-Rei Dom Sancho, como em sua Coronica disse, leixou em seu testamento
+&aacute; Rainha Dona Tareja, sua filha, que fora cazada com o dito
+Rei Dom Affonso de Li&atilde;o, a Villa de Monte m&oacute;r o
+Velho, e
+Esgueira, e mais dez mil maravedis douro, e certa prata, e que se ella
+morresse, que houvesse estes Lugares a Ifante Dona Branca sua
+irm&atilde; della, e leixou
+&aacute; Ifante Dona Sancha a Villa Dalanquer, e dez mil maravedis
+douro, e tambem prata, e que se ella falecesse, que houvesse a Villa a
+Ifante Biringela sua irm&atilde;, das quaes Villas, e cousas ellas
+houveram a posse,
+e as tinham; mas El-Rei Dom Affonso seu irm&atilde;o em caso que
+fosse
+contra seu juramento, e menagem, n&atilde;o quiz estar inteiramente
+pelo
+testamento del-Rei seu padre, antes como Reinou logo pedio as ditas
+Villas, e Fortalezas a suas irm&atilde;s, dizendo: &laquo;Que
+El Rei seu
+padre lhas n&atilde;o podia dar, que era em mui grande
+diminui&ccedil;&atilde;o do Reino, e
+que era sobresso concedido privilegio do Papa Alexandre Terceiro, por o
+qual as cousas do Reino sen&atilde;o podiam dar a alguma pessoa nem
+emlhear, e que
+ass&aacute;s lhe leixara a ellas nos maravedis douro, e prata de
+seu testamento com outras cousas, que tinham de suas fazendas.<br />
+
+<br />
+
+E sobre este requerimento El-Rei, e a Rainha, e as <span class="pagenum"><a id="Page_23" name="Page_23">[23]</a></span>
+Ifantes suas
+irm&atilde;s por lhe darem reposta, pediram dias de
+libera&ccedil;&atilde;o,
+dentro dos quais ellas se recolheram logo com a Ifante Dona Branca sua
+irm&atilde; ao
+Castello de Monte m&oacute;r, e o basteceram, e fortalezaram, e
+deshi se
+emviaram logo aggravar ao Papa Innocencio III que fic&aacute;ra por
+executor do
+testamento del-Rei seu pai, e por esso lhe leixou o dito Rei D. Sancho
+seu pai cem marcos douro, e assi o fizeram ellas mais saber ao dito Rei
+de
+Li&atilde;o com que a dita Rainha Dona Tareja fora cazada, e era
+apartada delle pela Egreja, de que houveram logo ajuda, e soccorro, a
+que por seu mandado veo logo o Ifante Dom Pedro seu irm&atilde;o
+dellas filho del-Rei
+Dom Sancho o que depois passou a Marrocos, e trouxe aos ossos dos
+Martyres, e assi veio ao dito soccorro, e ajuda o Ifante Dom Fernando
+filho da dita Rainha Dona Tareja, e del-Rei Dom Affonso de
+Li&atilde;o, e assi
+veo em sua companhia Dom Pedro Fernandes de Castro o
+Castell&atilde;o, aquelle
+que em companhia dos Mouros foi prezo em Portugal, e logo solto, e
+depois passou, e morreo em Marrocos, e com alle veo muita gente, que
+foi nos estremos de Portugal, donde enviaram &aacute;s ditas
+Villas, e
+Fortalezas de Monte m&oacute;r, e Alanquer aquella que comprio para
+defen&ccedil;&atilde;o dos Castellos, e para resistencia
+del-Rei Dom Affonso de Portugal, o qual por sentir muito o insulto
+tamanho dos estranhos, e t&atilde;o grande
+desobediencia dos seus naturaes, veo logo &aacute; dita Villa de
+Monte
+m&oacute;r, e por algumas vezes requereo a suas irm&atilde;s, e
+principalmente a Dona Tareja, cuja
+era, que houvesse por bem de desistir de seu alevantamento, e quizesse
+que o Castello se entregasse a algum homem de que ambos se confiassem
+para o ter em boa guarda, e fieldade, e que de sua fazenda delle lhe
+faria dar todas dispezas, e mantimentos para esso necessarios, e que
+este arrecadasse inteiramente para ella todas as <span class="pagenum"><a id="Page_24" name="Page_24">[24]</a></span>
+rendas, e direitos da
+Villa, mas que as menagens fossem feitas a elle, o que ella nunca quiz
+fazer, antes se diz que consentio, que os de dentro em desprezo, e por
+injuria del-Rei seu irm&atilde;o calando o nome do Reino, e del-Rei
+de
+Portugal a que deveram acatar, e obededer, envocaram, e chamaram o nome
+de
+Li&atilde;o, que repetiam muitas vezes, e que outro tanto mandou
+fazer a Ifante Dona Sancha no Castello Dalanquer, e por tanto El-Rei
+temendo perder os ditos Castellos os mandou cercar, e combater, e com a
+gente do cerco, que sobreveo se seguiram nelles, e em seus termos pela
+condi&ccedil;&atilde;o da guerra muitas mortes, e danos de uma
+parte, e da outra, pelo qual os Ifantes, e Senhores, que com a gente do
+Reino de Li&atilde;o, que disse
+entr&aacute;ram em Portugal tom&aacute;ram Valen&ccedil;a
+do Minho, e
+Melga&ccedil;o, Algozo, e Freixo, e outros Lugares ch&atilde;os
+que roubaram, e queimaram, em que fizeram muto
+mal.<br />
+
+<h1><a name="CAPITULO_III"></a>CAPITULO III</h1>
+
+<div class="quote">Como foi
+pelo Papa procedido contra El-Rei D. Affonso por causa da
+contenda que havia com suas
+irm&atilde;s, e como finalmente foram
+concordados</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">E</span> sobre esso para
+mais tormento del-Rei Dom Affonso de Portugal vieram
+de Roma por juizes Delegados do Papa a requerimento das Ifantes o
+Arcebispo de Santiago, e o Bispo de &Ccedil;amora, que por El-Rei
+de Portugal
+ir contra o testamento del-Rei seu padre, e por n&atilde;o desistir
+do cerco, que tinha posto aos Castellos de Monte m&oacute;r, e
+Alanquer,
+excommungou sua pessoa, e pozeram entredicto geral em todo o Reino,
+exceituaram
+s&oacute;mente as ditas <span class="pagenum"><a id="Page_25" name="Page_25">[25]</a></span>
+Ifantes, e seus sequazes, e servidores,
+sobre o qual El-Rei Dom Affonso com rez&otilde;es, e cousas que
+achou, e lhe aconselharam
+de sua justi&ccedil;a se enviou destes procedimentos querelar, e
+aggravar
+ao Papa, e pedir emenda del-Rei de Li&atilde;o, e dos que tinham as
+Villas, e
+Castellos de seus reinos for&ccedil;ados, e nelles feitos muitos
+danos, alegando
+sobre esso a pouca justi&ccedil;a que suas irm&atilde;s tinham
+nas Villas,
+e Castellos de seu Reino, com que se levant&aacute;ram, e dando
+outras
+rez&otilde;es, porque entendia ser relevado da culpa que lhe dava
+dizendo por sua escuza, que o
+n&atilde;o obrigava o juramento, e menagens, que fizera de comprir
+o testamento del-Rei Dom Sancho seu padre, porque o fizera
+for&ccedil;ado, e por
+n&atilde;o ser deserdado do Reino, e mais que a esse tempo seu pai
+n&atilde;o
+estava em todo seu sizo, e entender verdadeiro, pois tanto contra
+justi&ccedil;a
+fizera tamanho enlheamento das cousas do Reino, que n&atilde;o
+podia fazer.<br />
+
+<br />
+
+E o Papa por seu respeito cometeu este negocio aos Abbades Despina, e
+Vicarria, que fez Juizes Commissairos, os quais vieram a Coimbra onde
+sobre seguran&ccedil;a j&aacute; praticada, e antre todos
+concordada, foram tambem juntos El-Rei Dom Affonso, e suas
+irm&atilde;s em pessoas a que os
+Juizes deram solene juramento porque prometeram estarem todos
+&aacute;
+obediencia, e detremina&ccedil;&atilde;o de todo o que elles em
+nome do Papa
+&aacute;cerca de seus negocios detreminassem, e mandassem, e por
+este juramento, e promessa que se fez El-Rei, e os seus foram da
+excommunh&atilde;o ausolutos, e
+alevantado o antredicto do Reino. Os Commissairos pozeram antre elles
+treguas, e seguridade, que todos prometeram guardar, at&eacute; o
+Papa
+finalmente detreminar suas contendas, e debates, e algumas
+condi&ccedil;&otilde;es das tregoas principaes, eram que os de
+uma parte, e da outra podessem livremente andar, e tratar por as terras<span class="pagenum"><a id="Page_26" name="Page_26">[26]</a></span>
+chans uns dos outros, mas que nas Villas, e Castellos cercados
+n&atilde;o entrassem sem licen&ccedil;a
+dos Senhores dellas, e que tudo podessem, uns e outros comprar, e
+vender salvo armas, e cavallos, e que ellas Ifantes em algum seu Lugar
+de Portugal
+n&atilde;o podessem mandar lavrar moeda douro, prata, nem dalgum
+metal, que quatro Cavalleiros principais da parte del-Rei jurassem que
+se El-Rei
+n&atilde;o guardasse as tregoas que cada um delles com cinco
+Cavalleiros mais servissem as Ifantes contra El-Rei e cada uma das
+Ifantes
+d&eacute;sse outros tantos por si, que com esta
+condi&ccedil;&atilde;o servissem a
+El-Rei contra ellas, e mais que El-Rei d&eacute;sse cem homens
+cazados, e honrados de
+Coimbra, e que todos lhe fizessem, e pagassem foro, e outros cento
+semelhantes de Santarem, que jurassem todos fazer sempre comprir esta
+tregoa, e que
+n&atilde;o a comprindo El-Rei, que servissem &aacute;s Ifantes
+contra El-Rei,
+e que ellas por sua parte d&eacute;ssem outros taes, a saber: cento
+Dalanquer,
+e cento de Monte m&oacute;r, para que se ellas n&atilde;o
+comprissem a
+tregoa, que servissem a El-Rei contra ellas, e que neste tempo uns, e
+outros, n&atilde;o
+cercassem Villas, nem Castellos, nem se fizesse algum mal, sopena de
+excomunh&atilde;o, e antredicto, em que elles, e todos los
+ajudadores, e favorecedores ipso facto encorressem, e com mandado
+estreito aos Prelados do Reino, que a cada um assi como lhes tocasse as
+senten&ccedil;as dos ditos
+alegados fizessem inteiramente comprir, e executar at&eacute; o
+Papa finalmente as
+aprovar, ou emendar como fosse justi&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+Esta tregoa, se fez em Coimbra na era de nosso Senhor de mil e duzentos
+e quatorze annos, (1214) dous annos depois que El-Rei
+come&ccedil;ou a Reinar, e logo ahi se fulminou e principiou
+processo em que a Rainha, e a Ifante cada uma per si segundo os danos
+que del-Rei seu irm&atilde;o
+tinham recebidos, e pelas injurias, e males, <span class="pagenum"><a id="Page_27" name="Page_27">[27]</a></span>
+que no cerco padeceram,
+pediam contra elle restitui&ccedil;&atilde;o, e assi
+seguran&ccedil;a perpetua
+de suas Villas, e Castellos, e gram soma de maravedis, que naquelle
+tempo era moeda douro assi geral, e praticada como neste agora
+s&atilde;o na Europa os cruzados, e
+ducados, porque sessenta delles faziam um marco douro, como
+j&aacute; em outras
+partes tenho dito, e &aacute;s peti&ccedil;&otilde;es das
+ditas
+Senhoras, veo El-Rei por seu procurador com
+excei&ccedil;&otilde;es, e contrariedades, e
+compensa&ccedil;&otilde;es sobre que de uma parte, e da outra
+foi dito, e ass&aacute;s alegado, e sobre seus alegados
+foi o feito concruzo, e os Juizes remeteram a
+publica&ccedil;&atilde;o da
+final senten&ccedil;a para Melga&ccedil;o, Castello de Portugal
+no extremo de Galiza, a que
+mandaram que El-Rei, e as Ifantes fossem por si, ou por seus
+procuradores, onde no Maio seguinte a publicaram, e foi El-Rei
+condenado por a dita
+senten&ccedil;a em grande soma de dinheiro, e doutras emendas, e
+depois que passou o termo para a paga, assinado, pozeram em El-Rei
+senten&ccedil;a
+Dexcommunh&atilde;o, e assi antredito em todo o Reino, de que logo
+apelou, e depois de muitos debates, e delongas, que em Roma, e Espanha
+sobre este caso passaram, que n&atilde;o fazem a realidade da
+Estoria, finalmente El-Rei, e
+as irm&atilde;s se concordaram por maneira, que as Villas de Monte
+m&oacute;r, e
+Alanquer ficaram com ellas segundo a disposi&ccedil;&atilde;o
+do testamento
+del-Rei Dom Sancho seu pai, e as Villas e Castellos, e terras de
+Portugal, que El-Rei de
+Li&atilde;o tinha tomadas foram entregues, e restituidas a El-Rei
+Dom Affonso. No qual meio tempo que durou esta divis&atilde;o, e
+discordia uns e os
+outros fizeram grandes, e danosas entradas, e muitos roubos nos Reinos,
+uns dos outros, em que houve pelejas particulares sem alguma
+fa&ccedil;anha de
+notar, cuja longa, e expressa declara&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o ponho
+ora; porque para a sustancia da Estoria n&atilde;o &eacute;
+muito necessaria.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a id="Page_28" name="Page_28">[28]</a></span>
+<h1><a name="CAPITULO_IV"></a>CAPITULO IV</h1>
+
+<div class="quote">Do
+fundamento que houve para Alcacere do Sal, que era de Mouros,
+ser cercado, e tomado dos
+Christ&atilde;os, e do Bispo de Lisboa
