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diff --git a/22299-8.txt b/22299-8.txt new file mode 100644 index 0000000..a3c42aa --- /dev/null +++ b/22299-8.txt @@ -0,0 +1,4295 @@ +The Project Gutenberg EBook of Cantos Sagrados, by Manuel de Arriaga + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Cantos Sagrados + +Author: Manuel de Arriaga + +Release Date: August 11, 2007 [EBook #22299] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CANTOS SAGRADOS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + +MANOEL D'ARRIAGA + +CANTOS + +SAGRADOS + + +LISBOA + +MANOEL GOMES, Editor + +LIVREIRO DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS + +_70--RUA GARRETT (CHIADO)--72_ + +1899 + + +DEDICATORIA + +_Ás almas piedosas e cultas em cuja convivencia encontrei conforto, +fortalesa e fé na bondade e na virtude,_ + +_e_ + +_Ás proximas gerações futuras, a quem compete a integração do destino +humano segundo o novo Ideal de Justiça_ + +_offerece e consagra estes CANTOS_ + +_O SEU AUCTOR._ + + +AO PUBLICO + +A exemplo do lavrador que nas tardes melancolicas do outomno, antes que +chegue o inverno, recolhe os fructos das suas pequenas herdades, nós, +n'este periodo calmoso da existencia em que entrámos, e primeiro que a +morte nos venha trazer, com a paz da sepultura, a melhor compensação dos +nossos longos soffrimentos, deliberámos recolher e seleccionar as poesias +que escrevemos no longo periodo de trinta e dois annos, que decorre desde +1867 até hoje e que, com rarissimas excepções, devidas quasi sempre a +inconfidencias e curiosidades d'amigos, são todas ainda hoje ineditas. + +Reunimol-as em quatro volumes, o primeiro dos quaes, o dos _Cantos_, é o +que damos hoje á publicidade. + +O segundo com o nome de _Irradiações_, é dividido em quatro +livros--_Devaneios_--_Imagens d'um mundo extincto_--_Nas Alturas_--_No +Lar_. + +O terceiro contém poesias dispersas, ensaios e fragmentos. + +O quarto, um poema heroico glorificando os triumphos da Humanidade no +concerto do Universo, e onde, sob uma fórma dramatica, reatámos as +tradições gloriosas de Portugal no periodo de Renascença á futura +solução do problema humano, sob um novo ideal de justiça. + +Foi este poema, a que démos o titulo de _Synthese Suprema_, escripto nos +tres ultimos annos que se seguiram ao nosso affastamento da politica +militante, quando abandonámos de todo o parlamento, onde a nossa voz +ficou por completo isolada e perdida... + +Compozémol-o ante a ameaça constante da morte que as nossas doenças, +então aggravadas, nos punham todos os dias diante dos olhos, sem +esperanças de o levarmos ao seu termo; e foi feito a pedaços nas poucas +horas d'ocio que nos restavam dos nossos deveres profissionaes. + +A poesia aos nossos olhos nunca foi um mero recreio de espirito. + +Como todas as bellas artes, tende a exercer uma funcção social, hoje +tanto mais necessaria quanto é frouxa, ou quasi nulla, a que a Religião, +e a moral d'ella nascida, exerceram outr'ora nas multidões incultas, que +á falta d'um ideal filho dos tempos, que as ajude na solução do seus +tenebrosos e multiplos problemas: ou se tornam indifferentes ou +scepticas e vivem como espiritos revoltados contra todo o existente!... + +A muitos parecerá contradictorio que, tendo nós combatido em toda a +nossa vida, ha mais d'um quarto seculo, o obscurantismo, os absusos e os +crimes commettidos á sombra das religiões positivas, sobre tudo da +religião dogmatica, nos aventuremos, sobre as ruinas do velho mundo e á +entrada dum novo cyclo historico, a soltar cantos d'uma tão ardente fé +religiosa!... + +A resposta encontral'a-ha o leitor na nota elucidativa á poesia _O que +eu vi_, que adiante publicamos, e nas immediatas. + +Se errámos ou não, os factos é que o hão-de decidir d'aqui mais a algum +tempo. + +Só aqui diremos que para se unirem pelo Amor e pela Justiça as duas +metades da humanidade, de que depende a integração do destino humano, o +homem e a mulher, que as crenças religiosas e as demonstrações +scientificas trazem tão profundamente divorciados na vida do lar e no +foro interno; para levarmos ao povo a communhão do novo credo e +levantarmos-lhe o coração e a alma muito acima das meras questões de +interesses materiaes em que o trazem envolvido: é preciso procurar um +ideal fóra das contingencias humanas, preparar com elle as almas para os +actos fundamentaes d'abnegação e d'altruismo que reclama o problema +social, o que só se pode alcançar á sombra de religiosidade que está no +fundo da nossa natureza, mudando apenas de objectivo e de processo. + +Qualquer que seja porém, a opinião em contrario de nossos +competidores, e que acatamos, é d'esperar que attendam a que, n'uma obra +d'arte, não se deve perder de vista a sinceridade do seu auctor, o fim +que se propõe servir e o meio que emprega para o alcançar. + +Sob este triplice ponto de vista, em que sempre nos mantivemos, talvez +possamos contar com a benevolencia dos nossos contrarios. + +Ainda uma palavra sobre as razões porque só agora, no fim da nossa +carreira, nos aventuramos a publicar estes trabalhos. + +Dentre muitos outros, o motivo predominante encontral-o-ha o leitor no +respeito quasi religioso que sempre tivemos pela publicidade, por este +momento sagrado em que entregamos aos outros as nossas ideias, as nossas +opiniões, os nossos sentimentos! + +Accaso terão direito a sel-o?! Irá n'elles alguma cousa que seja menos +verdadeira, menos justa, menos bella?! + +E, quando tal se dê, o que pensarão de nós os que vierem a +julgar-nos?!... + +Transmittindo a estranhos, sob as fórmas divinas da arte, o que havia de +melhor no nosso mundo interior, e que merecera a sancção da nossa +consciencia, não iremos susceptibilisar ou offender, apesar d'isso, o +que os outros teem de mais sagrado no coração e amam mais de que tudo?! + +Não seremos nós uns illudidos que vamos com a nossa illusão concorrer +para os enganos dos outros?! + +Todas estas perguntas accudiam ao nosso espirito quando nos incitavam a +imprimir estes _Cantos_ e esperámos sempre que um mais maduro exame os +auctorisasse a sahir do recatado asylo da nossa consciencia, a ir correr +mundo e a suscitar por ventura a animadversão ou a sympathia dos +leitores!... + +Que o publico encontre n'elles a grata companhia que nos fizeram tão +largos annos, é o melhor premio, se algum elles merecem, a que pode +aspirar o auctor d'estas linhas. + +Lisboa, 15 de março de 1899. + +MANOEL D'ARRIAGA. + + + + +LIVRO PRIMEIRO + +DEUS E A ALMA + + + + +I + +O QUE EU VI + + Sahi um dia a contemplar o mundo, + Por vêr quanto ha de bello e quanto brilha + Na multipla e gloriosa maravilha, + Que anda suspensa em o azul profundo! + + Vi montes, vales, arvores e flôres, + Limpidas aguas, múrmuras torrentes, + Do grande mar as musicas plangentes, + Dos céus sem fim os trémulos fulgôres! + + Trouxe os olhos tão ricos de belleza, + O coração tão cheio de harmonia, + De quanto havia em terra, mar e céos, + + Que interpretando a sós a Natureza: + Dentro de mim esplendido fulgia, + N'um circulo de luz, teu nome, oh Deus! + + +II + +MUNDO INTERIOR + + Materia ou Força, Lei ou Divindade + Quem quer que seja que dirige o mundo, + Esparze em tudo o espirito fecundo + Do Summo Bem--Belleza, Amôr, Verdade. + + Á luz d'esta Santissima Trindade, + Cercado d'esplendor, clamo e jucundo, + Sorri-me em volta o universo; ao fundo, + Por synthese Suprema, a Humanidade! + + Dos homens rujam temporaes medonhos... + Que em mim, no meu labôr, do Bem sedento, + Meus dias correm limpidos, risonhos! + + Estrellas que brilhaes no firmamento! + É menos bella a vossa luz que os sonhos + Que gera na minha alma o Pensamento! + + +III + +TRISTEZA + + Como isto cá por fóra é tudo alegre! + Quão bello o sol! que esplendida harmonia + A terra, o mar e os céos! + Porem dentro de mim que mundo á parte! + Que embate de paixões! Que noite funebre! + Que magoas, Santo Deus! + + Ai! se as manchas que o sol no rosto esconde + Tem sobre o mundo alguem onde projectem + A triste escuridão, + Minha alma é como o espelho onde ellas caem, + Tão profunda é a mágoa que me lavra + Aqui no coração! + + E eu via ha pouco o azul d'um céo sem macula! + E o sol d'esta alma fulgurante e limpido + Banha-me todo em luz! + Porém, franqueza humana! eu proprio o obrigo + A alumiar-me com a luz da frouxa lampada + D'um templo de Jesus!... + + Senhor! Senhor! que um teu olhar me alegre! + Que lave o pavimento de meu peito + De muita ideia vã, + Que o mal é como a noite, e o sol apaga-a + E transforma-a na prata, ouro e purpura + Das nuvens da manhã! + + Oh! tu tristeza, irmã dos desgraçados, + Que lanças no meu peito os ais plangentes + D'esses gemidos teus! + Desprende da minha alma as azas negras, + E deixa entrar alegre a luz do dia, + A luz vinda dos céos! + + E vós, filhos do sol, tribus innumeras + Da familia de Deus, plantas e flôres + Insectos e animaes, + Que engolfados nos gozos do Universo, + N'esse concerto immenso de harmonias, + Nos céos a Deus louvaes: + + Ah! venho-vos tomar por meus mentores, + Pois vale bem mais a luz do vosso instincto, + Que a luz d'esta razão, + Se eu não sei como vós viver contente, + Trazer o azul dos céos na consciencia, + E a paz no coração! + +Lisboa + +Na tapada d'Ajuda, + +1869 + + +IV + +PRESENTIMENTOS + + Eu bem sei que devia + Causar-te muito dó, + Em noite tão sombria + Vêres-me aqui tão só!... + + Nem sei que sol m'alegra! + A sós com a minha cruz, + Sou como a nuvem negra + Que encerra muita luz!... + + Como arvore sombria + Vergada sobre um val, + Assim vivo hoje em dia + Á sombra do Ideal... + + Que eu tenho muita fome + De Justiça e d'Amor, + E aqui não ha quem tome + A serio a minha dôr... + + O mundo vê e passa, + Como sempre passou, + Sorrindo da desgraça + Dos tristes como eu sou... + + E este sonho dourado + D'amôr, que a gente vê, + Não póde estar guardado + N'esses homens sem fé!... + + Ah! não! já não m'illudo + Foi isso o que suppuz; + Mas vi mudar-se em tudo + Em sombra a minha luz... + + E os sonhos que já tive + Tão bellos, afinal, + São hoje um céo que vive + Sobre este lamaçal!... + + Um céo que vejo, ao longe, + Exposto aos olhos meus, + Co'a mágoa com que um monge + Veria outr'ora a Deus!... + + E onde ha maior castigo, + Mais dura provação, + Que ter por inimigo + O homem nosso irmão, + + Aquelle a quem nós démos, + Com toda a candidez, + Os sonhos que hoje vêmos + Desfeitos a seus pés?!... + + Ah! suppõe-me o desgosto, + De eu vêr desparecer + A cópia do meu rosto + Aos pés d'uma mulher, + + E isto em desacato + Do meu mais santo amor: + E ahi tens um retrato + Da minha immensa dôr, + + Quando vejo desfeito + Por gente ingrata e má + Um sonho do meu peito, + E muitos vi eu já!... + + Por isso eu n'esta vida, + Apoz tanta illusão, + E tanta flôr perdida, + Tanta corôa no chão... + + Ai! sinto com o anceio, + Que é proprio do infeliz, + Um mal n'este meu seio + Lançar muita raiz!... + + Espero vêr a morte, + Eu proprio a invoquei, + Levar-me d'esta sorte + Para onde?! É que eu não sei!... + + Como eu não sei dizer-te, + E isto que me consol', + Como é que se converte + Em vida a luz do sol!... + + Como nasce a ventura + Do homem que morreu, + Dormir na sepultura + Para acordar no céo!... + + Aqui tudo é mysterio!... + Mas visto que assim é, + Onde ha melhor criterio + Que á luz da nossa fé? + + E eu creio firmemente + Que o martyr de Jesus, + Não fica só pendente + Dos braços d'uma cruz... + + Que o homem que prosegue + A luz d'um Ideal; + Embora a turba o pregue + Na sua cruz fatal... + + O céo é bem profundo, + O fundo nem tu vês, + E ha n'elle muito mundo, + Para onde irá talvez!... + + A vida continúa, + E a alma, emquanto a mim, + Avança e não recúa + Por esses sóes sem fim! + + Do sol se um raio ardente + No mar vier cahir, + Em nuvem transparente + Nós vêmol-o subir! + + Não ha suster-lhe o rumo + Que o leva para os céos, + E assim é que eu presumo + Voarmos nós a Deus!... + + O ponto é merecel-o, + Que Deus é justo e pae, + E eu sei com que desvelo + A si os bons attrae! + + Mas quando eu vejo a lua, + Não sei que ideia má + N'esta alma me insinua + A luz que n'ella ha!... + + Emquanto em torno d'ella, + Ao norte, ao leste, ao sul, + Refulge tanta estrella + Pela amplidão do azul, + + Tu vêl-a solitaria, + Em paz cruzando o céo, + Como urna funeraria + D'um mundo que morreu!. + + Ali já não ha vida!... + Ali não ha calor!... + N'aquella luz, vertida + Em lagrimas de dôr, + + Ha só tristeza e lucto, + E confrange-se e doe + O coração, se escuto + Mulher, porque isso foi!... + + Ah, tenho medo + Que o Supremo Juiz + Nos julgue assim tão cedo!... + Não sei que voz m'o diz... + + Não sei... mas, se contemplo + Os crimes que ahi vão, + Mulher, aquelle exemplo + Conturba o coração!... + + E assim só n'outra parte + Verão os olhos meus + Os sonhos que reparte + Commigo a mão de Deus!... + + O mundo onde abre o cardo + E o lyrio ao mesmo sol; + Onde ama o leopardo + A par do rouxinol; + + Que tem de andar na sombra + Para viver na luz; + E, o que inda mais m'assombra, + Onde ha Nero e Jesus: + + Por mais bello e risonho + Que seja, ainda assim + Não vale qualquer sonho, + Que trago dentro em mim!... + + Isto é um fraco esboço + D'uma outra vida e crê, + Que sinto-a, mas não posso + Dizer-te onde ella é!... + + Se a Vida em nós começa, + Por esses sóes d'além, + Sobre a nossa cabeça. + Trabalha-se tambem!... + + Mulher! mulher! quem sabe + Se é isto o que m'attrae + Aos céos, pois, tanto cabe + A Deus, que é justo e pae... + +Lisboa, 1870. + + +V + +CONSCIENCIA + + Para um homem que aspira + Ao ideal da Belleza, + Não ha maior tristeza, + Magua maior não ha, + Que vêr escurecer-se-lhe + O ceu da noite escura + D'alguma ideia impura, + D'alguma paixão má! + + Paixão que muitas vezes + A luz da nossa Ideia + Accende, inflama, atêa, + E depois nos attrae + Com tanto magnetismo, + Com tal encantamento, + Que o homem n'um momento + Vacilla, cega e cae!... + + Cae, sim, do seio esplendido + Do mundo onde vivia + Na mais doce harmonia + Em paz co'os dias seus, + Para apagada a febre + Do seu fugaz delirio, + Achar-se co'o martyrio + De te perder oh! Deus! + + Sem Ti, meu pae, que assombro! + Que noite tão completa! + Que acerba dôr me inquieta + Meu fragil coração!... + Voltar a vêr a alma + D'esperanças povoada, + E achal'a transformada + Em lugubre soidão! + + Senhor! se desabassem + Á tua vóz as bellas + E limpidas estrellas + Dos ceus que não teem fim, + Eu creio que assombrado + Do horrendo cataclysmo, + O Sol, d'além do abysmo, + Seria egual a mim! + + Eu lembraria a aguia, + Que a prole ainda implume + Deixando sobre o cume + De monte erguido ao ceu, + A fosse achar de subito + Na rocha alcantilada, + No ninho, fulminada + D'um raio que desceu! + + Egual seria o quadro + Da minha consciencia, + Ao ver a tua ausencia + Fazer-se em mim, Senhor! + Que em volta do teu astro + Minha alma de poeta + É pallido planeta + Buscando o teu amor! + + E eu sem ti nem vivo!... + Tu és, oh, doce esperança, + O seio onde descança + Meu ser e afinal + Não sei até dizer-te + O quanto soffreria, + Se vira extincto um dia + Em mim, teu Ideal! + + Oh não mil vezes antes + Em carcere ermo e escuro, + Achar-me de futuro + A sós c'a minha dôr; + Extincta a luz dos olhos, + E as bellezas do mundo, + E o ceu azul profundo + Com todo o seu fulgor! + + Tu crê que nem demandam + Os mundos inferiores + Fócos de luz maiores, + Por esse infindo azul, + Como eu o eterno centro + Das leis da natureza, + Do _Amor_, e da _Belleza_, + Que são meu norte e sul! + + Oh Pae! se n'algum dia, + Eu vir, n'uma miragem, + Alguma falsa imagem + Do Bem prender-me aqui: + Desvenda a tua face, + E mostra-me o teu seio, + Que, mesmo embora em meio + Do abysmo, irei a ti! + + Irei, tão instinctivo, + Tão amoroso e firme, + Eu sinto a attrair-me + A ti o teu poder, + Que eu vejo em ti o Norte, + Para onde se encaminha + A pura essencia minha, + Que sente, pensa e quer! + + Irei vencendo, indomito, + Innumeros attrictos, + E escolhos infinitos, + E infindos escarceus, + Como essa vaga enorme + Do mar que não recua, + Seguindo sempre a lua + Que vê passar nos ceus! + + Irei bem como a Terra + Seguindo eternamente + O rumo do oriente + A demandar a luz; + Bem como Jesus Christo + O rumo solitario + Da senda do calvario + Á busca d'uma cruz! + + Irei cá d'este mundo + Onde tu me cedeste + A dadiva celeste + Da Rasão e do Amor: + Raios vitaes que mudam + Em luz a nossa essencia, + E a luz em Consciencia, + E esta em ti, Senhor! + +Lisboa, 1869. + + +VI + +REVELLAÇÃO + +O LAGO + + Scismava um dia na cruel sentença + Com