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+Project Gutenberg's Panegyrico de Luiz de Camões, by José Maria Latino Coelho
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Panegyrico de Luiz de Camões
+
+Author: José Maria Latino Coelho
+
+Release Date: June 27, 2007 [EBook #21950]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PANEGYRICO DE LUIZ DE CAMÕES ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
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+
+PANEGYRICO
+
+DE
+
+LUIZ DE CAMÕES
+
+
+
+
+PANEGYRICO
+
+DE
+
+LUIZ DE CAMÕES
+
+
+LIDO NA SESSÃO SOLEMNE
+
+DA
+
+ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA
+
+Em 9 de junho de 1880
+
+PELO
+
+SECRETARIO GERAL
+
+J. M. LATINO COELHO
+
+
+LISBOA
+TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA
+1880
+
+
+
+
+Senhores.--Quando o viajante, ao cursar as ermas e dilatadas planicies,
+onde entre o Eufrates e o Tigre, em seculos remotos floreceram as grandes e
+conquistadoras monarchias asiaticas, collossos na amplitude e no poder,
+revoca á mente scismadora as magnificas memorias d'aquelles soberbissimos
+imperios, encontra em redor de si a aridez e a solidão. Mas as ruinas
+monumentaes dos antigos e majestosos edificios nos logares hoje desertos,
+onde outr'ora pompearam as cidades babylonias e assyrias, lhe estão ainda
+ensinando com a mudez eloquente das ruinas venerandas, a imagem da grandeza
+que passou.
+
+Tudo é pequeno e transitorio n'este mundo, excepto a humanidade, a cadêa
+ininterrupta, por onde as successivas gerações umas ás outras vão
+transmittindo, accrescentado, o thesouro da commum civilisação.
+
+Nascem, crescem, avigoram-se, florecem, decaem, e sepultam-se para sempre
+no tumulo da historia as nações e os heroes, por mais procéras e giganteas,
+que o destino lhes talhasse a estatura e as proporções.
+
+Quando, após os esplendidos triumphos,--que em sua comparação, bem poderam
+envergonhar de pequenas e obscuras as celebradas conquistas e expedições
+dos povos dominadores na antiguidade,--volvemos os olhos para o que fomos,
+e caimos na contemplação do que de tanto poderio hoje nos resta, o espirito
+lastimado pela ingrata confrontação se entristece e se lamenta, de que
+passasse tão veloz a edade heroica de Portugal. Como ao viandante solitario
+nos plainos da Mesopotamia, parece-nos que sómente em volta se nos deparam
+saudosas e melancolicas as memorias do glorioso imperio portuguez.
+
+Onde está Ceuta, em cujas muralhas o rei cavalleiroso e os seus esforçados
+paladinos, renovando com melhor fortuna e discrição o antigo duello entre a
+christandade e o islamismo, hastearam seguramente o estandarte portuguez?
+Onde está Arzilla, e Tanger, e Azamor, e Mazagão? Dentro d'aquelles muros,
+cujas pedras são ainda hoje insignes testemunhos do heroico valor de
+Portugal, resôa apenas o seu nome, envolto na penumbra da gloria e do
+terror. Onde está Malaca, em cujos padrões ainda vivem as façanhas de
+Affonso de Albuquerque? Onde Cochim, onde Meliapor, onde Bombaim? Onde este
+vasto littoral, em cujas abras e enseadas as naus e os galeões de Portugal,
+ao som das horrisonas bombardas dictavam a lei ás temerosas gentilidades?
+Onde está a India, que Portugal, a custo de façanhas inauditas, navaes e
+bellicosas, abriu ao tracto e ao commercio das nações occidentaes? Onde
+está a India? Oh! não repitamos a lastimosa interrogação, que nos pode
+ouvir, animada por um momento de redivivo e heroico patriotismo, aquella
+ossada gloriosa do immortal navegador, que hontem fomos depositar no
+grandioso monumento, consagrado aos nossos descobrimentos pelo rei
+emprehendedor. Onde estão os archipelagos, a que nós demos nome e senhorio?
+Onde estão esses mares procellosos e afastados, onde as quinas passeavam
+triumphantes, fazendo do Oriente mais remoto o feudo de Portugal? Aonde?
+aonde? Pisam extranhos mais felizes, não mais bravos, as terras que para a
+Europa soubemos conquistar. De todo o immenso imperio portuguez já não ha a
+circundar-nos mais do que melancolicas ruinas. Mas n'esta solidão ainda ha
+para confortar-nos e engrandecer-nos uma voz eloquentissima, que resume nos
+seus magicos accentos a altivez e a gloria de Portugal.
+
+Já não tendes, portuguezes, a India, nem Ormuz, nem Malaca, nem Ceylão. Nem
+ao menos vos deixaram como padrão aquelle cabo Tormentorio, cujas borrascas
+temerosas vos não entibiaram, que não fosseis adiante ensinar á indolente
+christandade os caminhos tenebrosos do Oceano. Não são vossos os dominios
+materiaes. Embora. N'aquelles mesmos territorios, onde agora florecem e
+dominam extrangeiros moradores, lá está sempre o vosso nome. É d'elles o
+que é da terra, mas é vosso unicamente o que se não pode aniquilar, porque
+é incorporeo e immortal. É d'elles a riqueza, o poder, o senhorio. Mas será
+sempre vossa a gloria. Partindo aventurosos e resolutos desde os ultimos
+confins da Europa occidental, cursastes os oceanos ainda virginaes, onde
+tomastes o ronco estridor das tempestades pelo hymno triumphal das
+esplendidas victorias. Abristes as portas do Oceano, e dissestes ás demais
+nações da Europa: «Despertae da somnolencia medieva, e entrae após os meus
+navegadores.» A velha christandade phantasiava o mundo nos fabulados
+portulanos. E vós, estendendo aos vossos pés a terra inteira, como se fôra
+ainda pequeno mappa, estudastes a geographia, sulcando as linhas nas aguas
+com as vossas quilhas venturosas, entalhando-as na terra com o ferro
+vencedor.
+
+Isto diz, mas em carmes inspirados e em divinas modulações, o immortal
+cantor dos feitos patrios. É a voz da gloria, que resôa perpetuamente,
+vibrada pela tuba do maximo poeta e do mais ardente e devotado portuguez.
+São os _Lusiadas_. É o Camões.
+
+Quando pronuncía um portuguez o nome do Camões, a admiração e o orgulho de
+contar como seu natural o grande epico, é o maximo elogio. E n'esta
+occasião, em que festivamente celebra Portugal ao seu poeta, quando o povo,
+estreitando os vinculos da patria em volta do seu mais illustre e
+benemerito cantor, está pagando em publica e solemne apotheose, a homenagem
+do seu culto ao altissimo engenho portuguez, parecera temeridade, quasi
+diriamos sacrilegio, o buscar encarecer a gloria do Camões. Seria como
+accender pallidas lucernas para que appareça fulgindo mais esplendido o sol
+meridiano. E, senhores, se levanto n'este momento a minha voz, perdida e
+abafada no côro unisono das acclamações universaes, é porque assim o
+ordenou a Academia, mais zelosa na veneração ao épico immortal do que feliz
+na eleição do orador.
+
+Não espereis da minha voz um panegyrico, porque só farei em breves termos a
+commemoração de um grande nome. No meio do fervoroso enthusiasmo, com que a
+cidade de Lisboa, e as demais povoações de Portugal, solvem após tres
+seculos na escassa e tardia moeda que lhe é dado dispender, o preço das
+altiloquas estrophes, quando os arcos triumphaes, os prestitos solemnes, os
+hymnos melodiosos, os bellicos tropheos, as bandeiras multicores, as
+deslumbrantes illuminações annunciam publicamente que revive, como o
+symbolo da patria, o nome do seu cantor, a nação, como que expiando
+nobremente a culposa indifferença das passadas gerações, entalha n'estes
+honrosos monumentos o nome de quem teceu de luz a heroica narração dos
+feitos patrios. A Academia, associando-se a esta liturgia nacional em honra
+do poeta, poz-me na mão o cinzel, e prescreveu-me que n'um recanto d'este
+marmore, onde Portugal insculpe agora a sua e a gloria do cantor, eu deixe
+tambem gravado o nome do Camões.
