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+<title>The Project Gutenberg e-Book of Aves Migradoras Author: Fialho D'Almeida</title>
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+The Project Gutenberg EBook of Aves Migradoras, by Fialho d'Almeida
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Aves Migradoras
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+Author: Fialho d'Almeida
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+Release Date: September 16, 2007 [EBook #22622]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AVES MIGRADORAS ***
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+Produced by Ricardo F. Diogo, Christine P. Travers and the
+Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net
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+<h2>FIALHO D'ALMEIDA</h2>
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+<h1><span class="smcap">Aves<br> Migradoras</span></h1>
+
+<p class="center">4.<sup>o</sup> MILHAR</p>
+
+<p class="center">LISBOA<br>
+LIVRARIA CLÁSSICA EDITORA<br>
+DE A. M. TEIXEIRA &amp; C.<sup>a</sup> (FILHOS)<br>
+<i>Praça dos Restauradores, 17</i><br>
+1922</p>
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+<p class="center">PORTO&mdash;Imprensa Portuguesa<br>
+Rua Formosa, 116</p>
+
+
+
+
+
+<h1><span class="pagenum"><a id="page005" name="page005"></a>(p. 005)</span> AVES MIGRADORAS</h1>
+
+
+<p>&mdash;Mas tu és minha amiga, balbuciava a creatura querendo tomar-lhe as
+mãos n'uma supplica desolada. Devias ter dó d'esta fatalidade que me
+leva ao encontro de Ruy. Oh, tu não sabes! A idéa d'elle tira-me o
+somno, embebeda-me, convulsiona-me, vai commigo a toda a parte. Tu ao
+menos tiveste familia, irmãos, alguem. A mim nunca ninguem me quiz. Os
+garotos puxavam-me os cabellos, meu pai batia-me em estando
+embriagado. Aos dez annos puzeram-me fóra, que fosse trabalhar. E
+andei descalça atraz dos porcos, ia aos sabbados pedir esmolas ás
+portas dos ricos. Um verão agarram-me a furtar uvas n'uma vinha: o
+vinheiro era um bruto, jogou-me um tiro; e cheia de sangue, quasi
+morta, uns cavadores que passavam, foram <span class="pagenum"><a id="page006" name="page006"></a>(p. 006)</span> levar-me a casa da
+minha madrasta. Mas á embocada da aldeia, como eu ia estendida n'uma
+padiola de ramos, a senhora marqueza viu-me passar da sua janella, e
+por caridade, recolheu-me. Alli se fôra creando, a fazer companhia ao
+menino. Ruy n'esse tempo era um despota, obrigava-a a saltar muros, a
+pendurar-se de cordas, a fazer de cavallo. E batia-lhe. Em compensação
+Luiza adorava-o com um amor de cadella agradecida. Do fundo da sua
+humildade, nascia-lhe um deslumbramento inexplicavel, uma curiosidade,
+uma cegueira de Ruy. E nervosa, franzininha, como a figura d'uma
+borboleta na melancholia pallida d'um sonho, adquirira já
+precocidades: e os seus grandes olhos remordiam na belleza do
+pequenito, substractos de muitissimas aspirações. Na quinta, os
+trabalhadores ás vezes perguntavam-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Queres ser amiga além do menino?</p>
+
+<p>Ella abria os seus olhos vorazes, dizendo com a cabeça que sim.
+Entrementes o pequeno ia crescendo. Era alto, delgado, divinamente
+perfeito. Tinha já essa attitude desinteressada d'enthusiasmos,
+indifferente aos impulsos fortes, desdenhosa, petulante, das creaturas
+nascidas em meios altos, e destinadas ao predominio. <span class="pagenum"><a id="page007" name="page007"></a>(p. 007)</span> As suas
+mãos davam cobiça, brancas de cera, e com detalhes mimosos d'obra
+prima. Oh, mas a bocca, inexplicavel, trazia embrionada na esculptura
+dos labios, todas as florações mysteriosas d'uma ascendencia
+patricia&mdash;bocca de chefe pela austeridade, de diplomata pela ironia, e
+de mulher pela doçura com que a descerrava, em sorrisos cicatrizadores
+das esgarçaduras que a sua altivez antes fizera. Quando elle veio do
+collegio a primeira vez, empallidecera: mas a expressão dos seus olhos
+era uma coisa indescriptivel d'encanto, de melancholia e suavidade.</p>
+
+<p>Á enformatura tenra, oscillando como a haste anemica d'uma flôr de
+estufa, viera juntar-se o mysterio poetico d'um espirito insexualmente
+delicado, cujas infantilidades corrigia a cada instante um fogo-fatuo
+d'idéa, e a graça grave, indecifravel cambiante, da esphinge que
+contempla, sem desmentir jámais a prega austera da bocca. Era já,
+n'essa idade, a creatura de gostos raros, avara de palavras e gestos,
+fria, correcta, com preguiças d'ataxica e relampagos de crueldade na
+pupila augusta de Cesar, adorando o luxo dos palacios antigos, tendo a
+mania do <span lang="fr"><i>bibelotage</i></span>, e antegostando, como todos os homens da sua
+<span class="pagenum"><a id="page008" name="page008"></a>(p. 008)</span> familia, uma especie de deleite perverso no desnortear pelo
+testemunho das suas impressões prevaricadas, a sensibilidade reputada
+normal pela outra gente. Essa susceptibilidade depressa se embotava
+todavia, reclamando intercadencias, e por vezes derivando em
+passageiras allucinações. Indole toda de <span lang="fr"><i>nuances</i></span>, refrangida d'um
+sangue com predominio de soro, como uma luz coada através da sêda d'um
+biombo, elle parecia arvorar o pallido como flamula de guerra da hoste
+macabra dos nevrosados, cuja vida o tédio do vulgar envenena. Por seu
+lado, Luiza conseguira ganhar pela viveza dos seus expedientes e
+remoques, o espirito da senhora marqueza, ao tempo enlanguescido no
+estranho mal que ia varrendo as gentes da sua raça, mercê das
+allianças consanguineas em que esta teimára immobilisar-se. Em cinco
+annos, nada restava já da pequena mendiga chegada ao palacio n'uma
+padiola de ramos, com os cabellos nos olhos, os pés enlameados,
+coberta de trapos, e resequida n'uma magreza dolorosa. Era uma bruna
+de beiços rubros, dentes pequenos, com fórmas d'esculptura e sadias
+destrezas d'amazona. Desde a partida de Ruy para Campolide, que ella
+não tinha na casa occupações <span class="pagenum"><a id="page009" name="page009"></a>(p. 009)</span> definidas. Conservavam-n'a, um
+pouco por gratidão, e por amor tambem, um quasi nada. E assim era um
+bocado de tudo&mdash;leitora, enfermeira, guarda das estufas, esmolér-mór,
+creada de mesa e bordadora&mdash;e assim podera conservar a sua selvageria
+d'origem, tão familiar aos serviços da propriedade.</p>
+
+<p>Luiza era intelligente: alli se fôra educando, aprendendo, adquirindo
+pela familiaridade da boa companhia e da riqueza esparsa em obras de
+gosto, através dos velhos aposentos, essa cultura interior de
+sentimentos, essa exoticidade de preferencias, essa indiscutivel
+distincção de conversar e receber, que a tornaram depois tão
+appetecida cá fóra&mdash;isto realçado co'a turbulencia da creatura nascida
+em pleno campo, espojada nos fenos, e rebelde no sangue, longe das
+peias deformantes da sociedade. Só de longe a longe, á força de
+hydrotherapias complicadas, a senhora marqueza obtinha uma ou outra
+hora de vida serena, e conseguia furtar-se aos lugubres nervosismos da
+enfermidade. Era o feitio de Ruy, menos a juventude, mais a
+impaciencia. A custo lhe sahia o espirito das abstracções e
+somnolencias em que ficava embrenhado horas e horas; e exiguamente,
+distillando a <span class="pagenum"><a id="page010" name="page010"></a>(p. 010)</span> lucidez como uma essencia, gotta a gotta, n'um
+<i>ting-ling</i> monotono. A sua vida passava-se n'um canto de capella,
+entre sombras, enterrada n'um <span lang="fr"><i>fauteuil</i></span> com baldaquino, e só de lá
+sahia para se entregar ao cultivo de quatro ou seis predilecções
+extravagantes. Resentia-se do claustro onde passára os primeiros annos
+de educanda, e da côrte onde tinha gosado os primeiros mezes de
+casada. Era uma natureza extatica, adorando as pompas do culto, os
+requintes subtilisados da lithurgia, os movimentos dramaticos do orgão
+no instrumental das grandes cerimonias&mdash;um pouco de mysticismo, n'um
+pouco de miguelismo, n'um pouco de idiotismo,&mdash;com paixões de plantas
+monstruosas e aves singulares, alimentando-se de fructas, vestida de
+antigos damascos e <span lang="fr"><i>pompadours</i></span> de raminhos, e tendo sempre bolos
+d'ovos no beniterio do seu genuflexorio. Era vêr a ternura de Luiza
+durante as crises da boa senhora, e a meiga servilidade da sua voz
+rebuscando as mais enternecidas musicas, para pedir perdão de lhe não
+ter adivinhado mais cedo o pensamento.</p>
+
+<p>Essa ternura, Luiza não a fazia nascer exclusivamente da gratidão que
+nutria pela <span class="pagenum"><a id="page011" name="page011"></a>(p. 011)</span> castellã: vinha antes da emoção que Ruy lhe
+dava, da febre que lhe produzia a lembrança da sua belleza fruste e
+singular. Todas as dedicações se fundiam n'ella, e assim todas as
+especies de desejos inquietantes. Vinda d'uma mancebia d'aldeia, onde
+rolavam a toda a hora palavras bebedas e acções quasi medonhas, Luiza
+achára entre os moços da quinta, nas conversas surdas da cozinha e da
+arribana, á hora da ceia, a continuação do que vira e ouvira em casa
+da madrasta. Fôra preciso um cuidado assiduo, nos primeiros tempos,
+para refazer-lhe o vocabulario, e transviar para intuitos mais
+limpidos, a tendencia de vicio que ella trazia no sangue, em
+purulentos coagulos. Se a educação e o mimo em que fôra subindo, á
+proporção que se insinuava nas sympathias do palacio, lhe haviam feito
+a lingua casta, e a expressão virginea, já por fim, no fundo, o
+terrivel sangue conspirava n'ella, co'as herdanças fataes da vida
+airada, phosphorejando ardores que a nubilidade ás vezes desencadeava
+em verdadeiras procellas. Inda creança, o seu amor pelo Ruy já não
+podia dizer-se immaculado. Não era esse idyllio de bambinos colligados
+na mesma adoração por uma boneca, nem a celeste comedia, <span class="pagenum"><a id="page012" name="page012"></a>(p. 012)</span>
+inolvidavel, de duas cabecinhas attentas para o mesmo malmequer que se
+esfolha á beira d'um campo de trigo, sob o guarda-sol de sêda que a
+ama baloiça, sorrindo de os vêr tão sérios, os dois noivos pequeninos.
+Mas uma paixão d'inferior que se deslumbra pelos filhos da raça cujas
+perfeições não pôde igualar, paixão com haustos de posse,
+indeclinavelmente physica, prematura, perversa, e cheia
+d'estonteamentos já torpidos. Com a idade, aquella ancia de Luiza não
+se corrigia nem purificava, senão ia crescendo, accentuando,
+colorindo, na medida da sua adolescencia cada vez mais radiosa em
+seducções.</p>
+
+<p>Nas férias, mal se sonhava o dia em que Ruy devia chegar, já ella não
+parava quieta em parte alguma. E eil-a passando os dias nos aposentos
+do menino, revolvendo alcatifas, mudando o logar do leito, perturbando
+a ordem dos quadros, a disposição dos mobilamentos, agrupando plantas,
+pelo que sabia das predilecções de seu amo&mdash;pondo stores e biombos em
+todos os portaes por onde francamente entrassem a luz e o ar. Na casa,
+os creados sorriam, como quem sabe de tudo&mdash;gallinha canta... E os
+ditinhos pullulavam. <span class="pagenum"><a id="page013" name="page013"></a>(p. 013)</span> Mas um que era já ruço, muito gordo,
+quasi sacerdotal pela rigidez da compostura, costumava deter-se á
+porta dos quartos, tossindo devagarinho, a vêl-a trabalhar.</p>
+
+<p>&mdash;É o Ezequiel menina Luiza.</p>
+
+<p>Ella gostava d'esse, que a defendia sempre das animadversões da
+creadagem, e por toda a parte a cercava de deferencias tocantes.
+Mesmo, das suas palavras paternas, ruminadas n'um fundo de reflexão um
+poucochinho canalha, vinha-lhe uma sorte de lisongeira coragem.
+Ezequiel era o unico que parecia não pôr em duvida a ascendencia de
+Luiza sobre a outra creadagem. Emtanto elle ás vezes punha-se a
+esquadrinhal-a, na sua bonhomia de velho, deixando cahir palavras
+descuidosas aqui e além, para a fazer dar á lingua, e espaçando
+reticencias de proposito, no sitio onde a rapariga, simploriamente,
+logo ia prender revelações.</p>
+
+<p>&mdash;Muitos parabens, menina Luiza. Faltam só quatro dias.</p>
+
+<p>Ella, fingindo não entender:</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! Para que, Ezequiel?</p>
+
+<p>Elle ia entrando, punha o espanejador ao canto da porta, enxugava os
+dedos da pitada ao avental.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page014" name="page014"></a>(p. 014)</span> &mdash;Estas raparigas, estas raparigas!... E d'ahi que tinha? Não
+ha tanta menina pobre casada com pessoas grandes? Eu sempre queria
+vêr...</p>
+
+<p>&mdash;Vossê, Ezequiel, nunca tem melhores lembranças. Ora o mofino!</p>
+
+<p>E o velho, conciliador:</p>
+
+<p>&mdash;Acaso admira que vossemecê goste de Ruy? O contrario é que
+espantava. Creados de pequeninos, no mesmo berço quasi... E olhe que
+têem muita força os beijos a que uma pessoa se acostuma de creança.</p>
+
+<p>Ella empallidecia e córava sem escrupulo, surprehendida no divino
+tormento que lhe extasiava o espirito em fogos multicôres.</p>
+
+<p>&mdash;Olhe cá, Ezequiel. Cada um no seu lugar. O que diriam de mim, santo
+Deus?</p>
+
+<p>&mdash;Coisa nenhuma, coisa nenhuma. Todos vêem como a senhora marqueza
+trata comsigo. Zús d'aqui, zús d'alli, está-lhe sempre a chamar minha
+filha. Olhe que é muita amizade, é amizade de mais para uma servente.
+Eu sei que isto enfurece os invejosos. Não faça caso, menina Luiza,
+não faça caso.</p>
+
+<p>&mdash;Ah, não tenha medo, Ezequiel.</p>
+
+<p>&mdash;E o menino Ruy então, não fallemos. Esse gosta, e gosta muito. Até
+cartas lhe <span class="pagenum"><a id="page015" name="page015"></a>(p. 015)</span> manda. Não se faça encarniçada, menina Luiza.</p>
+
+<p>&mdash;O disparate!</p>
+
+<p>&mdash;Já cá sabemos tudo; pois então!</p>
+
+<p>&mdash;Crédo! Santo Nome! São cartas que elle manda para a senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Para a senhora, sim, para a senhora mais nova. Eh! Eh! fazia elle
+batendo as palmas, n'um tom maligno d'avô condescendente. Essa cama
+que fique bem fofa, essa campainha que fique bem perto. Rapaziada,
+rapaziada!</p>
+
+<p>Ouvindo estas coisas, Luiza abandonava-se, perdia a cabeça. E do
+coração subiam-lhe á bocca ondas de confidencias, gritos d'alma,
+brutaes franquezas de rebelde. A intensidade do seu sonho interior era
+tão forte, tão sobreexcitado o delirio da sua imaginação, que para
+seguir-lhe a trajectoria, Luiza compromettia-se mentindo, gabando-se
+de scenas imaginarias, sem quasi perceber que se calumniava. Não, Ruy
+não lhe escrevia. Não, Ruy não gostava d'ella. Mas Luiza, Luiza morria
+por tel-o ao pé de si. Esses dias eram uma doidice, e Luiza não
+dormia, Luiza não comia, Luiza não dava attenção á leitura, Luiza
+estava distrahida á missa da senhora marqueza. <span class="pagenum"><a id="page016" name="page016"></a>(p. 016)</span> A cada
+instante, omissões no serviço, pequenos confortos descurados nos
+aposentos, portas abertas deitando correntes d'ar, stores erguidos nas
+janellas, que endoloriam os olhos da enferma, apenas familiarisados
+co'as penumbras cinzentas do seu canto d'oratorio.</p>
+
+<p>Então a fidalga impacientava-se: as impaciencias traziam-lhe o
+nervoso. Era um horror. Para poisar os dedos no braço de Luiza, abrir
+o livro de rezas, dar uma dentada n'um bolo, a pobre creatura estava
+minutos em sobresaltos choreicos, debatendo-se contorcida, sentando-se
+e erguendo-se apenas se sentava, lançando da bocca palavras
+improprias, repetindo certos adverbios no meio das phrases: e
+amargurada, presa de terror, por ter a consciencia de não estar
+fallando bem.</p>
+
+<p>Raro, raro, o senhor marquez que residia em Lisboa, na roda dos
+alegres <span lang="fr"><i>viveurs</i></span> d'então, se aventurava até áquelle deserto da
+quinta, calado, religioso, e com uma expressão claustral
+d'austeridade. N'essas poucas visitas, sua excellencia não vinha por
+certo estancar saudades de sua mulher, senão solicitar da pobre dama,
+mais uma vez, assignatura <span class="pagenum"><a id="page017" name="page017"></a>(p. 017)</span> para alguma hypotheca que o
+auctorisasse a proseguir na sua vida libertina de velho rapaz. Chegava
+então pela noite, em caminho de ferro, estava até ao outro dia, e na
+madrugada seguinte, zut! elle ahi vai. As palavras que os dois esposos
+trocavam, eram uma simples formula de deferencia imposta pelo orgulho
+ás cogitações chocarreiras da creadagem, em que ella buscava mostrar o
+desdem que nutria pelo esposo, e o esposo parecia artificialisar ainda
+mais, a sua amabilidade correcta de marido desencantado. Na primavera
+comtudo, a visita do marquez prolongava-se d'alguns dias, como era o
+tempo das caçadas. Trazia então quatro ou cinco velhos amigos, alguns
+creados, e as matilhas de galgos requeridas para a diversão. A
+marqueza recluia-se mais, se é possivel, no seu angulo de palacio,
+pretextando que a luz lhe encadeava a vista, que o ruido lhe
+exasperava a <span lang="fr"><i>migraine</i></span>, e o aspecto da alegria dos outros mais fazia
+contrastar a sua mortal e esmaecida tristeza de antiga moribunda. E os
+caçadores ficavam sós, livres inteiramente para deixar correr sem
+respeito, n'aquellas duas ou tres semanas de campo, uma impetuosa
+existencia de barões feudaes, accesa nas <span class="pagenum"><a id="page018" name="page018"></a>(p. 018)</span> risadas do bom
+vinho das cavas, nas correrias em pós das rapozas e lebres, e
+castigando-se á noite, finda a ceia, Deus sabe, entre os braços das
+mulheres que Ezequiel recrutava discretamente pelo burgo, na grande
+sala de lambeis gobelinos, com mobilias marchetadas de quatro seculos.
+Todas as manhãs, Ezequiel ia aos aposentos da senhora marqueza deixar
+galantemente um ramilhete da parte de seu amo, que á volta da caça lhe
+mandava em <span lang="fr"><i>plateau</i></span> tambem, a melhor peça da correria. Os fidalgos de
+ha trinta annos eram ainda mais inuteis que os de hoje. A mordomos e
+intendentes abandonavam a gerencia dos seus negocios interiores.
+Restos d'altivez faziam-lhes encarar desprezivelmente o que elles
+chamavam classes subalternas. Isto contrastando nas suas horas lucidas
+com a intimidade que a mór parte abria a fadistas e toureiros, nos
+momentos de vinhaça, por esses bordeis que ficaram celebres em
+cantigas do fado. Este marquez de Selmes foi como os outros, um
+perdulario espargindo fortuna e forças no rodilhão dos prazeres mais
+em voga ao tempo. Em Lisboa, dava talher a uma turba de litteratos,
+graciosos e moços de curro, com quem elle gostava de mesclar os seus
+jantares d'intimos, <span class="pagenum"><a id="page019" name="page019"></a>(p. 019)</span> por manter o ar d'um grande senhor amigo
+das artes, requestado pela popularidade dos varios conventiculos
+elegantes da capital. E na quinta, aquelle mundo heterogeneo de
+parasitas representava-se um pouco, mais resumido, pelo critico
+Lagoaças, Alberto M., Marquez das Flôres, grande pegador de bois, pai
+nobre Cezario, e festejado Mattos, que fazia rir a sociedade referindo
+historias da Lisboa duvidosa, no seu aranzel comico de <i>tatibitati</i>.
+N'aquella primavera, a surpreza do marquez fôra Luiza, a grande Luiza
+que lhe surgia de repente uma senhora, e cujas infantilidades o velho
+galante distrahidamente afagára até ahi. Lagoaças, que era forte
+apreciador de fructos no cedo, foi o primeiro a chamar-lhe a attenção
+para a deliciosa frescura d'aquella maçã prohibida, que promettia
+co'os seus acres succos perfumar a bocca de quem lhe cravasse os
+dentes primeiro. Foi então um movimento geral de galantaria no grupo
+dos caçadores, sobre Luiza. Com a sua <span lang="fr"><i>nonchalance</i></span> habitual, o
+marquez dava carta de corso aos amigos, admittindo-lhes correr palacio
+a qualquer hora, em pós da famosa presa, se tudo fosse discretamente
+acontecido. Quem mais lesto e galanteador se antolhasse, <span class="pagenum"><a id="page020" name="page020"></a>(p. 020)</span>
+mais esperanças poderia nutrir de successo. Alberto M. começou uma
+elegia.</p>
+
+<p class="poem10">
+ Deliciosa aranha delicada,<br>
+ E com pennugens d'oiro revestida:<br>
+ Ligeira, dôce, setinosa e leve...<br>
+ Tens a peçonha lubrica mettida,<br>
+ Na caricia das patas côr de neve.<br>
+ .................................</p>
+
+<p>Marquez das Flôres era outro genero: confiava na mocidade viril dos
+seus braços, e nas casacas vermelhas de caçador com que apparecia
+todas as manhãs no grande pateo da casa, soado o primeiro hallali nas
+trompas dos monteiros. E a batalha começou, estando Ezequiel empenhado
+em fazer triumphar o marquez.</p>
+
+<p>Uma manhã fazia Luiza o <span lang="fr"><i>ménage</i></span> dos passaros, sobre o terraço,
+Ezequiel que chega d'acaso. Bons dias d'um lado, bons dias do outro, e
+começou uma conversa d'introito, ao fim da qual, sem se saber como,
+Ezequiel já fallava nas graças de seu amo, ideal dos fidalgos
+generosos, nata dos amigos commodos, e <i>non plus ultra</i> dos amantes
+discretos. Não é verdade, menina Luiza, não é verdade? Ui! que
+gorgetas elle lhe dava! Pares de calças <span class="pagenum"><a id="page021" name="page021"></a>(p. 021)</span> que lhe abandonára,
+novinhos em folha! E a sua maneira de tratar então, como d'igual para
+igual!</p>
+
+<p>&mdash;Boa pessoa, fez machinalmente a rapariga, é muito boa pessoa.</p>
+
+<p>&mdash;Uma coisa não sabe a menina. Elle está doido por si.</p>
+
+<p>&mdash;Ai! o tramouco do velho...</p>
+
+<p>&mdash;Diz que a ha-de fazer muito feliz.</p>
+
+<p>&mdash;Brr! Pois quem somos nós?</p>
+
+<p>&mdash;Tanto que me encarregou...</p>
+
+<p>&mdash;Vossê alcovita agora, Ezequiel?</p>
+
+<p>&mdash;Desejaria vêl-a amparada, menina Luiza. Conheci-a pequena n'esta
+casa, vi-a medrar e fazer-se mulher, e gosto de si como os avôs das
+netinhas tagarellas. D'ahi, não promette grandes dilatamentos a vida
+da noss'ama: cedo, tarde, quando menos cuide, ahi vai ella caminho dos
+anjos. E fallando claro: a situação que ella lhe fez n'esta casa, é
+uma coisa postiça que lá fóra a menina não poderá continuar sem uma
+protecção. Quer que mudemos de conversa?</p>
+
+<p>&mdash;Posso, Ezequiel, isso posso. Não digo a servir, mas escolhendo rapaz
+com quem me case.</p>
+
+<p>&mdash;Da aldeia, da quinta... Que creação é <span class="pagenum"><a id="page022" name="page022"></a>(p. 022)</span> a d'esses homens?
+Afeitos ao trabalho das terras, querem mulher da sua condição, que
+sache, que monde, que moireje, e vista d'estamenha, e tenha rijeza
+p'ra lhes parir um creanço, em todas as paschoas de Deus. Além d'isso,
+duas naturezas desiguaes na educação&mdash;marido ciumento da mulher que
+não merece&mdash;mulher desprezando o marido que a não soube captivar.
+D'ahi zangas, ralhos, maus tratos, que sei eu? Ao passo que sendo
+rica, poderia encontrar um moço d'estimação que lhe fizesse a vida
+doirada, n'uma casa cheinha como um ovo.</p>
+
+<p>&mdash;Mas rica, rica... Vossê conhece a minha gente. Morrem todos de fome,
+lá por casa. Se me não comem os olhos, é que não podem tirar-m'os sem
+que eu dê por isso. Ser rica, de que modo, por que processo? Diga.</p>
+
+<p>&mdash;Eu a bem dizer, não tenho plano. Idéas vagas, muito d'alto, que se
+não podem assim contar a uma rapariga nova e com principios diversos
+dos meus. Idéas de velho que viu mundo e sabe chamar os bois pelo seu
+nome. Olhe. Quando eu era rapaz tive uma patrôa viuva, entradota, mais
+que medonha&mdash;inda esbraseada por noivar, pobre senhora!&mdash;que uma noite
+me beliscou o assento, de passagem <span class="pagenum"><a id="page023" name="page023"></a>(p. 023)</span> por um corredor ás
+escuras. Eu não quiz: gostava muito mais da cozinheira: opiniões de
+galucho, menina Luiza! Fui p'ra rua como era de justiça. Quatro annos
+depois estava o cocheiro nomeado visconde do appellido da minha antiga
+adoradora. Perdidinha por mim, menina Luiza, perdidinha. Carago! E eu
+tão bruto que não quiz! Se lhe ponho as calças em cima, andava agora
+de sege por essas capitaes.</p>
+
+<p>&mdash;Fallando claro, o teu sermão quer dizer: amiga-te com o senhor
+marquez, rapariga. Não é isto? Por sua morte, talvez sejas rica; em
+vida d'elle por força has-de ser feliz.</p>
+
+<p>Ezequiel não retrucou, mas poz-se a contar historias de raptos,
+vergonhosos amores, coisas cynicas e patuscas, sem apparente
+colligação de sentido. A voz fizera-se-lhe surda, d'uma firmeza
+espaçada que lhe espargia na face aspectos graves de prégador e de
+magistrado. E recapitulou da prédica, pitadeando, que a vida era um
+quotidiano mercado onde a gente adquiria o que por acaso tivesse de
+sobrecellente. Manoel Antonio Ferro, sahira da aldeia com elle,
+Ezequiel, em 40, com tres pintos no bolso, e o saquito da roupa
+branca. Entrado marçano n'uma loja do Porto, roubou <span class="pagenum"><a id="page024" name="page024"></a>(p. 024)</span> o dono:
+primeira façanha, vá vendo... Foi ao Brasil mercandejar nos escravos,
+volta millionario. Chegado a Lisboa n'um estadão de principe,
+recommendado até aos olhos, nenhuma casa se abriu para o receber.
+Trazia na consciencia duas mortes, ao que se contava, e uns poucos de
+processos por contrabando e moeda falsa. O homem não se ralou muito
+co'a recepção dos patricios. Fez tranquillamente um palacio na
+Junqueira, talhou jardins, comprou herdades, derribou azinheiras,
+plantou vinha, fez eleições: e um bello dia, quando já entrava a ser
+necessario, deu doze contos para escolas, reclamando farda de moço
+fidalgo, pelos Ferros de Santo Thyrso, que eram ladrões d'estrada e
+sapateiros. Toda a gente entrou a chamar-lhe venerando, desde os doze
+contos. Hoje, ninguem funda um banco sem o nomear director, e não se
+inaugura uma escóla sem elle lá ir botar discurso, com os seus ares de
+pai-avô. Está par, está conde; e se ainda não põe na cabeça a corôa
+real, é que já tem uma de cornos, mimo da mulher, a sogra d'este
+Marquez das Flôres que ahi está de visita. A duqueza de Montes, menina
+Luiza, hoje velha, e tão virtuosa senhora, que manda rosarios da Terra
+Santa <span class="pagenum"><a id="page025" name="page025"></a>(p. 025)</span> a noss'ama... era uma dançarina do primeiro
+café-concerto que se fundou em Lisboa, cheia de molestias. Depois da
+dança, vinha p'ras mesas embebedar-se com genebra, sentada no collo de
+quem lhe desse dois pintos. Eh! Eh! Tudo se vende e se compra: caras
+geitosas, virgindades velhas e novas, familia, patria, salvação,
+condecorações, reputações, sapatos d'ourello e garrafas de vinho. Quer
+um bom camarote no reino dos céos, menina Luiza? Dê quatro contos ao
+papa: manda-lhe a chave na volta do correio. Faz-se de côres? Ora
+adeus! Não digo que seja dos Evangelhos, esta doutrina. Mas é o resumo
+de cincoenta annos de trambulhões e miserias. Seja-me rica! A primeira
+felicidade é ter que vender. Mas a unica, a verdadeira, é poder
+comprar.</p>
+
+<p>&mdash;Ezequiel, vossê tem a alma ruim.</p>
+
+<p>&mdash;Por lhe confessar que só os imbecis se portam bem? Por lhe dizer que
+este mundo é dos descarados? Ai, se eu tivesse podido convencer-me
+d'estas coisas na sua idade! Não traria agora senão a libré de mim
+proprio, e o mundo havia de fazer o que me viesse á cabeça. Faça o que
+quizer, menina Luiza. Mas esta fabula é clara como agua. O senhor
+marquez gosta de si. Qualquer dia <span class="pagenum"><a id="page026" name="page026"></a>(p. 026)</span> a senhora marqueza,
+trrr... foi-se. Que ha de fazer a Luizinha? Estará resolvida a dar-se
+por mulher ao primeiro labrego que venha? Mas creatura! Voltar para os
+casebres da sua madrasta, d'onde fugiu a honra com medo aos piôlhos?
+Brada aos céos! Viver pura como a luz, uma vida escura como a noite?
+Olha a tolice! Despir trajos de senhora, deixar este palacio e os
+confortos da vida farta, a que se afez desde pequena?.. Bau! Bau! não
+tem coragem. Isso sim! Vá, tane as mãosinhas em trabalhos que humilham
+e não salvam da pobreza e da fome. Hum! Hum! menina Luiza. Esses olhos
+não mentem no que deixam adivinhar. Venda, venda! O senhor marquez
+gosta de si.</p>
+
+<p>As lagrimas saltavam já dos olhos de Luiza.</p>
+
+<p>&mdash;É mais facil morrer, disse ella.</p>
+
+<p>&mdash;Pois minha rica, não será rondando o Ruy noite e dia, mais de noite
+que de dia, que a menina ha de ir á cova de capella e palmito. Gostar
+do filho, tem todos os inconvenientes de gostar do pai, menos as
+vantagens. Esse pequeno é um cabeça louca; póde fazer apetite ao
+femeaço&mdash;o que não faz com certeza é uma bizarria que a deixe
+independente <span class="pagenum"><a id="page027" name="page027"></a>(p. 027)</span> a si. Porque não póde! Porque não tem! D'ahi,
+tarefa inutil perseguil-o. O fedelho por ora não larga os amiguinhos
+do collegio. A menina não tem fortuna, parece-me ambiciosa... Venda. O
+seu genero está na alta. Dezoito annos. Uma lindeza! Venda. Bocca de
+morango, voz de seraphim... Venda, venda. O senhor marquez gosta de
+si.</p>
+
+<p>Era o tempo das florações e dos ninhos. Divinas juventudes explodiam
+d'amor nas seivas da terra, na luz e nos perfumes do ar. O céo dôce,
+todo o campo uma distillaria d'essencias: lá baixo, na aldeia, as
+romarias começavam, e os casamentos tambem. Luiza guardava silencio,
+co'os olhos longe, vendo subir a manhã pelo cantar dos passaros.
+Comprar e vender. Vender e comprar. Uma carinha bonita, um corpinho
+perfeito. O senhor marquez gosta de si.&mdash;E Luiza chorou todo o santo
+dia.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>N'essa cabeça de fogo entretanto, surgia cada vez mais fascinadora, a
+imagem de Ruy, toda abrasada d'estranhos prestigios: e diante d'ella
+ardendo sempre o lampadario d'um culto cego e inexoravel. Com o
+pequeno <span class="pagenum"><a id="page028" name="page028"></a>(p. 028)</span> tinham vindo á quinta passar as férias da Paschoa,
+tres ou quatro dos seus companheiros mais intimos&mdash;Palhalvo, já gordo
+aos quinze annos, cujas bochechas tinham o geito d'estarem soprando
+uma desconforme trombeta, á semelhança d'esses anjos papudos que fazem
+apotheose ao calix mystico, nos frontões das capellas-móres&mdash;Mattoso,
+filho d'um criado velho, que a senhora marqueza destinava ao
+sacerdocio, e dominava o grupo com os seus modos severos de
+preceptor&mdash;Jorge Forjaz, primo d'Albertina, era o litterato, e
+recitava Rodrigues Cordeiro e Palmeirim nos banhos da Nazareth e Praia
+da Vieira&mdash;emfim Biscaya, especie d'aranhiço adunco, côr de feno,
+sempre tossindo, era um engeitado que o marquez recolhera e mandára
+ensinar, e cuja maldade e azedume transpareciam já nos seus dichotes
+de gaiato. Esta ronda de meninos bonitos, uns mais precoces do que
+outros, alvoroçava o palacio logo ao romper da manhã, extravasando nos
+pateos em exercicios de força e gymnastica, furtando beijos ás moças
+por onde quer que as topasse, partindo n'uma algazarra, em carretas de
+lavoira, para as searas onde mondassem raparigas, ou organisando
+correrias, d'onde os cavallos voltavam <span class="pagenum"><a id="page029" name="page029"></a>(p. 029)</span> desferrados e
+cobertos d'espuma. Póde-se calcular o que estes diabos accrescentavam
+de desordem á volta dos festins do marquez: excepto Ruy, que ia ao
+almoço e jantar fazer companhia a sua mãi. Era a unica imposição
+tambem da boa senhora, ter o filho em <span lang="fr"><i>toilette</i></span>, defronte de si, nas
+refeições. E isto enchia d'importancia o pequeno, todo esforçado em
+infiltrar na melancolia austera da enferma, um raio da sua graça
+juvenil. Mesmo, o seu respeito por ella, timbrava em mimos, pieguices,
+ternuras, pequenas dedicações que a velha dama absorvia sem transluzir
+na face exangue emoção d'especie alguma.</p>
+
+<p>Desde que Ruy chegára á quinta, a marqueza dispensava Luiza de lhe lêr
+as orações e velhos livros de pastoraes, villancicos ou novenas aos
+santos patronos mais dilectos. Era então Ruy o encarregado de lhe
+percorrer as passagens estimadas. Elle a tudo se prestava, com um
+tocante respeito de pagem amoroso, tentando seguir nos olhos d'ella o
+grau de satisfação que promovia, e evitando as crises com uma
+ligeireza d'alma adoravel e compadecida. Immovel por traz da cadeira
+da marqueza, Luiza servia-os, interpondo a enferma como medianeira
+innocente, no jogo <span class="pagenum"><a id="page030" name="page030"></a>(p. 030)</span> galante em que ella buscava encasular a
+adolescencia do rapaz. Alguma vez este lhe dirigia a palavra, a buscar
+apoio n'uma asserção, a preferir o conselho de Luiza no tocante a
+qualquer pormenor de solicitude para com a mãi. E a alegria da pobre
+creatura, quando elle erguia aos olhos d'ella, os seus olhos picados
+de scentelhas leaes! N'essa alma de collegial, toda escrupulosa no
+<span lang="fr"><i>froufrou</i></span> da sua alvinitente plumagem, parece, nenhuma idéa de mulher
+passára ainda. E Luiza interrogava-se, sofreava-se, confusa,
+estonteada, aterrada das suas audacias, e sem coragem de revolver co'a
+sombra d'uma <span lang="fr"><i>coquetterie</i></span>, o lago azul d'aquella pureza celeste.</p>
+
+<p>Uma manhã, cedo ainda, Luiza ia acordar Ruy para um almoço na horta,
+antes da caçada, quando se deteve á porta do quarto, sentindo rir e
+cochichar por entre as cortinas do leito. Talvez que Palhalvo,
+madrugador, a tivesse antecedido. Uma avidez de saber espicaçava-a
+entretanto. Pé ante pé, esgueirou-se por entre os batentes da porta,
+franzindo pouco o reposteiro, para se ir acocorar, sutilosa, por traz
+do grande biombo de coiro que resguardava a entrada. Era um dialogo
+abafado, d'um tom unido, e com palavras expirantes <span class="pagenum"><a id="page031" name="page031"></a>(p. 031)</span> que ás
+vezes se perdiam entre murmurios de suspiros e beijos. Luiza avançou
+traiçoeiramente a cabecita de vibora para fóra do esconderijo. E os
+seus olhos estavam como uma interrogação rancorosa, através das
+phantasticas elegancias d'essa camara, que nos seus mais pequenos
+detalhes evocava em estatua a organisação desconnexa, fruste,
+mysteriosa, desigual, que lá vivia. Bem podia a estranheza da
+installação ser tomada em amostra de faculdades singulares. D'aquellas
+fórmas erraticas e symphonicas de côres amortecidas, via Luiza
+exhalar-se, sob um dia novo, a alma exotica a que ellas serviam
+d'involucro. As paredes eram forradas de velludo sombrio, já desbotado
+nos sitios do sol, e com pinturinhas vaporosas de figuras e flôres.
+Sombrios tapetes, quasi uma relva, amorteciam a bulha dos passos, até
+aos degraus do immenso leito toucado d'escuro, á laia d'eça, e com
+cercaduras á moda das da armação mural. Uma quantidade de moveis
+singulares: credencias d'ébano sobre ligeiros pés, trabalhadas como
+uma renda preciosa de volutas, entre ferrarias de prata batida a
+martello; nudezas d'estatuas aos cantos, brancas d'insomnia no rasgo
+genial das suas attitudes, <span class="pagenum"><a id="page032" name="page032"></a>(p. 032)</span> servindo de cabide a chapéos de
+mil formatos: grandes jarrões sobre cubos esculpidos, em cujas arestas
+noctiluziam douradas vagas de pregos: e mesas carregadas d'estatuetas,
+marfins, velhas miniaturas, bocetas esculptadas: espelhos de metal,
+tenebrosos, por cima dos canapés, fazendo surgir da sua agua verde,
+esqualidos phantasmas d'enforcados: roupões de grandes desenhos na
+espalda dos tamboretes: e defronte do leito, um enorme divan com os
+cochins em desordem, alguns atirados, e livros por cima, cujas folhas
+os galgos iam passando entre as patas, por distrahir-se, nos
+intervallos da somneca. De cada um d'esses pormenores, um braço sahia
+e apontava um capricho, escaninhos velados de religião instinctiva,
+qualquer coisa de cavalheiroso em que palpitava uma raça, ou se iam
+espreguiçando as passivas mollezas da anemia hereditaria. Lentamente,
+os olhos de Luiza afizeram-se a divagar por toda aquella confusa
+penumbra. Pela direita, acima do genuflexorio, n'uma especie de
+tryptico negro, havia um quadro: era estranho: duas mãos brotavam da
+carbonosa noite do fundo, implorativas, mãos d'asceta devorado pela
+tentação: uma cabeça <span class="pagenum"><a id="page033" name="page033"></a>(p. 033)</span> funebre movia-se nas sombras d'um
+capuz, insistindo em affirmar o quer que fosse d'asperrimo&mdash;se a
+lampada gothica de tres bicos, cahida do tecto, oscillava, no tom
+mortiço que as luzes têm de dia, mesmo ás escuras. Aquillo parecia um
+templo, sob a agonia terrivel da lampada. Mas já lambendo o muro, o
+clarão d'ella fazia valer tropheus d'armas, radiando d'estapafurdias
+panoplias: a mitra d'um bispo, cravejada de joias, um parasol de coiro
+arrancado ás escavações d'um templo romano, em Evora, peitoraes d'uma
+antiga cota sarracena... E dir-se-hia uma sala d'armas então. Porém do
+outro lado, a luz ia aclarar perto do leito, um perfumador de cobre
+sobre tripé de bronze. Luiza reparou. Ligeiros fumos fugiam á tona da
+caçoila, espojando arômas de flôres de Takeoka, bolas de styrax, coiro
+da Russia, jasmins... E santo Deus! a narina farejava lupanar. De
+quando em quando, as cortinas do leito mexiam, e pelo ar respirado da
+peça, aquelles perfumes torpidos erravam, n'essa calentura das alcovas
+habitadas pela reminiscencia de muitos amores sobrepostos. Luiza
+sentia-se desfallecer, á idéa d'outra mulher antes d'ella, ter
+captivado o estudante. Mas que mulher? dizia <span class="pagenum"><a id="page034" name="page034"></a>(p. 034)</span> a camareira
+emparvoecida. O nome d'ella? O feitio d'ella? Dentro do palacio, por
+mais que procurasse, não descobria uma rival. Sua irmã não era bella:
+e fatigada, arrastando saias de barra immunda... Na cozinha, as
+creadas, todas feias de perder os sentidos. Alguma creatura de fóra?
+Isso é que não! De noite, Luiza rondava os corredores: a galeria que
+abraçava exteriormente o quarto de Ruy, era Luiza que lhe fechava a
+grade de ferro, aberta sobre os jardins. E irresoluta, tinha um suor
+na raiz dos cabellos. Aquelle sonso! Aquelle vil!&mdash;A sua primeira gana
+tinha sido correr ao leito, afastar as cortinas, ir contar tudo á
+senhora. Mas um terror apoderára-se dos seus membros. Que medonha
+noite na sua alma, que singular e perfida violação do seu destino,
+quando ella visse com os seus olhos, palpasse com os seus dedos, o que
+já alcunhava de traição a uma fé que ninguem lhe havia ainda jurado! E
+lá dentro, n'aquelle infame ninho de volupias, sempre o murmurio de
+beijos e suspiros. Urgia emtanto chamal-o para o almoço. Já no pateo
+havia rumores de vozes e relinchos de cavallos. Luiza sahiu pé ante
+pé, para entrar outra vez com grande ruido de portas <span class="pagenum"><a id="page035" name="page035"></a>(p. 035)</span>
+atiradas. Mas ainda ella não transpunha a área de resguardo marcada
+pelo biombo, Ruy sahiu do leito com impeto, muito pallido, vestido
+apenas d'uma camisa de sêda: e vindo a ella, volubilmente, abraçou-a a
+plenos braços, deu-lhe um beijo furioso na bocca, e de rodilhão pôl-a
+fóra, fechando a porta sem mais explicações. Foi n'aquelle idyllio
+triste a unica impressão feliz que ella sentira: e todo o dia, toda a
+noite, lhe sabia a bocca áquelle beijo de rapaz que lhe entrára na
+carne pela furia virulenta da lingua.</p>
+
+<p>D'alli a pouco, os caçadores deixavam o pateo direito ao laranjal.
+Luiza chegou-se ao terraço a vêl-os partir. Era o resto. Alberto M.,
+empurrava para a porta Marquez das Flôres, retardado em dizer
+madrigaes á camareira. Festejado Mattos ia bifurcado n'um burro,
+immovel como um bonzo por baixo d'um grande chapéo de esteira do
+Algarve, entre cabazes de provisões. Marquez de Selmes fôra o ultimo a
+transpôr a porta. Reparando em Luiza, gentilmente:</p>
+
+<p>&mdash;Tira a cabeça do sol, não adoeças.</p>
+
+<p>E mandou-lhe um beijo nos dedos. Então ella alongou a vista para além
+dos muros do <span class="pagenum"><a id="page036" name="page036"></a>(p. 036)</span> pateo, viu Ruy pelo braço de Mattoso,
+conversando a passos vagarosos.</p>
+
+<p>&mdash;Menina Luiza.</p>
+
+<p>Era Ezequiel com uma caixa de marroquim.</p>
+
+<p>&mdash;Da parte do senhor marquez.</p>
+
+<p>Luiza abriu o cofre, na ingenua expansão de Margarida ao atacar a aria
+das joias, na scena do jardim.</p>
+
+<p>&mdash;Joias, joias! e houve no orgulho d'ella, um romper do sol
+vertiginoso.</p>
+
+<p>&mdash;Para começo, é do melhor, dizia Ezequiel. E Luiza tocava n'um
+bracelete ao acaso, com safiras e pequenas perolas d'agua duvidosa.
+Havia mais um afogador, seu par de brincos, outra pulseira... E a sua
+bocca sorria de pasmo, na sua cara enxovalhada de pejo.</p>
+
+<p>&mdash;Vale quarenta libras, toda esta caganifancia, quarenta. O homem faz
+limpamente os seus negocios, dizia Ezequiel. Eh! Eh! ponha lá as
+pulseiras, menina Luiza:&mdash;abriu uma.&mdash;Que lindeza! Metteu-lh'a no
+braço. É para vêr como fica.</p>
+
+<p>Luiza toda se arrepiava ao frio do metal na pelle trigueira do seu
+punho. Lembravam-lhe aquelles beijos na camara de Ruy, pela manhã. E
+fechou o cofre de repente, <span class="pagenum"><a id="page037" name="page037"></a>(p. 037)</span> dizendo a Ezequiel que o tornasse
+a levar ao marquez. Com certeza houvera engano. Ella não podia aceitar
+presentes d'aquelles.</p>
+
+<p>Então c'o gesto grave, Ezequiel:</p>
+
+<p>&mdash;Nada, nada. Seu amo ficaria fulo, se visse as joias recambiadas.</p>
+
+<p>Mas Luiza não o escutava, nem ouvia. De novo, o ciume lhe fizera
+derivar a attenção por outra corrente.</p>
+
+<p>Oh, a mulher que estava com elle! Não poder ella agarral-a sem
+testemunhas! Não lhe poder tomar o nó da goela entre os pollegares
+furiosos; e desagregar-lh'o, e esmagar-lh'o fazendo-lhe espalmar a
+lingua para fóra da bocca, até á base toda sangrenta nas mordeduras da
+agonia! Via-o então apparecer d'entre as cortinas&mdash;como elle vinha,
+lesto, branco, em sobresaltos!&mdash;na sua esguia camisa de sêda, vermelha
+e longa, muito franzida á volta do pescoço, e toda ella moldando a
+estatura elançada d'algum d'esses reisinhos loiros das phantasmagorias
+poeticas de Shakespeare. E o beijo que lhe déra, tão sapido de
+delicias inéditas, bocca a bocca, Luiza tinha-o sempre no fremito dos
+seus labios, e guardava-lhe o perfume no halito, como se o embalsamára
+uma pastilha de harem.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page038" name="page038"></a>(p. 038)</span> &mdash;Além de que, tenho fé que a menina vai d'aqui a pouco mudar
+de tenção. Olá se vai!</p>
+
+<p>&mdash;Que está a rosnar, Ezequiel?</p>
+
+<p>&mdash;Nada, nada. Aceitar, que quer dizer? É um presente: meu amo não pede
+nada por elle. D'ahi, seria a primeira vez... Eu cá recusei deitar-me
+co'a viuva, que era barbosa e medonha, mas sempre lhe fui recebendo
+bom relogio de oiro. Gente pobre põe de banda orgulhos tolos. É metter
+n'algibeira, menina Luiza. É de boa creação.</p>
+
+<p>Luiza ficou cogitando. Joias tinha-as ella visto nos gavetões da
+marqueza, em grandes cofres de setim desbotado: estylos modernos,
+velhos estylos, todos os metaes, todos os esmaltes, pedras de todas as
+aguas e de todas as côres. O mal da pedraria, que faz cúpida a mulher
+do alto luxo, Luiza não podia soffrel-o ainda, no seu humilde papel de
+camareira. Vagamente ella entrevia a seducção d'aquellas faiscantes
+areias, que os romances acclamam como talisman de todas as concessões,
+sem todavia desconfiar que atmosphera mordente põem de roda á belleza,
+as fulgurantes pedras lapidadas. Ir contar tudo á senhora marqueza?
+Boa idéa. Luiza foi aos aposentos da enferma. Ahi lhe daria o ataque
+<span class="pagenum"><a id="page039" name="page039"></a>(p. 039)</span> de nervos, desharmonia na casa, e talvez para ella o olho da
+rua... Muito embora! Entrou. Mas logo ao entrar ouviu tossir. A velha
+passára mal durante a noite, vomitos sêccos, uma ponta de febre, e a
+manhã passou-se n'isto. A marqueza não tinha querido erguer-se da
+cama, e ouviu missa mesmo deitada, pela porta entreaberta do oratorio.
+A cada momento, Luiza tinha que voltal-a, trazer-lhe um livro,
+executar uma ordem, aconchegar uma cortina, vêr o tempo. E só pelo
+meio dia pôde tirar um bocado para se ir vestir. O quarto d'ella era
+junto aos aposentos da senhora, com uma porta sobre o grande corredor
+que levava aos quartos de Ruy, não longe dos quaes demorava Ezequiel.
+E Luiza começou um <span lang="fr"><i>toilette</i></span> minucioso e cuidado. Ao canto fumegava o
+banho, em que ella entornára meio frasco d'agua flórida. E sobre a
+commoda, o cofre aberto, deixava vêr os presentes do marquez. Das
+gavetas saccou Luiza a roupa que precisava: uma camisa d'abertos, bem
+fina e trabalhada por ella, saias brancas&mdash;era um domingo&mdash;e d'uma
+gaveta pequena, o retrato de Ruy que poz á vista, sobre o pequeno
+movel de cabeceira. Já uma a uma, as saias d'ella iam cahindo, diante
+do espelho, <span class="pagenum"><a id="page040" name="page040"></a>(p. 040)</span> com a friorenta graça, um pouco crispada, d'um
+faisão que se banha no regato, ruflando as plumas, depois de haver
+bebido. E ainda apoiando ao seio a camisa, que despira, espremeu
+d'alto, vagarosamente, sobre a tina, a esponja ensopada em agua
+tépida. Desnastrára os seus cabellos, que eram grandes, espiralados,
+bem fartos, reluzentes e negros, torcendo-os após sobre a nuca, n'um
+grande molho de serpentes, como nas estatuas classicas, os cabellos da
+Venus aphrodite. Espiralitas doidas, carrapitos finos, muitos
+frisados, soltavam-se-lhe do turbilhão de cabellos, por brinquedo,
+cocegando-a na pelle doirada do pescoço. Emfim a camisa cahiu; e era
+assim adoravel de nudez, triumphante de mocidade, cheia de revelações
+e surprezas virginaes. Quasi morena, a sua pelle vestia uma carne
+rija, symetrica, cantando sonatas perfidas de volupia, em que resoavam
+estribilhos de dentadas, gritos hystericos, spasmos e soluços
+d'insaciavel peccado. Mesmo, á volta da banheira, dirieis que as
+coisas abriam palpebras, e por entre as palpebras, olhos que a
+fitavam, furiosos de deboche, gritando infamias por centenas de boccas
+invisiveis. Ui! como a sua divina garganta, <span class="pagenum"><a id="page041" name="page041"></a>(p. 041)</span> rapazes, parece
+crystallisar em bellezas inéditas, toda a luxuria em que as gerações
+têm urrado, sedentas da fórma, ha tantos seculos! Que bazar de
+tentações delirantes era o seu peito, que duas pétalas de rosa
+maculam, tão altas, tão iguaes, tão erecteis, que antes pareciam
+beicitos de criança, estendidos n'um momo candido para aceitarem o
+beijo d'um velho amigo da casa.&mdash;E mergulhou, espanejada, dilatada de
+prazer, cantarolando baixo uma cantiga. A espaços chapinhava a agua,
+immergia, tornava a cahir, amollecida n'um desejo, sonhando noites de
+nupcias com elle, sobre o leito de cortinas sombrias, onde as suas
+respirações se estrangulassem entre um murmurio de beijos e suspiros.
