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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 01:48:13 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Cantos Sagrados + +Author: Manuel de Arriaga + +Release Date: August 11, 2007 [EBook #22299] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CANTOS SAGRADOS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<div class="ppagina"> + + +<h3>MANOEL D'ARRIAGA</h3> + +<h1>CANTOS<br /> + +<span style="font-size:1.5em;">SAGRADOS</span></h1> + +<p class="centrado"><img src="images/manuelgomeseditor.gif" border="0" alt="Logotio do editor"></p> + +<p class="centrado">LISBOA<br /> + +<b>MANOEL GOMES, Editor</b><br /> + +LIVREIRO DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS<br /> + +<i>70--RUA GARRETT (CHIADO)--72</i><br /> + +1899</p> +</div> +<span class='pagenum'>Pág. III</span> + + +<div class="dedicatoria"> +<h2>DEDICATORIA</h2> + +<p class="dedicatoria">Ás almas piedosas e cultas em cuja convivencia +encontrei conforto, fortalesa e fé na bondade e na virtude,</p> + +<p class="dedicatoria">e</p> + +<p class="dedicatoria">Ás proximas gerações futuras, a quem compete a integração do destino +humano segundo o novo Ideal de Justiça</p> + +<p class="dedicatoria">offerece e consagra estes <span class="small-caps">Cantos</span></p> + +<p class="direita"><span class="small-caps">O SEU AUCTOR.</span></p> +</div> +<span class='pagenum'>Pág. V</span> + + +<h2>AO PUBLICO</h2> + +<p>A exemplo do lavrador que nas tardes melancolicas do outomno, antes que +chegue o inverno, recolhe os fructos das suas pequenas herdades, nós, +n'este periodo calmoso da existencia em que entrámos, e primeiro que a +morte nos venha trazer, com a paz da sepultura, a melhor compensação dos +nossos longos soffrimentos, deliberámos recolher e seleccionar as poesias +que escrevemos no longo periodo de trinta e dois annos, que decorre desde +1867 até hoje e que, com rarissimas excepções, devidas quasi sempre a +inconfidencias e curiosidades d'amigos, são todas ainda hoje ineditas.</p> + +<p>Reunimol-as em quatro volumes, o primeiro dos quaes, o dos <i>Cantos</i>, é o +que damos hoje á publicidade.</p> + +<p>O segundo com o nome de <i>Irradiações</i>, é dividido em quatro +livros--<i>Devaneios</i>--<i>Imagens d'um mundo extincto</i>--<i>Nas Alturas</i>--<i>No +Lar</i>.</p> <span class='pagenum'>Pág. VI</span> + +<p>O terceiro contém poesias dispersas, ensaios e fragmentos.</p> + +<p>O quarto, um poema heroico glorificando os triumphos da Humanidade no +concerto do Universo, e onde, sob uma fórma dramatica, reatámos as +tradições gloriosas de Portugal no periodo de Renascença á futura +solução do problema humano, sob um novo ideal de justiça.</p> + +<p>Foi este poema, a que démos o titulo de <i>Synthese Suprema</i>, escripto nos +tres ultimos annos que se seguiram ao nosso affastamento da politica +militante, quando abandonámos de todo o parlamento, onde a nossa voz +ficou por completo isolada e perdida...</p> + +<p>Compozémol-o ante a ameaça constante da morte que as nossas doenças, +então aggravadas, nos punham todos os dias diante dos olhos, sem +esperanças de o levarmos ao seu termo; e foi feito a pedaços nas poucas +horas d'ocio que nos restavam dos nossos deveres profissionaes.</p> + +<p>A poesia aos nossos olhos nunca foi um mero recreio de espirito.</p> + +<p>Como todas as bellas artes, tende a exercer uma funcção social, hoje +tanto mais necessaria quanto é frouxa, ou quasi nulla, a que a Religião, +e a moral d'ella nascida, exerceram outr'ora nas multidões incultas, que +á falta d'um ideal filho dos tempos, que as ajude na solução do seus +tenebrosos e multiplos problemas: ou se tornam indifferentes ou +scepticas e vivem como espiritos revoltados contra todo o existente!...</p> +<span class='pagenum'>Pág. VII</span> + +<p>A muitos parecerá contradictorio que, tendo nós combatido em toda a +nossa vida, ha mais d'um quarto seculo, o obscurantismo, os absusos e os +crimes commettidos á sombra das religiões positivas, sobre tudo da +religião dogmatica, nos aventuremos, sobre as ruinas do velho mundo e á +entrada dum novo cyclo historico, a soltar cantos d'uma tão ardente fé +religiosa!...</p> + +<p>A resposta encontral'a-ha o leitor na nota elucidativa á poesia <i>O que +eu vi</i>, que adiante publicamos, e nas immediatas.</p> + +<p>Se errámos ou não, os factos é que o hão-de decidir d'aqui mais a algum +tempo.</p> + +<p>Só aqui diremos que para se unirem pelo Amor e pela Justiça as duas +metades da humanidade, de que depende a integração do destino humano, o +homem e a mulher, que as crenças religiosas e as demonstrações +scientificas trazem tão profundamente divorciados na vida do lar e no +foro interno; para levarmos ao povo a communhão do novo credo e +levantarmos-lhe o coração e a alma muito acima das meras questões de +interesses materiaes em que o trazem envolvido: é preciso procurar um +ideal fóra das contingencias humanas, preparar com elle as almas para os +actos fundamentaes d'abnegação e d'altruismo que reclama o problema +social, o que só se pode alcançar á sombra de religiosidade que está no +fundo da nossa natureza, mudando apenas de objectivo e de processo.</p> + +<p>Qualquer que seja porém, a opinião em contrario de <span class='pagenum'>Pág. VIII</span> nossos +competidores, e que acatamos, é d'esperar que attendam a que, n'uma obra +d'arte, não se deve perder de vista a sinceridade do seu auctor, o fim +que se propõe servir e o meio que emprega para o alcançar.</p> + +<p>Sob este triplice ponto de vista, em que sempre nos mantivemos, talvez +possamos contar com a benevolencia dos nossos contrarios.</p> + +<p>Ainda uma palavra sobre as razões porque só agora, no fim da nossa +carreira, nos aventuramos a publicar estes trabalhos.</p> + +<p>Dentre muitos outros, o motivo predominante encontral-o-ha o leitor no +respeito quasi religioso que sempre tivemos pela publicidade, por este +momento sagrado em que entregamos aos outros as nossas ideias, as nossas +opiniões, os nossos sentimentos!</p> + +<p>Accaso terão direito a sel-o?! Irá n'elles alguma cousa que seja menos +verdadeira, menos justa, menos bella?!</p> + +<p>E, quando tal se dê, o que pensarão de nós os que vierem a +julgar-nos?!...</p> + +<p>Transmittindo a estranhos, sob as fórmas divinas da arte, o que havia de +melhor no nosso mundo interior, e que merecera a sancção da nossa +consciencia, não iremos susceptibilisar ou offender, apesar d'isso, o +que os outros teem de mais sagrado no coração e amam mais de que tudo?!</p> + +<p>Não seremos nós uns illudidos que vamos com a nossa illusão concorrer +para os enganos dos outros?!</p> <span class='pagenum'>Pág. IX</span> + +<p>Todas estas perguntas accudiam ao nosso espirito quando nos incitavam a +imprimir estes <i>Cantos</i> e esperámos sempre que um mais maduro exame os +auctorisasse a sahir do recatado asylo da nossa consciencia, a ir correr +mundo e a suscitar por ventura a animadversão ou a sympathia dos +leitores!...</p> + +<p>Que o publico encontre n'elles a grata companhia que nos fizeram tão +largos annos, é o melhor premio, se algum elles merecem, a que pode +aspirar o auctor d'estas linhas.</p> + +<p>Lisboa, 15 de março de 1899.</p> + +<p class="direita"><span class="small-caps">Manoel d'Arriaga.</span></p> <span class='pagenum'>Pág. XI</span> + + + + +<h2>LIVRO PRIMEIRO</h2> + +<h1>DEUS E A ALMA</h1> + + +<span class='pagenum'>Pág. 1</span> + + +<h3>I</h3> + +<h3>O QUE EU VI</h3> + +<div class="poesia"> +Sahi um dia a contemplar o mundo, +Por vêr quanto ha de bello e quanto brilha +Na multipla e gloriosa maravilha, +Que anda suspensa em o azul profundo! +</div> + +<div class="poesia"> +Vi montes, vales, arvores e flôres, +Limpidas aguas, múrmuras torrentes, +Do grande mar as musicas plangentes, +Dos céus sem fim os trémulos fulgôres! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 2</span> + +<div class="poesia"> +Trouxe os olhos tão ricos de belleza, +O coração tão cheio de harmonia, +De quanto havia em terra, mar e céos, +</div> + +<div class="poesia"> +Que interpretando a sós a Natureza: +Dentro de mim esplendido fulgia, +N'um circulo de luz, teu nome, oh Deus! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 3</span> + + +<h3>II</h3> + +<h3>MUNDO INTERIOR</h3> + +<div class="poesia"> +Materia ou Força, Lei ou Divindade +Quem quer que seja que dirige o mundo, +Esparze em tudo o espirito fecundo +Do Summo Bem--Belleza, Amôr, Verdade. +</div> + +<div class="poesia"> +Á luz d'esta Santissima Trindade, +Cercado d'esplendor, clamo e jucundo, +Sorri-me em volta o universo; ao fundo, +Por synthese Suprema, a Humanidade! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 4</span> + +<div class="poesia"> +Dos homens rujam temporaes medonhos... +Que em mim, no meu labôr, do Bem sedento, +Meus dias correm limpidos, risonhos! +</div> + +<div class="poesia"> +Estrellas que brilhaes no firmamento! +É menos bella a vossa luz que os sonhos +Que gera na minha alma o Pensamento! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 5</span> + + +<h3>III</h3> + +<h3>TRISTEZA</h3> + +<div class="poesia"> +Como isto cá por fóra é tudo alegre! +Quão bello o sol! que esplendida harmonia + A terra, o mar e os céos! +Porem dentro de mim que mundo á parte! +Que embate de paixões! Que noite funebre! + Que magoas, Santo Deus! +</div> + +<div class="poesia"> +Ai! se as manchas que o sol no rosto esconde +Tem sobre o mundo alguem onde projectem + A triste escuridão, +Minha alma é como o espelho onde ellas caem, +Tão profunda é a mágoa que me lavra + Aqui no coração! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 6</span> + +<div class="poesia"> +E eu via ha pouco o azul d'um céo sem macula! +E o sol d'esta alma fulgurante e limpido + Banha-me todo em luz! +Porém, franqueza humana! eu proprio o obrigo +A alumiar-me com a luz da frouxa lampada + D'um templo de Jesus!... +</div> + +<div class="poesia"> +Senhor! Senhor! que um teu olhar me alegre! +Que lave o pavimento de meu peito + De muita ideia vã, +Que o mal é como a noite, e o sol apaga-a +E transforma-a na prata, ouro e purpura + Das nuvens da manhã! +</div> + +<div class="poesia"> +Oh! tu tristeza, irmã dos desgraçados, +Que lanças no meu peito os ais plangentes + D'esses gemidos teus! +Desprende da minha alma as azas negras, +E deixa entrar alegre a luz do dia, + A luz vinda dos céos! +</div> + +<div class="poesia"> +E vós, filhos do sol, tribus innumeras +Da familia de Deus, plantas e flôres + Insectos e animaes, +Que engolfados nos gozos do Universo, +N'esse concerto immenso de harmonias, + Nos céos a Deus louvaes: +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 7</span> + +<div class="poesia"> +Ah! venho-vos tomar por meus mentores, +Pois vale bem mais a luz do vosso instincto, + Que a luz d'esta razão, +Se eu não sei como vós viver contente, +Trazer o azul dos céos na consciencia, + E a paz no coração! +</div> + +<p class="data">Lisboa<br /> + +Na tapada d'Ajuda,<br /> + +1869</p> +<span class='pagenum'>Pág. 8</span> + + +<h3>IV</h3> + +<h3>PRESENTIMENTOS</h3> + +<div class="poesia"> +Eu bem sei que devia +Causar-te muito dó, +Em noite tão sombria +Vêres-me aqui tão só!... +</div> + +<div class="poesia"> +Nem sei que sol m'alegra! +A sós com a minha cruz, +Sou como a nuvem negra +Que encerra muita luz!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 9</span> + +<div class="poesia"> +Como arvore sombria +Vergada sobre um val, +Assim vivo hoje em dia +Á sombra do Ideal... +</div> + +<div class="poesia"> +Que eu tenho muita fome +De Justiça e d'Amor, +E aqui não ha quem tome +A serio a minha dôr... +</div> + +<div class="poesia"> +O mundo vê e passa, +Como sempre passou, +Sorrindo da desgraça +Dos tristes como eu sou... +</div> + +<div class="poesia"> +E este sonho dourado +D'amôr, que a gente vê, +Não póde estar guardado +N'esses homens sem fé!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 10</span> + +<div class="poesia"> +Ah! não! já não m'illudo +Foi isso o que suppuz; +Mas vi mudar-se em tudo +Em sombra a minha luz... +</div> + +<div class="poesia"> +E os sonhos que já tive +Tão bellos, afinal, +São hoje um céo que vive +Sobre este lamaçal!... +</div> + +<div class="poesia"> +Um céo que vejo, ao longe, +Exposto aos olhos meus, +Co'a mágoa com que um monge +Veria outr'ora a Deus!... +</div> + +<div class="poesia"> +E onde ha maior castigo, +Mais dura provação, +Que ter por inimigo +O homem nosso irmão, +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 11</span> + +<div class="poesia"> +Aquelle a quem nós démos, +Com toda a candidez, +Os sonhos que hoje vêmos +Desfeitos a seus pés?!... +</div> + +<div class="poesia"> +Ah! suppõe-me o desgosto, +De eu vêr desparecer +A cópia do meu rosto +Aos pés d'uma mulher, +</div> + +<div class="poesia"> +E isto em desacato +Do meu mais santo amor: +E ahi tens um retrato +Da minha immensa dôr, +</div> + +<div class="poesia"> +Quando vejo desfeito +Por gente ingrata e má +Um sonho do meu peito, +E muitos vi eu já!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 12</span> + +<div class="poesia"> +Por isso eu n'esta vida, +Apoz tanta illusão, +E tanta flôr perdida, +Tanta corôa no chão... +</div> + +<div class="poesia"> +Ai! sinto com o anceio, +Que é proprio do infeliz, +Um mal n'este meu seio +Lançar muita raiz!... +</div> + +<div class="poesia"> +Espero vêr a morte, +Eu proprio a invoquei, +Levar-me d'esta sorte +Para onde?! É que eu não sei!... +</div> + +<div class="poesia"> +Como eu não sei dizer-te, +E isto que me consol', +Como é que se converte +Em vida a luz do sol!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 13</span> + +<div class="poesia"> +Como nasce a ventura +Do homem que morreu, +Dormir na sepultura +Para acordar no céo!... +</div> + +<div class="poesia"> +Aqui tudo é mysterio!... +Mas visto que assim é, +Onde ha melhor criterio +Que á luz da nossa fé? +</div> + +<div class="poesia"> +E eu creio firmemente +Que o martyr de Jesus, +Não fica só pendente +Dos braços d'uma cruz... +</div> + +<div class="poesia"> +Que o homem que prosegue +A luz d'um Ideal; +Embora a turba o pregue +Na sua cruz fatal... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 14</span> + +<div class="poesia"> +O céo é bem profundo, +O fundo nem tu vês, +E ha n'elle muito mundo, +Para onde irá talvez!... +</div> + +<div class="poesia"> +A vida continúa, +E a alma, emquanto a mim, +Avança e não recúa +Por esses sóes sem fim! +</div> + +<div class="poesia"> +Do sol se um raio ardente +No mar vier cahir, +Em nuvem transparente +Nós vêmol-o subir! +</div> + +<div class="poesia"> +Não ha suster-lhe o rumo +Que o leva para os céos, +E assim é que eu presumo +Voarmos nós a Deus!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 15</span> + +<div class="poesia"> +O ponto é merecel-o, +Que Deus é justo e pae, +E eu sei com que desvelo +A si os bons attrae! +</div> + +<div class="poesia"> +Mas quando eu vejo a lua, +Não sei que ideia má +N'esta alma me insinua +A luz que n'ella ha!... +</div> + +<div class="poesia"> +Emquanto em torno d'ella, +Ao norte, ao leste, ao sul, +Refulge tanta estrella +Pela amplidão do azul, +</div> + +<div class="poesia"> +Tu vêl-a solitaria, +Em paz cruzando o céo, +Como urna funeraria +D'um mundo que morreu!. +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 16</span> + +<div class="poesia"> +Ali já não ha vida!... +Ali não ha calor!... +N'aquella luz, vertida +Em lagrimas de dôr, +</div> + +<div class="poesia"> +Ha só tristeza e lucto, +E confrange-se e doe +O coração, se escuto +Mulher, porque isso foi!... +</div> + +<div class="poesia"> +Ah, tenho medo +Que o Supremo Juiz +Nos julgue assim tão cedo!... +Não sei que voz m'o diz... +</div> + +<div class="poesia"> +Não sei... mas, se contemplo +Os crimes que ahi vão, +Mulher, aquelle exemplo +Conturba o coração!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 17</span> + +<div class="poesia"> +E assim só n'outra parte +Verão os olhos meus +Os sonhos que reparte +Commigo a mão de Deus!... +</div> + +<div class="poesia"> +O mundo onde abre o cardo +E o lyrio ao mesmo sol; +Onde ama o leopardo +A par do rouxinol; +</div> + +<div class="poesia"> +Que tem de andar na sombra +Para viver na luz; +E, o que inda mais m'assombra, +Onde ha Nero e Jesus: +</div> + +<div class="poesia"> +Por mais bello e risonho +Que seja, ainda assim +Não vale qualquer sonho, +Que trago dentro em mim!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 18</span> + +<div class="poesia"> +Isto é um fraco esboço +D'uma outra vida e crê, +Que sinto-a, mas não posso +Dizer-te onde ella é!... +</div> + +<div class="poesia"> +Se a Vida em nós começa, +Por esses sóes d'além, +Sobre a nossa cabeça. +Trabalha-se tambem!... +</div> + +<div class="poesia"> +Mulher! mulher! quem sabe +Se é isto o que m'attrae +Aos céos, pois, tanto cabe +A Deus, que é justo e pae... +</div> + +<p class="data">Lisboa, 1870.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 19</span> + + +<h3>V</h3> + +<h3>CONSCIENCIA</h3> + +<div class="poesia"> +Para um homem que aspira +Ao ideal da Belleza, +Não ha maior tristeza, +Magua maior não ha, +Que vêr escurecer-se-lhe +O ceu da noite escura +D'alguma ideia impura, +D'alguma paixão má! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 20</span> + +<div class="poesia"> +Paixão que muitas vezes +A luz da nossa Ideia +Accende, inflama, atêa, +E depois nos attrae +Com tanto magnetismo, +Com tal encantamento, +Que o homem n'um momento +Vacilla, cega e cae!... +</div> + +<div class="poesia"> +Cae, sim, do seio esplendido +Do mundo onde vivia +Na mais doce harmonia +Em paz co'os dias seus, +Para apagada a febre +Do seu fugaz delirio, +Achar-se co'o martyrio +De te perder oh! Deus! +</div> + +<div class="poesia"> +Sem Ti, meu pae, que assombro! +Que noite tão completa! +Que acerba dôr me inquieta +Meu fragil coração!... +Voltar a vêr a alma +D'esperanças povoada, +E achal'a transformada +Em lugubre soidão! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 21</span> + +<div class="poesia"> +Senhor! se desabassem +Á tua vóz as bellas +E limpidas estrellas +Dos ceus que não teem fim, +Eu creio que assombrado +Do horrendo cataclysmo, +O Sol, d'além do abysmo, +Seria egual a mim! +</div> + +<div class="poesia"> +Eu lembraria a aguia, +Que a prole ainda implume +Deixando sobre o cume +De monte erguido ao ceu, +A fosse achar de subito +Na rocha alcantilada, +No ninho, fulminada +D'um raio que desceu! +</div> + +<div class="poesia"> +Egual seria o quadro +Da minha consciencia, +Ao ver a tua ausencia +Fazer-se em mim, Senhor! +Que em volta do teu astro +Minha alma de poeta +É pallido planeta +Buscando o teu amor! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 22</span> + +<div class="poesia"> +E eu sem ti nem vivo!... +Tu és, oh, doce esperança, +O seio onde descança +Meu ser e afinal +Não sei até dizer-te +O quanto soffreria, +Se vira extincto um dia +Em mim, teu Ideal! +</div> + +<div class="poesia"> +Oh não mil vezes antes +Em carcere ermo e escuro, +Achar-me de futuro +A sós c'a minha dôr; +Extincta a luz dos olhos, +E as bellezas do mundo, +E o ceu azul profundo +Com todo o seu fulgor! +</div> + +<div class="poesia"> +Tu crê que nem demandam +Os mundos inferiores +Fócos de luz maiores, +Por esse infindo azul, +Como eu o eterno centro +Das leis da natureza, +Do <i>Amor</i>, e da <i>Belleza</i>, +Que são meu norte e sul! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 23</span> + +<div class="poesia"> +Oh Pae! se n'algum dia, +Eu vir, n'uma miragem, +Alguma falsa imagem +Do Bem prender-me aqui: +Desvenda a tua face, +E mostra-me o teu seio, +Que, mesmo embora em meio +Do abysmo, irei a ti! +</div> + +<div class="poesia"> +Irei, tão instinctivo, +Tão amoroso e firme, +Eu sinto a attrair-me +A ti o teu poder, +Que eu vejo em ti o Norte, +Para onde se encaminha +A pura essencia minha, +Que sente, pensa e quer! +</div> + +<div class="poesia"> +Irei vencendo, indomito, +Innumeros attrictos, +E escolhos infinitos, +E infindos escarceus, +Como essa vaga enorme +Do mar que não recua, +Seguindo sempre a lua +Que vê passar nos ceus! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 24</span> + +<div class="poesia"> +Irei bem como a Terra +Seguindo eternamente +O rumo do oriente +A demandar a luz; +Bem como Jesus Christo +O rumo solitario +Da senda do calvario +Á busca d'uma cruz! +</div> + +<div class="poesia"> +Irei cá d'este mundo +Onde tu me cedeste +A dadiva celeste +Da Rasão e do Amor: +Raios vitaes que mudam +Em luz a nossa essencia, +E a luz em Consciencia, +E esta em ti, Senhor! +</div> + +<p class="data">Lisboa, 1869.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 25</span> + + +<h3>VI</h3> + +<h3>REVELLAÇÃO</h3> + +<h4>O LAGO</h4> + +<div class="poesia"> +Scismava um dia na cruel sentença +Com que a Egreja fulmina a raça humana, +Deixando impura a fonte d'onde emana +O sangue que me anima, e a alma que pensa: +</div> + +<div class="poesia"> +E ao passarem no ceu do meu destino +As nuvens da tristeza e da saudade, +Revellou-me o Senhor alta verdade, +Junto ás margens d'um lago crystalino! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 26</span> + +<div class="poesia"> +Isto foi pelo mez do abrir das flôres, +Quando a vida celebra os seus noivados, +E o mundo, sob os verdes cortinados, +Parece um doce thalamo d'amores! +</div> + +<div class="poesia"> +Estava um dia esplendido! a animal-o +Eu via o seio azul do ceu mais lindo +Curvar-se sobre mim, ethereo, infindo +E tepido: era um gosto enamoral-o! +</div> + +<div class="poesia"> +Como fecho da abobada infinita, +O Sol nos ceus, riquissimo objecto, +Com barras d'ouro irradiava o tecto +Do vasto pavilhão que o mundo habita! +</div> + +<div class="poesia"> +Côres variadas, fórmas differentes, +N'um conjuncto de graças sem egual, +Debuxavam-se ali ao natural +Sobre o crystal das ondas transparentes! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 27</span> + +<div class="poesia"> +Alvas manchas d'insectos pequeninos, +Envolvendo-se em giros caprichosos, +Como tríbus de povos venturosos, +Fruiam junto ao lago os seus destinos! +</div> + +<div class="poesia"> +Pelas balsas cantava a toutinegra, +E as rolas modulavam doces côros, +No ar passavam fremitos sonoros +Co'as vibrações da Luz que o mundo alegra! +</div> + +<div class="poesia"> +No lago, a planta, a flôr, o ceu, a terra, +Como notas d'uma unica harmonia, +Revellaram-me á plena luz do dia, +Enlevos que o prazer da vida encerra!... +</div> + +<div class="poesia"> +E eu via tudo, e extatico scismava: +Se por ventura a colera divina, +Segundo a Egreja ao mundo inteiro o ensina, +Do gremio dos felizes me affastava!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 28</span> + +<div class="poesia"> +E não podendo crer, embora obscuro +Vêr-me qual sou, que esta alma de poeta, +De tanto sonho explendido replecta, +Atollada estivesse em lôdo impuro... +</div> + +<div class="poesia"> +Ai! quando a Deus pergunto se prendeu +N'um pó que é vil o espirito divino, +Olho o espelho do lago crystalino +E não encontro o lago: encontro o ceu! +</div> + +<div class="poesia"> +O mesmo que era em cima azul, immenso, +E a lampada brilhante que o alumia, +Lá no fundo do abysmo aos pés os via, +De sorte que em dois ceus era suspenso! +</div> + +<div class="poesia"> +E quanto se ostentava em torno ao lago, +Os muros de verdura, a flôr mimosa, +O deslisar da nuvem vaporosa, +E a voltear do insecto incerto e vago: +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 29</span> + +<div class="poesia"> +Outro tanto animava, ao longe, e ao perto, +Aquella região d'azul vestida, +Onde a minha alma, em extasi embebida, +Contemplava na Terra um ceu aberto! +</div> + +<div class="poesia"> +E emquanto extasiado a sós fitava, +Nas bellezas do lago transparente, +Aqui uma flôr, além, para o poente, +A nuvemsinha branca que passava,... +</div> + +<div class="poesia"> +Eis senão quando, uma ave, porque visse +Insectos junto da agua socegada, +Desceu subtil, aerea e delicada, +E ao perpassar roçou-lhe a superficie,... +</div> + +<div class="poesia"> +O ponto ferido, em ondas borbulhando, +Desabrochou em curvas graciosas, +Como as folhas concentricas das rosas, +Ou lusidias cobras imitando! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 30</span> + +<div class="poesia"> +E emquanto o impulso em torno se propaga +Em circulos risonhos: n'um momento, +Toda a cupula azul do firmamento +Oscilla, treme e cae, e o Sol se apaga, +</div> + +<div class="poesia"> +E a arvore, e a flôr, e quanto junto á margem, +Em doce paz, seu rosto reflectia +No crystalino espelho, por magia +Da lei do amor, a doce lei da imagem!... +</div> + +<div class="poesia"> +Fere-me então bem intima tristeza, +Ao vêr aos pés, em sordido tumulto, +Um lymbo verde e escuro onde occulto +Estava um ceu tão rico de belleza!... +</div> + +<div class="poesia"> +Lembrei-me então da minha vida insana, +De quanto sonho lindo anda desfeito +Nos intimos arcanos do meu peito, +Co'o tropel das paixões da vida humana!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 31</span> + +<div class="poesia"> +E as lagrimas cahiram-me uma a uma +Sobre esses bens que a Terra e os ceus inspiram, +E ao contacto das coisas se extinguiram +Como aereos balões feitos d'espuma! +</div> + +<div class="poesia"> +N'isto o Senhor, que tudo vê e ampara, +Converte-me de novo o charco immundo +N'um ceu azul infindo, e n'elle um mundo +Formoso como os bens que imaginara!... +</div> + +<div class="poesia"> +Scismei então por longo espaço e digo, +Que aos olhos meus por Deus fôra patente: +Que a alma humana póde, ingenua e crente, +<i>Vivendo em paz, um ceu trazer comsigo!</i> +</div> + +<div class="poesia"> +Ah muito embora a dôr seu peito opprima, +O espirito, que abrange o mundo inteiro, +Póde vêr, quanto justo e verdadeiro, +Nos seios d'alma os ceus que estão por cima! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 32</span> + +<div class="poesia"> +Maxima grande, maxima tamanha, +Tão repassada d'intima poesia, +Porventura d'egual sabedoria +Á predica de Christo na montanha, +</div> + +<div class="poesia"> +Ah! sê, por entre as sombras da desdita, +A ponte aerea, o arco d'alliança, +Que, em vez da excommunhão que a Egreja lança, +A Deus eleva a Humanidade afflicta! +</div> + +<p class="data">Coimbra<br /> + +Quinta de Santa Cruz<br /> + +1871.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 33</span> + + +<h3>VII</h3> + +<h3>MISSA PONTIFICAL</h3> + +<h4>UM EVANGELHO</h4> + +<div class="poesia"> +Sahi uma manhã mal vinha o sol rompendo, +E fui-me religioso a ouvir a missa ao campo, +Á vasta cathedral do mundo, aonde aprendo +Da Vida as sacras leis, que em letras d'ouro estampo. +</div> + +<div class="poesia"> +Sentei-me sob um bosque estenso e solitario, +Que, em paz e sombra involto, á quietação me envida; +O accaso conduzira-me a um vasto santuario, +Onde ia celebrar-se a communhão da Vida! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 34</span> + +<div class="poesia"> +Debaixo do docel da mûrmura floresta, +Se um culto universal é justo a Deus se vote: +Estava o templo augusto armado todo em festa, +Faltando unicamente agora o sacerdote! +</div> + +<div class="poesia"> +O mundo em derredor aguardo-o co'anciedade... +E eil'o que chega, emfim, das bandas do oriente, +Surgindo como um Deus no azul da immensidade, +N'um carro triumphal, de raios resplendente! +</div> + +<div class="poesia"> +Ao vel'o perpassou nas arvores sagradas +Um sopro mysterioso, o espirito do vento, +Que deixa-nos ouvir, em musicas toadas, +Psalmos que vão morrer no azul do firmamento!... +</div> + +<div class="poesia"> +Nos multiplos florões das trémulas janellas, +Nos ramos mais subtis que a luz dos ceus colora, +Com magico fulgor scintillam, como estrellas, +Os limpidos crystaes das lagrimas d'aurora! +</div> + +<div class="poesia"> +Nas naves, que sustêm a abbobada elevada, +Penetra triumphante a luz, suprema artifice! +Interprete de Deus, celebra a sua entrada +Com pompas, do Universo o maximo pontifice! + +Assim que o sol sahio das brumas do horisonte, +Um deluvio de luz encheu o vale e o monte!<span class='pagenum'>Pág. 35</span> + +A pedra, o musgo, o insecto, a flôr, os arvoredos, +Trocaram entre si mil intimos segredos!... + +Os passaros gentis, aladas creaturas, +Soltaram festivaes Hossana nas alturas!... + +O sol triumphador, do mundo a vida accorda, +E esplendido festeja o eterno <i>sursum corda</i>!... + +Estava em plena festa a Terra, mãe querida!... +E eu, em face d'ella, a contemplar-lhe a Vida!... + +Então a Luz, qual flôr, subtil e sorridente, +Me disse a mim que sou seu terno confidente: + +Poeta! vês o mundo alegre e harmonioso;... +Em intimo convivio unido o sol á terra, +E a terra e o sol aos céus!... No enlace auspicioso, +Permutam entre si os bens que a Vida encerra!... +</div> + +<div class="poesia"> +A vida é sim um Bem; por isso é dada a todos!... +A todos por egual, a infindas creaturas,... +Que, em multiplo labor, e por differentes modos, +Procuram-no attingir na terra, e nas alturas!... +</div> + +<div class="poesia"> +Áquelle que transpõe as portas da existencia +Um vinculo d'amor protege-o logo, e fica +Ao mundo inteiro preso, em mutua dependencia, +Ah desde a larva obscura ao sol que a vivifica!.. +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 36</span> + +<div class="poesia"> +Qualquer que seja o nome, ou chama-lhe Verdade, +Belleza, Amor, Justiça: é tudo a mesma cousa!... +É quem fecunda e rege os soes na immensidade; +Quem dá ao universo a paz em que repousa!... +</div> + +<div class="poesia"> +Por isto o mundo inteiro é todo uma harmonia!... +E sente a reanimal'o uma alma alegre e sã! +E vens de longe aqui, sedento de poesia, +A namorar-me a mim, que sou a tua irmã! +</div> + +<div class="poesia"> +Do Sol baixei aqui a ler-te os evangelhos +Eternos de Verdade, e a missa vae findar! +Meu crente e meu poeta! é a hora: de joelhos, +Em nome do Senhor, te quero abençoar! +</div> + +<div class="poesia"> +Á sua voz curvando a fronte: em fé immerso, +Senti entrar-me n'alma a alma do universo!... + +Irmã, gemea de minha, a luminosa flôr, +Encerra-se afinal n'esta palavra==Amor==! +</div> + +<p class="data">Quinta da Beselga<br /> + +1885.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 37</span> + + +<h3>VIII</h3> + +<h3>AVÉ CREATOR!</h3> + +<div class="poesia"> +Desprende pelo espaço as azas d'ouro, +Águia de Deus, no mundo extraviada!... +Pela patria celeste, a tua amada, + Vae em busca de Deus, +Cantando um hymno em honra do seu nome, +Que meu querer e instincto insaciavel +Te guiarão, qual bussola admiravel, + Pelos infindos ceus! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 38</span> + +<div class="poesia"> +Senhor! venho invocar teu nome augusto, +Em face d'estes vastos horisontes!... +Que em torno a mim o rio, a arvore, os montes, + Fallando-me de Ti, +Lançam-me n'alma um teu olhar divino, +E, com elle, um occeano de luz pura, +Que me trasborda em ondas de ventura + O que eu t'offereço aqui! +</div> + +<div class="poesia"> +Não sob o tecto do sombrio templo, +Que a fé christã do povo erguera outr'ora +Como um tumulo, onde o homem commemora + A tua morte, oh Pae!... +Mas sob o tecto azul do Templo Eterno, +Perante o sol que passa dando a vida +Em teu nome, que esta oração sentida + Buscar teu throno vae! +</div> + +<div class="poesia"> +Pois é--me triste a mim que as cousas brutas, +Ellas, sem alma, em gratidão me vençam: +E a Terra, emquanto o Sol lhe envia a bençam + Da sua eterna luz, +Converte-a em flôres, canticos e fructos, +E, n'um concerto alegre e harmonioso, +Tributa ao Sol um culto tão piedoso, + Que o peito meu seduz! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 39</span> + +<div class="poesia"> +Tu vel'a, quando o Sol lhe affasta os raios +Do seu formoso olhar durante o inverno, +A amante debulhar-se em pranto eterno, + Das gallas se despir; +Em valle e monte as folhas, com tristeza, +Dos troncos com os ventos desprendendo-se, +E o mar, co'os ceus em lucta contorcendo-se, + Raivoso aos ceus bramir!... +</div> + +<div class="poesia"> +Mas quando o Sol de novo a aquece e anima: +Oh que effluvios d'amôr então contemplo!... +Traz o amante a alleluia ao escuro templo, + E as trevas dão fulgôr; +Espalma a folha o ramo resequido, +E, ao som do mar que canta de mansinho, +Da terra brota a flôr, da haste o ninho, + Do ninho surge o amor! +</div> + +<div class="poesia"> +Seja assim o meu peito! Que a minha alma, +Buscando o foco eterno e resplendente +Do Sol dos soes, o Ser Omnipotente: + Me eleve o coração +A trasbordar torrentes de harmonias, +Que entoem pela voz das creaturas: +Santo! Santo! tres vezes nas alturas, + Ao Deus da creacão! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 40</span> + +<div class="poesia"> +Pois eu que sou o espirito das cousas, +O verbo inspirador, a alma, a vida; +Sinto em meu peito a gratidão devida + Á tua mão que attrae +Em giro eterno os mundos do Universo; +E eu vendo orar ao Sol a flôr n'o matto, +Não hei de só ficar injusto e ingrato + Para comtigo, oh Pae! +</div> + +<div class="poesia"> +Seja pois o meu canto a voz do interprete, +Que moldando nas formas da palavra +A vida universal que em tudo lavra + Co'o sopro animador: +Eu possa vêr a Terra envolta em canticos, +Sobre as azas de luz da alma humana, +Remontar-se ás origens d'onde emana, + As tuas mãos, Senhor! +</div> + +<p class="data">Quinta da Beselga<br /> + +1871.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 41</span> + + +<h3>IX</h3> + +<h3>SURSUM CORDA!</h3> + +<div class="poesia"> +Oh Sol, alma do mundo! esplendido portento +D'um mar feito da luz! vulcão, cuja fornalha, +Por entre um fogo eterno, expande o movimento +Da machina febril do mundo que trabalha! + +E tu, Astro do amor, que, em noite silenciosa, +Qual perola engastada em fulgidos brilhantes, +Derramas tua luz serena e voluptuosa +Nos seios virginaes das timidas amantes: + + C'o os vossos esplendores, + Pela amplidão dos ceus, + Cantae altos louvores + Ao espirito de Deus! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 42</span> + +<div class="poesia"> +E tu, mar rugidor! austero cenobita, +Que em vastas solidões gemendo os teus pesares, +Levantas o teu canto á abbobada infinita, +Juntando a vóz piedosa aos céllicos cantares! + +E vós, filhas do ermo, alegres, crystalinas +Fontes que derivaes das fendas dos rochedos, +Ás flôres murmurando, em musicas divinas, +De amor e de ventura uns intimos segredos: + + Mudae as harmonias + Da vossa eterna vóz + Em ternas homilias + Ao pae de todos nós! +</div> + +<div class="poesia"> +Arvores que fluctuaes nos cimos das montanhas, +Altivas demandando o azul do firmamento; +Que encheis as solidões de musicas estranhas, +Se passa sobre vós o espirito do vento! + +Lyrios, que abrindo o seio ao osculo amoroso +Da luz que envia o sol da abbobada azulada, +Mandaes-lhe o vosso olor no ether luminoso, +Como o habito subtil d'uma alma enamorada: + + A musica e o perfume + Que desprendeis, votae + A quem em si resume + O mundo inteiro e é Pae! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 43</span> + +<div class="poesia"> +Oh rabidos leões! lá quando em vossas festas, +Altivos como os reis, indomitos senhores, +Debaixo do docel das mûrmuras florestas, +Rugis como um trovão os fervidos amores! + +E vós, corças gentis e timidos cordeiros, +Que em vossos corações e almas bem formadas, +Ao sangue preferis a lympha dos ribeiros, +E á carne em podridão as hervas perfumadas: + + Louvae a quem fizera, + Co'o mesmo engenho e amor, + As fauces d'uma fera, + E o calice d'uma flôr! +</div> + +<div class="poesia"> +Arvores, flôres, mar, e estrellas, e animaes, +E todos vós que entraes no giro da existência; +Que haveis nas regiões das cousas immortaes, +Por synthese suprema, a <i>luz da consciencia</i>: + +Unindo-vos a mim, como eu á Humanidade, +Louvemos todos nós n'uma oração sentida, +Em côro festival que attinja a immensidade, +O eterno Sol dos Soes, o sabio Author da Vida! + + Cantemos, creaturas! + Pela amplidão dos ceus, + Hossana nas alturas + Ao espirito de Deus! +</div> + +<p class="data">Carvalhaes, 1886.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 44</span> + + +<h3>X</h3> + +<h3>AOS CATHOLICOS</h3> + +<div class="poesia"> +Todos vós que sois sinceros crentes, +Que oraes a Deus no intimo do peito, + Oh mysticos christãos; +Embora tenha crenças differentes +D'aquellas que seguis, eu vos respeito, + E julgo como irmãos! +</div> + +<div class="poesia"> +Eu amo a Deus; depois a Humanidade; +Depois os bons, e d'estes o primeiro, + É Christo, o Redemptor! +Não sendo egual em tudo á Divindade, +É, como justo e homem verdadeiro, + Meu mestre e meu mentor! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 45</span> + +<div class="poesia"> +Embora por fanatico me tomem +Impios e atheus, se os ha, eu lhes confesso, + Que o Martyr da Paixão +Parece-me tão grande como homem, +Que até sinto vertigens quando messo + Seu terno coração!... +</div> + +<div class="poesia"> +Oh meu Jesus! nas luctas pela vida, +Por onde tanto naufrago fallece + No meio da viagem: +Minha alma soffredora e dolorida, +Cahiria tambem se não tivesse + A tua doce imagem!... +</div> + +<div class="poesia"> +Eu que creio que o facho da sciencia +Nos ha de revellar, ao fim de tudo, + Que em nós se concilia +Rasão e Fé, Justiça e Consciencia: +Ah quero-te Jesus! por meu escudo, + Por meu amparo e guia! +</div> + +<p class="data">Na Sé de Lisboa<br /> + +na quarta feira de trevas<br /> + +1888.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 46</span> + + +<h3>XI</h3> + +<h3>FÉ E RASÃO</h3> + +<h4>A CRUZ E O PÁRA RAIOS</h4> + +<div class="poesia"> +Da velha cathedral, esbella e rendilhada, +Votada a ser mansão do Deus, author do mundo, +Na flecha a mais gentil, campeia abençoada +A cruz do Redemptor, da Gallilêa o oriundo! +</div> + +<div class="poesia"> +Nos impetos da fé, cortantes como a espada, +O ungido do Senhor, d'olhar cavo e iracundo, +Aponta á multidão, humilde e ajoelhada, +Por seu supremo amparo a cruz, no azul profundo! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 47</span> + +<div class="poesia"> +Em nome d'ella exalça a fé porque a aviventa, +E diz mal da rasão que tenta, em vãos ensaios, +Dos ceus arrebatar a luz, de que é sedenta! +</div> + +<div class="poesia"> +Mas do alto onde ella está, que causa até desmaios, +Temendo que a derrube o fogo da tormenta: +Em nome da Rasão lhe pôe um pára raios!... +</div> + +<p class="data">Outubro de 1888.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 48</span> + + +<h3>XII</h3> + +<h3>AMOR E PROVIDENCIA</h3> + +<div class="poesia"> +Em quanto eu, alta noite, velo e lido, +Por vós mantendo innumeros cuidados, +Dormis, caros filhinhos, socegados +Em torno a mim o sonho appetecido! +</div> + +<div class="poesia"> +Dormis?! sonhaes de certo... e eu pae envido +Meus esforços por vêr realisados +Vossos sonhos gentis e perfumados: +Ampara-vos um peito estremecido. +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 49</span> + +<div class="poesia"> +Outro Alguem faz por nós o que eu vos faço: +Com suprema bondade e sapiencia, +Rege os mundos que rolam pelo espaço! +</div> + +<div class="poesia"> +Esse Alguem é o Amor por excellencia, +O formidavel e invisivel braço, +E o olhar que nunca dorme==<i>a Providencia</i>==! +</div> + +<p class="data">Lisboa, 1885.