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+The Project Gutenberg EBook of A Fome de Camões, by António Duarte Gomes Leal
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: A Fome de Camões
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+Author: António Duarte Gomes Leal
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+Release Date: June 18, 2007 [EBook #21855]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A FOME DE CAMÕES ***
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+Produced by Pedro Saborano. Para coment�rios �
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+A FOME DE CAMÕES
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+Gomes Leal
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+
+A FOME DE CAMÕES
+
+(POEMA EM 4 CANTOS)
+
+
+LISBOA
+
+EDITORES
+
+Empreza Litteraria Luso-Brazileira de A. Souza Pinto
+e
+Livraria Industrial de Lisboa & C.ª
+
+MDCCCLXXX
+
+1880--Typ. Occidental, rua da Fabrica 66--Porto
+
+
+
+
+CANTO PRIMEIRO
+
+TRAGEDIA DA RUA
+
+
+ Quando no mundo o Genio abandonado
+ expira á fome e ao frio, indignamente,
+ um livido remorso ensanguentado
+ sacode o mundo tenebrosamente.
+ Como o arrepio d'um terror sagrado,
+ alguma cousa grita intimamente:
+ como uma voz terrivel que suspira
+ nas cordas vingativas d'uma Lyra.
+
+ E essa Lyra é só feita d'ameaças.
+ Essa Lyra é só feita de vinganças.
+ Essa Lyra só falla de desgraças,
+ d'antigos crimes, de crueis lembranças.
+ Essa Lyra espedaça e quebra as taças,
+ calla os festins, e faz parar as danças,
+ e essa Lyra ai! da tragica innocencia
+ é a Lyra terrivel da Consciencia.
+
+ E a Lyra diz: O que fizeste, ó mundo!
+ das grandes almas unicas, sagradas,
+ das grandes frontes d'um sonhar profundo
+ que eram as frontes as mais bem amadas?
+ O que fizeste d'esse abysmo fundo
+ de vontades mais rijas do que espadas,
+ d'esses simples e santos corações
+ que faziam chorar as multidões?
+
+ O que fizeste d'essas linguas d'ouro
+ que sabiam pregar como os prophetas?
+ Como enxugaste o seu comprido chôro?
+ Como arrancaste as ponteagudas settas?
+ O que fizeste, ó mundo! do thesouro
+ que vós homens mortaes chamais poetas:
+ mas cujo nome d'harmonias bellas
+ só o sabem as Cousas e as Estrellas?
+
+ Deitaste ao lodo, á rua, e aviltamento
+ esses que adora a Natureza inteira,
+ esmagaste entre as pedras o talento,
+ os seus craneos quebraste, na cegueira!
+ As suas cinzas espalhaste ao vento!
+ Profanaste os seus louros na poeira!
+ E repousam sem lastimas nem lousas
+ os que viam as lagrimas das Cousas!...
+
+ Por isso me ouvirás em toda a parte
+ como um soluço e um grito vingador,
+ n'uma alta torre, atraz d'um baluarte,
+ entre os festins, nas convulsões do amor.
+ Na paz, ou levantando o estandarte
+ da guerra, escutarás a minha Dôr.
+ Por que eu, ó mundo! guarda-o na lembrança,
+ --Eu sou a Lyra, e a minha voz Vingança!
+
+ E o mundo escuta, indefinidamente,
+ a voz da Lyra a protestar terrivel.
+ Ouve-a na sombra, ou pelo sol poente,
+ se o vento dobra o cannavial flexivel,
+ ouve-a nos sonhos, ouve-a intimamente,
+ n'uma continua musica inflexivel,
+ até que emfim vencido n'esta liça
+ o mundo clama: Faça-se a Justiça!--
+
+ Era uma noute livida e chuvosa,
+ ermas as ruas, ermas as calçadas.
+ Nada cortava a solidão brumosa,
+ nem ais d'amor, nem gritos de facadas.
+ Das nuvens colossaes acastelladas
+ sómente a meia lua silenciosa,
+ boiava em morto ceu ermo d'estrellas,
+ como um navio que perdeu as vellas.
+
+ Quem é que cruza á chuva e á ventania,
+ á meia noute, as ruas solitarias?
+ És tu santa Miseria, que de dia
+ foges da luz do Sol, o pai dos párias?
+ Ou és tu Fome ou Vicio, que sem guia,
+ vaes nas noutes sem lua, mortuarias,
+ provocar o Deboxe e os estrangeiros
+ á baça luz dos tristes candeeiros?
+
+ Ó Destino! ó Destino!--eu sei a historia
+ de muitas das tragedias soluçantes,
+ de muito nome que esqueceu a Gloria,
+ de muitos prantos que cairam d'antes!
+ Sei que riscam teus dedos flammejantes,
+ como uma sina má, muita memoria,
+ e que nada ha maior e mais escuro
+ do que o brilhante e o bronze do teu muro!
+
+ Mas não quero contar o drama agora
+ do Brilhante, do Leque, e do Farrapo,
+ da meretriz que no bordel descóra,
+ do amor do Charco, do histrião, do sapo;
+ nem a farça de sangue a toda a hora,
+ do Ouro e do Velludo--o rico trapo,
+ nem a sina immoral sinistra e crua
+ da historia diabolica da Rua.
+
+ Um dia eu contarei a extranha lenda
+ ó Destino! dos teus encantamentos,
+ seguirei, passo a passo, a tua senda
+ ó Miseria! e direi os teus tormentos.
+ Para que a alma da Ralé aprenda,
+ contarei os crueis temperamentos,
+ Direi o Incesto a amamentar os filhos,
+ e o Parricida a esvasiar quartilhos.
+
+ Um dia accenderei a selva escura
+ das almas que suffocam á nascença,
+ das noutes só riscadas d'amargura,
+ como um phosphoro risca a treva densa.
+ E com a ponta d'um brilhante duro
+ marcar-te-hei ó tragica Doença
+ que vais, limpando as lagrimas internas,
+ fazer um _toast_ á Morte nas tabernas.
+
+ Um dia evocarei os teus mysterios,
+ ó tragedia da Rua e os teus segredos,
+ mais funestos que os tristes cemiterios,
+ mais profundos que os bastos arvoredos:
+ direi sonhos, desejos quasi ethereos,
+ desejos que teem azas nos degredos,
+ d'uma alma que ama o Azul, o Azul almeja,
+ como a agulha da torre d'uma egreja.
+
+ Um dia esfiarei todo o rosario
+ da Innocencia e da Fome aventureira,
+ do Luxo, do Egoismo solitario,
+ do Genio soluçante na trapeira,
+ da Virtude embrulhada em seu sudario,
+ pedindo esmolla á sua irmã rameira,
+ e o Crime dando bailes d'apparato,
+ em quanto o Justo expira no grabato.
+
+ Descobrirei as contas da Avareza
+ junto ao esquife d'uma virgem bella,
+ o Tedio bocejando á lauta meza,
+ a Fome da mansarda na janella,
+ a Inveja ululando contra a preza,
+ como uiva á lua a lugubre cadella,
+ e o Suicidio, nas manhãs geladas,
+ espedaçando o craneo nas calçadas.
+
+ Um dia cantarei a ladainha
+ da Desgraça e da Forma triumphante,
+ da Espada que tilinta na bainha,
+ da Mascara que ri e passa avante,
+ da Fome que ergue as mãos e se definha,
+ do Leque, da Batina, e do Brilhante
+ das lagrimas mortaes do eterno Entrudo,
+ das miserias do Cancro e do Velludo.
+
+ Por que tem muito que cantar o imperio
+ e o inferno da Carne e dos desejos,
+ porque é eterno e livido o mysterio
+ da Morte. São eternos os almejos.
+ Por que ha lagrimas do berço ao cemiterio,
+ ha lagrimas no Amor e até nos beijos,
+ prantos communs e de grotescos traços
+ nas miserias dos reis e dos palhaços.
+
+ Porque tem muito que cantar as scenas
+ ó Rua! das extranhas odysseas
+ das tuas festas, procissões serenas,
+ do negro sangue que te agita as veias.
+ Por que ha remorsos, lagrimas e penas
+ entre os motins e os frenesins das ceias.
+ Por que n'esta funesta e eterna farça.
+ ai! tanto chora o actor como o comparsa.
+
+ Por que ha bastantes corações vencidos,
+ altos desejos que não mais voaram,
+ sinistros ais e intimos gemidos
+ lagrimas mudas que se não choraram.
+ Sim, ha soluços que não são ouvidos,
+ lagrimas mortas que se congelaram,
+ n'uma miseria, um abandono nobre
+ como um enterro n'uma rua pobre!
+
+ Porque ninguem conhece onde termina
+ o tregeito que rí, soluça, engana,
+ porque a eterna Mascara domina,
+ e é uma esfinge cada face humana.
+ Porque a Morte em nós ceifa uma ruina,
+ quando nos rouba na aza deshumana,
+ e esta mulher que ri com tanta graça,
+ é talvez uma lagrima que passa!
+
+ Mas agora eu só conto o Irrevogavel,
+ mais monstruoso do que um sonho ardente,
+ conto a historia funesta, inexoravel,
+ do Genio morto á fome, indignamente.
+ Quero narrar o que é o innarravel!
+ fazer sentir o que jámais se sente,
+ fazer chorar o choro masculino
+ Do Genio contra a noute do Destino!
+
+ O Genio é um archanjo refulgente
+ que enrista a lança contra a escura Sorte,
+ tem no seu gesto uma expressão potente,
+ que diz: eu quero! e empallidece a Morte.
+ Para o Vulgo porem vil inclemente,
+ e o Destino esse cego antigo e forte,
+ é um guerreiro tragico e proscripto,
+ e a fronte tem como um luar maldito.
+
+ Este vulto, portanto, que caminha
+ altas horas, ao frio das nortadas,
+ é Camões que de fome se definha
+ nas ruas de Lisboa abandonadas.
+ É Camões a que a Sorte vil mesquinha
+ faz em noutes de fome torturadas,
+ elle o velho cantor d'heroes guerreiros!...
