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+<html>
+
+<head>
+ <title>Cantos Sagrados</title>
+ <meta name="AUTHOR" content="Manuel de Arriaga">
+ <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1">
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+</head>
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Cantos Sagrados, by Manuel de Arriaga
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Cantos Sagrados
+
+Author: Manuel de Arriaga
+
+Release Date: August 11, 2007 [EBook #22299]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CANTOS SAGRADOS ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<div class="ppagina">
+
+
+<h3>MANOEL D'ARRIAGA</h3>
+
+<h1>CANTOS<br />
+
+<span style="font-size:1.5em;">SAGRADOS</span></h1>
+
+<p class="centrado"><img src="images/manuelgomeseditor.gif" border="0" alt="Logotio do editor"></p>
+
+<p class="centrado">LISBOA<br />
+
+<b>MANOEL GOMES, Editor</b><br />
+
+LIVREIRO DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS<br />
+
+<i>70--RUA GARRETT (CHIADO)--72</i><br />
+
+1899</p>
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. III</span>
+
+
+<div class="dedicatoria">
+<h2>DEDICATORIA</h2>
+
+<p class="dedicatoria">Ás almas piedosas e cultas em cuja convivencia
+encontrei conforto, fortalesa e fé na bondade e na virtude,</p>
+
+<p class="dedicatoria">e</p>
+
+<p class="dedicatoria">Ás proximas gerações futuras, a quem compete a integração do destino
+humano segundo o novo Ideal de Justiça</p>
+
+<p class="dedicatoria">offerece e consagra estes <span class="small-caps">Cantos</span></p>
+
+<p class="direita"><span class="small-caps">O SEU AUCTOR.</span></p>
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. V</span>
+
+
+<h2>AO PUBLICO</h2>
+
+<p>A exemplo do lavrador que nas tardes melancolicas do outomno, antes que
+chegue o inverno, recolhe os fructos das suas pequenas herdades, nós,
+n'este periodo calmoso da existencia em que entrámos, e primeiro que a
+morte nos venha trazer, com a paz da sepultura, a melhor compensação dos
+nossos longos soffrimentos, deliberámos recolher e seleccionar as poesias
+que escrevemos no longo periodo de trinta e dois annos, que decorre desde
+1867 até hoje e que, com rarissimas excepções, devidas quasi sempre a
+inconfidencias e curiosidades d'amigos, são todas ainda hoje ineditas.</p>
+
+<p>Reunimol-as em quatro volumes, o primeiro dos quaes, o dos <i>Cantos</i>, é o
+que damos hoje á publicidade.</p>
+
+<p>O segundo com o nome de <i>Irradiações</i>, é dividido em quatro
+livros--<i>Devaneios</i>--<i>Imagens d'um mundo extincto</i>--<i>Nas Alturas</i>--<i>No
+Lar</i>.</p> <span class='pagenum'>Pág. VI</span>
+
+<p>O terceiro contém poesias dispersas, ensaios e fragmentos.</p>
+
+<p>O quarto, um poema heroico glorificando os triumphos da Humanidade no
+concerto do Universo, e onde, sob uma fórma dramatica, reatámos as
+tradições gloriosas de Portugal no periodo de Renascença á futura
+solução do problema humano, sob um novo ideal de justiça.</p>
+
+<p>Foi este poema, a que démos o titulo de <i>Synthese Suprema</i>, escripto nos
+tres ultimos annos que se seguiram ao nosso affastamento da politica
+militante, quando abandonámos de todo o parlamento, onde a nossa voz
+ficou por completo isolada e perdida...</p>
+
+<p>Compozémol-o ante a ameaça constante da morte que as nossas doenças,
+então aggravadas, nos punham todos os dias diante dos olhos, sem
+esperanças de o levarmos ao seu termo; e foi feito a pedaços nas poucas
+horas d'ocio que nos restavam dos nossos deveres profissionaes.</p>
+
+<p>A poesia aos nossos olhos nunca foi um mero recreio de espirito.</p>
+
+<p>Como todas as bellas artes, tende a exercer uma funcção social, hoje
+tanto mais necessaria quanto é frouxa, ou quasi nulla, a que a Religião,
+e a moral d'ella nascida, exerceram outr'ora nas multidões incultas, que
+á falta d'um ideal filho dos tempos, que as ajude na solução do seus
+tenebrosos e multiplos problemas: ou se tornam indifferentes ou
+scepticas e vivem como espiritos revoltados contra todo o existente!...</p>
+<span class='pagenum'>Pág. VII</span>
+
+<p>A muitos parecerá contradictorio que, tendo nós combatido em toda a
+nossa vida, ha mais d'um quarto seculo, o obscurantismo, os absusos e os
+crimes commettidos á sombra das religiões positivas, sobre tudo da
+religião dogmatica, nos aventuremos, sobre as ruinas do velho mundo e á
+entrada dum novo cyclo historico, a soltar cantos d'uma tão ardente fé
+religiosa!...</p>
+
+<p>A resposta encontral'a-ha o leitor na nota elucidativa á poesia <i>O que
+eu vi</i>, que adiante publicamos, e nas immediatas.</p>
+
+<p>Se errámos ou não, os factos é que o hão-de decidir d'aqui mais a algum
+tempo.</p>
+
+<p>Só aqui diremos que para se unirem pelo Amor e pela Justiça as duas
+metades da humanidade, de que depende a integração do destino humano, o
+homem e a mulher, que as crenças religiosas e as demonstrações
+scientificas trazem tão profundamente divorciados na vida do lar e no
+foro interno; para levarmos ao povo a communhão do novo credo e
+levantarmos-lhe o coração e a alma muito acima das meras questões de
+interesses materiaes em que o trazem envolvido: é preciso procurar um
+ideal fóra das contingencias humanas, preparar com elle as almas para os
+actos fundamentaes d'abnegação e d'altruismo que reclama o problema
+social, o que só se pode alcançar á sombra de religiosidade que está no
+fundo da nossa natureza, mudando apenas de objectivo e de processo.</p>
+
+<p>Qualquer que seja porém, a opinião em contrario de <span class='pagenum'>Pág. VIII</span> nossos
+competidores, e que acatamos, é d'esperar que attendam a que, n'uma obra
+d'arte, não se deve perder de vista a sinceridade do seu auctor, o fim
+que se propõe servir e o meio que emprega para o alcançar.</p>
+
+<p>Sob este triplice ponto de vista, em que sempre nos mantivemos, talvez
+possamos contar com a benevolencia dos nossos contrarios.</p>
+
+<p>Ainda uma palavra sobre as razões porque só agora, no fim da nossa
+carreira, nos aventuramos a publicar estes trabalhos.</p>
+
+<p>Dentre muitos outros, o motivo predominante encontral-o-ha o leitor no
+respeito quasi religioso que sempre tivemos pela publicidade, por este
+momento sagrado em que entregamos aos outros as nossas ideias, as nossas
+opiniões, os nossos sentimentos!</p>
+
+<p>Accaso terão direito a sel-o?! Irá n'elles alguma cousa que seja menos
+verdadeira, menos justa, menos bella?!</p>
+
+<p>E, quando tal se dê, o que pensarão de nós os que vierem a
+julgar-nos?!...</p>
+
+<p>Transmittindo a estranhos, sob as fórmas divinas da arte, o que havia de
+melhor no nosso mundo interior, e que merecera a sancção da nossa
+consciencia, não iremos susceptibilisar ou offender, apesar d'isso, o
+que os outros teem de mais sagrado no coração e amam mais de que tudo?!</p>
+
+<p>Não seremos nós uns illudidos que vamos com a nossa illusão concorrer
+para os enganos dos outros?!</p> <span class='pagenum'>Pág. IX</span>
+
+<p>Todas estas perguntas accudiam ao nosso espirito quando nos incitavam a
+imprimir estes <i>Cantos</i> e esperámos sempre que um mais maduro exame os
+auctorisasse a sahir do recatado asylo da nossa consciencia, a ir correr
+mundo e a suscitar por ventura a animadversão ou a sympathia dos
+leitores!...</p>
+
+<p>Que o publico encontre n'elles a grata companhia que nos fizeram tão
+largos annos, é o melhor premio, se algum elles merecem, a que pode
+aspirar o auctor d'estas linhas.</p>
+
+<p>Lisboa, 15 de março de 1899.</p>
+
+<p class="direita"><span class="small-caps">Manoel d'Arriaga.</span></p> <span class='pagenum'>Pág. XI</span>
+
+
+
+
+<h2>LIVRO PRIMEIRO</h2>
+
+<h1>DEUS E A ALMA</h1>
+
+
+<span class='pagenum'>Pág. 1</span>
+
+
+<h3>I</h3>
+
+<h3>O QUE EU VI</h3>
+
+<div class="poesia">
+Sahi um dia a contemplar o mundo,
+Por vêr quanto ha de bello e quanto brilha
+Na multipla e gloriosa maravilha,
+Que anda suspensa em o azul profundo!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Vi montes, vales, arvores e flôres,
+Limpidas aguas, múrmuras torrentes,
+Do grande mar as musicas plangentes,
+Dos céus sem fim os trémulos fulgôres!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 2</span>
+
+<div class="poesia">
+Trouxe os olhos tão ricos de belleza,
+O coração tão cheio de harmonia,
+De quanto havia em terra, mar e céos,
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Que interpretando a sós a Natureza:
+Dentro de mim esplendido fulgia,
+N'um circulo de luz, teu nome, oh Deus!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 3</span>
+
+
+<h3>II</h3>
+
+<h3>MUNDO INTERIOR</h3>
+
+<div class="poesia">
+Materia ou Força, Lei ou Divindade
+Quem quer que seja que dirige o mundo,
+Esparze em tudo o espirito fecundo
+Do Summo Bem--Belleza, Amôr, Verdade.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Á luz d'esta Santissima Trindade,
+Cercado d'esplendor, clamo e jucundo,
+Sorri-me em volta o universo; ao fundo,
+Por synthese Suprema, a Humanidade!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 4</span>
+
+<div class="poesia">
+Dos homens rujam temporaes medonhos...
+Que em mim, no meu labôr, do Bem sedento,
+Meus dias correm limpidos, risonhos!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Estrellas que brilhaes no firmamento!
+É menos bella a vossa luz que os sonhos
+Que gera na minha alma o Pensamento!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 5</span>
+
+
+<h3>III</h3>
+
+<h3>TRISTEZA</h3>
+
+<div class="poesia">
+Como isto cá por fóra é tudo alegre!
+Quão bello o sol! que esplendida harmonia
+ A terra, o mar e os céos!
+Porem dentro de mim que mundo á parte!
+Que embate de paixões! Que noite funebre!
+ Que magoas, Santo Deus!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ai! se as manchas que o sol no rosto esconde
+Tem sobre o mundo alguem onde projectem
+ A triste escuridão,
+Minha alma é como o espelho onde ellas caem,
+Tão profunda é a mágoa que me lavra
+ Aqui no coração!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 6</span>
+
+<div class="poesia">
+E eu via ha pouco o azul d'um céo sem macula!
+E o sol d'esta alma fulgurante e limpido
+ Banha-me todo em luz!
+Porém, franqueza humana! eu proprio o obrigo
+A alumiar-me com a luz da frouxa lampada
+ D'um templo de Jesus!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Senhor! Senhor! que um teu olhar me alegre!
+Que lave o pavimento de meu peito
+ De muita ideia vã,
+Que o mal é como a noite, e o sol apaga-a
+E transforma-a na prata, ouro e purpura
+ Das nuvens da manhã!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Oh! tu tristeza, irmã dos desgraçados,
+Que lanças no meu peito os ais plangentes
+ D'esses gemidos teus!
+Desprende da minha alma as azas negras,
+E deixa entrar alegre a luz do dia,
+ A luz vinda dos céos!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E vós, filhos do sol, tribus innumeras
+Da familia de Deus, plantas e flôres
+ Insectos e animaes,
+Que engolfados nos gozos do Universo,
+N'esse concerto immenso de harmonias,
+ Nos céos a Deus louvaes:
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 7</span>
+
+<div class="poesia">
+Ah! venho-vos tomar por meus mentores,
+Pois vale bem mais a luz do vosso instincto,
+ Que a luz d'esta razão,
+Se eu não sei como vós viver contente,
+Trazer o azul dos céos na consciencia,
+ E a paz no coração!
+</div>
+
+<p class="data">Lisboa<br />
+
+Na tapada d'Ajuda,<br />
+
+1869</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 8</span>
+
+
+<h3>IV</h3>
+
+<h3>PRESENTIMENTOS</h3>
+
+<div class="poesia">
+Eu bem sei que devia
+Causar-te muito dó,
+Em noite tão sombria
+Vêres-me aqui tão só!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Nem sei que sol m'alegra!
+A sós com a minha cruz,
+Sou como a nuvem negra
+Que encerra muita luz!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 9</span>
+
+<div class="poesia">
+Como arvore sombria
+Vergada sobre um val,
+Assim vivo hoje em dia
+Á sombra do Ideal...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Que eu tenho muita fome
+De Justiça e d'Amor,
+E aqui não ha quem tome
+A serio a minha dôr...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+O mundo vê e passa,
+Como sempre passou,
+Sorrindo da desgraça
+Dos tristes como eu sou...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E este sonho dourado
+D'amôr, que a gente vê,
+Não póde estar guardado
+N'esses homens sem fé!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 10</span>
+
+<div class="poesia">
+Ah! não! já não m'illudo
+Foi isso o que suppuz;
+Mas vi mudar-se em tudo
+Em sombra a minha luz...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E os sonhos que já tive
+Tão bellos, afinal,
+São hoje um céo que vive
+Sobre este lamaçal!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Um céo que vejo, ao longe,
+Exposto aos olhos meus,
+Co'a mágoa com que um monge
+Veria outr'ora a Deus!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E onde ha maior castigo,
+Mais dura provação,
+Que ter por inimigo
+O homem nosso irmão,
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 11</span>
+
+<div class="poesia">
+Aquelle a quem nós démos,
+Com toda a candidez,
+Os sonhos que hoje vêmos
+Desfeitos a seus pés?!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ah! suppõe-me o desgosto,
+De eu vêr desparecer
+A cópia do meu rosto
+Aos pés d'uma mulher,
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E isto em desacato
+Do meu mais santo amor:
+E ahi tens um retrato
+Da minha immensa dôr,
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Quando vejo desfeito
+Por gente ingrata e má
+Um sonho do meu peito,
+E muitos vi eu já!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 12</span>
+
+<div class="poesia">
+Por isso eu n'esta vida,
+Apoz tanta illusão,
+E tanta flôr perdida,
+Tanta corôa no chão...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ai! sinto com o anceio,
+Que é proprio do infeliz,
+Um mal n'este meu seio
+Lançar muita raiz!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Espero vêr a morte,
+Eu proprio a invoquei,
+Levar-me d'esta sorte
+Para onde?! É que eu não sei!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Como eu não sei dizer-te,
+E isto que me consol',
+Como é que se converte
+Em vida a luz do sol!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 13</span>
+
+<div class="poesia">
+Como nasce a ventura
+Do homem que morreu,
+Dormir na sepultura
+Para acordar no céo!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Aqui tudo é mysterio!...
+Mas visto que assim é,
+Onde ha melhor criterio
+Que á luz da nossa fé?
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E eu creio firmemente
+Que o martyr de Jesus,
+Não fica só pendente
+Dos braços d'uma cruz...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Que o homem que prosegue
+A luz d'um Ideal;
+Embora a turba o pregue
+Na sua cruz fatal...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 14</span>
+
+<div class="poesia">
+O céo é bem profundo,
+O fundo nem tu vês,
+E ha n'elle muito mundo,
+Para onde irá talvez!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+A vida continúa,
+E a alma, emquanto a mim,
+Avança e não recúa
+Por esses sóes sem fim!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Do sol se um raio ardente
+No mar vier cahir,
+Em nuvem transparente
+Nós vêmol-o subir!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Não ha suster-lhe o rumo
+Que o leva para os céos,
+E assim é que eu presumo
+Voarmos nós a Deus!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 15</span>
+
+<div class="poesia">
+O ponto é merecel-o,
+Que Deus é justo e pae,
+E eu sei com que desvelo
+A si os bons attrae!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Mas quando eu vejo a lua,
+Não sei que ideia má
+N'esta alma me insinua
+A luz que n'ella ha!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Emquanto em torno d'ella,
+Ao norte, ao leste, ao sul,
+Refulge tanta estrella
+Pela amplidão do azul,
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Tu vêl-a solitaria,
+Em paz cruzando o céo,
+Como urna funeraria
+D'um mundo que morreu!.
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 16</span>
+
+<div class="poesia">
+Ali já não ha vida!...
+Ali não ha calor!...
+N'aquella luz, vertida
+Em lagrimas de dôr,
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ha só tristeza e lucto,
+E confrange-se e doe
+O coração, se escuto
+Mulher, porque isso foi!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ah, tenho medo
+Que o Supremo Juiz
+Nos julgue assim tão cedo!...
+Não sei que voz m'o diz...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Não sei... mas, se contemplo
+Os crimes que ahi vão,
+Mulher, aquelle exemplo
+Conturba o coração!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 17</span>
+
+<div class="poesia">
+E assim só n'outra parte
+Verão os olhos meus
+Os sonhos que reparte
+Commigo a mão de Deus!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+O mundo onde abre o cardo
+E o lyrio ao mesmo sol;
+Onde ama o leopardo
+A par do rouxinol;
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Que tem de andar na sombra
+Para viver na luz;
+E, o que inda mais m'assombra,
+Onde ha Nero e Jesus:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Por mais bello e risonho
+Que seja, ainda assim
+Não vale qualquer sonho,
+Que trago dentro em mim!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 18</span>
+
+<div class="poesia">
+Isto é um fraco esboço
+D'uma outra vida e crê,
+Que sinto-a, mas não posso
+Dizer-te onde ella é!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Se a Vida em nós começa,
+Por esses sóes d'além,
+Sobre a nossa cabeça.
+Trabalha-se tambem!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Mulher! mulher! quem sabe
+Se é isto o que m'attrae
+Aos céos, pois, tanto cabe
+A Deus, que é justo e pae...
+</div>
+
+<p class="data">Lisboa, 1870.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 19</span>
+
+
+<h3>V</h3>
+
+<h3>CONSCIENCIA</h3>
+
+<div class="poesia">
+Para um homem que aspira
+Ao ideal da Belleza,
+Não ha maior tristeza,
+Magua maior não ha,
+Que vêr escurecer-se-lhe
+O ceu da noite escura
+D'alguma ideia impura,
+D'alguma paixão má!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 20</span>
+
+<div class="poesia">
+Paixão que muitas vezes
+A luz da nossa Ideia
+Accende, inflama, atêa,
+E depois nos attrae
+Com tanto magnetismo,
+Com tal encantamento,
+Que o homem n'um momento
+Vacilla, cega e cae!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Cae, sim, do seio esplendido
+Do mundo onde vivia
+Na mais doce harmonia
+Em paz co'os dias seus,
+Para apagada a febre
+Do seu fugaz delirio,
+Achar-se co'o martyrio
+De te perder oh! Deus!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Sem Ti, meu pae, que assombro!
+Que noite tão completa!
+Que acerba dôr me inquieta
+Meu fragil coração!...
+Voltar a vêr a alma
+D'esperanças povoada,
+E achal'a transformada
+Em lugubre soidão!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 21</span>
+
+<div class="poesia">
+Senhor! se desabassem
+Á tua vóz as bellas
+E limpidas estrellas
+Dos ceus que não teem fim,
+Eu creio que assombrado
+Do horrendo cataclysmo,
+O Sol, d'além do abysmo,
+Seria egual a mim!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Eu lembraria a aguia,
+Que a prole ainda implume
+Deixando sobre o cume
+De monte erguido ao ceu,
+A fosse achar de subito
+Na rocha alcantilada,
+No ninho, fulminada
+D'um raio que desceu!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Egual seria o quadro
+Da minha consciencia,
+Ao ver a tua ausencia
+Fazer-se em mim, Senhor!
+Que em volta do teu astro
+Minha alma de poeta
+É pallido planeta
+Buscando o teu amor!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 22</span>
+
+<div class="poesia">
+E eu sem ti nem vivo!...