+O retrato de Ruy nem a fitava, receando a perscrutação impreterivel
+dos seus olhos, e o jugo d'aquelles braços, absorvente e pantanoso.</p>
+
+<p>Uma hora no relogio do corredor.</p>
+
+<p>Ainda agora Luiza não sabe explicar, como é que tendo jurado a si
+mesma, recambiaria o estojo ao marquez, se encontrou no fim do banho
+em frente ao espelho, núa como Cypris na areia de Cythéra, ensaiando o
+effeito do afogador e dos braceletes, na pelle rosada ainda dos
+attritos da esponja. Á medida que <span class="pagenum"><a id="page042" name="page042"></a>(p. 042)</span> ia fixando sobre o
+espelho, tantos e tantos detalhes de perder a cabeça, passava no
+clarão dos seus olhos o mudo extasi de si propria, e a coriscação do
+oiro novo, nas flocosidades brunas da garganta e dos hombros. E
+comsigo mesmo acabou por achar razão a Ezequiel. Por fim de contas,
+aceitar que quer dizer? É um presente. O senhor marquez não pede nada
+em demasia da offerta. Virava a cabeça para vêr o luzeiro dos brincos,
+ageitava o colar, punha as pulseiras... Deliciosa, fascinadora,
+appetecivel! Se Ruy pudesse vêl-a a plena luz, assim despida, e sem a
+hypocrisia do mais ligeiro véo, talvez que elle sustasse de vez tantas
+repulsas&mdash;ai, talvez!&mdash;e viesse cahir-lhe aos pés absorvido na sua
+belleza immortal. Oh, como da esbelteza nervosa dos dois corpos,
+ventre a ventre, se evolaria o poema de mysteriosas caricias n'esse
+instante, rimado a beijos, labio a labio; esse divino poema, através
+de cujas estancias rola a batalha do gozo, e do calice de cujas
+imagens gotteja a tripla-essencia das mais celestes devassidões! Duas
+vezes ou tres desenrolára a camisa, esfregando-a da gomma entre as
+mãos sobresaltadas: e ainda por fim se adorava no espelho adulador,
+furiosa por dar-se, <span class="pagenum"><a id="page043" name="page043"></a>(p. 043)</span> n'um paroxismo que ia até ao
+deslumbramento. De repente pareceu-lhe ouvir rumor no quarto proximo.
+Enfiou a camisa á pressa, atarantada; pé ante pé foi indo de mansinho
+até á porta, receosa, d'ouvido á escuta occultando a nudez por traz
+dos reposteiros. Não se enganára. Estava entreaberta a porta do
+corredor. Então lançou um chale pelos hombros, enfiou as chinellas á
+pressa, sem se atrever a perguntar quem andava lá. Mas deu um grito de
+susto, vendo Ezequiel diante d'ella, lívido de morte, tremulo e babado
+como um satyro decrepito.</p>
+
+<p>Luiza apenas tivera tempo de acocorar-se a um canto da peça, buscando
+encobrir-se toda no chale, pallida de vergonha e gritando ao malandro
+que se fosse.</p>
+
+<p>Porém este, apopletico, nem fallar podia, fulminado por aquella visão
+de mulher núa, e com o cuspo a espessar-se em grossos fios nos cantos
+da bocca.</p>
+
+<p>&mdash;Aquelle ruivo, menina Luiza, tartamudeou elle por fim, rolando os
+olhos,&mdash;o que faz versos... Entregou-me este papel para vossemecê.</p>
+
+<p>&mdash;Bem, bem, vá-se embora. Ande! Não ha maior atrevimento.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page044" name="page044"></a>(p. 044)</span> &mdash;Ouve, Luizinha, rica filha, eu já me vou. É uma coisa que
+eu trago aqui guardada. Des'que te vi. E tão núasinha, tão boa, Jesus
+do céo!</p>
+
+<p>&mdash;D'aqui p'ra fóra! Já! Ou chamo gente.</p>
+
+<p>&mdash;Os outros querem-te por uma vez, pai, filho, moços e velhos, anda
+tudo atraz de ti. É uma canalha, já t'o disse, é uma canalha. Até me
+propuzeram que te amordaçasse, uma noite, p'ra se refocilarem comtigo,
+aquelles ladrões.</p>
+
+<p>A sua voz rastejava, o seu aspecto era terrivel.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo amor de Deus! supplicou elle. Ouve-me ainda.&mdash;Estou quasi rico.
+Estou velho. Oh, chega-te a mim! Podemos casar. Ámanhã. Hoje mesmo.
+Filhinha! Que és bonita d'offender a Deus no céo.</p>
+
+<p>Estendia os braços para cingil-a, co'a lingua sêcca na bocca, e
+alongando os beiços lividos contra os claros de nudez que lobrigava.</p>
+
+<p>&mdash;Anda commigo. Sahirás d'esta espelunca. Só em Lisboa, tenho doze
+contos no banco, á minha ordem. Pratas, inscripções arrecadadas ao
+canto do meu bahú. Ouve, Luiza! Tu matas-me, diabo! tu estás deitando
+<span class="pagenum"><a id="page045" name="page045"></a>(p. 045)</span> a minha alma no inferno. Um beijo só n'essas carninhas.
+Deixa dar. Que mal te faz?</p>
+
+<p>E vergado á tremura senil dos debochados, Ezequiel cambaleava,
+crispava-se, indo para ella de rastros, assim como um cão leproso
+conquistando a codea que lhe negam, sob golfões de chicotadas.</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho herdeiros. Um pobre velho! De hoje p'r ámanhã posso
+morrer. Lembras-te do que te tenho dito? Os conselhos, os mimos...
+tristezas que eu soffro por causa de ti. Eh! Eh! Está decidido que
+aceitarás.</p>
+
+<p>Então conseguiu agarrar-lhe um braço, o que desligou Luiza das algemas
+nervosas que a sustinham, estarrecida, perante o sapo de cujo visco
+escorria tanta lascivia torva d'impotente. Houve uma lucta. Os
+cabellos de Luiza rolaram.</p>
+
+<p>&mdash;Larga-me, ladrão! dizia ella n'um choro baixo, rapido, soluçando em
+convulsões. Comtigo, nem morta, estupor! Doira-te, a vêr se eu te não
+cuspo n'essa cara. A tua vida, todos a conhecem. Devias andar na costa
+d'Africa, amarrado com cadeias a algum canzarrão da tua parecença.
+Larga-me, larga-me, quando não dou cabo de ti!</p>
+
+<p>Elle porém, retendo-a, sem violencia ainda:</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page046" name="page046"></a>(p. 046)</span> &mdash;Tu deves lembrar-te, Luizinha, do bem que eu te tenho
+feito. Os teus desejos, ando a adivinhal-os. O teu nome é-me sagrado
+em toda a parte. Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus!</p>
+
+<p>&mdash;Rua d'aqui! De quem eu gosto é do menino. Eu hei-de ser d'elle por
+força. Inda que eu haja d'entrar na vida depois.</p>
+
+<p>Os dentes do velho rangeram. Chorava, ria, esse homem, cobrindo o
+peito de baba; era assombroso de vexame! Luiza conseguira libertar uma
+das mãos; e pregou-lhe nas ventas uma bofetada medonha. Áquella
+affronta, Ezequiel perdeu a cabeça. As obscenidades golfaram-lhe da
+bocca, como granizos espessos, pintando toda a decrepita infamia da
+sua alma. Ella estava de pé junto da porta, quasi núa, sem se
+importar. Tinha no collo e nas orelhas as joias que lhe mandara o
+marquez. O velho viu-as.</p>
+
+<p>&mdash;Eh! Eh! Sempre aceitaste o cofre de meu amo. Já lhe posso ir contar
+que o mais difficil trabalho está vencido. É melhor ser amásia de
+fidalgo que mulher de creado de servir. Inda tu procedeste com brio.
+Ha marafonas honradas! Podias ter escolhido as duas profissões ao
+mesmo tempo. Ella ria-lhe na <span class="pagenum"><a id="page047" name="page047"></a>(p. 047)</span> cara. E o miseravel, volvida a
+crise, apresentou-lhe as ultimas concessões. Ajoelhára. E jurou-lhe
+consentiria o adulterio. Dava-lhe as suas riquezas por uma noite só
+d'intimidade. Casada com elle&mdash;ao dia seguinte, podia partir com
+dinheiro dos seus cincoenta annos d'escravidões e economias.</p>
+
+<p>Luiza não retrucou: agarrára um papel de cima da cama.</p>
+
+<p class="poem10">Deliciosa aranha delicada...</p>
+
+<p>Mas casualmente, erguendo os olhos, viu na bandeira da porta tres
+cabeças gravemente assestadas á vidraça, gozando a comedia com a paz
+d'alma de bons espectadores das galerias. Marquez das Flôres tinha um
+grande binoculo com que a mirava. O poeta estava em extasi. Do
+festejado Mattos mal se via a careca luzente, como era mais pequeno, e
+uma ponta do nariz guloso que vinha adejar contra os vidros, como um
+focinho de morcego encandeado contra a luz d'uma fogueira.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Perto da quinta, sobre um outeiro coberto de cevada verde, do outro
+lado da aldeia, <span class="pagenum"><a id="page048" name="page048"></a>(p. 048)</span> houvera de tarde uma festarola d'ermida.
+Todas as creadas tiveram licença para ir até lá, depois do jantar,
+excepto Luiza que estava de serviço á marqueza, e Ezequiel que, já
+velho, quizera ficar junto de seu amo. Dos terrados do palacio via-se,
+já noite, a foguetaria estrondeando no adro, e clarões de fogueiras
+lambendo as saias das moças na sarabanda dos bailaricos. De quando em
+quando, uma labareda mais clara desenhava no azul profundo a branca
+fachada da igreja, d'onde sahia um campanario em agulha, cujas sinetas
+desde a manhã tagarellavam festivamente. Extinctos os rumores das
+officinas, no andar terreo, silenciosas as cocheiras e mais
+dependencias da casa, toda a enorme residencia dir-se-hia acachapada
+n'uma somnolencia lugubre, entre a confusão dos arvoredos. Apenas nos
+quartos da fidalga cochichavam tres ou quatro velhas damas das quintas
+perto, que tinham vindo de visita, aproveitando a aberta do dia santo;
+e na casa de jantar, logo depois do café, o jogo começára entre os
+convidados do marquez.</p>
+
+<p>Sósinha no terraço, Luiza seguia a curva dos foguetes no céo
+primaveril, esmagada pela espantosa scena com Ezequiel. Queixar-se...,
+<span class="pagenum"><a id="page049" name="page049"></a>(p. 049)</span> ella tinha pensado em queixar-se. Mas Ezequiel contaria a
+scena do afogador e das pulseiras, a sua loucura pelo Ruy, e todas as
+tagarellices que a pobre cahira em confiar-lhe. Á tardinha, vencida de
+remorsos, ainda ella ousára ir com o estojo ao marquez, a recusar-lhe
+nitidamente aquellas offerendas que não merecia. Elle olhou-a com a
+bondade um pouco ironica que costumava ter.</p>
+
+<p>&mdash;Meu padrinho, eu vinha...</p>
+
+<p>&mdash;Ah, não me agradeças, pequena. Sei da companhia que fazes á senhora.
+É uma lembrança de minha parte. Nas raparigas bonitas é que essas
+coisas dizem bem. Vai.</p>
+
+<p>E Luiza não tivera coragem d'insistir.</p>
+
+<p>Essa noite, Ruy que passeava, fumando, ao longo da balaustrada,
+observou-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Estás com pena de não ter ido ao arraial?</p>
+
+<p>&mdash;Eu cá sim! respondeu ella. Olhe que ha de ser por lá uma balburdia.
+Se lá estivesse, o que eu fazia era voltar.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda é tempo, se queres. Minha mãi dá-te licença.</p>
+
+<p>&mdash;Ai, não. Gosto pouco de romarias.</p>
+
+<p>&mdash;O que é que tens então? Pareces triste. Pareces doente.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não tenho nada, menino.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page050" name="page050"></a>(p. 050)</span> Elle fez mais duas vezes o comprimento da balaustrada,
+lentamente, fumando: e o seu passo não fazia ruido sobre o xadrez da
+plataforma.</p>
+
+<p>&mdash;Só se te zangaste esta manhã... Foi brincadeira minha, não faças
+caso.&mdash;Mas Luiza sorriu-se: zangar, porque?</p>
+
+<p>&mdash;Eu sei! Podias não ter gostado.</p>
+
+<p>&mdash;D'um beijo? Ora! não vinha talvez p'ra mim.</p>
+
+<p>Ruy tossiu um pouco. De cada vez que elle dava costas, os olhos de
+Luiza seguiam-n'o. E a sua figura perdia-se no escuro, ficava um
+instante indecisa entre as sombras das arvores. Luiza aguardava então
+que elle voltasse, com extasis de devota, e quando o lume do seu
+cigarro apparecia, ella retomava a sua postura de Manon batida.</p>
+
+<p>&mdash;Já sei, que tem um namoro, disse ella em voz baixa, ao fim d'um
+esforço.</p>
+
+<p>Elle voltou-se.&mdash;Eu!</p>
+
+<p>&mdash;Tem, tem.</p>
+
+<p>Ruy estava muito familiar.</p>
+
+<p>&mdash;Póde ser. Na vizinhança ha bonitas raparigas.</p>
+
+<p>&mdash;Não, não, cá em casa.</p>
+
+<p>E o pequeno rindo.&mdash;Então és tu.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page051" name="page051"></a>(p. 051)</span> &mdash;Ai, a mim ninguem faz festa. Acham-me feia.</p>
+
+<p>&mdash;Ao contrario. Toda a gente anda por ahi a fazer-te a côrte. Eu
+percebo.</p>
+
+<p>&mdash;Esses!... disse ella, fazendo olhinhos de gata sobre Ruy. E encolheu
+desdenhosamente os hombros.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, emfim, quem namóro eu?</p>
+
+<p>&mdash;Não disfarce. Quando entrava no seu quarto esta manhã, ouvi...&mdash;Já
+elle proseguia no giro interrompido, como se entendera a indiscrição.
+Essa vez demorou-se mais. E ao topal-a, bruscamente:</p>
+
+<p>&mdash;E tu que recebes presentes! Dizes que não.</p>
+
+<p>&mdash;Ah, sabe.</p>
+
+<p>&mdash;Esta manhã.</p>
+
+<p>&mdash;Á hora dos beijos... juntou Luiza para lhe metter ferro.</p>
+
+<p>Elle tinha ficado nervoso.&mdash;Hein? presentesinhos...</p>
+
+<p>&mdash;Quem m'os deu explicou-me o motivo porque m'os dava. A minha recusa
+seria prova de soberba, e tinha de passar por desagradecida aos olhos
+de meu padrinho.</p>
+
+<p>&mdash;Quero dizer, eu não me importa...</p>
+
+<p>&mdash;O tal Ezequiel que enxafurda os outros <span class="pagenum"><a id="page052" name="page052"></a>(p. 052)</span> na calumnia, devia
+lembrar-se das muitas infamias da sua vida. Olhe que se eu quizesse
+fallar!</p>
+
+<p>&mdash;Não. Isso cautella. É um creado velho, elle prudente, elle fiel...
+Emfim, agrada-me.</p>
+
+<p>&mdash;Deus fará com que se desilluda, menino, quanto mais depressa melhor.
+Mas ao menos, devia ter-lhe contado tudo, o intrigante.</p>
+
+<p>&mdash;E achas pouco? tornou elle em ar de mofa.</p>
+
+<p>Luiza interdicta, não sabia bem ao que elle se estava referindo.
+Ficaram calados.</p>
+
+<p>Até que resoluta, um pouco tremula, pondo-lhe as mãos sobre as mãos:</p>
+
+<p>&mdash;Ha uma pessoa só de quem eu gosto, disse ella.</p>
+
+<p>&mdash;Cá em casa estão muitas. Provavelmente gostas de todas.</p>
+
+<p>Ella dava grandes suspiros, afflicta: e desatou n'um choro
+subitamente.</p>
+
+<p>&mdash;Mas vamos! Que é isso? Porque choras tu?</p>
+
+<p>&mdash;Não é nada, não é nada...</p>
+
+<p>&mdash;Não, isso has de dizer.</p>
+
+<p>Ella deitou-se-lhe aos joelhos, e n'uma anciedade:</p>
+
+<p>&mdash;Oh não me deixe! Não me deixe! Se <span class="pagenum"><a id="page053" name="page053"></a>(p. 053)</span> elle soubesse! Era tão
+desgraçada, tão maldita! Todos na casa queriam perdel-a; Ezequiel
+antes de todos, lhe infundia um pavor funebre e desgrenhado. Que mal
+fazia ella? Porque insistiam em lhe fazer sentir a sua falsa posição
+n'aquella casa?</p>
+
+<p>&mdash;Mas cita os nomes, conta o que te fazem, insistia Ruy por acalmal-a.</p>
+
+<p>&mdash;Não sei, não sei, dizia a rapariga: e soluços bruscos abalavam-lhe o
+peito. Era uma angustia que a tomava, uma tristeza que lhe vinha sugar
+o coração. De noite acordava espavorida, com um novello nas goelas,
+sem poder respirar. Tinha que dormir fechada á chave, por sentir
+passos de roda do seu quarto, sombras fugindo na curva dos
+corredores... Tudo lhe parecia hostil n'aquelle palacio agora... os
+olhares dos homens, as tagarellices das creadas, os proprios rumores
+indistinctos d'altas horas.&mdash;Ezequiel dissera que a havia de perder.</p>
+
+<p>&mdash;Olha a mania! Ezequiel não passa d'um pobre velho.</p>
+
+<p>Ella quasi o cingia pela cintura, estreitamente, fazendo-se pequenina,
+e como se quizesse abrigar-se no concavo das suas axillas. Supplicava
+em voz surda, com a bocca collada <span class="pagenum"><a id="page054" name="page054"></a>(p. 054)</span> ao peito d'elle. Dirieis
+uma liana de martyrio enlaçando a haste flexivel d'um cipó.</p>
+
+<p>&mdash;Não, não, menino Ruy. Luiza bem adivinhára os intentos d'aquelle
+homem sinistro. Elle queria-a. E ousára dizer-lh'o com que palavras,
+sabe Deus!&mdash;E outros ainda. Marquez das Flôres, que outro dia, ao
+encontral-a no jardim... Finalmente Biscaya vinha arranhar-lhe á porta
+do quarto... O ruivo mandava-lhe poesias... Nas cozinhas, em ella
+entrando, todas as moças tossiam como se lhe soubessem d'um pôdre. Até
+os da cocheira tinham ousado chalaças crúas, quando succedia
+toparem-n'a de perto. E Luiza tremia, Luiza perdia a cabeça!&mdash;Uns por
+ciumes da protecção que os senhores lhe dispensavam; outros por maus
+desejos que ella sempre tinha repellido; e todos buscando precipital-a
+da sympathia de Ruy e da marqueza. Oh, já não sabia como fugir áquella
+calcinante atmosphera de odio e rancor.</p>
+
+<p>&mdash;Casar, disse elle. É o que deves fazer. E o seu olhar evitava-a.</p>
+
+<p>&mdash;Casar, ella! quem queria uma mulher sem fortuna, e com a educação
+mais alta que o nascimento? Os habitos que contrahira <span class="pagenum"><a id="page055" name="page055"></a>(p. 055)</span>
+n'aquella casa prohibiam-lhe de se unir a um qualquer homem do campo
+que ella de resto não saberia amar sinceramente. Esses mesmos habitos
+haviam compromettido a serenidade da sua consciencia, e quem sabe se
+auctorisado os desbragados propositos dos que buscavam perdel-a?
+Mesmo, a sua razão tresvairava: era necessario um esforço desesperado
+para varrer da cabeça as loucuras que por lá corriam.</p>
+
+<p>Loucuras, sim?</p>
+
+<p>Ella não delirava. Casar com este ou com aquelle, tudo era cahir do
+sonho radioso a que se afizera primeiro. O homem que ella adorava,
+jámais poderia sem descer, tocar-lhe com os labios na testa. E o seu
+futuro, ella bem no via, descendo n'uma espiral d'angustias e
+desalentos. Em creancinha, quando o menino estava ausente, Luiza
+dir-se-hia no palacio a filha unica da marqueza, que todos acariciavam
+de passagem, buscando por ella captar a benevolencia da fidalga. A
+felicidade era tão facil d'aprender! Assim se fôra educando, como se a
+destinassem a algum homem de condição superior. Até a familiaridade de
+Ruy, n'aquelle tempo, lhe ajudára a fomentar a sua illusão de
+grandeza. Agora Ruy estava <span class="pagenum"><a id="page056" name="page056"></a>(p. 056)</span> um homem&mdash;adeus encantamento!
+Luiza teria de voltar a ser uma guardadora de porcos.</p>
+
+<p>Elle apadrinhou-a com um magnifico gesto fidalgo. Quasi nem metade das
+suas palavras ouvira, porque havia um instante, surpreso, se escutava,
+sentindo-se invadir d'um sentimento indefinivel, delicioso,
+inquietante, que lhe ascendia no sangue, e o esbraseava no mais
+recondito da sua carne, e lhe punha fervores pela nuca, até ás fontes,
+como se fôra um veneno. Aquillo espraiava-se n'elle em bruscas ondas:
+era uma sensação inexplicavel de vaga delicia, sobresalto, receio,
+queimadura... Já trinta vezes quizera afastar Luiza, sacudir os
+filtros que vinham da sua provocadora belleza, retomar o seu bello ar
+de principe herdeiro, impassivel aos arrulhos do serralho: e outras
+trinta sentira faltar-lhe a coragem. Entrou então a dizer-lhe
+consolações ao acaso. Ella estava por força na sentimentalidade
+ephemera d'um mau momento, vendo côr de cinza por uma ennublação
+instantanea da sua viveza de rapariga&mdash;nem admirava, com a doença da
+senhora marqueza... E senão, que queria dizer tudo o que lhe ouvira?
+Das suas palavras, não resahia <span class="pagenum"><a id="page057" name="page057"></a>(p. 057)</span> uma só causa de soffrimento
+legitima. Era quasi tudo pesadello romantico, trahindo a crise dos
+nervos convulsivados, hemorrhagia sem lançada, preludio d'amor
+latente, que fluctuava ainda sem escolha d'idolo. No fundo d'essa
+avenida de projecções melancolicas, era evidente que a sombra d'um
+homem adejava, mas sem physionomia, sem cabeça... uma insurreição do
+feminino em cata de nupcias. As mulheres aos vinte annos vibravam
+todas n'aquella passageira crise do sexo reclamando o culto para que
+foi votado. O necessario agora era pôr uma cabeça sobre os hombros
+d'aquella translucida apparição, dar-lhe face, dar-lhe caracter,
+dar-lhe nome... Finalmente, tornar o phantasma em homem!&mdash;E sorrindo:
+hei de procurar-te um noivo, deixa estar.</p>
+
+<p>Luiza erguera a cabeça.</p>
+
+&mdash;Tu?
+
+<p>Surprehendido, elle encarou-a. Viu-lhe o perfil dealbado por um
+lampejo da sulfatara interior, e a lascivia da bocca aspirando o
+halito das suas benignas palavras.</p>
+
+<p>&mdash;O meu noivo, balbuciava ella n'uma especie de amoroso delirio,
+poetisado pelas cadencias da voz debordando em melodias. Procura-o
+perto. Talvez te não responda, apesar <span class="pagenum"><a id="page058" name="page058"></a>(p. 058)</span> dos meus suspiros que
+o chamam, noite e dia. É uma estranha creatura, esse noivo, bella como
+a apparição do Christo a Santa Thereza, porém fria e fatal aos que se
+lhe approximam. Só prostrada na terra eu ouso chegar-me a elle, como
+um reptil a uma corça branca dos bosques. Entre nós, eu bem conheço,
+ha o boqueirão d'uns poucos de seculos de cultura. Quero preencher com
+a minha belleza esse formidavel precipicio que me prohibe de o adorar.
+Ai de mim! Embalde os meus braços tremulos se lhe estendem, e os meus
+olhos extaticos vão pousar-se, como pombas, no esplendor da sua
+belleza tão pura. Elle não quer ouvir os meus soluços, nem derramar
+nos meus cabellos a calorosa uncção das suas caricias. É nobre, é
+altivo. O seu destino o preserva das minhas traiçoeiras ciladas. Todas
+as aflicções da minha alma, todas as reluctancias da minha juventude,
+dias de esperança, noites de delirio, nostalgias a olhar do angulo
+d'um terraço o cotovello d'estrada por onde a sua carruagem se
+sumiu... tudo ahi fica murcho e desfeito no caminho dos seus passos,
+sem que elle volte a cabeça para me lêr no branco dos olhos a
+cruciantissima dôr que a sua pisadura fez <span class="pagenum"><a id="page059" name="page059"></a>(p. 059)</span> verter. Annos e
+annos, esta cegueira luctou por captivar-lhe a misericordia, sem
+reparar nas concessões infamantes que a minha alma ia fazendo aos
+desejos que a torturavam. Quiz transfigurar primeiro o meu amor n'um
+celeste e casto poema, todo espiritual, todo intimo; subtilisal-o em
+dedicações, impôr-lhe sacrificios... devotar-me emfim á sua
+felicidade, calando o grito do meu coração que reclama sem partilha,
+essa creatura em que elle não póde pensar sem deslumbramentos.
+Protesto inutil! Filha de grosseiras gentes, puidas de miseria, e
+fazendo do vicio desforço para amordaçar o desespero, estava escripto
+que eu havia de andar a rojo, como a serpente, tentando a claridade
+immortal da sua adolescencia.</p>
+
+<p>Luiza calou-se, arquejante. E os seus cabellos roçavam pela bocca de
+Ruy, mordicando-lhe a pelle do queixo com uma titilação imperceptivel.</p>
+
+<p>&mdash;Emfim, a minha paixão chega a um limite e rebenta, prevendo o
+instante em que elle me vai fugir para não voltar. Oh não me abandones
+tu!</p>
+
+<p>&mdash;Vem gente, tornava Ruy n'um sobresalto.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page060" name="page060"></a>(p. 060)</span> A mesma loucura os tomava e fazia pulsar estreitamente
+unidos, assim como n'uma bocca muda, um labio a outro labio.</p>
+
+<p>&mdash;Não! É um minuto mais, dizia ella. Eu já não sei o que digo. A idéa
+de que outra mulher terá beijado a tua bocca tira-me o somno, e o meu
+sangue tumultua e allucina-se desde que perdi a esperança de te
+captivar a um simples fremito das minhas sobrancelhas. Eu não te peço
+um desses amorfos e dessorados amores que sob a umbella da igreja
+podem mostrar-se a toda gente, na atonia estupida em que a lei
+amosenda as <i>fioriture</i> do coração. Tornei-me um animal de luxo, não é
+assim? cuja posse disputam em tua casa esses homens. Então escolho-te!
+Estou no meu direito. E como uma escrava, estatelo-me no chão que tu
+pisas, para que me esmagues a cabeça depois de me haveres cingido, uma
+vez só que seja.</p>
+
+<p>Ella cahira-lhe aos pés, e beijava-lh'os com a exaltação d'uma louca e
+os phrenesis d'uma enfeitiçada. N'aquele instante, Ruy nem sequer teve
+um gesto para apanhal-a do chão. Fizera-se muito pallido. Os seus
+braços tinham cahido. E um terrivel sorriso zigzagueava na sua bocca
+enygmatica. Dirieis uma <span class="pagenum"><a id="page061" name="page061"></a>(p. 061)</span> creança, que chegada ao fim d'um
+bello conto, subito se desencanta do entrecho, e passa adiante, sem
+lhe ligar mais attenção. Assim elle entrou nos quartos da marqueza,
+bruscamente, deixando-a prostrada nos primeiros degraus da escadaria.</p>
+
+<p>Por conseguinte, Ruy tinha-a recusado, depois de a ouvir monologar
+como uma actriz fastidiosa. Interdicta e buscando vencer o asco que de
+si mesma lhe vinha, Luiza escutava o furioso debater da sua vaidade
+sacudida na estriadura d'aquella humilhação. Sahiram as visitas,
+voltaram da festa os creados, que pouco a pouco, ceia finda, iam
+desertando para os seus dormitorios. Luiza trouxe o caldo á marqueza,
+vazou-lhe o calice de Madeira com a mesma solicitude machinal, sem ter
+reparado na escarradeira cheia de sangue, na somnolencia e na pallidez
+da pobre dama. Renovou o azeite da lampada do oratorio, desceu á
+cozinha onde sua irmã pela centesima vez insistia em lhe aconselhar o
+casamento com Ezequiel, como mastro de <span lang="fr"><i>cocagne</i></span> para a familia
+inteira: e de joelhos, na capella, para as rezas da noite, por mais
+que fizesse, o seu espirito perdia-se em oceanos de magua: até que
+afogueada, estupida de <span class="pagenum"><a id="page062" name="page062"></a>(p. 062)</span> scismar no seu destino, veio ao
+terraço banhar a cabeça nas brisas da noite.</p>
+
+<p>Os ultimos romeiros desciam do monte, e amadornavam por esses caminhos
+os echos das cantigas, deixando atraz de si n'uma espectativa lugubre,
+a somnolencia espectral dos arvoredos. Uma livida noite amortalhava o
+immenso descampado. Entre cerraceiros de nevoa, a lua minguante subia
+por ondas de claridade torva, gordurenta, sem reflexos, como uma
+agua-forte sinistra que rolasse as suas tragedias de cinzento,
+desfazendo nos macissos as ultimas <span lang="fr"><i>nuances</i></span> de paisagem. Ai, pobre
+Luiza! Aquella repulsa fazia-a rolar na sua idéa a uma condição, além
+de cuja ignominia ella julgava se não podia descer mais. Quanto daria
+ella agora, a pobre tonta, por voltar a ser na estima d'elle a sua
+companheira de brinquedos, a sua pessoa de confiança, a sua amiga, a
+sua irmã?... e poder encaral-o com os olhos limpidos d'outr'ora, sem
+córar por aquella scena de seducção premeditada, que até na propria
+consciencia a envilecia! Agora ella olhava á roda de si cahida da
+exaltação que a levára a cingir-se com elle, interrogando-se,
+perscrutando-se, dizendo-se indigna de todas as commiserações.
+<span class="pagenum"><a id="page063" name="page063"></a>(p. 063)</span> Era uma mulher sem vergonha, quasi ignobil, que inspirára o
+nojo, mesmo formosa, mesmo intacta, ao primeiro homem a quem estendera
+as pomas dos seus desejos. Podia aceitar quaesquer das infamantes
+soluções que lhe propunham: ser a amante do creado, ou ir saciar o
+deleite ephemero d'um dia ao marquez e aos mais debochados do seu
+sequito. O seu desejo extincto, tudo o mais lhe era indifferente; e a
+morte começava d'ali por diante, com a frialdade do seu coração
+prohibido de bater por alguem. Mesmo, não via outro destino além de
+prostituir-se ou matar-se. Para ella o mundo começava em Ruy, acabava
+em Ruy, e só durára no cyclo em que elle a trouxera enfeitiçada. Ruy
+sequestrado ao seu amor: adeus mocidade, alegria chilreante, manhãs no
+terraço á hora de dar alpista aos canarios, projectos, ardores,
+phantasias, esperanças! Elle recusára-a: de que lhe serviam pois as
+turgidas pomas, a cinta ondulosa de serpente, e o divino ventre de
+geraneo e espuma, todas as expansões, todos os calafrios, todos os
+mimos, de que a adolescencia avelluda e povôa o corpo da mulher? Na
+contensão capitosa dos seus extasis, Ruy vira apenas a selvageria do
+goso que extravasa <span class="pagenum"><a id="page064" name="page064"></a>(p. 064)</span> em gestos de braços e na effervescencia
+torpida dos beijos. Além da grosseira exterioridade lasciva e calida,
+tudo o mais lhe escapára d'aquelle amor confessado violentamente,
+refinamentos, fremitos, intellectuaes sobresaltos... o prazer dos
+sentidos vibrantes á visão da pessoa que se adora... os infinitos
+respeitos, supplicas balbuciadas por entre os dentes cerrados,
+transluzindo ameaça&mdash;e delicadezas submissas d'escrava&mdash;e esse fluido
+que sobrenada da alma amorosa, e enche de poesia tudo o que se palpa e
+respira, em torno d'ella.</p>
+
+<p>Desceu ao jardim, direita ao poço. Havia um silencio opaco e terrivel,
+que pesava no ambito á semelhança d'um remorso que fibra a fibra
+estivesse roendo um coração. O poço era largo, com uma nora por cima,
+e a amura de pedra escancarada ao ar. Se ao menos elle diria
+«Coitada!» quando lhe fossem contar como ella tinha morrido!... E
+inhalava para se dar alento, grandes haustos d'ar frio. Os seus olhos
+deram co'as janellas do palacio, illuminadas ainda. Eram, d'uma banda,
+as janellas de Ruy, e da outra a lampada do oratorio, cuja porta abria
+sobre o quarto de dormir da senhora marqueza. Vamos! era preciso
+<span class="pagenum"><a id="page065" name="page065"></a>(p. 065)</span> ser forte. Nossa Senhora estenderia os braços para impedir
+que ella se despenhasse no inferno. E pôz-se a medir a queda,
+esburcinada no boccal de pedra da nascente. Atafulhada de sombra, a
+pavorosa goela não mexia. De quando em quando, uma gotta escapava-se
+dos alcatruzes da nora, indo fazer lá no fundo um <i>plhau!</i> glacial.
+Entretanto a nevoa fazia aos arvoredos, <span lang="fr"><i>toilettes</i></span> de gaze, para a
+festa funebre de Luiza. Solicitamente o luaceiro vinha, aqui, além,
+tocar o bojo d'uma perola d'orvalho, as transparencias d'uma renda de
+bruma, os claros da argentea brancura immaculada... Ella desfolhou a
+rosa que puzera nos cabellos. Ergueu o espirito para o alto, com uma
+doçura branca de martyr; e persignando-se, enxugava as ultimas
+lagrimas. Na calada começou então a retinir uma campainha. Nos quartos
+da marqueza? Era a chamar Luiza. Oh pobre madrinha! Luiza estava já
+sentada á beira do poço, prompta a escorregar-se á agua. Porém uma
+instantanea sombra tinha passado nos stores do oratorio, cujas
+vidraças soaram no terraço em bocadinhos. Que era aquillo? Alguma
+coisa de anormal se estava passando. Quem gritára? Engano?
+Allucinação? Luiza fez um salto, esquecida <span class="pagenum"><a id="page066" name="page066"></a>(p. 066)</span> da morte, e
+deitou a correr para d'onde o barulho partia. Quando entrou no quarto
+da marqueza, cahira pelas escadas, derribára Ezequiel que vinha pelo
+corredor, rasgára as saias nas portas, tropeçando nos moveis umas
+poucas de vezes. Viu a cama vazia e toda cheia de sangue nos
+travesseiros. A porta do oratorio estava aberta, e sobre a alcatifa,
+entre portas, a pobre senhora estorcia-se, quasi núa, vomitando sangue
+em espumosas golfadas. Luiza agarrou-se a ella, gritando que lhe
+acudissem: e em toda a casa, de repente, tinha sido um alvoroço
+extraordinario. Ezequiel, que foi o primeiro a chegar, inda viu a
+velha revolver os olhos, dar um estremeção que lhe retezou as pernas
+ao comprido. E de repente ficou-se.</p>
+
+<p>&mdash;Coitadinha, coitadinha! Está prompta, dizia o velho em tom beato. Eu
+bem previa esta desgraça! Mas Luiza barafustava para que elle fosse
+chamar depressa o marquez, e mandasse á villa buscar o doutor
+Souza.&mdash;Depressa, depressa que ella vai-se-nos aqui sem sacramentos!
+Elle abanava a careca, tendo remodelado na face a mascara patriarchal
+dos dias serenos. Desolava-se muito pelos cantos. Como aquillo fôra
+depressa! Uma coisa que <span class="pagenum"><a id="page067" name="page067"></a>(p. 067)</span> ninguem esperava! Lá conseguiram
+transportal-a para a cama. O corpo estava frio. Um dos braços,
+levantado, cahiu inerte nas roupas, apenas o deixaram.&mdash;Está morta!
+Mas ninguem vinha acudir! Que estava fazendo nos quartos toda aquella
+gente que não ouvira os gritos d'alarme? Ezequiel entrava e sahia, ia
+a uma porta, voltava á capella, idiota d'espanto, abanando as mãos,
+sem saber.&mdash;Ah menina Luiza, menina Luiza; eu bem lhe disse esta
+manhã. Chegou-se a ella:&mdash;O que ha de ser agora de ti?</p>
+
+<p>A camareira não ouvia, agarrada á marqueza, e seguindo a installação
+da morte n'aquella physionomia de cera. A sua rica madrinha! A sua
+amiga! A sua unica affeição!</p>
+
+<p>&mdash;Casa commigo, insistia Ezequiel. A minha vida é pouca coisa.
+Deixo-te tudo. Casa commigo.</p>
+
+<p>Já o marquez vinha entrando, com Ruy e os seus amigos, e toda a gente
+da casa áquella hora estremunhada.</p>
+
+<p>O fidalgo curvou-se para o leito: dizia phrases d'espanto, allucinadas
+e d'um grande effeito decorativo.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, senhores, ella resfria! Oh fatalidade! e outras muitas, que os
+amigos, um <span class="pagenum"><a id="page068" name="page068"></a>(p. 068)</span> pouco lassos na digestão da ceia, trocavam por
+outras da mesma polida complacencia. Compuzera um rosto d'afflicção
+reprimida, conforme de rigor na circumstancia, e que foi muito
+apreciado pelo que dizia dos seus affectos maritaes. Lagoaças e pai
+Cezario tinham-n'o abraçado a tres quartos, dizendo&mdash;coragem! n'um
+magnifico accento de contra-basso.</p>
+
+<p>Quando de repente Luiza deu um grito, vendo os olhos da marqueza irem
+ficando vitrosos. Alguns curvaram-se a vêr. Ezequiel e Lagoaças
+trouxeram velas accesas. E o choro das creadas abriu de repente no
+quarto uma ladainha horrifica de lamentos. Uma especie de teia
+d'aranha revestia devagar as pupillas pallidas da morta.</p>
+
+<p>&mdash;O espelho, o espelho.</p>
+
+<p>Ezequiel trouxe do gabinete um espelhinho de punho ornado;
+puzeram-lh'o á bocca.</p>
+
+<p>&mdash;Inda respira!</p>
+
+<p>Mas o pulso perdia-se. O coração queria calar-se. A aura hysterica
+descorrelacionava os movimentos de Ruy, cujas mãos buscavam juntar-se
+n'uma supplica frenetica de que ninguem fazia caso.</p>
+
+<p>&mdash;Jesus! dizia Luiza erguendo os braços, <span class="pagenum"><a id="page069" name="page069"></a>(p. 069)</span> entre as mulheres
+de joelhos. Onde está o nome de Jesus não ha perigo á salvação. E as
+rezas perdiam-se em ondas de soluços. Então o marquez tirou a boina da
+cabeça, avançou dois passos com o espelho que já não embaciára,
+collado á bocca da fidalga. E n'um tom alto:</p>
+
+<p>&mdash;A senhora marqueza de Selmes morreu.<span class="smaller"><a href="#toc">(Voltar ao Conteúdo)</a></span></p>
+
+
+
+
+<h2><span class="pagenum"><a id="page071" name="page071"></a>(p. 071)</span> O SINEIRO DE SANTA-AGATHA</h2>
+
+
+<p>Ha quinze annos, vespera de Natal, n'uma noite bem frigida e chuvosa,
+ia eu em jornada através das serras, caminho da minha aldeia, a fim de
+consoar, conforme a velha usança, no aconchego patriarchal da familia:
+quando a sege que me levava estalou com fracasso, desabando em bocados
+pelo chão. A custo pudéra salvar-me do destroço, que a sege velha e de
+correias, sobre duas grandes rodas esculptadas, esbarrondara de chofre
+contra um amontoado de penedos, e o cocheiro contuso em muitas partes
+do corpo, era quasi impotente para sustar os galgões dos cavallos
+sacudidos pelo terror da derrocada. No meio das trevas, áquella hora,
+sob a chuva sibilante, como encontrar agasalho?</p>
+
+<p>Era no mais cerrado das brenhas. Lugubres penedias estacavam por toda
+a banda.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page072" name="page072"></a>(p. 072)</span> Asperas montanhas pareciam vir a despenhar-se sobre as
+gargantas estreitas da passagem. E nem a mais dubia fogueira de
+pastores, casinholo de coutada, voz ou campanario, revelando a
+proximidade de creatura humana! A muito custo podemos remover do
+caminho as bagagens e destroços da pesada traquitana, eu, o cocheiro e
+mais um velho creado que me seguia a cavallo.</p>
+
+<p>Com fortes brados, aos quatro ventos do campo, fomos chamando alguem
+que alli vivesse; mas nem sequer latidos de cão logramos saccar das
+goelas carbonosas da noite. Sempre aquelle ruido prostrado, regular,
+desesperante, da chuva nas urzes e pinheiros anões, que o vento trazia
+e levava no mesmo agreste rythmo, como o jogo uniforme de uma joeira
+que joeirasse d'alto, bagos d'agua frigidos, e crueis.</p>
+
+<p>Por infelicidade, o cocheiro não era do sitio, e mal sabia dizer
+d'aquelles caminhos incertos. Beja inda talvez ficasse a nove leguas
+d'ali. Os cavallos extenuados não queríam marchar. E olhavamo-nos
+interdictos, á luz da pobre lanterna que por milagre escapára ao
+desastre.</p>
+
+<p>Emfim, já nos decidiamos a ficar por baixo <span class="pagenum"><a id="page073" name="page073"></a>(p. 073)</span> das azinheiras,
+n'algum abrigo escavado da montanha, quando se ouviram badaladas de
+sino distinctamente.</p>
+
+<p>&mdash;Graças a Deus! exclamei eu todo alegre, que vamos ter guarida no
+passal do bom padre ou eremitão que d'aquelle campanario nos está
+chamando. Onde é, cocheiro?</p>
+
+<p>O homem esteve sem responder um bocado. Era um alemtejão
+supersticioso, tostado, leal, e gigantesco.</p>
+
+<p>&mdash;Aquillo, senhor, disse alfim o colosso, fica por traz de cerros que
+levam vinte horas a galgar a um homem. De noite, sempre os sons
+parecem mais perto, e enganam uma pessoa nas contas que deita.</p>
+
+<p>&mdash;Bom! mas que sino é aquelle? Convento, freguezia, castello ou casa
+do diabo?</p>
+
+<p>Vi o rapaz benzer-se com um movimento brusco, e lentamente ir
+contando, que era o sino de Santa-Agatha, ruinaria maior que uma
+cidade, com quatro torres dominando as chapadas dos montes, e casarões
+aonde ninguem tinha ido desde que houvera lá fogo.&mdash;Ninho de demonios
+e malfeitores! Em <i>trinta e tres</i>, a guerra civil correra lá,
+farejando as riquezas do culto&mdash;as freiras tinham debandado pelas
+serras, com os seus habitos brancos e os <span class="pagenum"><a id="page074" name="page074"></a>(p. 074)</span> seus rostinhos
+macerados&mdash;por quatro dias as chammas lamberam os sanctuarios&mdash;e diz
+que duas ou tres religiosas, entrevaditas, centenarias, se deixaram
+morrer nas suas cellas, cantando psalmos, por não haverem já parentes
+e amigos, em cujo seio ir acabar. Agora só voltava ao mosteiro algum
+maltez perseguido, ou pessoa empenhada em roubar cantarias, alguma
+porta de carvalho, e restos d'alfaias sepultas nos entulhos.</p>
+
+<p>Lentamente então, como um fumo d'incenso que oscilla subindo pelas
+incertezas penumbrosas da neve, assim a lenda se formára e fôra
+condensando, detalhando, subindo em espiras poeticas, dos claustros
+gothicos da velha abbadia. E o cocheiro accrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Pelos modos, os diabos dizem lá missa a deshoras, com mitras que nem
+bispos!</p>
+
+<p>&mdash;Venha essa lanterna, disse eu sem mais ouvir. Meia ração
+d'aguardente e tabaco! Vossês abriguem-se ahi como poderem, que eu já
+volto!</p>
+
+<p>&mdash;Mas onde é que o senhor vae?</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! á abbadia. Tocou-se á missa: o diabo já deve ter subido ao
+altar. O cocheiro ainda quiz accumular obstaculos; até que vendo-os
+sem resultado, apontou-me o caminho <span class="pagenum"><a id="page075" name="page075"></a>(p. 075)</span> provavel do mosteiro, lá
+longe, sobre as altas serranias, a cujo sopé se tinha desmantelado a
+nossa berlinda de viagem.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Pondo-me a caminho, confesso, foram-me os primeiros passos bem duros.
+O terreno pedregoso abria fendas onde os pés se enterravam em lama;
+tufos d'esteva e piorno vedavam a passagem, circumdavam-me,
+prendiam-me o fato, ou vinham dar-me bofetadas nas faces com as suas
+mãos pegajosas. E assim fui mais d'uma hora, tropeçando d'um lado e
+cahindo d'outro, pelo espinhaço lugubre da cordilheira. Entanto as
+nuvens desdobravam-se, menos espessas, correndo, té que uma claridade
+de lua velada poude orientar-me na marcha.</p>
+
+<p>Alguns corpos avançados da ruinaria começaram alfim a mostrar-se,
+pequenas capellas com arcos gothicos, sombras esguias de cyprestes,
+casarões onde bulia a herva açoitada pelo vento... Dez passos além,
+achei-me n'uma alpendroada vasta de pedra, toda em arcarias de
+capiteis mutilados. Ao centro murmurava <span class="pagenum"><a id="page076" name="page076"></a>(p. 076)</span> uma fonte, cahida ás
+gottas sobre uns restos de tanque esculpido; e via-se um portico ao
+fundo, com feixes de columnelos, e nichos de apostolos em oração.</p>
+
+<p>Mais dois passos e entrava na igreja. Parte da abobada tinha já
+cahido. Arcarias altas, flexuosas, em series parallelas d'uma extensão
+desmedida, iam até ao sanctuario. No parapeito d'um ou outro pulpito,
+pendiam tapetes de hera&mdash;e por um bocado de muralha derrubada via-se o
+claustro, contrafortes, arcos butantes, rendas de janellas manuelinas,
+estatuas partidas, e montões de pedras lavradas que a vegetação
+damninha ia vestindo, engolfando, no labyrintho das suas teimosas
+grinaldas.</p>
+
+<p>Lentamente, emquanto marchava entre as maninhas plantas da serra, eu
+fôra evocando da nevoenta penumbra das minhas reminiscencias
+d'infancia, a lenda que tantas vezes tinha ouvido contar, pelo
+inverno, quando finda a ceia os pastores e couteiros vinham fazer
+circuito comnosco, de roda do brasido, na cozinha abobadada da
+herdade, cujas chaminés se erguiam dos tectos, como duas torres
+quadradas de solar.</p>
+
+<p>Lembrava-me de ter ouvido a minha avó, <span class="pagenum"><a id="page077" name="page077"></a>(p. 077)</span> como a abbadia fôra
+uma das mais venerandas casas de reclusão de todo o reino,
+successivamente enriquecida pelos reis, visita de prelados, e refugio
+de muitas princezas e bastardas que alli dormiam o ultimo somno, nos
+seus jazigos de pedra, de cujos nichos a velhice alluira figuras e
+inscripções.</p>
+
+<p>Apesar das enormissimas riquezas que as religiosas mandavam repartir
+pelas gafarias e misericordias da provincia, a regra impunha ás monjas
+uma pobreza frigidissima. Dormiam n'uma tabua, as pobres servas, sem
+enxergão nem cobertura, e com uma pedra tosca por cabeceira. E vivendo
+de hervas e legumes, sem mais tempero que um fio d'azeite e um punhado
+de sal, ellas appareciam na estamenha branca das tunicas, afiladas na
+sua espiritualisação perpetua de prece, antes como umas sombras de
+loucas, espectros de mal soffridas angustias, marchando nos claustros
+em genuflexões de extaticas, e como dobradas ao peso das camandulas e
+das orações. Um velho Papa da idade gothica doara então o mosteiro de
+reliquias, compadecido por austeridade tamanha d'enclausura, e
+permittindo que as monjas pudessem dar-se a glutonaria mundana d'um
+cordeiro guisado, na ceia do <span class="pagenum"><a id="page078" name="page078"></a>(p. 078)</span> Natal, sob a condição expressa
+de ser branco e acabado de nascer.</p>
+
+<p>Sempre na minha lembrança, desde então, tinha ficado aquella humilde
+historia das freiritas, dormindo em tarimbas de castanho, e jantando
+couves de azeite e sal. No collegio, muita vez, punha-me a fazer
+esforços para me representar a figura benevola d'aquelle santo Papa da
+idade gothica, risonho sem duvida e encarquilhado, com o seu
+barretinho de purpura, e um grande annel de turqueza, concedendo ás
+filhas de Santa-Agatha o cordeiro branco para a consoada do Natal.
+Vinham-me aquellas coisas n'um fundo de fantasia, para assim dizer
+bysantino, sem perspectiva aerea, com o nimbo de oiro nas cabeças, e
+pregas miudinhas no bocatel das roupagens&mdash;e tão longe do nosso tempo!
