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+The Project Gutenberg EBook of A Filha do Cabinda, by Alfredo Campos
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Filha do Cabinda
+
+Author: Alfredo Campos
+
+Release Date: June 29, 2007 [EBook #21961]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A FILHA DO CABINDA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
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+
+A filha do cabinda
+
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+
+
+PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA, BOMJARDIM, 181.
+
+
+ALFREDO CAMPOS
+
+
+
+
+A FILHA DO CABIDA
+
+
+ROMANCE ORIGINAL
+
+
+
+PORTO EDITORES--PEIXOTO & PINTO JUNIOR 119, Rua do Almada, 123 1873
+
+
+A SEUS
+
+ILLUSTRISSIMOS E EXCELLENTISSIMOS TIOS
+
+JOSÉ D'ALMEIDA CAMPOS
+
+ANTÓNIO D'ALMEIDA CAMPOS E SILVA
+
+e
+
+JOAQUIM D'ALMEIDA CAMPOS
+
+OFFERECE
+
+O auctor.
+
+
+ Ex.^mos Tios e amigos.
+
+A «filha do cabinda» é uma recordação singellissima de muitas, que
+conservo, de alguns annos passados, na formosa capital do vasto Imperio
+do Brazil.
+
+Transcrevi-a do livro da minha memoria, para este que aqui vai,
+singello, despretencioso, sem flores e sem perfumes, unicamente no
+intuito de matar horas d'enfado e dias de melancholia.
+
+Resolvido agora, e quem sabe se imprudentemente, a fazel-a correr mundo,
+nas azas da publicidade, lembrou-me collocar os seus nomes na primeira
+pagina, como pequenissima significação da muita estima e da muita
+gratidão, que devo a cada um.
+
+Bem sei que muito fica da divida por saldar, mas quero, ao menos,
+mostrar-lhes, d'este modo, que não esqueço o muito que teem a haver dos
+sentimentos do meu coração.
+
+Acceitem, pois, a offerta, que é singella, e avaliem-na pela intenção e
+não pelo que é.
+
+Sempre
+
+ Sobrinho amigo e agradecido
+
+ Alfredo Campos.
+
+
+
+
+A FILHA DO CABINDA
+
+
+
+
+
+
+A FILHA DO CABINDA
+
+
+
+
+I
+
+
+A filha do cabinda é formosa como a visão d'um sonho celeste; meiga como
+o canto do sabiá, poisado nos galhos do cajueiro, e ingenua como a
+virgem da innocencia.
+
+O cabinda é negro, e negro de raça fina, mas é branca a sua filha, e
+filha, porque o velho escravo quer muito á senhora moça, que elle
+beijava e embalava no seu collo, quando era pequenina.
+
+Revê-se n'ella, e n'ella se mira doido d'affeição o pobre negro, e tanto
+a gravou na ideia, tanto a traz no coração, que chega até a esquecer-se
+do trabalho, sujeitando-se ás reprehensões do seu senhor, para,
+insensivelmente, se entregar a scismar n'ella, que é tão bondosa, tão
+meiga e tão carinhosa para elle; n'ella, que, por uma destas illusões,
+d'estas miragens, d'estas doidices, d'um grande affecto e d'uma viva
+sympathia, chega a julgar realmente sua filha.
+
+E _filha do cabinda_ lhe chama elle.
+
+O negro vivia na sua terra, alegre e feliz; lá tinha seus paes, a sua
+companheira, os filhos e a sua familia.
+
+Um dia, não sabe como, achou-se com todos elles dentro d'um navio, que
+começou a affastal-o, cada vez mais, da sua patria. Passou assim algum
+tempo, entre as duas immensidões, o mar e o céo, sem sentir saudades da
+sua terra, porque levava ainda ao seu lado aquelles que lhe davam
+alegria. Depois, pozeram-o de novo em terra, levaram-o a elle e aos seus
+companheiros para uma grande casa, onde os brancos começaram a disputar
+o preço por que haviam de compral-os.
+
+O cabinda foi vendido e quizeram leval-o.
+
+Leval-o? E a sua companheira? e os filhos? e seus paes?
+
+Esses, foram vendidos tambem, e cada um a seu senhor.
+
+Tristissimo era o negocio da escravidão!
+
+Reagiu o negro, quando o quizeram separar dos seus, e quando tambem os
+separavam d'elle.
+
+Teve, então, saudades da sua patria, terriveis, sem duvida, porque eram,
+ao mesmo tempo, saudades da sua liberdade.
+
+Fizeram-lhe, porém, estancar as lagrimas angustiosas as ameaças d'um
+açoite, e o Cabinda lá partiu, sem esperanças de tornar a vêr os filhos
+queridos, que nem sequer beijara na despedida, a esposa, que elle
+adorava com um culto rude, mas sincero, e os paes, que elle respeitava
+com a sua veneração selvagem.
+
+Partiu, mas ainda assim, boa estrella o guiava, porque, cortando-lhe as
+affeições mais caras da sua vida, ao menos o levaram para onde tinha de
+ser estimado, quasi como pessoa de familia, e não como escravo e negro
+que era.
+
+Em casa do seu senhor foi elle encontrar uma creancinha de dois annos,
+que tinha uns olhos lindos, os cabellos como os olhos, negros da côr do
+abysmo, e um rosto como o dos anjos d'um sonho de poeta, como o das
+fadas boas das visões nocturnas das mattas virgens.
+
+A convivencia foi-o affeiçoando áquella creancinha, que lhe sorria tão
+innocentemente; que lhe estendia, alegre, os bracinhos mimosos, e,
+brincando, o abraçava carinhosamente pelas pernas.
+
+O negro, quando via a pequenina Magdalena, sentia não sei que doçuras
+n'alma, não sei que effluvios no coração, mas que deviam ser
+gratissimos, porque os olhos desannuviavam-se-lhe logo das sombras de
+tristeza, que os velavam sempre, e os labios desatavam-se-lhe n'um
+sorriso de sincero e intimo jubilo.
+
+E tomava-a no collo, sentava-se com ella á sombra das copadas
+tamarindeiras ou das laranjeiras em flor, cobria-a de beijos e affagos,
+entretecia-lhe corôas de jasmins e martyrios, e olhava-a, assim n'uma
+especie de adoração sublime e concentrada, talvez com a recordação nos
+filhinhos, que perdera, e que eram tambem pequeninos como a mimosa
+Magdalena.
+
+Tinha dez annos a filha do cabinda, quando perdeu sua mãe.
+
+Ficavam-lhe os affagos d'um pae estremoso e os carinhos do negro
+affeiçoado; mas que valia tudo isso? que valia a gotta d'agua para tão
+grande sêde? o atomo em face da immensidade desfeita?
+
+O negro, que era dedicado á sua senhora, tanto como á pequenina
+Magdalena, esqueceu-se da sua condição de escravo, e arrojou-se, em um
+impeto de dôr e d'affecto, a entrar no quarto da moribunda, poucos
+momentos antes d'ella despedir o derradeiro alento.
+
+Estava junto ao leito Jorge de Macedo, que era o seu senhor, embebendo
+em beijos lacrymosos o rosto da innocente, que ia em breve ser o seu
+unico encanto n'este mundo.
+
+Os dois, pae e filha, assistiam angustiados ao desabamento d'aquelle
+edificio da sua ventura.
+
+O cabinda entrou como perdido, olhou para Jorge com receio, com amor
+para Magdalena e foi ajoelhar-se, de mãos postas, junto ao leito da
+enferma, chorando como creança.
+
+--Anda cá, cabinda, disse a moribunda, com voz amortecida, ao vêl-o de
+joelhos, alli, ao pé d'ella. Anda cá; vem vêr como se vai para o céo!...
+
+--Que fazes, atrevido! exclamou Jorge a meia voz.
+
+--Ah! meu senhor! a mãe do escravo é um anjo, e o negro quer despedir-se
+da sua senhora!
+
+--Sahe, cabinda!
+
+--Oh! não! não! supplicou este. O negro é escravo, mas o negro tem
+coração!
+
+E abraçava a roupa do leito para abraçar a moribunda, chorava como
+doido, soluçando em desespero e supplicando com ardor:
+
+--A mãe do cabinda ha-de deixar a sua filhinha e o seu parceiro, a
+chorarem saudades como o bemtevi do matto? Não, não nos deixes, mãe
+senhora!
+
+--Papae, atalhou Magdalena, affagando as faces de Jorge, humedecidas
+pelas lagrimas; o cabinda chora, não trates mal o cabinda, que é nosso
+amigo.
+
+--Oh! sim, sim! acudiu o preto. O cabinda quer muito á sua filhinha,
+quer muito á sua senhora e muito ao seu senhor! O negro tem alma e não
+tem familia a quem a dar. É, como a palmeira do morro, que não tem
+coqueiro ao lado.
+
+--O negro é bom, meu Jorge, disse a doente a custo. E se te peço muito
+que fiques sendo a mãe da nossa Magdalena, não te esqueças tambem de que
+o cabinda a trouxe ao collo muitas vezes, quando era mais pequenina.
+
+--Não esqueço, minha Beatriz! soluçou Jorge.
+
+--E elle não ha-de ser mais nosso escravo, não, papae?
+
+--Não, minha filha.
+
+--Mas o cabinda, atalhou o negro, não quer deixar a casa do seu senhor,
+não quer viver longe da sua filha.
+
+--Não, não nos has-de deixar, que nós somos todos teus amigos, acudiu a
+creança, affagando o escravo, emquanto Jorge dizia comsigo, no intimo da
+consciencia:
+
+--O negro tem a côr do urubú, mas tem alma de pomba rola!
+
+Horas depois, Beatriz, a esposa de Jorge, tinha entregado a alma ao
+Creador.
+
+Jorge chorava, para um lado, profundamente ferido no coração, as dôres
+da sua viuvez. O negro e Magdalena soluçavam, abraçados, a perda da
+bondade da que tanto era mãe d'uma como anjo do outro.
+
+Jorge conheceu, então, até onde ia a dedicação do seu escravo, a
+grandeza da alma do negro, e começou a olhal-o, a tratal-o e a
+querer-lhe, muito mais como a um membro da sua familia, do que como a um
+ente, geralmente visto com desdem, com indifferença e até com desprezo.
+
+O cabinda perdera a sua familia, de que tão barbaramente o separaram,
+mas havia ganho muito pela sua dedicação.
+
+Bastavam as festas e os sorrisos de Magdalena, de quem elle dizia
+sempre:
+
+--Agora não tem mãe, é filha do cabinda!
+
+
+
+
+II
+
+
+O Botafogo é, sem duvida, o mais formoso dos formosos arrabaldes do Rio
+de Janeiro.
+
+As aguas do vasto Guanabára, que, levemente onduladas, beijam
+constantemente a fimbria da purpura real da grande cidade, formam,
+n'aquelle retiro, um como lago de sufficiente superficie, que é orlado,
+em grande parte da circumferencia, de _chacaras_ magestosas, com
+vistosos e immensos jardins, vegetação opulenta e luxuriante, e
+explendidos e poeticos panoramas.
+
+Em 1859, Jorge de Macedo, negociante de café em grande escala, e, ao
+mesmo tempo, abastado capitalista, vivia no Botafogo, em um formoso
+palacete, circumdado de lindissimos jardins.
+
+Magdalena, a filha do cabinda, n'esta epocha, em que principia a nossa
+narrativa, tinha desenove annos, e era a fada d'aquelle arrabalde do Rio
+de Janeiro.
+
+O cabinda estava já entrado em edade, mas vigoroso ainda, e sempre
+dedicado.
+
+Occupava-se o negro da limpeza das parasitas, que tentavam envadir as
+aleas dos jardins, e em algum serviço de Magdalena, sendo, de resto,
+tractado com toda a estima e amisade.
+
+Magdalena exercia a profissão da caridade, não cuidando senão de
+dispensar a seu pae os carinhos e os affagos, que havia perdido na sua
+adorada Beatriz, e em dispensar, dos meios, que lhe abundavam, esmolas
+aos desgraçados e pobres.
+
+Jorge dedicava-se aos seus negocios e á felicidade de sua filha, que
+elle adorava muito, fanaticamente até.
+
+A chacara de Jorge de Macedo era um ninho de delicioso conforto, d'uma
+belleza invejavel, aonde não entrava nunca a sombra d'um desgosto, nem
+uma nuvem de desharmonia, pequenina que fosse.
+
+Alli, senhores e escravos, brancos e negros, todos viviam em perfeita
+alegria.
+
+Dos ultimos, porém, o mais querido, o mais estimado, o mais predilecto,
+sobre tudo de Magdalena, era inquestionavelmente o cabinda.
+
+O negro tambem não abusava, e, diga-se a verdade, bem merecia elle de
+todos, mas de ninguem tanto, como da que elle chamava, e queria, e
+estimava como filha.
+
+Era por uma tarde de maio, formosa e explendida. O sol doura, ainda, com
+os seus raios ardentes, os cumes do Pão d'Assucar, da Tijuca, do
+Corcovado, e a cupula de folhagem variada das arvores gigantes, que
+vestem os montes em volta do Rio de Janeiro.
+
+Uma brisa, suave, mas tepida, empregnada de perfumes de flôres e de
+fructos, perpassa, branda, para o norte, agitando as palmas dos
+coqueiros e as largas, compridas e pendidas folhas das bananeiras e das
+palmeiras.
+
+O sabiá trina ainda os seus modilhos deliciosissimos entre a ramagem
+mimosa d'uma jaboticábeira carregada de fructos, e o beija-flôr
+pequenino anda na sua peregrinação, voluvel sempre, e sempre rapido,
+deixando beijos nas flôres brancas do jasmineiro odorifero, ou nas
+flôres symbolicas do maracujá, que veste as paredes e os caramancheis
+dos jardins.
+
+O céo está sereno e limpido.
+
+Ao fundo da chacara de Jorge de Macedo ha um pequeno, mas formoso lago,
+coberto d'agua, que cáe, em monotono murmurio, da bocca d'um tritão de
+marmore fino.
+
+Por traz, encostado ao muro, e voltado ao lago, ha um vasto caramanchel
+formado de tranças de cipós e de maracujás, carregadas de flôres e
+fructos.
+
+Tem no meio uma meza de granito branco, e em volta assentos inglezes de
+madeira e ferro, talhados de modo que dêem ao corpo toda a possivel
+commodidade.
+
+A atmosphera tem a côr avermelhada dos raios do sol, que desce a
+esconder-se no mar, e faz brilhar, com côres phantasticas, as azas, meio
+diaphanas, das borboletas iriadas, que volitam dos cafezeiros para as
+goiabeiras, e d'estas para os ramos dos pés d'araçás.
+
+Magdalena, a formosa filha do cabinda, jantou e desceu aos jardins;
+andou só, pensativa, ora alegre, ora rapida, ora vagarosa, de canteiro
+em canteiro, colhendo pequeninas flôres, que ia juntando entre as
+paginas d'um livro, mimosamente encadernado.
+
+Depois, lançou, atravez da gradaria de ferro, um olhar ao vapor da
+carreira, que passava em frente, atravessando o mar para o Rio,
+volveu-se passado um instante, e seguiu por uma alea, orlada de grandes
+jambeiros e pés de grumixama, em direcção ao lago, que jazia no fundo da
+chacara.
+
+Magdalena era formosa, d'esta formosura, que desperta um culto sincero,
+uma adoração em que não entra um atomo de sentimentos menos dignos,
+d'esta formosura, em que se espelha e revela a elevação do espirito, a
+bondade d'alma e a magnanimidade do coração.
+
+Aquelles olhos negros, scintillantes, orlados d'uma tenue sombra, e
+aquelle rosto, tão expressivamente angelico, estavam mostrando as flôres
+de ventura, em que se desataria o seu coração e a sua alma, para aquelle
+que um dia tivesse o supremo goso de a possuir.
+
+Era magestosa no andar, elegante de fórmas, e simples no vestir, mas
+d'esta simplicidade, que dá realce, que encanta, attráe e enleva.
+
+Como lhe fica bem aquelle vestido alvissimo, de fina cambraia, liso,
+desguarnecido, apertado apenas na cintura delicada por um grande laço de
+sêda azul clara!
+
+Que belleza no modesto penteado dos seus negros cabellos, fartos e
+setinosos, formando apenas duas compridas tranças, que, cahindo-lhe
+pelas costas, se prendem, pela extremidade, uma á outra, ainda por um
+laço azul pequenino!
+
+As pombas rolas, que andam aos pares, fallando amores na sua linguagem
+mysteriosa, levantam vôo com a approximação de Magdalena, que as segue
+depois com a vista, até as perder de todo; mas as borboletas de côres
+variadissimas, seguem-a contentes, como se já a conhecessem de ha muito,
+e andam inquietas, em volta d'ella, ora subindo, ora descendo, como que
+desejando beijal-a, mas temendo fazel-o, receiando maculal-a.
+
+E ella lá vae vagarosa e muda, lançando, de quando em quando, um olhar
+ás flôres, que leva prêsas nas folhas do livro, talvez bem querido!
+
+Chegou assim ao lago, debruçou-se n'elle como procurando vêr os
+peixinhos dourados, que o habitavam, e foi sentar-se encostada á meza de
+pedra, n'um dos bancos do caramanchel.
+
+Era expressivo o seu rosto, porque estava desenhando os desejos que
+sentia dentro de si, e que ella mesma não podia comprehender.
+
+Desejos vagos, mysteriosos, indefiniveis.
+
+Conservou-se absorta durante dois minutos, mas como que acordando,
+depois, d'um sonho que a prendia, tirou as flôres d'entre as folhas do
+livro, collocou-as a um lado e pôz-se a lêr alto, com a sua voz meiga,
+seductora e angelical.
+
+Era um livro de versos, era um livro d'amor, o que ella lia!
+
+E tão prêsa estava com as phrases, que ia repetindo, tão scismadoramente
+como se em verdade as sentisse; tão distrahida estava de tudo, de todos
+e de quanto a cercava, que nem ouvia os gorgeios compassados d'um
+bemtevi, que a sua voz harmoniosa havia desafiado, occulto entre as
+folhas do ramo d'uma grande mangueira, que quasi se debruçava sobre o
+lago.
+
+Chegou a um ponto da leitura e deteve-se suspirando. Depois repetiu
+ainda a quadra que acabára de recitar, e que dizia assim:
+
+ Suspiras, alma, n'um anceio languido?
+ Ninguem te affaga, perfumada flôr?
+ Ao sol as rosas da manhã desdobram-se,
+ E a brisa affaga-as com carinho e amor!
+
+E fechou o livro e ficou a scismar, com os olhos negros e formosos,
+cravados, vagamente, n'um ponto do horisonte.
+
+Passados instantes, encostou a face á mão, como que cedendo ao pêso d'um
+somno voluptuoso, e por fim deixou cahir o braço sobre a meza e o rosto
+sobre o braço, n'uma especie de somnolencia, sonhando, talvez, com as
+phrases do livro, que havia acabado de lêr, e que, sem duvida, a
+impressionaram ou lhe fallarám á alma.
+
+As borboletas d'azas douradas, lá andavam em volta d'ella, como que
+embalando-a nos sonhos, que deviam esmaltar-lhe a somnolencia.
+
+O sol havia-se já escondido o bastante para deixar a terra envolta nas
+sombras do crepusculo.
+
+E a não serem os murmurios da brisa e os queixumes da agua, cahindo no
+lago pela bocca do tritão, nada mais se ouvia n'aquella hora da tarde,
+no retiro aonde repousava Magdalena.
+
+De subito começou a fazer-se sentir um leve ruido. Eram as folhas seccas
+do chão, gemendo debaixo dos pés d'alguem, que se aproximava.
+
+Quem seria?
+
+As aves receiosas deixavam os seus asylos, architectados nos ramos das
+arvores frondosas, ante a passagem do ser que se aproximava.
+
+Um minuto depois, um negro surgia junto ao lago.
+
+Era o cabinda.
+
+O preto deu com os olhos em Magdalena, parou e susteve a respiração, com
+mêdo de a acordar, mas nos olhos e nos labios brilhou-lhe logo um
+sorriso de verdadeira alegria.
+
+--Oh! exclamou elle baixinho, é ella, a filha do cabinda!
+
+E foi, pé ante pé, collocar-se de joelhos, junto á meza de pedra, em
+posição d'onde melhor podia contemplar a sua filha, e assim ficou sem
+despregar os olhos d'ella.
+
+Era uma loucura aquella affeição do negro!
+
+
+
+
+III
+
+
+O cabinda permanecia alli, como o verdadeiro crente, em face do altar do
+Christo crucificado.
+
+Magdalena prendia-lhe os sentidos, absorvia-o completamente.
+
+A cada respiração, a cada ondulação do seio da virgem, extremecia elle e
+abria mais os seus grandes olhos, n'uma expressão alternativamente de
+receio e de esperança, que ella acordasse.
+
+Por fim, Magdalena estremeceu e levantou de subito o rosto formosissimo.
+O seu olhar meigo e deslumbrante foi encontrar o negro ajoelhado, com os
+olhos pregados n'ella.
+
+--Ah! és tu cabinda?
+
+--O negro, senhora moça!
+
+--E que fazias ahi de joelhos?
+
+--Olhava para a minha filha, que dormia...
+
+--E que sonhava tambem, cabinda. Tu nunca sonhas, quando dormes?
+
+--Sonhar? repetiu o cabinda. Á noite, quando o negro se deita, e faz
+escuro em volta d'elle, o cabinda vê a sua senhora, que foi para a terra
+do Pai dos brancos; vê a senhora moça muito contente, com a cabeça cheia
+de rosas lindas, e o senhor a dar muitos beijos n'ella. E o cabinda
+lembra-se, tambem, dos seus filhos e da sua companheira, e chora de
+noite lagrimas no escuro.
+
+--Coitado!
+
+--Oh! mas o cabinda é alegre, como o jacaiol da floresta, quando a sua
+filha ri e falla ao negro!
+
+--Pois olha, meu amigo, estou agora muito triste... muito!...
+
+E Magdalena ficou como que embebida n'uma ideia que a dominava, com o
+rosto em visivel expressão de melancholia.
+
+--E que tem a senhora moça? perguntou o negro com anciedade e receio. O
+cabinda não a quer triste; as arapongas que chorem, quando o caçador as
+ferir.
+
+--Nem eu sei o que tenho. Vamos andando que eu conto-t'o.
+
+E tornando a prender as flôres entre as folhas do livro, seguiu,
+acompanhada pelo negro, uma das aleas oppostas áquella por onde tinha
+chegado ao lago.
+
+Magdalena ia vagarosa e pensativa; o negro, ao lado d'ella, caminhava
+abstracto de tudo, sem vêr mais nada.
+
+Que magestoso quadro aquelle!
+
+Magdalena era o anjo meigo e deslumbrante, da mocidade cheia
+d'explendores, a que sorriem todas as esperanças, e para o qual todos os
+horisontes são vastos, largos e floridos!
+
+O cabinda era o velho escravo, fiel e dedicado, capaz de tudo para
+salvar a vida dos seus senhores, saltando de contente com dois affagos e
+humilhando-se submisso á menor reprehensão.
+
+Os dois caminhavam a par.
+
+Era n'essa hora mysteriosa dos esponsaes do dia com a noite.
+
+Por sobre as suas cabeças arqueava-se, verdejante, o docel das
+jaqueiras, d'um lado, e dos ramos frondosos das mangueiras, do outro. As
+aves já se haviam retirado aos gratos asylos.
+
+--Tu sabes o que são saudades, cabinda? perguntou Magdalena ao negro.
+
+--Saudades? repetiu elle, scismando na resposta.
+
+--Sim.
+
+--Sei, senhora moça. É ter o negro a alma a doer muito, como á pomba
+rola, quando lhe tiram os filhos, ou o parceiro do ninho do matto.
+
+--É isso. Pois olha, eu tenho saudades, e não sei de quê. Sinto a alma a
+pedir-me uma coisa, que eu não comprehendo, e arde-me o coração em
+desejos loucos, mas desconhecidos. Quero, e não sei o que quero; desejo,
+e pergunto o que desejo. Não me falta nada, porque, graças a Deus, sou
+rica; não ha vontade nem capricho que o papae me não satisfaça, e, olha,
+apesar de tudo, não vivo contente. De tarde, sempre que chega esta hora,
+sinto um peso na alma, que eu não sei de onde vem, nem para quê. De
+noite, então de noite, sonho muito e tenho saudades d'esses sonhos
+quando acordo. Vejo ao meu lado um rosto que me sorri, uns labios que me
+dizem coisas que ninguem ainda me disse, coisas bonitas, doces e
+encantadoras; umas mãos que me fazem festas, que me alisam os cabellos e
+m'os enfeitam de flores, e uns olhos que me olham muito, e que penetram
+até dentro do meu coração. Mas depois acordo, desapparece o sonho,
+vejo-me só, e tenho saudades, cabinda...
+
+O negro, se bem que nada comprehendera de tudo quanto lhe dissera
+Magdalena, é certo que o havia adivinhado, porque acudiu rapidamente,
+apenas ella acabou:
+
+--É a alma do branco que vem fallar á alma da senhora moça.
+
+--Do branco? perguntou Magdalena, com ar de quem não comprehendia.
+
+--Do branco, sim. A onça do cannavial e o jabirú das lagôas teem o seu
+parceiro, como tinha o cabinda, quando veio da sua terra. E a senhora
+moça, vê o branco nos sonhos, como o cabinda vê a sua parceira e os
+filhos, mas o branco não apparece.
+
+--Não te entendo, cabinda, acudiu Magdalena, scismando no que o negro
+lhe dizia.
+
+--O mal da senhora moça é aqui, disse o cabinda, indicando no peito o
+logar do coração. O branco que a minha filha vê á noite, quando dorme, é
+que ha de vir cural-a.
+
+--Como?
+
+--Não sei.
+
+--Quando?
+
+--Elle virá. O negro tambem tinha isso, lá, na sua terra. No matto, no
+cannavial, quando o negro andava á caça, e no rio, quando dormia dentro
+da sua canôa, o cabinda não tinha a sua parceira, mas o negro via-a
+sempre. E um dia a parceira do cabinda appareceu, e o negro não soffreu
+mais, nem tornou a chorar.
+
+Magdalena continuou vagarosa ao lado do negro, mas visivelmente
+melancholica e pensativa, talvez com o que elle acabava de dizer-lhe.
+
+Estava ella na idade em que o coração começa a desabrochar as primeiras
+flôres e a sentir os primeiros desejos. Tinha algumas vezes ouvido
+fallar d'amor ás suas amigas; vira umas alegres, tristes outras, umas
+cheias de enthusiasmo e ventura, outras soffredoras e melancholicas, e
+ella sempre indifferente a tudo, sempre sem lhes ligar outra importancia
+mais do que a que nascia da sua amisade. Nunca um homem lhe rendera uma
+fineza, nunca um homem lhe dardejára um olhar expressivo; e se algum o
+fizera, Magdalena ou não o viu ou não o comprehendeu.
+
+Agora, sim. Agora, as saudades de que fallava; os sonhos que lhe floriam
+ás noites, ou lhe esmaltavam o repouso, eram os traços claros dos
+desejos, que tinha na alma e no coração, de amar e ser tambem amada, de
+gozar os dulcissimos effluvios do sentimento, que lhe irrompia no peito.
+
+Tinham chegado assim ao terreiro, que havia na rectaguarda do palacete,
+para o qual se descia por uma escadaria de pedra, no extremo de uma
+vasta varanda.
+
+Jorge de Macedo estava de pé, no topo das escadas, fumando um charuto, e
+n'uma attitude de quem esperava alguem.
+
+Magdalena, apenas o viu, desatou a correr e exclamou:
+
+--Ah! o papae!
+
+O negro ficou só, e Jorge sorriu-se, dizendo:
+
+--Olha que te canças, doidinha!
+
+A filha do cabinda transpoz rapida o espaço que a separava de Jorge, e
+apenas se achou junto d'elle, fez dos braços um collar, com que lhe
+prendeu o pescoço, e começou a cobril-o de beijos carinhosissimos, a que
+elle correspondia em visivel expressão de jubilo e de ventura.
+
+Eram os beijos da flor ao tronco onde nascera! eram os affectos gerados
+pelos laços mysteriosos do sangue!
+
+Que beijos aquelles! que affecto se não desdobrava alli!
+
+--Mausinho, que me deixou hoje jantar só, queixou-se ella com fingido
+agastamento.
+
+--Tive muito que fazer, filha. Mas déste o teu passeio até ao lago, não?
+
+--Dei, papae, acompanhou-me o cabinda.
+
+O negro chegava n'este momento, diringindo-se a Jorge:
+
+--A sua benção, meu senhor!
+
+--Adeus, cabinda.
+
+--E amanhã?... perguntou Magdalena, sorrindo com intenção.
+
+--Amanhã...
+
+--É dia de festa; faz o papae annos e havemos de jantar muito alegres!
+atalhou ella.
+
+--Muito. E vais ter hospedes.
+
+--Hospedes? interrogou com curiosidade.
+
+--Sim. Convidei o guarda livros, e os caixeiros; vem toda a gente do
+armazem.
+
+--Oh! que alegria vai ser a nossa, não é verdade, papae.
+
+--Grande, minha filha, porque é de ti que ella vem.
+
+E deu-lhe um beijo, onde ia impressa a sua alma e o seu amor de pae
+extremosissimo.
+
+Magdalena foi, porém, a pouco e pouco, perdendo aquella alegria com que
+havia acariciado Jorge, e tornando-se pensativa, absorta, e como que
+esquecida de onde estava e com quem estava.
+
+O negro, do extremo opposto da varanda, tinha os olhos fitos n'ella com
+a avidez de quem parecia estar estudando-a.
+
+Que nuvens, embora tenues, eram as que assombravam melancholicamente
+aquelle rosto tão formoso d'aquella mulher anjo?
+
+Que pensamentos lhe agitavam a mente, para que soffresse aquella
+passagem suave do alegre para o triste?
+
+O cabinda havia-lhe dito que o branco a curaria, e ella pensava n'isso,
+lembrando-se dos hospedes que ia ter ao jantar, no dia seguinte.
+
+Eram as alvoradas do coração; eram os pressentimentos do que ha de vir!
+
+E scismando n'isso, ia esquecendo-se de tudo, quando Jorge a accordou:
+
+--Esqueces o piano, Magdalena?
+
+--Não, papae; esperava por si.
+
+--Vamos, então.
+
+--Vamos.
+
+E tomou a mão a Jorge, e recolheram-se ambos alegres e contentes.
+
+Pouco depois, o piano gemia, debaixo dos formosos dedos da filha do
+cabinda, uma _reverie_ de deliciosissimas harmonias, d'estas que levam
+presas, nas suas azas, o espirito até ao céo.
+
+Jorge ouvia-a n'um extase.
+
+Sentado nas commodas almofadas d'uma cadeira estofada, tinha os olhos
+pregados no rosto da filha mimosa, da filha, que era o seu anjo, o seu
+encanto, a sua vida, a sua felicidade mais completa, mas alava o
+espirito ás regiões celestes, nas ondas d'aquella musica, onde, n'uma
+especie de mystificação, estava vendo a sua adorada Beatriz, a esposa
+queridissima, que a morte desapiedada lhe arrebatára tão cedo dos
+braços!
+
+O cabinda, no entanto, jazia no extremo da varanda, que deitava sobre o
+terreiro, dizendo comsigo a meia voz:
+
+--Os brancos veem amanhã; o mulato virá tambem. Cabinda, a senhora moça
+é tua filha!
+
+
+
+
+IV
+
+
+Vai em meio o jantar, no dia seguinte.
+
+A animação é completa, e viva, sincera e espontanea a alegria, que
+referve em cada conviva.
+
+É que alli não ha superiores nem inferiores, não ha grandes nem
+subordinados; ha uma familia festejando os annos do seu chefe estimado e
+querido, que só como pessoas de familia, olha Jorge para as que tem
+sentadas em volta da sua meza.
+
+Magdalena preside á festa, como o anjo bondoso e meigo d'aquelle lar,
+onde só ella é sol, que tudo aquece e vivifica, cuidando pouquissimo de
+si e tudo dos outros.
+
+Está esplendida de formosura! deslumbrante de encantos!
+
+Tem nos olhos a vivacidade de alegria intima, e os esplendores da
+belleza d'alma; no rosto a sympathia que fascina, e nos modos a doçura
+que captiva.
+
+Veste um vestido de sêda côr de flôr d'alecrim, simples, mas
+elegantemente enfeitado, honesta e delicadamente aberto no seio, onde
+vem cahir, pendente d'um formoso collar de pequeninas perolas, uma
+medalha cravejada de brilhantes. Os cabellos, aquelles cabellos negros,
+tão feiticeiros, pendem setinosos em lindissimos cachos, ornados apenas
+d'uma perfumada rosa branca.
+
+Jorge cedeu as honras da festa á filha querida, que occupa a cabeceira
+da meza, occupando elle o primeiro lugar na face direita, á direita de
+Magdalena.
+
+Segue-se-lhe o guarda-livros, rapaz de 25 annos, portuguez, sympathico,
+elegantemente trajado, meigo no fallar e polido nas maneiras.
+
+Do outro lado, em face d'estes, estão o primeiro caixeiro, mulato
+brazileiro, de rosto duvidoso, olhar que pouco lhe favorece o caracter,
+e modos apparentemente delicados, e os outros empregados do armazem, que
+não merecem menção especial.
+
+Falla-se alegremente; discute-se com placidez.
+
+Magdalena, a todos attende e não esquece nenhum. De si é que ella cuida
+pouco.
+
+Entre os serventes nota-se o cabinda. O negro anda entalado nas dobras
+d'uma gravata branca, cujo laço fôra feito pela sua filha, e veste uma
+roupa nova de pano preto fino. Anda doido d'alegria, ebrio com a alegria
+da sua filha.
+
+O negro lança todavia, de quando em quando, uns olhares de expressivo
+despreso ao mulato que janta, e volve-os depois para Magdalena, como que
+dizendo-lhe:
+
+--Foge d'elle!
+
+O guarda-livros, que se chama Luiz de Mello, e o mulato caixeiro, de
+nome Americo de Abreu, olham tambem a seu turno para Magdalena e depois
+um para o outro.
+
+Ella, porém, a formosa filha do cabinda, parece prestar mais attenção a
+Luiz, sem que por isso deixe de ser delicada com todos os outros.
+
+Os pratos teem-se succedido, os copos esvasiado algumas vezes, e tanto
+se tem comido como fallado.
+
+A alegria assentou-se com os convivas á meza d'aquelle festim.
+
+Começam as sobremezas e vão principiar os brindes.
+
+Magdalena é a primeira. Está porém, um pouco acanhada em presença dos
+seus hospedes porque tomando o calix, vieram colorir-lhe o rosto duas
+rosas de purissimo rubor.
+
+--Quero ser a primeira, disse ella, porque sou filha. Brindo aos seus
+annos, papae.
+
+E levou o calix aos labios, mas mal provou o vinho.
+
+--Acompanho a V. Ex.^a, acudiu Luiz, desejando com ardor que d'aqui a
+muitos annos os possa brindar e festejar, tão alegre e tão feliz como
+hoje.
+
+--Do mesmo modo, repetiram os outros.
+
+--Obrigados, meus amigos. Agradecido, filha.
+
+E Jorge levou a seu turno o calix á bôcca, continuando depois:
+
+--Agora, Magdalena, á saude dos nossos hospedes...
+
+--E, ajuntou Luiz, á felicidade da filha de V. Ex.^a, fazendo, todos nós,
+sinceros e ardentes votos, para que um bom anjo a proteja sempre, a
+ella, que nos recebe aqui como irmã nossa, e irmã muito affectuosa.
+
+Magdalena tornou a ruborisar-se, olhando para Luiz com olhos de
+reconhecimento, e respondendo-lhe:
+
+--Obrigada, meus amigos. Faço o que devo e menos do que merecem.
+
+--Á felicidade de V. Ex.^a, brindaram todos.
+
+--Obrigado, agradeceu Jorge pela filha.
+
+E o jantar seguiu, e os brindes continuaram.
+
+Luiz olhava cada vez mais para Magdalena, e é certo que encontrava
+sempre os olhos d'ella pregados nos seus.
+
+Americo analysava aquillo, e o cabinda analysava o mulato.
+
+No entanto, a alegria ia ganhando de intensidade, porque os convivas
+d'aquelle festim intimo e familiar de Jorge e sua filha, iam perdendo,
+sem sahirem dos limites do respeito, um resto de acanhamento que a
+franqueza do capitalista e a bondade da filha do cabinda não poderam de
+todo dissipar.
+
+Os negros e serventes, tinham por sua vez festa no aposento destinado á
+sua refeição.
+
+O cabinda, porém, lá chegava, de quando em quando, para, com a sua
+prudencia, e digamos mesmo, bom senso, impedir excessos e pôr obstaculos
+a abusos.
+
+Estava a terminar o jantar. Já se fallava muito e nada se comia.
+
+Jorge levantou-se então, e, tomando uma garrafa de finissimo vinho do
+Porto, dirigiu-se aos seus convidados:
+
+--Vamos ao ultimo brinde.
+
+E encheram-se os copos.
+
+--Bebo, não só á saude e á prosperidade d'aquelles que chamei hoje a
+minha casa, como pessoas a quem estimo e considero, mas bebo tambem á
+saude das suas familias ausentes.
+
+--Agradecidos, senhor, accudiram todos.
+
+--A sua mãe, senhor Luiz, brindou Magdalena.
+
+--Mil vezes grato, minha senhora, respondeu elle, vivamente
+impressionado.
+
+--Agora, para de todo terminarmos esta festa, proseguiu Jorge, e d'ella
+ficar uma lembrança aos amigos, que aqui tenho em volta de mim,
+lembrança tão grata, quão grande foi a alegria que me porporcionaram,
+declaro ao senhor Luiz de Mello e ao senhor Americo d'Abreu que deixam,
+desde este dia, de ser, um, meu guarda-livros, e meu caixeiro o outro,
+para se considerarem meus socios nas transacções da minha casa. Não
+esqueço os outros, que trabalham para a minha prosperidade, e fica desde
+já o meu socio e amigo Luiz de Mello, encarregado de lhes augmentar os
+ordenados. Minha filha festejou-me os annos, collocando-os em volta
+d'esta meza, eu commemoro-os d'este modo, esperando que recolherão assim
+mais contentes.
+
+--Como é bom, papae! murmurou Magdalena.
+
+Houve então uma verdadeira chuva de agradecimentos, que é desnecessario
+pintar, e da alegria passou-se ao enthusiasmo, quasi ao delirio.
+
+Luiz levantou-se pallido e tremulo de commoção, mas extremamente
+sympáthico, e dirigiu-se a Jorge:
+
+--Se V. Ex.^a me confunde com a grandissima distincção, com que acaba de
+honrar-me, chamando-me seu socio, por muitos titulos me honra mais, e
+mais me confunde ainda, dando-me o nome de amigo, para a conservação e
+engrandecimento do qual, não deixarei nunca de empregar todos os meus
+esforços.
+
+--Obrigado, respondeu Jorge, apertando-lhe a mão.
+
+E dispunha-se a deixar a meza.
+
+N'este momento, porém, entrava o cabinda, trazendo pela mão uma negrinha
+de 10 annos, que o negro foi apresentar-lhe.
+
+--Que é isso, cabinda?
+
+--A Belmira traz ao seu senhor as flôres dos negros, porque o cabinda e
+os seus parceiros tambem festejam os annos do pae da senhora moça,
+respondeu o negro, em quanto a pretinha offerecia a Jorge um lindissimo
+ramo de mimosas flôres.
+
+--Obrigado, Belmira, obrigado, cabinda, disse o capitalista, affagando a
+creança. E tu, Magdalena, ficas encarregada de ir agradecer a todos, em
+quanto vamos para o jardim esperar o café.
+
+--Como és nosso amigo, cabinda! disse Magdalena.
+
+E foi assim que terminou o jantar.
+
+Jorge e os convivas desceram para o jardim.
+
+Magdalena foi agradecer em nome de seu pae a lembrança dos escravos.
+
+O cabinda seguia-a com os olhos, a faiscarem alegria, gritando como
+doido:
+
+--O branco veiu, senhora moça; o branco é bom e gosta da minha filha!
+
+Americo, descendo para o jardim, approveitava um momento, em que só Luiz
+podia ouvil-o, para lhe dizer, com certo ar de cynismo;
+
+--Temos ambos igual quinhão no negocio: agora veremos quem leva a filha!
+
+
+
+
+V
+
+
+Pouco depois era servido o café.
+
+Jorge e Americo, tomavam-o, conversando sentados em duas pittorescas
+cadeiras de bambús, á entrada de um formoso caramanchel de trepadeiras
+floridas.
+
+Os caixeiros mais novos passeiavam pelo jardim e pela chacara, gosando a
+liberdade, que lhes era concedida, desforrando-se da prisão quotidiana,
+e do serviço quasi aturado do armazem.
+
+Magdalena, a formosa filha do cabinda, andava de canteiro em canteiro,
+mostrando a Luiz de Mello as suas flôres; apontando, deslumbrante de
+candidez, as particularidades de cada uma, a idade e a procedencia, com
+a convicção de quem conhecia alguma coisa de botanica, e um tanto
+orgulhosa dos cuidados, que empregava com as predilectas suas irmãs.
+
+Luiz segui-a e ouvia-a como fascinado, parecendo-lhe mais que estava
+passando por um d'estes magicos sonhos de delicioso encanto, que tantas
+vezes embalam a imaginação juvenil, do que assistindo á realidade de vêr
+e ouvir ao seu lado um anjo, esplendoroso d'encantos, e suavissimo
+d'harmonia nas fallas.
+
+--Olhe, dizia Magdalena alegre, radiante e sempre formosa; olhe este pé
+de _suspiros_. Não é tão, bonito?
+
+--Formoso, minha senhora.
+
+--E estas _saudades_, não são tão lindas?
+
+--Muitissimo. Saudades... as flôres symbolicas dos que soffrem; dos que,
+como eu, longe da patria, aonde deixaram a familia, vivem na esperança
+de lá voltar, sem terem, comtudo, n'ausencia d'ella, um affago, que lhes
+adoce a aridez do trabalho; um carinho, que lhes lisongeie o sentimento,
+um consolo n'este correr da existencia, isolado, monotono e, por muitas
+vezes, triste.
+
+--O senhor Luiz tem muitas saudades da sua terra, tem?
+
+--Se tenho!...
+
+--Tambem eu as sinto! disse Magdalena com ar melancholico.
+
+--Saudades, minha senhora?! perguntou Luiz admiradissimo.
+
+--Sim, admira-se?
+
+--E com razão. Pois V. Ex.^a, cercada de todas as commodidades da vida,
+dos extremos e affagos d'um pae, que é mais que muito carinhoso; nova,
+formosa, permitta-me V. Ex.^a esta verdade; vendo realisados todos os
+desejos, satisfeitas todas as vontades; V. Ex.^a, que é, que deve
+realmente ser muito e muito ditosa aos olhos de toda a gente, e aos
+olhos proprios, confessa que sente saudades, e não ha de querer que eu,
+exilado, sem familia, sem estes nadas da vida, que a dulcificam e
+embellezam, me admire e espante d'essa confissão?
+
+--Que quer? Tenho-as, sim, mas tambem não sei de que, para lhe fallar a
+verdade.
+
+--Comprehendo. N'esse caso melhor será que V. Ex.^a diga antes que tem
+desejos... E emfim, quem sabe? Na idade de V. Ex.^a, na idade florida dos
+amores, dos enthusiasmos, das alegrias, das expansões e dos sonhos
+formosissimos, ha sempre, póde pelo menos haver, muita vez, algumas
+d'essas melancholicas florinhas, que são, então, como pequeninas nuvens
+no azul d'um céo estrellado e deslumbrante.
+
+--Não é isso, disse Magdalena levemente contrariada. Não é isso, porque
+eu nunca amei.
+
+--Ah! V. Ex.^a nunca amou?
+
+--Nunca, pelo menos que eu saiba, respondeu ella ingenuamente.
+
+--Mais um motivo para eu crêr que o que V. Ex.^a tem, são desejos de amar
+e ser tambem amada.
+
+--Talvez, accudiu Magdalena córando, e pregando em Luiz os seus negros,
+grandes e formosos olhos.
+
+--E acreditaria V. Ex.^a no amor do primeiro homem, que ousasse
+render-lhe um culto, confessando-lhe esse sentimento?
+
+--Conforme. O coração é que havia de decidir.
+
+--E o coração de V. Ex.^a não lhe diz nada? não lhe lembrou ainda um
+nome? um homem, a quem tenha de dar as perolas valiosissimas do seu
+affecto?
+
+--Já.
+
+Luiz estava pallido e tremulo de commoção.
+
+--Oh! se fosse eu!... murmurou elle.
+
+--Que tinha! era muito feliz, era?
+
+--Se era, minha senhora! muito! muito!
+
+--E amava-me? perguntou Magdalena anciosa, e um tanto agitada.
+
+--Oh! com delirio até!
+
+--Pois então não dê a mais ninguem o seu amor, porque... eu tambem o amo
+muito!
+
+E a formosa filha do cabinda olhou para todos os lados como receiando
+que alguem a ouvisse.
+
+Creança!
+
+Que commoções a não abalaram n'aquelle momento! que agitação n'aquelle
+seio tão estreito, agora, para as ondulações do coração, que tantas
+flôres estava desabrochando!
+
+Era a primeira vez que lhe fallavam d'amor! era a primeira vez que um
+homem a impressionava.
+
+O que ella viu, o que ella sentiu, era o Paraiso com as bellezas
+deslumbrantissimas dos seus vastos e perfumados jardins! era o céo com
+todas as harmonias das suas orchestras, afinadas pelos dedos dos anjos!
+
+Luiz esqueceu-se da patria, da familia, das saudades, que tinha por uma
+e outra, e começou, n'uma como visão phantastica, a vêr diante de si um
+horisonte illimitado de felicidades sem fim!
+
+Que dia aquelle! que dia tão venturoso! D'um lado os beijos carinhosos
+da fortuna, do outro, as flôres magicas do amor d'um seio de virgem!
+
+Eram tão violentas as commoções que o abalavam que apegas poude
+murmurar:
+
+--Juro-lhe que a hei de amar eternamente! mas supplico-lhe que não me
+engane nunca!
+
+--Nunca! prometto-lh'o pela memoria sagrada de minha mãe!..
+
+E embebidos nas doçuras, nos enthusiasmos d'este colloquio, que jámais
+devia ser esquecido Luis e Magdalena tinham-se affastado um pouco para
+um dos angulos do jardim.
+
+Sentaram-se como que machinalmente.
+
+Magdalena voltava e revoltava entre as suas mãos mimosas e pequeninas um
+viçoso suspiro; Luiz aspirava o fumo d'um delicioso charuto bahiano, e
+arrojava depois ao espaço as ondas azuladas, as nuvens pequeninas do
+fumo aspirado.
+
+Os pés dos jasmineiros floridos impregnavam a atmosphera de perfumes que
+inebriavam.
+
+E o pôr do sol, o cahir das primeiras sombras do crepusculo da tarde,
+começavam a pesar na alma d'aquelles dois namorados, estremosos como
+duas juritys.
+
+--Parto d'aqui a pouco, minha senhora, disse Luis olhando com saudade
+para Magdalena.
+
+--Mas ha de vir ver-me sempre que poder; sim?
+
+--Sempre que não haja quebra de conveniencias.
+
+--Conveniencias? interrogou Magdalena.
+
+--Sim, minha senhora. Bem vê V. Ex.^a que a minha presença muito
+frequente n'esta casa, póde despertar suspeitas, e eu não desejo, nem
+devo desgostar o senhor Jorge de Macedo, que apesar de estimar-me muito,
+talvez não approve esta affeição, que começa a prender-nos hoje.
+
+--Ha de approval-a, basta que eu lhe diga que o amo.
+
+--Em todo o caso não a descubra V. Ex.^a por ora, não?
+
+--Não.
+
+---E se um outro homem, um homem qualquer se dirigir a V. Ex.^a, ou se
+mesmo seu pae lhe apontar algum, como digno de partilhar do nome da sua
+familia?
+
+--Despedil-o-ei.
+
+--Agradecido, minha senhora.
+
+--E olhe, quando não possa vir vêr-me, dê-me ao menos noticias suas,
+sim? Fico com tantas saudades e com tantas lembranças d'este dia!
+
+--Tambem eu as levo. Mas por quem lhe heide dar as minhas noticias?
+
+--Pelo cabinda. O negro quer-me muito; bem sabe que sou a filha d'elle.
+
+--Muito bem. Agora retiro-me que são horas. Levo-a a V. Ex.^a gravada nos
+olhos, e no coração.
+
+--Faça-me ainda uma coisa, faz?
+
+--Tudo, minha senhora.
+
+--Deixe as _excellencias_ com que me trata e mostre-me mais confiança.
+
+--Seja. Era essa a minha vontade. Adeus... Magdalena.
+
+--Até breve... Luiz!
+
+E apertaram-se as mãos n'uma effusão de grandissimo sentimento, e
+separaram-se depois, saudosos ambos, ambos melancholicos e
+impressionados.
+
+Americo e os outros empregados do armazem partiram tambem.
+
+Jorge deixou depois a filha e sahiu.
+
+Magdalena ficou só.
+
+Nas salas havia aquella meia escuridão da hora melancholica da transição
+do dia para a noite. No céo já brilhavam, formosas, algumas estrellas.
+
+Magdalena foi sentar-se ao piano. Não ia tocar, ia fazer mais, porque ia
+gemer saudades com aquelle amigo.
+
+As harmonias que encheram a sala eram suaves e melancholicas; casavam-se
+em tudo com o que ella estava sentindo, e transportavam-a a mundos onde
+nunca tinha subido.
+
+As mãos formosas e delicadas premiam suavemente as teclas de marfim, mas
+o seu espirito só via uma imagem, aquella musica só lhe repetia um nome:
+
+--Luiz.
+
+E tão embebida estava, tão embrenhada jazia n'aquelle sonho que a
+dominava, que nem sequer deu pelo cabinda, que surgiu cautelloso a uma
+das portas.
+
+O negro parou n'uma contemplação, que era a maior prova do seu culto por
+Magdalena. Mas ao vel-a assim tão preoccupada, ao parecer-lhe triste,
+approximou-se carinhoso e disse, com toda a sua affeição a
+transparecer-lhe na voz:
+
+--Ainda está triste a minha filha?
+
+Magdalena como que accordando d'um sonho respondeu:
+
+--Não, cabinda. Agora penso na felicidade.
+
+--E o branco?
+
+--Tenho-o aqui, respondeu, indicando o coração.
+
+--Mas a senhora moça é ainda a filha do cabinda!
+
+--Sou, sim; tu és meu amigo, e elle... elle amo-o muito!
+
+
+
+
+VI
+
+
+Vai um pouco adiantada a noite.
+
+A lua dardeja os seus raios de prata nos morros da Tijuca, do Pão
+d'Assucar e Corcovado, e côa a sua luz pallida pelos intresticios da
+vegetação luxuriante dos arrabaldes do Rio de Janeiro.
+
+Que noite formosa!
+
+Prendem-se as estrellas umas ás outras pelas suas palhetas luminosas, e
+bordam, como brilhantes de subido valor, o manto azul da vasta abóbada
+do céo.
+
+Dormem as aves ao som do murmurio suave das auras, que perpassam entre a
+ramaria das arvores alentadas e fórtes. A atmosphera impregnou-se
+durante o dia, dos perfumes das flôres e dos fructos, que o sol
+fecundante fez amadurecer e desabrochar.