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 50</span> + + +<h3>XIII</h3> + +<h3>Á GUERRA!</h3> + +<h4>O QUE EU SINTO...</h4> + +<div class="poesia"> +Se vejo com pavor as luctas carniceiras +Que empenham as nações, chamadas as primeiras, + Nos campos da batalha, +Ah! quando a sós comigo e o Eterno me concentro, +Ouço não sei que voz a mim bradar cá dentro: + ==É Deus que ali trabalha==! +</div> + +<div class="poesia"> +Por mais que ousado vôo aos ceus a aguia eleve, +Nos ceus ha um limite além do qual em breve + Fallece a aza e taes +Como as aguias os reis!... Subiram, mas solemne. +O dia ha de chegar em que Deus os condemne + E brade-lhes==Não mais==! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 51</span> + +<div class="poesia"> +No chão não ha raiz que diga á Terra==estanca +A seiva que me dás==! Nem aguia ou pomba branca + Que engeite o vôo alado!... +Não ha um lavrador que entaipe em cal e pedra +A fonte de chrystal, de cujas aguas medra + A arvore, a flor, o prado!... +</div> + +<div class="poesia"> +E onde ha no mundo um povo a outro povo extranho?!... +Ou odio figadal, intrinseco, tamanho + Que a todos nos divida?! +Se a Terra, o mar profundo e o proprio sol são pouco +Por darem vida a um lyrio: haverá hoje um louco + D'um Cezar que decida, +</div> + +<div class="poesia"> +D'encontro ás sabias leis por Deus dadas ao mundo, +Que um homem, cujo peito infinito e profundo + Abrange a Terra e os Ceus, +Guerreie o proprio irmão que é d'elle a propria essencia, +A luz, o ar, a vida, a força, a providencia, + Que deste-lhe, meu Deus?! +</div> + +<div class="poesia"> +Oh não!... Tu mandarás o dia em que a Justiça +Obrigue-os a expiar com fronte submissa + Dos crimes o estendal +Que encheu de sangue e horror as paginas da Historia, +Servindo de lição, ficando por memoria, + Em prol do teu Ideal!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 52</span> + +<div class="poesia"> +E o mundo hade voltar á fonte d'onde veio, +E ser todo elle amor, justiça e paz!... Já leio + Signaes <i>de nova Luz</i>!... +As crenças do Passado estando já em terra, +Vem prestes a surgir a nova Lei que encerra + Os sonhos de Jesus!... +</div> + +<div class="poesia"> +E eu beijo e adoro a mão que impelle e rege o mundo, +Que deu a flor ao campo; os sóes ao firmamento, + E o espirito divino +Aos nossos corações! Que a toda a creatura, +Á flor que desabrocha, ao astro que fulgura, + A todos deu destino! +</div> + +<div class="poesia"> +Por isso eu n'este mar, sobre este chão d'abrolhos, +Por onde cae amaro o pranto dos meus olhos, + De fito no Senhor, +De fito no Ideal, minha alma não se inquieta: +Confia e sobe a Deus, é como a borboleta + Que vae poisar na flor! +</div> + +<p class="data">Bussaco, 1870.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 53</span> + + +<h3>XIV</h3> + +<h3>Á PAZ DOS POVOS</h3> + +<h4>HOMO, EX HOMINIS LUPO, HOMINIS COOPERATOR</h4> + +<div class="poesia"> +De lobo te foi dado outrora o nome, +Lobo que a propria especie devastava +Cruento e fero, qual não viras nunca +Leões, pantheras, tigres ou chacaes!... + + E a fera, quando a fome + A incita, é quando crava + O dente e a garra adunca + Nos miseros mortaes. +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 54</span> + +<div class="poesia"> +Da massa do teu cerebro colhendo +A luz consciente e pura das ideas, +Concebes mil engenhos homicidas, +Inventos d'infernal destruição! + + Com elles, monstro horrendo! + Ha seculos semeias, + Em guerras fratercidas, + A morte e a assolação!... +</div> + +<div class="poesia"> +Mas como as forças cosmicas da Terra +Cessaram suas luctas de gigantes, +Trazendo á luz do Sol, d'amôr sedenta, +Dois mundos revestidos d'esplendores, + + O mineral que encerra + Os fulgidos brilhantes; + E o vegetal que ostenta + O olhar gentil das flores: +</div> + +<div class="poesia"> +Assim as mil paixões que a tanto custo +Contem teu peito e o rubro sangue agita, +Por ultimo hão de ter a vida calma +Que impõe por norma a tudo a Providencia; + + E o Bello, o Bom e o Justo, + Na sua acção bemdicta, + Levar-te aos seios d'alma + A paz da consciencia! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 55</span> + +<div class="poesia"> +Do sol os raios que dão vida ao globo; +Da vida a força multipla que actua +Em prol de cada qual, para que tomem +Quinhão no Bem, que é dado como a luz: + + Reclamam nos que o Lobo, + Da historia se destrua, + E dê lugar ao homem + Sonhado por Jesus! +</div> + +<div class="poesia"> +Se o cahos do teu peito foi sequencia +Do cahos primitivo da natura: +Terá tambem destino egual ao d'este; +Dará um quarto mundo, o da Verdade!... + + O da alma, cuja essencia + Incorruptivel, pura, + Procria a luz celeste + Do Bem, na Humanidade! +</div> + +<div class="poesia"> +Ver-te-has então qual Semideus Consciente! +O sangue que pecorre em tuas veias, +Origem dando a fulgidas doutrinas, +Ás nitidas noções das coisas bellas: + + Tua alma um resplendente + Santuario, onde as ideias + Serão luzes divinas, + Mais puras que as estrellas! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 56</span> + +<div class="poesia"> +Antithese da Vida do Passado, +Compete-te integrar na Terra os Povos; +E, chave do vastissimo problema +Da Vida humana: honrando o Redemptor, + + Nos ceus tem Deus traçado + Aos teus destinos novos, + Por synthese suprema, + A Paz, o Bem, o Amor! +</div> + +<p class="data">25 d'abril de 1898.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 57</span> + + +<h3>XV</h3> + +<h3>AO HOMEM</h3> + +<div class="poesia"> +Segundo as tradicções que vão sumir-se +Na noite secular das priscas eras: +Rugiram contra ti, Homem, as feras, + E as coleras do mar; +Dos ceus revoltos os trovões e os raios; +Qual reprobo vivias no universo +Inerme, nu e só, na sombra immerso, + Sem Deus, sem luz, sem lar!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 58</span> + +<div class="poesia"> +Apoz infindos seculos de lucta +Co'as forças implacaveis da materia, +Soffrendo, em toda a escala da miseria, + O frio, a fome, a dôr: +Venceste, e oppões ás lugubres cavernas, +Á escura habitação dos trogloditas, +Os fulgidos palacios onde habitas, + Conscio do teu valor!... +</div> + +<div class="poesia"> +Imperios contra ti ergueram despotas, +Quaes moles collossaes architectadas, +Assentes no prestigio das espadas, + Nas mãos d'um Pharaó, +D'um habil Julio Cesar; mas as moles, +Minadas pela acção do povo obscuro, +Cahiram como cae um fragil muro + No chão desfeito em pó!... +</div> + +<div class="poesia"> +No intuito de livrar teu grande espirito +Dos vinculos do mal e enobrecel-o, +Tomas-te a Jesus Christo por modelo + Das tuas concepções; +D'accordo a espada e a cruz, a lei e o dogma, +De ti fizeram novamente escravo, +Mas tu, inda outra vez, altivo e bravo, + Partiste os teus grilhões!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 59</span> + +<div class="poesia"> +Por ultimo lançando mão das forças +Da Terra tua mãe, das leis da Historia: +Apenas em tres seculos de gloria, + Com mil prodigios teus, +Mudas-te totalmente a face ao mundo, +E propões-te a fazer o mesmo á alma, +Porque esta, resplendente, justa e calma, + Triumphe á luz dos céus! +</div> + +<div class="poesia"> +Forjou a mão de Deus no sol teus raios!... +D'ahi todo o esplendor, todo o prestigio +Do teu almo poder! o grão prodigio + Das tuas concepções, +Que em marmore e crystal, em prata e ouro, +E em tellas formossissimas, transmittes +De mão em mão, sem conta, e sem limites, + Ás novas gerações!... +</div> + +<div class="poesia"> +Na terra, erma de Luz, Homem surgiste, +Trazendo no teu rubro sangue a Ideia, +A luz que doma o fogo, o apaga, o atêa, + E o faz descer do céu +Humilde como um cão!... Poder terrivel, +Que Jupiter temeu, quando, iracundo, +Mandou prender, por dar exemplo ao mundo, + Na rocha a Prometteu!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 60</span> + +<div class="poesia"> +D'ahi a mola occulta, a força ingenita, +A causa porque tu, no ardor da guerra, +Revolves sem cessar o céu, a terra, + A alma e o coração, +E fazes e desfazes, sem descanço, +Systemas, religiões, philosophias; +Depões a Deuses, reis e tiranias, + Em nome da Rasão!... +</div> + +<div class="poesia"> +Por veres quem tu és e quanto vales: +Das proprias obras faze o claro espelho, +E escreve em face dellas o evangelho + Da nova religião, +O authentico, o real, o verdadeiro; +Que em vez do degradado filho d'Eva, +Com ligitimo orgulho a Deus eleva + Tua alma e coração! +</div> + +<div class="poesia"> +Senhor das energias infinitas +Do mundo, com que Deus teu pae reforça +Teu multiplo poder: expulsa a força + Que os despotas produz; +Levanta novamente altar e templos +Ao Bello, ao Justo, ao Bem, á Sapiencia, +Afim de que na Terra a Consciencia + Impere em plena luz! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 61</span> + +<div class="poesia"> +Em vez de Força, Amôr rege hoje o mundo!... +E Amôr, se toma as normas da Justiça, +Fará com que, empenhando-te na liça + D'um ideal melhor: +Floresçam sobre a Terra, em prol de todos, +Honrando a Deus, servindo a Humanidade, +Os sonhos de pureza e de bondade + De Christo, o Redemptor!... +</div> + +<div class="poesia"> +Terás no espaço os soes por companheiros, +Comtigo permuttando noite e dia, +Na sua eterna e placida harmonia, + Os mil problemas seus!... +D'accordo Deus e a alma, o ceu e a terra: +Verás com resplendor a tua Ideia, +Chamando-a á vida, em tudo onde campeã + O espirito de Deus! +</div> + +<p class="data">1892.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 62</span> + + +<h3>XVI</h3> + +<h3>Á MULHER</h3> + +<div class="poesia"> +Senhor da Força, nós, o heroe lendario, +Da Terra o domador, o sabio, o forte, +Dir-se-ia que jurámos ante a morte + Guerra d'irmão a irmão!... +Mais féros do que os tigres, destruimo-nos +A ferro, a fogo, a polvora, a metralha, +Deixando, pelos campos de batalha, + O sangue, a assolação!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 63</span> + +<div class="poesia"> +Mudou agora o Eterno ao mundo a rota +Que ha seculos trazia,... e novos astros +Despontam no horisonte, e em nossos mastros + Mais rutilos tropheus!... +Em vez da guerra truculenta e impia, +Impõe-nos por principio a Paz dos Povos, +Que impavidos demandam mundos novos, + Nova luz, novo Deus!... +</div> + +<div class="poesia"> +Fechado para sempre o ferreo cyclo +Da guerra universal, obscuro berço +Do velho mundo barbaro, inda immerso + Nas lendas dos heroes: +Compete a Ti, Mulher, filha dilecta +De Deus, c'roar na Terra a grande obra, +Que em fulgido progresso se desdobra, + Á clara luz dos soes!... +</div> + +<div class="poesia"> +Missão mais nobre á vida humana é dado: +Juntar e repartir de muitos modos, +Por cada um de nós, e em prol de todos, + Do Bem a eterna luz, +Fazendo com que caiam na nossa alma, +Qual chuva em messe loira e movediça, +N'uma missão d'amor e de Justiça, + Os sonhos de Jesus!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 64</span> + +<div class="poesia"> +Em vez da Força, Amor rege hoje o mundo! +E amor, tomando as gallas da Belleza, +As normas de Justiça, a mãe, a deusa + Das novas gerações: +Ao teu celeste influxo, posto á sombra +Da mãe de todos nós, a <i>Humanidade</i>, +A paz será na Terra, e na Verdade + Os nossos corações!... +</div> + +<div class="poesia"> +Belleza e Amor, unindo-se, fizeram +Do teu mimoso ser um relicario, +Onde a mão do divino estatuario + Os sonhos seus guardou!... +D'encantos mil, conjuncto incomparavel! +A Deus já mereceste tal conceito, +Que só do amor divino do teu peito, + A vida confiou!... +</div> + +<div class="poesia"> +Teu lindo rosto, espelho da sua alma, +Transporta-me a ideaes de tal apreço, +Que em frente d'elle extatico estremeço, + E ponho-me a scismar: +Se entre as ondas de graça e de belleza, +Que lançam sobre mim seus olhos ternos, +Está ou não occulto a bemdizer-nos + De Deus o proprio olhar!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 65</span> + +<div class="poesia"> +Tem jus as niveas formas do teu corpo +Ao flácido velludo, á fina seda, +Primor da industria humana que arremeda + As petalas da flôr! +Rainha! traja mantos d'ouro e purpura, +A doce perl'a, o fulgido brilhante, +E tudo quanto esplendido levante + Na Terra o teu amor! +</div> + +<div class="poesia"> +Amor se symbolisa n'um menino, +Dos ceus gentil e alado mensageiro, +Trazendo atraz de si, como um cordeiro, + Pacifico leão! +O magico poder que a fera doma, +A força de que se arma esse innocente +És tu mulher, e a fera obediente + O nosso coração! +</div> + +<div class="poesia"> +Conscia de Ti, das leis da vida, impera! +E aos pés verás as almas subjugadas! +Tem mais poder que o fio das espadas, + Um riso e olhar dos teus! +Que o teu propicio amor, dos ceus oriundo, +Nos doure a vida, a ampare, a dulcifique, +Nos faça com que a alma humana fique + Mais proxima de Deus! +</div> + +<p class="data">1892.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 66</span> + + +<h3>XVII</h3> + +<h3>AOS FILHOS</h3> + +<div class="poesia"> +Trazidos pelo Amor, que por instantes, + O veu ergue á Verdade, +Por nós á luz vieram, quaes prestantes + Peões da Humanidade!... +</div> + +<div class="poesia"> +Amor é quem dos ceus nos abre a porta, + Nos deixa vêr o intuito +De Deus na Terra, e a elle nos transporta + Da amante o olhar fortuito! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 67</span> + +<div class="poesia"> +Em nós n'um sonho lindo tendo origem, + Se o sonho a Deus encerra, +As sabias leis da historia humana exigem, + Que o sonho desça á Terra!... +</div> + +<div class="poesia"> +Dos paes vingasse o amor, que este o faria + Entrar na realidade, +Expondo a divinal sabedoria + Em plena claridade!... +</div> + +<div class="poesia"> +Com legitimo orgulho o sol dar-lhe-ia + Seus raios sempre novos; +E a Terra os bens innumeros que cria + Em paz, a bem dos Povos! +</div> + +<div class="poesia"> +Em vez de irmãos maleficos eivados + De odios que o sangue atiça, +Os bons e os maus ver-se-iam congraçados + Em nome de Justiça! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 68</span> + +<div class="poesia"> +Em frente das pacificas moradas, + Jasmins, lyrios e rosas!... +E as ruas que pisamos marchetadas + De pedras preciosas! +</div> + +<div class="poesia"> +Tal o sonho que passa pela mente + D'um pae creando os filhos, +E n'essa fé remove deligente + Milhares d'empecilhos!... +</div> + +<div class="poesia"> +Mas fal'o em vão, que o mundo, sob um pacto + Cruel co'o odio eterno, +Lhe põe em derredor, injusto e ingrato, + Em vez do ceu, o inferno!... +</div> + +<div class="poesia"> +Ás vezes chega a ter-se horror ao homem, + Ás suas impias luctas, +Ao termos de entregar o peito joven + D'um filho ás feras brutas!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 69</span> + +<div class="poesia"> +Antithese do Bem em que inda espera, + Pergunta dolorido +Um pae a Deus: se accaso lhe valera + Seu filho ter nascido!... +</div> + +<div class="poesia"> +Emfim é lei, e a lei, ideal supremo + Bemdicto e sublimado, +Fará com que passemos d'este extremo + Do mal, ao Bem sonhado!... +</div> + +<div class="poesia"> +De Deus a Idéa amplissima, infinita, + Qual filha ao lar paterno, +Em torno a Deus explendida gravita, + No seu percurso eterno! +</div> + +<div class="poesia"> +E tal como do cahos pavoroso, + Que a custo eu mal devasso, +Surgio mais tarde o mundo esplendoroso, + Que rola pelo espaço! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 70</span> + +<div class="poesia"> +E á eterna luz dos soes no firmamento, + Celeste peregrino, +Caminha sem cessar no seguimento + D'um Ideal Divino: +</div> + +<div class="poesia"> +Assim o coração febril se arrasta, + Na sua lucta immensa, +Atraz do Bem Supremo, e tanto basta + Por base á minha crença!... +</div> + +<div class="poesia"> +Buscando o summo Ideal por entre antitheses, + Fazendo e desmanchando: +O espirito concebe as largas syntheses + De Deus, de quando em quando! +</div> + +<div class="poesia"> +Ao fim de cada qual resurge a Vida, + E muda os moldes velhos +Por outros que se ajustam á medida + Dos novos evangelhos!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 71</span> + +<div class="poesia"> +Sobre isto a historia offerece-nos exemplos!... + Os criticos deparam +Co'os netos desmachando um dia os templos, + Que seus avós sagraram!... +</div> + +<div class="poesia"> +D'ahi os odios vãos de fanatismo; + Os multiplos revezes, +Que assolam as nações co'o cataclysmo + Das crenças muitas vezes! +</div> + +<div class="poesia"> +Quem do alto vé, no entanto, a historia humana, + Contempla sorridente +A marcha dos destinos porque emana + D'um Pae ommisciente! +</div> + +<div class="poesia"> +Passem nos ceus, com rapidez tamanha, + Os astros diamantinos; +Que a terra os segue; a terra os acompanha + Eguaes são seus destinos!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 72</span> + +<div class="poesia"> +Aquillo que ha de vir e que deriva + D'aquillo que hoje somos, +Que em si contém do Eterno a parte viva, + Nos filhos o depomos!... +</div> + +<div class="poesia"> +Os filhos são da arvore da vida + A flôr dos novos fructos, +A quem de Deus a essencia é transmittida, + Com os seus mil attributos! +</div> + +<div class="poesia"> +E os paes então o fructo assasonado, + Já proximo da queda; +Com elles cae a parte do Passado + Que é morta, e Deus arreda! +</div> + +<div class="poesia"> +E quem nas leis divinas confiando, + Á fulgida seara +Do bem se consagrou, não morre quando + Dos vivos se separa!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 73</span> + +<div class="poesia"> +Contente desce em paz á sepultura, + Na crença de que os filhos +Verão mais tarde em plena formosura + Dos sonhos seus os brilhos! +</div> + +<div class="poesia"> +Na marcha ascencional da humana historia, + Que a mão de Deus conduz, +O filho entrou na Luz que é transitoria, + O pae na eterna Luz!... +</div> + +<div class="poesia"> +Á farta os vermes seu cadaver róam + Na campa onde se esvae! +Sua alma triumphante e os soes entoam + Hossana a Deus que é Pae! +</div> + +<p class="data">Abril de 1898.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 74</span> + + +<h3>XVIII</h3> + +<h3>Á HUMANIDADE</h3> + +<div class="poesia"> +Estrellas que rolaes no espaço ethereo +N'um vertice de luz vertiginoso, +E em numero sem conta e sem repouso, +De Deus cumpris altissimo mysterio! + +E vós flôres gentis, purpureas rosas, +Roxas violetas, candidas boninas, +Que abris, tomando formas peregrinas, +Á luz do Sol as petalas mimosas: + + Commigo erguendo a vóz + Ao throno da Verdade, + Saudae a Humanidade, + Que é mãe de todos nós! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 75</span> + +<div class="poesia"> +Materno amor, que tanto admiro e acato, +Perenne luz vital do Ser Supremo, +Ante cujo esplendor confuso eu tremo, +Se sondo o teu Santissimo mandato! + +Ou sejas tu mulher juncto do berço +Com terno olhar velando o teu filhinho; +Ou tu maviosa rola no teu ninho; +Bemditas no concerto do Universo: + + Por tão divinos bens, + No intimo do peito, + Votae sentido preito + Ao symbolo das mães! +</div> + +<div class="poesia"> +Mulheres que prestaes culto a Maria, +Á virgem Mãe de Deus, cheia de graça, +Doçura, vida e esperança onde se enlaça +O vosso coração de noite e dia! + +E vós ingenuas multidões que hei visto +Com ar tristonho, humilde e miserando, +Nos templos de mãos postas adorando +Por vossa padroeira a Mãe de Christo: + + A Virgem que adoraes, + Tornou-se a precursora + Da mãe que surge agora + Aos olhos dos mortaes! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 76</span> + +<div class="poesia"> +A mãe que em vez dos tristes filhos d'Eva, +Levanta aos ceus os filhos redemidos! +Em cantigos transforma os seus gemidos! +No Bem o mal, na doce luz a treva! + +A mãe que os filhos todos encaminha +Ao Summo Bem, que traz no peito occulto; +Erguei-lhe pois altar, prestae-lhe culto; +Tem jus a que brandeis==Salvé Rainha== + + «Bemdito sê nos ceus!» + «Bemdito sê na Terra!» + «Sacrario onde se encerra» + «O Espirito de Deus!» +</div> + +<div class="poesia"> +Oh povos que viveis sob a vigilia +Do olhar supremo em toda a redondeza, +Formando pelas leis da natureza +E os vinculos moraes, uma familia: + +Sabei que cada qual, tendo-a comsigo, +Trará como um clarão na consciencia, +Um rutilo fanal, a Providencia +Que o pode redimir na hora do perigo! + + Interpretes de Lei + Divina, e para exemplo, + Em honra d'ella um templo + Na alma humana erguei! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 77</span> + +<div class="poesia"> +Estrellas, flôres, mães, sabios e crentes, +Vós todos que formaes a eterna cahorte +Dos bons, dos que perante a vida e a morte, +De Deus esparsem raios resplendentes: + +Por preito á obra santa e redemptora, +Que põe a Terra e os ceus em harmonia, +Como alto solta alegre a cotovia +A limpida canção á luz d'aurora: + + Á minha unindo a vóz, + Cantemos creaturas, + Hossana nas alturas + Á Mãe de todos nós! +</div> + +<p class="data">1897.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 78</span> + + +<h3>XIX</h3> + +<h3>AO NOVO CYCLO HISTORICO</h3> + +<h4>AO TRIUMPHO DO ESPIRITO</h4> + +<div class="poesia"> +Homem! sob o docel das fulgidas estrellas, +Que espalham pelos ceus de Deus o Ideal jocundo, +Surgiste insciente e nu, por entre mil procellas, +A custo iniciando o teu Poder no mundo!... +</div> + +<div class="poesia"> +A Terra, que ha de ser mais tarde o teu Imperio, +Theatro e pantheon dos teus tropheus de gloria, +Prendeu-te inerme e escravo, e impoz-se ao teu criterio +Terrivel como um Deus, no escuro humbral da Historia!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 79</span> + +<div class="poesia"> +No fundo do teu Ser, que sabias leis dirigem, +Rompia ainda incerta, envolta em serração, +Tua alma, cuja luz transporta o mundo á origem +Do Bello, Justo e Bom, do Amor e da Rasão!... +</div> + +<div class="poesia"> +Que seculos sem fim primeiro que desvendes, +Dos vinculos da carne, esse fanal divino!... +Que lugubres visões!... Que espectros!... Que duendes!... +Que espiritos do mal, turvavam teu destino!... +</div> + +<div class="poesia"> +Que o digam as ficções do extincto fetichismo!... +O numero sem fim dos deuses dos selvagens!... +As tetricas visões da Fé no Judaismo!... +Do inferno dos christãos as lobregas voragens!... +</div> + +<div class="poesia"> +Mas tudo emfim venceste e hoje sôa a hora +De veres sem pavor a estrada percorrida!... +De creres já em ti, em Deus, na luz d'aurora +Que encerra um velho cyclo, e um novo te abre á Vida!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 80</span> + +<div class="poesia"> +Deus fez d'esse teu peito um campo de batalha +Das luctas no Universo!... E ahi foram mantidas, +Em nome do Ideal que a terra e os ceus trabalha, +Medonhas convulsões e guerras fratricidas!... +</div> + +<div class="poesia"> +Decerto obedecendo a occulto e grão motivo, +No plano universal da Vida a que és sugeito, +As mil conflagrações do cahos primitivo +Vieram a surgir de novo no teu peito!... +</div> + +<div class="poesia"> +Dois cyclos Deus traçou, d'uma orbita infinita, +Dos povos do universo ás multiplas colmeias: +Um vota-o as paixões que o rubro sangue agita; +O outro ao resplendor sereno das idéas!... +</div> + +<div class="poesia"> +Inicio da missão primeira a que és chamado, +Tu vês, em pleno horror, da força o predominio +Nas feras, que, crueis, rugindo em alto brado, +Se votam sem quartel ás luctas de exterminio!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 81</span> + +<div class="poesia"> +Mil raças d'animaes, minados d'odio eterno, +Trucidam-se, correndo o rubro sangue em rios!... +Tem odios figadaes, que lembram os do inferno, +Que foi a projeção de tempos tão sombrios!... +</div> + +<div class="poesia"> +Em face então do mundo acceso todo em guerra, +Proclamas-te senhor e rei da creação! +E levas sem quartel a morte a toda a Terra, +Á pedra, a pau, a ferro, e a tiro de canhão!... +</div> + +<div class="poesia"> +Soberbo co'o poder, que d'ambições se nutre, +Gravas-te nos brazões heraldicos da gloria, +Das feras, o leão, o tigre, a aguia, o abutre, +Quaes symbolos fieis da tua acção na Historia!... +</div> + +<div class="poesia"> +Atraz de mil visões formadas como especulos +Que alcançam do Ideal a luz sempre distante, +Tu fechas hoje em dia, ao fim de largos seculos, +Dos Deuses, reis e heroes o periodo brilhante! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 82</span> + +<div class="poesia"> +Os proprios animaes, aquelles que escolheste +Por symbolos fieis do teu poder, é certo +Que estão-se a eliminar tambem: a morte investe +Com elles por fatal e superior decreto!... +</div> + +<div class="poesia"> +A paz que hoje vaes ter por nova lei suprema, +É a mesma a que attingio o propio cahos por meta; +Nos páramos do azul os soes a teem por lemma +Escripto a fogo eterno aos olhos do poeta!... +</div> + +<div class="poesia"> +N'um multiplo vae-vem, n'uma completa antithese +Por entre o goso e a dôr, por entre a sombra e a luz, +Chegas-te a conceber do mundo inteiro a synthese +N'um pae celeste e Bom, no Deus que vio Jesus!... +</div> + +<div class="poesia"> +Deriva desde então do periodo primeiro +O fim que se approxima e o resplendente alvor +Do novo Ideal que traz o fim do captiveiro: +Em vez da Força, a Ideia; e, em vez do Odio, o Amor! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 83</span> + +<div class="poesia"> +Teu cerebro pensante é como uma semente +Que está reproduzindo a flôr do Ideal! +Eterno nos traduz por forma resplendente +Do seu divino author a essencia espiritual!... +</div> + +<div class="poesia"> +Do bello lyrio d'alma as petalas brilhantes +Cambiam sem cessar de côr e de perfume, +E levam do Porvir, aos seculos distantes, +O espirito de Deus que o mundo em si resume!... +</div> + +<div class="poesia"> +É como o grão subtil que um cedro do Hymalaia +Expôe formoso ao Sol, em todo o seu systhema!... +Em intimo labor co'as leis da Vida, ensaia +A eterna solução do divinal problema!... +</div> + +<div class="poesia"> +O mesmo estão fazendo as fulgidas estrellas, +Formoso campo em flôr, ideal jardim divino!... +D'ahi as mil visões das coisas as mais bellas +Que exparsem sobre nós seu brilho diamantino! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 84</span> + +<div class="poesia"> +O mundo desde os soes da cupula infinita +Ás flores a teus pés, com paternal carinho, +Insuflam n'esse peito ancioso que palpita +Valor para que vás seguro em teu caminho!... +</div> + +<div class="poesia"> +Tem fé no teu destino; em Deus tem confiança! +Da tua historia escripta as paginas sem conta +Derramam na tua alma a nova luz que avança +D'accordo co'o universo e que hoje em ti desponta!... +</div> + +<div class="poesia"> +Em vez do legendario heroe das priscas eras, +Das guerras extrahindo a gloria a todo o custo: +Honrando o Creador, e as fulgidas espheras, +Serás, qual semi Deus, sereno, sabio e justo!... +</div> + +<div class="poesia"> +É este o Ideal que as leis da natureza +Inspiram com sublime e candida alegria!... +Que as normas da Rasão, que as pompas da Belleza, +E as maximas do Amor, reclamam noite e dia!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 85</span> + +<div class="poesia"> +O mesmo ensina o mar que arqueja palpitante, +Da terra enviando a Deus seus canticos d'amôr!... +O mesmo o terno olhar dos olhos d'uma amante; +O augusto erguer do Sol, o calmo abrir da flôr!... +</div> + +<div class="poesia"> +O cyclo que hoje se abre, embora ainda incerto, +Vem dar um novo rumo á tua antiga historia; +Vem pôr-te em equilibrio, em intimo concerto +Co'a vida universal, de que és a alma e a gloria! +</div> + +<div class="poesia"> +É esta a nova Fé que em tuba altisonante, +Interprete da Vida, entôa a voz da musa!... +Correi, povos, a ouvir-lhe o seu clamor vibrante!... +O espirito de Deus em sua vóz se accusa!... +</div> + +<p class="data">Novembro de 1898.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 86</span> + + +<h3>XX</h3> + +<h3>NOVA LUZ! NOVO IDEAL!</h3> + +<div class="poesia"> +Espirito Supremo, d'onde brota +A luz que eterna os mundos alumia, +E deixa pelo espaço uma harmonia + Echo da tua vóz! +Inspira-me a assistir, sereno e impavido, +Ao funebre ruiz do christianismo, +E d'este inevitavel cataclysmo + Salva-te a ti e a nós! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 87</span> + +<div class="poesia"> +A Ti, o forte, o sabio, o justo, o symbolo +De toda a perfeição, a ti importa +Que d'esta fé, tornada letra morta, + Vejamos renascer +Do mundo novo a crença ardente e rutila, +Co'o magico fulgor da nossa Ideia, +O espelho onde melhor se patenteia + No mundo o teu poder! +</div> + +<div class="poesia"> +Ao teu olhar religiões sem numero, +Com ritos, cultos, cheios de fulgores, +Desambam, como as petalas das flôres + Ao Sol que as reproduz!... +Que um novo Ideal d'amor, de ti nascido, +Trajando d'ouro e purpura o horizonte, +Das sombras de hoje, esplendido desponte, + A dar-nos nova luz!... +</div> + +<div class="poesia"> +Outra verdade, filha d'estes tempos, +Que venha a nós em nome teu, n'esta hora, +Matar a sêde ardente que devora + Os nossos corações, +Depois que á intensa luz de mil combates, +Travados pela fé contra a Sciencia, +Começa-se a apagar na consciencia + O ideal christão! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 88</span> + +<div class="poesia"> +A Ti attraes as almas como as aguias +De monte em monte a prole aos ceus subindo, +Fazendo com que attinja o espaço infindo + Que abarca o seu olhar!... +De Brahma a Budha, de Moysés a Christo, +Se fez essa ascenção prodigiosa, +Ao fim do qual a alma é desejosa + De a novos ceus voar!... +</div> + +<div class="poesia"> +Ah d'esta vacuidade em que se encontram +Os nossos corações cheios de febre, +Que uma alma nova irrompa e audaz celebre + Suas nupcias d'amor +Co'o mundo que lhe coube por partilha, +Passando a co-existir serenamente, +Harmonica, feliz e resplendente, + Como ante o Sol a flôr!... +</div> + +<div class="poesia"> +Por nós, que não por ti, que és intangivel +Ás frageis condições da vida humana: +Perante o aspecto triumphal que emana + De toda a creação: +Convem-nos expurgir do fundo d'alma, +Da fonte onde se gera o pensamento, +O cunho de tristeza e desalento, + Que imprime o ideal christão!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 89</span> + +<div class="poesia"> +Ha na verdade em tudo o que é belleza, +E força e vida e amor nas creaturas, +Desde os astros que brilham nas alturas, + Á flôr a nossos pés: +Tanta porta do ceu a abrir-se á alma; +Riqueza tanta e tanto amor occulto +A revellar-te a Ti, que é justo um culto + Erguer-lhes outra vez! +</div> + +<div class="poesia"> +Digamos a verdade: uma semente, +Que eterna e intacta a arvore resume, +Com troncos, folhas, flôres e o perfume + Que entrega ás virações: +Encerra em si mais luz, lição mais pratica, +Mais digna de por nós ser apprendida +Qual maxima d'amor, e ideal da vida, + Que um livro d'orações! +</div> + +<div class="poesia"> +Tua alma é presa ao mundo que creaste +E o mundo, cuja orbita infinita +Abrange a Terra, e os Ceus, onde palpita + D'amor teu coração, +Tem jus a que façamos d'elle a Biblia +Eterna, aonde apprenda a Humanidade, +Sedenta de Justiça e de Verdade, + A nova religião!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 90</span> + +<div class="poesia"> +Ah tens a executar teus vastos planos +D'amor, e de Justiça, aurifulgentes, +Fanaticos aos mil, e mil videntes, + E innumeros heroes, +De varia estirpe: o artista, o justo, o sabio, +Buscando interpretar teu pensamento; +E encontram pelo azul do firmamento + No mesmo afan os soes!... +</div> + +<div class="poesia"> +Que á tua vóz as gerações extinctas +Resurjam e contemplem com surpreza +Esta obra immensa, cheia de belleza, + Que em multiplo labor, +As novas gerações estão fazendo!... +Que em nome da Verdade triumphante, +Unisono na Terra se alevante + Este hymno em teu louvor! +</div> + +<p class="data">1889.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 91</span> + + +<h3>XXI</h3> + +<h3>APPELLO SUPREMO!</h3> + +<div class="poesia"> +A minha alma immortal n'este exilio onde existe, +Abrigando no seio a ideaes tão risonhos, +E entre os homens só vendo um sarçal ermo e triste, +Onde outro'ra plantára o jardim dos seus sonhos: +</div> + +<div class="poesia"> +Teve a sorte cruel d'uma flôr, que enganada +Pelos raios do sol, ainda inverno e entreabrio; +Mas que dias depois, co'o cahir da geada, +E o soprar do nordeste, afinal, succumbio!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 92</span> + +<div class="poesia"> +Assim foi para mim o florir dos amores, +N'essa quadra febril em que o sangue é fecundo, +Quando rompe a manhã, quando abrem as flôres, +Quando o Sol brilhante e o azul é profundo!... +</div> + +<div class="poesia"> +Nem ha rocha no mar, pelas ondas batida; +Nem ha nuvem no ceu, pelo vento açoutada; +Nem ha rosa n'um val' pelo sol esquecida, +Que se possa dizer mais do que eu desgraçada!... +</div> + +<div class="poesia"> +Mas se o mal nos incita, e Deus quer nos transporte +D'um estadio a outro estadio atravez muito custo, +Em demanda do <i>Bem</i>, que triumpha da morte: +Deves crêr do Porvir no Ideal santo e augusto! +</div> + +<div class="poesia"> +E se foste, minha alma, a illudida afinal, +Quando crêste emplumar nesta quadra o teu ninho,... +Pede a Deus que te envie aquella hora fatal +Que abre a porta á Verdade e vae tu teu caminho!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 93</span> + +<div class="poesia"> +Oh Justiça increada! oh meu Deus! oh meu Pae! +Tu que a mim me mostras-te o teu seio, esse abrigo +Da <i>Bellesa</i> e do <i>Amor</i>, que me envolve e me attrae: +Dá-me as azas Senhor, com que vá ter comtigo!... +</div> + +<p class="data">Lisboa, 1869.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 94</span> + + +<h3>XXII</h3> + +<h3>REFUGIO ULTIMO!</h3> + +<div class="poesia"> +Deixa, Senhor, do mundo em que eu habito + A ti meu ser se evol'!... +Tem jus aos ceus quem mede esse infinito + Que vae de sol a sol!... +</div> + +<div class="poesia"> +Sonhei na terra, amando-a muito e muito, + Novo Deus, nova lei; +Mas foi, pura illusão, baldado intuito, + Comtigo só me achei!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 95</span> + +<div class="poesia"> +Suppuz em vez do gellido egoismo, + Da guerra surda e atroz +D'interesses, em perpetuo antagonismo, + Que envolve a todos nós: +</div> + +<div class="poesia"> +Homens, povos, nações, por varios modos + Unidos, dando as mãos: +<i>Todos por um, valendo um só por todos, + Vivendo como irmãos!...</i> +</div> + +<div class="poesia"> +É fé que sigo, é crença que mantenho: + Que em mysterioso nó +Unis-te os homens, com supremo engenho, + Formando uma alma só; +</div> + +<div class="poesia"> +Em serviço da qual cada individuo, + Com multiplo labor, +Trabalha por lhe dar, no esforço assiduo, + O maximo esplendor!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 96</span> + +<div class="poesia"> +Quão mais estreito o vinculo fôr dado, + Mais luz hade irromper +Do nosso coração, do amor gerado + No ventre da mulher!... +</div> + +<div class="poesia"> +Tal o sonho que em dias mais felizes + Ao mundo consagrei!... +Como hade aqui lançar fundas raizes: + A ti contente irei!... +</div> + +<div class="poesia"> +Se um raio de calôr ou luz, prestantes, + A terra a si prendeu: +É vel'os como, em rapidos instantes, + Se evolam para o céu; +</div> + +<div class="poesia"> +E como, n'um sentido em tudo opposto, + A pedra na amplidão, +Quanto mais alto attinge, com mais gosto + Gravita para o chão!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 97</span> + +<div class="poesia"> +E eu não gravito: eu subo na vertigem + D'um céllico condor +A demandar em ti, na propria origem, + Belleza, luz e amor! +</div> + +<div class="poesia"> +Permitte, pois, do mundo em que eu habito + Meu ser a ti se evol': +Tem jus aos ceus quem mede esse infinito + Que vae de sol a sol! +</div> + +<p class="data">Novembro de 1868.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 99</span> + + + + +<h2>LIVRO SEGUNDO</h2> + +<h1>ESPELHO DUPLO</h1> + + +<h3>O MUNDO E A CONSCIENCIA</h3> +<span class='pagenum'>Pág. 101</span> + + +<h3>I</h3> + +<h3>ALVORADA</h3> + +<div class="poesia"> +Algures brilha o sol no azul do firmamento, +E expõe com resplendor das cousas o espectaculo! +Aqui, na escuridão, o mundo é tabernaculo +Onde os frageis mortaes descançam um momento!... +</div> + +<div class="poesia"> +Alem, o Sol incita o mundo ao movimento, +Á lucta pela Vida, o esteio e o sustentaculo +Desde o ser da Rasão ao minimo animaculo, +Aqui, o somno esparse em todos novo alento! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 102</span> + +<div class="poesia"> +Ó Luz! tu és do mundo a Força, a Alma, a Vida, +A essencia do meu Ser, a minha propria Ideia, +O proprio Deus, talvez!... <i>Belleza, Amor, Verdade!</i> +</div> + +<div class="poesia"> +Atraz de Ti caminha a Terra, mãe querida! +Bemdito caminhar! Por Ti minha alma anceia!... +Bemvinda sejas, pois, oh doce claridade! +</div> + +<p class="data">Lisboa, 1898.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 103</span> + + +<h3>II</h3> + +<h3>Á LUZ</h3> + +<div class="poesia"> +Oh Luz dourada e pura! +Oh Luz, irmã do Amor! +Espelho e formusura +Da Alma do Senhor! +</div> + +<div class="poesia"> +Em ti eu vejo e abraço +O author da creação, +Soltando pelo espaço +Explendida canção +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 104</span> + +<div class="poesia"> +Meus olhos que te admiram, +Bem como a Terra e os Ceus, +Ao verem-te, sentiram +O proprio olhar de Deus! +</div> + +<div class="poesia"> +O ceu, mal vens n'aurora, +Mais alva que a alva lã, +De purpura colora +As faces de manhã! +</div> + +<div class="poesia"> +A Terra, envolta em galas, +Mais bella que as Huris, +Reveste-se de opálas, +De perolas e rubis! +</div> + +<div class="poesia"> +As aves innocentes, +Sentindo o teu fulgor, +Gorgeiam, de contentes, +Seus canticos d'amor! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 105</span> + +<div class="poesia"> +Os lyrios junto ás fontes, +Perdendo o teu clarão, +As suas lindas fontes +Inclinam-se para o chão! +</div> + +<div class="poesia"> +Eu mesmo, se em verdade +Sonhei, com Jesus, +O bem da Humanidade, +A Ti o devo oh Luz! +</div> + +<div class="poesia"> +Oh candida alegria! +Espirito de Deus, +Que animas noite e dia +A Terra, o mar, e os ceus, +</div> + +<div class="poesia"> +Adoro-te portento!... +E a Ti levando as mãos, +Como ante o sacramento! +Os simplices christãos!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 106</span> + +<div class="poesia"> +D'esta alma és o esteio! +Que a tua essencia pura +Ampare-me no meio +Da minha desventura!... +</div> + +<div class="poesia"> +E quando a morte um dia +Roubar aos olhos meus, +A esplendida harmonia +Que formam Terra e ceus: +</div> + +<div class="poesia"> +Seguindo prasenteiro +A lei que me conduz, +Meu grito derradeiro +Será por ti oh Luz! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 107</span> + + +<h3>III</h3> + +<h3>AO SOL!</h3> + +<div class="poesia"> +Oh maravilha esplendida engastada +Na fronte augusta do azul profundo, +Qual lamina brilhante onde gravada +Se visse a face de quem fez o mundo, +</div> + +<div class="poesia"> +Eu te saudo oh Sol? qual religioso +O Indio quando viu a vez primeira +Surgir do mar teu facho luminoso +E alegrar com a luz a terra inteira! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 108</span> + +<div class="poesia"> +Ah! quiz cantar o braço omnipotente +Que por nós trabalhava a cada instante: +E a terra, o mar, e quanto vive e sente, +Apontou para Ti, astro brilhante! +</div> + +<div class="poesia"> +Possam teus raios que nos ceus se expandem +Ricos da gloria e cheios d'alegria, +Fazer com que do peito meu debandem +As sombras da tristeza que trazia, +</div> + +<div class="poesia"> +E ouve-me um canto alegre como o côro +Das aves quando, envolto em magestade, +Tu transpões do oriente as portas d'ouro +E abençoas dos ceus a Humanidade! +</div> + +<div class="poesia"> +Oh astro, coração tres vezes santo, +De cujo seio foi por Deus emmerso +O movimento e a vida e tudo quanto +Forma hoje a harmonia do Universo! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 109</span> + +<div class="poesia"> +Ouvi louvar-te, num concerto vario, +Montanhas, mares, flôres e arvoredos, +Que do meu peito, como d'um sacrario, +Confiaram seus intimos segredos! +</div> + +<div class="poesia"> +Louvam-te as aves; louvam-te as creanças, +E os velhos que não teem fogo nos lares, +Buscando a doce luz que tu lhes lanças, +Como a imagem de Deus junto aos altares! +</div> + +<div class="poesia"> +Louva-te, oh Sol! a terra a quem quizeste +Por tua esposa, na epocha sombria, +Em que de crepe a abbobada se veste, +Lacrimosa chorando noite e dia; +</div> + +<div class="poesia"> +E os jubilios e os mil festões de gala +Com que cingio de noiva delirante +A casta fronte, quando a enamoral-a +Sentiu de novo o teu olhar brilhante! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 110</span> + +<div class="poesia"> +Oh Sol! oh Sol! a minha lingua é pobre +Para cantar-te em verso o quanto vales +Perante as maravilhas que descobre +A vista humana por montanha e vales!... +</div> + +<div class="poesia"> +Desde o negro carvão que o fogo atêa +Ao cédro altivo que no mundo avulta; +Desde o meu sangue á luz da minha idêa: +Por tudo existe a tua essencia occulta!... +</div> + +<div class="poesia"> +Hostia de luz esplendida, patente +Perante os povos em perpetua missa! +Tu, que és de Deus o espelho resplendente, +Throno de gloria e séde de Justiça: +</div> + +<div class="poesia"> +Se apagares nos ceus teu facho enorme, +Suspensa a vida no labor interno, +Tu verás como a terra logo dorme +Entre as sombras da noite um somno eterno!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 111</span> + +<div class="poesia"> +Seja pois o meu canto um desafogo +Da nossa gratidão, astro, jocundo! +Coração formosissimo de fogo +Que em nome do Senhor dás vida ao mundo! +</div> + +<div class="poesia"> +E prosegue no carro flammejante +A derramar teus bens por mundos novos, +Que emquanto vês na marcha triumphante +Infindas tribus d'animaes e povos: +</div> + +<div class="poesia"> +Eu, deslumbrado ainda com os vestigios +Da tua luz, de tantas coisas bellas, +Louvarei o author de taes prodigios +Sob esse manto esplendido d'estrellas! +</div> + +<p class="data">Lisboa, 1872.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 112</span> + + +<h3>IV</h3> + +<h3>AO MAR!</h3> + +<div class="poesia"> +Senhor! eu canto o mar, que no psalterio +D'esses orbes de luz que além se avista, +Com a vóz d'um tristissimo psalmista +Teu nome ousa louvar no espaço ethereo! +</div> + +<div class="poesia"> +Canto o apostolo, o mestre da Verdade, +Que, aprendendo de ti altos segredos: +Contra os negros tyrannos dos rochedos +Vae prégando o sermão da Liberdade! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 113</span> + +<div class="poesia"> +Ah cuja grande vóz, d'além do abysmo, +Apraz-me ouvir por noite tenebrosa +Imponente crescer, bramir raivosa +D'encontro á rocha onde eu medito e scismo! +</div> + +<div class="poesia"> +Eil'o sempre n'aquelle arfar profundo, +Em lucta collossal, guerra infinita, +Contra o sopro do ceu que eterno o agita, +Desde o dia em que Deus o trouxe ao mundo! +</div> + +<div class="poesia"> +Se tudo quanto ahi á luz se cria, +Tudo trabalha mas descança e dorme, +Porque anda sempre oh mar, teu seio enorme +N'essa lucta cruel de noite e dia?! +</div> + +<div class="poesia"> +Em ancia egual só tenho a comparar-te +Á marcha d'esses mundos que o Senhor +Tornou em corações do seu amor, +Para a vida accordar por toda a parte! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 114</span> + +<div class="poesia"> +Tu és o irmão dos astros; és da Terra +O immenso coração profundo e triste, +Que eterno off'rece a vida a quanto existe, +Co'o auxilio do Sol, que tudo encerra!... +</div> + +<div class="poesia"> +Ah muito seja embora o desgraçado, +Muita a miseria occulta n'esse abysmo, +Desde as scenas do horrivel cataclysmo, +De que resam as biblias do Passado: +</div> + +<div class="poesia"> +Eu vejo em ti o pae dos pobresinhos, +A quem nada deixando as leis avaras, +Tornas-te-lhes os peixes em cearas, +Para matar a fome a seus filhinhos!... +</div> + +<div class="poesia"> +O eterno confidente de infelizes, +De quem pareces ser tão grato espelho, +Que servindo para elles d'evangelho, +Eu não sei que palavras tu lhes dizes, +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 115</span> + +<div class="poesia"> +Que fico ahi por tempos esquecidos, +Tão preso a escutar-te a voz das aguas, +Que obtenho acalmar a dôr ás magoas +E adormecer meus males tão compridos!... +</div> + +<div class="poesia"> +Oh! mar! oh! mar! quando eu a sós medito +Nas rochas sobre os pincaros calado, +Recorda o teu rumor cadenceado +Um pendulo suspenso no infinito!... +</div> + +<div class="poesia"> +Harpa de Deus exposta aos quatro ventos, +Onde o sopro, que a vaga á vaga impelle, +Descanta harmonioso um hymno Áquelle, +Que a terra e os ceus encheu de mil portentos!... +</div> + +<div class="poesia"> +Quer a colera accesa da tormenta +Te divida em terriveis multidões +De tigres, de pantheras, de leões, +Rugindo em cada vaga que rebenta; +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 116</span> + +<div class="poesia"> +Quer ouça pelas algas verde negras, +E as praias solitarias onde eu choro... +Cantar o teu amor em vasto côro +De rolas, rouxinoes ou toutinegras: +</div> + +<div class="poesia"> +Ou fera ou pomba, egual amor me atêa +O teu gentil amor e altivo orgulho, +Quando este arroja á praia o pedregulho, +E aquelle as lindas conchas lhe semeia!... +</div> + +<div class="poesia"> +És sempre o mesmo! És sempre o grande amigo, +Sobre cuja espantosa immensidade +Vejo passar o sopro da Verdade, +Da doutrina de Deus, que adoro e sigo! +</div> + +<p class="data">Buarcos, 1869.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 117</span> + + +<h3>V</h3> + +<h3>ÁS NUVENS</h3> + +<div class="poesia"> +Vapores que em vistosos cortinados +Armaes dos ceus o templo de safira +Com purpura e finissimos broxados, +Sêde hoje o assumpto para a vóz da lyra! +</div> + +<div class="poesia"> +Que eu quero ter a intima certeza +Que, antes da hora da fatal partida, +A minha alma no mundo fica preza +Ás coisas bellas que adorei na vida... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 118</span> + +<div class="poesia"> +Horas felizes que ainda hoje eu passo, +Pelas tardes calmosas do verão, +Seguindo-as uma a uma pelo espaço, +Dizei ás nuvens se eu as amo ou não!... +</div> + +<div class="poesia"> +Eu que vou pelo mundo imaginando +Visões sobre visões, sempre illusorias: +Comprazo-me em vos vêr de quando em quando, +Fórmas aereas, sombras transitorias!... +</div> + +<div class="poesia"> +Vós que nas tardes e manhãs amenas, +Passando como timidas deidades, +Deixaes os ceus juncados d'açucenas, +D'alvos jasmins e rôxas saudades; +</div> + +<div class="poesia"> +Vós que andaes presurosas, fugitivas, +Os ceus cruzando n'um lidar constante: +Sorris-me como as multiplas missivas +Que envia ao Sol a Terra sua amante!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 119</span> + +<div class="poesia"> +Imagens lindas d'um amor jocundo, +E espectros negros d'intimos rancores, +Do grande coração que agita o mundo, +O mar, que tem como eu paixões e amores!... +</div> + +<div class="poesia"> +Á tarde quando o Sol, cratera ardente, +Vae prestes a apagar-se e, em desafago, +Inflamma as grandes portas do Occidente +E faz da terra e ceus um mar de fogo: +</div> + +<div class="poesia"> +Ah! deixo os olhos espraiando a vista +Pelos paineis de mil preciosidades, +Aonde desenhaes, com mãos d'artista, +Em telas d'ouro olympicas cidades!... +</div> + +<div class="poesia"> +E agora são rochedos e campinas!... +Fulvos leões e timidas gazellas!... +E logo apoz castellos em ruinas, +Visões d'amor, phantasticas donzellas!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 120</span> + +<div class="poesia"> +Umas vezes são guerras estrondosas, +Luctas crueis d'impavidos gigantes, +Onde ha rios de sangue e pavorosas +Sombras de heroes, e incendios fumegantes!... +</div> + +<div class="poesia"> +E outras vezes, então, nuvens ligeiras, +Convertei-vos em lyrios e violetas, +Em acacias floridas e palmeiras, +E em vultos de Romeus e Julietas!... +</div> + +<div class="poesia"> +E eu amo a nuvem negra que imponente +Abre nos ceus a fulgida garganta, +E vomita do seio o raio ardente, +E com elle o trovão que o mundo espanta,... +</div> + +<div class="poesia"> +E a pudibunda nuvem d'alvorada +Quando, ante o Sol esplendido que assoma, +Parece virgem pura e delicada, +Branca de neve com dourada coma!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 121</span> + +<div class="poesia"> +Oh nuvens que passaes no firmamento, +Bandos aereos d'illusões perfeitas!... +Vós que tão lindas sois, e n'um momento, +No chão cahis em lagrimas desfeitas! +</div> + +<div class="poesia"> +Quando vos vejo pelo azul profundo, +Voluptuosas, gentis e transparentes: +Lembraes-me os sonhos que lancei ao mundo, +Como um bando de pombas innocentes!... +</div> + +<div class="poesia"> +Bem mais felizes vós, que, n'um momento, +Passando aereo fumo em valle e serra, +Levaes comvosco, a vida, o movimento +De quanto nasce e vive sobre a terra!... +</div> + +<div class="poesia"> +Já não assim meus sonhos, muito embora +Levem comsigo as novas do futuro: +São nuvens bellas d'esplendente aurora, +Desfeitas sobre um chão ingrato e duro!... +</div> + +<p class="data">Carvalhaes, 1873.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 122</span> + + +<h3>VI</h3> + +<h3>ÁS FLORES</h3> + +<div class="poesia"> +Eu venho-vos cantar, mimosas flôres, +A vós irmãs da luz, gentis e bellas, +Do chão que piso vívidas estrellas, +Com mil perfumes, mil viçosas côres! +</div> + +<div class="poesia"> +Á vossa encantadora companhia, +Toda cheia de graça e de candura, +Eu devo em parte a luz serena e pura +Do amor, que meu espirito allumia!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 123</span> + +<div class="poesia"> +Cercando-me dos vossos esplendores, +Nos quaes eu pasto dia e noite a vista, +Consigo converter meu lar d'artista +N'um Louvre de riquissimos lavores +</div> + +<div class="poesia"> +Em porphirio, alabastro, em prata e oiro, +E em fulgidos setins!... Primores d'arte, +Por onde o Artista Maximo reparte +Co'os olhos meus bellissimo thesouro!... +</div> + +<div class="poesia"> +Entre nós não ha festas verdadeiras, +No templo, no palacio ou na choupana, +Que em todo o grão matiz da vida humana, +Prescindam de vos ter por companheiras!... +</div> + +<div class="poesia"> +Ninguem na Terra vos disputa a palma +D'expor, com fidelissima justeza +De côr e fórma, cheias de belleza, +Os varios sentimentos da nossa alma!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 124</span> + +<div class="poesia"> +A timida donzella, ingenua e pura, +Temendo-se dos bens que ella imagina, +Nas petalas da candida bonina +Procura lêr seus sonhos de ventura!... +</div> + +<div class="poesia"> +Com finas mãos, as pallidas Ophelias, +Por darem mais realce aos fios d'ouro +Das bastas tranças: seu cabello louro +Adornam com alvissimas camellias! +</div> + +<div class="poesia"> +Afim de se dizer á bem amada +Do intenso amor o rapido delirio: +Da rosa pudibunda ou branco lyrio +Se faz missiva pura e perfumada!... +</div> + +<div class="poesia"> +Os tristes na viuvez, e na orfandade, +Roidos por uma intima amargura: +Desfolham na chorada sepultura, +As petalas do lyrio e da saudade!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 125</span> + +<div class="poesia"> +Eu mesmo, que do publico debando; +Dos mortos devorciado, e alheio aos vivos: +Se vejo d'entre sonhos fugitivos, +Abrirem-se-me os ceus de quando em quando; +</div> + +<div class="poesia"> +Suppondo em vida os povos numerosos, +Unindo-se em espirito e verdade, +Viverem ante Deus e a Humanidade, +Como irmãos, solidarios, venturosos; +</div> + +<div class="poesia"> +E encontro, em torno ás candidas chimeras, +Crueis dissilusões por toda a parte: +Em guerra os homens, a virtude e a arte +Sem o fogo sagrado d'outras eras... +</div> + +<div class="poesia"> +Oh minhas flôres! viva embora eu triste, +Que as vossas serenissimas imagens +Conseguem libertar-me das voragens +Com quanto bello na minha alma existe!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 126</span> + +<div class="poesia"> +Ah quando caio e vejo das miserias +Cavar-se aos pés um sorvedoro infindo: +Seguindo as esperiaes d'um sonho lindo, +Por vós remonto ás regiões ethereas!... +</div> + +<div class="poesia"> +Em horas de fraqueza, horas mofinas, +Se eu ouso vos fitar, sinto na face +Um subito rubor, qual se me olhasse +Deus Pae, sob essas formas peregrinas!... +</div> + +<div class="poesia"> +Urnas santas, a mim que deposito +No vosso olôr subtil e perfumado +As scenas mais gentis do meu passado, +Perdidas para sempre no infinito!... +</div> + +<div class="poesia"> +Deixae que em testemunho da verdade: +Do muito que vos quiz e amei na vida, +Como echo da minha alma agradecida, +Meu canto o atteste á luz da eternidade!... +</div> + +<p class="data">Carvalhaes, 1870.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 127</span> + + +<h3>VII</h3> + +<h3>Á ARVORE</h3> + +<div class="poesia"> +Quando contemplo em paz teu nobre vulto +Erguido aos ceus: envolto em verde manto, +Supponho contemplar um justo,... um santo,... +Um pae,... um Deus,... algum mysterio occulto!... +</div> + +<div class="poesia"> +Ha não sei bem que força em mim tão forte, +Não sei que grande instincto inabalavel +A levar para quanto é bello e estavel +Esta alma, para quem só Deus é norte, +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 128</span> + +<div class="poesia"> +Que em ti, oh mãe, em ti achei guarida... +A tua sombra off'rece a paz e a esperança +A quem no mundo é triste e em vão se cança +Para aos ceus dirigir a propria vida!... +</div> + +<div class="poesia"> +Quantas vezes em horas d'agonia, +Que deixavam meus olhos rasos d'agua, +Eu não deixei ficar-te aos pés a magoa, +Buscando tua sombra noite e dia?!... +</div> + +<div class="poesia"> +Quantas horas fitando os ceus pasmado +Eu não passei, deixando o olhar suspenso +N'aquelle vasto seio azul e immenso, +Do verde de teus ramos marchetado?!... +</div> + +<div class="poesia"> +De dia, quando o Sol aquece o mundo, +E os entes se propagam, nascem, crescem; +De noite quando os astros resplandecem +N'aquellas solidões d'um mar sem fundo: +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 129</span> + +<div class="poesia"> +Se á tua sombra estou, sinto n'esta alma +Cair da doce côr que o Sol te veste, +Da paz que tens, o balsamo celeste +Que em meu peito as paixões serena e acalma!... +</div> + +<div class="poesia"> +Ou quando o vento chega, e eu não sei d'onde... +E passa sobre ti, murmura e canta, +E eu olho e nada vejo, e a fé mais santa +Me leva a crer no Deus que o mundo esconde; +</div> + +<div class="poesia"> +Ou quando á noite, n'um propicio agouro, +As estrellas dos ceus que mais fulguram +Das pontas dos teus ramos se penduram +Como ideias de Deus em fructos d'ouro: +</div> + +<div class="poesia"> +Amo-te muito e muito, e não me admira, +Quando tu á minha alma um Deus revellas +E lhe mandas um hymno em que as estrellas +São as notas, e a tua coma a lyra!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 130</span> + +<div class="poesia"> +Oh arvore! no amor que a Ti me prende, +Confesso ao mundo haver bem mais lucrado, +Que em muito livro d'ouro encardenado, +Que ahi se espalha e muita gente aprende!... +</div> + +<div class="poesia"> +Se eu vira, como os fructos dos teus ramos, +D'entro d'esta alma abrir-se a flôr da ideia +Á luz deste ideal que em nós se ateia +Para que nós do mal ao bem subamos; +</div> + +<div class="poesia"> +Se ás novas gerações, no meu psalterio, +Cantar podesse a nova luz que assoma, +Como os orgãos da tua verde coma +Lançando a vóz de Deus no espaço ethereo; +</div> + +<div class="poesia"> +Se eu fora como tu viver piedoso, +E a qualquer desgraçado e pobre amigo +Offerecer no meu seio o mesmo abrigo, +Que estende sobre o ninho o ramo umbroso; +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 131</span> + +<div class="poesia"> +Se eu conseguisse, emfim, levar meu dias, +Perante o mal que sempre me acompanha, +Como a arvore sonora da montanha, +Que descanta ao soprar das ventanias: +</div> + +<div class="poesia"> +Só assim chegaria um dia a ser +O espirito sereno, sabio e justo, +A que deve aspirar, a todo o custo, +O Senhor da Rasão, que pensa e quer! +</div> + +<p class="data">Bussaco, 1869.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 132</span> + + +<h3>VIII</h3> + +<h3>Á TERRA</h3> + +<div class="poesia"> +Oh Terra, Virgem mãe da Humanidade, +Pelos fructos que dás eu te bemdigo! +Cheia de graça e cheia de bondade, +O espirito de Deus seja comtigo! +</div> + +<div class="poesia"> +Tu que és do Sol a esposa immaculada, +Que entre perfumes, canticos e flôres, +Passas no azul dos ceus, virgem coroada +Com o candido mimbo dos amores: +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 133</span> + +<div class="poesia"> +Como escuta piedosa a mãe seu filho, +E d'elle acceita o mais pequeno objecto, +Ouve a harpa d'esta alma onde dedilho +Por ti um canto d'entranhado affecto! +</div> + +<div class="poesia"> +Um canto aonde a propria naturesa, +Em cujo seio o astro meu se inspira, +Reflecte o seu conjuncto de belleza, +Unindo a eterna vóz á vóz da lyra! +</div> + +<div class="poesia"> +O mar que te circunda a fronte bella, +Que espelha ao longe a luz que o Sol t'envia; +Te muda a negra crosta em linda estrella, +E dá-te um canto cheio de harmonia; +</div> + +<div class="poesia"> +E o subtil pingo d'agua onde escondes-te +D'inquietos vibriões um mar profundo, +Tão vasto como a abbobada celeste, +Contendo a tantos como os soes do mundo; +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 134</span> + +<div class="poesia"> +A arvore a prumo erguida ao firmamento, +Posta por Deus na paz a mais completa, +Quando, ao passar-lhe o espirito do vento, +Descanta como a harpa d'um propheta: +</div> + +<div class="poesia"> +E a semente da flôr, qual grão d'areia, +Que, inerte, fria, escura e pequenina, +Contém as pompas da divina ideia: +O lyrio branco ou a rosa purpurina; +</div> + +<div class="poesia"> +O leão, implacavel creatura, +Quando a victima arrasta inda arquejante +Tinto de sangue, offerta-a com ternura +Á leôa parida, sua amante: +</div> + +<div class="poesia"> +E a indefeza timida ovelhinha, +Entre as flôres gentis do verde prado. +Meiga balando á mãe que se avesinha, +Por dar-lhe o leite doce e perfumado; +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 135</span> + +<div class="poesia"> +A aguia quando solta a envergadura +Das largas azas pelo azul do espaço, +E, em marcha triumphal, a enorme altura +Passa nos céus sem lucta, e sem cançaço; +</div> + +<div class="poesia"> +E a crysalida que abre á luz do dia +Do involucro o sedifero thesouro, +E, nos enlevos d'intima alegria, +Expande á luz do Sol as azas d'ouro: +</div> + +<div class="poesia"> +Quanto, emfim, é teu filho a mim me pede, +Que em nome d'elles eu te louve e cante, +Suppondo achar n'esta alma o centro, a séde, +O altar, de quanto o Sol lhe põe diante!... +</div> + +<div class="poesia"> +Oh minha mãe! a magua me entristece +De que Deus, cujas dadivas divide +Por tanta gente, a mim me não cedesse +Para cantar-te a harpa de David!