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diff --git a/22622-h/22622-h.htm b/22622-h/22622-h.htm new file mode 100644 index 0000000..11dfdae --- /dev/null +++ b/22622-h/22622-h.htm @@ -0,0 +1,6715 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//PT"> +<html> + +<head> +<meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1"> +<title>The Project Gutenberg e-Book of Aves Migradoras Author: Fialho D'Almeida</title> + + +<style type="text/css"> +<!-- + +body {font-size: 1em; text-align: justify; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} + +h1 {font-size: 140%; text-align: center; margin-top: 2em; margin-bottom: 2em;} +h2 {font-size: 130%; text-align: center; margin-top: 4em; margin-bottom: 2em;} + +a:focus, a:active { outline:#ffee66 solid 2px; background-color:#ffee66;} +a:focus img, a:active img {outline: #ffee66 solid 2px; } + +ol {list-style-type: none;} + +.p2 {margin-top: 1em; margin-bottom: 1em;} + +.pagenum {visibility: hidden; + position: absolute; right:0; text-align: right; + font-size: 10px; + font-weight: normal; font-variant: normal; + font-style: normal; letter-spacing: normal; + color: #C0C0C0; background-color: inherit;} + +.smcap {font-variant: small-caps; font-size: 95%;} +.smaller {font-size: smaller;} +.center {text-align: center;} + +.toc {margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + +.poem10 {margin-left: 10%;} + +--> +</style> + +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Aves Migradoras, by Fialho d'Almeida + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Aves Migradoras + +Author: Fialho d'Almeida + +Release Date: September 16, 2007 [EBook #22622] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AVES MIGRADORAS *** + + + + +Produced by Ricardo F. Diogo, Christine P. Travers and the +Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net + + + + + + +</pre> + +<h2>FIALHO D'ALMEIDA</h2> + +<h1><span class="smcap">Aves<br> Migradoras</span></h1> + +<p class="center">4.<sup>o</sup> MILHAR</p> + +<p class="center">LISBOA<br> +LIVRARIA CLÁSSICA EDITORA<br> +DE A. M. TEIXEIRA & C.<sup>a</sup> (FILHOS)<br> +<i>Praça dos Restauradores, 17</i><br> +1922</p> + + +<p class="center">PORTO—Imprensa Portuguesa<br> +Rua Formosa, 116</p> + + + + + +<h1><span class="pagenum"><a id="page005" name="page005"></a>(p. 005)</span> AVES MIGRADORAS</h1> + + +<p>—Mas tu és minha amiga, balbuciava a creatura querendo tomar-lhe as +mãos n'uma supplica desolada. Devias ter dó d'esta fatalidade que me +leva ao encontro de Ruy. Oh, tu não sabes! A idéa d'elle tira-me o +somno, embebeda-me, convulsiona-me, vai commigo a toda a parte. Tu ao +menos tiveste familia, irmãos, alguem. A mim nunca ninguem me quiz. Os +garotos puxavam-me os cabellos, meu pai batia-me em estando +embriagado. Aos dez annos puzeram-me fóra, que fosse trabalhar. E +andei descalça atraz dos porcos, ia aos sabbados pedir esmolas ás +portas dos ricos. Um verão agarram-me a furtar uvas n'uma vinha: o +vinheiro era um bruto, jogou-me um tiro; e cheia de sangue, quasi +morta, uns cavadores que passavam, foram <span class="pagenum"><a id="page006" name="page006"></a>(p. 006)</span> levar-me a casa da +minha madrasta. Mas á embocada da aldeia, como eu ia estendida n'uma +padiola de ramos, a senhora marqueza viu-me passar da sua janella, e +por caridade, recolheu-me. Alli se fôra creando, a fazer companhia ao +menino. Ruy n'esse tempo era um despota, obrigava-a a saltar muros, a +pendurar-se de cordas, a fazer de cavallo. E batia-lhe. Em compensação +Luiza adorava-o com um amor de cadella agradecida. Do fundo da sua +humildade, nascia-lhe um deslumbramento inexplicavel, uma curiosidade, +uma cegueira de Ruy. E nervosa, franzininha, como a figura d'uma +borboleta na melancholia pallida d'um sonho, adquirira já +precocidades: e os seus grandes olhos remordiam na belleza do +pequenito, substractos de muitissimas aspirações. Na quinta, os +trabalhadores ás vezes perguntavam-lhe:</p> + +<p>—Queres ser amiga além do menino?</p> + +<p>Ella abria os seus olhos vorazes, dizendo com a cabeça que sim. +Entrementes o pequeno ia crescendo. Era alto, delgado, divinamente +perfeito. Tinha já essa attitude desinteressada d'enthusiasmos, +indifferente aos impulsos fortes, desdenhosa, petulante, das creaturas +nascidas em meios altos, e destinadas ao predominio. <span class="pagenum"><a id="page007" name="page007"></a>(p. 007)</span> As suas +mãos davam cobiça, brancas de cera, e com detalhes mimosos d'obra +prima. Oh, mas a bocca, inexplicavel, trazia embrionada na esculptura +dos labios, todas as florações mysteriosas d'uma ascendencia +patricia—bocca de chefe pela austeridade, de diplomata pela ironia, e +de mulher pela doçura com que a descerrava, em sorrisos cicatrizadores +das esgarçaduras que a sua altivez antes fizera. Quando elle veio do +collegio a primeira vez, empallidecera: mas a expressão dos seus olhos +era uma coisa indescriptivel d'encanto, de melancholia e suavidade.</p> + +<p>Á enformatura tenra, oscillando como a haste anemica d'uma flôr de +estufa, viera juntar-se o mysterio poetico d'um espirito insexualmente +delicado, cujas infantilidades corrigia a cada instante um fogo-fatuo +d'idéa, e a graça grave, indecifravel cambiante, da esphinge que +contempla, sem desmentir jámais a prega austera da bocca. Era já, +n'essa idade, a creatura de gostos raros, avara de palavras e gestos, +fria, correcta, com preguiças d'ataxica e relampagos de crueldade na +pupila augusta de Cesar, adorando o luxo dos palacios antigos, tendo a +mania do <span lang="fr"><i>bibelotage</i></span>, e antegostando, como todos os homens da sua +<span class="pagenum"><a id="page008" name="page008"></a>(p. 008)</span> familia, uma especie de deleite perverso no desnortear pelo +testemunho das suas impressões prevaricadas, a sensibilidade reputada +normal pela outra gente. Essa susceptibilidade depressa se embotava +todavia, reclamando intercadencias, e por vezes derivando em +passageiras allucinações. Indole toda de <span lang="fr"><i>nuances</i></span>, refrangida d'um +sangue com predominio de soro, como uma luz coada através da sêda d'um +biombo, elle parecia arvorar o pallido como flamula de guerra da hoste +macabra dos nevrosados, cuja vida o tédio do vulgar envenena. Por seu +lado, Luiza conseguira ganhar pela viveza dos seus expedientes e +remoques, o espirito da senhora marqueza, ao tempo enlanguescido no +estranho mal que ia varrendo as gentes da sua raça, mercê das +allianças consanguineas em que esta teimára immobilisar-se. Em cinco +annos, nada restava já da pequena mendiga chegada ao palacio n'uma +padiola de ramos, com os cabellos nos olhos, os pés enlameados, +coberta de trapos, e resequida n'uma magreza dolorosa. Era uma bruna +de beiços rubros, dentes pequenos, com fórmas d'esculptura e sadias +destrezas d'amazona. Desde a partida de Ruy para Campolide, que ella +não tinha na casa occupações <span class="pagenum"><a id="page009" name="page009"></a>(p. 009)</span> definidas. Conservavam-n'a, um +pouco por gratidão, e por amor tambem, um quasi nada. E assim era um +bocado de tudo—leitora, enfermeira, guarda das estufas, esmolér-mór, +creada de mesa e bordadora—e assim podera conservar a sua selvageria +d'origem, tão familiar aos serviços da propriedade.</p> + +<p>Luiza era intelligente: alli se fôra educando, aprendendo, adquirindo +pela familiaridade da boa companhia e da riqueza esparsa em obras de +gosto, através dos velhos aposentos, essa cultura interior de +sentimentos, essa exoticidade de preferencias, essa indiscutivel +distincção de conversar e receber, que a tornaram depois tão +appetecida cá fóra—isto realçado co'a turbulencia da creatura nascida +em pleno campo, espojada nos fenos, e rebelde no sangue, longe das +peias deformantes da sociedade. Só de longe a longe, á força de +hydrotherapias complicadas, a senhora marqueza obtinha uma ou outra +hora de vida serena, e conseguia furtar-se aos lugubres nervosismos da +enfermidade. Era o feitio de Ruy, menos a juventude, mais a +impaciencia. A custo lhe sahia o espirito das abstracções e +somnolencias em que ficava embrenhado horas e horas; e exiguamente, +distillando a <span class="pagenum"><a id="page010" name="page010"></a>(p. 010)</span> lucidez como uma essencia, gotta a gotta, n'um +<i>ting-ling</i> monotono. A sua vida passava-se n'um canto de capella, +entre sombras, enterrada n'um <span lang="fr"><i>fauteuil</i></span> com baldaquino, e só de lá +sahia para se entregar ao cultivo de quatro ou seis predilecções +extravagantes. Resentia-se do claustro onde passára os primeiros annos +de educanda, e da côrte onde tinha gosado os primeiros mezes de +casada. Era uma natureza extatica, adorando as pompas do culto, os +requintes subtilisados da lithurgia, os movimentos dramaticos do orgão +no instrumental das grandes cerimonias—um pouco de mysticismo, n'um +pouco de miguelismo, n'um pouco de idiotismo,—com paixões de plantas +monstruosas e aves singulares, alimentando-se de fructas, vestida de +antigos damascos e <span lang="fr"><i>pompadours</i></span> de raminhos, e tendo sempre bolos +d'ovos no beniterio do seu genuflexorio. Era vêr a ternura de Luiza +durante as crises da boa senhora, e a meiga servilidade da sua voz +rebuscando as mais enternecidas musicas, para pedir perdão de lhe não +ter adivinhado mais cedo o pensamento.</p> + +<p>Essa ternura, Luiza não a fazia nascer exclusivamente da gratidão que +nutria pela <span class="pagenum"><a id="page011" name="page011"></a>(p. 011)</span> castellã: vinha antes da emoção que Ruy lhe +dava, da febre que lhe produzia a lembrança da sua belleza fruste e +singular. Todas as dedicações se fundiam n'ella, e assim todas as +especies de desejos inquietantes. Vinda d'uma mancebia d'aldeia, onde +rolavam a toda a hora palavras bebedas e acções quasi medonhas, Luiza +achára entre os moços da quinta, nas conversas surdas da cozinha e da +arribana, á hora da ceia, a continuação do que vira e ouvira em casa +da madrasta. Fôra preciso um cuidado assiduo, nos primeiros tempos, +para refazer-lhe o vocabulario, e transviar para intuitos mais +limpidos, a tendencia de vicio que ella trazia no sangue, em +purulentos coagulos. Se a educação e o mimo em que fôra subindo, á +proporção que se insinuava nas sympathias do palacio, lhe haviam feito +a lingua casta, e a expressão virginea, já por fim, no fundo, o +terrivel sangue conspirava n'ella, co'as herdanças fataes da vida +airada, phosphorejando ardores que a nubilidade ás vezes desencadeava +em verdadeiras procellas. Inda creança, o seu amor pelo Ruy já não +podia dizer-se immaculado. Não era esse idyllio de bambinos colligados +na mesma adoração por uma boneca, nem a celeste comedia, <span class="pagenum"><a id="page012" name="page012"></a>(p. 012)</span> +inolvidavel, de duas cabecinhas attentas para o mesmo malmequer que se +esfolha á beira d'um campo de trigo, sob o guarda-sol de sêda que a +ama baloiça, sorrindo de os vêr tão sérios, os dois noivos pequeninos. +Mas uma paixão d'inferior que se deslumbra pelos filhos da raça cujas +perfeições não pôde igualar, paixão com haustos de posse, +indeclinavelmente physica, prematura, perversa, e cheia +d'estonteamentos já torpidos. Com a idade, aquella ancia de Luiza não +se corrigia nem purificava, senão ia crescendo, accentuando, +colorindo, na medida da sua adolescencia cada vez mais radiosa em +seducções.</p> + +<p>Nas férias, mal se sonhava o dia em que Ruy devia chegar, já ella não +parava quieta em parte alguma. E eil-a passando os dias nos aposentos +do menino, revolvendo alcatifas, mudando o logar do leito, perturbando +a ordem dos quadros, a disposição dos mobilamentos, agrupando plantas, +pelo que sabia das predilecções de seu amo—pondo stores e biombos em +todos os portaes por onde francamente entrassem a luz e o ar. Na casa, +os creados sorriam, como quem sabe de tudo—gallinha canta... E os +ditinhos pullulavam. <span class="pagenum"><a id="page013" name="page013"></a>(p. 013)</span> Mas um que era já ruço, muito gordo, +quasi sacerdotal pela rigidez da compostura, costumava deter-se á +porta dos quartos, tossindo devagarinho, a vêl-a trabalhar.</p> + +<p>—É o Ezequiel menina Luiza.</p> + +<p>Ella gostava d'esse, que a defendia sempre das animadversões da +creadagem, e por toda a parte a cercava de deferencias tocantes. +Mesmo, das suas palavras paternas, ruminadas n'um fundo de reflexão um +poucochinho canalha, vinha-lhe uma sorte de lisongeira coragem. +Ezequiel era o unico que parecia não pôr em duvida a ascendencia de +Luiza sobre a outra creadagem. Emtanto elle ás vezes punha-se a +esquadrinhal-a, na sua bonhomia de velho, deixando cahir palavras +descuidosas aqui e além, para a fazer dar á lingua, e espaçando +reticencias de proposito, no sitio onde a rapariga, simploriamente, +logo ia prender revelações.</p> + +<p>—Muitos parabens, menina Luiza. Faltam só quatro dias.</p> + +<p>Ella, fingindo não entender:</p> + +<p>—Ora essa! Para que, Ezequiel?</p> + +<p>Elle ia entrando, punha o espanejador ao canto da porta, enxugava os +dedos da pitada ao avental.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page014" name="page014"></a>(p. 014)</span> —Estas raparigas, estas raparigas!... E d'ahi que tinha? Não +ha tanta menina pobre casada com pessoas grandes? Eu sempre queria +vêr...</p> + +<p>—Vossê, Ezequiel, nunca tem melhores lembranças. Ora o mofino!</p> + +<p>E o velho, conciliador:</p> + +<p>—Acaso admira que vossemecê goste de Ruy? O contrario é que +espantava. Creados de pequeninos, no mesmo berço quasi... E olhe que +têem muita força os beijos a que uma pessoa se acostuma de creança.</p> + +<p>Ella empallidecia e córava sem escrupulo, surprehendida no divino +tormento que lhe extasiava o espirito em fogos multicôres.</p> + +<p>—Olhe cá, Ezequiel. Cada um no seu lugar. O que diriam de mim, santo +Deus?</p> + +<p>—Coisa nenhuma, coisa nenhuma. Todos vêem como a senhora marqueza +trata comsigo. Zús d'aqui, zús d'alli, está-lhe sempre a chamar minha +filha. Olhe que é muita amizade, é amizade de mais para uma servente. +Eu sei que isto enfurece os invejosos. Não faça caso, menina Luiza, +não faça caso.</p> + +<p>—Ah, não tenha medo, Ezequiel.</p> + +<p>—E o menino Ruy então, não fallemos. Esse gosta, e gosta muito. Até +cartas lhe <span class="pagenum"><a id="page015" name="page015"></a>(p. 015)</span> manda. Não se faça encarniçada, menina Luiza.</p> + +<p>—O disparate!</p> + +<p>—Já cá sabemos tudo; pois então!</p> + +<p>—Crédo! Santo Nome! São cartas que elle manda para a senhora.</p> + +<p>—Para a senhora, sim, para a senhora mais nova. Eh! Eh! fazia elle +batendo as palmas, n'um tom maligno d'avô condescendente. Essa cama +que fique bem fofa, essa campainha que fique bem perto. Rapaziada, +rapaziada!</p> + +<p>Ouvindo estas coisas, Luiza abandonava-se, perdia a cabeça. E do +coração subiam-lhe á bocca ondas de confidencias, gritos d'alma, +brutaes franquezas de rebelde. A intensidade do seu sonho interior era +tão forte, tão sobreexcitado o delirio da sua imaginação, que para +seguir-lhe a trajectoria, Luiza compromettia-se mentindo, gabando-se +de scenas imaginarias, sem quasi perceber que se calumniava. Não, Ruy +não lhe escrevia. Não, Ruy não gostava d'ella. Mas Luiza, Luiza morria +por tel-o ao pé de si. Esses dias eram uma doidice, e Luiza não +dormia, Luiza não comia, Luiza não dava attenção á leitura, Luiza +estava distrahida á missa da senhora marqueza. <span class="pagenum"><a id="page016" name="page016"></a>(p. 016)</span> A cada +instante, omissões no serviço, pequenos confortos descurados nos +aposentos, portas abertas deitando correntes d'ar, stores erguidos nas +janellas, que endoloriam os olhos da enferma, apenas familiarisados +co'as penumbras cinzentas do seu canto d'oratorio.</p> + +<p>Então a fidalga impacientava-se: as impaciencias traziam-lhe o +nervoso. Era um horror. Para poisar os dedos no braço de Luiza, abrir +o livro de rezas, dar uma dentada n'um bolo, a pobre creatura estava +minutos em sobresaltos choreicos, debatendo-se contorcida, sentando-se +e erguendo-se apenas se sentava, lançando da bocca palavras +improprias, repetindo certos adverbios no meio das phrases: e +amargurada, presa de terror, por ter a consciencia de não estar +fallando bem.</p> + +<p>Raro, raro, o senhor marquez que residia em Lisboa, na roda dos +alegres <span lang="fr"><i>viveurs</i></span> d'então, se aventurava até áquelle deserto da +quinta, calado, religioso, e com uma expressão claustral +d'austeridade. N'essas poucas visitas, sua excellencia não vinha por +certo estancar saudades de sua mulher, senão solicitar da pobre dama, +mais uma vez, assignatura <span class="pagenum"><a id="page017" name="page017"></a>(p. 017)</span> para alguma hypotheca que o +auctorisasse a proseguir na sua vida libertina de velho rapaz. Chegava +então pela noite, em caminho de ferro, estava até ao outro dia, e na +madrugada seguinte, zut! elle ahi vai. As palavras que os dois esposos +trocavam, eram uma simples formula de deferencia imposta pelo orgulho +ás cogitações chocarreiras da creadagem, em que ella buscava mostrar o +desdem que nutria pelo esposo, e o esposo parecia artificialisar ainda +mais, a sua amabilidade correcta de marido desencantado. Na primavera +comtudo, a visita do marquez prolongava-se d'alguns dias, como era o +tempo das caçadas. Trazia então quatro ou cinco velhos amigos, alguns +creados, e as matilhas de galgos requeridas para a diversão. A +marqueza recluia-se mais, se é possivel, no seu angulo de palacio, +pretextando que a luz lhe encadeava a vista, que o ruido lhe +exasperava a <span lang="fr"><i>migraine</i></span>, e o aspecto da alegria dos outros mais fazia +contrastar a sua mortal e esmaecida tristeza de antiga moribunda. E os +caçadores ficavam sós, livres inteiramente para deixar correr sem +respeito, n'aquellas duas ou tres semanas de campo, uma impetuosa +existencia de barões feudaes, accesa nas <span class="pagenum"><a id="page018" name="page018"></a>(p. 018)</span> risadas do bom +vinho das cavas, nas correrias em pós das rapozas e lebres, e +castigando-se á noite, finda a ceia, Deus sabe, entre os braços das +mulheres que Ezequiel recrutava discretamente pelo burgo, na grande +sala de lambeis gobelinos, com mobilias marchetadas de quatro seculos. +Todas as manhãs, Ezequiel ia aos aposentos da senhora marqueza deixar +galantemente um ramilhete da parte de seu amo, que á volta da caça lhe +mandava em <span lang="fr"><i>plateau</i></span> tambem, a melhor peça da correria. Os fidalgos de +ha trinta annos eram ainda mais inuteis que os de hoje. A mordomos e +intendentes abandonavam a gerencia dos seus negocios interiores. +Restos d'altivez faziam-lhes encarar desprezivelmente o que elles +chamavam classes subalternas. Isto contrastando nas suas horas lucidas +com a intimidade que a mór parte abria a fadistas e toureiros, nos +momentos de vinhaça, por esses bordeis que ficaram celebres em +cantigas do fado. Este marquez de Selmes foi como os outros, um +perdulario espargindo fortuna e forças no rodilhão dos prazeres mais +em voga ao tempo. Em Lisboa, dava talher a uma turba de litteratos, +graciosos e moços de curro, com quem elle gostava de mesclar os seus +jantares d'intimos, <span class="pagenum"><a id="page019" name="page019"></a>(p. 019)</span> por manter o ar d'um grande senhor amigo +das artes, requestado pela popularidade dos varios conventiculos +elegantes da capital. E na quinta, aquelle mundo heterogeneo de +parasitas representava-se um pouco, mais resumido, pelo critico +Lagoaças, Alberto M., Marquez das Flôres, grande pegador de bois, pai +nobre Cezario, e festejado Mattos, que fazia rir a sociedade referindo +historias da Lisboa duvidosa, no seu aranzel comico de <i>tatibitati</i>. +N'aquella primavera, a surpreza do marquez fôra Luiza, a grande Luiza +que lhe surgia de repente uma senhora, e cujas infantilidades o velho +galante distrahidamente afagára até ahi. Lagoaças, que era forte +apreciador de fructos no cedo, foi o primeiro a chamar-lhe a attenção +para a deliciosa frescura d'aquella maçã prohibida, que promettia +co'os seus acres succos perfumar a bocca de quem lhe cravasse os +dentes primeiro. Foi então um movimento geral de galantaria no grupo +dos caçadores, sobre Luiza. Com a sua <span lang="fr"><i>nonchalance</i></span> habitual, o +marquez dava carta de corso aos amigos, admittindo-lhes correr palacio +a qualquer hora, em pós da famosa presa, se tudo fosse discretamente +acontecido. Quem mais lesto e galanteador se antolhasse, <span class="pagenum"><a id="page020" name="page020"></a>(p. 020)</span> +mais esperanças poderia nutrir de successo. Alberto M. começou uma +elegia.</p> + +<p class="poem10"> + Deliciosa aranha delicada,<br> + E com pennugens d'oiro revestida:<br> + Ligeira, dôce, setinosa e leve...<br> + Tens a peçonha lubrica mettida,<br> + Na caricia das patas côr de neve.<br> + .................................</p> + +<p>Marquez das Flôres era outro genero: confiava na mocidade viril dos +seus braços, e nas casacas vermelhas de caçador com que apparecia +todas as manhãs no grande pateo da casa, soado o primeiro hallali nas +trompas dos monteiros. E a batalha começou, estando Ezequiel empenhado +em fazer triumphar o marquez.</p> + +<p>Uma manhã fazia Luiza o <span lang="fr"><i>ménage</i></span> dos passaros, sobre o terraço, +Ezequiel que chega d'acaso. Bons dias d'um lado, bons dias do outro, e +começou uma conversa d'introito, ao fim da qual, sem se saber como, +Ezequiel já fallava nas graças de seu amo, ideal dos fidalgos +generosos, nata dos amigos commodos, e <i>non plus ultra</i> dos amantes +discretos. Não é verdade, menina Luiza, não é verdade? Ui! que +gorgetas elle lhe dava! Pares de calças <span class="pagenum"><a id="page021" name="page021"></a>(p. 021)</span> que lhe abandonára, +novinhos em folha! E a sua maneira de tratar então, como d'igual para +igual!</p> + +<p>—Boa pessoa, fez machinalmente a rapariga, é muito boa pessoa.</p> + +<p>—Uma coisa não sabe a menina. Elle está doido por si.</p> + +<p>—Ai! o tramouco do velho...</p> + +<p>—Diz que a ha-de fazer muito feliz.</p> + +<p>—Brr! Pois quem somos nós?</p> + +<p>—Tanto que me encarregou...</p> + +<p>—Vossê alcovita agora, Ezequiel?</p> + +<p>—Desejaria vêl-a amparada, menina Luiza. Conheci-a pequena n'esta +casa, vi-a medrar e fazer-se mulher, e gosto de si como os avôs das +netinhas tagarellas. D'ahi, não promette grandes dilatamentos a vida +da noss'ama: cedo, tarde, quando menos cuide, ahi vai ella caminho dos +anjos. E fallando claro: a situação que ella lhe fez n'esta casa, é +uma coisa postiça que lá fóra a menina não poderá continuar sem uma +protecção. Quer que mudemos de conversa?</p> + +<p>—Posso, Ezequiel, isso posso. Não digo a servir, mas escolhendo rapaz +com quem me case.</p> + +<p>—Da aldeia, da quinta... Que creação é <span class="pagenum"><a id="page022" name="page022"></a>(p. 022)</span> a d'esses homens? +Afeitos ao trabalho das terras, querem mulher da sua condição, que +sache, que monde, que moireje, e vista d'estamenha, e tenha rijeza +p'ra lhes parir um creanço, em todas as paschoas de Deus. Além d'isso, +duas naturezas desiguaes na educação—marido ciumento da mulher que +não merece—mulher desprezando o marido que a não soube captivar. +D'ahi zangas, ralhos, maus tratos, que sei eu? Ao passo que sendo +rica, poderia encontrar um moço d'estimação que lhe fizesse a vida +doirada, n'uma casa cheinha como um ovo.</p> + +<p>—Mas rica, rica... Vossê conhece a minha gente. Morrem todos de fome, +lá por casa. Se me não comem os olhos, é que não podem tirar-m'os sem +que eu dê por isso. Ser rica, de que modo, por que processo? Diga.</p> + +<p>—Eu a bem dizer, não tenho plano. Idéas vagas, muito d'alto, que se +não podem assim contar a uma rapariga nova e com principios diversos +dos meus. Idéas de velho que viu mundo e sabe chamar os bois pelo seu +nome. Olhe. Quando eu era rapaz tive uma patrôa viuva, entradota, mais +que medonha—inda esbraseada por noivar, pobre senhora!—que uma noite +me beliscou o assento, de passagem <span class="pagenum"><a id="page023" name="page023"></a>(p. 023)</span> por um corredor ás +escuras. Eu não quiz: gostava muito mais da cozinheira: opiniões de +galucho, menina Luiza! Fui p'ra rua como era de justiça. Quatro annos +depois estava o cocheiro nomeado visconde do appellido da minha antiga +adoradora. Perdidinha por mim, menina Luiza, perdidinha. Carago! E eu +tão bruto que não quiz! Se lhe ponho as calças em cima, andava agora +de sege por essas capitaes.</p> + +<p>—Fallando claro, o teu sermão quer dizer: amiga-te com o senhor +marquez, rapariga. Não é isto? Por sua morte, talvez sejas rica; em +vida d'elle por força has-de ser feliz.</p> + +<p>Ezequiel não retrucou, mas poz-se a contar historias de raptos, +vergonhosos amores, coisas cynicas e patuscas, sem apparente +colligação de sentido. A voz fizera-se-lhe surda, d'uma firmeza +espaçada que lhe espargia na face aspectos graves de prégador e de +magistrado. E recapitulou da prédica, pitadeando, que a vida era um +quotidiano mercado onde a gente adquiria o que por acaso tivesse de +sobrecellente. Manoel Antonio Ferro, sahira da aldeia com elle, +Ezequiel, em 40, com tres pintos no bolso, e o saquito da roupa +branca. Entrado marçano n'uma loja do Porto, roubou <span class="pagenum"><a id="page024" name="page024"></a>(p. 024)</span> o dono: +primeira façanha, vá vendo... Foi ao Brasil mercandejar nos escravos, +volta millionario. Chegado a Lisboa n'um estadão de principe, +recommendado até aos olhos, nenhuma casa se abriu para o receber. +Trazia na consciencia duas mortes, ao que se contava, e uns poucos de +processos por contrabando e moeda falsa. O homem não se ralou muito +co'a recepção dos patricios. Fez tranquillamente um palacio na +Junqueira, talhou jardins, comprou herdades, derribou azinheiras, +plantou vinha, fez eleições: e um bello dia, quando já entrava a ser +necessario, deu doze contos para escolas, reclamando farda de moço +fidalgo, pelos Ferros de Santo Thyrso, que eram ladrões d'estrada e +sapateiros. Toda a gente entrou a chamar-lhe venerando, desde os doze +contos. Hoje, ninguem funda um banco sem o nomear director, e não se +inaugura uma escóla sem elle lá ir botar discurso, com os seus ares de +pai-avô. Está par, está conde; e se ainda não põe na cabeça a corôa +real, é que já tem uma de cornos, mimo da mulher, a sogra d'este +Marquez das Flôres que ahi está de visita. A duqueza de Montes, menina +Luiza, hoje velha, e tão virtuosa senhora, que manda rosarios da Terra +Santa <span class="pagenum"><a id="page025" name="page025"></a>(p. 025)</span> a noss'ama... era uma dançarina do primeiro +café-concerto que se fundou em Lisboa, cheia de molestias. Depois da +dança, vinha p'ras mesas embebedar-se com genebra, sentada no collo de +quem lhe desse dois pintos. Eh! Eh! Tudo se vende e se compra: caras +geitosas, virgindades velhas e novas, familia, patria, salvação, +condecorações, reputações, sapatos d'ourello e garrafas de vinho. Quer +um bom camarote no reino dos céos, menina Luiza? Dê quatro contos ao +papa: manda-lhe a chave na volta do correio. Faz-se de côres? Ora +adeus! Não digo que seja dos Evangelhos, esta doutrina. Mas é o resumo +de cincoenta annos de trambulhões e miserias. Seja-me rica! A primeira +felicidade é ter que vender. Mas a unica, a verdadeira, é poder +comprar.</p> + +<p>—Ezequiel, vossê tem a alma ruim.</p> + +<p>—Por lhe confessar que só os imbecis se portam bem? Por lhe dizer que +este mundo é dos descarados? Ai, se eu tivesse podido convencer-me +d'estas coisas na sua idade! Não traria agora senão a libré de mim +proprio, e o mundo havia de fazer o que me viesse á cabeça. Faça o que +quizer, menina Luiza. Mas esta fabula é clara como agua. O senhor +marquez gosta de si. Qualquer dia <span class="pagenum"><a id="page026" name="page026"></a>(p. 026)</span> a senhora marqueza, +trrr... foi-se. Que ha de fazer a Luizinha? Estará resolvida a dar-se +por mulher ao primeiro labrego que venha? Mas creatura! Voltar para os +casebres da sua madrasta, d'onde fugiu a honra com medo aos piôlhos? +Brada aos céos! Viver pura como a luz, uma vida escura como a noite? +Olha a tolice! Despir trajos de senhora, deixar este palacio e os +confortos da vida farta, a que se afez desde pequena?.. Bau! Bau! não +tem coragem. Isso sim! Vá, tane as mãosinhas em trabalhos que humilham +e não salvam da pobreza e da fome. Hum! Hum! menina Luiza. Esses olhos +não mentem no que deixam adivinhar. Venda, venda! O senhor marquez +gosta de si.</p> + +<p>As lagrimas saltavam já dos olhos de Luiza.</p> + +<p>—É mais facil morrer, disse ella.</p> + +<p>—Pois minha rica, não será rondando o Ruy noite e dia, mais de noite +que de dia, que a menina ha de ir á cova de capella e palmito. Gostar +do filho, tem todos os inconvenientes de gostar do pai, menos as +vantagens. Esse pequeno é um cabeça louca; póde fazer apetite ao +femeaço—o que não faz com certeza é uma bizarria que a deixe +independente <span class="pagenum"><a id="page027" name="page027"></a>(p. 027)</span> a si. Porque não póde! Porque não tem! D'ahi, +tarefa inutil perseguil-o. O fedelho por ora não larga os amiguinhos +do collegio. A menina não tem fortuna, parece-me ambiciosa... Venda. O +seu genero está na alta. Dezoito annos. Uma lindeza! Venda. Bocca de +morango, voz de seraphim... Venda, venda. O senhor marquez gosta de +si.</p> + +<p>Era o tempo das florações e dos ninhos. Divinas juventudes explodiam +d'amor nas seivas da terra, na luz e nos perfumes do ar. O céo dôce, +todo o campo uma distillaria d'essencias: lá baixo, na aldeia, as +romarias começavam, e os casamentos tambem. Luiza guardava silencio, +co'os olhos longe, vendo subir a manhã pelo cantar dos passaros. +Comprar e vender. Vender e comprar. Uma carinha bonita, um corpinho +perfeito. O senhor marquez gosta de si.—E Luiza chorou todo o santo +dia.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>N'essa cabeça de fogo entretanto, surgia cada vez mais fascinadora, a +imagem de Ruy, toda abrasada d'estranhos prestigios: e diante d'ella +ardendo sempre o lampadario d'um culto cego e inexoravel. Com o +pequeno <span class="pagenum"><a id="page028" name="page028"></a>(p. 028)</span> tinham vindo á quinta passar as férias da Paschoa, +tres ou quatro dos seus companheiros mais intimos—Palhalvo, já gordo +aos quinze annos, cujas bochechas tinham o geito d'estarem soprando +uma desconforme trombeta, á semelhança d'esses anjos papudos que fazem +apotheose ao calix mystico, nos frontões das capellas-móres—Mattoso, +filho d'um criado velho, que a senhora marqueza destinava ao +sacerdocio, e dominava o grupo com os seus modos severos de +preceptor—Jorge Forjaz, primo d'Albertina, era o litterato, e +recitava Rodrigues Cordeiro e Palmeirim nos banhos da Nazareth e Praia +da Vieira—emfim Biscaya, especie d'aranhiço adunco, côr de feno, +sempre tossindo, era um engeitado que o marquez recolhera e mandára +ensinar, e cuja maldade e azedume transpareciam já nos seus dichotes +de gaiato. Esta ronda de meninos bonitos, uns mais precoces do que +outros, alvoroçava o palacio logo ao romper da manhã, extravasando nos +pateos em exercicios de força e gymnastica, furtando beijos ás moças +por onde quer que as topasse, partindo n'uma algazarra, em carretas de +lavoira, para as searas onde mondassem raparigas, ou organisando +correrias, d'onde os cavallos voltavam <span class="pagenum"><a id="page029" name="page029"></a>(p. 029)</span> desferrados e +cobertos d'espuma. Póde-se calcular o que estes diabos accrescentavam +de desordem á volta dos festins do marquez: excepto Ruy, que ia ao +almoço e jantar fazer companhia a sua mãi. Era a unica imposição +tambem da boa senhora, ter o filho em <span lang="fr"><i>toilette</i></span>, defronte de si, nas +refeições. E isto enchia d'importancia o pequeno, todo esforçado em +infiltrar na melancolia austera da enferma, um raio da sua graça +juvenil. Mesmo, o seu respeito por ella, timbrava em mimos, pieguices, +ternuras, pequenas dedicações que a velha dama absorvia sem transluzir +na face exangue emoção d'especie alguma.</p> + +<p>Desde que Ruy chegára á quinta, a marqueza dispensava Luiza de lhe lêr +as orações e velhos livros de pastoraes, villancicos ou novenas aos +santos patronos mais dilectos. Era então Ruy o encarregado de lhe +percorrer as passagens estimadas. Elle a tudo se prestava, com um +tocante respeito de pagem amoroso, tentando seguir nos olhos d'ella o +grau de satisfação que promovia, e evitando as crises com uma +ligeireza d'alma adoravel e compadecida. Immovel por traz da cadeira +da marqueza, Luiza servia-os, interpondo a enferma como medianeira +innocente, no jogo <span class="pagenum"><a id="page030" name="page030"></a>(p. 030)</span> galante em que ella buscava encasular a +adolescencia do rapaz. Alguma vez este lhe dirigia a palavra, a buscar +apoio n'uma asserção, a preferir o conselho de Luiza no tocante a +qualquer pormenor de solicitude para com a mãi. E a alegria da pobre +creatura, quando elle erguia aos olhos d'ella, os seus olhos picados +de scentelhas leaes! N'essa alma de collegial, toda escrupulosa no +<span lang="fr"><i>froufrou</i></span> da sua alvinitente plumagem, parece, nenhuma idéa de mulher +passára ainda. E Luiza interrogava-se, sofreava-se, confusa, +estonteada, aterrada das suas audacias, e sem coragem de revolver co'a +sombra d'uma <span lang="fr"><i>coquetterie</i></span>, o lago azul d'aquella pureza celeste.</p> + +<p>Uma manhã, cedo ainda, Luiza ia acordar Ruy para um almoço na horta, +antes da caçada, quando se deteve á porta do quarto, sentindo rir e +cochichar por entre as cortinas do leito. Talvez que Palhalvo, +madrugador, a tivesse antecedido. Uma avidez de saber espicaçava-a +entretanto. Pé ante pé, esgueirou-se por entre os batentes da porta, +franzindo pouco o reposteiro, para se ir acocorar, sutilosa, por traz +do grande biombo de coiro que resguardava a entrada. Era um dialogo +abafado, d'um tom unido, e com palavras expirantes <span class="pagenum"><a id="page031" name="page031"></a>(p. 031)</span> que ás +vezes se perdiam entre murmurios de suspiros e beijos. Luiza avançou +traiçoeiramente a cabecita de vibora para fóra do esconderijo. E os +seus olhos estavam como uma interrogação rancorosa, através das +phantasticas elegancias d'essa camara, que nos seus mais pequenos +detalhes evocava em estatua a organisação desconnexa, fruste, +mysteriosa, desigual, que lá vivia. Bem podia a estranheza da +installação ser tomada em amostra de faculdades singulares. D'aquellas +fórmas erraticas e symphonicas de côres amortecidas, via Luiza +exhalar-se, sob um dia novo, a alma exotica a que ellas serviam +d'involucro. As paredes eram forradas de velludo sombrio, já desbotado +nos sitios do sol, e com pinturinhas vaporosas de figuras e flôres. +Sombrios tapetes, quasi uma relva, amorteciam a bulha dos passos, até +aos degraus do immenso leito toucado d'escuro, á laia d'eça, e com +cercaduras á moda das da armação mural. Uma quantidade de moveis +singulares: credencias d'ébano sobre ligeiros pés, trabalhadas como +uma renda preciosa de volutas, entre ferrarias de prata batida a +martello; nudezas d'estatuas aos cantos, brancas d'insomnia no rasgo +genial das suas attitudes, <span class="pagenum"><a id="page032" name="page032"></a>(p. 032)</span> servindo de cabide a chapéos de +mil formatos: grandes jarrões sobre cubos esculpidos, em cujas arestas +noctiluziam douradas vagas de pregos: e mesas carregadas d'estatuetas, +marfins, velhas miniaturas, bocetas esculptadas: espelhos de metal, +tenebrosos, por cima dos canapés, fazendo surgir da sua agua verde, +esqualidos phantasmas d'enforcados: roupões de grandes desenhos na +espalda dos tamboretes: e defronte do leito, um enorme divan com os +cochins em desordem, alguns atirados, e livros por cima, cujas folhas +os galgos iam passando entre as patas, por distrahir-se, nos +intervallos da somneca. De cada um d'esses pormenores, um braço sahia +e apontava um capricho, escaninhos velados de religião instinctiva, +qualquer coisa de cavalheiroso em que palpitava uma raça, ou se iam +espreguiçando as passivas mollezas da anemia hereditaria. Lentamente, +os olhos de Luiza afizeram-se a divagar por toda aquella confusa +penumbra. Pela direita, acima do genuflexorio, n'uma especie de +tryptico negro, havia um quadro: era estranho: duas mãos brotavam da +carbonosa noite do fundo, implorativas, mãos d'asceta devorado pela +tentação: uma cabeça <span class="pagenum"><a id="page033" name="page033"></a>(p. 033)</span> funebre movia-se nas sombras d'um +capuz, insistindo em affirmar o quer que fosse d'asperrimo—se a +lampada gothica de tres bicos, cahida do tecto, oscillava, no tom +mortiço que as luzes têm de dia, mesmo ás escuras. Aquillo parecia um +templo, sob a agonia terrivel da lampada. Mas já lambendo o muro, o +clarão d'ella fazia valer tropheus d'armas, radiando d'estapafurdias +panoplias: a mitra d'um bispo, cravejada de joias, um parasol de coiro +arrancado ás escavações d'um templo romano, em Evora, peitoraes d'uma +antiga cota sarracena... E dir-se-hia uma sala d'armas então. Porém do +outro lado, a luz ia aclarar perto do leito, um perfumador de cobre +sobre tripé de bronze. Luiza reparou. Ligeiros fumos fugiam á tona da +caçoila, espojando arômas de flôres de Takeoka, bolas de styrax, coiro +da Russia, jasmins... E santo Deus! a narina farejava lupanar. De +quando em quando, as cortinas do leito mexiam, e pelo ar respirado da +peça, aquelles perfumes torpidos erravam, n'essa calentura das alcovas +habitadas pela reminiscencia de muitos amores sobrepostos. Luiza +sentia-se desfallecer, á idéa d'outra mulher antes d'ella, ter +captivado o estudante. Mas que mulher? dizia <span class="pagenum"><a id="page034" name="page034"></a>(p. 034)</span> a camareira +emparvoecida. O nome d'ella? O feitio d'ella? Dentro do palacio, por +mais que procurasse, não descobria uma rival. Sua irmã não era bella: +e fatigada, arrastando saias de barra immunda... Na cozinha, as +creadas, todas feias de perder os sentidos. Alguma creatura de fóra? +Isso é que não! De noite, Luiza rondava os corredores: a galeria que +abraçava exteriormente o quarto de Ruy, era Luiza que lhe fechava a +grade de ferro, aberta sobre os jardins. E irresoluta, tinha um suor +na raiz dos cabellos. Aquelle sonso! Aquelle vil!—A sua primeira gana +tinha sido correr ao leito, afastar as cortinas, ir contar tudo á +senhora. Mas um terror apoderára-se dos seus membros. Que medonha +noite na sua alma, que singular e perfida violação do seu destino, +quando ella visse com os seus olhos, palpasse com os seus dedos, o que +já alcunhava de traição a uma fé que ninguem lhe havia ainda jurado! E +lá dentro, n'aquelle infame ninho de volupias, sempre o murmurio de +beijos e suspiros. Urgia emtanto chamal-o para o almoço. Já no pateo +havia rumores de vozes e relinchos de cavallos. Luiza sahiu pé ante +pé, para entrar outra vez com grande ruido de portas <span class="pagenum"><a id="page035" name="page035"></a>(p. 035)</span> +atiradas. Mas ainda ella não transpunha a área de resguardo marcada +pelo biombo, Ruy sahiu do leito com impeto, muito pallido, vestido +apenas d'uma camisa de sêda: e vindo a ella, volubilmente, abraçou-a a +plenos braços, deu-lhe um beijo furioso na bocca, e de rodilhão pôl-a +fóra, fechando a porta sem mais explicações. Foi n'aquelle idyllio +triste a unica impressão feliz que ella sentira: e todo o dia, toda a +noite, lhe sabia a bocca áquelle beijo de rapaz que lhe entrára na +carne pela furia virulenta da lingua.</p> + +<p>D'alli a pouco, os caçadores deixavam o pateo direito ao laranjal. +Luiza chegou-se ao terraço a vêl-os partir. Era o resto. Alberto M., +empurrava para a porta Marquez das Flôres, retardado em dizer +madrigaes á camareira. Festejado Mattos ia bifurcado n'um burro, +immovel como um bonzo por baixo d'um grande chapéo de esteira do +Algarve, entre cabazes de provisões. Marquez de Selmes fôra o ultimo a +transpôr a porta. Reparando em Luiza, gentilmente:</p> + +<p>—Tira a cabeça do sol, não adoeças.</p> + +<p>E mandou-lhe um beijo nos dedos. Então ella alongou a vista para além +dos muros do <span class="pagenum"><a id="page036" name="page036"></a>(p. 036)</span> pateo, viu Ruy pelo braço de Mattoso, +conversando a passos vagarosos.</p> + +<p>—Menina Luiza.</p> + +<p>Era Ezequiel com uma caixa de marroquim.</p> + +<p>—Da parte do senhor marquez.</p> + +<p>Luiza abriu o cofre, na ingenua expansão de Margarida ao atacar a aria +das joias, na scena do jardim.</p> + +<p>—Joias, joias! e houve no orgulho d'ella, um romper do sol +vertiginoso.</p> + +<p>—Para começo, é do melhor, dizia Ezequiel. E Luiza tocava n'um +bracelete ao acaso, com safiras e pequenas perolas d'agua duvidosa. +Havia mais um afogador, seu par de brincos, outra pulseira... E a sua +bocca sorria de pasmo, na sua cara enxovalhada de pejo.</p> + +<p>—Vale quarenta libras, toda esta caganifancia, quarenta. O homem faz +limpamente os seus negocios, dizia Ezequiel. Eh! Eh! ponha lá as +pulseiras, menina Luiza:—abriu uma.—Que lindeza! Metteu-lh'a no +braço. É para vêr como fica.</p> + +<p>Luiza toda se arrepiava ao frio do metal na pelle trigueira do seu +punho. Lembravam-lhe aquelles beijos na camara de Ruy, pela manhã. E +fechou o cofre de repente, <span class="pagenum"><a id="page037" name="page037"></a>(p. 037)</span> dizendo a Ezequiel que o tornasse +a levar ao marquez. Com certeza houvera engano. Ella não podia aceitar +presentes d'aquelles.</p> + +<p>Então c'o gesto grave, Ezequiel:</p> + +<p>—Nada, nada. Seu amo ficaria fulo, se visse as joias recambiadas.</p> + +<p>Mas Luiza não o escutava, nem ouvia. De novo, o ciume lhe fizera +derivar a attenção por outra corrente.</p> + +<p>Oh, a mulher que estava com elle! Não poder ella agarral-a sem +testemunhas! Não lhe poder tomar o nó da goela entre os pollegares +furiosos; e desagregar-lh'o, e esmagar-lh'o fazendo-lhe espalmar a +lingua para fóra da bocca, até á base toda sangrenta nas mordeduras da +agonia! Via-o então apparecer d'entre as cortinas—como elle vinha, +lesto, branco, em sobresaltos!—na sua esguia camisa de sêda, vermelha +e longa, muito franzida á volta do pescoço, e toda ella moldando a +estatura elançada d'algum d'esses reisinhos loiros das phantasmagorias +poeticas de Shakespeare. E o beijo que lhe déra, tão sapido de +delicias inéditas, bocca a bocca, Luiza tinha-o sempre no fremito dos +seus labios, e guardava-lhe o perfume no halito, como se o embalsamára +uma pastilha de harem.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page038" name="page038"></a>(p. 038)</span> —Além de que, tenho fé que a menina vai d'aqui a pouco mudar +de tenção. Olá se vai!</p> + +<p>—Que está a rosnar, Ezequiel?</p> + +<p>—Nada, nada. Aceitar, que quer dizer? É um presente: meu amo não pede +nada por elle. D'ahi, seria a primeira vez... Eu cá recusei deitar-me +co'a viuva, que era barbosa e medonha, mas sempre lhe fui recebendo +bom relogio de oiro. Gente pobre põe de banda orgulhos tolos. É metter +n'algibeira, menina Luiza. É de boa creação.</p> + +<p>Luiza ficou cogitando. Joias tinha-as ella visto nos gavetões da +marqueza, em grandes cofres de setim desbotado: estylos modernos, +velhos estylos, todos os metaes, todos os esmaltes, pedras de todas as +aguas e de todas as côres. O mal da pedraria, que faz cúpida a mulher +do alto luxo, Luiza não podia soffrel-o ainda, no seu humilde papel de +camareira. Vagamente ella entrevia a seducção d'aquellas faiscantes +areias, que os romances acclamam como talisman de todas as concessões, +sem todavia desconfiar que atmosphera mordente põem de roda á belleza, +as fulgurantes pedras lapidadas. Ir contar tudo á senhora marqueza? +Boa idéa. Luiza foi aos aposentos da enferma. Ahi lhe daria o ataque +<span class="pagenum"><a id="page039" name="page039"></a>(p. 039)</span> de nervos, desharmonia na casa, e talvez para ella o olho da +rua... Muito embora! Entrou. Mas logo ao entrar ouviu tossir. A velha +passára mal durante a noite, vomitos sêccos, uma ponta de febre, e a +manhã passou-se n'isto. A marqueza não tinha querido erguer-se da +cama, e ouviu missa mesmo deitada, pela porta entreaberta do oratorio. +A cada momento, Luiza tinha que voltal-a, trazer-lhe um livro, +executar uma ordem, aconchegar uma cortina, vêr o tempo. E só pelo +meio dia pôde tirar um bocado para se ir vestir. O quarto d'ella era +junto aos aposentos da senhora, com uma porta sobre o grande corredor +que levava aos quartos de Ruy, não longe dos quaes demorava Ezequiel. +E Luiza começou um <span lang="fr"><i>toilette</i></span> minucioso e cuidado. Ao canto fumegava o +banho, em que ella entornára meio frasco d'agua flórida. E sobre a +commoda, o cofre aberto, deixava vêr os presentes do marquez. Das +gavetas saccou Luiza a roupa que precisava: uma camisa d'abertos, bem +fina e trabalhada por ella, saias brancas—era um domingo—e d'uma +gaveta pequena, o retrato de Ruy que poz á vista, sobre o pequeno +movel de cabeceira. Já uma a uma, as saias d'ella iam cahindo, diante +do espelho, <span class="pagenum"><a id="page040" name="page040"></a>(p. 040)</span> com a friorenta graça, um pouco crispada, d'um +faisão que se banha no regato, ruflando as plumas, depois de haver +bebido. E ainda apoiando ao seio a camisa, que despira, espremeu +d'alto, vagarosamente, sobre a tina, a esponja ensopada em agua +tépida. Desnastrára os seus cabellos, que eram grandes, espiralados, +bem fartos, reluzentes e negros, torcendo-os após sobre a nuca, n'um +grande molho de serpentes, como nas estatuas classicas, os cabellos da +Venus aphrodite. Espiralitas doidas, carrapitos finos, muitos +frisados, soltavam-se-lhe do turbilhão de cabellos, por brinquedo, +cocegando-a na pelle doirada do pescoço. Emfim a camisa cahiu; e era +assim adoravel de nudez, triumphante de mocidade, cheia de revelações +e surprezas virginaes. Quasi morena, a sua pelle vestia uma carne +rija, symetrica, cantando sonatas perfidas de volupia, em que resoavam +estribilhos de dentadas, gritos hystericos, spasmos e soluços +d'insaciavel peccado. Mesmo, á volta da banheira, dirieis que as +coisas abriam palpebras, e por entre as palpebras, olhos que a +fitavam, furiosos de deboche, gritando infamias por centenas de boccas +invisiveis. Ui! como a sua divina garganta, <span class="pagenum"><a id="page041" name="page041"></a>(p. 041)</span> rapazes, parece +crystallisar em bellezas inéditas, toda a luxuria em que as gerações +têm urrado, sedentas da fórma, ha tantos seculos! Que bazar de +tentações delirantes era o seu peito, que duas pétalas de rosa +maculam, tão altas, tão iguaes, tão erecteis, que antes pareciam +beicitos de criança, estendidos n'um momo candido para aceitarem o +beijo d'um velho amigo da casa.