+Tu és, oh, doce esperança,
+O seio onde descança
+Meu ser e afinal
+Não sei até dizer-te
+O quanto soffreria,
+Se vira extincto um dia
+Em mim, teu Ideal!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Oh não mil vezes antes
+Em carcere ermo e escuro,
+Achar-me de futuro
+A sós c'a minha dôr;
+Extincta a luz dos olhos,
+E as bellezas do mundo,
+E o ceu azul profundo
+Com todo o seu fulgor!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Tu crê que nem demandam
+Os mundos inferiores
+Fócos de luz maiores,
+Por esse infindo azul,
+Como eu o eterno centro
+Das leis da natureza,
+Do <i>Amor</i>, e da <i>Belleza</i>,
+Que são meu norte e sul!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 23</span>
+
+<div class="poesia">
+Oh Pae! se n'algum dia,
+Eu vir, n'uma miragem,
+Alguma falsa imagem
+Do Bem prender-me aqui:
+Desvenda a tua face,
+E mostra-me o teu seio,
+Que, mesmo embora em meio
+Do abysmo, irei a ti!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Irei, tão instinctivo,
+Tão amoroso e firme,
+Eu sinto a attrair-me
+A ti o teu poder,
+Que eu vejo em ti o Norte,
+Para onde se encaminha
+A pura essencia minha,
+Que sente, pensa e quer!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Irei vencendo, indomito,
+Innumeros attrictos,
+E escolhos infinitos,
+E infindos escarceus,
+Como essa vaga enorme
+Do mar que não recua,
+Seguindo sempre a lua
+Que vê passar nos ceus!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 24</span>
+
+<div class="poesia">
+Irei bem como a Terra
+Seguindo eternamente
+O rumo do oriente
+A demandar a luz;
+Bem como Jesus Christo
+O rumo solitario
+Da senda do calvario
+Á busca d'uma cruz!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Irei cá d'este mundo
+Onde tu me cedeste
+A dadiva celeste
+Da Rasão e do Amor:
+Raios vitaes que mudam
+Em luz a nossa essencia,
+E a luz em Consciencia,
+E esta em ti, Senhor!
+</div>
+
+<p class="data">Lisboa, 1869.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 25</span>
+
+
+<h3>VI</h3>
+
+<h3>REVELLAÇÃO</h3>
+
+<h4>O LAGO</h4>
+
+<div class="poesia">
+Scismava um dia na cruel sentença
+Com que a Egreja fulmina a raça humana,
+Deixando impura a fonte d'onde emana
+O sangue que me anima, e a alma que pensa:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E ao passarem no ceu do meu destino
+As nuvens da tristeza e da saudade,
+Revellou-me o Senhor alta verdade,
+Junto ás margens d'um lago crystalino!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 26</span>
+
+<div class="poesia">
+Isto foi pelo mez do abrir das flôres,
+Quando a vida celebra os seus noivados,
+E o mundo, sob os verdes cortinados,
+Parece um doce thalamo d'amores!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Estava um dia esplendido! a animal-o
+Eu via o seio azul do ceu mais lindo
+Curvar-se sobre mim, ethereo, infindo
+E tepido: era um gosto enamoral-o!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Como fecho da abobada infinita,
+O Sol nos ceus, riquissimo objecto,
+Com barras d'ouro irradiava o tecto
+Do vasto pavilhão que o mundo habita!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Côres variadas, fórmas differentes,
+N'um conjuncto de graças sem egual,
+Debuxavam-se ali ao natural
+Sobre o crystal das ondas transparentes!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 27</span>
+
+<div class="poesia">
+Alvas manchas d'insectos pequeninos,
+Envolvendo-se em giros caprichosos,
+Como tríbus de povos venturosos,
+Fruiam junto ao lago os seus destinos!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Pelas balsas cantava a toutinegra,
+E as rolas modulavam doces côros,
+No ar passavam fremitos sonoros
+Co'as vibrações da Luz que o mundo alegra!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+No lago, a planta, a flôr, o ceu, a terra,
+Como notas d'uma unica harmonia,
+Revellaram-me á plena luz do dia,
+Enlevos que o prazer da vida encerra!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E eu via tudo, e extatico scismava:
+Se por ventura a colera divina,
+Segundo a Egreja ao mundo inteiro o ensina,
+Do gremio dos felizes me affastava!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 28</span>
+
+<div class="poesia">
+E não podendo crer, embora obscuro
+Vêr-me qual sou, que esta alma de poeta,
+De tanto sonho explendido replecta,
+Atollada estivesse em lôdo impuro...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ai! quando a Deus pergunto se prendeu
+N'um pó que é vil o espirito divino,
+Olho o espelho do lago crystalino
+E não encontro o lago: encontro o ceu!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+O mesmo que era em cima azul, immenso,
+E a lampada brilhante que o alumia,
+Lá no fundo do abysmo aos pés os via,
+De sorte que em dois ceus era suspenso!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E quanto se ostentava em torno ao lago,
+Os muros de verdura, a flôr mimosa,
+O deslisar da nuvem vaporosa,
+E a voltear do insecto incerto e vago:
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 29</span>
+
+<div class="poesia">
+Outro tanto animava, ao longe, e ao perto,
+Aquella região d'azul vestida,
+Onde a minha alma, em extasi embebida,
+Contemplava na Terra um ceu aberto!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E emquanto extasiado a sós fitava,
+Nas bellezas do lago transparente,
+Aqui uma flôr, além, para o poente,
+A nuvemsinha branca que passava,...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Eis senão quando, uma ave, porque visse
+Insectos junto da agua socegada,
+Desceu subtil, aerea e delicada,
+E ao perpassar roçou-lhe a superficie,...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+O ponto ferido, em ondas borbulhando,
+Desabrochou em curvas graciosas,
+Como as folhas concentricas das rosas,
+Ou lusidias cobras imitando!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 30</span>
+
+<div class="poesia">
+E emquanto o impulso em torno se propaga
+Em circulos risonhos: n'um momento,
+Toda a cupula azul do firmamento
+Oscilla, treme e cae, e o Sol se apaga,
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E a arvore, e a flôr, e quanto junto á margem,
+Em doce paz, seu rosto reflectia
+No crystalino espelho, por magia
+Da lei do amor, a doce lei da imagem!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Fere-me então bem intima tristeza,
+Ao vêr aos pés, em sordido tumulto,
+Um lymbo verde e escuro onde occulto
+Estava um ceu tão rico de belleza!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Lembrei-me então da minha vida insana,
+De quanto sonho lindo anda desfeito
+Nos intimos arcanos do meu peito,
+Co'o tropel das paixões da vida humana!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 31</span>
+
+<div class="poesia">
+E as lagrimas cahiram-me uma a uma
+Sobre esses bens que a Terra e os ceus inspiram,
+E ao contacto das coisas se extinguiram
+Como aereos balões feitos d'espuma!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+N'isto o Senhor, que tudo vê e ampara,
+Converte-me de novo o charco immundo
+N'um ceu azul infindo, e n'elle um mundo
+Formoso como os bens que imaginara!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Scismei então por longo espaço e digo,
+Que aos olhos meus por Deus fôra patente:
+Que a alma humana póde, ingenua e crente,
+<i>Vivendo em paz, um ceu trazer comsigo!</i>
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ah muito embora a dôr seu peito opprima,
+O espirito, que abrange o mundo inteiro,
+Póde vêr, quanto justo e verdadeiro,
+Nos seios d'alma os ceus que estão por cima!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 32</span>
+
+<div class="poesia">
+Maxima grande, maxima tamanha,
+Tão repassada d'intima poesia,
+Porventura d'egual sabedoria
+Á predica de Christo na montanha,
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ah! sê, por entre as sombras da desdita,
+A ponte aerea, o arco d'alliança,
+Que, em vez da excommunhão que a Egreja lança,
+A Deus eleva a Humanidade afflicta!
+</div>
+
+<p class="data">Coimbra<br />
+
+Quinta de Santa Cruz<br />
+
+1871.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 33</span>
+
+
+<h3>VII</h3>
+
+<h3>MISSA PONTIFICAL</h3>
+
+<h4>UM EVANGELHO</h4>
+
+<div class="poesia">
+Sahi uma manhã mal vinha o sol rompendo,
+E fui-me religioso a ouvir a missa ao campo,
+Á vasta cathedral do mundo, aonde aprendo
+Da Vida as sacras leis, que em letras d'ouro estampo.
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Sentei-me sob um bosque estenso e solitario,
+Que, em paz e sombra involto, á quietação me envida;
+O accaso conduzira-me a um vasto santuario,
+Onde ia celebrar-se a communhão da Vida!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 34</span>
+
+<div class="poesia">
+Debaixo do docel da mûrmura floresta,
+Se um culto universal é justo a Deus se vote:
+Estava o templo augusto armado todo em festa,
+Faltando unicamente agora o sacerdote!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+O mundo em derredor aguardo-o co'anciedade...
+E eil'o que chega, emfim, das bandas do oriente,
+Surgindo como um Deus no azul da immensidade,
+N'um carro triumphal, de raios resplendente!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ao vel'o perpassou nas arvores sagradas
+Um sopro mysterioso, o espirito do vento,
+Que deixa-nos ouvir, em musicas toadas,
+Psalmos que vão morrer no azul do firmamento!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Nos multiplos florões das trémulas janellas,
+Nos ramos mais subtis que a luz dos ceus colora,
+Com magico fulgor scintillam, como estrellas,
+Os limpidos crystaes das lagrimas d'aurora!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Nas naves, que sustêm a abbobada elevada,
+Penetra triumphante a luz, suprema artifice!
+Interprete de Deus, celebra a sua entrada
+Com pompas, do Universo o maximo pontifice!
+
+Assim que o sol sahio das brumas do horisonte,
+Um deluvio de luz encheu o vale e o monte!<span class='pagenum'>Pág. 35</span>
+
+A pedra, o musgo, o insecto, a flôr, os arvoredos,
+Trocaram entre si mil intimos segredos!...
+
+Os passaros gentis, aladas creaturas,
+Soltaram festivaes Hossana nas alturas!...
+
+O sol triumphador, do mundo a vida accorda,
+E esplendido festeja o eterno <i>sursum corda</i>!...
+
+Estava em plena festa a Terra, mãe querida!...
+E eu, em face d'ella, a contemplar-lhe a Vida!...
+
+Então a Luz, qual flôr, subtil e sorridente,
+Me disse a mim que sou seu terno confidente:
+
+Poeta! vês o mundo alegre e harmonioso;...
+Em intimo convivio unido o sol á terra,
+E a terra e o sol aos céus!... No enlace auspicioso,
+Permutam entre si os bens que a Vida encerra!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+A vida é sim um Bem; por isso é dada a todos!...
+A todos por egual, a infindas creaturas,...
+Que, em multiplo labor, e por differentes modos,
+Procuram-no attingir na terra, e nas alturas!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Áquelle que transpõe as portas da existencia
+Um vinculo d'amor protege-o logo, e fica
+Ao mundo inteiro preso, em mutua dependencia,
+Ah desde a larva obscura ao sol que a vivifica!..
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 36</span>
+
+<div class="poesia">
+Qualquer que seja o nome, ou chama-lhe Verdade,
+Belleza, Amor, Justiça: é tudo a mesma cousa!...
+É quem fecunda e rege os soes na immensidade;
+Quem dá ao universo a paz em que repousa!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Por isto o mundo inteiro é todo uma harmonia!...
+E sente a reanimal'o uma alma alegre e sã!
+E vens de longe aqui, sedento de poesia,
+A namorar-me a mim, que sou a tua irmã!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Do Sol baixei aqui a ler-te os evangelhos
+Eternos de Verdade, e a missa vae findar!
+Meu crente e meu poeta! é a hora: de joelhos,
+Em nome do Senhor, te quero abençoar!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Á sua voz curvando a fronte: em fé immerso,
+Senti entrar-me n'alma a alma do universo!...
+
+Irmã, gemea de minha, a luminosa flôr,
+Encerra-se afinal n'esta palavra==Amor==!
+</div>
+
+<p class="data">Quinta da Beselga<br />
+
+1885.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 37</span>
+
+
+<h3>VIII</h3>
+
+<h3>AVÉ CREATOR!</h3>
+
+<div class="poesia">
+Desprende pelo espaço as azas d'ouro,
+Águia de Deus, no mundo extraviada!...
+Pela patria celeste, a tua amada,
+ Vae em busca de Deus,
+Cantando um hymno em honra do seu nome,
+Que meu querer e instincto insaciavel
+Te guiarão, qual bussola admiravel,
+ Pelos infindos ceus!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 38</span>
+
+<div class="poesia">
+Senhor! venho invocar teu nome augusto,
+Em face d'estes vastos horisontes!...
+Que em torno a mim o rio, a arvore, os montes,
+ Fallando-me de Ti,
+Lançam-me n'alma um teu olhar divino,
+E, com elle, um occeano de luz pura,
+Que me trasborda em ondas de ventura
+ O que eu t'offereço aqui!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Não sob o tecto do sombrio templo,
+Que a fé christã do povo erguera outr'ora
+Como um tumulo, onde o homem commemora
+ A tua morte, oh Pae!...
+Mas sob o tecto azul do Templo Eterno,
+Perante o sol que passa dando a vida
+Em teu nome, que esta oração sentida
+ Buscar teu throno vae!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Pois é--me triste a mim que as cousas brutas,
+Ellas, sem alma, em gratidão me vençam:
+E a Terra, emquanto o Sol lhe envia a bençam
+ Da sua eterna luz,
+Converte-a em flôres, canticos e fructos,
+E, n'um concerto alegre e harmonioso,
+Tributa ao Sol um culto tão piedoso,
+ Que o peito meu seduz!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 39</span>
+
+<div class="poesia">
+Tu vel'a, quando o Sol lhe affasta os raios
+Do seu formoso olhar durante o inverno,
+A amante debulhar-se em pranto eterno,
+ Das gallas se despir;
+Em valle e monte as folhas, com tristeza,
+Dos troncos com os ventos desprendendo-se,
+E o mar, co'os ceus em lucta contorcendo-se,
+ Raivoso aos ceus bramir!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Mas quando o Sol de novo a aquece e anima:
+Oh que effluvios d'amôr então contemplo!...
+Traz o amante a alleluia ao escuro templo,
+ E as trevas dão fulgôr;
+Espalma a folha o ramo resequido,
+E, ao som do mar que canta de mansinho,
+Da terra brota a flôr, da haste o ninho,
+ Do ninho surge o amor!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Seja assim o meu peito! Que a minha alma,
+Buscando o foco eterno e resplendente
+Do Sol dos soes, o Ser Omnipotente:
+ Me eleve o coração
+A trasbordar torrentes de harmonias,
+Que entoem pela voz das creaturas:
+Santo! Santo! tres vezes nas alturas,
+ Ao Deus da creacão!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 40</span>
+
+<div class="poesia">
+Pois eu que sou o espirito das cousas,
+O verbo inspirador, a alma, a vida;
+Sinto em meu peito a gratidão devida
+ Á tua mão que attrae
+Em giro eterno os mundos do Universo;
+E eu vendo orar ao Sol a flôr n'o matto,
+Não hei de só ficar injusto e ingrato
+ Para comtigo, oh Pae!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Seja pois o meu canto a voz do interprete,
+Que moldando nas formas da palavra
+A vida universal que em tudo lavra
+ Co'o sopro animador:
+Eu possa vêr a Terra envolta em canticos,
+Sobre as azas de luz da alma humana,
+Remontar-se ás origens d'onde emana,
+ As tuas mãos, Senhor!
+</div>
+
+<p class="data">Quinta da Beselga<br />
+
+1871.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 41</span>
+
+
+<h3>IX</h3>
+
+<h3>SURSUM CORDA!</h3>
+
+<div class="poesia">
+Oh Sol, alma do mundo! esplendido portento
+D'um mar feito da luz! vulcão, cuja fornalha,
+Por entre um fogo eterno, expande o movimento
+Da machina febril do mundo que trabalha!
+
+E tu, Astro do amor, que, em noite silenciosa,
+Qual perola engastada em fulgidos brilhantes,
+Derramas tua luz serena e voluptuosa
+Nos seios virginaes das timidas amantes:
+
+ C'o os vossos esplendores,
+ Pela amplidão dos ceus,
+ Cantae altos louvores
+ Ao espirito de Deus!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 42</span>
+
+<div class="poesia">
+E tu, mar rugidor! austero cenobita,
+Que em vastas solidões gemendo os teus pesares,
+Levantas o teu canto á abbobada infinita,
+Juntando a vóz piedosa aos céllicos cantares!
+
+E vós, filhas do ermo, alegres, crystalinas
+Fontes que derivaes das fendas dos rochedos,
+Ás flôres murmurando, em musicas divinas,
+De amor e de ventura uns intimos segredos:
+
+ Mudae as harmonias
+ Da vossa eterna vóz
+ Em ternas homilias
+ Ao pae de todos nós!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Arvores que fluctuaes nos cimos das montanhas,
+Altivas demandando o azul do firmamento;
+Que encheis as solidões de musicas estranhas,
+Se passa sobre vós o espirito do vento!
+
+Lyrios, que abrindo o seio ao osculo amoroso
+Da luz que envia o sol da abbobada azulada,
+Mandaes-lhe o vosso olor no ether luminoso,
+Como o habito subtil d'uma alma enamorada:
+
+ A musica e o perfume
+ Que desprendeis, votae
+ A quem em si resume
+ O mundo inteiro e é Pae!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 43</span>
+
+<div class="poesia">
+Oh rabidos leões! lá quando em vossas festas,
+Altivos como os reis, indomitos senhores,
+Debaixo do docel das mûrmuras florestas,
+Rugis como um trovão os fervidos amores!
+
+E vós, corças gentis e timidos cordeiros,
+Que em vossos corações e almas bem formadas,
+Ao sangue preferis a lympha dos ribeiros,
+E á carne em podridão as hervas perfumadas:
+
+ Louvae a quem fizera,
+ Co'o mesmo engenho e amor,
+ As fauces d'uma fera,
+ E o calice d'uma flôr!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Arvores, flôres, mar, e estrellas, e animaes,
+E todos vós que entraes no giro da existência;
+Que haveis nas regiões das cousas immortaes,
+Por synthese suprema, a <i>luz da consciencia</i>:
+
+Unindo-vos a mim, como eu á Humanidade,
+Louvemos todos nós n'uma oração sentida,
+Em côro festival que attinja a immensidade,
+O eterno Sol dos Soes, o sabio Author da Vida!
+
+ Cantemos, creaturas!
+ Pela amplidão dos ceus,
+ Hossana nas alturas
+ Ao espirito de Deus!
+</div>
+
+<p class="data">Carvalhaes, 1886.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 44</span>
+
+
+<h3>X</h3>
+
+<h3>AOS CATHOLICOS</h3>
+
+<div class="poesia">
+Todos vós que sois sinceros crentes,
+Que oraes a Deus no intimo do peito,
+ Oh mysticos christãos;
+Embora tenha crenças differentes
+D'aquellas que seguis, eu vos respeito,
+ E julgo como irmãos!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Eu amo a Deus; depois a Humanidade;
+Depois os bons, e d'estes o primeiro,
+ É Christo, o Redemptor!
+Não sendo egual em tudo á Divindade,
+É, como justo e homem verdadeiro,
+ Meu mestre e meu mentor!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 45</span>
+
+<div class="poesia">
+Embora por fanatico me tomem
+Impios e atheus, se os ha, eu lhes confesso,
+ Que o Martyr da Paixão
+Parece-me tão grande como homem,
+Que até sinto vertigens quando messo
+ Seu terno coração!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Oh meu Jesus! nas luctas pela vida,
+Por onde tanto naufrago fallece
+ No meio da viagem:
+Minha alma soffredora e dolorida,
+Cahiria tambem se não tivesse
+ A tua doce imagem!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Eu que creio que o facho da sciencia
+Nos ha de revellar, ao fim de tudo,
+ Que em nós se concilia
+Rasão e Fé, Justiça e Consciencia:
+Ah quero-te Jesus! por meu escudo,
+ Por meu amparo e guia!
+</div>
+
+<p class="data">Na Sé de Lisboa<br />
+
+na quarta feira de trevas<br />
+
+1888.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 46</span>
+
+
+<h3>XI</h3>
+
+<h3>FÉ E RASÃO</h3>
+
+<h4>A CRUZ E O PÁRA RAIOS</h4>
+
+<div class="poesia">
+Da velha cathedral, esbella e rendilhada,
+Votada a ser mansão do Deus, author do mundo,
+Na flecha a mais gentil, campeia abençoada
+A cruz do Redemptor, da Gallilêa o oriundo!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Nos impetos da fé, cortantes como a espada,
+O ungido do Senhor, d'olhar cavo e iracundo,
+Aponta á multidão, humilde e ajoelhada,
+Por seu supremo amparo a cruz, no azul profundo!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 47</span>
+
+<div class="poesia">
+Em nome d'ella exalça a fé porque a aviventa,
+E diz mal da rasão que tenta, em vãos ensaios,
+Dos ceus arrebatar a luz, de que é sedenta!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Mas do alto onde ella está, que causa até desmaios,
+Temendo que a derrube o fogo da tormenta:
+Em nome da Rasão lhe pôe um pára raios!...
+</div>
+
+<p class="data">Outubro de 1888.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 48</span>
+
+
+<h3>XII</h3>
+
+<h3>AMOR E PROVIDENCIA</h3>
+
+<div class="poesia">
+Em quanto eu, alta noite, velo e lido,
+Por vós mantendo innumeros cuidados,
+Dormis, caros filhinhos, socegados
+Em torno a mim o sonho appetecido!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Dormis?! sonhaes de certo... e eu pae envido
+Meus esforços por vêr realisados
+Vossos sonhos gentis e perfumados:
+Ampara-vos um peito estremecido.