+principalmente</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Nos</span> primeiros cinco
+annos que El-Rei Dom Affonso Reinou n&atilde;o
+se acha, que
+socedessem outras cousas, salvo as desaven&ccedil;as, e desacordos
+em que andou
+com suas irm&atilde;s, e irm&atilde;os e assi a guerra com
+El-Rei de Li&atilde;o, e com suas
+genetes como j&aacute; disse, e passados os ditos cinco annos, e
+andando a era
+de nosso Senhor em mil e duzentos e dezasete annos os
+Christ&atilde;os, que estavam na conquista dultra m&aacute;r
+por
+defen&ccedil;&atilde;o, e recobramento da Terra Santa, tinham
+muitas necessidades de concorrer &aacute;s cruas
+guerras, e cercos apertados, que dos Infieis padeciam, para o que os
+Summos Pontifice convocavam, e requeriam todolos fieis
+Christ&atilde;os de
+todalas na&ccedil;&otilde;es, e vindo por mar a este soccorro
+muitas
+gentes Dalem&atilde;es, e Framengos, e outras de contra o Norte
+fizeram todos uma frota de cento e cincoenta naos de que eram
+Capit&atilde;es principaes Iliquino,
+Conde Dolanda, e Georgeo, Conde de Frisa, com que iam outros Senhores,
+e grandes homens, e sendo em mar, em trav&eacute;s de Portugal para
+demandarem o estreito de Cibraltar deu na frota t&atilde;o grande,
+e t&atilde;o
+contraria tromenta, que algumas naos dellas se perderam, e outras
+correram ao Cabo de S. Vicente at&eacute; a Villa de
+Far&atilde;o, a qual com toda a Comarca,
+e Reino do Algarve ainda eram Mouros, e porque o vento contrairo, e
+assi a terra de imigos, em que estavam, n&atilde;o lhes
+tra&ccedil;avam bem para sua
+seguran&ccedil;a, elles para dos danos, e perdas recebidas se
+poderem milhor repairar<span class="pagenum"><a id="Page_29" name="Page_29">[29]</a></span>
+fizeram volta, com fundamento de se virem ao
+porto de Lisboa.<br />
+
+<br />
+
+Sendo outra vez em mar, deu nelles outra tromenta mais aspera, e de
+maior perigo que a primeira, em que j&aacute; tambem perderam
+algumas naos com toda a gente que nellas vinha, e a outra frota depois
+que a tromenta cessou, e sobreveo bom vento de viagem, entrou toda via,
+e veo surgir ante a Cidade de Lisboa, e os Capit&atilde;es della
+ass&aacute;s tristes, e anojados, pelas grandes perdas de gentes, e
+doutras cousas, que no mar tinham perdidas, e sahindo logo
+Capit&atilde;es com pouca gente em terra,
+o Bispo, que ent&atilde;o era de Lisboa chamado Dom Matheus,
+sabendo que eram
+Christ&atilde;os os recebeo, e tratou com muita honra, e bom
+acolhimento, segundo a bondade de uns, e as necessidades dos outros
+requeria, de que o Bispo logo soube o proposito com que vinham, que era
+por soccorro, e ajuda da Caza Santa. E dahi a poucos dias este Bispo de
+Lisboa porque era Prelado de mui bom espirito, e grande
+cora&ccedil;&atilde;o, depois de ter juntos
+com seus rogos, e boa humanidade os principaes destes Estrangeiros lhe
+disse.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Honrados, e devotos Senhores, Deos sabe que a mim peza muito
+de todolos nojos infortunios, que passastes, e o remedio por agora
+n&atilde;o
+&eacute; outro<br />
+
+salvo paciencia do passado, e esfor&ccedil;o, e bom
+cora&ccedil;&atilde;o para o que mais vier, v&oacute;s
+vedes bem, quanto vos &eacute; contrairo o
+tempo para seguirdes vossa proposta viagem, e desto por vossos Pilotos,
+e mariantes podeis ser milhor certificados, p&oacute;de ser, e eu
+assi o creo, que Deos o
+premite assi para alguma cousa de seu louvor, e servi&ccedil;o, e
+tambem de
+nossas honras, e proveito, e esto digo porque aqui junto ha um Castello
+em poder de Mouros, que dizem Alcacere, de que esta terra toda que
+&eacute; de
+Christ&atilde;os recebe muito dano; se vos prouver <span class="pagenum"><a id="Page_30" name="Page_30">[30]</a></span>
+pois este feito,
+n&atilde;o
+&eacute; estranho doutros, que emprendestes, e a que his ajudarnos
+nelle, assi como vejo que podeis fazer, e com vossa gente, e ajuda de
+Deos principalmente, o ganharemos dos infieis, e pois a obra, e o
+servi&ccedil;o
+&eacute; de Deos, elle por sua grandeza, e piedade vos
+dar&aacute; delle bom
+galard&atilde;o, e nestas cousas s&oacute;mente que tocam a
+vossa honra, e
+salva&ccedil;&atilde;o, aconselhai-vos com sizo, e com a
+devo&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o com a vontade
+carnal, porque ass&aacute;s de vergonhosa cousa ser&aacute;
+publicardes pelas bocas bom dezejo para o servir,
+e as obras, que s&atilde;o t&atilde;o possiveis serem disso
+contrairas, e
+pois o lugar, e tempo se offerecem agora t&atilde;o despostos
+rogo-vos que elles
+n&atilde;o vos passem com ociosidade, ca bem creo, que bem sabeis
+que ella &eacute;
+fundamento de todolos peccados, e sepultura dos homens vivos, e
+corru&ccedil;&atilde;o de todolos costumes, e propositos
+virtuosos, e pois em vossos sobre sinaes que trazeis mostraes serdes
+devotos, e servidores da Cruz, assi tambem &eacute;
+rez&atilde;o que sejais imigos dos imigos della, e vossas
+m&atilde;os fortes deem
+agora verdadeiro testemunho da bondade, e f&eacute; de vossos
+cora&ccedil;&otilde;es, e esta tomada de Alcacere, para que vos
+convido, e requeiro, ser&aacute; com a
+gra&ccedil;a de Deos ass&aacute;s possivel, se v&oacute;s
+com vossas pessoas, e
+frota quizerdes ajudar a n&oacute;s, que com outra gente do Reino
+vos seremos em todo fieis,
+e bons companheiros.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Estas palavras, e outras muitas a estas conformes disse o Bispo aos
+Estrangeiros, alguns dos quais depois de haverem antre si seu acordo, e
+conselho tiveram oppini&atilde;o contraira, e se partiram, e
+outros, que foram os mais consentiram na
+proposi&ccedil;&atilde;o, e requerimento
+do Bispo, e lhes aprouve ser na ida sobre Alcacere.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a id="Page_31" name="Page_31">[31]</a></span>
+<h1><a name="CAPITULO_V"></a>CAPITULO V</h1>
+
+<div class="quote">Como
+Alcacere foi cercado, e com que numero de gente Portuguezes e
+tambem
+Estrangeiros</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Aquelles</span> Estrangeiros
+que foram dacordo com os Portuguezes de irem
+sobre Alcacere se recolheram logo &aacute;s suas naos, e sendo
+aparelhados do que lhes compria no mez de Setembro, se foram, e
+seguiram a barra de Setuvel, que neste tempo era Lugar pequeno, e
+n&atilde;o era
+cercado, em que pescadores s&oacute;mente viviam, e da gente de
+Portugal se acha
+que foram estes Capit&atilde;es principaes, a saber este Dom
+Mateus, Bispo de
+Lisboa, e Dom Pedro Mestre da Ordem da Cavallaria do Templo, e Dom
+Mestre
+Gon&ccedil;alo, Prior do Esprital, e Martim Barregam, Commendador
+de Palmella, e estes levaram comsigo da terra, Comarca de Lisboa, e de
+Evora, e de seus termos vinte mil homens, de que os mais eram de
+p&eacute;, e alguns
+de Cavallo, e n&atilde;o se acha que El-Rei Dom Affonso, que
+ent&atilde;o
+Reinava em Portugal, fosse neste exercito em pessoa no qual tempo
+parece que elle deveria ser doente, ou empedido por alguma outra
+urgente causa, porque
+n&atilde;o p&ocirc;de ser neste feito, e haveria por bem, e
+mandaria que se fizesse prestes, como se fez, ca n&atilde;o
+&eacute; de crer, tamanho feito sem seu
+mandado, e authoridade se cometesse, e o que se neste caso achou,
+&eacute; que os
+Estrangeiros em navios, que poderam ir, foram de Setuvel pelo rio acima
+at&eacute;
+junto Dalcacere, onde saindo alguns para tomar uvas, os Mouros, que da
+sua ida eram j&aacute; bem avizados, com armas lhe foram resistir,
+em que
+houve algum acometimento de peleja, de que um Mouro se diz que ficou<span class="pagenum"><a id="Page_32" name="Page_32">[32]</a></span>
+morto, e os outros se recolheram ao Castello, e os Estrangeiros
+surgindo com seus navios mais &aacute;vante poseram defronte da
+Villa suas pranchas,
+e sem resistencia sairam em terra, e logo elles, e os Portuguezes que
+j&aacute; tambem eram chegados, juntos com devida deligencia e
+resguardo cercaram o Castello de maneira que alguma pessoa
+n&atilde;o podia sair, nem
+entrar sem conhecido perigo; mas os Mouros posto que com tanta
+estreiteza se vissem cercados n&atilde;o mostravam ter por esso
+desmaio, nem temor,
+vendo que o Castello em que estavam era de muros, Torres, barreiras, e
+a cava mui forte, e bem provido, e acalcado de muitas gentes, e armas,
+e mantimentos para grandes tempos, e por milhor senefican&ccedil;a
+aos de fora de seu esfor&ccedil;o, e confian&ccedil;a, poseram
+muitas
+bandeiras por cima do muro de que em sinal de desprezo diziam feas
+palavras, e davam suas costumadas gritas.<br />
+
+<br />
+
+E os Christ&atilde;os leixaram boa guarda sobre sua frota, que com
+gentes, e armas ficou no porto bem segura, e sobre esso uns, e outros
+fizeram logo combater o Castello, e vendo que pela larga, e alta cava
+com que o muro era em torno valado n&atilde;o poderam bem chegar
+aos muros, e
+cortaram tantas arvores de fruito, e juntaram tanto outro mato que
+sendo igual a cava com a terra de f&oacute;ra podessem mais sem
+trabalho chegar aos
+muros, mas os Mouros aconselhados das necessidades e perigos em que se
+viam,
+lan&ccedil;aram de cima tanto fogo, com tantas cousas temperado,
+que a lenha da cava ardeo logo toda, por cujo impedimento leixaram logo
+de combater, e apoz esto ordenaram os Christ&atilde;os um engenho
+para com pedras
+destroirem o muro, mas sua fortaleza de dentro era tal, que dos seixos
+de
+f&oacute;ra lhe dava muito pouco, pelo qual torn&aacute;ram a
+lan&ccedil;ar
+tanta lenha na cava, com que foi chea, e tal guarda se poz, que
+n&atilde;o foi dos Mouros<span class="pagenum"><a id="Page_33" name="Page_33">[33]</a></span>
+queimada como elles logo tentaram, por cima da qual os
+Christ&atilde;os chegados
+ao muro deram um combate a que os Mouros com seu grande
+esfor&ccedil;o, e
+muitas armas resistiram de tal maneira, que afastaram os
+Christ&atilde;os dos
+muros, em que de uma parte, e da outra houve ass&aacute;s mortos e
+feridos.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1><a name="CAPITULO_VI"></a>CAPITULO VI</h1>
+
+<div class="quote">Dos Reis
+Mouros que vieram por soccorro da Villa de Alcacere, e da
+primeira batalha que deram, em
+que foram victoriosos</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Os</span>
+Christ&atilde;os, que tinham cercado Alcacere, e os Mouros que
+nelle eram cercados tinham antre si diversos pensamentos, ca uns
+consultavam engenhos para brevemente tomar, e os outros artificios para
+se delles pefender, e tambem n&atilde;o leixavam de buscar, e
+consultar
+conselhos, e remedios para com soccorro serem descercados, sobre que
+tinham feitos seus avizos a quatro Reis Mouros, que eram na Espanha, a
+saber El-Rei de Sevilha, El-Rei de Cordova, El-Rei de Jaem, e El-Rei de
+Badalhouse, os quaes para este soccorro, e descerco foram p&ocirc;r
+seu arraial ao
+lugar que chamam Sitymos, que &eacute; uma legoa Dalcacere, de cuja
+vinda
+sendo os Christ&atilde;os logo sabedores foram postos em temeroso
+pensamento. E n&atilde;o era sem causa, segundo verdadeira
+certid&atilde;o que houveram, ca
+traziam comsigo por terra quinze mil de Cavallo, e oitenta mil de
+p&eacute;, e pelo
+mar dez<br />
+
+Gal&eacute;s bem remadas, e aparelhadas.<br />
+
+<br />
+
+Mas aquelle alto Deos, que sobre todos tem o poder, n&atilde;o quiz
+em tanto perigo e necessidade desemparar <span class="pagenum"><a id="Page_34" name="Page_34">[34]</a></span>
+os Christ&atilde;os, que
+por sua
+f&eacute; emprenderam, sostinham esta demanda, porque por uma sua
+permiss&atilde;o piadosa arribaram a este porto, tambem na paragem
+de Setuvel trinta e seis naos de uma Cidade que dizem Trageito, com
+gentes
+Christ&atilde;s, nobres, e de bom esfor&ccedil;o, que iam
+&aacute;quella Conquista
+dultramar, que disse, os quaes em suas bandeiras traziam sinaes de S.
