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diff --git a/22015-h/22015-h.htm b/22015-h/22015-h.htm new file mode 100644 index 0000000..ce8542d --- /dev/null +++ b/22015-h/22015-h.htm @@ -0,0 +1,13858 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN"> +<html> +<head> + + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html;charset=iso-8859-1"> + <title>The Project Gutenberg eBook of As Minas de +Salomão, by Rider Haggard (translated by Eça de +Queirós). + </title> + + + <style type="text/css"> +/*<![CDATA[ XML blockout */ +<!-- +p { margin-top: .75em; +text-align: justify; +margin-bottom: .75em; +} +h1,h2,h3,h4,h5,h6 { +text-align: center; /* all headings centered */ +clear: both; +} +hr { width: 33%; +margin-top: 2em; +margin-bottom: 2em; +margin-left: auto; +margin-right: auto; +clear: both; +} +body{margin-left: 10%; +margin-right: 10%; +} +// --> +/* XML end ]]>*/ + </style> +</head> + + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of As Minas de Salomão, by Rider Haggard + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: As Minas de Salomão + +Author: Rider Haggard + +Translator: Eça Queirós + +Release Date: July 7, 2007 [EBook #22015] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS MINAS DE SALOMÃO *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + +<p style="text-align: center;"></p> + +<p style="text-align: center;"></p> + +<p style="text-align: center;"></p> + +<h2 style="text-align: center;"> +AS MINAS DE SALOMÃO +</h2> + +<p style="text-align: center;"></p> + +<p style="text-align: center;"></p> + +<p style="text-align: center;"></p> + +<p style="text-align: center;"> +Porto--Typ. De A. J. da Silva Teixeira +<br> + +Rua da Cancella Velha, 70 +</p> + +<p style="text-align: center;"></p> + +<p style="text-align: center;"></p> + +<p style="text-align: center;"></p> + +<p style="text-align: center;"> +RIDER HAGGARD +</p> + +<p style="text-align: center;"></p> + +<h1 style="text-align: center;"> +AS MINAS DE SALOMÃO +</h1> + +<p style="text-align: center;"></p> + +<p style="text-align: center;"> +Traducção revista +</p> + +<p style="text-align: center;"> +POR +</p> + +<p style="text-align: center;"> +EÇA DE QUEIROZ +</p> + +<p style="text-align: center;"></p> + +<p style="text-align: center;"> +PORTO +<br> + +LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHARDRON +Casa editora +<br> + +LUGAN & GENELIOUX, Successores +<br> + +1891 +</p> + +<p style="text-align: center;"> +Todos os direitos reservados +</p> + +<p style="text-align: center;"></p> + +<p style="text-align: center;"></p> + +<p style="text-align: center;"></p> + +<h2 style="text-align: center;"> +INTRODUCÇÃO +</h2> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"> +Agora que este livro está impresso, e em vesperas de correr +o mundo +largo, começa a pesar fortemente sobre mim a +desconfiança de que, para +elle ser aceitavel, muito lhe falta como Estylo e como Historia. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Emquanto á Historia, realmente, não pretendi, nem +tentei, metter n’estas +paginas tudo o que fizemos e tudo o que vimos na nossa viagem +á terra +dos Kakuanas. Ha todavia n’esse estranho povo coisas que +mereciam exame +detalhado e lento:--a sua Fauna, a sua Flora, os seus costumes, o seu +dialecto (tão aparentado com a lingua dos Zulús), +o magnifico systema da +sua organisação militar, a sua arte subtil em +trabalhar os metaes... Que +interessante estudo se faria, além d’isso, com as +lendas que ouvi e +colleccionei ácerca das armaduras de malha que nos salvaram +na batalha +de Lú! Que curiosa, tambem, a tradição +que entre elles se tem perpetuado +sobre os <em>Silenciosos</em>, os dois colossos que jazem +á entrada das +cavernas de Salomão! No emtanto pareceu-me (e assim pensaram +o barão +Curtis e o capitão John) que seria mais efficaz contar a +historia a +direito, e sêccamente, deixando todas estas particularidades +sobre a +região e sobre os homens para serem tratadas mais tarde, +n’um tomo +especial, com minudencia e largueza. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Resta-me pois implorar benevolencia para a minha tosca maneira de +escrever. Estou mais habituado a manejar a carabina do que a penna--e +sempre me foi alheia a fina arte dos arrebiques e floreios litterarios. +Talvez os livros necessitem esses floreios e ornatos: não +sei, nem +possuo auctoridade para o decidir: mas, na minha barbara +idéa, as coisas +simples são as mais impressionadoras--e mais facilmente se +deve +acreditar e estimar o livro, que venha escripto com séria e +honesta +singeleza. <em>Lança aguda não precisa +brilho</em>, diz um proverbio dos +Kakuanas: e, movido por este conselho da sabedoria negra, arrisco-me a +apresentar a minha historia, núa, lisa, nas suas linhas +verdadeiras, sem +lhe pendurar por cima, para a tornar mais vistosa, os dourados +galões da +Eloquencia. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Allão Quartelmar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<h1 style="text-align: center;"> +AS MINAS DE SALOMÃO +</h1> + +<p style="text-align: center;"></p> + +<p style="text-align: center;"></p> + +<hr style="margin-left: auto; margin-right: auto;"> +<p style="text-align: center;"></p> + +<h2 style="text-align: center;"><a name="cap_I"></a>CAPITULO +I +</h2> + +<h3 style="text-align: center;"> +ENCONTRO COM OS MEUS CAMARADAS +</h3> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"> +É bem estranho que n’esta minha idade, aos +cincoenta e seis annos +feitos, esteja eu aqui, de penna na mão, preparando-me a +redigir uma +historia! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Nunca imaginei que tão prodigiosa occorrencia se podesse dar +na minha +vida--vida que me parece bem cheia, e vida que me parece bem longa... +Sem duvida, por a ter começado tão cedo! Com +effeito, na idade em que os +outros rapazes ainda soletram nos bancos da escóla, +já eu andava +agenciando o meu pão por esta velha colonia do Cabo. E por +aqui fiquei +desde então, mettido em negocios, em serviços, em +travessias, em +guerras, em trabalhos--e n’essa dura profissão, +que é a minha, a caça ao +elephante e ao marfim. Pois, com toda esta diligencia, só +ultimamente, +ha oito mezes, <em>arredondei o meu sacco</em>. +É um bom sacco. É um sacco +graúdo, louvado Deus. Creio mesmo que é um +tremendo sacco! E apesar +d’isso, juro, que para o sentir assim, redondo e soante entre +as mãos, +não me arriscava a passar outra vez os transes +d’este terrivel anno que +lá vai. Não! Nem tendo a certeza de chegar ao fim +com a pelle intacta e +com o sacco cheio. Mas eu no fundo sou um timido, detesto violencias, e +ando farto, refarto de aventuras! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Como dizia pois, é coisa estranhissima que assim me lance a +escrever um +livro. Não está nada no meu feitio ser homem de +prosa e de letras--ainda +que, como outro qualquer, aprecio as bellezas da Santa Biblia e +gózo com +a <em>Historia do Rei Arthur e da sua Tavola Redonda</em>. +No emtanto tenho +razões, e razões consideraveis, para tomar a +penna com esta mão inhabil +que ha quasi cincoenta annos maneja a carabina. Em primeiro logar, os +meus companheiros, o barão Curtis e o digno +capitão da Armada Real John +Good (a quem chamo por habito «o capitão +John») pediram-me para relatar +e publicar a nossa jornada ao Reino dos Kakuanas. Em segundo logar, +estou aqui em Durban, estirado n’uma cadeira, inutilisado +para umas +semanas, com os meus achaques na perna. (Desde que aquelle infernal +leão +me traçou a côxa de lado a lado, fiquei sujeito a +estas crises, todos os +annos, ordinariamente pelos fins do outono. Foi em fins de outono que +apanhei a trincadella. É duro que depois de um homem matar, +no decurso +da sua honrada carreira, quarenta e cinco leões, seja +justamente o +ultimo, o quadragesimo sexto que o file e use d’elle como de +tabaco que +se masca. É duro! Quebra a rotina, a estimavel rotina--e +para mim, +pessoa d’ordem, qualquer surpreza me sabe peor do que fel). +Em terceiro +logar, além d’encher os meus ocios, componho esta +historia para meu +filho Henrique, que está em Londres, interno no hospital de +S. +Bartholomeu, estudando Medicina. É uma maneira de lhe mandar +uma +longuissima carta que o entretenha e que o prenda. Serviço +de doentes, +n’uma enfermaria abafada e lobrega, deve pesar +intoleravelmente. Mesmo o +retalhar cadaveres termina por ser uma rotina, rica em monotonia e +tedio:--e assim esta historia, onde tudo ha menos tedio, vai por uns +dias levar ao meu rapaz uma saudavel e alegre +sensação de aventuras, de +viagens, de força e de vida livre. E emfim, como ultima +razão, escrevo +esta chronica, por ser, sem duvida, a mais extraordinaria que +conheço--na Realidade ou na Fabula. Digo +«extraordinaria» mesmo para os +Leitores profissionaes de Romances--apesar de n’ella +não haver mulheres, +além da pobre Fulata. Ha Gagula, sim. Mas esse monstro tinha +cem annos, +pouca fórma humana, e não sensibilisa. Em todas +estas duzentas paginas, +realmente, não passa uma <em>saia</em>. E +todavia, assim escasso como é nas +graças do Feminino, não creio que exista um caso +mais raro e mais +captivante. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A unica vez que tive de fazer publicamente uma +narração foi diante dos +Magistrados, no Natal, quando depuz como testemunha sobre a morte dos +nossos serviçaes Khiva e Vanvogel. Por essa +occasião comecei assim, +muito dignamente, com approvação de todos, com +louvores do periodico de +Durban:--«Eu, Allão Quartelmar, residente em +Durban, no Natal, +<em>gentleman</em>, declaro e juro +que...»--Não me parece porém que seja +esta a +adequada maneira de principiar um livro. Além +d’isso posso eu affirmar, +em typo de imprensa, que «sou um <em>gentleman</em>?» +O que é um <em>gentleman</em>? O +que é ser <em>gentleman</em>? +Conheço aqui Cafres nús que <em>o +são</em>: e conheço +cavalheiros chegados de Inglaterra, com grandiosas malas e anneis +d’armas nos dedos, que <em>o não +são</em>. Eu, pelo menos, nasci +<em>gentleman</em>--apesar de me ter volvido depois +n’um pobre e simples +caçador de elephantes. Ora, se n’essa carreira e +nos acasos que ella me +trouxe, permaneci sempre <em>gentleman</em>, +não me compete a mim avaliar. Deus +sabe que com valente esforço procurei conservar-me <em>gentleman</em>--como +nascera. Tenho morto, é certo, muito homem: mas estas duas +mãos, bem +haja a minha fortuna, estão puras de sangue inutil. Matei +para que me +não matassem. O Senhor deu-nos as nossas vidas, como +sagrados depositos +que lhe pertencem e que devemos defender. Guiei-me sempre por este +principio: e conto que o bom Deus, um dia, me dirá +lá em cima--«<em>Fizeste +bem, Quartelmar</em>!» Este mundo, meus amigos, +é aspero de atravessar: e os +destinos violentos impõem-se por vezes com uma logica +inexoravel. Aqui +estou eu, homem ordeiro, timido, bonacheirão, que, +constantemente, desde +creança, me acho envolvido em carnificinas! Felizmente nunca +roubei. Uma +occasião, é verdade, abalei com quatro vaccas que +pertenciam a um Cafre. +Mas o Cafre tinha-me rapinado sordidamente--e desde então +essas quatro +vaccas trago-as sempre na consciencia. Só quatro vaccas. +Pois têm-me +pesado mais que uma manada de gado! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<hr style="margin-left: 0px; margin-right: 0px;"> +<div style="text-align: justify;"></div> + +<p style="text-align: justify;"> +Foi ha dezoito mezes, pouco mais ou menos, que encontrei os dois homens +que deviam ser meus companheiros n’esta aventura singular +á terra dos +Kakuanas. N’esse outono, eu andára n’uma +grande batida aos elephantes, +para lá do districto de Bamanguato. Tudo n’essa +expedição me correu mal, +e por fim apanhei as febres. Mal me pude ter nas pernas, larguei para +as +minas de Diamantes (as Diamanteiras), vendi o marfim que trazia, passei +o carrão e o gado, debandei os caçadores, e tomei +a diligencia para o +Cabo. Ao fim d’uma semana, no Cabo, descobri que o Hotel me +roubava +infamemente: além d’isso já vira todas +as curiosidades, desde o novo +Jardim Botanico que ha de certamente conferir grandes beneficios +á +cidade, até ao novo Palacio do Parlamento que, tenho a +certeza, não ha +de conferir beneficios nenhuns: de sorte que decidi voltar para o Natal +pelo <em>Dunkeld</em>, pequeno vapor costeiro que estava +nas docas á espera do +paquete de Inglaterra, o <em>Edinburgh Castle</em>. Tomei +passagem, e fui para +bordo. N’essa tarde chegou o <em>Edinburgh Castle</em>: +os passageiros que +trazia para o Natal transbordaram para o <em>Dunkeld</em>, +e levantamos ferro +ao pôr do sol. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Entre os passageiros de Inglaterra, que mudaram para o <em>Dunkeld</em>, +havia +dois que me despertaram logo certo interesse. Um d’elles, um +homemzarrão +de perto de trinta e cinco annos, tinha os hombros mais cheios e os +braços mais musculosos que eu até ahi +encontrára, mesmo em estatuas. +Além d’isso cabellos ondeados e côr +d’ouro; barbas ondeadas e côr +d’ouro; feições aquilinas e de +córte altivo; olhos pardos, cheios de +firmeza e de honestidade. Varão esplendido que me fez pensar +nos antigos +Dinamarquezes. Para dizer a verdade, Dinamarquezes só +conheci um, +moderno, horrivelmente moderno, que me estafou dez libras: mas +lembro-me +de ter admirado um quadro, os <em>Antigos Dinamarquezes</em>, +em que havia +homens assim, de grandes barbas amarellas e olhos claros, bebendo +n’um +bosque de carvalhos por grandes cornos que empinavam á +bôca. Este +cavalheiro (vim a saber depois) era um Inglez, um fidalgo, um <em>baronet</em>. +Chamava-se Curtis--o barão Curtis. E o que me feriu mais foi +elle +parecer-se extremamente com alguem, que eu encontrára no +interior, para +além de Bamanguato. Quem?... Não me podia +lembrar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O sujeito que vinha com elle pertencia a um typo absolutamente +differente, baixo, reforçado, trigueiro, e todo rapado. +Calculei logo +pelas suas maneiras que tinhamos alli um official de marinha; e +verifiquei depois, com effeito, que era um primeiro tenente da Armada +Real, reformado em capitão-tenente, e por nome John Good. +Esse +impressionou-me pelo apuro. Nunca conheci ninguem mais escarolado, mais +escanhoado, mais engommado, mais envernizado! Usava no olho direito um +vidro, sem aro, sem cordel, e tão fixo que parecia natural +como a +palpebra. Nem um só momento o surprehendi sem aquelle vidro, +e cheguei +mesmo a pensar que dormia com elle cravado na orbita. Só +muito tarde +descobri que á noite o mettia no bolso das +calças--no mesmo bolso em que +guardava a dentadura postiça, a mais bella, a mais perfeita +dentadura +que me recordo de ter contemplado, mesmo em annuncios de dentistas. E o +capitão, d’estas, possuia duas! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Apenas nos fizemos ao largo, começou o mau tempo. Brisa +forte, nevoa +humida e fria. Depois cada solavanco (o <em>Dunkeld</em>, +barco de fundo chato, +não levava carga) que não se podia arriscar uma +passada confortavel na +tolda. De sorte que me recolhi para junto da machina, onde fazia um +calorzinho sereno, e alli fiquei olhando para o pendulo, que marcava, +com desvios largos, o angulo de balanço do <em>Dunkeld</em>. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Pendulo errado, rosnou de repente uma voz ao meu lado, na sombra da +noite que cahia. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Olhei. Era o official de marinha. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Errado, hein?... Acha? Perguntei. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Acho o que?... Se o vapor se inclinasse quanto marca o pendulo, +não se +tornava mais a levantar... Aqui está o que eu acho. Mas +é sempre assim, +com estes capitães de marinha mercante... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Felizmente, n’esse instante, tocou a sineta ao jantar, com +immenso +allivio meu--porque se ha, sob a cupula dos céos, uma coisa +temerosa, é +a loquacidade d’um official da marinha de guerra, desabafando +sobre a +inepcia dos officiaes da marinha mercante. Peor do que essa coisa +temerosa--só a coisa inversa! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O capitão John e eu descemos juntos para o salão. +O barão Curtis já lá +estava, no topo da mesa, á direita do commandante do <em>Dunkeld</em>. +John +accommodou-se ao lado do seu companheiro: eu defronte, onde havia dois +talheres desoccupados. Logo depois da sopa o commandante, com a +lamentavel mania dos homens de mar, começou a fallar de +caça. +Primeiramente de caça miuda, de condores e de abutres. +Depois passou a +elephantes. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ah! Commandante (exclamou ao lado um patricio meu, de Durban), para +elephantes temos presente uma grande auctoridade... Se ha homem em +Africa que entenda de elephantes é aqui o nosso companheiro +e amigo +Allão Quartelmar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Por acaso, n’esse momento, eu pousára os olhos no +barão Curtis; e notei +que o meu nome, assim pregoado com a minha profissão, lhe +causára emoção +e surpreza. John cravou tambem em mim o seu vidro, com uma curiosidade +que faiscava. Por fim o barão inclinou-se, +através da mesa, e n’uma voz +grave e funda, bem propria do robusto peito d’onde sahia: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Peço perdão, disse, mas é porventura +ao snr. Allão Quartelmar que me +estou agora dirigindo? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--A elle proprio. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O homemzarrão passou a mão pelas barbas,--e +distinctamente, muito +distinctamente, o ouvi murmurar: «Ainda bem!» +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Não se passou mais nada até ao dôce. +Mas fiquei ruminando aquelle +espanto e aquelle «ainda bem!» +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Depois do café, enchia o meu cachimbo para subir +á tolda, quando o +barão, com os seus modos sérios e lentos, se +adiantou para mim, e me +convidou «a passar ao seu beliche, tomar um grog, e +conversar...» +Aceitei. O barão occupava um camarote de tolda, o melhor do <em>Dunkeld</em>, +espaçoso, arejado, com um sofá, espelhos, e duas +largas cadeiras de +verga. O capitão John viera tambem. Todos tres nos sentamos, +accendendo +os cachimbos, emquanto o moço corria pelos grogs. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Houve primeiramente um silencio. Outro creado entrou, a accender o +candieiro. Por fim appareceram os grogs. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão Curtis então passou a mão +pelas barbas, n’esse geito que lhe era +costumado, e voltando-se bruscamente: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Diga-me uma coisa, snr. Quartelmar... Aqui ha dois annos, por este +tempo, esteve n’um sitio chamado Bamanguato, ao norte do +Transwaal. Não +é verdade? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Perfeitamente, respondi eu, pasmado de que aquelle cavalheiro se +achasse, no seu condado, em Inglaterra, tão bem informado +das jornadas +que eu fazia no sul d’Africa! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--A negocio, hein? Acudiu o capitão John. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Sim, senhor, a negocio. Levei uma carregação de +fazendas, acampei fóra +da feitoria, e lá fiquei até liquidar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão conservou durante um momento pregados em mim os seus +olhos +cinzentos e largos. Pareceu-me que havia n’elles anciedade e +temor. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E diga-me, encontrou ahi, em Bamanguato, um homem chamado Neville? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Encontrei. Esteve acampado ao meu lado durante uns quinze dias, a +descançar o gado antes de metter para o norte. Aqui ha mezes +recebi eu +uma carta d’um procurador, perguntando-me se sabia o que era +feito +d’esse sujeito... Respondi como pude... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem sei! Atalhou o barão. Li a sua resposta. Dizia o snr. +Quartelmar +que esse sujeito Neville partira de Bamanguato, no principio de maio, +n’um carrão, com um serviçal e um +caçador cafre chamado Jim, tencionando +puxar até Inyati, ultima estação na +terra dos Matabeles, para de lá +seguir a pé, depois de vender o carrão. O snr. +Quartelmar accrescentava +que o carrão decerto o vendera elle, porque seis mezes +depois vira-o em +poder d’um portuguez. Esse portuguez não se +lembrava bem do nome do +homem a quem o comprára. Sabia só que era um +branco, e que se mettera +para o matto com um Cafre... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--É verdade, murmurei eu. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Houve outro silencio, que eu enchi com um sorvo ao grog. Por fim o +barão +proseguiu, com os olhos sempre cravados em mim, insistentes e anciosos: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--O snr. Quartelmar não sabe quaes fossem as +razões que levavam assim +esse sujeito Neville para o norte?... Não sabe qual era o +fim da +jornada? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ouvi alguma coisa a esse respeito, murmurei. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E calei-me prudentemente, porque nos iamos avisinhando d’um +ponto em +que, por motivos antigos e graves, eu não desejava bolir. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão voltou-se para o seu companheiro, como para o +consultar. O +outro, por entre a fumaraça do cachimbo, baixou a +cabeça, n’um <em>sim</em> +mudo. Então o meu homemzarrão, decidido, abriu os +braços, desabafou: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Snr. Quartelmar, vou-lhe fazer uma confidencia! Vou-lhe mesmo pedir o +seu conselho, e talvez o seu auxilio... O agente que me remetteu a sua +carta afiançou-me que eu podia confiar absolutamente no snr. +Quartelmar, +que é um homem de bem, discreto como poucos, e respeitado +como nenhum em +toda a colonia do Natal. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Dei um sorvo tremendo ao cognac, para esconder o meu +embaraço--porque +sou extremamente modesto. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Snr. Quartelmar, concluiu o barão, esse sujeito chamado +Neville era +meu irmão. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ah! Exclamei. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Com effeito! Agora, agora recordava eu bem com quem o barão +se parecia! +Era com esse Neville. Sómente o outro tinha menos corpo, e a +barba +escura. Mas nos olhos havia a mesma franqueza, e havia a mesma +decisão. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Era meu irmão, continuou o barão. Meu +irmão mais novo, e unico. Até +aqui ha cinco annos, vivemos sempre juntos. Depois um dia, +desgraçadamente, tivemos uma questão, uma +terrivel questão. E, para lhe +dizer a verdade toda, snr. Quartelmar, eu comportei-me para com meu +irmão da maneira mais injusta! Foi sob o impulso do +despeito, da cólera, +é certo... Mas em summa comportei-me injustamente. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Cruelmente, murmurou do lado o capitão John, que fumava +com os olhos +cerrados. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Cruelmente, com effeito. Como o snr. Quartelmar sabe, em Inglaterra, +quando um homem morre sem testamento e não tem +senão bens de raiz, tudo +passa para o filho mais velho. Ora succedeu que meu pai morreu +exactamente quando meu irmão Jorge e eu estavamos assim de +mal. Herdei +tudo; e meu irmão, que não tinha +profissão, nem habilitações, ficou sem +real. O meu dever, está claro, era crear-lhe uma +situação independente. +É o que todos os dias se faz em Inglaterra, +n’esses casos. Mas por esse +tempo a nossa questão estava em carne viva. Eu +não lhe offereci nada. +Elle tambem, orgulhoso, sobretudo brioso, nada pediu. Assim +ficámos, de +longe, eu rico e elle pobre... Peço perdão de o +fatigar com estes +detalhes, snr. Quartelmar, mas preciso pôr as coisas bem +claras... Não é +verdade, John? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Escrupulosamente claras! Acudiu o outro. De resto o nosso amigo +Quartelmar guarda para si esta historia... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Pudera! Exclamei. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Pois bem, continuou o barão, meu irmão possuia +de seu, n’essa época, +umas duzentas ou trezentas libras. Um bello dia, agarra +n’esta miseria, +toma o nome de Neville, e abala para Africa a tentar fortuna! Eu +só o +soube tarde, mezes depois d’elle ter embarcado. Passaram tres +annos. +Noticias d’elle, nenhumas. Comecei a andar inquieto. +Escrevi-lhe. +Naturalmente as minhas cartas não lhe chegaram. E eu cada +dia mais +afflicto! Para o snr. Quartelmar comprehender tudo bem, deve saber que, +desde pequeno, desde o berço, meu irmão foi a +forte e grande affeição da +minha vida. E por outro lado a nossa questão, assim amarga e +aspera por +sermos ambos muito novos e muito exaltados, nasceu de quê? +D’uma mulher. +D’uma mulher cujo nome já quasi me esqueceu. E meu +pobre irmão, coitado, +se ainda é vivo, não se lembrará mais +que eu. Ora aqui tem! E já por +isto o snr. Quartelmar comprehende... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Perfeitamente, perfeitamente... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Pois bem, descobrir meu irmão passou a ser a minha +idéa constante, dia +e noite. Mandei fazer aqui, no Cabo, toda a sorte de pesquizas. Um dos +resultados, o mais importante, foi a sua carta, snr. Quartelmar. +Importante porque me dava a certeza que, mezes antes, meu +irmão estava +na Africa, e vivo. Desde esse momento decidi vir eu mesmo, +pessoalmente, +continuar as pesquizas. Agentes, por mais dedicados, mais bem pagos, +não +têm o interesse de coração: +é com o coração justamente que eu +conto, com +a perspicacia, a inspiração especial que elle +ás vezes possue. De resto +sempre tencionei visitar as nossas colonias d’Africa... E +aqui tem o +snr. Quartelmar a minha historia. O mais extraordinario, é +que o +tivessemos encontrado logo, a si, a pessoa justamente que viu meu +irmão +vivo, a pessoa justamente a quem eu me ia a dirigir apenas chegasse ao +Natal. Quer que lhe diga? Acho bom agouro. Em todo o caso, aqui estou, +prompto para tudo, com o meu velho amigo, o capitão John, +companheiro +fiel de muitos annos, que teve a dedicação de me +acompanhar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O outro encolheu os hombros, sorrindo, com a sua esplendida dentadura. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não havia n’este momento nada interessante a +fazer na velha Europa!... +Gasta, insipidissima, a velha Europa! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Depois, reenchendo o cachimbo, accrescentou muito sério: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E agora que o nosso amigo Quartelmar conhece os motivos que nos +trazem +á Africa, e o interesse que nos prende a esse homem chamado +Neville, +espero da sua lealdade que não terá duvida em nos +dizer tudo o que sabe, +ou tudo que ouviu, a respeito d’elle. Hein? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Impressionado, respondi: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não tenho duvida, por ser questão de +sentimento. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<h2 style="text-align: center;"><a name="cap_II"></a>CAPITULO +II +</h2> + +<h3 style="text-align: center;"> +PRIMEIRA NOTICIA DAS MINAS DE SALOMÃO +</h3> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Sacudi a cinza do cachimbo na palma da mão, e comecei, muito +devagar, +para tudo pôr bem claro e bem exacto: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Aqui está o que ouvi a respeito d’esse +cavalheiro Neville. E isto, que +me lembre, nunca, até ao dia d’hoje, o disse a +ninguem. Ouvi que esse +cavalheiro fôra para o interior á busca das minas +de Salomão. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Os dois homens olharam para mim, com assombro: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--As minas de Salomão!? Que minas?... Onde são? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Onde são, não sei. Sei apenas onde <em>dizem +que estão</em>. Aqui ha annos vi +de longe os dois picos dos montes que, segundo corre, lhes servem de +muralha. Mas entre mim e os montes, meus senhores, havia duzentas +milhas +de deserto. E esse deserto, meus senhores, nunca houve ninguem (quero +dizer, homem branco) que o atravessasse, a não ser um, +n’outras éras. +Porque toda esta historia vem muito de traz, de ha seculos! Eu +não tenho +duvida em a contar, mas com uma condição: +é que os cavalheiros não a hão +de transmittir sem minha auctorisação. Tenho para +isso razões, e fortes. +Estão os cavalheiros de accôrdo? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Com certeza! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Narrei então longamente tudo o que sabia, historia ou +fabula, sobre as +minas de Salomão. Foi ha trinta annos que pela primeira vez +ouvi fallar +d’estas minas a um caçador d’elephantes, +um homem muito sério, muito +indagador, que recolhera assim, nas suas jornadas através +d’Africa, +tradições e lendas singularmente curiosas. +Tinha-me eu encontrado com +elle na terra dos Matabeles, n’uma das minhas primeiras +expedições ao +interior, á busca do elephante e do marfim. Chamava-se +Evans. Era um dos +melhores caçadores d’Africa. Foi estupidamente +morto por um bufalo, e +está enterrado junto ás quedas do Zambeze. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Pois uma noite, sentados á fogueira, no matto, succedeu +mencionar eu a +esse Evans umas construcções extraordinarias com +que casualmente dera, +andando á caça do koodoo por aquella +região que fórma hoje o districto +de Lydenburg no Transwaal. Essas obras foram depois encontradas, e +aproveitadas até, pela gente que veio trabalhar as minas +d’ouro. Mas +ninguem (quero dizer, nenhum branco) as tinha visto antes de mim. Era +uma estrada enorme, magnifica, cortada na rocha viva, levando a uma +galeria sem fim, mettida pela terra dentro, toda de tijolo, e com +grandes pedregulhos de minerio d’ouro empilhados á +entrada. Obra +extraordinaria! E a raça que a fizera--desapparecera, sem +deixar um +nome, nem outro vestigio de si, além d’aquella +estrada e d’aquella +galeria, que revelavam um grande saber, uma grande industria e uma +grande força! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Curioso! Murmurou Evans. Mas conheço melhor! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E contou-me então que no interior, muito no interior, +descobrira elle +uma cidade antiquissima, toda em ruinas, que tinha a certeza de ser +Ophir, a famosa Ophir da Biblia. Lembro-me bem a impressão e +o assombro +com que eu escutei a historia d’essa cidade phenicia perdida +no sertão +d’Africa, com os seus restos de palacios, de piscinas, +templos, de +columnas derrocadas!... Mas depois Evans ficára calado, +scismando. De +repente diz: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Tu já ouviste fallar das serras de Suliman, umas grandes +serras que +ficam para além do territorio de Machukulumbe, a noroeste? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não, nunca ouvi. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Pois, meu rapaz, ahi é que Salomão +verdadeiramente tinha as suas +minas, as suas minas de diamantes! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Como se sabe? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Como se sabe!? Tem graça! Sabe-se perfeitamente. O que +é <em>Suliman</em> +senão uma corrupção de <em>Salomão</em>? +O nome das serras, realmente, sempre +foi <em>serras de Salomão</em>. Além +d’isso, uma feiticeira do districto de +Manica, uma velha de mais de cem annos, contou-me tudo... Isto +é, +contou-me que para lá das serras vive um povo que +é da raça dos Zulús, e +falla um dialecto zulú: mas como força, e +corpulencia, e coragem, vale +mais que os Zulús. Pois n’esse povo ha videntes, +grandes feiticeiros, +que de geração em geração +têm trazido o segredo d’uma mina prodigiosa, +que foi d’um rei branco, muito antigo, e que ainda hoje +está cheia de +pedras brancas que reluzem... De sorte que não ha duvida +nenhuma. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Para mim havia toda a duvida. As minas d’Ophir +interessavam-me, como da +nossa crença e da Biblia: mas das minas de <em>pedras +brancas que reluzem</em>, +conhecidas em segredo por feiticeiros zulús, teria +certamente rido se +não fôra o respeito devido a um caçador +tão digno como Evans. De +madrugada Evans partiu, a acabar tristemente nas pontas d’um +bufalo. E +não pensei mais em Salomão, nem nas suas minas de +diamantes. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Aqui ha vinte annos porém, n’um encontro muito +singular que tive no +districto de Manica, de novo ouvi fallar das minas de +Salomão, e d’um +modo que para sempre me devia impressionar. Era n’um sitio +chamado a +«aringa de Sitanda». Não ha peor em toda +a Africa. Fructa nenhuma, caça +nenhuma, tudo sêcco, tudo triste--e os pretos vendem os ossos +d’um +frango por fazenda que vale uma vacca. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Apanhei lá um ataque de febre, e estava fraquissimo, +enfastiadissimo, +quando me appareceu um dia um portuguez de Lourenço Marques, +acompanhado +por um serviçal mestiço. Entre os portuguezes de +Lourenço Marques--ha +soffrivel e ha pessimo. Mas este era dos melhores que eu vira--um homem +muito alto e muito magro, de bellos olhos negros, os bigodes +já +grisalhos todos retorcidos, e umas maneiras graves que me fizeram +pensar +nos velhos fidalgos portuguezes que aqui vieram ha seculos e de que +tanto se lê nas historias. Conversámos bastante +n’essa noite, porque +elle fallava um bocado de mau inglez, eu um bocado de mau portuguez; e +soube que se chamava José Silveira, e que possuia uma +fazenda ao pé da +cidade, em Lourenço Marques. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Na manhã seguinte, cedo, antes de partir com o +mestiço acordou-me para +se despedir, de chapéo na mão, cortez e grave +como os antigos, os que +tinham <em>Dom</em>. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Até mais vêr, camarada! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Boa viagem! Até mais vêr! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O homem conservava, pregados em mim, os grandes olhos negros que +rebrilhavam. Depois accrescentou muito sério: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Se nos tornarmos outra vez a encontrar, hei de ser a pessoa mais rica +d’este mundo! E póde contar, camarada, que +não me hei de esquecer de si! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Nem ri. Estava muito debilitado para rir. Fiquei estirado na manta +olhando para o estranho homem que, a grandes passadas, com a +cabeça alta +e cheia de esperança, se mettia pelo matto dentro. +v +Passou uma semana, e melhorei da febre. Uma tarde achava-me sentado no +chão defronte da barraca, rilhando a ultima perna +d’um d’esses frangos +que os pretos me vendiam por chita do valor d’uma vacca, e +pasmando para +o enorme disco do sol que descia ao fundo do deserto--quando de repente +avistei, escura sobre a vermelhidão do poente, +n’uma elevação de +terreno, a figura d’um homem que era certamente europeu +porque trazia um +casacão comprido. No momento mesmo em que eu dera com os +olhos n’elle, o +homem oscilla, cae de bruços e começa a +arrastar-se pelo chão, +lentamente! Com um esforço desesperado, ainda se ergueu, e +tentou pelo +comoro abaixo alguns passos que cambaleavam. Por fim tombou de novo, e +ficou estirado, como morto, contra um tufo de tojo alto. Gritei a um +dos +meus caçadores que acudisse. E quando elle voltou, amparando +o homem nos +braços--quem hei de eu vêr? O José +Silveira! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +José Silveira--ou antes o seu miseravel esqueleto, com todos +os ossos +rompendo para fóra da pelle, mais sêcca que +pergaminho e amarella como +gema de ovos. Os olhos saltavam-lhe da cara, á maneira de +dois bugalhos +de sangue. E o cabello que eu lhe vira grisalho, vinha branco, todo +branco como uma bella estriga de linho. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Agua! Gemeu elle. Agua, pelas cinco chagas de Christo! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O infeliz tinha os beiços horrivelmente estalados, e entre +elles a +lingua pendia-lhe, toda inchada e toda negra! Dei-lhe agua com leite, +de +que bebeu talvez dois quartilhos, a grandes sorvos, e sem parar. Foi +necessario arrancar-lhe a vasilha. Depois cahiu de costas, rompeu a +delirar. Ora gemia, ora gritava. E era sempre sobre as serras de +Suliman, os diamantes e o deserto! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Levei-o para dentro da tenda: e, com o pouco que tinha, fiz o pouco que +podia. O homem estava perdido. Rente da meia noite socegou. Eu, +esfalfado, adormeci. Acordei de madrugada; e, ao primeiro alvor da luz, +dou com elle (fórma sinistra!) de joelhos, á +porta da barraca, de olhos +cravados para o longe, para o deserto! N’esse instante, um +raio de sol +que nascia frechou através do vasto descampado, e foi bater +ao fundo, a +cem milhas de nós, o pico mais alto das serras de Suliman. O +homem +soltou um grito, atirou desesperadamente para diante os dois +braços de +esqueleto: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Lá estão ellas, Santo Deus, lá +estão ellas!... E dizer que não pude +lá +chegar! Parecem tão perto! Logo alli, uns passos mais... E +agora +acabou-se, estou perdido, ninguem mais póde lá +ir! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +De repente emmudeceu. Depois virou para mim, muito devagar, a face +livida e como esgazeada por uma idéa brusca. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ó camarada, onde está vossê?... +Já o não distingo, vai-me a fugir a +vista! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Estou aqui; socegue, homem. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Tenho tempo para socegar, tenho toda a eternidade! Escute. Eu estou a +morrer. Vossê tem sido bom commigo, camarada... E para que +havia eu de +levar o segredo para debaixo da terra? Ao menos alguem se aproveita! +Talvez vossê lá possa chegar, se conseguir +atravessar esse deserto que +matou o meu pobre creado, que me está a matar a mim... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Começou então a procurar tremulamente dentro do +peito da camisa. Tirou +por fim uma especie de bolsa de tabaco, já velha, apertada +com uma +correia. Estava tão fraco que as suas pobres mãos +nem puderam desfazer o +nó. Fez-me um gesto, um gesto exhausto, para que eu o +desatasse. Dentro +havia um farrapo de linho amarellado, com linhas escriptas, +n’um tom +antiquissimo, de côr de ferrugem. E dentro do farrapo estava +um papel +dobrado. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--O papel, murmurou elle n’uma voz que se extinguia, +é a cópia do que +está escripto no trapo. Levou-me annos a decifrar, a +entender... Foi um +antepassado meu, um dos primeiros portuguezes que vieram a +Lourenço +Marques, que escreveu isso, quando estava para morrer acolá +n’aquellas +serras. Chamava-se D. José da Silveira, e já +lá vão trezentos annos... +Um escravo que ia com elle, e que ficára a esperar, do lado +de cá do +monte, vendo que o amo não voltava procurou-o, foi dar com +elle morto, e +trouxe para Lourenço Marques o bocado de linho que tinha +letras. Desde +então ficou guardado na nossa familia. Ha trezentos annos! E +ninguem +pensou em o decifrar até que eu me metti n’isso... +Custou-me a vida. Mas +talvez outro consiga. Talvez outro chegue lá, ás +malditas serras! Será +então o homem mais rico d’este mundo! O mais rico, +o mais rico! Tente +vossê, camarada... Não dê o papel a +ninguem! Vá vossê! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +As ultimas palavras sahiram como um debil sopro. Cahiu de costas, +recomeçou a delirar. D’ahi a uma hora tudo acabou, +Deus tenha a sua alma +em descanço! Morreu serenamente, sem esforço e +sem dôr. Por minhas mãos +o enterrei, bem fundo na terra, com fortes pedregulhos por cima do +peito. Ao menos assim não darão com elle os +chacaes. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Foi ao pé da cova, onde o desgraçado jazia, que +examinei o documento. +Era, como disse, um farrapo de linho, rasgado d’uma fralda de +camisa e +do tamanho d’um palmo. No topo tinha os traços de +um mappa, ou de um +roteiro, rapidamente e toscamente lançados. Era pouco mais +ou menos +isto: +</p> + +<p style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 642px;" alt="" src="images/figura.png"><br> + +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Por baixo vinham linhas escriptas, n’uma letra muito antiga e +côr de +ferrugem. Para mim eram inintelligiveis. Mas o papel continha a +decifração, e dizia assim: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +«Estou morrendo de fome, n’uma cova da banda norte +d’um d’estes montes a +que dei o nome de «Seios de Sabá», no +que fica mais a sul. Sou D. José +da Silveira, e escrevo isto no anno de 1590, com um pedaço +d’osso, n’um +farrapo da camisa, tendo por tinta o meu sangue. Se o meu escravo aqui +voltar, reparar n’este escripto, e o levar para +Lourenço Marques, que o +meu amigo [<em>aqui um nome illegivel</em>], logo pela +primeira nau que passar +para o Reino, mande estas coisas ao conhecimento d’El-Rei, +para que Elle +remetta uma armada a Lourenço Marques, com um +troço de gente, que se +conseguir atravessar o deserto, vencer os Kakuanas que são +valentes, e +desfazer os seus feitiços (devem vir muitos missionarios) +tornarão Sua +Alteza o mais rico Rei da Christandade. Com meus proprios olhos vi os +diamantes sem conto amontoados n’um subterraneo que era o +deposito dos +thesouros de Salomão, e que fica por traz d’uma +figura da Morte. Mas por +traição de Gagula, a feiticeira dos Kakuanas, +nada pude trazer, apenas a +vida! Quem vier siga o mappa que tracei, e trepe pelas neves que cobrem +o Seio de Sabá, o esquerdo, até chegar ao cimo, +d’onde verá logo, para o +lado norte, a grande calçada feita por Salomão. +D’ahi siga sempre, e em +tres dias de marcha encontrará a aringa do rei. Quem quer +que venha que +mate Gagula. Rezem pelo descanço da minha alma. Que El-Rei +Nosso Senhor +seja logo avisado. Adeus a todos n’esta vida!» +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tal era o extraordinario documento que textualmente li ao +barão Curtis e +ao capitão, porque trazia sempre commigo (e ainda trago) uma +traducção +d’elle, em inglez, na carteira. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quando acabei, os dois amigos olhavam para mim, mudos de espanto. Por +fim o capitão, com o leve suspiro de quem repousa +d’uma prolongada +emoção, bebeu um trago de grog--e mais sereno: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--O nosso amigo o snr. Quartelmar não nos tem estado a +intrujar? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Metti com força o papel na algibeira, e, erguendo-me, +repliquei +sêccamente: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Se os cavalheiros assim pensam, não me resta mais nada +senão +desejar-lhes muito boas noites! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão acudiu, pousando-me no hombro a sua larga +mão: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Pelo amor de Deus, snr. Quartelmar! Nem John, nem eu duvidamos da sua +veracidade. Mas, emfim, tenho ouvido dizer que aqui na colonia +é coisa +corrente e bem aceita troçar um pouco os que chegam, os <em>novatos</em> +d’Africa... E depois essa historia é +tão extraordinaria! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Insisti, ainda offendido: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--O original escripto pelo velho fidalgo no farrapo de camisa, tenho-o +em Durban! Será a primeira coisa que lhes hei de mostrar em +chegando!... +Não ha uma palavra... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão atalhou gravemente: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Toda a palavra do snr. Quartelmar é coisa +séria, e como tal a tomamos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Durante um momento ficámos calados. Eu serenei. Por fim o +barão, que +dera sobre o tapete do beliche alguns passos pensativos, parou diante +de +mim: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E meu irmão? Como soube o snr. Quartelmar que meu +irmão tentou tambem +essa jornada ás minas? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Narrei então o que me succedera com esse sujeito Neville, +quando +estavamos acampando, lado a lado, em Bamanguato. Eu não o +conhecia; nem +então começámos +relações, apesar de termos o gado junto. Mas +conhecia +perfeitamente o serviçal que o acompanhava, um chamado Jim. +Era um +Bechuana, excellente caçador--e, para Bechuana, esperto, +consideravelmente esperto! Na manhã em que Neville devia +metter-se para +o sertão, vi Jim, ao pé do meu carrão, +cortando folhas de tabaco. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Para onde é essa jornada, Jim? Perguntei eu, sem +curiosidade, só para +mostrar interesse ao rapaz. Ides a elephantes? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Jim mostrou os dentes todos, n’um riso vivo: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não, patrão. Vamos a coisa melhor que marfim. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Melhor que marfim!? Ouro? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Melhor que ouro! Murmurou elle, arreganhando mais a +dentuça. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Calei-me, porque não convinha á minha dignidade +de patrão e de branco +revelar curiosidade diante d’um Bechuana. Confesso, +porém, que fiquei +intrigado. D’ahi a pouco Jim acabou de cortar o tabaco. Mas +por alli se +quedou, rondando, coçando devagar os cotovêlos, +á espera, com os olhos +em mim. Não dei attenção. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ó patrão! Murmurou elle, n’uma ancia +de desabafar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Permaneci indifferente, por dignidade. Elle tornou: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ó patrão! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que é, homem? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Vamos á procura de diamantes, patrão! Atirou-me +elle ao ouvido. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Diamantes!? Boa! Então ides para o lado opposto. Devieis +metter +direito ao sul, para as Diamanteiras. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O Bechuana baixou mais a voz: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ó patrão! Já ouviu fallar das serras +de Suliman? Pois lá é que estão +os diamantes. O patrão nunca ouviu? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Tenho ouvido muita tolice na minha vida, Jim. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não é tolice, patrão. Eu conheci uma +mulher que veio de lá, com um +filho, e que vivia no Natal. Morreu ha annos, o filho por lá +anda. E foi +ella que me disse tudo. Ha lá diamantes! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Olha, Jim, o que te digo é que teu amo vai dar de comer +aos abutres, +que andam por lá esfomeados. E tu, essa pouca carne que tens +nos ossos, +tambem vai d’aqui direitinha aos abutres! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O homem teve outro riso fino: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--A gente tem de morrer, e eu não desgósto de +experimentar terras novas. +O elephante por aqui já não rende. O Bechuana +cá vai para os diamantes, +e o Bechuana vai cantando! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Pois quando a morte te agarrar pelas guelas, veremos então +se ainda +canta o Bechuana! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Jim abalou. D’ahi a meia hora o carrão do snr. +Neville poz-se em marcha +para o norte. Mas não rodára ainda dez jardas, +quando Jim voltou para +traz, a correr. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Adeus, patrão! Exclamou. Não me quiz ir de todo +sem lhe dizer adeus, +porque me parece que o patrão tem razão, e que +nunca mais cá voltamos! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ouve cá, Jim, teu amo vai com effeito ás serras +de Suliman, ou tudo +isso é patranha? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O Bechuana jurou que não contava patranhas. O amo ia +realmente em +demanda das serras e das minas que estavam para além. Ainda +na vespera o +amo dissera que, para tentar fortuna na Africa, tanto montava ir em +cata +de diamantes, como de ouro ou de ferro. Tudo dependia da sorte, porque +no torrão tudo havia. Assim elle ia aos diamantes, que era o +mais rapido +para enriquecer--ou para morrer. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Reflecti um momento. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Escuta, Jim. Vou escrever umas palavras a teu amo. Mas has de +prometter que não lh’as entregas senão +em chegando a Inyati! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Inyati ficava d’ahi a umas quarenta leguas. O Bechuana +prometteu. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Rasguei um bocado de papel da carteira, escrevi a lapis estas linhas: +«Quem vier... trepe pelas neves que cobrem o Seio de +Sabá, o esquerdo, +até chegar ao cimo, d’onde verá logo, +para o lado norte, a grande +calçada feita por Salomão». +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem! Ora agora, Jim, quando deres este papel a teu amo dize-lhe que +lh’o manda quem sabe, e que siga bem a +indicação! Mas ouviste? Só +lh’o +dás quando chegares a Inyati; que eu não quero +que elle me volte para +traz e me venha fazer perguntas! Entendeste? Então abala, +madraço, que o +carrão come caminho! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Jim agarrou o bilhete e largou a correr. D’ahi a pouco o +carrão sumiu-se +por traz das collinas. E isto, em verdade, era tudo o que eu sabia a +respeito d’esse sujeito Neville. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Mal eu acabára, o barão, sem hesitar, e com +perfeita simplicidade, +disse: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Snr. Quartelmar, vim á Africa procurar meu +irmão. Desde que alguem o +viu pondo-se em marcha para as serras de Suliman, o que devo a mim +mesmo +é marchar tambem para esse lado. Póde ser que o +encontre; ou que venha a +saber que morreu; ou que volte sem nada saber, na antiga incerteza; ou +que não volte, como o velho fidalgo. Em todo o caso o meu +dever, desde +que me impuz esta tarefa, é tomar o caminho que meu +irmão tomou. E agora +pergunto eu: quer o snr. Quartelmar vir commigo? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tambem não hesitei. Foi logo, de golpe: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Muitissimo obrigado, snr. Barão! Se tentassemos atravessar +as +cordilheiras de Suliman, ficavamos lá como os dois +Silveiras. Eis a +minha candida convicção. Ora ha em Londres um +pobre rapaz que anda nos +seus estudos, que é meu filho, e que me não tem +senão a mim n’este +mundo. E por elle, se não já por mim, +não me convém por ora morrer. Em +todo o caso agradeço a sua lembrança. +É de amigo! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão voltou-se para o seu companheiro, com um ar +profundamente +desconsolado, e que quasi commovia n’aquelle homem +tão robusto e tão +nobre. O outro murmurou:--«É pena, grande +pena!» +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Snr. Quartelmar! Exclamou então o barão. Quando +eu me metto n’uma +empreza, tudo sacrifico para a levar a cabo. Eu tenho fortuna, uma +grande fortuna, e necessito do seu auxilio. O snr. Quartelmar +póde +portanto pedir-me o que quizer pelos seus serviços, +já não digo dentro +do razoavel, mas dentro do possivel. Além d’isso, +apenas chegarmos a +Durban, vamos a um tabellião, e eu obrigo-me por uma +escriptura a +continuar a educação de seu filho, no caso de lhe +acontecer a si um +desastre, ou a deixar-lhe uma independencia, no caso de eu estourar +tambem. Vê que estou prompto a tudo. Ainda mais. Se por acaso +descobrissemos os diamantes, metade d’elles ficariam +pertencendo ao snr. +Quartelmar, outra metade ao capitão John. É +verdade que nenhum de nós +acredita nos diamantes, e portanto esta vantagem conta como zero. Mas +podemos applicar a mesma regra a ouro ou marfim, qualquer fazenda que +encontrarmos. Finalmente escuso de dizer que todas as despezas da +expedição correm por minha conta. Creio que +não posso fazer mais. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Eu olhava para elle, deslumbrado: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Barão, essa proposta é a mais generosa que +tenho recebido na minha +vida! Mas tambem, que diabo, a empreza seria a mais arriscada em que me +tenho mettido... Preciso pensar. E antes de chegar a Durban eu lhe +darei +a resposta. Por hoje ficamos aqui. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ficamos aqui por hoje! Acudiu o capitão, erguendo-se, e +respirando com +allivio. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Com effeito era tarde. Dei as boas-noites aos dois cavalheiros; e no +meu +beliche, até de madrugada, sonhei com o antigo D. +José da Silveira, com +El-Rei Salomão, e com montões de pedras que +reluziam no fundo d’uma +caverna. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<h2 style="text-align: center;"><a name="cap_III"></a>CAPITULO +III +</h2> + +<h3 style="text-align: center;"> +O HOMEM CHAMADO UMBOPA +</h3> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Durante o resto da jornada pensei constantemente na proposta do +barão. +Mas nem eu nem elle voltamos a fallar de Neville ou da travessia para +as +minas. Na tolda e no beliche as nossas conversas rolavam todas sobre +caça, sobre aventuras de caça na Africa. Os dois, +homens de grande +<em>sport</em>, não se fartavam de escutar. E +eu, velho palrador, cheio de +memorias e já anecdotico, não me fartava de +contar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Finalmente, n’uma esplendida tarde de janeiro (que +é aqui o mez mais +quente do anno) avistámos a costa de Natal--com a +esperança de dobrar a +ponta de Durban ao sol-posto. Toda esta costa é adoravel, +com as suas +longas dunas avermelhadas, os ricos tapetes de verdura clara, as +alegres +aringas dos Cafres espalhadas aqui e além, e a orla espumosa +e alva do +mar que rebenta nas rochas. Mas, justamente perto de Durban, a +região +toma uma incomparavel riqueza de tons. Nas ravinas, cavadas pelas +enxurradas de seculos, faiscam riachos innumeraveis: o verde do matto +é +mais intenso: os outros verdes de jardins entremeiam-se com as +plantações d’assucar: e a +espaços uma casa muito branca, sorrindo para a +azul placidez do mar, põe uma linda nota, humana e +domestica, na +vastidão da paizagem. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Como disse, contavamos dobrar, antes do sol-posto, a ponta de Durban. +Mas quando deitámos ancora já era crepusculo +cerrado, tarde de mais para +entrar a barra. Tinhamos ainda essa noite a bordo: e descemos ao +salão, +para um jantar quieto em aguas serenas, depois de vêr o +salva-vidas +remar para terra com as malas do correio. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quando voltámos á tolda, a lua ia alta, e +tão brilhante sobre mar e +praia, que quasi offuscava os lampejos largos do pharol. De terra +vinham, através do ar calmo, aquelles picantes e +dôces aromas de +especiarias, que, não sei por quê, me fazem sempre +lembrar hymnos de +egreja e missionarios. O bairro de Berea parecia em festa, com todas as +varandas alumiadas. N’um grande brigue, ancorado ao lado, os +marinheiros +estavam cantando, ao som do <em>banjo</em>. Era uma noite +d’encanto, como só as +ha n’este abençoado sul d’Africa, que +lançava sobre a alma uma infinita +paz, infinita e suave como a luz que derramava a lua cheia. +Até o +bull-dog d’um passageiro irlandez, que não +cessára de rosnar ferozmente +durante toda a jornada, cedera emfim ás pacificadoras +influencias do +sul, e dormia, estirado no convés, com um ar de tregoa e de +perdão aos +homens. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão, o capitão John e eu, estavamos sentados +junto á roda do leme, +olhando e fumando em silencio. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Então, snr. Quartelmar? Exclamou de repente o +barão, sorrindo. Aqui +estamos em Durban... Pensou nas nossas propostas? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Vamos ou não vamos de companhia á busca do snr. +Neville? Echoou do +lado o amigo John. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Não tugi. Mas ergui-me, e fui devagar sacudir para +fóra da amurada a +cinza do meu cachimbo. A verdade é que, depois de muito +matutar, eu +ainda não tomára uma +resolução,--ou antes a minha +resolução permanecia +vaga, informe, mal assente, necessitando um pequeno impulso exterior +que +a definisse e a fixasse. E foi justamente aquella +exclamação risonha dos +dois, o movimento de me erguer e de me abeirar da amurada, que tudo +fixou e definiu no meu animo. Ainda a cinza não cahira na +agua e já eu +estava resolvido a partir. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Pensei e vou! Declarei, voltando a sentar-me. E se os cavalheiros me +dão licença, direi as razões por +quê, e as condições com quê. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Expuz logo as condições, muito claramente: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão, em primeiro logar, corria com todas as despezas; e +qualquer +achado de valor, diamantes, ouro ou marfim, feito durante a +expedição, +seria irmãmente dividido entre mim e o capitão +John. Em segundo logar, o +barão pagar-me-hia em dinheiro de contado, antes de +partirmos, +quinhentas libras, compromettendo-me eu a acompanhal-o e fielmente +servil-o até que a jornada terminasse ou por um triumpho, ou +por um +desastre, ou simplesmente por se reconhecer a sua inutilidade. Em +terceiro logar, o barão obrigar-se-hia por uma escriptura a +dar +annualmente a meu filho, emquanto durassem os seus estudos, uma +pensão +de duzentas libras, no caso de eu morrer ou ficar inutilisado... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ainda eu não findára, já o +barão aceitára tudo, largamente, alegremente! +«O que eu quero, seja por que preço fôr +(dizia elle), é a sua companhia, +snr. Quartelmar, é o soccorro da sua experiencia!» +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Muito bem. Pois agora, depois de dizer as +condições em que vou, quero +dizer as razões por que vou. É porque se +nós tentarmos atravessar as +serras de Suliman, não voltamos de lá vivos! O +que succedeu ao velho +Silveira, ao que tinha <em>Dom</em>, ha trezentos annos; o +que succedeu ao +outro, ao que não tinha <em>Dom</em>, aqui ha +vinte; o que succedeu +naturalmente ao snr. Neville, é o que nos vai succeder a +nós! Não +sahimos de lá vivos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Olhei attentamente para os dois homens. O amigo John arripiou um bocado +a face. O barão ficou impassivel, murmurando +apenas:--«Corremos-lhe o +risco!» +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Eu prosegui: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Agora dirão os cavalheiros: «Se julgas que +não sahes de lá vivo, para +que vaes lá?» Em primeiro logar, porque sou +fatalista. Se Deus já +decidiu que eu hei de morrer nas montanhas de Suliman, nas montanhas de +Suliman hei de morrer ainda que lá não +vá. E se Deus decidiu já o +contrario, posso lá ir impunemente e de cara alegre. Isto +é claro. Em +segundo logar, estou velho, e já vivi tres vezes mais do que +costuma +viver na Africa um caçador de elephantes. De sorte que, +continuando +n’esta carreira, e desgraçadamente não +tenho outra, que posso eu durar +ainda? Uns annos. Ora se morresse agora, com as dividas que me pesam em +cima, o meu pobre rapaz ficava n’uma +situação má, coitado d’elle! +Emquanto que assim, com quinhentas libras soantes, saldo as dividas; e +se estourar, o meu rapaz tem diante de si duzentas libras por anno para +acabar o curso e para se estabelecer. Ora aqui têm os +cavalheiros a +coisa em duas palavras. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão ergueu-se, excellente homem! E apertou-me as +mãos com effusão. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Essas razões, a ultima sobretudo, fazem-lhe immensa honra, +snr. +Quartelmar. Immensa honra! Emquanto a sahirmos vivos ou não +da aventura, +o tempo dirá. Eu por mim estou decidido a ir até +ao cabo, seja qual fôr, +triumpho ou morte! Em todo o caso se temos assim de morrer +tão cedo, não +me parecia mau que antes d’isso, pelo caminho, arranjassemos +uma batida +aos elephantes. Sempre desejei caçar o elephante, e com a +perspectiva de +deixar assim os ossos nas serras de Suliman, é prudente que +me +apresse... Não é verdade, John? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Com certeza!... De resto, todos nós vimos já +muitas vezes a morte +diante dos olhos. É um detalhe; para que se ha de insistir +n’elle? +Viemos á Africa com certo fim. Ha perigos? Acabou-se. Deus +é grande. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Está tudo portanto decidido, conclui eu, e parece-me que +chegou a +occasião d’um grog. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Fomos ao grog. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +No dia seguinte desembarcámos. Alojei os meus amigos +n’uma «barraca» que +possuo na Berea, e a que chamo em dias d’orgulho «a +minha casa». É +construida de tijolo, com um telhado de zinco que abriga tres quartos e +uma cozinha. Em redor, porém, está plantado um +bom jardim, com +esplendidas arvores e flôres, que um dos meus +caçadores, chamado Jack, +traz lindamente tratadas. É um pobre homem a quem um bufalo +esmigalhou a +perna na terra dos Sikukunes. Já não +póde seguir a caça; mas na sua +qualidade de Griqua, jardina bem--coisa que um Zulú nunca +faria +decentemente. O Zulú tem horror ás artes da paz. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão e o seu amigo dormiram n’uma tenda que +lhes armei no jardim +(dentro de casa não havia espaço), no meio do +laranjal. Aqui em Durban +as laranjeiras têm ao mesmo tempo a flôr e o +fructo: de sorte que com o +perfume todo em torno, e o brilho das laranjas côr +d’ouro, e o murmurio +d’aguas correntes, o sitio era aprazivel e grato. Ha peor na +Europa. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Logo no dia seguinte, sem mais tardança, +começámos os preparativos. +Antes de tudo fomos ao tabellião lavrar a escriptura em que +o barão se +obrigava a pensionar o meu rapaz: houve difficuldade por jazerem em +Inglaterra as propriedades do barão: mas arranjou-se uma +«tangente», e +segura, graças ás artes de um Advogado, que pelos +seus serviços +apresentou a conta infame de vinte libras! Depois recebi o meu cheque +de +quinhentas libras. Satisfeita assim a prudencia, passámos a +comprar o +carrão e as juntas de bois. Descobrimos um carrão +excellente, com eixos +de ferro, solido e leve, que já fizera uma +excursão a Lourenço +Marques--o que garantia a firmeza e resistencia das madeiras. Era um +carrão dos que chamamos de <em>meia-tenda</em>--isto +é, toldado sómente até ao +meio, e aberto em frente para as bagagens. Sob o toldo tinha +almofadões +onde podiam dormir bem duas pessoas: além d’isso +suspensões para as +espingardas e bolsos de guardar roupa. Custou-nos cento e vinte e cinco +libras, e sahiu barato. As juntas de bois eram dez, magnificas. +Ordinariamente para uma jornada atrellam-se oito juntas: mas para uma +aventura d’estas, vinte bois não vão de +mais. Todos eram de raça zulú, a +mais pequena d’Africa, mas a melhor; e todos elles <em>salgados</em>. +Chamamos +aqui salgados aos bois já muito jornadeados pelo sul +d’Africa, e á +prova portanto da «agua vermelha»--que destroe +ás vezes todas as juntas +d’um carrão. Além d’isso, +todos tinham sido vaccinados contra a <em>maleita +de pulmões</em>, fórma horrivel de +pneumonia, que é n’estas terras um +flagello para o gado. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Em seguida organisámos provisões e remedios. Este +detalhe demandava +sciencia e cuidado, porque convinha, n’uma empreza +tão accidentada, que +nem faltasse o necessario, nem o carrão partisse abarrotado +e carregado +em demasia. Para os remedios foi-nos de grande utilidade o +capitão John, +que em tempos estudára para medico da Armada, e que +(além de possuir, +muito a proposito para nós, um estojo de cirurgia e uma +pharmacia de +viagem) conservára conhecimentos genericos e uma toleravel +pratica. +Durante a nossa estada em Durban cortou elle o dedo pollegar a um Cafre +com uma maestria--que fazia appetite vêr! O que o perturbou +foi o Cafre +(que observára a operação em perfeita +impassibilidade) pedir-lhe depois +para lhe pôr <em>outro dedo novo</em>. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Restava emfim a importante questão de creados e armas. Armas +tinhamos +por onde as escolher--entre as que eu possuia e a +collecção esplendida +que o barão trouxera de Inglaterra. Sete espingardas de dois +canos para +differentes cargas e differentes caças, tres carabinas +Winchester, tres +rewolvers Colts--assim ficou constituido o nosso armamento. Emquanto a +creados, depois de muita consulta e reflexão, decidimos +limitar o numero +a cinco--um guia, um boieiro, e tres serviçaes. Boieiro e +guia achámos +nós facilmente em dois Zulús, que se chamavam--um +Goza e outro Tom. Mas +os serviçaes eram de mais difficil e delicada escolha. Da +paciencia, da +fidelidade, da coragem dos serviçaes poderiam muitas vezes +depender as +nossas pobres vidas n’esta aventura sem igual. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Finalmente arranjei dois, um Hottentote chamado Venvogel, e um rapazito +zulú, de nome Khiva, que tinha o merito (consideravel para +os meus +companheiros) de fallar inglez com fluencia. O Hottentote já +eu +conhecia. Era um dos melhores «farejadores de +caça» de toda a Africa. +Ninguem mais rijo nem mais resistente. O seu defeito sério +consistia na +<em>bebida</em>. Mas como iamos para região onde +não ha «aguas-ardentes» nem +quasi aguas correntes, pouco importava esta fragilidade do digno +Venvogel. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tinhamos pois dois serviçaes. O terceiro parecia impossivel +descortinar. +Tentei, tentei--até que resolvemos partir sem elle, +esperando encontrar, +antes de mettermos para o deserto, algum homem aproveitavel entre +Inyati +e Zukanga. Na vespera porém da nossa partida estavamos +jantando, quando +Khiva, o rapaz zulú, veio annunciar que um homem se viera +sentar no meu +portal, á minha espera. Mandei entrar. Appareceu um +rapagão muito +esbelto, robusto, magnifico, apparentando trinta annos, e claro de mais +para Zulú. Floreou no ar o cajado á maneira de +saudação, encruzou-se +sobre o soalho, a um canto, e ficou calado com singular dignidade. +Não +lhe dei logo attenção. Assim se deve proceder com +os Zulús. Se o branco +lhes falla com promptidão e agrado o Zulú conclue +immediatamente que +está tratando com pessoa <em>de pouco commando</em>. +Observei no emtanto que +este homem era um <em>Keslha</em>, um <em>homem-de-annel</em>--isto +é, que trazia na +cabeça aquella especie de rodilha, feita de gomma, e toda +lustrosa de +sebo, que elles entremeiam na grenha e usam, quando chegam a uma idade +de respeito ou attingem nas suas aringas uma +posição superior. Tambem +me pareceu reconhecer aquella cara--realmente bella. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem, disse por fim, como te chamas? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Umbopa, respondeu o homem n’uma voz lenta e grave. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Estou a pensar que já te vi algures. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Já, Makumazan! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Makumazan é o meu nome cafre--e significa aquelle que se +levanta pelo +meio da noite para vigiar; ou antes, aquelle que conserva sempre os +olhos bem abertos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Makumazan, continuou o Zulú, viu-me em Izand-luana, na +vespera da +batalha... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Lembrei-me então completamente. Eu fui um dos guias de Lord +Chelmsford, +na desgraçada guerra com os Zulús. Por acaso, na +vespera da batalha de +Izand-luana, que consummou o desastre das tropas inglezas, fui mandando +levar para fóra do acampamento uns poucos de +carrões de bagagens. Quando +se estava atrellando o gado, este homem (que commandava um +troço de +Cafres, dos indigenas auxiliares) veio para mim, dizendo que o +acampamento não estava seguro, que era certa uma surpreza, e +que o vento +<em>trazia cheiro de inimigo</em>. Respondi-lhe que +«dobrasse a lingua», e +deixasse a segurança do acampamento a melhores +cabeças que a d’elle. +Pois grande razão tinha o Zulú! Logo +n’essa noite o acampamento foi +terrivelmente assaltado... Tudo isso porém vem na Historia. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que queres tu? Perguntei. Lembro-me perfeitamente de ti. Dize o que +queres. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Quero isto. Correu aqui voz que Makumazan vai para o norte, +n’uma +grande expedição, com os chefes brancos que +vieram d’além do mar. É +verdadeira a voz? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Verdadeira. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Correu aqui tambem voz que Makumazan e os chefes iam para o rio +Lukanga, que fica a um bom quarto de lua de jornada do districto de +Manica. É verdade? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Franzi o sobr’olho, descontente de vêr assim +tão conhecido o roteiro da +nossa expedição. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Para que queres tu saber? Que tens com isso? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Tenho isto, oh brancos! Que se ides assim para tão longe, +eu quereria +ir comvosco. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Havia uma altivez nas maneiras d’este homem, e especialmente +no seu +emprego da expressão «<em>oh brancos</em>» +em logar de «<em>oh inkosis</em>» +(chefes), +que me surprehendeu grandemente. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Estás esquecendo a quem fallas! Repliquei. As palavras +sahem-te +demasiadas e imprudentes. Como é o teu nome? Onde +é a tua aringa? É +necessario saber quem temos diante de nós! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--O meu nome é Umbopa. Sou da raça dos +Zulús, mas não sou Zulú. O sitio +da minha tribu é muito longe, para o norte: os meus ficaram +lá quando os +Zulús desceram para aqui, ha muito, ha mais de mil annos, +antes de Chaka +ser rei. Não tenho aringa. Muitos annos vão que +ando errante. Quando vim +do norte era creança. Depois fui dos homens de Cetewayo no +regimento de +Nomabakosi. Por fim fugi dos Zulús, e vim para o Natal para +vêr as artes +dos brancos. Foi então que servi na guerra contra Cetewayo, +e que te +encontrei, Makumazan! Agora tenho trabalhado no Natal. Mas estou farto, +quero ir para o norte. O meu logar não é aqui. +Não peço soldada, mas sou +valente, e valho bem o pão que comer. Eis as palavras que +tinha a dizer. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Este homem e a sua grande maneira de fallar--intrigavam-me +singularmente. Era certo para mim que só dissera a verdade: +mas na côr, +nos modos, differia muito do Zulú ordinario; e a sua offerta +de vir +comnosco sem soldada, extraordinaria n’um Africano, enchia-me +de +desconfiança. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Na duvida traduzi as estranhas fallas aos meus amigos, solicitei-lhes +conselho. O barão pediu-me que mandasse pôr o +homem de pé. Umbopa +ergueu-se, deixando escorregar ao mesmo tempo o vasto +casacão militar +que o envolvia, e ficou diante de nós, mudo, erecto, +soberbo, todo nú, +com um simples pedaço de pano em torno dos rins e um fio de +garras de +leão enrolado ao pescoço. Era, realmente, um +esplendido homem! Tinha +mais de dois metros de altura, e largo em +proporção, agil, admiravel de +fórmas. Na luz da sala em que estavamos, a pelle parecia +apenas muito +trigueira, como a d’um arabe. Aqui e além, pelo +corpo, conservava +cicatrizes terriveis de antigos golpes de zagaia. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão foi direito a elle, e cravou-lhe os olhos nos olhos, +que se não +baixaram, e que rebrilharam: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Gósto de ti, Umbopa, disse em inglez, e tomo-te ao meu +serviço. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Umbopa evidentemente comprehendeu, porque murmurou em zulú: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Está bem. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Depois, atirando um olhar para a grande estatura e força do +branco, +accrescentou: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Somos dois homens, tu e eu! +</p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<h2 style="text-align: center;"><a name="cap_IV"></a>CAPITULO +IV +</h2> + +<h3 style="text-align: center;"> +OS ELEPHANTES +</h3> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"> +Sahimos de Durban no fim de janeiro, e andadas quasi as trezentas +leguas +que vão d’aqui ao sitio em que se juntam os rios +Lukanga e Kalukue, +chegámos, pelos meados de maio, a Inyati, não +longe da aringa de +Sitanda, onde acampámos. Durante a jornada tivemos aventuras +varias, mas +d’aquellas que são usuaes em todas as travessias +d’Africa e já muito +contadas nos livros. Em Inyati, ultima estação +mercante da terra dos +Matabeles, onde Lobengula (esse atroz velhaco!) é rei, +separámo-nos, com +fundas saudades, do nosso confortavel carrão. Dos vinte bois +que +trouxeramos de Durban, só doze restavam. Um morrera da +mordedura da +cobra, tres da falta d’agua; um perdeu-se; os outros tres +comeram uma +herva venenosa, chamada <em>tulipa</em>. Os restantes +deixámol-os com o wagon +ao cuidado de Goza e de Tom (o boieiro e o guia), pedindo a um digno +Missionario escossez que habita aquelle desterro, que caridosamente nos +vigiasse o carrão, o gado e os homens. E no dia seguinte, +acompanhados +por Umbopa, Khiva, Venvogel, e meia duzia de carregadores que +arranjámos +em Inyati, largámos para o deserto, a pé, em +seguimento da nossa +temeraria aventura. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Era de madrugada; e lembrei-me que no momento de nos pôrmos +em marcha +estavamos todos tres bem commovidos! Cada um perguntava a si mesmo, +decerto, se jámais tornaria a vêr o +carrão, os bois e o Missionario. Eu +por mim levava a certeza <em>que não</em>. Os +primeiros passos foram lentos, +dados em grave silencio. Mas de repente Umbopa, que marchava na frente, +rompeu n’um grande canto--uma canção +zulú, dizendo d’uns homens que, +cansados da vida e da monotonia das coisas, se tinham mettido ao +deserto, para achar occupação ou morrer, e que, +para além dos sertões, +subitamente, encontravam um paraiso cheio de raparigas +moças, de gado, +de caça, e de inimigos para matar! Esta +canção pareceu-nos de boa +promessa. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A quinze dias de marcha de Inyati começámos a +atravessar uma região +arborisada e farta em aguas. As collinas estavam espessamente cobertas +de matto que os indigenas chamam <em>idaro</em>: e por +toda a parte se +estendiam bosques de <em>machabelas</em>, arvores que +dão um fructo amarello, +enorme, quasi todo caroço, mas deliciosamente fresco e +dôce. As folhas e +fructos d’estas arvores são o alimento querido dos +elephantes; e decerto +os immensos animaes andavam perto, porque a cada passo topavamos +arbustos quebrados e desarraigados. O elephante por onde vai comendo, +vai assolando. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Uma tarde, depois d’uma caminhada fatigante, +chegámos a um sitio +particularmente pittoresco e de amavel repouso. Era junto de um outeiro +todo vestido d’arvoredo. Ao pé serpeava o leito +sêcco d’um rio, +conservando ainda aqui e além poças de agua +crystallina e fria, +espesinhadas em redor pelas largas pégadas de feras. Em +frente verdejava +um bello parque de mimosas, machabelas e outras arvores ainda, raras e +cheias de flôr:--e em torno era o matto, o matto silencioso, +denso, +impenetravel. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Decidimos ficar alli e construir um <em>scherm</em>, a +pouca distancia d’uma +das poças d’agua. O scherm é uma +especie de acampamento +entrincheirado, que se faz cortando grande quantidade de matto +espinhoso +e armando-o circularmente n’uma vasta e rude sebe que +fórma defeza. Todo +o espaço interior se aplaina como uma arena: ao centro +amontôa-se herva +sêcca, um capim chamado <em>tambouki</em>, que +serve de divan e de cama; aqui e +além, em volta, accendem-se alegres fogueiras. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quando acabámos de arranjar o <em>scherm</em>--vinha +nascendo a lua. O jantar +estava prompto. Bem parco era elle, composto dos tutanos e lombos +d’uma +girafa, que n’essa tarde, ao fim da sésta, +fôra morta pelo capitão John +com um tiro providencial. Mas depois de coração +de elephante (a mais +fina delicia que se póde ter), tutano e lombo de girafa +são os petiscos +superiores d’Africa, e grandemente os saboreámos +sob o esplendor da lua +cheia, que ia alta nos céos. Depois accendemos os cachimbos, +e +conversámos no vasto silencio em roda do lume. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Os meus companheiros não se fartavam de contemplar aquella +scena de +sertão, familiar para mim, com os meus quarenta annos +d’Africa, mas que +a elles só offerecia estranhezas--até na maneira +por que as claridades +alumiam, até na maneira por que a noite é +silenciosa. Eu por mim, +confesso, admirava sobretudo o nosso excellente capitão +John. Alli +estava elle, no interior da Terra-Negra, em pleno deserto, estirado em +cima d’um sacco de couro,--tão apurado, +tão correcto, tão bem pregado, +como se viesse de passear n’um parque luxuoso de castello +inglez, em dia +de caça ao faisão. Tinha um facto completo de +cheviote castanho, com +chapéo da mesma fazenda, polainas irreprehensiveis, luvas +amarellas de +pelle de cão, a face escanhoada, monoculo no olho, os dentes +postiços +rebrilhando em gloria! Nunca o sertão africano vira decerto +um homem +mais catita. Até trazia collarinhos altos (collarinhos de +gutta-percha), +de que emmalára na mochila uma escandalosa +porção--«por serem leves +(dizia elle), faceis de lavar, e dar logo á gente um ar de +asseio e +distincção». +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Pois assim estivemos muito tempo, sob o magnifico luar, conversando e +observando os Cafres, que chupavam a dacca nos seus longos cachimbos +feitos de cornos de <em>eland</em>, e que, um por um, se +iam enrolando nas +mantas e estirando á beira do lume. Só Umbopa por +fim ficou acordado, +longe dos Cafres (a quem geralmente não admittia +familiaridades), com o +queixo encostado ao punho, os olhos perdidos na lua, n’uma +d’aquellas +abstracções em que por vezes eu o surprehendera +desde o começo da nossa +jornada. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +De repente, da profundidade do matto, por traz de nós, subiu +no ar um +longo e rouco rugido. «É um +leão!» exclamei. Todos nos erguemos, a +escutar. Quasi immediatamente, junto á poça +d’agua pura, visinha do +nosso <em>scherm</em>, resoou como em resposta a +estridente trompa d’um +elephante. «<em>Unkungunlovo</em>! <em>Unkungunlovo</em>!» +<a href="#1">[1</a><a href="#1">]</a>, +murmuram á uma os Cafres, +levantando as cabeças das mantas:--e momentos depois +avistámos uma fila +de enormes e escuras fórmas, movendo-se devagar da beira da +agua para o +matto. O capitão, com um salto, agarrára a +espingarda. Tive de o segurar +pelo braço: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--É inutil, não se faz nada. Nada de barulho. +Deixal-os ir. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Em todo o caso, disse o barão excitado, este sitio para um +caçador é +um verdadeiro paraiso! Se aqui ficassemos um dia ou dois?... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Estranhei: porque até ahi o barão, impaciente, +viera-nos sempre +apressando para diante--sobretudo desde que soubera em Inyati, pelo +Missionario, que dois annos antes um inglez, chamado Neville, vendera +alli o carrão em que viera de Bamanguato e se +internára no sertão com um +Cafre por serviçal. Mas ouvira o leão, ouvira o +elephante--e os seus +instinctos de caçador dominavam, irresistivelmente. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Pois muito bem, filhos meus, disse eu, uma vez que se quer um bocado +de divertimento, ter-se-ha; mas ámanhã. Por agora +é tratar de dormir, e +erguer com o primeiro luzir do dia, para apanhar esse rico gado antes +que elle vá aos seus negocios. Toca pois a accommodar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O capitão John (extraordinario homem!) tirou o fato, +sacudiu-o, metteu o +monoculo e os dentes postiços dentro do bolso das +calças, dobrou tudo +cuidadosamente, guardou tudo ao abrigo do orvalho debaixo do seu +<em>makintosh</em>, alisou o cabello, tomou um bochecho +d’agua, e estirou-se de +lado para dormir, com correcção e conforto. O +barão e eu, depois de +contemplar, rindo, estes requintes, embrulhámo-nos +simplesmente n’um +cobertor:--e d’ahi a pouco envolvia-nos aquelle somno +profundo, +absoluto, sem sonhos, sem movimentos, que é a recompensa e a +consolação +de quem moureja por estas terras negras. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Com o primeiro alvor da madrugada estavamos a pé, preparando +para a +acção. Tomámos as carabinas, +munições abundantes, cantis cheios de +chá +frio (que é a melhor bebida, a unica, quando se +caça), e partimos, +depois de engolir de pé um almoço breve, +acompanhados de Umbopa, de +Khiva e de Venvogel. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Não tivemos difficuldade em achar o carreiro aberto e pisado +pelos +elephantes, que, segundo Venvogel declarou, deviam ser uns vinte ou +trinta, a maior parte machos e todos crescidos. Mas o bando +afastára-se +durante a noite; e eram quasi nove horas, já o calor ardia +em céo e +terra, quando pelos arbustos quebrados, pelas cascas e folhas +d’arvores +esmagadas, e pelos montes de bosta fumegante, percebemos que os bichos +andavam cerca--e seguros. D’ahi a instantes, effectivamente, +avistámos o +rebanho todo, uns vinte a trinta elephantes (como Venvogel +calculára), +parados n’uma cova de terreno, quietos, tendo decerto acabado +o primeiro +repasto, e sacudindo com lentidão e magestade as suas +immensas orelhas. +Era uma vista soberba! Só as ha assim na Africa! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Estavamos separados d’elles por umas cem jardas. Agarrei um +punhado de +capim e atirei-o ao ar para tomar a direcção do +vento:--porque se um +elephante nos farejasse, bem sabia eu que, antes de podermos +pôr as +carabinas á cara, o rebanho inteiro abalava. A aragem, se +alguma corria, +soprava para nós do lado dos bichos: de sorte que +rastejámos +cuidadosamente através do matto, mudos, sem respirar, +até nos +aproximarmos umas quarenta jardas mal medidas. Justamente diante de +nós, +e de ilharga para nós, estacionavam tres magnificos +elephantes machos, +um d’elles com enormes dentes e o ar supremo de um +Patriarcha. Avisei, +baixinho, os companheiros que me encarregava do animal do meio: o +barão +apontou ao mais pequeno, ao da esquerda: o capitão ao +«Patriarcha». +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Agora! Murmurei. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Bum! Bum! Bum! O elephante do barão tombou redondo, varado +no coração. O +meu cahiu pesadamente sobre os joelhos; mas quando pensei que ia +desabar +para o lado, morto, vejo a enorme massa que se ergue e larga galopando +por diante de mim. Metti-lhe segunda bala na ilharga, que o abateu. +Á +pressa, com dois cartuchos mais na carabina, corri para elle e +findei-lhe misericordiosamente a agonia. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Voltei-me então para vêr o que se +passára com o elephante do capitão, o +«Patriarcha», que eu ouvira por traz de mim +bramando de dôr e furia. +Encontrei John excitadissimo. Ao que parece, o elephante, apenas +ferido, +rompera contra elle (que meramente teve tempo de se desviar com um +salto), e seguira, furioso e sem vêr, para a banda do nosso +acampamento. +O resto do rebanho no emtanto, espavorido, rompera para o outro lado, +através da espessura. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Durante um momento ficámos indecisos entre seguir o +«Patriarcha» ferido +ou o resto da manada. Por fim resolvemos bater atraz do bando. +Seguil-os +era facil, porque tinham aberto um caminho, mais largo e liso que uma +estrada real, esmagando o matto espesso como se fosse relva de +primavera. Achal-os, porém, era mais complicado: e tivemos, +durante duas +infindaveis horas, de marchar sob um sol faiscante, antes de os +avistarmos. Lá estavam todos outra vez muito juntos (excepto +um dos +machos): e pela inquietação com que se mexiam, +pelo constante erguer das +trombas desconfiadas, farejando o ar--era claro que esperavam, temiam +outro ataque. Um dos machos afastado, á laia de sentinella, +vigiava para +o nosso lado, de tromba ameaçadora e alta. Entre elle e +nós mediavam +umas sessenta jardas. Se este cavalheiro nos presentisse, dava signal e +o rebanho abalava, tanto mais facilmente quanto nos achavamos, bichos e +homens, em terreno descoberto. De sorte que todos tres lhe +apontámos, +todos tres lhe atirámos. Bum! Bum! Bum! Morto! Mas os outros +partiram, +n’uma desfilada, como collinas rolando. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Infelizmente para elles, logo adiante havia um <em>nullah</em>, +isto é, uma +ribeira sêcca, com as bordas abarrancadas do nosso lado e +quasi a pique +do lado fronteiro (sitio parecido áquelle em que o Principe +Imperial foi +morto na Zululandia). Para ahi justamente se atiraram os elephantes em +tropel. Quando chegámos á borda, démos +com elles em medonha confusão, +esforçando-se por trepar a outra ribanceira (escarpada e +hirta), +empurrando-se uns aos outros, n’um furor e egoismo +verdadeiramente +humanos, e atroando os ares de bramidos. A nossa opportunidade era +escandalosamente brilhante. Sem outra demora, disparando tão +depressa +como carregavamos, démos cabo de cinco elephantes; e +teriamos dizimado o +rebanho inteiro se elles de repente, abandonando a teima estupida de +galgar a ribanceira, não largassem a fugir ao comprido do +leito sêcco +que se perdia ao longe na espessura. Estavamos cansados de mais para os +perseguir, enjoados tambem d’essa vasta mortandade. Oito +elephantes +n’uma manhã, antes do <em>lunch</em>, +é decente. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +De sorte que, depois de descansarmos e vêrmos os Cafres +cortar os +corações a dois dos elephantes para servir +á ceia, voltámos +vagarosamente os passos para o acampamento, devagar, satisfeitos com a +proeza, e calculando o valor do marfim, que no dia seguinte cedo os +carregadores viriam serrar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ao passar no sitio em que o capitão tinha ferido o +«Patriarcha», +encontrámos um rebanho de <em>elands</em>. +Não lhe atirámos, porque não ha nada +no eland que valha dinheiro, e mantimentos já traziamos, +deliciosos e +abundantes. O bando passou ao nosso lado, ligeiro e trotando; depois, +adiante, onde se erguia um tufo de arbustos em flôr, parou; e +todos a um +tempo se voltaram, a olhar para nós, espantados. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O capitão nunca vira um <em>eland</em>. Quiz +aproveitar a occasião, deu a +carabina a Umbopa, e seguido de Khiva adiantou-se, de monoculo fito, +para o tufo de arbustos em flôr. O barão e eu +sentámo-nos á espera, +n’uma pedra. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O sol ia justamente descendo, n’um grande esplendor de +vermelho e ouro. +O barão e eu contemplavamos, calados, aquella belleza de +céo e luz, +quando de repente ouvimos o bramido d’um elephante e vimos, +escura sobre +a vermelhidão do poente, uma vasta fórma +avançando a galope, de tromba +erguida e cauda espetada. Logo immediatamente vimos outra coisa +horrivel:--o capitão, e Khiva, o serviçal +zulú, fugindo para nós n’uma +carreira perdida, perseguidos pelo elephante! Era o grande bicho +ferido, +o «Patriarcha» que alli ficára, errando. +Agarrámos n’um impeto as +carabinas. Mas quê! Fera e homens, correndo para +nós, vinham juntos! Se +disparassemos, a bala podia varar John ou Khiva... E assim +ficámos +n’esta indecisão, com o +coração a tremer, quando o pobre +capitão +escorrega n’aquelles infames botins de bezerro com que +teimava em +trilhar o sertão--e cae, estatelado, de face na terra, +diante mesmo do +enorme elephante que chegava bramindo! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Fugiu-nos a respiração! O pobre camarada estava +perdido! Largámos ainda +a correr para elle, desesperadamente. E o desastre veio, com +effeito--mas d’um modo bem differente. Khiva, o +Zulú (valente, heroico +rapaz que era!), vendo o amo por terra, volta-se, e arremessa a zagaia +a +toda a força contra a tromba do elephante. A fera +lança um uivo de dôr, +arrebata o desgraçado Zulú, bate com elle no +chão, põe-lhe uma immensa +pata sobre as pernas, e enrodilhando-lhe a tromba no peito, +rasga-o--litteralmente <em>o rasga em dois</em>. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Corremos, cheios de horror, fizemos fogo uma vez, outra vez, +furiosamente--até que o elephante se abateu como um monte +sobre os +pedaços sangrentos do Zulú. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Foi um instante de indizivel consternação. Apesar +de endurecido por +quarenta annos de caça e carnificinas, eu proprio sentia um +«nó na +garganta», e creio que me fiz pallido. O barão +tremia todo. E o pobre +capitão torcia as mãos, na dôr de +vêr assim despedaçado o servo valente +que dera a vida por elle. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Só Umbopa teve a palavra serena que convinha á +disciplina. Veio, com os +seus passos altivos e leves, contemplar os restos de Khiva, +n’uma poça +de sangue, junto á massa enorme do elephante, moveu a +mão no ar e disse: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Morreu. Bem d’elle, que morreu como um homem! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<h2 style="text-align: center;"><a name="cap_V"></a>CAPITULO +V +</h2> + +<h3 style="text-align: center;"> +A NOSSA ENTRADA NO DESERTO +</h3> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tinhamos morto nove elephantes. Dois longos dias levámos a +serrar-lhe os +dentes e a enterral-os com cuidado debaixo d’uma arvore +enorme, que +destacava isoladamente na vasta planicie, e formava um +«signal» +inesquecivel. Era um esplendido lote de marfim! Só os dentes +do +«Patriarcha» pesavam (tanto quanto pude avaliar) +uns cento e setenta +arrateis! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O pobre Khiva, esse, sepultámol-o ao pé da +collina, com uma azagaia ao +lado, para se defender dos Espiritos Malignos na sua difficil jornada +para o Paraiso zulú. Ao romper do terceiro dia +levantámos o +acampamento--todos nós fazendo votos no silencio da nossa +alma para que +nos fosse dado voltar um dia! Eu, mentalmente, +accrescentava:--«voltar e +desenterrar este rico marfim!» +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Depois d’uma fatigante marcha, cortada d’esses +episodios africanos que +todos os Africanistas experimentam, chegámos emfim +á aringa de Sitanda, +ao pé do rio Lukanga. Ahi era verdadeiramente o nosso +«ponto de +partida». Ahi começariam as nossas miserias. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Perfeitamente me lembro do sitio, e da nossa chegada. Para a direita +descia, transmalhada, uma pequena povoação de +negros, com curraes de +gado murados de pedra solta, e leiras de terra cultivada ao comprido da +agua clara. Por traz da aldeia ondulavam grandes pradarias de herva +alta, onde a caça abundante esvoaçava. E para a +esquerda era o escuro, +silencioso, infindavel deserto. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O nosso acampamento ficou junto d’esse riacho alegre que +corria entre +arbustos em flôr. Defronte erguia-se um outeiro pedregoso. +Apenas +erguemos as tendas, subi lá com o barão. Era +aquelle o sitio, aquelle o +outeiro onde eu vira, havia vinte annos, n’uma tarde como +esta, a figura +do pobre Silveira, com o seu grande casacão comprido, +apparecer +cambaleando, toda escura na vermelhidão do poente. Como +então, o globo +do sol afogueado descia já rente da terra--e os seus raios +flexavam +obliquamente aquelle deserto coberto de tojo baixo, sombrio, sem agua, +sem vida, terrivelmente mudo, que matára o pobre portuguez, +que nos ia +talvez matar a nós. Ficámos olhando para elle em +silencio. O ar era +d’uma admiravel finura e transparencia; e longe, muito ao +longe, +podiamos distinguir, recortada no horisonte, pallidamente azulada e com +laivos brancos de neve, a cordilheira de Suliman. Mostrei-as ao meu +companheiro: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--A entrada das minas de Salomão lá +está... Chegaremos nós lá? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +N’esse instante senti alguem por traz de nós +respirando: era Umbopa, que +trepára tambem ao comoro, e considerava o deserto com +pensativa +gravidade. Vendo que eu reparára n’elle, deu um +passo lento, depois +outro mais lento. E dirigindo-se ao barão (a quem parecia +ter-se +affeiçoado), apontando com a sua grande azagaia para o lado +dos montes: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--É para aquella terra além que tu vaes, +Incubú? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Incubú é uma palavra do dialecto zulú, +que significa «elephante», e +que servia, ente os Cafres, para designar o nosso chefe. Estranhei a +audacia d’Umbopa, e perguntei-lhe asperamente que tosca +maneira era essa +de fallar a seu amo... Que o negro dê uma alcunha negra ao +patrão, por +lhe ser mais facilmente pronunciavel que o nome--vá! Que a +um como eu, +pobre caçador que ganha o seu pão, o negro se +dirija sempre pela alcunha +negra--vá ainda! Mas que a atire á face +d’um senhor, d’um fidalgo--isso +não! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Falla assim aos teus iguaes, gritei eu. Falla assim aos que comtigo +comem da mesma gamella! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O Zulú teve uma risadinha dôce que me enfureceu. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que sabes tu, accrescentou elle, se eu não sou igual ao +amo que sirvo? +Elle pertence a uma grande casta, pelo olhar se vê logo: mas +talvez eu +pertença a uma casta maior! Pelo menos sou tão +forte como elle, e posso +com elle repartir o que tenho no coração. +Sê pois a minha bôca, oh +Macumazan! Dize as minhas palavras ao Incubú meu amo! E +attende-as tu +tambem, porque em mim só ha verdade! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Fiquei perfeitamente indignado. Nunca um Cafre me fallára +n’aquelle +tremendo tom! Mas, não sei porque, o maldito Zulú +tinha a arte de me +impressionar. Além d’isso sentia uma viva +curiosidade... De sorte que +lhe traduzi as palavras,--accrescentando que a creatura me parecia +impudente e ousada. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão, porém, homem de excellente paciencia, +voltou-se sorrindo para o +Zulú: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--É para as montanhas que vou com effeito, Umbopa! Vou em +procura d’um +homem da minha raça, d’um irmão meu, +que atravessou este deserto, e que +eu supponho estar além! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O Zulú moveu lentamente a cabeça: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Assim é, assim é... Encontrei um homem no +caminho que me disse: Ha +dois annos que um branco se metteu tambem ao deserto como +nós, levando +um só serviçal... Nunca mais voltaram... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Quem te disse? Perguntei, vivamente. Porque te sahem só +agora essas +palavras? Onde te disseram? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Antes de Inyati, um homem que elle encontrára no caminho. +Contára-lhe +que o branco se parecia com o chefe Incubú, mas tinha a +barba escura: e +que ia seguido por um caçador bechuana chamado Jim. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--São elles! Exclamei. Não ha duvida! +São elles! Jim conhecia eu bem.... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão ficou pensativo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Se meu irmão tinha decidido atravessar o deserto, murmurou +por fim, ou +o atravessou, ou morreu. Recuar ou mudar de fito não era da +tempera +d’elle. Ou não vive, ou está para +lá das serras. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O Zulú, que lhe seguira as palavras com os grandes olhos +brilhantes, +tornou muito gravemente: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--É uma longa jornada, Incubú. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Quartelmar, diga-lhe que não ha jornada que o homem +não possa +emprehender, replicou o barão (que evidentemente estimava e +considerava +aquelle singular Zulú). Nada ha que o homem não +possa fazer; nem +desertos que não possa atravessar, nem montanhas que +não possa subir, se +puzer n’isso alma e vontade. O essencial é +contarmos a vida por coisa +nenhuma, alegremente promptos a conserval-a ou a perdel-a, segundo Deus +ordenar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quando o Zulú comprehendeu, toda a face se lhe illuminou: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Grandes palavras, meu pai Incubú! Grandes, soberbas +palavras que +enchem bem a bôca d’um forte! Que é a +vida, na verdade? É a semente da +herva que o vento sopra aqui e além. Ás vezes cae +em boa terra e +fructifica; outras vezes, na rocha dura e definha... O homem nasce para +morrer. Mais tarde ou mais cedo, que importa? É sempre a +morte. Eu por +mim irei comtigo, Incubú! Irei por montanha e deserto, e +ser-te-hei +sempre fiel... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Parou. E subitamente rompeu n’uma d’essas rajadas +de poesia, frequentes +nos Zulús, que tanto surprehendem os que pela primeira vez +as +testemunham, e que, apesar de nevoentas, redundantes, e decoradas de +geração em geração, mostram +que se a raça não é intelligente, +é pelo +menos imaginativa. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que é a vida (exclamava Umbopa, abrindo os +braços, n’aquelle tom +cantado que os Zulús tomam n’esses momentos de +exaltação). Que é a vida? +Dizei-me, oh brancos, vós que sabeis os segredos +d’este mundo, e do +mundo das estrellas que brilha por cima, e do outro mundo que +está para +além das estrellas! Dizei-me, oh brancos, dizei-me o segredo +da vida! +D’onde vem ella, para onde vai?... Não podeis, +não sabeis! Escutai +então! Nós sahimos da treva, e para a treva +marchamos. Como um passaro +acossado pela tormenta, nós sahimos do fundo da +escuridão: durante um +momento passamos, e as azas brilham-nos á luz das fogueiras: +depois, de +novo e para sempre mergulhamos na treva! A vida é o +pyrilampo que +fulgura de noite e de dia é negro! É o halito dos +rebanhos no ar de +inverno! É a sombra que corre sobre a relva, e que +desapparece ao +poente!... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Calára-se, com os braços ainda abertos, o olhar +perdido nas alturas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--És um homem bem singular, Umbopa! Exclamou o +barão, que o escutára +assombrado. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O outro pareceu acordar, sorriu: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Creio que nos assemelhamos, Incubú. Talvez eu tambem +vá procurando um +irmão entre as gentes que estão para +lá das montanhas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Olhei para Umbopa, com o sobr’olho franzido. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que gentes? Que sabes tu das gentes que vivem para lá das +montanhas? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Pouco, Macumazan, muito pouco. Ha para além uma terra de +feitiços, de +jardins, de gente valente... Ha tambem uma grande estrada branca, toda +de pedra. Assim ouvi. Mas de que vale dizer? Quem lá chegar, +lá verá! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Aquelle homem evidentemente sabia alguma coisa que não +queria revelar. +Elle decerto percebeu a minha desconfiança--porque acudiu, +espalmando as +mãos: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não te arreceies, Macumazan! Não te arreceies! +Não abro covas para que +tu cáias dentro. Se chegarmos a atravessar o deserto, eu te +contarei o +que sei. Mas a Morte está lá com uma +lança, á nossa espera. Melhor te +fôra, Macumazan, voltar aos teus elephantes... Fallei o que +tinha a +fallar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E meneando a azagaia á maneira de +saudação, desceu o comoro, recolheu ao +acampamento--onde d’ahi a instantes o encontrámos +limpando uma carabina, +attento, calado, como qualquer servo cafre vasio de pensamento e +vontade. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Homem extraordinario! Murmurou o barão. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Extraordinario de mais! Não gósto nada +d’aquelles mysterios... Mas, +emfim, nós estamos mettidos n’uma aventura +phantastica, e um Zulú +mysterioso de mais ou de menos--não tira nem põe! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Na manhã seguinte começámos os +preparativos para a marcha. Era +impossivel naturalmente levar comnosco, através do deserto, +todo o +pesado armamento, e as cantinas. Fomos portanto forçados +(depois de +debandar os carregadores) a confiar tudo a um velho cafre, um atroz +sacripante, que possuia alli uma aringa consideravel. Bem penoso me era +abandonar as nossas magnificas armas á mercê +d’aquelle velho +malandro--cujos olhos se fixavam já nos nossos bens com um +fulgor de +cubiça e rapina. Tomei por isso as minhas +precauções. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Comecei por carregar as espingardas. Depois declarei ao bandido, +n’um +tom cavo, que aquelles canos estavam enfeitiçados--e que se +elle lhes +tocasse «alli» (mostrei o gatilho), os demonios +fugiriam de dentro +despedindo um <em>raio</em>! Immediatamente (como eu +calculára), o Cafre puxou +o gatilho a uma carabina «Express». E o raio +partiu. Partiu, com tanta +felicidade, que matou uma vacca que pastava pacificamente a distancia, +á +beira d’agua--e atirou o velho de pernas ao ar, com a +inesperada força +do recúo. O pavor do malandro foi indizivel. Tremia todo, +dava pulos em +volta da vacca morta (que depois, mais tranquillo e com toda a +impudencia, queria que eu lhe pagasse), olhava para o céo, +olhava para o +chão... Por fim rompeu aos berros: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Tirem esses demonios que estoiram! Ponham-os lá em cima, +sobre o +colmo!... Ai, que não fica vivo um de nós! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Apenas elle serenou, continuei a minha predica. Affirmei-lhe, com +olhares esgazeados, que se ao voltarmos, uma só arma +d’aquellas +faltasse, eu, que possuia as artes dos brancos, o mataria a elle e a +toda a sua gente por meio de bruxarias sangrentas: e que se +nós +morressemos e elle tentasse apoderar-se do que era nosso, eu voltaria +em +espirito perseguil-o, puxar-lhe de noite pelos pés, +tornar-lhe o gado +bravo, dessorar-lhe o leito fresco, seccar-lhe a semente na terra,--e +fazer a vida na aringa tão dura e terrivel que seus proprios +filhos o +amaldiçoariam... Emfim, dei-lhe uma idéa razoavel +do Inferno, com +horrores ineditos. O velho malandro, espavorido, jurou que olharia +pelas +nossas armas como se fossem os ossos de seu pai! Era um patife +infinitamente supersticioso. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Em seguida combinámos o que nós cinco--o +barão, o capitão John, eu, +Umbopa e Venvogel--deviamos levar comnosco através do +deserto. Muito +calculámos, muito experimentámos. Não +lográmos chegar a um peso menor de +quarenta arrateis por homem. E havia escassamente o necessario! Eis +aqui +o que conduziamos: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Cinco espingardas--com a competente munição +(quatrocentas cargas); +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tres rewolvers; +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Cinco cantis d’agua, de cinco quartilhos cada um; +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Cinco mantas; +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Vinte e cinco arrateis de <em>biltong</em>-- que +é uma especie de carne sêcca; +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Dez arrateis de contas de vidro para presentes aos indigenas; +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Navalhas, phosphoros, um compasso, um filtro d’algibeira, uma +enxó, uma +garrafa de cognac, tabaco--e os fatos que tinhamos no corpo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Era tudo: e era pouco, como necessidade e conforto, n’uma +semelhante +empreza! Ainda assim peso consideravel para cinco homens acarretarem, +por um sol terrivel, através d’um deserto esteril! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Depois, com immensas difficuldades, persuadimos tres negros da aldeola +a +acompanharem-nos durante vinte milhas, levando cada um ás +costas uma +larga cabaça d’agua fresca. O meu fim era podermos +encher de novo os +cantis, depois da primeira noite de marcha (porque decidiramos partir +na +frescura da noite). Os negros, a quem eu contára que iamos +caçar o +abestruz, não acreditaram: tinham por certo que morreriamos +de sêde e de +fome no grande sertão: elles proprios temiam a morte e os +demonios que +vagam no deserto: e só consentiram em nos seguir, a troco de +tres facas +de matto e d’uma manta vermelha. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Durante todo esse dia descançámos e dormimos. Ao +pôr do sol celebrámos +um grandioso jantar, de caça, de carne fresca e de +chá--«o ultimo chá, +observou John com melancolia, que naturalmente beberiamos por longos e +longos mezes». Depois, apetrechadas as mochilas, +esperámos que nascesse +a lua. Perto das nove horas subiu ella, em toda a sua serena e +pensativa +gloria, inundando de luz branca e vaga todo o immenso deserto, que +parecia tão mudo, solemne, impenetravel e virgem de +pégadas humanas como +o claro firmamento que por cima resplandecia. Com a lua que se erguia +nos erguemos nós tambem. Tudo estava prompto, os negros de +cajado na +mão:--e todavia hesitavamos ainda, como o fraco homem hesita +sempre +perante o Irrevogavel. Lembro-me bem. Adiante de nós alguns +passos, +Umbopa, de azagaia na mão, com a carabina a tiracollo, +olhava fixamente +para o deserto: atraz de nós, n’um grupo, +Venvogel, com os tres negros +que levavam as cabaças d’agua, esperavam, direitos +e mudos: e nós tres, +os homens brancos, muito juntos, sentiamos bater forte o +coração. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +De repente, o barão tirou devagar o chapéo. E com +profunda emoção: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Amigos, vamos começar uma das mais estranhas jornadas que +homens têm +ousado tentar. O que será de nós, não +sei: mas, para bem ou para mal, +juntos estamos, juntos nos encontraremos sempre! E agora, antes de +partir, ergamos o pensamento para Aquelle que tudo póde! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Escondeu a face entre as mãos, ficou immovel. O +capitão John e eu +baixámos tambem a cabeça, com reverencia, com +humildade. Eu por mim, +confesso, nunca fui homem de orações. +Caçadores de elephantes, na dura +vida d’Africa, raro se lembram de fallar a Deus. Em todo o +caso, +n’aquelle momento, rezei. Rezei com fervor; e senti-me depois +mais +alegre e mais leve. Creio que o capitão (religioso no fundo, +apesar de +praguejar medonhamente) tambem rezou. O barão esse era homem +de piedade +e crença... Quando destapou o rosto, olhou em redor, ergueu +o braço,--e +com um bello ar de resolução e de +esperança: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Prompto?... Larga! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Os bordões resoaram na terra dura,--e largámos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Para nos guiar no deserto tinhamos apenas as distantes montanhas de +Suliman, e o roteiro que o velho D. José da Silveira +traçára no pedaço +de camisa. Cada um de nós trazia na algibeira uma +cópia d’esse mappa +rude. Mas, considerando que essas linhas tinham sido riscadas por um +homem meio morto, ha trezentos annos--era bem certa a sua utilidade? A +nossa salvação, n’aquella jornada, +seria encontrar a lagôa, ou poça de +agua salobra que o velho fidalgo portuguez marcára a meio +caminho entre +a aldeia d’onde partiramos e as serras de Suliman. Se a +não achassemos, +tinhamos certa a morte, uma morte terrivel, a morte pela +sêde. E, para +mim, as probabilidades de descobrir uma lagôa de tres ou +quatro metros +n’aquella vastidão de areia e tojo, parecia-me +minima, infinitesima. +Mesmo suppondo que o Portuguez a marcára com +exactidão--quem nos +afiançava que n’esses trezentos annos ella +não seccára ou não fôra +coberta pelas areias movediças? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Era n’isto que eu pensava--emquanto silenciosamente, como +sombras, iamos +marchando sob o luar silencioso. O caminho não era facil: o +tojo denso e +espinhoso retardava-nos o passo: a areia mettia-se nos sapatos, e cada +meia hora deviamos parar para os esvasiar: e, apesar da noite +não estar +quente, havia no ar alguma coisa de pesado e de espesso, que +amollentava. Mas o que sobretudo nos opprimia era a solidão, +o +silencio--o infinito, terrivel silencio. John ainda tentou assobiar uma +cantiga galante de bordo. Mas a toada jovial, o estribilho de <em>teus +dôces olhos</em>, parecia lugubre n’aquella +severa immensidade. O engraçado +homem emmudeceu. E seguimos n’uma fila muda +através do matto mudo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Perto da meia noite, sobreveio uma aventura que nos assustou--e depois +nos divertiu immensamente. John, como marinheiro, levava a bussola, e +marchava adiante, guiando. De repente ouvimos um berro--John +desapparece! Ao mesmo tempo rompia em torno de nós uma +balburdia medonha +de roncos, bufos, grunhidos, sons de patas fugindo--e vemos +fórmas, como +garupas, galopando através do tojo, entre rolos +d’areia. Os negros +atiraram-se ao chão, gritando que eram «demonios +acordados»! Eu proprio +e o barão ficámos surprezos:--e o nosso assombro +cresceu quando +avistámos John, apparentemente montado n’um potro, +fugindo aos galões +para o lado dos montes, e ganindo como um desesperado. Um momento +mais--e vêmol-o sacudir os braços no ar, e de novo +desapparecer, no +matto baixo, com um baque tremendo. Corremos para elle e percebemos o +caso estranho: tinhamos ido cahir no meio d’um rebanho de +zebras +adormecidas: John estatelára-se exactamente sobre as costas +d’uma, +enorme: e o bicho, pulando espavorido, abalára com o nosso +amigo nas +ancas. Felizmente não se magoára no tombo final: +fomos dar com elle +sentado na areia, de monoculo firmemente cravado no olho, aturdido, +indignado--mas intacto de pelle e osso. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Depois d’isto marchámos socegadamente +até perto das duas horas da noite. +Fizemos então uma paragem, bebemos uns goles +d’agua (não muitos, nem +largos, porque a agua passava a ser preciosa), e ao fim de trinta +minutos de descanço recomeçámos a +caminhar para diante, para diante +sempre, até que o nascente se tingiu de laivos de rosa. +Vimos as +estrellas desmaiar, vivas barras alaranjadas alongarem-se ao rez do +horisonte, a lua declinar mais livida que um cirio, longos raios de luz +varar e colorir de fogo os nevoeiros, todo o deserto cobrir-se +d’uma +tremula refracção d’ouro--e ser dia! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Não parámos apesar de já +cansados--pela certeza de que bem cedo o sol, +nado e alto, nos impediria de dar um passo unico, sob o seu torrido +esplendor. Com effeito, ás seis horas já ardia! +Por felicidade avistámos +então na planicie um montão de rochas. Para +lá nos arrastámos, +exhaustos. E por felicidade maior, uma enorme lasca de pedra pousada +sobre grossos blocos fazia como um telheiro, cuja sombra cahia sobre um +pedaço d’areia fina. Abrigo providencial! Alli nos +aninhámos: e, depois +de beber alguns goles d’agua bem contados e de comer uma +lasca de +<em>biltong</em>, adormecemos deliciosamente. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ás tres horas acordámos. Os carregadores que +tinham trazido as cabaças +já se preparavam para voltar á sua aringa. De +sorte que absorvemos uma +farta tarraçada d’agua, enchemos de novo os +cantis, e distribuimos pelos +homens as facas de matto promettidas. D’ahi a instantes +vimol-os (não +sem uma vaga melancolia) voltar costas ao deserto e romper a marcha +para +o lado da sua aldeia, para o lado da frescura e da agua! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ás quatro e meia mettemos de novo a caminho. A cada passo +tudo de redor +se parecia alargar em silencio e desolação. Ao +principio ainda +avistavamos, aqui e além, entre o matto, um abestruz. +Depois, nem mesmo +reptis topavamos na planicie arenosa. A nossa unica companhia era a +mosca, a mosca ordinaria e caseira... Digno e veneravel animal! Em +qualquer logar em que o homem penetre, deserto, montanha, caverna--a +mosca lá está. Foi este decerto o primeiro dos +sêres vivos que surgiu +sobre a terra. Já havia moscas para pousar no nariz de +Adão. O +derradeiro homem ha de morrer com uma mosca a zumbir-lhe em torno +á +face. E talvez haja moscas no Paraiso. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ao sol-posto parámos, esperando que nascesse a lua. Mais +bella e serena +que nunca surgiu ella ás dez horas--e toda a noite, sob o +seu calmo e +pensativo brilho, na mudez da vastidão, +caminhámos, caminhámos... O sol +nado pôz um termo á valente marcha. Sorvemos por +conta uns goles d’agua +dos cantis, atirámo-nos para cima da areia, e alli nos tomou +o somno a +todos quatro simultaneamente. Não havia necessidade que um +velasse. Nada +tinhamos a recear, nem de homem nem de fera, n’aquella +immensidade +despovoada. D’esta vez porém nenhuma rocha nos +abrigava--e ás sete horas +acordámos sob o sol faiscante, com a +sensação que deve experimentar um +bife de lombo achatado sobre a grelha. Estavamos sendo <em>fritos</em>! +O sol +por cima, a areia por baixo, seccavam-nos o sangue nas veias. Todos nos +erguemos, de salto, quasi sem respiração. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Santo Deus! Murmurou o barão, sacudindo os enxames de +moscas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Póde-se chamar a isto calor! Gemeu do lado o +capitão, que arquejava. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Podia-se chamar, na verdade. E eram apenas sete horas! Em toda a vasta +extensão nem um abrigo! Só matto rasteiro--e por +cima uma vibração +radiante, tão viva e intensa que viamos tremer o ar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que se ha de fazer? Exclamou o barão. É +impossivel aguentar isto! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Olhámos uns para os outros, estupidamente. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Se abrissemos uma cova? Lembrou John. Podiamos metter-nos dentro e +cobrir-nos com tojo... É uma idéa. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Não brilhante! Mas era a unica:--de modo que, já +com a enxó, já com as +mãos, passámos a abrir uma cova do tamanho +aproximado d’uma larga cama. +Cortámos uma porção de matto; e alli +nos sepultámos, collados como +sardinhas n’uma caixa, todos quatro, o barão, +John, eu e Umbopa,--porque +Venvogel, como Hottentote, não sentia os ardores do sol. Foi +elle que +nos cobriu de matto. Realmente, assim, estavamos ao abrigo dos raios +perpendiculares do sol:--mas que pavorosa ardencia a +d’aquella fossa, em +que cada torrão, junto do corpo, era como uma braza viva! +Não +comprehendo como nos desenterrámos vivos. Dormir, +impossivel! Jaziamos +estendidos, hirtos, sem ter já que suar, quasi cortidos, +arquejando +anciosamente. Só possuiamos o consolo de humedecer de vez em +quando os +beiços com uma gota d’agua muito medida! Esta +avara medição da agua era +o tormento maior. A cada instante necessitavamos recalcar a furiosa +tentação de sorver d’um só +trago os quatro cantis. Mas quê! Se a agua +faltasse--breve viria a morte! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tudo tem um fim n’este mundo, diz a Sabedoria oriental, +comtanto que se +possa esperar. Esperámos: a horrivel, interminavel +manhã passou: e pelas +tres horas preferimos encontrar a morte, andando (se a morte tinha de +vir) a ser por ella lentamente envolvidos n’aquelle infame +buraco. +Reconfortámo-nos com um curto sorvo á nossa +agua,--que diminuia +terrivelmente, e subira já á temperatura do +sangue. E com um esforço +rompemos de novo através da planicie flammejante. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tinhamos transposto umas dezesete leguas de ermo. Ora no roteiro do +velho D. José da Silveira, a total extensão do +deserto estava fixada em +quarenta leguas; e a famosa poça de agua salobra vinha +marcada a meio do +deserto. A esse tempo, portanto, deviamos estar a umas tres leguas da +agua--se a agua existia! Em toda a tarde, porém, fizemos +pouco mais +d’uma milha por hora. Ao pôr do sol +parámos á espera da lua. Deixei-me +cahir para o chão, como um morto, cerrei os olhos. Mas +d’ahi a um +instante Umbopa fez-me erguer e notar, á distancia de oito +ou nove +milhas, uma especie de outeiro redondo e liso que se erguia +abruptamente +na planicie rasa. Não parecia uma +elevação natural de terreno, na sua +semelhança estranha com uma metade de laranja. Quando me +tornei a deitar +adormeci logo, murmurando: «Que +será?...» +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ao romper da lua de novo partimos, já alquebrados de +cansaço e de sêde. +O andar franco e firme acabára para nós. Era +agora um arrastar de passos +quasi cambaleantes, com paragens bruscas de meia em meia hora, em que +cahiamos para cima da areia, sem força, de +coração desmaiado. Nem animo +nos restava para conversar. Até ahi ainda gracejavamos, +heroicamente. +John sobretudo--jovial camarada! Mas agora! Nem voz tinhamos para +gemer! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Finalmente, perto das duas horas, vencidos de corpo e d’alma, +chegámos +ao pé do comoro estranho. Era uma especie de duna +d’areia, escura, lisa, +atarracada, da altura d’uns trinta metros, e cobrindo na base +duas +geiras de terreno. Parámos. E desesperados com a +sêde, sorvemos o resto +da agua. Tinhamos meio quartilho por bôca! Podiamos ter +emborcado um +almude! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Cada um em silencio se estendeu para dormir. Eu fechava os olhos, +resvalava já dôcemente no esquecimento e no sonho, +quando ouvi Umbopa ao +meu lado murmurar para si proprio em zulú: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--O que é a vida! Se ámanhã +não achamos agua, a lua ao nascer encontra +aqui quatro mortos... Vida, sombra que passa! Vida, murmurio que finda! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Apesar do calor senti um arripio. Pois tanta era a fadiga, que +confrontado por esta probabilidade (uma agonia de sêde +n’um deserto +d’areia!), adormeci profundamente. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<hr style="margin-left: 0px; margin-right: 0px;"> +<div style="text-align: justify;"></div> + +<p style="text-align: justify;"> +Eram quatro da manhã quando acordei. E bruscamente entrou +commigo a +tortura da sêde! +Estivera todo o tempo sonhando que passeava á beira +d’um regato d’agua, +muito puro e muito frio, bordado de relvas e de grandes arvores de +fructas... Quando me ergui esfreguei a face com ambas as +mãos; mãos e +face pareceram-me mais sêccas e duras do que coiro; e as +palpebras e os +beiços estavam tão pegados, tão +collados, que tive de os descerrar á +força com os dedos, como se os unisse uma colla forte. A +madrugada ainda +vinha longe; mas não reinava no ar a natural frescura +matutina, antes +uma espessura molle e morna intoleravelmente pesada. Os outros +dormiam... Fiquei callado, olhando em redor a desolada +solidão. E pouco +a pouco comecei a sentir de novo, junto de mim, o murmurio fresco do +regato que corria, o ramalhar da verdura, pios d’aves, e toda +uma +sensação de paz, de sombra, de abundancia, que me +fazia sorrir sósinho +n’um immenso contentamento... Ao mesmo tempo tinha a certeza +do deserto +e da aridez que me envolvia. Creio na verdade que delirei! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Voltei a mim, quando os outros em redor se começaram a +mexer, +erguendo-se devagar sobre o cotovêlo, esfregando como eu as +faces +resequidas, separando á força como eu os labios +sem saliva e mirrados. +Já rompia a claridade. Apenas acordados todos, e +conscientes, começámos +a fallar da nossa situação--que era sombriamente +desesperada. Não nos +restava uma gota d’agua! Voltámos os cantis para +baixo, chupámos-lhes os +gargalos. Mais sêccos que ossos! O capitão John, +que guardára a garrafa +de cognac, sacou-a da mochila, consultou-nos com um sedento olhar.--Mas +o barão arrancou-lh’a das mãos. Beber +alcool, n’aquelle estado?... Era a +morte. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Mortos estamos nós (murmurou o capitão +encolhendo os hombros) se +d’aqui á noite não achamos agua! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Se o roteiro do Portuguez estivesse exacto, disse eu suspirando, a +poça d’agua devia apparecer por aqui, algures... +Foi n’esta altura +exactamente que elle a achou... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Os outros nem responderam. Realmente nenhum de nós tinha +já confiança no +roteiro do velho fidalgo. Mesmo que a poça existisse--como +encontrar +n’essa immensidão o sitio exacto e preciso onde +ella estaria, mais +pequena e perdida do que uma moeda de prata n’uma praia +d’areia? Só por +um «bamburrio»! Ou só se ella jazesse +junto d’accidente do terreno, que, +pela sua especial saliencia na vasta planicie, inevitavelmente +attrahisse os olhares e os passos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A claridade ia crescendo; e quando assim estavamos, lançando +conjecturas, n’esta terrivel anciedade--reparei que o nosso +Hottentote +Venvogel andava a distancia, com os olhos no chão, +lentamente, como quem +procura um rasto... De repente parou, soltou um grito, com o +braço +espetado para a terra. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que é? Exclamámos todos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E corremos alvoroçadamente. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Pégadas de corço! Bradou elle em triumpho, +apontando para o chão. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E então? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Corços nunca andam longe d’agua! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--É verdade! Gritei eu. E louvado por isso seja Deus! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Foi como se renascessemos á vida. Não era ainda a +agua--mas a esperança +d’ella, para breve! E n’uma crise afflictiva como a +nossa, uma +esperança, por mais vaga e tenue, vale sobretudo pela +coragem de que +enche logo a alma. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Venvogel no emtanto começára a andar em redor, +com o nariz erguido (o +seu largo nariz mais chato que o d’um <em>bull-dog</em>), +sorvendo o ar quente, +farejando. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--<em>Cheiro agua</em>! Dizia elle, <em>cheiro agua</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E nós todos atraz d’elle, farejando tambem, quasi +já viamos a +agua--sabendo bem que estes Hottentotes, como todos os selvagens, +possuem um faro maravilhoso. Mas n’esse instante os grandes +raios do sol +que nascia bateram-nos o rosto. E olhando, descobrimos uma +tão grandiosa +paizagem, que por um momento esquecemos a agua e os tormentos da +sêde! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Diante de nós, a umas dez ou doze leguas, rebrilhando como +prata nos +primeiros raios do dia, erguiam-se os dois enormes montes que o +portuguez chamára os «Seios de +Sabá»; e de cada lado d’elles, +estendendo-se sem fim, durante centenares de milhas, a vasta +cordilheira +de Suliman! Não é possivel transmittir, no verbo +humano, a incomparavel +grandeza e belleza d’aquelle quadro de montanha! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Alli estavam as duas enormes serras que não têm +iguaes na Africa, nem +creio que no resto do mundo, medindo pelo menos mais de quinze mil +pés +d’altura, emergindo da cordilheira infinita--brancas, mudas, +de +portentosa solemnidade, enchendo o céo até acima +das nuvens. E o que +esmagava a alma, era a assombrosa estructura. A cordilheira estendia-se +como um muro disforme de granito, d’altura de mil +pés: as duas serras +formavam como os dois torreões d’uma porta, +perdidos nas profundidades: +a parte da serra que separava os dois montes, sendo talhada a pique, +lisa e rigorosamente horisontal no alto, reproduzia a +configuração d’uma +porta prodigiosa:--e o aspecto todo era como o d’uma muralha +cercando +uma cidade fabulosa de sonho ou de lenda! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Bem justamente chamára o velho fidalgo portuguez aos dois +montes «Seios +de Sabá»! Tinham com effeito a fórma +perfeita de dois peitos de mulher: +as suas vastas faldas iam subindo da planicie, n’uma curva +dôce e +tumida, parecendo áquella distancia formosamente redondas e +lisas: e no +cimo de cada uma, um immenso outeiro sobreposto, todo coberto de neve, +semelhava exactissimamente a ponta, o bico d’um peito. +Prodigiosa +estructura! Se a Terra, como pretendia a antiga Mythologia, +é uma +mulher, a enorme Cybele--ahi estavam decerto os seus peitos uberrimos! +Mas á minha imaginação (nunca muito +inventiva, mas perturbada e excitada +n’esse momento pela fraqueza) aquillo tudo se afigurava uma +muralha +estupenda, cercando e defendendo uma região de infinito +mysterio; e a +cada instante me parecia que a porta de granito ia rolar, abrir-se com +fragor, e desvendar algum segredo secular--o segredo talvez da Terra +d’Africa! E o mais extraordinario foi que, emquanto assim +contemplavamos +assombrados, começaram a subir, a agglomerar-se em torno aos +dois montes +lentas e estranhas nevoas e nuvens, como para esconder aos nossos olhos +mortaes a magestade d’aquelle ádito, que uma +vontade divina nos deixára +por um momento entrever. D’ahi a pouco os «Seios de +Sabá» estavam +envolvidos de todo, resguardados sob o mystico +véo--através do qual só +podiamos distinguir agora as suas linhas, formidavelmente +espectraes!... +Depois, mais tarde, descobrimos que esses montes, em tudo singulares, +estavam ordinariamente velados por esta curiosa nevoa, como por uma +cortina de Sacrario. Só a certas horas, ao romper do sol, a +cortina se +descerrava, como n’uma celebração, +desvendando aos homens a maravilha +sem par. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Passada a violenta surpreza, de novo nos considerámos com a +mesma +anciosa interrogação--«que +fazer?» Venvogel insistia, convencido, que +lhe <em>cheirava a agua</em>:--mas debalde buscavamos, +trilhavamos o terreno em +redor, esquadrinhavamos através do matto. Nada! +Só a areia ondulando, +com manchas de matagal. Démos a volta toda ao singular +outeiro onde +pararamos de noite. Avançámos para os lados, em +todas as direcções do +vento, com attentos e lentos passos, e olhos sôfregos que +furavam a +terra. Nada! Nenhum vestigio d’uma nascente, d’uma +poça, d’um charco. Só +areia, arido tojo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Idiota! Gritei eu desesperado com o Hottentote. Não ha, +nunca houve +aqui agua! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +N’aquella aspera, arida immensidade não parecia, +com effeito, haver +possibilidade, nem sequer verosimilhança d’agua... +E quanto tempo de +resto poderia durar alli uma «poça +salobra», como a que encontrára o +velho fidalgo, sem ser chupada pelo sol ardente ou atulhada pelas +areias +movediças? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +No emtanto Venvogel, o Hottentote, continuava a farejar, com as ventas +erguidas e abertas: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Eu sinto o cheiro d’agua, patrão. Sinto-a no ar! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--No ar não duvido. Ha agua que farte nas nuvens! Tambem +não duvido que +venha a cahir. Mas ha de ser para nos lavar os esqueletos! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão no emtanto cofiava a barba pensativamente: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E todavia, murmurava elle, por aqui a encontrou o velho portuguez! O +sitio é este. Foi aqui, em volta. A meio caminho exacto, na +linha +direita de norte a sul, da aringa de Sitanda ás Serras. +É aqui. Aqui +esteve agua! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Sim, mas ha trezentos annos! Em tres seculos muita agua brota e +sécca! +Quem nos afiançava de resto a exactidão do +portuguez, esvaído de fome, +meio delirado, no começo da sua agonia? Já +não era pequena estranheza +que elle a tivesse encontrado, n’esta deserta immensidade, +justamente +quando d’ella lhe dependia a vida!... A não ser +que para ella fosse +attrahido insensivelmente e naturalmente por algum accidente de +terreno, +muito saliente e muito visivel de longe--como um bosque, uma collina... +Uma collina! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E quando eu assim pensava, eis que o barão grita, como +echoando o meu +pensamento: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--No alto da collina! Talvez a agua esteja no alto da collina! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Tolice! Acudiu o capitão encolhendo os hombros. Agua no +topo d’uma +collina! Onde se viu isso? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Procuremos! Disse eu, com um bater de coração +que era todo de +esperança. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Trepámos anciosamente pelo outeiro. Umbopa corria adiante. +De repente +estaca, com os braços no ar: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--<em>Nanzie manzie</em>! (agua aqui!) +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Pulámos para junto d’elle:--e com effeito, mesmo +no topo da collina, +n’uma cova redonda como uma taça, lá +estava agua, agua escura, agua +lôbrega--mas agua! Agua! Agua! Gritavamos de puro gozo. E +n’um momento, +estirados de barriga no chão, com as faces na +poça, sorviamos +deliciosamente a grandes e rapidos sorvos aquelle liquido +desappetitoso, +que tão bem imitava agua. Céos! O que bebemos! E +mal findámos de beber, +arrancámos o fato, saltámos para o charco, e, +sentados n’elle, ficámos +horas a embeber-nos de frescura através da pelle--da nossa +pobre pelle +mais dura e mais sêcca que um pergaminho secular. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quando nos erguemos, refrigerados e saciados, cahimos sobre a carne +sêcca. Comemos a fartar. Uma longa cachimbada por cima +completou aquella +hora de consolação. E o somno que nos tomou +até ao meio dia, deitados +junto da poça e da sua humidade, foi profundo e bemdito! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Todo a +quelle dia tardámos junto da agua, bebendo d’ella, +mergulhando +n’ella, olhando para ella--e dando louvores sem conta ao +velho fidalgo +que tão exactamente a marcára no mappa. Por fim, +tendo enchido d’agua os +estomagos e os cantis, continuámos a marcha, mais animados e +ageis, ao +erguer da lua cheia. Fizemos vinte e cinco milhas n’essa +noite. Não +tornámos a encontrar agua. Mas seguiamos confiados, com a +certeza de a +achar, abundante e fresca, nas faldas das serras. Quando o sol se +ergueu +e desfez as nevoas, avistámos de novo a cordilheira e os +dois «Seios de +Sabá» (agora afastados de nós apenas +vinte milhas) tomando o céo com a +sua magestade sublime. Essas vinte milhas cobrimol-as durante a noite. +E +ao outro alvorecer pisámos emfim as primeiras ladeiras do +seio esquerdo +de Sabá! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Com amargo espanto não encontrámos agua, e a +nossa já ia findando! Não +havia agora esperança de topar nascentes antes de chegarmos +á linha de +neve, que branquejava lá longe, no alto da serra: e +já a sêde nos +começava outra vez a torturar. Desconsoladamente fomos +arrastando os +passos por sobre o torrido chão de lava que formava a base +do monte. +Caminhada atroz! Pelas onze horas da manhã, apesar de curtos +repousos, +estavamos exhaustos--por causa sobretudo dos ladrilhos de lava asperos +e +rugosos que nos magoavam horrivelmente os pés. De sorte que, +descobrindo +a umas trezentas jardas acima grossos pedregulhos de lava, decidimos +descançar umas fartas horas á sua sombra +providencial. Para lá nos +empurrámos, por lá nos abrigámos. E +não foi pequena surpreza (se ainda +nos restava a faculdade de experimentar surprezas!) avistar a pequena +distancia, n’um planalto formando terraço sobre um +barranco, uma extensa +e fresca tira de verduras. Evidentemente a lava decompondo-se +formára +alli um chão de terra, onde as sementes trazidas por +passaros tinham +alastrado e verdejado... Démos, porém, pouca +attenção a essas hervagens, +porque não havia lá nem fructo nem agua--e de +relva só Nabuchodonosor se +conseguiu alimentar. Alli ficámos pois, estirados +á sombra dos +pedregulhos, sem força no corpo e sem esperança +n’alma, pensando que +nunca homens de senso se tinham arriscado a mais esteril, mais absurda +aventura! Umbopa no emtanto, depois de considerar algum tempo em +silencio a leira de verduras, caminhára para lá +lentamente. E qual não é +o meu assombro ao vêr aquelle individuo, ordinariamente +tão composto e +grave, romper em pulos phreneticos, brandindo na mão o quer +que fosse de +verde! Arremettemos para elle, na esperança anciosa de agua +descoberta. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--É agua, Umbopa? Gritava eu pulando por sobre a lava. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Agua e sustento, Macumazan! Exclamava elle agitando no ar a coisa +verde, com effusivo triumpho. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Percebi emfim o que era. Era um melão! Tinhamos dado +n’um meloal, um +enorme meloal bravo, com milhares de melões, a cahir de +maduros! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Melões! Uivei eu para os companheiros que corriam atraz. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Melões! Melões! Foi o berro victorioso que +resoou nas quebradas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +N’um momento, cada um de nós tinha os dentes +cravados n’um melão, +sôfregamente. Comemos alli, entre todos, uns trinta +melões; e apesar de +mediocres creio que nunca nada na vida me soube tão +deliciosamente. Mas +o melão não alimenta--e refrescada a +sêde não tardou a fome, mais +intensa e aguda. Conservavamos ainda o <em>biltong</em>, a +carne sêcca; mas já +nos enjoava atrozmente: e além d’isso deviamos +poupal-a com avaro +cuidado, pela incerteza de encontrar outras provisões na +longa ascensão +da serra. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +N’esse dia, porém, estavamos «em sorte +decididamente», como disse John. +Lançando os olhos para o deserto, emquanto conversavamos +sobre esta +terrivel evidencia, <em>a fome</em>--vi de repente uns +oito ou dez grandes +passaros voando em direcção a nós, +lentamente. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Atire, patrão, atire! Exclamou baixo o nosso servo +hottentote, +acaçapando-se immediatamente no chão. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Os outros agacharam-se tambem, para que, confundidos com a +côr da lava, +não fossemos avistados pelos passaros. Era um bando de +enormes betardas, +que no seu vôo direito e alto deviam passar a umas cincoentas +jardas por +cima das nossas cabeças. Tomei uma carabina Winchester, e +esperei +acocorado. Quando o bando vinha perto, ergui-me, com um grito e um +salto. Assustados, os passaros juntaram-se todos precipitadamente em +montão; e atirando á massa escura, pude +facilmente abater um soberbo +bicho, que pesava pelo menos vinte arrateis. Dentro de meia hora ardia +uma fogueira de talos sêccos de melão: e o bicho +aloirava em cima. Foi +um banquete! Comemos aquella betarda toda, fóra carcassa e +bico! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +N’essa noite continuámos a ascensão do +monte, á luz da lua, carregados +de melões para a sêde. Á maneira que +subiamos, o ar esfriava +consoladoramente. Ao clarear do dia estavamos a umas doze milhas da +linha de neve. Encontrámos mais melões: e a agua +emfim, louvado Deus, já +não nos inquietava, porque bem cedo penetrariamos nas +regiões do gelo. +No emtanto era immenso o nosso pasmo de não encontrar +nascentes, quedas +d’agua, um riacho corrente; porque decerto no +verão as neves, +derretendo, deviam encher d’agua aquellas encostas. Por onde +corria a +agua pois, para onde se sumia a agua? Só mais tarde +descobrimos que (por +uma causa ainda hoje para mim incomprehensivel) toda a agua, em riacho +ou em queda, descia pela vertente norte da serra. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A subida cada vez se tornava mais aspera e custosa. Apenas faziamos uma +milha por hora. A carne sêcca acabára. +Melões, nenhuns mais encontrámos. +O frio augmentava quasi a cada passada--o que nos permittia certamente +caminhar de dia, mas nos regelava de noite terrivelmente! Havia agora +muitas horas que não comiamos. A serra subia, subia diante +de nós, cada +vez mais desolada, mais núa de verdura ou vida. Os nossos +momentos de +repouso passavam n’um silencio sombrio e cheio de +desesperança. Eu por +mim ia já tão debilitado e confuso, que, +d’esses tres dias que nos levou +a ascensão da serra, não me recordo com bastante +nitidez--e só poderia +reconstruil-os pelos apontamentos do meu <em>Diario</em>. +Na nota com data de +22 de maio encontro isto:--«Partimos ao nascer do sol. Vamos +meio +desmaiados de fraqueza. Só quatro milhas andadas. Comemos os +pedaços de +neve que começámos a encontrar. Frio intenso. +Cada um de nós bebe uma +gota de cognac. Para dormir amontoamo-nos uns sobre os outros: nem +assim +conservamos calor. Estamos verdadeiramente <em>soffrendo de fome</em>. +Julguei +que Venvogel, o nosso Hottentote, ia morrer esta +noite».--Tudo isto é já +terrivel. Mas o seguinte apontamento, datado de 23 de maio, recorda +soffrimentos mais vivos:--«Estamos n’uma +situação medonha. A não ser que +encontremos que comer hoje, o nosso fim está proximo. O +cognac acabou. +Venvogel, que como todos os Hottentotes não póde +aguentar frio, parece +perdido. As ancias agudas da fome passaram. O que eu sinto (e os outros +dizem que sentem o mesmo) é uma especie de adormecimento, de +torpor no +estomago. Estamos ao nivel da grande escarpa, que eu chamo a <em>porta</em>, +o +colossal muro de terra, lava e rocha, que liga os dois seios de +Sabá. +Para traz de nós estende-se o deserto que atravessamos... +Para que o +atravessamos nós?» Logo abaixo d’estas +linhas ha outra, escripta decerto +n’um dos momentos em que paravamos:--«Deus se +amerceie de nós, que +chegou o nosso fim!» +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Esta linha não tem data, mas sem duvida foi +traçada no dia 24. Depois os +apontamentos falham; mas eu muito bem me recordo dos successos +n’esse +estranho dia. Iamos então caminhando através da +neve, com paragens +incessantes, impostas pela incomparavel fadiga. Tudo em redor era +radiantemente, indescriptivelmente branco. E esta absoluta brancura, +sob +o absoluto silencio, tornava-se tanto mais desoladora, quanto +evidenciava a ausencia de vida--e a impossibilidade de achar que comer, +fosse animal ou planta. Quasi ao pôr do sol +chegámos junto da «ponta do +seio», d’essa enorme collina de neve dura, que, +pousada no topo da +montanha (da montanha que reproduzia a fórma perfeita +d’um seio), +parecia ella propria o bico d’esse peito descommunal. Apesar +de +exhaustos, prendemo-nos um instante na admiração +d’aquelle esplendido +cume de monte--mais esplendido ainda pela luz vermelha e côr +de rosa em +que os raios do sol poente o envolviam, dando-lhe um tom de carne, +d’uma +carne sobrenatural que de si irradiasse luz. Mas a +admiração não podia +durar em homens collocados como nós, a tão +extrema visinhança da morte. +O nosso mal era sobretudo o frio. Bem comidos, estimulados por um vinho +generoso, ainda poderiamos aguentar a pavorosa temperatura +d’aquellas +neves eternas. Mas assim, moribundos de fome,--como resistir +á noite que +vinha cahindo? Quando o sol nos faltasse, como viveriamos, a menos de +encontrar um abrigo? Abrigo!... Onde estava elle, n’essa +branca e lisa +vastidão de neve? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--A cova de que falla o portuguez, no papel, deve ser por aqui, +murmurou +o capitão John. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Pobre John! Tinha os olhos (como os outros, como eu decerto) encovados, +esgazeados, rebrilhantes de febre, sobre a lividez da face hirsuta. +Considerei um momento o pobre amigo encolhendo os hombros: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Cova! Se tal cova existe... Na cova estamos nós, ou +á beira d’ella. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão, porém, agora acreditava firmemente na +escrupulosa exactidão do +velho D. José da Silveira. «Se elle a achou +(argumentava o barão, e com +razão) é que essa cova está situada de +tal sorte, tão saliente e tão +visivel, que não póde deixar de attrahir os +olhos, e logo os passos de +quem fôr trepando a serra». +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ainda a encontramos, e antes do sol posto! Affirmou elle com um +grande +gesto de esperança. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Se a não encontramos (foi a minha consoladora replica) e a +noite vier +sobre nós, assim desabrigados, é o fim da nossa +aventura. Em todo o +caso, real ou metaphoricamente, <em>é a cova</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Durante dez ou doze minutos arrastámos os passos +n’um silencio mortal. +Umbopa ia adiante, com os hombros abafados na manta curta, e um cinto +de +couro muito apertado, arrochado em volta da cinta «para +encolher a +fome». Eu seguia atraz, quasi vergado em dois. De repente +tropecei +n’elle que parára, e que me agarrou pelo +braço: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Macumazan, acolá! Exclamou surdamente, apontando com o +cajado. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O que elle apontava era a linha abrupta onde começava, +subindo, a +primeira encosta do «bico do peito». E ahi na +brancura da neve destacava +uma mancha preta. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--É a caverna! Exclamou Umbopa. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Talvez fosse! Parecia, com effeito, a abertura negra d’um +buraco. Para +lá endireitámos os passos. E na realidade +encontrámos uma gruta, de +entrada baixa e lôbrega, que bem podia ser a que o velho D. +José da +Silveira marcára no seu roteiro. Em todo o caso alli estava +um abrigo. E +bemdito era o seu encontro--porque (como succede n’estas +latitudes) o +sol sumiu-se subitamente, e logo atraz d’elle, de golpe, sem +crepusculo, +sem gradação, a noite cahiu, gelada e negra. +Enfiámos bem depressa para +dentro da caverna, como animaes acossados. Aconchegámo-nos +uns contra os +outros, sentados no chão, costas com costas. E alli +ficámos na treva, +mudos, tiritando e procurando esquecer no somno a nossa extrema +miseria. +Mas o frio, intenso de mais, não nos consentia dormir. Estou +convencido +que n’aquella altura o thermometro marcaria regularmente +quatorze ou +quinze graus abaixo de zero! E era esta temperatura que tinhamos de +affrontar, de todo alquebrados de fadiga, meio inanimados de fome! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Pois alli estivemos em montão, encolhidos uns nos outros, +durante a +infindavel noite, sentindo a cada instante, através do +corpo, começos de +congelação ora n’um pé, ora +nos dedos, ora na orelha. Debalde nos +apertavamos! Para quê! Nenhum tinha em si calor bastante para +communicar +á carcassa alheia. Ás vezes um conseguia dormitar +durante momentos, mas +para acordar logo em sobresalto, recomeçar a tremer. De +resto, +n’aquellas condições, o somno que se +prolongasse--decerto se tornaria +eterno. Foi uma noite angustiosa! Eu por mim creio que me conservei +vivo +por um violentissimo e teimosissimo esforço da vontade. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Um pouco antes da madrugada, Venvogel, o nosso pobre Hottentote, cujos +dentes toda a noite tinham batido como castanholas, chamou baixo por +mim, deu um pequeno suspiro, e ficou profundamente socegado, como se +tivesse adormecido. As costas d’elle pousavam contra as +minhas costas. +Pareceu-me que as sentia pouco a pouco arrefecer. Por fim tornaram-se +positivamente como uma grande pedra de gelo que me regelava. Duas vezes +as repelli. Duas vezes a pedra se abateu sobre mim, mais fria. O ar no +emtanto clareava. Á entrada da cova foi apparecendo como uma +nevoa +luminosa, feita da refracção do sol sobre a neve. +Uma luz mais viva e +fixa estendeu para dentro a sua brancura--e olhando então +para traz +descobri que o pobre Hottentote estava <em>morto</em>! +Decerto morrera quando o +ouvi suspirar. Pobre Venvogel! Não admirava que lhe tivesse +sentido as +costas cada vez mais frias, mais frias... A sua miseria +findára. Alli +estava agora, na mesma postura, com as mãos apertadas em +torno dos +joelhos, a cabeça cahida para baixo, <em>gelado</em>. +Todos nos erguemos de +salto, com horror. Já a esse tempo o dia +penetrára na caverna, n’uma luz +mortiça e vaga. De repente, ao meu lado, resoou um grito. +Volto a +cabeça, vivamente. E vejo--vejo ao fundo da gruta, que +não tinha mais de +quatro metros, uma fórma, uma figura humana, sentada +n’uma pedra, com a +cabeça toda descahida sobre o peito, os braços +hirtos e pendentes para o +chão! Aproximei-me mais, aterrado. E percebi que era tambem +um <em>morto</em>. +Peor ainda, percebi que era um <em>branco</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Os nossos nervos, desorganisados já, não puderam +com esta nova e brusca +emoção. Tropeçando uns nos outros, +largámos desesperadamente a fugir +para fóra da caverna. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<hr style="margin-left: 0px; margin-right: 0px;"> +<div style="text-align: justify;"></div> + +<p style="text-align: justify;"> +Mas depois, fóra, na plena luz, olhámos uns para +os +outros--envergonhados. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Vou vêr outra vez, exclamou o barão +terrivelmente pallido. Talvez a +figura que vimos seja a de meu irmão. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Era possivel. E um por um, n’um silencio apavorado, atraz do +barão, +tornámos a penetrar na gruta. Ao principio, deslumbrados +pela grande luz +exterior e pela alvura da neve, nada distinguiamos na penumbra concava. +Por fim a estranha, horrivel figura destacou, surgiu na sombra. +Avançámos para ella. O barão ajoelhou, +espreitou a face morta, teve um +suspiro de allivio: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não, graças a Deus, não é +elle! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Fui tambem olhar. Não, nem remotamente se parecia com esse +sujeito +chamado Neville, que eu encontrára em Bamanguato. O cadaver +era o d’um +homem alto, de meia idade, com feições aquilinas, +cabello já grisalho, e +longos bigodes negros. A pelle, perfeitamente amarella, estava toda +esticada sobre os ossos. Não tinha fato, a não +ser uns restos de meias +altas, de lã, até aos joelhos. Do +pescoço, preso por uma correntesinha, +pendia-lhe um crucifixo de marfim. Todos os membros hirtos se lhe +tinham +petrificado. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Quem poderá ser? Murmurei, assombrado. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O capitão John contemplava a figura pensativamente. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Tenho uma idéa... Não póde ser +senão elle! É o velho fidalgo! É D. +José da Silveira! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Eu e o barão soltámos o mesmo grito de +incredulidade: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Impossivel! Ha trezentos annos! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Mas o capitão tinha as suas razões, e decisivas. +N’uma temperatura como +a da cova, que é a d’uma geleira, um corpo morto +póde perfeitamente +conservar-se trezentos annos--e mesmo tres mil... Essa temperatura de +quinze a dezesete graus abaixo de zero nunca alli mudava; nenhum raio +de +sol entrára jámais n’aquella cova +voltada para noroeste: não havia +animaes que alli penetrassem e que destruissem o corpo. Que importavam +tres seculos? A carne de açougue que vem da Nova-Zelandia +para Londres +dentro das geleiras artificiaes está fresca ao fim de trinta +dias; e +conservada em iguaes condições, não se +deterioraria ao fim de trinta +seculos. Naturalmente o escravo (de quem elle falla no papel) quando o +encontrou morto, tirou-lhe o fato, não se deu ao trabalho de +o enterrar, +e abalou... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E olhai! Accrescentou o capitão apanhando uma especie de +osso da fórma +d’um lapis, e aguçado, que jazia no +chão, ao lado. Aqui está com que +elle desenhou o mappa! Tirou sangue do braço, escreveu com +esta ponta de +osso! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Passámos o osso de mão em mão, em +silencio, esquecendo as nossas +proprias miserias no espanto d’aquelle encontro. +Já não podia haver +duvida. Alli estava elle pois, sentado n’uma pedra, frio e +duro como +ella, o homem cujo derradeiro escripto, traçado havia mais +de trezentos +annos, nos trouxera ao logar mesmo onde elle o escrevera--para o +encontrar a elle proprio, na mesma attitude em que com seu sangue +riscava o roteiro que d’além-tumulo nos guiava! +Incomparavel maravilha! +Alli tinha eu na mão a rude penna com que elle +traçára essas linhas! E +parecia que ante mim pouco a pouco resurgiam visiveis, redivivos, os +momentos passados ha tres seculos:--o heroico fidalgo, morto de frio e +de fome, procurando revelar ao seu Rei o segredo immenso que +descobrira; +a camisa rasgada, a veia aberta; as linhas tremulas anciosamente +lançadas; a penna informe escorregando-lhe da +mão; a treva da noite +enchendo a cova; o derradeiro beijo pousado no crucifixo; um pensamento +dado ainda aos seus, á terra d’onde partira +n’um galeão, ao Rei que +servia com indomada fé; por fim a morte, o lento e sereno +resvalar para +a morte, n’aquelle immenso silencio e na immensa +solidão! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Por vezes mesmo, olhando para elle, parecia-me reconhecer as aquilinas +e +energicas feições do seu descendente, o pobre +Silveira, que me morrera +nos braços. Talvez imaginação. Em todo +o caso elle alli estava, o +primeiro, o antepassado, esse de quem o seu remoto neto me +fallára, +estendendo os olhos já embaciados para os distantes seios de +Sabá. Alli +estava; e provavelmente lá está ainda, +lá estará, através dos seculos +que hão de vir, para espantar outros aventurosos homens como +nós, se +jámais houver outros que cheguem a penetrar na sua espantosa +e solitaria +tumba! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Vamos embora! Exclamou o barão, muito pallido. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Mas parou. E apontando para o corpo de Venvogel, que ficára +na mesma +postura, com os joelhos á bôca, os +braços apertados em volta dos +joelhos: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Dêmos uma companhia ao pobre morto, para dormir +n’este esquecimento. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Erguemos então o cadaver de Venvogel e +collocámol-o sentado na pedra, +junto do do velho fidalgo portuguez. Depois o barão quebrou +a corrente +que pendia do pescoço de D. José da Silveira, e +guardou o crucifixo no +seio. Eu proprio tomei o osso em fórma de lapis. Aqui o +tenho ao meu +lado, emquanto estas linhas escrevo. Ás vezes assigno com +elle o meu +nome. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Finalmente tendo-os deixado lado a lado, o altivo fidalgo +d’outras eras +e o pobre servo hottentote, a passar a sua eterna vigilia entre essas +eternas neves, sahimos da caverna para a luz esplendida--e +retomámos em +fila o nosso triste caminho, pensando que bem cedo estariamos como +elles, gelados e hirtos, n’um barranco da serra. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Andada uma milha, que nos levou muito tempo, chegámos emfim +á +extremidade do planalto do monte sobre o qual assentava o +«bico do +peito». E foi uma grande emoção. Por +baixo de nós, adiante de nós, +estava (devia estar) emfim essa região mysteriosa para +além das serras, +que nós vinhamos demandando:--mas toda ella se occultava sob +um denso +nevoeiro. Alli ficámos pois repousando, esperando. Pouco a +pouco, as +camadas mais altas da nevoa foram-se desfazendo. Avistámos +então um +pendor da serra, muito dôce e todo coberto de neve. Depois +outras +camadas de nevoeiro mais abaixo clarearam; e appareceu aos nossos olhos +famintos uma campina de herva verde, um regato correndo +através, e á +beira d’agua, deitados ou pastando, uns dez ou doze animaes +que nos +pareceram antilopes. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A nossa alegria--foi como a d’uma +resurreição. Caça! Alli estava +caça +para comer, e deliciosa! Era a salvação, era a +vida! A difficuldade era +caçar--essa caça!... Lembro-me que no nosso +immenso alvoroço tivemos uma +rapida e atarantada discussão, em voz baixa e tremula--se +deviamos +aproximar-nos da caça ou fazer fogo d’alli, se +deviamos usar as +carabinas Winchester ou a «Express»! +Indecisão terrivel--porque de +acertar ou falhar dependiam as nossas vidas. Fui eu por fim que me +decidi. Se tentassemos atravessar o pendor de neve, podiamos espantar o +rebanho. E a carabina «Express», apesar +d’um alcance inferior, era +preferivel--porque as balas explosivas mais facilmente apanhariam +algum dos antilopes. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Emfim fizemos fogo, todos a um tempo, com um estampido que rolou +tremendamente nas quebradas dos montes. O fumo clareou. E eis que, +alegria sem par!--vemos um dos animaes por terra esperneando +furiosamente. Berrámos de puro gozo. Estavamos salvos! +Salvos! De fome +já não morriamos! Corremos aos +trambulhões pela neve abaixo:--e em +poucos momentos tinhamos nas mãos os figados e o +coração do animal, +quentes e fumegando! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Mas surgia uma difficuldade. Sem lenha, sem lume, como assar a +caça? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Gente faminta não tem exigencias! Gritou excitadamente o +capitão John. +A ella, e crúa! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Não restava outra solução--e +não nos pareceu repugnante. Arrefecemos as +visceras na neve, lavámol-as na agua corrente--e +devorámol-as com +voracidade! Parece horrivel:--mas confesso que aquella carne +crúa me +soube divinamente! D’ahi a um quarto de hora, que +mudança! Voltára-nos a +vida, o vigor! O pulso batia outra vez, forte e regular. Eu por mim +sentia positivamente o sangue degelar-se, correr-me dentro das veias! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão apertou as mãos, e disse simplesmente: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Louvado seja Deus por isto! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ficámos olhando uns para os outros, muito tempo, sem falla, +n’um sorriso +mudo. E não havia em nós outra +sensação--senão a de estarmos salvos, +de +estarmos vivos! Por fim adormecemos, envoltos dôcemente no +sol, que +subia macio e tepido. Quando acordámos, e +esfregámos os olhos, o +nevoeiro desapparecera. Toda a vasta região em baixo nos +appareceu n’um +relance. Demos um grande <em>ah</em>, lento e maravilhado! +Nunca eu vira (nem +outra vez verei!) terra mais deslumbrante! Mudo ainda, tonto da fadiga +e +da fome passada, parecia-me que morrera, que chegára ao +Paraiso, e que o +Senhor nos ia apparecer! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Estavamos no planalto d’um dos «Seios de +Sabá», com um dos «bicos do +peito» erguendo-se por traz de nós até +ás nuvens, sublime e brilhante de +neve. Logo por baixo desciam os vastos pendores da serra, +n’uma +profundidade de cinco mil pés; e para além das +derradeiras faldas, a +perder de vista, eram leguas e leguas d’uma terra +esplendidamente +fertil, de adoravel belleza. Viamol-a desdobrada ante nós +como um +immenso mappa em relevo; e os seus encantos differentes, assim +abrangidos n’um relance, davam a impressão +d’um paraiso resumido onde +Deus prodigamente tivesse reunido as suas obras melhores. Escassamente +se póde detalhar uma paizagem tão formosa e +vária. Aqui alastrava-se uma +vasta mancha de floresta; além um rio ondulava com vivos +brilhos d’aço +novo; para diante longas pradarias tapetavam o sólo de verde +tenro e +claro; mais longe era um lago que brilhava, grandes rebanhos que +pastavam, ou uma collina onde a agua viva borbulhava e faiscava entre +as +rochas. As culturas abundavam, ricamente coloridas. A cada instante +entre pomares e regatos avistavamos aldeias graciosas, com as cabanas +coroadas por um tecto de colmo agudo. De tudo se elevava uma +sensação +prodigiosa de vida, de fartura, de paz. No horisonte surgiam picos de +serras remotas, cobertas de neves. E um sol radiante derramava +illimitadamente a alegria do seu fulgor d’ouro. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Duas coisas nos impressionaram. Primeiramente, que aquella +região tão +rica estivesse pelo menos cinco mil pés acima do nivel do +deserto. E +depois que toda a agua da serra corresse de sul para norte, do lado +opposto ao sertão, indo unir-se ao magnifico rio que se +perdia no +horisonte azulado. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Nenhum de nós fallava, arrobados na +contemplação d’aquella incomparavel +natureza. Por fim o barão estendeu o braço: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ha uma estrada marcada no mappa, com o nome de estrada de +Salomão, não +é verdade? Pois lá está, +além, para a direita... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E com effeito, para a direita, nos primeiros declives da serra, abaixo +dos nossos pés, branquejava uma grande estrada! Tinhamos +já perdido toda +a faculdade de admirar. E a nenhum de nós pareceu estranho, +que, no topo +d’uma montanha, no centro d’Africa, a centos de +leguas de toda a +sciencia e civilisação, houvesse uma estrada, com +as proporções e +grandeza d’uma velha via romana, branca como neve, talhada +sobre os +abysmos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--O melhor é descermos, disse simplesmente o +capitão John. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A estrada ficava (como disse) á nossa direita, surgindo por +traz de +grossas penedias que se amontoavam no primeiro pendor da serra. +Cortámos +para lá, devagar, ora através de grandes +espaços de neve, ora por sobre +montes de lava. Quando dobrámos por fim as penedias, +avistámol-a de +repente em baixo, a algumas jardas. Era magnifica, toda cortada na +rocha +viva, e admiravelmente conservada! Mas, coisa extraordinaria, parecia +começar alli, ao meio da serra, bruscamente. +Continuámos a descida +alvoroçados, pozemos emfim os pés sobre as suas +fortes lages. Olhámos, +explorámos em redor. A estranha via findava com effeito +alli, na serra, +entre umas rochas de lava entremeadas de neve! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Extraordinario! Exclamou o barão. Porque começa +esta estrada assim, ou +porque acaba assim, de repente, no meio da serra? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Abanei a cabeça, em perfeita ignorancia. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Parece-me que percebo, disse o capitão coçando +o queixo. Esta estrada +é simplesmente maravilhosa! Não acaba aqui. +Antigamente galgava a +cordilheira e seguia pelo deserto. Mas a parte que galgava a serra para +além, foi coberta por montões de lava, +n’alguma erupção: e a parte que +cortava o deserto foi invadida pelas areias movediças. +Não póde ser +senão isto. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Talvez fosse. Em todo o caso largámos os passos por sobre +essa +surprehendente estrada que tinha o nome de Salomão. Esta +suave descida +por uma magnifica calçada, com as forças +restauradas, e a abundancia a +esperar-nos em baixo, nos ferteis campos cheios de gado,--era bem +differente da subida pela neve acima, extenuados de fome e de fadiga, e +com a afflictiva incerteza do que estaria para além. Na +verdade, se não +fosse a triste lembrança do pobre Venvogel e da sinistra +cova, onde elle +espectralmente ficára ao lado do velho fidalgo +d’outras eras, poderiamos +cantar de pura alegria. A cada milha que andavamos o ar cada vez se +tornava mais macio e tepido:--e a região em torno parecia +crescer para +nós, a transbordar de abundancia e belleza. A estrada, essa, +era +positivamente portentosa. Affirmava o barão que tinha +semelhanças com a +estrada do Saint-Gothard sobre os Alpes. Eu por mim não vira +maravilha +maior! N’um certo sitio abria-se uma ravina medonha, +d’uns trezentos pés +de largura, d’uma profundidade de mais de cem pés: +pois este abysmo +estava vadeado por um colossal aqueducto, com arcos para a passagem das +torrentes, sobre o qual a estrada seguia com soberba +segurança. N’outros +sitios cortada em zig-zags na rocha, contornava pavorosos precipicios, +com parapeitos que a defendiam e formavam balcões sobre o +abysmo. Mais +adiante, perfurava um monte de rocha com um tunnel de trintas jardas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Nas paredes d’este tunnel corriam singulares relevos +representando +guerreiros com cotas de malha, que retesavam arcos, guiavam carros de +combate. Havia mesmo uma grande scena de batalha, com lanças +em +confusão, e captivos acorrentados. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Tudo isto é obra egypcia, dizia o barão parando +a cada instante. Tudo +isto eu vi nos templos do alto Egypto. O nome da estrada +virá de +Salomão. Mas estas esculpturas são das +mãos de egypcios. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Pela uma hora da tarde tinhamos descido a montanha até +ás faldas baixas +onde começava o arvoredo. Ao principio eram apenas raros +arbustos +silvestres. Depois a estrada penetrava n’um bosque de olmos, +uns olmos +cujas folhas brilham como prata, e que eu suppunha só +existirem no Cabo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Estamos ao menos em terra de lenha! Exclamou enthusiasmado o +capitão +John. Vamos parar, e cozinhar um jantar. Eu por mim já +digeri aquella +carne crúa... Reentremos solemnemente na +civilisação! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Todos com effeito tinhamos fome; e deixando a estrada, fomos em +direcção +a um regato que brilhava a distancia entre arvores e relvas. Bem +depressa fizemos um fogo de ramos sêccos; e, cortando +succulentos bifes +do lombo da antilope que trouxeramos comnosco, assamol-os na ponta de +espetos de pau, á velha maneira dos cafres. Ao fim do +delicioso repasto +accendemos os cachimbos--e estirados á sombra das frescas +arvores, +gozamos emfim, depois de tão longos e duros dias, um repouso +perfeito. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O logar era adoravel. O regato, muito frio e muito puro, cantava sobre +seixos que reluziam. As margens verdejavam, cobertas de fetos +esplendidos entremeados com plumas de aspargos silvestres. Aqui e +além +cresciam tufos de flores. Uma brisa tépida e macia como +velludo +susurrava nas folhas dos olmos. Bandos de rolas arrulhavam meigamente. +E +de ramo em ramo faiscavam as azas de passaros mais brilhantes que +joias. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Nenhum fallava, no enlevo d’aquella paz e d’aquella +doçura. E por muito +tempo nenhum de nós se moveu--até que o +capitão John, surgindo de +repente nú do leito espesso de fetos onde se +enterrára, correu para o +riacho, e mergulhou n’um longo e ruidoso banho. Deitado de +costas, n’um +bem-estar indizivel, occupei-me então a observar aquelle +homem +admiravel, que, apenas se achava n’uma região +d’ordem, retomava os seus +complicados habitos de asseio e de elegancia. Depois do banho, o nosso +excellente amigo revestiu a camisa de flanella; e sentando-se +á beira do +regato, rompeu a lavar os seus collarinhos de gutta-percha. Finda esta +barrela sacudiu, escovou, esticou as calças, o collete, o +jaquetão, +dobrou tudo cuidadosamente, e poz-lhe por cima pedras para acamar e +desfazer os vincos. Em seguida, profundamente concentrado, passou +ás +botas, que esfregou com uma mão cheia de feto, e depois +besuntou com +gordura de antilope (que pozera de lado) até lhes dar uma +apparencia +comparativamente lustrosa e decente. Tendo-as examinado com cuidado, de +monoculo fixo e cabeça á banda, encetou outras e +mais delicadas +operações. D’um pequeno sacco que +trazia na mochila tirou um espelhinho +e examinou cuidadosamente dentes, olhos, cabellos, barba--a barba +já +grossa d’oito dias. Este exame parecia humilhal-o, porque +abanava a +cabeça com desconsolação e +tédio. Começou então pelas unhas que +aparou e +poliu; depois seguiu ao cabello que acamou e apartou... Mas de repente, +com uma idéa, calçou as botas que puzera ao lado; +e assim, de botas, com +as pernas núas, e em camisa de flanella, ergueu-se para ir +pendurar o +espelhinho n’um ramo d’arvore. O arranjo +não provou satisfatoriamente, +porque voltou para a beira do regato, e com custo e arte equilibrou o +espelho n’uma folha grossa de feto. Tornou logo a metter a +mão no sacco +e tirou uma navalha de barba... «Santo Deus! Pensei eu +erguendo-me no +cotovêlo, o homem irá fazer a barba?» +Ia. Tomando outra vez o pedaço de +gordura de antilope com que ensebára as botas, lavou-a +escrupulosamente +no regato, esfregou com ella desesperadamente a face e o queixo, e +principiou a rapar o pêllo aspero de dez dias. Era +porém uma operação +difficil, porque cada movimento da navalha vinha acompanhado +d’um +angustioso gemido. Por fim conseguiu escanhoar a face esquerda e metade +do queixo. Grande suspiro de allivio! E ia atacar a outra face--quando, +de repente, vi uma coisa passar e lampejar por cima da +cabeça. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +John deu um pulo, com uma praga. Ergui-me tambem de salto--e na mesma +margem do regato, a distancia d’uns trinta passos, dei com os +olhos n’um +bando de homens. Era uma gente de grande estatura, immensamente +robusta, +e côr de cobre. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Alguns d’elles traziam aos hombros pelles de leopardo, e na +cabeça umas +corôas de altas pennas, negras, direitas, que ondulavam na +brisa. Em +frente do bando, um rapaz d’uns dezesete annos conservava +ainda o braço +erguido e o corpo inclinado, na attitude graciosa d’uma +estatua que eu +vira no Cabo, um Ephebo grego que lança um dardo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Evidentemente a coisa que passára e brilhára era +um dardo--e fôra o +moço airoso que o arremessára. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quasi immediatamente, um velho, de ar erecto e marcial, sahiu +d’entre o +grupo, e, agarrando o braço do rapaz, fallou-lhe baixo como +se o +avisasse. Em seguida todos avançaram para nós. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão, John e Umbopa tinham logo agarrado e apontado as +carabinas. Os +homens todavia continuavam avançando, devagar, em grupo. +Percebi logo +que nunca tinham visto espingardas, pelo modo como affrontavam assim +tranquillamente os tres canos erguidos. +--Baixem as armas! Gritei aos outros. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tinha comprehendido tambem que a nossa segurança entre essa +gente +selvagem dependia toda de conciliação e de ardil. +Apenas pois os +companheiros baixaram as armas, caminhei lentamente para o velho. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem vindo! Exclamei em Zulú, ao acaso, sem saber que +idioma +entenderiam aquelles homens. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Com surpreza minha, o velho comprehendeu. E respondeu logo, +não em Zulú, +mas n’um outro dialecto, tão parecido com o +Zulú, que Umbopa e eu o +percebemos perfeitamente: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem vindo! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Como viemos a saber depois, a lingua d’este povo era uma +fórma antiquada +da lingua Zulú--e estando para o Zulú do sul como +o inglez do tempo dos +Tudores está para o inglez polido do seculo XIX. No emtanto +o velho +avançára outro passo, erguendo a mão. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--D’onde vindes? Continuou elle. Quem sois? Porque tendes +tres de vós as +faces brancas, e o outro a pelle como nós e como os filhos +de nossas +mães? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E apontava para Umbopa--que na realidade, pela figura, pela +côr, pelas +feições, era muito semelhante áquelles +homens formidaveis. Eu então +repeti a saudação ao velho. E, muito +espaçadamente, para que elle +apanhasse bem o meu Zulú: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Somos gente d’outros sitios, vimos em boa paz, e este homem +é nosso +servo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O velho abanou lentamente a cabeça, ornada de immensas +plumas negras que +ondulavam. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Mentes! A gente d’outros sitios não +póde atravessar as montanhas, nem +o deserto sem agua onde toda a vida acaba. Mas não importa +que mintas... +Se sois estranhos e vindes d’outros sitios, tendes de morrer, +porque não +é permittido a ninguem entrar na terra dos Kakuanas. +É a vontade do +nosso rei. Preparai-vos pois para morrer, oh gentes! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Fiquei um pouco perturbado--tanto mais que vi alguns dos selvagens +levarem logo a mão ao cinto d’onde lhes pendiam +umas armas em fórma de +pesadas navalhas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que diz esse malandro? Perguntou o capitão, percebendo o +meu embaraço. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Diz simplesmente que nos vai retalhar á faca. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Santo Deus! Murmurou o nosso amigo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E, como era seu costume, em frente d’um perigo ou +d’uma crise, passou +nervosamente a mão pelo queixo e pelos beiços. +Alguma coisa decerto lhe +succedeu então á dentadura postiça +(que momentos antes tirára para lavar +e que tornára a pôr), porque n’um +relance lhe vi os dentes todos de +fóra, e logo sumidos para dentro! Não percebi bem +o caso. Mas qual é o +meu espanto quando os Kakuanas soltam um grito de terror, e recuam para +traz, em tropel! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que foi? Exclamei. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Foram os dentes! Acudiu o barão, excitadamente. Os +selvagens viram-lhe +os dentes a mover-se... Tira-os de todo, John, tira-os de todo. Talvez +os assustes. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O capitão promptamente comprehendeu, passou a mão +devagar por sobre a +bôca, e escamotou a dentadura. Os Kakuanas no emtanto, +n’uma ancia de +curiosidade, avançavam de novo, com os olhos arregalados +para John. E +foi o velho (evidentemente um chefe) que ergueu a voz e a +mão, com +solemnidade: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Quem é este homem, oh gentes, que tem o corpo coberto, as +pernas núas, +cabello só em metade da cara, e um grande olho que reluz? +Quem é elle +que faz mexer assim á vontade os dentes para dentro e para +fóra da bôca? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Abra a bôca, John! Murmurei eu baixo para o +capitão. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +John arreganhou os beiços, e exhibiu duas gengivas muito +vermelhas, +desdentadas como as d’um recemnascido. Entre os selvagens +passou um +susurro d’espanto. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Onde estão os dentes? Ainda agora tinha dentes! Exclamavam +elles, +entre si, com gestos apavorados. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Então John deu um movimento vagaroso á +cabeça, passou a mão pela bôca +com soberana indifferença, e desfranzindo de novo os +beiços--mostrou +duas esplendidas filas de dentes, muito fortes, muito sãos, +que +rebrilhavam. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +No mesmo instante o rapaz que despedira o dardo arremessou-se para o +chão, com gritos espavoridos. Todo o bando tapava as faces +com as mãos, +n’um terror. E o velho, que parecia o mais resoluto, tremia +tanto, e tão +encolhido, que lhe batiam os joelhos um contra o outro. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Só quem conhece selvagens e a mobilidade +d’aquellas imaginações infantis +póde comprehender como subitamente, em cada um +d’elles, ao desejo de nos +matar ia já succedendo o impulso de nos adorar... Quando o +velho tornou +a levantar a voz, foi muito humildemente e n’uma postura de +supplica: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Vós sois Espiritos! Bem vejo que sois Espiritos, oh +gentes! Nunca +houve homem nascido de mulher que tivesse só cabello +n’um lado da cara, +e um olho redondo e transparente, e dentes que se derretem e de repente +crescem outra vez... Vós sois Espiritos. Perdoai-nos, +senhores, +perdoai-nos! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Aproveitei logo esta esplendida occasião. E estendendo o +braço, com +soberba magnanimidade: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Estaes perdoados. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Era porém necessario, para nossa +salvação, que deslumbrassemos e +inteiramente nos apoderassemos d’aquellas almas ferozes e +simples. E +para isso, n’Africa (como n’outras partes) o mais +prompto instrumento é +o sobrenatural. Não hesitei portanto (com vergonha o +confesso) em me +attribuir, a mim e aos meus companheiros, uma origem divina! De resto, +com o negro da Africa Central, que pela primeira vez vê o +branco, e +assiste a alguns dos milagres que o branco póde realisar com +os +pequenos recursos da sua pequena civilisação, +este procedimento é o mais +seguro e o mais humano. O selvagem fica desde logo (pelo menos por +algum +tempo) contido dentro do respeito, absolutamente razoavel e tratavel; e +assim, poupando ao negro as traições, os brancos +poupam a si proprios as +represalias. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ergui pois a mão, e disse, com vagar e magestade: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Já que vos perdoei, porque sois ignorantes, condescendo +tambem em vos +dizer quem somos. Somos Espiritos! Vivemos além, por cima +das nuvens, +n’uma d’aquellas estrellas que vós +vêdes de noite brilhar. E viemos +visitar esta terra, mas em paz e para alegria de todos! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Entre os indigenas correram grandes <em>ah</em>! <em>ah</em>! +Lentos e maravilhados. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Eu prosegui, mais grave: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Nós conhecemos todos os reis e todas as gentes. E eu, que +sou a voz +dos outros, conheço todas as linguas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--A nossa bem mal! Arriscou com timidez o velho guerreiro. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Dardejei-lhe um olhar chammejante que o estarreceu. E gritei logo, para +fazer uma diversão brusca áquella +observação tão justa e perigosa: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Viemos em paz, é certo! Mas fomos recebidos em guerra. E +talvez +devessemos castigar já o ultraje feito por esse +moço, que sem provocação +atirou uma faca ao Espirito divino cujos dentes de repente nascem e +cahem. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Oh não! Meu senhor! Gritou n’uma anciosa +supplica o velho guerreiro. +Poupai-o! Poupai-o, que é o filho do nosso rei! Eu sou seu +tio, que o +ajudei a crear. Só eu respondo por cada gota do sangue que +lhe gira nas +veias!... Oh meu senhor, a clemencia vai bem aos Espiritos! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Affectei não comprehender a angustiosa prece,--e tornei, com +superior +indifferença: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--As nossas maneiras de castigar são simples e terriveis. +N’um instante +ides vêr... Tu, escravo que nos segues (e aqui encarei para +Umbopa), +dá-me a arma de feitiços que troveja. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Umbopa, que assistira absolutamente impassivel e serio a todas as +minhas +affirmações de divindade, e que (Zulú +intelligente, afeito aos brancos e +ás <em>suas manhas</em>) lhe percebera o +alcance--estendeu-me uma carabina +Winchester, com humilissima reverencia. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Justamente n’esse instante avistei, para além do +riacho, a umas setenta +jardas de distancia, um pequeno antilope, immovel sobre um +montão de +rochas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Vêdes aquelle gamo? Exclamei eu para os selvagens. Julgaes +possivel +que um simples homem, nascido do ventre da mulher, o mate +d’aqui d’onde +estou, só com fazer estalar um pequeno trovão? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não é possivel! Murmurou recuando o velho +guerreiro. Não é possivel +para homem nascido do ventre da mulher! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ides vêr. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Apontei. Bum! E subitamente o gamo, dando um pulo furioso no ar, tombou +morto, immovel, estatelado nas pedras. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Um fundo murmurio de assombro, de terror, passou entre os Kakuanas... +Eu +accrescentei simplesmente: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ahi está. E se tendes fome, podeis ir buscar aquelle gamo! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O velho fez um signal. Dois homens correndo trouxeram a +caça. E +amontoados em volta d’ella, todos em silencio (n’um +silencio que era +religioso pelo pavor que continha), ficaram contemplando boqui-abertos +o +buraco da bala que lhe acertára entre os hombros. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Se não estaes satisfeitos, volvi eu ainda, se em vez +d’um gamo me +quereis vêr matar um homem, que um de vós se +colloque além sobre as +pedras ou mais longe, e o raio irá ter com elle. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Houve um movimento geral dos Kakuanas, recuando e protestando. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não! Não! Gritaram alguns. +Acreditámos, acreditámos... Não vale a +pena +gastar feitiços com nós outros, que +acreditámos e que somos amigos! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O velho guerreiro interveio, com alacridade: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Assim é! Nós somos amigos. E para que nos +conheçaes bem, oh almas das +estrellas, que trovejaes e mataes tão de longe, sabei que eu +sou +Infandós, filho de Kafa, antigo rei dos Kakuanas. Este +moço é Scragga, +filho de Tuala, nosso rei! Tuala, o homem de mil mulheres, senhor dos +Kakuanas, terror dos seus inimigos, sentinella da Grande-Estrada, +sabedor das artes negras, chefe de cem mil guerreiros, Tuala o supremo, +Tuala o d’um-só-olho... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Basta, interrompi sobranceiramente. Leva-nos então ao rei +Tuala. +Porque, nas nossas jornadas pelo mundo, nós só +fallamos a reis! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Certamente, meu senhor, certamente... Mas nós andavamos +caçando +n’estes sitios, e estamos a tres dias de jornada da aringa do +rei. São +tres dias que tendes de caminhar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Caminharemos. Escuta tu, porém, Infandós, e tu, +Scragga, filho de +Tuala! Se por acaso tentardes no caminho armar-nos uma +traição, ou se +essa idéa vos atravessar sequer a cabeça, +nós, que tudo adivinhámos, +tomaremos de vós tal vingança que fará +ainda estremecer os filhos de +vossos filhos. Aquelle cujo olho reluz, e cujos dentes vão e +vêm, +incendiará todas as vossas searas com a chamma do seu olho, +e +despedaçará todas as vossas carnes com as pontas +das suas presas! E nós +faremos resoar os canos que trovejam d’uma maneira que +será pavorosa! +Toda a agua seccará. Todo o gado morrerá. E os +espiritos maus virão, á +nossa voz, dispersar os vossos ossos... E agora a caminho. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Esta tremenda falla era quasi superflua--porque os nossos novos amigos +acreditavam superabundantemente nos nossos poderes sobrenaturaes. Ainda +assim o velho Infandós saudou-nos com uma reverencia mais +funda e mais +servil, repetindo tres vezes estas palavras: <em>Krum</em>! +<em>Krum</em>! <em>Krum</em>! +Como depois soubemos, é esta a maneira kakuana de saudar o +rei. +Corresponde ao <em>Bayète</em>! Dos +Zulús. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Depois o velho atirou um gesto aos seus, que immediatamente carregaram +ás costas as nossas mochilas, cantinas, mantas e outras +miudezas--excepto as espingardas, de que elles se afastavam em grandes +voltas e com olhares de terror. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Um d’elles lançou mão ao fato do +capitão John, ainda cuidadosamente +dobrado á beira d’agua. O excellente John deu logo +um pulo para as +calças. E rompeu então uma immensa +altercação. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não, meu senhor, gritava Infandós, +não consentirei que o meu senhor +carregue com essas coisas! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Mas é que eu quero pôr as calças! +Berrava John. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Todos somos aqui seus escravos para servir e carregar... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Mas as calças... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Meu senhor!... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Larga as calças, malandro! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tive de intervir, suffocado de riso. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Escute, John. O caso é mais serio do que parece. Um dos +motivos do +terror que estamos inspirando é a sua luneta, a sua cara +meia barbada e +meia rapada, os seus dentes postiços, e essas pernas brancas +á mostra... +Tudo isso espanta as imaginações de selvagens. E +se o amigo quer que não +nos percam o medo, é necessario continuar a apparecer-lhes +n’essa +figura. Se o amigo lhes surgir ámanhã +d’outro modo, tomam-nos por +impostores, e a nossa vida não vale mais um pataco. Assim o +viram n’esta +terra, assim n’ella tem de ficar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +John, inquieto, hesitante, voltou os olhos para o barão: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--O amigo Quartelmar tem razão, affirmou o barão. +E dá graças a Deus que +já estavas de botas, e que a temperatura é +tão dôce. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +John teve um suspiro de furiosa resignação. E, +durante a nossa estada na +terra dos Kakuanas, foi assim que John se mostrou sempre e praticou +notaveis feitos--de botas, de pernas núas, com uma metade da +cara +rapada, outra coberta de barba, e a fralda voando ao vento! +</p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<h2 style="text-align: center;"><a name="cap_VI"></a>CAPITULO +VI +</h2> + +<h3 style="text-align: center;"> +PENETRAMOS NO REINO DOS KAKUANAS +</h3> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"> +Toda essa tarde trilhamos a larga, magnifica estrada que seguia +infindavelmente para o lado de noroeste. Alguns dos negros marchavam +adiante (uns cem passos) como vedetas. Outros seguiam levando as nossas +bagagens. Nós iamos no meio, entre Infandós e +Scragga. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Pouco a pouco, Infandós e eu descahimos n’uma +palestra familiar e +amigavel. O velho era esperto e loquaz. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Quem fez esta estrada, Infandós? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Foi feita ha muito tempo, meu senhor. Ninguem sabe quando; nem mesmo +uma mulher que tudo sabe, Gagula, que tem vivido através de +gerações... +Já ninguem póde fazer estradas assim... Mas o rei +não consente que se +desmanche, nem que lhe cresça a herva por cima. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E ha quanto tempo vivem aqui os Kakuanas, Infandós? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--A nossa gente, meu senhor, veio para aqui de grandes terras que +estão +para além (indicava o Norte) ha mais de dez mil milhares de +luas. Para +baixo não puderam seguir, segundo diziam nossos +avós, que o disseram a +nossos paes, e segundo conta Gagula, a mulher que tudo sabe. +Não puderam +por causa das altas montanhas que estão em redor, e do +deserto onde tudo +morre. De modo que, como a terra era fertil, aqui assentaram; e tantos +e +tão fortes se tornaram que agora, quando Tuala, nosso rei, +chama os seus +regimentos, o chão treme todo com o seu peso, e +até onde a vista alcança +só se vêem plumas de guerreiros e +lanças. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Mas se a terra está murada de montanhas, e se +não tendes visinhos, +para que são tantos soldados? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--A terra está aberta para além (e indicava o +Norte). E ás vezes descem +de lá multidões, que não sabemos quem +são, e que nós destruimos. Já +correu a terça parte d’uma vida de homem desde a +ultima guerra. Depois +houve outra guerra, mas foi entre nós, irmão +contra irmão. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Como foi isso, Infandós? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Infandós começou então uma +d’essas historias de pretendentes e de +guerras dynasticas, que abundam em todos os continentes. O pae +d’elle, +Kapa, que era o rei dos Kakuanas, tivera por primeiros filhos, da +primeira mulher (elle, Infandós, era filho d’uma +concubina) dois gemeos. +Ora a lei dos Kakuanas manda que de dois gemeos reaes o mais fraco seja +sempre destruido. Mas a mãe, por piedade e amor, escondeu o +gemeo mais +fraco, que se chamava Tuala, e, ajudada por Gagula, educou-o em segredo +n’uma caverna. Quando Kapa morreu, o gemeo mais velho, que se +chamava +Imotú, foi portanto rei; e logo depois teve da sua mulher +favorita um +filho por nome Ignosi. Ora por esse tempo passára a guerra +com os povos +do Norte: os campos não tinham sido semeados; veio uma fome; +e havia +grande miseria e dôr entre o povo, que, como uma fera +esfaimada, +rosnava, procurando com os olhos sangrentos alguma coisa em redor para +despedaçar. Foi então que Gagula, a mulher que +tudo sabe e que não +morre, rompeu a dizer que os males todos provinham de que +Imotú reinava +sem ser rei. Imotú a esse tempo estava doente na sua cubata, +com uma +ferida. Começou a correr um clamor entre o povo. Por fim, +Gagula um dia +reune os soldados, vai buscar Tuala, o gemeo mais novo que ella e a +mãe +tinham escondido nas cavernas, apresenta-o ao povo, descobre-lhe a +cinta, e mostra a marca real com que entre os Kakuanas os reis +são +marcados ao nascer--uma tatuagem representando uma cobra, que se +enrosca +em torno do ventre real, e vem reunir, sobre o umbigo real, a +cabeça e o +rabo. E ao mesmo tempo, Gagula gritava: «Eis o vosso +verdadeiro rei, que +eu salvei e que escondi, para elle vos vir salvar agora!» O +povo, tonto +de fome, ignorando a verdade, espantado com a evidencia da marca real, +largou a bradar: «Este é o rei! Este é +o rei!» Alguns sabiam bem que +não--e que n’este só havia impostura. +Mas n’esse momento, ouvindo os +alaridos, o rei Imotú sae doente e tropego da sua cubata, +com a mulher e +com o filho que tinha tres annos, a saber porque vinham tantos brados e +porque pediam elles «o rei!» Immediatamente Tuala, +o irmão, corre para +elle e crava-lhe uma faca no coração! E o povo, +que as acções decididas +e bruscas sempre fascinam, gritou logo: «Tuala é +rei! Tuala provou que é +rei!» Diante d’isto a pobre mulher de +Imotú agarrou o filho, o seu +Ignosi, e fugiu. Ainda appareceu, passados dias, n’uma +aringa, pedindo +de comer. Depois viram-na seguir para os lados dos montes e nunca mais +voltou. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--De modo, observei eu interessado por esta pagina de historia negra, +que Tuala não é o verdadeiro rei. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O velho respondeu com prudencia: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Tuala, o grande, é rei. Mas se Ignosi vivesse ainda, +só esse tinha o +legitimo direito de reinar sobre os Kakuanas. A cobra sagrada foi-lhe +marcada em torno da cinta. O rei é elle. Sómente +decerto ha muito que +Ignosi morreu... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Casualmente n’esse instante, voltando-me para fallar aos +camaradas que +marchavam atraz--esbarrei com Umbopa, que quasi me pisava os +calcanhares, absorto n’aquella historia de Imotú e +de Ignosi, com uma +curiosidade, um interesse que lhe punham nos olhos um brilhar desusado, +lhe davam a expressão de quem de repente lembra coisas +vagas, remotas, +semi-esquecidas, perturbadoras. N’essa occasião +permaneci indifferente. +Mas, depois, através da jornada, muitas vezes pensei +n’aquella anciosa, +esgazeada curiosidade do Zulú. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<hr style="margin-left: 0px; margin-right: 0px;"> +<div style="text-align: justify;"></div> + +<p style="text-align: justify;"> +No emtanto já trilharamos algumas fortes milhas +d’estrada. As montanhas +de Sabá ficavam para traz envoltas nos seus mysticos +véos de nevoa. E o +paiz cada vez se offerecia mais formoso e mais rico. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ao começo da tarde avistámos emfim uma grande +povoação,--que, segundo +Infandós nos declarou, pertencia ao seu commando militar e +continha uma +vasta guarnição. O velho guerreiro +mandára mensageiros adiante, +correndo, n’um passo de gazella, a annunciar a nossa vinda. E +quando nos +aproximámos da aldêa, descobrimos com effeito, +sahindo das portas e +marchando ao nosso encontro, densas companhias de soldados. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão tocou-me no braço, com um receio que +«as coisas se apresentassem +desagradavelmente». Infandós decerto comprehendeu, +pelo tom, pelo +franzir de sobrancelhas do barão, o sobresalto que o +tomára (e a mim), +porque acudiu anciosamente, com redobrada reverencia: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que os meus senhores não suspeitem de mim! Aquelle +é um dos regimentos +que eu commando! Mandei-o sahir e desfilar, para prestar as honras aos +que vêm do mundo das estrellas... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Esbocei um gesto e um sorriso de soberana indifferença. +Realmente estava +bem inquieto! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A povoação ficava á direita da +estrada, separada d’ella por um declive +de terreno areado e bem pisado, onde o regimento se formára +em parada. +Havia alli talvez uns tres mil homens. E quando nos +acercámos, podémos +vêr com admiração e assombro, de que +esplendida, de que formidavel raça +eram estes guerreiros kakuanas! Nenhum media menos de seis +pés d’altura; +e todos eram veteranos de quarenta annos, ageis, experientes, +prodigiosamente robustos, endurecidos por exercicios perpetuos. Sobre a +cabeça todos traziam a corôa d’altas e +pesadas plumas negras, sempre +tremendo ao vento. Em volta da cinta pendia-lhes um saião +feito de rabos +de boi, muito juntos uns aos outros e brancos; e no braço +esquerdo +sustentavam escudos redondos de ferro, recobertos de couro pintado de +branco. Por armas tinham uma azagaia semelhante á dos +Zulús--e tres +facas (uma no cinto, duas em presilhas no escudo), facas enormes que +elles chamam tollas e que arremessam a distancias de cincoenta jardas +e mais, com uma certeza terrivel. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +As companhias conservavam-se mais immoveis que estatuas de bronze. Mas, +á medida que iamos passando em frente d’ellas, +cada official (que se +distinguia por uma capa de pelle de leopardo) dava um signal: e os +homens, brandindo a azagaia no ar, soltavam a +saudação real, a grande +voz: «krum! Krum! Krum!» +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Assim penetrámos na povoação ao rumor +de acclamações. A aldêa devia ter +uma milha de circumferencia; e era defendida por um largo fosso e por +uma alta estacada feita de troncos d’arvores. Na porta +central, do lado +da estrada, havia uma ponte levadiça. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Parecia uma aldêa admiravelmente bem ordenada. Ao centro, +entre arvores, +corria uma ampla, extensa rua, cortada em angulos rectos por outras +mais +estreitas, formando séries de quarteirões, cada +um dos quaes alojava uma +companhia. As cubatas, redondas, feitas d’uma grossa verga +entrelaçada, +findavam á maneira das dos Zulús por tectos de +colmo em fórma de +zimborio agudo: mas, differentes n’isto das dos +Zulús, tinham uma porta, +larga e facil, e eram cercadas por uma varanda, cujo chão de +cal dura +rebrilhava ao sol. Os dois lados da grande rua apinhavam-se de +mulheres, +que tinham corrido de todas as cubatas para nos admirar. Era uma bella +raça de mulheres--altas, airosas, esplendidamente feitas, +com o cabello +mais ondeado que encarapinhado, as feições por +vezes aquilinas, e os +beiços sempre finos. Mas o que mais nos impressionou foi o +seu ar grave +e serio. Nem pasmo selvagem, nem risos, nem injurias, ao +vêrem-nos +desfilar, tão estranhos e differentes de todos os homens que +até ahi +tinham encontrado. Nem mesmo a singular figura de John lhes arrancou +uma +exclamação: apenas os largos olhos negros se lhes +arregalavam para as +pernas niveas do pobre amigo, que, roído de vergonha, +praguejava baixo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quando chegámos ao centro da aldêa, +Infandós parou em frente d’uma +espaçosa e rica cubata, cercada de dependencias menores, +entre arvoredo. +E com palavras grandiosas, á maneira dos Zulús, +offereceu-nos a +hospitalidade: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Aqui habitareis, meus senhores. E não tereis de apertar o +ventre com +fome! Em breve vos traremos mel, leite, uma ou duas vaccas, alguns +carneiros. Não é muito, oh Espiritos! Mas +é dado por corações, que se +regosijam de vos vêr. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem, bem, Infandós, murmurei eu. O que precisamos +sobretudo é +descançar, fatigados da nossa descida através dos +espaços e dos reinos +do ar... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A cubata era muito confortavel, com herva aromatica espalhada no +chão, +grandes pelles servindo de leitos, e vistosos cantaros para a agua. +D’ahi a pouco, entre cantos e risos, appareceu á +porta um bando de +raparigas trazendo leite, mel em covilhetes, fructas em cestos:--e +atraz +dois rapazes seguiam, arrastando um vitello pelos cornos. Um dos +rapazes, tirando a faca do cinto, matou o vitello de um golpe: e logo o +outro, agil e destramente, o esfolou e retalhou. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ajudado por uma das raparigas (que era extremamente bonita), Umbopa +passou a cozer a carne n’uma panella de barro, sobre uma +alegre fogueira +accesa á porta da cubata: e nós mandamos convidar +Infandós e Scragga +para partilhar do nosso repasto. Quando entraram, notei que, para +comer, +se não encruzavam no chão á maneira +dos Zulús--mas se sentavam em +pequenos bancos, que abundavam na cubata encostados ás +paredes. O jantar +foi longo e affavel. O velho guerreiro todo elle exhibia +doçura e +respeito. Mas o rapaz Scragga parecia olhar para nós, e para +cada um dos +nossos gestos, com singular desconfiança. Talvez, ao +vêr que nós +comiamos, bebiamos, e tinhamos as necessidades de qualquer kakuana, +começava a suspeitar da nossa origem divina. Não +me agradou este +sentimento, tão real e logico. Que nos poderia assegurar as +vidas, +perdidos entre aquellas turbas negras, senão o terror +supersticioso? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Depois de jantar accendemos os cachimbos--o que encheu os nossos amigos +d’espanto. Na terra dos Kakuanas, como na dos +Zulús, a planta do tabaco +cresce em abundancia--mas elles só a sabem usar torrada e +sêcca, +pulverisada. Só conhecem o rapé. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +No emtanto conversamos a respeito da nossa jornada. Infandós +já tudo +organisára para que ella continuasse na madrugada seguinte, +mandando +adiante emissarios a prevenir Tuala da nossa chegada ao seu reino. +Tuala +estava então na sua grande cidade de Lú, +preparando-se para a revista de +tropas, a dança das flores, e «caça aos +feiticeiros», que constituem a +maior solemnidade religiosa e militar dos Kakuanas, na primeira semana +de junho. E segundo affirmava Infandós, nós +deviamos (a não ser que nos +detivessem os rios transbordados) entrar as portas de Lú ao +fim de dois +dias de marcha. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Depois, como começavam a luzir as estrellas e a +aldêa ia cahindo em +silencio, os nossos amigos deixaram a cubata. E tres de nós +atiraram-se +logo para cima dos leitos de pelles, emquanto outro, com as carabinas +carregadas, velava, no seu turno de sentinella, para prevenir as +traições. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Mas essa primeira noite na terra dos Kakuanas foi muito calma e segura. +</p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<h2 style="text-align: center;"><a name="cap_VII"></a>CAPITULO +VII +</h2> + +<h3 style="text-align: center;"> +O REI TUALA +</h3> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Não me dilatarei nos incidentes da nossa jornada +até Lú--que nem foram +consideraveis nem pittorescos. Durante dois longos dias +trilhámos a +estrada de Salomão, por entre ricas terras cultivadas, e +alegres +povoações que nos encantavam pelo seu ar +florescente e calmo. A cada +instante passavam por nós troços de gente armada, +regimentos emplumados +marchando tambem para a cidade, para o grande festival sagrado. No +segundo dia, ao pôr do sol, parámos +n’uma collina, que a estrada galgava +por entre dois renques d’arvores em flôr:--e em +baixo, n’uma planicie +deliciosamente fertil, avistámos emfim Lú, a +capital dos Kakuanas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Para cidade d’Africa era enorme,--com seis milhas talvez de +circumferencia, toda ella defendida por estacadas, e rodeada de pomares +e de vastas aringas onde se aquartelavam tropas. Pelo centro corria um +largo e claro rio, vadeado por pontes. Para o norte, a duas milhas, +erguia-se uma collina, que offerecia a fórma singular +d’uma ferradura: +e, mais longe, a umas sessenta milhas, surgiam bruscamente da planicie, +em triangulo, tres serras isoladas, escarpadas, todas cobertas de neve. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--A estrada (explicou Infandós, vendo que contemplavamos com +estranheza +os tres montes) acaba além n’essas serras, que se +chamam as <em>Tres +Feiticeiras</em>. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E porque acaba além, Infandós? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Quem sabe! Murmurou o velho encolhendo os hombros. As tres montanhas +estão todas furadas por cavernas. Ha no meio +d’ellas uma cova immensa. É +lá que se sepultam agora os nossos reis. E era alli que os +homens +antigos, que sabiam tudo, vinham buscar certas coisas... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que coisas, Infandós? Exclamei eu, cravando +n’elle um olhar que o +sondava. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O velho sorriu, com uma grossa malicia de negro: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Os Espiritos que vêm das estrellas sabem decerto mais do +que um +Kakuana... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Com effeito! Acudi eu, n’um tom sciente e profundo. E por +isso te +posso dizer, Infandós, que esses homens antigamente vinham +procurar um +ferro amarello que rebrilha, e umas pedras brancas que faiscam. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Talvez fosse, talvez fosse! Balbuciou Infandós, +embaraçado, +afastando-se bruscamente para lançar uma ordem aos +carregadores da +bagagem. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Acolá, disse eu aos companheiros mostrando as <em>Tres +Feiticeiras</em>, +estão as minas de Salomão! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Todos tres, commovidos, ficámos a olhar aquelles montes +tão proximos, +onde jaziam ainda talvez (se o velho D. José da Silveira +contára a +verdade) os mais ricos thesouros da terra... A que prodigioso momento +chegára a nossa aventura! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +De repente, quando assim pasmavamos, o sol desappareceu--e a noite +cahiu, sem transição, visivelmente, como uma +coisa tangivel. N’aquellas +latitudes não ha crepusculo. A luz acaba como a chamma +d’um bico de gaz +que se fecha: e, n’um instante, a terra toda fica envolta +n’uma cortina +de treva. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +N’essa occasião porém, durou pouco a +escuridão, porque bem cedo a mais +larga e esplendida lua que me lembro de ter visto subiu magestosamente +ao céo, derramando uma tão sublime refulgencia, +tão divinamente serena, +que, sem saber porquê, cada um de nós tirou o +chapéo, como n’um templo, +ante uma imagem sagrada. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Infandós, porém, quebrou a nossa +contemplação, dando o signal de descer +para a cidade, que agora, batida de luar, cheia de lumes, parecia +infindavel através da planicie. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E d’ahi a uma hora, tendo passado a ponte +levadiça, entre piquetes de +sentinellas a quem Infandós deu baixo o <em>santo e +senha</em>, seguiamos +calados pela rua central de Lú, toda ladeada de sombras +d’arvores e de +senzalas onde se cozinhava. Levou uma hora antes de chegarmos +á grade +d’um pateo redondo, com o chão muito batido e +duro, todo caiado de +branco. Em volta erguiam-se cubatas espaçosas, cobertas de +colmo. Eram +alli (segundo declarou Infandós) os nossos +«humildes pousos». +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Cada um de nós tinha, só para si, uma cubata. +Havia dentro um grande +asseio. Os leitos eram feitos com pelles estendidas sobre +enxergões de +herva aromatica. Uma esteira tapetava o sólo. +Tripeças pintadas +alternavam com frescas vasilhas d’agua. Não +podiamos esperar mais +cuidadosa hospedagem! E apenas nos lavámos, sacudimos o +pó, appareceu +logo um bando de raparigas, das mais bellas que até ahi +encontraramos no +paiz, trazendo leite, carnes assadas e bolos de milho em vistosos +pratos +de madeira. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Depois da ceia fizemos reunir todas as quatro camas na maior das +cubatas +(precaução que encheu de riso as raparigas),--e +não tardamos em +adormecer com grata tranquillidade. Acordámos quando o sol +ia nado--e a +primeira e aprazivel impressão que recebemos foi a do bando +das +raparigas, acocoradas no chão, a um canto, á +espera que despertassemos +«para nos ajudar a lavar e a vestir». +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quando uma d’ellas, a mais alta (e que figura! Que +braços!) fez esta +amavel offerta, o capitão John teve uma +exclamação, um gesto d’atroz +desespero: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Vestir! É bom de dizer! Quando uma pessoa não +tem senão uma camisa e +um par de botas!... E com estas raparigas todas, bonitas raparigas, ahi +por essa cidade... Não! Isto não póde +continuar! Eu não arredo pé d’aqui +da cubata, senão de calças! Quero as +calças! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Vi o meu amigo tão decidido, que reclamei as +calças. Mas uma das +raparigas voltou d’ahi a momentos declarando que essas +sagradas e +maravilhosas reliquias tinham sido já mandadas ao rei! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O furor do nosso John foi immenso. Teve de se contentar em barbear a +face direita; porque na esquerda não consentimos +nós que elle eliminasse +um só pêllo á farta suissa que +já lhe crescêra. Aquella cara espantosa, +rapada d’um lado, barbuda do outro, era uma das evidencias da +nossa raça +sobrenatural. Todos nós, de resto, tinhamos aspectos +estranhos. Os +cabellos do barão, amarellos e sempre longos, desciam-lhe +agora até aos +hombros, n’uma juba rude, que lhe dava o ar d’um +barbaro dos tempos do +rei Olloff. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O almoço já esperava, fóra, no +terreiro, em caçoulas que fumegavam. Mas, +primeiramente, quizemos tomar o nosso <em>tub</em>, atirar +pelas costas alguns +frios baldes d’agua. E o assombro, a +desconsolação das raparigas foi +consideravel, quando lhe pedimos pudicamente que se retirassem, +cerrando +a porta de vime... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Logo depois do almoço, Infandós appareceu +annunciando que el-rei Tuala +nos mandava muito saudar, e esperava a nossa comparencia em Palacio. +Declarei immediatamente, com indifferença e altivez, que +ainda nos +achavamos cançados, tinhamos ainda um cachimbo a fumar, +etc., etc. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Convém sempre, tratando com potentados negros, +não mostrar pressa nem +respeito. Tomam invariavelmente a polidez por pavor. De sorte que, +apesar da nossa anciedade em vêr o terrivel Tuala, +retardámos nas +cubatas uma farta hora, preparando, ao mesmo tempo, os escassos +presentes que destinavamos ao rei e á côrte: a +espingarda do pobre +Venvogel, um bocado de sêda, alguns fios de contas de vidro. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Afinal partimos, guiados por Infandós--e seguidos por Umbopa +que levava +as dadivas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<hr style="margin-left: 0px; margin-right: 0px;"> +<div style="text-align: justify;"></div> + +<p style="text-align: justify;"> +Ao fim d’um curto kilometro, chegámos a um immenso +terreiro, com o chão +duro e caiado de branco como o das nossas moradas, e cercado por uma +estacada baixa. Em redor, fóra da estacada, corria uma +fileira de +cubatas, que (segundo nos informou Infandós) pertenciam +ás mulheres do +rei: e ao fundo, fronteira á porta por onde entraramos, +estendia-se uma +construcção, uma cubata enorme, com varas e +plumas espetadas no tecto de +colmo, que era o palacio real. No recinto não crescia uma +arvore: e todo +elle estava n’esse dia cheio de regimentos em +fórma, perfilados, +immoveis, verdadeiramente magnificos, com os seus altos pennachos, os +escudos brancos, as lanças a rebrilhar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Em frente á cubata real ficava um espaço vasio, +com uns poucos de +escabellos de madeira. A convite do bom Infandós +occupámos tres d’esses +assentos privilegiados, tendo Umbopa por traz, de pé: e +assim ficámos á +espera, no meio d’um silencio absoluto, sentindo cravados +sobre nós oito +mil pares d’olhos sofregos. Finalmente a porta da cubata +rangeu--e +surgiu d’ella uma figura gigantesca, com um esplendido manto +de pelles +de tigre lançado sobre o hombro, e uma azagaia na +mão. Atraz d’elle +vinha Scragga e uma outra creatura estranha, equivoca, que nos pareceu +uma macaca--uma macaca velhissima e friorenta, toda embrulhada em +pelles. A figura gigantesca abateu-se pesadamente sobre uma das +tripeças +de pau. Scragga permaneceu de pé, por traz, apoiado +á lança. A velha +macaca arrastou-se para a sombra que lançava a cubata real, +e alli se +acocorou lentamente. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O mesmo silencio continuava no emtanto oppressivo, afflictivo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Então a figura gigantesca arrojou o manto que a envolvia, e +ergueu-se, +offerecendo ás vistas a sua real pessoa, verdadeiramente +terrifica! +Nunca em minha longa vida encarei um homem mais repulsivo. E ainda +ás +vezes revejo, ante mim, aquella face horrivel com os beiços +muito +grossos ressudando sensualidade, as ventas enormes e chatas de fera, e +o +olho unico (porque o outro era apenas um buraco negro) atrozmente +brilhante, d’um brilho frio e cruel. Uma cota de malha +reluzente +cobria-lhe o corpo formidavel. Da cinta pendia-lhe o saião +d’uniforme, +feito de rabos brancos de boi. Ao pescoço trazia uma +gargalheira d’ouro: +e da testa, onde luzia um enorme diamante bruto, subia-lhe, ondeando no +ar, um tufo esplendido de plumas d’abestruz. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O silencio ainda pesou, mais profundo, diante d’aquella +presença +assustadora! Mas de repente o monstro (que logo comprehendemos ser +Tuala, o rei) levantou a lança no ar. Oito mil +lanças faiscaram ao sol. +E de oito mil peitos rompeu, atroando o céo, a grande +acclamação +real:--<em>Krum</em>! <em>Krum</em>! <em>Krum</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Depois, no silencio que recahira, vibrou uma voz, agudissima, +estridula, +horripilante, e que parecia vir da macaca agachada á sombra: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Treme e adora, oh povo! É o rei! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E oito mil peitos de novo atroaram o céo, bradando: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--É o rei! É o rei! Treme e adora, oh povo! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E tudo de novo emmudeceu. Mas quasi immediatamente, ao nosso lado, +houve +um ruido de ferro batendo sobre pedra. Era um soldado que +deixára cahir +o escudo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tuala dardejou logo o olho cruel para o sitio onde o som retinira: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Avança tu! Berrou, n’um tom trovejante. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Um soberbo rapagão sahiu da fileira, ficou perfilado. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Cão infernal! Rugiu o rei. Foste tu que deixaste cahir o +escudo? +Queres que eu, teu chefe, seja escarnecido pelas gentes que +vêm das +estrellas! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Foi sem querer, oh mestre das artes negras! Acudiu o rapaz cuja pelle +fusca parecia empallidecer. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Pois, tambem sem querer, vaes morrer! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O soldado baixou a cabeça e murmurou simplesmente: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Eu sou a rez do rei! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Scragga! Bramiu Tuala. Mostra como sabes usar bem a lança. +Vara-me +aquelle cão! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O odioso Scragga deu um passo para diante, com um sorrisinho feroz, e +levantou o dardo. O desgraçado tapou a face, e esperou, +immovel. Nós nem +respiravamos, petrificados. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +«Um, dois, tres!» Scragga soltou a +lança. O soldado atirou os braços ao +ar, cahiu morto. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +D’entre os regimentos subiu então um longo +murmurio que rolou, ondulou, +se esvaiu por fim no silencio. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão, livido de indignação, +agarrára a espingarda das mãos +d’Umbopa. +E eu, afflicto, tive de o agarrar a elle, lembrar que as nossas vidas +estavam á mercê do rei, e que eramos quatro contra +todo um reino. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tuala, no emtanto, sorria sinistramente: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--O golpe foi bom. Arrastem para fóra o cão +morto. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quatro homens sahiram da fileira, levaram o corpo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E então a mesma voz esganiçada, sibilante, +horrivel (que evidentemente +era da macaca) cortou o ar: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--A palavra do rei foi dita! A vontade do rei foi feita! Treme e adora, +oh povo! E cobri bem depressa as manchas de sangue. A palavra foi dita, +a vontade foi feita! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Uma rapariga sahiu de traz da cubata real com um vaso de +louça, e, +atirando d’elle cal ás mãos cheias, +escondeu as nodoas horriveis. Tuala +permanecia immovel, como um idolo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Por fim, lentamente, voltou para nós a face medonha. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Gente branca! Disse elle. Gente branca, que vindes não sei +d’onde, nem +sei a quê, sêde bemvinda! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem estejas, rei dos Kakuanas! Respondi eu, com dignidade. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Houve um silencio, através do qual ficamos immoveis, +sentados, com os +olhos cravados no monstro. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Gente branca, volveu elle, que vindes vós procurar aqui? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Vimos do mundo das estrellas, oh rei! Não indagues como, +nem para quê. +São coisas muito altas para ti, Tuala. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O rei franziu a face, d’um modo inquietador: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Altas me parecem as vossas palavras, gentes das estrellas!... +Não +esqueçaes que as estrellas estão longe e a minha +vontade está perto... +Póde bem ser que saiaes d’aqui como aquelle que +agora levaram. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Era necessario ostentar um soberbo desdem da ameaça. Comecei +por lançar +uma risada, muito cantada (e na verdade muito forçada): +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Oh rei, tem cautela! Não caminhes sobre brazas que +pódes escaldar os +pés! Toca n’um só dos nossos cabellos e +a tua destruição está certa. +Não +te disseram estes (e apontei para Infandós e para Scragga), +que especie +de homens nós somos, e que grandes artes temos? Viste tu +alguem como +nós, entre os filhos dos homens? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Nunca vi, murmurou elle. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não te contaram esses como nós damos a morte de +longe, através d’um +trovão? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não creio! Exclamou Tuala, batendo fortemente o joelho. +Mostrai-me +primeiro, vós mesmos, a vossa arte. Matai um +d’esses homens que estão +além (apontava uma companhia de soldados magnificos junto +á porta da +aringa) e eu prometto acreditar! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Repliquei que não derramavamos nunca sangue de homem, +senão em justo +castigo. Mas que o rei soltasse um boi para dentro do pateo, +através dos +soldados, e antes d’elle correr vinte passos, cahiria morto, +de chofre. +O rei rompeu a rir. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Um boi! Um boi!... Não, matai um homem para eu acreditar! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Perfeitamente! Exclamei eu, com tranquillidade. Ergue-te tu, oh rei, +caminha através do pateo, e antes de chegares ao portal da +aringa +rolarás morto no chão. Ou, se não +queres ir tu mesmo, manda teu filho +Scragga. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A isto, Scragga deu um grito, lançou um pulo, e fugiu para +dentro da +aringa real. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Perante a estranha audacia com que lhe propunhamos para mostrar as +nossas Artes Magicas matar um principe ou um boi, á sua +escolha--Tuala +ficou esgazeadamente perplexo. O seu olho coruscante ora se poisava em +nós, ora no chão. Depois, n’um tom +surdo: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem, que enxotem uma vacca para dentro do pateo! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Dois homens, immediatamente, largaram correndo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Barão, disse eu ao nosso amigo, chegou a sua vez. Mate a +vacca. Não +quero que imaginem que só eu sei fazer as maravilhas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão tomou a carabina «Express», e +esperou, no fundo silencio que se +alargára. Por fim, á porta da aringa houve um +ruido; e vimos entrar por +ella, correndo, enxotada, uma grande vacca russa. Ao avistar a +multidão, +o animal estacou, olhou estupidamente, deu uma volta lenta, e mugiu. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Agora! Gritei ao barão, vendo a vacca de lado e em bom +alvo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Bum! O tiro partiu, a vacca tombou, varada no +coração. De toda a enorme +soldadesca se exhalou um murmurio de admiração e +terror. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Então menti, rei Tuala? Exclamei eu, fitando o monstro com +altivez. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não, é verdade, rosnou elle. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Baixára o olho cruel, parecia atemorisado. Eu continuei, com +soberana +confiança: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Escuta, Tuala! Na arte magica de destruir ninguem nos vence. +Destruimos de longe a vida dos homens e a vida dos animaes... E as +proprias armas, os ferros mais duros, reduzimol-os de longe a +estilhaços. Escuta! Manda cravar além no +chão, com a ponta do ferro +voltada para cima, essa lança que tens na mão, a +tua propria lança, que +nunca foi vencida, oh Tuala! Manda, e eu te mostrarei! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Espantado, o rei cedeu. Um soldado cravou no chão, ao fundo +da aringa, a +lança real, com a ponta faiscando no ar, sob um raio de sol. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem, disse eu. Agora vê em que estilhas vai ficar a tua +lança +invencivel. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Apontei, disparei:--a bala bateu na folha da lança e +separou-a em +bocados. Um susurro maior, de assombro, rolou através do +terreiro. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Dei então um passo para o rei, com a carabina na +mão. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Tuala, este tubo magico que troveja e destroe é um +presente que te +fazemos. Se te mostrares leal comnosco ensinar-te-hemos o segredo de o +usar e de vencer com elle. Mas se descobrirmos +traição em ti, esse +proprio tubo se voltará contra o teu peito, e +serás como a vacca morta +ou como a lança partida. Aqui tens. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E estendi-lhe a arma. Elle tomou-a com desconfiança, com uma +sêcca +antipathia, e pôl-a no chão, aos pés, +devagar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +N’esse instante aquella figura estranha que o +acompanhára, e que me +parecera uma velha macaca, deu um guincho e surgiu da sombra da cubata +real, onde permanecera agachada. Muito devagar, muito devagar, vinha +caminhando nas quatro patas:--mas quando chegou defronte do rei, +ergueu-se subitamente, arrojou de si a longa cobertura de pelles que a +envolvia, e mostrou aos nossos olhos attonitos um vulto +extraordinariamente sinistro e quasi phantastico. Era uma mulher +evidentemente, uma mulher velhissima, tendo passado todos os limites +conhecidos da vida humana. A face que voltou para nós estava +reduzida ao +tamanho d’uma facesinha de creança, +d’uma creança d’um anno, toda em +rugas profundas, resequidas, duras e amarellas, como se fossem +entalhadas em marfim. A bôca já se não +via, de sumida, entre o queixo +sahido para fóra e extremamente agudo--e a testa +proeminente, livida, +com duas sobrancelhas ainda espessas e todas brancas. A +cabeça de facto +pareceria a d’um cadaver cortido ao sol, se os olhos grandes +não +refulgissem com intenso fogo e vida. Mas a hediondez principal +d’aquelle +semblante estava no craneo, todo nú, pellado, liso como uma +bola, e a +que ella fazia mover e enrugar a pelle como as cobras contrahem e movem +o capello. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Não se podia contemplar aquella creatura sem um arripio de +horror. +Durante um momento, o estranho monstro permaneceu immovel--depois +estendeu lentamente um braço descarnado, a mão +sêcca de Parca, +verdadeira garra armada de unhas longas e recurvas, e +começou, n’uma voz +silvante que regelava: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Rei Tuala, escuta! Povo, escuta! Montes, rios, céos, +coisas vivas e +coisas mortas, escutai! Escutai, escutai, que o Espirito desceu dentro +de mim e eu vou prophetisar! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +As syllabas findaram n’um uivo longo e triste. Toda a +multidão que +enchia a aringa parecia gelada de terror. E eu mesmo, que vira tantas +vezes na Africa os esgares e as declamações das +feiticeiras, senti não +sei que peso no coração. A velha era decerto +terrifica. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--<em>Som de passos, som de passos que vem</em>! Proseguiu +ella, com a garra +tremula no ar. São os passos da gente branca que vem de +longe! É a terra +que treme sob os passos dos brancos. <em>Cheiro a sangue, cheiro +a sangue</em>! +São rios de sangue que vão correr. Eu +já os vejo, já os sinto. Toda a +terra está vermelha, todo o céo fica vermelho! Os +leões lambem sangue +por toda a parte! Os abutres batem as azas de alegria! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Parou um momento. Os olhos rebrilhavam-lhe como lumes. Depois soltou um +grito longo, como uma ululação sepulchral. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Sou velha! Velha! Velha! Tenho visto correr muito sangue. E hei de +vêr +correr muito ainda, e dançar de gozo! Que idade pensaes +vós que eu +tenho? Os vossos paes já me conheceram; e os paes dos vossos +paes; e os +outros paes que geraram a esses. Tenho visto muitas coisas, aprendi +muitas coisas. Já vi o branco, e sei o desejo que elle tem +no coração. +Quem fez a grande estrada, que desce dos montes? Quem gravou as figuras +nas rochas? Não sabeis. Mas eu sei! Foi um povo branco, que +estava aqui +antes de vós virdes, que voltará e vos +destruirá, e ficará aqui quando +vos fôrdes como a nuvem de pó que passou! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E de repente, deu um passo, com os dois braços, as duas +garras recurvas +estendidas para nós: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que vindes aqui fazer, gente branca? Vindes das estrellas? Das +estrellas! Ah, ah! Vindes procurar um como vós? +Não está aqui. E o que +veio, ha muito, ha muito, veio só para morrer. +São as pedras que brilham +que vós procuraes? Eu conheço o vil desejo do +coração do branco. +Procurai, procurai! Talvez as acheis quando o sangue seccar. Mas +voltareis vós ás estrellas, ou ficareis aqui +commigo? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Depois com um arremesso terrivel, voltando-se para Umbopa, que as suas +garras estendidas pareciam querer despedaçar: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E tu, tu que tens a pelle escura, quem és, que procuras +aqui? Não as +pedras que brilham, nem o metal que reluz! Ah, parece-me bem que te +conheço! Oh céos! Oh montes! Serás +tu?... Eu conheço, eu conheço pelo +cheiro o sangue que tens nas veias! Desaperta essa cintura... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Um momento, ficou como esgazeada em face d’Umbopa. E +subitamente, +batendo os braços no ar, cahiu no chão, como +morta. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Um bando de raparigas surdiu da cubata, levou nos braços a +feiticeira. +Tuala erguera-se sombriamente. Todo elle tremia. Lançou um +gesto:--e uns +após outros os regimentos começaram a desfilar, +até que todo o pateo +ficou vasio e rebrilhando ao sol. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Então Tuala voltou-se para nós, com a face +pavorosamente franzida: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Gente branca! Gagula annunciou males estranhos! Está-me a +parecer que +vos devo matar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Eu sorri, com superioridade. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Oh rei, tu viste a vacca. Queres tu ser como a vacca? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Oh gentes, vós ameaçaes o rei! Volveu elle, +cerrando os punhos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não ameaço. Digo só que +tão facil é ás nossas Artes matar uma +vacca +como matar um rei. Pensa e treme, Tuala! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O enorme bruto levou os dedos á testa, reflectindo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ide em paz! Disse por fim. Esta noite é a Grande +Dança. Vireis e +vereis. Não tenhaes medo que eu vos arme ciladas. E +ámanhã decidirei. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Está bem, Tuala, gritei eu, com um grande gesto. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E acompanhados por Infandós, recolhemos á nossa +aringa. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quando chegamos ás cubatas, depuz n’um escabello o +rewolver, e +voltando-me para Infandós que entrára comnosco: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--O teu rei Tuala é um monstro, Infandós! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O velho guerreiro teve um suspiro. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ai de mim! Toda a nação geme com as suas +crueldades, meu senhor! +Vereis esta noite. É a grande caça aos +feitiços; vem Gagula e as suas +farejadoras farejar, adivinhar quem são, d’entre +os guerreiros e o +povo, os que meditam ou já commetteram feitiços e +maleficios. Se o rei +appetece o gado de um visinho, ou o detesta, ou teme que elle se lhe +torne infiel, Gagula ou uma das farejadoras aponta para esse homem, e +o homem é logo morto... Quem sabe? Talvez hoje mesmo me +chegue a minha +vez. Até aqui Tuala tem-me poupado em respeito á +minha experiencia das +armas, e porque os soldados me amam. Mas quem sabe? Tuala é +cruel, a +terra toda soffre e está cançada +d’elle! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Mas, pela luz das estrellas, porque não depondes +vós ou mataes essa +féra? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Infandós encolheu os hombros: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--É o rei!... E o filho que lhe succederia, Scragga, tem +ainda o coração +mais negro, pesaria sobre nós com mais furor. Se +Imotú não tivesse sido +morto, e se Ignosi, o filhinho d’elle, não tivesse +acabado tambem no +deserto com a mãe, então havia uma +esperança no reino! Mas assim... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +De repente (e ainda me parece incrivel que eu tivesse assistido a lance +tão romanesco, tão semelhante aos que se +lêem nos contos de grande +enredo)---de repente ergueu-se uma voz da sombra da cubata: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E quem te diz a ti que Ignosi morreu? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Todos nos voltamos, espantados. Era Umbopa. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que queres tu dizer? Que tens tu a fallar, rapaz? Gritou +Infandós que, +como velho chefe de sangue real, detestava familiaridades. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Umbopa deu para nós um passo lento: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Escuta, Infandós. Não é verdade que +o rei Imotú foi morto, e que a +mulher e o filho desappareceram? Não é verdade +que correu então voz de +ambos se terem perdido e morrido nas montanhas? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Com um gesto, Infandós concordou. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Escuta! Nem a mãe nem o filho morreram. Galgaram as +montanhas, +atravessaram as grandes areias guiados por uma turba errante, entraram +de novo em terras de relva e agua, viajaram durante muitas luas, e +foram +ter a um povo dos Amazulus que é da raça dos +Kakuanas. Escuta ainda! O +filho cresceu, a mãe morreu. O filho cresceu, e serviu nas +guerras dos +Amazulus. Depois foi ao paiz dos brancos e aprendeu as artes dos +brancos: trabalhou com as suas mãos, meditou dentro do seu +coração: e +sabendo que homens fortes vinham para o norte, tomou serviço +com elles, +atravessou outra vez as grandes areias, galgou de novo as serras de +neve, pisou terra dos Kakuanas--e está na tua +presença, Infandós! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E subitamente, arrancando a tanga que o cobria, ficou nú +diante de nós, +com os braços abertos, gritando: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--<em>Sou Ignosi, legitimo rei dos Kakuanas</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Infandós precipitára-se sobre elle, com os olhos +fóra das orbitas, a +examinar-lhe o ventre onde corria, n’uma tatuagem azul, o +desenho d’uma +cobra que lhe dava volta á cinta e juntava a bôca +com o rabo logo abaixo +do umbigo. Esta tatuagem é a marca, o emblema real, que se +grava a tinta +azul, logo ao nascer, no legitimo herdeiro do reino. E a evidencia +lá +estava, certamente irrecusavel, porque Infandós cahiu sobre +os joelhos, +bradando: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--<em>Krum</em>! Krum! É o filho de +Imotú! É o rei! É o rei! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Umbopa acudiu: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ergue-te, meu tio Infandós, que ainda não sou +rei! Mas com a tua +ajuda, e a d’estes homens fortes com quem vim, posso ser rei! +Dize pois. +Queres pôr a tua mão na minha e ser o meu homem? +Queres correr commigo +os perigos que haja a correr para derrubar Tuala o usurpador, o +coração +de féra? Dize. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O velho Infandós pousou dois dedos na testa e pensou. Depois +tornou a +ajoelhar diante de Ignosi, pôz a sua larga mão na +mão d’elle, e +murmurou, lentamente, como na formula de um ceremonial: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ignosi, legitimo rei dos Kakuanas, ponho a minha mão na +tua mão, e até +morrer sou teu homem! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Nós, de pé, em redor, ficaramos verdadeiramente +attonitos! O barão e o +capitão John só muito vagamente comprehendiam o +maravilhoso lance. Tive +de lhes traduzir, desenrolar os detalhes. E ambos exhalavam o seu +assombro em exclamações, contemplando +Umbopa--quando elle nos +interpellou, com um gesto que começava a ser regio: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E vós, homens brancos de quem comi o pão? +Quereis vós ajudar-me +tambem? Nada tenho que vos offerecer em troco do vosso braço +forte. Mas +essas pedras brancas que reluzem, e que vós amaes, se, como +rei, eu as +vier a possuir, podereis leval-as, tantas quantas quizerdes... Basta +isto? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Traduzi de novo aos meus amigos esta deslumbrante offerta. O +barão +franziu o sobr’olho: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Quartelmar, diga-lhe que um inglez não se vende por +diamantes. Mas de +graça, porque sempre o achei leal, porque gosto +d’elle, e porque me +appetece derrubar esse monstro de Tuala, estou prompto a ajudar Umbopa +com o pouco que posso, que é o meu braço. E tu +John? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O capitão encolheu os hombros: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que lhe havemos nós de fazer? Além +d’isso homem que não briga +enferruja. Em todo o caso ponho uma condição: +quero as calças. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Communiquei estas adhesões a Umbopa--que apertou +ardentemente as mãos +dos meus dois amigos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E tu, Macumazan, mestre da caça, olho vigilante, mais fino +que o +bufalo, estarás tu tambem por mim? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Cocei a cabeça, pensativamente: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Eu te digo, Umbopa, ou Ignosi, ou o que és; eu +não gosto de +revoluções... Sou um homem de ordem e demais a +mais um cobarde. Escusas +de te rires, sei perfeitamente o que digo, sou um cobarde. Por outro +lado, tenho por costume ser fiel a quem me foi fiel; e tu, +n’esta +jornada, andaste sempre como um servo dedicado e bravo. Portanto, +ás +ordens! Mas ha uma coisa. Eu sou um pobre caçador de +elephantes e tenho +de ganhar a minha vida. Tu fallaste ahi nos diamantes. Eu aceito os +diamantes. Se lhe pudérmos lançar mão, +aceito-os, e quantos mais e mais +graúdos melhor! Não é que eu acredite +muito n’elles. Mas, se +apparecerem, desde já te prometto que, com +licença tua, hei de abarrotar +as algibeiras... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Tantos quantos puderes levar! Exclamou Umbopa radiante. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E já se voltava para Infandós, +n’aquelle triumphal enthusiasmo de +pretendente a quem as adhesões affluem--quando eu o +interrompi +vivamente: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Alto! Temos ainda outra, Ignosi. Nós viemos, como tu sabes +perfeitamente, á procura do irmão do +Incubú (era a alcunha do barão, em +Zulú). Quero que me promettas que has de fazer tudo o que +puderes como +rei para nos ajudar a encontral-o... Começa por te informar +agora com +teu tio Infandós. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ignosi pousou os olhos em Infandós, com singular magestade: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Meu tio Infandós, em nome do emblema sagrado que me +envolve a cinta, e +como teu rei legitimo, intimo-te a que me digas a verdade. Houve +já +algum homem branco que, antes d’estes, tivesse vindo +á terra aos +Kakuanas? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Nunca, meu senhor! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E poderia algum ter vindo, sem que tu o soubesses? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Nenhum poderia ter vindo sem que eu o soubesse. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão deu um longo suspiro. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem! Bem! Exclamei logo, para lhe não matar de todo a +esperança, e +cortar os tristes pensamentos. Quando Ignosi fôr rei teremos +então mais +facilidade de procurar o irmão do Incubú, +até aos confins do reino, e +nas terras que estão além! Agora vamos ao que +urge. Que plano tens tu, +Ignosi, para recuperar a corôa? Porque emfim, meu rapaz, +é bom ser rei +de direito divino, mas... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não tenho plano. E tu, meu tio Infandós? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Infandós pensou um instante, com a barba sobre o peito. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Esta noite, disse elle por fim, é a caça aos +feitiços. Muitos vão +morrer, e em muitos outros mais recrescerá o odio contra +Tuala. Depois +da dança, fallarei a alguns dos grandes chefes que podem +dispôr de +regimentos. É necessario que os chefes te venham +vêr, Ignosi, se +convençam com seus olhos que és o rei. E se elles +pozerem as mãos nas +tuas, ámanhã tens vinte mil lanças +para combater por ti. Porque a guerra +é certa. Depois da dança, se eu viver, se todos +vivermos, virei aqui, +para combinar na escuridão. Mas a guerra é certa! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +N’este momento houve fóra do terreiro um brado, +annunciando que se +avisinhavam mensageiros do rei. E tres homens entraram, cada um +d’elles +trazendo erguida nas mãos uma cóta de malha que +rebrilhava como prata e +uma magnifica acha de batalha. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Um arauto que os precedia exclamou, batendo no chão com o +conto da +lança: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Presentes de Tuala, o rei, aos homens que vêm das +estrellas! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Agradecemos ao rei, volvi eu sêccamente. Ide! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Apenas os homens partiram, examinamos as cótas com grande +interesse. +Eram maravilhosas, d’uma malha tão fina, +tão cerrada, tão elastica e +macia, que uma armadura toda podia caber no concavo das duas +mãos. +Perguntei a Infandós se eram fabricadas no paiz. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não, meu senhor, são coisas que existem ha +muito, e que herdamos de +paes para filhos. Já muito poucas restam. Só os +de sangue real as podem +usar. E o rei que as mandou é que está muito +contente ou que está muito +assustado. Em todo o caso não ha ferro que as atravesse, e +bom será, +meus senhores, que as useis esta noite na dança. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quando Infandós sahiu, ficamos conversando n’este +estranho +incidente--que transformava a nossa pacifica jornada n’uma +aventura +politica. Como notou o barão, fôra este decerto, +desde a nossa partida +de Natal, um dos dias mais ricos de emoções e +surprezas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Extraordinario, disse o capitão. Tem de ser registrado no <em>Livro +de +Bordo</em>. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Chamava elle Livro de Bordo a um Almanach do anno, com folhas brancas +intercaladas, onde costumava assentar os episodios notaveis da nossa +espantosa empreza. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que dia é hoje? Perguntou elle, sentando-se, com o +almanach sobre o +joelho. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--3 de julho. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão e eu voltaramos a examinar as dadivas de +Tuala--quando, d’ahi a +instantes, o capitão exclamou com os olhos no almanach: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--É curioso! Ámanhã, 4 de julho, ha um +eclipse total, visivel em toda a +Africa! Deve começar ás duas e quarenta +minutos... Bom terror vão ter os +pretos! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Escassamente demos attenção áquella +noticia: e como o capitão findára de +escrever, preparamo-nos para partir para a grande dança, +porque o sol já +descia, e já ia fóra um rumor de regimentos +passando. Pelo prudente +conselho de Infandós envergamos as cótas de +malha,--que achamos +confortaveis e leves. A do barão, homem de forte estatura, +vestia-o como +uma pellica: a do capitão e a minha dançavam-nos +sobre as costellas com +pregas pouco marciaes. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A lua surgia, magnificamente clara, quando Infandós +appareceu, com todas +as suas plumagens e armas de gala, acompanhado de vinte guerreiros, +para +nos escoltar a palacio. Afivelamos os rewolveres á cinta, +empunhamos as +achas de guerra, e largamos--consideravelmente commovidos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +No terreiro, onde estiveramos de manhã, encontramos a mesma +formidavel +parada de regimentos, perfazendo talvez vinte mil homens--mas formados +de modo que entre cada companhia ficava um carreiro aberto +«para as +farejadoras de feiticeiros» (como nos foi explicando +Infandós). Não +havia outra luz além da lua, cheia e lustrosa, que punha +longas fieiras +de faiscas nos ferros altos das lanças. D’aquella +escura massa d’homens, +do luar, do silencio, sahia uma indefinivel impressão de +magestade e +tristeza. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Está aqui todo o exercito, murmurei eu para +Infandós. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Um terço, não mais, meu senhor. Outro +terço ficou nas guarnições. E o +outro está fóra, em torno a palacio, para o caso +de sedição, quando +começar a matança... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Escuta, Infandós! Achas que corremos perigo? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não sei, espero que não... Mas não +mostreis medo! E se escaparmos com +vida esta noite--quem sabe? Talvez ámanhã Tuala +seja como o raio que +feriu e se apagou. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Iamos no emtanto caminhando, através dos regimentos mais +immoveis que +bronzes, para espaço vasio diante da cubata real, onde havia +como de +manhã uma fila de escabellos d’honra. E ao mesmo +tempo outro grupo, com +um brilho e ruido d’armas, sahia da aringa real. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--É Tuala, disse baixo Infandós, e Scragga, e +Gagula, e os homens que +matam. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Os «homens que matavam» eram uns doze negros +gigantescos, de faces +hediondas, com plumagens vermelhas, armados de facalhões e +de azagaias +pesadas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bemvindos, gentes das estrellas! Gritou logo Tuala abatendo-se +pesadamente sobre um escabello. Sentai, sentai! E não +percamos o tempo +que a noite é curta para as grandes coisas que têm +de ser feitas. Olhai +em roda, e dizei-me se nas estrellas tivestes jámais tantos +valentes +juntos... Mas vêde tambem como elles já tremem, os +que abrigam maldade +no seu coração! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--<em>Começai</em>! <em>começai</em>!--ganiu +na sua silvante voz Gagula, que se +agachára aos pés do rei. As hyenas têm +fome de ossos, os abutres têm +sede de sangue... <em>Começai</em>! <em>começai</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Houve durante momentos um silencio lugubre, que pesava horrivelmente, +como um prenuncio de matança e de horror. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O rei então agitou a lança. Immediatamente vinte +mil pés se ergueram, e +tres vezes, em cadencia, bateram no chão que tremia. Depois, +lá ao +fundo, d’entre as densas e escuras filas de homens, subiu ao +ar um canto +solitario, arrastado, plangente, infinitamente triste, findando +n’este +estribilho: +</p> + +<p style="text-align: justify; margin-left: 40px;"> +--Qual é a sorte, sobre a terra,<br> + +De quem teve de nascer? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E os regimentos todos volviam, n’uma unica, grande e rolante +voz: +</p> + +<p style="text-align: justify; margin-left: 40px;"> +--Morrer! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Mas pouco a pouco, as companhias, umas após outras, foram +entoando uma +estrophe da canção, até que toda a +vasta multidão armada formava um +côro--côro barbaro, rude, informe, onde todavia por +vezes distinguiamos +como conscientes expressões de sentimentos--notas suaves e +lentas de +amor, brados triumphaes de guerra, canticos solemnes de +oração. Depois +os cantos varios fundiam-se n’um lamento unico, +contínuo, ululado, como +d’um povo n’um funeral. De repente tudo estacava. E +de novo o lugubre +estribilho gemia no ar: +</p> + +<p style="text-align: justify; margin-left: 40px;"> +--Qual é a sorte, sobre a terra,<br> + +De quem teve de nascer? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E de novo a multidão clamava n’um unisono +desolado: +</p> + +<p style="text-align: justify; margin-left: 40px;"> +--Morrer! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O canto por fim findou, um sombrio silencio cahiu, o rei levantou as +mãos. Immediatamente, sentimos como o trote ligeiro de +pés de gazellas: +e, d’entre os profundos renques dos soldados, appareceram +correndo para +nós estranhas e medonhas figuras. Percebi que eram mulheres, +quasi todas +velhas, pelos longos cabellos brancos e soltos que lhe batiam as +costas. +Traziam as faces pintadas ás listas brancas e vermelhas: dos +hombros +pendiam-lhe esvoaçando, e misturadas ás madeixas, +longas pelles de +serpente: em torno á cinta cahiam-lhe como breloques de +ossos humanos +que chocalhavam sinistramente: e cada uma brandia na mão uma +curta +forquilha. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ao chegarem em frente a Gagula pararam, ferindo o chão com +as +forquilhas. E uma, a mais alta, alargou os braços, gritou: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Mãe, aqui estamos! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--<em>Bem</em>, <em>bem</em>, ganiu o +decrepito monstro. Tendes hoje os olhos bem +claros, Isanusis? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem claros, oh mãe! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Tendes hoje os ouvidos bem abertos, Isanusis? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem abertos, oh mãe! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ide então! Farejai, farejai! Entre esses todos descobri os +que querem +mal ao seu visinho, os que possuem o gado indevido, os que tramam +contra +o rei, os que devem morrer por ordem de «cima»! +Farejai! Vêde os +pensamentos que se não mostram, ouvi as palavras que se +não dizem! Ide, +meus lindos abutres! Os homens das estrellas têm fome e +sêde de vêr a +grande Justiça! <em>Agora</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Com uivos horrendos, as sinistras creaturas dispersaram correndo, para +todos os lados, através das fileiras armadas. Não +as podiamos seguir a +todas na sua obra mortal. De sorte que, por mim, cravei a +attenção na +que ficou junto de nós, uma velha, esgalgado feixe +d’ossos, que deitava +lume pelos olhos. Quando esta Harpia chegou em frente aos soldados +parou +<em>farejando</em>. Depois rompeu a dançar, +girando sobre si mesma, tão +rapidamente, que as longas grenhas soltas pareciam uma estrella feita +de +estrigas de linho a redemoinhar pelo ar. No emtanto ia gritando por +entre silvos de alegria:--«Já o farejo, o homem do +mal! Alli está elle, +o que envenenou a mãe! Acolá treme o que pensou +mal do rei!» +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E, cada vez mais vertiginosamente, vinha girando, girando, +até que a +espuma lhe sahia aos flocos da bôca e os ossos lhe rangiam +alto! De +repente estacou, hirta, tesa, como petrificada. Depois, devagar, +devagar, como uma fera que rasteja, avançou de forquilha +estendida para +a fileira de soldados, que visivelmente se encolhiam n’um +indominavel +terror. Parou ainda, outra vez tesa e hirta. Por fim, com um brado +estridente, arremetteu, e bateu com a forquilha no peito d’um +rapaz +soberbamente forte. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Dois camaradas immediatamente o agarraram pelos braços, o +empurraram +para defronte do rei. O desgraçado caminhava sem +resistencia, inerte, já +morto na alma. O bando dos executores avançára a +passos graves: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Mata! Disse o rei. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Mata! Ganiu Gagula. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Mata! Rugiu Scragga. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E antes que as palavras se perdessem no ar, o miseravel +tombára morto, +com uma azagaia cravada no peito, o craneo aberto por uma pancada de +clava. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--<em>Um</em>, contou Tuala, sorrindo com +satisfação. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Mal findára o feito horrivel, já outro soldado +era arrastado como uma +rez,--um chefe decerto, esse, porque lhe pendia dos hombros a capa de +pelle de leopardo. Dois golpes de facalhão vibrados com +destreza +bastaram para o acabar sem um suspiro. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--<em>Dois</em>! Contou o rei. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E assim até cem! Até <em>cem</em>! E +nós alli, aterrados, immoveis, impotentes +para suster a carnificina, maldizendo surdamente a nossa impotencia! Eu +findára por fechar os olhos. Á meia noite emfim +houve uma suspensão. As +farejadoras esfalfadas, em grupo defronte do rei, limpavam lentamente o +suor. Respirei, n’um infinito allivio, suppondo que +findára todo este +incomparavel horror. Mas de repente, com desagradavel surpreza, +descobrimos Gagula, erguida, apoiada n’um cajado, dando +alguns passos +que tremiam e lhe sacudiam o craneo calvo de abutre. Coisa pavorosa, +vêr +o velhissimo monstro, ordinariamente vergado em dois pela decrepitude, +ganhando alento, remoçando quasi, já direito, +já vibrante, á medida que +se acercava da fileira dos homens, a recomeçar por gosto +proprio a obra +sinistra das «farejadoras»! Mas n’ella o +estylo era differente. Não +dançava, não uivava. Dando umas corridinhas +curtas, aqui e além, cantava +baixinho e tristemente, como para se embalar. Assim trotou, assim +cantarolou, até que de repente se precipitou sobre um +magnifico velho, +perfilado em frente a um regimento--e tocou-o silenciosamente com o +cajado. Um murmurio de dôr, de contida +indignação, correu entre os +soldados que elle evidentemente commandava. Todavia dois +d’elles, +empolgando-lhe os pulsos, arrastaram-no como um boi para o +açougue. +Soubemos depois que era um chefe de grande riqueza e de grande +influencia, primo do rei. Foi trucidado com azagaia, +facalhão e clava--e +Tuala contou <em>cento e um</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quasi immediatamente Gagula, depois de alguns saltinhos curtos de +macaca, começou a avançar para nós, +n’um movimento muito lento de valsa, +que era medonho na repulsiva bruxa. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Justos céos! Murmurou o capitão John, querem +vêr que agora é comnosco! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Tolice! Acudiu o barão, pallido todavia. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Eu por mim senti um suor frio na espinha. E Gagula, cada vez mais +perto,---com os olhos a saltar-lhe do craneo, um fio de baba na +bôca. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Por fim estacou, como um perdigueiro que avista a caça. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Qual será? Murmurou o barão. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Como se lhe respondesse, a velha deu um pulo, e tocou Umbopa (ou +Ignosi) +sobre o hombro: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Morte! Gritava ella. Morte! Cheiro-lhe o sangue! Está +cheio de +maleficio e de traição. Mata-o depressa, oh rei, +mata-o depressa antes +que por elle gema em desgraça o reino!... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Houve um silencio, um pasmo. E nem sei como (porque sou realmente um +cobarde) achei-me diante de Tuala, fallando com soberana firmeza: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Este homem, oh rei, é o servo dos teus hospedes, e quem +deseja o seu +sangue é como se desejasse o nosso! Pela lei de +hospitalidade, que +cumpre aos reis manter, exijo a tua protecção +para elle! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tuala franziu o sobr’olho: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Gagula, mãe das Isanusis, sabedora das artes, cheirou-lhe +a traição +dentro das veias. O homem tem de morrer, oh brancos! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Quem lhe tocar, exclamei, batendo furiosamente com o pé no +chão, é que +tem de morrer! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Agarrem-no! Bradou Tuala aos carrascos que esperavam em roda, +já todos +manchados de sangue. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Dois brutos romperam para nós--mas hesitaram. Ignosi erguera +a azagaia, +decidido a morrer combatendo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--P’ra traz, cães! Berrei eu, n’um tom +tremendo. Tocai n’um só cabello +do homem, e vós mesmos, e a vossa feiticeira, e o vosso rei, +não vereis +mais a luz do dia! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E bruscamente apontei o rewolver a Tuala. O barão tinha +já o seu erguido +contra um dos carrascos: e John marchára sobre Gagula. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Houve um instante de indizivel assombro. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Decide depressa, Tuala! Gritei, tocando-lhe quasi a testa com o cano +do rewolver. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O monstro, visivelmente apavorado, rosnou, n’um tom surdo: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Tirai para lá os vossos canos magicos! Invocastes as leis +da +hospitalidade, e só por amor d’ellas, +não por medo de vós, poupo a vida +a esse cão... Ide em paz. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Está bem, Tuala! E lembra-te sempre que contra os homens +das +estrellas, nada podem os homens da terra! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O rei, ainda tremulo de furor impotente, ergueu a lança. Os +regimentos +começaram logo a desfilar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +D’ahi a pouco estavamos na nossa aringa--conversando +á luz de uma das +curiosas lampadas que usam os Kakuanas, em que o pavio é +feito de fibra +de palmeira, e o azeite de toucinho de hippopotamo. E o que +affirmavamos +todos com convicção, com ardor, era a necessidade +e a justiça urgente de +ajudar a conspiração de Umbopa contra um +villão como Tuala! +</p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<h2 style="text-align: center;"><a name="cap_VIII"></a>CAPITULO +VIII +</h2> + +<h3 style="text-align: center;"> +A GRANDE DANÇA +</h3> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"> +Já muito tarde, quasi de madrugada, Infandós +appareceu, como promettera, +com os chefes seus amigos, todos homens de porte marcial e decididos. A +conferencia foi longa e curiosa. Ignosi, convidado a expôr a +sua +romantica historia e os seus direitos ao reino dos Kakuanas, +começou por +tirar a tanga em silencio e mostrar o emblema sagrado, a grande +serpente +tatuada na cinta. Cada chefe, um a um, tomava a lampada, e agachado +examinava o signal com respeito; depois, em silencio, passava a lampada +a outro. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Em seguida Ignosi, reatando a tanga, contou a sua vida estranha, desde +a +fuga com a mãe através do deserto. Os chefes +permaneceram calados. +Infandós, por seu turno, recordou os longos crimes de Tuala, +retraçou as +matanças d’essa noite de festa em que dois +guerreiros valentes, de casas +illustres, tinham sido trucidados só por possuirem grandes +rebanhos que +Scragga appetecia. Por fim fez um grande appello á +razão e ao coração +dos chefes, que só tinham a escolher entre o monstro que por +avidez e +capricho lhes arrancava a vida, ou o homem que lhes garantia a +existencia feliz nas suas senzalas e a posse tranquilla dos seus gados. +Mas, com espanto nosso, os chefes pareciam hesitantes e desconfiados. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Finalmente, um d’elles, homemzarrão possante, de +carapinha branca, deu +um passo, e declarou que a terra na verdade gemia sob a crueldade de +Tuala, e que seu proprio irmão n’essa noite estava +sendo pasto das +hyenas...--Mas aquelle era um singular e confuso caso! E quem lhes +afiançava que elles não ergueriam as suas +lanças por um impostor? A +guerra era certa. Muitos ficariam fieis a Tuala, porque mais se adora o +sol que brilha, que o sol que ainda não nasceu. Necessitavam +pois uma +evidencia. E quem melhor lh’a poderia dar que os homens das +estrellas, +senhores das grandes artes magicas, que tinham trazido Ignosi ao paiz, +e +sabiam decerto os segredos? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Se elle é o herdeiro legitimo, os homens que o trouxeram +das estrellas +que o provem, fazendo um grande milagre. Só assim o povo +acreditará e +tomará armas por elle! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Mas a cobra, o emblema sagrado! Exclamei eu. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não basta. A cobra podia ser pintada no ventre +já depois de elle ser +homem... Necessitamos um milagre! O povo não se move, nem +nós mesmos, +sem um milagre! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Um <em>milagre</em>! A situação era +terrivel e grotesca. Exigir-se um milagre a +tres honestos e ingenuos mortaes, que nem sequer sabiam, como qualquer +prestidigitador de feira, escamotear uma noz dentro da manga! E terem +os +honestos mortaes de fazer o milagre--ou de perder a vida!... Voltei-me +para os meus companheiros, a explicar rapidamente o risivel e perigoso +lance. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Parece-me que se póde arranjar, disse John, depois de um +curto +silencio. Peça a estes amigos que nos deixem sós, +Quartelmar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Abri a porta da cubata, os chefes sahiram. E apenas os passos morreram +na sombra: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Temos o eclipse! Exclamou o nosso admiravel John. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Era o eclipse que elle descobrira na vespera, folheando o almanach (o +<em>Livro de Bordo</em>), e que n’esse dia, +ás duas e quarenta minutos, devia +ser visivel em toda a Africa. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ahi está o milagre! Affirmava John. É annunciar +aos chefes que para +lhes provar que Ignosi é o rei, e que devem pegar em armas +por elle, nós +faremos desapparecer o sol! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A idéa era esplendida. O unico receio é que o +almanach estivesse errado. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não! É um almanach maritimo, não +póde estar errado. Os eclipses são +calculados mathematicamente. Não ha nada mais pontual que um +eclipse... +Durante meia hora, tres quartos de hora talvez, esta região +toda ficará +em trevas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Eu, por mim, disse o barão, parece-me que devemos arriscar +o eclipse. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Vá pelo eclipse! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Mandamos Umbopa buscar os chefes. Quando voltaram, cerrei a porta da +cubata com um sombrio apparato de mysterio, e comecei por lhes +declarar, +magestosamente, que nós os homens das estrellas +não gostavamos de +alterar o curso natural das coisas e mergulhar o mundo em terror e +confusão... Mas, como se tratava d’uma grande e +santa causa, estavamos +decididos a fazer um milagre. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Escutai! Julgaes vós que um homem póde soprar +sobre o sol, e +<em>apagal-o</em>? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Os chefes olharam para mim, recuando com assombro. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não, murmurou um d’elles, não ha +homem que o possa fazer! O sol é mais +forte que toda a terra! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Perfeitamente, conclui eu. Pois ámanhã, depois +do meio dia, nós homens +das estrellas apagaremos o sol durante uma hora, espalharemos trevas +sobre a terra, e será o signal de que Ignosi é o +verdadeiro rei dos +Kakuanas e que o povo deve tomar armas por elle. Será +bastante este +milagre? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O chefe da carapinha branca abriu os braços para +nós, esgazeado: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Oh gentes das estrellas, senhores das grandes artes, esse milagre +será +mais que bastante! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem. Tereis o milagre. Agora Infandós, que é +experiente, diga o +momento em que mais convem que nós apaguemos o sol. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Apagar o sol! Murmuravam os chefes entre si. A grande lampada! O pae +de tudo, que brilha eternamente! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Falla, Infandós! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Meu senhor, é na verdade um milagre espantoso que +vós prometteis! Mas +emfim... O melhor momento é o da dança das +Flôres, que ha de logo +começar ao meio-dia. As mais lindas raparigas de +Lú estão lá, para +dançar. E aquella que Tuala achar mais linda de todas +é, segundo o +costume, morta por Scragga em sacrificio aos <em>Silenciosos</em>, +as figuras +de pedra que estão além na montanha vigiando. Que +os meus senhores +n’esse momento apaguem o sol, salvem a rapariga, e o povo +acreditará! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--O povo na verdade acreditará! Exclamaram todos os chefes. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--A duas milhas de Lú, continuou Infandós, ha uma +collina em fórma de +meia lua, que é realmente uma fortaleza, onde +estão aquartelados o meu +regimento e tres outros que estes chefes commandam. Mas podemos +arranjar +de modo que ainda esta manhã cedo marchem para lá +tres ou quatro +regimentos dos mais fieis á minha vontade. E se os meus +senhores +apagarem com effeito o sol, eu poderei, a favor da +escuridão, fazel-os +sahir do terreiro real e da cidade, e leval-os para essa fortaleza, +onde +ficarão a salvo e d’onde começaremos a +guerra contra o rei. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Está entendido, resumi eu. Agora ide, que queremos dormir +e depois +combinar com os Espiritos! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Com longas reverencias, Infandós e os chefes deixaram a +nossa aringa. O +sol ia nado. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Oh meus amigos, exclamou Ignosi, apenas elles partiram. É +certo que +podeis fazer esse milagre, ou estaveis vós ganhando tempo e +soltando no +ar palavras vãs? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Parece-me que não nos ha de ser difficil, meu Umbopa, +quero dizer, meu +Ignosi, declarei eu sorrindo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--É espantoso! Apagar o sol... E todavia sois inglezes, e o +inglez tudo +póde! Mas ah, se vós fizerdes isso por mim, o que +não farei eu por vós? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Uma coisa já tu nos podes prometter, Ignosi! Acudiu +gravemente o +barão. É, se chegares a ser rei com o nosso +auxilio, acabar com as +«farejadeiras de feitiços», com +matanças como as d’esta noite, e não +consentir que homem algum seja condemnado sem provas de crime, e sem +ter +sido julgado pelos doze mais velhos do logar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Era o jury, santissimo Deus! Era a nobre +instituição do jury, que este +digno barão queria implantar no centro selvagem da Africa! +Não ha senão +um liberal inglez para estas esplendidas +imposições de civilisação e +de +ordem. Com razão hesitou o astuto Ignosi! Com +razão conservou longo +tempo dois dedos sobre a testa, calculando. Por fim, n’um +rasgo de +generosidade ou de condescendencia: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Os costumes dos pretos não se podem moldar pelos costumes +dos brancos. +Comtudo, uma coisa te prometto, Incubú! É que +não haverá no meu reino, +nem matanças de festa, nem execuções +sem julgamento. Estás contente? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão apertou-lhe a mão em silencio. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +D’ahi a pouco estavamos estendidos nos leitos de folhas +sêccas, e +profundamente dormimos, até que Ignosi nos acordou +ás onze horas. O +nosso primeiro cuidado foi instinctivamente correr fóra da +cubata, olhar +para o sol. Nunca esse divino astro me pareceu tão brilhante +e tão +seguro da sua luz. Nem um signal de eclipse! Uma radiancia firme, +absoluta, que nenhum movimento dos corpos celestes parecia poder +alterar! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Pois, meu digno astro--murmurei eu, ousando interpellar directamente +a +fonte de toda a vida--se continuas assim, todo o dia, acabas, sem +querer, com tres honrados homens! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Depois de almoçar, um solido e valente almoço que +nos amparasse na crise +imminente, revestimos as cótas de malha, afivelamos os +cinturões de +cartuchame, e de outros modos nos apetrechamos para a grande +dança. E ao +meio dia para lá voltamos os passos--que a +inquietação interior e a +certeza do perigo não permittiam que fossem nem bem alegres +nem bem +ligeiros! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O terreiro real offerecia n’essa manhã um aspecto +bem diverso--e onde na +vespera reinára o horror transbordava agora a +graça. Em logar de fuscos +e duros guerreiros, todo o espaço estava occupado por longas +filas de +raparigas kakuanas, escuras tambem é verdade, mas lindas, +pelas fórmas, +a expressão, a viçosa mocidade. <em>Toilette</em>, +não tinham nenhuma--nem +mesmo o <em>panno</em>, a tanga da Africa civilisada: mas +salvavam esta +encantadora deficiencia pelo franco luxo das flôres. Todas +traziam na +cabeça uma corôa de flôres; grinaldas de +flôres, grandes como festões, +envolviam-lhes a cinta; e cada uma segurava nas mãos uma +palma verde e +um lyrio branco. Nos escabellos de honra já estava o +rei--acompanhado +por Infandós, Scragga, guardas emplumados e a sinistra +Gagula. +Reconhecemos tambem, de pé, por traz d’elle, +alguns dos chefes que +n’essa noite tinham comnosco conspirado. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tuala acolheu-nos com muita cordealidade ostensiva--dardejando ao mesmo +tempo sobre Umbopa um olhar sangrento e mau. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bemvindos, homens das estrellas, bemvindos! Vêdes hoje aqui +coisas +diversas; mas não tão bellas, não +tão bellas! Beijos e festas de +mulheres são dôces; mas é mais +dôce o brilho das lanças e o cheiro do +sangue. Olhai em redor, gentes das estrellas: e se quizerdes casar +n’esta terra, escolhei, escolhei... Podeis levar +d’estas raparigas as +melhores, e tantas quantas pedirem os vossos desejos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O nosso John, extremamente sensivel e amoroso como todos os +marinheiros, +deu logo um passo, teve um sorriso, como se se preparasse a aceitar e a +recrutar alli, para occupar o seu coração na +terra dos Kakuanas, um +serralhosinho de donzellas escuras. Mas eu, homem idoso e experiente, +receiando as complicações do eterno feminino, +apressei-me a recusar: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não, Tuala, obrigado! Os homens brancos que vêm +das estrellas só se +ligam ás mulheres brancas que estão nas +estrellas... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tuala riu: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Está bem, está bem... Nós temos um +proverbio kakuana que diz: +«Aproveita a que está perto, porque com certeza a +que está longe te +engana!» Mas talvez seja d’outro modo nas +estrellas... Sêde pois +bemvindos, e comece a dança! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Um grande tam-tam resoou, acompanhado por finas flautas de cana em que +tres mocinhos sopravam agachados no chão. As fileiras de +raparigas +avançaram, cantando um canto muito lento e +dôce,--e fazendo ondular nas +mãos as palmas e os lyrios. Era um grande bailado barbaro, +infinitamente +pittoresco. As raparigas ora saltavam brandamente sobre as pontas dos +pés, n’uma graciosa languidez de gestos; ora, +enlaçadas aos pares, +redemoinhavam vivamente; ora, fileira contra fileira, simulavam uma +batalha, tendo por armas os ramos de palma; ora, ajoelhando em +reverencia, offertavam os lyrios ao rei. Depois eram grandes marchas +bem +ordenadas em que o canto tomava um tom triumphal; e logo uma alegre +confusão, n’uma grulhada melodiosa, com um vivo +saltar de corpos +ageis--que espalhava pelo ar as petalas das flôres +desfolhadas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Por fim o bailado parou: e uma esplendida rapariga, de olhos radiantes, +mais airosa que uma Diana caçadora, avançou +devagar, e rompeu n’uma +dança estranha, cheia de graça e de brilho, em +que os movimentos tudo +traduziam, desde os requebros fugidios da noiva timida até +os pulos +bravos da corça ciosa... Assim dançou longamente: +os seus olhos cada vez +mais rebrilhavam: a grinalda que lhe envolvia a cinta desfizera-se +flôr +a flôr; e todo o corpo adoravel lhe reluzia ao sol como um +bronze +humedecido. Por fim, cançada, sorrindo, recuou +até ao grupo das +bailadeiras onde ficou de olhos baixos, a refrescar-se com o seu ramo +de +lyrios. Veio então outra, muito alta, dançar; e +outra depois, e muitas +ainda, todas bellas e habeis;--mas nenhuma como a Diana +caçadora tinha +belleza, graça e consummada arte. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O rei ergueu a mão, o tam-tam cessou. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Gentes das estrellas, disse elle, qual d’ellas achaes mais +linda? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--A primeira, respondi eu irreflectidamente. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E logo me arrependi, lembrando o que annunciára +Infandós--que a mais +linda tinha de perecer, sacrificada aos idolos. Ao mesmo tempo deitei +um +olhar ao sol que continuava a refulgir com uma teima desesperadora. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tuala no emtanto sorria: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Os vossos olhos, gentes das estrellas, vêem +então como os meus. A +primeira é a mais bonita. E mau é para ella que +tem de morrer! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--<em>Tem de morrer</em>! Echoou Gagula que parecera +dormitar durante a festa, +e acordava, já interessada, desde que presentia sangue e +dôr. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Morrer! Exclamei eu, sorrindo tambem, como se não +acreditasse. Porque, +oh rei? Ella dançou bem, a todos agradou. Além +d’isso é moça e linda. +Seria cruel e estranho recompensal-o com a morte. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A fera affectou uma sympathia, que, n’elle, arripiava: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Tambem o lamento, mas é o costume do meu reinado. Os <em>Silenciosos</em>, +que estão além na montanha vigiando, precisam +receber o seu tributo. Ha +uma prophecia do nosso povo que diz: «O rei, que no dia da +grande dança +não sacrificar aos Silenciosos a mais linda das donzellas, +perecerá, e +com elle a sua casa». Por não ter cumprido a ordem +de «cima», cahiu meu +irmão e em seu logar reino eu... Ide (voltando-se para os +guardas), +trazei a virgem! E tu, meu Scragga, aguça a +lança! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Dois da guarda real marcharam para a pobre e dôce rapariga, +que +desfolhava nervosamente as pétalas do seu lyrio branco. De +repente, e só +então, ella pareceu comprehender a fatalidade que a perdia, +por ser +formosa e pura. Deu um grito, tentou fugir. Duas mãos fortes +agarraram-na e trouxeram-na, toda em lagrimas e debatendo-se, para +diante de Tuala. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que nome é o teu, linda moça? Ganiu a horrivel +Gagula. Não respondes? +Queres que o filho do rei tenha de erguer a lança, sem saber +quem tu +sejas? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A isto, Scragga deu um salto com sofreguidão, +alçando a sua immensa +azagaia. Vendo o ferro luzir, a pobre rapariga cessou toda a lucta +entre +as mãos fortes dos guardas. E com grandes lagrimas que lhe +cahiam, ficou +toda, toda a tremer. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O medonho Scragga teve uma risada bestial: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Como ella treme, como ella treme diante da minha força! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ah canalha, se te apanho a geito! Rosnou o capitão, +apertando na mão o +rewolver. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +No emtanto Gagula, com atroz zombaria, animava a desgraçada: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Socega! Dize o teu nome. Vem, filha! Não temas! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Oh mãe! Balbuciou a pobre creatura entre +soluços, n’uma voz que +desfallecia. Oh mãe! O meu nome é Fulata, e sou +da casa de Suko. Mas +porque hei de eu morrer, eu que não fiz mal nenhum? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Tens de morrer, proseguiu a hedionda velha, para contentar os que +vigiam além na montanha. Mais vale dormir de noite que +trabalhar de dia. +Mais vale estar quieta e morta que agitada e viva. E tu, filha ditosa +da +casa de Suko, vaes morrer ás mãos reaes do filho +do nosso rei. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Olhei anciosamente para o sol. Nada! Um brilho impassivel, que achei +quasi cruel! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +No emtanto a pobre Fulata, apertando desesperadamente as +mãos, +supplicava, com gritos de angustia: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Oh mãe, oh rei, não me deixeis morrer!... E eu +tão nova! Pois nunca +mais hei de vêr a aringa de meu pae? Nem embalar meus +irmãos pequeninos? +nem cuidar dos cordeiros doentes? E porque? Mandaram-me aqui para +dançar +e eu dancei! O meu noivo está lá fóra +á minha espera! Minha mãe ficou +sentada debaixo das machabelles até que eu volte para mugir +as vaccas... +E porque hei de eu morrer? Nunca fiz mal nenhum; e no terreiro da nossa +casa deixava sempre cahir grãos de aveia para os passaros +levarem aos +ninhos... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Nas proprias faces dos guardas e dos chefes perfilados junto a Tuala se +espalhava um ar de piedade. Muitas raparigas soluçavam +baixo. E +subitamente, o capitão John, sem se poder conter mais, +arrancou o +rewolver da cinta e fez um movimento tão saliente, de +tão clara +intervenção--que a rapariga viu, n’um +relance comprehendeu... +Desprendendo-se dos guardas, que a seguravam frouxamente, veio +arrojar-se aos pés de John, abraçando-lhe as +pernas núas: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Oh pae branco, que vens das estrellas! Gritava ella. Deixa acolher-me +á sombra da tua força... Salva-me +d’estes homens, e de Gagula, a mãe que +é tão cruel... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tornei a olhar para o sol... E com um allivio, uma alegria +tão intensa +que ainda hoje o recordal-a me aquece o coração, +vi uma linha de sombra, +muito fina ainda, surgindo á orla do disco radiante! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--O eclipse! Gritei eu para os outros. John, conserve ahi a rapariga +atraz! E armas na mão, rapazes! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Immediatamente, avancei para o rei: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Tuala, exclamei com firmeza e arrogancia. Nós, gentes das +estrellas, +não podemos consentir n’esta maldade! Tal +não será! Deixa que a rapariga +volte para a sua morada! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tuala ergueu-se com um pulo brusco de surpreza e de colera. E dos +chefes, das agitadas filas de mulheres, subiu um murmurio que era de +assombro, e talvez de esperança. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--<em>Não consentis</em>! Bramiu o rei, com o +olho sangrento dardejando lume. E +quem és tu, perro branco, para vir latir contra o +leão na sua caverna? +<em>Tal não será</em>! E como o podes +tu impedir? Vai talvez a tua vontade +prevalecer contra a minha força? Scragga, mata a creatura! E +vós +guardas, olá, agarrai esses homens! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Uma multidão de soldados surgiu, correndo, detraz da aringa +real. O +barão, Umbopa e o capitão (com Fulata agarrada a +elle) vieram pôr-se ao +meu lado de carabinas apontadas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Outro olhar meu ao sol! A linha de sombra, lenta e gradualmente, +avançava sobre o globo rutilante. Com esplendida +confiança, ergui a mão, +bradei: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Parai! Nós, os filhos das estrellas, decidimos que a +rapariga não +morrerá! E se alguem ousar ir contra a nossa vontade, ou +avançar contra +nós um passo, nós, os magicos das grandes artes, +apagaremos o sol e +mergulharemos o mundo em trevas! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O effeito foi tremendo. Os soldados estacaram. E Scragga ficou diante +de +nós, com a lança erguida no ar, como uma figura +de pedra. Mas Gagula +erguera-se, sacudindo os braços com furor: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ouvi, ouvi o grande mentiroso, que diz que apaga o sol como um lume +da +terra! Pois que o faça, e a rapariga irá livre +para a sua morada! Mas se +o não fizer, oh rei, que elle morra com ella, e com elle +morram os cães +malditos que vêm latir contra ti! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Sem mais, ergui a mão solemnemente para o sol (movimento que +logo +imitaram John e o barão) e rompi a bradar. Não me +lembro já das coisas +absurdas que tumultuosamente atirei ao divino astro. Recitei-lhe versos +de Shakespeare, pedaços da Biblia, proverbios, datas, nomes +de firmas +commerciaes que me acudiram, as ruas da cidade do Cabo,--que sei eu? +Tudo o que me affluia aos labios, e que fosse <em>em inglez</em>, +na lingua +magica. Ousei mesmo espantosas familiaridades com o respeitavel centro +do systema planetario. Gritava: «Anda-me assim, solzinho da +minha alma! +P’ra diante, valente! Deixa avançar essa rica +sombra! Ah que estás um +catita, meu astro! Mais, mais!...» +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E o sol obedecia! A mancha escura, nitida e convexa, +avançava, comia a +luz immortal. Um grande susurro de terror agitava a +multidão. Volvi +então a fallar kakuana, livremente: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Vê tu, oh rei! Vê tu, Gagula! Vêde +vós, oh chefes! Mentem então os +homens das estrellas? Quizestes a treva eterna, eil-a que vos vem +tragar!... Oh sol, pae de tudo, reluzente e triumphante, retira a luz, +some-te á nossa ordem, mata o mundo com escuridão +e frio, e, que sem ti, +parem para sempre estes corações crueis!... O sol +vai morrer! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Gritos de terror resoavam já no terreiro. As mulheres, +cahidas de +joelhos, choravam, implorando misericordia. E o rei, calado, tremia. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Só Gagula resistia ao pavor: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Vai passar, vai passar! Uivava ella. Eu já vi o sol assim. +Ninguem o +póde apagar. Ficai quietos! Socegai! A sombra vem e vai... +Eu já vi, eu +que sou a mais velha, e conheço os segredos! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Eu por mim animava os companheiros: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Vá, rapazes! Já não sei que hei de +dizer ao sol. Veja se se lembra de +alguns versos, barão. Tudo serve, até pragas! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E John, admiravel marinheiro, rompeu então a praguejar. Foi +sublime. +Teve todas as pragas classicas,--e teve-as ineditas. Nem eu suppunha +mesmo que a Humanidade possuisse, no seu vocabulario, uma tal riqueza +de +blasphemias! O que o Rei do Dia ouviu! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +No emtanto a mancha negra alastrava. Estranhas, sinistras sombras +fluctuavam no ar. Uma triste quietação descia +sobre a terra. Todos os +passaros se tinham calado. Ao longe os cães uivavam. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E a mancha crescia, crescia... A atmosphera tornára-se +espessa. Já mal +distinguiamos as faces crueis da gente real. Esmagadas de temor, as +mulheres nem tugiam. Por fim John parou a torrente de invectivas. E o +que restava do sol parecia uma luz agonisante. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--O sol morreu! Berrou de repente Scragga. Os bruxos das estrellas +mataram o sol! Tudo vai morrer nas trevas!... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E fosse o delirio do medo ou da raiva, ergueu a azagaia, arremessou-a a +toda a força contra o peito do barão. Mas a +cóta de malha repelliu o +ferro. E antes que elle podesse revibrar o golpe, o barão +arrancára-lhe +a lança das mãos e passou-lh’a +através do coração. Com um uivo +hediondo, +Scragga tombou morto. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quasi nada restava da luz. Era como se tudo acabasse conjuntamente, o +sol, o mundo, e a descendencia do rei! N’um terror indizivel, +a multidão +de raparigas largou fugindo, em confusão e gritos, para as +portas da +aringa. Foi um panico estonteado. Os guardas, arrojando as armas, +galgavam as estacadas. Os chefes, aos saltos por cima dos escabellos, +desappareciam como lebres. E por fim, o proprio e ferocissimo rei, com +Gagula atraz, arremetteram para as cubatas, ganindo n’um +pavor vil. Uma +debandada--que nos deixou sós, eu, os amigos, a pobre Fulata +ainda +agarrada a John, Infandós, os chefes que conspiravam, e o +cadaver de +Scragga. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Chefes! Gritei eu. Eis o milagre que tinhamos promettido. Sabei agora +que Ignosi é o rei unico e forte. O feitiço +está trabalhando. Corramos +para a cidadella que dissestes, emquanto a treva dura! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Vinde! Exclamou Infandós, segurando-me pela +mão. E vós todos segui! O +dia é nosso! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ao chegarmos á porta da aringa, a luz findou inteiramente. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Agarrados uns aos outros pelas mãos, com Fulata no meio, +fomos +tropeçando através da escuridão. +Dentro das senzalas ouviamos gemidos de +terror. E para o augmentar, lançavamos a espaços, +através da treva, um +lugubre brado de revolta e de guerra: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Morte a Tuala! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<h2 style="text-align: center;"><a name="cap_IX"></a>CAPITULO +IX +</h2> + +<h3 style="text-align: center;"> +ANTES DA BATALHA +</h3> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Durante mais de uma hora caminhamos, através da +escuridão, guiados por +Infandós e pelos chefes--até que de novo surgiu, +como um fino traço +luminoso, a orla do sol. D’ahi a pouco havia já +luz sufficiente; e +achamo-nos então longe de Lú, junto de uma larga +collina, de duas fartas +milhas de circumferencia, em fórma de ferradura, e toda ella +inteiramente plana no topo. Desde tempos immemoriaes, aquelle planalto +fôra (segundo nos disse Infandós) aproveitado como +acampamento +permanente, e ordinariamente occupado por uma +guarnição de tres mil +homens. N’essa manhã, porém, +á maneira que iamos trepando os flancos da +collina, á luz já viva e quente do sol, +descobriamos successivos +regimentos, formando uma divisão de dezoito ou vinte mil +homens, quasi +todos veteranos. Estavam ainda sob o espanto e terror da mysteriosa +treva que de repente os envolvera. E foi em silencio que passamos +através das suas filas cerradas, em +direcção a um grupo de cabanas que +se erguia a meio do planalto. Com surpreza e grande alegria encontramos +lá dois servos, á espera, carregados com todas as +nossas bagagens, +cantinas, e munições que n’essa +manhã deixaramos nas cubatas de Lú. +N’uma trouxa as calças de John. Com que +sofreguidão elle as envergou, +pudico homem! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Fui eu que mandei vir tudo, á cautela! Explicou o +serviçal Infandós. +Quem sabe quantos dias estaremos n’este deserto! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Como não havia tempo a desperdiçar, o velho e +activo guerreiro deu ordem +para que se formassem as tropas immediatamente. Era necessario antes de +tudo (disse elle) aclarar aos regimentos os motivos da revolta +já +decidida pelos chefes, e apresentar-lhes Ignosi, o legitimo rei por +quem +iam combater. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Meia hora depois os regimentos (a flôr do exercito dos +Kakuanas) estavam +em formatura nos tres lados d’um immenso quadrado. Do lado +aberto +ficamos nós com Ignosi, o velho Infandós e os +chefes conjurados. Logo +que um arauto intimou silencio--Infandós avançou: +e com um calor, um +enthusiasmo, irresistivelmente persuasivos, narrou a historia de +Ignosi, +o seu nascimento real, a serpente tatuada na cinta, a tragica morte de +seu pae á mão de Tuala, a sua fuga +através dos montes, o seu exilio +entre estranhos. Depois retraçou o reinado cruento de Tuala, +os seus +crimes, as suas espoliações, as frias e inuteis +crueldades. Em seguida +contou como os homens brancos das estrellas, que de lá de +cima tudo +vêem, se tinham compadecido da grande +afflicção que ia no reino dos +Kakuanas; como tinham ido então buscar Ignosi, o rei +legitimo, ás terras +distantes onde elle definhava no exilio, e o haviam trazido pela +mão, +através dos areaes e dos montes, ao paiz de seus paes; como +n’essa +manhã, para mostrar a Tuala e a todos o seu poder magico, e +provar aos +chefes descontentes que Ignosi era rei, elles com as suas artes tinham +apagado, e depois tornado a accender o sol; e como, emfim, esses +magicos +que nenhuma força vencia estavam dispostos a derrubar Tuala, +o falso +rei--e pôr em seu logar Ignosi, o rei verdadeiro! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Apenas elle findára, entre um longo murmurio de +approvação, Ignosi deu +dois passos, e, alteando a sua nobre estatura, appellou para as +tropas.--Ellas tinham ouvido Infandós, seu tio! Cada palavra +d’elle +luzia como a verdade. Os Kakuanas agora só podiam escolher +entre Tuala, +o monstro que os roubava, os trucidava, e cobria a terra de horror e +desordem,--e elle, rei legitimo, que não permittiria mais no +reino a +caça aos feiticeiros, nem matanças de festa, nem +castigos sem +julgamento, nem a oppressão dos mais fortes... Pelo +contrario, sob elle, +só haveria paz e abundancia! A todos os que alli estavam e o +ajudassem +daria cubatas, mulheres e gados:--e todos, ganha a victoria sobre +Tuala, +iriam viver nas suas senzalas bem providas, em descanço e +alegria para +sempre. De resto, os homens das estrellas estavam com elle, a seu lado, +para manter os seus direitos. E quem podia ir contra a força +das suas +artes magicas? Não tinham elles visto o sol apagado, depois +outra vez +brilhante, á ordem dos espiritos brancos? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Um rumor de acquiescencia, de adhesão, corria já +entre as tropas. Ignosi +então recuou um passo, e erguendo no ar o seu formidavel +machado de +guerra: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Eu sou o rei! Na verdade vos digo que sou o rei! E se ahi ha alguem, +d’entre vós, que diz que eu não sou o +rei, que sáia a terreiro, se bata +commigo, e bem cedo o seu sangue correndo no chão +provará que na verdade +sou rei. Escolhei pois entre mim e Tuala, oh chefes, soldados, +vós +todos! Sou eu o rei! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--És o rei! Foi a universal, acclamadora resposta, que +atroou toda a +collina. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem! Tuala está mandando já emissarios a reunir +os seus homens para +nos combater. Os meus olhos estão abertos, e +verão aquelles que mais +fieis me são, e que merecerão mais terra, mais +gado, mais riqueza. E +agora ide, e preparai-vos para as batalhas, em defeza do vosso rei! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Houve um silencio. Um dos chefes ergueu a mão; e os vinte +mil homens, +ferindo o sólo com as azagaias, soltaram a grande +saudação real--<em>krum</em>! +<em>krum</em>! <em>krum</em>! Ignosi estava +acclamado rei. Os batalhões immediatamente +recolheram aos seus acampamentos. No planalto reinou silencio e ordem. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Logo depois celebramos um conselho de guerra, com todos os +capitães. Era +evidente que em breve seriamos atacados pelas tropas fieis a Tuala. +Já +do alto da nossa collina nós viamos regimentos marchando, a +concentrar-se em Lú--e um incessante movimento de armas por +toda a +estrada de Salomão. Do nosso lado contavamos com vinte mil +homens. +Tuala, segundo o calculo dos chefes, poderia ter reunidos na +manhã +seguinte trinta e cinco a quarenta mil soldados. Mas d’esses, +muitos +eram recrutas; e a forte flôr do exercito, os veteranos +endurecidos, os +capitães de experiencia estavam felizmente comnosco, sobre a +collina da +Revolta. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O primeiro cuidado era fortificar a nossa +posição. Começámos por +obstruir com grossos rochedos todos os carreiros que subiam da +planicie. +Nos pontos mais accessiveis erguemos estacadas e trincheiras. +Accumulámos á orla do planalto montes de pedras +para arremessar sobre os +assaltantes. Aqui e além cavámos fossos. E, como +todo o exercito +trabalhava, ao fim da tarde a collina fôra convertida em +cidadella. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Justamente antes do pôr do sol, vimos um grupo de homens que +de uma das +portas de Lú avançava para nós, +fazendo soar um tam-tam. Um d’elles +trazia na mão uma palma verde. Era um arauto. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ignosi, Infandós, dois ou tres chefes, eu e os amigos +descemos ao seu +encontro. Vimos um soberbo homem, ainda moço, com a pelle de +leopardo +aos hombros. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Saude! Gritou elle, parando e agitando a palma. O rei envia o seu +saudar áquelles que lhe fazem uma guerra infiel. O +Leão envia o seu +saudar aos chacaes. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Falla! Bradei. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Estas são as palavras do rei:--«Entregai-vos +á minha mercê, antes que +a minha forte mão cáia sobre +vós!»--Assim disse o rei. Já foi +arrancada +ao toiro negro a espadoa direita! Já o rei o anda enxotando +ensanguentado em volta ao acampamento!<a href="#2">[2]</a> +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Quaes são as condições de Tuala? +Perguntei por curiosidade. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O arauto declarou que as condições eram +misericordiosas e dignas de um +grande rei. Muito pouco sangue o contentaria. De cada dez homens um +seria morto, os outros perdoados; mas o branco Incubú que +matára +Scragga, o servo Ignosi que pretendia o seu trono, e +Infandós que +preparára a rebellião, seriam postos a tormentos, +em sacrificio aos +<em>Silenciosos</em>. Taes eram as misericordiosas +condições do rei. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Consultei um instante com os chefes, e repliquei, n’um tom +estridente +para que todos os soldados ouvissem, por sobre a collina: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Volta para Tuala que te mandou, oh cão, filho de +cão! E dize-lhe em +nome de Ignosi, legitimo rei, e de Infandós, seu tio, e dos +homens das +estrellas que apagam o sol, e de todos os chefes e soldados aqui +juntos, +dize a Tuala--que antes que o sol dê duas voltas o cadaver de +Tuala +jazerá hirto e frio no terreiro de Tuala... Vai e treme, oh +cão, filho +de cão! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O official riu, com arrogancia: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não se assustam homens com palavras inchadas! +Ámanhã se verá em que +terreiro e que corpos jazerão hirtos e frios. Adeus pois, +homens das +estrellas. Para meu proprio regalo espero que tenhaes o +braço tão forte +como tendes ousada a lingua! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Com este sarcasmo o valente voltou costas. Quasi immediatamente a noite +desceu. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Á luz da lua ainda continuaram os trabalhos da defeza. +Depois, já por +noite alta, quando tudo se completára, o barão, +Ignosi e eu, +acompanhados por um dos chefes, descemos a collina a visitar os postos +avançados. Á maneira que caminhavamos, viamos de +repente surgir dos +sitios menos esperados, de uma cova na terra, de uma moita de arbustos, +de um montão de rochas, alguma enorme figura emplumada, com +a ponta da +azagaia rebrilhando á lua, que, trocada a palavra de passe, +logo se +sumia, como dissolvida na sombra das coisas. A vigilancia era realmente +perfeita. Demos assim toda a volta á collina, que tornamos a +subir pela +vertente norte, através das companhias de soldados +adormecidos. A lua +batia nas lanças ensarilhadas. Aqui e além uma +sentinella destacava +immovel, com as suas altas plumas ondeando á brisa fria da +noite. E os +robustos homens escuros, estirados no chão, uns contra os +outros, no +confuso abandono da fadiga e do somno, formavam como um vasto +montão de +humanidade já prostrada e preparada para a sepultura. +Quantos d’aquelles +estariam ainda vivos quando na outra noite de novo nascesse a lua? +Estranha fatalidade e tristeza da vida! Muitos d’esses tinham +alegria e +paz nas suas aringas. Um principe ambicioso passava. E eis que milhares +que alli dormiam um somno tranquillo cahiriam, varados por +lanças, +seriam frios cadaveres, desappareceriam em pó impalpavel, +sem de si +deixar mais vestigio que folhas de arvores que um vento leva. E +nós +mesmos--quem sabe? Tornariamos nós a vêr a lua +brilhar n’aquella +collina? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Barão, disse eu de repente, dando voz a estes pensamentos, +sinto-me +n’um lamentavel estado de atrapalhação +e de medo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--O amigo Quartelmar costuma sempre queixar-se... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não, não! D’esta vez é +serio. Nem sinto as pernas. Nós ámanhã +somos +atacados com forças colossalmente superiores e +não escapa um de nós. É +estupido! E para que? Não temos nada com as +questões dynasticas dos +Kakuanas! Somos estrangeiros, somos neutros! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--É verdade. Mas já agora, estamos envolvidos na +aventura e é necessario +leval-a a cabo airosamente. E depois, que diabo, Quartelmar! Mais vale +morrer de repente, n’uma batalha, que durante mezes na +cama!... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Eu pensei commigo (e bem estupidamente) que o melhor era não +morrer nem +n’uma cama, nem n’uma batalha. E d’ahi a +instantes recolhiamos á nossa +estreita senzala, a dormir algumas horas antes da grande +acção. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Infandós veio-nos acordar ao romper da alvorada, dizendo que +se +observavam já do lado da cidade movimentos de tropas, e que +já ligeiras +escaramuças tinham obrigado as nossas sentinellas +avançadas a recolher. +Começámos logo, febrilmente, os nossos +preparativos. O barão, pelo +principio de que na «Kakuania se deve ser Kakuano», +armou-se e +enfeitou-se como um guerreiro selvagem--pelle de leopardo aos hombros, +enorme pluma de abestruz presa á testa, cintura de rabos de +boi, escudo +de ferro coberto de couro branco, machada de combate, +facalhões de +arremessar, azagaia, todo o complicado armamento d’um chefe +negro. E +devo confessar que assim armado e emplumado era uma esplendida e +formidavel figura! O capitão John não causava +tanta impressão. Em +primeiro logar insistira em conservar as calças que +Infandós lhe +obtivera; e um cavalheiro baixote e gordote, de monoculo, suissa +d’um +lado e a cara rapada do outro, com uma cóta de malha de +ferro mettida +para dentro das pantalonas, grande lança e chapéo +côco, offerece na +realidade um espectaculo mais estranho que imponente. Eu por mim, ao +contrario, tinha tirado as calças para correr mais lesto se +tivessemos +de retirar: mas a fralda da camisa apparecia-me por baixo da +cóta de +malha: um facalhão que pendurára á +cinta batia-me lamentavelmente nas +canellas: o escudo enfiado no braço entanguia-me os +movimentos: e sentia +em geral que não apresentava para combate uma figura +sufficientente +heroica. De sorte que espetei uma immensa pluma no meu bonet de +caça--e +procurei dar ao rosto uma expressão de ferocidade. +Além do arsenal de +armas selvagens, tinhamos naturalmente as nossas carabinas, que tres +soldados atraz conduziam com os sacos de munição. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Apenas armados, engulimos á pressa o almoço, e +abalámos. N’uma das +extremidades do planalto do monte havia uma especie de casebre de +pedra, +que servia ao mesmo tempo de quartel-general e de torre de vigia. +Encontrámos ahi Ignosi, magnificamente emplumado e +apetrechado. Com elle +estava Infandós: e como guarda real o regimento de +Infandós, decerto o +mais numeroso e aguerrido de todo o exercito. Este regimento tinha por +nome os <em>Pardos</em>, porque usava plumas pardas na +cabeça. Era composto de +tres mil praças; e estava collocado de reserva, deitado em +ordem e por +companhias sobre o capim que alli crescia. Os chefes, n’um +grupo, junto +do casebre, com as mãos em pala sobre os olhos, observavam o +movimento +das tropas de Tuala--que vinham n’esse momento sahindo de +Lú em longas +columnas semelhantes a formigueiros. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Cada uma d’essas columnas tinha de onze a doze mil homens. +Logo que +sahiram as portas de Lú e se acharam na planicie pararam: +depois, +formadas em batalha, marcharam uma para a direita, outra para a +esquerda, a terceira em direcção á +nossa collina. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bom, murmurou Infandós, vamos ser atacados por tres lados! +</p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<h2 style="text-align: center;"><a name="cap_X"></a>CAPITULO +X +</h2> + +<h3 style="text-align: center;"> +O ATAQUE DA COLLINA +</h3> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"> +Devagar, em perfeita ordem, as tres columnas avançaram. A da +direita e a +da esquerda, separadas, e obliquando como para envolver e cercar a +nossa +posição: a do centro, direita sobre +nós, marchando por aquella lingua da +planicie que entrava pela nossa collina dentro--collina que (como +disse) +tinha a fórma d’uma meia lua com as duas pontas +voltadas para a cidade +de Lú. A umas quinhentas jardas esta columna parou--dando +tempo a que as +outras circumdassem a nossa posição. O plano das +gentes de Tuala era +evidentemente dar, por cada lado, á nossa cidadella um +assalto +simultaneo e brusco. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ah! Suspirou John, olhando aquellas multidões espalhadas +em baixo, +quem tivera aqui uma metralhadora! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Nem fallemos n’essa delicia! Exclamou o barão +com igual pezar. Em todo +o caso, Quartelmar, veja se a sua carabina chega até +áquelle maganão, de +pelle de leopardo, que parece commandar a força. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Carreguei tranquillamente a carabina com bala, agachei-me por traz +d’uma +pedra e apontei. O pobre commandante de pelle de leopardo +avançára das +fileiras uns trinta passos, seguido por uma ordenança, a +examinar a +nossa posição; e erguia justamente o +braço quando eu lhe mandei uma +bala. Tombou sem um movimento mais, com a face no chão. Os +nossos +regimentos espantados, acclamaram este milagre do homem das estrellas; +e +eu (tanto a guerra nos endurece o coração) gostei +d’estes applausos. +Creio mesmo que agradeci, como um actor! No emtanto o barão +apontára a +um outro official, que correra a recolher o cadaver do camarada--e que, +por seu turno, bateu com os braços no ar, cahiu morto. A +força inimiga, +aterrada, começou logo a recuar. Os nossos uivavam de +deleite e de +furor. John juntára-se a nós com a sua carabina; +e antes que a divisão +se tivesse retirado para fóra do nosso fogo, abatemos uns +dez ou doze +homens. Como effeito moral parecia excellente. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +De repente, porém, ouvimos um immenso clamor á +nossa direita, e um +clamor igual á nossa esquerda. Eram as duas columnas +circumdantes que +nos atacavam. Immediatamente a massa de homens em frente de +nós rompeu +avançando por aquella lingua de planicie que penetrava em +subida suave +no interior da nossa meia lua. Vinham n’um passo vivo, certo, +elastico, +que cadenciavam entoando um canto rouco. Começamos de novo a +fazer fogo. +Muitos homens cahiram. Mas era como se atirassemos pedras a uma grande +vaca de equinoxio. A maré humana subia. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Subia com grandes brados, repellindo os nossos postos, collocados entre +as rochas, á base da collina. A sua marcha porém +diminuia de impeto, á +maneira que a subida se convertia em ladeira, depois em ingreme +pendôr +de monte. Ahi onde começava o monte, estacionava a nossa +primeira linha +de defeza. Já de lado a lado, entre as forças, se +começavam a atirar as +<em>tollas</em>, grandes facas de arremesso que faiscavam +no ar. Os que +avançavam vinham bradando: <em>Tuala, Tuala</em>! +<em>Chielè, Chielè</em>! (mata, +mata!) Os nossos replicavam: <em>Ignosi, Ignosi</em>! <em>Chielè, +Chielè</em>! As +primeiras azagaias entrechocaram-se; e, com o encontro, peito a peito, +das duas massas de homens, na vertente da collina, a batalha +começou. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +As forças que atacavam eram esmagadoras; e a nossa primeira +linha, onde +os homens cahiam como folhas no outono, cedeu, e reentrou na segunda +linha de defeza. A lucta aqui foi terrivel; mas os nossos recuaram, e a +terceira linha entrou em batalha á orla já do +planalto. O barão, cujos +olhos se accendiam, não se conteve mais. Brandindo a sua +machada de +guerra, arremessou-se para o meio do combate, seguido do +capitão John. +Ao avistar a gigantesca figura do «homem das +estrellas» que vinha em seu +soccorro, os nossos soldados bradaram com enthusiasmo:--<em>Nanzie +Incubú</em>! +(Ahi vem o elephante!) <em>Chielè, Chielè</em>! +E, carregando com redobrado +vigor, em poucos momentos repelliram a divisão de Tuala, +que, já +cançada, sem poder romper a sebe viva de lanças +que a continha, voltou a +descer a collina em confusão. N’esse instante +tambem um mensageiro +esbaforido veio annunciar a Ignosi (ao lado de quem eu +ficára) que o +ataque na esquerda da serra fôra rechaçado; e +já eu e Ignosi nos +congratulavamos, quando, com grande horror, vimos os nossos, que +estavam +defendendo a direita, vir correndo pelo planalto, acossados por +multidões inimigas, que evidentemente n’aquelle +ponto tinham rompido as +nossas linhas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ignosi bradou uma ordem. Immediatamente o regimento dos Pardos se +desdobrou, para reter a debandada dos nossos, rechaçar a +invasão. E, sem +que eu comprehendesse bem como, instantes depois achei-me envolvido +n’uma furiosa carnificina. Tudo o que me lembra é +o estridente ruido dos +escudos de ferro entrechocando-se--e logo adiante a +apparição d’um +enorme bruto furioso, com os olhos sangrentos a saltarem-lhe das +orbitas, que erguia sobre mim uma longa azagaia. O meu rewolver +findou-lhe os furores para todo o sempre. Mas quasi em seguida, senti +uma pancada na cabeça--e quando tornei a abrir as palpebras, +estava no +casebre do quartel-general, deitado n’uma esteira, com o +excellente John +ao meu lado, velando. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Então, exclamou elle anciosamente, pondo no +chão a cabaça d’agua com +que me borrifava. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Antes de responder, ergui-me muito devagar, apalpei com cuidado o meu +precioso corpo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem, obrigado. Estou perfeitamente bem! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Graças a Deus! Quando o vi, trazido n’uma +padiola, deu-me uma volta o +coração! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não, não foi d’esta! Levei +só uma bordoada, supponho eu. E a batalha? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Por hoje repellimos a pretalhada do rei. Mas perdemos perto de dois +mil homens. Veja aquelle horror, Quartelmar! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E o bom John mostrava fóra o terreiro, convertido +n’um hospital de +sangue. Para transportar os seus feridos, os Kakuanas usam um longo e +esguio taboleiro com uma argola a cada canto. E d’estes +taboleiros, +postos no chão, cada um com o seu homem, havia longas +filas--por entre +as quaes caminhavam, curvados, os cirurgiões Kakuanas. O +methodo d’estes +clinicos é simples o piedoso. Se a ferida se apresenta +curavel, o +soldado é besuntado com os unguentos nativos, e isolado nas +senzalas. Se +a ferida é incuravel ou muito grave, o cirurgião, +com uma lanceta, corta +subtilmente uma arteria do homem, que expira em poucos instantes sem +soffrer. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Fugindo a estes espectaculos, John e eu seguimos para o outro lado do +quartel-general, onde encontramos o barão (ainda de machado +na mão, todo +tinto de sangue) reunido em conselho com Ignosi, Infandós e +dois chefes +idosos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ainda bem que chega, Quartelmar! Gritou o barão. Eu +não posso +comprehender o que quer esta gente... Parece que vamos ser cercados! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E assim era, segundo explicou lentamente Infandós. Tuala +repellido +reunira reforços, e parecia tomar +disposições para pôr sitio á +collina, +e vencer-nos pela fome e pela sêde. Os mantimentos +não durariam mais de +dois dias. Mas o peor era que a nascente d’agua, sorvida a +cada instante +por dezeseis mil bôcas sedentas, estava prestes a esgotar-se; +e antes da +manhã seguinte o exercito gemeria de sêde. +N’estas conjuncturas, Ignosi +queria saber o que propunham os homens das estrellas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Dize tu, Macumazan, velha raposa, que tens visto muito, e sabes todas +as artes. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Conversei um momento com os amigos, e declarei em seguida ao conselho, +que, sem pão e sem agua, nada nos restava senão +fazer immediatamente uma +tremenda sortida contra Tuala. Todos approvaram com ardor a minha +idéa. +Mas sob que plano se tentaria esse ataque? Cabia a Ignosi, o rei, +decidir:--e os olhos de cada um voltaram-se para o nosso antigo servo, +que agora, nas suas armas e plumagens de guerra, tinha um magnifico ar +de rei guerreiro. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Depois de pousar dois dedos sobre a testa, á maneira +Zulú, Ignosi fallou +e desenvolveu um plano excellente. Ao começo da tarde (era +então +meio-dia) os <em>Pardos</em>, commandados por +Infandós e o barão, desceriam +aquella lingua da planicie que penetrava na meia lua da collina, e +avançariam sobre Tuala, emquanto elle proprio, Ignosi (que +eu devia +acompanhar), ficaria de reserva por traz com tropas frescas. Decerto +Tuala, vendo os Pardos romper n’uma sortida, +lançaria sobre elles toda +a sua força para os esmagar. Emquanto na lingua de terra se +estivesse +dando esse primeiro recontro, uma terça parte das nossas +forças desceria +pela ponta direita da collina, levando comsigo John, o do olho +rutilante; outra terça parte iria de manso pela ponta +esquerda; +subitamente ambas cahiriam sobre os flancos de Tuala;--e +n’esse instante +elle, Ignosi, desceria pela frente com as tropas frescas, e se a +fortuna +estivesse com elle ceariamos n’essa noite contentes na cidade +de Lú! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O plano foi acolhido entre applausos--e immediatamente entrou em +preparação, com uma presteza, um methodo, que fez +honra aos officiaes +Kakuanas. No espaço de duas horas foram servidas as +rações aos homens, +as tres divisões formadas, a ordem de ataque bem explicada +aos chefes, e +toda a força (menos uma guarda que se deixou aos feridos) +collocada nos +seus postos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Era pois outra immensa carnificina que se preparava e em que me veria +envolvido--eu, homem de ordem, de gostos simples, que tanto detesto +violencias! Quando John, ao partir com a ala direita, nos veio dizer +adeus, um pouco commovido--eu, com a voz abalada tambem, só +tive estas +palavras: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Se escapar, amigo John, louve a Deus, e não se metta mais +com +pretendentes! +</p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<h2 style="text-align: center;"><a name="cap_XI"></a>CAPITULO +XI +</h2> + +<h3 style="text-align: center;"> +A BATALHA DE LÚ +</h3> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"> +Não contarei os pormenores sangrentos d’este +grande combate, que se +ficou chamando a «batalha de Lú». Todos +estes medonhos conflictos de +selvagens, mesmo travados com a disciplina dos Kakuanas, se assemelham. +É sempre uma vasta confusão de corpos escuros e +emplumados, um +estridente ruido de escudos entrechocando-se, azagaias reluzindo no ar, +saltos, guinchos, uivos, clamores immensos onde destaca uma nota +assobiada, o <em>sgghi</em>! <em>sgghi</em>! +Que solta o selvagem quando trespassa com +o ferro o inimigo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O plano de Ignosi de resto foi triumphalmente realisado. Os <em>Pardos</em> +avançaram n’aquella lingua de terra que penetrava +na nossa meia lua, e +com admiravel heroicidade sustentaram os ataques de regimentos +após +regimentos, arremessados sobre elles por Tuala. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quando dos Pardos restava apenas metade, e a +attenção de todo o +exercito inimigo estava concentrada n’esta lucta com o +heroico +regimento, as duas alas nossas, que tinham caminhado pelos dois cornos +da meia lua, cahiram sobre os flancos desprevenidos do inimigo como um +circulo de cães de fila sobre lobos descuidados. +Começou uma pavorosa +matança. Ignosi carregou então de frente com as +reservas frescas--e +decidiu a batalha. Eu fiz parte d’essa carga: e +não sei como, achei-me +ao pé do barão, que parecia o verdadeiro deus da +guerra, com os longos +cabellos de ouro a esvoaçar ao vento, todo elle vermelho de +sangue, e +soltando a cada grande golpe de machado o velho grito saxonio de ataque +<em>O-hoy</em>! <em>O-hoy</em>! Tambem me +parece que avistei Tuala na confusão, +coberto com a sua cóta de malha, arremessando as <em>tollas</em>, +as facas +enormes dos Kakuanas, que dois guerreiros atraz d’elle +traziam em sacos +de coiro. Lembro-me ainda tambem d’um chefe que, em vez de +escudo, +erguia para se defender o cadaver de um <em>Pardo</em>, e +que combatia +cantando. De resto, tudo se me confunde na memoria--o sangue correndo, +os corpos tombando, um grande estridor de armas, um immenso +esvoaçar de +plumas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Com o embate das duas columnas nossas sobre os flancos do exercito de +Tuala a batalha ficou ganha--e dentro em breve a vasta planicie que se +estendia entre a nossa collina e a cidade de Lú estava cheia +de soldados +fugindo em terrivel desordem. O regimento dos Pardos no emtanto (ou o +que d’elle restava) reunira n’uma pequena +elevação de terreno--onde +tristemente verificamos que, dos tres mil valentes que o compunham, +ainda de manhã, apenas acudiam á chamada cento e +noventa e cinco homens. +Entre elles estava Infandós, que combatera heroicamente +tendo sómente um +leve golpe no braço. Ignosi, com um grupo de chefes, entre +os quaes +vinha John (ferido n’uma perna e manquejando), em breve se +veio juntar a +esta gloriosa phalange dos <em>Pardos</em>. E foi seguido +d’ella, como da sua +guarda de honra, que o rei, e nós com elle, marchamos sobre +a cidade de +Lú. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ás portas da cidade, ainda fechadas, estavam já +postados grossos +destacamentos dos nossos para as atacar. Mas dentro os soldados de +Tuala, inteiramente desmoralisados pela derrota do seu rei, +não pareciam +dispostos á resistencia. Com effeito, ás +primeiras intimações dos +arautos, a ponte levadiça da porta chamada Real foi descida: +e, +seguindo Ignosi, penetramos emfim na cidade vencida. Nas ruas, +ás portas +das aringas, nos terreiros, por toda a parte se apresentavam soldados, +com a cabeça baixa, os escudos e as lanças +pousadas aos pés em signal de +submissão, que saudavam Ignosi como rei. Assim chegamos +á aringa real. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +No terreiro silencioso, á porta da sua grande senzala, +solitario, +abandonado, sem um soldado, sem um cortezão, sem uma das +suas mil +mulheres, estava Tuala, sentado n’um escabello, com o rosto +cahido sobre +o peito, as mãos pousadas sobre os joelhos. Cheguei a sentir +uma vaga +piedade pelo pobre rei derrotado! Um unico sêr lhe +ficára fiel, +Gagula--que, agachada aos seus pés, rompeu n’um +fluxo de injurias, mal +nos viu assomar ao terreiro, seguindo o triumphante Ignosi. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tuala, esse não parecia vêr, nem sentir. +Só quando Ignosi parou, e os +soldados bateram em cadencia com os contos das azagaias no +chão, o velho +tyranno ergueu a cabeça emplumada. Depois atirando sobre +nós um olhar +mais reluzente que o grande diamante que lhe ornava a testa: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Salvè, rei! Gritou elle a Ignosi, com amargo escarneo. Tu +que, por +feitiços dos homens das estrellas, seduziste os meus +regimentos, dize, +que sorte me destinas? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--A sorte de meu pae, que tu mataste!--foi a fria e dura resposta. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem! Saberei morrer, para que te fique como exemplo quando a tua vez +chegar. Mas reclamo um privilegio da familia real dos Kakuanas. Quero +morrer combatendo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Concedo, respondeu Ignosi. Escolhe o teu homem. Eu não +posso, porque o +rei não se bate em combate singular. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O sinistro olho de Tuala percorreu-nos lentamente a todos. E, como +durante um momento se fixou em mim, eu senti alli o mais atroz pavor da +minha vida aventurosa. Justos céos! Se elle se quizesse +bater <em>commigo</em>? +Tambem, tomei logo a minha resolução--recusar, +fugir, ainda que fosse +apupado por toda a nação Kakuana! Felizmente o +bruto escolheu: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Incubú! Exclamou, estendendo a mão para o +barão. Tu que mataste meu +filho, quererás tu luctar commigo, ou ser chamado um +cobarde? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não, gritou logo Ignosi, Incubú não +se baterá comtigo! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Decerto não, se tem medo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Infelizmente o barão comprehendera. Todo o sangue lhe subiu +ás faces. E +avançou logo, de machado erguido. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Acudimos, supplicando-lhe que não arriscasse a vida com +aquella féra, +inteiramente desesperada, de antemão condemnada á +morte. Provas de +heroico valor já elle as déra de sobra! Para que +ir-nos despedaçar o +coração, se uma desgraça lhe +succedesse? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão porém permaneceu inabalavel. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Nenhum homem vivo, civilisado ou selvagem, me chamará +nunca cobarde. +Quero bater-me com elle! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ignosi, bem a custo, cedeu. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Seja pois!... Tuala, o grande Incubú vai marchar para ti! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tuala riu, ferozmente; e os dois gigantescos homens ficaram frente a +frente. O primeiro ataque foi o do barão, que +lançou sobre Tuala o +machado a toda a força. Com um salto Tuala esquivou o +córte, e +arremessou outro em resposta sobre o barão, que o aparou no +escudo. E +durante um momento houve assim uma viva e faiscante troca de +machadadas, +que ora bruscos saltos evitavam, ora os broqueis defendiam. +Nós nem +respiravamos. O regimento dos <em>Pardos</em>, esquecida a +disciplina, fizera +circulo, e soltava gritos, batia palmas a cada golpe vibrado. John, +agarrado ao meu braço, andava aos saltos sobre a perna +sã, animando o +barão com berros: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bravo! Anda-me ahi! Esse foi bom! Atira-lh’o de ilharga!... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Subitamente um brado de horror resoou. D’uma pancada Tuala +cortára o +cabo do machado do barão, que ficava assim desarmado--e, +erguendo o seu +proprio machado, cahia sobre elle com um uivo furioso de triumpho. Tudo +acabára, eu fechei os olhos... Quando os abri, Tuala e o +barão, +agarrados um ao outro como dois gatos bravos, estavam rolando no +chão--e +o barão, com um desesperado esforço, procurava +arrancar a Tuala a +machada que elle tinha preso ao pulso por uma correia de bufalo. +Pareceu-me uma eternidade o tempo que elles assim rolaram um sobre o +outro, n’esta furiosa lucta pela posse do machado. Finalmente +a correia +quebrou--e com um ultimo, monstruoso arranque, o barão, +desprendendo-se +de Tuala, ergueu-se de salto, com o machado na mão. +N’um instante Tuala +estava tambem de pé--e ambos tinham as faces a escorrer +sangue. Foi +Tuala, que, mais rapido, arrancou do cinto o facalhão e o +vibrou contra +o peito do barão. O valente homem cambaleou, mas a +couraça de malha +repelliu a facada. De novo Tuala arremetteu com a lamina--e +então o +barão, retesando-se todo n’um esforço, +alçou o machado, no momento mesmo +em que Tuala se inclinava, e deixou cahir uma machadada com tremenda +força sobre o pescoço. Houve um grito enorme.--E, +coisa pavorosa! Vimos +a cabeça de Tuala saltar-lhe dos hombros, dar como uma +pélla dois pulos +pelo chão, e rolar até aos pés de +Ignosi! Durante um segundo o corpo +ficou erecto, com o sangue sahindo em grossos borbotões e a +fumegar. De +repente tombou, com um ruido surdo. E do outro lado o barão +cahiu +tambem, desmaiado. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Erguemol-o anciosamente, encharcamos-lhe o rosto em agua. Pouco a pouco +abriu os olhos. Estava salvo! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O sol ia justamente descendo. Eu baixei-me para a cabeça de +Tuala que +alli ficára n’uma poça de sangue, e, +desapartando o grande diamante que +lhe ornava a testa, entreguei-o solemnemente a Ignosi e bradei: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Salvè, rei dos Kakuanas! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Elle apertou o diamante sobre a testa. Depois pousou um pé +sobre o peito +de Tuala morto, e cercado dos seus guerreiros entoou um canto de +victoria. +</p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<h2 style="text-align: center;"><a name="cap_XII"></a>CAPITULO +XII +</h2> + +<h3 style="text-align: center;"> +O REI IGNOSI +</h3> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tudo findára gloriosamente. Chegára a hora de +repousar--ou, melhor, de +convalescer. O barão e o capitão (cuja perna, de +todo inchada, o fazia +agora soffrer muito) foram levados em braços para a aringa +palacial de +Tuala. E eu para lá me arrastei, exhausto de +emoções, com a cabeça +consideravelmente dorida da paulada d’essa manhã +na defeza do planalto. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O primeiro cuidado foi despir as cótas de malha, tarefa +difficil (pelo +nosso combalido estado) em que nos ajudou a linda Fulata, que se +constituira, desde o começo da revolta, nossa vivandeira, +nossa +enfermeira, e nosso anjo da guarda. Arrancadas as cótas, +vimos que os +nossos pobres corpos eram uma massa medonha de pisaduras negras. No +tumulto da batalha tinhamos apanhado decerto muita facada, muita +lançada. As pontas dos ferros eram repellidas pela malha +impenetravel; +mas nem por isso cada um dos golpes arremessados deixava de constituir +uma terrivel pontuada que nos amolgava corpo e membros. Eu estava +positivamente negro de pisaduras. Mas o peor era a ferida de John na +perna, e a do barão a quem uma das machadadas de Tuala +cortára +profundamente a face sobre a maxilla. Fulata preparou-nos uns +emplastros +de hervas aromaticas que nos alliviaram as dôres. E como o +capitão John +tinha noções e pratica de cirurgia (segundo +contei), foi elle que fez o +tratamento da ferida do barão e da sua propria, +tão bem quanto lh’o +permittiam os poucos fios, o resto de pomada antiseptica que encontrou +na sua botica portatil, e a escassa luz da lampada kakuana. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Depois, Fulata arranjou-nos um caldo muito forte, e estendemo-nos nas +magnificas pelles que juncavam o chão da aringa do rei. Mas +não pudémos +dormir. De toda a cidade, em torno de nós, subia a triste e +ululada +lamentação das mulheres, chorando, á +maneira dos Zulús, os valentes +mortos na batalha. Mesmo ao nosso lado, as carpideiras reaes estavam +carpindo a morte de Tuala com estridente dôr. A noite ia +cheia de +prantos--e além d’isso a cada instante sentiamos +os gritos agudos das +sentinellas, ou a ruidosa passagem de rondas. Foi só de +madrugada que +pude cerrar os olhos--os olhos que, apesar de cerrados, continuavam a +vêr os lances da batalha, com tanta realidade que por vezes +estremecia +em sobresalto e me erguia no cotovêlo a procurar as minhas +armas, ou a +lançar uma ordem de ataque. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quando emfim acordei, com o sol já alto, soube que os meus +dois amigos +tambem não tinham dormido. De facto, o capitão +John estava com uma +intensa febre e começava a delirar. Além +d’isso, symptoma assustador, +toda a noite cuspira sangue. O barão, esse, mal podia ainda +mexer o +corpo; e a ferida da face não lhe permittia comer, +escassamente fallar. +Eu era ainda assim o mais restabelecido. Tomei o delicioso caldo de +Fulata, e sahi um instante ao terreiro a respirar. Encontrei justamente +Infandós que chegava, tão fresco e agil como se +na vespera, em logar de +uma batalha, tivesse celebrado uma festa. Ficou desolado ao saber a +doença de John. Entrou um momento na cubata para o +vêr e o barão, que +não se podia ainda levantar e apenas mover os membros sobre +o seu fôfo +leito de pelles. Em voz baixa, por causa de John, Infandós +contou-nos +que todos os regimentos se tinham submettido a Ignosi, que das outras +cidades chegavam ferventes adhesões, e que o novo reinado se +firmava +para longas éras de prosperidade e de paz. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quando elle se retirava, appareceu Ignosi, seguido de uma guarda real. +Não pude deixar, ao vêl-o, de pensar nas estranhas +revoluções da sorte! +Aquelle moço, que havia mezes, na minha casa em Durban, me +pedia para +entrar ao meu serviço--eil-o agora rei, grande Potentado +d’Africa, +commandando cincoenta mil guerreiros, senhor de povos, de rebanhos e de +terras sem conta! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Salvè, rei! Exclamei eu, erguendo-me com respeito. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Graças a ti, Macumazan, e aos teus amigos! Exclamou elle, +apertando-me +as mãos com carinho. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Entrou tambem, como Infandós, na cubata para vêr o +barão e o pobre John, +que dormia um somno de febre, horrivelmente agitado, sob os olhos +compassivos e vigilantes da boa Fulata. Depois, quando sahimos de novo +ao terreiro, conversando, perguntei-lhe o que contava elle fazer de +Gagula. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Gagula é o genio mau d’esta terra, disse elle. +Conto mandal-a matar +para findar com ella, que já é velha de mais! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Mas tem segredos! Mas sabe muito! Repliquei eu. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Sabe sobretudo o segredo dos <em>Silenciosos</em>, +volveu o rei pousando os +olhos em mim com amizade, e o da caverna onde os reis estão +enterrados, +e o do logar dos diamantes. Ora eu não esqueço a +promessa que te fiz, +Macumazan. Tu e os teus amigos ireis aos diamantes, guiados por Gagula: +e só por isso a poupo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Está bem, Ignosi, registro as tuas palavras. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Mas não foi possivel, durante essa semana, pensar nos +diamantes, porque +através de toda ella a vida do nosso pobre John esteve em +risco e os +nossos corações em anciedade. Realmente creio que +teria morrido, se não +fossem os desvelos, a adoravel dedicação de +Fulata. Dias amargos esses +para nós! O barão, já então +restabelecido, e eu, nada mais fizemos +durante essa crise atroz, do que entrar, sahir, rondar em pontas de +pés +a senzala onde elle delirava. Remedios não tinhamos para lhe +dar, além +d’uma bebida refrescante feita por Fulata com leite e o succo +extrahido +da raiz d’uma especie de tulipa. Só podiamos +contar com a forte natureza +d’elle e a boa mercê de Deus. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Em toda a aringa real havia um grande silencio, porque Ignosi, para +manter perfeito socego em torno ao doente, ordenára que +todos os que lá +viviam passassem a outras cubatas remotas. Fulata estava +permanentemente +ao lado d’elle, sentada no chão, dando-lhe a +bebida refrescante, +arranjando-lhe as travesseiras feitas das folhas sêccas +d’uma planta que +faz dormir, enxotando-lhe as moscas do rosto. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +No nono dia da doença, á noite, antes de +recolher, o barão e eu +entramos, segundo o costume, na senzala. A lampada collocada no +escabello dava uma luz funebre. Não havia um rumor. E o meu +pobre amigo +jazia perfeitamente immovel. Pensei que chegára o seu fim, +tive um +soluço que me suffocou. Mas uma voz, na sombra, murmurou <em>chut</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E, mais de perto, descobrimos que o nosso amigo não estava +morto, mas +tranquillamente adormecido, sob a caricia das mãos de +Fulata, que lhe +cobriam a testa, onde um suor fresco começava. Era a crise +do nono dia, +o somno reparador. O nosso John estava salvo! Dormiu assim dezoito +horas. E (mal me atrevo a contal-o, porque não serei +acreditado) Fulata, +a admiravel, a santa rapariga, dezoito horas se conservou tambem assim, +com as mãos pousadas sobre a testa d’elle, sem +comer, sem se erguer, sem +se mexer, com o receio de que o menor movimento acordasse o seu doente. +Quando elle afinal despertou--tivemos de a erguer em braços, +porque a +heroica enfermeira estava quasi desmaiada de debilidade e fadiga. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A convalescença de John foi rapida. Ao fim d’outra +semana, já passeava +pelos arredores da cidade, entre os pomares, á beira do rio, +acompanhado +por Fulata, que o salvára, e a quem elle votára +(segundo dizia) um +«reconhecimento eterno». Mas eu não +agourava bem d’aquelle +«reconhecimento», d’aquelles passeios +bucolicos... Nos olhos de Fulata +havia muita meiguice, muita languidez. E John como marinheiro, era +indiscretamente ardente. Depois de uma aventura de guerra, iamos ter, +mais perigosa ainda, alguma aventura d’amor! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Apenas John se considerou a si proprio escorreito e «prompto +para +outra»--Ignosi começou as festas da sua +proclamação. Todos os +«Indunas» +(chefes supremos) das provincias do reino vieram a Lú +prestar +vassallagem. Houve revistas de tropas, danças, formidaveis +banquetes. Os +homens que restavam do regimento dos Pardos foram todos doados com +terras e rebanhos, e promovidos a officiaes. Ignosi promulgou na Grande +Assembléa que d’ora em diante não +haveria mais <em>caça aos feiticeiros</em>, +nem morte sem julgamento. Depois ordenou que, emquanto nós +residissemos +no seu reino, gozassemos de honras reaes, e recebessemos sempre, como +elle, a saudação de <em>Krum</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +No ultimo dia d’este grande festival, eu e os amigos +dirigimo-nos ao +rei, em grupo, e declaramos-lhe que o momento chegára, de +realisar a sua +promessa, e de nos mandar conduzir ao logar onde deviam estar as pedras +brancas que reluzem. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ignosi abraçou-nos com grande affecto. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não me esqueci, amigos! Já indaguei a verdade, +e eis o que sei. +Aquella estrada branca que trilhámos acaba além +junto das montanhas +chamadas as <em>Tres Feiticeiras</em>, onde +estão as figuras de pedra, os +<em>Silenciosos</em>. Jaz ahi uma grande cova, +d’onde se diz que homens muito +antigos, em outras idades, tiravam as pedras que reluzem. Para +além +d’essa cova ha uma funda caverna na rocha, terrivel, +maravilhosa, onde +vive a Morte, onde jazem os nossos reis mortos, e para onde Tuala +já foi +conduzido. E por traz d’essa caverna fica uma camara secreta +de que só +Gagula conhece o segredo. Corre tambem a historia de que, ha muitas +gerações, um branco veio aqui, e foi conduzido +por uma mulher a essa +camara secreta, onde viu riquezas sem conto, mas d’essas que +para os +Kakuanas nada valem: o branco porém não teve +tempo de arrecadar essas +riquezas, porque a mulher o trahiu, e o rei d’esses tempos o +escorraçou +outra vez para além das montanhas... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--A historia é verdadeira, acudi eu. Não te +lembras, Ignosi, que nas +montanhas, na caverna de gelo, encontramos nós, petrificado, +esse homem +branco? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Muito bem me lembro. Por isso vou mandar chamar Gagula, e +ordenar-lhe, +sob pena de morrer, que vos leve á camara secreta, meus +amigos... E as +riquezas que encontrardes, oh meus amigos, são vossas! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +N’esse instante dois guardas appareceram, trazendo agarrada +pelos braços +a hedionda Gagula; que gania e os amaldiçoava. Mal a +largaram, toda ella +se abateu e achatou sobre o chão--como um montão +de trapos onde dois +olhos ferozes viviam e refulgiam. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que me queres tu, Ignosi? Uivou ella. Não me toques, que +te destruo. +Treme das minhas artes! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O rei encolheu os hombros. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--As tuas artes não salvaram Tuala. Que me importam as tuas +artes? Aqui +está o que de ti quero: que mostres aos meus amigos a camara +secreta +onde estão as pedras que reluzem. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Só eu o sei, e nunca o direi! Bradou ella. Os brancos +malditos +voltarão, levando vasias as mãos malditas! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem, volveu tranquillamente o rei. Então, Gagula, vaes +morrer +lentamente. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Morrer! Gritou ella, cheia de terror e de furia. Tu não te +atreverás, +Ignosi! Ninguem me póde matar. Que idade pensas tu que eu +tenho? O teu +pae conheceu-me; e o pae do teu pae; e o pae que gerou a esse. Ninguem +ousará tocar-me, porque sobre esse cahirão as +desgraças sem fim. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Em silencio, tranquillamente, Ignosi baixou sobre ella a ponta da sua +azagaia: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Dizes? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ignosi baixou mais o ferro, picou de leve o montão de trapos +onde +reluziam os dois olhos ferozes. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Com um uivo dilacerante, a horrenda bruxa poz-se em pé, de +salto. Depois +tornou a cahir, e rolou no chão esperneando. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +De novo a lança de Ignosi a procurava: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Dizes? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Digo, digo, oh rei! Ganiu ella. Mas deixa-me viver, e sentar-me ao +sol, e respirar o ar dôce, e ter um osso para chupar!... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem; ámanhã irás com meu tio +Infandós e com os meus irmãos brancos a +esse logar, mostrarás a camara secreta e o escondrijo das +pedras que +reluzem. Mas tem cautela! Que se em ti houver +traição, morrerás devagar, +e em tormentos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não, Ignosi! Irei com elles, e tudo mostrarei. Mas a +desgraça vem a +quem penetra n’esse logar. Outr’ora veio um homem, +encheu um saco +d’essas pedras brilhantes, e uma grande desgraça +cahiu sobre elle! E foi +uma mulher que o levou, e que se chamava Gagula. Talvez fosse eu! +Talvez +fosse minha mãe! Ou a mãe de minha +mãe! Quem sabe? Será uma alegre +jornada... Eu hei de ir, e hei de rir! Vinde, homens brancos, vinde! +Vereis ao passar os que morreram na batalha, com os olhos vasios, as +costellas ôcas. A morte vive lá, e está +á espera. Será uma alegre +jornada! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<h2 style="text-align: center;"><a name="cap_XIII"></a>CAPITULO +XIII +</h2> + +<h3 style="text-align: center;"> +A GRANDE CAVERNA +</h3> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tres dias depois, ao escurecer, estavamos acampados n’um +casebre +desmantelado, em frente das <em>Tres Feiticeiras</em>, as +tres montanhas que +tantas vezes de longe avistaramos, desde a nossa chegada a +Lú, e onde +deviam jazer, segundo a tradição dos Kakuanas e o +roteiro do velho D. +José da Silveira, as minas das pedras que reluzem--as Minas +de Salomão! +Tinhamos partido de Lú doze dias antes, acompanhados por +Infandós, por +Fulata (que não deixára mais o «seu +doente», o bom John), por Gagula que +vinha n’uma liteira, e por uma forte escolta de +serviçaes e soldados. E +foi só no dia seguinte, ao amanhecer, que examinamos aquelle +estranho +sitio, tão cheio de terror para os Kakuanas e para +nós de maravilhosas +promessas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Nunca eu esquecerei o momento em que, sahindo a porta das cubatas, na +primeira e fresca luz da manhã, vimos os tres montes +isolados, em +triangulo, um á nossa direita, outro á nossa +esquerda, o terceiro ao +fundo, em face de nós, erguendo magnificamente ao +céo os seus cimos +resplandecentes de neve. Um tojo em flôr, d’um +escarlate ardente, cobria +as poderosas fraldas dos tres montes--e seguia ainda, como um tapete +igual e continuo, pelos grandes descampados que os cercavam. A fita +branca da estrada de Salomão cortava a direito +até á <em>Feiticeira</em> central, a +que formava a ponta do triangulo, onde findava brusca e +mysteriosamente. Ahi, junto d’esse monte, estavam as +fabulosas minas, +que tinham sido o fim de tantos miseros destinos, o do velho fidalgo +portuguez, o do seu descendente, e decerto o d’aquelle que +nós vinhamos +procurando desde o sul e por quem correramos tanto perigo e tanta +aventura! Todo o que buscar essas minas fabulosas (dizia Gagula) +encontrará desillusão e desastre. Seria essa a +nossa sorte? Nós +chegavamos sob a protecção do rei, cercados de +serviçaes e de guardas... +E apesar d’isso sentiamos pesar-nos sobre o +coração, tristemente, a +prophecia da horrenda mulher. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +No emtanto, quando nos puzemos a caminho, era tão viva a +anciedade de +chegar e de vêr, que os carregadores da liteira de Gagula mal +podiam +acompanhar a nossa carreira. A cada instante a velha bruxa gritava, +estendendo para nós, por entre os pannos da liteira, os +braços +descarnados, as mãos em garra: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não vos apresseis, homens brancos! A morte está +á vossa espera e não +foge! Para que vos esfalfar, correndo para ella? Certa e segura a +tendes! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Dava então uma risadinha que nos arripiava. Insensivelmente +abrandavamos +o passo... Depois bem cedo o estugavamos de novo sob o impulso +irresistivel da curiosidade e da esperança! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Gastaramos assim hora e meia, trilhando a estrada de +Salomão, e tendo já +deixado á nossa direita e á nossa esquerda as +duas Feiticeiras que +formam a base do triangulo--quando chegamos junto d’uma +immensa cova +circular, em funil, offerecendo talvez trezentos pés de +profundidade e +meia milha de circumferencia. Entre a herva e tojo, que interiormente a +forravam, surgiam grandes pedaços de greda azulada: quasi ao +fundo +corria um canal para agua, talhado na rocha viva; e abaixo do nivel +d’essa obra estavam alinhadas umas poucas de mesas de pedra, +polidas e +gastas pelo tempo. A cova, as mesas, a disposição +do canal, a natureza +da greda azulada, tudo era semelhante ao que eu muitas vezes vira no +sul, nas minas de diamantes de Kimberley. Assim o disse aos amigos:--e +para mim ficou certo que alli houvera, em tempos, fossem nos de +Salomão, +fossem n’outros mais recentes, uma mina de diamantes. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A estrada, ao abeirar-se da cova, dividia-se em dois ramos que a +circumdavam; e a espaços, esta via circular era feita de +enormes lages +de pedra, com o fim certamente de solidificar as bordas da mina, e +impedir que se esboroassem. Mas o que mais nos surprehendia era, do +outro lado da vasta cova, um grupo de tres objectos, que se destacavam +como tres pequenas torres ou tres marcos colossaes. A curiosidade quasi +nos fez correr, deixando atraz Gagula e Infandós; e bem +depressa +percebemos que o grupo era formado por tres immensas estatuas. +Conjecturamos logo que deviam ser os <em>Silenciosos</em>, +esses idolos, tão +temidos pelos Kakuanas, e a quem offereciam os sacrificios sangrentos. +Mas só ao chegar junto d’elles pudémos +apreciar a estranha e terrivel +magestade d’essas vetustas figuras. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Separadas por uma distancia de vinte passos, erguidas sobre immensos +pedestaes de pedra negra onde corriam caracteres desconhecidos, e +olhando a direito para a estrada de Salomão que +através de sessenta +milhas de planicie seguia até Lú--enchiam um +grande espaço as tres +gigantescas fórmas, duas de homem, uma de mulher, todas tres +sentadas, +medindo talvez cada uma a altura de vinte pés. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A figura de mulher, toda núa, com dois cornos, como os de um +crescente +de lua, sobre a testa, era de uma maravilhosa belleza--infelizmente +estragada pelas injurias do tempo durante longos seculos. As duas +figuras de homem, talvez por estarem vestidas em longas roupagens, +pareciam mais bem conservadas. Um d’elles tinha uma face +medonha, feita +para inspirar terror, como a de um demonio malefico; mas a do outro +parecia talvez mais assustadora ainda, na sua fria expressão +de dura +indifferença, de uma indifferença de rocha, que +nenhuma prece póde +abrandar, ou nenhum soffrimento apiedar. Todos tres juntos formavam na +realidade uma Trindade pavorosa, assim sentados, immoveis, com os olhos +vaga e perpetuamente estendidos para a planicie sem fim. Que imagens +seriam estas? Deuses? Demonios? Reis de povos cujo nome esqueceu? Eu +por +mim, das minhas reminiscencias da Biblia, colligia que deviam ser +talvez +os falsos Deuses que adorou Salomão--«Asthoreth +deusa dos Sidonios, +Chemosh deus dos Moabitas, e Milcolm deus dos filhos de +Amnon». Assim +diz o Livro Santo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que lhe parece, barão? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Talvez, concordou o nosso amigo que recebera grau em Litteraturas +classicas. A Asthoreth, de que fallam os Hebreus, é a +Astarté dos +Phenicios, os grandes commerciantes do tempo de Salomão. De +Astarté +fizeram os Gregos a sua Aphrodite, que se representava com o crescente +da meia lua na cabeça... Se Salomão tinha aqui as +suas minas, era +natural que fossem dirigidas por engenheiros phenicios. De sorte que +provavelmente esses homens ergueram, como padroeira da mina, a estatua +da sua Deusa. Quem póde saber? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quando estavamos assim contemplando estas extraordinarias reliquias de +uma remota antiguidade, Infandós, que caminhára +sem se apressar, chegou +junto de nós, e saudou reverentemente com a lança +os <em>Silenciosos</em>. +Vinha saber se queriamos penetrar immediatamente na caverna, ou tomar +primeiro a refeição da manhã. Como +não eram ainda onze horas, e a nossa +curiosidade flammejava, decidimos desvendar logo os mysterios, levando +comnosco provisões para se lá dentro a fome +excitada pelas emoções nos +assaltasse. Infandós fez então signal aos +carregadores para que se +acercassem com a liteira de Gagula; e Fulata preparou dentro de um +cesto, para levarmos, uma porção de +caça fria e duas cabaças d’agua. +Nós +entretanto deramos uma volta em torno ás tres figuras de +pedra. Por traz +d’ellas, a uns cincoenta passos, erguia-se aquella das +Feiticeiras que +formava o bico do triangulo; na sua base, como incrustada +n’ella, corria +uma muralha de pedra: e ahi, ao centro, podiamos distinguir um arco +escuro, como a entrada de uma galeria subterranea. Esperamos que os +carregadores tirassem Gagula da liteira. Apenas no chão, a +horrenda +creatura agarrou o cajado, e dobrada em duas, com passos tremulos e +vivos, largou em silencio para o arco escuro. Nós seguimos, +calados, +tambem. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Á entrada, o monstro parou, voltado para nós, com +um riso livido na +caveira. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Homens das estrellas, estaes decididos? Quereis realmente penetrar na +cova onde as pedras reluzem? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Estamos promptos, Gagula, disse eu, alegremente. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem, bem! Entrai! E pedi força aos +corações para affrontar as coisas +que ides vêr! E tu, Infandós, que trahiste teu +amo, vens tu tambem? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O velho guerreiro franziu terrivelmente o sobr’olho: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não me compete a mim entrar nos sitios sagrados. Mas tu, +Gagula, tem +cautela, e treme! Os homens que vão comtigo são +os amigos do rei! Por +elles me respondes tu. E se tanto como a perda de um só +cabello lhes +succeder em mal, nem todos os teus feitiços te +livrarão de morrer em +tormentos. Comprehendeste? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Comprehendi, comprehendi, Infandós! Ganiu ella, com um +risinho gelado +e lento. Não receies! Eu vivo só para fazer a +vontade do rei. Tenho +feito a vontade de muitos reis, em muitas +gerações! E os reis findaram +sempre por cumprir a minha vontade! Todos passaram, todos morreram... E +eu aqui estou, para os ir visitar agora no palacio da morte, e para +lhes +fallar dos tempos que foram! Vinde, vinde! A lampada está +accesa! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tinha tirado debaixo do manto de pelles que a cobria uma +cabaça cheia de +oleo com uma grossa torcida de vime:--e a luz que ella aproximou do +arco +negro pareceu desmaiar e tremer. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Vens tu tambem, Fulata? Exclamou John, volvendo os olhos em redor, +inquieto. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Tenho medo, meu senhor, murmurou a rapariga. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem. Então dá cá o cesto! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não, meu senhor, para onde fôrdes, vou eu +tambem! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem! Pensei eu commigo, ahi levamos tambem o trambolho da rapariga +para dentro da mina! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +No emtanto Gagula mergulhára na galeria, que dava apenas +logar para dois +caminharem de frente. As trevas eram absolutas. Azas de morcegos +batiam-nos nas faces. E seguiamos menos a luz bruxuleante da lampada, +que a voz de Gagula, que repetia n’um tom lugubre: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Avançai, avançai! A morte está +perto! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +De repente distinguimos uma vaga claridade. E momentos depois paravamos +no mais maravilhoso sitio que olhos humanos têm contemplado. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A nada o posso comparar melhor do que ao interior de uma immensa +cathedral, uma cathedral de sonho ou de lenda, sem janellas, alumiada +por uma luz diffusa e mysteriosa que parecia cahir das alturas da +abobada. Ao comprido d’esta vasta nave, como na nave de um +verdadeiro +templo, corriam renques de gigantescas columnas, d’uma +côr algida de +gêlo e de magnifica belleza. Alguns d’estes nobres +pilares estavam, por +assim dizer, interrompidos no meio--um pedaço erguendo-se do +sólo, como +a columna quebrada de uma ruina grega, outro pedaço pendente +da remota +abobada. Aos lados da nave abriam-se, com dimensões +diversas, cavernas á +semelhança de capellas, tendo tambem as suas filas de +columnas, algumas +tão pequeninas e finas como feitas para um brinquedo de +creança. Aqui e +além havia construcções estranhas, da +mesma substancia algida que +parecia gêlo--uma da fórma de uma vasta +taça, outra offerecendo a vaga +apparencia d’um pulpito com lavores pendentes. Um ar de +indescriptivel +frescura circulava dentro da vasta nave:--e por toda a parte sentiamos, +na penumbra, o ruido lento de gottas de agua cahindo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Não tardamos em perceber que estavamos simplesmente +n’uma caverna de +stalactites, de inigualavel belleza. Cada uma d’aquellas +gottas de agua, +que cahia, com um som humido e triste, era mais uma columna que se +estava formando. Ha quantos seculos andava a Natureza trabalhando +n’aquella obra maravilhosa? Sobre uma das columnas +incompletas notei eu +uma rude inscripção entalhada decerto por algum +obreiro phenicio das +minas, que alli escrevera o seu nome, ou talvez alguma facecia +phenicia. +Pois, desde esse dia, em tres mil annos pelo menos, a columna apenas +crescera para cima da inscripção uns tres +pés e meio. E ainda estava em +via de formação, porque eu distinctamente senti, +emquanto a examinava, +cahir sobre ella, das profundidades da abobada, uma lenta gotta de +agua! +Quantos centos de milhares de annos levaram pois a crescer, a +formar-se, +assim largas, massiças, altas como torres, as columnas +innumeraveis que +se enfileiravam na nave? Nunca, como alli, eu comprehendi a espantosa +velhice da Terra. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Gagula porém não nos deixou muito tempo +n’esta curiosa contemplação. +Inquieta, batendo o chão com o cajado, a lampada erguida +sobre a cabeça, +a cada instante nos apressava, com ganidos sinistros. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Vamos, vamos, que a Morte está á nossa espera! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O capitão John ainda tentava gracejar com a atroz creatura. +Mas quando +ella nos conduzia ao fundo da nave, diante d’uma pequena +porta +semelhante ás dos templos egypcios, e nos perguntou se +estavamos bem +preparados a entrar a morada da Morte--todos estacamos, inquietos, +mudos, sem ousar o primeiro passo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Isto está-se tornando sinistro, murmurou o +barão. Os mais velhos +adiante. Passe lá, Quartelmar! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Entrei a porta egypcia e achei-me n’um corredor inclinado, +todo de +abobada, horrivelmente negro. A lampada de Gagula esmorecia. O bater do +seu cajado dava um echo lugubre. E a meu pezar parei, dominado por um +presentimento de desastre e de morte. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Para diante! Para diante! Murmurou John, que trazia Fulata agarrada +pela mão. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Com um esforço desesperado venci o receio, alarguei o passo. +E, quasi +collados uns aos outros, desembocamos n’uma sala subterranea, +evidentemente excavada outr’ora por poderosos obreiros no +interior da +montanha. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Esta sala não tinha uma luz tão clara como a +cathedral de stalactites; e +tudo o que eu pude descobrir a principio foi uma enorme e +massiça mesa +de pedra, tendo no topo uma colossal figura, que parecia presidir +outras +figuras abancadas em torno. Depois, sobre a mesa, no centro, distingui +uma fórma encruzada. E quando emfim, acostumado á +penumbra, percebi o +que eram aquellas fórmas, voltei costas, e largaria a fugir +como uma +lebre--se o barão não me agarrasse pelo +braço fortemente. Cedi, tremendo +todo. Mas a esse tempo o barão tambem se +habituára á luz diffusa, +comprehendera tambem, e largando-me o braço, com uma +exclamação, ficou a +meu lado, quedo, arripiado, limpando o suor que lhe cobrira a testa. A +pobre Fulata, essa, dava gritos, agarrada ao pescoço de +John. E Gagula +triumphava, com sinistra zombaria. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O que tinhamos, com effeito, ante os olhos apavorados, era terrivel. +Alli, no topo da longa mesa de pedra estava a <em>Morte</em>--a +propria +Morte, um medonho e gigantesco esqueleto, de pé, todo +debruçado para +diante, com um dos braços apoiado ao rebordo da pedra como +se acabasse +de se erguer do seu assento, e com o outro levantando no ar uma enorme +lança, que parecia arremessar sobre nós; o craneo +da caveira alvejava +lugubremente; das covas das orbitas sahia um fulgor negro: e as +maxillas +estavam entreabertas, como se fosse fallar, e desvendar o seu segredo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Santo Deus! Murmurei eu, tranzido. Que póde isto ser? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E estas figuras, em redor? Balbuciava John. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E além, aquella coisa, no meio? Exclamou o +barão apontando para a +inexplicavel figura encruzada sobre a mesa. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Então Gagula poisou a lampada e agarrando o braço +do barão, com o dedo +estendido para a fórma encruzada: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Avança, Incubú, homem forte na guerra! +Avança, e contempla aquelle que +tu mataste e que está agora junto aos seus avós! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão deu um passo, e recuou abafando um grito. Sobre a +mesa, +inteiramente nú, com as pernas encruzadas, e a +cabeça que o barão +cortára poisada em cima dos joelhos, estava Tuala, ultimo +rei dos +Kakuanas!... Sim, Tuala, sustentando solemnemente sobre os joelhos a +sua +hedionda cabeça decepada, e com as vertebras a sahirem-lhe +para fóra do +pescoço encolhido e como resequido! Sobre todo o corpo negro +tinha já +uma especie de pellicula gelatinosa e vidrada, que o tornava mais +pavoroso, e cuja natureza eu não podia +comprehender--até que senti +<em>tic</em>, <em>tic</em>, <em>tic</em>, +um fio de gottas de agua, que, cahindo da abobada, +lhe escorria pelo pescoço, e d’alli pelo corpo, +para se escoar depois +por um buraco cavado na mesa. Então percebi tudo--<em>o +corpo de Tuala +estava sendo convertido n’uma stalactite</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E as outras figuras sentadas em torno da mesa eram igualmente reis dos +Kakuanas, já transformados em stalactites! Havia trinta e +sete--sendo +o ultimo o pae de Ignosi. É esta, desde tempos immemoraveis, +a maneira +por que os Kakuanas conservam os seus reis mortos. Petrificam-nos, +expondo-os, durante um longo periodo de annos, a uma queda de agua +siliciosa que, lentamente e gotta a gotta, os transforma em estatuas +geladas. Estavamos assim diante do mais maravilhoso e exotico Pantheon +Real que existe decerto na terra. E nada póde igualar a +terrifica +impressão que causava aquella série de reis, +pertencendo a muitas +dynastias, amortalhados n’uma camada de gelo que mal lhes +deixava já +distinguir as feições, alli sentados, +á volta da immensa mesa, em +espectral e pavoroso concilio, presididos pela Morte! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E a Morte, o maravilhoso esqueleto, quem o esculpira? Não +decerto os +Kakuanas. A sua composição, o seu trabalho +revelavam uma arte perfeita. +Era obra dos artistas phenicios? Fôra collocada alli em tempo +de +Salomão, para guardar, pelo terror da sua lança, +a entrada dos +Thesouros? Não sei. Nem sei mesmo contar, com verdade, as +estranhas +sensações por que passei n’aquella +camara sinistra. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<h2 style="text-align: center;"><a name="cap_XIV"></a>CAPITULO +XIV +</h2> + +<h3 style="text-align: center;"> +O THESOURO DE SALOMÃO +</h3> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"> +No emtanto Gagula (que era por vezes extremamente leve e agil) +trepára +para cima da mesa e acercára-se do cadaver de Tuala, a quem +pareceu +fallar mysteriosamente; depois seguiu por entre as filas dos reis, +dirigindo, ora a um, ora a outro, como a velhos amigos, palavras lentas +e graves que não comprehendiamos. Por fim, tendo chegado em +frente da +<em>Morte</em>, cahiu de bruços, com os +braços estendidos, e ficou como +mergulhada em oração. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Era um espectaculo tão arripiador, n’aquella +penumbra de sepulchro, a +hedionda creatura, mais velha que todas as creaturas, fazendo supplicas +ao enorme esqueleto--que eu, já enervado, lhe gritei que +viesse, nos +levasse ao logar dos thesouros. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Immediatamente, a horrivel bruxa saltou da mesa, como um gato, e +passando por traz das costas da <em>Morte</em>, ergueu a +lampada, mostrou a +parede de rocha: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Entrai, homens brancos, entrai, se não tendes medo! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Olhamos, procurando a entrada. Só vimos a rocha solida e +negra. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Gagula, disse eu com os dentes cerrados, não zombes de +nós que te +mato! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Mas a porta é aqui, homens brancos, a porta é +aqui! Gania ella, com as +costas apoiadas á muralha, onde roçava de leve +uma das suas mãos +descarnadas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E então, á luz bruxuleante da lampada, vimos que +um bocado da muralha, +do feitio e tamanho d’uma porta, se ia erguendo lentamente do +sólo, e +desapparecendo em cima na rocha, onde devia existir uma cavidade para a +receber. Não pesava menos aquella massa de pedra de vinte a +trinta +toneladas---e era certamente movida por algum machinismo, fundado +n’um +equilibrio de peso, que uma móla, collocada n’um +logar secreto da +muralha, punha em movimento. Nem nos lembrou, n’esse momento, +arrancar a +Gagula o segredo da móla, que erguia a pedra! Pasmados, +viamos a immensa +massa subir, devagar, muito devagar, até que desappareceu, +deixando +diante de nós um grande buraco negro. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Estava emfim aberto, para nós n’elle penetrarmos, +o caminho que levava +aos thesouros de Salomão. A emoção foi +tão intensa, que eu, por mim, +comecei a tremer. Era pois verdade o que dizia, no seu +pedaço de papel, +o velho D. José da Silveira? Estavam pois ao nosso alcance, +destinadas a +nós, as maiores riquezas que jámais um rei +accumulou na terra? +Poderiamos nós vêr, tocar, agarrar e levar em +sacos, o thesouro que fôra +de Salomão, maravilha dos Livros santos? Assim parecia--e +para isso +bastava dar um passo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Dei esse passo--e com explicavel sofreguidão. Mas Gagula +defendia ainda +com os braços o buraco negro: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Escutai, homens das estrellas! Escutai o que é necessario +saber! As +pedras que brilham, que vós ides vêr, foram +tiradas da cova circular não +sei por quem, e guardadas aqui não sei por quem. A gente +que, de geração +em geração, tem vivido n’esta terra, +sabia da existencia do thesouro, +mas ninguem conhecia o segredo para abrir a porta de pedra! Por fim +aconteceu vir aqui um homem branco, talvez tambem das estrellas, que +foi +bem recebido e bem agasalhado pelo rei d’então, +que era o quinto, além, +sentado á mesa de pedra. Com elle vinha uma rapariga +kakuana; ambos +percorreram estas cavernas; e succedeu que por acaso essa mulher, que +talvez fosse eu ou que talvez fosse outra como eu, descobriu o segredo +da porta. O homem e a mulher entraram, e encheram de pedras um saco +pequeno de couro onde ella levava de comer. Ao sahirem, o homem agarrou +na mão outra pedra, maior que todas... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E aqui a bruxa parou com os olhos coruscantes cravados em +nós. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Continúa! Exclamei eu, que escutára sem +respirar. O homem era D. José +da Silveira. Que se passou mais?... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A velha feiticeira recuou espantada. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Como lhe sabeis o nome? Ah! Sabes-lhe o nome!... Pois bem, ninguem +póde dizer o que succedeu. Mas o homem teve medo de repente, +atirou para +o chão o saco cheio de pedras, e fugiu, levando +só agarrada a pedra +maior que tinha na mão. É a que Tuala trazia no +diadema. É a que tu +déste a Ignosi! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E ninguem mais entrou aqui? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ninguem. Mas os reis ficaram sabendo o segredo da porta... Nenhum +porém entrou, porque dizem prophecias já muito +antigas que aquelle que +aqui entrar morrerá antes d’uma lua nova. Esta +é a verdade, homens das +estrellas. Entrai agora! Se eu não menti a respeito do homem +que se +chamava Silveira, vós encontrareis no chão, +á entrada da porta, cahido, +o saco de couro cheio de pedras... E se as prophecias mentem ou +não +sobre a morte que espera a quem aqui penetrar, vós mais +tarde o +sabereis... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E sem mais, a hedionda creatura mergulhou no corredor tenebroso, +erguendo ao alto a pallida lampada. Nós, no emtanto, +olhavamos uns para +os outros com hesitação, quasi com medo--bem +natural de resto em nervos +abalados por tantas emoções estranhas. Foi John o +mais corajoso: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Acabou-se! Cá vou! Era ridiculo ficarmos apavorados com as +tonterias +d’uma velha macaca! Adiante! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E avançou seguido por Fulata e por nós dois, em +silencio. Mas dados +alguns passos ouvimos uma medonha praga. Era John que +tropeçára, quasi +cahiria por sobre um bloco de cantaria atravessado no corredor. Gagula +erguera mais a lampada: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não receeis!... São pedras que a gente +d’outr’ora tinha ahi accumulado +para tapar o corredor para sempre... Mas fugiram, ao que parece, +não +tiveram tempo! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E com effeito havia alli como umas obras interrompidas--pedras serradas +e esquadradas, um monte de cimento, e uma picareta e uma trolha, +semelhantes ás que ainda hoje usam os pedreiros. Contemplei +com +reverencia estas antiquissimas ferramentas. No emtanto Fulata, que +desde +a nossa entrada na caverna não cessára de tremer +de medo, sentou-se +sobre uma pedra, e declarou que desmaiava, não podia mais +caminhar... +Alli a deixámos, com o cesto de provisões ao +lado, até que ella ganhasse +alento. E seguimos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Uns quinze passos adiante, demos de repente com uma porta de pau, +curiosamente pintada a côres, e toda aberta para traz. E no +limiar da +porta, lá estava, cahido no chão--<em>um +pequeno saco de couro que parecia +cheio de seixos</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Então, brancos, que vos disse eu? Ganiu Gagula em +triumpho, brandindo +a lampada. Olhai bem! Ahi tendes o saco que o homem deixou cahir! Ahi +está ainda, desde gerações! Que vos +disse eu? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +John ergueu o saco. Era pesado e tinia. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Santo Deus! Está cheio de brilhantes! Balbuciou elle quasi +com medo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E com effeito, meus amigos! A idéa d’um saco de +couro repleto de +diamantes--é de causar medo! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Para diante, para diante! Exclamou o barão, com subita +impaciencia. Dá +cá tu a lampada, bruxa! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Arrancou a luz das mãos de Gagula. E de tropel com elle, sem +sequer +pensar mais no saco que John atirára outra vez para o +chão, transpozemos +a porta. Estavamos dentro do thesouro de Salomão. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Durante um momento olhámos vagamente em redor, +n’um silencio apavorado. +Á luz debil e mortiça da lampada só +percebemos, ao principio, que o +quarto ou camara era excavado na rocha viva. Depois a um dos lados +vimos +distinctamente alvejar, sobrepostos em camadas até +á abobada, uma porção +immensa de dentes de elephante, de inigualavel riqueza. Haveria talvez +uns quinhentos ou seiscentos dentes. Só aquelle marfim nos +poderia +tornar a todos ricos para sempre. Era d’esse espantoso +deposito que +Salomão fizera talvez o «grande throno de +marfim», de que fallam os +livros santos! Toquei um dente de leve, depois outro, com +veneração, +como reliquias sagradas! E o suor cahia-me em bagas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Alli estão os diamantes, gritou John. Trazei a luz! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Corremos para o recanto que elle indicava. E a lampada que o +barão +baixára mostrou umas dez ou doze caixas de madeira, +estreitas e muito +compridas, pintadas de escarlate. A tampa d’uma, +tão antiga que mesmo +n’aquelle ar sêcco de caverna tinha apodrecido, +apresentava vestigios +d’arrombamento. Pelo menos no meio havia um buraco. Enterrei +a mão +através, e tirei-a cheia, não de diamantes, mas +de moedas de ouro, como +nós nunca viramos, com letras hebraicas (ou que julgamos +hebraicas) e +palmeiras e torres em relevo no cunho. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Justos céos! Murmurei suffocado. Aqui devem estar +milhões! Isto nem se +acredita!... Naturalmente era o dinheiro para pagar as ferias aos +mineiros... Estaremos nós a sonhar? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Mas os diamantes, exclamava John, percorrendo sofregamente o quarto. +Onde estão por fim os diamantes? Só se o +portuguez os metteu todos no +saco! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Gagula decerto comprehendeu os nossos olhares, que buscavam avidamente: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Além, além, onde é mais escuro! +Lá estão os tres cofres de pedra, dois +sellados, um aberto! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A sua aguda voz tomára um som cavo e sinistro. Mas +quê! Onde ia agora, +diante de tão inverosimeis riquezas, o medo das prophecias +mortaes? Era +além, no recanto escuro? Para lá corremos, +sondando com a lampada. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Aqui, rapazes, gritou John, na maior excitação. +Aqui. Oh meu Deus! São +tres arcas de pedra! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E eram! Eram tres arcas de pedra que nos davam pela cintura, occupando +os tres lados d’uma especie de alcova tenebrosa. Duas estavam +fechadas +com immensas tampas de pedra. A tampa da terceira estava encostada +á +muralha. Baixamos a lampada para dentro. Não +pudémos distinguir nada ao +principio, deslumbrados por uma vaga refracção +prateada que faiscava e +tremia. Quando os olhos se habituaram áquelle brilho +estranho, vimos que +a arca immensa estava cheia até ao meio de diamantes brutos! +Mergulhei +as mãos n’elles. Com effeito! Eram diamantes. Uma +arca cheia de +diamantes! Não havia duvida! Bem lhes sentia eu entre os +dedos aquelle +macio especial que em Kimberley, nas minas, chamam <em>sabonaceo</em>! +Era uma +arca cheia de diamantes! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ficamos, mudos, olhando uns para os outros. Á frouxa luz da +lampada eu +via as faces dos meus amigos perfeitamente lividas. E não +havia em nós +nenhuma alegria. Era um torpôr, como se a alma nos ficasse +bruscamente +esmagada, sob a fabulosa infinidade d’aquella riqueza. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Eu murmurei com um suspiro de creança: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Somos os homens mais ricos d’este mundo! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +John passava os dedos pelo queixo, n’uma +distracção quasi melancolica: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Eu sei lá!... Os diamantes agora perdem de valor; ficam +como vidro! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E transportal-os? E transportal-os? Dizia o barão, +abanando a cabeça. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +De repente sentimos por traz uma risada que nos estarreceu. Era Gagula. +Gagula que ia, vinha, ás voltas, na sala escura, como um +morcego, de +braço estendido para nós: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Hi! Hi! Hi! Ahi está satisfeito o desejo vil dos vossos +corações, +homens das estrellas! Hi! Hi! Hi! Quantas pedras brancas! Milhares +d’ellas! E todas vossas! Agarrai n’ellas! Rolai por +cima d’ellas! Hi! +Hi! Hi! Comei as pedras! Hi! Hi! Hi! Bebei as pedras! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Havia alguma coisa de tão grotesco n’aquella +idéa de beber diamantes e +comer diamantes, que larguei a rir estridentemente, desbragadamente. E +por contagio, os meus companheiros desataram tambem a rir, a rir, +ás +gargalhadas. E alli ficámos todos, de mãos nas +ilhargas, perdidos a rir, +a rir, a rir! Riamos de quê? Nem sei. Riamos dos +diamantes--d’aquelles +diamantes que, milhares de annos antes, os mineiros de +Salomão tinham +escavado para <em>nós</em>, que os agentes de +Salomão tinham armazenado para +<em>nós</em>... Pertenciam a +Salomão... Mas onde ia Salomão? Eram <em>nossos</em> +agora, os seus diamantes! Não tinham sido para +Salomão, nem para David, +seu pae, nem para nenhum rei de Judá! Não tinham +sido para o atrevido e +velho fidalgo portuguez, nem para nenhum dos portuguezes que vinham +singrando de leste em caravelas armadas! Tinham sido para <em>nós</em>! +Só para +<em>nós</em>! Para nós aquelles +milhões e milhões de libras, que, +n’este +seculo, em que o dinheiro tudo domina, nos tornavam tão +poderosos como +outr’ora Salomão. De facto eramos <em>Salomões</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +De repente o accesso de riso findou. E ficamos a olhar uns para os +outros, estupidamente. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Abri as outras arcas! Gania no emtanto Gagula. Estão +tambem cheias! +Todas as pedras são vossas! Fartai-vos, fartai-vos! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Em silencio, com uma sofreguidão brutal, arremessamo-nos +sobre as outras +arcas, quebrando os sellos, empuxando as tampas, n’um +desesperado +esforço! Hurrah! Cheias tambem! Cheias até +cima!... Não, a terceira +estava quasi vasia. Mas todas as pedras que continha eram escolhidas, +d’um peso, d’um tamanho inacreditaveis. Havia-as +como ovos pequenos. As +maiores todavia, postas contra a luz, apresentavam um vago tom +amarello. +Eram «diamantes de côr», como elles dizem +em Kimberley, nas minas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tinha eu um d’estes na mão, enorme, quando de +repente ouvimos gritos +afflictos do lado do corredor. Era a voz de Fulata: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--<em>Acudam</em>! <em>Acudam</em>! <em>Que +a porta de pedra está a cahir</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Uma outra voz, desesperada, a de Gagula, rugia sinistramente: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Larga-me, rapariga, larga-me! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--<em>Acudam</em>! <em>Acudam</em>! <em>Ai +Gagula que me matou</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Como contar o brusco, pavoroso lance? Corremos. Á luz frouxa +da lampada +vimos a porta de pedra descendo, e junto d’ella Gagula e +Fulata +enlaçadas n’uma lucta furiosa. De repente Fulata +cae, coberta de sangue. +Gagula atira-se ao chão, para fugir como uma cobra +através da fenda que +havia ainda entre o chão e a porta. Mette a +cabeça e os hombros!... +Justos céos! Era tarde. A pedra immensa apanha-a, e a +creatura uiva de +agonia! A pedra desce, desce, com as suas trinta toneladas sobre o +corpo +já preso. Vem d’elle gritos e gritos, como eu +jámais ouvira--até que ha +um som horrivel de coisa <em>esborrachada</em>, e a porta +immensa fica immovel, +fechada, justamente quando nós, correndo sempre, esbarramos +de roldão +contra ella! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Isto durára quatro segundos--quatro seculos. Voltamos +então para Fulata. +A pobre rapariga tinha uma grande facada e estava a morrer. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ah Boguan! (era assim que os Kakuanas chamavam a John). Ah Boguan! +exclamou, suffocada, a bella creatura. Gagula sahiu fóra. Eu +não a vi, +estava meia desmaiada. Então a porta começou a +descer... Ella ainda +entrou, foi olhar para vós... Depois tornava a sahir, quando +eu a +agarrei, e ella me deu uma facada, e agora morro! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Pobre rapariga! Minha pobre rapariga! Gritava John. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E como não podia fazer outra coisa, começou a +dar-lhe beijos, longos +beijos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ella sorria, arfando, com as palpebras cerradas. Depois: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Macumazan, estás ahi?... Ja mal vejo... Estás +ahi?... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Estou, Fulata. Que queres? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Falla por mim, Macumazan. Dize a Boguan que não me +comprehende bem. +Dize-lhe que o amei sempre, desde o primeiro dia, que o amo... Mas que +morro contente, porque elle não se podia prender a uma +rapariga como +eu... O sol não se casa com a noite. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Teve um suspiro. A sua mão errante procurava em redor. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Macumazan, estás ahi? Dize-lhe que me aperte mais contra o +peito, para +eu sentir os seus braços. Assim, assim... Dize-lhe que um +dia hei de +tornar a vêl-o nas estrellas... Que hei de ir de estrella em +estrella, á +procura d’elle. Macumazan, dize-lhe ainda que o amo, dize-lhe +ainda... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Os labios sorriam, sem fallar. Estava morta. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +As lagrimas cahiam, quatro a quatro, pela face do meu pobre John. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Morta! Murmurava elle, agarrando ainda as mãos de Fulata. +Já me não +ouve! E não a tornar a vêr, não a +tornar a vêr! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão disse então, devagar, e n’uma +estranha voz: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não tardará, amigo, que a tornes a +vêr. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Como assim? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--<em>Oh homens, pois não percebestes ainda que +estamos enterrados vivos</em>? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Foi então, só então, que pela primeira +vez comprehendi o indizivel +horror do que nos succedia! Sim, com effeito! A enorme massa de pedra +estava fechada. O unico sêr que lhe conhecia o segredo jazia +esborrachado por ella, sob ella. Forçal-a, só se +tivessemos alli massas +de dynamite! Estava fechada para sempre! E nós alli fechados +detraz +d’ella! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Durante momentos ficamos mudos, com os cabellos em pé, junto +do cadaver +de Fulata. Toda a força de homens, a coragem de homens, +fugia de nós +bruscamente. Eramos sêres inertes. E comprehendiamos agora +todo o plano +monstruoso de Gagula--as suas ameaças, as suas ironias, o +seu sinistro +convite para bebermos e comermos diamantes. Sim, era o que tinhamos +para beber e comer! Desde Lú, decerto, ella viera planeando +a traição--e +só nos trouxera á caverna, para nos deixar +lá dentro, morrendo junto dos +thesouros que appeteceramos! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--É necessario fazer alguma coisa, exclamou o +barão, n’uma voz rouca. +Animo, rapazes! A lampada vai findar. Vejamos se, por um acaso, podemos +achar o segredo, a móla que move a rocha. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Recobramos um momento de energia, e, escorregando no sangue da pobre +Fulata, rompemos a apalpar anciosamente a porta e as paredes do +corredor. Não achamos nada, em mais d’uma hora de +desesperada busca, que +nos esfolou as mãos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--A móla, se tal móla ha, está do lado +de fóra, disse eu. Foi por isso +que Gagula sahiu, como disse Fulata. Depois, se voltou, é +porque se +queria certificar que estavamos bem entretidos com os diamantes... +Malditos sejam elles, e maldita seja ella! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--De resto, lembrou o barão, se a infame bruxa tentou fugir +pela fenda é +que sabia bem que pelo lado de dentro não podia levantar a +rocha. Não ha +nada a fazer com a porta. Vamos vêr outra vez, na camara. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Levantamos então com respeito e cuidado o corpo da pobre +Fulata, fomol-o +collocar dentro, no chão, com os braços em cruz, +junto das arcas de +dinheiro. Depois vim buscar o cesto de provisões. E sentados +junto dos +cofres de pedra atulhados de riquezas que nos não podiam +salvar, +dividimos as provisões em doze pequenos lotes, que, a dois +repastos por +dia, nos poderiam sustentar a vida por dois dias. Além da +caça fria e +das carnes sêccas tinhamos duas cabaças +d’agua. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Bem, jantemos, disse o barão, que é talvez o +nosso penultimo jantar +n’este mundo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Pouco era o appetite, naturalmente. Mas havia horas que estavamos em +jejum, e aquella parca comida, molhada com avaros goles +d’agua, +reconfortou-nos e deu-nos um vago alento de esperança. +Começamos então a +examinar systematicamente as paredes da nossa prisão, +contando com a +remota possibilidade de que existisse, além da porta da +rocha, outra +sahida. Esquadrinhamos todos os recantos, arredamos todas as arcas, +batemos as muralhas, sondamos o sólo, exploramos a abobada. +Ficamos +exhaustos sem achar nada. A lampada espirrava e amortecia. Quasi todo o +oleo estava chupado. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Que horas são, Quartelmar? Perguntou o barão. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tirei o relogio. Eram seis horas. Tinhamos entrado ás onze +na caverna. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Infandós ha de dar pela nossa falta, lembrei eu. Se nos +não vir voltar +esta noite, decerto nos vem procurar... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E então? Exclamou o barão. De que serve? +Infandós não conhece o +segredo da porta, ninguem o conhecia senão Gagula. Ainda que +conhecesse +a porta, não a podia arrombar. Nem todo o exercito dos +Kakuanas, com as +suas azagaias, póde furar cinco pés de rocha +viva. Ninguem nos póde +salvar senão Deus! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Houve entre nós um longo, grave silencio. De repente a luz +flammejou, +mostrando, n’um relevo forte, todo o interior da camara, o +grande monte +dos marfins brancos, as arcas de dinheiro pintadas de vermelho, o corpo +da pobre Fulata estirado diante d’ellas, o saco de couro +cheio de +diamantes, a vaga refracção que sahia dos cofres +de pedra abertos, e as +lividas faces de nós tres, alli sentados a um canto, +á espera da morte. +Depois a luz bruxuleou e morreu. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<h2 style="text-align: center;"><a name="cap_XV"></a>CAPITULO +XV +</h2> + +<h3 style="text-align: center;"> +NAS ENTRANHAS DA TERRA +</h3> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"> +Não me é possivel descrever com +exactidão as agonias d’aquella noite. E +ainda assim a divina Misericordia permittiu que dormissemos a +espaços. +Mas o brusco acordar, a cada instante, era pungente. Por mim, o que +mais +me torturava era o <em>silencio</em>. Um silencio +tenebroso, tangivel, +absoluto,--o silencio d’uma sepultura cavada nas +profundidades rocheas +do globo, e onde todas as artilherias troando, e as trovoadas do +céo +estalando, não poderiam fazer chegar a menor +vibração de som, fosse elle +ao menos tão leve como um leve zumbir de mosca... E +então, acordado, a +monstruosa ironia da nossa situação ainda mais me +acabrunhava. Em torno +de nós jaziam riquezas incontaveis, bastantes para pagar as +dividas de +muitos estados, construir frotas de couraçados, erguer +palacios todos +feitos de ouro, saciar todas as fomes, satisfazer todas as +imaginações... E de que nos serviam? Uma pouca de +pedra bruta sem valor, +mas que nós não podiamos quebrar com as nossas +mãos, tornavam-nas +inuteis, tão sem valor como a propria pedra! Uma arca +inteira de +diamantes dariamos nós com infinito prazer por um pouco de +pão, ou por +outra cabaça d’agua. Mais! Dariamos todas as arcas +de diamantes pelo +privilegio de morrer de repente, sem sentir, sem soffrer! Na verdade, o +que é a riqueza? Sonho, estupida illusão! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--John, disse o barão, do seu canto, n’um dos +momentos em que eu assim +pensava, quantos phosphoros te restam? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Oito. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Accende um, vê as horas. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A chamma quasi nos deslumbrou depois da intensa treva. Eram cinco horas +no meu relogio. A alvorada estaria agora clareando as alturas da serra! +A brisa espalharia o aroma do rosmaninho em flôr! Os soldados +d’Infandós +começariam agora a mexer-se nas suas mantas, junto das +fogueiras +apagadas--e as nascentes d’agua, junto d’elles, +cantariam de rocha em +rocha. De assim pensar, as lagrimas humedeceram-me os olhos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Era melhor comermos alguma coisa, suggeriu o barão. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Para que? Exclamou John. Quanto mais depressa acabarmos com isto, +melhor! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Emquanto Deus permitte a vida, é que permitte a +esperança! Respondeu o +barão gravemente. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Repartimos uma pouca de carne sêcca e d’agua. +Emquanto comiamos, um de +nós lembrou que nos avisinhassemos da porta, e gritassemos +com toda a +força, porque talvez Infandós, andando +já na caverna á nossa procura, +ouvisse o remoto som das nossas vozes. John, que, como marinheiro, +tinha +o habito de gritar, desceu o corredor ás apalpadellas, e +começou a +berrar furiosamente. Nunca decerto ouvi uivos iguaes: mas foram +tão +inefficazes como um murmurio de insecto. O resultado unico foi que John +voltou com a garganta resequida, e teve de chupar um trago da pouca +agua +que restava. Gritar só nos fazia sêde. Desistimos +d’esse esforço inutil. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +De sorte que nos agachamos de novo junto dos cofres cheios de +diamantes, +n’aquella horrivel inacção que era um +dos nossos maiores tormentos. E eu +então cedi ao desespero. Deixei cahir a cabeça no +hombro do barão, e +desatei a chorar. Do outro lado o pobre John soluçava +tambem. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Grande alma, e corajosa, e dôce, era a do barão. +Se nós fossemos duas +creancinhas assustadas, e elle a nossa mãe, não +nos teria animado e +consolado com maior carinho. Esquecendo a sua propria sorte, fez tudo +para nos serenar, contando casos de homens que se tinham encontrado em +lances terrivelmente iguaes, e que milagrosamente tinham escapado. +Depois levava-nos a considerar que, no fim de tudo, nós +estavamos +simplesmente chegando áquelle fim a que todos têm +de chegar, que tudo em +breve acabaria, e que a morte por inanição +é suave (o que não é +verdade). E emfim, com um modo differente, pedia-nos que nos +abandonassemos á misericordia de Deus, e lhe rogassemos, na +nossa +miseria, um olhar dos seus olhos piedosos. Natureza adoravel, a +d’este +homem! Quanta serenidade, e quanta força! Eu por mim +acolhia-me a elle +como a um grande refugio. E por sua exhortação, +rezei e serenei. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Assim passou o dia (se tal treva se póde chamar dia), +até que accendi +outro phosphoro, olhei o relogio. Eram sete horas! Pensamos +então em +comer. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E quando estavamos dividindo a carne sêcca, occorreu-me de +repente uma +idéa estranha: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Porque é, disse eu, que o ar aqui se conserva +tão fresco? É um pouco +espesso, mas é fresco. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Santo Deus! Exclamou John erguendo-se com um pulo. Nunca pensei +n’isso! Com effeito é fresco... Não +póde vir de fóra pela porta de +pedra, porque reparei perfeitamente que ella gira dentro de quelhas... +Tem de vir de outro sitio. Se não houvesse uma corrente +d’ar, deviamos +ficar suffocados, quando aqui entramos hontem... Agora mesmo +deviamo-nos +sentir abafados. Evidentemente o ar é renovado. Vamos a +vêr! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ainda elle não findára, já +nós andavamos, de gatas, ás apalpadellas, na +escuridão, procurando sofregamente qualquer +indicação de buraco ou +fenda, por onde entrasse ar. Houve um momento em que pousei a +mão no +quer que fosse de gelado. Era a face da pobre Fulata, já +rigida. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Durante uma hora ou mais, passamos assim apalpando todos os cantos, +até +que o barão e eu desistimos, esfalfados, e todos pisados de +ter +constantemente batido com a cabeça nos muros, nos dentes de +elephante, e +nas esquinas das arcas. Mas John continuou, sem perder a +esperança, +declarando que «era melhor aquillo que pensar na morte, de +braços +cruzados». +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +De repente, teve uma exclamação: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Oh rapazes! Aqui! Vinde cá. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Com que precipitação corremos para o canto +d’onde elle fallára! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Quartelmar, ponha aqui a mão, onde está a +minha. Ahi. Que sente? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Parece-me que sinto um fio d’ar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Agora ouça! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ergueu-se, e bateu com o pé no chão. Uma immensa +esperança +relampejou-nos n’alma. A lage <em>soava ôco</em>. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Com as mãos a tremer accendi um phosphoro. Estavamos +n’um recanto, de +que ainda não suspeitaramos--e aos nossos pés, na +lage que pisavamos, e +como encrustada n’ella, havia uma grossa argola de pedra. +Não tivemos +uma palavra, na immensa excitação que de +nós se apoderou. John tinha uma +navalha, com um d’esses ganchos que servem para extrahir +pedras pequenas +das ferraduras dos cavallos. Ajoelhou e começou a raspar com +o gancho, +em torno da argola. Raspou, raspou--até que conseguiu +introduzir a ponta +do gancho sob a argola, levantal-a pouco a pouco, pôl-a a +prumo. Depois +deitou-lhe as mãos, e puxou desesperadamente. Nada se moveu. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Deixai-me vêr a mim! Exclamei com impaciencia. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Agarrei, pondo toda a minha força no puxão +contínuo e intenso. +Escalavrei as mãos. A pedra não se moveu. Depois +foi o barão. +Sentiamol-o gemer. A pedra não se moveu. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +De novo John se atirou de joelhos, e com o gancho da navalha raspou em +redor a frincha por onde nós sentiamos como um debil halito +de ar. Em +seguida tirou um grosso lenço de sêda que lhe +envolvia o pescoço, e +passou-o na argola. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Agora, barão! Mãos ao lenço, e puxar +até rebentar! Quartelmar, agarre +o barão pela cinta, e puxem ambos quando eu disser... Um, +dois, <em>vá</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Em silencio, com os dentes rilhados, puxámos, +puxámos--até que eu sentia +rangerem os ossos do barão. Era elle que fazia o +esforço maior, com os +seus enormes braços de ferro. E foi elle que sentiu a pedra +mexer... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Agora! Agora! Está cedendo! Mais! Ála, +ála! Héh! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Um estalo, uma rajada brusca d’ar, e rolámos +estatelados no chão, com a +pedra por cima de nós. Fôra a immensa +força do barão que fizera o +prodigio. Que grande coisa, a força! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Um phosphoro, Quartelmar! Exclamou elle, erguendo-se ainda +arquejante. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Accendi o phosphoro. E, louvado Deus! Vimos diante de nós os +primeiros +degraus d’uma escada de pedra! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E agora? Perguntou John. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Descer! E confiar em Deus! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Esperai! Gritou o barão. Quartelmar, veja se apalpa e acha +o resto da +comida e da agua. Quem sabe onde iremos parar? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Achei logo as provisões, que estavam junto da arca de pedra, +cheia de +diamantes. E já enfiára o cesto no +braço, quando pensei nos diamantes... +Porque não? Quem sabe? Talvez por mercê divina, +achassemos uma sahida! +Não fazia mal nenhum, á cautela, metter um +punhado de diamantes na +algibeira!... Se chegassemos a sahir d’aquella horrivel cova, +não teriam +sido ao menos inuteis todas as nossas angustias. Um punhado de +diamantes +nada pesava! E ao acaso, mergulhei a mão na arca e comecei a +encher +todos os bolsos da minha rabona. Depois atulhei as algibeiras das +pantalonas. Já abalava, quando voltei ainda, com uma +idéa, á arca onde +estavam as pedras mais graúdas. E encafuei uma enorme +mão cheia d’elles +para dentro da algibeira do peito. O contacto vivo d’aquellas +riquezas +fez-me pensar nos outros. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Oh rapazes! Não quereis levar uns poucos de diamantes? Eu +enchi as +algibeiras. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Diabos levem os diamantes, disse do canto o barão, +impaciente. Até me +faz nauseas a idéa de diamantes! É marchar, +é marchar! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Emquanto ao amigo John, esse nem respondeu. Creio que estava de +joelhos, +junto do corpo de Fulata, dando o ultimo adeus áquella que +por elle +morrera! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quando nos achamos juntos do alçapão, +já o barão descera o primeiro +degrau. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Eu vou adiante, segui devagar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Cuidado, gritei eu! Póde haver por baixo algum medonho +buraco. Vá +tenteando... Mão encostada sempre á parede... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O barão desceu contando os degraus. Quando +chegára a «quinze» parou. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--É um corredor, gritou elle debaixo. Descei! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quando chegámos ao fundo, accendi um dos dois phosphoros que +nos +restavam. Á luz que elle deu, vimos um pequeno +espaço, onde se +encontravam em angulo recto dois tunneis muito estreitos. O phosphoro +morreu, queimando-me os dedos. E ficámos n’uma +horrivel hesitação! Qual +dos tunneis seguir? John então lembrou-se que a chamma do +phosphoro se +inclinára para a banda do tunnel da esquerda. Portanto o ar +vinha pelo +tunnel da direita. Era por esse que deviamos caminhar, demandando o +lado +do ar. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Aceitámos a idéa. E apalpando sempre a parede, +não arriscando um passo +sem tentear o sólo, seguimos n’esta nova e incerta +aventura. Ao fim d’um +quarto de hora de marcha lenta, esbarrámos n’um +muro. Era outro tunnel +transversal, por onde continuámos cosidos com o muro. Depois +d’esse +topámos outro, que o cruzava em angulo agudo. Depois havia +outro, mais +largo. E assim durante horas. Estavamos n’um labyrintho de +rocha viva. +Para que tivessem servido outr’ora estas innumeraveis +passagens +subterraneas, não sei dizer--mas tinham a apparencia de +galerias de +mina. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Finalmente parámos, esfalfados, com a esperança +meia perdida. Comemos os +restos das provisões, bebemos os derradeiros goles +d’agua. Tinhamos +escapado de morrer nas trevas d’uma cova de diamantes--para +vir talvez +morrer nas trevas d’uma mina vasia... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quando assim estavamos sentados no chão, encostados ao muro, +n’um +infinito desalento--eu julguei ouvir um som, debil e vago, como a +distancia. Avisei os outros, escutámos sem respirar. E todos +muito +claramente distinguimos um <em>som</em>. Era muito tenue, +muito remoto,--mas +era um som, um som murmurante e contínuo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Santo Deus! Exclamou John. É agua a correr! Tenho a +certeza que é agua +a correr. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +N’um instante estavamos de pé, caminhando para o +som. A cada passo o +sentiamos mais distincto, mais claro, na immensa mudez do tunnel. +Sempre +para diante, sempre para diante! O som ia crescendo. Por fim era um +ruido forte, o ruido d’uma corrente d’agua. Mas +como podia haver agua +corrente n’estas entranhas da terra?... E todavia, com +certeza, alli +perto corria agua com força. John, marchando adiante, jurava +que lhe +percebia já a humidade e o cheiro. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Devagar, John, devagar! Gritou o barão. Devemos estar +perto... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +De repente um baque n’agua, um grito de John! Tinha cahido. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--John! John! Onde estás? Berrámos, perdidos de +terror. Falla! Falla! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Que allivio, quando a voz d’elle nos veio de longe, +suffocada. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Salvo. Agarrei-me a uma pedra! Accendei um phosphoro para eu +vêr onde +estaes! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Raspei o meu ultimo phosphoro. Á sua luz tremula vimos aos +nossos pés +uma immensa massa d’agua, correndo com grande +força. Que largura tinha +não percebemos... Mas a distancia distinguimos a +fórma vaga do nosso +companheiro, pendurado d’um penedo agudo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Preparai para me agarrar, gritou elle de lá. Vou nadar +para ahi! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Outro baque, uma grande lucta de braços batendo a agua. +Depois junto de +nós um resfolegar ancioso. E por fim uma +exclamação do barão, que +agarrára o nosso amigo pelas mãos, o +puxára para dentro do tunnel, a +escorrer. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Irra! Balbuciava John, offegando. Estive por um fio. É uma +corrente +furiosa e parece-me que não tem fundo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Evidentemente, d’este lado nada conseguiamos. De sorte que, +depois de +John descançar, de bebermos á farta +d’aquella agua que era deliciosa, e +de lavarmos a cara, deixámos as margens d’aquelle +tenebroso rio, e +retrocedemos ao comprido do tunnel, com John adiante, tiritando e +pingando. Depois de andarmos um quarto de hora--chegámos a +outro tunnel, +que se inclinava para a direita e parecia mais largo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Seguimos este, disse o barão inteiramente desalentado. +Todos elles são +iguaes. O melhor é andarmos, andarmos, até cahir +ahi para um canto, sem +poder mais, á espera da morte. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Durante muito, muito tempo, mudos, em fila, arrastámos os +passos na +treva, atraz do barão, cujas fortes pernas já +frouxeavam. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +De repente esbarrámos com elle--que estacára, +como attonito. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Quartelmar! Exclamou elle, agarrando-me convulsivamente o +braço. Eu +estou a delirar ou aquillo além é luz? +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Arregalámos desesperadamente os olhos. E com effeito, +lá ao longe, ao +fundo do tunnel, vimos uma pallida, vaga mancha de claridade, pouco +maior do que um vidro de janella! Com outro alento de +esperança +estugamos o passo. Momentos depois toda a duvida cessára, +deliciosamente. Era <em>luz</em>--uma desmaiada mancha de +luz! Tropeçavamos uns +contra os outros na nossa anciedade. Mais viva, cada vez mais viva a +luz! Por fim, um ar fresco bateu-nos a face!... Mas de repente o tunnel +estreitou. Caminhamos curvados. Depois estreitou mais. Gatinhamos, de +mãos no chão. E estreitou ainda, como uma toca de +raposa. Fomos de +rastos. Mas a rocha findára. Era terra, terra friavel, que +se +esboroava... Um empuxão, um gemido, e o barão +furou, e John furou, e eu +furei--e sobre as nossas cabeças luziam as bemditas +estrellas, e na +nossa face batia uma aragem dôce! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +De repente faltou-nos o chão, e todos tres, á +uma, rolámos, de +escantilhão, por um declive abaixo, de terra molle e humida, +entre capim +e tojo... Agarrei uma coisa e parei. Estonteado, coberto de +lôdo, berrei +pelos outros, desesperadamente. Um brado em resposta veio de baixo, +d’uma terra chã onde o barão +fôra parar. Resvalei até lá, e fui +encontrar o nosso amigo atordoado, sem folego, mas intacto. +Gritámos +então por John. E uns olás arquejantes +guiaram-nos ao sitio onde uma +raiz de arvore, em que ainda estava acavallado, o detivera no +desesperado tombo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Sentámo-nos então todos tres na relva--e +vendo-nos fóra da funebre +caverna, salvos, sãos, a respirar outra vez o ar da terra, a +emoção foi +tão forte que começámos a chorar de +alegria. Seguramente fôra Deus +misericordioso que nos guiára por aquelle tunnel, para +aquelle buraco, +que era a porta da Vida! E agora, a manhã que julgavamos +nunca mais vêr, +estava roseando o topo dos montes. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Á sua luz bemdita vimos então que nos achavamos +no fundo, ou quasi no +fundo, d’aquella immensa cova circular que fôra +outr’ora a mina de +Diamantes. Lá no alto, já podiamos distinguir as +confusas fórmas dos +tres colossos. Sem duvida aquelles corredores por onde tinhamos +vagueado, tão angustiosamente, communicavam +outr’ora com as +Diamanteiras. E emquanto ao tenebroso rio... Mas que nos importava +agora +o rio? A luz do dia clareava. Estavamos envolvidos na luz do dia! +Só +isto era essencial e dôce de saber! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Não podiamos deixar todavia de pasmar para as nossas +figuras. +Escaveirados, esgazeados, rotos, cheios de pisaduras, com camadas de +pó +e de lama, sangue nas mãos e sangue nas faces--eramos, na +verdade, tres +espantalhos medonhos. Mas não havia a pensar em nos +sacudirmos ou nos +ageitarmos. Aquelle fundo da cova, humido e regelado, era perigoso para +corpos como os nossos tão exhaustos. De sorte que +começámos, com lentos +e custosos passos, a trepar as ladeiras ingremes, através da +greda +azulada, agarrando-nos ás raizes, e agarrando-nos ao tojo, +n’um esforço +ultimo que nos esvaía. Ao fim d’uma hora estava +terminada a façanha--e +os nossos pés tremulos pisavam outra vez a estrada de +Salomão. A umas +cem jardas adiante brilhava uma fogueira junto de cabanas, e em volta +d’ella estavam homens. Para lá +caminhámos, amparando-nos uns aos outros, +e parando, meio desmaiados, a cada passo incerto. De repente um dos +homens que se aquecia ao lume ergueu-se, avistou-nos--e atirou-se de +bruços ao chão, tremendo, gritando de medo. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Infandós, Infandós, somos nós, teus +amigos! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Elle levantou a cabeça, depois o corpo. Por fim correu para +nós, com os +olhos esbugalhados, e ainda tremendo todo: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Oh meus senhores! Sois vós! Sois vós! Voltaes +do fundo dos mortos!... +Voltaes do fundo dos mortos!... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E o velho guerreiro, abraçando-se ao barão pelos +joelhos, rompeu a +soluçar de alegria. +</p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<h2 style="text-align: center;"><a name="cap_XVI"></a>CAPITULO +XVI +</h2> + +<h3 style="text-align: center;"> +A PARTIDA DE LÚ +</h3> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"> +Dez dias depois estavamos de novo em Lú--nas nossas +confortaveis cubatas +de Lú, á sombra dos machabelles. E poucos +vestigios nos restavam +d’aquella atroz aventura, além dos muitos cabellos +brancos que eu +trazia, e da melancholia em que cahira o nosso pobre John, com o +coração +ainda cheio de Fulata. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +É inutil accrescentar que não tornámos +a penetrar no thesouro de +Salomão--apesar de sagazes e methodicas tentativas. +N’aquelle dia em que +Infandós nos acolheu como a resuscitados, nada fizemos +senão comer, +dormir, descançar, gozar o sol. Logo no dia seguinte +porém, descemos com +uma escolta á grande cova, na esperança de +encontrar o buraco por onde +tinhamos furado para a luz e para a vida. Foi debalde. Em primeiro +logar +chovera copiosamente de noite, e todas as nossas pegadas tinham +desapparecido; mas além d’isso os declives em +funil da enorme cava +estavam por todos os lados cheios de buracos, uns naturaes, outros +feitos por bichos. Qual d’elles nos salvára entre +tantos milhares? +Impossivel descobrir! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Depois d’isso voltámos á caverna de +stalactites, affrontámos outra vez +os horrores da Camara dos Reis Mortos: e durante muito tempo +rondámos +diante da muralha de pedra, para além da qual jaziam +inaccessiveis para +sempre os maiores thesouros da terra, para sempre guardados +funebremente +pelo esqueleto da pobre Fulata. Mas, apesar de examinarmos a muralha +durante horas, de a apalpar, de martellar sobre ella, não +nos foi +possivel achar o segredo da porta,--sob a qual jaziam pulverisados os +fragmentos da hedionda bruxa, que com a sua +traição só ganhára a sua +perda. Emquanto a forçar aquelles cinco pés de +rocha viva, quem podia +pensar em tal feito? Nem todo o exercito dos Kakuanas, trabalhando +annos, lograria passar através. Só com +dynamite,--ou trazendo pelo +deserto poderosas machinas. E assim, lá estão +ainda, n’esse remoto canto +de Africa, os thesouros, que desde os tempos biblicos tanto +têm +fascinado a imaginação dos homens. Um dia talvez, +quando a Africa toda +estiver civilisada, cortada de estradas, coberta de cidades, alguem +mais +feliz que nós, e com os incalculaveis recursos da sciencia +d’então, +penetrará no vedado thesouro, e será rico +além de toda a phantasia! +Esse, se jámais existir, encontrará +lá, como vestigio da nossa passagem, +as arcas abertas e os ossos da pobre Fulata, e uma lampada apagada. A +esse tempo já estará perdida a memoria +d’este livro, contando a estranha +aventura. E esse explorador futuro mal suspeitará +então, ao dar com o pé +n’esses ossos, ao remexer essas riquezas, que tres homens do +seculo XIX +passaram alli um dos mais tragicos lances que jámais foi +dado a homem +passar... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Devo todavia accrescentar que, materialmente, a nossa estada na caverna +não foi de todo inutil. Como contei, ao abandonarmos o +thesouro, eu tive +a esplendida precaução de atulhar as algibeiras +de diamantes. Muitos +d’estes, e sobretudo os maiores, cahiram, ficaram perdidos, +quando eu +rolei pelos declives da cova. Mas ainda me restou nos bolsos uma enorme +quantidade. Não lhe posso calcular o valor. Deve ser +immenso! Supponho +que trouxemos ainda diamantes bastantes para sermos todos tres +millionarios, e possuirmos os tres mais ricos adereços de +joias que +existam no mundo. Em resumo, no ponto de vista economico, a aventura +não +gorou. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Em Lú, fomos acolhidos pelo rei Ignosi com grande amizade e +regozijo. +Apesar de fundamente absorvido nos cuidados d’um Reinado que +começa (e +sobretudo na reorganisação do exercito) estivera +em grande inquietação +durante a nossa longa demora nas Minas. E foi com ardente curiosidade +que escutou a nossa maravilhosa historia. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +A noticia da morte de Gagula foi para elle um allivio immenso. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Quem sabe, murmurou elle, se depois de vos deixar morrer no sitio +escuro, não acharia ainda artes de me matar a mim tambem! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Para commemorar a nossa volta Ignosi deu um banquete e uma +dança. E foi +n’essa noite, ao fim da festa, no terreiro real, onde +brilhava o luar, +que nós annunciámos ao rei o nosso desejo de +deixar emfim o seu reino, e +regressar á nossa patria. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ignosi primeiramente pareceu espantado. Depois cobriu a face com as +mãos: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--O que vós annunciaes, exclamou elle por fim, retalha o meu +coração! +Sempre pensei que de todo ficarieis commigo. Para que foi +então, oh +valentes, que me ajudastes a ser rei? O que quereis? O que vos falta? +Mulheres? Campos? Gados? Toda a terra que é minha, +é vossa. Escolhei! É +uma casa como as que os brancos habitam no Natal que vos falta? Os meus +homens, ensinados por vós, edificarão uma entre +jardins... Dizei! E cada +um dos vossos desejos tem já a minha promessa de rei. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Não, Ignosi, não! Acudi eu. O que +nós simplesmente desejamos é voltar +para as nossas terras. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Elle então sorriu com amargura. Sim, bem percebia! Nos +nossos corações +nunca houvera amor por elle, mas só cubiça das +pedras que brilham. Agora +tinhamos as pedras para vender, para recolher dinheiro... Estava +satisfeito o vil desejo do branco. Que importava pois o amigo que +ficava +chorando? Malditas fossem as pedras, e idos fossemos nós bem +cedo! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Eu pousei-lhe a mão no braço: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Escuta, Ignosi! As tuas palavras não vêm do teu +coração. Escuta. +Quando tu andavas exilado na Zululandia, e depois entre os homens +brancos do Natal, não sentias tu o desejo da terra +d’onde vieras, e de +que tua mãe te fallava? Não se te voltavam os +olhos para o Norte, para +onde estavam os campos e as senzalas onde tu nasceras, onde +brincáras +com as ovelhas, onde os velhos que passavam no caminho tinham conhecido +teu pae?... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Assim era, Macumazan, assim era! Exclamou o rei commovido. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Pois do mesmo modo o nosso coração deseja a +terra em que nascemos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ignosi baixou a cabeça. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--As tuas palavras, como sempre, Macumazan, vêm cheias de +verdade e +razão. Sim, tendes de partir. E eu ficarei triste, porque +não mais me +chegarão noticias vossas, e vós sereis para mim +como mortos! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Esteve um momento pensando, com o dedo pousado na testa. Depois chamou +os chefes mais idosos, annunciou a nossa partida, ordenou que fossemos +acompanhados pelo regimento dos Pardos até ás +montanhas, e d’ahi com +uma escolta e com guias levados pelo caminho do Oasis (de que elle +só +recentemente tivera noticia), e que nos pouparia todos os trabalhos da +passagem das serras. Em seguida, erguendo a mão jurou ante +os chefes que +não permittiria jámais que nenhum branco entrasse +no seu reino a +procurar as pedras que brilham:--mas que nós poderiamos +voltar sempre +porque eramos os irmãos do seu +coração! E por fim decretou que os nossos +nomes fossem considerados sagrados como os nomes dos Reis Mortos--e que +assim se proclamasse por todo o reino, de montanha em montanha. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E agora ide! Ide antes que os meus olhos vertam lagrimas como os +d’uma +mulher. Quando estiverdes, longe, nas vossas casas, junto das vossas +lareiras, pensai por vezes em mim... Adeus! Adeus para sempre, +Incubú, +Macumazan, Boguan, grandes homens e meus amigos! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ergueu-se; esteve um momento olhando fixamente para nós, um +por um; +depois escondeu a cabeça no seu manto de pelle de leopardo, +e fugiu para +dentro da senzala real. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Nós afastamo-nos em silencio, e com o +coração pezado. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Na madrugada seguinte partimos de Lú acompanhados por +Infandós e pelo +regimento dos <em>Pardos</em>. Apesar de tão +cedo, as ruas estavam apinhadas de +gente que nos lançava a saudação <em>Krum</em>, +e nos desejava boa jornada! As +mulheres atiravam-nos flôres ao passar. Todos os tam-tams +resoavam. +Era como uma grande ceremonia real. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Pelo caminho Infandós foi-nos explicando que havia, com +effeito, uma +passagem nas montanhas mais fácil do que aquella por onde +vieramos--ou +antes, que era possivel descer por aquella alta escarpa, que separa os +dois «seios de Sabá» como um muro separa +duas torres. Havia um anno, um +bando de caçadores Kakuanas, indo ao deserto á +procura do abestruz, +tinham achado e seguido este caminho. Ao fim d’elle +encontraram o +deserto; e ao fundo, no horisonte, avistaram massiços de +arvores. +Levados pela sêde caminharam para lá, e acharam um +largo e fertil oasis, +cheio de fructa, de caça e d’agua. E +d’ahi, diziam os caçadores, +podiam-se distinguir no horisonte outros logares ferteis, formando como +uma continuação de oasis. D’este modo +era talvez possivel diminuir os +horrores d’uma nova travessia no deserto. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ao fim de quatro dias de marcha chegámos com effeito ao alto +da +escarpa--d’onde avistavamos, por leguas e leguas, outra vez, +o medonho +deserto amarello em que tanto soffreramos. Foi de madrugada que +começámos a descida--e foi então que +nos separámos do nosso amigo +Infandós. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +O excellente homem quasi chorou de mágoa. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Nunca os meus olhos, exclamava elle, verão homens como +vós. Aquelle +golpe de machado, Incubú! Que belleza! Sois os fortes dos +fortes! E o +meu coração fica cheio da vossa +lembrança. Adeus! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Tivemos realmente saudade do velho Infandós; e John, como +lembrança, +deu-lhe--adivinhem o quê?--<em>um monoculo</em>! +Tinha um de sobresalente, e +presenteou com elle o heroico e leal selvagem! Infandós, +enthusiasmado, +procurou logo entalal-o no olho, certo de que essa pupilla +resplandecente augmentaria o seu prestigio entre as tropas. E foi esta +a derradeira impressão que me ficou dos nossos amigos da +Kakuania--um +velho guerreiro, nú, com uma pelle de leopardo ao hombro, +grandes plumas +negras na cabeça, franzindo a face, de <em>monoculo +no olho</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +D’ahi a pouco, tendo apertado affectuosamente a +mão a esse honrado +Infandós, começavamos a nossa descida pela +escarpa que liga os «seios de +Sabá», entre as trovejantes +acclamações do regimento dos <em>Pardos</em>. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Fizemos essa descida em doze horas. Á noite estavamos +acampados á orla +do deserto, conversando em torno das fogueiras ácerca +d’esses dois +estranhos mezes que passaramos entre os Kakuanas!... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Ha sitios peores para se viver, dizia o barão. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Quasi desejava ter lá ficado, accrescentava John, com +saudade. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Eu não dizia nada. Tinhamos lá passado temerosos +momentos. Mas por vezes +a vida fôra dôce. E no alforge traziamos um saco de +diamantes! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Na madrugada seguinte encetámos a marcha para esse oasis que +os nossos +guias conheciam. Trilhámos tres dias o deserto--mas sem +desconsolo, +graças ao bando de carregadores que nos dera Ignosi, e que +nos permittia +levar provisões fartas e agua farta. Pelo começo +da tarde do terceiro +dia avistámos um bosque--e o nosso jantar já foi +regaladamente servido +debaixo de copadas arvores, e junto de frescas aguas correntes. +</p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<h2 style="text-align: center;"><a name="cap_XVII"></a>CAPITULO +XVII +</h2> + +<h3 style="text-align: center;"> +EMFIM! +</h3> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"> +E agora resta-me contar a maior maravilha d’esta maravilhosa +jornada. +Tão estranho, quasi inverosimil é, que, para +não lhe augmentar o ar de +romance que ella já de per si tem, preciso narral-a com a +maxima +brevidade e maxima simplicidade. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Foi isto. Na manhã seguinte, no oasis, andava eu passeando +ao comprido +d’uma fresca ribeira que o banha, quando de repente, +n’um frondoso +outeiro á sombra de figueiras, com a fachada voltada para a +corrente--vejo uma confortavel cabana, construida á maneira +cafre, mas +com uma porta, uma porta de madeira, em vez do costumado buraco +redondo. +E quando eu estava pasmando para esta casota humana perdida +n’um oasis +do deserto, eis que a porta se abre, e apparece, coxeando, encostado a +um pau, todo vestido de pelles, e com uma immensa barba até +á cintura, +um <em>homem branco</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Ficámos a olhar esgazeadamente um para o outro. Justamente +n’esse +momento o barão e John appareceram. O homem crava os olhos +em nós, com +um ar quasi afflicto. De repente larga a correr, como um côxo +póde +correr, aos tropeções. Esbarra, rola no +chão. O barão acode. Ergue o +homem. E grita: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Santo Deus! <em>é meu irmão Jorge</em>! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Quasi tenho vergonha de narrar este lance. Parece banalmente inventado +pelos moldes do theatro antigo. Mas foi assim. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E ainda mais! Ao alvoroço do barão, ás +exclamações que seguiram, outro +homem sahiu da cabana, tambem vestido de pelles, com uma espingarda na +mão. Ao dar com os olhos em mim larga a arma, leva as +mãos á carapinha: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Oh Macumazan! Oh Macumazan!... Não me conheces? Sou Jim. +Sou Jim! +Aquelle papel que tu me déste para o patrão +perdi-o... Estamos aqui ha +dois annos. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E o pobre Jim rojava-se no chão diante de mim, chorando e +rindo, n’uma +alegria furiosa. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Com effeito, havia dois annos que o irmão do +barão e o seu servo Jim +viviam n’aquelle oasis. Foi no nosso acampamento +n’essa tarde que Jorge +Curtis nos contou lentamente toda a sua historia. Dois annos antes +partira da aringa de Sitanda, como nós, para atravessar o +deserto, e +procurar as minas de diamantes para além das montanhas. Por +informação +porém, que lhe deram uns caçadores de abestruzes +que felizmente +encontrára, tomou um caminho diverso, e bem melhor do que +aquelle que +seguira outr’ora o velho D. José da Silveira, e +que nós seguiramos +guiados pelo seu roteiro. Esse caminho era através do +deserto, mas +entremeado de oasis. Assim tinha chegado a este, o maior de todos, e +estava junto das Montanhas de Salomão, quando lhe aconteceu +uma grande +desgraça. No dia mesmo em que aqui parára, estava +sentado junto do rio, +por baixo d’umas penedias, onde Jim, o servo, andava +procurando o mel +d’abelhas mansas. De repente, a um esforço +qualquer que Jim fez em cima, +um dos penedos rola e vem cahir sobre uma perna do pobre Jorge, +esmigalhando-lh’a horrivelmente! Desde esse dia +não pôde mais andar. E +muito naturalmente preferiu ficar alli no oasis, onde tinha agua, +caça e +fructa--do que tentar atravessar de novo o deserto, onde +inevitavelmente +morreria. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +E alli ficou dois annos, como um Robinson Crusoe. Havia justamente dias +que decidira mandar Jim para traz, á aringa de Sitanda, a +buscar +soccorro. Mas quasi tinha a certeza que Jim não voltaria... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--E sois vós agora, que appareceis de repente. Justamente +tu, irmão! E +tu, meu bom John!... E o snr. Quartelmar, muito bem me lembro de o ter +encontrado em Bamanguavo! É extraordinario! E foi tudo a +misericordia de +Deus! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +N’essa noite tambem lhe contámos as nossas +aventuras. Quando eu lhe +mostrei um punhado de diamantes, o homem empallideceu de espanto: +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +--Santo Deus! Ao menos o que soffrestes não foi em +vão! Emquanto que +eu!... +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +Esta triste exclamação tornou-me pensativo. E +desde logo decidi +partilhar com elle um lote d’aquellas pedras, que a elle +tinham trazido +uma tão longa desgraça. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<hr style="margin-left: 0px; margin-right: 0px;"> +<div style="text-align: justify;"></div> + +<p style="text-align: justify;"> +E aqui acaba esta historia. A nossa travessia do deserto foi +extremamente trabalhosa. Não soffremos tanto da +sêde, porque, segundo o +novo roteiro indicado pelos caçadores de abestruzes, +encontrámos a +espaços pequenos e frescos oasis. Mas o pobre Jorge Curtis, +que mal +podia ainda usar a perna, necessitava constante amparo--e, por assim +dizer, tivemos de o transportar através do deserto. Emfim +attingimos a +aringa de Sitanda, onde o velho sacripante, a quem deixaramos as nossas +armas e bagagens, ficou indignado de nos vêr voltar, vivos e +sãos, para +as reclamar. E seis mezes depois estavamos jantando confortavelmente +aqui, na minha casa em Durban, á sombra das laranjeiras. +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<hr style="margin-left: 0px; margin-right: 0px;"> +<div style="text-align: justify;"></div> + +<p style="text-align: justify;"> +Quando eu acabava justamente de escrever esta ultima pagina das nossas +aventuras, vejo um cafre entrar pelo meu jardim, com cartas e jornaes +na +mão. É o correio da Inglaterra. E eis aqui uma +carta do barão, que eu +transcrevo, porque dá exactamente a conclusão da +minha historia:</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<p style="text-align: justify; margin-left: 520px;"> +«Solar de Braley--Yorkshire. +</p> + +<p style="text-align: justify; margin-left: 40px;"> +Meu caro Quartelmar. +</p> + +<p style="text-align: justify; margin-left: 40px;"> +Só algumas breves linhas para lhe dizer que meu +irmão Jorge, John e +eu, chegámos a Inglaterra todos tres perfeitamente. Apenas +deixámos +o paquete, em Southampton, partimos logo para Londres pelo primeiro +trem. Não imagina o Quartelmar que elegante nos appareceu +logo na +manhã seguinte o nosso John! Mas parece-me que ainda pensa +muito, +coitado, na pobre Fulata. +</p> + +<p style="text-align: justify; margin-left: 40px;"> +E agora emquanto a negocios. Levámos os diamantes aos +melhores +joalheiros de Londres, aos Streeter. Quasi tenho vergonha de dizer +em quanto elles os avaluaram. É uma somma descommunal. +Está claro +que elles não podem dizer com exactidão, porque +nunca appareceram +no mercado pedras d’este tamanho em tal quantidade. Emquanto +a +compral-os elles, está fóra de +questão. Apesar de ser uma forte +casa, não poderia nunca reunir semelhantes sommas. +Aconselharam-me +que os vendesse, em pequenos lotes, a differentes joalheiros, e +devagar para não inundar o mercado. Um d’esses +lotes, o que o +Quartelmar tão generosamente reservou para meu +irmão, estão elles +todavia resolvidos a comprar por cento e oitenta mil libras. +</p> + +<p style="text-align: justify; margin-left: 40px;"> +O que o Quartelmar deve fazer, agora que está tão +rico, é vir para +Inglaterra, e comprar uma propriedade ao pé da minha. O +melhor +seria vir immediatamente para passar commigo este natal. Tenho +cá +por essa occasião o nosso John. A respeito de seu filho +Henrique +posso dizer que está bom. Esteve aqui uns dias commigo a +caçar. +Gosto d’elle. Pregou-me uma carga de chumbo n’uma +perna, extrahiu +elle proprio os chumbos, e provou-me depois a vantagem de haver +sempre em todas as partidas de caça um estudante de +medicina. +</p> + +<p style="text-align: justify; margin-left: 40px;"> +Venha pois, velho amigo, e creia-me sempre seu +</p> + +<p style="text-align: justify; margin-left: 40px;"> +</p> + +<p style="text-align: justify; margin-left: 680px;"> +<em>Henrique Curtis</em>.» +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +</p> + +<hr style="margin-left: 0px; margin-right: 0px;"> +<div style="text-align: justify;"></div> + +<p style="text-align: justify;"> +Hoje é sabbado. Ha um paquete para Inglaterra +além de ámanhã. Creio, na +realidade, que vou partir n’elle... Já tenho +saudades do meu rapaz. E +depois quero vigiar eu proprio a publicação +d’estas memorias. +</p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<h2 style="text-align: center;"> +INDICE +</h2> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"><a href="#cap_I"> +Introducção</a><br> + +<a href="#cap_I">Capitulo I--Encontro com os meus camaradas</a><br> + +<a href="#cap_II">Capitulo II--Primeira noticia das minas +de Salomão</a><br> + +<a href="#cap_III">Capitulo III--O homem chamado Umbopa</a><br> + +<a href="#cap_IV">Capitulo IV--Os elephantes</a><br> + +<a href="#cap_V">Capitulo V--A nossa entrada ao deserto</a><br> + +<a href="#cap_VI">Capitulo VI--Penetramos no reino dos +Kakuanas</a><br> + +<a href="#cap_VII">Capitulo VII--O rei Tuala</a><br> + +<a href="#cap_VIII">Capitulo VIII--A grande +dança</a><br> + +<a href="#cap_IX">Capitulo IX--Antes da batalha</a><br> + +<a href="#cap_X">Capitulo X--O ataque da collina</a><br> + +<a href="#cap_XI">Capitulo XI--A batalha de Lú</a><br> + +<a href="#cap_XII">Capitulo XII--O rei Ignosi</a><br> + +<a href="#cap_XIII">Capitulo XIII--A grande caverna</a><br> + +<a href="#cap_XIV">Capitulo XIV--O thesouro de +Salomão</a><br> + +<a href="#cap_XV">Capitulo XV--Nas entranhas da terra</a><br> + +<a href="#cap_XVI">Capitulo XVI--A partida de Lú</a><br> + +<a href="#cap_XVII">Capitulo XVII--Emfim!</a> +</p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<h4> +Notas: +</h4> + +<p style="text-align: justify;"></p> + +<p style="text-align: justify;"> +[<a name="1"></a>1] Elephante! Elephante! +</p> + +<p style="text-align: justify;"> +[<a name="2"></a>2] Este cruel costume é +commum a muitas tribus de Africa, por occasião +de guerra. +</p> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of As Minas de Salomão, by Rider Haggard + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS MINAS DE SALOMÃO *** + +***** This file should be named 22015-h.htm or 22015-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/2/0/1/22015/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. 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