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 49</span>
+
+<div class="poesia">
+Outro Alguem faz por nós o que eu vos faço:
+Com suprema bondade e sapiencia,
+Rege os mundos que rolam pelo espaço!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Esse Alguem é o Amor por excellencia,
+O formidavel e invisivel braço,
+E o olhar que nunca dorme==<i>a Providencia</i>==!
+</div>
+
+<p class="data">Lisboa, 1885.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 50</span>
+
+
+<h3>XIII</h3>
+
+<h3>Á GUERRA!</h3>
+
+<h4>O QUE EU SINTO...</h4>
+
+<div class="poesia">
+Se vejo com pavor as luctas carniceiras
+Que empenham as nações, chamadas as primeiras,
+ Nos campos da batalha,
+Ah! quando a sós comigo e o Eterno me concentro,
+Ouço não sei que voz a mim bradar cá dentro:
+ ==É Deus que ali trabalha==!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Por mais que ousado vôo aos ceus a aguia eleve,
+Nos ceus ha um limite além do qual em breve
+ Fallece a aza e taes
+Como as aguias os reis!... Subiram, mas solemne.
+O dia ha de chegar em que Deus os condemne
+ E brade-lhes==Não mais==!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 51</span>
+
+<div class="poesia">
+No chão não ha raiz que diga á Terra==estanca
+A seiva que me dás==! Nem aguia ou pomba branca
+ Que engeite o vôo alado!...
+Não ha um lavrador que entaipe em cal e pedra
+A fonte de chrystal, de cujas aguas medra
+ A arvore, a flor, o prado!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E onde ha no mundo um povo a outro povo extranho?!...
+Ou odio figadal, intrinseco, tamanho
+ Que a todos nos divida?!
+Se a Terra, o mar profundo e o proprio sol são pouco
+Por darem vida a um lyrio: haverá hoje um louco
+ D'um Cezar que decida,
+</div>
+
+<div class="poesia">
+D'encontro ás sabias leis por Deus dadas ao mundo,
+Que um homem, cujo peito infinito e profundo
+ Abrange a Terra e os Ceus,
+Guerreie o proprio irmão que é d'elle a propria essencia,
+A luz, o ar, a vida, a força, a providencia,
+ Que deste-lhe, meu Deus?!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Oh não!... Tu mandarás o dia em que a Justiça
+Obrigue-os a expiar com fronte submissa
+ Dos crimes o estendal
+Que encheu de sangue e horror as paginas da Historia,
+Servindo de lição, ficando por memoria,
+ Em prol do teu Ideal!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 52</span>
+
+<div class="poesia">
+E o mundo hade voltar á fonte d'onde veio,
+E ser todo elle amor, justiça e paz!... Já leio
+ Signaes <i>de nova Luz</i>!...
+As crenças do Passado estando já em terra,
+Vem prestes a surgir a nova Lei que encerra
+ Os sonhos de Jesus!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E eu beijo e adoro a mão que impelle e rege o mundo,
+Que deu a flor ao campo; os sóes ao firmamento,
+ E o espirito divino
+Aos nossos corações! Que a toda a creatura,
+Á flor que desabrocha, ao astro que fulgura,
+ A todos deu destino!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Por isso eu n'este mar, sobre este chão d'abrolhos,
+Por onde cae amaro o pranto dos meus olhos,
+ De fito no Senhor,
+De fito no Ideal, minha alma não se inquieta:
+Confia e sobe a Deus, é como a borboleta
+ Que vae poisar na flor!
+</div>
+
+<p class="data">Bussaco, 1870.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 53</span>
+
+
+<h3>XIV</h3>
+
+<h3>Á PAZ DOS POVOS</h3>
+
+<h4>HOMO, EX HOMINIS LUPO, HOMINIS COOPERATOR</h4>
+
+<div class="poesia">
+De lobo te foi dado outrora o nome,
+Lobo que a propria especie devastava
+Cruento e fero, qual não viras nunca
+Leões, pantheras, tigres ou chacaes!...
+
+ E a fera, quando a fome
+ A incita, é quando crava
+ O dente e a garra adunca
+ Nos miseros mortaes.
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 54</span>
+
+<div class="poesia">
+Da massa do teu cerebro colhendo
+A luz consciente e pura das ideas,
+Concebes mil engenhos homicidas,
+Inventos d'infernal destruição!
+
+ Com elles, monstro horrendo!
+ Ha seculos semeias,
+ Em guerras fratercidas,
+ A morte e a assolação!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Mas como as forças cosmicas da Terra
+Cessaram suas luctas de gigantes,
+Trazendo á luz do Sol, d'amôr sedenta,
+Dois mundos revestidos d'esplendores,
+
+ O mineral que encerra
+ Os fulgidos brilhantes;
+ E o vegetal que ostenta
+ O olhar gentil das flores:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Assim as mil paixões que a tanto custo
+Contem teu peito e o rubro sangue agita,
+Por ultimo hão de ter a vida calma
+Que impõe por norma a tudo a Providencia;
+
+ E o Bello, o Bom e o Justo,
+ Na sua acção bemdicta,
+ Levar-te aos seios d'alma
+ A paz da consciencia!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 55</span>
+
+<div class="poesia">
+Do sol os raios que dão vida ao globo;
+Da vida a força multipla que actua
+Em prol de cada qual, para que tomem
+Quinhão no Bem, que é dado como a luz:
+
+ Reclamam nos que o Lobo,
+ Da historia se destrua,
+ E dê lugar ao homem
+ Sonhado por Jesus!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Se o cahos do teu peito foi sequencia
+Do cahos primitivo da natura:
+Terá tambem destino egual ao d'este;
+Dará um quarto mundo, o da Verdade!...
+
+ O da alma, cuja essencia
+ Incorruptivel, pura,
+ Procria a luz celeste
+ Do Bem, na Humanidade!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ver-te-has então qual Semideus Consciente!
+O sangue que pecorre em tuas veias,
+Origem dando a fulgidas doutrinas,
+Ás nitidas noções das coisas bellas:
+
+ Tua alma um resplendente
+ Santuario, onde as ideias
+ Serão luzes divinas,
+ Mais puras que as estrellas!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 56</span>
+
+<div class="poesia">
+Antithese da Vida do Passado,
+Compete-te integrar na Terra os Povos;
+E, chave do vastissimo problema
+Da Vida humana: honrando o Redemptor,
+
+ Nos ceus tem Deus traçado
+ Aos teus destinos novos,
+ Por synthese suprema,
+ A Paz, o Bem, o Amor!
+</div>
+
+<p class="data">25 d'abril de 1898.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 57</span>
+
+
+<h3>XV</h3>
+
+<h3>AO HOMEM</h3>
+
+<div class="poesia">
+Segundo as tradicções que vão sumir-se
+Na noite secular das priscas eras:
+Rugiram contra ti, Homem, as feras,
+ E as coleras do mar;
+Dos ceus revoltos os trovões e os raios;
+Qual reprobo vivias no universo
+Inerme, nu e só, na sombra immerso,
+ Sem Deus, sem luz, sem lar!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 58</span>
+
+<div class="poesia">
+Apoz infindos seculos de lucta
+Co'as forças implacaveis da materia,
+Soffrendo, em toda a escala da miseria,
+ O frio, a fome, a dôr:
+Venceste, e oppões ás lugubres cavernas,
+Á escura habitação dos trogloditas,
+Os fulgidos palacios onde habitas,
+ Conscio do teu valor!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Imperios contra ti ergueram despotas,
+Quaes moles collossaes architectadas,
+Assentes no prestigio das espadas,
+ Nas mãos d'um Pharaó,
+D'um habil Julio Cesar; mas as moles,
+Minadas pela acção do povo obscuro,
+Cahiram como cae um fragil muro
+ No chão desfeito em pó!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+No intuito de livrar teu grande espirito
+Dos vinculos do mal e enobrecel-o,
+Tomas-te a Jesus Christo por modelo
+ Das tuas concepções;
+D'accordo a espada e a cruz, a lei e o dogma,
+De ti fizeram novamente escravo,
+Mas tu, inda outra vez, altivo e bravo,
+ Partiste os teus grilhões!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 59</span>
+
+<div class="poesia">
+Por ultimo lançando mão das forças
+Da Terra tua mãe, das leis da Historia:
+Apenas em tres seculos de gloria,
+ Com mil prodigios teus,
+Mudas-te totalmente a face ao mundo,
+E propões-te a fazer o mesmo á alma,
+Porque esta, resplendente, justa e calma,
+ Triumphe á luz dos céus!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Forjou a mão de Deus no sol teus raios!...
+D'ahi todo o esplendor, todo o prestigio
+Do teu almo poder! o grão prodigio
+ Das tuas concepções,
+Que em marmore e crystal, em prata e ouro,
+E em tellas formossissimas, transmittes
+De mão em mão, sem conta, e sem limites,
+ Ás novas gerações!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Na terra, erma de Luz, Homem surgiste,
+Trazendo no teu rubro sangue a Ideia,
+A luz que doma o fogo, o apaga, o atêa,
+ E o faz descer do céu
+Humilde como um cão!... Poder terrivel,
+Que Jupiter temeu, quando, iracundo,
+Mandou prender, por dar exemplo ao mundo,
+ Na rocha a Prometteu!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 60</span>
+
+<div class="poesia">
+D'ahi a mola occulta, a força ingenita,
+A causa porque tu, no ardor da guerra,
+Revolves sem cessar o céu, a terra,
+ A alma e o coração,
+E fazes e desfazes, sem descanço,
+Systemas, religiões, philosophias;
+Depões a Deuses, reis e tiranias,
+ Em nome da Rasão!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Por veres quem tu és e quanto vales:
+Das proprias obras faze o claro espelho,
+E escreve em face dellas o evangelho
+ Da nova religião,
+O authentico, o real, o verdadeiro;
+Que em vez do degradado filho d'Eva,
+Com ligitimo orgulho a Deus eleva
+ Tua alma e coração!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Senhor das energias infinitas
+Do mundo, com que Deus teu pae reforça
+Teu multiplo poder: expulsa a força
+ Que os despotas produz;
+Levanta novamente altar e templos
+Ao Bello, ao Justo, ao Bem, á Sapiencia,
+Afim de que na Terra a Consciencia
+ Impere em plena luz!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 61</span>
+
+<div class="poesia">
+Em vez de Força, Amôr rege hoje o mundo!...
+E Amôr, se toma as normas da Justiça,
+Fará com que, empenhando-te na liça
+ D'um ideal melhor:
+Floresçam sobre a Terra, em prol de todos,
+Honrando a Deus, servindo a Humanidade,
+Os sonhos de pureza e de bondade
+ De Christo, o Redemptor!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Terás no espaço os soes por companheiros,
+Comtigo permuttando noite e dia,
+Na sua eterna e placida harmonia,
+ Os mil problemas seus!...
+D'accordo Deus e a alma, o ceu e a terra:
+Verás com resplendor a tua Ideia,
+Chamando-a á vida, em tudo onde campeã
+ O espirito de Deus!
+</div>
+
+<p class="data">1892.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 62</span>
+
+
+<h3>XVI</h3>
+
+<h3>Á MULHER</h3>
+
+<div class="poesia">
+Senhor da Força, nós, o heroe lendario,
+Da Terra o domador, o sabio, o forte,
+Dir-se-ia que jurámos ante a morte
+ Guerra d'irmão a irmão!...
+Mais féros do que os tigres, destruimo-nos
+A ferro, a fogo, a polvora, a metralha,
+Deixando, pelos campos de batalha,
+ O sangue, a assolação!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 63</span>
+
+<div class="poesia">
+Mudou agora o Eterno ao mundo a rota
+Que ha seculos trazia,... e novos astros
+Despontam no horisonte, e em nossos mastros
+ Mais rutilos tropheus!...
+Em vez da guerra truculenta e impia,
+Impõe-nos por principio a Paz dos Povos,
+Que impavidos demandam mundos novos,
+ Nova luz, novo Deus!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Fechado para sempre o ferreo cyclo
+Da guerra universal, obscuro berço
+Do velho mundo barbaro, inda immerso
+ Nas lendas dos heroes:
+Compete a Ti, Mulher, filha dilecta
+De Deus, c'roar na Terra a grande obra,
+Que em fulgido progresso se desdobra,
+ Á clara luz dos soes!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Missão mais nobre á vida humana é dado:
+Juntar e repartir de muitos modos,
+Por cada um de nós, e em prol de todos,
+ Do Bem a eterna luz,
+Fazendo com que caiam na nossa alma,
+Qual chuva em messe loira e movediça,
+N'uma missão d'amor e de Justiça,
+ Os sonhos de Jesus!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 64</span>
+
+<div class="poesia">
+Em vez da Força, Amor rege hoje o mundo!
+E amor, tomando as gallas da Belleza,
+As normas de Justiça, a mãe, a deusa
+ Das novas gerações:
+Ao teu celeste influxo, posto á sombra
+Da mãe de todos nós, a <i>Humanidade</i>,
+A paz será na Terra, e na Verdade
+ Os nossos corações!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Belleza e Amor, unindo-se, fizeram
+Do teu mimoso ser um relicario,
+Onde a mão do divino estatuario
+ Os sonhos seus guardou!...
+D'encantos mil, conjuncto incomparavel!
+A Deus já mereceste tal conceito,
+Que só do amor divino do teu peito,
+ A vida confiou!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Teu lindo rosto, espelho da sua alma,
+Transporta-me a ideaes de tal apreço,
+Que em frente d'elle extatico estremeço,
+ E ponho-me a scismar:
+Se entre as ondas de graça e de belleza,
+Que lançam sobre mim seus olhos ternos,
+Está ou não occulto a bemdizer-nos
+ De Deus o proprio olhar!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 65</span>
+
+<div class="poesia">
+Tem jus as niveas formas do teu corpo
+Ao flácido velludo, á fina seda,
+Primor da industria humana que arremeda
+ As petalas da flôr!
+Rainha! traja mantos d'ouro e purpura,
+A doce perl'a, o fulgido brilhante,
+E tudo quanto esplendido levante
+ Na Terra o teu amor!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Amor se symbolisa n'um menino,
+Dos ceus gentil e alado mensageiro,
+Trazendo atraz de si, como um cordeiro,
+ Pacifico leão!
+O magico poder que a fera doma,
+A força de que se arma esse innocente
+És tu mulher, e a fera obediente
+ O nosso coração!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Conscia de Ti, das leis da vida, impera!
+E aos pés verás as almas subjugadas!
+Tem mais poder que o fio das espadas,
+ Um riso e olhar dos teus!
+Que o teu propicio amor, dos ceus oriundo,
+Nos doure a vida, a ampare, a dulcifique,
+Nos faça com que a alma humana fique
+ Mais proxima de Deus!
+</div>
+
+<p class="data">1892.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 66</span>
+
+
+<h3>XVII</h3>
+
+<h3>AOS FILHOS</h3>
+
+<div class="poesia">
+Trazidos pelo Amor, que por instantes,
+ O veu ergue á Verdade,
+Por nós á luz vieram, quaes prestantes
+ Peões da Humanidade!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Amor é quem dos ceus nos abre a porta,
+ Nos deixa vêr o intuito
+De Deus na Terra, e a elle nos transporta
+ Da amante o olhar fortuito!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 67</span>
+
+<div class="poesia">
+Em nós n'um sonho lindo tendo origem,
+ Se o sonho a Deus encerra,
+As sabias leis da historia humana exigem,
+ Que o sonho desça á Terra!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Dos paes vingasse o amor, que este o faria
+ Entrar na realidade,
+Expondo a divinal sabedoria
+ Em plena claridade!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Com legitimo orgulho o sol dar-lhe-ia
+ Seus raios sempre novos;
+E a Terra os bens innumeros que cria
+ Em paz, a bem dos Povos!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Em vez de irmãos maleficos eivados
+ De odios que o sangue atiça,
+Os bons e os maus ver-se-iam congraçados
+ Em nome de Justiça!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 68</span>
+
+<div class="poesia">
+Em frente das pacificas moradas,
+ Jasmins, lyrios e rosas!...
+E as ruas que pisamos marchetadas
+ De pedras preciosas!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Tal o sonho que passa pela mente
+ D'um pae creando os filhos,
+E n'essa fé remove deligente
+ Milhares d'empecilhos!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Mas fal'o em vão, que o mundo, sob um pacto
+ Cruel co'o odio eterno,
+Lhe põe em derredor, injusto e ingrato,
+ Em vez do ceu, o inferno!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ás vezes chega a ter-se horror ao homem,
+ Ás suas impias luctas,
+Ao termos de entregar o peito joven
+ D'um filho ás feras brutas!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 69</span>
+
+<div class="poesia">
+Antithese do Bem em que inda espera,
+ Pergunta dolorido
+Um pae a Deus: se accaso lhe valera
+ Seu filho ter nascido!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Emfim é lei, e a lei, ideal supremo
+ Bemdicto e sublimado,
+Fará com que passemos d'este extremo
+ Do mal, ao Bem sonhado!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+De Deus a Idéa amplissima, infinita,
+ Qual filha ao lar paterno,
+Em torno a Deus explendida gravita,
+ No seu percurso eterno!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E tal como do cahos pavoroso,
+ Que a custo eu mal devasso,
+Surgio mais tarde o mundo esplendoroso,
+ Que rola pelo espaço!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 70</span>
+
+<div class="poesia">
+E á eterna luz dos soes no firmamento,
+ Celeste peregrino,
+Caminha sem cessar no seguimento
+ D'um Ideal Divino:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Assim o coração febril se arrasta,
+ Na sua lucta immensa,
+Atraz do Bem Supremo, e tanto basta
+ Por base á minha crença!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Buscando o summo Ideal por entre antitheses,
+ Fazendo e desmanchando:
+O espirito concebe as largas syntheses
+ De Deus, de quando em quando!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ao fim de cada qual resurge a Vida,
+ E muda os moldes velhos
+Por outros que se ajustam á medida
+ Dos novos evangelhos!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 71</span>
+
+<div class="poesia">
+Sobre isto a historia offerece-nos exemplos!...
+ Os criticos deparam
+Co'os netos desmachando um dia os templos,
+ Que seus avós sagraram!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+D'ahi os odios vãos de fanatismo;
+ Os multiplos revezes,
+Que assolam as nações co'o cataclysmo
+ Das crenças muitas vezes!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Quem do alto vé, no entanto, a historia humana,
+ Contempla sorridente
+A marcha dos destinos porque emana
+ D'um Pae ommisciente!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Passem nos ceus, com rapidez tamanha,
+ Os astros diamantinos;
+Que a terra os segue; a terra os acompanha
+ Eguaes são seus destinos!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 72</span>
+
+<div class="poesia">
+Aquillo que ha de vir e que deriva
+ D'aquillo que hoje somos,
+Que em si contém do Eterno a parte viva,
+ Nos filhos o depomos!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Os filhos são da arvore da vida
+ A flôr dos novos fructos,
+A quem de Deus a essencia é transmittida,
+ Com os seus mil attributos!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E os paes então o fructo assasonado,
+ Já proximo da queda;
+Com elles cae a parte do Passado
+ Que é morta, e Deus arreda!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E quem nas leis divinas confiando,
+ Á fulgida seara
+Do bem se consagrou, não morre quando
+ Dos vivos se separa!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 73</span>
+
+<div class="poesia">
+Contente desce em paz á sepultura,
+ Na crença de que os filhos
+Verão mais tarde em plena formosura
+ Dos sonhos seus os brilhos!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Na marcha ascencional da humana historia,
+ Que a mão de Deus conduz,
+O filho entrou na Luz que é transitoria,
+ O pae na eterna Luz!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Á farta os vermes seu cadaver róam
+ Na campa onde se esvae!
+Sua alma triumphante e os soes entoam
+ Hossana a Deus que é Pae!
+</div>
+
+<p class="data">Abril de 1898.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 74</span>
+
+
+<h3>XVIII</h3>
+
+<h3>Á HUMANIDADE</h3>
+
+<div class="poesia">
+Estrellas que rolaes no espaço ethereo
+N'um vertice de luz vertiginoso,
+E em numero sem conta e sem repouso,
+De Deus cumpris altissimo mysterio!
+
+E vós flôres gentis, purpureas rosas,
+Roxas violetas, candidas boninas,
+Que abris, tomando formas peregrinas,
+Á luz do Sol as petalas mimosas:
+
+ Commigo erguendo a vóz
+ Ao throno da Verdade,
+ Saudae a Humanidade,
+ Que é mãe de todos nós!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 75</span>
+
+<div class="poesia">
+Materno amor, que tanto admiro e acato,
+Perenne luz vital do Ser Supremo,
+Ante cujo esplendor confuso eu tremo,
+Se sondo o teu Santissimo mandato!
+
+Ou sejas tu mulher juncto do berço
+Com terno olhar velando o teu filhinho;
+Ou tu maviosa rola no teu ninho;
+Bemditas no concerto do Universo:
+
+ Por tão divinos bens,
+ No intimo do peito,
+ Votae sentido preito
+ Ao symbolo das mães!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Mulheres que prestaes culto a Maria,
+Á virgem Mãe de Deus, cheia de graça,
+Doçura, vida e esperança onde se enlaça
+O vosso coração de noite e dia!