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 136</span> + +<div class="poesia"> +Dos proprios paes e estranhos mal tratado, +Fui pôr-me á tua sombra hospitaleira, +E em teu seio de mãe abençoado +Achei d'esta alma a patria verdadeira! +</div> + +<div class="poesia"> +Não sei como surgio o homem na terra!... +Não sei onde os meus sonhos se dirigem...; +Mas quanto bello e bom minha alma encerra, +Em ti encontra a perenal origem!... +</div> + +<div class="poesia"> +Quer sobre os cumes dos altivos montes, +Quer á sombra dos vales verdejantes; +Quer ouça a meiga vóz das claras fontes, +Quer as furias das ondas espumantes: +</div> + +<div class="poesia"> +Por onde quer que eu vá, minha alma sente +Cercal'a tão solicito cuidado, +Que quanto me concebe um dia a mente, +Encontra sempre em ti o objecto amado!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 137</span> + +<div class="poesia"> +Por isso, embora eu viva como o paria +Junto ás margens do Ganges crystalino, +Levando vida incerta, rude e varia, +Entre os baldões d'um impobro destino: +</div> + +<div class="poesia"> +Vivo entre flôres, musicas e festas, +Tendo por luz suprema o pensamento; +Por palacios as múrmuras florestas, +E alampadas os soes no firmamento! +</div> + +<div class="poesia"> +Por orchestras as musicas plangentes +Que geme ao longe o mar no captiveiro, +Com os concertos das aves innocentes, +E os murmurios do limpido ribeiro! +</div> + +<div class="poesia"> +De manhã, com os crystaes do fresco orvalho, +Fulgentes scintiliando á luz do dia, +Pisam meus pés, riquissimo trabalho, +Tapetes de preciosa pedraria! +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 138</span> + +<div class="poesia"> +Á tarde, quando o sol deixa as alturas, +Qual Vinci, Miguel Angelo ou Ticiano, +Pões-me nos ceus esplendidas figuras, +Como eguaes as não tem o Vaticano!... +</div> + +<div class="poesia"> +Á hora em que é dado o somno acoite +Em doce paz meu corpo fatigado, +Desdobras-me sobre elle o veu da noite, +De fulgidos brilhantes recamado!... +</div> + +<div class="poesia"> +E quando, emfim, entrar na noite fria +Do tumulo, onde nada se condemna, +Do meu cadaver tirarás um dia +O branco lyrio e a pudica açucena!... +</div> + +<div class="poesia"> +Taes os bens que offertas-te ás almas ternas, +Simples, crentes em Deus, ideal fecundo...! +E dás-lhes n'estas coisas sãs e eternas +Bem mais riquezas do que aos reis do mundo!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 139</span> + +<div class="poesia"> +E assim vaes entre os soes deixando o aroma +Dos ineffaveis dons da Providencia, +Como exhala riquissima redoma +Em dourado salão a fina essencia!... +</div> + +<div class="poesia"> +Oh Terra, Virgem mãe da Humanidade, +Pelos fructos que dás eu te bemdigo! +Cheia de graça, e cheia de bondade, +O espirito de Deus seja comtigo! +</div> + +<p class="data">Carvalhaes, 1870.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 140</span> + + +<h3>IX</h3> + +<h3>AOS ASTROS!</h3> + +<div class="poesia"> +Quando ergo á noite os olhos scismadores +Á cupula do ceu, cheia de mundos, +E perco-me nos páramos profundos +D'um mar sem fim de tremulos fulgores: +</div> + +<div class="poesia"> +O ceu, qual templo levantado á Vida, +Armado de riquissimo thesouro, +De par em par descerra as portas d'ouro, +E attrae a si minha alma embevecida!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 141</span> + +<div class="poesia"> +Chovem-me então das cellicas alturas, +Das luminosas, candidas estrellas, +Visões sublimes, ideaes e bellas +Da Causa que deu o ser ás creaturas!... +</div> + +<div class="poesia"> +Amor as fez, Amor no espaço as guia!... +E é sob o influxo d'esta Lei Suprema, +Que cada qual realisa o seu problema, +Preso ao das mais em intima harmonia!... +</div> + +<div class="poesia"> +Sim, cada estrella, vêmol'o sem custo, +Sendo dos ceus bellissimo ornamento, +É um centro de vida e movimento +Posto ao serviço d'um principio justo!... +</div> + +<div class="poesia"> +Por todo o ethereo azul da immensidade, +Dos soes sem fim a fulgida colmeia, +Trabalha em traduzir, na humana ideia, +De Deus a perfeição, toda bondade!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 142</span> + +<div class="poesia"> +Oh cupula celeste, no teu seio +Aprendo a ler em paginas de fogo +O espirito das coisas que interrogo +Por toda a parte, e em cuja essencia creio!... +</div> + +<div class="poesia"> +Tu, co'o teu docel azul sem fundo, +Cheio de fogos d'alma claridade, +Em multipla e febril actividade; +Sorris-me como a fabrica do mundo; +</div> + +<div class="poesia"> +O vasto pavilhão onde é servida +Em mesas d'ouro, festivaes e bellas, +N'esses milhões de esplendidas estrellas, +A eterna comunhão dos Bens da Vida!... +</div> + +<div class="poesia"> +Permitte, pois, que em sã fraternidade, +Reunindo os habitantes d'esta esphera +Aos que ha em ti, minha alma, sã e austera, +Saúde a mãe commum==a Humanidade==; +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 143</span> + +<div class="poesia"> +E adore, á luz dos fachos sempre novos, +Do teu santuario, o espirito fecundo +De Deus, Supremo Bem, que ampara o mundo, +Inspira as almas e dirige os Povos!... +</div> + +<div class="poesia"> +E emquanto a vida vae em seu caminho, +Por entre o dia claro e a noite escura, +Conserva intacta esta alma crente e pura, +Porque possa voltar ao patrio ninho!... +</div> + +<div class="poesia"> +Á luz da minha critica profana, +A Lei Suprema, que de Deus deriva, +Eleva aos soes, em marcha progressiva, +De virtude em virtude a alma humana!... +</div> + +<div class="poesia"> +Se duvidas tivesse, a fé e a esperança +Levavam em contrario a vida minha, +E a bussola, que ignora onde caminha, +Segue o seu norte e d'elle emfim descança!... +</div> +<span class='pagenum'>Pág. 144</span> + +<div class="poesia"> +Astros sem fim, oh soes que estaes por cima, +Longe da Terra, em região mais pura! +Deixae que o corpo desça á sepultura +E a vós se eleve o espirito que o anima! +</div> + +<div class="poesia"> +O irmão da Luz, o amante da Verdade, +Hade ir, deixando o envolucro que veste +Como hospede da abbobada celeste, +Internar-se feliz na immensidade!... +</div> + +<div class="poesia"> +Astros! egual é a lei que nos governa! +Na Terra, o nosso espirito fecundo +Penetra nos reconditos do mundo, +E vive como vós a Vida Eterna! +</div> + +<p class="data">Beselga, 1872.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 145</span> + + + + +<h2>NOTAS ELUCIDATIVAS</h2> + + +<h3>A DEDICATORIA</h3> + +<p>No nosso periodo academico, que decorre de 1859 a 1866, e no que se lhe +seguiu de 1867 até ao anno de 1874 em que nos casámos, mantivémos +estreitas relações d'amisade com algumas familias historicas da +provincia e da capital, onde eram ainda vivos os aggravos, e numerosas +as queixas, contra as violencias e as vinganças politicas que, de parte +a parte, precederam, acompanharam e seguiram o triumpho das armas +liberaes, na guerra chamada dos dois irmãos, D. Pedro IV e D. Miguel I.</p> + +<p>A nossa substancial e nunca desmentida tolerancia para com as crenças e +as opiniões dos outros, derivada do Ideal de Justiça de 1789, que +seguimos desde os bancos da Universidade com inquebrantavel fé e +ininterrupta dedicação, e o quasi fanatico respeito pela inviolabilidade +do lar, permittiram-nos estudar na vida intima d'aquellas familias +illustres, a transformação profunda que se operou nas crenças, usos e +costumes d'este povo, celebre entre os mais celebres da Historia.</p> + +<p>Tivemos a infinita ventura de conhecer de perto, nas suas melhores +origens, as mais bellas joias da alma portugueza, de que o <span class='pagenum'>Pág. +146</span> coração da mulher foi, é, e ha de ser sempre o fiel relicario e +transmissor! D'ahi em grande parte a nossa confiança na missão d'este +povo heroico, nos destinos dos outros povos, quando para todos brilhe e +impere um novo Ideal de Justiça e em nome d'elle sejam banidas as +paixões, quer religiosas quer politicas, das regiões augustas e serenas +da Lei e do Poder.</p> + +<p>D'essas familias destacaremos a de Silva Gayo, o glorioso author do +<i>Mario</i>, casado com D. Emilia Paredes, filha do Conselheiro Cunha +Paredes, Juiz do Supremo Tribunal de Justiça, aquelle um vibrante e +eloquente protesto contra os excessos de demagogia, ou clerical ou +plebêa, de que o citado livro é um bellissimo documento; seu sogro um +dos homens bons e ponderosos que partilharam e serviram o movimento +liberal.</p> + +<p>A familia de Luiz Monteiro Soares d'Albergaria, casado com D. Ludovina +da Silva Carvalho, filha do celebre ministro de D. Pedro IV, senhora de +excepcional illustração, que conhecia a fundo o seu tempo, e sobre elle +descorria com conhecimento de causa.</p> + +<p>A familia Osorio, da quinta das Lagrimas, e a da Graciosa, representando +ambas o elemento são da aristocracia portugueza que se pronunciou pelas +liberdades e franquias patrias, e onde me foi dado admirar os requintes +da educação antiga, no que ella tinha de altruista e de bom, segundo o +verdadeiro espirito evangelico.</p> + +<p>A familia do bacharel em direito Manoel Rois Salgado, de Carvalhaes, +filho de lavradores remediados da poetica região da Bairrada, liberal +convicto, implacavel inimigo da intollerancia religiosa e das tyrannias +politicas do tempo dos caceteiros de D. Miguel e dos Cabraes.</p> + +<p>Era sua esposa uma senhora de origem e tradições legitimistas, D. Anna +de Vasconcellos, que muito soffrera com a guerra dos dois irmãos!... Sua +alma piedosa, delicada e poetica, sobreelevou a todos, e nos fez +conhecer de perto, com quotidianos exemplos de bondade, a excellencia +das doutrinas do Evangelho, quando postas em pratica, com fé e pureza de +coração.</p> + +<p>A familia de Manoel Maria da Silva Bruschy, d'esse grande moralista, +philosopho e jurisconsulto que foi um dos luminares da Jurisprudencia +patria e quem nos dirigiu os nossos primeiros passos na carreira +forense.</p> + +<p>Era elle um dos mais authorisados e prestigiosos representantes <span class='pagenum'>Pág. +147</span> do legistimismo, e quem nos forneceu informações curiosas sobre +muitos pontos obscuros da guerra civil, e sobre motivos secundarios, que +contribuiram para o triumpho das armas liberaes.</p> + +<p>Nas mesmas condições de saber, de coração e de espirito, mas n'uma ordem +de ideias oppostas ás de Silva Bruschy, mencionaremos ainda o general +Luiz Flippe Folque, conselheiro de estado, mestre que tinha sido dos +reis extinctos D. Pedro V e D. Luiz I, e que foi quem acompanhou e +dirigiu o primeiro d'estes dois monarchas na sua viagem d'instrucção e +recreio pela Europa.</p> + +<p>Era um perfeito homem d'estado, modesto, erudito e tolerante para com +todas as opiniões. Devemos a seu genro o Conde de Nova Goa, nosso velho +e dilecto amigo, a convivencia com este perfeito homem de sciencia, de +cujas lições colhemos muitos elementos de ponderação para formarmos +juizo imparcial e seguro sobre a historia dos partidos politicos em +Portugal.</p> + +<p>Resta-nos mencionar nosso sogro, o general de divisão, Roque Francisco +Furtado de Mello, que foi juiz do Tribunal Superior de Guerra e Marinha, +que se orgulhava de ter feito as novas campanhas da Liberdade, e sua +sancta esposa D. Maria Maxima de Berredo, filha d'um dos regeneradores +do movimento revolucionario de 1820.</p> + +<p>Ambos tinham sido victimas das guerras civis desde o cerco do Porto e +ambos soffreram, com suas familias, as mais crueis perseguições dos +sequazes do absolutismo em Portugal.</p> + +<p>Para inteiro esclarecimento, ainda diremos que alguns dos nossos +parentes, tanto do lado paterno como do materno, eram legitimistas +convictos, que se achavam destituidos das honras e benesses do antigo +regimen, e que protestavam contra a nova ordem de coisas.</p> + +<p>Tal foi o meio social em que nos achámos ao sahirmos do lar paterno.</p> + +<p>A nossa posição singularmente favorecida n'este conflicto de interesses +historicos, tendo tido a coragem de evolucionármos em nome da sciencia, +e sob a influencia dos espiritos mais cultos da epocha, para o regimen +da democracia pura, que melhor chamaremos do Direito Humano, inaugurado +com a proclamação dos Direitos do Homem, em 1789; a excepcional ventura +de conquistarmos para a sinceridade das nossas crenças a tolerancia dos +nossos competidores, tudo isto concorreu para nos fortalecer no Ideal +<span class='pagenum'>Pág. 148</span> d'um novo Direito, d'uma Nova Justiça, d'uma Nova Moral, de que +este livro é um modesto precursor no campo da poesia patria.</p> + +<p>Não podiamos deixar por isso de o consagrar á memoria inolvidavel +d'essas venerandas creaturas, quasi todas hoje extinctas... ás almas +d'eleição que tanto fortaleceram as nossas creanças na bondade e na +virtude humana.</p> + +<p>Por outro lado pertencendo pela educação que demos a nós mesmos, +destruindo pela base a que recebemos no berço, aos homens de genio e de +fé, que espalharam pelo mundo os principios revolucionarios de 1789 e +tentaram as primeiras applicações praticas aos problemas pendentes da +humanidade, e genios em que havia poetas como Lamartine e Hugo, musicos +como Beethoven e Ricardo Wagner, economistas como Bastiat, publicistas +como Proudhon, historiadores como L. Blanc, philosophos da grandesa e +originalidade de Quinet e Michelet, cujos ideaes de justiça e d'amor nos +conquistaram e nos acompanharão até á morte: comprehende-se que em nome +d'elles não ponhamos hoje a nossa fé e a nossa esperança sobre a +regeneração do Mundo nas gerações actuaes, incredulas, scepticas, e +devoradas pela febre do ouro e do goso!</p> + +<p>N'este actual periodo historico, que é todo de negação, sem ideaes +definidos, e cheio de convenções, de hypocrisias e mentiras, cujo estado +pathologico foi magistralmente descripto por Max Nordau no seu livro +celebre <i>Les Mensonges conventionelles de notre civilisation</i>, é natural +que não encontrem echo estes nossos <span class="small-caps">Cantos</span>, nascidos d'uma grande fe no +futuro da Humanidade!</p> + +<p>São quasi todos uns modestos preludios, uns gorgeios ainda incertos, +d'uma nova alvorada, e por isso os consagramos ás gerações que hão de +ter a ventura de ver em plena claridade o dia de que apenas distinguimos +os primeiros pronuncios nos horisontes do futuro e da patria.</p> <span class='pagenum'>Pág. 149</span> + + +<h3>O QUE EU VI</h3> + +<p class="centrado">Paginas 1 e 2</p> + +<p>Esta poesia é uma das quatro ou cinco d'esta collecção que já foram +publicadas. Não podemos verificar n'este momento, por falta de tempo, em +que jornal litterario e em que data o foi.</p> + +<p>Pode dizer-se que é o prologo e a synthese de todo este livro de <span class="small-caps">Cantos</span>. +Pode até mesmo servir d'explicação ao sentimento religioso que se accusa +tão accentuadamente em quasi todos os nossos trabalhos poeticos.</p> + +<p>Como d'ella se deprehende o <i>Deus</i> a quem nos referimos está +completamente fóra dos moldes das religiões revelladas, dos ergastulos +da fé dogmatica. É o Pae da Vida, a Fonte do Amor, o Deus da Natureza.</p> + +<p>É como que o symbolo que personifica a Perfeição Absoluta; o Ideal do +Universo; A causa primaria de todo o existente; O sol vinificador das +consciencias e dos mundos.</p> + +<p>É a Belleza, é o Amor, é a Justiça, a que tudo obedece, levados ao +maximo grau d'intensidade que é dado á razão humana attingir n'um +determinado cyclo historico, e que, como tal, illumina as consciencias, +dirigindo-as!...</p> + +<p>Para todo o coração terno, para toda a alma de artista, será sempre +imprescindivel antepôr-se ao espectaculo magnificente e deslumbrador do +Universo, á marcha triumphal da Luz e da Vida por toda a parte +penetrando nos ultimos reconditos do mundo visivel e invisivel, e sem a +interrupção d'um só instante na sequencia incalculavel dos seculos, +tirando de lá as maravilhas da natureza, antepôr-se, dizemos, um mundo +moral com as paginas infinitamente bellas das civilisações já extinctas; +um mundo que synthetise todo o Ideal da Humanidade. E, n'esse Mundo +Moral, Deus é o <i>Ser por excellencia</i>, a chave insubstituivel do +multiplo e mysterioso Problema da Vida.</p> + +<p>Nas insondaveis e invisiveis regiões da consciencia humana, o <span class='pagenum'>Pág. 150</span> +mundo exterior, que é o reflexo, a continuação, o complemento do mundo +interior, encontra n'este, como outros tantos <i>Ideaes da Perfeição +Suprema</i>, as Leis da Vida, que actuam imperturbaveis, omnipotentes e +eternas.</p> + +<p>Para este Mundo Moral, para este Mundo das Almas, Deus é pois a +personificação d'essas leis e como tal o Ideal Supremo.</p> + +<p>Não cremos possivel arrancar-se da natureza humana, deturpando-a, +qualquer das suas forças immanentes, e no numero d'estas forças devemos +suppôr a religiosidade, isto é, o sentimento de respeito por um Poder +superior, causa primaria, ponto de partida, iniciação e justificação de +todo o existente, de tudo quanto vêmos e sentimos.</p> + +<p>E para nós uma utopia impraticavel, e nociva á solução dos actuaes +problemas da humanidade, o querer-se substituir o Ideal vivo e amoroso +de Deus pela synthese fria e inanimada da sciencia, assente +exclusivamente em factos demonstraveis!...</p> + +<p>Em primeiro logar as sciencias positivas, pondo fóra da sua esphera +d'investigação, e muito bem, a Causa Primaria das cousas, não podem +aspirar a resolver os problemas da consciencia e do coração, e a fazer +calar as imperiosas interrogações da sua voz interior!...</p> + +<p>Em segundo logar, todas as sciencias assentam, por ora, em meras +conjecturas, em, aliás engenhosas e bem concebidas, hypotheses, que como +taes em tempo algum poderão satisfazer a ancia infinita de nosso +espirito em tudo devassar e saber, e ninguem nos pode affirmar que +amanhã não sejam substituidas por novas hypotheses, melhor concebidas e +expostas.</p> + +<p>Em terceiro e ultimo logar, o povo e a mulher, isto é os obscuros, os +simples, os que trabalham, os que soffrem e os que amam, que são quasi, +por ora, a humanidade inteira, não poderiam suspender as reclamações do +seu coração e do seu espirito, á espera que os sabios lhes desvendassem +os segredos da natureza, e convertessem as suas verdades, chamadas +irreductiveis, n'um Ideal Supremo, que, para todos os effeitos, +substituisse a Idéa de Deus a que o christianismo deu uma feição tão +amorosa na interpretação larga e fecunda d'um Pae Celeste.