que a Egreja fulmina a raça humana, + Deixando impura a fonte d'onde emana + O sangue que me anima, e a alma que pensa: + + E ao passarem no ceu do meu destino + As nuvens da tristeza e da saudade, + Revellou-me o Senhor alta verdade, + Junto ás margens d'um lago crystalino! + + Isto foi pelo mez do abrir das flôres, + Quando a vida celebra os seus noivados, + E o mundo, sob os verdes cortinados, + Parece um doce thalamo d'amores! + + Estava um dia esplendido! a animal-o + Eu via o seio azul do ceu mais lindo + Curvar-se sobre mim, ethereo, infindo + E tepido: era um gosto enamoral-o! + + Como fecho da abobada infinita, + O Sol nos ceus, riquissimo objecto, + Com barras d'ouro irradiava o tecto + Do vasto pavilhão que o mundo habita! + + Côres variadas, fórmas differentes, + N'um conjuncto de graças sem egual, + Debuxavam-se ali ao natural + Sobre o crystal das ondas transparentes! + + Alvas manchas d'insectos pequeninos, + Envolvendo-se em giros caprichosos, + Como tríbus de povos venturosos, + Fruiam junto ao lago os seus destinos! + + Pelas balsas cantava a toutinegra, + E as rolas modulavam doces côros, + No ar passavam fremitos sonoros + Co'as vibrações da Luz que o mundo alegra! + + No lago, a planta, a flôr, o ceu, a terra, + Como notas d'uma unica harmonia, + Revellaram-me á plena luz do dia, + Enlevos que o prazer da vida encerra!... + + E eu via tudo, e extatico scismava: + Se por ventura a colera divina, + Segundo a Egreja ao mundo inteiro o ensina, + Do gremio dos felizes me affastava!... + + E não podendo crer, embora obscuro + Vêr-me qual sou, que esta alma de poeta, + De tanto sonho explendido replecta, + Atollada estivesse em lôdo impuro... + + Ai! quando a Deus pergunto se prendeu + N'um pó que é vil o espirito divino, + Olho o espelho do lago crystalino + E não encontro o lago: encontro o ceu! + + O mesmo que era em cima azul, immenso, + E a lampada brilhante que o alumia, + Lá no fundo do abysmo aos pés os via, + De sorte que em dois ceus era suspenso! + + E quanto se ostentava em torno ao lago, + Os muros de verdura, a flôr mimosa, + O deslisar da nuvem vaporosa, + E a voltear do insecto incerto e vago: + + Outro tanto animava, ao longe, e ao perto, + Aquella região d'azul vestida, + Onde a minha alma, em extasi embebida, + Contemplava na Terra um ceu aberto! + + E emquanto extasiado a sós fitava, + Nas bellezas do lago transparente, + Aqui uma flôr, além, para o poente, + A nuvemsinha branca que passava,... + + Eis senão quando, uma ave, porque visse + Insectos junto da agua socegada, + Desceu subtil, aerea e delicada, + E ao perpassar roçou-lhe a superficie,... + + O ponto ferido, em ondas borbulhando, + Desabrochou em curvas graciosas, + Como as folhas concentricas das rosas, + Ou lusidias cobras imitando! + + E emquanto o impulso em torno se propaga + Em circulos risonhos: n'um momento, + Toda a cupula azul do firmamento + Oscilla, treme e cae, e o Sol se apaga, + + E a arvore, e a flôr, e quanto junto á margem, + Em doce paz, seu rosto reflectia + No crystalino espelho, por magia + Da lei do amor, a doce lei da imagem!... + + Fere-me então bem intima tristeza, + Ao vêr aos pés, em sordido tumulto, + Um lymbo verde e escuro onde occulto + Estava um ceu tão rico de belleza!... + + Lembrei-me então da minha vida insana, + De quanto sonho lindo anda desfeito + Nos intimos arcanos do meu peito, + Co'o tropel das paixões da vida humana!... + + E as lagrimas cahiram-me uma a uma + Sobre esses bens que a Terra e os ceus inspiram, + E ao contacto das coisas se extinguiram + Como aereos balões feitos d'espuma! + + N'isto o Senhor, que tudo vê e ampara, + Converte-me de novo o charco immundo + N'um ceu azul infindo, e n'elle um mundo + Formoso como os bens que imaginara!... + + Scismei então por longo espaço e digo, + Que aos olhos meus por Deus fôra patente: + Que a alma humana póde, ingenua e crente, + _Vivendo em paz, um ceu trazer comsigo!_ + + Ah muito embora a dôr seu peito opprima, + O espirito, que abrange o mundo inteiro, + Póde vêr, quanto justo e verdadeiro, + Nos seios d'alma os ceus que estão por cima! + + Maxima grande, maxima tamanha, + Tão repassada d'intima poesia, + Porventura d'egual sabedoria + Á predica de Christo na montanha, + + Ah! sê, por entre as sombras da desdita, + A ponte aerea, o arco d'alliança, + Que, em vez da excommunhão que a Egreja lança, + A Deus eleva a Humanidade afflicta! + +Coimbra + +Quinta de Santa Cruz + +1871. + + +VII + +MISSA PONTIFICAL + +UM EVANGELHO + + Sahi uma manhã mal vinha o sol rompendo, + E fui-me religioso a ouvir a missa ao campo, + Á vasta cathedral do mundo, aonde aprendo + Da Vida as sacras leis, que em letras d'ouro estampo. + + Sentei-me sob um bosque estenso e solitario, + Que, em paz e sombra involto, á quietação me envida; + O accaso conduzira-me a um vasto santuario, + Onde ia celebrar-se a communhão da Vida! + + Debaixo do docel da mûrmura floresta, + Se um culto universal é justo a Deus se vote: + Estava o templo augusto armado todo em festa, + Faltando unicamente agora o sacerdote! + + O mundo em derredor aguardo-o co'anciedade... + E eil'o que chega, emfim, das bandas do oriente, + Surgindo como um Deus no azul da immensidade, + N'um carro triumphal, de raios resplendente! + + Ao vel'o perpassou nas arvores sagradas + Um sopro mysterioso, o espirito do vento, + Que deixa-nos ouvir, em musicas toadas, + Psalmos que vão morrer no azul do firmamento!... + + Nos multiplos florões das trémulas janellas, + Nos ramos mais subtis que a luz dos ceus colora, + Com magico fulgor scintillam, como estrellas, + Os limpidos crystaes das lagrimas d'aurora! + + Nas naves, que sustêm a abbobada elevada, + Penetra triumphante a luz, suprema artifice! + Interprete de Deus, celebra a sua entrada + Com pompas, do Universo o maximo pontifice! + + Assim que o sol sahio das brumas do horisonte, + + A pedra, o musgo, o insecto, a flôr, os arvoredos, + Trocaram entre si mil intimos segredos!... + + Os passaros gentis, aladas creaturas, + Soltaram festivaes Hossana nas alturas!... + + O sol triumphador, do mundo a vida accorda, + E esplendido festeja o eterno _sursum corda_!... + + Estava em plena festa a Terra, mãe querida!... + E eu, em face d'ella, a contemplar-lhe a Vida!... + + Então a Luz, qual flôr, subtil e sorridente, + Me disse a mim que sou seu terno confidente: + + Poeta! vês o mundo alegre e harmonioso;... + Em intimo convivio unido o sol á terra, + E a terra e o sol aos céus!... No enlace auspicioso, + Permutam entre si os bens que a Vida encerra!... + + A vida é sim um Bem; por isso é dada a todos!... + A todos por egual, a infindas creaturas,... + Que, em multiplo labor, e por differentes modos, + Procuram-no attingir na terra, e nas alturas!... + + Áquelle que transpõe as portas da existencia + Um vinculo d'amor protege-o logo, e fica + Ao mundo inteiro preso, em mutua dependencia, + Ah desde a larva obscura ao sol que a vivifica!.. + + Qualquer que seja o nome, ou chama-lhe Verdade, + Belleza, Amor, Justiça: é tudo a mesma cousa!... + É quem fecunda e rege os soes na immensidade; + Quem dá ao universo a paz em que repousa!... + + Por isto o mundo inteiro é todo uma harmonia!... + E sente a reanimal'o uma alma alegre e sã! + E vens de longe aqui, sedento de poesia, + A namorar-me a mim, que sou a tua irmã! + + Do Sol baixei aqui a ler-te os evangelhos + Eternos de Verdade, e a missa vae findar! + Meu crente e meu poeta! é a hora: de joelhos, + Em nome do Senhor, te quero abençoar! + + Á sua voz curvando a fronte: em fé immerso, + Senti entrar-me n'alma a alma do universo!... + + Irmã, gemea de minha, a luminosa flôr, + Encerra-se afinal n'esta palavra==Amor==! + +Quinta da Beselga + +1885. + + +VIII + +AVÉ CREATOR! + + Desprende pelo espaço as azas d'ouro, + Águia de Deus, no mundo extraviada!... + Pela patria celeste, a tua amada, + Vae em busca de Deus, + Cantando um hymno em honra do seu nome, + Que meu querer e instincto insaciavel + Te guiarão, qual bussola admiravel, + Pelos infindos ceus! + + Senhor! venho invocar teu nome augusto, + Em face d'estes vastos horisontes!... + Que em torno a mim o rio, a arvore, os montes, + Fallando-me de Ti, + Lançam-me n'alma um teu olhar divino, + E, com elle, um occeano de luz pura, + Que me trasborda em ondas de ventura + O que eu t'offereço aqui! + + Não sob o tecto do sombrio templo, + Que a fé christã do povo erguera outr'ora + Como um tumulo, onde o homem commemora + A tua morte, oh Pae!... + Mas sob o tecto azul do Templo Eterno, + Perante o sol que passa dando a vida + Em teu nome, que esta oração sentida + Buscar teu throno vae! + + Pois é--me triste a mim que as cousas brutas, + Ellas, sem alma, em gratidão me vençam: + E a Terra, emquanto o Sol lhe envia a bençam + Da sua eterna luz, + Converte-a em flôres, canticos e fructos, + E, n'um concerto alegre e harmonioso, + Tributa ao Sol um culto tão piedoso, + Que o peito meu seduz! + + Tu vel'a, quando o Sol lhe affasta os raios + Do seu formoso olhar durante o inverno, + A amante debulhar-se em pranto eterno, + Das gallas se despir; + Em valle e monte as folhas, com tristeza, + Dos troncos com os ventos desprendendo-se, + E o mar, co'os ceus em lucta contorcendo-se, + Raivoso aos ceus bramir!... + + Mas quando o Sol de novo a aquece e anima: + Oh que effluvios d'amôr então contemplo!... + Traz o amante a alleluia ao escuro templo, + E as trevas dão fulgôr; + Espalma a folha o ramo resequido, + E, ao som do mar que canta de mansinho, + Da terra brota a flôr, da haste o ninho, + Do ninho surge o amor! + + Seja assim o meu peito! Que a minha alma, + Buscando o foco eterno e resplendente + Do Sol dos soes, o Ser Omnipotente: + Me eleve o coração + A trasbordar torrentes de harmonias, + Que entoem pela voz das creaturas: + Santo! Santo! tres vezes nas alturas, + Ao Deus da creacão! + + Pois eu que sou o espirito das cousas, + O verbo inspirador, a alma, a vida; + Sinto em meu peito a gratidão devida + Á tua mão que attrae + Em giro eterno os mundos do Universo; + E eu vendo orar ao Sol a flôr n'o matto, + Não hei de só ficar injusto e ingrato + Para comtigo, oh Pae! + + Seja pois o meu canto a voz do interprete, + Que moldando nas formas da palavra + A vida universal que em tudo lavra + Co'o sopro animador: + Eu possa vêr a Terra envolta em canticos, + Sobre as azas de luz da alma humana, + Remontar-se ás origens d'onde emana, + As tuas mãos, Senhor! + +Quinta da Beselga + +1871. + + +IX + +SURSUM CORDA! + + Oh Sol, alma do mundo! esplendido portento + D'um mar feito da luz! vulcão, cuja fornalha, + Por entre um fogo eterno, expande o movimento + Da machina febril do mundo que trabalha! + + E tu, Astro do amor, que, em noite silenciosa, + Qual perola engastada em fulgidos brilhantes, + Derramas tua luz serena e voluptuosa + Nos seios virginaes das timidas amantes: + + C'o os vossos esplendores, + Pela amplidão dos ceus, + Cantae altos louvores + Ao espirito de Deus! + + E tu, mar rugidor! austero cenobita, + Que em vastas solidões gemendo os teus pesares, + Levantas o teu canto á abbobada infinita, + Juntando a vóz piedosa aos céllicos cantares! + + E vós, filhas do ermo, alegres, crystalinas + Fontes que derivaes das fendas dos rochedos, + Ás flôres murmurando, em musicas divinas, + De amor e de ventura uns intimos segredos: + + Mudae as harmonias + Da vossa eterna vóz + Em ternas homilias + Ao pae de todos nós! + + Arvores que fluctuaes nos cimos das montanhas, + Altivas demandando o azul do firmamento; + Que encheis as solidões de musicas estranhas, + Se passa sobre vós o espirito do vento! + + Lyrios, que abrindo o seio ao osculo amoroso + Da luz que envia o sol da abbobada azulada, + Mandaes-lhe o vosso olor no ether luminoso, + Como o habito subtil d'uma alma enamorada: + + A musica e o perfume + Que desprendeis, votae + A quem em si resume + O mundo inteiro e é Pae! + + Oh rabidos leões! lá quando em vossas festas, + Altivos como os reis, indomitos senhores, + Debaixo do docel das mûrmuras florestas, + Rugis como um trovão os fervidos amores! + + E vós, corças gentis e timidos cordeiros, + Que em vossos corações e almas bem formadas, + Ao sangue preferis a lympha dos ribeiros, + E á carne em podridão as hervas perfumadas: + + Louvae a quem fizera, + Co'o mesmo engenho e amor, + As fauces d'uma fera, + E o calice d'uma flôr! + + Arvores, flôres, mar, e estrellas, e animaes, + E todos vós que entraes no giro da existência; + Que haveis nas regiões das cousas immortaes, + Por synthese suprema, a _luz da consciencia_: + + Unindo-vos a mim, como eu á Humanidade, + Louvemos todos nós n'uma oração sentida, + Em côro festival que attinja a immensidade, + O eterno Sol dos Soes, o sabio Author da Vida! + + Cantemos, creaturas! + Pela amplidão dos ceus, + Hossana nas alturas + Ao espirito de Deus! + +Carvalhaes, 1886. + + +X + +AOS CATHOLICOS + + Todos vós que sois sinceros crentes, + Que oraes a Deus no intimo do peito, + Oh mysticos christãos; + Embora tenha crenças differentes + D'aquellas que seguis, eu vos respeito, + E julgo como irmãos! + + Eu amo a Deus; depois a Humanidade; + Depois os bons, e d'estes o primeiro, + É Christo, o Redemptor! + Não sendo egual em tudo á Divindade, + É, como justo e homem verdadeiro, + Meu mestre e meu mentor! + + Embora por fanatico me tomem + Impios e atheus, se os ha, eu lhes confesso, + Que o Martyr da Paixão + Parece-me tão grande como homem, + Que até sinto vertigens quando messo + Seu terno coração!... + + Oh meu Jesus! nas luctas pela vida, + Por onde tanto naufrago fallece + No meio da viagem: + Minha alma soffredora e dolorida, + Cahiria tambem se não tivesse + A tua doce imagem!... + + Eu que creio que o facho da sciencia + Nos ha de revellar, ao fim de tudo, + Que em nós se concilia + Rasão e Fé, Justiça e Consciencia: + Ah quero-te Jesus! por meu escudo, + Por meu amparo e guia! + +Na Sé de Lisboa + +na quarta feira de trevas + +1888. + + +XI + +FÉ E RASÃO + +A CRUZ E O PÁRA RAIOS + + Da velha cathedral, esbella e rendilhada, + Votada a ser mansão do Deus, author do mundo, + Na flecha a mais gentil, campeia abençoada + A cruz do Redemptor, da Gallilêa o oriundo! + + Nos impetos da fé, cortantes como a espada, + O ungido do Senhor, d'olhar cavo e iracundo, + Aponta á multidão, humilde e ajoelhada, + Por seu supremo amparo a cruz, no azul profundo! + + Em nome d'ella exalça a fé porque a aviventa, + E diz mal da rasão que tenta, em vãos ensaios, + Dos ceus arrebatar a luz, de que é sedenta! + + Mas do alto onde ella está, que causa até desmaios, + Temendo que a derrube o fogo da tormenta: + Em nome da Rasão lhe pôe um pára raios!... + +Outubro de 1888. + + +XII + +AMOR E PROVIDENCIA + + Em quanto eu, alta noite, velo e lido, + Por vós mantendo innumeros cuidados, + Dormis, caros filhinhos, socegados + Em torno a mim o sonho appetecido! + + Dormis?! sonhaes de certo... e eu pae envido + Meus esforços por vêr realisados + Vossos sonhos gentis e perfumados: + Ampara-vos um peito estremecido. + + Outro Alguem faz por nós o que eu vos faço: + Com suprema bondade e sapiencia, + Rege os mundos que rolam pelo espaço! + + Esse Alguem é o Amor por excellencia, + O formidavel e invisivel braço, + E o olhar que nunca dorme==_a Providencia_==! + +Lisboa, 1885. + + +XIII + +Á GUERRA! + +O QUE EU SINTO... + + Se vejo com pavor as luctas carniceiras + Que empenham as nações, chamadas as primeiras, + Nos campos da batalha, + Ah! quando a sós comigo e o Eterno me concentro, + Ouço não sei que voz a mim bradar cá dentro: + ==É Deus que ali trabalha==! + + Por mais que ousado vôo aos ceus a aguia eleve, + Nos ceus ha um limite além do qual em breve + Fallece a aza e taes + Como as aguias os reis!... Subiram, mas solemne. + O dia ha de chegar em que Deus os condemne + E brade-lhes==Não mais==! + + No chão não ha raiz que diga á Terra==estanca + A seiva que me dás==! Nem aguia ou pomba branca + Que engeite o vôo alado!... + Não ha um lavrador que entaipe em cal e pedra + A fonte de chrystal, de cujas aguas medra + A arvore, a flor, o prado!... + + E onde ha no mundo um povo a outro povo extranho?!... + Ou odio figadal, intrinseco, tamanho + Que a todos nos divida?! + Se a Terra, o mar profundo e o proprio sol são pouco + Por darem vida a um lyrio: haverá hoje um louco + D'um Cezar que decida, + + D'encontro ás sabias leis por Deus dadas ao mundo, + Que um homem, cujo peito infinito e profundo + Abrange a Terra e os Ceus, + Guerreie o proprio irmão que é d'elle a propria essencia, + A luz, o ar, a vida, a força, a providencia, + Que deste-lhe, meu Deus?! + + Oh não!... Tu mandarás o dia em que a Justiça + Obrigue-os a expiar com fronte submissa + Dos crimes o estendal + Que encheu de sangue e horror as paginas da Historia, + Servindo de lição, ficando por memoria, + Em prol do teu Ideal!... + + E o mundo hade voltar á fonte d'onde veio, + E ser todo elle amor, justiça e paz!... Já leio + Signaes _de nova Luz_!... + As crenças do Passado estando já em terra, + Vem prestes a surgir a nova Lei que encerra + Os sonhos de Jesus!... + + E eu beijo e adoro a mão que impelle e rege o mundo, + Que deu a flor ao campo; os sóes ao firmamento, + E o espirito divino + Aos nossos corações! Que a toda a creatura, + Á flor que desabrocha, ao astro que fulgura, + A todos deu destino! + + Por isso eu n'este mar, sobre este chão d'abrolhos, + Por onde cae amaro o pranto dos meus olhos, + De fito no Senhor, + De fito no Ideal, minha alma não se inquieta: + Confia e sobe a Deus, é como a borboleta + Que vae poisar na flor! + +Bussaco, 1870. + + +XIV + +Á PAZ DOS POVOS + +HOMO, EX HOMINIS LUPO, HOMINIS COOPERATOR + + De lobo te foi dado outrora o nome, + Lobo que a propria especie devastava + Cruento e fero, qual não viras nunca + Leões, pantheras, tigres ou chacaes!... + + E a fera, quando a fome + A incita, é quando crava + O dente e a garra adunca + Nos miseros mortaes. + + Da massa do teu cerebro colhendo + A luz consciente e pura das ideas, + Concebes mil engenhos homicidas, + Inventos d'infernal destruição! + + Com elles, monstro horrendo! + Ha seculos semeias, + Em guerras fratercidas, + A morte e a assolação!... + + Mas como as forças cosmicas da Terra + Cessaram suas luctas de gigantes, + Trazendo á luz do Sol, d'amôr sedenta, + Dois mundos revestidos d'esplendores, + + O mineral que encerra + Os fulgidos brilhantes; + E o vegetal que ostenta + O olhar gentil das flores: + + Assim as mil paixões que a tanto custo + Contem teu peito e o rubro sangue agita, + Por ultimo hão de ter a vida calma + Que impõe por norma a tudo a Providencia; + + E o Bello, o Bom e o Justo, + Na sua acção bemdicta, + Levar-te aos seios d'alma + A paz da consciencia! + + Do sol os raios que dão vida ao globo; + Da vida a força multipla que actua + Em prol de cada qual, para que tomem + Quinhão no Bem, que é dado como a luz: + + Reclamam nos que o Lobo, + Da historia se destrua, + E dê lugar ao homem + Sonhado por Jesus! + + Se o cahos do teu peito foi sequencia + Do cahos primitivo da natura: + Terá tambem destino egual ao d'este; + Dará um quarto mundo, o da Verdade!... + + O da alma, cuja essencia + Incorruptivel, pura, + Procria a luz celeste + Do Bem, na Humanidade! + + Ver-te-has então qual Semideus Consciente! + O sangue que pecorre em tuas veias, + Origem dando a fulgidas doutrinas, + Ás nitidas noções das coisas bellas: + + Tua alma um resplendente + Santuario, onde as ideias + Serão luzes divinas, + Mais puras que as estrellas! + + Antithese da Vida do Passado, + Compete-te integrar na Terra os Povos; + E, chave do vastissimo problema + Da Vida humana: honrando o Redemptor, + + Nos ceus tem Deus traçado + Aos teus destinos novos, + Por synthese suprema, + A Paz, o Bem, o Amor! + +25 d'abril de 1898. + + +XV + +AO HOMEM + + Segundo as tradicções que vão sumir-se + Na noite secular das priscas eras: + Rugiram contra ti, Homem, as feras, + E as coleras do mar; + Dos ceus revoltos os trovões e os raios; + Qual reprobo vivias no universo + Inerme, nu e só, na sombra immerso, + Sem Deus, sem luz, sem lar!... + + Apoz infindos seculos de lucta + Co'as forças implacaveis da materia, + Soffrendo, em toda a escala da miseria, + O frio, a fome, a dôr: + Venceste, e oppões ás lugubres cavernas, + Á escura habitação dos trogloditas, + Os fulgidos palacios onde habitas, + Conscio do teu valor!... + + Imperios contra ti ergueram despotas, + Quaes moles collossaes architectadas, + Assentes no prestigio das espadas, + Nas mãos d'um Pharaó, + D'um habil Julio Cesar; mas as moles, + Minadas pela acção do povo obscuro, + Cahiram como cae um fragil muro + No chão desfeito em pó!... + + No intuito de livrar teu grande espirito + Dos vinculos do mal e enobrecel-o, + Tomas-te a Jesus Christo por modelo + Das tuas concepções; + D'accordo a espada e a cruz, a lei e o dogma, + De ti fizeram novamente escravo, + Mas tu, inda outra vez, altivo e bravo, + Partiste os teus grilhões!... + + Por ultimo lançando mão das forças + Da Terra tua mãe, das leis da Historia: + Apenas em tres seculos de gloria, + Com mil prodigios teus, + Mudas-te totalmente a face ao mundo, + E propões-te a fazer o mesmo á alma, + Porque esta, resplendente, justa e calma, + Triumphe á luz dos céus! + + Forjou a mão de Deus no sol teus raios!... + D'ahi todo o esplendor, todo o prestigio + Do teu almo poder! o grão prodigio + Das tuas concepções, + Que em marmore e crystal, em prata e ouro, + E em tellas formossissimas, transmittes + De mão em mão, sem conta, e sem limites, + Ás novas gerações!... + + Na terra, erma de Luz, Homem surgiste, + Trazendo no teu rubro sangue a Ideia, + A luz que doma o fogo, o apaga, o atêa, + E o faz descer do céu + Humilde como um cão!... Poder terrivel, + Que Jupiter temeu, quando, iracundo, + Mandou prender, por dar exemplo ao mundo, + Na rocha a Prometteu!... + + D'ahi a mola occulta, a força ingenita, + A causa porque tu, no ardor da guerra, + Revolves sem cessar o céu, a terra, + A alma e o coração, + E fazes e desfazes, sem descanço, + Systemas, religiões, philosophias; + Depões a Deuses, reis e tiranias, + Em nome da Rasão!... + + Por veres quem tu és e quanto vales: + Das proprias obras faze o claro espelho, + E escreve em face dellas o evangelho + Da nova religião, + O authentico, o real, o verdadeiro; + Que em vez do degradado filho d'Eva, + Com ligitimo orgulho a Deus eleva + Tua alma e coração! + + Senhor das energias infinitas + Do mundo, com que Deus teu pae reforça + Teu multiplo poder: expulsa a força + Que os despotas produz; + Levanta novamente altar e templos + Ao Bello, ao Justo, ao Bem, á Sapiencia, + Afim de que na Terra a Consciencia + Impere em plena luz! + + Em vez de Força, Amôr rege hoje o mundo!... + E Amôr, se toma as normas da Justiça, + Fará com que, empenhando-te na liça + D'um ideal melhor: + Floresçam sobre a Terra, em prol de todos, + Honrando a Deus, servindo a Humanidade, + Os sonhos de pureza e de bondade + De Christo, o Redemptor!... + + Terás no espaço os soes por companheiros, + Comtigo permuttando noite e dia, + Na sua eterna e placida harmonia, + Os mil problemas seus!... + D'accordo Deus e a alma, o ceu e a terra: + Verás com resplendor a tua Ideia, + Chamando-a á vida, em tudo onde campeã + O espirito de Deus! + +1892. + + +XVI + +Á MULHER + + Senhor da Força, nós, o heroe lendario, + Da Terra o domador, o sabio, o forte, + Dir-se-ia que jurámos ante a morte + Guerra d'irmão a irmão!... + Mais féros do que os tigres, destruimo-nos + A ferro, a fogo, a polvora, a metralha, + Deixando, pelos campos de batalha, + O sangue, a assolação!... + + Mudou agora o Eterno ao mundo a rota + Que ha seculos trazia,... e novos astros + Despontam no horisonte, e em nossos mastros + Mais rutilos tropheus!... + Em vez da guerra truculenta e impia, + Impõe-nos por principio a Paz dos Povos, + Que impavidos demandam mundos novos, + Nova luz, novo Deus!... + + Fechado para sempre o ferreo cyclo + Da guerra universal, obscuro berço + Do velho mundo barbaro, inda immerso + Nas lendas dos heroes: + Compete a Ti, Mulher, filha dilecta + De Deus, c'roar na Terra a grande obra, + Que em fulgido progresso se desdobra, + Á clara luz dos soes!... + + Missão mais nobre á vida humana é dado: + Juntar e repartir de muitos modos, + Por cada um de nós, e em prol de todos, + Do Bem a eterna luz, + Fazendo com que caiam na nossa alma, + Qual chuva em messe loira e movediça, + N'uma missão d'amor e de Justiça, + Os sonhos de Jesus!... + + Em vez da Força, Amor rege hoje o mundo! + E amor, tomando as gallas da Belleza, + As normas de Justiça, a mãe, a deusa + Das novas gerações: + Ao teu celeste influxo, posto á sombra + Da mãe de todos nós, a _Humanidade_, + A paz será na Terra, e na Verdade + Os nossos corações!... + + Belleza e Amor, unindo-se, fizeram + Do teu mimoso ser um relicario, + Onde a mão do divino estatuario + Os sonhos seus guardou!... + D'encantos mil, conjuncto incomparavel! + A Deus já mereceste tal conceito, + Que só do amor divino do teu peito, + A vida confiou!... + + Teu lindo rosto, espelho da sua alma, + Transporta-me a ideaes de tal apreço, + Que em frente d'elle extatico estremeço, + E ponho-me a scismar: + Se entre as ondas de graça e de belleza, + Que lançam sobre mim seus olhos ternos, + Está ou não occulto a bemdizer-nos + De Deus o proprio olhar!... + + Tem jus as niveas formas do teu corpo + Ao flácido velludo, á fina seda, + Primor da industria humana que arremeda + As petalas da flôr! + Rainha! traja mantos d'ouro e purpura, + A doce perl'a, o fulgido brilhante, + E tudo quanto esplendido levante + Na Terra o teu amor! + + Amor se symbolisa n'um menino, + Dos ceus gentil e alado mensageiro, + Trazendo atraz de si, como um cordeiro, + Pacifico leão! + O magico poder que a fera doma, + A força de que se arma esse innocente + És tu mulher, e a fera obediente + O nosso coração! + + Conscia de Ti, das leis da vida, impera! + E aos pés verás as almas subjugadas! + Tem mais poder que o fio das espadas, + Um riso e olhar dos teus! + Que o teu propicio amor, dos ceus oriundo, + Nos doure a vida, a ampare, a dulcifique, + Nos faça com que a alma humana fique + Mais proxima de Deus! + +1892. + + +XVII + +AOS FILHOS + + Trazidos pelo Amor, que por instantes, + O veu ergue á Verdade, + Por nós á luz vieram, quaes prestantes + Peões da Humanidade!... + + Amor é quem dos ceus nos abre a porta, + Nos deixa vêr o intuito + De Deus na Terra, e a elle nos transporta + Da amante o olhar fortuito! + + Em nós n'um sonho lindo tendo origem, + Se o sonho a Deus encerra, + As sabias leis da historia humana exigem, + Que o sonho desça á Terra!... + + Dos paes vingasse o amor, que este o faria + Entrar na realidade, + Expondo a divinal sabedoria + Em plena claridade!... + + Com legitimo orgulho o sol dar-lhe-ia + Seus raios sempre novos; + E a Terra os bens innumeros que cria + Em paz, a bem dos Povos! + + Em vez de irmãos maleficos eivados + De odios que o sangue atiça, + Os bons e os maus ver-se-iam congraçados + Em nome de Justiça! + + Em frente das pacificas moradas, + Jasmins, lyrios e rosas!... + E as ruas que pisamos marchetadas + De pedras preciosas! + + Tal o sonho que passa pela mente + D'um pae creando os filhos, + E n'essa fé remove deligente + Milhares d'empecilhos!... + + Mas fal'o em vão, que o mundo, sob um pacto + Cruel co'o odio eterno, + Lhe põe em derredor, injusto e ingrato, + Em vez do ceu, o inferno!... + + Ás vezes chega a ter-se horror ao homem, + Ás suas impias luctas, + Ao termos de entregar o peito joven + D'um filho ás feras brutas!... + + Antithese do Bem em que inda espera, + Pergunta dolorido + Um pae a Deus: se accaso lhe valera + Seu filho ter nascido!... + + Emfim é lei, e a lei, ideal supremo + Bemdicto e sublimado, + Fará com que passemos d'este extremo + Do mal, ao Bem sonhado!... + + De Deus a Idéa amplissima, infinita, + Qual filha ao lar paterno, + Em torno a Deus explendida gravita, + No seu percurso eterno! + + E tal como do cahos pavoroso, + Que a custo eu mal devasso, + Surgio mais tarde o mundo esplendoroso, + Que rola pelo espaço! + + E á eterna luz dos soes no firmamento, + Celeste peregrino, + Caminha sem cessar no seguimento + D'um Ideal Divino: + + Assim o coração febril se arrasta, + Na sua lucta immensa, + Atraz do Bem Supremo, e tanto basta + Por base á minha crença!... + + Buscando o summo Ideal por entre antitheses, + Fazendo e desmanchando: + O espirito concebe as largas syntheses + De Deus, de quando em quando! + + Ao fim de cada qual resurge a Vida, + E muda os moldes velhos + Por outros que se ajustam á medida + Dos novos evangelhos!... + + Sobre isto a historia offerece-nos exemplos!... + Os criticos deparam + Co'os netos desmachando um dia os templos, + Que seus avós sagraram!... + + D'ahi os odios vãos de fanatismo; + Os multiplos revezes, + Que assolam as nações co'o cataclysmo + Das crenças muitas vezes! + + Quem do alto vé, no entanto, a historia humana, + Contempla sorridente + A marcha dos destinos porque emana + D'um Pae ommisciente! + + Passem nos ceus, com rapidez tamanha, + Os astros diamantinos; + Que a terra os segue; a terra os acompanha + Eguaes são seus destinos!... + + Aquillo que ha de vir e que deriva + D'aquillo que hoje somos, + Que em si contém do Eterno a parte viva, + Nos filhos o depomos!... + + Os filhos são da arvore da vida + A flôr dos novos fructos, + A quem de Deus a essencia é transmittida, + Com os seus mil attributos! + + E os paes então o fructo assasonado, + Já proximo da queda; + Com elles cae a parte do Passado + Que é morta, e Deus arreda! + + E quem nas leis divinas confiando, + Á fulgida seara + Do bem se consagrou, não morre quando + Dos vivos se separa!... + + Contente desce em paz á sepultura, + Na crença de que os filhos + Verão mais tarde em plena formosura + Dos sonhos seus os brilhos! + + Na marcha ascencional da humana historia, + Que a mão de Deus conduz, + O filho entrou na Luz que é transitoria, + O pae na eterna Luz!... + + Á farta os vermes seu cadaver róam + Na campa onde se esvae! + Sua alma triumphante e os soes entoam + Hossana a Deus que é Pae! + +Abril de 1898. + + +XVIII + +Á HUMANIDADE + + Estrellas que rolaes no espaço ethereo + N'um vertice de luz vertiginoso, + E em numero sem conta e sem repouso, + De Deus cumpris altissimo mysterio! + + E vós flôres gentis, purpureas rosas, + Roxas violetas, candidas boninas, + Que abris, tomando formas peregrinas, + Á luz do Sol as petalas mimosas: + + Commigo erguendo a vóz + Ao throno da Verdade, + Saudae a Humanidade, + Que é mãe de todos nós! + + Materno amor, que tanto admiro e acato, + Perenne luz vital do Ser Supremo, + Ante cujo esplendor confuso eu tremo, + Se sondo o teu Santissimo mandato! + + Ou sejas tu mulher juncto do berço + Com terno olhar velando o teu filhinho; + Ou tu maviosa rola no teu ninho; + Bemditas no concerto do Universo: + + Por tão divinos bens, + No intimo do peito, + Votae sentido preito + Ao symbolo das mães! + + Mulheres que prestaes culto a Maria, + Á virgem Mãe de Deus, cheia de graça, + Doçura, vida e esperança onde se enlaça + O vosso coração de noite e dia! + + E vós ingenuas multidões que hei visto + Com ar tristonho, humilde e miserando, + Nos templos de mãos postas adorando + Por vossa padroeira a Mãe de Christo: + + A Virgem que adoraes, + Tornou-se a precursora + Da mãe que surge agora + Aos olhos dos mortaes! + + A mãe que em vez dos tristes filhos d'Eva, + Levanta aos ceus os filhos redemidos! + Em cantigos transforma os seus gemidos! + No Bem o mal, na doce luz a treva! + + A mãe que os filhos todos encaminha + Ao Summo Bem, que traz no peito occulto; + Erguei-lhe pois altar, prestae-lhe culto; + Tem jus a que brandeis==Salvé Rainha== + + «Bemdito sê nos ceus!» + «Bemdito sê na Terra!» + «Sacrario onde se encerra» + «O Espirito de Deus!» + + Oh povos que viveis sob a vigilia + Do olhar supremo em toda a redondeza, + Formando pelas leis da natureza + E os vinculos moraes, uma familia: + + Sabei que cada qual, tendo-a comsigo, + Trará como um clarão na consciencia, + Um rutilo fanal, a Providencia + Que o pode redimir na hora do perigo! + + Interpretes de Lei + Divina, e para exemplo, + Em honra d'ella um templo + Na alma humana erguei! + + Estrellas, flôres, mães, sabios e crentes, + Vós todos que formaes a eterna cahorte + Dos bons, dos que perante a vida e a morte, + De Deus esparsem raios resplendentes: + + Por preito á obra santa e redemptora, + Que põe a Terra e os ceus em harmonia, + Como alto solta alegre a cotovia + A limpida canção á luz d'aurora: + + Á minha unindo a vóz, + Cantemos creaturas, + Hossana nas alturas + Á Mãe de todos nós! + +1897. + + +XIX + +AO NOVO CYCLO HISTORICO + +AO TRIUMPHO DO ESPIRITO + + Homem! sob o docel das fulgidas estrellas, + Que espalham pelos ceus de Deus o Ideal jocundo, + Surgiste insciente e nu, por entre mil procellas, + A custo iniciando o teu Poder no mundo!... + + A Terra, que ha de ser mais tarde o teu Imperio, + Theatro e pantheon dos teus tropheus de gloria, + Prendeu-te inerme e escravo, e impoz-se ao teu criterio + Terrivel como um Deus, no escuro humbral da Historia!... + + No fundo do teu Ser, que sabias leis dirigem, + Rompia ainda incerta, envolta em serração, + Tua alma, cuja luz transporta