+
+E vós ingenuas multidões que hei visto
+Com ar tristonho, humilde e miserando,
+Nos templos de mãos postas adorando
+Por vossa padroeira a Mãe de Christo:
+
+ A Virgem que adoraes,
+ Tornou-se a precursora
+ Da mãe que surge agora
+ Aos olhos dos mortaes!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 76</span>
+
+<div class="poesia">
+A mãe que em vez dos tristes filhos d'Eva,
+Levanta aos ceus os filhos redemidos!
+Em cantigos transforma os seus gemidos!
+No Bem o mal, na doce luz a treva!
+
+A mãe que os filhos todos encaminha
+Ao Summo Bem, que traz no peito occulto;
+Erguei-lhe pois altar, prestae-lhe culto;
+Tem jus a que brandeis==Salvé Rainha==
+
+ «Bemdito sê nos ceus!»
+ «Bemdito sê na Terra!»
+ «Sacrario onde se encerra»
+ «O Espirito de Deus!»
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Oh povos que viveis sob a vigilia
+Do olhar supremo em toda a redondeza,
+Formando pelas leis da natureza
+E os vinculos moraes, uma familia:
+
+Sabei que cada qual, tendo-a comsigo,
+Trará como um clarão na consciencia,
+Um rutilo fanal, a Providencia
+Que o pode redimir na hora do perigo!
+
+ Interpretes de Lei
+ Divina, e para exemplo,
+ Em honra d'ella um templo
+ Na alma humana erguei!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 77</span>
+
+<div class="poesia">
+Estrellas, flôres, mães, sabios e crentes,
+Vós todos que formaes a eterna cahorte
+Dos bons, dos que perante a vida e a morte,
+De Deus esparsem raios resplendentes:
+
+Por preito á obra santa e redemptora,
+Que põe a Terra e os ceus em harmonia,
+Como alto solta alegre a cotovia
+A limpida canção á luz d'aurora:
+
+ Á minha unindo a vóz,
+ Cantemos creaturas,
+ Hossana nas alturas
+ Á Mãe de todos nós!
+</div>
+
+<p class="data">1897.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 78</span>
+
+
+<h3>XIX</h3>
+
+<h3>AO NOVO CYCLO HISTORICO</h3>
+
+<h4>AO TRIUMPHO DO ESPIRITO</h4>
+
+<div class="poesia">
+Homem! sob o docel das fulgidas estrellas,
+Que espalham pelos ceus de Deus o Ideal jocundo,
+Surgiste insciente e nu, por entre mil procellas,
+A custo iniciando o teu Poder no mundo!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+A Terra, que ha de ser mais tarde o teu Imperio,
+Theatro e pantheon dos teus tropheus de gloria,
+Prendeu-te inerme e escravo, e impoz-se ao teu criterio
+Terrivel como um Deus, no escuro humbral da Historia!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 79</span>
+
+<div class="poesia">
+No fundo do teu Ser, que sabias leis dirigem,
+Rompia ainda incerta, envolta em serração,
+Tua alma, cuja luz transporta o mundo á origem
+Do Bello, Justo e Bom, do Amor e da Rasão!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Que seculos sem fim primeiro que desvendes,
+Dos vinculos da carne, esse fanal divino!...
+Que lugubres visões!... Que espectros!... Que duendes!...
+Que espiritos do mal, turvavam teu destino!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Que o digam as ficções do extincto fetichismo!...
+O numero sem fim dos deuses dos selvagens!...
+As tetricas visões da Fé no Judaismo!...
+Do inferno dos christãos as lobregas voragens!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Mas tudo emfim venceste e hoje sôa a hora
+De veres sem pavor a estrada percorrida!...
+De creres já em ti, em Deus, na luz d'aurora
+Que encerra um velho cyclo, e um novo te abre á Vida!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 80</span>
+
+<div class="poesia">
+Deus fez d'esse teu peito um campo de batalha
+Das luctas no Universo!... E ahi foram mantidas,
+Em nome do Ideal que a terra e os ceus trabalha,
+Medonhas convulsões e guerras fratricidas!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Decerto obedecendo a occulto e grão motivo,
+No plano universal da Vida a que és sugeito,
+As mil conflagrações do cahos primitivo
+Vieram a surgir de novo no teu peito!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Dois cyclos Deus traçou, d'uma orbita infinita,
+Dos povos do universo ás multiplas colmeias:
+Um vota-o as paixões que o rubro sangue agita;
+O outro ao resplendor sereno das idéas!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Inicio da missão primeira a que és chamado,
+Tu vês, em pleno horror, da força o predominio
+Nas feras, que, crueis, rugindo em alto brado,
+Se votam sem quartel ás luctas de exterminio!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 81</span>
+
+<div class="poesia">
+Mil raças d'animaes, minados d'odio eterno,
+Trucidam-se, correndo o rubro sangue em rios!...
+Tem odios figadaes, que lembram os do inferno,
+Que foi a projeção de tempos tão sombrios!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Em face então do mundo acceso todo em guerra,
+Proclamas-te senhor e rei da creação!
+E levas sem quartel a morte a toda a Terra,
+Á pedra, a pau, a ferro, e a tiro de canhão!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Soberbo co'o poder, que d'ambições se nutre,
+Gravas-te nos brazões heraldicos da gloria,
+Das feras, o leão, o tigre, a aguia, o abutre,
+Quaes symbolos fieis da tua acção na Historia!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Atraz de mil visões formadas como especulos
+Que alcançam do Ideal a luz sempre distante,
+Tu fechas hoje em dia, ao fim de largos seculos,
+Dos Deuses, reis e heroes o periodo brilhante!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 82</span>
+
+<div class="poesia">
+Os proprios animaes, aquelles que escolheste
+Por symbolos fieis do teu poder, é certo
+Que estão-se a eliminar tambem: a morte investe
+Com elles por fatal e superior decreto!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+A paz que hoje vaes ter por nova lei suprema,
+É a mesma a que attingio o propio cahos por meta;
+Nos páramos do azul os soes a teem por lemma
+Escripto a fogo eterno aos olhos do poeta!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+N'um multiplo vae-vem, n'uma completa antithese
+Por entre o goso e a dôr, por entre a sombra e a luz,
+Chegas-te a conceber do mundo inteiro a synthese
+N'um pae celeste e Bom, no Deus que vio Jesus!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Deriva desde então do periodo primeiro
+O fim que se approxima e o resplendente alvor
+Do novo Ideal que traz o fim do captiveiro:
+Em vez da Força, a Ideia; e, em vez do Odio, o Amor!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 83</span>
+
+<div class="poesia">
+Teu cerebro pensante é como uma semente
+Que está reproduzindo a flôr do Ideal!
+Eterno nos traduz por forma resplendente
+Do seu divino author a essencia espiritual!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Do bello lyrio d'alma as petalas brilhantes
+Cambiam sem cessar de côr e de perfume,
+E levam do Porvir, aos seculos distantes,
+O espirito de Deus que o mundo em si resume!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+É como o grão subtil que um cedro do Hymalaia
+Expôe formoso ao Sol, em todo o seu systhema!...
+Em intimo labor co'as leis da Vida, ensaia
+A eterna solução do divinal problema!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+O mesmo estão fazendo as fulgidas estrellas,
+Formoso campo em flôr, ideal jardim divino!...
+D'ahi as mil visões das coisas as mais bellas
+Que exparsem sobre nós seu brilho diamantino!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 84</span>
+
+<div class="poesia">
+O mundo desde os soes da cupula infinita
+Ás flores a teus pés, com paternal carinho,
+Insuflam n'esse peito ancioso que palpita
+Valor para que vás seguro em teu caminho!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Tem fé no teu destino; em Deus tem confiança!
+Da tua historia escripta as paginas sem conta
+Derramam na tua alma a nova luz que avança
+D'accordo co'o universo e que hoje em ti desponta!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Em vez do legendario heroe das priscas eras,
+Das guerras extrahindo a gloria a todo o custo:
+Honrando o Creador, e as fulgidas espheras,
+Serás, qual semi Deus, sereno, sabio e justo!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+É este o Ideal que as leis da natureza
+Inspiram com sublime e candida alegria!...
+Que as normas da Rasão, que as pompas da Belleza,
+E as maximas do Amor, reclamam noite e dia!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 85</span>
+
+<div class="poesia">
+O mesmo ensina o mar que arqueja palpitante,
+Da terra enviando a Deus seus canticos d'amôr!...
+O mesmo o terno olhar dos olhos d'uma amante;
+O augusto erguer do Sol, o calmo abrir da flôr!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+O cyclo que hoje se abre, embora ainda incerto,
+Vem dar um novo rumo á tua antiga historia;
+Vem pôr-te em equilibrio, em intimo concerto
+Co'a vida universal, de que és a alma e a gloria!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+É esta a nova Fé que em tuba altisonante,
+Interprete da Vida, entôa a voz da musa!...
+Correi, povos, a ouvir-lhe o seu clamor vibrante!...
+O espirito de Deus em sua vóz se accusa!...
+</div>
+
+<p class="data">Novembro de 1898.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 86</span>
+
+
+<h3>XX</h3>
+
+<h3>NOVA LUZ! NOVO IDEAL!</h3>
+
+<div class="poesia">
+Espirito Supremo, d'onde brota
+A luz que eterna os mundos alumia,
+E deixa pelo espaço uma harmonia
+ Echo da tua vóz!
+Inspira-me a assistir, sereno e impavido,
+Ao funebre ruiz do christianismo,
+E d'este inevitavel cataclysmo
+ Salva-te a ti e a nós!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 87</span>
+
+<div class="poesia">
+A Ti, o forte, o sabio, o justo, o symbolo
+De toda a perfeição, a ti importa
+Que d'esta fé, tornada letra morta,
+ Vejamos renascer
+Do mundo novo a crença ardente e rutila,
+Co'o magico fulgor da nossa Ideia,
+O espelho onde melhor se patenteia
+ No mundo o teu poder!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ao teu olhar religiões sem numero,
+Com ritos, cultos, cheios de fulgores,
+Desambam, como as petalas das flôres
+ Ao Sol que as reproduz!...
+Que um novo Ideal d'amor, de ti nascido,
+Trajando d'ouro e purpura o horizonte,
+Das sombras de hoje, esplendido desponte,
+ A dar-nos nova luz!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Outra verdade, filha d'estes tempos,
+Que venha a nós em nome teu, n'esta hora,
+Matar a sêde ardente que devora
+ Os nossos corações,
+Depois que á intensa luz de mil combates,
+Travados pela fé contra a Sciencia,
+Começa-se a apagar na consciencia
+ O ideal christão!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 88</span>
+
+<div class="poesia">
+A Ti attraes as almas como as aguias
+De monte em monte a prole aos ceus subindo,
+Fazendo com que attinja o espaço infindo
+ Que abarca o seu olhar!...
+De Brahma a Budha, de Moysés a Christo,
+Se fez essa ascenção prodigiosa,
+Ao fim do qual a alma é desejosa
+ De a novos ceus voar!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ah d'esta vacuidade em que se encontram
+Os nossos corações cheios de febre,
+Que uma alma nova irrompa e audaz celebre
+ Suas nupcias d'amor
+Co'o mundo que lhe coube por partilha,
+Passando a co-existir serenamente,
+Harmonica, feliz e resplendente,
+ Como ante o Sol a flôr!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Por nós, que não por ti, que és intangivel
+Ás frageis condições da vida humana:
+Perante o aspecto triumphal que emana
+ De toda a creação:
+Convem-nos expurgir do fundo d'alma,
+Da fonte onde se gera o pensamento,
+O cunho de tristeza e desalento,
+ Que imprime o ideal christão!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 89</span>
+
+<div class="poesia">
+Ha na verdade em tudo o que é belleza,
+E força e vida e amor nas creaturas,
+Desde os astros que brilham nas alturas,
+ Á flôr a nossos pés:
+Tanta porta do ceu a abrir-se á alma;
+Riqueza tanta e tanto amor occulto
+A revellar-te a Ti, que é justo um culto
+ Erguer-lhes outra vez!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Digamos a verdade: uma semente,
+Que eterna e intacta a arvore resume,
+Com troncos, folhas, flôres e o perfume
+ Que entrega ás virações:
+Encerra em si mais luz, lição mais pratica,
+Mais digna de por nós ser apprendida
+Qual maxima d'amor, e ideal da vida,
+ Que um livro d'orações!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Tua alma é presa ao mundo que creaste
+E o mundo, cuja orbita infinita
+Abrange a Terra, e os Ceus, onde palpita
+ D'amor teu coração,
+Tem jus a que façamos d'elle a Biblia
+Eterna, aonde apprenda a Humanidade,
+Sedenta de Justiça e de Verdade,
+ A nova religião!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 90</span>
+
+<div class="poesia">
+Ah tens a executar teus vastos planos
+D'amor, e de Justiça, aurifulgentes,
+Fanaticos aos mil, e mil videntes,
+ E innumeros heroes,
+De varia estirpe: o artista, o justo, o sabio,
+Buscando interpretar teu pensamento;
+E encontram pelo azul do firmamento
+ No mesmo afan os soes!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Que á tua vóz as gerações extinctas
+Resurjam e contemplem com surpreza
+Esta obra immensa, cheia de belleza,
+ Que em multiplo labor,
+As novas gerações estão fazendo!...
+Que em nome da Verdade triumphante,
+Unisono na Terra se alevante
+ Este hymno em teu louvor!
+</div>
+
+<p class="data">1889.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 91</span>
+
+
+<h3>XXI</h3>
+
+<h3>APPELLO SUPREMO!</h3>
+
+<div class="poesia">
+A minha alma immortal n'este exilio onde existe,
+Abrigando no seio a ideaes tão risonhos,
+E entre os homens só vendo um sarçal ermo e triste,
+Onde outro'ra plantára o jardim dos seus sonhos:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Teve a sorte cruel d'uma flôr, que enganada
+Pelos raios do sol, ainda inverno e entreabrio;
+Mas que dias depois, co'o cahir da geada,
+E o soprar do nordeste, afinal, succumbio!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 92</span>
+
+<div class="poesia">
+Assim foi para mim o florir dos amores,
+N'essa quadra febril em que o sangue é fecundo,
+Quando rompe a manhã, quando abrem as flôres,
+Quando o Sol brilhante e o azul é profundo!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Nem ha rocha no mar, pelas ondas batida;
+Nem ha nuvem no ceu, pelo vento açoutada;
+Nem ha rosa n'um val' pelo sol esquecida,
+Que se possa dizer mais do que eu desgraçada!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Mas se o mal nos incita, e Deus quer nos transporte
+D'um estadio a outro estadio atravez muito custo,
+Em demanda do <i>Bem</i>, que triumpha da morte:
+Deves crêr do Porvir no Ideal santo e augusto!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E se foste, minha alma, a illudida afinal,
+Quando crêste emplumar nesta quadra o teu ninho,...
+Pede a Deus que te envie aquella hora fatal
+Que abre a porta á Verdade e vae tu teu caminho!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 93</span>
+
+<div class="poesia">
+Oh Justiça increada! oh meu Deus! oh meu Pae!
+Tu que a mim me mostras-te o teu seio, esse abrigo
+Da <i>Bellesa</i> e do <i>Amor</i>, que me envolve e me attrae:
+Dá-me as azas Senhor, com que vá ter comtigo!...
+</div>
+
+<p class="data">Lisboa, 1869.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 94</span>
+
+
+<h3>XXII</h3>
+
+<h3>REFUGIO ULTIMO!</h3>
+
+<div class="poesia">
+Deixa, Senhor, do mundo em que eu habito
+ A ti meu ser se evol'!...
+Tem jus aos ceus quem mede esse infinito
+ Que vae de sol a sol!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Sonhei na terra, amando-a muito e muito,
+ Novo Deus, nova lei;
+Mas foi, pura illusão, baldado intuito,
+ Comtigo só me achei!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 95</span>
+
+<div class="poesia">
+Suppuz em vez do gellido egoismo,
+ Da guerra surda e atroz
+D'interesses, em perpetuo antagonismo,
+ Que envolve a todos nós:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Homens, povos, nações, por varios modos
+ Unidos, dando as mãos:
+<i>Todos por um, valendo um só por todos,
+ Vivendo como irmãos!...</i>
+</div>
+
+<div class="poesia">
+É fé que sigo, é crença que mantenho:
+ Que em mysterioso nó
+Unis-te os homens, com supremo engenho,
+ Formando uma alma só;
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Em serviço da qual cada individuo,
+ Com multiplo labor,
+Trabalha por lhe dar, no esforço assiduo,
+ O maximo esplendor!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 96</span>
+
+<div class="poesia">
+Quão mais estreito o vinculo fôr dado,
+ Mais luz hade irromper
+Do nosso coração, do amor gerado
+ No ventre da mulher!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Tal o sonho que em dias mais felizes
+ Ao mundo consagrei!...
+Como hade aqui lançar fundas raizes:
+ A ti contente irei!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Se um raio de calôr ou luz, prestantes,
+ A terra a si prendeu:
+É vel'os como, em rapidos instantes,
+ Se evolam para o céu;
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E como, n'um sentido em tudo opposto,
+ A pedra na amplidão,
+Quanto mais alto attinge, com mais gosto
+ Gravita para o chão!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 97</span>
+
+<div class="poesia">
+E eu não gravito: eu subo na vertigem
+ D'um céllico condor
+A demandar em ti, na propria origem,
+ Belleza, luz e amor!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Permitte, pois, do mundo em que eu habito
+ Meu ser a ti se evol':
+Tem jus aos ceus quem mede esse infinito
+ Que vae de sol a sol!
+</div>
+
+<p class="data">Novembro de 1868.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 99</span>
+
+
+
+
+<h2>LIVRO SEGUNDO</h2>
+
+<h1>ESPELHO DUPLO</h1>
+
+
+<h3>O MUNDO E A CONSCIENCIA</h3>
+<span class='pagenum'>Pág. 101</span>
+
+
+<h3>I</h3>
+
+<h3>ALVORADA</h3>
+
+<div class="poesia">
+Algures brilha o sol no azul do firmamento,
+E expõe com resplendor das cousas o espectaculo!
+Aqui, na escuridão, o mundo é tabernaculo
+Onde os frageis mortaes descançam um momento!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Alem, o Sol incita o mundo ao movimento,
+Á lucta pela Vida, o esteio e o sustentaculo
+Desde o ser da Rasão ao minimo animaculo,
+Aqui, o somno esparse em todos novo alento!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 102</span>
+
+<div class="poesia">
+Ó Luz! tu és do mundo a Força, a Alma, a Vida,
+A essencia do meu Ser, a minha propria Ideia,
+O proprio Deus, talvez!... <i>Belleza, Amor, Verdade!</i>
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Atraz de Ti caminha a Terra, mãe querida!
+Bemdito caminhar! Por Ti minha alma anceia!...
+Bemvinda sejas, pois, oh doce claridade!
+</div>
+
+<p class="data">Lisboa, 1898.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 103</span>
+
+
+<h3>II</h3>
+
+<h3>Á LUZ</h3>
+
+<div class="poesia">
+Oh Luz dourada e pura!
+Oh Luz, irmã do Amor!
+Espelho e formusura
+Da Alma do Senhor!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Em ti eu vejo e abraço
+O author da creação,
+Soltando pelo espaço
+Explendida canção
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 104</span>
+
+<div class="poesia">
+Meus olhos que te admiram,
+Bem como a Terra e os Ceus,
+Ao verem-te, sentiram
+O proprio olhar de Deus!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+O ceu, mal vens n'aurora,
+Mais alva que a alva lã,
+De purpura colora
+As faces de manhã!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+A Terra, envolta em galas,
+Mais bella que as Huris,
+Reveste-se de opálas,
+De perolas e rubis!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+As aves innocentes,
+Sentindo o teu fulgor,
+Gorgeiam, de contentes,
+Seus canticos d'amor!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 105</span>
+
+<div class="poesia">
+Os lyrios junto ás fontes,
+Perdendo o teu clarão,
+As suas lindas fontes
+Inclinam-se para o chão!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Eu mesmo, se em verdade
+Sonhei, com Jesus,
+O bem da Humanidade,
+A Ti o devo oh Luz!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Oh candida alegria!
+Espirito de Deus,
+Que animas noite e dia
+A Terra, o mar, e os ceus,
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Adoro-te portento!...
+E a Ti levando as mãos,
+Como ante o sacramento!
+Os simplices christãos!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 106</span>
+
+<div class="poesia">
+D'esta alma és o esteio!