+ vagar errante como os vis rafeiros.
+
+ Morreu-lhe o escravo, o seu fiel amigo,
+ o seu amparo e seu bordão no mundo,
+ morreu-lhe o humilde companheiro antigo,
+ no seu peito deixando um vacuo fundo.
+ Hoje pois triste, velho, sem abrigo,
+ faminto, abandonado e vagabundo,
+ tenta esmollar tambem pelas esquinas.
+ Ó lagrimas!.. Ó glorias!.. Ó ruinas!..
+
+ Mas não estende o valoroso braço,
+ que outr'ora trabalhou entre os guerreiros,
+ a mão recusa-se a suster o passo
+ dos transeuntes raros, sobranceiros.
+ A Fome roe-o, curva-o o cançasso.
+ Cospem-lhe a neve, a chuva, os aguaceiros.
+ Ó calçadas fataes! nas enxurradas
+ vae muito fel de lagrimas choradas.
+
+ Ó Capitães! Ó Capitães egoistas!
+ duras velhas mais duras que o granito!
+ ha caso mais sublime às vossas vistas
+ que mais vos deva merecer um grito,
+ mais negro, mais cruel para os artistas,
+ mais sagrado, dramatico, infinito,
+ que mais abale os nobres peitos francos
+ que um Genio pobre e de cabellos brancos!?...
+
+ O Genio continua á ventania
+ a errar pelas ruas silenciosas,
+ como um espectro que dissipa o dia,
+ como as grandes estatuas dolorosas.
+ Assim a noute vaga, na agonia
+ dos martyres das noutes trabalhosas,
+ até que o sol jorrou pelas viellas,
+ e ensanguentou os olhos das janellas.
+
+ Começam-se a ouvir esses rumores
+ das capitaes egoistas acordadas,
+ a musica dos carros chiadores
+ que chegam das aldeias retiradas.
+ Recomeçam as pombas seus amores
+ sobre as brancas egrejas penduradas,
+ e nas torres dos astros companheiras,
+ a palpitar, nas glorias, as bandeiras.
+
+ Começam-se a ouvir as matutinas
+ musicas da cidade, e as alegrias
+ dos gallos com as notas crystallinas
+ dos sinos com extranhas simphonias.
+ O sol lava de glorias as collinas
+ as torres, os beiraes, as gelosias,
+ e como a moça que um amante beija
+ avermelham-se os vidros d'uma egreja.
+
+ Dos passaros retinem os gorgeios
+ nas arvores, nas pontas dos eirados,
+ os vis riachos, os lodosos veios,
+ correm ralhando, ao sol, precipitados,
+ os cavallos remordem os seus freios,
+ vão passando aldeões para os mercados,
+ e atraz dos lentos carros os boieiros
+ veem sombrios, graves, e trigueiros.
+
+ Somente ao Genio uma tristeza enorme
+ entenebrece todos os ruidos,
+ como um sombrio coração que dorme,
+ que já não tem nem sonhos, nem gemidos!
+ Só sente uma saudade extranha, informe,
+ como aroma dos tempos revolvidos,
+ das grandes selvas, sombras e palmeiras
+ quando o sol desce as ingremes ladeiras.
+
+ Os aldeões tisnados dos trabalhos,
+ recomeçando as horas das fadigas,
+ recordam-lhes os épicos carvalhos
+ a sombra, os bois, as sestas tão amigas!
+ Fazem lembrar-lhe as curvas dos atalhos,
+ a ermida, a fonte, os fenos, e as cantigas,
+ que elle escutara, pelas luas claras,
+ ás louras raparigas nas ceáras!
+
+ Lembram-lhe a India, os templos monstruosos,
+ com seus deuses terriveis, singulares,
+ as arvores de fructos venenosos,
+ as bastas selvas, os gentis palmares!
+ Lembram-lhe os tigres ruivos, sequiosos,
+ que vão beber a rios como a mares,
+ e pelas noites immortaes, eternas!
+ o luar nas figueiras das cisternas
+
+ E elle quizera achar-se em alto monte,
+ em cima tendo os astros por juizes,
+ dizendo adeus ao sol no horisonte,
+ acabar os seus dias infelizes:
+ na boa terra Mãe deitar a fronte
+ e entre as vegetações, entre as raizes,
+ misturar sua vida e acerbas dores
+ com as almas das plantas e das flores!
+
+ Para o velho cantor eram fugidos
+ ai! como luz que para sempre expira,
+ os bellos tempos jovens e lusidos,
+ as mulheres ideaes que o Amor inspira!
+ Rotos, á chuva, os tragicos vestidos,
+ posta de parte, empoeirada a lyra,
+ achava-se hoje n'uma rua, ó mundo,
+ velho, faminto, pobre, e moribundo!
+
+ Sem ousar mendigar, como um vadio,
+ vaga nas ruas da Cidade egoista.
+ A tarde chega, o bello sol fugiu.
+ A noute vem, que o coração contrista.
+ Irrompe a lua sobre a verde crista
+ d'um monte ao longe, e no lagedo, ao frio,
+ o Genio cae emfim, hirto e sem falla,
+ como um cadaver que se deita á valla.
+
+ N'este momento uma mulher gigante,
+ que pareceu sair d'um pesadello,
+ pallida e triste, qual saudade errante,
+ deixando ao vento as ondas do cabello,
+ tão magra como a Sombra, o seu semblante
+ toldado d'um desgosto immenso e bello,
+ chegou-se ao Genio hirto e abandonado,
+ como a visão d'um sonho torturado.
+
+ E disse-lhe: Bem perto d'esta rua
+ dar-te-hão, ó mendigo, uma guarida,
+ não dormirás á lividez da lua
+ e terás leito onde acabar a vida.
+ Se a Sorte t'esmagou, a Sorte crua,
+ ergue a cabeça pallida e abatida,
+ e ri contente, ó triste, para a eça,
+ que em breve vai findar a tua peça!
+
+ A mulher ajudou a levantal-o.
+ Cingiu o braço ao Genio moribundo.
+ A Morte que passava em seu cavallo
+ deu-lhe um sorriso livido e profundo.
+ --O teu semblante, ó velho, dá-me abalo,
+ disse a mulher. Não é vulgar no mundo!
+ Dize-me pois que cousas tenebrosas
+ te hão cavado essas rugas dolorosas!
+
+ «Eu fui--o Genio disse--um malfadado
+ cantor d'heroes e feitos dos antigos!
+ Amei tudo que é grande e desejado,
+ e terrivel luctei contra inimigos!
+ Sentei-me no castello derrocado,
+ no deserto solar, cruzei os p'rigos!
+ E com saudade emfim d'estas collinas,
+ quiz expirar-lhe, um dia, entre as ruinas!
+
+ «Ninhos fizeram no meu peito amores,
+ como andorinhas sobre as cathedraes!
+ Conheço o aroma das malditas flores!
+ Sei os soluços dos compridos ais!
+ Sobre o deserto pallido das Dôres,
+ ninguem como eu peregrinou jamais!
+ E pelas noutes regeladas, cruas,
+ chorei com fome, errando, pelas ruas!
+
+ «Porém que porta negra agora abriste?
+ Que aspecto é este morto e desolado?
+ Acaso o inferno depois d'isto existe?
+ Acaso é pesadello desmanchado?»
+ --Cala-te! disse a Sombra magra e triste,
+ Cala-te, ó Genio immenso, desgraçado!
+ E com sorriso d'expressão fatal
+ a Sombra concluiu--É o hospital!
+
+
+
+
+CANTO SEGUNDO
+
+No Grabato do Hospital
+
+
+ É alta a noute. A lampada vacilla,
+ como um pranto, na vasta enfermaria.
+ Um marmoreo suor frio scintilla
+ sobre a fronte do Genio, na agonia.
+ O Genio vae morrer; sobre a pupilla
+ treme-lhe um pranto á luz bassa e sombria,
+ mais triste do que o luto d'uma sina,
+ e um soluço atravez d'uma ruina.
+
+ Junto do leito uma mulher extranha,
+ com grandes olhos tristes e parados,
+ contempla-lhe o suor frio que o banha,
+ e abraça-o com seus braços descarnados.
+ Como um sol que se põe n'uma montanha,
+ são frios os seus olhos encovados,
+ hirta, severa, tragica a postura,
+ como imagem d'antiga sepultura.
+
+ «Já viste--diz-lhe o Genio--ó mulher triste!
+ que me olhas com teus olhos impassiveis,
+ morrer no mundo alguem? Acaso viste
+ as lagrimas da morte irremissiveis!
+ Acaso, ao magro peito já cingiste
+ uns braços que emfim caem insensiveis,
+ alguns braços d'irmão que te apertaram,
+ e que até ás entranhas te gelaram?
+
+ «Já conheceste as grandes despedidas
+ as despedidas sepulchraes, eternas?
+ Já sabes quanto doe irem-se as vidas,
+ formas, e almas que nos foram ternas?
+ Sabes o fel das lagrimas vertidas,
+ ou o sangue das lagrimas internas,
+ n'um rosto amado, uns olhos, um cabello,
+ que a alma sabe que não torna a vêl-o?!»
+
+ Ai! sim--a Mulher diz--com voz gelada
+ que pareceu sair d'entre saudades,
+ calcadas como lyrios n'uma estrada,
+ terriveis como pallidas verdades.
+ «Eu cruzei já os reinos e as cidades
+ do luto, e da miseria desolada,
+ e vi magoas, e gentes fallecer
+ que ninguem viu, nem tornará a vêr!»
+
+ E continuou a olhal-o fixamente
+ com o seu olhar tragico e marmoreo,
+ e um suspiro vibrou profundamente,
+ dolorido, no vasto dormitorio.
+ Como atravez d'um sonho incoherente,
+ n'este sonho da vida transitorio,
+ O Genio leu, no seu olhar parado,
+ todo o luto e terror do seu Passado.
+
+ «Ah! já sei quem tu és,--o Genio clama--
+ na rapida scentelha d'um delirio.