o mundo á origem + Do Bello, Justo e Bom, do Amor e da Rasão!... + + Que seculos sem fim primeiro que desvendes, + Dos vinculos da carne, esse fanal divino!... + Que lugubres visões!... Que espectros!... Que duendes!... + Que espiritos do mal, turvavam teu destino!... + + Que o digam as ficções do extincto fetichismo!... + O numero sem fim dos deuses dos selvagens!... + As tetricas visões da Fé no Judaismo!... + Do inferno dos christãos as lobregas voragens!... + + Mas tudo emfim venceste e hoje sôa a hora + De veres sem pavor a estrada percorrida!... + De creres já em ti, em Deus, na luz d'aurora + Que encerra um velho cyclo, e um novo te abre á Vida!... + + Deus fez d'esse teu peito um campo de batalha + Das luctas no Universo!... E ahi foram mantidas, + Em nome do Ideal que a terra e os ceus trabalha, + Medonhas convulsões e guerras fratricidas!... + + Decerto obedecendo a occulto e grão motivo, + No plano universal da Vida a que és sugeito, + As mil conflagrações do cahos primitivo + Vieram a surgir de novo no teu peito!... + + Dois cyclos Deus traçou, d'uma orbita infinita, + Dos povos do universo ás multiplas colmeias: + Um vota-o as paixões que o rubro sangue agita; + O outro ao resplendor sereno das idéas!... + + Inicio da missão primeira a que és chamado, + Tu vês, em pleno horror, da força o predominio + Nas feras, que, crueis, rugindo em alto brado, + Se votam sem quartel ás luctas de exterminio!... + + Mil raças d'animaes, minados d'odio eterno, + Trucidam-se, correndo o rubro sangue em rios!... + Tem odios figadaes, que lembram os do inferno, + Que foi a projeção de tempos tão sombrios!... + + Em face então do mundo acceso todo em guerra, + Proclamas-te senhor e rei da creação! + E levas sem quartel a morte a toda a Terra, + Á pedra, a pau, a ferro, e a tiro de canhão!... + + Soberbo co'o poder, que d'ambições se nutre, + Gravas-te nos brazões heraldicos da gloria, + Das feras, o leão, o tigre, a aguia, o abutre, + Quaes symbolos fieis da tua acção na Historia!... + + Atraz de mil visões formadas como especulos + Que alcançam do Ideal a luz sempre distante, + Tu fechas hoje em dia, ao fim de largos seculos, + Dos Deuses, reis e heroes o periodo brilhante! + + Os proprios animaes, aquelles que escolheste + Por symbolos fieis do teu poder, é certo + Que estão-se a eliminar tambem: a morte investe + Com elles por fatal e superior decreto!... + + A paz que hoje vaes ter por nova lei suprema, + É a mesma a que attingio o propio cahos por meta; + Nos páramos do azul os soes a teem por lemma + Escripto a fogo eterno aos olhos do poeta!... + + N'um multiplo vae-vem, n'uma completa antithese + Por entre o goso e a dôr, por entre a sombra e a luz, + Chegas-te a conceber do mundo inteiro a synthese + N'um pae celeste e Bom, no Deus que vio Jesus!... + + Deriva desde então do periodo primeiro + O fim que se approxima e o resplendente alvor + Do novo Ideal que traz o fim do captiveiro: + Em vez da Força, a Ideia; e, em vez do Odio, o Amor! + + Teu cerebro pensante é como uma semente + Que está reproduzindo a flôr do Ideal! + Eterno nos traduz por forma resplendente + Do seu divino author a essencia espiritual!... + + Do bello lyrio d'alma as petalas brilhantes + Cambiam sem cessar de côr e de perfume, + E levam do Porvir, aos seculos distantes, + O espirito de Deus que o mundo em si resume!... + + É como o grão subtil que um cedro do Hymalaia + Expôe formoso ao Sol, em todo o seu systhema!... + Em intimo labor co'as leis da Vida, ensaia + A eterna solução do divinal problema!... + + O mesmo estão fazendo as fulgidas estrellas, + Formoso campo em flôr, ideal jardim divino!... + D'ahi as mil visões das coisas as mais bellas + Que exparsem sobre nós seu brilho diamantino! + + O mundo desde os soes da cupula infinita + Ás flores a teus pés, com paternal carinho, + Insuflam n'esse peito ancioso que palpita + Valor para que vás seguro em teu caminho!... + + Tem fé no teu destino; em Deus tem confiança! + Da tua historia escripta as paginas sem conta + Derramam na tua alma a nova luz que avança + D'accordo co'o universo e que hoje em ti desponta!... + + Em vez do legendario heroe das priscas eras, + Das guerras extrahindo a gloria a todo o custo: + Honrando o Creador, e as fulgidas espheras, + Serás, qual semi Deus, sereno, sabio e justo!... + + É este o Ideal que as leis da natureza + Inspiram com sublime e candida alegria!... + Que as normas da Rasão, que as pompas da Belleza, + E as maximas do Amor, reclamam noite e dia!... + + O mesmo ensina o mar que arqueja palpitante, + Da terra enviando a Deus seus canticos d'amôr!... + O mesmo o terno olhar dos olhos d'uma amante; + O augusto erguer do Sol, o calmo abrir da flôr!... + + O cyclo que hoje se abre, embora ainda incerto, + Vem dar um novo rumo á tua antiga historia; + Vem pôr-te em equilibrio, em intimo concerto + Co'a vida universal, de que és a alma e a gloria! + + É esta a nova Fé que em tuba altisonante, + Interprete da Vida, entôa a voz da musa!... + Correi, povos, a ouvir-lhe o seu clamor vibrante!... + O espirito de Deus em sua vóz se accusa!... + +Novembro de 1898. + + +XX + +NOVA LUZ! NOVO IDEAL! + + Espirito Supremo, d'onde brota + A luz que eterna os mundos alumia, + E deixa pelo espaço uma harmonia + Echo da tua vóz! + Inspira-me a assistir, sereno e impavido, + Ao funebre ruiz do christianismo, + E d'este inevitavel cataclysmo + Salva-te a ti e a nós! + + A Ti, o forte, o sabio, o justo, o symbolo + De toda a perfeição, a ti importa + Que d'esta fé, tornada letra morta, + Vejamos renascer + Do mundo novo a crença ardente e rutila, + Co'o magico fulgor da nossa Ideia, + O espelho onde melhor se patenteia + No mundo o teu poder! + + Ao teu olhar religiões sem numero, + Com ritos, cultos, cheios de fulgores, + Desambam, como as petalas das flôres + Ao Sol que as reproduz!... + Que um novo Ideal d'amor, de ti nascido, + Trajando d'ouro e purpura o horizonte, + Das sombras de hoje, esplendido desponte, + A dar-nos nova luz!... + + Outra verdade, filha d'estes tempos, + Que venha a nós em nome teu, n'esta hora, + Matar a sêde ardente que devora + Os nossos corações, + Depois que á intensa luz de mil combates, + Travados pela fé contra a Sciencia, + Começa-se a apagar na consciencia + O ideal christão! + + A Ti attraes as almas como as aguias + De monte em monte a prole aos ceus subindo, + Fazendo com que attinja o espaço infindo + Que abarca o seu olhar!... + De Brahma a Budha, de Moysés a Christo, + Se fez essa ascenção prodigiosa, + Ao fim do qual a alma é desejosa + De a novos ceus voar!... + + Ah d'esta vacuidade em que se encontram + Os nossos corações cheios de febre, + Que uma alma nova irrompa e audaz celebre + Suas nupcias d'amor + Co'o mundo que lhe coube por partilha, + Passando a co-existir serenamente, + Harmonica, feliz e resplendente, + Como ante o Sol a flôr!... + + Por nós, que não por ti, que és intangivel + Ás frageis condições da vida humana: + Perante o aspecto triumphal que emana + De toda a creação: + Convem-nos expurgir do fundo d'alma, + Da fonte onde se gera o pensamento, + O cunho de tristeza e desalento, + Que imprime o ideal christão!... + + Ha na verdade em tudo o que é belleza, + E força e vida e amor nas creaturas, + Desde os astros que brilham nas alturas, + Á flôr a nossos pés: + Tanta porta do ceu a abrir-se á alma; + Riqueza tanta e tanto amor occulto + A revellar-te a Ti, que é justo um culto + Erguer-lhes outra vez! + + Digamos a verdade: uma semente, + Que eterna e intacta a arvore resume, + Com troncos, folhas, flôres e o perfume + Que entrega ás virações: + Encerra em si mais luz, lição mais pratica, + Mais digna de por nós ser apprendida + Qual maxima d'amor, e ideal da vida, + Que um livro d'orações! + + Tua alma é presa ao mundo que creaste + E o mundo, cuja orbita infinita + Abrange a Terra, e os Ceus, onde palpita + D'amor teu coração, + Tem jus a que façamos d'elle a Biblia + Eterna, aonde apprenda a Humanidade, + Sedenta de Justiça e de Verdade, + A nova religião!... + + Ah tens a executar teus vastos planos + D'amor, e de Justiça, aurifulgentes, + Fanaticos aos mil, e mil videntes, + E innumeros heroes, + De varia estirpe: o artista, o justo, o sabio, + Buscando interpretar teu pensamento; + E encontram pelo azul do firmamento + No mesmo afan os soes!... + + Que á tua vóz as gerações extinctas + Resurjam e contemplem com surpreza + Esta obra immensa, cheia de belleza, + Que em multiplo labor, + As novas gerações estão fazendo!... + Que em nome da Verdade triumphante, + Unisono na Terra se alevante + Este hymno em teu louvor! + +1889. + + +XXI + +APPELLO SUPREMO! + + A minha alma immortal n'este exilio onde existe, + Abrigando no seio a ideaes tão risonhos, + E entre os homens só vendo um sarçal ermo e triste, + Onde outro'ra plantára o jardim dos seus sonhos: + + Teve a sorte cruel d'uma flôr, que enganada + Pelos raios do sol, ainda inverno e entreabrio; + Mas que dias depois, co'o cahir da geada, + E o soprar do nordeste, afinal, succumbio!... + + Assim foi para mim o florir dos amores, + N'essa quadra febril em que o sangue é fecundo, + Quando rompe a manhã, quando abrem as flôres, + Quando o Sol brilhante e o azul é profundo!... + + Nem ha rocha no mar, pelas ondas batida; + Nem ha nuvem no ceu, pelo vento açoutada; + Nem ha rosa n'um val' pelo sol esquecida, + Que se possa dizer mais do que eu desgraçada!... + + Mas se o mal nos incita, e Deus quer nos transporte + D'um estadio a outro estadio atravez muito custo, + Em demanda do _Bem_, que triumpha da morte: + Deves crêr do Porvir no Ideal santo e augusto! + + E se foste, minha alma, a illudida afinal, + Quando crêste emplumar nesta quadra o teu ninho,... + Pede a Deus que te envie aquella hora fatal + Que abre a porta á Verdade e vae tu teu caminho!... + + Oh Justiça increada! oh meu Deus! oh meu Pae! + Tu que a mim me mostras-te o teu seio, esse abrigo + Da _Bellesa_ e do _Amor_, que me envolve e me attrae: + Dá-me as azas Senhor, com que vá ter comtigo!... + +Lisboa, 1869. + + +XXII + +REFUGIO ULTIMO! + + Deixa, Senhor, do mundo em que eu habito + A ti meu ser se evol'!... + Tem jus aos ceus quem mede esse infinito + Que vae de sol a sol!... + + Sonhei na terra, amando-a muito e muito, + Novo Deus, nova lei; + Mas foi, pura illusão, baldado intuito, + Comtigo só me achei!... + + Suppuz em vez do gellido egoismo, + Da guerra surda e atroz + D'interesses, em perpetuo antagonismo, + Que envolve a todos nós: + + Homens, povos, nações, por varios modos + Unidos, dando as mãos: + _Todos por um, valendo um só por todos, + Vivendo como irmãos!..._ + + É fé que sigo, é crença que mantenho: + Que em mysterioso nó + Unis-te os homens, com supremo engenho, + Formando uma alma só; + + Em serviço da qual cada individuo, + Com multiplo labor, + Trabalha por lhe dar, no esforço assiduo, + O maximo esplendor!... + + Quão mais estreito o vinculo fôr dado, + Mais luz hade irromper + Do nosso coração, do amor gerado + No ventre da mulher!... + + Tal o sonho que em dias mais felizes + Ao mundo consagrei!... + Como hade aqui lançar fundas raizes: + A ti contente irei!... + + Se um raio de calôr ou luz, prestantes, + A terra a si prendeu: + É vel'os como, em rapidos instantes, + Se evolam para o céu; + + E como, n'um sentido em tudo opposto, + A pedra na amplidão, + Quanto mais alto attinge, com mais gosto + Gravita para o chão!... + + E eu não gravito: eu subo na vertigem + D'um céllico condor + A demandar em ti, na propria origem, + Belleza, luz e amor! + + Permitte, pois, do mundo em que eu habito + Meu ser a ti se evol': + Tem jus aos ceus quem mede esse infinito + Que vae de sol a sol! + +Novembro de 1868. + + + + +LIVRO SEGUNDO + +ESPELHO DUPLO + + +O MUNDO E A CONSCIENCIA + + +I + +ALVORADA + + Algures brilha o sol no azul do firmamento, + E expõe com resplendor das cousas o espectaculo! + Aqui, na escuridão, o mundo é tabernaculo + Onde os frageis mortaes descançam um momento!... + + Alem, o Sol incita o mundo ao movimento, + Á lucta pela Vida, o esteio e o sustentaculo + Desde o ser da Rasão ao minimo animaculo, + Aqui, o somno esparse em todos novo alento! + + Ó Luz! tu és do mundo a Força, a Alma, a Vida, + A essencia do meu Ser, a minha propria Ideia, + O proprio Deus, talvez!... _Belleza, Amor, Verdade!_ + + Atraz de Ti caminha a Terra, mãe querida! + Bemdito caminhar! Por Ti minha alma anceia!... + Bemvinda sejas, pois, oh doce claridade! + +Lisboa, 1898. + + +II + +Á LUZ + + Oh Luz dourada e pura! + Oh Luz, irmã do Amor! + Espelho e formusura + Da Alma do Senhor! + + Em ti eu vejo e abraço + O author da creação, + Soltando pelo espaço + Explendida canção + + Meus olhos que te admiram, + Bem como a Terra e os Ceus, + Ao verem-te, sentiram + O proprio olhar de Deus! + + O ceu, mal vens n'aurora, + Mais alva que a alva lã, + De purpura colora + As faces de manhã! + + A Terra, envolta em galas, + Mais bella que as Huris, + Reveste-se de opálas, + De perolas e rubis! + + As aves innocentes, + Sentindo o teu fulgor, + Gorgeiam, de contentes, + Seus canticos d'amor! + + Os lyrios junto ás fontes, + Perdendo o teu clarão, + As suas lindas fontes + Inclinam-se para o chão! + + Eu mesmo, se em verdade + Sonhei, com Jesus, + O bem da Humanidade, + A Ti o devo oh Luz! + + Oh candida alegria! + Espirito de Deus, + Que animas noite e dia + A Terra, o mar, e os ceus, + + Adoro-te portento!... + E a Ti levando as mãos, + Como ante o sacramento! + Os simplices christãos!... + + D'esta alma és o esteio! + Que a tua essencia pura + Ampare-me no meio + Da minha desventura!... + + E quando a morte um dia + Roubar aos olhos meus, + A esplendida harmonia + Que formam Terra e ceus: + + Seguindo prasenteiro + A lei que me conduz, + Meu grito derradeiro + Será por ti oh Luz! + + +III + +AO SOL! + + Oh maravilha esplendida engastada + Na fronte augusta do azul profundo, + Qual lamina brilhante onde gravada + Se visse a face de quem fez o mundo, + + Eu te saudo oh Sol? qual religioso + O Indio quando viu a vez primeira + Surgir do mar teu facho luminoso + E alegrar com a luz a terra inteira! + + Ah! quiz cantar o braço omnipotente + Que por nós trabalhava a cada instante: + E a terra, o mar, e quanto vive e sente, + Apontou para Ti, astro brilhante! + + Possam teus raios que nos ceus se expandem + Ricos da gloria e cheios d'alegria, + Fazer com que do peito meu debandem + As sombras da tristeza que trazia, + + E ouve-me um canto alegre como o côro + Das aves quando, envolto em magestade, + Tu transpões do oriente as portas d'ouro + E abençoas dos ceus a Humanidade! + + Oh astro, coração tres vezes santo, + De cujo seio foi por Deus emmerso + O movimento e a vida e tudo quanto + Forma hoje a harmonia do Universo! + + Ouvi louvar-te, num concerto vario, + Montanhas, mares, flôres e arvoredos, + Que do meu peito, como d'um sacrario, + Confiaram seus intimos segredos! + + Louvam-te as aves; louvam-te as creanças, + E os velhos que não teem fogo nos lares, + Buscando a doce luz que tu lhes lanças, + Como a imagem de Deus junto aos altares! + + Louva-te, oh Sol! a terra a quem quizeste + Por tua esposa, na epocha sombria, + Em que de crepe a abbobada se veste, + Lacrimosa chorando noite e dia; + + E os jubilios e os mil festões de gala + Com que cingio de noiva delirante + A casta fronte, quando a enamoral-a + Sentiu de novo o teu olhar brilhante! + + Oh Sol! oh Sol! a minha lingua é pobre + Para cantar-te em verso o quanto vales + Perante as maravilhas que descobre + A vista humana por montanha e vales!... + + Desde o negro carvão que o fogo atêa + Ao cédro altivo que no mundo avulta; + Desde o meu sangue á luz da minha idêa: + Por tudo existe a tua essencia occulta!... + + Hostia de luz esplendida, patente + Perante os povos em perpetua missa! + Tu, que és de Deus o espelho resplendente, + Throno de gloria e séde de Justiça: + + Se apagares nos ceus teu facho enorme, + Suspensa a vida no labor interno, + Tu verás como a terra logo dorme + Entre as sombras da noite um somno eterno!... + + Seja pois o meu canto um desafogo + Da nossa gratidão, astro, jocundo! + Coração formosissimo de fogo + Que em nome do Senhor dás vida ao mundo! + + E prosegue no carro flammejante + A derramar teus bens por mundos novos, + Que emquanto vês na marcha triumphante + Infindas tribus d'animaes e povos: + + Eu, deslumbrado ainda com os vestigios + Da tua luz, de tantas coisas bellas, + Louvarei o author de taes prodigios + Sob esse manto esplendido d'estrellas! + +Lisboa, 1872. + + +IV + +AO MAR! + + Senhor! eu canto o mar, que no psalterio + D'esses orbes de luz que além se avista, + Com a vóz d'um