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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 01:46:31 -0700 |
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(produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + + + +A filha do cabinda + + + + +PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA, BOMJARDIM, 181. + + +ALFREDO CAMPOS + + + + +A FILHA DO CABIDA + + +ROMANCE ORIGINAL + + + +PORTO EDITORES--PEIXOTO & PINTO JUNIOR 119, Rua do Almada, 123 1873 + + +A SEUS + +ILLUSTRISSIMOS E EXCELLENTISSIMOS TIOS + +JOSÉ D'ALMEIDA CAMPOS + +ANTÓNIO D'ALMEIDA CAMPOS E SILVA + +e + +JOAQUIM D'ALMEIDA CAMPOS + +OFFERECE + +O auctor. + + + Ex.^mos Tios e amigos. + +A «filha do cabinda» é uma recordação singellissima de muitas, que +conservo, de alguns annos passados, na formosa capital do vasto Imperio +do Brazil. + +Transcrevi-a do livro da minha memoria, para este que aqui vai, +singello, despretencioso, sem flores e sem perfumes, unicamente no +intuito de matar horas d'enfado e dias de melancholia. + +Resolvido agora, e quem sabe se imprudentemente, a fazel-a correr mundo, +nas azas da publicidade, lembrou-me collocar os seus nomes na primeira +pagina, como pequenissima significação da muita estima e da muita +gratidão, que devo a cada um. + +Bem sei que muito fica da divida por saldar, mas quero, ao menos, +mostrar-lhes, d'este modo, que não esqueço o muito que teem a haver dos +sentimentos do meu coração. + +Acceitem, pois, a offerta, que é singella, e avaliem-na pela intenção e +não pelo que é. + +Sempre + + Sobrinho amigo e agradecido + + Alfredo Campos. + + + + +A FILHA DO CABINDA + + + + + + +A FILHA DO CABINDA + + + + +I + + +A filha do cabinda é formosa como a visão d'um sonho celeste; meiga como +o canto do sabiá, poisado nos galhos do cajueiro, e ingenua como a +virgem da innocencia. + +O cabinda é negro, e negro de raça fina, mas é branca a sua filha, e +filha, porque o velho escravo quer muito á senhora moça, que elle +beijava e embalava no seu collo, quando era pequenina. + +Revê-se n'ella, e n'ella se mira doido d'affeição o pobre negro, e tanto +a gravou na ideia, tanto a traz no coração, que chega até a esquecer-se +do trabalho, sujeitando-se ás reprehensões do seu senhor, para, +insensivelmente, se entregar a scismar n'ella, que é tão bondosa, tão +meiga e tão carinhosa para elle; n'ella, que, por uma destas illusões, +d'estas miragens, d'estas doidices, d'um grande affecto e d'uma viva +sympathia, chega a julgar realmente sua filha. + +E _filha do cabinda_ lhe chama elle. + +O negro vivia na sua terra, alegre e feliz; lá tinha seus paes, a sua +companheira, os filhos e a sua familia. + +Um dia, não sabe como, achou-se com todos elles dentro d'um navio, que +começou a affastal-o, cada vez mais, da sua patria. Passou assim algum +tempo, entre as duas immensidões, o mar e o céo, sem sentir saudades da +sua terra, porque levava ainda ao seu lado aquelles que lhe davam +alegria. Depois, pozeram-o de novo em terra, levaram-o a elle e aos seus +companheiros para uma grande casa, onde os brancos começaram a disputar +o preço por que haviam de compral-os. + +O cabinda foi vendido e quizeram leval-o. + +Leval-o? E a sua companheira? e os filhos? e seus paes? + +Esses, foram vendidos tambem, e cada um a seu senhor. + +Tristissimo era o negocio da escravidão! + +Reagiu o negro, quando o quizeram separar dos seus, e quando tambem os +separavam d'elle. + +Teve, então, saudades da sua patria, terriveis, sem duvida, porque eram, +ao mesmo tempo, saudades da sua liberdade. + +Fizeram-lhe, porém, estancar as lagrimas angustiosas as ameaças d'um +açoite, e o Cabinda lá partiu, sem esperanças de tornar a vêr os filhos +queridos, que nem sequer beijara na despedida, a esposa, que elle +adorava com um culto rude, mas sincero, e os paes, que elle respeitava +com a sua veneração selvagem. + +Partiu, mas ainda assim, boa estrella o guiava, porque, cortando-lhe as +affeições mais caras da sua vida, ao menos o levaram para onde tinha de +ser estimado, quasi como pessoa de familia, e não como escravo e negro +que era. + +Em casa do seu senhor foi elle encontrar uma creancinha de dois annos, +que tinha uns olhos lindos, os cabellos como os olhos, negros da côr do +abysmo, e um rosto como o dos anjos d'um sonho de poeta, como o das +fadas boas das visões nocturnas das mattas virgens. + +A convivencia foi-o affeiçoando áquella creancinha, que lhe sorria tão +innocentemente; que lhe estendia, alegre, os bracinhos mimosos, e, +brincando, o abraçava carinhosamente pelas pernas. + +O negro, quando via a pequenina Magdalena, sentia não sei que doçuras +n'alma, não sei que effluvios no coração, mas que deviam ser +gratissimos, porque os olhos desannuviavam-se-lhe logo das sombras de +tristeza, que os velavam sempre, e os labios desatavam-se-lhe n'um +sorriso de sincero e intimo jubilo. + +E tomava-a no collo, sentava-se com ella á sombra das copadas +tamarindeiras ou das laranjeiras em flor, cobria-a de beijos e affagos, +entretecia-lhe corôas de jasmins e martyrios, e olhava-a, assim n'uma +especie de adoração sublime e concentrada, talvez com a recordação nos +filhinhos, que perdera, e que eram tambem pequeninos como a mimosa +Magdalena. + +Tinha dez annos a filha do cabinda, quando perdeu sua mãe. + +Ficavam-lhe os affagos d'um pae estremoso e os carinhos do negro +affeiçoado; mas que valia tudo isso? que valia a gotta d'agua para tão +grande sêde? o atomo em face da immensidade desfeita? + +O negro, que era dedicado á sua senhora, tanto como á pequenina +Magdalena, esqueceu-se da sua condição de escravo, e arrojou-se, em um +impeto de dôr e d'affecto, a entrar no quarto da moribunda, poucos +momentos antes d'ella despedir o derradeiro alento. + +Estava junto ao leito Jorge de Macedo, que era o seu senhor, embebendo +em beijos lacrymosos o rosto da innocente, que ia em breve ser o seu +unico encanto n'este mundo. + +Os dois, pae e filha, assistiam angustiados ao desabamento d'aquelle +edificio da sua ventura. + +O cabinda entrou como perdido, olhou para Jorge com receio, com amor +para Magdalena e foi ajoelhar-se, de mãos postas, junto ao leito da +enferma, chorando como creança. + +--Anda cá, cabinda, disse a moribunda, com voz amortecida, ao vêl-o de +joelhos, alli, ao pé d'ella. Anda cá; vem vêr como se vai para o céo!... + +--Que fazes, atrevido! exclamou Jorge a meia voz. + +--Ah! meu senhor! a mãe do escravo é um anjo, e o negro quer despedir-se +da sua senhora! + +--Sahe, cabinda! + +--Oh! não! não! supplicou este. O negro é escravo, mas o negro tem +coração! + +E abraçava a roupa do leito para abraçar a moribunda, chorava como +doido, soluçando em desespero e supplicando com ardor: + +--A mãe do cabinda ha-de deixar a sua filhinha e o seu parceiro, a +chorarem saudades como o bemtevi do matto? Não, não nos deixes, mãe +senhora! + +--Papae, atalhou Magdalena, affagando as faces de Jorge, humedecidas +pelas lagrimas; o cabinda chora, não trates mal o cabinda, que é nosso +amigo. + +--Oh! sim, sim! acudiu o preto. O cabinda quer muito á sua filhinha, +quer muito á sua senhora e muito ao seu senhor! O negro tem alma e não +tem familia a quem a dar. É, como a palmeira do morro, que não tem +coqueiro ao lado. + +--O negro é bom, meu Jorge, disse a doente a custo. E se te peço muito +que fiques sendo a mãe da nossa Magdalena, não te esqueças tambem de que +o cabinda a trouxe ao collo muitas vezes, quando era mais pequenina. + +--Não esqueço, minha Beatriz! soluçou Jorge. + +--E elle não ha-de ser mais nosso escravo, não, papae? + +--Não, minha filha. + +--Mas o cabinda, atalhou o negro, não quer deixar a casa do seu senhor, +não quer viver longe da sua filha. + +--Não, não nos has-de deixar, que nós somos todos teus amigos, acudiu a +creança, affagando o escravo, emquanto Jorge dizia comsigo, no intimo da +consciencia: + +--O negro tem a côr do urubú, mas tem alma de pomba rola! + +Horas depois, Beatriz, a esposa de Jorge, tinha entregado a alma ao +Creador. + +Jorge chorava, para um lado, profundamente ferido no coração, as dôres +da sua viuvez. O negro e Magdalena soluçavam, abraçados, a perda da +bondade da que tanto era mãe d'uma como anjo do outro. + +Jorge conheceu, então, até onde ia a dedicação do seu escravo, a +grandeza da alma do negro, e começou a olhal-o, a tratal-o e a +querer-lhe, muito mais como a um membro da sua familia, do que como a um +ente, geralmente visto com desdem, com indifferença e até com desprezo. + +O cabinda perdera a sua familia, de que tão barbaramente o separaram, +mas havia ganho muito pela sua dedicação. + +Bastavam as festas e os sorrisos de Magdalena, de quem elle dizia +sempre: + +--Agora não tem mãe, é filha do cabinda! + + + + +II + + +O Botafogo é, sem duvida, o mais formoso dos formosos arrabaldes do Rio +de Janeiro. + +As aguas do vasto Guanabára, que, levemente onduladas, beijam +constantemente a fimbria da purpura real da grande cidade, formam, +n'aquelle retiro, um como lago de sufficiente superficie, que é orlado, +em grande parte da circumferencia, de _chacaras_ magestosas, com +vistosos e immensos jardins, vegetação opulenta e luxuriante, e +explendidos e poeticos panoramas. + +Em 1859, Jorge de Macedo, negociante de café em grande escala, e, ao +mesmo tempo, abastado capitalista, vivia no Botafogo, em um formoso +palacete, circumdado de lindissimos jardins. + +Magdalena, a filha do cabinda, n'esta epocha, em que principia a nossa +narrativa, tinha desenove annos, e era a fada d'aquelle arrabalde do Rio +de Janeiro. + +O cabinda estava já entrado em edade, mas vigoroso ainda, e sempre +dedicado. + +Occupava-se o negro da limpeza das parasitas, que tentavam envadir as +aleas dos jardins, e em algum serviço de Magdalena, sendo, de resto, +tractado com toda a estima e amisade. + +Magdalena exercia a profissão da caridade, não cuidando senão de +dispensar a seu pae os carinhos e os affagos, que havia perdido na sua +adorada Beatriz, e em dispensar, dos meios, que lhe abundavam, esmolas +aos desgraçados e pobres. + +Jorge dedicava-se aos seus negocios e á felicidade de sua filha, que +elle adorava muito, fanaticamente até. + +A chacara de Jorge de Macedo era um ninho de delicioso conforto, d'uma +belleza invejavel, aonde não entrava nunca a sombra d'um desgosto, nem +uma nuvem de desharmonia, pequenina que fosse. + +Alli, senhores e escravos, brancos e negros, todos viviam em perfeita +alegria. + +Dos ultimos, porém, o mais querido, o mais estimado, o mais predilecto, +sobre tudo de Magdalena, era inquestionavelmente o cabinda. + +O negro tambem não abusava, e, diga-se a verdade, bem merecia elle de +todos, mas de ninguem tanto, como da que elle chamava, e queria, e +estimava como filha. + +Era por uma tarde de maio, formosa e explendida. O sol doura, ainda, com +os seus raios ardentes, os cumes do Pão d'Assucar, da Tijuca, do +Corcovado, e a cupula de folhagem variada das arvores gigantes, que +vestem os montes em volta do Rio de Janeiro. + +Uma brisa, suave, mas tepida, empregnada de perfumes de flôres e de +fructos, perpassa, branda, para o norte, agitando as palmas dos +coqueiros e as largas, compridas e pendidas folhas das bananeiras e das +palmeiras. + +O sabiá trina ainda os seus modilhos deliciosissimos entre a ramagem +mimosa d'uma jaboticábeira carregada de fructos, e o beija-flôr +pequenino anda na sua peregrinação, voluvel sempre, e sempre rapido, +deixando beijos nas flôres brancas do jasmineiro odorifero, ou nas +flôres symbolicas do maracujá, que veste as paredes e os caramancheis +dos jardins. + +O céo está sereno e limpido. + +Ao fundo da chacara de Jorge de Macedo ha um pequeno, mas formoso lago, +coberto d'agua, que cáe, em monotono murmurio, da bocca d'um tritão de +marmore fino. + +Por traz, encostado ao muro, e voltado ao lago, ha um vasto caramanchel +formado de tranças de cipós e de maracujás, carregadas de flôres e +fructos. + +Tem no meio uma meza de granito branco, e em volta assentos inglezes de +madeira e ferro, talhados de modo que dêem ao corpo toda a possivel +commodidade. + +A atmosphera tem a côr avermelhada dos raios do sol, que desce a +esconder-se no mar, e faz brilhar, com côres phantasticas, as azas, meio +diaphanas, das borboletas iriadas, que volitam dos cafezeiros para as +goiabeiras, e d'estas para os ramos dos pés d'araçás. + +Magdalena, a formosa filha do cabinda, jantou e desceu aos jardins; +andou só, pensativa, ora alegre, ora rapida, ora vagarosa, de canteiro +em canteiro, colhendo pequeninas flôres, que ia juntando entre as +paginas d'um livro, mimosamente encadernado. + +Depois, lançou, atravez da gradaria de ferro, um olhar ao vapor da +carreira, que passava em frente, atravessando o mar para o Rio, +volveu-se passado um instante, e seguiu por uma alea, orlada de grandes +jambeiros e pés de grumixama, em direcção ao lago, que jazia no fundo da +chacara. + +Magdalena era formosa, d'esta formosura, que desperta um culto sincero, +uma adoração em que não entra um atomo de sentimentos menos dignos, +d'esta formosura, em que se espelha e revela a elevação do espirito, a +bondade d'alma e a magnanimidade do coração. + +Aquelles olhos negros, scintillantes, orlados d'uma tenue sombra, e +aquelle rosto, tão expressivamente angelico, estavam mostrando as flôres +de ventura, em que se desataria o seu coração e a sua alma, para aquelle +que um dia tivesse o supremo goso de a possuir. + +Era magestosa no andar, elegante de fórmas, e simples no vestir, mas +d'esta simplicidade, que dá realce, que encanta, attráe e enleva. + +Como lhe fica bem aquelle vestido alvissimo, de fina cambraia, liso, +desguarnecido, apertado apenas na cintura delicada por um grande laço de +sêda azul clara! + +Que belleza no modesto penteado dos seus negros cabellos, fartos e +setinosos, formando apenas duas compridas tranças, que, cahindo-lhe +pelas costas, se prendem, pela extremidade, uma á outra, ainda por um +laço azul pequenino! + +As pombas rolas, que andam aos pares, fallando amores na sua linguagem +mysteriosa, levantam vôo com a approximação de Magdalena, que as segue +depois com a vista, até as perder de todo; mas as borboletas de côres +variadissimas, seguem-a contentes, como se já a conhecessem de ha muito, +e andam inquietas, em volta d'ella, ora subindo, ora descendo, como que +desejando beijal-a, mas temendo fazel-o, receiando maculal-a. + +E ella lá vae vagarosa e muda, lançando, de quando em quando, um olhar +ás flôres, que leva prêsas nas folhas do livro, talvez bem querido! + +Chegou assim ao lago, debruçou-se n'elle como procurando vêr os +peixinhos dourados, que o habitavam, e foi sentar-se encostada á meza de +pedra, n'um dos bancos do caramanchel. + +Era expressivo o seu rosto, porque estava desenhando os desejos que +sentia dentro de si, e que ella mesma não podia comprehender. + +Desejos vagos, mysteriosos, indefiniveis. + +Conservou-se absorta durante dois minutos, mas como que acordando, +depois, d'um sonho que a prendia, tirou as flôres d'entre as folhas do +livro, collocou-as a um lado e pôz-se a lêr alto, com a sua voz meiga, +seductora e angelical. + +Era um livro de versos, era um livro d'amor, o que ella lia! + +E tão prêsa estava com as phrases, que ia repetindo, tão scismadoramente +como se em verdade as sentisse; tão distrahida estava de tudo, de todos +e de quanto a cercava, que nem ouvia os gorgeios compassados d'um +bemtevi, que a sua voz harmoniosa havia desafiado, occulto entre as +folhas do ramo d'uma grande mangueira, que quasi se debruçava sobre o +lago. + +Chegou a um ponto da leitura e deteve-se suspirando. Depois repetiu +ainda a quadra que acabára de recitar, e que dizia assim: + + Suspiras, alma, n'um anceio languido? + Ninguem te affaga, perfumada flôr? + Ao sol as rosas da manhã desdobram-se, + E a brisa affaga-as com carinho e amor! + +E fechou o livro e ficou a scismar, com os olhos negros e formosos, +cravados, vagamente, n'um ponto do horisonte. + +Passados instantes, encostou a face á mão, como que cedendo ao pêso d'um +somno voluptuoso, e por fim deixou cahir o braço sobre a meza e o rosto +sobre o braço, n'uma especie de somnolencia, sonhando, talvez, com as +phrases do livro, que havia acabado de lêr, e que, sem duvida, a +impressionaram ou lhe fallarám á alma. + +As borboletas d'azas douradas, lá andavam em volta d'ella, como que +embalando-a nos sonhos, que deviam esmaltar-lhe a somnolencia. + +O sol havia-se já escondido o bastante para deixar a terra envolta nas +sombras do crepusculo. + +E a não serem os murmurios da brisa e os queixumes da agua, cahindo no +lago pela bocca do tritão, nada mais se ouvia n'aquella hora da tarde, +no retiro aonde repousava Magdalena. + +De subito começou a fazer-se sentir um leve ruido. Eram as folhas seccas +do chão, gemendo debaixo dos pés d'alguem, que se aproximava. + +Quem seria? + +As aves receiosas deixavam os seus asylos, architectados nos ramos das +arvores frondosas, ante a passagem do ser que se aproximava. + +Um minuto depois, um negro surgia junto ao lago. + +Era o cabinda. + +O preto deu com os olhos em Magdalena, parou e susteve a respiração, com +mêdo de a acordar, mas nos olhos e nos labios brilhou-lhe logo um +sorriso de verdadeira alegria. + +--Oh! exclamou elle baixinho, é ella, a filha do cabinda! + +E foi, pé ante pé, collocar-se de joelhos, junto á meza de pedra, em +posição d'onde melhor podia contemplar a sua filha, e assim ficou sem +despregar os olhos d'ella. + +Era uma loucura aquella affeição do negro! + + + + +III + + +O cabinda permanecia alli, como o verdadeiro crente, em face do altar do +Christo crucificado. + +Magdalena prendia-lhe os sentidos, absorvia-o completamente. + +A cada respiração, a cada ondulação do seio da virgem, extremecia elle e +abria mais os seus grandes olhos, n'uma expressão alternativamente de +receio e de esperança, que ella acordasse. + +Por fim, Magdalena estremeceu e levantou de subito o rosto formosissimo. +O seu olhar meigo e deslumbrante foi encontrar o negro ajoelhado, com os +olhos pregados n'ella. + +--Ah! és tu cabinda? + +--O negro, senhora moça! + +--E que fazias ahi de joelhos? + +--Olhava para a minha filha, que dormia... + +--E que sonhava tambem, cabinda. Tu nunca sonhas, quando dormes? + +--Sonhar? repetiu o cabinda. Á noite, quando o negro se deita, e faz +escuro em volta d'elle, o cabinda vê a sua senhora, que foi para a terra +do Pai dos brancos; vê a senhora moça muito contente, com a cabeça cheia +de rosas lindas, e o senhor a dar muitos beijos n'ella. E o cabinda +lembra-se, tambem, dos seus filhos e da sua companheira, e chora de +noite lagrimas no escuro. + +--Coitado! + +--Oh! mas o cabinda é alegre, como o jacaiol da floresta, quando a sua +filha ri e falla ao negro! + +--Pois olha, meu amigo, estou agora muito triste... muito!... + +E Magdalena ficou como que embebida n'uma ideia que a dominava, com o +rosto em visivel expressão de melancholia. + +--E que tem a senhora moça? perguntou o negro com anciedade e receio. O +cabinda não a quer triste; as arapongas que chorem, quando o caçador as +ferir. + +--Nem eu sei o que tenho. Vamos andando que eu conto-t'o. + +E tornando a prender as flôres entre as folhas do livro, seguiu, +acompanhada pelo negro, uma das aleas oppostas áquella por onde tinha +chegado ao lago. + +Magdalena ia vagarosa e pensativa; o negro, ao lado d'ella, caminhava +abstracto de tudo, sem vêr mais nada. + +Que magestoso quadro aquelle! + +Magdalena era o anjo meigo e deslumbrante, da mocidade cheia +d'explendores, a que sorriem todas as esperanças, e para o qual todos os +horisontes são vastos, largos e floridos! + +O cabinda era o velho escravo, fiel e dedicado, capaz de tudo para +salvar a vida dos seus senhores, saltando de contente com dois affagos e +humilhando-se submisso á menor reprehensão. + +Os dois caminhavam a par. + +Era n'essa hora mysteriosa dos esponsaes do dia com a noite. + +Por sobre as suas cabeças arqueava-se, verdejante, o docel das +jaqueiras, d'um lado, e dos ramos frondosos das mangueiras, do outro. As +aves já se haviam retirado aos gratos asylos. + +--Tu sabes o que são saudades, cabinda? perguntou Magdalena ao negro. + +--Saudades? repetiu elle, scismando na resposta. + +--Sim. + +--Sei, senhora moça. É ter o negro a alma a doer muito, como á pomba +rola, quando lhe tiram os filhos, ou o parceiro do ninho do matto. + +--É isso. Pois olha, eu tenho saudades, e não sei de quê. Sinto a alma a +pedir-me uma coisa, que eu não comprehendo, e arde-me o coração em +desejos loucos, mas desconhecidos. Quero, e não sei o que quero; desejo, +e pergunto o que desejo. Não me falta nada, porque, graças a Deus, sou +rica; não ha vontade nem capricho que o papae me não satisfaça, e, olha, +apesar de tudo, não vivo contente. De tarde, sempre que chega esta hora, +sinto um peso na alma, que eu não sei de onde vem, nem para quê. De +noite, então de noite, sonho muito e tenho saudades d'esses sonhos +quando acordo. Vejo ao meu lado um rosto que me sorri, uns labios que me +dizem coisas que ninguem ainda me disse, coisas bonitas, doces e +encantadoras; umas mãos que me fazem festas, que me alisam os cabellos e +m'os enfeitam de flores, e uns olhos que me olham muito, e que penetram +até dentro do meu coração. Mas depois acordo, desapparece o sonho, +vejo-me só, e tenho saudades, cabinda... + +O negro, se bem que nada comprehendera de tudo quanto lhe dissera +Magdalena, é certo que o havia adivinhado, porque acudiu rapidamente, +apenas ella acabou: + +--É a alma do branco que vem fallar á alma da senhora moça. + +--Do branco? perguntou Magdalena, com ar de quem não comprehendia. + +--Do branco, sim. A onça do cannavial e o jabirú das lagôas teem o seu +parceiro, como tinha o cabinda, quando veio da sua terra. E a senhora +moça, vê o branco nos sonhos, como o cabinda vê a sua parceira e os +filhos, mas o branco não apparece. + +--Não te entendo, cabinda, acudiu Magdalena, scismando no que o negro +lhe dizia. + +--O mal da senhora moça é aqui, disse o cabinda, indicando no peito o +logar do coração. O branco que a minha filha vê á noite, quando dorme, é +que ha de vir cural-a. + +--Como? + +--Não sei. + +--Quando? + +--Elle virá. O negro tambem tinha isso, lá, na sua terra. No matto, no +cannavial, quando o negro andava á caça, e no rio, quando dormia dentro +da sua canôa, o cabinda não tinha a sua parceira, mas o negro via-a +sempre. E um dia a parceira do cabinda appareceu, e o negro não soffreu +mais, nem tornou a chorar. + +Magdalena continuou vagarosa ao lado do negro, mas visivelmente +melancholica e pensativa, talvez com o que elle acabava de dizer-lhe. + +Estava ella na idade em que o coração começa a desabrochar as primeiras +flôres e a sentir os primeiros desejos. Tinha algumas vezes ouvido +fallar d'amor ás suas amigas; vira umas alegres, tristes outras, umas +cheias de enthusiasmo e ventura, outras soffredoras e melancholicas, e +ella sempre indifferente a tudo, sempre sem lhes ligar outra importancia +mais do que a que nascia da sua amisade. Nunca um homem lhe rendera uma +fineza, nunca um homem lhe dardejára um olhar expressivo; e se algum o +fizera, Magdalena ou não o viu ou não o comprehendeu. + +Agora, sim. Agora, as saudades de que fallava; os sonhos que lhe floriam +ás noites, ou lhe esmaltavam o repouso, eram os traços claros dos +desejos, que tinha na alma e no coração, de amar e ser tambem amada, de +gozar os dulcissimos effluvios do sentimento, que lhe irrompia no peito. + +Tinham chegado assim ao terreiro, que havia na rectaguarda do palacete, +para o qual se descia por uma escadaria de pedra, no extremo de uma +vasta varanda. + +Jorge de Macedo estava de pé, no topo das escadas, fumando um charuto, e +n'uma attitude de quem esperava alguem. + +Magdalena, apenas o viu, desatou a correr e exclamou: + +--Ah! o papae! + +O negro ficou só, e Jorge sorriu-se, dizendo: + +--Olha que te canças, doidinha! + +A filha do cabinda transpoz rapida o espaço que a separava de Jorge, e +apenas se achou junto d'elle, fez dos braços um collar, com que lhe +prendeu o pescoço, e começou a cobril-o de beijos carinhosissimos, a que +elle correspondia em visivel expressão de jubilo e de ventura. + +Eram os beijos da flor ao tronco onde nascera! eram os affectos gerados +pelos laços mysteriosos do sangue! + +Que beijos aquelles! que affecto se não desdobrava alli! + +--Mausinho, que me deixou hoje jantar só, queixou-se ella com fingido +agastamento. + +--Tive muito que fazer, filha. Mas déste o teu passeio até ao lago, não? + +--Dei, papae, acompanhou-me o cabinda. + +O negro chegava n'este momento, diringindo-se a Jorge: + +--A sua benção, meu senhor! + +--Adeus, cabinda. + +--E amanhã?... perguntou Magdalena, sorrindo com intenção. + +--Amanhã... + +--É dia de festa; faz o papae annos e havemos de jantar muito alegres! +atalhou ella. + +--Muito. E vais ter hospedes. + +--Hospedes? interrogou com curiosidade. + +--Sim. Convidei o guarda livros, e os caixeiros; vem toda a gente do +armazem. + +--Oh! que alegria vai ser a nossa, não é verdade, papae. + +--Grande, minha filha, porque é de ti que ella vem. + +E deu-lhe um beijo, onde ia impressa a sua alma e o seu amor de pae +extremosissimo. + +Magdalena foi, porém, a pouco e pouco, perdendo aquella alegria com que +havia acariciado Jorge, e tornando-se pensativa, absorta, e como que +esquecida de onde estava e com quem estava. + +O negro, do extremo opposto da varanda, tinha os olhos fitos n'ella com +a avidez de quem parecia estar estudando-a. + +Que nuvens, embora tenues, eram as que assombravam melancholicamente +aquelle rosto tão formoso d'aquella mulher anjo? + +Que pensamentos lhe agitavam a mente, para que soffresse aquella +passagem suave do alegre para o triste? + +O cabinda havia-lhe dito que o branco a curaria, e ella pensava n'isso, +lembrando-se dos hospedes que ia ter ao jantar, no dia seguinte. + +Eram as alvoradas do coração; eram os pressentimentos do que ha de vir! + +E scismando n'isso, ia esquecendo-se de tudo, quando Jorge a accordou: + +--Esqueces o piano, Magdalena? + +--Não, papae; esperava por si. + +--Vamos, então. + +--Vamos. + +E tomou a mão a Jorge, e recolheram-se ambos alegres e contentes. + +Pouco depois, o piano gemia, debaixo dos formosos dedos da filha do +cabinda, uma _reverie_ de deliciosissimas harmonias, d'estas que levam +presas, nas suas azas, o espirito até ao céo. + +Jorge ouvia-a n'um extase. + +Sentado nas commodas almofadas d'uma cadeira estofada, tinha os olhos +pregados no rosto da filha mimosa, da filha, que era o seu anjo, o seu +encanto, a sua vida, a sua felicidade mais completa, mas alava o +espirito ás regiões celestes, nas ondas d'aquella musica, onde, n'uma +especie de mystificação, estava vendo a sua adorada Beatriz, a esposa +queridissima, que a morte desapiedada lhe arrebatára tão cedo dos +braços! + +O cabinda, no entanto, jazia no extremo da varanda, que deitava sobre o +terreiro, dizendo comsigo a meia voz: + +--Os brancos veem amanhã; o mulato virá tambem. Cabinda, a senhora moça +é tua filha! + + + + +IV + + +Vai em meio o jantar, no dia seguinte. + +A animação é completa, e viva, sincera e espontanea a alegria, que +referve em cada conviva. + +É que alli não ha superiores nem inferiores, não ha grandes nem +subordinados; ha uma familia festejando os annos do seu chefe estimado e +querido, que só como pessoas de familia, olha Jorge para as que tem +sentadas em volta da sua meza. + +Magdalena preside á festa, como o anjo bondoso e meigo d'aquelle lar, +onde só ella é sol, que tudo aquece e vivifica, cuidando pouquissimo de +si e tudo dos outros. + +Está esplendida de formosura! deslumbrante de encantos! + +Tem nos olhos a vivacidade de alegria intima, e os esplendores da +belleza d'alma; no rosto a sympathia que fascina, e nos modos a doçura +que captiva. + +Veste um vestido de sêda côr de flôr d'alecrim, simples, mas +elegantemente enfeitado, honesta e delicadamente aberto no seio, onde +vem cahir, pendente d'um formoso collar de pequeninas perolas, uma +medalha cravejada de brilhantes. Os cabellos, aquelles cabellos negros, +tão feiticeiros, pendem setinosos em lindissimos cachos, ornados apenas +d'uma perfumada rosa branca. + +Jorge cedeu as honras da festa á filha querida, que occupa a cabeceira +da meza, occupando elle o primeiro lugar na face direita, á direita de +Magdalena. + +Segue-se-lhe o guarda-livros, rapaz de 25 annos, portuguez, sympathico, +elegantemente trajado, meigo no fallar e polido nas maneiras. + +Do outro lado, em face d'estes, estão o primeiro caixeiro, mulato +brazileiro, de rosto duvidoso, olhar que pouco lhe favorece o caracter, +e modos apparentemente delicados, e os outros empregados do armazem, que +não merecem menção especial. + +Falla-se alegremente; discute-se com placidez. + +Magdalena, a todos attende e não esquece nenhum. De si é que ella cuida +pouco. + +Entre os serventes nota-se o cabinda. O negro anda entalado nas dobras +d'uma gravata branca, cujo laço fôra feito pela sua filha, e veste uma +roupa nova de pano preto fino. Anda doido d'alegria, ebrio com a alegria +da sua filha. + +O negro lança todavia, de quando em quando, uns olhares de expressivo +despreso ao mulato que janta, e volve-os depois para Magdalena, como que +dizendo-lhe: + +--Foge d'elle! + +O guarda-livros, que se chama Luiz de Mello, e o mulato caixeiro, de +nome Americo de Abreu, olham tambem a seu turno para Magdalena e depois +um para o outro. + +Ella, porém, a formosa filha do cabinda, parece prestar mais attenção a +Luiz, sem que por isso deixe de ser delicada com todos os outros. + +Os pratos teem-se succedido, os copos esvasiado algumas vezes, e tanto +se tem comido como fallado. + +A alegria assentou-se com os convivas á meza d'aquelle festim. + +Começam as sobremezas e vão principiar os brindes. + +Magdalena é a primeira. Está porém, um pouco acanhada em presença dos +seus hospedes porque tomando o calix, vieram colorir-lhe o rosto duas +rosas de purissimo rubor. + +--Quero ser a primeira, disse ella, porque sou filha. Brindo aos seus +annos, papae. + +E levou o calix aos labios, mas mal provou o vinho. + +--Acompanho a V. Ex.^a, acudiu Luiz, desejando com ardor que d'aqui a +muitos annos os possa brindar e festejar, tão alegre e tão feliz como +hoje. + +--Do mesmo modo, repetiram os outros. + +--Obrigados, meus amigos. Agradecido, filha. + +E Jorge levou a seu turno o calix á bôcca, continuando depois: + +--Agora, Magdalena, á saude dos nossos hospedes... + +--E, ajuntou Luiz, á felicidade da filha de V. Ex.^a, fazendo, todos nós, +sinceros e ardentes votos, para que um bom anjo a proteja sempre, a +ella, que nos recebe aqui como irmã nossa, e irmã muito affectuosa. + +Magdalena tornou a ruborisar-se, olhando para Luiz com olhos de +reconhecimento, e respondendo-lhe: + +--Obrigada, meus amigos. Faço o que devo e menos do que merecem. + +--Á felicidade de V. Ex.^a, brindaram todos. + +--Obrigado, agradeceu Jorge pela filha. + +E o jantar seguiu, e os brindes continuaram. + +Luiz olhava cada vez mais para Magdalena, e é certo que encontrava +sempre os olhos d'ella pregados nos seus. + +Americo analysava aquillo, e o cabinda analysava o mulato. + +No entanto, a alegria ia ganhando de intensidade, porque os convivas +d'aquelle festim intimo e familiar de Jorge e sua filha, iam perdendo, +sem sahirem dos limites do respeito, um resto de acanhamento que a +franqueza do capitalista e a bondade da filha do cabinda não poderam de +todo dissipar. + +Os negros e serventes, tinham por sua vez festa no aposento destinado á +sua refeição. + +O cabinda, porém, lá chegava, de quando em quando, para, com a sua +prudencia, e digamos mesmo, bom senso, impedir excessos e pôr obstaculos +a abusos. + +Estava a terminar o jantar. Já se fallava muito e nada se comia. + +Jorge levantou-se então, e, tomando uma garrafa de finissimo vinho do +Porto, dirigiu-se aos seus convidados: + +--Vamos ao ultimo brinde. + +E encheram-se os copos. + +--Bebo, não só á saude e á prosperidade d'aquelles que chamei hoje a +minha casa, como pessoas a quem estimo e considero, mas bebo tambem á +saude das suas familias ausentes. + +--Agradecidos, senhor, accudiram todos. + +--A sua mãe, senhor Luiz, brindou Magdalena. + +--Mil vezes grato, minha senhora, respondeu elle, vivamente +impressionado. + +--Agora, para de todo terminarmos esta festa, proseguiu Jorge, e d'ella +ficar uma lembrança aos amigos, que aqui tenho em volta de mim, +lembrança tão grata, quão grande foi a alegria que me porporcionaram, +declaro ao senhor Luiz de Mello e ao senhor Americo d'Abreu que deixam, +desde este dia, de ser, um, meu guarda-livros, e meu caixeiro o outro, +para se considerarem meus socios nas transacções da minha casa. Não +esqueço os outros, que trabalham para a minha prosperidade, e fica desde +já o meu socio e amigo Luiz de Mello, encarregado de lhes augmentar os +ordenados. Minha filha festejou-me os annos, collocando-os em volta +d'esta meza, eu commemoro-os d'este modo, esperando que recolherão assim +mais contentes. + +--Como é bom, papae! murmurou Magdalena. + +Houve então uma verdadeira chuva de agradecimentos, que é desnecessario +pintar, e da alegria passou-se ao enthusiasmo, quasi ao delirio. + +Luiz levantou-se pallido e tremulo de commoção, mas extremamente +sympáthico, e dirigiu-se a Jorge: + +--Se V. Ex.^a me confunde com a grandissima distincção, com que acaba de +honrar-me, chamando-me seu socio, por muitos titulos me honra mais, e +mais me confunde ainda, dando-me o nome de amigo, para a conservação e +engrandecimento do qual, não deixarei nunca de empregar todos os meus +esforços. + +--Obrigado, respondeu Jorge, apertando-lhe a mão. + +E dispunha-se a deixar a meza. + +N'este momento, porém, entrava o cabinda, trazendo pela mão uma negrinha +de 10 annos, que o negro foi apresentar-lhe. + +--Que é isso, cabinda? + +--A Belmira traz ao seu senhor as flôres dos negros, porque o cabinda e +os seus parceiros tambem festejam os annos do pae da senhora moça, +respondeu o negro, em quanto a pretinha offerecia a Jorge um lindissimo +ramo de mimosas flôres. + +--Obrigado, Belmira, obrigado, cabinda, disse o capitalista, affagando a +creança. E tu, Magdalena, ficas encarregada de ir agradecer a todos, em +quanto vamos para o jardim esperar o café. + +--Como és nosso amigo, cabinda! disse Magdalena. + +E foi assim que terminou o jantar. + +Jorge e os convivas desceram para o jardim. + +Magdalena foi agradecer em nome de seu pae a lembrança dos escravos. + +O cabinda seguia-a com os olhos, a faiscarem alegria, gritando como +doido: + +--O branco veiu, senhora moça; o branco é bom e gosta da minha filha! + +Americo, descendo para o jardim, approveitava um momento, em que só Luiz +podia ouvil-o, para lhe dizer, com certo ar de cynismo; + +--Temos ambos igual quinhão no negocio: agora veremos quem leva a filha! + + + + +V + + +Pouco depois era servido o café. + +Jorge e Americo, tomavam-o, conversando sentados em duas pittorescas +cadeiras de bambús, á entrada de um formoso caramanchel de trepadeiras +floridas. + +Os caixeiros mais novos passeiavam pelo jardim e pela chacara, gosando a +liberdade, que lhes era concedida, desforrando-se da prisão quotidiana, +e do serviço quasi aturado do armazem. + +Magdalena, a formosa filha do cabinda, andava de canteiro em canteiro, +mostrando a Luiz de Mello as suas flôres; apontando, deslumbrante de +candidez, as particularidades de cada uma, a idade e a procedencia, com +a convicção de quem conhecia alguma coisa de botanica, e um tanto +orgulhosa dos cuidados, que empregava com as predilectas suas irmãs. + +Luiz segui-a e ouvia-a como fascinado, parecendo-lhe mais que estava +passando por um d'estes magicos sonhos de delicioso encanto, que tantas +vezes embalam a imaginação juvenil, do que assistindo á realidade de vêr +e ouvir ao seu lado um anjo, esplendoroso d'encantos, e suavissimo +d'harmonia nas fallas. + +--Olhe, dizia Magdalena alegre, radiante e sempre formosa; olhe este pé +de _suspiros_. Não é tão, bonito? + +--Formoso, minha senhora. + +--E estas _saudades_, não são tão lindas? + +--Muitissimo. Saudades... as flôres symbolicas dos que soffrem; dos que, +como eu, longe da patria, aonde deixaram a familia, vivem na esperança +de lá voltar, sem terem, comtudo, n'ausencia d'ella, um affago, que lhes +adoce a aridez do trabalho; um carinho, que lhes lisongeie o sentimento, +um consolo n'este correr da existencia, isolado, monotono e, por muitas +vezes, triste. + +--O senhor Luiz tem muitas saudades da sua terra, tem? + +--Se tenho!... + +--Tambem eu as sinto! disse Magdalena com ar melancholico. + +--Saudades, minha senhora?! perguntou Luiz admiradissimo. + +--Sim, admira-se? + +--E com razão. Pois V. Ex.^a, cercada de todas as commodidades da vida, +dos extremos e affagos d'um pae, que é mais que muito carinhoso; nova, +formosa, permitta-me V. Ex.^a esta verdade; vendo realisados todos os +desejos, satisfeitas todas as vontades; V. Ex.^a, que é, que deve +realmente ser muito e muito ditosa aos olhos de toda a gente, e aos +olhos proprios, confessa que sente saudades, e não ha de querer que eu, +exilado, sem familia, sem estes nadas da vida, que a dulcificam e +embellezam, me admire e espante d'essa confissão? + +--Que quer? Tenho-as, sim, mas tambem não sei de que, para lhe fallar a +verdade. + +--Comprehendo. N'esse caso melhor será que V. Ex.^a diga antes que tem +desejos... E emfim, quem sabe? Na idade de V. Ex.^a, na idade florida dos +amores, dos enthusiasmos, das alegrias, das expansões e dos sonhos +formosissimos, ha sempre, póde pelo menos haver, muita vez, algumas +d'essas melancholicas florinhas, que são, então, como pequeninas nuvens +no azul d'um céo estrellado e deslumbrante. + +--Não é isso, disse Magdalena levemente contrariada. Não é isso, porque +eu nunca amei. + +--Ah! V. Ex.^a nunca amou? + +--Nunca, pelo menos que eu saiba, respondeu ella ingenuamente. + +--Mais um motivo para eu crêr que o que V. Ex.^a tem, são desejos de amar +e ser tambem amada. + +--Talvez, accudiu Magdalena córando, e pregando em Luiz os seus negros, +grandes e formosos olhos. + +--E acreditaria V. Ex.^a no amor do primeiro homem, que ousasse +render-lhe um culto, confessando-lhe esse sentimento? + +--Conforme. O coração é que havia de decidir. + +--E o coração de V. Ex.^a não lhe diz nada? não lhe lembrou ainda um +nome? um homem, a quem tenha de dar as perolas valiosissimas do seu +affecto? + +--Já. + +Luiz estava pallido e tremulo de commoção. + +--Oh! se fosse eu!... murmurou elle. + +--Que tinha! era muito feliz, era? + +--Se era, minha senhora! muito! muito! + +--E amava-me? perguntou Magdalena anciosa, e um tanto agitada. + +--Oh! com delirio até! + +--Pois então não dê a mais ninguem o seu amor, porque... eu tambem o amo +muito! + +E a formosa filha do cabinda olhou para todos os lados como receiando +que alguem a ouvisse. + +Creança! + +Que commoções a não abalaram n'aquelle momento! que agitação n'aquelle +seio tão estreito, agora, para as ondulações do coração, que tantas +flôres estava desabrochando! + +Era a primeira vez que lhe fallavam d'amor! era a primeira vez que um +homem a impressionava. + +O que ella viu, o que ella sentiu, era o Paraiso com as bellezas +deslumbrantissimas dos seus vastos e perfumados jardins! era o céo com +todas as harmonias das suas orchestras, afinadas pelos dedos dos anjos! + +Luiz esqueceu-se da patria, da familia, das saudades, que tinha por uma +e outra, e começou, n'uma como visão phantastica, a vêr diante de si um +horisonte illimitado de felicidades sem fim! + +Que dia aquelle! que dia tão venturoso! D'um lado os beijos carinhosos +da fortuna, do outro, as flôres magicas do amor d'um seio de virgem! + +Eram tão violentas as commoções que o abalavam que apegas poude +murmurar: + +--Juro-lhe que a hei de amar eternamente! mas supplico-lhe que não me +engane nunca! + +--Nunca! prometto-lh'o pela memoria sagrada de minha mãe!.. + +E embebidos nas doçuras, nos enthusiasmos d'este colloquio, que jámais +devia ser esquecido Luis e Magdalena tinham-se affastado um pouco para +um dos angulos do jardim. + +Sentaram-se como que machinalmente. + +Magdalena voltava e revoltava entre as suas mãos mimosas e pequeninas um +viçoso suspiro; Luiz aspirava o fumo d'um delicioso charuto bahiano, e +arrojava depois ao espaço as ondas azuladas, as nuvens pequeninas do +fumo aspirado. + +Os pés dos jasmineiros floridos impregnavam a atmosphera de perfumes que +inebriavam. + +E o pôr do sol, o cahir das primeiras sombras do crepusculo da tarde, +começavam a pesar na alma d'aquelles dois namorados, estremosos como +duas juritys. + +--Parto d'aqui a pouco, minha senhora, disse Luis olhando com saudade +para Magdalena. + +--Mas ha de vir ver-me sempre que poder; sim? + +--Sempre que não haja quebra de conveniencias. + +--Conveniencias? interrogou Magdalena. + +--Sim, minha senhora. Bem vê V. Ex.^a que a minha presença muito +frequente n'esta casa, póde despertar suspeitas, e eu não desejo, nem +devo desgostar o senhor Jorge de Macedo, que apesar de estimar-me muito, +talvez não approve esta affeição, que começa a prender-nos hoje. + +--Ha de approval-a, basta que eu lhe diga que o amo. + +--Em todo o caso não a descubra V. Ex.^a por ora, não? + +--Não. + +---E se um outro homem, um homem qualquer se dirigir a V. Ex.^a, ou se +mesmo seu pae lhe apontar algum, como digno de partilhar do nome da sua +familia? + +--Despedil-o-ei. + +--Agradecido, minha senhora. + +--E olhe, quando não possa vir vêr-me, dê-me ao menos noticias suas, +sim? Fico com tantas saudades e com tantas lembranças d'este dia! + +--Tambem eu as levo. Mas por quem lhe heide dar as minhas noticias? + +--Pelo cabinda. O negro quer-me muito; bem sabe que sou a filha d'elle. + +--Muito bem. Agora retiro-me que são horas. Levo-a a V. Ex.