—E mergulhou, espanejada, dilatada de +prazer, cantarolando baixo uma cantiga. A espaços chapinhava a agua, +immergia, tornava a cahir, amollecida n'um desejo, sonhando noites de +nupcias com elle, sobre o leito de cortinas sombrias, onde as suas +respirações se estrangulassem entre um murmurio de beijos e suspiros. +O retrato de Ruy nem a fitava, receando a perscrutação impreterivel +dos seus olhos, e o jugo d'aquelles braços, absorvente e pantanoso.</p> + +<p>Uma hora no relogio do corredor.</p> + +<p>Ainda agora Luiza não sabe explicar, como é que tendo jurado a si +mesma, recambiaria o estojo ao marquez, se encontrou no fim do banho +em frente ao espelho, núa como Cypris na areia de Cythéra, ensaiando o +effeito do afogador e dos braceletes, na pelle rosada ainda dos +attritos da esponja. Á medida que <span class="pagenum"><a id="page042" name="page042"></a>(p. 042)</span> ia fixando sobre o +espelho, tantos e tantos detalhes de perder a cabeça, passava no +clarão dos seus olhos o mudo extasi de si propria, e a coriscação do +oiro novo, nas flocosidades brunas da garganta e dos hombros. E +comsigo mesmo acabou por achar razão a Ezequiel. Por fim de contas, +aceitar que quer dizer? É um presente. O senhor marquez não pede nada +em demasia da offerta. Virava a cabeça para vêr o luzeiro dos brincos, +ageitava o colar, punha as pulseiras... Deliciosa, fascinadora, +appetecivel! Se Ruy pudesse vêl-a a plena luz, assim despida, e sem a +hypocrisia do mais ligeiro véo, talvez que elle sustasse de vez tantas +repulsas—ai, talvez!—e viesse cahir-lhe aos pés absorvido na sua +belleza immortal. Oh, como da esbelteza nervosa dos dois corpos, +ventre a ventre, se evolaria o poema de mysteriosas caricias n'esse +instante, rimado a beijos, labio a labio; esse divino poema, através +de cujas estancias rola a batalha do gozo, e do calice de cujas +imagens gotteja a tripla-essencia das mais celestes devassidões! Duas +vezes ou tres desenrolára a camisa, esfregando-a da gomma entre as +mãos sobresaltadas: e ainda por fim se adorava no espelho adulador, +furiosa por dar-se, <span class="pagenum"><a id="page043" name="page043"></a>(p. 043)</span> n'um paroxismo que ia até ao +deslumbramento. De repente pareceu-lhe ouvir rumor no quarto proximo. +Enfiou a camisa á pressa, atarantada; pé ante pé foi indo de mansinho +até á porta, receosa, d'ouvido á escuta occultando a nudez por traz +dos reposteiros. Não se enganára. Estava entreaberta a porta do +corredor. Então lançou um chale pelos hombros, enfiou as chinellas á +pressa, sem se atrever a perguntar quem andava lá. Mas deu um grito de +susto, vendo Ezequiel diante d'ella, lívido de morte, tremulo e babado +como um satyro decrepito.</p> + +<p>Luiza apenas tivera tempo de acocorar-se a um canto da peça, buscando +encobrir-se toda no chale, pallida de vergonha e gritando ao malandro +que se fosse.</p> + +<p>Porém este, apopletico, nem fallar podia, fulminado por aquella visão +de mulher núa, e com o cuspo a espessar-se em grossos fios nos cantos +da bocca.</p> + +<p>—Aquelle ruivo, menina Luiza, tartamudeou elle por fim, rolando os +olhos,—o que faz versos... Entregou-me este papel para vossemecê.</p> + +<p>—Bem, bem, vá-se embora. Ande! Não ha maior atrevimento.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page044" name="page044"></a>(p. 044)</span> —Ouve, Luizinha, rica filha, eu já me vou. É uma coisa que +eu trago aqui guardada. Des'que te vi. E tão núasinha, tão boa, Jesus +do céo!</p> + +<p>—D'aqui p'ra fóra! Já! Ou chamo gente.</p> + +<p>—Os outros querem-te por uma vez, pai, filho, moços e velhos, anda +tudo atraz de ti. É uma canalha, já t'o disse, é uma canalha. Até me +propuzeram que te amordaçasse, uma noite, p'ra se refocilarem comtigo, +aquelles ladrões.</p> + +<p>A sua voz rastejava, o seu aspecto era terrivel.</p> + +<p>—Pelo amor de Deus! supplicou elle. Ouve-me ainda.—Estou quasi rico. +Estou velho. Oh, chega-te a mim! Podemos casar. Ámanhã. Hoje mesmo. +Filhinha! Que és bonita d'offender a Deus no céo.</p> + +<p>Estendia os braços para cingil-a, co'a lingua sêcca na bocca, e +alongando os beiços lividos contra os claros de nudez que lobrigava.</p> + +<p>—Anda commigo. Sahirás d'esta espelunca. Só em Lisboa, tenho doze +contos no banco, á minha ordem. Pratas, inscripções arrecadadas ao +canto do meu bahú. Ouve, Luiza! Tu matas-me, diabo! tu estás deitando +<span class="pagenum"><a id="page045" name="page045"></a>(p. 045)</span> a minha alma no inferno. Um beijo só n'essas carninhas. +Deixa dar. Que mal te faz?</p> + +<p>E vergado á tremura senil dos debochados, Ezequiel cambaleava, +crispava-se, indo para ella de rastros, assim como um cão leproso +conquistando a codea que lhe negam, sob golfões de chicotadas.</p> + +<p>—Não tenho herdeiros. Um pobre velho! De hoje p'r ámanhã posso +morrer. Lembras-te do que te tenho dito? Os conselhos, os mimos... +tristezas que eu soffro por causa de ti. Eh! Eh! Está decidido que +aceitarás.</p> + +<p>Então conseguiu agarrar-lhe um braço, o que desligou Luiza das algemas +nervosas que a sustinham, estarrecida, perante o sapo de cujo visco +escorria tanta lascivia torva d'impotente. Houve uma lucta. Os +cabellos de Luiza rolaram.</p> + +<p>—Larga-me, ladrão! dizia ella n'um choro baixo, rapido, soluçando em +convulsões. Comtigo, nem morta, estupor! Doira-te, a vêr se eu te não +cuspo n'essa cara. A tua vida, todos a conhecem. Devias andar na costa +d'Africa, amarrado com cadeias a algum canzarrão da tua parecença. +Larga-me, larga-me, quando não dou cabo de ti!</p> + +<p>Elle porém, retendo-a, sem violencia ainda:</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page046" name="page046"></a>(p. 046)</span> —Tu deves lembrar-te, Luizinha, do bem que eu te tenho +feito. Os teus desejos, ando a adivinhal-os. O teu nome é-me sagrado +em toda a parte. Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus!</p> + +<p>—Rua d'aqui! De quem eu gosto é do menino. Eu hei-de ser d'elle por +força. Inda que eu haja d'entrar na vida depois.</p> + +<p>Os dentes do velho rangeram. Chorava, ria, esse homem, cobrindo o +peito de baba; era assombroso de vexame! Luiza conseguira libertar uma +das mãos; e pregou-lhe nas ventas uma bofetada medonha. Áquella +affronta, Ezequiel perdeu a cabeça. As obscenidades golfaram-lhe da +bocca, como granizos espessos, pintando toda a decrepita infamia da +sua alma. Ella estava de pé junto da porta, quasi núa, sem se +importar. Tinha no collo e nas orelhas as joias que lhe mandara o +marquez. O velho viu-as.</p> + +<p>—Eh! Eh! Sempre aceitaste o cofre de meu amo. Já lhe posso ir contar +que o mais difficil trabalho está vencido. É melhor ser amásia de +fidalgo que mulher de creado de servir. Inda tu procedeste com brio. +Ha marafonas honradas! Podias ter escolhido as duas profissões ao +mesmo tempo. Ella ria-lhe na <span class="pagenum"><a id="page047" name="page047"></a>(p. 047)</span> cara. E o miseravel, volvida a +crise, apresentou-lhe as ultimas concessões. Ajoelhára. E jurou-lhe +consentiria o adulterio. Dava-lhe as suas riquezas por uma noite só +d'intimidade. Casada com elle—ao dia seguinte, podia partir com +dinheiro dos seus cincoenta annos d'escravidões e economias.</p> + +<p>Luiza não retrucou: agarrára um papel de cima da cama.</p> + +<p class="poem10">Deliciosa aranha delicada...</p> + +<p>Mas casualmente, erguendo os olhos, viu na bandeira da porta tres +cabeças gravemente assestadas á vidraça, gozando a comedia com a paz +d'alma de bons espectadores das galerias. Marquez das Flôres tinha um +grande binoculo com que a mirava. O poeta estava em extasi. Do +festejado Mattos mal se via a careca luzente, como era mais pequeno, e +uma ponta do nariz guloso que vinha adejar contra os vidros, como um +focinho de morcego encandeado contra a luz d'uma fogueira.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Perto da quinta, sobre um outeiro coberto de cevada verde, do outro +lado da aldeia, <span class="pagenum"><a id="page048" name="page048"></a>(p. 048)</span> houvera de tarde uma festarola d'ermida. +Todas as creadas tiveram licença para ir até lá, depois do jantar, +excepto Luiza que estava de serviço á marqueza, e Ezequiel que, já +velho, quizera ficar junto de seu amo. Dos terrados do palacio via-se, +já noite, a foguetaria estrondeando no adro, e clarões de fogueiras +lambendo as saias das moças na sarabanda dos bailaricos. De quando em +quando, uma labareda mais clara desenhava no azul profundo a branca +fachada da igreja, d'onde sahia um campanario em agulha, cujas sinetas +desde a manhã tagarellavam festivamente. Extinctos os rumores das +officinas, no andar terreo, silenciosas as cocheiras e mais +dependencias da casa, toda a enorme residencia dir-se-hia acachapada +n'uma somnolencia lugubre, entre a confusão dos arvoredos. Apenas nos +quartos da fidalga cochichavam tres ou quatro velhas damas das quintas +perto, que tinham vindo de visita, aproveitando a aberta do dia santo; +e na casa de jantar, logo depois do café, o jogo começára entre os +convidados do marquez.</p> + +<p>Sósinha no terraço, Luiza seguia a curva dos foguetes no céo +primaveril, esmagada pela espantosa scena com Ezequiel. Queixar-se..., +<span class="pagenum"><a id="page049" name="page049"></a>(p. 049)</span> ella tinha pensado em queixar-se. Mas Ezequiel contaria a +scena do afogador e das pulseiras, a sua loucura pelo Ruy, e todas as +tagarellices que a pobre cahira em confiar-lhe. Á tardinha, vencida de +remorsos, ainda ella ousára ir com o estojo ao marquez, a recusar-lhe +nitidamente aquellas offerendas que não merecia. Elle olhou-a com a +bondade um pouco ironica que costumava ter.</p> + +<p>—Meu padrinho, eu vinha...</p> + +<p>—Ah, não me agradeças, pequena. Sei da companhia que fazes á senhora. +É uma lembrança de minha parte. Nas raparigas bonitas é que essas +coisas dizem bem. Vai.</p> + +<p>E Luiza não tivera coragem d'insistir.</p> + +<p>Essa noite, Ruy que passeava, fumando, ao longo da balaustrada, +observou-lhe:</p> + +<p>—Estás com pena de não ter ido ao arraial?</p> + +<p>—Eu cá sim! respondeu ella. Olhe que ha de ser por lá uma balburdia. +Se lá estivesse, o que eu fazia era voltar.</p> + +<p>—Ainda é tempo, se queres. Minha mãi dá-te licença.</p> + +<p>—Ai, não. Gosto pouco de romarias.</p> + +<p>—O que é que tens então? Pareces triste. Pareces doente.</p> + +<p>—Eu não tenho nada, menino.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page050" name="page050"></a>(p. 050)</span> Elle fez mais duas vezes o comprimento da balaustrada, +lentamente, fumando: e o seu passo não fazia ruido sobre o xadrez da +plataforma.</p> + +<p>—Só se te zangaste esta manhã... Foi brincadeira minha, não faças +caso.—Mas Luiza sorriu-se: zangar, porque?</p> + +<p>—Eu sei! Podias não ter gostado.</p> + +<p>—D'um beijo? Ora! não vinha talvez p'ra mim.</p> + +<p>Ruy tossiu um pouco. De cada vez que elle dava costas, os olhos de +Luiza seguiam-n'o. E a sua figura perdia-se no escuro, ficava um +instante indecisa entre as sombras das arvores. Luiza aguardava então +que elle voltasse, com extasis de devota, e quando o lume do seu +cigarro apparecia, ella retomava a sua postura de Manon batida.</p> + +<p>—Já sei, que tem um namoro, disse ella em voz baixa, ao fim d'um +esforço.</p> + +<p>Elle voltou-se.—Eu!</p> + +<p>—Tem, tem.</p> + +<p>Ruy estava muito familiar.</p> + +<p>—Póde ser. Na vizinhança ha bonitas raparigas.</p> + +<p>—Não, não, cá em casa.</p> + +<p>E o pequeno rindo.—Então és tu.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page051" name="page051"></a>(p. 051)</span> —Ai, a mim ninguem faz festa. Acham-me feia.</p> + +<p>—Ao contrario. Toda a gente anda por ahi a fazer-te a côrte. Eu +percebo.</p> + +<p>—Esses!... disse ella, fazendo olhinhos de gata sobre Ruy. E encolheu +desdenhosamente os hombros.</p> + +<p>—Mas, emfim, quem namóro eu?</p> + +<p>—Não disfarce. Quando entrava no seu quarto esta manhã, ouvi...—Já +elle proseguia no giro interrompido, como se entendera a indiscrição. +Essa vez demorou-se mais. E ao topal-a, bruscamente:</p> + +<p>—E tu que recebes presentes! Dizes que não.</p> + +<p>—Ah, sabe.</p> + +<p>—Esta manhã.</p> + +<p>—Á hora dos beijos... juntou Luiza para lhe metter ferro.</p> + +<p>Elle tinha ficado nervoso.—Hein? presentesinhos...</p> + +<p>—Quem m'os deu explicou-me o motivo porque m'os dava. A minha recusa +seria prova de soberba, e tinha de passar por desagradecida aos olhos +de meu padrinho.</p> + +<p>—Quero dizer, eu não me importa...</p> + +<p>—O tal Ezequiel que enxafurda os outros <span class="pagenum"><a id="page052" name="page052"></a>(p. 052)</span> na calumnia, devia +lembrar-se das muitas infamias da sua vida. Olhe que se eu quizesse +fallar!</p> + +<p>—Não. Isso cautella. É um creado velho, elle prudente, elle fiel... +Emfim, agrada-me.</p> + +<p>—Deus fará com que se desilluda, menino, quanto mais depressa melhor. +Mas ao menos, devia ter-lhe contado tudo, o intrigante.</p> + +<p>—E achas pouco? tornou elle em ar de mofa.</p> + +<p>Luiza interdicta, não sabia bem ao que elle se estava referindo. +Ficaram calados.</p> + +<p>Até que resoluta, um pouco tremula, pondo-lhe as mãos sobre as mãos:</p> + +<p>—Ha uma pessoa só de quem eu gosto, disse ella.</p> + +<p>—Cá em casa estão muitas. Provavelmente gostas de todas.</p> + +<p>Ella dava grandes suspiros, afflicta: e desatou n'um choro +subitamente.</p> + +<p>—Mas vamos! Que é isso? Porque choras tu?</p> + +<p>—Não é nada, não é nada...</p> + +<p>—Não, isso has de dizer.</p> + +<p>Ella deitou-se-lhe aos joelhos, e n'uma anciedade:</p> + +<p>—Oh não me deixe! Não me deixe! Se <span class="pagenum"><a id="page053" name="page053"></a>(p. 053)</span> elle soubesse! Era tão +desgraçada, tão maldita! Todos na casa queriam perdel-a; Ezequiel +antes de todos, lhe infundia um pavor funebre e desgrenhado. Que mal +fazia ella? Porque insistiam em lhe fazer sentir a sua falsa posição +n'aquella casa?</p> + +<p>—Mas cita os nomes, conta o que te fazem, insistia Ruy por acalmal-a.</p> + +<p>—Não sei, não sei, dizia a rapariga: e soluços bruscos abalavam-lhe o +peito. Era uma angustia que a tomava, uma tristeza que lhe vinha sugar +o coração. De noite acordava espavorida, com um novello nas goelas, +sem poder respirar. Tinha que dormir fechada á chave, por sentir +passos de roda do seu quarto, sombras fugindo na curva dos +corredores... Tudo lhe parecia hostil n'aquelle palacio agora... os +olhares dos homens, as tagarellices das creadas, os proprios rumores +indistinctos d'altas horas.—Ezequiel dissera que a havia de perder.</p> + +<p>—Olha a mania! Ezequiel não passa d'um pobre velho.</p> + +<p>Ella quasi o cingia pela cintura, estreitamente, fazendo-se pequenina, +e como se quizesse abrigar-se no concavo das suas axillas. Supplicava +em voz surda, com a bocca collada <span class="pagenum"><a id="page054" name="page054"></a>(p. 054)</span> ao peito d'elle. Dirieis +uma liana de martyrio enlaçando a haste flexivel d'um cipó.</p> + +<p>—Não, não, menino Ruy. Luiza bem adivinhára os intentos d'aquelle +homem sinistro. Elle queria-a. E ousára dizer-lh'o com que palavras, +sabe Deus!—E outros ainda. Marquez das Flôres, que outro dia, ao +encontral-a no jardim... Finalmente Biscaya vinha arranhar-lhe á porta +do quarto... O ruivo mandava-lhe poesias... Nas cozinhas, em ella +entrando, todas as moças tossiam como se lhe soubessem d'um pôdre. Até +os da cocheira tinham ousado chalaças crúas, quando succedia +toparem-n'a de perto. E Luiza tremia, Luiza perdia a cabeça!—Uns por +ciumes da protecção que os senhores lhe dispensavam; outros por maus +desejos que ella sempre tinha repellido; e todos buscando precipital-a +da sympathia de Ruy e da marqueza. Oh, já não sabia como fugir áquella +calcinante atmosphera de odio e rancor.</p> + +<p>—Casar, disse elle. É o que deves fazer. E o seu olhar evitava-a.</p> + +<p>—Casar, ella! quem queria uma mulher sem fortuna, e com a educação +mais alta que o nascimento? Os habitos que contrahira <span class="pagenum"><a id="page055" name="page055"></a>(p. 055)</span> +n'aquella casa prohibiam-lhe de se unir a um qualquer homem do campo +que ella de resto não saberia amar sinceramente. Esses mesmos habitos +haviam compromettido a serenidade da sua consciencia, e quem sabe se +auctorisado os desbragados propositos dos que buscavam perdel-a? +Mesmo, a sua razão tresvairava: era necessario um esforço desesperado +para varrer da cabeça as loucuras que por lá corriam.</p> + +<p>Loucuras, sim?</p> + +<p>Ella não delirava. Casar com este ou com aquelle, tudo era cahir do +sonho radioso a que se afizera primeiro. O homem que ella adorava, +jámais poderia sem descer, tocar-lhe com os labios na testa. E o seu +futuro, ella bem no via, descendo n'uma espiral d'angustias e +desalentos. Em creancinha, quando o menino estava ausente, Luiza +dir-se-hia no palacio a filha unica da marqueza, que todos acariciavam +de passagem, buscando por ella captar a benevolencia da fidalga. A +felicidade era tão facil d'aprender! Assim se fôra educando, como se a +destinassem a algum homem de condição superior. Até a familiaridade de +Ruy, n'aquelle tempo, lhe ajudára a fomentar a sua illusão de +grandeza. Agora Ruy estava <span class="pagenum"><a id="page056" name="page056"></a>(p. 056)</span> um homem—adeus encantamento! +Luiza teria de voltar a ser uma guardadora de porcos.</p> + +<p>Elle apadrinhou-a com um magnifico gesto fidalgo. Quasi nem metade das +suas palavras ouvira, porque havia um instante, surpreso, se escutava, +sentindo-se invadir d'um sentimento indefinivel, delicioso, +inquietante, que lhe ascendia no sangue, e o esbraseava no mais +recondito da sua carne, e lhe punha fervores pela nuca, até ás fontes, +como se fôra um veneno. Aquillo espraiava-se n'elle em bruscas ondas: +era uma sensação inexplicavel de vaga delicia, sobresalto, receio, +queimadura... Já trinta vezes quizera afastar Luiza, sacudir os +filtros que vinham da sua provocadora belleza, retomar o seu bello ar +de principe herdeiro, impassivel aos arrulhos do serralho: e outras +trinta sentira faltar-lhe a coragem. Entrou então a dizer-lhe +consolações ao acaso. Ella estava por força na sentimentalidade +ephemera d'um mau momento, vendo côr de cinza por uma ennublação +instantanea da sua viveza de rapariga—nem admirava, com a doença da +senhora marqueza... E senão, que queria dizer tudo o que lhe ouvira? +Das suas palavras, não resahia <span class="pagenum"><a id="page057" name="page057"></a>(p. 057)</span> uma só causa de soffrimento +legitima. Era quasi tudo pesadello romantico, trahindo a crise dos +nervos convulsivados, hemorrhagia sem lançada, preludio d'amor +latente, que fluctuava ainda sem escolha d'idolo. No fundo d'essa +avenida de projecções melancolicas, era evidente que a sombra d'um +homem adejava, mas sem physionomia, sem cabeça... uma insurreição do +feminino em cata de nupcias. As mulheres aos vinte annos vibravam +todas n'aquella passageira crise do sexo reclamando o culto para que +foi votado. O necessario agora era pôr uma cabeça sobre os hombros +d'aquella translucida apparição, dar-lhe face, dar-lhe caracter, +dar-lhe nome... Finalmente, tornar o phantasma em homem!—E sorrindo: +hei de procurar-te um noivo, deixa estar.</p> + +<p>Luiza erguera a cabeça.</p> + +—Tu? + +<p>Surprehendido, elle encarou-a. Viu-lhe o perfil dealbado por um +lampejo da sulfatara interior, e a lascivia da bocca aspirando o +halito das suas benignas palavras.</p> + +<p>—O meu noivo, balbuciava ella n'uma especie de amoroso delirio, +poetisado pelas cadencias da voz debordando em melodias. Procura-o +perto. Talvez te não responda, apesar <span class="pagenum"><a id="page058" name="page058"></a>(p. 058)</span> dos meus suspiros que +o chamam, noite e dia. É uma estranha creatura, esse noivo, bella como +a apparição do Christo a Santa Thereza, porém fria e fatal aos que se +lhe approximam. Só prostrada na terra eu ouso chegar-me a elle, como +um reptil a uma corça branca dos bosques. Entre nós, eu bem conheço, +ha o boqueirão d'uns poucos de seculos de cultura. Quero preencher com +a minha belleza esse formidavel precipicio que me prohibe de o adorar. +Ai de mim! Embalde os meus braços tremulos se lhe estendem, e os meus +olhos extaticos vão pousar-se, como pombas, no esplendor da sua +belleza tão pura. Elle não quer ouvir os meus soluços, nem derramar +nos meus cabellos a calorosa uncção das suas caricias. É nobre, é +altivo. O seu destino o preserva das minhas traiçoeiras ciladas. Todas +as aflicções da minha alma, todas as reluctancias da minha juventude, +dias de esperança, noites de delirio, nostalgias a olhar do angulo +d'um terraço o cotovello d'estrada por onde a sua carruagem se +sumiu... tudo ahi fica murcho e desfeito no caminho dos seus passos, +sem que elle volte a cabeça para me lêr no branco dos olhos a +cruciantissima dôr que a sua pisadura fez <span class="pagenum"><a id="page059" name="page059"></a>(p. 059)</span> verter. Annos e +annos, esta cegueira luctou por captivar-lhe a misericordia, sem +reparar nas concessões infamantes que a minha alma ia fazendo aos +desejos que a torturavam. Quiz transfigurar primeiro o meu amor n'um +celeste e casto poema, todo espiritual, todo intimo; subtilisal-o em +dedicações, impôr-lhe sacrificios... devotar-me emfim á sua +felicidade, calando o grito do meu coração que reclama sem partilha, +essa creatura em que elle não póde pensar sem deslumbramentos. +Protesto inutil! Filha de grosseiras gentes, puidas de miseria, e +fazendo do vicio desforço para amordaçar o desespero, estava escripto +que eu havia de andar a rojo, como a serpente, tentando a claridade +immortal da sua adolescencia.</p> + +<p>Luiza calou-se, arquejante. E os seus cabellos roçavam pela bocca de +Ruy, mordicando-lhe a pelle do queixo com uma titilação imperceptivel.</p> + +<p>—Emfim, a minha paixão chega a um limite e rebenta, prevendo o +instante em que elle me vai fugir para não voltar. Oh não me abandones +tu!</p> + +<p>—Vem gente, tornava Ruy n'um sobresalto.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page060" name="page060"></a>(p. 060)</span> A mesma loucura os tomava e fazia pulsar estreitamente +unidos, assim como n'uma bocca muda, um labio a outro labio.</p> + +<p>—Não! É um minuto mais, dizia ella. Eu já não sei o que digo. A idéa +de que outra mulher terá beijado a tua bocca tira-me o somno, e o meu +sangue tumultua e allucina-se desde que perdi a esperança de te +captivar a um simples fremito das minhas sobrancelhas. Eu não te peço +um desses amorfos e dessorados amores que sob a umbella da igreja +podem mostrar-se a toda gente, na atonia estupida em que a lei +amosenda as <i>fioriture</i> do coração. Tornei-me um animal de luxo, não é +assim? cuja posse disputam em tua casa esses homens. Então escolho-te! +Estou no meu direito. E como uma escrava, estatelo-me no chão que tu +pisas, para que me esmagues a cabeça depois de me haveres cingido, uma +vez só que seja.</p> + +<p>Ella cahira-lhe aos pés, e beijava-lh'os com a exaltação d'uma louca e +os phrenesis d'uma enfeitiçada. N'aquele instante, Ruy nem sequer teve +um gesto para apanhal-a do chão. Fizera-se muito pallido. Os seus +braços tinham cahido. E um terrivel sorriso zigzagueava na sua bocca +enygmatica. Dirieis uma <span class="pagenum"><a id="page061" name="page061"></a>(p. 061)</span> creança, que chegada ao fim d'um +bello conto, subito se desencanta do entrecho, e passa adiante, sem +lhe ligar mais attenção. Assim elle entrou nos quartos da marqueza, +bruscamente, deixando-a prostrada nos primeiros degraus da escadaria.</p> + +<p>Por conseguinte, Ruy tinha-a recusado, depois de a ouvir monologar +como uma actriz fastidiosa. Interdicta e buscando vencer o asco que de +si mesma lhe vinha, Luiza escutava o furioso debater da sua vaidade +sacudida na estriadura d'aquella humilhação. Sahiram as visitas, +voltaram da festa os creados, que pouco a pouco, ceia finda, iam +desertando para os seus dormitorios. Luiza trouxe o caldo á marqueza, +vazou-lhe o calice de Madeira com a mesma solicitude machinal, sem ter +reparado na escarradeira cheia de sangue, na somnolencia e na pallidez +da pobre dama. Renovou o azeite da lampada do oratorio, desceu á +cozinha onde sua irmã pela centesima vez insistia em lhe aconselhar o +casamento com Ezequiel, como mastro de <span lang="fr"><i>cocagne</i></span> para a familia +inteira: e de joelhos, na capella, para as rezas da noite, por mais +que fizesse, o seu espirito perdia-se em oceanos de magua: até que +afogueada, estupida de <span class="pagenum"><a id="page062" name="page062"></a>(p. 062)</span> scismar no seu destino, veio ao +terraço banhar a cabeça nas brisas da noite.</p> + +<p>Os ultimos romeiros desciam do monte, e amadornavam por esses caminhos +os echos das cantigas, deixando atraz de si n'uma espectativa lugubre, +a somnolencia espectral dos arvoredos. Uma livida noite amortalhava o +immenso descampado. Entre cerraceiros de nevoa, a lua minguante subia +por ondas de claridade torva, gordurenta, sem reflexos, como uma +agua-forte sinistra que rolasse as suas tragedias de cinzento, +desfazendo nos macissos as ultimas <span lang="fr"><i>nuances</i></span> de paisagem. Ai, pobre +Luiza! Aquella repulsa fazia-a rolar na sua idéa a uma condição, além +de cuja ignominia ella julgava se não podia descer mais. Quanto daria +ella agora, a pobre tonta, por voltar a ser na estima d'elle a sua +companheira de brinquedos, a sua pessoa de confiança, a sua amiga, a +sua irmã?... e poder encaral-o com os olhos limpidos d'outr'ora, sem +córar por aquella scena de seducção premeditada, que até na propria +consciencia a envilecia! Agora ella olhava á roda de si cahida da +exaltação que a levára a cingir-se com elle, interrogando-se, +perscrutando-se, dizendo-se indigna de todas as commiserações. +<span class="pagenum"><a id="page063" name="page063"></a>(p. 063)</span> Era uma mulher sem vergonha, quasi ignobil, que inspirára o +nojo, mesmo formosa, mesmo intacta, ao primeiro homem a quem estendera +as pomas dos seus desejos. Podia aceitar quaesquer das infamantes +soluções que lhe propunham: ser a amante do creado, ou ir saciar o +deleite ephemero d'um dia ao marquez e aos mais debochados do seu +sequito. O seu desejo extincto, tudo o mais lhe era indifferente; e a +morte começava d'ali por diante, com a frialdade do seu coração +prohibido de bater por alguem. Mesmo, não via outro destino além de +prostituir-se ou matar-se. Para ella o mundo começava em Ruy, acabava +em Ruy, e só durára no cyclo em que elle a trouxera enfeitiçada. Ruy +sequestrado ao seu amor: adeus mocidade, alegria chilreante, manhãs no +terraço á hora de dar alpista aos canarios, projectos, ardores, +phantasias, esperanças! Elle recusára-a: de que lhe serviam pois as +turgidas pomas, a cinta ondulosa de serpente, e o divino ventre de +geraneo e espuma, todas as expansões, todos os calafrios, todos os +mimos, de que a adolescencia avelluda e povôa o corpo da mulher? Na +contensão capitosa dos seus extasis, Ruy vira apenas a selvageria do +goso que extravasa <span class="pagenum"><a id="page064" name="page064"></a>(p. 064)</span> em gestos de braços e na effervescencia +torpida dos beijos. Além da grosseira exterioridade lasciva e calida, +tudo o mais lhe escapára d'aquelle amor confessado violentamente, +refinamentos, fremitos, intellectuaes sobresaltos... o prazer dos +sentidos vibrantes á visão da pessoa que se adora... os infinitos +respeitos, supplicas balbuciadas por entre os dentes cerrados, +transluzindo ameaça—e delicadezas submissas d'escrava—e esse fluido +que sobrenada da alma amorosa, e enche de poesia tudo o que se palpa e +respira, em torno d'ella.</p> + +<p>Desceu ao jardim, direita ao poço. Havia um silencio opaco e terrivel, +que pesava no ambito á semelhança d'um remorso que fibra a fibra +estivesse roendo um coração. O poço era largo, com uma nora por cima, +e a amura de pedra escancarada ao ar. Se ao menos elle diria +«Coitada!» quando lhe fossem contar como ella tinha morrido!... E +inhalava para se dar alento, grandes haustos d'ar frio. Os seus olhos +deram co'as janellas do palacio, illuminadas ainda. Eram, d'uma banda, +as janellas de Ruy, e da outra a lampada do oratorio, cuja porta abria +sobre o quarto de dormir da senhora marqueza. Vamos! era preciso +<span class="pagenum"><a id="page065" name="page065"></a>(p. 065)</span> ser forte. Nossa Senhora estenderia os braços para impedir +que ella se despenhasse no inferno. E pôz-se a medir a queda, +esburcinada no boccal de pedra da nascente. Atafulhada de sombra, a +pavorosa goela não mexia. De quando em quando, uma gotta escapava-se +dos alcatruzes da nora, indo fazer lá no fundo um <i>plhau!</i> glacial. +Entretanto a nevoa fazia aos arvoredos, <span lang="fr"><i>toilettes</i></span> de gaze, para a +festa funebre de Luiza. Solicitamente o luaceiro vinha, aqui, além, +tocar o bojo d'uma perola d'orvalho, as transparencias d'uma renda de +bruma, os claros da argentea brancura immaculada... Ella desfolhou a +rosa que puzera nos cabellos. Ergueu o espirito para o alto, com uma +doçura branca de martyr; e persignando-se, enxugava as ultimas +lagrimas. Na calada começou então a retinir uma campainha. Nos quartos +da marqueza? Era a chamar Luiza. Oh pobre madrinha! Luiza estava já +sentada á beira do poço, prompta a escorregar-se á agua. Porém uma +instantanea sombra tinha passado nos stores do oratorio, cujas +vidraças soaram no terraço em bocadinhos. Que era aquillo? Alguma +coisa de anormal se estava passando. Quem gritára? Engano? +Allucinação? Luiza fez um salto, esquecida <span class="pagenum"><a id="page066" name="page066"></a>(p. 066)</span> da morte, e +deitou a correr para d'onde o barulho partia. Quando entrou no quarto +da marqueza, cahira pelas escadas, derribára Ezequiel que vinha pelo +corredor, rasgára as saias nas portas, tropeçando nos moveis umas +poucas de vezes. Viu a cama vazia e toda cheia de sangue nos +travesseiros. A porta do oratorio estava aberta, e sobre a alcatifa, +entre portas, a pobre senhora estorcia-se, quasi núa, vomitando sangue +em espumosas golfadas. Luiza agarrou-se a ella, gritando que lhe +acudissem: e em toda a casa, de repente, tinha sido um alvoroço +extraordinario. Ezequiel, que foi o primeiro a chegar, inda viu a +velha revolver os olhos, dar um estremeção que lhe retezou as pernas +ao comprido. E de repente ficou-se.</p> + +<p>—Coitadinha, coitadinha! Está prompta, dizia o velho em tom beato. Eu +bem previa esta desgraça! Mas Luiza barafustava para que elle fosse +chamar depressa o marquez, e mandasse á villa buscar o doutor +Souza.—Depressa, depressa que ella vai-se-nos aqui sem sacramentos! +Elle abanava a careca, tendo remodelado na face a mascara patriarchal +dos dias serenos. Desolava-se muito pelos cantos. Como aquillo fôra +depressa! Uma coisa que <span class="pagenum"><a id="page067" name="page067"></a>(p. 067)</span> ninguem esperava! Lá conseguiram +transportal-a para a cama. O corpo estava frio. Um dos braços, +levantado, cahiu inerte nas roupas, apenas o deixaram.—Está morta! +Mas ninguem vinha acudir! Que estava fazendo nos quartos toda aquella +gente que não ouvira os gritos d'alarme? Ezequiel entrava e sahia, ia +a uma porta, voltava á capella, idiota d'espanto, abanando as mãos, +sem saber.—Ah menina Luiza, menina Luiza; eu bem lhe disse esta +manhã. Chegou-se a ella:—O que ha de ser agora de ti?</p> + +<p>A camareira não ouvia, agarrada á marqueza, e seguindo a installação +da morte n'aquella physionomia de cera. A sua rica madrinha! A sua +amiga! A sua unica affeição!</p> + +<p>—Casa commigo, insistia Ezequiel. A minha vida é pouca coisa. +Deixo-te tudo. Casa commigo.</p> + +<p>Já o marquez vinha entrando, com Ruy e os seus amigos, e toda a gente +da casa áquella hora estremunhada.</p> + +<p>O fidalgo curvou-se para o leito: dizia phrases d'espanto, allucinadas +e d'um grande effeito decorativo.</p> + +<p>—Mas, senhores, ella resfria! Oh fatalidade! e outras muitas, que os +amigos, um <span class="pagenum"><a id="page068" name="page068"></a>(p. 068)</span> pouco lassos na digestão da ceia, trocavam por +outras da mesma polida complacencia. Compuzera um rosto d'afflicção +reprimida, conforme de rigor na circumstancia, e que foi muito +apreciado pelo que dizia dos seus affectos maritaes. Lagoaças e pai +Cezario tinham-n'o abraçado a tres quartos, dizendo—coragem! n'um +magnifico accento de contra-basso.</p> + +<p>Quando de repente Luiza deu um grito, vendo os olhos da marqueza irem +ficando vitrosos. Alguns curvaram-se a vêr. Ezequiel e Lagoaças +trouxeram velas accesas. E o choro das creadas abriu de repente no +quarto uma ladainha horrifica de lamentos. Uma especie de teia +d'aranha revestia devagar as pupillas pallidas da morta.</p> + +<p>—O espelho, o espelho.</p> + +<p>Ezequiel trouxe do gabinete um espelhinho de punho ornado; +puzeram-lh'o á bocca.</p> + +<p>—Inda respira!</p> + +<p>Mas o pulso perdia-se. O coração queria calar-se. A aura hysterica +descorrelacionava os movimentos de Ruy, cujas mãos buscavam juntar-se +n'uma supplica frenetica de que ninguem fazia caso.</p> + +<p>—Jesus! dizia Luiza erguendo os braços, <span class="pagenum"><a id="page069" name="page069"></a>(p. 069)</span> entre as mulheres +de joelhos. Onde está o nome de Jesus não ha perigo á salvação. E as +rezas perdiam-se em ondas de soluços. Então o marquez tirou a boina da +cabeça, avançou dois passos com o espelho que já não embaciára, +collado á bocca da fidalga. E n'um tom alto:</p> + +<p>—A senhora marqueza de Selmes morreu.<span class="smaller"><a href="#toc">(Voltar ao Conteúdo)</a></span></p> + + + + +<h2><span class="pagenum"><a id="page071" name="page071"></a>(p. 071)</span> O SINEIRO DE SANTA-AGATHA</h2> + + +<p>Ha quinze annos, vespera de Natal, n'uma noite bem frigida e chuvosa, +ia eu em jornada através das serras, caminho da minha aldeia, a fim de +consoar, conforme a velha usança, no aconchego patriarchal da familia: +quando a sege que me levava estalou com fracasso, desabando em bocados +pelo chão. A custo pudéra salvar-me do destroço, que a sege velha e de +correias, sobre duas grandes rodas esculptadas, esbarrondara de chofre +contra um amontoado de penedos, e o cocheiro contuso em muitas partes +do corpo, era quasi impotente para sustar os galgões dos cavallos +sacudidos pelo terror da derrocada. No meio das trevas, áquella hora, +sob a chuva sibilante, como encontrar agasalho?</p> + +<p>Era no mais cerrado das brenhas. Lugubres penedias estacavam por toda +a banda.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page072" name="page072"></a>(p. 072)</span> Asperas montanhas pareciam vir a despenhar-se sobre as +gargantas estreitas da passagem. E nem a mais dubia fogueira de +pastores, casinholo de coutada, voz ou campanario, revelando a +proximidade de creatura humana! A muito custo podemos remover do +caminho as bagagens e destroços da pesada traquitana, eu, o cocheiro e +mais um velho creado que me seguia a cavallo.</p> + +<p>Com fortes brados, aos quatro ventos do campo, fomos chamando alguem +que alli vivesse; mas nem sequer latidos de cão logramos saccar das +goelas carbonosas da noite. Sempre aquelle ruido prostrado, regular, +desesperante, da chuva nas urzes e pinheiros anões, que o vento trazia +e levava no mesmo agreste rythmo, como o jogo uniforme de uma joeira +que joeirasse d'alto, bagos d'agua frigidos, e crueis.</p> + +<p>Por infelicidade, o cocheiro não era do sitio, e mal sabia dizer +d'aquelles caminhos incertos. Beja inda talvez ficasse a nove leguas +d'ali. Os cavallos extenuados não queríam marchar. E olhavamo-nos +interdictos, á luz da pobre lanterna que por milagre escapára ao +desastre.</p> + +<p>Emfim, já nos decidiamos a ficar por baixo <span class="pagenum"><a id="page073" name="page073"></a>(p. 073)</span> das azinheiras, +n'algum abrigo escavado da montanha, quando se ouviram badaladas de +sino distinctamente.</p> + +<p>—Graças a Deus! exclamei eu todo alegre, que vamos ter guarida no +passal do bom padre ou eremitão que d'aquelle campanario nos está +chamando. Onde é, cocheiro?</p> + +<p>O homem esteve sem responder um bocado. Era um alemtejão +supersticioso, tostado, leal, e gigantesco.</p> + +<p>—Aquillo, senhor, disse alfim o colosso, fica por traz de cerros que +levam vinte horas a galgar a um homem. De noite, sempre os sons +parecem mais perto, e enganam uma pessoa nas contas que deita.</p> + +<p>—Bom! mas que sino é aquelle? Convento, freguezia, castello ou casa +do diabo?</p> + +<p>Vi o rapaz benzer-se com um movimento brusco, e lentamente ir +contando, que era o sino de Santa-Agatha, ruinaria maior que uma +cidade, com quatro torres dominando as chapadas dos montes, e casarões +aonde ninguem tinha ido desde que houvera lá fogo.—Ninho de demonios +e malfeitores! Em <i>trinta e tres</i>, a guerra civil correra lá, +farejando as riquezas do culto—as freiras tinham debandado pelas +serras, com os seus habitos brancos e os <span class="pagenum"><a id="page074" name="page074"></a>(p. 074)</span> seus rostinhos +macerados—por quatro dias as chammas lamberam os sanctuarios—e diz +que duas ou tres religiosas, entrevaditas, centenarias, se deixaram +morrer nas suas cellas, cantando psalmos, por não haverem já parentes +e amigos, em cujo seio ir acabar. Agora só voltava ao mosteiro algum +maltez perseguido, ou pessoa empenhada em roubar cantarias, alguma +porta de carvalho, e restos d'alfaias sepultas nos entulhos.</p> + +<p>Lentamente então, como um fumo d'incenso que oscilla subindo pelas +incertezas penumbrosas da neve, assim a lenda se formára e fôra +condensando, detalhando, subindo em espiras poeticas, dos claustros +gothicos da velha abbadia. E o cocheiro accrescentou:</p> + +<p>—Pelos modos, os diabos dizem lá missa a deshoras, com mitras que nem +bispos!</p> + +<p>—Venha essa lanterna, disse eu sem mais ouvir. Meia ração +d'aguardente e tabaco! Vossês abriguem-se ahi como poderem, que eu já +volto!</p> + +<p>—Mas onde é que o senhor vae?</p> + +<p>—Ora essa! á abbadia. Tocou-se á missa: o diabo já deve ter subido ao +altar. O cocheiro ainda quiz accumular obstaculos; até que vendo-os +sem resultado, apontou-me o caminho <span class="pagenum"><a id="page075" name="page075"></a>(p. 075)</span> provavel do mosteiro, lá +longe, sobre as altas serranias, a cujo sopé se tinha desmantelado a +nossa berlinda de viagem.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Pondo-me a caminho, confesso, foram-me os primeiros passos bem duros. +O terreno pedregoso abria fendas onde os pés se enterravam em lama; +tufos d'esteva e piorno vedavam a passagem, circumdavam-me, +prendiam-me o fato, ou vinham dar-me bofetadas nas faces com as suas +mãos pegajosas. E assim fui mais d'uma hora, tropeçando d'um lado e +cahindo d'outro, pelo espinhaço lugubre da cordilheira. Entanto as +nuvens desdobravam-se, menos espessas, correndo, té que uma claridade +de lua velada poude orientar-me na marcha.</p> + +<p>Alguns corpos avançados da ruinaria começaram alfim a mostrar-se, +pequenas capellas com arcos gothicos, sombras esguias de cyprestes, +casarões onde bulia a herva açoitada pelo vento... Dez passos além, +achei-me n'uma alpendroada vasta de pedra, toda em arcarias de +capiteis mutilados. Ao centro murmurava <span class="pagenum"><a id="page076" name="page076"></a>(p. 076)</span> uma fonte, cahida ás +gottas sobre uns restos de tanque esculpido; e via-se um portico ao +fundo, com feixes de columnelos, e nichos de apostolos em oração.</p> + +<p>Mais dois passos e entrava na igreja. Parte da abobada tinha já +cahido. Arcarias altas, flexuosas, em series parallelas d'uma extensão +desmedida, iam até ao sanctuario. No parapeito d'um ou outro pulpito, +pendiam tapetes de hera—e por um bocado de muralha derrubada via-se o +claustro, contrafortes, arcos butantes, rendas de janellas manuelinas, +estatuas partidas, e montões de pedras lavradas que a vegetação +damninha ia vestindo, engolfando, no labyrintho das suas teimosas +grinaldas.</p> + +<p>Lentamente, emquanto marchava entre as maninhas plantas da serra, eu +fôra evocando da nevoenta penumbra das minhas reminiscencias +d'infancia, a lenda que tantas vezes tinha ouvido contar, pelo +inverno, quando finda a ceia os pastores e couteiros vinham fazer +circuito comnosco, de roda do brasido, na cozinha abobadada da +herdade, cujas chaminés se erguiam dos tectos, como duas torres +quadradas de solar.</p> + +<p>Lembrava-me de ter ouvido a minha avó, <span class="pagenum"><a id="page077" name="page077"></a>(p. 077)</span> como a abbadia fôra +uma das mais venerandas casas de reclusão de todo o reino, +successivamente enriquecida pelos reis, visita de prelados, e refugio +de muitas princezas e bastardas que alli dormiam o ultimo somno, nos +seus jazigos de pedra, de cujos nichos a velhice alluira figuras e +inscripções.</p> + +<p>Apesar das enormissimas riquezas que as religiosas mandavam repartir +pelas gafarias e misericordias da provincia, a regra impunha ás monjas +uma pobreza frigidissima. Dormiam n'uma tabua, as pobres servas, sem +enxergão nem cobertura, e com uma pedra tosca por cabeceira. E vivendo +de hervas e legumes, sem mais tempero que um fio d'azeite e um punhado +de sal, ellas appareciam na estamenha branca das tunicas, afiladas na +sua espiritualisação perpetua de prece, antes como umas sombras de +loucas, espectros de mal soffridas angustias, marchando nos claustros +em genuflexões de extaticas, e como dobradas ao peso das camandulas e +das orações. Um velho Papa da idade gothica doara então o mosteiro de +reliquias, compadecido por austeridade tamanha d'enclausura, e +permittindo que as monjas pudessem dar-se a glutonaria mundana d'um +cordeiro guisado, na ceia do <span class="pagenum"><a id="page078" name="page078"></a>(p. 078)</span> Natal, sob a condição expressa +de ser branco e acabado de nascer.</p> + +<p>Sempre na minha lembrança, desde então, tinha ficado aquella humilde +historia das freiritas, dormindo em tarimbas de castanho, e jantando +couves de azeite e sal. No collegio, muita vez, punha-me a fazer +esforços para me representar a figura benevola d'aquelle santo Papa da +idade gothica, risonho sem duvida e encarquilhado, com o seu +barretinho de purpura, e um grande annel de turqueza, concedendo ás +filhas de Santa-Agatha o cordeiro branco para a consoada do Natal. +Vinham-me aquellas coisas n'um fundo de fantasia, para assim dizer +bysantino, sem perspectiva aerea, com o nimbo de oiro nas cabeças, e +pregas miudinhas no bocatel das roupagens—e tão longe do nosso tempo! +tão longe do nosso espirito que eu acabava sempre por sorrir á +inverosimilhança das legendas contadas por minha avó.</p> + +<p>Todos os annos na herdade, depois de se haver dito a ladainha diante +do presépe armado no oratorio, com grande pompa de vellas accesas, +cobertas de sêda, paineis de santos, flôres, amuletos e <i>cearinhas</i> de +trigo grelado em pratos da India, ás escuras, <span class="pagenum"><a id="page079" name="page079"></a>(p. 079)</span> durante os +vinte e cinco longos dias de uma lua—todos os annos, á hora de servir +a espetada de lombo de porco com migas, da ceia do Natal, quando já +tudo se assentára em volta da mesa, eu me não esquecia de inquirir.</p> + +<p>—Avó. Se o cordeiro de Santa-Agatha estará tenro e capaz de ser +manducado pelas freiritas sem dentes?...</p> + +<p>Lá me sorria a bôa velha, com uma expressão de melancholia que eu +n'esse tempo não era capaz de interpretar. E á direita d'ella marcando +intervallo na mesa, um talher inactivo aguardava meu avô, que fazia já +onze annos de fallecido quando eu tocava os dezeseis.</p> + +<p>Ai! esse talher era a grande nota solemne da ceia, o symbolo +sacrosanto do espirito de familia, perpetuando o respeito do nome +através das revoluções da idade. O copo estava cheio, o guardanapo +desdobrado, e chegado á mesa o tamborete.</p> + +<p>A todo o instante ia entrar na sala o phantasma do velho lavrador, com +a sua matilha de galgas argelinas, e uma d'aquellas grandes risadas +que elle dava, em nos vendo felizes a todos.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page080" name="page080"></a>(p. 080)</span> Ceia de Natal! Ceia de Natal! Não seria eu, não, que +d'aquella vez havia de começar cantigas ao Deus-menino, ante o presépe +da nossa casa <i>das Torres</i>.</p> + +<p>Nem iria assentar-me, tão pouco, entre meus irmãos, partilhando a +espetada de lombo no meio da gralhada das creanças, e dos sainetes dos +pastores e maioraes. Oh como o frio da montanha me fazia agora +lembrado o <i>madeiro do Natal</i>, tão escrupulosamente escolhido entre os +troncos mais corpulentos das cathedralescas médas d'azinho da nossa +provincia; o <i>madeiro</i> que as comadres vão vêr a casa das comadres e +cuja enormidade d'alguma fórma passa por luxo e synthetisa a +abundancia da casa! Ceia de Natal! Ceia de Natal! N'aquella noite de +cordealidade, tão intima na vida do campo alemtejano, em que o +primogenito da familia tem obrigação de consagrar aos creados o +primeiro <span lang="en"><i>toast</i></span> da ceia, a minha ausencia, eu bem n'a via! trazendo +lagrimas aos olhos de minha mãe, e longos annos permanecendo archivada +entre as tristezas do seu amantissimo coração.