+Que a tua essencia pura
+Ampare-me no meio
+Da minha desventura!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E quando a morte um dia
+Roubar aos olhos meus,
+A esplendida harmonia
+Que formam Terra e ceus:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Seguindo prasenteiro
+A lei que me conduz,
+Meu grito derradeiro
+Será por ti oh Luz!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 107</span>
+
+
+<h3>III</h3>
+
+<h3>AO SOL!</h3>
+
+<div class="poesia">
+Oh maravilha esplendida engastada
+Na fronte augusta do azul profundo,
+Qual lamina brilhante onde gravada
+Se visse a face de quem fez o mundo,
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Eu te saudo oh Sol? qual religioso
+O Indio quando viu a vez primeira
+Surgir do mar teu facho luminoso
+E alegrar com a luz a terra inteira!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 108</span>
+
+<div class="poesia">
+Ah! quiz cantar o braço omnipotente
+Que por nós trabalhava a cada instante:
+E a terra, o mar, e quanto vive e sente,
+Apontou para Ti, astro brilhante!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Possam teus raios que nos ceus se expandem
+Ricos da gloria e cheios d'alegria,
+Fazer com que do peito meu debandem
+As sombras da tristeza que trazia,
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E ouve-me um canto alegre como o côro
+Das aves quando, envolto em magestade,
+Tu transpões do oriente as portas d'ouro
+E abençoas dos ceus a Humanidade!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Oh astro, coração tres vezes santo,
+De cujo seio foi por Deus emmerso
+O movimento e a vida e tudo quanto
+Forma hoje a harmonia do Universo!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 109</span>
+
+<div class="poesia">
+Ouvi louvar-te, num concerto vario,
+Montanhas, mares, flôres e arvoredos,
+Que do meu peito, como d'um sacrario,
+Confiaram seus intimos segredos!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Louvam-te as aves; louvam-te as creanças,
+E os velhos que não teem fogo nos lares,
+Buscando a doce luz que tu lhes lanças,
+Como a imagem de Deus junto aos altares!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Louva-te, oh Sol! a terra a quem quizeste
+Por tua esposa, na epocha sombria,
+Em que de crepe a abbobada se veste,
+Lacrimosa chorando noite e dia;
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E os jubilios e os mil festões de gala
+Com que cingio de noiva delirante
+A casta fronte, quando a enamoral-a
+Sentiu de novo o teu olhar brilhante!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 110</span>
+
+<div class="poesia">
+Oh Sol! oh Sol! a minha lingua é pobre
+Para cantar-te em verso o quanto vales
+Perante as maravilhas que descobre
+A vista humana por montanha e vales!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Desde o negro carvão que o fogo atêa
+Ao cédro altivo que no mundo avulta;
+Desde o meu sangue á luz da minha idêa:
+Por tudo existe a tua essencia occulta!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Hostia de luz esplendida, patente
+Perante os povos em perpetua missa!
+Tu, que és de Deus o espelho resplendente,
+Throno de gloria e séde de Justiça:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Se apagares nos ceus teu facho enorme,
+Suspensa a vida no labor interno,
+Tu verás como a terra logo dorme
+Entre as sombras da noite um somno eterno!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 111</span>
+
+<div class="poesia">
+Seja pois o meu canto um desafogo
+Da nossa gratidão, astro, jocundo!
+Coração formosissimo de fogo
+Que em nome do Senhor dás vida ao mundo!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E prosegue no carro flammejante
+A derramar teus bens por mundos novos,
+Que emquanto vês na marcha triumphante
+Infindas tribus d'animaes e povos:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Eu, deslumbrado ainda com os vestigios
+Da tua luz, de tantas coisas bellas,
+Louvarei o author de taes prodigios
+Sob esse manto esplendido d'estrellas!
+</div>
+
+<p class="data">Lisboa, 1872.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 112</span>
+
+
+<h3>IV</h3>
+
+<h3>AO MAR!</h3>
+
+<div class="poesia">
+Senhor! eu canto o mar, que no psalterio
+D'esses orbes de luz que além se avista,
+Com a vóz d'um tristissimo psalmista
+Teu nome ousa louvar no espaço ethereo!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Canto o apostolo, o mestre da Verdade,
+Que, aprendendo de ti altos segredos:
+Contra os negros tyrannos dos rochedos
+Vae prégando o sermão da Liberdade!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 113</span>
+
+<div class="poesia">
+Ah cuja grande vóz, d'além do abysmo,
+Apraz-me ouvir por noite tenebrosa
+Imponente crescer, bramir raivosa
+D'encontro á rocha onde eu medito e scismo!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Eil'o sempre n'aquelle arfar profundo,
+Em lucta collossal, guerra infinita,
+Contra o sopro do ceu que eterno o agita,
+Desde o dia em que Deus o trouxe ao mundo!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Se tudo quanto ahi á luz se cria,
+Tudo trabalha mas descança e dorme,
+Porque anda sempre oh mar, teu seio enorme
+N'essa lucta cruel de noite e dia?!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Em ancia egual só tenho a comparar-te
+Á marcha d'esses mundos que o Senhor
+Tornou em corações do seu amor,
+Para a vida accordar por toda a parte!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 114</span>
+
+<div class="poesia">
+Tu és o irmão dos astros; és da Terra
+O immenso coração profundo e triste,
+Que eterno off'rece a vida a quanto existe,
+Co'o auxilio do Sol, que tudo encerra!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ah muito seja embora o desgraçado,
+Muita a miseria occulta n'esse abysmo,
+Desde as scenas do horrivel cataclysmo,
+De que resam as biblias do Passado:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Eu vejo em ti o pae dos pobresinhos,
+A quem nada deixando as leis avaras,
+Tornas-te-lhes os peixes em cearas,
+Para matar a fome a seus filhinhos!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+O eterno confidente de infelizes,
+De quem pareces ser tão grato espelho,
+Que servindo para elles d'evangelho,
+Eu não sei que palavras tu lhes dizes,
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 115</span>
+
+<div class="poesia">
+Que fico ahi por tempos esquecidos,
+Tão preso a escutar-te a voz das aguas,
+Que obtenho acalmar a dôr ás magoas
+E adormecer meus males tão compridos!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Oh! mar! oh! mar! quando eu a sós medito
+Nas rochas sobre os pincaros calado,
+Recorda o teu rumor cadenceado
+Um pendulo suspenso no infinito!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Harpa de Deus exposta aos quatro ventos,
+Onde o sopro, que a vaga á vaga impelle,
+Descanta harmonioso um hymno Áquelle,
+Que a terra e os ceus encheu de mil portentos!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Quer a colera accesa da tormenta
+Te divida em terriveis multidões
+De tigres, de pantheras, de leões,
+Rugindo em cada vaga que rebenta;
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 116</span>
+
+<div class="poesia">
+Quer ouça pelas algas verde negras,
+E as praias solitarias onde eu choro...
+Cantar o teu amor em vasto côro
+De rolas, rouxinoes ou toutinegras:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ou fera ou pomba, egual amor me atêa
+O teu gentil amor e altivo orgulho,
+Quando este arroja á praia o pedregulho,
+E aquelle as lindas conchas lhe semeia!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+És sempre o mesmo! És sempre o grande amigo,
+Sobre cuja espantosa immensidade
+Vejo passar o sopro da Verdade,
+Da doutrina de Deus, que adoro e sigo!
+</div>
+
+<p class="data">Buarcos, 1869.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 117</span>
+
+
+<h3>V</h3>
+
+<h3>ÁS NUVENS</h3>
+
+<div class="poesia">
+Vapores que em vistosos cortinados
+Armaes dos ceus o templo de safira
+Com purpura e finissimos broxados,
+Sêde hoje o assumpto para a vóz da lyra!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Que eu quero ter a intima certeza
+Que, antes da hora da fatal partida,
+A minha alma no mundo fica preza
+Ás coisas bellas que adorei na vida...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 118</span>
+
+<div class="poesia">
+Horas felizes que ainda hoje eu passo,
+Pelas tardes calmosas do verão,
+Seguindo-as uma a uma pelo espaço,
+Dizei ás nuvens se eu as amo ou não!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Eu que vou pelo mundo imaginando
+Visões sobre visões, sempre illusorias:
+Comprazo-me em vos vêr de quando em quando,
+Fórmas aereas, sombras transitorias!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Vós que nas tardes e manhãs amenas,
+Passando como timidas deidades,
+Deixaes os ceus juncados d'açucenas,
+D'alvos jasmins e rôxas saudades;
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Vós que andaes presurosas, fugitivas,
+Os ceus cruzando n'um lidar constante:
+Sorris-me como as multiplas missivas
+Que envia ao Sol a Terra sua amante!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 119</span>
+
+<div class="poesia">
+Imagens lindas d'um amor jocundo,
+E espectros negros d'intimos rancores,
+Do grande coração que agita o mundo,
+O mar, que tem como eu paixões e amores!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Á tarde quando o Sol, cratera ardente,
+Vae prestes a apagar-se e, em desafago,
+Inflamma as grandes portas do Occidente
+E faz da terra e ceus um mar de fogo:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ah! deixo os olhos espraiando a vista
+Pelos paineis de mil preciosidades,
+Aonde desenhaes, com mãos d'artista,
+Em telas d'ouro olympicas cidades!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E agora são rochedos e campinas!...
+Fulvos leões e timidas gazellas!...
+E logo apoz castellos em ruinas,
+Visões d'amor, phantasticas donzellas!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 120</span>
+
+<div class="poesia">
+Umas vezes são guerras estrondosas,
+Luctas crueis d'impavidos gigantes,
+Onde ha rios de sangue e pavorosas
+Sombras de heroes, e incendios fumegantes!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E outras vezes, então, nuvens ligeiras,
+Convertei-vos em lyrios e violetas,
+Em acacias floridas e palmeiras,
+E em vultos de Romeus e Julietas!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E eu amo a nuvem negra que imponente
+Abre nos ceus a fulgida garganta,
+E vomita do seio o raio ardente,
+E com elle o trovão que o mundo espanta,...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E a pudibunda nuvem d'alvorada
+Quando, ante o Sol esplendido que assoma,
+Parece virgem pura e delicada,
+Branca de neve com dourada coma!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 121</span>
+
+<div class="poesia">
+Oh nuvens que passaes no firmamento,
+Bandos aereos d'illusões perfeitas!...
+Vós que tão lindas sois, e n'um momento,
+No chão cahis em lagrimas desfeitas!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Quando vos vejo pelo azul profundo,
+Voluptuosas, gentis e transparentes:
+Lembraes-me os sonhos que lancei ao mundo,
+Como um bando de pombas innocentes!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Bem mais felizes vós, que, n'um momento,
+Passando aereo fumo em valle e serra,
+Levaes comvosco, a vida, o movimento
+De quanto nasce e vive sobre a terra!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Já não assim meus sonhos, muito embora
+Levem comsigo as novas do futuro:
+São nuvens bellas d'esplendente aurora,
+Desfeitas sobre um chão ingrato e duro!...
+</div>
+
+<p class="data">Carvalhaes, 1873.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 122</span>
+
+
+<h3>VI</h3>
+
+<h3>ÁS FLORES</h3>
+
+<div class="poesia">
+Eu venho-vos cantar, mimosas flôres,
+A vós irmãs da luz, gentis e bellas,
+Do chão que piso vívidas estrellas,
+Com mil perfumes, mil viçosas côres!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Á vossa encantadora companhia,
+Toda cheia de graça e de candura,
+Eu devo em parte a luz serena e pura
+Do amor, que meu espirito allumia!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 123</span>
+
+<div class="poesia">
+Cercando-me dos vossos esplendores,
+Nos quaes eu pasto dia e noite a vista,
+Consigo converter meu lar d'artista
+N'um Louvre de riquissimos lavores
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Em porphirio, alabastro, em prata e oiro,
+E em fulgidos setins!... Primores d'arte,
+Por onde o Artista Maximo reparte
+Co'os olhos meus bellissimo thesouro!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Entre nós não ha festas verdadeiras,
+No templo, no palacio ou na choupana,
+Que em todo o grão matiz da vida humana,
+Prescindam de vos ter por companheiras!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ninguem na Terra vos disputa a palma
+D'expor, com fidelissima justeza
+De côr e fórma, cheias de belleza,
+Os varios sentimentos da nossa alma!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 124</span>
+
+<div class="poesia">
+A timida donzella, ingenua e pura,
+Temendo-se dos bens que ella imagina,
+Nas petalas da candida bonina
+Procura lêr seus sonhos de ventura!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Com finas mãos, as pallidas Ophelias,
+Por darem mais realce aos fios d'ouro
+Das bastas tranças: seu cabello louro
+Adornam com alvissimas camellias!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Afim de se dizer á bem amada
+Do intenso amor o rapido delirio:
+Da rosa pudibunda ou branco lyrio
+Se faz missiva pura e perfumada!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Os tristes na viuvez, e na orfandade,
+Roidos por uma intima amargura:
+Desfolham na chorada sepultura,
+As petalas do lyrio e da saudade!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 125</span>
+
+<div class="poesia">
+Eu mesmo, que do publico debando;
+Dos mortos devorciado, e alheio aos vivos:
+Se vejo d'entre sonhos fugitivos,
+Abrirem-se-me os ceus de quando em quando;
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Suppondo em vida os povos numerosos,
+Unindo-se em espirito e verdade,
+Viverem ante Deus e a Humanidade,
+Como irmãos, solidarios, venturosos;
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E encontro, em torno ás candidas chimeras,
+Crueis dissilusões por toda a parte:
+Em guerra os homens, a virtude e a arte
+Sem o fogo sagrado d'outras eras...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Oh minhas flôres! viva embora eu triste,
+Que as vossas serenissimas imagens
+Conseguem libertar-me das voragens
+Com quanto bello na minha alma existe!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 126</span>
+
+<div class="poesia">
+Ah quando caio e vejo das miserias
+Cavar-se aos pés um sorvedoro infindo:
+Seguindo as esperiaes d'um sonho lindo,
+Por vós remonto ás regiões ethereas!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Em horas de fraqueza, horas mofinas,
+Se eu ouso vos fitar, sinto na face
+Um subito rubor, qual se me olhasse
+Deus Pae, sob essas formas peregrinas!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Urnas santas, a mim que deposito
+No vosso olôr subtil e perfumado
+As scenas mais gentis do meu passado,
+Perdidas para sempre no infinito!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Deixae que em testemunho da verdade:
+Do muito que vos quiz e amei na vida,
+Como echo da minha alma agradecida,
+Meu canto o atteste á luz da eternidade!...
+</div>
+
+<p class="data">Carvalhaes, 1870.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 127</span>
+
+
+<h3>VII</h3>
+
+<h3>Á ARVORE</h3>
+
+<div class="poesia">
+Quando contemplo em paz teu nobre vulto
+Erguido aos ceus: envolto em verde manto,
+Supponho contemplar um justo,... um santo,...
+Um pae,... um Deus,... algum mysterio occulto!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ha não sei bem que força em mim tão forte,
+Não sei que grande instincto inabalavel
+A levar para quanto é bello e estavel
+Esta alma, para quem só Deus é norte,
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 128</span>
+
+<div class="poesia">
+Que em ti, oh mãe, em ti achei guarida...
+A tua sombra off'rece a paz e a esperança
+A quem no mundo é triste e em vão se cança
+Para aos ceus dirigir a propria vida!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Quantas vezes em horas d'agonia,
+Que deixavam meus olhos rasos d'agua,
+Eu não deixei ficar-te aos pés a magoa,
+Buscando tua sombra noite e dia?!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Quantas horas fitando os ceus pasmado
+Eu não passei, deixando o olhar suspenso
+N'aquelle vasto seio azul e immenso,
+Do verde de teus ramos marchetado?!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+De dia, quando o Sol aquece o mundo,
+E os entes se propagam, nascem, crescem;
+De noite quando os astros resplandecem
+N'aquellas solidões d'um mar sem fundo:
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 129</span>
+
+<div class="poesia">
+Se á tua sombra estou, sinto n'esta alma
+Cair da doce côr que o Sol te veste,
+Da paz que tens, o balsamo celeste
+Que em meu peito as paixões serena e acalma!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ou quando o vento chega, e eu não sei d'onde...
+E passa sobre ti, murmura e canta,
+E eu olho e nada vejo, e a fé mais santa
+Me leva a crer no Deus que o mundo esconde;
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Ou quando á noite, n'um propicio agouro,
+As estrellas dos ceus que mais fulguram
+Das pontas dos teus ramos se penduram
+Como ideias de Deus em fructos d'ouro:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Amo-te muito e muito, e não me admira,
+Quando tu á minha alma um Deus revellas
+E lhe mandas um hymno em que as estrellas
+São as notas, e a tua coma a lyra!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 130</span>
+
+<div class="poesia">
+Oh arvore! no amor que a Ti me prende,
+Confesso ao mundo haver bem mais lucrado,
+Que em muito livro d'ouro encardenado,
+Que ahi se espalha e muita gente aprende!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Se eu vira, como os fructos dos teus ramos,
+D'entro d'esta alma abrir-se a flôr da ideia
+Á luz deste ideal que em nós se ateia
+Para que nós do mal ao bem subamos;
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Se ás novas gerações, no meu psalterio,
+Cantar podesse a nova luz que assoma,
+Como os orgãos da tua verde coma
+Lançando a vóz de Deus no espaço ethereo;
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Se eu fora como tu viver piedoso,
+E a qualquer desgraçado e pobre amigo
+Offerecer no meu seio o mesmo abrigo,
+Que estende sobre o ninho o ramo umbroso;
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 131</span>
+
+<div class="poesia">
+Se eu conseguisse, emfim, levar meu dias,
+Perante o mal que sempre me acompanha,
+Como a arvore sonora da montanha,
+Que descanta ao soprar das ventanias:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Só assim chegaria um dia a ser
+O espirito sereno, sabio e justo,
+A que deve aspirar, a todo o custo,
+O Senhor da Rasão, que pensa e quer!
+</div>
+
+<p class="data">Bussaco, 1869.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 132</span>
+
+
+<h3>VIII</h3>
+
+<h3>Á TERRA</h3>
+
+<div class="poesia">
+Oh Terra, Virgem mãe da Humanidade,
+Pelos fructos que dás eu te bemdigo!
+Cheia de graça e cheia de bondade,
+O espirito de Deus seja comtigo!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Tu que és do Sol a esposa immaculada,
+Que entre perfumes, canticos e flôres,
+Passas no azul dos ceus, virgem coroada
+Com o candido mimbo dos amores:
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 133</span>
+
+<div class="poesia">
+Como escuta piedosa a mãe seu filho,
+E d'elle acceita o mais pequeno objecto,
+Ouve a harpa d'esta alma onde dedilho
+Por ti um canto d'entranhado affecto!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Um canto aonde a propria naturesa,
+Em cujo seio o astro meu se inspira,
+Reflecte o seu conjuncto de belleza,
+Unindo a eterna vóz á vóz da lyra!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+O mar que te circunda a fronte bella,
+Que espelha ao longe a luz que o Sol t'envia;
+Te muda a negra crosta em linda estrella,
+E dá-te um canto cheio de harmonia;
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E o subtil pingo d'agua onde escondes-te
+D'inquietos vibriões um mar profundo,
+Tão vasto como a abbobada celeste,
+Contendo a tantos como os soes do mundo;
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 134</span>
+
+<div class="poesia">
+A arvore a prumo erguida ao firmamento,
+Posta por Deus na paz a mais completa,
+Quando, ao passar-lhe o espirito do vento,
+Descanta como a harpa d'um propheta:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E a semente da flôr, qual grão d'areia,
+Que, inerte, fria, escura e pequenina,
+Contém as pompas da divina ideia:
+O lyrio branco ou a rosa purpurina;
+</div>
+
+<div class="poesia">
+O leão, implacavel creatura,
+Quando a victima arrasta inda arquejante
+Tinto de sangue, offerta-a com ternura
+Á leôa parida, sua amante:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E a indefeza timida ovelhinha,
+Entre as flôres gentis do verde prado.
+Meiga balando á mãe que se avesinha,
+Por dar-lhe o leite doce e perfumado;
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 135</span>
+
+<div class="poesia">
+A aguia quando solta a envergadura
+Das largas azas pelo azul do espaço,
+E, em marcha triumphal, a enorme altura
+Passa nos céus sem lucta, e sem cançaço;
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E a crysalida que abre á luz do dia
+Do involucro o sedifero thesouro,
+E, nos enlevos d'intima alegria,
+Expande á luz do Sol as azas d'ouro:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Quanto, emfim, é teu filho a mim me pede,
+Que em nome d'elles eu te louve e cante,
+Suppondo achar n'esta alma o centro, a séde,
+O altar, de quanto o Sol lhe põe diante!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Oh minha mãe! a magua me entristece
+De que Deus, cujas dadivas divide
+Por tanta gente, a mim me não cedesse
+Para cantar-te a harpa de David!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 136</span>
+
+<div class="poesia">
+Dos proprios paes e estranhos mal tratado,
+Fui pôr-me á tua sombra hospitaleira,
+E em teu seio de mãe abençoado
+Achei d'esta alma a patria verdadeira!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Não sei como surgio o homem na terra!...