+
+O ananáz e o jasmin, o cajú e as acacias brancas, a pitanga e as rosas
+de Alexandria, as flôres todas, e todos os pômos das arvores
+fructiferas, casam, umas com as outras, os seus aromas deliciosos, do
+conjunto dos quaes, se fórma uma essencia, que embriaga, que é doce, e
+suave, e agradavel.
+
+O Botafogo dorme, velado pelo manto das suas bellezas, no centro d'um
+silencio, apenas quebrado pelo cicio das agoas da sua poetica enseada.
+
+No meio de tudo isto, de todas estas bellezas, ha um ente que ainda não
+repousa, enlevado em sonhos de fascinadora poesia.
+
+É Magdalena, a filha do cabinda.
+
+A formosa virgem encostou-se ao peitoril da sua janella, e, silenciosa,
+firmou os olhos pensativos, n'um ponto, onde a imaginação e o espirito,
+estão fazendo passar, desenrolando-se rapidos, uns variadissimos
+panoramas, umas paisagens de infinitas bellezas!
+
+Está como que sonhando.
+
+Sonha, jurity mimosa e meiga, que os sonhos das alvoradas do amor são
+formosos e bellos! Abre o sacrario virgem do teu coração, que começa a
+fecundar as primeiras flôres, aos perfumes que a aragem da noite
+transporta nas suas azas!
+
+Faz as tuas confidencias á lua; conta os teus segredos ás estrellas;
+porque uma e outras virão, em cada noite, reflectir da altura, onde
+andam suspensas, a imagem que te povoa a alma, o coração e a soledade!
+Scisma; prende pelo espirito, por esse élo mysterioso, que aniquila as
+distancias, o pensamento ao pensamento, que vem, de longe fundir-se com
+o teu, em um só! Deixa que o coração se dilate, que a alma se expanda, e
+se aqueça ao calor do sentimento que a anima!
+
+Oh! mas cahem-te dos olhos, que reflectem o céo, como se a proprio céo
+elles fossem, duas perolas mimosas!
+
+Porque choras, criança? Que pêso poderão ter na balança do teu destino
+essas duas lagrimas, que ninguem vê, mas que alguem beberia soffrego,
+embora occultassem a morte? São o baptismo do teu amor? ou o preço da
+tua felicidade?
+
+E Magdalena com o seu rosto formoso, mas nublado de melancholia, tinha
+duas lagrimas a marejarem-lhe os olhos fascinadores.
+
+Aquellas duas gotas crystallinas eram as flôres das primeiras saudades
+d'amor, saudades pelo primeiro homem, que lhe tocára o coração com a
+varinha magica do condão do infinito sentimento.
+
+Magdalena pensava em Luiz, estava-o vendo n'aquella hora, como o vira em
+sonhos tantas vezes, nas noites em que o seu coração sentia o mal estar
+d'um vacuo incomprehensivel. Meigo e bondoso, affavel e doce, lá lhe
+estava sorrindo, lá lhe estava fallando com a sua voz attrahente!
+
+E ella tinha saudades d'elle, saudades do dia que havia passado, e
+saudades d'aquelle passeio pelo jardim, ao seu lado!
+
+Quizera-o alli sempre, quizera-o junto a si eternamente!
+
+Oh! que alternativa não estava passando o seu viçosissimo coração!
+
+D'um lado as claridades magicas do amor nascente, as promessas de Luiz,
+o preenchimento do vacuo, dos desejos ardentes que ella não
+comprehendia!
+
+Do outro, a ausencia, a distancia, o atear d'aquelle fogo sublime, a
+sêde d'aquellas flôres, que haviam brotado na sua alma, a noite
+d'aquelle dia tão repleto de encantos, a soledade, emfim!
+
+Ó mocidade! como és formosa com as tuas esperanças, com os teus receios,
+com as tuas alegrias, com as tuas lagrimas, com todos esses contrastes,
+que te agitam o seio, onde tudo é vida, onde tudo é enthusiasmo e
+delirio! Sonhas de dia acordada, e velas de noite repousando! Nas
+paginas do teu livro, se ha cantos melancholicos, ha tambem poemas
+d'infinita ventura, por que o amor, que te doura as flôres e os dias, é
+a fonte, onde, com uma lagrima, brotam muitos gosos.
+
+E Magdalena continuava a scismar.
+
+Era a primeira noite d'amor; o somno cedeu o logar aos receios e ás
+esperanças. Dentro de sua alma e do seu coração havia um murmurio de
+harmonias, constante, como o murmurio das cachoeiras da floresta.
+
+Ella tinha diante de si uma imagem e nos labios um nome--a imagem e o
+nome de Luiz.
+
+Este velava tambem.
+
+Scismava em Magdalena, e estava-a vendo com os olhos do seu amor,
+perpassando diante dos olhos do corpo, airosa, gentil e meiga, como a
+vira n'aquelle jantar, que nunca mais poderá esquecer, e como a ouvira
+n'aquelle jardim, de que ella era a flor mais candida e mais formosa.
+
+Luiz habitava na rua dos Pescadores, no Rio de Janeiro, o terceiro andar
+da casa do armazem de Jorge de Macedo.
+
+Era confortavel o seu aposento, que elle andava percorrendo,
+visivelmente preoccupado, d'um a outro extremo.
+
+É pequeno agora o ambito do seu coração para conter tudo quanto está
+sentindo. Um mundo, vastissimo d'esperanças, se está desenvolvendo
+diante dos seus olhos, no meio do qual avulta, radiante, o anjo de
+Magdalena.
+
+Encheu-lhe o amor o seio.
+
+Elle, que vivia tão descuidado, entregue ás saudades da patria e da
+familia, e ao desempenho das suas obrigações, esquece-se de tudo isso,
+agora, esquece mesmo a imagem, duplamente santa, de sua mãe, para só se
+lembrar de Magdalena, que lhe era uma pessoa estranha, uma pessoa
+indifferente.
+
+Oh! o primeiro amor!...
+
+Eram fortissimas as inspirações que o dominavam e tanto mais quanto
+menos as esperava.
+
+Magdalena deslumbrara-o, não só com a sua belleza, mas muito mais ainda
+com a sua ingenuidade, com os seus modos despertenciosos, e com a sua
+franqueza.
+
+Foi um anjo que lhe surgiu do céo, a elle, que andava na terra com a
+aridez no coração.
+
+Todavia um vago pressentimento d'uma fatalidade o vinha acabrunhar por
+vezes.
+
+Aquellas palavras d'Americo, quando, depois do jantar, desciam ambos
+para o jardim, soavam-lhe ainda aos ouvidos e eram-lhe desagradaveis.
+
+Deram-lhe a conhecer que o mulato pertendia tambem Magdalena, e o mulato
+era capaz até d'uma infamia para a conseguir.
+
+Luiz conhecia-o bem, estava ha muito tempo em contacto com elle, e
+tinha-o mesmo estudado.
+
+Americo tinha os maus instinctos e a indole dos da sua raça, embora
+apparentemente adoçados por uma educação rasoavel, e pela convivencia
+d'aquelles com quem as suas obrigações o levavam a tratar.
+
+O jantar tinha sido n'aquelle dia, e desde que elle findara, ou antes,
+desde que em casa de Jorge, os dois se separaram, ainda não tinham
+trocado uma palavra, porque ainda se não tinham encontrado.
+
+Luiz tinha, porém, a certeza de que o mulato não guardaria silencio, e
+dispunha-se a combater a todo o transe, se tanto fosse preciso...
+
+Que importavam a Luiz as pretenções d'Americo, se Magdalena jurára
+amal-o, invocando a sacratissima memoria de sua mãe?
+
+Que lhe importava que o mulato, ferido no seu amor proprio, no seu
+orgulho e nas suas ambições, pelo despreso ou pela indifferença de
+Magdalena, o tentasse desthronar por meios ardilosos, por infamias até?
+
+Não tinha Luiz a sua consciencia limpa?
+
+Não lhe dizia ella que elle havia de vencer?
+
+Dizia.
+
+No entanto, é certo que o drama ia começar, que a lucta ia travar-se,
+mas não face a face, e a peito descoberto.
+
+E em quanto Luiz pensava n'isto e na sua Magdalena, lá ia a lua
+caminhando pelos páramos do azul sem fim, namorando a formosa filha do
+cabinda, que a olhava melancholica nas saudades do primeiro amor, e
+reflectindo as suas mil agulhas de prata reluzentes nas aguas
+murmuradoras das cachoeiras da floresta, e no espelho do vasto
+Guanabára.
+
+Ó noite! que de pensamentos não desabrocham, no meio do teu silencio,
+nos corações que viçam amores á luz do teu astro argenteo!
+
+
+
+
+VII
+
+
+Eram oito horas da manhã do dia immediato, quando Luiz desceu para o
+escriptorio.
+
+Americo já andava dando as suas ordens para o embarque de uma porção de
+saccas de café.
+
+Os dois comprimentaram-se amigavelmente na apparencia, porém, com certa
+reserva e um pouco de frieza, o que não era costume.
+
+Luiz trazia no rosto a pallidez impressa pela vigilia d'uma noite
+inteira; Americo os traços de quem tinha uma ideia a dominal-o.
+
+E os dois socios de Jorge de Macedo dirigiram-se ambos ao escriptorio,
+situado no fundo do armazem.
+
+Luiz sentou-se a escrever; Americo começou a examinar a correspondencia
+do dia anterior.
+
+Os negros e os outros caixeiros andavam na labutação de pesar e ensacar
+o café.
+
+--Nao sei onde te meteste hontem, desde que nos separamos no Botafogo,
+principiou Americo, passando a vista de umas para outras cartas.
+
+--Eu é que te não tornei a vêr; respondeu Luiz placidamente, sem volver
+os olhos dos livros, que tinha diante de si.
+
+--Fui ao theatro.
+
+--E eu vim para casa.
+
+--Ah! exclamou Americo com certo ar intencional.
+
+--Nao sei de que te admiras.
+
+--Eu? de nada.
+
+--Esse _ah!_ solto assim...
+
+--Foi natural.
+
+--Talvez, mas nao creio. Parece-me que queria dizer alguma coisa.
+
+--Não. Já tiveste noticias de Magdalena!
+
+--Noticias de Magdalena?! perguntou Luiz com certo ar d'altiva
+admiração.
+
+--Sim; ou não deixaste ainda as coisas n'essa altura?
+
+--Gracejas de certo, Americo.
+
+--Não gracejo, não. Então has-de negar que a não desfitaste um momento,
+durante o jantar de hontem, e que lhe fizeste uma confissão d'amor, em
+quanto passeiavas com ella pelo jardim?
+
+---Não nego, nem affirmo.
+
+--Calas; quem cala consente.
+
+--Não sei. Mas d'um ou d'outro modo o que me parece é que nada deves ter
+com isso.
+
+--Outro tanto não digo eu.
+
+--Não sei porque.
+
+--Porque tambem sou pretendente.
+
+--Ah! sim!
+
+--Tu começaste; veremos agora qual dos dois acabará.
+
+--Veremos.
+
+--Mas porque não has-de ser franco comigo?
+
+--Franco em que? e para que? És homem como eu; tens o campo aberto,
+propões a lucta, acceito-a. Se tiver a franqueza de confessar-te que amo
+Magdalena, retiras? Não. Ella é que escolhe; se algum de nós lhe
+convier, o outro já sabe o que tem a fazer.
+
+--E se eu fôr o escolhido?
+
+--Paciencia. E se não fores tu?
+
+--Hei-de empregar todos os meios.
+
+--Todos?
+
+--Todos, sim. Os da minha raça bem sabes que não recuam nunca, e se o
+ignoras fica-o sabendo agora.
+
+--Em todo o caso diz-me: Queres a mulher pelo dinheiro, ou queres a
+mulher porque a amas.
+
+--Quero-a por ambas as causas... principalmente.
+
+--Comprehendo.
+
+--Julgas, talvez, que na balança da conquista, o prato pende mais para o
+teu lado? Enganas-te. Nós, os brazileiros, e sobre tudo os que, como eu,
+teem na face a côr bronzeada do cruzamento das raças, estamos fartos de
+vêr que os pobretões dos portuguezes nos venham, de tão longe, roubar as
+mulheres e o dinheiro.
+
+Luiz córou e pôz-se d'um pulo em pé.
+
+--Insultas-me! exclamou elle.
+
+--Não; digo a verdade.
+
+--Dizes a verdade! bradou Luis com ironia. Havia de fazer engulir-te a
+phrase se não conhecesse que fallas despeitado. Fallas dos pobretões dos
+portuguezes! Que seria de ti e dos teus se não fossem elles! Morriam
+todos de fome, haviam de ser uns miseraveis! Nós é que trabalhamos, nós
+é que vos sustentamos, pódes ter a certeza d'isto. Se vos levamos o
+dinheiro, levamos apenas uma parte do fructo do nosso suor, ficando tu e
+todos os teus com a outra, com a maior, sem o minimo esforço de corpo e
+de espirito; se nos ligamos com as vossas filhas é por que as merecemos,
+é porque somos verdadeiramente dignos d'ellas, para não dizer que mais
+honra lhes vai com estas allianças, do que a nós. Repito; eu queria vêr
+o que seria de vós se não fossem os pobretões dos portuguezes; de vós,
+que apenas nascesteis para vos bamboleardes na rêde, indolentes,
+occiosos, tomando o vosso café e fumando o vosso cachimbo.
+
+--Seja como fôr; não discuto nobrezas de nacionalidade. O que te digo é
+que hei-de empregar todos os meios para conseguir Magdalena.
+
+--E eu affirmo-te que nem um só vingará.
+
+--Veremos.
+
+--Veremos. Declaras-te meu inimigo, atiras-me a luva, levanto-a. Conheço
+agora que has-de usar de todas as armas, desde a hypocrisia, desde o
+ardil apurado até á infamia, até ao crime refinado. Pouco importa.
+Hei-de bater-te com a verdade, só com ella te hei-de derrotar. Todavia,
+recommendo-te prudencia, porque se o meu braço se envergonhar de
+castigar-te, talvez haja quem o faça sem que o esperes.
+
+--Ameaças-me?
+
+--Não; previno-te.
+
+--Pois bem; eu me defenderei.
+
+--Mas de modo que não vás ferir aquelle que ainda hontem, além de nos
+sentar á sua meza como amigos, nos elevou á dignidade de partilharmos da
+sua fortuna. A lucta é comigo, e só comigo, e se me encontras disposto a
+combater-te, não me encontrarás disposto a tolerar-te a minima coisa que
+possa, mesmo de leve, ferir Jorge de Macedo, que é hoje meu socio, meu
+protector e meu amigo, finalmente. Mais ainda, Americo, e isto vale uma
+ameaça. Magdalena é uma pessoa sagrada para mim, e exijo que o seja para
+ti. A menor falta de respeito da tua parte, a menor insolencia que lhe
+dirijas, pagal-a, bem paga, fica certo d'isso. A contenda é comigo e só
+comigo, ainda uma e ultima vez t'o digo.
+
+--Pouco me importam as tuas ameaças, e respondo a ellas com uma
+gargalhada.
+
+--Bem sei que vai até ahi o teu cynismo e a tua cobardia.
+
+--Luiz!...
+
+--Cobardia, sim! affirmou Luiz perfilando-se destemido em face de
+Americo.
+
+Este ia, n'um impeto de raiva, a lançar-se ao guarda livros, mas ao
+vêl-o tão resoluto, ao vêr-lhe nos olhos a chamma da valentia e a
+coragem com que o esperava, recuou, deteve-se, e volveu-se, saindo a
+dizer:
+
+--Ia-me zangando! A occasião não era propria, e nem mesmo valia a pena.
+Tenho tempo de desforrar-me.
+
+--Ou de levares uma licção que te aproveite, canalha! respondeu Luiz.
+
+Dois minutos depois, já Americo andava ordenando e vigiando o trabalho
+dos negros e mais caixeiros do armazem, e Luiz continuava escrevendo,
+como se nada lembrasse a cada um d'elles d'aquella scena que o mulato
+havia provocado.
+
+No entanto Luiz estava livido, d'esta lividez produzida pela raiva
+sopeada, e Americo, no meio da labutação dos seus subordinados, trazia
+nos olhos espelhado claramente, o pensamento, o desejo de vingança, que
+lhe avultava no seio.
+
+A imagem, formosa sempre, e sempre sympathica de Magdalena, lá estava,
+apesar de tudo, interposta entre os dous, a separal-os, a affastal-os, a
+lançal-os, sem mesmo ella o pensar, em uma lucta tremenda, que devia
+necessariamente terminar muito mal para um d'elles, pelo menos.
+
+Luiz via-a com os olhos do seu amor, do seu affecto, da sua virtude;
+Americo com os olhos dos seus desejos desenfreados de vingança, com os
+olhos da sua ambição e do seu calculo.
+
+Magdalena era o centro d'uma linha nos extremos da qual se agitavam
+convulsivamente sentimentos inteiramente oppostos.
+
+Teriam ambos a mesma força?
+
+Qual d'elles tinha de attrahil-a?
+
+É facil prevel-o. A imagem de Luiz já lhe enchia o seio, já lhe havia
+povoado os sonhos da primeira noite d'amor, aquelles sonhos porque ella
+passára accordada, solitaria na sua janella, com os olhos cravados na
+lua, e a alma a sentir o _gosto amargo_ d'uma saudade indefinida.
+
+
+
+
+VIII
+
+
+Eram tres horas da madrugada, quando Magdalena se retirou da janella,
+onde a vimos tão scismadora, tão embebecida na contemplação silenciosa
+da rainha da noite, que, apesar de bem alta, ainda ia vaidosa a mirar-se
+nos crystallinos espelhos dos lagos adormecidos, e gosando as suaves
+emanações das flores dos jardins.
+
+Nunca a formosa virgem tivera uma noite de sensações tão violentas,
+esmaltada de tantos receios e de tantas esperanças, de tantas rosas e de
+tantos espinhos.
+
+A imagem de Luiz, ora lhe sorria cariciosa, meiga, e cheia de bondade,
+ora lhe apparecia gelada, fria, e grave, com todos os traços d'uma
+indifferença verdadeira.
+
+Eram as alternativas do amor; era esta serie de contrastes e antitheses
+que o constituem, e de que elle proprio se alimenta, inflamma e vive!
+
+Todavia, n'esta opposição de ideias, de phantasias, d'aspirações, que a
+dominavam e agitavam, o predominio era inquestionavelmente para o
+pensamento da felicidade, que tão magicamente lhe sorria no amor de
+Luiz.
+
+O amor de Luiz!...
+
+Aquelle sentimento era o céo com todas as suas bellezas; com as
+harmonias dulcissimas das harpas afinadas dos seus anjos; com todos os
+cambiantes das luzes formosas dos seus astros scintilladores!
+
+E foi n'este diliciosissimo vago d'uma esperança de ventura que
+Magdalena adormeceu.
+
+Os olhos, aquelles olhos sempre formosos, cederam por fim ao pêso da
+somnolencia, e deixaram-se velar docemente pelas palpebras, quasi
+transparentes.
+
+Não cessaram porém as ondulações do seio, que estava sendo o leito d'um
+vasto oceano d'amor.
+
+Não cessaram, não, porque ainda se prolongava o sonho, em que,
+inteiramente embebida, se havia demorado na janella, d'onde sahira
+momentos antes.
+
+A formosa filha do cabinda estava vendo diante de si vastissimas
+campinas de flores perfumadas; estava ouvindo umas harmonias alegres,
+como nunca ouvira; tinha por cima o céo azul, limpido e sereno dos dias
+tropicaes, e em baixo, na terra, a esteira matizada de flores, que a mão
+d'uma fada branca, aeria e vaporosa, andava espargindo prodigamente.
+
+Ó mocidade! como são magicos os teus sonhos, quando te perfumam o seio
+largo, as emanações balsamicas dos roseiraes floridos do amor! Como é
+deslumbrante e querida a imagem, que te faz palpitar o coração, gravada
+nos raios prateados de cada estrella, reflectida na superficie serena de
+cada lago, envolta nas harmonias suaves e doces do cahir da agua de cada
+cachoeira, presa nas mil palhetas douradas do sol de cada esperança, e
+engastada na muldura valiosa das perolas de cada crença!
+
+Sonha, Magdalena, sonha! Na tua idade, os sonhos são vida, a vida é
+ventura e a ventura parece não ter fim!...
+
+Sonha, em quanto te doura a fronte, e se reflecte no negro assetinado
+dos teus formosos cabellos, o sol vivificante dos teus vinte annos tão
+perfumados.
+
+E Deus queira que um dia não tenhas de beber a sicuta das desillusões, o
+calix amargo e mortal do fel da desventura!
+
+Desponta propicia a estrella do teu amor; prophetisam-te alegrias os
+canticos suaves, que te embalam o somno leve... Dorme, virgem; dorme,
+sonha, vive, e gosa!
+
+E Magdalena sonhava.
+
+N'aquelle momento, havia, porém, dois homens que a estavam vendo com
+olhos d'affecto formosamente sincero, mas inteiramente distincto.
+
+Eram Luiz, que não podera conciliar o somno, e o negro, o cabinda, que
+havia accordado a pensar na felicidade da sua filha.
+
+As seis horas da manhã já o sol dourava, com todo o seu deslumbrante
+explendor, a vegetação opulenta das mattas virgens, e as florinhas
+mimosas dos jardins vicejantes. As aves mandavam ao céo, nas azas
+invisiveis da viração do sul, o seu cantico matinal de graças e louvor.
+Sorria-se inteira a natureza, n'um sorriso que era como um hymno
+abençoando o Creador!
+
+O cabinda andava já, contente do seu trabalho, entregue á limpeza das
+folhas seccas, cahidas, durante a noite, em volta do lago, onde
+Magdalena costumava ir sentar-se, pensativa, no fim de cada tarde.
+
+E tão embebido andava o negro, que nem viu a sua filha approximar-se
+d'elle, surgindo d'uma das aleas da chacara, orlada de mangueiras,
+cajueiros e pitangueiras.
+
+--Tão entretido, cabinda! disse Magdalena approximando-se.
+
+--A minha filha! exclamou o negro, depois de se volver admiradissimo,
+com um sorriso d'intima alegria a pairar-lhe no semblante.
+
+--Então? volveu ella. Julgas que só tu te levantas com o sabiá das
+laranjeiras?
+
+--O negro não esperava a senhora moça, não. A sua benção.
+
+--Quero que vás á cidade.
+
+--Ao branco? perguntou elle com rapidez.
+
+--Sim. Vais levar este bilhete ao senhor Luiz, mas has de entregal-o só
+a elle, ouviste?
+
+--Descance a minha filha, o negro vai já.
+
+E depois, como recordando-se d'alguma coisa passada, o negro continuou:
+
+--Oh! o cabinda bem dizia, que o branco dos sonhos da senhora moça havia
+de chegar. É elle; o branco veiu e a minha filha gosta do branco.
+
+--Ah! suspirou Magdalena, enlevando-se nos sonhos do seu affecto. Ah! se
+tu soubesses como eu o amo!
+
+--É como o cabinda á sua parceira e aos seus filhos que lhe tiraram.
+
+--Mais, mais ainda! Tu não imaginas como eu sou doida por elle!
+Pertence-lhe a minha vida, o meu coração, a alma, o pensamento! Sou toda
+d'elle, e não poderia viver sem elle. Tu, oh! tu não sabes o que eu
+sinto, não! Penso n'elle de dia, de noite, a toda a hora, e sempre! Tu
+contentas-te em ter saudades da parceira, que te tiraram, dos filhos de
+que te separaram; e eu morria se elle me faltasse, morria, sim!
+
+--E o branco tambem quer muito á minha filha, muito; acudiu o cabinda, a
+quem o enthusiasmo de Magdalena, havia enthusiasmado tambem.
+
+--Quem sabe? murmurou ella, n'uma expressão d'alguma duvida.
+
+--O negro vê. Hontem, no jantar, os olhos do branco buscavam os olhos da
+senhora moça. Eram como a jurity do matto, a chamar a companheira entre
+as folhas do capim...
+
+--Isso era hontem, mas agora?... respondeu Magdalena com melancholia.
+
+--Agora, senhora moça, o negro vai e hade trazer alegrias á sua filha.
+
+--Vem depressa, ouviste?
+
+--O negro não tardará.
+
+E o cabinda guardou o bilhete que Magdalena lhe déra, e partiu
+apressado, volvendo-se, de quando em quando, para traz.
+
+No seio da formosa virgem havia uns alvoroços immensos. Era a esperança
+que os originava, a dourada esperança, em que Magdalena ficava, de que
+depois das suas noticias, que mandava a Luiz, este lh'as mandaria
+tambem, n'um repetido protesto de grandissimo affecto.
+
+Subiu.
+
+Ao chegar ao topo da escada, encontrou-se com Jorge.
+
+--Tão cêdo cá por fóra, filha! exclamou elle, um tanto admirado ao
+vêl-a.
+
+--Estava uma manhã tão bonita! vim vêr as minhas flôres.
+
+E beijou-lhe a mão e abraçou-o, cariciosa e meiga.
+
+--E tão cêdo as deixas, doidinha!
+
+--Já as vi, já lhes fallei, papae.
+
+--E agora que vaes fazer?
+
+--Uma visita a outro amigo... disse ella, sorrindo.
+
+--Pois ainda tens mais affeiçoados, Magdalena?
+
+--Se tenho, papae! disse ella, suspirando. Então o meu piano?
+
+--D'aqui a pouco esqueces-me de certo. Se vaes assim a repartir o teu
+affecto, não deixas no teu coração um cantinho para teu pae!
+
+--Oh! o logar do papae ninguem o tira, ninguem!
+
+--Nunca?
+
+--Nunca!
+
+E Magdalena prendeu-o pelo pescoço, sorrindo com meiguice, e
+imprimiu-lhe na face dous osculos purissimos.
+
+Jorge acolheu-os como os paes acolhem os beijos dos filhos, quando os
+paes são paes, e os filhos não degeneram.
+
+
+
+
+IX
+
+
+O cabinda chegou á rua dos Pescadores, no Rio, alguns minutos depois de
+terminada a disputa entre Luiz e Americo.
+
+O escriptorio, como já dissemos, era situado no fundo do armazem, e
+resguardado por uns tapamentos de madeira, que interceptavam a vista do
+seu interior ás pessoas que entravam.
+
+Americo estacou, e como que teve um estremecimento, vendo surgir o
+negro. Dissimulou-o, porém, o mais que pôde, e foi encostar-se a uma
+porta lateral.
+
+--Louvado seja o Senhor! disse o negro, entrando.
+
+--Adeus, cabinda; respondeu Americo docemente.
+
+--O negro quer fallar ao senhor Luiz.
+
+--O teu senhor não vem hoje á cidade? perguntou Americo com intenção.
+
+--O negro não sabe.
+
+--Quem te mandou, então?
+
+--A senhora moça.
+
+E o cabinda lançou a Americo um olhar perscrutador.
+
+--A senhora moça? perguntou o mulato, admirado do pouco segredo que o
+negro guardava da sua missão.
+
+--Sim.
+
+--Trazes recado ou carta? acudiu Americo rapidamente.
+
+--O negro traz carta.
+
+--Dá cá, que eu vou entregal-a ao senhor Luiz.
+
+--A ordem da senhora moça é só para entregar a elle.
+
+Americo encolerisou-se com a resposta do cabinda, e disse, raivoso:
+
+--Bem se vê que és negro!
+
+--Como o pae de muita gente, respondeu aquelle.
+
+--Patife!...
+
+--O negro é cabinda, e o cabinda é raça fina. O mulato é filho de branco
+e de negro...
+
+Americo sentiu-se altamente atacado, mas enguliu a affronta, que
+provocára. Teve vontade de atirar logo dous murros ao negro, mas o
+receio deteve-o, porque tinha diante de si um homem possante, que,
+embora escravo, era, comtudo, um escravo estimado e querido. No meio da
+sua ira, e, digamos, da sua cobardia, limitou-se a ameaçar:
+
+--Deixa estar, que o teu senhor saberá que andas a trazer e a levar
+recados da senhora moça, patife!
+
+--O negro não tem mêdo.
+
+E o cabinda deu-lhe as costas, e dirigiu-se ao escriptorio, onde lhe
+parecêra ouvir a voz de Luiz.
+
+Chegou á porta e metteu a cabeça.
+
+--Licença.
+
+--Ah! és tu, cabinda? Entra; acudiu Luiz, largando a penna.
+
+--O negro, meu branco.
+
+--A que vens?
+
+--Trazer isto. Manda a senhora moça.
+
+E tirando do bolço o bilhete de Magdalena, entregou-o a Luiz, esperando
+com alegria, sorrindo de contentamento.
+
+Luiz sentiu um d'esses abalos, grandemente bello; um d'esses choques,
+que se sentem sempre que nos chega a mão a primeira e suspirada carta do
+objecto do nosso amor.
+
+Que papel aquelle! que thesouro não estava alli!
+
+Fossem dizer ao sympathico moço que o não lêsse! offerecessem-lhe por
+elle todas as riquezas do mundo!
+
+Recusava, de certo, e recusava sem a minima hesitação!
+
+Apenas o perfumado papel lhe chegou ás mãos, Luiz abriu-o com uma
+rapidez vertiginosa, e lançou ao contheudo os olhos, mais como quem o
+devorava, do que como quem o estava lendo.
+
+Era uma soffreguidão nervosa, natural, exigida até pelas circumstancias.
+
+O cabinda que lhe seguia o menor dos movimentos, que parecia mesmo estar
+lendo o que se passava no seu intimo, permanecia immovel, suspenso,
+n'uma contemplação profunda e silenciosa;
+
+A leitura da pequenina carta foi rapida, mas, n'esse pequeno momento da
+sua duração, Luiz subiu todas as notas da escala harmoniosa dos
+transportes sublimes da ventura.
+
+O bilhete dizia o seguinte:
+
+ «Luiz
+
+«Ainda não ha vinte e quatro horas que me deixaste e já não posso com as
+saudades, que me magoam. Vem-me vêr quando poderes e diz-me sempre que
+nunca hasde esquecer a... tua
+
+ Magdalena.»
+
+«P. S. Passei a noite a pensar em ti, e até nas tres horas, que a fadiga
+me obrigou a repousar, tive sempre, ao meu lado, em sonhos lindos, a tua
+imagem, que me sorria e eu acariciava.»
+
+Era curta a missiva mas, em compensação, eloquentissima.
+
+E Luiz olhou para o negro.
+
+--Então? perguntou este.
+
+--Ah! cabinda! cabinda! exclamou o moço com duas grossas lagrimas a
+brilharem-lhe nas pupillas.
+
+--O branco chora? que tem? interrogou o negro rapidamente, passando do
+extremo da alegria ao extremo do receio.
+
+--Choro, sim, e olha que nunca os meus olhos verteram lagrimas como
+estas! São de ventura, são de felicidade! Cada uma me vale o céo, cada
+uma é um hymno, cada uma é um poema! Choro, porque nem só a dôr, nem só
+a tristeza, nem só o infortunio, tem lagrimas. A alegria, quando é tão
+grande, como a que eu estou sentindo, tambem as tem, tambem se adorna
+com ellas. Aquellas são amargas, são negras, queimam e ferem; estas, que
+tu vês nos meus olhos, teem o explendor d'um sol formoso, são dôces,
+porque resumem a essencia d'um nectar suavissimo, dão vida, porque
+contéem em si os elementos que a vigorisam! Choro, porque sou feliz,
+cabinda!
+
+O negro ouviu Luiz n'uma anciedade indiscriptivel. O peito arfava-lhe
+com violencia; era um mar tempestuoso. Os olhos, os seus grandes olhos,
+estavam pregados em Luiz. Susteve-se assim em quanto o amoroso moço ia
+fallando, enlevado nos transportes do seu grandissimo affecto. Mas
+apenas elle acabou, o negro acudiu logo immediatamente:
+
+--E o branco gosta da senhora moça?
+
+--Oh! se a amo!...
+
+--Muito?
+
+--Até ao delirio!
+
+--Obrigado, meu branco! obrigado, meu branco! exclamou o negro, beijando
+phreneticamente as mãos ao moço.
+
+--Que fazes, cabinda? acudiu Luiz, commovido, porque traduzia n'aquelles
+beijos a affeição do escravo por Magdalena.
+
+--É porque a senhora moça é filha do cabinda, e o negro quer a senhora
+moça muito feliz.
+
+--És uma grande alma!
+
+--Mas o mulato...
+
+--Oh! o mulato, acudiu de prompto Luiz, é preciso cautela com elle!
+
+--O cabinda não dorme! disse o negro em um tom d'ameaça.
+
+--Bem. Agora vou escrever duas linhas e não te demores. Vai logo, sim?
+
+--A minha filha espera, bem sei.
+
+Luiz sentou-se e escreveu as seguintes linhas:
+
+ «Magdalena
+
+«Poderei esquecer tudo, mas esquecer-te a ti, nunca. Fizeram-me bem as
+tuas palavras, E se estás soffrendo a melancholia das saudades que
+sentes por mim, eu estou entre as nuvens da tristeza, d'esta ausencia,
+em que nos tem uma distancia tão curta. Passaste a noite scismando em
+mim; eu não repousei, pensando em ti. Lá havias de sentir no teu seio os
+echos do meu pensamento. Irei vêr-te quando podér, e crê que te amo, que
+te adoro muito, muitissimo.
+
+ «Luiz.»
+
+O negro partiu.
+
+Quando chegou ao Botafogo ainda Magdalena estava sentada ao piano, para
+onde a vimos encaminhar-se depois de ter affagado Jorge, seu pae, com
+dous affectuosissimos beijos.
+
+O piano não estava agora gemendo deliciosas harmonias; estava sendo a
+victima da anciedade, em que Magdalena esperava o cabinda.
+
+As mãos ora corriam rapidas, ora vagarosas, traduzindo claramente os
+sentimentos e as ideias que se iam succedendo na sua juvenil imaginação.
+
+De quando em quando, corria á janella a vêr se divisava o negro, mas
+voltava com a melancholia no rosto, sempre formoso.
+
+O cabinda entrou n'um dos intervallos em que ella tocava.
+
+Apenas elle surgiu á porta da sala, Magdalena deu um grito.
+
+Inundou-lhe o rosto todo o explendor do sol das alegrias. Os olhos
+faiscaram centelhas de felicidade.
+
+--Então? que trazes? perguntou ella, correndo para o negro.
+
+--Carta do branco.
+
+--Dá cá, depressa, anda.
+
+O negro entregou a carta de Luiz e Magdalena começou a lêl-a do mesmo
+modo que aquelle havia lido a d'ella.
+
+Eram eguaes as impressões, eguaes as circumstancias, eguaes os
+sentimentos da occasião.
+
+Ao findar a leitura, Magdalena deitou os braços aos hombros do escravo,
+e exclamou, ébria de contentamento, douda d'alegria:
+
+--Ah! cabinda! cabinda!
+
+--Está contente a senhora moça?
+
+--Oh! muito! muito! nem tu sabes como eu sou feliz!
+
+--É isso o que o negro quer, porque a senhora moça é filha do cabinda!
+
+
+
+
+X
+
+
+Jorge de Macedo chegou ao armazem pouco depois do negro ter sahido.
+
+Luiz e Americo cumprimentaram-o com a delicadeza devida. O capitalista
+recebeu-os como socios seus, affavel, risonho, bondoso, mesmo com um
+tanto da meiguice que o caracterisava.
+
+Jorge de Macedo era um homem sympathico, moral e physicamente. A sua
+physionomia era d'estas que attrahem á primeira vista, os seus actos
+modelados em harmonia com a virtude, com a honra, com a probidade, com
+todo o cavalheirismo, emfim.
+
+Ficára viuvo muito cedo. A necessidade obrigou-o a ser carinhoso com a
+filhinha, que ficava orphã das dulcissimas meiguices de mãe. A sua alma
+identificou-se com aquella necessidade e Jorge tornou-se homem sensivel,
+bondoso e em extremo meigo.
+
+Os seus subordinados eram tratados, não como taes, mas como amigos. Os
+pobres tinham sempre aberta a sua bolça. Para as grandes emprezas, para
+qualquer melhoramento do progresso era sempre o primeiro a dar o seu
+nome e a concorrer com os seus fundos.
+
+Tudo isto o fazia estimado e querido, tudo isto lhe valia um nome
+honrosissimo, apesar da sua vida retirada, porque Jorge, não por
+systema, mas por indole, apenas tinha e alimentava a convivencia com as
+pessoas, a quem o ligavam os seus negocios.
+
+Desde que fallecera Beatriz, a sua esposa querida, ninguem mais o viu em
+um baile, em um club, em uma associação recreativa.
+
+Magdalena resumia-lhe todos os encantos, todas as distracções, todos os
+prazeres.
+
+Com ella, com a sua adorada filha, passeiava elle muitas vezes,
+n'aquella alegria d'um doce bem estar, d'um gosar inalteravel de
+venturas suavissimas.
+
+Magdalena fôra educada esmeradamente, com todos os vivos cuidados d'um
+pae amantismo, mas sem o desenvolvimento, que mais tarde se desata em
+grandes exigencias, em superfluidades, em loucas ostentações. Jorge
+cercara-a sempre de todas as commidades, mas não a affastára nunca d'uma
+simplicidade abundante.
+
+As amigas de Magdalena fallavam-lhe de bailes, das alegrias, dos
+ehthusiasmos de qualquer reunião d'este genero, ella respondia, fallando
+do seu piano, das musicas novas, das bellezas d'algum livro, das
+alegrias d'um passeio ao lado do seu pae.
+
+E Magdalena vivia assim, contente, satisfeita, risonha e feliz, graças
+ao systema d'educação empregado por Jorge.
+
+A affabilidade, porém, do nosso capitalista, não se limitava á sua
+filha, não se resumia só n'ella; estendia-se, como já dissemos, a todos
+os que tinham o prazer de o tratar, fossem grandes ou pequenos, pobres
+ou ricos.
+
+Os proprios escravos eram os primeiros a estimal-o, porque não deixando
+de se fazer tratar por elles com o respeito devido, tambem os não
+olhava, como em geral, com olhos de despreso, nem os carregava
+d'asperidades, maus tratos e indifferença.
+
+Jorge acolheu, pois, affavelmente os seus novos socios e dirigiu-se ao
+escriptorio, para resolver os trabalhos e negociações do dia com elles.
+
+Leu-se a correspondencia, fizeram-se deliberações, disposeram-se algumas
+transacções de commum accordo.
+
+Jorge tinha no negocio uma longa pratica de muitos annos. O seu modo de
+vêr as cousas era d'um alcance vasto.
+
+Luiz e Americo ouviam-o attentos e tomavam as suas palavras como
+conselhos e lição.
+
+Depois de uma hora de conferencia o capitalista sahiu.
+
+Luiz ficou entregue á escripturação e Americo passou ao armazem a
+dirigir o trabalho dos negros e caixeiros.
+
+Os dois associados não mostraram o menor vislumbre do resentimento, nem
+das más disposições em que se achavam um com outro, na presença de
+Jorge.
+
+Bem pelo contrario, fallavam, consultavam-se, e olhavam-se, como duas
+pessoas ligadas por estreitissimos laços de amisade e de sympathia.
+
+A presença de Jorge continha-os dentro dos limites do respeito. Além de
+que, qualquer d'elles se julgava culpado perante a propria consciencia.
+Luiz ainda podia alliviar a culpa com a ideia do sentimento que o
+dominava, do amor que lhe estava enchendo o coração. Americo, esse, não
+tinha uma unica appellação.
+
+Jorge voltou de novo ás duas horas e foi encerrar-se com Luiz no
+escriptorio. Conversaram por largo tempo, e quando ás tres da tarde
+sahiu para regressar á chacara, chamou Americo e disse-lhe:
+
+--O senhor Luiz sahe amanhã no vapor das 8 horas para Macahé. Vai a
+negocios meus. Quando vier a correspondencia abra e dê as suas ordens
+como entender conveniente.
+
+--Sim, senhor.
+
+--Se até eu chegar, fôr preciso alguma coisa queira mandar-me aviso ao
+Botafogo.
+
+--Não ha de ter duvida.
+
+--Adeus.
+
+Apertaram as mãos e Jorge sahiu.
+
+Americo exultou de contentamento com a inexperada sahida de Luiz. Eram,
+pelo menos, quatro dias de demora, e em quatro dias podia, pensava elle,
+conseguir derrubar o seu rival do throno aonde começava a sentar-se.
+
+Luiz ficou triste com a noticia, pelo lado do coração. Assaltaram-o logo
+as saudades por Magdalena, e, sobre tudo, a ideia de que o mulato
+poderia aproveitar a sua ausencia para commetter alguma infamia.
+
+Exultou, porém, pelo lado da consciencia, porque ia desempenhar uma
+missão, em nome d'aquelle, a quem devia amisade, estima, confiança, e
+fortuna até.
+
+Estava d'um lado o amor, do outro o dever.
+
+A ausencia ia ser por poucos dias e uma voz intima lhe segredava ao
+coração, que havia de voltar a encontrar Magdalena, firme ainda no seu
+juramento, constante no seu affecto.
+
+Luiz confiava na pureza dos seus sentimentos, e tanto bastava para crêr
+que um anjo bom havia de proteger a sua causa.
+
+Demais, bem sabia elle que o cabinda olharia pela sua filha.
+
+Todavia Luiz não queria partir sem annunciar a Magdalena a sua ausencia.
+Ainda tinha tempo.
+
+No dia seguinte, ás sete horas, já elle andava de pé.
+
+O mulato passára a noite a fazer e a desfazer planos. A ausencia do seu
+associado sorria-lhe fagueiramente. No entanto nada poude decidir
+positivamente, porque tinha a certeza de que Luiz tomaria todas as
+precauções.
+
+Além d'isto, um dos maiores obstaculos que se levantavam, em face de
+qualquer resolução tomada, era o negro, era o cabinda de quem tinha, sem
+duvida, muito e muito a receiar.
+
+A ultima resolução foi a de esperar o curso das cousas.
+
+O mais provavel era que Luiz mandasse alguem a Magdalena, e n'esse caso
+elle faria todas as diligencias para o evitar.
+
+Luiz tambem não tinha outro recurso. Sahir sem avisar Magdalena não o
+fazia de certo, não podia fazel-o. Ainda se a demora fosse d'um dia! mas
+quatro pelo menos! Quatro dias era muito, sobretudo, para quem sente as
+primeiras saudades que são sempre mais dolorosas, mais profundas.
+
+Tomou a resolução de escrever a Magdalena, mandando-lhe a missiva por um
+dos negros do armazem. Nunca o cabinda foi tão desejado, nunca!
+
+Escreveu, pois, e incumbiu um dos escravos de chegar ao Botafogo, logo
+que Jorge viesse da chacara.
+
+Ás horas convenientes despediu-se friamente do mulato, que já andava de
+vigia, e partiu para o local d'onde sahiam os vapores da carreira para
+Macahé.
+
+Luiz levava a dôr das suas saudades e os receios d'alguma infamia do
+mulato...
+
+Ás nove horas entrava Jorge no armazem.
+
+Americo, depois dos cumprimentos do estylo, e d'alguns cavacos sobre a
+correspondencia e negociações do dia, deixou-o no escriptorio e veio ao
+armazem.
+
+Chamou os negros, interrogou-os a todos, perguntando se algum fôra
+incumbido pelo senhor Luiz de ir ao Botafogo levar algum recado.
+
+Um d'elles respondeu que sim.
+
+--A que? perguntou Americo.
+
+--Levar isto á senhora moça.
+
+--Deixa vêr.
+
+E tomou das mãos do negro a carta fechada, que este lhe apresentou.
+
+--Não é preciso ires, eu mandarei lá.
+
+E guardou a carta, contente, n'uma alegria visivel, em que se traduzia o
+sentimento d'uma vingança quasi realisada.
+
+O mulato era um infame, e esquecia-se de que a Providencia vela sempre
+pelos justos e pelos bons!
+
+A grande questão d'Americo era, quando não conseguisse para si
+Magdalena, empregar todos os meios para que Luiz a não conseguisse
+tambem.
+
+N'este desejo é que elle ia trabalhar, e, sobretudo, aproveitar os
+poucos dias d'ausencia do seu socio, que, a bordo do vapor da carreira,
+ia curtindo saudades, sempre com a imagem seductora e deslumbrante de
+Magdalena a povoar-lhe a visão, e a apparecer-lhe em tudo!
+
+
+
+
+XI
+
+
+Americo, apenas Jorge sahiu, foi ao escriptorio, sentou-se, tomou uma
+folha de papel e escreveu a seguinte carta:
+
+ «Ex.^ma Snr.^a
+
+«O meu amigo e socio, Luiz de Mello, sahiu hoje, inesperadamente, para
+Macahé, no vapor das 8 horas, a negocios do seu ex.^mo pae. Deixou-me
+uma carta para V. Ex.^a, recommendando-me que das minhas mãos só sahisse
+para as suas. Pediu-me tambem todo o segredo, e para que ninguem me
+veja, peço a v. ex.^a o obsequio de apparecer esta noute, ás 10 horas,
+no caramanchão da chacara, junto ao lago, onde me encontrará para
+entregar a V. Ex.^a a referida carta.
+
+ De V. Ex.^a, etc.,
+
+ _Americo d'Abreu._»
+
+Fechou, e subscriptou a Magdalena, sahiu, chamou um negro de fretes e
+enviou-o ao Botafogo, á chacara de Jorge.
+
+Voltou ao armazem, mas em sobresaltos, com o receio de que, uma recusa
+de Magdalena lhe poderia frustrar tão magnifico ensejo.
+
+A formosa filha do cabinda ficou duplamente surprehendida com a carta do
+mulato.
+
+D'um lado a ausencia de Luiz, do outro o convite nocturno que Americo
+lhe fazia.
+
+Teve o presentimento d'uma traição, d'um ardil, d'um estratagema, e quiz
+responder immediatamente que não concedia a entrevista pedida.
+
+Mas Americo fallava-lhe d'uma carta de Luiz, e ella hesitou.
+
+Ficou na alternativa d'uma duvida, espinhosa, inquietadora, turturante
+mesmo. Acceder era collocar-se n'uma posição altamente compromettedora;
+não acceder, se Luiz havia effectivamente escripto a carta, era um
+desgosto grandissimo.
+
+Magdalena via-se pela primeira vez entre as vicissitudes d'um amor, que
+nasce espontaneo, caudaloso e vehemente.
+
+Estava na dolorosa espectativa d'uma grandissima hesitação, quando
+entrou o cabinda.
+
+O negro era n'aquelle momento o anjo bom de Magdalena. Só elle a podia
+tirar dos embaraços que a prendiam.
+
+Magdalena exultou de alegria, vendo-o entrar.
+
+--Ah! ainda bem que vens! exclamou ella, correndo para o negro. Não
+podias chegar em melhor occasião.
+
+--Quer alguma cousa ao negro a senhora moça?
+
+--O senhor Luiz foi para Macahé.
+
+--O branco? perguntou o cabinda admirado.
+
+--Sim.
+
+--Quem o disse á minha filha?
+
+--O senhor Americo.
+
+--O mulato? interrogou o negro, mais admirado ainda.
+
+--Sim. Escreveu-me esta carta a dar-me a noticia, e a pedir-me para esta
+noute ás 10 horas apparecer no caramanchão do lago, para me entregar uma
+carta de Luiz.
+
+--E porque a não mandou o mulato?
+
+--Porque só a mim a quer entregar.
+
+O cabinda sorriu-se n'uma expressão d'ironia e d'ameaça.
+
+--E a senhora moça o que responde?
+
+--Não sei. Tenho mêdo. Tu que dizes?
+
+--Que a minha filha diga ao mulato que venha.
+
+--Mas...
+
+--Não tem duvida. O cabinda cá está! A onça não tem mêdo ao tigre que
+assalta o seu covil. O negro tem visto muita jiboia!
+
+Magdalena, para não demorar mais o portador, tomou uma meia folha de
+papel e escreveu o seguinte:
+
+«Espero-o á hora marcada.
+
+ _Magdalena._»
+
+Dobrou e deu ao cabinda, dizendo-lhe:
+
+--Toma; dá ao negro que está esperando.
+
+--Não, senhora moça. O negro não quer que o seu parceiro o veja.
+
+--Porque?
+
+--A minha filha o saberá. O mulato não é bom.
+
+Magdalena chamou então o portador e mandou-o com a resposta.
+
+Quando voltou já não encontrou o cabinda.
+
+Sentou-se ao piano, mas agitada, convulsa, nervosa e inquieta.
+
+Não lhe sahia da imaginação o encontro que ia ter, e apesar de toda a
+sua ingenuidade, Magdalena tinha quasi a certeza de que ia commetter uma
+imprudencia.
+
+O cabinda não era, porém, um homem capaz de consentir que alguem
+offendesse a sua filha. Elle que lhe disse que mandasse apparecer o
+mulato, é porque lá tinha os seus planos.
+
+No entanto, Magdalena estava collocada entre as saudades que a pungiam,
+lembrando-se da ausencia de Luiz, entre os receios da entrevista
+concedida ao mulato a horas tão pouco apropriadas, e os grandissimos
+desejos de receber a carta, que o seu eleito lhe havia deixado.
+
+Só n'isto a formosa menina pensava, só isto a absorvia completamente. Os
+seus livros predilectos, as suas florinhas queridas, os seus passeios
+pela chacara, foram esquecidos, foram olvidados.
+
+Era dolorosa a posição de Magdalena. Nem uma irmã, nem uma amiga a quem
+podésse abrir o seio, com quem desabafasse, com quem repartisse o enorme
+peso, que a estava opprimindo!
+
+Ainda hontem a embalavam as harmonias dulcissimas das palavras de Luiz,
+os perfumes magicos das flôres mimosas do amor, que elle lhe protestava,
+os sonhos deliciosos da ventura tão suspirada!
+
+Pobre creança!
+
+Americo recebeu a resposta de Magdalena n'uns alvoroços de louca
+alegria. O mulato esperava agora, no meio d'uma grande anciedade, que a
+noute descesse, com o seu manto de sombras e de escuridão, para realisar
+os seus planos.
+
+A carta de Luiz a Magdalena estava em seu poder. O mulato commettera a
+infamia de a abrir, de devassar o seu contheúdo.
+
+Para elle, aquella folha de papel, era uma preciosidade que valia muito.
+
+Não podia ella servir para comprometter o seu socio, o seu rival? Não
+bastaria que elle a apresentasse a Jorge, para que este o despedisse
+logo, sem o minimo processo investigatorio? Não revelava ella um abuso
+da parte de Luiz?
+
+O mulato ia fazendo todas estas considerações, no meio da alegria que o
+dominava.
+
+O bilhete que Magdalena mandára a Americo não seria tambem sufficiente
+para mostrar a Luiz que ella aproveitára a sua ausencia, para conceder a
+outro uma entrevista, a horas, de mais a mais, tão pouco proprias?
+
+No entanto, a formosa virgem, estava oppressa debaixo dos sobresaltos e
+dos receios, das esperanças e das saudades.
+
+Valia-lhe o seu piano. Unico amigo, unico confidente, unico sacrario,
+permittam-me a comparação, onde espraiava os sentimentos, que a
+agitavam, o harmonioso instrumento devia de futuro ter uma grandissima
+pagina no seu livro de recordações.
+
+Se elle chorava com as lagrimas d'ella! se elle enchia-se de
+enthusiasmos com as suas alegrias, gemia com as suas saudades, e todo se
+deliciava e desatava em celestes harmonias, quando lhe encrespavam o
+seio as ondas bellas dos effluvios do amor, douradas pelas mil palhetas
+resplandecentes do sol da ventura!