+tão longe do nosso espirito que eu acabava sempre por sorrir á
+inverosimilhança das legendas contadas por minha avó.</p>
+
+<p>Todos os annos na herdade, depois de se haver dito a ladainha diante
+do presépe armado no oratorio, com grande pompa de vellas accesas,
+cobertas de sêda, paineis de santos, flôres, amuletos e <i>cearinhas</i> de
+trigo grelado em pratos da India, ás escuras, <span class="pagenum"><a id="page079" name="page079"></a>(p. 079)</span> durante os
+vinte e cinco longos dias de uma lua&mdash;todos os annos, á hora de servir
+a espetada de lombo de porco com migas, da ceia do Natal, quando já
+tudo se assentára em volta da mesa, eu me não esquecia de inquirir.</p>
+
+<p>&mdash;Avó. Se o cordeiro de Santa-Agatha estará tenro e capaz de ser
+manducado pelas freiritas sem dentes?...</p>
+
+<p>Lá me sorria a bôa velha, com uma expressão de melancholia que eu
+n'esse tempo não era capaz de interpretar. E á direita d'ella marcando
+intervallo na mesa, um talher inactivo aguardava meu avô, que fazia já
+onze annos de fallecido quando eu tocava os dezeseis.</p>
+
+<p>Ai! esse talher era a grande nota solemne da ceia, o symbolo
+sacrosanto do espirito de familia, perpetuando o respeito do nome
+através das revoluções da idade. O copo estava cheio, o guardanapo
+desdobrado, e chegado á mesa o tamborete.</p>
+
+<p>A todo o instante ia entrar na sala o phantasma do velho lavrador, com
+a sua matilha de galgas argelinas, e uma d'aquellas grandes risadas
+que elle dava, em nos vendo felizes a todos.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page080" name="page080"></a>(p. 080)</span> Ceia de Natal! Ceia de Natal! Não seria eu, não, que
+d'aquella vez havia de começar cantigas ao Deus-menino, ante o presépe
+da nossa casa <i>das Torres</i>.</p>
+
+<p>Nem iria assentar-me, tão pouco, entre meus irmãos, partilhando a
+espetada de lombo no meio da gralhada das creanças, e dos sainetes dos
+pastores e maioraes. Oh como o frio da montanha me fazia agora
+lembrado o <i>madeiro do Natal</i>, tão escrupulosamente escolhido entre os
+troncos mais corpulentos das cathedralescas médas d'azinho da nossa
+provincia; o <i>madeiro</i> que as comadres vão vêr a casa das comadres e
+cuja enormidade d'alguma fórma passa por luxo e synthetisa a
+abundancia da casa! Ceia de Natal! Ceia de Natal! N'aquella noite de
+cordealidade, tão intima na vida do campo alemtejano, em que o
+primogenito da familia tem obrigação de consagrar aos creados o
+primeiro <span lang="en"><i>toast</i></span> da ceia, a minha ausencia, eu bem n'a via! trazendo
+lagrimas aos olhos de minha mãe, e longos annos permanecendo archivada
+entre as tristezas do seu amantissimo coração.&mdash;Paciencia! dizia eu,
+deixando os meus olhos correr por cima da phantastica decoração de
+ruinas, <span class="pagenum"><a id="page081" name="page081"></a>(p. 081)</span> como quem busca fixar a realidade no meio das
+oscillações que a sombra despregava das arcarias.</p>
+
+<p>Cessára a chuva de todo, e o vento que ennovelava os castellos de
+nuvens, muito baixas, vinha depois marrar com ellas de encontro ás
+fragas da cordilheira.</p>
+
+<p>Torvos luaceiros cardavam sobre as coisas, aspectos pardos e monacaes,
+d'esse tom vago, inquietador, inexplicavel, que permitte á imaginação
+de agigantar o que apenas entrevê.</p>
+
+<p>E assim dirieis que se alongavam na noite os butareus das quatro
+torres, e que os boqueirões da treva mastigavam, e como lanças tremiam
+os columnelos do templo, espetando na abobada imaginarias cabeças;
+emquanto patrulhas de cyprestes paravam a escutar, se áquella hora
+rastejaria no mosteiro um infinitesimo de vida, só que fosse. A
+primeira coisa que notei, foi que não estava só, porque ao raspar d'um
+phosphoro para accender o cachimbo, pude lobrigar na portaria vultos
+de gente acocorada.</p>
+
+<p>Pouco a pouco, os meus olhos afizeram-se a destrinçar na sombra os
+objectos; e entrei a bispar vultos pequenos, corcovados, que surgiam
+por todas as bandas da serra, vagarosos, <span class="pagenum"><a id="page082" name="page082"></a>(p. 082)</span> cosidos ás pedras,
+derreados do caminho, e arrastando sapatos de trabalho, com gorros nos
+olhos e capotes negros sobre os hombros.</p>
+
+<p>Pelas encostas, longe, perto, muitas luzinhas deslocavam-se em
+direitura ao mosteiro, como fanaes guiando a um conclave outros tantos
+conspiradores.</p>
+
+<p>Duas ou tres cadeirinhas entram no adro, buscando a sombra dos arcos
+com uma cautela apavorada, e aos hombros de homens, que pelo rastejo
+dos passos e lentidão dos meneios, ia jurar tinham passado os oitenta
+annos. Em poz das liteiras, mulas brancas trazendo mulheres embiocadas
+em ponches... jumentinhos de trabalho com gente que tossia... e até
+n'uma especie d'esquife, um vulto entre roupas dava grandes gemidos,
+quando os portadores oscillavam mais bruscamente a padiola em que o
+traziam.</p>
+
+<p>Muito embuçado na capa, eu ia-me approximando da turba, corcovado e
+arrastando os passos como os outros; e já sem medo, pois não podia ser
+capitania de ladrões aquella gente assim misturada de invallidos.
+Quando de repente, patas de cavallos fizeram estrupida nas lages, e eu
+vi fazer-se um movimento <span class="pagenum"><a id="page083" name="page083"></a>(p. 083)</span> simultaneo em todos os magotes,
+para acorrerem ao encontro dos cavalleiros. Eram quatro. E dois
+d'elles, que porventura seriam os juvenis da cavalgata, a julgar pela
+ligeireza com que apearam, tinham vindo ajudar o que ficára sobre a
+cella, aguardando que o desmontassem da mulla branca onde viera
+escarranchado.</p>
+
+<p>Era este um grande velho de cabellos compridos, em ligeiros flocos por
+baixo d'um chapeirão d'ecclesiastico, envolto n'uma capa com romeira
+de lontra, e de quem todo o mundo se acercava para lhe beijar a mão.
+Caminhando, espargia bençãos sobre as cabeças curvadas á sua passagem.
+Aprumava com esforço a grande figura biblica e severa, em cujas linhas
+fulgurava como um relampago genial d'estatuaria, e em cujos gestos
+calmos rescendia a solemnidade d'um apostolo enviado a remir d'um
+captiveiro.</p>
+
+<p>Tinham acceso entretanto algumas tochas, cujos clarões deixavam vêr a
+fisionomia de aquella assembléa extravagante. Oh minha cabeça esvaida
+de cansaço! Eu não posso affirmar lucidamente se acaso era sonho o que
+se estava passando: tão extraordinarias visões me tiveram estarrecido
+na formidavel sombra <span class="pagenum"><a id="page084" name="page084"></a>(p. 084)</span> do templo. Lembro-me que o sino tocou
+de novo. Era um som funebre e longinquo de <i>gong</i>, espargindo na noite
+um terror de evocação; alguma coisa como a voz do tempo, chamando os
+homens a um ajuste de contas definitivo.</p>
+
+<p>Pelas arcarias do claustro, que eu avistára por entre a derrocada d'um
+muro, vinha marchando uma procissão de monjas lentas, mirradas,
+pequeninas, cambaleantes, e tão brancas e diaphanas á luz das tochas,
+que ellas pareciam ter acordado n'aquelle instante dos seus
+sepulchros, transpondo os seculos á voz expiadora do <i>gong</i>. Entre os
+véos cahiam-lhe os cabellos, mais alvos do que a neve, e das suas
+sandalias batendo as pedras do claustro, vinha um som baço de
+sepulturas vasias, sepulturas com fome, chamando por aquelles
+destroços de santas, d'onde a alma parecia ter voado, através das
+divinisações augustas do martyrio.</p>
+
+<p>Poucas eram: mas vagarosamente a procissão ia crescendo no percurso,
+ao clarão bruxuleante das luzes; porque a todo o instante a turba se
+abria para deixar passar uma velhinha segurando uma tocha entre as
+mãos descarnadas. Alguem lhe tirára o capote de cima <span class="pagenum"><a id="page085" name="page085"></a>(p. 085)</span> dos
+hombros, e da cabeça o bioco de burel que a encapuchava. E surgia
+assim, daquella lugubre crosta, uma monjasinha branca de Santa-Agatha,
+cingida na estamenha da ordem, o véo de nodosa e rude grossaria... e
+que a pequeninos passos de centenaria, oscillando a trémula cabeça, lá
+ia enfileirar-se no préstito, com as suas rugas cheias d'eternidade.</p>
+
+<p>A esse tempo, a enorme basilica rompia violentamente da sombra, ampla,
+majestosa, cheia de mysterios e esplendores, mesmo assim na ruinaria
+das suas esculpturas e rendas ogivaes. E prolongava-se em crepusculos
+doces, além das naves, pelos rasgões da derrocada, ondeava á
+oscillação das luzes, parecendo expandir-se, como outro'ra, num grande
+hausto d'uncção fervorosa e fé christã.</p>
+
+<p>Em cada recanto, cada arco, por todos aquelles nichos, pelas capellas,
+diante dos baixos-relevos e das estatuas, agora bruxuleavam lampadas,
+cirios, fogueiras, luzes bizarras de fachos, cuja vermelhidão tingia
+de sangue os caprichos manuelinos da architectura.</p>
+
+<p>Em face a gigantescos lampadarios de prata e oiro, pendentes da cupula
+arruida em cachos de lumes lividos, o altar-mór appareceu de subito
+n'uma aureola de pompas, damascos, flôres e <span class="pagenum"><a id="page086" name="page086"></a>(p. 086)</span> vasos de oiro
+cravejados de pedraria. O frontal todo de lhamas, faiscava entre a
+fumarada dos thuribulos, as grandes flôres de purpura emmaranhadas no
+estofo, em cuja trama buliam bruscos formigueiros de diamantes,
+saphiras e esmeraldas. E por cima na abobada, a noite errava,
+espavorida dos fogos que oscillavam cá em baixo, nas inquietações do
+vento. E ao rumor das rezas accordavam as aves nocturnas nos seus
+ninhos: pombas e francelhos voejando de friso em friso, grandes corvos
+sinistros partindo em bandos das rosaceas, encandeados co'a luz,
+tornando a vir, tornando a ir... Pensarieis que regressavam das
+tumbas, os espiritos das monjas, e se iam familiarisando ás ruinas, e
+conhecendo n'ellas o maravilhoso sanctuario doutro tempo.</p>
+
+<p>&mdash;Meu senhor, disse uma voz.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>A vista das monjas, a multidão cahira de joelhos, tocada de veneração
+por aquellas creaturas celestes, mumias da fé catholica, que a oração
+transfigurára até á innocencia ideal dos serafins.</p>
+
+<p>Tosca e triturante, a estamenha lhes cingia a esqualidez das ossadas:
+vinha na frente a abbadessa, de báculo e mitra, com uma capa <span class="pagenum"><a id="page087" name="page087"></a>(p. 087)</span>
+de brocado, sob o pallio d'uma riqueza estonteadora. As mais seguiam
+duas a duas, acocoradas quasi pela idade, e guardando não obstante uma
+especie de aerea graça da infancia, através da caricatura d'aquelle
+cerimonial complicado. Em todas, o olhar extincto, como um brasido nas
+cinzas, perdera a incandescencia entre as macerações da vida ascética.
+E d'entre a mortalha alvacenta das vestes, cada vulto sêcco vos
+lembraria um violoncello com todas as cordas partidas, de haver
+tocado, longos annos, a symphonia pathetica da dôr.</p>
+
+<p>O que dissera, <i>meu senhor</i>, puxou-me de banda: era um embuçado
+d'estatura pequena, gestos aduncos, e botas molles.</p>
+
+<p>Levou-me para detraz da escadaria d'um pulpito. Engolfamo-nos por um
+portello baixo e tenebroso, em cujo trevo marinhava, luctando, na
+frialdade limosa da pedra, uma caterva horrivel de grotescos. E como
+transpunhamos o portello, o homem tirou da capa uma lanterna. Vi então
+diante de mim um velhito lesto, pequeno, azougado, os olhos debruados
+de purpura, e com um grande nariz pendido como um monco, até encontrar
+a aresta d'um queixo arqueado como a prôa d'um saveiro. Dirieis que as
+duas pontas iam tentar brava <span class="pagenum"><a id="page088" name="page088"></a>(p. 088)</span> guerreia: a do nariz embirrando
+com a do queixo, a do queixo não sentindo lá grande sympathia pela do
+nariz. Mas felizmente interpunha-se a bocca, sentinella vigilante
+daquella discordia d'appendices, e que mesmo sem dentes, intervinha,
+mordendo o que primeiro rompesse as hostilidades.</p>
+
+<p>&mdash;Que quer dizer toda esta mascarada? disse eu.</p>
+
+<p>O velho olhava para mim com um riso estupido de bobo. Tinha um
+barretinho de sêda no craneo, grandes orelhas espalmadas aos lados dos
+olhos, a bocca em meia lua e um collar de barba dura, direita, branco
+sujo, prestava-lhe a caricatura demoniaca d'um bode, á luz fumosa da
+lanterna. Foi pelo corredor aos saltinhos, e eu seguia-o tomado de um
+espanto sem saber por que.</p>
+
+<p>Ao fundo começava uma escaleira aberta na muralha, tortuosa, falhada
+nos degraus, e obstruida por grandes pedregulhos. E o velho começou a
+subil-a, levando a lanterna na mão. Como a escadaria era de volta
+acanhada, e o passo de espira excessivamente baixo e deprimido,
+forçoso nos era de subir corcovados, porque não fendessemos o craneo
+d'encontro ao rebordo dos degraus superiores. Fomos <span class="pagenum"><a id="page089" name="page089"></a>(p. 089)</span>
+tropeçando assim nas pedras soltas e alluidas, partindo as unhas nas
+junturas da muralha&mdash;elle sinistro, lesto, arqueado, escorregando,
+pulando certo quatro e cinco degraus d'uma vez; eu agarrado ás pregas
+da sua capa e á morna viscosidade das suas mãos, cujas unhas se me
+cravavam na carne, como os dentes metalicos d'uma pinça.</p>
+
+<p>&mdash;Afinal não me explicou que diabo vem fazer aqui toda esta familia.</p>
+
+<p>Elle sorriu-se. Tambem d'esta vez não fizera caso da minha pergunta.</p>
+
+<p>E eu começava a não vêl-o com olhos lisonjeiros.</p>
+
+<p>A escada não tinha fim, caracolando sempre nas trévas humidas, onde
+passava o voejar dos morcegos, os guinchos dos ratos, e toda a sorte
+de sopros e rizadas maléficas.</p>
+
+<p>O ultimo trago d'aguardente acaba de se me sumir nas profundezas da
+goela. E valha a verdade, eu ia perdendo um pouco a noção justa das
+coisas. Fórmas, rumores, simples idéas e suggestões me lançavam de
+roda, n'uma sarabanda de incoherencias.</p>
+
+<p>Dir-se-hia nos iamos sequestrando, pouco a pouco, ao mundo normal e
+quotidiano, com os seus phenomenos e leis eternamente as <span class="pagenum"><a id="page090" name="page090"></a>(p. 090)</span>
+mesmas, para invadirmos não sei que exotica região onde tudo era
+diverso: a atmosphera e a luz, as figuras, as sensações, e as naturaes
+affinidades de ser a ser.</p>
+
+<p>Por instantes, quando o homemzinho passava na luzerna do luar lançada
+por alguma fresta da torre, eu ia jurar que elle mudava de figura, á
+proporção que ia subindo. Já não tinha na cabeça o solidéu de sêda
+preta. As suas orelhas avantajavam-se aos lados dos olhos
+despegando-se-lhe do craneo como as dos morcegos, em grandes pregas
+cobertas de cabellos. E deixei de ouvir o rumor dos seus passos,
+emtanto que a subida se tornava vertiginosa, inquietadora,
+embriagante. Cada vez os degraus me pareciam mais estreitos, o passo
+de espira mais apertado, e o caracol de pedra mais asphyxiante. E nas
+trévas da torre, emquanto eu ouvia os resfollegos do velho saltando os
+degraus com furias de possesso, um ar denso e gorduroso forçava-me o
+cavername do peito a centuplicar d'inspirações, como n'um paroxismo de
+syncope.&mdash;Ar! Ar!</p>
+
+<p>A minha cabeça rolava entre vertigens: via moscas de fogo saltarem-me
+por diante dos olhos. E era como se cada um dos meus sentidos, estando
+separado de mim, não pudesse <span class="pagenum"><a id="page091" name="page091"></a>(p. 091)</span> ou não quizesse procurar-me
+sensações nitidas e exactas&mdash;tanto as coisas que eu tocava me pareciam
+differentes. Larvas de gelo, escorregadias, sem fórma, tocavam-me nas
+mãos <span lang="en"><i>shake-hands</i></span> bruscos. Abria então a bocca para gritar que me
+acudissem: e percebia que elle voltava logo a cabeça, porque sentia,
+positivamente eu sentia na cara o caustico dos seus olhos dilatados
+nas trévas, acobardando a minha alma varada d'um inexplicavel
+calafrio. Até que emfim chegamos a uma especie de sala rasgada de
+porticos, por onde a lua entrava. E rompemos n'ella como o estampido
+d'uma granada: o velho indo cahir de bruços no pavimento, e eu por
+cima d'elle, n'uma exaltação furiosa&mdash;a ponto de por cinco minutos
+rolarmos no chão corpo a corpo, engalfinhados, como se algum de nós
+pretendesse esquartejar o companheiro. Prestes porém o lesto demonio
+se me escapulira das mãos, e sem uma palavra, deixando a capa, correra
+aos varandins da torre a debruçar-se.</p>
+
+<p>A sala era grande, com varandins d'esculptura aberta, que pareciam
+bordar uma antiga renda de cruzes de Malta e folhagens, sobre o azul
+pallido do céo.</p>
+
+<p>Uma floresta de cordas, mastros, travessões <span class="pagenum"><a id="page092" name="page092"></a>(p. 092)</span> e guindastes,
+emmaranhava o ambiente e corria de banda a banda. Pendiam sinos dos
+porticos, negros, immoveis, suspensos, como aves de rapina
+dormitando... mil tamanhos, mil formatos, uns grandes, outros
+pequenos, bojudos estes, aquelles campanulados... E na cupula toda
+aberta de lucarnas até á flexa, a zunida do vento fazia uma especie de
+côro em surdina, instrumentado a risadas e pequenos silvos de
+mangação.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>O velho fizera um gesto. Uma badalada profunda sacudiu de chofre a
+ruinaria inteira, dos alicerces ás grimpas, e foi-se alargando pela
+cordilheira, attenuando, extinguindo, n'uma vibração magnifica de
+sonoridade.</p>
+
+<p>Terrífico e supremo era o accento d'aquella lingua de cyclope, que o
+pulmão de bronze insufflára, no seu vagar prophetico, e que retalhava
+o silencio da noite como um echo da vida eterna, soado através da
+impenitencia dos homens.</p>
+
+<p>Outra badalada mais forte, e outra, e outra ainda. Crucitando
+d'assombro, os bandos de corvos fugiam por todos os lados. E as massas
+de sonoridade precipitavam-se nos ares, desgrenhando <span class="pagenum"><a id="page093" name="page093"></a>(p. 093)</span> uma
+procella de bramidos, e como um apocalypse prégado ao universo
+estarrecido a nossos pés. Para fazer dobrar alguns d'aquelles grandes
+sinos, o velho trepava aos varandins e supportes, desdenhando as
+vertigens da altura: e eu via-o marinhar então pelas cordagens, correr
+como um gato ao longo dos cabrestantes, suspender-se, desapparecer,
+cabriolar, suffocado, e insistindo, e voltando, n'um jogo macabro
+d'esforços, que ainda mais lhe accentuava a contornadura demoniaca que
+elle tinha.</p>
+
+<p>A cada manobra do velho, era como se as badaladas me fossem batidas em
+cheio, no coração, derramando-se-me em crises d'angustia por toda a
+rede dos nervos convulsivados. Foi n'este estado que eu corri direito
+a elle, e pude agarrar-lhe as pernas no momento em que o maldito se
+preparava a descrever nos ares uma arrojada espiral, como Quasimodo,
+abraçando pela cinta o reboleiro maior do carrilhão.</p>
+
+<p>Ao mesmo tempo, começava a produzir-se um phenomeno extraordinario.
+Seria illusão dos meus sentidos?... effeitos da minha sensibilidade
+doentia, que perdendo o caracter proprio, se mutilára, exaltára, para
+rolar depois <span class="pagenum"><a id="page094" name="page094"></a>(p. 094)</span> nas phantasmagorias verdes da loucura? Mas
+affigurava-se-me que uma especie de vida magnetica ia atravessando as
+ruinas, como se a falla dos sinos houvesse resuscitado no edificio o
+genio hostil que alli reinava, e este agora reagisse, contra o germen
+christão que os nocturnos visitantes todos os annos insistiam em
+replantar no sanctuario.</p>
+
+<p>Aquillo era evidente, pulsava na pedra, rumorejava na esfusiada dos
+ventos, cahia em gottas das arestas e das folhagens parasitas.</p>
+
+<p>A principio disse commigo&mdash;é uma vertigem do meu espirito exasperado
+pelas extravagancias da viagem, uma perturbação do alcool que eu
+ingeri em dóses abusivas... O velho fizera-me frenetico... Os meus
+nervos estavam carregados de fluido... Porém já na egreja me ferira
+esta percepção de movimentos disfarçados, esta matinada occulta da
+sombra contra a luz, esta suspeita de bruxaria latente.</p>
+
+<p>Tinha-me rido d'aquilo&mdash;Ora adeus! Estou sonhando. E agora, Jesus! não
+era engano. A sarabanda macabra rompia.</p>
+
+<p>Muros e escaninhos começavam a debater-se n'uma lucta mysteriosa de
+encantamentos.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page095" name="page095"></a>(p. 095)</span> Em cada molecula, em cada penumbra, em cada vôo, a energia
+decompunha-se em fluidos antagonicos; um que tinha saudades do velho
+culto, e era mesquinho em quantidade; outro que assoberbava o
+primeiro, e se declarára no campo adversario. Mesmo, esta sombria
+batalha toldava-me a cabeça, estava patente á minha alma,
+obscurecia-me a razão; e o meu proprio corpo vibrava d'ella, e eu
+sentia em mim os dois guerreiros buscando derribar-se a golpes
+d'espadão. Não, não era engano! Andava tudo, falava tudo, mexia tudo,
+e tudo parecia sentir, deliberar e ter vontade. Dos baixos relêvos
+brotavam gestos, mimicas, summulas de dialogos...</p>
+
+<p>Iam falar as boccas das estatuas. Os velhos doutores resuscitando os
+velhos schismas. Velhos demonios trucidando as ingenuidades da fé no
+carnaval das velhas ironias. Muitos santos pretendiam mesmo disputar
+com os demonios.</p>
+
+<p>N'um baixo relêvo da <i>Ceia</i>, a figura do Christo ergueu-se e bateu com
+força na meza, colerico por um apostolo se rir, quando elle, sagrando
+o calix, disse do vinho&mdash;<i>este é o meu sangue</i>!</p>
+
+<p>Debaixo dos pés da Madona, renasciam as <span class="pagenum"><a id="page096" name="page096"></a>(p. 096)</span> cabeças da serpente,
+á medida que ella as esmagava.</p>
+
+<p>E uma circulação impetuosa girava nas arterias da pedra, insufflando
+vida ás columnatas, fazendo palpitar as rendas das ogivas, e dando
+apoplexia ás faces das cariatides.</p>
+
+<p>&mdash;Velho! Velho! exclamei eu fóra de mim, deitando-lhe as mãos ás
+goelas. Quem és tu? Fala! D'onde vens? Que queres de mim?</p>
+
+<p>Já a raiva me escumava nos cantos da bocca. A minha gana seria
+esmagar-lhe a cabeça d'encontro ás pedras da muralha. Porque eu via
+n'elle o médium da farandola macabra que ia na egreja. Eram obra sua
+os tregeitos dos monstros esculpidos nas columnatas, o riso mau dos
+demonios-morcegos nos frisos manuelinos do côro; emfim, o exaspero do
+Christo, no baixo relêvo da <i>Ceia</i>&mdash;e todos os fremitos, todos os
+sôpros, todas as oppressões, todas as desconfianças, todas as risadas,
+que eu ouvia, que eu sentia, e passavam por mim o visco do seu
+contacto asqueroso.</p>
+
+<p>Á sua voz obedeciam aquelles milhões e milhões de forças occultas e
+satanicas: e elle tinha o dom d'arrastar na espira lôbrega dos seus
+maleficios, o desgraçado que se lhe approximasse.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page097" name="page097"></a>(p. 097)</span> Oh, não era ausencia d'energia physica que me impedia de o
+acabar&mdash;elle era magro, ossoso, quasi decrepito... Mas a sua vista
+dava-me um embaraço! Com o mais ligeiro impulso eu poderia derribal-o.
+Mas um assombro terrivel, um pavor inexplicavel, uma fascinação que eu
+não sabia definir, amordaçavam-me, faziam de mim um destroço de
+captivo em poz d'aquelle tenebroso e phantastico vencedor.</p>
+
+<p>A essa hora, na egreja, tudo estava a postos. Pela abobada cahida, eu
+pudéra vêr, a nossos pés, o côro profundo, sobre uma massa amarellenta
+de pilastras fasciadas de relêvos. D'alli surgiam á luz dos brandões,
+as primeiras bancadas de carvalho, com logares separados, onde cada
+figura de monja apparecia dobrada sobre a estante do livro de rezas.</p>
+
+<p>Na grande cadeira gothica da abbadessa, a meio do côro, duas vellas
+faziam brilhar o baculo de oiro, uma mitra mexia ás vezes sobre uma
+cabecinha pellada de centenaria&mdash;e para traz a sombra invadia tudo, e
+via-se na parede uma rosacea sem vidros, por onde entrava, poeirenta e
+diaphana, uma grande cheia de luar. Depois a egreja enorme, com as
+esculpturas mutiladas, as rendas em bocados <span class="pagenum"><a id="page098" name="page098"></a>(p. 098)</span> pelo chão, os
+nichos, muitos, desertos, e os jogos e caprichos da luz e da sombra,
+forjando effeitos de scenographia formidavel, de cujo tumulto, ao
+fundo, o altar mór destacava n'uma apotheose de magnificencias, entre
+a fumarada do incenso, e os vôos dos pombos espavoridos.</p>
+
+<p>O velho reaccendeu a lanterna. Havia ao centro da casa uma especie de
+grande cravo de castanho, com teclas de cobre oxidado, aonde vinham
+ter as cordagens de toda aquella sinalhada. Com gesto placido elle
+conduziu-me ao teclado, sobre cuja arca depuzera a lanterna
+escancarada. E desenrolando um grosso manuscripto de musica, pol-o na
+estante, e fez-me signal a que me assentasse n'um monte de cordas que
+estava perto.</p>
+
+<p>A musica era torturadamente escripta, coberta de emendas, intercalada
+de referencias á margem.</p>
+
+<p>É obra sua? perguntei eu. Elle fez que sim com a cabeça. E começou; já
+o arcebispo ao altar dizia o <i>orate</i>, e soava nos mosaicos da basilica
+o rumor dos que ajoelhavam.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Ahi começa o velho a fazer soar o carrilhão, e eu já sinto outra vez
+os meus pavores <span class="pagenum"><a id="page099" name="page099"></a>(p. 099)</span> tomarem fórma, e as minhas angustias irem
+cavalgando extravagantes bruxarias. Cada vez mais á roda dos meus
+sentidos, fosforeja e zumbe esta encarniçada lucta dos dois fluidos
+antagonicos, que a pouco e pouco se depuram, quando a minha percepção
+lhe consegue fixar a transcendencia.</p>
+
+<p>Um revindica o culto das florestas, das aguas e dos rochedos. É a
+grande alma pagã da natureza, que impulsiona os mundos d'uma vida
+extraordinaria, e tem voz, no bramido das vagas, e faz as flôres e os
+archipelagos, e chispa das rochas que o ferro morde, e chora lagrimas
+de leite nas folhas arrancadas da figueira. É o mais antigo, é o mais
+forte: e a todo o transe elle tenta reconquistar o solo, com a audacia
+heroica d'um régulo expulso de dominios seus. Tem a symbolica dos
+antigos mystérios, o outro. E bisonho e tenebroso, desceu do outeiro
+onde uma noite uns soldados estavam crucificando um vagabundo.
+Prégando jejuns e penitencias, emquanto ia fazendo da cobardia uma
+virtude, e não sei que refrigerio da morte, gritava ao mundo&mdash;venho
+destruir a obra da Mulher. E por entre o unisono das harpas, na choral
+dos serafins, ouve-se o alarido dos que na fogueira <span class="pagenum"><a id="page100" name="page100"></a>(p. 100)</span>
+escruciam, e os latins do inquisidor que os manda morrer em nome da
+misericórdia celeste.</p>
+
+<p>&mdash;Velho!</p>
+
+<p>Repara bem, como até na gralhada dos sinos parece evidenciar-se a
+batalha das duas legiões. Aquelles sinos além são pela egreja; mas
+aquell'outros aposthasiaram e insurgiram-se.</p>
+
+<p>As mesmas tuas mãos de maestro ferindo o teclado, parecem obedecer a
+dois musicos diversos, degladiando-se sem quebrança de rythmo, n'uma
+especie de sabbat artistico, alternativamente piedoso e diabolico. Por
+momentos, tudo isto se me afigura symptoma d'alguma psychopathia
+bizarra, evolucionada no exaspero mental que esta noite em mim
+produziu.</p>
+
+<p>Faço esforços de rehaver a minha antiga serenidade, ponho-me a vêr se
+coordeno as minhas faculdades d'analyse e de critica, e se restabeleço
+a limpidez do meu juizo, a sangue frio.</p>
+
+<p>&mdash;Eu é que <i>sou talvez duplo</i>, e não a maneira de ser das fórmas que
+me circundam.</p>
+
+<p>As minhas operações mentaes é que estão <span class="pagenum"><a id="page101" name="page101"></a>(p. 101)</span> fraccionadas e
+desparallelas, como se a fouce do cerebro me não dividisse o esferoide
+em dois ovulos estrictamente iguaes, senão o houvesse desigualmente
+bipartido, lobulo maior, lobulo mais pequeno... e cada um derivando em
+modos de ser incompativeis.</p>
+
+<p>Porém esta hypothese eriça-me os cabellos. Adeus harmonia de
+funccionalismo mental! Falta d'obediencia a uma mesma força
+coordenadora e dirigente! Para cada metade do meu corpo, uma contenção
+vital diversa da outra, energia differente, outro caracter, outra
+impulsão...</p>
+
+<p>Actividades parciaes, cerebrações avulsas, acordariam n'esses varios
+districtos do meu encephalo sem rei, nem roque, chocando as suas
+indoles sobranceiras, como pequenos despotas em gran-ducados rivaes. A
+dualidade surgiria por fim d'esse chaos encephalico, como uma terrivel
+dupla vergontea de loucura: venho a dizer, dois individuos n'um corpo,
+discutindo, acotovellando-se, perseguindo-se, um contrariando a
+vontade ao outro, annulando este os esforços d'aquelle: e nenhum
+deixando dormir nem descançar o companheiro. Mas é isto. Positivamente
+é isto&mdash;estes dois maus irmãos que juraram anniquilar-se <span class="pagenum"><a id="page102" name="page102"></a>(p. 102)</span>
+d'um golpe: fratricidas que a mesma impulsão vae arrastando de roda um
+do outro, á espera do instante em que possam beber-se o sangue. Um
+d'elles fraco, cheio de mysticismos poeticos e visualidades
+atravessadas de inquietações. Timido, nasceu comigo, é filho de minha
+mãe, uma devota. Mas o outro foi crescendo nos livros, o estudo
+inoculou-lhe audacia, a arte agigantou-lhe as dimensões, n'este
+momento elles barafustam, e eu cuido que estremece pela basilica toda,
+este tragico drama que apenas se me debate nos nervos, e ensanguenta
+os musculos da cabouqueira que eu trago sobre os hombros.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Por consequencia estou doido. Um pavor gelado invade-me o peito.</p>
+
+<p>Estendo para o altar os braços supplicantes. E o velho continúa a sua
+musica grandiosa, indifferente a tudo o mais, emquanto no altar
+celebra missa o arcebispo.</p>
+
+<p>A execução d'essa musica parece absorvel-o e mirral-o como um galope
+d'annos desgraçados.</p>
+
+<p>A primeira investida é confusa, o velho treme de medo, correm-lhe
+lágrimas na cara, <span class="pagenum"><a id="page103" name="page103"></a>(p. 103)</span> quatro e quatro, e murmura não sei que
+palavras cabalisticas. Eil-o se endireita e recomeça.</p>
+
+<p>E pouco a pouco a minha alma abre as asas e suspende-se n'um paiz
+lilaz de supremos extasis acusticos.</p>
+
+<p>Já a riqueza dos timbres e a gracilidade dos motivos me fazem esquecer
+que seja um carrilhão de sinos que eu escuto. Alguma coisa da potencia
+orchestral do orgão, profunda, gothica, lithurgica, mas mais unida,
+mais colossal, mais grandiosa, se evola d'essas campanulas de bronze
+que faz soar no meio das serras o mais prodigioso maestro do mundo. O
+carrilhão faz-se voz da architectura de repente, e o desdobramento na
+musica dos caprichos floreteados na pedra pelo cinzel&mdash;tanto os meios
+d'expressão se centuplicam e vão fasciando de originaes melodias,
+arrancos trágicos e indomáveis rouquejos de paixão.</p>
+
+<p>A voz de cada sino presta uma inflexão, uma emoção á voz da cathedral
+que desperta e vive como um ser perplexo e gigantesco: e d'aquellas
+resonancias que a mão do artista humanisára, como interpretando um
+estado d'alma doloroso, a angustia d'uma raça, cahiam tristezas,
+desprendiam-se adeuses, voavam <span class="pagenum"><a id="page104" name="page104"></a>(p. 104)</span> recordações... recordações de
+vozes ouvidas n'outro tempo, na bocca d'alguem que eu, valha a
+verdade, já não sabia dizer quem fosse.</p>
+
+<p>Vamos ao <i>Credo</i>. O carrilhão centuplica o enxame instrumental de
+grupos harmonicos, e é o momento em que o universo une a bocca á
+poeira, para afirmar essa fé que elle tanta vez terá sentido esmorecer
+no coração. Oh, a musica do velho era uma grande opera de effeitos
+supremos, onde a alma se banhava aspirando ao mysterio d'um ideal
+celeste e inaccessivel. Vinha d'ella uma intensidade de dôr heroica
+que dava soluços á melodia unanime dos motivos symphonicos;
+desencadeando-se em rajadas no badalar dos grandes sinos. A principio
+era uma coisa lenta, que se apagava como um rythmo de reza, de nave em
+nave.</p>
+
+<p>Era uma grande litania de humildes, cortada por algum soluço
+afflictivo, e em cuja penumbra se apercebiam circulos d'almas cada vez
+mais vastos, n'uma paisagem de ballada, livida e nocturna.</p>
+
+<p>Outros soluços vão repercutindo o dobre d'aquella angustia suprema,
+n'um côro trágico de sessenta seculos de soffrimentos.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page105" name="page105"></a>(p. 105)</span> Já o effeito cresce, desencadeia-se, rebenta. Ha gritos
+funebres, insurreições apenas suffocadas, roucas ladainhas que chegam
+de longe pedindo socorro...</p>
+
+<p>Ai! n'essa apotheose de crença espiritual, por vezes a estridencia dos
+brados faz suspeitar o terror em vez da luminosa confiança que deita a
+cabeça no regaço da fé, e a imposição feroz d'um credo absurdo, em vez
+de simples doutrina conciliante ao caracter, e inteiramente suave ao
+coração. E o offertorio passa, a campainha do acolyto annuncia o
+<i>Sanctus</i>, e o sacrificio da missa principia.</p>
+
+<p>Emtanto que no meio d'aquellas instrumentações picturaes do carrilhão,
+d'onde o mysterio da missa se ennubla e desenvolve, sempre o
+pensamento musical podia seguir-se, com a pureza d'um psalmo; tão
+limpido, que eu cerrava os beiços de medo que o meu halito embaciar
+pudesse, a crystallinidade d'aquelle adoravel motivo.</p>
+
+<p>Mas da bocca dos sinos, como d'uma cornucopia emborcada, vão golfando
+inumeraveis turbilhões d'espiritos fatuos, sylphos de carrilhão,
+vibrações tornadas fórma que vão e vem, sobem e descem, cabriolam,
+zigzagueam, rolando, partindo, tornando a ir, e diffundindo-se
+<span class="pagenum"><a id="page106" name="page106"></a>(p. 106)</span> nos longes em grandes circulos concentricos, onde as figuras
+se perdem emfim, n'uma bruma côr de cinza. Todos são excessivamente
+pequenos, com uma multidão de caras differentes, pequeninos braços,
+pequeninas pernas, que se agitam n'uma quantidade de mimicas
+pittorescas. Apenas escapados dos sinos, eil-os correm uns ao encontro
+dos outros, larvas do medonho, embryões do pesadello, conforme a
+imanação sonora d'onde procedem: e agarrando-se pelos hombros,
+continuam nos ares a fantastica batalha que eu assignalára já para
+cada atomo das ruinas. Cada vez mais, cada vez mais, esses milhares de
+anões parecem recrudescer das sinistras gargantas do bronze, e bem
+depressa elles foram tantos, que faziam uma espécie de exhalação
+fumosa interposta aos meus olhos e os objectos, que se alongava depois
+n'uma grande lingua, rapida e turbilhonante, ascendendo na flecha
+audaz do campanario.</p>
+
+<p>Já a torre estava cheia d'aquellas larvas cúpidas do som, sedentas de
+lucta, phreneticas de movimento, em cuja carcassa podiam vêr-se todas
+as espécies de caras, idades, sexos e configurações. Tinham umas a côr
+verde das folhagens; eram as mais numerosas e as <span class="pagenum"><a id="page107" name="page107"></a>(p. 107)</span> que mais
+robustamente cabriolavam. Mas outras eram pardas, alongadas,
+noctiluzentes, com a vibratilidade dos vermes e a cabeçorra disforme
+dos peixes-sapos. Havia-as corcundas, havia-as tortas, havia-as
+barbudas. Encarquilhadas, hydropicas, leprosas.</p>
+
+<p>Em figura de rato, em figura de sapo, em figura de morcego... e mesmo
+certas pareciam esqueletos d'aves antediluvianas, marchando aos
+pinchos, com um grande bico maior que o corpo, direito, espesso, que
+não podiam erguer da melancholica postura em que o levavam pendurado.
+Tinham asas quasi todas; algumas eram armadas de espinhos, outras
+traziam capuzes sobre os olhos, o breviario na manga e camandulas á
+cintura: e até muitas, brandindo fachos, corriam através da batalha,
+pondo um clarão de sangue em todo esse pavoroso arraial de maleficios.</p>
+
+<p>E as que nasciam iam empurrando as que já eram adultas.</p>
+
+<p>Crescia a chusma atropellando-se, comprimindo-se: até que não cabendo
+na torre, cahiam pelos varandins, aos milhares, ou esmagadas contra a
+parede ahi seccavam e por fim desappareciam. Na debandada, um panico
+lhes convulsionava ainda mais os <span class="pagenum"><a id="page108" name="page108"></a>(p. 108)</span> pequeninos membros, e de
+rustilhão precipitavam-se, agarradas umas ás outras, e dispersando-se
+em circulos, quando já as suas figuras pareciam ganhar d'aptidão o que
+iam perdendo em nitidez de contornos. Pelo céo, aquelles circuitos
+simulavam fortes migrações de passaros cinzentos, cerrando os seus
+exercitos até aos confins do horizonte.</p>
+
+<p>E mal os sinos paravam, havia um claro turbilhão de mostrengos... só
+um ou outro mirrava, n'uma asfixia de silencio, lentamente, pingando
+ás gottas no chão que o consumia, ou ficava cabriolando nas cordas em
+piruetas de acrobata, ou pouzado n'um ferro, arésta, teia d'aranha,
+entrava a balouçar-se monotonamente, até agonizar de todo e
+desfazer-se.</p>
+
+<p>&mdash;Oh Deus! Deus grande, Deus omnipotente e misericordioso! ampara, por
+quem és, a minha fé, e não deixes apagar na loucura a bruxuleante luz
+da minha razão.</p>
+
+<p>Quando o arcebispo ergue a hostia, e sôa em concavo pela igreja, o
+bater das mãos contricto sobre os peitos, porque é que este musico
+soluça, errando a vista pelos angulos da torre, á procura d'alguem que
+alli não está? E a sua figurinha de satyro arrepela-se, <span class="pagenum"><a id="page109" name="page109"></a>(p. 109)</span>
+lugubre e grotesca, como a d'um macaco que tivesse por dentro a alma
+contricta d'um christão. Já as pombas volitam de novo sob a cupula,
+brancas, purissimas, adejando outra vez pacificadas, quando os ultimos
+turbilhões de mostrengos se despregam dos sinos mudos, esfusiando
+pelas ogivas, sob os lategos da uncção celeste que se irradia da
+hostia, feita carne, e do vinho do calix, feito sangue.</p>
+
+<p>No momento, o <i>benedictus</i> segue, e o carrilhão murmura de mansinho,
+como n'um unisono de violinos e harpas, a mais suave <i>preghiera</i> que o
+perdão do Senhor haja inspirado a um penitente. Manso e manso, os
+seraphins de pedra unem as mãos, batendo as asas de jubilo, com os
+seus typos frustes de creanças, em cujas cabelleiras se accende um
+oiro fosco d'aureolas; e das partidas lyras arrancam, com os seus
+dedos, vagos preludios de um mysticismo fluido, vaporoso, que embriaga
+d'extase, e em equivalencia approximarieis dos mais recatados perfumes
+de jasmim e de nardo, violeta e rosa branca, vaporizando-se de
+corollas abertas no claro-escuro d'um claustro, e que á noite
+espargissem suggestões de bemaventurança, na cella virginal d'uma
+noviça.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page110" name="page110"></a>(p. 110)</span> Sim! n'esse preludio do velho, chora talvez a imploração d'um
+crime antigo, expiado em annos de supplicas nunca ouvidas, e
+centuplicando d'eloquencia, através do tempo, té que afinal a tortura
+do musico excede os limites d'expressão concedida ao homem, e iguala e
+imita a eloquencia de Deus, para, confundida n'ella, coagir o Monarcha
+dos céos a perdoar. Tudo n'este supremo instante a solicita, os fieis
+que voltam a face para o carrilhão que os arrebata, as esculpturas, as
+pombas, e o arcebispo emfim que ao dar a benção, estende para a torre
+o braço tremulo, e absolve d'um gesto o extranho musico.</p>
+
+<p>Limpo de nevoas todo o céo de dezembro esmaecia, d'uma pureza elysea
+incomparavel&mdash;e argentea a lua rola, espalhando ao redor madeixas
+claras, como uma cabeça morta de <i>baby</i>, á procura do tronco, pelos
+valles, antes que o gallo da missa solte o seu primeiro apello, para o
+baptismo de Jesus feito creança.</p>
+
+<p>Na poeira do luar, pelos rasgões da rosacea, um turbilhão de seraphins
+rompe na igreja, brancos de marmore, nascendo da nuvem como uma
+geração espontanea de caritas bochechudas, boccas em flexa, olhos
+<span class="pagenum"><a id="page111" name="page111"></a>(p. 111)</span> de saphira, e o tom chlorotico, translucido, que participa
+do paraiso e da tumba, e no qual poderá lêr-se, mau grado a
+espiritualização da eterna estancia, essa infinita nostalgia dos
+pequeninos seres arrancados ao calor dos seios maternaes.</p>
+
+<p>Por um instante, palpita sobre o côro alada tromba, como uma emigração
+de passaros radiosos, pyrilampos, borboletas, que oscilla e se desloca
+na fumarada argentea do astro, turbilhonando em rodopios d'apotheose:
+depois do que converge á torre, e pelos varandins enfia, n'uma espiral
+de sonho alvinitente. Mas é um exercito que lentamente baixa o vôo,
+silencioso, rufado apenas, no <span lang="fr"><i>frou-frou</i></span> das asitas quasi
+imperceptiveis. A alguns mal se lhes lobriga a cabeça, envoltos como
+voam, nas suas camisotas de nuvem; outros inquietos, não podem estar
+poizados muito tempo em qualquer ponto, e n'um phrenesi de movimento,
+mexem, debicam, bolem no teclado dos sinos, nas esculpturas,
+chamando-se, vindo em chusma rir de um monstro ou cariatide,
+arrepellando-se os cabellos uns aos outros, jogando as escondidas por
+traz das heras que abraçam a muralha, de roda dos varandins, pelas
+cordagens&mdash;e até <span class="pagenum"><a id="page112" name="page112"></a>(p. 112)</span> um que escorregou nas lageas, ficou de
+bruços, choramingando, com birra, á espera de que alguem o fosse
+levantar.</p>
+
+<p>Os mais robustos então descolam do pavimento uma das lageas, a um
+canto, e acocorados na terra, escavam com as unhas uma toca.</p>
+
+<p>Pela segunda vez, o gallo da missa gritou da cupula, e elles, que o
+escutam, precipitam com furia o seu trabalho, a fim de que a tarefa
+esteja prompta antes que a ave solte o seu terceiro grito de alarme.</p>
+
+<p>Bem depressa ha um buraco fundo no chão da grande sala, e&mdash;oh
+surpresa!&mdash;aparece um pé, um microscopico pésito de creança roxo de
+frio, inteiriçado: e logo depois do pé uma pernita, o tronco, uma
+cabeça... Já a curiosidade impertiga a pequenada, que se achega e
+acocora, em circuito cingindo-se pelos pescoços, n'uma profusão de
+momos espantados.</p>
+
+<p>O pequenino cadaver está descoberto, e cada qual n'elle procura
+insuflar o ligeiro filete vital que em si conduz. Uns lhe aquecem as
+mãos com seus beijitos leves como abelhas, outros lhe sopram das
+palpebras a vilissima terra que lh'as come, emquanto <span class="pagenum"><a id="page113" name="page113"></a>(p. 113)</span> muitos
+lhe fabricam uma samarra, com os pedaços que arrancam ás suas proprias
+vestimentas.</p>
+
+<p>Emfim, a creancita ressurge, esfrega os olhos&mdash;dois ou tres calafrios
+passam de manso á flôr da sua epiderme opaca e ecchymosada&mdash;e a vida
+nasce, ha movimentos, pequenos haustos, suspiros... mas sempre á roda
+do pescoço um vergão negro estrangula-a, estygma de infamia paterna,
+que o velho encara estralejando os dentes, n'um terror confuso de
+assassino. Pela terceira vez o gallo canta, e triumphante, o turbilhão
+de seraphins levanta vôo, ascendendo pelo céo, n'uma espiral de nevoas
+côr de rosa.</p>
+
+<p>Porém de repente, o pequenito recorda-se, volta a cabeça, estende os
+braços para o musico que de rastos avança, desesperado, por não lhe
+poder tomar as mãositas protectoras. Oh, era tempo! Ha já cem annos
+que elle assim vagabundea nas ruinas, sem repouso esse sineiro que
+amara uma abbadessa; e annos e annos desfilam, e sempre a terra a
+recusar sepultura ao amante, e sempre a colera de Deus a expungir da
+sua gloria, o monstro que assassinára o filho, no proprio dia em que
+elle foi nascido. Annos e annos o miseravel tentara <span class="pagenum"><a id="page114" name="page114"></a>(p. 114)</span>
+apaziguar a colera do Eterno, vindo á missa do gallo da abbadia,
+interpretar pela musica do carrilhão fantastico as escruciadoras
+angustias da sua alma lassa, atormentada, mas ainda no fim d'estes
+esforços o céo que redimia a creança, como se não julgasse bastante a
+expiação do pae, abandonava-o!</p>
+
+<p>Surdo, maldito, o desespero começa a babar-lhe da bocca, imprecações
+incoherentes. De novo o carrilhão blasphemo, vomita das campanulas de
+bronze, a sua bruxaria macabra de mostrengos. Os ultimos fieis
+arrastam as sapatas no adro, e pela montanha as luzitas descem
+ondulosas, hesitantes, como um bailado de pyrilampos.</p>
+
+<p>Agora um, outro ao depois, os lampadarios se extinguem diante das
+capelas: o altar-mór não phosphoreja mais as suas rutilancias d'estofo
+e pedrarias: o arcebispo foi-se, as monjas voltaram talvez aos seus
+sepulchros, porque as procuro em balde nos cadeirões do côro, pela
+egreja e nos claustros, á chamma dos ultimos archotes que lambem de
+sangue os gestos das estatuas, as arcarias confusas, os baixos relêvos
+e os nichos.</p>
+
+<p>Deito os meus olhos de roda, espavoridos, e ha risadinhas, voejos, as
+heras trepam em <span class="pagenum"><a id="page115" name="page115"></a>(p. 115)</span> grossas lianas, que se abraçam nos
+columnellos da torre, e prolongadas, tenazes, n'uma luxuria contorcida
+de serpentes, alastram as suas pernadas entre as pedras, como uma
+avançada de exercito que em nome da natureza, toma posse do terreno
+que lhe havia sido usurpado. O terror dá-me epilepsias de fuga, d'uma
+vertigem, d'uma raiva! e precipito-me na escada, ás escuras, sem mais
+ouvir os queixumes do musico, que as vegetações vão sugando,
+assimilando em si, absorvendo, n'uma troncagem monstruosa de figueira.</p>
+
+<p>Chego á igreja, quebrado pelas brutalidades d'essa queda espiral de
+oitenta metros. E atraz de mim não ouço mais que a floresta a
+esbravejar, tomando posse da ruina, e os estalidos da cantaria que
+rebenta, escarvada pela violencia das raizes que esconjuntam a
+architectura a punhaladas de ciume. Agarro um facho, em bramidos,
+delirante d'um medo que centuplica as minhas ancias de vida livre, em
+meio dos campos: e ao acaso, entre os cyprestes, pelo claustro, os
+risos guiam-me: bem depressa descubro uma luz vaga, coando-se por
+baixo d'uma porta baixa e carcomida. Dentro ha rumores, leves
+<span lang="fr"><i>frou-frous</i></span> de sêda que se acamam, tinir de pratos... E no <span class="pagenum"><a id="page116" name="page116"></a>(p. 116)</span>
+phrenesi medonho que me agita, deito os hombros á porta&mdash;a porta voa,
+e uma orgia d'espectros patenteia-se, n'uma luz glauca em que as
+figuras mergulham, confundidas, alongando as roupagens pardacentas. A
+principio eu não pude destrinçar as lugubres carcassas, uma a uma, mas
+já a minha vista insiste sobre as fórmas... ha um festim servido sobre
+a mesa, flôres que se desfazem em poeira; e n'um brilho d'enterro as
+tochas ardem, mostrando á roda esqueletos de monjas, a devorar co'as
+mandibulas descarnadas, e cardeaes, marquezas, gentis-homens, que
+entre si permutam toda a casta de motetes dulcerosos.</p>
+
+<p>E mais distante, á luz do fogo que enrubesce na chaminé de pedra
+armoriada, o senhor arcebispo tange um violão, meneando a calva
+emquanto a abbadessa ergue os seus vestidos veneraveis, para esboçar o
+primeiro passo do minuete, acordado nas cordas do instrumento.</p>
+
+<p>&mdash;Rompe a manhã! grita o creado aos meus ouvidos.</p>
+
+<p>Esfrego os olhos.</p>
+
+<p>A nevoa esfarrapa chuveiros na montanha. É dia claro. Uma caleça nova
+nos aguarda. E o sineiro da abbadia? A gente sempre sonha cada
+asneira!<span class="smaller"><a href="#toc">(Voltar ao Conteúdo)</a></span></p>
+
+
+
+
+<h2><span class="pagenum"><a id="page117" name="page117"></a>(p. 117)</span> PEQUENO DRAMA NA ALDEIA</h2>
+
+
+<p>Devo dizer-lhes que este Carlinhos era um adoravel petulante de buço
+preto e olhos claros, cheio de vivacidades com raparigas, prompto a
+rir, delgadito e forte, tendo pelos actos de bravura uma quasi
+religião. Compensavam-se n'elle delicadezas de femea, brancuras de
+mãos, flexibilidades de cinta, uma doçura candida de feições, toda a
+graça ondulosa emfim, dos que adolescem á larga, sem cuidados nem
+represalias paternas, com os primeiros esboços d'essa energia physica,
+tenaz, inquebrantavel, leviana e generosa, que ainda agora é tradição
+em certas raças da provincia, e guarda fama de povoado em povoado. A
+escóla fôra-lhe apenas um pretexto de troça, onde esse incorrigivel
+tinha posto em debandada a auctoridade classica dos mestres. E como
+n'esse periodo as primeiras <span class="pagenum"><a id="page118" name="page118"></a>(p. 118)</span> desordens do sangue, ensaiavam
+pelo campo da aventura, mais agora ou mais logo, as suas sortidas, não
+havia mesada que chegasse, nem horas para folhear as lições. Demais, a
+sua impetuosidade que esplendia côr e frescura de saude, pouco dava á
+vida cerebral; portanto, voltou á aldeia sem curso, elançado de
+figura, tendo as olheiras symtomaticas do amor esbanjado, lendo
+romances, com uma arte especial de surprehender mulheres, e
+predilecções decididas por quanto fosse prazer.</p>
+
+<p>&mdash;Doido, dizia a gente pobre da aldeia, mas que rapaz!</p>
+
+<p>A fortuna da familia fazia-o no sitio uma especie de menino d'oiro,
+sagrado e por todos querido; desculpavam-lhe as audacias, tinha
+entrada em todos os lares, e quando nas romagens o seu cavallo piafava
+nos adros das ermidas, ou a galope ia cortando a chafranafra das
+feiras, as raparigas deslumbradas achavam-n'o bello como um deus, e
+muitas fugiam com elle, mandando á fava os namorados. Realmente
+ninguem achava extraordinarias estas coisas. O que as velhas
+camponezas então faziam, era ter saudades do pae, rico grão-senhor de
+herdades e quintas, destemido, brilhante, alegre aventureiro, que
+ainda em <span class="pagenum"><a id="page119" name="page119"></a>(p. 119)</span> vesperas de morrer tinha raptado a lavradora das
+Lages; aquella russa magnifica de carnação, que tinha o ar d'uma
+grossa madona eborense, hão-de estar lembrados, hein? Carlinhos mesmo,
+era um filho do amor, vindo não se sabia d'onde, amor d'acaso,
+d'alguma arribana de granja, d'algum arredado logarejo entre serras e
+moinhos. O certo era que dias após haverem enterrado no velho
+cemiterio, a filha que ao rico homem restava da esposa legitima,
+entrara o marido em casa com um pequenito pela mão, fôra junto da
+esposa mortificada de prantos, e sem palavra tinha-lhe deposto no
+regaço aquella encantadora miniatura de Carlinhos pequeno, a mais
+fresca e divina que era possivel sonhar. A pobre senhora que se via
+sem descendencia, já não estava em idade de ter filhos; resignada ás
+traições do marido, e ennobrecida d'esse grande orgulho benevolo e
+senhoril, que ainda na provincia revelam as antigas familias,
+acceitara o <i>bambino</i> sem cousa alguma perguntar. Além de que,
+adoptando a creança, assegurava-se herdeiro á casa, e os filhos do
+irmão de seu marido não participariam ceitil na grande fortuna do
+casal. Ah, mas esse exemplo d'adopção tinha dado a mulheres sem
+<span class="pagenum"><a id="page120" name="page120"></a>(p. 120)</span> marido, phrenesis bruscos de contagio, e certo foi que
+muitas creanças appareceram dizendo-se irmãs de Carlinhos. Talvez
+calumnias forjadas pela outra familia, ainda que fallando sério, não
+faltassem a taes pretenções, uns signaes de verosimilhança. Tanto os
+da Oriola, que assim era conhecida a familia do Carlinhos, como os da
+Torre, que assim nomeavam a casa do tio adversário&mdash;eram fortunas de
+respeito e gente de poderio. Os primeiros tinham o maior nucleo da
+propriedade de redor da Oriola, aldeia perdida entre carvalhaes e
+sobreiros; os segundos faziam séde de governo proximo a S. Mathias,
+outra aldeia nos valles de Beja. Uns tinham cabellos pretos, alta
+estatura fina, nariz direito, olhos claros, e uma côr fulva de pelle,
+nuançada em deliciosos <span lang="fr"><i>duvets</i></span>; eram da Oriola. Mas outros
+insculpiam-se herculeos e loiros, nariz recurvo, dentes carniceiros,
+barba rara, e os olhos singularmente obliquos contra um nariz que
+arfava com destrezas de hispano-arabes; eram da Torre.</p>
+
+<p>Pois extraordinaria bizarria! Dos trinta annos para baixo, toda a
+Oriola copiava o typo do pae de Carlinhos; e acontecia o mesmo em S.