+Não sei onde os meus sonhos se dirigem...;
+Mas quanto bello e bom minha alma encerra,
+Em ti encontra a perenal origem!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Quer sobre os cumes dos altivos montes,
+Quer á sombra dos vales verdejantes;
+Quer ouça a meiga vóz das claras fontes,
+Quer as furias das ondas espumantes:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Por onde quer que eu vá, minha alma sente
+Cercal'a tão solicito cuidado,
+Que quanto me concebe um dia a mente,
+Encontra sempre em ti o objecto amado!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 137</span>
+
+<div class="poesia">
+Por isso, embora eu viva como o paria
+Junto ás margens do Ganges crystalino,
+Levando vida incerta, rude e varia,
+Entre os baldões d'um impobro destino:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Vivo entre flôres, musicas e festas,
+Tendo por luz suprema o pensamento;
+Por palacios as múrmuras florestas,
+E alampadas os soes no firmamento!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Por orchestras as musicas plangentes
+Que geme ao longe o mar no captiveiro,
+Com os concertos das aves innocentes,
+E os murmurios do limpido ribeiro!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+De manhã, com os crystaes do fresco orvalho,
+Fulgentes scintiliando á luz do dia,
+Pisam meus pés, riquissimo trabalho,
+Tapetes de preciosa pedraria!
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 138</span>
+
+<div class="poesia">
+Á tarde, quando o sol deixa as alturas,
+Qual Vinci, Miguel Angelo ou Ticiano,
+Pões-me nos ceus esplendidas figuras,
+Como eguaes as não tem o Vaticano!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Á hora em que é dado o somno acoite
+Em doce paz meu corpo fatigado,
+Desdobras-me sobre elle o veu da noite,
+De fulgidos brilhantes recamado!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E quando, emfim, entrar na noite fria
+Do tumulo, onde nada se condemna,
+Do meu cadaver tirarás um dia
+O branco lyrio e a pudica açucena!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Taes os bens que offertas-te ás almas ternas,
+Simples, crentes em Deus, ideal fecundo...!
+E dás-lhes n'estas coisas sãs e eternas
+Bem mais riquezas do que aos reis do mundo!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 139</span>
+
+<div class="poesia">
+E assim vaes entre os soes deixando o aroma
+Dos ineffaveis dons da Providencia,
+Como exhala riquissima redoma
+Em dourado salão a fina essencia!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Oh Terra, Virgem mãe da Humanidade,
+Pelos fructos que dás eu te bemdigo!
+Cheia de graça, e cheia de bondade,
+O espirito de Deus seja comtigo!
+</div>
+
+<p class="data">Carvalhaes, 1870.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 140</span>
+
+
+<h3>IX</h3>
+
+<h3>AOS ASTROS!</h3>
+
+<div class="poesia">
+Quando ergo á noite os olhos scismadores
+Á cupula do ceu, cheia de mundos,
+E perco-me nos páramos profundos
+D'um mar sem fim de tremulos fulgores:
+</div>
+
+<div class="poesia">
+O ceu, qual templo levantado á Vida,
+Armado de riquissimo thesouro,
+De par em par descerra as portas d'ouro,
+E attrae a si minha alma embevecida!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 141</span>
+
+<div class="poesia">
+Chovem-me então das cellicas alturas,
+Das luminosas, candidas estrellas,
+Visões sublimes, ideaes e bellas
+Da Causa que deu o ser ás creaturas!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Amor as fez, Amor no espaço as guia!...
+E é sob o influxo d'esta Lei Suprema,
+Que cada qual realisa o seu problema,
+Preso ao das mais em intima harmonia!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Sim, cada estrella, vêmol'o sem custo,
+Sendo dos ceus bellissimo ornamento,
+É um centro de vida e movimento
+Posto ao serviço d'um principio justo!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Por todo o ethereo azul da immensidade,
+Dos soes sem fim a fulgida colmeia,
+Trabalha em traduzir, na humana ideia,
+De Deus a perfeição, toda bondade!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 142</span>
+
+<div class="poesia">
+Oh cupula celeste, no teu seio
+Aprendo a ler em paginas de fogo
+O espirito das coisas que interrogo
+Por toda a parte, e em cuja essencia creio!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Tu, co'o teu docel azul sem fundo,
+Cheio de fogos d'alma claridade,
+Em multipla e febril actividade;
+Sorris-me como a fabrica do mundo;
+</div>
+
+<div class="poesia">
+O vasto pavilhão onde é servida
+Em mesas d'ouro, festivaes e bellas,
+N'esses milhões de esplendidas estrellas,
+A eterna comunhão dos Bens da Vida!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Permitte, pois, que em sã fraternidade,
+Reunindo os habitantes d'esta esphera
+Aos que ha em ti, minha alma, sã e austera,
+Saúde a mãe commum==a Humanidade==;
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 143</span>
+
+<div class="poesia">
+E adore, á luz dos fachos sempre novos,
+Do teu santuario, o espirito fecundo
+De Deus, Supremo Bem, que ampara o mundo,
+Inspira as almas e dirige os Povos!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+E emquanto a vida vae em seu caminho,
+Por entre o dia claro e a noite escura,
+Conserva intacta esta alma crente e pura,
+Porque possa voltar ao patrio ninho!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Á luz da minha critica profana,
+A Lei Suprema, que de Deus deriva,
+Eleva aos soes, em marcha progressiva,
+De virtude em virtude a alma humana!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Se duvidas tivesse, a fé e a esperança
+Levavam em contrario a vida minha,
+E a bussola, que ignora onde caminha,
+Segue o seu norte e d'elle emfim descança!...
+</div>
+<span class='pagenum'>Pág. 144</span>
+
+<div class="poesia">
+Astros sem fim, oh soes que estaes por cima,
+Longe da Terra, em região mais pura!
+Deixae que o corpo desça á sepultura
+E a vós se eleve o espirito que o anima!
+</div>
+
+<div class="poesia">
+O irmão da Luz, o amante da Verdade,
+Hade ir, deixando o envolucro que veste
+Como hospede da abbobada celeste,
+Internar-se feliz na immensidade!...
+</div>
+
+<div class="poesia">
+Astros! egual é a lei que nos governa!
+Na Terra, o nosso espirito fecundo
+Penetra nos reconditos do mundo,
+E vive como vós a Vida Eterna!
+</div>
+
+<p class="data">Beselga, 1872.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 145</span>
+
+
+
+
+<h2>NOTAS ELUCIDATIVAS</h2>
+
+
+<h3>A DEDICATORIA</h3>
+
+<p>No nosso periodo academico, que decorre de 1859 a 1866, e no que se lhe
+seguiu de 1867 até ao anno de 1874 em que nos casámos, mantivémos
+estreitas relações d'amisade com algumas familias historicas da
+provincia e da capital, onde eram ainda vivos os aggravos, e numerosas
+as queixas, contra as violencias e as vinganças politicas que, de parte
+a parte, precederam, acompanharam e seguiram o triumpho das armas
+liberaes, na guerra chamada dos dois irmãos, D. Pedro IV e D. Miguel I.</p>
+
+<p>A nossa substancial e nunca desmentida tolerancia para com as crenças e
+as opiniões dos outros, derivada do Ideal de Justiça de 1789, que
+seguimos desde os bancos da Universidade com inquebrantavel fé e
+ininterrupta dedicação, e o quasi fanatico respeito pela inviolabilidade
+do lar, permittiram-nos estudar na vida intima d'aquellas familias
+illustres, a transformação profunda que se operou nas crenças, usos e
+costumes d'este povo, celebre entre os mais celebres da Historia.</p>
+
+<p>Tivemos a infinita ventura de conhecer de perto, nas suas melhores
+origens, as mais bellas joias da alma portugueza, de que o <span class='pagenum'>Pág.
+146</span> coração da mulher foi, é, e ha de ser sempre o fiel relicario e
+transmissor! D'ahi em grande parte a nossa confiança na missão d'este
+povo heroico, nos destinos dos outros povos, quando para todos brilhe e
+impere um novo Ideal de Justiça e em nome d'elle sejam banidas as
+paixões, quer religiosas quer politicas, das regiões augustas e serenas
+da Lei e do Poder.</p>
+
+<p>D'essas familias destacaremos a de Silva Gayo, o glorioso author do
+<i>Mario</i>, casado com D. Emilia Paredes, filha do Conselheiro Cunha
+Paredes, Juiz do Supremo Tribunal de Justiça, aquelle um vibrante e
+eloquente protesto contra os excessos de demagogia, ou clerical ou
+plebêa, de que o citado livro é um bellissimo documento; seu sogro um
+dos homens bons e ponderosos que partilharam e serviram o movimento
+liberal.</p>
+
+<p>A familia de Luiz Monteiro Soares d'Albergaria, casado com D. Ludovina
+da Silva Carvalho, filha do celebre ministro de D. Pedro IV, senhora de
+excepcional illustração, que conhecia a fundo o seu tempo, e sobre elle
+descorria com conhecimento de causa.</p>
+
+<p>A familia Osorio, da quinta das Lagrimas, e a da Graciosa, representando
+ambas o elemento são da aristocracia portugueza que se pronunciou pelas
+liberdades e franquias patrias, e onde me foi dado admirar os requintes
+da educação antiga, no que ella tinha de altruista e de bom, segundo o
+verdadeiro espirito evangelico.</p>
+
+<p>A familia do bacharel em direito Manoel Rois Salgado, de Carvalhaes,
+filho de lavradores remediados da poetica região da Bairrada, liberal
+convicto, implacavel inimigo da intollerancia religiosa e das tyrannias
+politicas do tempo dos caceteiros de D. Miguel e dos Cabraes.</p>
+
+<p>Era sua esposa uma senhora de origem e tradições legitimistas, D. Anna
+de Vasconcellos, que muito soffrera com a guerra dos dois irmãos!... Sua
+alma piedosa, delicada e poetica, sobreelevou a todos, e nos fez
+conhecer de perto, com quotidianos exemplos de bondade, a excellencia
+das doutrinas do Evangelho, quando postas em pratica, com fé e pureza de
+coração.</p>
+
+<p>A familia de Manoel Maria da Silva Bruschy, d'esse grande moralista,
+philosopho e jurisconsulto que foi um dos luminares da Jurisprudencia
+patria e quem nos dirigiu os nossos primeiros passos na carreira
+forense.</p>
+
+<p>Era elle um dos mais authorisados e prestigiosos representantes <span class='pagenum'>Pág.
+147</span> do legistimismo, e quem nos forneceu informações curiosas sobre
+muitos pontos obscuros da guerra civil, e sobre motivos secundarios, que
+contribuiram para o triumpho das armas liberaes.</p>
+
+<p>Nas mesmas condições de saber, de coração e de espirito, mas n'uma ordem
+de ideias oppostas ás de Silva Bruschy, mencionaremos ainda o general
+Luiz Flippe Folque, conselheiro de estado, mestre que tinha sido dos
+reis extinctos D. Pedro V e D. Luiz I, e que foi quem acompanhou e
+dirigiu o primeiro d'estes dois monarchas na sua viagem d'instrucção e
+recreio pela Europa.</p>
+
+<p>Era um perfeito homem d'estado, modesto, erudito e tolerante para com
+todas as opiniões. Devemos a seu genro o Conde de Nova Goa, nosso velho
+e dilecto amigo, a convivencia com este perfeito homem de sciencia, de
+cujas lições colhemos muitos elementos de ponderação para formarmos
+juizo imparcial e seguro sobre a historia dos partidos politicos em
+Portugal.</p>
+
+<p>Resta-nos mencionar nosso sogro, o general de divisão, Roque Francisco
+Furtado de Mello, que foi juiz do Tribunal Superior de Guerra e Marinha,
+que se orgulhava de ter feito as novas campanhas da Liberdade, e sua
+sancta esposa D. Maria Maxima de Berredo, filha d'um dos regeneradores
+do movimento revolucionario de 1820.</p>
+
+<p>Ambos tinham sido victimas das guerras civis desde o cerco do Porto e
+ambos soffreram, com suas familias, as mais crueis perseguições dos
+sequazes do absolutismo em Portugal.</p>
+
+<p>Para inteiro esclarecimento, ainda diremos que alguns dos nossos
+parentes, tanto do lado paterno como do materno, eram legitimistas
+convictos, que se achavam destituidos das honras e benesses do antigo
+regimen, e que protestavam contra a nova ordem de coisas.</p>
+
+<p>Tal foi o meio social em que nos achámos ao sahirmos do lar paterno.</p>
+
+<p>A nossa posição singularmente favorecida n'este conflicto de interesses
+historicos, tendo tido a coragem de evolucionármos em nome da sciencia,
+e sob a influencia dos espiritos mais cultos da epocha, para o regimen
+da democracia pura, que melhor chamaremos do Direito Humano, inaugurado
+com a proclamação dos Direitos do Homem, em 1789; a excepcional ventura
+de conquistarmos para a sinceridade das nossas crenças a tolerancia dos
+nossos competidores, tudo isto concorreu para nos fortalecer no Ideal
+<span class='pagenum'>Pág. 148</span> d'um novo Direito, d'uma Nova Justiça, d'uma Nova Moral, de que
+este livro é um modesto precursor no campo da poesia patria.</p>
+
+<p>Não podiamos deixar por isso de o consagrar á memoria inolvidavel
+d'essas venerandas creaturas, quasi todas hoje extinctas... ás almas
+d'eleição que tanto fortaleceram as nossas creanças na bondade e na
+virtude humana.</p>
+
+<p>Por outro lado pertencendo pela educação que demos a nós mesmos,
+destruindo pela base a que recebemos no berço, aos homens de genio e de
+fé, que espalharam pelo mundo os principios revolucionarios de 1789 e
+tentaram as primeiras applicações praticas aos problemas pendentes da
+humanidade, e genios em que havia poetas como Lamartine e Hugo, musicos
+como Beethoven e Ricardo Wagner, economistas como Bastiat, publicistas
+como Proudhon, historiadores como L. Blanc, philosophos da grandesa e
+originalidade de Quinet e Michelet, cujos ideaes de justiça e d'amor nos
+conquistaram e nos acompanharão até á morte: comprehende-se que em nome
+d'elles não ponhamos hoje a nossa fé e a nossa esperança sobre a
+regeneração do Mundo nas gerações actuaes, incredulas, scepticas, e
+devoradas pela febre do ouro e do goso!</p>
+
+<p>N'este actual periodo historico, que é todo de negação, sem ideaes
+definidos, e cheio de convenções, de hypocrisias e mentiras, cujo estado
+pathologico foi magistralmente descripto por Max Nordau no seu livro
+celebre <i>Les Mensonges conventionelles de notre civilisation</i>, é natural
+que não encontrem echo estes nossos <span class="small-caps">Cantos</span>, nascidos d'uma grande fe no
+futuro da Humanidade!</p>
+
+<p>São quasi todos uns modestos preludios, uns gorgeios ainda incertos,
+d'uma nova alvorada, e por isso os consagramos ás gerações que hão de
+ter a ventura de ver em plena claridade o dia de que apenas distinguimos
+os primeiros pronuncios nos horisontes do futuro e da patria.</p> <span class='pagenum'>Pág. 149</span>
+
+
+<h3>O QUE EU VI</h3>
+
+<p class="centrado">Paginas 1 e 2</p>
+
+<p>Esta poesia é uma das quatro ou cinco d'esta collecção que já foram
+publicadas. Não podemos verificar n'este momento, por falta de tempo, em
+que jornal litterario e em que data o foi.</p>
+
+<p>Pode dizer-se que é o prologo e a synthese de todo este livro de <span class="small-caps">Cantos</span>.