+
+Era com elle que ella sonhava os mundos vaporosos, as visões seductoras
+d'uma existencia recamada de sorrisos, alastrada de flôres, embriagada
+de perfumes e cega por excessos de luz divina!
+
+Era elle quem tinha sempre um echo para as vozes do seu coração, um
+suspiro para cada anceio de sua alma, um gemido para cada ai, exhalado
+de seus labios, formosos, como rosa mal aberta!
+
+Conhecia-a de creança, suavisára-lhe as primeiras saudades, as saudades
+de sua mãe, e em todos os tempos a acolhera caricioso, cheio de
+affectos, magico de harmonias.
+
+Quem sabe ainda para o que elle estaria reservado?
+
+Agora, era elle ainda quem, paciente, estava soffrendo as impetuosidades
+da anciedade que lhe opprimia o peito debil!
+
+O cabinda, o negro fiel, o escravo dedicado, o amigo sincero, esse
+andava no lago, em volta do caramanchão, a sondar todos os cantos, a
+espionar todos os nichos, como quem estivesse encarregado de estudar a
+topographia do local.
+
+O negro lá tinha a sua ideia.
+
+Não era inutil, não devia sel-o, aquelle trabalho, porque quasi se lhe
+liam nos grandes olhos os pensamentos que lh'o impunham.
+
+E Luiz?
+
+O amoroso moço, longe do Rio de Janeiro, lá tinha no seio a imagem de
+Magdalena, o sentimento no coração, as saudades na alma e o receio a
+agitar-lhe todo o ser.
+
+
+
+
+XII
+
+
+É noute, formosa como as da America, resplendente de luar, bordada de
+estrellas, impregnada de perfumes e suave de harmonias. Despenham-se
+murmuradoras, por entre as sinuosidades graniticas, as aguas das
+cascatas e das cachoeiras, formando lindissimos rolos de espuma, até
+cahirem no vasto leito, onde a fada palpitante, a rainha voluptuosa,
+mira languida o seu rosto prateado. Agitam-se levemente, ao sopro suave
+da aragem nocturna, os calices das flôres aromaticas, e os ramos, as
+folhas viçosas das arvores gigantes das florestas.
+
+Este meio silencio da natureza, este conjuncto de vozes indistinctas,
+sahido do seio das vastas mattas; a luz, que jorra brilhante das perolas
+engastadas na immensidão azul d'um céo tropical; as ondas inebriantes,
+embriagadoras, dos perfumes, que de toda a parte se levantam invisiveis;
+os cantos magicos, doces, harmoniosos, de algumas das aves nocturnas dos
+climas do novo mundo; e, finalmente, este quê ignoto, indefinivel, que
+distingue as noutes da America das noutes da Europa, parece que dão á
+alma mais desejos, aos desejos mais fogo, e ao fogo mais labaredas.
+
+É calido o ambiente. O corpo ressente-se d'este estado da athmosphera, e
+verga ao pêso d'uma languidez, semilhante á somnolencia voluptuosa
+produzida pelo opio.
+
+Reclina-se o corpo; os braços pendem como cançados; a cabeça cede
+naturalmente e cahe meio adormecida; cerram-se os olhos, e n'este
+estado, que não é somno, nem delirio, nem sonho, nem embriaguez, mas que
+é um composto suave de tudo isto, o espirito vôa, como as aguias das
+montanhas, ás regiões formosas do puro idealismo, onde o leva a
+phantasia ardente, que vegeta dabaixo do sol dos tropicos; a alma anceia
+em ondas infinitas; o coração palpita fremente de desejos, e ha em tudo,
+n'esses momentos, um desabrochar opulento, luxuriante, e vigoroso d'essa
+poesia que se sente, que se gosa, que extasia, que brota, invisivel, das
+harpas, sempre afinadissimas, do immenso vate chamado--natureza.
+
+Ó noutes do Brasil! ó noutes de poesia e d'encanto! desenrolae o vosso
+manto de mysterios, e deixae que as juritys arrulem amores nos ninhos
+aveludados, e os sabiás _desfiem as perolas_ dos seus cantos amorosos!
+
+Deixae que cada sêr palpite, que cada amor se expanda, que cada alma se
+banhe na luz vaporósa do ideal da ventura!
+
+É noute, pois, e noute deslumbrante. O Botafogo repousa depois d'um dia
+de vida mais. Soaram tres quartos depois das nove horas na torre
+distante da egreja da Gloria, que, do seu morro, domina a vasta bahia do
+Rio de Janeiro. As aguas, da enseada do Botafogo estão dormentes,
+quietas e serenas. São um espelho onde a lua e as estrellas reflectem os
+seus raios resplandecentes. Vaga mansamente ao longe um barquinho
+solitario, d'onde, nas pandas azas da viração perfumada, se eleva uma
+voz sonora, suave e sympathica, soltando no meio do silencio umas
+estrophes d'amor.
+
+É a voz d'algum vate enamorado? ou d'algum sêr que geme saudades?
+
+Não sei.
+
+O silencio da noute estende-se ainda aos jardins e á chacara de Jorge de
+Macedo.
+
+O negro cabinda e Magdalena seguem, fallando baixinho, uma das compridas
+ruas, que vão desembocar ao lago.
+
+Magdalena vae trémula e receiosa. O cabinda animado e faiscando
+centelhas de fogo dos seus grandes olhos.
+
+--Já lá estará, cabinda? perguntava Magdalena.
+
+--É cêdo ainda, senhora moça.
+
+--Vou com tanto mêdo.
+
+--O negro lá hade estar, minha filha.
+
+--Corre logo, se fôr preciso, ouviste?
+
+--De traz dos maracujás, o negro hade vêr tudo.
+
+Chegaram ao lago. Era completo o silencio. Magdalena entrou para o
+caramanchão. O negro foi cauteloso collocar-se atraz d'uma das paredes
+de cipós, que o formavam.
+
+--O negro fica aqui, senhora moça.
+
+--Bem, não falles nem bulas que podes trahir-te.
+
+--Descance a senhora moça.
+
+E Magdalena começou a pensar na imprudencia que estava commettendo.
+
+Todavia, o que não faria ella para receber uma carta de Luiz, de Luiz
+que amava tanto, e que se ausentára sem tempo, ao menos, para se
+despedir?
+
+Esteve assim alguns minutos. Ouviam-se apenas o bulir das folhas das
+mangueiras, a respiração alterada de Magdalena, e o murmurio das aguas,
+caindo no lago pela boca do tritão de marmore.
+
+O muro, a que se encostava o caramanchão, tinha a altura de metro e
+meio. Os ramos folhudos d'uma grande tamarindeira furtavam-o, n'aquelle
+logar, aos raios prateados da lua, deixando-o envolvido n'uma escuridade
+vaga e indecisa.
+
+De subito a cabeça d'um homem surgiu do lado de fóra; conservou-se
+attento alguns segundos, como sondando o local, elevou-se depois e
+saltou para dentro cauteloso.
+
+Era Americo. O negro estava d'espreita e já o tinha sentido.
+
+O mulato rodeou pé ante pé a grande tamarindeira e dirigiu-se ao
+caramanchão. Vinha receioso em extremo, e Magdalena, que lhe ouvira os
+passos, não o esperava mais animosa.
+
+Chegou á entrada do caramanchão.
+
+--Magdalena! murmurou elle baixo.
+
+--Senhor Americo! respondeu ella timidamente.
+
+--Esperou muito, não?
+
+--Não; mas agora não posso demorar-me.
+
+--Estamos sós.
+
+--Estamos.
+
+--Ainda bem.
+
+E chegou-se mais a Magdalena e ia a tomar-lhe as maõs, quando ella
+retirando-as accudiu:
+
+--Perdão, senhor. Creio que foi para satisfazer ao pedido do seu amigo
+que aqui veio, e já lhe confessei que não posso demorar-me.
+
+--Para satisfazer ao pedido do meu amigo! Não, não foi para isso, minha
+senhora.
+
+--Para que foi então? acudiu Magdalena de subito.
+
+--Foi para lhe dizer que a amo, que a adoro, que sou louco, muito louco
+por V. Ex.^a!
+
+--Senhor Americo!
+
+--Oh! não se afflija V. Ex.^a Usei d'este estratagema, porque sei que não
+conseguiria d'outro modo estar junto de V. Ex.^a Sei que o seu coração se
+inclina para Luiz, mas V. Ex.^a é que não sabe os sentimentos que o
+dominam a elle. Julga, no meio da sua ingenuidade que elle a ama tambem,
+mas creia, que só a ambição o domina. O amor, o fogo, o delirio é nosso,
+é dos brazileiros, que nascem debaixo d'este sol que queima, e não dos
+que nascem entre os gelos que petreficam.
+
+--Perdão ainda uma vez, senhor. Ou vem para me dar a carta de Luiz, ou
+nada tenho que fazer aqui e retiro-me.
+
+--Não; V. Ex.^a não se retira assim. Já que consentiu em me receber a
+esta hora, hade fazer o sacrificio de ouvir-me.
+
+--Não tenho que ouvir-lhe, senhor.
+
+--Mas tenho eu que dizer-lhe. Diga-me V. Ex.^a: porque ha de acceitar os
+galanteios calculados de Luiz e desprezar o sentimento verdadeiro que
+lhe offereço?
+
+--E quem lhe dá o direito de m'interrogar?
+
+--A minha superioridade n'este momento. Esquece-se de que estamos sós?
+
+--Oh! mas isso é...
+
+--Para estranhar talvez, é. Mas V. Ex.^a não sabe, não comprehende os
+desejos que me devoram. E a indifferença de V. Ex.^a excita-me em vez de
+esmagar-me. Oh! por piedade Magdalena!
+
+E segurou-lhe uma das mãos, tremulo, nervoso, febricitante.
+
+--Deixe-me, senhor!
+
+E quiz fugir-lhe. Americo, porém, n'um momento d'exaltação deitou-lhe as
+mãos ás tranças dos cabellos para a deter. Magdalena exforçou-se e poude
+desembaraçar-se d'elle, deixando-lhe nas mãos uma das fitas que lhe
+ornavam a cabeça.
+
+--Oh o senhor é um infame!...
+
+--Mas não ha de fugir-me assim!
+
+E seguiu-a continuando:
+
+--Ao menos hei de levar um beijo...
+
+E tinha prendido Magdalena, e ia commetter a infamia, quando sentiu o
+pescoço apertado vigorosamente por uma mão de ferro. Era do cabinda.
+
+Americo soltou um rugido.
+
+Magdalena exclamou vendo-se livre do mulato:
+
+--Que fazes, cabinda!
+
+--Mato a serpente, senhora moça!
+
+
+
+
+XIII
+
+
+Houve um momento de silencio, curto, mas terrivel para Magdalena, que,
+ao ouvir o cabinda, julgou que elle ia espatifar o mulato, e para este
+tambem, vendo-se em face d'um inimigo tão possante.
+
+A lua inundava, agora, com os seus raios deslumbrantes o palco, onde se
+representava aquelle drama; e para contraste das paixões, que alli se
+agitavam, n'aquelle instante, um sabiá, poisado nos galhos d'uma
+jaqueira, começou a vibrar as doces melodias do seu canto suavissimo.
+
+Magdalena estava tranzída de medo; o mulato espumante de raiva, no meio
+da sua impotencia; e o cabinda risonho, mas n'uma alegria feroz.
+
+Era um quadro digno d'um pincel aprimorado.
+
+--Mato a serpente, senhora moça! dissera o negro a Magdalena, quando
+esta lhe perguntava o que fazia, vendo-o agarrado ao pescoço do infame
+mulato.
+
+Este, ao ouvil-o sentiu-se como aniquilado, mas por um exforço, proprio
+do instincto dos da sua raça, poude desembaraçar-se do negro, guardou
+rapido a fita das tranças de Magdalena, que lhe ficára nas mãos, recuou
+dois passos, e de subito agitou no ar um punhal, cuja lamina pequenina
+brilhava aos raios da lua.
+
+Magdalena, como que perdida, cheia da coragem, que os grandes lances
+despertam nas almas mesmo mais fracas, correu para Americo, a
+suspender-lhe o golpe, que ella julgava imminente sobre o cabinda.
+
+N'este momento, porém, crusava-se no ar com o punhal d'Americo uma
+comprida e ponteaguda faca, vibrada pela mão vigorosa do negro.
+
+Duas vidas estavam suspensas das pontas d'aquelles dois instrumentos. Os
+braços podiam descer ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo fazerem duas
+victimas, rasgando dois seios.
+
+E assim aconteceria, se não fosse uma imprudencia de Magdalena,
+imprudencia que a poderia ter morto, mas que felizmente não teve
+resultados funestos.
+
+Quando a força dos dous inimigos ia ser empregada em vibrar o golpe,
+chegava Magdalena collocando-se entre elles.
+
+Suspenderam-se então, mas nos olhos de cada um chammejava feroz a raiva,
+o odio, uma tempestade, finalmente, horrorosa e tetrica.
+
+--Que faz, senhora moça! gritou o negro.
+
+--Estás doido, cabinda!
+
+--É o que te vale, canalha! acudiu Americo.
+
+--Basta, senhor, d'injurias e d'infamias! Sou mulher e fraca, mas não
+tenho receio de o mandar calar e de retirar-se!
+
+--Creança!
+
+--Lacaio!
+
+O cabinda era um vulcão latente. Continha-o a presença de Magdalena. No
+entanto, as forças, ou antes, a paciencia, ia começando a faltar-lhe e
+ai do mulato se a lava podesse romper!
+
+Americo sentiu-se humilhado com a affronta provocada, e respondeu
+atrevidamente a Magdalena:
+
+--Ponha essa palavra na bôcca d'um homem e diga-lhe que m'atire.
+
+--Ó senhora moça! deixe-me com elle! gritou o cabinda investindo para
+Americo.
+
+--Não, que te enlameias!
+
+--Respeito-a porque é mulher, porque é uma creança. Todavia, creia que
+não ficaremos sem saldarmos as contas.
+
+--Quando quizer. Vamos, cabinda.
+
+E Magdalena, aquella creança que nós conhecemos, bondosa, meiga,
+delicada, sensivel, tomou, lançando ao mulato o seu olhar expressivo de
+cólera, o negro pelo braço e arrastou-o consigo, affastando-se em
+direcção a casa.
+
+O cabinda cedeu, e nem elle era homem que resistisse á sua filha, mas
+não sem que se voltasse para traz, gritando ao mulato:
+
+--O negro cá fica. Cautella com o cabinda.
+
+Americo tragou a ameaça em silencio e ficou só, no meio da febre da sua
+exaltação, que pouco a pouco devia ir diminuindo.
+
+Sentou-se e esteve scismando durante alguns minutos. Occorreu-lhe,
+porém, a lembrança de que o negro poderia voltar, achou-se fraco perante
+a robustez do seu inimigo e deixou a chacara saltando para fóra.
+
+Estava cançado.
+
+As coisas começavam a correr-lhe mal, e isto exasperava-o mais, que as
+offensas e as affrontas que havia recebido.
+
+Deixou correr as ideias atraz dos seus desejos de vingança, mas teve um
+momento em que quasi succumbiu.
+
+Americo, em vez d'um, via, agora, tres inimigos diante de si:--Luiz,
+Magdalena e o negro.
+
+A lucta era desigual e poderosos os seus contendores.
+
+O primeiro ensejo, a primeira occasião favoravel, fôra de toda perdida,
+e longe de aproveitar-lhe antes o collocou em mais critica posição.
+
+Os cuidados e as precauções haviam de redobrar-se agora contra elle, e
+isso obrigava-o, para conseguir os seus fins, a redobrar tambem
+d'astucias e d'ardis.
+
+No entanto, as esperanças de derrubar Luiz do altar do coração de
+Magdalena, não o abandonaram de todo. Mais ou menos lá lhe floriam no
+coração, entre os sentimentos ignobeis da preversidade que o dominava.
+
+No entanto, Magdalena acompanhada pelo cabinda, ao dirigir-se a casa,
+depois d'aquella scena violenta, que tanto a excitára, ia-lhe dizendo,
+com ar de quem lhe impunha a sua vontade:
+
+--Olha que não quero que alguem saiba do que se acaba de passar-se.
+
+--Descance a minha filha.
+
+--Nem mesmo ao senhor Luiz, quando chegar, ouviste?
+
+--Nem o branco?
+
+--Nem esse.
+
+--Então o mulato hade ficar assim?
+
+--Perdoo-lhe, Cabinda.
+
+--Mas o negro é que não perdoa senhora moça.
+
+--Ha de perdoar, porque eu assim o quero.
+
+--E se elle voltar? o mulato é mau...
+
+--Se voltar, fallaremos então.
+
+--Oh! senhora moça! o negro tem bom olho e pulso forte. E o cabinda
+estende-o logo como o caçador á onça do mato.
+
+--Já te disse que não fazes nada.
+
+--A minha filha manda.
+
+--E tu obedeces.
+
+Tinham chegado á escadaria de pedra que conduzia á habitação. A preta
+Maria, que era a mucamba de Magdalena, uma especie de creada grave,
+vinha descendo já para ir procural-a, estranhando que contra o seu
+costume, a senhora moça andasse pela chacara áquella hora.
+
+Magdalena apenas a viu perguntou logo:
+
+--Onde vaes, Maria.
+
+--Ia procurar a senhora moça.
+
+--Ainda bem que te poupo esse trabalho. Fui passear até ao lago,
+acompanhada do cabinda.
+
+--Eu não via a senhora moça, e fiquei logo com cuidado.
+
+--Obrigada. Estava a noite tão bonita que não pude resistir-lhe.
+
+--Fez bem, senhora moça.
+
+--Pergunta ao cabinda, como, na grande tamarindeira, do lago, estava
+cantando um sabiá!
+
+--Bonito, Maria!
+
+E n'isto foram entrando em casa.
+
+Perto da meia noite entrava tambem o mulato no seu quarto da rua dos
+Pescadores. Levava estampado no rosto a expressão d'um grande
+descontentamento. A decepção que soffrera fôra grande e, sobre tudo,
+inesperada.
+
+Depois, não era só isto o que o preoccupava; era tambem a ideia de que
+tinha ainda novas scenas, apenas Luiz chegasse, porque tinha como certo
+que Magdalena não deixaria de narrar-lhe a sua ousadia, e tudo quanto
+tinha acabado de passar-se.
+
+Americo reconhecia agora a falsidade da sua posição.
+
+Além d'isto, se todas estas coisas chegassem aos ouvidos de Jorge, era
+mais facil que elle perdoasse a Luiz, e attendesse aos rogos de
+Magdalena, sua filha, do que esquecesse a infamia tentada por Americo.
+
+O que elle tinha como certo; era que as coisas depois dos ultimos
+acontecimentos, dessem de si, tivessem um resultado qualquer. Luiz era
+um homem de dignidade e a isto juntava agora todo o amor que o
+inflammava. E bem ameaçado deixára o mulato antes de partir para Macahé,
+fazendo-lhe sentir que Magdalena lhe era uma pessoa sagrada, e que teria
+de justar com elle todas as contas, se de qualquer modo a offendesse,
+injuriasse ou affrontasse.
+
+Todavia, Americo, apesar de sentir o peso de todas estas reflexões que
+lhe suggeria o seu espirito, não deixava, ainda assim, de conceber uma
+esperança. Desanimar, não desanimava.
+
+Tinha a pertinacia dos da sua raça pouco pura, a teimosia dos que,
+dotados de maus sentimentos e indole perversa, não duvidam nem hesitam
+em ir augmentando o mal, para conseguirem os seus fins, á medida que os
+obstaculos, que as barreiras se vão levantando.
+
+Era por isso que o mulato, no silencio do seu quarto, examinando agora o
+bilhete de Magdalena e a fita de sêda que as tranças dos cabellos d'ella
+lhe deixaram nas mãos, dizia com expressão de grande malvadez:
+
+--Ainda cá está isto! Valem e podem muito estes objectos!
+
+
+
+
+XIV
+
+
+Passaram-se quatro dias sem acontecimentos dignos de mencionarem-se.
+Magdalena ia gemendo as suas saudades; o cabinda cuidando dos jardins e
+da chacara, e Americo curtindo os ardentes desejos da suspirada
+vingança.
+
+Ao quinto dia surgiu Luiz, regressando de Macahé.
+
+Vinha ancioso o pobre moço; eram vehementes os desejos de vêr Magdalena.
+
+Depois, como a todos os namorados, como a todos aquelles que se
+alimentam do fogo sagrado do amor, Luiz sentia d'um lado as venturas de
+ter acabado com uma ausencia, que lhe era extremamente dolorosa, e
+sentia, do outro, os espinhos afiados, com que o estava ferindo a ideia
+de que Magdalena o tivesse esquecido, o tivesse abandonado.
+
+Era a duvida, d'um lado, com toda a sua escuridão, com toda a sua noute;
+e a esperança, do outro, com os resplendores vivissimos do seu formoso
+sol, com todos os suaves perfumes das flôres da sua primavera.
+
+Além d'isto avultava tambem a incerteza sobre o procedimento do mulato,
+seu socio.
+
+Teria elle respeitado Magdalena?
+
+Teria commettido alguma infamia, durante os quatro dias e meio da sua
+dolorosa ausencia?
+
+Ninguem podia responder-lhe; e ávido de saber tudo isto, ávido de vêr
+Magdalena, de fallar-lhe, de a ouvir, de lhe escutar ainda uma e muitas
+vezes um protesto d'amor, é que elle entrava agora em casa, trazendo
+tambem a consciencia satisfeita, pelo bom desempenho da commissão, de
+que fôra encarregado.
+
+Americo não o esperava de volta tão cedo, e sentiu o que quer que é ao
+vêl-o entrar, porque estremeceu, e empallideceu subitamente.
+
+Presentiu, naturalmente, a violencia das tempestades, que iam
+desencadeiar-se, e depois de revolto o mar, quem poderia assegurar-lhe a
+salvação, ou evitar-lhe um naufragio?
+
+Esperanças, pelo menos, de fazer mal a Luiz, tinha-as elle, embora
+poucas, mas assentes em que base é que elle não sabia. Resultados da sua
+indole, da sua perversidade.
+
+Em todo o caso, desistir da lucta, nunca! Seria uma cobardia, uma
+vergonha immensa, uma nodoa indelevel, segundo o seu parecer, e a isso
+preferia antes o esmagamento, uma quéda, uma derrota completa, que lhe
+inutilisasse todos os recursos. Então sim, antes d'isso, não desistiria
+dos seus intentos.
+
+No entanto, Luiz, entrando em casa, ás oito horas da manhã quiz
+mostrar-se generoso, ou antes, que tinha confiança em si e em Magdalena,
+e dirigiu-se a Americo, cumprimentando-o, como que se um resentimento o
+não estivesse remordendo intimamente.
+
+O mulato respondeu cortezmente, mas com certa frieza.
+
+A sua pallidez, ou antes a mudança de côr que se operara no seu rosto,
+com a entrada inesperada de Luiz, desappareceram após as primeiras
+impressões, para dar logar á viva expressão dos desejos que o assaltavam
+de recomeçar a luta com o seu antagonista.
+
+Tinha o mulato para si, que devia romper, e romper logo, a fim de ganhar
+sobre o seu adversario a força moral de que precisava. Era uma
+estrategia boa na apparencia, mas falsa, sem duvida, pelos resultados.
+
+Luiz tambem não era homem para succumbir; dava-lhe alentos o seu amor, e
+além d'isso era... portuguez!
+
+Ás oito horas e meia entrava Luiz no escriptorio, depois de se ter
+preparado.
+
+Americo lá estava, sentado a lêr a correspondencia.
+
+Nem sequer olhou para o seu socio.
+
+--Fez-se algum negocio? começou Luiz.
+
+--Bastante, respondeu Americo seccamente.
+
+--Houve alguma novidade, durante estes dias que andei por fóra?
+
+--Importante nenhuma. Apenas uma entrevista que me deu Magdalena, uma
+d'estas noites, aproveitando para isso a tua ausencia.
+
+Luiz sentiu-se como ferido por uma profunda punhalada, e levantou-se
+subitamente com a pallidez no rosto, o fogo nos olhos e umas temiveis
+convulsões nas mãos.
+
+--Mentes! bradou o moço.
+
+--Mentirei...
+
+--Mas como um vilão!...
+
+--No entanto tenho as provas comigo.
+
+--Mostra-as, se és capaz!
+
+--Julgas então que era chegar, vêr e vencer! Enganas-te. Magdalena
+disfructava-te, porque fazia de ti um brinquedo, com que se divertia,
+sem nunca pensar em tomar a sério os teus protestos d'amor.
+
+--É falso, repito! E senão mostra-me as provas ou esmago-te como quem
+esmaga um reptil venenoso!
+
+--Tenho-as aqui e parece-me que bem claras.
+
+--Fazes-me perder a razão, e depois...
+
+--Conheces esta letra? lê...
+
+E Americo deu a Luiz o bilhete em que Magdalena lhe concedia a
+entrevista.
+
+--E, mais do que isso talvez... tens ainda aqui esta fita da trança dos
+seus cabellos... Que dizes agora?
+
+Luiz nunca na sua vida sentira o que estava sentindo n'aquelle momento.
+Era o ciume, a raiva, o desespero e o odio, confundidos, misturados,
+amalgamados, n'um sentimento que a penna não póde traduzir.
+
+Vacillava-lhe a razão, fugia-lhe a vista, em face d'aquelle bocadinho de
+papel, que lhe estava queimando as mãos, como fogo do inferno. Era
+incrivel, mas era a realidade! conhecia a letra de Magdalena, reconhecia
+tambem a fita que lhe prendia os cachos dos cabellos negros, na tarde
+d'aquelle jantar saudoso. Luiz desejava duvidar do que estava vendo, mas
+como, se as provas estavam agora na sua mão! Passou-lhe por diante dos
+olhos a visão medonha da vingança. Mas a Providencia não desampara os
+que bem lhe merecem, e limitou-se apenas a exclamar:
+
+--Tão infame é ella como tu!...
+
+--Então já não duvidas? perguntou Americo, attendendo apenas ao estado
+em que Luiz se achava, e importando-se pouco com as injurias que elle
+podésse dirigir-lhe.
+
+--Não sei. Todavia quem me affirma que Magdalena não foi forçada a
+escrever estas linhas, a pôr o seu nome n'esta folha de papel e a
+entregar-te ou a mandar-te esta fita? Quem?
+
+--Com isso poderá ella desculpar-se se lhe fores agora pedir contas do
+seu procedimento, bem o sei, mas pouco importa, porque esse bilhete
+falla bem alto.
+
+--Oh! mas isto é incrivel! isto é um sonho!...
+
+--Não é sonho, não. É a realidade. Acceitaste a lucta, batalhamos.
+Quando julgavas haver vencido, vês a victoria do meu lado. Acontece
+muita vez. Além d'isso, que dotes ha em ti que te recommendem mais que a
+mim? O seres portuguez? o seres branco? É justamente por isso que menos
+devias confiar em ti. Se tenho côr... sou brazileiro!
+
+--Em todo o caso abusaste da minha ausencia e o teu procedimento não
+póde ser classificado senão de infame!
+
+--Embora! com tanto que eu vença...
+
+--Isso é o que ainda não está decidido. Não julgues que fico com o que
+me dizes. Heide indagar, heide empregar todos os esforços para descobrir
+a verdade. A letra do bilhete e a fita de sêda são de Magdalena, não ha
+duvida, mas se para as conseguires empregaste alguma violencia,
+commetteste alguma infamia, ou abusaste de qualquer modo, não te perdôo,
+Americo; as contas serão então comigo.
+
+--Que pretendes, pois, fazer?
+
+--Indagar a verdade, dissipar esta duvida que me atormenta!
+
+--Como? Fazendo publico que a filha do teu amigo, do teu socio deu a um
+homem uma entrevista a horas inconvenientes? Queres deshonral-a d'esse
+modo? Queres dar esse desgosto ao teu protector?
+
+--Muito cynico és, Americo! bradou Luiz espumante de cólera. E tu,
+canalha, não te lembraste que devias a esse homem tanto como eu, para
+lhe illudires a filha! Qual de nós a deshonra mais? eu que me julgo hoje
+com direito de lhe pedir contas de seu procedimento, ou tu que abusaste
+necessariamente da sua ingenuidade, ou a estás infamando, faltando á
+verdade, e então és duplamente abjecto e criminoso?
+
+--Indaga.
+
+--Heide indagar, sim. E ai de ti se ousaste calumniar, quem só devia
+merecer-te todo o respeito.
+
+--Em todo o caso restitue-me isso.
+
+--O bilhete e a fita? nunca!
+
+--São meus.
+
+--Que importa,
+
+--Importa muito. E, ou m'os dás ou...
+
+--As ameaças depois, agora... a verdade!
+
+E Luiz ia a retirar-se quando ouviu no armazem a voz de Jorge que havia
+entrado.
+
+O mulato estremeceu de medo. Comtudo, já tinha a consolação de ter
+amargurado e bem o coração de Luiz.
+
+Este, apenas deu a Jorge conta do bom desempenho da missão de que fôra
+encarregado a Macahé, sahiu, deixando-o no armazem com Americo.
+
+O pobre moço ia fóra de si, como perdido, desvairado, e, diga-se a
+verdade, bastante indisposto com Magdalena, porque acreditava mais ou
+menos no seu perjurio.
+
+N'este estado, seguiu para o Botafogo.
+
+
+
+
+XV
+
+
+Eram onze horas quando chegou.
+
+Magdalena havia acabado d'almoçar e viera para o salão, no proposito de
+espalhar saudades com o seu piano, com o seu discreto confidente, mas
+esqueceu-se d'elle, embebida na leitura do suavissimo _Camões_ do nosso
+immortal Garrett.
+
+Estava lendo, a meia voz, estes admiraveis versos:
+
+ «Longe, por esse azul dos vastos mares,
+ Na solidão melancólica das aguas,
+ Ouvi gemer a lamentosa alcyone
+ E com ella gemeu minha saudade...»
+
+quando Luiz surgiu á porta, através do reposteiro, que a velava.
+
+Vinha pallido, como que acabrunhado, mas luziam-lhe nos olhos as chammas
+rubidas do fogo do ciume, do desespero e da descrença.
+
+Magdalena não o esperava e, ao vêl-o entrar deixou cahir o livro das
+mãos e correu para elle, gritando commovida:
+
+--Ah! ainda bem que veio!
+
+Luiz recebeu-a com frieza, furtou as mãos ás mãos d'ella que as
+procuravam, e recuou dous passos dizendo:
+
+--Perdão, minha senhora, se venho interrompel-a!
+
+--Luiz!... acudiu ella, vendo o modo como elle se apresentava.
+
+--Não venho aqui, minha senhora, para continuar a ser o ludibrio dos
+seus caprichos de creança! Lamento as horas que perdi, pensando em V.
+Ex.^a, como se pensa no nosso anjo da guarda, como se pensa na visão
+seductora dos sonhos do nosso amor purissimo...
+
+--Desconheço-o... Porque me falla assim? interrogou Magdalena com a voz
+em lagrimas.
+
+--Porque? Ainda m'o pergunta? Porque vejo que V. Ex.^a é uma mulher, como
+todas as mulheres, vulgar, sem um ponto unico que a eleve acima do nivel
+das outras, quando a julgava um anjo, um ente superior, uma d'estas
+pombas immaculadas, que o mundo não sabe apreciar, infelizmente! Porque
+a julgava uma perola de subido valor, e vejo agora que é apenas a concha
+da praia, sem merito de qualidade alguma! Porque a tinha como flor,
+capaz de perfumar com toda a felicidade os dias d'amor, que lhe depunha
+aos pés, e venho encontral-a rosa eivada de milhares d'espinhos
+envenenados! Porque lhe vi o mel nos labios, a doçura na voz e o céo nos
+olhos, quando, afinal V, Ex.^a só preparava a victima para lhe despedir a
+punhalada! Porque a julguei sincera, no meio do devanear sublime do meu
+sentimento affectuoso, quando tudo em V. Ex.^a era a mascara, debaixo da
+qual se escondia uma grande hypocrisia... toda a sua preversidade,
+emfim!
+
+--Oh! eu não lhe mereço isso! exclama ella com duas lagrimas nas
+pupillas.
+
+--Bem sei; são ainda as lagrimas do crocodillo! Era realmente bonito, e
+sobretudo, digno de V. Ex.^a que um homem andasse a rojar-se-lhe aos pés,
+a entregar-lhe tudo, pensamentos, alma corpo, vida, futuro, crenças e
+aspirações, em quanto que V. Ex.^a, zombando da sua fé, zombando do
+sentimento e da sinceridade d'esse homem, se ria, brincando com elle,
+como se brinca com um objecto qualquer, que nada vale! Era realmente
+bonito, era, e, sobretudo, uma grande gloria para V. Ex.^a! O que não sei
+é como V. Ex.^a vivendo isolada desta sociedade corrompida e depravada,
+põe em prática os principios da philosophia d'ella! O que não sei é como
+V. Ex.^a, sendo tão nova, tem já tanta maldade!
+
+--Por piedade, Luiz, não me accuse, não me affronte d'esse modo, porque
+eu estou innocente!...
+
+--Innocente!...
+
+--Innocente, sim! E se não, diga-me qual é o meu crime, a minha culpa, o
+meu peccado!...
+
+--Ainda m'o pergunta! Já o esqueceu, talvez, como pôde esquecer que
+invocára, n'um momento de hypocrisia, a memoria sacratissima de sua mãe,
+para me fazer um protesto d'amor!
+
+--Oh! muito, eu... bem vê que não tenho forças para tanto!... soluçou
+ella, inundada de lagrimas.
+
+--É muito! é muito! diz V. Ex.^a! O que não será, então, rojar um homem
+aos pés d'uma mulher todas as flores purissimas do seu amor primeiro,
+acolher cheio d'esperanças um sorriso. d'amor d'essa mulher que lhe fica
+sendo vida, ar, luz e tudo, para depois, esquecendo a loucura d'esse
+homem, aproveitar uma curta ausencia para dizer a um outro:--Venha que o
+espero a tantas horas da noute! O que será isto, minha senhora, se acha
+muito o que me está ouvindo?
+
+--Oh! foi ainda por sua causa, Luiz, mas perdoe-me!
+
+E Magdalena cahiu-lhe de joelhos aos pés, soluçando convulsivamente.
+
+Eram as consequencias da sua imprudencia!
+
+--Por minha causa! disse Luiz ironicamente. Nada creio, nem quero
+justificações. Foi porque assim o quiz e fez muito bem. E V. Ex.^a teve
+razão. Pois quem era, quem sou eu? Um homem sem fortuna, sem um nome
+pomposo, expatriado, d'uma familia humilde e ignorada, que tem apenas
+por brazões as gotas do suor do seu trabalho, por timbre a honra, por
+divisa, a virtude, em quanto que V. Ex.^a é a senhora D. Magdalena, a
+filha riquissima, a herdeira unica do ex.^mo capitalista Jorge de
+Macedo!
+
+Magdalena, profundamente magoada com as palavras de Luiz, sentiu uma
+violenta commoção nervosa, levantou-se de subito, recuou dous passos,
+perfilou-se, e exclamou n'uma como explosão, que era a prova mais
+evidente da dôr aguda que estava sentindo:
+
+--Basta, senhor! nem tanto! Não se abusa impunemente da fraqueza d'uma
+mulher, e é mais que crueldade estar a fazer-lhe derramar lagrimas de
+sangue! Envergonho-me agora de as ter chorado e lamento devéras a
+loucura, que me obriga a esta humilhação em que me vejo, ha meia hora,
+na sua presença! Confiou muito pouco em mim, senhor Luiz, e muito menos,
+ainda em si. Julgou-me uma creança imprudente, uma mulher vulgar, uma
+mulher leviana! Estava no seu direito! O que não tinha era direito para
+me insultar as lagrimas de que me arrependo agora, porque não merece!
+Não quer justificações; pois bem, não as terá e se acaso voltar a
+pedir-m'as não se admire de lh'as recusar!
+
+--Ah! e, demais a mais, é orgulhosa!
+
+--De certo. Pois que esperava, vindo provocar-me tão pouco
+benevolamente?
+
+--Que tivesse menos hypocrisia e mais consciencia.
+
+--O senhor Luiz esquece-se, de certo, que está fallando com uma mulher!
+Consciencia!
+
+--Consciencia, sim, minha senhora. E fallo-lhe d'este modo, porque tenho
+aqui as provas! Veja-as, analyse-as, reveja-se V. Ex.^a n'ellas. Ahi lhe
+ficam. O que unicamente lhe peço, é que se esqueça para sempre de mim, e
+que creia, que, apesar de tudo, a desejo ver muito e muito feliz!
+
+E deixou-lhe em cima do piano o bilhete que ella havia escripto a
+Americo, e a fita, que dos cabellos, elle lhe levára, n'aquella noite
+fatal da entrevista junto ao lago.
+
+Magdalena, vendo sahir Luiz, cahiu n'uma cadeira, apertando o seio
+convulso com uma das mãos, amparando a cabeça com a outra, e exclamando,
+debulhada em pranto:
+
+--Ah! é assim que se paga um amor como este!...
+
+E soluçava nervosamente, vertia lagrimas copiosas!
+
+Pobre creança!
+
+Começava a amar, e logo as primeiras flores desabrochavam espinhosas! As
+auroras esplendidas dos primeiros dias d'amor sumiam-se mal despontavam,
+e após os primeiros sorrisos vinham logo as vicissitudes do soffrer.
+
+E como ella não soffria agora!
+
+Luiz fôra cruel tratando-a tão asperamente, mas é certo que não podia
+fugir a uma explosão d'aquellas. Depois da tempestade viria a bonança,
+depois das arguições o arrependimento.
+
+Em theoria ninguem deixará de censurar o pobre moço, mas na pratica,
+nenhum d'aquelles que se vissem em circumstancias iguaes, deixaria de
+fazer o que elle fez. Era uma coisa que o coração lhe exigia, uma
+satisfação dada ao sentimento, que lhe estava quasi abafando a
+respiração.
+
+Deixar d'amal-a, não deixava elle, e este incidente, que dera causa a
+lagrimas, d'um lado, e mágoas do outro, não fez senão accender-lhe mais
+as labaredas que lhe queimavam o seio.
+
+Todo o amor tem a sua cruz e o seu martyrio, como tem a sua redempção e
+as suas alegrias.
+
+Magdalena estava soffrendo os martyrios e o peso da cruz do seu amor. A
+redempção e as alegrias haviam de vir tambem; não podiam faltar,
+sobretudo a quem era tão digna d'ellas.
+
+No entanto, a formosa menina estava chorando, e sem esperanças de
+remover a tempestade, que uma imprudencia, filha ainda do seu immenso
+amor, havia feito desencadear.
+
+N'isto entrou o cabinda; vinha trazer á sua filha um ramo de flores do
+jardim. Ficou, porém estupefacto, vindo encontral-a soluçando, quando
+esperava achal-a contentissima.
+
+O negro correu para ella, presentiu as dores que a alanceavam, soffreu
+com ellas como se foram proprias e cahiu-lhe, de joelhos, aos pés,
+exclamando:
+
+--Porque chora a senhora moça? o que tem a minha filha?
+
+--Sou muito desgraçada, cabinda!
+
+--O branco...
+
+--Maltratou-me... sahiu... já me não ama!...
+
+O negro levantou-se de subito. Fervia-lhe nas veias o sangue da sua pura
+raça africana. Passou-lhe pela mente uma ideia terrivel; os olhos
+fuzilavam-lhe relampagos, as mãos tremiam-lhe convulsivamente. Cahiu-lhe
+d'ellas o ramo de flores, quando elle exclamou:
+
+--Oh! o branco é bom! Foi o mulato! o mulato é mau! Mas o cabinda ainda
+cá está, e a minha filha hade ser muito feliz!
+
+
+
+
+XVI
+
+
+Eram quatro horas da tarde, approximadamente, quando Jorge regressou á
+chacara, depois de ter deixado o armazem.
+
+Magdalena chorava sósinha no seu quarto.
+
+Sympathicas lagrimas aquellas!
+
+Eram as lagrimas verdadeiras, das dôres d'um amor casto, puro e ardente,
+deslisando silenciosas, como perolas finissimas, pelas faces assetinadas
+do rosto d'um anjo, cahindo e sumindo-se no seio, de dentro do qual
+ellas brotavam!
+
+Eram as flores pallidas, destoando muito das rosas frescas, das candidas
+açucenas, dos lyrios perfumados, d'um vasto jardim de crenças!
+
+Eram as nuvens crepusculares, velando um pouco o sol d'aurora
+deslumbrante d'um olhar limpido e formoso, em que se reflectia o céo,
+com toda a magia dos seus infinitos esplendores!
+
+Eu não sei, mas creio que nada ha mais attrahente do que as lagrimas
+d'uma mulher, moral e physicamente bella, quando, em cada uma, ha os
+aromas embriagadores d'um grande sentimento; quando, cada uma traduz, na
+sua mysteriosa, mas eloquente linguagem, uma estrophe melodiosa d'uma
+paixão ardente, mas pura, casta e honesta.
+
+Parece-me que não.
+
+As lagrimas teem então a fascinação irresistivel da sympathia, teem o
+condão poderoso do magnetismo, que attrahe, e enleva, e encanta.
+
+Eram assim as lagrimas da Magdalena.
+
+No entanto, o momento d'exaltação havia passado; haviam cessado os
+pequenos assomos de cólera, que lhe despertaram as asperezas, com que
+fôra tratada por Luiz.
+
+Após o seu desabafar, por meio d'uma explosão, em que a vimos, reagindo
+contra as palavras do sympathico moço, que a estavam ainda ferindo tão
+injustamente, veio a reflexão e com ella a desculpa, com a qual
+Magdalena ia já cobrindo Luiz.
+
+Um amor verdadeiro perdoa sempre, porque não deixa de ser amor.
+Exalta-se facilmente, até com as coisas mais pequeninas, que não lhe
+escapam, que elle descobre sempre, mas não resiste nunca a proclamar a
+sua absolvição.
+
+Se é amor verdadeiro!...
+
+Luiz apezar d'aquella scena violenta, d'aquellas arguições
+irreflectidas, d'aquellas arrogancias geradas pelo seu sentimento ferido
+e julgado em desprezo, era ainda o eleito de Magdalena, era ainda o
+homem por quem palpitava o seu coração, por quem floriam as rosas
+brancas da sua alma candida e perfumada.
+
+Atravez do tenue véo do resentimento em que ella estava, e que mais ou
+menos a dominava, jazia ainda, illuminada pelos raios deslumbrantes do
+sol do amor, a imagem de Luiz, a imagem do primeiro homem que a
+impressionára, e que ella não podia deixar de contemplar com olhos
+affectuosos, de acariciar com a ideia, de ameigar com o sentimento.
+
+Pobre creança, que o amor começava por beijar tão phreneticamente!
+
+Pobre avesinha, a quem tentavam impedir os primeiros vôos!
+
+Jorge chegou, pois, do armazem, e estranhou que Magdalena o não
+estivesse esperando, como era de costume. Fizeram-lhe falta os doces
+beijos, as suaves caricias, as meiguices consoladoras, com que a filha
+adorada o acolhia sempre no topo da escadaria.
+
+Entrou e perguntou por ella. Tivera um presentimento o seu coração de
+pae affectuosissimo. Responderam-lhe que estava no quarto. Dirigiu-se
+immediatamente para lá, pensando, fóra de qualquer duvida, que
+Magdalena, a não estar encommodada, não faltaria a esperal-o, com os
+seus affagos de filha estremosa.
+
+A porta estava fechada por o lado interior, e esta circumstancia mais
+sobresaltou ainda Jorge.
+
+--Magdalena! chamou elle, batendo mansamente. Ouviu dentro um leve
+ruido, mas ninguem lhe respondeu. Era Magdalena que tentava limpar as
+lagrimas e dar ao rosto e aos olhos uma expressão que não a trahisse.
+
+--Magdalena! minha filha! volveu Jorge, batendo segunda vez, e já um
+pouco opprimido.
+
+--La vou papae!
+
+Jorge serenou-se, ouvindo-a. Magdalena abriu effectivamente a porta, e,
+diga-se a verdade, mais para occultar que havia chorado, do que por
+extremos d'affeição filial, lançou-se-lhe ao pescoço, tentando assim
+encobrir o rosto.
+
+--Papae! disse ella com voz meiga.
+
+--Estou muito zangado comtigo! disse elle, beijando-lhe os negros e
+formosos cabellos.
+
+--Comigo? continuou ella cada vez mais acariciadora e mais
+impressionada. Porque?
+
+Jorge desprendeu a filha de si, tomou-lhe delicadamente a cabeça nas
+mãos, e imprimiu-lhe um novo beijo na fronte, ébrio d'affeição paternal.
+
+--Porque! Ainda m'o perguntas!... Mas, que tiveste, ajuntou elle,
+mudando subitamente d'expressão, que ainda tens nos olhos os vestigios
+das lagrimas?
+
+--Eu? respondeu Magdalena, tentando illudil-o.
+
+--Tu, sim, minha filha; então não estou eu vendo que choraste.
+
+--Não, papae, engana-se.
+
+--Diz a verdade, Magdalena.
+
+Magdalena, debaixo da impressão que a dominava fôra, pouco e pouco,
+sentindo subir de novo do coração aos olhos as lagrimas, que tentava
+sopear. Era um vulcão latente, prestes a romper n'uma erupção medonha.
+Quando, porém, Jorge instava ardentemente para que ella lhe revelasse a
+verdade, a afflicta menina não poude conter-se por mais tempo, não
+poude, nem por mais um momento, domar as ondas que lhe referviam no
+seio, e lançou-lhe novamente os braços ao pescoço, occultando o rosto, e
+exclamando soluçante:
+
+--Sou muito desgraçada, papae!
+
+E as lagrimas represadas romperam o dique que as detinha, cahindo
+copiosas dos olhos negros e formosos de Magdalena.
+
+Jorge sentiu uma dôr aguda, profunda e intensa, dentro do seu coração de
+pae, de pae que via a unica filha, a sua maior affeição no mundo, a
+chorar, chamando-se desgraçada!
+
+Elle que daria tudo, a vida até, para que Magdalena não soffresse uma
+dôr, uma unica, pequenina que fosse, sentiu-se quasi desfallecido, com a
+dolorosa scena porque estava passado. Longe, bem longe, de vir encontrar
+a filha estremecida n'aquelle estado lacrymoso, antes pensava vir
+achal-a contente, alegre e ditosa, que n'isso ia um dos seus maiores
+cuidados, que para isso trabalhava elle constantemente.
+
+Todos os paes são extremosos e dedicados, e não ha desgosto, por maior,
+que possa fazer estancar a fonte limpida das affeições paternas. Jorge
+de Macedo, era porém, duplamente affeiçoado a sua filha, porque era ao
+mesmo tempo, pae e mãe. Beatriz, sua esposa adorada, partindo d'este
+exilio, chamado mundo, para a vida d'alem-tumulo, legou-lhe, não só o
+thesouro d'uma filha para consolo das suas dolorosas saudades, senão
+tambem as joias do subido affecto com que amava o fructo formoso do seu
+verdadeiro e acrisolado amor.
+
+Foi por isso que elle, ao ver Magdalena n'aquella explosão de pranto,
+sentiu cravar-se-lhe no seio um como punhal d'aguçadissima ponta.
+
+--Desgraçada, minha filha?! exclamou elle pallido e convulso. Por
+piedade, diz-me o que tens!
+
+--Oh! soffro muito... muito!... balbuciou ella, soluçando ainda.
+
+--Filha! minha filha, não me mates! Diz-me o que tens, conta-me o que te
+aconteceu!
+
+E Jorge beijava-a phreneticamente, bebia-lhe as lagrimas que cahiam
+crystallinas, quatro a quatro, e affagava-lhe os cabellos fartos, que se
+haviam desatado pendendo em duas grossas e luzidias tranças.
+
+Magdalena não podia fallar suffocada pelo pranto. Jorge, porém, cada vez
+mais afflicto, continuava n'uma dolorosa anciedade:
+
+--Falla, filha. Tens aqui o coração d'um pae, doido d'amor por ti, para
+acolher as tuas mágoas, como tem acolhido sempre os teus sorrisos.
+Magdalena... Magdalena...
+
+--Deixe-me descançar, papae... deixe-me serenar, e não se
+afflija....não?
+
+--Então para que choras d'esse modo?
+
+--Oh! exclamou ella, porque sou uma creança, papae!...
+
+E sentou-se, como para descançar d'uma grande fadiga. O seio arfava-lhe
+com violencia. Tinha no rosto a pallidez sympathica, que tantas vezes
+inspira os poetas, e as mãos delicadas entrelaçadas uma na outra. Jorge,
+ao vêl-a sentada, ia ajoelhar-se junto d'ella, para mais uma vez, e
+carinhosamente, a interrogar, mas ella obstou a isso, accudindo de
+subito:
+
+--Não, papae, sente-se aqui, ao meu lado...
+
+--Mas conta-me o que tens, minha filha, disse elle, sentando-se. Bem
+sabes como devo estar soffrendo!
+
+Magdalena, que conhecia bem a grandissima affeição, que seu pae lhe
+votava, e por consequencia, que bem avaliava as dores que o estavam
+alanceando, encheu-se de coragem, e disse-lhe, tomando-lhe as mãos:
+
+--E não se zanga comigo?
+
+--Não, minha filha.
+
+---Então ouça-me.
+
+E Magdalena relatou a Jorge tudo quanto se passára, desde o jantar dos
+seus annos até á scena violenta, que dera logar áquellas afflições e
+áquellas lagrimas. Mencionou tudo, não esquecendo a minima das
+circumstancias. Jorge estava ouvindo-a mais que admirado, n'um silencio
+profundo, religioso até. Sentia-se chocado, grandemente chocado, e, para
+isso bastava apenas a surpresa que ia recebendo, porque bem longe andava
+elle de suppôr siquer o que se havia passado.
+
+Alma sensivel, porém, Jorge ia ouvindo a filha adorada, e não a
+condemnava, não. Elle tambem tivera sonhos na sua mocidade, e a narração
+de Magdalena fez-lhe passar, deante dos olhos do espirito, os primeiros
+dias floridos do seu amor e do amor da sua querida Beatriz. No entanto,
+ao saber das tentativas arrojadas de Americo, na noite da entrevista,
+junto ao lago da chacara, Jorge não poude occultar a sua exaltação e
+levantou-se exclamando:
+
+--Infame! Era assim que me queria pagar o quinhão da minha fortuna, que
+ha dias lhe dei!...
+
+E Magdalena proseguiu na exposição dos acontecimentos. Nada escondeu,
+nada furtou, nada occultou, de quanto se havia passado, e só a verdade
+presidiu a narração de cada facto. E tambem, para que havia de obrar de
+outro modo? Não era Jorge seu pae? e uma pae tão benevolo? tão meigo?
+tão bondoso?
+
+Elle, quando Magdalena acabou, para mais a tranquilisar, affagou-a,
+dizendo-lhe:
+
+--Não te afflijas, minha filha. O que preciso é que me digas se gostas
+muito do senhor Luiz, mas que me digas a verdade.
+
+--Oh! muito, meu papae!
+
+--E não te enganarás?
+
+--Não, eu bem o sinto.
+
+--Então ainda hasde ser muito feliz.
+
+Momentos depois, partia o cabinda do Botafogo para o Rio, no vapor da
+carreira, com a seguinte carta de Jorge para Luiz.