^a gravada nos +olhos, e no coração. + +--Faça-me ainda uma coisa, faz? + +--Tudo, minha senhora. + +--Deixe as _excellencias_ com que me trata e mostre-me mais confiança. + +--Seja. Era essa a minha vontade. Adeus... Magdalena. + +--Até breve... Luiz! + +E apertaram-se as mãos n'uma effusão de grandissimo sentimento, e +separaram-se depois, saudosos ambos, ambos melancholicos e +impressionados. + +Americo e os outros empregados do armazem partiram tambem. + +Jorge deixou depois a filha e sahiu. + +Magdalena ficou só. + +Nas salas havia aquella meia escuridão da hora melancholica da transição +do dia para a noite. No céo já brilhavam, formosas, algumas estrellas. + +Magdalena foi sentar-se ao piano. Não ia tocar, ia fazer mais, porque ia +gemer saudades com aquelle amigo. + +As harmonias que encheram a sala eram suaves e melancholicas; casavam-se +em tudo com o que ella estava sentindo, e transportavam-a a mundos onde +nunca tinha subido. + +As mãos formosas e delicadas premiam suavemente as teclas de marfim, mas +o seu espirito só via uma imagem, aquella musica só lhe repetia um nome: + +--Luiz. + +E tão embebida estava, tão embrenhada jazia n'aquelle sonho que a +dominava, que nem sequer deu pelo cabinda, que surgiu cautelloso a uma +das portas. + +O negro parou n'uma contemplação, que era a maior prova do seu culto por +Magdalena. Mas ao vel-a assim tão preoccupada, ao parecer-lhe triste, +approximou-se carinhoso e disse, com toda a sua affeição a +transparecer-lhe na voz: + +--Ainda está triste a minha filha? + +Magdalena como que accordando d'um sonho respondeu: + +--Não, cabinda. Agora penso na felicidade. + +--E o branco? + +--Tenho-o aqui, respondeu, indicando o coração. + +--Mas a senhora moça é ainda a filha do cabinda! + +--Sou, sim; tu és meu amigo, e elle... elle amo-o muito! + + + + +VI + + +Vai um pouco adiantada a noite. + +A lua dardeja os seus raios de prata nos morros da Tijuca, do Pão +d'Assucar e Corcovado, e côa a sua luz pallida pelos intresticios da +vegetação luxuriante dos arrabaldes do Rio de Janeiro. + +Que noite formosa! + +Prendem-se as estrellas umas ás outras pelas suas palhetas luminosas, e +bordam, como brilhantes de subido valor, o manto azul da vasta abóbada +do céo. + +Dormem as aves ao som do murmurio suave das auras, que perpassam entre a +ramaria das arvores alentadas e fórtes. A atmosphera impregnou-se +durante o dia, dos perfumes das flôres e dos fructos, que o sol +fecundante fez amadurecer e desabrochar. + +O ananáz e o jasmin, o cajú e as acacias brancas, a pitanga e as rosas +de Alexandria, as flôres todas, e todos os pômos das arvores +fructiferas, casam, umas com as outras, os seus aromas deliciosos, do +conjunto dos quaes, se fórma uma essencia, que embriaga, que é doce, e +suave, e agradavel. + +O Botafogo dorme, velado pelo manto das suas bellezas, no centro d'um +silencio, apenas quebrado pelo cicio das agoas da sua poetica enseada. + +No meio de tudo isto, de todas estas bellezas, ha um ente que ainda não +repousa, enlevado em sonhos de fascinadora poesia. + +É Magdalena, a filha do cabinda. + +A formosa virgem encostou-se ao peitoril da sua janella, e, silenciosa, +firmou os olhos pensativos, n'um ponto, onde a imaginação e o espirito, +estão fazendo passar, desenrolando-se rapidos, uns variadissimos +panoramas, umas paisagens de infinitas bellezas! + +Está como que sonhando. + +Sonha, jurity mimosa e meiga, que os sonhos das alvoradas do amor são +formosos e bellos! Abre o sacrario virgem do teu coração, que começa a +fecundar as primeiras flôres, aos perfumes que a aragem da noite +transporta nas suas azas! + +Faz as tuas confidencias á lua; conta os teus segredos ás estrellas; +porque uma e outras virão, em cada noite, reflectir da altura, onde +andam suspensas, a imagem que te povoa a alma, o coração e a soledade! +Scisma; prende pelo espirito, por esse élo mysterioso, que aniquila as +distancias, o pensamento ao pensamento, que vem, de longe fundir-se com +o teu, em um só! Deixa que o coração se dilate, que a alma se expanda, e +se aqueça ao calor do sentimento que a anima! + +Oh! mas cahem-te dos olhos, que reflectem o céo, como se a proprio céo +elles fossem, duas perolas mimosas! + +Porque choras, criança? Que pêso poderão ter na balança do teu destino +essas duas lagrimas, que ninguem vê, mas que alguem beberia soffrego, +embora occultassem a morte? São o baptismo do teu amor? ou o preço da +tua felicidade? + +E Magdalena com o seu rosto formoso, mas nublado de melancholia, tinha +duas lagrimas a marejarem-lhe os olhos fascinadores. + +Aquellas duas gotas crystallinas eram as flôres das primeiras saudades +d'amor, saudades pelo primeiro homem, que lhe tocára o coração com a +varinha magica do condão do infinito sentimento. + +Magdalena pensava em Luiz, estava-o vendo n'aquella hora, como o vira em +sonhos tantas vezes, nas noites em que o seu coração sentia o mal estar +d'um vacuo incomprehensivel. Meigo e bondoso, affavel e doce, lá lhe +estava sorrindo, lá lhe estava fallando com a sua voz attrahente! + +E ella tinha saudades d'elle, saudades do dia que havia passado, e +saudades d'aquelle passeio pelo jardim, ao seu lado! + +Quizera-o alli sempre, quizera-o junto a si eternamente! + +Oh! que alternativa não estava passando o seu viçosissimo coração! + +D'um lado as claridades magicas do amor nascente, as promessas de Luiz, +o preenchimento do vacuo, dos desejos ardentes que ella não +comprehendia! + +Do outro, a ausencia, a distancia, o atear d'aquelle fogo sublime, a +sêde d'aquellas flôres, que haviam brotado na sua alma, a noite +d'aquelle dia tão repleto de encantos, a soledade, emfim! + +Ó mocidade! como és formosa com as tuas esperanças, com os teus receios, +com as tuas alegrias, com as tuas lagrimas, com todos esses contrastes, +que te agitam o seio, onde tudo é vida, onde tudo é enthusiasmo e +delirio! Sonhas de dia acordada, e velas de noite repousando! Nas +paginas do teu livro, se ha cantos melancholicos, ha tambem poemas +d'infinita ventura, por que o amor, que te doura as flôres e os dias, é +a fonte, onde, com uma lagrima, brotam muitos gosos. + +E Magdalena continuava a scismar. + +Era a primeira noite d'amor; o somno cedeu o logar aos receios e ás +esperanças. Dentro de sua alma e do seu coração havia um murmurio de +harmonias, constante, como o murmurio das cachoeiras da floresta. + +Ella tinha diante de si uma imagem e nos labios um nome--a imagem e o +nome de Luiz. + +Este velava tambem. + +Scismava em Magdalena, e estava-a vendo com os olhos do seu amor, +perpassando diante dos olhos do corpo, airosa, gentil e meiga, como a +vira n'aquelle jantar, que nunca mais poderá esquecer, e como a ouvira +n'aquelle jardim, de que ella era a flor mais candida e mais formosa. + +Luiz habitava na rua dos Pescadores, no Rio de Janeiro, o terceiro andar +da casa do armazem de Jorge de Macedo. + +Era confortavel o seu aposento, que elle andava percorrendo, +visivelmente preoccupado, d'um a outro extremo. + +É pequeno agora o ambito do seu coração para conter tudo quanto está +sentindo. Um mundo, vastissimo d'esperanças, se está desenvolvendo +diante dos seus olhos, no meio do qual avulta, radiante, o anjo de +Magdalena. + +Encheu-lhe o amor o seio. + +Elle, que vivia tão descuidado, entregue ás saudades da patria e da +familia, e ao desempenho das suas obrigações, esquece-se de tudo isso, +agora, esquece mesmo a imagem, duplamente santa, de sua mãe, para só se +lembrar de Magdalena, que lhe era uma pessoa estranha, uma pessoa +indifferente. + +Oh! o primeiro amor!... + +Eram fortissimas as inspirações que o dominavam e tanto mais quanto +menos as esperava. + +Magdalena deslumbrara-o, não só com a sua belleza, mas muito mais ainda +com a sua ingenuidade, com os seus modos despertenciosos, e com a sua +franqueza. + +Foi um anjo que lhe surgiu do céo, a elle, que andava na terra com a +aridez no coração. + +Todavia um vago pressentimento d'uma fatalidade o vinha acabrunhar por +vezes. + +Aquellas palavras d'Americo, quando, depois do jantar, desciam ambos +para o jardim, soavam-lhe ainda aos ouvidos e eram-lhe desagradaveis. + +Deram-lhe a conhecer que o mulato pertendia tambem Magdalena, e o mulato +era capaz até d'uma infamia para a conseguir. + +Luiz conhecia-o bem, estava ha muito tempo em contacto com elle, e +tinha-o mesmo estudado. + +Americo tinha os maus instinctos e a indole dos da sua raça, embora +apparentemente adoçados por uma educação rasoavel, e pela convivencia +d'aquelles com quem as suas obrigações o levavam a tratar. + +O jantar tinha sido n'aquelle dia, e desde que elle findara, ou antes, +desde que em casa de Jorge, os dois se separaram, ainda não tinham +trocado uma palavra, porque ainda se não tinham encontrado. + +Luiz tinha, porém, a certeza de que o mulato não guardaria silencio, e +dispunha-se a combater a todo o transe, se tanto fosse preciso... + +Que importavam a Luiz as pretenções d'Americo, se Magdalena jurára +amal-o, invocando a sacratissima memoria de sua mãe? + +Que lhe importava que o mulato, ferido no seu amor proprio, no seu +orgulho e nas suas ambições, pelo despreso ou pela indifferença de +Magdalena, o tentasse desthronar por meios ardilosos, por infamias até? + +Não tinha Luiz a sua consciencia limpa? + +Não lhe dizia ella que elle havia de vencer? + +Dizia. + +No entanto, é certo que o drama ia começar, que a lucta ia travar-se, +mas não face a face, e a peito descoberto. + +E em quanto Luiz pensava n'isto e na sua Magdalena, lá ia a lua +caminhando pelos páramos do azul sem fim, namorando a formosa filha do +cabinda, que a olhava melancholica nas saudades do primeiro amor, e +reflectindo as suas mil agulhas de prata reluzentes nas aguas +murmuradoras das cachoeiras da floresta, e no espelho do vasto +Guanabára. + +Ó noite! que de pensamentos não desabrocham, no meio do teu silencio, +nos corações que viçam amores á luz do teu astro argenteo! + + + + +VII + + +Eram oito horas da manhã do dia immediato, quando Luiz desceu para o +escriptorio. + +Americo já andava dando as suas ordens para o embarque de uma porção de +saccas de café. + +Os dois comprimentaram-se amigavelmente na apparencia, porém, com certa +reserva e um pouco de frieza, o que não era costume. + +Luiz trazia no rosto a pallidez impressa pela vigilia d'uma noite +inteira; Americo os traços de quem tinha uma ideia a dominal-o. + +E os dois socios de Jorge de Macedo dirigiram-se ambos ao escriptorio, +situado no fundo do armazem. + +Luiz sentou-se a escrever; Americo começou a examinar a correspondencia +do dia anterior. + +Os negros e os outros caixeiros andavam na labutação de pesar e ensacar +o café. + +--Nao sei onde te meteste hontem, desde que nos separamos no Botafogo, +principiou Americo, passando a vista de umas para outras cartas. + +--Eu é que te não tornei a vêr; respondeu Luiz placidamente, sem volver +os olhos dos livros, que tinha diante de si. + +--Fui ao theatro. + +--E eu vim para casa. + +--Ah! exclamou Americo com certo ar intencional. + +--Nao sei de que te admiras. + +--Eu? de nada. + +--Esse _ah!_ solto assim... + +--Foi natural. + +--Talvez, mas nao creio. Parece-me que queria dizer alguma coisa. + +--Não. Já tiveste noticias de Magdalena! + +--Noticias de Magdalena?! perguntou Luiz com certo ar d'altiva +admiração. + +--Sim; ou não deixaste ainda as coisas n'essa altura? + +--Gracejas de certo, Americo. + +--Não gracejo, não. Então has-de negar que a não desfitaste um momento, +durante o jantar de hontem, e que lhe fizeste uma confissão d'amor, em +quanto passeiavas com ella pelo jardim? + +---Não nego, nem affirmo. + +--Calas; quem cala consente. + +--Não sei. Mas d'um ou d'outro modo o que me parece é que nada deves ter +com isso. + +--Outro tanto não digo eu. + +--Não sei porque. + +--Porque tambem sou pretendente. + +--Ah! sim! + +--Tu começaste; veremos agora qual dos dois acabará. + +--Veremos. + +--Mas porque não has-de ser franco comigo? + +--Franco em que? e para que? És homem como eu; tens o campo aberto, +propões a lucta, acceito-a. Se tiver a franqueza de confessar-te que amo +Magdalena, retiras? Não. Ella é que escolhe; se algum de nós lhe +convier, o outro já sabe o que tem a fazer. + +--E se eu fôr o escolhido? + +--Paciencia. E se não fores tu? + +--Hei-de empregar todos os meios. + +--Todos? + +--Todos, sim. Os da minha raça bem sabes que não recuam nunca, e se o +ignoras fica-o sabendo agora. + +--Em todo o caso diz-me: Queres a mulher pelo dinheiro, ou queres a +mulher porque a amas. + +--Quero-a por ambas as causas... principalmente. + +--Comprehendo. + +--Julgas, talvez, que na balança da conquista, o prato pende mais para o +teu lado? Enganas-te. Nós, os brazileiros, e sobre tudo os que, como eu, +teem na face a côr bronzeada do cruzamento das raças, estamos fartos de +vêr que os pobretões dos portuguezes nos venham, de tão longe, roubar as +mulheres e o dinheiro. + +Luiz córou e pôz-se d'um pulo em pé. + +--Insultas-me! exclamou elle. + +--Não; digo a verdade. + +--Dizes a verdade! bradou Luis com ironia. Havia de fazer engulir-te a +phrase se não conhecesse que fallas despeitado. Fallas dos pobretões dos +portuguezes! Que seria de ti e dos teus se não fossem elles! Morriam +todos de fome, haviam de ser uns miseraveis! Nós é que trabalhamos, nós +é que vos sustentamos, pódes ter a certeza d'isto. Se vos levamos o +dinheiro, levamos apenas uma parte do fructo do nosso suor, ficando tu e +todos os teus com a outra, com a maior, sem o minimo esforço de corpo e +de espirito; se nos ligamos com as vossas filhas é por que as merecemos, +é porque somos verdadeiramente dignos d'ellas, para não dizer que mais +honra lhes vai com estas allianças, do que a nós. Repito; eu queria vêr +o que seria de vós se não fossem os pobretões dos portuguezes; de vós, +que apenas nascesteis para vos bamboleardes na rêde, indolentes, +occiosos, tomando o vosso café e fumando o vosso cachimbo. + +--Seja como fôr; não discuto nobrezas de nacionalidade. O que te digo é +que hei-de empregar todos os meios para conseguir Magdalena. + +--E eu affirmo-te que nem um só vingará. + +--Veremos. + +--Veremos. Declaras-te meu inimigo, atiras-me a luva, levanto-a. Conheço +agora que has-de usar de todas as armas, desde a hypocrisia, desde o +ardil apurado até á infamia, até ao crime refinado. Pouco importa. +Hei-de bater-te com a verdade, só com ella te hei-de derrotar. Todavia, +recommendo-te prudencia, porque se o meu braço se envergonhar de +castigar-te, talvez haja quem o faça sem que o esperes. + +--Ameaças-me? + +--Não; previno-te. + +--Pois bem; eu me defenderei. + +--Mas de modo que não vás ferir aquelle que ainda hontem, além de nos +sentar á sua meza como amigos, nos elevou á dignidade de partilharmos da +sua fortuna. A lucta é comigo, e só comigo, e se me encontras disposto a +combater-te, não me encontrarás disposto a tolerar-te a minima coisa que +possa, mesmo de leve, ferir Jorge de Macedo, que é hoje meu socio, meu +protector e meu amigo, finalmente. Mais ainda, Americo, e isto vale uma +ameaça. Magdalena é uma pessoa sagrada para mim, e exijo que o seja para +ti. A menor falta de respeito da tua parte, a menor insolencia que lhe +dirijas, pagal-a, bem paga, fica certo d'isso. A contenda é comigo e só +comigo, ainda uma e ultima vez t'o digo. + +--Pouco me importam as tuas ameaças, e respondo a ellas com uma +gargalhada. + +--Bem sei que vai até ahi o teu cynismo e a tua cobardia. + +--Luiz!... + +--Cobardia, sim! affirmou Luiz perfilando-se destemido em face de +Americo. + +Este ia, n'um impeto de raiva, a lançar-se ao guarda livros, mas ao +vêl-o tão resoluto, ao vêr-lhe nos olhos a chamma da valentia e a +coragem com que o esperava, recuou, deteve-se, e volveu-se, saindo a +dizer: + +--Ia-me zangando! A occasião não era propria, e nem mesmo valia a pena. +Tenho tempo de desforrar-me. + +--Ou de levares uma licção que te aproveite, canalha! respondeu Luiz. + +Dois minutos depois, já Americo andava ordenando e vigiando o trabalho +dos negros e mais caixeiros do armazem, e Luiz continuava escrevendo, +como se nada lembrasse a cada um d'elles d'aquella scena que o mulato +havia provocado. + +No entanto Luiz estava livido, d'esta lividez produzida pela raiva +sopeada, e Americo, no meio da labutação dos seus subordinados, trazia +nos olhos espelhado claramente, o pensamento, o desejo de vingança, que +lhe avultava no seio. + +A imagem, formosa sempre, e sempre sympathica de Magdalena, lá estava, +apesar de tudo, interposta entre os dous, a separal-os, a affastal-os, a +lançal-os, sem mesmo ella o pensar, em uma lucta tremenda, que devia +necessariamente terminar muito mal para um d'elles, pelo menos. + +Luiz via-a com os olhos do seu amor, do seu affecto, da sua virtude; +Americo com os olhos dos seus desejos desenfreados de vingança, com os +olhos da sua ambição e do seu calculo. + +Magdalena era o centro d'uma linha nos extremos da qual se agitavam +convulsivamente sentimentos inteiramente oppostos. + +Teriam ambos a mesma força? + +Qual d'elles tinha de attrahil-a? + +É facil prevel-o. A imagem de Luiz já lhe enchia o seio, já lhe havia +povoado os sonhos da primeira noite d'amor, aquelles sonhos porque ella +passára accordada, solitaria na sua janella, com os olhos cravados na +lua, e a alma a sentir o _gosto amargo_ d'uma saudade indefinida. + + + + +VIII + + +Eram tres horas da madrugada, quando Magdalena se retirou da janella, +onde a vimos tão scismadora, tão embebecida na contemplação silenciosa +da rainha da noite, que, apesar de bem alta, ainda ia vaidosa a mirar-se +nos crystallinos espelhos dos lagos adormecidos, e gosando as suaves +emanações das flores dos jardins. + +Nunca a formosa virgem tivera uma noite de sensações tão violentas, +esmaltada de tantos receios e de tantas esperanças, de tantas rosas e de +tantos espinhos. + +A imagem de Luiz, ora lhe sorria cariciosa, meiga, e cheia de bondade, +ora lhe apparecia gelada, fria, e grave, com todos os traços d'uma +indifferença verdadeira. + +Eram as alternativas do amor; era esta serie de contrastes e antitheses +que o constituem, e de que elle proprio se alimenta, inflamma e vive! + +Todavia, n'esta opposição de ideias, de phantasias, d'aspirações, que a +dominavam e agitavam, o predominio era inquestionavelmente para o +pensamento da felicidade, que tão magicamente lhe sorria no amor de +Luiz. + +O amor de Luiz!... + +Aquelle sentimento era o céo com todas as suas bellezas; com as +harmonias dulcissimas das harpas afinadas dos seus anjos; com todos os +cambiantes das luzes formosas dos seus astros scintilladores! + +E foi n'este diliciosissimo vago d'uma esperança de ventura que +Magdalena adormeceu. + +Os olhos, aquelles olhos sempre formosos, cederam por fim ao pêso da +somnolencia, e deixaram-se velar docemente pelas palpebras, quasi +transparentes. + +Não cessaram porém as ondulações do seio, que estava sendo o leito d'um +vasto oceano d'amor. + +Não cessaram, não, porque ainda se prolongava o sonho, em que, +inteiramente embebida, se havia demorado na janella, d'onde sahira +momentos antes. + +A formosa filha do cabinda estava vendo diante de si vastissimas +campinas de flores perfumadas; estava ouvindo umas harmonias alegres, +como nunca ouvira; tinha por cima o céo azul, limpido e sereno dos dias +tropicaes, e em baixo, na terra, a esteira matizada de flores, que a mão +d'uma fada branca, aeria e vaporosa, andava espargindo prodigamente. + +Ó mocidade! como são magicos os teus sonhos, quando te perfumam o seio +largo, as emanações balsamicas dos roseiraes floridos do amor! Como é +deslumbrante e querida a imagem, que te faz palpitar o coração, gravada +nos raios prateados de cada estrella, reflectida na superficie serena de +cada lago, envolta nas harmonias suaves e doces do cahir da agua de cada +cachoeira, presa nas mil palhetas douradas do sol de cada esperança, e +engastada na muldura valiosa das perolas de cada crença! + +Sonha, Magdalena, sonha! Na tua idade, os sonhos são vida, a vida é +ventura e a ventura parece não ter fim!... + +Sonha, em quanto te doura a fronte, e se reflecte no negro assetinado +dos teus formosos cabellos, o sol vivificante dos teus vinte annos tão +perfumados. + +E Deus queira que um dia não tenhas de beber a sicuta das desillusões, o +calix amargo e mortal do fel da desventura! + +Desponta propicia a estrella do teu amor; prophetisam-te alegrias os +canticos suaves, que te embalam o somno leve... Dorme, virgem; dorme, +sonha, vive, e gosa! + +E Magdalena sonhava. + +N'aquelle momento, havia, porém, dois homens que a estavam vendo com +olhos d'affecto formosamente sincero, mas inteiramente distincto. + +Eram Luiz, que não podera conciliar o somno, e o negro, o cabinda, que +havia accordado a pensar na felicidade da sua filha. + +As seis horas da manhã já o sol dourava, com todo o seu deslumbrante +explendor, a vegetação opulenta das mattas virgens, e as florinhas +mimosas dos jardins vicejantes. As aves mandavam ao céo, nas azas +invisiveis da viração do sul, o seu cantico matinal de graças e louvor. +Sorria-se inteira a natureza, n'um sorriso que era como um hymno +abençoando o Creador! + +O cabinda andava já, contente do seu trabalho, entregue á limpeza das +folhas seccas, cahidas, durante a noite, em volta do lago, onde +Magdalena costumava ir sentar-se, pensativa, no fim de cada tarde. + +E tão embebido andava o negro, que nem viu a sua filha approximar-se +d'elle, surgindo d'uma das aleas da chacara, orlada de mangueiras, +cajueiros e pitangueiras. + +--Tão entretido, cabinda! disse Magdalena approximando-se. + +--A minha filha! exclamou o negro, depois de se volver admiradissimo, +com um sorriso d'intima alegria a pairar-lhe no semblante. + +--Então? volveu ella. Julgas que só tu te levantas com o sabiá das +laranjeiras? + +--O negro não esperava a senhora moça, não. A sua benção. + +--Quero que vás á cidade. + +--Ao branco? perguntou elle com rapidez. + +--Sim. Vais levar este bilhete ao senhor Luiz, mas has de entregal-o só +a elle, ouviste? + +--Descance a minha filha, o negro vai já. + +E depois, como recordando-se d'alguma coisa passada, o negro continuou: + +--Oh! o cabinda bem dizia, que o branco dos sonhos da senhora moça havia +de chegar. É elle; o branco veiu e a minha filha gosta do branco. + +--Ah! suspirou Magdalena, enlevando-se nos sonhos do seu affecto. Ah! se +tu soubesses como eu o amo! + +--É como o cabinda á sua parceira e aos seus filhos que lhe tiraram. + +--Mais, mais ainda! Tu não imaginas como eu sou doida por elle! +Pertence-lhe a minha vida, o meu coração, a alma, o pensamento! Sou toda +d'elle, e não poderia viver sem elle. Tu, oh! tu não sabes o que eu +sinto, não! Penso n'elle de dia, de noite, a toda a hora, e sempre! Tu +contentas-te em ter saudades da parceira, que te tiraram, dos filhos de +que te separaram; e eu morria se elle me faltasse, morria, sim! + +--E o branco tambem quer muito á minha filha, muito; acudiu o cabinda, a +quem o enthusiasmo de Magdalena, havia enthusiasmado tambem. + +--Quem sabe? murmurou ella, n'uma expressão d'alguma duvida. + +--O negro vê. Hontem, no jantar, os olhos do branco buscavam os olhos da +senhora moça. Eram como a jurity do matto, a chamar a companheira entre +as folhas do capim... + +--Isso era hontem, mas agora?... respondeu Magdalena com melancholia. + +--Agora, senhora moça, o negro vai e hade trazer alegrias á sua filha. + +--Vem depressa, ouviste? + +--O negro não tardará. + +E o cabinda guardou o bilhete que Magdalena lhe déra, e partiu +apressado, volvendo-se, de quando em quando, para traz. + +No seio da formosa virgem havia uns alvoroços immensos. Era a esperança +que os originava, a dourada esperança, em que Magdalena ficava, de que +depois das suas noticias, que mandava a Luiz, este lh'as mandaria +tambem, n'um repetido protesto de grandissimo affecto. + +Subiu. + +Ao chegar ao topo da escada, encontrou-se com Jorge. + +--Tão cêdo cá por fóra, filha! exclamou elle, um tanto admirado ao +vêl-a. + +--Estava uma manhã tão bonita! vim vêr as minhas flôres. + +E beijou-lhe a mão e abraçou-o, cariciosa e meiga. + +--E tão cêdo as deixas, doidinha! + +--Já as vi, já lhes fallei, papae. + +--E agora que vaes fazer? + +--Uma visita a outro amigo... disse ella, sorrindo. + +--Pois ainda tens mais affeiçoados, Magdalena? + +--Se tenho, papae! disse ella, suspirando. Então o meu piano? + +--D'aqui a pouco esqueces-me de certo. Se vaes assim a repartir o teu +affecto, não deixas no teu coração um cantinho para teu pae! + +--Oh! o logar do papae ninguem o tira, ninguem! + +--Nunca? + +--Nunca! + +E Magdalena prendeu-o pelo pescoço, sorrindo com meiguice, e +imprimiu-lhe na face dous osculos purissimos. + +Jorge acolheu-os como os paes acolhem os beijos dos filhos, quando os +paes são paes, e os filhos não degeneram. + + + + +IX + + +O cabinda chegou á rua dos Pescadores, no Rio, alguns minutos depois de +terminada a disputa entre Luiz e Americo. + +O escriptorio, como já dissemos, era situado no fundo do armazem, e +resguardado por uns tapamentos de madeira, que interceptavam a vista do +seu interior ás pessoas que entravam. + +Americo estacou, e como que teve um estremecimento, vendo surgir o +negro. Dissimulou-o, porém, o mais que pôde, e foi encostar-se a uma +porta lateral. + +--Louvado seja o Senhor! disse o negro, entrando. + +--Adeus, cabinda; respondeu Americo docemente. + +--O negro quer fallar ao senhor Luiz. + +--O teu senhor não vem hoje á cidade? perguntou Americo com intenção. + +--O negro não sabe. + +--Quem te mandou, então? + +--A senhora moça. + +E o cabinda lançou a Americo um olhar perscrutador. + +--A senhora moça? perguntou o mulato, admirado do pouco segredo que o +negro guardava da sua missão. + +--Sim. + +--Trazes recado ou carta? acudiu Americo rapidamente. + +--O negro traz carta. + +--Dá cá, que eu vou entregal-a ao senhor Luiz. + +--A ordem da senhora moça é só para entregar a elle. + +Americo encolerisou-se com a resposta do cabinda, e disse, raivoso: + +--Bem se vê que és negro! + +--Como o pae de muita gente, respondeu aquelle. + +--Patife!... + +--O negro é cabinda, e o cabinda é raça fina. O mulato é filho de branco +e de negro... + +Americo sentiu-se altamente atacado, mas enguliu a affronta, que +provocára. Teve vontade de atirar logo dous murros ao negro, mas o +receio deteve-o, porque tinha diante de si um homem possante, que, +embora escravo, era, comtudo, um escravo estimado e querido. No meio da +sua ira, e, digamos, da sua cobardia, limitou-se a ameaçar: + +--Deixa estar, que o teu senhor saberá que andas a trazer e a levar +recados da senhora moça, patife! + +--O negro não tem mêdo. + +E o cabinda deu-lhe as costas, e dirigiu-se ao escriptorio, onde lhe +parecêra ouvir a voz de Luiz. + +Chegou á porta e metteu a cabeça. + +--Licença. + +--Ah! és tu, cabinda? Entra; acudiu Luiz, largando a penna. + +--O negro, meu branco. + +--A que vens? + +--Trazer isto. Manda a senhora moça. + +E tirando do bolço o bilhete de Magdalena, entregou-o a Luiz, esperando +com alegria, sorrindo de contentamento. + +Luiz sentiu um d'esses abalos, grandemente bello; um d'esses choques, +que se sentem sempre que nos chega a mão a primeira e suspirada carta do +objecto do nosso amor. + +Que papel aquelle! que thesouro não estava alli! + +Fossem dizer ao sympathico moço que o não lêsse! offerecessem-lhe por +elle todas as riquezas do mundo! + +Recusava, de certo, e recusava sem a minima hesitação! + +Apenas o perfumado papel lhe chegou ás mãos, Luiz abriu-o com uma +rapidez vertiginosa, e lançou ao contheudo os olhos, mais como quem o +devorava, do que como quem o estava lendo. + +Era uma soffreguidão nervosa, natural, exigida até pelas circumstancias. + +O cabinda que lhe seguia o menor dos movimentos, que parecia mesmo estar +lendo o que se passava no seu intimo, permanecia immovel, suspenso, +n'uma contemplação profunda e silenciosa; + +A leitura da pequenina carta foi rapida, mas, n'esse pequeno momento da +sua duração, Luiz subiu todas as notas da escala harmoniosa dos +transportes sublimes da ventura. + +O bilhete dizia o seguinte: + + «Luiz + +«Ainda não ha vinte e quatro horas que me deixaste e já não posso com as +saudades, que me magoam. Vem-me vêr quando poderes e diz-me sempre que +nunca hasde esquecer a... tua + + Magdalena.» + +«P. S. Passei a noite a pensar em ti, e até nas tres horas, que a fadiga +me obrigou a repousar, tive sempre, ao meu lado, em sonhos lindos, a tua +imagem, que me sorria e eu acariciava.» + +Era curta a missiva mas, em compensação, eloquentissima. + +E Luiz olhou para o negro. + +--Então? perguntou este. + +--Ah! cabinda! cabinda! exclamou o moço com duas grossas lagrimas a +brilharem-lhe nas pupillas. + +--O branco chora? que tem? interrogou o negro rapidamente, passando do +extremo da alegria ao extremo do receio. + +--Choro, sim, e olha que nunca os meus olhos verteram lagrimas como +estas! São de ventura, são de felicidade! Cada uma me vale o céo, cada +uma é um hymno, cada uma é um poema! Choro, porque nem só a dôr, nem só +a tristeza, nem só o infortunio, tem lagrimas. A alegria, quando é tão +grande, como a que eu estou sentindo, tambem as tem, tambem se adorna +com ellas. Aquellas são amargas, são negras, queimam e ferem; estas, que +tu vês nos meus olhos, teem o explendor d'um sol formoso, são dôces, +porque resumem a essencia d'um nectar suavissimo, dão vida, porque +contéem em si os elementos que a vigorisam! Choro, porque sou feliz, +cabinda! + +O negro ouviu Luiz n'uma anciedade indiscriptivel. O peito arfava-lhe +com violencia; era um mar tempestuoso. Os olhos, os seus grandes olhos, +estavam pregados em Luiz. Susteve-se assim em quanto o amoroso moço ia +fallando, enlevado nos transportes do seu grandissimo affecto. Mas +apenas elle acabou, o negro acudiu logo immediatamente: + +--E o branco gosta da senhora moça? + +--Oh! se a amo!... + +--Muito? + +--Até ao delirio! + +--Obrigado, meu branco! obrigado, meu branco! exclamou o negro, beijando +phreneticamente as mãos ao moço. + +--Que fazes, cabinda? acudiu Luiz, commovido, porque traduzia n'aquelles +beijos a affeição do escravo por Magdalena. + +--É porque a senhora moça é filha do cabinda, e o negro quer a senhora +moça muito feliz. + +--És uma grande alma! + +--Mas o mulato... + +--Oh! o mulato, acudiu de prompto Luiz, é preciso cautela com elle! + +--O cabinda não dorme! disse o negro em um tom d'ameaça. + +--Bem. Agora vou escrever duas linhas e não te demores. Vai logo, sim? + +--A minha filha espera, bem sei. + +Luiz sentou-se e escreveu as seguintes linhas: + + «Magdalena + +«Poderei esquecer tudo, mas esquecer-te a ti, nunca. Fizeram-me bem as +tuas palavras, E se estás soffrendo a melancholia das saudades que +sentes por mim, eu estou entre as nuvens da tristeza, d'esta ausencia, +em que nos tem uma distancia tão curta. Passaste a noite scismando em +mim; eu não repousei, pensando em ti. Lá havias de sentir no teu seio os +echos do meu pensamento. Irei vêr-te quando podér, e crê que te amo, que +te adoro muito, muitissimo. + + «Luiz.» + +O negro partiu. + +Quando chegou ao Botafogo ainda Magdalena estava sentada ao piano, para +onde a vimos encaminhar-se depois de ter affagado Jorge, seu pae, com +dous affectuosissimos beijos. + +O piano não estava agora gemendo deliciosas harmonias; estava sendo a +victima da anciedade, em que Magdalena esperava o cabinda. + +As mãos ora corriam rapidas, ora vagarosas, traduzindo claramente os +sentimentos e as ideias que se iam succedendo na sua juvenil imaginação. + +De quando em quando, corria á janella a vêr se divisava o negro, mas +voltava com a melancholia no rosto, sempre formoso. + +O cabinda entrou n'um dos intervallos em que ella tocava. + +Apenas elle surgiu á porta da sala, Magdalena deu um grito. + +Inundou-lhe o rosto todo o explendor do sol das alegrias. Os olhos +faiscaram centelhas de felicidade. + +--Então? que trazes? perguntou ella, correndo para o negro. + +--Carta do branco. + +--Dá cá, depressa, anda. + +O negro entregou a carta de Luiz e Magdalena começou a lêl-a do mesmo +modo que aquelle havia lido a d'ella. + +Eram eguaes as impressões, eguaes as circumstancias, eguaes os +sentimentos da occasião. + +Ao findar a leitura, Magdalena deitou os braços aos hombros do escravo, +e exclamou, ébria de contentamento, douda d'alegria: + +--Ah! cabinda! cabinda! + +--Está contente a senhora moça? + +--Oh! muito! muito! nem tu sabes como eu sou feliz! + +--É isso o que o negro quer, porque a senhora moça é filha do cabinda! + + + + +X + + +Jorge de Macedo chegou ao armazem pouco depois do negro ter sahido. + +Luiz e Americo cumprimentaram-o com a delicadeza devida. O capitalista +recebeu-os como socios seus, affavel, risonho, bondoso, mesmo com um +tanto da meiguice que o caracterisava. + +Jorge de Macedo era um homem sympathico, moral e physicamente. A sua +physionomia era d'estas que attrahem á primeira vista, os seus actos +modelados em harmonia com a virtude, com a honra, com a probidade, com +todo o cavalheirismo, emfim. + +Ficára viuvo muito cedo. A necessidade obrigou-o a ser carinhoso com a +filhinha, que ficava orphã das dulcissimas meiguices de mãe. A sua alma +identificou-se com aquella necessidade e Jorge tornou-se homem sensivel, +bondoso e em extremo meigo. + +Os seus subordinados eram tratados, não como taes, mas como amigos. Os +pobres tinham sempre aberta a sua bolça. Para as grandes emprezas, para +qualquer melhoramento do progresso era sempre o primeiro a dar o seu +nome e a concorrer com os seus fundos. + +Tudo isto o fazia estimado e querido, tudo isto lhe valia um nome +honrosissimo, apesar da sua vida retirada, porque Jorge, não por +systema, mas por indole, apenas tinha e alimentava a convivencia com as +pessoas, a quem o ligavam os seus negocios. + +Desde que fallecera Beatriz, a sua esposa querida, ninguem mais o viu em +um baile, em um club, em uma associação recreativa. + +Magdalena resumia-lhe todos os encantos, todas as distracções, todos os +prazeres. + +Com ella, com a sua adorada filha, passeiava elle muitas vezes, +n'aquella alegria d'um doce bem estar, d'um gosar inalteravel de +venturas suavissimas. + +Magdalena fôra educada esmeradamente, com todos os vivos cuidados d'um +pae amantismo, mas sem o desenvolvimento, que mais tarde se desata em +grandes exigencias, em superfluidades, em loucas ostentações. Jorge +cercara-a sempre de todas as commidades, mas não a affastára nunca d'uma +simplicidade abundante. + +As amigas de Magdalena fallavam-lhe de bailes, das alegrias, dos +ehthusiasmos de qualquer reunião d'este genero, ella respondia, fallando +do seu piano, das musicas novas, das bellezas d'algum livro, das +alegrias d'um passeio ao lado do seu pae. + +E Magdalena vivia assim, contente, satisfeita, risonha e feliz, graças +ao systema d'educação empregado por Jorge. + +A affabilidade, porém, do nosso capitalista, não se limitava á sua +filha, não se resumia só n'ella; estendia-se, como já dissemos, a todos +os que tinham o prazer de o tratar, fossem grandes ou pequenos, pobres +ou ricos. + +Os proprios escravos eram os primeiros a estimal-o, porque não deixando +de se fazer tratar por elles com o respeito devido, tambem os não +olhava, como em geral, com olhos de despreso, nem os carregava +d'asperidades, maus tratos e indifferença. + +Jorge acolheu, pois, affavelmente os seus novos socios e dirigiu-se ao +escriptorio, para resolver os trabalhos e negociações do dia com elles. + +Leu-se a correspondencia, fizeram-se deliberações, disposeram-se algumas +transacções de commum accordo. + +Jorge tinha no negocio uma longa pratica de muitos annos. O seu modo de +vêr as cousas era d'um alcance vasto. + +Luiz e Americo ouviam-o attentos e tomavam as suas palavras como +conselhos e lição. + +Depois de uma hora de conferencia o capitalista sahiu. + +Luiz ficou entregue á escripturação e Americo passou ao armazem a +dirigir o trabalho dos negros e caixeiros. + +Os dois associados não mostraram o menor vislumbre do resentimento, nem +das más disposições em que se achavam um com outro, na presença de +Jorge. + +Bem pelo contrario, fallavam, consultavam-se, e olhavam-se, como duas +pessoas ligadas por estreitissimos laços de amisade e de sympathia. + +A presença de Jorge continha-os dentro dos limites do respeito. Além de +que, qualquer d'elles se julgava culpado perante a propria consciencia. +Luiz ainda podia alliviar a culpa com a ideia do sentimento que o +dominava, do amor que lhe estava enchendo o coração. Americo, esse, não +tinha uma unica appellação. + +Jorge voltou de novo ás duas horas e foi encerrar-se com Luiz no +escriptorio. Conversaram por largo tempo, e quando ás tres da tarde +sahiu para regressar á chacara, chamou Americo e disse-lhe: + +--O senhor Luiz sahe amanhã no vapor das 8 horas para Macahé. Vai a +negocios meus. Quando vier a correspondencia abra e dê as suas ordens +como entender conveniente. + +--Sim, senhor. + +--Se até eu chegar, fôr preciso alguma coisa queira mandar-me aviso ao +Botafogo. + +--Não ha de ter duvida. + +--Adeus. + +Apertaram as mãos e Jorge sahiu. + +Americo exultou de contentamento com a inexperada sahida de Luiz. Eram, +pelo menos, quatro dias de demora, e em quatro dias podia, pensava elle, +conseguir derrubar o seu rival do throno aonde começava a sentar-se. + +Luiz ficou triste com a noticia, pelo lado do coração. Assaltaram-o logo +as saudades por Magdalena, e, sobre tudo, a ideia de que o mulato +poderia aproveitar a sua ausencia para commetter alguma infamia. + +Exultou, porém, pelo lado da consciencia, porque ia desempenhar uma +missão, em nome d'aquelle, a quem devia amisade, estima, confiança, e +fortuna até. + +Estava d'um lado o amor, do outro o dever. + +A ausencia ia ser por poucos dias e uma voz intima lhe segredava ao +coração, que havia de voltar a encontrar Magdalena, firme ainda no seu +juramento, constante no seu affecto. + +Luiz confiava na pureza dos seus sentimentos, e tanto bastava para crêr +que um anjo bom havia de proteger a sua causa. + +Demais, bem sabia elle que o cabinda olharia pela sua filha. + +Todavia Luiz não queria partir sem annunciar a Magdalena a sua ausencia. +Ainda tinha tempo. + +No dia seguinte, ás sete horas, já elle andava de pé. + +O mulato passára a noite a fazer e a desfazer planos. A ausencia do seu +associado sorria-lhe fagueiramente. No entanto nada poude decidir +positivamente, porque tinha a certeza de que Luiz tomaria todas as +precauções. + +Além d'isto, um dos maiores obstaculos que se levantavam, em face de +qualquer resolução tomada, era o negro, era o cabinda de quem tinha, sem +duvida, muito e muito a receiar. + +A ultima resolução foi a de esperar o curso das cousas. + +O mais provavel era que Luiz mandasse alguem a Magdalena, e n'esse caso +elle faria todas as diligencias para o evitar. + +Luiz tambem não tinha outro recurso. Sahir sem avisar Magdalena não o +fazia de certo, não podia fazel-o. Ainda se a demora fosse d'um dia! mas +quatro pelo menos! Quatro dias era muito, sobretudo, para quem sente as +primeiras saudades que são sempre mais dolorosas, mais profundas. + +Tomou a resolução de escrever a Magdalena, mandando-lhe a missiva por um +dos negros do armazem. Nunca o cabinda foi tão desejado, nunca! + +Escreveu, pois, e incumbiu um dos escravos de chegar ao Botafogo, logo +que Jorge viesse da chacara. + +Ás horas convenientes despediu-se friamente do mulato, que já andava de +vigia, e partiu para o local d'onde sahiam os vapores da carreira para +Macahé. + +Luiz levava a dôr das suas saudades e os receios d'alguma infamia do +mulato... + +Ás nove horas entrava Jorge no armazem. + +Americo, depois dos cumprimentos do estylo, e d'alguns cavacos sobre a +correspondencia e negociações do dia, deixou-o no escriptorio e veio ao +armazem. + +Chamou os negros, interrogou-os a todos, perguntando se algum fôra +incumbido pelo senhor Luiz de ir ao Botafogo levar algum recado. + +Um d'elles respondeu que sim. + +--A que? perguntou Americo. + +--Levar isto á senhora moça. + +--Deixa vêr. + +E tomou das mãos do negro a carta fechada, que este lhe apresentou. + +--Não é preciso ires, eu mandarei lá. + +E guardou a carta, contente, n'uma alegria visivel, em que se traduzia o +sentimento d'uma vingança quasi realisada. + +O mulato era um infame, e esquecia-se de que a Providencia vela sempre +pelos justos e pelos bons! + +A grande questão d'Americo era, quando não conseguisse para si +Magdalena, empregar todos os meios para que Luiz a não conseguisse +tambem. + +N'este desejo é que elle ia trabalhar, e, sobretudo, aproveitar os +poucos dias d'ausencia do seu socio, que, a bordo do vapor da carreira, +ia curtindo saudades, sempre com a imagem seductora e deslumbrante de +Magdalena a povoar-lhe a visão, e a apparecer-lhe em tudo! + + + + +XI + + +Americo, apenas Jorge sahiu, foi ao escriptorio, sentou-se, tomou uma +folha de papel e escreveu a seguinte carta: + + «Ex.^ma Snr.^a + +«O meu amigo e socio, Luiz de Mello, sahiu hoje, inesperadamente, para +Macahé, no vapor das 8 horas, a negocios do seu ex.^mo pae. Deixou-me +uma carta para V. Ex.^a, recommendando-me que das minhas mãos só sahisse +para as suas. Pediu-me tambem todo o segredo, e para que ninguem me +veja, peço a v. ex.^a o obsequio de apparecer esta noute, ás 10 horas, +no caramanchão da chacara, junto ao lago, onde me encontrará para +entregar a V. Ex.^a a referida carta. + + De V. Ex.