+
+Fazer o elogio do Camões é tecer o panegyrico da patria. E é sempre grato a
+um portuguez o encomiar a Portugal.
+
+Nós temos, os portuguezes, um singular e raro privilegio. Somos nós entre
+os modernos povos europeus o que tem um poema verdadeiramente nacional, um
+poema, cujos cantos são as façanhas da nação enaltecidas pela mais florida
+e opulenta phantasia, modeladas nas fórmas da epopéa. Celebram outras
+gentes a fecundos e altissimos engenhos, cujos reflexos luminosos,
+transcendendo os ambitos da patria, estão doirando e ennobrecendo a
+litteratura universal. Mas nenhum povo tem como o portuguez um d'estes
+felicissimos espiritos, que são ao mesmo passo o genio da nação, e o genio
+da poesia, e em cujas obras respire ao mesmo tempo a patria e a humanidade,
+a gloria privativa de um só povo, e o destino commum de uma inteira
+civilisação. O Dante é immortal, mas o seu poema é inspirado pelo
+mysticismo e a vingança. Immortal é o Tasso, mas a sua epopéa é a novella
+cavalleirosa, que se enreda e desenlaça em redor dos sacros muros da triste
+Jerusalem. Immortal é Shakespeare, mas a sua musa, que penetra e descobre
+as mais occultas fibras do humano coração, é mais cosmopolita do que fadada
+a conglobar a gloria dos bretões. Immortal é Cervantes, mas a figura entre
+sublime e comica do seu heroe, é mais do que o symbolo da Hespanha, é a
+personificação da humanidade, como abstrusa e paradoxal composição de
+loucura e heroicidade. Immortal é o Camões, mas é immortal para os seus,
+immortal para os extranhos. Para os seus, porque em versos admiraveis
+divulgou as empresas, em que foram protagonistas. Immortal para os
+extranhos, porque os feitos, que reconta, são o berço onde incubou fecunda
+a novissima civilisação.
+
+Manda a Europa, ainda então adormecida para as longas e trabalhosas
+expedições, manda a Portugal que marche na vanguarda. Eram tenebrosos,
+impervios, procellosos os mares, onde nenhum baixel se tinha aventurado.
+Entrevia-se o Oriente como a quasi fabulosa região, d'onde vinham
+magnificadas pela creadora phantasia os encantos e as maravilhas. Era a
+terra das ardentes especiarias e das drogas perfumadas, a fecunda matriz
+dos diamantes e das perolas. Os seus thesouros aguçavam o desejo ás gentes
+occidentaes. Era como o paraiso da cubiça para esta velha Europa, já
+cansada da sua gleba mais esteril que os ridentes vergeis orientaes. Todos
+anhelavam porque se descobrissem faceis os caminhos, para que a todos fosse
+commoda a peregrinação dos tractos lucrativos e das fructuosas mercancias.
+Pois vá adiante Portugal e explore as sendas indomesticas d'aquella terra
+de profana promissão. Vá adiante circumnavegando briosa e perseverante as
+inhospitas margens africanas. Engolfe-se nos mares tempestuosos e descubra
+as ilhas viridentes, onde as arvores por centenares de seculos, na perpetua
+solidão das suas florestas, haviam ramalhado sem temer a hacha assoladora
+do colono, onde os passarinhos, dominando sem rival, cantavam indolentes os
+amores, pendurando nas vergonteas os seus ninhos, sem recear que a mão do
+homem as viesse descobrir e profanar. Entrem os portuguezes, esta guarda
+avançada, estes heroicos batedores da nova civilisação, entrem na sombria,
+ignota e espessa escuridão das terras e das costas africanas, entrem
+resolutos com as suas proas mal seguras nas bahias, nas abras, nas aguadas.
+Vão nas suas aventurosas singraduras administrando pelo nome portuguez o
+baptismo da civilisação ás selvaticas paragens, que descobrem, e
+assignalando com padrões a possessão e o dominio. Pairem com os primeiros e
+mais felizes navegadores nas aguas revoltosas do cabo Tormentorio, onde a
+Africa, semelhante ao ferro agudo e penetrante de uma azagaia immensa, está
+ferindo inexoravel o coração do Oceano. Sejam infatigaveis na aventura,
+intrepidos no perigo, inabalaveis na ousadia, heroicos nas provações,
+indomitos nos contrastes da fortuna. Avancem de cada vez mais um estadio na
+róta, que traçaram. Abram nos mares desconhecidos a propria estrada, que
+vão descortinando e percorrendo. Operem maravilhas de sciencia
+cosmographica e prodigios de estoica paciência e milagres de valor e
+galhardia. Deixem atraz o cabo temeroso e em fragillimos baixeis vão
+singrando aventureiros o Oceano Indico. Aportem finalmente á celebrada
+terra oriental, e a principio hospedes e forasteiros, venham a ser em breve
+termo os altivos dominadores d'aquelles florentissimos imperios, agora
+avassallados e sujeitos ao jugo portuguez. D'ali bracejem as extensas
+vergonteas do descobrimento e da conquista até ás mais apartadas e
+mysteriosas regiões. Entre a Europa escudada com o nome de Portugal na
+China e no Japão. Vá lustrando nos portuguezes galeões os mais remotos
+archipelagos. Deixe memorada na gloria dos seus feitos e nos nomes
+portuguezes dos logares a passagem triumphal d'este povo pequeno na
+extensão, gigante nos seus brios. Partindo do ultimo Occidente, de exiguo e
+infantil feito gigante, confranja nos seus braços de ferro o globo inteiro.
+Dissipe com o seu arrojo incontrastavel as neblinas, que escondiam o
+Oceano, e rompa animoso e irresistivel o veo mysterioso, que encobria a
+face da terra. Aponte ali aos que na sua assombrosa variedade a
+desconheciam, as divisões e as fronteiras das terras e das aguas, como um
+amoravel preceptor, arrancando o envoltorio, que tinha recatado um globo
+geographico, ensina ao alumno pueril e curioso, as linhas que delimitam os
+continentes e os mares. Diga finalmente á Europa entre assombrada e
+invejosa: «A terra, que tu sonhaste, era a terra fabulosa, a terra debuxada
+nas descripções phantasiosas dos antigos e nos mappas mentirosos da edade
+média. A terra, que eu te dou, é a terra qual outr'ora saíu das mãos da
+natureza para o homem primitivo, qual sae agora das minhas mãos para o
+homem civilisado. É a terra, de que os antigos apenas conheceram uma nesga,
+de que Alexandre, nas suas tão famigeradas expedições, soube apenas tanto
+como a mais tarda e preguiçosa das minhas galés, talvez menos que o mais
+frouxo dos meus aventureiros. A terra, que vós conheceis, é a terra de
+Ptolomeu e de Strabão, a terra dos que não a viram, mas sonharam. Esta, que
+vos dou, é a terra de Vasco da Gama, de Pedro Alvares Cabral, de Fernão de
+Magalhães, de João da Nova, a terra, de que para vós tomamos posse, como os
+primeiros que em todas as direcções a soubemos percorrer e navegar.»
+
+A Europa, ouviu, estremeceu, levantou-se e invejou. As páreas copiosas dos
+nossos descobrimentos, os despojos opimos das nossas expedições, os fructos
+sasonados das nossas conquistas, tudo lhe deitámos generosos no regaço.
+Para nós guardámos o que se não pode alienar: as glorias e os laureis.