+
+ _Meu socio e amigo._
+
+«Para negocios de gravidade preciso, ainda hoje mesmo, fallar-lhe e ao
+senhor Americo. Rogo-lhes pois o obsequio de chegarem aqui, onde os fica
+esperando o seu
+
+ Socio amigo, etc.
+
+ _Jorge de Macedo._»
+
+E em quanto o negro transpunha a distancia que vai do Botafogo á cidade,
+ficavam Jorge e Magdalena entregues á refeição do jantar, conversando já
+mui animadamente, muito contentes, entre os perfumes suavissimos das
+flores formosas do affecto que lhes enchia as almas.
+
+
+
+
+XVII
+
+
+Não ha nada mais caprichoso do que o coração humano, e, por
+consequencia, nada mais enigmatico, nada mais incomprehensivel.
+Prende-se muitas vezes com as cousas mais simples d'este mundo, e olha,
+outras tantas, com indifferença para sacrificios, que, d'um só jacto o
+deviam attrahir para sempre. Ora se exalta, ora se humilha pelos mesmos
+motivos, e nas mesmas circumstancias; ora se lamenta e ora sorri com a
+mesma causa, indo, muitas vezes, até ao ponto de juntamente chorar e
+rir, de implorar e impôr-se!
+
+Eu não sei, mas creio que de todas as sciencias, a sciencia do coração é
+a mais difficil, a mais transcendente, a mais impyrica.
+
+O coração offende-se com cousas pequenissimas, que muitas vezes não
+perdôa, e é capaz de não se offender com cousas de vulto, ou de
+facilmente as esquecer e perdoar!
+
+Luiz ainda não tinha chegado ao Rio e já ia arrependido das asperezas
+que dirigira a Magdalena! Já a julgava innocente, e incapaz da trahição,
+que lhe imputou durante os momentos de mágoa e de colera do seu amante
+coração.
+
+Em verdade, passados os primeiros impetos, serenadas as primeiras
+impressões violentas, Luiz começou a recordar os protestos de innocencia
+de Magdalena, viu as lagrimas que ella derramou, atravez d'um prisma
+muito menos carregado, e convenceu-se de que só uma injustiça as fizera
+derramar, e censurou-se a si mesmo pela precipitação com que procedera!
+
+Tivera tentações de retroceder para, tanto quanto podésse, desfazer o
+mal que originara, mas era impossivel pelo adiantado da hora.
+
+As lagrimas da formosa menina estavam-lhe pesando na alma e no coração,
+d'um modo terrivel. Elle, depois de passada a grande exaltação que o
+dominára, não podia attribuir a Magdalena um crime tamanho. Era nova de
+mais para tanta maldade, muito innocente e ingenua para tanta
+hypocrisia, e assaz bondosa para tamanha crueldade.
+
+Alli a grande infamia, o grande mal fôra necessariamente commettido pelo
+mulato, fôra fatalmente tramado por Americo.
+
+Que mal havia feito Luiz a Magdalena para que ella se vingasse d'elle
+d'um modo tão barbaro e tão cruel?
+
+Depois, a memoria de sua mãe tão solemnemente, invocada n'um protesto de
+fidelidade e de amor, seria uma cousa tão pequena, que se olvidasse,
+unicamente para satisfazer um capricho, para attrahir mais um galanteio?
+
+Não era crivel.
+
+Magdalena estava innocente, e com esta convicção entrava Luiz em casa,
+na rua dos Pescadores, apezar da scena violenta em que o vimos, apezar
+de toda a sua inexorabilidade, durante a meia hora em que se achou na
+presença d'ella.
+
+No entanto, como havia agora de remediar o mal feito?
+
+Uma confissão sincera d'um sincero arrependimento era a unica solução do
+problema.
+
+Seria, porém, bem acceita? Ouvil-a-ia Magdalena? Quebraria ella o seu
+orgulho, altamente despertado e inflamado pelas injustiças que elle fez
+ao seu caracter, á sua lealdade e ao seu coração?
+
+Isto lançava-lhe uma duvida no espirito, e esta duvida era um punhal
+aguçadissimo que o feria dolorosamente.
+
+Entrou em casa preoccupado com tudo isto, nas alternativas do receio e
+da esperança d'uma absolvição e d'uma condemnação.
+
+Americo sahiu-lhe quasi ao encontro, e apenas o viu fitou-o
+expressivamente, como tentando lêr-lhe no rosto quanto se lhe passava na
+alma.
+
+Luiz nem sequer lhe deu as honras de o olhar. Seguiu para o escriptorio,
+na firme resolução de completamente desprezar o infame, decidido a
+castigar-lhe a menor insolencia.
+
+O mulato, porém, não era homem que se contentasse em estudal-o
+silenciosamente; embebido na ideia de conseguir os seus fins, pouco lhe
+importavam os meios e até as consequencias.
+
+Dirigiu-se tambem ao escriptorio.
+
+Luiz estava sentado escrevendo uma carta. Americo olhou-o, viu a
+severidade do seu rosto, mas nem assim recuou.
+
+--Então? perguntou elle.
+
+Luiz sentiu como que subir-lhe o sangue á cabeça e turvar-se-lhe a
+vista, mas não respondeu. Chamava a prudencia em seu auxilio, porém o
+desafio d'Americo era forte de mais para que lhe podesse resistir.
+
+--Então? interrogou novamente o mulato com ar de refinado cynismo.
+
+Luiz guardou ainda silencio durante alguns segundos, mas occorreu-lhe a
+ideia de que o seu silencio poderia traduzir-se por cobardia ou
+humilhação e volveu-se então para o mulato, fitou-o corajosamente e
+perguntou tambem com voz firme:
+
+--Então o que!
+
+--Qual de nós vence? acudiu Americo sorrindo.
+
+--Ainda o duvidas canalha! Pois não o duvides, infame. Ha-de vencer o
+justo, que sou eu, tão certo como seres castigado, que és o despresivel.
+
+--N'esse caso provou-se a innocencia da menina?
+
+--Provou-se que és um salteador infame e cobarde, da honra dos que te
+chamam amigos e te sentam á sua meza, que é o mesmo.
+
+--Vê que me insultas! se não apresentas as provas!
+
+--Quem desce a isso, biltre! Teme o castigo e não peças as provas!
+
+--Ah! ah! ah! vens, de mais a mais um pouco tragico. O que faz o amor!
+
+--Americo! bradou Luiz quasi de todo exaltado.
+
+--Começam as ameaças?
+
+--E não ha duvida em que comecem tambem as obras. Retira-te, que já te
+não vejo. Não me provoques, porque te desprezo, como reptil asqueroso!
+Sahe! Não me obrigues a sujar a mão na lama que tens na cara!
+
+--Luiz! gritou Americo, agarrando em um tinteiro.
+
+--Canalha! bradou Luiz, estendendo-lhe a mão na face bronzeada, com a
+força d'um desesperado.
+
+Estava travada a lucta. O mulato tinha mais força physica, mas Luiz
+possuia mais força moral e era mais corajoso. Aquillo foi um vulcão que
+se accendeu subitamente. Um instante depois estavam enlaçados um no
+outro, n'uma lucta medonha, incrivel e desesperada. Sentiam apenas o
+ruido dos pés, movendo-se aos impulsos fortes de um e outro lado, e a
+respiração abafada de cada um dos contendores. Americo só tentava lançar
+Luiz a terra, este porém resistia valentemente. E n'um momento favoravel
+atirou um murro ao infame que lhe fez logo brotar o sangue do nariz. O
+mulato enfureceu-se pela dôr e pelo orgulho, exasperou-se damnadamente,
+e atirou as mãos ao pescoço de Luiz, n'uma expressão de raiva
+desmarcada, no intento mesmo de o estrangular.
+
+E de certo o teria feito; sem duvida, seriam funestas as consequencias
+d'aquella contenda se não fosse a apparição, no momento fatal, de um
+homem, cujo olhar quasi paralysou completamente a acção do mulato.
+
+Era o cabinda, era o velho, mas sympathico, o negro, mas dedicado, o
+escravo, mas d'alma grande.
+
+O negro vinha encarregado d'entregar a Luiz a carta de Jorge de Macedo.
+Muito contente da sua missão, porque lhe dizia o coração que se andava
+tratando da ventura de sua filha, o negro transpoz apressadamente a
+distancia que vae do Botafogo ao Rio, á rua dos Pescadores.
+
+Chegou, entrou, dirigiu-se á porta do escriptorio, tranquillo, socegado,
+contente, sem sequer se lembrar da scena que ia encontrar. Quando deu
+com os olhos nos dous, que ferozmente se debatiam, sentiu um como abalo
+electrico interior e não esperou por mais nada. Atirou-se em seguida ao
+mulato, que lançava as mãos ao pescoço de Luiz, agarrou-o pela gola do
+casaco, deu-lhe um fortissimo puxão e elle, largando Luiz, mais com
+receio do cabinda do que por vontade propria, foi cahir ao chão no meio
+do escriptorio.
+
+--O negro cá está! bradou o cabinda.
+
+--Não preciso de ti! acudiu Luiz.
+
+--Só assim! murmurou Americo, espumante de raiva.
+
+--Agora, meu branco, isto, que manda o senhor! disse o negro desprezando
+Americo, que tentava levantar-se, e entregando a Luiz a carta de Jorge.
+
+--E a senhora moça? interrogou Luiz.
+
+--Tem chorado muito; o branco não gosta d'ella, não!
+
+--Vêl-o-has, cabinda!
+
+E procedeu á leitura da carta de Jorge.
+
+Ao terminar, tinha uma como nuvem diante dos olhos. Pareceu-lhe que uma
+grande tempestade se ia desencadear sobre a sua cabeça. E o que tinha
+fóra de toda a duvida é que era chegado o dia em que tinha de decidir-se
+a sua sorte. Mas se, por um lado, o apoquentavam os receios de não
+conseguir a suspirada felicidade, tinha, pelo outro, a consolação da
+tranquillidade da consciencia.
+
+O mulato, entretanto, havia-se levantado, e dispoz-se a sahir, dizendo:
+
+--Contra dous não posso, mas hei-de vingar-me!
+
+--Nem contra um! a tua causa é a primeira a ser contra ti, canalha!
+bradou Luiz.
+
+--O negro póde muito, o mulato bem o sabe.
+
+--Deixemos agora as questões. O snr. Macedo convida-nos a irmos
+immediatamente ao Botafogo, para tratarmos negocios d'importancia. Quem
+sabe se será para nos julgar? Como nada receio, vou já. Convido-o; faço
+o meu dever, e nada mais.
+
+--Ah! o branco é bom, ha-de ser feliz e a minha filha tambem. Depois que
+importa que o velho cabinda morra? morre contente, porque deixa contente
+a sua filha!
+
+E o velho escravo seguiu Luiz, emquanto que Americo ficava limpando o
+sangue, que ainda, como signal da lucta em que se empenhára, lhe corria
+do nariz.
+
+Aquelle convite de Jorge de Macedo fôra um incendio, que crestára todas
+as esperanças ao mulato. Para elle era inevitavel que não só não
+conseguia nada, senão tambem que estava perdido, porque Jorge havia de
+fazer justiça, castigando-o.
+
+Pensou primeiro em fugir, mas depois achou que semelhante partido ainda
+mais o condemnaria, porque seria mais uma prova da sua culpabilidade, e
+dispoz-se a soffrer tudo.
+
+Assim, emquanto que Luiz ia ganhando novas esperanças, emquanto atravez
+das nuvens que lhe toldavam o horisonte ia como que descortinando a luz
+brilhante, formosa e esplendida da felicidade que tanto sonhára, ia o
+mulato convencendo-se de que a Providencia vela sempre pelos bons e
+pelos justos, de que o mal tem sempre o seu castigo do mesmo modo que
+todo o bem é premiado.
+
+Para um iam desabrochando, embora receiosas e timidas, as flores, cujos
+perfumes embriagam a vida.
+
+Para outro, os espinhos que magoam, e ferem, e doem a todos os momentos.
+
+E Magdalena, o nosso anjo, Magdalena, a formosa, esperava no entanto,
+cheia d'anciedade, pela chegada dos dous e pelo resultado d'aquella
+conferencia que ia ter logar agora.
+
+O que lhe dizia o coração nos sobresaltos com que a agitavam?
+
+O que lhe dizia a alma na esperança que a enflorava?
+
+Tudo lhe dizia amor, ventura e ternuras!
+
+Tudo lhe fallava de felicidades, porque era bondosa, meiga, innocente,
+candida, e sobretudo, porque era boa filha, porque nunca déra um
+desgosto áquelle que a mirava doudo d'amor!
+
+
+
+
+XVIII
+
+
+Muito terrivel é a situação de quem espera, esperando debaixo do pezo
+d'uma duvida!
+
+A duvida dá ao coração as alternativas da esperança e do receio; da
+esperança, que faz das horas seculos, do receio, que faz das horas
+instantes rapidissimos; da esperança, que arrebata com sonhos de dourado
+enlevo, do receio, que fere com os espinhos d'uma perspectiva má e
+triste.
+
+Esperar, d'este modo, é esperar entre a lucta de dous sentimentos
+oppostos, que se degladiam heroicamente, braço a braço, corpo a corpo,
+sem se fatigarem, sem succumbirem, sem cederem um ao outro um palmo de
+terreno, ambos egualmente potentes, ou egualmente fracos, porque nem um
+cede, nem o outro vence, e porque um e outro exercem egual predominio no
+espirito, embora oppostamente.
+
+O coração prende-se, durante um momento, nos arrobos da esperança, nas
+delicias suaves de quem vê realisado um desejo muito grande de grande
+ventura, para no momento immediato se embrenhar nas mil veredas
+tortuosas, nos muitos pezares e na grande tristeza em que se desata a
+ideia, o receio de que aborte essa esperança, de que não tenha uma
+realidade a aspiração que lá se gerou e n'elle vive, como pomba dentro
+do seu ninho.
+
+Magdalena estava sentindo tudo isto, esperando por Luiz e Americo, que
+seu pae mandára chamar, depois d'aquella scena de lagrimas em que a
+vimos.
+
+Tinha d'um lado a esperança de que tudo se harmonisaria, e
+satisfatoriamente para todos, e que seu pae lhe restituiria Luiz, que
+ella amava ainda muito, apezar de tudo, e com elle a ventura, o affecto,
+os carinhos, o socego, as meiguices, os extremos, por que tanto almejava
+o seu coração, tão viçoso e tão sedento!
+
+Do outro, o receio de que essa esperança não germinasse um unico
+encanto, um unico perfume; de que o sonho ridente da suspirada
+felicidade se esvaecesse, como nuvem de fumo leve nas azas da viração do
+sul!
+
+No meio de tudo isto, Jorge pensava na felicidade da filha, como pae
+mais que muito affectuoso, e no meio decente de castigar dos dous,
+d'Americo e de Luiz, aquelle que fosse criminoso perante o tribunal e o
+juizo recto da sua impolluta consciencia.
+
+Os dois associados do honrado capitalista e negociante, vinham,
+separados, a caminho do Botafogo, phantasiando o que iria passar-se,
+embrenhando-se em mil conjecturas, sobre diversos assumptos, como causa
+provavel do seu chamamento, mas sempre fugindo-lhes o espirito para a
+ideia de que ia tratar-se do succedido, com relação á formosa Magdalena.
+
+Até o velho Cabinda, que acompanhava Luiz no vapor da carreira, até esse
+ia embebido com a ideia da ventura da sua filha querida, da sua adorada
+senhora moça, que era n'este mundo a ideia que mais o prendia, enlevava
+e dominava!
+
+O pobre do negro consentiria tudo; no que não consentiria de modo
+nenhum, e para isso era até capaz de dar a vida, era em que o mulato
+vencesse Luiz, em que Americo conseguisse os seus intentos, não só
+porque, por uma d'estas immensas sympathias, que se não podem explicar,
+era altamente affeiçoado a Luiz, ao branco, como elle dizia, senão
+tambem, porque, oppostamente, odiava Americo com odio de morte,
+sobretudo depois dos ultimos acontecimentos, e talvez por motivos de
+antipathia e de raças.
+
+Os tres, Luiz, Americo e o cabinda, chegaram ao Botafogo, por volta das
+oito horas, e quasi ao mesmo tempo. O negro e Luiz foram os primeiros,
+mas o mulato não se fez esperar.
+
+O velho escravo dirigiu-se para a cosinha, pela escadaria da rectaguarda
+do palacete, emquanto Luiz era introduzido na sala, e encontrou na
+varanda Magdalena, que o esperava n'uma indescriptivel anciedade.
+
+Magdalena tinha ainda nos olhos os vestigios das lagrimas recentes, no
+rosto a pallidez do desgosto que soffrêra, e a expressão do seu estado
+d'excitação, e nas ondulações do seio os signaes evidentes do agitamento
+das ondas interiores.
+
+No entanto, bella sempre, sempre formosa, sympathica, attrahente!
+
+Apenas avistou o negro, correu pressurosa a vir esperal-o ao topo da
+escadaria.
+
+Elle sorriu-lhe n'uma expressão de dedicação.
+
+--Então, cabinda? interrogou ella subitamente.
+
+--O branco veio, senhora moça,
+
+--E aonde está?
+
+--Na sala grande que deita para o jardim.
+
+--E vem contente?
+
+--Ha-de estal-o. O coração do negro não mente nunca.
+
+--Vieste com elle?
+
+--Vim, minha filha.
+
+--E Americo?
+
+--Tambem vem! O mulato brigava com o branco no escriptorio, quando o
+negro chegou, mas o cabinda prendeu-o pelo pescoço e deitou-o ao chão.
+
+--Ao mulato? perguntou assustada.
+
+--Sim.
+
+--Mataste-o?
+
+--Não, senhora moça, mas o negro estrangula-o se o mulato continua!...
+
+--Eu quero-te prudente, cabinda!
+
+--E o negro quer feliz o branco e a sua senhora moça!
+
+--E elle? interrogou Magdalena com anciedade.
+
+--O branco? não soffreu nada. Mas para que a cobra não assalte o ninho
+da jurity ou do beija-flor, é preciso esmagal-a ou mandal-a para longe.
+A minha filha comprehende?
+
+--Comprehendo, cabinda. Meu pae lá está; a verdade ha-de brilhar como o
+diamante na mina, e Deus ha-de castigar o culpado.
+
+--Oh! exclamou o negro, ébrio d'alegria; oh! e como o negro ha-de rir de
+contente, quando a senhora moça lhe disser que é feliz! O cabinda até
+ha-de dançar o batuque!
+
+--Velho tonto! exclamou Magdalena risonha e altamente enthusiasmada com
+o jubilo do bom escravo.
+
+Emquanto, porém, este colloquio tinha logar na varanda da rectaguarda do
+palacete de Jorge, entrava Americo para a sala da frente, onde Luiz
+permanecia só, esperando pelo capitalista.
+
+Os dous estavam de novo, frente a frente. Ambos opprimidos, receiosos
+ambos, sem a certeza do que se ia passar, do que se ia decidir alli,
+olharam um para o outro, ambos n'uma expressão de duvida, mas sem
+trocarem uma unica phrase, uma unica palavra.
+
+O receio, pelo qual, cada um d'elles, era dominado, tinha origens
+diversas e faceis de explicação.
+
+Luiz não receiava pelo seu procedimento, porque bem alto lhe fallava a
+sua consciencia; temia, sim, que de todo se perdesse a melhor occasião,
+qual a que se lhe proporcionava, agora, de realisar o sonho ardente da
+felicidade por que suspirava com tanta loucura.
+
+Americo, esse receiava o castigo da sua infame tentativa, porque uma voz
+intima lhe segredava que todo o seu procedimento era reprehensivel,
+indigno e injustificavel.
+
+Ainda assim, nem um nem outro tinham a certeza do negocio que alli os
+reunia, e isto dava ao mulato a esperança de que se agora não fosse
+fulminado, ainda poderia tentar o conseguimento dos seus fins, ou pelo
+menos indispor de todo Luiz e Magdalena.
+
+Estava uma tarde explendida.
+
+Os raios do sol vivo, que docemente ia descendo ao seu occaso,
+projectavam-se brilhantes no jardim, sobre que abriam as janellas da
+sala, onde esperavam Americo e Luiz, e imprimiam nas rosas brancas e nos
+jasmins perfumados uns reflexos da sua côr avermelhada e tropical.
+
+Zumbiam as vêspas nos trançaes dos maracujás, volitavam rapidos, de flôr
+em flôr, deixando beijos em toda a parte, uns mimosos e pequeninos
+beija-flores, e cortavam o espaço, em mil caprichosas linhas, ora
+subindo, ora descendo, ora rapidas, ora vagarosas, algumas borboletas de
+tamanhos variados e côres vivas e formosas.
+
+Lá ao longe, entre as folhas verdes do capim, andavam arraiando amores
+as juritys mimosas.
+
+Luiz e Americo, cada um em sua janella, parecia estarem ambos embebidos
+na silenciosa contemplação das bellezas da natureza, do explendido
+quadro que tinham diante dos seus olhos, expressivamente scismadores.
+Longe, porém, e muito longe, estavam elles, dos encantos que alli se
+desenrolavam, e que, sem duvida, inspirariam muito a alma sensivel e
+contemplativa d'algum poeta ou d'algum artista.
+
+Estavam, pois, assim, quando de subito se abriu uma porta, que, da sala
+espaçosa, ricamente mobilada e adornada, dava passagem para o interior
+da casa.
+
+Os dous voltaram-se immediatamente, e ao mesmo tempo, dirigindo-se ao
+personagem que entrava.
+
+Era Jorge de Macedo.
+
+Trazia no rosto a expressão da affabilidade, mas ainda assim, carregada
+com as linhas sombrias d'uma severidade mal disfarçada. Quatro olhos se
+cravaram nos d'elle, como para traduzirem alguma cousa, os olhos de Luiz
+e d'Americo.
+
+Seguiram-se os cumprimentos indispensaveis, de respeito e de boa
+cortezia.
+
+Os dous, cada um pelo seu lado, haviam percebido que Jorge de Macedo não
+estava no seu estado normal, e os traços de mudança que lhe soletraram
+no semblante, mais se inclinavam para uma certa tristeza, para uma vaga
+melancolia, para o que quer que é d'um desgosto, embora pequeno ou mal
+traduzido, do que para a indicação d'uma irritação, d'uma exaltação, que
+rompesse em asperezas ou se desatasse em colericas insinuações.
+
+Agora é que mais que nunca o receio os dominava. E o mulato, se não fôra
+a lembrança de que commetteria um acto d'inqualificavel cobardia, que
+mais provaria ainda contra o seu procedimento, decerto teria fugido,
+para nunca mais apparecer.
+
+Teve tentações de fazel-o.
+
+Era a propria consciencia que o estava accusando d'aquelle modo! Bastava
+a presença do juiz que ia julgal-o para o fazer tremer!
+
+Luiz esperava receioso, mas resignado. E diante dos seus olhos surgia
+ainda formosa, explendida, encantadora, a imagem de Magdalena, que elle
+adorava muitissimo.
+
+E na sua consciencia só tinha o espinho d'um remorso a magoal-o! Era o
+de haver tão impensadamente, quasi que insultado a mulher a quem
+desejaria agora lançar-se aos pés, implorando, humilde, um perdão para
+os arrebatamentos que lhe fizeram, a ella, derramar tão amargas e
+sentidas lagrimas.
+
+E Magdalena?
+
+E o cabinda?
+
+O que faziam os dous, agora, no momento em que talvez se fosse decidir
+da ventura d'aquella e d'alegria intima dos ultimos dias da velhice
+d'este?
+
+Depois do dialogo travado na varanda, foram ambos cautelosamente
+collocar-se atraz d'uma porta fechada, que communicava com a sala
+grande, onde se achava Jorge, com Luiz e Americo, a fim de verem se era
+possivel escutarem o que se passava.
+
+Chegaram no momento em que terminavam os cumprimentos dos dous socios do
+capitalista, e quando este delicadamente lhes offerecia duas cadeiras,
+collocadas ao lado do sophá, onde tomou assento tambem.
+
+Jorge ficou, assim, entre os dous; Luiz á direita e Americo na esquerda.
+
+Houve um momento de silencio.
+
+Os dous esperavam d'olhos cravados no chão. Jorge dispunha-se para
+começar, e dentro, Magdalena e o cabinda, tentavam abafar a respiração
+para que nem essa trahisse a sua presença, alli, atraz da porta que os
+escondia, mas que os devia deixar ouvir tudo.
+
+Que contrastes no intimo de cada um d'aquelles individuos! Que mares,
+tão diversos nas suas agitações, no seio de cada um d'aquelles
+personagens!
+
+
+
+
+XIX
+
+
+Sentaram-se os tres, e houve, como já dissemos, um momento de silencio
+completo, em que até pareciam sustidas as respirações.
+
+Depois, Jorge esfregou vagarosamente as mãos nos joelhos, gesto este,
+que póde talvez traduzir-se por uma certa repugnancia, ou por uma certa
+difficuldade em abrir a conferencia, para a qual havia chamado os seus
+recentes socios, e em seguida começou assim, com ar de gravidade:
+
+--Devo principiar por pedir-lhes desculpa de os haver incommodado, mas
+tenho para mim, em tanta conta, em tanta gravidade, em tanta ponderação,
+o negocio que me obrigou a chamal-os agora aqui, que o não fazel-o
+poderia talvez importar-me um desgosto, que d'este modo me pouparei,
+creio-o. Resumirei em poucas palavras o que tenho a dizer, porque quero
+limitar-me, apenas, a descobrir a verdade. Sou infelizmente viuvo, mas
+sou pae. Choro, por um lado, as lagrimas da saudade, mas tenho, graças
+ao céo, por outro, um anjo que m'as dulcifica. Fui rapaz, tive a minha
+mocidade, com todos os sonhos, com todos os arrebatamentos, com todas as
+illusões, com todos os euthusiasmos que lhe são proprios, e nos quaes se
+desata a effervescencia do sangue dos vinte annos. O livro da minha vida
+d'então, escripto, capitulo a capitulo, não tinha, nunca teve, uma unica
+pagina maculada por uma nodoa, leve e pequenina que fosse. Mesmo nos
+delirios da minha juventude timbrei sempre em conservar intacta a pureza
+do meu nome, e jámais tentei realisar uma aspiração grande ou pequena,
+boa ou má, por meios que me fizessem soffrer a dignidade, ou ferissem a
+minha honra. Trabalhei para chegar ao que sou, e o bom nome que creio
+gosar, agora, não é mais que o nome grangeado então. N'esse tempo a
+ambição era egual á lealdade, se é que a ambição já existia n'um grau
+tão elevado como actualmente, mas ainda assim, nunca tão corrompedora,
+como na época que vamos atravessando. Agora mudaram as cousas, e é
+d'isso que me queixo. Visa-se ao alvo e ha-de chegar-se lá, custe o que
+custar, pouco importam os meios.
+
+E Jorge fez uma pequena pausa, como que para descançar. Via-se que
+estava sensibilisado, commovido ou nervoso.
+
+Os dous conservavam-se impassiveis, attentos, de fronte humildemente
+abatida. Agora já não tinham que duvidar; era a elles que se dirigia
+todo o discurso de Jorge de Macedo, que proseguiu momentos depois:
+
+--Tratei-os sempre bem, sempre, mais como amigos, como parentes, como
+affeiçoados meus, do que como subordinados ao meu serviço. Para prova do
+muito que julgava merecerem-me, sentei-os ha dias á minha meza, n'uma
+festa intima, puramente familiar, no intuito, que realisei, de os fazer
+partilhar da minha sorte, fazendo-os socios meus.
+
+--Eu, pela minha parte, senhor, serei eternamente agradecido ao
+muitissimo que devo a V.^a Ex.^a, acudiu Luiz.
+
+--E eu... ia Americo a ajuntar tambem, quando Jorge o interrompeu
+continuando:
+
+--Perdão! Será talvez assim, mas n'esse caso estou então illudido,
+porque para mim, um dos senhores, pelo seu comportamento, desdiz
+completamente do conceito que me... devia.
+
+--V.^a Ex.^a deve, sem duvida, ter muitissima razão para fallar d'esse
+modo, e bom será que nos julgue, para que só o culpado soffra o castigo,
+atalhou Luiz.
+
+--As justificações depois. Ouçam-me por emquanto e depois terão a
+palavra. Cheguei hoje do Rio, contente e feliz, esperando, pelo costume,
+vir encontrar, do mesmo modo, minha filha, que adoro com a loucura de
+pae que não tem outra, que não tem mais familia. Eu, que já me vejo mais
+perto do tumulo do que do berço, viuvo, e por consequencia, sem os
+consolos, sem as delicias com que sempre nos embriagam os corações
+d'aquellas que se unem a nós, partilhando da nossa vida, affiz-me aos
+carinhos e aos consolos da filha unica, que n'este ponto valia bem a
+chorada mãe, e costumei-me a pagar-lh'os sempre, trabalhando
+constantemente por em todos os sentidos lhe abrir caminhos, onde só
+desabrochassem flores e onde nunca viçasse um espinho. Consegui-o
+durante muitos annos, em que nunca uma nuvem, a não ser a da saudade que
+ambos cultivavamos pela rosa que Deus chamára a si, obscureceu levemente
+o céo da nossa vida. Prometti, no leito de morte da minha adorada
+Beatriz, que faria tudo para que Magdalena fosse ditosa. O céo tem-se
+empenhado em auxiliar-me no cumprimento da minha promessa, porque até
+hoje ainda Magdalena não derramou uma unica lagrima, ainda não teve um
+queixume para me lançar no coração. Sorria-me esta ideia da felicidade
+de minha filha, que era a da minha felicidade tambem, e era por isso que
+ao entrar e ao sahir de casa, em cada dia, eu o fazia contente, ébrio
+mesmo d'uma alegria que não me passou nunca pela mente, que podésse
+toldar-se ou ennublar-se. Não succedeu, porém, assim; e hoje, quando
+regressava, ancioso por lhe pagar em beijos os beijos e os affagos com
+que era costume esperar-me ella, venho encontral-a chorando triste e
+dolorosamente, proclamando-se desgraçada, a filha querida do meu
+coração. As suas lagrimas quasi que me fizeram succumbir. Não as
+esperava, não desejára esperal-as. Era, havia muitos annos, o primeiro
+momento de turtura que eu soffria...
+
+E Jorge tinha as lagrimas nos olhos. Fez uma pequena pausa para desatar
+a voz que se lhe ia prendendo na garganta, e proseguiu:
+
+--Interroguei-a com a brandura de quem é prudente, com a dôr de quem
+como eu a idolatrava tanto e com a curiosidade de quem tudo desejava
+saber, para tudo remediar se fosse possivel. Oh! o que eu soffria então!
+Porque angustias não passei durante os curtos momentos, que me valeram
+muitos seculos, antes de me revelar a verdade!
+
+--E descobriu-a, não? interrogou Luiz subitamente.
+
+--Não sei. Contou-me Magdalena uma historia, em que figuram, como
+principaes personagens, os dous homens que ha poucos dias sentei á minha
+meza para os associar, no negocio, ao meu nome. Soffri ainda mais!
+
+--E... ia Luiz a interromper, quando Jorge continuou:
+
+--Conclui que ambos a pretendiam, mas que nem ambos empregavam, para
+isso, meios muito honrosos.
+
+O mulato estava tremendo de receio. Luiz sentia-se cada vez maior senhor
+de si.
+
+--Perdão, senhor, da minha parte todos o eram. E se algum de nós
+procedia menos dignamente não era de certo eu, juro-o, disse Luiz com
+convicção.
+
+--Eu tambem... acudiu Americo sem poder concluir.
+
+--Qual dos dous convidou minha filha a uma entrevista junto ao lago a
+horas adiantadas da noute?
+
+--Eu não, senhor, afirmou Luiz.
+
+--Fui eu... disse o mulato a custo.
+
+--E com que fim?
+
+--Fallar-lhe... apenas, respondeu o mulato.
+
+--Então não foi para lhe entregar uma carta do senhor Luiz?
+
+--Minha? Não podia ser, disse este, levantando-se. Saiba V. Ex.^a que
+este senhor mentiu ou abusou, se disse ou pretextou semelhante cousa. E
+peço licença para dizer duas palavras. Vivo ha perto de doze annos com
+V. Ex.^a e nunca, creio eu, lhe dei motivos para uma censura, para uma
+queixa, para uma reprehensão. A minha vida modelou-se, no tocante a
+honra, a dignidade, a caracter, a tudo, emfim, pela de V. Ex.^a que bem
+digna foi sempre, e é, de ser imitada. Fui sempre respeitoso e submisso,
+sempre, e não seria no momento em que V. Ex.^a me deu uma grandissima
+prova da sua estima, que eu por um acto menos digno lançaria em terra,
+desfeito, desmoronado, um edificio que tanto tempo levou a construir.
+Com relação á filha de V. Ex.^a o meu procedimento não me será lisongeiro
+talvez, mas tambem não é infame. Na tarde do dia em que tive a honra de
+sentar-me á sua meza, passeiava ao lado da bondosa filha de V. Ex.^a
+pelas alamêdas do jardim, emquanto V. Ex.^a e este senhor conversavam
+tomando café. A nossa conversação tomou o caminho que sempre segue entre
+pessoas de vinte annos. Achei-a então formosa de corpo e formosissima
+d'alma. Não resisti aos impulsos do coração que se abria com as suas
+palavras, que desabrochava subitamente com o sol dos seus olhares, e
+disse-lhe que a amava. Confessou-me tambem que nunca um homem a
+impressionára e que... tambem se inclinavam para mim as flores do seu
+affecto. Eu fallei então tão verdadeiramente, como o estou fazendo agora
+a V. Ex.^a Parti. No dia seguinte, creio eu, recebi um bilhete de D.
+Magdalena, com duas phrases, filhas do seu sentimento, a que respondi
+com dignidade e affecto tambem. Impellia-me o coração e era valente de
+mais para que eu lhe resistisse. Quando V. Ex.^a me encarregou de ir a
+Macahé tornei a escrever-lhe e dei a carta a um dos negros do armazem.
+Não sei se D. Magdalena a recebeu. O que sei é que este homem, com o
+qual nunca mais poderei viver, desde o momento em que conheceu que a
+filha de V. Ex.^a me levantava até ella com o seu amor, começou a
+fazer-me uma guerra de morte, uma guerra declarada, protestando que a
+filha de V. Ex.^a seria para elle e nunca para mim. Tivemos algumas
+altercações violentas. Quando regressei de Macahé, ancioso de vêr D.
+Magdalena, e contentissimo de bem ter desempenhado a minha missão,
+surge-me este senhor, apresenta-me um bilhete d'ella, em que lhe concede
+uma entrevista para horas adiantadas da noute, e uma fita dos cabellos
+d'ella que realmente reconheci. Não sei mais nada. Julguei a filha de V.
+Ex.^a uma creança caprichosa, e hoje, talvez excessivamente desesperado,
+porque devéras me doía o coração, vim a esta casa e... disse á filha de
+V. Ex.^a que estimava que fosse feliz, mas que me esquecesse. Ainda assim
+Deus sabe o sacrificio que fiz n'este ultimo acto. O meu resentimento
+era, porém, tão grande, que não pude ser-lhe superior. E para tudo dizer
+a V. Ex.^a confesso que me arrependi logo, porque creio agora que a filha
+de V. Ex.^a é uma bondosa e sincera menina e que aqui, em tudo isto, só
+andou uma infamia, uma indignidade da parte d'este homem, com que já
+hoje tive uma séria altercação. Amo ainda, e muito, a filha de V. Ex.^a É
+destino meu e não posso fugir-lhe. Agora veja V. Ex.^a o que ha de
+censuravel e indigno em tudo isto e condemne-me se o julgar conveniente.
+Esta é a verdade e não fujo a confessal-a, por todos os motivos, mas
+sobretudo, sendo V. Ex.^a a pessoa a quem devo tanto e tanto.
+
+--Eu sei tudo. É um cavalheiro o senhor Luiz. Dê-me a sua mão, quero
+apertal-a como a de um grande amigo.
+
+Jorge e Luiz estavam commovidos. O mulato olhava atterrado para a porta,
+com horriveis tentações de fugir. O seu castigo começava alli.
+
+--Eu sei tudo, continuou Jorge, porque nada me occultou Magdalena. E
+como a felicidade de minha filha é tambem a minha, ella é que hade vir
+terminar esta nossa conferencia.
+
+Magdalena, que tudo ouvira, occulta atraz da porta aonde a deixamos, não
+se fez chamar; correu logo, ébria de alegria, e lançou-se nos braços de
+Jorge, gritando:
+
+--Obrigada, papae! Obrigada, papae!
+
+--Diz-me, interrogou-a elle, gostas muito do senhor Luiz, não é assim?
+
+--Muito!... murmurou, ruborisada de pejo.
+
+--Crês que has-de ser, com elle, tão feliz como desejo que tu o sejas,
+não?
+
+--Muito, e só com elle.
+
+--Bem. O senhor Americo, como recompensa do seu procedimento pouco
+digno, queira retirar-se e esperar ámanhã as minhas ordens no armazem.
+Limito-me a isto, porque não quero fazer mais no dia em que o céo me
+abre na terra a felicidade de minha filha.
+
+O mulato tinha os olhos cravados no chão. Tomou o chapéu, volveu-se e
+sahiu vagarosamente, como que arrastado por uma força que tentasse
+tiral-o do logar onde o chumbava não sei que sentimento.
+
+Quando transpôz a porta, pendiam-lhe dos olhos duas grossas lagrimas.
+
+Seriam de vergonha?
+
+Seriam de remorsos?
+
+Seriam de odio?
+
+Não sei.
+
+Talvez de tudo isto juntamente, quem sabe?
+
+Instantes depois, entrava o cabinda como doudo na sala e ia ajoelhar-se
+aos pés de Jorge, beijando-lhe phreneticamente as mãos e exclamando em
+extrema commoção:
+
+--Bem haja, meu senhor, bem haja, que fez feliz o branco e a filha do
+cabinda!
+
+Quando as primeiras sombras da noute desciam suavemente sobre a terra,
+andavam Luiz e Magdalena passeiando no jardim entre as flores, irmãs
+d'ella, entre os perfumes suaves, como os que então se evaporavam das
+rosas brancas de suas almas enamoradas.
+
+Fez-se alli o primeiro idyllio do seu noivado.
+
+Já dormiam as juritys nos ninhos avelludados, e os beija-flores,
+cançados de oscularem as rosas, mas substituiam-os, alli, duas almas
+prezas nos laços dulcissimos d'uma embriagadora felicidade.
+
+
+
+
+XX
+
+CONCLUSÃO
+
+
+Tres mezes depois o altar havia santificado o mutuo amor de Luiz e
+Magdalena.
+
+O ninho de Jorge de Macedo abrigava mais uma ave; o bondoso capitalista,
+tinha, agora, em vez d'uma filha, dous filhos queridos.
+
+Era duplamente feliz.
+
+Luiz tomára sobre si todo o pezo e toda a responsabilidade dos negocios
+do honrado negociante, para que este descançasse, e desempenhava-se de
+tal modo de seus encargos, que nada havia por que merecesse uma censura.
+
+Magdalena era feliz e muito feliz.
+
+Ainda hoje, os dous esposos, se reunem em cada tarde no caramanchão de
+maracujás do lago da chácara, no Botafogo, e ahi passam horas e horas,
+enlevados nas dulcissimas venturas da sua vida, que tem mais do céo do
+que da terra.
+
+Ha alli um novo Eden.
+
+Americo sahiu do Rio de Janeiro no dia immediato áquelle em que foi
+forçado a desafivelar a mascara com que pretendia encobrir a sua
+ambição; n'aquelle em que foi expulso da casa do homem a quem devia
+muito, e ninguem mais o viu ou deu noticias d'elle.
+
+Corria muito vagamente que andava desgraçadissimo na America do Norte,
+dizendo-se que fugira para lá.
+
+Não sei. Talvez.
+
+O cabinda, coitado, morreu de velhice, exalando o ultimo alento nos
+braços de Jorge, de Luiz e de Magdalena, que lhe cercavam o leito e o
+não desampararam nos dias de enfermidade.
+
+Lembrou-se, no momento extremo, da sua parceira e dos filhos queridos, a
+quem, dizia, se ia juntar, mas desprendeu a alma do involucro terrestre,
+beijando risonho, como o justo que antevê o céo, as mãos dos seus tres
+amigos, e dizendo como que em signal de agradecimento, pelo modo
+distincto e humanitario com que sempre foi tratado:
+
+--Bem haja, meu senhor! O negro lá ha-de dizer á sua senhora que o
+branco fez o que prometteu. Tratou bem o negro e fez feliz a Filha do
+Cabinda.
+
+
+FIM
+
+
+Porto--_Imprensa Portugueza_, Bomjardim, 181.
+
+_N. B. A propriedade d'este romance no Brazil, pertence a Antonio
+Teixeira Carneiro de Campos, do Rio de Janeiro._
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Filha do Cabinda, by Alfredo Campos
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A FILHA DO CABINDA ***
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
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+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+Foundation
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+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
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+ Dr. Gregory B. Newby
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+Literary Archive Foundation
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
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+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+works.
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+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
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+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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+The Project Gutenberg EBook of A Filha do Cabinda, by Alfredo Campos
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Filha do Cabinda
+
+Author: Alfredo Campos
+
+Release Date: June 29, 2007 [EBook #21961]
+
+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A FILHA DO CABINDA ***
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+Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+<div class="ficha_tecnica">
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+<h1>A filha do cabinda</h1>
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+<p>PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA, BOMJARDIM, 181.</p>
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+<br />
+<p class="author">ALFREDO CAMPOS</p>
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+<h2>A FILHA DO CABIDA</h2>
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+<h3>ROMANCE ORIGINAL</h3>
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+<p>PORTO<br /> EDITORES--PEIXOTO &amp; PINTO JUNIOR<br /> 119, Rua do Almada, 123<br /> 1873</p> </div>
+
+<div class="dedicatoria"> <p>A SEUS</p>
+
+<p>ILLUSTRISSIMOS E EXCELLENTISSIMOS TIOS</p>
+
+<p>JOSÉ D'ALMEIDA CAMPOS</p>
+
+<p>ANTÓNIO D'ALMEIDA CAMPOS E SILVA</p>
+
+<p>e</p>
+
+<p>JOAQUIM D'ALMEIDA CAMPOS</p>
+
+<p>OFFERECE</p>
+
+<p>O auctor.</p> </div> <br /> <br /> <div class="carta"> <p class="direita">Ex.<sup>mos</sup> Tios e amigos.</p>
+
+<p>A «filha do cabinda» é uma recordação singellissima de muitas, que
+conservo, de alguns annos passados, na formosa capital do vasto Imperio
+do Brazil.</p>
+
+<p>Transcrevi-a do livro da minha memoria, para este que aqui vai,
+singello, despretencioso, sem flores e sem perfumes, unicamente no
+intuito de matar horas d'enfado e dias de melancholia.</p>
+
+<p>Resolvido agora, e quem sabe se imprudentemente, a fazel-a correr mundo,
+nas azas da publicidade, lembrou-me collocar os seus nomes na primeira
+pagina, como pequenissima significação da muita estima e da muita
+gratidão, que devo a cada um.</p>
+
+<p>Bem sei que muito fica da divida por saldar, mas quero, ao menos,
+mostrar-lhes, d'este modo, que não esqueço o muito que teem a haver dos
+sentimentos do meu coração.</p>
+
+<p>Acceitem, pois, a offerta, que é singella, e avaliem-na pela intenção e
+não pelo que é.</p>
+
+<p>Sempre</p>
+
+<p class="direita">Sobrinho amigo e agradecido</p>
+
+<p class="direita"><span class="smallcaps">Alfredo Campos.</span></p> </div>
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+<h2>A FILHA DO CABINDA</h2>
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+<h2>A FILHA DO CABINDA</h2>
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+<h3>I</h3>
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+<p>A filha do cabinda é formosa como a visão d'um sonho celeste; meiga como
+o canto do sabiá, poisado nos galhos do cajueiro, e ingenua como a
+virgem da innocencia.</p>
+
+<p>O cabinda é negro, e negro de raça fina, mas é branca a sua filha, e
+filha, porque o velho escravo quer muito á senhora moça, que elle
+beijava e embalava no seu collo, quando era pequenina.</p>
+
+<p>Revê-se n'ella, e n'ella se mira doido d'affeição o pobre negro, e tanto
+a gravou na ideia, tanto a traz no coração, que chega até a esquecer-se
+do trabalho, sujeitando-se ás reprehensões do seu senhor, para,
+insensivelmente, se entregar a scismar n'ella, que é tão bondosa, tão
+meiga e tão carinhosa para elle; n'ella, que, por uma destas illusões,
+d'estas miragens, d'estas doidices, d'um grande affecto e d'uma viva
+sympathia, chega a julgar realmente sua filha.</p>
+
+<p>E <i>filha do cabinda</i> lhe chama elle.</p>
+
+<p>O negro vivia na sua terra, alegre e feliz; lá tinha seus paes, a sua
+companheira, os filhos e a sua familia.</p>
+
+<p>Um dia, não sabe como, achou-se com todos elles dentro d'um navio, que
+começou a affastal-o, cada vez mais, da sua patria. Passou assim algum
+tempo, entre as duas immensidões, o mar e o céo, sem sentir saudades da
+sua terra, porque levava ainda ao seu lado aquelles que lhe davam
+alegria. Depois, pozeram-o de novo em terra, levaram-o a elle e aos seus
+companheiros para uma grande casa, onde os brancos começaram a disputar
+o preço por que haviam de compral-os.</p>
+
+<p>O cabinda foi vendido e quizeram leval-o.</p>
+
+<p>Leval-o? E a sua companheira? e os filhos? e seus paes?</p>
+
+<p>Esses, foram vendidos tambem, e cada um a seu senhor.</p>
+
+<p>Tristissimo era o negocio da escravidão!</p>
+
+<p>Reagiu o negro, quando o quizeram separar dos seus, e quando tambem os
+separavam d'elle.</p>
+
+<p>Teve, então, saudades da sua patria, terriveis, sem duvida, porque eram,
+ao mesmo tempo, saudades da sua liberdade.</p>
+
+<p>Fizeram-lhe, porém, estancar as lagrimas angustiosas as ameaças d'um
+açoite, e o Cabinda lá partiu, sem esperanças de tornar a vêr os filhos
+queridos, que nem sequer beijara na despedida, a esposa, que elle
+adorava com um culto rude, mas sincero, e os paes, que elle respeitava
+com a sua veneração selvagem.</p>
+
+<p>Partiu, mas ainda assim, boa estrella o guiava, porque, cortando-lhe as
+affeições mais caras da sua vida, ao menos o levaram para onde tinha de
+ser estimado, quasi como pessoa de familia, e não como escravo e negro
+que era.</p>
+
+<p>Em casa do seu senhor foi elle encontrar uma creancinha de dois annos,
+que tinha uns olhos lindos, os cabellos como os olhos, negros da côr do
+abysmo, e um rosto como o dos anjos d'um sonho de poeta, como o das
+fadas boas das visões nocturnas das mattas virgens.</p>
+
+<p>A convivencia foi-o affeiçoando áquella creancinha, que lhe sorria tão
+innocentemente; que lhe estendia, alegre, os bracinhos mimosos, e,
+brincando, o abraçava carinhosamente pelas pernas.</p>
+
+<p>O negro, quando via a pequenina Magdalena, sentia não sei que doçuras
+n'alma, não sei que effluvios no coração, mas que deviam ser
+gratissimos, porque os olhos desannuviavam-se-lhe logo das sombras de
+tristeza, que os velavam sempre, e os labios desatavam-se-lhe n'um
+sorriso de sincero e intimo jubilo.</p>
+
+<p>E tomava-a no collo, sentava-se com ella á sombra das copadas
+tamarindeiras ou das laranjeiras em flor, cobria-a de beijos e affagos,
+entretecia-lhe corôas de jasmins e martyrios, e olhava-a, assim n'uma
+especie de adoração sublime e concentrada, talvez com a recordação nos
+filhinhos, que perdera, e que eram tambem pequeninos como a mimosa
+Magdalena.</p>
+
+<p>Tinha dez annos a filha do cabinda, quando perdeu sua mãe.</p>
+
+<p>Ficavam-lhe os affagos d'um pae estremoso e os carinhos do negro
+affeiçoado; mas que valia tudo isso? que valia a gotta d'agua para tão
+grande sêde? o atomo em face da immensidade desfeita?</p>
+
+<p>O negro, que era dedicado á sua senhora, tanto como á pequenina
+Magdalena, esqueceu-se da sua condição de escravo, e arrojou-se, em um
+impeto de dôr e d'affecto, a entrar no quarto da moribunda, poucos
+momentos antes d'ella despedir o derradeiro alento.</p>
+
+<p>Estava junto ao leito Jorge de Macedo, que era o seu senhor, embebendo
+em beijos lacrymosos o rosto da innocente, que ia em breve ser o seu
+unico encanto n'este mundo.</p>
+
+<p>Os dois, pae e filha, assistiam angustiados ao desabamento d'aquelle
+edificio da sua ventura.</p>
+
+<p>O cabinda entrou como perdido, olhou para Jorge com receio, com amor
+para Magdalena e foi ajoelhar-se, de mãos postas, junto ao leito da
+enferma, chorando como creança.</p>
+
+<p>--Anda cá, cabinda, disse a moribunda, com voz amortecida, ao vêl-o de
+joelhos, alli, ao pé d'ella. Anda cá; vem vêr como se vai para o céo!...</p>
+
+<p>--Que fazes, atrevido! exclamou Jorge a meia voz.</p>
+
+<p>--Ah! meu senhor! a mãe do escravo é um anjo, e o negro quer despedir-se
+da sua senhora!</p>
+
+<p>--Sahe, cabinda!</p>
+
+<p>--Oh! não! não! supplicou este. O negro é escravo, mas o negro tem
+coração!</p>
+
+<p>E abraçava a roupa do leito para abraçar a moribunda, chorava como
+doido, soluçando em desespero e supplicando com ardor:</p>
+
+<p>--A mãe do cabinda ha-de deixar a sua filhinha e o seu parceiro, a
+chorarem saudades como o bemtevi do matto? Não, não nos deixes, mãe
+senhora!</p>
+
+<p>--Papae, atalhou Magdalena, affagando as faces de Jorge, humedecidas
+pelas lagrimas; o cabinda chora, não trates mal o cabinda, que é nosso
+amigo.</p>
+
+<p>--Oh! sim, sim! acudiu o preto. O cabinda quer muito á sua filhinha,
+quer muito á sua senhora e muito ao seu senhor! O negro tem alma e não
+tem familia a quem a dar. É, como a palmeira do morro, que não tem
+coqueiro ao lado.</p>
+
+<p>--O negro é bom, meu Jorge, disse a doente a custo. E se te peço muito
+que fiques sendo a mãe da nossa Magdalena, não te esqueças tambem de que
+o cabinda a trouxe ao collo muitas vezes, quando era mais pequenina.</p>
+
+<p>--Não esqueço, minha Beatriz! soluçou Jorge.</p>
+
+<p>--E elle não ha-de ser mais nosso escravo, não, papae?</p>
+
+<p>--Não, minha filha.</p>
+
+<p>--Mas o cabinda, atalhou o negro, não quer deixar a casa do seu senhor,
+não quer viver longe da sua filha.</p>
+
+<p>--Não, não nos has-de deixar, que nós somos todos teus amigos, acudiu a
+creança, affagando o escravo, emquanto Jorge dizia comsigo, no intimo da
+consciencia:</p>
+
+<p>--O negro tem a côr do urubú, mas tem alma de pomba rola!</p>
+
+<p>Horas depois, Beatriz, a esposa de Jorge, tinha entregado a alma ao
+Creador.</p>
+
+<p>Jorge chorava, para um lado, profundamente ferido no coração, as dôres
+da sua viuvez. O negro e Magdalena soluçavam, abraçados, a perda da
+bondade da que tanto era mãe d'uma como anjo do outro.</p>
+
+<p>Jorge conheceu, então, até onde ia a dedicação do seu escravo, a
+grandeza da alma do negro, e começou a olhal-o, a tratal-o e a
+querer-lhe, muito mais como a um membro da sua familia, do que como a um
+ente, geralmente visto com desdem, com indifferença e até com desprezo.</p>
+
+<p>O cabinda perdera a sua familia, de que tão barbaramente o separaram,
+mas havia ganho muito pela sua dedicação.</p>
+
+<p>Bastavam as festas e os sorrisos de Magdalena, de quem elle dizia
+sempre:</p>
+
+<p>--Agora não tem mãe, é filha do cabinda!</p>
+
+
+
+
+<h3>II</h3>
+
+
+<p>O Botafogo é, sem duvida, o mais formoso dos formosos arrabaldes do Rio
+de Janeiro.</p>
+
+<p>As aguas do vasto Guanabára, que, levemente onduladas, beijam
+constantemente a fimbria da purpura real da grande cidade, formam,
+n'aquelle retiro, um como lago de sufficiente superficie, que é orlado,
+em grande parte da circumferencia, de <i>chacaras</i> magestosas, com
+vistosos e immensos jardins, vegetação opulenta e luxuriante, e
+explendidos e poeticos panoramas.</p>
+
+<p>Em 1859, Jorge de Macedo, negociante de café em grande escala, e, ao
+mesmo tempo, abastado capitalista, vivia no Botafogo, em um formoso
+palacete, circumdado de lindissimos jardins.</p>
+
+<p>Magdalena, a filha do cabinda, n'esta epocha, em que principia a nossa
+narrativa, tinha desenove annos, e era a fada d'aquelle arrabalde do Rio
+de Janeiro.</p>
+
+<p>O cabinda estava já entrado em edade, mas vigoroso ainda, e sempre
+dedicado.</p>
+
+<p>Occupava-se o negro da limpeza das parasitas, que tentavam envadir as
+aleas dos jardins, e em algum serviço de Magdalena, sendo, de resto,
+tractado com toda a estima e amisade.</p>
+
+<p>Magdalena exercia a profissão da caridade, não cuidando senão de
+dispensar a seu pae os carinhos e os affagos, que havia perdido na sua
+adorada Beatriz, e em dispensar, dos meios, que lhe abundavam, esmolas
+aos desgraçados e pobres.</p>
+
+<p>Jorge dedicava-se aos seus negocios e á felicidade de sua filha, que
+elle adorava muito, fanaticamente até.</p>
+
+<p>A chacara de Jorge de Macedo era um ninho de delicioso conforto, d'uma
+belleza invejavel, aonde não entrava nunca a sombra d'um desgosto, nem
+uma nuvem de desharmonia, pequenina que fosse.</p>
+
+<p>Alli, senhores e escravos, brancos e negros, todos viviam em perfeita
+alegria.</p>
+
+<p>Dos ultimos, porém, o mais querido, o mais estimado, o mais predilecto,
+sobre tudo de Magdalena, era inquestionavelmente o cabinda.</p>
+
+<p>O negro tambem não abusava, e, diga-se a verdade, bem merecia elle de
+todos, mas de ninguem tanto, como da que elle chamava, e queria, e
+estimava como filha.</p>
+
+<p>Era por uma tarde de maio, formosa e explendida. O sol doura, ainda, com
+os seus raios ardentes, os cumes do Pão d'Assucar, da Tijuca, do
+Corcovado, e a cupula de folhagem variada das arvores gigantes, que
+vestem os montes em volta do Rio de Janeiro.</p>
+
+<p>Uma brisa, suave, mas tepida, empregnada de perfumes de flôres e de
+fructos, perpassa, branda, para o norte, agitando as palmas dos
+coqueiros e as largas, compridas e pendidas folhas das bananeiras e das
+palmeiras.</p>
+
+<p>O sabiá trina ainda os seus modilhos deliciosissimos entre a ramagem
+mimosa d'uma jaboticábeira carregada de fructos, e o beija-flôr
+pequenino anda na sua peregrinação, voluvel sempre, e sempre rapido,
+deixando beijos nas flôres brancas do jasmineiro odorifero, ou nas
+flôres symbolicas do maracujá, que veste as paredes e os caramancheis
+dos jardins.</p>
+
+<p>O céo está sereno e limpido.</p>
+
+<p>Ao fundo da chacara de Jorge de Macedo ha um pequeno, mas formoso lago,
+coberto d'agua, que cáe, em monotono murmurio, da bocca d'um tritão de
+marmore fino.</p>
+
+<p>Por traz, encostado ao muro, e voltado ao lago, ha um vasto caramanchel
+formado de tranças de cipós e de maracujás, carregadas de flôres e
+fructos.</p>
+
+<p>Tem no meio uma meza de granito branco, e em volta assentos inglezes de
+madeira e ferro, talhados de modo que dêem ao corpo toda a possivel
+commodidade.</p>
+
+<p>A atmosphera tem a côr avermelhada dos raios do sol, que desce a
+esconder-se no mar, e faz brilhar, com côres phantasticas, as azas, meio
+diaphanas, das borboletas iriadas, que volitam dos cafezeiros para as
+goiabeiras, e d'estas para os ramos dos pés d'araçás.</p>
+
+<p>Magdalena, a formosa filha do cabinda, jantou e desceu aos jardins;
+andou só, pensativa, ora alegre, ora rapida, ora vagarosa, de canteiro
+em canteiro, colhendo pequeninas flôres, que ia juntando entre as
+paginas d'um livro, mimosamente encadernado.</p>
+
+<p>Depois, lançou, atravez da gradaria de ferro, um olhar ao vapor da
+carreira, que passava em frente, atravessando o mar para o Rio,
+volveu-se passado um instante, e seguiu por uma alea, orlada de grandes
+jambeiros e pés de grumixama, em direcção ao lago, que jazia no fundo da
+chacara.</p>
+
+<p>Magdalena era formosa, d'esta formosura, que desperta um culto sincero,
+uma adoração em que não entra um atomo de sentimentos menos dignos,
+d'esta formosura, em que se espelha e revela a elevação do espirito, a
+bondade d'alma e a magnanimidade do coração.</p>
+
+<p>Aquelles olhos negros, scintillantes, orlados d'uma tenue sombra, e
+aquelle rosto, tão expressivamente angelico, estavam mostrando as flôres
+de ventura, em que se desataria o seu coração e a sua alma, para aquelle
+que um dia tivesse o supremo goso de a possuir.</p>
+
+<p>Era magestosa no andar, elegante de fórmas, e simples no vestir, mas
+d'esta simplicidade, que dá realce, que encanta, attráe e enleva.</p>
+
+<p>Como lhe fica bem aquelle vestido alvissimo, de fina cambraia, liso,
+desguarnecido, apertado apenas na cintura delicada por um grande laço de
+sêda azul clara!</p>
+
+<p>Que belleza no modesto penteado dos seus negros cabellos, fartos e
+setinosos, formando apenas duas compridas tranças, que, cahindo-lhe
+pelas costas, se prendem, pela extremidade, uma á outra, ainda por um
+laço azul pequenino!</p>
+
+<p>As pombas rolas, que andam aos pares, fallando amores na sua linguagem
+mysteriosa, levantam vôo com a approximação de Magdalena, que as segue
+depois com a vista, até as perder de todo; mas as borboletas de côres
+variadissimas, seguem-a contentes, como se já a conhecessem de ha muito,
+e andam inquietas, em volta d'ella, ora subindo, ora descendo, como que
+desejando beijal-a, mas temendo fazel-o, receiando maculal-a.</p>
+
+<p>E ella lá vae vagarosa e muda, lançando, de quando em quando, um olhar
+ás flôres, que leva prêsas nas folhas do livro, talvez bem querido!</p>
+
+<p>Chegou assim ao lago, debruçou-se n'elle como procurando vêr os
+peixinhos dourados, que o habitavam, e foi sentar-se encostada á meza de
+pedra, n'um dos bancos do caramanchel.</p>
+
+<p>Era expressivo o seu rosto, porque estava desenhando os desejos que
+sentia dentro de si, e que ella mesma não podia comprehender.</p>
+
+<p>Desejos vagos, mysteriosos, indefiniveis.</p>
+
+<p>Conservou-se absorta durante dois minutos, mas como que acordando,
+depois, d'um sonho que a prendia, tirou as flôres d'entre as folhas do
+livro, collocou-as a um lado e pôz-se a lêr alto, com a sua voz meiga,
+seductora e angelical.</p>
+
+<p>Era um livro de versos, era um livro d'amor, o que ella lia!</p>
+
+<p>E tão prêsa estava com as phrases, que ia repetindo, tão scismadoramente
+como se em verdade as sentisse; tão distrahida estava de tudo, de todos
+e de quanto a cercava, que nem ouvia os gorgeios compassados d'um
+bemtevi, que a sua voz harmoniosa havia desafiado, occulto entre as
+folhas do ramo d'uma grande mangueira, que quasi se debruçava sobre o
+lago.</p>
+
+<p>Chegou a um ponto da leitura e deteve-se suspirando. Depois repetiu
+ainda a quadra que acabára de recitar, e que dizia assim:</p>
+
+<p class="poesia"> Suspiras, alma, n'um anceio languido?