+Martinho, porque a
+jurdi&ccedil;&atilde;o daquella terra donde vinham era do Bispo
+daquella Cidade; da frota era Capit&atilde;o m&oacute;r Dom
+Anrique de Nehusa, o qual
+leixando suas naos com aquella seguran&ccedil;a e resguardo de
+gente que compria, elle com a outra
+em bateis, e navios piquenos se foi ao arraial de Alcacere, onde dos
+Christ&atilde;os foram com muita alegria de grandes louvores
+recebidos, e todos logo acordaram de valar o arraial em torno com valos
+altos e fortes para resistencia dos Reis Mouros, que vinham, e aqui se
+diz, que alguns Estrangeiros da primeira frota aconselhavam e requeriam
+aos outros da sua companhia, que se partissem em paz, e n&atilde;o
+esperassem o
+perigo da batalha, escuzando sua covardice torpe, com dizerem, que
+quando de suas terras partiram, seu voto e proposito n&atilde;o foi
+pelejar se
+n&atilde;o com aquelles infieis que tinham tomada a terra de
+Jerusalem, e o Santo Sepulchro, e que alguns Portuguezes, em que
+n&atilde;o havia
+verdadeira F&eacute;, nem bondade de cora&ccedil;&atilde;o
+concordavam com elles, dando
+por voto covarde, que era bem de descercar o Lugar, e leixalo sem
+contenda, e posto que destes houvesse alguns com suas
+mostran&ccedil;as de t&atilde;o
+vituperada fraqueza, havia por&eacute;m outros muitos cuja santa, e
+virtuosa contraridade
+esfor&ccedil;ou, com que determinaram n&atilde;o descercar o
+Castello, e confiando em
+Deos esperar a ventura que lhes viesse, pelo qual fizeram logo seu
+alardo, e de gente de p&eacute; bem armada, e bem disposta para
+pel&eacute;jar, se
+diz que acharam comsigo muita, mas gente de<span class="pagenum"><a id="Page_35" name="Page_35">[35]</a></span>
+Cavallo se affirma que
+escassamente refizeram trezentos.<br />
+
+<br />
+
+E os Reis Mouros para comprimento do proposito com que vieram,
+acordaram que com a maior for&ccedil;a que nelles houvesse viessem
+logo ferir
+no arraial dos Christ&atilde;os, e que tambem as suas
+Gal&eacute;s, que
+tinham j&aacute; tomada uma nao de Portugal com duzentos homens e
+jazia na entrada do porto de Setuvel, juntamente pozessem fogo
+&aacute; frota dos Christ&atilde;os,
+que jazia sobre amarra, mas os Christ&atilde;os receosos deste
+dano, e avizados
+j&aacute; para esto, pozeram tal guarda e
+defen&ccedil;&atilde;o na frota, que os Mouros o
+n&atilde;o cometeram, e foi sempre delles segura, e uma segunda
+feira como foi manh&atilde;
+sairam do arraial dos Mouros cinco de Cavallo corredores, e como
+chegaram, e viram o assento do arraial dos Christ&atilde;os logo
+volveram ao seu, e
+sobre esto abalou todo junto o seu Exercito em que havia tantas gentes,
+que toda a terra cobriam, trazendo comsigo t&atilde;o grande
+estrondo de
+alaridos, e gritas, e com tantos sons de trombetas, e outros
+desvairados instrumentos, que a qualquer cora&ccedil;&atilde;o
+por abastado
+de esfor&ccedil;o que fora n&atilde;o leix&aacute;ra de
+tocar de grande medo, e muito
+espanto, pelo qual os Christ&atilde;os havendo-o assi por milhor,
+sairam a elles de suas
+estancias, postos em suas batalhas ordenadas, e com muita ardideza uns
+aos outros logo se cometeram, e feriram, em que da uma parte, e da
+outra houve cruel, e bem ferida peleja com mortes, e feridas de muitos,
+e daquella vez se diz que os Mouros levaram a vantagem da batalha, com
+a qual se recolheram em seu arraial.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a id="Page_36" name="Page_36">[36]</a></span>
+<h1><a name="CAPITULO_VII"></a>CAPITULO VII</h1>
+
+<br />
+
+<div class="quote">Da segunda
+batalha que houve sobre Alcacere, e como os Reis Mouros
+foram vencidos, e feito grande
+estrago em suas gentes</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Os</span>
+Christ&atilde;os vendo para o fim que vieram um
+come&ccedil;o t&atilde;o contrairo, e que a for&ccedil;a
+Dalcacere se fazia cada vez mais forte, e a elles
+tirava toda esperan&ccedil;a de por for&ccedil;a o cobrar,
+n&atilde;o
+leix&aacute;vam de murmurar, e apontar que seria bom irem-se, e por
+aquella vez leixar o cerco, e o Bispo de Lisboa, que na gente dos
+Christ&atilde;os era pessoa de
+m&oacute;r credito, e mais principal, sentindo na noite seguinte a
+temerosa e fraca
+murmura&ccedil;&atilde;o, que em todo o seu arraial havia, elle
+em prezen&ccedil;a dos mais que
+por ent&atilde;o se poderam ajuntar lhes disse. &laquo;Honrados
+Senhores e amigos, esta desaventura, e grande mal de que todos estaes
+espantados,
+n&atilde;o veo sobre v&oacute;s das for&ccedil;as, nem das
+armas dos nossos imigos,
+mas cauzou se da grande presun&ccedil;&atilde;o, e muita
+confian&ccedil;a que de
+v&oacute;s mesmos e de vossas for&ccedil;as, e
+multid&atilde;o de gentes logo tomastes, esquecidos em todo, da
+s&oacute;, e principal ajuda de Nosso Senhor, e Salvador Jesu
+Christo, que se nos agora aqui faleceo foi para o milhor conhecermos,
+mas pois j&aacute; aqui
+viemos, e somos mui fortes para armas, e temos gentes, e estamos
+bastecidos de mantimentos, n&atilde;o queiraes desconfiar, porque
+esta aversidade
+a potencia de Deos a permite para crara esperiencia de maior nossa
+f&eacute;
+e mais merecimento de nossas almas, mas brademos, e clamemos de
+cora&ccedil;&atilde;o ao Senhor Deos, e com efficacia, e
+deva&ccedil;&atilde;o, que
+nossas necessidades requerem lhe pessamos que esta sua ira, se contra
+n&oacute;s, por<span class="pagenum"><a id="Page_37" name="Page_37">[37]</a></span>
+nossos peccados a tem, a queira converter em nossos imigos, e cada um
+com os giolhos em terra diga por si como eu digo por mim: Senhor Deos
+Padre das misericordias, e grande ajudador nas
+tribula&ccedil;&otilde;es
+ex as muitas na&ccedil;&otilde;es de tantos infieis vieram para
+nos destroir, pois como duraremos ante a face delles se nos tu Deos
+n&atilde;o ejudas, e pois assi &eacute;
+Senhor agora n&atilde;o ponham ante ti a lembran&ccedil;a de
+nossos malles e peccados, nem tomes
+de n&oacute;s aqui vingan&ccedil;a por elles ante estes imigos
+de tua Santa
+F&eacute;, tu por tua bondade, e potencia os d&aacute; nas
+m&atilde;os, e poder de
+teus servos, por tal, que os que em ti crem louvem mais o teu Santo
+nome&raquo;.<br />
+
+<br />
+
+No cabo da qual Ora&ccedil;&atilde;o, que todos devotamente, e
+com muitas lagrimas o seguiram, se diz que por
+consola&ccedil;&atilde;o dos
+Christ&atilde;os logo appareceo pubricamente no Ceo um maravilhoso
+sinal por bemaventurado prognostico, a saber, um homem resplandecente,
+como Sol, e alvo como uma neve, e no peito trazia o sinal da Cruz
+vermelha mais luzente que as Estrellas, com que os
+Christ&atilde;os, que craramente o viram foram mui alegres e
+esfor&ccedil;ados, crendo que Deos era em sua ajuda, e com este
+prazer e alegria, que geralmente todos conceberam, j&aacute; com
+seu temor dormiram
+assocegados aquella noite, e ao outro dia como foi manh&atilde; o
+Bispo, como
+era homem em que havia prudencia, e bom esfor&ccedil;o, para se
+n&atilde;o
+esfriar o alvoro&ccedil;o que sentio nos Christ&atilde;os com a
+longura dalgum tempo, falou logo
+&aacute;s gentes do Exercito que o podiam ouvir dizendo:
+&laquo;Senhores amigos bem
+vistes todos o grande e maravilhoso sinal que para n&atilde;o
+temermos, e sermos
+esfor&ccedil;ados Deos Nosso Senhor t&atilde;o pubricamente nos
+quiz mostrar, e por
+esso j&aacute; seria muita nossa fraqueza, e grande mingoa de nossa
+F&eacute; tardarmos
+mais para a segunda batalha, mas com o esfor&ccedil;o de Deos, que
+temos<span class="pagenum"><a id="Page_38" name="Page_38">[38]</a></span>
+presente, e com ajuda, e preces dos Santos Martyres Proto, e Jacinto,
+cujo dia hoje
+&eacute;, vamos logo ferir nos imigos, ca pelo melhoramento da
+vitoria, que contra n&oacute;s houveram, agora os acharemos mais
+repouzados, e menos
+percebidos&raquo;.<br />
+
+<br />
+
+Pelo qual os Christ&atilde;os postos em suas batalhas bem
+concertadas, com grande ousadia, e sem sinal dalgum medo sairam, e
+foram dar no arraial dos Mouros, e assi duramente os cometeram, e
+t&atilde;o cruamente
+os feriram, e foram t&atilde;o cortados, e trovados de medo, que
+parecia
+n&atilde;o terem armas para pelejar, nem for&ccedil;as para
+resistir, e desacordados se diz,
+que elles mesmos uns aos outros se feriam, e matavam, e se
+espeda&ccedil;avam
+com os p&egrave;s dos Cavallos, e que outros com medo da morte
+duvidosa a tomavam certa no rio, que era junto em que se
+lan&ccedil;avam, e afogavam, e
+vendo-se os Reis Mouros, e suas gentes assi salteados, e vencidos
+n&atilde;o tendo
+j&aacute; alguma esperan&ccedil;a em sua resistencia, nem
+peleja, procuraram buscar
+sua salva&ccedil;&atilde;o
+na fogida, em cujo alcance os Christ&atilde;os matando, e ferindo
+seguiram, em que se affirma que dos quatro Reis que alli vieram, dous
+delles sem se dizer quem eram, foram mortos, e com elles trinta mil
+Mouros mais, e com esto recolhendo o muito, e mui rico despojo, que
+acharam no arraial dos Mouros, os Christ&atilde;os se
+torn&aacute;ram mui alegres a
+seu cerco, que tinham posto sobre a Villa, dando todos muitas
+gra&ccedil;as e louvores ao
+Padre nosso Senhor, que de sua m&atilde;o deu esta vitoria, que foi
+a onze dias
+de Setembro do sobredito anno de mil duzentos e dezasete annos, (1217)
+dia dos ditos Martyres Proto, e Jacinto, &aacute;
+certid&atilde;o da qual
+vitoria, como foi dada aos infieis, que para este descerco eram em sua
+frota postos no mar elles desacordados, e tristes se partiram, onde se
+diz que se perderam alguma parte de seus navios, e de suas gentes
+ass&aacute;s nelles.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a id="Page_39" name="Page_39">[39]</a></span>
+<h1><a name="CAPITULO_VIII"></a>CAPITULO VIII</h1>
+
+<div class="quote">Como os
+Christ&atilde;os combateram e tomaram o Castello
+Dalcacere</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Os</span>
+Christ&atilde;os por esta vitoria ficaram alegres, e mui
+esfor&ccedil;ados, depois de consultarem sobre a milhor maneira que
+teriam para tomar a Villa, fizeram duas escadas grandes, e com gente
+darmas que comprio foram logo juntas ao muro para o entrarem, e
+comessarem de combater o Castello; mas os Mouros com a necessidade que
+tinham de salvar suas vidas,
+dobr&aacute;ram suas for&ccedil;as, pelo qual assi com fogo,
+com pedras, e traves,
+e setas, que de cima do muro lan&ccedil;avam, afastaram os
+Christ&atilde;os
+longe do muro, em que da uma parte, e da outra foram muitos mortos, e
+feridos, e porque os Christ&atilde;os viram que aquella qualidade
+de combate por a
+grande fortaleza, e desposi&ccedil;&atilde;o dos muros lhe
+n&atilde;o socedia
+como dezejavam, fizeram logo cavas, e minas por baixo da terra para as
+poerem debaixo dos muros, e postos em contos os derribarem por fogo;
+mas os Mouros que desto por avizos, ou por conjeituras foram bem
+sabedores contraminaram as cavas dos Christ&atilde;os, e uns, e
+outros com peleja mui crua se
+encontraram, em que houve muito sangue derramado, e com grandes fogos,
+e cousas fumosas que os Mouros fizeram, lan&ccedil;aram os
+Christ&atilde;os fora
+das cavas, e pozeram sobre si segura guarda, pelo qual vendo os
+Christ&atilde;os que
+alguma cousa das cometidas de todo lhes n&atilde;o aproveitava,
+elles, por
+conselho, e ordenan&ccedil;a do Capit&atilde;o da frota, que
+era homem
+engenhoso, e de bom esfor&ccedil;o, fizeram logo duas bastidas de
+madeira muito fortes,
+e t&atilde;o altas que cada uma dellas sobejava por cima das mais
+altas Torres <span class="pagenum"><a id="Page_40" name="Page_40">[40]</a></span>do Castello, donde
+os combates que nellas poseram iam
+seguros, e n&atilde;o
+temiam os danos dos Mouros, e com esto, e com outros engenhos que mais
+ordenaram, e com muitos b&eacute;steiros, e frecheiros commetteram
+o Castello
+rijamente por muitos lan&ccedil;os do muro, por cima do qual os