+Démos-lhe tudo o que havia de terrenal e de mundano. Recatámos como
+thesouro inestimavel o que as nossas empresas memoraveis tiveram de
+espiritual, quasi divino. Á semelhança do honrado e brioso cavalleiro, que,
+com mais cicatrizes que veneras, no outono da sua existencia gloriosa,
+pendurando na panoplia a espada reluzente e o murrião abolado nas requestas
+sanguinosas, deixa que tudo lhe arrebate a má fortuna, mas não cede ou
+vende a extranhos as insignias memoraveis, esculpidas como brazão e stemma
+gentilicio na face do seu broquel.
+
+Quando as glorias portuguezas são chegadas á brilhante culminação, quando
+principia a resfriar o ardor primevo das empresas memoraveis, quando é
+necessario colher na phase momentanea do seu maximo esplendor a heroicidade
+portugueza, e como que photographal-a, ainda viva, recente, luminosa,
+apparece o Camões na terra de Portugal.
+
+O Camões é ao mesmo tempo a eloquente voz da posteridade, e a grandiosa
+resurreição dos tempos heroicos de Portugal. A sua penetrante visão
+intellectual descobre com a perfeição dos seus contornos immortaes as
+figuras, sobre que se concentra mais viva e mais brilhante a purissima luz
+da vida nacional. A sua previdencia admiravel adivinha que veem perto os
+tempos calamitosos, em que a patria para morrer como Cesar com a grave e
+severa alteza dos heroes, precisará de cingir-se na purpura da sua antiga
+majestade, e compor-se e adereçar-se nas soberanas vestiduras da sua
+gloria. Virão épocas escassas, em que extranhos arrogantes hão de buscar
+descingir-lhe o gladio refulgente, desvestir-lhe a loriga impenetravel, e
+murchar-lhe na fronte os loiros immortaes. Tudo poderão emprehender. Mas o
+Camões, o soldado brioso das guerras africanas e indiaticas, o portuguez,
+que amou a patria acima da mulher, e a mulher acima da fortuna, o poeta que
+emulou nos antigos a belleza e a correcção, aos modernos superou no
+sentimento, ali está colligindo e ordenando nos versos varonis de uma
+epopéa nacional, as memorias da terra em que nasceu.
+
+Será na carta da Asia a India portugueza um ponto apenas, mas um ponto como
+estes que, em noites de serena atmosphera e de melancolica e tepida
+escuridade, estão brilhantemente scintillando, e esculpindo no ceo a
+distancias infinitas o seu vivo e eterno resplendor.
+
+Perdemos em grande parte a dominação e o imperio n'aquelles immensos
+territorios, onde outr'ora fluctuara, symbolo de empresas temerarias e
+felicissimas victorias, a bandeira de Portugal. Mas ninguem nos pôde nunca
+pleitear a gloria de as ter primeiro descoberto e avassallado. Que importa
+ao nome portuguez, que d'esse vasto e opulento senhorio não restem quasi já
+senão memorias?
+
+Cada povo tem na sequencia historica a sua funcção, no grande e vario drama
+da civilisação o seu papel. Uns em cada momento na evolução da humanidade
+são protagonistas e heroes, a outros cahem no complemento e execução da
+obra commum, officios mais modestos, mas não menos necessarias
+attribuições. É o principio harmonico e fecundo da divisão do trabalho
+applicado á cooperação mutua das nações, no empenho de fundir e aperfeiçoar
+a civilisação no decurso das edades. E d'este modo a noção da patria
+individual se esconde na penumbra da humanidade.
+
+A nossa missão não era a de grangear para nós o mundo, mas sim de o
+sujeitar e descobrir. Fomos com a espada os missionarios da velha Europa,
+enviados a correr os primeiros lances, e affrontar os perigos, a que
+ninguem ousara então metter o peito resoluto. A gloria de descobrir é maior
+e mais duravel que a de fruir e dominar. A grandeza épica dos nossos feitos
+immortaes, mais se aprimora e abrilhanta n'esta abnegação e desapego, com
+que dos fructos das empresas sobrehumanas deixámos aos extranhos o
+proveito, para nós tomámos a gloria por salario. Dos grandes e magnificos
+descobrimentos, com que se accrescenta e se melhora a civilisação
+intellectual e a humana condição, não ficou enfeudada a propriedade
+exclusiva na geração e na familia dos gloriosos inventores. Kepler
+interrogando os ceos e os planetas, rebeldes e indomaveis até ali,
+clausurando-os no encerro perpetuo das suas orbitas ellipticas, vinculou o
+seu formoso descobrimento no morgado commum da humanidade. Os segredos, que
+o espirito de Newton soube roubar á mysteriosa natureza, doou-os generoso á
+sciencia cosmopolita e á civilisação universal. O telegrapho electrico
+transmitte o pensamento, sem que esteja agora recatado como cioso monopolio
+na familia ou na raça dos seus engenhosos descobridores. A locomotiva
+passeia sibilando pelo mundo, sem que antes do seu curso impetuoso esteja
+esperando a venia e o signal de quem primeiro a ideou e construiu. Assim
+tambem da terra que lustrámos nas suas mais afastadas e escondidas regiões.
+A gloria de a revelar á Europa cubiçosa, vale mais que a vaidosa satisfação
+de chamar nosso o que primeiro que ninguem soubemos procurar e descobrir.
+
+Das nossas aventurosas navegações e das nossas empresas bellicosas nasceu
+em grande parte o movimento operado na Europa desde o seculo XV. Tornámos
+possivel a sciencia moderna, que era truncada e imperfeita antes que
+ensinassemos as gentes européas a interrogar a natureza, e a descortinar as
+maravilhas e os segredos de inhospitas paragens, de mares desconhecidos, de
+um firmamento novo, onde brilham, escondidas aos antigos, novas e extranhas
+constellações. Revelámos a fórma do nosso globo, a configuração dos
+continentes, a continua successão do Oceano, a mudança e a condição dos
+varios climas. Patenteámos as riquezas innumeraveis da natureza organica,
+nos seus typos disseminados pela immensa vastidão das terras e dos mares.
+Atámos novamente os vinculos já rotos e perdidos entre a nossa civilisação
+e a nossa historia, e a historia e as civilisacões dos povos orientaes. Com
+as nossas maravilhosas aventuras fizemos uma patria gloriosa e impozemol-a
+á admiração de todo o mundo, mas acabámos empresa ainda maior, porque
+fizemos tambem a nova humanidade, congraçando e tornando umas das outras
+conhecidas as raças e as familias, que viviam pelos ambitos da terra sem
+liame e sem commercio fraternal.
+
+D'esta prodigiosa Renascença, em que a moderna christandade tornou a viver
+no espirito e no genio da antiguidade, fomos nós os mais activos e fecundos
+cooperadores. A outros coube a gloria de comprehender primeiro e divulgar
+as formosas manifestações da intelligencia e da imaginação entre os
+antigos; de recompor as estatuas, onde o ideal quasi se confundia com o
+divino, de reconstruir os sumptuosos monumentos, de evocar das ruinas o
+mundo classico, e ao bafejo da paciente erudição fazel-o resurgir na
+apparencia da sua eterna belleza e perfeição. Mas em quanto os outros
+recompunham a antiguidade, nós mais audazes e felizes do que elles,
+alcançavamos completal-a e corrigil-a, penetrar onde ella não chegou, e
+tornar mil vezes mais intensa a sua luz, enfeixando com ella a que em
+remotas e sobrehumanas excursões se reflectiu na lamina das espadas
+gloriosas, e nas colubrinas e bombardas dos nossos galeões.
+
+Fizeram elles o renascimento do passado, dispertando-o do seu tumulo. Nós
+fomos acordar o futuro das nações no berço onde nasce a aurora. Fizeram
+elles resurgir as tradições da Grecia e Roma. Nós fizemos nascer e
+avigorar-se o espirito da humanidade.
+
+Os outros fizeram a sciencia da antiguidade, acurvados nos pulverulentos
+manuscriptos e nas reliquias já truncadas da arte, da sciencia e da poesia.
+Nós fizemos a doutrina, que se accumula navegando e combatendo, a perigosa
+erudição, que se compra com sangue derramado, e enlaçámos aos loiros da
+sciencia as palmas triumphaes.