^a, etc., + + _Americo d'Abreu._» + +Fechou, e subscriptou a Magdalena, sahiu, chamou um negro de fretes e +enviou-o ao Botafogo, á chacara de Jorge. + +Voltou ao armazem, mas em sobresaltos, com o receio de que, uma recusa +de Magdalena lhe poderia frustrar tão magnifico ensejo. + +A formosa filha do cabinda ficou duplamente surprehendida com a carta do +mulato. + +D'um lado a ausencia de Luiz, do outro o convite nocturno que Americo +lhe fazia. + +Teve o presentimento d'uma traição, d'um ardil, d'um estratagema, e quiz +responder immediatamente que não concedia a entrevista pedida. + +Mas Americo fallava-lhe d'uma carta de Luiz, e ella hesitou. + +Ficou na alternativa d'uma duvida, espinhosa, inquietadora, turturante +mesmo. Acceder era collocar-se n'uma posição altamente compromettedora; +não acceder, se Luiz havia effectivamente escripto a carta, era um +desgosto grandissimo. + +Magdalena via-se pela primeira vez entre as vicissitudes d'um amor, que +nasce espontaneo, caudaloso e vehemente. + +Estava na dolorosa espectativa d'uma grandissima hesitação, quando +entrou o cabinda. + +O negro era n'aquelle momento o anjo bom de Magdalena. Só elle a podia +tirar dos embaraços que a prendiam. + +Magdalena exultou de alegria, vendo-o entrar. + +--Ah! ainda bem que vens! exclamou ella, correndo para o negro. Não +podias chegar em melhor occasião. + +--Quer alguma cousa ao negro a senhora moça? + +--O senhor Luiz foi para Macahé. + +--O branco? perguntou o cabinda admirado. + +--Sim. + +--Quem o disse á minha filha? + +--O senhor Americo. + +--O mulato? interrogou o negro, mais admirado ainda. + +--Sim. Escreveu-me esta carta a dar-me a noticia, e a pedir-me para esta +noute ás 10 horas apparecer no caramanchão do lago, para me entregar uma +carta de Luiz. + +--E porque a não mandou o mulato? + +--Porque só a mim a quer entregar. + +O cabinda sorriu-se n'uma expressão d'ironia e d'ameaça. + +--E a senhora moça o que responde? + +--Não sei. Tenho mêdo. Tu que dizes? + +--Que a minha filha diga ao mulato que venha. + +--Mas... + +--Não tem duvida. O cabinda cá está! A onça não tem mêdo ao tigre que +assalta o seu covil. O negro tem visto muita jiboia! + +Magdalena, para não demorar mais o portador, tomou uma meia folha de +papel e escreveu o seguinte: + +«Espero-o á hora marcada. + + _Magdalena._» + +Dobrou e deu ao cabinda, dizendo-lhe: + +--Toma; dá ao negro que está esperando. + +--Não, senhora moça. O negro não quer que o seu parceiro o veja. + +--Porque? + +--A minha filha o saberá. O mulato não é bom. + +Magdalena chamou então o portador e mandou-o com a resposta. + +Quando voltou já não encontrou o cabinda. + +Sentou-se ao piano, mas agitada, convulsa, nervosa e inquieta. + +Não lhe sahia da imaginação o encontro que ia ter, e apesar de toda a +sua ingenuidade, Magdalena tinha quasi a certeza de que ia commetter uma +imprudencia. + +O cabinda não era, porém, um homem capaz de consentir que alguem +offendesse a sua filha. Elle que lhe disse que mandasse apparecer o +mulato, é porque lá tinha os seus planos. + +No entanto, Magdalena estava collocada entre as saudades que a pungiam, +lembrando-se da ausencia de Luiz, entre os receios da entrevista +concedida ao mulato a horas tão pouco apropriadas, e os grandissimos +desejos de receber a carta, que o seu eleito lhe havia deixado. + +Só n'isto a formosa menina pensava, só isto a absorvia completamente. Os +seus livros predilectos, as suas florinhas queridas, os seus passeios +pela chacara, foram esquecidos, foram olvidados. + +Era dolorosa a posição de Magdalena. Nem uma irmã, nem uma amiga a quem +podésse abrir o seio, com quem desabafasse, com quem repartisse o enorme +peso, que a estava opprimindo! + +Ainda hontem a embalavam as harmonias dulcissimas das palavras de Luiz, +os perfumes magicos das flôres mimosas do amor, que elle lhe protestava, +os sonhos deliciosos da ventura tão suspirada! + +Pobre creança! + +Americo recebeu a resposta de Magdalena n'uns alvoroços de louca +alegria. O mulato esperava agora, no meio d'uma grande anciedade, que a +noute descesse, com o seu manto de sombras e de escuridão, para realisar +os seus planos. + +A carta de Luiz a Magdalena estava em seu poder. O mulato commettera a +infamia de a abrir, de devassar o seu contheúdo. + +Para elle, aquella folha de papel, era uma preciosidade que valia muito. + +Não podia ella servir para comprometter o seu socio, o seu rival? Não +bastaria que elle a apresentasse a Jorge, para que este o despedisse +logo, sem o minimo processo investigatorio? Não revelava ella um abuso +da parte de Luiz? + +O mulato ia fazendo todas estas considerações, no meio da alegria que o +dominava. + +O bilhete que Magdalena mandára a Americo não seria tambem sufficiente +para mostrar a Luiz que ella aproveitára a sua ausencia, para conceder a +outro uma entrevista, a horas, de mais a mais, tão pouco proprias? + +No entanto, a formosa virgem, estava oppressa debaixo dos sobresaltos e +dos receios, das esperanças e das saudades. + +Valia-lhe o seu piano. Unico amigo, unico confidente, unico sacrario, +permittam-me a comparação, onde espraiava os sentimentos, que a +agitavam, o harmonioso instrumento devia de futuro ter uma grandissima +pagina no seu livro de recordações. + +Se elle chorava com as lagrimas d'ella! se elle enchia-se de +enthusiasmos com as suas alegrias, gemia com as suas saudades, e todo se +deliciava e desatava em celestes harmonias, quando lhe encrespavam o +seio as ondas bellas dos effluvios do amor, douradas pelas mil palhetas +resplandecentes do sol da ventura! + +Era com elle que ella sonhava os mundos vaporosos, as visões seductoras +d'uma existencia recamada de sorrisos, alastrada de flôres, embriagada +de perfumes e cega por excessos de luz divina! + +Era elle quem tinha sempre um echo para as vozes do seu coração, um +suspiro para cada anceio de sua alma, um gemido para cada ai, exhalado +de seus labios, formosos, como rosa mal aberta! + +Conhecia-a de creança, suavisára-lhe as primeiras saudades, as saudades +de sua mãe, e em todos os tempos a acolhera caricioso, cheio de +affectos, magico de harmonias. + +Quem sabe ainda para o que elle estaria reservado? + +Agora, era elle ainda quem, paciente, estava soffrendo as impetuosidades +da anciedade que lhe opprimia o peito debil! + +O cabinda, o negro fiel, o escravo dedicado, o amigo sincero, esse +andava no lago, em volta do caramanchão, a sondar todos os cantos, a +espionar todos os nichos, como quem estivesse encarregado de estudar a +topographia do local. + +O negro lá tinha a sua ideia. + +Não era inutil, não devia sel-o, aquelle trabalho, porque quasi se lhe +liam nos grandes olhos os pensamentos que lh'o impunham. + +E Luiz? + +O amoroso moço, longe do Rio de Janeiro, lá tinha no seio a imagem de +Magdalena, o sentimento no coração, as saudades na alma e o receio a +agitar-lhe todo o ser. + + + + +XII + + +É noute, formosa como as da America, resplendente de luar, bordada de +estrellas, impregnada de perfumes e suave de harmonias. Despenham-se +murmuradoras, por entre as sinuosidades graniticas, as aguas das +cascatas e das cachoeiras, formando lindissimos rolos de espuma, até +cahirem no vasto leito, onde a fada palpitante, a rainha voluptuosa, +mira languida o seu rosto prateado. Agitam-se levemente, ao sopro suave +da aragem nocturna, os calices das flôres aromaticas, e os ramos, as +folhas viçosas das arvores gigantes das florestas. + +Este meio silencio da natureza, este conjuncto de vozes indistinctas, +sahido do seio das vastas mattas; a luz, que jorra brilhante das perolas +engastadas na immensidão azul d'um céo tropical; as ondas inebriantes, +embriagadoras, dos perfumes, que de toda a parte se levantam invisiveis; +os cantos magicos, doces, harmoniosos, de algumas das aves nocturnas dos +climas do novo mundo; e, finalmente, este quê ignoto, indefinivel, que +distingue as noutes da America das noutes da Europa, parece que dão á +alma mais desejos, aos desejos mais fogo, e ao fogo mais labaredas. + +É calido o ambiente. O corpo ressente-se d'este estado da athmosphera, e +verga ao pêso d'uma languidez, semilhante á somnolencia voluptuosa +produzida pelo opio. + +Reclina-se o corpo; os braços pendem como cançados; a cabeça cede +naturalmente e cahe meio adormecida; cerram-se os olhos, e n'este +estado, que não é somno, nem delirio, nem sonho, nem embriaguez, mas que +é um composto suave de tudo isto, o espirito vôa, como as aguias das +montanhas, ás regiões formosas do puro idealismo, onde o leva a +phantasia ardente, que vegeta dabaixo do sol dos tropicos; a alma anceia +em ondas infinitas; o coração palpita fremente de desejos, e ha em tudo, +n'esses momentos, um desabrochar opulento, luxuriante, e vigoroso d'essa +poesia que se sente, que se gosa, que extasia, que brota, invisivel, das +harpas, sempre afinadissimas, do immenso vate chamado--natureza. + +Ó noutes do Brasil! ó noutes de poesia e d'encanto! desenrolae o vosso +manto de mysterios, e deixae que as juritys arrulem amores nos ninhos +aveludados, e os sabiás _desfiem as perolas_ dos seus cantos amorosos! + +Deixae que cada sêr palpite, que cada amor se expanda, que cada alma se +banhe na luz vaporósa do ideal da ventura! + +É noute, pois, e noute deslumbrante. O Botafogo repousa depois d'um dia +de vida mais. Soaram tres quartos depois das nove horas na torre +distante da egreja da Gloria, que, do seu morro, domina a vasta bahia do +Rio de Janeiro. As aguas, da enseada do Botafogo estão dormentes, +quietas e serenas. São um espelho onde a lua e as estrellas reflectem os +seus raios resplandecentes. Vaga mansamente ao longe um barquinho +solitario, d'onde, nas pandas azas da viração perfumada, se eleva uma +voz sonora, suave e sympathica, soltando no meio do silencio umas +estrophes d'amor. + +É a voz d'algum vate enamorado? ou d'algum sêr que geme saudades? + +Não sei. + +O silencio da noute estende-se ainda aos jardins e á chacara de Jorge de +Macedo. + +O negro cabinda e Magdalena seguem, fallando baixinho, uma das compridas +ruas, que vão desembocar ao lago. + +Magdalena vae trémula e receiosa. O cabinda animado e faiscando +centelhas de fogo dos seus grandes olhos. + +--Já lá estará, cabinda? perguntava Magdalena. + +--É cêdo ainda, senhora moça. + +--Vou com tanto mêdo. + +--O negro lá hade estar, minha filha. + +--Corre logo, se fôr preciso, ouviste? + +--De traz dos maracujás, o negro hade vêr tudo. + +Chegaram ao lago. Era completo o silencio. Magdalena entrou para o +caramanchão. O negro foi cauteloso collocar-se atraz d'uma das paredes +de cipós, que o formavam. + +--O negro fica aqui, senhora moça. + +--Bem, não falles nem bulas que podes trahir-te. + +--Descance a senhora moça. + +E Magdalena começou a pensar na imprudencia que estava commettendo. + +Todavia, o que não faria ella para receber uma carta de Luiz, de Luiz +que amava tanto, e que se ausentára sem tempo, ao menos, para se +despedir? + +Esteve assim alguns minutos. Ouviam-se apenas o bulir das folhas das +mangueiras, a respiração alterada de Magdalena, e o murmurio das aguas, +caindo no lago pela boca do tritão de marmore. + +O muro, a que se encostava o caramanchão, tinha a altura de metro e +meio. Os ramos folhudos d'uma grande tamarindeira furtavam-o, n'aquelle +logar, aos raios prateados da lua, deixando-o envolvido n'uma escuridade +vaga e indecisa. + +De subito a cabeça d'um homem surgiu do lado de fóra; conservou-se +attento alguns segundos, como sondando o local, elevou-se depois e +saltou para dentro cauteloso. + +Era Americo. O negro estava d'espreita e já o tinha sentido. + +O mulato rodeou pé ante pé a grande tamarindeira e dirigiu-se ao +caramanchão. Vinha receioso em extremo, e Magdalena, que lhe ouvira os +passos, não o esperava mais animosa. + +Chegou á entrada do caramanchão. + +--Magdalena! murmurou elle baixo. + +--Senhor Americo! respondeu ella timidamente. + +--Esperou muito, não? + +--Não; mas agora não posso demorar-me. + +--Estamos sós. + +--Estamos. + +--Ainda bem. + +E chegou-se mais a Magdalena e ia a tomar-lhe as maõs, quando ella +retirando-as accudiu: + +--Perdão, senhor. Creio que foi para satisfazer ao pedido do seu amigo +que aqui veio, e já lhe confessei que não posso demorar-me. + +--Para satisfazer ao pedido do meu amigo! Não, não foi para isso, minha +senhora. + +--Para que foi então? acudiu Magdalena de subito. + +--Foi para lhe dizer que a amo, que a adoro, que sou louco, muito louco +por V. Ex.^a! + +--Senhor Americo! + +--Oh! não se afflija V. Ex.^a Usei d'este estratagema, porque sei que não +conseguiria d'outro modo estar junto de V. Ex.^a Sei que o seu coração se +inclina para Luiz, mas V. Ex.^a é que não sabe os sentimentos que o +dominam a elle. Julga, no meio da sua ingenuidade que elle a ama tambem, +mas creia, que só a ambição o domina. O amor, o fogo, o delirio é nosso, +é dos brazileiros, que nascem debaixo d'este sol que queima, e não dos +que nascem entre os gelos que petreficam. + +--Perdão ainda uma vez, senhor. Ou vem para me dar a carta de Luiz, ou +nada tenho que fazer aqui e retiro-me. + +--Não; V. Ex.^a não se retira assim. Já que consentiu em me receber a +esta hora, hade fazer o sacrificio de ouvir-me. + +--Não tenho que ouvir-lhe, senhor. + +--Mas tenho eu que dizer-lhe. Diga-me V. Ex.^a: porque ha de acceitar os +galanteios calculados de Luiz e desprezar o sentimento verdadeiro que +lhe offereço? + +--E quem lhe dá o direito de m'interrogar? + +--A minha superioridade n'este momento. Esquece-se de que estamos sós? + +--Oh! mas isso é... + +--Para estranhar talvez, é. Mas V. Ex.^a não sabe, não comprehende os +desejos que me devoram. E a indifferença de V. Ex.^a excita-me em vez de +esmagar-me. Oh! por piedade Magdalena! + +E segurou-lhe uma das mãos, tremulo, nervoso, febricitante. + +--Deixe-me, senhor! + +E quiz fugir-lhe. Americo, porém, n'um momento d'exaltação deitou-lhe as +mãos ás tranças dos cabellos para a deter. Magdalena exforçou-se e poude +desembaraçar-se d'elle, deixando-lhe nas mãos uma das fitas que lhe +ornavam a cabeça. + +--Oh o senhor é um infame!... + +--Mas não ha de fugir-me assim! + +E seguiu-a continuando: + +--Ao menos hei de levar um beijo... + +E tinha prendido Magdalena, e ia commetter a infamia, quando sentiu o +pescoço apertado vigorosamente por uma mão de ferro. Era do cabinda. + +Americo soltou um rugido. + +Magdalena exclamou vendo-se livre do mulato: + +--Que fazes, cabinda! + +--Mato a serpente, senhora moça! + + + + +XIII + + +Houve um momento de silencio, curto, mas terrivel para Magdalena, que, +ao ouvir o cabinda, julgou que elle ia espatifar o mulato, e para este +tambem, vendo-se em face d'um inimigo tão possante. + +A lua inundava, agora, com os seus raios deslumbrantes o palco, onde se +representava aquelle drama; e para contraste das paixões, que alli se +agitavam, n'aquelle instante, um sabiá, poisado nos galhos d'uma +jaqueira, começou a vibrar as doces melodias do seu canto suavissimo. + +Magdalena estava tranzída de medo; o mulato espumante de raiva, no meio +da sua impotencia; e o cabinda risonho, mas n'uma alegria feroz. + +Era um quadro digno d'um pincel aprimorado. + +--Mato a serpente, senhora moça! dissera o negro a Magdalena, quando +esta lhe perguntava o que fazia, vendo-o agarrado ao pescoço do infame +mulato. + +Este, ao ouvil-o sentiu-se como aniquilado, mas por um exforço, proprio +do instincto dos da sua raça, poude desembaraçar-se do negro, guardou +rapido a fita das tranças de Magdalena, que lhe ficára nas mãos, recuou +dois passos, e de subito agitou no ar um punhal, cuja lamina pequenina +brilhava aos raios da lua. + +Magdalena, como que perdida, cheia da coragem, que os grandes lances +despertam nas almas mesmo mais fracas, correu para Americo, a +suspender-lhe o golpe, que ella julgava imminente sobre o cabinda. + +N'este momento, porém, crusava-se no ar com o punhal d'Americo uma +comprida e ponteaguda faca, vibrada pela mão vigorosa do negro. + +Duas vidas estavam suspensas das pontas d'aquelles dois instrumentos. Os +braços podiam descer ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo fazerem duas +victimas, rasgando dois seios. + +E assim aconteceria, se não fosse uma imprudencia de Magdalena, +imprudencia que a poderia ter morto, mas que felizmente não teve +resultados funestos. + +Quando a força dos dous inimigos ia ser empregada em vibrar o golpe, +chegava Magdalena collocando-se entre elles. + +Suspenderam-se então, mas nos olhos de cada um chammejava feroz a raiva, +o odio, uma tempestade, finalmente, horrorosa e tetrica. + +--Que faz, senhora moça! gritou o negro. + +--Estás doido, cabinda! + +--É o que te vale, canalha! acudiu Americo. + +--Basta, senhor, d'injurias e d'infamias! Sou mulher e fraca, mas não +tenho receio de o mandar calar e de retirar-se! + +--Creança! + +--Lacaio! + +O cabinda era um vulcão latente. Continha-o a presença de Magdalena. No +entanto, as forças, ou antes, a paciencia, ia começando a faltar-lhe e +ai do mulato se a lava podesse romper! + +Americo sentiu-se humilhado com a affronta provocada, e respondeu +atrevidamente a Magdalena: + +--Ponha essa palavra na bôcca d'um homem e diga-lhe que m'atire. + +--Ó senhora moça! deixe-me com elle! gritou o cabinda investindo para +Americo. + +--Não, que te enlameias! + +--Respeito-a porque é mulher, porque é uma creança. Todavia, creia que +não ficaremos sem saldarmos as contas. + +--Quando quizer. Vamos, cabinda. + +E Magdalena, aquella creança que nós conhecemos, bondosa, meiga, +delicada, sensivel, tomou, lançando ao mulato o seu olhar expressivo de +cólera, o negro pelo braço e arrastou-o consigo, affastando-se em +direcção a casa. + +O cabinda cedeu, e nem elle era homem que resistisse á sua filha, mas +não sem que se voltasse para traz, gritando ao mulato: + +--O negro cá fica. Cautella com o cabinda. + +Americo tragou a ameaça em silencio e ficou só, no meio da febre da sua +exaltação, que pouco a pouco devia ir diminuindo. + +Sentou-se e esteve scismando durante alguns minutos. Occorreu-lhe, +porém, a lembrança de que o negro poderia voltar, achou-se fraco perante +a robustez do seu inimigo e deixou a chacara saltando para fóra. + +Estava cançado. + +As coisas começavam a correr-lhe mal, e isto exasperava-o mais, que as +offensas e as affrontas que havia recebido. + +Deixou correr as ideias atraz dos seus desejos de vingança, mas teve um +momento em que quasi succumbiu. + +Americo, em vez d'um, via, agora, tres inimigos diante de si:--Luiz, +Magdalena e o negro. + +A lucta era desigual e poderosos os seus contendores. + +O primeiro ensejo, a primeira occasião favoravel, fôra de toda perdida, +e longe de aproveitar-lhe antes o collocou em mais critica posição. + +Os cuidados e as precauções haviam de redobrar-se agora contra elle, e +isso obrigava-o, para conseguir os seus fins, a redobrar tambem +d'astucias e d'ardis. + +No entanto, as esperanças de derrubar Luiz do altar do coração de +Magdalena, não o abandonaram de todo. Mais ou menos lá lhe floriam no +coração, entre os sentimentos ignobeis da preversidade que o dominava. + +No entanto, Magdalena acompanhada pelo cabinda, ao dirigir-se a casa, +depois d'aquella scena violenta, que tanto a excitára, ia-lhe dizendo, +com ar de quem lhe impunha a sua vontade: + +--Olha que não quero que alguem saiba do que se acaba de passar-se. + +--Descance a minha filha. + +--Nem mesmo ao senhor Luiz, quando chegar, ouviste? + +--Nem o branco? + +--Nem esse. + +--Então o mulato hade ficar assim? + +--Perdoo-lhe, Cabinda. + +--Mas o negro é que não perdoa senhora moça. + +--Ha de perdoar, porque eu assim o quero. + +--E se elle voltar? o mulato é mau... + +--Se voltar, fallaremos então. + +--Oh! senhora moça! o negro tem bom olho e pulso forte. E o cabinda +estende-o logo como o caçador á onça do mato. + +--Já te disse que não fazes nada. + +--A minha filha manda. + +--E tu obedeces. + +Tinham chegado á escadaria de pedra que conduzia á habitação. A preta +Maria, que era a mucamba de Magdalena, uma especie de creada grave, +vinha descendo já para ir procural-a, estranhando que contra o seu +costume, a senhora moça andasse pela chacara áquella hora. + +Magdalena apenas a viu perguntou logo: + +--Onde vaes, Maria. + +--Ia procurar a senhora moça. + +--Ainda bem que te poupo esse trabalho. Fui passear até ao lago, +acompanhada do cabinda. + +--Eu não via a senhora moça, e fiquei logo com cuidado. + +--Obrigada. Estava a noite tão bonita que não pude resistir-lhe. + +--Fez bem, senhora moça. + +--Pergunta ao cabinda, como, na grande tamarindeira, do lago, estava +cantando um sabiá! + +--Bonito, Maria! + +E n'isto foram entrando em casa. + +Perto da meia noite entrava tambem o mulato no seu quarto da rua dos +Pescadores. Levava estampado no rosto a expressão d'um grande +descontentamento. A decepção que soffrera fôra grande e, sobre tudo, +inesperada. + +Depois, não era só isto o que o preoccupava; era tambem a ideia de que +tinha ainda novas scenas, apenas Luiz chegasse, porque tinha como certo +que Magdalena não deixaria de narrar-lhe a sua ousadia, e tudo quanto +tinha acabado de passar-se. + +Americo reconhecia agora a falsidade da sua posição. + +Além d'isto, se todas estas coisas chegassem aos ouvidos de Jorge, era +mais facil que elle perdoasse a Luiz, e attendesse aos rogos de +Magdalena, sua filha, do que esquecesse a infamia tentada por Americo. + +O que elle tinha como certo; era que as coisas depois dos ultimos +acontecimentos, dessem de si, tivessem um resultado qualquer. Luiz era +um homem de dignidade e a isto juntava agora todo o amor que o +inflammava. E bem ameaçado deixára o mulato antes de partir para Macahé, +fazendo-lhe sentir que Magdalena lhe era uma pessoa sagrada, e que teria +de justar com elle todas as contas, se de qualquer modo a offendesse, +injuriasse ou affrontasse. + +Todavia, Americo, apesar de sentir o peso de todas estas reflexões que +lhe suggeria o seu espirito, não deixava, ainda assim, de conceber uma +esperança. Desanimar, não desanimava. + +Tinha a pertinacia dos da sua raça pouco pura, a teimosia dos que, +dotados de maus sentimentos e indole perversa, não duvidam nem hesitam +em ir augmentando o mal, para conseguirem os seus fins, á medida que os +obstaculos, que as barreiras se vão levantando. + +Era por isso que o mulato, no silencio do seu quarto, examinando agora o +bilhete de Magdalena e a fita de sêda que as tranças dos cabellos d'ella +lhe deixaram nas mãos, dizia com expressão de grande malvadez: + +--Ainda cá está isto! Valem e podem muito estes objectos! + + + + +XIV + + +Passaram-se quatro dias sem acontecimentos dignos de mencionarem-se. +Magdalena ia gemendo as suas saudades; o cabinda cuidando dos jardins e +da chacara, e Americo curtindo os ardentes desejos da suspirada +vingança. + +Ao quinto dia surgiu Luiz, regressando de Macahé. + +Vinha ancioso o pobre moço; eram vehementes os desejos de vêr Magdalena. + +Depois, como a todos os namorados, como a todos aquelles que se +alimentam do fogo sagrado do amor, Luiz sentia d'um lado as venturas de +ter acabado com uma ausencia, que lhe era extremamente dolorosa, e +sentia, do outro, os espinhos afiados, com que o estava ferindo a ideia +de que Magdalena o tivesse esquecido, o tivesse abandonado. + +Era a duvida, d'um lado, com toda a sua escuridão, com toda a sua noute; +e a esperança, do outro, com os resplendores vivissimos do seu formoso +sol, com todos os suaves perfumes das flôres da sua primavera. + +Além d'isto avultava tambem a incerteza sobre o procedimento do mulato, +seu socio. + +Teria elle respeitado Magdalena? + +Teria commettido alguma infamia, durante os quatro dias e meio da sua +dolorosa ausencia? + +Ninguem podia responder-lhe; e ávido de saber tudo isto, ávido de vêr +Magdalena, de fallar-lhe, de a ouvir, de lhe escutar ainda uma e muitas +vezes um protesto d'amor, é que elle entrava agora em casa, trazendo +tambem a consciencia satisfeita, pelo bom desempenho da commissão, de +que fôra encarregado. + +Americo não o esperava de volta tão cedo, e sentiu o que quer que é ao +vêl-o entrar, porque estremeceu, e empallideceu subitamente. + +Presentiu, naturalmente, a violencia das tempestades, que iam +desencadeiar-se, e depois de revolto o mar, quem poderia assegurar-lhe a +salvação, ou evitar-lhe um naufragio? + +Esperanças, pelo menos, de fazer mal a Luiz, tinha-as elle, embora +poucas, mas assentes em que base é que elle não sabia. Resultados da sua +indole, da sua perversidade. + +Em todo o caso, desistir da lucta, nunca! Seria uma cobardia, uma +vergonha immensa, uma nodoa indelevel, segundo o seu parecer, e a isso +preferia antes o esmagamento, uma quéda, uma derrota completa, que lhe +inutilisasse todos os recursos. Então sim, antes d'isso, não desistiria +dos seus intentos. + +No entanto, Luiz, entrando em casa, ás oito horas da manhã quiz +mostrar-se generoso, ou antes, que tinha confiança em si e em Magdalena, +e dirigiu-se a Americo, cumprimentando-o, como que se um resentimento o +não estivesse remordendo intimamente. + +O mulato respondeu cortezmente, mas com certa frieza. + +A sua pallidez, ou antes a mudança de côr que se operara no seu rosto, +com a entrada inesperada de Luiz, desappareceram após as primeiras +impressões, para dar logar á viva expressão dos desejos que o assaltavam +de recomeçar a luta com o seu antagonista. + +Tinha o mulato para si, que devia romper, e romper logo, a fim de ganhar +sobre o seu adversario a força moral de que precisava. Era uma +estrategia boa na apparencia, mas falsa, sem duvida, pelos resultados. + +Luiz tambem não era homem para succumbir; dava-lhe alentos o seu amor, e +além d'isso era... portuguez! + +Ás oito horas e meia entrava Luiz no escriptorio, depois de se ter +preparado. + +Americo lá estava, sentado a lêr a correspondencia. + +Nem sequer olhou para o seu socio. + +--Fez-se algum negocio? começou Luiz. + +--Bastante, respondeu Americo seccamente. + +--Houve alguma novidade, durante estes dias que andei por fóra? + +--Importante nenhuma. Apenas uma entrevista que me deu Magdalena, uma +d'estas noites, aproveitando para isso a tua ausencia. + +Luiz sentiu-se como ferido por uma profunda punhalada, e levantou-se +subitamente com a pallidez no rosto, o fogo nos olhos e umas temiveis +convulsões nas mãos. + +--Mentes! bradou o moço. + +--Mentirei... + +--Mas como um vilão!... + +--No entanto tenho as provas comigo. + +--Mostra-as, se és capaz! + +--Julgas então que era chegar, vêr e vencer! Enganas-te. Magdalena +disfructava-te, porque fazia de ti um brinquedo, com que se divertia, +sem nunca pensar em tomar a sério os teus protestos d'amor. + +--É falso, repito! E senão mostra-me as provas ou esmago-te como quem +esmaga um reptil venenoso! + +--Tenho-as aqui e parece-me que bem claras. + +--Fazes-me perder a razão, e depois... + +--Conheces esta letra? lê... + +E Americo deu a Luiz o bilhete em que Magdalena lhe concedia a +entrevista. + +--E, mais do que isso talvez... tens ainda aqui esta fita da trança dos +seus cabellos... Que dizes agora? + +Luiz nunca na sua vida sentira o que estava sentindo n'aquelle momento. +Era o ciume, a raiva, o desespero e o odio, confundidos, misturados, +amalgamados, n'um sentimento que a penna não póde traduzir. + +Vacillava-lhe a razão, fugia-lhe a vista, em face d'aquelle bocadinho de +papel, que lhe estava queimando as mãos, como fogo do inferno. Era +incrivel, mas era a realidade! conhecia a letra de Magdalena, reconhecia +tambem a fita que lhe prendia os cachos dos cabellos negros, na tarde +d'aquelle jantar saudoso. Luiz desejava duvidar do que estava vendo, mas +como, se as provas estavam agora na sua mão! Passou-lhe por diante dos +olhos a visão medonha da vingança. Mas a Providencia não desampara os +que bem lhe merecem, e limitou-se apenas a exclamar: + +--Tão infame é ella como tu!... + +--Então já não duvidas? perguntou Americo, attendendo apenas ao estado +em que Luiz se achava, e importando-se pouco com as injurias que elle +podésse dirigir-lhe. + +--Não sei. Todavia quem me affirma que Magdalena não foi forçada a +escrever estas linhas, a pôr o seu nome n'esta folha de papel e a +entregar-te ou a mandar-te esta fita? Quem? + +--Com isso poderá ella desculpar-se se lhe fores agora pedir contas do +seu procedimento, bem o sei, mas pouco importa, porque esse bilhete +falla bem alto. + +--Oh! mas isto é incrivel! isto é um sonho!... + +--Não é sonho, não. É a realidade. Acceitaste a lucta, batalhamos. +Quando julgavas haver vencido, vês a victoria do meu lado. Acontece +muita vez. Além d'isso, que dotes ha em ti que te recommendem mais que a +mim? O seres portuguez? o seres branco? É justamente por isso que menos +devias confiar em ti. Se tenho côr... sou brazileiro! + +--Em todo o caso abusaste da minha ausencia e o teu procedimento não +póde ser classificado senão de infame! + +--Embora! com tanto que eu vença... + +--Isso é o que ainda não está decidido. Não julgues que fico com o que +me dizes. Heide indagar, heide empregar todos os esforços para descobrir +a verdade. A letra do bilhete e a fita de sêda são de Magdalena, não ha +duvida, mas se para as conseguires empregaste alguma violencia, +commetteste alguma infamia, ou abusaste de qualquer modo, não te perdôo, +Americo; as contas serão então comigo. + +--Que pretendes, pois, fazer? + +--Indagar a verdade, dissipar esta duvida que me atormenta! + +--Como? Fazendo publico que a filha do teu amigo, do teu socio deu a um +homem uma entrevista a horas inconvenientes? Queres deshonral-a d'esse +modo? Queres dar esse desgosto ao teu protector? + +--Muito cynico és, Americo! bradou Luiz espumante de cólera. E tu, +canalha, não te lembraste que devias a esse homem tanto como eu, para +lhe illudires a filha! Qual de nós a deshonra mais? eu que me julgo hoje +com direito de lhe pedir contas de seu procedimento, ou tu que abusaste +necessariamente da sua ingenuidade, ou a estás infamando, faltando á +verdade, e então és duplamente abjecto e criminoso? + +--Indaga. + +--Heide indagar, sim. E ai de ti se ousaste calumniar, quem só devia +merecer-te todo o respeito. + +--Em todo o caso restitue-me isso. + +--O bilhete e a fita? nunca! + +--São meus. + +--Que importa, + +--Importa muito. E, ou m'os dás ou... + +--As ameaças depois, agora... a verdade! + +E Luiz ia a retirar-se quando ouviu no armazem a voz de Jorge que havia +entrado. + +O mulato estremeceu de medo. Comtudo, já tinha a consolação de ter +amargurado e bem o coração de Luiz. + +Este, apenas deu a Jorge conta do bom desempenho da missão de que fôra +encarregado a Macahé, sahiu, deixando-o no armazem com Americo. + +O pobre moço ia fóra de si, como perdido, desvairado, e, diga-se a +verdade, bastante indisposto com Magdalena, porque acreditava mais ou +menos no seu perjurio. + +N'este estado, seguiu para o Botafogo. + + + + +XV + + +Eram onze horas quando chegou. + +Magdalena havia acabado d'almoçar e viera para o salão, no proposito de +espalhar saudades com o seu piano, com o seu discreto confidente, mas +esqueceu-se d'elle, embebida na leitura do suavissimo _Camões_ do nosso +immortal Garrett. + +Estava lendo, a meia voz, estes admiraveis versos: + + «Longe, por esse azul dos vastos mares, + Na solidão melancólica das aguas, + Ouvi gemer a lamentosa alcyone + E com ella gemeu minha saudade...» + +quando Luiz surgiu á porta, através do reposteiro, que a velava. + +Vinha pallido, como que acabrunhado, mas luziam-lhe nos olhos as chammas +rubidas do fogo do ciume, do desespero e da descrença. + +Magdalena não o esperava e, ao vêl-o entrar deixou cahir o livro das +mãos e correu para elle, gritando commovida: + +--Ah! ainda bem que veio! + +Luiz recebeu-a com frieza, furtou as mãos ás mãos d'ella que as +procuravam, e recuou dous passos dizendo: + +--Perdão, minha senhora, se venho interrompel-a! + +--Luiz!... acudiu ella, vendo o modo como elle se apresentava. + +--Não venho aqui, minha senhora, para continuar a ser o ludibrio dos +seus caprichos de creança! Lamento as horas que perdi, pensando em V. +Ex.^a, como se pensa no nosso anjo da guarda, como se pensa na visão +seductora dos sonhos do nosso amor purissimo... + +--Desconheço-o... Porque me falla assim? interrogou Magdalena com a voz +em lagrimas. + +--Porque? Ainda m'o pergunta? Porque vejo que V. Ex.^a é uma mulher, como +todas as mulheres, vulgar, sem um ponto unico que a eleve acima do nivel +das outras, quando a julgava um anjo, um ente superior, uma d'estas +pombas immaculadas, que o mundo não sabe apreciar, infelizmente! Porque +a julgava uma perola de subido valor, e vejo agora que é apenas a concha +da praia, sem merito de qualidade alguma! Porque a tinha como flor, +capaz de perfumar com toda a felicidade os dias d'amor, que lhe depunha +aos pés, e venho encontral-a rosa eivada de milhares d'espinhos +envenenados! Porque lhe vi o mel nos labios, a doçura na voz e o céo nos +olhos, quando, afinal V, Ex.^a só preparava a victima para lhe despedir a +punhalada! Porque a julguei sincera, no meio do devanear sublime do meu +sentimento affectuoso, quando tudo em V. Ex.^a era a mascara, debaixo da +qual se escondia uma grande hypocrisia... toda a sua preversidade, +emfim! + +--Oh! eu não lhe mereço isso! exclama ella com duas lagrimas nas +pupillas. + +--Bem sei; são ainda as lagrimas do crocodillo! Era realmente bonito, e +sobretudo, digno de V. Ex.^a que um homem andasse a rojar-se-lhe aos pés, +a entregar-lhe tudo, pensamentos, alma corpo, vida, futuro, crenças e +aspirações, em quanto que V. Ex.^a, zombando da sua fé, zombando do +sentimento e da sinceridade d'esse homem, se ria, brincando com elle, +como se brinca com um objecto qualquer, que nada vale! Era realmente +bonito, era, e, sobretudo, uma grande gloria para V. Ex.^a! O que não sei +é como V. Ex.^a vivendo isolada desta sociedade corrompida e depravada, +põe em prática os principios da philosophia d'ella! O que não sei é como +V. Ex.^a, sendo tão nova, tem já tanta maldade! + +--Por piedade, Luiz, não me accuse, não me affronte d'esse modo, porque +eu estou innocente!... + +--Innocente!... + +--Innocente, sim! E se não, diga-me qual é o meu crime, a minha culpa, o +meu peccado!... + +--Ainda m'o pergunta! Já o esqueceu, talvez, como pôde esquecer que +invocára, n'um momento de hypocrisia, a memoria sacratissima de sua mãe, +para me fazer um protesto d'amor! + +--Oh! muito, eu... bem vê que não tenho forças para tanto!... soluçou +ella, inundada de lagrimas. + +--É muito! é muito! diz V. Ex.^a! O que não será, então, rojar um homem +aos pés d'uma mulher todas as flores purissimas do seu amor primeiro, +acolher cheio d'esperanças um sorriso. d'amor d'essa mulher que lhe fica +sendo vida, ar, luz e tudo, para depois, esquecendo a loucura d'esse +homem, aproveitar uma curta ausencia para dizer a um outro:--Venha que o +espero a tantas horas da noute! O que será isto, minha senhora, se acha +muito o que me está ouvindo? + +--Oh! foi ainda por sua causa, Luiz, mas perdoe-me! + +E Magdalena cahiu-lhe de joelhos aos pés, soluçando convulsivamente. + +Eram as consequencias da sua imprudencia! + +--Por minha causa! disse Luiz ironicamente. Nada creio, nem quero +justificações. Foi porque assim o quiz e fez muito bem. E V. Ex.^a teve +razão. Pois quem era, quem sou eu? Um homem sem fortuna, sem um nome +pomposo, expatriado, d'uma familia humilde e ignorada, que tem apenas +por brazões as gotas do suor do seu trabalho, por timbre a honra, por +divisa, a virtude, em quanto que V. Ex.^a é a senhora D. Magdalena, a +filha riquissima, a herdeira unica do ex.^mo capitalista Jorge de +Macedo! + +Magdalena, profundamente magoada com as palavras de Luiz, sentiu uma +violenta commoção nervosa, levantou-se de subito, recuou dous passos, +perfilou-se, e exclamou n'uma como explosão, que era a prova mais +evidente da dôr aguda que estava sentindo: + +--Basta, senhor! nem tanto! Não se abusa impunemente da fraqueza d'uma +mulher, e é mais que crueldade estar a fazer-lhe derramar lagrimas de +sangue! Envergonho-me agora de as ter chorado e lamento devéras a +loucura, que me obriga a esta humilhação em que me vejo, ha meia hora, +na sua presença! Confiou muito pouco em mim, senhor Luiz, e muito menos, +ainda em si. Julgou-me uma creança imprudente, uma mulher vulgar, uma +mulher leviana! Estava no seu direito! O que não tinha era direito para +me insultar as lagrimas de que me arrependo agora, porque não merece! +Não quer justificações; pois bem, não as terá e se acaso voltar a +pedir-m'as não se admire de lh'as recusar! + +--Ah! e, demais a mais, é orgulhosa! + +--De certo. Pois que esperava, vindo provocar-me tão pouco +benevolamente? + +--Que tivesse menos hypocrisia e mais consciencia. + +--O senhor Luiz esquece-se, de certo, que está fallando com uma mulher! +Consciencia! + +--Consciencia, sim, minha senhora. E fallo-lhe d'este modo, porque tenho +aqui as provas! Veja-as, analyse-as, reveja-se V. Ex.^a n'ellas. Ahi lhe +ficam. O que unicamente lhe peço, é que se esqueça para sempre de mim, e +que creia, que, apesar de tudo, a desejo ver muito e muito feliz! + +E deixou-lhe em cima do piano o bilhete que ella havia escripto a +Americo, e a fita, que dos cabellos, elle lhe levára, n'aquella noite +fatal da entrevista junto ao lago. + +Magdalena, vendo sahir Luiz, cahiu n'uma cadeira, apertando o seio +convulso com uma das mãos, amparando a cabeça com a outra, e exclamando, +debulhada em pranto: + +--Ah! é assim que se paga um amor como este!... + +E soluçava nervosamente, vertia lagrimas copiosas! + +Pobre creança! + +Começava a amar, e logo as primeiras flores desabrochavam espinhosas! As +auroras esplendidas dos primeiros dias d'amor sumiam-se mal despontavam, +e após os primeiros sorrisos vinham logo as vicissitudes do soffrer. + +E como ella não soffria agora! + +Luiz fôra cruel tratando-a tão asperamente, mas é certo que não podia +fugir a uma explosão d'aquellas. Depois da tempestade viria a bonança, +depois das arguições o arrependimento. + +Em theoria ninguem deixará de censurar o pobre moço, mas na pratica, +nenhum d'aquelles que se vissem em circumstancias iguaes, deixaria de +fazer o que elle fez. Era uma coisa que o coração lhe exigia, uma +satisfação dada ao sentimento, que lhe estava quasi abafando a +respiração. + +Deixar d'amal-a, não deixava elle, e este incidente, que dera causa a +lagrimas, d'um lado, e mágoas do outro, não fez senão accender-lhe mais +as labaredas que lhe queimavam o seio. + +Todo o amor tem a sua cruz e o seu martyrio, como tem a sua redempção e +as suas alegrias. + +Magdalena estava soffrendo os martyrios e o peso da cruz do seu amor. A +redempção e as alegrias haviam de vir tambem; não podiam faltar, +sobretudo a quem era tão digna d'ellas. + +No entanto, a formosa menina estava chorando, e sem esperanças de +remover a tempestade, que uma imprudencia, filha ainda do seu immenso +amor, havia feito desencadear. + +N'isto entrou o cabinda; vinha trazer á sua filha um ramo de flores do +jardim. Ficou, porém estupefacto, vindo encontral-a soluçando, quando +esperava achal-a contentissima. + +O negro correu para ella, presentiu as dores que a alanceavam, soffreu +com ellas como se foram proprias e cahiu-lhe, de joelhos, aos pés, +exclamando: + +--Porque chora a senhora moça? o que tem a minha filha? + +--Sou muito desgraçada, cabinda! + +--O branco... + +--Maltratou-me... sahiu... já me não ama!... + +O negro levantou-se de subito. Fervia-lhe nas veias o sangue da sua pura +raça africana. Passou-lhe pela mente uma ideia terrivel; os olhos +fuzilavam-lhe relampagos, as mãos tremiam-lhe convulsivamente. Cahiu-lhe +d'ellas o ramo de flores, quando elle exclamou: + +--Oh! o branco é bom! Foi o mulato! o mulato é mau! Mas o cabinda ainda +cá está, e a minha filha hade ser muito feliz! + + + + +XVI + + +Eram quatro horas da tarde, approximadamente, quando Jorge regressou á +chacara, depois de ter deixado o armazem. + +Magdalena chorava sósinha no seu quarto. + +Sympathicas lagrimas aquellas! + +Eram as lagrimas verdadeiras, das dôres d'um amor casto, puro e ardente, +deslisando silenciosas, como perolas finissimas, pelas faces assetinadas +do rosto d'um anjo, cahindo e sumindo-se no seio, de dentro do qual +ellas brotavam! + +Eram as flores pallidas, destoando muito das rosas frescas, das candidas +açucenas, dos lyrios perfumados, d'um vasto jardim de crenças! + +Eram as nuvens crepusculares, velando um pouco o sol d'aurora +deslumbrante d'um olhar limpido e formoso, em que se reflectia o céo, +com toda a magia dos seus infinitos esplendores! + +Eu não sei, mas creio que nada ha mais attrahente do que as lagrimas +d'uma mulher, moral e physicamente bella, quando, em cada uma, ha os +aromas embriagadores d'um grande sentimento; quando, cada uma traduz, na +sua mysteriosa, mas eloquente linguagem, uma estrophe melodiosa d'uma +paixão ardente, mas pura, casta e honesta. + +Parece-me que não. + +As lagrimas teem então a fascinação irresistivel da sympathia, teem o +condão poderoso do magnetismo, que attrahe, e enleva, e encanta. + +Eram assim as lagrimas da Magdalena. + +No entanto, o momento d'exaltação havia passado; haviam cessado os +pequenos assomos de cólera, que lhe despertaram as asperezas, com que +fôra tratada por Luiz. + +Após o seu desabafar, por meio d'uma explosão, em que a vimos, reagindo +contra as palavras do sympathico moço, que a estavam ainda ferindo tão +injustamente, veio a reflexão e com ella a desculpa, com a qual +Magdalena ia já cobrindo Luiz. + +Um amor verdadeiro perdoa sempre, porque não deixa de ser amor. +Exalta-se facilmente, até com as coisas mais pequeninas, que não lhe +escapam, que elle descobre sempre, mas não resiste nunca a proclamar a +sua absolvição. + +Se é amor verdadeiro!... + +Luiz apezar d'aquella scena violenta, d'aquellas arguições +irreflectidas, d'aquellas arrogancias geradas pelo seu sentimento ferido +e julgado em desprezo, era ainda o eleito de Magdalena, era ainda o +homem por quem palpitava o seu coração, por quem floriam as rosas +brancas da sua alma candida e perfumada. + +Atravez do tenue véo do resentimento em que ella estava, e que mais ou +menos a dominava, jazia ainda, illuminada pelos raios deslumbrantes do +sol do amor, a imagem de Luiz, a imagem do primeiro homem que a +impressionára, e que ella não podia deixar de contemplar com olhos +affectuosos, de acariciar com a ideia, de ameigar com o sentimento. + +Pobre creança, que o amor começava por beijar tão phreneticamente! + +Pobre avesinha, a quem tentavam impedir os primeiros vôos! + +Jorge chegou, pois, do armazem, e estranhou que Magdalena o não +estivesse esperando, como era de costume. Fizeram-lhe falta os doces +beijos, as suaves caricias, as meiguices consoladoras, com que a filha +adorada o acolhia sempre no topo da escadaria. + +Entrou e perguntou por ella. Tivera um presentimento o seu coração de +pae affectuosissimo. Responderam-lhe que estava no quarto. Dirigiu-se +immediatamente para lá, pensando, fóra de qualquer duvida, que +Magdalena, a não estar encommodada, não faltaria a esperal-o, com os +seus affagos de filha estremosa. + +A porta estava fechada por o lado interior, e esta circumstancia mais +sobresaltou ainda Jorge. + +--Magdalena! chamou elle, batendo mansamente. Ouviu dentro um leve +ruido, mas ninguem lhe respondeu. Era Magdalena que tentava limpar as +lagrimas e dar ao rosto e aos olhos uma expressão que não a trahisse. + +--Magdalena! minha filha! volveu Jorge, batendo segunda vez, e já um +pouco opprimido. + +--La vou papae! + +Jorge serenou-se, ouvindo-a. Magdalena abriu effectivamente a porta, e, +diga-se a verdade, mais para occultar que havia chorado, do que por +extremos d'affeição filial, lançou-se-lhe ao pescoço, tentando assim +encobrir o rosto. + +--Papae! disse ella com voz meiga. + +--Estou muito zangado comtigo! disse elle, beijando-lhe os negros e +formosos cabellos. + +--Comigo? continuou ella cada vez mais acariciadora e mais +impressionada. Porque? + +Jorge desprendeu a filha de si, tomou-lhe delicadamente a cabeça nas +mãos, e imprimiu-lhe um novo beijo na fronte, ébrio d'affeição paternal. + +--Porque! Ainda m'o perguntas!... Mas, que tiveste, ajuntou elle, +mudando subitamente d'expressão, que ainda tens nos olhos os vestigios +das lagrimas? + +--Eu? respondeu Magdalena, tentando illudil-o. + +--Tu, sim, minha filha; então não estou eu vendo que choraste. + +--Não, papae, engana-se. + +--Diz a verdade, Magdalena. + +Magdalena, debaixo da impressão que a dominava fôra, pouco e pouco, +sentindo subir de novo do coração aos olhos as lagrimas, que tentava +sopear. Era um vulcão latente, prestes a romper n'uma erupção medonha. +Quando, porém, Jorge instava ardentemente para que ella lhe revelasse a +verdade, a afflicta menina não poude conter-se por mais tempo, não +poude, nem por mais um momento, domar as ondas que lhe referviam no +seio, e lançou-lhe novamente os braços ao pescoço, occultando o rosto, e +exclamando soluçante: + +--Sou muito desgraçada, papae! + +E as lagrimas represadas romperam o dique que as detinha, cahindo +copiosas dos olhos negros e formosos de Magdalena. + +Jorge sentiu uma dôr aguda, profunda e intensa, dentro do seu coração de +pae, de pae que via a unica filha, a sua maior affeição no mundo, a +chorar, chamando-se desgraçada! + +Elle que daria tudo, a vida até, para que Magdalena não soffresse uma +dôr, uma unica, pequenina que fosse, sentiu-se quasi desfallecido, com a +dolorosa scena porque estava passado. Longe, bem longe, de vir encontrar +a filha estremecida n'aquelle estado lacrymoso, antes pensava vir +achal-a contente, alegre e ditosa, que n'isso ia um dos seus maiores +cuidados, que para isso trabalhava elle constantemente. + +Todos os paes são extremosos e dedicados, e não ha desgosto, por maior, +que possa fazer estancar a fonte limpida das affeições paternas. Jorge +de Macedo, era porém, duplamente affeiçoado a sua filha, porque era ao +mesmo tempo, pae e mãe. Beatriz, sua esposa adorada, partindo d'este +exilio, chamado mundo, para a vida d'alem-tumulo, legou-lhe, não só o +thesouro d'uma filha para consolo das suas dolorosas saudades, senão +tambem as joias do subido affecto com que amava o fructo formoso do seu +verdadeiro e acrisolado amor. + +Foi por isso que elle, ao ver Magdalena n'aquella explosão de pranto, +sentiu cravar-se-lhe no seio um como punhal d'aguçadissima ponta. + +--Desgraçada, minha filha?! exclamou elle pallido e convulso. Por +piedade, diz-me o que tens! + +--Oh! soffro muito... muito!... balbuciou ella, soluçando ainda. + +--Filha! minha filha, não me mates! Diz-me o que tens, conta-me o que te +aconteceu! + +E Jorge beijava-a phreneticamente, bebia-lhe as lagrimas que cahiam +crystallinas, quatro a quatro, e affagava-lhe os cabellos fartos, que se +haviam desatado pendendo em duas grossas e luzidias tranças. + +Magdalena não podia fallar suffocada pelo pranto. Jorge, porém, cada vez +mais afflicto, continuava n'uma dolorosa anciedade: + +--Falla, filha. Tens aqui o coração d'um pae, doido d'amor por ti, para +acolher as tuas mágoas, como tem acolhido sempre os teus sorrisos. +Magdalena... Magdalena... + +--Deixe-me descançar, papae... deixe-me serenar, e não se +afflija....não? + +--Então para que choras d'esse modo? + +--Oh! exclamou ella, porque sou uma creança, papae!... + +E sentou-se, como para descançar d'uma grande fadiga. O seio arfava-lhe +com violencia. Tinha no rosto a pallidez sympathica, que tantas vezes +inspira os poetas, e as mãos delicadas entrelaçadas uma na outra. Jorge, +ao vêl-a sentada, ia ajoelhar-se junto d'ella, para mais uma vez, e +carinhosamente, a interrogar, mas ella obstou a isso, accudindo de +subito: + +--Não, papae, sente-se aqui, ao meu lado... + +--Mas conta-me o que tens, minha filha, disse elle, sentando-se. Bem +sabes como devo estar soffrendo! + +Magdalena, que conhecia bem a grandissima affeição, que seu pae lhe +votava, e por consequencia, que bem avaliava as dores que o estavam +alanceando, encheu-se de coragem, e disse-lhe, tomando-lhe as mãos: + +--E não se zanga comigo? + +--Não, minha filha. + +---Então ouça-me. + +E Magdalena relatou a Jorge tudo quanto se passára, desde o jantar dos +seus annos até á scena violenta, que dera logar áquellas afflições e +áquellas lagrimas. Mencionou tudo, não esquecendo a minima das +circumstancias. Jorge estava ouvindo-a mais que admirado, n'um silencio +profundo, religioso até. Sentia-se chocado, grandemente chocado, e, para +isso bastava apenas a surpresa que ia recebendo, porque bem longe andava +elle de suppôr