+ Tu és a Musa que apregôa a fama,
+ a Musa meu amor e meu martyrio!
+ Foste tu que accendeste em mim a chamma!
+ N'essas palpebras roxas como um lyrio,
+ na pallidez, nos labios desbotados,
+ vejo a Musa dos genios desgraçados!
+
+ «Tu és a Musa sim d'esses errantes
+ e tristes peregrinos do Ideal,
+ d'esses loucos e extranhos viajantes
+ que andam á busca d'uma flôr fatal,
+ d'uma flôr de tons ricos, scintilantes,
+ d'uma camelia azul e boreal:
+ até que morrem n'uma praia nua,
+ ou nos gelos, a um raio azul da lua!
+
+ «Foste tu que inspiraste sempre os cantos
+ que eu dediquei á Gloria e á Natureza!
+ Ah! foste tu que me enxugaste os prantos,
+ e ao luar me fallaste de tristeza.
+ Desci comtigo ao reino dos espantos!
+ Comtigo á tarde fui pela deveza!
+ Comtigo á noute fui, pelas florestas,
+ apanhar _boas noutes_ e giestas!
+
+ «Comtigo eu devassei esses segredos,
+ das raizes, das Cousas, das Origens,
+ do germinar dos lyrios e arvoredos,
+ e fiz aos astros soluçar as virgens.
+ Comtigo fui, nas pontas dos rochedos,
+ debruçar-me do abysmo nas vertigens,
+ e andei errante pelo mundo á tôa,
+ como folha que vai n'uma lagôa!
+
+ «Mas hoje gela-me o suor na testa
+ e convulsa-me o corpo um calafrio.
+ Desejo, sonho, amor, nada me resta!
+ Nada sacode meu cadaver frio!
+ Comtigo não irei pela floresta!
+ Não mais irei comtigo pelo rio!
+ por que o sopro vital em mim expira,
+ como as cordas que estallam d'uma lyra!
+
+ «Não sou a Musa,--disse a Sombra,--não!
+ Mas tenho visto os prantos dos amantes,
+ e a desolada e livida expressão
+ dos seus gestos, nos ultimos instantes.
+ As cristallinas lagrimas brilhantes
+ tenho aparado n'esta magra mão;
+ cerrado os olhos com meus frios dedos,
+ e escutado os seus ultimos segredos!»
+
+ E, continuou a olhal-o fixamente,
+ com o seu olhar tragico e marmoreo,
+ e um suspiro vibrou profundamente
+ dolorido, no vasto dormitorio.
+ Como atravez d'um sonho incoherente,
+ n'este sonho da vida transitorio,
+ o Genio leu, no seu olhar parado,
+ todo o luto e terror do seu Passado.
+
+ «Ah! já sei quem tu és,--o Genio brada--
+ Conheço-o agora em teu olhar funesto.
+ Leio-o na tua fronte amargurada,
+ e na expressão sinistra do teu gesto.
+ Tu és uma saudade aos pés calcada,
+ o lyrio d'um desgosto extranho e mesto,
+ tu és a prole da Lagrima e da Dôr.
+ --És o sinistro e monstruoso Amor!
+
+ «Mas não és esse Amor doce e sereno,
+ nascido da Belleza, o Amor antigo,
+ irmão das Graças, lyrico e pequeno
+ amando o rizo, o campo, e o sol amigo!
+ És o Amor desolado como um threno,
+ terrivel como o açoute d'um castigo,
+ e empunhando na dextra ensanguentada
+ um ramo de cyprestes e uma espada!
+
+ «Como eu soffri das largas cicatrises,
+ que abriste no meu peito, sem piedade!
+ Como eu cantei meus sonhos infelises!
+ Como eu te amei ao sol da mocidade!
+ Como inda sinto as pontas das raizes
+ do amor que alimentei, e com saudade
+ lembram-me as tardes que ia nos caminhos,
+ pensando em ti, sentindo teus espinhos!
+
+ «Mas hoje mocidade, vida alento,
+ tudo se foi, para não mais voltar!
+ Vae dissipar-se tudo, como ao vento,
+ do fim da tarde o fumo azul d'um lar
+ Já sinto fluctuar-me o pensamento
+ como uma flôr aquatica n'um mar,
+ e nas paginas do livro dos meus ais
+ a Sombra pôr o triste _nunca mais_!»
+
+ «Não sou o negro Amor, irmão da Pena
+ --a Sombra disse--e não empunho espada,
+ mas tenho visto a tenebrosa scena,
+ da tragedia da Vida mallograda.
+ Tenho visto a blasphemia que condemna,
+ a lagrima que queima ensanguentada,
+ a lagrima que gela e que não corre,
+ como um desejo qu'estacou, e morre!»
+
+ E continuou a olhal-o fixamente
+ com o seu olhar tragico e marmoreo,
+ e um suspiro vibrou profundamente
+ dolorido, no vasto dormitorio.
+ Como atravez d'um sonho incoherente,
+ n'este sonho da vida transitorio,
+ o Genio leu, no seu olhar parado,
+ todo o luto e terror do seu Passado.
+
+ «Conheço-te afinal,--n'um grande brado
+ o Genio diz.--Tu és a velha Gloria,
+ mas a Gloria do genio amaldiçoado,
+ a Gloria das lagrimas da Historia!
+ És a Gloria do genio e do soldado
+ que expira soluçando e sem memoria,
+ n'um doloroso e livido arrepio,
+ como um cadaver que regeita o rio.
+
+ «Deves ter visto as penas penetrantes,
+ como os bicos agudos do espinheiro,
+ as desvelladas noutes soluçantes,
+ mais negras do que o rosto d'um guerreiro,
+ e as tristes magras mãos febrecitantes
+ que te buscam a ti, n'um derradeiro
+ esforço d'anciedade e de desdita,
+ com a blasphemia e a lagrima maldita!
+
+ «Illusão! Illusão! sonho que encerra
+ em si a pobre humanidade inteira,
+ louros que faz buscar a morte e a guerra
+ nuvem que foge, á hora derradeira!
+ Gloria! nome vão, a quem a Terra
+ busca, e só palpa a livida caveira,
+ como pallidas flores das illusões,
+ que esmagaram os pés das procissões!
+
+ «Gloria! nome vão! sonho e chimera,
+ iris triumphante de vistosas côres,
+ verme lusente que vagueia na hera,
+ sonho d'estio entre luar e flores!
+ Ó giesta gentil da Primavera,
+ amendoeira da manhã d'amores,
+ por que nos gelas do Destino á beira,
+ como a chuva que molha uma bandeira!?
+
+ «Gloria! esphinge eterna que dominas
+ com teu olhar prophetico do Incerto,
+ que nos fazes sonhar verdes collinas;
+ na poeira da areia do deserto,
+ Harmonia longiqua, mas que perto,
+ cremos ouvir, marchando entre ruinas,
+ e que de repente nos fulmina e estalla,
+ como um conviva que morreu na salla!
+
+ «Como eu te procurei por val e monte,
+ e me rasguei nas lanças dos espinhos!
+ Como eu vi teus acenos no horisonte
+ a ensinar-me as veredas e os caminhos!
+ Como eu te vi um dia n'uma ponte,
+ n'um zimborio, n'uns campos entre ninhos,
+ e outra vez, n'uma lua socegada,
+ a galopar nas pedras d'uma estrada!
+
+ «Vi-te ainda outra vez, ao vento frio
+ d'uma tremenda e lugubre procella.
+ Estendias-me a mão, entre o assobio
+ do nordeste e das ondas, branca e bella.
+ Bem te vi, eras tu, e foi aquella
+ santa energia, que hoje já fugiu,
+ foi esse teu olhar que hoje desmaia,
+ que exhausto e salvo me atirou á praia!
+
+ «Mas só hoje te vejo claramente!
+ Só hoje, fundo, n'esses olhos leio!
+ Tardaste muito em vir, Sombra inclemente!
+ Já muito tarde o teu auxilio veio!
+ Desalentado, pallido, doente,
+ nenhum alento me commove o seio!
+ Podes levar, ó Sombra! o teu thesouro.
+ Não val tanto suor teu verde louro!»
+
+ «Não sou Amor, nem Musa, nem Gloria,
+ --a Sombra disse--nem talentos faço.
+ Mais terrivel, funesta é minha historia!
+ Mais duro e horrendo o peso do meu braço!
+ Não colho os louros; sitios onde passo
+ traçam sulcos de sangue na memoria.
+ Ah! mil vezes terrivel é meu nome
+ tenebroso e profundo!... Eu sou a Fome.»
+
+ «A Fome!--o Genio clama--dando um grito,
+ como um soluço ultimo estridente.
+ A Fome me conduz para o infinito!
+ A Fome é meu final, o meu poente!
+ Foi isto que ganhou meu braço ardente,
+ foi isto que ganhou meu estro escripto!
+ a agonia e o suor n'um mundo ingrato,
+ desillusões, e a enxerga d'um grabato!
+
+ «Ó illusões, ó nuvens peregrinas,
+ horas da mocidade já fugidas!
+ illusões ó princezas perseguidas
+ galopando em phantasticas collinas,
+ ó brancas cathedraes de pedra erguidas
+ com as santas, á tarde, purpurinas
+ vegetações, florestas, ideal
+ recebei meu adeus no hospital!»
+
+ «Como tu, tenho visto,--disse a Fome--
+ pender muita cabeça veneravel,
+ muito craneo de genio, muito nome,
+ que eu lancei no abysmo do insondavel.
+ Muitos que a gloria céga e que consomme
+ d'uma selvagem sede insaciavel,
+ tenho cingido como a tristes noivos,
+ e hoje estão nas raizes, e entre os goivos!
+
+ «Muitos tenho apertado entre meus dedos
+ que se hão finado n'um febril delirio,
+ e teem-me dito os ultimos segredos,
+ com suas bocas lividas de lyrio.
+ Dormem alguns á sombra d'arvoredos;
+ mas outros para mais mortal martyrio,
+ ninguem lhe importa em seu desprezo fundo
+ onde estão os seus ossos sobre o mundo!
