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+The Project Gutenberg EBook of A Harpa do Crente, by Alexandre Herculano
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Harpa do Crente
+ Tentativas poeticas pelo auctor da Voz do Propheta
+
+Author: Alexandre Herculano
+
+Release Date: September 23, 2007 [EBook #22742]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A HARPA DO CRENTE ***
+
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+
+
+Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
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+
+
+
+A HARPA DO CRENTE.
+
+TENTATIVAS POETICAS
+
+PELO
+
+AUCTOR DA VOZ DO PROPHETA.
+
+ * * * * *
+
+LISBOA--1838
+
+NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.
+
+_Rua direita do Arsenal--n.º 55._
+
+
+
+
+A HARPA DO CRENTE.
+
+TENTATIVAS POETICAS
+
+PELO
+
+AUCTOR
+
+DA
+
+VOZ DO PROPHETA.
+
+
+PRIMEIRA SERIE.
+
+
+LISBOA--1838
+
+NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.
+
+_Rua direita do Arsenal--n.º 55._
+
+
+
+
+*A Semana Sancta.*
+
+
+A S. Ex.ª O MARQUEZ DE RESENDE.
+
+
+_Em testemunho de amisade e veneração_
+
+ Offerece o Auctor.
+
+
+
+
+A Semana Sancta.
+
+ Der Gedanke Gott weckt einen
+ furchterlichem Nachbar auf,
+ sein Name heisst Richter.
+ _Schiller._
+
+
+ I.
+
+ Tibio o sol entre as nuvens do occidente
+ Já lá se inclina ao mar. Grave e solemne
+ Vai a hora da tarde!--O oeste passa
+ Mudo nos troncos da lameda antiga,
+ Que já borbulha á voz da primavera:
+ O oeste passa mudo, e cruza a porta
+ Ponteaguda do templo, edificado
+ Por mãos rudes de avós, em monumento
+ De uma herança de fé, que nos legaram,
+ A nós seus netos, homens de alto esforço,
+ Que nos rimos da herança, e que insultamos
+ A cruz e o templo e a crença de outras eras:
+ Nós, homens fortes, servos de tyrannos,
+ Que sabemos tão bem rojar seus ferros
+ Sem nos queixar, menospresando a Patria
+ E a liberdade, e o combater por ella.
+
+ Eu não!--eu rujo escravo; eu creio e espero
+ No Deus das almas generosas, puras,
+ E os despotas maldigo.--Entendimento
+ _Bronco_, lançado em seculo fundido
+ Na servidão de goso ataviada,
+ Creio que Deus é Deus, e os homens livres!
+
+
+ II.
+
+ Oh sim!--rude amador de antigos sonhos,
+ Irei pedir aos tumulos dos velhos
+ Religioso enthusiasmo, e canto novo
+ Hei-de tecer, que os homens do futuro
+ Entenderão:--um canto escarnecido
+ Pelos filhos dest' épocha mesquinha,
+ Em que vim peregrino a vêr o mundo,
+ E chegar a meu termo, e repousar-me
+ Depois á sombra de um cypreste amigo.
+
+
+ III.
+
+ Passa o vento os do portico da Igreja
+ Esculpidos umbraes: correndo as naves
+ Sussurrou, sussurrou entre as columnas
+ De gothico lavor: no orgam do coro
+ Veio em fim murmurar e esvaecer-se.
+
+ Mas porque sôa o vento?--Está deserto,
+ Silencioso ainda o sacro templo:
+ Nenhuma voz humana ainda recorda
+ Os hymnos do Senhor. A natureza
+ Foi a primeira em celebrar seu nome
+ Neste dia de lucto e de saudade!
+ Trévas da quarta feira eu vos saudo!
+ Negras paredes, velhas testemunhas
+ De todas essas orações de mágoa,
+ Ou esperança, ou gratidão, ou sustos,
+ Depositados ante vós nos dias
+ De uma crença fervente, hoje enlutadas
+ De mais escuro dó, eu vos saudo!
+ A loucura da cruz não morreu toda
+ Apoz dezoito seculos!--Quem chore
+ Do sofrimento o Heróe existe ainda.
+ Eu chorarei--que as lagrymas são do homem--
+ Pelo Amigo do povo, assassinado
+ Por tyrannos, e hypocritas, e turbas
+ Envilecidas, barbaras, e servas.
+
+
+ IV.
+
+ Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro;
+ Que no espaço entre o abysmo e os ceus vagueas,
+ D'onde mergulhas no oceano a vista;
+ Tu que do trovador na mente arrojas
+ Quanto ha nos ceus esperançoso e bello,
+ Quanto ha no inferno tenebroso e triste,
+ Quanto ha nos mares magestoso e vago,
+ Hoje te invoco!--oh vem!--lança em minha alma
+ A harmonia celeste e o fogo e o genio,
+ Que dêm vida e vigor a um carme pio.
+
+
+ V.
+
+ A noite escura desce: o sol de todo
+ Nos mares se afogou: a luz dos mortos,
+ Dos brandões o clarão fulgura ao longe,
+ No cruzeiro somente e em volta da ara:
+ E pelas naves começou ruído
+ De compassado andar. Fiéis acodem
+ A visitar o Eterno, e ouvir queixumes
+ Do vate de Sion. Em breve os monges
+ Lamentosas canções aos ceus erguendo,
+ Sua voz unirão á voz desse orgam,
+ E os sons e os écchos reboaráõ no templo.
+ Mudo o côro depois, neste recinto
+ Dentro em bem pouco reinará silencio,
+ O silencio dos tumulos, e as trevas
+ Cubrirão por esta área a luz escassa
+ Despedida das lampadas, que pendem
+ Ante os altares, bruxuleando frouxas.
+ Imagem da existencia!--Em quanto passam
+ Os dias infantís, as paixões tuas,
+ Homem, qual então és, são debeis todas:
+ Cresceste:--ei-las torrente, em cujo dorso
+ Sobrenadam a dor, e o pranto, e o longo
+ Gemido do remorso, a qual lançar-se
+ Vai, com rouco estridor, no antro da morte,
+ Lá onde é tudo horror, silencio, noite.
+ Da vida tua instantes florescentes
+ Foram dous, e não mais: as cãas e rugas,
+ Breve, rebate de teu fim te deram.
+ Tu foste apenas som, que o ar ferindo
+ Se esvaíu pelo espaço immensuravel.
+
+ E a casa do Senhor ergueu-se!--o ferro
+ Cortou a penedia; e o canto enorme.
+ Polido alveja alli no espesso panno
+ Do muro collossal, que ha visto as eras
+ Velhas chegar, e adormecer-lhe ao lado:
+ A faia e o sobro no caír rangeram
+ Sob o machado: a trave affeiçoou-se;
+ Lá na cimo pousou: restruge ao longe
+ De martellos fragor, e eis ergue o templo,
+ Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.
+
+ Homem, do que és capaz! Tu, cujo alento,
+ Se esváe, como da cerva a leve pista
+ No pó se apaga ao respirar da tarde,
+ Do seio dessa terra em que és estranho
+ Saír fazes as moles seculares,
+ Que por ti, morto, fallem: dás na idéa
+ Eterna duração ás obras tuas!
+ Tua alma é immortal, e a prova a déste!
+
+
+ VI.
+
+ Anoiteceu:--nos claustros resoando
+ As pisadas dos monges ouço: eis entram;
+ Eis se curvaram para o chão beijando
+ O pavimento, a pedra: oh sim, beijai-a!
+ Igual vos cubrirá a cinza um dia,
+ Talvez em breve--e a mim. Consolo ao morto
+ É a pedra do tumulo. Se-lo-ia
+ Mais se do justo só a herança fora;
+ Mas tambem ao malvado é dada a campa.
+
+ E o criminoso dormirá quieto
+ Entre os bons sotterrado!--Oh não! em quanto
+ No templo ondeam silenciosas turbas,
+ Exultarão do abysmo os moradores,
+ Vendo o hypocrita vil, mais ímpio que elles,
+ Que escarnece do Eterno, e a si se engana;
+ Vendo o que julga que orações apagam
+ Vicios e crimes, e o motejo e o riso
+ Dado em resposta ás lagrymas do pobre;
+ Vendo os que nunca ao infeliz soltaram
+ De consolo palavra, ou de esperança:
+ Sim:--malvados tambem hão-de pisar-lhes
+ Os frios restos que separa a terra,
+ Um punhado de terra, a qual os ossos
+ Destes ha-de cubrir em tempo breve,
+ Como cubriu os seus, qual vai sumindo
+ Nos mysterios da campa a humanidade.
+
+ Porém a turba esvae-se: ermam bem poucos
+ Do templo na amplidão: só lá no fundo
+ De affumada capella, o justo as preces
+ Ergue pio ao Senhor, as preces puras
+ De um coração que espera, e não mentidas
+ De labios de impostor, que engana as turbas
+ Com seu meneio hypocrita, calcando
+ Na alma lodosa da blasphemia o grito.
+ Então exultarão os bons, e o ímpio,
+ Que passou, tremerá. Em fim, de vivos,
+ Da voz, do respirar o som confuso
+ Vem-se verter no sussurrar das praças,
+ E pela galilé só ruge o vento.
+ Em trevas não ficou silenciosas
+ O sagrado recinto: os candieiros,
+ No gelado ambiente ardendo a custo,
+ Espalham debeis raios que reflectem
+ Das pedras pela alvura; o negro mocho,
+ Companheiro do morto, horrido pio
+ Solta lá da cornija; pelas fendas
+ Dos sepulchros deslisa um fumo espesso,
+ Ondêa pela nave--esvái-se: um longo
+ Suspiro não se ouviu!--Olhai! lá se erguem
+ De umas espectros palidos, medonhos,
+ A quem baço clarão da luz dos mortos
+ Ainda custa a soffrer:--eis de outras surgem
+ Radiosos espiritos que o premio
+ Da virtude, nos ceus, hão recebido:
+ Alli treme ante o pobre o rico, e o forte
+ Ante o humilde, que nelle os olhos fita
+ Severo:--oh que tormento! infernaes dores
+ São doces para o máu, a par do aspecto
+ Do bom, que mudo lhe recorda os crimes.
+ Ai!--nem paz cabe nos mortos! Entre as campas
+ Ainda habita o remorso. Embalde, espectro,
+ Te curvas ante as aras que insultaste:
+ Debalde imploras o perdão celeste.
+ Expiraste: o perdão morreu comtigo.
+ Infeliz para sempre, a mão levanta
+ A essa fronte gelada; entre teus olhos
+ De azulado fulgor ampla rajada
+ Toca--eterno signal que no perverso
+ Do cherubim da morte a dextra estampa:
+ Toca-a... Deus reprovou-te; a herança tua
+ Volveu-se em maldicção: luz de esperança
+ Para ti apagou-se: o abysmo evoca
+ O filho seu; despenha-te no abysmo!
+
+
+ VII.
+
+ Vaga meditação onde arrojaste
+ Minha imaginação!--ás horas mortas
+ De alta noite, no templo solitario,
+ E em congresso de mortos, quando o espanto
+ Os resguarda co'as azas acurvadas
+ Da vista do que vive!--Alli corria
+ Minha mente, qual vaga a mente do homem,
+ Que em febre ardente desvairou por sonhos,
+ Onde se ajunctam troços de existencias,
+ Em nebuloso quadro; ou como ondea,
+ Entre a esperança e o susto, o moribundo,
+ A quem do passamento o véu já cinge
+ A amarellada fronte, e a quem já pesam
+ Sobre os olhos as palpebras, que affrouxa
+ Do anjo da morte o resonante grito.
+
+
+ VIII.
+
+ Mas troa a voz do monge, e no meu seio
+ O coração bateu. Eia, retumbem
+ Pela abobada aguda os sons dos psalmos,
+ Que em dia de afflicção ignoto vate
+ Teceu, banhado em dôr: talvez foi elle
+ O primeiro cantor que em varias cordas,
+ Á sombra das palmeiras da Idumea,
+ Soube entoar melodioso um hymno.
+ Deus inspirava então os trovadores
+ Do seu povo querido, e a Palestina,
+ Rica dos meigos dons da natureza,
+ Tinha o sceptro tambem do enthusiasmo.
+ Virgem o genio ainda, o estro puro
+ Louvava Deus somente, á luz da aurora,
+ E ao esconder-se o sol entre as montanhas
+ De Bethoron:--agora o genio é morto
+ Para o Senhor, e os cantos dissolutos
+ Do lodoso folguedo os ares rompem,
+ Ou sussurram por paços de tyrannos,
+ Assellados de putrida lisonja,
+ Por preço vil, como o cantor que os tece.
+
+
+ IX.
+
+
+ _O Psalmo._
+
+ Quanto é grande o meu Deus!... Té onde chega
+ O seu poder immenso!
+ Elle abaixou os ceus, desceu, calcando
+ Um nevoeiro denso.
+ Dos cherubins nas azas radiosas
+ Sentado elle voou:
+ E sobre turbilhões de rijo vento
+ O mundo rodeou.