siquer o que se havia passado. + +Alma sensivel, porém, Jorge ia ouvindo a filha adorada, e não a +condemnava, não. Elle tambem tivera sonhos na sua mocidade, e a narração +de Magdalena fez-lhe passar, deante dos olhos do espirito, os primeiros +dias floridos do seu amor e do amor da sua querida Beatriz. No entanto, +ao saber das tentativas arrojadas de Americo, na noite da entrevista, +junto ao lago da chacara, Jorge não poude occultar a sua exaltação e +levantou-se exclamando: + +--Infame! Era assim que me queria pagar o quinhão da minha fortuna, que +ha dias lhe dei!... + +E Magdalena proseguiu na exposição dos acontecimentos. Nada escondeu, +nada furtou, nada occultou, de quanto se havia passado, e só a verdade +presidiu a narração de cada facto. E tambem, para que havia de obrar de +outro modo? Não era Jorge seu pae? e uma pae tão benevolo? tão meigo? +tão bondoso? + +Elle, quando Magdalena acabou, para mais a tranquilisar, affagou-a, +dizendo-lhe: + +--Não te afflijas, minha filha. O que preciso é que me digas se gostas +muito do senhor Luiz, mas que me digas a verdade. + +--Oh! muito, meu papae! + +--E não te enganarás? + +--Não, eu bem o sinto. + +--Então ainda hasde ser muito feliz. + +Momentos depois, partia o cabinda do Botafogo para o Rio, no vapor da +carreira, com a seguinte carta de Jorge para Luiz. + + _Meu socio e amigo._ + +«Para negocios de gravidade preciso, ainda hoje mesmo, fallar-lhe e ao +senhor Americo. Rogo-lhes pois o obsequio de chegarem aqui, onde os fica +esperando o seu + + Socio amigo, etc. + + _Jorge de Macedo._» + +E em quanto o negro transpunha a distancia que vai do Botafogo á cidade, +ficavam Jorge e Magdalena entregues á refeição do jantar, conversando já +mui animadamente, muito contentes, entre os perfumes suavissimos das +flores formosas do affecto que lhes enchia as almas. + + + + +XVII + + +Não ha nada mais caprichoso do que o coração humano, e, por +consequencia, nada mais enigmatico, nada mais incomprehensivel. +Prende-se muitas vezes com as cousas mais simples d'este mundo, e olha, +outras tantas, com indifferença para sacrificios, que, d'um só jacto o +deviam attrahir para sempre. Ora se exalta, ora se humilha pelos mesmos +motivos, e nas mesmas circumstancias; ora se lamenta e ora sorri com a +mesma causa, indo, muitas vezes, até ao ponto de juntamente chorar e +rir, de implorar e impôr-se! + +Eu não sei, mas creio que de todas as sciencias, a sciencia do coração é +a mais difficil, a mais transcendente, a mais impyrica. + +O coração offende-se com cousas pequenissimas, que muitas vezes não +perdôa, e é capaz de não se offender com cousas de vulto, ou de +facilmente as esquecer e perdoar! + +Luiz ainda não tinha chegado ao Rio e já ia arrependido das asperezas +que dirigira a Magdalena! Já a julgava innocente, e incapaz da trahição, +que lhe imputou durante os momentos de mágoa e de colera do seu amante +coração. + +Em verdade, passados os primeiros impetos, serenadas as primeiras +impressões violentas, Luiz começou a recordar os protestos de innocencia +de Magdalena, viu as lagrimas que ella derramou, atravez d'um prisma +muito menos carregado, e convenceu-se de que só uma injustiça as fizera +derramar, e censurou-se a si mesmo pela precipitação com que procedera! + +Tivera tentações de retroceder para, tanto quanto podésse, desfazer o +mal que originara, mas era impossivel pelo adiantado da hora. + +As lagrimas da formosa menina estavam-lhe pesando na alma e no coração, +d'um modo terrivel. Elle, depois de passada a grande exaltação que o +dominára, não podia attribuir a Magdalena um crime tamanho. Era nova de +mais para tanta maldade, muito innocente e ingenua para tanta +hypocrisia, e assaz bondosa para tamanha crueldade. + +Alli a grande infamia, o grande mal fôra necessariamente commettido pelo +mulato, fôra fatalmente tramado por Americo. + +Que mal havia feito Luiz a Magdalena para que ella se vingasse d'elle +d'um modo tão barbaro e tão cruel? + +Depois, a memoria de sua mãe tão solemnemente, invocada n'um protesto de +fidelidade e de amor, seria uma cousa tão pequena, que se olvidasse, +unicamente para satisfazer um capricho, para attrahir mais um galanteio? + +Não era crivel. + +Magdalena estava innocente, e com esta convicção entrava Luiz em casa, +na rua dos Pescadores, apezar da scena violenta em que o vimos, apezar +de toda a sua inexorabilidade, durante a meia hora em que se achou na +presença d'ella. + +No entanto, como havia agora de remediar o mal feito? + +Uma confissão sincera d'um sincero arrependimento era a unica solução do +problema. + +Seria, porém, bem acceita? Ouvil-a-ia Magdalena? Quebraria ella o seu +orgulho, altamente despertado e inflamado pelas injustiças que elle fez +ao seu caracter, á sua lealdade e ao seu coração? + +Isto lançava-lhe uma duvida no espirito, e esta duvida era um punhal +aguçadissimo que o feria dolorosamente. + +Entrou em casa preoccupado com tudo isto, nas alternativas do receio e +da esperança d'uma absolvição e d'uma condemnação. + +Americo sahiu-lhe quasi ao encontro, e apenas o viu fitou-o +expressivamente, como tentando lêr-lhe no rosto quanto se lhe passava na +alma. + +Luiz nem sequer lhe deu as honras de o olhar. Seguiu para o escriptorio, +na firme resolução de completamente desprezar o infame, decidido a +castigar-lhe a menor insolencia. + +O mulato, porém, não era homem que se contentasse em estudal-o +silenciosamente; embebido na ideia de conseguir os seus fins, pouco lhe +importavam os meios e até as consequencias. + +Dirigiu-se tambem ao escriptorio. + +Luiz estava sentado escrevendo uma carta. Americo olhou-o, viu a +severidade do seu rosto, mas nem assim recuou. + +--Então? perguntou elle. + +Luiz sentiu como que subir-lhe o sangue á cabeça e turvar-se-lhe a +vista, mas não respondeu. Chamava a prudencia em seu auxilio, porém o +desafio d'Americo era forte de mais para que lhe podesse resistir. + +--Então? interrogou novamente o mulato com ar de refinado cynismo. + +Luiz guardou ainda silencio durante alguns segundos, mas occorreu-lhe a +ideia de que o seu silencio poderia traduzir-se por cobardia ou +humilhação e volveu-se então para o mulato, fitou-o corajosamente e +perguntou tambem com voz firme: + +--Então o que! + +--Qual de nós vence? acudiu Americo sorrindo. + +--Ainda o duvidas canalha! Pois não o duvides, infame. Ha-de vencer o +justo, que sou eu, tão certo como seres castigado, que és o despresivel. + +--N'esse caso provou-se a innocencia da menina? + +--Provou-se que és um salteador infame e cobarde, da honra dos que te +chamam amigos e te sentam á sua meza, que é o mesmo. + +--Vê que me insultas! se não apresentas as provas! + +--Quem desce a isso, biltre! Teme o castigo e não peças as provas! + +--Ah! ah! ah! vens, de mais a mais um pouco tragico. O que faz o amor! + +--Americo! bradou Luiz quasi de todo exaltado. + +--Começam as ameaças? + +--E não ha duvida em que comecem tambem as obras. Retira-te, que já te +não vejo. Não me provoques, porque te desprezo, como reptil asqueroso! +Sahe! Não me obrigues a sujar a mão na lama que tens na cara! + +--Luiz! gritou Americo, agarrando em um tinteiro. + +--Canalha! bradou Luiz, estendendo-lhe a mão na face bronzeada, com a +força d'um desesperado. + +Estava travada a lucta. O mulato tinha mais força physica, mas Luiz +possuia mais força moral e era mais corajoso. Aquillo foi um vulcão que +se accendeu subitamente. Um instante depois estavam enlaçados um no +outro, n'uma lucta medonha, incrivel e desesperada. Sentiam apenas o +ruido dos pés, movendo-se aos impulsos fortes de um e outro lado, e a +respiração abafada de cada um dos contendores. Americo só tentava lançar +Luiz a terra, este porém resistia valentemente. E n'um momento favoravel +atirou um murro ao infame que lhe fez logo brotar o sangue do nariz. O +mulato enfureceu-se pela dôr e pelo orgulho, exasperou-se damnadamente, +e atirou as mãos ao pescoço de Luiz, n'uma expressão de raiva +desmarcada, no intento mesmo de o estrangular. + +E de certo o teria feito; sem duvida, seriam funestas as consequencias +d'aquella contenda se não fosse a apparição, no momento fatal, de um +homem, cujo olhar quasi paralysou completamente a acção do mulato. + +Era o cabinda, era o velho, mas sympathico, o negro, mas dedicado, o +escravo, mas d'alma grande. + +O negro vinha encarregado d'entregar a Luiz a carta de Jorge de Macedo. +Muito contente da sua missão, porque lhe dizia o coração que se andava +tratando da ventura de sua filha, o negro transpoz apressadamente a +distancia que vae do Botafogo ao Rio, á rua dos Pescadores. + +Chegou, entrou, dirigiu-se á porta do escriptorio, tranquillo, socegado, +contente, sem sequer se lembrar da scena que ia encontrar. Quando deu +com os olhos nos dous, que ferozmente se debatiam, sentiu um como abalo +electrico interior e não esperou por mais nada. Atirou-se em seguida ao +mulato, que lançava as mãos ao pescoço de Luiz, agarrou-o pela gola do +casaco, deu-lhe um fortissimo puxão e elle, largando Luiz, mais com +receio do cabinda do que por vontade propria, foi cahir ao chão no meio +do escriptorio. + +--O negro cá está! bradou o cabinda. + +--Não preciso de ti! acudiu Luiz. + +--Só assim! murmurou Americo, espumante de raiva. + +--Agora, meu branco, isto, que manda o senhor! disse o negro desprezando +Americo, que tentava levantar-se, e entregando a Luiz a carta de Jorge. + +--E a senhora moça? interrogou Luiz. + +--Tem chorado muito; o branco não gosta d'ella, não! + +--Vêl-o-has, cabinda! + +E procedeu á leitura da carta de Jorge. + +Ao terminar, tinha uma como nuvem diante dos olhos. Pareceu-lhe que uma +grande tempestade se ia desencadear sobre a sua cabeça. E o que tinha +fóra de toda a duvida é que era chegado o dia em que tinha de decidir-se +a sua sorte. Mas se, por um lado, o apoquentavam os receios de não +conseguir a suspirada felicidade, tinha, pelo outro, a consolação da +tranquillidade da consciencia. + +O mulato, entretanto, havia-se levantado, e dispoz-se a sahir, dizendo: + +--Contra dous não posso, mas hei-de vingar-me! + +--Nem contra um! a tua causa é a primeira a ser contra ti, canalha! +bradou Luiz. + +--O negro póde muito, o mulato bem o sabe. + +--Deixemos agora as questões. O snr. Macedo convida-nos a irmos +immediatamente ao Botafogo, para tratarmos negocios d'importancia. Quem +sabe se será para nos julgar? Como nada receio, vou já. Convido-o; faço +o meu dever, e nada mais. + +--Ah! o branco é bom, ha-de ser feliz e a minha filha tambem. Depois que +importa que o velho cabinda morra? morre contente, porque deixa contente +a sua filha! + +E o velho escravo seguiu Luiz, emquanto que Americo ficava limpando o +sangue, que ainda, como signal da lucta em que se empenhára, lhe corria +do nariz. + +Aquelle convite de Jorge de Macedo fôra um incendio, que crestára todas +as esperanças ao mulato. Para elle era inevitavel que não só não +conseguia nada, senão tambem que estava perdido, porque Jorge havia de +fazer justiça, castigando-o. + +Pensou primeiro em fugir, mas depois achou que semelhante partido ainda +mais o condemnaria, porque seria mais uma prova da sua culpabilidade, e +dispoz-se a soffrer tudo. + +Assim, emquanto que Luiz ia ganhando novas esperanças, emquanto atravez +das nuvens que lhe toldavam o horisonte ia como que descortinando a luz +brilhante, formosa e esplendida da felicidade que tanto sonhára, ia o +mulato convencendo-se de que a Providencia vela sempre pelos bons e +pelos justos, de que o mal tem sempre o seu castigo do mesmo modo que +todo o bem é premiado. + +Para um iam desabrochando, embora receiosas e timidas, as flores, cujos +perfumes embriagam a vida. + +Para outro, os espinhos que magoam, e ferem, e doem a todos os momentos. + +E Magdalena, o nosso anjo, Magdalena, a formosa, esperava no entanto, +cheia d'anciedade, pela chegada dos dous e pelo resultado d'aquella +conferencia que ia ter logar agora. + +O que lhe dizia o coração nos sobresaltos com que a agitavam? + +O que lhe dizia a alma na esperança que a enflorava? + +Tudo lhe dizia amor, ventura e ternuras! + +Tudo lhe fallava de felicidades, porque era bondosa, meiga, innocente, +candida, e sobretudo, porque era boa filha, porque nunca déra um +desgosto áquelle que a mirava doudo d'amor! + + + + +XVIII + + +Muito terrivel é a situação de quem espera, esperando debaixo do pezo +d'uma duvida! + +A duvida dá ao coração as alternativas da esperança e do receio; da +esperança, que faz das horas seculos, do receio, que faz das horas +instantes rapidissimos; da esperança, que arrebata com sonhos de dourado +enlevo, do receio, que fere com os espinhos d'uma perspectiva má e +triste. + +Esperar, d'este modo, é esperar entre a lucta de dous sentimentos +oppostos, que se degladiam heroicamente, braço a braço, corpo a corpo, +sem se fatigarem, sem succumbirem, sem cederem um ao outro um palmo de +terreno, ambos egualmente potentes, ou egualmente fracos, porque nem um +cede, nem o outro vence, e porque um e outro exercem egual predominio no +espirito, embora oppostamente. + +O coração prende-se, durante um momento, nos arrobos da esperança, nas +delicias suaves de quem vê realisado um desejo muito grande de grande +ventura, para no momento immediato se embrenhar nas mil veredas +tortuosas, nos muitos pezares e na grande tristeza em que se desata a +ideia, o receio de que aborte essa esperança, de que não tenha uma +realidade a aspiração que lá se gerou e n'elle vive, como pomba dentro +do seu ninho. + +Magdalena estava sentindo tudo isto, esperando por Luiz e Americo, que +seu pae mandára chamar, depois d'aquella scena de lagrimas em que a +vimos. + +Tinha d'um lado a esperança de que tudo se harmonisaria, e +satisfatoriamente para todos, e que seu pae lhe restituiria Luiz, que +ella amava ainda muito, apezar de tudo, e com elle a ventura, o affecto, +os carinhos, o socego, as meiguices, os extremos, por que tanto almejava +o seu coração, tão viçoso e tão sedento! + +Do outro, o receio de que essa esperança não germinasse um unico +encanto, um unico perfume; de que o sonho ridente da suspirada +felicidade se esvaecesse, como nuvem de fumo leve nas azas da viração do +sul! + +No meio de tudo isto, Jorge pensava na felicidade da filha, como pae +mais que muito affectuoso, e no meio decente de castigar dos dous, +d'Americo e de Luiz, aquelle que fosse criminoso perante o tribunal e o +juizo recto da sua impolluta consciencia. + +Os dois associados do honrado capitalista e negociante, vinham, +separados, a caminho do Botafogo, phantasiando o que iria passar-se, +embrenhando-se em mil conjecturas, sobre diversos assumptos, como causa +provavel do seu chamamento, mas sempre fugindo-lhes o espirito para a +ideia de que ia tratar-se do succedido, com relação á formosa Magdalena. + +Até o velho Cabinda, que acompanhava Luiz no vapor da carreira, até esse +ia embebido com a ideia da ventura da sua filha querida, da sua adorada +senhora moça, que era n'este mundo a ideia que mais o prendia, enlevava +e dominava! + +O pobre do negro consentiria tudo; no que não consentiria de modo +nenhum, e para isso era até capaz de dar a vida, era em que o mulato +vencesse Luiz, em que Americo conseguisse os seus intentos, não só +porque, por uma d'estas immensas sympathias, que se não podem explicar, +era altamente affeiçoado a Luiz, ao branco, como elle dizia, senão +tambem, porque, oppostamente, odiava Americo com odio de morte, +sobretudo depois dos ultimos acontecimentos, e talvez por motivos de +antipathia e de raças. + +Os tres, Luiz, Americo e o cabinda, chegaram ao Botafogo, por volta das +oito horas, e quasi ao mesmo tempo. O negro e Luiz foram os primeiros, +mas o mulato não se fez esperar. + +O velho escravo dirigiu-se para a cosinha, pela escadaria da rectaguarda +do palacete, emquanto Luiz era introduzido na sala, e encontrou na +varanda Magdalena, que o esperava n'uma indescriptivel anciedade. + +Magdalena tinha ainda nos olhos os vestigios das lagrimas recentes, no +rosto a pallidez do desgosto que soffrêra, e a expressão do seu estado +d'excitação, e nas ondulações do seio os signaes evidentes do agitamento +das ondas interiores. + +No entanto, bella sempre, sempre formosa, sympathica, attrahente! + +Apenas avistou o negro, correu pressurosa a vir esperal-o ao topo da +escadaria. + +Elle sorriu-lhe n'uma expressão de dedicação. + +--Então, cabinda? interrogou ella subitamente. + +--O branco veio, senhora moça, + +--E aonde está? + +--Na sala grande que deita para o jardim. + +--E vem contente? + +--Ha-de estal-o. O coração do negro não mente nunca. + +--Vieste com elle? + +--Vim, minha filha. + +--E Americo? + +--Tambem vem! O mulato brigava com o branco no escriptorio, quando o +negro chegou, mas o cabinda prendeu-o pelo pescoço e deitou-o ao chão. + +--Ao mulato? perguntou assustada. + +--Sim. + +--Mataste-o? + +--Não, senhora moça, mas o negro estrangula-o se o mulato continua!... + +--Eu quero-te prudente, cabinda! + +--E o negro quer feliz o branco e a sua senhora moça! + +--E elle? interrogou Magdalena com anciedade. + +--O branco? não soffreu nada. Mas para que a cobra não assalte o ninho +da jurity ou do beija-flor, é preciso esmagal-a ou mandal-a para longe. +A minha filha comprehende? + +--Comprehendo, cabinda. Meu pae lá está; a verdade ha-de brilhar como o +diamante na mina, e Deus ha-de castigar o culpado. + +--Oh! exclamou o negro, ébrio d'alegria; oh! e como o negro ha-de rir de +contente, quando a senhora moça lhe disser que é feliz! O cabinda até +ha-de dançar o batuque! + +--Velho tonto! exclamou Magdalena risonha e altamente enthusiasmada com +o jubilo do bom escravo. + +Emquanto, porém, este colloquio tinha logar na varanda da rectaguarda do +palacete de Jorge, entrava Americo para a sala da frente, onde Luiz +permanecia só, esperando pelo capitalista. + +Os dous estavam de novo, frente a frente. Ambos opprimidos, receiosos +ambos, sem a certeza do que se ia passar, do que se ia decidir alli, +olharam um para o outro, ambos n'uma expressão de duvida, mas sem +trocarem uma unica phrase, uma unica palavra. + +O receio, pelo qual, cada um d'elles, era dominado, tinha origens +diversas e faceis de explicação. + +Luiz não receiava pelo seu procedimento, porque bem alto lhe fallava a +sua consciencia; temia, sim, que de todo se perdesse a melhor occasião, +qual a que se lhe proporcionava, agora, de realisar o sonho ardente da +felicidade por que suspirava com tanta loucura. + +Americo, esse receiava o castigo da sua infame tentativa, porque uma voz +intima lhe segredava que todo o seu procedimento era reprehensivel, +indigno e injustificavel. + +Ainda assim, nem um nem outro tinham a certeza do negocio que alli os +reunia, e isto dava ao mulato a esperança de que se agora não fosse +fulminado, ainda poderia tentar o conseguimento dos seus fins, ou pelo +menos indispor de todo Luiz e Magdalena. + +Estava uma tarde explendida. + +Os raios do sol vivo, que docemente ia descendo ao seu occaso, +projectavam-se brilhantes no jardim, sobre que abriam as janellas da +sala, onde esperavam Americo e Luiz, e imprimiam nas rosas brancas e nos +jasmins perfumados uns reflexos da sua côr avermelhada e tropical. + +Zumbiam as vêspas nos trançaes dos maracujás, volitavam rapidos, de flôr +em flôr, deixando beijos em toda a parte, uns mimosos e pequeninos +beija-flores, e cortavam o espaço, em mil caprichosas linhas, ora +subindo, ora descendo, ora rapidas, ora vagarosas, algumas borboletas de +tamanhos variados e côres vivas e formosas. + +Lá ao longe, entre as folhas verdes do capim, andavam arraiando amores +as juritys mimosas. + +Luiz e Americo, cada um em sua janella, parecia estarem ambos embebidos +na silenciosa contemplação das bellezas da natureza, do explendido +quadro que tinham diante dos seus olhos, expressivamente scismadores. +Longe, porém, e muito longe, estavam elles, dos encantos que alli se +desenrolavam, e que, sem duvida, inspirariam muito a alma sensivel e +contemplativa d'algum poeta ou d'algum artista. + +Estavam, pois, assim, quando de subito se abriu uma porta, que, da sala +espaçosa, ricamente mobilada e adornada, dava passagem para o interior +da casa. + +Os dous voltaram-se immediatamente, e ao mesmo tempo, dirigindo-se ao +personagem que entrava. + +Era Jorge de Macedo. + +Trazia no rosto a expressão da affabilidade, mas ainda assim, carregada +com as linhas sombrias d'uma severidade mal disfarçada. Quatro olhos se +cravaram nos d'elle, como para traduzirem alguma cousa, os olhos de Luiz +e d'Americo. + +Seguiram-se os cumprimentos indispensaveis, de respeito e de boa +cortezia. + +Os dous, cada um pelo seu lado, haviam percebido que Jorge de Macedo não +estava no seu estado normal, e os traços de mudança que lhe soletraram +no semblante, mais se inclinavam para uma certa tristeza, para uma vaga +melancolia, para o que quer que é d'um desgosto, embora pequeno ou mal +traduzido, do que para a indicação d'uma irritação, d'uma exaltação, que +rompesse em asperezas ou se desatasse em colericas insinuações. + +Agora é que mais que nunca o receio os dominava. E o mulato, se não fôra +a lembrança de que commetteria um acto d'inqualificavel cobardia, que +mais provaria ainda contra o seu procedimento, decerto teria fugido, +para nunca mais apparecer. + +Teve tentações de fazel-o. + +Era a propria consciencia que o estava accusando d'aquelle modo! Bastava +a presença do juiz que ia julgal-o para o fazer tremer! + +Luiz esperava receioso, mas resignado. E diante dos seus olhos surgia +ainda formosa, explendida, encantadora, a imagem de Magdalena, que elle +adorava muitissimo. + +E na sua consciencia só tinha o espinho d'um remorso a magoal-o! Era o +de haver tão impensadamente, quasi que insultado a mulher a quem +desejaria agora lançar-se aos pés, implorando, humilde, um perdão para +os arrebatamentos que lhe fizeram, a ella, derramar tão amargas e +sentidas lagrimas. + +E Magdalena? + +E o cabinda? + +O que faziam os dous, agora, no momento em que talvez se fosse decidir +da ventura d'aquella e d'alegria intima dos ultimos dias da velhice +d'este? + +Depois do dialogo travado na varanda, foram ambos cautelosamente +collocar-se atraz d'uma porta fechada, que communicava com a sala +grande, onde se achava Jorge, com Luiz e Americo, a fim de verem se era +possivel escutarem o que se passava. + +Chegaram no momento em que terminavam os cumprimentos dos dous socios do +capitalista, e quando este delicadamente lhes offerecia duas cadeiras, +collocadas ao lado do sophá, onde tomou assento tambem. + +Jorge ficou, assim, entre os dous; Luiz á direita e Americo na esquerda. + +Houve um momento de silencio. + +Os dous esperavam d'olhos cravados no chão. Jorge dispunha-se para +começar, e dentro, Magdalena e o cabinda, tentavam abafar a respiração +para que nem essa trahisse a sua presença, alli, atraz da porta que os +escondia, mas que os devia deixar ouvir tudo. + +Que contrastes no intimo de cada um d'aquelles individuos! Que mares, +tão diversos nas suas agitações, no seio de cada um d'aquelles +personagens! + + + + +XIX + + +Sentaram-se os tres, e houve, como já dissemos, um momento de silencio +completo, em que até pareciam sustidas as respirações. + +Depois, Jorge esfregou vagarosamente as mãos nos joelhos, gesto este, +que póde talvez traduzir-se por uma certa repugnancia, ou por uma certa +difficuldade em abrir a conferencia, para a qual havia chamado os seus +recentes socios, e em seguida começou assim, com ar de gravidade: + +--Devo principiar por pedir-lhes desculpa de os haver incommodado, mas +tenho para mim, em tanta conta, em tanta gravidade, em tanta ponderação, +o negocio que me obrigou a chamal-os agora aqui, que o não fazel-o +poderia talvez importar-me um desgosto, que d'este modo me pouparei, +creio-o. Resumirei em poucas palavras o que tenho a dizer, porque quero +limitar-me, apenas, a descobrir a verdade. Sou infelizmente viuvo, mas +sou pae. Choro, por um lado, as lagrimas da saudade, mas tenho, graças +ao céo, por outro, um anjo que m'as dulcifica. Fui rapaz, tive a minha +mocidade, com todos os sonhos, com todos os arrebatamentos, com todas as +illusões, com todos os euthusiasmos que lhe são proprios, e nos quaes se +desata a effervescencia do sangue dos vinte annos. O livro da minha vida +d'então, escripto, capitulo a capitulo, não tinha, nunca teve, uma unica +pagina maculada por uma nodoa, leve e pequenina que fosse. Mesmo nos +delirios da minha juventude timbrei sempre em conservar intacta a pureza +do meu nome, e jámais tentei realisar uma aspiração grande ou pequena, +boa ou má, por meios que me fizessem soffrer a dignidade, ou ferissem a +minha honra. Trabalhei para chegar ao que sou, e o bom nome que creio +gosar, agora, não é mais que o nome grangeado então. N'esse tempo a +ambição era egual á lealdade, se é que a ambição já existia n'um grau +tão elevado como actualmente, mas ainda assim, nunca tão corrompedora, +como na época que vamos atravessando. Agora mudaram as cousas, e é +d'isso que me queixo. Visa-se ao alvo e ha-de chegar-se lá, custe o que +custar, pouco importam os meios. + +E Jorge fez uma pequena pausa, como que para descançar. Via-se que +estava sensibilisado, commovido ou nervoso. + +Os dous conservavam-se impassiveis, attentos, de fronte humildemente +abatida. Agora já não tinham que duvidar; era a elles que se dirigia +todo o discurso de Jorge de Macedo, que proseguiu momentos depois: + +--Tratei-os sempre bem, sempre, mais como amigos, como parentes, como +affeiçoados meus, do que como subordinados ao meu serviço. Para prova do +muito que julgava merecerem-me, sentei-os ha dias á minha meza, n'uma +festa intima, puramente familiar, no intuito, que realisei, de os fazer +partilhar da minha sorte, fazendo-os socios meus. + +--Eu, pela minha parte, senhor, serei eternamente agradecido ao +muitissimo que devo a V.^a Ex.^a, acudiu Luiz. + +--E eu... ia Americo a ajuntar tambem, quando Jorge o interrompeu +continuando: + +--Perdão! Será talvez assim, mas n'esse caso estou então illudido, +porque para mim, um dos senhores, pelo seu comportamento, desdiz +completamente do conceito que me... devia. + +--V.^a Ex.^a deve, sem duvida, ter muitissima razão para fallar d'esse +modo, e bom será que nos julgue, para que só o culpado soffra o castigo, +atalhou Luiz. + +--As justificações depois. Ouçam-me por emquanto e depois terão a +palavra. Cheguei hoje do Rio, contente e feliz, esperando, pelo costume, +vir encontrar, do mesmo modo, minha filha, que adoro com a loucura de +pae que não tem outra, que não tem mais familia. Eu, que já me vejo mais +perto do tumulo do que do berço, viuvo, e por consequencia, sem os +consolos, sem as delicias com que sempre nos embriagam os corações +d'aquellas que se unem a nós, partilhando da nossa vida, affiz-me aos +carinhos e aos consolos da filha unica, que n'este ponto valia bem a +chorada mãe, e costumei-me a pagar-lh'os sempre, trabalhando +constantemente por em todos os sentidos lhe abrir caminhos, onde só +desabrochassem flores e onde nunca viçasse um espinho. Consegui-o +durante muitos annos, em que nunca uma nuvem, a não ser a da saudade que +ambos cultivavamos pela rosa que Deus chamára a si, obscureceu levemente +o céo da nossa vida. Prometti, no leito de morte da minha adorada +Beatriz, que faria tudo para que Magdalena fosse ditosa. O céo tem-se +empenhado em auxiliar-me no cumprimento da minha promessa, porque até +hoje ainda Magdalena não derramou uma unica lagrima, ainda não teve um +queixume para me lançar no coração. Sorria-me esta ideia da felicidade +de minha filha, que era a da minha felicidade tambem, e era por isso que +ao entrar e ao sahir de casa, em cada dia, eu o fazia contente, ébrio +mesmo d'uma alegria que não me passou nunca pela mente, que podésse +toldar-se ou ennublar-se. Não succedeu, porém, assim; e hoje, quando +regressava, ancioso por lhe pagar em beijos os beijos e os affagos com +que era costume esperar-me ella, venho encontral-a chorando triste e +dolorosamente, proclamando-se desgraçada, a filha querida do meu +coração. As suas lagrimas quasi que me fizeram succumbir. Não as +esperava, não desejára esperal-as. Era, havia muitos annos, o primeiro +momento de turtura que eu soffria... + +E Jorge tinha as lagrimas nos olhos. Fez uma pequena pausa para desatar +a voz que se lhe ia prendendo na garganta, e proseguiu: + +--Interroguei-a com a brandura de quem é prudente, com a dôr de quem +como eu a idolatrava tanto e com a curiosidade de quem tudo desejava +saber, para tudo remediar se fosse possivel. Oh! o que eu soffria então! +Porque angustias não passei durante os curtos momentos, que me valeram +muitos seculos, antes de me revelar a verdade! + +--E descobriu-a, não? interrogou Luiz subitamente. + +--Não sei. Contou-me Magdalena uma historia, em que figuram, como +principaes personagens, os dous homens que ha poucos dias sentei á minha +meza para os associar, no negocio, ao meu nome. Soffri ainda mais! + +--E... ia Luiz a interromper, quando Jorge continuou: + +--Conclui que ambos a pretendiam, mas que nem ambos empregavam, para +isso, meios muito honrosos. + +O mulato estava tremendo de receio. Luiz sentia-se cada vez maior senhor +de si. + +--Perdão, senhor, da minha parte todos o eram. E se algum de nós +procedia menos dignamente não era de certo eu, juro-o, disse Luiz com +convicção. + +--Eu tambem... acudiu Americo sem poder concluir. + +--Qual dos dous convidou minha filha a uma entrevista junto ao lago a +horas adiantadas da noute? + +--Eu não, senhor, afirmou Luiz. + +--Fui eu... disse o mulato a custo. + +--E com que fim? + +--Fallar-lhe... apenas, respondeu o mulato. + +--Então não foi para lhe entregar uma carta do senhor Luiz? + +--Minha? Não podia ser, disse este, levantando-se. Saiba V. Ex.^a que +este senhor mentiu ou abusou, se disse ou pretextou semelhante cousa. E +peço licença para dizer duas palavras. Vivo ha perto de doze annos com +V. Ex.^a e nunca, creio eu, lhe dei motivos para uma censura, para uma +queixa, para uma reprehensão. A minha vida modelou-se, no tocante a +honra, a dignidade, a caracter, a tudo, emfim, pela de V. Ex.^a que bem +digna foi sempre, e é, de ser imitada. Fui sempre respeitoso e submisso, +sempre, e não seria no momento em que V. Ex.^a me deu uma grandissima +prova da sua estima, que eu por um acto menos digno lançaria em terra, +desfeito, desmoronado, um edificio que tanto tempo levou a construir. +Com relação á filha de V. Ex.^a o meu procedimento não me será lisongeiro +talvez, mas tambem não é infame. Na tarde do dia em que tive a honra de +sentar-me á sua meza, passeiava ao lado da bondosa filha de V. Ex.^a +pelas alamêdas do jardim, emquanto V. Ex.^a e este senhor conversavam +tomando café. A nossa conversação tomou o caminho que sempre segue entre +pessoas de vinte annos. Achei-a então formosa de corpo e formosissima +d'alma. Não resisti aos impulsos do coração que se abria com as suas +palavras, que desabrochava subitamente com o sol dos seus olhares, e +disse-lhe que a amava. Confessou-me tambem que nunca um homem a +impressionára e que... tambem se inclinavam para mim as flores do seu +affecto. Eu fallei então tão verdadeiramente, como o estou fazendo agora +a V. Ex.^a Parti. No dia seguinte, creio eu, recebi um bilhete de D. +Magdalena, com duas phrases, filhas do seu sentimento, a que respondi +com dignidade e affecto tambem. Impellia-me o coração e era valente de +mais para que eu lhe resistisse. Quando V. Ex.^a me encarregou de ir a +Macahé tornei a escrever-lhe e dei a carta a um dos negros do armazem. +Não sei se D. Magdalena a recebeu. O que sei é que este homem, com o +qual nunca mais poderei viver, desde o momento em que conheceu que a +filha de V. Ex.^a me levantava até ella com o seu amor, começou a +fazer-me uma guerra de morte, uma guerra declarada, protestando que a +filha de V. Ex.^a seria para elle e nunca para mim. Tivemos algumas +altercações violentas. Quando regressei de Macahé, ancioso de vêr D. +Magdalena, e contentissimo de bem ter desempenhado a minha missão, +surge-me este senhor, apresenta-me um bilhete d'ella, em que lhe concede +uma entrevista para horas adiantadas da noute, e uma fita dos cabellos +d'ella que realmente reconheci. Não sei mais nada. Julguei a filha de V. +Ex.^a uma creança caprichosa, e hoje, talvez excessivamente desesperado, +porque devéras me doía o coração, vim a esta casa e... disse á filha de +V. Ex.^a que estimava que fosse feliz, mas que me esquecesse. Ainda assim +Deus sabe o sacrificio que fiz n'este ultimo acto. O meu resentimento +era, porém, tão grande, que não pude ser-lhe superior. E para tudo dizer +a V. Ex.^a confesso que me arrependi logo, porque creio agora que a filha +de V. Ex.^a é uma bondosa e sincera menina e que aqui, em tudo isto, só +andou uma infamia, uma indignidade da parte d'este homem, com que já +hoje tive uma séria altercação. Amo ainda, e muito, a filha de V. Ex.^a É +destino meu e não posso fugir-lhe. Agora veja V. Ex.^a o que ha de +censuravel e indigno em tudo isto e condemne-me se o julgar conveniente. +Esta é a verdade e não fujo a confessal-a, por todos os motivos, mas +sobretudo, sendo V. Ex.^a a pessoa a quem devo tanto e tanto. + +--Eu sei tudo. É um cavalheiro o senhor Luiz. Dê-me a sua mão, quero +apertal-a como a de um grande amigo. + +Jorge e Luiz estavam commovidos. O mulato olhava atterrado para a porta, +com horriveis tentações de fugir. O seu castigo começava alli. + +--Eu sei tudo, continuou Jorge, porque nada me occultou Magdalena. E +como a felicidade de minha filha é tambem a minha, ella é que hade vir +terminar esta nossa conferencia. + +Magdalena, que tudo ouvira, occulta atraz da porta aonde a deixamos, não +se fez chamar; correu logo, ébria de alegria, e lançou-se nos braços de +Jorge, gritando: + +--Obrigada, papae! Obrigada, papae! + +--Diz-me, interrogou-a elle, gostas muito do senhor Luiz, não é assim? + +--Muito!... murmurou, ruborisada de pejo. + +--Crês que has-de ser, com elle, tão feliz como desejo que tu o sejas, +não? + +--Muito, e só com elle. + +--Bem. O senhor Americo, como recompensa do seu procedimento pouco +digno, queira retirar-se e esperar ámanhã as minhas ordens no armazem. +Limito-me a isto, porque não quero fazer mais no dia em que o céo me +abre na terra a felicidade de minha filha. + +O mulato tinha os olhos cravados no chão. Tomou o chapéu, volveu-se e +sahiu vagarosamente, como que arrastado por uma força que tentasse +tiral-o do logar onde o chumbava não sei que sentimento. + +Quando transpôz a porta, pendiam-lhe dos olhos duas grossas lagrimas. + +Seriam de vergonha? + +Seriam de remorsos? + +Seriam de odio? + +Não sei. + +Talvez de tudo isto juntamente, quem sabe? + +Instantes depois, entrava o cabinda como doudo na sala e ia ajoelhar-se +aos pés de Jorge, beijando-lhe phreneticamente as mãos e exclamando em +extrema commoção: + +--Bem haja, meu senhor, bem haja, que fez feliz o branco e a filha do +cabinda! + +Quando as primeiras sombras da noute desciam suavemente sobre a terra, +andavam Luiz e Magdalena passeiando no jardim entre as flores, irmãs +d'ella, entre os perfumes suaves, como os que então se evaporavam das +rosas brancas de suas almas enamoradas. + +Fez-se alli o primeiro idyllio do seu noivado. + +Já dormiam as juritys nos ninhos avelludados, e os beija-flores, +cançados de oscularem as rosas, mas substituiam-os, alli, duas almas +prezas nos laços dulcissimos d'uma embriagadora felicidade. + + + + +XX + +CONCLUSÃO + + +Tres mezes depois o altar havia santificado o mutuo amor de Luiz e +Magdalena. + +O ninho de Jorge de Macedo abrigava mais uma ave; o bondoso capitalista, +tinha, agora, em vez d'uma filha, dous filhos queridos. + +Era duplamente feliz. + +Luiz tomára sobre si todo o pezo e toda a responsabilidade dos negocios +do honrado negociante, para que este descançasse, e desempenhava-se de +tal modo de seus encargos, que nada havia por que merecesse uma censura. + +Magdalena era feliz e muito feliz. + +Ainda hoje, os dous esposos, se reunem em cada tarde no caramanchão de +maracujás do lago da chácara, no Botafogo, e ahi passam horas e horas, +enlevados nas dulcissimas venturas da sua vida, que tem mais do céo do +que da terra. + +Ha alli um novo Eden. + +Americo sahiu do Rio de Janeiro no dia immediato áquelle em que foi +forçado a desafivelar a mascara com que pretendia encobrir a sua +ambição; n'aquelle em que foi expulso da casa do homem a quem devia +muito, e ninguem mais o viu ou deu noticias d'elle. + +Corria muito vagamente que andava desgraçadissimo na America do Norte, +dizendo-se que fugira para lá. + +Não sei. Talvez. + +O cabinda, coitado, morreu de velhice, exalando o ultimo alento nos +braços de Jorge, de Luiz e de Magdalena, que lhe cercavam o leito e o +não desampararam nos dias de enfermidade. + +Lembrou-se, no momento extremo, da sua parceira e dos filhos queridos, a +quem, dizia, se ia juntar, mas desprendeu a alma do involucro terrestre, +beijando risonho, como o justo que antevê o céo, as mãos dos seus tres +amigos, e dizendo como que em signal de agradecimento, pelo modo +distincto e humanitario com que sempre foi tratado: + +--Bem haja, meu senhor! O negro lá ha-de dizer á sua senhora que o +branco fez o que prometteu. Tratou bem o negro e fez feliz a Filha do +Cabinda. + + +FIM + + +Porto--_Imprensa Portugueza_, Bomjardim, 181. + +_N. B. A propriedade d'este romance no Brazil, pertence a Antonio +Teixeira Carneiro de Campos, do Rio de Janeiro._ + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Filha do Cabinda, by Alfredo Campos + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A FILHA DO CABINDA *** + +***** This file should be named 21961-8.txt or 21961-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/1/9/6/21961/ + +Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/21961-8.zip b/21961-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..9dbdf3c --- /dev/null +++ b/21961-8.zip diff --git a/21961-h.zip b/21961-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..d93b2c2 --- /dev/null +++ b/21961-h.zip diff --git a/21961-h/21961-h.htm b/21961-h/21961-h.htm new file mode 100644 index 0000000..6cfcb56 --- /dev/null +++ b/21961-h/21961-h.htm @@ -0,0 +1,4868 @@ +<!DOCTYPE html + PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Transitional//EN" + "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-transitional.dtd"> +<html> + +<head> + <title>A Filha do Cabinda</title> + <meta name="AUTHOR" content="Alfredo Campos" /> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1" +/> + <style type="text/css"> + + body {width: 600px; margin: auto; font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif} + + h1, h2, h3, h4 { text-align: center} + h1 {margin: 2em; text-align: center} + h2, h4 {margin-top: 2em} + .author {font-weight: bold} + + .smallcaps {font-variant: small-caps} + + .ficha_tecnica {text-align:center} + + .dedicatoria {text-align:center} + + .carta {margin-left: 15%; margin-right: 15%} + + .direita {text-align:right} + + .poesia {margin-left: 20%; white-space:pre} + + .indice {text-align:left; margin-left: 40%} + + .quote { + margin-left: 5%; + margin-right: 5%; + } + .sinopse { + margin-left: 20%; + margin-right: 20%; + border: solid 1px #cccccc; + } + + </style> +</head> +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of A Filha do Cabinda, by Alfredo Campos + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Filha do Cabinda + +Author: Alfredo Campos + +Release Date: June 29, 2007 [EBook #21961] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A FILHA DO CABINDA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<div class="ficha_tecnica"> + + + + +<h1>A filha do cabinda</h1> + + + + +<p>PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA, BOMJARDIM, 181.</p> + +<br /> +<p class="author">ALFREDO CAMPOS</p> + + + + +<h2>A FILHA DO CABIDA</h2> + + +<h3>ROMANCE ORIGINAL</h3> + + + +<p>PORTO<br /> EDITORES--PEIXOTO & PINTO JUNIOR<br /> 119, Rua do Almada, 123<br /> 1873</p> </div> + +<div class="dedicatoria"> <p>A SEUS</p> + +<p>ILLUSTRISSIMOS E EXCELLENTISSIMOS TIOS</p> + +<p>JOSÉ D'ALMEIDA CAMPOS</p> + +<p>ANTÓNIO D'ALMEIDA CAMPOS E SILVA</p> + +<p>e</p> + +<p>JOAQUIM D'ALMEIDA CAMPOS</p> + +<p>OFFERECE</p> + +<p>O auctor.</p> </div> <br /> <br /> <div class="carta"> <p class="direita">Ex.<sup>mos</sup> Tios e amigos.</p> + +<p>A «filha do cabinda» é uma recordação singellissima de muitas, que +conservo, de alguns annos passados, na formosa capital do vasto Imperio +do Brazil.</p> + +<p>Transcrevi-a do livro da minha memoria, para este que aqui vai, +singello, despretencioso, sem flores e sem perfumes, unicamente no +intuito de matar horas d'enfado e dias de melancholia.</p> + +<p>Resolvido agora, e quem sabe se imprudentemente, a fazel-a correr mundo, +nas azas da publicidade, lembrou-me collocar os seus nomes na primeira +pagina, como pequenissima significação da muita estima e da muita +gratidão, que devo a cada um.</p> + +<p>Bem sei que muito fica da divida por saldar, mas quero, ao menos, +mostrar-lhes, d'este modo, que não esqueço o muito que teem a haver dos +sentimentos do meu coração.</p> + +<p>Acceitem, pois, a offerta, que é singella, e avaliem-na pela intenção e +não pelo que é.</p> + +<p>Sempre</p> + +<p class="direita">Sobrinho amigo e agradecido</p> + +<p class="direita"><span class="smallcaps">Alfredo Campos.</span></p> </div> + + + + +<h2>A FILHA DO CABINDA</h2> + + + + + + +<h2>A FILHA DO CABINDA</h2> + + + + +<h3>I</h3> + + +<p>A filha do cabinda é formosa como a visão d'um sonho celeste; meiga como +o canto do sabiá, poisado nos galhos do cajueiro, e ingenua como a +virgem da innocencia.</p> + +<p>O cabinda é negro, e negro de raça fina, mas é branca a sua filha, e +filha, porque o velho escravo quer muito á senhora moça, que elle +beijava e embalava no seu collo, quando era pequenina.</p> + +<p>Revê-se n'ella, e n'ella se mira doido d'affeição o pobre negro, e tanto +a gravou na ideia, tanto a traz no coração, que chega até a esquecer-se +do trabalho, sujeitando-se ás reprehensões do seu senhor, para, +insensivelmente, se entregar a scismar n'ella, que é tão bondosa, tão +meiga e tão carinhosa para elle; n'ella, que, por uma destas illusões, +d'estas miragens, d'estas doidices, d'um grande affecto e d'uma viva +sympathia, chega a julgar realmente sua filha.</p> + +<p>E <i>filha do cabinda</i> lhe chama elle.</p> + +<p>O negro vivia na sua terra, alegre e feliz; lá tinha seus paes, a sua +companheira, os filhos e a sua familia.</p> + +<p>Um dia, não sabe como, achou-se com todos elles dentro d'um navio, que +começou a affastal-o, cada vez mais, da sua patria. Passou assim algum +tempo, entre as duas immensidões, o mar e o céo, sem sentir saudades da +sua terra, porque levava ainda ao seu lado aquelles que lhe davam +alegria. Depois, pozeram-o de novo em terra, levaram-o a elle e aos seus +companheiros para uma grande casa, onde os brancos começaram a disputar +o preço por que haviam de compral-os.</p> + +<p>O cabinda foi vendido e quizeram leval-o.</p> + +<p>Leval-o? E a sua companheira? e os filhos? e seus paes?</p> + +<p>Esses, foram vendidos tambem, e cada um a seu senhor.</p> + +<p>Tristissimo era o negocio da escravidão!</p> + +<p>Reagiu o negro, quando o quizeram separar dos seus, e quando tambem os +separavam d'elle.</p> + +<p>Teve, então, saudades da sua patria, terriveis, sem duvida, porque eram, +ao mesmo tempo, saudades da sua liberdade.</p> + +<p>Fizeram-lhe, porém, estancar as lagrimas angustiosas as ameaças d'um +açoite, e o Cabinda lá partiu, sem esperanças de tornar a vêr os filhos +queridos, que nem sequer beijara na despedida, a esposa, que elle +adorava com um culto rude, mas sincero, e os paes, que elle respeitava +com a sua veneração selvagem.</p> + +<p>Partiu, mas ainda assim, boa estrella o guiava, porque, cortando-lhe as +affeições mais caras da sua vida, ao menos o levaram para onde tinha de +ser estimado, quasi como pessoa de familia, e não como escravo e negro +que era.