tristissimo psalmista + Teu nome ousa louvar no espaço ethereo! + + Canto o apostolo, o mestre da Verdade, + Que, aprendendo de ti altos segredos: + Contra os negros tyrannos dos rochedos + Vae prégando o sermão da Liberdade! + + Ah cuja grande vóz, d'além do abysmo, + Apraz-me ouvir por noite tenebrosa + Imponente crescer, bramir raivosa + D'encontro á rocha onde eu medito e scismo! + + Eil'o sempre n'aquelle arfar profundo, + Em lucta collossal, guerra infinita, + Contra o sopro do ceu que eterno o agita, + Desde o dia em que Deus o trouxe ao mundo! + + Se tudo quanto ahi á luz se cria, + Tudo trabalha mas descança e dorme, + Porque anda sempre oh mar, teu seio enorme + N'essa lucta cruel de noite e dia?! + + Em ancia egual só tenho a comparar-te + Á marcha d'esses mundos que o Senhor + Tornou em corações do seu amor, + Para a vida accordar por toda a parte! + + Tu és o irmão dos astros; és da Terra + O immenso coração profundo e triste, + Que eterno off'rece a vida a quanto existe, + Co'o auxilio do Sol, que tudo encerra!... + + Ah muito seja embora o desgraçado, + Muita a miseria occulta n'esse abysmo, + Desde as scenas do horrivel cataclysmo, + De que resam as biblias do Passado: + + Eu vejo em ti o pae dos pobresinhos, + A quem nada deixando as leis avaras, + Tornas-te-lhes os peixes em cearas, + Para matar a fome a seus filhinhos!... + + O eterno confidente de infelizes, + De quem pareces ser tão grato espelho, + Que servindo para elles d'evangelho, + Eu não sei que palavras tu lhes dizes, + + Que fico ahi por tempos esquecidos, + Tão preso a escutar-te a voz das aguas, + Que obtenho acalmar a dôr ás magoas + E adormecer meus males tão compridos!... + + Oh! mar! oh! mar! quando eu a sós medito + Nas rochas sobre os pincaros calado, + Recorda o teu rumor cadenceado + Um pendulo suspenso no infinito!... + + Harpa de Deus exposta aos quatro ventos, + Onde o sopro, que a vaga á vaga impelle, + Descanta harmonioso um hymno Áquelle, + Que a terra e os ceus encheu de mil portentos!... + + Quer a colera accesa da tormenta + Te divida em terriveis multidões + De tigres, de pantheras, de leões, + Rugindo em cada vaga que rebenta; + + Quer ouça pelas algas verde negras, + E as praias solitarias onde eu choro... + Cantar o teu amor em vasto côro + De rolas, rouxinoes ou toutinegras: + + Ou fera ou pomba, egual amor me atêa + O teu gentil amor e altivo orgulho, + Quando este arroja á praia o pedregulho, + E aquelle as lindas conchas lhe semeia!... + + És sempre o mesmo! És sempre o grande amigo, + Sobre cuja espantosa immensidade + Vejo passar o sopro da Verdade, + Da doutrina de Deus, que adoro e sigo! + +Buarcos, 1869. + + +V + +ÁS NUVENS + + Vapores que em vistosos cortinados + Armaes dos ceus o templo de safira + Com purpura e finissimos broxados, + Sêde hoje o assumpto para a vóz da lyra! + + Que eu quero ter a intima certeza + Que, antes da hora da fatal partida, + A minha alma no mundo fica preza + Ás coisas bellas que adorei na vida... + + Horas felizes que ainda hoje eu passo, + Pelas tardes calmosas do verão, + Seguindo-as uma a uma pelo espaço, + Dizei ás nuvens se eu as amo ou não!... + + Eu que vou pelo mundo imaginando + Visões sobre visões, sempre illusorias: + Comprazo-me em vos vêr de quando em quando, + Fórmas aereas, sombras transitorias!... + + Vós que nas tardes e manhãs amenas, + Passando como timidas deidades, + Deixaes os ceus juncados d'açucenas, + D'alvos jasmins e rôxas saudades; + + Vós que andaes presurosas, fugitivas, + Os ceus cruzando n'um lidar constante: + Sorris-me como as multiplas missivas + Que envia ao Sol a Terra sua amante!... + + Imagens lindas d'um amor jocundo, + E espectros negros d'intimos rancores, + Do grande coração que agita o mundo, + O mar, que tem como eu paixões e amores!... + + Á tarde quando o Sol, cratera ardente, + Vae prestes a apagar-se e, em desafago, + Inflamma as grandes portas do Occidente + E faz da terra e ceus um mar de fogo: + + Ah! deixo os olhos espraiando a vista + Pelos paineis de mil preciosidades, + Aonde desenhaes, com mãos d'artista, + Em telas d'ouro olympicas cidades!... + + E agora são rochedos e campinas!... + Fulvos leões e timidas gazellas!... + E logo apoz castellos em ruinas, + Visões d'amor, phantasticas donzellas!... + + Umas vezes são guerras estrondosas, + Luctas crueis d'impavidos gigantes, + Onde ha rios de sangue e pavorosas + Sombras de heroes, e incendios fumegantes!... + + E outras vezes, então, nuvens ligeiras, + Convertei-vos em lyrios e violetas, + Em acacias floridas e palmeiras, + E em vultos de Romeus e Julietas!... + + E eu amo a nuvem negra que imponente + Abre nos ceus a fulgida garganta, + E vomita do seio o raio ardente, + E com elle o trovão que o mundo espanta,... + + E a pudibunda nuvem d'alvorada + Quando, ante o Sol esplendido que assoma, + Parece virgem pura e delicada, + Branca de neve com dourada coma!... + + Oh nuvens que passaes no firmamento, + Bandos aereos d'illusões perfeitas!... + Vós que tão lindas sois, e n'um momento, + No chão cahis em lagrimas desfeitas! + + Quando vos vejo pelo azul profundo, + Voluptuosas, gentis e transparentes: + Lembraes-me os sonhos que lancei ao mundo, + Como um bando de pombas innocentes!... + + Bem mais felizes vós, que, n'um momento, + Passando aereo fumo em valle e serra, + Levaes comvosco, a vida, o movimento + De quanto nasce e vive sobre a terra!... + + Já não assim meus sonhos, muito embora + Levem comsigo as novas do futuro: + São nuvens bellas d'esplendente aurora, + Desfeitas sobre um chão ingrato e duro!... + +Carvalhaes, 1873. + + +VI + +ÁS FLORES + + Eu venho-vos cantar, mimosas flôres, + A vós irmãs da luz, gentis e bellas, + Do chão que piso vívidas estrellas, + Com mil perfumes, mil viçosas côres! + + Á vossa encantadora companhia, + Toda cheia de graça e de candura, + Eu devo em parte a luz serena e pura + Do amor, que meu espirito allumia!... + + Cercando-me dos vossos esplendores, + Nos quaes eu pasto dia e noite a vista, + Consigo converter meu lar d'artista + N'um Louvre de riquissimos lavores + + Em porphirio, alabastro, em prata e oiro, + E em fulgidos setins!... Primores d'arte, + Por onde o Artista Maximo reparte + Co'os olhos meus bellissimo thesouro!... + + Entre nós não ha festas verdadeiras, + No templo, no palacio ou na choupana, + Que em todo o grão matiz da vida humana, + Prescindam de vos ter por companheiras!... + + Ninguem na Terra vos disputa a palma + D'expor, com fidelissima justeza + De côr e fórma, cheias de belleza, + Os varios sentimentos da nossa alma!... + + A timida donzella, ingenua e pura, + Temendo-se dos bens que ella imagina, + Nas petalas da candida bonina + Procura lêr seus sonhos de ventura!... + + Com finas mãos, as pallidas Ophelias, + Por darem mais realce aos fios d'ouro + Das bastas tranças: seu cabello louro + Adornam com alvissimas camellias! + + Afim de se dizer á bem amada + Do intenso amor o rapido delirio: + Da rosa pudibunda ou branco lyrio + Se faz missiva pura e perfumada!... + + Os tristes na viuvez, e na orfandade, + Roidos por uma intima amargura: + Desfolham na chorada sepultura, + As petalas do lyrio e da saudade!... + + Eu mesmo, que do publico debando; + Dos mortos devorciado, e alheio aos vivos: + Se vejo d'entre sonhos fugitivos, + Abrirem-se-me os ceus de quando em quando; + + Suppondo em vida os povos numerosos, + Unindo-se em espirito e verdade, + Viverem ante Deus e a Humanidade, + Como irmãos, solidarios, venturosos; + + E encontro, em torno ás candidas chimeras, + Crueis dissilusões por toda a parte: + Em guerra os homens, a virtude e a arte + Sem o fogo sagrado d'outras eras... + + Oh minhas flôres! viva embora eu triste, + Que as vossas serenissimas imagens + Conseguem libertar-me das voragens + Com quanto bello na minha alma existe!... + + Ah quando caio e vejo das miserias + Cavar-se aos pés um sorvedoro infindo: + Seguindo as esperiaes d'um sonho lindo, + Por vós remonto ás regiões ethereas!... + + Em horas de fraqueza, horas mofinas, + Se eu ouso vos fitar, sinto na face + Um subito rubor, qual se me olhasse + Deus Pae, sob essas formas peregrinas!... + + Urnas santas, a mim que deposito + No vosso olôr subtil e perfumado + As scenas mais gentis do meu passado, + Perdidas para sempre no infinito!... + + Deixae que em testemunho da verdade: + Do muito que vos quiz e amei na vida, + Como echo da minha alma agradecida, + Meu canto o atteste á luz da eternidade!... + +Carvalhaes, 1870. + + +VII + +Á ARVORE + + Quando contemplo em paz teu nobre vulto + Erguido aos ceus: envolto em verde manto, + Supponho contemplar um justo,... um santo,... + Um pae,... um Deus,... algum mysterio occulto!... + + Ha não sei bem que força em mim tão forte, + Não sei que grande instincto inabalavel + A levar para quanto é bello e estavel + Esta alma, para quem só Deus é norte, + + Que em ti, oh mãe, em ti achei guarida... + A tua sombra off'rece a paz e a esperança + A quem no mundo é triste e em vão se cança + Para aos ceus dirigir a propria vida!... + + Quantas vezes em horas d'agonia, + Que deixavam meus olhos rasos d'agua, + Eu não deixei ficar-te aos pés a magoa, + Buscando tua sombra noite e dia?!... + + Quantas horas fitando os ceus pasmado + Eu não passei, deixando o olhar suspenso + N'aquelle vasto seio azul e immenso, + Do verde de teus ramos marchetado?!... + + De dia, quando o Sol aquece o mundo, + E os entes se propagam, nascem, crescem; + De noite quando os astros resplandecem + N'aquellas solidões d'um mar sem fundo: + + Se á tua sombra estou, sinto n'esta alma + Cair da doce côr que o Sol te veste, + Da paz que tens, o balsamo celeste + Que em meu peito as paixões serena e acalma!... + + Ou quando o vento chega, e eu não sei d'onde... + E passa sobre ti, murmura e canta, + E eu olho e nada vejo, e a fé mais santa + Me leva a crer no Deus que o mundo esconde; + + Ou quando á noite, n'um propicio agouro, + As estrellas dos ceus que mais fulguram + Das pontas dos teus ramos se penduram + Como ideias de Deus em fructos d'ouro: + + Amo-te muito e muito, e não me admira, + Quando tu á minha alma um Deus revellas + E lhe mandas um hymno em que as estrellas + São as notas, e a tua coma a lyra!... + + Oh arvore! no amor que a Ti me prende, + Confesso ao mundo haver bem mais lucrado, + Que em muito livro d'ouro encardenado, + Que ahi se espalha e muita gente aprende!... + + Se eu vira, como os fructos dos teus ramos, + D'entro d'esta alma abrir-se a flôr da ideia + Á luz deste ideal que em nós se ateia + Para que nós do mal ao bem subamos; + + Se ás novas gerações, no meu psalterio, + Cantar podesse a nova luz que assoma, + Como os orgãos da tua verde coma + Lançando a vóz de Deus no espaço ethereo; + + Se eu fora como tu viver piedoso, + E a qualquer desgraçado e pobre amigo + Offerecer no meu seio o mesmo abrigo, + Que estende sobre o ninho o ramo umbroso; + + Se eu conseguisse, emfim, levar meu dias, + Perante o mal que sempre me acompanha, + Como a arvore sonora da montanha, + Que descanta ao soprar das ventanias: + + Só assim chegaria um dia a ser + O espirito sereno, sabio e justo, + A que deve aspirar, a todo o custo, + O Senhor da Rasão, que pensa e quer! + +Bussaco, 1869. + + +VIII + +Á TERRA + + Oh Terra, Virgem mãe da Humanidade, + Pelos fructos que dás eu te bemdigo! + Cheia de graça e cheia de bondade, + O espirito de Deus seja comtigo! + + Tu que és do Sol a esposa immaculada, + Que entre perfumes, canticos e flôres, + Passas no azul dos ceus, virgem coroada + Com o candido mimbo dos amores: + + Como escuta piedosa a mãe seu filho, + E d'elle acceita o mais pequeno objecto, + Ouve a harpa d'esta alma onde dedilho + Por ti um canto d'entranhado affecto! + + Um canto aonde a propria naturesa, + Em cujo seio o astro meu se inspira, + Reflecte o seu conjuncto de belleza, + Unindo a eterna vóz á vóz da lyra! + + O mar que te circunda a fronte bella, + Que espelha ao longe a luz que o Sol t'envia; + Te muda a negra crosta em linda estrella, + E dá-te um canto cheio de harmonia; + + E o subtil pingo d'agua onde escondes-te + D'inquietos vibriões um mar profundo, + Tão vasto como a abbobada celeste, + Contendo a tantos como os soes do mundo; + + A arvore a prumo erguida ao firmamento, + Posta por Deus na paz a mais completa, + Quando, ao passar-lhe o espirito do vento, + Descanta como a harpa d'um propheta: + + E a semente da flôr, qual grão d'areia, + Que, inerte, fria, escura e pequenina, + Contém as pompas da divina ideia: + O lyrio branco ou a rosa purpurina; + + O leão, implacavel creatura, + Quando a victima arrasta inda arquejante + Tinto de sangue, offerta-a com ternura + Á leôa parida, sua amante: + + E a indefeza timida ovelhinha, + Entre as flôres gentis do verde prado. + Meiga balando á mãe que se avesinha, + Por dar-lhe o leite doce e perfumado; + + A aguia quando solta a envergadura + Das largas azas pelo azul do espaço, + E, em marcha triumphal, a enorme altura + Passa nos céus sem lucta, e sem cançaço; + + E a crysalida que abre á luz do dia + Do involucro o sedifero thesouro, + E, nos enlevos d'intima alegria, + Expande á luz do Sol as azas d'ouro: + + Quanto, emfim, é teu filho a mim me pede, + Que em nome d'elles eu te louve e cante, + Suppondo achar n'esta alma o centro, a séde, + O altar, de quanto o Sol lhe põe diante!... + + Oh minha mãe! a magua me entristece + De que Deus, cujas dadivas divide + Por tanta gente, a mim me não cedesse + Para cantar-te a harpa de David!... + + Dos proprios paes e estranhos mal tratado, + Fui pôr-me á tua sombra hospitaleira, + E em teu seio de mãe abençoado + Achei d'esta alma a patria verdadeira! + + Não sei como surgio o homem na terra!... + Não sei onde os meus sonhos se dirigem...; + Mas quanto bello e bom minha alma encerra, + Em ti encontra a perenal origem!... + + Quer sobre os cumes dos altivos montes, + Quer á sombra dos vales verdejantes; + Quer ouça a meiga vóz das claras fontes, + Quer as furias das ondas espumantes: + + Por onde quer que eu vá, minha alma sente + Cercal'a tão solicito cuidado, + Que quanto me concebe um dia a mente, + Encontra sempre em ti o objecto amado!... + + Por isso, embora eu viva como o paria + Junto ás margens do Ganges crystalino, + Levando vida incerta, rude e varia, + Entre os baldões d'um impobro destino: + + Vivo entre flôres, musicas e festas, + Tendo por luz suprema o pensamento; + Por palacios as múrmuras florestas, + E alampadas os soes no firmamento! + + Por orchestras as musicas plangentes + Que geme ao longe o mar no captiveiro, + Com os concertos das aves innocentes, + E os murmurios do limpido ribeiro! + + De manhã, com os crystaes do fresco orvalho, + Fulgentes scintiliando á luz do dia, + Pisam meus pés, riquissimo trabalho, + Tapetes de preciosa pedraria! + + Á tarde, quando o sol deixa as alturas, + Qual Vinci, Miguel Angelo ou Ticiano, + Pões-me nos ceus esplendidas figuras, + Como eguaes as não tem o Vaticano!... + + Á hora em que é dado o somno acoite + Em doce paz meu corpo fatigado, + Desdobras-me sobre elle o veu da noite, + De fulgidos brilhantes recamado!... + + E quando, emfim, entrar na noite fria + Do tumulo, onde nada se condemna, + Do meu cadaver tirarás um dia + O branco lyrio e a pudica açucena!... + + Taes os bens que offertas-te ás almas ternas, + Simples, crentes em Deus, ideal fecundo...! + E dás-lhes n'estas coisas sãs e eternas + Bem mais riquezas do que aos reis do mundo!... + + E assim vaes entre os soes deixando o aroma + Dos ineffaveis dons da Providencia, + Como exhala riquissima redoma + Em dourado salão a fina essencia!... + + Oh Terra, Virgem mãe da Humanidade, + Pelos fructos que dás eu te bemdigo! + Cheia de graça, e cheia de bondade, + O espirito de Deus seja comtigo! + +Carvalhaes, 1870. + + +IX + +AOS ASTROS! + + Quando ergo á noite os olhos scismadores + Á cupula do ceu, cheia de mundos, + E perco-me nos páramos profundos + D'um mar sem fim de tremulos fulgores: + + O ceu, qual templo levantado á Vida, + Armado de riquissimo thesouro, + De par em par descerra as portas d'ouro, + E attrae a si minha alma embevecida!... + + Chovem-me então das cellicas alturas, + Das luminosas, candidas estrellas, + Visões sublimes, ideaes e bellas + Da Causa que deu o ser ás creaturas!... + + Amor as fez, Amor no espaço as guia!... + E é sob o influxo d'esta Lei Suprema, + Que cada qual realisa o seu problema, + Preso ao das mais em intima harmonia!... + + Sim, cada estrella, vêmol'o sem custo, + Sendo dos ceus bellissimo ornamento, + É um centro de vida e movimento + Posto ao serviço d'um principio justo!... + + Por todo o ethereo azul da immensidade, + Dos