+Mouros com a
+for&ccedil;a das setas, e pedras que lhe lan&ccedil;avam,
+n&atilde;o ouzavam parecer
+nem resistir como dantes faziam, e vendo-se fracos de suas
+for&ccedil;as, e desesperados
+j&aacute; em tudo, de todo o soccorro, e finalmente porque se
+n&atilde;o podiam suster,
+fizeram sinal que se queriam render, e sobre seguro, que lhes foi dado,
+vieram
+&aacute; pratica, e apontamento, em que pediram as vidas, e
+fazendas, mas as vidas s&oacute;mente lhe foram outorgadas com
+seguran&ccedil;a
+das quaes elles abriram as portas do Castello, e assi seguros se
+sahiram, e foram para onde quizeram, e o Alcaide do Castello, que antre
+elles era a pessoa mais principal, n&atilde;o se quiz ir com os
+outros, mas acha-se que da
+tomada da Villa, a tres dias por sua vontade foi bautizado, e tornado
+Christ&atilde;o, e os outros Mouros que os Christ&atilde;os
+acharam pelas Aldeas, e
+Lugares de redor todos, se diz que sem resistencia morreram a ferro, e
+os grandes despojos que da batalha passada se recolheram, e na Villa se
+acharam foram logo igualmente repartidos sem aventagem dalgum, salvo
+que ao Capit&atilde;o de f&oacute;ra, porque por seu conselho e
+ordenan&ccedil;a o cerco fora sempre regido lhe deram mais
+d&eacute;z por prezioneiros, que elle
+tom&aacute;ra.<br />
+
+<br />
+
+E porque ao Bispo de Lisboa n&atilde;o foi sobre elles dada alguma
+avantagem, que bem merecia, o Capit&atilde;o da frota a que tal
+escasseza
+n&atilde;o pareceo bem, por seu conforto lhe disse:
+&laquo;Reverendo Bispo, posto que
+v&oacute;s aqui pelo bem recebeis mal, e pela bondade malicia
+rogo-vos que a estes homens, que t&atilde;o mal o conhecem, e fazem
+sejais paciente, porque o
+principal galard&atilde;o <span class="pagenum"><a id="Page_41" name="Page_41">[41]</a></span>que
+por este trabalho mereceis Deos nosso
+Senhor
+que &eacute; bom, e justo, e porque bem o recebestes volo
+dar&aacute; bom no Ceo, e
+ser&aacute; melhor que este de cousas da terra&raquo;. E com
+esto os Estrangeiros se
+recolheram a suas frotas, e se partiram para onde quizeram, e o Bispo
+com os senhores Portuguezes, que ao cerco vieram depois de leixarem a
+Villa afortalezada, e bastecida, como viram que compria, tambem se
+tornaram para suas terras, e cazas, e esta tomada de Alcacere em tempo
+deste Rei Dom Affonso II foi em dia de S. Lucas, a dezoito do mez de
+Outubro da era de nosso Senhor de mil duzentos e dezasete annos, (1217)
+e dahi a um anno este Rei Dom Affonso com a Rainha Dona Orraca sua
+molher lhe deo foral que agora tem, como por elle parece.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1><a name="CAPITULO_IX"></a>CAPITULO IX</h1>
+
+<br />
+
+<div class="quote">Como cinco
+frades Italianos da Ordem de S. Francisco foram a Marrocos a
+pr&eacute;gar a
+F&eacute; de Christo, e primeiramente chegaram a Sevilha, que era
+de&nbsp;Mouros</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Desta</span> tomada
+Dalcacere at&eacute; o falecimento Del-Rei Dom Affonso
+se pass&aacute;ram seis annos, nos quaes se n&atilde;o acha
+feito que elle fizesse,
+nem se passasse cousa dina de memoria, salvo que depois em sua vida, e
+da dita Rainha Dona Orraca sua molher, o Ifante Dom Pedro seu
+Irm&atilde;o
+filho tambem legitimo del-Rei Dom Sancho trouxe a Coimbra os ossos dos
+cinco Frades Menores, que em Marrocos morreram Martyres, cujo caso
+segundo a Lenda Santa, que delles se l&ecirc;, e segundo o que mais
+delles<span class="pagenum"><a id="Page_42" name="Page_42">[42]</a></span>
+verdadeiramente se acha foi brevemente nesta maneira. Na Coronica
+del-Rei Dom Sancho pai deste Rei, falando dos filhos que teve
+sumariamente disse: que o Ifante Dom Pedro, seu filho, o qual bem
+acompanhado de nobre gente Despanha passara em Africa, e estivera em
+muita estima, e grande authoridade com Mirabolim de Marrocos,
+at&eacute; o tempo do Martyrio destes Santos
+Frades, dos quaes se acha por a dita sua Lenda, e por
+inquiri&ccedil;&atilde;o verdadeira, que o sobredito Dom
+Matheus, Bispo de Lisboa, delles, e do seu Martyrio, e milagres tirou
+por testemunhos de muitos, dinos de f&eacute;, que
+com o dito Ifante andaram, e principalmente por um Cavaleiro de
+Santarem que chamavam Estev&atilde;o Pires, homem velho, e honrado,
+e de louvada
+vida, e costumes que ao dito Ifante sempre servio, que na era de nosso
+Senhor de mil duzentos e dezanove, (1219) e aos treze annos da primeira
+convers&atilde;o de S. Francisco, elle por vontade de Deos,
+escolheo em sua vida seis Frades de sua Ordem por natureza Italianos, e
+de maravilhosa santidade, a saber: Frei Vital, e Berardo, Otone,
+Acurcio, Pedro, e Adjuto, e por saberem bem a lingoa Arabiga os mandou
+ao Rei, e Reino de Marrocos, que naquelle tempo sobre os Mouros
+Dafrica, e Despanha tinha o
+m&oacute;r Principado, para lhe pr&eacute;garem, e trabalharem
+pelo converter
+&aacute; F&eacute; de Christo.<br />
+
+<br />
+
+E destes seis Frades fez maioral, e Prelado a Frei Vital, o qual como
+elle com os outros chegassem ao Reino Darag&atilde;o adoeceo; e
+porque vio que sua doen&ccedil;a se prolongava por tal que seu mal
+corporal, o
+bem, e negocio espiritual, e de Deos n&atilde;o impedisse, mandou
+que por
+comprirem o mandado
+de Deos, e de S. Francisco se fossem a Marrocos, os quaes por sua
+obediencia o leixaram doente, e se partiram, e chegeram &aacute;
+Cidade de Coimbra onde a esse tempo era <span class="pagenum"><a id="Page_43" name="Page_43">[43]</a></span>a
+Rainha Dona Orraca molher
+deste Rei Dom Affonso, a qual os fez ir ante si, e como falasse com
+elles em cousas de
+Deos, e nelles visse t&atilde;o grande desprezo do mundo, e tamanho
+fervor de morrer por amor de Jesu Christo, e sem duvida os julgou, e
+houve por mui verdadeiros, e prefeitos servos de Deos, e por esso com
+grande instancia lhe rogou, que por suas roga&ccedil;&otilde;es
+pedissem a Deos
+que revelasse a ella o derradeiro termo de sua vida, e posto que elles
+com sua humildade confessassem n&atilde;o ser dinos entender nos
+segredos de Deos:
+por&eacute;m vencidos das devotissimas preces da Rainha, ditas com
+muitas lagrimas, prometeram-lhe que assi o pediriam, os quaes orando a
+Deos com firme, e pura f&eacute;, n&atilde;o s&oacute;mente
+o que da vida da
+Rainha, mas ainda o seu Martyrio, por revela&ccedil;&atilde;o
+de Deos lhe foi tambem senificado,
+porque logo disseram que os derradeiros dias da vida da Rainha seriam
+mui sedo quando seus corpos depois de seu Martyrio, fossem de Marrocos
+ali trazidos, e della mesma Rainha, e de todo o povo com grandes honras
+recebidos, e assi foi como se dir&aacute;.<br />
+
+<br />
+
+Partidos os Frades de Coimbra para seguirem sua santa jornada, vieram
+por aviamento da Rainha Dona Orraca &aacute; Villa Dalanquer, onde
+estava a Ifante Dona Sancha, irm&atilde; del-Rei Dom Affonso, que
+era
+Senhora da dita Villa, a que tambem revellaram todo o seu proposito;
+como ella foi Princeza mui santa, aprovando seu negocio ella sobre os
+habitos da sua Religi&atilde;o que elles traziam lhes deu outras
+vestiduras
+seculares, taes, com que mais livres, e facilmente podessem passar a
+terra de Mouros, e assi com seus habitos desimullados foram
+&aacute; Cidade de
+Sevilha, que ent&atilde;o era de Mouros, onde na pouzada de um
+Christ&atilde;o, leixados os
+habitos leigos, por oito dias estiveram escondidos, e acertou-se que em
+um dia fervendo seu espirito<span class="pagenum"><a id="Page_44" name="Page_44">[44]</a></span>
+para Martyrio, elles sem guia, nem
+conselho doutros se foram &aacute; principal Mesquita dos Mouros, e
+como em
+ella quizessem entrar os infieis, que os viram, e conheceram, endinados
+contra elles com empux&otilde;es, brados, e a&ccedil;outes, que
+lhe deram, e por instituto, e costume os n&atilde;o consentiram
+entrar, e dahi
+indo-se &aacute;s portas del Rei, e sendo ante as ditas portas dos
+Pa&ccedil;os foram
+levados ante El Rei, e perguntados quem eram? Responderam: que vinham a
+elle Rei por Embaixadores, e enviados do Rei dos Reis, e Senhor dos
+Senhores, que era Jesu Christo, e como ante El-Rei muitas, e mui dinas
+cousas da
+F&eacute; Catholica proposessem aconselhando-o para sua
+convers&atilde;o, e
+para receber agoa do santo Bautismo, e com esso muitas couzas feas, e
+torpes de Mafamede, e de sua seita descobrissem, El-Rei endinado de
+grande ira contra elles lhes mandava cortar as cabe&ccedil;as, mas
+aman&ccedil;ado por palavras de um seu filho, que era prezente, os
+mandou meter em uma Torre mui alta junto dos Pa&ccedil;os, de cuja
+altura aos que entravam, e sahiam
+da caza del-Rei, elles n&atilde;o leixavam de pr&eacute;gar em
+altas
+vozes a F&eacute; de Christo, e brasfemar, e mal dizer da Seita de
+Mafamede, cujos seguidores, e
+favorecidos diziam que no inferno seriam com tormentos para sempre
+danados, e anojado El-Rei de suas palavras, e para lhe arredar o azo de
+as n&atilde;o poderem dizer, os mandou meter no mais profundo da
+Torre, donde por concelho dos seus vassallos os mandou tirar, e levar a
+Marrocos em companhia de Dom Pedro Fernandes de Castro o
+Castell&atilde;o, de
+que atraz disse, e ao diante direi, que por odios, e
+persegui&ccedil;&otilde;es dos Condes de Lara, n&atilde;o
+se pode soster em Castella, e duas vezes se passou
+aos Mouros, e desta derradeira para Mirabolim de Marrocos.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a id="Page_45" name="Page_45">[45]</a></span>
+<h1><a name="CAPITULO_X"></a>CAPITULO X</h1>
+
+<br />
+
+<div class="quote">Como os
+Frades chegaram a casa do Ifante Dom Pedro, e do que logo fizeram, e
+como foram tornados
+a Ceyta para virem a terra dos Christ&atilde;os, e dahi
+se volveram outra vez a Marrocos</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Neste</span> tempo estava em
+Marrocos o Ifante Dom Pedro, filho del-Rei Dom
+Sancho, e irm&atilde;o deste Rei Dom Affonso, a cuja caza os ditos
+Frades, e o dito Dom Pedro Fernandes logo chegaram, e o Ifante os
+recebeo com humanidade, deva&ccedil;&atilde;o, e bom trato, e
+os proveo de
+todo o que haviam mister, porque era Principe em virtudes mui acabado,
+e os Frades como dahi em diante viam quasquer Mouros logo com muito
+fervor lhes
+pr&eacute;gavam, especialmente um dia Frei Berardo, que delles era
+o mais principal, e milhor sabia Arabia, sobindo em um carro, ou lugar
+alto como pulpito, e pr&eacute;gando a F&eacute; de Christo a
+muitos Mouros que o
+ouviam acertou-se que o Mirabolim ia visitar, como tinha de costume, a
+sepultura dos Mouros Reis, que eram f&oacute;ra da Cidade, e vendo
+o Frade
+pr&eacute;gar, e por elle ser prezente n&atilde;o querer
+desistir da
+pr&eacute;ga&ccedil;&atilde;o &aacute; sua seita
+contraria, estimando o por homem sandeo, e por tirar escandalos mandou,
+que elle com todos os Frades fossem logo lan&ccedil;ados fora da
+Cidade, e
+sem tardan&ccedil;a levados a terras dos Christ&atilde;os, pelo
+qual o Ifante Dom Pedro
+havendo-o assi por bem lhes deu alguns seus servidores, que seguramente
+os levassem, como levaram at&eacute; a Cidade de Ceyta, para dahi
+logo
+passarem a terra dos fieis.<br />
+
+<br />
+
+Mas os Santos Padres n&atilde;o contentes da viagem
+leix&aacute;ram as guias, que os levavam, e tornaram-se outra<span class="pagenum"><a id="Page_46" name="Page_46">[46]</a></span>
+vez a
+Marrocos, e como chegasseem
+&aacute; pra&ccedil;a da Cidade logo aos muitos Mouros, que
+nella acharam
+come&ccedil;aram de pr&eacute;gar, louvando os merecimentos da
+F&eacute; de Christo, e brasfemando dos
+vicios, e erros de Mafamede, e sua seita, da qual cousa como El-Rei
+fosse certificado os mandou logo meter em um estreito carcere, onde sem
+alguma ordenada proviz&atilde;o, nem mantimento dos homens, que
+houvessem,
+mas com a s&oacute; refei&ccedil;ao de Deos, que houveram.