—Paciencia! dizia eu, +deixando os meus olhos correr por cima da phantastica decoração de +ruinas, <span class="pagenum"><a id="page081" name="page081"></a>(p. 081)</span> como quem busca fixar a realidade no meio das +oscillações que a sombra despregava das arcarias.</p> + +<p>Cessára a chuva de todo, e o vento que ennovelava os castellos de +nuvens, muito baixas, vinha depois marrar com ellas de encontro ás +fragas da cordilheira.</p> + +<p>Torvos luaceiros cardavam sobre as coisas, aspectos pardos e monacaes, +d'esse tom vago, inquietador, inexplicavel, que permitte á imaginação +de agigantar o que apenas entrevê.</p> + +<p>E assim dirieis que se alongavam na noite os butareus das quatro +torres, e que os boqueirões da treva mastigavam, e como lanças tremiam +os columnelos do templo, espetando na abobada imaginarias cabeças; +emquanto patrulhas de cyprestes paravam a escutar, se áquella hora +rastejaria no mosteiro um infinitesimo de vida, só que fosse. A +primeira coisa que notei, foi que não estava só, porque ao raspar d'um +phosphoro para accender o cachimbo, pude lobrigar na portaria vultos +de gente acocorada.</p> + +<p>Pouco a pouco, os meus olhos afizeram-se a destrinçar na sombra os +objectos; e entrei a bispar vultos pequenos, corcovados, que surgiam +por todas as bandas da serra, vagarosos, <span class="pagenum"><a id="page082" name="page082"></a>(p. 082)</span> cosidos ás pedras, +derreados do caminho, e arrastando sapatos de trabalho, com gorros nos +olhos e capotes negros sobre os hombros.</p> + +<p>Pelas encostas, longe, perto, muitas luzinhas deslocavam-se em +direitura ao mosteiro, como fanaes guiando a um conclave outros tantos +conspiradores.</p> + +<p>Duas ou tres cadeirinhas entram no adro, buscando a sombra dos arcos +com uma cautela apavorada, e aos hombros de homens, que pelo rastejo +dos passos e lentidão dos meneios, ia jurar tinham passado os oitenta +annos. Em poz das liteiras, mulas brancas trazendo mulheres embiocadas +em ponches... jumentinhos de trabalho com gente que tossia... e até +n'uma especie d'esquife, um vulto entre roupas dava grandes gemidos, +quando os portadores oscillavam mais bruscamente a padiola em que o +traziam.</p> + +<p>Muito embuçado na capa, eu ia-me approximando da turba, corcovado e +arrastando os passos como os outros; e já sem medo, pois não podia ser +capitania de ladrões aquella gente assim misturada de invallidos. +Quando de repente, patas de cavallos fizeram estrupida nas lages, e eu +vi fazer-se um movimento <span class="pagenum"><a id="page083" name="page083"></a>(p. 083)</span> simultaneo em todos os magotes, +para acorrerem ao encontro dos cavalleiros. Eram quatro. E dois +d'elles, que porventura seriam os juvenis da cavalgata, a julgar pela +ligeireza com que apearam, tinham vindo ajudar o que ficára sobre a +cella, aguardando que o desmontassem da mulla branca onde viera +escarranchado.</p> + +<p>Era este um grande velho de cabellos compridos, em ligeiros flocos por +baixo d'um chapeirão d'ecclesiastico, envolto n'uma capa com romeira +de lontra, e de quem todo o mundo se acercava para lhe beijar a mão. +Caminhando, espargia bençãos sobre as cabeças curvadas á sua passagem. +Aprumava com esforço a grande figura biblica e severa, em cujas linhas +fulgurava como um relampago genial d'estatuaria, e em cujos gestos +calmos rescendia a solemnidade d'um apostolo enviado a remir d'um +captiveiro.</p> + +<p>Tinham acceso entretanto algumas tochas, cujos clarões deixavam vêr a +fisionomia de aquella assembléa extravagante. Oh minha cabeça esvaida +de cansaço! Eu não posso affirmar lucidamente se acaso era sonho o que +se estava passando: tão extraordinarias visões me tiveram estarrecido +na formidavel sombra <span class="pagenum"><a id="page084" name="page084"></a>(p. 084)</span> do templo. Lembro-me que o sino tocou +de novo. Era um som funebre e longinquo de <i>gong</i>, espargindo na noite +um terror de evocação; alguma coisa como a voz do tempo, chamando os +homens a um ajuste de contas definitivo.</p> + +<p>Pelas arcarias do claustro, que eu avistára por entre a derrocada d'um +muro, vinha marchando uma procissão de monjas lentas, mirradas, +pequeninas, cambaleantes, e tão brancas e diaphanas á luz das tochas, +que ellas pareciam ter acordado n'aquelle instante dos seus +sepulchros, transpondo os seculos á voz expiadora do <i>gong</i>. Entre os +véos cahiam-lhe os cabellos, mais alvos do que a neve, e das suas +sandalias batendo as pedras do claustro, vinha um som baço de +sepulturas vasias, sepulturas com fome, chamando por aquelles +destroços de santas, d'onde a alma parecia ter voado, através das +divinisações augustas do martyrio.</p> + +<p>Poucas eram: mas vagarosamente a procissão ia crescendo no percurso, +ao clarão bruxuleante das luzes; porque a todo o instante a turba se +abria para deixar passar uma velhinha segurando uma tocha entre as +mãos descarnadas. Alguem lhe tirára o capote de cima <span class="pagenum"><a id="page085" name="page085"></a>(p. 085)</span> dos +hombros, e da cabeça o bioco de burel que a encapuchava. E surgia +assim, daquella lugubre crosta, uma monjasinha branca de Santa-Agatha, +cingida na estamenha da ordem, o véo de nodosa e rude grossaria... e +que a pequeninos passos de centenaria, oscillando a trémula cabeça, lá +ia enfileirar-se no préstito, com as suas rugas cheias d'eternidade.</p> + +<p>A esse tempo, a enorme basilica rompia violentamente da sombra, ampla, +majestosa, cheia de mysterios e esplendores, mesmo assim na ruinaria +das suas esculpturas e rendas ogivaes. E prolongava-se em crepusculos +doces, além das naves, pelos rasgões da derrocada, ondeava á +oscillação das luzes, parecendo expandir-se, como outro'ra, num grande +hausto d'uncção fervorosa e fé christã.</p> + +<p>Em cada recanto, cada arco, por todos aquelles nichos, pelas capellas, +diante dos baixos-relevos e das estatuas, agora bruxuleavam lampadas, +cirios, fogueiras, luzes bizarras de fachos, cuja vermelhidão tingia +de sangue os caprichos manuelinos da architectura.</p> + +<p>Em face a gigantescos lampadarios de prata e oiro, pendentes da cupula +arruida em cachos de lumes lividos, o altar-mór appareceu de subito +n'uma aureola de pompas, damascos, flôres e <span class="pagenum"><a id="page086" name="page086"></a>(p. 086)</span> vasos de oiro +cravejados de pedraria. O frontal todo de lhamas, faiscava entre a +fumarada dos thuribulos, as grandes flôres de purpura emmaranhadas no +estofo, em cuja trama buliam bruscos formigueiros de diamantes, +saphiras e esmeraldas. E por cima na abobada, a noite errava, +espavorida dos fogos que oscillavam cá em baixo, nas inquietações do +vento. E ao rumor das rezas accordavam as aves nocturnas nos seus +ninhos: pombas e francelhos voejando de friso em friso, grandes corvos +sinistros partindo em bandos das rosaceas, encandeados co'a luz, +tornando a vir, tornando a ir... Pensarieis que regressavam das +tumbas, os espiritos das monjas, e se iam familiarisando ás ruinas, e +conhecendo n'ellas o maravilhoso sanctuario doutro tempo.</p> + +<p>—Meu senhor, disse uma voz.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>A vista das monjas, a multidão cahira de joelhos, tocada de veneração +por aquellas creaturas celestes, mumias da fé catholica, que a oração +transfigurára até á innocencia ideal dos serafins.</p> + +<p>Tosca e triturante, a estamenha lhes cingia a esqualidez das ossadas: +vinha na frente a abbadessa, de báculo e mitra, com uma capa <span class="pagenum"><a id="page087" name="page087"></a>(p. 087)</span> +de brocado, sob o pallio d'uma riqueza estonteadora. As mais seguiam +duas a duas, acocoradas quasi pela idade, e guardando não obstante uma +especie de aerea graça da infancia, através da caricatura d'aquelle +cerimonial complicado. Em todas, o olhar extincto, como um brasido nas +cinzas, perdera a incandescencia entre as macerações da vida ascética. +E d'entre a mortalha alvacenta das vestes, cada vulto sêcco vos +lembraria um violoncello com todas as cordas partidas, de haver +tocado, longos annos, a symphonia pathetica da dôr.</p> + +<p>O que dissera, <i>meu senhor</i>, puxou-me de banda: era um embuçado +d'estatura pequena, gestos aduncos, e botas molles.</p> + +<p>Levou-me para detraz da escadaria d'um pulpito. Engolfamo-nos por um +portello baixo e tenebroso, em cujo trevo marinhava, luctando, na +frialdade limosa da pedra, uma caterva horrivel de grotescos. E como +transpunhamos o portello, o homem tirou da capa uma lanterna. Vi então +diante de mim um velhito lesto, pequeno, azougado, os olhos debruados +de purpura, e com um grande nariz pendido como um monco, até encontrar +a aresta d'um queixo arqueado como a prôa d'um saveiro. Dirieis que as +duas pontas iam tentar brava <span class="pagenum"><a id="page088" name="page088"></a>(p. 088)</span> guerreia: a do nariz embirrando +com a do queixo, a do queixo não sentindo lá grande sympathia pela do +nariz. Mas felizmente interpunha-se a bocca, sentinella vigilante +daquella discordia d'appendices, e que mesmo sem dentes, intervinha, +mordendo o que primeiro rompesse as hostilidades.</p> + +<p>—Que quer dizer toda esta mascarada? disse eu.</p> + +<p>O velho olhava para mim com um riso estupido de bobo. Tinha um +barretinho de sêda no craneo, grandes orelhas espalmadas aos lados dos +olhos, a bocca em meia lua e um collar de barba dura, direita, branco +sujo, prestava-lhe a caricatura demoniaca d'um bode, á luz fumosa da +lanterna. Foi pelo corredor aos saltinhos, e eu seguia-o tomado de um +espanto sem saber por que.</p> + +<p>Ao fundo começava uma escaleira aberta na muralha, tortuosa, falhada +nos degraus, e obstruida por grandes pedregulhos. E o velho começou a +subil-a, levando a lanterna na mão. Como a escadaria era de volta +acanhada, e o passo de espira excessivamente baixo e deprimido, +forçoso nos era de subir corcovados, porque não fendessemos o craneo +d'encontro ao rebordo dos degraus superiores. Fomos <span class="pagenum"><a id="page089" name="page089"></a>(p. 089)</span> +tropeçando assim nas pedras soltas e alluidas, partindo as unhas nas +junturas da muralha—elle sinistro, lesto, arqueado, escorregando, +pulando certo quatro e cinco degraus d'uma vez; eu agarrado ás pregas +da sua capa e á morna viscosidade das suas mãos, cujas unhas se me +cravavam na carne, como os dentes metalicos d'uma pinça.</p> + +<p>—Afinal não me explicou que diabo vem fazer aqui toda esta familia.</p> + +<p>Elle sorriu-se. Tambem d'esta vez não fizera caso da minha pergunta.</p> + +<p>E eu começava a não vêl-o com olhos lisonjeiros.</p> + +<p>A escada não tinha fim, caracolando sempre nas trévas humidas, onde +passava o voejar dos morcegos, os guinchos dos ratos, e toda a sorte +de sopros e rizadas maléficas.</p> + +<p>O ultimo trago d'aguardente acaba de se me sumir nas profundezas da +goela. E valha a verdade, eu ia perdendo um pouco a noção justa das +coisas. Fórmas, rumores, simples idéas e suggestões me lançavam de +roda, n'uma sarabanda de incoherencias.</p> + +<p>Dir-se-hia nos iamos sequestrando, pouco a pouco, ao mundo normal e +quotidiano, com os seus phenomenos e leis eternamente as <span class="pagenum"><a id="page090" name="page090"></a>(p. 090)</span> +mesmas, para invadirmos não sei que exotica região onde tudo era +diverso: a atmosphera e a luz, as figuras, as sensações, e as naturaes +affinidades de ser a ser.</p> + +<p>Por instantes, quando o homemzinho passava na luzerna do luar lançada +por alguma fresta da torre, eu ia jurar que elle mudava de figura, á +proporção que ia subindo. Já não tinha na cabeça o solidéu de sêda +preta. As suas orelhas avantajavam-se aos lados dos olhos +despegando-se-lhe do craneo como as dos morcegos, em grandes pregas +cobertas de cabellos. E deixei de ouvir o rumor dos seus passos, +emtanto que a subida se tornava vertiginosa, inquietadora, +embriagante. Cada vez os degraus me pareciam mais estreitos, o passo +de espira mais apertado, e o caracol de pedra mais asphyxiante. E nas +trévas da torre, emquanto eu ouvia os resfollegos do velho saltando os +degraus com furias de possesso, um ar denso e gorduroso forçava-me o +cavername do peito a centuplicar d'inspirações, como n'um paroxismo de +syncope.—Ar! Ar!</p> + +<p>A minha cabeça rolava entre vertigens: via moscas de fogo saltarem-me +por diante dos olhos. E era como se cada um dos meus sentidos, estando +separado de mim, não pudesse <span class="pagenum"><a id="page091" name="page091"></a>(p. 091)</span> ou não quizesse procurar-me +sensações nitidas e exactas—tanto as coisas que eu tocava me pareciam +differentes. Larvas de gelo, escorregadias, sem fórma, tocavam-me nas +mãos <span lang="en"><i>shake-hands</i></span> bruscos. Abria então a bocca para gritar que me +acudissem: e percebia que elle voltava logo a cabeça, porque sentia, +positivamente eu sentia na cara o caustico dos seus olhos dilatados +nas trévas, acobardando a minha alma varada d'um inexplicavel +calafrio. Até que emfim chegamos a uma especie de sala rasgada de +porticos, por onde a lua entrava. E rompemos n'ella como o estampido +d'uma granada: o velho indo cahir de bruços no pavimento, e eu por +cima d'elle, n'uma exaltação furiosa—a ponto de por cinco minutos +rolarmos no chão corpo a corpo, engalfinhados, como se algum de nós +pretendesse esquartejar o companheiro. Prestes porém o lesto demonio +se me escapulira das mãos, e sem uma palavra, deixando a capa, correra +aos varandins da torre a debruçar-se.</p> + +<p>A sala era grande, com varandins d'esculptura aberta, que pareciam +bordar uma antiga renda de cruzes de Malta e folhagens, sobre o azul +pallido do céo.</p> + +<p>Uma floresta de cordas, mastros, travessões <span class="pagenum"><a id="page092" name="page092"></a>(p. 092)</span> e guindastes, +emmaranhava o ambiente e corria de banda a banda. Pendiam sinos dos +porticos, negros, immoveis, suspensos, como aves de rapina +dormitando... mil tamanhos, mil formatos, uns grandes, outros +pequenos, bojudos estes, aquelles campanulados... E na cupula toda +aberta de lucarnas até á flexa, a zunida do vento fazia uma especie de +côro em surdina, instrumentado a risadas e pequenos silvos de +mangação.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>O velho fizera um gesto. Uma badalada profunda sacudiu de chofre a +ruinaria inteira, dos alicerces ás grimpas, e foi-se alargando pela +cordilheira, attenuando, extinguindo, n'uma vibração magnifica de +sonoridade.</p> + +<p>Terrífico e supremo era o accento d'aquella lingua de cyclope, que o +pulmão de bronze insufflára, no seu vagar prophetico, e que retalhava +o silencio da noite como um echo da vida eterna, soado através da +impenitencia dos homens.</p> + +<p>Outra badalada mais forte, e outra, e outra ainda. Crucitando +d'assombro, os bandos de corvos fugiam por todos os lados. E as massas +de sonoridade precipitavam-se nos ares, desgrenhando <span class="pagenum"><a id="page093" name="page093"></a>(p. 093)</span> uma +procella de bramidos, e como um apocalypse prégado ao universo +estarrecido a nossos pés. Para fazer dobrar alguns d'aquelles grandes +sinos, o velho trepava aos varandins e supportes, desdenhando as +vertigens da altura: e eu via-o marinhar então pelas cordagens, correr +como um gato ao longo dos cabrestantes, suspender-se, desapparecer, +cabriolar, suffocado, e insistindo, e voltando, n'um jogo macabro +d'esforços, que ainda mais lhe accentuava a contornadura demoniaca que +elle tinha.</p> + +<p>A cada manobra do velho, era como se as badaladas me fossem batidas em +cheio, no coração, derramando-se-me em crises d'angustia por toda a +rede dos nervos convulsivados. Foi n'este estado que eu corri direito +a elle, e pude agarrar-lhe as pernas no momento em que o maldito se +preparava a descrever nos ares uma arrojada espiral, como Quasimodo, +abraçando pela cinta o reboleiro maior do carrilhão.</p> + +<p>Ao mesmo tempo, começava a produzir-se um phenomeno extraordinario. +Seria illusão dos meus sentidos?... effeitos da minha sensibilidade +doentia, que perdendo o caracter proprio, se mutilára, exaltára, para +rolar depois <span class="pagenum"><a id="page094" name="page094"></a>(p. 094)</span> nas phantasmagorias verdes da loucura? Mas +affigurava-se-me que uma especie de vida magnetica ia atravessando as +ruinas, como se a falla dos sinos houvesse resuscitado no edificio o +genio hostil que alli reinava, e este agora reagisse, contra o germen +christão que os nocturnos visitantes todos os annos insistiam em +replantar no sanctuario.</p> + +<p>Aquillo era evidente, pulsava na pedra, rumorejava na esfusiada dos +ventos, cahia em gottas das arestas e das folhagens parasitas.</p> + +<p>A principio disse commigo—é uma vertigem do meu espirito exasperado +pelas extravagancias da viagem, uma perturbação do alcool que eu +ingeri em dóses abusivas... O velho fizera-me frenetico... Os meus +nervos estavam carregados de fluido... Porém já na egreja me ferira +esta percepção de movimentos disfarçados, esta matinada occulta da +sombra contra a luz, esta suspeita de bruxaria latente.</p> + +<p>Tinha-me rido d'aquilo—Ora adeus! Estou sonhando. E agora, Jesus! não +era engano. A sarabanda macabra rompia.</p> + +<p>Muros e escaninhos começavam a debater-se n'uma lucta mysteriosa de +encantamentos.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page095" name="page095"></a>(p. 095)</span> Em cada molecula, em cada penumbra, em cada vôo, a energia +decompunha-se em fluidos antagonicos; um que tinha saudades do velho +culto, e era mesquinho em quantidade; outro que assoberbava o +primeiro, e se declarára no campo adversario. Mesmo, esta sombria +batalha toldava-me a cabeça, estava patente á minha alma, +obscurecia-me a razão; e o meu proprio corpo vibrava d'ella, e eu +sentia em mim os dois guerreiros buscando derribar-se a golpes +d'espadão. Não, não era engano! Andava tudo, falava tudo, mexia tudo, +e tudo parecia sentir, deliberar e ter vontade. Dos baixos relêvos +brotavam gestos, mimicas, summulas de dialogos...</p> + +<p>Iam falar as boccas das estatuas. Os velhos doutores resuscitando os +velhos schismas. Velhos demonios trucidando as ingenuidades da fé no +carnaval das velhas ironias. Muitos santos pretendiam mesmo disputar +com os demonios.</p> + +<p>N'um baixo relêvo da <i>Ceia</i>, a figura do Christo ergueu-se e bateu com +força na meza, colerico por um apostolo se rir, quando elle, sagrando +o calix, disse do vinho—<i>este é o meu sangue</i>!</p> + +<p>Debaixo dos pés da Madona, renasciam as <span class="pagenum"><a id="page096" name="page096"></a>(p. 096)</span> cabeças da serpente, +á medida que ella as esmagava.</p> + +<p>E uma circulação impetuosa girava nas arterias da pedra, insufflando +vida ás columnatas, fazendo palpitar as rendas das ogivas, e dando +apoplexia ás faces das cariatides.</p> + +<p>—Velho! Velho! exclamei eu fóra de mim, deitando-lhe as mãos ás +goelas. Quem és tu? Fala! D'onde vens? Que queres de mim?</p> + +<p>Já a raiva me escumava nos cantos da bocca. A minha gana seria +esmagar-lhe a cabeça d'encontro ás pedras da muralha. Porque eu via +n'elle o médium da farandola macabra que ia na egreja. Eram obra sua +os tregeitos dos monstros esculpidos nas columnatas, o riso mau dos +demonios-morcegos nos frisos manuelinos do côro; emfim, o exaspero do +Christo, no baixo relêvo da <i>Ceia</i>—e todos os fremitos, todos os +sôpros, todas as oppressões, todas as desconfianças, todas as risadas, +que eu ouvia, que eu sentia, e passavam por mim o visco do seu +contacto asqueroso.</p> + +<p>Á sua voz obedeciam aquelles milhões e milhões de forças occultas e +satanicas: e elle tinha o dom d'arrastar na espira lôbrega dos seus +maleficios, o desgraçado que se lhe approximasse.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page097" name="page097"></a>(p. 097)</span> Oh, não era ausencia d'energia physica que me impedia de o +acabar—elle era magro, ossoso, quasi decrepito... Mas a sua vista +dava-me um embaraço! Com o mais ligeiro impulso eu poderia derribal-o. +Mas um assombro terrivel, um pavor inexplicavel, uma fascinação que eu +não sabia definir, amordaçavam-me, faziam de mim um destroço de +captivo em poz d'aquelle tenebroso e phantastico vencedor.</p> + +<p>A essa hora, na egreja, tudo estava a postos. Pela abobada cahida, eu +pudéra vêr, a nossos pés, o côro profundo, sobre uma massa amarellenta +de pilastras fasciadas de relêvos. D'alli surgiam á luz dos brandões, +as primeiras bancadas de carvalho, com logares separados, onde cada +figura de monja apparecia dobrada sobre a estante do livro de rezas.</p> + +<p>Na grande cadeira gothica da abbadessa, a meio do côro, duas vellas +faziam brilhar o baculo de oiro, uma mitra mexia ás vezes sobre uma +cabecinha pellada de centenaria—e para traz a sombra invadia tudo, e +via-se na parede uma rosacea sem vidros, por onde entrava, poeirenta e +diaphana, uma grande cheia de luar. Depois a egreja enorme, com as +esculpturas mutiladas, as rendas em bocados <span class="pagenum"><a id="page098" name="page098"></a>(p. 098)</span> pelo chão, os +nichos, muitos, desertos, e os jogos e caprichos da luz e da sombra, +forjando effeitos de scenographia formidavel, de cujo tumulto, ao +fundo, o altar mór destacava n'uma apotheose de magnificencias, entre +a fumarada do incenso, e os vôos dos pombos espavoridos.</p> + +<p>O velho reaccendeu a lanterna. Havia ao centro da casa uma especie de +grande cravo de castanho, com teclas de cobre oxidado, aonde vinham +ter as cordagens de toda aquella sinalhada. Com gesto placido elle +conduziu-me ao teclado, sobre cuja arca depuzera a lanterna +escancarada. E desenrolando um grosso manuscripto de musica, pol-o na +estante, e fez-me signal a que me assentasse n'um monte de cordas que +estava perto.</p> + +<p>A musica era torturadamente escripta, coberta de emendas, intercalada +de referencias á margem.</p> + +<p>É obra sua? perguntei eu. Elle fez que sim com a cabeça. E começou; já +o arcebispo ao altar dizia o <i>orate</i>, e soava nos mosaicos da basilica +o rumor dos que ajoelhavam.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Ahi começa o velho a fazer soar o carrilhão, e eu já sinto outra vez +os meus pavores <span class="pagenum"><a id="page099" name="page099"></a>(p. 099)</span> tomarem fórma, e as minhas angustias irem +cavalgando extravagantes bruxarias. Cada vez mais á roda dos meus +sentidos, fosforeja e zumbe esta encarniçada lucta dos dois fluidos +antagonicos, que a pouco e pouco se depuram, quando a minha percepção +lhe consegue fixar a transcendencia.</p> + +<p>Um revindica o culto das florestas, das aguas e dos rochedos. É a +grande alma pagã da natureza, que impulsiona os mundos d'uma vida +extraordinaria, e tem voz, no bramido das vagas, e faz as flôres e os +archipelagos, e chispa das rochas que o ferro morde, e chora lagrimas +de leite nas folhas arrancadas da figueira. É o mais antigo, é o mais +forte: e a todo o transe elle tenta reconquistar o solo, com a audacia +heroica d'um régulo expulso de dominios seus. Tem a symbolica dos +antigos mystérios, o outro. E bisonho e tenebroso, desceu do outeiro +onde uma noite uns soldados estavam crucificando um vagabundo. +Prégando jejuns e penitencias, emquanto ia fazendo da cobardia uma +virtude, e não sei que refrigerio da morte, gritava ao mundo—venho +destruir a obra da Mulher. E por entre o unisono das harpas, na choral +dos serafins, ouve-se o alarido dos que na fogueira <span class="pagenum"><a id="page100" name="page100"></a>(p. 100)</span> +escruciam, e os latins do inquisidor que os manda morrer em nome da +misericórdia celeste.</p> + +<p>—Velho!</p> + +<p>Repara bem, como até na gralhada dos sinos parece evidenciar-se a +batalha das duas legiões. Aquelles sinos além são pela egreja; mas +aquell'outros aposthasiaram e insurgiram-se.</p> + +<p>As mesmas tuas mãos de maestro ferindo o teclado, parecem obedecer a +dois musicos diversos, degladiando-se sem quebrança de rythmo, n'uma +especie de sabbat artistico, alternativamente piedoso e diabolico. Por +momentos, tudo isto se me afigura symptoma d'alguma psychopathia +bizarra, evolucionada no exaspero mental que esta noite em mim +produziu.</p> + +<p>Faço esforços de rehaver a minha antiga serenidade, ponho-me a vêr se +coordeno as minhas faculdades d'analyse e de critica, e se restabeleço +a limpidez do meu juizo, a sangue frio.</p> + +<p>—Eu é que <i>sou talvez duplo</i>, e não a maneira de ser das fórmas que +me circundam.</p> + +<p>As minhas operações mentaes é que estão <span class="pagenum"><a id="page101" name="page101"></a>(p. 101)</span> fraccionadas e +desparallelas, como se a fouce do cerebro me não dividisse o esferoide +em dois ovulos estrictamente iguaes, senão o houvesse desigualmente +bipartido, lobulo maior, lobulo mais pequeno... e cada um derivando em +modos de ser incompativeis.</p> + +<p>Porém esta hypothese eriça-me os cabellos. Adeus harmonia de +funccionalismo mental! Falta d'obediencia a uma mesma força +coordenadora e dirigente! Para cada metade do meu corpo, uma contenção +vital diversa da outra, energia differente, outro caracter, outra +impulsão...</p> + +<p>Actividades parciaes, cerebrações avulsas, acordariam n'esses varios +districtos do meu encephalo sem rei, nem roque, chocando as suas +indoles sobranceiras, como pequenos despotas em gran-ducados rivaes. A +dualidade surgiria por fim d'esse chaos encephalico, como uma terrivel +dupla vergontea de loucura: venho a dizer, dois individuos n'um corpo, +discutindo, acotovellando-se, perseguindo-se, um contrariando a +vontade ao outro, annulando este os esforços d'aquelle: e nenhum +deixando dormir nem descançar o companheiro. Mas é isto. Positivamente +é isto—estes dois maus irmãos que juraram anniquilar-se <span class="pagenum"><a id="page102" name="page102"></a>(p. 102)</span> +d'um golpe: fratricidas que a mesma impulsão vae arrastando de roda um +do outro, á espera do instante em que possam beber-se o sangue. Um +d'elles fraco, cheio de mysticismos poeticos e visualidades +atravessadas de inquietações. Timido, nasceu comigo, é filho de minha +mãe, uma devota. Mas o outro foi crescendo nos livros, o estudo +inoculou-lhe audacia, a arte agigantou-lhe as dimensões, n'este +momento elles barafustam, e eu cuido que estremece pela basilica toda, +este tragico drama que apenas se me debate nos nervos, e ensanguenta +os musculos da cabouqueira que eu trago sobre os hombros.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Por consequencia estou doido. Um pavor gelado invade-me o peito.</p> + +<p>Estendo para o altar os braços supplicantes. E o velho continúa a sua +musica grandiosa, indifferente a tudo o mais, emquanto no altar +celebra missa o arcebispo.</p> + +<p>A execução d'essa musica parece absorvel-o e mirral-o como um galope +d'annos desgraçados.</p> + +<p>A primeira investida é confusa, o velho treme de medo, correm-lhe +lágrimas na cara, <span class="pagenum"><a id="page103" name="page103"></a>(p. 103)</span> quatro e quatro, e murmura não sei que +palavras cabalisticas. Eil-o se endireita e recomeça.</p> + +<p>E pouco a pouco a minha alma abre as asas e suspende-se n'um paiz +lilaz de supremos extasis acusticos.</p> + +<p>Já a riqueza dos timbres e a gracilidade dos motivos me fazem esquecer +que seja um carrilhão de sinos que eu escuto. Alguma coisa da potencia +orchestral do orgão, profunda, gothica, lithurgica, mas mais unida, +mais colossal, mais grandiosa, se evola d'essas campanulas de bronze +que faz soar no meio das serras o mais prodigioso maestro do mundo. O +carrilhão faz-se voz da architectura de repente, e o desdobramento na +musica dos caprichos floreteados na pedra pelo cinzel—tanto os meios +d'expressão se centuplicam e vão fasciando de originaes melodias, +arrancos trágicos e indomáveis rouquejos de paixão.</p> + +<p>A voz de cada sino presta uma inflexão, uma emoção á voz da cathedral +que desperta e vive como um ser perplexo e gigantesco: e d'aquellas +resonancias que a mão do artista humanisára, como interpretando um +estado d'alma doloroso, a angustia d'uma raça, cahiam tristezas, +desprendiam-se adeuses, voavam <span class="pagenum"><a id="page104" name="page104"></a>(p. 104)</span> recordações... recordações de +vozes ouvidas n'outro tempo, na bocca d'alguem que eu, valha a +verdade, já não sabia dizer quem fosse.</p> + +<p>Vamos ao <i>Credo</i>. O carrilhão centuplica o enxame instrumental de +grupos harmonicos, e é o momento em que o universo une a bocca á +poeira, para afirmar essa fé que elle tanta vez terá sentido esmorecer +no coração. Oh, a musica do velho era uma grande opera de effeitos +supremos, onde a alma se banhava aspirando ao mysterio d'um ideal +celeste e inaccessivel. Vinha d'ella uma intensidade de dôr heroica +que dava soluços á melodia unanime dos motivos symphonicos; +desencadeando-se em rajadas no badalar dos grandes sinos. A principio +era uma coisa lenta, que se apagava como um rythmo de reza, de nave em +nave.</p> + +<p>Era uma grande litania de humildes, cortada por algum soluço +afflictivo, e em cuja penumbra se apercebiam circulos d'almas cada vez +mais vastos, n'uma paisagem de ballada, livida e nocturna.</p> + +<p>Outros soluços vão repercutindo o dobre d'aquella angustia suprema, +n'um côro trágico de sessenta seculos de soffrimentos.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page105" name="page105"></a>(p. 105)</span> Já o effeito cresce, desencadeia-se, rebenta. Ha gritos +funebres, insurreições apenas suffocadas, roucas ladainhas que chegam +de longe pedindo socorro...</p> + +<p>Ai! n'essa apotheose de crença espiritual, por vezes a estridencia dos +brados faz suspeitar o terror em vez da luminosa confiança que deita a +cabeça no regaço da fé, e a imposição feroz d'um credo absurdo, em vez +de simples doutrina conciliante ao caracter, e inteiramente suave ao +coração. E o offertorio passa, a campainha do acolyto annuncia o +<i>Sanctus</i>, e o sacrificio da missa principia.</p> + +<p>Emtanto que no meio d'aquellas instrumentações picturaes do carrilhão, +d'onde o mysterio da missa se ennubla e desenvolve, sempre o +pensamento musical podia seguir-se, com a pureza d'um psalmo; tão +limpido, que eu cerrava os beiços de medo que o meu halito embaciar +pudesse, a crystallinidade d'aquelle adoravel motivo.</p> + +<p>Mas da bocca dos sinos, como d'uma cornucopia emborcada, vão golfando +inumeraveis turbilhões d'espiritos fatuos, sylphos de carrilhão, +vibrações tornadas fórma que vão e vem, sobem e descem, cabriolam, +zigzagueam, rolando, partindo, tornando a ir, e diffundindo-se +<span class="pagenum"><a id="page106" name="page106"></a>(p. 106)</span> nos longes em grandes circulos concentricos, onde as figuras +se perdem emfim, n'uma bruma côr de cinza. Todos são excessivamente +pequenos, com uma multidão de caras differentes, pequeninos braços, +pequeninas pernas, que se agitam n'uma quantidade de mimicas +pittorescas. Apenas escapados dos sinos, eil-os correm uns ao encontro +dos outros, larvas do medonho, embryões do pesadello, conforme a +imanação sonora d'onde procedem: e agarrando-se pelos hombros, +continuam nos ares a fantastica batalha que eu assignalára já para +cada atomo das ruinas. Cada vez mais, cada vez mais, esses milhares de +anões parecem recrudescer das sinistras gargantas do bronze, e bem +depressa elles foram tantos, que faziam uma espécie de exhalação +fumosa interposta aos meus olhos e os objectos, que se alongava depois +n'uma grande lingua, rapida e turbilhonante, ascendendo na flecha +audaz do campanario.</p> + +<p>Já a torre estava cheia d'aquellas larvas cúpidas do som, sedentas de +lucta, phreneticas de movimento, em cuja carcassa podiam vêr-se todas +as espécies de caras, idades, sexos e configurações. Tinham umas a côr +verde das folhagens; eram as mais numerosas e as <span class="pagenum"><a id="page107" name="page107"></a>(p. 107)</span> que mais +robustamente cabriolavam. Mas outras eram pardas, alongadas, +noctiluzentes, com a vibratilidade dos vermes e a cabeçorra disforme +dos peixes-sapos. Havia-as corcundas, havia-as tortas, havia-as +barbudas. Encarquilhadas, hydropicas, leprosas.</p> + +<p>Em figura de rato, em figura de sapo, em figura de morcego... e mesmo +certas pareciam esqueletos d'aves antediluvianas, marchando aos +pinchos, com um grande bico maior que o corpo, direito, espesso, que +não podiam erguer da melancholica postura em que o levavam pendurado. +Tinham asas quasi todas; algumas eram armadas de espinhos, outras +traziam capuzes sobre os olhos, o breviario na manga e camandulas á +cintura: e até muitas, brandindo fachos, corriam através da batalha, +pondo um clarão de sangue em todo esse pavoroso arraial de maleficios.</p> + +<p>E as que nasciam iam empurrando as que já eram adultas.</p> + +<p>Crescia a chusma atropellando-se, comprimindo-se: até que não cabendo +na torre, cahiam pelos varandins, aos milhares, ou esmagadas contra a +parede ahi seccavam e por fim desappareciam. Na debandada, um panico +lhes convulsionava ainda mais os <span class="pagenum"><a id="page108" name="page108"></a>(p. 108)</span> pequeninos membros, e de +rustilhão precipitavam-se, agarradas umas ás outras, e dispersando-se +em circulos, quando já as suas figuras pareciam ganhar d'aptidão o que +iam perdendo em nitidez de contornos. Pelo céo, aquelles circuitos +simulavam fortes migrações de passaros cinzentos, cerrando os seus +exercitos até aos confins do horizonte.</p> + +<p>E mal os sinos paravam, havia um claro turbilhão de mostrengos... só +um ou outro mirrava, n'uma asfixia de silencio, lentamente, pingando +ás gottas no chão que o consumia, ou ficava cabriolando nas cordas em +piruetas de acrobata, ou pouzado n'um ferro, arésta, teia d'aranha, +entrava a balouçar-se monotonamente, até agonizar de todo e +desfazer-se.</p> + +<p>—Oh Deus! Deus grande, Deus omnipotente e misericordioso! ampara, por +quem és, a minha fé, e não deixes apagar na loucura a bruxuleante luz +da minha razão.</p> + +<p>Quando o arcebispo ergue a hostia, e sôa em concavo pela igreja, o +bater das mãos contricto sobre os peitos, porque é que este musico +soluça, errando a vista pelos angulos da torre, á procura d'alguem que +alli não está? E a sua figurinha de satyro arrepela-se, <span class="pagenum"><a id="page109" name="page109"></a>(p. 109)</span> +lugubre e grotesca, como a d'um macaco que tivesse por dentro a alma +contricta d'um christão. Já as pombas volitam de novo sob a cupula, +brancas, purissimas, adejando outra vez pacificadas, quando os ultimos +turbilhões de mostrengos se despregam dos sinos mudos, esfusiando +pelas ogivas, sob os lategos da uncção celeste que se irradia da +hostia, feita carne, e do vinho do calix, feito sangue.</p> + +<p>No momento, o <i>benedictus</i> segue, e o carrilhão murmura de mansinho, +como n'um unisono de violinos e harpas, a mais suave <i>preghiera</i> que o +perdão do Senhor haja inspirado a um penitente. Manso e manso, os +seraphins de pedra unem as mãos, batendo as asas de jubilo, com os +seus typos frustes de creanças, em cujas cabelleiras se accende um +oiro fosco d'aureolas; e das partidas lyras arrancam, com os seus +dedos, vagos preludios de um mysticismo fluido, vaporoso, que embriaga +d'extase, e em equivalencia approximarieis dos mais recatados perfumes +de jasmim e de nardo, violeta e rosa branca, vaporizando-se de +corollas abertas no claro-escuro d'um claustro, e que á noite +espargissem suggestões de bemaventurança, na cella virginal d'uma +noviça.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page110" name="page110"></a>(p. 110)</span> Sim! n'esse preludio do velho, chora talvez a imploração d'um +crime antigo, expiado em annos de supplicas nunca ouvidas, e +centuplicando d'eloquencia, através do tempo, té que afinal a tortura +do musico excede os limites d'expressão concedida ao homem, e iguala e +imita a eloquencia de Deus, para, confundida n'ella, coagir o Monarcha +dos céos a perdoar. Tudo n'este supremo instante a solicita, os fieis +que voltam a face para o carrilhão que os arrebata, as esculpturas, as +pombas, e o arcebispo emfim que ao dar a benção, estende para a torre +o braço tremulo, e absolve d'um gesto o extranho musico.</p> + +<p>Limpo de nevoas todo o céo de dezembro esmaecia, d'uma pureza elysea +incomparavel—e argentea a lua rola, espalhando ao redor madeixas +claras, como uma cabeça morta de <i>baby</i>, á procura do tronco, pelos +valles, antes que o gallo da missa solte o seu primeiro apello, para o +baptismo de Jesus feito creança.</p> + +<p>Na poeira do luar, pelos rasgões da rosacea, um turbilhão de seraphins +rompe na igreja, brancos de marmore, nascendo da nuvem como uma +geração espontanea de caritas bochechudas, boccas em flexa, olhos +<span class="pagenum"><a id="page111" name="page111"></a>(p. 111)</span> de saphira, e o tom chlorotico, translucido, que participa +do paraiso e da tumba, e no qual poderá lêr-se, mau grado a +espiritualização da eterna estancia, essa infinita nostalgia dos +pequeninos seres arrancados ao calor dos seios maternaes.</p> + +<p>Por um instante, palpita sobre o côro alada tromba, como uma emigração +de passaros radiosos, pyrilampos, borboletas, que oscilla e se desloca +na fumarada argentea do astro, turbilhonando em rodopios d'apotheose: +depois do que converge á torre, e pelos varandins enfia, n'uma espiral +de sonho alvinitente. Mas é um exercito que lentamente baixa o vôo, +silencioso, rufado apenas, no <span lang="fr"><i>frou-frou</i></span> das asitas quasi +imperceptiveis. A alguns mal se lhes lobriga a cabeça, envoltos como +voam, nas suas camisotas de nuvem; outros inquietos, não podem estar +poizados muito tempo em qualquer ponto, e n'um phrenesi de movimento, +mexem, debicam, bolem no teclado dos sinos, nas esculpturas, +chamando-se, vindo em chusma rir de um monstro ou cariatide, +arrepellando-se os cabellos uns aos outros, jogando as escondidas por +traz das heras que abraçam a muralha, de roda dos varandins, pelas +cordagens—e até <span class="pagenum"><a id="page112" name="page112"></a>(p. 112)</span> um que escorregou nas lageas, ficou de +bruços, choramingando, com birra, á espera de que alguem o fosse +levantar.</p> + +<p>Os mais robustos então descolam do pavimento uma das lageas, a um +canto, e acocorados na terra, escavam com as unhas uma toca.</p> + +<p>Pela segunda vez, o gallo da missa gritou da cupula, e elles, que o +escutam, precipitam com furia o seu trabalho, a fim de que a tarefa +esteja prompta antes que a ave solte o seu terceiro grito de alarme.</p> + +<p>Bem depressa ha um buraco fundo no chão da grande sala, e—oh +surpresa!—aparece um pé, um microscopico pésito de creança roxo de +frio, inteiriçado: e logo depois do pé uma pernita, o tronco, uma +cabeça... Já a curiosidade impertiga a pequenada, que se achega e +acocora, em circuito cingindo-se pelos pescoços, n'uma profusão de +momos espantados.</p> + +<p>O pequenino cadaver está descoberto, e cada qual n'elle procura +insuflar o ligeiro filete vital que em si conduz. Uns lhe aquecem as +mãos com seus beijitos leves como abelhas, outros lhe sopram das +palpebras a vilissima terra que lh'as come, emquanto <span class="pagenum"><a id="page113" name="page113"></a>(p. 113)</span> muitos +lhe fabricam uma samarra, com os pedaços que arrancam ás suas proprias +vestimentas.</p> + +<p>Emfim, a creancita ressurge, esfrega os olhos—dois ou tres calafrios +passam de manso á flôr da sua epiderme opaca e ecchymosada—e a vida +nasce, ha movimentos, pequenos haustos, suspiros... mas sempre á roda +do pescoço um vergão negro estrangula-a, estygma de infamia paterna, +que o velho encara estralejando os dentes, n'um terror confuso de +assassino. Pela terceira vez o gallo canta, e triumphante, o turbilhão +de seraphins levanta vôo, ascendendo pelo céo, n'uma espiral de nevoas +côr de rosa.</p> + +<p>Porém de repente, o pequenito recorda-se, volta a cabeça, estende os +braços para o musico que de rastos avança, desesperado, por não lhe +poder tomar as mãositas protectoras. Oh, era tempo! Ha já cem annos +que elle assim vagabundea nas ruinas, sem repouso esse sineiro que +amara uma abbadessa; e annos e annos desfilam, e sempre a terra a +recusar sepultura ao amante, e sempre a colera de Deus a expungir da +sua gloria, o monstro que assassinára o filho, no proprio dia em que +elle foi nascido. Annos e annos o miseravel tentara <span class="pagenum"><a id="page114" name="page114"></a>(p. 114)</span> +apaziguar a colera do Eterno, vindo á missa do gallo da abbadia, +interpretar pela musica do carrilhão fantastico as escruciadoras +angustias da sua alma lassa, atormentada, mas ainda no fim d'estes +esforços o céo que redimia a creança, como se não julgasse bastante a +expiação do pae, abandonava-o!</p> + +<p>Surdo, maldito, o desespero começa a babar-lhe da bocca, imprecações +incoherentes. De novo o carrilhão blasphemo, vomita das campanulas de +bronze, a sua bruxaria macabra de mostrengos. Os ultimos fieis +arrastam as sapatas no adro, e pela montanha as luzitas descem +ondulosas, hesitantes, como um bailado de pyrilampos.</p> + +<p>Agora um, outro ao depois, os lampadarios se extinguem diante das +capelas: o altar-mór não phosphoreja mais as suas rutilancias d'estofo +e pedrarias: o arcebispo foi-se, as monjas voltaram talvez aos seus +sepulchros, porque as procuro em balde nos cadeirões do côro, pela +egreja e nos claustros, á chamma dos ultimos archotes que lambem de +sangue os gestos das estatuas, as arcarias confusas, os baixos relêvos +e os nichos.</p> + +<p>Deito os meus olhos de roda, espavoridos, e ha risadinhas, voejos, as +heras trepam em <span class="pagenum"><a id="page115" name="page115"></a>(p. 115)</span> grossas lianas, que se abraçam nos +columnellos da torre, e prolongadas, tenazes, n'uma luxuria contorcida +de serpentes, alastram as suas pernadas entre as pedras, como uma +avançada de exercito que em nome da natureza, toma posse do terreno +que lhe havia sido usurpado. O terror dá-me epilepsias de fuga, d'uma +vertigem, d'uma raiva! e precipito-me na escada, ás escuras, sem mais +ouvir os queixumes do musico, que as vegetações vão sugando, +assimilando em si, absorvendo, n'uma troncagem monstruosa de figueira.</p> + +<p>Chego á igreja, quebrado pelas brutalidades d'essa queda espiral de +oitenta metros. E atraz de mim não ouço mais que a floresta a +esbravejar, tomando posse da ruina, e os estalidos da cantaria que +rebenta, escarvada pela violencia das raizes que esconjuntam a +architectura a punhaladas de ciume. Agarro um facho, em bramidos, +delirante d'um medo que centuplica as minhas ancias de vida livre, em +meio dos campos: e ao acaso, entre os cyprestes, pelo claustro, os +risos guiam-me: bem depressa descubro uma luz vaga, coando-se por +baixo d'uma porta baixa e carcomida. Dentro ha rumores, leves +<span lang="fr"><i>frou-frous</i></span> de sêda que se acamam, tinir de pratos... E no <span class="pagenum"><a id="page116" name="page116"></a>(p. 116)</span> +phrenesi medonho que me agita, deito os hombros á porta—a porta voa, +e uma orgia d'espectros patenteia-se, n'uma luz glauca em que as +figuras mergulham, confundidas, alongando as roupagens pardacentas. A +principio eu não pude destrinçar as lugubres carcassas, uma a uma, mas +já a minha vista insiste sobre as fórmas... ha um festim servido sobre +a mesa, flôres que se desfazem em poeira; e n'um brilho d'enterro as +tochas ardem, mostrando á roda esqueletos de monjas, a devorar co'as +mandibulas descarnadas, e cardeaes, marquezas, gentis-homens, que +entre si permutam toda a casta de motetes dulcerosos.</p> + +<p>E mais distante, á luz do fogo que enrubesce na chaminé de pedra +armoriada, o senhor arcebispo tange um violão, meneando a calva +emquanto a abbadessa ergue os seus vestidos veneraveis, para esboçar o +primeiro passo do minuete, acordado nas cordas do instrumento.</p> + +<p>—Rompe a manhã! grita o creado aos meus ouvidos.</p> + +<p>Esfrego os olhos.</p> + +<p>A nevoa esfarrapa chuveiros na montanha. É dia claro. Uma caleça nova +nos aguarda. E o sineiro da abbadia? A gente sempre sonha cada +asneira!<span class="smaller"><a href="#toc">(Voltar ao Conteúdo)</a></span></p> + + + + +<h2><span class="pagenum"><a id="page117" name="page117"></a>(p. 117)</span> PEQUENO DRAMA NA ALDEIA</h2> + + +<p>Devo dizer-lhes que este Carlinhos era um adoravel petulante de buço +preto e olhos claros, cheio de vivacidades com raparigas, prompto a +rir, delgadito e forte, tendo pelos actos de bravura uma quasi +religião. Compensavam-se n'elle delicadezas de femea, brancuras de +mãos, flexibilidades de cinta, uma doçura candida de feições, toda a +graça ondulosa emfim, dos que adolescem á larga, sem cuidados nem +represalias paternas, com os primeiros esboços d'essa energia physica, +tenaz, inquebrantavel, leviana e generosa, que ainda agora é tradição +em certas raças da provincia, e guarda fama de povoado em povoado. A +escóla fôra-lhe apenas um pretexto de troça, onde esse incorrigivel +tinha posto em debandada a auctoridade classica dos mestres. E como +n'esse periodo as primeiras <span class="pagenum"><a id="page118" name="page118"></a>(p. 118)</span> desordens do sangue, ensaiavam +pelo campo da aventura, mais agora ou mais logo, as suas sortidas, não +havia mesada que chegasse, nem horas para folhear as lições. Demais, a +sua impetuosidade que esplendia côr e frescura de saude, pouco dava á +vida cerebral; portanto, voltou á aldeia sem curso, elançado de +figura, tendo as olheiras symtomaticas do amor esbanjado, lendo +romances, com uma arte especial de surprehender mulheres, e +predilecções decididas por quanto fosse prazer.