soes sem fim a fulgida colmeia, + Trabalha em traduzir, na humana ideia, + De Deus a perfeição, toda bondade!... + + Oh cupula celeste, no teu seio + Aprendo a ler em paginas de fogo + O espirito das coisas que interrogo + Por toda a parte, e em cuja essencia creio!... + + Tu, co'o teu docel azul sem fundo, + Cheio de fogos d'alma claridade, + Em multipla e febril actividade; + Sorris-me como a fabrica do mundo; + + O vasto pavilhão onde é servida + Em mesas d'ouro, festivaes e bellas, + N'esses milhões de esplendidas estrellas, + A eterna comunhão dos Bens da Vida!... + + Permitte, pois, que em sã fraternidade, + Reunindo os habitantes d'esta esphera + Aos que ha em ti, minha alma, sã e austera, + Saúde a mãe commum==a Humanidade==; + + E adore, á luz dos fachos sempre novos, + Do teu santuario, o espirito fecundo + De Deus, Supremo Bem, que ampara o mundo, + Inspira as almas e dirige os Povos!... + + E emquanto a vida vae em seu caminho, + Por entre o dia claro e a noite escura, + Conserva intacta esta alma crente e pura, + Porque possa voltar ao patrio ninho!... + + Á luz da minha critica profana, + A Lei Suprema, que de Deus deriva, + Eleva aos soes, em marcha progressiva, + De virtude em virtude a alma humana!... + + Se duvidas tivesse, a fé e a esperança + Levavam em contrario a vida minha, + E a bussola, que ignora onde caminha, + Segue o seu norte e d'elle emfim descança!... + + Astros sem fim, oh soes que estaes por cima, + Longe da Terra, em região mais pura! + Deixae que o corpo desça á sepultura + E a vós se eleve o espirito que o anima! + + O irmão da Luz, o amante da Verdade, + Hade ir, deixando o envolucro que veste + Como hospede da abbobada celeste, + Internar-se feliz na immensidade!... + + Astros! egual é a lei que nos governa! + Na Terra, o nosso espirito fecundo + Penetra nos reconditos do mundo, + E vive como vós a Vida Eterna! + +Beselga, 1872. + + + + +NOTAS ELUCIDATIVAS + + +A DEDICATORIA + +No nosso periodo academico, que decorre de 1859 a 1866, e no que se lhe +seguiu de 1867 até ao anno de 1874 em que nos casámos, mantivémos +estreitas relações d'amisade com algumas familias historicas da +provincia e da capital, onde eram ainda vivos os aggravos, e numerosas +as queixas, contra as violencias e as vinganças politicas que, de parte +a parte, precederam, acompanharam e seguiram o triumpho das armas +liberaes, na guerra chamada dos dois irmãos, D. Pedro IV e D. Miguel I. + +A nossa substancial e nunca desmentida tolerancia para com as crenças e +as opiniões dos outros, derivada do Ideal de Justiça de 1789, que +seguimos desde os bancos da Universidade com inquebrantavel fé e +ininterrupta dedicação, e o quasi fanatico respeito pela inviolabilidade +do lar, permittiram-nos estudar na vida intima d'aquellas familias +illustres, a transformação profunda que se operou nas crenças, usos e +costumes d'este povo, celebre entre os mais celebres da Historia. + +Tivemos a infinita ventura de conhecer deperto, nas suas melhores +origens, as mais bellas joias da alma portugueza, de que o coração da +mulher foi, é, e ha de ser sempre o fiel relicario e transmissor! D'ahi +em grande parte a nossa confiança na missão d'este povo heroico, nos +destinos dos outros povos, quando para todos brilhe e impere um novo +Ideal de Justiça e em nome d'elle sejam banidas as paixões, quer +religiosas quer politicas, das regiões augustas e serenas da Lei e do +Poder. + +D'essas familias destacaremos a de Silva Gayo, o glorioso author do +_Mario_, casado com D. Emilia Paredes, filha do Conselheiro Cunha +Paredes, Juiz do Supremo Tribunal de Justiça, aquelle um vibrante e +eloquente protesto contra os excessos de demagogia, ou clerical ou +plebêa, de que o citado livro é um bellissimo documento; seu sogro um +dos homens bons e ponderosos que partilharam e serviram o movimento +liberal. + +A familia de Luiz Monteiro Soares d'Albergaria, casado com D. Ludovina +da Silva Carvalho, filha do celebre ministro de D. Pedro IV, senhora de +excepcional illustração, que conhecia a fundo o seu tempo, e sobre elle +descorria com conhecimento de causa. + +A familia Osorio, da quinta das Lagrimas, e a da Graciosa, representando +ambas o elemento são da aristocracia portugueza que se pronunciou pelas +liberdades e franquias patrias, e onde me foi dado admirar os requintes +da educação antiga, no que ella tinha de altruista e de bom, segundo o +verdadeiro espirito evangelico. + +A familia do bacharel em direito Manoel Rois Salgado, de Carvalhaes, +filho de lavradores remediados da poetica região da Bairrada, liberal +convicto, implacavel inimigo da intollerancia religiosa e das tyrannias +politicas do tempo dos caceteiros de D. Miguel e dos Cabraes. + +Era sua esposa uma senhora de origem e tradições legitimistas, D. Anna +de Vasconcellos, que muito soffrera com a guerra dos dois irmãos!... Sua +alma piedosa, delicada e poetica, sobreelevou a todos, e nos fez +conhecer de perto, com quotidianos exemplos de bondade, a excellencia +das doutrinas do Evangelho, quando postas em pratica, com fé e pureza de +coração. + +A familia de Manoel Maria da Silva Bruschy, d'esse grande moralista, +philosopho e jurisconsulto que foi um dos luminares da Jurisprudencia +patria e quem nos dirigiu os nossos primeiros passos na carreira +forense. + +Era elle um dos mais authorisados e prestigiosos representantes do +legistimismo, e quem nos forneceu informações curiosas sobre +muitos pontos obscuros da guerra civil, e sobre motivos secundarios, que +contribuiram para o triumpho das armas liberaes. + +Nas mesmas condições de saber, de coração e de espirito, mas n'uma ordem +de ideias oppostas ás de Silva Bruschy, mencionaremos ainda o general +Luiz Flippe Folque, conselheiro de estado, mestre que tinha sido dos +reis extinctos D. Pedro V e D. Luiz I, e que foi quem acompanhou e +dirigiu o primeiro d'estes dois monarchas na sua viagem d'instrucção e +recreio pela Europa. + +Era um perfeito homem d'estado, modesto, erudito e tolerante para com +todas as opiniões. Devemos a seu genro o Conde de Nova Goa, nosso velho +e dilecto amigo, a convivencia com este perfeito homem de sciencia, de +cujas lições colhemos muitos elementos de ponderação para formarmos +juizo imparcial e seguro sobre a historia dos partidos politicos em +Portugal. + +Resta-nos mencionar nosso sogro, o general de divisão, Roque Francisco +Furtado de Mello, que foi juiz do Tribunal Superior de Guerra e Marinha, +que se orgulhava de ter feito as novas campanhas da Liberdade, e sua +sancta esposa D. Maria Maxima de Berredo, filha d'um dos regeneradores +do movimento revolucionario de 1820. + +Ambos tinham sido victimas das guerras civis desde o cerco do Porto e +ambos soffreram, com suas familias, as mais crueis perseguições dos +sequazes do absolutismo em Portugal. + +Para inteiro esclarecimento, ainda diremos que alguns dos nossos +parentes, tanto do lado paterno como do materno, eram legitimistas +convictos, que se achavam destituidos das honras e benesses do antigo +regimen, e que protestavam contra a nova ordem de coisas. + +Tal foi o meio social em que nos achámos ao sahirmos do lar paterno. + +A nossa posição singularmente favorecida n'este conflicto de interesses +historicos, tendo tido a coragem de evolucionármos em nome da sciencia, +e sob a influencia dos espiritos mais cultos da epocha, para o regimen +da democracia pura, que melhor chamaremos do Direito Humano, inaugurado +com a proclamação dos Direitos do Homem, em 1789; a excepcional ventura +de conquistarmos para a sinceridade das nossas crenças a tolerancia dos +nossos competidores, tudo isto concorreu para nos fortalecer no Ideal +d'um novo Direito, d'uma Nova Justiça, d'uma Nova Moral, de que +este livro é um modesto precursor no campo da poesia patria. + +Não podiamos deixar por isso de o consagrar á memoria inolvidavel +d'essas venerandas creaturas, quasi todas hoje extinctas... ás almas +d'eleição que tanto fortaleceram as nossas creanças na bondade e na +virtude humana. + +Por outro lado pertencendo pela educação que demos a nós mesmos, +destruindo pela base a que recebemos no berço, aos homens de genio e de +fé, que espalharam pelo mundo os principios revolucionarios de 1789 e +tentaram as primeiras applicações praticas aos problemas pendentes da +humanidade, e genios em que havia poetas como Lamartine e Hugo, musicos +como Beethoven e Ricardo Wagner, economistas como Bastiat, publicistas +como Proudhon, historiadores como L. Blanc, philosophos da grandesa e +originalidade de Quinet e Michelet, cujos ideaes de justiça e d'amor nos +conquistaram e nos acompanharão até á morte: comprehende-se que em nome +d'elles não ponhamos hoje a nossa fé e a nossa esperança sobre a +regeneração do Mundo nas gerações actuaes, incredulas, scepticas, e +devoradas pela febre do ouro e do goso! + +N'este actual periodo historico, que é todo de negação, sem ideaes +definidos, e cheio de convenções, de hypocrisias e mentiras, cujo estado +pathologico foi magistralmente descripto por Max Nordau no seu livro +celebre _Les Mensonges conventionelles de notre civilisation_, é natural +que não encontrem echo estes nossos CANTOS, nascidos d'uma grande fe no +futuro da Humanidade! + +São quasi todos uns modestos preludios, uns gorgeios ainda incertos, +d'uma nova alvorada, e por isso os consagramos ás gerações que hão de +ter a ventura de ver em plena claridade o dia de que apenas distinguimos +os primeiros pronuncios nos horisontes do futuro e da patria. + + +O QUE EU VI + +Paginas 1 e 2 + +Esta poesia é uma das quatro ou cinco d'esta collecção que já foram +publicadas. Não podemos verificar n'este momento, por falta de tempo, em +que jornal litterario e em que data o foi. + +Pode dizer-se que é o prologo e a synthese de todo este livro de CANTOS. +Pode até mesmo servir d'explicação ao sentimento religioso que se accusa +tão accentuadamente em quasi todos os nossos trabalhos poeticos. + +Como d'ella se deprehende o _Deus_ a quem nos referimos está +completamente fóra dos moldes das religiões revelladas, dos ergastulos +da fé dogmatica. É o Pae da Vida, a Fonte do Amor, o Deus da Natureza. + +É como que o symbolo que personifica a Perfeição Absoluta; o Ideal do +Universo; A causa primaria de todo o existente; O sol vinificador das +consciencias e dos mundos. + +É a Belleza, é o Amor, é a Justiça, a que tudo obedece, levados ao +maximo grau d'intensidade que é dado á razão humana attingir n'um +determinado cyclo historico, e que, como tal, illumina as consciencias, +dirigindo-as!... + +Para todo o coração terno, para toda a alma de artista, será sempre +imprescindivel antepôr-se ao espectaculo magnificente e deslumbrador do +Universo, á marcha triumphal da Luz e da Vida por toda a parte +penetrando nos ultimos reconditos do mundo visivel e invisivel, e sem a +interrupção d'um só instante na sequencia incalculavel dos seculos, +tirando de lá as maravilhas da natureza, antepôr-se, dizemos, um mundo +moral com as paginas infinitamente bellas das civilisações já extinctas; +um mundo que synthetise todo o Ideal da Humanidade. E, n'esse Mundo +Moral, Deus é o _Ser por excellencia_, a chave insubstituivel do +multiplo e mysterioso Problema da Vida. + +Nas insondaveis e invisiveis regiões da consciencia humana, o +mundo exterior, que é o reflexo, a continuação, o complemento do mundo +interior, encontra n'este, como outros tantos _Ideaes da Perfeição +Suprema_, as Leis da Vida, que actuam imperturbaveis, omnipotentes e +eternas. + +Para este Mundo Moral, para este Mundo das Almas, Deus é pois a +personificação d'essas leis e como tal o Ideal Supremo. + +Não cremos possivel arrancar-se da natureza humana, deturpando-a, +qualquer das suas forças immanentes, e no numero d'estas forças devemos +suppôr a religiosidade, isto é, o sentimento de respeito por um Poder +superior, causa primaria, ponto de partida, iniciação e justificação de +todo o existente, de tudo quanto vêmos e sentimos. + +E para nós uma utopia impraticavel, e nociva á solução dos actuaes +problemas da humanidade, o querer-se substituir o Ideal vivo e amoroso +de Deus pela synthese fria e inanimada da sciencia, assente +exclusivamente em factos demonstraveis!... + +Em primeiro logar as sciencias positivas, pondo fóra da sua esphera +d'investigação, e muito bem, a Causa Primaria das cousas, não podem +aspirar a resolver os problemas da consciencia e do coração, e a fazer +calar as imperiosas interrogações da sua voz interior!... + +Em segundo logar, todas as sciencias assentam, por ora, em meras +conjecturas, em, aliás engenhosas e bem concebidas, hypotheses, que como +taes em tempo algum poderão satisfazer a ancia infinita de nosso +espirito em tudo devassar e saber, e ninguem nos pode affirmar que +amanhã não sejam substituidas por novas hypotheses, melhor concebidas e +expostas. + +Em terceiro e ultimo logar, o povo e a mulher, isto é os obscuros, os +simples, os que trabalham, os que soffrem e os que amam, que são quasi, +por ora, a humanidade inteira, não poderiam suspender as reclamações do +seu coração e do seu espirito, á espera que os sabios lhes desvendassem +os segredos da natureza, e convertessem as suas verdades, chamadas +irreductiveis, n'um Ideal Supremo, que, para todos os effeitos, +substituisse a Idéa de Deus a que o christianismo deu uma feição tão +amorosa na interpretação larga e fecunda d'um Pae Celeste. + +Quem lucra com a guerra feita ao sentimento religioso, confundindo-o com +o das religiões positivas, revelladas, são os reaccionarios catholicos +e, para prova, é vêr o alastramento pavoroso que por todo o +paiz se está operando nas classes ricas, e nas ultimas camadas sociaes, +sahindo-se até hoje triumphantes os que, pelas leis vigentes, pelas +tradicções historicas, e pelo futuro d'este paiz, não deveriam ter cá +entrado!... + +O que o sentimento religioso reclama é ser derivado para novos +objectivos que mais directamente interessem e sirvam os soffrimentos +humanos, a _moral_, a _arte_, o _direito_ e a _justiça_, abandonando o +sobrenaturalismo com todo o seu cortejo de phantasias, de aberrações e +de absurdos. + +No dia em que a Razão se pozer d'accordo com a Fé, o Amor com a Justiça, +será facil á humanidade entrar na normalidade do seu distino, como +factor poderoso que é, nos multiplos e interminaveis problemas do +Universo. + +Em harmonia com estas idéas, com o Ideal de Justiça que professamos, e +de que este livro é um vehemente e sincero pregão, consagrando além +d'isso á mulher e ao povo as nossas melhores esperanças na redempção do +mundo: adoptámos para traduzirmos o nosso Ideal Supremo, esta palavra +que tem a consagração dos seculos, as sympathias e a adhesão d'aquelles +a quem principalmente visamos nos nossos CANTOS. + +Sirva esta nota de explicação ás poesias congeneres e complementares +d'estas, _Avé Creator_ pag. 37, e o _Sursum Corda_ pag. 41 e outras. + + +TRISTEZA + +Paginas 5 a 7. + +Escrevemol'a n'uma manhã de primavera na tapada d'Ajuda, quando esta não +era ainda frequentada pelo publico da capital. + +N'aquelle recinto onde não entravam os rumores da grande cidade, na +benefica e imperturbavel quietação dos campos, sob uma tonalidade de +côres e de sombras d'uma variedade e doçura infinitas, havia n'essa +manhã um grande movimento de vida na Natureza, muitos feixes de sol a +distribuir e a combinar seus raios de ouro pelos troncos e a folhagem +das arvores, pela verdura das relvas; muitos passaros cantando em redor +dos ninhos; muitos insectos zumbindo em volta das flôres. + +Só nós appareciamos no meio d'aquelle trecho encantador de vida +universal, com a nossa alma envolta em sombras caliginosas e, sob este +influxo, o coração a trasbordar-nos de tristezas!... + +Estas derivavam d'erros proprios e alheios e faziamo-nos passar, ali, +aos olhos da propria consciencia, como um desconcerto na Vida, como uma +nodoa na creação! + +Da alta comprehensão que temos da _dignidade humana_ e do papel que o +Homem e a Humanidade representam nos destinos do Universo, (V. as +poesias _Ao Homem_ e _Á Mulher_), resultou para nós uma philosophia e +uma moral que são substancialmente imcompativeis com os desalentos e as +tristezas, porque aliás tantas vezes os nossos dias teem sido +assaltados!... + +D'ahi o nosso appello para a Natureza onde tudo está no seu logar, não +se desviando um apice da linha que lhe foi traçada, no augusto e sereno +cumprimento das suas leis eternas e divinas. + +Pedindo á natureza refugio e amparo para as nossas dôres, lição e +exemplo para os nossos erros, n'aquelle dia memoravel entrou-nos n'alma, +como um cortejo festivo