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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 01:46:29 -0700 |
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(produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + +PANEGYRICO + +DE + +LUIZ DE CAMÕES + + + + +PANEGYRICO + +DE + +LUIZ DE CAMÕES + + +LIDO NA SESSÃO SOLEMNE + +DA + +ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA + +Em 9 de junho de 1880 + +PELO + +SECRETARIO GERAL + +J. M. LATINO COELHO + + +LISBOA +TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA +1880 + + + + +Senhores.--Quando o viajante, ao cursar as ermas e dilatadas planicies, +onde entre o Eufrates e o Tigre, em seculos remotos floreceram as grandes e +conquistadoras monarchias asiaticas, collossos na amplitude e no poder, +revoca á mente scismadora as magnificas memorias d'aquelles soberbissimos +imperios, encontra em redor de si a aridez e a solidão. Mas as ruinas +monumentaes dos antigos e majestosos edificios nos logares hoje desertos, +onde outr'ora pompearam as cidades babylonias e assyrias, lhe estão ainda +ensinando com a mudez eloquente das ruinas venerandas, a imagem da grandeza +que passou. + +Tudo é pequeno e transitorio n'este mundo, excepto a humanidade, a cadêa +ininterrupta, por onde as successivas gerações umas ás outras vão +transmittindo, accrescentado, o thesouro da commum civilisação. + +Nascem, crescem, avigoram-se, florecem, decaem, e sepultam-se para sempre +no tumulo da historia as nações e os heroes, por mais procéras e giganteas, +que o destino lhes talhasse a estatura e as proporções. + +Quando, após os esplendidos triumphos,--que em sua comparação, bem poderam +envergonhar de pequenas e obscuras as celebradas conquistas e expedições +dos povos dominadores na antiguidade,--volvemos os olhos para o que fomos, +e caimos na contemplação do que de tanto poderio hoje nos resta, o espirito +lastimado pela ingrata confrontação se entristece e se lamenta, de que +passasse tão veloz a edade heroica de Portugal. Como ao viandante solitario +nos plainos da Mesopotamia, parece-nos que sómente em volta se nos deparam +saudosas e melancolicas as memorias do glorioso imperio portuguez. + +Onde está Ceuta, em cujas muralhas o rei cavalleiroso e os seus esforçados +paladinos, renovando com melhor fortuna e discrição o antigo duello entre a +christandade e o islamismo, hastearam seguramente o estandarte portuguez? +Onde está Arzilla, e Tanger, e Azamor, e Mazagão? Dentro d'aquelles muros, +cujas pedras são ainda hoje insignes testemunhos do heroico valor de +Portugal, resôa apenas o seu nome, envolto na penumbra da gloria e do +terror. Onde está Malaca, em cujos padrões ainda vivem as façanhas de +Affonso de Albuquerque? Onde Cochim, onde Meliapor, onde Bombaim? Onde este +vasto littoral, em cujas abras e enseadas as naus e os galeões de Portugal, +ao som das horrisonas bombardas dictavam a lei ás temerosas gentilidades? +Onde está a India, que Portugal, a custo de façanhas inauditas, navaes e +bellicosas, abriu ao tracto e ao commercio das nações occidentaes? Onde +está a India? Oh! não repitamos a lastimosa interrogação, que nos pode +ouvir, animada por um momento de redivivo e heroico patriotismo, aquella +ossada gloriosa do immortal navegador, que hontem fomos depositar no +grandioso monumento, consagrado aos nossos descobrimentos pelo rei +emprehendedor. Onde estão os archipelagos, a que nós demos nome e senhorio? +Onde estão esses mares procellosos e afastados, onde as quinas passeavam +triumphantes, fazendo do Oriente mais remoto o feudo de Portugal? Aonde? +aonde? Pisam extranhos mais felizes, não mais bravos, as terras que para a +Europa soubemos conquistar. De todo o immenso imperio portuguez já não ha a +circundar-nos mais do que melancolicas ruinas. Mas n'esta solidão ainda ha +para confortar-nos e engrandecer-nos uma voz eloquentissima, que resume nos +seus magicos accentos a altivez e a gloria de Portugal. + +Já não tendes, portuguezes, a India, nem Ormuz, nem Malaca, nem Ceylão. Nem +ao menos vos deixaram como padrão aquelle cabo Tormentorio, cujas borrascas +temerosas vos não entibiaram, que não fosseis adiante ensinar á indolente +christandade os caminhos tenebrosos do Oceano. Não são vossos os dominios +materiaes. Embora. N'aquelles mesmos territorios, onde agora florecem e +dominam extrangeiros moradores, lá está sempre o vosso nome. É d'elles o +que é da terra, mas é vosso unicamente o que se não pode aniquilar, porque +é incorporeo e immortal. É d'elles a riqueza, o poder, o senhorio. Mas será +sempre vossa a gloria. Partindo aventurosos e resolutos desde os ultimos +confins da Europa occidental, cursastes os oceanos ainda virginaes, onde +tomastes o ronco estridor das tempestades pelo hymno triumphal das +esplendidas victorias. Abristes as portas do Oceano, e dissestes ás demais +nações da Europa: «Despertae da somnolencia medieva, e entrae após os meus +navegadores.» A velha christandade phantasiava o mundo nos fabulados +portulanos. E vós, estendendo aos vossos pés a terra inteira, como se fôra +ainda pequeno mappa, estudastes a geographia, sulcando as linhas nas aguas +com as vossas quilhas venturosas, entalhando-as na terra com o ferro +vencedor. + +Isto diz, mas em carmes inspirados e em divinas modulações, o immortal +cantor dos feitos patrios. É a voz da gloria, que resôa perpetuamente, +vibrada pela tuba do maximo poeta e do mais ardente e devotado portuguez. +São os _Lusiadas_. É o Camões. + +Quando pronuncía um portuguez o nome do Camões, a admiração e o orgulho de +contar como seu natural o grande epico, é o maximo elogio. E n'esta +occasião, em que festivamente celebra Portugal ao seu poeta, quando o povo, +estreitando os vinculos da patria em volta do seu mais illustre e +benemerito cantor, está pagando em publica e solemne apotheose, a homenagem +do seu culto ao altissimo engenho portuguez, parecera temeridade, quasi +diriamos sacrilegio, o buscar encarecer a gloria do Camões. Seria como +accender pallidas lucernas para que appareça fulgindo mais esplendido o sol +meridiano. E, senhores, se levanto n'este momento a minha voz, perdida e +abafada no côro unisono das acclamações universaes, é porque assim o +ordenou a Academia, mais zelosa na veneração ao épico immortal do que feliz +na eleição do orador. + +Não espereis da minha voz um panegyrico, porque só farei em breves termos a +commemoração de um grande nome. No meio do fervoroso enthusiasmo, com que a +cidade de Lisboa, e as demais povoações de Portugal, solvem após tres +seculos na escassa e tardia moeda que lhe é dado dispender, o preço das +altiloquas estrophes, quando os arcos triumphaes, os prestitos solemnes, os +hymnos melodiosos, os bellicos tropheos, as bandeiras multicores, as +deslumbrantes illuminações annunciam publicamente que revive, como o +symbolo da patria, o nome do seu cantor, a nação, como que expiando +nobremente a culposa indifferença das passadas gerações, entalha n'estes +honrosos monumentos o nome de quem teceu de luz a heroica narração dos +feitos patrios. A Academia, associando-se a esta liturgia nacional em honra +do poeta, poz-me na mão o cinzel, e prescreveu-me que n'um recanto d'este +marmore, onde Portugal insculpe agora a sua e a gloria do cantor, eu deixe +tambem gravado o nome do