+
+ «Gigantes craneos de candente lava
+ teem repousado no meu magro peito!
+ Bem lindos corpos onde a morta crava
+ seus dentes, dormem sob o ceu perfeito!
+ Mas, quando um genio como tu, no leito
+ mata ao abandono a geração escrava,
+ pelo universo, cumplice sombrio,
+ corre um remorso, como um calafrio.
+
+ «Por isso eu vim colher-te, inda tremente
+ logo que expires, ó Genio, sem confortos,
+ a lagrima de marmore imponente,
+ que se gela nas palpebras dos mortos.
+ Por que quero levar como presente
+ aos principes, aos povos absortos,
+ e aos astros a lagrima marmorea,
+ que n'um grabato derramou a gloria!
+
+ «Mas, se acaso na terra e sobre os mares
+ ninguem avaliar este teu pranto,
+ acima irei das nuvens e dos ares
+ dos astros, dos planetas, do Espanto:
+ mais acima das Dores e dos Pezares,
+ da Justiça sublime ao throno santo,
+ ás solemnes e eternas regiões,
+ pedir justiça ao pranto de Camões.»
+
+ Dizendo isto a Sombra descarnada
+ debruçou-se do Genio sobre o leito.
+ Camões morria já: hirta e gelada
+ a Fome lhe crusou as mãos no peito:
+ e a lagrima marmorea, regellada,
+ lagrima que infunde pavido respeito,
+ então colheu do rosto moribundo,
+ --como um frio protesto contra o mundo.
+
+
+
+
+CANTO TERCEIRO
+
+O Lençol do Genio
+
+
+ O conde Vimioso em seu solar
+ dá uma ceia a nobres e senhores;
+ Estalam as risadas pelo ar.
+ Pelos copos espumam os licores.
+ A Gula e a Carne ali gosam a par:
+ falla-se em caças, touros, e d'amores:
+ e riem d'entre as suas pedrarias
+ marquesas que hoje estão em galerias.
+
+ N'isto um extranho velho entra na salla,
+ hirto e solemne, como um quadro antigo;
+ seu porte triste pelos peitos cala,
+ seu ar hostil é como d'inimigo.
+ Os risos param, emmudece a falla,
+ como ao ver um remorso, ou um castigo.
+ Calam barões fallando de corseis,
+ e as damas com as mãos cheias d'anneis.
+
+ E o velho disse:--Extranho é meu pedido!
+ Extranho sim! no meio d'uma festa:
+ mas venho por um morto protegido,
+ e este pedido os labios não me cresta!
+ Para um Genio de que hoje nada resta,
+ para um Genio da fome consummido,
+ um Genio infeliz! um apagado sol,
+ venho pedir a esmolla d'um lençol!
+
+ O lugubre pedido n'um momento
+ fez em todos roçar um calafrio:
+ figurou-se-lhes o gesto macilento
+ da morte, ao longe, em seu corcel sombrio:
+ figurou-se-lhes a Febre, o Passamento,
+ e a Doença em seu catre humido e frio,
+ e as damas, os barões, e os cavalleiros
+ perderam os sorrisos zombeteiros.
+
+ Porém o Conde dominando o gelo
+ do terror que estragava a sua ceia,
+ e desmaiava o busto grego e bello
+ da mulher por quem todo se incendeia,
+ com um riso que tem do orgulho o sello
+ bradou ao velho cujo serio odeia:
+ Que genio é esse então, bom velho honrado,
+ que comparais ao sol já apagado!?
+
+ Todos riram. Um riso irresistivel
+ omnipotente, intrepido, animal,
+ pela sala estallou, bronco e terrivel,
+ como um insulto e a folha d'um punhal,
+ O rude velho tragico, impassivel,
+ deixou passar aquelle vendaval,
+ depois n'um rir, de eronico respeito,
+ os longos braços encruzou no peito.
+
+ Zombai--o velho disse--altos senhores!
+ e magnificas damas scintillantes,
+ nas ricas pedrarias, plumas, flores,
+ mais brancas do que os vossos diamantes!
+ Zombai ao pé dos vinhos, dos licores,
+ das baixellas lavradas, dos amantes,
+ d'esta cousa tão comica e sem nome...
+ d'um Genio pobre e que morreu de fome!
+
+ E o velho riu--Ah! de que serve, é certo,
+ um Genio infeliz? um portador, de lyra!?
+ de que serve dos Prantos no deserto
+ um instrumento que uns sons doces tira?!
+ Um Genio é lava que importuna ao perto,
+ e um grande craneo que o talento inspira,
+ se com seu canto consolou as almas....
+ que coma o louro e as triumphantes palmas!...
+
+ Ah! que servem andar como pharoes,
+ como Moyzés a conduzir um povo,
+ alvoroçando as almas para os soes,
+ n'um canto heroico, original e novo?
+ Se com os prantos d'estes rouxinoes
+ que alvoroçam e turbam, me commovo,
+ talvez vos choque e ás almas verdadeiras,
+ que não façam crescer as sementeiras!
+
+ E o velho riu. As glorias do Passado
+ dos heroes e dos feitos d'outra edade
+ nos castellos, no mar illimitado,
+ hoje fazem sorrir a mocidade!
+ As glorias d'avós só tem o lado
+ poetico de dar solemnidade
+ e grandes tons magnificos, imponentes,
+ nas sallas, entre as tellas de parentes!
+
+ Elle, o Genio, cantou esses combates
+ dos homens, e das forças do insondavel
+ da eterna Dôr, naufragios, e os embates
+ terriveis do que é fragil e mudavel!
+ Castigou com a satyra os dilates
+ do arbitrario, do injusto, e miseravel.
+ Foi poeta, philosopho, e guerreiro.
+ Só nunca conseguiu ser um toureiro!....
+
+ E o velho sorriu amargamente,
+ com um sorriso caustico, sombrio,
+ n'um riso superior em que se sente
+ uma alma forte que jámais falliu.
+ O Conde então, bradou-lhe secamente,
+ com um grande ar todo solemne e frio:
+ «Antes de tudo dir-me-has primeiro,
+ se és fidalgo, peão, ou cavalleiro!
+
+ «E narra-nos depois, meudamente,
+ a mim, aos cavalleiros e senhores,
+ e ás preciosas damas, que ao presente
+ t'escutam, piedosas sempre ás dôres:
+ narra-nos essa historia surprehente
+ d'esse genio infeliz, e esses horrores,
+ que trazes, como vejo, na lembrança,
+ com mais respeito que a dos pares de França.
+
+ De novo tudo riu. Toda a sonora
+ e ampla salla echoou com as risadas.
+ Viam-se rir as boccas côr d'aurora
+ das magnificas damas decotadas.
+ Duquezas louras, tranças côr d'amora,
+ com bellas mãos, macias, delicadas,
+ abafavam o riso em transparentes
+ lenços lacerados entre os dentes.
+
+ O velho ergueu-se em toda a magestade
+ e bradou n'uma voz terrivel, dura,
+ que fez cessar de prompto a hilaridade,
+ pelo tom nunca ouvido de amargura:
+ --«Ah! infeliz, indigna Humanidade
+ mil vezes infeliz! se a Creatura
+ sempre se risse assim do que é sublime
+ ou quando o mundo se infamou n'um crime!
+
+ Ah! infeliz mil vezes! se o que é nobre
+ e o que é infame, ignobil, monstruoso,
+ sob o Azul sagrado que nos cobre
+ tivesse o mesmo aplauso victorioso!
+ Maldito e excomungado fosse o pobre!
+ e maldito o Destino criminoso!
+ por trabalhar ainda para o mundo
+ com um suor inutil e infecundo!
+
+ «Maldita fosse a Vida e o ardente beijo
+ do Amor que produziu a Creação,
+ maldito o Sonho e as azas do Desejo
+ maldito o Pranto, a Ancia, e a Aspiração!
+ Despenhada mil vezes sobre um brejo
+ de insondavel miseria e humilhação
+ o mundo se abysmasse n'um inferno
+ do implacavel, ancioso gelo eterno!
+
+ «Maldito fosse tudo o que suspira,
+ maldita a Dôr, mais o soluço Humano,
+ maldita a Alma e a lagrima da Lyra,
+ maldito tudo quanto é grande e insano!
+ Que sobre o mundo horrivel, onde gyra
+ a serpente da Idea no oceano
+ da treva, o derradeiro homem horrendo
+ expirasse, ainda rindo, e maldizendo!
+
+ «Agora, quanto a mim, ó altas damas
+ magnificas, divinas, scintillantes,
+ e cujos bellos olhos teem mais chammas
+ do que os olhos dos rigidos brilhantes,
+ antes d'ouvirdes os funestos dramas
+ da fome, horrorisai-vos, sabei antes
+ que eu sou só um plebeu vil que trabalha,
+ e que saio das ondas da canalha!
+
+ «Senti tambem em mim o fogo ardente
+ da Lyra perpassar-me pela fronte,
+ e amei tudo o que é justo e que é potente,
+ e meus irmãos chamei ao bosque e ao monte.
+ Nos desertos castellos do Occidente,
+ ás nuvens côr de sangue do horisonte,
+ tambem eu fui sentar-me nas collinas,
+ a chorar sobre as glorias e as ruinas!
+
+ «Mas o Genio infeliz, o vulto immenso
+ o heroe cantor vencido pela morte
+ esse que me perturba, quando penso
+ no implacavel da tyrana Sorte,
+ esse que já entrou no bosque denso,
+ que já partiu o muro bronzeo e forte,
+ que em breve vão deitar na escura valla,
+ esse, só de eu fallar... treme-me a falla!»
+
+ O velho então contou a trabalhosa
+ lenda do Genio, a musa, e seu destino,
+ a intuição da Natureza rumorosa
+ da flor, da sombra, e rio crystallino.