</p> + +<p>—Doido, dizia a gente pobre da aldeia, mas que rapaz!</p> + +<p>A fortuna da familia fazia-o no sitio uma especie de menino d'oiro, +sagrado e por todos querido; desculpavam-lhe as audacias, tinha +entrada em todos os lares, e quando nas romagens o seu cavallo piafava +nos adros das ermidas, ou a galope ia cortando a chafranafra das +feiras, as raparigas deslumbradas achavam-n'o bello como um deus, e +muitas fugiam com elle, mandando á fava os namorados. Realmente +ninguem achava extraordinarias estas coisas. O que as velhas +camponezas então faziam, era ter saudades do pae, rico grão-senhor de +herdades e quintas, destemido, brilhante, alegre aventureiro, que +ainda em <span class="pagenum"><a id="page119" name="page119"></a>(p. 119)</span> vesperas de morrer tinha raptado a lavradora das +Lages; aquella russa magnifica de carnação, que tinha o ar d'uma +grossa madona eborense, hão-de estar lembrados, hein? Carlinhos mesmo, +era um filho do amor, vindo não se sabia d'onde, amor d'acaso, +d'alguma arribana de granja, d'algum arredado logarejo entre serras e +moinhos. O certo era que dias após haverem enterrado no velho +cemiterio, a filha que ao rico homem restava da esposa legitima, +entrara o marido em casa com um pequenito pela mão, fôra junto da +esposa mortificada de prantos, e sem palavra tinha-lhe deposto no +regaço aquella encantadora miniatura de Carlinhos pequeno, a mais +fresca e divina que era possivel sonhar. A pobre senhora que se via +sem descendencia, já não estava em idade de ter filhos; resignada ás +traições do marido, e ennobrecida d'esse grande orgulho benevolo e +senhoril, que ainda na provincia revelam as antigas familias, +acceitara o <i>bambino</i> sem cousa alguma perguntar. Além de que, +adoptando a creança, assegurava-se herdeiro á casa, e os filhos do +irmão de seu marido não participariam ceitil na grande fortuna do +casal. Ah, mas esse exemplo d'adopção tinha dado a mulheres sem +<span class="pagenum"><a id="page120" name="page120"></a>(p. 120)</span> marido, phrenesis bruscos de contagio, e certo foi que +muitas creanças appareceram dizendo-se irmãs de Carlinhos. Talvez +calumnias forjadas pela outra familia, ainda que fallando sério, não +faltassem a taes pretenções, uns signaes de verosimilhança. Tanto os +da Oriola, que assim era conhecida a familia do Carlinhos, como os da +Torre, que assim nomeavam a casa do tio adversário—eram fortunas de +respeito e gente de poderio. Os primeiros tinham o maior nucleo da +propriedade de redor da Oriola, aldeia perdida entre carvalhaes e +sobreiros; os segundos faziam séde de governo proximo a S. Mathias, +outra aldeia nos valles de Beja. Uns tinham cabellos pretos, alta +estatura fina, nariz direito, olhos claros, e uma côr fulva de pelle, +nuançada em deliciosos <span lang="fr"><i>duvets</i></span>; eram da Oriola. Mas outros +insculpiam-se herculeos e loiros, nariz recurvo, dentes carniceiros, +barba rara, e os olhos singularmente obliquos contra um nariz que +arfava com destrezas de hispano-arabes; eram da Torre.</p> + +<p>Pois extraordinaria bizarria! Dos trinta annos para baixo, toda a +Oriola copiava o typo do pae de Carlinhos; e acontecia o mesmo em S. +Mathias, a respeito do typo <span class="pagenum"><a id="page121" name="page121"></a>(p. 121)</span> loiro da Torre. Nas terras de +roda, estas coïncidencias faziam riso, ainda que se explicassem com +honra, aqui para nós. Os da Oriola davam pão á sua aldeia, como os da +Torre a S. Mathias. Lá vinha o proverbio—mesmo pão, mesmas feições. E +sendo assim...</p> + +<p>Ora cada qual d'estas familias rivaes—e nunca pude saber porque +rivaes, questões de ciumes talvez, uma herança mal repartida, ambições +de riqueza ou voga entre os povoados, eleições renhidas n'algum anno +de mais gastos, emfim qualquer pequenino attrito d'esta natureza ou +d'outra, onde o orgulho dos senhores ruraes, tão vehemente e +meticuloso, faisca determinando incendios e intimas assolações—cada +qual d'estas familias, ia eu contando aos senhores, não passava dia +sem discutir com uma rica metralha de descomposturas, escarneos e +desdens, o viver da outra. Em torno d'estes odios interfamiliares, +tinham-se formado mesmo pequenas côrtes, feitas com figurinhas +insipidas de proprietarios, mulhersitas seccas e beatas, maldizentes +na sua dentuça podre, com poucos meios e grandes deslumbramentos pelas +pratas de casa rica, sabendo as mesmas historias e queixando-se dos +mesmos flatos, levando e trazendo <span class="pagenum"><a id="page122" name="page122"></a>(p. 122)</span> recadinhos, segredinhos, +pequeninos fetidos d'intriga, em preço do chá com doce que pelos +serões lhes serviam, e da quasi familiaridade que em publico, esses +senhores de terreola lhes dispensavam. Na casa da Oriola sabiam-se por +exemplo a horas e a tempo, os vestidos de sêda da prima Dora de S. +Mathias, como ella se vestia em sendo madrinha de baptisado, o que +tocava no piano, e quem estivera a jantar no dia dos seus annos.</p> + +<p>—Diz que houve balancé até de manhã.</p> + +<p>E noticias da cortiça exportada para Inglaterra, lã que vendiam os da +Torre, e dos rebanhos, carneiros, vaccas, porcos, cavallos, poldras...</p> + +<p>—Tão maus, que elevaram o preço dos carneiros, só para prejudicar os +lavradores somenos. E os porcos d'elles não prestam, carne de cão, +mais dura!...</p> + +<p>Cada viajata de Dora durante a estação de banhos, cada mez d'opera em +Lisboa, no inverno, as primaveras com o pae pela Andaluzia, no +Algarve, ou em Marrocos e Gibraltar, para espreitar o dolente azul do +Mediterraneo do alto das artilhadas escarpas inglezas, eram motivos de +censuras na Oriola, e surdas prophecias de ruina iminente. As +mulheritas <span class="pagenum"><a id="page123" name="page123"></a>(p. 123)</span> da terra vinham aos serões com seus maridos, +trazer o que sabiam da Torre, inventar quando não havia que trazer, e +a mãe de Carlinhos commentava os casos entre velhas creadas que a +tinham acalentado, velhinhas que davam tu á sua dona, +enroscando-se-lhe aos pés com somnolencia de gatas fugidas ao serviço. +Mas, desgraçadas das visitas que ousavam julgar diante da rica viuva, +o proceder da sobrinha ou do cunhado—que tombadas em graça, nunca +mais lhe viam os dentes e provavam o dôce! Ella só, viuva de Fernando +Zarco, podia discutir os desvarios de seus parentes; o resto contava +sem commentarios o que ouvia por fóra, ou ia escutando o que ella +dizia, sem retrucar mais, aliás...</p> + +<p>Na casa da Torre, exasperação identica a respeito da Oriola, não +havendo serão que as estroinices do primo não fossem esmiuçadas, +exageradas e discutidas. Carlinhos não tinha pae, Dora não tinha mãe. +Mas auctoritaria e toda orgulhosa do seu reino domestico, da riqueza e +alta educação que recebera, tambem ella punha em torno de si uma +pequenina côrte dulcerosa e servil. Era mais nova que o primo, e a sua +belleza de loira, magnifica e <span class="pagenum"><a id="page124" name="page124"></a>(p. 124)</span> alta, toda fresca em batas +d'estofo exotico, deliciosa de cabellos e mãos, com uns ares +d'inaccessivel castellã, fazia d'ella a musa do districto, e a paixão +de quantos gordos filhos de casa opulenta, batiam por feiras e +lavouras em grande. Viam-se os dois muitas vezes, Carlinhos e Dora, +casualmente nas festas de Beja, em praias de banhos, e por Lisboa, +onde até acontecia ficarem no mesmo hotel. O pae d'ella, Manuel Zarco, +fingia não dar pelo sobrinho, o <i>engeitado</i>, como elle dizia na sua +brutalidade morgadia. Os rapazes, porém, é que se iam mirando ás +furtadellas, sem querer saber das caturrices do velho. Carlinhos, tão +ruidoso e leviano por onde quer que andasse, ficava sério e perturbado +sob esses rapidos encontros com Dora, e os seus olhos claros +esmaltavam profundezas ardentes, e melancolias de quem fica a scismar. +Porque em verdade, mulher alguma podia equiparar-se a Dora, pela +nobreza do seu typo, estudada elegancia de maneiras, vestuario, contos +de fortuna e altivez de familia. Os bem informados n'isto d'interesses +e allianças possiveis ou premeditadas, não viam por essa orla toda do +districto, um casamento á altura de Dora, a menos que a <span class="pagenum"><a id="page125" name="page125"></a>(p. 125)</span> +orgulhosa descesse, o que todos diziam não ser provavel. Apenas um +noivo a merecia bem, Carlinhos.</p> + +<p>—Esse, opinavam as terras circumvisinhas, quando as gallinhas tiverem +dentes.</p> + +<p>Precisamente esse dia, a aldeia de S. Mathias suspendera os trabalhos +do campo em signal de festa; os das herdades tinham vindo com os seus +cajados e as rudes botas altas de coiro branco, rolavam bailaricos por +todas as casas; e no terreiro da egreja, ás portas das vendas, no +balcão da escola régia, ou mesmo ás embocadas das ruas, por aqui, por +alli, os camponezes em ranchos, fato novo, ruborescencias de vinho no +queimar da face, havia mais de tres horas que aguardavam a boda. Os +campos n'esses meados de junho, tinham primeiros doirados do trigo +maduro, ondulante e farto, que a aura por zonas encama n'uma saudação +graciosa; por um lado e outro, entre gavelas arrepeladas sem ordem, +remoinhos desflorados de messe, como labios de rapariga ardente, ria o +escarlate das papoulas; e como aos sóes da quadra tinham vindo as +cigarras, ruido de cega-rega, trocavam alertas d'arvore em arvore, á +medida que ia avançando o verão. Entanto ainda as <span class="pagenum"><a id="page126" name="page126"></a>(p. 126)</span> noites +eram frias, e o orvalho da manhã perlava nas folhas, secretas lagrimas +d'amor trahido; corria mesmo agua por alvercas e ribeiros, fria, +salobra das terras atravessadas, dando erectos viços aos panascaes +verdejantes, ás junças e mentrastes das ribanceiras. +Microscopicamente, as vinhas iam esboçando cachos, entre pampanos +pizados d'amarello e vermelho ferrugem; começam a vir os perdigotos, +as rolas tinham chegado d'uma aspera migração, e desconfio que os +melros, casados de fresco fazendo musica de opereta entre os murmurios +das cannas e dos silvados, arredondavam já os seus ninhos, á espera da +petizada. N'essa grande paz bucolica, a alma abraçava simples ideaes +de ventura, nua d'ambições desordenadas e volupias lividas, e na +doçura de palpitar entre aromas silvestres, ia voando em cata de +amores delicados e mansos idyllios, pelas veredas onde as condoidas +espigas se curvavam, a depôr nos regaços esmolinhas do primeiro trigo +em sazão. Vista de longe, a aldeia era encantadora d'alegria e +brancura. Nas collinas, de roda, empoleiradas ermidas vigiavam por +ella dia e noite; Deus foragido pela descrença das cidades, andava por +alli talvez na estatura <span class="pagenum"><a id="page127" name="page127"></a>(p. 127)</span> de algum velho mendigo de fallas +doces e resignada humildade; e pela noite, quando os rebanhos +vagarosos seguiam para os curraes, esse cantinho rustico tinha scenas +biblicas d'uma graça innocente, pastores e pastoras ajoelhando ao +toque das Trindades para dizer o <i>angelus</i>, risos de ganhões pelas +devesas, cantigas que se apagavam nas corcovas dos caminhos, emfim +tudo quanto entretece a elegia plangente do morrer do sol. Esse dia +casava-se o Carlinhos com a prima Dora, e as duas casas fortes do +districto, tantos annos separadas por odios, iam emfim restaurar-se na +bôa cordealidade, por esse laço dos primogenitos.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Imagine-se o espanto e a curiosidade que um tão inesperado successo +derramou por toda a provincia, conhecidas como eram as desavenças dos +Zarcos, desde tanto apregoadas. Mas assim como tinham ficado na sombra +os motivos de apartamento, assim tambem incognitas ficaram as molas +intimas da nova amizade entre as duas casas. Evidente, que o principal +motivo de ligação era o casamento dos rapazes; isso não bastava +entretanto; outras secretas ponderações deviam ter <span class="pagenum"><a id="page128" name="page128"></a>(p. 128)</span> influido; +e essas, quaes? Porque, emfim, era conhecida a indole orgulhosa e +tenaz da viuva; as suas phrases sobre o cunhado citavam-se em modelo +d'altivez varonil e decidida independencia; e por seu lado o da Torre +não a poupava tambem. Nem uma só vez Dora tinha fallado a sua tia; +creancita ainda, succedera encontral-a não sei que de vezes; os olhos +pretos da viuva detinham-se um momento na figurinha petulante da bébé, +e desviavam-se logo sem rastro d'affecto. Verdade é que o velho Zarco +referindo-se a Carlinhos, punha sempre palavras crueis, marau, vadio, +o filho d'aquella...</p> + +<p>Subitamente, eis que os rapazes iam casar! Jámais por aquellas +redondezas se tinha dado coisa parecida. Vamos nós agora a vêr, se a +da Oriola virá dormir á Torre! diziam muito interessadas, das suas +soleiras, as gordas comadres de S. Mathias. A mór parte nem tal +acreditaria, mesmo vendo. E as apostas começaram. A vêr como dorme! +Apostar em como não dorme! A camarilha de Manuel Zarco arengava com +sobranceria, entre os grupos mais impacientes:</p> + +<p>—Afinal, quem se humilha são os da Oriola. É bom saber!</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page129" name="page129"></a>(p. 129)</span> E uma de preto, a Fevronia, toda preponderante, meia azul e +sapato rôto, batia palmas n'uma loucura, dizendo por todas as casas:</p> + +<p>—Quem viver tem muito que contar, não haja duvida.</p> + +<p>Foi n'este marulhar d'opiniões e trocadilhos, que um forte rumor de +sege alborotou a aldeia e emquanto rapazes descalços corriam, cães +ladravam, e cabeças de mulheres vinham ás portas espreitar avidamente, +os trens da Oriola romperam a grande passo pela rua larga, vindo topar +alfim nas escaleiras do adro. Este caso foi muito fallado, e ainda se +pasma da magestade com que se apeou a viuva da sua grande berlinda +estofada a casimira perola, grandes fivelões e lanternas de prata +esculpida. Tinha-se chegado muito povo a vêr, as janellas guarnecidas +de madamas, e o mordomo da senhora viuva, gordalhudo, com uma +expressão presidencial, desenrolou um rico tapete amarello e branco +pelo adro, desde o estribo até aos portaes do templo; os creados da +taboa tinham-se erguido e descoberto; e n'isto Manuel Zarco com um +riso amarello, todo curvado de obsequios, casaca e luva branca, saíra +a receber sua cunhada; e quasi a medo, todos repararam, offerecera-lhe +<span class="pagenum"><a id="page130" name="page130"></a>(p. 130)</span> a mão para saltar. Diz que ella nem o encarou, e foi sósinha +pelo tapete fóra de cabeça alta, um dos braços pendentes, e a cauda do +seu vestido de damasco negro roçagava que parecia mesmo da senhora +rainha. Carlinhos ia atraz, um pouco deslocado na casaca de noivo, +porque em verdade ia-lhe melhor a jaqueta e o chapeu largo. E fechavam +cortejo as velhitas que tinham embalado a viuva, ambas de roxo, +ajoujadas, chapeus muito profusos de violetas, e mitenes de renda onde +as suas velhas mãos boiavam carcomidas. Junto ao altar tinham posto +uma grande poltrona em setim rutilante, flordelisado a ouro velho, +onde a viuva se assentou sem mais cerimonia; e todos em pé serviam-lhe +de côrte, com passadinhas respeitosas e pequenas vénias cheias +d'uncção. Apoiado á espalda da poltrona, velho Zarco mastigava +demoradamente as palavras com o seu modo somnolento, siflando os <i>ss</i> +de quando em quando, e ella sem lhe dar attenção, um momo altivo de +labio, entretinha-se a esfolhar com o seu pé de fidalga, rosas brancas +espalhadas pela alcatifa.</p> + +<p>Embalde o da Torre lhe fez notar que melhor seria assignarem as +escripturas em <span class="pagenum"><a id="page131" name="page131"></a>(p. 131)</span> casa d'elle, como era natural, até ficava +alli perto, no largo. V. ex.<sup>a</sup> descançaria um pouco nos quartos de +minha filha...</p> + +<p>—Meu cunhado, não me sinto fatigada, assignaremos isso no gabinete do +prior, onde quer que seja, mas sem arredar pé da egreja, que é casa de +todos. E a proposito, disse ella tirando o relogio, é a hora, duas e +meia. Janto ás seis, o caminho é longo.</p> + +<p>O da Torre ia a sair, a viuva tinha-se erguido sem reparar na +impressão que estavam fazendo os seus cortantes modos de dizer. Manuel +Zarco deixou-se caminhar ao lado d'ella foi-lhe lembrando com voz +mansa que os velhos rancores deviam acabar com aquelle enlace dos +filhos: tudo afinal se esquece.</p> + +<p>—Tudo não! disse ella bruscamente. E proseguiu: pódem casar, pódem +casar. Carlinhos além de tudo, não é meu filho, aliaz tinha-lhe +prohibido esta alliança, meu cunhado!</p> + +<p>—V. ex.<sup>a</sup> é então muito orgulhosa, notou velho Zarco despeitado +d'aquelle tom.</p> + +<p>—Crê isso? disse a viuva abrindo o grande leque d'oiro e plumas, que +reluzia n'uma polvilhação de pequeninas pedras.—E de repente, n'um +accesso de voz intimativo: Sabe, meu cunhado, que seu irmão era homem +para o <span class="pagenum"><a id="page132" name="page132"></a>(p. 132)</span> ter morto, se acaso tem vindo a saber... Porque +francamente, disse ella com os dentes cerrados, rigida e faiscante nos +seus damascos negros, francamente, é desprezivel, o senhor! Tenho +ainda nos pulsos signaes das suas unhas. Adoro o Carlinhos, creia—eis +porque ás vezes me aterro da mulher que elle escolheu. Meu Deus, se +essa creaturinha sahir ao pae!</p> + +<p>Os dentes do outro rangeram—porque não casou então comigo? disse elle +com frenesis na raiz dos cabellos.</p> + +<p>A viuva riu-lhe na cara.</p> + +<p>—Eu? Eu? Ora, meu cunhado!</p> + +<p>Fez dois passos na alcatifa, quebrando n'uma crispadura electrica e +larga, a enorme cauda applicada de rendas antigas, ao tempo que os +dedos de Zarco rasgavam convulsivamente a luva descalça de rompante. +Ambos trahiam colera nos <i>zig-zagues</i> que faziam marchando. Os olhos +ainda magnificos da viuva procuravam o da Torre, phosphorentes +d'ameaça. E o velho, como quem não acha outro caminho para fugir:</p> + +<p>—Emfim, desmancha-se este casamento, se quer.</p> + +<p>—Não, já agora, elles desgraçadamente <span class="pagenum"><a id="page133" name="page133"></a>(p. 133)</span> adoram-se, Carlinhos +mostrou-me as cartas, amor de muitos annos, inda eram pequeninos. Deus +sabe se o senhor mesmo approximou...—E subia-lhe a voz em graves +dramaticos, com vibrações de metal.—Mas, meu cunhado, acautele-se, +acautele-se! Sua filha vai comigo, voltal-a-hei contra o senhor.</p> + +<p>—Oh, disse elle, experimente.</p> + +<p>—Pois veremos.</p> + +<p>—Vou buscal-a, resumiu elle transtornado, curvando-se. E muito baixo, +querendo dominal-a: que inimigo horrivel eu tinha, se a senhora fosse +um homem!</p> + +<p>—Matava-o, respondeu ella estendendo o punho n'um gesto de Rachel. E +ajuntou a rir: tão certo!...</p> + +<p>Carlinhos vinha para elles, já o velho Zarco se afastava. E vendo-o no +seu ar de cavalheiro, estatura correcta, alto, um fulvo esplendido de +pelle, bocca firme nos cantos sob a velludagem do buço, quasi +innocente na graça leal do sorriso, esse rir da viuva, correndo +imperceptiveis <span lang="fr"><i>nuances</i></span>, foi gradualmente adoçando, enternecendo, +perfumando como um licor que se evola entornado, de modo que era +divino quando Carlinhos, femininamente, lhe deu a beijar a testa. Ella +<span class="pagenum"><a id="page134" name="page134"></a>(p. 134)</span> então sem se importar, attrahiu-o a si n'uma paixão de leôa, +como se nunca mais se vissem, e dizia-lhe coisas entrecortadas, a +chorar, a beijal-o furiosamente, estreitava-o mesmo sobre o coração, +com impetos d'abandonada, que se fica nos occasos da vida, sem mais +ninguem que amar. Fosses tu das minhas entranhas, não te queria mais +que te quero! E essa maldita, hade expulsar-me do teu coração.—Elle +queria contel-a, quasi envergonhado de os estarem olhando á roda, +jurava-lhe, promettia tudo, n'um precipitar de palavras meigas. E á +flôr da abobada nua e branca da egreja, andorinhas corriam chilreando, +filhos e mães que inda não tinham emigrado, e demoravam residencia no +calor dos velhos ninhos patriarchaes.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>N'isto, fez-se um grande rumor, que alastrado, mais e mais confuso, +por todas as ruelas, ia pondo as gentes de sobreaviso; viram-se +rapazes e mulheres correndo ás esquinas que defrontavam com o largo, +janellas que abertas de chofre inchavam de gentio com fatos de gala, +grupos freneticos buscando posição de vêr melhor; e de repente, quando +<span class="pagenum"><a id="page135" name="page135"></a>(p. 135)</span> a orchestra de Beja entrou a choramingar uma symphonia no +côro, ondas de familia romperam na portada sem guardavento, invadindo +as capellas, enchendo a nave, querendo forçar a balaustrada carunchosa +do sanctuario. Jámais S. Mathias tinha visto coisa igual, nem quando +D. Pedro V fôra a Beja—e francamente, de logo perdeu a esperança de +tornar a gosar outra grandeza assim de boda. A casa da Torre era no +largo, grande, pesada, singular, com esquinas de granito negro, onde +os escudos postos ao través esculpiam complicados symbolos de nobreza, +leões com asas, metade de um cavalleiro armado de lança e capacete, +Nossa Senhora dentro d'uma torre, cabeças de moiro n'um molho: e só +aguias eram algumas tres! Sobre os portões de columnellos gastos, com +argolas de bronze para prender as bestas, e portas de carvalho +fortalecidas com magnifica pompa de ferrarias damasquinadas, esses +brazões repetiam-se mutilados; no fundo do pateo aberto, d'um sabor +arabe, e com arcos á volta cobertos de hera via-se a ampla escadaria +de corrimões de bronze, alcatifada de fresco e cheia de vasos +decorativos; um velho cypreste lhe fazia sentinella, hirto á beira +d'um poço octogono, todo <span class="pagenum"><a id="page136" name="page136"></a>(p. 136)</span> em altos relevos de pedra +rugosa—em casotas, acorrentados, inquietos, dois grandes mastins +abriam sobre quem chegava, o duro olhar sanguinolento. Na fachada cá +fóra, a correnteza de janellas senhoriaes, fria de butareus e cimalhas +onde os estorninhos gritavam, deixava pender ricamente sobre as velhas +saccadas, preciosas colchas hereditarias, amarellas com grandes +passaros em lhamas de prata, azul pallido n'uma loucura de mandarins e +pagodes, ou d'altos relevos brancos, verdes, escarlates, sobre foscos +de oiro indiano, onde as grossas franjas luziam. Pois d'essa casa +severa, vomitára subito um cortejo bizarro de noivado—á frente vinham +os figurões de Beja em grande <span lang="fr"><i>mise</i></span>, ricassos das terras proximas que +tinham chegado nas suas seges, velhos amigos de Zarco, lavradores, +funccionários, ultimos parentes da familia... E rodeavam o da Torre +todo pallido na sua grande barba, que levava a filha pelo braço como +uma grande musa germanica, alta, pudica, esplendidamente branca e +vaporosa n'um véu que lhe cahia aos pés. Fez bulha na aldeia o senhor +coronel do 17 com as suas medalhas ao peito, e um velho general de +metro e vinte e cinco, gesticulando <span class="pagenum"><a id="page137" name="page137"></a>(p. 137)</span> para a direita e para a +esquerda, que mirava as femeas lampeiro como um galo, ao pé do vigario +capitular, um côr de parede, que mui dulceroso e beato, afiára o dente +em tres dias d'abstinencia, sonhando as delicias do <i>copo d'agua</i>. +Seguiam damas paramentadas de oiro e plumachos, luvas chinfrins de +dois botões, pulsos eticos chincalhando braceletes, muito estrepitosas +em sêdas de côr terrivel: e disse uma d'ellas para a outra, que seguia +ao lado, mortificada no peso da cuia—quem está mesmo um cangalho é a +Sardinha. Esta coisa causou grande pasmo; estar a Sardinha um +cangalho! Hi!... Muitas agglomerando-se em trouxa, discutiam tão +famoso caso. E gabou-se a morgada das Palmas, uma trigueirona de +cabello corredio, labio gretado, sêcca e presumida, que de chapéo +branco e vestido verde, fazia pensar n'um grande molho de nabos. +Depois as creadas, sinceras raparigas que choravam—isto deu pena em +S. Mathias—e quasi em braços no meio d'ellas, uma velhita em sêda +preta, pequenina como uma creança, levava um ramo de rosas brancas e o +leque da noiva, abanando n'um triste ar resignado, a sua cabeça branca +d'octogeneria. A aldeia estava toda no largo, gralhando a <span class="pagenum"><a id="page138" name="page138"></a>(p. 138)</span> +essa hora, gente das lavoiras de roda, uma chafranafra de mulheres e +homens que se rasgava e bipartia, ao passar o acompanhamento. A cada +passo, pequeninos lances detinham a procissão bruscamente, e viam-se +as raparigas sahir dos ranchos, tostadas, fortes, rindo com soberbas +dentaduras, cabellos de trigo maduro remoinhando em serpente no alto +das cabeças...</p> + +<p>—Com sua licença—e deitavam flôres sobre a herdeira, commovidas, um +ar de filhas de burgo medieval. Á porta da igreja, o Carlinhos estava +entre os seus, crescia a turba embatendo-se; e por traz a viuva muito +pallida, tinha os vagos olhos das frias estatuas antigas, inertes, +dilatados d'insomnia, como prescrutando ao longe os tempos em que +ainda não eram de pedra, e uma vida lhes circulava e ria no alvor dos +membros nús. Deu-se então no Zarco e na viuva, ao mesmo tempo, um +calafrio de ciume, quando os noivos se encontraram com a mesma flamma +nos olhos; e os dois perceberam que iam ficar de mais n'esse idyllio +de creanças, absortas uma na outra, que esquecidas de tudo, iam de +mãos dadas pela igreja fóra. N'essas velhas idades d'amor egoista, em +que os filhos são o <span class="pagenum"><a id="page139" name="page139"></a>(p. 139)</span> calor, o orgulho o motivo de viver—o +choque d'ambos, percebendo que lhes tinha acabado o imperio sobre +essas adoradas creaturas, foi tão violento e fulminante, que se +deixaram ficar atraz no meio da turba, com vagares de fundo desalento, +ella direita, sem desmanchar a estatura soberba, derrubado elle, +pacifico, apagado, enorme como um elefante, e sem dar uma palavra para +não desatar alli em soluços, trespassado dos primeiros regelos do +abandono. Cortando então por entre a gente, ouvia por toda a banda +humildes palavras de conforto e piedade; velhas mães que o +encontravam, lacrimejantes, attentando-lhe na face descahida—Vae +ficar só n'aquella casa tamanha, coitadinho do amo Zarco hade-lhe +custar. Isto de filhos!</p> + +<p>—E são os da Oriola que levam a nossa menina! Abaixar-se o amo...</p> + +<p>Porque todos os subditos sabiam já da capitulação deshonrosa d'esse +velho rei de charnecas e montados; umas poucas de palavras colhidas na +altercação com a viuva, serviram de base a toda a sorte de commentario +e parlenda sobre o casamento; pintava-se e repintava-se de grupo em +grupo, a expressão terrivel da viuva fallando a seu cunhado, <span class="pagenum"><a id="page140" name="page140"></a>(p. 140)</span> +palavras cruas ditas por ella, <i>acautele-se, acautele-se levo-a +comigo</i>, e outras muitas; e o amo Zarco todo enfiado, ali a ouvir, a +rezar desculpas, a fazer-lhe vénias. C'os diabos—nem que comesse os +sobejos d'aquella magana!</p> + +<p>—Fosse comigo, fazia cada qual em grandes quizilias.</p> + +<p>—Ai, argumentavam muitos pachorrentos, é o que se vê hoje em dia.</p> + +<p>—Tão má, filhos, que nem as escripturas quiz assignar em casa do +cunhado.</p> + +<p>—Inda assim não entalasse o rabo, figurona!</p> + +<p>Mas depois de longas conjecturas, recapitulando, toda a gente acabava +por dizer que andava ali o quer que fosse. Olá se andava!</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>No gabinete do parocho tinham posto uma grande mesa, e em roda bancos +negros da confraria das Almas, para os convidados se assentarem. Era +uma casa verdenta de paredes, com fendas ao través na abobada, pintada +de frescos mais que barbarengos; e por um buraco de cima, passava a +corda da sineta, que desde que se rachára o sino, servia para chamar á +missa a freguezia. Ao fundo, pezava <span class="pagenum"><a id="page141" name="page141"></a>(p. 141)</span> um grande armario de +carvalho negro com espelhos de metal que verdejavam; e paineis de +santos esburacados á navalha, cahiam aqui e além, emmoldurados em +talhas carcomidas. Uma luz de cava vinha de cima, por uma janella sem +portas, onde se cruzavam varões de ferro. Como a casa era estreita, +apenas foram á leitura do contracto, os intimos amigos ou personagens +de pezo. E o tabelião Mathias homemzarrão com uma cabecinha +humoristica de japonico, estimavel e estupido, principiou com a sua +voz em falsete nos fins de cada periodo, a ler artigo por artigo as +escripturas, circumvagando a cada clausula os seus olhitos por cima +d'umas olheiras paposas, onde as bexigas tinham picado covinhas de +sombra.</p> + +<p>«...e mais dou a minha filha Dora Victorina Maria de Sousa Alvim Mexia +Zarco da Cunha Menezes... as herdades denominadas da Cova, das +Sesmarias, da Chaminé, e Côrtes tanto Grandes como Pequenas, com seus +montes, gados, arvoredos, dependencias e serventias, a partir do dia +em que desposar o dito seu primo Carlos; e mais lhe faço doação de +todas as minhas lavoiras do Guadiana, que vão entre os moinhos da +Coitada e a minha <span class="pagenum"><a id="page142" name="page142"></a>(p. 142)</span> quinta de Valle de Borrucho, constando de +doze herdades seguidas, partindo d'uma banda com o Guadiana, da outra +com a estrada de Moira, da outra...» E aqui Mathias foi obrigado a +parar, porque um borborinho d'espanto se levantára entre os +convidados.—Que? Dava tudo aquillo á filha? As lavoiras do Guadiana, +o melhor trecho de propriedades do Baixo Alemtejo? Mas endoidecera +esse homem com certeza! Despir-se para enriquecer o genro! Tomé dos +Panascos, que trouxera arrendadas muitas terras da Torre, e passava +pelo melhor avaliador da cercania, punha as mãos na cabeça com uma +face attonita e consternada.—Jesus! Não contente de humilhar-se ante +a viuva, inda em cima lhe cobria o filho de oiro. Mas é que ia ficar +arrasado! Dar á filha mais de seiscentos contos, sem restricções, sem +condições, sem cautellas... E Thomé foi junto do seu velho amigo, e +disfarçadamente puxando-lhe a manga:</p> + +<p>—Olha que te arrependes, Manuel. Que é que te fica para viver?</p> + +<p>O da Torre encolheu os hombros.</p> + +<p>—Desgostos, fez elle muito baixo, e disse ao tabellião para +continuar.</p> + +<p>—«E outrosim lhe entrego toda a plantação <span class="pagenum"><a id="page143" name="page143"></a>(p. 143)</span> de vinha e +olival, que possuo livre e isempta, no sitio das Barrocas, freguezia +de S. Pedro de Portel, cerca de quatrocentos milheiros de cepa e tres +mil pés de oliveira...»</p> + +<p>—Meu pae, balbuciou Dora, avançando para o velho que estava junto da +banca ennovelando a barba n'um movimento calmo.</p> + +<p>—Vá, Mathias, depressa! ordenou elle, emquanto cada vez mais, n'um +phrenesi crescente, os convidados se acotovellavam e comprimiam, não +querendo acreditar no que lhes fôra lido. O tabellião enumerou o que +restava d'uma fortuna rural cedida em dote, moinhos, hortas, +ferragiaes, montados de retalho, ruas inteiras da aldeia; tudo que +Zarco possuia, bom e mau, pequeno e grande, tudo dava a sua filha com +a mais generosa confiança.</p> + +<p>—Mathias, disse ainda o velho Zarco, falta a casa da minha +residencia, o quintallão e as abegoarias. Accrescente que a contar de +hoje, lh'os dou tambem.—E voltado para a cunhada, com a sua face +radiante de altivez fidalga, fingia não sentir as murmurações de roda. +Fóra, na igreja, no adro, no largo, por essas casas todas da aldeia, +já se contava que o amo Zarco estava doido, e peor ainda, ia <span class="pagenum"><a id="page144" name="page144"></a>(p. 144)</span> +ficar ás sopas da filha. Dera-lhe tudo, sem acautelar a sua rica +subsistencia, o seu vestuario, o seu sequito. E uma hesitação quebrava +agora em facções a gentana: á piedade succedera nos ganhões o +fatigante receio de serem despedidos da casa pelos amos novos. Zarco +descia—quando um tocante episodio deu nos espiritos a nota mais viva +da emoção. Foi a leitura, do que a pequena velha que levava o ramo de +rosas e o leque, dava á sua menina. Mathias, elle mesmo commovido, ia +dizendo:... Umas contas de oiro com imagem de Nossa Senhora da +Conceição, a sua capoteira de velludo verde, duzentos dobrões em oiro +n'uma bolsa vermelha, a tapada da Vanga...</p> + +<p>Dos bellos olhos pudicos de Dora saltaram lagrimas por baixo do véu; +nos proprios olhos de Carlinhos faiscavam pontos humidos; de redor nas +gentes, faziam-se monossyllabos ternos; mas toda radiante de ser o +alvo, correndo a assembléa com a sua cabeça tremula, a velhita +exclamou:</p> + +<p>—Esperem lá, esperem...—e para Mathias, muito ruidosa nas sêdas +pretas: leia lá!</p> + +<p>—«...com a expressa condição de residir seis mezes do anno em casa de +seu pae, <span class="pagenum"><a id="page145" name="page145"></a>(p. 145)</span> durante nove annos, ou em logar d'ella, algum de +seus filhos, caso seja fecundo o casal.»</p> + +<p>—Ouviste bem? redarguiu ella sensibilisada, abraçando-se a Dora, e a +sua cabeça dava pela cintura da noiva. É que nós não queremos ficar +abandonados, nem eu, nem teu pae, e a nossa casa.—O que fez com que o +dos Panascos fosse dizer baixo a Manuel Zarco:</p> + +<p>—A velhota teve mais juizo que tu. Emfim lá estou, se um dia... É +como se fosse tua casa, Manuel, bem sabes!—Chegou então a vez de se +saber o que dava ao Carlinhos a senhora viuva. Mathias começou com a +sua voz gordurosa, e para ouvir, inda os convidados se apertavam mais. +Era quasi uma replica da viuva, á arrogancia com que o da Torre +amontoára riquezas aos pés da filha. Foi longa a lista, novas herdades +iam passando, arribanas, laranjaes, vinhedos, joias, louças, palacios, +rebanhos, casebres, trens... D'esta vez quem se espantava era a +Oriola—e por seu turno a viuva ficou nua.</p> + +<p>Processionalmente então, e á medida que iam firmando o contracto, como +a cerimonia findava, em reverencias de vassallos ante <span class="pagenum"><a id="page146" name="page146"></a>(p. 146)</span> uma +grande potencia, passavam os convidados diante dos noivos, com +sorrisos de grande gala, alguma graça estudada, dando parabens com +ares cavalheiros, ou demorando-se a affirmar esta ou aquella +intimidade, na adoração dos mil e setecentos contos de dote. As +mulheres sobretudo, cercavam Dora de pequenas ternuras ridiculas, +beijos muito repenicados, segredinhos entre risadas. A morgada das +Palmas fez-lhes prometter que a iriam visitar ao seu monte de +residencia; o general citou alguma coisa no gosto bocagiano; velhos +lavradores que tinham trazido ao collo Carlinhos e Dora, de palpebra +humida davam-lhe conselhos, descançando-lhes no hombro as suas grossas +mãos de trabalho. E n'uma avidez, sempre de longe, a viuva contemplava +a sobrinha, idealisada no meio dos tules, como uma grande figura de +legenda.</p> + +<p>Quando viu menos gente no gabinete, Zarco foi apresentar Dora a sua +cunhada; a recepção foi quasi affectuosa, abalada a viuva como estava, +pela grande batalha de generosidade que momentos antes ferira com o da +Torre. Foi quando Dora levantou para beijar a tia pela primeira vez, o +grande véu de noiva em que vinha envolta. Essa belleza <span class="pagenum"><a id="page147" name="page147"></a>(p. 147)</span> +senhorial d'uma soberba esculptura, que a viuva nunca pudera +contemplar assim em plena efflorescencia, pareceu feril-a com o seu +esplendor de pureza e brancura, porque se pôz muito pallida, apenas o +véu de Dora se erguera. E por muito tempo ainda, considerava sem poder +fallar, a sobrinha. Em volta, nas gentes da Oriola, o mesmo fremito de +surpreza fizera correr murmurios de labio em labio. As duas velhas +aias tinham corrido a Dora, e soluçavam. E a viuva de mãos no peito, +como sustendo-lhe o frenetico pulsar, reconhecia por verdadeiro o que +por varias vezes lhe chegára aos ouvidos, vagamente, como uma opinião +sem força—isto é, que Dora era o retrato vivo d'aquella querida +filha, tão meigamente loira e tão formosa, unica creatura que ella +amára no casamento, e pela qual mesmo tinha chegado a aborrecer menos +o marido, Laura emfim, a sua pobre creança, morta com vinte annos, +pouco antes da adopção de Carlinhos.</p> + +<p>Evocação da unica memoria que ainda hoje a fazia toda vibrar, esta +resurreição em Dora, da celeste creatura nascida das suas entranhas, +exacerbando angustias passadas, acordaram na viuva de Fernando Zarco, +menos <span class="pagenum"><a id="page148" name="page148"></a>(p. 148)</span> asperos propositos de conducta. E voava-lhe a idéa +pelas lembranças já longinquas dos seus primeiros tempos de esposa, +aos dezasseis annos, quando por cubiça do pae, uma vez acordára no +leito do lavrador da Oriola.</p> + +<p>Seis annos de infecundidade tinham assignalado depois melhor essa +frieza d'esposos, que quasi nem se haviam conhecido. Era ao tempo +ainda dos dois irmãos serem amigos, companheiros de caçadas e +aventuras. Manuel com as suas espaduas de hercules, e uma barba de +scandinavo muito frizada nas pontas, quasi branca junto dos labios, +era o typo da prudencia, fallava pouco, e ria com todos os dentes, um +riso ingenuo que antes parecia de rapariga pela doçura do esmalte; e +quando os seus olhos de violeta, atravessados d'um brilho leal e +timido, se erguiam a procural-a, ella experimentava não sei porque, +tamanha melancholia e quebramento, que se ficava ainda com mais pena +de ser mulher de Fernando, um tostado, para mais grosseiro e leviano. +Ah, como isso ia já longe! E Manuel todos os dias achava alguma +pequena lembrança que lhe trazer; ninharias primeiro sem intuito +previsto, depois expendidas a furto, acceites em segredo... O certo é +que ella amou o <span class="pagenum"><a id="page149" name="page149"></a>(p. 149)</span> cunhado, porque o perfume d'esses beijos a +embriagava, no carmim dos seus labios d'adolescente. Fernando, que era +soberbo, aspero, intractavel, brutal, <i>coração ao pé da bocca</i>, +desconfiou mas sem medir a profundeza da culpa. Ella vivia n'esse +tempo inteiramente só, sem amigos, nem protecções do marido, muito +nova, tão cheia d'impetos! E das profundezas do seu corpo exhuberante, +cheio de fecundas desordens e d'amores indomaveis, vendo-se alli +abandonada, vinham-lhe furias de peccar. Um domingo, os irmãos tinham +ficado mal; nascera aquella filha, de quem Dora copiava a belleza—e +tal documento da sua culpa, trouxe-lhe a secreta vergonha que agora +gotejava odio sobre o irmão de seu marido.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Depois da benção, o sr. vigario geral pronunciou uma allocução toda +faustosa e erudita, em que se comparava a vida a uma nau vogando no +mar procelloso das paixões, entre escolhos de vicios e malquerenças; e +alli sua rev.<sup>ma</sup> descompôz mais uma vez os seus adversarios politicos, +attribuindo-lhes a ultima estiagem e a decadencia dos costumes; +<span class="pagenum"><a id="page150" name="page150"></a>(p. 150)</span> e com philaucia denunciou que os maridos não tratando senão +d'eleições abandonam as esposas á phantasia das suas pobres cabecitas, +do que se aproveitava o demonio para ir centuplicando os adulterios. +Isto levou tamanho donáto a philosophar sobre a familia, e desfilaram +as qualidades dos Zarcos, o seu amor ao progresso e á liberdade, e do +que os povos de roda lhes deviam, pois ainda no inverno passado, os +fidalgos tinham dado córte gratuito nas herdades perto, afim da pobre +gente ter lume nas asperas noitadas.</p> + +<p>Saltou d'aqui naturalmente nas inimizades que por tantos annos tinham +separado as duas familias (inimizade não, emendou logo com um meneio +unctuoso; diremos antes melindre, susceptibilidade ferida, pequena +divergencia de familia—era de mui bonitos termos s. rev.<sup>ma</sup>! Inda +que...) Mas, proseguia o orador, o distrito todo exultava de vêr +unidas de novo as duas casas, todos davam graças.—E batendo no +pulpito, com gestos de quem chama a si o melhor da christandade, uma +imponencia no carão, fechou trecho com um latinorio dos santos padres, +faustoso e seraphico, que por sinal mereceu uma palavra irreverente ao +lavrador dos Panascos.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page151" name="page151"></a>(p. 151)</span> Quando a cerimonia acabou, foguetaria e vivorio estrondeavam +por essa aldeia toda, repercutindo os entônos e ritornellos de fraga +em fraga—enternecia a tarde nos campos com a descida do sol, uma +poeira de oiro tamisava os fundos, aqui, além, immovel sobre o ar, e +dando á paisagem velhos tons de pintura fanada. E o cortejo sahiu da +igreja como viera, mas bem numeroso e mais rico, pois lhe estava +adiccionada toda a Oriola, ganhões, creados, convivas, amigos, as duas +velhas aias, e coisa pasmosa! a propria senhora viuva.—Anda, sempre +te abaixaste, bem feito! dizia-se <i>á da</i> Fevronia, na passagem do +cortejo. O coronel dera o braço á viuva que descera meio véu; o +generalito, gazil como um rato sabio, levava a morgada das Palmas, +muito birrenta de lhe terem descosido a cauda verde nabiça; e Dora +pelo braço de Carlinhos, vermelha, comovida, grandes olhos de saphira +humida, radiava a frenetica belleza d'uma virgem que se abala e +palpita, ao primeiro contacto d'um homem.</p> + +<p>O cortejo é que não ia directamente ao portão d'entrada da Torre, mas +enfiou pelo enorme pateo de lavoira ao lado, a pretexto de vêr a +<i>funcção</i> que se preparava aos servos <span class="pagenum"><a id="page152" name="page152"></a>(p. 152)</span> e trabalhadores. N'um +banquete monstro, S. Mathias e a Oriola congraçavam, comendo ao lado +uma da outra, na melhor harmonia e folgança; e só no intuito de sagrar +esta confraternagem, a viuva accedera vir a casa de seu cunhado, sem +quebrar as juras que fizera, pois não passaria o terreno neutro do +pateo. Desconforme como um dominio, era esse pateo de muralhas rudes e +portadas soberbas, onde os varões de bronze raiavam, e pendiam das +portas formidandas, como corações de molochs, os grandes cadeados de +ferro. Descia-se das cozinhas por um balcão de pedra com escadarias +lateraes e mutiladas estatuas, em cujos velhos pilares se vinha +tanchar a dentuça dos corrimões estruidos. Diante do balcão, ia ao fim +do pateo uma alameda de castanheiros gigantescos, murmuros sob a +verdura das suas folhas acres, d'onde um frescor gottejava no esmaiar +da tarde. Um grande portão aberto ao fundo dava sobre os laranjaes da +horta, sombrios áquella hora n'um verde metallico condensado, redondos +até ao chão relvoso pelas imbibições da rega, humidos, picados de +fructa, e filtrados d'uma aura toda enervante em nupciaes essencias. +N'essa alameda de castanheiros amigos, tantas vezes percorrido +<span class="pagenum"><a id="page153" name="page153"></a>(p. 153)</span> do pae e da filha, onde pela manhã palafreneiros passeavam á +redea os cavallos de sella, ou vinham limpar o pequeno coupé de +serviço, onde tinham logar as tosquias, as ferras e as matanças nas +epocas da praxe; n'essa alameda tinham construido uma mesa sem fim +para quem chegasse, homem, mulher ou creança, fosse d'onde fosse e +viesse de onde viesse. Aos lados alargava-se o pateo até ás +abegoarias, cavallariças e estabulos. E um tom de boda reinava por +toda a parte; nas carretas de trabalho postas em bateria, mais os seus +tropheus de forquilhas, ensinhos e pás, radiando das joeiras, arneiros +e mulins, como panoplias em sala d'armas; nas paredes cobertas de +murta e gilbarbeira, onde as corôas d'espigas maduras faziam rodopiar +serpentes de oiro pallido; nas largas manjadouras que as bestas +esfocinham rilhando os fenos perfumosos; em arcos de flôres de arvore +em arvore, risos e saudações levadas a um delirio realmente +captivante. Em quatro dias tinha-se abatido um rebanho de carneiros e +bodes, o arroz viera n'uma quantidade de carretas, não sei quantos +moios de lobeiro em farinha para a amassadura, o poder do mundo em +couves, para mais de vinte pipas <span class="pagenum"><a id="page154" name="page154"></a>(p. 154)</span> de vinho... E a Fevronia +punha as mãos do <i>error</i> de moedas que ia custar a frescata ao +fidalgo—mas coitada! era uma pobre, sempre foi atando ao cós das +saias a mais funda taleiga de quadrados, e sumindo-se debaixo do chále +a mais disforme escudella da sua pilheira, para arrepanhar as +sobrasinhas. Ora, deixal-o custar caro! Em compensação, que grande +kermesse em plena tarde, sob a viva e sagrada cupula das arvores, onde +trigueiros e loiros dos dois burgos rivaes, se abraçavam cantando e +rindo nos seus luxos domingueiros, cinta escarlate, chapéus de borla, +jaleca ao hombro, e a camisa crua de grandes collarinhos molles, +acolchetada pelo nó da goela. Com a largueza do terreiro, a malta +farandolava em quantos recreios havia: por aqui atiravam a barra os +valentões arregaçados até aos hombros, estriando as musculaturas +bovinas nos rompantes d'uma destreza infrene aos berros de cada vez +que alguem passava a baliza, ou não chegava a ella; por além +bailava-se de roda das arvores, deitando as vagarosas cantigas do +trabalho rustico; em tal sitio havia saltos, n'outro luctas, +<i>desgarradas</i> n'outro; e tudo isto n'um borborinho infernal que +ensurdecia a gente. Vinham <span class="pagenum"><a id="page155" name="page155"></a>(p. 155)</span> chegando as raparigas de claros +cabellos lisos nas fontes, com flôres no remoinho das tranças. E a +Oriola abrasava de as vêr tão brancas, boas carnações flamengas, saude +affiançada, perna dura, seio fecundo, dentes finos, e essa maravilhosa +doçura d'olhos violeta, tão peculiar como era sabido, aos bastardos do +amo Zarco da Torre. Ellas iam apparecendo a pequenos ranchos, +envergonhadas dos <i>de fóra</i>, lenços em cruz sobre os seios inviolados, +de mãos dadas e braços bamboleantes, como os recrutas em passeio.