Camões. + +Fazer o elogio do Camões é tecer o panegyrico da patria. E é sempre grato a +um portuguez o encomiar a Portugal. + +Nós temos, os portuguezes, um singular e raro privilegio. Somos nós entre +os modernos povos europeus o que tem um poema verdadeiramente nacional, um +poema, cujos cantos são as façanhas da nação enaltecidas pela mais florida +e opulenta phantasia, modeladas nas fórmas da epopéa. Celebram outras +gentes a fecundos e altissimos engenhos, cujos reflexos luminosos, +transcendendo os ambitos da patria, estão doirando e ennobrecendo a +litteratura universal. Mas nenhum povo tem como o portuguez um d'estes +felicissimos espiritos, que são ao mesmo passo o genio da nação, e o genio +da poesia, e em cujas obras respire ao mesmo tempo a patria e a humanidade, +a gloria privativa de um só povo, e o destino commum de uma inteira +civilisação. O Dante é immortal, mas o seu poema é inspirado pelo +mysticismo e a vingança. Immortal é o Tasso, mas a sua epopéa é a novella +cavalleirosa, que se enreda e desenlaça em redor dos sacros muros da triste +Jerusalem. Immortal é Shakespeare, mas a sua musa, que penetra e descobre +as mais occultas fibras do humano coração, é mais cosmopolita do que fadada +a conglobar a gloria dos bretões. Immortal é Cervantes, mas a figura entre +sublime e comica do seu heroe, é mais do que o symbolo da Hespanha, é a +personificação da humanidade, como abstrusa e paradoxal composição de +loucura e heroicidade. Immortal é o Camões, mas é immortal para os seus, +immortal para os extranhos. Para os seus, porque em versos admiraveis +divulgou as empresas, em que foram protagonistas. Immortal para os +extranhos, porque os feitos, que reconta, são o berço onde incubou fecunda +a novissima civilisação. + +Manda a Europa, ainda então adormecida para as longas e trabalhosas +expedições, manda a Portugal que marche na vanguarda. Eram tenebrosos, +impervios, procellosos os mares, onde nenhum baixel se tinha aventurado. +Entrevia-se o Oriente como a quasi fabulosa região, d'onde vinham +magnificadas pela creadora phantasia os encantos e as maravilhas. Era a +terra das ardentes especiarias e das drogas perfumadas, a fecunda matriz +dos diamantes e das perolas. Os seus thesouros aguçavam o desejo ás gentes +occidentaes. Era como o paraiso da cubiça para esta velha Europa, já +cansada da sua gleba mais esteril que os ridentes vergeis orientaes. Todos +anhelavam porque se descobrissem faceis os caminhos, para que a todos fosse +commoda a peregrinação dos tractos lucrativos e das fructuosas mercancias. +Pois vá adiante Portugal e explore as sendas indomesticas d'aquella terra +de profana promissão. Vá adiante circumnavegando briosa e perseverante as +inhospitas margens africanas. Engolfe-se nos mares tempestuosos e descubra +as ilhas viridentes, onde as arvores por centenares de seculos, na perpetua +solidão das suas florestas, haviam ramalhado sem temer a hacha assoladora +do colono, onde os passarinhos, dominando sem rival, cantavam indolentes os +amores, pendurando nas vergonteas os seus ninhos, sem recear que a mão do +homem as viesse descobrir e profanar. Entrem os portuguezes, esta guarda +avançada, estes heroicos batedores da nova civilisação, entrem na sombria, +ignota e espessa escuridão das terras e das costas africanas, entrem +resolutos com as suas proas mal seguras nas bahias, nas abras, nas aguadas. +Vão nas suas aventurosas singraduras administrando pelo nome portuguez o +baptismo da civilisação ás selvaticas paragens, que descobrem, e +assignalando com padrões a possessão e o dominio. Pairem com os primeiros e +mais felizes navegadores nas aguas revoltosas do cabo Tormentorio, onde a +Africa, semelhante ao ferro agudo e penetrante de uma azagaia immensa, está +ferindo inexoravel o coração do Oceano. Sejam infatigaveis na aventura, +intrepidos no perigo, inabalaveis na ousadia, heroicos nas provações, +indomitos nos contrastes da fortuna. Avancem de cada vez mais um estadio na +róta, que traçaram. Abram nos mares desconhecidos a propria estrada, que +vão descortinando e percorrendo. Operem maravilhas de sciencia +cosmographica e prodigios de estoica paciência e milagres de valor e +galhardia. Deixem atraz o cabo temeroso e em fragillimos baixeis vão +singrando aventureiros o Oceano Indico. Aportem finalmente á celebrada +terra oriental, e a principio hospedes e forasteiros, venham a ser em breve +termo os altivos dominadores d'aquelles florentissimos imperios, agora +avassallados e sujeitos ao jugo portuguez. D'ali bracejem as extensas +vergonteas do descobrimento e da conquista até ás mais apartadas e +mysteriosas regiões. Entre a Europa escudada com o nome de Portugal na +China e no Japão. Vá lustrando nos portuguezes galeões os mais remotos +archipelagos. Deixe memorada na gloria dos seus feitos e nos nomes +portuguezes dos logares a passagem triumphal d'este povo pequeno na +extensão, gigante nos seus brios. Partindo do ultimo Occidente, de exiguo e +infantil feito gigante, confranja nos seus braços de ferro o globo inteiro. +Dissipe com o seu arrojo incontrastavel as neblinas, que escondiam o +Oceano, e rompa animoso e irresistivel o veo mysterioso, que encobria a +face da terra. Aponte ali aos que na sua assombrosa variedade a +desconheciam, as divisões e as fronteiras das terras e das aguas, como um +amoravel preceptor, arrancando o envoltorio, que tinha recatado um globo +geographico, ensina ao alumno pueril e curioso, as linhas que delimitam os +continentes e os mares. Diga finalmente á Europa entre assombrada e +invejosa: «A terra, que tu sonhaste, era a terra fabulosa, a terra debuxada +nas descripções phantasiosas dos antigos e nos mappas mentirosos da edade +média. A terra, que eu te dou, é a terra qual outr'ora saíu das mãos da +natureza para o homem primitivo, qual sae agora das minhas mãos para o +homem civilisado. É a terra, de que os antigos apenas conheceram uma nesga, +de que Alexandre, nas suas tão famigeradas expedições, soube apenas tanto +como a mais tarda e preguiçosa das minhas galés, talvez menos que o mais +frouxo dos meus aventureiros. A terra, que vós conheceis, é a terra de +Ptolomeu e de Strabão, a terra dos que não a viram, mas sonharam. Esta, que +vos dou, é a terra de Vasco da Gama, de Pedro Alvares Cabral, de Fernão de +Magalhães, de João da Nova, a terra, de que para vós tomamos posse, como os +primeiros que em todas as direcções a soubemos percorrer e navegar.» + +A Europa, ouviu, estremeceu, levantou-se e invejou. As páreas copiosas dos +nossos descobrimentos, os despojos opimos das nossas expedições, os fructos +sasonados das nossas conquistas, tudo lhe deitámos generosos no regaço. +Para nós guardámos o que se não pode alienar: as glorias e os laureis. +Démos-lhe tudo o que havia de terrenal e de mundano. Recatámos como +thesouro inestimavel o que as nossas empresas memoraveis tiveram de +espiritual, quasi divino. Á semelhança do honrado e brioso cavalleiro, que, +com mais cicatrizes que veneras, no outono da sua existencia gloriosa, +pendurando na panoplia a espada reluzente e o murrião abolado nas requestas +sanguinosas, deixa que tudo lhe arrebate a má fortuna, mas não cede ou +vende a extranhos as insignias memoraveis, esculpidas como brazão e stemma +gentilicio na face do seu broquel. + +Quando as glorias