+ Se lança á terra o olhar, a terra treme,
+ E os mares assustados
+ Bramem ao longe, e os montes lançam fumo,
+ Da sua mão tocados.
+ Se pensou no Universo, ei-lo patente
+ Todo perante o Eterno:
+ Se o quiz, o firmamento os seios abre,
+ Abre os seios o inferno.
+ Dos olhos do Senhor, homem, se podes,
+ Esconde-te um momento:
+ Vê onde encontrarás logar que fique
+ Da sua vista isento:
+ Sobe aos ceus, transpõe mares, busca o abysmo,
+ Lá teu Deus has-de achar;
+ Elle te guiará, e a dextra sua
+ Lá te ha-de sustentar:
+ Desce á sombra da noite, e no seu manto
+ Involver-te procura;
+ Mas as trévas para elle não são trévas;
+ Nem é a noite escura.
+ No dia do furor, em vão buscáras
+ Fugir ante o Deus forte,
+ Quando do arco tremendo, irado, impelle
+ Setta em que pousa a morte.
+ Mas o que o teme dormirá tranquillo
+ No dia extremo seu,
+ Quando na campa se rasgar da vida
+ Das illusões o véu.
+
+
+ X.
+
+ Callou-se o monge: sepulchral silencio
+ Á sua voz seguiu-se: e um som soturno
+ De orgam partiu-o; som que assemelhava
+ O suspiro saudoso, e os ais de filha,
+ Que chora solitaria o páe, que dorme
+ Seu ultimo, profundo e eterno somno.
+ Harmonias depois soltou mais doces
+ O instrumento suave; e ergueu-se o canto,
+ O lamentoso canto do propheta,
+ Da patria sobre o fado. Elle, que o víra,
+ Sentado entre ruinas, contemplando
+ Seu avíto esplendor, seu mal presente,
+ A quéda lhe chorou: lá na alta noite,
+ Modulando o Nebel, via-se o vate
+ Nos derrubados porticos, abrigo
+ Do immundo stellio e gemedora poupa,
+ Extasiado--e a lua scintillando
+ Na sua calva fronte, onde pesavam
+ Annos e annos de dor: ao venerando
+ Nas encovadas faces fundos regos
+ Tinham aberto as lagrymas: ao longe,
+ Nas margens do Kedron, a rãa grasnando
+ Quebrava a paz dos tumulos. Que tumulo
+ Era Sion!--o vasto cemiterio
+ Dos fortes de Israel. Mais venturosos
+ Que seus irmãos, morreram pela patria;
+ A patria os sepultou dentro em seu seio:
+ Elles, em Babylonia, as mãos em ferros,
+ Passam de escravos miseranda vida,
+ Que Deus pesou seus crimes, e, ao pesá-los,
+ A dextra lhe vergou. Não mais no templo
+ A nuvem repousára, e os ceus de bronze
+ Dos prophetas aos rogos se amostravam,
+ O vate de Anathoth a voz soltára
+ Entre o povo infiel, de Eloha em nome:
+ Ameaças, promessas, tudo inutil;
+ De ferro os corações não se dobraram.
+ Vibrou-se a maldicção: bem como um sonho
+ Jerusalem passou: sua grandesa
+ Somente existe em derrocadas pedras.
+ O vate de Anathoth, sobre seus restos,
+ Com tal lamento se doeu da patria:
+ Canto de morte alçou: da noite as larvas
+ O som lhe ouviram: squallido esqueleto,
+ Rangendo os ossos, d'entre a hera e musgos
+ Do portico do templo erguia um pouco,
+ Alvejando, a caveira:--era-lhe alivio
+ Do sagrado cantor a voz suave
+ Desferida ao luar, triste, no meio
+ Da vasta solidão que o circumdava:
+ O propheta gemeu: não era o estro,
+ Ou o vivido júbilo que outrora
+ Inspirára Moysés: o sentimento
+ Fui sim pungente do silencio e morte,
+ Que da patria lhe fez sobre o cadaver
+ A elegia da noite erguer, e o pranto
+ Derramar da esperança e da saudade.
+
+
+ XI.
+
+ _A Lamentação._
+
+ Como assim jaz e solitaria e quêda
+ Esta cidade outrora populosa!
+ Qual viuva ficou e tributaria
+ A senhora das gentes.
+ Chorou durante a noite: em pranto as faces
+ Sosinha, entregue á dôr, nas penas suas
+ Ninguem a consolou: os mais queridos
+ Contrarios se volveram.
+ As amplas ruas de Sion são ermas,
+ E cubertas de relva: os sacerdotes
+ Gemem: as virgens pallidas suspiram
+ Involtas na amargura.
+ Dos filhos de Israel nas cavas faces
+ Está pintada a macilenta fome;
+ Mendigos vão pedir, pedir a estranhos,
+ Um pão de infamia eivado.
+ O tremulo ancião, de longe, os olhos
+ Volta a Jerusalem, della fugindo;
+ Vê-a, suspira, cáe, e em breve expira
+ Com seu nome nos labios.
+ Que horror!--as proprias mães os seus filhinhos
+ Despedaçaram: barbaras quaes tygres,
+ Os sanguinosos membros palpitantes
+ No ventre sepultaram.
+ Grande Deus, nosso opprobrio olha piedoso!
+ Cessa de Te vingar! Vê-nos escravos,
+ Servos de servos em paiz estranho;
+ Adoça nossos males!
+ Acaso serás Tu sempre inflexivel?
+ Esquecèste de todo a nação tua?
+ O pranto dos hebreus não Te commove?
+ És surdo a seus lamentos?
+
+
+ XII.
+
+ Doce era a voz do velho: o som do Nablo
+ Sonoro: o ceu sereno: clara a terra
+ Pelo brando fulgor do astro da noite:
+ E o propheta parou: erguidos tinha
+ Os olhos para o ceu, onde buscava
+ Um raio de esperança e de conforto:
+ E elle calára já, e ainda os ecchos,
+ Entre as minas sussurrando, ao longe
+ Iam os sons levar de seus queixumes.
+
+
+ XIII.
+
+ Chôro piedoso, o chôro consagrado
+ Ás desditas dos seus. Honra ao propheta!
+ Oh margens do Jordão, paiz tão lindo,
+ Que fostes e não sois, tambem suspiro
+ Doído vos consagro!--Assim fenecem
+ Imperios, reinos, solidões tornados!...
+ Não:--nenhum deste modo: o peregrino
+ Pára em Palmyra e pensa: o braço do homem
+ A sacudiu á terra, o fez dormissem
+ O seu ultimo somno os filhos della--
+ E elle o veio dormir pouco mais longe:
+ Mas se chega a Sion treme, enxergando
+ Seus lacerados restos. Pelas pedras,
+ Aqui e alli dispersas, ainda escripta
+ Parece vêr-se uma inscripção de agouros,
+ Bem como aquella que aterrou um ímpio
+ Quando, no meio de ruidosa festa,
+ Blasphemava dos ceus, e mão ignota
+ O dia extremo lhe apontou de crimes.
+ A maldicção do Eterno está vibrada
+ Sobre Jerusalem!--Quanto é terrivel
+ A vingança de Deus! O Israelita,
+ Sem patria, e sem abrigo, vagabundo,
+ Odio dos homens, neste mundo arrasta
+ Uma existencia mais cruel que a morte,
+ E que vem terminar a morte e inferno.
+ Desgraçada nação!--aquelle solo
+ Onde manava o mel, onde o carvalho,
+ O cedro e a palma o verde, ou claro ou torvo,
+ Tão grato á vista, em bosques misturavam:
+ Onde o lyrio e a cecem nos prados tinham
+ Crescimento espontaneo entre as roseiras,
+ Hoje, campo de lagrymas, só cria
+ Humilde musgo de escalvados cerros.
+
+
+ XIV.
+
+ Ide vós a Mambré:--lá, bem no meio
+ De um valle, outrora de verdura ameno,
+ Erguia-se um carvalho magestoso:
+ Debaixo de seus ramos, largos dias
+ Abrahão repousou: na primavera
+ Vinham os moços adornar-lhe o tronco
+ De capellas cheirosas de boninas,
+ E corêas gentis traçar-lhe em roda.
+ Nasceu com o orbe a planta veneravel,
+ Viu passar gerações, julgou seu dia
+ Final fosse o do mundo, e quando airosa
+ Por entre as densas nuvens se elevava,
+ Mandou o Nume aos aquilões rugíssem.
+ Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco,
+ Murcharam-se caíndo, e o rei dos bosques
+ Servio do pasto aos tragadores vermes:
+ Deus estendeu a mão:--no mesmo instante
+ A vinha se mirrou: juncto aos ribeiros
+ Da Palestina os platanos frondosos
+ Não mais cresceram, como d'antes, bellos:
+ O armento, em vez de relva, achou nos prados
+ Somente ingratas, espinhosas urzes.
+ No Golgotha plantada, a Cruz clamára
+ Justiça: a seu clamor horrido espectro
+ No Moriah sentou-se; era seu nome
+ Assolação--e despregando um grito,
+ Caíu com longo som de um povo a campa.
+ Assim a herança de Judah, outrora
+ Grata ao Senhor, existe só nos ecchos
+ Do tempo que já foi, e que ha passado
+ Como hora de prazer entre desditas.
+
+ Minha Patria onde existe?
+ É lá somente!
+
+ Oh lembrança da Patria acabrunhada
+ Um suspiro tambem tu me has pedido:
+ Um suspiro arrancado aos seios d'alma
+ Pela offuscada gloria, e pelos crimes
+ Dos homens que ora são, e pelo opprobrio
+ Da mais illustre das nações da terra!
+
+ A minha triste Patria era tão bella,
+ E forte, e virtuosa! e ora o guerreiro
+ E o sabio e o homem bom acolá dormem,
+ Acolá, nos sepulchros esquecidos,
+ Que a seus netos infames nada contam
+ Da antiga honra e pudor e eternos feitos.
+
+ O escravo portuguez agrilhoado
+ Carcomir-se-lhes deixa juncto ás lousas
+ Os decepados troncos desse arbusto,
+ Por mãos delles plantado á liberdade,
+ E por tyrannos derrubado em breve,
+ Quando patrias virtudes se acabaram,
+ Como um sonho da infancia.
+ O vil escravo
+ Immerso em vicios, em bruteza e infamia
+ Não erguerá os macerados olhos
+ Para esses troncos, que destroem vermes
+ Sobre as cinzas de heróes, e, acceso em pejo,
+ Não surgirá jámais?--Não ha na terra
+ Coração portuguez, que mande um brado
+ De maldicção atroz, que vá cravar-se
+ Na vigilia e no somno dos tyrannos,
+ E envenenar-lhes o prazer nos braços
+ Das prostitutas vís, e em seus banquetes
+ De embriaguez, lançar fel e amarguras?
+
+ Não!--Bem como um cadaver já corrupto,
+ A nação se dissolve: e em seu lethargo
+ O povo, involto na miseria, dorme.
+
+
+ XV.
+
+ Oh, talvez, como o vate, ainda algum dia
+ Terei de erguer á Patria hymno de morte,
+ Sobre seus mudos restos vagueando!
+ Sobre seus restos?--Nunca! Eterno, escuta
+ Minhas preces e lagrymas:--se em breve,
+ Qual jaz Sion, jazer deve Ulissea:
+ Se o anjo do exterminio ha-de riscá-la
+ Do meio das nações, que d'entre os vivos
+ Risque tambem meu nome, e não me deixe
+ Na terra vaguear, orpham de Patria.
+
+
+ XVI.
+
+ Cessou da noite a grão solemnidade
+ Consagrada á tristeza, e a memorandas
+ Recordações:--os monges se prostraram
+ A face unida á pedra: a mim, a todos
+ Correm dos olhos lagrymas suaves
+ De compuncção. Atheu, entra no templo;
+ Não temas esse Deus, que os labios negam,
+ E o coração confessa: a corda do arco
+ Da vingança, em que a morte se debruça
+ Frouxa está; Deus é bom; entra no templo.
+ Tu para quem a morte ou vida é fórma,
+ Fórma sómente de mais puro barro,
+ Que nada crês, mas nada esperas, olha,
+ Olha o conforto do christão: se o calis
+ Da amargura a provar os ceus lhe deram,
+ Elle se consolou: balsamo sancto
+ Dentro no coração a fé lhe entorna
+ "Deus piedade terá!"--Eis seu gemido:
+ Porque a esperança lhe sussurra emtorno:
+ "Aqui--ou lá--a Providencia é justa."
+
+ Atheu, a quem o mal fizera escravo,
+ Teu futuro qual é? Quaes são teus sonhos?
+ No dia da afflicçâo emmudeceste
+ Ante o espectro do mal. E a quem alçaras
+ O gemente clamor?--Ao mar, que as ondas
+ Não altera por ti?--Ao ar, que some
+ Pela sua amplidão as queixas tuas?
+ Aos rochedos alpestres, que não sentem,
+ Nem sentir podem teu gemido inutil?
+ Tua dôr, teu prazer existem, passam,
+ Sem porvir, sem passado, e sem sentido.