+Mathias, a respeito do typo <span class="pagenum"><a id="page121" name="page121"></a>(p. 121)</span> loiro da Torre. Nas terras de
+roda, estas coïncidencias faziam riso, ainda que se explicassem com
+honra, aqui para nós. Os da Oriola davam pão á sua aldeia, como os da
+Torre a S. Mathias. Lá vinha o proverbio&mdash;mesmo pão, mesmas feições. E
+sendo assim...</p>
+
+<p>Ora cada qual d'estas familias rivaes&mdash;e nunca pude saber porque
+rivaes, questões de ciumes talvez, uma herança mal repartida, ambições
+de riqueza ou voga entre os povoados, eleições renhidas n'algum anno
+de mais gastos, emfim qualquer pequenino attrito d'esta natureza ou
+d'outra, onde o orgulho dos senhores ruraes, tão vehemente e
+meticuloso, faisca determinando incendios e intimas assolações&mdash;cada
+qual d'estas familias, ia eu contando aos senhores, não passava dia
+sem discutir com uma rica metralha de descomposturas, escarneos e
+desdens, o viver da outra. Em torno d'estes odios interfamiliares,
+tinham-se formado mesmo pequenas côrtes, feitas com figurinhas
+insipidas de proprietarios, mulhersitas seccas e beatas, maldizentes
+na sua dentuça podre, com poucos meios e grandes deslumbramentos pelas
+pratas de casa rica, sabendo as mesmas historias e queixando-se dos
+mesmos flatos, levando e trazendo <span class="pagenum"><a id="page122" name="page122"></a>(p. 122)</span> recadinhos, segredinhos,
+pequeninos fetidos d'intriga, em preço do chá com doce que pelos
+serões lhes serviam, e da quasi familiaridade que em publico, esses
+senhores de terreola lhes dispensavam. Na casa da Oriola sabiam-se por
+exemplo a horas e a tempo, os vestidos de sêda da prima Dora de S.
+Mathias, como ella se vestia em sendo madrinha de baptisado, o que
+tocava no piano, e quem estivera a jantar no dia dos seus annos.</p>
+
+<p>&mdash;Diz que houve balancé até de manhã.</p>
+
+<p>E noticias da cortiça exportada para Inglaterra, lã que vendiam os da
+Torre, e dos rebanhos, carneiros, vaccas, porcos, cavallos, poldras...</p>
+
+<p>&mdash;Tão maus, que elevaram o preço dos carneiros, só para prejudicar os
+lavradores somenos. E os porcos d'elles não prestam, carne de cão,
+mais dura!...</p>
+
+<p>Cada viajata de Dora durante a estação de banhos, cada mez d'opera em
+Lisboa, no inverno, as primaveras com o pae pela Andaluzia, no
+Algarve, ou em Marrocos e Gibraltar, para espreitar o dolente azul do
+Mediterraneo do alto das artilhadas escarpas inglezas, eram motivos de
+censuras na Oriola, e surdas prophecias de ruina iminente. As
+mulheritas <span class="pagenum"><a id="page123" name="page123"></a>(p. 123)</span> da terra vinham aos serões com seus maridos,
+trazer o que sabiam da Torre, inventar quando não havia que trazer, e
+a mãe de Carlinhos commentava os casos entre velhas creadas que a
+tinham acalentado, velhinhas que davam tu á sua dona,
+enroscando-se-lhe aos pés com somnolencia de gatas fugidas ao serviço.
+Mas, desgraçadas das visitas que ousavam julgar diante da rica viuva,
+o proceder da sobrinha ou do cunhado&mdash;que tombadas em graça, nunca
+mais lhe viam os dentes e provavam o dôce! Ella só, viuva de Fernando
+Zarco, podia discutir os desvarios de seus parentes; o resto contava
+sem commentarios o que ouvia por fóra, ou ia escutando o que ella
+dizia, sem retrucar mais, aliás...</p>
+
+<p>Na casa da Torre, exasperação identica a respeito da Oriola, não
+havendo serão que as estroinices do primo não fossem esmiuçadas,
+exageradas e discutidas. Carlinhos não tinha pae, Dora não tinha mãe.
+Mas auctoritaria e toda orgulhosa do seu reino domestico, da riqueza e
+alta educação que recebera, tambem ella punha em torno de si uma
+pequenina côrte dulcerosa e servil. Era mais nova que o primo, e a sua
+belleza de loira, magnifica e <span class="pagenum"><a id="page124" name="page124"></a>(p. 124)</span> alta, toda fresca em batas
+d'estofo exotico, deliciosa de cabellos e mãos, com uns ares
+d'inaccessivel castellã, fazia d'ella a musa do districto, e a paixão
+de quantos gordos filhos de casa opulenta, batiam por feiras e
+lavouras em grande. Viam-se os dois muitas vezes, Carlinhos e Dora,
+casualmente nas festas de Beja, em praias de banhos, e por Lisboa,
+onde até acontecia ficarem no mesmo hotel. O pae d'ella, Manuel Zarco,
+fingia não dar pelo sobrinho, o <i>engeitado</i>, como elle dizia na sua
+brutalidade morgadia. Os rapazes, porém, é que se iam mirando ás
+furtadellas, sem querer saber das caturrices do velho. Carlinhos, tão
+ruidoso e leviano por onde quer que andasse, ficava sério e perturbado
+sob esses rapidos encontros com Dora, e os seus olhos claros
+esmaltavam profundezas ardentes, e melancolias de quem fica a scismar.
+Porque em verdade, mulher alguma podia equiparar-se a Dora, pela
+nobreza do seu typo, estudada elegancia de maneiras, vestuario, contos
+de fortuna e altivez de familia. Os bem informados n'isto d'interesses
+e allianças possiveis ou premeditadas, não viam por essa orla toda do
+districto, um casamento á altura de Dora, a menos que a <span class="pagenum"><a id="page125" name="page125"></a>(p. 125)</span>
+orgulhosa descesse, o que todos diziam não ser provavel. Apenas um
+noivo a merecia bem, Carlinhos.</p>
+
+<p>&mdash;Esse, opinavam as terras circumvisinhas, quando as gallinhas tiverem
+dentes.</p>
+
+<p>Precisamente esse dia, a aldeia de S. Mathias suspendera os trabalhos
+do campo em signal de festa; os das herdades tinham vindo com os seus
+cajados e as rudes botas altas de coiro branco, rolavam bailaricos por
+todas as casas; e no terreiro da egreja, ás portas das vendas, no
+balcão da escola régia, ou mesmo ás embocadas das ruas, por aqui, por
+alli, os camponezes em ranchos, fato novo, ruborescencias de vinho no
+queimar da face, havia mais de tres horas que aguardavam a boda. Os
+campos n'esses meados de junho, tinham primeiros doirados do trigo
+maduro, ondulante e farto, que a aura por zonas encama n'uma saudação
+graciosa; por um lado e outro, entre gavelas arrepeladas sem ordem,
+remoinhos desflorados de messe, como labios de rapariga ardente, ria o
+escarlate das papoulas; e como aos sóes da quadra tinham vindo as
+cigarras, ruido de cega-rega, trocavam alertas d'arvore em arvore, á
+medida que ia avançando o verão. Entanto ainda as <span class="pagenum"><a id="page126" name="page126"></a>(p. 126)</span> noites
+eram frias, e o orvalho da manhã perlava nas folhas, secretas lagrimas
+d'amor trahido; corria mesmo agua por alvercas e ribeiros, fria,
+salobra das terras atravessadas, dando erectos viços aos panascaes
+verdejantes, ás junças e mentrastes das ribanceiras.
+Microscopicamente, as vinhas iam esboçando cachos, entre pampanos
+pizados d'amarello e vermelho ferrugem; começam a vir os perdigotos,
+as rolas tinham chegado d'uma aspera migração, e desconfio que os
+melros, casados de fresco fazendo musica de opereta entre os murmurios
+das cannas e dos silvados, arredondavam já os seus ninhos, á espera da
+petizada. N'essa grande paz bucolica, a alma abraçava simples ideaes
+de ventura, nua d'ambições desordenadas e volupias lividas, e na
+doçura de palpitar entre aromas silvestres, ia voando em cata de
+amores delicados e mansos idyllios, pelas veredas onde as condoidas
+espigas se curvavam, a depôr nos regaços esmolinhas do primeiro trigo
+em sazão. Vista de longe, a aldeia era encantadora d'alegria e
+brancura. Nas collinas, de roda, empoleiradas ermidas vigiavam por
+ella dia e noite; Deus foragido pela descrença das cidades, andava por
+alli talvez na estatura <span class="pagenum"><a id="page127" name="page127"></a>(p. 127)</span> de algum velho mendigo de fallas
+doces e resignada humildade; e pela noite, quando os rebanhos
+vagarosos seguiam para os curraes, esse cantinho rustico tinha scenas
+biblicas d'uma graça innocente, pastores e pastoras ajoelhando ao
+toque das Trindades para dizer o <i>angelus</i>, risos de ganhões pelas
+devesas, cantigas que se apagavam nas corcovas dos caminhos, emfim
+tudo quanto entretece a elegia plangente do morrer do sol. Esse dia
+casava-se o Carlinhos com a prima Dora, e as duas casas fortes do
+districto, tantos annos separadas por odios, iam emfim restaurar-se na
+bôa cordealidade, por esse laço dos primogenitos.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Imagine-se o espanto e a curiosidade que um tão inesperado successo
+derramou por toda a provincia, conhecidas como eram as desavenças dos
+Zarcos, desde tanto apregoadas. Mas assim como tinham ficado na sombra
+os motivos de apartamento, assim tambem incognitas ficaram as molas
+intimas da nova amizade entre as duas casas. Evidente, que o principal
+motivo de ligação era o casamento dos rapazes; isso não bastava
+entretanto; outras secretas ponderações deviam ter <span class="pagenum"><a id="page128" name="page128"></a>(p. 128)</span> influido;
+e essas, quaes? Porque, emfim, era conhecida a indole orgulhosa e
+tenaz da viuva; as suas phrases sobre o cunhado citavam-se em modelo
+d'altivez varonil e decidida independencia; e por seu lado o da Torre
+não a poupava tambem. Nem uma só vez Dora tinha fallado a sua tia;
+creancita ainda, succedera encontral-a não sei que de vezes; os olhos
+pretos da viuva detinham-se um momento na figurinha petulante da bébé,
+e desviavam-se logo sem rastro d'affecto. Verdade é que o velho Zarco
+referindo-se a Carlinhos, punha sempre palavras crueis, marau, vadio,
+o filho d'aquella...</p>
+
+<p>Subitamente, eis que os rapazes iam casar! Jámais por aquellas
+redondezas se tinha dado coisa parecida. Vamos nós agora a vêr, se a
+da Oriola virá dormir á Torre! diziam muito interessadas, das suas
+soleiras, as gordas comadres de S. Mathias. A mór parte nem tal
+acreditaria, mesmo vendo. E as apostas começaram. A vêr como dorme!
+Apostar em como não dorme! A camarilha de Manuel Zarco arengava com
+sobranceria, entre os grupos mais impacientes:</p>
+
+<p>&mdash;Afinal, quem se humilha são os da Oriola. É bom saber!</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page129" name="page129"></a>(p. 129)</span> E uma de preto, a Fevronia, toda preponderante, meia azul e
+sapato rôto, batia palmas n'uma loucura, dizendo por todas as casas:</p>
+
+<p>&mdash;Quem viver tem muito que contar, não haja duvida.</p>
+
+<p>Foi n'este marulhar d'opiniões e trocadilhos, que um forte rumor de
+sege alborotou a aldeia e emquanto rapazes descalços corriam, cães
+ladravam, e cabeças de mulheres vinham ás portas espreitar avidamente,
+os trens da Oriola romperam a grande passo pela rua larga, vindo topar
+alfim nas escaleiras do adro. Este caso foi muito fallado, e ainda se
+pasma da magestade com que se apeou a viuva da sua grande berlinda
+estofada a casimira perola, grandes fivelões e lanternas de prata
+esculpida. Tinha-se chegado muito povo a vêr, as janellas guarnecidas
+de madamas, e o mordomo da senhora viuva, gordalhudo, com uma
+expressão presidencial, desenrolou um rico tapete amarello e branco
+pelo adro, desde o estribo até aos portaes do templo; os creados da
+taboa tinham-se erguido e descoberto; e n'isto Manuel Zarco com um
+riso amarello, todo curvado de obsequios, casaca e luva branca, saíra
+a receber sua cunhada; e quasi a medo, todos repararam, offerecera-lhe
+<span class="pagenum"><a id="page130" name="page130"></a>(p. 130)</span> a mão para saltar. Diz que ella nem o encarou, e foi sósinha
+pelo tapete fóra de cabeça alta, um dos braços pendentes, e a cauda do
+seu vestido de damasco negro roçagava que parecia mesmo da senhora
+rainha. Carlinhos ia atraz, um pouco deslocado na casaca de noivo,
+porque em verdade ia-lhe melhor a jaqueta e o chapeu largo. E fechavam
+cortejo as velhitas que tinham embalado a viuva, ambas de roxo,
+ajoujadas, chapeus muito profusos de violetas, e mitenes de renda onde
+as suas velhas mãos boiavam carcomidas. Junto ao altar tinham posto
+uma grande poltrona em setim rutilante, flordelisado a ouro velho,
+onde a viuva se assentou sem mais cerimonia; e todos em pé serviam-lhe
+de côrte, com passadinhas respeitosas e pequenas vénias cheias
+d'uncção. Apoiado á espalda da poltrona, velho Zarco mastigava
+demoradamente as palavras com o seu modo somnolento, siflando os <i>ss</i>
+de quando em quando, e ella sem lhe dar attenção, um momo altivo de
+labio, entretinha-se a esfolhar com o seu pé de fidalga, rosas brancas
+espalhadas pela alcatifa.</p>
+
+<p>Embalde o da Torre lhe fez notar que melhor seria assignarem as
+escripturas em <span class="pagenum"><a id="page131" name="page131"></a>(p. 131)</span> casa d'elle, como era natural, até ficava
+alli perto, no largo. V. ex.<sup>a</sup> descançaria um pouco nos quartos de
+minha filha...</p>
+
+<p>&mdash;Meu cunhado, não me sinto fatigada, assignaremos isso no gabinete do
+prior, onde quer que seja, mas sem arredar pé da egreja, que é casa de
+todos. E a proposito, disse ella tirando o relogio, é a hora, duas e
+meia. Janto ás seis, o caminho é longo.</p>
+
+<p>O da Torre ia a sair, a viuva tinha-se erguido sem reparar na
+impressão que estavam fazendo os seus cortantes modos de dizer. Manuel
+Zarco deixou-se caminhar ao lado d'ella foi-lhe lembrando com voz
+mansa que os velhos rancores deviam acabar com aquelle enlace dos
+filhos: tudo afinal se esquece.</p>
+
+<p>&mdash;Tudo não! disse ella bruscamente. E proseguiu: pódem casar, pódem
+casar. Carlinhos além de tudo, não é meu filho, aliaz tinha-lhe
+prohibido esta alliança, meu cunhado!</p>
+
+<p>&mdash;V. ex.<sup>a</sup> é então muito orgulhosa, notou velho Zarco despeitado
+d'aquelle tom.</p>
+
+<p>&mdash;Crê isso? disse a viuva abrindo o grande leque d'oiro e plumas, que
+reluzia n'uma polvilhação de pequeninas pedras.&mdash;E de repente, n'um
+accesso de voz intimativo: Sabe, meu cunhado, que seu irmão era homem
+para o <span class="pagenum"><a id="page132" name="page132"></a>(p. 132)</span> ter morto, se acaso tem vindo a saber... Porque
+francamente, disse ella com os dentes cerrados, rigida e faiscante nos
+seus damascos negros, francamente, é desprezivel, o senhor! Tenho
+ainda nos pulsos signaes das suas unhas. Adoro o Carlinhos, creia&mdash;eis
+porque ás vezes me aterro da mulher que elle escolheu. Meu Deus, se
+essa creaturinha sahir ao pae!</p>
+
+<p>Os dentes do outro rangeram&mdash;porque não casou então comigo? disse elle
+com frenesis na raiz dos cabellos.</p>
+
+<p>A viuva riu-lhe na cara.</p>
+
+<p>&mdash;Eu? Eu? Ora, meu cunhado!</p>
+
+<p>Fez dois passos na alcatifa, quebrando n'uma crispadura electrica e
+larga, a enorme cauda applicada de rendas antigas, ao tempo que os
+dedos de Zarco rasgavam convulsivamente a luva descalça de rompante.
+Ambos trahiam colera nos <i>zig-zagues</i> que faziam marchando. Os olhos
+ainda magnificos da viuva procuravam o da Torre, phosphorentes
+d'ameaça. E o velho, como quem não acha outro caminho para fugir:</p>
+
+<p>&mdash;Emfim, desmancha-se este casamento, se quer.</p>
+
+<p>&mdash;Não, já agora, elles desgraçadamente <span class="pagenum"><a id="page133" name="page133"></a>(p. 133)</span> adoram-se, Carlinhos
+mostrou-me as cartas, amor de muitos annos, inda eram pequeninos. Deus
+sabe se o senhor mesmo approximou...&mdash;E subia-lhe a voz em graves
+dramaticos, com vibrações de metal.&mdash;Mas, meu cunhado, acautele-se,
+acautele-se! Sua filha vai comigo, voltal-a-hei contra o senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Oh, disse elle, experimente.</p>
+
+<p>&mdash;Pois veremos.</p>
+
+<p>&mdash;Vou buscal-a, resumiu elle transtornado, curvando-se. E muito baixo,
+querendo dominal-a: que inimigo horrivel eu tinha, se a senhora fosse
+um homem!</p>
+
+<p>&mdash;Matava-o, respondeu ella estendendo o punho n'um gesto de Rachel. E
+ajuntou a rir: tão certo!...</p>
+
+<p>Carlinhos vinha para elles, já o velho Zarco se afastava. E vendo-o no
+seu ar de cavalheiro, estatura correcta, alto, um fulvo esplendido de
+pelle, bocca firme nos cantos sob a velludagem do buço, quasi
+innocente na graça leal do sorriso, esse rir da viuva, correndo
+imperceptiveis <span lang="fr"><i>nuances</i></span>, foi gradualmente adoçando, enternecendo,
+perfumando como um licor que se evola entornado, de modo que era
+divino quando Carlinhos, femininamente, lhe deu a beijar a testa. Ella
+<span class="pagenum"><a id="page134" name="page134"></a>(p. 134)</span> então sem se importar, attrahiu-o a si n'uma paixão de leôa,
+como se nunca mais se vissem, e dizia-lhe coisas entrecortadas, a
+chorar, a beijal-o furiosamente, estreitava-o mesmo sobre o coração,
+com impetos d'abandonada, que se fica nos occasos da vida, sem mais
+ninguem que amar. Fosses tu das minhas entranhas, não te queria mais
+que te quero! E essa maldita, hade expulsar-me do teu coração.&mdash;Elle
+queria contel-a, quasi envergonhado de os estarem olhando á roda,
+jurava-lhe, promettia tudo, n'um precipitar de palavras meigas. E á
+flôr da abobada nua e branca da egreja, andorinhas corriam chilreando,
+filhos e mães que inda não tinham emigrado, e demoravam residencia no
+calor dos velhos ninhos patriarchaes.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>N'isto, fez-se um grande rumor, que alastrado, mais e mais confuso,
+por todas as ruelas, ia pondo as gentes de sobreaviso; viram-se
+rapazes e mulheres correndo ás esquinas que defrontavam com o largo,
+janellas que abertas de chofre inchavam de gentio com fatos de gala,
+grupos freneticos buscando posição de vêr melhor; e de repente, quando
+<span class="pagenum"><a id="page135" name="page135"></a>(p. 135)</span> a orchestra de Beja entrou a choramingar uma symphonia no
+côro, ondas de familia romperam na portada sem guardavento, invadindo
+as capellas, enchendo a nave, querendo forçar a balaustrada carunchosa
+do sanctuario. Jámais S. Mathias tinha visto coisa igual, nem quando
+D. Pedro V fôra a Beja&mdash;e francamente, de logo perdeu a esperança de
+tornar a gosar outra grandeza assim de boda. A casa da Torre era no
+largo, grande, pesada, singular, com esquinas de granito negro, onde
+os escudos postos ao través esculpiam complicados symbolos de nobreza,
+leões com asas, metade de um cavalleiro armado de lança e capacete,
+Nossa Senhora dentro d'uma torre, cabeças de moiro n'um molho: e só
+aguias eram algumas tres! Sobre os portões de columnellos gastos, com
+argolas de bronze para prender as bestas, e portas de carvalho
+fortalecidas com magnifica pompa de ferrarias damasquinadas, esses
+brazões repetiam-se mutilados; no fundo do pateo aberto, d'um sabor
+arabe, e com arcos á volta cobertos de hera via-se a ampla escadaria
+de corrimões de bronze, alcatifada de fresco e cheia de vasos
+decorativos; um velho cypreste lhe fazia sentinella, hirto á beira
+d'um poço octogono, todo <span class="pagenum"><a id="page136" name="page136"></a>(p. 136)</span> em altos relevos de pedra
+rugosa&mdash;em casotas, acorrentados, inquietos, dois grandes mastins
+abriam sobre quem chegava, o duro olhar sanguinolento. Na fachada cá
+fóra, a correnteza de janellas senhoriaes, fria de butareus e cimalhas
+onde os estorninhos gritavam, deixava pender ricamente sobre as velhas
+saccadas, preciosas colchas hereditarias, amarellas com grandes
+passaros em lhamas de prata, azul pallido n'uma loucura de mandarins e
+pagodes, ou d'altos relevos brancos, verdes, escarlates, sobre foscos
+de oiro indiano, onde as grossas franjas luziam. Pois d'essa casa
+severa, vomitára subito um cortejo bizarro de noivado&mdash;á frente vinham
+os figurões de Beja em grande <span lang="fr"><i>mise</i></span>, ricassos das terras proximas que
+tinham chegado nas suas seges, velhos amigos de Zarco, lavradores,
+funccionários, ultimos parentes da familia... E rodeavam o da Torre
+todo pallido na sua grande barba, que levava a filha pelo braço como
+uma grande musa germanica, alta, pudica, esplendidamente branca e
+vaporosa n'um véu que lhe cahia aos pés. Fez bulha na aldeia o senhor
+coronel do 17 com as suas medalhas ao peito, e um velho general de
+metro e vinte e cinco, gesticulando <span class="pagenum"><a id="page137" name="page137"></a>(p. 137)</span> para a direita e para a
+esquerda, que mirava as femeas lampeiro como um galo, ao pé do vigario
+capitular, um côr de parede, que mui dulceroso e beato, afiára o dente
+em tres dias d'abstinencia, sonhando as delicias do <i>copo d'agua</i>.
+Seguiam damas paramentadas de oiro e plumachos, luvas chinfrins de
+dois botões, pulsos eticos chincalhando braceletes, muito estrepitosas
+em sêdas de côr terrivel: e disse uma d'ellas para a outra, que seguia
+ao lado, mortificada no peso da cuia&mdash;quem está mesmo um cangalho é a
+Sardinha. Esta coisa causou grande pasmo; estar a Sardinha um
+cangalho! Hi!... Muitas agglomerando-se em trouxa, discutiam tão
+famoso caso. E gabou-se a morgada das Palmas, uma trigueirona de
+cabello corredio, labio gretado, sêcca e presumida, que de chapéo
+branco e vestido verde, fazia pensar n'um grande molho de nabos.
+Depois as creadas, sinceras raparigas que choravam&mdash;isto deu pena em
+S. Mathias&mdash;e quasi em braços no meio d'ellas, uma velhita em sêda
+preta, pequenina como uma creança, levava um ramo de rosas brancas e o
+leque da noiva, abanando n'um triste ar resignado, a sua cabeça branca
+d'octogeneria. A aldeia estava toda no largo, gralhando a <span class="pagenum"><a id="page138" name="page138"></a>(p. 138)</span>
+essa hora, gente das lavoiras de roda, uma chafranafra de mulheres e
+homens que se rasgava e bipartia, ao passar o acompanhamento. A cada
+passo, pequeninos lances detinham a procissão bruscamente, e viam-se
+as raparigas sahir dos ranchos, tostadas, fortes, rindo com soberbas
+dentaduras, cabellos de trigo maduro remoinhando em serpente no alto
+das cabeças...</p>
+
+<p>&mdash;Com sua licença&mdash;e deitavam flôres sobre a herdeira, commovidas, um
+ar de filhas de burgo medieval. Á porta da igreja, o Carlinhos estava
+entre os seus, crescia a turba embatendo-se; e por traz a viuva muito
+pallida, tinha os vagos olhos das frias estatuas antigas, inertes,
+dilatados d'insomnia, como prescrutando ao longe os tempos em que
+ainda não eram de pedra, e uma vida lhes circulava e ria no alvor dos
+membros nús. Deu-se então no Zarco e na viuva, ao mesmo tempo, um
+calafrio de ciume, quando os noivos se encontraram com a mesma flamma
+nos olhos; e os dois perceberam que iam ficar de mais n'esse idyllio
+de creanças, absortas uma na outra, que esquecidas de tudo, iam de
+mãos dadas pela igreja fóra. N'essas velhas idades d'amor egoista, em
+que os filhos são o <span class="pagenum"><a id="page139" name="page139"></a>(p. 139)</span> calor, o orgulho o motivo de viver&mdash;o
+choque d'ambos, percebendo que lhes tinha acabado o imperio sobre
+essas adoradas creaturas, foi tão violento e fulminante, que se
+deixaram ficar atraz no meio da turba, com vagares de fundo desalento,
+ella direita, sem desmanchar a estatura soberba, derrubado elle,
+pacifico, apagado, enorme como um elefante, e sem dar uma palavra para
+não desatar alli em soluços, trespassado dos primeiros regelos do
+abandono. Cortando então por entre a gente, ouvia por toda a banda
+humildes palavras de conforto e piedade; velhas mães que o
+encontravam, lacrimejantes, attentando-lhe na face descahida&mdash;Vae
+ficar só n'aquella casa tamanha, coitadinho do amo Zarco hade-lhe
+custar. Isto de filhos!</p>
+
+<p>&mdash;E são os da Oriola que levam a nossa menina! Abaixar-se o amo...</p>
+
+<p>Porque todos os subditos sabiam já da capitulação deshonrosa d'esse
+velho rei de charnecas e montados; umas poucas de palavras colhidas na
+altercação com a viuva, serviram de base a toda a sorte de commentario
+e parlenda sobre o casamento; pintava-se e repintava-se de grupo em
+grupo, a expressão terrivel da viuva fallando a seu cunhado, <span class="pagenum"><a id="page140" name="page140"></a>(p. 140)</span>
+palavras cruas ditas por ella, <i>acautele-se, acautele-se levo-a
+comigo</i>, e outras muitas; e o amo Zarco todo enfiado, ali a ouvir, a
+rezar desculpas, a fazer-lhe vénias. C'os diabos&mdash;nem que comesse os
+sobejos d'aquella magana!</p>
+
+<p>&mdash;Fosse comigo, fazia cada qual em grandes quizilias.</p>
+
+<p>&mdash;Ai, argumentavam muitos pachorrentos, é o que se vê hoje em dia.</p>
+
+<p>&mdash;Tão má, filhos, que nem as escripturas quiz assignar em casa do
+cunhado.</p>
+
+<p>&mdash;Inda assim não entalasse o rabo, figurona!</p>
+
+<p>Mas depois de longas conjecturas, recapitulando, toda a gente acabava
+por dizer que andava ali o quer que fosse. Olá se andava!</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>No gabinete do parocho tinham posto uma grande mesa, e em roda bancos
+negros da confraria das Almas, para os convidados se assentarem. Era
+uma casa verdenta de paredes, com fendas ao través na abobada, pintada
+de frescos mais que barbarengos; e por um buraco de cima, passava a
+corda da sineta, que desde que se rachára o sino, servia para chamar á
+missa a freguezia. Ao fundo, pezava <span class="pagenum"><a id="page141" name="page141"></a>(p. 141)</span> um grande armario de
+carvalho negro com espelhos de metal que verdejavam; e paineis de
+santos esburacados á navalha, cahiam aqui e além, emmoldurados em
+talhas carcomidas. Uma luz de cava vinha de cima, por uma janella sem
+portas, onde se cruzavam varões de ferro. Como a casa era estreita,
+apenas foram á leitura do contracto, os intimos amigos ou personagens
+de pezo. E o tabelião Mathias homemzarrão com uma cabecinha
+humoristica de japonico, estimavel e estupido, principiou com a sua
+voz em falsete nos fins de cada periodo, a ler artigo por artigo as
+escripturas, circumvagando a cada clausula os seus olhitos por cima
+d'umas olheiras paposas, onde as bexigas tinham picado covinhas de
+sombra.</p>
+
+<p>«...e mais dou a minha filha Dora Victorina Maria de Sousa Alvim Mexia
+Zarco da Cunha Menezes... as herdades denominadas da Cova, das
+Sesmarias, da Chaminé, e Côrtes tanto Grandes como Pequenas, com seus
+montes, gados, arvoredos, dependencias e serventias, a partir do dia
+em que desposar o dito seu primo Carlos; e mais lhe faço doação de
+todas as minhas lavoiras do Guadiana, que vão entre os moinhos da
+Coitada e a minha <span class="pagenum"><a id="page142" name="page142"></a>(p. 142)</span> quinta de Valle de Borrucho, constando de
+doze herdades seguidas, partindo d'uma banda com o Guadiana, da outra
+com a estrada de Moira, da outra...» E aqui Mathias foi obrigado a
+parar, porque um borborinho d'espanto se levantára entre os
+convidados.&mdash;Que? Dava tudo aquillo á filha? As lavoiras do Guadiana,
+o melhor trecho de propriedades do Baixo Alemtejo? Mas endoidecera
+esse homem com certeza! Despir-se para enriquecer o genro! Tomé dos
+Panascos, que trouxera arrendadas muitas terras da Torre, e passava
+pelo melhor avaliador da cercania, punha as mãos na cabeça com uma
+face attonita e consternada.&mdash;Jesus! Não contente de humilhar-se ante
+a viuva, inda em cima lhe cobria o filho de oiro. Mas é que ia ficar
+arrasado! Dar á filha mais de seiscentos contos, sem restricções, sem
+condições, sem cautellas... E Thomé foi junto do seu velho amigo, e
+disfarçadamente puxando-lhe a manga:</p>
+
+<p>&mdash;Olha que te arrependes, Manuel. Que é que te fica para viver?</p>
+
+<p>O da Torre encolheu os hombros.</p>
+
+<p>&mdash;Desgostos, fez elle muito baixo, e disse ao tabellião para
+continuar.</p>
+
+<p>&mdash;«E outrosim lhe entrego toda a plantação <span class="pagenum"><a id="page143" name="page143"></a>(p. 143)</span> de vinha e
+olival, que possuo livre e isempta, no sitio das Barrocas, freguezia
+de S. Pedro de Portel, cerca de quatrocentos milheiros de cepa e tres
+mil pés de oliveira...»</p>
+
+<p>&mdash;Meu pae, balbuciou Dora, avançando para o velho que estava junto da
+banca ennovelando a barba n'um movimento calmo.</p>
+
+<p>&mdash;Vá, Mathias, depressa! ordenou elle, emquanto cada vez mais, n'um
+phrenesi crescente, os convidados se acotovellavam e comprimiam, não
+querendo acreditar no que lhes fôra lido. O tabellião enumerou o que
+restava d'uma fortuna rural cedida em dote, moinhos, hortas,
+ferragiaes, montados de retalho, ruas inteiras da aldeia; tudo que
+Zarco possuia, bom e mau, pequeno e grande, tudo dava a sua filha com
+a mais generosa confiança.</p>
+
+<p>&mdash;Mathias, disse ainda o velho Zarco, falta a casa da minha
+residencia, o quintallão e as abegoarias. Accrescente que a contar de
+hoje, lh'os dou tambem.&mdash;E voltado para a cunhada, com a sua face
+radiante de altivez fidalga, fingia não sentir as murmurações de roda.
+Fóra, na igreja, no adro, no largo, por essas casas todas da aldeia,
+já se contava que o amo Zarco estava doido, e peor ainda, ia <span class="pagenum"><a id="page144" name="page144"></a>(p. 144)</span>
+ficar ás sopas da filha. Dera-lhe tudo, sem acautelar a sua rica
+subsistencia, o seu vestuario, o seu sequito. E uma hesitação quebrava
+agora em facções a gentana: á piedade succedera nos ganhões o
+fatigante receio de serem despedidos da casa pelos amos novos. Zarco
+descia&mdash;quando um tocante episodio deu nos espiritos a nota mais viva
+da emoção. Foi a leitura, do que a pequena velha que levava o ramo de
+rosas e o leque, dava á sua menina. Mathias, elle mesmo commovido, ia
+dizendo:... Umas contas de oiro com imagem de Nossa Senhora da
+Conceição, a sua capoteira de velludo verde, duzentos dobrões em oiro
+n'uma bolsa vermelha, a tapada da Vanga...</p>
+
+<p>Dos bellos olhos pudicos de Dora saltaram lagrimas por baixo do véu;
+nos proprios olhos de Carlinhos faiscavam pontos humidos; de redor nas
+gentes, faziam-se monossyllabos ternos; mas toda radiante de ser o
+alvo, correndo a assembléa com a sua cabeça tremula, a velhita
+exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Esperem lá, esperem...&mdash;e para Mathias, muito ruidosa nas sêdas
+pretas: leia lá!</p>
+
+<p>&mdash;«...com a expressa condição de residir seis mezes do anno em casa de
+seu pae, <span class="pagenum"><a id="page145" name="page145"></a>(p. 145)</span> durante nove annos, ou em logar d'ella, algum de
+seus filhos, caso seja fecundo o casal.»</p>
+
+<p>&mdash;Ouviste bem? redarguiu ella sensibilisada, abraçando-se a Dora, e a
+sua cabeça dava pela cintura da noiva. É que nós não queremos ficar
+abandonados, nem eu, nem teu pae, e a nossa casa.&mdash;O que fez com que o
+dos Panascos fosse dizer baixo a Manuel Zarco:</p>
+
+<p>&mdash;A velhota teve mais juizo que tu. Emfim lá estou, se um dia... É
+como se fosse tua casa, Manuel, bem sabes!&mdash;Chegou então a vez de se
+saber o que dava ao Carlinhos a senhora viuva. Mathias começou com a
+sua voz gordurosa, e para ouvir, inda os convidados se apertavam mais.
+Era quasi uma replica da viuva, á arrogancia com que o da Torre
+amontoára riquezas aos pés da filha. Foi longa a lista, novas herdades
+iam passando, arribanas, laranjaes, vinhedos, joias, louças, palacios,
+rebanhos, casebres, trens... D'esta vez quem se espantava era a
+Oriola&mdash;e por seu turno a viuva ficou nua.</p>
+
+<p>Processionalmente então, e á medida que iam firmando o contracto, como
+a cerimonia findava, em reverencias de vassallos ante <span class="pagenum"><a id="page146" name="page146"></a>(p. 146)</span> uma
+grande potencia, passavam os convidados diante dos noivos, com
+sorrisos de grande gala, alguma graça estudada, dando parabens com
+ares cavalheiros, ou demorando-se a affirmar esta ou aquella
+intimidade, na adoração dos mil e setecentos contos de dote. As
+mulheres sobretudo, cercavam Dora de pequenas ternuras ridiculas,
+beijos muito repenicados, segredinhos entre risadas. A morgada das
+Palmas fez-lhes prometter que a iriam visitar ao seu monte de
+residencia; o general citou alguma coisa no gosto bocagiano; velhos
+lavradores que tinham trazido ao collo Carlinhos e Dora, de palpebra
+humida davam-lhe conselhos, descançando-lhes no hombro as suas grossas
+mãos de trabalho. E n'uma avidez, sempre de longe, a viuva contemplava
+a sobrinha, idealisada no meio dos tules, como uma grande figura de
+legenda.</p>
+
+<p>Quando viu menos gente no gabinete, Zarco foi apresentar Dora a sua
+cunhada; a recepção foi quasi affectuosa, abalada a viuva como estava,
+pela grande batalha de generosidade que momentos antes ferira com o da
+Torre. Foi quando Dora levantou para beijar a tia pela primeira vez, o
+grande véu de noiva em que vinha envolta. Essa belleza <span class="pagenum"><a id="page147" name="page147"></a>(p. 147)</span>
+senhorial d'uma soberba esculptura, que a viuva nunca pudera
+contemplar assim em plena efflorescencia, pareceu feril-a com o seu
+esplendor de pureza e brancura, porque se pôz muito pallida, apenas o
+véu de Dora se erguera. E por muito tempo ainda, considerava sem poder
+fallar, a sobrinha. Em volta, nas gentes da Oriola, o mesmo fremito de
+surpreza fizera correr murmurios de labio em labio. As duas velhas
+aias tinham corrido a Dora, e soluçavam. E a viuva de mãos no peito,
+como sustendo-lhe o frenetico pulsar, reconhecia por verdadeiro o que
+por varias vezes lhe chegára aos ouvidos, vagamente, como uma opinião
+sem força&mdash;isto é, que Dora era o retrato vivo d'aquella querida
+filha, tão meigamente loira e tão formosa, unica creatura que ella
+amára no casamento, e pela qual mesmo tinha chegado a aborrecer menos
+o marido, Laura emfim, a sua pobre creança, morta com vinte annos,
+pouco antes da adopção de Carlinhos.</p>
+
+<p>Evocação da unica memoria que ainda hoje a fazia toda vibrar, esta
+resurreição em Dora, da celeste creatura nascida das suas entranhas,
+exacerbando angustias passadas, acordaram na viuva de Fernando Zarco,
+menos <span class="pagenum"><a id="page148" name="page148"></a>(p. 148)</span> asperos propositos de conducta. E voava-lhe a idéa
+pelas lembranças já longinquas dos seus primeiros tempos de esposa,
+aos dezasseis annos, quando por cubiça do pae, uma vez acordára no
+leito do lavrador da Oriola.</p>
+
+<p>Seis annos de infecundidade tinham assignalado depois melhor essa
+frieza d'esposos, que quasi nem se haviam conhecido. Era ao tempo
+ainda dos dois irmãos serem amigos, companheiros de caçadas e
+aventuras. Manuel com as suas espaduas de hercules, e uma barba de
+scandinavo muito frizada nas pontas, quasi branca junto dos labios,
+era o typo da prudencia, fallava pouco, e ria com todos os dentes, um
+riso ingenuo que antes parecia de rapariga pela doçura do esmalte; e
+quando os seus olhos de violeta, atravessados d'um brilho leal e
+timido, se erguiam a procural-a, ella experimentava não sei porque,
+tamanha melancholia e quebramento, que se ficava ainda com mais pena
+de ser mulher de Fernando, um tostado, para mais grosseiro e leviano.
+Ah, como isso ia já longe! E Manuel todos os dias achava alguma
+pequena lembrança que lhe trazer; ninharias primeiro sem intuito
+previsto, depois expendidas a furto, acceites em segredo... O certo é
+que ella amou o <span class="pagenum"><a id="page149" name="page149"></a>(p. 149)</span> cunhado, porque o perfume d'esses beijos a
+embriagava, no carmim dos seus labios d'adolescente. Fernando, que era
+soberbo, aspero, intractavel, brutal, <i>coração ao pé da bocca</i>,
+desconfiou mas sem medir a profundeza da culpa. Ella vivia n'esse
+tempo inteiramente só, sem amigos, nem protecções do marido, muito
+nova, tão cheia d'impetos! E das profundezas do seu corpo exhuberante,
+cheio de fecundas desordens e d'amores indomaveis, vendo-se alli
+abandonada, vinham-lhe furias de peccar. Um domingo, os irmãos tinham
+ficado mal; nascera aquella filha, de quem Dora copiava a belleza&mdash;e
+tal documento da sua culpa, trouxe-lhe a secreta vergonha que agora
+gotejava odio sobre o irmão de seu marido.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Depois da benção, o sr. vigario geral pronunciou uma allocução toda
+faustosa e erudita, em que se comparava a vida a uma nau vogando no
+mar procelloso das paixões, entre escolhos de vicios e malquerenças; e
+alli sua rev.<sup>ma</sup> descompôz mais uma vez os seus adversarios politicos,
+attribuindo-lhes a ultima estiagem e a decadencia dos costumes;
+<span class="pagenum"><a id="page150" name="page150"></a>(p. 150)</span> e com philaucia denunciou que os maridos não tratando senão
+d'eleições abandonam as esposas á phantasia das suas pobres cabecitas,
+do que se aproveitava o demonio para ir centuplicando os adulterios.
+Isto levou tamanho donáto a philosophar sobre a familia, e desfilaram
+as qualidades dos Zarcos, o seu amor ao progresso e á liberdade, e do
+que os povos de roda lhes deviam, pois ainda no inverno passado, os
+fidalgos tinham dado córte gratuito nas herdades perto, afim da pobre
+gente ter lume nas asperas noitadas.</p>
+
+<p>Saltou d'aqui naturalmente nas inimizades que por tantos annos tinham
+separado as duas familias (inimizade não, emendou logo com um meneio
+unctuoso; diremos antes melindre, susceptibilidade ferida, pequena
+divergencia de familia&mdash;era de mui bonitos termos s. rev.<sup>ma</sup>! Inda
+que...) Mas, proseguia o orador, o distrito todo exultava de vêr
+unidas de novo as duas casas, todos davam graças.&mdash;E batendo no
+pulpito, com gestos de quem chama a si o melhor da christandade, uma
+imponencia no carão, fechou trecho com um latinorio dos santos padres,
+faustoso e seraphico, que por sinal mereceu uma palavra irreverente ao
+lavrador dos Panascos.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page151" name="page151"></a>(p. 151)</span> Quando a cerimonia acabou, foguetaria e vivorio estrondeavam
+por essa aldeia toda, repercutindo os entônos e ritornellos de fraga
+em fraga&mdash;enternecia a tarde nos campos com a descida do sol, uma
+poeira de oiro tamisava os fundos, aqui, além, immovel sobre o ar, e
+dando á paisagem velhos tons de pintura fanada. E o cortejo sahiu da
+igreja como viera, mas bem numeroso e mais rico, pois lhe estava
+adiccionada toda a Oriola, ganhões, creados, convivas, amigos, as duas
+velhas aias, e coisa pasmosa! a propria senhora viuva.&mdash;Anda, sempre
+te abaixaste, bem feito! dizia-se <i>á da</i> Fevronia, na passagem do
+cortejo. O coronel dera o braço á viuva que descera meio véu; o
+generalito, gazil como um rato sabio, levava a morgada das Palmas,
+muito birrenta de lhe terem descosido a cauda verde nabiça; e Dora
+pelo braço de Carlinhos, vermelha, comovida, grandes olhos de saphira
+humida, radiava a frenetica belleza d'uma virgem que se abala e
+palpita, ao primeiro contacto d'um homem.</p>
+
+<p>O cortejo é que não ia directamente ao portão d'entrada da Torre, mas
+enfiou pelo enorme pateo de lavoira ao lado, a pretexto de vêr a
+<i>funcção</i> que se preparava aos servos <span class="pagenum"><a id="page152" name="page152"></a>(p. 152)</span> e trabalhadores. N'um
+banquete monstro, S. Mathias e a Oriola congraçavam, comendo ao lado
+uma da outra, na melhor harmonia e folgança; e só no intuito de sagrar
+esta confraternagem, a viuva accedera vir a casa de seu cunhado, sem
+quebrar as juras que fizera, pois não passaria o terreno neutro do
+pateo. Desconforme como um dominio, era esse pateo de muralhas rudes e
+portadas soberbas, onde os varões de bronze raiavam, e pendiam das
+portas formidandas, como corações de molochs, os grandes cadeados de
+ferro. Descia-se das cozinhas por um balcão de pedra com escadarias
+lateraes e mutiladas estatuas, em cujos velhos pilares se vinha
+tanchar a dentuça dos corrimões estruidos. Diante do balcão, ia ao fim
+do pateo uma alameda de castanheiros gigantescos, murmuros sob a
+verdura das suas folhas acres, d'onde um frescor gottejava no esmaiar
+da tarde. Um grande portão aberto ao fundo dava sobre os laranjaes da
+horta, sombrios áquella hora n'um verde metallico condensado, redondos
+até ao chão relvoso pelas imbibições da rega, humidos, picados de
+fructa, e filtrados d'uma aura toda enervante em nupciaes essencias.
+N'essa alameda de castanheiros amigos, tantas vezes percorrido
+<span class="pagenum"><a id="page153" name="page153"></a>(p. 153)</span> do pae e da filha, onde pela manhã palafreneiros passeavam á
+redea os cavallos de sella, ou vinham limpar o pequeno coupé de
+serviço, onde tinham logar as tosquias, as ferras e as matanças nas
+epocas da praxe; n'essa alameda tinham construido uma mesa sem fim
+para quem chegasse, homem, mulher ou creança, fosse d'onde fosse e
+viesse de onde viesse. Aos lados alargava-se o pateo até ás
+abegoarias, cavallariças e estabulos. E um tom de boda reinava por
+toda a parte; nas carretas de trabalho postas em bateria, mais os seus
+tropheus de forquilhas, ensinhos e pás, radiando das joeiras, arneiros
+e mulins, como panoplias em sala d'armas; nas paredes cobertas de
+murta e gilbarbeira, onde as corôas d'espigas maduras faziam rodopiar
+serpentes de oiro pallido; nas largas manjadouras que as bestas
+esfocinham rilhando os fenos perfumosos; em arcos de flôres de arvore
+em arvore, risos e saudações levadas a um delirio realmente
+captivante. Em quatro dias tinha-se abatido um rebanho de carneiros e
+bodes, o arroz viera n'uma quantidade de carretas, não sei quantos
+moios de lobeiro em farinha para a amassadura, o poder do mundo em
+couves, para mais de vinte pipas <span class="pagenum"><a id="page154" name="page154"></a>(p. 154)</span> de vinho... E a Fevronia
+punha as mãos do <i>error</i> de moedas que ia custar a frescata ao
+fidalgo&mdash;mas coitada! era uma pobre, sempre foi atando ao cós das
+saias a mais funda taleiga de quadrados, e sumindo-se debaixo do chále
+a mais disforme escudella da sua pilheira, para arrepanhar as
+sobrasinhas. Ora, deixal-o custar caro! Em compensação, que grande
+kermesse em plena tarde, sob a viva e sagrada cupula das arvores, onde
+trigueiros e loiros dos dois burgos rivaes, se abraçavam cantando e
+rindo nos seus luxos domingueiros, cinta escarlate, chapéus de borla,
+jaleca ao hombro, e a camisa crua de grandes collarinhos molles,
+acolchetada pelo nó da goela. Com a largueza do terreiro, a malta
+farandolava em quantos recreios havia: por aqui atiravam a barra os
+valentões arregaçados até aos hombros, estriando as musculaturas
+bovinas nos rompantes d'uma destreza infrene aos berros de cada vez
+que alguem passava a baliza, ou não chegava a ella; por além
+bailava-se de roda das arvores, deitando as vagarosas cantigas do
+trabalho rustico; em tal sitio havia saltos, n'outro luctas,
+<i>desgarradas</i> n'outro; e tudo isto n'um borborinho infernal que
+ensurdecia a gente. Vinham <span class="pagenum"><a id="page155" name="page155"></a>(p. 155)</span> chegando as raparigas de claros
+cabellos lisos nas fontes, com flôres no remoinho das tranças. E a
+Oriola abrasava de as vêr tão brancas, boas carnações flamengas, saude
+affiançada, perna dura, seio fecundo, dentes finos, e essa maravilhosa
+doçura d'olhos violeta, tão peculiar como era sabido, aos bastardos do
+amo Zarco da Torre. Ellas iam apparecendo a pequenos ranchos,
+envergonhadas dos <i>de fóra</i>, lenços em cruz sobre os seios inviolados,
+de mãos dadas e braços bamboleantes, como os recrutas em passeio.</p>
+
+<p>Os negros da Oriola diziam-lhes então gracinhas, botavam-lhe rima na
+passagem; e era vel-as a rir escondendo os olhos c'os braços, abalando
+côr de romã umas atraz das outras, para dizerem de longe aos
+mariolas&mdash;que não se fizessem destemidos nem confiados, e fossem lá
+ter chalaças com as pretas da sua terra, perceberam? Mas a outra
+porção da Oriola por seu lado, gente madura e reflectida, ainda
+desconfiada da senhoril hospedagem na Torre, sempre tinha querido
+inspeccionar, vêr com os seus olhos, apalpar com os seus dedos, todo o
+maravilhoso arsenal agricola, instrumentos, machinas, animaes, bombas,
+poços, bebedoiros e hortejos&mdash;e por <span class="pagenum"><a id="page156" name="page156"></a>(p. 156)</span> essa aldeia que viera,
+subia um respeito de gente cavadora e mandada, que mal disposta para o
+da Torre, agora se dobrava, reconhecendo n'elle o genio de um lavrador
+modelo. Ah! o que se chama grandeza, ordem, elegancia e precisão! Que
+gados, que acommodações, as cathedralescas médas d'azinho, pombaes,
+palheiros, ferramentas de trabalho!</p>
+
+<p>Colossal tudo aquillo&mdash;e os tostados da Oriola baixavam os seus olhos
+arabes e premiam os seus beiços de negros, ante a victoriosa grandeza
+dos loiros de S. Mathias. Quem havia de esperar, compadre, uma coisa
+assim?&mdash;N'isto, um velhote grosso e vagaroso, que do balcão andava
+mirando tudo, apenas o cortejo apontou para o lado das abegoarias,
+poz-se a repicar do alto uma sineta: era o jantar. E duas
+philarmonicas romperam latindo musicatas gentias, emquanto as palmas,
+os gritos, os vivas e os saltos, centuplicavam de toda a banda.</p>
+
+<p>E a viuva deixava-se ir entre as aldeias congraçadas, que no abandono
+animal da vida rustica, riam alto com dentes famintos, e na passagem
+dos amos, tirando os gorros, acenando de longe com os chapéus, erguiam
+meio corpo da mesa, para lhes dar bôas tardes <span class="pagenum"><a id="page157" name="page157"></a>(p. 157)</span> familiares.