</p> + +<p>Os negros da Oriola diziam-lhes então gracinhas, botavam-lhe rima na +passagem; e era vel-as a rir escondendo os olhos c'os braços, abalando +côr de romã umas atraz das outras, para dizerem de longe aos +mariolas—que não se fizessem destemidos nem confiados, e fossem lá +ter chalaças com as pretas da sua terra, perceberam? Mas a outra +porção da Oriola por seu lado, gente madura e reflectida, ainda +desconfiada da senhoril hospedagem na Torre, sempre tinha querido +inspeccionar, vêr com os seus olhos, apalpar com os seus dedos, todo o +maravilhoso arsenal agricola, instrumentos, machinas, animaes, bombas, +poços, bebedoiros e hortejos—e por <span class="pagenum"><a id="page156" name="page156"></a>(p. 156)</span> essa aldeia que viera, +subia um respeito de gente cavadora e mandada, que mal disposta para o +da Torre, agora se dobrava, reconhecendo n'elle o genio de um lavrador +modelo. Ah! o que se chama grandeza, ordem, elegancia e precisão! Que +gados, que acommodações, as cathedralescas médas d'azinho, pombaes, +palheiros, ferramentas de trabalho!</p> + +<p>Colossal tudo aquillo—e os tostados da Oriola baixavam os seus olhos +arabes e premiam os seus beiços de negros, ante a victoriosa grandeza +dos loiros de S. Mathias. Quem havia de esperar, compadre, uma coisa +assim?—N'isto, um velhote grosso e vagaroso, que do balcão andava +mirando tudo, apenas o cortejo apontou para o lado das abegoarias, +poz-se a repicar do alto uma sineta: era o jantar. E duas +philarmonicas romperam latindo musicatas gentias, emquanto as palmas, +os gritos, os vivas e os saltos, centuplicavam de toda a banda.</p> + +<p>E a viuva deixava-se ir entre as aldeias congraçadas, que no abandono +animal da vida rustica, riam alto com dentes famintos, e na passagem +dos amos, tirando os gorros, acenando de longe com os chapéus, erguiam +meio corpo da mesa, para lhes dar bôas tardes <span class="pagenum"><a id="page157" name="page157"></a>(p. 157)</span> familiares. +Alguns mais ratões da Oriola—e sempre a Oriola teve fama de moços +reinadios—botando cantiga ás raparigas, que chegadas tarde ficavam +sem logar nas mesas, offereciam-lhes por cadeira os joelhos e por +encosto o coração. Ellas riam largo, já menos esquivas; muitas, +sollicitadas, davam-se por noivas d'aquelle e mais d'este; e á ordem +do homensinho da sineta, chegava a creadagem com o arroz dos fornos, +aloirado entre ramos de salsa, empilhando-se em alguidares +desconformes, d'onde rompiam fumando, tenras, succulentas, as pernas +dos perús e dos patos. Então foi uma loucura de vivas, saltos, gritos +e cantares. Passava o vinho em picheis de barro, as saudes choviam nos +estimulos da sede, o tenir dos pratos era inquietador. Nunca Carlinhos +fôra mais querido que n'essa tarde placida de noivado, onde tudo ria á +sua mocidade leviana; a Dora que elle levava pelo braço e readquiria +vivezas de pomba; os pavões, que sob os telhados das abegoarias, +inquietos, gritando d'entorno ás femeas, abriam enormes leques +mosqueados d'ouro verde; nuvens de pombos que o ruido assombrava +forçando-os a revoar de cimalha em cimalha; e ao largo a paisagem +caindo <span class="pagenum"><a id="page158" name="page158"></a>(p. 158)</span> n'uma paz luminosa, muito irisada em tintas subtis.</p> + +<p>Ella foi-se isolando, isolando do ruido, até ao portão que dava para a +horta; parecia conhecer aquelles logares, distrahida, como quem +resuscita apagadas memorias. Olhava o muro de buxo talhado em fórmas +architecturaes, circumscrevendo o jardim pela esquerda, até se perder +n'uma folhagem aspera d'alfarrobeiras. Para aquelles lados n'outro +tempo havia um murmurio de fonte: tinha sido uma noite sem estrellas, +o braço de Zarco sustinha-a pela cintura e levava-a, de modo que os +seus pés nem tocavam o chão. E assustada, ficára a ouvir aquele choro +timido d'agua corrente: espera! ouço passos...—É o vento, disséra +elle, e os seus beijos endoideciam-n'a. Lá estava ella ainda a +gottejar na pequena concha musguenta, que um grupo de ephebos +sustinha, cavalgando golfinhos. Fôra em maio, a flôr dos favaes enchia +os campos d'essencias, o marido caçava o javali por Hespanha—n'essa +noite <i>elle</i> tinha querido roubal-a, conduzil-a aos seus +dominios—ella resistira, não! não!... mas o perfume da sua barba tão +loira envolvia-a n'uma fascinação terrivel, e a bocca pequenina, +sincera, humida, talhada a <span class="pagenum"><a id="page159" name="page159"></a>(p. 159)</span> buril, ao mesmo tempo imperiosa e +feminina, tinha-se collado por ella toda: quem poderia recusar cousa +alguma? Ouvia ainda o breack rolando pelas asperidões da estrada, os +cavallos que voavam, elle a guiar; e ao curvar-se para puxar as redeas +ou chicotear os hanoverianos, o clarão das lanternas illuminava-o de +perfil... Oh, as venturas absorventes que se resumem n'um momento de +peccado! Dir-se-hia o perfil antigo d'um Deus hellenico, branco, +herculeo, alado em juventudes divinas.</p> + +<p>—Vaes ter frio, minha filha.</p> + +<p>—Frio, eu, ao pé de ti!...</p> + +<p>E do capuz negro do <span lang="fr"><i>bournous</i></span> que ella levava, forrado de pelles +setinosas, os seus olhos ficavam absorvidos n'elle muito tempo, muito, +muito. A noite fazia as arvores terriveis, interminaveis os campos; e +apagando a perspectiva, approximava mais as montanhas, e punha +traições na goela dos precipicios... Vinham-lhe a cada passo +pequeninos medos, as pupilas verdes do remorso que a penetravam de +faúlhas calcinantes—lá está um vulto além, n'aquelle canto da +estrada... Os troncos corriam atraz d'elles com pernas de gigantes, +ennovelando-se, augmentando <span class="pagenum"><a id="page160" name="page160"></a>(p. 160)</span> em numero á medida que o breack +fugia.</p> + +<p>—Jesus! dizia ella n'um terror, são talvez espiões de meu marido.</p> + +<p>Depois na ponte, um passaro tinha dado um grito, secretos escarneos +foram ciciando pelos labios das folhas; de longe em longe, uivavam as +raposas com fome. A cabecinha d'ella descahia no braço do cunhado, +fazendo uma caricia penetrante. Era espirituosamente tocada, correcta, +d'um modelo audacioso em que havia primores. E como ambos eram pouco +lidos, incapazes de fazer um amor litterario, dialogado por imagens, +cheio de contrascenas, permutavam as suas emoções tocando os corpos, +n'uma descarga de volupias balsamicas. O que ella lhe admirava era a +seriedade do aspecto, a forte enformatura dos encontros, uma força de +gigante cingida em delicadezas de creancinha. Esse rapaz sem +violencias, envergonhado de ser tamanho, uns receios de a molestar a +cada beijo, silencioso, tranquillo, com melancholias brumosas do +norte, subjugava pelo contraste, os impetos e os orgulhos da natureza +d'ella, toda impaciencias, <span lang="fr"><i>coquetteries</i></span> e ardores.</p> + +<p>Á chegada eram deshoras, cantavam os <span class="pagenum"><a id="page161" name="page161"></a>(p. 161)</span> primeiros gallos em S. +Mathias—ella nunca tinha por alli passado.</p> + +<p>—Gente na estrada, estamos perdidos!</p> + +<p>Manuel tinha atirado os cavallos por um olival a dentro, apagára as +lanternas, e o <span lang="en"><i>break</i></span> em solavancos lá ia arrastado pelos terrenos +declivosos. Pararam. Um rumor de carros vinha da aldeia, guisos de +mulas, a voz de um homem cantando... Elles, á escuta, ouviam bater os +corações, com medo de alguem os ter pescado. Agarrada ao pescoço de +Zarco, ella batia os dentes, tresvairada n'uma paixão.</p> + +<p>—Viram-nos, Jesus.</p> + +<p>—Não, escuta, redarguia elle sopeando os cavallos. Em roda, iam e +vinham as sombras, no pavor das coisas sonhadas a arder em febre. Ella +exaltara-se: adoro-te.</p> + +<p>—Mas, por Deus, não grites! dizia elle.—Davam beijos de lava, o +amplexo accendia-os, nenhum luctava, foram-se possuindo...</p> + +<p>E agora velhos, inuteis na felicidade dos filhos, tendo-lhes dado +tudo, sem amor, nem coragem, cheios de cabellos brancos, odiavam-se +por desgraça!—Era ao fim do laranjal, o muro de buxo apparecia de +novo, nespereiras em flôr abriam parasol por cima <span class="pagenum"><a id="page162" name="page162"></a>(p. 162)</span> d'um +portello baixo—toda a aventura se lhe reconstruia na idéa, nitida, +chammejando horriveis saudades. Sim! os carros de matto abalando á +meia noite de S. Mathias, a voz do homem cantando, esse fluctuante +mysterio da noite, é verdade, um sapatinho de velludo que perdera ao +entrar, por aquelle portello, ao collo d'elle... Oh, a medonha +angustia de se não ter outra vez dezeseis annos! Para além, olival, +terrenos declivosos: o <span lang="en"><i>break</i></span> parára ao pé d'aquella grande oliveira.</p> + +<p>—Não sentes pena de deshonrar teu irmão?</p> + +<p>—Mas cala-te, dizia Manuel num tom de queixa, emquanto a levava nos +braços docemente, como uma creança adormecida. Ella, supersticiosa, +fallára-lhe do grito que déra o passaro noctambulo, quando o <span lang="en"><i>break</i></span> +entrou na ponte. Talvez prenuncio de desgraça!—Ao que elle respondia: +doida! Reparou nas roseiras que por alli floriam agora, como n'um +cemiterio consagrado pela saudade de muitos amores fenecidos. Fôra +alli, junto ao murosinho de buxo, que a respiração d'elle tinha +sifflado n'uma furia de titan semilouco, e o sapato caíra... Quantas +vezes depois o amaldiçoára, sentindo impreteriveis desejos d'ir contar +tudo ao marido, ao mesmo tempo <span class="pagenum"><a id="page163" name="page163"></a>(p. 163)</span> que um suor frio a aljofrava, +só de pensar que Fernando podia vir a ter noticia do adulterio. Sim, +odio, era odio que lhe tinha n'este momento! Mas como seria bom +desabrochar n'outra juventude, radiar a seducção d'uma nova belleza, +ter ainda pudores de vestal, frescuras d'epiderme carminea, +virgindades de noiva, para ir direita áquelle infame, atirar-lhe os +braços ao pescoço, e dizer-lhe: adoro-te, macula-me outra vez!</p> + +<p>Outras recordações então, lugubres, implacaveis, acastellavam na sua +mente, espectros de remorsos longinquos e gumes de suspeitas mal +esboçadas. Lembrava-lhe Fernando trazendo Carlinhos pela mão, depois +da morte de Laura, a dizer-lhe com palavras de chumbo, espaçadas +intencionalmente—este é meu, ficará n'esta casa! E como a olhára +dizendo isto, apenas ella n'um movimento de repulsa, erguera a cabeça +para dizer que não. O terror d'esses annos conjugaes tinha sido bem +cruel. Era o marido fital-a—tremia toda como um vime. Quando elle se +exaltava, ou se bebia, ou em os negocios correndo mal, a cada momento +ella receiava, que arrastando-a pelos cabellos, o marido lhe gritasse: +prostituta! Crescera nos povos a sua reputação de santidade; as +<span class="pagenum"><a id="page164" name="page164"></a>(p. 164)</span> esmolas que fazia nem tinham conta, ia de noite vêr os +doentes, matar a fome ás cabanas sem chefe, e o seu nome incubava-o +uma lenda de poeticas virtudes e castidade suavissima. Se viessem a +saber, que vergonha! E ante o marido, o seu orgulho vergára, e +fizera-se neutra a sua violenta personalidade. Nos ultimos annos, +Fernando Zarco tinha caído n'um marasmo desopilante, não saía, não +recebia, não fallava. Ás vezes, ia ella levar-lhe de comer com o riso +nos labios, uma palavra carinhosa para lhe inspirar conforto; e +estendendo o braço para agarrar no talher, lentamente, como tendo +alguma coisa grave a indagar, elle ficava a miral-a com o ardor dos +seus olhos encovados; depois ia baixando a cabeça n'uma confusão, +vagarosa, funebremente—sim! sim!—e viam-se-lhe as narinas arfando +nos haustos d'uma raiva subterranea.</p> + +<p>Chegou á porta que rasgava no muro, por sob a cupula das nespereiras; +correu-lhe o ferrôlho depressa, empurrou-a com o pé, cheia de +curiosidade de penetrar no olival, até á velha oliveira onde n'aquella +noite, o carro tinha parado. Mas recuou com um gritinho de susto. O +cunhado nas almofadas do <span lang="en"><i>break</i></span>, <span class="pagenum"><a id="page165" name="page165"></a>(p. 165)</span> á sombra da arvore, +aguardava por ella como n'outro tempo.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Manuel Zarco não quiz prolongar á viuva, a visão theatral que se +impozera, e desceu do carro para vir ter com ella. Em vez de veredas e +barrancos tortuosos, uma larga estrada cortava agora o olival, entre +eucalyptos colossaes, que sacudiam á briza molhos de folhas em +cutello. Ella nem podia fallar, branca de susto, humilhada de +vergonha, e sentindo o coração grosso de lagrimas. A voz de Zarco era +triste, porque tambem elle não tinha sido feliz.</p> + +<p>—Como não quer demorar-se, disse elle, mandei os carros aqui. Partirá +quando quizer, as creadas nao tardam. A carruagem em que veio fil-a +reservar aos noivos, por ser ampla. Póde ir n'este <span lang="en"><i>break</i></span>, é velho +mas de boas molas, tenho-o ha vinte e quatro annos...</p> + +<p>—Antigamente, tornou ella junto ao portello, vencendo um grande +embaraço, não havia roseiras aqui.</p> + +<p>—Não, disse elle galante, nasceram por onde o teu vestido roçou.—A +sua voz tremia.</p> + +<p>—Chut! casaram hoje os nossos filhos.</p> + +<p>—Mentes. Carlinhos vem d'uma cigana <span class="pagenum"><a id="page166" name="page166"></a>(p. 166)</span> velha, a quem hoje dei +o que ella quiz levar. Teem-m'o dito muita vez! É negra, traz uma +filha, ouço que vivem de roubar por essas feiras.</p> + +<p>—É verdade, murmurou ella suspirando; filhos só os tive de +ti.—Chorava a sua mocidade agitada, as terriveis dôres que soffrêra, +os orgulhos feridos de mulher.</p> + +<p>—Ouve, disse-lhe então elle com supplica, não me tenhas odio, não +tenhas. Dora é tuna creança, ama-a um pouco, assim como amarias a que +nos morreu. Ellas parecem-se. Sobretudo, não lhe digas mal de mim.</p> + +<p>—Ah, bem vejo que amavas tua mulher...</p> + +<p>—E tu que amastes meu irmão?</p> + +<p>—Mas é falso.</p> + +<p>—De que serviria acreditar agora n'isso? Estavamos doidos quando nos +amámos.</p> + +<p>—Sim, doidos d'amor. Ai como a gente envelhece depressa!</p> + +<p>—Razão para ficarmos amigos, já que tudo morreu. Fernando nunca veio +a saber...</p> + +<p>—Prouvera a Deus que assim fosse! Cala-te d'ahi! disse ella +bruscamente. Na hora da morte ia beijal-o, repelliu-me; morreu, +dizendo a horrivel palavra. E por tua causa! Não poderás dizer nunca +que te provoquei. <span class="pagenum"><a id="page167" name="page167"></a>(p. 167)</span> Quando vinhas, fugi-te muitas vezes. Tudo +me abandonava então!...</p> + +<p>—Esqueçamos: a vida dos nossos rapazes, exige. Vá, perdôa. Elles +viverão seis mezes comigo, seis mezes comtigo. De mais, ficámos +pobres. Os pobres não devem ter ruins paixões.—Ella cortava rosas, no +rosal que extravasava de roda. As velhas aias tinham chegado entanto a +pequeninos passos, arregaçando muito as suas sedas festivas; em carros +de toldo, jumentos e mulas, a creadagem repleta, cantando, chalaçando, +deixava S. Mathias caminho da aldeia. A viuva relanceou ainda os olhos +por aquelles sitios, lentamente, como a impregnar a memoria d'aquella +idyllica paisagem.</p> + +<p>E para que ouvissem todos, fallando alto, pediu desculpa a Manuel +Zarco de não assistir ao <i>copo d'agua</i>, mas sentia-se indisposta, +tinha que receber os noivos... Elle abriu a porta do <span lang="en"><i>break</i></span>, esperou +curvado que ella subisse.</p> + +<p>—Zarco, disse a viuva aconchegando-se a um lado, emquanto as velhas +subiam e se anichavam tambem. Os nossos filhos que não demorem a +partida, vão ter frio pelo caminho. Principiavam córos de grilos na +espessura amarellenta das hervas, o sol cahia por <span class="pagenum"><a id="page168" name="page168"></a>(p. 168)</span> traz das +arvores; á esquerda, nos vagos fumos da tarde, Beja torrejava.</p> + +<p>—Adeus, disse a viuva sem colera, estendendo ao velho as duas mãos +descalças. Zarco sem fallar, beijou essas mãos inda pequeninas e +brancas.</p> + +<p>Os cocheiros tinham vindo; e sob o pingalim, os cavallos arrancaram o +<span lang="en"><i>break</i></span> d'ao pé da oliveira, em direitura á estrada.</p> + +<p>—Adeus, disse a viuva, apertando ao seio as rosas que colhera no +rosal.—Zarco parado, as mãos cahidas, ficára imbecilmente de pé, todo +vasio de reacção.</p> + +<p>—Eh, esperem, gritou de repente aos cocheiros.</p> + +<p>O <span lang="en"><i>break</i></span> tinha outra vez parado. Com os olhos estourando lagrimas, +elle correu á portinhola com um pequeno embrulho para a viuva, que +conforme disse, esquecera na igreja.</p> + +<p>—Obrigada, respondeu ella com a voz um pouco tremula.—E o carro +abalou. Junto da ponte, já longe, a estrada fazia um cotovello para a +esquerda, e bruscamente o olival desapparecia. Então a viuva voltou-se +muito, chorosa, inda viu Zarco immovel no meio da estrada, disse-lhe +adeus com o lenço. Depois tudo se foi com as arvores que se +interpunham, <span class="pagenum"><a id="page169" name="page169"></a>(p. 169)</span> a estrada, o muro da horta, os olivaes, a +aldeia. Ficou a desembrulhar o pacote que elle lhe déra.</p> + +<p>—Que chinellinha mais rica! disse uma das velhas bispando o que +continha o embrulho. Ere o sapato de velludo bordado a oiro, que ella, +a tal noite...</p> + +<p>—Cabeça a minha! Quiz trazer sapatos largos para o caminho, e afinal +só vem um, que para mais me não serve.</p> + +<p>A outra velha acudiu com admiração:</p> + +<p>—Nem eu sei de pé, que possa caber n'uma chinellita d'estas.</p> + +<p>E a viuva com um rir doloroso:</p> + +<p>—Cabiam os meus, no tempo em que eram leves a ponto de atravessarem +jardins sem pousar no chão.</p> + +<p>—Ora! isso é o tal conto de fadas, disse a mais pequena das velhas.</p> + +<p>—É verdade, um conto de fadas, tornou a viuva. Mas aconteceu!—E os +seus olhos iam na direcção do olival.<span class="smaller"><a href="#toc">(Voltar ao Conteúdo)</a></span></p> + + + + +<h2><span class="pagenum"><a id="page171" name="page171"></a>(p. 171)</span> A PROVINCIA</h2> + + +<p>Á meia noite, depois de ter abraçado os amigos no Martinho, com uma +ternura de adeuzes que o caracter <span lang="fr"><i>blasé</i></span> de quasi todos tornára, +valha a verdade, intempestiva, Jorge Miguel tomou vagarosamente o +caminho habitual da sua casa, scismando em que era esse o seu ultimo +«fóra de horas» de Lisboa. Morava ao Monte havia nove annos, no +pincaro do outeiro mesmo, sobranceiro á cidade, ao pé da ermida—n'uma +casinhola de pobres cujo primeiro andar o novo senhorio repartira +entre elle e um empregadorio velho do Museu.</p> + +<p>Alli, com os seus livros, sem creado, varrendo a casa elle mesmo, com +pares de calças por cima de todas as cadeiras e cartapacios n'um +tumulto de rumas pelo chão, Jorge Miguel fazia uma vida concentrada de +alchimista, <span class="pagenum"><a id="page172" name="page172"></a>(p. 172)</span> silenciosa, de porta fechada ás visitas e +cerebralidade muda ás expansões.</p> + +<p>A cidade, que o conhecia n'um fumo de lenda um pouco feita através das +suas <span lang="fr"><i>blagues</i></span>, afizera-se a lhe consentir em publico um eu á parte, +explicando por maluquice a concentração solitaria dos seus giros, e +mesmo por bebedeira as apoplexias de humor que a certas horas +convertiam a sua apathia triste em improvisação epileptica, +archi-estouvada.</p> + +<p>Áquella hora a cidade apaziguava os seus tumultos, cahia do gaz um +langoroso bruxuleio; os transeuntes, menos; e todo aquelle socego +entrava na solidão mental do pobre moço, escruciando-lhe a vida de um +nunca mais á vida de solteiro. Porque Jorge Miguel, farto de viver +sósinho, ia casar.</p> + +<p>A historia d'esse amor era uma d'estas cousas occasionaes, despertadas +na vida entre duas cogitações mais amargosas, arrastadas longos annos +entre preguiças de affecto e desfallencias de vontade, relegadas +successivamente para os longes do futuro, e que um dia afinal se +impõem como a solução pelo absurdo de um problema economico impossivel +de resolver de outra maneira. A vida litteraria, unica paixão +absorvente que se lhe <span class="pagenum"><a id="page173" name="page173"></a>(p. 173)</span> tinha conhecido, chegada ao cume, +collocára-o na alternativa de, ou ter de rebentar de martyrio n'um +meio hostil a toda a ideia de arte independente, ou de pôr ponto +brusco n'uma producção que mesmo apesar de fulgurante e vigorosa só +conseguia produzir no publico uma surda irritação minaz contra o +escriptor. Entre a miseria odiada e a espectativa de uma madorna +plethorica n'um canto de provincia, Jorge Miguel acabára alfim por se +vencer; e d'esta vez, arrazado, dera no orgulho o golpe mestre, +fazendo as malas para esse desterro onde a bestificação do matrimonio +lhe açaimaria os ultimos piaffões de archanjo revoltado.</p> + +<p>Quando chegou a casa estavam quatro malas fechadas na ante-camara, um +<span lang="fr"><i>couvre-pieds</i></span> acorreado com guarda-chuvas e bengalas, dois moveis +envoltos em lona que os gallegos não tinham podido levar na ultima +padiola, para a gare—e os aposentos sem trastes, o relogio parado no +muro, o vento ronronando nas arvores do adro, tudo aquillo lhe pareceu +como o responso da sua mocidade já fria e decomposta. A um canto da +pequenina sala de trabalho, um monte de papeis, tombo da sua bohemia, +aguardava o auto-de-fé liquidador. <span class="pagenum"><a id="page174" name="page174"></a>(p. 174)</span> Jorge Miguel despiu o +casaco, trouxe um alguidar da cozinha, e chegando para o pé da +papelada uma das malas, começou á luz da vella o inventario d'esse +archivo de quinze annos rebolados por todas as maluqueiras da vida +sensacional e litteraria. Eram primeiro bilhetes de visita e bilhetes +postaes agradecendo livros, pedindo entrevistas, artigos, palavras de +favor—menus de jantar, convites de exposições e de concertos, ramitos +sêccos, retratos insepultos, carteis com monogrammas, dizendo, em +lingua inverosimil, adorações litterarias com resaibos a estranhos +sentimentos—e Jorge Miguel passeiava os olhos devagar n'aquellas +coisas, evocava um momento as epochas e as respostas, e +phreneticamente, para asphyxiar a saudade, chegava os papeis á vella, +e ia-os atirando incendiados para a concavidade do alguidar. Cartas de +Paris, cartas de Roma, da America, de Coimbra, todos os cantos do +mundo e da provincia, homenagens fervorosas, anonymias de odios +truculentos, discipulados timidos, identificações a distancia n'um +ideal sonhado, em pontos antipodaes de educação e temperamento, +consultas de mysteriosas litterarias, de celibatarias impacientes +pedindo conselho para <span class="pagenum"><a id="page175" name="page175"></a>(p. 175)</span> casos de psychologia individual cheios +de acirrante... e desatavam-se os maços das fitas já ardidas da poeira +das gavetas, as velhas folhas rolavam, talhes de lettra e prosa +succediam-se, e sempre a impassivel vella, com a alma da luz azul, +muito direita, consumia implacavelmente essas chimericas memorias onde +tantos corações tinham batido d'elle ao mesmo tempo. Quando o pobre +alguidar foi cheio de restos, e da mocidade de Jorge Miguel nada +restava a mais do que algumas lagrimas a ferver-lhe na pelle do rosto, +uma vacuidade estranha entrou-lhe n'alma, sendo então que o relogio +parado e o silencio da casa pareceram marcar um fim de mundo.</p> + +<p>Abriu a janella um pouco sobre a noite, e com o alguidar ainda quente +despejou á rua a sarabanda das cinzas aggregadas ainda em folhas +inteiriças, que o vento espiralou no ar em borboletas tenebrosas; e as +que tinham vindo de longe, tomaram por caminhos rapidos, ao largo; e +algumas hesitavam, sem se lembrarem já da morada de seus donos; +entraram-lhe pela janella outras, eram as orphãs, como a pedir ao +escriptor que as adoptasse; e algumas finalmente, como suicidas +inertes, baquearam no chão pulverisadas, <span class="pagenum"><a id="page176" name="page176"></a>(p. 176)</span> e o vento d'alba as +varreu pouco a pouco aos quatro cantos do destino.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Accendeu um cigarro, o somno fôra-se, e como aquellas cinzas +fatidicas, a attenção pulverisava-se-lhe, incapaz de reflectir sobre o +problema terrivel que era esse internato de vagabundo illustre na +aldeia, em agricultor, ao lado de uma mulher com quem mal entretivera +fallarios triviaes alguma vez.</p> + +<p>Estavam a dar quatro horas da manhã, e silenciosas nevoas vindas do +mar cobriam lentamente o céo de pallidos vapores, toldando a lua +poente, e alongando-se para o interior da terra em farrapanas +obliquas, que incineravam phantasticamente os bairros afastados. +Áquella hora Lisboa offerecia, das alturas do Monte, quasi sem luzes, +uma desolação madornal de cemiterio, planificada na bruma, rebatida +toda em lavouras de sulcos que eram bairros dobrados sobre si.</p> + +<p>As cinzas dos papeis, minutos antes queimados, de certo áquella hora +se estariam espalhando pelo inextricavel de todos aquelles bairros +inquietantes, procurando, n'uma afflicção, os signatarios das cartas e +bilhetes n'elles escriptos para lhes fazerem queixa da <span class="pagenum"><a id="page177" name="page177"></a>(p. 177)</span> +deserção de Jorge Miguel. Eil-as no ar, tiritando, as pobres +borboletas, a orientarem-se no dedalo das casas pelos milhões de fios +do telegrapho, receiosas de que o vento as pulverise antes de +chegarem, com palavras legiveis ainda, ao seu destino. Eil-as a adejar +de angustia nas vidraças, entrando nas casas pelo respiradouro das +chaminés, indo ás alcovas, pousando nos travesseiros, indo aos +cemiterios, pousando nos jazigos, e n'uns e n'outros interrompendo os +somnos e as doces mortes.</p> + +<p>—Não sabem? Jorge Miguel aposthasia de cavalleiro templario do +paradoxo, de arcebispo da leria, de arcabuzeiro da rotina a balas de +loucura...</p> + +<p>E o alarme acordado apenas na mágoa d'elle, affigurava-se-lhe +entenebrecer de luto a terra inteira, parecendo-lhe que de cada +bairro, cada café, cada cartaz, cada esquina de rua, cada casa, mentes +dispersas, adorações indefinidas, affectividades anonymas nascidas do +deslumbramento da sua arte estravagante, se erguiam da cama no estado +inconsciente de phantasmas, tomavam pelo caminho dos papeis queimados +vindo de roda, pelo ar, a lhe fazer um côro de implorações. +Lentamente, como <span class="pagenum"><a id="page178" name="page178"></a>(p. 178)</span> amanhecia, por todo aquelle vasto mappa +encinzeirado, luzes de gaz vinham-se apagando em linhas divergentes, +como se esse extinguir gradual de estrellinhas somnambulas fosse a sua +gloria de escriptor morrendo nos esquecimentos da aldeia, quando outro +espirito subisse, mais vivamente moderno, a allumiar a ingratidão das +gerações.</p> + +<p>Encostou-se um bocado, mas não podia dormir, os rumores matinaes +sobresaltavam-n'o; dir-se-hia que toda a cidade se levantára mais cedo +para trepar á montanha e lhe invadir a casa de vozidos. Entrementes, o +dia clareava, e quando foram horas de partir, Jorge Miguel, chegando +pela ultima vez á varanda, casualmente viu no parapeito um bocado de +papel carbonisado, onde subsistiam legiveis duas rapidas linhas de +escriptura. Leu o seguinte: «de resto, meu caro, para ser celebre é +necessario viver longe, e não ter tido nunca amigos intimos».</p> + +<p>Foi sob esta impressão martyrisante que elle deixou de vez a capital.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>O rebentar na provincia foi terrivel; receberam-n'o á chegada da +diligencia com uma musica de pretos, que era a estreia da +phylarmonica: <span class="pagenum"><a id="page179" name="page179"></a>(p. 179)</span> quatro carpinteiros a trombonear canudos de +latão, um barrigudo a zurzir os pratos como fulo, e o do zabumba, +macanjo, dando co'a maçaneta nos garotos. Como os musicos não +soubessem senão a marcha da Ione, ensaiada á pressa para as procissões +da Semana Santa, com esse batuque funebre seguiram, em passo de +enterro, pela rua da grande villa, no meio dos raios te partam do +cocheiro que despregava as pilecas na subida, e de um certo riso de um +padre, de lhe fazer calafrios pela medulla.</p> + +<p>Em breves dias fez-se o casamento, para o qual Jorge Miguel, foi sem +curiosidade, decidido a resolver o problema do seu destino por um +criterio de vontade estoica contra o qual piaffavam todas as suas +selvajarias de indomavel vagabundo. Sua mulher não lhe inspirou a +principio mais que uma especie de pretenciosa piedade: franzininha, um +pouco loura, com as orelhas pequenas, a bocca pura na esquadria de um +queixo quasi viril de voluntaria, e toda a graça de viver na +infantilidade dos olhos melancolicos. Não era pela belleza de certo +que essa imponderavel bonequinha viria a exercer no espirito do esposo +qualquer cousa similhante á seducção.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page180" name="page180"></a>(p. 180)</span> Senão quando, attenuadas um pouco pelo aconchego de uma +casita provincial as saudades litterarias de Lisboa, subitamente, uma +manhã, Jorge Miguel começou a sentir orgulhos vagos de vêr labutar por +elle a companheira.</p> + +<p>Reparou que os seus cabellos eram finos, a testa pensativa, e que as +suas breves palavras resabiam a qualquer coisa de penetrante, como se +derivassem de uma vontade séria de enfermeira. Os seus vestidos +escuros, mal roçando nos moveis, como levados n'um vôo de borboleta, +as suas lentas mãos guiadas á descoberta de fazerem o lar confortavel +sem parecerem tocar nos objectos, uma percepção sagaz de concentrarem +cuidados no gabinete dos livros, na ordem dos papeis, na tamisação da +luz, nas flôres da secretária, tudo isto que dir-se-hia casual, por +vezes como que se lhe affigurava nascido de uma ardilosa malicia de o +prenderem pelo reconhecimento a essa vida a dous que em principio +tamanhos sustos lhe trouxera. Esta fascinação que derivára primeiro do +egoismo envaidecido de sentir em tôrno a vida sem attrictos, com as +comidas a horas e bem feitas, a casinha tépida, macios os <span lang="fr"><i>fauteuils</i></span>, +a atmosphera perfumada e a <span class="pagenum"><a id="page181" name="page181"></a>(p. 181)</span> plethora de bem-estar constante +de riqueza, defendida ás linguarices dos estranhos, pouco a pouco +começou a lhe subir do estomago á intelligencia, e a figurita d'ella, +severa, apagando-se na meia luz de um recato freiratico, pallida e +diaphana como uma sombra do paraizo, passava ás horas calmas de estudo +pela cabeça d'elle com uma ponta de desejo que lhe tornaria a nupcia +fecunda, se não fôra a fatalidade dos homens de genio não poderem +propagar-se sem degenerações na descendencia. Começou a presentir +então a companheira por toda a parte, nas suas ideias e nas suas +leituras, no leito, a seu lado, com os olhos fechados e acordada a +espreitar se elle dormia, nos seus passeios longinquos pelo campo, nos +bicos da sua penna, nos calculos dos seus negocios, a um tempo causa e +fim, phantasia e realidade, e com tal poder de avassallação e +absorpção que o pobre bohemio acabou um dia por confessar a si proprio +essa incondicional escravatura, deliciado, abjurando as antigas +brutalidades de publicista solitario, a arte mascula da analyse +violentando as psychologias verde-podres do moderno, os excessivos de +lingua, as irreverencias sardonicas da <span lang="fr"><i>boutade</i></span>,—todas as qualidades +crueis <span class="pagenum"><a id="page182" name="page182"></a>(p. 182)</span> que haviam feito d'elle em solteiro o bacteriologista +maximo das degenerações sociaes do seu paiz.</p> + +<p>Longe de parecer reparar n'este rebaixamento de plano psychico do +esposo, ella como que só pensava em lhe encadear as attenções no +sentido dos antigos trabalhos litterarios, afastando-o das +convivencias massadoras da aldeia, pondo ao alcance da sua mão livros +de estudo, interessando-se pelo seu passado jornalistico sem ciumes e +até repassando ella mesma, através dos seus conselhos, os assumptos +que mais pudessem oriental-o na directriz do seu antigo frondismo de +escriptor. Em alguns mezes o predominio foi tal que o espirito d'ella +transfilhára-se inteiramente ao corpo d'elle.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Uma noite de novembro, já depois das colheitas da uva e da azeitona, +aconteceu que examinando os dous detidamente as contas da lavoura, +ella de repente observasse que era tempo de sahirem da modestia +financeira em que viviam.</p> + +<p>Como a situação de fortuna do casal nunca fora nem melhor nem peior do +que ora estava, aquillo surprehendeu Jorge Miguel, como se <span class="pagenum"><a id="page183" name="page183"></a>(p. 183)</span> +nas palavras da esposa houvesse reprimenda á sua inercia.</p> + +<p>Ella, sem se perturbar, tomou ao acaso um papel da secretária, agarrou +n'uma penna, e ao cabo de alguns pequenos calculos feitos n'uma +calligraphia tortuosa, começou a dizer, com a sua voz de pauzas doces, +que as vinhas estavam velhas, o phylloxera á porta, os terrenos +estanques da produção sem adubo, o vinho sem mercado, da qualidade +horrivel do fabrico; e quanto ás terras de cereal, parte não dava, por +desleixo do preparo, o que devia, e a outra parte em pousio, coberta +de abrolhos e de estevas, apenas nos começos do outomno era pascigo +para as cabras dos pastores furtivos da visinhança. O remedio era uma +remodelação completa do regimen agricola, em quatro annos: nas terras +de pousio lançar plantações americanas, reengorgitar os almargios da +ceara com os elementos chimicos necessarios á cultura intensiva, +ampliar a extensão aravel das terras, plantar arvoredo, regenerando ao +mesmo tempo a industria da vinha, cujo grosseiro preparo estava ainda +na fermentação do mosto em barros pesgados, e seu esforço alcoolico +com aguardentes de balsa ao esturro e á porcaria do alambique.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page184" name="page184"></a>(p. 184)</span> Demandava a nova empreza capitaes de alguma fórma custosos +para a relativa modestia dos seus teres; mas poderiam começar aos +poucochinhos, e para isso as economias de tres annos de vida +provincial talvez bastassem, e a actividade e a vigilancia d'elle +fariam o resto. Ficou decidido que encetariam os trabalhos logo esse +anno, e que os habitos indolentes de Jorge Miguel cessariam, por a +vida de lavrador exigir assiduidades constantes na faina, e uma +vigilancia quanto possivel methodica e regulada.</p> + +<p>—Resta vêr agora, objectára-lhe a esposa sorrindo, se cumprirá +escrupulosamente o que promettes. Esta vida contemplativa estava-te a +inutilisar todos os dias, e chamado á acção não terás tempo de te +aborrecer a pensar futilidades. De mais o caminho é extenso, e estou a +vêr que quando te habituares a fazer co'a terra, dinheiro, serás +naturalmente conduzido a tambem aproveitar como bens de fortuna essa +notoriedade de escriptor de que não tens querido tirar senão vaidades +espirituaes, ephemeras e... irritantes.</p> + +<p>—Tu não me aconselhas de certo que eu entre a escrever sobre a +politica do districto...</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page185" name="page185"></a>(p. 185)</span> —Em que estaria o mal? Não ha assumptos chalros. Um talento +nobre transfigura todas as cousas porque passa. Ouço-te flagelar a +estupidez e a má fé dos que açambarcam despoticamente, e para fins +deshonestos, a politica da nossa região; porque te não decidirás, +pois, a intervir n'ella com os recursos superiores que Deus te deu, e +os teus estudos teem desenvolvido? Maldizer é facil. Quem se não +mostra, esquece, e eis-te chegado á idade de reappareceres homem de +acção.</p> + +<p>—Tens-me então estado a sonhar governador civil ou deputado...</p> + +<p>—Não pelo desforço platonico de assumires sob essa forma a +authoridade, mas principalmente porque estaria n'isso o começo de uma +fortuna decisiva.</p> + +<p>—Em dinheiro talvez?</p> + +<p>—Que a final é tudo n'este mundo. Se Jesus Christo voltasse a fazer +na terra os doze apostolos, precisaria de pelo menos ter doze milhões. +Olha á roda de ti o que se passa. Não ha mediocre que te não tenha +suplantado; tu desesperas-te, fingindo desprezal-os, mas no fundo da +tua consciencia o sentimento dominante é o ciume porque esses que tu +declaras cerebralmente inferiores <span class="pagenum"><a id="page186" name="page186"></a>(p. 186)</span> desenvolveram na vida +qualidades de lucta que te faltam.</p> + +<p>—Suppões então que eu não segui o caminho d'elles por impotencia...</p> + +<p>—A que chamavas altivez, e afinal não foi mais que cobardia.</p> + +<p>—Entristeces-me com esse juizo estreito que me fazes.</p> + +<p>—Mas prova-me o contrario. Era tão facil! Ha na cidade um jornal sem +redactor; offerecem-t'o e tu não respondes; ora se desenvolvesses n'um +sentido sagaz as tuas qualidades de foliculario, em pouco tempe esse +jornal seria a tua arma envenenada, e verias realisadas todas as tuas +antigas ambições.</p> + +<p>—Mas se eu não tenho nenhumas, minha filha!</p> + +<p>—Ambições precisas não tens, porque a multidão assusta-te, mas +quererás tu persuadir-me de que a tua obra critica de solteiro apenas +fosse uma galopada de humorista? É lêr os teus pamphletos. Se se trata +de litteratura, achas a obra dos outros má, e tens o cuidado de fixar +um sonho de obra que não é mais do que a tua, idealisada. Se se trata +de costumes, flagellas os vicios de que não gostas, e calas-te ou +defendes aquelles para que <span class="pagenum"><a id="page187" name="page187"></a>(p. 187)</span> tens uma certa vocação. Em +politica achas todos os ministros imbecis, dizes que as nomeações não +visam nunca individuos de valor, e que os dinheiros do paiz andam a +rodo pelos regabofes dos seus administradores. Dir-me-has o que é tudo +isto senão um processo ingenuo de, desbastando nos outros, ficares +sendo primeiro e unico de pé?</p> + +<p>—Mas afinal tu és uma creatura incongruente. Essa obra desenvolta de +mocidade nunca te inspirou senão o enfado de uma cousa grosseira, mau +grado os teus disfarces, e tanto fizeste que acabei por me envergonhar +de a ter escripto. Passam seis annos, está mumifeita, esquecida, e és +tu mesma que m'a vens galvanisar agora n'uma phase de empregomania que +eu detesto!</p> + +<p>—O caso é simples. Todo o homem que esgrime sem alvo, é caricato ou +doido. Os teus proprios discipulos perguntavam: mas que quer elle? +porque ninguem comprehende que se gaste energia sem proveito. Dez +annos d'essa campanha asperrima, n'uma agua-furtada, sem roupa nem +confortos, coberto de calumnias e de dividas, desprezado, odiado, o +que te deram? A gloria de seres conhecido entre os estudantes como um +canalha sarcastico, <span class="pagenum"><a id="page188" name="page188"></a>(p. 188)</span> e quarenta adeptos que apenas servidos +desertaram de ti como da peste.</p> + +<p>A logica d'estas combinações chocava fundo os quarenta annos já frios +do antigo pamphletario, que hesitava, no entanto obsecado da tradição +dos genios famintos. Embuido das doutrinas utilitarias da esposa, via +effectivamente o dinheiro como uma causa geral de toda a culminencia, +e as suas antigas ambições gososas de grande homem despertando da +indefinida madorna em que o estagnára a vida provincial. Via-se +reapparecer de novo em plena vida, com outros ideaes mais largos e +mais firmes, senhor da sua razão e da sua força, já sem os platonismos +de artista e as nebulosas philosophias de pamphletario demolidor +joeirado das antigas relações compromettedoras de café, homem de +acção, batido no desprezo, monosyllabico, hypocrita, insolente, +fazendo a sua entrada sem ruido, sondando os typos, avaliando a frio +os consagrados, e n'uma reviravolta leonina, de repente, apoderando-se +dos cimos, e fazendo-se sagrar chefe de <span lang="fr"><i>clan</i></span>. Tudo estaria em fazer +do seu talento o molosso incorruptivel de uma ideia fixa. Essa +marmorisação de vontade, porém, onde formal-a, com o seu caracter +feminino e <span class="pagenum"><a id="page189" name="page189"></a>(p. 189)</span> dominavel, acobardando-se diante dos obstaculos, +e que a primeira mão resoluta guiaria a sabor dos seus caprichos? +Então, lançando a vista de roda, apercebeu como sempre os olhos claros +da mulher, interrogando-o com uma tristeza escarninha sobre a sua +falta de coragem. A pretexto de inspecção ás escólas primarias, o +governador civil percorria n'esse momento o districto, a sondar o +espirito das terras sobre o exito das proximas eleições. Era um antigo +companheiro de Jorge Miguel, sucio pomposo, que começára por +gazetilhas obscenas no <i>Pimpão</i>, subindo d'ahi a amanuense da Junta, e +redactor politico da <i>Nova</i>, jornal do presidente do conselho, que o +despachou depois aos bejenses com subscriptos de funccionario de +confiança.</p> + +<p>Jorge Miguel inspirára-lhe sempre mesmo nos dias de convivencia +litterária no Martinho, uma especie de rancor desconfiado, com orlas +de desprezo, e póde-se imaginar a surpreza do conselheiro, quando, +avistados na aldeia os dois bohemios, Jorge Miguel lhe communicou as +suas tenções de comprar o jornal e entrar de vez na politica +militante. Sentindo-se de cima o governador civil prometteu com uma +sublime benevolencia, apoiar-lhe <span class="pagenum"><a id="page190" name="page190"></a>(p. 190)</span> as pretensões, +combinando-se depois de tres dias de hospedagem e de jantares +pantagruelicos, que adquirida a gazeta, com typografia e pessoal +conveniente, Jorge Miguel fosse a Lisboa munido de cartas prestar ao +ministério vassallagem, e receber dos magnates do partido a sua +iniciativa de cavalleiro. Quinze dias depois ia na casa do nosso +pacifico contemplador uma barafunda dos demonios.</p> + +<p>Pelo caminho de ferro chegaram de Lisboa umas poucas de charruas, +caixotes de adubos e sementes, milheiros e milheiros de bacellos +americanos. A adega foi quasi toda guarnecida de toneis; lagariças +novas no pateo, com toda a sorte de machinas modernas. Os pousios das +herdades eram começados a revolver a talho fundo, para o que foi +necessario alugar juntas de bois a todo o preço; de fóra viera um +regente agricola, de monoculo, que se levantava ao meio dia, e achava +mau passadio um jantar de cinco pratos; e finalmente, negociado por +quinhentos mil reis, typographia e tudo, o jornal apparecera depois +onerado por uma hypotheca de dois contos, e com o typo delido, os +prélos n'um cangalho, tendo Jorge Miguel de dispender, <span class="pagenum"><a id="page191" name="page191"></a>(p. 191)</span> por +conselho do governador civil, proprietario secreto da folha, mais de +novecentos mil réis para acquisição de material. Na aldeia, quando +estas coisas correram, foi o alvoroço que se tem por um individuo que +emaluquece, de rodilhão, e todos punham as mãos na cabeça, antegozando +com lastimas hypocritas a hora opipara em que rebentaria a casa do +«escriptor». A audacia d'esta renovação agricola pelos risiveis +processos scientificos, que nenhum rico ousára, e de que ria o povinho +como uma brincadeira de creanças, além de não parecer condizente á +remediada fortuna do litterato, tão pouco pelo estapafurdio do regente +agricola, e resultado incerto das colheitas parecia estribar-se lá +muito na económica prudencia que deve sempre guiar um lavrador. +Viticultura americana? dinheiro perdido, bufavam todos. O phylloxera +immobilisando-se no Douro perdera a força para chegar aos valles do +Tejo. Reengorgitação das terras pelo adubo? mas onde ia isso parar de +dispendioso, e para que necessario? se a vinha nunca se estrumára no +Alemtejo, e quanto ao cereal, a bósta dos animaes abundou sempre, para +fazer de alqueires, moios.</p> + +<p>A reapparição do <i>Clamor de Beja</i>, jornal <span class="pagenum"><a id="page192" name="page192"></a>(p. 192)</span> independente, um +typo novo, e uma factura litteraria elegantissima, foi verdadeiramente +um caso nos annaes da sornice alemtejana, e claro se viu o influxo que +essa incisiva folha fumegante de vida e tocando os assumptos locaes +com lúcida ironia, certo viria a ter na politica do sul da grande +provincia.</p> + +<p>Jorge Miguel recebia em casa os jornaes da redacção, preparava o seu +artigo, fazia o noticiario e a correspondencia de Lisboa, e o resto +era arranjado em Beja por um alferes do 17, seu antigo commensal n'uma +republica de estudantes. Em pouco tempo o successo attingiu pela +provincia as proporções de uma victoria; choviam as assignaturas, os +annuncios pagos succediam-se, e em todas as questões locaes e +partidarias começou o jornal a fazer authoridade, o que o lembrou em +Lisboa, levando as attenções dos malignos para a espécie de furor com +que Jorge Miguel, jacobino medonho, ainda na vespera, defendia os +actos do governo. Eleições á porta: era o momento de ir a Lisboa, +jurar fidelidade ao gabinete. Atochado de missivas bejenses para os +magnates graúdos do partido, sahiu Jorge Miguel de casa uma manhã, com +o seu chapéo alto e o seu bahú de roupa, disposto a <span class="pagenum"><a id="page193" name="page193"></a>(p. 193)</span> levar de +vencida as agruras da jornada graças a certa gallinha de recheio, mais +meio presunto que a mulher lhe embrulhou, para farnel, na folha de um +dos seus antigos pamphletos anarchistas. A viagem foi cabeceada de +somno n'uma segunda classe onde voltavam de férias tres alarves de +tres seminaristas, e só no Barreiro, quando a cidade começou a surgir +vaporisada nos azues violetas do horizonte, é que Jorge Miguel sentiu +tomal-o uma infinita e estranha nostalgia. Indo no barco atirou ao rio +os restos do presunto, para evitar o cheravisco aduaneiro, e com o +gallego do bahú veio a dar fundo nas <i>Duas Nações</i>, ante uma canja que +tinha todo o ar de um soluto de caspa em agua de lavagens. Sopeteou +como poude as vitellas flacidas com cenouras, um <span lang="en"><i>roast-beef</i></span> de +folha, e varios outros acepipes corneos d'aquella conceituada casa +alimenticia, e barbeado, de sobrecasaca fina, cheirando a agua de +Colonia, eil-o baixa do hotel á cóca de tipoia que o solavanque a S. +Vicente. Chegado á rua, os luzeiros da Baixa estontearam-n'o: via, +extasiado, uma multidão febril, pelos passeios, os carros cheios de +gente, e o indefinido rumor repercutíndo-se a distancia, entre pregões +de jornaes e <span class="pagenum"><a id="page194" name="page194"></a>(p. 194)</span> silvos de comboyos. Mentalmente, com esforços +de memoria dolorosos, desemburrando-se da bisonheria de seis annos de +vida marital, tomava outra vez posse da cidade, buscando +familiarisar-se no dedalo das ruas, achar no asphalto outra vez o seu +<i>rail</i> de <span lang="fr"><i>flaneur</i></span> nocturno; e mulheres que surgiam de chapa nos +reverberos das lojas pintadas de branco, olhando os homens de lado, +como as gansas, tinham para elle o ar de apparições; nos americanos +pareceu-lhe tudo duques e duquezas, um deslumbramento as lojas, os +caixeiros uns personagens ideais; e a sua emoção subia n'um galopar de +antigas reminiscencias, á mercê das surprezas esgarçadas por qualquer +cousa, na volta de uma esquina, ante o estylo de um predio novo, um +novo monumento—emoção de provinciano fóra da moda, cego do gaz, +picado de ciumes, desesperado de já ninguem o conhecer, e que ao +apear-se em Santa Clara, á porta do «nosso glorioso chefe» levava já +tres ridiculos de aldeia a chateal-o: a fadiga dos calos, o remorso do +casamento, e pairando a tudo, um desejo frascario, exhaustinado, d'ir +rebentar a noitada ao baile de mascaras do Trindade. Seis annos de +provincia tinham liquidado n'isto o grande homem...