portuguezas são chegadas á brilhante culminação, quando +principia a resfriar o ardor primevo das empresas memoraveis, quando é +necessario colher na phase momentanea do seu maximo esplendor a heroicidade +portugueza, e como que photographal-a, ainda viva, recente, luminosa, +apparece o Camões na terra de Portugal. + +O Camões é ao mesmo tempo a eloquente voz da posteridade, e a grandiosa +resurreição dos tempos heroicos de Portugal. A sua penetrante visão +intellectual descobre com a perfeição dos seus contornos immortaes as +figuras, sobre que se concentra mais viva e mais brilhante a purissima luz +da vida nacional. A sua previdencia admiravel adivinha que veem perto os +tempos calamitosos, em que a patria para morrer como Cesar com a grave e +severa alteza dos heroes, precisará de cingir-se na purpura da sua antiga +majestade, e compor-se e adereçar-se nas soberanas vestiduras da sua +gloria. Virão épocas escassas, em que extranhos arrogantes hão de buscar +descingir-lhe o gladio refulgente, desvestir-lhe a loriga impenetravel, e +murchar-lhe na fronte os loiros immortaes. Tudo poderão emprehender. Mas o +Camões, o soldado brioso das guerras africanas e indiaticas, o portuguez, +que amou a patria acima da mulher, e a mulher acima da fortuna, o poeta que +emulou nos antigos a belleza e a correcção, aos modernos superou no +sentimento, ali está colligindo e ordenando nos versos varonis de uma +epopéa nacional, as memorias da terra em que nasceu. + +Será na carta da Asia a India portugueza um ponto apenas, mas um ponto como +estes que, em noites de serena atmosphera e de melancolica e tepida +escuridade, estão brilhantemente scintillando, e esculpindo no ceo a +distancias infinitas o seu vivo e eterno resplendor. + +Perdemos em grande parte a dominação e o imperio n'aquelles immensos +territorios, onde outr'ora fluctuara, symbolo de empresas temerarias e +felicissimas victorias, a bandeira de Portugal. Mas ninguem nos pôde nunca +pleitear a gloria de as ter primeiro descoberto e avassallado. Que importa +ao nome portuguez, que d'esse vasto e opulento senhorio não restem quasi já +senão memorias? + +Cada povo tem na sequencia historica a sua funcção, no grande e vario drama +da civilisação o seu papel. Uns em cada momento na evolução da humanidade +são protagonistas e heroes, a outros cahem no complemento e execução da +obra commum, officios mais modestos, mas não menos necessarias +attribuições. É o principio harmonico e fecundo da divisão do trabalho +applicado á cooperação mutua das nações, no empenho de fundir e aperfeiçoar +a civilisação no decurso das edades. E d'este modo a noção da patria +individual se esconde na penumbra da humanidade. + +A nossa missão não era a de grangear para nós o mundo, mas sim de o +sujeitar e descobrir. Fomos com a espada os missionarios da velha Europa, +enviados a correr os primeiros lances, e affrontar os perigos, a que +ninguem ousara então metter o peito resoluto. A gloria de descobrir é maior +e mais duravel que a de fruir e dominar. A grandeza épica dos nossos feitos +immortaes, mais se aprimora e abrilhanta n'esta abnegação e desapego, com +que dos fructos das empresas sobrehumanas deixámos aos extranhos o +proveito, para nós tomámos a gloria por salario. Dos grandes e magnificos +descobrimentos, com que se accrescenta e se melhora a civilisação +intellectual e a humana condição, não ficou enfeudada a propriedade +exclusiva na geração e na familia dos gloriosos inventores. Kepler +interrogando os ceos e os planetas, rebeldes e indomaveis até ali, +clausurando-os no encerro perpetuo das suas orbitas ellipticas, vinculou o +seu formoso descobrimento no morgado commum da humanidade. Os segredos, que +o espirito de Newton soube roubar á mysteriosa natureza, doou-os generoso á +sciencia cosmopolita e á civilisação universal. O telegrapho electrico +transmitte o pensamento, sem que esteja agora recatado como cioso monopolio +na familia ou na raça dos seus engenhosos descobridores. A locomotiva +passeia sibilando pelo mundo, sem que antes do seu curso impetuoso esteja +esperando a venia e o signal de quem primeiro a ideou e construiu. Assim +tambem da terra que lustrámos nas suas mais afastadas e escondidas regiões. +A gloria de a revelar á Europa cubiçosa, vale mais que a vaidosa satisfação +de chamar nosso o que primeiro que ninguem soubemos procurar e descobrir. + +Das nossas aventurosas navegações e das nossas empresas bellicosas nasceu +em grande parte o movimento operado na Europa desde o seculo XV. Tornámos +possivel a sciencia moderna, que era truncada e imperfeita antes que +ensinassemos as gentes européas a interrogar a natureza, e a descortinar as +maravilhas e os segredos de inhospitas paragens, de mares desconhecidos, de +um firmamento novo, onde brilham, escondidas aos antigos, novas e extranhas +constellações. Revelámos a fórma do nosso globo, a configuração dos +continentes, a continua successão do Oceano, a mudança e a condição dos +varios climas. Patenteámos as riquezas innumeraveis da natureza organica, +nos seus typos disseminados pela immensa vastidão das terras e dos mares. +Atámos novamente os vinculos já rotos e perdidos entre a nossa civilisação +e a nossa historia, e a historia e as civilisacões dos povos orientaes. Com +as nossas maravilhosas aventuras fizemos uma patria gloriosa e impozemol-a +á admiração de todo o mundo, mas acabámos empresa ainda maior, porque +fizemos tambem a nova humanidade, congraçando e tornando umas das outras +conhecidas as raças e as familias, que viviam pelos ambitos da terra sem +liame e sem commercio fraternal. + +D'esta prodigiosa Renascença, em que a moderna christandade tornou a viver +no espirito e no genio da antiguidade, fomos nós os mais activos e fecundos +cooperadores. A outros coube a gloria de comprehender primeiro e divulgar +as formosas manifestações da intelligencia e da imaginação entre os +antigos; de recompor as estatuas, onde o ideal quasi se confundia com o +divino, de reconstruir os sumptuosos monumentos, de evocar das ruinas o +mundo classico, e ao bafejo da paciente erudição fazel-o resurgir na +apparencia da sua eterna belleza e perfeição. Mas em quanto os outros +recompunham a antiguidade, nós mais audazes e felizes do que elles, +alcançavamos completal-a e corrigil-a, penetrar onde ella não chegou, e +tornar mil vezes mais intensa a sua luz, enfeixando com ella a que em +remotas e sobrehumanas excursões se reflectiu na lamina das espadas +gloriosas, e nas colubrinas e bombardas dos nossos galeões. + +Fizeram elles o renascimento do passado, dispertando-o do seu tumulo. Nós +fomos acordar o futuro das nações no berço onde nasce a aurora. Fizeram +elles resurgir as tradições da Grecia e Roma. Nós fizemos nascer e +avigorar-se o espirito da humanidade. + +Os outros fizeram a sciencia da antiguidade, acurvados nos pulverulentos +manuscriptos e nas reliquias já truncadas da arte, da sciencia e da poesia. +Nós fizemos a doutrina, que se accumula navegando e combatendo, a perigosa +erudição, que se compra com sangue derramado, e enlaçámos aos loiros da +sciencia as palmas triumphaes. + +Para entalhar no bronze da epopéa os feitos que resumem a vida nacional, +nasceu Camões. + +Quem era? D'onde veiu? Onde nasceu? Onde passou a puericia? Onde aprendeu +na adolescencia os dois