+Alguns mais ratões da Oriola&mdash;e sempre a Oriola teve fama de moços
+reinadios&mdash;botando cantiga ás raparigas, que chegadas tarde ficavam
+sem logar nas mesas, offereciam-lhes por cadeira os joelhos e por
+encosto o coração. Ellas riam largo, já menos esquivas; muitas,
+sollicitadas, davam-se por noivas d'aquelle e mais d'este; e á ordem
+do homensinho da sineta, chegava a creadagem com o arroz dos fornos,
+aloirado entre ramos de salsa, empilhando-se em alguidares
+desconformes, d'onde rompiam fumando, tenras, succulentas, as pernas
+dos perús e dos patos. Então foi uma loucura de vivas, saltos, gritos
+e cantares. Passava o vinho em picheis de barro, as saudes choviam nos
+estimulos da sede, o tenir dos pratos era inquietador. Nunca Carlinhos
+fôra mais querido que n'essa tarde placida de noivado, onde tudo ria á
+sua mocidade leviana; a Dora que elle levava pelo braço e readquiria
+vivezas de pomba; os pavões, que sob os telhados das abegoarias,
+inquietos, gritando d'entorno ás femeas, abriam enormes leques
+mosqueados d'ouro verde; nuvens de pombos que o ruido assombrava
+forçando-os a revoar de cimalha em cimalha; e ao largo a paisagem
+caindo <span class="pagenum"><a id="page158" name="page158"></a>(p. 158)</span> n'uma paz luminosa, muito irisada em tintas subtis.</p>
+
+<p>Ella foi-se isolando, isolando do ruido, até ao portão que dava para a
+horta; parecia conhecer aquelles logares, distrahida, como quem
+resuscita apagadas memorias. Olhava o muro de buxo talhado em fórmas
+architecturaes, circumscrevendo o jardim pela esquerda, até se perder
+n'uma folhagem aspera d'alfarrobeiras. Para aquelles lados n'outro
+tempo havia um murmurio de fonte: tinha sido uma noite sem estrellas,
+o braço de Zarco sustinha-a pela cintura e levava-a, de modo que os
+seus pés nem tocavam o chão. E assustada, ficára a ouvir aquele choro
+timido d'agua corrente: espera! ouço passos...&mdash;É o vento, disséra
+elle, e os seus beijos endoideciam-n'a. Lá estava ella ainda a
+gottejar na pequena concha musguenta, que um grupo de ephebos
+sustinha, cavalgando golfinhos. Fôra em maio, a flôr dos favaes enchia
+os campos d'essencias, o marido caçava o javali por Hespanha&mdash;n'essa
+noite <i>elle</i> tinha querido roubal-a, conduzil-a aos seus
+dominios&mdash;ella resistira, não! não!... mas o perfume da sua barba tão
+loira envolvia-a n'uma fascinação terrivel, e a bocca pequenina,
+sincera, humida, talhada a <span class="pagenum"><a id="page159" name="page159"></a>(p. 159)</span> buril, ao mesmo tempo imperiosa e
+feminina, tinha-se collado por ella toda: quem poderia recusar cousa
+alguma? Ouvia ainda o breack rolando pelas asperidões da estrada, os
+cavallos que voavam, elle a guiar; e ao curvar-se para puxar as redeas
+ou chicotear os hanoverianos, o clarão das lanternas illuminava-o de
+perfil... Oh, as venturas absorventes que se resumem n'um momento de
+peccado! Dir-se-hia o perfil antigo d'um Deus hellenico, branco,
+herculeo, alado em juventudes divinas.</p>
+
+<p>&mdash;Vaes ter frio, minha filha.</p>
+
+<p>&mdash;Frio, eu, ao pé de ti!...</p>
+
+<p>E do capuz negro do <span lang="fr"><i>bournous</i></span> que ella levava, forrado de pelles
+setinosas, os seus olhos ficavam absorvidos n'elle muito tempo, muito,
+muito. A noite fazia as arvores terriveis, interminaveis os campos; e
+apagando a perspectiva, approximava mais as montanhas, e punha
+traições na goela dos precipicios... Vinham-lhe a cada passo
+pequeninos medos, as pupilas verdes do remorso que a penetravam de
+faúlhas calcinantes&mdash;lá está um vulto além, n'aquelle canto da
+estrada... Os troncos corriam atraz d'elles com pernas de gigantes,
+ennovelando-se, augmentando <span class="pagenum"><a id="page160" name="page160"></a>(p. 160)</span> em numero á medida que o breack
+fugia.</p>
+
+<p>&mdash;Jesus! dizia ella n'um terror, são talvez espiões de meu marido.</p>
+
+<p>Depois na ponte, um passaro tinha dado um grito, secretos escarneos
+foram ciciando pelos labios das folhas; de longe em longe, uivavam as
+raposas com fome. A cabecinha d'ella descahia no braço do cunhado,
+fazendo uma caricia penetrante. Era espirituosamente tocada, correcta,
+d'um modelo audacioso em que havia primores. E como ambos eram pouco
+lidos, incapazes de fazer um amor litterario, dialogado por imagens,
+cheio de contrascenas, permutavam as suas emoções tocando os corpos,
+n'uma descarga de volupias balsamicas. O que ella lhe admirava era a
+seriedade do aspecto, a forte enformatura dos encontros, uma força de
+gigante cingida em delicadezas de creancinha. Esse rapaz sem
+violencias, envergonhado de ser tamanho, uns receios de a molestar a
+cada beijo, silencioso, tranquillo, com melancholias brumosas do
+norte, subjugava pelo contraste, os impetos e os orgulhos da natureza
+d'ella, toda impaciencias, <span lang="fr"><i>coquetteries</i></span> e ardores.</p>
+
+<p>Á chegada eram deshoras, cantavam os <span class="pagenum"><a id="page161" name="page161"></a>(p. 161)</span> primeiros gallos em S.
+Mathias&mdash;ella nunca tinha por alli passado.</p>
+
+<p>&mdash;Gente na estrada, estamos perdidos!</p>
+
+<p>Manuel tinha atirado os cavallos por um olival a dentro, apagára as
+lanternas, e o <span lang="en"><i>break</i></span> em solavancos lá ia arrastado pelos terrenos
+declivosos. Pararam. Um rumor de carros vinha da aldeia, guisos de
+mulas, a voz de um homem cantando... Elles, á escuta, ouviam bater os
+corações, com medo de alguem os ter pescado. Agarrada ao pescoço de
+Zarco, ella batia os dentes, tresvairada n'uma paixão.</p>
+
+<p>&mdash;Viram-nos, Jesus.</p>
+
+<p>&mdash;Não, escuta, redarguia elle sopeando os cavallos. Em roda, iam e
+vinham as sombras, no pavor das coisas sonhadas a arder em febre. Ella
+exaltara-se: adoro-te.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, por Deus, não grites! dizia elle.&mdash;Davam beijos de lava, o
+amplexo accendia-os, nenhum luctava, foram-se possuindo...</p>
+
+<p>E agora velhos, inuteis na felicidade dos filhos, tendo-lhes dado
+tudo, sem amor, nem coragem, cheios de cabellos brancos, odiavam-se
+por desgraça!&mdash;Era ao fim do laranjal, o muro de buxo apparecia de
+novo, nespereiras em flôr abriam parasol por cima <span class="pagenum"><a id="page162" name="page162"></a>(p. 162)</span> d'um
+portello baixo&mdash;toda a aventura se lhe reconstruia na idéa, nitida,
+chammejando horriveis saudades. Sim! os carros de matto abalando á
+meia noite de S. Mathias, a voz do homem cantando, esse fluctuante
+mysterio da noite, é verdade, um sapatinho de velludo que perdera ao
+entrar, por aquelle portello, ao collo d'elle... Oh, a medonha
+angustia de se não ter outra vez dezeseis annos! Para além, olival,
+terrenos declivosos: o <span lang="en"><i>break</i></span> parára ao pé d'aquella grande oliveira.</p>
+
+<p>&mdash;Não sentes pena de deshonrar teu irmão?</p>
+
+<p>&mdash;Mas cala-te, dizia Manuel num tom de queixa, emquanto a levava nos
+braços docemente, como uma creança adormecida. Ella, supersticiosa,
+fallára-lhe do grito que déra o passaro noctambulo, quando o <span lang="en"><i>break</i></span>
+entrou na ponte. Talvez prenuncio de desgraça!&mdash;Ao que elle respondia:
+doida! Reparou nas roseiras que por alli floriam agora, como n'um
+cemiterio consagrado pela saudade de muitos amores fenecidos. Fôra
+alli, junto ao murosinho de buxo, que a respiração d'elle tinha
+sifflado n'uma furia de titan semilouco, e o sapato caíra... Quantas
+vezes depois o amaldiçoára, sentindo impreteriveis desejos d'ir contar
+tudo ao marido, ao mesmo tempo <span class="pagenum"><a id="page163" name="page163"></a>(p. 163)</span> que um suor frio a aljofrava,
+só de pensar que Fernando podia vir a ter noticia do adulterio. Sim,
+odio, era odio que lhe tinha n'este momento! Mas como seria bom
+desabrochar n'outra juventude, radiar a seducção d'uma nova belleza,
+ter ainda pudores de vestal, frescuras d'epiderme carminea,
+virgindades de noiva, para ir direita áquelle infame, atirar-lhe os
+braços ao pescoço, e dizer-lhe: adoro-te, macula-me outra vez!</p>
+
+<p>Outras recordações então, lugubres, implacaveis, acastellavam na sua
+mente, espectros de remorsos longinquos e gumes de suspeitas mal
+esboçadas. Lembrava-lhe Fernando trazendo Carlinhos pela mão, depois
+da morte de Laura, a dizer-lhe com palavras de chumbo, espaçadas
+intencionalmente&mdash;este é meu, ficará n'esta casa! E como a olhára
+dizendo isto, apenas ella n'um movimento de repulsa, erguera a cabeça
+para dizer que não. O terror d'esses annos conjugaes tinha sido bem
+cruel. Era o marido fital-a&mdash;tremia toda como um vime. Quando elle se
+exaltava, ou se bebia, ou em os negocios correndo mal, a cada momento
+ella receiava, que arrastando-a pelos cabellos, o marido lhe gritasse:
+prostituta! Crescera nos povos a sua reputação de santidade; as
+<span class="pagenum"><a id="page164" name="page164"></a>(p. 164)</span> esmolas que fazia nem tinham conta, ia de noite vêr os
+doentes, matar a fome ás cabanas sem chefe, e o seu nome incubava-o
+uma lenda de poeticas virtudes e castidade suavissima. Se viessem a
+saber, que vergonha! E ante o marido, o seu orgulho vergára, e
+fizera-se neutra a sua violenta personalidade. Nos ultimos annos,
+Fernando Zarco tinha caído n'um marasmo desopilante, não saía, não
+recebia, não fallava. Ás vezes, ia ella levar-lhe de comer com o riso
+nos labios, uma palavra carinhosa para lhe inspirar conforto; e
+estendendo o braço para agarrar no talher, lentamente, como tendo
+alguma coisa grave a indagar, elle ficava a miral-a com o ardor dos
+seus olhos encovados; depois ia baixando a cabeça n'uma confusão,
+vagarosa, funebremente&mdash;sim! sim!&mdash;e viam-se-lhe as narinas arfando
+nos haustos d'uma raiva subterranea.</p>
+
+<p>Chegou á porta que rasgava no muro, por sob a cupula das nespereiras;
+correu-lhe o ferrôlho depressa, empurrou-a com o pé, cheia de
+curiosidade de penetrar no olival, até á velha oliveira onde n'aquella
+noite, o carro tinha parado. Mas recuou com um gritinho de susto. O
+cunhado nas almofadas do <span lang="en"><i>break</i></span>, <span class="pagenum"><a id="page165" name="page165"></a>(p. 165)</span> á sombra da arvore,
+aguardava por ella como n'outro tempo.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Manuel Zarco não quiz prolongar á viuva, a visão theatral que se
+impozera, e desceu do carro para vir ter com ella. Em vez de veredas e
+barrancos tortuosos, uma larga estrada cortava agora o olival, entre
+eucalyptos colossaes, que sacudiam á briza molhos de folhas em
+cutello. Ella nem podia fallar, branca de susto, humilhada de
+vergonha, e sentindo o coração grosso de lagrimas. A voz de Zarco era
+triste, porque tambem elle não tinha sido feliz.</p>
+
+<p>&mdash;Como não quer demorar-se, disse elle, mandei os carros aqui. Partirá
+quando quizer, as creadas nao tardam. A carruagem em que veio fil-a
+reservar aos noivos, por ser ampla. Póde ir n'este <span lang="en"><i>break</i></span>, é velho
+mas de boas molas, tenho-o ha vinte e quatro annos...</p>
+
+<p>&mdash;Antigamente, tornou ella junto ao portello, vencendo um grande
+embaraço, não havia roseiras aqui.</p>
+
+<p>&mdash;Não, disse elle galante, nasceram por onde o teu vestido roçou.&mdash;A
+sua voz tremia.</p>
+
+<p>&mdash;Chut! casaram hoje os nossos filhos.</p>
+
+<p>&mdash;Mentes. Carlinhos vem d'uma cigana <span class="pagenum"><a id="page166" name="page166"></a>(p. 166)</span> velha, a quem hoje dei
+o que ella quiz levar. Teem-m'o dito muita vez! É negra, traz uma
+filha, ouço que vivem de roubar por essas feiras.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, murmurou ella suspirando; filhos só os tive de
+ti.&mdash;Chorava a sua mocidade agitada, as terriveis dôres que soffrêra,
+os orgulhos feridos de mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Ouve, disse-lhe então elle com supplica, não me tenhas odio, não
+tenhas. Dora é tuna creança, ama-a um pouco, assim como amarias a que
+nos morreu. Ellas parecem-se. Sobretudo, não lhe digas mal de mim.</p>
+
+<p>&mdash;Ah, bem vejo que amavas tua mulher...</p>
+
+<p>&mdash;E tu que amastes meu irmão?</p>
+
+<p>&mdash;Mas é falso.</p>
+
+<p>&mdash;De que serviria acreditar agora n'isso? Estavamos doidos quando nos
+amámos.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, doidos d'amor. Ai como a gente envelhece depressa!</p>
+
+<p>&mdash;Razão para ficarmos amigos, já que tudo morreu. Fernando nunca veio
+a saber...</p>
+
+<p>&mdash;Prouvera a Deus que assim fosse! Cala-te d'ahi! disse ella
+bruscamente. Na hora da morte ia beijal-o, repelliu-me; morreu,
+dizendo a horrivel palavra. E por tua causa! Não poderás dizer nunca
+que te provoquei. <span class="pagenum"><a id="page167" name="page167"></a>(p. 167)</span> Quando vinhas, fugi-te muitas vezes. Tudo
+me abandonava então!...</p>
+
+<p>&mdash;Esqueçamos: a vida dos nossos rapazes, exige. Vá, perdôa. Elles
+viverão seis mezes comigo, seis mezes comtigo. De mais, ficámos
+pobres. Os pobres não devem ter ruins paixões.&mdash;Ella cortava rosas, no
+rosal que extravasava de roda. As velhas aias tinham chegado entanto a
+pequeninos passos, arregaçando muito as suas sedas festivas; em carros
+de toldo, jumentos e mulas, a creadagem repleta, cantando, chalaçando,
+deixava S. Mathias caminho da aldeia. A viuva relanceou ainda os olhos
+por aquelles sitios, lentamente, como a impregnar a memoria d'aquella
+idyllica paisagem.</p>
+
+<p>E para que ouvissem todos, fallando alto, pediu desculpa a Manuel
+Zarco de não assistir ao <i>copo d'agua</i>, mas sentia-se indisposta,
+tinha que receber os noivos... Elle abriu a porta do <span lang="en"><i>break</i></span>, esperou
+curvado que ella subisse.</p>
+
+<p>&mdash;Zarco, disse a viuva aconchegando-se a um lado, emquanto as velhas
+subiam e se anichavam tambem. Os nossos filhos que não demorem a
+partida, vão ter frio pelo caminho. Principiavam córos de grilos na
+espessura amarellenta das hervas, o sol cahia por <span class="pagenum"><a id="page168" name="page168"></a>(p. 168)</span> traz das
+arvores; á esquerda, nos vagos fumos da tarde, Beja torrejava.</p>
+
+<p>&mdash;Adeus, disse a viuva sem colera, estendendo ao velho as duas mãos
+descalças. Zarco sem fallar, beijou essas mãos inda pequeninas e
+brancas.</p>
+
+<p>Os cocheiros tinham vindo; e sob o pingalim, os cavallos arrancaram o
+<span lang="en"><i>break</i></span> d'ao pé da oliveira, em direitura á estrada.</p>
+
+<p>&mdash;Adeus, disse a viuva, apertando ao seio as rosas que colhera no
+rosal.&mdash;Zarco parado, as mãos cahidas, ficára imbecilmente de pé, todo
+vasio de reacção.</p>
+
+<p>&mdash;Eh, esperem, gritou de repente aos cocheiros.</p>
+
+<p>O <span lang="en"><i>break</i></span> tinha outra vez parado. Com os olhos estourando lagrimas,
+elle correu á portinhola com um pequeno embrulho para a viuva, que
+conforme disse, esquecera na igreja.</p>
+
+<p>&mdash;Obrigada, respondeu ella com a voz um pouco tremula.&mdash;E o carro
+abalou. Junto da ponte, já longe, a estrada fazia um cotovello para a
+esquerda, e bruscamente o olival desapparecia. Então a viuva voltou-se
+muito, chorosa, inda viu Zarco immovel no meio da estrada, disse-lhe
+adeus com o lenço. Depois tudo se foi com as arvores que se
+interpunham, <span class="pagenum"><a id="page169" name="page169"></a>(p. 169)</span> a estrada, o muro da horta, os olivaes, a
+aldeia. Ficou a desembrulhar o pacote que elle lhe déra.</p>
+
+<p>&mdash;Que chinellinha mais rica! disse uma das velhas bispando o que
+continha o embrulho. Ere o sapato de velludo bordado a oiro, que ella,
+a tal noite...</p>
+
+<p>&mdash;Cabeça a minha! Quiz trazer sapatos largos para o caminho, e afinal
+só vem um, que para mais me não serve.</p>
+
+<p>A outra velha acudiu com admiração:</p>
+
+<p>&mdash;Nem eu sei de pé, que possa caber n'uma chinellita d'estas.</p>
+
+<p>E a viuva com um rir doloroso:</p>
+
+<p>&mdash;Cabiam os meus, no tempo em que eram leves a ponto de atravessarem
+jardins sem pousar no chão.</p>
+
+<p>&mdash;Ora! isso é o tal conto de fadas, disse a mais pequena das velhas.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, um conto de fadas, tornou a viuva. Mas aconteceu!&mdash;E os
+seus olhos iam na direcção do olival.<span class="smaller"><a href="#toc">(Voltar ao Conteúdo)</a></span></p>
+
+
+
+
+<h2><span class="pagenum"><a id="page171" name="page171"></a>(p. 171)</span> A PROVINCIA</h2>
+
+
+<p>Á meia noite, depois de ter abraçado os amigos no Martinho, com uma
+ternura de adeuzes que o caracter <span lang="fr"><i>blasé</i></span> de quasi todos tornára,
+valha a verdade, intempestiva, Jorge Miguel tomou vagarosamente o
+caminho habitual da sua casa, scismando em que era esse o seu ultimo
+«fóra de horas» de Lisboa. Morava ao Monte havia nove annos, no
+pincaro do outeiro mesmo, sobranceiro á cidade, ao pé da ermida&mdash;n'uma
+casinhola de pobres cujo primeiro andar o novo senhorio repartira
+entre elle e um empregadorio velho do Museu.</p>
+
+<p>Alli, com os seus livros, sem creado, varrendo a casa elle mesmo, com
+pares de calças por cima de todas as cadeiras e cartapacios n'um
+tumulto de rumas pelo chão, Jorge Miguel fazia uma vida concentrada de
+alchimista, <span class="pagenum"><a id="page172" name="page172"></a>(p. 172)</span> silenciosa, de porta fechada ás visitas e
+cerebralidade muda ás expansões.</p>
+
+<p>A cidade, que o conhecia n'um fumo de lenda um pouco feita através das
+suas <span lang="fr"><i>blagues</i></span>, afizera-se a lhe consentir em publico um eu á parte,
+explicando por maluquice a concentração solitaria dos seus giros, e
+mesmo por bebedeira as apoplexias de humor que a certas horas
+convertiam a sua apathia triste em improvisação epileptica,
+archi-estouvada.</p>
+
+<p>Áquella hora a cidade apaziguava os seus tumultos, cahia do gaz um
+langoroso bruxuleio; os transeuntes, menos; e todo aquelle socego
+entrava na solidão mental do pobre moço, escruciando-lhe a vida de um
+nunca mais á vida de solteiro. Porque Jorge Miguel, farto de viver
+sósinho, ia casar.</p>
+
+<p>A historia d'esse amor era uma d'estas cousas occasionaes, despertadas
+na vida entre duas cogitações mais amargosas, arrastadas longos annos
+entre preguiças de affecto e desfallencias de vontade, relegadas
+successivamente para os longes do futuro, e que um dia afinal se
+impõem como a solução pelo absurdo de um problema economico impossivel
+de resolver de outra maneira. A vida litteraria, unica paixão
+absorvente que se lhe <span class="pagenum"><a id="page173" name="page173"></a>(p. 173)</span> tinha conhecido, chegada ao cume,
+collocára-o na alternativa de, ou ter de rebentar de martyrio n'um
+meio hostil a toda a ideia de arte independente, ou de pôr ponto
+brusco n'uma producção que mesmo apesar de fulgurante e vigorosa só
+conseguia produzir no publico uma surda irritação minaz contra o
+escriptor. Entre a miseria odiada e a espectativa de uma madorna
+plethorica n'um canto de provincia, Jorge Miguel acabára alfim por se
+vencer; e d'esta vez, arrazado, dera no orgulho o golpe mestre,
+fazendo as malas para esse desterro onde a bestificação do matrimonio
+lhe açaimaria os ultimos piaffões de archanjo revoltado.</p>
+
+<p>Quando chegou a casa estavam quatro malas fechadas na ante-camara, um
+<span lang="fr"><i>couvre-pieds</i></span> acorreado com guarda-chuvas e bengalas, dois moveis
+envoltos em lona que os gallegos não tinham podido levar na ultima
+padiola, para a gare&mdash;e os aposentos sem trastes, o relogio parado no
+muro, o vento ronronando nas arvores do adro, tudo aquillo lhe pareceu
+como o responso da sua mocidade já fria e decomposta. A um canto da
+pequenina sala de trabalho, um monte de papeis, tombo da sua bohemia,
+aguardava o auto-de-fé liquidador. <span class="pagenum"><a id="page174" name="page174"></a>(p. 174)</span> Jorge Miguel despiu o
+casaco, trouxe um alguidar da cozinha, e chegando para o pé da
+papelada uma das malas, começou á luz da vella o inventario d'esse
+archivo de quinze annos rebolados por todas as maluqueiras da vida
+sensacional e litteraria. Eram primeiro bilhetes de visita e bilhetes
+postaes agradecendo livros, pedindo entrevistas, artigos, palavras de
+favor&mdash;menus de jantar, convites de exposições e de concertos, ramitos
+sêccos, retratos insepultos, carteis com monogrammas, dizendo, em
+lingua inverosimil, adorações litterarias com resaibos a estranhos
+sentimentos&mdash;e Jorge Miguel passeiava os olhos devagar n'aquellas
+coisas, evocava um momento as epochas e as respostas, e
+phreneticamente, para asphyxiar a saudade, chegava os papeis á vella,
+e ia-os atirando incendiados para a concavidade do alguidar. Cartas de
+Paris, cartas de Roma, da America, de Coimbra, todos os cantos do
+mundo e da provincia, homenagens fervorosas, anonymias de odios
+truculentos, discipulados timidos, identificações a distancia n'um
+ideal sonhado, em pontos antipodaes de educação e temperamento,
+consultas de mysteriosas litterarias, de celibatarias impacientes
+pedindo conselho para <span class="pagenum"><a id="page175" name="page175"></a>(p. 175)</span> casos de psychologia individual cheios
+de acirrante... e desatavam-se os maços das fitas já ardidas da poeira
+das gavetas, as velhas folhas rolavam, talhes de lettra e prosa
+succediam-se, e sempre a impassivel vella, com a alma da luz azul,
+muito direita, consumia implacavelmente essas chimericas memorias onde
+tantos corações tinham batido d'elle ao mesmo tempo. Quando o pobre
+alguidar foi cheio de restos, e da mocidade de Jorge Miguel nada
+restava a mais do que algumas lagrimas a ferver-lhe na pelle do rosto,
+uma vacuidade estranha entrou-lhe n'alma, sendo então que o relogio
+parado e o silencio da casa pareceram marcar um fim de mundo.</p>
+
+<p>Abriu a janella um pouco sobre a noite, e com o alguidar ainda quente
+despejou á rua a sarabanda das cinzas aggregadas ainda em folhas
+inteiriças, que o vento espiralou no ar em borboletas tenebrosas; e as
+que tinham vindo de longe, tomaram por caminhos rapidos, ao largo; e
+algumas hesitavam, sem se lembrarem já da morada de seus donos;
+entraram-lhe pela janella outras, eram as orphãs, como a pedir ao
+escriptor que as adoptasse; e algumas finalmente, como suicidas
+inertes, baquearam no chão pulverisadas, <span class="pagenum"><a id="page176" name="page176"></a>(p. 176)</span> e o vento d'alba as
+varreu pouco a pouco aos quatro cantos do destino.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Accendeu um cigarro, o somno fôra-se, e como aquellas cinzas
+fatidicas, a attenção pulverisava-se-lhe, incapaz de reflectir sobre o
+problema terrivel que era esse internato de vagabundo illustre na
+aldeia, em agricultor, ao lado de uma mulher com quem mal entretivera
+fallarios triviaes alguma vez.</p>
+
+<p>Estavam a dar quatro horas da manhã, e silenciosas nevoas vindas do
+mar cobriam lentamente o céo de pallidos vapores, toldando a lua
+poente, e alongando-se para o interior da terra em farrapanas
+obliquas, que incineravam phantasticamente os bairros afastados.
+Áquella hora Lisboa offerecia, das alturas do Monte, quasi sem luzes,
+uma desolação madornal de cemiterio, planificada na bruma, rebatida
+toda em lavouras de sulcos que eram bairros dobrados sobre si.</p>
+
+<p>As cinzas dos papeis, minutos antes queimados, de certo áquella hora
+se estariam espalhando pelo inextricavel de todos aquelles bairros
+inquietantes, procurando, n'uma afflicção, os signatarios das cartas e
+bilhetes n'elles escriptos para lhes fazerem queixa da <span class="pagenum"><a id="page177" name="page177"></a>(p. 177)</span>
+deserção de Jorge Miguel. Eil-as no ar, tiritando, as pobres
+borboletas, a orientarem-se no dedalo das casas pelos milhões de fios
+do telegrapho, receiosas de que o vento as pulverise antes de
+chegarem, com palavras legiveis ainda, ao seu destino. Eil-as a adejar
+de angustia nas vidraças, entrando nas casas pelo respiradouro das
+chaminés, indo ás alcovas, pousando nos travesseiros, indo aos
+cemiterios, pousando nos jazigos, e n'uns e n'outros interrompendo os
+somnos e as doces mortes.</p>
+
+<p>&mdash;Não sabem? Jorge Miguel aposthasia de cavalleiro templario do
+paradoxo, de arcebispo da leria, de arcabuzeiro da rotina a balas de
+loucura...</p>
+
+<p>E o alarme acordado apenas na mágoa d'elle, affigurava-se-lhe
+entenebrecer de luto a terra inteira, parecendo-lhe que de cada
+bairro, cada café, cada cartaz, cada esquina de rua, cada casa, mentes
+dispersas, adorações indefinidas, affectividades anonymas nascidas do
+deslumbramento da sua arte estravagante, se erguiam da cama no estado
+inconsciente de phantasmas, tomavam pelo caminho dos papeis queimados
+vindo de roda, pelo ar, a lhe fazer um côro de implorações.
+Lentamente, como <span class="pagenum"><a id="page178" name="page178"></a>(p. 178)</span> amanhecia, por todo aquelle vasto mappa
+encinzeirado, luzes de gaz vinham-se apagando em linhas divergentes,
+como se esse extinguir gradual de estrellinhas somnambulas fosse a sua
+gloria de escriptor morrendo nos esquecimentos da aldeia, quando outro
+espirito subisse, mais vivamente moderno, a allumiar a ingratidão das
+gerações.</p>
+
+<p>Encostou-se um bocado, mas não podia dormir, os rumores matinaes
+sobresaltavam-n'o; dir-se-hia que toda a cidade se levantára mais cedo
+para trepar á montanha e lhe invadir a casa de vozidos. Entrementes, o
+dia clareava, e quando foram horas de partir, Jorge Miguel, chegando
+pela ultima vez á varanda, casualmente viu no parapeito um bocado de
+papel carbonisado, onde subsistiam legiveis duas rapidas linhas de
+escriptura. Leu o seguinte: «de resto, meu caro, para ser celebre é
+necessario viver longe, e não ter tido nunca amigos intimos».</p>
+
+<p>Foi sob esta impressão martyrisante que elle deixou de vez a capital.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>O rebentar na provincia foi terrivel; receberam-n'o á chegada da
+diligencia com uma musica de pretos, que era a estreia da
+phylarmonica: <span class="pagenum"><a id="page179" name="page179"></a>(p. 179)</span> quatro carpinteiros a trombonear canudos de
+latão, um barrigudo a zurzir os pratos como fulo, e o do zabumba,
+macanjo, dando co'a maçaneta nos garotos. Como os musicos não
+soubessem senão a marcha da Ione, ensaiada á pressa para as procissões
+da Semana Santa, com esse batuque funebre seguiram, em passo de
+enterro, pela rua da grande villa, no meio dos raios te partam do
+cocheiro que despregava as pilecas na subida, e de um certo riso de um
+padre, de lhe fazer calafrios pela medulla.</p>
+
+<p>Em breves dias fez-se o casamento, para o qual Jorge Miguel, foi sem
+curiosidade, decidido a resolver o problema do seu destino por um
+criterio de vontade estoica contra o qual piaffavam todas as suas
+selvajarias de indomavel vagabundo. Sua mulher não lhe inspirou a
+principio mais que uma especie de pretenciosa piedade: franzininha, um
+pouco loura, com as orelhas pequenas, a bocca pura na esquadria de um
+queixo quasi viril de voluntaria, e toda a graça de viver na
+infantilidade dos olhos melancolicos. Não era pela belleza de certo
+que essa imponderavel bonequinha viria a exercer no espirito do esposo
+qualquer cousa similhante á seducção.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page180" name="page180"></a>(p. 180)</span> Senão quando, attenuadas um pouco pelo aconchego de uma
+casita provincial as saudades litterarias de Lisboa, subitamente, uma
+manhã, Jorge Miguel começou a sentir orgulhos vagos de vêr labutar por
+elle a companheira.</p>
+
+<p>Reparou que os seus cabellos eram finos, a testa pensativa, e que as
+suas breves palavras resabiam a qualquer coisa de penetrante, como se
+derivassem de uma vontade séria de enfermeira. Os seus vestidos
+escuros, mal roçando nos moveis, como levados n'um vôo de borboleta,
+as suas lentas mãos guiadas á descoberta de fazerem o lar confortavel
+sem parecerem tocar nos objectos, uma percepção sagaz de concentrarem
+cuidados no gabinete dos livros, na ordem dos papeis, na tamisação da
+luz, nas flôres da secretária, tudo isto que dir-se-hia casual, por
+vezes como que se lhe affigurava nascido de uma ardilosa malicia de o
+prenderem pelo reconhecimento a essa vida a dous que em principio
+tamanhos sustos lhe trouxera. Esta fascinação que derivára primeiro do
+egoismo envaidecido de sentir em tôrno a vida sem attrictos, com as
+comidas a horas e bem feitas, a casinha tépida, macios os <span lang="fr"><i>fauteuils</i></span>,
+a atmosphera perfumada e a <span class="pagenum"><a id="page181" name="page181"></a>(p. 181)</span> plethora de bem-estar constante
+de riqueza, defendida ás linguarices dos estranhos, pouco a pouco
+começou a lhe subir do estomago á intelligencia, e a figurita d'ella,
+severa, apagando-se na meia luz de um recato freiratico, pallida e
+diaphana como uma sombra do paraizo, passava ás horas calmas de estudo
+pela cabeça d'elle com uma ponta de desejo que lhe tornaria a nupcia
+fecunda, se não fôra a fatalidade dos homens de genio não poderem
+propagar-se sem degenerações na descendencia. Começou a presentir
+então a companheira por toda a parte, nas suas ideias e nas suas
+leituras, no leito, a seu lado, com os olhos fechados e acordada a
+espreitar se elle dormia, nos seus passeios longinquos pelo campo, nos
+bicos da sua penna, nos calculos dos seus negocios, a um tempo causa e
+fim, phantasia e realidade, e com tal poder de avassallação e
+absorpção que o pobre bohemio acabou um dia por confessar a si proprio
+essa incondicional escravatura, deliciado, abjurando as antigas
+brutalidades de publicista solitario, a arte mascula da analyse
+violentando as psychologias verde-podres do moderno, os excessivos de
+lingua, as irreverencias sardonicas da <span lang="fr"><i>boutade</i></span>,&mdash;todas as qualidades
+crueis <span class="pagenum"><a id="page182" name="page182"></a>(p. 182)</span> que haviam feito d'elle em solteiro o bacteriologista
+maximo das degenerações sociaes do seu paiz.</p>
+
+<p>Longe de parecer reparar n'este rebaixamento de plano psychico do
+esposo, ella como que só pensava em lhe encadear as attenções no
+sentido dos antigos trabalhos litterarios, afastando-o das
+convivencias massadoras da aldeia, pondo ao alcance da sua mão livros
+de estudo, interessando-se pelo seu passado jornalistico sem ciumes e
+até repassando ella mesma, através dos seus conselhos, os assumptos
+que mais pudessem oriental-o na directriz do seu antigo frondismo de
+escriptor. Em alguns mezes o predominio foi tal que o espirito d'ella
+transfilhára-se inteiramente ao corpo d'elle.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Uma noite de novembro, já depois das colheitas da uva e da azeitona,
+aconteceu que examinando os dous detidamente as contas da lavoura,
+ella de repente observasse que era tempo de sahirem da modestia
+financeira em que viviam.</p>
+
+<p>Como a situação de fortuna do casal nunca fora nem melhor nem peior do
+que ora estava, aquillo surprehendeu Jorge Miguel, como se <span class="pagenum"><a id="page183" name="page183"></a>(p. 183)</span>
+nas palavras da esposa houvesse reprimenda á sua inercia.</p>
+
+<p>Ella, sem se perturbar, tomou ao acaso um papel da secretária, agarrou
+n'uma penna, e ao cabo de alguns pequenos calculos feitos n'uma
+calligraphia tortuosa, começou a dizer, com a sua voz de pauzas doces,
+que as vinhas estavam velhas, o phylloxera á porta, os terrenos
+estanques da produção sem adubo, o vinho sem mercado, da qualidade
+horrivel do fabrico; e quanto ás terras de cereal, parte não dava, por
+desleixo do preparo, o que devia, e a outra parte em pousio, coberta
+de abrolhos e de estevas, apenas nos começos do outomno era pascigo
+para as cabras dos pastores furtivos da visinhança. O remedio era uma
+remodelação completa do regimen agricola, em quatro annos: nas terras
+de pousio lançar plantações americanas, reengorgitar os almargios da
+ceara com os elementos chimicos necessarios á cultura intensiva,
+ampliar a extensão aravel das terras, plantar arvoredo, regenerando ao
+mesmo tempo a industria da vinha, cujo grosseiro preparo estava ainda
+na fermentação do mosto em barros pesgados, e seu esforço alcoolico
+com aguardentes de balsa ao esturro e á porcaria do alambique.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page184" name="page184"></a>(p. 184)</span> Demandava a nova empreza capitaes de alguma fórma custosos
+para a relativa modestia dos seus teres; mas poderiam começar aos
+poucochinhos, e para isso as economias de tres annos de vida
+provincial talvez bastassem, e a actividade e a vigilancia d'elle
+fariam o resto. Ficou decidido que encetariam os trabalhos logo esse
+anno, e que os habitos indolentes de Jorge Miguel cessariam, por a
+vida de lavrador exigir assiduidades constantes na faina, e uma
+vigilancia quanto possivel methodica e regulada.</p>
+
+<p>&mdash;Resta vêr agora, objectára-lhe a esposa sorrindo, se cumprirá
+escrupulosamente o que promettes. Esta vida contemplativa estava-te a
+inutilisar todos os dias, e chamado á acção não terás tempo de te
+aborrecer a pensar futilidades. De mais o caminho é extenso, e estou a
+vêr que quando te habituares a fazer co'a terra, dinheiro, serás
+naturalmente conduzido a tambem aproveitar como bens de fortuna essa
+notoriedade de escriptor de que não tens querido tirar senão vaidades
+espirituaes, ephemeras e... irritantes.</p>
+
+<p>&mdash;Tu não me aconselhas de certo que eu entre a escrever sobre a
+politica do districto...</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page185" name="page185"></a>(p. 185)</span> &mdash;Em que estaria o mal? Não ha assumptos chalros. Um talento
+nobre transfigura todas as cousas porque passa. Ouço-te flagelar a
+estupidez e a má fé dos que açambarcam despoticamente, e para fins
+deshonestos, a politica da nossa região; porque te não decidirás,
+pois, a intervir n'ella com os recursos superiores que Deus te deu, e
+os teus estudos teem desenvolvido? Maldizer é facil. Quem se não
+mostra, esquece, e eis-te chegado á idade de reappareceres homem de
+acção.</p>
+
+<p>&mdash;Tens-me então estado a sonhar governador civil ou deputado...</p>
+
+<p>&mdash;Não pelo desforço platonico de assumires sob essa forma a
+authoridade, mas principalmente porque estaria n'isso o começo de uma
+fortuna decisiva.</p>
+
+<p>&mdash;Em dinheiro talvez?</p>
+
+<p>&mdash;Que a final é tudo n'este mundo. Se Jesus Christo voltasse a fazer
+na terra os doze apostolos, precisaria de pelo menos ter doze milhões.
+Olha á roda de ti o que se passa. Não ha mediocre que te não tenha
+suplantado; tu desesperas-te, fingindo desprezal-os, mas no fundo da
+tua consciencia o sentimento dominante é o ciume porque esses que tu
+declaras cerebralmente inferiores <span class="pagenum"><a id="page186" name="page186"></a>(p. 186)</span> desenvolveram na vida
+qualidades de lucta que te faltam.</p>
+
+<p>&mdash;Suppões então que eu não segui o caminho d'elles por impotencia...</p>
+
+<p>&mdash;A que chamavas altivez, e afinal não foi mais que cobardia.</p>
+
+<p>&mdash;Entristeces-me com esse juizo estreito que me fazes.</p>
+
+<p>&mdash;Mas prova-me o contrario. Era tão facil! Ha na cidade um jornal sem
+redactor; offerecem-t'o e tu não respondes; ora se desenvolvesses n'um
+sentido sagaz as tuas qualidades de foliculario, em pouco tempe esse
+jornal seria a tua arma envenenada, e verias realisadas todas as tuas
+antigas ambições.</p>
+
+<p>&mdash;Mas se eu não tenho nenhumas, minha filha!</p>
+
+<p>&mdash;Ambições precisas não tens, porque a multidão assusta-te, mas
+quererás tu persuadir-me de que a tua obra critica de solteiro apenas
+fosse uma galopada de humorista? É lêr os teus pamphletos. Se se trata
+de litteratura, achas a obra dos outros má, e tens o cuidado de fixar
+um sonho de obra que não é mais do que a tua, idealisada. Se se trata
+de costumes, flagellas os vicios de que não gostas, e calas-te ou
+defendes aquelles para que <span class="pagenum"><a id="page187" name="page187"></a>(p. 187)</span> tens uma certa vocação. Em
+politica achas todos os ministros imbecis, dizes que as nomeações não
+visam nunca individuos de valor, e que os dinheiros do paiz andam a
+rodo pelos regabofes dos seus administradores. Dir-me-has o que é tudo
+isto senão um processo ingenuo de, desbastando nos outros, ficares
+sendo primeiro e unico de pé?</p>
+
+<p>&mdash;Mas afinal tu és uma creatura incongruente. Essa obra desenvolta de
+mocidade nunca te inspirou senão o enfado de uma cousa grosseira, mau
+grado os teus disfarces, e tanto fizeste que acabei por me envergonhar
+de a ter escripto. Passam seis annos, está mumifeita, esquecida, e és
+tu mesma que m'a vens galvanisar agora n'uma phase de empregomania que
+eu detesto!</p>
+
+<p>&mdash;O caso é simples. Todo o homem que esgrime sem alvo, é caricato ou
+doido. Os teus proprios discipulos perguntavam: mas que quer elle?
+porque ninguem comprehende que se gaste energia sem proveito. Dez
+annos d'essa campanha asperrima, n'uma agua-furtada, sem roupa nem
+confortos, coberto de calumnias e de dividas, desprezado, odiado, o
+que te deram? A gloria de seres conhecido entre os estudantes como um
+canalha sarcastico, <span class="pagenum"><a id="page188" name="page188"></a>(p. 188)</span> e quarenta adeptos que apenas servidos
+desertaram de ti como da peste.</p>
+
+<p>A logica d'estas combinações chocava fundo os quarenta annos já frios
+do antigo pamphletario, que hesitava, no entanto obsecado da tradição
+dos genios famintos. Embuido das doutrinas utilitarias da esposa, via
+effectivamente o dinheiro como uma causa geral de toda a culminencia,
+e as suas antigas ambições gososas de grande homem despertando da
+indefinida madorna em que o estagnára a vida provincial. Via-se
+reapparecer de novo em plena vida, com outros ideaes mais largos e
+mais firmes, senhor da sua razão e da sua força, já sem os platonismos
+de artista e as nebulosas philosophias de pamphletario demolidor
+joeirado das antigas relações compromettedoras de café, homem de
+acção, batido no desprezo, monosyllabico, hypocrita, insolente,
+fazendo a sua entrada sem ruido, sondando os typos, avaliando a frio
+os consagrados, e n'uma reviravolta leonina, de repente, apoderando-se
+dos cimos, e fazendo-se sagrar chefe de <span lang="fr"><i>clan</i></span>. Tudo estaria em fazer
+do seu talento o molosso incorruptivel de uma ideia fixa. Essa
+marmorisação de vontade, porém, onde formal-a, com o seu caracter
+feminino e <span class="pagenum"><a id="page189" name="page189"></a>(p. 189)</span> dominavel, acobardando-se diante dos obstaculos,
+e que a primeira mão resoluta guiaria a sabor dos seus caprichos?
+Então, lançando a vista de roda, apercebeu como sempre os olhos claros
+da mulher, interrogando-o com uma tristeza escarninha sobre a sua
+falta de coragem. A pretexto de inspecção ás escólas primarias, o
+governador civil percorria n'esse momento o districto, a sondar o
+espirito das terras sobre o exito das proximas eleições. Era um antigo
+companheiro de Jorge Miguel, sucio pomposo, que começára por
+gazetilhas obscenas no <i>Pimpão</i>, subindo d'ahi a amanuense da Junta, e
+redactor politico da <i>Nova</i>, jornal do presidente do conselho, que o
+despachou depois aos bejenses com subscriptos de funccionario de
+confiança.</p>
+
+<p>Jorge Miguel inspirára-lhe sempre mesmo nos dias de convivencia
+litterária no Martinho, uma especie de rancor desconfiado, com orlas
+de desprezo, e póde-se imaginar a surpreza do conselheiro, quando,
+avistados na aldeia os dois bohemios, Jorge Miguel lhe communicou as
+suas tenções de comprar o jornal e entrar de vez na politica
+militante. Sentindo-se de cima o governador civil prometteu com uma
+sublime benevolencia, apoiar-lhe <span class="pagenum"><a id="page190" name="page190"></a>(p. 190)</span> as pretensões,
+combinando-se depois de tres dias de hospedagem e de jantares
+pantagruelicos, que adquirida a gazeta, com typografia e pessoal
+conveniente, Jorge Miguel fosse a Lisboa munido de cartas prestar ao
+ministério vassallagem, e receber dos magnates do partido a sua
+iniciativa de cavalleiro. Quinze dias depois ia na casa do nosso
+pacifico contemplador uma barafunda dos demonios.</p>
+
+<p>Pelo caminho de ferro chegaram de Lisboa umas poucas de charruas,
+caixotes de adubos e sementes, milheiros e milheiros de bacellos
+americanos. A adega foi quasi toda guarnecida de toneis; lagariças
+novas no pateo, com toda a sorte de machinas modernas. Os pousios das
+herdades eram começados a revolver a talho fundo, para o que foi
+necessario alugar juntas de bois a todo o preço; de fóra viera um
+regente agricola, de monoculo, que se levantava ao meio dia, e achava
+mau passadio um jantar de cinco pratos; e finalmente, negociado por
+quinhentos mil reis, typographia e tudo, o jornal apparecera depois
+onerado por uma hypotheca de dois contos, e com o typo delido, os
+prélos n'um cangalho, tendo Jorge Miguel de dispender, <span class="pagenum"><a id="page191" name="page191"></a>(p. 191)</span> por
+conselho do governador civil, proprietario secreto da folha, mais de
+novecentos mil réis para acquisição de material. Na aldeia, quando
+estas coisas correram, foi o alvoroço que se tem por um individuo que
+emaluquece, de rodilhão, e todos punham as mãos na cabeça, antegozando
+com lastimas hypocritas a hora opipara em que rebentaria a casa do
+«escriptor». A audacia d'esta renovação agricola pelos risiveis
+processos scientificos, que nenhum rico ousára, e de que ria o povinho
+como uma brincadeira de creanças, além de não parecer condizente á
+remediada fortuna do litterato, tão pouco pelo estapafurdio do regente
+agricola, e resultado incerto das colheitas parecia estribar-se lá
+muito na económica prudencia que deve sempre guiar um lavrador.
+Viticultura americana? dinheiro perdido, bufavam todos. O phylloxera
+immobilisando-se no Douro perdera a força para chegar aos valles do
+Tejo. Reengorgitação das terras pelo adubo? mas onde ia isso parar de
+dispendioso, e para que necessario? se a vinha nunca se estrumára no
+Alemtejo, e quanto ao cereal, a bósta dos animaes abundou sempre, para
+fazer de alqueires, moios.</p>
+
+<p>A reapparição do <i>Clamor de Beja</i>, jornal <span class="pagenum"><a id="page192" name="page192"></a>(p. 192)</span> independente, um
+typo novo, e uma factura litteraria elegantissima, foi verdadeiramente
+um caso nos annaes da sornice alemtejana, e claro se viu o influxo que
+essa incisiva folha fumegante de vida e tocando os assumptos locaes
+com lúcida ironia, certo viria a ter na politica do sul da grande
+provincia.</p>
+
+<p>Jorge Miguel recebia em casa os jornaes da redacção, preparava o seu
+artigo, fazia o noticiario e a correspondencia de Lisboa, e o resto
+era arranjado em Beja por um alferes do 17, seu antigo commensal n'uma
+republica de estudantes. Em pouco tempo o successo attingiu pela
+provincia as proporções de uma victoria; choviam as assignaturas, os
+annuncios pagos succediam-se, e em todas as questões locaes e
+partidarias começou o jornal a fazer authoridade, o que o lembrou em
+Lisboa, levando as attenções dos malignos para a espécie de furor com
+que Jorge Miguel, jacobino medonho, ainda na vespera, defendia os
+actos do governo. Eleições á porta: era o momento de ir a Lisboa,
+jurar fidelidade ao gabinete. Atochado de missivas bejenses para os
+magnates graúdos do partido, sahiu Jorge Miguel de casa uma manhã, com
+o seu chapéo alto e o seu bahú de roupa, disposto a <span class="pagenum"><a id="page193" name="page193"></a>(p. 193)</span> levar de
+vencida as agruras da jornada graças a certa gallinha de recheio, mais
+meio presunto que a mulher lhe embrulhou, para farnel, na folha de um
+dos seus antigos pamphletos anarchistas. A viagem foi cabeceada de
+somno n'uma segunda classe onde voltavam de férias tres alarves de
+tres seminaristas, e só no Barreiro, quando a cidade começou a surgir
+vaporisada nos azues violetas do horizonte, é que Jorge Miguel sentiu
+tomal-o uma infinita e estranha nostalgia. Indo no barco atirou ao rio
+os restos do presunto, para evitar o cheravisco aduaneiro, e com o
+gallego do bahú veio a dar fundo nas <i>Duas Nações</i>, ante uma canja que
+tinha todo o ar de um soluto de caspa em agua de lavagens. Sopeteou
+como poude as vitellas flacidas com cenouras, um <span lang="en"><i>roast-beef</i></span> de
+folha, e varios outros acepipes corneos d'aquella conceituada casa
+alimenticia, e barbeado, de sobrecasaca fina, cheirando a agua de
+Colonia, eil-o baixa do hotel á cóca de tipoia que o solavanque a S.
+Vicente. Chegado á rua, os luzeiros da Baixa estontearam-n'o: via,
+extasiado, uma multidão febril, pelos passeios, os carros cheios de
+gente, e o indefinido rumor repercutíndo-se a distancia, entre pregões
+de jornaes e <span class="pagenum"><a id="page194" name="page194"></a>(p. 194)</span> silvos de comboyos. Mentalmente, com esforços
+de memoria dolorosos, desemburrando-se da bisonheria de seis annos de
+vida marital, tomava outra vez posse da cidade, buscando
+familiarisar-se no dedalo das ruas, achar no asphalto outra vez o seu
+<i>rail</i> de <span lang="fr"><i>flaneur</i></span> nocturno; e mulheres que surgiam de chapa nos
+reverberos das lojas pintadas de branco, olhando os homens de lado,
+como as gansas, tinham para elle o ar de apparições; nos americanos
+pareceu-lhe tudo duques e duquezas, um deslumbramento as lojas, os
+caixeiros uns personagens ideais; e a sua emoção subia n'um galopar de
+antigas reminiscencias, á mercê das surprezas esgarçadas por qualquer
+cousa, na volta de uma esquina, ante o estylo de um predio novo, um
+novo monumento&mdash;emoção de provinciano fóra da moda, cego do gaz,
+picado de ciumes, desesperado de já ninguem o conhecer, e que ao
+apear-se em Santa Clara, á porta do «nosso glorioso chefe» levava já
+tres ridiculos de aldeia a chateal-o: a fadiga dos calos, o remorso do
+casamento, e pairando a tudo, um desejo frascario, exhaustinado, d'ir
+rebentar a noitada ao baile de mascaras do Trindade. Seis annos de
+provincia tinham liquidado n'isto o grande homem...<span class="smaller"><a href="#toc">(Voltar ao Conteúdo)</a></span></p>
+
+
+
+
+<h2><span class="pagenum"><a id="page195" name="page195"></a>(p. 195)</span> O JURAMENTO DA CONDESSA ESTHER</h2>
+
+
+<p>&mdash;Tenho consultado tudo, tudo! A homeopathia, o systhema Brugrave, o
+Raspail, tudo! Mas os alivios poucos, nenhuns mesmo. É esta dôrzinha
+vaga no peito, esta tosse secca, pouca vontade de comer, ventre
+preso... Quando se chega á minha edade, é esperar pela morte, bem o
+sei.</p>
+
+<p>&mdash;Qual!</p>
+
+<p>&mdash;Ah! eu não a receio, meu bom amigo. Somente me affligiria a saudade
+dos que amo, e o amor da minha filha...&mdash;Baixava a voz para
+dizer-me&mdash;Tem-me perseguido a ideia de consultar um enfermeiro. Ouço
+que entendem muito de doenças... Morrer, deixar Esther, seria o ultimo
+castigo.</p>
+
+<p>Em resposta, eu ria. A condessa ia começar a narrativa de uma cura
+estrondosa, feita <span class="pagenum"><a id="page196" name="page196"></a>(p. 196)</span> n'uma senhora das suas relações, por um
+dos taes.</p>
+
+<p>&mdash;E está hoje gorda e alegre, que não faz ideia.</p>
+
+<p>&mdash;Faço, faço.</p>
+
+<p>&mdash;Depois, os remedios que me receitam os medicos, repugnam-me. Tenho
+horror á magnesia, horror ao cheiro da camphora, horror ás pilulas,
+que bem podem ser manipuladas por sugeitos pouco limpos. Alguns dos
+medicamentos nem os tomo.</p>
+
+<p>&mdash;Eis porque se não cura, condessa. As aguas de Loeches são suaves...</p>
+
+<p>&mdash;Horriveis! E tão prosaicas...</p>
+
+<p>&mdash;De certo, de certo. Tanto mais que V. Ex.<sup>a</sup> tira effeitos poeticos
+da doença que diz soffrer, confesse.</p>
+
+<p>&mdash;Ahi vem a sua má lingua, doutor. Na minha edade a poesia é o amor
+dos filhos. Eu sofro muito, sofro, palavra d'honra. E se fosse um
+aneurisma, meu Deus!...</p>
+
+<p>&mdash;Ahi, está V. Ex.<sup>a</sup> poetando com hypotheses de martyrio, simples
+achaques a que todos estamos sugeitos. Que diria então eu, que V.