+Vinte dias
+foram encarcerados asperamente, e neste tempo, porque em toda aquella
+terra sobrevieram mui grandes, e desordenadas quenturas do Sol, e
+grandes destemperamentos do Ar, alguns creram que estes males poderiam
+vir pela injusta
+priz&atilde;o dos Frades, pelo qual por concelho de um Mouro
+chamado Abotorim, que aos Christ&atilde;os tinha amor, e queria
+bem, El-Rei consentio que
+fossem livres do carcere, e trazidos ante elle, mandou aos
+Christ&atilde;os que
+logo sem mais deten&ccedil;a os mandassem a sua terra.<br />
+
+<br />
+
+E por&eacute;m El-Rei com os outros Mouros n&atilde;o ficaram
+sem grande espanto, quando viram os Frades t&atilde;o
+esfor&ccedil;ados dos corpos,
+e t&atilde;o constantes das vontades, havendo vinte dias continos,
+que sem algum mantimento ordenado jouveram no carcere, e perguntados
+por El Rei: quem os mantivera tanto tempo? Lhe disse Frei Berardo, que
+como El-Rei bem crece na
+F&eacute; de Jesu Christo logo saberia como elles sem beber, e sem
+comer foram no carcere manteudos. E com tudo elles como se viram
+soltos, logo sem algum medo outra vez quizeram tornar a pregar aos
+Mouros, mas os outros
+Christ&atilde;os, que com elles estavam, receosos da ira del-Rei
+que com mortes, e cruezas, se estenderia nas vidas de todos, como
+mostrava, lho
+n&atilde;o consentiram.<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o lhe ordenaram logo outros homens fieis que os
+acompanhassem, e levassem outra vez a Ceyta, para<span class="pagenum"><a id="Page_47" name="Page_47">[47]</a></span>
+dahi passarem a terra
+dos
+Christ&atilde;os, mas os ditos Frades sospirando por seu Martyrio,
+despedindo-se daquelles que os levavam se tornaram outra vez a
+Marrocos, onde o Ifante os mandou logo recolher, e encerrar em sua caza
+com guardas, e defeza estreita, que os n&atilde;o leixassem sahir,
+porque receava segundo El-Rei de
+suas prega&ccedil;&otilde;es se escandalizava, que
+n&atilde;o
+s&oacute;mente mandaria matar os Frades, mas a elle, e a todos os
+christ&atilde;os que houvesse na Cidade.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1><a name="CAPITULO_XI"></a>CAPITULO XI</h1>
+
+<div class="quote">De um
+milagre que se fez por causa de Frei Berardo, e como foram presos e
+atormentados os
+outros Frades</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">E</span> acertou-se que o
+Mirabolim a este tempo mandou o Ifante Dom Pedro com
+outros muitos nobres homens de Christ&atilde;os, e Mouros, que
+delle tinham<br />
+
+soldo fazendo guerra, e sogigar a uns senhores Mouros seus vassallos,
+que se lhes rebelaram, apoz os quaes Frei Berardo, e os outros Frades,
+que tiveram maneira de se soltar, logo seguiram, e foram devolta onde
+se diz, que disputando Frei Berardo com um Mouro ante elles o mais
+letrado, e venceo, e confundio, e que este Mouro, com vergonha nunca
+mais tornou a Marrocos, nem depois n&atilde;o pareceo, e tornando o
+Ifante com
+os outros Mouros da conquista, que lhes fora encomendada, vieram por
+uma terra
+t&atilde;o seca que por tres dias para si, nem pera seus cavallos
+n&atilde;o
+poderam achar em nenhuma parte agoa para beber, e como a estreiteza da
+sede desesperasse todos das vidas, Frei Berardo era na companhia, feita
+<span class="pagenum"><a id="Page_48" name="Page_48">[48]</a></span>primeiro sua
+dovota ora&ccedil;&atilde;o, tomou na
+m&atilde;o um piqueno pao com que cavou um pouco na terra mui seca
+donde milagrosamente logo arrebentou, e sahio&nbsp; uma grande
+fonte de agoa doce, e mui singular de que n&atilde;o
+s&oacute;mente os homens, e alimarias bebiam, e se abastaram, mas
+ainda encheram muitos odres, que levaram para o caminho.<br />
+
+<br />
+
+E como esta necessidade dagoa foi satisfeita, logo a fonte se sarrou, e
+secou, e por t&atilde;o grande, e t&atilde;o manifesto milagre,
+que de todos foi visto, e Deos por Frei Berardo fizera, todos os do
+exercito dahi em diante o tiveram em grande
+deva&ccedil;&atilde;o, e reverencia,
+e muitos por Santo lhe beijaram os p&eacute;s, e as vestiduras, e
+como estes Santos Frades
+tornassem a Marrocos, e em caza do Ifante fosse por elles posta grande
+guarda, para n&atilde;o sahirem, e elles toda via sairam, e em uma
+Sexta feira,
+que o Mirabolim ia visitar os sepulchros dos Reis Mouros, os Frades sem
+algum temor, e com grande ousadia se apresentaram ante elle, e sobindo
+Frei Berardo em um tezo come&ccedil;ou de lhe pr&eacute;gar mui
+sem
+receio, e como El-Rei os visse, cheo de ira contra elles, mandou a um
+seu Capit&atilde;o
+Mouro que vira o milagre dagoa, que logo lhes cortasse as
+cabe&ccedil;as,
+pelo qual os Christ&atilde;os, que eram prezentes, com temor de
+suas proprias
+mortes, logo fugiram dahi, e fechadas, e trancadas bem as portas de
+suas pouzadas, nellas sem sair jaziam escondidos, mas o Principe Mouro
+mandou aos homens da justi&ccedil;a que trouxessem os Frades ante
+elle, e como
+por duas vezes o n&atilde;o achassem os tornaram a levar a mais
+aspero
+carcere com golpes, e bofetadas com que os feriam, e com esso os ditos
+Frades assi aos Christ&atilde;os, que se lhe offereciam
+n&atilde;o leixavam
+de pr&eacute;gar a palavra de Deos.<br />
+
+<br />
+
+E sendo outra vez trazidos ante o dito Principe, e <span class="pagenum"><a id="Page_49" name="Page_49">[49]</a></span>com
+tanta constancia
+os visse pr&eacute;gar, e confessar a f&eacute; Catholica, e
+reprovar, e reprehender com muita ouzadia as couzas de Mafamede, e sua
+seita, acezo da ira contra elles os mandou logo atormentar com muitas,
+e mui desvairadas maneiras de tromentos, e depois apartar uns dos
+outros, e em desvairadas cazas onde cruamente os mandou
+a&ccedil;outar, e aquelles maos, e
+crueis ministros atados os p&eacute;s, e as m&atilde;os dos
+Santos, e
+com cordas asperas lan&ccedil;adas aos colos delles, e
+arrastando-os de uma parte a
+outra pela terra, assi continuadamente, e t&atilde;o sem piedade os
+a&ccedil;outavam, que as tripas lhe apareciam, e sobre as chagas
+recebidas por acrescentarem mais dor lhe lan&ccedil;avam vinagre, e
+azeite fervendo, e assi foram
+por toda a noite atormentados, e a&ccedil;outados de trinta Mouros,
+que nelles
+se arrevezavam, na qual noite daquelles que os guardavam foi visto, que
+um grande resplandor decendia dos Ceos, e com uma companha sem conto os
+arrebatavam, e levantavam para cima, e maravilhados desso os Mouros, e
+de todo espantados, chegando ao corcere acharam os Santos Frades
+devotamente orando.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a id="Page_50" name="Page_50">[50]</a></span>
+<h1><a name="CAPITULO_XII"></a>CAPITULO XII</h1>
+
+<div class="quote">Como El-Rei
+de Marrocos fallou com estes Frades, e por os n&atilde;o poder
+converter a sua seita
+por si mesmo os matou, e como foram mortos tambem Pedro Fernandes,
+e Martim Affonso Telo, sobrinho do Ifante</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">As</span> quaes couzas
+ouvindo El-Rei de Marrocos, acezo com maior sanha
+contra elles, mandou que logo lhe fossem levados com as m&atilde;os
+atadas, e descal&ccedil;os dos p&eacute;s, e depois dos corpos
+continuadamente a&ccedil;outados, e espancados, os quaes como El
+Rei na F&eacute; de Christo os visse
+t&atilde;o firmes, mandou dentro meter comsigo certas molheres
+fermozas, e
+lan&ccedil;ados todos f&oacute;ra disse:
+&laquo;Convertei-vos a nossa f&eacute;,
+e dar-vos-hei estas por vossas molheres, e com ellas muito dinheiro, e
+sereis em meu Reino muito honrados.&raquo; A que os Frades logo
+responderam: &laquo;Tuas
+molheres, e teu dinheiro n&atilde;o queremos; porque tudo esto
+desprezamos por amor
+de Christo&raquo;. &Eacute; ent&atilde;o El-Rei arrebatado
+de
+maior ira, e sanha, apartados os Santos um do outro, por suas proprias
+e mui cruas m&atilde;os a
+cada um per si talhou as cabe&ccedil;as por meio das fontes, e
+apertando na
+m&atilde;o tres cutellos, juntamente com uma crueza de besta
+f&eacute;ra os degolou, os quaes
+compriram este seu Martyrio a dezaseis dias de Janeiro do anno de
+Christo de mil duzentos e vinte, (1220) em tempo do Papa Honorio III,
+em o quarto anno de seu Pontificado, e quasi sete annos antes da morte
+de S. Francisco.<br />
+
+<br />
+
+E depois disto lan&ccedil;ados f&oacute;ra os corpos dos
+Martyres por as molheres, que comsigo tinham: estes perros barbaros e
+maos, atando cordas a seus
+p&eacute;s, e m&atilde;os, <span class="pagenum"><a id="Page_51" name="Page_51">[51]</a></span>os
+arrastaram para f&oacute;ra
+da Cidade, em
+torno da qual com grandes brados, e preg&otilde;es os trouxeram, e
+espeda&ccedil;ados de
+todos os membros, os leixaram no campo, pelo qual os
+Christ&atilde;os, que os assi viram, alevantadas as m&atilde;os
+aos Ceos, louvando a Deos por seu
+t&atilde;o glorioso Martyrio, comessaram de apanhar, e recolher as
+Riliquias dos ditos Santos escondidamente, a qual couza como os Mouros
+vissem, todos como c&atilde;es raivosos, tanta multid&atilde;o
+de pedras
+lan&ccedil;aram nos Christ&atilde;os, que parecia tempestade de
+sua raiva, mas os Christ&atilde;os defezos
+j&aacute; pelos merecimentos dos Santos, fugindo da ira dos Mouros
+a suas cazas se recolheram, donde com temor da morte, que antre si