+ Nas angustias da vida, o teu consolo
+ O suicidio é só, que te promette
+ Rica messe de goso, a paz do nada!--
+ E ai de ti, se buscaste, em fim, repouso,
+ No limiar da morte indo assentar-te!
+ Alli grita uma voz no ultimo instante
+ Do passamento: a voz atterradora
+ Da _Consciencia_ é ella: e has-de escutá-la
+ Mau grado teu: e tremerás em sustos,
+ Desesperado aos ceus erguendo os olhos
+ Irados, de travez, amortecidos--
+ Aos ceus, cujo caminho a Eternidade
+ Co'a vagarosa mão te vai cerrando,
+ Para guiar-te á solidão das dores,
+ Onde maldigas teu primeiro alento,
+ Onde maldigas teu extremo arranco,
+ Onde maldigas a existencia e a morte.
+
+
+ XVII.
+
+ Calou tudo no templo: o ceu é puro:
+ A tempestade ameaçadora dorme.
+ No espaço immenso os astros scintillantes
+ O Rei da creação louvam com hymnos,
+ Não ouvidos por nós, nas profundezas
+ Do nosso abysmo. E aos cantos do Universo,
+ Ante milhões de estrellas, que recamam
+ O firmamento, ajunctará seu canto
+ Mesquinho trovador?--Que vale uma harpa
+ Mortal, no meio da harmonia etherea,
+ No concerto da noite? Oh, no silencio,
+ Eu pequenino verme irei sentar-me
+ Aos pés da Cruz, nas trévas do meu nada.
+ Assim se apaga a lampada nocturna
+ Ao despontar do sol o alvor primeiro:
+ Por entre a escuridão deu claridade,
+ Mas do dia ao nascer, que já rutila,
+ As torrentes de luz vertendo ao longe,
+ Da lampada o clarão sumiu-se inutil
+ Nesse fulgido mar, que inunda a terra.
+
+_Lisboa_--1829.
+
+
+
+
+*NOTAS.*
+
+
+
+
+NOTAS.
+
+
+Eis o poema da minha mocidade: são os unicos versos que conservo desse
+tempo, em que nada neste mundo deixava para mim de respirar poesia. Se hoje
+me dissessem: faze um poema de quinhentos versos ácerca da Semana Sancta,
+eu olharia ao primeiro aspecto esta proposição como um absurdo: entretanto
+eu mesmo ha nove annos realizei esse absurdo. Não é esta a primeira das
+minhas contradiccções, e espero em Deus, e na minha sincera consciencia,
+que não seja a ultima.
+
+Quando compuz estes versos, ainda eu possuia toda a vigorosa ignorancia da
+juventude; ainda eu cria conceber toda a magnificencia do grande drama do
+christianismo, e que a minha harpa estava affinada para cantar um tal
+objecto. Enganava-me; a Semana Sancta do poeta não saíu semelhante á Semana
+Sancta da Religião. O que é esta, de feito?--Um poema representado, um
+drama, cuja essencia é um facto universal, o maior de todos; o que veio
+mudar idéas, civilisação, e destinos do genero humano inteiro. Tinha eu
+forças para o tractar? Não por certo; porque até hoje só houve um
+Klopstock; talvez só um haverá até a consummação dos seculos.
+
+Assim, eu corri as memorias do passado, e as esperanças do fucturo; chorei
+sobre Jerusalem, e sobre a minha patria; subi aos ceus, e desci aos
+infernos; saudei o sol, e as trévas da noite; em tudo, e em toda a parte
+busquei inspirações, menos onde as devia buscar; por que acima da minha
+comprehensão estava o meu objecto--a redempção, e as suas consequencias.
+Foi disto justamente que eu não tractei; e era disto que eu devia tractar,
+se o podesse ou soubesse fazer.
+
+Porque, pois, não acompanharam estes versos os outros da primeira mocidade
+no caminho da fogueira! Porque publíco um poema falho na mesmissima
+essencia da sua concepção!
+
+Porque tenho a consciencia de que ha ahi poesia; e porque não ha poeta,
+que, tendo essa consciencia, consinta de bom grado em deixar nas trévas o
+fructo das suas vigilias.
+
+
+[Pag. 9.]
+
+ _A loucura da Cruz não morreu toda_
+
+"Verbum enim Crucis pereuntibus quidem stultitia est".
+
+_Paul. Ad Corinth. 1.--1._
+
+
+[Pag. 15.]
+
+ _ignoto vate_
+ _Teceu_
+
+Ainda que os Psalmos se attribuam geralmente a David, ha ácerca disso muita
+incertesa, e o que, ao menos, parece indubitavel é que alguns lhe não
+pertencem, por fallarem no captiveiro de Babylonia, e trazerem allusões a
+épochas mais recentes. Verdade é que se chegou a crer heretica semelhante
+opinião; mas os Padres gregos, e com elles Sancto Hilario, e S. Jeronymo,
+julgam absurdo attribui-los todos a David. Esdras voltando do captiveiro
+foi quem reuniu estes hymnos, e nessa collecção é provavel fizesse entrar
+todas os poesias hebraicas deste genero lyrico e religioso.
+
+
+[Pag. 16.]
+
+ _E ao esconder-se o sol entre as montanhas
+ De Bethoron_
+
+Bethoron inferior, cidade situada perto de Gadara ou Gazara e de Bethel, e
+todas ellas em uma serie de montanhas no extremo da Tribu de Ephraim, ao
+occidente de Jerusalem. Cumpre não a confundir com a outra Bethoron ou
+Bethra, a quatro milhas de Jerusalem para o norte, no caminho de Sichem ou
+Naplusa.
+
+
+[Pag. 16.]
+
+_O Psalmo._
+
+Commota est, et contremuit terra: fundamenta montium conturbata sunt, et
+commota sunt, quoniam iratus est eis.
+
+Ascendit fumus in ira ejus: et ignis à facie ejus exarsit: carbones
+succensi sunt ab eo.
+
+Inclinavit coelos et descendit: et caligo sub pedibus ejus.
+
+Et ascendit super cherubim, et volavit: volavit super pennas ventorum.
+
+_Psalm. 17--v. 8--9--10--11._
+
+Quò ibo a spiritu tuo? et quò à facie tua figiam?--
+
+Si ascendero in coelum, tu illic es: si descendero in infernum, ades.
+
+Si sumpsero pennas meas diluculo, et habitavero in extremis maris:
+
+Etenim illuc manus tua deducet me: et tenebit me dextera tua.
+
+Et dixi: Forsitan tenebrae conculcabunt me: et nox illuminatio mea in
+deliciis meis.
+
+Quia tenebrae non obscurabuntur a te, et nox sicut dies illuminabitur:
+sicut tenebrae ejus, sicut et lumen ejus.
+
+_Psalm. 138--v. 7--8--9--10--11--12._
+
+------- arcum suum tetendit et paravit illum.
+
+Et in eo paravit vasa mortis, sagittas suas ardentibus effecit.
+
+_Psalm. 7--v. 13--14._
+
+
+[Pag. 18.]
+
+ _------ e um som soturno
+ Do orgam partiu-o:_
+
+O orgam é um instrumento propriissimo para acompanhar os hymnos religiosos.
+Os protestantes, apartando-se da communhão romana, e fazendo voltar o culto
+quasi á simplicidade primitiva, conservaram nos seus templos este
+instrumento, cujos sons melodiosos, e ao mesmo tempo severos, se adaptam
+tão bem ás idéas que suscitam os cantos da Igreja. O primeiro orgam, que se
+viu no occidente da Europa, foi o que mandou, em 758, Constantino
+Copronymo, imperador de Constantinopola, a Pepino, pae de Carlos-Magno.
+Depois o seu uso se tomou quasi exclusivo nos templos.
+
+
+[Pag. 18.]
+
+ _Modulando o Nebel_
+
+O _Nebel_, que os gregos traduzem por _Psalterion_ ou _Nablon_, era entre
+os hebreus um instrumento proprio da musica religiosa, como entre os
+christãos o orgam. A sua fórma triangular, e o ser instrumento de cordas,
+fez com que na Vulgata se vertesse a palavra hebraica _Nebel_, umas vezes
+por lyra, outras por cythara, sem ser nenhuma das duas cousas. Veja-se a
+Dissertação de Calmet ácerca da musica dos hebreus.
+
+
+[Pag. 18.]
+
+ _Do immundo Stellio_
+
+O Stellio é o lagarto da 1.ª especie, ou a salamandra de Lacepede.
+_Stellio_ manibus nititur et moratur in aedibus regis. _Prov. 30 v.
+28_--Migale, et chamaeleon, et _stellio_, et lacerta, et talpa. _Levit.
+11--v. 30._
+
+
+[Pag. 19.]
+
+ _Nas margens do Kedron a rãa grasnando_
+
+A torrente de _Kedron_, que passa entre Jerusalem e o monte Olivete, ao
+oriente da cidade, sécca inteiramente no estio, e no hynverno as suas aguas
+são torvas e avermelhadas. D'ahi o seu nome, que sôa como--_torrente da
+tristeza_--. Alguem lhe chamou--_torrente dos cedros_, tomando a palavra
+hebraica _Kedron_ pelo plural grego _Kedron_.
+
+
+[Pag. 19.]
+
+ _O vate de Anathoth_
+
+Jeremias era natural de Anathoth cidade sacerdotal na Tribu de
+Benjamim.--Verba Jeremiae filii Helciae, de sacerdotibus qui fuerunt in
+Anathoth, in terra Benjamim. _Jer. 1--1._
+
+
+[Pag. 19.]
+
+ _Entre o povo infiel, de Eloha em nome_
+
+_Eloha_ ou _Elah_--Nome de Deus em hebraico, ou antes chaldaico, e palavra
+assás commum na Biblia. O auctor do Genesis usa do plural _Elohim_ ou
+_Elahim_ para significar, ora o _Deus uno_, ora os deuses dos pagãos.
+Consulte-se Volney, _Recherches sur l'histoire ancienne._ Cap. 17.
+
+
+[Pag. 19.]
+
+ _Inspirára Moysés_
+
+Allusão ao cantico depois da passagem do mar roxo.
+
+
+[Pag. 20.]
+
+_A Lamentação._
+
+Quomodo sedet sola civitas plena populo!--Facta est quasi vidua Domina
+Gentium: princeps provinciarum facta est sub tributo.
+
+Plorans ploravit in nocte, et lachrymae ejus in maxillis ejus: non est qui
+consoletur eam ex omnibus caris ejus: omnes amici ejus spreverunt eam, et
+facti sunt ei inimii.
+
+Viae Sion lugent, eò quod non sint, qui veniant ad solemnitatem: omnes
+portae ejus destructae: sacerdotes ejus gementes: virgines ejus squallidae,
+et ipsa oppressa amaritudine.
+
+_Threni c. 1--v. 1--2--4._
+
+Omnis populus ejus gemens, et quaerens panem: dederunt pretiosa quaeque
+piro cibo ad refocilandum animam.
+
+_C. 1--v. 11._
+
+A Egypto dedimus manum, et Assyriis ut saturaremur pane.
+
+_Oratio Jerem. 6._
+
+Jacuerunt in terra foris puer, et senex.
+
+_Threni c.--v. 21._
+
+Manus mulierum misericordium coxerunt filios suos: facti sunt cibus earum
+in contritione filiae populi mei.
+
+_Thren. 4.--v. 10._
+
+Recordare Domine quid acciderit nobis: intuere et respice opprobrium
+nostrum.
+
+Haereditas nostra versa est ad alienos; domus nostrae ad extraneos.
+
+Servi dominati sunt nostri: non fuit qui redimeret de manu eorum.
+
+Quare in perpetuum oblivisceris noatri? derelinques nos in longitudine
+dierum?
+
+_Orat. Jer. v. 1--2--8--10._
+
+
+[Pag. 22.]
+
+ _Bem como aquella que atterrou um ímpio._
+
+Baltasar rex facit grande convivium optimatibus suis mille; et unusquisque
+secundùm suam bibebat aetatem.
+
+Praecepit ergo jam temulentus ut afferrentur vasa aurea et argentea, quae
+asportaverat Nabuchodonosor pater ejus de templo, quod fuit in Jerusalem,
+ut biberent in eis rex et optimates ejus, uxoresque ejus, et concubinae.
+Tunc allata sunt vasa aurea et argentea, quae asportaverat de templo, quod
+fuerat in Jerusalem: et biberunt in eis rex, et optimates ejus, uxores et
+concubinae illius. Bibebant vinum el laudabant deos suos aureos, et
+argenteos, aereos, terreos, ligneosque et lapideos. In eadem hora
+aparuerunt digiti, quasi manus hominis scribentis contra candelabrum in
+superficie parietis aulae regiae: et rex aspiciebat articulos manus
+scribentis. Tunc facies regis commutata est, et cogitationes ejus
+conturbabant eum; et compages renum ejus solvebantur, et genua ejus ad se
+invicem collidebantur. Haec est autem scriptura, quae digesta est: _Mane_,
+_Thecel_, _Phares_. Et haec est interpretatio sermonis: _Mane_: numeravit
+Deus regnum tuum et complevit illud. _Thecel_: appensus es in statera, et
+inventus es minus habens. _Phares_: divisum est regnum tuum, et datum est
+Medis, et Persis.