+
+Para entalhar no bronze da epopéa os feitos que resumem a vida nacional,
+nasceu Camões.
+
+Quem era? D'onde veiu? Onde nasceu? Onde passou a puericia? Onde aprendeu
+na adolescencia os dois amores, que lhe exalçaram o espirito, cravando-lhe
+de espinhos o coração,--o amor da patria, que elle idolatrou mais que
+ninguem,--o amor da mulher, que mais do que nenhum poeta lyrico elle soube
+divinisar?
+
+A vida do Camões é em quasi todos os seus successos uma lenda, ou um
+mysterio. Do poeta conhecemos perfeitamente o aspecto, em que se volta para
+nós e para a patria. Ignoramos quasi inteiramente o que se occulta nas
+escuras profundezas do coração e da existencia individual. É como estes
+resplendentes corpos celestes, de quem apenas rastreamos a luz e o
+esplendor, sem ao certo comprehender o que está por baixo da luminosa
+superficie. Contemplamos no Camões reflectida com toda a sua clara
+intensidade a vida nacional. Acostumámo-nos a vêr e admirar no seu espirito
+a imagem heroica do povo portuguez. Os loiros, que lhe exornam a fronte,
+são tambem os laureis que enramaram em seus triumphos a patria, quando era
+gloriosa e invejada. A sua alma é a alma da nação. No seu poema não respira
+apenas o estro de um cantor, palpita o coração de Portugal. É preciso que
+haja o que quer que seja de vago, impessoal e indeciso n'esta figura
+grandiosa, que tem á cinta o proprio gladio da nação, e desfere no seu
+plectro, não os sons da sua propria inspiração, mas os hymnos collectivos
+entoados por todo um povo á sua grandeza e á sua gloria. O Camões não é
+apenas um poeta, é um côro triumphal, em que as vozes de muitas gerações,
+na propria saudação dos seus heroicos feitos, se conglobam nos accentos de
+uma voz predestinada.
+
+São mal delineados, nebulosos, os contornos biographicos do Camões. Não se
+sabe ao certo quando nasceu, porque n'estas imagens e personificações da
+vida nacional, é bem que nos possamos illudir, suppondo que andaram largos
+tempos voejando antes que começassem a luzir. Ignora-se a terra em que
+nasceu. Em Lisboa? Em Coimbra? Em Santarem? Ninguem o pode á justa
+discriminar. E é bem que assim acontecesse, para que nenhuma povoação se
+possa gloriar, de que o poeta lhe pertence a melhor titulo do que a toda a
+patria, que illustrou. Perguntam-nos onde o Camões viu a primeira luz?
+Respondemos e basta: Em Portugal. Que nos importa discernir se era vulgar
+ou generoso o sangue do poeta? Os monarchas da intelligencia não carecem de
+tronco e dynastia. Não tem pelo espirito nem antecessores nem descendentes.
+Não releva o inquirirmos d'onde veem, já que sabemos aonde vão. Nascem da
+humanidade e vão para a gloria. Nascem do pó terreno e mundanal e caminham
+luminosos á divina immortalidade. Sabemos do Camões que foi soldado
+valentissimo entre os mais esforçados e briosos; sabemos que foi a mais
+subida intelligencia em nossa terra, o primeiro épico moderno. Sabemos que
+alcançou conciliar em harmonica união as graças e formosuras da mais solta
+e inventiva imaginação, com as doutrinas mais severas da sciencia no seu
+tempo. Sabemos que em Africa militou, para que seguisse em tudo as mesmas
+sendas, por onde a gloria portugueza transitara. Sabemos que invejas, e
+malquerenças, e damnadas tenções, como elle diz, lhe mesclaram na vida aos
+jubilos e aos extasis da nativa inspiração, as tristezas e os opprobrios da
+existencia amargurada. Sabemos que amou extremosamente. E como poderia esta
+alma de eleição clausurar-se na solidão do sentimento, sem repartir o estro
+e a paixão entre a patria e a mulher? Sabemos que padeceu asperos desterros
+e carceres de affronta e provação. E como poderia esta luz intensissima do
+engenho ferir, sem os offender e offuscar, os olhos dos seus ingratos
+contemporaneos, que não buscassem afrouxal-a e desluzil-a, já que não a
+podiam apagar? Sabemos que na India provou a forte espada nos recontros e a
+estoica impavidez nos lances das armadas e nos perigos das tormentas.
+Sabemos que a pobresa foi a socia inseparavel do seu viver aventureiro. E
+que genio já houve em Portugal antigamente, que não tivesse a penuria por
+contrapeso aos thesouros immortaes da sua gloria? Sabemos que na China
+exerceu modesto officio, e que a fortuna ao Camões lhe destinou que para
+não perecer á fome, rebaixasse o divino talento de poeta ao prosaico e rude
+officio de exactor. Sabemos que a patria o desamparou nos annos
+derradeiros, atirando-lhe á mão, quasi estendida á caridade, a esmola do
+poder. Sabemos que morreu, quando a patria descaía no sepulchro, porque
+elle era a voz da patria, o ultimo suspiro da nação agonisante, e era bem
+que se extinguisse, quando Portugal jazia amortalhado no manto de
+cavalleiro, tendo em redor do seu esquife as figuras sinistras e irónicas
+dos seus desapiedados conquistadores. Sabemos que os seus ossos jazeram até
+hontem esquecidos n'um desvão do convento de Sant'Anna, até hontem, em que
+por nobre e patriotica impulsão da nossa Academia, lhe
+pagámos--inanimado--na solemne apotheose, o que--vivo--os seus
+contemporaneos lhe negaram em pão e em conforto. Sabemos que deixou o seu
+nome intimamente vinculado ao nome e á propria existencia da nação. Sabemos
+que os _Lusiadas_ os entalhou o brio portuguez com a espada nas mais
+distantes e ingratas regiões, e os imprimiu com o rasto das suas quilhas
+temerarias na face do Oceano e no dorso das tempestades, e o Camões os
+trasladou a versos immortaes, diffundindo no mundo pelo genio o que
+Portugal já tinha divulgado pelo immenso pregão do seu valor.
+
+O Camões é a patria coroada de poeticos laureis. Os _Lusiadas_ são a
+estatua da nação, cinzelada pelo escopro do maior engenho portuguez.
+Glorifiquemos, pois, cada vez mais a epopéa e o cantor. Veneremos com elle
+o nosso passado glorioso. Mas como estes destemidos argonautas, que elle
+celebrou, os quaes se não ficavam inertes e parados após as mais felizes
+singraduras, nem cifravam a sua honra em descobrir apenas o cabo de Boa
+Esperança, volvamos o sentimento nacional aos tempos que já foram, e o
+espirito moderno ás eras do porvir: ao passado, para que d'elle possamos
+aprender o amor da patria, a tenaz perseverança nas empresas mais
+difficeis; ao futuro, para que honrando o poeta nas suas mais largas e
+videntes aspirações, possamos completar as nossas glorias pelo caminho que
+a fortuna nos consente e nos deixou. Fizemos a epopéa sublime, traduzida
+pelo Camões na divina linguagem do seu estro. Façamos hoje a epopéa mais
+modesta da liberdade, da sciencia e do trabalho.