amores, que lhe exalçaram o espirito, cravando-lhe +de espinhos o coração,--o amor da patria, que elle idolatrou mais que +ninguem,--o amor da mulher, que mais do que nenhum poeta lyrico elle soube +divinisar? + +A vida do Camões é em quasi todos os seus successos uma lenda, ou um +mysterio. Do poeta conhecemos perfeitamente o aspecto, em que se volta para +nós e para a patria. Ignoramos quasi inteiramente o que se occulta nas +escuras profundezas do coração e da existencia individual. É como estes +resplendentes corpos celestes, de quem apenas rastreamos a luz e o +esplendor, sem ao certo comprehender o que está por baixo da luminosa +superficie. Contemplamos no Camões reflectida com toda a sua clara +intensidade a vida nacional. Acostumámo-nos a vêr e admirar no seu espirito +a imagem heroica do povo portuguez. Os loiros, que lhe exornam a fronte, +são tambem os laureis que enramaram em seus triumphos a patria, quando era +gloriosa e invejada. A sua alma é a alma da nação. No seu poema não respira +apenas o estro de um cantor, palpita o coração de Portugal. É preciso que +haja o que quer que seja de vago, impessoal e indeciso n'esta figura +grandiosa, que tem á cinta o proprio gladio da nação, e desfere no seu +plectro, não os sons da sua propria inspiração, mas os hymnos collectivos +entoados por todo um povo á sua grandeza e á sua gloria. O Camões não é +apenas um poeta, é um côro triumphal, em que as vozes de muitas gerações, +na propria saudação dos seus heroicos feitos, se conglobam nos accentos de +uma voz predestinada. + +São mal delineados, nebulosos, os contornos biographicos do Camões. Não se +sabe ao certo quando nasceu, porque n'estas imagens e personificações da +vida nacional, é bem que nos possamos illudir, suppondo que andaram largos +tempos voejando antes que começassem a luzir. Ignora-se a terra em que +nasceu. Em Lisboa? Em Coimbra? Em Santarem? Ninguem o pode á justa +discriminar. E é bem que assim acontecesse, para que nenhuma povoação se +possa gloriar, de que o poeta lhe pertence a melhor titulo do que a toda a +patria, que illustrou. Perguntam-nos onde o Camões viu a primeira luz? +Respondemos e basta: Em Portugal. Que nos importa discernir se era vulgar +ou generoso o sangue do poeta? Os monarchas da intelligencia não carecem de +tronco e dynastia. Não tem pelo espirito nem antecessores nem descendentes. +Não releva o inquirirmos d'onde veem, já que sabemos aonde vão. Nascem da +humanidade e vão para a gloria. Nascem do pó terreno e mundanal e caminham +luminosos á divina immortalidade. Sabemos do Camões que foi soldado +valentissimo entre os mais esforçados e briosos; sabemos que foi a mais +subida intelligencia em nossa terra, o primeiro épico moderno. Sabemos que +alcançou conciliar em harmonica união as graças e formosuras da mais solta +e inventiva imaginação, com as doutrinas mais severas da sciencia no seu +tempo. Sabemos que em Africa militou, para que seguisse em tudo as mesmas +sendas, por onde a gloria portugueza transitara. Sabemos que invejas, e +malquerenças, e damnadas tenções, como elle diz, lhe mesclaram na vida aos +jubilos e aos extasis da nativa inspiração, as tristezas e os opprobrios da +existencia amargurada. Sabemos que amou extremosamente. E como poderia esta +alma de eleição clausurar-se na solidão do sentimento, sem repartir o estro +e a paixão entre a patria e a mulher? Sabemos que padeceu asperos desterros +e carceres de affronta e provação. E como poderia esta luz intensissima do +engenho ferir, sem os offender e offuscar, os olhos dos seus ingratos +contemporaneos, que não buscassem afrouxal-a e desluzil-a, já que não a +podiam apagar? Sabemos que na India provou a forte espada nos recontros e a +estoica impavidez nos lances das armadas e nos perigos das tormentas. +Sabemos que a pobresa foi a socia inseparavel do seu viver aventureiro. E +que genio já houve em Portugal antigamente, que não tivesse a penuria por +contrapeso aos thesouros immortaes da sua gloria? Sabemos que na China +exerceu modesto officio, e que a fortuna ao Camões lhe destinou que para +não perecer á fome, rebaixasse o divino talento de poeta ao prosaico e rude +officio de exactor. Sabemos que a patria o desamparou nos annos +derradeiros, atirando-lhe á mão, quasi estendida á caridade, a esmola do +poder. Sabemos que morreu, quando a patria descaía no sepulchro, porque +elle era a voz da patria, o ultimo suspiro da nação agonisante, e era bem +que se extinguisse, quando Portugal jazia amortalhado no manto de +cavalleiro, tendo em redor do seu esquife as figuras sinistras e irónicas +dos seus desapiedados conquistadores. Sabemos que os seus ossos jazeram até +hontem esquecidos n'um desvão do convento de Sant'Anna, até hontem, em que +por nobre e patriotica impulsão da nossa Academia, lhe +pagámos--inanimado--na solemne apotheose, o que--vivo--os seus +contemporaneos lhe negaram em pão e em conforto. Sabemos que deixou o seu +nome intimamente vinculado ao nome e á propria existencia da nação. Sabemos +que os _Lusiadas_ os entalhou o brio portuguez com a espada nas mais +distantes e ingratas regiões, e os imprimiu com o rasto das suas quilhas +temerarias na face do Oceano e no dorso das tempestades, e o Camões os +trasladou a versos immortaes, diffundindo no mundo pelo genio o que +Portugal já tinha divulgado pelo immenso pregão do seu valor. + +O Camões é a patria coroada de poeticos laureis. Os _Lusiadas_ são a +estatua da nação, cinzelada pelo escopro do maior engenho portuguez. +Glorifiquemos, pois, cada vez mais a epopéa e o cantor. Veneremos com elle +o nosso passado glorioso. Mas como estes destemidos argonautas, que elle +celebrou, os quaes se não ficavam inertes e parados após as mais felizes +singraduras, nem cifravam a sua honra em descobrir apenas o cabo de Boa +Esperança, volvamos o sentimento nacional aos tempos que já foram, e o +espirito moderno ás eras do porvir: ao passado, para que d'elle possamos +aprender o amor da patria, a tenaz perseverança nas empresas mais +difficeis; ao futuro, para que honrando o poeta nas suas mais largas e +videntes aspirações, possamos completar as nossas glorias pelo caminho que +a fortuna nos consente e nos deixou. Fizemos a epopéa sublime, traduzida +pelo Camões na divina linguagem do seu estro. Façamos hoje a epopéa mais +modesta da liberdade, da sciencia e do trabalho. + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Panegyrico de Luiz de Camões, by +José Maria Latino Coelho + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PANEGYRICO DE LUIZ DE CAMÕES *** + +***** This file should be named 21950-8.txt or 21950-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/1/9/5/21950/ + +Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/21950-8.zip b/21950-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..7da5501 --- /dev/null +++ b/21950-8.zip diff --git a/21950-h.zip b/21950-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..a8aba02 --- /dev/null +++ b/21950-h.zip diff --git a/21950-h/21950-h.htm b/21950-h/21950-h.htm new file mode 100644 index 0000000..e528e09 --- /dev/null +++ b/21950-h/21950-h.htm @@ -0,0 +1,927 @@ +<!DOCTYPE html + PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Transitional//EN" + "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-transitional.dtd"> +<html> + +<head> + <title>Panegyrico de Luiz de Camões</title> + <meta name="AUTHOR" content="J. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Panegyrico de Luiz de Camões + +Author: José Maria Latino Coelho + +Release Date: June 27, 2007 [EBook #21950] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PANEGYRICO DE LUIZ DE CAMÕES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<div class="ficha_tecnica"> + +<h1>PANEGYRICO<br /> + +DE<br /> + +LUIZ DE CAMÕES</h1> + + + + +<h1>PANEGYRICO<br /> + +DE<br /> + +LUIZ DE CAMÕES</h1> + + +<h2>LIDO NA SESSÃO SOLEMNE<br /> + +DA<br /> + +ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA</h2> + +<p>Em 9 de junho de 1880</p> + +<p>PELO<br /> + +SECRETARIO GERAL</p> + +<p class="author">J. M. LATINO COELHO</p> + + +<p>LISBOA<br /> +TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA<br /> +1880</p> +</div> + + + + +<p>Senhores.--Quando o viajante, ao cursar as ermas e dilatadas planicies, +onde entre o Eufrates e o Tigre, em seculos remotos floreceram as grandes e +conquistadoras monarchias asiaticas, collossos na amplitude e no poder, +revoca á mente scismadora as magnificas memorias d'aquelles soberbissimos +imperios, encontra em redor de si a aridez e a solidão. Mas as ruinas +monumentaes dos antigos e majestosos edificios nos logares hoje desertos, +onde outr'ora pompearam as cidades babylonias e assyrias, lhe estão ainda +ensinando com a mudez eloquente das ruinas venerandas, a imagem da grandeza +que passou.</p> + +<p>Tudo é pequeno e transitorio n'este mundo, excepto a humanidade, a cadêa +ininterrupta, por onde as successivas gerações umas ás outras vão +transmittindo, accrescentado, o thesouro da commum civilisação.</p> + +<p>Nascem, crescem, avigoram-se, florecem, decaem, e sepultam-se para +sempre no tumulo da historia as nações e os heroes, por mais procéras e +giganteas, que o destino lhes talhasse a estatura e as proporções.</p> + +<p>Quando, após os esplendidos triumphos,--que em sua comparação, bem +poderam envergonhar de pequenas e obscuras as celebradas conquistas e +expedições dos povos dominadores na antiguidade,--volvemos os olhos para o +que fomos, e caimos na contemplação do que de tanto poderio hoje nos resta, +o espirito lastimado pela ingrata confrontação se entristece e se lamenta, +de que passasse tão veloz a edade heroica de Portugal. Como ao viandante +solitario nos plainos da Mesopotamia, parece-nos que sómente em volta se +nos deparam saudosas e melancolicas as memorias do glorioso imperio +portuguez.</p> + +<p>Onde está Ceuta, em cujas muralhas o rei cavalleiroso e os seus +esforçados paladinos, renovando com melhor fortuna e discrição o antigo +duello entre a christandade e o islamismo, hastearam seguramente o +estandarte portuguez? Onde está Arzilla, e Tanger, e Azamor, e Mazagão? +Dentro d'aquelles muros, cujas pedras são ainda hoje insignes testemunhos +do heroico valor de Portugal, resôa apenas o seu nome, envolto na penumbra +da gloria e do terror. Onde está Malaca, em cujos padrões ainda vivem as +façanhas de Affonso de Albuquerque? Onde Cochim, onde Meliapor, onde +Bombaim? Onde este vasto littoral, em cujas abras e enseadas as naus e os +galeões de Portugal, ao som das horrisonas bombardas dictavam a lei ás +temerosas gentilidades? Onde está a India, que Portugal, a custo de +façanhas inauditas, navaes e bellicosas, abriu ao tracto e ao commercio das +nações occidentaes? Onde está a India? Oh! não repitamos a lastimosa +interrogação, que nos pode ouvir, animada por um momento de redivivo e +heroico patriotismo, aquella ossada gloriosa do immortal navegador, que +hontem fomos depositar no grandioso monumento, consagrado aos nossos +descobrimentos pelo rei emprehendedor. Onde estão os archipelagos, a que +nós demos nome e senhorio? Onde estão esses mares procellosos e afastados, +onde as quinas passeavam triumphantes, fazendo do Oriente mais remoto o +feudo de Portugal? Aonde? aonde? Pisam extranhos mais felizes, não mais +bravos, as terras que para a Europa soubemos conquistar. De todo o immenso +imperio portuguez já não ha a circundar-nos mais do que melancolicas +ruinas. Mas n'esta solidão ainda ha para confortar-nos e engrandecer-nos +uma voz eloquentissima, que resume nos seus magicos accentos a altivez e a +gloria de Portugal.</p> + +<p>Já não tendes, portuguezes, a India, nem Ormuz, nem Malaca, nem Ceylão. +Nem ao menos vos deixaram como padrão aquelle cabo Tormentorio, cujas +borrascas temerosas vos não entibiaram, que não fosseis adiante ensinar á +indolente christandade os caminhos tenebrosos do Oceano. Não são vossos os +dominios materiaes. Embora. N'aquelles mesmos territorios, onde agora +florecem e dominam extrangeiros moradores, lá está sempre o vosso nome. É +d'elles o que é da terra, mas é vosso unicamente o que se não pode +aniquilar, porque é incorporeo e immortal. É d'elles a riqueza, o poder, o +senhorio. Mas será sempre vossa a gloria. Partindo aventurosos e resolutos +desde os ultimos confins da Europa occidental, cursastes os oceanos ainda +virginaes, onde tomastes o ronco estridor das tempestades pelo hymno +triumphal das esplendidas victorias. Abristes as portas do Oceano, e +dissestes ás demais nações da Europa: «Despertae da somnolencia medieva, e +entrae após os meus navegadores.» A velha christandade phantasiava o mundo +nos fabulados portulanos. E vós, estendendo aos vossos pés a terra inteira, +como se fôra ainda pequeno mappa, estudastes a geographia, sulcando as +linhas nas aguas com as vossas quilhas venturosas, entalhando-as na terra +com o ferro vencedor.</p> + +<p>Isto diz, mas em carmes inspirados e em divinas modulações, o immortal +cantor dos feitos patrios. É a voz da gloria, que resôa perpetuamente, +vibrada pela tuba do maximo poeta e do mais ardente e devotado portuguez. +São os <i>Lusiadas</i>. É o Camões.</p> + +<p>Quando pronuncía um portuguez o nome do Camões, a admiração e o orgulho +de contar como seu natural o grande epico, é o maximo elogio. E n'esta +occasião, em que festivamente celebra Portugal ao seu poeta, quando o povo, +estreitando os vinculos da patria em volta do seu mais illustre e +benemerito cantor, está pagando em publica e solemne apotheose, a homenagem +do seu culto ao altissimo engenho portuguez, parecera temeridade, quasi +diriamos sacrilegio, o buscar encarecer a gloria do Camões. Seria como +accender pallidas lucernas para que appareça fulgindo mais esplendido o sol +meridiano. E, senhores, se levanto n'este momento a minha voz, perdida e +abafada no côro unisono das acclamações universaes, é porque assim o +ordenou a Academia, mais zelosa na veneração ao épico immortal do que feliz +na eleição do orador.</p> + +<p>Não espereis da minha voz um panegyrico, porque só farei em breves +termos a commemoração de um grande nome. No meio do fervoroso enthusiasmo, +com que a cidade de Lisboa, e as demais povoações de Portugal, solvem após +tres seculos na escassa e tardia moeda que lhe é dado dispender, o preço +das altiloquas estrophes, quando os arcos triumphaes, os prestitos +solemnes, os hymnos melodiosos, os bellicos tropheos, as bandeiras +multicores, as deslumbrantes illuminações annunciam publicamente que +revive, como o symbolo da patria, o nome do seu cantor, a nação, como que +expiando nobremente a culposa indifferença das passadas gerações, entalha +n'estes honrosos monumentos o nome de quem teceu de luz a heroica narração +dos feitos patrios. A Academia, associando-se a esta liturgia nacional em +honra do poeta, poz-me na mão o cinzel, e prescreveu-me que n'um recanto +d'este marmore, onde Portugal insculpe agora a sua e a gloria do cantor, eu +deixe tambem gravado o nome do Camões.