+ Ninguem te affaga, perfumada flôr?
+ Ao sol as rosas da manhã desdobram-se,
+ E a brisa affaga-as com carinho e amor!</p>
+
+<p>E fechou o livro e ficou a scismar, com os olhos negros e formosos,
+cravados, vagamente, n'um ponto do horisonte.</p>
+
+<p>Passados instantes, encostou a face á mão, como que cedendo ao pêso d'um
+somno voluptuoso, e por fim deixou cahir o braço sobre a meza e o rosto
+sobre o braço, n'uma especie de somnolencia, sonhando, talvez, com as
+phrases do livro, que havia acabado de lêr, e que, sem duvida, a
+impressionaram ou lhe fallarám á alma.</p>
+
+<p>As borboletas d'azas douradas, lá andavam em volta d'ella, como que
+embalando-a nos sonhos, que deviam esmaltar-lhe a somnolencia.</p>
+
+<p>O sol havia-se já escondido o bastante para deixar a terra envolta nas
+sombras do crepusculo.</p>
+
+<p>E a não serem os murmurios da brisa e os queixumes da agua, cahindo no
+lago pela bocca do tritão, nada mais se ouvia n'aquella hora da tarde,
+no retiro aonde repousava Magdalena.</p>
+
+<p>De subito começou a fazer-se sentir um leve ruido. Eram as folhas seccas
+do chão, gemendo debaixo dos pés d'alguem, que se aproximava.</p>
+
+<p>Quem seria?</p>
+
+<p>As aves receiosas deixavam os seus asylos, architectados nos ramos das
+arvores frondosas, ante a passagem do ser que se aproximava.</p>
+
+<p>Um minuto depois, um negro surgia junto ao lago.</p>
+
+<p>Era o cabinda.</p>
+
+<p>O preto deu com os olhos em Magdalena, parou e susteve a respiração, com
+mêdo de a acordar, mas nos olhos e nos labios brilhou-lhe logo um
+sorriso de verdadeira alegria.</p>
+
+<p>--Oh! exclamou elle baixinho, é ella, a filha do cabinda!</p>
+
+<p>E foi, pé ante pé, collocar-se de joelhos, junto á meza de pedra, em
+posição d'onde melhor podia contemplar a sua filha, e assim ficou sem
+despregar os olhos d'ella.</p>
+
+<p>Era uma loucura aquella affeição do negro!</p>
+
+
+
+
+<h3>III</h3>
+
+
+<p>O cabinda permanecia alli, como o verdadeiro crente, em face do altar do
+Christo crucificado.</p>
+
+<p>Magdalena prendia-lhe os sentidos, absorvia-o completamente.</p>
+
+<p>A cada respiração, a cada ondulação do seio da virgem, extremecia elle e
+abria mais os seus grandes olhos, n'uma expressão alternativamente de
+receio e de esperança, que ella acordasse.</p>
+
+<p>Por fim, Magdalena estremeceu e levantou de subito o rosto formosissimo.
+O seu olhar meigo e deslumbrante foi encontrar o negro ajoelhado, com os
+olhos pregados n'ella.</p>
+
+<p>--Ah! és tu cabinda?</p>
+
+<p>--O negro, senhora moça!</p>
+
+<p>--E que fazias ahi de joelhos?</p>
+
+<p>--Olhava para a minha filha, que dormia...</p>
+
+<p>--E que sonhava tambem, cabinda. Tu nunca sonhas, quando dormes?</p>
+
+<p>--Sonhar? repetiu o cabinda. Á noite, quando o negro se deita, e faz
+escuro em volta d'elle, o cabinda vê a sua senhora, que foi para a terra
+do Pai dos brancos; vê a senhora moça muito contente, com a cabeça cheia
+de rosas lindas, e o senhor a dar muitos beijos n'ella. E o cabinda
+lembra-se, tambem, dos seus filhos e da sua companheira, e chora de
+noite lagrimas no escuro.</p>
+
+<p>--Coitado!</p>
+
+<p>--Oh! mas o cabinda é alegre, como o jacaiol da floresta, quando a sua
+filha ri e falla ao negro!</p>
+
+<p>--Pois olha, meu amigo, estou agora muito triste... muito!...</p>
+
+<p>E Magdalena ficou como que embebida n'uma ideia que a dominava, com o
+rosto em visivel expressão de melancholia.</p>
+
+<p>--E que tem a senhora moça? perguntou o negro com anciedade e receio. O
+cabinda não a quer triste; as arapongas que chorem, quando o caçador as
+ferir.</p>
+
+<p>--Nem eu sei o que tenho. Vamos andando que eu conto-t'o.</p>
+
+<p>E tornando a prender as flôres entre as folhas do livro, seguiu,
+acompanhada pelo negro, uma das aleas oppostas áquella por onde tinha
+chegado ao lago.</p>
+
+<p>Magdalena ia vagarosa e pensativa; o negro, ao lado d'ella, caminhava
+abstracto de tudo, sem vêr mais nada.</p>
+
+<p>Que magestoso quadro aquelle!</p>
+
+<p>Magdalena era o anjo meigo e deslumbrante, da mocidade cheia
+d'explendores, a que sorriem todas as esperanças, e para o qual todos os
+horisontes são vastos, largos e floridos!</p>
+
+<p>O cabinda era o velho escravo, fiel e dedicado, capaz de tudo para
+salvar a vida dos seus senhores, saltando de contente com dois affagos e
+humilhando-se submisso á menor reprehensão.</p>
+
+<p>Os dois caminhavam a par.</p>
+
+<p>Era n'essa hora mysteriosa dos esponsaes do dia com a noite.</p>
+
+<p>Por sobre as suas cabeças arqueava-se, verdejante, o docel das
+jaqueiras, d'um lado, e dos ramos frondosos das mangueiras, do outro. As
+aves já se haviam retirado aos gratos asylos.</p>
+
+<p>--Tu sabes o que são saudades, cabinda? perguntou Magdalena ao negro.</p>
+
+<p>--Saudades? repetiu elle, scismando na resposta.</p>
+
+<p>--Sim.</p>
+
+<p>--Sei, senhora moça. É ter o negro a alma a doer muito, como á pomba
+rola, quando lhe tiram os filhos, ou o parceiro do ninho do matto.</p>
+
+<p>--É isso. Pois olha, eu tenho saudades, e não sei de quê. Sinto a alma a
+pedir-me uma coisa, que eu não comprehendo, e arde-me o coração em
+desejos loucos, mas desconhecidos. Quero, e não sei o que quero; desejo,
+e pergunto o que desejo. Não me falta nada, porque, graças a Deus, sou
+rica; não ha vontade nem capricho que o papae me não satisfaça, e, olha,
+apesar de tudo, não vivo contente. De tarde, sempre que chega esta hora,
+sinto um peso na alma, que eu não sei de onde vem, nem para quê. De
+noite, então de noite, sonho muito e tenho saudades d'esses sonhos
+quando acordo. Vejo ao meu lado um rosto que me sorri, uns labios que me
+dizem coisas que ninguem ainda me disse, coisas bonitas, doces e
+encantadoras; umas mãos que me fazem festas, que me alisam os cabellos e
+m'os enfeitam de flores, e uns olhos que me olham muito, e que penetram
+até dentro do meu coração. Mas depois acordo, desapparece o sonho,
+vejo-me só, e tenho saudades, cabinda...</p>
+
+<p>O negro, se bem que nada comprehendera de tudo quanto lhe dissera
+Magdalena, é certo que o havia adivinhado, porque acudiu rapidamente,
+apenas ella acabou:</p>
+
+<p>--É a alma do branco que vem fallar á alma da senhora moça.</p>
+
+<p>--Do branco? perguntou Magdalena, com ar de quem não comprehendia.</p>
+
+<p>--Do branco, sim. A onça do cannavial e o jabirú das lagôas teem o seu
+parceiro, como tinha o cabinda, quando veio da sua terra. E a senhora
+moça, vê o branco nos sonhos, como o cabinda vê a sua parceira e os
+filhos, mas o branco não apparece.</p>
+
+<p>--Não te entendo, cabinda, acudiu Magdalena, scismando no que o negro
+lhe dizia.</p>
+
+<p>--O mal da senhora moça é aqui, disse o cabinda, indicando no peito o
+logar do coração. O branco que a minha filha vê á noite, quando dorme, é
+que ha de vir cural-a.</p>
+
+<p>--Como?</p>
+
+<p>--Não sei.</p>
+
+<p>--Quando?</p>
+
+<p>--Elle virá. O negro tambem tinha isso, lá, na sua terra. No matto, no
+cannavial, quando o negro andava á caça, e no rio, quando dormia dentro
+da sua canôa, o cabinda não tinha a sua parceira, mas o negro via-a
+sempre. E um dia a parceira do cabinda appareceu, e o negro não soffreu
+mais, nem tornou a chorar.</p>
+
+<p>Magdalena continuou vagarosa ao lado do negro, mas visivelmente
+melancholica e pensativa, talvez com o que elle acabava de dizer-lhe.</p>
+
+<p>Estava ella na idade em que o coração começa a desabrochar as primeiras
+flôres e a sentir os primeiros desejos. Tinha algumas vezes ouvido
+fallar d'amor ás suas amigas; vira umas alegres, tristes outras, umas
+cheias de enthusiasmo e ventura, outras soffredoras e melancholicas, e
+ella sempre indifferente a tudo, sempre sem lhes ligar outra importancia
+mais do que a que nascia da sua amisade. Nunca um homem lhe rendera uma
+fineza, nunca um homem lhe dardejára um olhar expressivo; e se algum o
+fizera, Magdalena ou não o viu ou não o comprehendeu.</p>
+
+<p>Agora, sim. Agora, as saudades de que fallava; os sonhos que lhe floriam
+ás noites, ou lhe esmaltavam o repouso, eram os traços claros dos
+desejos, que tinha na alma e no coração, de amar e ser tambem amada, de
+gozar os dulcissimos effluvios do sentimento, que lhe irrompia no peito.</p>
+
+<p>Tinham chegado assim ao terreiro, que havia na rectaguarda do palacete,
+para o qual se descia por uma escadaria de pedra, no extremo de uma
+vasta varanda.</p>
+
+<p>Jorge de Macedo estava de pé, no topo das escadas, fumando um charuto, e
+n'uma attitude de quem esperava alguem.</p>
+
+<p>Magdalena, apenas o viu, desatou a correr e exclamou:</p>
+
+<p>--Ah! o papae!</p>
+
+<p>O negro ficou só, e Jorge sorriu-se, dizendo:</p>
+
+<p>--Olha que te canças, doidinha!</p>
+
+<p>A filha do cabinda transpoz rapida o espaço que a separava de Jorge, e
+apenas se achou junto d'elle, fez dos braços um collar, com que lhe
+prendeu o pescoço, e começou a cobril-o de beijos carinhosissimos, a que
+elle correspondia em visivel expressão de jubilo e de ventura.</p>
+
+<p>Eram os beijos da flor ao tronco onde nascera! eram os affectos gerados
+pelos laços mysteriosos do sangue!</p>
+
+<p>Que beijos aquelles! que affecto se não desdobrava alli!</p>
+
+<p>--Mausinho, que me deixou hoje jantar só, queixou-se ella com fingido
+agastamento.</p>
+
+<p>--Tive muito que fazer, filha. Mas déste o teu passeio até ao lago, não?</p>
+
+<p>--Dei, papae, acompanhou-me o cabinda.</p>
+
+<p>O negro chegava n'este momento, diringindo-se a Jorge:</p>
+
+<p>--A sua benção, meu senhor!</p>
+
+<p>--Adeus, cabinda.</p>
+
+<p>--E amanhã?... perguntou Magdalena, sorrindo com intenção.</p>
+
+<p>--Amanhã...</p>
+
+<p>--É dia de festa; faz o papae annos e havemos de jantar muito alegres!
+atalhou ella.</p>
+
+<p>--Muito. E vais ter hospedes.</p>
+
+<p>--Hospedes? interrogou com curiosidade.</p>
+
+<p>--Sim. Convidei o guarda livros, e os caixeiros; vem toda a gente do
+armazem.</p>
+
+<p>--Oh! que alegria vai ser a nossa, não é verdade, papae.</p>
+
+<p>--Grande, minha filha, porque é de ti que ella vem.</p>
+
+<p>E deu-lhe um beijo, onde ia impressa a sua alma e o seu amor de pae
+extremosissimo.</p>
+
+<p>Magdalena foi, porém, a pouco e pouco, perdendo aquella alegria com que
+havia acariciado Jorge, e tornando-se pensativa, absorta, e como que
+esquecida de onde estava e com quem estava.</p>
+
+<p>O negro, do extremo opposto da varanda, tinha os olhos fitos n'ella com
+a avidez de quem parecia estar estudando-a.</p>
+
+<p>Que nuvens, embora tenues, eram as que assombravam melancholicamente
+aquelle rosto tão formoso d'aquella mulher anjo?</p>
+
+<p>Que pensamentos lhe agitavam a mente, para que soffresse aquella
+passagem suave do alegre para o triste?</p>
+
+<p>O cabinda havia-lhe dito que o branco a curaria, e ella pensava n'isso,
+lembrando-se dos hospedes que ia ter ao jantar, no dia seguinte.</p>
+
+<p>Eram as alvoradas do coração; eram os pressentimentos do que ha de vir!</p>
+
+<p>E scismando n'isso, ia esquecendo-se de tudo, quando Jorge a accordou:</p>
+
+<p>--Esqueces o piano, Magdalena?</p>
+
+<p>--Não, papae; esperava por si.</p>
+
+<p>--Vamos, então.</p>
+
+<p>--Vamos.</p>
+
+<p>E tomou a mão a Jorge, e recolheram-se ambos alegres e contentes.</p> <p> Pouco
+depois, o piano gemia, debaixo dos formosos dedos da filha do cabinda,
+uma <i>reverie</i> de deliciosissimas harmonias, d'estas que levam presas,
+nas suas azas, o espirito até ao céo.</p>
+
+<p>Jorge ouvia-a n'um extase.</p>
+
+<p>Sentado nas commodas almofadas d'uma cadeira estofada, tinha os olhos
+pregados no rosto da filha mimosa, da filha, que era o seu anjo, o seu
+encanto, a sua vida, a sua felicidade mais completa, mas alava o
+espirito ás regiões celestes, nas ondas d'aquella musica, onde, n'uma
+especie de mystificação, estava vendo a sua adorada Beatriz, a esposa
+queridissima, que a morte desapiedada lhe arrebatára tão cedo dos
+braços!</p>
+
+<p>O cabinda, no entanto, jazia no extremo da varanda, que deitava sobre o
+terreiro, dizendo comsigo a meia voz:</p>
+
+<p>--Os brancos veem amanhã; o mulato virá tambem. Cabinda, a senhora moça
+é tua filha!</p>
+
+
+
+
+<h3>IV</h3>
+
+
+<p>Vai em meio o jantar, no dia seguinte.</p>
+
+<p>A animação é completa, e viva, sincera e espontanea a alegria, que
+referve em cada conviva.</p>
+
+<p>É que alli não ha superiores nem inferiores, não ha grandes nem
+subordinados; ha uma familia festejando os annos do seu chefe estimado e
+querido, que só como pessoas de familia, olha Jorge para as que tem
+sentadas em volta da sua meza.</p>
+
+<p>Magdalena preside á festa, como o anjo bondoso e meigo d'aquelle lar,
+onde só ella é sol, que tudo aquece e vivifica, cuidando pouquissimo de
+si e tudo dos outros.</p>
+
+<p>Está esplendida de formosura! deslumbrante de encantos!</p>
+
+<p>Tem nos olhos a vivacidade de alegria intima, e os esplendores da
+belleza d'alma; no rosto a sympathia que fascina, e nos modos a doçura
+que captiva.</p>
+
+<p>Veste um vestido de sêda côr de flôr d'alecrim, simples, mas
+elegantemente enfeitado, honesta e delicadamente aberto no seio, onde
+vem cahir, pendente d'um formoso collar de pequeninas perolas, uma
+medalha cravejada de brilhantes. Os cabellos, aquelles cabellos negros,
+tão feiticeiros, pendem setinosos em lindissimos cachos, ornados apenas
+d'uma perfumada rosa branca.</p>
+
+<p>Jorge cedeu as honras da festa á filha querida, que occupa a cabeceira
+da meza, occupando elle o primeiro lugar na face direita, á direita de
+Magdalena.</p>
+
+<p>Segue-se-lhe o guarda-livros, rapaz de 25 annos, portuguez, sympathico,
+elegantemente trajado, meigo no fallar e polido nas maneiras.</p>
+
+<p>Do outro lado, em face d'estes, estão o primeiro caixeiro, mulato
+brazileiro, de rosto duvidoso, olhar que pouco lhe favorece o caracter,
+e modos apparentemente delicados, e os outros empregados do armazem, que
+não merecem menção especial.</p>
+
+<p>Falla-se alegremente; discute-se com placidez.</p>
+
+<p>Magdalena, a todos attende e não esquece nenhum. De si é que ella cuida
+pouco.</p>
+
+<p>Entre os serventes nota-se o cabinda. O negro anda entalado nas dobras
+d'uma gravata branca, cujo laço fôra feito pela sua filha, e veste uma
+roupa nova de pano preto fino. Anda doido d'alegria, ebrio com a alegria
+da sua filha.</p>
+
+<p>O negro lança todavia, de quando em quando, uns olhares de expressivo
+despreso ao mulato que janta, e volve-os depois para Magdalena, como que
+dizendo-lhe:</p>
+
+<p>--Foge d'elle!</p>
+
+<p>O guarda-livros, que se chama Luiz de Mello, e o mulato caixeiro, de
+nome Americo de Abreu, olham tambem a seu turno para Magdalena e depois
+um para o outro.</p>
+
+<p>Ella, porém, a formosa filha do cabinda, parece prestar mais attenção a
+Luiz, sem que por isso deixe de ser delicada com todos os outros.</p>
+
+<p>Os pratos teem-se succedido, os copos esvasiado algumas vezes, e tanto
+se tem comido como fallado.</p>
+
+<p>A alegria assentou-se com os convivas á meza d'aquelle festim.</p>
+
+<p>Começam as sobremezas e vão principiar os brindes.</p>
+
+<p>Magdalena é a primeira. Está porém, um pouco acanhada em presença dos
+seus hospedes porque tomando o calix, vieram colorir-lhe o rosto duas
+rosas de purissimo rubor.</p>
+
+<p>--Quero ser a primeira, disse ella, porque sou filha. Brindo aos seus
+annos, papae.</p>
+
+<p>E levou o calix aos labios, mas mal provou o vinho.</p>
+
+<p>--Acompanho a V. Ex.<sup>a</sup>, acudiu Luiz, desejando com ardor que d'aqui a
+muitos annos os possa brindar e festejar, tão alegre e tão feliz como
+hoje.</p>
+
+<p>--Do mesmo modo, repetiram os outros.</p>
+
+<p>--Obrigados, meus amigos. Agradecido, filha.</p>
+
+<p>E Jorge levou a seu turno o calix á bôcca, continuando depois:</p>
+
+<p>--Agora, Magdalena, á saude dos nossos hospedes...</p>
+
+<p>--E, ajuntou Luiz, á felicidade da filha de V. Ex.<sup>a</sup>, fazendo, todos nós,
+sinceros e ardentes votos, para que um bom anjo a proteja sempre, a
+ella, que nos recebe aqui como irmã nossa, e irmã muito affectuosa.</p>
+
+<p>Magdalena tornou a ruborisar-se, olhando para Luiz com olhos de
+reconhecimento, e respondendo-lhe:</p>
+
+<p>--Obrigada, meus amigos. Faço o que devo e menos do que merecem.</p>
+
+<p>--Á felicidade de V. Ex.<sup>a</sup>, brindaram todos.</p>
+
+<p>--Obrigado, agradeceu Jorge pela filha.</p>
+
+<p>E o jantar seguiu, e os brindes continuaram.</p>
+
+<p>Luiz olhava cada vez mais para Magdalena, e é certo que encontrava
+sempre os olhos d'ella pregados nos seus.</p>
+
+<p>Americo analysava aquillo, e o cabinda analysava o mulato.</p>
+
+<p>No entanto, a alegria ia ganhando de intensidade, porque os convivas
+d'aquelle festim intimo e familiar de Jorge e sua filha, iam perdendo,
+sem sahirem dos limites do respeito, um resto de acanhamento que a
+franqueza do capitalista e a bondade da filha do cabinda não poderam de
+todo dissipar.</p>
+
+<p>Os negros e serventes, tinham por sua vez festa no aposento destinado á
+sua refeição.</p>
+
+<p>O cabinda, porém, lá chegava, de quando em quando, para, com a sua
+prudencia, e digamos mesmo, bom senso, impedir excessos e pôr obstaculos
+a abusos.</p>
+
+<p>Estava a terminar o jantar. Já se fallava muito e nada se comia.</p>
+
+<p>Jorge levantou-se então, e, tomando uma garrafa de finissimo vinho do
+Porto, dirigiu-se aos seus convidados:</p>
+
+<p>--Vamos ao ultimo brinde.</p>
+
+<p>E encheram-se os copos.</p>
+
+<p>--Bebo, não só á saude e á prosperidade d'aquelles que chamei hoje a
+minha casa, como pessoas a quem estimo e considero, mas bebo tambem á
+saude das suas familias ausentes.</p>
+
+<p>--Agradecidos, senhor, accudiram todos.</p>
+
+<p>--A sua mãe, senhor Luiz, brindou Magdalena.</p>
+
+<p>--Mil vezes grato, minha senhora, respondeu elle, vivamente
+impressionado.</p>
+
+<p>--Agora, para de todo terminarmos esta festa, proseguiu Jorge, e d'ella
+ficar uma lembrança aos amigos, que aqui tenho em volta de mim,
+lembrança tão grata, quão grande foi a alegria que me porporcionaram,
+declaro ao senhor Luiz de Mello e ao senhor Americo d'Abreu que deixam,
+desde este dia, de ser, um, meu guarda-livros, e meu caixeiro o outro,
+para se considerarem meus socios nas transacções da minha casa. Não
+esqueço os outros, que trabalham para a minha prosperidade, e fica desde
+já o meu socio e amigo Luiz de Mello, encarregado de lhes augmentar os
+ordenados. Minha filha festejou-me os annos, collocando-os em volta
+d'esta meza, eu commemoro-os d'este modo, esperando que recolherão assim
+mais contentes.</p>
+
+<p>--Como é bom, papae! murmurou Magdalena.</p>
+
+<p>Houve então uma verdadeira chuva de agradecimentos, que é desnecessario
+pintar, e da alegria passou-se ao enthusiasmo, quasi ao delirio.</p>
+
+<p>Luiz levantou-se pallido e tremulo de commoção, mas extremamente
+sympáthico, e dirigiu-se a Jorge:</p>
+
+<p>--Se V. Ex.<sup>a</sup> me confunde com a grandissima distincção, com que acaba de
+honrar-me, chamando-me seu socio, por muitos titulos me honra mais, e
+mais me confunde ainda, dando-me o nome de amigo, para a conservação e
+engrandecimento do qual, não deixarei nunca de empregar todos os meus
+esforços.</p>
+
+<p>--Obrigado, respondeu Jorge, apertando-lhe a mão.</p>
+
+<p>E dispunha-se a deixar a meza.</p>
+
+<p>N'este momento, porém, entrava o cabinda, trazendo pela mão uma negrinha
+de 10 annos, que o negro foi apresentar-lhe.</p>
+
+<p>--Que é isso, cabinda?</p>
+
+<p>--A Belmira traz ao seu senhor as flôres dos negros, porque o cabinda e
+os seus parceiros tambem festejam os annos do pae da senhora moça,
+respondeu o negro, em quanto a pretinha offerecia a Jorge um lindissimo
+ramo de mimosas flôres.</p>
+
+<p>--Obrigado, Belmira, obrigado, cabinda, disse o capitalista, affagando a
+creança. E tu, Magdalena, ficas encarregada de ir agradecer a todos, em
+quanto vamos para o jardim esperar o café.</p>
+
+<p>--Como és nosso amigo, cabinda! disse Magdalena.</p>
+
+<p>E foi assim que terminou o jantar.</p>
+
+<p>Jorge e os convivas desceram para o jardim.</p>
+
+<p>Magdalena foi agradecer em nome de seu pae a lembrança dos escravos.</p>
+
+<p>O cabinda seguia-a com os olhos, a faiscarem alegria, gritando como
+doido:</p>
+
+<p>--O branco veiu, senhora moça; o branco é bom e gosta da minha filha!</p>
+
+<p>Americo, descendo para o jardim, approveitava um momento, em que só Luiz
+podia ouvil-o, para lhe dizer, com certo ar de cynismo;</p>
+
+<p>--Temos ambos igual quinhão no negocio: agora veremos quem leva a filha!</p>
+
+
+
+
+<h3>V</h3>
+
+
+<p>Pouco depois era servido o café.</p>
+
+<p>Jorge e Americo, tomavam-o, conversando sentados em duas pittorescas
+cadeiras de bambús, á entrada de um formoso caramanchel de trepadeiras
+floridas.</p>
+
+<p>Os caixeiros mais novos passeiavam pelo jardim e pela chacara, gosando a
+liberdade, que lhes era concedida, desforrando-se da prisão quotidiana,
+e do serviço quasi aturado do armazem.</p>
+
+<p>Magdalena, a formosa filha do cabinda, andava de canteiro em canteiro,
+mostrando a Luiz de Mello as suas flôres; apontando, deslumbrante de
+candidez, as particularidades de cada uma, a idade e a procedencia, com
+a convicção de quem conhecia alguma coisa de botanica, e um tanto
+orgulhosa dos cuidados, que empregava com as predilectas suas irmãs.</p>
+
+<p>Luiz segui-a e ouvia-a como fascinado, parecendo-lhe mais que estava
+passando por um d'estes magicos sonhos de delicioso encanto, que tantas
+vezes embalam a imaginação juvenil, do que assistindo á realidade de vêr
+e ouvir ao seu lado um anjo, esplendoroso d'encantos, e suavissimo
+d'harmonia nas fallas.</p>
+
+<p>--Olhe, dizia Magdalena alegre, radiante e sempre formosa; olhe este pé
+de <i>suspiros</i>. Não é tão, bonito?</p>
+
+<p>--Formoso, minha senhora.</p>
+
+<p>--E estas <i>saudades</i>, não são tão lindas?</p>
+
+<p>--Muitissimo. Saudades... as flôres symbolicas dos que soffrem; dos que,
+como eu, longe da patria, aonde deixaram a familia, vivem na esperança
+de lá voltar, sem terem, comtudo, n'ausencia d'ella, um affago, que lhes
+adoce a aridez do trabalho; um carinho, que lhes lisongeie o sentimento,
+um consolo n'este correr da existencia, isolado, monotono e, por muitas
+vezes, triste.</p>
+
+<p>--O senhor Luiz tem muitas saudades da sua terra, tem?</p>
+
+<p>--Se tenho!...</p>
+
+<p>--Tambem eu as sinto! disse Magdalena com ar melancholico.</p>
+
+<p>--Saudades, minha senhora?! perguntou Luiz admiradissimo.</p>
+
+<p>--Sim, admira-se?</p>
+
+<p>--E com razão. Pois V. Ex.<sup>a</sup>, cercada de todas as commodidades da vida,
+dos extremos e affagos d'um pae, que é mais que muito carinhoso; nova,
+formosa, permitta-me V. Ex.<sup>a</sup> esta verdade; vendo realisados todos os
+desejos, satisfeitas todas as vontades; V. Ex.<sup>a</sup>, que é, que deve
+realmente ser muito e muito ditosa aos olhos de toda a gente, e aos
+olhos proprios, confessa que sente saudades, e não ha de querer que eu,
+exilado, sem familia, sem estes nadas da vida, que a dulcificam e
+embellezam, me admire e espante d'essa confissão?</p>
+
+<p>--Que quer? Tenho-as, sim, mas tambem não sei de que, para lhe fallar a
+verdade.</p>
+
+<p>--Comprehendo. N'esse caso melhor será que V. Ex.<sup>a</sup> diga antes que tem
+desejos... E emfim, quem sabe? Na idade de V. Ex.<sup>a</sup>, na idade florida dos
+amores, dos enthusiasmos, das alegrias, das expansões e dos sonhos
+formosissimos, ha sempre, póde pelo menos haver, muita vez, algumas
+d'essas melancholicas florinhas, que são, então, como pequeninas nuvens
+no azul d'um céo estrellado e deslumbrante.</p>
+
+<p>--Não é isso, disse Magdalena levemente contrariada. Não é isso, porque
+eu nunca amei.</p>
+
+<p>--Ah! V. Ex.<sup>a</sup> nunca amou?</p>
+
+<p>--Nunca, pelo menos que eu saiba, respondeu ella ingenuamente.</p>
+
+<p>--Mais um motivo para eu crêr que o que V. Ex.<sup>a</sup> tem, são desejos de amar
+e ser tambem amada.</p>
+
+<p>--Talvez, accudiu Magdalena córando, e pregando em Luiz os seus negros,
+grandes e formosos olhos.</p>
+
+<p>--E acreditaria V. Ex.<sup>a</sup> no amor do primeiro homem, que ousasse
+render-lhe um culto, confessando-lhe esse sentimento?</p>
+
+<p>--Conforme. O coração é que havia de decidir.</p>
+
+<p>--E o coração de V. Ex.<sup>a</sup> não lhe diz nada? não lhe lembrou ainda um
+nome? um homem, a quem tenha de dar as perolas valiosissimas do seu
+affecto?</p>
+
+<p>--Já.</p>
+
+<p>Luiz estava pallido e tremulo de commoção.</p>
+
+<p>--Oh! se fosse eu!... murmurou elle.</p>
+
+<p>--Que tinha! era muito feliz, era?</p>
+
+<p>--Se era, minha senhora! muito! muito!</p>
+
+<p>--E amava-me? perguntou Magdalena anciosa, e um tanto agitada.</p>
+
+<p>--Oh! com delirio até!</p>
+
+<p>--Pois então não dê a mais ninguem o seu amor, porque... eu tambem o amo
+muito!</p>
+
+<p>E a formosa filha do cabinda olhou para todos os lados como receiando
+que alguem a ouvisse.</p>
+
+<p>Creança!</p>
+
+<p>Que commoções a não abalaram n'aquelle momento! que agitação n'aquelle
+seio tão estreito, agora, para as ondulações do coração, que tantas
+flôres estava desabrochando!</p>
+
+<p>Era a primeira vez que lhe fallavam d'amor! era a primeira vez que um
+homem a impressionava.</p>
+
+<p>O que ella viu, o que ella sentiu, era o Paraiso com as bellezas
+deslumbrantissimas dos seus vastos e perfumados jardins! era o céo com
+todas as harmonias das suas orchestras, afinadas pelos dedos dos anjos!</p>
+
+<p>Luiz esqueceu-se da patria, da familia, das saudades, que tinha por uma
+e outra, e começou, n'uma como visão phantastica, a vêr diante de si um
+horisonte illimitado de felicidades sem fim!</p>
+
+<p>Que dia aquelle! que dia tão venturoso! D'um lado os beijos carinhosos
+da fortuna, do outro, as flôres magicas do amor d'um seio de virgem!</p>
+
+<p>Eram tão violentas as commoções que o abalavam que apegas poude
+murmurar:</p>
+
+<p>--Juro-lhe que a hei de amar eternamente! mas supplico-lhe que não me
+engane nunca!</p>
+
+<p>--Nunca! prometto-lh'o pela memoria sagrada de minha mãe!..</p>
+
+<p>E embebidos nas doçuras, nos enthusiasmos d'este colloquio, que jámais
+devia ser esquecido Luis e Magdalena tinham-se affastado um pouco para
+um dos angulos do jardim.</p>
+
+<p>Sentaram-se como que machinalmente.</p>
+
+<p>Magdalena voltava e revoltava entre as suas mãos mimosas e pequeninas um
+viçoso suspiro; Luiz aspirava o fumo d'um delicioso charuto bahiano, e
+arrojava depois ao espaço as ondas azuladas, as nuvens pequeninas do
+fumo aspirado.</p>
+
+<p>Os pés dos jasmineiros floridos impregnavam a atmosphera de perfumes que
+inebriavam.</p>
+
+<p>E o pôr do sol, o cahir das primeiras sombras do crepusculo da tarde,
+começavam a pesar na alma d'aquelles dois namorados, estremosos como
+duas juritys.</p>
+
+<p>--Parto d'aqui a pouco, minha senhora, disse Luis olhando com saudade
+para Magdalena.</p>
+
+<p>--Mas ha de vir ver-me sempre que poder; sim?</p>
+
+<p>--Sempre que não haja quebra de conveniencias.</p>
+
+<p>--Conveniencias? interrogou Magdalena.</p>
+
+<p>--Sim, minha senhora. Bem vê V. Ex.<sup>a</sup> que a minha presença muito
+frequente n'esta casa, póde despertar suspeitas, e eu não desejo, nem
+devo desgostar o senhor Jorge de Macedo, que apesar de estimar-me muito,
+talvez não approve esta affeição, que começa a prender-nos hoje.</p>
+
+<p>--Ha de approval-a, basta que eu lhe diga que o amo.</p>
+
+<p>--Em todo o caso não a descubra V. Ex.<sup>a</sup> por ora, não?</p>
+
+<p>--Não.</p>
+
+<p>---E se um outro homem, um homem qualquer se dirigir a V. Ex.<sup>a</sup>, ou se
+mesmo seu pae lhe apontar algum, como digno de partilhar do nome da sua
+familia?</p>
+
+<p>--Despedil-o-ei.</p>
+
+<p>--Agradecido, minha senhora.</p>
+
+<p>--E olhe, quando não possa vir vêr-me, dê-me ao menos noticias suas,
+sim? Fico com tantas saudades e com tantas lembranças d'este dia!</p>
+
+<p>--Tambem eu as levo. Mas por quem lhe heide dar as minhas noticias?</p>
+
+<p>--Pelo cabinda. O negro quer-me muito; bem sabe que sou a filha d'elle.</p>
+
+<p>--Muito bem. Agora retiro-me que são horas. Levo-a a V. Ex.<sup>a</sup> gravada nos
+olhos, e no coração.</p>
+
+<p>--Faça-me ainda uma coisa, faz?</p>
+
+<p>--Tudo, minha senhora.</p>
+
+<p>--Deixe as <i>excellencias</i> com que me trata e mostre-me mais confiança.</p>
+
+<p>--Seja. Era essa a minha vontade. Adeus... Magdalena.</p>
+
+<p>--Até breve... Luiz!</p>
+
+<p>E apertaram-se as mãos n'uma effusão de grandissimo sentimento, e
+separaram-se depois, saudosos ambos, ambos melancholicos e
+impressionados.</p>
+
+<p>Americo e os outros empregados do armazem partiram tambem.</p>
+
+<p>Jorge deixou depois a filha e sahiu.</p>
+
+<p>Magdalena ficou só.</p>
+
+<p>Nas salas havia aquella meia escuridão da hora melancholica da transição
+do dia para a noite. No céo já brilhavam, formosas, algumas estrellas.</p>
+
+<p>Magdalena foi sentar-se ao piano. Não ia tocar, ia fazer mais, porque ia
+gemer saudades com aquelle amigo.</p>
+
+<p>As harmonias que encheram a sala eram suaves e melancholicas; casavam-se
+em tudo com o que ella estava sentindo, e transportavam-a a mundos onde
+nunca tinha subido.</p>
+
+<p>As mãos formosas e delicadas premiam suavemente as teclas de marfim, mas
+o seu espirito só via uma imagem, aquella musica só lhe repetia um nome:</p>
+
+<p>--Luiz.</p>
+
+<p>E tão embebida estava, tão embrenhada jazia n'aquelle sonho que a
+dominava, que nem sequer deu pelo cabinda, que surgiu cautelloso a uma
+das portas.</p>
+
+<p>O negro parou n'uma contemplação, que era a maior prova do seu culto por
+Magdalena. Mas ao vel-a assim tão preoccupada, ao parecer-lhe triste,
+approximou-se carinhoso e disse, com toda a sua affeição a
+transparecer-lhe na voz:</p>
+
+<p>--Ainda está triste a minha filha?</p>
+
+<p>Magdalena como que accordando d'um sonho respondeu:</p>
+
+<p>--Não, cabinda. Agora penso na felicidade.</p>
+
+<p>--E o branco?</p>
+
+<p>--Tenho-o aqui, respondeu, indicando o coração.</p>
+
+<p>--Mas a senhora moça é ainda a filha do cabinda!</p>
+
+<p>--Sou, sim; tu és meu amigo, e elle... elle amo-o muito!</p>
+
+
+
+
+<h3>VI</h3>
+
+
+<p>Vai um pouco adiantada a noite.</p>
+
+<p>A lua dardeja os seus raios de prata nos morros da Tijuca, do Pão
+d'Assucar e Corcovado, e côa a sua luz pallida pelos intresticios da
+vegetação luxuriante dos arrabaldes do Rio de Janeiro.</p>
+
+<p>Que noite formosa!</p>
+
+<p>Prendem-se as estrellas umas ás outras pelas suas palhetas luminosas, e
+bordam, como brilhantes de subido valor, o manto azul da vasta abóbada
+do céo.</p>
+
+<p>Dormem as aves ao som do murmurio suave das auras, que perpassam entre a
+ramaria das arvores alentadas e fórtes. A atmosphera impregnou-se
+durante o dia, dos perfumes das flôres e dos fructos, que o sol
+fecundante fez amadurecer e desabrochar.</p>
+
+<p>O ananáz e o jasmin, o cajú e as acacias brancas, a pitanga e as rosas
+de Alexandria, as flôres todas, e todos os pômos das arvores
+fructiferas, casam, umas com as outras, os seus aromas deliciosos, do
+conjunto dos quaes, se fórma uma essencia, que embriaga, que é doce, e
+suave, e agradavel.</p>
+
+<p>O Botafogo dorme, velado pelo manto das suas bellezas, no centro d'um
+silencio, apenas quebrado pelo cicio das agoas da sua poetica enseada.</p>
+
+<p>No meio de tudo isto, de todas estas bellezas, ha um ente que ainda não
+repousa, enlevado em sonhos de fascinadora poesia.</p>
+
+<p>É Magdalena, a filha do cabinda.</p>
+
+<p>A formosa virgem encostou-se ao peitoril da sua janella, e, silenciosa,
+firmou os olhos pensativos, n'um ponto, onde a imaginação e o espirito,
+estão fazendo passar, desenrolando-se rapidos, uns variadissimos
+panoramas, umas paisagens de infinitas bellezas!</p>
+
+<p>Está como que sonhando.</p>
+
+<p>Sonha, jurity mimosa e meiga, que os sonhos das alvoradas do amor são
+formosos e bellos! Abre o sacrario virgem do teu coração, que começa a
+fecundar as primeiras flôres, aos perfumes que a aragem da noite
+transporta nas suas azas!</p>
+
+<p>Faz as tuas confidencias á lua; conta os teus segredos ás estrellas;
+porque uma e outras virão, em cada noite, reflectir da altura, onde
+andam suspensas, a imagem que te povoa a alma, o coração e a soledade!