+Pode até mesmo servir d'explicação ao sentimento religioso que se accusa
+tão accentuadamente em quasi todos os nossos trabalhos poeticos.</p>
+
+<p>Como d'ella se deprehende o <i>Deus</i> a quem nos referimos está
+completamente fóra dos moldes das religiões revelladas, dos ergastulos
+da fé dogmatica. É o Pae da Vida, a Fonte do Amor, o Deus da Natureza.</p>
+
+<p>É como que o symbolo que personifica a Perfeição Absoluta; o Ideal do
+Universo; A causa primaria de todo o existente; O sol vinificador das
+consciencias e dos mundos.</p>
+
+<p>É a Belleza, é o Amor, é a Justiça, a que tudo obedece, levados ao
+maximo grau d'intensidade que é dado á razão humana attingir n'um
+determinado cyclo historico, e que, como tal, illumina as consciencias,
+dirigindo-as!...</p>
+
+<p>Para todo o coração terno, para toda a alma de artista, será sempre
+imprescindivel antepôr-se ao espectaculo magnificente e deslumbrador do
+Universo, á marcha triumphal da Luz e da Vida por toda a parte
+penetrando nos ultimos reconditos do mundo visivel e invisivel, e sem a
+interrupção d'um só instante na sequencia incalculavel dos seculos,
+tirando de lá as maravilhas da natureza, antepôr-se, dizemos, um mundo
+moral com as paginas infinitamente bellas das civilisações já extinctas;
+um mundo que synthetise todo o Ideal da Humanidade. E, n'esse Mundo
+Moral, Deus é o <i>Ser por excellencia</i>, a chave insubstituivel do
+multiplo e mysterioso Problema da Vida.</p>
+
+<p>Nas insondaveis e invisiveis regiões da consciencia humana, o <span class='pagenum'>Pág. 150</span>
+mundo exterior, que é o reflexo, a continuação, o complemento do mundo
+interior, encontra n'este, como outros tantos <i>Ideaes da Perfeição
+Suprema</i>, as Leis da Vida, que actuam imperturbaveis, omnipotentes e
+eternas.</p>
+
+<p>Para este Mundo Moral, para este Mundo das Almas, Deus é pois a
+personificação d'essas leis e como tal o Ideal Supremo.</p>
+
+<p>Não cremos possivel arrancar-se da natureza humana, deturpando-a,
+qualquer das suas forças immanentes, e no numero d'estas forças devemos
+suppôr a religiosidade, isto é, o sentimento de respeito por um Poder
+superior, causa primaria, ponto de partida, iniciação e justificação de
+todo o existente, de tudo quanto vêmos e sentimos.</p>
+
+<p>E para nós uma utopia impraticavel, e nociva á solução dos actuaes
+problemas da humanidade, o querer-se substituir o Ideal vivo e amoroso
+de Deus pela synthese fria e inanimada da sciencia, assente
+exclusivamente em factos demonstraveis!...</p>
+
+<p>Em primeiro logar as sciencias positivas, pondo fóra da sua esphera
+d'investigação, e muito bem, a Causa Primaria das cousas, não podem
+aspirar a resolver os problemas da consciencia e do coração, e a fazer
+calar as imperiosas interrogações da sua voz interior!...</p>
+
+<p>Em segundo logar, todas as sciencias assentam, por ora, em meras
+conjecturas, em, aliás engenhosas e bem concebidas, hypotheses, que como
+taes em tempo algum poderão satisfazer a ancia infinita de nosso
+espirito em tudo devassar e saber, e ninguem nos pode affirmar que
+amanhã não sejam substituidas por novas hypotheses, melhor concebidas e
+expostas.</p>
+
+<p>Em terceiro e ultimo logar, o povo e a mulher, isto é os obscuros, os
+simples, os que trabalham, os que soffrem e os que amam, que são quasi,
+por ora, a humanidade inteira, não poderiam suspender as reclamações do
+seu coração e do seu espirito, á espera que os sabios lhes desvendassem
+os segredos da natureza, e convertessem as suas verdades, chamadas
+irreductiveis, n'um Ideal Supremo, que, para todos os effeitos,
+substituisse a Idéa de Deus a que o christianismo deu uma feição tão
+amorosa na interpretação larga e fecunda d'um Pae Celeste.</p>
+
+<p>Quem lucra com a guerra feita ao sentimento religioso, confundindo-o com
+o das religiões positivas, revelladas, são os reaccionarios catholicos
+e, para prova, é vêr o alastramento pavoroso <span class='pagenum'>Pág. 151</span> que por todo o
+paiz se está operando nas classes ricas, e nas ultimas camadas sociaes,
+sahindo-se até hoje triumphantes os que, pelas leis vigentes, pelas
+tradicções historicas, e pelo futuro d'este paiz, não deveriam ter cá
+entrado!...</p>
+
+<p>O que o sentimento religioso reclama é ser derivado para novos
+objectivos que mais directamente interessem e sirvam os soffrimentos
+humanos, a <i>moral</i>, a <i>arte</i>, o <i>direito</i> e a <i>justiça</i>, abandonando o
+sobrenaturalismo com todo o seu cortejo de phantasias, de aberrações e
+de absurdos.</p>
+
+<p>No dia em que a Razão se pozer d'accordo com a Fé, o Amor com a Justiça,
+será facil á humanidade entrar na normalidade do seu distino, como
+factor poderoso que é, nos multiplos e interminaveis problemas do
+Universo.</p>
+
+<p>Em harmonia com estas idéas, com o Ideal de Justiça que professamos, e
+de que este livro é um vehemente e sincero pregão, consagrando além
+d'isso á mulher e ao povo as nossas melhores esperanças na redempção do
+mundo: adoptámos para traduzirmos o nosso Ideal Supremo, esta palavra
+que tem a consagração dos seculos, as sympathias e a adhesão d'aquelles
+a quem principalmente visamos nos nossos <span class="small-caps">Cantos</span>.</p>
+
+<p>Sirva esta nota de explicação ás poesias congeneres e complementares
+d'estas, <i>Avé Creator</i> pag. 37, e o <i>Sursum Corda</i> pag. 41 e outras.</p>
+
+
+<h3>TRISTEZA</h3>
+
+<p class="centrado">Paginas 5 a 7.</p>
+
+<p>Escrevemol'a n'uma manhã de primavera na tapada d'Ajuda, quando esta não
+era ainda frequentada pelo publico da capital.</p>
+
+<p>N'aquelle recinto onde não entravam os rumores da grande cidade, na
+benefica e imperturbavel quietação dos campos, sob uma <span class='pagenum'>Pág. 152</span>
+tonalidade de côres e de sombras d'uma variedade e doçura infinitas,
+havia n'essa manhã um grande movimento de vida na Natureza, muitos
+feixes de sol a distribuir e a combinar seus raios de ouro pelos troncos
+e a folhagem das arvores, pela verdura das relvas; muitos passaros
+cantando em redor dos ninhos; muitos insectos zumbindo em volta das
+flôres.</p>
+
+<p>Só nós appareciamos no meio d'aquelle trecho encantador de vida
+universal, com a nossa alma envolta em sombras caliginosas e, sob este
+influxo, o coração a trasbordar-nos de tristezas!...</p>
+
+<p>Estas derivavam d'erros proprios e alheios e faziamo-nos passar, ali,
+aos olhos da propria consciencia, como um desconcerto na Vida, como uma
+nodoa na creação!</p>
+
+<p>Da alta comprehensão que temos da <i>dignidade humana</i> e do papel que o
+Homem e a Humanidade representam nos destinos do Universo, (V. as
+poesias <i>Ao Homem</i> e <i>Á Mulher</i>), resultou para nós uma philosophia e
+uma moral que são substancialmente imcompativeis com os desalentos e as
+tristezas, porque aliás tantas vezes os nossos dias teem sido
+assaltados!...</p>
+
+<p>D'ahi o nosso appello para a Natureza onde tudo está no seu logar, não
+se desviando um apice da linha que lhe foi traçada, no augusto e sereno
+cumprimento das suas leis eternas e divinas.</p>
+
+<p>Pedindo á natureza refugio e amparo para as nossas dôres, lição e
+exemplo para os nossos erros, n'aquelle dia memoravel entrou-nos n'alma,
+como um cortejo festivo de Deus, tudo quanto em volta de nós celebrava
+ali os mysterios da vida e irromperam nos dos labios então estas
+estrophes despretenciosas e taes quaes as publicamos hoje.</p>
+
+<p>Pelo habito de as repetirmos longos annos, nos soliloquios com a nossa
+consciencia, não nos aventurámos a alterar-lhes uma só palavra, nem uma
+só virgula, e assim se explica que seja a unica poesia d'este livro com
+versos soltos, rimados apenas nos versos agudos.</p> <span class='pagenum'>Pág. 153</span>
+
+
+<h3>PRESENTIMENTOS</h3>
+
+<p class="centrado">Paginas 8 a 18</p>
+
+<p>E como uma photographia instantanea do estado da nossa alma quando,
+finda a nossa carreira universitaria, tivemos de assentar arraiaes no
+positivismo das coisas para havermos os meios com que se mantem o que ha
+de mais imperioso: a existencia, e n'esta o que ha de mais sagrado: a
+honra.</p>
+
+<p>Depois d'uma mocidade ruidosa, passada no convivio de livros dos mais
+celebres pensadores do seculo, e de talentos dos mais abalisados entre
+os lentes da Universidade, como Antonio de Carvalho, Silva Gayo, e
+Viegas; de rapazes cheios de ideaes e d'audacia, que mais tarde se
+haviam de tornar celebres nas letras, como Anthero do Quental, Theophilo
+Braga, Eça de Queiroz e Anselmo de Andrade, estes dois ultimos nossos
+condiscipulos; n'um periodo em que todos acreditavam na transformação
+completa do existente, para, abandonados de vez os velhos e caducos
+moldes do mundo medieval, entrar-se definitivamente na normalidade da
+vida que as sciencias dos ultimos seculos, e o direito de Revolução, nos
+garantiam: comprehende-se bem qual seria a nossa tristeza ao entestarmos
+com uma sociedade, mais que qualquer outra, decrepita, incredula,
+egoista e dissoluta!</p>
+
+<p>Tinhamos já então feito a nossa primeira viagem á França, sob o imperio
+da mais desenfreada corrupção politica dos ultimos tempos, na
+restauração do Imperio por Napoleão <i>le petit</i> e causou-nos indignação o
+que abservámos de perto na cidade santa de Direito Moderno, sobre a qual
+tinham raiado os inolvidaveis dias de 1789 e que fôra o theatro das
+primeiras e gigantescas batalhas do Povo, em nome do <i>Direito Humano</i>,
+contra os thronos colligados em nome do <i>Direito Divino</i>!...</p>
+
+<p>Estavamos nas vesperas da guerra Franco-Allemã que todos previam como
+inevitavel e de que resultou este tardio e indeciso movimento
+democratico, a cuja sombra a França não conseguio <span class='pagenum'>Pág. 154</span> ainda
+emancipar-se completamente dos preconceitos e velharias do antigo
+direito!...</p>
+
+<p>Regressámos á patria com a alma mais cortada de dôres de que quando
+d'ella partiramos!...</p>
+
+<p>A nossa intervenção quotidiana na vida do Povo, pela profissão que
+exercemos, o conhecimento das suas multiplas e infinitas miserias, a sua
+falta de comprehensão e de energia em reivindicar os seus direitos e a
+defeza da sua causa; o egoismo desenfreado da burguezia triumphante com
+a sua lastimosa indifferença pelo futuro da Patria; a irremediavel
+cegueira da aristocracia portugueza em não se separar das formulas já
+hoje varias de sentido e exhaustas de forças, do Direito Divino,
+representado no throno e no altar, direito já morto nas consciencias
+pela força da razão e da logica, antes de o ser no campo da batalha pela
+força das armas: todo este conjuncto de circumstancias adversas,
+concorreu para nos entibiar a fé e a esperança na realisação dos nossos
+ideaes.</p>
+
+<p>Ao vêrmos a Nacionalidade Portugueza ha tres seculos desviada do seu
+destino historico sem conseguir reatar as tradições perdidas, apesar dos
+violentos abalos da natureza e dos homens para levantal'a do atoleiro em
+que se deixou cahir--a libertação de Hespanha, o terremoto de Lisboa, as
+reformas do marquez de Pombal, de Fernandes Thomaz, de Mousinho da
+Silveira, de Passos Manuel e de tantos outros; apesar dos movimentos
+revolucionarios de 1820, 1834 e 1846: chegámos a descrer do futuro
+d'este povo illustre cujos destinos se acham indissoluvelmente unidos
+aos nossos!...</p>
+
+<p>Foi debaixo d'esta ordem de ideias sombrias que concebemos e compozémos
+esta poesia.</p>
+
+<p>Ella era então, como ainda o é hoje, a expressão fiel do nosso pensar e
+do nosso sentir, e, como a anterior, mantemol'a tal qual nos sahiu
+espontaneamente da laboração do nosso espirito contemplativo, e sonhador.</p>
+<span class='pagenum'>Pág. 155</span>
+
+
+<h3>REVELLACÃO</h3>
+
+<p class="centrado">Paginas 25 a 32</p>
+
+<p>Foi escripta esta poesia n'uma sexta-feira de Paixão, na quinta dos
+Frades Cruzios, de Coimbra, junto ao grande lago que hoje ainda alli se
+vê, cercado d'um espesso e alto muro de verdura entretecido com os ramos
+de cedros já hoje seculares.</p>
+
+<p>A cinta feita por elles em volta do lago tranquillo é tão compacta que
+junto das suas margens sentimo-nos por completo sequestrados do mundo
+exterior, e levados á contemplação do infinito do Ceu no finito da
+Terra!...</p>
+
+<p>Tinhamos assistido durante tres dias consecutivos ás ceremonias
+commoventes da lithurgia catholica nas festas da Semana Santa,
+celebradas com pompa na Capella da Universidade.</p>
+
+<p>Tinhamos ainda a alma combalida com os patheticos cantos do <i>Miserere</i>,
+de José Mauricio, e com as retumbantes orações dos levitas da Egreja,
+lançando do alto da sua cadeira sobre as multidões meio scepticas as
+suas palavras de desconforto e de desesperança sobre o destino humano,
+quando, fugindo a este meio deleterio e sombrio, appellámos para a
+Natureza, por ser esta aos nossos olhos a Biblia da <i>Verdade</i> e do
+<i>Amor</i>, escripta com palavras vivas e eternas, que não carecem das
+explicações dos concilios Ecumenicos, para serem os verdadeiros dogmas
+do nosso credo.</p>
+
+<p>Alli, levantando o problema do destino humano na Terra, encontrámos
+palavras d'Amor e de Justiça que suppozemos dignas de consignarmos nos
+nossos versos, destinados a servir, nos nossos despertenciosos e
+apoucados recursos, a causa da Humanidade.</p>
+
+<p>Este <span class="small-caps">Canto</span> pela sua structura e motivo fazia parte do Livro segundo, mas
+transpozemol o para aqui por conter a ideia inicial da philosophia que
+presidiu a quasi todos os outros.</p> <span class='pagenum'>Pág. 156</span>
+
+
+<h3>AVE CREATOR</h3>
+
+<p class="centrado">Paginas 37 a 40</p>
+
+<p>Esta poesia foi escripta n'um bello dia de sol, no cimo d'uma montanha,
+em face d'um largo horisonte, na quinta da Beselga, que é proxima aos
+memoraveis campos d'Asseiceira, onde se feriu a ultima batalha a favor
+das armas liberaes. Pertence esta quinta a um dos nossos mais dilectos e
+dedicados amigos, o Conde de Nova Gôa.</p>
+
+<p>N'esta e na dos Carvalhaes, que fica n'um dos extremos da poetica
+Bairrada, e não longe do sagrado e querido Bussaco, e a que nos
+referiremos na poesia <i>Á Terra</i>, foi onde se passou o periodo da nossa
+maior actividade litteraria.</p>
+
+<p>O nosso remanso n'aquella quinta tranquilla e poetica, e a convivencia
+com senhoras da mais selecta sociedade de Lisboa, que alli iam passar
+parte do anno, muito concorreram para alguma das nossas mais vibrateis e
+sentidas composições poeticas.</p>
+
+<p>Esta é uma das que nos sahiram mais espontaneas e que melhor traduzem as
+emoções da nossa alma perante o grande espectaculo do mundo, alumiado
+pelo Sol e vivificado pelo Amor!</p>
+
+
+<h3>AO HOMEM--Á MULHER</h3>
+
+<p class="centrado">Paginas 57 a 65</p>
+
+<p>O pensamento que inspirou estas duas poesias é como que uma synthese da
+philosophia moderna, a base indestructivel d'uma nova Moral, a pedra
+angular sobre que deverá levantar se o templo da futura religião da
+Humanidade.</p> <span class='pagenum'>Pág. 157</span>
+
+<p>É o Homem, da grande altura a que chegou a civilisação, á intensa luz de
+factos demonstraveis e irreductiveis, e depois de longos seculos de
+desalento e decrepitude, a readquirir a confiança em si, nas leis da
+Vida, nas forças da Natureza, de que se vae apossando a pouco e pouco,
+na sua missão no mundo, na integração dos seus destinos no Universo.</p>
+
+<p>É o reprobo da Religião semita, o expulso do Paraiso por decreto de
+Jehovah, convertido no filho dilecto da Natureza e de Deus, no
+prescrutador dos seus segredos e dos seus processos, e que hoje, senhor
+do plano geral da creação, armado de recursos infinitos, esclarecido com
+os fachos inapagaveis das sciencias e das artes, dispondo de thesouros
+infinitos: assenta definitiva e resolutamente os seus arraiaes no
+planeta que lhe foi dado para theatro da sua ideia, no paraiso dos seus
+primitivos sonhos, no pantheon de sua gloria, no templo da sua nova fé.</p>
+
+<p>É pois o homem que se levanta, do pó da terra, da cinza do seu nada que
+lhe fôra imposto como <i>labaro da vida</i>, para se constituir no augusto
+executor da <i>obra divina</i>, n'um dos cooperadores conscientes dos
+<i>Problemas do Universo</i>.</p>
+
+<p>É o batalhador incansavel, o Hercules da Civilisação que, depois de ter
+expurgado a Terra dos seus elementos maus para d'ella tomar posse,
+pretende agora, com os fachos da Razão e do Amor, expulsar do seu
+espirito os espectros das religiões revelladas, as lendas da sua
+meninice, e tornar-se o sabio, o forte, o luctador por excellencia.</p>
+
+<p>Depois de ter conquistado o mundo pela Força e pela Razão, pretende
+agora redemil'o pelo Amor e pela Justiça.</p>
+
+<p>Para esta missão incruenta depõe aos pés da mulher não só o seu destino,
+como por instincto o fizera até hoje, mas o da propria especie, porque
+foi d'ella que Deus confiou a renovação da Vida pelo Amor e a incumbiu
+de nos dulcificar a existencia com os actractivos proprios do seu sexo e
+os encantos que derivam da sua belleza e da sua graça.</p>
+
+<p>A piedade que de ha seculos trabalha o coração humano, e que d'elle
+irrompe como um arroio crystalino, vindo ora da India com as doutrinas
+de Boudha, o christo do Oriente, ora da Palestina com os sonhos de
+Isaias, e os evangelhos de Jesus; agora da Grecia com o espiritualismo
+de Platão e de Socrates; logo apoz de Roma com as maximas e exemplos de
+Marco Aurelio; mais tarde sob o <span class='pagenum'>Pág. 158</span> Ideal de Christo, da França com
+o rei S. Luiz e S. Francisco de Salles; da Hespanha, com Santa Thereza;
+de Portugal, com Frei Bartholomeu dos Martyres e tantos outros:
+tornou-se por fim a corrente caudal do Direito Moderno que já em 1789
+nos sorria sob o lemma da Liberdade, Egualdade e Fraternidade, e que,
+pela solidaridade das raças e dos Povos, e pela sua mutua e
+indistructivel dependencia, será a chave da todo o Problema Humano, no
+novo cyclo para onde as leis historicas nos encaminham.</p>
+
+<p>Como se vê a Religião e a Moral mudam apenas do objectivo e de processo.</p>
+
+<p>O Ideal, isto é o Bem Supremo, desloca-se das bandas do Passado para os
+horisontes do Futuro, e deixa dormir sepulto nas sombras o que já foi, e
+sob a condemnação d'um decreto divino, para nos apparecer, como a
+columna de fogo aos olhos dos Hebreus, á frente dos individuos, das
+nações e dos povos e encaminhal'os á Terra da Promissão!</p>
+
+<p>Por este novo objectivo a historia da civilisação, d'harmonia com as
+leis do Universo, seguirá n'uma marcha não regressiva para o Passado,
+como o pretendiam as religiões revelladas, mas progressiva em demanda do
+Ideal sonhado, Ideal que muito ao longe nos fascina como um foco de luz
+intensa e impenetravel, que nos cega, e além da qual só ha o
+Absoluto--Deus.--</p>
+
+<p>O homem por este novo credo deixa de ser o degredado filho d'Eva para se
+constituir no artifice divino, no triumphador por excellencia! Converte
+a propria historia, escripta com sangue e com lagrimas, na Biblia unica
+authentica e verdadeira; no melhor estimulo da sua fé; na melhor
+glorificação do seu Deus.</p>
+
+<p>Para que o <i>par humano</i> se não estonteie, porém, com a propria gloria, e
+não se proclame egual ou superior a Deus, como nos tempos do paganismo:
+collocamos sobre a sua cabeça uma Entidade que a elle em tudo o
+sobreleva, que, intangivel aos seus desvarios e erros, por elle vela e
+sobre elle estende a todo instante a sua acção protectora, a Virgem mãe
+dos povos--a <i>Humanidade</i>!</p>
+
+<p>Não é ella nascida da phantasia dos homens, mas surge real e verdadeira,
+em plena luz e cheia de gloria, das emmaranhadas e mysteriosas paginas
+da Historia! A seus pés depomos, desprendendo-os das cordas da nossa
+lyra, os primeiros trenos d'amor como um timido e passageiro ensaio, na
+poesia que lhe consagramos de pag. 74 a 77.</p> <span class='pagenum'>Pág. 159</span>
+
+<p>Poderão os defensores das religiões positivas, feridos nos seus
+interesses, alcunhar-nos de hereges e cobrir-nos de injurias; mas o que
+jámais conseguirão é provar-nos que o homem, que tirar dos seus proprios
+triumphos a glorificação do seu Deus, não se engrandeça a si e ao
+Creador, e não se torne por isso digno do espectaculo da natureza, onde
+surgiu como um dos cooperadores conscientes dos problemas da vida!</p>
+
+<p>A despeito das malidicencias d'uns, das ironias e satyras doutros, temos
+fé que estes <span class="small-caps">Cantos</span> hão de encontrar sympathia e acolhimento nas almas
+simples e boas, a quem os consagramos, e é quanto nos basta.</p>
+
+
+<h3>Á HUMANIDADE</h3>
+
+<p class="centrado">Paginas 74 a 77</p>
+
+<p>Este <span class="small-caps">Canto</span> é como que uma antiphona, embora ainda indecisa e pallida, em
+louvor d'aquella Divindade invisivel que, ao cabo d'infindos seculos, e
+a despeito dos antogonismos e odios que as religiões e a politica
+semeavam, soube conduzir os Povos, por mil meandos e caminhos oppostos,
+á conciliação e a Paz universal, que já hoje se desenha como o ideal do
+seu futuro viver!</p>
+
+<p>Esta solidariedade em que todos elles se encontram perante <i>a solução
+d'um Problema commum</i>, é uma das Verdades fundamentaes que já desceram
+das regiões da utopia e dos sonhos para o imperio dos factos.</p>
+
+<p>O prestigio da sua causa e a rapidez dos seus triumphos são taes que tem
+feito em meia duzia de lustros o que todas as religiões do Passado não
+conseguiram n'uma serie interminavel de seculos!</p>
+
+<p>A sua acção avassaladora attinge as culminancias dos mais altos poderes
+constituidos! Até incita o proprio auctocrata de todas as Russias a
+propor ás mais nações do mundo o desarmamento geral, <span class='pagenum'>Pág. 160</span> ou pelo