</p> + +<p>Fazer o elogio do Camões é tecer o panegyrico da patria. E é sempre +grato a um portuguez o encomiar a Portugal.</p> + +<p>Nós temos, os portuguezes, um singular e raro privilegio. Somos nós +entre os modernos povos europeus o que tem um poema verdadeiramente +nacional, um poema, cujos cantos são as façanhas da nação enaltecidas pela +mais florida e opulenta phantasia, modeladas nas fórmas da epopéa. Celebram +outras gentes a fecundos e altissimos engenhos, cujos reflexos luminosos, +transcendendo os ambitos da patria, estão doirando e ennobrecendo a +litteratura universal. Mas nenhum povo tem como o portuguez um d'estes +felicissimos espiritos, que são ao mesmo passo o genio da nação, e o genio +da poesia, e em cujas obras respire ao mesmo tempo a patria e a humanidade, +a gloria privativa de um só povo, e o destino commum de uma inteira +civilisação. O Dante é immortal, mas o seu poema é inspirado pelo +mysticismo e a vingança. Immortal é o Tasso, mas a sua epopéa é a novella +cavalleirosa, que se enreda e desenlaça em redor dos sacros muros da triste +Jerusalem. Immortal é Shakespeare, mas a sua musa, que penetra e descobre +as mais occultas fibras do humano coração, é mais cosmopolita do que fadada +a conglobar a gloria dos bretões. Immortal é Cervantes, mas a figura entre +sublime e comica do seu heroe, é mais do que o symbolo da Hespanha, é a +personificação da humanidade, como abstrusa e paradoxal composição de +loucura e heroicidade. Immortal é o Camões, mas é immortal para os seus, +immortal para os extranhos. Para os seus, porque em versos admiraveis +divulgou as empresas, em que foram protagonistas. Immortal para os +extranhos, porque os feitos, que reconta, são o berço onde incubou fecunda +a novissima civilisação.</p> + +<p>Manda a Europa, ainda então adormecida para as longas e trabalhosas +expedições, manda a Portugal que marche na vanguarda. Eram tenebrosos, +impervios, procellosos os mares, onde nenhum baixel se tinha aventurado. +Entrevia-se o Oriente como a quasi fabulosa região, d'onde vinham +magnificadas pela creadora phantasia os encantos e as maravilhas. Era a +terra das ardentes especiarias e das drogas perfumadas, a fecunda matriz +dos diamantes e das perolas. Os seus thesouros aguçavam o desejo ás gentes +occidentaes. Era como o paraiso da cubiça para esta velha Europa, já +cansada da sua gleba mais esteril que os ridentes vergeis orientaes. Todos +anhelavam porque se descobrissem faceis os caminhos, para que a todos fosse +commoda a peregrinação dos tractos lucrativos e das fructuosas mercancias. +Pois vá adiante Portugal e explore as sendas indomesticas d'aquella terra +de profana promissão. Vá adiante circumnavegando briosa e perseverante as +inhospitas margens africanas. Engolfe-se nos mares tempestuosos e descubra +as ilhas viridentes, onde as arvores por centenares de seculos, na perpetua +solidão das suas florestas, haviam ramalhado sem temer a hacha assoladora +do colono, onde os passarinhos, dominando sem rival, cantavam indolentes os +amores, pendurando nas vergonteas os seus ninhos, sem recear que a mão do +homem as viesse descobrir e profanar. Entrem os portuguezes, esta guarda +avançada, estes heroicos batedores da nova civilisação, entrem na sombria, +ignota e espessa escuridão das terras e das costas africanas, entrem +resolutos com as suas proas mal seguras nas bahias, nas abras, nas aguadas. +Vão nas suas aventurosas singraduras administrando pelo nome portuguez o +baptismo da civilisação ás selvaticas paragens, que descobrem, e +assignalando com padrões a possessão e o dominio. Pairem com os primeiros e +mais felizes navegadores nas aguas revoltosas do cabo Tormentorio, onde a +Africa, semelhante ao ferro agudo e penetrante de uma azagaia immensa, está +ferindo inexoravel o coração do Oceano. Sejam infatigaveis na aventura, +intrepidos no perigo, inabalaveis na ousadia, heroicos nas provações, +indomitos nos contrastes da fortuna. Avancem de cada vez mais um estadio na +róta, que traçaram. Abram nos mares desconhecidos a propria estrada, que +vão descortinando e percorrendo. Operem maravilhas de sciencia +cosmographica e prodigios de estoica paciência e milagres de valor e +galhardia. Deixem atraz o cabo temeroso e em fragillimos baixeis vão +singrando aventureiros o Oceano Indico. Aportem finalmente á celebrada +terra oriental, e a principio hospedes e forasteiros, venham a ser em breve +termo os altivos dominadores d'aquelles florentissimos imperios, agora +avassallados e sujeitos ao jugo portuguez. D'ali bracejem as extensas +vergonteas do descobrimento e da conquista até ás mais apartadas e +mysteriosas regiões. Entre a Europa escudada com o nome de Portugal na +China e no Japão. Vá lustrando nos portuguezes galeões os mais remotos +archipelagos. Deixe memorada na gloria dos seus feitos e nos nomes +portuguezes dos logares a passagem triumphal d'este povo pequeno na +extensão, gigante nos seus brios. Partindo do ultimo Occidente, de exiguo e +infantil feito gigante, confranja nos seus braços de ferro o globo inteiro. +Dissipe com o seu arrojo incontrastavel as neblinas, que escondiam o +Oceano, e rompa animoso e irresistivel o veo mysterioso, que encobria a +face da terra. Aponte ali aos que na sua assombrosa variedade a +desconheciam, as divisões e as fronteiras das terras e das aguas, como um +amoravel preceptor, arrancando o envoltorio, que tinha recatado um globo +geographico, ensina ao alumno pueril e curioso, as linhas que delimitam os +continentes e os mares. Diga finalmente á Europa entre assombrada e +invejosa: «A terra, que tu sonhaste, era a terra fabulosa, a terra debuxada +nas descripções phantasiosas dos antigos e nos mappas mentirosos da edade +média. A terra, que eu te dou, é a terra qual outr'ora saíu das mãos da +natureza para o homem primitivo, qual sae agora das minhas mãos para o +homem civilisado. É a terra, de que os antigos apenas conheceram uma nesga, +de que Alexandre, nas suas tão famigeradas expedições, soube apenas tanto +como a mais tarda e preguiçosa das minhas galés, talvez menos que o mais +frouxo dos meus aventureiros. A terra, que vós conheceis, é a terra de +Ptolomeu e de Strabão, a terra dos que não a viram, mas sonharam. Esta, que +vos dou, é a terra de Vasco da Gama, de Pedro Alvares Cabral, de Fernão de +Magalhães, de João da Nova, a terra, de que para vós tomamos posse, como os +primeiros que em todas as direcções a soubemos percorrer e navegar.»</p> + +<p>A Europa, ouviu, estremeceu, levantou-se e invejou. As páreas copiosas +dos nossos descobrimentos, os despojos opimos das nossas expedições, os +fructos sasonados das nossas conquistas, tudo lhe deitámos generosos no +regaço. Para nós guardámos o que se não pode alienar: as glorias e os +laureis. Démos-lhe tudo o que havia de terrenal e de mundano. Recatámos +como thesouro inestimavel o que as nossas empresas memoraveis tiveram de +espiritual, quasi divino. Á semelhança do honrado e brioso cavalleiro, que, +com mais cicatrizes que veneras, no outono da sua existencia gloriosa, +pendurando na panoplia a espada reluzente e o murrião abolado nas requestas +sanguinosas, deixa que tudo lhe arrebate a má fortuna, mas não cede ou +vende a extranhos as insignias memoraveis, esculpidas como brazão e stemma +gentilicio na face do seu broquel.