</p> + +<p>Em casa do seu senhor foi elle encontrar uma creancinha de dois annos, +que tinha uns olhos lindos, os cabellos como os olhos, negros da côr do +abysmo, e um rosto como o dos anjos d'um sonho de poeta, como o das +fadas boas das visões nocturnas das mattas virgens.</p> + +<p>A convivencia foi-o affeiçoando áquella creancinha, que lhe sorria tão +innocentemente; que lhe estendia, alegre, os bracinhos mimosos, e, +brincando, o abraçava carinhosamente pelas pernas.</p> + +<p>O negro, quando via a pequenina Magdalena, sentia não sei que doçuras +n'alma, não sei que effluvios no coração, mas que deviam ser +gratissimos, porque os olhos desannuviavam-se-lhe logo das sombras de +tristeza, que os velavam sempre, e os labios desatavam-se-lhe n'um +sorriso de sincero e intimo jubilo.</p> + +<p>E tomava-a no collo, sentava-se com ella á sombra das copadas +tamarindeiras ou das laranjeiras em flor, cobria-a de beijos e affagos, +entretecia-lhe corôas de jasmins e martyrios, e olhava-a, assim n'uma +especie de adoração sublime e concentrada, talvez com a recordação nos +filhinhos, que perdera, e que eram tambem pequeninos como a mimosa +Magdalena.</p> + +<p>Tinha dez annos a filha do cabinda, quando perdeu sua mãe.</p> + +<p>Ficavam-lhe os affagos d'um pae estremoso e os carinhos do negro +affeiçoado; mas que valia tudo isso? que valia a gotta d'agua para tão +grande sêde? o atomo em face da immensidade desfeita?</p> + +<p>O negro, que era dedicado á sua senhora, tanto como á pequenina +Magdalena, esqueceu-se da sua condição de escravo, e arrojou-se, em um +impeto de dôr e d'affecto, a entrar no quarto da moribunda, poucos +momentos antes d'ella despedir o derradeiro alento.</p> + +<p>Estava junto ao leito Jorge de Macedo, que era o seu senhor, embebendo +em beijos lacrymosos o rosto da innocente, que ia em breve ser o seu +unico encanto n'este mundo.</p> + +<p>Os dois, pae e filha, assistiam angustiados ao desabamento d'aquelle +edificio da sua ventura.</p> + +<p>O cabinda entrou como perdido, olhou para Jorge com receio, com amor +para Magdalena e foi ajoelhar-se, de mãos postas, junto ao leito da +enferma, chorando como creança.</p> + +<p>--Anda cá, cabinda, disse a moribunda, com voz amortecida, ao vêl-o de +joelhos, alli, ao pé d'ella. Anda cá; vem vêr como se vai para o céo!...</p> + +<p>--Que fazes, atrevido! exclamou Jorge a meia voz.</p> + +<p>--Ah! meu senhor! a mãe do escravo é um anjo, e o negro quer despedir-se +da sua senhora!</p> + +<p>--Sahe, cabinda!</p> + +<p>--Oh! não! não! supplicou este. O negro é escravo, mas o negro tem +coração!</p> + +<p>E abraçava a roupa do leito para abraçar a moribunda, chorava como +doido, soluçando em desespero e supplicando com ardor:</p> + +<p>--A mãe do cabinda ha-de deixar a sua filhinha e o seu parceiro, a +chorarem saudades como o bemtevi do matto? Não, não nos deixes, mãe +senhora!</p> + +<p>--Papae, atalhou Magdalena, affagando as faces de Jorge, humedecidas +pelas lagrimas; o cabinda chora, não trates mal o cabinda, que é nosso +amigo.</p> + +<p>--Oh! sim, sim! acudiu o preto. O cabinda quer muito á sua filhinha, +quer muito á sua senhora e muito ao seu senhor! O negro tem alma e não +tem familia a quem a dar. É, como a palmeira do morro, que não tem +coqueiro ao lado.</p> + +<p>--O negro é bom, meu Jorge, disse a doente a custo. E se te peço muito +que fiques sendo a mãe da nossa Magdalena, não te esqueças tambem de que +o cabinda a trouxe ao collo muitas vezes, quando era mais pequenina.</p> + +<p>--Não esqueço, minha Beatriz! soluçou Jorge.</p> + +<p>--E elle não ha-de ser mais nosso escravo, não, papae?</p> + +<p>--Não, minha filha.</p> + +<p>--Mas o cabinda, atalhou o negro, não quer deixar a casa do seu senhor, +não quer viver longe da sua filha.</p> + +<p>--Não, não nos has-de deixar, que nós somos todos teus amigos, acudiu a +creança, affagando o escravo, emquanto Jorge dizia comsigo, no intimo da +consciencia:</p> + +<p>--O negro tem a côr do urubú, mas tem alma de pomba rola!</p> + +<p>Horas depois, Beatriz, a esposa de Jorge, tinha entregado a alma ao +Creador.</p> + +<p>Jorge chorava, para um lado, profundamente ferido no coração, as dôres +da sua viuvez. O negro e Magdalena soluçavam, abraçados, a perda da +bondade da que tanto era mãe d'uma como anjo do outro.</p> + +<p>Jorge conheceu, então, até onde ia a dedicação do seu escravo, a +grandeza da alma do negro, e começou a olhal-o, a tratal-o e a +querer-lhe, muito mais como a um membro da sua familia, do que como a um +ente, geralmente visto com desdem, com indifferença e até com desprezo.</p> + +<p>O cabinda perdera a sua familia, de que tão barbaramente o separaram, +mas havia ganho muito pela sua dedicação.</p> + +<p>Bastavam as festas e os sorrisos de Magdalena, de quem elle dizia +sempre:</p> + +<p>--Agora não tem mãe, é filha do cabinda!</p> + + + + +<h3>II</h3> + + +<p>O Botafogo é, sem duvida, o mais formoso dos formosos arrabaldes do Rio +de Janeiro.</p> + +<p>As aguas do vasto Guanabára, que, levemente onduladas, beijam +constantemente a fimbria da purpura real da grande cidade, formam, +n'aquelle retiro, um como lago de sufficiente superficie, que é orlado, +em grande parte da circumferencia, de <i>chacaras</i> magestosas, com +vistosos e immensos jardins, vegetação opulenta e luxuriante, e +explendidos e poeticos panoramas.</p> + +<p>Em 1859, Jorge de Macedo, negociante de café em grande escala, e, ao +mesmo tempo, abastado capitalista, vivia no Botafogo, em um formoso +palacete, circumdado de lindissimos jardins.</p> + +<p>Magdalena, a filha do cabinda, n'esta epocha, em que principia a nossa +narrativa, tinha desenove annos, e era a fada d'aquelle arrabalde do Rio +de Janeiro.</p> + +<p>O cabinda estava já entrado em edade, mas vigoroso ainda, e sempre +dedicado.</p> + +<p>Occupava-se o negro da limpeza das parasitas, que tentavam envadir as +aleas dos jardins, e em algum serviço de Magdalena, sendo, de resto, +tractado com toda a estima e amisade.</p> + +<p>Magdalena exercia a profissão da caridade, não cuidando senão de +dispensar a seu pae os carinhos e os affagos, que havia perdido na sua +adorada Beatriz, e em dispensar, dos meios, que lhe abundavam, esmolas +aos desgraçados e pobres.</p> + +<p>Jorge dedicava-se aos seus negocios e á felicidade de sua filha, que +elle adorava muito, fanaticamente até.</p> + +<p>A chacara de Jorge de Macedo era um ninho de delicioso conforto, d'uma +belleza invejavel, aonde não entrava nunca a sombra d'um desgosto, nem +uma nuvem de desharmonia, pequenina que fosse.</p> + +<p>Alli, senhores e escravos, brancos e negros, todos viviam em perfeita +alegria.</p> + +<p>Dos ultimos, porém, o mais querido, o mais estimado, o mais predilecto, +sobre tudo de Magdalena, era inquestionavelmente o cabinda.</p> + +<p>O negro tambem não abusava, e, diga-se a verdade, bem merecia elle de +todos, mas de ninguem tanto, como da que elle chamava, e queria, e +estimava como filha.</p> + +<p>Era por uma tarde de maio, formosa e explendida. O sol doura, ainda, com +os seus raios ardentes, os cumes do Pão d'Assucar, da Tijuca, do +Corcovado, e a cupula de folhagem variada das arvores gigantes, que +vestem os montes em volta do Rio de Janeiro.</p> + +<p>Uma brisa, suave, mas tepida, empregnada de perfumes de flôres e de +fructos, perpassa, branda, para o norte, agitando as palmas dos +coqueiros e as largas, compridas e pendidas folhas das bananeiras e das +palmeiras.</p> + +<p>O sabiá trina ainda os seus modilhos deliciosissimos entre a ramagem +mimosa d'uma jaboticábeira carregada de fructos, e o beija-flôr +pequenino anda na sua peregrinação, voluvel sempre, e sempre rapido, +deixando beijos nas flôres brancas do jasmineiro odorifero, ou nas +flôres symbolicas do maracujá, que veste as paredes e os caramancheis +dos jardins.</p> + +<p>O céo está sereno e limpido.</p> + +<p>Ao fundo da chacara de Jorge de Macedo ha um pequeno, mas formoso lago, +coberto d'agua, que cáe, em monotono murmurio, da bocca d'um tritão de +marmore fino.</p> + +<p>Por traz, encostado ao muro, e voltado ao lago, ha um vasto caramanchel +formado de tranças de cipós e de maracujás, carregadas de flôres e +fructos.</p> + +<p>Tem no meio uma meza de granito branco, e em volta assentos inglezes de +madeira e ferro, talhados de modo que dêem ao corpo toda a possivel +commodidade.</p> + +<p>A atmosphera tem a côr avermelhada dos raios do sol, que desce a +esconder-se no mar, e faz brilhar, com côres phantasticas, as azas, meio +diaphanas, das borboletas iriadas, que volitam dos cafezeiros para as +goiabeiras, e d'estas para os ramos dos pés d'araçás.</p> + +<p>Magdalena, a formosa filha do cabinda, jantou e desceu aos jardins; +andou só, pensativa, ora alegre, ora rapida, ora vagarosa, de canteiro +em canteiro, colhendo pequeninas flôres, que ia juntando entre as +paginas d'um livro, mimosamente encadernado.</p> + +<p>Depois, lançou, atravez da gradaria de ferro, um olhar ao vapor da +carreira, que passava em frente, atravessando o mar para o Rio, +volveu-se passado um instante, e seguiu por uma alea, orlada de grandes +jambeiros e pés de grumixama, em direcção ao lago, que jazia no fundo da +chacara.</p> + +<p>Magdalena era formosa, d'esta formosura, que desperta um culto sincero, +uma adoração em que não entra um atomo de sentimentos menos dignos, +d'esta formosura, em que se espelha e revela a elevação do espirito, a +bondade d'alma e a magnanimidade do coração.</p> + +<p>Aquelles olhos negros, scintillantes, orlados d'uma tenue sombra, e +aquelle rosto, tão expressivamente angelico, estavam mostrando as flôres +de ventura, em que se desataria o seu coração e a sua alma, para aquelle +que um dia tivesse o supremo goso de a possuir.</p> + +<p>Era magestosa no andar, elegante de fórmas, e simples no vestir, mas +d'esta simplicidade, que dá realce, que encanta, attráe e enleva.</p> + +<p>Como lhe fica bem aquelle vestido alvissimo, de fina cambraia, liso, +desguarnecido, apertado apenas na cintura delicada por um grande laço de +sêda azul clara!</p> + +<p>Que belleza no modesto penteado dos seus negros cabellos, fartos e +setinosos, formando apenas duas compridas tranças, que, cahindo-lhe +pelas costas, se prendem, pela extremidade, uma á outra, ainda por um +laço azul pequenino!</p> + +<p>As pombas rolas, que andam aos pares, fallando amores na sua linguagem +mysteriosa, levantam vôo com a approximação de Magdalena, que as segue +depois com a vista, até as perder de todo; mas as borboletas de côres +variadissimas, seguem-a contentes, como se já a conhecessem de ha muito, +e andam inquietas, em volta d'ella, ora subindo, ora descendo, como que +desejando beijal-a, mas temendo fazel-o, receiando maculal-a.</p> + +<p>E ella lá vae vagarosa e muda, lançando, de quando em quando, um olhar +ás flôres, que leva prêsas nas folhas do livro, talvez bem querido!</p> + +<p>Chegou assim ao lago, debruçou-se n'elle como procurando vêr os +peixinhos dourados, que o habitavam, e foi sentar-se encostada á meza de +pedra, n'um dos bancos do caramanchel.</p> + +<p>Era expressivo o seu rosto, porque estava desenhando os desejos que +sentia dentro de si, e que ella mesma não podia comprehender.</p> + +<p>Desejos vagos, mysteriosos, indefiniveis.</p> + +<p>Conservou-se absorta durante dois minutos, mas como que acordando, +depois, d'um sonho que a prendia, tirou as flôres d'entre as folhas do +livro, collocou-as a um lado e pôz-se a lêr alto, com a sua voz meiga, +seductora e angelical.</p> + +<p>Era um livro de versos, era um livro d'amor, o que ella lia!</p> + +<p>E tão prêsa estava com as phrases, que ia repetindo, tão scismadoramente +como se em verdade as sentisse; tão distrahida estava de tudo, de todos +e de quanto a cercava, que nem ouvia os gorgeios compassados d'um +bemtevi, que a sua voz harmoniosa havia desafiado, occulto entre as +folhas do ramo d'uma grande mangueira, que quasi se debruçava sobre o +lago.</p> + +<p>Chegou a um ponto da leitura e deteve-se suspirando. Depois repetiu +ainda a quadra que acabára de recitar, e que dizia assim:</p> + +<p class="poesia"> Suspiras, alma, n'um anceio languido? + Ninguem te affaga, perfumada flôr? + Ao sol as rosas da manhã desdobram-se, + E a brisa affaga-as com carinho e amor!</p> + +<p>E fechou o livro e ficou a scismar, com os olhos negros e formosos, +cravados, vagamente, n'um ponto do horisonte.</p> + +<p>Passados instantes, encostou a face á mão, como que cedendo ao pêso d'um +somno voluptuoso, e por fim deixou cahir o braço sobre a meza e o rosto +sobre o braço, n'uma especie de somnolencia, sonhando, talvez, com as +phrases do livro, que havia acabado de lêr, e que, sem duvida, a +impressionaram ou lhe fallarám á alma.</p> + +<p>As borboletas d'azas douradas, lá andavam em volta d'ella, como que +embalando-a nos sonhos, que deviam esmaltar-lhe a somnolencia.</p> + +<p>O sol havia-se já escondido o bastante para deixar a terra envolta nas +sombras do crepusculo.</p> + +<p>E a não serem os murmurios da brisa e os queixumes da agua, cahindo no +lago pela bocca do tritão, nada mais se ouvia n'aquella hora da tarde, +no retiro aonde repousava Magdalena.</p> + +<p>De subito começou a fazer-se sentir um leve ruido. Eram as folhas seccas +do chão, gemendo debaixo dos pés d'alguem, que se aproximava.</p> + +<p>Quem seria?</p> + +<p>As aves receiosas deixavam os seus asylos, architectados nos ramos das +arvores frondosas, ante a passagem do ser que se aproximava.</p> + +<p>Um minuto depois, um negro surgia junto ao lago.</p> + +<p>Era o cabinda.</p> + +<p>O preto deu com os olhos em Magdalena, parou e susteve a respiração, com +mêdo de a acordar, mas nos olhos e nos labios brilhou-lhe logo um +sorriso de verdadeira alegria.</p> + +<p>--Oh! exclamou elle baixinho, é ella, a filha do cabinda!</p> + +<p>E foi, pé ante pé, collocar-se de joelhos, junto á meza de pedra, em +posição d'onde melhor podia contemplar a sua filha, e assim ficou sem +despregar os olhos d'ella.</p> + +<p>Era uma loucura aquella affeição do negro!</p> + + + + +<h3>III</h3> + + +<p>O cabinda permanecia alli, como o verdadeiro crente, em face do altar do +Christo crucificado.</p> + +<p>Magdalena prendia-lhe os sentidos, absorvia-o completamente.</p> + +<p>A cada respiração, a cada ondulação do seio da virgem, extremecia elle e +abria mais os seus grandes olhos, n'uma expressão alternativamente de +receio e de esperança, que ella acordasse.</p> + +<p>Por fim, Magdalena estremeceu e levantou de subito o rosto formosissimo. +O seu olhar meigo e deslumbrante foi encontrar o negro ajoelhado, com os +olhos pregados n'ella.</p> + +<p>--Ah! és tu cabinda?</p> + +<p>--O negro, senhora moça!</p> + +<p>--E que fazias ahi de joelhos?</p> + +<p>--Olhava para a minha filha, que dormia...</p> + +<p>--E que sonhava tambem, cabinda. Tu nunca sonhas, quando dormes?</p> + +<p>--Sonhar? repetiu o cabinda. Á noite, quando o negro se deita, e faz +escuro em volta d'elle, o cabinda vê a sua senhora, que foi para a terra +do Pai dos brancos; vê a senhora moça muito contente, com a cabeça cheia +de rosas lindas, e o senhor a dar muitos beijos n'ella. E o cabinda +lembra-se, tambem, dos seus filhos e da sua companheira, e chora de +noite lagrimas no escuro.</p> + +<p>--Coitado!</p> + +<p>--Oh! mas o cabinda é alegre, como o jacaiol da floresta, quando a sua +filha ri e falla ao negro!</p> + +<p>--Pois olha, meu amigo, estou agora muito triste... muito!...</p> + +<p>E Magdalena ficou como que embebida n'uma ideia que a dominava, com o +rosto em visivel expressão de melancholia.</p> + +<p>--E que tem a senhora moça? perguntou o negro com anciedade e receio. O +cabinda não a quer triste; as arapongas que chorem, quando o caçador as +ferir.</p> + +<p>--Nem eu sei o que tenho. Vamos andando que eu conto-t'o.</p> + +<p>E tornando a prender as flôres entre as folhas do livro, seguiu, +acompanhada pelo negro, uma das aleas oppostas áquella por onde tinha +chegado ao lago.</p> + +<p>Magdalena ia vagarosa e pensativa; o negro, ao lado d'ella, caminhava +abstracto de tudo, sem vêr mais nada.</p> + +<p>Que magestoso quadro aquelle!</p> + +<p>Magdalena era o anjo meigo e deslumbrante, da mocidade cheia +d'explendores, a que sorriem todas as esperanças, e para o qual todos os +horisontes são vastos, largos e floridos!</p> + +<p>O cabinda era o velho escravo, fiel e dedicado, capaz de tudo para +salvar a vida dos seus senhores, saltando de contente com dois affagos e +humilhando-se submisso á menor reprehensão.</p> + +<p>Os dois caminhavam a par.</p> + +<p>Era n'essa hora mysteriosa dos esponsaes do dia com a noite.</p> + +<p>Por sobre as suas cabeças arqueava-se, verdejante, o docel das +jaqueiras, d'um lado, e dos ramos frondosos das mangueiras, do outro. As +aves já se haviam retirado aos gratos asylos.</p> + +<p>--Tu sabes o que são saudades, cabinda? perguntou Magdalena ao negro.</p> + +<p>--Saudades? repetiu elle, scismando na resposta.</p> + +<p>--Sim.</p> + +<p>--Sei, senhora moça. É ter o negro a alma a doer muito, como á pomba +rola, quando lhe tiram os filhos, ou o parceiro do ninho do matto.</p> + +<p>--É isso. Pois olha, eu tenho saudades, e não sei de quê. Sinto a alma a +pedir-me uma coisa, que eu não comprehendo, e arde-me o coração em +desejos loucos, mas desconhecidos. Quero, e não sei o que quero; desejo, +e pergunto o que desejo. Não me falta nada, porque, graças a Deus, sou +rica; não ha vontade nem capricho que o papae me não satisfaça, e, olha, +apesar de tudo, não vivo contente. De tarde, sempre que chega esta hora, +sinto um peso na alma, que eu não sei de onde vem, nem para quê. De +noite, então de noite, sonho muito e tenho saudades d'esses sonhos +quando acordo. Vejo ao meu lado um rosto que me sorri, uns labios que me +dizem coisas que ninguem ainda me disse, coisas bonitas, doces e +encantadoras; umas mãos que me fazem festas, que me alisam os cabellos e +m'os enfeitam de flores, e uns olhos que me olham muito, e que penetram +até dentro do meu coração. Mas depois acordo, desapparece o sonho, +vejo-me só, e tenho saudades, cabinda...</p> + +<p>O negro, se bem que nada comprehendera de tudo quanto lhe dissera +Magdalena, é certo que o havia adivinhado, porque acudiu rapidamente, +apenas ella acabou:</p> + +<p>--É a alma do branco que vem fallar á alma da senhora moça.</p> + +<p>--Do branco? perguntou Magdalena, com ar de quem não comprehendia.</p> + +<p>--Do branco, sim. A onça do cannavial e o jabirú das lagôas teem o seu +parceiro, como tinha o cabinda, quando veio da sua terra. E a senhora +moça, vê o branco nos sonhos, como o cabinda vê a sua parceira e os +filhos, mas o branco não apparece.</p> + +<p>--Não te entendo, cabinda, acudiu Magdalena, scismando no que o negro +lhe dizia.</p> + +<p>--O mal da senhora moça é aqui, disse o cabinda, indicando no peito o +logar do coração. O branco que a minha filha vê á noite, quando dorme, é +que ha de vir cural-a.</p> + +<p>--Como?</p> + +<p>--Não sei.</p> + +<p>--Quando?</p> + +<p>--Elle virá. O negro tambem tinha isso, lá, na sua terra. No matto, no +cannavial, quando o negro andava á caça, e no rio, quando dormia dentro +da sua canôa, o cabinda não tinha a sua parceira, mas o negro via-a +sempre. E um dia a parceira do cabinda appareceu, e o negro não soffreu +mais, nem tornou a chorar.</p> + +<p>Magdalena continuou vagarosa ao lado do negro, mas visivelmente +melancholica e pensativa, talvez com o que elle acabava de dizer-lhe.</p> + +<p>Estava ella na idade em que o coração começa a desabrochar as primeiras +flôres e a sentir os primeiros desejos. Tinha algumas vezes ouvido +fallar d'amor ás suas amigas; vira umas alegres, tristes outras, umas +cheias de enthusiasmo e ventura, outras soffredoras e melancholicas, e +ella sempre indifferente a tudo, sempre sem lhes ligar outra importancia +mais do que a que nascia da sua amisade. Nunca um homem lhe rendera uma +fineza, nunca um homem lhe dardejára um olhar expressivo; e se algum o +fizera, Magdalena ou não o viu ou não o comprehendeu.</p> + +<p>Agora, sim. Agora, as saudades de que fallava; os sonhos que lhe floriam +ás noites, ou lhe esmaltavam o repouso, eram os traços claros dos +desejos, que tinha na alma e no coração, de amar e ser tambem amada, de +gozar os dulcissimos effluvios do sentimento, que lhe irrompia no peito.</p> + +<p>Tinham chegado assim ao terreiro, que havia na rectaguarda do palacete, +para o qual se descia por uma escadaria de pedra, no extremo de uma +vasta varanda.</p> + +<p>Jorge de Macedo estava de pé, no topo das escadas, fumando um charuto, e +n'uma attitude de quem esperava alguem.</p> + +<p>Magdalena, apenas o viu, desatou a correr e exclamou:</p> + +<p>--Ah! o papae!</p> + +<p>O negro ficou só, e Jorge sorriu-se, dizendo:</p> + +<p>--Olha que te canças, doidinha!</p> + +<p>A filha do cabinda transpoz rapida o espaço que a separava de Jorge, e +apenas se achou junto d'elle, fez dos braços um collar, com que lhe +prendeu o pescoço, e começou a cobril-o de beijos carinhosissimos, a que +elle correspondia em visivel expressão de jubilo e de ventura.</p> + +<p>Eram os beijos da flor ao tronco onde nascera! eram os affectos gerados +pelos laços mysteriosos do sangue!</p> + +<p>Que beijos aquelles! que affecto se não desdobrava alli!</p> + +<p>--Mausinho, que me deixou hoje jantar só, queixou-se ella com fingido +agastamento.</p> + +<p>--Tive muito que fazer, filha. Mas déste o teu passeio até ao lago, não?</p> + +<p>--Dei, papae, acompanhou-me o cabinda.</p> + +<p>O negro chegava n'este momento, diringindo-se a Jorge:</p> + +<p>--A sua benção, meu senhor!</p> + +<p>--Adeus, cabinda.</p> + +<p>--E amanhã?... perguntou Magdalena, sorrindo com intenção.</p> + +<p>--Amanhã...</p> + +<p>--É dia de festa; faz o papae annos e havemos de jantar muito alegres! +atalhou ella.</p> + +<p>--Muito. E vais ter hospedes.</p> + +<p>--Hospedes? interrogou com curiosidade.</p> + +<p>--Sim. Convidei o guarda livros, e os caixeiros; vem toda a gente do +armazem.</p> + +<p>--Oh! que alegria vai ser a nossa, não é verdade, papae.</p> + +<p>--Grande, minha filha, porque é de ti que ella vem.</p> + +<p>E deu-lhe um beijo, onde ia impressa a sua alma e o seu amor de pae +extremosissimo.</p> + +<p>Magdalena foi, porém, a pouco e pouco, perdendo aquella alegria com que +havia acariciado Jorge, e tornando-se pensativa, absorta, e como que +esquecida de onde estava e com quem estava.</p> + +<p>O negro, do extremo opposto da varanda, tinha os olhos fitos n'ella com +a avidez de quem parecia estar estudando-a.</p> + +<p>Que nuvens, embora tenues, eram as que assombravam melancholicamente +aquelle rosto tão formoso d'aquella mulher anjo?</p> + +<p>Que pensamentos lhe agitavam a mente, para que soffresse aquella +passagem suave do alegre para o triste?</p> + +<p>O cabinda havia-lhe dito que o branco a curaria, e ella pensava n'isso, +lembrando-se dos hospedes que ia ter ao jantar, no dia seguinte.</p> + +<p>Eram as alvoradas do coração; eram os pressentimentos do que ha de vir!</p> + +<p>E scismando n'isso, ia esquecendo-se de tudo, quando Jorge a accordou:</p> + +<p>--Esqueces o piano, Magdalena?</p> + +<p>--Não, papae; esperava por si.</p> + +<p>--Vamos, então.</p> + +<p>--Vamos.</p> + +<p>E tomou a mão a Jorge, e recolheram-se ambos alegres e contentes.</p> <p> Pouco +depois, o piano gemia, debaixo dos formosos dedos da filha do cabinda, +uma <i>reverie</i> de deliciosissimas harmonias, d'estas que levam presas, +nas suas azas, o espirito até ao céo.</p> + +<p>Jorge ouvia-a n'um extase.</p> + +<p>Sentado nas commodas almofadas d'uma cadeira estofada, tinha os olhos +pregados no rosto da filha mimosa, da filha, que era o seu anjo, o seu +encanto, a sua vida, a sua felicidade mais completa, mas alava o +espirito ás regiões celestes, nas ondas d'aquella musica, onde, n'uma +especie de mystificação, estava vendo a sua adorada Beatriz, a esposa +queridissima, que a morte desapiedada lhe arrebatára tão cedo dos +braços!</p> + +<p>O cabinda, no entanto, jazia no extremo da varanda, que deitava sobre o +terreiro, dizendo comsigo a meia voz:</p> + +<p>--Os brancos veem amanhã; o mulato virá tambem. Cabinda, a senhora moça +é tua filha!</p> + + + + +<h3>IV</h3> + + +<p>Vai em meio o jantar, no dia seguinte.</p> + +<p>A animação é completa, e viva, sincera e espontanea a alegria, que +referve em cada conviva.</p> + +<p>É que alli não ha superiores nem inferiores, não ha grandes nem +subordinados; ha uma familia festejando os annos do seu chefe estimado e +querido, que só como pessoas de familia, olha Jorge para as que tem +sentadas em volta da sua meza.</p> + +<p>Magdalena preside á festa, como o anjo bondoso e meigo d'aquelle lar, +onde só ella é sol, que tudo aquece e vivifica, cuidando pouquissimo de +si e tudo dos outros.</p> + +<p>Está esplendida de formosura! deslumbrante de encantos!</p> + +<p>Tem nos olhos a vivacidade de alegria intima, e os esplendores da +belleza d'alma; no rosto a sympathia que fascina, e nos modos a doçura +que captiva.</p> + +<p>Veste um vestido de sêda côr de flôr d'alecrim, simples, mas +elegantemente enfeitado, honesta e delicadamente aberto no seio, onde +vem cahir, pendente d'um formoso collar de pequeninas perolas, uma +medalha cravejada de brilhantes. Os cabellos, aquelles cabellos negros, +tão feiticeiros, pendem setinosos em lindissimos cachos, ornados apenas +d'uma perfumada rosa branca.</p> + +<p>Jorge cedeu as honras da festa á filha querida, que occupa a cabeceira +da meza, occupando elle o primeiro lugar na face direita, á direita de +Magdalena.</p> + +<p>Segue-se-lhe o guarda-livros, rapaz de 25 annos, portuguez, sympathico, +elegantemente trajado, meigo no fallar e polido nas maneiras.</p> + +<p>Do outro lado, em face d'estes, estão o primeiro caixeiro, mulato +brazileiro, de rosto duvidoso, olhar que pouco lhe favorece o caracter, +e modos apparentemente delicados, e os outros empregados do armazem, que +não merecem menção especial.</p> + +<p>Falla-se alegremente; discute-se com placidez.</p> + +<p>Magdalena, a todos attende e não esquece nenhum. De si é que ella cuida +pouco.</p> + +<p>Entre os serventes nota-se o cabinda. O negro anda entalado nas dobras +d'uma gravata branca, cujo laço fôra feito pela sua filha, e veste uma +roupa nova de pano preto fino. Anda doido d'alegria, ebrio com a alegria +da sua filha.</p> + +<p>O negro lança todavia, de quando em quando, uns olhares de expressivo +despreso ao mulato que janta, e volve-os depois para Magdalena, como que +dizendo-lhe:</p> + +<p>--Foge d'elle!</p> + +<p>O guarda-livros, que se chama Luiz de Mello, e o mulato caixeiro, de +nome Americo de Abreu, olham tambem a seu turno para Magdalena e depois +um para o outro.</p> + +<p>Ella, porém, a formosa filha do cabinda, parece prestar mais attenção a +Luiz, sem que por isso deixe de ser delicada com todos os outros.</p> + +<p>Os pratos teem-se succedido, os copos esvasiado algumas vezes, e tanto +se tem comido como fallado.</p> + +<p>A alegria assentou-se com os convivas á meza d'aquelle festim.</p> + +<p>Começam as sobremezas e vão principiar os brindes.</p> + +<p>Magdalena é a primeira. Está porém, um pouco acanhada em presença dos +seus hospedes porque tomando o calix, vieram colorir-lhe o rosto duas +rosas de purissimo rubor.</p> + +<p>--Quero ser a primeira, disse ella, porque sou filha. Brindo aos seus +annos, papae.</p> + +<p>E levou o calix aos labios, mas mal provou o vinho.</p> + +<p>--Acompanho a V. Ex.<sup>a</sup>, acudiu Luiz, desejando com ardor que d'aqui a +muitos annos os possa brindar e festejar, tão alegre e tão feliz como +hoje.</p> + +<p>--Do mesmo modo, repetiram os outros.</p> + +<p>--Obrigados, meus amigos. Agradecido, filha.</p> + +<p>E Jorge levou a seu turno o calix á bôcca, continuando depois:</p> + +<p>--Agora, Magdalena, á saude dos nossos hospedes...</p> + +<p>--E, ajuntou Luiz, á felicidade da filha de V. Ex.<sup>a</sup>, fazendo, todos nós, +sinceros e ardentes votos, para que um bom anjo a proteja sempre, a +ella, que nos recebe aqui como irmã nossa, e irmã muito affectuosa.</p> + +<p>Magdalena tornou a ruborisar-se, olhando para Luiz com olhos de +reconhecimento, e respondendo-lhe:</p> + +<p>--Obrigada, meus amigos. Faço o que devo e menos do que merecem.</p> + +<p>--Á felicidade de V. Ex.<sup>a</sup>, brindaram todos.</p> + +<p>--Obrigado, agradeceu Jorge pela filha.</p> + +<p>E o jantar seguiu, e os brindes continuaram.</p> + +<p>Luiz olhava cada vez mais para Magdalena, e é certo que encontrava +sempre os olhos d'ella pregados nos seus.</p> + +<p>Americo analysava aquillo, e o cabinda analysava o mulato.</p> + +<p>No entanto, a alegria ia ganhando de intensidade, porque os convivas +d'aquelle festim intimo e familiar de Jorge e sua filha, iam perdendo, +sem sahirem dos limites do respeito, um resto de acanhamento que a +franqueza do capitalista e a bondade da filha do cabinda não poderam de +todo dissipar.</p> + +<p>Os negros e serventes, tinham por sua vez festa no aposento destinado á +sua refeição.</p> + +<p>O cabinda, porém, lá chegava, de quando em quando, para, com a sua +prudencia, e digamos mesmo, bom senso, impedir excessos e pôr obstaculos +a abusos.</p> + +<p>Estava a terminar o jantar. Já se fallava muito e nada se comia.</p> + +<p>Jorge levantou-se então, e, tomando uma garrafa de finissimo vinho do +Porto, dirigiu-se aos seus convidados:</p> + +<p>--Vamos ao ultimo brinde.</p> + +<p>E encheram-se os copos.</p> + +<p>--Bebo, não só á saude e á prosperidade d'aquelles que chamei hoje a +minha casa, como pessoas a quem estimo e considero, mas bebo tambem á +saude das suas familias ausentes.</p> + +<p>--Agradecidos, senhor, accudiram todos.</p> + +<p>--A sua mãe, senhor Luiz, brindou Magdalena.</p> + +<p>--Mil vezes grato, minha senhora, respondeu elle, vivamente +impressionado.</p> + +<p>--Agora, para de todo terminarmos esta festa, proseguiu Jorge, e d'ella +ficar uma lembrança aos amigos, que aqui tenho em volta de mim, +lembrança tão grata, quão grande foi a alegria que me porporcionaram, +declaro ao senhor Luiz de Mello e ao senhor Americo d'Abreu que deixam, +desde este dia, de ser, um, meu guarda-livros, e meu caixeiro o outro, +para se considerarem meus socios nas transacções da minha casa. Não +esqueço os outros, que trabalham para a minha prosperidade, e fica desde +já o meu socio e amigo Luiz de Mello, encarregado de lhes augmentar os +ordenados. Minha filha festejou-me os annos, collocando-os em volta +d'esta meza, eu commemoro-os d'este modo, esperando que recolherão assim +mais contentes.</p> + +<p>--Como é bom, papae! murmurou Magdalena.</p> + +<p>Houve então uma verdadeira chuva de agradecimentos, que é desnecessario +pintar, e da alegria passou-se ao enthusiasmo, quasi ao delirio.</p> + +<p>Luiz levantou-se pallido e tremulo de commoção, mas extremamente +sympáthico, e dirigiu-se a Jorge:</p> + +<p>--Se V. Ex.<sup>a</sup> me confunde com a grandissima distincção, com que acaba de +honrar-me, chamando-me seu socio, por muitos titulos me honra mais, e +mais me confunde ainda, dando-me o nome de amigo, para a conservação e +engrandecimento do qual, não deixarei nunca de empregar todos os meus +esforços.</p> + +<p>--Obrigado, respondeu Jorge, apertando-lhe a mão.</p> + +<p>E dispunha-se a deixar a meza.</p> + +<p>N'este momento, porém, entrava o cabinda, trazendo pela mão uma negrinha +de 10 annos, que o negro foi apresentar-lhe.</p> + +<p>--Que é isso, cabinda?</p> + +<p>--A Belmira traz ao seu senhor as flôres dos negros, porque o cabinda e +os seus parceiros tambem festejam os annos do pae da senhora moça, +respondeu o negro, em quanto a pretinha offerecia a Jorge um lindissimo +ramo de mimosas flôres.</p> + +<p>--Obrigado, Belmira, obrigado, cabinda, disse o capitalista, affagando a +creança. E tu, Magdalena, ficas encarregada de ir agradecer a todos, em +quanto vamos para o jardim esperar o café.</p> + +<p>--Como és nosso amigo, cabinda! disse Magdalena.</p> + +<p>E foi assim que terminou o jantar.</p> + +<p>Jorge e os convivas desceram para o jardim.</p> + +<p>Magdalena foi agradecer em nome de seu pae a lembrança dos escravos.</p> + +<p>O cabinda seguia-a com os olhos, a faiscarem alegria, gritando como +doido:</p> + +<p>--O branco veiu, senhora moça; o branco é bom e gosta da minha filha!</p> + +<p>Americo, descendo para o jardim, approveitava um momento, em que só Luiz +podia ouvil-o, para lhe dizer, com certo ar de cynismo;</p> + +<p>--Temos ambos igual quinhão no negocio: agora veremos quem leva a filha!</p> + + + + +<h3>V</h3> + + +<p>Pouco depois era servido o café.</p> + +<p>Jorge e Americo, tomavam-o, conversando sentados em duas pittorescas +cadeiras de bambús, á entrada de um formoso caramanchel de trepadeiras +floridas.</p> + +<p>Os caixeiros mais novos passeiavam pelo jardim e pela chacara, gosando a +liberdade, que lhes era concedida, desforrando-se da prisão quotidiana, +e do serviço quasi aturado do armazem.</p> + +<p>Magdalena, a formosa filha do cabinda, andava de canteiro em canteiro, +mostrando a Luiz de Mello as suas flôres; apontando, deslumbrante de +candidez, as particularidades de cada uma, a idade e a procedencia, com +a convicção de quem conhecia alguma coisa de botanica, e um tanto +orgulhosa dos cuidados, que empregava com as predilectas suas irmãs.</p> + +<p>Luiz segui-a e ouvia-a como fascinado, parecendo-lhe mais que estava +passando por um d'estes magicos sonhos de delicioso encanto, que tantas +vezes embalam a imaginação juvenil, do que assistindo á realidade de vêr +e ouvir ao seu lado um anjo, esplendoroso d'encantos, e suavissimo +d'harmonia nas fallas.</p> + +<p>--Olhe, dizia Magdalena alegre, radiante e sempre formosa; olhe este pé +de <i>suspiros</i>. Não é tão, bonito?</p> + +<p>--Formoso, minha senhora.</p> + +<p>--E estas <i>saudades</i>, não são tão lindas?</p> + +<p>--Muitissimo. Saudades... as flôres symbolicas dos que soffrem; dos que, +como eu, longe da patria, aonde deixaram a familia, vivem na esperança +de lá voltar, sem terem, comtudo, n'ausencia d'ella, um affago, que lhes +adoce a aridez do trabalho; um carinho, que lhes lisongeie o sentimento, +um consolo n'este correr da existencia, isolado, monotono e, por muitas +vezes, triste.</p> + +<p>--O senhor Luiz tem muitas saudades da sua terra, tem?</p> + +<p>--Se tenho!...</p> + +<p>--Tambem eu as sinto! disse Magdalena com ar melancholico.</p> + +<p>--Saudades, minha senhora?! perguntou Luiz admiradissimo.</p> + +<p>--Sim, admira-se?</p> + +<p>--E com razão. Pois V. Ex.<sup>a</sup>, cercada de todas as commodidades da vida, +dos extremos e affagos d'um pae, que é mais que muito carinhoso; nova, +formosa, permitta-me V. Ex.<sup>a</sup> esta verdade; vendo realisados todos os +desejos, satisfeitas todas as vontades; V. Ex.<sup>a</sup>, que é, que deve +realmente ser muito e muito ditosa aos olhos de toda a gente, e aos +olhos proprios, confessa que sente saudades, e não ha de querer que eu, +exilado, sem familia, sem estes nadas da vida, que a dulcificam e +embellezam, me admire e espante d'essa confissão?</p> + +<p>--Que quer? Tenho-as, sim, mas tambem não sei de que, para lhe fallar a +verdade.</p> + +<p>--Comprehendo. N'esse caso melhor será que V. Ex.<sup>a</sup> diga antes que tem +desejos... E emfim, quem sabe? Na idade de V. Ex.<sup>a</sup>, na idade florida dos +amores, dos enthusiasmos, das alegrias, das expansões e dos sonhos +formosissimos, ha sempre, póde pelo menos haver, muita vez, algumas +d'essas melancholicas florinhas, que são, então, como pequeninas nuvens +no azul d'um céo estrellado e deslumbrante.</p> + +<p>--Não é isso, disse Magdalena levemente contrariada. Não é isso, porque +eu nunca amei.</p> + +<p>--Ah! V. Ex.<sup>a</sup> nunca amou?</p> + +<p>--Nunca, pelo menos que eu saiba, respondeu ella ingenuamente.</p> + +<p>--Mais um motivo para eu crêr que o que V. Ex.<sup>a</sup> tem, são desejos de amar +e ser tambem amada.</p> + +<p>--Talvez, accudiu Magdalena córando, e pregando em Luiz os seus negros, +grandes e formosos olhos.</p> + +<p>--E acreditaria V. Ex.<sup>a</sup> no amor do primeiro homem, que ousasse +render-lhe um culto, confessando-lhe esse sentimento?</p> + +<p>--Conforme. O coração é que havia de decidir.</p> + +<p>--E o coração de V. Ex.<sup>a</sup> não lhe diz nada? não lhe lembrou ainda um +nome? um homem, a quem tenha de dar as perolas valiosissimas do seu +affecto?</p> + +<p>--Já.</p> + +<p>Luiz estava pallido e tremulo de commoção.</p> + +<p>--Oh! se fosse eu!... murmurou elle.</p> + +<p>--Que tinha! era muito feliz, era?</p> + +<p>--Se era, minha senhora! muito! muito!</p> + +<p>--E amava-me? perguntou Magdalena anciosa, e um tanto agitada.</p> + +<p>--Oh! com delirio até!</p> + +<p>--Pois então não dê a mais ninguem o seu amor, porque... eu tambem o amo +muito!</p> + +<p>E a formosa filha do cabinda olhou para todos os lados como receiando +que alguem a ouvisse.</p> + +<p>Creança!</p> + +<p>Que commoções a não abalaram n'aquelle momento! que agitação n'aquelle +seio tão estreito, agora, para as ondulações do coração, que tantas +flôres estava desabrochando!</p> + +<p>Era a primeira vez que lhe fallavam d'amor! era a primeira vez que um +homem a impressionava.</p> + +<p>O que ella viu, o que ella sentiu, era o Paraiso com as bellezas +deslumbrantissimas dos seus vastos e perfumados jardins! era o céo com +todas as harmonias das suas orchestras, afinadas pelos dedos dos anjos!</p> + +<p>Luiz esqueceu-se da patria, da familia, das saudades, que tinha por uma +e outra, e começou, n'uma como visão phantastica, a vêr diante de si um +horisonte illimitado de felicidades sem fim!</p> + +<p>Que dia aquelle! que dia tão venturoso! D'um lado os beijos carinhosos +da fortuna, do outro, as flôres magicas do amor d'um seio de virgem!</p> + +<p>Eram tão violentas as commoções que o abalavam que apegas poude +murmurar:</p> + +<p>--Juro-lhe que a hei de amar eternamente! mas supplico-lhe que não me +engane nunca!</p> + +<p>--Nunca! prometto-lh'o pela memoria sagrada de minha mãe!..</p> + +<p>E embebidos nas doçuras, nos enthusiasmos d'este colloquio, que jámais +devia ser esquecido Luis e Magdalena tinham-se affastado um pouco para +um dos angulos do jardim.</p> + +<p>Sentaram-se como que machinalmente.</p> + +<p>Magdalena voltava e revoltava entre as suas mãos mimosas e pequeninas um +viçoso suspiro; Luiz aspirava o fumo d'um delicioso charuto bahiano, e +arrojava depois ao espaço as ondas azuladas, as nuvens pequeninas do +fumo aspirado.</p> + +<p>Os pés dos jasmineiros floridos impregnavam a atmosphera de perfumes que +inebriavam.</p> + +<p>E o pôr do sol, o cahir das primeiras sombras do crepusculo da tarde, +começavam a pesar na alma d'aquelles dois namorados, estremosos como +duas juritys.</p> + +<p>--Parto d'aqui a pouco, minha senhora, disse Luis olhando com saudade +para Magdalena.</p> + +<p>--Mas ha de vir ver-me sempre que poder; sim?</p> + +<p>--Sempre que não haja quebra de conveniencias.</p> + +<p>--Conveniencias? interrogou Magdalena.</p> + +<p>--Sim, minha senhora. Bem vê V. Ex.<sup>a</sup> que a minha presença muito +frequente n'esta casa, póde despertar suspeitas, e eu não desejo, nem +devo desgostar o senhor Jorge de Macedo, que apesar de estimar-me muito, +talvez não approve esta affeição, que começa a prender-nos hoje.</p> + +<p>--Ha de approval-a, basta que eu lhe diga que o amo.</p> + +<p>--Em todo o caso não a descubra V. Ex.<sup>a</sup> por ora, não?</p> + +<p>--Não.</p> + +<p>---E se um outro homem, um homem qualquer se dirigir a V. Ex.<sup>a</sup>, ou se +mesmo seu pae lhe apontar algum, como digno de partilhar do nome da sua +familia?</p> + +<p>--Despedil-o-ei.</p> + +<p>--Agradecido, minha senhora.</p> + +<p>--E olhe, quando não possa vir vêr-me, dê-me ao menos noticias suas, +sim? Fico com tantas saudades e com tantas lembranças d'este dia!</p> + +<p>--Tambem eu as levo. Mas por quem lhe heide dar as minhas noticias?</p> + +<p>--Pelo cabinda. O negro quer-me muito; bem sabe que sou a filha d'elle.</p> + +<p>--Muito bem. Agora retiro-me que são horas. Levo-a a V. Ex.<sup>a</sup> gravada nos +olhos, e no coração.</p> + +<p>--Faça-me ainda uma coisa, faz?</p> + +<p>--Tudo, minha senhora.</p> + +<p>--Deixe as <i>excellencias</i> com que me trata e mostre-me mais confiança.</p> + +<p>--Seja. Era essa a minha vontade. Adeus... Magdalena.</p> + +<p>--Até breve... Luiz!</p> + +<p>E apertaram-se as mãos n'uma effusão de grandissimo sentimento, e +separaram-se depois, saudosos ambos, ambos melancholicos e +impressionados.</p> + +<p>Americo e os outros empregados do armazem partiram tambem.</p> + +<p>Jorge deixou depois a filha e sahiu.</p> + +<p>Magdalena ficou só.</p> + +<p>Nas salas havia aquella meia escuridão da hora melancholica da transição +do dia para a noite. No céo já brilhavam, formosas, algumas estrellas.</p> + +<p>Magdalena foi sentar-se ao piano. Não ia tocar, ia fazer mais, porque ia +gemer saudades com aquelle amigo.</p> + +<p>As harmonias que encheram a sala eram suaves e melancholicas; casavam-se +em tudo com o que ella estava sentindo, e transportavam-a a mundos onde +nunca tinha subido.</p> + +<p>As mãos formosas e delicadas premiam suavemente as teclas de marfim, mas +o seu espirito só via uma imagem, aquella musica só lhe repetia um nome:</p> + +<p>--Luiz.</p> + +<p>E tão embebida estava, tão embrenhada jazia n'aquelle sonho que a +dominava, que nem sequer deu pelo cabinda, que surgiu cautelloso a uma +das portas.</p> + +<p>O negro parou n'uma contemplação, que era a maior prova do seu culto por +Magdalena. Mas ao vel-a assim tão preoccupada, ao parecer-lhe triste, +approximou-se carinhoso e disse, com toda a sua affeição a +transparecer-lhe na voz:</p> + +<p>--Ainda está triste a minha filha?</p> + +<p>Magdalena como que accordando d'um sonho respondeu:</p> + +<p>--Não, cabinda. Agora penso na felicidade.</p> + +<p>--E o branco?</p> + +<p>--Tenho-o aqui, respondeu, indicando o coração.</p> + +<p>--Mas a senhora moça é ainda a filha do cabinda!</p> + +<p>--Sou, sim; tu és meu amigo, e elle... elle amo-o muito!</p> + + + + +<h3>VI</h3> + + +<p>Vai um pouco adiantada a noite.</p> + +<p>A lua dardeja os seus raios de prata nos morros da Tijuca, do Pão +d'Assucar e Corcovado, e côa a sua luz pallida pelos intresticios da +vegetação luxuriante dos arrabaldes do Rio de Janeiro.</p> + +<p>Que noite formosa!</p> + +<p>Prendem-se as estrellas umas ás outras pelas suas palhetas luminosas, e +bordam, como brilhantes de subido valor, o manto azul da vasta abóbada +do céo.</p> + +<p>Dormem as aves ao som do murmurio suave das auras, que perpassam entre a +ramaria das arvores alentadas e fórtes. A atmosphera impregnou-se +durante o dia, dos perfumes das flôres e dos fructos, que o sol +fecundante fez amadurecer e desabrochar.</p> + +<p>O ananáz e o jasmin, o cajú e as acacias brancas, a pitanga e as rosas +de Alexandria, as flôres todas, e todos os pômos das arvores +fructiferas, casam, umas com as outras, os seus aromas deliciosos, do +conjunto dos quaes, se fórma uma essencia, que embriaga, que é doce, e +suave, e agradavel.</p> + +<p>O Botafogo dorme, velado pelo manto das suas bellezas, no centro d'um +silencio, apenas quebrado pelo cicio das agoas da sua poetica enseada.</p> + +<p>No meio de tudo isto, de todas estas bellezas, ha um ente que ainda não +repousa, enlevado em sonhos de fascinadora poesia.</p> + +<p>É Magdalena, a filha do cabinda.</p> + +<p>A formosa virgem encostou-se ao peitoril da sua janella, e, silenciosa, +firmou os olhos pensativos, n'um ponto, onde a imaginação e o espirito, +estão fazendo passar, desenrolando-se rapidos, uns variadissimos +panoramas, umas paisagens de infinitas bellezas!</p> + +<p>Está como que sonhando.</p> + +<p>Sonha, jurity mimosa e meiga, que os sonhos das alvoradas do amor são +formosos e bellos! Abre o sacrario virgem do teu coração, que começa a +fecundar as primeiras flôres, aos perfumes que a aragem da noite +transporta nas suas azas!