+menos a reducção d'essas forças terriveis, a proporções que não
+contrariem os interesses dos Povos, a causa do Direito, e os principios
+do Justo!...</p>
+
+<p>Pode até dizer-se que os mais celebres capitães, Alexandre, Julio Cesar
+e Napoleão, sem o pensarem e sem o quererem, se tornaram os mais
+poderosos semeadores d'este Ideal da Justiça Moderna!<sup><a href="#nota1">[1]</a></sup></p>
+
+<p>Até ás proprias forças da Natureza, no uso que o homem d'ellas está
+fazendo abrindo canaes, levantando pontes, estendendo em todas as
+direcções dos quatro pontos cardeaes do globo uma rede infinita de
+telegraphos e d'estradas, até ellas estão conspirando para o triumpho do
+novo direito!...</p>
+
+<p>A sua acção omnipotente, embora indirecta, accusa-se todos os dias na
+vida intestina dos povos, nos seus interesses os mais materiaes; na
+organisação das poderosas companhias transantlanticas, a vapor; na
+celebração dos tratados de commercio entre todos os povos do globo; na
+publicação de revistas scientificas; na realisação de conferencias e de
+exposições internacionaes, onde em tudo prodomina o espirito cosmopolita
+e universal dos tempos modernos!</p>
+
+<p>É um levantamento das almas a que é preciso levar um Ideal
+espiritualista, um objectivo religioso, um culto emfim para que se
+apposse das multidões e se converta nos preceitos d'uma moral pratica,
+no Labaro d'uma religião universal.</p>
+
+<p>Por elle um povo illustre derramou já o mais generoso do seu sangue afim
+de conquistar para o mundo dos factos, com o proprio sacrificio, <i>a
+formula juridica d'este novo Direito</i>; e, a despeito da guerra
+desapiedada dos representantes do velho regimen, a sua doutrina penetrou
+em breve no espirito de todos os codigos!</p>
+
+<p>Se estas conquistas extraordinarias, chamar-lhes-hemos assombrosas, de
+Civilisação Moderna se alcançaram sem o concurso das religiões
+positivas, que lhes foram adversas, sem o proposito dos imperantes e dos
+politicos, poder-se-ha calcular: que transformação profunda e rapida nos
+destinos do universo se não vae operar, <span class='pagenum'>Pág. 161</span> quando aquella Mãe que
+preside á sorte dos povos, e que tem estado até hoje degredada nas
+regiões abstractas do pensamento, tomando uma forma visivel e humana, se
+constituir na soberana por excellencia, na protectora dos fracos, na
+redemptora dos opprimidos, na consoladora dos que choram, na fé e
+esperança dos que sonham, na mensageira em fim do Creador que, tanto
+quanto é permittido ás forças humanas, converterá em realidades as
+promessas de Jesus no sermão divino da Montanha!</p>
+
+<p>É prevendo o culto que mais tarde as mulheres, os sabios e os justos lhe
+hão de prestar, que esboçamos este cantico religioso.</p>
+
+<p>Para que esta aspiração se converta na religião do Futuro basta que a
+Mãe de Jesus, esta creação poetica e encantadora do symbolismo
+catholico, avocando a si a realidade da historia, e entrando nos usos e
+costumes dos povos: synthetise o espirito de novos tempos e se torne a
+fiel depositaria do pensamento do Creador na Terra, a mensageira da
+Verdade, a distribuidora da Justiça e do Amor, a Virgem Mãe dos Povos.</p>
+
+<p>Então todas as antiphonas e canticos que a Egreja hoje faz entoar em
+honra da Mãe de Jesus, serão poucos para a glorificarmos!...</p>
+
+<p class="footnote"><sup><a name="nota1">[1]</a></sup> Laurent nos seus estudos sobre a <i>Historia da Humanidade</i> demonstra
+á saciedade quanto estes e outros heroes foram meros instrumentos d'uma
+causa superior, a vontade de Deus, em tudo o que fizeram.</p>
+
+
+<h3>AO NOVO CYCLO HISTORICO--NOVA LUZ! NOVO IDEAL!</h3>
+
+<p class="centrado">Paginas 78 a 90</p>
+
+<p>Estas duas poesias são o desdobramento, a synthetisação dos <span class="small-caps">Cantos</span>
+consagrados á <i>Paz dos Povos</i>, ao <i>Homem</i> e á <i>Mulher</i>, vendo n'estes os
+principaes factores da civilisação, e á Humanidade, como typo ideal da
+Verdade e da Belleza, na realisação progressiva do destino Humano.</p>
+
+<p>Enviamos o leitor para o que expozémos nas respectivas notas, <span class='pagenum'>Pág. 162</span>
+porque ali lhe será facil descortinar o systema de philosophia que se
+converteu para nós nos preceitos de uma moral substancialmente humana,
+verdadeira e pratica; a que se reduz no fim de contas toda a religião do
+futuro.</p>
+
+
+<h3>APELLO SUPREMO--REFUGIO ULTIMO</h3>
+
+<p class="centrado">Paginas 91 a 97</p>
+
+<p>Estas duas poesias são o complemento da que publicámos a pag. 8 sob a
+denominação <i>Presentimentos</i>. Foram escriptas no mesmo periodo, quatro
+annos antes de constituirmos familia, isto é, de entrarmos na <i>pratica
+obscura e quotidiana do verdadeiro altruismo</i>, principio moral em que
+assenta a familia, a primeira e a mais sagrada das nossas instituições,
+e que é a base da religião e da philosophia.</p>
+
+<p>Carecem ambas pelo seu ardente mysticismo, ou melhor diremos pelo seu
+exagerado lyrismo, repassado de desalento e dôr, da correcção que o
+conhecimento das leis da vida e as licções de historia nos trouxeram com
+o andar dos tempos e que, sob o mesmo espirito religioso, traduzimos nos
+<span class="small-caps">Cantos</span> á <i>Humanidade</i>, á <i>Mulher</i>, ao--<i>Homem</i>, aos <i>Filhos</i> e
+designadamente nos dois canticos anteriores ao <i>Novo Cyclo Historico,
+Nova Luz! Novo Ideal!</i></p>
+
+<p>A confiança nas Grandes Leis da Vida e da Historia, na Natureza e na
+Humanidade, deu-nos forças e animo para as luctas em que nos temos visto
+assediados toda a vida, resignação e paciencia na adversidade, fé
+inabalavel na regeneração do Mundo pela sciencia, pela justiça e pelo
+amor, quando se entrar definitivamente, sem peias, sem ficções, e sem
+mentiras, no imperio da Verdade, no regimen da liberdade absoluta!...</p>
+
+<p>Este appello Supremo para Deus onde, ao cabo de tantos desenganos e
+dissabores, esperamos encontar o nosso refugio ultimo, não significa
+outra coisa.</p> <span class='pagenum'>Pág. 163</span>
+
+<p>Os sonhos de justiça que, desde Jesus, nos transmittiram as gerações
+transactas, para lhes darmos cumprimento, hão-de encontral'o nas
+gerações futuras que, por seu turno, legarão aos seus legitimos
+herdeiros, novos ideaes e com estes novas esperanças!</p>
+
+<p>Esta é que é a verdadeira glorificação de Deus na Humanidade pela
+revellação continua e progressiva da Historia!...</p>
+
+<p>Sob este ponto de vista, poder-se-hia dizer que estas duas ultimas
+poesias não são já a expressão verdadeira do nosso actual modo de pensar
+e sentir.</p>
+
+
+<h3>AO SOL</h3>
+
+<p class="centrado">Paginas 108 a 111</p>
+
+<p>Escrevemol'a debaixo das impressões dos cantos sagrados da India, no
+<i>Rig Veda</i> e sob a alta concepção que Renan fazia de Deus e do Sol
+quando affirmava que antes da Humanidade attingir aquella unidade e
+synthese suprema das almas, só o Sol tinha tido direito á adoração e
+culto dos Povos.</p>
+
+<p>Sentimos a seu respeito, por intuição, o que mais tarde a sciencia nos
+revellou em obras memoraveis como o são alguns dos trabalhos de
+Flamarion sobre astronomia e designadamente o prodigioso e fascinante
+livro de Buchner <i>La Lumière et Vie</i>, que nos revellou com uma pujança
+de saber e de logica inexcedivel, e uma linguagem colorida e vigorosa
+incomparavel, as incalculaveis maravilhas da natureza que anteviamos com
+olhos apenas d'um poeta enamorado.</p>
+
+<p>Se escrevessemos este <span class="small-caps">Canto</span> depois da leitura d'estes livros, a nossa
+linguagem teria sido de certo mais vibratil e as imagens de que nos
+serviriamos mais vivas e mais bellas.</p>
+
+<p>A idéa fundamental da sua concepção teria ficado, porém, a mesma; a
+mesma, a nossa admiração, o nosso culto por esse glorioso vivificador
+dos mundos; por esse prodigioso distribuidor da luz, que, a ter de
+desapparecer do espectaculo das coisas visiveis, como <span class='pagenum'>Pág. 164</span> lh'o
+prophetisam os seus admiradores e chronistas, o não faria sem deixar
+atraz de si, n'uma serie ininterrupta de seculos, a mais oppulenta das
+heranças, a mais genuina glorificação do heroe Bemfeitor por
+excellencia!</p>
+
+<p>Aos olhos dos outros astros, seus competidores, sob a cupula infinita
+dos ceus, morreria destituido da sua antiga grandeza, para dar vida e
+continuação a novos mundos, como Jesus, no Calvario, pregado na cruz,
+deu a sua alma aos povos para redimil-os!...</p>
+
+<p>Esta poesia, a instancias de Anthero do Quental, foi publicada por
+Guilherme de Azevedo e por isso pouco ou nada alterámos da fórma que
+primitivamente lhe démos.</p>
+
+
+<h3>Á ARVORE</h3>
+
+<p class="centrado">Paginas 127 a 131</p>
+
+<p>Foi escripta na epocha em que costumavamos passar parte do verão em
+companhia do Dr. Antonio da Silva Gayo, no Bussaco, n'esta montanha a
+que nos prendiam tão gratas recordações da nossa vida universitaria!...</p>
+
+<p>Ali fomos como cultores do Bello e do Justo em perigrinação sagrada
+muitas e muitas vezes, umas em companhia d'amigos como Anthero do
+Quental, José Julio Rodrigues, Philomeno da Camara, e outras vezes, e
+estas em maior numero, sosinhos, fazendo a pé todo o longo percurso
+desde Coimbra, mas encontrando larga e generosa compensação nas suas
+sombras impenetraveis e profundas, na sua solidão e paz absolutas, tão
+propicias á contemplação e ao estudo!</p>
+
+<p>Antes do caminho de ferro do Norte, que o pôz em communicação facil com
+o resto do Paiz, o Bussaco viveu longos annos, e para o bem d'elle,
+quasi completamente esquecido dos homens.</p>
+
+<p>Só almas d'eleição, pouco conformadas com a realidade das coisas, só um
+ou outro amante da Natureza, iam ali de vez em quando procurar na sua
+quietação e silencio, tão cheios de mysterios e <span class='pagenum'>Pág. 165</span> tradicções de
+mysticismo christão, <i>eloquentes lições</i> sobre os problemas da vida,
+sobre os multiplos e complicados destinos do coração e da consciencia,
+postos no mundo ante esta interminavel e ininterrupta sequencia--de luz
+e de sombra--de dias e de noites de prazeres e de dôres, de sonhos e
+desenganos!</p>
+
+<p>Talvez mais do que ninguem, n'estes tempos de gosos faceis e interesses
+materiaes, nós fomos d'este pequeno numero.</p>
+
+<p>A nossa paixão pela Montanha levou-nos a convencer o santo padre
+Mauricio a viver ali comnosco, pouco depois da nossa formatura,
+abandonando a sua modesta habitação em Luso, nos mezes de Novembro e
+Dezembro.</p>
+
+<p>Ali estivemos entretidos os dois, elle de dia com os trabalhos já então
+iniciados, com o nosso protesto, por Moraes Soares, de noite com as suas
+candidas e piedosas orações; nós com os nossos livros dilectos, com os
+nossos passeios solitarios e lucubrações litterarias. Um viver simples,
+sobrio e puro, de que ainda hoje guardamos vivissimas saudades!</p>
+
+<p>Mais tarde pelos melhoramentos e pequenas casas de habitação mandadas
+ali construir, o Bussaco attrahiu de Coimbra e seus arredores, de Lisboa
+e Porto, e até das Ilhas dos Açores, algumas familias distinctas, no
+numoro das quaes quaes sobrelevava a todas a de Silva Gayo.</p>
+
+<p>Foi este pela vivacidade e graça de seu espirito brilhante, pelo encanto
+incomparavel da sua palavra facil, d'artista e de sabio, e sua esposa
+pela gentileza singular do seu porte, pela bondade e abnegação nunca
+desmentidas para com todos, foram elles que mais concorreram a chamar ao
+Bussaco uma concorrencia selecta e a tornar inolvidaveis os dias ali
+passados.</p>
+
+<p>Foi ali que Silva Gayo escreveu e retocou algumas das paginas mais
+commoventes do seu <i>Mario</i>, de <i>Frei Caetano Brandão</i> e da <i>Magdalena</i>.
+Foi ali tambem que compozémos algumas das nossas poesias mais repassadas
+do pantheismo espiritualista que em todas mais ou menos se nota.</p>
+
+<p>Foi á sombra d'aquelles arvoredos adoraveis, e sob estas beneficas
+influencias de arte, que se crearam, n'uma incansavel e vibrante
+alegria, os dois filhos de Gayo e de D. Emilia Paredes, Manuel da Silva
+Gayo e Mario Gayo, os quaes mais tarde se haviam de distinguir como dois
+talentos comprovados, um na poesia, outro na musica!</p> <span class='pagenum'>Pág. 166</span>
+
+<p>Foi ali que mais tarde succumbiu, victima d'uma tysica de larynge,
+aquelle formoso espirito que foi gloria das sciencias e lettras patrias,
+cercado dos solicitos carinhos de sua incomparavel esposa, das lagrimas
+silenciosas e amargas do bom padre Mauricio e das nossas.</p>
+
+<p>Foi d'ali, ai de nós, noite memoravel e terrivel! que tivemos
+d'acompanhar sósinhos os seus restos mortaes até ao cemiterio da
+Conchada em Coimbra, onde pouco depois do romper da manhã, alguns dos
+seus collegas, admiradores e amigos, avisados do seu enterro, vieram
+comnosco prestar-lhe as ultimas homenagens dos vivos!...</p>
+
+<p>Voltemos aos dias felizes em que Silva Gayo ainda abrigava a esperança
+de debellar o mal que o vinha minando, apesar de pairar ás vezes como
+uma sombra sinistra no seu lucido espirito, a idéa d'um desenlace
+fatal!! Foi então que escrevemos este <span class="small-caps">Canto</span>, á <i>Arvore</i>.</p>
+
+<p>Estavamos installados na capella de Santa Thereza, a cuja entrada se
+levanta um d'aquelles cedros collossaes e magestosos do Bussaco, que são
+o privilegio e o orgulho d'esta floresta, a mais opulenta e formosa de
+quantas conhecemos dentro e fóra do paiz.</p>
+
+<p>Foi ali, tendo em frente dos nossos olhos aquelle gigante secular dos
+bosques, que compozémos esta poesia onde o leitor encontrará a expressão
+mais genuina do nosso amor pela estabilidade das forças da Natureza,
+representada no que ellas teem de mais bello e nobre, a arvore.</p>
+
+
+<h3>Á TERRA</h3>
+
+<p class="centrado">Paginas 132 a 139</p>
+
+<p>De todos os nossos trabalhos litterarios é este o que nos mereceu maior
+solicitude e carinho para deixarmos por nossa morte um testemunho do
+muito que amámos a Natureza e dos impagaveis beneficios que d'ella em
+toda a nossa vida recebemos.</p> <span class='pagenum'>Pág. 167</span>
+
+<p>Sobre a sua influencia na formação dos caracteres escrevemos um poemeto
+denominado <i>Passeio ao Campo</i> e que faz parte do quarto livro das
+<i>Irradiações</i>, <i>No Lar</i>.</p>
+
+<p>Concebemos e composémos esta poesia n'aquella aldeia obscura de
+Carvalhaes, a que nos referimos na nota primeira.</p>
+
+<p>Quizémos propositadamente que assim fosse, porque depois dos jardins e
+da quinta da nossa casa do Arco, na Ilha do Fayal, onde nascemos e
+brincámos e das pedras vulcanicas e negras da Aldeia do Guindaste, na
+Ilha do Pico, onde, em plena liberdade dos campos, em convivio intimo
+com a Natureza, perante o espectaculo do mar e d'um sem numero de
+pequenos vulcões extinctos passámos os mais deleitosos dias da meninice,
+pedras negras que ainda hoje, pelas recordações que encerram, nos
+sorriem mais bellas e fulgentes que os brilhantes, nenhuma terra amámos
+tanto como esta aldeia poetica de Carvalhaes.</p>
+
+<p>Foi alli que á sombra de pequenos bosques, de altos e extensos
+pinheiraes, balsamicos e sonorosos, de frescos relvados e de alamos e
+carvalhos frondosos, no adro da capella da Senhora das Neves, que lhe
+fica proxima, foi ali que lendo os nossos poetas mais dilectos,
+Virgilio, Camões, João de Deus e Victor Hugo, tomámos verdadeiro amor
+pelo rythimo e harmonia do verso, e abandonamos para os assumptos d'arte
+a prosa, onde fizemos os nossos primeiros ensaios, sendo ainda creança,
+tomando então por modelo a Byron, dos poetas da nossa meninice o mais
+festejado e glorioso.</p>
+
+<p>Foi n'esses arredores deliciosos da Bairrada e do Bussaco onde longos
+annos armazenámos inconscientemente em companhia do nosso chorado
+condiscipulo José Augusto Salgado, no nosso mundo interior a poesia que
+annos mais tarde, em 1867, nos irrompeu espontanea da alma, quando as
+saudades de Coimbra e da nossa vida academica nos subjugaram a ponto de
+abandonarmos interesses já creados e estabelecermo-nos de novo na Luza
+Athenas!... Foi então que tomamos o grau de licenciado em Direito na
+esperança de fazermos parte do corpo docente da Universidade, mas d'onde
+tivemos de sahir, pouco depois do nosso casamento, para n'um meio mais
+amplo angariarmos os escassos recursos d'uma vida honesta.</p>
+
+<p>Esta poesia, desejando nós que fosse de todas a mais perfeita, é no
+entanto a que hoje aos nossos olhos tem maiores defeitos, sendo um
+d'elles a sua extensão.</p> <span class='pagenum'>Pág. 168</span>
+
+<p>Preferiamos deixal-a nas proporções das outras, suas congeneres e irmãs,
+mas já agora, assim imperfeita, ficará sendo o depoimento mais vehemente
+e sincero do muito que quizémos á Terra, nossa mãe, ao Amor, á Luz e á
+Vida!</p>
+
+<p>Á falta d'heroes a quem consagrassemos os nossos <span class="small-caps">Cantos</span>, preferimos as
+Forças e as maravilhas da Natureza, que sendo obras de Deus, são por
+isso eternamente grandes e bellas para se constituirem na fonte pura e
+inexgotavel do Ideal.</p>
+
+<p>Foi Esta a divindade em cujo altar depozemos a alma e a vida, e quem em
+troca nos deu a pureza de coração e valentia d'animo para luctarmos
+contra a adversidade e salvarmos no meio da nossa pobreza os thesouros
+da nossa Fé.</p>
+
+
+<h3>AOS ASTROS</h3>
+
+<p class="centrado">Paginas 140 a 143</p>
+
+<p>Reservámos para o final d'este livro de canticos religiosos a poesia
+<i>Aos Astros</i>, porque podemos dizer com toda a Justiça, imitando David,
+que os <i>Ceus proclamam a Gloria de Deus</i>!</p>
+
+<p>A Luz no mundo das coisas visiveis e o Pensamento no mundo invisivel das
+almas, são os dois principaes factores do movimento e da Vida no
+Universo e na historia.</p>
+
+<p>Ambos concorrem para a solução d'um problema commum.</p>
+
+<p>Dovorciados até hoje pelas religiões positivas, productos da ignorancia
+inevitavel dos povos primitivos, tendem a fundir-se n'uma <i>Unidade
+Suprema</i>, para a qual convergem todas as forças vivas da Natureza, as
+revellações da Historia e as descobertas scientificas dos ultimos
+tempos!</p>
+
+<p>O que poderão estes dois eternos agentes da Verdade na solução dos
+destinos dos povos, já o podemos antever pelas grandes e luminosas
+syntheses historicas a que hoje attinge todo o espirito<span class='pagenum'>Pág. 169</span> culto ao
+contemplar, como nós o fizemos, os despojos das civilisações extinctas
+que se archivam nos grandes museus--no British Museum, em Londres; no
+Louvre, em Paris; nas gallerias de Pit, em Florença; nas do Vaticano, em
+Roma; e ao vermos reunidas as maravilhas da arte e industrias modernas
+nos certamens internacionaes das grandes exposições!...</p>
+
+<p>Pelo que já temos até agora conquistado com o poder creador da nossa
+Idéa e com o auxilio que nos prestam as forças inexgotaveis da Natureza,
+o que é já hoje authentico, real e verdadeiro: o homem não tem motivos
+para desesperar do termo da sua jornada no percurso indefinido e
+infinito dos tempos, e sentar-se á margem do caminho, e no meio d'este,
+a chorar como Jeremias, ou a apostrophar como Job a Justiça Eterna pela
+ingratidão dos homens e pela dureza dos fados! O homem nem deve
+considerar-se já hoje um revoltado contra Deus e por este punido, ora,
+segundo o genio semitico, com a expulsão de Adão e Eva do Paraizo, ora,
+segundo o espirito Helenico, com o aguilhoamento de Prometheu nas
+montanhas do Caucaso e o despedaçamento das suas carnes pelos bicos e as
+garras dos abutres!</p>
+
+<p>Pela mais exacta comprehensão das leis do Universo e da Historia, o
+homem tende a tirar da antithese do Mal e do Bem, cujo antagonismo
+permanente, em perpetua lucta, constitue todo o Mysterio do Passado, a
+Synthese Suprema chamada Verdade e que adoramos sob o nome de Deus.</p>
+
+<p>Perante esta luz, de intensissimo fulgôr e de alcance infinito, as
+paginas da historia escripta pelo homem, são apenas por ora uma gloriosa
+introducção aos fastos da Humanidade que os seculos futuros completarão,
+e cuja sequencia só póde denunciar-se nas visões e nos sonhos dos Poetas
+e dos Philosophos!</p>
+
+<p>Na prespectiva da morte, quando para nós se quebram os vinculos da Vida
+e se fecham para sempre as paginas da historia, apraz-nos abrir o Livro
+que já está escripto, o <i>Livro da Vida Eterna</i>--<i>os Ceus</i>--e
+consagrar-lhes este <span class="small-caps">Canto</span>, que escripto ha vinte e sete annos atraz, é
+ainda hoje a traducção fiel do nosso pensar e do nosso sentir.</p>
+
+<p>Não desdenhariamos de que sobre a nossa sepultura fossem escriptas as
+tres ultimas quadras d'este <span class="small-caps">Canto</span>, porque n'ellas resumimos toda a fé
+que trazemos no coração.</p>
+
+<p>Lisboa, 29 de março de 1899.</p>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Cantos Sagrados, by Manuel de Arriaga
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CANTOS SAGRADOS ***
+
+***** This file should be named 22299-h.htm or 22299-h.zip *****
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+
+Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
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+
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+
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+
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
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+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
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+
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+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
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