+Ex.<sup>a</sup> vê na flôr da vida e na apparencia da mais radiosa saude? O meu
+estomago!</p>
+
+<p>&mdash;E o meu, doutor, o meu?</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page197" name="page197"></a>(p. 197)</span> &mdash;A condessinha Esther tem a paixão das begonias; a sr.<sup>a</sup>
+duqueza de Serpa adora os cães d'agua; a sr.<sup>a</sup> marqueza de Valle de
+Perdizes esculpe; a esposa do negociante Domingues trabalha em créches
+e premios de escolas. E cada uma faz d'estas predilecções a sua
+aureola de poesia, de que se circunda no mundo. V. Ex.<sup>a</sup> tem os seus
+soffrimentos. É uma compensação.</p>
+
+<p>&mdash;Já vejo que está hoje peor, Conde! gritou ella para a meza do jogo
+onde quatro homens faziam <span lang="en"><i>whist</i></span>, á luz d'uma serpentina. Um velho
+calvo e magro severamente abotoado e de bigodes altivos, ergueu-se
+respeitosamente e veiu junto de nós.</p>
+
+<p>Por detraz dos oculos, luziam-lhe aguçadas as pupillas de miope:
+andava com ares magestosos de ministro, gesticulando sobriamente.</p>
+
+<p>&mdash;Que é? disse elle firmando as mãos nos gomos do divan da condessa
+mãe.</p>
+
+<p>&mdash;Pode fallar-me da sua pre-historia, porque o meu amigo doutor teima
+em satyrisar os meus padecimentos. Vamos, sente-se aqui.</p>
+
+<p>&mdash;Mas a partida...</p>
+
+<p>&mdash;O doutor vae substitui-lo, sim?</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page198" name="page198"></a>(p. 198)</span> &mdash;E a condessa assim me desterra tão cruelmente!&mdash;Ella
+estendeu-me a mão dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Será por pouco tempo.&mdash;Fui. Esther não viera ainda. As senhoras
+começavam a chegar em pequena gala, com <span lang="fr"><i>bournous</i></span> de casimira branca
+forrados a setim e pelles. Eram os convivas certos d'aquellas
+pequeninas <span lang="fr"><i>soirées</i></span>, tão intimas, tão aconchegadas e tão doces, que
+os ditos e excentricidades da condessinha animavam, e a rabeca de
+Zebedeu Kebler, israelita loiro como Jesus e tão casto como elle,
+enchia de fremitos extranhos e infinitas harmonias. Kebler adorava a
+condessinha com uma paixão supersticiosa e ardente. Estava sempre onde
+ella estava; em São Carlos, a sua cadeira era defronte da friza
+d'ella; apparecia nos bailes a que ella ia, melancholico e pallido,
+uma elegancia fina de <span lang="en"><i>gentleman</i></span>; e nas conversações mais frivolas,
+em podendo, mettia, sem quasi dar por isso, o nome d'ella. Esther era
+trigueira e alta, de uma distincção unica e de uma elegancia sem
+rival. O esmalte dos seus dentes destacava fresquissimo no vermelho
+das gengivas, como um adereço rico num estojo de velludo cereja. Nada
+mais explendido que a linha do seu busto nervoso e cinzelado, e a
+redondeza das suas espaduas <span class="pagenum"><a id="page199" name="page199"></a>(p. 199)</span> reaes, surgindo de espumas de
+renda na fervilhação opulenta dos bailes. Fui ter com o judeu. De pé,
+junto da banca de jogo, elle olhava sem vêr cousa alguma. Tomei-lhe o
+braço e fomos para o vão d' uma janella. E antes que eu fallasse, elle
+disse:</p>
+
+<p>&mdash;Já penetrei no mysterio.</p>
+
+<p>&mdash;Qual?</p>
+
+<p>&mdash;O da condessinha.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos a vêr como.</p>
+
+<p>&mdash;Ella é muito supersticiosa. Não admira, sangue judeu...</p>
+
+<p>&mdash;Sangue judeu! Ella?&mdash;Kebler baixou a voz e contou-me:</p>
+
+<p>&mdash;Que certo vendedor de tamaras, freguez assiduo de uma hortaliceira,
+chegára a amar esta. Do amor dos dois, fermentou um garoto que se
+metteu cambista, d'onde mais tarde surgiu uma obesidade millionaria
+que um governo individado fez barão e par.</p>
+
+<p>&mdash;Que perspicacia audaz empregou o meu amigo para saber tanto?
+Caramba!</p>
+
+<p>&mdash;Ouça: implantada por esta fórma, a nobreza foi subindo de um grau de
+filho para filho. Até que um dia, o pae de Esther appareceu conde.</p>
+
+<p>&mdash;A esposa era muito formosa então, para <span class="pagenum"><a id="page200" name="page200"></a>(p. 200)</span> poder alcançar
+tudo. Seria duqueza até, se o houvesse querido, disse eu sorrindo.</p>
+
+<p>&mdash;Lingua damnada!</p>
+
+<p>&mdash;Adeante. É então supersticiosa, hein?</p>
+
+<p>&mdash;Não imagina.</p>
+
+<p>&mdash;Eis o meio de sustar-lhe a golfada de sarcasmos de que ás vezes nos
+cobre. Em ella me ferindo, quebro um espelho da sala, verá. Mas vamos
+ao mysterio. Creio que foi <i>mysterio</i>, que disse.</p>
+
+<p>&mdash;Foi. Esther teve uma grande paixão!</p>
+
+<p>&mdash;Como a da hortaliceira gollegã, sua avó, pelo vendedor de tamara e
+sabonetes. <i>Fermentou</i> alguma cousa de?...</p>
+
+<p>&mdash;Olhe que me zango sériamente, e fica sem saber nada.</p>
+
+<p>&mdash;Está bem; estou já calado.</p>
+
+<p>&mdash;Uma paixão fatal! Amou...</p>
+
+<p>&mdash;Essa reticencia traz um padre ou um trintanario.</p>
+
+<p>&mdash;Infelizmente. Amou um primo, doutor em theologia, que já dissera
+missa.</p>
+
+<p>&mdash;Bem dizia eu!</p>
+
+<p>&mdash;Dizem que bella figura.</p>
+
+<p>&mdash;Não me custa a crêr, pois que o affirma. E o primo amou a prima?
+Sacrilegio no ultimo acto, suicidio ao cahir do panno. Adivinhei?</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page201" name="page201"></a>(p. 201)</span> &mdash;Quasi. O primo era um homem digno; além disso não chegou a
+saber toda a verdade da bocca d'ella. Desconfiou apenas que era amado
+e fugiu para as missões do ultramar.</p>
+
+<p>&mdash;Oh incomparavel levita! Eu não fugia para tão longe. E ella?</p>
+
+<p>&mdash;Ella jurou que não amaria mais ninguem na vida.</p>
+
+<p>&mdash;E como não lhe fosse permittido professar...</p>
+
+<p>&mdash;Não seja leviano. Esther adora as begonias, como sabe.</p>
+
+<p>&mdash;Paixão que acarreta ao meu amigo uma despesa séria. Cada dia lhe
+traz uma especie nova, numa <span lang="fr"><i>corbeille</i></span> admiravel.</p>
+
+<p>&mdash;Essa adoração tem a seguinte historia. Á hora da partida o
+missionario mandou á condessinha num vaso da China, uma explendida
+begonia <i>rex-isis</i>, especie do mais bello effeito decorativo. É um
+vaso amplo, de figurinhas em relevo e pequenas azas de oiro,
+representando dragões engalfinhados.</p>
+
+<p>&mdash;Conheço bem essa preciosidade! Vale a olhos fechados cem libras. E
+depois?</p>
+
+<p>&mdash;A begonia durou pouco. A estufa para onde a transportaram, e a
+convivencia das <span class="pagenum"><a id="page202" name="page202"></a>(p. 202)</span> mais plantas abreviaram-lhe os dias. Já
+entrou na estufa da condessinha?</p>
+
+<p>&mdash;Muitas vezes. O vaso está ao centro, sobre um pequeno pedestal de
+marmore branco e debaixo de uma redoma de crystal em gomos.</p>
+
+<p>&mdash;É isso, com a begonia sêcca.</p>
+
+<p>&mdash;Tal qual! Muitas vezes perguntei á condessinha a historia d'aquelle
+esqueleto de planta. E agora me lembro&mdash;ella ficava triste e
+suspirava. Era a theologia do primo adorado.</p>
+
+<p>&mdash;Hontem vim visitá-las de manhã. Trazia-lhes um euforbio raro do
+Mexico, que os francezes chamavam <span lang="fr"><i>Poinsettie</i></span>, exemplar soberbo.
+Conhece?</p>
+
+<p>&mdash;Dos livros. A minha clinica modesta não me permitte dispender sem
+proveito o que elle custa. Folhas oblongas bordadas de verde,
+envernisado e vivo. Centro canario raiado de verduras sanguineas.
+Envolvendo as flôres, uma corôa de grandes bracteas ovaes, do tamanho
+de folhas, e do mais bello escarlate, dando o effeito duma grande
+flôr. Uma opulencia, em resumo.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem. Eu mesmo fui collocá-lo na estufa, permissão graciosa da
+condessinha.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page203" name="page203"></a>(p. 203)</span> &mdash;Os perfumes aphrodisiacos perturbaram os sentidos de ambos
+e... amor do judeu das tamaras com a...</p>
+
+<p>&mdash;Mau!</p>
+
+<p>&mdash;Está bom: curvo a cabeça. Venha o resto.</p>
+
+<p>&mdash;Quando nos achámos na estufa e em meio das folhas de mil desenhos
+que alli ha, ella tomando-me as mãos, disse-me commovida:</p>
+
+<p>&mdash;Como hei-de eu agradecer a sua sollicitude, Zebedeu?</p>
+
+<p>&mdash;Ella disse: <i>Zebedeu?</i></p>
+
+<p>&mdash;Disse.</p>
+
+<p>&mdash;Meio caminho andado, então. Mais dois minutos, e tinha-a pendurada
+no pescoço. Que gata, essa trigueira tentadora!...</p>
+
+<p>&mdash;Eu nem podia fallar!</p>
+
+<p>&mdash;Oh castidade loira de vinte annos!</p>
+
+<p>&mdash;E apertava-me tanto as mãos...</p>
+
+<p>&mdash;Sim? Depois, um beijo... ou dois... ou tres...</p>
+
+<p>&mdash;Falle com franqueza, disse-me ella. O senhor ama-me.&mdash;Eu estava a
+tremer como um poltrão.&mdash;Ouça, tornou Esther; fiz um juramento.</p>
+
+<p>&mdash;Qual? perguntei em voz baixa.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page204" name="page204"></a>(p. 204)</span> &mdash;Que não amaria ninguem mais. A não ser...</p>
+
+<p>&mdash;A não ser?...</p>
+
+<p>&mdash;Que aquelle vaso de pedestal apparecesse em pedaços um dia, sem
+ninguem lhe tocar.</p>
+
+<p>&mdash;Mas isso é impossivel.</p>
+
+<p>&mdash;Então veja se posso amá-lo. Ella estava tão triste!... Talvez não
+creia: chorei!&mdash;Callamo-nos, porque n'aquelle instante, uma voz fresca
+deu uma risadinha á porta, e as senhoras correram para uma rapariga de
+branco, que vinha entrando. Era Esther.</p>
+
+<p>&mdash;Zebedeu Kebler, meu incomparavel artista, um pouco da sua rabeca,
+disse ella em voz alta, antes de beijar ninguem.</p>
+
+<p>&mdash;Bom sinal! resmunguei ao pobre rapaz.</p>
+
+<p>O judeu deixou-me logo, alegre por ser lembrado, e foi abrir o estojo
+do instrumento.</p>
+
+<p>&mdash;Que ridiculos são estes sentimentos! pensava eu. Apertam-lhes as
+mãos n'uma estufa e a sós, muito e muito, e desatam a chorar.
+Grandissimo tolo! Não o pode amar? Fez ella muito bem. Amar um homem
+que em logar de cobrir de beijos uma mulher lindissima que se rende,
+fica a tremer, seria uma vergonha: apre! Fui ter com a condessa,
+enfastiado e murmurando:</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page205" name="page205"></a>(p. 205)</span> &mdash;Fosse a cousa commigo...</p>
+
+<p>No dia seguinte, tinha eu acabado a consulta quando chegou Kebler.</p>
+
+<p>&mdash;Vem acabar-me a historia de hontem?</p>
+
+<p>&mdash;Venho sollicitar a sua presteza de atirador.</p>
+
+<p>&mdash;Chegou o theologo? desafiou então um ministro do altar? Barbaro!
+Cruel! Desalmado!</p>
+
+<p>&mdash;Qual! Tenho um projecto.</p>
+
+<p>&mdash;Acceite este charuto, aqui tem lumes, sente-se e conte-me o
+projecto.</p>
+
+<p>&mdash;O alvo do irmão de Esther fica perto da estufa; pois não fica?</p>
+
+<p>&mdash;Creio que sim.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor vae alli exercitar-se muitas vezes, segundo me disse o
+Alvaro.</p>
+
+<p>&mdash;Vou.</p>
+
+<p>&mdash;Ouça. Eu levanto um caixilho da estufa...</p>
+
+<p>&mdash;Mas é preciso a chave que abre todos esses caixilhos. Talvez não
+pensasse em tal?</p>
+
+<p>&mdash;Tenho-a aqui; roubei-a agora mesmo. Posso guardá-la por estes dias.
+O tempo está chuvoso e frio, de modo que não ventilarão a estufa por
+agora.</p>
+
+<p>&mdash;Então?</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page206" name="page206"></a>(p. 206)</span> &mdash;Aberto o caixilho, o senhor fingindo apontar ao alvo,
+aponta ao vaso da China e...</p>
+
+<p>&mdash;O senhor ganha o premio, e eu fico a chuchar o dedo.</p>
+
+<p>&mdash;Que? Ama a condessinha?</p>
+
+<p>&mdash;Eu amo toda a gente; que diabo!...</p>
+
+<p>&mdash;Estou esperando a sua resposta.</p>
+
+<p>&mdash;Que eu parta aquelle vaso da China porque daria tudo? Está louco!</p>
+
+<p>&mdash;Olhe para mim. Se o não fizer...</p>
+
+<p>&mdash;Dá um tiro no craneo; dá?</p>
+
+<p>&mdash;Qual! fico solteiro toda a vida.</p>
+
+<p>&mdash;Bem, essa simplicidade enternece-me. Esteja amanhã aberto o
+caixilho, e a bala esmigalhará o vaso. Mas como entra o senhor no
+jardim?</p>
+
+<p>&mdash;Saltando o muro que o separa da casa em que habito.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor é o diabo.</p>
+
+<p>&mdash;Se a adoro!</p>
+
+<p>Na noite seguinte, havia reunião em casa da condessa. Os grupos das
+mais noites. Ao fundo do salão, a banca de <span lang="en"><i>whist</i></span>, onde o cultor da
+pre-historia se notava de lunetas altas, sob que as pupillas
+fuzilavam. No divan amarello, a condessa queixando-se-me da falta de
+apetite e de tosse sêcca. Esther radiosa, no <span class="pagenum"><a id="page207" name="page207"></a>(p. 207)</span> meio das suas
+amigas. Zebedeu Kebler muito pallido e muitissimo preoccupado, ferindo
+de um modo inteiramente magistral as cordas da rabeca.</p>
+
+<p>&mdash;Meus senhores, disse a condessa em voz alta, erguendo-se. Tenho a
+honra de lhes annunciar o casamento de minha filha Esther com o senhor
+Zebedeu Kebler.</p>
+
+<p>Ouviu-se o estalido de uma corda de rabeca, subitamente quebrada. O
+conde das lunetas erguera-se, aprumando a alta estatura. Esther
+confessava ruborisada que... <i>Deus o queria.</i> Tinha apparecido em
+pedaços o vaso da China, sem que lhe tocassem. E de mais amava aquelle
+rapaz, tão elegante e tão distincto, de cujo braço seria um encanto
+pender coroada de flôres de larangeira.</p>
+
+<p>&mdash;És meu padrinho! disse-me com um abraço de reconhecimento, o judeu.</p>
+
+<p>&mdash;Já agora... respondi.</p>
+
+<p>O meu presente nupcial, foi um vaso chinez inteiramente igual ao que
+apparecera esmigalhado. Crescia n'elle um <i>hibiscus</i> do Japão,
+trepadeira da mais rendilhada contextura, folhas exoticas e flôres em
+grinaldas.</p>
+
+<p>&mdash;Eis porque eu daria tudo pelo vaso quebrado, disse a Kebler, com uma
+vaga saudade <span class="pagenum"><a id="page208" name="page208"></a>(p. 208)</span> de amador. Se o conseguisse adquirir,
+completaria o mais bello par europeu. Guardem esse vaso no logar do
+pobre esmigalhado, e que elle seja o talisman de um amôr, fecundo em
+<span lang="fr"><i>bébés</i></span> de olhos azues, menos romanesco que o amôr do primo, e mais
+durador por isso mesmo.</p>
+
+<p>Um frou-frou de saias fez-me voltar a cabeça; á porta, a cabecinha de
+Esther assomára curiosa, e os seus dentinhos brancos de gata contente
+brilhavam, sorrindo de um modo encantador.</p>
+
+<p>Nunca fui piegas, palavra de honra&mdash;mas inda hoje tenho calafrios
+pensando nos dentes d'aquella mulher.<span class="smaller"><a href="#toc">(Voltar ao Conteúdo)</a></span></p>
+
+
+
+
+<h2><span class="pagenum"><a id="page209" name="page209"></a>(p. 209)</span> CORONADO</h2>
+
+
+<p>Ha sete ou oito annos vinha eu do Poço do Bispo no electrico, quando
+nas alturas da Mitra entrou um meu velho amigo e camarada, Dr. P.,
+clinico da localidade, com quem vim conversando até á Baixa.</p>
+
+<p>Trazia na mão um numero de revista litteraria, e abrindo-o no sitio
+d'uma peça poetica, impressa, perguntou-me se eu ouvira alguma vez
+fallar da Coronado. Fiz com a cabeça que não, e elle, explicando que
+era o médico da casa, em duas palavras fez o elogio sumário da sua
+cliente. Mez e meio havia que esta senhora, já então de oitenta a
+oitenta e dois annos d'edade, mas completamente em plena validez
+mental e muscular, se fôra por uma escada de pedra, quebrando um braço
+pelo terço inferior do cubito e do rádio.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page210" name="page210"></a>(p. 210)</span> Poucas esperanças tinha o clinico, dada a edade provécta da
+paciente, de se virem a soldar os topos da fractura; senão quando, ao
+lhe ser tirado o aparelho, se viu como os ossos quebrados tinham
+adherido, e a cura se fizera completa e ás maravilhas!</p>
+
+<p>Emquanto imovel no leito, a doente, cuja nervosidade frenetica
+espantosamente sofria de estar preza, para enganar o tempo e distrahir
+o espirito volitante, ideára e compuzera em quadras endecasylabas, uma
+poesia festiva ás suas mãos.</p>
+
+<p>E aqui o médico estendeu-me a revista para eu lêr.</p>
+
+<p>Uma das mãos da Coronado estivéra mez e meio entrapada nas ligaduras
+do aparelho de fractura, sem vêr a outra, e a poetiza figurava-as como
+duas amigas ou irmãs gémeas afeitas a comunicarem no seu dia a dia
+impressionista, a imitarem-se os gestos, a procederem por sentimentos
+e instinctos identicos, e que uma tão longa separação lançára no
+desespero e na saudade.</p>
+
+<p>A alegria do novo encontro fazia-as exultar em caudaes de ternura e
+hossanas de prazer. Os versos eram ricos, nem farfalhudos, nem ôcos,
+com significados precisos, frases de bronze <span class="pagenum"><a id="page211" name="page211"></a>(p. 211)</span> sonoro, imagens
+faiscantes, claras, simples, dando uma ideia de riqueza sóbria, e
+mostrando uma artista experiente e um pulso de homem. Não havia
+hesitação nem cançaço, nem essa pulverisante banalidade dos velhos que
+vivem de restos e, perdido o séstro construtivo e inventivo, fazem
+litteratura de toadas e sandezes. Qualquer Fernandez Shaw ou Eduardo
+Marquina, Santos Chocano ou Manoel Machado, Ruben Dario ou Francisco
+Vilaespesa, poderiam ter assignado esse texto de bravura, doce e
+intenso, vivido e sentido, verdadeiro cantico d'uma alma unindo a
+transcendencia lyrica á precisão. No tempo da Coronado os poetas ainda
+eram só romanticos ou classicos...</p>
+
+<p>O individualismo hysteropatha não tinha creado os grupos de <span lang="fr"><i>cabaret</i></span>
+e as patrulhas maniacas de symbolistas, instrumentistas, decadistas,
+ideologos, esthetas, neo-mysticos e magnificos, que depois inçaram a
+poesia de brochuras pathologicas, dando a impressão d'uma casa
+d'orates com mais exhibicionismo que estro, e menos inspiração que
+maluqueira.</p>
+
+<p>A poetiza desde 1874 ficára isolada, pela tristura claustral da sua
+vida, das correntes poeticas que agitavam o mundo, vindas dos
+<span class="pagenum"><a id="page212" name="page212"></a>(p. 212)</span> altos de Montmartre, té aos centros d'insurreição de Madrid
+e de Lisboa. Poetava á antiga, com um gesto nobre e a palavra fluida
+da velha escola hespanhola, que tinha em Espronceda, seu conterraneo
+tambem d'Almendralejo, um dos mais altos e orgulhosos paladinos.</p>
+
+<p>Despertou-se-me então o desejo de, senão conhecer de perto, pelo menos
+entrevêr uma vez sequer a singular creatura que aos oitenta e dois
+annos rimava com uma pujança feraz tão bellas coizas. O visconde de
+Castilho e o dr. Souza Viterbo a quem algumas vezes fallei na
+Coronado, depois d'elogios enlevados ao talento e viveza de
+conversação da illustre enclaustrada, evitavam pormenorisar detalhes
+que me ajudassem á creação d'um retrato physico ou moral, justaponivel
+ao indeciso perfil que a leitura dos versos me acordara.</p>
+
+<p>Pouco a pouco porém outros informadores foram surgindo, ao acaso das
+apresentações e das palestras, e agora um, outro ao depois, pequenos
+traços de luz vieram vindo, á força d'indiscrição, devo dizer, que
+talvez pareça violar o recato da vida intima, mas que pelo significado
+ultimo d'exaltação admirativa, estou que m'o perdoarão aquelles que
+como eu não pódem examinar uma obra d'arte, <span class="pagenum"><a id="page213" name="page213"></a>(p. 213)</span> senão tocando-a
+e palpando-a, primeiro que se enthusiasmem da sua rareza e possam
+comungar da sua singularidade e formosura.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Com os informes de todos esses confidentes anonymos, pela mór parte
+amigos e para assim dizer vassallos graciosos, pude alfim reconstituir
+da gran senhora a estatua arcaica, entrevêl-a como atravéz dos veus
+d'um santuario, e do lado esquerdo do peito acender-lhe uma luz, que
+póde ser não seja alma, mas que servirá para marcar o sitio onde bateu
+um coração.</p>
+
+<p>Morto o marido em 1891, Carolina Coronado não consentiu, por mais que
+a lei portugueza insistisse, em separar-se do cadaver. Veio a policia,
+vieram os magistrados, veio o ministro de Hespanha, veio o ministro da
+America, e deante de todos estes symbolos de força irrevogavel, a
+varonil mulher opôz a razão absurda da sua paixão esponsalicia, a
+aflição das suas saudades, e a ofegancia romantica dos seus zelos
+mortuarios. Não queria que a terra do cemitério provasse o corpo
+amado, <span class="pagenum"><a id="page214" name="page214"></a>(p. 214)</span> e os adorados restos deixassem um momento d'estar sob
+a impressão dos seus cármes dolorosos, ouvindo-lhe todos os dias a
+voz, como se sob o encanto d'ella o drama da podridão custasse menos
+ao morto, e, sucessivamente exaladas do seu féretro, <i>odes</i><a id="footnotetag1" name="footnotetag1"></a><a href="#footnote1" title="Go to footnote 1">[1]</a> vitaes
+pudessem vir impressionar e envolver de sugestão passional, o espirito
+amoroso, supersticioso, solitario e monjil da abandonada.</p>
+
+<p>Como Joanna <i>a doida</i> ella acompanha, da casa de Paço d'Arcos para o
+palacio da Mitra, o cadaver de Justus Perry, e á força de teimosia
+imperiosa, de soluços, de suplicas, consegue alfim que as autoridades
+fechem os olhos, movidas talvez pelas imposições dos diplomaticos;
+quem sabe mesmo se pela feitiçaria dramatica do feito, deixando vêr
+n'essa estremenha uma alma do <i>Romancero</i>, de grandiosa esculptura e
+anormal poder de sugestão!</p>
+
+<p>Desenove annos, n'um simples caixão de chumbo, envolto em madeiras de
+cedro ou <span class="pagenum"><a id="page215" name="page215"></a>(p. 215)</span> d'ebano, o corpo de Justus Perry permaneceu na
+capella da Mitra, sob o fulgor perpetuo da lampada alumiando as
+estatuas dos nichos e os icones dos altares: até ha poucos dias irem
+os dois, marido e mulher, caminho do pantheon de familia, em Badajoz,
+onde como na vida as suas nupcias seguirão, na paz do nada.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Esta casa da Mitra foi não só mausuléo de Justus Perry, como tambem da
+Coronado, pois, salvo uma ou duas vezes que teve d'ir a Hespanha por
+motivos de familia ou d'interesses, nunca mais a illustre mulher
+deixou aquella estancia melancholica, que foi realmente o seu claustro
+e o seu mosteiro.</p>
+
+<p>Quem passava na estrada d'aquelle laborioso e popular Poço do Bispo,
+em plena turbulencia dos carros de carga, dos silvantes comboios, do
+martelar das oficinas, do fumegar das altas chaminés, dos grupos de
+gente tisnada e arremangada, certo não poderia supôr que por traz
+d'aquellas cantarias altas e d'aquellas podridas janellas, uma
+creatura <span class="pagenum"><a id="page216" name="page216"></a>(p. 216)</span> rara sofria e meditava&mdash;uma creatura d'alma
+heroica, da raça das Virgens d'Avila e das Donas Marias de Molina, e
+que aos oitenta e dois annos deslumbrava os amigos com a sua lucidez
+desconcertante, a sua verve picaresca, a sua eloquencia de homem, a
+sua belleza de rainha, e tal poder de ressurreição e recordação, que
+todos os fantasmas da sua mocidade viviam e existiam <i>reaes</i>, a cada
+simples apêlo dos seus dedos e estranha palavra dos seus labios, como
+as ressurgiria o <i>medium</i> Egglinton, ou Eusápia Palladini, n'alguma
+sessão de hermetica e telepatica.</p>
+
+<p>Fechada completamente para as menores sugestões e aparições
+contemporaneas, não recebendo senão dois ou tres velhos amigos que lhe
+fallavam do passado, não chegando sequer á janella, por uma especie de
+horror aos inventos modernos e aos aspectos da multidão grosseira e
+circulante, Carolina Coronado vivia como se ha trinta annos a tivessem
+fechado n'uma caixa, tapando-lhe os ouvidos e os olhos para não sentir
+as evoluções e reviravoltas do mundo alheio e exterior.</p>
+
+<p>D'aqui resultaria o que geralmente sucede aos cegos e a certos
+surdos-mudos perspicazes, que á mingua de sentidos proprios que lhes
+<span class="pagenum"><a id="page217" name="page217"></a>(p. 217)</span> desdobrem a attenção sobre o de fóra, vêem para dentro, <i>com
+força décupla</i>; d'onde uma hyperacuidade d'imaginações, visões, uma
+vida febril de sonhos e quiméras, uma sagacidade felina para induzir
+de pequenas causas, efeitos mysteriosos e longinquos, que explica em
+muitos, por exemplo, suas faculdades de poetas e de musicos, de
+calculistas e filosofos, e na Coronado esse fulgurante poder de, em
+meia hora de palestra, nos abrir perspectivas profundas, de
+historiador e psychologo, sobre os meios sociaes e a gente illustre,
+ou simplesmente anedótica, que ella conhecera e tratara em tempos
+idos.</p>
+
+<p>Graças a essas faculdades cydoramicas, a esse instincto artista da
+escolha de traços com que rhembrantizar e exprimir o mais intenso das
+personalidades e das almas, Carolina Coronado fazia-nos viver com
+emoção profunda quadros das tormentosas ou desvairadas epochas do
+reinado d'Izabel II, entre 1836 e 66.</p>
+
+<p>Era o corregedor Pontejos, uma especie de intendente Manique, que
+elegantisou e saneou Madrid com requisitos de benemerencia e energia
+eguaes aos d'este, mas sem o sobrecenho despotico que a historia lhe
+atribue.</p>
+
+<p>A aristocracia e a elegancia representando-se <span class="pagenum"><a id="page218" name="page218"></a>(p. 218)</span> pelas casas
+ducaes d'Ossuna, de Liria, de Vistahermosa, de Gor, de Rivas, de
+Fernan-Nunez, d'Alba, de Medinacelli, de Dénia, d'Abrantes, de Frias;
+pelos marquezados de Miraflores, do Socorro, de Casa Riera, de Santa
+Cruz e de Pover; pelas casas condaes de Oñate, de S. Bernardo, de
+Guaqui, d'Altamira, Torre Muzquiz, etc., cujos paços disseminados pela
+cidade velha, verdadeiros museus d'artes sumptuarias e riquezas, se
+abriam d'inverno para sucessivas festas e saraus, e cujas mulheres
+faziam ás tardes, nos desfiles do Prado e da Castelhana, nas soirées
+do Theatro Real, ou nas recepções do Palacio do Oriente, revoadas
+esplendidas de bellezas que as memorias do tempo deixaram celebradas.</p>
+
+<p>Era o tempo das primeiras emprezas d'irrigação, navegação e
+ferro-carris, que acordavam em todos os paizes, na ancia de renovação
+trazida pelo constitucionalismo, como um reverdecer de novas estações;
+o tempo dos grandes emprestimos para expedições coloniaes e guerras
+politicas, quando argentarios como Caballero, Salamanca, Ceriola,
+Perez-Sevane, Calderon, Benisa y Lafont, floresciam na finança
+hespanhola, como nas cathedraes os <i>monagillos</i> encarrégues, <span class="pagenum"><a id="page219" name="page219"></a>(p. 219)</span>
+d'entreter o oleo das lampadas, para que a fé se não extinga, e os
+deuses se não vejam abandonados.</p>
+
+<p>Politicos e estadistas como Arguelles, Mendizabal, Martinez de la
+Rosa, Calatrava, Olozaga, Herros, Narvaez, O' Donell, Espartero,
+Serrano, Prim.</p>
+
+<p>Homens de letras como Lista, Gallego Breton, Gil e Zarata, Lopez
+d'Ayala, o poeta Quintana, o poeta Zorrilla, Mariano Larra (<i>El
+pobrecito hablador</i>), Vega e Hartzennbuch, Mezoner Romanos, Pedro
+d'Alarcon, Fernandez de los Rios, Cambronero, Juan Valera... Artistas
+como Ventura d'Aguilera, os esculptores Llaneces e Solá, Marinas (o
+autor da estatua de Velasquez), e nos seus doces <i>recuerdos</i> de
+Sevilha, os dois Becquer, mortos de fome; Valeriano o pintor, e
+Gustavo Adolfo, poeta d'estirpe grega, d'essencia olympica com a
+delicadeza e a graça d'um Hegesipe Moreau, na fantasia lunar d'um
+Nathaniel Hawtorne ou d'um Bret Hart.</p>
+
+<p>Ouvil-a descrever, comentar, caricaturar toda esta gente, desenhando-a
+em dois riscos, caracterisando-a com duas anecdotas d'escolha,
+relampejantes sempre, e sempre finas, lançando-a na <span lang="fr"><i>melée</i></span> social,
+depois de que <span class="pagenum"><a id="page220" name="page220"></a>(p. 220)</span> esquissava sumariamente as essencias
+directrizes e as paixões tendenciosas, era um d'estes cursos de
+historia fallada, uma d'estas delicias cerebraes que davam da
+narradora a impressão mais assombrosa, e induziam o ouvinte a ficar
+alli a escutal-a eternamente.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Ha quatro ou cinco annos que sob pretexto de notas para uns artigos
+sobre azulejaria artistica, consegui da residente illustre da Mitra
+licença para percorrer rapidamente a escada e alguns salões. De
+combinação, alli me esperava um amigo da dona da casa, e meu, o qual,
+fingindo surpreza no encontro, me apresentaria á Egéria, ao tempo
+sósinha em palacio, pois sua filha estava em Badajoz. Das riquezas
+patrimoniaes da Coronado, e das acumuladas pelo marido durante as
+vastas emprezas comerciaes e industriaes em que fallei, grande parte
+devia ter cahido em sorvedoiro, pois tudo na residencia denotava,
+senão estreiteza de meios, pelo menos um estado de finanças bordejando
+de perto a derrocada.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page221" name="page221"></a>(p. 221)</span> Em 1891 a casa e quinta da Mitra tinham já sido vendidas por
+54 contos a certo advogado artista de Lisboa, cujas consultas então se
+pezaram a oiro, e que a Coronado trouxera ao seu serviço em não sei
+que trapalhadas juridicas, demandas, pleitos, que levariam parte dos
+caudaes. A escriptura de venda estabelecia a clausula de residir na
+Mitra a vendedora, até final de vida, e certamente o preço da
+propriedade fôra para liquidar os honorarios do causidico, e
+provavelmente cobrir compromissos ou dividas que tirariam o somno á
+escriptora. Ella não podia fugir á lei fatal que põe os cerebraes do
+ramo artista na contingencia d'ignorarem, pela mór parte, o valor do
+dinheiro, e a arte judenga de o fazer frutificar em especulações e
+trafegos rendosos.</p>
+
+<p>A morte de Perry, pondo ponto na tutela sensata e escrupulosa gerencia
+dos fundos do casal, não teria precavido a viuva, par e passo, contra
+os futuros perigos de gastar sem contar, mórmente ficando as contas
+entregues ao zelo incerto e enganosa honradez d'administradores e
+feitores, que são bons ou máus conforme a fiscalisação a que os
+sujeitam.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page222" name="page222"></a>(p. 222)</span> Está-se a vêr o mecanismo porque, morto o marido, a Coronado
+transita da fartura cómoda para a escassez molesta e tragica.</p>
+
+<p>É sempre o mesmo, n'estes navios onde o piloto falta, e onde a
+tripulação perde o respeito. Corro pois uma gaze sobre este lance da
+historia, que de resto só entristeceria o leitor contra as injustiças
+da vida, e passo a dizer que a minha apresentação foi captivante, e a
+illustre escriptora, em quatro palavras d'aquella cordealidade
+hespanhola que em cortezia familiar nenhuma eguala, pôz a minha alma
+rendida deante do gesto infinitamente nobre da sua mão d'abadessa e
+imperatriz viuva, que pude alfim beijar, mui reverente.</p>
+
+<p>Com um vestido de velludo preto, de cauda, branca de neve, os imensos
+olhos de velludo molhado, que o fulgor do genio rejuvenescia no leve
+engêlho das póchas orbitarias, Carolina Coronado aos 82 annos era uma
+mulher alta e direita, de talhe esbelto, por ter ficado magra, e com
+dois bandós nas fontes, frizados e nevados, como esses que os retratos
+dão á rainha Izabel <span class="smcap">II</span> nos seus ultimos annos de Paris.</p>
+
+<p>Fallava um hespanhol claro e castiço, florido <span class="pagenum"><a id="page223" name="page223"></a>(p. 223)</span> de modismos
+que pela graça rebuscada tinham um oloroso sabor de lingua velha;
+hespanhol de provincia classica e de convento, que seria o fallado
+entre a gente bem educada de ha meio seculo.</p>
+
+<p>Ás minhas palavras de saudação, ella, certo para atalhar o discurso, e
+evitar talvez que eu me estendesse, perguntou-me se era de Lisboa; e
+conhecida a minha origem transtagana e a terra de charnéca onde eu
+nascera, acrescentou que então eramos quasi vizinhos, pois Villa de
+Frades distaria talvez uma duzia de legoas d'Almendralejo e La Serena,
+a patria da sua familia, em cujas parochias tinham banco fechado os
+Romeros Tejadas e os Coronados Cortez d'aquellas terras. Envaidecia-a,
+de resto a sua origem estremenha sem mistura. Ha dois sitios de
+Hespanha que imprimem caracter proprio aos naturaes: Estremadura e
+Aragão. D'alli teem sahido artistas, guerreiros e politicos
+d'excepcional fragor e intensidade.</p>
+
+<p>&mdash;Se eu tinha viajado em Hespanha?</p>
+
+<p>Todo o hespanhol é sedentario e bairrista, porém o portuguez quasi que
+o excede... De resto, para um portuguez viajar em Hespanha, é
+percorrer um pouco a sua terra. <span class="pagenum"><a id="page224" name="page224"></a>(p. 224)</span> «Hespanhoes, resumiu ella,
+somos todos nós, os peninsulares».</p>
+
+<p>E de repente, voltando-se para mim&mdash;Se eu era iberico?</p>
+
+<p>Cuido ter feito um gesto que, imperceptivel embora, contudo a minha
+interpelante colheu, <i>al primer vuelo</i>, medindo n'elle a patriotice
+chocada em leituras da <i>Filippa de Vilhena</i> e outros canastrões
+theatraes archisandeus.</p>
+
+<p>&mdash;<i>No se moleste usted. No es mas que hablar</i>, contraveio logo com o
+mais gracioso gesto d'acalmia. E foi dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Tinha sido o erro de Filippe <span class="smcap">II</span>, tão grande politico, não transferir
+logo para Lisboa a capital do reino unido. Se assim tem feito,
+Portugal e Hespanha estariam hoje abraçados n'uma nacionalidade unica
+e pujante, o que evitaria a ambos a decadencia funesta que durando vem
+té ao presente. De mais que, segundo as datas da historia fidedigna, a
+perda da independencia não foi tão dolorosa a Portugal como se diz nos
+manuaes para as escolas. Em toda a parte os povos mechem-se
+principalmente por interesses, e os primeiros passos da dominação
+hespanhola em Lisboa foram até sympathicos <span class="pagenum"><a id="page225" name="page225"></a>(p. 225)</span> á população,
+sobre quem Filippe <span class="smcap">II</span> exerceu uma atracção benevola e singular...</p>
+
+<p>Um erro deploravel! Os nossos dois paizes reunidos ficariam na carta
+com uma massa de territorio maior que a França, e as suas colonias
+somadas dariam um dominio colonial superior ao da Inglaterra.</p>
+
+<p>Tinhamos tomado assento na ultima de tres salas que formam a parada de
+recepção da residencia, e que com quatro janellas de varanda sobre a
+rua, e duas janellas-portas ao terraço, tinham luz deslumbrante, em
+grandes resteas de sol primaveral.</p>
+
+<p>Tudo no mobiliario velho e desbotados tons das braçadeiras, cortinas e
+alcatifas, chorava a tristeza pudica das coisas de luxo que a penuria
+assedia, e teem de morrer em serviço, como os cavallos velhos nas
+carroças. Cadeiras modernas de Vienna alternavam com esplendidas
+poltronas e sofás, cuja seda o sol e o roçar das cabeças fanára e
+mesmo tinha esgarçado em certos pontos. Nas <i>carpets</i> de preço, gusano
+e pés tinham já consumido a lã das flores e dos desenhos apparecendo a
+trama em séries de cordas varicósas.</p>
+
+<p>A alguns moveis artisticos faltavam-lhes ferragens, precisavam ser
+refrescados e envernizados; <span class="pagenum"><a id="page226" name="page226"></a>(p. 226)</span> jarras da India, sobre columnas,
+voltavam para a parede os buracos e as rachas dos desastres; casaes de
+pombos, livres pela casa, tinham feito ninho sob um bufete, borrando
+tudo; e até, n'uma estante lindissima, os proprios livros amigos,
+confidentes de dores e desalentos, até esses tinham um ar d'exilados,
+e o geito de nos dizer que o seu tempo passára, e lhes doía a velhice
+e as suas imensas saüdades de Madrid...</p>
+
+<p>De pé, na sala, a illustre senhora mostrava pela janella aberta
+aquella enseada morta de tres leguas que o lisboeta chama <i>mar da
+palha</i>. A outra margem silhuetava no azul sua paysagem terna e
+esfumadiça.</p>
+
+<p>&mdash;Diga-me se isto não é a rada d'uma cidade de dois ou tres milhões de
+habitantes, chave do comercio atlantico, e capital soberana da Iberia
+una e congraçada.</p>
+
+<p>Eu por mim não queria saber da tal Iberia una, reconhecendo entretanto
+que o erro de Filippe <span class="smcap">II</span> impedira talvez a realisação d'um bello sonho
+de nacionalidade formidavel, enquanto na hora presente, com dois
+paizes egualmente preguiçosos e incapazes, loucura fosse ajuntar
+misérias que já dolorosas eram, separadas.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page227" name="page227"></a>(p. 227)</span> A enseada do Tejo é que verdadeiramente prendia os meus
+olhares, vasta, amorosa, em azul pallido, listrada de correntes, e com
+placas espelhadas d'agua morta. Algum vaporeto passava para
+Aldegallega ou Barreiro, fumando distrahidamente o seu charuto; alguma
+falúa ou barco de pesca desfraldava a véla de guião, quadrada,
+vermelha com a latina á pôpa, e aquelle gesto airoso, ideal, gaivotal,
+de fender a agua, patinando. Aquillo lembrava em Veneza as travessias
+para o Lido, sob os esverdeados céus do Adriatico, por uma tarde assim
+primaveral.</p>
+
+<p>Entanto, por uma escadaria de balaustres, tinhamos descido ao jardim,
+do seculo <span class="smcap">XVII</span>, todo em meandros e porticos de buxo, que de resto ha
+muitos annos ninguem tosquiava, e canteiros adentro mantinha uma
+desordem d'arbustos sem trato, e hervas bravas crescendo á doida, como
+nos pouzios da devêza, ao Deus dará.</p>
+
+<p>&mdash;E de leitura hespanhola, como vamos? Aventurei varios nomes de
+modernos: Pio Baroja, Benavente, Rusiñol, Felippe Trigo, Antonio
+Palomero, Anton del Olmet, Lopez Barbadillo, Ciges Aparicio, Isaac
+Muñoz, que ella pareceu escutar sem conhecer.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page228" name="page228"></a>(p. 228)</span> &mdash;E Juan Valera? interrogou.</p>
+
+<p>&mdash;Conheço.</p>
+
+<p>&mdash;Lopez d'Ayala?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Campoamor, Nuñez d'Arce, Menendez Pelayo...</p>
+
+<p>&mdash;Um pouco, um pouco.</p>
+
+<p>&mdash;Pereda, Galdós, La Pardo...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sim, tudo isso li.</p>
+
+<p>&mdash;<i>Hombre</i>, exclamou ella com uma acerada ponta ironica. <i>Es usted un
+portugués mui sabionado.</i></p>
+
+<p>&mdash;Que quer! A lingua hespanhola tem para mim um prestigio e uma musica
+que me não canço d'ouvir e de gostar. É uma lingua de guerreiros e
+d'oradores, para hymnos e para suplicas, compativel com a expressão de
+todos os estados emotivos. Ella sorrindo, repetia o proloquio:</p>
+
+<p>&mdash;Falla francez ao teu cozinheiro, inglez ao teu cavallo, alemão ao
+teu cão, e hespanhol á mulher que mais te agrade...</p>
+
+<p>Tinhamos vindo ao cabo do jardim, e por uma porta de ferro chegamos a
+um grande trecho murado de floresta ou bosque, onde a vegetação
+deixada ao esbracejar liberrimo de vint'annos, apagava o torcicollo
+das ruas, <span class="pagenum"><a id="page229" name="page229"></a>(p. 229)</span> emaranhando para todos os lados, labyrinthos de
+folhas e de ramas.</p>
+
+<p>Aquillo lembrava o <i>Paradou</i> da <span class="smcap">Faute</span> de Zola, com a noite glauca dos
+macissos, as lucarnas das cópas deixando feixes de luz zebrarem
+d'esmeraldas liquidas os fundos. Uma aluvião de melros silvava, uma
+guarda de honra de passaros respondia.</p>
+
+<p>Era recolhido, intimo, profundo, e ouvia-se, não sei onde, um tenue
+telingar d'agua corrente. E eu lhe disse erguendo a vista áquella
+intensa ablução d'asas e folhas:</p>
+
+<p>&mdash;Aqui se vive em plena natureza.</p>
+
+<p>E ella tornou:</p>
+
+<p>&mdash;Não. Aqui se morre em plena soledade.<span class="smaller"><a href="#toc">(Voltar ao Conteúdo)</a></span></p>
+
+
+
+
+<h2><span class="pagenum"><a id="page231" name="page231"></a>(p. 231)</span> A EMINENTE ACTRIZ</h2>
+
+
+<p>Cahiu o panno entre chamadas ovantes, gente de pé nas cadeiras,
+debruçada dos camarotes, e em chusma junto ás portinhas de sahida,
+acotovelando-se, clamando, <i>bravo! bravo!</i> A geral estava deserta, um
+grupo ao meio da sala berrava, <i>fóra o auctor</i>.</p>
+
+<p>E quando elle veio de casaca, agradecer com aquelle seu geito modesto,
+muito risonho e de rosa amarella na botoeira, a sala aqueceu ainda,
+houve bravos, e o Moreira das magicas, enfiando o <span lang="fr"><i>pardessus</i></span>, disse
+para um desenterrado de luneta, com a sua bella emphase de auctor
+laureado:</p>
+
+<p>&mdash;Vae longe, este camello, sim senhor, vae longe.</p>
+
+<p>&mdash;É possivel, opinou seccamente o desenterrado, e a cabecita em
+pyramide, com pellos <span class="pagenum"><a id="page232" name="page232"></a>(p. 232)</span> de rato sobre a testa, pendulava-lhe
+para um lado e outro, desengonçada sobre o gasnate côr de moka. E
+puxando amigo Moreira de parte, olho acceso em iras biliosas, o
+<span lang="fr"><i>plastron</i></span> descosido, disse alli que a peça não tinha fundo, que o
+estylo era rocambolesco, e toda a litteratura devia mirar um intuito
+critico, sem o que ficaria um brinquedo de gaiatos. E que se em
+Portugal o publico desprezava litteratos, e podia passar sem o que
+elles exgregavam nas gazetas, a razão era taes litteratos serem mais
+ignorantes, ou menos intelligentes, que a multidão a que se pretendiam
+impôr.</p>
+
+<p>&mdash;Que damnada lingua me sahiste! dizia Moreira das magicas, com
+pancadinhas d'applauso no hombro do desenterrado.&mdash;Baixava a voz para
+insuflar, que em parte assim era. Todavia exceptuava muita gente. Ahi
+está o José Maria, por exemplo. O nosso Mendes Leal, tão conceituado
+lá fóra. E este, e aquelle...</p>
+
+<p>&mdash;Eu creio bem, argumentava o da luneta, que no meio d'esta sucia, por
+engano, ha talento uma ou outra vez. Mas diabo! Não estamos já nos
+<i>soláos</i> do Serpa, nem no <i>Conde Alarcos</i> do Cunha. Dêem alguma coisa
+mais do que phrases ôcas, meus senhores! A formula <span class="pagenum"><a id="page233" name="page233"></a>(p. 233)</span>
+litteraria é apenas vehiculo da ideia, e não pode tornar-se em
+preoccupação, como ahi estamos vendo. Mais! Quer-se em toda a obra um
+ponto de vista elevado e philosophico que a domine. Eis o que não ha
+n'essas mioleiras, meu filho! Veja-me vossê o Pimentel, que esses
+localistas parvos andam a proclamar nas gazetas. Idiota! E vou-lhe ás
+ventas; vou! E o menino Felix de Macedo, mais o cretino Fernandes!
+Ocos que nem uma cabaça, immortaloides de redacção, sem testa, nem
+estudo, nem officio. Que tenho eu que vêr com tal romance ou tal
+drama, com tal phenomeno scientifico ou tal processo de pintar, se
+estas coisas me apparecerem abstractamente, sem uma orientação que as
+filie e correlacione n'uma dada corrente&mdash;não sei se me faço entender?</p>
+
+<p>Com o largo aceno de quem trunca pela base a tolice humana,
+estabelecia&mdash;que tudo vinha sob dependencias e condições, facto moral
+ou facto physico. Tal livro é effeito do livro anterior, e causa do
+posterior, como tal estado politico ou mental, derivam do estado
+anterior, e preparam o que depois vier. E desgraçada a geração que por
+sua anarchia psychica não sabe fazer progredir <span class="pagenum"><a id="page234" name="page234"></a>(p. 234)</span> um systhema,
+assimilar um código de doutrinas, desenvolver e tornar perfeito
+qualquer ideal em arte.</p>
+
+<p>Ás vezes, é o povo que por ignorancia repudia a lei nova; cabe aos
+escriptores, aos homens politicos, e aos artistas, uma lucta sem
+treguas em prol da conversão ao credo ambicionado. Eis o naturalismo
+expulsando da arte os romanticos, em meio das repugnancias geraes.</p>
+
+<p>Mas acontece&mdash;e o desenterrado levou á parede o Moreira das magicas,
+enfiando-lhe um dedito successivamente pelas diversas casas do collete
+branco&mdash;acontece um bello dia, haver mais illustração na massa que no
+grupo dirigente d'artistas e pensadores. Em tal caso, a massa vota
+legitimamente ao desprezo aquelles nigromantes. É o que se está dando
+entre nós co'a politica e litteratura. A corrupção dos partidos dá de
+si...</p>
+
+<p>Moreira escancarava a queixada num bocejo desopilante: quando uma
+rebanhada de talentos da geração novissima furou por entre os
+conversadores, ao tempo do desenterrado citar Beaumarchais, Ben
+Johnson, e aquelle pobre Molière, coitado! No entanto o theatro
+esvasiava ao de manso. A ribalta extinguira-se, <span class="pagenum"><a id="page235" name="page235"></a>(p. 235)</span> os da
+orchestra enfiavam os instrumentos em saccos de chita e erguiam as
+golas para sahir. Aqui e além, nas ultimas ordens, um arrastar de
+cadeiras soava ainda, vozes chamando, risos altos, e um deserto
+fazia-se na sala, sob a agonia do lustre, e o cynismo do relogio que
+marcava cinco horas, havia mais de sete annos.</p>
+
+<p>Fôra a primeira representação dos <i>Dois Rivaes na Côrte</i>, quatro actos
+de capa e espada escorrendo phrases feitas n'um entrecho infantilmente
+pavoroso, onde as personagens se davam o <i>vós</i> comparando-se ao
+systema planetario, e reforçando os lances de effeito, com allusões
+aos phenomenos atmosphericos e biblicos mais assustadores... o raio em
+sua furia indomita, o diluvio, pragas do Egypto, miseria de Job...