+traziam, escondidos por tres dias n&atilde;o pareciam,
+principalmente, porque neste
+tempo o Ifante mandou a Dom Pedro Fernandes de Castro, o
+Castell&atilde;o, que
+l&aacute; era lan&ccedil;ado, e a Martim Affonso Tello, seu
+sobrinho, nobres homens, que com outros muitos andavam em sua
+companhia, que de noite secretamente fossem ver onde jaziam os corpos
+dos Martyres para se recolherem, porque foram vistos, e achados dos
+Mouros, logo os mataram.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1><a name="CAPITULO_XIII"></a>CAPITULO XIII</h1>
+
+<div class="quote">Como os
+corpos dos Martyres foram queimados, e despeda&ccedil;ados, e emfim
+recolhidos por
+deva&ccedil;&atilde;o, e industria do Ifante Dom
+Pedro</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Depois</span> desto em um
+grande fogo, que foi feito no campo, os corpos dos
+Santos se lan&ccedil;aram por tal, que de todo fossem queimados,
+mas o fogo por virtude Divina das santas Reliquias assim se apartava, e
+apagava, como que a materia <span class="pagenum"><a id="Page_52" name="Page_52">[52]</a></span>muito
+lhe fosse contraira com junto, antes
+a
+cabe&ccedil;a de um dos Martyres lan&ccedil;ada muitas vezes no
+fogo, nem nos seus
+cabelos n&atilde;o pareceo algum sinal de queimadura, a qual assi
+com a pelle, e cabellos foi mostrada sem alguma
+corrup&ccedil;&atilde;o no Moesteiro de
+Santa Cruz de Coimbra, mas dos Mouros alguns por amizade, e outros por
+dinheiro, e proveito, e assi os Christ&atilde;os, que na Cidade
+eram cativos, apanhando as
+Reliquias dos Santos as offereciam ao Ifante, que recebendo-as com
+grande
+deva&ccedil;&atilde;o as mandou secretamente cozer, e depois
+que as carnes se gastaram, e os ossos ficaram limpos, os mandou secar,
+e encomendou a guarda principal delles a Jo&atilde;o Roberto,
+Conego de Santa Cruz, homem em
+virtudes acabado, e a tres innocentes, mo&ccedil;os honestos, seus
+mo&ccedil;os
+da Camara, dos quaes um foi o Estev&atilde;o Pires de que atraz
+disse, que deu este
+estromento, ca n&atilde;o era algum ouzado entrar onde as sagradas
+Reliquias estavam em guarda, porque a s&oacute; sua consciencia de
+qualquer crime ocultamente
+commetido logo o reprendia, e acuzava.<br />
+
+<br />
+
+E neste tempo um Cavalleiro chamado Pedro da Roza, tendo uma manceba
+por nome Maria da Roza, como sobisse a um sobrado onde as Reliquias se
+guardavam logo elle sem se poder mover, e tolheito, bradou fortemente
+dizendo: &laquo;Acorrei-me, acorrei-me, dai-me
+confiss&atilde;o. A qual como o Conego lha deu, em que de todo
+renunciou a manceba, logo foi livre dos membros, e pode decer, mas
+n&atilde;o pode falar at&eacute; que o mesmo
+Conego por mandado do
+Ifante lhe poz sobre o peito a cabe&ccedil;a de um Martyre, com que
+de todo recobrou as for&ccedil;as, e fala, assi como dantes as
+tinha, e
+dahi em diante, assi o Ifante como todos os seus tiveram as Reliquias
+em maior honra, e deva&ccedil;&atilde;o, das quaes mandou meter
+as
+cabe&ccedil;as em uma arca, e os ossos em outra, e as tinham em
+grande venera&ccedil;&atilde;o <span class="pagenum"><a id="Page_53" name="Page_53">[53]</a></span>na
+sua
+Capela, e &aacute;s santas Almas dos Bemaventurados Martyres, cujas
+Reliquias tinha continua, e devotamente pedia, que de Deos lhe
+ganhassem gra&ccedil;a para sem
+perigo de sua pessoa, e dos seus, se poder vir para sua terra de
+Christ&atilde;os, porque j&aacute; havia muitos dias que na dos
+Mouros contra sua vontade se
+detinha, e estava for&ccedil;ado.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1><a name="CAPITULO_XIV"></a>CAPITULO XIV</h1>
+
+<div class="quote">Como o
+Ifante D. Pedro foi tornado a Espanha, e trouxe consigo os ossos, e
+Reliquias dos
+Martyres, e as mandou a Santa Cruz de Coimbra, e dos milagres que
+houve no caminho</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Esta</span> gra&ccedil;a
+pelas preces dos Martyres, foi da piedade de Deos
+brevemente empetrada, porque estando o Ifante desta sua liberdade
+ass&aacute;s desconfiado, o Mirabolim de sua propria vontade, e sem
+requerimento dalguem o mandou chamar, e alegremente lhe deu
+licen&ccedil;a, que
+para sua terra se viesse quando quizesse, descobrindo-lhe logo as
+muitas vezes que para sua morte fora de seus principaes aconselhado, e
+induzido; mas por seus merecimentos, e bons servi&ccedil;os, que
+fielmente sempre
+lhe fizera, merecia outro galard&atilde;o. E com esta
+licen&ccedil;a lhe
+deu mais suas cartas de passos, para elle, e os seus seguramente
+poderem passar, com as quaes partiram de Marrocos, e depois de um dia,
+e uma noite, vieram no caminho dormir a Azora, que era lugar despovoado
+onde de ferozes brados dos muitos Li&otilde;es, que ahi ha foram
+postos em temor de que logo
+foram livres, como ante si, e os Li&otilde;es pozeram com
+deva&ccedil;&atilde;o, e confian&ccedil;a<span class="pagenum"><a id="Page_54" name="Page_54">[54]</a></span>
+as santas
+Reliquias, que por sua santidade fizeram tudo quieto, e ao outro dia
+chegaram a um Lugar em que se apartavam muitos caminhos, e duvidosos de
+qual era o melhor que tomariam, e o Ifante sospen&ccedil;o, e
+confiado na santa guia das Reliquias que acompanhava mandou dar a
+dianteira a uma Azemala que as levava, e houve por bem que aquelle
+caminho que ella tomasse, todos por milhor o seguissem esperando que
+elle seria o milhor, e mais seguro.<br />
+
+<br />
+
+O que foi assi feito, e a Azemala se desviou de um caminho para que a
+gente se mais inclinava, onde o Ifante soube depois em certo que Mouros
+o esperavam para o matar, e roubar, e da hi em diante em dezertos e
+montes porque pass&aacute;ram sempre d&eacute;ram a guia
+&aacute;s santas Reliquias, que com a gra&ccedil;a de Deos
+levaram o Ifante, e os seus a salvamento
+at&egrave; Ceita, onde embarcando logo em uma nao, que o Divino
+favor lhe tinha prestes, e aparelhada para terra de
+Christ&atilde;os, partiram, e navegaram
+logo com vento
+prospero, que em poucas horas, com grande escurid&atilde;o se mudou
+o contrairo, e algumas outras naos que se acertaram em sua conserva,
+por uma respira&ccedil;&atilde;o divina faziam daquella do
+Ifante
+Capitaina, por quem se regiam, e com a grande
+sarra&ccedil;&atilde;o que sobreveio
+temendo de ir &aacute; Costa se encomendaram devotamente aos rogos,
+e merecimentos dos Santos Martyres, cujas sagradas Reliquias levavam,
+para que em salvamento os guiassem, e logo supitamente derramada a
+escurid&atilde;o, em que andavam, veo
+a grande claridade, e bonan&ccedil;a, com que bem viram, e
+conheceram o
+caminho de sua perdi&ccedil;&atilde;o, que levavam, e desviados
+delle
+aportaram na Aljazira, daquem Despanha, e dahi a Tarifa, e logo a
+Sevilha, que era de Mouros, onde por os Christ&atilde;os que ahi
+eram, o Ifante foi avizado, que logo se
+partisse, porque El-Rei de Sevilha o mandava prender.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a id="Page_55" name="Page_55">[55]</a></span>
+Pelo qual logo ahi embarcaram, e vieram a Astorga, que &eacute; em
+Galiza do Reino de Li&atilde;o, onde ent&atilde;o reinava
+El-Rei Dom
+Affonso, primo com irm&atilde;o do
+Ifante Dom Pedro, e como foram partidos chegaram a Sevilha mandados de
+Mirabolim de Marrocos que logo lhe prendessem, e tornassem o Ifante, e
+cortassem as cabe&ccedil;as a todos os seus, mas deste perigo, e
+doutros muitos prouve a Deos que o Ifante, e os seus, pelos
+merecimentos dos Santos Martyres, cujo devoto era, fossem como foram,
+livres, e seguros, e como chegassem a Astorga um hospede onde foram
+agazalhados havia trinta annos que assi era doente, e tolheito de
+parlezia, que do officio da fala, e dos membros era de todo privado, e
+ouvindo as grandes maravilhas dos Santos Martyres, que os
+Christ&atilde;os consigo traziam,
+lan&ccedil;ado em terra ante a Arca em que suas sagradas Reliquias
+eram guardadas, pedindo-lhe com muitas lagrimas, e grande
+deva&ccedil;&atilde;o remedio para
+sua doen&ccedil;a, logo ahi &aacute; vista de todos recebeo na
+fala, e em todos os membros perfeita saude, e o Ifante Dom Pedro
+n&atilde;o veio com as Reliquias dos Martyres a
+Coimbra; mas de Astorga mandou com ellas Affonso Pires de Arganil, que
+era Rico homem, e pessoa de grande credito, porque o Ifante Dom Pedro
+n&atilde;o era bem avindo com El-Rei Dom Affonso de Portugal seu
+irm&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a id="Page_56" name="Page_56">[56]</a></span>
+<h1><a name="CAPITULO_XV"></a>CAPITULO XV</h1>
+
+<div class="quote">Como as
+Reliquias dos Martyres foram recebidas, e como foi a morte da Rainha
+Dona Orraca, molher
+del-Rei Dom Affonso, e das cousas que foram vistas</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Como</span> Affonso Pires
+chegasse a Coimbra onde a fama dos Santos Martyres
+j&aacute; era, a sobredita Rainha Dona Orraca molher deste Rei Dom
+Affonso de Portugal, que ahi estava com o povo junto, que com toda a
+Cleresia, e mui devota, e solenne Prociss&atilde;o, saio a receber
+as sagradas
+Reliquias, e com muita deva&ccedil;&atilde;o, e grande
+solennidade as
+levaram ao Moesteiro de Santa Cruz, onde mui honradamente as leixaram,
+e como a nova do glorioso Martyrio destes Santos Frades chegasse a S.