+
+_Danielis Proph. c. 5--v. 1 a 6--25 a 28._
+
+
+[Pag. 23.]
+
+ _Hoje, campo de lagrymas, só cria
+ Humilde musgo de escalvados cerros._
+
+Varios passos, cem vezes citados, de Tacito e de outros escriptores
+gravissimos da antiguidade, nos provam que a Judea foi um paiz feracissimo.
+Os viajantes modernos no-la descrevem como uma região arida e inculta. O
+despotismo, que ha seculos tem opprimido a Syria, e a rapacidade dos
+arabes; são em grande parte causa da aniquilação da agricultura na
+Palestina; porém a sua esterilidade não se póde attribuir, por certo, a uma
+causa politica. Os sectarios do Crucificado não podem deixar de vêr neste
+phenomeno os effeitos da maldicção de Deus sobre a terra que bebeu o sangue
+do _Filho do Homem_.
+
+
+[Pag. 23.]
+
+ _Ide vós a Mambré:_
+
+O valle de Mambré estava situado juncto de Kariath-Arbé [Hebron] na tribu
+de Judah, e ao Meio-dia de Jerusalem. O carvalho ou terebintho de Abrahão,
+que, segundo o testemunho de S. Jeronymo, ainda existia no tempo de
+Constantino, o tornava notavel. Ácerca desta arvore célebre existem muitas
+tradições entre os Judeus; e até para os christãos dos primeiros seculos
+era o valle de Mambré um logar de devoção e romagem. Sozomeno nos descreve
+o _Valle de Terebintho_ como um sitio de festivas reuniões, e foi a sua
+narração quem suscitou este pedaço de Poema.
+
+
+[Pag. 23.]
+
+ _na primavera
+ Vinham os moços adornar-lhe o tronco_
+
+Aqui [em Mambré] ha um logar que hoje chamam Terebintho, distante de
+Chebron, que lhe fica ao meio-dia, 15 stadios, e de Jerusalém quasi
+250.--Os habitantes deste sitio, no tempo do estio, fazem uma feira a que
+concorrem os vizinhos do valle, e ainda povos mais remotos, como os
+Palestinos, os Arabes, e os Phenicios. _Sozom. Histor. Eccles._
+
+
+[Pag. 24.]
+
+ _No Golgotha plantada a cruz clamára_
+
+O monte Golgotha ou Calvario foi o logar onde crucificaram J. C.--Esta
+palavra significa: _Logar onde repousam os craneos dos mortos._
+
+
+[Pag. 24.]
+
+ _No Moriah sentou-se:_
+
+O monte Moriah, onde estava o templo de Salomão, levantava-se no meio de
+Jerusalem, e ficava-lhe ao norte o monte Sion. Diz-se que neste logar
+estivera Abrahão para sacrificar seu filho.--_Calmet Diction._
+
+
+
+
+A HARPA DO CRENTE.
+
+TENTATIVAS POETICAS
+
+PELO
+
+AUCTOR
+
+DA
+
+VOZ DO PROPHETA.
+
+
+SEGUNDA SERIE.
+
+
+LISBOA--1838
+
+NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.
+
+_Rua direita do Arsenal--n.º 55._
+
+
+
+
+*A Arrabida.*
+
+
+A RODRIGO DA FONSECA MAGALHÃES,
+
+ORNAMENTO DA TRIBUNA PORTUGUEZA,
+
+ _Em testemunho da sincera amizade,_
+
+ Offerece o Auctor.
+
+
+
+
+A Arrabida.
+
+[1830.]
+
+
+ I.
+
+ Salve, oh valle do sul, saudoso e bello!
+ Salve, oh terra de paz, deserto sancto,
+ Onde não chega o sussurrar das turbas!
+ Sólo sagrado a Deus, podesse o bardo
+ Ser um dos teus, e não voltar ao mundo!
+
+
+ II.
+
+ Suspira o vento no alamo frondoso;
+ As aves soltam matutino canto;
+ Late o lebreu na encosta, e o mar sussurra
+ Nos rochedos da concava bahia:
+ Eis o ruido de ermo!--Ao longe o negro,
+ Insondado oceano, e o ceu ceruleo
+ Se abraçam no horizonte: immensa imagem
+ Da eternidade e do infinito, salve!
+
+
+ III.
+
+ Oh, como surge magestosa e bella,
+ Com viço da creação, a naturesa,
+ No solitario valle!--E o leve insecto,
+ E a relva, e os matos, e a fragrancia pura
+ Das boninas da encosta estão contando
+ Mil saudades de Deus, que os ha lançado,
+ Com mão profusa, no regaço ameno
+ Da solidão, onde se esconda o justo.
+
+ E lá campeam no alto das montanhas
+ Os escalvados pincaros, severos,
+ Quaes guardadores de um logar que é sancto:
+ Atalaias que ao longe o mundo observam,
+ Cerrando até o mar o ultimo abrigo
+ Da crença viva, da oração piedosa,
+ Que se ergue a Deus de labios innocentes.
+
+ Sobre esta scena o sol verte em torrentes
+ Da manhan o clarão; a brisa esvae-se
+ Por esses matos de alecrim florído,
+ Embalsamando o ar de brando aroma:
+ O rocío da noite á rosa agreste
+ No seio derramou frescor suave,
+ E 'inda existencia lhe dará um dia!
+
+ Formoso ermo do sul, outra vez, salve!
+
+
+ IV.
+
+ Negro, esteril rochedo, que contrastas,
+ Na mudez tua, o placido sussurro
+ Das arvores do valle, que verdecem,
+ Ricas d'encantos, co'a estação propicia;
+ Suavissimo aroma, que manando
+ Das variegadas flores, derramadas
+ Na sinuosa encosta da montanha,
+ Do altar da solidão subindo aos ares,
+ És digno incenso ao Creador erguido;
+ Livres aves, vós filhas da espessura,
+ Que só teceis da natureza os hymnos;
+ O que crê, o cantor, que foi lançado,
+ Estranho ao mundo, no bulicio delle,
+ Vem saudar-vos, sentir um goso puro,
+ Dos homens esquecer paixões e opprobrio,
+ E vêr, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
+ O sol, e uma só vez pura saudar-lha.
+
+ Comvosco eu sou maior: mais longe a mente
+ Pelos seios dos céus se immerge livre,
+ E se desprende de mortaes memorias
+ Na solidão solemne, onde, incessante,
+ Em cada pedra, em cada flor se escuta
+ Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
+ A dextra sua em multiforme quadro.
+
+
+ V.
+
+ Escalvado penedo, que repousas
+ Lá no cimo do monte, ameaçando
+ Ruina ás matas de alecrim e murta,
+ Que nesta encosta ondeam, meneadas
+ Pelo vento do sul, foste já lindo,
+ Já te cubriram cespedes virentes;
+ Mas o tempo voou, e nelle involta
+ A tua formosura: as grossas chuvas,
+ Despedidas das nuvens, se arrojaram
+ Sobre ti, oh rochedo, arrebatando
+ A terra e o viço, que te ornava o cimo.
+ Eis-te nú esqueleto!--o sol queimou-te:
+ Tua alvura passou: tão negro és hoje,
+ Quanto de mar erguido escuras vagas.
+
+ Cáveira da montanha, ossada immensa,
+ É tua campa o ceu: sepulchro o valle
+ Um dia te será. Quando sentires
+ Rugir com som medonho a terra ao longe,
+ Na expansão dos volcões, e o mar bramindo,
+ Lançar á praia vagalhões cruzados;
+ Tremer-te a larga base, e sacudir-te
+ Do vasto dorso, o fundo deste valle
+ Te váe servir de tumulo: e os carvalhos
+ Do mundo primogenitos, e os freixos,
+ Arrastados por ti lá da collina,
+ Comtigo hão-de jazer.--De novo a terra
+ Te cubrirá o dorso sinuoso:
+ Outra vez sobre ti nascendo os lyrios,
+ Do seu puro candor hão-de adornar-te:
+ E tu, ora medonho, e nú, e triste,
+ Ainda bello serás, vestido e alegre.
+
+ Mais que o homem feliz!--Quando eu no valle
+ Dos tumulos cair; quando uma pedra
+ Os ossos me esmagar, se me fôr dada,
+ Não mais reviverei: não mais meus olhos
+ Verão o pôr do sol, em dia estivo,
+ Se em turbilhões de purpura, que ondeam
+ Pelo extremo dos céus sobre o occidente,
+ Váe provar que um Deus ha a estranhos povos,
+ E alem das ondas tremulo sumir-se;
+ Nem, quando, lá do cimo das montanhas,
+ Com torrentes de luz inunda as veigas:
+ Nem mais verei o refulgir da lua
+ No irrequieto mar, na paz da noite,
+ Por horas em que véla o criminoso,
+ A quem íntima voz rouba o socego,
+ E em que o justo descança, ou, solitario,
+ Ergue ao Senhor um hiymno harmonioso.
+
+
+ VI.
+
+ Hontem, sentado n'um penhasco, e perto
+ Das aguas, então quêdas, do oceano,
+ Eu tambem o louvei, sem ser um justo:
+ E meditei--e a mente extasiada
+ Deixei correr pela amplidão das ondas.
+
+ Como abraço materno, era suave
+ A aragem fresca do caír das trévas,
+ Em quanto, involta em gloria, a clara lua
+ Sumia em seu fulgor milhões d'estrellas.
+ Tudo calado estava: o mar somente
+ As harmonias da creação soltava,
+ Em seu rugido; e o freixo do deserto
+ Se agitava, gemendo e murmurando,
+ Ante o sopro de oeste:--alli dos olhos
+ O pranto me correu, sem que o sentisse,
+ E aos pés de Deus se derramou minha alma.
+
+
+ VII.
+
+ Oh, que viesse o que não crê, comigo,
+ Á vecejante Arrabida, de noite,
+ E se assentasse aqui sobre estas fragas,
+ Escutando o sussurro incerto e triste
+ Das movediças ramas, que povoa
+ De saudade e de amor nocturna brisa;
+ Que visse a lua, o espaço oppresso de astros,
+ E ouvisse o mar soando:--elle chorára,
+ Qual eu chorei, as lagrymas do goso,
+ E adorando o Senhor detestaria
+ De uma sciencia van seu vão orgulho.
+
+
+ VIII.
+
+
+ É aqui neste valle, ao qual não chega
+ Humana voz e o tumultuar das turbas,
+ Onde o nada da vida sonda livre
+ O coração, que busca ir abrigar-se
+ No futuro, e debaixo do amplo manto
+ Da piedade de Deus: aqui serena
+ Vem a imagem da campa, como a imagem
+ Da patria ao desterrado: aqui, solemne,
+ Brada a montanha, memorando a morte.
+
+ Essas penhas, que, lá no alto da encosta,
+ Negras, despidas, dormem solitarias,
+ Parecem imitar da sepultura
+ O aspecto melancholico, e o repouso
+ Tão desejado do que em Deus confia.
+ Bem semelhante á paz, que se ha sentado
+ Por seculos, alli, nas serranias,
+ É o silencio do adro, onde reunem
+ Os cyprestes e a cruz o céu e a terra.
+
+ Como tu vens cercado de esperança,
+ Para o innocente, oh placido sepulchro!
+ Juncto das tuas bordas pavorosas
+ O perverso recúa horrorisado:
+ Após si volve os olhos; na existencia
+ Deserto árido só descobre ao longe,
+ Onde a virtude não deixou um trilho.
+ Mas o justo chegando á meta extrema,
+ Que separa de nós a eternidade,
+ Transpoem-a sem temor, e em Deus exulta.
+ O infeliz e o feliz lá dormem ambos,
+ Tranquillamente: e o trovador mesquinho,
+ Que peregrino vagueou na terra,
+ Sem encontrar um coração de fogo,
+ Que o entendesse, a patria de seus sonhos,
+ Ignota, por lá busca; e quando as eras
+ Vierem juncto ás cinzas collocar-lhe
+ Tardios louros, que escondêra a inveja,
+ Elle não erguerá a mão mirrada,
+ Para os cingir na regelada fronte.
+ Justiça, gloria, amor, saudade, tudo,
+ Ao pé da sepultura, é som perdido
+ De harpa eolia esquecida em brenha ou selva:
+ O despertar um pae, que saborea,
+ Entre os braços, da morte o extremo somno,
+ Já não é dado ao filial suspiro:
+ Em vão o amante, alli, da amada sua
+ De rosas sobre a c'roa debruçado,
+ Rega de amargo pranto as murchas flores
+ E a fria pedra: a pedra é sempre fria,
+ E para sempre as flores se murcharam,
+
+
+ IX.
+
+ Bello ermo! eu hei-de amar-te, em quanto est'alma,
+ Aspirando o futuro além da vida,
+ E um halito dos ceus, gemer, atada
+ Á columna do exilio, a que se chama,
+ Em lingua vil e mentirosa, o mundo.
+ Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filho
+ Dos sonhos meus. A imagem do deserto
+ Guarda-la-hei no coração, bem juncto
+ Com minha fé, meu unico thesouro.
+
+ Qual pomposo jardim de verme illustre,
+ Chamado rei ou nobre, ha-de comtigo
+ Comparar-se, oh deserto?--Aqui não cresce
+ Em vaso de alabastro a flor captiva,
+ Ou arvore educada, por mão do homem,
+ Que lhe diga: és escrava: e erga um ferro,
+ E lhe decepe os troncos. Como é livre
+ A vaga do oceano, é livre no ermo
+ A bonina rasteira, e o freixo altivo:
+ Não lhes diz: nasce aqui, ou lá não cresças:
+ Humana voz. Se baqueou o freixo,
+ Deus o mandou; se a flor pendida murcha,
+ É que o rocio não desceu de noite,
+ E da vida o Senhor lhe nega a vida.
+
+ Ceu livre, terra livre, e livre a mente,
+ Paz íntima, e saudade, mas saudade
+ Que não doe, que não mirra, e que consola
+ São as riquezas do ermo, onde sorriem
+ Das procellas do mundo os que o deixaram.
+
+ Ahi, na branda encosta, hontem de noite,
+ Alvejava por entre as azinheiras
+ Do solitario a habitação tranquilla:
+ E eu vagueei por lá: patente estava
+ O pobre alvergue do eremita humilde,
+ Onde jazia o filho da esperança,
+ Sob as azas de Deus, á luz dos astros,
+ Em leito, duro sim, não de remorsos,
+ Oh, com quanto socego o bom do velho
+ Dormia!--A leve aragem lhe ondeava
+ As raras cãas na fronte, onde se lia
+ A bella historia de passados annos.
+ De alto choupo atravez passava um raio
+ Da lua--astro de paz, astro que chama
+ Os olhos para o ceu, e a Deus a mente--
+ E em luz pallida as faces lhe banhava:
+ E talvez neste raio o Pae celeste
+ Da patria eterna lhe enviava a imagem,
+ Que o sorriso dos labios lhe fugia,
+ Como se um sonho de ventura e gloria
+ Na terra de antemão o consolasse.
+ E eu comparei o solitario obscuro
+ Ao inquieto filho das cidades;
+
+ Comparei o deserto silencioso
+ Ao perpétuo ruido que sussurra
+ Pelos palacios do abastado e nobre,
+ Pelos paços dos reis; e condoí-me
+ Do cortesão suberbo, que só cura
+ De honras, haveres, gloria, que se compram
+ Com maldicções e perennal remorso.
+ Gloria!--A sua qual é?--Pelas campinas,
+ Cubertas de cadaveres, regadas
+ De negro sangue, elle segou seus louros;
+ Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva,
+ Ao som do choro da viuva, e do orpham;
+ Ou, dos sustos senhor, em seu delirio,
+ Os homens--seus irmãos--flagella e opprime.
+ Lá o filho do pó se julga um nume,
+ Porque a terra o adorou: o desgraçado
+ Pensa, talvez, que o verme dos sepulchros
+ Nunca se ha-de chegar, para traga-lo,
+ Ao banquete da morte, imaginando
+ Que uma lagem de marmore, que esconde
+ O cadaver do grande, é mais duravel
+ Do que esse chão sem inscripção, sem nome,
+ Por onde o oppresso, o misero, procura
+ O repouso, e se atira aos pés do throno
+ Do Omnipotente, a demandar justiça
+ Contra os fortes do mundo--os seus tyrannos.
+
+
+ X.
+
+ Oh cidade, cidade, que trasbordas
+ De vicios, de paixões, e de amarguras!
+ Tu lá estás, na tua pompa involta,
+ Suberba prostituta, alardeando
+ Os theatros, e os paços, e o ruido
+ Das carroças dos nobres, recamadas
+ De ouro e prata, e os praseres de uma vida
+ Tempestuosa, e o tropear contínuo
+ Dos férvidos ginetes, que alevantam
+ O pó e o lodo cortesão das praças;
+ E as gerações corruptas de teus filhos
+ Lá se revolvem, qual montão de vermes
+ Sobre um cadaver putrido!--Cidade,
+ Branqueado sepulchro, que misturas
+ A opulencia, a miseria, a dôr e o goso,
+ Honra, infamia, pudor, e impudicicia,
+ Ceu e inferno, que és tu?--Escarneo ou gloria
+ Da humanidade?--O que o souber que o diga!
+
+ Bem negra avulta aqui, na paz do valle,
+ A imagem desse povo, que reflue
+ Das moradas á rua, á praça, ao templo,
+ Que a noite sorve, e que vomita o dia,
+ Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre,
+ Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;
+ Absurdo mixto de baixesa extrema
+ E de extrema ousadia; vulto enorme,
+ Ora aos pés de um vil despota estendido,
+ Ora surgindo, e arremessando ao nada
+ As memorias dos seculos que foram;
+ E depois sobre o nada adormecendo.
+
+ Vê-lo, rico de opprobrio, ir assentar-se
+ Em joelhos, nos atrios dos tyrannos,
+ Onde, entre o lampejar de armas de servos,
+ O servo popular adora um tigre?
+ Esse tigre é o idolo do povo!
+ Saudae-o; que elle o manda: abençoae-lhe
+ O ferreo sceptro: ide folgar em roda
+ De cadafalsos, povoados sempre
+ De victimas illustres, cujo arranco
+ Seja como harmonia, que adormente,
+ Em seus terrores, o senhor das turbas.
+ Passae depois. Se a mão da Providencia
+ Esmigalhou a fronte á tyrannia;
+ Se o déspota caíu, e está deitado
+ No lodaçal da sua infamia, a turba
+ Lá vai buscar o sceptro dos terrores,
+ E diz--é meu--; e assenta-se na praça;
+ E involta em roto manto, e julga e reina.
+ Se um ímpio, então, na affogueada boca
+ De volcão popular sacode um facho,
+ Eis o incendio que muge, e a lava sobe,
+ E referve, e trasborda, e se derrama
+ Pelas ruas além: clamor retumba
+ De anarchia impudente, e o brilho de armas
+ Pelo escuro transluz, como um presagio
+ De assolação; e se amontoam vagas
+ Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo;
+ Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnos,
+ Cava fundo da Patria a sepultura,
+ Onde, abraçando a gloria do passado
+ E do futuro a ultima esperança,
+ As esmaga comsigo, e ri morrendo.
+
+ Tal és cidade, licenciosa ou serva!
+ Outros louvem teus paços sumptuosos,
+ Teu ouro, teu poder:--sentina impura
+ Da corrupção, eu não serei teu bardo!
+
+
+ XI.
+
+ Cantor da solidão, eu me hei sentado
+ Juncto do verde cespede do valle;
+ E a paz de Deus do mundo me consola.
+
+ Avulta aqui, e alveja, entre o arvoredo,
+ Um pobre conventinho. Homem piedoso
+ O alevantou ha seculos, passando,
+ Como orvalho do ceu, por este sitio,
+ De virtudes depois tão rico e fertil.
+ Como um pae de seus filhos rodeado,
+ Pelos matos do outeiro o vão cercando
+ Os tugurios de humildes eremitas,
+ Onde o cilicio e a compuncção apagam
+ Da lembrança de Deus passados erros
+ Do peccador, que reclinou a fronte
+ Penitente no pó. O sacerdote
+ Dos remorsos lhe ouviu as amarguras;
+ E perdoou-lhe, e consolou-o em nome
+ Do que espirando perdoava, o Justo
+ Que entre os humanos não achou piedade.
+
+ Religião! do misero conforto,
+ Abrigo extremo de alma, que ha mirrado
+ O longo agonisar de uma saudade,
+ Da deshonra, do exilio, ou da injustiça,
+ Tu consolas aquelle, que ouve o verbo,
+ Que renovou o corrompido mundo,
+ E que mil povos pouco a pouco ouviram.
+ Nobre, plebeu, dominador, ou servo,
+ O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,
+ Da desgraça no dia ajoelharam
+ No limiar do solitario templo.
+ Ao pé desse portal, que veste o musgo,
+ Encontrou-os chorando o sacerdote,
+ Que da serra descia á meia-noite,
+ Pelo sino das preces convocado:
+ Ahi os viu ao despontar do dia,
+ Sob os raios do sol, ainda chorando.
+ Passados mezes, o burel grosseiro,
+ O leito de cortiça, e a fervorosa
+ E contínua oração foram cerrando
+ Nos corações dos miseros as chagas,
+ Que o mundo sabe abrir, mas que não cura.
+ Aqui, depois, qual halito suave
+ Da primavera, lhes correu a vida,
+ Até sumir-se no adro do convento,
+ Debaixo de uma lagem tosca e humilde,
+ Sem nome, nem palavra, que recorde
+ O que a terra abrigou no somno extremo.
+
+ Eremiterio antigo, oh se podesses
+ Dos annos que lá vão contar a historia;
+ Se ora, á voz do cantor, possivel fosse
+ Transsudar desse chão, gelado e mudo,
+ O mudo pranto, em noites dolorosas,
+ Por naufragos do mundo derramado
+ Sobre elle, e aos pés da cruz!... se vós podesseis,
+ Broncas pedras, fallar, o que dirieis!
+
+ Quantos nomes mimosos da ventura,
+ Convertidos em fabula das gentes,
+ Despertariam o eccho das montanhas,
+ Se aos negros troncos do sobreiro antigo
+ Mandasse o Eterno sussurrar a historia
+ Dos que vieram desnudar-lhe o cepo,
+ Para um leito formar, onde velassem
+ Da magoa, ou do remorso as longas noites!
+ Aqui veio talvez buscar asylo
+ Um poderoso, outr'ora anjo da terra,
+ Despenhado nas trévas do infortunio:
+ Aqui, talvez, gemeu o amor trahido,
+ Ou pela morte convertido em cancro
+ De infernal desespero: aqui soaram
+ Do arrependido os ultimos gemidos,
+ Depois da vida derramada em gosos,
+ Depois do goso convertido em tedio.
+ Mas quem foram?--Na terra, onde deixaram
+ Suas vestes mortaes, nenhum vestigio
+ Resta dos nomes seus.--E isso que importa,
+ Se Deus os viu; se as lagrymas dos tristes
+ Elle contou, para as pagar com gloria?
+
+ Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda,
+ Que dos montes além conduz ao valle,
+ Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,
+ Como um pharol de vida, em mar de escolhos:
+ Ao christão infeliz acolhe no ermo,
+ E consolando-o, diz-lhe: a patria tua
+ É lá no ceu:--abraça-te comigo:
+ Juncto della esses homens, que passaram
+ Acurvados na dôr, as mãos ergueram
+ Para o Deus, que perdoa, e que é conforto
+ Dos que aos pés deste symbolo da esp'rança
+ Vem derramar seu coração afflicto:
+ É do deserto a historia a cruz e a campa;
+ E sobre tudo o mais pousa o silencio.
+
+
+ XII.
+
+ Feliz da terra, os monges não maldigas;
+ Do que em Deus confiou não escarneças!--
+ Folgando segue a trilha, que ha juncado,
+ Para teus pés, de flores a fortuna,
+ E sobre a morta crença, em paz descança.
+ Que mal te faz, que goso vae roubar-te
+ O que ensanguenta os pés nas bravas urzes,
+ E sobre a fria pedra encosta a fronte?
+ Que mal te faz uma oração erguida,
+ Nas solidões, por voz sumida e frouxa,
+ E que, subindo aos céus, só Deus escuta?
+ Oh, não insultes lagryimas alheias,
+ E deixa a fé ao que não tem mais nada!...
+
+ E se estes versos te contristam--rasga-os.
+ Teus menestreis te venderão seus hymnos,
+ Nos banquetes opiparos, em quanto
+ O negro pão repartirá comigo,
+ Seu trovador, o pobre anachoreta,
+ Que não te inveja as ditas, como aos bardos
+ Do prazer dissoluto eu não invejo
+ Essas crôas, que ás vezes cingem frontes,
+ Onde, por baixo, se escreveu--_Infamia!_--
+
+
+
+
+*A Voz.*
+
+
+
+
+A Voz.
+
+
+ É tão suave ess'hora,
+ Em que nos foge o dia,
+ E em que suscita a lua
+ Das ondas a ardentia;
+
+ Se em alcantís marinhos
+ Nas rochas assentado,
+ O trovador medita,
+ Em sonhos enleiado!
+
+ O mar azul se encrespa
+ Co' a vespertina brisa,
+ E no casal da serra
+ A luz já se divisa.
+
+ E tudo em roda cala,
+ Na praia sinuosa,
+ Salvo o som do remanso,
+ Quebrando em furna algosa.
+
+ Alli folga o poeta
+ Nos desvarios seus;
+ E nessa paz que o cerca
+ Bemdiz a mão de Deus.
+
+ Mas despregou seu grito
+ A alcyone gemente,
+ E nuvem pequenina
+ Ergueu-se no occidente;
+
+ E sóbe, e cresce, e immensa,
+ Nos ceus negra fluctua,
+ E o vento das procellas
+ Já varre a fraga nua.