+Scisma; prende pelo espirito, por esse élo mysterioso, que aniquila as
+distancias, o pensamento ao pensamento, que vem, de longe fundir-se com
+o teu, em um só! Deixa que o coração se dilate, que a alma se expanda, e
+se aqueça ao calor do sentimento que a anima!</p>
+
+<p>Oh! mas cahem-te dos olhos, que reflectem o céo, como se a proprio céo
+elles fossem, duas perolas mimosas!</p>
+
+<p>Porque choras, criança? Que pêso poderão ter na balança do teu destino
+essas duas lagrimas, que ninguem vê, mas que alguem beberia soffrego,
+embora occultassem a morte? São o baptismo do teu amor? ou o preço da
+tua felicidade?</p>
+
+<p>E Magdalena com o seu rosto formoso, mas nublado de melancholia, tinha
+duas lagrimas a marejarem-lhe os olhos fascinadores.</p>
+
+<p>Aquellas duas gotas crystallinas eram as flôres das primeiras saudades
+d'amor, saudades pelo primeiro homem, que lhe tocára o coração com a
+varinha magica do condão do infinito sentimento.</p>
+
+<p>Magdalena pensava em Luiz, estava-o vendo n'aquella hora, como o vira em
+sonhos tantas vezes, nas noites em que o seu coração sentia o mal estar
+d'um vacuo incomprehensivel. Meigo e bondoso, affavel e doce, lá lhe
+estava sorrindo, lá lhe estava fallando com a sua voz attrahente!</p>
+
+<p>E ella tinha saudades d'elle, saudades do dia que havia passado, e
+saudades d'aquelle passeio pelo jardim, ao seu lado!</p>
+
+<p>Quizera-o alli sempre, quizera-o junto a si eternamente!</p>
+
+<p>Oh! que alternativa não estava passando o seu viçosissimo coração!</p>
+
+<p>D'um lado as claridades magicas do amor nascente, as promessas de Luiz,
+o preenchimento do vacuo, dos desejos ardentes que ella não
+comprehendia!</p>
+
+<p>Do outro, a ausencia, a distancia, o atear d'aquelle fogo sublime, a
+sêde d'aquellas flôres, que haviam brotado na sua alma, a noite
+d'aquelle dia tão repleto de encantos, a soledade, emfim!</p>
+
+<p>Ó mocidade! como és formosa com as tuas esperanças, com os teus receios,
+com as tuas alegrias, com as tuas lagrimas, com todos esses contrastes,
+que te agitam o seio, onde tudo é vida, onde tudo é enthusiasmo e
+delirio! Sonhas de dia acordada, e velas de noite repousando! Nas
+paginas do teu livro, se ha cantos melancholicos, ha tambem poemas
+d'infinita ventura, por que o amor, que te doura as flôres e os dias, é
+a fonte, onde, com uma lagrima, brotam muitos gosos.</p>
+
+<p>E Magdalena continuava a scismar.</p>
+
+<p>Era a primeira noite d'amor; o somno cedeu o logar aos receios e ás
+esperanças. Dentro de sua alma e do seu coração havia um murmurio de
+harmonias, constante, como o murmurio das cachoeiras da floresta.</p>
+
+<p>Ella tinha diante de si uma imagem e nos labios um nome--a imagem e o
+nome de Luiz.</p>
+
+<p>Este velava tambem.</p>
+
+<p>Scismava em Magdalena, e estava-a vendo com os olhos do seu amor,
+perpassando diante dos olhos do corpo, airosa, gentil e meiga, como a
+vira n'aquelle jantar, que nunca mais poderá esquecer, e como a ouvira
+n'aquelle jardim, de que ella era a flor mais candida e mais formosa.</p>
+
+<p>Luiz habitava na rua dos Pescadores, no Rio de Janeiro, o terceiro andar
+da casa do armazem de Jorge de Macedo.</p>
+
+<p>Era confortavel o seu aposento, que elle andava percorrendo,
+visivelmente preoccupado, d'um a outro extremo.</p>
+
+<p>É pequeno agora o ambito do seu coração para conter tudo quanto está
+sentindo. Um mundo, vastissimo d'esperanças, se está desenvolvendo
+diante dos seus olhos, no meio do qual avulta, radiante, o anjo de
+Magdalena.</p>
+
+<p>Encheu-lhe o amor o seio.</p>
+
+<p>Elle, que vivia tão descuidado, entregue ás saudades da patria e da
+familia, e ao desempenho das suas obrigações, esquece-se de tudo isso,
+agora, esquece mesmo a imagem, duplamente santa, de sua mãe, para só se
+lembrar de Magdalena, que lhe era uma pessoa estranha, uma pessoa
+indifferente.</p>
+
+<p>Oh! o primeiro amor!...</p>
+
+<p>Eram fortissimas as inspirações que o dominavam e tanto mais quanto
+menos as esperava.</p>
+
+<p>Magdalena deslumbrara-o, não só com a sua belleza, mas muito mais ainda
+com a sua ingenuidade, com os seus modos despertenciosos, e com a sua
+franqueza.</p>
+
+<p>Foi um anjo que lhe surgiu do céo, a elle, que andava na terra com a
+aridez no coração.</p>
+
+<p>Todavia um vago pressentimento d'uma fatalidade o vinha acabrunhar por
+vezes.</p>
+
+<p>Aquellas palavras d'Americo, quando, depois do jantar, desciam ambos
+para o jardim, soavam-lhe ainda aos ouvidos e eram-lhe desagradaveis.</p>
+
+<p>Deram-lhe a conhecer que o mulato pertendia tambem Magdalena, e o mulato
+era capaz até d'uma infamia para a conseguir.</p>
+
+<p>Luiz conhecia-o bem, estava ha muito tempo em contacto com elle, e
+tinha-o mesmo estudado.</p>
+
+<p>Americo tinha os maus instinctos e a indole dos da sua raça, embora
+apparentemente adoçados por uma educação rasoavel, e pela convivencia
+d'aquelles com quem as suas obrigações o levavam a tratar.</p>
+
+<p>O jantar tinha sido n'aquelle dia, e desde que elle findara, ou antes,
+desde que em casa de Jorge, os dois se separaram, ainda não tinham
+trocado uma palavra, porque ainda se não tinham encontrado.</p>
+
+<p>Luiz tinha, porém, a certeza de que o mulato não guardaria silencio, e
+dispunha-se a combater a todo o transe, se tanto fosse preciso...</p>
+
+<p>Que importavam a Luiz as pretenções d'Americo, se Magdalena jurára
+amal-o, invocando a sacratissima memoria de sua mãe?</p>
+
+<p>Que lhe importava que o mulato, ferido no seu amor proprio, no seu
+orgulho e nas suas ambições, pelo despreso ou pela indifferença de
+Magdalena, o tentasse desthronar por meios ardilosos, por infamias até?</p>
+
+<p>Não tinha Luiz a sua consciencia limpa?</p>
+
+<p>Não lhe dizia ella que elle havia de vencer?</p>
+
+<p>Dizia.</p>
+
+<p>No entanto, é certo que o drama ia começar, que a lucta ia travar-se,
+mas não face a face, e a peito descoberto.</p>
+
+<p>E em quanto Luiz pensava n'isto e na sua Magdalena, lá ia a lua
+caminhando pelos páramos do azul sem fim, namorando a formosa filha do
+cabinda, que a olhava melancholica nas saudades do primeiro amor, e
+reflectindo as suas mil agulhas de prata reluzentes nas aguas
+murmuradoras das cachoeiras da floresta, e no espelho do vasto
+Guanabára.</p>
+
+<p>Ó noite! que de pensamentos não desabrocham, no meio do teu silencio,
+nos corações que viçam amores á luz do teu astro argenteo!</p>
+
+
+
+
+<h3>VII</h3>
+
+
+<p>Eram oito horas da manhã do dia immediato, quando Luiz desceu para o
+escriptorio.</p>
+
+<p>Americo já andava dando as suas ordens para o embarque de uma porção de
+saccas de café.</p>
+
+<p>Os dois comprimentaram-se amigavelmente na apparencia, porém, com certa
+reserva e um pouco de frieza, o que não era costume.</p>
+
+<p>Luiz trazia no rosto a pallidez impressa pela vigilia d'uma noite
+inteira; Americo os traços de quem tinha uma ideia a dominal-o.</p>
+
+<p>E os dois socios de Jorge de Macedo dirigiram-se ambos ao escriptorio,
+situado no fundo do armazem.</p>
+
+<p>Luiz sentou-se a escrever; Americo começou a examinar a correspondencia
+do dia anterior.</p>
+
+<p>Os negros e os outros caixeiros andavam na labutação de pesar e ensacar
+o café.</p>
+
+<p>--Nao sei onde te meteste hontem, desde que nos separamos no Botafogo,
+principiou Americo, passando a vista de umas para outras cartas.</p>
+
+<p>--Eu é que te não tornei a vêr; respondeu Luiz placidamente, sem volver
+os olhos dos livros, que tinha diante de si.</p>
+
+<p>--Fui ao theatro.</p>
+
+<p>--E eu vim para casa.</p>
+
+<p>--Ah! exclamou Americo com certo ar intencional.</p>
+
+<p>--Nao sei de que te admiras.</p>
+
+<p>--Eu? de nada.</p>
+
+<p>--Esse <i>ah!</i> solto assim...</p>
+
+<p>--Foi natural.</p>
+
+<p>--Talvez, mas nao creio. Parece-me que queria dizer alguma coisa.</p>
+
+<p>--Não. Já tiveste noticias de Magdalena!</p>
+
+<p>--Noticias de Magdalena?! perguntou Luiz com certo ar d'altiva
+admiração.</p>
+
+<p>--Sim; ou não deixaste ainda as coisas n'essa altura?</p>
+
+<p>--Gracejas de certo, Americo.</p>
+
+<p>--Não gracejo, não. Então has-de negar que a não desfitaste um momento,
+durante o jantar de hontem, e que lhe fizeste uma confissão d'amor, em
+quanto passeiavas com ella pelo jardim?</p>
+
+<p>---Não nego, nem affirmo.</p>
+
+<p>--Calas; quem cala consente.</p>
+
+<p>--Não sei. Mas d'um ou d'outro modo o que me parece é que nada deves ter
+com isso.</p>
+
+<p>--Outro tanto não digo eu.</p>
+
+<p>--Não sei porque.</p>
+
+<p>--Porque tambem sou pretendente.</p>
+
+<p>--Ah! sim!</p>
+
+<p>--Tu começaste; veremos agora qual dos dois acabará.</p>
+
+<p>--Veremos.</p>
+
+<p>--Mas porque não has-de ser franco comigo?</p>
+
+<p>--Franco em que? e para que? És homem como eu; tens o campo aberto,
+propões a lucta, acceito-a. Se tiver a franqueza de confessar-te que amo
+Magdalena, retiras? Não. Ella é que escolhe; se algum de nós lhe
+convier, o outro já sabe o que tem a fazer.</p>
+
+<p>--E se eu fôr o escolhido?</p>
+
+<p>--Paciencia. E se não fores tu?</p>
+
+<p>--Hei-de empregar todos os meios.</p>
+
+<p>--Todos?</p>
+
+<p>--Todos, sim. Os da minha raça bem sabes que não recuam nunca, e se o
+ignoras fica-o sabendo agora.</p>
+
+<p>--Em todo o caso diz-me: Queres a mulher pelo dinheiro, ou queres a
+mulher porque a amas.</p>
+
+<p>--Quero-a por ambas as causas... principalmente.</p>
+
+<p>--Comprehendo.</p>
+
+<p>--Julgas, talvez, que na balança da conquista, o prato pende mais para o
+teu lado? Enganas-te. Nós, os brazileiros, e sobre tudo os que, como eu,
+teem na face a côr bronzeada do cruzamento das raças, estamos fartos de
+vêr que os pobretões dos portuguezes nos venham, de tão longe, roubar as
+mulheres e o dinheiro.</p>
+
+<p>Luiz córou e pôz-se d'um pulo em pé.</p>
+
+<p>--Insultas-me! exclamou elle.</p>
+
+<p>--Não; digo a verdade.</p>
+
+<p>--Dizes a verdade! bradou Luis com ironia. Havia de fazer engulir-te a
+phrase se não conhecesse que fallas despeitado. Fallas dos pobretões dos
+portuguezes! Que seria de ti e dos teus se não fossem elles! Morriam
+todos de fome, haviam de ser uns miseraveis! Nós é que trabalhamos, nós
+é que vos sustentamos, pódes ter a certeza d'isto. Se vos levamos o
+dinheiro, levamos apenas uma parte do fructo do nosso suor, ficando tu e
+todos os teus com a outra, com a maior, sem o minimo esforço de corpo e
+de espirito; se nos ligamos com as vossas filhas é por que as merecemos,
+é porque somos verdadeiramente dignos d'ellas, para não dizer que mais
+honra lhes vai com estas allianças, do que a nós. Repito; eu queria vêr
+o que seria de vós se não fossem os pobretões dos portuguezes; de vós,
+que apenas nascesteis para vos bamboleardes na rêde, indolentes,
+occiosos, tomando o vosso café e fumando o vosso cachimbo.</p>
+
+<p>--Seja como fôr; não discuto nobrezas de nacionalidade. O que te digo é
+que hei-de empregar todos os meios para conseguir Magdalena.</p>
+
+<p>--E eu affirmo-te que nem um só vingará.</p>
+
+<p>--Veremos.</p>
+
+<p>--Veremos. Declaras-te meu inimigo, atiras-me a luva, levanto-a. Conheço
+agora que has-de usar de todas as armas, desde a hypocrisia, desde o
+ardil apurado até á infamia, até ao crime refinado. Pouco importa.
+Hei-de bater-te com a verdade, só com ella te hei-de derrotar. Todavia,
+recommendo-te prudencia, porque se o meu braço se envergonhar de
+castigar-te, talvez haja quem o faça sem que o esperes.</p>
+
+<p>--Ameaças-me?</p>
+
+<p>--Não; previno-te.</p>
+
+<p>--Pois bem; eu me defenderei.</p>
+
+<p>--Mas de modo que não vás ferir aquelle que ainda hontem, além de nos
+sentar á sua meza como amigos, nos elevou á dignidade de partilharmos da
+sua fortuna. A lucta é comigo, e só comigo, e se me encontras disposto a
+combater-te, não me encontrarás disposto a tolerar-te a minima coisa que
+possa, mesmo de leve, ferir Jorge de Macedo, que é hoje meu socio, meu
+protector e meu amigo, finalmente. Mais ainda, Americo, e isto vale uma
+ameaça. Magdalena é uma pessoa sagrada para mim, e exijo que o seja para
+ti. A menor falta de respeito da tua parte, a menor insolencia que lhe
+dirijas, pagal-a, bem paga, fica certo d'isso. A contenda é comigo e só
+comigo, ainda uma e ultima vez t'o digo.</p>
+
+<p>--Pouco me importam as tuas ameaças, e respondo a ellas com uma
+gargalhada.</p>
+
+<p>--Bem sei que vai até ahi o teu cynismo e a tua cobardia.</p>
+
+<p>--Luiz!...</p>
+
+<p>--Cobardia, sim! affirmou Luiz perfilando-se destemido em face de
+Americo.</p>
+
+<p>Este ia, n'um impeto de raiva, a lançar-se ao guarda livros, mas ao
+vêl-o tão resoluto, ao vêr-lhe nos olhos a chamma da valentia e a
+coragem com que o esperava, recuou, deteve-se, e volveu-se, saindo a
+dizer:</p>
+
+<p>--Ia-me zangando! A occasião não era propria, e nem mesmo valia a pena.
+Tenho tempo de desforrar-me.</p>
+
+<p>--Ou de levares uma licção que te aproveite, canalha! respondeu Luiz.</p>
+
+<p>Dois minutos depois, já Americo andava ordenando e vigiando o trabalho
+dos negros e mais caixeiros do armazem, e Luiz continuava escrevendo,
+como se nada lembrasse a cada um d'elles d'aquella scena que o mulato
+havia provocado.</p>
+
+<p>No entanto Luiz estava livido, d'esta lividez produzida pela raiva
+sopeada, e Americo, no meio da labutação dos seus subordinados, trazia
+nos olhos espelhado claramente, o pensamento, o desejo de vingança, que
+lhe avultava no seio.</p>
+
+<p>A imagem, formosa sempre, e sempre sympathica de Magdalena, lá estava,
+apesar de tudo, interposta entre os dous, a separal-os, a affastal-os, a
+lançal-os, sem mesmo ella o pensar, em uma lucta tremenda, que devia
+necessariamente terminar muito mal para um d'elles, pelo menos.</p>
+
+<p>Luiz via-a com os olhos do seu amor, do seu affecto, da sua virtude;
+Americo com os olhos dos seus desejos desenfreados de vingança, com os
+olhos da sua ambição e do seu calculo.</p>
+
+<p>Magdalena era o centro d'uma linha nos extremos da qual se agitavam
+convulsivamente sentimentos inteiramente oppostos.</p>
+
+<p>Teriam ambos a mesma força?</p>
+
+<p>Qual d'elles tinha de attrahil-a?</p>
+
+<p>É facil prevel-o. A imagem de Luiz já lhe enchia o seio, já lhe havia
+povoado os sonhos da primeira noite d'amor, aquelles sonhos porque ella
+passára accordada, solitaria na sua janella, com os olhos cravados na
+lua, e a alma a sentir o <i>gosto amargo</i> d'uma saudade indefinida.</p>
+
+
+
+
+<h3>VIII</h3>
+
+
+<p>Eram tres horas da madrugada, quando Magdalena se retirou da janella,
+onde a vimos tão scismadora, tão embebecida na contemplação silenciosa
+da rainha da noite, que, apesar de bem alta, ainda ia vaidosa a mirar-se
+nos crystallinos espelhos dos lagos adormecidos, e gosando as suaves
+emanações das flores dos jardins.</p>
+
+<p>Nunca a formosa virgem tivera uma noite de sensações tão violentas,
+esmaltada de tantos receios e de tantas esperanças, de tantas rosas e de
+tantos espinhos.</p>
+
+<p>A imagem de Luiz, ora lhe sorria cariciosa, meiga, e cheia de bondade,
+ora lhe apparecia gelada, fria, e grave, com todos os traços d'uma
+indifferença verdadeira.</p>
+
+<p>Eram as alternativas do amor; era esta serie de contrastes e antitheses
+que o constituem, e de que elle proprio se alimenta, inflamma e vive!</p>
+
+<p>Todavia, n'esta opposição de ideias, de phantasias, d'aspirações, que a
+dominavam e agitavam, o predominio era inquestionavelmente para o
+pensamento da felicidade, que tão magicamente lhe sorria no amor de
+Luiz.</p>
+
+<p>O amor de Luiz!...</p>
+
+<p>Aquelle sentimento era o céo com todas as suas bellezas; com as
+harmonias dulcissimas das harpas afinadas dos seus anjos; com todos os
+cambiantes das luzes formosas dos seus astros scintilladores!</p>
+
+<p>E foi n'este diliciosissimo vago d'uma esperança de ventura que
+Magdalena adormeceu.</p>
+
+<p>Os olhos, aquelles olhos sempre formosos, cederam por fim ao pêso da
+somnolencia, e deixaram-se velar docemente pelas palpebras, quasi
+transparentes.</p>
+
+<p>Não cessaram porém as ondulações do seio, que estava sendo o leito d'um
+vasto oceano d'amor.</p>
+
+<p>Não cessaram, não, porque ainda se prolongava o sonho, em que,
+inteiramente embebida, se havia demorado na janella, d'onde sahira
+momentos antes.</p>
+
+<p>A formosa filha do cabinda estava vendo diante de si vastissimas
+campinas de flores perfumadas; estava ouvindo umas harmonias alegres,
+como nunca ouvira; tinha por cima o céo azul, limpido e sereno dos dias
+tropicaes, e em baixo, na terra, a esteira matizada de flores, que a mão
+d'uma fada branca, aeria e vaporosa, andava espargindo prodigamente.</p>
+
+<p>Ó mocidade! como são magicos os teus sonhos, quando te perfumam o seio
+largo, as emanações balsamicas dos roseiraes floridos do amor! Como é
+deslumbrante e querida a imagem, que te faz palpitar o coração, gravada
+nos raios prateados de cada estrella, reflectida na superficie serena de
+cada lago, envolta nas harmonias suaves e doces do cahir da agua de cada
+cachoeira, presa nas mil palhetas douradas do sol de cada esperança, e
+engastada na muldura valiosa das perolas de cada crença!</p>
+
+<p>Sonha, Magdalena, sonha! Na tua idade, os sonhos são vida, a vida é
+ventura e a ventura parece não ter fim!...</p>
+
+<p>Sonha, em quanto te doura a fronte, e se reflecte no negro assetinado
+dos teus formosos cabellos, o sol vivificante dos teus vinte annos tão
+perfumados.</p>
+
+<p>E Deus queira que um dia não tenhas de beber a sicuta das desillusões, o
+calix amargo e mortal do fel da desventura!</p>
+
+<p>Desponta propicia a estrella do teu amor; prophetisam-te alegrias os
+canticos suaves, que te embalam o somno leve... Dorme, virgem; dorme,
+sonha, vive, e gosa!</p>
+
+<p>E Magdalena sonhava.</p>
+
+<p>N'aquelle momento, havia, porém, dois homens que a estavam vendo com
+olhos d'affecto formosamente sincero, mas inteiramente distincto.</p>
+
+<p>Eram Luiz, que não podera conciliar o somno, e o negro, o cabinda, que
+havia accordado a pensar na felicidade da sua filha.</p>
+
+<p>As seis horas da manhã já o sol dourava, com todo o seu deslumbrante
+explendor, a vegetação opulenta das mattas virgens, e as florinhas
+mimosas dos jardins vicejantes. As aves mandavam ao céo, nas azas
+invisiveis da viração do sul, o seu cantico matinal de graças e louvor.
+Sorria-se inteira a natureza, n'um sorriso que era como um hymno
+abençoando o Creador!</p>
+
+<p>O cabinda andava já, contente do seu trabalho, entregue á limpeza das
+folhas seccas, cahidas, durante a noite, em volta do lago, onde
+Magdalena costumava ir sentar-se, pensativa, no fim de cada tarde.</p>
+
+<p>E tão embebido andava o negro, que nem viu a sua filha approximar-se
+d'elle, surgindo d'uma das aleas da chacara, orlada de mangueiras,
+cajueiros e pitangueiras.</p>
+
+<p>--Tão entretido, cabinda! disse Magdalena approximando-se.</p>
+
+<p>--A minha filha! exclamou o negro, depois de se volver admiradissimo,
+com um sorriso d'intima alegria a pairar-lhe no semblante.</p>
+
+<p>--Então? volveu ella. Julgas que só tu te levantas com o sabiá das
+laranjeiras?</p>
+
+<p>--O negro não esperava a senhora moça, não. A sua benção.</p>
+
+<p>--Quero que vás á cidade.</p>
+
+<p>--Ao branco? perguntou elle com rapidez.</p>
+
+<p>--Sim. Vais levar este bilhete ao senhor Luiz, mas has de entregal-o só
+a elle, ouviste?</p>
+
+<p>--Descance a minha filha, o negro vai já.</p>
+
+<p>E depois, como recordando-se d'alguma coisa passada, o negro continuou:</p>
+
+<p>--Oh! o cabinda bem dizia, que o branco dos sonhos da senhora moça havia
+de chegar. É elle; o branco veiu e a minha filha gosta do branco.</p>
+
+<p>--Ah! suspirou Magdalena, enlevando-se nos sonhos do seu affecto. Ah! se
+tu soubesses como eu o amo!</p>
+
+<p>--É como o cabinda á sua parceira e aos seus filhos que lhe tiraram.</p>
+
+<p>--Mais, mais ainda! Tu não imaginas como eu sou doida por elle!
+Pertence-lhe a minha vida, o meu coração, a alma, o pensamento! Sou toda
+d'elle, e não poderia viver sem elle. Tu, oh! tu não sabes o que eu
+sinto, não! Penso n'elle de dia, de noite, a toda a hora, e sempre! Tu
+contentas-te em ter saudades da parceira, que te tiraram, dos filhos de
+que te separaram; e eu morria se elle me faltasse, morria, sim!</p>
+
+<p>--E o branco tambem quer muito á minha filha, muito; acudiu o cabinda, a
+quem o enthusiasmo de Magdalena, havia enthusiasmado tambem.</p>
+
+<p>--Quem sabe? murmurou ella, n'uma expressão d'alguma duvida.</p>
+
+<p>--O negro vê. Hontem, no jantar, os olhos do branco buscavam os olhos da
+senhora moça. Eram como a jurity do matto, a chamar a companheira entre
+as folhas do capim...</p>
+
+<p>--Isso era hontem, mas agora?... respondeu Magdalena com melancholia.</p>
+
+<p>--Agora, senhora moça, o negro vai e hade trazer alegrias á sua filha.</p>
+
+<p>--Vem depressa, ouviste?</p>
+
+<p>--O negro não tardará.</p>
+
+<p>E o cabinda guardou o bilhete que Magdalena lhe déra, e partiu
+apressado, volvendo-se, de quando em quando, para traz.</p>
+
+<p>No seio da formosa virgem havia uns alvoroços immensos. Era a esperança
+que os originava, a dourada esperança, em que Magdalena ficava, de que
+depois das suas noticias, que mandava a Luiz, este lh'as mandaria
+tambem, n'um repetido protesto de grandissimo affecto.</p>
+
+<p>Subiu.</p>
+
+<p>Ao chegar ao topo da escada, encontrou-se com Jorge.</p>
+
+<p>--Tão cêdo cá por fóra, filha! exclamou elle, um tanto admirado ao
+vêl-a.</p>
+
+<p>--Estava uma manhã tão bonita! vim vêr as minhas flôres.</p>
+
+<p>E beijou-lhe a mão e abraçou-o, cariciosa e meiga.</p>
+
+<p>--E tão cêdo as deixas, doidinha!</p>
+
+<p>--Já as vi, já lhes fallei, papae.</p>
+
+<p>--E agora que vaes fazer?</p>
+
+<p>--Uma visita a outro amigo... disse ella, sorrindo.</p>
+
+<p>--Pois ainda tens mais affeiçoados, Magdalena?</p>
+
+<p>--Se tenho, papae! disse ella, suspirando. Então o meu piano?</p>
+
+<p>--D'aqui a pouco esqueces-me de certo. Se vaes assim a repartir o teu
+affecto, não deixas no teu coração um cantinho para teu pae!</p>
+
+<p>--Oh! o logar do papae ninguem o tira, ninguem!</p>
+
+<p>--Nunca?</p>
+
+<p>--Nunca!</p>
+
+<p>E Magdalena prendeu-o pelo pescoço, sorrindo com meiguice, e
+imprimiu-lhe na face dous osculos purissimos.</p>
+
+<p>Jorge acolheu-os como os paes acolhem os beijos dos filhos, quando os
+paes são paes, e os filhos não degeneram.</p>
+
+
+
+
+<h3>IX</h3>
+
+
+<p>O cabinda chegou á rua dos Pescadores, no Rio, alguns minutos depois de
+terminada a disputa entre Luiz e Americo.</p>
+
+<p>O escriptorio, como já dissemos, era situado no fundo do armazem, e
+resguardado por uns tapamentos de madeira, que interceptavam a vista do
+seu interior ás pessoas que entravam.</p>
+
+<p>Americo estacou, e como que teve um estremecimento, vendo surgir o
+negro. Dissimulou-o, porém, o mais que pôde, e foi encostar-se a uma
+porta lateral.</p>
+
+<p>--Louvado seja o Senhor! disse o negro, entrando.</p>
+
+<p>--Adeus, cabinda; respondeu Americo docemente.</p>
+
+<p>--O negro quer fallar ao senhor Luiz.</p>
+
+<p>--O teu senhor não vem hoje á cidade? perguntou Americo com intenção.</p>
+
+<p>--O negro não sabe.</p>
+
+<p>--Quem te mandou, então?</p>
+
+<p>--A senhora moça.</p>
+
+<p>E o cabinda lançou a Americo um olhar perscrutador.</p>
+
+<p>--A senhora moça? perguntou o mulato, admirado do pouco segredo que o
+negro guardava da sua missão.</p>
+
+<p>--Sim.</p>
+
+<p>--Trazes recado ou carta? acudiu Americo rapidamente.</p>
+
+<p>--O negro traz carta.</p>
+
+<p>--Dá cá, que eu vou entregal-a ao senhor Luiz.</p>
+
+<p>--A ordem da senhora moça é só para entregar a elle.</p>
+
+<p>Americo encolerisou-se com a resposta do cabinda, e disse, raivoso:</p>
+
+<p>--Bem se vê que és negro!</p>
+
+<p>--Como o pae de muita gente, respondeu aquelle.</p>
+
+<p>--Patife!...</p>
+
+<p>--O negro é cabinda, e o cabinda é raça fina. O mulato é filho de branco
+e de negro...</p>
+
+<p>Americo sentiu-se altamente atacado, mas enguliu a affronta, que
+provocára. Teve vontade de atirar logo dous murros ao negro, mas o
+receio deteve-o, porque tinha diante de si um homem possante, que,
+embora escravo, era, comtudo, um escravo estimado e querido. No meio da
+sua ira, e, digamos, da sua cobardia, limitou-se a ameaçar:</p>
+
+<p>--Deixa estar, que o teu senhor saberá que andas a trazer e a levar
+recados da senhora moça, patife!</p>
+
+<p>--O negro não tem mêdo.</p>
+
+<p>E o cabinda deu-lhe as costas, e dirigiu-se ao escriptorio, onde lhe
+parecêra ouvir a voz de Luiz.</p>
+
+<p>Chegou á porta e metteu a cabeça.</p>
+
+<p>--Licença.</p>
+
+<p>--Ah! és tu, cabinda? Entra; acudiu Luiz, largando a penna.</p>
+
+<p>--O negro, meu branco.</p>
+
+<p>--A que vens?</p>
+
+<p>--Trazer isto. Manda a senhora moça.</p>
+
+<p>E tirando do bolço o bilhete de Magdalena, entregou-o a Luiz, esperando
+com alegria, sorrindo de contentamento.</p>
+
+<p>Luiz sentiu um d'esses abalos, grandemente bello; um d'esses choques,
+que se sentem sempre que nos chega a mão a primeira e suspirada carta do
+objecto do nosso amor.</p>
+
+<p>Que papel aquelle! que thesouro não estava alli!</p>
+
+<p>Fossem dizer ao sympathico moço que o não lêsse! offerecessem-lhe por
+elle todas as riquezas do mundo!</p>
+
+<p>Recusava, de certo, e recusava sem a minima hesitação!</p>
+
+<p>Apenas o perfumado papel lhe chegou ás mãos, Luiz abriu-o com uma
+rapidez vertiginosa, e lançou ao contheudo os olhos, mais como quem o
+devorava, do que como quem o estava lendo.</p>
+
+<p>Era uma soffreguidão nervosa, natural, exigida até pelas circumstancias.</p>
+
+<p>O cabinda que lhe seguia o menor dos movimentos, que parecia mesmo estar
+lendo o que se passava no seu intimo, permanecia immovel, suspenso,
+n'uma contemplação profunda e silenciosa;</p>
+
+<p>A leitura da pequenina carta foi rapida, mas, n'esse pequeno momento da
+sua duração, Luiz subiu todas as notas da escala harmoniosa dos
+transportes sublimes da ventura.</p>
+
+<p>O bilhete dizia o seguinte:</p>
+
+<div class="carta"> <p class="direita">«Luiz</p>
+
+<p>«Ainda não ha vinte e quatro horas que me deixaste e já não posso com as
+saudades, que me magoam. Vem-me vêr quando poderes e diz-me sempre que
+nunca hasde esquecer a... tua</p>
+
+<p class="direita">Magdalena.»</p>
+
+<p>«P. S. Passei a noite a pensar em ti, e até nas tres horas, que a fadiga
+me obrigou a repousar, tive sempre, ao meu lado, em sonhos lindos, a tua
+imagem, que me sorria e eu acariciava.»</p> </div>
+
+<p>Era curta a missiva mas, em compensação, eloquentissima.</p>
+
+<p>E Luiz olhou para o negro.</p>
+
+<p>--Então? perguntou este.</p>
+
+<p>--Ah! cabinda! cabinda! exclamou o moço com duas grossas lagrimas a
+brilharem-lhe nas pupillas.</p>
+
+<p>--O branco chora? que tem? interrogou o negro rapidamente, passando do
+extremo da alegria ao extremo do receio.</p>
+
+<p>--Choro, sim, e olha que nunca os meus olhos verteram lagrimas como
+estas! São de ventura, são de felicidade! Cada uma me vale o céo, cada
+uma é um hymno, cada uma é um poema! Choro, porque nem só a dôr, nem só
+a tristeza, nem só o infortunio, tem lagrimas. A alegria, quando é tão
+grande, como a que eu estou sentindo, tambem as tem, tambem se adorna
+com ellas. Aquellas são amargas, são negras, queimam e ferem; estas, que
+tu vês nos meus olhos, teem o explendor d'um sol formoso, são dôces,
+porque resumem a essencia d'um nectar suavissimo, dão vida, porque
+contéem em si os elementos que a vigorisam! Choro, porque sou feliz,
+cabinda!</p>
+
+<p>O negro ouviu Luiz n'uma anciedade indiscriptivel. O peito arfava-lhe
+com violencia; era um mar tempestuoso. Os olhos, os seus grandes olhos,
+estavam pregados em Luiz. Susteve-se assim em quanto o amoroso moço ia
+fallando, enlevado nos transportes do seu grandissimo affecto. Mas
+apenas elle acabou, o negro acudiu logo immediatamente:</p>
+
+<p>--E o branco gosta da senhora moça?</p>
+
+<p>--Oh! se a amo!...</p>
+
+<p>--Muito?</p>
+
+<p>--Até ao delirio!</p>
+
+<p>--Obrigado, meu branco! obrigado, meu branco! exclamou o negro, beijando
+phreneticamente as mãos ao moço.</p>
+
+<p>--Que fazes, cabinda? acudiu Luiz, commovido, porque traduzia n'aquelles
+beijos a affeição do escravo por Magdalena.</p>
+
+<p>--É porque a senhora moça é filha do cabinda, e o negro quer a senhora
+moça muito feliz.</p>
+
+<p>--És uma grande alma!</p>
+
+<p>--Mas o mulato...</p>
+
+<p>--Oh! o mulato, acudiu de prompto Luiz, é preciso cautela com elle!</p>
+
+<p>--O cabinda não dorme! disse o negro em um tom d'ameaça.</p>
+
+<p>--Bem. Agora vou escrever duas linhas e não te demores. Vai logo, sim?</p>
+
+<p>--A minha filha espera, bem sei.</p>
+
+<p>Luiz sentou-se e escreveu as seguintes linhas:</p>
+
+<div class="carta"> <p class="direita">«Magdalena</p>
+
+<p>«Poderei esquecer tudo, mas esquecer-te a ti, nunca. Fizeram-me bem as
+tuas palavras, E se estás soffrendo a melancholia das saudades que
+sentes por mim, eu estou entre as nuvens da tristeza, d'esta ausencia,
+em que nos tem uma distancia tão curta. Passaste a noite scismando em
+mim; eu não repousei, pensando em ti. Lá havias de sentir no teu seio os
+echos do meu pensamento. Irei vêr-te quando podér, e crê que te amo, que
+te adoro muito, muitissimo.</p>
+
+<p class="direita">«Luiz.»</p> </div>
+
+<p>O negro partiu.</p>
+
+<p>Quando chegou ao Botafogo ainda Magdalena estava sentada ao piano, para
+onde a vimos encaminhar-se depois de ter affagado Jorge, seu pae, com
+dous affectuosissimos beijos.</p>
+
+<p>O piano não estava agora gemendo deliciosas harmonias; estava sendo a
+victima da anciedade, em que Magdalena esperava o cabinda.</p>
+
+<p>As mãos ora corriam rapidas, ora vagarosas, traduzindo claramente os
+sentimentos e as ideias que se iam succedendo na sua juvenil imaginação.</p>
+
+<p>De quando em quando, corria á janella a vêr se divisava o negro, mas
+voltava com a melancholia no rosto, sempre formoso.</p>
+
+<p>O cabinda entrou n'um dos intervallos em que ella tocava.</p>
+
+<p>Apenas elle surgiu á porta da sala, Magdalena deu um grito.</p>
+
+<p>Inundou-lhe o rosto todo o explendor do sol das alegrias. Os olhos
+faiscaram centelhas de felicidade.</p>
+
+<p>--Então? que trazes? perguntou ella, correndo para o negro.</p>
+
+<p>--Carta do branco.</p>
+
+<p>--Dá cá, depressa, anda.</p>
+
+<p>O negro entregou a carta de Luiz e Magdalena começou a lêl-a do mesmo
+modo que aquelle havia lido a d'ella.</p>
+
+<p>Eram eguaes as impressões, eguaes as circumstancias, eguaes os
+sentimentos da occasião.</p>
+
+<p>Ao findar a leitura, Magdalena deitou os braços aos hombros do escravo,
+e exclamou, ébria de contentamento, douda d'alegria:</p>
+
+<p>--Ah! cabinda! cabinda!</p>
+
+<p>--Está contente a senhora moça?</p>
+
+<p>--Oh! muito! muito! nem tu sabes como eu sou feliz!</p>
+
+<p>--É isso o que o negro quer, porque a senhora moça é filha do cabinda!</p>
+
+
+
+
+<h3>X</h3>
+
+
+<p>Jorge de Macedo chegou ao armazem pouco depois do negro ter sahido.</p>
+
+<p>Luiz e Americo cumprimentaram-o com a delicadeza devida. O capitalista
+recebeu-os como socios seus, affavel, risonho, bondoso, mesmo com um
+tanto da meiguice que o caracterisava.</p>
+
+<p>Jorge de Macedo era um homem sympathico, moral e physicamente. A sua
+physionomia era d'estas que attrahem á primeira vista, os seus actos
+modelados em harmonia com a virtude, com a honra, com a probidade, com
+todo o cavalheirismo, emfim.</p>
+
+<p>Ficára viuvo muito cedo. A necessidade obrigou-o a ser carinhoso com a
+filhinha, que ficava orphã das dulcissimas meiguices de mãe. A sua alma
+identificou-se com aquella necessidade e Jorge tornou-se homem sensivel,
+bondoso e em extremo meigo.</p>
+
+<p>Os seus subordinados eram tratados, não como taes, mas como amigos. Os
+pobres tinham sempre aberta a sua bolça. Para as grandes emprezas, para
+qualquer melhoramento do progresso era sempre o primeiro a dar o seu
+nome e a concorrer com os seus fundos.</p>
+
+<p>Tudo isto o fazia estimado e querido, tudo isto lhe valia um nome
+honrosissimo, apesar da sua vida retirada, porque Jorge, não por
+systema, mas por indole, apenas tinha e alimentava a convivencia com as
+pessoas, a quem o ligavam os seus negocios.</p>
+
+<p>Desde que fallecera Beatriz, a sua esposa querida, ninguem mais o viu em
+um baile, em um club, em uma associação recreativa.</p>
+
+<p>Magdalena resumia-lhe todos os encantos, todas as distracções, todos os
+prazeres.</p>
+
+<p>Com ella, com a sua adorada filha, passeiava elle muitas vezes,
+n'aquella alegria d'um doce bem estar, d'um gosar inalteravel de
+venturas suavissimas.</p>
+
+<p>Magdalena fôra educada esmeradamente, com todos os vivos cuidados d'um
+pae amantismo, mas sem o desenvolvimento, que mais tarde se desata em
+grandes exigencias, em superfluidades, em loucas ostentações. Jorge
+cercara-a sempre de todas as commidades, mas não a affastára nunca d'uma
+simplicidade abundante.</p>
+
+<p>As amigas de Magdalena fallavam-lhe de bailes, das alegrias, dos
+ehthusiasmos de qualquer reunião d'este genero, ella respondia, fallando
+do seu piano, das musicas novas, das bellezas d'algum livro, das
+alegrias d'um passeio ao lado do seu pae.</p>
+
+<p>E Magdalena vivia assim, contente, satisfeita, risonha e feliz, graças
+ao systema d'educação empregado por Jorge.</p>
+
+<p>A affabilidade, porém, do nosso capitalista, não se limitava á sua
+filha, não se resumia só n'ella; estendia-se, como já dissemos, a todos
+os que tinham o prazer de o tratar, fossem grandes ou pequenos, pobres
+ou ricos.</p>
+
+<p>Os proprios escravos eram os primeiros a estimal-o, porque não deixando
+de se fazer tratar por elles com o respeito devido, tambem os não
+olhava, como em geral, com olhos de despreso, nem os carregava
+d'asperidades, maus tratos e indifferença.</p>
+
+<p>Jorge acolheu, pois, affavelmente os seus novos socios e dirigiu-se ao
+escriptorio, para resolver os trabalhos e negociações do dia com elles.</p>
+
+<p>Leu-se a correspondencia, fizeram-se deliberações, disposeram-se algumas
+transacções de commum accordo.</p>
+
+<p>Jorge tinha no negocio uma longa pratica de muitos annos. O seu modo de
+vêr as cousas era d'um alcance vasto.</p>
+
+<p>Luiz e Americo ouviam-o attentos e tomavam as suas palavras como
+conselhos e lição.</p>
+
+<p>Depois de uma hora de conferencia o capitalista sahiu.</p>
+
+<p>Luiz ficou entregue á escripturação e Americo passou ao armazem a
+dirigir o trabalho dos negros e caixeiros.</p>
+
+<p>Os dois associados não mostraram o menor vislumbre do resentimento, nem
+das más disposições em que se achavam um com outro, na presença de
+Jorge.</p>
+
+<p>Bem pelo contrario, fallavam, consultavam-se, e olhavam-se, como duas
+pessoas ligadas por estreitissimos laços de amisade e de sympathia.</p>
+
+<p>A presença de Jorge continha-os dentro dos limites do respeito. Além de
+que, qualquer d'elles se julgava culpado perante a propria consciencia.
+Luiz ainda podia alliviar a culpa com a ideia do sentimento que o
+dominava, do amor que lhe estava enchendo o coração. Americo, esse, não
+tinha uma unica appellação.</p>
+
+<p>Jorge voltou de novo ás duas horas e foi encerrar-se com Luiz no
+escriptorio. Conversaram por largo tempo, e quando ás tres da tarde
+sahiu para regressar á chacara, chamou Americo e disse-lhe:</p>
+
+<p>--O senhor Luiz sahe amanhã no vapor das 8 horas para Macahé. Vai a
+negocios meus. Quando vier a correspondencia abra e dê as suas ordens
+como entender conveniente.</p>
+
+<p>--Sim, senhor.</p>
+
+<p>--Se até eu chegar, fôr preciso alguma coisa queira mandar-me aviso ao
+Botafogo.</p>
+
+<p>--Não ha de ter duvida.</p>
+
+<p>--Adeus.</p>
+
+<p>Apertaram as mãos e Jorge sahiu.</p>
+
+<p>Americo exultou de contentamento com a inexperada sahida de Luiz. Eram,
+pelo menos, quatro dias de demora, e em quatro dias podia, pensava elle,
+conseguir derrubar o seu rival do throno aonde começava a sentar-se.</p>
+
+<p>Luiz ficou triste com a noticia, pelo lado do coração. Assaltaram-o logo
+as saudades por Magdalena, e, sobre tudo, a ideia de que o mulato
+poderia aproveitar a sua ausencia para commetter alguma infamia.</p>
+
+<p>Exultou, porém, pelo lado da consciencia, porque ia desempenhar uma
+missão, em nome d'aquelle, a quem devia amisade, estima, confiança, e
+fortuna até.</p>
+
+<p>Estava d'um lado o amor, do outro o dever.</p>
+
+<p>A ausencia ia ser por poucos dias e uma voz intima lhe segredava ao
+coração, que havia de voltar a encontrar Magdalena, firme ainda no seu
+juramento, constante no seu affecto.</p>
+
+<p>Luiz confiava na pureza dos seus sentimentos, e tanto bastava para crêr
+que um anjo bom havia de proteger a sua causa.</p>
+
+<p>Demais, bem sabia elle que o cabinda olharia pela sua filha.</p>
+
+<p>Todavia Luiz não queria partir sem annunciar a Magdalena a sua ausencia.