+ Como o Sol pae das plantas, e da rosa,
+ penhasco alcantillado e voz do sino,
+ Vegetações, florestas, nuvens, ventos,
+ e cellulas, raizes, pensamentos;
+
+ tudo que é vida que tem alma e sente,
+ tudo que é flor suave e tem perfume,
+ tudo que é aza e corta o ar luzente,
+ tudo que é astro, brilha ou que tem lume,
+ tudo que foge liquido e corrente,
+ tudo que em corpo e alma se resume,
+ tudo que é bello como o sol na alfombra
+ ou fundo e triste como a voz da Sombra,
+
+ todo esse vasto Todo verde e bello,
+ toda essa santa Natureza enorme,
+ o luar como a folha d'um cutello,
+ o minerio que crêem que só dorme,
+ as heras nas ruinas do castello,
+ os mulluscos e a larva humilde e informe,
+ tudo isso bello ou feio que se ostenta,
+ tem voz, tem alma, chora e se lamenta!
+
+ Mas que o Genio no meio d'isto tudo
+ soffre mais, porque entende estes lamentos!
+ Elle traduz a Dor d'isso que é mudo,
+ e resume os geraes desolamentos!
+ Não tendo contra a Sorte um outro escudo
+ que não sejam seus fortes pensamentos,
+ passa curvado n'um pesar profundo,
+ --sentindo em si o mal de todo o mundo!
+
+ E todos escutavam silenciosos
+ damas, barões, religiosamente,
+ os sentidos geraes mysteriosos
+ das palavras do velho extranho e ardente.
+ E cuidavam ouvir os mil chorosos
+ e soluçantes ais, longinquamente,
+ das subterraneas Cousas infelizes:
+ os ais da planta e os choros das raizes!
+
+ Elle pintou depois o Genio, quando
+ deixou prender seu forte coração
+ nos sorrisos d'um gesto puro e brando,
+ e vagou na torrente da Paixão.
+ Como feridos rouxinoes cantando,
+ os seus versos resavam da afflição,
+ das tragedias, desgraças e dos brados
+ dos tristes corações despedaçados.
+
+ E as palavras sentidas, violentas
+ do plebeu calavam pelos peitos,
+ e sentiam-se ouvir como os tormentos
+ dos grandes corações santos desfeitos.
+ Parecia-se sentir as suarentas
+ e desvelladas noutes sobre os leitos
+ diamantes separados, solitarios,
+ mais gelados que os leitos funerarios!
+
+ Desenhou-o depois triste e exilado,
+ por todo o mundo errante peregrino,
+ vagando como heroe, como soldado,
+ açoutado do vento do Destino:
+ e o seu rude pezar fundo e divino
+ da grande viuvez do ente amado,
+ pondo-o nas rochas tragico e proscripto,
+ de braços levantados ao Infinito.
+
+ E todos escutavam, surprehendidos,
+ essas desgraças barbaras sepultas
+ no mysterio do olvido, e esses gemidos
+ e essas sagradas lastimas inultas.
+ Barões e cavalleiros commovidos
+ enxugavam as lagrimas a occultas,
+ e as pallidas senhoras soluçantes
+ alagavam com prantos os brilhantes.
+
+ Depois pintou o horror da tempestade
+ e o assobio dos ventos nas procellas,
+ dos naufragios a lugubre verdade,
+ um navio sem mastros e sem vellas.
+ E o Genio do mar na immensidade,
+ á fria claridade das estrellas,
+ entre as ondas, os ventos, os espantos,
+ salvando o grande o livro dos seus cantos.
+
+ Depois mostrou-o pallido, quebrado,
+ no fundo d'uma lugubre enxovia,
+ no declinar da vida, envergonhado,
+ preso pela Injustiça, e Cobardia.
+ Pintou ao fundo tragico e assentado,
+ na misera masmorra humida e fria,
+ o Desespero torvo e macilento,
+ irmão magro e infernal do Desalento.
+
+ E do plebeu nas phrases singulares
+ sentia-se o glacial dos luares frios,
+ os rugidos dos ventos pelos mares,
+ o desfazer das taboas dos navios:
+ as fundas despedidas, e os pesares
+ dos adeuses nos carceres sombrios,
+ e um vento a soluçar como um açoite
+ do Destino, rasgando a eterna noite.
+
+ E todos escutavam, surprehendidos,
+ essas desgraças barbaras sepultas
+ nos mysterios do olvido, esses gemidos
+ e essas sagradas lastimas inultas!
+ Barões e cavalleiros commovidos
+ enxugavam as lagrimas a occultas,
+ e as pallidas senhoras soluçantes
+ banhavam com seus prantos os brilhantes.
+
+ Depois contou as noutes innarraveis
+ da Miseria, e da Neve as ladainhas,
+ sobre os gelos os grandes miseraveis,
+ em attitudes tragicas, mesquinhas.
+ Desenhou os carvalhos formidaveis
+ em lugubres lençoes, as andorinhas
+ fugidas, procurando outros paizes.
+ E sempre! sempre a Fome! e os Infelizes!
+
+ Depois narrou a rude lucta immensa
+ com todas as potencias da Desgraça,
+ e o Genio atravessando a névoa densa,
+ como um espectro livido que passa:
+ as lagrimas da Fome e da Doença,
+ e o mendigar do escravo sobre a praça,
+ pedindo supplicante á turba e ao mundo
+ esmola para um Genio moribundo.
+
+ Pintou a morte d'esse escravo amigo,
+ e o Genio inda mais triste e no abandono
+ da força d'esse servo, seu abrigo,
+ dos amigos, dos nobres, e do throno.
+ E o terrivel guerreiro do inimigo
+ pintou em noutes lividas, sem somno,
+ velho, dobrado, pelas névoas cruas,
+ faminto á chuva, e ao vento, pelas ruas.
+
+ Pintou depois, chorando, a ultima scena
+ e da tragedia o derradeiro acto,
+ e essa cabeça pallida, serena,
+ no frio travesseiro d'um grabato.
+ Desenhou esse hospicio, uma gehena,
+ onde vai terminar muito apparato,
+ e depois, ai! depois, fria e fatal
+ a desolada lagrima final!
+
+ Quando acabou, sentia-se na salla
+ o ruido dos choros suffocados,
+ e os soluços e as lastimas que exala
+ a Dôr nos corações muito abalados.
+ O Conde estava em pé, hirto, e sem falla,
+ hirtos, sem falla, em pé, os convidados,
+ e as damas atiravam soluçantes,
+ ás plantas do plebeu os seus brilhantes.
+
+ «Guardai--o velho disse--altas senhoras!
+ as vossas bellas joias preciosas,
+ que já de nada servem n'estas horas
+ ao que morreu, sem vossas mãos piedosas.
+ Prendei-as novamente ás tranças louras,
+ que o cantor, n'estas horas luctuosas,
+ para ir enterrar-se, á luz do sol,
+ carece só da esmola d'um lençol!
+
+ O Conde deu uma ordem. N'um momento
+ um nitido lençol pagens trouxeram.
+ Ao pegar-lhe no rosto macilento
+ do plebeu as lagrimas correram.
+ «Eu chóro--bradou elle--esse talento,
+ esse craneo que as lagrimas arderam,
+ e que em premio do genio que trabalha
+ só teve por esmolla esta mortalha!
+
+ «Este lençol váe ser o teu sudario
+ ó grande Genio! que rollaste á praia
+ da Morte, desgostoso e solitario,
+ mais branco do que a lua que desmaia.
+ Quando soar teu sino funerario,
+ e no teu craneo a campa rasa caia,
+ chorai damas, barões, n'um chôro fundo
+ a maior alma que deitou o mundo!
+
+ Essas faces chorai, as quaes araram,
+ as lagrimas do abandono e da desgraça,
+ as quaes como carvões rubros queimaram,
+ ou como um vento d'areal que passa:
+ este craneo chorai, de cuja taça
+ as lagrimas de sangue s'entornaram,
+ e este lençol sabei damas, barões
+ vai embrulhar o corpo de Camões!
+
+ E novamente as lagrimas correram,
+ e os soluços de novo rebentaram,
+ as côres novamente se perderam,
+ e os convivas em pé se levantaram:
+ os lacaios o passo suspenderam,
+ muitas damas mimosas desmaiaram,
+ como caiem as lagrimas internas
+ nas funeraes separações eternas.
+
+ O velho ia a sair. Porem o Conde
+ o deteve e bradou:--«Que nome é o teu
+ ó homem singular, onde s'esconde
+ um peito que é mais nobre do que o meu?
+ Por que reinos cruzaste? Dize aonde
+ aprendeste, ó phantastico plebeu!
+ a fallar das extranhas afflicções,
+ d'um modo que sacode os corações...?!»
+
+ O velho então ergueu-se, em toda a altura
+ do seu corpo potente e agigantado,
+ e deixou ver a athletica figura,
+ de sorte que pareceu ter-se elevado.
+ E então, n'um tom terrivel d'amargura,
+ que deixou todo o mundo alvoroçado,
+ bradou num ai, n'um grito, extranho e novo
+ --Sou o Pranto do Povo e volto ao Povo!
+
+
+
+
+CANTO QUARTO
+
+A Lagrima de Marmore
+
+
+ Essa lagrima immovel que se gela
+ sobre as palpebras roxas dos finados,
+ e que eu já vi rollar funesta e bella
+ nas faces de dous entes bem amados,
+ o que é que ella nos diz? que nos revella
+ de profundos desejos decepados,
+ d'inauditas ou intimas desgraças,
+ que são as flores funebres das Raças?!
+
+ O que é que ella nos diz, que nos remove
+ até ao mais profundo das entranhas,
+ triste como flor onde não chove,
+ no cume inacessivel das montanhas?!
+ Dirá ella um desejo que já houve,
+ cheio de dôr e aspirações extranhas,
+ e expirou e morreu n'um mundo falso
+ como um amor ao pé d'um cadafalso!?...
+
+ Quando a Fome colheu do moribundo
+ a lagrima de marmore dorida,
+ poz-se logo a caminho pelo mundo
+ e foi vendel-a aos Principes da Vida.
+ Mas alguns, num desdem fino e profundo,
+ riram da triste offerta nunca ouvida:
+ outros tiveram um horror absorto
+ ao verem uma lagrima d'um morto!