<span class="smaller"><a href="#toc">(Voltar ao Conteúdo)</a></span></p> + + + + +<h2><span class="pagenum"><a id="page195" name="page195"></a>(p. 195)</span> O JURAMENTO DA CONDESSA ESTHER</h2> + + +<p>—Tenho consultado tudo, tudo! A homeopathia, o systhema Brugrave, o +Raspail, tudo! Mas os alivios poucos, nenhuns mesmo. É esta dôrzinha +vaga no peito, esta tosse secca, pouca vontade de comer, ventre +preso... Quando se chega á minha edade, é esperar pela morte, bem o +sei.</p> + +<p>—Qual!</p> + +<p>—Ah! eu não a receio, meu bom amigo. Somente me affligiria a saudade +dos que amo, e o amor da minha filha...—Baixava a voz para +dizer-me—Tem-me perseguido a ideia de consultar um enfermeiro. Ouço +que entendem muito de doenças... Morrer, deixar Esther, seria o ultimo +castigo.</p> + +<p>Em resposta, eu ria. A condessa ia começar a narrativa de uma cura +estrondosa, feita <span class="pagenum"><a id="page196" name="page196"></a>(p. 196)</span> n'uma senhora das suas relações, por um +dos taes.</p> + +<p>—E está hoje gorda e alegre, que não faz ideia.</p> + +<p>—Faço, faço.</p> + +<p>—Depois, os remedios que me receitam os medicos, repugnam-me. Tenho +horror á magnesia, horror ao cheiro da camphora, horror ás pilulas, +que bem podem ser manipuladas por sugeitos pouco limpos. Alguns dos +medicamentos nem os tomo.</p> + +<p>—Eis porque se não cura, condessa. As aguas de Loeches são suaves...</p> + +<p>—Horriveis! E tão prosaicas...</p> + +<p>—De certo, de certo. Tanto mais que V. Ex.<sup>a</sup> tira effeitos poeticos +da doença que diz soffrer, confesse.</p> + +<p>—Ahi vem a sua má lingua, doutor. Na minha edade a poesia é o amor +dos filhos. Eu sofro muito, sofro, palavra d'honra. E se fosse um +aneurisma, meu Deus!...</p> + +<p>—Ahi, está V. Ex.<sup>a</sup> poetando com hypotheses de martyrio, simples +achaques a que todos estamos sugeitos. Que diria então eu, que V. +Ex.<sup>a</sup> vê na flôr da vida e na apparencia da mais radiosa saude? O meu +estomago!</p> + +<p>—E o meu, doutor, o meu?</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page197" name="page197"></a>(p. 197)</span> —A condessinha Esther tem a paixão das begonias; a sr.<sup>a</sup> +duqueza de Serpa adora os cães d'agua; a sr.<sup>a</sup> marqueza de Valle de +Perdizes esculpe; a esposa do negociante Domingues trabalha em créches +e premios de escolas. E cada uma faz d'estas predilecções a sua +aureola de poesia, de que se circunda no mundo. V. Ex.<sup>a</sup> tem os seus +soffrimentos. É uma compensação.</p> + +<p>—Já vejo que está hoje peor, Conde! gritou ella para a meza do jogo +onde quatro homens faziam <span lang="en"><i>whist</i></span>, á luz d'uma serpentina. Um velho +calvo e magro severamente abotoado e de bigodes altivos, ergueu-se +respeitosamente e veiu junto de nós.</p> + +<p>Por detraz dos oculos, luziam-lhe aguçadas as pupillas de miope: +andava com ares magestosos de ministro, gesticulando sobriamente.</p> + +<p>—Que é? disse elle firmando as mãos nos gomos do divan da condessa +mãe.</p> + +<p>—Pode fallar-me da sua pre-historia, porque o meu amigo doutor teima +em satyrisar os meus padecimentos. Vamos, sente-se aqui.</p> + +<p>—Mas a partida...</p> + +<p>—O doutor vae substitui-lo, sim?</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page198" name="page198"></a>(p. 198)</span> —E a condessa assim me desterra tão cruelmente!—Ella +estendeu-me a mão dizendo:</p> + +<p>—Será por pouco tempo.—Fui. Esther não viera ainda. As senhoras +começavam a chegar em pequena gala, com <span lang="fr"><i>bournous</i></span> de casimira branca +forrados a setim e pelles. Eram os convivas certos d'aquellas +pequeninas <span lang="fr"><i>soirées</i></span>, tão intimas, tão aconchegadas e tão doces, que +os ditos e excentricidades da condessinha animavam, e a rabeca de +Zebedeu Kebler, israelita loiro como Jesus e tão casto como elle, +enchia de fremitos extranhos e infinitas harmonias. Kebler adorava a +condessinha com uma paixão supersticiosa e ardente. Estava sempre onde +ella estava; em São Carlos, a sua cadeira era defronte da friza +d'ella; apparecia nos bailes a que ella ia, melancholico e pallido, +uma elegancia fina de <span lang="en"><i>gentleman</i></span>; e nas conversações mais frivolas, +em podendo, mettia, sem quasi dar por isso, o nome d'ella. Esther era +trigueira e alta, de uma distincção unica e de uma elegancia sem +rival. O esmalte dos seus dentes destacava fresquissimo no vermelho +das gengivas, como um adereço rico num estojo de velludo cereja. Nada +mais explendido que a linha do seu busto nervoso e cinzelado, e a +redondeza das suas espaduas <span class="pagenum"><a id="page199" name="page199"></a>(p. 199)</span> reaes, surgindo de espumas de +renda na fervilhação opulenta dos bailes. Fui ter com o judeu. De pé, +junto da banca de jogo, elle olhava sem vêr cousa alguma. Tomei-lhe o +braço e fomos para o vão d' uma janella. E antes que eu fallasse, elle +disse:</p> + +<p>—Já penetrei no mysterio.</p> + +<p>—Qual?</p> + +<p>—O da condessinha.</p> + +<p>—Vamos a vêr como.</p> + +<p>—Ella é muito supersticiosa. Não admira, sangue judeu...</p> + +<p>—Sangue judeu! Ella?—Kebler baixou a voz e contou-me:</p> + +<p>—Que certo vendedor de tamaras, freguez assiduo de uma hortaliceira, +chegára a amar esta. Do amor dos dois, fermentou um garoto que se +metteu cambista, d'onde mais tarde surgiu uma obesidade millionaria +que um governo individado fez barão e par.</p> + +<p>—Que perspicacia audaz empregou o meu amigo para saber tanto? +Caramba!</p> + +<p>—Ouça: implantada por esta fórma, a nobreza foi subindo de um grau de +filho para filho. Até que um dia, o pae de Esther appareceu conde.</p> + +<p>—A esposa era muito formosa então, para <span class="pagenum"><a id="page200" name="page200"></a>(p. 200)</span> poder alcançar +tudo. Seria duqueza até, se o houvesse querido, disse eu sorrindo.</p> + +<p>—Lingua damnada!</p> + +<p>—Adeante. É então supersticiosa, hein?</p> + +<p>—Não imagina.</p> + +<p>—Eis o meio de sustar-lhe a golfada de sarcasmos de que ás vezes nos +cobre. Em ella me ferindo, quebro um espelho da sala, verá. Mas vamos +ao mysterio. Creio que foi <i>mysterio</i>, que disse.</p> + +<p>—Foi. Esther teve uma grande paixão!</p> + +<p>—Como a da hortaliceira gollegã, sua avó, pelo vendedor de tamara e +sabonetes. <i>Fermentou</i> alguma cousa de?...</p> + +<p>—Olhe que me zango sériamente, e fica sem saber nada.</p> + +<p>—Está bem; estou já calado.</p> + +<p>—Uma paixão fatal! Amou...</p> + +<p>—Essa reticencia traz um padre ou um trintanario.</p> + +<p>—Infelizmente. Amou um primo, doutor em theologia, que já dissera +missa.</p> + +<p>—Bem dizia eu!</p> + +<p>—Dizem que bella figura.</p> + +<p>—Não me custa a crêr, pois que o affirma. E o primo amou a prima? +Sacrilegio no ultimo acto, suicidio ao cahir do panno. Adivinhei?</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page201" name="page201"></a>(p. 201)</span> —Quasi. O primo era um homem digno; além disso não chegou a +saber toda a verdade da bocca d'ella. Desconfiou apenas que era amado +e fugiu para as missões do ultramar.</p> + +<p>—Oh incomparavel levita! Eu não fugia para tão longe. E ella?</p> + +<p>—Ella jurou que não amaria mais ninguem na vida.</p> + +<p>—E como não lhe fosse permittido professar...</p> + +<p>—Não seja leviano. Esther adora as begonias, como sabe.</p> + +<p>—Paixão que acarreta ao meu amigo uma despesa séria. Cada dia lhe +traz uma especie nova, numa <span lang="fr"><i>corbeille</i></span> admiravel.</p> + +<p>—Essa adoração tem a seguinte historia. Á hora da partida o +missionario mandou á condessinha num vaso da China, uma explendida +begonia <i>rex-isis</i>, especie do mais bello effeito decorativo. É um +vaso amplo, de figurinhas em relevo e pequenas azas de oiro, +representando dragões engalfinhados.</p> + +<p>—Conheço bem essa preciosidade! Vale a olhos fechados cem libras. E +depois?</p> + +<p>—A begonia durou pouco. A estufa para onde a transportaram, e a +convivencia das <span class="pagenum"><a id="page202" name="page202"></a>(p. 202)</span> mais plantas abreviaram-lhe os dias. Já +entrou na estufa da condessinha?</p> + +<p>—Muitas vezes. O vaso está ao centro, sobre um pequeno pedestal de +marmore branco e debaixo de uma redoma de crystal em gomos.</p> + +<p>—É isso, com a begonia sêcca.</p> + +<p>—Tal qual! Muitas vezes perguntei á condessinha a historia d'aquelle +esqueleto de planta. E agora me lembro—ella ficava triste e +suspirava. Era a theologia do primo adorado.</p> + +<p>—Hontem vim visitá-las de manhã. Trazia-lhes um euforbio raro do +Mexico, que os francezes chamavam <span lang="fr"><i>Poinsettie</i></span>, exemplar soberbo. +Conhece?</p> + +<p>—Dos livros. A minha clinica modesta não me permitte dispender sem +proveito o que elle custa. Folhas oblongas bordadas de verde, +envernisado e vivo. Centro canario raiado de verduras sanguineas. +Envolvendo as flôres, uma corôa de grandes bracteas ovaes, do tamanho +de folhas, e do mais bello escarlate, dando o effeito duma grande +flôr. Uma opulencia, em resumo.</p> + +<p>—Pois bem. Eu mesmo fui collocá-lo na estufa, permissão graciosa da +condessinha.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page203" name="page203"></a>(p. 203)</span> —Os perfumes aphrodisiacos perturbaram os sentidos de ambos +e... amor do judeu das tamaras com a...</p> + +<p>—Mau!</p> + +<p>—Está bom: curvo a cabeça. Venha o resto.</p> + +<p>—Quando nos achámos na estufa e em meio das folhas de mil desenhos +que alli ha, ella tomando-me as mãos, disse-me commovida:</p> + +<p>—Como hei-de eu agradecer a sua sollicitude, Zebedeu?</p> + +<p>—Ella disse: <i>Zebedeu?</i></p> + +<p>—Disse.</p> + +<p>—Meio caminho andado, então. Mais dois minutos, e tinha-a pendurada +no pescoço. Que gata, essa trigueira tentadora!...</p> + +<p>—Eu nem podia fallar!</p> + +<p>—Oh castidade loira de vinte annos!</p> + +<p>—E apertava-me tanto as mãos...</p> + +<p>—Sim? Depois, um beijo... ou dois... ou tres...</p> + +<p>—Falle com franqueza, disse-me ella. O senhor ama-me.—Eu estava a +tremer como um poltrão.—Ouça, tornou Esther; fiz um juramento.</p> + +<p>—Qual? perguntei em voz baixa.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page204" name="page204"></a>(p. 204)</span> —Que não amaria ninguem mais. A não ser...</p> + +<p>—A não ser?...</p> + +<p>—Que aquelle vaso de pedestal apparecesse em pedaços um dia, sem +ninguem lhe tocar.</p> + +<p>—Mas isso é impossivel.</p> + +<p>—Então veja se posso amá-lo. Ella estava tão triste!... Talvez não +creia: chorei!—Callamo-nos, porque n'aquelle instante, uma voz fresca +deu uma risadinha á porta, e as senhoras correram para uma rapariga de +branco, que vinha entrando. Era Esther.</p> + +<p>—Zebedeu Kebler, meu incomparavel artista, um pouco da sua rabeca, +disse ella em voz alta, antes de beijar ninguem.</p> + +<p>—Bom sinal! resmunguei ao pobre rapaz.</p> + +<p>O judeu deixou-me logo, alegre por ser lembrado, e foi abrir o estojo +do instrumento.</p> + +<p>—Que ridiculos são estes sentimentos! pensava eu. Apertam-lhes as +mãos n'uma estufa e a sós, muito e muito, e desatam a chorar. +Grandissimo tolo! Não o pode amar? Fez ella muito bem. Amar um homem +que em logar de cobrir de beijos uma mulher lindissima que se rende, +fica a tremer, seria uma vergonha: apre! Fui ter com a condessa, +enfastiado e murmurando:</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page205" name="page205"></a>(p. 205)</span> —Fosse a cousa commigo...</p> + +<p>No dia seguinte, tinha eu acabado a consulta quando chegou Kebler.</p> + +<p>—Vem acabar-me a historia de hontem?</p> + +<p>—Venho sollicitar a sua presteza de atirador.</p> + +<p>—Chegou o theologo? desafiou então um ministro do altar? Barbaro! +Cruel! Desalmado!</p> + +<p>—Qual! Tenho um projecto.</p> + +<p>—Acceite este charuto, aqui tem lumes, sente-se e conte-me o +projecto.</p> + +<p>—O alvo do irmão de Esther fica perto da estufa; pois não fica?</p> + +<p>—Creio que sim.</p> + +<p>—O senhor vae alli exercitar-se muitas vezes, segundo me disse o +Alvaro.</p> + +<p>—Vou.</p> + +<p>—Ouça. Eu levanto um caixilho da estufa...</p> + +<p>—Mas é preciso a chave que abre todos esses caixilhos. Talvez não +pensasse em tal?</p> + +<p>—Tenho-a aqui; roubei-a agora mesmo. Posso guardá-la por estes dias. +O tempo está chuvoso e frio, de modo que não ventilarão a estufa por +agora.</p> + +<p>—Então?</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page206" name="page206"></a>(p. 206)</span> —Aberto o caixilho, o senhor fingindo apontar ao alvo, +aponta ao vaso da China e...</p> + +<p>—O senhor ganha o premio, e eu fico a chuchar o dedo.</p> + +<p>—Que? Ama a condessinha?</p> + +<p>—Eu amo toda a gente; que diabo!...</p> + +<p>—Estou esperando a sua resposta.</p> + +<p>—Que eu parta aquelle vaso da China porque daria tudo? Está louco!</p> + +<p>—Olhe para mim. Se o não fizer...</p> + +<p>—Dá um tiro no craneo; dá?</p> + +<p>—Qual! fico solteiro toda a vida.</p> + +<p>—Bem, essa simplicidade enternece-me. Esteja amanhã aberto o +caixilho, e a bala esmigalhará o vaso. Mas como entra o senhor no +jardim?</p> + +<p>—Saltando o muro que o separa da casa em que habito.</p> + +<p>—O senhor é o diabo.</p> + +<p>—Se a adoro!</p> + +<p>Na noite seguinte, havia reunião em casa da condessa. Os grupos das +mais noites. Ao fundo do salão, a banca de <span lang="en"><i>whist</i></span>, onde o cultor da +pre-historia se notava de lunetas altas, sob que as pupillas +fuzilavam. No divan amarello, a condessa queixando-se-me da falta de +apetite e de tosse sêcca. Esther radiosa, no <span class="pagenum"><a id="page207" name="page207"></a>(p. 207)</span> meio das suas +amigas. Zebedeu Kebler muito pallido e muitissimo preoccupado, ferindo +de um modo inteiramente magistral as cordas da rabeca.</p> + +<p>—Meus senhores, disse a condessa em voz alta, erguendo-se. Tenho a +honra de lhes annunciar o casamento de minha filha Esther com o senhor +Zebedeu Kebler.</p> + +<p>Ouviu-se o estalido de uma corda de rabeca, subitamente quebrada. O +conde das lunetas erguera-se, aprumando a alta estatura. Esther +confessava ruborisada que... <i>Deus o queria.</i> Tinha apparecido em +pedaços o vaso da China, sem que lhe tocassem. E de mais amava aquelle +rapaz, tão elegante e tão distincto, de cujo braço seria um encanto +pender coroada de flôres de larangeira.</p> + +<p>—És meu padrinho! disse-me com um abraço de reconhecimento, o judeu.</p> + +<p>—Já agora... respondi.</p> + +<p>O meu presente nupcial, foi um vaso chinez inteiramente igual ao que +apparecera esmigalhado. Crescia n'elle um <i>hibiscus</i> do Japão, +trepadeira da mais rendilhada contextura, folhas exoticas e flôres em +grinaldas.</p> + +<p>—Eis porque eu daria tudo pelo vaso quebrado, disse a Kebler, com uma +vaga saudade <span class="pagenum"><a id="page208" name="page208"></a>(p. 208)</span> de amador. Se o conseguisse adquirir, +completaria o mais bello par europeu. Guardem esse vaso no logar do +pobre esmigalhado, e que elle seja o talisman de um amôr, fecundo em +<span lang="fr"><i>bébés</i></span> de olhos azues, menos romanesco que o amôr do primo, e mais +durador por isso mesmo.</p> + +<p>Um frou-frou de saias fez-me voltar a cabeça; á porta, a cabecinha de +Esther assomára curiosa, e os seus dentinhos brancos de gata contente +brilhavam, sorrindo de um modo encantador.</p> + +<p>Nunca fui piegas, palavra de honra—mas inda hoje tenho calafrios +pensando nos dentes d'aquella mulher.<span class="smaller"><a href="#toc">(Voltar ao Conteúdo)</a></span></p> + + + + +<h2><span class="pagenum"><a id="page209" name="page209"></a>(p. 209)</span> CORONADO</h2> + + +<p>Ha sete ou oito annos vinha eu do Poço do Bispo no electrico, quando +nas alturas da Mitra entrou um meu velho amigo e camarada, Dr. P., +clinico da localidade, com quem vim conversando até á Baixa.</p> + +<p>Trazia na mão um numero de revista litteraria, e abrindo-o no sitio +d'uma peça poetica, impressa, perguntou-me se eu ouvira alguma vez +fallar da Coronado. Fiz com a cabeça que não, e elle, explicando que +era o médico da casa, em duas palavras fez o elogio sumário da sua +cliente. Mez e meio havia que esta senhora, já então de oitenta a +oitenta e dois annos d'edade, mas completamente em plena validez +mental e muscular, se fôra por uma escada de pedra, quebrando um braço +pelo terço inferior do cubito e do rádio.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page210" name="page210"></a>(p. 210)</span> Poucas esperanças tinha o clinico, dada a edade provécta da +paciente, de se virem a soldar os topos da fractura; senão quando, ao +lhe ser tirado o aparelho, se viu como os ossos quebrados tinham +adherido, e a cura se fizera completa e ás maravilhas!</p> + +<p>Emquanto imovel no leito, a doente, cuja nervosidade frenetica +espantosamente sofria de estar preza, para enganar o tempo e distrahir +o espirito volitante, ideára e compuzera em quadras endecasylabas, uma +poesia festiva ás suas mãos.</p> + +<p>E aqui o médico estendeu-me a revista para eu lêr.</p> + +<p>Uma das mãos da Coronado estivéra mez e meio entrapada nas ligaduras +do aparelho de fractura, sem vêr a outra, e a poetiza figurava-as como +duas amigas ou irmãs gémeas afeitas a comunicarem no seu dia a dia +impressionista, a imitarem-se os gestos, a procederem por sentimentos +e instinctos identicos, e que uma tão longa separação lançára no +desespero e na saudade.</p> + +<p>A alegria do novo encontro fazia-as exultar em caudaes de ternura e +hossanas de prazer. Os versos eram ricos, nem farfalhudos, nem ôcos, +com significados precisos, frases de bronze <span class="pagenum"><a id="page211" name="page211"></a>(p. 211)</span> sonoro, imagens +faiscantes, claras, simples, dando uma ideia de riqueza sóbria, e +mostrando uma artista experiente e um pulso de homem. Não havia +hesitação nem cançaço, nem essa pulverisante banalidade dos velhos que +vivem de restos e, perdido o séstro construtivo e inventivo, fazem +litteratura de toadas e sandezes. Qualquer Fernandez Shaw ou Eduardo +Marquina, Santos Chocano ou Manoel Machado, Ruben Dario ou Francisco +Vilaespesa, poderiam ter assignado esse texto de bravura, doce e +intenso, vivido e sentido, verdadeiro cantico d'uma alma unindo a +transcendencia lyrica á precisão. No tempo da Coronado os poetas ainda +eram só romanticos ou classicos...</p> + +<p>O individualismo hysteropatha não tinha creado os grupos de <span lang="fr"><i>cabaret</i></span> +e as patrulhas maniacas de symbolistas, instrumentistas, decadistas, +ideologos, esthetas, neo-mysticos e magnificos, que depois inçaram a +poesia de brochuras pathologicas, dando a impressão d'uma casa +d'orates com mais exhibicionismo que estro, e menos inspiração que +maluqueira.</p> + +<p>A poetiza desde 1874 ficára isolada, pela tristura claustral da sua +vida, das correntes poeticas que agitavam o mundo, vindas dos +<span class="pagenum"><a id="page212" name="page212"></a>(p. 212)</span> altos de Montmartre, té aos centros d'insurreição de Madrid +e de Lisboa. Poetava á antiga, com um gesto nobre e a palavra fluida +da velha escola hespanhola, que tinha em Espronceda, seu conterraneo +tambem d'Almendralejo, um dos mais altos e orgulhosos paladinos.</p> + +<p>Despertou-se-me então o desejo de, senão conhecer de perto, pelo menos +entrevêr uma vez sequer a singular creatura que aos oitenta e dois +annos rimava com uma pujança feraz tão bellas coizas. O visconde de +Castilho e o dr. Souza Viterbo a quem algumas vezes fallei na +Coronado, depois d'elogios enlevados ao talento e viveza de +conversação da illustre enclaustrada, evitavam pormenorisar detalhes +que me ajudassem á creação d'um retrato physico ou moral, justaponivel +ao indeciso perfil que a leitura dos versos me acordara.</p> + +<p>Pouco a pouco porém outros informadores foram surgindo, ao acaso das +apresentações e das palestras, e agora um, outro ao depois, pequenos +traços de luz vieram vindo, á força d'indiscrição, devo dizer, que +talvez pareça violar o recato da vida intima, mas que pelo significado +ultimo d'exaltação admirativa, estou que m'o perdoarão aquelles que +como eu não pódem examinar uma obra d'arte, <span class="pagenum"><a id="page213" name="page213"></a>(p. 213)</span> senão tocando-a +e palpando-a, primeiro que se enthusiasmem da sua rareza e possam +comungar da sua singularidade e formosura.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Com os informes de todos esses confidentes anonymos, pela mór parte +amigos e para assim dizer vassallos graciosos, pude alfim reconstituir +da gran senhora a estatua arcaica, entrevêl-a como atravéz dos veus +d'um santuario, e do lado esquerdo do peito acender-lhe uma luz, que +póde ser não seja alma, mas que servirá para marcar o sitio onde bateu +um coração.</p> + +<p>Morto o marido em 1891, Carolina Coronado não consentiu, por mais que +a lei portugueza insistisse, em separar-se do cadaver. Veio a policia, +vieram os magistrados, veio o ministro de Hespanha, veio o ministro da +America, e deante de todos estes symbolos de força irrevogavel, a +varonil mulher opôz a razão absurda da sua paixão esponsalicia, a +aflição das suas saudades, e a ofegancia romantica dos seus zelos +mortuarios. Não queria que a terra do cemitério provasse o corpo +amado, <span class="pagenum"><a id="page214" name="page214"></a>(p. 214)</span> e os adorados restos deixassem um momento d'estar sob +a impressão dos seus cármes dolorosos, ouvindo-lhe todos os dias a +voz, como se sob o encanto d'ella o drama da podridão custasse menos +ao morto, e, sucessivamente exaladas do seu féretro, <i>odes</i><a id="footnotetag1" name="footnotetag1"></a><a href="#footnote1" title="Go to footnote 1">[1]</a> vitaes +pudessem vir impressionar e envolver de sugestão passional, o espirito +amoroso, supersticioso, solitario e monjil da abandonada.</p> + +<p>Como Joanna <i>a doida</i> ella acompanha, da casa de Paço d'Arcos para o +palacio da Mitra, o cadaver de Justus Perry, e á força de teimosia +imperiosa, de soluços, de suplicas, consegue alfim que as autoridades +fechem os olhos, movidas talvez pelas imposições dos diplomaticos; +quem sabe mesmo se pela feitiçaria dramatica do feito, deixando vêr +n'essa estremenha uma alma do <i>Romancero</i>, de grandiosa esculptura e +anormal poder de sugestão!</p> + +<p>Desenove annos, n'um simples caixão de chumbo, envolto em madeiras de +cedro ou <span class="pagenum"><a id="page215" name="page215"></a>(p. 215)</span> d'ebano, o corpo de Justus Perry permaneceu na +capella da Mitra, sob o fulgor perpetuo da lampada alumiando as +estatuas dos nichos e os icones dos altares: até ha poucos dias irem +os dois, marido e mulher, caminho do pantheon de familia, em Badajoz, +onde como na vida as suas nupcias seguirão, na paz do nada.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Esta casa da Mitra foi não só mausuléo de Justus Perry, como tambem da +Coronado, pois, salvo uma ou duas vezes que teve d'ir a Hespanha por +motivos de familia ou d'interesses, nunca mais a illustre mulher +deixou aquella estancia melancholica, que foi realmente o seu claustro +e o seu mosteiro.</p> + +<p>Quem passava na estrada d'aquelle laborioso e popular Poço do Bispo, +em plena turbulencia dos carros de carga, dos silvantes comboios, do +martelar das oficinas, do fumegar das altas chaminés, dos grupos de +gente tisnada e arremangada, certo não poderia supôr que por traz +d'aquellas cantarias altas e d'aquellas podridas janellas, uma +creatura <span class="pagenum"><a id="page216" name="page216"></a>(p. 216)</span> rara sofria e meditava—uma creatura d'alma +heroica, da raça das Virgens d'Avila e das Donas Marias de Molina, e +que aos oitenta e dois annos deslumbrava os amigos com a sua lucidez +desconcertante, a sua verve picaresca, a sua eloquencia de homem, a +sua belleza de rainha, e tal poder de ressurreição e recordação, que +todos os fantasmas da sua mocidade viviam e existiam <i>reaes</i>, a cada +simples apêlo dos seus dedos e estranha palavra dos seus labios, como +as ressurgiria o <i>medium</i> Egglinton, ou Eusápia Palladini, n'alguma +sessão de hermetica e telepatica.</p> + +<p>Fechada completamente para as menores sugestões e aparições +contemporaneas, não recebendo senão dois ou tres velhos amigos que lhe +fallavam do passado, não chegando sequer á janella, por uma especie de +horror aos inventos modernos e aos aspectos da multidão grosseira e +circulante, Carolina Coronado vivia como se ha trinta annos a tivessem +fechado n'uma caixa, tapando-lhe os ouvidos e os olhos para não sentir +as evoluções e reviravoltas do mundo alheio e exterior.</p> + +<p>D'aqui resultaria o que geralmente sucede aos cegos e a certos +surdos-mudos perspicazes, que á mingua de sentidos proprios que lhes +<span class="pagenum"><a id="page217" name="page217"></a>(p. 217)</span> desdobrem a attenção sobre o de fóra, vêem para dentro, <i>com +força décupla</i>; d'onde uma hyperacuidade d'imaginações, visões, uma +vida febril de sonhos e quiméras, uma sagacidade felina para induzir +de pequenas causas, efeitos mysteriosos e longinquos, que explica em +muitos, por exemplo, suas faculdades de poetas e de musicos, de +calculistas e filosofos, e na Coronado esse fulgurante poder de, em +meia hora de palestra, nos abrir perspectivas profundas, de +historiador e psychologo, sobre os meios sociaes e a gente illustre, +ou simplesmente anedótica, que ella conhecera e tratara em tempos +idos.</p> + +<p>Graças a essas faculdades cydoramicas, a esse instincto artista da +escolha de traços com que rhembrantizar e exprimir o mais intenso das +personalidades e das almas, Carolina Coronado fazia-nos viver com +emoção profunda quadros das tormentosas ou desvairadas epochas do +reinado d'Izabel II, entre 1836 e 66.</p> + +<p>Era o corregedor Pontejos, uma especie de intendente Manique, que +elegantisou e saneou Madrid com requisitos de benemerencia e energia +eguaes aos d'este, mas sem o sobrecenho despotico que a historia lhe +atribue.</p> + +<p>A aristocracia e a elegancia representando-se <span class="pagenum"><a id="page218" name="page218"></a>(p. 218)</span> pelas casas +ducaes d'Ossuna, de Liria, de Vistahermosa, de Gor, de Rivas, de +Fernan-Nunez, d'Alba, de Medinacelli, de Dénia, d'Abrantes, de Frias; +pelos marquezados de Miraflores, do Socorro, de Casa Riera, de Santa +Cruz e de Pover; pelas casas condaes de Oñate, de S. Bernardo, de +Guaqui, d'Altamira, Torre Muzquiz, etc., cujos paços disseminados pela +cidade velha, verdadeiros museus d'artes sumptuarias e riquezas, se +abriam d'inverno para sucessivas festas e saraus, e cujas mulheres +faziam ás tardes, nos desfiles do Prado e da Castelhana, nas soirées +do Theatro Real, ou nas recepções do Palacio do Oriente, revoadas +esplendidas de bellezas que as memorias do tempo deixaram celebradas.</p> + +<p>Era o tempo das primeiras emprezas d'irrigação, navegação e +ferro-carris, que acordavam em todos os paizes, na ancia de renovação +trazida pelo constitucionalismo, como um reverdecer de novas estações; +o tempo dos grandes emprestimos para expedições coloniaes e guerras +politicas, quando argentarios como Caballero, Salamanca, Ceriola, +Perez-Sevane, Calderon, Benisa y Lafont, floresciam na finança +hespanhola, como nas cathedraes os <i>monagillos</i> encarrégues, <span class="pagenum"><a id="page219" name="page219"></a>(p. 219)</span> +d'entreter o oleo das lampadas, para que a fé se não extinga, e os +deuses se não vejam abandonados.</p> + +<p>Politicos e estadistas como Arguelles, Mendizabal, Martinez de la +Rosa, Calatrava, Olozaga, Herros, Narvaez, O' Donell, Espartero, +Serrano, Prim.</p> + +<p>Homens de letras como Lista, Gallego Breton, Gil e Zarata, Lopez +d'Ayala, o poeta Quintana, o poeta Zorrilla, Mariano Larra (<i>El +pobrecito hablador</i>), Vega e Hartzennbuch, Mezoner Romanos, Pedro +d'Alarcon, Fernandez de los Rios, Cambronero, Juan Valera... Artistas +como Ventura d'Aguilera, os esculptores Llaneces e Solá, Marinas (o +autor da estatua de Velasquez), e nos seus doces <i>recuerdos</i> de +Sevilha, os dois Becquer, mortos de fome; Valeriano o pintor, e +Gustavo Adolfo, poeta d'estirpe grega, d'essencia olympica com a +delicadeza e a graça d'um Hegesipe Moreau, na fantasia lunar d'um +Nathaniel Hawtorne ou d'um Bret Hart.</p> + +<p>Ouvil-a descrever, comentar, caricaturar toda esta gente, desenhando-a +em dois riscos, caracterisando-a com duas anecdotas d'escolha, +relampejantes sempre, e sempre finas, lançando-a na <span lang="fr"><i>melée</i></span> social, +depois de que <span class="pagenum"><a id="page220" name="page220"></a>(p. 220)</span> esquissava sumariamente as essencias +directrizes e as paixões tendenciosas, era um d'estes cursos de +historia fallada, uma d'estas delicias cerebraes que davam da +narradora a impressão mais assombrosa, e induziam o ouvinte a ficar +alli a escutal-a eternamente.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Ha quatro ou cinco annos que sob pretexto de notas para uns artigos +sobre azulejaria artistica, consegui da residente illustre da Mitra +licença para percorrer rapidamente a escada e alguns salões. De +combinação, alli me esperava um amigo da dona da casa, e meu, o qual, +fingindo surpreza no encontro, me apresentaria á Egéria, ao tempo +sósinha em palacio, pois sua filha estava em Badajoz. Das riquezas +patrimoniaes da Coronado, e das acumuladas pelo marido durante as +vastas emprezas comerciaes e industriaes em que fallei, grande parte +devia ter cahido em sorvedoiro, pois tudo na residencia denotava, +senão estreiteza de meios, pelo menos um estado de finanças bordejando +de perto a derrocada.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page221" name="page221"></a>(p. 221)</span> Em 1891 a casa e quinta da Mitra tinham já sido vendidas por +54 contos a certo advogado artista de Lisboa, cujas consultas então se +pezaram a oiro, e que a Coronado trouxera ao seu serviço em não sei +que trapalhadas juridicas, demandas, pleitos, que levariam parte dos +caudaes. A escriptura de venda estabelecia a clausula de residir na +Mitra a vendedora, até final de vida, e certamente o preço da +propriedade fôra para liquidar os honorarios do causidico, e +provavelmente cobrir compromissos ou dividas que tirariam o somno á +escriptora. Ella não podia fugir á lei fatal que põe os cerebraes do +ramo artista na contingencia d'ignorarem, pela mór parte, o valor do +dinheiro, e a arte judenga de o fazer frutificar em especulações e +trafegos rendosos.</p> + +<p>A morte de Perry, pondo ponto na tutela sensata e escrupulosa gerencia +dos fundos do casal, não teria precavido a viuva, par e passo, contra +os futuros perigos de gastar sem contar, mórmente ficando as contas +entregues ao zelo incerto e enganosa honradez d'administradores e +feitores, que são bons ou máus conforme a fiscalisação a que os +sujeitam.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page222" name="page222"></a>(p. 222)</span> Está-se a vêr o mecanismo porque, morto o marido, a Coronado +transita da fartura cómoda para a escassez molesta e tragica.</p> + +<p>É sempre o mesmo, n'estes navios onde o piloto falta, e onde a +tripulação perde o respeito. Corro pois uma gaze sobre este lance da +historia, que de resto só entristeceria o leitor contra as injustiças +da vida, e passo a dizer que a minha apresentação foi captivante, e a +illustre escriptora, em quatro palavras d'aquella cordealidade +hespanhola que em cortezia familiar nenhuma eguala, pôz a minha alma +rendida deante do gesto infinitamente nobre da sua mão d'abadessa e +imperatriz viuva, que pude alfim beijar, mui reverente.</p> + +<p>Com um vestido de velludo preto, de cauda, branca de neve, os imensos +olhos de velludo molhado, que o fulgor do genio rejuvenescia no leve +engêlho das póchas orbitarias, Carolina Coronado aos 82 annos era uma +mulher alta e direita, de talhe esbelto, por ter ficado magra, e com +dois bandós nas fontes, frizados e nevados, como esses que os retratos +dão á rainha Izabel <span class="smcap">II</span> nos seus ultimos annos de Paris.</p> + +<p>Fallava um hespanhol claro e castiço, florido <span class="pagenum"><a id="page223" name="page223"></a>(p. 223)</span> de modismos +que pela graça rebuscada tinham um oloroso sabor de lingua velha; +hespanhol de provincia classica e de convento, que seria o fallado +entre a gente bem educada de ha meio seculo.</p> + +<p>Ás minhas palavras de saudação, ella, certo para atalhar o discurso, e +evitar talvez que eu me estendesse, perguntou-me se era de Lisboa; e +conhecida a minha origem transtagana e a terra de charnéca onde eu +nascera, acrescentou que então eramos quasi vizinhos, pois Villa de +Frades distaria talvez uma duzia de legoas d'Almendralejo e La Serena, +a patria da sua familia, em cujas parochias tinham banco fechado os +Romeros Tejadas e os Coronados Cortez d'aquellas terras. Envaidecia-a, +de resto a sua origem estremenha sem mistura. Ha dois sitios de +Hespanha que imprimem caracter proprio aos naturaes: Estremadura e +Aragão. D'alli teem sahido artistas, guerreiros e politicos +d'excepcional fragor e intensidade.</p> + +<p>—Se eu tinha viajado em Hespanha?</p> + +<p>Todo o hespanhol é sedentario e bairrista, porém o portuguez quasi que +o excede... De resto, para um portuguez viajar em Hespanha, é +percorrer um pouco a sua terra. <span class="pagenum"><a id="page224" name="page224"></a>(p. 224)</span> «Hespanhoes, resumiu ella, +somos todos nós, os peninsulares».</p> + +<p>E de repente, voltando-se para mim—Se eu era iberico?</p> + +<p>Cuido ter feito um gesto que, imperceptivel embora, contudo a minha +interpelante colheu, <i>al primer vuelo</i>, medindo n'elle a patriotice +chocada em leituras da <i>Filippa de Vilhena</i> e outros canastrões +theatraes archisandeus.</p> + +<p>—<i>No se moleste usted. No es mas que hablar</i>, contraveio logo com o +mais gracioso gesto d'acalmia. E foi dizendo:</p> + +<p>—Tinha sido o erro de Filippe <span class="smcap">II</span>, tão grande politico, não transferir +logo para Lisboa a capital do reino unido. Se assim tem feito, +Portugal e Hespanha estariam hoje abraçados n'uma nacionalidade unica +e pujante, o que evitaria a ambos a decadencia funesta que durando vem +té ao presente. De mais que, segundo as datas da historia fidedigna, a +perda da independencia não foi tão dolorosa a Portugal como se diz nos +manuaes para as escolas. Em toda a parte os povos mechem-se +principalmente por interesses, e os primeiros passos da dominação +hespanhola em Lisboa foram até sympathicos <span class="pagenum"><a id="page225" name="page225"></a>(p. 225)</span> á população, +sobre quem Filippe <span class="smcap">II</span> exerceu uma atracção benevola e singular...</p> + +<p>Um erro deploravel! Os nossos dois paizes reunidos ficariam na carta +com uma massa de territorio maior que a França, e as suas colonias +somadas dariam um dominio colonial superior ao da Inglaterra.</p> + +<p>Tinhamos tomado assento na ultima de tres salas que formam a parada de +recepção da residencia, e que com quatro janellas de varanda sobre a +rua, e duas janellas-portas ao terraço, tinham luz deslumbrante, em +grandes resteas de sol primaveral.</p> + +<p>Tudo no mobiliario velho e desbotados tons das braçadeiras, cortinas e +alcatifas, chorava a tristeza pudica das coisas de luxo que a penuria +assedia, e teem de morrer em serviço, como os cavallos velhos nas +carroças. Cadeiras modernas de Vienna alternavam com esplendidas +poltronas e sofás, cuja seda o sol e o roçar das cabeças fanára e +mesmo tinha esgarçado em certos pontos. Nas <i>carpets</i> de preço, gusano +e pés tinham já consumido a lã das flores e dos desenhos apparecendo a +trama em séries de cordas varicósas.</p> + +<p>A alguns moveis artisticos faltavam-lhes ferragens, precisavam ser +refrescados e envernizados; <span class="pagenum"><a id="page226" name="page226"></a>(p. 226)</span> jarras da India, sobre columnas, +voltavam para a parede os buracos e as rachas dos desastres; casaes de +pombos, livres pela casa, tinham feito ninho sob um bufete, borrando +tudo; e até, n'uma estante lindissima, os proprios livros amigos, +confidentes de dores e desalentos, até esses tinham um ar d'exilados, +e o geito de nos dizer que o seu tempo passára, e lhes doía a velhice +e as suas imensas saüdades de Madrid...</p> + +<p>De pé, na sala, a illustre senhora mostrava pela janella aberta +aquella enseada morta de tres leguas que o lisboeta chama <i>mar da +palha</i>. A outra margem silhuetava no azul sua paysagem terna e +esfumadiça.</p> + +<p>—Diga-me se isto não é a rada d'uma cidade de dois ou tres milhões de +habitantes, chave do comercio atlantico, e capital soberana da Iberia +una e congraçada.</p> + +<p>Eu por mim não queria saber da tal Iberia una, reconhecendo entretanto +que o erro de Filippe <span class="smcap">II</span> impedira talvez a realisação d'um bello sonho +de nacionalidade formidavel, enquanto na hora presente, com dois +paizes egualmente preguiçosos e incapazes, loucura fosse ajuntar +misérias que já dolorosas eram, separadas.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page227" name="page227"></a>(p. 227)</span> A enseada do Tejo é que verdadeiramente prendia os meus +olhares, vasta, amorosa, em azul pallido, listrada de correntes, e com +placas espelhadas d'agua morta. Algum vaporeto passava para +Aldegallega ou Barreiro, fumando distrahidamente o seu charuto; alguma +falúa ou barco de pesca desfraldava a véla de guião, quadrada, +vermelha com a latina á pôpa, e aquelle gesto airoso, ideal, gaivotal, +de fender a agua, patinando. Aquillo lembrava em Veneza as travessias +para o Lido, sob os esverdeados céus do Adriatico, por uma tarde assim +primaveral.</p> + +<p>Entanto, por uma escadaria de balaustres, tinhamos descido ao jardim, +do seculo <span class="smcap">XVII</span>, todo em meandros e porticos de buxo, que de resto ha +muitos annos ninguem tosquiava, e canteiros adentro mantinha uma +desordem d'arbustos sem trato, e hervas bravas crescendo á doida, como +nos pouzios da devêza, ao Deus dará.</p> + +<p>—E de leitura hespanhola, como vamos? Aventurei varios nomes de +modernos: Pio Baroja, Benavente, Rusiñol, Felippe Trigo, Antonio +Palomero, Anton del Olmet, Lopez Barbadillo, Ciges Aparicio, Isaac +Muñoz, que ella pareceu escutar sem conhecer.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page228" name="page228"></a>(p. 228)</span> —E Juan Valera? interrogou.</p> + +<p>—Conheço.</p> + +<p>—Lopez d'Ayala?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—Campoamor, Nuñez d'Arce, Menendez Pelayo...</p> + +<p>—Um pouco, um pouco.</p> + +<p>—Pereda, Galdós, La Pardo...</p> + +<p>—Sim, sim, tudo isso li.</p> + +<p>—<i>Hombre</i>, exclamou ella com uma acerada ponta ironica. <i>Es usted un +portugués mui sabionado.</i></p> + +<p>—Que quer! A lingua hespanhola tem para mim um prestigio e uma musica +que me não canço d'ouvir e de gostar. É uma lingua de guerreiros e +d'oradores, para hymnos e para suplicas, compativel com a expressão de +todos os estados emotivos. Ella sorrindo, repetia o proloquio:</p> + +<p>—Falla francez ao teu cozinheiro, inglez ao teu cavallo, alemão ao +teu cão, e hespanhol á mulher que mais te agrade...</p> + +<p>Tinhamos vindo ao cabo do jardim, e por uma porta de ferro chegamos a +um grande trecho murado de floresta ou bosque, onde a vegetação +deixada ao esbracejar liberrimo de vint'annos, apagava o torcicollo +das ruas, <span class="pagenum"><a id="page229" name="page229"></a>(p. 229)</span> emaranhando para todos os lados, labyrinthos de +folhas e de ramas.</p> + +<p>Aquillo lembrava o <i>Paradou</i> da <span class="smcap">Faute</span> de Zola, com a noite glauca dos +macissos, as lucarnas das cópas deixando feixes de luz zebrarem +d'esmeraldas liquidas os fundos. Uma aluvião de melros silvava, uma +guarda de honra de passaros respondia.</p> + +<p>Era recolhido, intimo, profundo, e ouvia-se, não sei onde, um tenue +telingar d'agua corrente. E eu lhe disse erguendo a vista áquella +intensa ablução d'asas e folhas:</p> + +<p>—Aqui se vive em plena natureza.</p> + +<p>E ella tornou:</p> + +<p>—Não. Aqui se morre em plena soledade.<span class="smaller"><a href="#toc">(Voltar ao Conteúdo)</a></span></p> + + + + +<h2><span class="pagenum"><a id="page231" name="page231"></a>(p. 231)</span> A EMINENTE ACTRIZ</h2> + + +<p>Cahiu o panno entre chamadas ovantes, gente de pé nas cadeiras, +debruçada dos camarotes, e em chusma junto ás portinhas de sahida, +acotovelando-se, clamando, <i>bravo! bravo!</i> A geral estava deserta, um +grupo ao meio da sala berrava, <i>fóra o auctor</i>.</p> + +<p>E quando elle veio de casaca, agradecer com aquelle seu geito modesto, +muito risonho e de rosa amarella na botoeira, a sala aqueceu ainda, +houve bravos, e o Moreira das magicas, enfiando o <span lang="fr"><i>pardessus</i></span>, disse +para um desenterrado de luneta, com a sua bella emphase de auctor +laureado:</p> + +<p>—Vae longe, este camello, sim senhor, vae longe.</p> + +<p>—É possivel, opinou seccamente o desenterrado, e a cabecita em +pyramide, com pellos <span class="pagenum"><a id="page232" name="page232"></a>(p. 232)</span> de rato sobre a testa, pendulava-lhe +para um lado e outro, desengonçada sobre o gasnate côr de moka. E +puxando amigo Moreira de parte, olho acceso em iras biliosas, o +<span lang="fr"><i>plastron</i></span> descosido, disse alli que a peça não tinha fundo, que o +estylo era rocambolesco, e toda a litteratura devia mirar um intuito +critico, sem o que ficaria um brinquedo de gaiatos. E que se em +Portugal o publico desprezava litteratos, e podia passar sem o que +elles exgregavam nas gazetas, a razão era taes litteratos serem mais +ignorantes, ou menos intelligentes, que a multidão a que se pretendiam +impôr.</p> + +<p>—Que damnada lingua me sahiste! dizia Moreira das magicas, com +pancadinhas d'applauso no hombro do desenterrado.—Baixava a voz para +insuflar, que em parte assim era. Todavia exceptuava muita gente. Ahi +está o José Maria, por exemplo. O nosso Mendes Leal, tão conceituado +lá fóra. E este, e aquelle...</p> + +<p>—Eu creio bem, argumentava o da luneta, que no meio d'esta sucia, por +engano, ha talento uma ou outra vez. Mas diabo! Não estamos já nos +<i>soláos</i> do Serpa, nem no <i>Conde Alarcos</i> do Cunha. Dêem alguma coisa +mais do que phrases ôcas, meus senhores! A formula <span class="pagenum"><a id="page233" name="page233"></a>(p. 233)</span> +litteraria é apenas vehiculo da ideia, e não pode tornar-se em +preoccupação, como ahi estamos vendo. Mais! Quer-se em toda a obra um +ponto de vista elevado e philosophico que a domine. Eis o que não ha +n'essas mioleiras, meu filho! Veja-me vossê o Pimentel, que esses +localistas parvos andam a proclamar nas gazetas. Idiota! E vou-lhe ás +ventas; vou! E o menino Felix de Macedo, mais o cretino Fernandes! +Ocos que nem uma cabaça, immortaloides de redacção, sem testa, nem +estudo, nem officio. Que tenho eu que vêr com tal romance ou tal +drama, com tal phenomeno scientifico ou tal processo de pintar, se +estas coisas me apparecerem abstractamente, sem uma orientação que as +filie e correlacione n'uma dada corrente—não sei se me faço entender?</p> + +<p>Com o largo aceno de quem trunca pela base a tolice humana, +estabelecia—que tudo vinha sob dependencias e condições, facto moral +ou facto physico. Tal livro é effeito do livro anterior, e causa do +posterior, como tal estado politico ou mental, derivam do estado +anterior, e preparam o que depois vier. E desgraçada a geração que por +sua anarchia psychica não sabe fazer progredir <span class="pagenum"><a id="page234" name="page234"></a>(p. 234)</span> um systhema, +assimilar um código de doutrinas, desenvolver e tornar perfeito +qualquer ideal em arte.</p> + +<p>Ás vezes, é o povo que por ignorancia repudia a lei nova; cabe aos +escriptores, aos homens politicos, e aos artistas, uma lucta sem +treguas em prol da conversão ao credo ambicionado. Eis o naturalismo +expulsando da arte os romanticos, em meio das repugnancias geraes.</p> + +<p>Mas acontece—e o desenterrado levou á parede o Moreira das magicas, +enfiando-lhe um dedito successivamente pelas diversas casas do collete +branco—acontece um bello dia, haver mais illustração na massa que no +grupo dirigente d'artistas e pensadores. Em tal caso, a massa vota +legitimamente ao desprezo aquelles nigromantes. É o que se está dando +entre nós co'a politica e litteratura. A corrupção dos partidos dá de +si...