+Francisco, alegrando-se em seu espirito, disse: &laquo;Agora
+verdadeiramente posso dizer que
+tenho cinco irm&atilde;os&raquo;. E no mesmo anno em que estes
+Martyres
+foram mortos segundo testemunho das santas
+Li&ccedil;&otilde;es, que delles se
+dizem, por sua vingan&ccedil;a a ira, e
+indina&ccedil;&atilde;o de Deos, veio contra El-Rei de
+Marrocos, e seu Reino, porque a propria m&atilde;o direita, e
+bra&ccedil;o
+&ccedil;om que o dito Rei Mouro matou os Santos Frades, todos seus
+membros daquella parte at&eacute; o
+destro p&eacute;, foram todos secos, e por
+maldi&ccedil;&atilde;o da sua terra, nos
+tres annos seguintes apoz este Martyrio, n&atilde;o choveo nella
+couza alguma, de que se
+seguio mais, que por cinco annos continos houve tanta fome, e
+t&atilde;o cruas
+pestilencias nos homens, que a m&oacute;r parte da gente por
+tamanha mortindade foi
+destruida por tal, que os annos da vingan&ccedil;a fossem iguaes ao
+numero
+dos Santos Frades.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a id="Page_57" name="Page_57">[57]</a></span>
+E porque a Profecia dos Santos Frades em todo se comprisse a sobredita
+Rainha Dona Orraca passadas mui poucas horas, depois que &aacute;s
+Santas Reliquias foi dada divina sepultura, ella Rainha chea de
+virtudes acabou sua vida, e dahi foi levada a Alcoba&ccedil;a onde
+jaz, e
+&aacute; mesma hora que ella faleceo, sendo a noite profunda, Dom
+Pedro Nunes Conego, e
+Sacrist&atilde;o do Moesteiro de Santa Cruz, Var&atilde;o por
+Santidade mui
+esclarecido, e Confessor da mesma Rainha, vio innumeraveis Frades
+Menores entrar no Choro antre os quaes era um, que aos outros com
+grande solennidade precedia, e apoz elle cinco antre todolos outros com
+honra singular mais excellentes, e como no Choro com
+prociss&atilde;o assi entraram
+logo com doce melodia que se n&atilde;o p&oacute;de dizer,
+cantaram as
+Matinas, e o dito Pedro Nunes Sacrist&atilde;o, sendo pelo que vio
+todo atonito, perguntou a um
+delles, a que vieram, e porque lugar tantos Frades em tal hora
+entrassem, sendo serradas todalas portas do Moesteiro, o qual lhe
+respondeu:
+&laquo;N&oacute;s todos que aqui vez somos Frades Menores, e
+agora reinamos com Christo, e aquelle que vez, que com tanta gloria
+precede aos outros, &eacute;
+S. Francisco que tanto dezejastes ver nesta vida, e aquelles cinco, que
+antre os outros tem mais excellencia s&atilde;o os Frades, que em
+Marrocos
+por Christo receberam Martyrio, e neste Moesteiro s&atilde;o
+sepultados, e sabe
+que a Rainha Dona Orraca nesta ora passou desta vida, e porque ella de
+todo cora&ccedil;&atilde;o amou nossa Ordem, Nosso Senhor Jesu
+Christo nos enviou c&aacute; todos, porque por sua honra disessemos
+aqui Matinas, e porque tu eras seu confessor, quiz Deos que tu visses
+estas couzas, e da morte da Rainha n&atilde;o duvides; porque na
+hora que daqui partirmos
+ouvir&aacute;s logo certa nova&raquo;. E aquella
+Prociss&atilde;o sendo todas as portas
+do Moesteiro serradas logo sairam, e nesta hora aquelles que <span class="pagenum"><a id="Page_58" name="Page_58">[58]</a></span>eram
+da
+familia da dita Rainha bateram &aacute;s portas, e denunciaram que
+ella tinha
+j&aacute; paga sua necessaria divida &aacute; carne, e falecera.<br />
+
+<br />
+
+<h1><a name="CAPITULO_XVI"></a>CAPITULO XVI</h1>
+
+<div class="quote">Como Santo
+Antonio por exemplo destes Martyres tomou o habito
+S. Francisco, e do que
+seguio
+em Marrocos por milagre, e da morte
+del-Rei Dom
+Affonso</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Despois</span> que estes
+Santos Martyres come&ccedil;aram de resplandecer
+com mui claros milagres que muitos em sua mais profuza lenda se contem,
+e por exemplo delles o Bemaventurado Antonio que a este tempo era
+Conego no Moesteiro de Santa Cruz mesmo, e se chamava Fernando Martins,
+ardendo com dezejo de semelhante Martyrio, entrou na mesma Ordem dos
+Menores, em idade de vinte e cinco annos, e nella acabou dez annos,
+exclarecido em Santidade, e com milagres. E por esta ida destes Frades,
+o mesmo S. Francisco, porque seu exemplo ardia em gram fervor, e dezejo
+de Martyrio, passou com sete Frades a terra de Suria, e foi ao Gram
+Soldam, e como quer que com grande constancia, e mui sem medo lhe
+pr&eacute;gasse a F&eacute; de Christo, o Gram Soldam o tornou
+a enviar
+livremente, e
+s&atilde;o a sua propria terra.<br />
+
+<br />
+
+E acha-se por lembran&ccedil;as antigas, que por este Martyrio
+destes Santos Frades ser t&atilde;o cruamente feita em Marrocos, e
+com
+tanto
+desprezo de Deos, e de sua palavra, houve em todo aquelle Reino tantas
+esterilidades, e securas, e por tantos annos, que esteve para de todo
+se despovoar, e porque geralmente antre<span class="pagenum"><a id="Page_59" name="Page_59">[59]</a></span>
+elles, e pelo povo se dizia que
+tamanha maldi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o viera
+&aacute; terra salvo pela inocente morte dos Religiosos, El-Rei a
+cujas
+orelhas este rumor, e clamor chegara, tendo sobre esso concelho com os
+Mouros, e tambem com os
+Christ&atilde;os, que estavam ahi, acordaram que onde padeceram,
+que
+ali com grande arrependimento, e gemidos, e muitas lagrimas viessem,
+como vieram pedir a Deos que havendo por esso com elles piedade, se diz
+que logo choveo, e veio &aacute; terra acostumada
+avondan&ccedil;a em
+todalas
+cousas, por cujo beneficio se affirma que El-Rei de Marrocos com todo
+seu povo prometeram, e ordenaram que da mesma Ordem dos Frades Menores
+fosse dado Sacerdote, ou Bispo a todolos Christ&atilde;os, que em
+Marrocos, e em sua terra
+vivessem, e que os Frades fizessem ahi Moesteiro da Ordem de S.
+Francisco, em que livremente sempre estivessem, e dessem os Sacramentos
+aos
+Christ&atilde;os sem algum receio, o que por muitos annos assi
+comprio.<br />
+
+<br />
+
+E deste anno de Christo de mil e duzentos e vinte, em que esto sucedeo,
+at&eacute; o anno de mil duzentos e vinte e quatro em que este Rei
+Dom Affonso faleceo, n&atilde;o achei que elle fizesse, nem em seu
+Reino
+sucedesse outras cousas notaveis, pelo qual tendo elle trinta e sete
+annos de sua idade, e havendo doze annos que Reinava, faleceo na era de
+nosso Senhor de mil e duzentos e vinte e quatro, (1224) e jaz em
+Alcoba&ccedil;a, com a
+Rainha Dona Orraca sua molher, na Capella grande, que elle em sua vida
+mandou fazer diante a porta do Moesteiro, e neste anno se diz que foi
+mudado o Convento de Santa Maria, a antiga &aacute; nova Egreja, e
+Moesteiro
+de Alcoba&ccedil;a, que El-Rei D. Affonso Anriques, seu
+av&ocirc;
+de fundamento mandou fazer.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">DEO GRATIAS<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1>INDEX DAS COUSAS NOTAVEIS</h1>
+
+<h2>A</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Affonso II (D.) de Portugal, que idade tinha, e em que anno foi
+levantado Rei, <a href="#Page_17">pag. 17</a>. Foi
+cazado com Dona Orraca filha del-Rei D.
+Affonso IX de Castella. ibi. N&atilde;o quer conceder &aacute;
+Rainha Dona Tareja, e &aacute; Infanta Dona Sancha suas
+irm&atilde;s as
+terras que lhes deixara
+seu pai D. Sancho I, <a href="#Page_22">pag. 22</a>.
+&Eacute; excommungado pelo Papa
+Innocencio III
+para que largue os Castellos de Monte M&oacute;r, e Alanquer a suas
+irm&atilde;s, <a href="#Page_24">pag. 24</a>.
+&Eacute; absolvido da
+Excommunh&atilde;o, e com
+que circumstancias se
+ajustou a tregoa entre estes Principes, <a href="#Page_25">pag.
+25</a> e <a href="#Page_26">26</a>. Contende
+judicialmente sobre a mesma materia com suas irm&atilde;s, e
+&eacute;
+condemnado a
+pagar-lhe uma grande somma de dinheiro, <a href="#Page_27">pag.
+27</a>. Em que anno, e idade
+morreo, <a href="#Page_30">pag. 30</a>. Onde
+est&aacute; sepultado, <a href="#Page_30">ibi</a>.<br />
+
+<br />
+
+Affonso IX (D.) de Castella sogro del-Rei D. Affonso II de Portugal com
+quem foi cazado, e que filhos teve, <a href="#Page_18">pag.
+18</a>. Manda chamar a seu genro
+D. <span class="pagenum"><a id="Page_61" name="Page_61">[61]</a></span>Affonso II de
+Portugal &aacute;s Cortes que fez em Burgos, e
+n&atilde;o vai, <a href="#Page_21">pag. 21</a>,
+onde morreo, e est&aacute; sepultado,
+<a href="#Page_21">ibi</a>.<br />
+
+<br />
+
+Affonso Pires de Arganil, entrega por ordem do Infante D. Pedro as
+Reliquias dos Martyres de Marrocos no Convento de Santa Cruz de
+Coimbra, <a href="#Page_55">pag. 55</a>.<br />
+
+<br />
+
+Alcacere &eacute; cercado pelos Portuguezes e Estrangeiros, e das
+pessoas principaes Portuguezas que assistiram neste cerco, <a href="#Page_31">pag. 31</a>. No
+seu campo s&atilde;o mortos pelos Portuguezes trinta mil Mouros, e
+em
+que dia
+e anno se conseguio esta vitoria, <a href="#Page_38">pag.
+38</a>. O seu Castello depois de uma
+larga resistencia &eacute; conquistado, <a href="#Page_40">pag.
+40</a>. Em que dia e anno
+foi
+tomado, <a href="#Page_41">pag. 41</a>.<br />
+
+<br />
+
+Algozo e Freixo s&atilde;o tomados pelos Ifantes D. Pedro e D.
+Fernando em odio de seu irm&atilde;o D. Affonso II de Portugal, <a href="#Page_24">pag
+24</a>.<br />
+
+<br />
+
+Antonio (Santo) passa da Religi&atilde;o dos Conegos de Santo
+Agostinho para a de S. Francisco, <a href="#Page_58">pag.
+58</a>.<br />
+
+<br />
+
+Armada de Alem&atilde;es, e Framengos, que se compunha de cento e
+cincoenta naos depois de padecer varias derrotas aportou a Lisboa, <a href="#Page_29">pag.
+29</a>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>B</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Berardo (Fr.) um dos cinco Martyres de Marrocos, abre milagrosamente na
+terra seca uma fonte de que todos beberam, e se admiraram, <a href="#Page_48">pag. 48</a>.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a id="Page_62" name="Page_62">[62]</a></span>
+Beringela (Infante Dona) filha del-Rei de Castella Affonso IX cazou com
+D. Affonso Rei de Li&atilde;o, e que filhos teve, <a href="#Page_18">pag. 18</a>.<br />
+
+<br />
+
+Branca (Infante D.) filha de Affonso IX, Rei de Castella, cazou com
+El-Rei de Fran&ccedil;a, e foi m&atilde;i de S. Luis, <a href="#Page_18">pag. 18</a>.
+Era mais velha, que sua irm&atilde; Dona Orraca, <a href="#Page_20">pag. 20</a>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>C</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Constan&ccedil;a (Infante Dona), primeira Senhora do Moesteiro das
+Holgas de Burgos, foi filha del-Rei D. Affonso de Castella, <a href="#Page_18">pag. 18</a>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>F</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Fernando (Infante D.) chamado de Serpa foi filho de Affonso II de
+Portugal, e da Rainha Dona Orraca, <a href="#Page_19">pag.
+19</a>. Com quem cazou, e que
+filhos teve, <a href="#Page_19">ibi</a>.<br />
+
+<br />
+
+Fernando (Infante D.) filho de Affonso IX de Castella morreo de idade
+de dezaseis annos, pag. 8. Foi a Roma buscar a Cruzada que o Papa
+concedeo a seu pai para a batalha das Navas de Tolosa, <a href="#Page_21">pag. 21</a>.<br />
+
+<br />
+
+Foral. Em que anno foi dado por El-Rei D. Affonso II &aacute; Villa
+de Alcacere, <a href="#Page_41">pag. 41</a>.<br />
+
+<br />
+
+Francisco (S.) O que disse quando teve noticia do Martyrio dos
+seus&nbsp;cinco Religiosos em Marrocos, <a href="#Page_56">pag.
+56</a>. Passa com sete
+Frades
+&aacute; Suria a pr&eacute;gar a F&eacute; seguindo o
+exemplo daquelles
+cinco
+Martyres, <a href="#Page_58">pag. 58</a>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a id="Page_63" name="Page_63">[63]</a></span>
+<h2>G</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Gon&ccedil;alo (D.) Mestre, e Prior do Esprital se achou no cerco
+de Alcacere, <a href="#Page_31">pag. 31</a>.<br />
+
+<br />
+
+<h2>H</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Neusa (D.) Capit&atilde;o de uma Armada Estrangeira,
+que constava de trinta e seis naos, arrib&aacute;ram ao porto de
+Setuval, e
+junto com os Portuguezes batalham com os Mouros que estavam senhores de
+Alcacere, e
+sahem vitoriosos, <a href="#Page_34">pag. 34</a>.<br />
+
+<br />
+
+<h2>I</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Innocencio III manda excommungar pelo Arcebispo de Santiago, e o Bispo
+de &Ccedil;amora a Affonso II por negar os Castellos de Monte
+m&oacute;r e Alanquer a
+suas irm&atilde;s que seu pai D. Sancho I lhe deixara, <a href="#Page_24">pag. 24</a>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>L</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Lianor (Dona) filha del-Rei D. Henrique de Inglaterra, cazou com
+Affonso IX de Castella, pag. 2. Que filhos teve daquelle Principe, <a href="#Page_18">pag.