</p> + +<p>Quando as glorias portuguezas são chegadas á brilhante culminação, +quando principia a resfriar o ardor primevo das empresas memoraveis, quando +é necessario colher na phase momentanea do seu maximo esplendor a +heroicidade portugueza, e como que photographal-a, ainda viva, recente, +luminosa, apparece o Camões na terra de Portugal.</p> + +<p>O Camões é ao mesmo tempo a eloquente voz da posteridade, e a grandiosa +resurreição dos tempos heroicos de Portugal. A sua penetrante visão +intellectual descobre com a perfeição dos seus contornos immortaes as +figuras, sobre que se concentra mais viva e mais brilhante a purissima luz +da vida nacional. A sua previdencia admiravel adivinha que veem perto os +tempos calamitosos, em que a patria para morrer como Cesar com a grave e +severa alteza dos heroes, precisará de cingir-se na purpura da sua antiga +majestade, e compor-se e adereçar-se nas soberanas vestiduras da sua +gloria. Virão épocas escassas, em que extranhos arrogantes hão de buscar +descingir-lhe o gladio refulgente, desvestir-lhe a loriga impenetravel, e +murchar-lhe na fronte os loiros immortaes. Tudo poderão emprehender. Mas o +Camões, o soldado brioso das guerras africanas e indiaticas, o portuguez, +que amou a patria acima da mulher, e a mulher acima da fortuna, o poeta que +emulou nos antigos a belleza e a correcção, aos modernos superou no +sentimento, ali está colligindo e ordenando nos versos varonis de uma +epopéa nacional, as memorias da terra em que nasceu.</p> + +<p>Será na carta da Asia a India portugueza um ponto apenas, mas um ponto +como estes que, em noites de serena atmosphera e de melancolica e tepida +escuridade, estão brilhantemente scintillando, e esculpindo no ceo a +distancias infinitas o seu vivo e eterno resplendor.</p> + +<p>Perdemos em grande parte a dominação e o imperio n'aquelles immensos +territorios, onde outr'ora fluctuara, symbolo de empresas temerarias e +felicissimas victorias, a bandeira de Portugal. Mas ninguem nos pôde nunca +pleitear a gloria de as ter primeiro descoberto e avassallado. Que importa +ao nome portuguez, que d'esse vasto e opulento senhorio não restem quasi já +senão memorias?</p> + +<p>Cada povo tem na sequencia historica a sua funcção, no grande e vario +drama da civilisação o seu papel. Uns em cada momento na evolução da +humanidade são protagonistas e heroes, a outros cahem no complemento e +execução da obra commum, officios mais modestos, mas não menos necessarias +attribuições. É o principio harmonico e fecundo da divisão do trabalho +applicado á cooperação mutua das nações, no empenho de fundir e aperfeiçoar +a civilisação no decurso das edades. E d'este modo a noção da patria +individual se esconde na penumbra da humanidade.</p> + +<p>A nossa missão não era a de grangear para nós o mundo, mas sim de o +sujeitar e descobrir. Fomos com a espada os missionarios da velha Europa, +enviados a correr os primeiros lances, e affrontar os perigos, a que +ninguem ousara então metter o peito resoluto. A gloria de descobrir é maior +e mais duravel que a de fruir e dominar. A grandeza épica dos nossos feitos +immortaes, mais se aprimora e abrilhanta n'esta abnegação e desapego, com +que dos fructos das empresas sobrehumanas deixámos aos extranhos o +proveito, para nós tomámos a gloria por salario. Dos grandes e magnificos +descobrimentos, com que se accrescenta e se melhora a civilisação +intellectual e a humana condição, não ficou enfeudada a propriedade +exclusiva na geração e na familia dos gloriosos inventores. Kepler +interrogando os ceos e os planetas, rebeldes e indomaveis até ali, +clausurando-os no encerro perpetuo das suas orbitas ellipticas, vinculou o +seu formoso descobrimento no morgado commum da humanidade. Os segredos, que +o espirito de Newton soube roubar á mysteriosa natureza, doou-os generoso á +sciencia cosmopolita e á civilisação universal. O telegrapho electrico +transmitte o pensamento, sem que esteja agora recatado como cioso monopolio +na familia ou na raça dos seus engenhosos descobridores. A locomotiva +passeia sibilando pelo mundo, sem que antes do seu curso impetuoso esteja +esperando a venia e o signal de quem primeiro a ideou e construiu. Assim +tambem da terra que lustrámos nas suas mais afastadas e escondidas regiões. +A gloria de a revelar á Europa cubiçosa, vale mais que a vaidosa satisfação +de chamar nosso o que primeiro que ninguem soubemos procurar e +descobrir.</p> + +<p>Das nossas aventurosas navegações e das nossas empresas bellicosas +nasceu em grande parte o movimento operado na Europa desde o seculo XV. +Tornámos possivel a sciencia moderna, que era truncada e imperfeita antes +que ensinassemos as gentes européas a interrogar a natureza, e a +descortinar as maravilhas e os segredos de inhospitas paragens, de mares +desconhecidos, de um firmamento novo, onde brilham, escondidas aos antigos, +novas e extranhas constellações. Revelámos a fórma do nosso globo, a +configuração dos continentes, a continua successão do Oceano, a mudança e a +condição dos varios climas. Patenteámos as riquezas innumeraveis da +natureza organica, nos seus typos disseminados pela immensa vastidão das +terras e dos mares. Atámos novamente os vinculos já rotos e perdidos entre +a nossa civilisação e a nossa historia, e a historia e as civilisacões dos +povos orientaes. Com as nossas maravilhosas aventuras fizemos uma patria +gloriosa e impozemol-a á admiração de todo o mundo, mas acabámos empresa +ainda maior, porque fizemos tambem a nova humanidade, congraçando e +tornando umas das outras conhecidas as raças e as familias, que viviam +pelos ambitos da terra sem liame e sem commercio fraternal.</p> + +<p>D'esta prodigiosa Renascença, em que a moderna christandade tornou a +viver no espirito e no genio da antiguidade, fomos nós os mais activos e +fecundos cooperadores. A outros coube a gloria de comprehender primeiro e +divulgar as formosas manifestações da intelligencia e da imaginação entre +os antigos; de recompor as estatuas, onde o ideal quasi se confundia com o +divino, de reconstruir os sumptuosos monumentos, de evocar das ruinas o +mundo classico, e ao bafejo da paciente erudição fazel-o resurgir na +apparencia da sua eterna belleza e perfeição. Mas em quanto os outros +recompunham a antiguidade, nós mais audazes e felizes do que elles, +alcançavamos completal-a e corrigil-a, penetrar onde ella não chegou, e +tornar mil vezes mais intensa a sua luz, enfeixando com ella a que em +remotas e sobrehumanas excursões se reflectiu na lamina das espadas +gloriosas, e nas colubrinas e bombardas dos nossos galeões.</p> + +<p>Fizeram elles o renascimento do passado, dispertando-o do seu tumulo. +Nós fomos acordar o futuro das nações no berço onde nasce a aurora. Fizeram +elles resurgir as tradições da Grecia e Roma. Nós fizemos nascer e +avigorar-se o espirito da humanidade.