de Deus, tudo quanto em volta de nós celebrava +ali os mysterios da vida e irromperam nos dos labios então estas +estrophes despretenciosas e taes quaes as publicamos hoje. + +Pelo habito de as repetirmos longos annos, nos soliloquios com a nossa +consciencia, não nos aventurámos a alterar-lhes uma só palavra, nem uma +só virgula, e assim se explica que seja a unica poesia d'este livro com +versos soltos, rimados apenas nos versos agudos. + + +PRESENTIMENTOS + +Paginas 8 a 18 + +E como uma photographia instantanea do estado da nossa alma quando, +finda a nossa carreira universitaria, tivemos de assentar arraiaes no +positivismo das coisas para havermos os meios com que se mantem o que ha +de mais imperioso: a existencia, e n'esta o que ha de mais sagrado: a +honra. + +Depois d'uma mocidade ruidosa, passada no convivio de livros dos mais +celebres pensadores do seculo, e de talentos dos mais abalisados entre +os lentes da Universidade, como Antonio de Carvalho, Silva Gayo, e +Viegas; de rapazes cheios de ideaes e d'audacia, que mais tarde se +haviam de tornar celebres nas letras, como Anthero do Quental, Theophilo +Braga, Eça de Queiroz e Anselmo de Andrade, estes dois ultimos nossos +condiscipulos; n'um periodo em que todos acreditavam na transformação +completa do existente, para, abandonados de vez os velhos e caducos +moldes do mundo medieval, entrar-se definitivamente na normalidade da +vida que as sciencias dos ultimos seculos, e o direito de Revolução, nos +garantiam: comprehende-se bem qual seria a nossa tristeza ao entestarmos +com uma sociedade, mais que qualquer outra, decrepita, incredula, +egoista e dissoluta! + +Tinhamos já então feito a nossa primeira viagem á França, sob o imperio +da mais desenfreada corrupção politica dos ultimos tempos, na +restauração do Imperio por Napoleão _le petit_ e causou-nos indignação o +que abservámos de perto na cidade santa de Direito Moderno, sobre a qual +tinham raiado os inolvidaveis dias de 1789 e que fôra o theatro das +primeiras e gigantescas batalhas do Povo, em nome do _Direito Humano_, +contra os thronos colligados em nome do _Direito Divino_!... + +Estavamos nas vesperas da guerra Franco-Allemã que todos previam como +inevitavel e de que resultou este tardio e indeciso movimento +democratico, a cuja sombra a França não conseguio ainda +emancipar-se completamente dos preconceitos e velharias do antigo +direito!... + +Regressámos á patria com a alma mais cortada de dôres de que quando +d'ella partiramos!... + +A nossa intervenção quotidiana na vida do Povo, pela profissão que +exercemos, o conhecimento das suas multiplas e infinitas miserias, a sua +falta de comprehensão e de energia em reivindicar os seus direitos e a +defeza da sua causa; o egoismo desenfreado da burguezia triumphante com +a sua lastimosa indifferença pelo futuro da Patria; a irremediavel +cegueira da aristocracia portugueza em não se separar das formulas já +hoje varias de sentido e exhaustas de forças, do Direito Divino, +representado no throno e no altar, direito já morto nas consciencias +pela força da razão e da logica, antes de o ser no campo da batalha pela +força das armas: todo este conjuncto de circumstancias adversas, +concorreu para nos entibiar a fé e a esperança na realisação dos nossos +ideaes. + +Ao vêrmos a Nacionalidade Portugueza ha tres seculos desviada do seu +destino historico sem conseguir reatar as tradições perdidas, apesar dos +violentos abalos da natureza e dos homens para levantal'a do atoleiro em +que se deixou cahir--a libertação de Hespanha, o terremoto de Lisboa, as +reformas do marquez de Pombal, de Fernandes Thomaz, de Mousinho da +Silveira, de Passos Manuel e de tantos outros; apesar dos movimentos +revolucionarios de 1820, 1834 e 1846: chegámos a descrer do futuro +d'este povo illustre cujos destinos se acham indissoluvelmente unidos +aos nossos!... + +Foi debaixo d'esta ordem de ideias sombrias que concebemos e compozémos +esta poesia. + +Ella era então, como ainda o é hoje, a expressão fiel do nosso pensar e +do nosso sentir, e, como a anterior, mantemol'a tal qual nos sahiu +espontaneamente da laboração do nosso espirito contemplativo, e sonhador. + + +REVELLACÃO + +Paginas 25 a 32 + +Foi escripta esta poesia n'uma sexta-feira de Paixão, na quinta dos +Frades Cruzios, de Coimbra, junto ao grande lago que hoje ainda alli se +vê, cercado d'um espesso e alto muro de verdura entretecido com os ramos +de cedros já hoje seculares. + +A cinta feita por elles em volta do lago tranquillo é tão compacta que +junto das suas margens sentimo-nos por completo sequestrados do mundo +exterior, e levados á contemplação do infinito do Ceu no finito da +Terra!... + +Tinhamos assistido durante tres dias consecutivos ás ceremonias +commoventes da lithurgia catholica nas festas da Semana Santa, +celebradas com pompa na Capella da Universidade. + +Tinhamos ainda a alma combalida com os patheticos cantos do _Miserere_, +de José Mauricio, e com as retumbantes orações dos levitas da Egreja, +lançando do alto da sua cadeira sobre as multidões meio scepticas as +suas palavras de desconforto e de desesperança sobre o destino humano, +quando, fugindo a este meio deleterio e sombrio, appellámos para a +Natureza, por ser esta aos nossos olhos a Biblia da _Verdade_ e do +_Amor_, escripta com palavras vivas e eternas, que não carecem das +explicações dos concilios Ecumenicos, para serem os verdadeiros dogmas +do nosso credo. + +Alli, levantando o problema do destino humano na Terra, encontrámos +palavras d'Amor e de Justiça que suppozemos dignas de consignarmos nos +nossos versos, destinados a servir, nos nossos despertenciosos e +apoucados recursos, a causa da Humanidade. + +Este CANTO pela sua structura e motivo fazia parte do Livro segundo, mas +transpozemol o para aqui por conter a ideia inicial da philosophia que +presidiu a quasi todos os outros. + + +AVE CREATOR + +Paginas 37 a 40 + +Esta poesia foi escripta n'um bello dia de sol, no cimo d'uma montanha, +em face d'um largo horisonte, na quinta da Beselga, que é proxima aos +memoraveis campos d'Asseiceira, onde se feriu a ultima batalha a favor +das armas liberaes. Pertence esta quinta a um dos nossos mais dilectos e +dedicados amigos, o Conde de Nova Gôa. + +N'esta e na dos Carvalhaes, que fica n'um dos extremos da poetica +Bairrada, e não longe do sagrado e querido Bussaco, e a que nos +referiremos na poesia _Á Terra_, foi onde se passou o periodo da nossa +maior actividade litteraria. + +O nosso remanso n'aquella quinta tranquilla e poetica, e a convivencia +com senhoras da mais selecta sociedade de Lisboa, que alli iam passar +parte do anno, muito concorreram para alguma das nossas mais vibrateis e +sentidas composições poeticas. + +Esta é uma das que nos sahiram mais espontaneas e que melhor traduzem as +emoções da nossa alma perante o grande espectaculo do mundo, alumiado +pelo Sol e vivificado pelo Amor! + + +AO HOMEM--Á MULHER + +Paginas 57 a 65 + +O pensamento que inspirou estas duas poesias é como que uma synthese da +philosophia moderna, a base indestructivel d'uma nova Moral, a pedra +angular sobre que deverá levantar se o templo da futura religião da +Humanidade. + +É o Homem, da grande altura a que chegou a civilisação, á intensa luz de +factos demonstraveis e irreductiveis, e depois de longos seculos de +desalento e decrepitude, a readquirir a confiança em si, nas leis da +Vida, nas forças da Natureza, de que se vae apossando a pouco e pouco, +na sua missão no mundo, na integração dos seus destinos no Universo. + +É o reprobo da Religião semita, o expulso do Paraiso por decreto de +Jehovah, convertido no filho dilecto da Natureza e de Deus, no +prescrutador dos seus segredos e dos seus processos, e que hoje, senhor +do plano geral da creação, armado de recursos infinitos, esclarecido com +os fachos inapagaveis das sciencias e das artes, dispondo de thesouros +infinitos: assenta definitiva e resolutamente os seus arraiaes no +planeta que lhe foi dado para theatro da sua ideia, no paraiso dos seus +primitivos sonhos, no pantheon de sua gloria, no templo da sua nova fé. + +É pois o homem que se levanta, do pó da terra, da cinza do seu nada que +lhe fôra imposto como _labaro da vida_, para se constituir no augusto +executor da _obra divina_, n'um dos cooperadores conscientes dos +_Problemas do Universo_. + +É o batalhador incansavel, o Hercules da Civilisação que, depois de ter +expurgado a Terra dos seus elementos maus para d'ella tomar posse, +pretende agora, com os fachos da Razão e do Amor, expulsar do seu +espirito os espectros das religiões revelladas, as lendas da sua +meninice, e tornar-se o sabio, o forte, o luctador por excellencia. + +Depois de ter conquistado o mundo pela Força e pela Razão, pretende +agora redemil'o pelo Amor e pela Justiça. + +Para esta missão incruenta depõe aos pés da mulher não só o seu destino, +como por instincto o fizera até hoje, mas o da propria especie, porque +foi d'ella que Deus confiou a renovação da Vida pelo Amor e a incumbiu +de nos dulcificar a existencia com os actractivos proprios do seu sexo e +os encantos que derivam da sua belleza e da sua graça. + +A piedade que de ha seculos trabalha o coração humano, e que d'elle +irrompe como um arroio crystalino, vindo ora da India com as doutrinas +de Boudha, o christo do Oriente, ora da Palestina com os sonhos de +Isaias, e os evangelhos de Jesus; agora da Grecia com o espiritualismo +de Platão e de Socrates; logo apoz de Roma com as maximas e exemplos de +Marco Aurelio; mais tarde sob o Ideal de Christo, da França com +o rei S. Luiz e S. Francisco de Salles; da Hespanha, com Santa Thereza; +de Portugal, com Frei Bartholomeu dos Martyres e tantos outros: +tornou-se por fim a corrente caudal do Direito Moderno que já em 1789 +nos sorria sob o lemma da Liberdade, Egualdade e Fraternidade, e que, +pela solidaridade das raças e dos Povos, e pela sua mutua e +indistructivel dependencia, será a chave da todo o Problema Humano, no +novo cyclo para onde as leis historicas nos encaminham. + +Como se vê a Religião e a Moral mudam apenas do objectivo e de processo. + +O Ideal, isto é o Bem Supremo, desloca-se das bandas do Passado para os +horisontes do Futuro, e deixa dormir sepulto nas sombras o que já foi, e +sob a condemnação d'um decreto divino, para nos apparecer, como a +columna de fogo aos olhos dos Hebreus, á frente dos individuos, das +nações e dos povos e encaminhal'os á Terra da Promissão! + +Por este novo objectivo a historia da civilisação, d'harmonia com as +leis do Universo, seguirá n'uma marcha não regressiva para o Passado, +como o pretendiam as religiões revelladas, mas progressiva em demanda do +Ideal sonhado, Ideal que muito ao longe nos fascina como um foco de luz +intensa e impenetravel, que nos cega, e além da qual só ha o +Absoluto--Deus.-- + +O homem por este novo credo deixa de ser o degredado filho d'Eva para se +constituir no artifice divino, no triumphador por excellencia! Converte +a propria historia, escripta com sangue e com lagrimas, na Biblia unica +authentica e verdadeira; no melhor estimulo da sua fé; na melhor +glorificação do seu Deus. + +Para que o _par humano_ se não estonteie, porém, com a propria gloria, e +não se proclame egual ou superior a Deus, como nos tempos do paganismo: +collocamos sobre a sua cabeça uma Entidade que a elle em tudo o +sobreleva, que, intangivel aos seus desvarios e erros, por elle vela e +sobre elle estende a todo instante a sua acção protectora, a Virgem mãe +dos povos--a _Humanidade_! + +Não é ella nascida da phantasia dos homens, mas surge real e verdadeira, +em plena luz e cheia de gloria, das emmaranhadas e mysteriosas paginas +da Historia! A seus pés depomos, desprendendo-os das cordas da nossa +lyra, os primeiros trenos d'amor como um timido e passageiro ensaio, na +poesia que lhe consagramos de pag. 74 a 77. + +Poderão os defensores das religiões positivas, feridos nos seus +interesses, alcunhar-nos de hereges e cobrir-nos de injurias; mas o que +jámais conseguirão é provar-nos que o homem, que tirar dos seus proprios +triumphos a glorificação do seu Deus, não se engrandeça a si e ao +Creador, e não se torne por isso digno do espectaculo da natureza, onde +surgiu como um dos cooperadores conscientes dos problemas da vida! + +A despeito das malidicencias d'uns, das ironias e satyras doutros, temos +fé que estes CANTOS hão de encontrar sympathia e acolhimento nas almas +simples e boas, a quem os consagramos, e é quanto nos basta. + + +Á HUMANIDADE + +Paginas 74 a 77 + +Este CANTO é como que uma antiphona, embora ainda indecisa e pallida, em +louvor d'aquella Divindade invisivel que, ao cabo d'infindos seculos, e +a despeito dos antogonismos e odios que as religiões e a politica +semeavam, soube conduzir os Povos, por mil meandos e caminhos oppostos, +á conciliação e a Paz universal, que já hoje se desenha como o ideal do +seu futuro viver! + +Esta solidariedade em que todos elles se encontram perante _a solução +d'um Problema commum_, é uma das Verdades fundamentaes que já desceram +das regiões da utopia e dos sonhos para o imperio dos factos. + +O prestigio da sua causa e a rapidez dos seus triumphos são taes que tem +feito em meia duzia de lustros o que todas as religiões do Passado não +conseguiram n'uma serie interminavel de seculos! + +A sua acção avassaladora attinge as culminancias dos mais altos poderes +constituidos! Até incita o proprio auctocrata de todas as Russias a +propor ás mais nações do mundo o desarmamento geral, ou pelo +menos a reducção d'essas forças terriveis, a proporções que não +contrariem os interesses dos Povos, a causa do Direito, e os principios +do Justo!... + +Pode até dizer-se que os mais celebres capitães, Alexandre, Julio Cesar +e Napoleão, sem o pensarem e sem o quererem, se tornaram os mais +poderosos semeadores d'este Ideal da Justiça Moderna![1] + +Até ás proprias forças da Natureza, no uso que o homem d'ellas está +fazendo abrindo canaes, levantando pontes, estendendo em todas as +direcções dos quatro pontos cardeaes do globo uma rede infinita de +telegraphos e d'estradas, até ellas estão conspirando para o triumpho do +novo direito!... + +A sua acção omnipotente, embora indirecta, accusa-se todos os dias na +vida intestina dos povos, nos seus interesses os mais materiaes; na +organisação das poderosas companhias transantlanticas, a vapor; na +celebração dos tratados de commercio entre todos os povos do globo; na +publicação de revistas scientificas; na realisação de conferencias e de +exposições internacionaes, onde em tudo prodomina o espirito cosmopolita +e universal dos tempos modernos! + +É um levantamento das almas a que é preciso levar um Ideal +espiritualista, um objectivo religioso, um culto emfim para que se +apposse das multidões e se converta nos preceitos d'uma moral pratica, +no Labaro d'uma religião universal. + +Por elle um povo illustre derramou já o mais generoso do seu sangue afim +de conquistar para o mundo dos factos, com o proprio sacrificio, _a +formula juridica d'este novo Direito_; e, a despeito da guerra +desapiedada dos representantes do velho regimen, a sua doutrina penetrou +em breve no espirito de todos os codigos! + +Se estas conquistas extraordinarias, chamar-lhes-hemos assombrosas, de +Civilisação Moderna se alcançaram sem o concurso das religiões +positivas, que lhes foram adversas, sem o proposito dos imperantes e dos +politicos, poder-se-ha calcular: que transformação profunda e rapida nos +destinos do universo se não vae operar, quando aquella Mãe que +preside á sorte dos povos, e que tem estado até hoje degredada nas +regiões abstractas do pensamento, tomando uma forma visivel e humana, se +constituir na soberana por excellencia, na protectora dos fracos, na +redemptora dos opprimidos, na consoladora dos que choram, na fé e +esperança dos que sonham, na mensageira em fim do Creador que, tanto +quanto é permittido ás forças humanas, converterá em realidades as +promessas de Jesus no sermão divino da Montanha! + +É prevendo o culto que mais tarde as mulheres, os sabios e os justos lhe +hão de prestar, que esboçamos este cantico religioso. + +Para que esta aspiração se converta na religião do Futuro basta que a +Mãe de Jesus, esta creação poetica e encantadora do symbolismo +catholico, avocando a si a realidade da historia, e entrando nos usos e +costumes dos povos: synthetise o espirito de novos tempos e se torne a +fiel depositaria do pensamento do Creador na Terra, a mensageira da +Verdade, a distribuidora da Justiça e do Amor, a Virgem Mãe dos Povos. + +Então todas as antiphonas e canticos que a Egreja hoje faz entoar em +honra da Mãe de Jesus, serão poucos para a glorificarmos!... + + [1]Laurent nos seus estudos sobre a _Historia da Humanidade_ + demonstra á saciedade quanto estes e outros heroes foram meros + instrumentos d'uma causa superior, a vontade de Deus, em tudo o + que fizeram. + + +AO NOVO CYCLO HISTORICO--NOVA LUZ! NOVO IDEAL! + +Paginas 78 a 90 + +Estas duas poesias são o desdobramento, a synthetisação dos CANTOS +consagrados á _Paz dos Povos_, ao _Homem_ e á _Mulher_, vendo n'estes os +principaes factores da civilisação, e á Humanidade, como typo ideal da +Verdade e da Belleza, na realisação progressiva do destino Humano. + +Enviamos o leitor para o que expozémos nas respectivas notas, +porque ali lhe será facil descortinar o systema de philosophia que se +converteu para nós nos preceitos de uma moral substancialmente humana, +verdadeira e pratica; a que se reduz no fim de contas toda a religião do +futuro. + + +APELLO SUPREMO--REFUGIO ULTIMO + +Paginas 91 a 97 + +Estas duas poesias são o complemento da que publicámos a pag. 8 sob a +denominação _Presentimentos_. Foram escriptas no mesmo periodo, quatro +annos antes de constituirmos familia, isto é, de entrarmos na _pratica +obscura e quotidiana do verdadeiro altruismo_, principio moral em que +assenta a familia, a primeira e a mais sagrada das nossas instituições, +e que é a base da religião e da philosophia. + +Carecem ambas pelo seu ardente mysticismo, ou melhor diremos pelo seu +exagerado lyrismo, repassado de desalento e dôr, da correcção que o +conhecimento das leis da vida e as licções de historia nos trouxeram com +o andar dos tempos e que, sob o mesmo espirito religioso, traduzimos nos +CANTOS á _Humanidade_, á _Mulher_, ao--_Homem_, aos _Filhos_ e +designadamente nos dois canticos anteriores ao _Novo Cyclo Historico, +Nova Luz! Novo Ideal!