</p> + +<p>Quem lucra com a guerra feita ao sentimento religioso, confundindo-o com +o das religiões positivas, revelladas, são os reaccionarios catholicos +e, para prova, é vêr o alastramento pavoroso <span class='pagenum'>Pág. 151</span> que por todo o +paiz se está operando nas classes ricas, e nas ultimas camadas sociaes, +sahindo-se até hoje triumphantes os que, pelas leis vigentes, pelas +tradicções historicas, e pelo futuro d'este paiz, não deveriam ter cá +entrado!...</p> + +<p>O que o sentimento religioso reclama é ser derivado para novos +objectivos que mais directamente interessem e sirvam os soffrimentos +humanos, a <i>moral</i>, a <i>arte</i>, o <i>direito</i> e a <i>justiça</i>, abandonando o +sobrenaturalismo com todo o seu cortejo de phantasias, de aberrações e +de absurdos.</p> + +<p>No dia em que a Razão se pozer d'accordo com a Fé, o Amor com a Justiça, +será facil á humanidade entrar na normalidade do seu distino, como +factor poderoso que é, nos multiplos e interminaveis problemas do +Universo.</p> + +<p>Em harmonia com estas idéas, com o Ideal de Justiça que professamos, e +de que este livro é um vehemente e sincero pregão, consagrando além +d'isso á mulher e ao povo as nossas melhores esperanças na redempção do +mundo: adoptámos para traduzirmos o nosso Ideal Supremo, esta palavra +que tem a consagração dos seculos, as sympathias e a adhesão d'aquelles +a quem principalmente visamos nos nossos <span class="small-caps">Cantos</span>.</p> + +<p>Sirva esta nota de explicação ás poesias congeneres e complementares +d'estas, <i>Avé Creator</i> pag. 37, e o <i>Sursum Corda</i> pag. 41 e outras.</p> + + +<h3>TRISTEZA</h3> + +<p class="centrado">Paginas 5 a 7.</p> + +<p>Escrevemol'a n'uma manhã de primavera na tapada d'Ajuda, quando esta não +era ainda frequentada pelo publico da capital.</p> + +<p>N'aquelle recinto onde não entravam os rumores da grande cidade, na +benefica e imperturbavel quietação dos campos, sob uma <span class='pagenum'>Pág. 152</span> +tonalidade de côres e de sombras d'uma variedade e doçura infinitas, +havia n'essa manhã um grande movimento de vida na Natureza, muitos +feixes de sol a distribuir e a combinar seus raios de ouro pelos troncos +e a folhagem das arvores, pela verdura das relvas; muitos passaros +cantando em redor dos ninhos; muitos insectos zumbindo em volta das +flôres.</p> + +<p>Só nós appareciamos no meio d'aquelle trecho encantador de vida +universal, com a nossa alma envolta em sombras caliginosas e, sob este +influxo, o coração a trasbordar-nos de tristezas!...</p> + +<p>Estas derivavam d'erros proprios e alheios e faziamo-nos passar, ali, +aos olhos da propria consciencia, como um desconcerto na Vida, como uma +nodoa na creação!</p> + +<p>Da alta comprehensão que temos da <i>dignidade humana</i> e do papel que o +Homem e a Humanidade representam nos destinos do Universo, (V. as +poesias <i>Ao Homem</i> e <i>Á Mulher</i>), resultou para nós uma philosophia e +uma moral que são substancialmente imcompativeis com os desalentos e as +tristezas, porque aliás tantas vezes os nossos dias teem sido +assaltados!...</p> + +<p>D'ahi o nosso appello para a Natureza onde tudo está no seu logar, não +se desviando um apice da linha que lhe foi traçada, no augusto e sereno +cumprimento das suas leis eternas e divinas.</p> + +<p>Pedindo á natureza refugio e amparo para as nossas dôres, lição e +exemplo para os nossos erros, n'aquelle dia memoravel entrou-nos n'alma, +como um cortejo festivo de Deus, tudo quanto em volta de nós celebrava +ali os mysterios da vida e irromperam nos dos labios então estas +estrophes despretenciosas e taes quaes as publicamos hoje.</p> + +<p>Pelo habito de as repetirmos longos annos, nos soliloquios com a nossa +consciencia, não nos aventurámos a alterar-lhes uma só palavra, nem uma +só virgula, e assim se explica que seja a unica poesia d'este livro com +versos soltos, rimados apenas nos versos agudos.</p> <span class='pagenum'>Pág. 153</span> + + +<h3>PRESENTIMENTOS</h3> + +<p class="centrado">Paginas 8 a 18</p> + +<p>E como uma photographia instantanea do estado da nossa alma quando, +finda a nossa carreira universitaria, tivemos de assentar arraiaes no +positivismo das coisas para havermos os meios com que se mantem o que ha +de mais imperioso: a existencia, e n'esta o que ha de mais sagrado: a +honra.</p> + +<p>Depois d'uma mocidade ruidosa, passada no convivio de livros dos mais +celebres pensadores do seculo, e de talentos dos mais abalisados entre +os lentes da Universidade, como Antonio de Carvalho, Silva Gayo, e +Viegas; de rapazes cheios de ideaes e d'audacia, que mais tarde se +haviam de tornar celebres nas letras, como Anthero do Quental, Theophilo +Braga, Eça de Queiroz e Anselmo de Andrade, estes dois ultimos nossos +condiscipulos; n'um periodo em que todos acreditavam na transformação +completa do existente, para, abandonados de vez os velhos e caducos +moldes do mundo medieval, entrar-se definitivamente na normalidade da +vida que as sciencias dos ultimos seculos, e o direito de Revolução, nos +garantiam: comprehende-se bem qual seria a nossa tristeza ao entestarmos +com uma sociedade, mais que qualquer outra, decrepita, incredula, +egoista e dissoluta!</p> + +<p>Tinhamos já então feito a nossa primeira viagem á França, sob o imperio +da mais desenfreada corrupção politica dos ultimos tempos, na +restauração do Imperio por Napoleão <i>le petit</i> e causou-nos indignação o +que abservámos de perto na cidade santa de Direito Moderno, sobre a qual +tinham raiado os inolvidaveis dias de 1789 e que fôra o theatro das +primeiras e gigantescas batalhas do Povo, em nome do <i>Direito Humano</i>, +contra os thronos colligados em nome do <i>Direito Divino</i>!...</p> + +<p>Estavamos nas vesperas da guerra Franco-Allemã que todos previam como +inevitavel e de que resultou este tardio e indeciso movimento +democratico, a cuja sombra a França não conseguio <span class='pagenum'>Pág. 154</span> ainda +emancipar-se completamente dos preconceitos e velharias do antigo +direito!...</p> + +<p>Regressámos á patria com a alma mais cortada de dôres de que quando +d'ella partiramos!...</p> + +<p>A nossa intervenção quotidiana na vida do Povo, pela profissão que +exercemos, o conhecimento das suas multiplas e infinitas miserias, a sua +falta de comprehensão e de energia em reivindicar os seus direitos e a +defeza da sua causa; o egoismo desenfreado da burguezia triumphante com +a sua lastimosa indifferença pelo futuro da Patria; a irremediavel +cegueira da aristocracia portugueza em não se separar das formulas já +hoje varias de sentido e exhaustas de forças, do Direito Divino, +representado no throno e no altar, direito já morto nas consciencias +pela força da razão e da logica, antes de o ser no campo da batalha pela +força das armas: todo este conjuncto de circumstancias adversas, +concorreu para nos entibiar a fé e a esperança na realisação dos nossos +ideaes.</p> + +<p>Ao vêrmos a Nacionalidade Portugueza ha tres seculos desviada do seu +destino historico sem conseguir reatar as tradições perdidas, apesar dos +violentos abalos da natureza e dos homens para levantal'a do atoleiro em +que se deixou cahir--a libertação de Hespanha, o terremoto de Lisboa, as +reformas do marquez de Pombal, de Fernandes Thomaz, de Mousinho da +Silveira, de Passos Manuel e de tantos outros; apesar dos movimentos +revolucionarios de 1820, 1834 e 1846: chegámos a descrer do futuro +d'este povo illustre cujos destinos se acham indissoluvelmente unidos +aos nossos!...</p> + +<p>Foi debaixo d'esta ordem de ideias sombrias que concebemos e compozémos +esta poesia.</p> + +<p>Ella era então, como ainda o é hoje, a expressão fiel do nosso pensar e +do nosso sentir, e, como a anterior, mantemol'a tal qual nos sahiu +espontaneamente da laboração do nosso espirito contemplativo, e sonhador.</p> +<span class='pagenum'>Pág. 155</span> + + +<h3>REVELLACÃO</h3> + +<p class="centrado">Paginas 25 a 32</p> + +<p>Foi escripta esta poesia n'uma sexta-feira de Paixão, na quinta dos +Frades Cruzios, de Coimbra, junto ao grande lago que hoje ainda alli se +vê, cercado d'um espesso e alto muro de verdura entretecido com os ramos +de cedros já hoje seculares.</p> + +<p>A cinta feita por elles em volta do lago tranquillo é tão compacta que +junto das suas margens sentimo-nos por completo sequestrados do mundo +exterior, e levados á contemplação do infinito do Ceu no finito da +Terra!...</p> + +<p>Tinhamos assistido durante tres dias consecutivos ás ceremonias +commoventes da lithurgia catholica nas festas da Semana Santa, +celebradas com pompa na Capella da Universidade.</p> + +<p>Tinhamos ainda a alma combalida com os patheticos cantos do <i>Miserere</i>, +de José Mauricio, e com as retumbantes orações dos levitas da Egreja, +lançando do alto da sua cadeira sobre as multidões meio scepticas as +suas palavras de desconforto e de desesperança sobre o destino humano, +quando, fugindo a este meio deleterio e sombrio, appellámos para a +Natureza, por ser esta aos nossos olhos a Biblia da <i>Verdade</i> e do +<i>Amor</i>, escripta com palavras vivas e eternas, que não carecem das +explicações dos concilios Ecumenicos, para serem os verdadeiros dogmas +do nosso credo.</p> + +<p>Alli, levantando o problema do destino humano na Terra, encontrámos +palavras d'Amor e de Justiça que suppozemos dignas de consignarmos nos +nossos versos, destinados a servir, nos nossos despertenciosos e +apoucados recursos, a causa da Humanidade.</p> + +<p>Este <span class="small-caps">Canto</span> pela sua structura e motivo fazia parte do Livro segundo, mas +transpozemol o para aqui por conter a ideia inicial da philosophia que +presidiu a quasi todos os outros.</p> <span class='pagenum'>Pág. 156</span> + + +<h3>AVE CREATOR</h3> + +<p class="centrado">Paginas 37 a 40</p> + +<p>Esta poesia foi escripta n'um bello dia de sol, no cimo d'uma montanha, +em face d'um largo horisonte, na quinta da Beselga, que é proxima aos +memoraveis campos d'Asseiceira, onde se feriu a ultima batalha a favor +das armas liberaes. Pertence esta quinta a um dos nossos mais dilectos e +dedicados amigos, o Conde de Nova Gôa.</p> + +<p>N'esta e na dos Carvalhaes, que fica n'um dos extremos da poetica +Bairrada, e não longe do sagrado e querido Bussaco, e a que nos +referiremos na poesia <i>Á Terra</i>, foi onde se passou o periodo da nossa +maior actividade litteraria.</p> + +<p>O nosso remanso n'aquella quinta tranquilla e poetica, e a convivencia +com senhoras da mais selecta sociedade de Lisboa, que alli iam passar +parte do anno, muito concorreram para alguma das nossas mais vibrateis e +sentidas composições poeticas.</p> + +<p>Esta é uma das que nos sahiram mais espontaneas e que melhor traduzem as +emoções da nossa alma perante o grande espectaculo do mundo, alumiado +pelo Sol e vivificado pelo Amor!</p> + + +<h3>AO HOMEM--Á MULHER</h3> + +<p class="centrado">Paginas 57 a 65</p> + +<p>O pensamento que inspirou estas duas poesias é como que uma synthese da +philosophia moderna, a base indestructivel d'uma nova Moral, a pedra +angular sobre que deverá levantar se o templo da futura religião da +Humanidade.</p> <span class='pagenum'>Pág. 157</span> + +<p>É o Homem, da grande altura a que chegou a civilisação, á intensa luz de +factos demonstraveis e irreductiveis, e depois de longos seculos de +desalento e decrepitude, a readquirir a confiança em si, nas leis da +Vida, nas forças da Natureza, de que se vae apossando a pouco e pouco, +na sua missão no mundo, na integração dos seus destinos no Universo.</p> + +<p>É o reprobo da Religião semita, o expulso do Paraiso por decreto de +Jehovah, convertido no filho dilecto da Natureza e de Deus, no +prescrutador dos seus segredos e dos seus processos, e que hoje, senhor +do plano geral da creação, armado de recursos infinitos, esclarecido com +os fachos inapagaveis das sciencias e das artes, dispondo de thesouros +infinitos: assenta definitiva e resolutamente os seus arraiaes no +planeta que lhe foi dado para theatro da sua ideia, no paraiso dos seus +primitivos sonhos, no pantheon de sua gloria, no templo da sua nova fé.</p> + +<p>É pois o homem que se levanta, do pó da terra, da cinza do seu nada que +lhe fôra imposto como <i>labaro da vida</i>, para se constituir no augusto +executor da <i>obra divina</i>, n'um dos cooperadores conscientes dos +<i>Problemas do Universo</i>.</p> + +<p>É o batalhador incansavel, o Hercules da Civilisação que, depois de ter +expurgado a Terra dos seus elementos maus para d'ella tomar posse, +pretende agora, com os fachos da Razão e do Amor, expulsar do seu +espirito os espectros das religiões revelladas, as lendas da sua +meninice, e tornar-se o sabio, o forte, o luctador por excellencia.</p> + +<p>Depois de ter conquistado o mundo pela Força e pela Razão, pretende +agora redemil'o pelo Amor e pela Justiça.</p> + +<p>Para esta missão incruenta depõe aos pés da mulher não só o seu destino, +como por instincto o fizera até hoje, mas o da propria especie, porque +foi d'ella que Deus confiou a renovação da Vida pelo Amor e a incumbiu +de nos dulcificar a existencia com os actractivos proprios do seu sexo e +os encantos que derivam da sua belleza e da sua graça.</p> + +<p>A piedade que de ha seculos trabalha o coração humano, e que d'elle +irrompe como um arroio crystalino, vindo ora da India com as doutrinas +de Boudha, o christo do Oriente, ora da Palestina com os sonhos de +Isaias, e os evangelhos de Jesus; agora da Grecia com o espiritualismo +de Platão e de Socrates; logo apoz de Roma com as maximas e exemplos de +Marco Aurelio; mais tarde sob o <span class='pagenum'>Pág. 158</span> Ideal de Christo, da França com +o rei S. Luiz e S. Francisco de Salles; da Hespanha, com Santa Thereza; +de Portugal, com Frei Bartholomeu dos Martyres e tantos outros: +tornou-se por fim a corrente caudal do Direito Moderno que já em 1789 +nos sorria sob o lemma da Liberdade, Egualdade e Fraternidade, e que, +pela solidaridade das raças e dos Povos, e pela sua mutua e +indistructivel dependencia, será a chave da todo o Problema Humano, no +novo cyclo para onde as leis historicas nos encaminham.</p> + +<p>Como se vê a Religião e a Moral mudam apenas do objectivo e de processo.</p> + +<p>O Ideal, isto é o Bem Supremo, desloca-se das bandas do Passado para os +horisontes do Futuro, e deixa dormir sepulto nas sombras o que já foi, e +sob a condemnação d'um decreto divino, para nos apparecer, como a +columna de fogo aos olhos dos Hebreus, á frente dos individuos, das +nações e dos povos e encaminhal'os á Terra da Promissão!</p> + +<p>Por este novo objectivo a historia da civilisação, d'harmonia com as +leis do Universo, seguirá n'uma marcha não regressiva para o Passado, +como o pretendiam as religiões revelladas, mas progressiva em demanda do +Ideal sonhado, Ideal que muito ao longe nos fascina como um foco de luz +intensa e impenetravel, que nos cega, e além da qual só ha o +Absoluto--Deus.--</p> + +<p>O homem por este novo credo deixa de ser o degredado filho d'Eva para se +constituir no artifice divino, no triumphador por excellencia! Converte +a propria historia, escripta com sangue e com lagrimas, na Biblia unica +authentica e verdadeira; no melhor estimulo da sua fé; na melhor +glorificação do seu Deus.</p> + +<p>Para que o <i>par humano</i> se não estonteie, porém, com a propria gloria, e +não se proclame egual ou superior a Deus, como nos tempos do paganismo: +collocamos sobre a sua cabeça uma Entidade que a elle em tudo o +sobreleva, que, intangivel aos seus desvarios e erros, por elle vela e +sobre elle estende a todo instante a sua acção protectora, a Virgem mãe +dos povos--a <i>Humanidade</i>!</p> + +<p>Não é ella nascida da phantasia dos homens, mas surge real e verdadeira, +em plena luz e cheia de gloria, das emmaranhadas e mysteriosas paginas +da Historia! A seus pés depomos, desprendendo-os das cordas da nossa +lyra, os primeiros trenos d'amor como um timido e passageiro ensaio, na +poesia que lhe consagramos de pag. 74 a 77.</p> <span class='pagenum'>Pág. 159</span> + +<p>Poderão os defensores das religiões positivas, feridos nos seus +interesses, alcunhar-nos de hereges e cobrir-nos de injurias; mas o que +jámais conseguirão é provar-nos que o homem, que tirar dos seus proprios +triumphos a glorificação do seu Deus, não se engrandeça a si e ao +Creador, e não se torne por isso digno do espectaculo da natureza, onde +surgiu como um dos cooperadores conscientes dos problemas da vida!</p> + +<p>A despeito das malidicencias d'uns, das ironias e satyras doutros, temos +fé que estes <span class="small-caps">Cantos</span> hão de encontrar sympathia e acolhimento nas almas +simples e boas, a quem os consagramos, e é quanto nos basta.</p> + + +<h3>Á HUMANIDADE</h3> + +<p class="centrado">Paginas 74 a 77</p> + +<p>Este <span class="small-caps">Canto</span> é como que uma antiphona, embora ainda indecisa e pallida, em +louvor d'aquella Divindade invisivel que, ao cabo d'infindos seculos, e +a despeito dos antogonismos e odios que as religiões e a politica +semeavam, soube conduzir os Povos, por mil meandos e caminhos oppostos, +á conciliação e a Paz universal, que já hoje se desenha como o ideal do +seu futuro viver!</p> + +<p>Esta solidariedade em que todos elles se encontram perante <i>a solução +d'um Problema commum</i>, é uma das Verdades fundamentaes que já desceram +das regiões da utopia e dos sonhos para o imperio dos factos.</p> + +<p>O prestigio da sua causa e a rapidez dos seus triumphos são taes que tem +feito em meia duzia de lustros o que todas as religiões do Passado não +conseguiram n'uma serie interminavel de seculos!</p> + +<p>A sua acção avassaladora attinge as culminancias dos mais altos poderes +constituidos! Até incita o proprio auctocrata de todas as Russias a +propor ás mais nações do mundo o desarmamento geral, <span class='pagenum'>Pág. 160</span> ou pelo +menos a reducção d'essas forças terriveis, a proporções que não +contrariem os interesses dos Povos, a causa do Direito, e os principios +do Justo!...</p> + +<p>Pode até dizer-se que os mais celebres capitães, Alexandre, Julio Cesar +e Napoleão, sem o pensarem e sem o quererem, se tornaram os mais +poderosos semeadores d'este Ideal da Justiça Moderna!<sup><a href="#nota1">[1]</a></sup></p> + +<p>Até ás proprias forças da Natureza, no uso que o homem d'ellas está +fazendo abrindo canaes, levantando pontes, estendendo em todas as +direcções dos quatro pontos cardeaes do globo uma rede infinita de +telegraphos e d'estradas, até ellas estão conspirando para o triumpho do +novo direito!...</p> + +<p>A sua acção omnipotente, embora indirecta, accusa-se todos os dias na +vida intestina dos povos, nos seus interesses os mais materiaes; na +organisação das poderosas companhias transantlanticas, a vapor; na +celebração dos tratados de commercio entre todos os povos do globo; na +publicação de revistas scientificas; na realisação de conferencias e de +exposições internacionaes, onde em tudo prodomina o espirito cosmopolita +e universal dos tempos modernos!</p> + +<p>É um levantamento das almas a que é preciso levar um Ideal +espiritualista, um objectivo religioso, um culto emfim para que se +apposse das multidões e se converta nos preceitos d'uma moral pratica, +no Labaro d'uma religião universal.