+
+ Lembrou-se então d'um Principe potente
+ que vive n'um payz todo de gelo,
+ que ama tudo que é gélido, inclemente,
+ e frio como a folha d'um cutello.
+ Penetrou no palacio refulgente,
+ todo cheio de marmore e ouro bello,
+ e onde elle desvellava insomnias cruas
+ no meio de milhões d'espadas nuas.
+
+ Quando o Cesar cruel viu esse pranto
+ de que gostou seu genio monstruoso
+ á Sombra disse--Acho um secreto encanta
+ n'este gélido objecto curioso!...
+ Deixa-a ficar que causará espanto
+ ao meu povo selvagem tenebroso,
+ e assim lhe ensine n'um terror mortal
+ como é que gela a lagrima final!
+
+ Porém da noute no silencio frio
+ quando o Cesar dormia no seu leito
+ esta lagrima ao Principe sombrio
+ infundia-lhe um tragico respeito.
+ Das visões no terrivel desvario
+ via da Morte o ultimo tregeito:
+ e as caveiras sem olhos, nem narises,
+ de todos os sinistros infelizes!
+
+ E a lagrima implacavel e severa
+ accusava-o de todos os seus crimes
+ dos seus instinctos tragicos de fera,
+ dos mortaes que dobrava como vimes,
+ dos irmãos e dos Paes que elle prendêra,
+ e das almas viris, fortes, sublimes,
+ a quem seu braço sem cessar enterra
+ pelas entranhas humidas da terra!
+
+ E o Despota na lagrima parada
+ lia a lenda de todos que sem nome
+ sobre a neve, ou na mina bronzeada
+ tinham morrido esqualidos de fome:
+ via os prantos da plebe esfarrapada
+ que n'um suor esteril se consome:
+ e os clamores formidaveis, justiceiros,
+ dos prantos de milhões de mineiros!...
+
+ Fugiu logo do leito insupportavel,
+ e por todo o palacio vaga errante.
+ De manhã chama a Sombra miseravel
+ e entrega-lh'a, com mão febrecitante:
+ Leva d'aqui--lhe grita--esse implacavel
+ tormento, que é mais frio que um brilhante,
+ porque de prantos tenho um cemiterio
+ no gelo excepcional do meu imperio!
+
+ Lembrou-lhe então á Fome ir offertal-o
+ de Roma ao mais sinistro inquisidor.
+ Deixa á porta o seu pallido cavallo.
+ Penetra cheia d'um mortal terror.
+ Quando o sicario a viu sentiu abalo
+ e disse á Fome--Eu gosto d'esta flor
+ que florece nos mortos, como lyrios
+ que gelaram nos olhos dos martyrios!
+
+ Porem da noute no silencio enorme,
+ a fixidez da lagrima impassivel
+ olhava-o como um olho frio e informe,
+ e accusava-o de tudo que ha de incrivel,
+ Accusava-lhe a alma, antro desforme;
+ e estendia-lhe então n'um sonho horrivel
+ de eternos prantos um gelado mar
+ --como uma immovel solidão polar.
+
+ E ao bandido lembravam-lhe as torturas
+ dos que vira morrer nos seus flagicios,
+ de todas as sinistras creaturas
+ a quem passara a esponja dos supplicios.
+ E as disformes e energicas figuras,
+ com blasphemias, gritavam-lhe os seus vicios,
+ e entre injurias, mostravam, justiceiras
+ os braços calcinados das fogueiras.
+
+ Envia de manhã chamar a Fome,
+ e á Sombra grita com sorriso duro,
+ podes levar a lagrima sem nome,
+ e esconde-a bem no antro mais obscuro.
+ Como uma pedra que o abysmo some
+ faze que ella se suma; e no futuro
+ não me tragas jamais estes espelhos
+ dos que morreram contra os Evangelhos!
+
+ Quando a Fome largou os dous sicarios
+ foi procurar o rei dos mais banqueiros,
+ que era tambem senhor dos usurarios,
+ cujos navios eram aos milheiros.
+ O palacio valia os mil erarios
+ dos principes mais ricos estrangeiros.
+ E as suas sallas tinham cem figuras
+ das mais raras e nuas esculpturas.
+
+ Quando o banqueiro viu a extranha offerta
+ disse n'um tom ironico e orgulhoso,
+ «A vida d'um poeta é pobre e incerta!
+ Mais mesquinho o seu pranto angustioso!
+ Comtudo, como a fome vil te aperta,
+ guardarei este pranto curioso,
+ e na alcova a porei, como memoria
+ de que vai tudo Ouro, e nada a Gloria!
+
+ Porem, de noute no silencio fundo,
+ a lagrima impassivel fixa, dura,
+ recordava-lhe os prantos que no mundo
+ fizera derramar a sua usura.
+ E n'um estar immovel e profundo,
+ como um espectro d'uma sina escura,
+ todos choravam, n'este pesadello,
+ --inconsolaveis lagrimas de gelo!
+
+ Levantou-se o banqueiro torturado
+ e mal a aurora avermelhou a terra,
+ chamou a Fome, e livido, aterrado,
+ disse á Sombra--«Confessa-me o que encerra
+ esse impassivel pranto amargurado
+ que não sei o que tem me gela e aterra,
+ tendo eu só n'estas salas cem figuras
+ das mais ricas marmoreas esculpturas?»
+
+ «Não sei--a Sombra disse:--Teem-me dito
+ o mesmo, muitos grandes assassinos.
+ É que esse pranto foi talvez o grito
+ do Genio contra o injusto dos destinos.
+ É que o Genio é o açoute do Infinito
+ contra os crimes, e os grandes desatinos,
+ e mesmo sob os goivos mortuarios
+ regela ainda as almas dos sicarios!
+
+ Depois d'isto ninguem mais quiz o pranto!
+ Todos riam do extranho d'essa offerta.
+ Uns fugiam da Fome com espanto.
+ Outros julgavam-lhe a razão incerta.
+ Uma virgem, porem, d'um rosto santo
+ bradou, a face de rubor coberta:
+ --Eu amei d'um poeta a fronte amada!
+ Ai! quem déra essa lagrima gelada!
+
+ «Porem nada te dou, por que sou pobre,
+ a ti que és pobre como eu sou tambem.
+ Sobe acima do azul que a todos cobre,
+ acima dos Despresos, do Desdem.
+ Sobe acima da Dôr que é grande e nobre,
+ mais acima dos astros, mais além
+ do Egoismo, da Inveja, e da Cubiça,
+ e vai leval-a ao throno da Justiça!
+
+ Então a Sombra abandonou o mundo,
+ e ergueu-se logo acima das espheras,
+ longe da Besta d'Ouro e Vicio immundo,
+ para longe dos Tempos e das Eras,
+ perto do abysmo do insondavel fundo,
+ onde teem corpo as lucidas chimeras:
+ montada n'um cavallo horrendo e feio,
+ sem estribos, sem redeas, e sem freio.
+
+ Quando ella contemplou em baixo a terra,
+ humillimo planeta grão d'areia
+ preza do Tempo e insaciavel Guerra
+ e onde a raça dos mortaes ondeia,
+ ella que nada já commove e aterra,
+ que nenhum pranto d'um estranho anceia,
+ sentiu brotar no secco coração
+ a rubra e extranha flor da Indignação.
+
+ Ella atravez passara d'almas, vidas,
+ e dos martyres lugubres descalços,
+ das jovens mães crueis infanticidas,
+ das illusões e dos sorrisos falsos,
+ atravez das eternas despedidas,
+ dos crimes, dos incestos, cadafalsos,
+ e de todos os crimes e desgraças
+ que são os fructos tragicos das Raças.
+
+ Ella atravez passara d'essas almas
+ aonde em prantos s'escreveu _jámais_,
+ das grandes solidões das neves calmas,
+ atravez das galés, dos hospitaes,
+ atravez das blasphemias e dos ais,
+ das glorias, dos triumphos, e das palmas,
+ e atravez sempre! sempre! do gemido
+ do Genio eternamente perseguido.
+
+ Por isso quando foi perto do throno
+ da terrivel Justiça, da Immutavel,
+ ia ainda indignada do abandono
+ em que se afunda o Genio inconsolavel.
+ Como os nordestes varrem pelo outomno
+ as roseiras, assim ella implacavel,
+ tinha varrido toda a piedade
+ contra a dura e egoista Humanidade.
+
+ Mal a viu a Justiça disse--ó Fome
+ o que é que trazes da sombria Terra?
+ Trazes um ai do que morreu sem nome?
+ Sonho de virgem que teu braço enterra?
+ Trazes um riso que o infeliz consomme?
+ Ultimo beijo em que um amor s'encerra?
+ Trazes um grito, um desalento fundo?
+ Trazes um pranto de que riu o mundo?
+
+ Trago mais que isso replicou sombria
+ a magra Fome, apresentando o pranto:
+ --Eu trago-te esta lagrima tão fria
+ como o gume da Espada justo e santo.
+ Eu trago-te este pranto d'agonia,
+ e que a ti mesmo causará espanto,
+ pranto que gelou como uma esperança,
+ pranto que clama um grito de vingança!
+
+ A Fome então narrou, succintamente,
+ a historia da lagrima marmorea.
+ Narrou toda essa vida descontente,
+ toda essa tragedia tão sem gloria;
+ seu genio, seu destino, e febre ardente
+ do Bello, e de gravar-se na memoria,
+ e esse pranto tão triste e tão profundo,
+ que só o quiz uma mulher no mundo!
+
+ Ao acabar ergueu-se ferozmente
+ a Justiça em seu throno, commovida,
+ e clamou com um brado omnipotente
+ tal que as origens abalou da Vida:
+ «--Eu juro pelo sangue do innocente,
+ por mim, por esta lagrima caida,
+ pelo Ceu, pela Dôr, e pelo Espaço,
+ por minha espada, e força de meu braço;
+
+ por tudo que ha de justo e de terrivel,
+ por tudo que ha de santo e d'implacavel,
+ pelo pranto que cae no Invisivel,
+ e o soluço que rolla no insondavel,
+ que não destruo ó mundo, ó insensivel,
+ planeta! essa vida miseravel,
+ por ter havido uma mulher que quiz
+ um desolado pranto d'infeliz!