+
+ Turba-se o vasto oceano,
+ Com horrido clamor:
+ Do vagalhão nas ribas
+ Expira o vão furor.
+
+ E do poeta a fronte
+ Cubriu véu de tristesa:
+ Partiu-se á luz do raio
+ Seu hymno á naturesa.
+
+ Feia alma lhe vagava
+ Um negro pensamento,
+ Da alcyone ao gemido,
+ Ao sibillar do vento.
+
+ Era blasphema idéa,
+ Que triumphava em fim:
+ Mas voz soou ignota,
+ Que lhe dizia assim:
+
+ "Cantor, esse queixume
+ Da nuncia das procellas,
+ E as nuvens, que te roubam
+ Myriadas de estrellas;
+
+ E o fremito dos euros,
+ E o estourar da vaga,
+ Na praia, que revolve,
+ Na rocha, onde se esmaga;
+
+ Onde espalhava a brisa
+ Sussurro harmonioso,
+ Em quanto do ether puro
+ Descia o sol radioso,
+
+ Typo da vida do homem,
+ É do universo a vida;
+ Depois do afan repouso,
+ Depois da paz a lida.
+
+ Se ergueste a Deus um hymno
+ Em dia de amargura;
+ Se te amostraste grato
+ Nos dias de ventura,
+
+ Seu nome não maldigas,
+ Quando se turba o mar:
+ No Deus, que é pae, confia,
+ Do raio ao scintilar.
+
+ Elle o mandou:--a causa
+ Disso o universo ignora--
+ E mudo está:--seu nume,
+ Como o universo, adora!"
+
+ * * * * *
+
+ Oh sim: torva blasphemia
+ Não manchará seu canto!
+ Brama procella embora;
+ Pese sobre elle o espanto;
+
+ Que de su' harpa os hymnos
+ Derramará o bardo,
+ Aos pés de Deus, qual oleo
+ De recendente nardo.
+
+_Leça da Palmeira 1835_
+
+
+
+
+*A Victoria e a Piedade.*
+
+
+
+
+A Victoria e a Piedade.
+
+
+ Eu nunca fiz soar meu canto humilde
+ Nos paços dos senhores:
+ Eu jámais consagrei hymno mentido
+ Da terra aos oppressores.
+ Mal haja o trovador que vae sentar-se
+ Á porta do abastado,
+ O qual com ouro paga a alhêa infamia,
+ O cantico aviltado.
+ O filho das canções, da gloria o bardo
+ Não manchou o alaude;
+ O ingenho seu ha consagrado á Patria;
+ Seu canto é da virtude.
+ Ingenho!--dom dos ceus, consolo ao triste
+ Nos dias de afflicção,
+ Qual solto vento em areal deserto,
+ Livres teus cantos são.
+ No despontar da vida, do infortunio
+ Murchou-me o sopro ardente:
+ Pela terra natal, na flor dos dias,
+ Eu suspirei ausente.
+ O solo do desterro, ah, quanto ingrato
+ É para o foragido;
+ Ennevoado o ceu; arido o prado;
+ O rio adormecido!
+ Eu lá chorei, na idade da esperança,
+ Da patria a dura sorte:
+ Esta alma encaneceu;--e antes de tempo
+ Ergueu hymnos á morte.
+ E que infeliz ha hi, a quem não ria
+ Da sepultura a imagem?
+ Alli é que se afferra o porto amigo,
+ Depois de ardua viagem.
+
+ Mas, quando o pranto me queimava as faces,
+ O pranto da saudade,
+ Deus escutou dos profugos as preces,
+ Teve de nós piedade.
+ Armas!--bradaram do desterro os filhos:
+ Bem-disse-os o Senhor:
+ E vencer ou morrer juncto com elles
+ Jurou o trovador.
+ Pelas vagas do mar correndo affoutos,
+ Á gloria nos votámos;
+ E, nos campos nataes, pendão invicto
+ Os livres, nós, plantámos.
+ Fanatismo, ignorancia, odio fraterno;
+ De fogo céus toldados;
+ A fome, a peste, o mar avaro, as hostes
+ De innumeros soldados;
+ Um futuro sem raio de esperança;
+ Ouvir o vão lamento
+ De infante, a vida incerta conduzido
+ Por mão do soffrimento;
+ Comprar com sangue o pão, com sangue o fogo
+ Em regelado inverno;
+ Eis contra o que, por mezes de amargura,
+ Nos fez luctar o inferno.
+ Mas constancia e valor tudo ha vencido:
+ Ganhou-se eterna gloria;
+ E dos tyrannos apesar, colhemos
+ Os louros da victoria.
+
+ Teça-se, pois, o cantico subido
+ Aos fortes vencedores.
+ Livres somos!--Sumiram-se qual fumo
+ Da Patria os oppressores.
+ Sobre essa encosta, sobranceira aos campos,
+ De sangue ainda impuros,
+ Onde o canhão troou, por mais de um anno,
+ Contra invenciveis muros,
+ Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me;
+ Pedir inspirações
+ A amiga noite, o genio que me ensina
+ Suavissimas canções.
+
+ Reina em silencio a lua, o mar não brame,
+ Os ventos nem bafejam.....
+ Mas que ossadas são estas, que na encosta,
+ Aqui e alli, alvejam?
+ Esses?--São ossos vís, que não resguarda
+ O sussurrar da gloria;
+ Herdeiros só das maldicções das gentes,
+ Das maldicções da historia:
+ São os restos dos homens, que luctaram,
+ Valentes no seu crime,
+ Contra nós, contra a mão da Providencia,
+ Que os maus derruba e opprime.
+ Mas quem porá padrão que aos evos conte,
+ Seus feitos derradeiros!
+ Quem dirá--aqui dormem portuguezes;
+ Aqui dormem guerreiros--?
+ Quem virá na alta noite erguer por elles
+ Resas de salvação?
+ Quem ousará pedir para o vencido
+ Um ai de compaixão?
+ Virão, acaso, alevantar seus filhos
+ O pranto solitario,
+ Pelo que lhes legou de avós o nome
+ Involto em vil sudario?
+ Será a esposa, que lhes cubra as cinzas
+ Com oração piedosa?
+ Não!--nenhuma ousará dizer, chorando,
+ Eu fui do escravo esposa.
+ Será a amante?--Em tremedaes a pura
+ Rosa nascer não sabe:
+ A mais bella paixão não é de servos;
+ Vil goso só lhes cabe.
+ De mãe o amor tentára, unicamente,
+ Sobre os corpos gelados,
+ Vir chorar a esperança, em flor colhida,
+ De seus annos cansados:
+ Mas o espanto lh'o veda, e o rouco grito
+ Do rude velador;
+ Da noite os medos; de armas, já sem donos,
+ Nas trévas o esplendor.
+
+ Quem, pois, consolará gementes sombras,
+ Que ondeam juncto a mim?
+ Quem seu perdão da Patria implorar ousa,
+ Seu perdão de Elohim?
+ Eu:--o christão:--o trovador do exilio,
+ Contrario em guerra crua,
+ Mas que não sei cuspir o fel da affronta
+ Sobre uma ossada nua.
+ O misero pastor desceu dos montes,
+ Abandonando o gado,
+ Para as armas vestir, dos céus em nome,
+ Por phariseus chamado.
+ De um Deus de paz hypocritas ministros
+ Os tristes enganaram:
+ Foram elles, não nós, que estas caveiras
+ Aos vermes consagraram.
+ Maldicto sejas tu, monstro do inferno,
+ Que do Senhor no templo,
+ A virtude insultando, ao crime incitas,
+ Dás do furor o exemplo!
+ Sobre os restos da Patria, tu bem creste
+ Folgar de nosso mal,
+ E, sobre as cinzas de cidade illustre,
+ Soltar riso infernal.
+ Tu, no teu coração insipiente,
+ Disseste--Deus não ha!--
+ Elle existe, malvado!--e nós vencemos:
+ Treme.... que tempo é já.
+ Mas esses, cujos ossos espalhados
+ No campo da peleja
+ Jazem, exoram a piedade nossa;
+ Piedoso o livre seja!
+ Eu pedirei a paz dos inimigos,
+ Mortos como valentes,
+ Ao Deus nosso juiz, ao que distingue
+ Culpados de innocentes.
+ Perdoou, expirando, o Filho do Homem
+ Aos seus perseguidores:
+ Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes!
+ Perdão--oh vencedores!
+ Não insulteis o morto. Elle ha comprado
+ Bem caro o esquecimento,
+ Vencido adormecendo em morte ignobil,
+ Sem dobre ou monumento.
+ Que resta aos desditosos?--Somno eterno,
+ Da Patria a maldicção,
+ A justiça de Deus, tremenda, ignota,
+ E a humana execração.
+ Mas nós, saibamos esquecer os odios
+ De guerra lamentavel;
+ É generoso o forte, e deixa ao fraco
+ O ser inexoravel.
+ Oh, perdão para aquelle, a quem a morte
+ No seio agasalhou!
+ Elle é mudo:--pedi-lo já não póde;
+ O da-lo a nós deixou.
+ Da lei a espada puna o criminoso,
+ Que vê a luz dos céus:
+ O que legou á terra o pó da terra,
+ Julga-lo cabe a Deus.
+ E vós, meus companheiros, que não vistes
+ Nossa inteira victoria,
+ Não precisaes do trovador o canto;
+ Vosso nome é da historia.
+ Eu do vencido consolei a sombra;
+ Eu perdoei por vós.
+ Filhos da infamia os desgraçados eram;
+ Ricos de gloria nós.
+
+_Porto--Agosto de 1833_
+
+
+NOTA.
+
+Este fragmento, que segue, e que servirá para intelligencia dos precedentes
+versos, pertence a um livro já todo escripto no entendimento, mas de que só
+alguns capitulos estão trasladados ao papel. A guerra da restauração de
+1832 a 1833 é o acontecimento mais espantoso e mais poetico deste Seculo.
+Entre os soldados de D. Pedro havia poetas: militava comnosco o Auctor de
+_D. Branca_, do _Camões_, de _João Minimo_; o Sr. Lopes de Lima, e outros:
+mas a politica engodou todos os ingenhos, e levou-os comsigo. Os homens de
+bronze, os sete mil de Mindello não tiveram um cantor; e apenas eu, o mais
+obscuro de todos, salvei em minha humilde prosa, uma diminuta porção de
+tanta riquesa poetica. Oxalá que esse mesmo trabalho, ainda que de pouca
+valia, não fique esmagado e sumido debaixo do Leviathan da politica. Todos
+nós temos vendido a nossa alma ao espirito immundo do Jornalismo. E o mais
+é que poucos conhecem uma cousa: que polilica de poetas vale, por via de
+regra, tanto como poesia de politicos.
+
+ _Fragmento._
+
+O combate da antevespera estava ainda vivo na minha imaginação: eu cria vêr
+ainda os cadaveres dos meus amigos e camaradas, espalhados ao redor do
+fatal reducto, em que estava assentado: ainda me soavam nos ouvidos o seu
+clamor de enthusiasmo ao accommette-lo, o sibillar das ballas, o grito dos
+feridos, o som das armas caindo-lhes das mãos, o gemido doloroso e longo da
+sua agonia, o estertor de moribundos, e o arranco final do morrer. Os
+dentes me rangeram de cólera, e a lagryma envergonhada de soldado me
+escorregou pelas faces. O Porto estava descercado; mas quantos valentes
+cairam nesse dia! Eu ia amaldiçoar os cadaveres dos vencidos, que ainda por
+ahi jaziam; porém pareceu-me que elles se alevantavam e me
+diziam:--Lembra-te de que tambem fomos soldados: lembra-te de que fomos
+vencidos!--E eu bem sabia que inferno lhes devia ter sido, no momento de
+expirarem, as idéas de soldado e de vencimento, conglobadas n'uma só, como
+tremenda e indelevel ignominia, estampada na fronte do que ia transpor os
+umbraes do outro mundo. Então oreí a Deus por elles: antes de irmão de
+armas eu tinha sido christão; e Jesu-Christo perdoára, entre as affrontas
+da Cruz, aos seus assassinos. A idéa de perdão parecia me consolava da
+perda de tantos e tão valentes amigos. Havia nessa idéa torrentes de
+poesia; e eu te devi então, oh crença do Evangelho, talvez a melhor das
+minhas pobres canções.
+
+(_Da Minha Mocidade--Poesia e Meditação Cap...._)
+
+
+
+
+A HARPA DO CRENTE.
+
+TENTATIVAS POETICAS
+
+PELO
+
+AUCTOR
+
+DA
+
+VOZ DO PROPHETA.
+
+
+TERCEIRA SERIE.
+
+
+LISBOA--1838
+
+NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.
+
+_Rua direita do Arsenal--n.º 55._
+
+
+
+
+*Deus.*
+
+
+
+
+Deus.
+
+
+ Nas horas do silencio--á meia-noite--
+ Eu louvarei o Eterno!