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Panegyrico de Luiz de Camões, by
+José Maria Latino Coelho
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PANEGYRICO DE LUIZ DE CAMÕES ***
+
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+ http://www.gutenberg.org/2/1/9/5/21950/
+
+Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images
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+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
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+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
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+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
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+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
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+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
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+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
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+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
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+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
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+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
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+increasing the number of public domain and licensed works that can be
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+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
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+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
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+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
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+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
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+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+Project Gutenberg's Panegyrico de Luiz de Camões, by José Maria Latino Coelho
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Panegyrico de Luiz de Camões
+
+Author: José Maria Latino Coelho
+
+Release Date: June 27, 2007 [EBook #21950]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PANEGYRICO DE LUIZ DE CAMÕES ***
+
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+Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images
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+<div class="ficha_tecnica">
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+<h1>PANEGYRICO<br />
+
+DE<br />
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+LUIZ DE CAMÕES</h1>
+
+
+
+
+<h1>PANEGYRICO<br />
+
+DE<br />
+
+LUIZ DE CAMÕES</h1>
+
+
+<h2>LIDO NA SESSÃO SOLEMNE<br />
+
+DA<br />
+
+ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA</h2>
+
+<p>Em 9 de junho de 1880</p>
+
+<p>PELO<br />
+
+SECRETARIO GERAL</p>
+
+<p class="author">J. M. LATINO COELHO</p>
+
+
+<p>LISBOA<br />
+TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA<br />
+1880</p>
+</div>
+
+
+
+
+<p>Senhores.--Quando o viajante, ao cursar as ermas e dilatadas planicies,
+onde entre o Eufrates e o Tigre, em seculos remotos floreceram as grandes e
+conquistadoras monarchias asiaticas, collossos na amplitude e no poder,
+revoca á mente scismadora as magnificas memorias d'aquelles soberbissimos
+imperios, encontra em redor de si a aridez e a solidão. Mas as ruinas
+monumentaes dos antigos e majestosos edificios nos logares hoje desertos,
+onde outr'ora pompearam as cidades babylonias e assyrias, lhe estão ainda
+ensinando com a mudez eloquente das ruinas venerandas, a imagem da grandeza
+que passou.</p>
+
+<p>Tudo é pequeno e transitorio n'este mundo, excepto a humanidade, a cadêa
+ininterrupta, por onde as successivas gerações umas ás outras vão
+transmittindo, accrescentado, o thesouro da commum civilisação.</p>
+
+<p>Nascem, crescem, avigoram-se, florecem, decaem, e sepultam-se para
+sempre no tumulo da historia as nações e os heroes, por mais procéras e
+giganteas, que o destino lhes talhasse a estatura e as proporções.</p>
+
+<p>Quando, após os esplendidos triumphos,--que em sua comparação, bem
+poderam envergonhar de pequenas e obscuras as celebradas conquistas e
+expedições dos povos dominadores na antiguidade,--volvemos os olhos para o
+que fomos, e caimos na contemplação do que de tanto poderio hoje nos resta,
+o espirito lastimado pela ingrata confrontação se entristece e se lamenta,
+de que passasse tão veloz a edade heroica de Portugal. Como ao viandante
+solitario nos plainos da Mesopotamia, parece-nos que sómente em volta se
+nos deparam saudosas e melancolicas as memorias do glorioso imperio
+portuguez.</p>
+
+<p>Onde está Ceuta, em cujas muralhas o rei cavalleiroso e os seus
+esforçados paladinos, renovando com melhor fortuna e discrição o antigo
+duello entre a christandade e o islamismo, hastearam seguramente o
+estandarte portuguez? Onde está Arzilla, e Tanger, e Azamor, e Mazagão?
+Dentro d'aquelles muros, cujas pedras são ainda hoje insignes testemunhos
+do heroico valor de Portugal, resôa apenas o seu nome, envolto na penumbra
+da gloria e do terror. Onde está Malaca, em cujos padrões ainda vivem as
+façanhas de Affonso de Albuquerque? Onde Cochim, onde Meliapor, onde
+Bombaim? Onde este vasto littoral, em cujas abras e enseadas as naus e os
+galeões de Portugal, ao som das horrisonas bombardas dictavam a lei ás
+temerosas gentilidades? Onde está a India, que Portugal, a custo de
+façanhas inauditas, navaes e bellicosas, abriu ao tracto e ao commercio das
+nações occidentaes? Onde está a India? Oh! não repitamos a lastimosa
+interrogação, que nos pode ouvir, animada por um momento de redivivo e
+heroico patriotismo, aquella ossada gloriosa do immortal navegador, que
+hontem fomos depositar no grandioso monumento, consagrado aos nossos
+descobrimentos pelo rei emprehendedor. Onde estão os archipelagos, a que
+nós demos nome e senhorio? Onde estão esses mares procellosos e afastados,
+onde as quinas passeavam triumphantes, fazendo do Oriente mais remoto o
+feudo de Portugal? Aonde? aonde? Pisam extranhos mais felizes, não mais
+bravos, as terras que para a Europa soubemos conquistar. De todo o immenso
+imperio portuguez já não ha a circundar-nos mais do que melancolicas
+ruinas. Mas n'esta solidão ainda ha para confortar-nos e engrandecer-nos
+uma voz eloquentissima, que resume nos seus magicos accentos a altivez e a
+gloria de Portugal.</p>
+
+<p>Já não tendes, portuguezes, a India, nem Ormuz, nem Malaca, nem Ceylão.
+Nem ao menos vos deixaram como padrão aquelle cabo Tormentorio, cujas
+borrascas temerosas vos não entibiaram, que não fosseis adiante ensinar á
+indolente christandade os caminhos tenebrosos do Oceano. Não são vossos os
+dominios materiaes. Embora. N'aquelles mesmos territorios, onde agora
+florecem e dominam extrangeiros moradores, lá está sempre o vosso nome. É
+d'elles o que é da terra, mas é vosso unicamente o que se não pode
+aniquilar, porque é incorporeo e immortal. É d'elles a riqueza, o poder, o
+senhorio. Mas será sempre vossa a gloria. Partindo aventurosos e resolutos
+desde os ultimos confins da Europa occidental, cursastes os oceanos ainda
+virginaes, onde tomastes o ronco estridor das tempestades pelo hymno
+triumphal das esplendidas victorias. Abristes as portas do Oceano, e
+dissestes ás demais nações da Europa: «Despertae da somnolencia medieva, e
+entrae após os meus navegadores.» A velha christandade phantasiava o mundo
+nos fabulados portulanos. E vós, estendendo aos vossos pés a terra inteira,
+como se fôra ainda pequeno mappa, estudastes a geographia, sulcando as
+linhas nas aguas com as vossas quilhas venturosas, entalhando-as na terra
+com o ferro vencedor.</p>
+
+<p>Isto diz, mas em carmes inspirados e em divinas modulações, o immortal
+cantor dos feitos patrios. É a voz da gloria, que resôa perpetuamente,
+vibrada pela tuba do maximo poeta e do mais ardente e devotado portuguez.