+havendo um monologo sobre a capa de José, que os <span lang="fr"><i>fauteuils</i></span> tinham
+mimoseado com surdos bravos d'adhesão. A peça era estreia de Rogério,
+Rogério Vasques, primo da Alcina, moço que por tão raro trabalho
+tomára definitivamente logar <i>na phalange dos nossos mais talentosos
+escriptores, pelo que felicitamos o nosso amigo</i>, diziam os jornaes.
+Um triumpho completo, os <i>Rivaes na Côrte</i>! Critico Borbas, do
+<i>Seculo</i>, tão exigente <span class="pagenum"><a id="page236" name="page236"></a>(p. 236)</span> em coisas de palco, parado no camarim
+da Velledo, recitára com voz lacrimejante, no fim do acto, aquelle
+bocado da separação&mdash;<i>parto, o coração me fica suspenso n'estas
+paredes, testemunhas de tanto perdido amor! Só vós, ó Conegundes de
+minha alma, conhecereis a fundo este báratro d'angustias, que como o
+universal diluvio</i>...</p>
+
+<p>Ah, mas como o Taveira dizia aquillo!</p>
+
+<p>Dias antes, toda a litteratura em evidencia recebera do joven
+dramaturgo um amavel convite de ceia na sala grande do <i>Central</i>, á
+hora de acabar a primeira representação. Tinha sido um regosijo
+fremente. Aquelle Vasques, bello moço, que talento maleavel, e tão
+instruido! Com que então Champagne fino? Um pouco prejudicado em
+preconceitos d'escóla talvez.</p>
+
+<p>Genial Pirralho, todo cheviote amarello, bigodeira mephistophelica e o
+grande ar de Paris, tinha mesmo dito&mdash;é um temperamento. E o <span lang="fr"><i>menu</i></span>
+passava de bocca em bocca.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Deixando Alcina, Rogério não foi mais o bonifrate de provincia com
+preoccupações de Chiado, ares de saude camponia, e ingenuidades
+<span class="pagenum"><a id="page237" name="page237"></a>(p. 237)</span> de primeiro amante. Gastára no convivio d'actores, janotas,
+litteratos, cocheiros, e femeas avariadas, toda a bruteza sincera e
+boa que na educação caseira adquirira. E hypotecando as ultimas
+migalhas de herança, dormindo fóra, bebendo e jogando ás noites,
+tornava-se pedante, depravado, amarello e pulha.</p>
+
+<p>O theatro d'opereta em que primeiro Alcina estivera escripturada,
+tinha sido para ambos a melhor escóla pratica de malandrice e usura.
+Alli, cada figurante de scena ou frequentador de camarim, dir-se-hia
+passar os dias na cogitação de explorar quem apparecesse á noite com
+cara de tolo. Apenas Rogério, tendo a prima por amante, começou de
+acompanhal-a ao theatro todas as noites, e a fazer na ausencia d'ella,
+a quem chegava, as honras do camarim, viu-se logo rodeado por uma
+série de ratos de bastidor e polvos de redacção&mdash;gente faminta,
+intrigante, educada a comboiar boatos, cartinhas, subscripções,
+pequenas calumnias de casa d'um para casa d'outro&mdash;que ia girando
+n'uma baixeza d'inveja á roda dos charutos fumados, das correntes de
+relogio, impingindo bilhetes de beneficio, offerecendo-se para
+alcovitar, com <span class="pagenum"><a id="page238" name="page238"></a>(p. 238)</span> pormenores de creada sobre as pernas d'uma,
+os amigos d'outra, os seios d'esta e os cabellos d'aquella... todo o
+arsenal de canalhice exigido em curso para tão equivoco mister.
+Desengalfinhado d'esta tropa á custa de generosidades forçadas,
+desprezos, empuxões, até soccos, Rogério teve de rechaçar depois uma
+ciganagem d'outro genero, amabilissima, risonha, com emphases altivas,
+articulando as palavras musicalmente, pondo luvas frescas todos os
+dias, e tendo o nome a ouro nos annaes das lettras e das artes. Eram
+os grandes actores da cidade, todos os generos e theatros, paes
+nobres, ingenuas, galãs, graciosos&mdash;tenores tysicos, barytonos sem
+voz, e essa variedade neutra de comediantes cognominados entre nós de
+<i>conscienciosos</i> ou <span lang="fr"><i>diseurs</i></span>, que serve para tudo e goza a estima dos
+auctores, em razão do merito reles que exhibe, de jámais <i>desmanchar o
+conjuncto</i>.</p>
+
+<p>Eram tambem escriptores intermedios, <i>amanuensando</i> das onze ás
+quatro, fazendo jornal das quatro ás onze, finorios chouteando na
+esteira dos gabinetes corrompidos, em faro de boa posta, louvando aqui
+a vaidade dos ministros, além atirando lama ás ventas dos adversarios,
+em eternos clamores contra a <span class="pagenum"><a id="page239" name="page239"></a>(p. 239)</span> decadencia dos costumes, mas
+rindo por dentro de tudo, tudo ouvindo, sabendo tudo, explorando com
+tudo, e exhibindo-se em publico os ares de grandeza impeccavel, que
+Vautrin recomendava aos Rastignac e de Marsay que lhe sahiam do
+ventre. Rogério amou esta camaradagem nova, que nos seus annos de
+provincia tanto admirára atravez das hyperboles dos diários. E por
+influencia de contacto, relações, letras assignadas, condescendencias
+d'Alcina, jantares, e uma bicharia d'assignaturas para publicações que
+falliam ou não chegavam a ver a luz, acordou tambem litterato certa
+manhã. Entrado na imprensa fez subir Alcina, que sem voz a esse tempo,
+debandava para o drama, já tão magra e lombricoide, que não era
+senhora d'engulir uma pilula, sem os jornaes a dizerem gravida de
+cinco meses. Esta ligação d'Alcina com o primo durou pouco, vindo a
+ser truncada apenas apresentaram Rogério á Velledo. Alcina era
+ciumenta e teimosa; um nadinha infiel além d'isso! Não resistindo ás
+furias de prazer exigidas pelo seu temperamento frenetico, a sua
+franzina e pobre organização murchava e cahia. De manhã estava côr de
+morta, seios sorvados, olheiras á bocca, olhos imbecis, e um ar
+<span class="pagenum"><a id="page240" name="page240"></a>(p. 240)</span> de prostração assustador, casado com uns reflexos glaucos,
+que raiando-lhe das fontes, aos cantos das orbitas, iam terminar n'uma
+<span lang="fr"><i>griffe</i></span> de ruga.</p>
+
+<p>E vinte e quatro annos apenas!</p>
+
+<p>&mdash;Não bebas, muitas vezes lhe dizia Rogério, vendo-a engulir entre
+chavenas de café e charutos fortes, uma quantidade de calices de
+cognac. Mas ella sempre gostando. Ora adeus! Até punha fortaleza, voz
+mais alta, o espirito vivo como um passaro. Depois tão petulante a
+beber!... A viveza com que molhava a linguinha rutilante no licôr
+esbraseado, revirando aquelles extraordinarios olhos pretos, humidos,
+audazes, cheios de ganas secretas, que a salvavam ainda pelo fluido
+calido em que ardiam, e de grandes que eram lhe faziam a cara
+pequenina!...</p>
+
+<p>&mdash;Não é tudo, disse-me Rogério uma occasião no Aterro. Beber é mau,
+mas perdoava-lhe, que diabo! Com o cognac porém, vieram os vicios
+supplementares, que de resto não aprecio nas mulheres, nem estava para
+subsidiar em proveito dos devassos que iam lá por casa. Entende vossê?</p>
+
+<p>Escrevia elle folhetins na <i>Gazeta do Sport</i>, chronica da alta-vida
+segundo a testada, e <span class="pagenum"><a id="page241" name="page241"></a>(p. 241)</span> bastante mal escripta para se crer que
+assim era. Esses folhetins fizeram-no celebre, secretario d'um gremio
+d'escriptores, successivamente premiado de Mont-Real e irmão dos
+terceiros. Centros de litteratura amena e critica austera, livrarias
+com cavaco e sociedades com bilhar, brindaram por elle. Deitou
+almanach com bocadinhos democraticos, e um juizo do anno em que era
+ameaçado o throno. Lindôso, que era quebrado, e ás bancas do Martinho
+maravilhava localistas myopes e uma quantidade d'aspirantes,
+abraçava-o em publico com palavras de pompa. E por duzias, os albuns,
+os semanarios e jornalecos de districto, reclamavam trechos d'essa
+penna hilariante que gottejava sol peninsular, ortographia sonica, e
+mesmo asneiras, querendo Nosso Senhor. Discutiam-no. Já lhe davam
+escóla e processo de factura. Era um moderado, um joven ecletico, meio
+romantico, meio positivista, com predilecções d'assumptos doces e a
+ambição das finas coisas mundanas, cheio d'imagens originaes,
+chispando mordentes graças, vigoroso e probo, tendo os nervos
+irritaveis d'uma mulher. Na frente, como chocas, os jornaes iam
+conclamando unisonos:</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page242" name="page242"></a>(p. 242)</span> &mdash;O talentoso amigo e brilhante escriptor...</p>
+
+<p>Uma das bellas organizações da Peninsula...</p>
+
+<p>Erguiam-no em rival de Lindôso, que a tantos se afigurava um prodigio
+além de toda a espectativa. Festejado Peres nem dizia sim, nem não.
+Deixar vêr! E o colossal Pirralho advertia que não era bom thuribular
+debutantes, que podiam perder-se de vaidade, imaginando-se deuses.</p>
+
+<p>E n'uma vocalisação emphatica:</p>
+
+<p>&mdash;É o defeito dos homens do Meio-Dia, onde os temperamentos são
+cálidos, e os modelos a seguir não abundam. Quando encetámos a nossa
+publicação critica, era notoria a esterilidade litteraria em
+Portugal...</p>
+
+<p>Mas Horacio fazia um passo no grupo, armado dos seus oculos de ferro,
+nisa curta, um pigarrinho erudito. E cuspilhando:</p>
+
+<p>&mdash;Systematisemos a these, conforme o proceder do meu Comte!</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Os convidados por Rogério tinham ordem de reunir no <span lang="fr"><i>foyer</i></span>, findo o
+espectaculo. A peça acabára tarde, duas da noite; e primeiro que
+<span class="pagenum"><a id="page243" name="page243"></a>(p. 243)</span> a Velledo apparecesse, tiveram d'esperar boa hora e meia.
+Emtanto falava-se da peça. Estava o melhor da litteratura e da arte. E
+faziam-se apresentações. Festejado Peres trinta annos de dramas
+historicos com applausos freneticos, rapoza velha em coisas scenicas,
+conforme corria, apresentou a Rogério o grande Aurelio, uma <i>gloria da
+scena</i>, interprete das suas creações, de quem Doux dissera n'um
+atonismo absorto:</p>
+
+<p>&mdash;<i>C'est un petit prodige, ce marmot là.</i> E a phrase ficára celebre.
+Aquella apresentação penhorára Rogério, que muito commovido, voz mansa
+agradecia com ar modesto. Além o pensador Horacio que fazia as
+primeiras carambolas na cervejaria e continuava virgem de contacto
+impuro, definia a arte segundo Comte ao Moreira das magicas e
+sainetes, emquanto Pirralho dizia a vida na <span lang="fr"><i>Comédie Française</i></span>, o
+ceremonial d'entrada no <span lang="fr"><i>foyer</i></span>, e como Croizette era a musa dramatica
+moderna. Bulia em volta a ninhada <i>d'esperançosos</i> côr de cidrão,
+ganymedes que se davam ares, corcovando a espinha e rindo alto das
+facecias do mestre, com o faro na ceia offerecida. E o mestre
+esfogueteava pela sciencia em citações vehementes, fuzilando,
+causticando, <span class="pagenum"><a id="page244" name="page244"></a>(p. 244)</span> vibrando a nota heroi-comica, que na sua proza
+fazia o delirio dos discipulos e a admiração do publico. Reinava
+grande cordealidade. Pae nobre Tiburcio, que desde o desastre da
+<i>Filha Roubada</i>, não falava ao inflexivel Borbas, veio lacrimoso
+abraçal-o pelas costas. E em volta acharam bonito, e houve beijos como
+entre damas. Rogério ia radiante por todos os grupos, abraçado,
+elogiado, n'uma effusão d'intimidade que lhe punha o coração nas mãos.
+Não se ouvia á sua passagem senão palavras quentes, bocados de critica
+enthusiastica: a maior vocação, o mais extraordinario dramaturgo entre
+os modernos, um dos maiores da Peninsula&mdash;e explendidissimo,
+scintillantissimo&mdash;e como Sardou, e como Dumas filho, e como o velho
+Augier... Os famintos tiravam o relogio, chamavam-no de parte,
+davam-lhe tu, relembrando que tinham andado no mesmo collegio, muito
+amigos sempre, não te lembras? Mas quem diria! Rogério, o 34, tão
+enfezadito de cara, cheio de zeros em <i>portuguez</i>, e sahir-se agora um
+escriptor d'aquella alçada! Elle a todos dava uma boa palavra, pedindo
+opiniões em separado sobre a peça; o que esperava era franqueza, visto
+não arder nos orgulhos <span class="pagenum"><a id="page245" name="page245"></a>(p. 245)</span> balofos de certas sumidades. Moreira
+tinha-lhe achado grande fundo historico, côr local como o diabo&mdash;sim
+senhor&mdash;e que pena terem cortado o sarau do terceiro acto! De resto
+afigurava-se-lhe D. Fagundes o seu tanto herético para uma plateia de
+damas. No theatro, na escóla e no templo, a religião primeiro que
+tudo: já Garrett o escrevera. Bem sabia que o espirito moderno... E
+muitos parabens.</p>
+
+<p>Mas festejado Peres, saracoteando a nalga roliça:</p>
+
+<p>&mdash;Meu Rogério, disse elle cingindo o dramaturgo, has-de conceder-me,
+conceder-me, que tenha a sciencia do drama historico... drama
+historico... tão descurada pelos rapazes de hoje, rapazes de hoje...
+Já o fiz saber no prologo da minha <i>Duqueza de Bragança</i>... de
+Bragança. Eu cá, escrupulosissimo no theatro. Será casmurrice, eh! eh!
+casmurrice... mania de velho; deixal-o ser!... Hein? deixal-o ser.
+Missonier, antes d'algum quadro militar... quadro militar... até
+estudava os botões dos fardamentos... eh! eh! dos fardamentos. Eis
+onde eu levo o escrupulo tambem... E o publico dá palmas... dá palmas.
+Posto isto, e como teu amigo que <span class="pagenum"><a id="page246" name="page246"></a>(p. 246)</span> sou... teu amigo... sempre
+direi que commetteste um crime de lesa historia... eh! eh! lesa
+historia... pondo compota de pecego no festim de Januario de
+Mendanha... compota de pecego.&mdash;E de chapéu alto para a nuca, as
+orelhas despegadas do craneo, o grande homem recordava um d'esses
+burros com mitra, arrancados ás <i>festas dos doidos</i>, nas cathedraes da
+Edade Média.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo correr do seculo quatorze... seculo quatorze... proseguiu elle,
+não era conhecida no reino aquella doçaria, conhecida no reino... que
+só remonta ao ultimo quartel do seculo dezeseis, eh! eh! seculo
+dezeseis... Consulta Viterbo, fr. Bernardo de Brito, o abbade Castro,
+abbade Castro... Este pormenor não é futil, como parece, futil...
+porquanto é da compota de pecego, da compota... que sáe a grande scena
+do terceiro acto, a grande scena... aliás magistral, sem favor,
+magistral! Linguagem vernacula, linguagem Herculano... lá isso sim,
+meu velho, isso sim... Falta talvez o fundo historico, eh! eh! fundo
+historico... vacillações na côr local, hein? côr local... Mas és novo,
+coisas d'estas só veem na minha edade... na minha edade. E aqui para
+nós, hein? para <span class="pagenum"><a id="page247" name="page247"></a>(p. 247)</span> nós. Vão sendo horas de manducar uma bucha,
+manducar.</p>
+
+<p>Rogério ardia por ouvir Borbas, e sobre todos o desenterrado, Lindôso
+de nome, critico d'altos processos, por muitos calumniado de precoce e
+viridente genio das raças modernas, o manitanço! Mas sentiu-se um
+<span lang="fr"><i>froufrou</i></span> de sedas no escadim doirado do <span lang="fr"><i>foyer</i></span>, e uma voz argentina
+e alta em que dominava o grave, disse duas vezes ou tres,
+risonhamente:</p>
+
+<p>&mdash;Boas noites, boas noites!</p>
+
+<p>Era a Velledo. E atraz d'ella pelo braço d'actores, maridos ou coisa
+parecida, outras actrizes se mostraram, a Laura, a Elisa, a Maria
+Freitas... Os trens esperavam á porta do theatro. Falando ao mesmo
+tempo, n'uma alegria de boa gente que alarga o coração, essa sociedade
+foi abandonando o <span lang="fr"><i>foyer</i></span>. Havia de todos os generos, modestos,
+espirituosos, eruditos, familiares, calemburistas, os de má lingua, os
+de má fama, e trambolhos lyricos, gente infeliz ao jogo e fanada de
+orgia. Aprumado e grandioso, ia Pirralho no meio dos seus discipulos,
+citando descobertas e ramos de sciencia que mais peso causavam no seu
+caco de homem celebre, pelo arrevezado <span class="pagenum"><a id="page248" name="page248"></a>(p. 248)</span> das designações,
+forçando os contrastes, e querendo achar a nota original das coisas
+por um burlesco d'encomenda. No alarde d'erudição e individualidade
+que o preocupava, as citações saltavam-lhe aos magotes, desordenadas,
+occasionaes, n'um fogo d'artificio a duas côres. Ás vezes calava-se
+interdicto, circunvagando as lunetas, na desconfiança de haver sido
+vulgar como a outra gente. Mas rodeavam-n'o para algum paradoxo
+applaudido, farejavam-n'o os discipulos por todos os lados, inquietos,
+com a gargalhada prestes, tendo nos olhos piscos o deslumbramento das
+gravatas do grande homem, os seus sapatorros inglezes, e o largo gesto
+que parecia ceifar de roda as mediocridades que de longe vinham
+recolher palavras da sua bocca de semi-deus.</p>
+
+<p>De seu lado, o desenterrado Lindôso abotoava modestamente o casaco de
+botões recomidos e cotovellos surrados, não tendo ainda <span lang="fr"><i>coterie</i></span>; e
+humilde, olho aceso, faulhava d'inveja sobre os que iam de braço com
+femeas, sentindo as primeiras seccuras do amor vicioso. Então foi um
+movimento alegre de partida, um borborinho de risos e vozes que já não
+procuravam entender-se. As senhoras carregavam <span class="pagenum"><a id="page249" name="page249"></a>(p. 249)</span> sobre a
+fronte os capuzes das <span lang="fr"><i>sorties-de-bal</i></span>, rendas de froco, ou simples
+tules picados de abelhas de oiro; e pela escada, apanhando os vestidos
+n'um desleixo provocante, mostravam meias de seda bordadas de lado, e
+esses primeiros lineamentos da perna, que lembram contornos de jarra
+etrusca, pela expansão esvasada e alta das curvas. Laura, uma loira
+redondinha que findava o primeiro amante, borboleteava pelo braço do
+festejado Peres, cujos sessenta mantinham pretensões ainda de
+galanteria e elegancia. E a cada passo ella deitava-lhe a cabecinha no
+hombro, mostrando os dentes miudos. Maria Freitas era uma grande
+morena, esqueletica e muda, a quem davam papeis de velha, para que
+sempre tivera vocação. Não tinha amor permanente, e como quartos
+d'estalagem, alugava a quem vinha, o seu coração hospitaleiro. Entanto
+as collegas toleravam-na, porque apesar de tudo era util, e pelo
+contraste fazia as outras virtuosas. Declinando nos quarenta e cinco,
+os olhos de Elisa começavam a turbar-se, cercados de pequeninas rugas
+nas palpebras, como os dos papagaios moribundos: e apenas lá longe,
+nos dias de crise frenetica, se incendiam ante collegiaes <span class="pagenum"><a id="page250" name="page250"></a>(p. 250)</span>
+frescos, d'ar timido e riso doce. Era uma gorda pintada de branco,
+cheia de signaes, grande talento de comedia, e tendo pelas mulheres o
+desprezo d'um homem. E o cortejo ordenava-se, desfilando direito á
+rua. Rogério deixára-se ficar, na esperança de dar o braço á Velledo,
+que tambem aguardava o quer que fosse. E quando ia offerecer-se, viu-a
+voltar-se contra o brasileiro, pôr-lhe no hombro a mãosinha calçada em
+luva de canhão molle, a dizer-lhe com a bella voz de scena:</p>
+
+<p>&mdash;O meu amigo será bastante bom para me deixar o seu braço?</p>
+
+<p>Ficou attonito a semelhante desfeita! Quanto por ella tinha feito era
+sem preço&mdash;a ceia, o drama, as <span lang="fr"><i>toilettes</i></span> d'apparato... E enxotado!
+Mas jurou alli mesmo uma desforra estrondosa. Quando chegou á rua, já
+toda a sociedade se estava armazenando nos trens. Elisa abandonára os
+velhotes que a tinham comboiado escada abaixo, para n'uma velha tipoia
+se enroscar entre os seus ricos frangãos da geração moderna, aos
+empurrões em pae Tiburcio, e mandando á fava a historia brejeira que
+elle insistia em contar-lhe. Maria Freitas installou-se nos joelhos de
+<span class="pagenum"><a id="page251" name="page251"></a>(p. 251)</span> Moreira, n'um pequeno <span lang="fr"><i>coupé</i></span> d'aluguer, á direita do
+festejado Peres, e á esquerda d'um revolucionario côr de melão, que
+insubordinava Alcantara com discursos socialistas. No meio da rua,
+mordendo o bigode com melancholias de birrento, Rogério procurava
+companhia de mulher, olhando quem se ajoujava nos trens. Viu Borbas
+estender os braços de dentro d'um carro, e puxar Laura, a quem genial
+Pirralho, dizendo-se Hamlet, chamava a sua pallida Ophelia. De duas
+carruagens ou tres, vozes chamavam brejeiramente a rapariga; e como
+doida, ella ria de cabeça para traz entre os desavergonhados,
+debatendo-se na furia dos abraços. Hirto como um lacaio, o brasileiro
+escancarava a portinhola d'um bello carro de noite, servido por
+cavallos claros, e moços de taboa aguardando de pé que ella entrasse.
+A eminente actriz circunvagava a vista em procura d'alguem. Como
+Rogério se tinha approximado um pouco, á semelhança d'estes cães
+batidos que veem de rastos para o dono, ella, n'um rir cascalhado,
+disse-lhe assim:</p>
+
+<p>&mdash;Ouvi que não tinha gostado do meu desempenho no segundo acto. Um
+homem difficil, o senhor. O monologo então, detestavel! Mas <span class="pagenum"><a id="page252" name="page252"></a>(p. 252)</span>
+podia ter-m'o ensaiado, com o seu ponto de vista.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, atalhou o pobre auctor balbuciante, eu não disse...</p>
+
+<p>&mdash;Se a peça tem musica, foi ella dizendo com volubilidade, quem fazia
+uma creação unica, por certo, era a prodigiosa Alcina. Sua prima! E a
+proposito. Que faz <i>isso</i> agora?</p>
+
+<p>&mdash;É cruel o que está a dizer.</p>
+
+<p>&mdash;Justiça ao merito e mais nada. Assim, prejudiquei-lhe o debute...
+Que infeliz eu tenho sido com os genios d'incubação demorada! Talvez
+inda arranje um remorsosinho por tanta incapacidade.</p>
+
+<p>&mdash;Lá se lhe é agradavel fazer-me soffrer...</p>
+
+<p>&mdash;Diga á Laura que tem logar aqui. Ella só&mdash;e como elle aventurava
+desculpas n'um tom de collegial submisso:&mdash;mau! perdemos tempo.</p>
+
+<p>Rogério foi chamar a ingenua, que parou logo de rir, e sem dar boas
+noites aos que pensavam detel-a, veio lesta anichar-se no carro da
+Velledo; e foi em surdina uma altercação entre as duas. O brasileiro
+atirou a portinhola, e rodaram sem fazer caso de Rogério. Quando um
+pobresinho gemeu ao pé do dramaturgo:</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page253" name="page253"></a>(p. 253)</span> &mdash;E eu?&mdash;Era o pensador Horacio tiritando sob a nisa rapada,
+com olhos de fome e gestos vasios de mãos.</p>
+
+<p>&mdash;Que é? perdeu o capote? disse Rogério distrahidamente.</p>
+
+<p>&mdash;Não acho logar, meu bom amigo.</p>
+
+<p>&mdash;Pois enfie por ahi, grande massador.</p>
+
+<p>&mdash;Ponhamos a questão nos devidos termos, ia começando o desgraçado.
+Enfiar seria...&mdash;mas Rogério agarrou-o pelos fundilhos, ergueu-o do
+chão vigorosamente, e arrumou com elle para a almofada d'um cocheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Nós cá, pronunciou Lindôso dando o braço ao dramaturgo, iremos a pé,
+ha tempo de sobra. E venha de lá um charuto ao seu amigo, venham de lá
+dois!</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Não me dirás, começou elle, porque razão pouzam com tamanha filaucia
+estas sirigaitas d'actrizitas, que segundo parece, fazem a honra de
+ter por mim o mais tocante desprezo? Que diabo! Antinoüs não era
+positivamente meu pae. Mas sinto-me bastante feio para ser sympathico
+a uma mulher; e a lingua em que solicito d'ellas algum favor
+pequenino, <span class="pagenum"><a id="page254" name="page254"></a>(p. 254)</span> pequenino, é um portuguez todo metaphoras côr de
+ceu, e com o agridoce das ginjas garrafaes. Já digo, é-me odiosa a
+meia mascara. Mulher completamente honesta, ou então mulher
+completamente perdida. Nada de meios termos! Contempla agora tu o
+monstrosinho defecante que se chama a femea dos nossos palcos, especie
+de tatu dessorado e desgeitoso, que nem arte põe no prazer, nem teve a
+coragem de se conservar intacta de culpa. Borbas garante, que nunca
+alguem primiu polpa de actriz luzitana, donde não sahisse logo
+algodão, palha de centeio ou cautchu. Olha que ha-de ser do clima.&mdash;E
+depois de um silencio&mdash;Dize cá. De que ceu artistico choveu esta
+Velledo, a quem dizem tanta coisa em superlativo? Mas tem o ar d'uma
+maritornes, essa dona, meu filho! Hombros, talvez, não discuto... Mas
+como artista, é uma tragica de feira. Mulher boa para sophá d'um
+pernambucano. E concedamos-lhe que encha Alpalhão d'assombro. Mas
+d'ahi ao talento, que insondavel abysmo vae!...</p>
+
+<p>&mdash;Eis o que eu digo tambem, notou Rogério, picado.</p>
+
+<p>&mdash;Pois meu filho, o asteroide dispõe do mais quantioso orgulho, que
+tenho visto <span class="pagenum"><a id="page255" name="page255"></a>(p. 255)</span> fazer teia em cabeça oca de mulher. O modo de
+receber então. Lembra a rainha Dobrada, esposa de S. M. Termo tinto,
+dando beijamão aos aguadeiros. Eu vivo retirado, e não tinha ainda
+podido escutar tamanho obelisco dramatico. A tua peça arrastou-me, não
+admira, arrastou-me. Pois querido, agradece-lhe, estragou-te a obra,
+comprometteu-te, achatou-te. Cuidas que és ainda o Vasques? Mas não!
+Estás feito n'um pataco macanjo.</p>
+
+<p>E como o outro ria, o desenterrado proseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;O segundo acto então, fez-t'o ella em frangalhos. Que falta
+d'intenção, que <span lang="fr"><i>gaucherie</i></span> de piso scenico, que berros e que
+tregeitos de maritornes! Castello Picão e Rua das Trinas <span lang="fr"><i>jouant la
+duchesse</i></span>. E todavia ha n'esse acto um monologo, artificial como
+reconstituição historica, porém habilmente instrumentado como
+crescendo d'estylo.</p>
+
+<p>&mdash;Ah, reparaste? disse o outro animando-se. Estragou-m'o ella. Imagina
+que acaba de me passar uma sarabanda em fórma, só de me vêr frio no
+fim do segundo acto. Sabe que me faz doido de desejos, abusa d'esta
+fraqueza, e dia por dia, hora por hora, me tortura. <span class="pagenum"><a id="page256" name="page256"></a>(p. 256)</span> Se lhe
+vou dizer qualquer coisa, é capaz de não representar mais a peça.</p>
+
+<p>&mdash;Eu a arranjo, deixa tu estar.</p>
+
+<p>&mdash;Diabo! não lhe vás para ahi dizer...</p>
+
+<p>&mdash;Homem, não ponhas a tua cubiça pela femea acima do teu amor pela
+arte. Ou se é artista ao sacrificio, ou se muda de rumo. Zurzamos esta
+corja, que ha tudo a ganhar com a campanha. Porque emfim! Dirigimos
+nós ou não dirigimos a opinião? Sendo assim, não te parece crime sem
+fiança estarmos tolerando a desmoralisação que ahi se vê por todos os
+ramos litterarios? Mas onde vai isto parar? A nossa lingua acanalhada
+d'estrangeirismos parvos e inuteis. O bello ideal de Garret, colhido
+no elemento tradiccional, posto de banda. Um tropel de cavalgaduras
+colligadas pelo rèclamo, tolhendo o passo aos talentos validos.
+Litteratura ingloria, atravessadiça e somnambula. Litteratura filha de
+paes incognitos. Peste! insistia, cuspindo, o desenterrado&mdash;e
+animando-se:</p>
+
+<p>&mdash;O quadro é flagrante, e não necessita de Taines nem Paulos Bourgets
+para o tracejar. Basta vêr o que se passa. Por toda a parte jovens
+espinafres nos declaram em sonetos e odes, como acabam de dissecar as
+amantes, e <span class="pagenum"><a id="page257" name="page257"></a>(p. 257)</span> deitar por terra as religiões e as sociedades. Na
+mascarada dos poetas originaes (supponhamos) vão uns com dominó de
+Byron, outros de Musset, Baudelaire, Heine ou Coppée. Sahem do
+collegio já desesperados, blasphemantes, com o <i>fatal amor</i>, as
+ambições e os cynismos dos caracteres opprimidos pelas ferocidades da
+vida social, que á nascença lhes houvesse esmigalhado os rompantes.
+Alguns deitam-se a interrogar a historia, philosophias, podridões de
+sepulchros...</p>
+
+<p>Pensadores que não pensam nada: archeologos capazes de reconhecer
+etruscos nos cacos que os barris do lixo patenteiam á porta das
+escadas&mdash;e apenas um ou outro nome clareia na bancada onde esphacelam
+uns de cachexia, e idiotisam outros na adoração da propria <i>chateza</i>.
+Necessario pôr em armas um forte cordão de tropas, que preserve d'um
+tal contagio o resto da gente limpa. Por mim, insurjo-me ámanhã: os
+valentes que me sigam! O theatro sobretudo, ergamol-o da bestificação
+em que jaz. Se não ha quem produza bom, resuscitemos os velhos, como
+em França. A <span lang="fr"><i>Comédie</i></span> dá Molière, Racine e Corneille duas vezes por
+semana. O mesmo nas <span lang="fr"><i>matinées</i></span> do Odéon. Não prestam os artistas? É
+derribal-os, reconstruil-os, <span class="pagenum"><a id="page258" name="page258"></a>(p. 258)</span> ou educar artistas novos.
+Forçados a dezenas de papeis differentes no espaço d'uma <span lang="en"><i>season</i></span>, os
+actores não profundam papel nenhum. Os nossos escriptores de theatro,
+por outro lado, entretidos a esquissar palhaçadas sem graça nem
+coherencia, estão inaptos para traçar um typo de fortes linhas e
+energia contornadora, que o comediante revista e agite co'a sua
+personalidade. E chegamos a isto&mdash;Borbas empunhando o sceptro da
+critica dramatica, e o borrachão do Peres arvorado em, galvanisador da
+historia no palco portuguez. A culpa teem-na vossês&mdash;distinguindo
+actores que nem sabem virgular o papel, formando <span lang="fr"><i>traine</i></span> nos camarins
+das estrellas faceis, indo de rastos para os comicos lhe representarem
+as peças: tolerando n'uma palavra, o jugo dos idiotas coifados de
+pontifices. Inda mais. O espirito das plateias está grosseiro: pouca
+vibratilidade, nenhum prazer ante as finuras do dialogo, emoção n'uma
+só corda... D'onde resulta que a <span lang="fr"><i>ficelle</i></span> mais decrépita, um berro
+d'imprecação, um esgare terrifico no fascias, qualquer mutação vocal
+ou passo enfatico contra o tyranno, alarmam a turba e tocam a rebate
+no sino grande da ovação. Tudo que fôr delicado, nervoso,
+reconditamento ironico, <span class="pagenum"><a id="page259" name="page259"></a>(p. 259)</span> escapa a essa frandulagem
+<span lang="fr"><i>d'arrière-boutique</i></span>. Eis o resultado de trinta ou quarenta annos
+d'arte roubada aos dramalhões da <span lang="fr"><i>Porte-Saint-Martin</i></span>, mal traduzida,
+mal representada, mal criticada; elaboração sezonatica
+d'escrevinhadores que não souberam comprehender a obra inicial de
+Garrett, e continual-a, muito menos. Em França, o theatro romantico,
+brilhante e fecundo, inda agora impera, e está truncando a via ao
+naturalismo no palco, attenta a persistencia do gôsto publico pelas
+violencias dramaticas, pelo talho geometrico dos actos, e essa rara
+habilidade no <span lang="fr"><i>savoir faire</i></span> que caracterisou sempre a escóla, desde
+Casimiro Delavigne a Feuillet e Dumas pae. Não dá a impressão d'um
+trabalho de genio, esse theatro, mas é cheio d'arte e vigor, e
+comprehende-se a febre que o incende, e lateja-se na incoherencia e na
+furia que o convulsionam. Sardou e Dumas filho representam a
+transição, inda dubia e pallida, para o naturalismo continuador de
+Molière e Ben Johnson, d'onde brotará talvez o jacto arterial que
+avivente a scena, decadente em nossos dias.</p>
+
+<p>&mdash;Mas os novos... tornou Rogério afagando na mente o drama que fizera.</p>
+
+<p>&mdash;Entre nós levaria a palma quem soubesse <span class="pagenum"><a id="page260" name="page260"></a>(p. 260)</span> continuar Garrett.
+Somos um povo sem drama intimo no presente, um povo cuja vida não tem
+caracteristicos, e onde os temperamentos fallecem d'originalidade.
+Quadro de natureza morta. Por conseguinte, o nosso theatro terá de
+viver do passado. E que passado! Artista que o assimile e insculpa
+sobre a scena, precisa ser ao mesmo tempo colosso e homem de genio,
+pois tem de crear figuras mais altas que a flexa de Strasburgo. Queres
+a verdade? Palpei hombros de titan no teu talento, esta noite. Só tu
+poderás resuscitar o nosso palco.</p>
+
+<p>Rogério tinha-lhe logo cahido nos braços, lacrimoso, dizendo coisas
+commovidas.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que trabalho de cem sabios e vinte artistas, se quizeres levar a
+cabo essa incontestavel vocação! Terás de estudar a historia pedra a
+pedra, ruina a ruina, figura a figura, pergaminho a pergaminho;
+critical-a, sentir-lhe o lado artistico á luz d'uma philosophia
+profunda; insuflar-lhe a alma, calor, pulsação; e ir pelas ruas
+depois, em busca de comediantes, a arrancal-os d'onde elles estiverem,
+pelas officinas, pelas prisões, cavando batatas na courella d'um
+padre, ou vendendo agulhas com o pregão d'um belfurinheiro. <span class="pagenum"><a id="page261" name="page261"></a>(p. 261)</span>
+E educal-os por tua conta, á tua vontade, sob o teu ponto de vista e o
+cyclone da tua inspiração. Para que ao vermos em scena as tuas
+figuras, rei, conspirador, frade, princeza e pagem, não tenhamos de
+berrar&mdash;bem vos conheço, heroes de tal seculo! Esse ahi é o Miranda,
+que tem varizes nas pernas e bebe aguardente na tasca do <i>Ferra
+Moscas</i>; essa altiva rainha esmagando o cofre de perolas d'el-rei de
+Castella, é nada menos que a Joaquina, que leva pancadas do amigo, e
+ata as meias com uma guita, a meio da barriga das pernas. Passa fóra,
+ó reinadios! Mas sem lisonja, sem a menor lisonja, a tua peça respira
+enormissimo ta... pois esqueci-me de pagar os juros na <i>Exactidão</i>
+esta tarde, disse o desenterrado subitamente, quando iam a voltar para
+o Alecrim. Leilão amanhã.</p>
+
+<p>Perco tudo, nao tem que vêr.&mdash;Era a roupa branca da mulher, o seu
+vestidito de sahir, coitada!... e chailes, um prussiano acabado de
+fazer... Tudo para pagar remedios de botica. Terrivel coisa a miseria!
+Dias de jantarem café. Se emprestasses quatro libras até amanhã...</p>
+
+<p>A assaltada fôra um tanto brusca, pois Rogério parecia lento em
+esportular a quantia <span class="pagenum"><a id="page262" name="page262"></a>(p. 262)</span> implorada. Então começou o desenterrado
+uma cantilena gosmada entre o cuspilhar do charuto, que ora se perdia,
+em divagações lyricas, ora habilmente voltava a frizar certos detalhes
+de intuito prático. E disse as duras precisões do seu lar, essas
+grandes batalhas tenebrosas da miseria que não pede esmola, e os
+frenéticos sacrificios do talento amordaçado pelas conspirações do
+silencio. Rogério inda duas vezes fez&mdash;homem, é que... homem, é
+que...&mdash;mas engasgava-se, achou-se somitego, considerar-se-hia odioso
+se recusasse aquella miseria a um amigo; e ao fim de dez minutos tirou
+a bolsa.</p>
+
+<p>&mdash;Quatro é que tu dizes, não?</p>
+
+<p>&mdash;Ou cinco... ou seis... ou sete... ia dizendo Lindôso, e Rogério
+deixava cahir cada moeda por sua vez&mdash;talento, muito talento expendido
+a mãos plenas pela tua peça. Lá isso! Selvageria, furias
+shakesperianas, sim! A vertigem da execução prejudica sempre a lucidez
+do problema. Cinco... seis... É o sonho tenebroso e dantesco, com
+sobresaltos e recahidas, que sacode pelos hombros os personagens do
+Hugo. Um positivista, juntava elle n'um riso pallido de caloteiro,
+deve proceder com mais sangue frio. Sete... obrigado, salvaste-me.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page263" name="page263"></a>(p. 263)</span> &mdash;Vê se queres mais, menino...</p>
+
+<p>&mdash;Não. Outra vez. De todo me tinha esquecido pagar esta
+insignificancia. Deita mais esses meudos. Os pequenos precisados de
+botas... Diz que querem vêr a tua peça. Oh a infancia! E fechou a mão
+que estendera ao dinheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Verás o meu artigo. Comparo-te aos mestres, não has-de ter razão de
+queixa. E subiu á casa de prego, que era na sobreloja, á esquina, com
+a sua lanterna de tres gumes, dizendo: <i>Exactidão, penhores, juro
+modico</i>, emquanto Rogério esperava mordicando o charuto.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Dias e mezes correram, sem que realmente as relações de Rogério com a
+artista adeantassem muito. O pobre auctor sentia-se exhausto de
+ceremonial, perdia tempo em declarações, não largava o camarim com
+presentes de flôres e versos da melhor fabrica; mas fitando a grande
+Velledo nas pupillas, não via n'ellas fuzilar essa scentelha brusca
+com que a mulher reclama a intimidade de um homem. E dia a dia, como
+ella lhe escorregava dos braços, como uma cobra, cada vez mais
+astuciosa, <span class="pagenum"><a id="page264" name="page264"></a>(p. 264)</span> o desejo d'elle parecia congestionar-se
+d'infrenes ardores, a cada repulsa soffrida. Ia sendo tempo de se pôr
+á vontade com ella, de se conhecerem de perto&mdash;Rogério tinha pouco
+geito para lunatico. O amor platonico era irrisorio á sua alma de
+provincia, positiva em negocios, e acostumada a satisfazer de prompto
+os apetites que lhe vinham. Por mais porém que fizesse, para aos
+frequentadores do camarim parecer na intimidade da artista, não ouvia
+rosnar em volta, da supposta ligação. Ella via-o chegar como aos
+outros, apertava-lhe a mão com um pequeno riso, fazendo telintar os
+braceletes.</p>
+
+<p>&mdash;Bem, meu caro?</p>
+
+<p>E continuava a palestra interrompida. Depois a correcção exigida ao
+penetrar n'aquelle camarim. Vinha-se de cabeça descoberta, cortejal-a
+com grandes reverencias. Os homens não fumavam. Uma palavra familiar,
+uma graça mais núa, transmutavam na côr as iris da divindade. E
+nenhuma familiaridade antes de se ter sido apresentado com as formulas
+mais puras do estylo. Porque era de saber que se tratava com uma
+mulher superior, a primeira actriz portugueza, astro, deuza, musa do
+drama, Rachel, Sarah, M.<sup>lle</sup> Mars, <span class="pagenum"><a id="page265" name="page265"></a>(p. 265)</span> e as mais chapas
+consagradas n'este genero d'apotheoses. Depois, mulher do mundo,
+espirito de duqueza á Balzac, leituras finas, e seriedade de porte,
+dizia-se, não vulgar entre lonas pintadas. Era d'estas mulheres de
+scena afinal, corrompidas d'espirito e gastas de sensibilidade, pelo
+habito de fingir, representar ao vivo, e pintar tudo, labios,
+cabellos, sentimentos. O abuso de cosmeticos, estragando-lhe a
+epiderme da face, prohibira-lhe as transparencias do rubor, que na
+mulher mesmo velha, são a juventude eterna da alma&mdash;ao tempo que os
+papeis violentos, embotando a sua vibratilidade, lhe não deixavam já
+sentir as coisas originalmente e por si proprias, como se cada
+sensação sendo um dedilhar de corda eolea, ficasse impossivel, estando
+esta corda partida. Como todo o artista fatigado, a Velledo só
+obedecia agora aos moveis extremos, o interesse, o orgulho, um vicio,
+um desejo, sentindo desprezos pelo mais. Tudo era n'ella preparado
+scientificamente, ensaiado, solemne, feito de cór&mdash;um papel, um
+sorriso, uma generosidade, um cumprimento. Aos trinta annos percorrera
+já tudo na vida, os cimos e baixos fundos torvos, onde as podridões
+são pictorescas; bambochas de fabrica; mancebias <span class="pagenum"><a id="page266" name="page266"></a>(p. 266)</span> d'acaso, em
+aguas furtadas, com estudantes e carpinteiros; fomes de palmo,
+pantomimas de feira, noites sem leito... todas as escoriações do vicio
+caloteado e baixo. Teve um filho aos quinze, de que já não sabia aos
+dezoito. E pancadas, figurou no livro das prisões, foi bailarina e
+creada de hospedaria. Agarrada para povo n'um dramalhão de apparato,
+uma noite em que vagueava á busca de homem, entrára a crescer. O ponto
+levou-a para casa, o ensaiador achou-lhe geito; dois ou tres
+noticiaristas entraram com referencias á <i>novel artista</i>. E engrossou,
+encheu de hombros, fez-se mulher; e este viver a fôra curtindo,
+ficando-lhe o frio olhar calculista, que farto de se vêr explorado e
+cuspido, tudo agora revertia em proveito proprio. A sua belleza,
+embryonaria aos quinze, eflloresceu após o primeiro filho em
+exhuberancias mimosas e brancas, e delicados tons de face. Aos trinta
+annos, levando uma existencia tranquilla, boa meza, dois cavallos, o
+palacete da Graça, e brasileiro para <span lang="fr"><i>argent de poche</i></span>, Velledo era
+uma mulher alta, branca, sólida, admiravelmente moldada. Isto dava aos
+seus grandes gestos de drama, pomposos á força de convencionaes, uma
+soberania e relevo que eram <span class="pagenum"><a id="page267" name="page267"></a>(p. 267)</span> o furor do corpo commercial,
+brasileiros de volta, provincias e ilhas, todo o paiz inda rançado em
+banhas lyricas e sentimentaes tradicções. Nenhuma d'esse tempo possuia
+olhos, hombros e braços como a Velledo. Gentes decahidas por edade ou
+excessos, iam ouvil-a de rainha, princeza d'isto ou d'aquillo,
+Fernanda, Magdalena de Vilhena ou Morgadinha, a galvanisarem-se e
+readquirir tom, pela excitação ou deslumbramento da sua voz dizendo
+tiradas pomposas, ou d'essa extraordinaria carne extravasando em
+maravilhas plasticas. N'uma cidade como a nossa, onde as mulheres
+filiformes e glaucas lembram bichos de seda na muda, aquella magnifica
+e authentica mulher fazia imperio e dava cubiça, mesmo assim fria de
+mascara, e parecendo viver fóra de scena a eterna insomnia das
+estatuas. Não era muito talento, mas os gestos salvavam-n'a, depois de
+se haverem salvo pelos braços. Os amantes tinham-n'a feito distincta,
+linha de princeza, uma graça real a receber os que promettiam, nenhum,
+titubiamento em <span lang="fr"><i>tête-à-tête</i></span>, e esse vestuario esmanchado, cheio
+d'exquisitice, um pouco doido e pictoresco, que as aborrecidas
+inventam para se distrahir.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page268" name="page268"></a>(p. 268)</span> Succedia andar ás aranhas n'uma peça, não tendo percebido
+palavra do papel, gaguejando se o lance queria vehemencia, rindo se
+exigia dolorosa gravidade, avançando em vez de recuar, partindo as
+tiradas, surripiando phrases ás outras personagens, e compromettendo
+os collegas, na espectativa de fazer quebrar a empreza.</p>
+
+<p>Apesar do fanatismo pela diva, o publico esfriava, torcia-se na
+plateia com bocejos somnolentos, errando a vista pelos camarotes, com
+tossinhas de gato, errantes, communicativas, e esse leve rojar de pés,
+que perturba de morte os actores, e tem feito o <i>de-profundis</i> de
+muito drama e comedia. Contra inanição semelhante, era conhecido no
+palco o efficaz revulsivo. Dos bastidores, o emprezario mandava á dona
+Eulalia trouxesse o corpete depressa. A costureira vinha a correr com
+elle, emquanto o emprezario, baixinho, para dentro de scena:&mdash;<i>sss</i>...
+giralda!&mdash;Signal para a Velledo desertar de scena, mesmo cortando a
+situação, e fazendo falhar o pathetico do lance. E mesmo alli a grande
+artista mudava de trajo, envergando o famoso corpete azul, uma nudez
+como qualquer outra. Reduzia-se n'um cinto applicado a Bruxellas
+<span class="pagenum"><a id="page269" name="page269"></a>(p. 269)</span> finas, e servindo nas occasiões desesperadas, desde que
+estava eminente o fiasco. Applicava-se no publico como um sedenho ou
+um caustico, no intuito de suppurar ovações. Apertada n'elle, a grande
+Velledo ficava pouco menos de núa, contando bem da cinta para cima.
+Corpete de fatal origem e luctuosa historia! Tinha-o inventado o
+octogenario marquez das Berlengas, um galante da <i>sociedade do
+delirio</i>, que pelos modos se enfeitava, quando certa madrugada nos
+braços d'ella se sentiu esfriar como burro morto. E indo a
+vestir-lh'o, mais animado e banzeiro, cahiu com o aneurisma rôto, em
+fralda de camisa, como estava, o <i>desdichado</i>!</p>
+
+<p>Esse collete, justo atraz por um cordão de seda lasso e cruzado,
+recordava uma <span lang="fr"><i>corbeille</i></span> d'onde espumasse a radiosa floração da sua
+carne, musical e superabundante&mdash;e seios turgentes gottejando rubis
+das mamellas; braços torneados, á Clodion, desde o punho até aos
+hombros; garganta e espaduas resplendendo essa polida brancura que o
+frio marmore nunca dá, e vem talvez da circulação juvenil e do azul
+aponevrotico, coados por uma epiderme vibratil e sã.</p>
+
+<p>E apenas ella entrava assim eloquente e <span class="pagenum"><a id="page270" name="page270"></a>(p. 270)</span> vil, um rumor corria
+por toda a banda, e em ondas, sentia-se ir aquecendo a sala. Já das
+varandas vinham estalos de lingua, e a velhada ia esfregando uns
+contra os outros, febrilmente, os seus joelhos carcomidos. Gradual, a
+tempestade de bravos ia-se encapellando, agglomerando, contundindo.
+Havia no ambiente podre revoadas de <i>sss</i>... E a excitação, como uma
+cheia, afogava tudo, derrancando pela raiz os impulsos da bestialidade
+humana, e pondo á mostra a torpeza physica dos mais graves
+funccionários. Era então que se viam velhitos da mais austera
+prudencia, curvando em gestos macabros sobre os vizinhos&mdash;juizes,
+antigos ministros, conspicuos directores de banco, e chefes de
+secretaria&mdash;furiosos d'amor canino, e dando a sua opinião d'olho
+esgazeado. Ella, na scena, parecia uma bella estatua reanimada, tão
+nobres as linhas da sua anatomia esplendente. E quasi núa, corria-lhe
+na carne um arfar d'emoção radiosa. O pescoço era maravilhoso de
+finura; ria-lhe uma sensualidade no modelado do queixo; emquanto a
+narina n'um frémito, dir-se-hia seguir o rolar d'olhos reaes que ella
+pela sala deitava. Erguia o braço n'um movimento afadigado; e viam-se
+cabellitos na axilla, muito pretos. <span class="pagenum"><a id="page271" name="page271"></a>(p. 271)</span> O arco das duas
+sobrancelhas, quebrado em accento circumflexo, exprimia
+maravilhosamente o desdem. E suspensa, a sala aguardava que ella
+fallasse.</p>
+
+<p>&mdash;<i>Senhor! Ousa insultar uma mulher que se não defende? Perigoso me
+tinham dito que era; cobarde nunca!...</i>&mdash;e ao meio da scena, n'uma
+colera de deuza, a cauda em serpente, um dos seios espreitando a
+tourada de focinho sobre a orla do corpete, bramia a terrivel
+sacerdotisa:</p>
+
+<p>&mdash;<i>Saia!</i></p>
+
+<p>Sublime! Sublime! era a palavra de toda a gente.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Precisamente n'este remoinho de celebridade e de gloria, depois da
+grande scena do terceiro acto, uma noite, Rogério declarou-se a
+Velledo, n'um portuguez que a actriz não usava escutar lá muitas
+vezes. Fôra n'um escaninho do palco, durante a mutação de scenario.</p>
+
+<p>&mdash;Palavra, adora-me, o senhor? disse-lhe ella escarnecendo.&mdash;Elle
+compunha uma attitude fatal, como se quizesse magnetisal-a de paixão.