_ + +A confiança nas Grandes Leis da Vida e da Historia, na Natureza e na +Humanidade, deu-nos forças e animo para as luctas em que nos temos visto +assediados toda a vida, resignação e paciencia na adversidade, fé +inabalavel na regeneração do Mundo pela sciencia, pela justiça e pelo +amor, quando se entrar definitivamente, sem peias, sem ficções, e sem +mentiras, no imperio da Verdade, no regimen da liberdade absoluta!... + +Este appello Supremo para Deus onde, ao cabo de tantos desenganos e +dissabores, esperamos encontar o nosso refugio ultimo, não significa +outra coisa. + +Os sonhos de justiça que, desde Jesus, nos transmittiram as gerações +transactas, para lhes darmos cumprimento, hão-de encontral'o nas +gerações futuras que, por seu turno, legarão aos seus legitimos +herdeiros, novos ideaes e com estes novas esperanças! + +Esta é que é a verdadeira glorificação de Deus na Humanidade pela +revellação continua e progressiva da Historia!... + +Sob este ponto de vista, poder-se-hia dizer que estas duas ultimas +poesias não são já a expressão verdadeira do nosso actual modo de pensar +e sentir. + + +AO SOL + +Paginas 108 a 111 + +Escrevemol'a debaixo das impressões dos cantos sagrados da India, no +_Rig Veda_ e sob a alta concepção que Renan fazia de Deus e do Sol +quando affirmava que antes da Humanidade attingir aquella unidade e +synthese suprema das almas, só o Sol tinha tido direito á adoração e +culto dos Povos. + +Sentimos a seu respeito, por intuição, o que mais tarde a sciencia nos +revellou em obras memoraveis como o são alguns dos trabalhos de +Flamarion sobre astronomia e designadamente o prodigioso e fascinante +livro de Buchner _La Lumière et Vie_, que nos revellou com uma pujança +de saber e de logica inexcedivel, e uma linguagem colorida e vigorosa +incomparavel, as incalculaveis maravilhas da natureza que anteviamos com +olhos apenas d'um poeta enamorado. + +Se escrevessemos este CANTO depois da leitura d'estes livros, a nossa +linguagem teria sido de certo mais vibratil e as imagens de que nos +serviriamos mais vivas e mais bellas. + +A idéa fundamental da sua concepção teria ficado, porém, a mesma; a +mesma, a nossa admiração, o nosso culto por esse glorioso vivificador +dos mundos; por esse prodigioso distribuidor da luz, que, a ter de +desapparecer do espectaculo das coisas visiveis, como lh'o +prophetisam os seus admiradores e chronistas, o não faria sem deixar +atraz de si, n'uma serie ininterrupta de seculos, a mais oppulenta das +heranças, a mais genuina glorificação do heroe Bemfeitor por +excellencia! + +Aos olhos dos outros astros, seus competidores, sob a cupula infinita +dos ceus, morreria destituido da sua antiga grandeza, para dar vida e +continuação a novos mundos, como Jesus, no Calvario, pregado na cruz, +deu a sua alma aos povos para redimil-os!... + +Esta poesia, a instancias de Anthero do Quental, foi publicada por +Guilherme de Azevedo e por isso pouco ou nada alterámos da fórma que +primitivamente lhe démos. + + +Á ARVORE + +Paginas 127 a 131 + +Foi escripta na epocha em que costumavamos passar parte do verão em +companhia do Dr. Antonio da Silva Gayo, no Bussaco, n'esta montanha a +que nos prendiam tão gratas recordações da nossa vida universitaria!... + +Ali fomos como cultores do Bello e do Justo em perigrinação sagrada +muitas e muitas vezes, umas em companhia d'amigos como Anthero do +Quental, José Julio Rodrigues, Philomeno da Camara, e outras vezes, e +estas em maior numero, sosinhos, fazendo a pé todo o longo percurso +desde Coimbra, mas encontrando larga e generosa compensação nas suas +sombras impenetraveis e profundas, na sua solidão e paz absolutas, tão +propicias á contemplação e ao estudo! + +Antes do caminho de ferro do Norte, que o pôz em communicação facil com +o resto do Paiz, o Bussaco viveu longos annos, e para o bem d'elle, +quasi completamente esquecido dos homens. + +Só almas d'eleição, pouco conformadas com a realidade das coisas, só um +ou outro amante da Natureza, iam ali de vez em quando procurar na sua +quietação e silencio, tão cheios de mysterios e tradicções de +mysticismo christão, _eloquentes lições_ sobre os problemas da vida, +sobre os multiplos e complicados destinos do coração e da consciencia, +postos no mundo ante esta interminavel e ininterrupta sequencia--de luz +e de sombra--de dias e de noites de prazeres e de dôres, de sonhos e +desenganos! + +Talvez mais do que ninguem, n'estes tempos de gosos faceis e interesses +materiaes, nós fomos d'este pequeno numero. + +A nossa paixão pela Montanha levou-nos a convencer o santo padre +Mauricio a viver ali comnosco, pouco depois da nossa formatura, +abandonando a sua modesta habitação em Luso, nos mezes de Novembro e +Dezembro. + +Ali estivemos entretidos os dois, elle de dia com os trabalhos já então +iniciados, com o nosso protesto, por Moraes Soares, de noite com as suas +candidas e piedosas orações; nós com os nossos livros dilectos, com os +nossos passeios solitarios e lucubrações litterarias. Um viver simples, +sobrio e puro, de que ainda hoje guardamos vivissimas saudades! + +Mais tarde pelos melhoramentos e pequenas casas de habitação mandadas +ali construir, o Bussaco attrahiu de Coimbra e seus arredores, de Lisboa +e Porto, e até das Ilhas dos Açores, algumas familias distinctas, no +numoro das quaes quaes sobrelevava a todas a de Silva Gayo. + +Foi este pela vivacidade e graça de seu espirito brilhante, pelo encanto +incomparavel da sua palavra facil, d'artista e de sabio, e sua esposa +pela gentileza singular do seu porte, pela bondade e abnegação nunca +desmentidas para com todos, foram elles que mais concorreram a chamar ao +Bussaco uma concorrencia selecta e a tornar inolvidaveis os dias ali +passados. + +Foi ali que Silva Gayo escreveu e retocou algumas das paginas mais +commoventes do seu _Mario_, de _Frei Caetano Brandão_ e da _Magdalena_. +Foi ali tambem que compozémos algumas das nossas poesias mais repassadas +do pantheismo espiritualista que em todas mais ou menos se nota. + +Foi á sombra d'aquelles arvoredos adoraveis, e sob estas beneficas +influencias de arte, que se crearam, n'uma incansavel e vibrante +alegria, os dois filhos de Gayo e de D. Emilia Paredes, Manuel da Silva +Gayo e Mario Gayo, os quaes mais tarde se haviam de distinguir como dois +talentos comprovados, um na poesia, outro na musica! + +Foi ali que mais tarde succumbiu, victima d'uma tysica de larynge, +aquelle formoso espirito que foi gloria das sciencias e lettras patrias, +cercado dos solicitos carinhos de sua incomparavel esposa, das lagrimas +silenciosas e amargas do bom padre Mauricio e das nossas. + +Foi d'ali, ai de nós, noite memoravel e terrivel! que tivemos +d'acompanhar sósinhos os seus restos mortaes até ao cemiterio da +Conchada em Coimbra, onde pouco depois do romper da manhã, alguns dos +seus collegas, admiradores e amigos, avisados do seu enterro, vieram +comnosco prestar-lhe as ultimas homenagens dos vivos!... + +Voltemos aos dias felizes em que Silva Gayo ainda abrigava a esperança +de debellar o mal que o vinha minando, apesar de pairar ás vezes como +uma sombra sinistra no seu lucido espirito, a idéa d'um desenlace +fatal!! Foi então que escrevemos este CANTO, á _Arvore_. + +Estavamos installados na capella de Santa Thereza, a cuja entrada se +levanta um d'aquelles cedros collossaes e magestosos do Bussaco, que são +o privilegio e o orgulho d'esta floresta, a mais opulenta e formosa de +quantas conhecemos dentro e fóra do paiz. + +Foi ali, tendo em frente dos nossos olhos aquelle gigante secular dos +bosques, que compozémos esta poesia onde o leitor encontrará a expressão +mais genuina do nosso amor pela estabilidade das forças da Natureza, +representada no que ellas teem de mais bello e nobre, a arvore. + + +Á TERRA + +Paginas 132 a 139 + +De todos os nossos trabalhos litterarios é este o que nos mereceu maior +solicitude e carinho para deixarmos por nossa morte um testemunho do +muito que amámos a Natureza e dos impagaveis beneficios que d'ella em +toda a nossa vida recebemos. + +Sobre a sua influencia na formação dos caracteres escrevemos um poemeto +denominado _Passeio ao Campo_ e que faz parte do quarto livro das +_Irradiações_, _No Lar_. + +Concebemos e composémos esta poesia n'aquella aldeia obscura de +Carvalhaes, a que nos referimos na nota primeira. + +Quizémos propositadamente que assim fosse, porque depois dos jardins e +da quinta da nossa casa do Arco, na Ilha do Fayal, onde nascemos e +brincámos e das pedras vulcanicas e negras da Aldeia do Guindaste, na +Ilha do Pico, onde, em plena liberdade dos campos, em convivio intimo +com a Natureza, perante o espectaculo do mar e d'um sem numero de +pequenos vulcões extinctos passámos os mais deleitosos dias da meninice, +pedras negras que ainda hoje, pelas recordações que encerram, nos +sorriem mais bellas e fulgentes que os brilhantes, nenhuma terra amámos +tanto como esta aldeia poetica de Carvalhaes. + +Foi alli que á sombra de pequenos bosques, de altos e extensos +pinheiraes, balsamicos e sonorosos, de frescos relvados e de alamos e +carvalhos frondosos, no adro da capella da Senhora das Neves, que lhe +fica proxima, foi ali que lendo os nossos poetas mais dilectos, +Virgilio, Camões, João de Deus e Victor Hugo, tomámos verdadeiro amor +pelo rythimo e harmonia do verso, e abandonamos para os assumptos d'arte +a prosa, onde fizemos os nossos primeiros ensaios, sendo ainda creança, +tomando então por modelo a Byron, dos poetas da nossa meninice o mais +festejado e glorioso. + +Foi n'esses arredores deliciosos da Bairrada e do Bussaco onde longos +annos armazenámos inconscientemente em companhia do nosso chorado +condiscipulo José Augusto Salgado, no nosso mundo interior a poesia que +annos mais tarde, em 1867, nos irrompeu espontanea da alma, quando as +saudades de Coimbra e da nossa vida academica nos subjugaram a ponto de +abandonarmos interesses já creados e estabelecermo-nos de novo na Luza +Athenas!... Foi então que tomamos o grau de licenciado em Direito na +esperança de fazermos parte do corpo docente da Universidade, mas d'onde +tivemos de sahir, pouco depois do nosso casamento, para n'um meio mais +amplo angariarmos os escassos recursos d'uma vida honesta. + +Esta poesia, desejando nós que fosse de todas a mais perfeita, é no +entanto a que hoje aos nossos olhos tem maiores defeitos, sendo um +d'elles a sua extensão. + +Preferiamos deixal-a nas proporções das outras, suas congeneres e irmãs, +mas já agora, assim imperfeita, ficará sendo o depoimento mais vehemente +e sincero do muito que quizémos á Terra, nossa mãe, ao Amor, á Luz e á +Vida! + +Á falta d'heroes a quem consagrassemos os nossos CANTOS, preferimos as +Forças e as maravilhas da Natureza, que sendo obras de Deus, são por +isso eternamente grandes e bellas para se constituirem na fonte pura e +inexgotavel do Ideal. + +Foi Esta a divindade em cujo altar depozemos a alma e a vida, e quem em +troca nos deu a pureza de coração e valentia d'animo para luctarmos +contra a adversidade e salvarmos no meio da nossa pobreza os thesouros +da nossa Fé. + + +AOS ASTROS + +Paginas 140 a 143 + +Reservámos para o final d'este livro de canticos religiosos a poesia +_Aos Astros_, porque podemos dizer com toda a Justiça, imitando David, +que os _Ceus proclamam a Gloria de Deus_! + +A Luz no mundo das coisas visiveis e o Pensamento no mundo invisivel das +almas, são os dois principaes factores do movimento e da Vida no +Universo e na historia. + +Ambos concorrem para a solução d'um problema commum. + +Dovorciados até hoje pelas religiões positivas, productos da ignorancia +inevitavel dos povos primitivos, tendem a fundir-se n'uma _Unidade +Suprema_, para a qual convergem todas as forças vivas da Natureza, as +revellações da Historia e as descobertas scientificas dos ultimos +tempos! + +O que poderão estes dois eternos agentes da Verdade na solução dos +destinos dos povos, já o podemos antever pelas grandes e luminosas +syntheses historicas a que hoje attinge todo o espirito culto ao +contemplar, como nós o fizemos, os despojos das civilisações extinctas +que se archivam nos grandes museus--no British Museum, em Londres; no +Louvre, em Paris; nas gallerias de Pit, em Florença; nas do Vaticano, em +Roma; e ao vermos reunidas as maravilhas da arte e industrias modernas +nos certamens internacionaes das grandes exposições!... + +Pelo que já temos até agora conquistado com o poder creador da nossa +Idéa e com o auxilio que nos prestam as forças inexgotaveis da Natureza, +o que é já hoje authentico, real e verdadeiro: o homem não tem motivos +para desesperar do termo da sua jornada no percurso indefinido e +infinito dos tempos, e sentar-se á margem do caminho, e no meio d'este, +a chorar como Jeremias, ou a apostrophar como Job a Justiça Eterna pela +ingratidão dos homens e pela dureza dos fados! O homem nem deve +considerar-se já hoje um revoltado contra Deus e por este punido, ora, +segundo o genio semitico, com a expulsão de Adão e Eva do Paraizo, ora, +segundo o espirito Helenico, com o aguilhoamento de Prometheu nas +montanhas do Caucaso e o despedaçamento das suas carnes pelos bicos e as +garras dos abutres! + +Pela mais exacta comprehensão das leis do Universo e da Historia, o +homem tende a tirar da antithese do Mal e do Bem, cujo antagonismo +permanente, em perpetua lucta, constitue todo o Mysterio do Passado, a +Synthese Suprema chamada Verdade e que adoramos sob o nome de Deus. + +Perante esta luz, de intensissimo fulgôr e de alcance infinito, as +paginas da historia escripta pelo homem, são apenas por ora uma gloriosa +introducção aos fastos da Humanidade que os seculos futuros completarão, +e cuja sequencia só póde denunciar-se nas visões e nos sonhos dos Poetas +e dos Philosophos! + +Na prespectiva da morte, quando para nós se quebram os vinculos da Vida +e se fecham para sempre as paginas da historia, apraz-nos abrir o Livro +que já está escripto, o _Livro da Vida Eterna_--_os Ceus_--e +consagrar-lhes este CANTO, que escripto ha vinte e sete annos atraz, é +ainda hoje a traducção fiel do nosso pensar e do nosso sentir. + +Não desdenhariamos de que sobre a nossa sepultura fossem escriptas as +tres ultimas quadras d'este CANTO, porque n'ellas resumimos toda a fé +que trazemos no coração. + +Lisboa, 29 de março de 1899. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Cantos Sagrados, by Manuel de Arriaga + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CANTOS SAGRADOS *** + +***** This file should be named 22299-8.txt or 22299-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/2/2/9/22299/ + +Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. 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