</p> + +<p>Moreira escancarava a queixada num bocejo desopilante: quando uma +rebanhada de talentos da geração novissima furou por entre os +conversadores, ao tempo do desenterrado citar Beaumarchais, Ben +Johnson, e aquelle pobre Molière, coitado! No entanto o theatro +esvasiava ao de manso. A ribalta extinguira-se, <span class="pagenum"><a id="page235" name="page235"></a>(p. 235)</span> os da +orchestra enfiavam os instrumentos em saccos de chita e erguiam as +golas para sahir. Aqui e além, nas ultimas ordens, um arrastar de +cadeiras soava ainda, vozes chamando, risos altos, e um deserto +fazia-se na sala, sob a agonia do lustre, e o cynismo do relogio que +marcava cinco horas, havia mais de sete annos.</p> + +<p>Fôra a primeira representação dos <i>Dois Rivaes na Côrte</i>, quatro actos +de capa e espada escorrendo phrases feitas n'um entrecho infantilmente +pavoroso, onde as personagens se davam o <i>vós</i> comparando-se ao +systema planetario, e reforçando os lances de effeito, com allusões +aos phenomenos atmosphericos e biblicos mais assustadores... o raio em +sua furia indomita, o diluvio, pragas do Egypto, miseria de Job... +havendo um monologo sobre a capa de José, que os <span lang="fr"><i>fauteuils</i></span> tinham +mimoseado com surdos bravos d'adhesão. A peça era estreia de Rogério, +Rogério Vasques, primo da Alcina, moço que por tão raro trabalho +tomára definitivamente logar <i>na phalange dos nossos mais talentosos +escriptores, pelo que felicitamos o nosso amigo</i>, diziam os jornaes. +Um triumpho completo, os <i>Rivaes na Côrte</i>! Critico Borbas, do +<i>Seculo</i>, tão exigente <span class="pagenum"><a id="page236" name="page236"></a>(p. 236)</span> em coisas de palco, parado no camarim +da Velledo, recitára com voz lacrimejante, no fim do acto, aquelle +bocado da separação—<i>parto, o coração me fica suspenso n'estas +paredes, testemunhas de tanto perdido amor! Só vós, ó Conegundes de +minha alma, conhecereis a fundo este báratro d'angustias, que como o +universal diluvio</i>...</p> + +<p>Ah, mas como o Taveira dizia aquillo!</p> + +<p>Dias antes, toda a litteratura em evidencia recebera do joven +dramaturgo um amavel convite de ceia na sala grande do <i>Central</i>, á +hora de acabar a primeira representação. Tinha sido um regosijo +fremente. Aquelle Vasques, bello moço, que talento maleavel, e tão +instruido! Com que então Champagne fino? Um pouco prejudicado em +preconceitos d'escóla talvez.</p> + +<p>Genial Pirralho, todo cheviote amarello, bigodeira mephistophelica e o +grande ar de Paris, tinha mesmo dito—é um temperamento. E o <span lang="fr"><i>menu</i></span> +passava de bocca em bocca.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Deixando Alcina, Rogério não foi mais o bonifrate de provincia com +preoccupações de Chiado, ares de saude camponia, e ingenuidades +<span class="pagenum"><a id="page237" name="page237"></a>(p. 237)</span> de primeiro amante. Gastára no convivio d'actores, janotas, +litteratos, cocheiros, e femeas avariadas, toda a bruteza sincera e +boa que na educação caseira adquirira. E hypotecando as ultimas +migalhas de herança, dormindo fóra, bebendo e jogando ás noites, +tornava-se pedante, depravado, amarello e pulha.</p> + +<p>O theatro d'opereta em que primeiro Alcina estivera escripturada, +tinha sido para ambos a melhor escóla pratica de malandrice e usura. +Alli, cada figurante de scena ou frequentador de camarim, dir-se-hia +passar os dias na cogitação de explorar quem apparecesse á noite com +cara de tolo. Apenas Rogério, tendo a prima por amante, começou de +acompanhal-a ao theatro todas as noites, e a fazer na ausencia d'ella, +a quem chegava, as honras do camarim, viu-se logo rodeado por uma +série de ratos de bastidor e polvos de redacção—gente faminta, +intrigante, educada a comboiar boatos, cartinhas, subscripções, +pequenas calumnias de casa d'um para casa d'outro—que ia girando +n'uma baixeza d'inveja á roda dos charutos fumados, das correntes de +relogio, impingindo bilhetes de beneficio, offerecendo-se para +alcovitar, com <span class="pagenum"><a id="page238" name="page238"></a>(p. 238)</span> pormenores de creada sobre as pernas d'uma, +os amigos d'outra, os seios d'esta e os cabellos d'aquella... todo o +arsenal de canalhice exigido em curso para tão equivoco mister. +Desengalfinhado d'esta tropa á custa de generosidades forçadas, +desprezos, empuxões, até soccos, Rogério teve de rechaçar depois uma +ciganagem d'outro genero, amabilissima, risonha, com emphases altivas, +articulando as palavras musicalmente, pondo luvas frescas todos os +dias, e tendo o nome a ouro nos annaes das lettras e das artes. Eram +os grandes actores da cidade, todos os generos e theatros, paes +nobres, ingenuas, galãs, graciosos—tenores tysicos, barytonos sem +voz, e essa variedade neutra de comediantes cognominados entre nós de +<i>conscienciosos</i> ou <span lang="fr"><i>diseurs</i></span>, que serve para tudo e goza a estima dos +auctores, em razão do merito reles que exhibe, de jámais <i>desmanchar o +conjuncto</i>.</p> + +<p>Eram tambem escriptores intermedios, <i>amanuensando</i> das onze ás +quatro, fazendo jornal das quatro ás onze, finorios chouteando na +esteira dos gabinetes corrompidos, em faro de boa posta, louvando aqui +a vaidade dos ministros, além atirando lama ás ventas dos adversarios, +em eternos clamores contra a <span class="pagenum"><a id="page239" name="page239"></a>(p. 239)</span> decadencia dos costumes, mas +rindo por dentro de tudo, tudo ouvindo, sabendo tudo, explorando com +tudo, e exhibindo-se em publico os ares de grandeza impeccavel, que +Vautrin recomendava aos Rastignac e de Marsay que lhe sahiam do +ventre. Rogério amou esta camaradagem nova, que nos seus annos de +provincia tanto admirára atravez das hyperboles dos diários. E por +influencia de contacto, relações, letras assignadas, condescendencias +d'Alcina, jantares, e uma bicharia d'assignaturas para publicações que +falliam ou não chegavam a ver a luz, acordou tambem litterato certa +manhã. Entrado na imprensa fez subir Alcina, que sem voz a esse tempo, +debandava para o drama, já tão magra e lombricoide, que não era +senhora d'engulir uma pilula, sem os jornaes a dizerem gravida de +cinco meses. Esta ligação d'Alcina com o primo durou pouco, vindo a +ser truncada apenas apresentaram Rogério á Velledo. Alcina era +ciumenta e teimosa; um nadinha infiel além d'isso! Não resistindo ás +furias de prazer exigidas pelo seu temperamento frenetico, a sua +franzina e pobre organização murchava e cahia. De manhã estava côr de +morta, seios sorvados, olheiras á bocca, olhos imbecis, e um ar +<span class="pagenum"><a id="page240" name="page240"></a>(p. 240)</span> de prostração assustador, casado com uns reflexos glaucos, +que raiando-lhe das fontes, aos cantos das orbitas, iam terminar n'uma +<span lang="fr"><i>griffe</i></span> de ruga.</p> + +<p>E vinte e quatro annos apenas!</p> + +<p>—Não bebas, muitas vezes lhe dizia Rogério, vendo-a engulir entre +chavenas de café e charutos fortes, uma quantidade de calices de +cognac. Mas ella sempre gostando. Ora adeus! Até punha fortaleza, voz +mais alta, o espirito vivo como um passaro. Depois tão petulante a +beber!... A viveza com que molhava a linguinha rutilante no licôr +esbraseado, revirando aquelles extraordinarios olhos pretos, humidos, +audazes, cheios de ganas secretas, que a salvavam ainda pelo fluido +calido em que ardiam, e de grandes que eram lhe faziam a cara +pequenina!...</p> + +<p>—Não é tudo, disse-me Rogério uma occasião no Aterro. Beber é mau, +mas perdoava-lhe, que diabo! Com o cognac porém, vieram os vicios +supplementares, que de resto não aprecio nas mulheres, nem estava para +subsidiar em proveito dos devassos que iam lá por casa. Entende vossê?</p> + +<p>Escrevia elle folhetins na <i>Gazeta do Sport</i>, chronica da alta-vida +segundo a testada, e <span class="pagenum"><a id="page241" name="page241"></a>(p. 241)</span> bastante mal escripta para se crer que +assim era. Esses folhetins fizeram-no celebre, secretario d'um gremio +d'escriptores, successivamente premiado de Mont-Real e irmão dos +terceiros. Centros de litteratura amena e critica austera, livrarias +com cavaco e sociedades com bilhar, brindaram por elle. Deitou +almanach com bocadinhos democraticos, e um juizo do anno em que era +ameaçado o throno. Lindôso, que era quebrado, e ás bancas do Martinho +maravilhava localistas myopes e uma quantidade d'aspirantes, +abraçava-o em publico com palavras de pompa. E por duzias, os albuns, +os semanarios e jornalecos de districto, reclamavam trechos d'essa +penna hilariante que gottejava sol peninsular, ortographia sonica, e +mesmo asneiras, querendo Nosso Senhor. Discutiam-no. Já lhe davam +escóla e processo de factura. Era um moderado, um joven ecletico, meio +romantico, meio positivista, com predilecções d'assumptos doces e a +ambição das finas coisas mundanas, cheio d'imagens originaes, +chispando mordentes graças, vigoroso e probo, tendo os nervos +irritaveis d'uma mulher. Na frente, como chocas, os jornaes iam +conclamando unisonos:</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page242" name="page242"></a>(p. 242)</span> —O talentoso amigo e brilhante escriptor...</p> + +<p>Uma das bellas organizações da Peninsula...</p> + +<p>Erguiam-no em rival de Lindôso, que a tantos se afigurava um prodigio +além de toda a espectativa. Festejado Peres nem dizia sim, nem não. +Deixar vêr! E o colossal Pirralho advertia que não era bom thuribular +debutantes, que podiam perder-se de vaidade, imaginando-se deuses.</p> + +<p>E n'uma vocalisação emphatica:</p> + +<p>—É o defeito dos homens do Meio-Dia, onde os temperamentos são +cálidos, e os modelos a seguir não abundam. Quando encetámos a nossa +publicação critica, era notoria a esterilidade litteraria em +Portugal...</p> + +<p>Mas Horacio fazia um passo no grupo, armado dos seus oculos de ferro, +nisa curta, um pigarrinho erudito. E cuspilhando:</p> + +<p>—Systematisemos a these, conforme o proceder do meu Comte!</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Os convidados por Rogério tinham ordem de reunir no <span lang="fr"><i>foyer</i></span>, findo o +espectaculo. A peça acabára tarde, duas da noite; e primeiro que +<span class="pagenum"><a id="page243" name="page243"></a>(p. 243)</span> a Velledo apparecesse, tiveram d'esperar boa hora e meia. +Emtanto falava-se da peça. Estava o melhor da litteratura e da arte. E +faziam-se apresentações. Festejado Peres trinta annos de dramas +historicos com applausos freneticos, rapoza velha em coisas scenicas, +conforme corria, apresentou a Rogério o grande Aurelio, uma <i>gloria da +scena</i>, interprete das suas creações, de quem Doux dissera n'um +atonismo absorto:</p> + +<p>—<i>C'est un petit prodige, ce marmot là.</i> E a phrase ficára celebre. +Aquella apresentação penhorára Rogério, que muito commovido, voz mansa +agradecia com ar modesto. Além o pensador Horacio que fazia as +primeiras carambolas na cervejaria e continuava virgem de contacto +impuro, definia a arte segundo Comte ao Moreira das magicas e +sainetes, emquanto Pirralho dizia a vida na <span lang="fr"><i>Comédie Française</i></span>, o +ceremonial d'entrada no <span lang="fr"><i>foyer</i></span>, e como Croizette era a musa dramatica +moderna. Bulia em volta a ninhada <i>d'esperançosos</i> côr de cidrão, +ganymedes que se davam ares, corcovando a espinha e rindo alto das +facecias do mestre, com o faro na ceia offerecida. E o mestre +esfogueteava pela sciencia em citações vehementes, fuzilando, +causticando, <span class="pagenum"><a id="page244" name="page244"></a>(p. 244)</span> vibrando a nota heroi-comica, que na sua proza +fazia o delirio dos discipulos e a admiração do publico. Reinava +grande cordealidade. Pae nobre Tiburcio, que desde o desastre da +<i>Filha Roubada</i>, não falava ao inflexivel Borbas, veio lacrimoso +abraçal-o pelas costas. E em volta acharam bonito, e houve beijos como +entre damas. Rogério ia radiante por todos os grupos, abraçado, +elogiado, n'uma effusão d'intimidade que lhe punha o coração nas mãos. +Não se ouvia á sua passagem senão palavras quentes, bocados de critica +enthusiastica: a maior vocação, o mais extraordinario dramaturgo entre +os modernos, um dos maiores da Peninsula—e explendidissimo, +scintillantissimo—e como Sardou, e como Dumas filho, e como o velho +Augier... Os famintos tiravam o relogio, chamavam-no de parte, +davam-lhe tu, relembrando que tinham andado no mesmo collegio, muito +amigos sempre, não te lembras? Mas quem diria! Rogério, o 34, tão +enfezadito de cara, cheio de zeros em <i>portuguez</i>, e sahir-se agora um +escriptor d'aquella alçada! Elle a todos dava uma boa palavra, pedindo +opiniões em separado sobre a peça; o que esperava era franqueza, visto +não arder nos orgulhos <span class="pagenum"><a id="page245" name="page245"></a>(p. 245)</span> balofos de certas sumidades. Moreira +tinha-lhe achado grande fundo historico, côr local como o diabo—sim +senhor—e que pena terem cortado o sarau do terceiro acto! De resto +afigurava-se-lhe D. Fagundes o seu tanto herético para uma plateia de +damas. No theatro, na escóla e no templo, a religião primeiro que +tudo: já Garrett o escrevera. Bem sabia que o espirito moderno... E +muitos parabens.</p> + +<p>Mas festejado Peres, saracoteando a nalga roliça:</p> + +<p>—Meu Rogério, disse elle cingindo o dramaturgo, has-de conceder-me, +conceder-me, que tenha a sciencia do drama historico... drama +historico... tão descurada pelos rapazes de hoje, rapazes de hoje... +Já o fiz saber no prologo da minha <i>Duqueza de Bragança</i>... de +Bragança. Eu cá, escrupulosissimo no theatro. Será casmurrice, eh! eh! +casmurrice... mania de velho; deixal-o ser!... Hein? deixal-o ser. +Missonier, antes d'algum quadro militar... quadro militar... até +estudava os botões dos fardamentos... eh! eh! dos fardamentos. Eis +onde eu levo o escrupulo tambem... E o publico dá palmas... dá palmas. +Posto isto, e como teu amigo que <span class="pagenum"><a id="page246" name="page246"></a>(p. 246)</span> sou... teu amigo... sempre +direi que commetteste um crime de lesa historia... eh! eh! lesa +historia... pondo compota de pecego no festim de Januario de +Mendanha... compota de pecego.—E de chapéu alto para a nuca, as +orelhas despegadas do craneo, o grande homem recordava um d'esses +burros com mitra, arrancados ás <i>festas dos doidos</i>, nas cathedraes da +Edade Média.</p> + +<p>—Pelo correr do seculo quatorze... seculo quatorze... proseguiu elle, +não era conhecida no reino aquella doçaria, conhecida no reino... que +só remonta ao ultimo quartel do seculo dezeseis, eh! eh! seculo +dezeseis... Consulta Viterbo, fr. Bernardo de Brito, o abbade Castro, +abbade Castro... Este pormenor não é futil, como parece, futil... +porquanto é da compota de pecego, da compota... que sáe a grande scena +do terceiro acto, a grande scena... aliás magistral, sem favor, +magistral! Linguagem vernacula, linguagem Herculano... lá isso sim, +meu velho, isso sim... Falta talvez o fundo historico, eh! eh! fundo +historico... vacillações na côr local, hein? côr local... Mas és novo, +coisas d'estas só veem na minha edade... na minha edade. E aqui para +nós, hein? para <span class="pagenum"><a id="page247" name="page247"></a>(p. 247)</span> nós. Vão sendo horas de manducar uma bucha, +manducar.</p> + +<p>Rogério ardia por ouvir Borbas, e sobre todos o desenterrado, Lindôso +de nome, critico d'altos processos, por muitos calumniado de precoce e +viridente genio das raças modernas, o manitanço! Mas sentiu-se um +<span lang="fr"><i>froufrou</i></span> de sedas no escadim doirado do <span lang="fr"><i>foyer</i></span>, e uma voz argentina +e alta em que dominava o grave, disse duas vezes ou tres, +risonhamente:</p> + +<p>—Boas noites, boas noites!</p> + +<p>Era a Velledo. E atraz d'ella pelo braço d'actores, maridos ou coisa +parecida, outras actrizes se mostraram, a Laura, a Elisa, a Maria +Freitas... Os trens esperavam á porta do theatro. Falando ao mesmo +tempo, n'uma alegria de boa gente que alarga o coração, essa sociedade +foi abandonando o <span lang="fr"><i>foyer</i></span>. Havia de todos os generos, modestos, +espirituosos, eruditos, familiares, calemburistas, os de má lingua, os +de má fama, e trambolhos lyricos, gente infeliz ao jogo e fanada de +orgia. Aprumado e grandioso, ia Pirralho no meio dos seus discipulos, +citando descobertas e ramos de sciencia que mais peso causavam no seu +caco de homem celebre, pelo arrevezado <span class="pagenum"><a id="page248" name="page248"></a>(p. 248)</span> das designações, +forçando os contrastes, e querendo achar a nota original das coisas +por um burlesco d'encomenda. No alarde d'erudição e individualidade +que o preocupava, as citações saltavam-lhe aos magotes, desordenadas, +occasionaes, n'um fogo d'artificio a duas côres. Ás vezes calava-se +interdicto, circunvagando as lunetas, na desconfiança de haver sido +vulgar como a outra gente. Mas rodeavam-n'o para algum paradoxo +applaudido, farejavam-n'o os discipulos por todos os lados, inquietos, +com a gargalhada prestes, tendo nos olhos piscos o deslumbramento das +gravatas do grande homem, os seus sapatorros inglezes, e o largo gesto +que parecia ceifar de roda as mediocridades que de longe vinham +recolher palavras da sua bocca de semi-deus.</p> + +<p>De seu lado, o desenterrado Lindôso abotoava modestamente o casaco de +botões recomidos e cotovellos surrados, não tendo ainda <span lang="fr"><i>coterie</i></span>; e +humilde, olho aceso, faulhava d'inveja sobre os que iam de braço com +femeas, sentindo as primeiras seccuras do amor vicioso. Então foi um +movimento alegre de partida, um borborinho de risos e vozes que já não +procuravam entender-se. As senhoras carregavam <span class="pagenum"><a id="page249" name="page249"></a>(p. 249)</span> sobre a +fronte os capuzes das <span lang="fr"><i>sorties-de-bal</i></span>, rendas de froco, ou simples +tules picados de abelhas de oiro; e pela escada, apanhando os vestidos +n'um desleixo provocante, mostravam meias de seda bordadas de lado, e +esses primeiros lineamentos da perna, que lembram contornos de jarra +etrusca, pela expansão esvasada e alta das curvas. Laura, uma loira +redondinha que findava o primeiro amante, borboleteava pelo braço do +festejado Peres, cujos sessenta mantinham pretensões ainda de +galanteria e elegancia. E a cada passo ella deitava-lhe a cabecinha no +hombro, mostrando os dentes miudos. Maria Freitas era uma grande +morena, esqueletica e muda, a quem davam papeis de velha, para que +sempre tivera vocação. Não tinha amor permanente, e como quartos +d'estalagem, alugava a quem vinha, o seu coração hospitaleiro. Entanto +as collegas toleravam-na, porque apesar de tudo era util, e pelo +contraste fazia as outras virtuosas. Declinando nos quarenta e cinco, +os olhos de Elisa começavam a turbar-se, cercados de pequeninas rugas +nas palpebras, como os dos papagaios moribundos: e apenas lá longe, +nos dias de crise frenetica, se incendiam ante collegiaes <span class="pagenum"><a id="page250" name="page250"></a>(p. 250)</span> +frescos, d'ar timido e riso doce. Era uma gorda pintada de branco, +cheia de signaes, grande talento de comedia, e tendo pelas mulheres o +desprezo d'um homem. E o cortejo ordenava-se, desfilando direito á +rua. Rogério deixára-se ficar, na esperança de dar o braço á Velledo, +que tambem aguardava o quer que fosse. E quando ia offerecer-se, viu-a +voltar-se contra o brasileiro, pôr-lhe no hombro a mãosinha calçada em +luva de canhão molle, a dizer-lhe com a bella voz de scena:</p> + +<p>—O meu amigo será bastante bom para me deixar o seu braço?</p> + +<p>Ficou attonito a semelhante desfeita! Quanto por ella tinha feito era +sem preço—a ceia, o drama, as <span lang="fr"><i>toilettes</i></span> d'apparato... E enxotado! +Mas jurou alli mesmo uma desforra estrondosa. Quando chegou á rua, já +toda a sociedade se estava armazenando nos trens. Elisa abandonára os +velhotes que a tinham comboiado escada abaixo, para n'uma velha tipoia +se enroscar entre os seus ricos frangãos da geração moderna, aos +empurrões em pae Tiburcio, e mandando á fava a historia brejeira que +elle insistia em contar-lhe. Maria Freitas installou-se nos joelhos de +<span class="pagenum"><a id="page251" name="page251"></a>(p. 251)</span> Moreira, n'um pequeno <span lang="fr"><i>coupé</i></span> d'aluguer, á direita do +festejado Peres, e á esquerda d'um revolucionario côr de melão, que +insubordinava Alcantara com discursos socialistas. No meio da rua, +mordendo o bigode com melancholias de birrento, Rogério procurava +companhia de mulher, olhando quem se ajoujava nos trens. Viu Borbas +estender os braços de dentro d'um carro, e puxar Laura, a quem genial +Pirralho, dizendo-se Hamlet, chamava a sua pallida Ophelia. De duas +carruagens ou tres, vozes chamavam brejeiramente a rapariga; e como +doida, ella ria de cabeça para traz entre os desavergonhados, +debatendo-se na furia dos abraços. Hirto como um lacaio, o brasileiro +escancarava a portinhola d'um bello carro de noite, servido por +cavallos claros, e moços de taboa aguardando de pé que ella entrasse. +A eminente actriz circunvagava a vista em procura d'alguem. Como +Rogério se tinha approximado um pouco, á semelhança d'estes cães +batidos que veem de rastos para o dono, ella, n'um rir cascalhado, +disse-lhe assim:</p> + +<p>—Ouvi que não tinha gostado do meu desempenho no segundo acto. Um +homem difficil, o senhor. O monologo então, detestavel! Mas <span class="pagenum"><a id="page252" name="page252"></a>(p. 252)</span> +podia ter-m'o ensaiado, com o seu ponto de vista.</p> + +<p>—Mas, atalhou o pobre auctor balbuciante, eu não disse...</p> + +<p>—Se a peça tem musica, foi ella dizendo com volubilidade, quem fazia +uma creação unica, por certo, era a prodigiosa Alcina. Sua prima! E a +proposito. Que faz <i>isso</i> agora?</p> + +<p>—É cruel o que está a dizer.</p> + +<p>—Justiça ao merito e mais nada. Assim, prejudiquei-lhe o debute... +Que infeliz eu tenho sido com os genios d'incubação demorada! Talvez +inda arranje um remorsosinho por tanta incapacidade.</p> + +<p>—Lá se lhe é agradavel fazer-me soffrer...</p> + +<p>—Diga á Laura que tem logar aqui. Ella só—e como elle aventurava +desculpas n'um tom de collegial submisso:—mau! perdemos tempo.</p> + +<p>Rogério foi chamar a ingenua, que parou logo de rir, e sem dar boas +noites aos que pensavam detel-a, veio lesta anichar-se no carro da +Velledo; e foi em surdina uma altercação entre as duas. O brasileiro +atirou a portinhola, e rodaram sem fazer caso de Rogério. Quando um +pobresinho gemeu ao pé do dramaturgo:</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page253" name="page253"></a>(p. 253)</span> —E eu?—Era o pensador Horacio tiritando sob a nisa rapada, +com olhos de fome e gestos vasios de mãos.</p> + +<p>—Que é? perdeu o capote? disse Rogério distrahidamente.</p> + +<p>—Não acho logar, meu bom amigo.</p> + +<p>—Pois enfie por ahi, grande massador.</p> + +<p>—Ponhamos a questão nos devidos termos, ia começando o desgraçado. +Enfiar seria...—mas Rogério agarrou-o pelos fundilhos, ergueu-o do +chão vigorosamente, e arrumou com elle para a almofada d'um cocheiro.</p> + +<p>—Nós cá, pronunciou Lindôso dando o braço ao dramaturgo, iremos a pé, +ha tempo de sobra. E venha de lá um charuto ao seu amigo, venham de lá +dois!</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>—Não me dirás, começou elle, porque razão pouzam com tamanha filaucia +estas sirigaitas d'actrizitas, que segundo parece, fazem a honra de +ter por mim o mais tocante desprezo? Que diabo! Antinoüs não era +positivamente meu pae. Mas sinto-me bastante feio para ser sympathico +a uma mulher; e a lingua em que solicito d'ellas algum favor +pequenino, <span class="pagenum"><a id="page254" name="page254"></a>(p. 254)</span> pequenino, é um portuguez todo metaphoras côr de +ceu, e com o agridoce das ginjas garrafaes. Já digo, é-me odiosa a +meia mascara. Mulher completamente honesta, ou então mulher +completamente perdida. Nada de meios termos! Contempla agora tu o +monstrosinho defecante que se chama a femea dos nossos palcos, especie +de tatu dessorado e desgeitoso, que nem arte põe no prazer, nem teve a +coragem de se conservar intacta de culpa. Borbas garante, que nunca +alguem primiu polpa de actriz luzitana, donde não sahisse logo +algodão, palha de centeio ou cautchu. Olha que ha-de ser do clima.—E +depois de um silencio—Dize cá. De que ceu artistico choveu esta +Velledo, a quem dizem tanta coisa em superlativo? Mas tem o ar d'uma +maritornes, essa dona, meu filho! Hombros, talvez, não discuto... Mas +como artista, é uma tragica de feira. Mulher boa para sophá d'um +pernambucano. E concedamos-lhe que encha Alpalhão d'assombro. Mas +d'ahi ao talento, que insondavel abysmo vae!...</p> + +<p>—Eis o que eu digo tambem, notou Rogério, picado.</p> + +<p>—Pois meu filho, o asteroide dispõe do mais quantioso orgulho, que +tenho visto <span class="pagenum"><a id="page255" name="page255"></a>(p. 255)</span> fazer teia em cabeça oca de mulher. O modo de +receber então. Lembra a rainha Dobrada, esposa de S. M. Termo tinto, +dando beijamão aos aguadeiros. Eu vivo retirado, e não tinha ainda +podido escutar tamanho obelisco dramatico. A tua peça arrastou-me, não +admira, arrastou-me. Pois querido, agradece-lhe, estragou-te a obra, +comprometteu-te, achatou-te. Cuidas que és ainda o Vasques? Mas não! +Estás feito n'um pataco macanjo.</p> + +<p>E como o outro ria, o desenterrado proseguiu:</p> + +<p>—O segundo acto então, fez-t'o ella em frangalhos. Que falta +d'intenção, que <span lang="fr"><i>gaucherie</i></span> de piso scenico, que berros e que +tregeitos de maritornes! Castello Picão e Rua das Trinas <span lang="fr"><i>jouant la +duchesse</i></span>. E todavia ha n'esse acto um monologo, artificial como +reconstituição historica, porém habilmente instrumentado como +crescendo d'estylo.</p> + +<p>—Ah, reparaste? disse o outro animando-se. Estragou-m'o ella. Imagina +que acaba de me passar uma sarabanda em fórma, só de me vêr frio no +fim do segundo acto. Sabe que me faz doido de desejos, abusa d'esta +fraqueza, e dia por dia, hora por hora, me tortura. <span class="pagenum"><a id="page256" name="page256"></a>(p. 256)</span> Se lhe +vou dizer qualquer coisa, é capaz de não representar mais a peça.</p> + +<p>—Eu a arranjo, deixa tu estar.</p> + +<p>—Diabo! não lhe vás para ahi dizer...</p> + +<p>—Homem, não ponhas a tua cubiça pela femea acima do teu amor pela +arte. Ou se é artista ao sacrificio, ou se muda de rumo. Zurzamos esta +corja, que ha tudo a ganhar com a campanha. Porque emfim! Dirigimos +nós ou não dirigimos a opinião? Sendo assim, não te parece crime sem +fiança estarmos tolerando a desmoralisação que ahi se vê por todos os +ramos litterarios? Mas onde vai isto parar? A nossa lingua acanalhada +d'estrangeirismos parvos e inuteis. O bello ideal de Garret, colhido +no elemento tradiccional, posto de banda. Um tropel de cavalgaduras +colligadas pelo rèclamo, tolhendo o passo aos talentos validos. +Litteratura ingloria, atravessadiça e somnambula. Litteratura filha de +paes incognitos. Peste! insistia, cuspindo, o desenterrado—e +animando-se:</p> + +<p>—O quadro é flagrante, e não necessita de Taines nem Paulos Bourgets +para o tracejar. Basta vêr o que se passa. Por toda a parte jovens +espinafres nos declaram em sonetos e odes, como acabam de dissecar as +amantes, e <span class="pagenum"><a id="page257" name="page257"></a>(p. 257)</span> deitar por terra as religiões e as sociedades. Na +mascarada dos poetas originaes (supponhamos) vão uns com dominó de +Byron, outros de Musset, Baudelaire, Heine ou Coppée. Sahem do +collegio já desesperados, blasphemantes, com o <i>fatal amor</i>, as +ambições e os cynismos dos caracteres opprimidos pelas ferocidades da +vida social, que á nascença lhes houvesse esmigalhado os rompantes. +Alguns deitam-se a interrogar a historia, philosophias, podridões de +sepulchros...</p> + +<p>Pensadores que não pensam nada: archeologos capazes de reconhecer +etruscos nos cacos que os barris do lixo patenteiam á porta das +escadas—e apenas um ou outro nome clareia na bancada onde esphacelam +uns de cachexia, e idiotisam outros na adoração da propria <i>chateza</i>. +Necessario pôr em armas um forte cordão de tropas, que preserve d'um +tal contagio o resto da gente limpa. Por mim, insurjo-me ámanhã: os +valentes que me sigam! O theatro sobretudo, ergamol-o da bestificação +em que jaz. Se não ha quem produza bom, resuscitemos os velhos, como +em França. A <span lang="fr"><i>Comédie</i></span> dá Molière, Racine e Corneille duas vezes por +semana. O mesmo nas <span lang="fr"><i>matinées</i></span> do Odéon. Não prestam os artistas? É +derribal-os, reconstruil-os, <span class="pagenum"><a id="page258" name="page258"></a>(p. 258)</span> ou educar artistas novos. +Forçados a dezenas de papeis differentes no espaço d'uma <span lang="en"><i>season</i></span>, os +actores não profundam papel nenhum. Os nossos escriptores de theatro, +por outro lado, entretidos a esquissar palhaçadas sem graça nem +coherencia, estão inaptos para traçar um typo de fortes linhas e +energia contornadora, que o comediante revista e agite co'a sua +personalidade. E chegamos a isto—Borbas empunhando o sceptro da +critica dramatica, e o borrachão do Peres arvorado em, galvanisador da +historia no palco portuguez. A culpa teem-na vossês—distinguindo +actores que nem sabem virgular o papel, formando <span lang="fr"><i>traine</i></span> nos camarins +das estrellas faceis, indo de rastos para os comicos lhe representarem +as peças: tolerando n'uma palavra, o jugo dos idiotas coifados de +pontifices. Inda mais. O espirito das plateias está grosseiro: pouca +vibratilidade, nenhum prazer ante as finuras do dialogo, emoção n'uma +só corda... D'onde resulta que a <span lang="fr"><i>ficelle</i></span> mais decrépita, um berro +d'imprecação, um esgare terrifico no fascias, qualquer mutação vocal +ou passo enfatico contra o tyranno, alarmam a turba e tocam a rebate +no sino grande da ovação. Tudo que fôr delicado, nervoso, +reconditamento ironico, <span class="pagenum"><a id="page259" name="page259"></a>(p. 259)</span> escapa a essa frandulagem +<span lang="fr"><i>d'arrière-boutique</i></span>. Eis o resultado de trinta ou quarenta annos +d'arte roubada aos dramalhões da <span lang="fr"><i>Porte-Saint-Martin</i></span>, mal traduzida, +mal representada, mal criticada; elaboração sezonatica +d'escrevinhadores que não souberam comprehender a obra inicial de +Garrett, e continual-a, muito menos. Em França, o theatro romantico, +brilhante e fecundo, inda agora impera, e está truncando a via ao +naturalismo no palco, attenta a persistencia do gôsto publico pelas +violencias dramaticas, pelo talho geometrico dos actos, e essa rara +habilidade no <span lang="fr"><i>savoir faire</i></span> que caracterisou sempre a escóla, desde +Casimiro Delavigne a Feuillet e Dumas pae. Não dá a impressão d'um +trabalho de genio, esse theatro, mas é cheio d'arte e vigor, e +comprehende-se a febre que o incende, e lateja-se na incoherencia e na +furia que o convulsionam. Sardou e Dumas filho representam a +transição, inda dubia e pallida, para o naturalismo continuador de +Molière e Ben Johnson, d'onde brotará talvez o jacto arterial que +avivente a scena, decadente em nossos dias.</p> + +<p>—Mas os novos... tornou Rogério afagando na mente o drama que fizera.</p> + +<p>—Entre nós levaria a palma quem soubesse <span class="pagenum"><a id="page260" name="page260"></a>(p. 260)</span> continuar Garrett. +Somos um povo sem drama intimo no presente, um povo cuja vida não tem +caracteristicos, e onde os temperamentos fallecem d'originalidade. +Quadro de natureza morta. Por conseguinte, o nosso theatro terá de +viver do passado. E que passado! Artista que o assimile e insculpa +sobre a scena, precisa ser ao mesmo tempo colosso e homem de genio, +pois tem de crear figuras mais altas que a flexa de Strasburgo. Queres +a verdade? Palpei hombros de titan no teu talento, esta noite. Só tu +poderás resuscitar o nosso palco.</p> + +<p>Rogério tinha-lhe logo cahido nos braços, lacrimoso, dizendo coisas +commovidas.</p> + +<p>—Mas que trabalho de cem sabios e vinte artistas, se quizeres levar a +cabo essa incontestavel vocação! Terás de estudar a historia pedra a +pedra, ruina a ruina, figura a figura, pergaminho a pergaminho; +critical-a, sentir-lhe o lado artistico á luz d'uma philosophia +profunda; insuflar-lhe a alma, calor, pulsação; e ir pelas ruas +depois, em busca de comediantes, a arrancal-os d'onde elles estiverem, +pelas officinas, pelas prisões, cavando batatas na courella d'um +padre, ou vendendo agulhas com o pregão d'um belfurinheiro. <span class="pagenum"><a id="page261" name="page261"></a>(p. 261)</span> +E educal-os por tua conta, á tua vontade, sob o teu ponto de vista e o +cyclone da tua inspiração. Para que ao vermos em scena as tuas +figuras, rei, conspirador, frade, princeza e pagem, não tenhamos de +berrar—bem vos conheço, heroes de tal seculo! Esse ahi é o Miranda, +que tem varizes nas pernas e bebe aguardente na tasca do <i>Ferra +Moscas</i>; essa altiva rainha esmagando o cofre de perolas d'el-rei de +Castella, é nada menos que a Joaquina, que leva pancadas do amigo, e +ata as meias com uma guita, a meio da barriga das pernas. Passa fóra, +ó reinadios! Mas sem lisonja, sem a menor lisonja, a tua peça respira +enormissimo ta... pois esqueci-me de pagar os juros na <i>Exactidão</i> +esta tarde, disse o desenterrado subitamente, quando iam a voltar para +o Alecrim. Leilão amanhã.</p> + +<p>Perco tudo, nao tem que vêr.—Era a roupa branca da mulher, o seu +vestidito de sahir, coitada!... e chailes, um prussiano acabado de +fazer... Tudo para pagar remedios de botica. Terrivel coisa a miseria! +Dias de jantarem café. Se emprestasses quatro libras até amanhã...</p> + +<p>A assaltada fôra um tanto brusca, pois Rogério parecia lento em +esportular a quantia <span class="pagenum"><a id="page262" name="page262"></a>(p. 262)</span> implorada. Então começou o desenterrado +uma cantilena gosmada entre o cuspilhar do charuto, que ora se perdia, +em divagações lyricas, ora habilmente voltava a frizar certos detalhes +de intuito prático. E disse as duras precisões do seu lar, essas +grandes batalhas tenebrosas da miseria que não pede esmola, e os +frenéticos sacrificios do talento amordaçado pelas conspirações do +silencio. Rogério inda duas vezes fez—homem, é que... homem, é +que...—mas engasgava-se, achou-se somitego, considerar-se-hia odioso +se recusasse aquella miseria a um amigo; e ao fim de dez minutos tirou +a bolsa.</p> + +<p>—Quatro é que tu dizes, não?</p> + +<p>—Ou cinco... ou seis... ou sete... ia dizendo Lindôso, e Rogério +deixava cahir cada moeda por sua vez—talento, muito talento expendido +a mãos plenas pela tua peça. Lá isso! Selvageria, furias +shakesperianas, sim! A vertigem da execução prejudica sempre a lucidez +do problema. Cinco... seis... É o sonho tenebroso e dantesco, com +sobresaltos e recahidas, que sacode pelos hombros os personagens do +Hugo. Um positivista, juntava elle n'um riso pallido de caloteiro, +deve proceder com mais sangue frio. Sete... obrigado, salvaste-me.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page263" name="page263"></a>(p. 263)</span> —Vê se queres mais, menino...</p> + +<p>—Não. Outra vez. De todo me tinha esquecido pagar esta +insignificancia. Deita mais esses meudos. Os pequenos precisados de +botas... Diz que querem vêr a tua peça. Oh a infancia! E fechou a mão +que estendera ao dinheiro.</p> + +<p>—Verás o meu artigo. Comparo-te aos mestres, não has-de ter razão de +queixa. E subiu á casa de prego, que era na sobreloja, á esquina, com +a sua lanterna de tres gumes, dizendo: <i>Exactidão, penhores, juro +modico</i>, emquanto Rogério esperava mordicando o charuto.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Dias e mezes correram, sem que realmente as relações de Rogério com a +artista adeantassem muito. O pobre auctor sentia-se exhausto de +ceremonial, perdia tempo em declarações, não largava o camarim com +presentes de flôres e versos da melhor fabrica; mas fitando a grande +Velledo nas pupillas, não via n'ellas fuzilar essa scentelha brusca +com que a mulher reclama a intimidade de um homem. E dia a dia, como +ella lhe escorregava dos braços, como uma cobra, cada vez mais +astuciosa, <span class="pagenum"><a id="page264" name="page264"></a>(p. 264)</span> o desejo d'elle parecia congestionar-se +d'infrenes ardores, a cada repulsa soffrida. Ia sendo tempo de se pôr +á vontade com ella, de se conhecerem de perto—Rogério tinha pouco +geito para lunatico. O amor platonico era irrisorio á sua alma de +provincia, positiva em negocios, e acostumada a satisfazer de prompto +os apetites que lhe vinham. Por mais porém que fizesse, para aos +frequentadores do camarim parecer na intimidade da artista, não ouvia +rosnar em volta, da supposta ligação. Ella via-o chegar como aos +outros, apertava-lhe a mão com um pequeno riso, fazendo telintar os +braceletes.</p> + +<p>—Bem, meu caro?</p> + +<p>E continuava a palestra interrompida. Depois a correcção exigida ao +penetrar n'aquelle camarim. Vinha-se de cabeça descoberta, cortejal-a +com grandes reverencias. Os homens não fumavam. Uma palavra familiar, +uma graça mais núa, transmutavam na côr as iris da divindade. E +nenhuma familiaridade antes de se ter sido apresentado com as formulas +mais puras do estylo. Porque era de saber que se tratava com uma +mulher superior, a primeira actriz portugueza, astro, deuza, musa do +drama, Rachel, Sarah, M.<sup>lle</sup> Mars, <span class="pagenum"><a id="page265" name="page265"></a>(p. 265)</span> e as mais chapas +consagradas n'este genero d'apotheoses. Depois, mulher do mundo, +espirito de duqueza á Balzac, leituras finas, e seriedade de porte, +dizia-se, não vulgar entre lonas pintadas. Era d'estas mulheres de +scena afinal, corrompidas d'espirito e gastas de sensibilidade, pelo +habito de fingir, representar ao vivo, e pintar tudo, labios, +cabellos, sentimentos. O abuso de cosmeticos, estragando-lhe a +epiderme da face, prohibira-lhe as transparencias do rubor, que na +mulher mesmo velha, são a juventude eterna da alma—ao tempo que os +papeis violentos, embotando a sua vibratilidade, lhe não deixavam já +sentir as coisas originalmente e por si proprias, como se cada +sensação sendo um dedilhar de corda eolea, ficasse impossivel, estando +esta corda partida. Como todo o artista fatigado, a Velledo só +obedecia agora aos moveis extremos, o interesse, o orgulho, um vicio, +um desejo, sentindo desprezos pelo mais. Tudo era n'ella preparado +scientificamente, ensaiado, solemne, feito de cór—um papel, um +sorriso, uma generosidade, um cumprimento. Aos trinta annos percorrera +já tudo na vida, os cimos e baixos fundos torvos, onde as podridões +são pictorescas; bambochas de fabrica; mancebias <span class="pagenum"><a id="page266" name="page266"></a>(p. 266)</span> d'acaso, em +aguas furtadas, com estudantes e carpinteiros; fomes de palmo, +pantomimas de feira, noites sem leito... todas as escoriações do vicio +caloteado e baixo. Teve um filho aos quinze, de que já não sabia aos +dezoito. E pancadas, figurou no livro das prisões, foi bailarina e +creada de hospedaria. Agarrada para povo n'um dramalhão de apparato, +uma noite em que vagueava á busca de homem, entrára a crescer. O ponto +levou-a para casa, o ensaiador achou-lhe geito; dois ou tres +noticiaristas entraram com referencias á <i>novel artista</i>. E engrossou, +encheu de hombros, fez-se mulher; e este viver a fôra curtindo, +ficando-lhe o frio olhar calculista, que farto de se vêr explorado e +cuspido, tudo agora revertia em proveito proprio. A sua belleza, +embryonaria aos quinze, eflloresceu após o primeiro filho em +exhuberancias mimosas e brancas, e delicados tons de face. Aos trinta +annos, levando uma existencia tranquilla, boa meza, dois cavallos, o +palacete da Graça, e brasileiro para <span lang="fr"><i>argent de poche</i></span>, Velledo era +uma mulher alta, branca, sólida, admiravelmente moldada. Isto dava aos +seus grandes gestos de drama, pomposos á força de convencionaes, uma +soberania e relevo que eram <span class="pagenum"><a id="page267" name="page267"></a>(p. 267)</span> o furor do corpo commercial, +brasileiros de volta, provincias e ilhas, todo o paiz inda rançado em +banhas lyricas e sentimentaes tradicções. Nenhuma d'esse tempo possuia +olhos, hombros e braços como a Velledo. Gentes decahidas por edade ou +excessos, iam ouvil-a de rainha, princeza d'isto ou d'aquillo, +Fernanda, Magdalena de Vilhena ou Morgadinha, a galvanisarem-se e +readquirir tom, pela excitação ou deslumbramento da sua voz dizendo +tiradas pomposas, ou d'essa extraordinaria carne extravasando em +maravilhas plasticas. N'uma cidade como a nossa, onde as mulheres +filiformes e glaucas lembram bichos de seda na muda, aquella magnifica +e authentica mulher fazia imperio e dava cubiça, mesmo assim fria de +mascara, e parecendo viver fóra de scena a eterna insomnia das +estatuas. Não era muito talento, mas os gestos salvavam-n'a, depois de +se haverem salvo pelos braços. Os amantes tinham-n'a feito distincta, +linha de princeza, uma graça real a receber os que promettiam, nenhum, +titubiamento em <span lang="fr"><i>tête-à-tête</i></span>, e esse vestuario esmanchado, cheio +d'exquisitice, um pouco doido e pictoresco, que as aborrecidas +inventam para se distrahir.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page268" name="page268"></a>(p. 268)</span> Succedia andar ás aranhas n'uma peça, não tendo percebido +palavra do papel, gaguejando se o lance queria vehemencia, rindo se +exigia dolorosa gravidade, avançando em vez de recuar, partindo as +tiradas, surripiando phrases ás outras personagens, e compromettendo +os collegas, na espectativa de fazer quebrar a empreza.</p> + +<p>Apesar do fanatismo pela diva, o publico esfriava, torcia-se na +plateia com bocejos somnolentos, errando a vista pelos camarotes, com +tossinhas de gato, errantes, communicativas, e esse leve rojar de pés, +que perturba de morte os actores, e tem feito o <i>de-profundis</i> de +muito drama e comedia. Contra inanição semelhante, era conhecido no +palco o efficaz revulsivo. Dos bastidores, o emprezario mandava á dona +Eulalia trouxesse o corpete depressa. A costureira vinha a correr com +elle, emquanto o emprezario, baixinho, para dentro de scena:—<i>sss</i>... +giralda!—Signal para a Velledo desertar de scena, mesmo cortando a +situação, e fazendo falhar o pathetico do lance. E mesmo alli a grande +artista mudava de trajo, envergando o famoso corpete azul, uma nudez +como qualquer outra. Reduzia-se n'um cinto applicado a Bruxellas +<span class="pagenum"><a id="page269" name="page269"></a>(p. 269)</span> finas, e servindo nas occasiões desesperadas, desde que +estava eminente o fiasco. Applicava-se no publico como um sedenho ou +um caustico, no intuito de suppurar ovações. Apertada n'elle, a grande +Velledo ficava pouco menos de núa, contando bem da cinta para cima. +Corpete de fatal origem e luctuosa historia! Tinha-o inventado o +octogenario marquez das Berlengas, um galante da <i>sociedade do +delirio</i>, que pelos modos se enfeitava, quando certa madrugada nos +braços d'ella se sentiu esfriar como burro morto. E indo a +vestir-lh'o, mais animado e banzeiro, cahiu com o aneurisma rôto, em +fralda de camisa, como estava, o <i>desdichado</i>!</p> + +<p>Esse collete, justo atraz por um cordão de seda lasso e cruzado, +recordava uma <span lang="fr"><i>corbeille</i></span> d'onde espumasse a radiosa floração da sua +carne, musical e superabundante—e seios turgentes gottejando rubis +das mamellas; braços torneados, á Clodion, desde o punho até aos +hombros; garganta e espaduas resplendendo essa polida brancura que o +frio marmore nunca dá, e vem talvez da circulação juvenil e do azul +aponevrotico, coados por uma epiderme vibratil e sã.</p> + +<p>E apenas ella entrava assim eloquente e <span class="pagenum"><a id="page270" name="page270"></a>(p. 270)</span> vil, um rumor corria +por toda a banda, e em ondas, sentia-se ir aquecendo a sala. Já das +varandas vinham estalos de lingua, e a velhada ia esfregando uns +contra os outros, febrilmente, os seus joelhos carcomidos. Gradual, a +tempestade de bravos ia-se encapellando, agglomerando, contundindo. +Havia no ambiente podre revoadas de <i>sss</i>... E a excitação, como uma +cheia, afogava tudo, derrancando pela raiz os impulsos da bestialidade +humana, e pondo á mostra a torpeza physica dos mais graves +funccionários. Era então que se viam velhitos da mais austera +prudencia, curvando em gestos macabros sobre os vizinhos—juizes, +antigos ministros, conspicuos directores de banco, e chefes de +secretaria—furiosos d'amor canino, e dando a sua opinião d'olho +esgazeado. Ella, na scena, parecia uma bella estatua reanimada, tão +nobres as linhas da sua anatomia esplendente. E quasi núa, corria-lhe +na carne um arfar d'emoção radiosa. O pescoço era maravilhoso de +finura; ria-lhe uma sensualidade no modelado do queixo; emquanto a +narina n'um frémito, dir-se-hia seguir o rolar d'olhos reaes que ella +pela sala deitava. Erguia o braço n'um movimento afadigado; e viam-se +cabellitos na axilla, muito pretos. <span class="pagenum"><a id="page271" name="page271"></a>(p. 271)</span> O arco das duas +sobrancelhas, quebrado em accento circumflexo, exprimia +maravilhosamente o desdem. E suspensa, a sala aguardava que ella +fallasse.</p> + +<p>—<i>Senhor! Ousa insultar uma mulher que se não defende? Perigoso me +tinham dito que era; cobarde nunca!...</i>—e ao meio da scena, n'uma +colera de deuza, a cauda em serpente, um dos seios espreitando a +tourada de focinho sobre a orla do corpete, bramia a terrivel +sacerdotisa:</p> + +<p>—<i>Saia!