+
+ «Mas já que o não quizeste ó Terra fria,
+ quero-o eu, de continuo, na presença!
+ Quero tel-o de noute, quer de dia,
+ como um sonho constante em que se pensa!
+ Quero ter esta lagrima sombria,
+ para um dia lavrar tua sentença!
+ Quero tel-o ante mim, como lembrança:
+ para lembrar-me de que sou Vingança!
+
+ «Quero tel-o ante mim, ah! como um grito,
+ que me recorde os tristes que sem nome
+ hão estendido os braços no Infinito,
+ na sêde de Justiça que os consome!
+ Quero tel-o ante mim, como o afflicto
+ brado do Genio que morreu á fome,
+ e que vos prove d'esta espada os brilhos,
+ de que vós, ó Poetas, sois meus filhos!»
+
+ Assim disse a Justiça. E desde então
+ ante ella jaz o pranto eternamente,
+ para provar que se não verte em vão
+ a lagrima, na terra, do innocente:
+ que a natureza é mãe, e o Genio irmão
+ do espirito dos astros refulgente
+ e que a Justiça sopra a sua ira
+ nas cordas vingadoras d'uma Lyra.
+
+ Eu não sei se entendestes o sentido
+ Occulto e justo d'esta allegoria,
+ se fiz ondular bem a vosso ouvido
+ os tenebrosos sons d'esta agonia?
+ E vós, ó tristes! tristes! que haveis ido
+ tranzidos repousar na valla fria,
+ esquecidos, inglorios, sem um pranto
+ a lagrima acceitai d'este meu canto!
+
+ Acceitai este canto, como preito
+ craneos de lava que não orna o louro!
+ e emfim morrestes, porque o vosso peito
+ bateu nas pedras, d'entre as nuvens d'ouro.
+ Acceitai n'esta lagrima o respeito,
+ vós que encontrastes só riso e desdouro!
+ e que em vez do festim do que trabalha,
+ não tivestes nem louros, nem mortalha!
+
+ Acceitai n'esta lagrima o protesto
+ de muitas gerações de rebellados
+ contra o abandono insolito e funesto
+ do mundo silencioso aos vossos brados!
+ Em vez do riso, insulto, e do doesto,
+ acceitai nossos pezames irados,
+ e n'este canto, ó mortas existencias!
+ os protestos de muitas Consciencias!
+
+ E tu, ó mundo, aprende-o! D'ora avante
+ não mates mais o Genio que irradia!
+ Não s'ergam nunca mais ao ceu distante,
+ Contra ti, magros braços d'agonia!
+ Por que hoje, sabe-o bem! fixa e brilhante,
+ está clamando e bradando noute e dia,
+ acima d'Odios, Prantos, e Cubiça,
+ a lagrima marmorea ante a Justiça.
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+
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+
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
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+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+Literary Archive Foundation
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+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
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+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
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+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of A Fome de Camões, by António Duarte Gomes Leal
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Fome de Camões
+
+Author: António Duarte Gomes Leal
+
+Release Date: June 18, 2007 [EBook #21855]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A FOME DE CAMÕES ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano. Para coment&#65533;rios &#65533;
+transcri&#65533;&#65533;o visite
+http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was produced
+from scanned images of public domain material from Google
+Book Search)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<div class="ficha_tecnica">
+
+
+
+
+<h1>A FOME DE CAMÕES</h1>
+
+
+
+<p class="author">Gomes Leal</p>
+
+
+
+
+<h1>A FOME DE CAMÕES</h1>
+
+<h2>(POEMA EM 4 CANTOS)</h2>
+
+
+<p>LISBOA<br />
+
+EDITORES<br />
+
+Empreza Litteraria Luso-Brazileira de A. Souza Pinto<br />
+e<br />
+Livraria Industrial de Lisboa &amp; C.<sup>a</sup><br />
+
+MDCCCLXXX<br />
+
+1880--Typ. Occidental, rua da Fabrica 66--Porto</p>
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+<h2>CANTO PRIMEIRO</h2>
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+<h3>TRAGEDIA DA RUA</h3>
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+<p class="poesia">Quando no mundo o Genio abandonado
+expira á fome e ao frio, indignamente,
+um livido remorso ensanguentado
+sacode o mundo tenebrosamente.
+Como o arrepio d'um terror sagrado,
+alguma cousa grita intimamente:
+como uma voz terrivel que suspira
+nas cordas vingativas d'uma Lyra.
+
+E essa Lyra é só feita d'ameaças.
+Essa Lyra é só feita de vinganças.
+Essa Lyra só falla de desgraças,
+d'antigos crimes, de crueis lembranças.
+Essa Lyra espedaça e quebra as taças,
+calla os festins, e faz parar as danças,
+e essa Lyra ai! da tragica innocencia
+é a Lyra terrivel da Consciencia.
+
+E a Lyra diz: O que fizeste, ó mundo!
+das grandes almas unicas, sagradas,
+das grandes frontes d'um sonhar profundo
+que eram as frontes as mais bem amadas?
+O que fizeste d'esse abysmo fundo
+de vontades mais rijas do que espadas,
+d'esses simples e santos corações
+que faziam chorar as multidões?
+
+O que fizeste d'essas linguas d'ouro
+que sabiam pregar como os prophetas?
+Como enxugaste o seu comprido chôro?
+Como arrancaste as ponteagudas settas?
+O que fizeste, ó mundo! do thesouro
+que vós homens mortaes chamais poetas:
+mas cujo nome d'harmonias bellas
+só o sabem as Cousas e as Estrellas?
+
+Deitaste ao lodo, á rua, e aviltamento
+esses que adora a Natureza inteira,
+esmagaste entre as pedras o talento,
+os seus craneos quebraste, na cegueira!
+As suas cinzas espalhaste ao vento!
+Profanaste os seus louros na poeira!
+E repousam sem lastimas nem lousas
+os que viam as lagrimas das Cousas!...
+
+Por isso me ouvirás em toda a parte
+como um soluço e um grito vingador,
+n'uma alta torre, atraz d'um baluarte,
+entre os festins, nas convulsões do amor.
+Na paz, ou levantando o estandarte
+da guerra, escutarás a minha Dôr.
+Por que eu, ó mundo! guarda-o na lembrança,
+--Eu sou a Lyra, e a minha voz Vingança!
+
+E o mundo escuta, indefinidamente,
+a voz da Lyra a protestar terrivel.
+Ouve-a na sombra, ou pelo sol poente,
+se o vento dobra o cannavial flexivel,
+ouve-a nos sonhos, ouve-a intimamente,
+n'uma continua musica inflexivel,
+até que emfim vencido n'esta liça
+o mundo clama: Faça-se a Justiça!--
+
+Era uma noute livida e chuvosa,
+ermas as ruas, ermas as calçadas.
+Nada cortava a solidão brumosa,
+nem ais d'amor, nem gritos de facadas.
+Das nuvens colossaes acastelladas
+sómente a meia lua silenciosa,
+boiava em morto ceu ermo d'estrellas,
+como um navio que perdeu as vellas.
+
+Quem é que cruza á chuva e á ventania,
+á meia noute, as ruas solitarias?
+És tu santa Miseria, que de dia
+foges da luz do Sol, o pai dos párias?
+Ou és tu Fome ou Vicio, que sem guia,
+vaes nas noutes sem lua, mortuarias,
+provocar o Deboxe e os estrangeiros
+á baça luz dos tristes candeeiros?
+
+Ó Destino! ó Destino!--eu sei a historia
+de muitas das tragedias soluçantes,
+de muito nome que esqueceu a Gloria,
+de muitos prantos que cairam d'antes!
+Sei que riscam teus dedos flammejantes,
+como uma sina má, muita memoria,
+e que nada ha maior e mais escuro
+do que o brilhante e o bronze do teu muro!
+
+Mas não quero contar o drama agora
+do Brilhante, do Leque, e do Farrapo,
+da meretriz que no bordel descóra,
+do amor do Charco, do histrião, do sapo;
+nem a farça de sangue a toda a hora,
+do Ouro e do Velludo--o rico trapo,
+nem a sina immoral sinistra e crua
+da historia diabolica da Rua.
+
+Um dia eu contarei a extranha lenda
+ó Destino! dos teus encantamentos,
+seguirei, passo a passo, a tua senda
+ó Miseria! e direi os teus tormentos.
+Para que a alma da Ralé aprenda,
+contarei os crueis temperamentos,
+Direi o Incesto a amamentar os filhos,
+e o Parricida a esvasiar quartilhos.
+
+Um dia accenderei a selva escura
+das almas que suffocam á nascença,
+das noutes só riscadas d'amargura,
+como um phosphoro risca a treva densa.
+E com a ponta d'um brilhante duro
+marcar-te-hei ó tragica Doença
+que vais, limpando as lagrimas internas,
+fazer um <i>toast</i> á Morte nas tabernas.
+
+Um dia evocarei os teus mysterios,
+ó tragedia da Rua e os teus segredos,
+mais funestos que os tristes cemiterios,
+mais profundos que os bastos arvoredos:
+direi sonhos, desejos quasi ethereos,
+desejos que teem azas nos degredos,
+d'uma alma que ama o Azul, o Azul almeja,
+como a agulha da torre d'uma egreja.
+
+Um dia esfiarei todo o rosario
+da Innocencia e da Fome aventureira,
+do Luxo, do Egoismo solitario,
+do Genio soluçante na trapeira,
+da Virtude embrulhada em seu sudario,
+pedindo esmolla á sua irmã rameira,
+e o Crime dando bailes d'apparato,
+em quanto o Justo expira no grabato.