</p> + +<p>Os outros fizeram a sciencia da antiguidade, acurvados nos pulverulentos +manuscriptos e nas reliquias já truncadas da arte, da sciencia e da poesia. +Nós fizemos a doutrina, que se accumula navegando e combatendo, a perigosa +erudição, que se compra com sangue derramado, e enlaçámos aos loiros da +sciencia as palmas triumphaes.</p> + +<p>Para entalhar no bronze da epopéa os feitos que resumem a vida nacional, +nasceu Camões.</p> + +<p>Quem era? D'onde veiu? Onde nasceu? Onde passou a puericia? Onde +aprendeu na adolescencia os dois amores, que lhe exalçaram o espirito, +cravando-lhe de espinhos o coração,--o amor da patria, que elle idolatrou +mais que ninguem,--o amor da mulher, que mais do que nenhum poeta lyrico +elle soube divinisar?</p> + +<p>A vida do Camões é em quasi todos os seus successos uma lenda, ou um +mysterio. Do poeta conhecemos perfeitamente o aspecto, em que se volta para +nós e para a patria. Ignoramos quasi inteiramente o que se occulta nas +escuras profundezas do coração e da existencia individual. É como estes +resplendentes corpos celestes, de quem apenas rastreamos a luz e o +esplendor, sem ao certo comprehender o que está por baixo da luminosa +superficie. Contemplamos no Camões reflectida com toda a sua clara +intensidade a vida nacional. Acostumámo-nos a vêr e admirar no seu espirito +a imagem heroica do povo portuguez. Os loiros, que lhe exornam a fronte, +são tambem os laureis que enramaram em seus triumphos a patria, quando era +gloriosa e invejada. A sua alma é a alma da nação. No seu poema não respira +apenas o estro de um cantor, palpita o coração de Portugal. É preciso que +haja o que quer que seja de vago, impessoal e indeciso n'esta figura +grandiosa, que tem á cinta o proprio gladio da nação, e desfere no seu +plectro, não os sons da sua propria inspiração, mas os hymnos collectivos +entoados por todo um povo á sua grandeza e á sua gloria. O Camões não é +apenas um poeta, é um côro triumphal, em que as vozes de muitas gerações, +na propria saudação dos seus heroicos feitos, se conglobam nos accentos de +uma voz predestinada.</p> + +<p>São mal delineados, nebulosos, os contornos biographicos do Camões. Não +se sabe ao certo quando nasceu, porque n'estas imagens e personificações da +vida nacional, é bem que nos possamos illudir, suppondo que andaram largos +tempos voejando antes que começassem a luzir. Ignora-se a terra em que +nasceu. Em Lisboa? Em Coimbra? Em Santarem? Ninguem o pode á justa +discriminar. E é bem que assim acontecesse, para que nenhuma povoação se +possa gloriar, de que o poeta lhe pertence a melhor titulo do que a toda a +patria, que illustrou. Perguntam-nos onde o Camões viu a primeira luz? +Respondemos e basta: Em Portugal. Que nos importa discernir se era vulgar +ou generoso o sangue do poeta? Os monarchas da intelligencia não carecem de +tronco e dynastia. Não tem pelo espirito nem antecessores nem descendentes. +Não releva o inquirirmos d'onde veem, já que sabemos aonde vão. Nascem da +humanidade e vão para a gloria. Nascem do pó terreno e mundanal e caminham +luminosos á divina immortalidade. Sabemos do Camões que foi soldado +valentissimo entre os mais esforçados e briosos; sabemos que foi a mais +subida intelligencia em nossa terra, o primeiro épico moderno. Sabemos que +alcançou conciliar em harmonica união as graças e formosuras da mais solta +e inventiva imaginação, com as doutrinas mais severas da sciencia no seu +tempo. Sabemos que em Africa militou, para que seguisse em tudo as mesmas +sendas, por onde a gloria portugueza transitara. Sabemos que invejas, e +malquerenças, e damnadas tenções, como elle diz, lhe mesclaram na vida aos +jubilos e aos extasis da nativa inspiração, as tristezas e os opprobrios da +existencia amargurada. Sabemos que amou extremosamente. E como poderia esta +alma de eleição clausurar-se na solidão do sentimento, sem repartir o estro +e a paixão entre a patria e a mulher? Sabemos que padeceu asperos desterros +e carceres de affronta e provação. E como poderia esta luz intensissima do +engenho ferir, sem os offender e offuscar, os olhos dos seus ingratos +contemporaneos, que não buscassem afrouxal-a e desluzil-a, já que não a +podiam apagar? Sabemos que na India provou a forte espada nos recontros e a +estoica impavidez nos lances das armadas e nos perigos das tormentas. +Sabemos que a pobresa foi a socia inseparavel do seu viver aventureiro. E +que genio já houve em Portugal antigamente, que não tivesse a penuria por +contrapeso aos thesouros immortaes da sua gloria? Sabemos que na China +exerceu modesto officio, e que a fortuna ao Camões lhe destinou que para +não perecer á fome, rebaixasse o divino talento de poeta ao prosaico e rude +officio de exactor. Sabemos que a patria o desamparou nos annos +derradeiros, atirando-lhe á mão, quasi estendida á caridade, a esmola do +poder. Sabemos que morreu, quando a patria descaía no sepulchro, porque +elle era a voz da patria, o ultimo suspiro da nação agonisante, e era bem +que se extinguisse, quando Portugal jazia amortalhado no manto de +cavalleiro, tendo em redor do seu esquife as figuras sinistras e irónicas +dos seus desapiedados conquistadores. Sabemos que os seus ossos jazeram até +hontem esquecidos n'um desvão do convento de Sant'Anna, até hontem, em que +por nobre e patriotica impulsão da nossa Academia, lhe +pagámos--inanimado--na solemne apotheose, o que--vivo--os seus +contemporaneos lhe negaram em pão e em conforto. Sabemos que deixou o seu +nome intimamente vinculado ao nome e á propria existencia da nação. Sabemos +que os <i>Lusiadas</i> os entalhou o brio portuguez com a espada nas mais +distantes e ingratas regiões, e os imprimiu com o rasto das suas quilhas +temerarias na face do Oceano e no dorso das tempestades, e o Camões os +trasladou a versos immortaes, diffundindo no mundo pelo genio o que +Portugal já tinha divulgado pelo immenso pregão do seu valor.</p> + +<p>O Camões é a patria coroada de poeticos laureis. Os <i>Lusiadas</i> são +a estatua da nação, cinzelada pelo escopro do maior engenho portuguez. +Glorifiquemos, pois, cada vez mais a epopéa e o cantor. Veneremos com elle +o nosso passado glorioso. Mas como estes destemidos argonautas, que elle +celebrou, os quaes se não ficavam inertes e parados após as mais felizes +singraduras, nem cifravam a sua honra em descobrir apenas o cabo de Boa +Esperança, volvamos o sentimento nacional aos tempos que já foram, e o +espirito moderno ás eras do porvir: ao passado, para que d'elle possamos +aprender o amor da patria, a tenaz perseverança nas empresas mais +difficeis; ao futuro, para que honrando o poeta nas suas mais largas e +videntes aspirações, possamos completar as nossas glorias pelo caminho que +a fortuna nos consente e nos deixou. Fizemos a epopéa sublime, traduzida +pelo Camões na divina linguagem do seu estro. Façamos hoje a epopéa mais +modesta da liberdade, da sciencia e do trabalho.</p> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Panegyrico de Luiz de Camões, by +José Maria Latino Coelho + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PANEGYRICO DE LUIZ DE CAMÕES *** + +***** This file should be named 21950-h.htm or 21950-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/1/9/5/21950/ + +Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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