</p> + +<p>Por elle um povo illustre derramou já o mais generoso do seu sangue afim +de conquistar para o mundo dos factos, com o proprio sacrificio, <i>a +formula juridica d'este novo Direito</i>; e, a despeito da guerra +desapiedada dos representantes do velho regimen, a sua doutrina penetrou +em breve no espirito de todos os codigos!</p> + +<p>Se estas conquistas extraordinarias, chamar-lhes-hemos assombrosas, de +Civilisação Moderna se alcançaram sem o concurso das religiões +positivas, que lhes foram adversas, sem o proposito dos imperantes e dos +politicos, poder-se-ha calcular: que transformação profunda e rapida nos +destinos do universo se não vae operar, <span class='pagenum'>Pág. 161</span> quando aquella Mãe que +preside á sorte dos povos, e que tem estado até hoje degredada nas +regiões abstractas do pensamento, tomando uma forma visivel e humana, se +constituir na soberana por excellencia, na protectora dos fracos, na +redemptora dos opprimidos, na consoladora dos que choram, na fé e +esperança dos que sonham, na mensageira em fim do Creador que, tanto +quanto é permittido ás forças humanas, converterá em realidades as +promessas de Jesus no sermão divino da Montanha!</p> + +<p>É prevendo o culto que mais tarde as mulheres, os sabios e os justos lhe +hão de prestar, que esboçamos este cantico religioso.</p> + +<p>Para que esta aspiração se converta na religião do Futuro basta que a +Mãe de Jesus, esta creação poetica e encantadora do symbolismo +catholico, avocando a si a realidade da historia, e entrando nos usos e +costumes dos povos: synthetise o espirito de novos tempos e se torne a +fiel depositaria do pensamento do Creador na Terra, a mensageira da +Verdade, a distribuidora da Justiça e do Amor, a Virgem Mãe dos Povos.</p> + +<p>Então todas as antiphonas e canticos que a Egreja hoje faz entoar em +honra da Mãe de Jesus, serão poucos para a glorificarmos!...</p> + +<p class="footnote"><sup><a name="nota1">[1]</a></sup> Laurent nos seus estudos sobre a <i>Historia da Humanidade</i> demonstra +á saciedade quanto estes e outros heroes foram meros instrumentos d'uma +causa superior, a vontade de Deus, em tudo o que fizeram.</p> + + +<h3>AO NOVO CYCLO HISTORICO--NOVA LUZ! NOVO IDEAL!</h3> + +<p class="centrado">Paginas 78 a 90</p> + +<p>Estas duas poesias são o desdobramento, a synthetisação dos <span class="small-caps">Cantos</span> +consagrados á <i>Paz dos Povos</i>, ao <i>Homem</i> e á <i>Mulher</i>, vendo n'estes os +principaes factores da civilisação, e á Humanidade, como typo ideal da +Verdade e da Belleza, na realisação progressiva do destino Humano.</p> + +<p>Enviamos o leitor para o que expozémos nas respectivas notas, <span class='pagenum'>Pág. 162</span> +porque ali lhe será facil descortinar o systema de philosophia que se +converteu para nós nos preceitos de uma moral substancialmente humana, +verdadeira e pratica; a que se reduz no fim de contas toda a religião do +futuro.</p> + + +<h3>APELLO SUPREMO--REFUGIO ULTIMO</h3> + +<p class="centrado">Paginas 91 a 97</p> + +<p>Estas duas poesias são o complemento da que publicámos a pag. 8 sob a +denominação <i>Presentimentos</i>. Foram escriptas no mesmo periodo, quatro +annos antes de constituirmos familia, isto é, de entrarmos na <i>pratica +obscura e quotidiana do verdadeiro altruismo</i>, principio moral em que +assenta a familia, a primeira e a mais sagrada das nossas instituições, +e que é a base da religião e da philosophia.</p> + +<p>Carecem ambas pelo seu ardente mysticismo, ou melhor diremos pelo seu +exagerado lyrismo, repassado de desalento e dôr, da correcção que o +conhecimento das leis da vida e as licções de historia nos trouxeram com +o andar dos tempos e que, sob o mesmo espirito religioso, traduzimos nos +<span class="small-caps">Cantos</span> á <i>Humanidade</i>, á <i>Mulher</i>, ao--<i>Homem</i>, aos <i>Filhos</i> e +designadamente nos dois canticos anteriores ao <i>Novo Cyclo Historico, +Nova Luz! Novo Ideal!</i></p> + +<p>A confiança nas Grandes Leis da Vida e da Historia, na Natureza e na +Humanidade, deu-nos forças e animo para as luctas em que nos temos visto +assediados toda a vida, resignação e paciencia na adversidade, fé +inabalavel na regeneração do Mundo pela sciencia, pela justiça e pelo +amor, quando se entrar definitivamente, sem peias, sem ficções, e sem +mentiras, no imperio da Verdade, no regimen da liberdade absoluta!...</p> + +<p>Este appello Supremo para Deus onde, ao cabo de tantos desenganos e +dissabores, esperamos encontar o nosso refugio ultimo, não significa +outra coisa.</p> <span class='pagenum'>Pág. 163</span> + +<p>Os sonhos de justiça que, desde Jesus, nos transmittiram as gerações +transactas, para lhes darmos cumprimento, hão-de encontral'o nas +gerações futuras que, por seu turno, legarão aos seus legitimos +herdeiros, novos ideaes e com estes novas esperanças!</p> + +<p>Esta é que é a verdadeira glorificação de Deus na Humanidade pela +revellação continua e progressiva da Historia!...</p> + +<p>Sob este ponto de vista, poder-se-hia dizer que estas duas ultimas +poesias não são já a expressão verdadeira do nosso actual modo de pensar +e sentir.</p> + + +<h3>AO SOL</h3> + +<p class="centrado">Paginas 108 a 111</p> + +<p>Escrevemol'a debaixo das impressões dos cantos sagrados da India, no +<i>Rig Veda</i> e sob a alta concepção que Renan fazia de Deus e do Sol +quando affirmava que antes da Humanidade attingir aquella unidade e +synthese suprema das almas, só o Sol tinha tido direito á adoração e +culto dos Povos.</p> + +<p>Sentimos a seu respeito, por intuição, o que mais tarde a sciencia nos +revellou em obras memoraveis como o são alguns dos trabalhos de +Flamarion sobre astronomia e designadamente o prodigioso e fascinante +livro de Buchner <i>La Lumière et Vie</i>, que nos revellou com uma pujança +de saber e de logica inexcedivel, e uma linguagem colorida e vigorosa +incomparavel, as incalculaveis maravilhas da natureza que anteviamos com +olhos apenas d'um poeta enamorado.</p> + +<p>Se escrevessemos este <span class="small-caps">Canto</span> depois da leitura d'estes livros, a nossa +linguagem teria sido de certo mais vibratil e as imagens de que nos +serviriamos mais vivas e mais bellas.</p> + +<p>A idéa fundamental da sua concepção teria ficado, porém, a mesma; a +mesma, a nossa admiração, o nosso culto por esse glorioso vivificador +dos mundos; por esse prodigioso distribuidor da luz, que, a ter de +desapparecer do espectaculo das coisas visiveis, como <span class='pagenum'>Pág. 164</span> lh'o +prophetisam os seus admiradores e chronistas, o não faria sem deixar +atraz de si, n'uma serie ininterrupta de seculos, a mais oppulenta das +heranças, a mais genuina glorificação do heroe Bemfeitor por +excellencia!</p> + +<p>Aos olhos dos outros astros, seus competidores, sob a cupula infinita +dos ceus, morreria destituido da sua antiga grandeza, para dar vida e +continuação a novos mundos, como Jesus, no Calvario, pregado na cruz, +deu a sua alma aos povos para redimil-os!...</p> + +<p>Esta poesia, a instancias de Anthero do Quental, foi publicada por +Guilherme de Azevedo e por isso pouco ou nada alterámos da fórma que +primitivamente lhe démos.</p> + + +<h3>Á ARVORE</h3> + +<p class="centrado">Paginas 127 a 131</p> + +<p>Foi escripta na epocha em que costumavamos passar parte do verão em +companhia do Dr. Antonio da Silva Gayo, no Bussaco, n'esta montanha a +que nos prendiam tão gratas recordações da nossa vida universitaria!...</p> + +<p>Ali fomos como cultores do Bello e do Justo em perigrinação sagrada +muitas e muitas vezes, umas em companhia d'amigos como Anthero do +Quental, José Julio Rodrigues, Philomeno da Camara, e outras vezes, e +estas em maior numero, sosinhos, fazendo a pé todo o longo percurso +desde Coimbra, mas encontrando larga e generosa compensação nas suas +sombras impenetraveis e profundas, na sua solidão e paz absolutas, tão +propicias á contemplação e ao estudo!</p> + +<p>Antes do caminho de ferro do Norte, que o pôz em communicação facil com +o resto do Paiz, o Bussaco viveu longos annos, e para o bem d'elle, +quasi completamente esquecido dos homens.</p> + +<p>Só almas d'eleição, pouco conformadas com a realidade das coisas, só um +ou outro amante da Natureza, iam ali de vez em quando procurar na sua +quietação e silencio, tão cheios de mysterios e <span class='pagenum'>Pág. 165</span> tradicções de +mysticismo christão, <i>eloquentes lições</i> sobre os problemas da vida, +sobre os multiplos e complicados destinos do coração e da consciencia, +postos no mundo ante esta interminavel e ininterrupta sequencia--de luz +e de sombra--de dias e de noites de prazeres e de dôres, de sonhos e +desenganos!</p> + +<p>Talvez mais do que ninguem, n'estes tempos de gosos faceis e interesses +materiaes, nós fomos d'este pequeno numero.</p> + +<p>A nossa paixão pela Montanha levou-nos a convencer o santo padre +Mauricio a viver ali comnosco, pouco depois da nossa formatura, +abandonando a sua modesta habitação em Luso, nos mezes de Novembro e +Dezembro.</p> + +<p>Ali estivemos entretidos os dois, elle de dia com os trabalhos já então +iniciados, com o nosso protesto, por Moraes Soares, de noite com as suas +candidas e piedosas orações; nós com os nossos livros dilectos, com os +nossos passeios solitarios e lucubrações litterarias. Um viver simples, +sobrio e puro, de que ainda hoje guardamos vivissimas saudades!</p> + +<p>Mais tarde pelos melhoramentos e pequenas casas de habitação mandadas +ali construir, o Bussaco attrahiu de Coimbra e seus arredores, de Lisboa +e Porto, e até das Ilhas dos Açores, algumas familias distinctas, no +numoro das quaes quaes sobrelevava a todas a de Silva Gayo.</p> + +<p>Foi este pela vivacidade e graça de seu espirito brilhante, pelo encanto +incomparavel da sua palavra facil, d'artista e de sabio, e sua esposa +pela gentileza singular do seu porte, pela bondade e abnegação nunca +desmentidas para com todos, foram elles que mais concorreram a chamar ao +Bussaco uma concorrencia selecta e a tornar inolvidaveis os dias ali +passados.</p> + +<p>Foi ali que Silva Gayo escreveu e retocou algumas das paginas mais +commoventes do seu <i>Mario</i>, de <i>Frei Caetano Brandão</i> e da <i>Magdalena</i>. +Foi ali tambem que compozémos algumas das nossas poesias mais repassadas +do pantheismo espiritualista que em todas mais ou menos se nota.</p> + +<p>Foi á sombra d'aquelles arvoredos adoraveis, e sob estas beneficas +influencias de arte, que se crearam, n'uma incansavel e vibrante +alegria, os dois filhos de Gayo e de D. Emilia Paredes, Manuel da Silva +Gayo e Mario Gayo, os quaes mais tarde se haviam de distinguir como dois +talentos comprovados, um na poesia, outro na musica!</p> <span class='pagenum'>Pág. 166</span> + +<p>Foi ali que mais tarde succumbiu, victima d'uma tysica de larynge, +aquelle formoso espirito que foi gloria das sciencias e lettras patrias, +cercado dos solicitos carinhos de sua incomparavel esposa, das lagrimas +silenciosas e amargas do bom padre Mauricio e das nossas.</p> + +<p>Foi d'ali, ai de nós, noite memoravel e terrivel! que tivemos +d'acompanhar sósinhos os seus restos mortaes até ao cemiterio da +Conchada em Coimbra, onde pouco depois do romper da manhã, alguns dos +seus collegas, admiradores e amigos, avisados do seu enterro, vieram +comnosco prestar-lhe as ultimas homenagens dos vivos!...</p> + +<p>Voltemos aos dias felizes em que Silva Gayo ainda abrigava a esperança +de debellar o mal que o vinha minando, apesar de pairar ás vezes como +uma sombra sinistra no seu lucido espirito, a idéa d'um desenlace +fatal!! Foi então que escrevemos este <span class="small-caps">Canto</span>, á <i>Arvore</i>.</p> + +<p>Estavamos installados na capella de Santa Thereza, a cuja entrada se +levanta um d'aquelles cedros collossaes e magestosos do Bussaco, que são +o privilegio e o orgulho d'esta floresta, a mais opulenta e formosa de +quantas conhecemos dentro e fóra do paiz.</p> + +<p>Foi ali, tendo em frente dos nossos olhos aquelle gigante secular dos +bosques, que compozémos esta poesia onde o leitor encontrará a expressão +mais genuina do nosso amor pela estabilidade das forças da Natureza, +representada no que ellas teem de mais bello e nobre, a arvore.</p> + + +<h3>Á TERRA</h3> + +<p class="centrado">Paginas 132 a 139</p> + +<p>De todos os nossos trabalhos litterarios é este o que nos mereceu maior +solicitude e carinho para deixarmos por nossa morte um testemunho do +muito que amámos a Natureza e dos impagaveis beneficios que d'ella em +toda a nossa vida recebemos.</p> <span class='pagenum'>Pág. 167</span> + +<p>Sobre a sua influencia na formação dos caracteres escrevemos um poemeto +denominado <i>Passeio ao Campo</i> e que faz parte do quarto livro das +<i>Irradiações</i>, <i>No Lar</i>.</p> + +<p>Concebemos e composémos esta poesia n'aquella aldeia obscura de +Carvalhaes, a que nos referimos na nota primeira.</p> + +<p>Quizémos propositadamente que assim fosse, porque depois dos jardins e +da quinta da nossa casa do Arco, na Ilha do Fayal, onde nascemos e +brincámos e das pedras vulcanicas e negras da Aldeia do Guindaste, na +Ilha do Pico, onde, em plena liberdade dos campos, em convivio intimo +com a Natureza, perante o espectaculo do mar e d'um sem numero de +pequenos vulcões extinctos passámos os mais deleitosos dias da meninice, +pedras negras que ainda hoje, pelas recordações que encerram, nos +sorriem mais bellas e fulgentes que os brilhantes, nenhuma terra amámos +tanto como esta aldeia poetica de Carvalhaes.</p> + +<p>Foi alli que á sombra de pequenos bosques, de altos e extensos +pinheiraes, balsamicos e sonorosos, de frescos relvados e de alamos e +carvalhos frondosos, no adro da capella da Senhora das Neves, que lhe +fica proxima, foi ali que lendo os nossos poetas mais dilectos, +Virgilio, Camões, João de Deus e Victor Hugo, tomámos verdadeiro amor +pelo rythimo e harmonia do verso, e abandonamos para os assumptos d'arte +a prosa, onde fizemos os nossos primeiros ensaios, sendo ainda creança, +tomando então por modelo a Byron, dos poetas da nossa meninice o mais +festejado e glorioso.</p> + +<p>Foi n'esses arredores deliciosos da Bairrada e do Bussaco onde longos +annos armazenámos inconscientemente em companhia do nosso chorado +condiscipulo José Augusto Salgado, no nosso mundo interior a poesia que +annos mais tarde, em 1867, nos irrompeu espontanea da alma, quando as +saudades de Coimbra e da nossa vida academica nos subjugaram a ponto de +abandonarmos interesses já creados e estabelecermo-nos de novo na Luza +Athenas!... Foi então que tomamos o grau de licenciado em Direito na +esperança de fazermos parte do corpo docente da Universidade, mas d'onde +tivemos de sahir, pouco depois do nosso casamento, para n'um meio mais +amplo angariarmos os escassos recursos d'uma vida honesta.</p> + +<p>Esta poesia, desejando nós que fosse de todas a mais perfeita, é no +entanto a que hoje aos nossos olhos tem maiores defeitos, sendo um +d'elles a sua extensão.</p> <span class='pagenum'>Pág. 168</span> + +<p>Preferiamos deixal-a nas proporções das outras, suas congeneres e irmãs, +mas já agora, assim imperfeita, ficará sendo o depoimento mais vehemente +e sincero do muito que quizémos á Terra, nossa mãe, ao Amor, á Luz e á +Vida!</p> + +<p>Á falta d'heroes a quem consagrassemos os nossos <span class="small-caps">Cantos</span>, preferimos as +Forças e as maravilhas da Natureza, que sendo obras de Deus, são por +isso eternamente grandes e bellas para se constituirem na fonte pura e +inexgotavel do Ideal.</p> + +<p>Foi Esta a divindade em cujo altar depozemos a alma e a vida, e quem em +troca nos deu a pureza de coração e valentia d'animo para luctarmos +contra a adversidade e salvarmos no meio da nossa pobreza os thesouros +da nossa Fé.</p> + + +<h3>AOS ASTROS</h3> + +<p class="centrado">Paginas 140 a 143</p> + +<p>Reservámos para o final d'este livro de canticos religiosos a poesia +<i>Aos Astros</i>, porque podemos dizer com toda a Justiça, imitando David, +que os <i>Ceus proclamam a Gloria de Deus</i>!</p> + +<p>A Luz no mundo das coisas visiveis e o Pensamento no mundo invisivel das +almas, são os dois principaes factores do movimento e da Vida no +Universo e na historia.</p> + +<p>Ambos concorrem para a solução d'um problema commum.</p> + +<p>Dovorciados até hoje pelas religiões positivas, productos da ignorancia +inevitavel dos povos primitivos, tendem a fundir-se n'uma <i>Unidade +Suprema</i>, para a qual convergem todas as forças vivas da Natureza, as +revellações da Historia e as descobertas scientificas dos ultimos +tempos!</p> + +<p>O que poderão estes dois eternos agentes da Verdade na solução dos +destinos dos povos, já o podemos antever pelas grandes e luminosas +syntheses historicas a que hoje attinge todo o espirito<span class='pagenum'>Pág. 169</span> culto ao +contemplar, como nós o fizemos, os despojos das civilisações extinctas +que se archivam nos grandes museus--no British Museum, em Londres; no +Louvre, em Paris; nas gallerias de Pit, em Florença; nas do Vaticano, em +Roma; e ao vermos reunidas as maravilhas da arte e industrias modernas +nos certamens internacionaes das grandes exposições!...</p> + +<p>Pelo que já temos até agora conquistado com o poder creador da nossa +Idéa e com o auxilio que nos prestam as forças inexgotaveis da Natureza, +o que é já hoje authentico, real e verdadeiro: o homem não tem motivos +para desesperar do termo da sua jornada no percurso indefinido e +infinito dos tempos, e sentar-se á margem do caminho, e no meio d'este, +a chorar como Jeremias, ou a apostrophar como Job a Justiça Eterna pela +ingratidão dos homens e pela dureza dos fados! O homem nem deve +considerar-se já hoje um revoltado contra Deus e por este punido, ora, +segundo o genio semitico, com a expulsão de Adão e Eva do Paraizo, ora, +segundo o espirito Helenico, com o aguilhoamento de Prometheu nas +montanhas do Caucaso e o despedaçamento das suas carnes pelos bicos e as +garras dos abutres!</p> + +<p>Pela mais exacta comprehensão das leis do Universo e da Historia, o +homem tende a tirar da antithese do Mal e do Bem, cujo antagonismo +permanente, em perpetua lucta, constitue todo o Mysterio do Passado, a +Synthese Suprema chamada Verdade e que adoramos sob o nome de Deus.</p> + +<p>Perante esta luz, de intensissimo fulgôr e de alcance infinito, as +paginas da historia escripta pelo homem, são apenas por ora uma gloriosa +introducção aos fastos da Humanidade que os seculos futuros completarão, +e cuja sequencia só póde denunciar-se nas visões e nos sonhos dos Poetas +e dos Philosophos!</p> + +<p>Na prespectiva da morte, quando para nós se quebram os vinculos da Vida +e se fecham para sempre as paginas da historia, apraz-nos abrir o Livro +que já está escripto, o <i>Livro da Vida Eterna</i>--<i>os Ceus</i>--e +consagrar-lhes este <span class="small-caps">Canto</span>, que escripto ha vinte e sete annos atraz, é +ainda hoje a traducção fiel do nosso pensar e do nosso sentir.</p> + +<p>Não desdenhariamos de que sobre a nossa sepultura fossem escriptas as +tres ultimas quadras d'este <span class="small-caps">Canto</span>, porque n'ellas resumimos toda a fé +que trazemos no coração.</p> + +<p>Lisboa, 29 de março de 1899.</p> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Cantos Sagrados, by Manuel de Arriaga + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CANTOS SAGRADOS *** + +***** This file should be named 22299-h.htm or 22299-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/2/2/9/22299/ + +Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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