+E despiam-n'a, os seus olhos faiscantes de vicio.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page272" name="page272"></a>(p. 272)</span> &mdash;Dizer-m'o não basta, tornou a eminente actriz. É necessario
+que m'o prove.</p>
+
+<p>&mdash;Mas como? disse elle surdamente.</p>
+
+<p>&mdash;Isso não é commigo.</p>
+
+<p>E depois d'uma pausa:</p>
+
+<p>&mdash;Ha talvez um meio de principiar. Porque não começa a ter talento?</p>
+
+<p>Rogério não respondeu, mas os seus olhos, como brasas, na pelle branca
+do colo d'ella, redondo e nú, chamuscavam-n'a, mordiam-n'a,
+apalpavam-n'a, servindo-a como um goso arrancado á força. E n'um
+desvairamento, agarrou-a pelos dois braços sifflando, engasgado de
+furia.</p>
+
+<p>&mdash;Cala-te estupor, cala-te diabo!&mdash;Era n'uma sombra de panno de fundo,
+que vinham, de correr. E a Velledo debatia-se, aterrada do escandalo,
+cahida do respeito usual por semelhante violencia. Rogério tinha-a
+cingido pela cintura, e apertado contra o peito, nas agonias d'um
+toiro; e aos beijos por toda ella, na bocca, na garganta, nas
+espaduas, sobre o peito, percorria, babava-a, delirante, horrivel de
+desejo, deixando-lhe vermelhidões por toda a parte, signaes de dedos
+crispados, babugens de raiva lubrica, que no pó d'arroz deixavam
+listrões nojentos de vêr. Enxovalhada <span class="pagenum"><a id="page273" name="page273"></a>(p. 273)</span> da brutalidade, a
+Velledo chorava, gaguejando:</p>
+
+<p>&mdash;Infame! Infame!</p>
+
+<p>Despenteara-se na lucta, tinha-se aberto o colar, um dos colibris da
+túnica cahira, violentamente roçado. Rogério ficára a resfolegar n'um
+canto. Mas ouviu-se o contra-regra chamar para a scena do jardim; e
+com a voz musical de quando estava elegre, a Velledo desatou a rir
+alto entre os bastidores. E mal o galã disse&mdash;<i>é ella, conheço-a, o
+coração m'o diz!</i>&mdash;entrou em scena radiante e magnifica, monologando
+para si:</p>
+
+<p>&mdash;<i>Elle prometteu-me que viria. O seu amor é leal. Virá de certo</i>&mdash;e
+n'uma expansão d'amor:&mdash;<i>adoro-o, sim, adoro-o!...</i></p>
+
+<p>&mdash;Has de cá cahir, cegonha! fez Rogério esfregando as mãos. E ao outro
+dia foi-lhe pagando as contas da modista. Mas já entravam a rosnar. Os
+ganymedes de palco, gentinha disposta a explorar, intrigar, levar e
+trazer segredinhos, bilhetinhos, cobriam Rogério de perguntas sobre a
+tristeza em que o viam, com subtis allusões á actriz. Nos camarins não
+se fallava n'outra coisa. Sabia-se que elle hypothecára as ultimas
+propriedades, perdia ao jogo, e mandava á Velledo todos os <span class="pagenum"><a id="page274" name="page274"></a>(p. 274)</span>
+dias, uma grande <span lang="fr"><i>corbeille</i></span> de camelias e rosas confeccionada no
+Neves. De quando em quando, presentes de galantarias antigas que ella
+colleccionava com paixão, <span lang="fr"><i>bibelots</i></span> de Sèvres, pratos e <i>netskés</i> do
+Japão, aguarellas, bronzes e moveis delicados, pequenas peças
+vasculhadas nos adelos e casas de penhores, com paciencia de santo,
+regateadas durante horas, e muitas vezes adquiridas por preços
+escandalosos. Como amador de <span lang="fr"><i>bric-à-brac</i></span>, Rogério era uma besta,
+chegando a pagar por libras monos de loja de chá, fallidos de todo o
+merito. Velledo encolhia então desdenhosamente os hombros, mirando a
+bugiganga. E com irónica piedade:</p>
+
+<p>&mdash;Decididamente tem o gosto caraíba. Vê-se logo que é da provincia.
+Foi do leite. Obrigado. Ou era uma fayança repetida, qualquer peça que
+ella pedia para lhe comprar, e Rogério já não encontrava no bazar
+indicado. A actriz impacientava-se então, fazia momo com o seu
+beicinho vermelho, batia o pé vendo-o chegar de mãos vasias.</p>
+
+<p>&mdash;Se elle é um desastrado! Fosse quando eu lhe disse.</p>
+
+<p>E predilecções de momento, ambições por quanto via nos armazens, e
+logo tédios pelo <span class="pagenum"><a id="page275" name="page275"></a>(p. 275)</span> que ia adquirindo. Em dias de nervos
+quebrava, mordia e rasgava tudo para se vingar, na epilepsia dos que
+tendo feito das impressões violentas um habito abusivo, desesperam por
+fim, se acaso em vão apoz ellas correm. Tão raras as horas de bom
+humor, que Rogério, se alguma surprehendia, dir-se-hia gosal-a como
+recompensa disputada. Esse homem altivo cahia aos pés da sua gata
+sabia, em pieguices de collegial, deixando-se explorar por prazer. E
+sobre a posse tão ardentemente implorada, nem rastro d'esperança! Se
+ia beijal-a com mais furia, se a queria enlaçar pela cinta, ou a
+respiração cortada n'elle trahia alguma ideia occulta de deleite, ella
+logo de pé, faiscante e sarcastica, para o repellir com desprezo.</p>
+
+<p>&mdash;Olhe que me não esqueci d'aquella canalhice do theatro, hein?&mdash;ou
+fazendo saltar o <i>lorgnon</i> Regencia:</p>
+
+<p>&mdash;Ora filhinho! Deixa-te d'asneiras. Isto é do brasileiro.</p>
+
+<p>Mezes passavam assim. Se por um lado Rogério não adeantava com a
+actriz, recebia por outro, do brasileiro, provas de deferencia e
+familiaridades em cada dia mais profusas. Tinham começado as relações
+por uma polidez reservada, que parecia occultar as mais cathegoricas
+<span class="pagenum"><a id="page276" name="page276"></a>(p. 276)</span> antipathias. Dopois, aquella crosta d'indifferença estalára
+aqui e além, n'um cavaco mais vivo, n'um accordo ou outro d'acaso.
+Rogério sondava os gostos do brasileiro, lisongeava-lhe os ridiculos,
+punha-se ao lado das suas opiniões, aturava-lhe as estopadas, ou
+conseguia rir das graçolas d'elle. Era um pobre homem, limitado e
+benevolo esse brasileiro, que todo entretido a enriquecer-se, na
+mocidade, mal tivera tempo para gostar d'uma mulher&mdash;e assim
+conseguira embarcar na velhice, conservando intactas, pudicas quasi,
+as intimas juventudes do seu coração, uma singeleza timida e crédula,
+uma especie de convicção da sua inferioridade, como animal, em face
+daquella grande rainha da scena, e pequenas attenções balbuciantes
+para os caprichos d'ella, torturas soffridas sem revolta, e
+humilhações inda por cima agradecidas, n'uma effervescencia de
+lagrimas.</p>
+
+<p>Esse mudo velho de olhar ardente e mãos de cavador, de continuo
+enluvadas, alto, negro, com uma barba branca de negreiro, e uma
+gravata de coleira á volta dos collarinhos molles, esse mudo velho,
+parecia marchar somnambulo na sua idéa fixa, dolorosamente algemado á
+sua paixão como a um cepo de <span class="pagenum"><a id="page277" name="page277"></a>(p. 277)</span> patibulo, para toda a gente
+affavel, dizendo <i>muito obrigado</i> á creadagem, orgulhoso de ter em
+casa da Velledo o ar d'um intendente, desolando-se em suspiros que a
+edade já fazia grotescos, desdenhado, repellido, porém fincando sempre
+nas derrotas de cada dia, a coragem para insistir nos dias seguintes.
+Emquanto o pobre suspeitou que as denguices de Rogério viessem a ter
+resultado, foi sempre mantendo á vista d'elle, uma reserva polida,
+quasi fria. Os cumprimentos que trocavam, traziam, mesmo de longe, um
+asco a desconfiança. Os risos d'elles, ao toparem-se, no serão da
+tragica, eram um espremer de beiços seccos, com distillo d'amargura.
+Mas breve o nababo concluiu que não viria de Rogério o vento mau de
+desgraça, que lhe varresse a Velledo, como uma <i>nau dos quintos</i>, do
+mar banzeiro em que elle a trazia balanceada e repreza. Uma magua
+identica, parece, lentamente os conduzira a uma sorte de camaradagem.
+E vieram jantares, pequenos conselhos ditos na meia intimidade d'um
+segredo, favorsinhos que se calculam e estão prestes ao primeiro
+signal. Por fim deram o braço, trocaram brindes, começaram a
+sympathisar; e havia quatro mezes que o brasileiro <span class="pagenum"><a id="page278" name="page278"></a>(p. 278)</span> já não
+passava sem Rogério, e Rogério se afizera a procurar todas as tardes o
+brasileiro. Velledo espiava aquelles manejos, deixava-os consolarem-se
+um no outro, e ia-os explorando systhematicamente. Era o tempo em que
+a fortuna de Rogério via o começo do fim, e Lisboa lhe ia notando as
+primeiras joelheiras, as luvas safadas e as golas russas. E os beiços
+d'elle enlivideciam, uma magreza patibular fazia-lhe duro o perfil; e
+enfastiado, mãos febris, não dava palava a ninguem. Em volta ao caso
+ria toda a gente. Apenas o grupo sério de Pirralho, philosopho
+Horacio, festejado Peres, e a ninhada de fedelhos
+positivo-publicistas, lia n'essa fronte sulcada, n'esse olhar fixo e
+interior, a gestação laboriosa d'algum grande livro. Actores, já o
+tratavam de resto, não o sentindo como outr'ora, generoso
+d'emprestimos, e tão prodigo d'alegres ceias no <i>Gibraltar</i>. A
+primeira vez que appareceu sem relogio, fumando cigarros de mendigo,
+quasi todos, achando-o pulha, lhe voltaram as costas.</p>
+
+<p>Por esse tempo revelava-se Alcina, que passára da opera-buffa ao
+theatro de declamação, prima de Rogério e sua primeira amante. Fôra na
+Suzanna do <span lang="fr"><i>Demi-Monde</i></span>, <span class="pagenum"><a id="page279" name="page279"></a>(p. 279)</span> papel de prova, cheio de movimento
+e finura, em que por confronto a Velledo tinha dado um estenderete
+medonho, e que Alcina fez com distincção surprehendente. Sobre o caso,
+a critica fez-se ouvir muito acerba contra a Velledo, mau grado as
+supplicas do brasileiro e de Rogério, a que fosse poupada a grande
+sacerdotisa. Em quasi toda a linha jornalistica, de repente, as
+hostilidades romperam com violencia brutal, bipartindo-se os criticos
+na hoste dos que bradavam&mdash;Velledo!&mdash;e na dos que punham Alcina na
+mais brilhante evidencia. A prima de Rogério, por conseguinte, passou
+a synthetisar a escóla nova, como a Velledo era a expressão da antiga
+arte. Pirralho e o magreirão Lindôso, macacos-pontifices da alta
+critica moderna, saudaram a musa nova em rutilos artigos crivados de
+referencias picaras á antiga primeira actriz portugueza, na qual tudo,
+segundo elles, era convencional. A historia do corpete fez escandalo
+de morrer a rir. E dois ou tres <i>distinctos escriptores e nossos
+amigos</i> estiolavam-se a calcular os annos que ella teria d'edade, o
+que esbanjava em cabellos postiços, e da composição chimica d'aquelles
+seios esculpturaes...</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page280" name="page280"></a>(p. 280)</span> A actriz Alcina, não! Era a mocidade maleavel e viva, a
+intelligencia sagaz que tudo penetrava sem esforço, o genio
+desprezando artificios, e dando-se á plateia em relampagos&mdash;e como
+mulher, uma nympha de Clodion, elançada e viva.</p>
+
+<p>&mdash;É necessario derribar os falsos deuses, escrevera Lindôso. A arte é
+constantemente evolucionista. Quem não progride, não a acompanha, e
+elimina-se pelo esquecimento ou pelo desprezo...</p>
+
+<p>&mdash;Isso é forte, homem...</p>
+
+<p>&mdash;Qual forte! Uma velhaca que nem bilhetes manda para o jornal! E
+d'ahi põe recusas ás nossas mais ternas blandicias. Póde-se lá
+soffrer!</p>
+
+<p>No entanto crescia o desespero da Velledo, que chorava dias e dias
+accusando o emprezario, não querendo estudar os papeis, cobrindo a
+imprensa d'insultos, Rogério e o brasileiro de repellões. Uma manhã,
+apenas aquelle veio, ella resolutamente:</p>
+
+<p>&mdash;Essa creatura que elogiam por ahi, é sua prima, e foi sua amante, já
+sei. Porque não accedo ao que o senhor pretende, move-me guerra nos
+jornaes.</p>
+
+<p>Rogério ia protestar. Ella disse&mdash;canalha! <span class="pagenum"><a id="page281" name="page281"></a>(p. 281)</span> e mais
+rapido:&mdash;em todo o caso, oiça. Se a peça nova fizer reviramento
+completo na imprensa, expulso o velho e entrego-me a si. Ha uma
+condição de que não abdico, note bem. Que essa bebeda seja posta de
+rastos, fóra do theatro em que eu represento. O resto é com o senhor.
+Acceita?</p>
+
+<p>Elle poz o chapéu na cabeça, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Não!&mdash;E sahiu como doido.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Chovia, e elle sem guarda-chuva, pisando a lama com sapatos de baile,
+seguia alagado ao longo dos predios. Dois ou tres amigos chamaram-n'o
+de dentro de trens, para que viesse abrigar-se. Olhou-os com ar vasio
+e foi andando. A sua paixão pela actriz, avolumada pela resistencia,
+obstruia-lhe a livre esphera da deliberação, da acção, e desvairava-o.
+Que havia de fazer? A pobreza fizera-o mesquinho: e vinha-lhe com
+teimozia a ideia do dinheiro gasto com essa mulher, sem reserva, sem
+egoismo e sem calculo, n'uma boa vontade de rapaz. E nem mulher nem
+dinheiro!... Então recrudescia-lhe o desejo d'ella, e era uma febre
+bestial d'amor que o espicaçava a todo o instante e lhe fazia
+delirios. Foi pelas <span class="pagenum"><a id="page282" name="page282"></a>(p. 282)</span> ruas de mãos nas algibeiras, flanando ao
+acaso na lama. Vendo um antigo freguez, os cocheiros paravam
+fazendo-lhe signal&mdash;e era uma humilhação para Rogério ter de recusar,
+ou virar a cabeça fingindo não ver. As ruas surprehendidas por essas
+primeiras gottas de chuva hibernal, tinham sobresaltos e gritos de
+vida que procura abrigar-se, a um tempo frenetica e contente...
+mulheres apanhando os vestidos, homens erguendo as calças até á origem
+das polainas, chamando os trens, ou entrando á pressa nas escadas.</p>
+
+<p>O ar frio dava ás epidermes das mulheres um côr de rosa mais pudico.
+Era a hora do Chiado, e os trens desciam para os armazens de modas, em
+cujas <span lang="fr"><i>vitrines</i></span> se encontravam já densos estofos, chapéus e capotas
+do ultimo modelo. Lisboa, que voltava das praias e estações d'aguas,
+procedia á sua installação, buscava nos livreiros as ultimas edições,
+lia os cartazes dos theatros, escolhendo a sua noite, dictando a sua
+<span lang="fr"><i>toilette</i></span>, familiarisando-se com os aspectos das ruas e o rolar das
+carruagens. E a cada instante, Rogério tinha de fazer um signal aos
+conhecimentos antigos, actrizes dos pequenos theatros, jornalistas,
+<span lang="en"><i>dandies</i></span>, horisontaes; toda a mascarada elegante passeando <span class="pagenum"><a id="page283" name="page283"></a>(p. 283)</span>
+os primeiros paletots estofados, no giro da evidencia e da moda. E
+intimidades que roçavam pela fadiga do seu casaco um velho dito
+maldoso, desdens que lhe acenavam de longe co'as pontas das luvas
+amarellas, piedades vis que o lastimavam, ou peccadoras que lhe riam
+pela ferida dos beiços pintados, tendo partilhado outr'ora o luxo dos
+dias aureos de Rogério. Parece que tinha combinado cruzar com elle
+hombro a hombro, essa tarde, toda a revoada de doidas sereias avivadas
+de chic!&mdash;Primeiro Laura, a <i>condessa</i>, uma soberba rapariga que
+explorava um club de velhos, e era gosada por acções. E as mais:
+Annita, que surprehendendo a primeira sombra na face, ia casar com um
+judeu capitalista; Hermine, o vampiro, de cujo leito phosphorejavam as
+monstruosidades dos harens da Asia; Luiza, alta, morena, sã, com os
+seus eternos grandes sapatos de homem, e os seus modos decididos de
+<span lang="fr"><i>commis-voyageur</i></span>... E o pobre auctor de preoccupado, nem reparava no
+espanto e na commiseracão com que o fitavam. Uma patifaria sem nome,
+quererem voltal-o contra Alcina, rapariga de talento afinal, cuja
+carreira difficil ella percorrera toda, sem auxilio nem reclame!
+Doida, boa, sincera de mais, <span class="pagenum"><a id="page284" name="page284"></a>(p. 284)</span> e por isso mesmo enganada sem
+rebuço. Eil-a ahi na celebridade, chegando ruidosamente ao pinaculo,
+musa de um grupo de artistas. Promover-lhe a queda, expulsal-a do
+primeiro theatro&mdash;que negra infamia pretendia então a outra d'elle?
+Chegara ao jornal do Lindôso sem dar por isso. Subiu. Inda não tinham
+sahido das repartições, e a redacção estava deserta.</p>
+
+<p>&mdash;O snr. Lindôso, disse Rogério para o gerente.</p>
+
+<p>&mdash;Primeiro gabinete, á esquerda.</p>
+
+<p>Estava lá. Ora viva! disse Rogério.</p>
+
+<p>&mdash;Sei a que vens. Não posso pagar-te inda hoje. Sê benevolo uns dias
+mais. E volubilmente:&mdash;Então sabes? Os constituintes venderam-se.
+Estou aqui a rachal-os de meio a meio. A que chegámos! E mostrava os
+linguados escriptos&mdash;Lisboa vae vêr o bom.</p>
+
+<p>&mdash;Eu cá, disse Rogério, vinha para outro negócio. Janta hoje commigo.
+Tenho lá baixo um trem.</p>
+
+<p>&mdash;Demonio! pois sim. Ao <i>Central</i>?</p>
+
+<p>&mdash;Em minha casa. Descobri uma cozinheira incomparavel. Pulcheria se
+chama. Então a mais acrisolada sciencia nos molhos! Tenho um Murillo
+no quarto, que outro dia, <span class="pagenum"><a id="page285" name="page285"></a>(p. 285)</span> sentindo o olor d'um bacalhau
+confeccionado por ella, sahiu á casa de jantar acceso em fome.</p>
+
+<p>&mdash;Raio de cozinheira!</p>
+
+<p>&mdash;Vens d'ahi?</p>
+
+<p>&mdash;Dois minutos para terminar a demolição d'um partido politico. E como
+se porta na lebre ensopada, essa tal Pulcheria?</p>
+
+<p>&mdash;N'isso então! Imagina um d'estes acepipes tenros, alpestres,
+perfumados, extranhos... A pastoral de Beethoven com tubaras de
+recheio. Homem, no Algarve estava um defunto no esquife; vae ella,
+chega-lhe ás ventas carneiro com batatas&mdash;e o morto pega a bailar no
+meio da casa.</p>
+
+<p>&mdash;A caminho, fez o outro espicaçado pela fome de quarenta cães sem
+dono.</p>
+
+<p>A casa de Rogério era perto, e em dez minutos faziam elles a sua
+entrada no escriptorio. Rogério fechou a porta da escada e metteu a
+chave na algibeira.</p>
+
+<p>&mdash;Ah diabo! exclamou Lindôso com uma palmada na testa. De todo me
+esqueceu falar da tua peça. E que tinha planeado uma coisa magnifica!
+Artigo para o publico, está claro, coisa d'arrombar ahi tudo. Entre
+nós, franquezinha. Deves deixar o genero: o teu drama, aqui para nós,
+era quasi infantil.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page286" name="page286"></a>(p. 286)</span> Rogério, surpreso, nem falava. Que exhuberancia de malandro!
+pensava elle.</p>
+
+<p>&mdash;Nem admira, continuou Lindôso. Tu, o que ha de mais moderno no
+estylo ligeiro, de mais elegante, de mais parisiense, cahes agora na
+monomania de fazer viver sobre a scena os assumptos historicos!?
+Primeiro, não és um erudito. Segundo, não tens a corda dramatica. E
+olha que influe alguma coisa, a gente não se chamar Walter Scott ou
+Shakespeare, menino.</p>
+
+<p>&mdash;Sopra-te o vento d'outro lado, esta manhã, tornou o dramaturgo com
+os beiços brancos. Em todo o caso, ouve. Eu li o que escreveste sobre
+a Alcina...</p>
+
+<p>&mdash;O artigo para amanhã é superior. Vaes vêr que maravilha d'analyse e
+graça humoristica. A sagacidade do Taine na fórma irisada do Wolff.
+Ah, meu caro Rogério, meu bem! Ponho a Velledo em picado. Dez annos de
+lucta, e regeneramos o theatro portuguez.</p>
+
+<p>&mdash;Trazes o artigo?</p>
+
+<p>&mdash;Vou lêr-t'o. Ficas assombrado.&mdash;Mas onde foi elle buscar este vigor
+de linguagem, este conhecimento do assumpto, esta chuva de sarcasmo e
+pedras preciosas? dirás tu. Ah, Rogério! Nasce-se.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page287" name="page287"></a>(p. 287)</span> Enfastiado, risonho, o dramaturgo fez-lhe signal para que
+lêsse. O artigo era uma catilinaria habil, gradual, bem deduzida, e
+feita com esse sarcasmo sereno, quasi limpido, de quem não receia lhe
+tomem contas. Definia a arte nova em termos firmes, historiava-lhe a
+evolução rapidamente, frisando-lhe os intuitos, explicando-lhe o
+destino e o nivel philosophico. Cahia em seguida sobre os actores, no
+tom desdenhoso de quem trata subalternos&mdash;e uma vez alli, tocava na
+Velledo. Desde esse instante, uma furia explosia no artigo, e as
+ironias eram um crivar de balas no corpo d'um fuzilado. Segundo elle,
+não era possivel mais tolerar sobre a nossa primeira scena, uma actriz
+cheia d'artificios e ronceiras manhas; cantando, se declamava; e não
+tendo mais a voz maleavel, nem vivaz o gesto, nem a <i>pose</i> esculpida
+na proporção da figura que reproduzia. Desmemoriada, envaidecida,
+tola, velha, quasi feia...</p>
+
+<p>E no final, em palavras metallicas, enthusiasmadas, relampejando
+fundos d'apotheose, entrava a dizer que Alcina era o astro do dia novo
+na arte, subindo tocado de flammas, com a grandeza d'uma redempção
+pronunciada de ha muito, pela critica imparcial...</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page288" name="page288"></a>(p. 288)</span> &mdash;Admiravel, hein?</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, fez Rogério retesando as pernas. Quanto ganhas tu por essa
+canalhice?</p>
+
+<p>O outro, embasbacado! Quanto ganhava?</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! Eu não trafico com o sacerdocio. É convicção.</p>
+
+<p>&mdash;Sabido! O artigo de hontem trazia as tuas iniciaes. Publica o de
+hoje com o nome todo; tens dez libras.</p>
+
+<p>&mdash;Hein?</p>
+
+<p>&mdash;Sómente onde estiver Alcina, porás Velledo, e onde Velledo, Alcina.</p>
+
+<p>&mdash;Que quer dizer toda essa cantiga?</p>
+
+<p>&mdash;Nada de scenas. Entre pulhas, o descaramento é a alma dos negocios.
+Dez libras para virares d'opinião. Recusas? perdes o dinheiro e
+quebro-te as costellas. Tão certo!...</p>
+
+<p>Lindôso fizera-se verde, queria-se erguer, não podia; e tudo era olhar
+para a porta, calcular a retirada.</p>
+
+<p>&mdash;De maneira que o teu jantar era isto? E a cozinheira Pulcheria...
+Traste!</p>
+
+<p>Rogério nâo respondeu.</p>
+
+<p>&mdash;Mas tu? a ferro e fogo com a Velledo, porque te voltastes á ultima
+hora? Arranjos! A corja que se entende e se harmonisa.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a id="page289" name="page289"></a>(p. 289)</span> &mdash;Faz as emendas que te disse, tornou Rogério docemente.</p>
+
+<p>Mas o desenterrado hesitava.</p>
+
+<p>&mdash;Com quem imaginas tu que estás falando? aventurou-se elle a
+perguntar.</p>
+
+<p>Rogério agarrou-o pelo pescoço, como as cozinheiras fazem aos gatos
+lambareiros.&mdash;Anda! Senão desfaço-te! Senão atiro comtigo da janella!</p>
+
+<p>&mdash;É violencia. Protesto! ganiu o desenterrado debatendo-se. Mas a voz
+de Rogério rebentou n'um estampido.</p>
+
+<p>&mdash;Olha que eu estrangulo-te. Escreve!</p>
+
+<p>Fez-lhe pegar na penna.&mdash;Emenda!&mdash;E roxo d'asphyxia, cyanosado,
+humilhado, escorrendo suor, o outro emendava. Rogério agarrou no
+artigo, leu tudo minuciosamente, e inda apontou um ponto ou outro para
+Lindôso corrigir&mdash;Agora assigna!</p>
+
+<p>O miserável em soluços, arquejando horrivelmente, assignou.</p>
+
+<p>&mdash;Tratante! Eu me vingarei. Ai de ti! Rogério ria freneticamente.</p>
+
+<p>&mdash;Amanhã peça nova, ajuntou elle n'um sarcasmo tranquillo. Quatro
+actos d'Augier, alguma coisa de fino e superior. Alcina lá vae
+enrodilhada n'um papelito quasi de comparsa. <span class="pagenum"><a id="page290" name="page290"></a>(p. 290)</span> O melhor papel
+para a Velledo! Ella que até agora só fazia os pezados centros
+dramaticos, <i>Joanna a doida</i>, a <i>Mulher que deita cartas</i>... entra
+n'uma phase nova, quer mostrar que conhece a escóla moderna. Eh! Eh!
+que diz a isto o scintillante Lindôso? O publico tel-as-ha na mesma
+noite, as duas, face a face. Elle é imparcial. Julgará.</p>
+
+<p>E emquanto a raiva branca epileptisava o outro&mdash;Amanhã os jornaes
+saudarão a eminente actriz, pela penna dos mais festejados
+escriptores. E na noite da peça, enchente á cunha, bilhetes a libra,
+uma chuva de corôas. Ah, desforra estrondosa! Triumpho como ninguem
+viu outro! E alcançado por mim. Não que eu admire a Velledo. O que
+escrevem contra ella é verdadeiro. Mas apraz-me esmagar essa tropa de
+canalhas vendidos, a começar por ti.</p>
+
+<p>&mdash;Sim! Ainda hontem a querias derribada, essa Velledo, já hoje lhe
+advogas a victoria. Quanto paga o brasileiro por esse enthusiasmo? És
+dos meus. Vendeste o que te restava, entras a viver d'expedientes. Eu
+cá fui sempre pobre, ao menos. Seguia o meu caminho bem ou mal, sem
+pão muita vez, oito dias n'um quarto alugado, oito n'outro, <span class="pagenum"><a id="page291" name="page291"></a>(p. 291)</span>
+expulso quando não tinha com que pagar, desempregado, mal visto,
+esbarrando com a antipathia de toda a gente. Queriam no meu porte a
+nitidez d'um cavalheiro? Dessem-me de comer. Rogério, inflexivel,
+chamou o creado.</p>
+
+<p>&mdash;Isto ao jornal.</p>
+
+<p>&mdash;O jornal não publicará, disse Lindôso.</p>
+
+<p>&mdash;O teu não. Mas o meu... Agora vamos a jantar.</p>
+
+<p>&mdash;Obrigado. Acabemos com isto. Abre-me a porta!&mdash;Era quasi noite.</p>
+
+<p>&mdash;Nao. Dormes cá hoje, tornou Rogério.</p>
+
+<p>&mdash;Vou gritar, n'esse caso.</p>
+
+<p>&mdash;Hum! Não cahirás em semelhante tolice. Ao primeiro berro,
+amordaço-te, e passas a noite n'uma camisa de forças.</p>
+
+<p>&mdash;Mas isto é inaudito!</p>
+
+<p>&mdash;Creio que sim.</p>
+
+<p>&mdash;Hei-de tirar uma desforra.</p>
+
+<p>&mdash;É da ordem.</p>
+
+<p>&mdash;Mas quando me deixam sahir então?</p>
+
+<p>&mdash;Quatro da manhã. Hora em que a tiragem dos jornaes está toda feita.
+E coração ao largo, anda jantar. Conversaremos como bons camaradas.
+Isto aqui não é agora nenhum carcere; podes circular pela casa toda.
+Hein? <span class="pagenum"><a id="page292" name="page292"></a>(p. 292)</span> Não me arreceio das gavetas: vendi as pratas, e não ha
+vintem por cima das mesas.</p>
+
+<p>&mdash;E promettia-me dez libras, <i>isto</i>!...</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Quem hasteava a Velledo era um grupo d'escriptores de pulso (como
+então se dizia) feito do pae nobre Tiburcio, critico Borbas, festejado
+Peres, Rogério, Moreira das magicas e os inimigos d'Alcina. Uma
+espécie de cenaculo, que receando a decadencia da scena, se impuzera
+alumiar o gosto da turba, com a luz dos seus talentos <i>conspicuos
+quanto experimentados</i>. Esta tropa de massadores, quasi todos carecas,
+decidira pôr dique á sedição de Pirralho e Lindôso, creando o
+<i>Binoculo</i>, semanário que definiria a missão do theatro, pondo em
+relevo as regalias dos auctores, e encarregando-se de catalogar os
+comediantes pela ordem e genero dos meritos que patenteassem: quem
+havia de ser o primeiro, quem havia de ser o segundo...</p>
+
+<p>A convite de Borbas tinha-se o conclave reunido n'uma botica da rua do
+Amparo, com penna e tinta para tracejar das resoluções adoptadas. E
+houve logo disputas sobre o titulo da folha.&mdash;<i>O Binoculo</i>, dizia
+festejado <span class="pagenum"><a id="page293" name="page293"></a>(p. 293)</span> Peres.&mdash;<i>Arte de Talma</i>, opinava pae nobre
+Tiburcio.&mdash;<i>Diabo Verde</i>, era o parecer do Moreira das magicas. Porém
+Borbas, um auctoritario que tinha o culto das civilisações antigas,
+disse logo: <i>O Capitolio!</i> Cada qual então pediu a palavra afim de
+justificar o seu titulo. Engalfinharam-se uns nos outros, á
+descompostura. Como estava vivo de vespera o artigo de Pirralho
+exaltando Alcina, urgente se tornava fazer sahir resposta bem
+official, bem da <i>mestrança</i>, que trancasse as doutrinas da escóla
+avançada. Suspensa a sessão por vinte e quatro horas, cada um foi
+estudar para casa o que havia d'escrever no jornal, com promessa
+d'assembleia no laboratorio da botica, ao dia seguinte.</p>
+
+<p>No outro dia, eil-os de volta arrastando as passadas, beiços lividos,
+olho morto, tendo perdido a noite sobre os melhores auctores. Varios,
+seguidos de gallegos, tinham feito conduzir annos inteiros da <i>Revista
+dos Dois Mundos</i>. Borbas, em casaca e tira branca, solemne,
+convencido, radiando uma vasta auctoridade, appareceu com a sua resma
+d'apontamentos. Aberta a sessão, palavra a um, palavra a outro,
+combinaram-se notas, organisou-se o plano d'ataque... resultado,
+<span class="pagenum"><a id="page294" name="page294"></a>(p. 294)</span> duas columnas de sandices e a ideia do jornal posta de
+banda. Foi o momento de Rogério fazer a sua entrada na sala.
+Inquiriram todos: então?&mdash;Era na manhã sequente á detenção de Lindôso.</p>
+
+<p>&mdash;Sanou-se tudo, ganhamos, exclamava o dramaturgo n'um jubilo. Lindôso
+nosso. Vem o artigo na <i>Gazeta do Sport</i>.</p>
+
+<p>&mdash;E viva!</p>
+
+<p>&mdash;Quasi todos os jornaes fallam da Velledo em quatro columnas e cinco.
+Grandes letras, titulos d'arromba... <i>Um genio! A primeira tragica da
+Europa. Continue progredindo...</i></p>
+
+<p>Já vinte mãos cresciam ávidas para os jornaes que elle trazia.</p>
+
+<p>&mdash;Venha de lá isso. Venha de lá.</p>
+
+<p>Estendiam as folhas por cima da mesa, tumultuosamente, vangloriando-se
+dos artigos como d'obra sua, dizendo alto as passagens flammantes.
+Gritava um:</p>
+
+<p>&mdash;Isto soprei eu ao articulista. Outro:</p>
+
+<p>&mdash;São as minhas ideias escriptas e escarradas.</p>
+
+<p>&mdash;Escarradas sobretudo, insinuava um terceiro.</p>
+
+<p>Nenhum d'elles escrevera uma virgula, mas procuravam enganar-se,
+dizendo:&mdash;é como <span class="pagenum"><a id="page295" name="page295"></a>(p. 295)</span> se os artigos fossem escriptos por nós,
+visto que demos a substancia.</p>
+
+<p>&mdash;E pagos por mim, suspirava Rogério arruinado, auctor e victima do
+triumpho que elles se attribuiam. Mas Borbas, esfregando o nariz como
+um botão de campainha, rosnava com entonos de leão:</p>
+
+<p>&mdash;Tiveram medo. Inda valho alguma coisa.</p>
+
+<p><i>D. Maria</i>, essa noite, offerecia o mais bizarro e pictoresco aspecto.
+Uma furia revolvia a turba na plateia; havia conclaves pelos cantos,
+palavras altas; gestos doidos sahiam dos grupos, accentuando alguma
+affirmativa audaciosa&mdash;e os decididos declaravam que havia d'ir tudo
+raso! Já os informadores de jornal, correndo os olhos pelos camarotes,
+de carteira aberta, tomavam nota dos nomes e <span lang="fr"><i>toilettes</i></span>. Aqui e além,
+pelas ordens caras, faziam-se ruidos vagos, arrastar de cadeiras,
+risinhos cantados de senhoras: um <span lang="fr"><i>bournous</i></span> desacolchetado no fundo
+d'uma frisa, distrahia subito as palestras, e luminosas espaduas
+gottejadas de diamantes, vinham á luz do gaz espanejar brancuras
+exoticas de magnolia. Toda a galante guarda de semi-mundanas,
+destacava pelos logares de honra, os seus estapafurdios <span class="pagenum"><a id="page296" name="page296"></a>(p. 296)</span>
+couraceiros, todos os typos, trajos e côres de cabellos. Laura a
+<i>condessa</i>, em pellucia verde pavão e rendas pretas, tincta de loiro
+essa noite, punha um bonnet de pennas delicioso. Luiza em escarlate,
+bordada de vidrilhos, admiravelmente grande e bem feita, dir-se-hia
+brotar d'um cacto com a rebeldia d'um génio de volupia e ruina.
+Hermine, de damasco branco, decotada até ao ventre e coberta de
+geraneos pallidos, soberba de carne, divina d'impudor, affixava o seu
+riso de bacchante, vago, inquietador, sem ponto de mira, como essas
+estatuas d'Egino que riem ceifando cabeças.</p>
+
+<p>O sport era feito de figuras bassas, estranhas, espigadas, bonitas
+algumas, e com um tom d'elegancia doentia. Uma especie de figurino
+geral corrigia os typos, dava o rythmo dos cumprimentos trocados,
+parecia decretar do entono da pronuncia, e haver stereotypado das
+boccas, o mesmo modo de rir altivo e frio. E apontavam-se as figuras
+salientes&mdash;o marquezito de Selmes, imberbe, loiro, quasi ideal, com
+vicios perversos e um geito cynico na bocca de cherubim: tão
+predestinado a gommoso, que apenas parido, entrára a pedir cognac e
+vinte libras, afim de <span class="pagenum"><a id="page297" name="page297"></a>(p. 297)</span> se abalar <span lang="fr"><i>chez Tata</i></span>. Junto d'elle, o
+visconde de Palhalvo, de craneo em pera, com bochechas immensas que
+lhe esmagavam a bocca e o nariz, mostrava nos olhos ternos, genero
+carneiro morto, a todas as ricas herdeiras, o seu joven coração
+devoluto. Alberto M., poeta insonso, tortulho ultimo da epocha
+romantica, muito estimado nos salões, e causador dos mais finos
+adulterios, debruçava-se todo para uma viuvita loira que vinha
+d'aliviar o luto. E a phalange alegre das ceias nos gabinetes do Matta
+e do Augusto: mulheres fugidas aos maridos, actrizes sem theatros,
+filhos de banqueiros, vergonteas fidalgas afundando os ultimos contos
+d'uma antiga opulencia, medicos em voga, personagens alvares vivendo á
+sombra d'um nome de familia, janotas pagos por uma velha.</p>
+
+<p>Barão de Murtede tinha-se installado mais a franceza, n'uma frisa de
+bocca, mesmo em face da esposa e das filhas, que estavam ouvindo
+contar ao Alfredinho torto, o Alfredinho dos <span lang="fr"><i>cotillons</i></span>, uma scena de
+sopapo nos corredores de S. Carlos, por causa de não sei que bailarina
+americana. A franceza, muito desengonçada, d'olhos pardos, irritante
+de magreza, quasi diaphana, coberta de signaes <span class="pagenum"><a id="page298" name="page298"></a>(p. 298)</span> postiços,
+ouvia-lhe distrahidamente uma tolice qualquer, abrindo e fechando o
+leque, com as suas mãos cobertas de pelle de Suède, que rescendiam
+heliotropo. A espaços:</p>
+
+<p>&mdash;<span lang="fr"><i>Oh, que c'est charmant! Oh, que c'est charmant!...</i></span> e fitava com
+provocação a frisa fronteira, d'onde a baroneza de Murtede fazia
+olhinhos doces sobre um delegado de barba sedosa, um <i>vello vaicharel
+da Veira</i>, recem-chegado á côrte, que a compromettia na plateia, á
+vista de toda a gente. N'outra frisa, ao fundo da sala, as Simas, mãe
+e filha, davam audiencia, antes de subir o panno, a uma multidão
+turbulenta e esfaimada de <span lang="fr"><i>viveurs</i></span>. De longe, Hermine lhe fazia
+signaes, affixando á sala a sua familiaridade com senhoras d'aquellas;
+emquanto mais circumspecta toda rigorista no seu programa de senhora,
+Laura, apenas de leve respondia aos cumprimentos que ellas de lá lhe
+mandavam, por entre macaquices de beijos, nas pontas dos dedos. Na
+frisa das Simas, aquella noite, era uma algazarra de metter medo;
+tinha-se installado alli o quartel general da má lingua, e o centro
+expedicionario das frescatas para depois do espectaculo. A mãe, uma
+gorducha quasi nova, com dentes chumbados na frente, e o <span class="pagenum"><a id="page299" name="page299"></a>(p. 299)</span> ceu
+da bocca de platina, branca, myope, dando-se um tic de palpebras muito
+impertinente, esposa d'um general, e sobrinha, dizia-se, do senhor D.
+Miguel, tinha começado vida na melhor roda lisbonense, entre os
+explendores das festas e a convivencia das grandes familias. Habitos
+de grande vida, tão funestos ás pequenas fortunas, deram-lhe com a
+casa de bancarrota em bancarrota. Já por fim, ellas mesmas faziam a
+cozinha, e cortavam os seus vestidos de sahir, convidando as amizades
+a um chá, todas as terças-feiras, com piano e castiçaes de cristofle,
+n'um casebre apalaçado ao Bairro Alto, em cujo rez-do-chão, por signal
+que viera installar-se uma typographia socialista.</p>
+
+<p>Para vir a casa d'ellas, em principio, inda era de rigor ser-se
+apresentado&mdash;mais tarde, o general, intercedido, fez concessões, como
+era bom homem... pedia então sua meia libra, dez, quinze tostões, e a
+cada conviva, além do chá, revertia o direito de tratar por tu a dona
+da casa. O general fôra rico em solteiro, o jogo porém tinha-lhe
+comido tudo, e a mulher esbanjára-lhe o resto. Uma filha mais nova,
+Fernanda, toda mimosa na sua figurinha etherea de Gretchen, inda
+chegou a ser pedida em casamento, mesmo assim pobre <span class="pagenum"><a id="page300" name="page300"></a>(p. 300)</span> e mal
+educada, por um guarda-marinha que, a adorava, e depois a repudiou,
+sabendo a vida crapulosa da mãe e da outra irmã. Desolada, e
+desconhecendo outro caminho que não fosse o da sua singela
+honestidade, sem vocação para <span lang="fr"><i>cocotte</i></span>, e sem coragem para
+costureira, a pobre pequena atirou comsigo ao fundo d'uma cisterna que
+havia no pateo.</p>
+
+<p>Entanto, já a vida as apertava d'urgencias, dia a dia insaciaveis&mdash;o
+luxo d'um lado&mdash;do outro lado a penhora&mdash;do outro ainda o general...
+em termos que a mãe, tomando as redeas da casa, durante o <i>delirium
+tremens</i> do marido, entrou a dar bailes de mascaras no casebre
+armoriado, abrindo as suas portas a toda a casta de rodilhões e
+torpezas. Alli debutaram muitas raparigas na vida galante,
+costureiritas que os devassos encommendavam á mãe Simas; filhas de
+pequenos empregados, que entravam no baile em musselina branca, sem
+brincos, nem colar, accedendo ao appello d'uma amiga de collegio;
+noivas que vinham ganhar o enxoval de casamento, n'uma prostituição
+secreta e cheia de rancores; hespanholas retiradas da má vida, por
+algum amante que as desejasse gosar mais por detalhe... algumas
+ingenuas, lindas algumas, e outras <span class="pagenum"><a id="page301" name="page301"></a>(p. 301)</span> simplesmente irritantes,
+pela virgindade physica que traziam, esculpida em desejos, mal
+sazonados ainda, nos meios limões erecteis do peito.</p>
+
+<p>Durante o dia, era frequente encontrar-se a mãe Simas por todas as
+ruas da cidade, offegante, enrodilhada no fundo d'uma tipoia, fazendo
+adeusinho aos caixeiros, rindo para os ociosos das tabacarias,
+apeando-se á porta de todas as escadas sem guarda-portão. Ia em
+serviço.&mdash;Até á noite, até á noite, dizia ella, apanhando as saias a
+molhe, por baixo de cujas barras, não raro badaleavam penduricalhos de
+lama immunda. E esquecida da mala por todos os cantos, voltava atraz,
+esbarrava n'um taipal, ouvindo sem pestanejar, no seu <span lang="fr"><i>aplomb</i></span> de
+condessa, os apropositos mais desavergonhados...</p>
+
+<p>Dentro de pouco, a casa foi creando fama, pelo expedito das suas
+encommendas e gosto fino das suas requisições, creando fama sobretudo
+na provincia, no Brasil, e por essas possessões d'Africa, d'onde
+annualmente chegam a Lisboa, os mais tenebrosos, os mais acerbos
+apetites de homem, recalcados na solidão, e centuplicados de força
+pelos delirios côr d'absintho da abstinencia. Á chronica da <span class="pagenum"><a id="page302" name="page302"></a>(p. 302)</span>
+casa mesmo, no livro de oiro dos escandalos mais reconditos, tinham
+vindo jungir-se muitos nomes da nobresa, sangues de mil castas,
+fibrina dos Gamas, materia corante do mestre d'Aviz, soro e saes de
+Nun'alvares, Miguel de Vasconcellos, ou algum sapateiro da
+Bairrada&mdash;todas as elegantes ociosidades patricias e dinheirosas, que
+por Lisboa entreteem o fogo da luxuria, nas saturnaes nocturnas da
+cidade baixa. A policia, tão meticulosa para com outros gyneceus de
+menos alcandorados brazões, guardára sempre ante o alcouce das Simas,
+um mysterioso receio ennastrado de deferencia, alguma coisa como a
+protecção da lei aos grandes monopolios. De grandes personagens se
+dizia, que nas dobras d'uma capa andaluza, altas horas, alli vinham
+beijar, entre duas taças de Champagne extra-secco, velludosas covinhas
+de barba, divinas de mocidade, surprehendentes de frescura,
+pacientemente rebuscadas, negociadas, cathechisadas, pelas Simas, mãe
+e filha, durante uma alcovitice de semanas e semanas; através dos
+viveiros mais bem fornidos de caça, bairros pobres, casas de modista e
+bastidores. Os melhor informados, frizavam precisamente, as jerarchias
+e nomes dos grandes freguezes, apontavam <span class="pagenum"><a id="page303" name="page303"></a>(p. 303)</span> os cocheiros de
+noite, muito em segredo commissionados para este serviço deshonesto; e
+outras historias lugubres... gritos de virgindades laceradas, rumores
+surdos de luctas no socego tragico da casa, sombras correndo em negro,
+de cabellos soltos, na brancura dos stores illuminados por dentro...
+Até d'uma vez... emfim, a instituição das Simas, entrada nos habitos
+lisboetas, fazia-se agora tão necessaria á cidade como os albergues
+nocturnos ou a Escola Polytechnica.</p>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p>Farejando a sala, o frequentador habituado, teria podido adivinhar uma
+especie de plano de campanha na ordenação dos espectadores da plateia,
+plano sabio traçado por algum grande claquista envelhecido nas
+barafundas do proscenio. Cada ala de <span lang="fr"><i>fauteuils</i></span> tinha o seu chefe. Ao
+pé da cadeira d'um espectador indifferente, viera installar-se um
+espectador comprado. Nas primeiras filas, destacando a sua linha
+temivel de luvas brancas e faces terrosas, installara-se a escóla que
+protegia a Velledo, na pessoa de dez ou doze escriptores cambados, e
+uma tropa de conselheiros e velhotes de bom tempo, por cujos <span class="pagenum"><a id="page304" name="page304"></a>(p. 304)</span>
+leitos a actriz espargira os perfumes talvez do seu banho matinal.
+Festejado Peres e Moreira das magicas, inquietos, encasacados,
+cavalleiros de Christo, profusos d'adeuses e abraços, tinham-se
+postado ás portinholas da sala como duas fuinhas, passando palavra aos
+que iam entrando, distribuindo poesias, pedindo applausos
+descaradamente. E ao passo que o brasileiro cuidava da ceia, com
+profusão de flôres e philarmonicas, Rogério levára ao Monte-pio os
+ultimos penhores que pudessem pagar um brinde a essa mulher que o
+entontecia e deslumbrava. No momento de descer a escada da Velledo,
+ainda o dramaturgo estava decidido a romper com ella. Porém cá fóra, a
+sua indole cobarde, amollecida de desejo, perdidos uns restos de
+pudor, tinha concebido possuir a todo o transe aquelle bello corpo de
+espuma e rosa, custasse o que custasse, uma só noite que fôsse&mdash;e
+assim organisára a reunião de criticos no laboratorio de pharmacia, a
+detenção de Lindôso, o chuveiro de panegyricos em todos os jornaes, e
+emfim a bella enchente d'aquella noite. A imaginação de Rogério fôra
+de tal ordem e presteza, que Pirralho e os adoradores d'Alcina apenas
+tinham encontrado cadeiras nas ultimas filas, <span class="pagenum"><a id="page305" name="page305"></a>(p. 305)</span> e camarotes
+das ultimas ordens. Desterrados para tão longinquas paragens, perdidos
+por escaninhos taes, facil seria suffocar a pateada que elles
+intentassem. Lindôso, desacreditado pelo artigo d'essa manhã, não
+tinha julgado prudente apparecer. Pirralho voltara-lhe as costas, os
+amigos d'Alcina ameaçavam esbofeteal-o em publico. Já o calor
+aljofrava as calvas susceptiveis, e as asas dos leques, por centenas,
+faziam no ambito como um borborinho de pombal.</p>
+
+<p>Á hora de subir o panno, o triumpho negociado por Rogério era coisa
+decidida ou quasi; e os animos pareciam propensos a victoriar, <i>mais
+uma vez, a nossa primeira actriz</i>. A peça, retalhada a dialogos
+scintillantes, era alguma coisa no genero Sardou e Dumas filho,
+estapafurdia como senso dramatico, mas irritante d'ironias e perfumada
+de gentilissimas graças&mdash;um adulterio desculpado por theorias de
+folhetim, em cuja imoralidade ninguem fizera attenção. N'essa comedia,
+toda sublinhada com uma rara finura, esfuziando os paradoxos por
+jorros e as mordacidades por turbilhões, sem entrecho quasi e profunda
+não obstante, combinando argucias de gentil-homem com sahidas de
+garoto, <span class="pagenum"><a id="page306" name="page306"></a>(p. 306)</span> imagine-se o que faria a Velledo, quasi gorda,
+chegada aos quarenta, com gestos atufando-se na plastica sólida dos
+braços, e não possuindo já a nervosa vida de scena, inspirativa,
+momentanea, nem já podendo facetar pelos entonos da voz, as mil
+intenções e subtilezas de dialogo, d'uma peça toda intellectual como
+aquella. Em compensação, as <span lang="fr"><i>toilettes</i></span> de rigor, os setins
+roçagantes, os <i>pufs</i> d'estofo adamascado, bordados de flôres, plumas,
+franjas e peitilhos de contas, iam direito á fascinação das burguezas.
+E apenas ella appareceu, foi na sala um borborinho atufado&mdash;<i>sss...
+sss...</i>&mdash;alguns tacões bateram ainda, e houve nas torrinhas um bocejo
+em voz alta, intencional. Mas estava calculada a reacção. De varios
+pontos, subito, ao mesmo tempo, sahiram palmas destacadas, quatro ou
+cinco vezes gritando:&mdash;bravo!&mdash;e uma formidavel salva revoou no
+theatro, louca, ensurdecedora, como nunca se vira. Vibrado o centro
+emocionavel da turba, podia a peça ter corrido como quizesse, bem,
+mediocremente ou mal; o resultado tinha de ser uma victoria. Foi assim
+que no segundo acto as chamadas eram já tantas, que Velledo fatigada,
+resolveu, desmaiar em scena. As flôres enchiam completamente o
+<span class="pagenum"><a id="page307" name="page307"></a>(p. 307)</span> palco e choviam sem conta dos camarotes. De pé nas cadeiras,
+debruçadas lá cima das torrinhas, centenas de figuras batiam as mãos;
+e Rogério achando ainda uma scentelha dos juvenis enthusiasmos
+d'outr'ora veio á scena offerecer-lhe um volumoso cofre de sandalo.</p>
+
+<p>Disse-lhe rapidamente:&mdash;a peça nova fez successo. Cumpri a minha
+promessa. Espero não esquecerá a sua.</p>
+
+<p>&mdash;Obrigada, disse ella, estendendo-lhe a mão, e a sua voz commovida,
+dir-se-hia fluctuar n'um lago cerulo de promessas d'amor.<span class="smaller"><a href="#toc">(Voltar ao Conteúdo)</a></span></p>
+
+
+
+
+<h2>INDICE</h2>
+
+<a id="toc" name="toc"></a>
+<ol class="toc">
+<li><a href="#page005">Aves Migradoras</a></li>
+<li><a href="#page071">O Sineiro de Santa-Agatha</a></li>
+<li><a href="#page117">Pequeno Drama na Aldeia</a></li>
+<li><a href="#page171">A Provincia, 171</a></li>
+<li><a href="#page195">O Juramento da Condessa Esther</a></li>
+<li><a href="#page209">Coronado</a></li>
+<li><a href="#page231">A Eminente Actriz</a></li>
+</ol>
+
+<p class="p2">&nbsp;</p>
+
+<p><a id="footnote1" name="footnote1"></a>
+<b>Nota de Rodapé 1:</b> Fluidos telepaticos, animicos, que se desagregam dos
+<i>mediuns</i> em somno hypnotico, chegando a tomar formas
+fotografaveis.<span class="smaller"><a href="#footnotetag1">(Voltar ao Texto Principal)</a></span></p>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Aves Migradoras, by Fialho d'Almeida
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AVES MIGRADORAS ***
+
+***** This file should be named 22622-h.htm or 22622-h.zip *****
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+
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
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+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
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+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
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+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
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+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
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