</p> + +<p>Faz as tuas confidencias á lua; conta os teus segredos ás estrellas; +porque uma e outras virão, em cada noite, reflectir da altura, onde +andam suspensas, a imagem que te povoa a alma, o coração e a soledade! +Scisma; prende pelo espirito, por esse élo mysterioso, que aniquila as +distancias, o pensamento ao pensamento, que vem, de longe fundir-se com +o teu, em um só! Deixa que o coração se dilate, que a alma se expanda, e +se aqueça ao calor do sentimento que a anima!</p> + +<p>Oh! mas cahem-te dos olhos, que reflectem o céo, como se a proprio céo +elles fossem, duas perolas mimosas!</p> + +<p>Porque choras, criança? Que pêso poderão ter na balança do teu destino +essas duas lagrimas, que ninguem vê, mas que alguem beberia soffrego, +embora occultassem a morte? São o baptismo do teu amor? ou o preço da +tua felicidade?</p> + +<p>E Magdalena com o seu rosto formoso, mas nublado de melancholia, tinha +duas lagrimas a marejarem-lhe os olhos fascinadores.</p> + +<p>Aquellas duas gotas crystallinas eram as flôres das primeiras saudades +d'amor, saudades pelo primeiro homem, que lhe tocára o coração com a +varinha magica do condão do infinito sentimento.</p> + +<p>Magdalena pensava em Luiz, estava-o vendo n'aquella hora, como o vira em +sonhos tantas vezes, nas noites em que o seu coração sentia o mal estar +d'um vacuo incomprehensivel. Meigo e bondoso, affavel e doce, lá lhe +estava sorrindo, lá lhe estava fallando com a sua voz attrahente!</p> + +<p>E ella tinha saudades d'elle, saudades do dia que havia passado, e +saudades d'aquelle passeio pelo jardim, ao seu lado!</p> + +<p>Quizera-o alli sempre, quizera-o junto a si eternamente!</p> + +<p>Oh! que alternativa não estava passando o seu viçosissimo coração!</p> + +<p>D'um lado as claridades magicas do amor nascente, as promessas de Luiz, +o preenchimento do vacuo, dos desejos ardentes que ella não +comprehendia!</p> + +<p>Do outro, a ausencia, a distancia, o atear d'aquelle fogo sublime, a +sêde d'aquellas flôres, que haviam brotado na sua alma, a noite +d'aquelle dia tão repleto de encantos, a soledade, emfim!</p> + +<p>Ó mocidade! como és formosa com as tuas esperanças, com os teus receios, +com as tuas alegrias, com as tuas lagrimas, com todos esses contrastes, +que te agitam o seio, onde tudo é vida, onde tudo é enthusiasmo e +delirio! Sonhas de dia acordada, e velas de noite repousando! Nas +paginas do teu livro, se ha cantos melancholicos, ha tambem poemas +d'infinita ventura, por que o amor, que te doura as flôres e os dias, é +a fonte, onde, com uma lagrima, brotam muitos gosos.</p> + +<p>E Magdalena continuava a scismar.</p> + +<p>Era a primeira noite d'amor; o somno cedeu o logar aos receios e ás +esperanças. Dentro de sua alma e do seu coração havia um murmurio de +harmonias, constante, como o murmurio das cachoeiras da floresta.</p> + +<p>Ella tinha diante de si uma imagem e nos labios um nome--a imagem e o +nome de Luiz.</p> + +<p>Este velava tambem.</p> + +<p>Scismava em Magdalena, e estava-a vendo com os olhos do seu amor, +perpassando diante dos olhos do corpo, airosa, gentil e meiga, como a +vira n'aquelle jantar, que nunca mais poderá esquecer, e como a ouvira +n'aquelle jardim, de que ella era a flor mais candida e mais formosa.</p> + +<p>Luiz habitava na rua dos Pescadores, no Rio de Janeiro, o terceiro andar +da casa do armazem de Jorge de Macedo.</p> + +<p>Era confortavel o seu aposento, que elle andava percorrendo, +visivelmente preoccupado, d'um a outro extremo.</p> + +<p>É pequeno agora o ambito do seu coração para conter tudo quanto está +sentindo. Um mundo, vastissimo d'esperanças, se está desenvolvendo +diante dos seus olhos, no meio do qual avulta, radiante, o anjo de +Magdalena.</p> + +<p>Encheu-lhe o amor o seio.</p> + +<p>Elle, que vivia tão descuidado, entregue ás saudades da patria e da +familia, e ao desempenho das suas obrigações, esquece-se de tudo isso, +agora, esquece mesmo a imagem, duplamente santa, de sua mãe, para só se +lembrar de Magdalena, que lhe era uma pessoa estranha, uma pessoa +indifferente.</p> + +<p>Oh! o primeiro amor!...</p> + +<p>Eram fortissimas as inspirações que o dominavam e tanto mais quanto +menos as esperava.</p> + +<p>Magdalena deslumbrara-o, não só com a sua belleza, mas muito mais ainda +com a sua ingenuidade, com os seus modos despertenciosos, e com a sua +franqueza.</p> + +<p>Foi um anjo que lhe surgiu do céo, a elle, que andava na terra com a +aridez no coração.</p> + +<p>Todavia um vago pressentimento d'uma fatalidade o vinha acabrunhar por +vezes.</p> + +<p>Aquellas palavras d'Americo, quando, depois do jantar, desciam ambos +para o jardim, soavam-lhe ainda aos ouvidos e eram-lhe desagradaveis.</p> + +<p>Deram-lhe a conhecer que o mulato pertendia tambem Magdalena, e o mulato +era capaz até d'uma infamia para a conseguir.</p> + +<p>Luiz conhecia-o bem, estava ha muito tempo em contacto com elle, e +tinha-o mesmo estudado.</p> + +<p>Americo tinha os maus instinctos e a indole dos da sua raça, embora +apparentemente adoçados por uma educação rasoavel, e pela convivencia +d'aquelles com quem as suas obrigações o levavam a tratar.</p> + +<p>O jantar tinha sido n'aquelle dia, e desde que elle findara, ou antes, +desde que em casa de Jorge, os dois se separaram, ainda não tinham +trocado uma palavra, porque ainda se não tinham encontrado.</p> + +<p>Luiz tinha, porém, a certeza de que o mulato não guardaria silencio, e +dispunha-se a combater a todo o transe, se tanto fosse preciso...</p> + +<p>Que importavam a Luiz as pretenções d'Americo, se Magdalena jurára +amal-o, invocando a sacratissima memoria de sua mãe?</p> + +<p>Que lhe importava que o mulato, ferido no seu amor proprio, no seu +orgulho e nas suas ambições, pelo despreso ou pela indifferença de +Magdalena, o tentasse desthronar por meios ardilosos, por infamias até?</p> + +<p>Não tinha Luiz a sua consciencia limpa?</p> + +<p>Não lhe dizia ella que elle havia de vencer?</p> + +<p>Dizia.</p> + +<p>No entanto, é certo que o drama ia começar, que a lucta ia travar-se, +mas não face a face, e a peito descoberto.</p> + +<p>E em quanto Luiz pensava n'isto e na sua Magdalena, lá ia a lua +caminhando pelos páramos do azul sem fim, namorando a formosa filha do +cabinda, que a olhava melancholica nas saudades do primeiro amor, e +reflectindo as suas mil agulhas de prata reluzentes nas aguas +murmuradoras das cachoeiras da floresta, e no espelho do vasto +Guanabára.</p> + +<p>Ó noite! que de pensamentos não desabrocham, no meio do teu silencio, +nos corações que viçam amores á luz do teu astro argenteo!</p> + + + + +<h3>VII</h3> + + +<p>Eram oito horas da manhã do dia immediato, quando Luiz desceu para o +escriptorio.</p> + +<p>Americo já andava dando as suas ordens para o embarque de uma porção de +saccas de café.</p> + +<p>Os dois comprimentaram-se amigavelmente na apparencia, porém, com certa +reserva e um pouco de frieza, o que não era costume.</p> + +<p>Luiz trazia no rosto a pallidez impressa pela vigilia d'uma noite +inteira; Americo os traços de quem tinha uma ideia a dominal-o.</p> + +<p>E os dois socios de Jorge de Macedo dirigiram-se ambos ao escriptorio, +situado no fundo do armazem.</p> + +<p>Luiz sentou-se a escrever; Americo começou a examinar a correspondencia +do dia anterior.</p> + +<p>Os negros e os outros caixeiros andavam na labutação de pesar e ensacar +o café.</p> + +<p>--Nao sei onde te meteste hontem, desde que nos separamos no Botafogo, +principiou Americo, passando a vista de umas para outras cartas.</p> + +<p>--Eu é que te não tornei a vêr; respondeu Luiz placidamente, sem volver +os olhos dos livros, que tinha diante de si.</p> + +<p>--Fui ao theatro.</p> + +<p>--E eu vim para casa.</p> + +<p>--Ah! exclamou Americo com certo ar intencional.</p> + +<p>--Nao sei de que te admiras.</p> + +<p>--Eu? de nada.</p> + +<p>--Esse <i>ah!</i> solto assim...</p> + +<p>--Foi natural.</p> + +<p>--Talvez, mas nao creio. Parece-me que queria dizer alguma coisa.</p> + +<p>--Não. Já tiveste noticias de Magdalena!</p> + +<p>--Noticias de Magdalena?! perguntou Luiz com certo ar d'altiva +admiração.</p> + +<p>--Sim; ou não deixaste ainda as coisas n'essa altura?</p> + +<p>--Gracejas de certo, Americo.</p> + +<p>--Não gracejo, não. Então has-de negar que a não desfitaste um momento, +durante o jantar de hontem, e que lhe fizeste uma confissão d'amor, em +quanto passeiavas com ella pelo jardim?</p> + +<p>---Não nego, nem affirmo.</p> + +<p>--Calas; quem cala consente.</p> + +<p>--Não sei. Mas d'um ou d'outro modo o que me parece é que nada deves ter +com isso.</p> + +<p>--Outro tanto não digo eu.</p> + +<p>--Não sei porque.</p> + +<p>--Porque tambem sou pretendente.</p> + +<p>--Ah! sim!</p> + +<p>--Tu começaste; veremos agora qual dos dois acabará.</p> + +<p>--Veremos.</p> + +<p>--Mas porque não has-de ser franco comigo?</p> + +<p>--Franco em que? e para que? És homem como eu; tens o campo aberto, +propões a lucta, acceito-a. Se tiver a franqueza de confessar-te que amo +Magdalena, retiras? Não. Ella é que escolhe; se algum de nós lhe +convier, o outro já sabe o que tem a fazer.</p> + +<p>--E se eu fôr o escolhido?</p> + +<p>--Paciencia. E se não fores tu?</p> + +<p>--Hei-de empregar todos os meios.</p> + +<p>--Todos?</p> + +<p>--Todos, sim. Os da minha raça bem sabes que não recuam nunca, e se o +ignoras fica-o sabendo agora.</p> + +<p>--Em todo o caso diz-me: Queres a mulher pelo dinheiro, ou queres a +mulher porque a amas.</p> + +<p>--Quero-a por ambas as causas... principalmente.</p> + +<p>--Comprehendo.</p> + +<p>--Julgas, talvez, que na balança da conquista, o prato pende mais para o +teu lado? Enganas-te. Nós, os brazileiros, e sobre tudo os que, como eu, +teem na face a côr bronzeada do cruzamento das raças, estamos fartos de +vêr que os pobretões dos portuguezes nos venham, de tão longe, roubar as +mulheres e o dinheiro.</p> + +<p>Luiz córou e pôz-se d'um pulo em pé.</p> + +<p>--Insultas-me! exclamou elle.</p> + +<p>--Não; digo a verdade.</p> + +<p>--Dizes a verdade! bradou Luis com ironia. Havia de fazer engulir-te a +phrase se não conhecesse que fallas despeitado. Fallas dos pobretões dos +portuguezes! Que seria de ti e dos teus se não fossem elles! Morriam +todos de fome, haviam de ser uns miseraveis! Nós é que trabalhamos, nós +é que vos sustentamos, pódes ter a certeza d'isto. Se vos levamos o +dinheiro, levamos apenas uma parte do fructo do nosso suor, ficando tu e +todos os teus com a outra, com a maior, sem o minimo esforço de corpo e +de espirito; se nos ligamos com as vossas filhas é por que as merecemos, +é porque somos verdadeiramente dignos d'ellas, para não dizer que mais +honra lhes vai com estas allianças, do que a nós. Repito; eu queria vêr +o que seria de vós se não fossem os pobretões dos portuguezes; de vós, +que apenas nascesteis para vos bamboleardes na rêde, indolentes, +occiosos, tomando o vosso café e fumando o vosso cachimbo.</p> + +<p>--Seja como fôr; não discuto nobrezas de nacionalidade. O que te digo é +que hei-de empregar todos os meios para conseguir Magdalena.</p> + +<p>--E eu affirmo-te que nem um só vingará.</p> + +<p>--Veremos.</p> + +<p>--Veremos. Declaras-te meu inimigo, atiras-me a luva, levanto-a. Conheço +agora que has-de usar de todas as armas, desde a hypocrisia, desde o +ardil apurado até á infamia, até ao crime refinado. Pouco importa. +Hei-de bater-te com a verdade, só com ella te hei-de derrotar. Todavia, +recommendo-te prudencia, porque se o meu braço se envergonhar de +castigar-te, talvez haja quem o faça sem que o esperes.</p> + +<p>--Ameaças-me?</p> + +<p>--Não; previno-te.</p> + +<p>--Pois bem; eu me defenderei.</p> + +<p>--Mas de modo que não vás ferir aquelle que ainda hontem, além de nos +sentar á sua meza como amigos, nos elevou á dignidade de partilharmos da +sua fortuna. A lucta é comigo, e só comigo, e se me encontras disposto a +combater-te, não me encontrarás disposto a tolerar-te a minima coisa que +possa, mesmo de leve, ferir Jorge de Macedo, que é hoje meu socio, meu +protector e meu amigo, finalmente. Mais ainda, Americo, e isto vale uma +ameaça. Magdalena é uma pessoa sagrada para mim, e exijo que o seja para +ti. A menor falta de respeito da tua parte, a menor insolencia que lhe +dirijas, pagal-a, bem paga, fica certo d'isso. A contenda é comigo e só +comigo, ainda uma e ultima vez t'o digo.</p> + +<p>--Pouco me importam as tuas ameaças, e respondo a ellas com uma +gargalhada.</p> + +<p>--Bem sei que vai até ahi o teu cynismo e a tua cobardia.</p> + +<p>--Luiz!...</p> + +<p>--Cobardia, sim! affirmou Luiz perfilando-se destemido em face de +Americo.</p> + +<p>Este ia, n'um impeto de raiva, a lançar-se ao guarda livros, mas ao +vêl-o tão resoluto, ao vêr-lhe nos olhos a chamma da valentia e a +coragem com que o esperava, recuou, deteve-se, e volveu-se, saindo a +dizer:</p> + +<p>--Ia-me zangando! A occasião não era propria, e nem mesmo valia a pena. +Tenho tempo de desforrar-me.</p> + +<p>--Ou de levares uma licção que te aproveite, canalha! respondeu Luiz.</p> + +<p>Dois minutos depois, já Americo andava ordenando e vigiando o trabalho +dos negros e mais caixeiros do armazem, e Luiz continuava escrevendo, +como se nada lembrasse a cada um d'elles d'aquella scena que o mulato +havia provocado.</p> + +<p>No entanto Luiz estava livido, d'esta lividez produzida pela raiva +sopeada, e Americo, no meio da labutação dos seus subordinados, trazia +nos olhos espelhado claramente, o pensamento, o desejo de vingança, que +lhe avultava no seio.</p> + +<p>A imagem, formosa sempre, e sempre sympathica de Magdalena, lá estava, +apesar de tudo, interposta entre os dous, a separal-os, a affastal-os, a +lançal-os, sem mesmo ella o pensar, em uma lucta tremenda, que devia +necessariamente terminar muito mal para um d'elles, pelo menos.</p> + +<p>Luiz via-a com os olhos do seu amor, do seu affecto, da sua virtude; +Americo com os olhos dos seus desejos desenfreados de vingança, com os +olhos da sua ambição e do seu calculo.</p> + +<p>Magdalena era o centro d'uma linha nos extremos da qual se agitavam +convulsivamente sentimentos inteiramente oppostos.</p> + +<p>Teriam ambos a mesma força?</p> + +<p>Qual d'elles tinha de attrahil-a?</p> + +<p>É facil prevel-o. A imagem de Luiz já lhe enchia o seio, já lhe havia +povoado os sonhos da primeira noite d'amor, aquelles sonhos porque ella +passára accordada, solitaria na sua janella, com os olhos cravados na +lua, e a alma a sentir o <i>gosto amargo</i> d'uma saudade indefinida.</p> + + + + +<h3>VIII</h3> + + +<p>Eram tres horas da madrugada, quando Magdalena se retirou da janella, +onde a vimos tão scismadora, tão embebecida na contemplação silenciosa +da rainha da noite, que, apesar de bem alta, ainda ia vaidosa a mirar-se +nos crystallinos espelhos dos lagos adormecidos, e gosando as suaves +emanações das flores dos jardins.</p> + +<p>Nunca a formosa virgem tivera uma noite de sensações tão violentas, +esmaltada de tantos receios e de tantas esperanças, de tantas rosas e de +tantos espinhos.</p> + +<p>A imagem de Luiz, ora lhe sorria cariciosa, meiga, e cheia de bondade, +ora lhe apparecia gelada, fria, e grave, com todos os traços d'uma +indifferença verdadeira.</p> + +<p>Eram as alternativas do amor; era esta serie de contrastes e antitheses +que o constituem, e de que elle proprio se alimenta, inflamma e vive!</p> + +<p>Todavia, n'esta opposição de ideias, de phantasias, d'aspirações, que a +dominavam e agitavam, o predominio era inquestionavelmente para o +pensamento da felicidade, que tão magicamente lhe sorria no amor de +Luiz.</p> + +<p>O amor de Luiz!...</p> + +<p>Aquelle sentimento era o céo com todas as suas bellezas; com as +harmonias dulcissimas das harpas afinadas dos seus anjos; com todos os +cambiantes das luzes formosas dos seus astros scintilladores!</p> + +<p>E foi n'este diliciosissimo vago d'uma esperança de ventura que +Magdalena adormeceu.</p> + +<p>Os olhos, aquelles olhos sempre formosos, cederam por fim ao pêso da +somnolencia, e deixaram-se velar docemente pelas palpebras, quasi +transparentes.</p> + +<p>Não cessaram porém as ondulações do seio, que estava sendo o leito d'um +vasto oceano d'amor.</p> + +<p>Não cessaram, não, porque ainda se prolongava o sonho, em que, +inteiramente embebida, se havia demorado na janella, d'onde sahira +momentos antes.</p> + +<p>A formosa filha do cabinda estava vendo diante de si vastissimas +campinas de flores perfumadas; estava ouvindo umas harmonias alegres, +como nunca ouvira; tinha por cima o céo azul, limpido e sereno dos dias +tropicaes, e em baixo, na terra, a esteira matizada de flores, que a mão +d'uma fada branca, aeria e vaporosa, andava espargindo prodigamente.</p> + +<p>Ó mocidade! como são magicos os teus sonhos, quando te perfumam o seio +largo, as emanações balsamicas dos roseiraes floridos do amor! Como é +deslumbrante e querida a imagem, que te faz palpitar o coração, gravada +nos raios prateados de cada estrella, reflectida na superficie serena de +cada lago, envolta nas harmonias suaves e doces do cahir da agua de cada +cachoeira, presa nas mil palhetas douradas do sol de cada esperança, e +engastada na muldura valiosa das perolas de cada crença!</p> + +<p>Sonha, Magdalena, sonha! Na tua idade, os sonhos são vida, a vida é +ventura e a ventura parece não ter fim!...</p> + +<p>Sonha, em quanto te doura a fronte, e se reflecte no negro assetinado +dos teus formosos cabellos, o sol vivificante dos teus vinte annos tão +perfumados.</p> + +<p>E Deus queira que um dia não tenhas de beber a sicuta das desillusões, o +calix amargo e mortal do fel da desventura!</p> + +<p>Desponta propicia a estrella do teu amor; prophetisam-te alegrias os +canticos suaves, que te embalam o somno leve... Dorme, virgem; dorme, +sonha, vive, e gosa!</p> + +<p>E Magdalena sonhava.</p> + +<p>N'aquelle momento, havia, porém, dois homens que a estavam vendo com +olhos d'affecto formosamente sincero, mas inteiramente distincto.</p> + +<p>Eram Luiz, que não podera conciliar o somno, e o negro, o cabinda, que +havia accordado a pensar na felicidade da sua filha.</p> + +<p>As seis horas da manhã já o sol dourava, com todo o seu deslumbrante +explendor, a vegetação opulenta das mattas virgens, e as florinhas +mimosas dos jardins vicejantes. As aves mandavam ao céo, nas azas +invisiveis da viração do sul, o seu cantico matinal de graças e louvor. +Sorria-se inteira a natureza, n'um sorriso que era como um hymno +abençoando o Creador!</p> + +<p>O cabinda andava já, contente do seu trabalho, entregue á limpeza das +folhas seccas, cahidas, durante a noite, em volta do lago, onde +Magdalena costumava ir sentar-se, pensativa, no fim de cada tarde.</p> + +<p>E tão embebido andava o negro, que nem viu a sua filha approximar-se +d'elle, surgindo d'uma das aleas da chacara, orlada de mangueiras, +cajueiros e pitangueiras.</p> + +<p>--Tão entretido, cabinda! disse Magdalena approximando-se.</p> + +<p>--A minha filha! exclamou o negro, depois de se volver admiradissimo, +com um sorriso d'intima alegria a pairar-lhe no semblante.</p> + +<p>--Então? volveu ella. Julgas que só tu te levantas com o sabiá das +laranjeiras?</p> + +<p>--O negro não esperava a senhora moça, não. A sua benção.</p> + +<p>--Quero que vás á cidade.</p> + +<p>--Ao branco? perguntou elle com rapidez.</p> + +<p>--Sim. Vais levar este bilhete ao senhor Luiz, mas has de entregal-o só +a elle, ouviste?</p> + +<p>--Descance a minha filha, o negro vai já.</p> + +<p>E depois, como recordando-se d'alguma coisa passada, o negro continuou:</p> + +<p>--Oh! o cabinda bem dizia, que o branco dos sonhos da senhora moça havia +de chegar. É elle; o branco veiu e a minha filha gosta do branco.</p> + +<p>--Ah! suspirou Magdalena, enlevando-se nos sonhos do seu affecto. Ah! se +tu soubesses como eu o amo!</p> + +<p>--É como o cabinda á sua parceira e aos seus filhos que lhe tiraram.</p> + +<p>--Mais, mais ainda! Tu não imaginas como eu sou doida por elle! +Pertence-lhe a minha vida, o meu coração, a alma, o pensamento! Sou toda +d'elle, e não poderia viver sem elle. Tu, oh! tu não sabes o que eu +sinto, não! Penso n'elle de dia, de noite, a toda a hora, e sempre! Tu +contentas-te em ter saudades da parceira, que te tiraram, dos filhos de +que te separaram; e eu morria se elle me faltasse, morria, sim!</p> + +<p>--E o branco tambem quer muito á minha filha, muito; acudiu o cabinda, a +quem o enthusiasmo de Magdalena, havia enthusiasmado tambem.</p> + +<p>--Quem sabe? murmurou ella, n'uma expressão d'alguma duvida.</p> + +<p>--O negro vê. Hontem, no jantar, os olhos do branco buscavam os olhos da +senhora moça. Eram como a jurity do matto, a chamar a companheira entre +as folhas do capim...</p> + +<p>--Isso era hontem, mas agora?... respondeu Magdalena com melancholia.</p> + +<p>--Agora, senhora moça, o negro vai e hade trazer alegrias á sua filha.</p> + +<p>--Vem depressa, ouviste?</p> + +<p>--O negro não tardará.</p> + +<p>E o cabinda guardou o bilhete que Magdalena lhe déra, e partiu +apressado, volvendo-se, de quando em quando, para traz.</p> + +<p>No seio da formosa virgem havia uns alvoroços immensos. Era a esperança +que os originava, a dourada esperança, em que Magdalena ficava, de que +depois das suas noticias, que mandava a Luiz, este lh'as mandaria +tambem, n'um repetido protesto de grandissimo affecto.</p> + +<p>Subiu.</p> + +<p>Ao chegar ao topo da escada, encontrou-se com Jorge.</p> + +<p>--Tão cêdo cá por fóra, filha! exclamou elle, um tanto admirado ao +vêl-a.</p> + +<p>--Estava uma manhã tão bonita! vim vêr as minhas flôres.</p> + +<p>E beijou-lhe a mão e abraçou-o, cariciosa e meiga.</p> + +<p>--E tão cêdo as deixas, doidinha!</p> + +<p>--Já as vi, já lhes fallei, papae.</p> + +<p>--E agora que vaes fazer?</p> + +<p>--Uma visita a outro amigo... disse ella, sorrindo.</p> + +<p>--Pois ainda tens mais affeiçoados, Magdalena?</p> + +<p>--Se tenho, papae! disse ella, suspirando. Então o meu piano?</p> + +<p>--D'aqui a pouco esqueces-me de certo. Se vaes assim a repartir o teu +affecto, não deixas no teu coração um cantinho para teu pae!</p> + +<p>--Oh! o logar do papae ninguem o tira, ninguem!</p> + +<p>--Nunca?</p> + +<p>--Nunca!</p> + +<p>E Magdalena prendeu-o pelo pescoço, sorrindo com meiguice, e +imprimiu-lhe na face dous osculos purissimos.</p> + +<p>Jorge acolheu-os como os paes acolhem os beijos dos filhos, quando os +paes são paes, e os filhos não degeneram.</p> + + + + +<h3>IX</h3> + + +<p>O cabinda chegou á rua dos Pescadores, no Rio, alguns minutos depois de +terminada a disputa entre Luiz e Americo.</p> + +<p>O escriptorio, como já dissemos, era situado no fundo do armazem, e +resguardado por uns tapamentos de madeira, que interceptavam a vista do +seu interior ás pessoas que entravam.</p> + +<p>Americo estacou, e como que teve um estremecimento, vendo surgir o +negro. Dissimulou-o, porém, o mais que pôde, e foi encostar-se a uma +porta lateral.</p> + +<p>--Louvado seja o Senhor! disse o negro, entrando.</p> + +<p>--Adeus, cabinda; respondeu Americo docemente.</p> + +<p>--O negro quer fallar ao senhor Luiz.</p> + +<p>--O teu senhor não vem hoje á cidade? perguntou Americo com intenção.</p> + +<p>--O negro não sabe.</p> + +<p>--Quem te mandou, então?</p> + +<p>--A senhora moça.</p> + +<p>E o cabinda lançou a Americo um olhar perscrutador.</p> + +<p>--A senhora moça? perguntou o mulato, admirado do pouco segredo que o +negro guardava da sua missão.</p> + +<p>--Sim.</p> + +<p>--Trazes recado ou carta? acudiu Americo rapidamente.</p> + +<p>--O negro traz carta.</p> + +<p>--Dá cá, que eu vou entregal-a ao senhor Luiz.</p> + +<p>--A ordem da senhora moça é só para entregar a elle.</p> + +<p>Americo encolerisou-se com a resposta do cabinda, e disse, raivoso:</p> + +<p>--Bem se vê que és negro!</p> + +<p>--Como o pae de muita gente, respondeu aquelle.</p> + +<p>--Patife!...</p> + +<p>--O negro é cabinda, e o cabinda é raça fina. O mulato é filho de branco +e de negro...</p> + +<p>Americo sentiu-se altamente atacado, mas enguliu a affronta, que +provocára. Teve vontade de atirar logo dous murros ao negro, mas o +receio deteve-o, porque tinha diante de si um homem possante, que, +embora escravo, era, comtudo, um escravo estimado e querido. No meio da +sua ira, e, digamos, da sua cobardia, limitou-se a ameaçar:</p> + +<p>--Deixa estar, que o teu senhor saberá que andas a trazer e a levar +recados da senhora moça, patife!</p> + +<p>--O negro não tem mêdo.</p> + +<p>E o cabinda deu-lhe as costas, e dirigiu-se ao escriptorio, onde lhe +parecêra ouvir a voz de Luiz.</p> + +<p>Chegou á porta e metteu a cabeça.</p> + +<p>--Licença.</p> + +<p>--Ah! és tu, cabinda? Entra; acudiu Luiz, largando a penna.</p> + +<p>--O negro, meu branco.</p> + +<p>--A que vens?</p> + +<p>--Trazer isto. Manda a senhora moça.</p> + +<p>E tirando do bolço o bilhete de Magdalena, entregou-o a Luiz, esperando +com alegria, sorrindo de contentamento.</p> + +<p>Luiz sentiu um d'esses abalos, grandemente bello; um d'esses choques, +que se sentem sempre que nos chega a mão a primeira e suspirada carta do +objecto do nosso amor.</p> + +<p>Que papel aquelle! que thesouro não estava alli!</p> + +<p>Fossem dizer ao sympathico moço que o não lêsse! offerecessem-lhe por +elle todas as riquezas do mundo!</p> + +<p>Recusava, de certo, e recusava sem a minima hesitação!</p> + +<p>Apenas o perfumado papel lhe chegou ás mãos, Luiz abriu-o com uma +rapidez vertiginosa, e lançou ao contheudo os olhos, mais como quem o +devorava, do que como quem o estava lendo.</p> + +<p>Era uma soffreguidão nervosa, natural, exigida até pelas circumstancias.</p> + +<p>O cabinda que lhe seguia o menor dos movimentos, que parecia mesmo estar +lendo o que se passava no seu intimo, permanecia immovel, suspenso, +n'uma contemplação profunda e silenciosa;</p> + +<p>A leitura da pequenina carta foi rapida, mas, n'esse pequeno momento da +sua duração, Luiz subiu todas as notas da escala harmoniosa dos +transportes sublimes da ventura.</p> + +<p>O bilhete dizia o seguinte:</p> + +<div class="carta"> <p class="direita">«Luiz</p> + +<p>«Ainda não ha vinte e quatro horas que me deixaste e já não posso com as +saudades, que me magoam. Vem-me vêr quando poderes e diz-me sempre que +nunca hasde esquecer a... tua</p> + +<p class="direita">Magdalena.»</p> + +<p>«P. S. Passei a noite a pensar em ti, e até nas tres horas, que a fadiga +me obrigou a repousar, tive sempre, ao meu lado, em sonhos lindos, a tua +imagem, que me sorria e eu acariciava.»</p> </div> + +<p>Era curta a missiva mas, em compensação, eloquentissima.</p> + +<p>E Luiz olhou para o negro.</p> + +<p>--Então? perguntou este.</p> + +<p>--Ah! cabinda! cabinda! exclamou o moço com duas grossas lagrimas a +brilharem-lhe nas pupillas.</p> + +<p>--O branco chora? que tem? interrogou o negro rapidamente, passando do +extremo da alegria ao extremo do receio.</p> + +<p>--Choro, sim, e olha que nunca os meus olhos verteram lagrimas como +estas! São de ventura, são de felicidade! Cada uma me vale o céo, cada +uma é um hymno, cada uma é um poema! Choro, porque nem só a dôr, nem só +a tristeza, nem só o infortunio, tem lagrimas. A alegria, quando é tão +grande, como a que eu estou sentindo, tambem as tem, tambem se adorna +com ellas. Aquellas são amargas, são negras, queimam e ferem; estas, que +tu vês nos meus olhos, teem o explendor d'um sol formoso, são dôces, +porque resumem a essencia d'um nectar suavissimo, dão vida, porque +contéem em si os elementos que a vigorisam! Choro, porque sou feliz, +cabinda!</p> + +<p>O negro ouviu Luiz n'uma anciedade indiscriptivel. O peito arfava-lhe +com violencia; era um mar tempestuoso. Os olhos, os seus grandes olhos, +estavam pregados em Luiz. Susteve-se assim em quanto o amoroso moço ia +fallando, enlevado nos transportes do seu grandissimo affecto. Mas +apenas elle acabou, o negro acudiu logo immediatamente:</p> + +<p>--E o branco gosta da senhora moça?</p> + +<p>--Oh! se a amo!...</p> + +<p>--Muito?</p> + +<p>--Até ao delirio!</p> + +<p>--Obrigado, meu branco! obrigado, meu branco! exclamou o negro, beijando +phreneticamente as mãos ao moço.</p> + +<p>--Que fazes, cabinda? acudiu Luiz, commovido, porque traduzia n'aquelles +beijos a affeição do escravo por Magdalena.</p> + +<p>--É porque a senhora moça é filha do cabinda, e o negro quer a senhora +moça muito feliz.</p> + +<p>--És uma grande alma!</p> + +<p>--Mas o mulato...</p> + +<p>--Oh! o mulato, acudiu de prompto Luiz, é preciso cautela com elle!</p> + +<p>--O cabinda não dorme! disse o negro em um tom d'ameaça.</p> + +<p>--Bem. Agora vou escrever duas linhas e não te demores. Vai logo, sim?</p> + +<p>--A minha filha espera, bem sei.</p> + +<p>Luiz sentou-se e escreveu as seguintes linhas:</p> + +<div class="carta"> <p class="direita">«Magdalena</p> + +<p>«Poderei esquecer tudo, mas esquecer-te a ti, nunca. Fizeram-me bem as +tuas palavras, E se estás soffrendo a melancholia das saudades que +sentes por mim, eu estou entre as nuvens da tristeza, d'esta ausencia, +em que nos tem uma distancia tão curta. Passaste a noite scismando em +mim; eu não repousei, pensando em ti. Lá havias de sentir no teu seio os +echos do meu pensamento. Irei vêr-te quando podér, e crê que te amo, que +te adoro muito, muitissimo.</p> + +<p class="direita">«Luiz.»</p> </div> + +<p>O negro partiu.</p> + +<p>Quando chegou ao Botafogo ainda Magdalena estava sentada ao piano, para +onde a vimos encaminhar-se depois de ter affagado Jorge, seu pae, com +dous affectuosissimos beijos.</p> + +<p>O piano não estava agora gemendo deliciosas harmonias; estava sendo a +victima da anciedade, em que Magdalena esperava o cabinda.</p> + +<p>As mãos ora corriam rapidas, ora vagarosas, traduzindo claramente os +sentimentos e as ideias que se iam succedendo na sua juvenil imaginação.</p> + +<p>De quando em quando, corria á janella a vêr se divisava o negro, mas +voltava com a melancholia no rosto, sempre formoso.</p> + +<p>O cabinda entrou n'um dos intervallos em que ella tocava.</p> + +<p>Apenas elle surgiu á porta da sala, Magdalena deu um grito.</p> + +<p>Inundou-lhe o rosto todo o explendor do sol das alegrias. Os olhos +faiscaram centelhas de felicidade.</p> + +<p>--Então? que trazes? perguntou ella, correndo para o negro.</p> + +<p>--Carta do branco.</p> + +<p>--Dá cá, depressa, anda.</p> + +<p>O negro entregou a carta de Luiz e Magdalena começou a lêl-a do mesmo +modo que aquelle havia lido a d'ella.</p> + +<p>Eram eguaes as impressões, eguaes as circumstancias, eguaes os +sentimentos da occasião.</p> + +<p>Ao findar a leitura, Magdalena deitou os braços aos hombros do escravo, +e exclamou, ébria de contentamento, douda d'alegria:</p> + +<p>--Ah! cabinda! cabinda!</p> + +<p>--Está contente a senhora moça?</p> + +<p>--Oh! muito! muito! nem tu sabes como eu sou feliz!</p> + +<p>--É isso o que o negro quer, porque a senhora moça é filha do cabinda!</p> + + + + +<h3>X</h3> + + +<p>Jorge de Macedo chegou ao armazem pouco depois do negro ter sahido.</p> + +<p>Luiz e Americo cumprimentaram-o com a delicadeza devida. O capitalista +recebeu-os como socios seus, affavel, risonho, bondoso, mesmo com um +tanto da meiguice que o caracterisava.</p> + +<p>Jorge de Macedo era um homem sympathico, moral e physicamente. A sua +physionomia era d'estas que attrahem á primeira vista, os seus actos +modelados em harmonia com a virtude, com a honra, com a probidade, com +todo o cavalheirismo, emfim.</p> + +<p>Ficára viuvo muito cedo. A necessidade obrigou-o a ser carinhoso com a +filhinha, que ficava orphã das dulcissimas meiguices de mãe. A sua alma +identificou-se com aquella necessidade e Jorge tornou-se homem sensivel, +bondoso e em extremo meigo.</p> + +<p>Os seus subordinados eram tratados, não como taes, mas como amigos. Os +pobres tinham sempre aberta a sua bolça. Para as grandes emprezas, para +qualquer melhoramento do progresso era sempre o primeiro a dar o seu +nome e a concorrer com os seus fundos.</p> + +<p>Tudo isto o fazia estimado e querido, tudo isto lhe valia um nome +honrosissimo, apesar da sua vida retirada, porque Jorge, não por +systema, mas por indole, apenas tinha e alimentava a convivencia com as +pessoas, a quem o ligavam os seus negocios.</p> + +<p>Desde que fallecera Beatriz, a sua esposa querida, ninguem mais o viu em +um baile, em um club, em uma associação recreativa.</p> + +<p>Magdalena resumia-lhe todos os encantos, todas as distracções, todos os +prazeres.</p> + +<p>Com ella, com a sua adorada filha, passeiava elle muitas vezes, +n'aquella alegria d'um doce bem estar, d'um gosar inalteravel de +venturas suavissimas.</p> + +<p>Magdalena fôra educada esmeradamente, com todos os vivos cuidados d'um +pae amantismo, mas sem o desenvolvimento, que mais tarde se desata em +grandes exigencias, em superfluidades, em loucas ostentações. Jorge +cercara-a sempre de todas as commidades, mas não a affastára nunca d'uma +simplicidade abundante.</p> + +<p>As amigas de Magdalena fallavam-lhe de bailes, das alegrias, dos +ehthusiasmos de qualquer reunião d'este genero, ella respondia, fallando +do seu piano, das musicas novas, das bellezas d'algum livro, das +alegrias d'um passeio ao lado do seu pae.</p> + +<p>E Magdalena vivia assim, contente, satisfeita, risonha e feliz, graças +ao systema d'educação empregado por Jorge.</p> + +<p>A affabilidade, porém, do nosso capitalista, não se limitava á sua +filha, não se resumia só n'ella; estendia-se, como já dissemos, a todos +os que tinham o prazer de o tratar, fossem grandes ou pequenos, pobres +ou ricos.</p> + +<p>Os proprios escravos eram os primeiros a estimal-o, porque não deixando +de se fazer tratar por elles com o respeito devido, tambem os não +olhava, como em geral, com olhos de despreso, nem os carregava +d'asperidades, maus tratos e indifferença.</p> + +<p>Jorge acolheu, pois, affavelmente os seus novos socios e dirigiu-se ao +escriptorio, para resolver os trabalhos e negociações do dia com elles.</p> + +<p>Leu-se a correspondencia, fizeram-se deliberações, disposeram-se algumas +transacções de commum accordo.</p> + +<p>Jorge tinha no negocio uma longa pratica de muitos annos. O seu modo de +vêr as cousas era d'um alcance vasto.</p> + +<p>Luiz e Americo ouviam-o attentos e tomavam as suas palavras como +conselhos e lição.</p> + +<p>Depois de uma hora de conferencia o capitalista sahiu.</p> + +<p>Luiz ficou entregue á escripturação e Americo passou ao armazem a +dirigir o trabalho dos negros e caixeiros.</p> + +<p>Os dois associados não mostraram o menor vislumbre do resentimento, nem +das más disposições em que se achavam um com outro, na presença de +Jorge.</p> + +<p>Bem pelo contrario, fallavam, consultavam-se, e olhavam-se, como duas +pessoas ligadas por estreitissimos laços de amisade e de sympathia.</p> + +<p>A presença de Jorge continha-os dentro dos limites do respeito. Além de +que, qualquer d'elles se julgava culpado perante a propria consciencia. +Luiz ainda podia alliviar a culpa com a ideia do sentimento que o +dominava, do amor que lhe estava enchendo o coração. Americo, esse, não +tinha uma unica appellação.</p> + +<p>Jorge voltou de novo ás duas horas e foi encerrar-se com Luiz no +escriptorio. Conversaram por largo tempo, e quando ás tres da tarde +sahiu para regressar á chacara, chamou Americo e disse-lhe:</p> + +<p>--O senhor Luiz sahe amanhã no vapor das 8 horas para Macahé. Vai a +negocios meus. Quando vier a correspondencia abra e dê as suas ordens +como entender conveniente.</p> + +<p>--Sim, senhor.</p> + +<p>--Se até eu chegar, fôr preciso alguma coisa queira mandar-me aviso ao +Botafogo.</p> + +<p>--Não ha de ter duvida.</p> + +<p>--Adeus.</p> + +<p>Apertaram as mãos e Jorge sahiu.</p> + +<p>Americo exultou de contentamento com a inexperada sahida de Luiz. Eram, +pelo menos, quatro dias de demora, e em quatro dias podia, pensava elle, +conseguir derrubar o seu rival do throno aonde começava a sentar-se.</p> + +<p>Luiz ficou triste com a noticia, pelo lado do coração. Assaltaram-o logo +as saudades por Magdalena, e, sobre tudo, a ideia de que o mulato +poderia aproveitar a sua ausencia para commetter alguma infamia.</p> + +<p>Exultou, porém, pelo lado da consciencia, porque ia desempenhar uma +missão, em nome d'aquelle, a quem devia amisade, estima, confiança, e +fortuna até.</p> + +<p>Estava d'um lado o amor, do outro o dever.</p> + +<p>A ausencia ia ser por poucos dias e uma voz intima lhe segredava ao +coração, que havia de voltar a encontrar Magdalena, firme ainda no seu +juramento, constante no seu affecto.</p> + +<p>Luiz confiava na pureza dos seus sentimentos, e tanto bastava para crêr +que um anjo bom havia de proteger a sua causa.</p> + +<p>Demais, bem sabia elle que o cabinda olharia pela sua filha.</p> + +<p>Todavia Luiz não queria partir sem annunciar a Magdalena a sua ausencia. +Ainda tinha tempo.</p> + +<p>No dia seguinte, ás sete horas, já elle andava de pé.</p> + +<p>O mulato passára a noite a fazer e a desfazer planos. A ausencia do seu +associado sorria-lhe fagueiramente. No entanto nada poude decidir +positivamente, porque tinha a certeza de que Luiz tomaria todas as +precauções.</p> + +<p>Além d'isto, um dos maiores obstaculos que se levantavam, em face de +qualquer resolução tomada, era o negro, era o cabinda de quem tinha, sem +duvida, muito e muito a receiar.</p> + +<p>A ultima resolução foi a de esperar o curso das cousas.</p> + +<p>O mais provavel era que Luiz mandasse alguem a Magdalena, e n'esse caso +elle faria todas as diligencias para o evitar.</p> + +<p>Luiz tambem não tinha outro recurso. Sahir sem avisar Magdalena não o +fazia de certo, não podia fazel-o. Ainda se a demora fosse d'um dia! mas +quatro pelo menos! Quatro dias era muito, sobretudo, para quem sente as +primeiras saudades que são sempre mais dolorosas, mais profundas.</p> + +<p>Tomou a resolução de escrever a Magdalena, mandando-lhe a missiva por um +dos negros do armazem. Nunca o cabinda foi tão desejado, nunca!</p> + +<p>Escreveu, pois, e incumbiu um dos escravos de chegar ao Botafogo, logo +que Jorge viesse da chacara.</p> + +<p>Ás horas convenientes despediu-se friamente do mulato, que já andava de +vigia, e partiu para o local d'onde sahiam os vapores da carreira para +Macahé.</p> + +<p>Luiz levava a dôr das suas saudades e os receios d'alguma infamia do +mulato...</p> + +<p>Ás nove horas entrava Jorge no armazem.</p> + +<p>Americo, depois dos cumprimentos do estylo, e d'alguns cavacos sobre a +correspondencia e negociações do dia, deixou-o no escriptorio e veio ao +armazem.</p> + +<p>Chamou os negros, interrogou-os a todos, perguntando se algum fôra +incumbido pelo senhor Luiz de ir ao Botafogo levar algum recado.</p> + +<p>Um d'elles respondeu que sim.</p> + +<p>--A que? perguntou Americo.</p> + +<p>--Levar isto á senhora moça.</p> + +<p>--Deixa vêr.</p> + +<p>E tomou das mãos do negro a carta fechada, que este lhe apresentou.</p> + +<p>--Não é preciso ires, eu mandarei lá.</p> + +<p>E guardou a carta, contente, n'uma alegria visivel, em que se traduzia o +sentimento d'uma vingança quasi realisada.</p> + +<p>O mulato era um infame, e esquecia-se de que a Providencia vela sempre +pelos justos e pelos bons!</p> + +<p>A grande questão d'Americo era, quando não conseguisse para si +Magdalena, empregar todos os meios para que Luiz a não conseguisse +tambem.</p> + +<p>N'este desejo é que elle ia trabalhar, e, sobretudo, aproveitar os +poucos dias d'ausencia do seu socio, que, a bordo do vapor da carreira, +ia curtindo saudades, sempre com a imagem seductora e deslumbrante de +Magdalena a povoar-lhe a visão, e a apparecer-lhe em tudo!</p> + + + + +<h3>XI</h3> + + +<p>Americo, apenas Jorge sahiu, foi ao escriptorio, sentou-se, tomou uma +folha de papel e escreveu a seguinte carta:</p> + +<div class="carta"> <p class="direita">«Ex.<sup>ma</sup> Snr.<sup>a</sup></p> + +<p>«O meu amigo e socio, Luiz de Mello, sahiu hoje, inesperadamente, para +Macahé, no vapor das 8 horas, a negocios do seu ex.<sup>mo</sup> pae. Deixou-me uma +carta para V. Ex.<sup>a</sup>, recommendando-me que das minhas mãos só sahisse para +as suas. Pediu-me tambem todo o segredo, e para que ninguem me veja, +peço a v. ex.<sup>a</sup> o obsequio de apparecer esta noute, ás 10 horas, no +caramanchão da chacara, junto ao lago, onde me encontrará para entregar +a V. Ex.<sup>a</sup> a referida carta.</p> + +<p class="direita">De V. Ex.<sup>a</sup>, etc.,</p> + +<p class="direita"><i>Americo d'Abreu.</i>»</p> </div> + +<p>Fechou, e subscriptou a Magdalena, sahiu, chamou um negro de fretes e +enviou-o ao Botafogo, á chacara de Jorge.</p> + +<p>Voltou ao armazem, mas em sobresaltos, com o receio de que, uma recusa +de Magdalena lhe poderia frustrar tão magnifico ensejo.</p> + +<p>A formosa filha do cabinda ficou duplamente surprehendida com a carta do +mulato.</p> + +<p>D'um lado a ausencia de Luiz, do outro o convite nocturno que Americo +lhe fazia.</p> + +<p>Teve o presentimento d'uma traição, d'um ardil, d'um estratagema, e quiz +responder immediatamente que não concedia a entrevista pedida.</p> + +<p>Mas Americo fallava-lhe d'uma carta de Luiz, e ella hesitou.</p> + +<p>Ficou na alternativa d'uma duvida, espinhosa, inquietadora, turturante +mesmo. Acceder era collocar-se n'uma posição altamente compromettedora; +não acceder, se Luiz havia effectivamente escripto a carta, era um +desgosto grandissimo.</p> + +<p>Magdalena via-se pela primeira vez entre as vicissitudes d'um amor, que +nasce espontaneo, caudaloso e vehemente.</p> + +<p>Estava na dolorosa espectativa d'uma grandissima hesitação, quando +entrou o cabinda.</p> + +<p>O negro era n'aquelle momento o anjo bom de Magdalena. Só elle a podia +tirar dos embaraços que a prendiam.</p> + +<p>Magdalena exultou de alegria, vendo-o entrar.</p> + +<p>--Ah! ainda bem que vens! exclamou ella, correndo para o negro. Não +podias chegar em melhor occasião.</p> + +<p>--Quer alguma cousa ao negro a senhora moça?</p> + +<p>--O senhor Luiz foi para Macahé.</p> + +<p>--O branco? perguntou o cabinda admirado.</p> + +<p>--Sim.</p> + +<p>--Quem o disse á minha filha?</p> + +<p>--O senhor Americo.</p> + +<p>--O mulato? interrogou o negro, mais admirado ainda.</p> + +<p>--Sim. Escreveu-me esta carta a dar-me a noticia, e a pedir-me para esta +noute ás 10 horas apparecer no caramanchão do lago, para me entregar uma +carta de Luiz.</p> + +<p>--E porque a não mandou o mulato?</p> + +<p>--Porque só a mim a quer entregar.</p> + +<p>O cabinda sorriu-se n'uma expressão d'ironia e d'ameaça.</p> + +<p>--E a senhora moça o que responde?</p> + +<p>--Não sei. Tenho mêdo. Tu que dizes?</p> + +<p>--Que a minha filha diga ao mulato que venha.</p> + +<p>--Mas...</p> + +<p>--Não tem duvida. O cabinda cá está! A onça não tem mêdo ao tigre que +assalta o seu covil. O negro tem visto muita jiboia!</p> + +<p>Magdalena, para não demorar mais o portador, tomou uma meia folha de +papel e escreveu o seguinte:</p> + +<div class="carta"> <p>«Espero-o á hora marcada.</p> + +<p class="direita"><i>Magdalena.</i>»</p> </div> + +<p>Dobrou e deu ao cabinda, dizendo-lhe:</p> + +<p>--Toma; dá ao negro que está esperando.</p> + +<p>--Não, senhora moça. O negro não quer que o seu parceiro o veja.</p> + +<p>--Porque?</p> + +<p>--A minha filha o saberá. O mulato não é bom.</p> + +<p>Magdalena chamou então o portador e mandou-o com a resposta.</p> + +<p>Quando voltou já não encontrou o cabinda.</p> + +<p>Sentou-se ao piano, mas agitada, convulsa, nervosa e inquieta.</p> + +<p>Não lhe sahia da imaginação o encontro que ia ter, e apesar de toda a +sua ingenuidade, Magdalena tinha quasi a certeza de que ia commetter uma +imprudencia.</p> + +<p>O cabinda não era, porém, um homem capaz de consentir que alguem +offendesse a sua filha. Elle que lhe disse que mandasse apparecer o +mulato, é porque lá tinha os seus planos.