+18</a>.<br />
+
+<br />
+
+Lianor (Infante Dona) filha del-Rei D. Affonso IX de Castella cazou com
+D. James I Rei de Arag&atilde;o, <a href="#Page_18">pag.
+18</a>.<br />
+
+<br />
+
+Lianor (Infante Dona) Neta de Affonso II de Portugal cazou com El-Rei
+de Dacia, <a href="#Page_19">pag. 19</a>.<br />
+
+<br />
+
+Lianor (Infante Dona) filha de Affonso II de Portugal cazou com o filho
+herdeiro del-Rei de Dinamarca, <a href="#Page_19">pag. 19</a>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>M</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Martim Affonso Tello sobrinho do Infante D. Pedro &eacute; morto em
+Marrocos, <a href="#Page_51">pag. 51</a>.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a id="Page_64" name="Page_64">[64]</a></span>Martim Barregam
+Commendador de Palmella se achou no cerco de Alcacere,
+<a href="#Page_31">pag. 31</a>.<br />
+
+<br />
+
+Martyres que padeceram em Marrocos como se chamavam, <a href="#Page_42">pag. 42</a>.
+S&atilde;o recebidos em Coimbra pela Rainha Dona Orraca, <a href="#Page_43">pag. 43</a>.
+Foram
+tratados com grande benevolencia em Alanquer pela Infante Dona Sancha
+irm&atilde; de Affonso II de Portugal, <a href="#Page_43">ibi</a>.
+Pregam animosamente em
+Sevilha contra a ceita de Mafamede, <a href="#Page_44">pag.
+44</a>. Crueis Martyrios que
+padeceram, <a href="#Page_49">pag. 49</a>.
+S&atilde;o degolados por El-Rei de Marrocos, <a href="#Page_50">pag.
+50</a>. Anno, e dia
+do
+seu Martyrio, ibi. S&atilde;o queimados os seus corpos, e
+maravilhas
+que
+ent&atilde;o sucederam, <a href="#Page_51">pag. 51</a>.
+Como foram trazidos os seus corpos
+a
+Coimbra, <a href="#Page_54">pag. 54</a> e <a href="#Page_55">55</a>. <br />
+
+<br />
+
+Matheus (D.) Bispo de Lisboa recebe aos Estrangeiros que vinham em uma
+Armada que aportou &aacute;quella Cidade, e os exhorta &aacute;
+conquista de Alcacere, <a href="#Page_29">pag. 29</a>.
+Achou-se no cerco de Alcacere, <a href="#Page_51">pag. 51</a>.
+Faz uma pratica aos soldados Portuguezes e Estrangeiros que estavam no
+campo de Alcacere para que n&atilde;o levantem o sitio, mas que
+tomem a
+Pra&ccedil;a. <a href="#Page_36">pag. 36</a>.<br />
+
+<br />
+
+Melga&ccedil;o &eacute; tomado pelos Infantes D. Pedro e D.
+Fernando com alguma gente de Li&atilde;o em odio de seu
+irm&atilde;o D. Affonso II de
+Portugal, <a href="#Page_24">pag. 24</a>.<br />
+
+<br />
+
+Mouros. Como se houveram esfor&ccedil;adamente no sitio de
+Alcacere, <a href="#Page_33">pag. 33</a>.
+Governados pelos Reis de Sevilha, Cordova, Jaen, e
+Badalhouse vem soccorrer Alcacere, <a href="#Page_33">ibi</a>.
+S&atilde;o derrotados, e
+mortos
+trinta mil
+no campo de Alcacere, <a href="#Page_38">pag. 38</a>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>O</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Orraca. Princezas varias que tiveram este nome, <a href="#Page_20">pag.
+20</a>.<br />
+
+<br />
+
+Orraca (Dona) filha del-Rei D. Affonso IX de Castella <span class="pagenum"><a id="Page_65" name="Page_65">[65]</a></span>foi
+cazada com D.
+Affonso II de Portugal, <a href="#Page_17">pag. 17</a>.
+Era mais mo&ccedil;a que Dona
+Branca, <a href="#Page_20">pag. 20</a>. Recebe em
+Coimbra aos Martyres de Marrocos, que lhe
+pronosticaram a sua morte, <a href="#Page_40">pag. 40</a>.
+Quando morreo, <a href="#Page_56">pag. 56</a>. Onde
+est&aacute; sepultada,
+<a href="#Page_59">pag. 59</a>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>P</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Pedro (Infante D.) filho de Sancho I de Portugal, veio socorrer a sua
+irm&atilde; Dona Tareja, que estava recolhida no Castello de Monte
+m&oacute;r, contra seu irm&atilde;o D. Affonso II, <a href="#Page_23">pag. 23</a>.
+Estando em
+Marrocos recebe
+em sua caza aos Santos cinco Religiosos que alli padeceram martyrio,
+<a href="#Page_45">pag. 45</a>.
+&Eacute; livre de gravissimos perigos por intercess&atilde;o
+dos mesmos
+Santos Martyres, <a href="#Page_53">pag. 53</a>.
+Alcan&ccedil;a licen&ccedil;a del-Rei
+de
+Marrocos para
+trazer as Reliquias dos mesmos Marryres para Portugal, <a href="#Page_53">ibi</a>.<br />
+
+<br />
+
+Pedro (D.) Mestre da Ordem da Cavallaria do Templo se achou no cerco de
+Alcacere, <a href="#Page_31">pag. 31</a>.<br />
+
+<br />
+
+Pedro Fernandes de Castro chamado o Castell&atilde;o &eacute;
+morto em Marrocos, <a href="#Page_51">pag. 51</a>.<br />
+
+<br />
+
+Pedro Nunes (D.) Conego e Sacrist&atilde;o do Moesteiro de Santa
+Cruz de Coimbra, Confessor da Rainha Dona Orraca teve uma admiravel
+vis&atilde;o dos Santos Martyres de Marrocos, <a href="#Page_56">pag.
+56</a>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>R</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Rei de Marrocos pela sua propria m&atilde;o degolou os cinco
+Martyres da Ordem de S. Francisco, <a href="#Page_50">pag.
+50</a>. Castigo que experimentou
+por esta impia crueldade, <a href="#Page_56">pag. 56</a>.
+Movido das grandes calamidades que
+padecia<span class="pagenum"><a id="Page_66" name="Page_66">[66]</a></span> o seu Reino
+concede liccen&ccedil;a que os Frades Menores
+levantem
+Convento em Marrocos, <a href="#Page_59">pag. 59</a>.<br />
+
+<br />
+
+Reliquias Dos Santos Martyres de Marrocos como foram trasidas, e dos
+milagres que obraram pela jornada, <a href="#Page_53">pag.
+53</a>. Do modo como foram
+recebidas em Santa Cruz de Coimbra, <a href="#Page_55">pag.
+55</a>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>S</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Sancha (Infante Dona), irm&atilde; del-Rei de Portugal D. Affonso
+II recebe com grande benevolencia em Alanquer aos Santos Martyres de
+Marrocos, <a href="#Page_43">pag. 43</a>.<br />
+
+<br />
+
+Sancho I (D.) de Portugal, onde, e quando morreo, <a href="#Page_17">pag.
+17</a>.<br />
+
+<br />
+
+Sytimos. Lugar distante uma legoa de Alcacere foi a parte onde se
+alojaram os Reis Mouros que vinham soccorrer o seu Castello, <a href="#Page_33">pag. 33</a>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>T</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tareja (Rainha Dona) com sua irm&atilde; Dona Sancha se recolhem ao
+Castello de Monte m&oacute;r, e se queixam ao Papa Innocencio III
+da tyrania
+com que seu irm&atilde;o D. Affonso II lhe negava as terras que
+lhes deixara
+seu pai D. Sancho I, <a href="#Page_23">pag. 23</a>.
+&Eacute; soccorrida por seus dous
+irm&atilde;os D. Pedro e D. Fernando em Monte m&oacute;r contra
+D. Affonso II, <a href="#Page_23">pag. 23</a>. Do
+modo
+com que se concertou com seu irm&atilde;o, <a href="#Page_27">pag.
+27</a>.<br />
+
+<br />
+
+Tregoa. Em que anno foi celebrada entre D. Affonso II, e suas
+irm&atilde;s Dona Tareja e Dona Sancha, <a href="#Page_26">pag.
+26</a>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a id="Page_67" name="Page_67">[67]</a></span>
+<h2>V</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Valen&ccedil;a do Minho &eacute; tomada pelos Infantes D. Pedro
+e D. Fernando em odio de seu irm&atilde;o D. Affonso II negar as
+terras a suas
+irm&atilde;s que lhe deix&aacute;ra seu pai D. Sancho I, <a href="#Page_24">pag.
+24</a>.<br />
+
+<br />
+
+Vitoria do Campo de Alcacere em que dia, e anno se alcan&ccedil;ou,
+<a href="#Page_38">pag. 38</a>.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">FINIS LAUS DEO<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1>INDICE DOS CAPITULOS</h1>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a href="#CAPITULO_I">I--Como o Ifante Dom Affonso foi
+alevantado por Rei, e como foi cazado, e com quem, e que filhos
+legitimos houve</a><br />
+
+<br />
+
+<a href="#CAPITULO_II">II--Das desaven&ccedil;as que
+houve antre El Rei D. Affonso, e as
+Ifantes suas irm&atilde;s, e da guerra que sobre esso se moveo</a><br />
+
+<br />
+
+<a href="#CAPITULO_III">III--Como foi pelo Papa procedido
+contra El-Rei D. Affonso por causa da
+contenda que havia com suas irm&atilde;s, e como finalmente foram
+concordados</a><br />
+
+<br />
+
+<a href="#CAPITULO_IV">IV--Do fundamento que houve para
+Alcacere do Sal, que era de Mouros,
+ser cercado, e tomado dos Christ&atilde;os, e do Bispo de Lisboa
+principalmente</a><br />
+
+<br />
+
+<a href="#CAPITULO_V">V--Como Alcacere foi cercado, e com
+que numero de gente Portuguezes e
+tambem Estrangeiros</a><br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a id="Page_70" name="Page_70">[70]</a></span><a href="#CAPITULO_VI">
+VI--Dos Reis Mouros que vieram por soccorro da Villa de Alcacere, e da
+primeira batalha que deram, em que foram vitoriosos</a><br />
+
+<br />
+
+<a href="#CAPITULO_VII">VII---Da segunda batalha que houve
+sobre Alcacere, e como os Reis
+Mourosforam vencidos, e feito grande estrago em suas gentes</a><br />
+
+<br />
+
+<a href="#CAPITULO_VIII">VIII--Como os
+Christ&atilde;os combateram e tomaram o Castello
+Dalcacere</a><br />
+
+<br />
+
+<a href="#CAPITULO_IX">IX--Como cinco Frades Italianos da
+Ordem de S. Francisco foram a
+Marrocos a pr&eacute;gar a F&eacute; de Christo, e
+primeiramente chegaram a Sevilha, que era de Mouros</a><br />
+
+<br />
+
+<a href="#CAPITULO_X">X--Como os Frades chegaram a caza do
+Ifante Dom Pedro, e do que logo
+fizeram, e como foram tornados a Ceyta para virem a terra dos
+Christ&atilde;os, e dahi se volveram outra vez a Marrocos</a><br />
+
+<br />
+
+<a href="#CAPITULO_XI">XI--De um milagre que se fez por
+causa de Frei Berardo, e como foram
+prezos e atormentados os outros Frades</a><br />
+
+<br />
+
+<a href="#CAPITULO_XII">XII--Como El-Rei de Marrocos
+fallou com estes Frades, e por os
+n&atilde;o poder converter a sua seita por si mesmo os matou, e
+como foram mortos tambem Pedro Fernandes, e Martim Affonso Telo,
+sobrinho do Ifante</a><br />
+
+<br />
+
+<a href="#CAPITULO_XIII">XIII--Como os corpos dos Martyres
+foram queimados, e
+despeda&ccedil;ados, e emfim recolhidos por
+deva&ccedil;&atilde;o, e industria do
+Ifante Dom Pedro</a><br />
+
+<a href="#CAPITULO_XIV"><br />
+
+XIV--Como o Ifante D. Pedro foi tornado a Espanha, e trouxe consigo os
+ossos, e Reliquias dos Martyres, e as mandou a Santa Cruz de Coimbra, e
+dos milagres que houve no caminho</a><br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a id="Page_71" name="Page_71">[71]</a></span>
+<a href="#CAPITULO_XV">XV--Como as Reliquias dos Martyres
+foram recebidas, e como foi a morte
+da Rainha Dona
+Orraca,
+molher del-Rei D. Affonso, e das cousas que
+foram vistas<br />
+
+<br />
+
+</a><a href="#CAPITULO_XVI">XVI--Como Santo Antonio
+por
+exemplo destes Martyres tomou o habito
+de&nbsp;S. Francisco, e do que seguio em Marrocos por milagre, e da
+morte del-Rei Dom Affonso</a><br />
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Chronica de El-Rey D. Affonso II, by Rui de Pina
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REY D. AFFONSO II ***
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
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+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+
+
+
+</html>