+Ainda tinha tempo.</p>
+
+<p>No dia seguinte, ás sete horas, já elle andava de pé.</p>
+
+<p>O mulato passára a noite a fazer e a desfazer planos. A ausencia do seu
+associado sorria-lhe fagueiramente. No entanto nada poude decidir
+positivamente, porque tinha a certeza de que Luiz tomaria todas as
+precauções.</p>
+
+<p>Além d'isto, um dos maiores obstaculos que se levantavam, em face de
+qualquer resolução tomada, era o negro, era o cabinda de quem tinha, sem
+duvida, muito e muito a receiar.</p>
+
+<p>A ultima resolução foi a de esperar o curso das cousas.</p>
+
+<p>O mais provavel era que Luiz mandasse alguem a Magdalena, e n'esse caso
+elle faria todas as diligencias para o evitar.</p>
+
+<p>Luiz tambem não tinha outro recurso. Sahir sem avisar Magdalena não o
+fazia de certo, não podia fazel-o. Ainda se a demora fosse d'um dia! mas
+quatro pelo menos! Quatro dias era muito, sobretudo, para quem sente as
+primeiras saudades que são sempre mais dolorosas, mais profundas.</p>
+
+<p>Tomou a resolução de escrever a Magdalena, mandando-lhe a missiva por um
+dos negros do armazem. Nunca o cabinda foi tão desejado, nunca!</p>
+
+<p>Escreveu, pois, e incumbiu um dos escravos de chegar ao Botafogo, logo
+que Jorge viesse da chacara.</p>
+
+<p>Ás horas convenientes despediu-se friamente do mulato, que já andava de
+vigia, e partiu para o local d'onde sahiam os vapores da carreira para
+Macahé.</p>
+
+<p>Luiz levava a dôr das suas saudades e os receios d'alguma infamia do
+mulato...</p>
+
+<p>Ás nove horas entrava Jorge no armazem.</p>
+
+<p>Americo, depois dos cumprimentos do estylo, e d'alguns cavacos sobre a
+correspondencia e negociações do dia, deixou-o no escriptorio e veio ao
+armazem.</p>
+
+<p>Chamou os negros, interrogou-os a todos, perguntando se algum fôra
+incumbido pelo senhor Luiz de ir ao Botafogo levar algum recado.</p>
+
+<p>Um d'elles respondeu que sim.</p>
+
+<p>--A que? perguntou Americo.</p>
+
+<p>--Levar isto á senhora moça.</p>
+
+<p>--Deixa vêr.</p>
+
+<p>E tomou das mãos do negro a carta fechada, que este lhe apresentou.</p>
+
+<p>--Não é preciso ires, eu mandarei lá.</p>
+
+<p>E guardou a carta, contente, n'uma alegria visivel, em que se traduzia o
+sentimento d'uma vingança quasi realisada.</p>
+
+<p>O mulato era um infame, e esquecia-se de que a Providencia vela sempre
+pelos justos e pelos bons!</p>
+
+<p>A grande questão d'Americo era, quando não conseguisse para si
+Magdalena, empregar todos os meios para que Luiz a não conseguisse
+tambem.</p>
+
+<p>N'este desejo é que elle ia trabalhar, e, sobretudo, aproveitar os
+poucos dias d'ausencia do seu socio, que, a bordo do vapor da carreira,
+ia curtindo saudades, sempre com a imagem seductora e deslumbrante de
+Magdalena a povoar-lhe a visão, e a apparecer-lhe em tudo!</p>
+
+
+
+
+<h3>XI</h3>
+
+
+<p>Americo, apenas Jorge sahiu, foi ao escriptorio, sentou-se, tomou uma
+folha de papel e escreveu a seguinte carta:</p>
+
+<div class="carta"> <p class="direita">«Ex.<sup>ma</sup> Snr.<sup>a</sup></p>
+
+<p>«O meu amigo e socio, Luiz de Mello, sahiu hoje, inesperadamente, para
+Macahé, no vapor das 8 horas, a negocios do seu ex.<sup>mo</sup> pae. Deixou-me uma
+carta para V. Ex.<sup>a</sup>, recommendando-me que das minhas mãos só sahisse para
+as suas. Pediu-me tambem todo o segredo, e para que ninguem me veja,
+peço a v. ex.<sup>a</sup> o obsequio de apparecer esta noute, ás 10 horas, no
+caramanchão da chacara, junto ao lago, onde me encontrará para entregar
+a V. Ex.<sup>a</sup> a referida carta.</p>
+
+<p class="direita">De V. Ex.<sup>a</sup>, etc.,</p>
+
+<p class="direita"><i>Americo d'Abreu.</i>»</p> </div>
+
+<p>Fechou, e subscriptou a Magdalena, sahiu, chamou um negro de fretes e
+enviou-o ao Botafogo, á chacara de Jorge.</p>
+
+<p>Voltou ao armazem, mas em sobresaltos, com o receio de que, uma recusa
+de Magdalena lhe poderia frustrar tão magnifico ensejo.</p>
+
+<p>A formosa filha do cabinda ficou duplamente surprehendida com a carta do
+mulato.</p>
+
+<p>D'um lado a ausencia de Luiz, do outro o convite nocturno que Americo
+lhe fazia.</p>
+
+<p>Teve o presentimento d'uma traição, d'um ardil, d'um estratagema, e quiz
+responder immediatamente que não concedia a entrevista pedida.</p>
+
+<p>Mas Americo fallava-lhe d'uma carta de Luiz, e ella hesitou.</p>
+
+<p>Ficou na alternativa d'uma duvida, espinhosa, inquietadora, turturante
+mesmo. Acceder era collocar-se n'uma posição altamente compromettedora;
+não acceder, se Luiz havia effectivamente escripto a carta, era um
+desgosto grandissimo.</p>
+
+<p>Magdalena via-se pela primeira vez entre as vicissitudes d'um amor, que
+nasce espontaneo, caudaloso e vehemente.</p>
+
+<p>Estava na dolorosa espectativa d'uma grandissima hesitação, quando
+entrou o cabinda.</p>
+
+<p>O negro era n'aquelle momento o anjo bom de Magdalena. Só elle a podia
+tirar dos embaraços que a prendiam.</p>
+
+<p>Magdalena exultou de alegria, vendo-o entrar.</p>
+
+<p>--Ah! ainda bem que vens! exclamou ella, correndo para o negro. Não
+podias chegar em melhor occasião.</p>
+
+<p>--Quer alguma cousa ao negro a senhora moça?</p>
+
+<p>--O senhor Luiz foi para Macahé.</p>
+
+<p>--O branco? perguntou o cabinda admirado.</p>
+
+<p>--Sim.</p>
+
+<p>--Quem o disse á minha filha?</p>
+
+<p>--O senhor Americo.</p>
+
+<p>--O mulato? interrogou o negro, mais admirado ainda.</p>
+
+<p>--Sim. Escreveu-me esta carta a dar-me a noticia, e a pedir-me para esta
+noute ás 10 horas apparecer no caramanchão do lago, para me entregar uma
+carta de Luiz.</p>
+
+<p>--E porque a não mandou o mulato?</p>
+
+<p>--Porque só a mim a quer entregar.</p>
+
+<p>O cabinda sorriu-se n'uma expressão d'ironia e d'ameaça.</p>
+
+<p>--E a senhora moça o que responde?</p>
+
+<p>--Não sei. Tenho mêdo. Tu que dizes?</p>
+
+<p>--Que a minha filha diga ao mulato que venha.</p>
+
+<p>--Mas...</p>
+
+<p>--Não tem duvida. O cabinda cá está! A onça não tem mêdo ao tigre que
+assalta o seu covil. O negro tem visto muita jiboia!</p>
+
+<p>Magdalena, para não demorar mais o portador, tomou uma meia folha de
+papel e escreveu o seguinte:</p>
+
+<div class="carta"> <p>«Espero-o á hora marcada.</p>
+
+<p class="direita"><i>Magdalena.</i>»</p> </div>
+
+<p>Dobrou e deu ao cabinda, dizendo-lhe:</p>
+
+<p>--Toma; dá ao negro que está esperando.</p>
+
+<p>--Não, senhora moça. O negro não quer que o seu parceiro o veja.</p>
+
+<p>--Porque?</p>
+
+<p>--A minha filha o saberá. O mulato não é bom.</p>
+
+<p>Magdalena chamou então o portador e mandou-o com a resposta.</p>
+
+<p>Quando voltou já não encontrou o cabinda.</p>
+
+<p>Sentou-se ao piano, mas agitada, convulsa, nervosa e inquieta.</p>
+
+<p>Não lhe sahia da imaginação o encontro que ia ter, e apesar de toda a
+sua ingenuidade, Magdalena tinha quasi a certeza de que ia commetter uma
+imprudencia.</p>
+
+<p>O cabinda não era, porém, um homem capaz de consentir que alguem
+offendesse a sua filha. Elle que lhe disse que mandasse apparecer o
+mulato, é porque lá tinha os seus planos.</p>
+
+<p>No entanto, Magdalena estava collocada entre as saudades que a pungiam,
+lembrando-se da ausencia de Luiz, entre os receios da entrevista
+concedida ao mulato a horas tão pouco apropriadas, e os grandissimos
+desejos de receber a carta, que o seu eleito lhe havia deixado.</p>
+
+<p>Só n'isto a formosa menina pensava, só isto a absorvia completamente. Os
+seus livros predilectos, as suas florinhas queridas, os seus passeios
+pela chacara, foram esquecidos, foram olvidados.</p>
+
+<p>Era dolorosa a posição de Magdalena. Nem uma irmã, nem uma amiga a quem
+podésse abrir o seio, com quem desabafasse, com quem repartisse o enorme
+peso, que a estava opprimindo!</p>
+
+<p>Ainda hontem a embalavam as harmonias dulcissimas das palavras de Luiz,
+os perfumes magicos das flôres mimosas do amor, que elle lhe protestava,
+os sonhos deliciosos da ventura tão suspirada!</p>
+
+<p>Pobre creança!</p>
+
+<p>Americo recebeu a resposta de Magdalena n'uns alvoroços de louca
+alegria. O mulato esperava agora, no meio d'uma grande anciedade, que a
+noute descesse, com o seu manto de sombras e de escuridão, para realisar
+os seus planos.</p>
+
+<p>A carta de Luiz a Magdalena estava em seu poder. O mulato commettera a
+infamia de a abrir, de devassar o seu contheúdo.</p>
+
+<p>Para elle, aquella folha de papel, era uma preciosidade que valia muito.</p>
+
+<p>Não podia ella servir para comprometter o seu socio, o seu rival? Não
+bastaria que elle a apresentasse a Jorge, para que este o despedisse
+logo, sem o minimo processo investigatorio? Não revelava ella um abuso
+da parte de Luiz?</p>
+
+<p>O mulato ia fazendo todas estas considerações, no meio da alegria que o
+dominava.</p>
+
+<p>O bilhete que Magdalena mandára a Americo não seria tambem sufficiente
+para mostrar a Luiz que ella aproveitára a sua ausencia, para conceder a
+outro uma entrevista, a horas, de mais a mais, tão pouco proprias?</p>
+
+<p>No entanto, a formosa virgem, estava oppressa debaixo dos sobresaltos e
+dos receios, das esperanças e das saudades.</p>
+
+<p>Valia-lhe o seu piano. Unico amigo, unico confidente, unico sacrario,
+permittam-me a comparação, onde espraiava os sentimentos, que a
+agitavam, o harmonioso instrumento devia de futuro ter uma grandissima
+pagina no seu livro de recordações.</p>
+
+<p>Se elle chorava com as lagrimas d'ella! se elle enchia-se de
+enthusiasmos com as suas alegrias, gemia com as suas saudades, e todo se
+deliciava e desatava em celestes harmonias, quando lhe encrespavam o
+seio as ondas bellas dos effluvios do amor, douradas pelas mil palhetas
+resplandecentes do sol da ventura!</p>
+
+<p>Era com elle que ella sonhava os mundos vaporosos, as visões seductoras
+d'uma existencia recamada de sorrisos, alastrada de flôres, embriagada
+de perfumes e cega por excessos de luz divina!</p>
+
+<p>Era elle quem tinha sempre um echo para as vozes do seu coração, um
+suspiro para cada anceio de sua alma, um gemido para cada ai, exhalado
+de seus labios, formosos, como rosa mal aberta!</p>
+
+<p>Conhecia-a de creança, suavisára-lhe as primeiras saudades, as saudades
+de sua mãe, e em todos os tempos a acolhera caricioso, cheio de
+affectos, magico de harmonias.</p>
+
+<p>Quem sabe ainda para o que elle estaria reservado?</p>
+
+<p>Agora, era elle ainda quem, paciente, estava soffrendo as impetuosidades
+da anciedade que lhe opprimia o peito debil!</p>
+
+<p>O cabinda, o negro fiel, o escravo dedicado, o amigo sincero, esse
+andava no lago, em volta do caramanchão, a sondar todos os cantos, a
+espionar todos os nichos, como quem estivesse encarregado de estudar a
+topographia do local.</p>
+
+<p>O negro lá tinha a sua ideia.</p>
+
+<p>Não era inutil, não devia sel-o, aquelle trabalho, porque quasi se lhe
+liam nos grandes olhos os pensamentos que lh'o impunham.</p>
+
+<p>E Luiz?</p>
+
+<p>O amoroso moço, longe do Rio de Janeiro, lá tinha no seio a imagem de
+Magdalena, o sentimento no coração, as saudades na alma e o receio a
+agitar-lhe todo o ser.</p>
+
+
+
+
+<h3>XII</h3>
+
+
+<p>É noute, formosa como as da America, resplendente de luar, bordada de
+estrellas, impregnada de perfumes e suave de harmonias. Despenham-se
+murmuradoras, por entre as sinuosidades graniticas, as aguas das
+cascatas e das cachoeiras, formando lindissimos rolos de espuma, até
+cahirem no vasto leito, onde a fada palpitante, a rainha voluptuosa,
+mira languida o seu rosto prateado. Agitam-se levemente, ao sopro suave
+da aragem nocturna, os calices das flôres aromaticas, e os ramos, as
+folhas viçosas das arvores gigantes das florestas.</p>
+
+<p>Este meio silencio da natureza, este conjuncto de vozes indistinctas,
+sahido do seio das vastas mattas; a luz, que jorra brilhante das perolas
+engastadas na immensidão azul d'um céo tropical; as ondas inebriantes,
+embriagadoras, dos perfumes, que de toda a parte se levantam invisiveis;
+os cantos magicos, doces, harmoniosos, de algumas das aves nocturnas dos
+climas do novo mundo; e, finalmente, este quê ignoto, indefinivel, que
+distingue as noutes da America das noutes da Europa, parece que dão á
+alma mais desejos, aos desejos mais fogo, e ao fogo mais labaredas.</p>
+
+<p>É calido o ambiente. O corpo ressente-se d'este estado da athmosphera, e
+verga ao pêso d'uma languidez, semilhante á somnolencia voluptuosa
+produzida pelo opio.</p>
+
+<p>Reclina-se o corpo; os braços pendem como cançados; a cabeça cede
+naturalmente e cahe meio adormecida; cerram-se os olhos, e n'este
+estado, que não é somno, nem delirio, nem sonho, nem embriaguez, mas que
+é um composto suave de tudo isto, o espirito vôa, como as aguias das
+montanhas, ás regiões formosas do puro idealismo, onde o leva a
+phantasia ardente, que vegeta dabaixo do sol dos tropicos; a alma anceia
+em ondas infinitas; o coração palpita fremente de desejos, e ha em tudo,
+n'esses momentos, um desabrochar opulento, luxuriante, e vigoroso d'essa
+poesia que se sente, que se gosa, que extasia, que brota, invisivel, das
+harpas, sempre afinadissimas, do immenso vate chamado--natureza.</p>
+
+<p>Ó noutes do Brasil! ó noutes de poesia e d'encanto! desenrolae o vosso
+manto de mysterios, e deixae que as juritys arrulem amores nos ninhos
+aveludados, e os sabiás <i>desfiem as perolas</i> dos seus cantos amorosos!</p>
+
+<p>Deixae que cada sêr palpite, que cada amor se expanda, que cada alma se
+banhe na luz vaporósa do ideal da ventura!</p>
+
+<p>É noute, pois, e noute deslumbrante. O Botafogo repousa depois d'um dia
+de vida mais. Soaram tres quartos depois das nove horas na torre
+distante da egreja da Gloria, que, do seu morro, domina a vasta bahia do
+Rio de Janeiro. As aguas, da enseada do Botafogo estão dormentes,
+quietas e serenas. São um espelho onde a lua e as estrellas reflectem os
+seus raios resplandecentes. Vaga mansamente ao longe um barquinho
+solitario, d'onde, nas pandas azas da viração perfumada, se eleva uma
+voz sonora, suave e sympathica, soltando no meio do silencio umas
+estrophes d'amor.</p>
+
+<p>É a voz d'algum vate enamorado? ou d'algum sêr que geme saudades?</p>
+
+<p>Não sei.</p>
+
+<p>O silencio da noute estende-se ainda aos jardins e á chacara de Jorge de
+Macedo.</p>
+
+<p>O negro cabinda e Magdalena seguem, fallando baixinho, uma das compridas
+ruas, que vão desembocar ao lago.</p>
+
+<p>Magdalena vae trémula e receiosa. O cabinda animado e faiscando
+centelhas de fogo dos seus grandes olhos.</p>
+
+<p>--Já lá estará, cabinda? perguntava Magdalena.</p>
+
+<p>--É cêdo ainda, senhora moça.</p>
+
+<p>--Vou com tanto mêdo.</p>
+
+<p>--O negro lá hade estar, minha filha.</p>
+
+<p>--Corre logo, se fôr preciso, ouviste?</p>
+
+<p>--De traz dos maracujás, o negro hade vêr tudo.</p>
+
+<p>Chegaram ao lago. Era completo o silencio. Magdalena entrou para o
+caramanchão. O negro foi cauteloso collocar-se atraz d'uma das paredes
+de cipós, que o formavam.</p>
+
+<p>--O negro fica aqui, senhora moça.</p>
+
+<p>--Bem, não falles nem bulas que podes trahir-te.</p>
+
+<p>--Descance a senhora moça.</p>
+
+<p>E Magdalena começou a pensar na imprudencia que estava commettendo.</p>
+
+<p>Todavia, o que não faria ella para receber uma carta de Luiz, de Luiz
+que amava tanto, e que se ausentára sem tempo, ao menos, para se
+despedir?</p>
+
+<p>Esteve assim alguns minutos. Ouviam-se apenas o bulir das folhas das
+mangueiras, a respiração alterada de Magdalena, e o murmurio das aguas,
+caindo no lago pela boca do tritão de marmore.</p>
+
+<p>O muro, a que se encostava o caramanchão, tinha a altura de metro e
+meio. Os ramos folhudos d'uma grande tamarindeira furtavam-o, n'aquelle
+logar, aos raios prateados da lua, deixando-o envolvido n'uma escuridade
+vaga e indecisa.</p>
+
+<p>De subito a cabeça d'um homem surgiu do lado de fóra; conservou-se
+attento alguns segundos, como sondando o local, elevou-se depois e
+saltou para dentro cauteloso.</p>
+
+<p>Era Americo. O negro estava d'espreita e já o tinha sentido.</p>
+
+<p>O mulato rodeou pé ante pé a grande tamarindeira e dirigiu-se ao
+caramanchão. Vinha receioso em extremo, e Magdalena, que lhe ouvira os
+passos, não o esperava mais animosa.</p>
+
+<p>Chegou á entrada do caramanchão.</p>
+
+<p>--Magdalena! murmurou elle baixo.</p>
+
+<p>--Senhor Americo! respondeu ella timidamente.</p>
+
+<p>--Esperou muito, não?</p>
+
+<p>--Não; mas agora não posso demorar-me.</p>
+
+<p>--Estamos sós.</p>
+
+<p>--Estamos.</p>
+
+<p>--Ainda bem.</p>
+
+<p>E chegou-se mais a Magdalena e ia a tomar-lhe as maõs, quando ella
+retirando-as accudiu:</p>
+
+<p>--Perdão, senhor. Creio que foi para satisfazer ao pedido do seu amigo
+que aqui veio, e já lhe confessei que não posso demorar-me.</p>
+
+<p>--Para satisfazer ao pedido do meu amigo! Não, não foi para isso, minha
+senhora.</p>
+
+<p>--Para que foi então? acudiu Magdalena de subito.</p>
+
+<p>--Foi para lhe dizer que a amo, que a adoro, que sou louco, muito louco
+por V. Ex.<sup>a</sup>!</p>
+
+<p>--Senhor Americo!</p>
+
+<p>--Oh! não se afflija V. Ex.<sup>a</sup> Usei d'este estratagema, porque sei que não
+conseguiria d'outro modo estar junto de V. Ex.<sup>a</sup> Sei que o seu coração se
+inclina para Luiz, mas V. Ex.<sup>a</sup> é que não sabe os sentimentos que o
+dominam a elle. Julga, no meio da sua ingenuidade que elle a ama tambem,
+mas creia, que só a ambição o domina. O amor, o fogo, o delirio é nosso,
+é dos brazileiros, que nascem debaixo d'este sol que queima, e não dos
+que nascem entre os gelos que petreficam.</p>
+
+<p>--Perdão ainda uma vez, senhor. Ou vem para me dar a carta de Luiz, ou
+nada tenho que fazer aqui e retiro-me.</p>
+
+<p>--Não; V. Ex.<sup>a</sup> não se retira assim. Já que consentiu em me receber a
+esta hora, hade fazer o sacrificio de ouvir-me.</p>
+
+<p>--Não tenho que ouvir-lhe, senhor.</p>
+
+<p>--Mas tenho eu que dizer-lhe. Diga-me V. Ex.<sup>a</sup>: porque ha de acceitar os
+galanteios calculados de Luiz e desprezar o sentimento verdadeiro que
+lhe offereço?</p>
+
+<p>--E quem lhe dá o direito de m'interrogar?</p>
+
+<p>--A minha superioridade n'este momento. Esquece-se de que estamos sós?</p>
+
+<p>--Oh! mas isso é...</p>
+
+<p>--Para estranhar talvez, é. Mas V. Ex.<sup>a</sup> não sabe, não comprehende os
+desejos que me devoram. E a indifferença de V. Ex.<sup>a</sup> excita-me em vez de
+esmagar-me. Oh! por piedade Magdalena!</p>
+
+<p>E segurou-lhe uma das mãos, tremulo, nervoso, febricitante.</p>
+
+<p>--Deixe-me, senhor!</p>
+
+<p>E quiz fugir-lhe. Americo, porém, n'um momento d'exaltação deitou-lhe as
+mãos ás tranças dos cabellos para a deter. Magdalena exforçou-se e poude
+desembaraçar-se d'elle, deixando-lhe nas mãos uma das fitas que lhe
+ornavam a cabeça.</p>
+
+<p>--Oh o senhor é um infame!...</p>
+
+<p>--Mas não ha de fugir-me assim!</p>
+
+<p>E seguiu-a continuando:</p>
+
+<p>--Ao menos hei de levar um beijo...</p>
+
+<p>E tinha prendido Magdalena, e ia commetter a infamia, quando sentiu o
+pescoço apertado vigorosamente por uma mão de ferro. Era do cabinda.</p>
+
+<p>Americo soltou um rugido.</p>
+
+<p>Magdalena exclamou vendo-se livre do mulato:</p>
+
+<p>--Que fazes, cabinda!</p>
+
+<p>--Mato a serpente, senhora moça!</p>
+
+
+
+
+<h3>XIII</h3>
+
+
+<p>Houve um momento de silencio, curto, mas terrivel para Magdalena, que,
+ao ouvir o cabinda, julgou que elle ia espatifar o mulato, e para este
+tambem, vendo-se em face d'um inimigo tão possante.</p>
+
+<p>A lua inundava, agora, com os seus raios deslumbrantes o palco, onde se
+representava aquelle drama; e para contraste das paixões, que alli se
+agitavam, n'aquelle instante, um sabiá, poisado nos galhos d'uma
+jaqueira, começou a vibrar as doces melodias do seu canto suavissimo.</p>
+
+<p>Magdalena estava tranzída de medo; o mulato espumante de raiva, no meio
+da sua impotencia; e o cabinda risonho, mas n'uma alegria feroz.</p>
+
+<p>Era um quadro digno d'um pincel aprimorado.</p>
+
+<p>--Mato a serpente, senhora moça! dissera o negro a Magdalena, quando
+esta lhe perguntava o que fazia, vendo-o agarrado ao pescoço do infame
+mulato.</p>
+
+<p>Este, ao ouvil-o sentiu-se como aniquilado, mas por um exforço, proprio
+do instincto dos da sua raça, poude desembaraçar-se do negro, guardou
+rapido a fita das tranças de Magdalena, que lhe ficára nas mãos, recuou
+dois passos, e de subito agitou no ar um punhal, cuja lamina pequenina
+brilhava aos raios da lua.</p>
+
+<p>Magdalena, como que perdida, cheia da coragem, que os grandes lances
+despertam nas almas mesmo mais fracas, correu para Americo, a
+suspender-lhe o golpe, que ella julgava imminente sobre o cabinda.</p>
+
+<p>N'este momento, porém, crusava-se no ar com o punhal d'Americo uma
+comprida e ponteaguda faca, vibrada pela mão vigorosa do negro.</p>
+
+<p>Duas vidas estavam suspensas das pontas d'aquelles dois instrumentos. Os
+braços podiam descer ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo fazerem duas
+victimas, rasgando dois seios.</p>
+
+<p>E assim aconteceria, se não fosse uma imprudencia de Magdalena,
+imprudencia que a poderia ter morto, mas que felizmente não teve
+resultados funestos.</p>
+
+<p>Quando a força dos dous inimigos ia ser empregada em vibrar o golpe,
+chegava Magdalena collocando-se entre elles.</p>
+
+<p>Suspenderam-se então, mas nos olhos de cada um chammejava feroz a raiva,
+o odio, uma tempestade, finalmente, horrorosa e tetrica.</p>
+
+<p>--Que faz, senhora moça! gritou o negro.</p>
+
+<p>--Estás doido, cabinda!</p>
+
+<p>--É o que te vale, canalha! acudiu Americo.</p>
+
+<p>--Basta, senhor, d'injurias e d'infamias! Sou mulher e fraca, mas não
+tenho receio de o mandar calar e de retirar-se!</p>
+
+<p>--Creança!</p>
+
+<p>--Lacaio!</p>
+
+<p>O cabinda era um vulcão latente. Continha-o a presença de Magdalena. No
+entanto, as forças, ou antes, a paciencia, ia começando a faltar-lhe e
+ai do mulato se a lava podesse romper!</p>
+
+<p>Americo sentiu-se humilhado com a affronta provocada, e respondeu
+atrevidamente a Magdalena:</p>
+
+<p>--Ponha essa palavra na bôcca d'um homem e diga-lhe que m'atire.</p>
+
+<p>--Ó senhora moça! deixe-me com elle! gritou o cabinda investindo para
+Americo.</p>
+
+<p>--Não, que te enlameias!</p>
+
+<p>--Respeito-a porque é mulher, porque é uma creança. Todavia, creia que
+não ficaremos sem saldarmos as contas.</p>
+
+<p>--Quando quizer. Vamos, cabinda.</p>
+
+<p>E Magdalena, aquella creança que nós conhecemos, bondosa, meiga,
+delicada, sensivel, tomou, lançando ao mulato o seu olhar expressivo de
+cólera, o negro pelo braço e arrastou-o consigo, affastando-se em
+direcção a casa.</p>
+
+<p>O cabinda cedeu, e nem elle era homem que resistisse á sua filha, mas
+não sem que se voltasse para traz, gritando ao mulato:</p>
+
+<p>--O negro cá fica. Cautella com o cabinda.</p>
+
+<p>Americo tragou a ameaça em silencio e ficou só, no meio da febre da sua
+exaltação, que pouco a pouco devia ir diminuindo.</p>
+
+<p>Sentou-se e esteve scismando durante alguns minutos. Occorreu-lhe,
+porém, a lembrança de que o negro poderia voltar, achou-se fraco perante
+a robustez do seu inimigo e deixou a chacara saltando para fóra.</p>
+
+<p>Estava cançado.</p>
+
+<p>As coisas começavam a correr-lhe mal, e isto exasperava-o mais, que as
+offensas e as affrontas que havia recebido.</p>
+
+<p>Deixou correr as ideias atraz dos seus desejos de vingança, mas teve um
+momento em que quasi succumbiu.</p>
+
+<p>Americo, em vez d'um, via, agora, tres inimigos diante de si:--Luiz,
+Magdalena e o negro.</p>
+
+<p>A lucta era desigual e poderosos os seus contendores.</p>
+
+<p>O primeiro ensejo, a primeira occasião favoravel, fôra de toda perdida,
+e longe de aproveitar-lhe antes o collocou em mais critica posição.</p>
+
+<p>Os cuidados e as precauções haviam de redobrar-se agora contra elle, e
+isso obrigava-o, para conseguir os seus fins, a redobrar tambem
+d'astucias e d'ardis.</p>
+
+<p>No entanto, as esperanças de derrubar Luiz do altar do coração de
+Magdalena, não o abandonaram de todo. Mais ou menos lá lhe floriam no
+coração, entre os sentimentos ignobeis da preversidade que o dominava.</p>
+
+<p>No entanto, Magdalena acompanhada pelo cabinda, ao dirigir-se a casa,
+depois d'aquella scena violenta, que tanto a excitára, ia-lhe dizendo,
+com ar de quem lhe impunha a sua vontade:</p>
+
+<p>--Olha que não quero que alguem saiba do que se acaba de passar-se.</p>
+
+<p>--Descance a minha filha.</p>
+
+<p>--Nem mesmo ao senhor Luiz, quando chegar, ouviste?</p>
+
+<p>--Nem o branco?</p>
+
+<p>--Nem esse.</p>
+
+<p>--Então o mulato hade ficar assim?</p>
+
+<p>--Perdoo-lhe, Cabinda.</p>
+
+<p>--Mas o negro é que não perdoa senhora moça.</p>
+
+<p>--Ha de perdoar, porque eu assim o quero.</p>
+
+<p>--E se elle voltar? o mulato é mau...</p>
+
+<p>--Se voltar, fallaremos então.</p>
+
+<p>--Oh! senhora moça! o negro tem bom olho e pulso forte. E o cabinda
+estende-o logo como o caçador á onça do mato.</p>
+
+<p>--Já te disse que não fazes nada.</p>
+
+<p>--A minha filha manda.</p>
+
+<p>--E tu obedeces.</p>
+
+<p>Tinham chegado á escadaria de pedra que conduzia á habitação. A preta
+Maria, que era a mucamba de Magdalena, uma especie de creada grave,
+vinha descendo já para ir procural-a, estranhando que contra o seu
+costume, a senhora moça andasse pela chacara áquella hora.</p>
+
+<p>Magdalena apenas a viu perguntou logo:</p>
+
+<p>--Onde vaes, Maria.</p>
+
+<p>--Ia procurar a senhora moça.</p>
+
+<p>--Ainda bem que te poupo esse trabalho. Fui passear até ao lago,
+acompanhada do cabinda.</p>
+
+<p>--Eu não via a senhora moça, e fiquei logo com cuidado.</p>
+
+<p>--Obrigada. Estava a noite tão bonita que não pude resistir-lhe.</p>
+
+<p>--Fez bem, senhora moça.</p>
+
+<p>--Pergunta ao cabinda, como, na grande tamarindeira, do lago, estava
+cantando um sabiá!</p>
+
+<p>--Bonito, Maria!</p>
+
+<p>E n'isto foram entrando em casa.</p>
+
+<p>Perto da meia noite entrava tambem o mulato no seu quarto da rua dos
+Pescadores. Levava estampado no rosto a expressão d'um grande
+descontentamento. A decepção que soffrera fôra grande e, sobre tudo,
+inesperada.</p>
+
+<p>Depois, não era só isto o que o preoccupava; era tambem a ideia de que
+tinha ainda novas scenas, apenas Luiz chegasse, porque tinha como certo
+que Magdalena não deixaria de narrar-lhe a sua ousadia, e tudo quanto
+tinha acabado de passar-se.</p>
+
+<p>Americo reconhecia agora a falsidade da sua posição.</p>
+
+<p>Além d'isto, se todas estas coisas chegassem aos ouvidos de Jorge, era
+mais facil que elle perdoasse a Luiz, e attendesse aos rogos de
+Magdalena, sua filha, do que esquecesse a infamia tentada por Americo.</p>
+
+<p>O que elle tinha como certo; era que as coisas depois dos ultimos
+acontecimentos, dessem de si, tivessem um resultado qualquer. Luiz era
+um homem de dignidade e a isto juntava agora todo o amor que o
+inflammava. E bem ameaçado deixára o mulato antes de partir para Macahé,
+fazendo-lhe sentir que Magdalena lhe era uma pessoa sagrada, e que teria
+de justar com elle todas as contas, se de qualquer modo a offendesse,
+injuriasse ou affrontasse.</p>
+
+<p>Todavia, Americo, apesar de sentir o peso de todas estas reflexões que
+lhe suggeria o seu espirito, não deixava, ainda assim, de conceber uma
+esperança. Desanimar, não desanimava.</p>
+
+<p>Tinha a pertinacia dos da sua raça pouco pura, a teimosia dos que,
+dotados de maus sentimentos e indole perversa, não duvidam nem hesitam
+em ir augmentando o mal, para conseguirem os seus fins, á medida que os
+obstaculos, que as barreiras se vão levantando.</p>
+
+<p>Era por isso que o mulato, no silencio do seu quarto, examinando agora o
+bilhete de Magdalena e a fita de sêda que as tranças dos cabellos d'ella
+lhe deixaram nas mãos, dizia com expressão de grande malvadez:
+
+--Ainda cá está isto! Valem e podem muito estes objectos!</p>
+
+
+
+
+<h3>XIV</h3>
+
+
+<p>Passaram-se quatro dias sem acontecimentos dignos de mencionarem-se.
+Magdalena ia gemendo as suas saudades; o cabinda cuidando dos jardins e
+da chacara, e Americo curtindo os ardentes desejos da suspirada
+vingança.</p>
+
+<p>Ao quinto dia surgiu Luiz, regressando de Macahé.</p>
+
+<p>Vinha ancioso o pobre moço; eram vehementes os desejos de vêr Magdalena.</p>
+
+<p>Depois, como a todos os namorados, como a todos aquelles que se
+alimentam do fogo sagrado do amor, Luiz sentia d'um lado as venturas de
+ter acabado com uma ausencia, que lhe era extremamente dolorosa, e
+sentia, do outro, os espinhos afiados, com que o estava ferindo a ideia
+de que Magdalena o tivesse esquecido, o tivesse abandonado.</p>
+
+<p>Era a duvida, d'um lado, com toda a sua escuridão, com toda a sua noute;
+e a esperança, do outro, com os resplendores vivissimos do seu formoso
+sol, com todos os suaves perfumes das flôres da sua primavera.</p>
+
+<p>Além d'isto avultava tambem a incerteza sobre o procedimento do mulato,
+seu socio.</p>
+
+<p>Teria elle respeitado Magdalena?</p>
+
+<p>Teria commettido alguma infamia, durante os quatro dias e meio da sua
+dolorosa ausencia?</p>
+
+<p>Ninguem podia responder-lhe; e ávido de saber tudo isto, ávido de vêr
+Magdalena, de fallar-lhe, de a ouvir, de lhe escutar ainda uma e muitas
+vezes um protesto d'amor, é que elle entrava agora em casa, trazendo
+tambem a consciencia satisfeita, pelo bom desempenho da commissão, de
+que fôra encarregado.</p>
+
+<p>Americo não o esperava de volta tão cedo, e sentiu o que quer que é ao
+vêl-o entrar, porque estremeceu, e empallideceu subitamente.</p>
+
+<p>Presentiu, naturalmente, a violencia das tempestades, que iam
+desencadeiar-se, e depois de revolto o mar, quem poderia assegurar-lhe a
+salvação, ou evitar-lhe um naufragio?</p>
+
+<p>Esperanças, pelo menos, de fazer mal a Luiz, tinha-as elle, embora
+poucas, mas assentes em que base é que elle não sabia. Resultados da sua
+indole, da sua perversidade.</p>
+
+<p>Em todo o caso, desistir da lucta, nunca! Seria uma cobardia, uma
+vergonha immensa, uma nodoa indelevel, segundo o seu parecer, e a isso
+preferia antes o esmagamento, uma quéda, uma derrota completa, que lhe
+inutilisasse todos os recursos. Então sim, antes d'isso, não desistiria
+dos seus intentos.</p>
+
+<p>No entanto, Luiz, entrando em casa, ás oito horas da manhã quiz
+mostrar-se generoso, ou antes, que tinha confiança em si e em Magdalena,
+e dirigiu-se a Americo, cumprimentando-o, como que se um resentimento o
+não estivesse remordendo intimamente.</p>
+
+<p>O mulato respondeu cortezmente, mas com certa frieza.</p>
+
+<p>A sua pallidez, ou antes a mudança de côr que se operara no seu rosto,
+com a entrada inesperada de Luiz, desappareceram após as primeiras
+impressões, para dar logar á viva expressão dos desejos que o assaltavam
+de recomeçar a luta com o seu antagonista.</p>
+
+<p>Tinha o mulato para si, que devia romper, e romper logo, a fim de ganhar
+sobre o seu adversario a força moral de que precisava. Era uma
+estrategia boa na apparencia, mas falsa, sem duvida, pelos resultados.</p>
+
+<p>Luiz tambem não era homem para succumbir; dava-lhe alentos o seu amor, e
+além d'isso era... portuguez!</p>
+
+<p>Ás oito horas e meia entrava Luiz no escriptorio, depois de se ter
+preparado.</p>
+
+<p>Americo lá estava, sentado a lêr a correspondencia.</p>
+
+<p>Nem sequer olhou para o seu socio.</p>
+
+<p>--Fez-se algum negocio? começou Luiz.</p>
+
+<p>--Bastante, respondeu Americo seccamente.</p>
+
+<p>--Houve alguma novidade, durante estes dias que andei por fóra?</p>
+
+<p>--Importante nenhuma. Apenas uma entrevista que me deu Magdalena, uma
+d'estas noites, aproveitando para isso a tua ausencia.</p>
+
+<p>Luiz sentiu-se como ferido por uma profunda punhalada, e levantou-se
+subitamente com a pallidez no rosto, o fogo nos olhos e umas temiveis
+convulsões nas mãos.</p>
+
+<p>--Mentes! bradou o moço.</p>
+
+<p>--Mentirei...</p>
+
+<p>--Mas como um vilão!...</p>
+
+<p>--No entanto tenho as provas comigo.</p>
+
+<p>--Mostra-as, se és capaz!</p>
+
+<p>--Julgas então que era chegar, vêr e vencer! Enganas-te. Magdalena
+disfructava-te, porque fazia de ti um brinquedo, com que se divertia,
+sem nunca pensar em tomar a sério os teus protestos d'amor.</p>
+
+<p>--É falso, repito! E senão mostra-me as provas ou esmago-te como quem
+esmaga um reptil venenoso!</p>
+
+<p>--Tenho-as aqui e parece-me que bem claras.</p>
+
+<p>--Fazes-me perder a razão, e depois...</p>
+
+<p>--Conheces esta letra? lê...</p>
+
+<p>E Americo deu a Luiz o bilhete em que Magdalena lhe concedia a
+entrevista.</p>
+
+<p>--E, mais do que isso talvez... tens ainda aqui esta fita da trança dos
+seus cabellos... Que dizes agora?</p>
+
+<p>Luiz nunca na sua vida sentira o que estava sentindo n'aquelle momento.
+Era o ciume, a raiva, o desespero e o odio, confundidos, misturados,
+amalgamados, n'um sentimento que a penna não póde traduzir.</p>
+
+<p>Vacillava-lhe a razão, fugia-lhe a vista, em face d'aquelle bocadinho de
+papel, que lhe estava queimando as mãos, como fogo do inferno. Era
+incrivel, mas era a realidade! conhecia a letra de Magdalena, reconhecia
+tambem a fita que lhe prendia os cachos dos cabellos negros, na tarde
+d'aquelle jantar saudoso. Luiz desejava duvidar do que estava vendo, mas
+como, se as provas estavam agora na sua mão! Passou-lhe por diante dos
+olhos a visão medonha da vingança. Mas a Providencia não desampara os
+que bem lhe merecem, e limitou-se apenas a exclamar:</p>
+
+<p>--Tão infame é ella como tu!...</p>
+
+<p>--Então já não duvidas? perguntou Americo, attendendo apenas ao estado
+em que Luiz se achava, e importando-se pouco com as injurias que elle
+podésse dirigir-lhe.</p>
+
+<p>--Não sei. Todavia quem me affirma que Magdalena não foi forçada a
+escrever estas linhas, a pôr o seu nome n'esta folha de papel e a
+entregar-te ou a mandar-te esta fita? Quem?</p>
+
+<p>--Com isso poderá ella desculpar-se se lhe fores agora pedir contas do
+seu procedimento, bem o sei, mas pouco importa, porque esse bilhete
+falla bem alto.</p>
+
+<p>--Oh! mas isto é incrivel! isto é um sonho!...</p>
+
+<p>--Não é sonho, não. É a realidade. Acceitaste a lucta, batalhamos.
+Quando julgavas haver vencido, vês a victoria do meu lado. Acontece
+muita vez. Além d'isso, que dotes ha em ti que te recommendem mais que a
+mim? O seres portuguez? o seres branco? É justamente por isso que menos
+devias confiar em ti. Se tenho côr... sou brazileiro!</p>
+
+<p>--Em todo o caso abusaste da minha ausencia e o teu procedimento não
+póde ser classificado senão de infame!</p>
+
+<p>--Embora! com tanto que eu vença...</p>
+
+<p>--Isso é o que ainda não está decidido. Não julgues que fico com o que
+me dizes. Heide indagar, heide empregar todos os esforços para descobrir
+a verdade. A letra do bilhete e a fita de sêda são de Magdalena, não ha
+duvida, mas se para as conseguires empregaste alguma violencia,
+commetteste alguma infamia, ou abusaste de qualquer modo, não te perdôo,
+Americo; as contas serão então comigo.</p>
+
+<p>--Que pretendes, pois, fazer?</p>
+
+<p>--Indagar a verdade, dissipar esta duvida que me atormenta!</p>
+
+<p>--Como? Fazendo publico que a filha do teu amigo, do teu socio deu a um
+homem uma entrevista a horas inconvenientes? Queres deshonral-a d'esse
+modo? Queres dar esse desgosto ao teu protector?</p>
+
+<p>--Muito cynico és, Americo! bradou Luiz espumante de cólera. E tu,
+canalha, não te lembraste que devias a esse homem tanto como eu, para
+lhe illudires a filha! Qual de nós a deshonra mais? eu que me julgo hoje
+com direito de lhe pedir contas de seu procedimento, ou tu que abusaste
+necessariamente da sua ingenuidade, ou a estás infamando, faltando á
+verdade, e então és duplamente abjecto e criminoso?</p>
+
+<p>--Indaga.</p>
+
+<p>--Heide indagar, sim. E ai de ti se ousaste calumniar, quem só devia
+merecer-te todo o respeito.</p>
+
+<p>--Em todo o caso restitue-me isso.</p>
+
+<p>--O bilhete e a fita? nunca!</p>
+
+<p>--São meus.</p>
+
+<p>--Que importa,</p>
+
+<p>--Importa muito. E, ou m'os dás ou...</p>
+
+<p>--As ameaças depois, agora... a verdade!</p>
+
+<p>E Luiz ia a retirar-se quando ouviu no armazem a voz de Jorge que havia
+entrado.</p>
+
+<p>O mulato estremeceu de medo. Comtudo, já tinha a consolação de ter
+amargurado e bem o coração de Luiz.</p>
+
+<p>Este, apenas deu a Jorge conta do bom desempenho da missão de que fôra
+encarregado a Macahé, sahiu, deixando-o no armazem com Americo.</p>
+
+<p>O pobre moço ia fóra de si, como perdido, desvairado, e, diga-se a
+verdade, bastante indisposto com Magdalena, porque acreditava mais ou
+menos no seu perjurio.</p>
+
+<p>N'este estado, seguiu para o Botafogo.</p>
+
+
+
+
+<h3>XV</h3>
+
+
+<p>Eram onze horas quando chegou.</p>
+
+<p>Magdalena havia acabado d'almoçar e viera para o salão, no proposito de
+espalhar saudades com o seu piano, com o seu discreto confidente, mas
+esqueceu-se d'elle, embebida na leitura do suavissimo <i>Camões</i> do nosso
+immortal Garrett.</p>
+
+<p>Estava lendo, a meia voz, estes admiraveis versos:</p>
+
+<p class="poesia"> «Longe, por esse azul dos vastos mares,
+ Na solidão melancólica das aguas,
+ Ouvi gemer a lamentosa alcyone
+ E com ella gemeu minha saudade...»</p>
+
+<p>quando Luiz surgiu á porta, através do reposteiro, que a velava.</p>
+
+<p>Vinha pallido, como que acabrunhado, mas luziam-lhe nos olhos as chammas
+rubidas do fogo do ciume, do desespero e da descrença.</p>
+
+<p>Magdalena não o esperava e, ao vêl-o entrar deixou cahir o livro das
+mãos e correu para elle, gritando commovida:</p>
+
+<p>--Ah! ainda bem que veio!</p>
+
+<p>Luiz recebeu-a com frieza, furtou as mãos ás mãos d'ella que as
+procuravam, e recuou dous passos dizendo:</p>
+
+<p>--Perdão, minha senhora, se venho interrompel-a!</p>
+
+<p>--Luiz!... acudiu ella, vendo o modo como elle se apresentava.</p>
+
+<p>--Não venho aqui, minha senhora, para continuar a ser o ludibrio dos
+seus caprichos de creança! Lamento as horas que perdi, pensando em V.
+Ex.<sup>a</sup>, como se pensa no nosso anjo da guarda, como se pensa na visão
+seductora dos sonhos do nosso amor purissimo...</p>
+
+<p>--Desconheço-o... Porque me falla assim? interrogou Magdalena com a voz
+em lagrimas.</p>
+
+<p>--Porque? Ainda m'o pergunta? Porque vejo que V. Ex.<sup>a</sup> é uma mulher, como
+todas as mulheres, vulgar, sem um ponto unico que a eleve acima do nivel
+das outras, quando a julgava um anjo, um ente superior, uma d'estas
+pombas immaculadas, que o mundo não sabe apreciar, infelizmente! Porque
+a julgava uma perola de subido valor, e vejo agora que é apenas a concha
+da praia, sem merito de qualidade alguma! Porque a tinha como flor,
+capaz de perfumar com toda a felicidade os dias d'amor, que lhe depunha
+aos pés, e venho encontral-a rosa eivada de milhares d'espinhos
+envenenados! Porque lhe vi o mel nos labios, a doçura na voz e o céo nos
+olhos, quando, afinal V, Ex.<sup>a</sup> só preparava a victima para lhe despedir a
+punhalada! Porque a julguei sincera, no meio do devanear sublime do meu
+sentimento affectuoso, quando tudo em V. Ex.<sup>a</sup> era a mascara, debaixo da
+qual se escondia uma grande hypocrisia... toda a sua preversidade,
+emfim!</p>
+
+<p>--Oh! eu não lhe mereço isso! exclama ella com duas lagrimas nas
+pupillas.</p>
+
+<p>--Bem sei; são ainda as lagrimas do crocodillo! Era realmente bonito, e
+sobretudo, digno de V. Ex.<sup>a</sup> que um homem andasse a rojar-se-lhe aos pés,
+a entregar-lhe tudo, pensamentos, alma corpo, vida, futuro, crenças e
+aspirações, em quanto que V. Ex.<sup>a</sup>, zombando da sua fé, zombando do
+sentimento e da sinceridade d'esse homem, se ria, brincando com elle,
+como se brinca com um objecto qualquer, que nada vale! Era realmente
+bonito, era, e, sobretudo, uma grande gloria para V. Ex.<sup>a</sup>! O que não sei
+é como V. Ex.<sup>a</sup> vivendo isolada desta sociedade corrompida e depravada,
+põe em prática os principios da philosophia d'ella! O que não sei é como
+V. Ex.<sup>a</sup>, sendo tão nova, tem já tanta maldade!</p>
+
+<p>--Por piedade, Luiz, não me accuse, não me affronte d'esse modo, porque
+eu estou innocente!...</p>
+
+<p>--Innocente!...</p>
+
+<p>--Innocente, sim! E se não, diga-me qual é o meu crime, a minha culpa, o
+meu peccado!...</p>
+
+<p>--Ainda m'o pergunta! Já o esqueceu, talvez, como pôde esquecer que
+invocára, n'um momento de hypocrisia, a memoria sacratissima de sua mãe,
+para me fazer um protesto d'amor!</p>
+
+<p>--Oh! muito, eu... bem vê que não tenho forças para tanto!... soluçou
+ella, inundada de lagrimas.</p>
+
+<p>--É muito! é muito! diz V. Ex.<sup>a</sup>! O que não será, então, rojar um homem
+aos pés d'uma mulher todas as flores purissimas do seu amor primeiro,
+acolher cheio d'esperanças um sorriso. d'amor d'essa mulher que lhe fica
+sendo vida, ar, luz e tudo, para depois, esquecendo a loucura d'esse
+homem, aproveitar uma curta ausencia para dizer a um outro:--Venha que o
+espero a tantas horas da noute! O que será isto, minha senhora, se acha
+muito o que me está ouvindo?</p>
+
+<p>--Oh! foi ainda por sua causa, Luiz, mas perdoe-me!</p>
+
+<p>E Magdalena cahiu-lhe de joelhos aos pés, soluçando convulsivamente.</p>
+
+<p>Eram as consequencias da sua imprudencia!</p>
+
+<p>--Por minha causa! disse Luiz ironicamente. Nada creio, nem quero
+justificações. Foi porque assim o quiz e fez muito bem. E V. Ex.<sup>a</sup> teve
+razão. Pois quem era, quem sou eu? Um homem sem fortuna, sem um nome
+pomposo, expatriado, d'uma familia humilde e ignorada, que tem apenas
+por brazões as gotas do suor do seu trabalho, por timbre a honra, por
+divisa, a virtude, em quanto que V. Ex.<sup>a</sup> é a senhora D. Magdalena, a
+filha riquissima, a herdeira unica do ex.<sup>mo</sup> capitalista Jorge de Macedo!</p>
+
+<p>Magdalena, profundamente magoada com as palavras de Luiz, sentiu uma
+violenta commoção nervosa, levantou-se de subito, recuou dous passos,
+perfilou-se, e exclamou n'uma como explosão, que era a prova mais
+evidente da dôr aguda que estava sentindo:</p>
+
+<p>--Basta, senhor! nem tanto! Não se abusa impunemente da fraqueza d'uma
+mulher, e é mais que crueldade estar a fazer-lhe derramar lagrimas de
+sangue! Envergonho-me agora de as ter chorado e lamento devéras a
+loucura, que me obriga a esta humilhação em que me vejo, ha meia hora,
+na sua presença! Confiou muito pouco em mim, senhor Luiz, e muito menos,
+ainda em si. Julgou-me uma creança imprudente, uma mulher vulgar, uma
+mulher leviana! Estava no seu direito! O que não tinha era direito para
+me insultar as lagrimas de que me arrependo agora, porque não merece!
+Não quer justificações; pois bem, não as terá e se acaso voltar a
+pedir-m'as não se admire de lh'as recusar!</p>
+
+<p>--Ah! e, demais a mais, é orgulhosa!</p>
+
+<p>--De certo. Pois que esperava, vindo provocar-me tão pouco
+benevolamente?</p>
+
+<p>--Que tivesse menos hypocrisia e mais consciencia.</p>
+
+<p>--O senhor Luiz esquece-se, de certo, que está fallando com uma mulher!
+Consciencia!</p>
+
+<p>--Consciencia, sim, minha senhora. E fallo-lhe d'este modo, porque tenho
+aqui as provas! Veja-as, analyse-as, reveja-se V. Ex.<sup>a</sup> n'ellas. Ahi lhe
+ficam. O que unicamente lhe peço, é que se esqueça para sempre de mim, e
+que creia, que, apesar de tudo, a desejo ver muito e muito feliz!</p>
+
+<p>E deixou-lhe em cima do piano o bilhete que ella havia escripto a
+Americo, e a fita, que dos cabellos, elle lhe levára, n'aquella noite
+fatal da entrevista junto ao lago.</p>
+
+<p>Magdalena, vendo sahir Luiz, cahiu n'uma cadeira, apertando o seio
+convulso com uma das mãos, amparando a cabeça com a outra, e exclamando,
+debulhada em pranto:</p>
+
+<p>--Ah! é assim que se paga um amor como este!...</p>
+
+<p>E soluçava nervosamente, vertia lagrimas copiosas!</p>
+
+<p>Pobre creança!</p>
+
+<p>Começava a amar, e logo as primeiras flores desabrochavam espinhosas! As
+auroras esplendidas dos primeiros dias d'amor sumiam-se mal despontavam,
+e após os primeiros sorrisos vinham logo as vicissitudes do soffrer.</p>
+
+<p>E como ella não soffria agora!</p>
+
+<p>Luiz fôra cruel tratando-a tão asperamente, mas é certo que não podia
+fugir a uma explosão d'aquellas. Depois da tempestade viria a bonança,
+depois das arguições o arrependimento.</p>
+
+<p>Em theoria ninguem deixará de censurar o pobre moço, mas na pratica,
+nenhum d'aquelles que se vissem em circumstancias iguaes, deixaria de
+fazer o que elle fez. Era uma coisa que o coração lhe exigia, uma
+satisfação dada ao sentimento, que lhe estava quasi abafando a
+respiração.</p>
+
+<p>Deixar d'amal-a, não deixava elle, e este incidente, que dera causa a
+lagrimas, d'um lado, e mágoas do outro, não fez senão accender-lhe mais
+as labaredas que lhe queimavam o seio.</p>
+
+<p>Todo o amor tem a sua cruz e o seu martyrio, como tem a sua redempção e
+as suas alegrias.</p>
+
+<p>Magdalena estava soffrendo os martyrios e o peso da cruz do seu amor. A
+redempção e as alegrias haviam de vir tambem; não podiam faltar,
+sobretudo a quem era tão digna d'ellas.</p>
+
+<p>No entanto, a formosa menina estava chorando, e sem esperanças de
+remover a tempestade, que uma imprudencia, filha ainda do seu immenso
+amor, havia feito desencadear.</p>
+
+<p>N'isto entrou o cabinda; vinha trazer á sua filha um ramo de flores do
+jardim. Ficou, porém estupefacto, vindo encontral-a soluçando, quando
+esperava achal-a contentissima.</p>
+
+<p>O negro correu para ella, presentiu as dores que a alanceavam, soffreu
+com ellas como se foram proprias e cahiu-lhe, de joelhos, aos pés,
+exclamando:</p>
+
+<p>--Porque chora a senhora moça? o que tem a minha filha?</p>
+
+<p>--Sou muito desgraçada, cabinda!</p>
+
+<p>--O branco...</p>
+
+<p>--Maltratou-me... sahiu... já me não ama!...</p>
+
+<p>O negro levantou-se de subito. Fervia-lhe nas veias o sangue da sua pura
+raça africana. Passou-lhe pela mente uma ideia terrivel; os olhos
+fuzilavam-lhe relampagos, as mãos tremiam-lhe convulsivamente. Cahiu-lhe
+d'ellas o ramo de flores, quando elle exclamou:</p>
+
+<p>--Oh! o branco é bom! Foi o mulato! o mulato é mau! Mas o cabinda ainda
+cá está, e a minha filha hade ser muito feliz!</p>
+
+
+
+
+<h3>XVI</h3>
+
+
+<p>Eram quatro horas da tarde, approximadamente, quando Jorge regressou á
+chacara, depois de ter deixado o armazem.</p>
+
+<p>Magdalena chorava sósinha no seu quarto.</p>
+
+<p>Sympathicas lagrimas aquellas!</p>
+
+<p>Eram as lagrimas verdadeiras, das dôres d'um amor casto, puro e ardente,
+deslisando silenciosas, como perolas finissimas, pelas faces assetinadas
+do rosto d'um anjo, cahindo e sumindo-se no seio, de dentro do qual
+ellas brotavam!</p>
+
+<p>Eram as flores pallidas, destoando muito das rosas frescas, das candidas
+açucenas, dos lyrios perfumados, d'um vasto jardim de crenças!</p>
+
+<p>Eram as nuvens crepusculares, velando um pouco o sol d'aurora
+deslumbrante d'um olhar limpido e formoso, em que se reflectia o céo,
+com toda a magia dos seus infinitos esplendores!</p>
+
+<p>Eu não sei, mas creio que nada ha mais attrahente do que as lagrimas
+d'uma mulher, moral e physicamente bella, quando, em cada uma, ha os
+aromas embriagadores d'um grande sentimento; quando, cada uma traduz, na
+sua mysteriosa, mas eloquente linguagem, uma estrophe melodiosa d'uma
+paixão ardente, mas pura, casta e honesta.</p>
+
+<p>Parece-me que não.</p>
+
+<p>As lagrimas teem então a fascinação irresistivel da sympathia, teem o
+condão poderoso do magnetismo, que attrahe, e enleva, e encanta.</p>
+
+<p>Eram assim as lagrimas da Magdalena.</p>
+
+<p>No entanto, o momento d'exaltação havia passado; haviam cessado os
+pequenos assomos de cólera, que lhe despertaram as asperezas, com que
+fôra tratada por Luiz.</p>
+
+<p>Após o seu desabafar, por meio d'uma explosão, em que a vimos, reagindo
+contra as palavras do sympathico moço, que a estavam ainda ferindo tão
+injustamente, veio a reflexão e com ella a desculpa, com a qual
+Magdalena ia já cobrindo Luiz.</p>
+
+<p>Um amor verdadeiro perdoa sempre, porque não deixa de ser amor.
+Exalta-se facilmente, até com as coisas mais pequeninas, que não lhe
+escapam, que elle descobre sempre, mas não resiste nunca a proclamar a
+sua absolvição.</p>
+
+<p>Se é amor verdadeiro!...</p>
+
+<p>Luiz apezar d'aquella scena violenta, d'aquellas arguições
+irreflectidas, d'aquellas arrogancias geradas pelo seu sentimento ferido
+e julgado em desprezo, era ainda o eleito de Magdalena, era ainda o
+homem por quem palpitava o seu coração, por quem floriam as rosas
+brancas da sua alma candida e perfumada.</p>
+
+<p>Atravez do tenue véo do resentimento em que ella estava, e que mais ou
+menos a dominava, jazia ainda, illuminada pelos raios deslumbrantes do
+sol do amor, a imagem de Luiz, a imagem do primeiro homem que a
+impressionára, e que ella não podia deixar de contemplar com olhos
+affectuosos, de acariciar com a ideia, de ameigar com o sentimento.</p>
+
+<p>Pobre creança, que o amor começava por beijar tão phreneticamente!</p>
+
+<p>Pobre avesinha, a quem tentavam impedir os primeiros vôos!</p>
+
+<p>Jorge chegou, pois, do armazem, e estranhou que Magdalena o não
+estivesse esperando, como era de costume. Fizeram-lhe falta os doces
+beijos, as suaves caricias, as meiguices consoladoras, com que a filha
+adorada o acolhia sempre no topo da escadaria.</p>
+
+<p>Entrou e perguntou por ella. Tivera um presentimento o seu coração de
+pae affectuosissimo. Responderam-lhe que estava no quarto. Dirigiu-se
+immediatamente para lá, pensando, fóra de qualquer duvida, que
+Magdalena, a não estar encommodada, não faltaria a esperal-o, com os
+seus affagos de filha estremosa.</p>
+
+<p>A porta estava fechada por o lado interior, e esta circumstancia mais
+sobresaltou ainda Jorge.</p>
+
+<p>--Magdalena! chamou elle, batendo mansamente. Ouviu dentro um leve
+ruido, mas ninguem lhe respondeu. Era Magdalena que tentava limpar as
+lagrimas e dar ao rosto e aos olhos uma expressão que não a trahisse.</p>
+
+<p>--Magdalena! minha filha! volveu Jorge, batendo segunda vez, e já um
+pouco opprimido.</p>
+
+<p>--La vou papae!</p>
+
+<p>Jorge serenou-se, ouvindo-a. Magdalena abriu effectivamente a porta, e,
+diga-se a verdade, mais para occultar que havia chorado, do que por
+extremos d'affeição filial, lançou-se-lhe ao pescoço, tentando assim
+encobrir o rosto.</p>
+
+<p>--Papae! disse ella com voz meiga.</p>
+
+<p>--Estou muito zangado comtigo! disse elle, beijando-lhe os negros e
+formosos cabellos.</p>
+
+<p>--Comigo? continuou ella cada vez mais acariciadora e mais
+impressionada. Porque?</p>
+
+<p>Jorge desprendeu a filha de si, tomou-lhe delicadamente a cabeça nas
+mãos, e imprimiu-lhe um novo beijo na fronte, ébrio d'affeição paternal.</p>
+
+<p>--Porque! Ainda m'o perguntas!... Mas, que tiveste, ajuntou elle,
+mudando subitamente d'expressão, que ainda tens nos olhos os vestigios
+das lagrimas?</p>
+
+<p>--Eu? respondeu Magdalena, tentando illudil-o.</p>
+
+<p>--Tu, sim, minha filha; então não estou eu vendo que choraste.</p>
+
+<p>--Não, papae, engana-se.</p>
+
+<p>--Diz a verdade, Magdalena.</p>
+
+<p>Magdalena, debaixo da impressão que a dominava fôra, pouco e pouco,
+sentindo subir de novo do coração aos olhos as lagrimas, que tentava
+sopear. Era um vulcão latente, prestes a romper n'uma erupção medonha.