</p> + +<p>No entanto, Magdalena estava collocada entre as saudades que a pungiam, +lembrando-se da ausencia de Luiz, entre os receios da entrevista +concedida ao mulato a horas tão pouco apropriadas, e os grandissimos +desejos de receber a carta, que o seu eleito lhe havia deixado.</p> + +<p>Só n'isto a formosa menina pensava, só isto a absorvia completamente. Os +seus livros predilectos, as suas florinhas queridas, os seus passeios +pela chacara, foram esquecidos, foram olvidados.</p> + +<p>Era dolorosa a posição de Magdalena. Nem uma irmã, nem uma amiga a quem +podésse abrir o seio, com quem desabafasse, com quem repartisse o enorme +peso, que a estava opprimindo!</p> + +<p>Ainda hontem a embalavam as harmonias dulcissimas das palavras de Luiz, +os perfumes magicos das flôres mimosas do amor, que elle lhe protestava, +os sonhos deliciosos da ventura tão suspirada!</p> + +<p>Pobre creança!</p> + +<p>Americo recebeu a resposta de Magdalena n'uns alvoroços de louca +alegria. O mulato esperava agora, no meio d'uma grande anciedade, que a +noute descesse, com o seu manto de sombras e de escuridão, para realisar +os seus planos.</p> + +<p>A carta de Luiz a Magdalena estava em seu poder. O mulato commettera a +infamia de a abrir, de devassar o seu contheúdo.</p> + +<p>Para elle, aquella folha de papel, era uma preciosidade que valia muito.</p> + +<p>Não podia ella servir para comprometter o seu socio, o seu rival? Não +bastaria que elle a apresentasse a Jorge, para que este o despedisse +logo, sem o minimo processo investigatorio? Não revelava ella um abuso +da parte de Luiz?</p> + +<p>O mulato ia fazendo todas estas considerações, no meio da alegria que o +dominava.</p> + +<p>O bilhete que Magdalena mandára a Americo não seria tambem sufficiente +para mostrar a Luiz que ella aproveitára a sua ausencia, para conceder a +outro uma entrevista, a horas, de mais a mais, tão pouco proprias?</p> + +<p>No entanto, a formosa virgem, estava oppressa debaixo dos sobresaltos e +dos receios, das esperanças e das saudades.</p> + +<p>Valia-lhe o seu piano. Unico amigo, unico confidente, unico sacrario, +permittam-me a comparação, onde espraiava os sentimentos, que a +agitavam, o harmonioso instrumento devia de futuro ter uma grandissima +pagina no seu livro de recordações.</p> + +<p>Se elle chorava com as lagrimas d'ella! se elle enchia-se de +enthusiasmos com as suas alegrias, gemia com as suas saudades, e todo se +deliciava e desatava em celestes harmonias, quando lhe encrespavam o +seio as ondas bellas dos effluvios do amor, douradas pelas mil palhetas +resplandecentes do sol da ventura!</p> + +<p>Era com elle que ella sonhava os mundos vaporosos, as visões seductoras +d'uma existencia recamada de sorrisos, alastrada de flôres, embriagada +de perfumes e cega por excessos de luz divina!</p> + +<p>Era elle quem tinha sempre um echo para as vozes do seu coração, um +suspiro para cada anceio de sua alma, um gemido para cada ai, exhalado +de seus labios, formosos, como rosa mal aberta!</p> + +<p>Conhecia-a de creança, suavisára-lhe as primeiras saudades, as saudades +de sua mãe, e em todos os tempos a acolhera caricioso, cheio de +affectos, magico de harmonias.</p> + +<p>Quem sabe ainda para o que elle estaria reservado?</p> + +<p>Agora, era elle ainda quem, paciente, estava soffrendo as impetuosidades +da anciedade que lhe opprimia o peito debil!</p> + +<p>O cabinda, o negro fiel, o escravo dedicado, o amigo sincero, esse +andava no lago, em volta do caramanchão, a sondar todos os cantos, a +espionar todos os nichos, como quem estivesse encarregado de estudar a +topographia do local.</p> + +<p>O negro lá tinha a sua ideia.</p> + +<p>Não era inutil, não devia sel-o, aquelle trabalho, porque quasi se lhe +liam nos grandes olhos os pensamentos que lh'o impunham.</p> + +<p>E Luiz?</p> + +<p>O amoroso moço, longe do Rio de Janeiro, lá tinha no seio a imagem de +Magdalena, o sentimento no coração, as saudades na alma e o receio a +agitar-lhe todo o ser.</p> + + + + +<h3>XII</h3> + + +<p>É noute, formosa como as da America, resplendente de luar, bordada de +estrellas, impregnada de perfumes e suave de harmonias. Despenham-se +murmuradoras, por entre as sinuosidades graniticas, as aguas das +cascatas e das cachoeiras, formando lindissimos rolos de espuma, até +cahirem no vasto leito, onde a fada palpitante, a rainha voluptuosa, +mira languida o seu rosto prateado. Agitam-se levemente, ao sopro suave +da aragem nocturna, os calices das flôres aromaticas, e os ramos, as +folhas viçosas das arvores gigantes das florestas.</p> + +<p>Este meio silencio da natureza, este conjuncto de vozes indistinctas, +sahido do seio das vastas mattas; a luz, que jorra brilhante das perolas +engastadas na immensidão azul d'um céo tropical; as ondas inebriantes, +embriagadoras, dos perfumes, que de toda a parte se levantam invisiveis; +os cantos magicos, doces, harmoniosos, de algumas das aves nocturnas dos +climas do novo mundo; e, finalmente, este quê ignoto, indefinivel, que +distingue as noutes da America das noutes da Europa, parece que dão á +alma mais desejos, aos desejos mais fogo, e ao fogo mais labaredas.</p> + +<p>É calido o ambiente. O corpo ressente-se d'este estado da athmosphera, e +verga ao pêso d'uma languidez, semilhante á somnolencia voluptuosa +produzida pelo opio.</p> + +<p>Reclina-se o corpo; os braços pendem como cançados; a cabeça cede +naturalmente e cahe meio adormecida; cerram-se os olhos, e n'este +estado, que não é somno, nem delirio, nem sonho, nem embriaguez, mas que +é um composto suave de tudo isto, o espirito vôa, como as aguias das +montanhas, ás regiões formosas do puro idealismo, onde o leva a +phantasia ardente, que vegeta dabaixo do sol dos tropicos; a alma anceia +em ondas infinitas; o coração palpita fremente de desejos, e ha em tudo, +n'esses momentos, um desabrochar opulento, luxuriante, e vigoroso d'essa +poesia que se sente, que se gosa, que extasia, que brota, invisivel, das +harpas, sempre afinadissimas, do immenso vate chamado--natureza.</p> + +<p>Ó noutes do Brasil! ó noutes de poesia e d'encanto! desenrolae o vosso +manto de mysterios, e deixae que as juritys arrulem amores nos ninhos +aveludados, e os sabiás <i>desfiem as perolas</i> dos seus cantos amorosos!</p> + +<p>Deixae que cada sêr palpite, que cada amor se expanda, que cada alma se +banhe na luz vaporósa do ideal da ventura!</p> + +<p>É noute, pois, e noute deslumbrante. O Botafogo repousa depois d'um dia +de vida mais. Soaram tres quartos depois das nove horas na torre +distante da egreja da Gloria, que, do seu morro, domina a vasta bahia do +Rio de Janeiro. As aguas, da enseada do Botafogo estão dormentes, +quietas e serenas. São um espelho onde a lua e as estrellas reflectem os +seus raios resplandecentes. Vaga mansamente ao longe um barquinho +solitario, d'onde, nas pandas azas da viração perfumada, se eleva uma +voz sonora, suave e sympathica, soltando no meio do silencio umas +estrophes d'amor.</p> + +<p>É a voz d'algum vate enamorado? ou d'algum sêr que geme saudades?</p> + +<p>Não sei.</p> + +<p>O silencio da noute estende-se ainda aos jardins e á chacara de Jorge de +Macedo.</p> + +<p>O negro cabinda e Magdalena seguem, fallando baixinho, uma das compridas +ruas, que vão desembocar ao lago.</p> + +<p>Magdalena vae trémula e receiosa. O cabinda animado e faiscando +centelhas de fogo dos seus grandes olhos.</p> + +<p>--Já lá estará, cabinda? perguntava Magdalena.</p> + +<p>--É cêdo ainda, senhora moça.</p> + +<p>--Vou com tanto mêdo.</p> + +<p>--O negro lá hade estar, minha filha.</p> + +<p>--Corre logo, se fôr preciso, ouviste?</p> + +<p>--De traz dos maracujás, o negro hade vêr tudo.</p> + +<p>Chegaram ao lago. Era completo o silencio. Magdalena entrou para o +caramanchão. O negro foi cauteloso collocar-se atraz d'uma das paredes +de cipós, que o formavam.</p> + +<p>--O negro fica aqui, senhora moça.</p> + +<p>--Bem, não falles nem bulas que podes trahir-te.</p> + +<p>--Descance a senhora moça.</p> + +<p>E Magdalena começou a pensar na imprudencia que estava commettendo.</p> + +<p>Todavia, o que não faria ella para receber uma carta de Luiz, de Luiz +que amava tanto, e que se ausentára sem tempo, ao menos, para se +despedir?</p> + +<p>Esteve assim alguns minutos. Ouviam-se apenas o bulir das folhas das +mangueiras, a respiração alterada de Magdalena, e o murmurio das aguas, +caindo no lago pela boca do tritão de marmore.</p> + +<p>O muro, a que se encostava o caramanchão, tinha a altura de metro e +meio. Os ramos folhudos d'uma grande tamarindeira furtavam-o, n'aquelle +logar, aos raios prateados da lua, deixando-o envolvido n'uma escuridade +vaga e indecisa.</p> + +<p>De subito a cabeça d'um homem surgiu do lado de fóra; conservou-se +attento alguns segundos, como sondando o local, elevou-se depois e +saltou para dentro cauteloso.</p> + +<p>Era Americo. O negro estava d'espreita e já o tinha sentido.</p> + +<p>O mulato rodeou pé ante pé a grande tamarindeira e dirigiu-se ao +caramanchão. Vinha receioso em extremo, e Magdalena, que lhe ouvira os +passos, não o esperava mais animosa.</p> + +<p>Chegou á entrada do caramanchão.</p> + +<p>--Magdalena! murmurou elle baixo.</p> + +<p>--Senhor Americo! respondeu ella timidamente.</p> + +<p>--Esperou muito, não?</p> + +<p>--Não; mas agora não posso demorar-me.</p> + +<p>--Estamos sós.</p> + +<p>--Estamos.</p> + +<p>--Ainda bem.</p> + +<p>E chegou-se mais a Magdalena e ia a tomar-lhe as maõs, quando ella +retirando-as accudiu:</p> + +<p>--Perdão, senhor. Creio que foi para satisfazer ao pedido do seu amigo +que aqui veio, e já lhe confessei que não posso demorar-me.</p> + +<p>--Para satisfazer ao pedido do meu amigo! Não, não foi para isso, minha +senhora.</p> + +<p>--Para que foi então? acudiu Magdalena de subito.</p> + +<p>--Foi para lhe dizer que a amo, que a adoro, que sou louco, muito louco +por V. Ex.<sup>a</sup>!</p> + +<p>--Senhor Americo!</p> + +<p>--Oh! não se afflija V. Ex.<sup>a</sup> Usei d'este estratagema, porque sei que não +conseguiria d'outro modo estar junto de V. Ex.<sup>a</sup> Sei que o seu coração se +inclina para Luiz, mas V. Ex.<sup>a</sup> é que não sabe os sentimentos que o +dominam a elle. Julga, no meio da sua ingenuidade que elle a ama tambem, +mas creia, que só a ambição o domina. O amor, o fogo, o delirio é nosso, +é dos brazileiros, que nascem debaixo d'este sol que queima, e não dos +que nascem entre os gelos que petreficam.</p> + +<p>--Perdão ainda uma vez, senhor. Ou vem para me dar a carta de Luiz, ou +nada tenho que fazer aqui e retiro-me.</p> + +<p>--Não; V. Ex.<sup>a</sup> não se retira assim. Já que consentiu em me receber a +esta hora, hade fazer o sacrificio de ouvir-me.</p> + +<p>--Não tenho que ouvir-lhe, senhor.</p> + +<p>--Mas tenho eu que dizer-lhe. Diga-me V. Ex.<sup>a</sup>: porque ha de acceitar os +galanteios calculados de Luiz e desprezar o sentimento verdadeiro que +lhe offereço?</p> + +<p>--E quem lhe dá o direito de m'interrogar?</p> + +<p>--A minha superioridade n'este momento. Esquece-se de que estamos sós?</p> + +<p>--Oh! mas isso é...</p> + +<p>--Para estranhar talvez, é. Mas V. Ex.<sup>a</sup> não sabe, não comprehende os +desejos que me devoram. E a indifferença de V. Ex.<sup>a</sup> excita-me em vez de +esmagar-me. Oh! por piedade Magdalena!</p> + +<p>E segurou-lhe uma das mãos, tremulo, nervoso, febricitante.</p> + +<p>--Deixe-me, senhor!</p> + +<p>E quiz fugir-lhe. Americo, porém, n'um momento d'exaltação deitou-lhe as +mãos ás tranças dos cabellos para a deter. Magdalena exforçou-se e poude +desembaraçar-se d'elle, deixando-lhe nas mãos uma das fitas que lhe +ornavam a cabeça.</p> + +<p>--Oh o senhor é um infame!...</p> + +<p>--Mas não ha de fugir-me assim!</p> + +<p>E seguiu-a continuando:</p> + +<p>--Ao menos hei de levar um beijo...</p> + +<p>E tinha prendido Magdalena, e ia commetter a infamia, quando sentiu o +pescoço apertado vigorosamente por uma mão de ferro. Era do cabinda.</p> + +<p>Americo soltou um rugido.</p> + +<p>Magdalena exclamou vendo-se livre do mulato:</p> + +<p>--Que fazes, cabinda!</p> + +<p>--Mato a serpente, senhora moça!</p> + + + + +<h3>XIII</h3> + + +<p>Houve um momento de silencio, curto, mas terrivel para Magdalena, que, +ao ouvir o cabinda, julgou que elle ia espatifar o mulato, e para este +tambem, vendo-se em face d'um inimigo tão possante.</p> + +<p>A lua inundava, agora, com os seus raios deslumbrantes o palco, onde se +representava aquelle drama; e para contraste das paixões, que alli se +agitavam, n'aquelle instante, um sabiá, poisado nos galhos d'uma +jaqueira, começou a vibrar as doces melodias do seu canto suavissimo.</p> + +<p>Magdalena estava tranzída de medo; o mulato espumante de raiva, no meio +da sua impotencia; e o cabinda risonho, mas n'uma alegria feroz.</p> + +<p>Era um quadro digno d'um pincel aprimorado.</p> + +<p>--Mato a serpente, senhora moça! dissera o negro a Magdalena, quando +esta lhe perguntava o que fazia, vendo-o agarrado ao pescoço do infame +mulato.</p> + +<p>Este, ao ouvil-o sentiu-se como aniquilado, mas por um exforço, proprio +do instincto dos da sua raça, poude desembaraçar-se do negro, guardou +rapido a fita das tranças de Magdalena, que lhe ficára nas mãos, recuou +dois passos, e de subito agitou no ar um punhal, cuja lamina pequenina +brilhava aos raios da lua.</p> + +<p>Magdalena, como que perdida, cheia da coragem, que os grandes lances +despertam nas almas mesmo mais fracas, correu para Americo, a +suspender-lhe o golpe, que ella julgava imminente sobre o cabinda.</p> + +<p>N'este momento, porém, crusava-se no ar com o punhal d'Americo uma +comprida e ponteaguda faca, vibrada pela mão vigorosa do negro.</p> + +<p>Duas vidas estavam suspensas das pontas d'aquelles dois instrumentos. Os +braços podiam descer ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo fazerem duas +victimas, rasgando dois seios.</p> + +<p>E assim aconteceria, se não fosse uma imprudencia de Magdalena, +imprudencia que a poderia ter morto, mas que felizmente não teve +resultados funestos.</p> + +<p>Quando a força dos dous inimigos ia ser empregada em vibrar o golpe, +chegava Magdalena collocando-se entre elles.</p> + +<p>Suspenderam-se então, mas nos olhos de cada um chammejava feroz a raiva, +o odio, uma tempestade, finalmente, horrorosa e tetrica.</p> + +<p>--Que faz, senhora moça! gritou o negro.</p> + +<p>--Estás doido, cabinda!</p> + +<p>--É o que te vale, canalha! acudiu Americo.</p> + +<p>--Basta, senhor, d'injurias e d'infamias! Sou mulher e fraca, mas não +tenho receio de o mandar calar e de retirar-se!</p> + +<p>--Creança!</p> + +<p>--Lacaio!</p> + +<p>O cabinda era um vulcão latente. Continha-o a presença de Magdalena. No +entanto, as forças, ou antes, a paciencia, ia começando a faltar-lhe e +ai do mulato se a lava podesse romper!</p> + +<p>Americo sentiu-se humilhado com a affronta provocada, e respondeu +atrevidamente a Magdalena:</p> + +<p>--Ponha essa palavra na bôcca d'um homem e diga-lhe que m'atire.</p> + +<p>--Ó senhora moça! deixe-me com elle! gritou o cabinda investindo para +Americo.</p> + +<p>--Não, que te enlameias!</p> + +<p>--Respeito-a porque é mulher, porque é uma creança. Todavia, creia que +não ficaremos sem saldarmos as contas.</p> + +<p>--Quando quizer. Vamos, cabinda.</p> + +<p>E Magdalena, aquella creança que nós conhecemos, bondosa, meiga, +delicada, sensivel, tomou, lançando ao mulato o seu olhar expressivo de +cólera, o negro pelo braço e arrastou-o consigo, affastando-se em +direcção a casa.</p> + +<p>O cabinda cedeu, e nem elle era homem que resistisse á sua filha, mas +não sem que se voltasse para traz, gritando ao mulato:</p> + +<p>--O negro cá fica. Cautella com o cabinda.</p> + +<p>Americo tragou a ameaça em silencio e ficou só, no meio da febre da sua +exaltação, que pouco a pouco devia ir diminuindo.</p> + +<p>Sentou-se e esteve scismando durante alguns minutos. Occorreu-lhe, +porém, a lembrança de que o negro poderia voltar, achou-se fraco perante +a robustez do seu inimigo e deixou a chacara saltando para fóra.</p> + +<p>Estava cançado.</p> + +<p>As coisas começavam a correr-lhe mal, e isto exasperava-o mais, que as +offensas e as affrontas que havia recebido.</p> + +<p>Deixou correr as ideias atraz dos seus desejos de vingança, mas teve um +momento em que quasi succumbiu.</p> + +<p>Americo, em vez d'um, via, agora, tres inimigos diante de si:--Luiz, +Magdalena e o negro.</p> + +<p>A lucta era desigual e poderosos os seus contendores.</p> + +<p>O primeiro ensejo, a primeira occasião favoravel, fôra de toda perdida, +e longe de aproveitar-lhe antes o collocou em mais critica posição.</p> + +<p>Os cuidados e as precauções haviam de redobrar-se agora contra elle, e +isso obrigava-o, para conseguir os seus fins, a redobrar tambem +d'astucias e d'ardis.</p> + +<p>No entanto, as esperanças de derrubar Luiz do altar do coração de +Magdalena, não o abandonaram de todo. Mais ou menos lá lhe floriam no +coração, entre os sentimentos ignobeis da preversidade que o dominava.</p> + +<p>No entanto, Magdalena acompanhada pelo cabinda, ao dirigir-se a casa, +depois d'aquella scena violenta, que tanto a excitára, ia-lhe dizendo, +com ar de quem lhe impunha a sua vontade:</p> + +<p>--Olha que não quero que alguem saiba do que se acaba de passar-se.</p> + +<p>--Descance a minha filha.</p> + +<p>--Nem mesmo ao senhor Luiz, quando chegar, ouviste?</p> + +<p>--Nem o branco?</p> + +<p>--Nem esse.</p> + +<p>--Então o mulato hade ficar assim?</p> + +<p>--Perdoo-lhe, Cabinda.</p> + +<p>--Mas o negro é que não perdoa senhora moça.</p> + +<p>--Ha de perdoar, porque eu assim o quero.</p> + +<p>--E se elle voltar? o mulato é mau...</p> + +<p>--Se voltar, fallaremos então.</p> + +<p>--Oh! senhora moça! o negro tem bom olho e pulso forte. E o cabinda +estende-o logo como o caçador á onça do mato.</p> + +<p>--Já te disse que não fazes nada.</p> + +<p>--A minha filha manda.</p> + +<p>--E tu obedeces.</p> + +<p>Tinham chegado á escadaria de pedra que conduzia á habitação. A preta +Maria, que era a mucamba de Magdalena, uma especie de creada grave, +vinha descendo já para ir procural-a, estranhando que contra o seu +costume, a senhora moça andasse pela chacara áquella hora.</p> + +<p>Magdalena apenas a viu perguntou logo:</p> + +<p>--Onde vaes, Maria.</p> + +<p>--Ia procurar a senhora moça.</p> + +<p>--Ainda bem que te poupo esse trabalho. Fui passear até ao lago, +acompanhada do cabinda.</p> + +<p>--Eu não via a senhora moça, e fiquei logo com cuidado.</p> + +<p>--Obrigada. Estava a noite tão bonita que não pude resistir-lhe.</p> + +<p>--Fez bem, senhora moça.</p> + +<p>--Pergunta ao cabinda, como, na grande tamarindeira, do lago, estava +cantando um sabiá!</p> + +<p>--Bonito, Maria!</p> + +<p>E n'isto foram entrando em casa.</p> + +<p>Perto da meia noite entrava tambem o mulato no seu quarto da rua dos +Pescadores. Levava estampado no rosto a expressão d'um grande +descontentamento. A decepção que soffrera fôra grande e, sobre tudo, +inesperada.</p> + +<p>Depois, não era só isto o que o preoccupava; era tambem a ideia de que +tinha ainda novas scenas, apenas Luiz chegasse, porque tinha como certo +que Magdalena não deixaria de narrar-lhe a sua ousadia, e tudo quanto +tinha acabado de passar-se.</p> + +<p>Americo reconhecia agora a falsidade da sua posição.</p> + +<p>Além d'isto, se todas estas coisas chegassem aos ouvidos de Jorge, era +mais facil que elle perdoasse a Luiz, e attendesse aos rogos de +Magdalena, sua filha, do que esquecesse a infamia tentada por Americo.</p> + +<p>O que elle tinha como certo; era que as coisas depois dos ultimos +acontecimentos, dessem de si, tivessem um resultado qualquer. Luiz era +um homem de dignidade e a isto juntava agora todo o amor que o +inflammava. E bem ameaçado deixára o mulato antes de partir para Macahé, +fazendo-lhe sentir que Magdalena lhe era uma pessoa sagrada, e que teria +de justar com elle todas as contas, se de qualquer modo a offendesse, +injuriasse ou affrontasse.</p> + +<p>Todavia, Americo, apesar de sentir o peso de todas estas reflexões que +lhe suggeria o seu espirito, não deixava, ainda assim, de conceber uma +esperança. Desanimar, não desanimava.</p> + +<p>Tinha a pertinacia dos da sua raça pouco pura, a teimosia dos que, +dotados de maus sentimentos e indole perversa, não duvidam nem hesitam +em ir augmentando o mal, para conseguirem os seus fins, á medida que os +obstaculos, que as barreiras se vão levantando.</p> + +<p>Era por isso que o mulato, no silencio do seu quarto, examinando agora o +bilhete de Magdalena e a fita de sêda que as tranças dos cabellos d'ella +lhe deixaram nas mãos, dizia com expressão de grande malvadez: + +--Ainda cá está isto! Valem e podem muito estes objectos!</p> + + + + +<h3>XIV</h3> + + +<p>Passaram-se quatro dias sem acontecimentos dignos de mencionarem-se. +Magdalena ia gemendo as suas saudades; o cabinda cuidando dos jardins e +da chacara, e Americo curtindo os ardentes desejos da suspirada +vingança.</p> + +<p>Ao quinto dia surgiu Luiz, regressando de Macahé.</p> + +<p>Vinha ancioso o pobre moço; eram vehementes os desejos de vêr Magdalena.</p> + +<p>Depois, como a todos os namorados, como a todos aquelles que se +alimentam do fogo sagrado do amor, Luiz sentia d'um lado as venturas de +ter acabado com uma ausencia, que lhe era extremamente dolorosa, e +sentia, do outro, os espinhos afiados, com que o estava ferindo a ideia +de que Magdalena o tivesse esquecido, o tivesse abandonado.</p> + +<p>Era a duvida, d'um lado, com toda a sua escuridão, com toda a sua noute; +e a esperança, do outro, com os resplendores vivissimos do seu formoso +sol, com todos os suaves perfumes das flôres da sua primavera.</p> + +<p>Além d'isto avultava tambem a incerteza sobre o procedimento do mulato, +seu socio.</p> + +<p>Teria elle respeitado Magdalena?</p> + +<p>Teria commettido alguma infamia, durante os quatro dias e meio da sua +dolorosa ausencia?</p> + +<p>Ninguem podia responder-lhe; e ávido de saber tudo isto, ávido de vêr +Magdalena, de fallar-lhe, de a ouvir, de lhe escutar ainda uma e muitas +vezes um protesto d'amor, é que elle entrava agora em casa, trazendo +tambem a consciencia satisfeita, pelo bom desempenho da commissão, de +que fôra encarregado.</p> + +<p>Americo não o esperava de volta tão cedo, e sentiu o que quer que é ao +vêl-o entrar, porque estremeceu, e empallideceu subitamente.</p> + +<p>Presentiu, naturalmente, a violencia das tempestades, que iam +desencadeiar-se, e depois de revolto o mar, quem poderia assegurar-lhe a +salvação, ou evitar-lhe um naufragio?</p> + +<p>Esperanças, pelo menos, de fazer mal a Luiz, tinha-as elle, embora +poucas, mas assentes em que base é que elle não sabia. Resultados da sua +indole, da sua perversidade.</p> + +<p>Em todo o caso, desistir da lucta, nunca! Seria uma cobardia, uma +vergonha immensa, uma nodoa indelevel, segundo o seu parecer, e a isso +preferia antes o esmagamento, uma quéda, uma derrota completa, que lhe +inutilisasse todos os recursos. Então sim, antes d'isso, não desistiria +dos seus intentos.</p> + +<p>No entanto, Luiz, entrando em casa, ás oito horas da manhã quiz +mostrar-se generoso, ou antes, que tinha confiança em si e em Magdalena, +e dirigiu-se a Americo, cumprimentando-o, como que se um resentimento o +não estivesse remordendo intimamente.</p> + +<p>O mulato respondeu cortezmente, mas com certa frieza.</p> + +<p>A sua pallidez, ou antes a mudança de côr que se operara no seu rosto, +com a entrada inesperada de Luiz, desappareceram após as primeiras +impressões, para dar logar á viva expressão dos desejos que o assaltavam +de recomeçar a luta com o seu antagonista.</p> + +<p>Tinha o mulato para si, que devia romper, e romper logo, a fim de ganhar +sobre o seu adversario a força moral de que precisava. Era uma +estrategia boa na apparencia, mas falsa, sem duvida, pelos resultados.</p> + +<p>Luiz tambem não era homem para succumbir; dava-lhe alentos o seu amor, e +além d'isso era... portuguez!</p> + +<p>Ás oito horas e meia entrava Luiz no escriptorio, depois de se ter +preparado.</p> + +<p>Americo lá estava, sentado a lêr a correspondencia.</p> + +<p>Nem sequer olhou para o seu socio.</p> + +<p>--Fez-se algum negocio? começou Luiz.</p> + +<p>--Bastante, respondeu Americo seccamente.</p> + +<p>--Houve alguma novidade, durante estes dias que andei por fóra?</p> + +<p>--Importante nenhuma. Apenas uma entrevista que me deu Magdalena, uma +d'estas noites, aproveitando para isso a tua ausencia.</p> + +<p>Luiz sentiu-se como ferido por uma profunda punhalada, e levantou-se +subitamente com a pallidez no rosto, o fogo nos olhos e umas temiveis +convulsões nas mãos.</p> + +<p>--Mentes! bradou o moço.</p> + +<p>--Mentirei...</p> + +<p>--Mas como um vilão!...</p> + +<p>--No entanto tenho as provas comigo.</p> + +<p>--Mostra-as, se és capaz!</p> + +<p>--Julgas então que era chegar, vêr e vencer! Enganas-te. Magdalena +disfructava-te, porque fazia de ti um brinquedo, com que se divertia, +sem nunca pensar em tomar a sério os teus protestos d'amor.</p> + +<p>--É falso, repito! E senão mostra-me as provas ou esmago-te como quem +esmaga um reptil venenoso!</p> + +<p>--Tenho-as aqui e parece-me que bem claras.</p> + +<p>--Fazes-me perder a razão, e depois...</p> + +<p>--Conheces esta letra? lê...</p> + +<p>E Americo deu a Luiz o bilhete em que Magdalena lhe concedia a +entrevista.</p> + +<p>--E, mais do que isso talvez... tens ainda aqui esta fita da trança dos +seus cabellos... Que dizes agora?</p> + +<p>Luiz nunca na sua vida sentira o que estava sentindo n'aquelle momento. +Era o ciume, a raiva, o desespero e o odio, confundidos, misturados, +amalgamados, n'um sentimento que a penna não póde traduzir.</p> + +<p>Vacillava-lhe a razão, fugia-lhe a vista, em face d'aquelle bocadinho de +papel, que lhe estava queimando as mãos, como fogo do inferno. Era +incrivel, mas era a realidade! conhecia a letra de Magdalena, reconhecia +tambem a fita que lhe prendia os cachos dos cabellos negros, na tarde +d'aquelle jantar saudoso. Luiz desejava duvidar do que estava vendo, mas +como, se as provas estavam agora na sua mão! Passou-lhe por diante dos +olhos a visão medonha da vingança. Mas a Providencia não desampara os +que bem lhe merecem, e limitou-se apenas a exclamar:</p> + +<p>--Tão infame é ella como tu!...</p> + +<p>--Então já não duvidas? perguntou Americo, attendendo apenas ao estado +em que Luiz se achava, e importando-se pouco com as injurias que elle +podésse dirigir-lhe.</p> + +<p>--Não sei. Todavia quem me affirma que Magdalena não foi forçada a +escrever estas linhas, a pôr o seu nome n'esta folha de papel e a +entregar-te ou a mandar-te esta fita? Quem?</p> + +<p>--Com isso poderá ella desculpar-se se lhe fores agora pedir contas do +seu procedimento, bem o sei, mas pouco importa, porque esse bilhete +falla bem alto.</p> + +<p>--Oh! mas isto é incrivel! isto é um sonho!...</p> + +<p>--Não é sonho, não. É a realidade. Acceitaste a lucta, batalhamos. +Quando julgavas haver vencido, vês a victoria do meu lado. Acontece +muita vez. Além d'isso, que dotes ha em ti que te recommendem mais que a +mim? O seres portuguez? o seres branco? É justamente por isso que menos +devias confiar em ti. Se tenho côr... sou brazileiro!</p> + +<p>--Em todo o caso abusaste da minha ausencia e o teu procedimento não +póde ser classificado senão de infame!</p> + +<p>--Embora! com tanto que eu vença...</p> + +<p>--Isso é o que ainda não está decidido. Não julgues que fico com o que +me dizes. Heide indagar, heide empregar todos os esforços para descobrir +a verdade. A letra do bilhete e a fita de sêda são de Magdalena, não ha +duvida, mas se para as conseguires empregaste alguma violencia, +commetteste alguma infamia, ou abusaste de qualquer modo, não te perdôo, +Americo; as contas serão então comigo.</p> + +<p>--Que pretendes, pois, fazer?</p> + +<p>--Indagar a verdade, dissipar esta duvida que me atormenta!</p> + +<p>--Como? Fazendo publico que a filha do teu amigo, do teu socio deu a um +homem uma entrevista a horas inconvenientes? Queres deshonral-a d'esse +modo? Queres dar esse desgosto ao teu protector?</p> + +<p>--Muito cynico és, Americo! bradou Luiz espumante de cólera. E tu, +canalha, não te lembraste que devias a esse homem tanto como eu, para +lhe illudires a filha! Qual de nós a deshonra mais? eu que me julgo hoje +com direito de lhe pedir contas de seu procedimento, ou tu que abusaste +necessariamente da sua ingenuidade, ou a estás infamando, faltando á +verdade, e então és duplamente abjecto e criminoso?</p> + +<p>--Indaga.</p> + +<p>--Heide indagar, sim. E ai de ti se ousaste calumniar, quem só devia +merecer-te todo o respeito.</p> + +<p>--Em todo o caso restitue-me isso.</p> + +<p>--O bilhete e a fita? nunca!</p> + +<p>--São meus.</p> + +<p>--Que importa,</p> + +<p>--Importa muito. E, ou m'os dás ou...</p> + +<p>--As ameaças depois, agora... a verdade!</p> + +<p>E Luiz ia a retirar-se quando ouviu no armazem a voz de Jorge que havia +entrado.</p> + +<p>O mulato estremeceu de medo. Comtudo, já tinha a consolação de ter +amargurado e bem o coração de Luiz.</p> + +<p>Este, apenas deu a Jorge conta do bom desempenho da missão de que fôra +encarregado a Macahé, sahiu, deixando-o no armazem com Americo.</p> + +<p>O pobre moço ia fóra de si, como perdido, desvairado, e, diga-se a +verdade, bastante indisposto com Magdalena, porque acreditava mais ou +menos no seu perjurio.</p> + +<p>N'este estado, seguiu para o Botafogo.</p> + + + + +<h3>XV</h3> + + +<p>Eram onze horas quando chegou.</p> + +<p>Magdalena havia acabado d'almoçar e viera para o salão, no proposito de +espalhar saudades com o seu piano, com o seu discreto confidente, mas +esqueceu-se d'elle, embebida na leitura do suavissimo <i>Camões</i> do nosso +immortal Garrett.</p> + +<p>Estava lendo, a meia voz, estes admiraveis versos:</p> + +<p class="poesia"> «Longe, por esse azul dos vastos mares, + Na solidão melancólica das aguas, + Ouvi gemer a lamentosa alcyone + E com ella gemeu minha saudade...»</p> + +<p>quando Luiz surgiu á porta, através do reposteiro, que a velava.</p> + +<p>Vinha pallido, como que acabrunhado, mas luziam-lhe nos olhos as chammas +rubidas do fogo do ciume, do desespero e da descrença.</p> + +<p>Magdalena não o esperava e, ao vêl-o entrar deixou cahir o livro das +mãos e correu para elle, gritando commovida:</p> + +<p>--Ah! ainda bem que veio!</p> + +<p>Luiz recebeu-a com frieza, furtou as mãos ás mãos d'ella que as +procuravam, e recuou dous passos dizendo:</p> + +<p>--Perdão, minha senhora, se venho interrompel-a!</p> + +<p>--Luiz!... acudiu ella, vendo o modo como elle se apresentava.</p> + +<p>--Não venho aqui, minha senhora, para continuar a ser o ludibrio dos +seus caprichos de creança! Lamento as horas que perdi, pensando em V. +Ex.<sup>a</sup>, como se pensa no nosso anjo da guarda, como se pensa na visão +seductora dos sonhos do nosso amor purissimo...</p> + +<p>--Desconheço-o... Porque me falla assim? interrogou Magdalena com a voz +em lagrimas.</p> + +<p>--Porque? Ainda m'o pergunta? Porque vejo que V. Ex.<sup>a</sup> é uma mulher, como +todas as mulheres, vulgar, sem um ponto unico que a eleve acima do nivel +das outras, quando a julgava um anjo, um ente superior, uma d'estas +pombas immaculadas, que o mundo não sabe apreciar, infelizmente! Porque +a julgava uma perola de subido valor, e vejo agora que é apenas a concha +da praia, sem merito de qualidade alguma! Porque a tinha como flor, +capaz de perfumar com toda a felicidade os dias d'amor, que lhe depunha +aos pés, e venho encontral-a rosa eivada de milhares d'espinhos +envenenados! Porque lhe vi o mel nos labios, a doçura na voz e o céo nos +olhos, quando, afinal V, Ex.<sup>a</sup> só preparava a victima para lhe despedir a +punhalada! Porque a julguei sincera, no meio do devanear sublime do meu +sentimento affectuoso, quando tudo em V. Ex.<sup>a</sup> era a mascara, debaixo da +qual se escondia uma grande hypocrisia... toda a sua preversidade, +emfim!</p> + +<p>--Oh! eu não lhe mereço isso! exclama ella com duas lagrimas nas +pupillas.</p> + +<p>--Bem sei; são ainda as lagrimas do crocodillo! Era realmente bonito, e +sobretudo, digno de V. Ex.<sup>a</sup> que um homem andasse a rojar-se-lhe aos pés, +a entregar-lhe tudo, pensamentos, alma corpo, vida, futuro, crenças e +aspirações, em quanto que V. Ex.<sup>a</sup>, zombando da sua fé, zombando do +sentimento e da sinceridade d'esse homem, se ria, brincando com elle, +como se brinca com um objecto qualquer, que nada vale! Era realmente +bonito, era, e, sobretudo, uma grande gloria para V. Ex.<sup>a</sup>! O que não sei +é como V. Ex.<sup>a</sup> vivendo isolada desta sociedade corrompida e depravada, +põe em prática os principios da philosophia d'ella! O que não sei é como +V. Ex.<sup>a</sup>, sendo tão nova, tem já tanta maldade!</p> + +<p>--Por piedade, Luiz, não me accuse, não me affronte d'esse modo, porque +eu estou innocente!...</p> + +<p>--Innocente!...</p> + +<p>--Innocente, sim! E se não, diga-me qual é o meu crime, a minha culpa, o +meu peccado!...</p> + +<p>--Ainda m'o pergunta! Já o esqueceu, talvez, como pôde esquecer que +invocára, n'um momento de hypocrisia, a memoria sacratissima de sua mãe, +para me fazer um protesto d'amor!</p> + +<p>--Oh! muito, eu... bem vê que não tenho forças para tanto!... soluçou +ella, inundada de lagrimas.</p> + +<p>--É muito! é muito! diz V. Ex.<sup>a</sup>! O que não será, então, rojar um homem +aos pés d'uma mulher todas as flores purissimas do seu amor primeiro, +acolher cheio d'esperanças um sorriso. d'amor d'essa mulher que lhe fica +sendo vida, ar, luz e tudo, para depois, esquecendo a loucura d'esse +homem, aproveitar uma curta ausencia para dizer a um outro:--Venha que o +espero a tantas horas da noute! O que será isto, minha senhora, se acha +muito o que me está ouvindo?</p> + +<p>--Oh! foi ainda por sua causa, Luiz, mas perdoe-me!</p> + +<p>E Magdalena cahiu-lhe de joelhos aos pés, soluçando convulsivamente.</p> + +<p>Eram as consequencias da sua imprudencia!</p> + +<p>--Por minha causa! disse Luiz ironicamente. Nada creio, nem quero +justificações. Foi porque assim o quiz e fez muito bem. E V. Ex.<sup>a</sup> teve +razão. Pois quem era, quem sou eu? Um homem sem fortuna, sem um nome +pomposo, expatriado, d'uma familia humilde e ignorada, que tem apenas +por brazões as gotas do suor do seu trabalho, por timbre a honra, por +divisa, a virtude, em quanto que V. Ex.<sup>a</sup> é a senhora D. Magdalena, a +filha riquissima, a herdeira unica do ex.<sup>mo</sup> capitalista Jorge de Macedo!</p> + +<p>Magdalena, profundamente magoada com as palavras de Luiz, sentiu uma +violenta commoção nervosa, levantou-se de subito, recuou dous passos, +perfilou-se, e exclamou n'uma como explosão, que era a prova mais +evidente da dôr aguda que estava sentindo:</p> + +<p>--Basta, senhor! nem tanto! Não se abusa impunemente da fraqueza d'uma +mulher, e é mais que crueldade estar a fazer-lhe derramar lagrimas de +sangue! Envergonho-me agora de as ter chorado e lamento devéras a +loucura, que me obriga a esta humilhação em que me vejo, ha meia hora, +na sua presença! Confiou muito pouco em mim, senhor Luiz, e muito menos, +ainda em si. Julgou-me uma creança imprudente, uma mulher vulgar, uma +mulher leviana! Estava no seu direito! O que não tinha era direito para +me insultar as lagrimas de que me arrependo agora, porque não merece! +Não quer justificações; pois bem, não as terá e se acaso voltar a +pedir-m'as não se admire de lh'as recusar!</p> + +<p>--Ah! e, demais a mais, é orgulhosa!</p> + +<p>--De certo. Pois que esperava, vindo provocar-me tão pouco +benevolamente?</p> + +<p>--Que tivesse menos hypocrisia e mais consciencia.</p> + +<p>--O senhor Luiz esquece-se, de certo, que está fallando com uma mulher! +Consciencia!</p> + +<p>--Consciencia, sim, minha senhora. E fallo-lhe d'este modo, porque tenho +aqui as provas! Veja-as, analyse-as, reveja-se V. Ex.<sup>a</sup> n'ellas. Ahi lhe +ficam. O que unicamente lhe peço, é que se esqueça para sempre de mim, e +que creia, que, apesar de tudo, a desejo ver muito e muito feliz!</p> + +<p>E deixou-lhe em cima do piano o bilhete que ella havia escripto a +Americo, e a fita, que dos cabellos, elle lhe levára, n'aquella noite +fatal da entrevista junto ao lago.</p> + +<p>Magdalena, vendo sahir Luiz, cahiu n'uma cadeira, apertando o seio +convulso com uma das mãos, amparando a cabeça com a outra, e exclamando, +debulhada em pranto:</p> + +<p>--Ah! é assim que se paga um amor como este!...</p> + +<p>E soluçava nervosamente, vertia lagrimas copiosas!</p> + +<p>Pobre creança!</p> + +<p>Começava a amar, e logo as primeiras flores desabrochavam espinhosas! As +auroras esplendidas dos primeiros dias d'amor sumiam-se mal despontavam, +e após os primeiros sorrisos vinham logo as vicissitudes do soffrer.</p> + +<p>E como ella não soffria agora!</p> + +<p>Luiz fôra cruel tratando-a tão asperamente, mas é certo que não podia +fugir a uma explosão d'aquellas. Depois da tempestade viria a bonança, +depois das arguições o arrependimento.</p> + +<p>Em theoria ninguem deixará de censurar o pobre moço, mas na pratica, +nenhum d'aquelles que se vissem em circumstancias iguaes, deixaria de +fazer o que elle fez. Era uma coisa que o coração lhe exigia, uma +satisfação dada ao sentimento, que lhe estava quasi abafando a +respiração.</p> + +<p>Deixar d'amal-a, não deixava elle, e este incidente, que dera causa a +lagrimas, d'um lado, e mágoas do outro, não fez senão accender-lhe mais +as labaredas que lhe queimavam o seio.</p> + +<p>Todo o amor tem a sua cruz e o seu martyrio, como tem a sua redempção e +as suas alegrias.</p> + +<p>Magdalena estava soffrendo os martyrios e o peso da cruz do seu amor. A +redempção e as alegrias haviam de vir tambem; não podiam faltar, +sobretudo a quem era tão digna d'ellas.</p> + +<p>No entanto, a formosa menina estava chorando, e sem esperanças de +remover a tempestade, que uma imprudencia, filha ainda do seu immenso +amor, havia feito desencadear.</p> + +<p>N'isto entrou o cabinda; vinha trazer á sua filha um ramo de flores do +jardim. Ficou, porém estupefacto, vindo encontral-a soluçando, quando +esperava achal-a contentissima.</p> + +<p>O negro correu para ella, presentiu as dores que a alanceavam, soffreu +com ellas como se foram proprias e cahiu-lhe, de joelhos, aos pés, +exclamando:</p> + +<p>--Porque chora a senhora moça? o que tem a minha filha?</p> + +<p>--Sou muito desgraçada, cabinda!</p> + +<p>--O branco...</p> + +<p>--Maltratou-me... sahiu... já me não ama!...</p> + +<p>O negro levantou-se de subito. Fervia-lhe nas veias o sangue da sua pura +raça africana. Passou-lhe pela mente uma ideia terrivel; os olhos +fuzilavam-lhe relampagos, as mãos tremiam-lhe convulsivamente. Cahiu-lhe +d'ellas o ramo de flores, quando elle exclamou:</p> + +<p>--Oh! o branco é bom! Foi o mulato! o mulato é mau! Mas o cabinda ainda +cá está, e a minha filha hade ser muito feliz!</p> + + + + +<h3>XVI</h3> + + +<p>Eram quatro horas da tarde, approximadamente, quando Jorge regressou á +chacara, depois de ter deixado o armazem.</p> + +<p>Magdalena chorava sósinha no seu quarto.</p> + +<p>Sympathicas lagrimas aquellas!</p> + +<p>Eram as lagrimas verdadeiras, das dôres d'um amor casto, puro e ardente, +deslisando silenciosas, como perolas finissimas, pelas faces assetinadas +do rosto d'um anjo, cahindo e sumindo-se no seio, de dentro do qual +ellas brotavam!</p> + +<p>Eram as flores pallidas, destoando muito das rosas frescas, das candidas +açucenas, dos lyrios perfumados, d'um vasto jardim de crenças!</p> + +<p>Eram as nuvens crepusculares, velando um pouco o sol d'aurora +deslumbrante d'um olhar limpido e formoso, em que se reflectia o céo, +com toda a magia dos seus infinitos esplendores!</p> + +<p>Eu não sei, mas creio que nada ha mais attrahente do que as lagrimas +d'uma mulher, moral e physicamente bella, quando, em cada uma, ha os +aromas embriagadores d'um grande sentimento; quando, cada uma traduz, na +sua mysteriosa, mas eloquente linguagem, uma estrophe melodiosa d'uma +paixão ardente, mas pura, casta e honesta.</p> + +<p>Parece-me que não.</p> + +<p>As lagrimas teem então a fascinação irresistivel da sympathia, teem o +condão poderoso do magnetismo, que attrahe, e enleva, e encanta.</p> + +<p>Eram assim as lagrimas da Magdalena.</p> + +<p>No entanto, o momento d'exaltação havia passado; haviam cessado os +pequenos assomos de cólera, que lhe despertaram as asperezas, com que +fôra tratada por Luiz.</p> + +<p>Após o seu desabafar, por meio d'uma explosão, em que a vimos, reagindo +contra as palavras do sympathico moço, que a estavam ainda ferindo tão +injustamente, veio a reflexão e com ella a desculpa, com a qual +Magdalena ia já cobrindo Luiz.</p> + +<p>Um amor verdadeiro perdoa sempre, porque não deixa de ser amor. +Exalta-se facilmente, até com as coisas mais pequeninas, que não lhe +escapam, que elle descobre sempre, mas não resiste nunca a proclamar a +sua absolvição.</p> + +<p>Se é amor verdadeiro!...</p> + +<p>Luiz apezar d'aquella scena violenta, d'aquellas arguições +irreflectidas, d'aquellas arrogancias geradas pelo seu sentimento ferido +e julgado em desprezo, era ainda o eleito de Magdalena, era ainda o +homem por quem palpitava o seu coração, por quem floriam as rosas +brancas da sua alma candida e perfumada.</p> + +<p>Atravez do tenue véo do resentimento em que ella estava, e que mais ou +menos a dominava, jazia ainda, illuminada pelos raios deslumbrantes do +sol do amor, a imagem de Luiz, a imagem do primeiro homem que a +impressionára, e que ella não podia deixar de contemplar com olhos +affectuosos, de acariciar com a ideia, de ameigar com o sentimento.</p> + +<p>Pobre creança, que o amor começava por beijar tão phreneticamente!</p> + +<p>Pobre avesinha, a quem tentavam impedir os primeiros vôos!</p> + +<p>Jorge chegou, pois, do armazem, e estranhou que Magdalena o não +estivesse esperando, como era de costume. Fizeram-lhe falta os doces +beijos, as suaves caricias, as meiguices consoladoras, com que a filha +adorada o acolhia sempre no topo da escadaria.</p> + +<p>Entrou e perguntou por ella. Tivera um presentimento o seu coração de +pae affectuosissimo. Responderam-lhe que estava no quarto. Dirigiu-se +immediatamente para lá, pensando, fóra de qualquer duvida, que +Magdalena, a não estar encommodada, não faltaria a esperal-o, com os +seus affagos de filha estremosa.</p> + +<p>A porta estava fechada por o lado interior, e esta circumstancia mais +sobresaltou ainda Jorge.</p> + +<p>--Magdalena! chamou elle, batendo mansamente. Ouviu dentro um leve +ruido, mas ninguem lhe respondeu. Era Magdalena que tentava limpar as +lagrimas e dar ao rosto e aos olhos uma expressão que não a trahisse.</p> + +<p>--Magdalena! minha filha! volveu Jorge, batendo segunda vez, e já um +pouco opprimido.</p> + +<p>--La vou papae!</p> + +<p>Jorge serenou-se, ouvindo-a. Magdalena abriu effectivamente a porta, e, +diga-se a verdade, mais para occultar que havia chorado, do que por +extremos d'affeição filial, lançou-se-lhe ao pescoço, tentando assim +encobrir o rosto.</p> + +<p>--Papae! disse ella com voz meiga.</p> + +<p>--Estou muito zangado comtigo! disse elle, beijando-lhe os negros e +formosos cabellos.</p> + +<p>--Comigo? continuou ella cada vez mais acariciadora e mais +impressionada. Porque?</p> + +<p>Jorge desprendeu a filha de si, tomou-lhe delicadamente a cabeça nas +mãos, e imprimiu-lhe um novo beijo na fronte, ébrio d'affeição paternal.</p> + +<p>--Porque! Ainda m'o perguntas!... Mas, que tiveste, ajuntou elle, +mudando subitamente d'expressão, que ainda tens nos olhos os vestigios +das lagrimas?</p> + +<p>--Eu? respondeu Magdalena, tentando illudil-o.</p> + +<p>--Tu, sim, minha filha; então não estou eu vendo que choraste.</p> + +<p>--Não, papae, engana-se.</p> + +<p>--Diz a verdade, Magdalena.