+São os <i>Lusiadas</i>. É o Camões.</p>
+
+<p>Quando pronuncía um portuguez o nome do Camões, a admiração e o orgulho
+de contar como seu natural o grande epico, é o maximo elogio. E n'esta
+occasião, em que festivamente celebra Portugal ao seu poeta, quando o povo,
+estreitando os vinculos da patria em volta do seu mais illustre e
+benemerito cantor, está pagando em publica e solemne apotheose, a homenagem
+do seu culto ao altissimo engenho portuguez, parecera temeridade, quasi
+diriamos sacrilegio, o buscar encarecer a gloria do Camões. Seria como
+accender pallidas lucernas para que appareça fulgindo mais esplendido o sol
+meridiano. E, senhores, se levanto n'este momento a minha voz, perdida e
+abafada no côro unisono das acclamações universaes, é porque assim o
+ordenou a Academia, mais zelosa na veneração ao épico immortal do que feliz
+na eleição do orador.</p>
+
+<p>Não espereis da minha voz um panegyrico, porque só farei em breves
+termos a commemoração de um grande nome. No meio do fervoroso enthusiasmo,
+com que a cidade de Lisboa, e as demais povoações de Portugal, solvem após
+tres seculos na escassa e tardia moeda que lhe é dado dispender, o preço
+das altiloquas estrophes, quando os arcos triumphaes, os prestitos
+solemnes, os hymnos melodiosos, os bellicos tropheos, as bandeiras
+multicores, as deslumbrantes illuminações annunciam publicamente que
+revive, como o symbolo da patria, o nome do seu cantor, a nação, como que
+expiando nobremente a culposa indifferença das passadas gerações, entalha
+n'estes honrosos monumentos o nome de quem teceu de luz a heroica narração
+dos feitos patrios. A Academia, associando-se a esta liturgia nacional em
+honra do poeta, poz-me na mão o cinzel, e prescreveu-me que n'um recanto
+d'este marmore, onde Portugal insculpe agora a sua e a gloria do cantor, eu
+deixe tambem gravado o nome do Camões.</p>
+
+<p>Fazer o elogio do Camões é tecer o panegyrico da patria. E é sempre
+grato a um portuguez o encomiar a Portugal.</p>
+
+<p>Nós temos, os portuguezes, um singular e raro privilegio. Somos nós
+entre os modernos povos europeus o que tem um poema verdadeiramente
+nacional, um poema, cujos cantos são as façanhas da nação enaltecidas pela
+mais florida e opulenta phantasia, modeladas nas fórmas da epopéa. Celebram
+outras gentes a fecundos e altissimos engenhos, cujos reflexos luminosos,
+transcendendo os ambitos da patria, estão doirando e ennobrecendo a
+litteratura universal. Mas nenhum povo tem como o portuguez um d'estes
+felicissimos espiritos, que são ao mesmo passo o genio da nação, e o genio
+da poesia, e em cujas obras respire ao mesmo tempo a patria e a humanidade,
+a gloria privativa de um só povo, e o destino commum de uma inteira
+civilisação. O Dante é immortal, mas o seu poema é inspirado pelo
+mysticismo e a vingança. Immortal é o Tasso, mas a sua epopéa é a novella
+cavalleirosa, que se enreda e desenlaça em redor dos sacros muros da triste
+Jerusalem. Immortal é Shakespeare, mas a sua musa, que penetra e descobre
+as mais occultas fibras do humano coração, é mais cosmopolita do que fadada
+a conglobar a gloria dos bretões. Immortal é Cervantes, mas a figura entre
+sublime e comica do seu heroe, é mais do que o symbolo da Hespanha, é a
+personificação da humanidade, como abstrusa e paradoxal composição de
+loucura e heroicidade. Immortal é o Camões, mas é immortal para os seus,
+immortal para os extranhos. Para os seus, porque em versos admiraveis
+divulgou as empresas, em que foram protagonistas. Immortal para os
+extranhos, porque os feitos, que reconta, são o berço onde incubou fecunda
+a novissima civilisação.</p>
+
+<p>Manda a Europa, ainda então adormecida para as longas e trabalhosas
+expedições, manda a Portugal que marche na vanguarda. Eram tenebrosos,
+impervios, procellosos os mares, onde nenhum baixel se tinha aventurado.
+Entrevia-se o Oriente como a quasi fabulosa região, d'onde vinham
+magnificadas pela creadora phantasia os encantos e as maravilhas. Era a
+terra das ardentes especiarias e das drogas perfumadas, a fecunda matriz
+dos diamantes e das perolas. Os seus thesouros aguçavam o desejo ás gentes
+occidentaes. Era como o paraiso da cubiça para esta velha Europa, já
+cansada da sua gleba mais esteril que os ridentes vergeis orientaes. Todos
+anhelavam porque se descobrissem faceis os caminhos, para que a todos fosse
+commoda a peregrinação dos tractos lucrativos e das fructuosas mercancias.
+Pois vá adiante Portugal e explore as sendas indomesticas d'aquella terra
+de profana promissão. Vá adiante circumnavegando briosa e perseverante as
+inhospitas margens africanas. Engolfe-se nos mares tempestuosos e descubra
+as ilhas viridentes, onde as arvores por centenares de seculos, na perpetua
+solidão das suas florestas, haviam ramalhado sem temer a hacha assoladora
+do colono, onde os passarinhos, dominando sem rival, cantavam indolentes os
+amores, pendurando nas vergonteas os seus ninhos, sem recear que a mão do
+homem as viesse descobrir e profanar. Entrem os portuguezes, esta guarda
+avançada, estes heroicos batedores da nova civilisação, entrem na sombria,
+ignota e espessa escuridão das terras e das costas africanas, entrem
+resolutos com as suas proas mal seguras nas bahias, nas abras, nas aguadas.
+Vão nas suas aventurosas singraduras administrando pelo nome portuguez o
+baptismo da civilisação ás selvaticas paragens, que descobrem, e
+assignalando com padrões a possessão e o dominio. Pairem com os primeiros e
+mais felizes navegadores nas aguas revoltosas do cabo Tormentorio, onde a
+Africa, semelhante ao ferro agudo e penetrante de uma azagaia immensa, está
+ferindo inexoravel o coração do Oceano. Sejam infatigaveis na aventura,
+intrepidos no perigo, inabalaveis na ousadia, heroicos nas provações,
+indomitos nos contrastes da fortuna. Avancem de cada vez mais um estadio na
+róta, que traçaram. Abram nos mares desconhecidos a propria estrada, que
+vão descortinando e percorrendo. Operem maravilhas de sciencia
+cosmographica e prodigios de estoica paciência e milagres de valor e
+galhardia. Deixem atraz o cabo temeroso e em fragillimos baixeis vão
+singrando aventureiros o Oceano Indico. Aportem finalmente á celebrada
+terra oriental, e a principio hospedes e forasteiros, venham a ser em breve
+termo os altivos dominadores d'aquelles florentissimos imperios, agora
+avassallados e sujeitos ao jugo portuguez. D'ali bracejem as extensas
+vergonteas do descobrimento e da conquista até ás mais apartadas e
+mysteriosas regiões. Entre a Europa escudada com o nome de Portugal na
+China e no Japão. Vá lustrando nos portuguezes galeões os mais remotos
+archipelagos. Deixe memorada na gloria dos seus feitos e nos nomes
+portuguezes dos logares a passagem triumphal d'este povo pequeno na
+extensão, gigante nos seus brios. Partindo do ultimo Occidente, de exiguo e
+infantil feito gigante, confranja nos seus braços de ferro o globo inteiro.