</i></p> + +<p>Sublime! Sublime! era a palavra de toda a gente.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Precisamente n'este remoinho de celebridade e de gloria, depois da +grande scena do terceiro acto, uma noite, Rogério declarou-se a +Velledo, n'um portuguez que a actriz não usava escutar lá muitas +vezes. Fôra n'um escaninho do palco, durante a mutação de scenario.</p> + +<p>—Palavra, adora-me, o senhor? disse-lhe ella escarnecendo.—Elle +compunha uma attitude fatal, como se quizesse magnetisal-a de paixão. +E despiam-n'a, os seus olhos faiscantes de vicio.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page272" name="page272"></a>(p. 272)</span> —Dizer-m'o não basta, tornou a eminente actriz. É necessario +que m'o prove.</p> + +<p>—Mas como? disse elle surdamente.</p> + +<p>—Isso não é commigo.</p> + +<p>E depois d'uma pausa:</p> + +<p>—Ha talvez um meio de principiar. Porque não começa a ter talento?</p> + +<p>Rogério não respondeu, mas os seus olhos, como brasas, na pelle branca +do colo d'ella, redondo e nú, chamuscavam-n'a, mordiam-n'a, +apalpavam-n'a, servindo-a como um goso arrancado á força. E n'um +desvairamento, agarrou-a pelos dois braços sifflando, engasgado de +furia.</p> + +<p>—Cala-te estupor, cala-te diabo!—Era n'uma sombra de panno de fundo, +que vinham, de correr. E a Velledo debatia-se, aterrada do escandalo, +cahida do respeito usual por semelhante violencia. Rogério tinha-a +cingido pela cintura, e apertado contra o peito, nas agonias d'um +toiro; e aos beijos por toda ella, na bocca, na garganta, nas +espaduas, sobre o peito, percorria, babava-a, delirante, horrivel de +desejo, deixando-lhe vermelhidões por toda a parte, signaes de dedos +crispados, babugens de raiva lubrica, que no pó d'arroz deixavam +listrões nojentos de vêr. Enxovalhada <span class="pagenum"><a id="page273" name="page273"></a>(p. 273)</span> da brutalidade, a +Velledo chorava, gaguejando:</p> + +<p>—Infame! Infame!</p> + +<p>Despenteara-se na lucta, tinha-se aberto o colar, um dos colibris da +túnica cahira, violentamente roçado. Rogério ficára a resfolegar n'um +canto. Mas ouviu-se o contra-regra chamar para a scena do jardim; e +com a voz musical de quando estava elegre, a Velledo desatou a rir +alto entre os bastidores. E mal o galã disse—<i>é ella, conheço-a, o +coração m'o diz!</i>—entrou em scena radiante e magnifica, monologando +para si:</p> + +<p>—<i>Elle prometteu-me que viria. O seu amor é leal. Virá de certo</i>—e +n'uma expansão d'amor:—<i>adoro-o, sim, adoro-o!...</i></p> + +<p>—Has de cá cahir, cegonha! fez Rogério esfregando as mãos. E ao outro +dia foi-lhe pagando as contas da modista. Mas já entravam a rosnar. Os +ganymedes de palco, gentinha disposta a explorar, intrigar, levar e +trazer segredinhos, bilhetinhos, cobriam Rogério de perguntas sobre a +tristeza em que o viam, com subtis allusões á actriz. Nos camarins não +se fallava n'outra coisa. Sabia-se que elle hypothecára as ultimas +propriedades, perdia ao jogo, e mandava á Velledo todos os <span class="pagenum"><a id="page274" name="page274"></a>(p. 274)</span> +dias, uma grande <span lang="fr"><i>corbeille</i></span> de camelias e rosas confeccionada no +Neves. De quando em quando, presentes de galantarias antigas que ella +colleccionava com paixão, <span lang="fr"><i>bibelots</i></span> de Sèvres, pratos e <i>netskés</i> do +Japão, aguarellas, bronzes e moveis delicados, pequenas peças +vasculhadas nos adelos e casas de penhores, com paciencia de santo, +regateadas durante horas, e muitas vezes adquiridas por preços +escandalosos. Como amador de <span lang="fr"><i>bric-à-brac</i></span>, Rogério era uma besta, +chegando a pagar por libras monos de loja de chá, fallidos de todo o +merito. Velledo encolhia então desdenhosamente os hombros, mirando a +bugiganga. E com irónica piedade:</p> + +<p>—Decididamente tem o gosto caraíba. Vê-se logo que é da provincia. +Foi do leite. Obrigado. Ou era uma fayança repetida, qualquer peça que +ella pedia para lhe comprar, e Rogério já não encontrava no bazar +indicado. A actriz impacientava-se então, fazia momo com o seu +beicinho vermelho, batia o pé vendo-o chegar de mãos vasias.</p> + +<p>—Se elle é um desastrado! Fosse quando eu lhe disse.</p> + +<p>E predilecções de momento, ambições por quanto via nos armazens, e +logo tédios pelo <span class="pagenum"><a id="page275" name="page275"></a>(p. 275)</span> que ia adquirindo. Em dias de nervos +quebrava, mordia e rasgava tudo para se vingar, na epilepsia dos que +tendo feito das impressões violentas um habito abusivo, desesperam por +fim, se acaso em vão apoz ellas correm. Tão raras as horas de bom +humor, que Rogério, se alguma surprehendia, dir-se-hia gosal-a como +recompensa disputada. Esse homem altivo cahia aos pés da sua gata +sabia, em pieguices de collegial, deixando-se explorar por prazer. E +sobre a posse tão ardentemente implorada, nem rastro d'esperança! Se +ia beijal-a com mais furia, se a queria enlaçar pela cinta, ou a +respiração cortada n'elle trahia alguma ideia occulta de deleite, ella +logo de pé, faiscante e sarcastica, para o repellir com desprezo.</p> + +<p>—Olhe que me não esqueci d'aquella canalhice do theatro, hein?—ou +fazendo saltar o <i>lorgnon</i> Regencia:</p> + +<p>—Ora filhinho! Deixa-te d'asneiras. Isto é do brasileiro.</p> + +<p>Mezes passavam assim. Se por um lado Rogério não adeantava com a +actriz, recebia por outro, do brasileiro, provas de deferencia e +familiaridades em cada dia mais profusas. Tinham começado as relações +por uma polidez reservada, que parecia occultar as mais cathegoricas +<span class="pagenum"><a id="page276" name="page276"></a>(p. 276)</span> antipathias. Dopois, aquella crosta d'indifferença estalára +aqui e além, n'um cavaco mais vivo, n'um accordo ou outro d'acaso. +Rogério sondava os gostos do brasileiro, lisongeava-lhe os ridiculos, +punha-se ao lado das suas opiniões, aturava-lhe as estopadas, ou +conseguia rir das graçolas d'elle. Era um pobre homem, limitado e +benevolo esse brasileiro, que todo entretido a enriquecer-se, na +mocidade, mal tivera tempo para gostar d'uma mulher—e assim +conseguira embarcar na velhice, conservando intactas, pudicas quasi, +as intimas juventudes do seu coração, uma singeleza timida e crédula, +uma especie de convicção da sua inferioridade, como animal, em face +daquella grande rainha da scena, e pequenas attenções balbuciantes +para os caprichos d'ella, torturas soffridas sem revolta, e +humilhações inda por cima agradecidas, n'uma effervescencia de +lagrimas.</p> + +<p>Esse mudo velho de olhar ardente e mãos de cavador, de continuo +enluvadas, alto, negro, com uma barba branca de negreiro, e uma +gravata de coleira á volta dos collarinhos molles, esse mudo velho, +parecia marchar somnambulo na sua idéa fixa, dolorosamente algemado á +sua paixão como a um cepo de <span class="pagenum"><a id="page277" name="page277"></a>(p. 277)</span> patibulo, para toda a gente +affavel, dizendo <i>muito obrigado</i> á creadagem, orgulhoso de ter em +casa da Velledo o ar d'um intendente, desolando-se em suspiros que a +edade já fazia grotescos, desdenhado, repellido, porém fincando sempre +nas derrotas de cada dia, a coragem para insistir nos dias seguintes. +Emquanto o pobre suspeitou que as denguices de Rogério viessem a ter +resultado, foi sempre mantendo á vista d'elle, uma reserva polida, +quasi fria. Os cumprimentos que trocavam, traziam, mesmo de longe, um +asco a desconfiança. Os risos d'elles, ao toparem-se, no serão da +tragica, eram um espremer de beiços seccos, com distillo d'amargura. +Mas breve o nababo concluiu que não viria de Rogério o vento mau de +desgraça, que lhe varresse a Velledo, como uma <i>nau dos quintos</i>, do +mar banzeiro em que elle a trazia balanceada e repreza. Uma magua +identica, parece, lentamente os conduzira a uma sorte de camaradagem. +E vieram jantares, pequenos conselhos ditos na meia intimidade d'um +segredo, favorsinhos que se calculam e estão prestes ao primeiro +signal. Por fim deram o braço, trocaram brindes, começaram a +sympathisar; e havia quatro mezes que o brasileiro <span class="pagenum"><a id="page278" name="page278"></a>(p. 278)</span> já não +passava sem Rogério, e Rogério se afizera a procurar todas as tardes o +brasileiro. Velledo espiava aquelles manejos, deixava-os consolarem-se +um no outro, e ia-os explorando systhematicamente. Era o tempo em que +a fortuna de Rogério via o começo do fim, e Lisboa lhe ia notando as +primeiras joelheiras, as luvas safadas e as golas russas. E os beiços +d'elle enlivideciam, uma magreza patibular fazia-lhe duro o perfil; e +enfastiado, mãos febris, não dava palava a ninguem. Em volta ao caso +ria toda a gente. Apenas o grupo sério de Pirralho, philosopho +Horacio, festejado Peres, e a ninhada de fedelhos +positivo-publicistas, lia n'essa fronte sulcada, n'esse olhar fixo e +interior, a gestação laboriosa d'algum grande livro. Actores, já o +tratavam de resto, não o sentindo como outr'ora, generoso +d'emprestimos, e tão prodigo d'alegres ceias no <i>Gibraltar</i>. A +primeira vez que appareceu sem relogio, fumando cigarros de mendigo, +quasi todos, achando-o pulha, lhe voltaram as costas.</p> + +<p>Por esse tempo revelava-se Alcina, que passára da opera-buffa ao +theatro de declamação, prima de Rogério e sua primeira amante. Fôra na +Suzanna do <span lang="fr"><i>Demi-Monde</i></span>, <span class="pagenum"><a id="page279" name="page279"></a>(p. 279)</span> papel de prova, cheio de movimento +e finura, em que por confronto a Velledo tinha dado um estenderete +medonho, e que Alcina fez com distincção surprehendente. Sobre o caso, +a critica fez-se ouvir muito acerba contra a Velledo, mau grado as +supplicas do brasileiro e de Rogério, a que fosse poupada a grande +sacerdotisa. Em quasi toda a linha jornalistica, de repente, as +hostilidades romperam com violencia brutal, bipartindo-se os criticos +na hoste dos que bradavam—Velledo!—e na dos que punham Alcina na +mais brilhante evidencia. A prima de Rogério, por conseguinte, passou +a synthetisar a escóla nova, como a Velledo era a expressão da antiga +arte. Pirralho e o magreirão Lindôso, macacos-pontifices da alta +critica moderna, saudaram a musa nova em rutilos artigos crivados de +referencias picaras á antiga primeira actriz portugueza, na qual tudo, +segundo elles, era convencional. A historia do corpete fez escandalo +de morrer a rir. E dois ou tres <i>distinctos escriptores e nossos +amigos</i> estiolavam-se a calcular os annos que ella teria d'edade, o +que esbanjava em cabellos postiços, e da composição chimica d'aquelles +seios esculpturaes...</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page280" name="page280"></a>(p. 280)</span> A actriz Alcina, não! Era a mocidade maleavel e viva, a +intelligencia sagaz que tudo penetrava sem esforço, o genio +desprezando artificios, e dando-se á plateia em relampagos—e como +mulher, uma nympha de Clodion, elançada e viva.</p> + +<p>—É necessario derribar os falsos deuses, escrevera Lindôso. A arte é +constantemente evolucionista. Quem não progride, não a acompanha, e +elimina-se pelo esquecimento ou pelo desprezo...</p> + +<p>—Isso é forte, homem...</p> + +<p>—Qual forte! Uma velhaca que nem bilhetes manda para o jornal! E +d'ahi põe recusas ás nossas mais ternas blandicias. Póde-se lá +soffrer!</p> + +<p>No entanto crescia o desespero da Velledo, que chorava dias e dias +accusando o emprezario, não querendo estudar os papeis, cobrindo a +imprensa d'insultos, Rogério e o brasileiro de repellões. Uma manhã, +apenas aquelle veio, ella resolutamente:</p> + +<p>—Essa creatura que elogiam por ahi, é sua prima, e foi sua amante, já +sei. Porque não accedo ao que o senhor pretende, move-me guerra nos +jornaes.</p> + +<p>Rogério ia protestar. Ella disse—canalha! <span class="pagenum"><a id="page281" name="page281"></a>(p. 281)</span> e mais +rapido:—em todo o caso, oiça. Se a peça nova fizer reviramento +completo na imprensa, expulso o velho e entrego-me a si. Ha uma +condição de que não abdico, note bem. Que essa bebeda seja posta de +rastos, fóra do theatro em que eu represento. O resto é com o senhor. +Acceita?</p> + +<p>Elle poz o chapéu na cabeça, disse:</p> + +<p>—Não!—E sahiu como doido.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Chovia, e elle sem guarda-chuva, pisando a lama com sapatos de baile, +seguia alagado ao longo dos predios. Dois ou tres amigos chamaram-n'o +de dentro de trens, para que viesse abrigar-se. Olhou-os com ar vasio +e foi andando. A sua paixão pela actriz, avolumada pela resistencia, +obstruia-lhe a livre esphera da deliberação, da acção, e desvairava-o. +Que havia de fazer? A pobreza fizera-o mesquinho: e vinha-lhe com +teimozia a ideia do dinheiro gasto com essa mulher, sem reserva, sem +egoismo e sem calculo, n'uma boa vontade de rapaz. E nem mulher nem +dinheiro!... Então recrudescia-lhe o desejo d'ella, e era uma febre +bestial d'amor que o espicaçava a todo o instante e lhe fazia +delirios. Foi pelas <span class="pagenum"><a id="page282" name="page282"></a>(p. 282)</span> ruas de mãos nas algibeiras, flanando ao +acaso na lama. Vendo um antigo freguez, os cocheiros paravam +fazendo-lhe signal—e era uma humilhação para Rogério ter de recusar, +ou virar a cabeça fingindo não ver. As ruas surprehendidas por essas +primeiras gottas de chuva hibernal, tinham sobresaltos e gritos de +vida que procura abrigar-se, a um tempo frenetica e contente... +mulheres apanhando os vestidos, homens erguendo as calças até á origem +das polainas, chamando os trens, ou entrando á pressa nas escadas.</p> + +<p>O ar frio dava ás epidermes das mulheres um côr de rosa mais pudico. +Era a hora do Chiado, e os trens desciam para os armazens de modas, em +cujas <span lang="fr"><i>vitrines</i></span> se encontravam já densos estofos, chapéus e capotas +do ultimo modelo. Lisboa, que voltava das praias e estações d'aguas, +procedia á sua installação, buscava nos livreiros as ultimas edições, +lia os cartazes dos theatros, escolhendo a sua noite, dictando a sua +<span lang="fr"><i>toilette</i></span>, familiarisando-se com os aspectos das ruas e o rolar das +carruagens. E a cada instante, Rogério tinha de fazer um signal aos +conhecimentos antigos, actrizes dos pequenos theatros, jornalistas, +<span lang="en"><i>dandies</i></span>, horisontaes; toda a mascarada elegante passeando <span class="pagenum"><a id="page283" name="page283"></a>(p. 283)</span> +os primeiros paletots estofados, no giro da evidencia e da moda. E +intimidades que roçavam pela fadiga do seu casaco um velho dito +maldoso, desdens que lhe acenavam de longe co'as pontas das luvas +amarellas, piedades vis que o lastimavam, ou peccadoras que lhe riam +pela ferida dos beiços pintados, tendo partilhado outr'ora o luxo dos +dias aureos de Rogério. Parece que tinha combinado cruzar com elle +hombro a hombro, essa tarde, toda a revoada de doidas sereias avivadas +de chic!—Primeiro Laura, a <i>condessa</i>, uma soberba rapariga que +explorava um club de velhos, e era gosada por acções. E as mais: +Annita, que surprehendendo a primeira sombra na face, ia casar com um +judeu capitalista; Hermine, o vampiro, de cujo leito phosphorejavam as +monstruosidades dos harens da Asia; Luiza, alta, morena, sã, com os +seus eternos grandes sapatos de homem, e os seus modos decididos de +<span lang="fr"><i>commis-voyageur</i></span>... E o pobre auctor de preoccupado, nem reparava no +espanto e na commiseracão com que o fitavam. Uma patifaria sem nome, +quererem voltal-o contra Alcina, rapariga de talento afinal, cuja +carreira difficil ella percorrera toda, sem auxilio nem reclame! +Doida, boa, sincera de mais, <span class="pagenum"><a id="page284" name="page284"></a>(p. 284)</span> e por isso mesmo enganada sem +rebuço. Eil-a ahi na celebridade, chegando ruidosamente ao pinaculo, +musa de um grupo de artistas. Promover-lhe a queda, expulsal-a do +primeiro theatro—que negra infamia pretendia então a outra d'elle? +Chegara ao jornal do Lindôso sem dar por isso. Subiu. Inda não tinham +sahido das repartições, e a redacção estava deserta.</p> + +<p>—O snr. Lindôso, disse Rogério para o gerente.</p> + +<p>—Primeiro gabinete, á esquerda.</p> + +<p>Estava lá. Ora viva! disse Rogério.</p> + +<p>—Sei a que vens. Não posso pagar-te inda hoje. Sê benevolo uns dias +mais. E volubilmente:—Então sabes? Os constituintes venderam-se. +Estou aqui a rachal-os de meio a meio. A que chegámos! E mostrava os +linguados escriptos—Lisboa vae vêr o bom.</p> + +<p>—Eu cá, disse Rogério, vinha para outro negócio. Janta hoje commigo. +Tenho lá baixo um trem.</p> + +<p>—Demonio! pois sim. Ao <i>Central</i>?</p> + +<p>—Em minha casa. Descobri uma cozinheira incomparavel. Pulcheria se +chama. Então a mais acrisolada sciencia nos molhos! Tenho um Murillo +no quarto, que outro dia, <span class="pagenum"><a id="page285" name="page285"></a>(p. 285)</span> sentindo o olor d'um bacalhau +confeccionado por ella, sahiu á casa de jantar acceso em fome.</p> + +<p>—Raio de cozinheira!</p> + +<p>—Vens d'ahi?</p> + +<p>—Dois minutos para terminar a demolição d'um partido politico. E como +se porta na lebre ensopada, essa tal Pulcheria?</p> + +<p>—N'isso então! Imagina um d'estes acepipes tenros, alpestres, +perfumados, extranhos... A pastoral de Beethoven com tubaras de +recheio. Homem, no Algarve estava um defunto no esquife; vae ella, +chega-lhe ás ventas carneiro com batatas—e o morto pega a bailar no +meio da casa.</p> + +<p>—A caminho, fez o outro espicaçado pela fome de quarenta cães sem +dono.</p> + +<p>A casa de Rogério era perto, e em dez minutos faziam elles a sua +entrada no escriptorio. Rogério fechou a porta da escada e metteu a +chave na algibeira.</p> + +<p>—Ah diabo! exclamou Lindôso com uma palmada na testa. De todo me +esqueceu falar da tua peça. E que tinha planeado uma coisa magnifica! +Artigo para o publico, está claro, coisa d'arrombar ahi tudo. Entre +nós, franquezinha. Deves deixar o genero: o teu drama, aqui para nós, +era quasi infantil.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page286" name="page286"></a>(p. 286)</span> Rogério, surpreso, nem falava. Que exhuberancia de malandro! +pensava elle.</p> + +<p>—Nem admira, continuou Lindôso. Tu, o que ha de mais moderno no +estylo ligeiro, de mais elegante, de mais parisiense, cahes agora na +monomania de fazer viver sobre a scena os assumptos historicos!? +Primeiro, não és um erudito. Segundo, não tens a corda dramatica. E +olha que influe alguma coisa, a gente não se chamar Walter Scott ou +Shakespeare, menino.</p> + +<p>—Sopra-te o vento d'outro lado, esta manhã, tornou o dramaturgo com +os beiços brancos. Em todo o caso, ouve. Eu li o que escreveste sobre +a Alcina...</p> + +<p>—O artigo para amanhã é superior. Vaes vêr que maravilha d'analyse e +graça humoristica. A sagacidade do Taine na fórma irisada do Wolff. +Ah, meu caro Rogério, meu bem! Ponho a Velledo em picado. Dez annos de +lucta, e regeneramos o theatro portuguez.</p> + +<p>—Trazes o artigo?</p> + +<p>—Vou lêr-t'o. Ficas assombrado.—Mas onde foi elle buscar este vigor +de linguagem, este conhecimento do assumpto, esta chuva de sarcasmo e +pedras preciosas? dirás tu. Ah, Rogério! Nasce-se.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page287" name="page287"></a>(p. 287)</span> Enfastiado, risonho, o dramaturgo fez-lhe signal para que +lêsse. O artigo era uma catilinaria habil, gradual, bem deduzida, e +feita com esse sarcasmo sereno, quasi limpido, de quem não receia lhe +tomem contas. Definia a arte nova em termos firmes, historiava-lhe a +evolução rapidamente, frisando-lhe os intuitos, explicando-lhe o +destino e o nivel philosophico. Cahia em seguida sobre os actores, no +tom desdenhoso de quem trata subalternos—e uma vez alli, tocava na +Velledo. Desde esse instante, uma furia explosia no artigo, e as +ironias eram um crivar de balas no corpo d'um fuzilado. Segundo elle, +não era possivel mais tolerar sobre a nossa primeira scena, uma actriz +cheia d'artificios e ronceiras manhas; cantando, se declamava; e não +tendo mais a voz maleavel, nem vivaz o gesto, nem a <i>pose</i> esculpida +na proporção da figura que reproduzia. Desmemoriada, envaidecida, +tola, velha, quasi feia...</p> + +<p>E no final, em palavras metallicas, enthusiasmadas, relampejando +fundos d'apotheose, entrava a dizer que Alcina era o astro do dia novo +na arte, subindo tocado de flammas, com a grandeza d'uma redempção +pronunciada de ha muito, pela critica imparcial...</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page288" name="page288"></a>(p. 288)</span> —Admiravel, hein?</p> + +<p>—Pois sim, fez Rogério retesando as pernas. Quanto ganhas tu por essa +canalhice?</p> + +<p>O outro, embasbacado! Quanto ganhava?</p> + +<p>—Ora essa! Eu não trafico com o sacerdocio. É convicção.</p> + +<p>—Sabido! O artigo de hontem trazia as tuas iniciaes. Publica o de +hoje com o nome todo; tens dez libras.</p> + +<p>—Hein?</p> + +<p>—Sómente onde estiver Alcina, porás Velledo, e onde Velledo, Alcina.</p> + +<p>—Que quer dizer toda essa cantiga?</p> + +<p>—Nada de scenas. Entre pulhas, o descaramento é a alma dos negocios. +Dez libras para virares d'opinião. Recusas? perdes o dinheiro e +quebro-te as costellas. Tão certo!...</p> + +<p>Lindôso fizera-se verde, queria-se erguer, não podia; e tudo era olhar +para a porta, calcular a retirada.</p> + +<p>—De maneira que o teu jantar era isto? E a cozinheira Pulcheria... +Traste!</p> + +<p>Rogério nâo respondeu.</p> + +<p>—Mas tu? a ferro e fogo com a Velledo, porque te voltastes á ultima +hora? Arranjos! A corja que se entende e se harmonisa.</p> + +<p><span class="pagenum"><a id="page289" name="page289"></a>(p. 289)</span> —Faz as emendas que te disse, tornou Rogério docemente.</p> + +<p>Mas o desenterrado hesitava.</p> + +<p>—Com quem imaginas tu que estás falando? aventurou-se elle a +perguntar.</p> + +<p>Rogério agarrou-o pelo pescoço, como as cozinheiras fazem aos gatos +lambareiros.—Anda! Senão desfaço-te! Senão atiro comtigo da janella!</p> + +<p>—É violencia. Protesto! ganiu o desenterrado debatendo-se. Mas a voz +de Rogério rebentou n'um estampido.</p> + +<p>—Olha que eu estrangulo-te. Escreve!</p> + +<p>Fez-lhe pegar na penna.—Emenda!—E roxo d'asphyxia, cyanosado, +humilhado, escorrendo suor, o outro emendava. Rogério agarrou no +artigo, leu tudo minuciosamente, e inda apontou um ponto ou outro para +Lindôso corrigir—Agora assigna!</p> + +<p>O miserável em soluços, arquejando horrivelmente, assignou.</p> + +<p>—Tratante! Eu me vingarei. Ai de ti! Rogério ria freneticamente.</p> + +<p>—Amanhã peça nova, ajuntou elle n'um sarcasmo tranquillo. Quatro +actos d'Augier, alguma coisa de fino e superior. Alcina lá vae +enrodilhada n'um papelito quasi de comparsa. <span class="pagenum"><a id="page290" name="page290"></a>(p. 290)</span> O melhor papel +para a Velledo! Ella que até agora só fazia os pezados centros +dramaticos, <i>Joanna a doida</i>, a <i>Mulher que deita cartas</i>... entra +n'uma phase nova, quer mostrar que conhece a escóla moderna. Eh! Eh! +que diz a isto o scintillante Lindôso? O publico tel-as-ha na mesma +noite, as duas, face a face. Elle é imparcial. Julgará.</p> + +<p>E emquanto a raiva branca epileptisava o outro—Amanhã os jornaes +saudarão a eminente actriz, pela penna dos mais festejados +escriptores. E na noite da peça, enchente á cunha, bilhetes a libra, +uma chuva de corôas. Ah, desforra estrondosa! Triumpho como ninguem +viu outro! E alcançado por mim. Não que eu admire a Velledo. O que +escrevem contra ella é verdadeiro. Mas apraz-me esmagar essa tropa de +canalhas vendidos, a começar por ti.</p> + +<p>—Sim! Ainda hontem a querias derribada, essa Velledo, já hoje lhe +advogas a victoria. Quanto paga o brasileiro por esse enthusiasmo? És +dos meus. Vendeste o que te restava, entras a viver d'expedientes. Eu +cá fui sempre pobre, ao menos. Seguia o meu caminho bem ou mal, sem +pão muita vez, oito dias n'um quarto alugado, oito n'outro, <span class="pagenum"><a id="page291" name="page291"></a>(p. 291)</span> +expulso quando não tinha com que pagar, desempregado, mal visto, +esbarrando com a antipathia de toda a gente. Queriam no meu porte a +nitidez d'um cavalheiro? Dessem-me de comer. Rogério, inflexivel, +chamou o creado.</p> + +<p>—Isto ao jornal.</p> + +<p>—O jornal não publicará, disse Lindôso.</p> + +<p>—O teu não. Mas o meu... Agora vamos a jantar.</p> + +<p>—Obrigado. Acabemos com isto. Abre-me a porta!—Era quasi noite.</p> + +<p>—Nao. Dormes cá hoje, tornou Rogério.</p> + +<p>—Vou gritar, n'esse caso.</p> + +<p>—Hum! Não cahirás em semelhante tolice. Ao primeiro berro, +amordaço-te, e passas a noite n'uma camisa de forças.</p> + +<p>—Mas isto é inaudito!</p> + +<p>—Creio que sim.</p> + +<p>—Hei-de tirar uma desforra.</p> + +<p>—É da ordem.</p> + +<p>—Mas quando me deixam sahir então?</p> + +<p>—Quatro da manhã. Hora em que a tiragem dos jornaes está toda feita. +E coração ao largo, anda jantar. Conversaremos como bons camaradas. +Isto aqui não é agora nenhum carcere; podes circular pela casa toda. +Hein? <span class="pagenum"><a id="page292" name="page292"></a>(p. 292)</span> Não me arreceio das gavetas: vendi as pratas, e não ha +vintem por cima das mesas.</p> + +<p>—E promettia-me dez libras, <i>isto</i>!...</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Quem hasteava a Velledo era um grupo d'escriptores de pulso (como +então se dizia) feito do pae nobre Tiburcio, critico Borbas, festejado +Peres, Rogério, Moreira das magicas e os inimigos d'Alcina. Uma +espécie de cenaculo, que receando a decadencia da scena, se impuzera +alumiar o gosto da turba, com a luz dos seus talentos <i>conspicuos +quanto experimentados</i>. Esta tropa de massadores, quasi todos carecas, +decidira pôr dique á sedição de Pirralho e Lindôso, creando o +<i>Binoculo</i>, semanário que definiria a missão do theatro, pondo em +relevo as regalias dos auctores, e encarregando-se de catalogar os +comediantes pela ordem e genero dos meritos que patenteassem: quem +havia de ser o primeiro, quem havia de ser o segundo...</p> + +<p>A convite de Borbas tinha-se o conclave reunido n'uma botica da rua do +Amparo, com penna e tinta para tracejar das resoluções adoptadas. E +houve logo disputas sobre o titulo da folha.—<i>O Binoculo</i>, dizia +festejado <span class="pagenum"><a id="page293" name="page293"></a>(p. 293)</span> Peres.—<i>Arte de Talma</i>, opinava pae nobre +Tiburcio.—<i>Diabo Verde</i>, era o parecer do Moreira das magicas. Porém +Borbas, um auctoritario que tinha o culto das civilisações antigas, +disse logo: <i>O Capitolio!</i> Cada qual então pediu a palavra afim de +justificar o seu titulo. Engalfinharam-se uns nos outros, á +descompostura. Como estava vivo de vespera o artigo de Pirralho +exaltando Alcina, urgente se tornava fazer sahir resposta bem +official, bem da <i>mestrança</i>, que trancasse as doutrinas da escóla +avançada. Suspensa a sessão por vinte e quatro horas, cada um foi +estudar para casa o que havia d'escrever no jornal, com promessa +d'assembleia no laboratorio da botica, ao dia seguinte.</p> + +<p>No outro dia, eil-os de volta arrastando as passadas, beiços lividos, +olho morto, tendo perdido a noite sobre os melhores auctores. Varios, +seguidos de gallegos, tinham feito conduzir annos inteiros da <i>Revista +dos Dois Mundos</i>. Borbas, em casaca e tira branca, solemne, +convencido, radiando uma vasta auctoridade, appareceu com a sua resma +d'apontamentos. Aberta a sessão, palavra a um, palavra a outro, +combinaram-se notas, organisou-se o plano d'ataque... resultado, +<span class="pagenum"><a id="page294" name="page294"></a>(p. 294)</span> duas columnas de sandices e a ideia do jornal posta de +banda. Foi o momento de Rogério fazer a sua entrada na sala. +Inquiriram todos: então?—Era na manhã sequente á detenção de Lindôso.</p> + +<p>—Sanou-se tudo, ganhamos, exclamava o dramaturgo n'um jubilo. Lindôso +nosso. Vem o artigo na <i>Gazeta do Sport</i>.</p> + +<p>—E viva!</p> + +<p>—Quasi todos os jornaes fallam da Velledo em quatro columnas e cinco. +Grandes letras, titulos d'arromba... <i>Um genio! A primeira tragica da +Europa. Continue progredindo...</i></p> + +<p>Já vinte mãos cresciam ávidas para os jornaes que elle trazia.</p> + +<p>—Venha de lá isso. Venha de lá.</p> + +<p>Estendiam as folhas por cima da mesa, tumultuosamente, vangloriando-se +dos artigos como d'obra sua, dizendo alto as passagens flammantes. +Gritava um:</p> + +<p>—Isto soprei eu ao articulista. Outro:</p> + +<p>—São as minhas ideias escriptas e escarradas.</p> + +<p>—Escarradas sobretudo, insinuava um terceiro.</p> + +<p>Nenhum d'elles escrevera uma virgula, mas procuravam enganar-se, +dizendo:—é como <span class="pagenum"><a id="page295" name="page295"></a>(p. 295)</span> se os artigos fossem escriptos por nós, +visto que demos a substancia.</p> + +<p>—E pagos por mim, suspirava Rogério arruinado, auctor e victima do +triumpho que elles se attribuiam. Mas Borbas, esfregando o nariz como +um botão de campainha, rosnava com entonos de leão:</p> + +<p>—Tiveram medo. Inda valho alguma coisa.</p> + +<p><i>D. Maria</i>, essa noite, offerecia o mais bizarro e pictoresco aspecto. +Uma furia revolvia a turba na plateia; havia conclaves pelos cantos, +palavras altas; gestos doidos sahiam dos grupos, accentuando alguma +affirmativa audaciosa—e os decididos declaravam que havia d'ir tudo +raso! Já os informadores de jornal, correndo os olhos pelos camarotes, +de carteira aberta, tomavam nota dos nomes e <span lang="fr"><i>toilettes</i></span>. Aqui e além, +pelas ordens caras, faziam-se ruidos vagos, arrastar de cadeiras, +risinhos cantados de senhoras: um <span lang="fr"><i>bournous</i></span> desacolchetado no fundo +d'uma frisa, distrahia subito as palestras, e luminosas espaduas +gottejadas de diamantes, vinham á luz do gaz espanejar brancuras +exoticas de magnolia. Toda a galante guarda de semi-mundanas, +destacava pelos logares de honra, os seus estapafurdios <span class="pagenum"><a id="page296" name="page296"></a>(p. 296)</span> +couraceiros, todos os typos, trajos e côres de cabellos. Laura a +<i>condessa</i>, em pellucia verde pavão e rendas pretas, tincta de loiro +essa noite, punha um bonnet de pennas delicioso. Luiza em escarlate, +bordada de vidrilhos, admiravelmente grande e bem feita, dir-se-hia +brotar d'um cacto com a rebeldia d'um génio de volupia e ruina. +Hermine, de damasco branco, decotada até ao ventre e coberta de +geraneos pallidos, soberba de carne, divina d'impudor, affixava o seu +riso de bacchante, vago, inquietador, sem ponto de mira, como essas +estatuas d'Egino que riem ceifando cabeças.</p> + +<p>O sport era feito de figuras bassas, estranhas, espigadas, bonitas +algumas, e com um tom d'elegancia doentia. Uma especie de figurino +geral corrigia os typos, dava o rythmo dos cumprimentos trocados, +parecia decretar do entono da pronuncia, e haver stereotypado das +boccas, o mesmo modo de rir altivo e frio. E apontavam-se as figuras +salientes—o marquezito de Selmes, imberbe, loiro, quasi ideal, com +vicios perversos e um geito cynico na bocca de cherubim: tão +predestinado a gommoso, que apenas parido, entrára a pedir cognac e +vinte libras, afim de <span class="pagenum"><a id="page297" name="page297"></a>(p. 297)</span> se abalar <span lang="fr"><i>chez Tata</i></span>. Junto d'elle, o +visconde de Palhalvo, de craneo em pera, com bochechas immensas que +lhe esmagavam a bocca e o nariz, mostrava nos olhos ternos, genero +carneiro morto, a todas as ricas herdeiras, o seu joven coração +devoluto. Alberto M., poeta insonso, tortulho ultimo da epocha +romantica, muito estimado nos salões, e causador dos mais finos +adulterios, debruçava-se todo para uma viuvita loira que vinha +d'aliviar o luto. E a phalange alegre das ceias nos gabinetes do Matta +e do Augusto: mulheres fugidas aos maridos, actrizes sem theatros, +filhos de banqueiros, vergonteas fidalgas afundando os ultimos contos +d'uma antiga opulencia, medicos em voga, personagens alvares vivendo á +sombra d'um nome de familia, janotas pagos por uma velha.</p> + +<p>Barão de Murtede tinha-se installado mais a franceza, n'uma frisa de +bocca, mesmo em face da esposa e das filhas, que estavam ouvindo +contar ao Alfredinho torto, o Alfredinho dos <span lang="fr"><i>cotillons</i></span>, uma scena de +sopapo nos corredores de S. Carlos, por causa de não sei que bailarina +americana. A franceza, muito desengonçada, d'olhos pardos, irritante +de magreza, quasi diaphana, coberta de signaes <span class="pagenum"><a id="page298" name="page298"></a>(p. 298)</span> postiços, +ouvia-lhe distrahidamente uma tolice qualquer, abrindo e fechando o +leque, com as suas mãos cobertas de pelle de Suède, que rescendiam +heliotropo. A espaços:</p> + +<p>—<span lang="fr"><i>Oh, que c'est charmant! Oh, que c'est charmant!...</i></span> e fitava com +provocação a frisa fronteira, d'onde a baroneza de Murtede fazia +olhinhos doces sobre um delegado de barba sedosa, um <i>vello vaicharel +da Veira</i>, recem-chegado á côrte, que a compromettia na plateia, á +vista de toda a gente. N'outra frisa, ao fundo da sala, as Simas, mãe +e filha, davam audiencia, antes de subir o panno, a uma multidão +turbulenta e esfaimada de <span lang="fr"><i>viveurs</i></span>. De longe, Hermine lhe fazia +signaes, affixando á sala a sua familiaridade com senhoras d'aquellas; +emquanto mais circumspecta toda rigorista no seu programa de senhora, +Laura, apenas de leve respondia aos cumprimentos que ellas de lá lhe +mandavam, por entre macaquices de beijos, nas pontas dos dedos. Na +frisa das Simas, aquella noite, era uma algazarra de metter medo; +tinha-se installado alli o quartel general da má lingua, e o centro +expedicionario das frescatas para depois do espectaculo. A mãe, uma +gorducha quasi nova, com dentes chumbados na frente, e o <span class="pagenum"><a id="page299" name="page299"></a>(p. 299)</span> ceu +da bocca de platina, branca, myope, dando-se um tic de palpebras muito +impertinente, esposa d'um general, e sobrinha, dizia-se, do senhor D. +Miguel, tinha começado vida na melhor roda lisbonense, entre os +explendores das festas e a convivencia das grandes familias. Habitos +de grande vida, tão funestos ás pequenas fortunas, deram-lhe com a +casa de bancarrota em bancarrota. Já por fim, ellas mesmas faziam a +cozinha, e cortavam os seus vestidos de sahir, convidando as amizades +a um chá, todas as terças-feiras, com piano e castiçaes de cristofle, +n'um casebre apalaçado ao Bairro Alto, em cujo rez-do-chão, por signal +que viera installar-se uma typographia socialista.</p> + +<p>Para vir a casa d'ellas, em principio, inda era de rigor ser-se +apresentado—mais tarde, o general, intercedido, fez concessões, como +era bom homem... pedia então sua meia libra, dez, quinze tostões, e a +cada conviva, além do chá, revertia o direito de tratar por tu a dona +da casa. O general fôra rico em solteiro, o jogo porém tinha-lhe +comido tudo, e a mulher esbanjára-lhe o resto. Uma filha mais nova, +Fernanda, toda mimosa na sua figurinha etherea de Gretchen, inda +chegou a ser pedida em casamento, mesmo assim pobre <span class="pagenum"><a id="page300" name="page300"></a>(p. 300)</span> e mal +educada, por um guarda-marinha que, a adorava, e depois a repudiou, +sabendo a vida crapulosa da mãe e da outra irmã. Desolada, e +desconhecendo outro caminho que não fosse o da sua singela +honestidade, sem vocação para <span lang="fr"><i>cocotte</i></span>, e sem coragem para +costureira, a pobre pequena atirou comsigo ao fundo d'uma cisterna que +havia no pateo.</p> + +<p>Entanto, já a vida as apertava d'urgencias, dia a dia insaciaveis—o +luxo d'um lado—do outro lado a penhora—do outro ainda o general... +em termos que a mãe, tomando as redeas da casa, durante o <i>delirium +tremens</i> do marido, entrou a dar bailes de mascaras no casebre +armoriado, abrindo as suas portas a toda a casta de rodilhões e +torpezas. Alli debutaram muitas raparigas na vida galante, +costureiritas que os devassos encommendavam á mãe Simas; filhas de +pequenos empregados, que entravam no baile em musselina branca, sem +brincos, nem colar, accedendo ao appello d'uma amiga de collegio; +noivas que vinham ganhar o enxoval de casamento, n'uma prostituição +secreta e cheia de rancores; hespanholas retiradas da má vida, por +algum amante que as desejasse gosar mais por detalhe... algumas +ingenuas, lindas algumas, e outras <span class="pagenum"><a id="page301" name="page301"></a>(p. 301)</span> simplesmente irritantes, +pela virgindade physica que traziam, esculpida em desejos, mal +sazonados ainda, nos meios limões erecteis do peito.</p> + +<p>Durante o dia, era frequente encontrar-se a mãe Simas por todas as +ruas da cidade, offegante, enrodilhada no fundo d'uma tipoia, fazendo +adeusinho aos caixeiros, rindo para os ociosos das tabacarias, +apeando-se á porta de todas as escadas sem guarda-portão. Ia em +serviço.—Até á noite, até á noite, dizia ella, apanhando as saias a +molhe, por baixo de cujas barras, não raro badaleavam penduricalhos de +lama immunda. E esquecida da mala por todos os cantos, voltava atraz, +esbarrava n'um taipal, ouvindo sem pestanejar, no seu <span lang="fr"><i>aplomb</i></span> de +condessa, os apropositos mais desavergonhados...</p> + +<p>Dentro de pouco, a casa foi creando fama, pelo expedito das suas +encommendas e gosto fino das suas requisições, creando fama sobretudo +na provincia, no Brasil, e por essas possessões d'Africa, d'onde +annualmente chegam a Lisboa, os mais tenebrosos, os mais acerbos +apetites de homem, recalcados na solidão, e centuplicados de força +pelos delirios côr d'absintho da abstinencia. Á chronica da <span class="pagenum"><a id="page302" name="page302"></a>(p. 302)</span> +casa mesmo, no livro de oiro dos escandalos mais reconditos, tinham +vindo jungir-se muitos nomes da nobresa, sangues de mil castas, +fibrina dos Gamas, materia corante do mestre d'Aviz, soro e saes de +Nun'alvares, Miguel de Vasconcellos, ou algum sapateiro da +Bairrada—todas as elegantes ociosidades patricias e dinheirosas, que +por Lisboa entreteem o fogo da luxuria, nas saturnaes nocturnas da +cidade baixa. A policia, tão meticulosa para com outros gyneceus de +menos alcandorados brazões, guardára sempre ante o alcouce das Simas, +um mysterioso receio ennastrado de deferencia, alguma coisa como a +protecção da lei aos grandes monopolios. De grandes personagens se +dizia, que nas dobras d'uma capa andaluza, altas horas, alli vinham +beijar, entre duas taças de Champagne extra-secco, velludosas covinhas +de barba, divinas de mocidade, surprehendentes de frescura, +pacientemente rebuscadas, negociadas, cathechisadas, pelas Simas, mãe +e filha, durante uma alcovitice de semanas e semanas; através dos +viveiros mais bem fornidos de caça, bairros pobres, casas de modista e +bastidores. Os melhor informados, frizavam precisamente, as jerarchias +e nomes dos grandes freguezes, apontavam <span class="pagenum"><a id="page303" name="page303"></a>(p. 303)</span> os cocheiros de +noite, muito em segredo commissionados para este serviço deshonesto; e +outras historias lugubres... gritos de virgindades laceradas, rumores +surdos de luctas no socego tragico da casa, sombras correndo em negro, +de cabellos soltos, na brancura dos stores illuminados por dentro... +Até d'uma vez... emfim, a instituição das Simas, entrada nos habitos +lisboetas, fazia-se agora tão necessaria á cidade como os albergues +nocturnos ou a Escola Polytechnica.</p> + +<p class="p2"> </p> + +<p>Farejando a sala, o frequentador habituado, teria podido adivinhar uma +especie de plano de campanha na ordenação dos espectadores da plateia, +plano sabio traçado por algum grande claquista envelhecido nas +barafundas do proscenio. Cada ala de <span lang="fr"><i>fauteuils</i></span> tinha o seu chefe. Ao +pé da cadeira d'um espectador indifferente, viera installar-se um +espectador comprado. Nas primeiras filas, destacando a sua linha +temivel de luvas brancas e faces terrosas, installara-se a escóla que +protegia a Velledo, na pessoa de dez ou doze escriptores cambados, e +uma tropa de conselheiros e velhotes de bom tempo, por cujos <span class="pagenum"><a id="page304" name="page304"></a>(p. 304)</span> +leitos a actriz espargira os perfumes talvez do seu banho matinal. +Festejado Peres e Moreira das magicas, inquietos, encasacados, +cavalleiros de Christo, profusos d'adeuses e abraços, tinham-se +postado ás portinholas da sala como duas fuinhas, passando palavra aos +que iam entrando, distribuindo poesias, pedindo applausos +descaradamente. E ao passo que o brasileiro cuidava da ceia, com +profusão de flôres e philarmonicas, Rogério levára ao Monte-pio os +ultimos penhores que pudessem pagar um brinde a essa mulher que o +entontecia e deslumbrava. No momento de descer a escada da Velledo, +ainda o dramaturgo estava decidido a romper com ella. Porém cá fóra, a +sua indole cobarde, amollecida de desejo, perdidos uns restos de +pudor, tinha concebido possuir a todo o transe aquelle bello corpo de +espuma e rosa, custasse o que custasse, uma só noite que fôsse—e +assim organisára a reunião de criticos no laboratorio de pharmacia, a +detenção de Lindôso, o chuveiro de panegyricos em todos os jornaes, e +emfim a bella enchente d'aquella noite. A imaginação de Rogério fôra +de tal ordem e presteza, que Pirralho e os adoradores d'Alcina apenas +tinham encontrado cadeiras nas ultimas filas, <span class="pagenum"><a id="page305" name="page305"></a>(p. 305)</span> e camarotes +das ultimas ordens. Desterrados para tão longinquas paragens, perdidos +por escaninhos taes, facil seria suffocar a pateada que elles +intentassem. Lindôso, desacreditado pelo artigo d'essa manhã, não +tinha julgado prudente apparecer. Pirralho voltara-lhe as costas, os +amigos d'Alcina ameaçavam esbofeteal-o em publico. Já o calor +aljofrava as calvas susceptiveis, e as asas dos leques, por centenas, +faziam no ambito como um borborinho de pombal.</p> + +<p>Á hora de subir o panno, o triumpho negociado por Rogério era coisa +decidida ou quasi; e os animos pareciam propensos a victoriar, <i>mais +uma vez, a nossa primeira actriz</i>. A peça, retalhada a dialogos +scintillantes, era alguma coisa no genero Sardou e Dumas filho, +estapafurdia como senso dramatico, mas irritante d'ironias e perfumada +de gentilissimas graças—um adulterio desculpado por theorias de +folhetim, em cuja imoralidade ninguem fizera attenção. N'essa comedia, +toda sublinhada com uma rara finura, esfuziando os paradoxos por +jorros e as mordacidades por turbilhões, sem entrecho quasi e profunda +não obstante, combinando argucias de gentil-homem com sahidas de +garoto, <span class="pagenum"><a id="page306" name="page306"></a>(p. 306)</span> imagine-se o que faria a Velledo, quasi gorda, +chegada aos quarenta, com gestos atufando-se na plastica sólida dos +braços, e não possuindo já a nervosa vida de scena, inspirativa, +momentanea, nem já podendo facetar pelos entonos da voz, as mil +intenções e subtilezas de dialogo, d'uma peça toda intellectual como +aquella. Em compensação, as <span lang="fr"><i>toilettes</i></span> de rigor, os setins +roçagantes, os <i>pufs</i> d'estofo adamascado, bordados de flôres, plumas, +franjas e peitilhos de contas, iam direito á fascinação das burguezas. +E apenas ella appareceu, foi na sala um borborinho atufado—<i>sss... +sss...</i>—alguns tacões bateram ainda, e houve nas torrinhas um bocejo +em voz alta, intencional. Mas estava calculada a reacção. De varios +pontos, subito, ao mesmo tempo, sahiram palmas destacadas, quatro ou +cinco vezes gritando:—bravo!—e uma formidavel salva revoou no +theatro, louca, ensurdecedora, como nunca se vira. Vibrado o centro +emocionavel da turba, podia a peça ter corrido como quizesse, bem, +mediocremente ou mal; o resultado tinha de ser uma victoria. Foi assim +que no segundo acto as chamadas eram já tantas, que Velledo fatigada, +resolveu, desmaiar em scena. As flôres enchiam completamente o +<span class="pagenum"><a id="page307" name="page307"></a>(p. 307)</span> palco e choviam sem conta dos camarotes. De pé nas cadeiras, +debruçadas lá cima das torrinhas, centenas de figuras batiam as mãos; +e Rogério achando ainda uma scentelha dos juvenis enthusiasmos +d'outr'ora veio á scena offerecer-lhe um volumoso cofre de sandalo.</p> + +<p>Disse-lhe rapidamente:—a peça nova fez successo. Cumpri a minha +promessa. Espero não esquecerá a sua.</p> + +<p>—Obrigada, disse ella, estendendo-lhe a mão, e a sua voz commovida, +dir-se-hia fluctuar n'um lago cerulo de promessas d'amor.<span class="smaller"><a href="#toc">(Voltar ao Conteúdo)</a></span></p> + + + + +<h2>INDICE</h2> + +<a id="toc" name="toc"></a> +<ol class="toc"> +<li><a href="#page005">Aves Migradoras</a></li> +<li><a href="#page071">O Sineiro de Santa-Agatha</a></li> +<li><a href="#page117">Pequeno Drama na Aldeia</a></li> +<li><a href="#page171">A Provincia, 171</a></li> +<li><a href="#page195">O Juramento da Condessa Esther</a></li> +<li><a href="#page209">Coronado</a></li> +<li><a href="#page231">A Eminente Actriz</a></li> +</ol> + +<p class="p2"> </p> + +<p><a id="footnote1" name="footnote1"></a> +<b>Nota de Rodapé 1:</b> Fluidos telepaticos, animicos, que se desagregam dos +<i>mediuns</i> em somno hypnotico, chegando a tomar formas +fotografaveis.<span class="smaller"><a href="#footnotetag1">(Voltar ao Texto Principal)</a></span></p> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Aves Migradoras, by Fialho d'Almeida + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AVES MIGRADORAS *** + +***** This file should be named 22622-h.htm or 22622-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/2/6/2/22622/ + +Produced by Ricardo F. Diogo, Christine P. Travers and the +Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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