+ Ouçam-me a terra, e os mares rugidores,
+ E os abysmos do inferno.
+ Pela amplidão dos céus meus cantos soem,
+ E a lua prateada
+ Pare no gyro seu, em quanto pulso
+ Esta harpa, a Deus sagrada.
+
+ Antes de tempo haver, quando o infinito
+ Media a eternidade,
+ E só do vacuo as solidões enchia
+ De Deus a immensidade,
+ Elle existiu--em sua essencia involto;
+ E, fóra delle, o nada:
+ No seio do Creador a vida do homem
+ Estava ainda guardada:
+ Ainda então do mundo os fundamentos
+ Na mente se escondiam
+ Do Omnipotente, e os astros fulgurantes
+ Nos céus não se volviam.
+
+ Eis o Tempo, o Universo, o Movimento
+ Das mãos sáe do Senhor:
+ Surge o sol, banha a terra, e desabrocha
+ Uma primeira flor:
+ Sobre o invisivel eixo range o globo:
+ O vento o bosque ondêa:
+ Retumba ao longe o mar: da vida a força
+ A naturesa ancêa!
+
+ Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te,
+ Ou cantar teu poder?
+ Quem dirá de Teu braço as maravilhas,
+ Fonte de todo o ser,
+ No dia da creação; quando os thesouros
+ Da neve amontoaste;
+ Quando da terra nos mais fundos valles
+ As aguas encerraste?!
+
+ E eu onde estava, quando o Eterno os mundos,
+ Com dextra poderosa,
+ Fez, por lei immutavel, se librassem
+ Na mole ponderosa?
+ Onde existia então? No typo immenso
+ Das gerações futuras;
+ Na mente do meu Deus. Louvor a Elle
+ Na terra e nas alturas!
+
+ Oh, quanto é grande o Rei das tempestades,
+ Do raio, e do trovão!
+ Quão grande o Deus, que manda, em secco estio,
+ Da tarde a viração!
+ Por sua Providencia nunca, embalde,
+ Zumbiu minimo insecto;
+ Nem volveu o elephante, em campo esteril,
+ Os olhos, inquieto.
+ Não deu Elle á avezinha o grão da espiga,
+ Que ao ceifador esquece;
+ Do norte ao urso o sol da primavera,
+ Que o reanima e aquece?
+ Não deu Elle á gazella amplos desertos,
+ Ao cervo o bosque ameno,
+ Ao flamingo os paues, ao tigre um antro,
+ No prado ao touro o feno!
+ Não mandou Elle ao mundo, em lucto e trévas,
+ Consolação e luz?
+ Acaso, em vão, algum desventurado
+ Curvou-se aos pés da cruz?
+ A quem não ouve Deus? Sómente ao ímpio,
+ No dia da afflicção,
+ Quando pesa sobre elle, por seus crimes,
+ Do crime a punição.
+
+ Homem, ente immortal, que és tu perante
+ A face do Senhor?
+ És a junça do brejo, harpa quebrada
+ Nas mãos do trovador!
+ Olha o negro pinheiro, campeando
+ Dos Alpes entre a neve:
+ Quem arranca-lo de seu throno ousára,
+ Quem destruir-lhe a seve?
+ Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu dia
+ Extremo Deus mandou!
+ Lá correu o aquilão: fundas raizes
+ Aos ares lhe assoprou.
+ Suberbo, sem temor, saíu na margem
+ Do caudaloso Nilo,
+ O corpo monstruoso ao sol voltando,
+ Medonho crocodilo.
+ De seus dentes em roda o susto móra:
+ Vê-se a morte assentada
+ Dentro em sua garganta, se descerra
+ A boca affogueada.
+ Qual duro arnez de intrepido guerreiro
+ É seu dorso escamoso;
+ Como os ultimos ais de um moribundo
+ Seu grito lamentoso:
+ Fumo e fogo respira quando irado:--
+ Porém, se Deus mandou,
+ Qual do norte impellida a nuvem passa,
+ Assim elle passou!
+
+ Teu nome ousei cantar!--Perdoa, oh Nume;
+ Perdoa ao teu cantor!
+ Dignos de ti não são meus frouxos cantos;
+ Mas são cantos de amor.
+ Embora vís hypocritas te pintem
+ Qual barbaro tyranno;
+ Mentem, por dominar, com ferreo sceptro,
+ O vulgo cego e insano.
+ Quem os crê é um ímpio!--Arrecear-te
+ É maldizer-te, oh Deus:
+ É o throno dos despotas da terra
+ Ir collocar nos céus.
+ Eu, por mim, passarei entre os abrolhos
+ Dos males da existencia
+ Tranquillo, e sem terror, á sombra posto
+ Da tua Providencia.
+
+_Plymouth--Setembro de 1831._
+
+
+
+
+*A Tempestade.*
+
+
+A ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO.
+
+
+ _Alma affinada pelas harpas de anjos;
+ Rei das canções--entenderás meu hymno!_
+
+
+ O Auctor.
+
+
+
+
+A Tempestade.
+
+
+ Sibilla o vento:--os torreões de nuvens
+ Pesam nos densos ares:
+ Ruge ao largo a procella, e encurva as ondas
+ Pela extensão dos mares:
+ A immensa vaga ao longe vem correndo,
+ Em seu terror involta;
+ E, d'entre as sombras, rapidas centelhas
+ A tompestade sólta.
+ Do sol, no occaso, um raio derradeiro,
+ Que, apenas fulge, morre,
+ Escapa á nuvem, que, appressada e espessa,
+ Para apaga-lo corre.
+ Tal nos affaga em sonhos a esperança,
+ Ao despontar do dia,
+ Mas, no acordar, lá vem a consciencia
+ Dizer que ella mentia.
+
+ As ondas negro-azues se conglobaram;
+ Serras tornadas são,
+ Contra as quaes outras serras, que se arqueam,
+ Bater, partir-se vão.
+
+ Oh tempestade!--eu te saudo! oh nume,
+ Da naturesa açoite!
+ Tu guias os bulcões, do mar princesa;
+ E é teu vestido a noite!
+ Quando no pinheiral, entre o granizo,
+ Ao sussurrar das ramas,
+ Vibrando sustos, pavorosa ruges,
+ E assolação derramas,
+ Quem porfiar comtigo, então, ousara
+ Da gloria e poderio;
+ Tu que fazes gemer pendido o cedro,
+ Turbar-se o claro rio?
+
+ Quem me dera ser tu, por balouçar-me
+ Das nuvens nos castellos,
+ E vêr dos ferros meus, em fim, quebrados
+ Os rebatidos élos!
+ Eu rodeára, então, o globo inteiro:
+ Eu sublevára as aguas:
+ Eu dos volcões, com raios accendêra
+ Amortecidas fráguas:
+ Do robusto carvalho e sobro antigo
+ Accurvaria as frontes;
+ Com furacões, os areaes da Lybia
+ Converteria em montes:
+ Pelo fulgor da lua, lá do norte
+ No polo me assentára,
+ E víra prolongar-se o gelo eterno,
+ Que o tempo amontoára.
+ Alli eu solitario, eu rei da morte,
+ Erguêra meu clamor,
+ E dissera: sou livre, e tenho imperio:
+ Aqui, sou eu senhor!
+
+ Quem se poderá erguer, como estas vagas,
+ Em turbilhões incertos;
+ E correr, e correr--troando ao longe--
+ Nos liquidos desertos!
+ Mas entre membros de lodoso barro
+ A mente presa está!....
+ Ergue-se em vão aos céus:--precipitada,
+ Rapido, em baixo dá.
+
+ Oh morte!--amiga morte!--é sobre as vagas,
+ Entre escarceus erguidos,
+ Que eu te invoco, pedindo-te feneçam
+ Meus dias aborridos:
+ Quebra duras prisões, que a naturesa
+ Lançou a esta alma ardente;
+ Que ella possa voar, por entre os orbes,
+ Aos pés do Omnipotente:
+ Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem
+ Desça, e estourando a esmague;
+ E a grossa proa, dos tufões ludibrio,
+ Solta, sem rumo vague!
+
+ Porém, não!--Dormir deixa os que me cercam
+ O somno do existir:
+ Deixa-os; vãos sonhadores de esperanças
+ Nas trévas do porvir.
+ Dôce mãe do repouso--extremo abrigo
+ De um coração oppresso--
+ Que ao ligeiro prazer, á dor cançada
+ Negas no seio accesso,
+ Não despertes--oh não--os que abominam
+ Teu amoroso aspeito;
+ Febricitantes, que se abraçam, loucos,
+ Com seu dorido leito!
+ Tu, que ao misero ris com rir tão meigo,
+ Calumniada morte;
+ Tu, que entre os braços teus lhe dás azilo
+ Contra o furor da sorte;
+ Tu que esperas ás portas dos senhores;
+ Do servo ao limiar;
+ E eterna corres, peregrina, a terra,
+ E as solidões do mar,
+ Deixa, deixa sonhar ventura os homens;
+ Já filhos teus nasceram:
+ Um dia acordarão desses delirios,
+ Que tão gratos lhes eram.
+ E eu, que vélo na vida,--e já não sonho,
+ Nem gloria, nem ventura;
+ Eu, que esgotei tão cedo, até as fezes,
+ O calis da amargura;
+ Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado
+ De quanto ha vil no mundo,
+ Morrer sentindo inspirações de bardo,
+ Do coração no fundo;
+ Sem achar sobre a terra uma harmonia
+ De alma, que a minha entenda;
+ Porque seguir, curvado ante a desgraça,
+ Esta espinhosa senda?
+
+ Torvo o oceano vae!--Qual dobre soa
+ Fragor da tempestade;
+ Psalmo de mortos, que retumba ao longe;
+ Grito da eternidade!....
+
+ Pensamento infernal!--Fugir cobarde
+ Ante o destino iroso?
+ Lançar-me, involto em maldicções celestes,
+ No abysmo tormentoso?
+ Nunca!--Deus poz-me aqui para apurar-me
+ Nas lagrymas da terra;
+ Guardarei minha estancia attribulada,
+ Com meu desejo em guerra.
+ O fiel guardador terá seu premio,
+ O seu repouso, em fim;
+ E atalaiar o sol de um dia extremo
+ Virá outro apoz mim.
+ Herdarei o morrer!--Como é suave
+ Benção de pae querido,
+ Será o despertar; vêr meu cadaver,
+ Vêr o grilhão partido.
+
+ Um consolo, entretanto, resta ainda
+ Ao pobre velador:
+ Deus lhe deixou, nas trévas da existencia,
+ Doce amisade e amor.
+ Tudo o mais é Sepulchro, branqueado
+ Por embusteira mão;
+ Tudo o mais vãos prazeres, que só trazem
+ Remorso ao coração.
+ Passarei minha noite a luz tão meiga,
+ Até o amanhecer;
+ Até que suba á patria do repouso,
+ Onde não ha morrer.
+
+_A bordo da Juno, na Bahia da Biscaya--Março de 1853._
+
+
+
+
+*O Soldado.*
+
+
+
+
+O Soldado.
+
+
+ I.
+
+ Veia tranquilla e pura
+ Do meu paterno rio:
+ Dos campos, que elle rega,
+ Mansissimo armentio:
+
+ Rocío matutino:
+ Prados tao deleitosos:
+ Valles, que assombram selvas
+ De sinceiraes frondosos:
+
+ Terra da minha infancia:
+ Tecto de meus maiores:
+ Meu breve jardimzinho:
+ Minhas pendidas flores:
+
+ Harmonioso e sancto
+ Sino do presbyterio:
+ Cruzeiro venerando
+ Do humilde cemiterio,
+
+ Onde os avós dormiram,
+ E dormirão os paes;
+ Onde eu talvez não durma,
+ Nem rese, talvez, mais:
+
+ Eu vos saúdo!--E o longo
+ Suspiro amargurado
+ Vos mando.--É quanto póde
+ Mandar pobre soldado.
+
+ Sobre as cavadas ondas
+ Dos mares procellosos,
+ Por vós já fiz soar
+ Meus cantos dolorosos.
+
+ Na proa resonante
+ Eu me assentava mudo,
+ E aspirava ancioso
+ O vento frio e agudo;
+
+ Porque em meu sangue ardia
+ A febre da saudade,
+ Febre que só minora
+ Sopro de tempestade;
+
+ Mas que se irrita, e cresce,
+ Quando é tranquillo o mar;
+ Quando da Patria o céu
+ Céu puro vem lembrar,
+
+ Quando, lá no occidente,
+ A nuvem vaporosa
+ A frouxa luz da tarde
+ Tinge de côr de rosa;
+
+ Quando, qual globo em brasa,
+ O sol vermelho crece,
+ E paira sobre as aguas,
+ E em fim desapparece;
+
+ Quando no mar se estende
+ Manto de negro dó;
+ Quando ao quebrar do vento,
+ Noite e silencio é só;
+
+ Quando sussurram meigas
+ Ondas que a nau separa,
+ E a rapida ardentia
+ Em torno a sombra aclara.
+
+
+ II.