</p> + +<p>Magdalena, debaixo da impressão que a dominava fôra, pouco e pouco, +sentindo subir de novo do coração aos olhos as lagrimas, que tentava +sopear. Era um vulcão latente, prestes a romper n'uma erupção medonha. +Quando, porém, Jorge instava ardentemente para que ella lhe revelasse a +verdade, a afflicta menina não poude conter-se por mais tempo, não +poude, nem por mais um momento, domar as ondas que lhe referviam no +seio, e lançou-lhe novamente os braços ao pescoço, occultando o rosto, e +exclamando soluçante:</p> + +<p>--Sou muito desgraçada, papae!</p> + +<p>E as lagrimas represadas romperam o dique que as detinha, cahindo +copiosas dos olhos negros e formosos de Magdalena.</p> + +<p>Jorge sentiu uma dôr aguda, profunda e intensa, dentro do seu coração de +pae, de pae que via a unica filha, a sua maior affeição no mundo, a +chorar, chamando-se desgraçada!</p> + +<p>Elle que daria tudo, a vida até, para que Magdalena não soffresse uma +dôr, uma unica, pequenina que fosse, sentiu-se quasi desfallecido, com a +dolorosa scena porque estava passado. Longe, bem longe, de vir encontrar +a filha estremecida n'aquelle estado lacrymoso, antes pensava vir +achal-a contente, alegre e ditosa, que n'isso ia um dos seus maiores +cuidados, que para isso trabalhava elle constantemente.</p> + +<p>Todos os paes são extremosos e dedicados, e não ha desgosto, por maior, +que possa fazer estancar a fonte limpida das affeições paternas. Jorge +de Macedo, era porém, duplamente affeiçoado a sua filha, porque era ao +mesmo tempo, pae e mãe. Beatriz, sua esposa adorada, partindo d'este +exilio, chamado mundo, para a vida d'alem-tumulo, legou-lhe, não só o +thesouro d'uma filha para consolo das suas dolorosas saudades, senão +tambem as joias do subido affecto com que amava o fructo formoso do seu +verdadeiro e acrisolado amor.</p> + +<p>Foi por isso que elle, ao ver Magdalena n'aquella explosão de pranto, +sentiu cravar-se-lhe no seio um como punhal d'aguçadissima ponta.</p> + +<p>--Desgraçada, minha filha?! exclamou elle pallido e convulso. Por +piedade, diz-me o que tens!</p> + +<p>--Oh! soffro muito... muito!... balbuciou ella, soluçando ainda.</p> + +<p>--Filha! minha filha, não me mates! Diz-me o que tens, conta-me o que te +aconteceu!</p> + +<p>E Jorge beijava-a phreneticamente, bebia-lhe as lagrimas que cahiam +crystallinas, quatro a quatro, e affagava-lhe os cabellos fartos, que se +haviam desatado pendendo em duas grossas e luzidias tranças.</p> + +<p>Magdalena não podia fallar suffocada pelo pranto. Jorge, porém, cada vez +mais afflicto, continuava n'uma dolorosa anciedade:</p> + +<p>--Falla, filha. Tens aqui o coração d'um pae, doido d'amor por ti, para +acolher as tuas mágoas, como tem acolhido sempre os teus sorrisos. +Magdalena... Magdalena...</p> + +<p>--Deixe-me descançar, papae... deixe-me serenar, e não se +afflija....não?</p> + +<p>--Então para que choras d'esse modo?</p> + +<p>--Oh! exclamou ella, porque sou uma creança, papae!...</p> + +<p>E sentou-se, como para descançar d'uma grande fadiga. O seio arfava-lhe +com violencia. Tinha no rosto a pallidez sympathica, que tantas vezes +inspira os poetas, e as mãos delicadas entrelaçadas uma na outra. Jorge, +ao vêl-a sentada, ia ajoelhar-se junto d'ella, para mais uma vez, e +carinhosamente, a interrogar, mas ella obstou a isso, accudindo de +subito:</p> + +<p>--Não, papae, sente-se aqui, ao meu lado...</p> + +<p>--Mas conta-me o que tens, minha filha, disse elle, sentando-se. Bem +sabes como devo estar soffrendo!</p> + +<p>Magdalena, que conhecia bem a grandissima affeição, que seu pae lhe +votava, e por consequencia, que bem avaliava as dores que o estavam +alanceando, encheu-se de coragem, e disse-lhe, tomando-lhe as mãos:</p> + +<p>--E não se zanga comigo?</p> + +<p>--Não, minha filha.</p> + +<p>---Então ouça-me.</p> + +<p>E Magdalena relatou a Jorge tudo quanto se passára, desde o jantar dos +seus annos até á scena violenta, que dera logar áquellas afflições e +áquellas lagrimas. Mencionou tudo, não esquecendo a minima das +circumstancias. Jorge estava ouvindo-a mais que admirado, n'um silencio +profundo, religioso até. Sentia-se chocado, grandemente chocado, e, para +isso bastava apenas a surpresa que ia recebendo, porque bem longe andava +elle de suppôr siquer o que se havia passado.</p> + +<p>Alma sensivel, porém, Jorge ia ouvindo a filha adorada, e não a +condemnava, não. Elle tambem tivera sonhos na sua mocidade, e a narração +de Magdalena fez-lhe passar, deante dos olhos do espirito, os primeiros +dias floridos do seu amor e do amor da sua querida Beatriz. No entanto, +ao saber das tentativas arrojadas de Americo, na noite da entrevista, +junto ao lago da chacara, Jorge não poude occultar a sua exaltação e +levantou-se exclamando:</p> + +<p>--Infame! Era assim que me queria pagar o quinhão da minha fortuna, que +ha dias lhe dei!...</p> + +<p>E Magdalena proseguiu na exposição dos acontecimentos. Nada escondeu, +nada furtou, nada occultou, de quanto se havia passado, e só a verdade +presidiu a narração de cada facto. E tambem, para que havia de obrar de +outro modo? Não era Jorge seu pae? e uma pae tão benevolo? tão meigo? +tão bondoso?</p> + +<p>Elle, quando Magdalena acabou, para mais a tranquilisar, affagou-a, +dizendo-lhe:</p> + +<p>--Não te afflijas, minha filha. O que preciso é que me digas se gostas +muito do senhor Luiz, mas que me digas a verdade.</p> + +<p>--Oh! muito, meu papae!</p> + +<p>--E não te enganarás?</p> + +<p>--Não, eu bem o sinto.</p> + +<p>--Então ainda hasde ser muito feliz.</p> + +<p>Momentos depois, partia o cabinda do Botafogo para o Rio, no vapor da +carreira, com a seguinte carta de Jorge para Luiz.</p> + +<div class="carta"> <p class="direita"><i>Meu socio e amigo.</i></p> + +<p>«Para negocios de gravidade preciso, ainda hoje mesmo, fallar-lhe e ao +senhor Americo. Rogo-lhes pois o obsequio de chegarem aqui, onde os fica +esperando o seu</p> + +<p class="direita">Socio amigo, etc.</p> + +<p class="direita"><i>Jorge de Macedo.</i>»</p> </div> + +<p>E em quanto o negro transpunha a distancia que vai do Botafogo á cidade, +ficavam Jorge e Magdalena entregues á refeição do jantar, conversando já +mui animadamente, muito contentes, entre os perfumes suavissimos das +flores formosas do affecto que lhes enchia as almas.</p> + + + + +<h3>XVII</h3> + + +<p>Não ha nada mais caprichoso do que o coração humano, e, por +consequencia, nada mais enigmatico, nada mais incomprehensivel. +Prende-se muitas vezes com as cousas mais simples d'este mundo, e olha, +outras tantas, com indifferença para sacrificios, que, d'um só jacto o +deviam attrahir para sempre. Ora se exalta, ora se humilha pelos mesmos +motivos, e nas mesmas circumstancias; ora se lamenta e ora sorri com a +mesma causa, indo, muitas vezes, até ao ponto de juntamente chorar e +rir, de implorar e impôr-se!</p> + +<p>Eu não sei, mas creio que de todas as sciencias, a sciencia do coração é +a mais difficil, a mais transcendente, a mais impyrica.</p> + +<p>O coração offende-se com cousas pequenissimas, que muitas vezes não +perdôa, e é capaz de não se offender com cousas de vulto, ou de +facilmente as esquecer e perdoar!</p> + +<p>Luiz ainda não tinha chegado ao Rio e já ia arrependido das asperezas +que dirigira a Magdalena! Já a julgava innocente, e incapaz da trahição, +que lhe imputou durante os momentos de mágoa e de colera do seu amante +coração.</p> + +<p>Em verdade, passados os primeiros impetos, serenadas as primeiras +impressões violentas, Luiz começou a recordar os protestos de innocencia +de Magdalena, viu as lagrimas que ella derramou, atravez d'um prisma +muito menos carregado, e convenceu-se de que só uma injustiça as fizera +derramar, e censurou-se a si mesmo pela precipitação com que procedera!</p> + +<p>Tivera tentações de retroceder para, tanto quanto podésse, desfazer o +mal que originara, mas era impossivel pelo adiantado da hora.</p> + +<p>As lagrimas da formosa menina estavam-lhe pesando na alma e no coração, +d'um modo terrivel. Elle, depois de passada a grande exaltação que o +dominára, não podia attribuir a Magdalena um crime tamanho. Era nova de +mais para tanta maldade, muito innocente e ingenua para tanta +hypocrisia, e assaz bondosa para tamanha crueldade.</p> + +<p>Alli a grande infamia, o grande mal fôra necessariamente commettido pelo +mulato, fôra fatalmente tramado por Americo.</p> + +<p>Que mal havia feito Luiz a Magdalena para que ella se vingasse d'elle +d'um modo tão barbaro e tão cruel?</p> + +<p>Depois, a memoria de sua mãe tão solemnemente, invocada n'um protesto de +fidelidade e de amor, seria uma cousa tão pequena, que se olvidasse, +unicamente para satisfazer um capricho, para attrahir mais um galanteio?</p> + +<p>Não era crivel.</p> + +<p>Magdalena estava innocente, e com esta convicção entrava Luiz em casa, +na rua dos Pescadores, apezar da scena violenta em que o vimos, apezar +de toda a sua inexorabilidade, durante a meia hora em que se achou na +presença d'ella.</p> + +<p>No entanto, como havia agora de remediar o mal feito?</p> + +<p>Uma confissão sincera d'um sincero arrependimento era a unica solução do +problema.</p> + +<p>Seria, porém, bem acceita? Ouvil-a-ia Magdalena? Quebraria ella o seu +orgulho, altamente despertado e inflamado pelas injustiças que elle fez +ao seu caracter, á sua lealdade e ao seu coração?</p> + +<p>Isto lançava-lhe uma duvida no espirito, e esta duvida era um punhal +aguçadissimo que o feria dolorosamente.</p> + +<p>Entrou em casa preoccupado com tudo isto, nas alternativas do receio e +da esperança d'uma absolvição e d'uma condemnação.</p> + +<p>Americo sahiu-lhe quasi ao encontro, e apenas o viu fitou-o +expressivamente, como tentando lêr-lhe no rosto quanto se lhe passava na +alma.</p> + +<p>Luiz nem sequer lhe deu as honras de o olhar. Seguiu para o escriptorio, +na firme resolução de completamente desprezar o infame, decidido a +castigar-lhe a menor insolencia.</p> + +<p>O mulato, porém, não era homem que se contentasse em estudal-o +silenciosamente; embebido na ideia de conseguir os seus fins, pouco lhe +importavam os meios e até as consequencias.</p> + +<p>Dirigiu-se tambem ao escriptorio.</p> + +<p>Luiz estava sentado escrevendo uma carta. Americo olhou-o, viu a +severidade do seu rosto, mas nem assim recuou.</p> + +<p>--Então? perguntou elle.</p> + +<p>Luiz sentiu como que subir-lhe o sangue á cabeça e turvar-se-lhe a +vista, mas não respondeu. Chamava a prudencia em seu auxilio, porém o +desafio d'Americo era forte de mais para que lhe podesse resistir.</p> + +<p>--Então? interrogou novamente o mulato com ar de refinado cynismo.</p> + +<p>Luiz guardou ainda silencio durante alguns segundos, mas occorreu-lhe a +ideia de que o seu silencio poderia traduzir-se por cobardia ou +humilhação e volveu-se então para o mulato, fitou-o corajosamente e +perguntou tambem com voz firme:</p> + +<p>--Então o que!</p> + +<p>--Qual de nós vence? acudiu Americo sorrindo.</p> + +<p>--Ainda o duvidas canalha! Pois não o duvides, infame. Ha-de vencer o +justo, que sou eu, tão certo como seres castigado, que és o despresivel.</p> + +<p>--N'esse caso provou-se a innocencia da menina?</p> + +<p>--Provou-se que és um salteador infame e cobarde, da honra dos que te +chamam amigos e te sentam á sua meza, que é o mesmo.</p> + +<p>--Vê que me insultas! se não apresentas as provas!</p> + +<p>--Quem desce a isso, biltre! Teme o castigo e não peças as provas!</p> + +<p>--Ah! ah! ah! vens, de mais a mais um pouco tragico. O que faz o amor!</p> + +<p>--Americo! bradou Luiz quasi de todo exaltado.</p> + +<p>--Começam as ameaças?</p> + +<p>--E não ha duvida em que comecem tambem as obras. Retira-te, que já te +não vejo. Não me provoques, porque te desprezo, como reptil asqueroso! +Sahe! Não me obrigues a sujar a mão na lama que tens na cara!</p> + +<p>--Luiz! gritou Americo, agarrando em um tinteiro.</p> + +<p>--Canalha! bradou Luiz, estendendo-lhe a mão na face bronzeada, com a +força d'um desesperado.</p> + +<p>Estava travada a lucta. O mulato tinha mais força physica, mas Luiz +possuia mais força moral e era mais corajoso. Aquillo foi um vulcão que +se accendeu subitamente. Um instante depois estavam enlaçados um no +outro, n'uma lucta medonha, incrivel e desesperada. Sentiam apenas o +ruido dos pés, movendo-se aos impulsos fortes de um e outro lado, e a +respiração abafada de cada um dos contendores. Americo só tentava lançar +Luiz a terra, este porém resistia valentemente. E n'um momento favoravel +atirou um murro ao infame que lhe fez logo brotar o sangue do nariz. O +mulato enfureceu-se pela dôr e pelo orgulho, exasperou-se damnadamente, +e atirou as mãos ao pescoço de Luiz, n'uma expressão de raiva +desmarcada, no intento mesmo de o estrangular.</p> + +<p>E de certo o teria feito; sem duvida, seriam funestas as consequencias +d'aquella contenda se não fosse a apparição, no momento fatal, de um +homem, cujo olhar quasi paralysou completamente a acção do mulato.</p> + +<p>Era o cabinda, era o velho, mas sympathico, o negro, mas dedicado, o +escravo, mas d'alma grande.</p> + +<p>O negro vinha encarregado d'entregar a Luiz a carta de Jorge de Macedo. +Muito contente da sua missão, porque lhe dizia o coração que se andava +tratando da ventura de sua filha, o negro transpoz apressadamente a +distancia que vae do Botafogo ao Rio, á rua dos Pescadores.</p> + +<p>Chegou, entrou, dirigiu-se á porta do escriptorio, tranquillo, socegado, +contente, sem sequer se lembrar da scena que ia encontrar. Quando deu +com os olhos nos dous, que ferozmente se debatiam, sentiu um como abalo +electrico interior e não esperou por mais nada. Atirou-se em seguida ao +mulato, que lançava as mãos ao pescoço de Luiz, agarrou-o pela gola do +casaco, deu-lhe um fortissimo puxão e elle, largando Luiz, mais com +receio do cabinda do que por vontade propria, foi cahir ao chão no meio +do escriptorio.</p> + +<p>--O negro cá está! bradou o cabinda.</p> + +<p>--Não preciso de ti! acudiu Luiz.</p> + +<p>--Só assim! murmurou Americo, espumante de raiva.</p> + +<p>--Agora, meu branco, isto, que manda o senhor! disse o negro desprezando +Americo, que tentava levantar-se, e entregando a Luiz a carta de Jorge.</p> + +<p>--E a senhora moça? interrogou Luiz.</p> + +<p>--Tem chorado muito; o branco não gosta d'ella, não!</p> + +<p>--Vêl-o-has, cabinda!</p> + +<p>E procedeu á leitura da carta de Jorge.</p> + +<p>Ao terminar, tinha uma como nuvem diante dos olhos. Pareceu-lhe que uma +grande tempestade se ia desencadear sobre a sua cabeça. E o que tinha +fóra de toda a duvida é que era chegado o dia em que tinha de decidir-se +a sua sorte. Mas se, por um lado, o apoquentavam os receios de não +conseguir a suspirada felicidade, tinha, pelo outro, a consolação da +tranquillidade da consciencia.</p> + +<p>O mulato, entretanto, havia-se levantado, e dispoz-se a sahir, dizendo:</p> + +<p>--Contra dous não posso, mas hei-de vingar-me!</p> + +<p>--Nem contra um! a tua causa é a primeira a ser contra ti, canalha! +bradou Luiz.</p> + +<p>--O negro póde muito, o mulato bem o sabe.</p> + +<p>--Deixemos agora as questões. O snr. Macedo convida-nos a irmos +immediatamente ao Botafogo, para tratarmos negocios d'importancia. Quem +sabe se será para nos julgar? Como nada receio, vou já. Convido-o; faço +o meu dever, e nada mais.</p> + +<p>--Ah! o branco é bom, ha-de ser feliz e a minha filha tambem. Depois que +importa que o velho cabinda morra? morre contente, porque deixa contente +a sua filha!</p> + +<p>E o velho escravo seguiu Luiz, emquanto que Americo ficava limpando o +sangue, que ainda, como signal da lucta em que se empenhára, lhe corria +do nariz.</p> + +<p>Aquelle convite de Jorge de Macedo fôra um incendio, que crestára todas +as esperanças ao mulato. Para elle era inevitavel que não só não +conseguia nada, senão tambem que estava perdido, porque Jorge havia de +fazer justiça, castigando-o.</p> + +<p>Pensou primeiro em fugir, mas depois achou que semelhante partido ainda +mais o condemnaria, porque seria mais uma prova da sua culpabilidade, e +dispoz-se a soffrer tudo.</p> + +<p>Assim, emquanto que Luiz ia ganhando novas esperanças, emquanto atravez +das nuvens que lhe toldavam o horisonte ia como que descortinando a luz +brilhante, formosa e esplendida da felicidade que tanto sonhára, ia o +mulato convencendo-se de que a Providencia vela sempre pelos bons e +pelos justos, de que o mal tem sempre o seu castigo do mesmo modo que +todo o bem é premiado.</p> + +<p>Para um iam desabrochando, embora receiosas e timidas, as flores, cujos +perfumes embriagam a vida.</p> + +<p>Para outro, os espinhos que magoam, e ferem, e doem a todos os momentos.</p> + +<p>E Magdalena, o nosso anjo, Magdalena, a formosa, esperava no entanto, +cheia d'anciedade, pela chegada dos dous e pelo resultado d'aquella +conferencia que ia ter logar agora.</p> + +<p>O que lhe dizia o coração nos sobresaltos com que a agitavam?</p> + +<p>O que lhe dizia a alma na esperança que a enflorava?</p> + +<p>Tudo lhe dizia amor, ventura e ternuras!</p> + +<p>Tudo lhe fallava de felicidades, porque era bondosa, meiga, innocente, +candida, e sobretudo, porque era boa filha, porque nunca déra um +desgosto áquelle que a mirava doudo d'amor!</p> + + + + +<h3>XVIII</h3> + + +<p>Muito terrivel é a situação de quem espera, esperando debaixo do pezo +d'uma duvida!</p> + +<p>A duvida dá ao coração as alternativas da esperança e do receio; da +esperança, que faz das horas seculos, do receio, que faz das horas +instantes rapidissimos; da esperança, que arrebata com sonhos de dourado +enlevo, do receio, que fere com os espinhos d'uma perspectiva má e +triste.</p> + +<p>Esperar, d'este modo, é esperar entre a lucta de dous sentimentos +oppostos, que se degladiam heroicamente, braço a braço, corpo a corpo, +sem se fatigarem, sem succumbirem, sem cederem um ao outro um palmo de +terreno, ambos egualmente potentes, ou egualmente fracos, porque nem um +cede, nem o outro vence, e porque um e outro exercem egual predominio no +espirito, embora oppostamente.</p> + +<p>O coração prende-se, durante um momento, nos arrobos da esperança, nas +delicias suaves de quem vê realisado um desejo muito grande de grande +ventura, para no momento immediato se embrenhar nas mil veredas +tortuosas, nos muitos pezares e na grande tristeza em que se desata a +ideia, o receio de que aborte essa esperança, de que não tenha uma +realidade a aspiração que lá se gerou e n'elle vive, como pomba dentro +do seu ninho.</p> + +<p>Magdalena estava sentindo tudo isto, esperando por Luiz e Americo, que +seu pae mandára chamar, depois d'aquella scena de lagrimas em que a +vimos.</p> + +<p>Tinha d'um lado a esperança de que tudo se harmonisaria, e +satisfatoriamente para todos, e que seu pae lhe restituiria Luiz, que +ella amava ainda muito, apezar de tudo, e com elle a ventura, o affecto, +os carinhos, o socego, as meiguices, os extremos, por que tanto almejava +o seu coração, tão viçoso e tão sedento!</p> + +<p>Do outro, o receio de que essa esperança não germinasse um unico +encanto, um unico perfume; de que o sonho ridente da suspirada +felicidade se esvaecesse, como nuvem de fumo leve nas azas da viração do +sul!</p> + +<p>No meio de tudo isto, Jorge pensava na felicidade da filha, como pae +mais que muito affectuoso, e no meio decente de castigar dos dous, +d'Americo e de Luiz, aquelle que fosse criminoso perante o tribunal e o +juizo recto da sua impolluta consciencia.</p> + +<p>Os dois associados do honrado capitalista e negociante, vinham, +separados, a caminho do Botafogo, phantasiando o que iria passar-se, +embrenhando-se em mil conjecturas, sobre diversos assumptos, como causa +provavel do seu chamamento, mas sempre fugindo-lhes o espirito para a +ideia de que ia tratar-se do succedido, com relação á formosa Magdalena.</p> + +<p>Até o velho Cabinda, que acompanhava Luiz no vapor da carreira, até esse +ia embebido com a ideia da ventura da sua filha querida, da sua adorada +senhora moça, que era n'este mundo a ideia que mais o prendia, enlevava +e dominava!</p> + +<p>O pobre do negro consentiria tudo; no que não consentiria de modo +nenhum, e para isso era até capaz de dar a vida, era em que o mulato +vencesse Luiz, em que Americo conseguisse os seus intentos, não só +porque, por uma d'estas immensas sympathias, que se não podem explicar, +era altamente affeiçoado a Luiz, ao branco, como elle dizia, senão +tambem, porque, oppostamente, odiava Americo com odio de morte, +sobretudo depois dos ultimos acontecimentos, e talvez por motivos de +antipathia e de raças.</p> + +<p>Os tres, Luiz, Americo e o cabinda, chegaram ao Botafogo, por volta das +oito horas, e quasi ao mesmo tempo. O negro e Luiz foram os primeiros, +mas o mulato não se fez esperar.</p> + +<p>O velho escravo dirigiu-se para a cosinha, pela escadaria da rectaguarda +do palacete, emquanto Luiz era introduzido na sala, e encontrou na +varanda Magdalena, que o esperava n'uma indescriptivel anciedade.</p> + +<p>Magdalena tinha ainda nos olhos os vestigios das lagrimas recentes, no +rosto a pallidez do desgosto que soffrêra, e a expressão do seu estado +d'excitação, e nas ondulações do seio os signaes evidentes do agitamento +das ondas interiores.</p> + +<p>No entanto, bella sempre, sempre formosa, sympathica, attrahente!</p> + +<p>Apenas avistou o negro, correu pressurosa a vir esperal-o ao topo da +escadaria.</p> + +<p>Elle sorriu-lhe n'uma expressão de dedicação.</p> + +<p>--Então, cabinda? interrogou ella subitamente.</p> + +<p>--O branco veio, senhora moça,</p> + +<p>--E aonde está?</p> + +<p>--Na sala grande que deita para o jardim.</p> + +<p>--E vem contente?</p> + +<p>--Ha-de estal-o. O coração do negro não mente nunca.</p> + +<p>--Vieste com elle?</p> + +<p>--Vim, minha filha.</p> + +<p>--E Americo?</p> + +<p>--Tambem vem! O mulato brigava com o branco no escriptorio, quando o +negro chegou, mas o cabinda prendeu-o pelo pescoço e deitou-o ao chão.</p> + +<p>--Ao mulato? perguntou assustada.</p> + +<p>--Sim.</p> + +<p>--Mataste-o?</p> + +<p>--Não, senhora moça, mas o negro estrangula-o se o mulato continua!...</p> + +<p>--Eu quero-te prudente, cabinda!</p> + +<p>--E o negro quer feliz o branco e a sua senhora moça!</p> + +<p>--E elle? interrogou Magdalena com anciedade.</p> + +<p>--O branco? não soffreu nada. Mas para que a cobra não assalte o ninho +da jurity ou do beija-flor, é preciso esmagal-a ou mandal-a para longe. +A minha filha comprehende?</p> + +<p>--Comprehendo, cabinda. Meu pae lá está; a verdade ha-de brilhar como o +diamante na mina, e Deus ha-de castigar o culpado.</p> + +<p>--Oh! exclamou o negro, ébrio d'alegria; oh! e como o negro ha-de rir de +contente, quando a senhora moça lhe disser que é feliz! O cabinda até +ha-de dançar o batuque!</p> + +<p>--Velho tonto! exclamou Magdalena risonha e altamente enthusiasmada com +o jubilo do bom escravo.</p> + +<p>Emquanto, porém, este colloquio tinha logar na varanda da rectaguarda do +palacete de Jorge, entrava Americo para a sala da frente, onde Luiz +permanecia só, esperando pelo capitalista.</p> + +<p>Os dous estavam de novo, frente a frente. Ambos opprimidos, receiosos +ambos, sem a certeza do que se ia passar, do que se ia decidir alli, +olharam um para o outro, ambos n'uma expressão de duvida, mas sem +trocarem uma unica phrase, uma unica palavra.</p> + +<p>O receio, pelo qual, cada um d'elles, era dominado, tinha origens +diversas e faceis de explicação.</p> + +<p>Luiz não receiava pelo seu procedimento, porque bem alto lhe fallava a +sua consciencia; temia, sim, que de todo se perdesse a melhor occasião, +qual a que se lhe proporcionava, agora, de realisar o sonho ardente da +felicidade por que suspirava com tanta loucura.</p> + +<p>Americo, esse receiava o castigo da sua infame tentativa, porque uma voz +intima lhe segredava que todo o seu procedimento era reprehensivel, +indigno e injustificavel.</p> + +<p>Ainda assim, nem um nem outro tinham a certeza do negocio que alli os +reunia, e isto dava ao mulato a esperança de que se agora não fosse +fulminado, ainda poderia tentar o conseguimento dos seus fins, ou pelo +menos indispor de todo Luiz e Magdalena.</p> + +<p>Estava uma tarde explendida.</p> + +<p>Os raios do sol vivo, que docemente ia descendo ao seu occaso, +projectavam-se brilhantes no jardim, sobre que abriam as janellas da +sala, onde esperavam Americo e Luiz, e imprimiam nas rosas brancas e nos +jasmins perfumados uns reflexos da sua côr avermelhada e tropical.</p> + +<p>Zumbiam as vêspas nos trançaes dos maracujás, volitavam rapidos, de flôr +em flôr, deixando beijos em toda a parte, uns mimosos e pequeninos +beija-flores, e cortavam o espaço, em mil caprichosas linhas, ora +subindo, ora descendo, ora rapidas, ora vagarosas, algumas borboletas de +tamanhos variados e côres vivas e formosas.</p> + +<p>Lá ao longe, entre as folhas verdes do capim, andavam arraiando amores +as juritys mimosas.</p> + +<p>Luiz e Americo, cada um em sua janella, parecia estarem ambos embebidos +na silenciosa contemplação das bellezas da natureza, do explendido +quadro que tinham diante dos seus olhos, expressivamente scismadores. +Longe, porém, e muito longe, estavam elles, dos encantos que alli se +desenrolavam, e que, sem duvida, inspirariam muito a alma sensivel e +contemplativa d'algum poeta ou d'algum artista.</p> + +<p>Estavam, pois, assim, quando de subito se abriu uma porta, que, da sala +espaçosa, ricamente mobilada e adornada, dava passagem para o interior +da casa.</p> + +<p>Os dous voltaram-se immediatamente, e ao mesmo tempo, dirigindo-se ao +personagem que entrava.</p> + +<p>Era Jorge de Macedo.</p> + +<p>Trazia no rosto a expressão da affabilidade, mas ainda assim, carregada +com as linhas sombrias d'uma severidade mal disfarçada. Quatro olhos se +cravaram nos d'elle, como para traduzirem alguma cousa, os olhos de Luiz +e d'Americo.</p> + +<p>Seguiram-se os cumprimentos indispensaveis, de respeito e de boa +cortezia.</p> + +<p>Os dous, cada um pelo seu lado, haviam percebido que Jorge de Macedo não +estava no seu estado normal, e os traços de mudança que lhe soletraram +no semblante, mais se inclinavam para uma certa tristeza, para uma vaga +melancolia, para o que quer que é d'um desgosto, embora pequeno ou mal +traduzido, do que para a indicação d'uma irritação, d'uma exaltação, que +rompesse em asperezas ou se desatasse em colericas insinuações.</p> + +<p>Agora é que mais que nunca o receio os dominava. E o mulato, se não fôra +a lembrança de que commetteria um acto d'inqualificavel cobardia, que +mais provaria ainda contra o seu procedimento, decerto teria fugido, +para nunca mais apparecer.</p> + +<p>Teve tentações de fazel-o.</p> + +<p>Era a propria consciencia que o estava accusando d'aquelle modo! Bastava +a presença do juiz que ia julgal-o para o fazer tremer!</p> + +<p>Luiz esperava receioso, mas resignado. E diante dos seus olhos surgia +ainda formosa, explendida, encantadora, a imagem de Magdalena, que elle +adorava muitissimo.</p> + +<p>E na sua consciencia só tinha o espinho d'um remorso a magoal-o! Era o +de haver tão impensadamente, quasi que insultado a mulher a quem +desejaria agora lançar-se aos pés, implorando, humilde, um perdão para +os arrebatamentos que lhe fizeram, a ella, derramar tão amargas e +sentidas lagrimas.</p> + +<p>E Magdalena?</p> + +<p>E o cabinda?</p> + +<p>O que faziam os dous, agora, no momento em que talvez se fosse decidir +da ventura d'aquella e d'alegria intima dos ultimos dias da velhice +d'este?</p> + +<p>Depois do dialogo travado na varanda, foram ambos cautelosamente +collocar-se atraz d'uma porta fechada, que communicava com a sala +grande, onde se achava Jorge, com Luiz e Americo, a fim de verem se era +possivel escutarem o que se passava.</p> + +<p>Chegaram no momento em que terminavam os cumprimentos dos dous socios do +capitalista, e quando este delicadamente lhes offerecia duas cadeiras, +collocadas ao lado do sophá, onde tomou assento tambem.</p> + +<p>Jorge ficou, assim, entre os dous; Luiz á direita e Americo na esquerda.</p> + +<p>Houve um momento de silencio.</p> + +<p>Os dous esperavam d'olhos cravados no chão. Jorge dispunha-se para +começar, e dentro, Magdalena e o cabinda, tentavam abafar a respiração +para que nem essa trahisse a sua presença, alli, atraz da porta que os +escondia, mas que os devia deixar ouvir tudo.</p> + +<p>Que contrastes no intimo de cada um d'aquelles individuos! Que mares, +tão diversos nas suas agitações, no seio de cada um d'aquelles +personagens!</p> + + + + +<h3>XIX</h3> + + +<p>Sentaram-se os tres, e houve, como já dissemos, um momento de silencio +completo, em que até pareciam sustidas as respirações.</p> + +<p>Depois, Jorge esfregou vagarosamente as mãos nos joelhos, gesto este, +que póde talvez traduzir-se por uma certa repugnancia, ou por uma certa +difficuldade em abrir a conferencia, para a qual havia chamado os seus +recentes socios, e em seguida começou assim, com ar de gravidade:</p> + +<p>--Devo principiar por pedir-lhes desculpa de os haver incommodado, mas +tenho para mim, em tanta conta, em tanta gravidade, em tanta ponderação, +o negocio que me obrigou a chamal-os agora aqui, que o não fazel-o +poderia talvez importar-me um desgosto, que d'este modo me pouparei, +creio-o. Resumirei em poucas palavras o que tenho a dizer, porque quero +limitar-me, apenas, a descobrir a verdade. Sou infelizmente viuvo, mas +sou pae. Choro, por um lado, as lagrimas da saudade, mas tenho, graças +ao céo, por outro, um anjo que m'as dulcifica. Fui rapaz, tive a minha +mocidade, com todos os sonhos, com todos os arrebatamentos, com todas as +illusões, com todos os euthusiasmos que lhe são proprios, e nos quaes se +desata a effervescencia do sangue dos vinte annos. O livro da minha vida +d'então, escripto, capitulo a capitulo, não tinha, nunca teve, uma unica +pagina maculada por uma nodoa, leve e pequenina que fosse. Mesmo nos +delirios da minha juventude timbrei sempre em conservar intacta a pureza +do meu nome, e jámais tentei realisar uma aspiração grande ou pequena, +boa ou má, por meios que me fizessem soffrer a dignidade, ou ferissem a +minha honra. Trabalhei para chegar ao que sou, e o bom nome que creio +gosar, agora, não é mais que o nome grangeado então. N'esse tempo a +ambição era egual á lealdade, se é que a ambição já existia n'um grau +tão elevado como actualmente, mas ainda assim, nunca tão corrompedora, +como na época que vamos atravessando. Agora mudaram as cousas, e é +d'isso que me queixo. Visa-se ao alvo e ha-de chegar-se lá, custe o que +custar, pouco importam os meios.</p> + +<p>E Jorge fez uma pequena pausa, como que para descançar. Via-se que +estava sensibilisado, commovido ou nervoso.</p> + +<p>Os dous conservavam-se impassiveis, attentos, de fronte humildemente +abatida. Agora já não tinham que duvidar; era a elles que se dirigia +todo o discurso de Jorge de Macedo, que proseguiu momentos depois:</p> + +<p>--Tratei-os sempre bem, sempre, mais como amigos, como parentes, como +affeiçoados meus, do que como subordinados ao meu serviço. Para prova do +muito que julgava merecerem-me, sentei-os ha dias á minha meza, n'uma +festa intima, puramente familiar, no intuito, que realisei, de os fazer +partilhar da minha sorte, fazendo-os socios meus.</p> + +<p>--Eu, pela minha parte, senhor, serei eternamente agradecido ao +muitissimo que devo a V.<sup>a</sup> Ex.<sup>a</sup>, acudiu Luiz.</p> + +<p>--E eu... ia Americo a ajuntar tambem, quando Jorge o interrompeu +continuando:</p> + +<p>--Perdão! Será talvez assim, mas n'esse caso estou então illudido, +porque para mim, um dos senhores, pelo seu comportamento, desdiz +completamente do conceito que me... devia.</p> + +<p>--V.<sup>a</sup> Ex.<sup>a</sup> deve, sem duvida, ter muitissima razão para fallar d'esse +modo, e bom será que nos julgue, para que só o culpado soffra o castigo, +atalhou Luiz.</p> + +<p>--As justificações depois. Ouçam-me por emquanto e depois terão a +palavra. Cheguei hoje do Rio, contente e feliz, esperando, pelo costume, +vir encontrar, do mesmo modo, minha filha, que adoro com a loucura de +pae que não tem outra, que não tem mais familia. Eu, que já me vejo mais +perto do tumulo do que do berço, viuvo, e por consequencia, sem os +consolos, sem as delicias com que sempre nos embriagam os corações +d'aquellas que se unem a nós, partilhando da nossa vida, affiz-me aos +carinhos e aos consolos da filha unica, que n'este ponto valia bem a +chorada mãe, e costumei-me a pagar-lh'os sempre, trabalhando +constantemente por em todos os sentidos lhe abrir caminhos, onde só +desabrochassem flores e onde nunca viçasse um espinho. Consegui-o +durante muitos annos, em que nunca uma nuvem, a não ser a da saudade que +ambos cultivavamos pela rosa que Deus chamára a si, obscureceu levemente +o céo da nossa vida. Prometti, no leito de morte da minha adorada +Beatriz, que faria tudo para que Magdalena fosse ditosa. O céo tem-se +empenhado em auxiliar-me no cumprimento da minha promessa, porque até +hoje ainda Magdalena não derramou uma unica lagrima, ainda não teve um +queixume para me lançar no coração. Sorria-me esta ideia da felicidade +de minha filha, que era a da minha felicidade tambem, e era por isso que +ao entrar e ao sahir de casa, em cada dia, eu o fazia contente, ébrio +mesmo d'uma alegria que não me passou nunca pela mente, que podésse +toldar-se ou ennublar-se. Não succedeu, porém, assim; e hoje, quando +regressava, ancioso por lhe pagar em beijos os beijos e os affagos com +que era costume esperar-me ella, venho encontral-a chorando triste e +dolorosamente, proclamando-se desgraçada, a filha querida do meu +coração. As suas lagrimas quasi que me fizeram succumbir. Não as +esperava, não desejára esperal-as. Era, havia muitos annos, o primeiro +momento de turtura que eu soffria...</p> + +<p>E Jorge tinha as lagrimas nos olhos. Fez uma pequena pausa para desatar +a voz que se lhe ia prendendo na garganta, e proseguiu:</p> + +<p>--Interroguei-a com a brandura de quem é prudente, com a dôr de quem +como eu a idolatrava tanto e com a curiosidade de quem tudo desejava +saber, para tudo remediar se fosse possivel. Oh! o que eu soffria então! +Porque angustias não passei durante os curtos momentos, que me valeram +muitos seculos, antes de me revelar a verdade!</p> + +<p>--E descobriu-a, não? interrogou Luiz subitamente.</p> + +<p>--Não sei. Contou-me Magdalena uma historia, em que figuram, como +principaes personagens, os dous homens que ha poucos dias sentei á minha +meza para os associar, no negocio, ao meu nome. Soffri ainda mais!</p> + +<p>--E... ia Luiz a interromper, quando Jorge continuou:</p> + +<p>--Conclui que ambos a pretendiam, mas que nem ambos empregavam, para +isso, meios muito honrosos.</p> + +<p>O mulato estava tremendo de receio. Luiz sentia-se cada vez maior senhor +de si.</p> + +<p>--Perdão, senhor, da minha parte todos o eram. E se algum de nós +procedia menos dignamente não era de certo eu, juro-o, disse Luiz com +convicção.</p> + +<p>--Eu tambem... acudiu Americo sem poder concluir.</p> + +<p>--Qual dos dous convidou minha filha a uma entrevista junto ao lago a +horas adiantadas da noute?</p> + +<p>--Eu não, senhor, afirmou Luiz.</p> + +<p>--Fui eu... disse o mulato a custo.</p> + +<p>--E com que fim?</p> + +<p>--Fallar-lhe... apenas, respondeu o mulato.</p> + +<p>--Então não foi para lhe entregar uma carta do senhor Luiz?</p> + +<p>--Minha? Não podia ser, disse este, levantando-se. Saiba V. Ex.<sup>a</sup> que +este senhor mentiu ou abusou, se disse ou pretextou semelhante cousa. E +peço licença para dizer duas palavras. Vivo ha perto de doze annos com +V. Ex.<sup>a</sup> e nunca, creio eu, lhe dei motivos para uma censura, para uma +queixa, para uma reprehensão. A minha vida modelou-se, no tocante a +honra, a dignidade, a caracter, a tudo, emfim, pela de V. Ex.<sup>a</sup> que bem +digna foi sempre, e é, de ser imitada. Fui sempre respeitoso e submisso, +sempre, e não seria no momento em que V. Ex.<sup>a</sup> me deu uma grandissima +prova da sua estima, que eu por um acto menos digno lançaria em terra, +desfeito, desmoronado, um edificio que tanto tempo levou a construir. +Com relação á filha de V. Ex.<sup>a</sup> o meu procedimento não me será lisongeiro +talvez, mas tambem não é infame. Na tarde do dia em que tive a honra de +sentar-me á sua meza, passeiava ao lado da bondosa filha de V. Ex.<sup>a</sup> +pelas alamêdas do jardim, emquanto V. Ex.<sup>a</sup> e este senhor conversavam +tomando café. A nossa conversação tomou o caminho que sempre segue entre +pessoas de vinte annos. Achei-a então formosa de corpo e formosissima +d'alma. Não resisti aos impulsos do coração que se abria com as suas +palavras, que desabrochava subitamente com o sol dos seus olhares, e +disse-lhe que a amava. Confessou-me tambem que nunca um homem a +impressionára e que... tambem se inclinavam para mim as flores do seu +affecto. Eu fallei então tão verdadeiramente, como o estou fazendo agora +a V. Ex.<sup>a</sup> Parti. No dia seguinte, creio eu, recebi um bilhete de D. +Magdalena, com duas phrases, filhas do seu sentimento, a que respondi +com dignidade e affecto tambem. Impellia-me o coração e era valente de +mais para que eu lhe resistisse. Quando V. Ex.<sup>a</sup> me encarregou de ir a +Macahé tornei a escrever-lhe e dei a carta a um dos negros do armazem. +Não sei se D. Magdalena a recebeu. O que sei é que este homem, com o +qual nunca mais poderei viver, desde o momento em que conheceu que a +filha de V. Ex.<sup>a</sup> me levantava até ella com o seu amor, começou a +fazer-me uma guerra de morte, uma guerra declarada, protestando que a +filha de V. Ex.<sup>a</sup> seria para elle e nunca para mim. Tivemos algumas +altercações violentas. Quando regressei de Macahé, ancioso de vêr D. +Magdalena, e contentissimo de bem ter desempenhado a minha missão, +surge-me este senhor, apresenta-me um bilhete d'ella, em que lhe concede +uma entrevista para horas adiantadas da noute, e uma fita dos cabellos +d'ella que realmente reconheci. Não sei mais nada. Julguei a filha de V. +Ex.<sup>a</sup> uma creança caprichosa, e hoje, talvez excessivamente desesperado, +porque devéras me doía o coração, vim a esta casa e... disse á filha de +V. Ex.<sup>a</sup> que estimava que fosse feliz, mas que me esquecesse. Ainda assim +Deus sabe o sacrificio que fiz n'este ultimo acto. O meu resentimento +era, porém, tão grande, que não pude ser-lhe superior. E para tudo dizer +a V. Ex.<sup>a</sup> confesso que me arrependi logo, porque creio agora que a filha +de V. Ex.<sup>a</sup> é uma bondosa e sincera menina e que aqui, em tudo isto, só +andou uma infamia, uma indignidade da parte d'este homem, com que já +hoje tive uma séria altercação. Amo ainda, e muito, a filha de V. Ex.<sup>a</sup> É +destino meu e não posso fugir-lhe. Agora veja V. Ex.<sup>a</sup> o que ha de +censuravel e indigno em tudo isto e condemne-me se o julgar conveniente. +Esta é a verdade e não fujo a confessal-a, por todos os motivos, mas +sobretudo, sendo V. Ex.<sup>a</sup> a pessoa a quem devo tanto e tanto.</p> + +<p>--Eu sei tudo. É um cavalheiro o senhor Luiz. Dê-me a sua mão, quero +apertal-a como a de um grande amigo.</p> + +<p>Jorge e Luiz estavam commovidos. O mulato olhava atterrado para a porta, +com horriveis tentações de fugir. O seu castigo começava alli.</p> + +<p>--Eu sei tudo, continuou Jorge, porque nada me occultou Magdalena. E +como a felicidade de minha filha é tambem a minha, ella é que hade vir +terminar esta nossa conferencia.</p> + +<p>Magdalena, que tudo ouvira, occulta atraz da porta aonde a deixamos, não +se fez chamar; correu logo, ébria de alegria, e lançou-se nos braços de +Jorge, gritando:</p> + +<p>--Obrigada, papae! Obrigada, papae!</p> + +<p>--Diz-me, interrogou-a elle, gostas muito do senhor Luiz, não é assim?</p> + +<p>--Muito!... murmurou, ruborisada de pejo.</p> + +<p>--Crês que has-de ser, com elle, tão feliz como desejo que tu o sejas, +não?</p> + +<p>--Muito, e só com elle.</p> + +<p>--Bem. O senhor Americo, como recompensa do seu procedimento pouco +digno, queira retirar-se e esperar ámanhã as minhas ordens no armazem. +Limito-me a isto, porque não quero fazer mais no dia em que o céo me +abre na terra a felicidade de minha filha.</p> + +<p>O mulato tinha os olhos cravados no chão. Tomou o chapéu, volveu-se e +sahiu vagarosamente, como que arrastado por uma força que tentasse +tiral-o do logar onde o chumbava não sei que sentimento.</p> + +<p>Quando transpôz a porta, pendiam-lhe dos olhos duas grossas lagrimas.</p> + +<p>Seriam de vergonha?</p> + +<p>Seriam de remorsos?</p> + +<p>Seriam de odio?</p> + +<p>Não sei.</p> + +<p>Talvez de tudo isto juntamente, quem sabe?</p> + +<p>Instantes depois, entrava o cabinda como doudo na sala e ia ajoelhar-se +aos pés de Jorge, beijando-lhe phreneticamente as mãos e exclamando em +extrema commoção:</p> + +<p>--Bem haja, meu senhor, bem haja, que fez feliz o branco e a filha do +cabinda!</p> + +<p>Quando as primeiras sombras da noute desciam suavemente sobre a terra, +andavam Luiz e Magdalena passeiando no jardim entre as flores, irmãs +d'ella, entre os perfumes suaves, como os que então se evaporavam das +rosas brancas de suas almas enamoradas.</p> + +<p>Fez-se alli o primeiro idyllio do seu noivado.</p> + +<p>Já dormiam as juritys nos ninhos avelludados, e os beija-flores, +cançados de oscularem as rosas, mas substituiam-os, alli, duas almas +prezas nos laços dulcissimos d'uma embriagadora felicidade.</p> + + + + +<h3>XX<br /> + +CONCLUSÃO</h3> + + +<p>Tres mezes depois o altar havia santificado o mutuo amor de Luiz e +Magdalena.</p> + +<p>O ninho de Jorge de Macedo abrigava mais uma ave; o bondoso capitalista, +tinha, agora, em vez d'uma filha, dous filhos queridos.</p> + +<p>Era duplamente feliz.</p> + +<p>Luiz tomára sobre si todo o pezo e toda a responsabilidade dos negocios +do honrado negociante, para que este descançasse, e desempenhava-se de +tal modo de seus encargos, que nada havia por que merecesse uma censura.</p> + +<p>Magdalena era feliz e muito feliz.</p> + +<p>Ainda hoje, os dous esposos, se reunem em cada tarde no caramanchão de +maracujás do lago da chácara, no Botafogo, e ahi passam horas e horas, +enlevados nas dulcissimas venturas da sua vida, que tem mais do céo do +que da terra.</p> + +<p>Ha alli um novo Eden.</p> + +<p>Americo sahiu do Rio de Janeiro no dia immediato áquelle em que foi +forçado a desafivelar a mascara com que pretendia encobrir a sua +ambição; n'aquelle em que foi expulso da casa do homem a quem devia +muito, e ninguem mais o viu ou deu noticias d'elle.</p> + +<p>Corria muito vagamente que andava desgraçadissimo na America do Norte, +dizendo-se que fugira para lá.</p> + +<p>Não sei. Talvez.</p> + +<p>O cabinda, coitado, morreu de velhice, exalando o ultimo alento nos +braços de Jorge, de Luiz e de Magdalena, que lhe cercavam o leito e o +não desampararam nos dias de enfermidade.</p> + +<p>Lembrou-se, no momento extremo, da sua parceira e dos filhos queridos, a +quem, dizia, se ia juntar, mas desprendeu a alma do involucro terrestre, +beijando risonho, como o justo que antevê o céo, as mãos dos seus tres +amigos, e dizendo como que em signal de agradecimento, pelo modo +distincto e humanitario com que sempre foi tratado:</p> + +<p>--Bem haja, meu senhor! O negro lá ha-de dizer á sua senhora que o +branco fez o que prometteu. Tratou bem o negro e fez feliz a <span class="smallcaps">Filha do +Cabinda</span>.</p> + + +<h4>FIM</h4> + + +<hr /> +<p>Porto--<i>Imprensa Portugueza</i>, Bomjardim, 181.</p> + +<p><i>N. B. A propriedade d'este romance no Brazil, pertence a Antonio +Teixeira Carneiro de Campos, do Rio de Janeiro.</i></p> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Filha do Cabinda, by Alfredo Campos + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A FILHA DO CABINDA *** + +***** This file should be named 21961-h.htm or 21961-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/1/9/6/21961/ + +Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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