+Dissipe com o seu arrojo incontrastavel as neblinas, que escondiam o
+Oceano, e rompa animoso e irresistivel o veo mysterioso, que encobria a
+face da terra. Aponte ali aos que na sua assombrosa variedade a
+desconheciam, as divisões e as fronteiras das terras e das aguas, como um
+amoravel preceptor, arrancando o envoltorio, que tinha recatado um globo
+geographico, ensina ao alumno pueril e curioso, as linhas que delimitam os
+continentes e os mares. Diga finalmente á Europa entre assombrada e
+invejosa: «A terra, que tu sonhaste, era a terra fabulosa, a terra debuxada
+nas descripções phantasiosas dos antigos e nos mappas mentirosos da edade
+média. A terra, que eu te dou, é a terra qual outr'ora saíu das mãos da
+natureza para o homem primitivo, qual sae agora das minhas mãos para o
+homem civilisado. É a terra, de que os antigos apenas conheceram uma nesga,
+de que Alexandre, nas suas tão famigeradas expedições, soube apenas tanto
+como a mais tarda e preguiçosa das minhas galés, talvez menos que o mais
+frouxo dos meus aventureiros. A terra, que vós conheceis, é a terra de
+Ptolomeu e de Strabão, a terra dos que não a viram, mas sonharam. Esta, que
+vos dou, é a terra de Vasco da Gama, de Pedro Alvares Cabral, de Fernão de
+Magalhães, de João da Nova, a terra, de que para vós tomamos posse, como os
+primeiros que em todas as direcções a soubemos percorrer e navegar.»</p>
+
+<p>A Europa, ouviu, estremeceu, levantou-se e invejou. As páreas copiosas
+dos nossos descobrimentos, os despojos opimos das nossas expedições, os
+fructos sasonados das nossas conquistas, tudo lhe deitámos generosos no
+regaço. Para nós guardámos o que se não pode alienar: as glorias e os
+laureis. Démos-lhe tudo o que havia de terrenal e de mundano. Recatámos
+como thesouro inestimavel o que as nossas empresas memoraveis tiveram de
+espiritual, quasi divino. Á semelhança do honrado e brioso cavalleiro, que,
+com mais cicatrizes que veneras, no outono da sua existencia gloriosa,
+pendurando na panoplia a espada reluzente e o murrião abolado nas requestas
+sanguinosas, deixa que tudo lhe arrebate a má fortuna, mas não cede ou
+vende a extranhos as insignias memoraveis, esculpidas como brazão e stemma
+gentilicio na face do seu broquel.</p>
+
+<p>Quando as glorias portuguezas são chegadas á brilhante culminação,
+quando principia a resfriar o ardor primevo das empresas memoraveis, quando
+é necessario colher na phase momentanea do seu maximo esplendor a
+heroicidade portugueza, e como que photographal-a, ainda viva, recente,
+luminosa, apparece o Camões na terra de Portugal.</p>
+
+<p>O Camões é ao mesmo tempo a eloquente voz da posteridade, e a grandiosa
+resurreição dos tempos heroicos de Portugal. A sua penetrante visão
+intellectual descobre com a perfeição dos seus contornos immortaes as
+figuras, sobre que se concentra mais viva e mais brilhante a purissima luz
+da vida nacional. A sua previdencia admiravel adivinha que veem perto os
+tempos calamitosos, em que a patria para morrer como Cesar com a grave e
+severa alteza dos heroes, precisará de cingir-se na purpura da sua antiga
+majestade, e compor-se e adereçar-se nas soberanas vestiduras da sua
+gloria. Virão épocas escassas, em que extranhos arrogantes hão de buscar
+descingir-lhe o gladio refulgente, desvestir-lhe a loriga impenetravel, e
+murchar-lhe na fronte os loiros immortaes. Tudo poderão emprehender. Mas o
+Camões, o soldado brioso das guerras africanas e indiaticas, o portuguez,
+que amou a patria acima da mulher, e a mulher acima da fortuna, o poeta que
+emulou nos antigos a belleza e a correcção, aos modernos superou no
+sentimento, ali está colligindo e ordenando nos versos varonis de uma
+epopéa nacional, as memorias da terra em que nasceu.</p>
+
+<p>Será na carta da Asia a India portugueza um ponto apenas, mas um ponto
+como estes que, em noites de serena atmosphera e de melancolica e tepida
+escuridade, estão brilhantemente scintillando, e esculpindo no ceo a
+distancias infinitas o seu vivo e eterno resplendor.</p>
+
+<p>Perdemos em grande parte a dominação e o imperio n'aquelles immensos
+territorios, onde outr'ora fluctuara, symbolo de empresas temerarias e
+felicissimas victorias, a bandeira de Portugal. Mas ninguem nos pôde nunca
+pleitear a gloria de as ter primeiro descoberto e avassallado. Que importa
+ao nome portuguez, que d'esse vasto e opulento senhorio não restem quasi já
+senão memorias?</p>
+
+<p>Cada povo tem na sequencia historica a sua funcção, no grande e vario
+drama da civilisação o seu papel. Uns em cada momento na evolução da
+humanidade são protagonistas e heroes, a outros cahem no complemento e
+execução da obra commum, officios mais modestos, mas não menos necessarias
+attribuições. É o principio harmonico e fecundo da divisão do trabalho
+applicado á cooperação mutua das nações, no empenho de fundir e aperfeiçoar
+a civilisação no decurso das edades. E d'este modo a noção da patria
+individual se esconde na penumbra da humanidade.</p>
+
+<p>A nossa missão não era a de grangear para nós o mundo, mas sim de o
+sujeitar e descobrir. Fomos com a espada os missionarios da velha Europa,
+enviados a correr os primeiros lances, e affrontar os perigos, a que
+ninguem ousara então metter o peito resoluto. A gloria de descobrir é maior
+e mais duravel que a de fruir e dominar. A grandeza épica dos nossos feitos
+immortaes, mais se aprimora e abrilhanta n'esta abnegação e desapego, com
+que dos fructos das empresas sobrehumanas deixámos aos extranhos o
+proveito, para nós tomámos a gloria por salario. Dos grandes e magnificos
+descobrimentos, com que se accrescenta e se melhora a civilisação
+intellectual e a humana condição, não ficou enfeudada a propriedade
+exclusiva na geração e na familia dos gloriosos inventores. Kepler
+interrogando os ceos e os planetas, rebeldes e indomaveis até ali,
+clausurando-os no encerro perpetuo das suas orbitas ellipticas, vinculou o
+seu formoso descobrimento no morgado commum da humanidade. Os segredos, que
+o espirito de Newton soube roubar á mysteriosa natureza, doou-os generoso á
+sciencia cosmopolita e á civilisação universal. O telegrapho electrico
+transmitte o pensamento, sem que esteja agora recatado como cioso monopolio
+na familia ou na raça dos seus engenhosos descobridores. A locomotiva
+passeia sibilando pelo mundo, sem que antes do seu curso impetuoso esteja
+esperando a venia e o signal de quem primeiro a ideou e construiu. Assim
+tambem da terra que lustrámos nas suas mais afastadas e escondidas regiões.
+A gloria de a revelar á Europa cubiçosa, vale mais que a vaidosa satisfação
+de chamar nosso o que primeiro que ninguem soubemos procurar e
+descobrir.</p>
+
+<p>Das nossas aventurosas navegações e das nossas empresas bellicosas
+nasceu em grande parte o movimento operado na Europa desde o seculo XV.
+Tornámos possivel a sciencia moderna, que era truncada e imperfeita antes
+que ensinassemos as gentes européas a interrogar a natureza, e a
+descortinar as maravilhas e os segredos de inhospitas paragens, de mares
+desconhecidos, de um firmamento novo, onde brilham, escondidas aos antigos,
+novas e extranhas constellações. Revelámos a fórma do nosso globo, a
+configuração dos continentes, a continua successão do Oceano, a mudança e a
+condição dos varios climas. Patenteámos as riquezas innumeraveis da
+natureza organica, nos seus typos disseminados pela immensa vastidão das
+terras e dos mares. Atámos novamente os vinculos já rotos e perdidos entre
+a nossa civilisação e a nossa historia, e a historia e as civilisacões dos
+povos orientaes. Com as nossas maravilhosas aventuras fizemos uma patria
+gloriosa e impozemol-a á admiração de todo o mundo, mas acabámos empresa
+ainda maior, porque fizemos tambem a nova humanidade, congraçando e
+tornando umas das outras conhecidas as raças e as familias, que viviam
+pelos ambitos da terra sem liame e sem commercio fraternal.</p>
+
+<p>D'esta prodigiosa Renascença, em que a moderna christandade tornou a
+viver no espirito e no genio da antiguidade, fomos nós os mais activos e
+fecundos cooperadores. A outros coube a gloria de comprehender primeiro e
+divulgar as formosas manifestações da intelligencia e da imaginação entre
+os antigos; de recompor as estatuas, onde o ideal quasi se confundia com o
+divino, de reconstruir os sumptuosos monumentos, de evocar das ruinas o
+mundo classico, e ao bafejo da paciente erudição fazel-o resurgir na
+apparencia da sua eterna belleza e perfeição. Mas em quanto os outros
+recompunham a antiguidade, nós mais audazes e felizes do que elles,
+alcançavamos completal-a e corrigil-a, penetrar onde ella não chegou, e
+tornar mil vezes mais intensa a sua luz, enfeixando com ella a que em
+remotas e sobrehumanas excursões se reflectiu na lamina das espadas
+gloriosas, e nas colubrinas e bombardas dos nossos galeões.</p>
+
+<p>Fizeram elles o renascimento do passado, dispertando-o do seu tumulo.