+
+ Eu já ouvi, de noite,
+ No pinheiral fechado,
+ Um fremito soturno
+ Passando o vento irado:
+
+ Assim o murmurio
+ Do mar, fervendo á prôa,
+ Com o gemer do afflicto,
+ Sumido, accorde soa:
+
+ E o scintillar das aguas
+ Gera amargura e dôr,
+ Qual lampada, que pende
+ No templo do Senhor,
+
+ Lá pela madrugada,
+ Se o oleo lhe escacêa,
+ E a espaços expirando,
+ Affrouxa e bruxulêa.
+
+
+ III.
+
+ Bem abundante messe
+ De pranto, e de saudade,
+ O foragido errante
+ Colhe na soledade!
+
+ Para o que a patria perde
+ É o universo mudo;
+ Nada lhe ri na vida;
+ Móra o fastio em tudo;
+
+ No meio das procellas;
+ Na calma do oceano;
+ No sopro do galerno,
+ Que enfuna o largo panno;
+
+ E no entestar co'a terra
+ Por abrigado esteiro;
+ E no pousar á sombra
+ Do tecto do estrangeiro.
+
+ E essas memorias tristes
+ Minha alma laceraram;
+ E a senda da existencia
+ Bem agra me tornaram:
+
+ Porém nem sempre ferreo
+ Foi meu destino escuro;
+ Sulcou de luz um raio
+ As trévas do futuro:
+
+ Do meu paiz querido
+ A praia ainda beijei;
+ E o velho castanheiro
+ No valle ainda abracei!
+
+ Nesta alma regelada
+ Surgiu ainda o goso;
+ E um sonho lhe sorriu
+ Fugaz, mas amoroso.
+
+ Oh, foi sonho da infancia
+ Desse momento o sonho!
+ Paz e esperança vinham
+ Ao coração tristonho.
+
+ Mas o sonhar que monta
+ Se passa, e não conforta?
+ Minh'alma deu em terra,
+ Como se fosse morta,
+
+ Foi a esperança nuvem,
+ Que o vento some á tarde.
+ Facho de guerra acceso
+ Em labaredas arde!
+
+ Do fratricidio a luva
+ Irmão a irmão lançára;
+ E o grito: _ai do vencido!_
+ Nos montes retumbára.
+
+ As armas se hão cruzado:
+ O pó mordeu o forte:
+ Caiu: dorme tranquillo:
+ Deu-lhe repouso a morte.
+
+ Ao menos, nestes campos
+ Sepulchro conquistou;
+ E o adro do estrangeiro
+ Seus ossos não tragou.
+
+ Elle herdará, ao menos,
+ Aos seus honrado nome:
+ Paga de curta vida
+ Ser-lhe-ha largo renome.
+
+
+ IV.
+
+ E a balla sibillando,
+ E o trom da artilharia,
+ E a tuba clamorosa,
+ Que os peitos accendia;
+
+ E as ameaças torvas,
+ E os gritos de furor,
+ E desses, que expiravam,
+ Som cavo de estertor;
+
+ E as pragas do vencido,
+ Do vencedor o insulto,
+ E a palidez do morto,
+ Nu, sanguento, insepulto,
+
+ Eram um cháos de dores,
+ Em convulsão horrivel,
+ Sonho de accesa febre,
+ Scena tremenda e incrivel!
+
+ E suspirei:--nos olhos
+ Me borbulhava o pranto;
+ E a dor, que trasbordava,
+ Pediu-me infernal canto.
+
+ Oh, sim!--maldisse o instante,
+ Em que buscar viera,
+ Por entre as tempestades,
+ A terra em que nascêra.
+
+ Que é, em fraternas lides,
+ Um canto de victoria?
+ É um prazer mesquinho;
+ É triumphar sem gloria.
+
+ Maldicto era o triumpho,
+ Que rodeava o horror,
+ Que me tingia tudo
+ De sanguinosa côr!
+
+ Então olhei saudoso
+ Para o sonoro mar;
+ Da nau do vagabundo
+ Meigo me riu o arfar.
+
+ De desespero um brado
+ Soltou, impio, o poeta.
+ Perdão!--chegára o misero
+ Da desventura á meta.
+
+
+ V.
+
+ Terra infame!--de servos aprisco,
+ Mais chamar-me teu filho não sei:
+ Desterrado, mendigo serei;
+ De outra terra meus ossos serão!
+
+ Mas a escravo, que pugna por ferros,
+ Que herdará só maldicta memoria,
+ Renegando da terra sem gloria,
+ Nunca mais darei nome de irmão!
+
+ Largo o mundo ahi 'stá ante o livre;
+ Que este mundo é a patria do forte:
+ Sobre os plainos gelados do norte,
+ Luz do sol tambem mana do céu:
+
+ Tambem lá se erguem montes, e o prado
+ De boninas, em maio, se veste;
+ Tambem lá se menêa um cypreste
+ Sobre o corpo que á terra desceu!
+
+ Que me importa o carvalho da encosta?
+ Que me importa da fonte o ruido?
+ Que me importa o saudoso gemido
+ Da rollinha sedenta de amor?
+
+ Que me importam outeiros cubertos
+ Da verdura da vinha, no estio?
+ Que me importa o remanso do rio,
+ E, na calma, da selva o frescor?
+
+ Que me importa o perfume dos campos,
+ Quando passa de tarde a bafagem,
+ Que se embebe, na sua passagem,
+ Na fragrancia da flor do alecrim?
+
+ Que me importa? Pergunta do inferno!
+ É meu berço!--A minh'alma está lá!
+ Que me importa?.... esta boca o dirá?!
+ Maldicção, maldicção sobre mim!
+
+ Combatamos!--O ferro se cruze,
+ Assobie o pelouro nos ares;
+ Estes campos convertam-se em mares,
+ Onde o sangue se possa beber!
+
+ Larga a valla!--que, apoz a peleja,
+ Nós e elles seremos unidos!
+ Lá, vingados, e do odio esquecidos,
+ Paz faremos.... depois do morrer!
+
+
+ VI.
+
+ Assim, entre amarguras,
+ Me delirava a mente!--
+ E o sol ía fugindo
+ No termo do occidente.
+
+ E os fortes lá jaziam
+ Co'a face ao céu voltada;
+ Sorria a noite aos mortos,
+ Passando socegada.
+
+ Porém, a noite delles
+ Não era a que passava!
+ Na eternidade a sua
+ Corria, e não findava.
+
+ Contrarios ainda ha pouco,
+ Irmãos em fim lá eram!
+ O seu thesouro de odio,
+ Mordendo o pó, cederam.
+
+ No limiar da morte,
+ Assim tudo fenece!
+ Inimisades callam,
+ E até o amor esquece!
+
+ Meus dias rodeados
+ Foram de amor outr'ora;
+ E nem um vão suspiro
+ Terei, morrendo, agora:
+
+ Nem o apertar da dextra
+ Ao desprender da vida:
+ Nem lagryma fraterna
+ Sobre a feral jazida.
+
+ Meu derradeiro alento
+ Não colherão os meus?
+ Por minha alma atterrada
+ Quem pedirá a Deus?
+
+ Ninguem!--Aos pés o servo
+ Meus restos calcará;
+ E o riso do despreso
+ Vaidoso soltará.
+
+ O sino luctuoso,
+ Não lembrará meu fim:
+ Preces, que o morto affagam,
+ Não se erguerão por mim!
+
+ O filho dos desertos,
+ O lobo carniceiro
+ Ha-de escutar alegre
+ Meu grito derradeiro!
+
+ Oh morte!--o somno teu
+ Só é somno mais largo:
+ Porém, na juventude,
+ É o dormi-lo amargo.
+
+ Quando na vida nasce
+ Essa mimosa flor,
+ Como a cecem suave,
+ Delicioso amor:
+
+ Quando a mente accendida
+ Crê na ventura e gloria:
+ Quando o presente é tudo,
+ É inda nada a memoria;
+
+ Deixar a cara vida,
+ Então, é doloroso;
+ E o moribundo á terra
+ Lança um olhar saudoso.
+
+ A taça da existencia
+ No fundo fezes tem;
+ Mas os primeiros tragos
+ Doces--bem doces--vem.
+
+ E eu morrerei agora,
+ Sem abraçar os meus,
+ Sem jubiloso um hymno
+ Alevantar aos céus?
+
+ Morrer!--E isso que importa?
+ Final suspiro, ouvi-lo
+ Ha-de a patria. Na terra
+ Eu dormirei tranquillo.
+
+ Dormir?--Só dorme o frio
+ Cadaver, que não sente;
+ A alma vôa, e se abriga
+ Aos pés do Omnipotente.
+
+ Tambem eu para o throno
+ Accorrerei do Eterno:
+ Crimes não são meu dote;
+ Erros não pune o inferno.
+
+ E vós entes queridos,
+ Entes que tanto amei,
+ Dando-vos liberdade
+ Contente acabarei.
+
+ Por mim livres chorar
+ Vós podereis um dia,
+ E ás cinzas do soldado
+ Erguer memoria pia.
+
+_Porto--Julho de 1832._
+
+
+
+
+*D. Pedro.*
+
+
+
+
+D. Pedro.
+
+
+ Pela encosta do Libano, rugindo,
+ O nóto furioso
+ Passou um dia, arremessando á terra
+ O cedro mais frondoso;
+ Assim te sacudiu da morte o sopro
+ Do carro da victoria,
+ Quando, ebrio de esperanças, tu sorrias,
+ Filho caro da gloria.
+ Se, depois de procella em mar de escolhos,
+ A combatida nave
+ Vê terra e o vento abranda, o porto aferra,
+ Com jubilo suave.
+ Tambem tu demandaste o céu sereno,
+ Depois de uma ardua lida:
+ Deus te chamou:--o premio recebeste
+ Dos meritos da vida.
+ Que é esta? Um ermo de espinhaes cortado,
+ D'onde foge o prazer:
+ Para o justo ella existe além da campa:
+ Teme o ímpio o morrer.
+
+ Plante-se a acacia, o symbolo do livre,
+ Juncto ás cinzas do forte:
+ Elle foi rei--e combateu tyrannos--
+ Chorae, chorae-lhe a morte!
+ Regada pelas lagrymas de um povo,
+ A planta crescerá;
+ E á sombra della a fronte do guerreiro
+ Placida pousará.
+ Essa fronte das ballas respeitada,
+ Agora a traga o pó:
+ Do valente, do bom, do nosso Amigo
+ Restam memorias só;
+ Mas estas, entre nós, com a saudade
+ Perennes viverão,
+ Em quanto, á voz de patria e liberdade,
+ Ancear um coração.
+ Nas orgias de Roma, a prostituta,
+ Folga, vil oppressor:
+ Folga com os hypocritas do Tibre;
+ Morreu teu vencedor.
+ Involto em maldicções, em susto, em crimes
+ Fugiste, desgraçado:
+ Elle, subindo ao céu, ouviu só queixas,
+ E um choro não comprado:
+ Encostado na borda do sepulchro,
+ O olhar atraz volveu,
+ As suas obras contemplou passadas,
+ E em paz adormeceu:
+ Os teus dias tambem serão contados,
+ Covarde foragido;
+ Mas será de remorso tardo e inutil
+ Teu ultimo gemido:
+ Do passamento o calis lhe adoçaram
+ Uma filha, uma esposa:
+ Quem, tigre cru, te cercará o leito,
+ N'essa hora pavorosa?
+ Deus, tu és bom:--e o virtuoso em breve
+ Chamas ao goso eterno,
+ E o ímpio deixas saciar de crimes,
+ Para o sumir no inferno?
+ Alma gentil, que assim nos has deixado,
+ Entregues á alta dôr,
+ Anjo das préces nos serás, perante
+ O throno do Senhor:
+ E quando, cá na terra, o poderoso
+ As Leis aos pés calcar,
+ Juncto do teu sepulchro irá o oppresso
+ Seus males deplorar;
+ Assim, no Oriente, de Alboquerque ás cinzas
+ O desvalido indiano
+ Mais de uma vez foi demandar vingança
+ De um despota inhumano.
+
+ Mas quem ousára á patria tua e nossa
+ Curvar nobre cerviz?
+ Quem roubará ao lusitano povo
+ Um povo ser feliz?
+
+ Ninguem! Por tua gloria os teus soldados
+ Juram livres viver.
+ Ai do tyranno que primeiro ousasse
+ Do voto escarnecer!
+ N'esse abraço final, que nos legaste,
+ Legaste o genio teu:
+ Aqui--no coração--nós o guardámos;
+ Teu genio não morreu.
+ Jaz em paz: essa terra, que te esconde,
+ O monstro abominado
+ Só pisará ao baquear sobre ella
+ Teu ultimo soldado.
+
+ Eu tambem combati:--nas patrias lides
+ Tambem colhi um louro:
+ O prantear o Companheiro extincto
+ Não me será desdouro.
+ Para o Sol do Oriente outros se voltem,
+ Calor e luz buscando:
+ Que eu pelo bello Sol, que jaz no occaso,
+ Cá ficarei chorando.
+
+_Porto--Novembro de 1834._
+
+
+
+
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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