+Quando, porém, Jorge instava ardentemente para que ella lhe revelasse a
+verdade, a afflicta menina não poude conter-se por mais tempo, não
+poude, nem por mais um momento, domar as ondas que lhe referviam no
+seio, e lançou-lhe novamente os braços ao pescoço, occultando o rosto, e
+exclamando soluçante:</p>
+
+<p>--Sou muito desgraçada, papae!</p>
+
+<p>E as lagrimas represadas romperam o dique que as detinha, cahindo
+copiosas dos olhos negros e formosos de Magdalena.</p>
+
+<p>Jorge sentiu uma dôr aguda, profunda e intensa, dentro do seu coração de
+pae, de pae que via a unica filha, a sua maior affeição no mundo, a
+chorar, chamando-se desgraçada!</p>
+
+<p>Elle que daria tudo, a vida até, para que Magdalena não soffresse uma
+dôr, uma unica, pequenina que fosse, sentiu-se quasi desfallecido, com a
+dolorosa scena porque estava passado. Longe, bem longe, de vir encontrar
+a filha estremecida n'aquelle estado lacrymoso, antes pensava vir
+achal-a contente, alegre e ditosa, que n'isso ia um dos seus maiores
+cuidados, que para isso trabalhava elle constantemente.</p>
+
+<p>Todos os paes são extremosos e dedicados, e não ha desgosto, por maior,
+que possa fazer estancar a fonte limpida das affeições paternas. Jorge
+de Macedo, era porém, duplamente affeiçoado a sua filha, porque era ao
+mesmo tempo, pae e mãe. Beatriz, sua esposa adorada, partindo d'este
+exilio, chamado mundo, para a vida d'alem-tumulo, legou-lhe, não só o
+thesouro d'uma filha para consolo das suas dolorosas saudades, senão
+tambem as joias do subido affecto com que amava o fructo formoso do seu
+verdadeiro e acrisolado amor.</p>
+
+<p>Foi por isso que elle, ao ver Magdalena n'aquella explosão de pranto,
+sentiu cravar-se-lhe no seio um como punhal d'aguçadissima ponta.</p>
+
+<p>--Desgraçada, minha filha?! exclamou elle pallido e convulso. Por
+piedade, diz-me o que tens!</p>
+
+<p>--Oh! soffro muito... muito!... balbuciou ella, soluçando ainda.</p>
+
+<p>--Filha! minha filha, não me mates! Diz-me o que tens, conta-me o que te
+aconteceu!</p>
+
+<p>E Jorge beijava-a phreneticamente, bebia-lhe as lagrimas que cahiam
+crystallinas, quatro a quatro, e affagava-lhe os cabellos fartos, que se
+haviam desatado pendendo em duas grossas e luzidias tranças.</p>
+
+<p>Magdalena não podia fallar suffocada pelo pranto. Jorge, porém, cada vez
+mais afflicto, continuava n'uma dolorosa anciedade:</p>
+
+<p>--Falla, filha. Tens aqui o coração d'um pae, doido d'amor por ti, para
+acolher as tuas mágoas, como tem acolhido sempre os teus sorrisos.
+Magdalena... Magdalena...</p>
+
+<p>--Deixe-me descançar, papae... deixe-me serenar, e não se
+afflija....não?</p>
+
+<p>--Então para que choras d'esse modo?</p>
+
+<p>--Oh! exclamou ella, porque sou uma creança, papae!...</p>
+
+<p>E sentou-se, como para descançar d'uma grande fadiga. O seio arfava-lhe
+com violencia. Tinha no rosto a pallidez sympathica, que tantas vezes
+inspira os poetas, e as mãos delicadas entrelaçadas uma na outra. Jorge,
+ao vêl-a sentada, ia ajoelhar-se junto d'ella, para mais uma vez, e
+carinhosamente, a interrogar, mas ella obstou a isso, accudindo de
+subito:</p>
+
+<p>--Não, papae, sente-se aqui, ao meu lado...</p>
+
+<p>--Mas conta-me o que tens, minha filha, disse elle, sentando-se. Bem
+sabes como devo estar soffrendo!</p>
+
+<p>Magdalena, que conhecia bem a grandissima affeição, que seu pae lhe
+votava, e por consequencia, que bem avaliava as dores que o estavam
+alanceando, encheu-se de coragem, e disse-lhe, tomando-lhe as mãos:</p>
+
+<p>--E não se zanga comigo?</p>
+
+<p>--Não, minha filha.</p>
+
+<p>---Então ouça-me.</p>
+
+<p>E Magdalena relatou a Jorge tudo quanto se passára, desde o jantar dos
+seus annos até á scena violenta, que dera logar áquellas afflições e
+áquellas lagrimas. Mencionou tudo, não esquecendo a minima das
+circumstancias. Jorge estava ouvindo-a mais que admirado, n'um silencio
+profundo, religioso até. Sentia-se chocado, grandemente chocado, e, para
+isso bastava apenas a surpresa que ia recebendo, porque bem longe andava
+elle de suppôr siquer o que se havia passado.</p>
+
+<p>Alma sensivel, porém, Jorge ia ouvindo a filha adorada, e não a
+condemnava, não. Elle tambem tivera sonhos na sua mocidade, e a narração
+de Magdalena fez-lhe passar, deante dos olhos do espirito, os primeiros
+dias floridos do seu amor e do amor da sua querida Beatriz. No entanto,
+ao saber das tentativas arrojadas de Americo, na noite da entrevista,
+junto ao lago da chacara, Jorge não poude occultar a sua exaltação e
+levantou-se exclamando:</p>
+
+<p>--Infame! Era assim que me queria pagar o quinhão da minha fortuna, que
+ha dias lhe dei!...</p>
+
+<p>E Magdalena proseguiu na exposição dos acontecimentos. Nada escondeu,
+nada furtou, nada occultou, de quanto se havia passado, e só a verdade
+presidiu a narração de cada facto. E tambem, para que havia de obrar de
+outro modo? Não era Jorge seu pae? e uma pae tão benevolo? tão meigo?
+tão bondoso?</p>
+
+<p>Elle, quando Magdalena acabou, para mais a tranquilisar, affagou-a,
+dizendo-lhe:</p>
+
+<p>--Não te afflijas, minha filha. O que preciso é que me digas se gostas
+muito do senhor Luiz, mas que me digas a verdade.</p>
+
+<p>--Oh! muito, meu papae!</p>
+
+<p>--E não te enganarás?</p>
+
+<p>--Não, eu bem o sinto.</p>
+
+<p>--Então ainda hasde ser muito feliz.</p>
+
+<p>Momentos depois, partia o cabinda do Botafogo para o Rio, no vapor da
+carreira, com a seguinte carta de Jorge para Luiz.</p>
+
+<div class="carta"> <p class="direita"><i>Meu socio e amigo.</i></p>
+
+<p>«Para negocios de gravidade preciso, ainda hoje mesmo, fallar-lhe e ao
+senhor Americo. Rogo-lhes pois o obsequio de chegarem aqui, onde os fica
+esperando o seu</p>
+
+<p class="direita">Socio amigo, etc.</p>
+
+<p class="direita"><i>Jorge de Macedo.</i>»</p> </div>
+
+<p>E em quanto o negro transpunha a distancia que vai do Botafogo á cidade,
+ficavam Jorge e Magdalena entregues á refeição do jantar, conversando já
+mui animadamente, muito contentes, entre os perfumes suavissimos das
+flores formosas do affecto que lhes enchia as almas.</p>
+
+
+
+
+<h3>XVII</h3>
+
+
+<p>Não ha nada mais caprichoso do que o coração humano, e, por
+consequencia, nada mais enigmatico, nada mais incomprehensivel.
+Prende-se muitas vezes com as cousas mais simples d'este mundo, e olha,
+outras tantas, com indifferença para sacrificios, que, d'um só jacto o
+deviam attrahir para sempre. Ora se exalta, ora se humilha pelos mesmos
+motivos, e nas mesmas circumstancias; ora se lamenta e ora sorri com a
+mesma causa, indo, muitas vezes, até ao ponto de juntamente chorar e
+rir, de implorar e impôr-se!</p>
+
+<p>Eu não sei, mas creio que de todas as sciencias, a sciencia do coração é
+a mais difficil, a mais transcendente, a mais impyrica.</p>
+
+<p>O coração offende-se com cousas pequenissimas, que muitas vezes não
+perdôa, e é capaz de não se offender com cousas de vulto, ou de
+facilmente as esquecer e perdoar!</p>
+
+<p>Luiz ainda não tinha chegado ao Rio e já ia arrependido das asperezas
+que dirigira a Magdalena! Já a julgava innocente, e incapaz da trahição,
+que lhe imputou durante os momentos de mágoa e de colera do seu amante
+coração.</p>
+
+<p>Em verdade, passados os primeiros impetos, serenadas as primeiras
+impressões violentas, Luiz começou a recordar os protestos de innocencia
+de Magdalena, viu as lagrimas que ella derramou, atravez d'um prisma
+muito menos carregado, e convenceu-se de que só uma injustiça as fizera
+derramar, e censurou-se a si mesmo pela precipitação com que procedera!</p>
+
+<p>Tivera tentações de retroceder para, tanto quanto podésse, desfazer o
+mal que originara, mas era impossivel pelo adiantado da hora.</p>
+
+<p>As lagrimas da formosa menina estavam-lhe pesando na alma e no coração,
+d'um modo terrivel. Elle, depois de passada a grande exaltação que o
+dominára, não podia attribuir a Magdalena um crime tamanho. Era nova de
+mais para tanta maldade, muito innocente e ingenua para tanta
+hypocrisia, e assaz bondosa para tamanha crueldade.</p>
+
+<p>Alli a grande infamia, o grande mal fôra necessariamente commettido pelo
+mulato, fôra fatalmente tramado por Americo.</p>
+
+<p>Que mal havia feito Luiz a Magdalena para que ella se vingasse d'elle
+d'um modo tão barbaro e tão cruel?</p>
+
+<p>Depois, a memoria de sua mãe tão solemnemente, invocada n'um protesto de
+fidelidade e de amor, seria uma cousa tão pequena, que se olvidasse,
+unicamente para satisfazer um capricho, para attrahir mais um galanteio?</p>
+
+<p>Não era crivel.</p>
+
+<p>Magdalena estava innocente, e com esta convicção entrava Luiz em casa,
+na rua dos Pescadores, apezar da scena violenta em que o vimos, apezar
+de toda a sua inexorabilidade, durante a meia hora em que se achou na
+presença d'ella.</p>
+
+<p>No entanto, como havia agora de remediar o mal feito?</p>
+
+<p>Uma confissão sincera d'um sincero arrependimento era a unica solução do
+problema.</p>
+
+<p>Seria, porém, bem acceita? Ouvil-a-ia Magdalena? Quebraria ella o seu
+orgulho, altamente despertado e inflamado pelas injustiças que elle fez
+ao seu caracter, á sua lealdade e ao seu coração?</p>
+
+<p>Isto lançava-lhe uma duvida no espirito, e esta duvida era um punhal
+aguçadissimo que o feria dolorosamente.</p>
+
+<p>Entrou em casa preoccupado com tudo isto, nas alternativas do receio e
+da esperança d'uma absolvição e d'uma condemnação.</p>
+
+<p>Americo sahiu-lhe quasi ao encontro, e apenas o viu fitou-o
+expressivamente, como tentando lêr-lhe no rosto quanto se lhe passava na
+alma.</p>
+
+<p>Luiz nem sequer lhe deu as honras de o olhar. Seguiu para o escriptorio,
+na firme resolução de completamente desprezar o infame, decidido a
+castigar-lhe a menor insolencia.</p>
+
+<p>O mulato, porém, não era homem que se contentasse em estudal-o
+silenciosamente; embebido na ideia de conseguir os seus fins, pouco lhe
+importavam os meios e até as consequencias.</p>
+
+<p>Dirigiu-se tambem ao escriptorio.</p>
+
+<p>Luiz estava sentado escrevendo uma carta. Americo olhou-o, viu a
+severidade do seu rosto, mas nem assim recuou.</p>
+
+<p>--Então? perguntou elle.</p>
+
+<p>Luiz sentiu como que subir-lhe o sangue á cabeça e turvar-se-lhe a
+vista, mas não respondeu. Chamava a prudencia em seu auxilio, porém o
+desafio d'Americo era forte de mais para que lhe podesse resistir.</p>
+
+<p>--Então? interrogou novamente o mulato com ar de refinado cynismo.</p>
+
+<p>Luiz guardou ainda silencio durante alguns segundos, mas occorreu-lhe a
+ideia de que o seu silencio poderia traduzir-se por cobardia ou
+humilhação e volveu-se então para o mulato, fitou-o corajosamente e
+perguntou tambem com voz firme:</p>
+
+<p>--Então o que!</p>
+
+<p>--Qual de nós vence? acudiu Americo sorrindo.</p>
+
+<p>--Ainda o duvidas canalha! Pois não o duvides, infame. Ha-de vencer o
+justo, que sou eu, tão certo como seres castigado, que és o despresivel.</p>
+
+<p>--N'esse caso provou-se a innocencia da menina?</p>
+
+<p>--Provou-se que és um salteador infame e cobarde, da honra dos que te
+chamam amigos e te sentam á sua meza, que é o mesmo.</p>
+
+<p>--Vê que me insultas! se não apresentas as provas!</p>
+
+<p>--Quem desce a isso, biltre! Teme o castigo e não peças as provas!</p>
+
+<p>--Ah! ah! ah! vens, de mais a mais um pouco tragico. O que faz o amor!</p>
+
+<p>--Americo! bradou Luiz quasi de todo exaltado.</p>
+
+<p>--Começam as ameaças?</p>
+
+<p>--E não ha duvida em que comecem tambem as obras. Retira-te, que já te
+não vejo. Não me provoques, porque te desprezo, como reptil asqueroso!
+Sahe! Não me obrigues a sujar a mão na lama que tens na cara!</p>
+
+<p>--Luiz! gritou Americo, agarrando em um tinteiro.</p>
+
+<p>--Canalha! bradou Luiz, estendendo-lhe a mão na face bronzeada, com a
+força d'um desesperado.</p>
+
+<p>Estava travada a lucta. O mulato tinha mais força physica, mas Luiz
+possuia mais força moral e era mais corajoso. Aquillo foi um vulcão que
+se accendeu subitamente. Um instante depois estavam enlaçados um no
+outro, n'uma lucta medonha, incrivel e desesperada. Sentiam apenas o
+ruido dos pés, movendo-se aos impulsos fortes de um e outro lado, e a
+respiração abafada de cada um dos contendores. Americo só tentava lançar
+Luiz a terra, este porém resistia valentemente. E n'um momento favoravel
+atirou um murro ao infame que lhe fez logo brotar o sangue do nariz. O
+mulato enfureceu-se pela dôr e pelo orgulho, exasperou-se damnadamente,
+e atirou as mãos ao pescoço de Luiz, n'uma expressão de raiva
+desmarcada, no intento mesmo de o estrangular.</p>
+
+<p>E de certo o teria feito; sem duvida, seriam funestas as consequencias
+d'aquella contenda se não fosse a apparição, no momento fatal, de um
+homem, cujo olhar quasi paralysou completamente a acção do mulato.</p>
+
+<p>Era o cabinda, era o velho, mas sympathico, o negro, mas dedicado, o
+escravo, mas d'alma grande.</p>
+
+<p>O negro vinha encarregado d'entregar a Luiz a carta de Jorge de Macedo.
+Muito contente da sua missão, porque lhe dizia o coração que se andava
+tratando da ventura de sua filha, o negro transpoz apressadamente a
+distancia que vae do Botafogo ao Rio, á rua dos Pescadores.</p>
+
+<p>Chegou, entrou, dirigiu-se á porta do escriptorio, tranquillo, socegado,
+contente, sem sequer se lembrar da scena que ia encontrar. Quando deu
+com os olhos nos dous, que ferozmente se debatiam, sentiu um como abalo
+electrico interior e não esperou por mais nada. Atirou-se em seguida ao
+mulato, que lançava as mãos ao pescoço de Luiz, agarrou-o pela gola do
+casaco, deu-lhe um fortissimo puxão e elle, largando Luiz, mais com
+receio do cabinda do que por vontade propria, foi cahir ao chão no meio
+do escriptorio.</p>
+
+<p>--O negro cá está! bradou o cabinda.</p>
+
+<p>--Não preciso de ti! acudiu Luiz.</p>
+
+<p>--Só assim! murmurou Americo, espumante de raiva.</p>
+
+<p>--Agora, meu branco, isto, que manda o senhor! disse o negro desprezando
+Americo, que tentava levantar-se, e entregando a Luiz a carta de Jorge.</p>
+
+<p>--E a senhora moça? interrogou Luiz.</p>
+
+<p>--Tem chorado muito; o branco não gosta d'ella, não!</p>
+
+<p>--Vêl-o-has, cabinda!</p>
+
+<p>E procedeu á leitura da carta de Jorge.</p>
+
+<p>Ao terminar, tinha uma como nuvem diante dos olhos. Pareceu-lhe que uma
+grande tempestade se ia desencadear sobre a sua cabeça. E o que tinha
+fóra de toda a duvida é que era chegado o dia em que tinha de decidir-se
+a sua sorte. Mas se, por um lado, o apoquentavam os receios de não
+conseguir a suspirada felicidade, tinha, pelo outro, a consolação da
+tranquillidade da consciencia.</p>
+
+<p>O mulato, entretanto, havia-se levantado, e dispoz-se a sahir, dizendo:</p>
+
+<p>--Contra dous não posso, mas hei-de vingar-me!</p>
+
+<p>--Nem contra um! a tua causa é a primeira a ser contra ti, canalha!
+bradou Luiz.</p>
+
+<p>--O negro póde muito, o mulato bem o sabe.</p>
+
+<p>--Deixemos agora as questões. O snr. Macedo convida-nos a irmos
+immediatamente ao Botafogo, para tratarmos negocios d'importancia. Quem
+sabe se será para nos julgar? Como nada receio, vou já. Convido-o; faço
+o meu dever, e nada mais.</p>
+
+<p>--Ah! o branco é bom, ha-de ser feliz e a minha filha tambem. Depois que
+importa que o velho cabinda morra? morre contente, porque deixa contente
+a sua filha!</p>
+
+<p>E o velho escravo seguiu Luiz, emquanto que Americo ficava limpando o
+sangue, que ainda, como signal da lucta em que se empenhára, lhe corria
+do nariz.</p>
+
+<p>Aquelle convite de Jorge de Macedo fôra um incendio, que crestára todas
+as esperanças ao mulato. Para elle era inevitavel que não só não
+conseguia nada, senão tambem que estava perdido, porque Jorge havia de
+fazer justiça, castigando-o.</p>
+
+<p>Pensou primeiro em fugir, mas depois achou que semelhante partido ainda
+mais o condemnaria, porque seria mais uma prova da sua culpabilidade, e
+dispoz-se a soffrer tudo.</p>
+
+<p>Assim, emquanto que Luiz ia ganhando novas esperanças, emquanto atravez
+das nuvens que lhe toldavam o horisonte ia como que descortinando a luz
+brilhante, formosa e esplendida da felicidade que tanto sonhára, ia o
+mulato convencendo-se de que a Providencia vela sempre pelos bons e
+pelos justos, de que o mal tem sempre o seu castigo do mesmo modo que
+todo o bem é premiado.</p>
+
+<p>Para um iam desabrochando, embora receiosas e timidas, as flores, cujos
+perfumes embriagam a vida.</p>
+
+<p>Para outro, os espinhos que magoam, e ferem, e doem a todos os momentos.</p>
+
+<p>E Magdalena, o nosso anjo, Magdalena, a formosa, esperava no entanto,
+cheia d'anciedade, pela chegada dos dous e pelo resultado d'aquella
+conferencia que ia ter logar agora.</p>
+
+<p>O que lhe dizia o coração nos sobresaltos com que a agitavam?</p>
+
+<p>O que lhe dizia a alma na esperança que a enflorava?</p>
+
+<p>Tudo lhe dizia amor, ventura e ternuras!</p>
+
+<p>Tudo lhe fallava de felicidades, porque era bondosa, meiga, innocente,
+candida, e sobretudo, porque era boa filha, porque nunca déra um
+desgosto áquelle que a mirava doudo d'amor!</p>
+
+
+
+
+<h3>XVIII</h3>
+
+
+<p>Muito terrivel é a situação de quem espera, esperando debaixo do pezo
+d'uma duvida!</p>
+
+<p>A duvida dá ao coração as alternativas da esperança e do receio; da
+esperança, que faz das horas seculos, do receio, que faz das horas
+instantes rapidissimos; da esperança, que arrebata com sonhos de dourado
+enlevo, do receio, que fere com os espinhos d'uma perspectiva má e
+triste.</p>
+
+<p>Esperar, d'este modo, é esperar entre a lucta de dous sentimentos
+oppostos, que se degladiam heroicamente, braço a braço, corpo a corpo,
+sem se fatigarem, sem succumbirem, sem cederem um ao outro um palmo de
+terreno, ambos egualmente potentes, ou egualmente fracos, porque nem um
+cede, nem o outro vence, e porque um e outro exercem egual predominio no
+espirito, embora oppostamente.</p>
+
+<p>O coração prende-se, durante um momento, nos arrobos da esperança, nas
+delicias suaves de quem vê realisado um desejo muito grande de grande
+ventura, para no momento immediato se embrenhar nas mil veredas
+tortuosas, nos muitos pezares e na grande tristeza em que se desata a
+ideia, o receio de que aborte essa esperança, de que não tenha uma
+realidade a aspiração que lá se gerou e n'elle vive, como pomba dentro
+do seu ninho.</p>
+
+<p>Magdalena estava sentindo tudo isto, esperando por Luiz e Americo, que
+seu pae mandára chamar, depois d'aquella scena de lagrimas em que a
+vimos.</p>
+
+<p>Tinha d'um lado a esperança de que tudo se harmonisaria, e
+satisfatoriamente para todos, e que seu pae lhe restituiria Luiz, que
+ella amava ainda muito, apezar de tudo, e com elle a ventura, o affecto,
+os carinhos, o socego, as meiguices, os extremos, por que tanto almejava
+o seu coração, tão viçoso e tão sedento!</p>
+
+<p>Do outro, o receio de que essa esperança não germinasse um unico
+encanto, um unico perfume; de que o sonho ridente da suspirada
+felicidade se esvaecesse, como nuvem de fumo leve nas azas da viração do
+sul!</p>
+
+<p>No meio de tudo isto, Jorge pensava na felicidade da filha, como pae
+mais que muito affectuoso, e no meio decente de castigar dos dous,
+d'Americo e de Luiz, aquelle que fosse criminoso perante o tribunal e o
+juizo recto da sua impolluta consciencia.</p>
+
+<p>Os dois associados do honrado capitalista e negociante, vinham,
+separados, a caminho do Botafogo, phantasiando o que iria passar-se,
+embrenhando-se em mil conjecturas, sobre diversos assumptos, como causa
+provavel do seu chamamento, mas sempre fugindo-lhes o espirito para a
+ideia de que ia tratar-se do succedido, com relação á formosa Magdalena.</p>
+
+<p>Até o velho Cabinda, que acompanhava Luiz no vapor da carreira, até esse
+ia embebido com a ideia da ventura da sua filha querida, da sua adorada
+senhora moça, que era n'este mundo a ideia que mais o prendia, enlevava
+e dominava!</p>
+
+<p>O pobre do negro consentiria tudo; no que não consentiria de modo
+nenhum, e para isso era até capaz de dar a vida, era em que o mulato
+vencesse Luiz, em que Americo conseguisse os seus intentos, não só
+porque, por uma d'estas immensas sympathias, que se não podem explicar,
+era altamente affeiçoado a Luiz, ao branco, como elle dizia, senão
+tambem, porque, oppostamente, odiava Americo com odio de morte,
+sobretudo depois dos ultimos acontecimentos, e talvez por motivos de
+antipathia e de raças.</p>
+
+<p>Os tres, Luiz, Americo e o cabinda, chegaram ao Botafogo, por volta das
+oito horas, e quasi ao mesmo tempo. O negro e Luiz foram os primeiros,
+mas o mulato não se fez esperar.</p>
+
+<p>O velho escravo dirigiu-se para a cosinha, pela escadaria da rectaguarda
+do palacete, emquanto Luiz era introduzido na sala, e encontrou na
+varanda Magdalena, que o esperava n'uma indescriptivel anciedade.</p>
+
+<p>Magdalena tinha ainda nos olhos os vestigios das lagrimas recentes, no
+rosto a pallidez do desgosto que soffrêra, e a expressão do seu estado
+d'excitação, e nas ondulações do seio os signaes evidentes do agitamento
+das ondas interiores.</p>
+
+<p>No entanto, bella sempre, sempre formosa, sympathica, attrahente!</p>
+
+<p>Apenas avistou o negro, correu pressurosa a vir esperal-o ao topo da
+escadaria.</p>
+
+<p>Elle sorriu-lhe n'uma expressão de dedicação.</p>
+
+<p>--Então, cabinda? interrogou ella subitamente.</p>
+
+<p>--O branco veio, senhora moça,</p>
+
+<p>--E aonde está?</p>
+
+<p>--Na sala grande que deita para o jardim.</p>
+
+<p>--E vem contente?</p>
+
+<p>--Ha-de estal-o. O coração do negro não mente nunca.</p>
+
+<p>--Vieste com elle?</p>
+
+<p>--Vim, minha filha.</p>
+
+<p>--E Americo?</p>
+
+<p>--Tambem vem! O mulato brigava com o branco no escriptorio, quando o
+negro chegou, mas o cabinda prendeu-o pelo pescoço e deitou-o ao chão.</p>
+
+<p>--Ao mulato? perguntou assustada.</p>
+
+<p>--Sim.</p>
+
+<p>--Mataste-o?</p>
+
+<p>--Não, senhora moça, mas o negro estrangula-o se o mulato continua!...</p>
+
+<p>--Eu quero-te prudente, cabinda!</p>
+
+<p>--E o negro quer feliz o branco e a sua senhora moça!</p>
+
+<p>--E elle? interrogou Magdalena com anciedade.</p>
+
+<p>--O branco? não soffreu nada. Mas para que a cobra não assalte o ninho
+da jurity ou do beija-flor, é preciso esmagal-a ou mandal-a para longe.
+A minha filha comprehende?</p>
+
+<p>--Comprehendo, cabinda. Meu pae lá está; a verdade ha-de brilhar como o
+diamante na mina, e Deus ha-de castigar o culpado.</p>
+
+<p>--Oh! exclamou o negro, ébrio d'alegria; oh! e como o negro ha-de rir de
+contente, quando a senhora moça lhe disser que é feliz! O cabinda até
+ha-de dançar o batuque!</p>
+
+<p>--Velho tonto! exclamou Magdalena risonha e altamente enthusiasmada com
+o jubilo do bom escravo.</p>
+
+<p>Emquanto, porém, este colloquio tinha logar na varanda da rectaguarda do
+palacete de Jorge, entrava Americo para a sala da frente, onde Luiz
+permanecia só, esperando pelo capitalista.</p>
+
+<p>Os dous estavam de novo, frente a frente. Ambos opprimidos, receiosos
+ambos, sem a certeza do que se ia passar, do que se ia decidir alli,
+olharam um para o outro, ambos n'uma expressão de duvida, mas sem
+trocarem uma unica phrase, uma unica palavra.</p>
+
+<p>O receio, pelo qual, cada um d'elles, era dominado, tinha origens
+diversas e faceis de explicação.</p>
+
+<p>Luiz não receiava pelo seu procedimento, porque bem alto lhe fallava a
+sua consciencia; temia, sim, que de todo se perdesse a melhor occasião,
+qual a que se lhe proporcionava, agora, de realisar o sonho ardente da
+felicidade por que suspirava com tanta loucura.</p>
+
+<p>Americo, esse receiava o castigo da sua infame tentativa, porque uma voz
+intima lhe segredava que todo o seu procedimento era reprehensivel,
+indigno e injustificavel.</p>
+
+<p>Ainda assim, nem um nem outro tinham a certeza do negocio que alli os
+reunia, e isto dava ao mulato a esperança de que se agora não fosse
+fulminado, ainda poderia tentar o conseguimento dos seus fins, ou pelo
+menos indispor de todo Luiz e Magdalena.</p>
+
+<p>Estava uma tarde explendida.</p>
+
+<p>Os raios do sol vivo, que docemente ia descendo ao seu occaso,
+projectavam-se brilhantes no jardim, sobre que abriam as janellas da
+sala, onde esperavam Americo e Luiz, e imprimiam nas rosas brancas e nos
+jasmins perfumados uns reflexos da sua côr avermelhada e tropical.</p>
+
+<p>Zumbiam as vêspas nos trançaes dos maracujás, volitavam rapidos, de flôr
+em flôr, deixando beijos em toda a parte, uns mimosos e pequeninos
+beija-flores, e cortavam o espaço, em mil caprichosas linhas, ora
+subindo, ora descendo, ora rapidas, ora vagarosas, algumas borboletas de
+tamanhos variados e côres vivas e formosas.</p>
+
+<p>Lá ao longe, entre as folhas verdes do capim, andavam arraiando amores
+as juritys mimosas.</p>
+
+<p>Luiz e Americo, cada um em sua janella, parecia estarem ambos embebidos
+na silenciosa contemplação das bellezas da natureza, do explendido
+quadro que tinham diante dos seus olhos, expressivamente scismadores.
+Longe, porém, e muito longe, estavam elles, dos encantos que alli se
+desenrolavam, e que, sem duvida, inspirariam muito a alma sensivel e
+contemplativa d'algum poeta ou d'algum artista.</p>
+
+<p>Estavam, pois, assim, quando de subito se abriu uma porta, que, da sala
+espaçosa, ricamente mobilada e adornada, dava passagem para o interior
+da casa.</p>
+
+<p>Os dous voltaram-se immediatamente, e ao mesmo tempo, dirigindo-se ao
+personagem que entrava.</p>
+
+<p>Era Jorge de Macedo.</p>
+
+<p>Trazia no rosto a expressão da affabilidade, mas ainda assim, carregada
+com as linhas sombrias d'uma severidade mal disfarçada. Quatro olhos se
+cravaram nos d'elle, como para traduzirem alguma cousa, os olhos de Luiz
+e d'Americo.</p>
+
+<p>Seguiram-se os cumprimentos indispensaveis, de respeito e de boa
+cortezia.</p>
+
+<p>Os dous, cada um pelo seu lado, haviam percebido que Jorge de Macedo não
+estava no seu estado normal, e os traços de mudança que lhe soletraram
+no semblante, mais se inclinavam para uma certa tristeza, para uma vaga
+melancolia, para o que quer que é d'um desgosto, embora pequeno ou mal
+traduzido, do que para a indicação d'uma irritação, d'uma exaltação, que
+rompesse em asperezas ou se desatasse em colericas insinuações.</p>
+
+<p>Agora é que mais que nunca o receio os dominava. E o mulato, se não fôra
+a lembrança de que commetteria um acto d'inqualificavel cobardia, que
+mais provaria ainda contra o seu procedimento, decerto teria fugido,
+para nunca mais apparecer.</p>
+
+<p>Teve tentações de fazel-o.</p>
+
+<p>Era a propria consciencia que o estava accusando d'aquelle modo! Bastava
+a presença do juiz que ia julgal-o para o fazer tremer!</p>
+
+<p>Luiz esperava receioso, mas resignado. E diante dos seus olhos surgia
+ainda formosa, explendida, encantadora, a imagem de Magdalena, que elle
+adorava muitissimo.</p>
+
+<p>E na sua consciencia só tinha o espinho d'um remorso a magoal-o! Era o
+de haver tão impensadamente, quasi que insultado a mulher a quem
+desejaria agora lançar-se aos pés, implorando, humilde, um perdão para
+os arrebatamentos que lhe fizeram, a ella, derramar tão amargas e
+sentidas lagrimas.</p>
+
+<p>E Magdalena?</p>
+
+<p>E o cabinda?</p>
+
+<p>O que faziam os dous, agora, no momento em que talvez se fosse decidir
+da ventura d'aquella e d'alegria intima dos ultimos dias da velhice
+d'este?</p>
+
+<p>Depois do dialogo travado na varanda, foram ambos cautelosamente
+collocar-se atraz d'uma porta fechada, que communicava com a sala
+grande, onde se achava Jorge, com Luiz e Americo, a fim de verem se era
+possivel escutarem o que se passava.</p>
+
+<p>Chegaram no momento em que terminavam os cumprimentos dos dous socios do
+capitalista, e quando este delicadamente lhes offerecia duas cadeiras,
+collocadas ao lado do sophá, onde tomou assento tambem.</p>
+
+<p>Jorge ficou, assim, entre os dous; Luiz á direita e Americo na esquerda.</p>
+
+<p>Houve um momento de silencio.</p>
+
+<p>Os dous esperavam d'olhos cravados no chão. Jorge dispunha-se para
+começar, e dentro, Magdalena e o cabinda, tentavam abafar a respiração
+para que nem essa trahisse a sua presença, alli, atraz da porta que os
+escondia, mas que os devia deixar ouvir tudo.</p>
+
+<p>Que contrastes no intimo de cada um d'aquelles individuos! Que mares,
+tão diversos nas suas agitações, no seio de cada um d'aquelles
+personagens!</p>
+
+
+
+
+<h3>XIX</h3>
+
+
+<p>Sentaram-se os tres, e houve, como já dissemos, um momento de silencio
+completo, em que até pareciam sustidas as respirações.</p>
+
+<p>Depois, Jorge esfregou vagarosamente as mãos nos joelhos, gesto este,
+que póde talvez traduzir-se por uma certa repugnancia, ou por uma certa
+difficuldade em abrir a conferencia, para a qual havia chamado os seus
+recentes socios, e em seguida começou assim, com ar de gravidade:</p>
+
+<p>--Devo principiar por pedir-lhes desculpa de os haver incommodado, mas
+tenho para mim, em tanta conta, em tanta gravidade, em tanta ponderação,
+o negocio que me obrigou a chamal-os agora aqui, que o não fazel-o
+poderia talvez importar-me um desgosto, que d'este modo me pouparei,
+creio-o. Resumirei em poucas palavras o que tenho a dizer, porque quero
+limitar-me, apenas, a descobrir a verdade. Sou infelizmente viuvo, mas
+sou pae. Choro, por um lado, as lagrimas da saudade, mas tenho, graças
+ao céo, por outro, um anjo que m'as dulcifica. Fui rapaz, tive a minha
+mocidade, com todos os sonhos, com todos os arrebatamentos, com todas as
+illusões, com todos os euthusiasmos que lhe são proprios, e nos quaes se
+desata a effervescencia do sangue dos vinte annos. O livro da minha vida
+d'então, escripto, capitulo a capitulo, não tinha, nunca teve, uma unica
+pagina maculada por uma nodoa, leve e pequenina que fosse. Mesmo nos
+delirios da minha juventude timbrei sempre em conservar intacta a pureza
+do meu nome, e jámais tentei realisar uma aspiração grande ou pequena,
+boa ou má, por meios que me fizessem soffrer a dignidade, ou ferissem a
+minha honra. Trabalhei para chegar ao que sou, e o bom nome que creio
+gosar, agora, não é mais que o nome grangeado então. N'esse tempo a
+ambição era egual á lealdade, se é que a ambição já existia n'um grau
+tão elevado como actualmente, mas ainda assim, nunca tão corrompedora,
+como na época que vamos atravessando. Agora mudaram as cousas, e é
+d'isso que me queixo. Visa-se ao alvo e ha-de chegar-se lá, custe o que
+custar, pouco importam os meios.</p>
+
+<p>E Jorge fez uma pequena pausa, como que para descançar. Via-se que
+estava sensibilisado, commovido ou nervoso.</p>
+
+<p>Os dous conservavam-se impassiveis, attentos, de fronte humildemente
+abatida. Agora já não tinham que duvidar; era a elles que se dirigia
+todo o discurso de Jorge de Macedo, que proseguiu momentos depois:</p>
+
+<p>--Tratei-os sempre bem, sempre, mais como amigos, como parentes, como
+affeiçoados meus, do que como subordinados ao meu serviço. Para prova do
+muito que julgava merecerem-me, sentei-os ha dias á minha meza, n'uma
+festa intima, puramente familiar, no intuito, que realisei, de os fazer
+partilhar da minha sorte, fazendo-os socios meus.</p>
+
+<p>--Eu, pela minha parte, senhor, serei eternamente agradecido ao
+muitissimo que devo a V.<sup>a</sup> Ex.<sup>a</sup>, acudiu Luiz.</p>
+
+<p>--E eu... ia Americo a ajuntar tambem, quando Jorge o interrompeu
+continuando:</p>
+
+<p>--Perdão! Será talvez assim, mas n'esse caso estou então illudido,
+porque para mim, um dos senhores, pelo seu comportamento, desdiz
+completamente do conceito que me... devia.</p>
+
+<p>--V.<sup>a</sup> Ex.<sup>a</sup> deve, sem duvida, ter muitissima razão para fallar d'esse
+modo, e bom será que nos julgue, para que só o culpado soffra o castigo,
+atalhou Luiz.</p>
+
+<p>--As justificações depois. Ouçam-me por emquanto e depois terão a
+palavra. Cheguei hoje do Rio, contente e feliz, esperando, pelo costume,
+vir encontrar, do mesmo modo, minha filha, que adoro com a loucura de
+pae que não tem outra, que não tem mais familia. Eu, que já me vejo mais
+perto do tumulo do que do berço, viuvo, e por consequencia, sem os
+consolos, sem as delicias com que sempre nos embriagam os corações
+d'aquellas que se unem a nós, partilhando da nossa vida, affiz-me aos
+carinhos e aos consolos da filha unica, que n'este ponto valia bem a
+chorada mãe, e costumei-me a pagar-lh'os sempre, trabalhando
+constantemente por em todos os sentidos lhe abrir caminhos, onde só
+desabrochassem flores e onde nunca viçasse um espinho. Consegui-o
+durante muitos annos, em que nunca uma nuvem, a não ser a da saudade que
+ambos cultivavamos pela rosa que Deus chamára a si, obscureceu levemente
+o céo da nossa vida. Prometti, no leito de morte da minha adorada
+Beatriz, que faria tudo para que Magdalena fosse ditosa. O céo tem-se
+empenhado em auxiliar-me no cumprimento da minha promessa, porque até
+hoje ainda Magdalena não derramou uma unica lagrima, ainda não teve um
+queixume para me lançar no coração. Sorria-me esta ideia da felicidade
+de minha filha, que era a da minha felicidade tambem, e era por isso que
+ao entrar e ao sahir de casa, em cada dia, eu o fazia contente, ébrio
+mesmo d'uma alegria que não me passou nunca pela mente, que podésse
+toldar-se ou ennublar-se. Não succedeu, porém, assim; e hoje, quando
+regressava, ancioso por lhe pagar em beijos os beijos e os affagos com
+que era costume esperar-me ella, venho encontral-a chorando triste e
+dolorosamente, proclamando-se desgraçada, a filha querida do meu
+coração. As suas lagrimas quasi que me fizeram succumbir. Não as
+esperava, não desejára esperal-as. Era, havia muitos annos, o primeiro
+momento de turtura que eu soffria...</p>
+
+<p>E Jorge tinha as lagrimas nos olhos. Fez uma pequena pausa para desatar
+a voz que se lhe ia prendendo na garganta, e proseguiu:</p>
+
+<p>--Interroguei-a com a brandura de quem é prudente, com a dôr de quem
+como eu a idolatrava tanto e com a curiosidade de quem tudo desejava
+saber, para tudo remediar se fosse possivel. Oh! o que eu soffria então!
+Porque angustias não passei durante os curtos momentos, que me valeram
+muitos seculos, antes de me revelar a verdade!</p>
+
+<p>--E descobriu-a, não? interrogou Luiz subitamente.</p>
+
+<p>--Não sei. Contou-me Magdalena uma historia, em que figuram, como
+principaes personagens, os dous homens que ha poucos dias sentei á minha
+meza para os associar, no negocio, ao meu nome. Soffri ainda mais!</p>
+
+<p>--E... ia Luiz a interromper, quando Jorge continuou:</p>
+
+<p>--Conclui que ambos a pretendiam, mas que nem ambos empregavam, para
+isso, meios muito honrosos.</p>
+
+<p>O mulato estava tremendo de receio. Luiz sentia-se cada vez maior senhor
+de si.</p>
+
+<p>--Perdão, senhor, da minha parte todos o eram. E se algum de nós
+procedia menos dignamente não era de certo eu, juro-o, disse Luiz com
+convicção.</p>
+
+<p>--Eu tambem... acudiu Americo sem poder concluir.</p>
+
+<p>--Qual dos dous convidou minha filha a uma entrevista junto ao lago a
+horas adiantadas da noute?</p>
+
+<p>--Eu não, senhor, afirmou Luiz.</p>
+
+<p>--Fui eu... disse o mulato a custo.</p>
+
+<p>--E com que fim?</p>
+
+<p>--Fallar-lhe... apenas, respondeu o mulato.</p>
+
+<p>--Então não foi para lhe entregar uma carta do senhor Luiz?</p>
+
+<p>--Minha? Não podia ser, disse este, levantando-se. Saiba V. Ex.<sup>a</sup> que
+este senhor mentiu ou abusou, se disse ou pretextou semelhante cousa. E
+peço licença para dizer duas palavras. Vivo ha perto de doze annos com
+V. Ex.<sup>a</sup> e nunca, creio eu, lhe dei motivos para uma censura, para uma
+queixa, para uma reprehensão. A minha vida modelou-se, no tocante a
+honra, a dignidade, a caracter, a tudo, emfim, pela de V. Ex.<sup>a</sup> que bem
+digna foi sempre, e é, de ser imitada. Fui sempre respeitoso e submisso,
+sempre, e não seria no momento em que V. Ex.<sup>a</sup> me deu uma grandissima
+prova da sua estima, que eu por um acto menos digno lançaria em terra,
+desfeito, desmoronado, um edificio que tanto tempo levou a construir.
+Com relação á filha de V. Ex.<sup>a</sup> o meu procedimento não me será lisongeiro
+talvez, mas tambem não é infame. Na tarde do dia em que tive a honra de
+sentar-me á sua meza, passeiava ao lado da bondosa filha de V. Ex.<sup>a</sup>
+pelas alamêdas do jardim, emquanto V. Ex.<sup>a</sup> e este senhor conversavam
+tomando café. A nossa conversação tomou o caminho que sempre segue entre
+pessoas de vinte annos. Achei-a então formosa de corpo e formosissima
+d'alma. Não resisti aos impulsos do coração que se abria com as suas
+palavras, que desabrochava subitamente com o sol dos seus olhares, e
+disse-lhe que a amava. Confessou-me tambem que nunca um homem a
+impressionára e que... tambem se inclinavam para mim as flores do seu
+affecto. Eu fallei então tão verdadeiramente, como o estou fazendo agora
+a V. Ex.<sup>a</sup> Parti. No dia seguinte, creio eu, recebi um bilhete de D.
+Magdalena, com duas phrases, filhas do seu sentimento, a que respondi
+com dignidade e affecto tambem. Impellia-me o coração e era valente de
+mais para que eu lhe resistisse. Quando V. Ex.<sup>a</sup> me encarregou de ir a
+Macahé tornei a escrever-lhe e dei a carta a um dos negros do armazem.
+Não sei se D. Magdalena a recebeu. O que sei é que este homem, com o
+qual nunca mais poderei viver, desde o momento em que conheceu que a
+filha de V. Ex.<sup>a</sup> me levantava até ella com o seu amor, começou a
+fazer-me uma guerra de morte, uma guerra declarada, protestando que a
+filha de V. Ex.<sup>a</sup> seria para elle e nunca para mim. Tivemos algumas
+altercações violentas. Quando regressei de Macahé, ancioso de vêr D.
+Magdalena, e contentissimo de bem ter desempenhado a minha missão,
+surge-me este senhor, apresenta-me um bilhete d'ella, em que lhe concede
+uma entrevista para horas adiantadas da noute, e uma fita dos cabellos
+d'ella que realmente reconheci. Não sei mais nada. Julguei a filha de V.
+Ex.<sup>a</sup> uma creança caprichosa, e hoje, talvez excessivamente desesperado,
+porque devéras me doía o coração, vim a esta casa e... disse á filha de
+V. Ex.<sup>a</sup> que estimava que fosse feliz, mas que me esquecesse. Ainda assim
+Deus sabe o sacrificio que fiz n'este ultimo acto. O meu resentimento
+era, porém, tão grande, que não pude ser-lhe superior. E para tudo dizer
+a V. Ex.<sup>a</sup> confesso que me arrependi logo, porque creio agora que a filha
+de V. Ex.<sup>a</sup> é uma bondosa e sincera menina e que aqui, em tudo isto, só
+andou uma infamia, uma indignidade da parte d'este homem, com que já
+hoje tive uma séria altercação. Amo ainda, e muito, a filha de V. Ex.<sup>a</sup> É
+destino meu e não posso fugir-lhe. Agora veja V. Ex.<sup>a</sup> o que ha de
+censuravel e indigno em tudo isto e condemne-me se o julgar conveniente.
+Esta é a verdade e não fujo a confessal-a, por todos os motivos, mas
+sobretudo, sendo V. Ex.<sup>a</sup> a pessoa a quem devo tanto e tanto.</p>
+
+<p>--Eu sei tudo. É um cavalheiro o senhor Luiz. Dê-me a sua mão, quero
+apertal-a como a de um grande amigo.</p>
+
+<p>Jorge e Luiz estavam commovidos. O mulato olhava atterrado para a porta,
+com horriveis tentações de fugir. O seu castigo começava alli.</p>
+
+<p>--Eu sei tudo, continuou Jorge, porque nada me occultou Magdalena. E
+como a felicidade de minha filha é tambem a minha, ella é que hade vir
+terminar esta nossa conferencia.</p>
+
+<p>Magdalena, que tudo ouvira, occulta atraz da porta aonde a deixamos, não
+se fez chamar; correu logo, ébria de alegria, e lançou-se nos braços de
+Jorge, gritando:</p>
+
+<p>--Obrigada, papae! Obrigada, papae!</p>
+
+<p>--Diz-me, interrogou-a elle, gostas muito do senhor Luiz, não é assim?</p>
+
+<p>--Muito!... murmurou, ruborisada de pejo.</p>
+
+<p>--Crês que has-de ser, com elle, tão feliz como desejo que tu o sejas,
+não?</p>
+
+<p>--Muito, e só com elle.</p>
+
+<p>--Bem. O senhor Americo, como recompensa do seu procedimento pouco
+digno, queira retirar-se e esperar ámanhã as minhas ordens no armazem.
+Limito-me a isto, porque não quero fazer mais no dia em que o céo me
+abre na terra a felicidade de minha filha.</p>
+
+<p>O mulato tinha os olhos cravados no chão. Tomou o chapéu, volveu-se e
+sahiu vagarosamente, como que arrastado por uma força que tentasse
+tiral-o do logar onde o chumbava não sei que sentimento.</p>
+
+<p>Quando transpôz a porta, pendiam-lhe dos olhos duas grossas lagrimas.</p>
+
+<p>Seriam de vergonha?</p>
+
+<p>Seriam de remorsos?</p>
+
+<p>Seriam de odio?</p>
+
+<p>Não sei.</p>
+
+<p>Talvez de tudo isto juntamente, quem sabe?</p>
+
+<p>Instantes depois, entrava o cabinda como doudo na sala e ia ajoelhar-se
+aos pés de Jorge, beijando-lhe phreneticamente as mãos e exclamando em
+extrema commoção:</p>
+
+<p>--Bem haja, meu senhor, bem haja, que fez feliz o branco e a filha do
+cabinda!</p>
+
+<p>Quando as primeiras sombras da noute desciam suavemente sobre a terra,
+andavam Luiz e Magdalena passeiando no jardim entre as flores, irmãs
+d'ella, entre os perfumes suaves, como os que então se evaporavam das
+rosas brancas de suas almas enamoradas.</p>
+
+<p>Fez-se alli o primeiro idyllio do seu noivado.</p>
+
+<p>Já dormiam as juritys nos ninhos avelludados, e os beija-flores,
+cançados de oscularem as rosas, mas substituiam-os, alli, duas almas
+prezas nos laços dulcissimos d'uma embriagadora felicidade.</p>
+
+
+
+
+<h3>XX<br />
+
+CONCLUSÃO</h3>
+
+
+<p>Tres mezes depois o altar havia santificado o mutuo amor de Luiz e
+Magdalena.</p>
+
+<p>O ninho de Jorge de Macedo abrigava mais uma ave; o bondoso capitalista,
+tinha, agora, em vez d'uma filha, dous filhos queridos.</p>
+
+<p>Era duplamente feliz.</p>
+
+<p>Luiz tomára sobre si todo o pezo e toda a responsabilidade dos negocios
+do honrado negociante, para que este descançasse, e desempenhava-se de
+tal modo de seus encargos, que nada havia por que merecesse uma censura.</p>
+
+<p>Magdalena era feliz e muito feliz.</p>
+
+<p>Ainda hoje, os dous esposos, se reunem em cada tarde no caramanchão de
+maracujás do lago da chácara, no Botafogo, e ahi passam horas e horas,
+enlevados nas dulcissimas venturas da sua vida, que tem mais do céo do
+que da terra.</p>
+
+<p>Ha alli um novo Eden.</p>
+
+<p>Americo sahiu do Rio de Janeiro no dia immediato áquelle em que foi
+forçado a desafivelar a mascara com que pretendia encobrir a sua
+ambição; n'aquelle em que foi expulso da casa do homem a quem devia
+muito, e ninguem mais o viu ou deu noticias d'elle.</p>
+
+<p>Corria muito vagamente que andava desgraçadissimo na America do Norte,
+dizendo-se que fugira para lá.</p>
+
+<p>Não sei. Talvez.</p>
+
+<p>O cabinda, coitado, morreu de velhice, exalando o ultimo alento nos
+braços de Jorge, de Luiz e de Magdalena, que lhe cercavam o leito e o
+não desampararam nos dias de enfermidade.</p>
+
+<p>Lembrou-se, no momento extremo, da sua parceira e dos filhos queridos, a
+quem, dizia, se ia juntar, mas desprendeu a alma do involucro terrestre,
+beijando risonho, como o justo que antevê o céo, as mãos dos seus tres
+amigos, e dizendo como que em signal de agradecimento, pelo modo
+distincto e humanitario com que sempre foi tratado:</p>
+
+<p>--Bem haja, meu senhor! O negro lá ha-de dizer á sua senhora que o
+branco fez o que prometteu. Tratou bem o negro e fez feliz a <span class="smallcaps">Filha do
+Cabinda</span>.</p>
+
+
+<h4>FIM</h4>
+
+
+<hr />
+<p>Porto--<i>Imprensa Portugueza</i>, Bomjardim, 181.</p>
+
+<p><i>N. B. A propriedade d'este romance no Brazil, pertence a Antonio
+Teixeira Carneiro de Campos, do Rio de Janeiro.</i></p>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Filha do Cabinda, by Alfredo Campos
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A FILHA DO CABINDA ***
+
+***** This file should be named 21961-h.htm or 21961-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/2/1/9/6/21961/
+
+Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
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+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
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+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
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+
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+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
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+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
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+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
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+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
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+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
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+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
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+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
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+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
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+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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