+Nós fomos acordar o futuro das nações no berço onde nasce a aurora. Fizeram
+elles resurgir as tradições da Grecia e Roma. Nós fizemos nascer e
+avigorar-se o espirito da humanidade.</p>
+
+<p>Os outros fizeram a sciencia da antiguidade, acurvados nos pulverulentos
+manuscriptos e nas reliquias já truncadas da arte, da sciencia e da poesia.
+Nós fizemos a doutrina, que se accumula navegando e combatendo, a perigosa
+erudição, que se compra com sangue derramado, e enlaçámos aos loiros da
+sciencia as palmas triumphaes.</p>
+
+<p>Para entalhar no bronze da epopéa os feitos que resumem a vida nacional,
+nasceu Camões.</p>
+
+<p>Quem era? D'onde veiu? Onde nasceu? Onde passou a puericia? Onde
+aprendeu na adolescencia os dois amores, que lhe exalçaram o espirito,
+cravando-lhe de espinhos o coração,--o amor da patria, que elle idolatrou
+mais que ninguem,--o amor da mulher, que mais do que nenhum poeta lyrico
+elle soube divinisar?</p>
+
+<p>A vida do Camões é em quasi todos os seus successos uma lenda, ou um
+mysterio. Do poeta conhecemos perfeitamente o aspecto, em que se volta para
+nós e para a patria. Ignoramos quasi inteiramente o que se occulta nas
+escuras profundezas do coração e da existencia individual. É como estes
+resplendentes corpos celestes, de quem apenas rastreamos a luz e o
+esplendor, sem ao certo comprehender o que está por baixo da luminosa
+superficie. Contemplamos no Camões reflectida com toda a sua clara
+intensidade a vida nacional. Acostumámo-nos a vêr e admirar no seu espirito
+a imagem heroica do povo portuguez. Os loiros, que lhe exornam a fronte,
+são tambem os laureis que enramaram em seus triumphos a patria, quando era
+gloriosa e invejada. A sua alma é a alma da nação. No seu poema não respira
+apenas o estro de um cantor, palpita o coração de Portugal. É preciso que
+haja o que quer que seja de vago, impessoal e indeciso n'esta figura
+grandiosa, que tem á cinta o proprio gladio da nação, e desfere no seu
+plectro, não os sons da sua propria inspiração, mas os hymnos collectivos
+entoados por todo um povo á sua grandeza e á sua gloria. O Camões não é
+apenas um poeta, é um côro triumphal, em que as vozes de muitas gerações,
+na propria saudação dos seus heroicos feitos, se conglobam nos accentos de
+uma voz predestinada.</p>
+
+<p>São mal delineados, nebulosos, os contornos biographicos do Camões. Não
+se sabe ao certo quando nasceu, porque n'estas imagens e personificações da
+vida nacional, é bem que nos possamos illudir, suppondo que andaram largos
+tempos voejando antes que começassem a luzir. Ignora-se a terra em que
+nasceu. Em Lisboa? Em Coimbra? Em Santarem? Ninguem o pode á justa
+discriminar. E é bem que assim acontecesse, para que nenhuma povoação se
+possa gloriar, de que o poeta lhe pertence a melhor titulo do que a toda a
+patria, que illustrou. Perguntam-nos onde o Camões viu a primeira luz?
+Respondemos e basta: Em Portugal. Que nos importa discernir se era vulgar
+ou generoso o sangue do poeta? Os monarchas da intelligencia não carecem de
+tronco e dynastia. Não tem pelo espirito nem antecessores nem descendentes.
+Não releva o inquirirmos d'onde veem, já que sabemos aonde vão. Nascem da
+humanidade e vão para a gloria. Nascem do pó terreno e mundanal e caminham
+luminosos á divina immortalidade. Sabemos do Camões que foi soldado
+valentissimo entre os mais esforçados e briosos; sabemos que foi a mais
+subida intelligencia em nossa terra, o primeiro épico moderno. Sabemos que
+alcançou conciliar em harmonica união as graças e formosuras da mais solta
+e inventiva imaginação, com as doutrinas mais severas da sciencia no seu
+tempo. Sabemos que em Africa militou, para que seguisse em tudo as mesmas
+sendas, por onde a gloria portugueza transitara. Sabemos que invejas, e
+malquerenças, e damnadas tenções, como elle diz, lhe mesclaram na vida aos
+jubilos e aos extasis da nativa inspiração, as tristezas e os opprobrios da
+existencia amargurada. Sabemos que amou extremosamente. E como poderia esta
+alma de eleição clausurar-se na solidão do sentimento, sem repartir o estro
+e a paixão entre a patria e a mulher? Sabemos que padeceu asperos desterros
+e carceres de affronta e provação. E como poderia esta luz intensissima do
+engenho ferir, sem os offender e offuscar, os olhos dos seus ingratos
+contemporaneos, que não buscassem afrouxal-a e desluzil-a, já que não a
+podiam apagar? Sabemos que na India provou a forte espada nos recontros e a
+estoica impavidez nos lances das armadas e nos perigos das tormentas.
+Sabemos que a pobresa foi a socia inseparavel do seu viver aventureiro. E
+que genio já houve em Portugal antigamente, que não tivesse a penuria por
+contrapeso aos thesouros immortaes da sua gloria? Sabemos que na China
+exerceu modesto officio, e que a fortuna ao Camões lhe destinou que para
+não perecer á fome, rebaixasse o divino talento de poeta ao prosaico e rude
+officio de exactor. Sabemos que a patria o desamparou nos annos
+derradeiros, atirando-lhe á mão, quasi estendida á caridade, a esmola do
+poder. Sabemos que morreu, quando a patria descaía no sepulchro, porque
+elle era a voz da patria, o ultimo suspiro da nação agonisante, e era bem
+que se extinguisse, quando Portugal jazia amortalhado no manto de
+cavalleiro, tendo em redor do seu esquife as figuras sinistras e irónicas
+dos seus desapiedados conquistadores. Sabemos que os seus ossos jazeram até
+hontem esquecidos n'um desvão do convento de Sant'Anna, até hontem, em que
+por nobre e patriotica impulsão da nossa Academia, lhe
+pagámos--inanimado--na solemne apotheose, o que--vivo--os seus
+contemporaneos lhe negaram em pão e em conforto. Sabemos que deixou o seu
+nome intimamente vinculado ao nome e á propria existencia da nação. Sabemos
+que os <i>Lusiadas</i> os entalhou o brio portuguez com a espada nas mais
+distantes e ingratas regiões, e os imprimiu com o rasto das suas quilhas
+temerarias na face do Oceano e no dorso das tempestades, e o Camões os
+trasladou a versos immortaes, diffundindo no mundo pelo genio o que
+Portugal já tinha divulgado pelo immenso pregão do seu valor.</p>
+
+<p>O Camões é a patria coroada de poeticos laureis. Os <i>Lusiadas</i> são
+a estatua da nação, cinzelada pelo escopro do maior engenho portuguez.
+Glorifiquemos, pois, cada vez mais a epopéa e o cantor. Veneremos com elle
+o nosso passado glorioso. Mas como estes destemidos argonautas, que elle
+celebrou, os quaes se não ficavam inertes e parados após as mais felizes
+singraduras, nem cifravam a sua honra em descobrir apenas o cabo de Boa
+Esperança, volvamos o sentimento nacional aos tempos que já foram, e o
+espirito moderno ás eras do porvir: ao passado, para que d'elle possamos
+aprender o amor da patria, a tenaz perseverança nas empresas mais
+difficeis; ao futuro, para que honrando o poeta nas suas mais largas e
+videntes aspirações, possamos completar as nossas glorias pelo caminho que
+a fortuna nos consente e nos deixou. Fizemos a epopéa sublime, traduzida
+pelo Camões na divina linguagem do seu estro. Façamos hoje a epopéa mais
+modesta da liberdade, da sciencia e do trabalho.</p>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Panegyrico de Luiz de Camões, by
+José Maria Latino Coelho
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PANEGYRICO DE LUIZ DE CAMÕES ***
+
+***** This file should be named 21950-h.htm or 21950-h.zip *****
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
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+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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