+
+Descobrirei as contas da Avareza
+junto ao esquife d'uma virgem bella,
+o Tedio bocejando á lauta meza,
+a Fome da mansarda na janella,
+a Inveja ululando contra a preza,
+como uiva á lua a lugubre cadella,
+e o Suicidio, nas manhãs geladas,
+espedaçando o craneo nas calçadas.
+
+Um dia cantarei a ladainha
+da Desgraça e da Forma triumphante,
+da Espada que tilinta na bainha,
+da Mascara que ri e passa avante,
+da Fome que ergue as mãos e se definha,
+do Leque, da Batina, e do Brilhante
+das lagrimas mortaes do eterno Entrudo,
+das miserias do Cancro e do Velludo.
+
+Por que tem muito que cantar o imperio
+e o inferno da Carne e dos desejos,
+porque é eterno e livido o mysterio
+da Morte. São eternos os almejos.
+Por que ha lagrimas do berço ao cemiterio,
+ha lagrimas no Amor e até nos beijos,
+prantos communs e de grotescos traços
+nas miserias dos reis e dos palhaços.
+
+Porque tem muito que cantar as scenas
+ó Rua! das extranhas odysseas
+das tuas festas, procissões serenas,
+do negro sangue que te agita as veias.
+Por que ha remorsos, lagrimas e penas
+entre os motins e os frenesins das ceias.
+Por que n'esta funesta e eterna farça.
+ai! tanto chora o actor como o comparsa.
+
+Por que ha bastantes corações vencidos,
+altos desejos que não mais voaram,
+sinistros ais e intimos gemidos
+lagrimas mudas que se não choraram.
+Sim, ha soluços que não são ouvidos,
+lagrimas mortas que se congelaram,
+n'uma miseria, um abandono nobre
+como um enterro n'uma rua pobre!
+
+Porque ninguem conhece onde termina
+o tregeito que rí, soluça, engana,
+porque a eterna Mascara domina,
+e é uma esfinge cada face humana.
+Porque a Morte em nós ceifa uma ruina,
+quando nos rouba na aza deshumana,
+e esta mulher que ri com tanta graça,
+é talvez uma lagrima que passa!
+
+Mas agora eu só conto o Irrevogavel,
+mais monstruoso do que um sonho ardente,
+conto a historia funesta, inexoravel,
+do Genio morto á fome, indignamente.
+Quero narrar o que é o innarravel!
+fazer sentir o que jámais se sente,
+fazer chorar o choro masculino
+Do Genio contra a noute do Destino!
+
+O Genio é um archanjo refulgente
+que enrista a lança contra a escura Sorte,
+tem no seu gesto uma expressão potente,
+que diz: eu quero! e empallidece a Morte.
+Para o Vulgo porem vil inclemente,
+e o Destino esse cego antigo e forte,
+é um guerreiro tragico e proscripto,
+e a fronte tem como um luar maldito.
+
+Este vulto, portanto, que caminha
+altas horas, ao frio das nortadas,
+é Camões que de fome se definha
+nas ruas de Lisboa abandonadas.
+É Camões a que a Sorte vil mesquinha
+faz em noutes de fome torturadas,
+elle o velho cantor d'heroes guerreiros!...
+vagar errante como os vis rafeiros.
+
+Morreu-lhe o escravo, o seu fiel amigo,
+o seu amparo e seu bordão no mundo,
+morreu-lhe o humilde companheiro antigo,
+no seu peito deixando um vacuo fundo.
+Hoje pois triste, velho, sem abrigo,
+faminto, abandonado e vagabundo,
+tenta esmollar tambem pelas esquinas.
+Ó lagrimas!.. Ó glorias!.. Ó ruinas!..
+
+Mas não estende o valoroso braço,
+que outr'ora trabalhou entre os guerreiros,
+a mão recusa-se a suster o passo
+dos transeuntes raros, sobranceiros.
+A Fome roe-o, curva-o o cançasso.
+Cospem-lhe a neve, a chuva, os aguaceiros.
+Ó calçadas fataes! nas enxurradas
+vae muito fel de lagrimas choradas.
+
+Ó Capitães! Ó Capitães egoistas!
+duras velhas mais duras que o granito!
+ha caso mais sublime às vossas vistas
+que mais vos deva merecer um grito,
+mais negro, mais cruel para os artistas,
+mais sagrado, dramatico, infinito,
+que mais abale os nobres peitos francos
+que um Genio pobre e de cabellos brancos!?...
+
+O Genio continua á ventania
+a errar pelas ruas silenciosas,
+como um espectro que dissipa o dia,
+como as grandes estatuas dolorosas.
+Assim a noute vaga, na agonia
+dos martyres das noutes trabalhosas,
+até que o sol jorrou pelas viellas,
+e ensanguentou os olhos das janellas.
+
+Começam-se a ouvir esses rumores
+das capitaes egoistas acordadas,
+a musica dos carros chiadores
+que chegam das aldeias retiradas.
+Recomeçam as pombas seus amores
+sobre as brancas egrejas penduradas,
+e nas torres dos astros companheiras,
+a palpitar, nas glorias, as bandeiras.
+
+Começam-se a ouvir as matutinas
+musicas da cidade, e as alegrias
+dos gallos com as notas crystallinas
+dos sinos com extranhas simphonias.
+O sol lava de glorias as collinas
+as torres, os beiraes, as gelosias,
+e como a moça que um amante beija
+avermelham-se os vidros d'uma egreja.
+
+Dos passaros retinem os gorgeios
+nas arvores, nas pontas dos eirados,
+os vis riachos, os lodosos veios,
+correm ralhando, ao sol, precipitados,
+os cavallos remordem os seus freios,
+vão passando aldeões para os mercados,
+e atraz dos lentos carros os boieiros
+veem sombrios, graves, e trigueiros.
+
+Somente ao Genio uma tristeza enorme
+entenebrece todos os ruidos,
+como um sombrio coração que dorme,
+que já não tem nem sonhos, nem gemidos!
+Só sente uma saudade extranha, informe,
+como aroma dos tempos revolvidos,
+das grandes selvas, sombras e palmeiras
+quando o sol desce as ingremes ladeiras.
+
+Os aldeões tisnados dos trabalhos,
+recomeçando as horas das fadigas,
+recordam-lhes os épicos carvalhos
+a sombra, os bois, as sestas tão amigas!
+Fazem lembrar-lhe as curvas dos atalhos,
+a ermida, a fonte, os fenos, e as cantigas,
+que elle escutara, pelas luas claras,
+ás louras raparigas nas ceáras!
+
+Lembram-lhe a India, os templos monstruosos,
+com seus deuses terriveis, singulares,
+as arvores de fructos venenosos,
+as bastas selvas, os gentis palmares!
+Lembram-lhe os tigres ruivos, sequiosos,
+que vão beber a rios como a mares,
+e pelas noites immortaes, eternas!
+o luar nas figueiras das cisternas
+
+E elle quizera achar-se em alto monte,
+em cima tendo os astros por juizes,
+dizendo adeus ao sol no horisonte,
+acabar os seus dias infelizes:
+na boa terra Mãe deitar a fronte
+e entre as vegetações, entre as raizes,
+misturar sua vida e acerbas dores
+com as almas das plantas e das flores!
+
+Para o velho cantor eram fugidos
+ai! como luz que para sempre expira,
+os bellos tempos jovens e lusidos,
+as mulheres ideaes que o Amor inspira!
+Rotos, á chuva, os tragicos vestidos,
+posta de parte, empoeirada a lyra,
+achava-se hoje n'uma rua, ó mundo,
+velho, faminto, pobre, e moribundo!
+
+Sem ousar mendigar, como um vadio,
+vaga nas ruas da Cidade egoista.
+A tarde chega, o bello sol fugiu.
+A noute vem, que o coração contrista.
+Irrompe a lua sobre a verde crista
+d'um monte ao longe, e no lagedo, ao frio,
+o Genio cae emfim, hirto e sem falla,
+como um cadaver que se deita á valla.
+
+N'este momento uma mulher gigante,
+que pareceu sair d'um pesadello,
+pallida e triste, qual saudade errante,
+deixando ao vento as ondas do cabello,
+tão magra como a Sombra, o seu semblante
+toldado d'um desgosto immenso e bello,
+chegou-se ao Genio hirto e abandonado,
+como a visão d'um sonho torturado.
+
+E disse-lhe: Bem perto d'esta rua
+dar-te-hão, ó mendigo, uma guarida,
+não dormirás á lividez da lua
+e terás leito onde acabar a vida.
+Se a Sorte t'esmagou, a Sorte crua,
+ergue a cabeça pallida e abatida,
+e ri contente, ó triste, para a eça,
+que em breve vai findar a tua peça!
+
+A mulher ajudou a levantal-o.
+Cingiu o braço ao Genio moribundo.
+A Morte que passava em seu cavallo
+deu-lhe um sorriso livido e profundo.
+--O teu semblante, ó velho, dá-me abalo,
+disse a mulher. Não é vulgar no mundo!
+Dize-me pois que cousas tenebrosas
+te hão cavado essas rugas dolorosas!
+
+«Eu fui--o Genio disse--um malfadado
+cantor d'heroes e feitos dos antigos!
+Amei tudo que é grande e desejado,
+e terrivel luctei contra inimigos!
+Sentei-me no castello derrocado,
+no deserto solar, cruzei os p'rigos!
+E com saudade emfim d'estas collinas,
+quiz expirar-lhe, um dia, entre as ruinas!
+
+«Ninhos fizeram no meu peito amores,
+como andorinhas sobre as cathedraes!
+Conheço o aroma das malditas flores!
+Sei os soluços dos compridos ais!
+Sobre o deserto pallido das Dôres,
+ninguem como eu peregrinou jamais!
+E pelas noutes regeladas, cruas,
+chorei com fome, errando, pelas ruas!
+
+«Porém que porta negra agora abriste?
+Que aspecto é este morto e desolado?
+Acaso o inferno depois d'isto existe?
+Acaso é pesadello desmanchado?»
+--Cala-te! disse a Sombra magra e triste,
+Cala-te, ó Genio immenso, desgraçado!
+E com sorriso d'expressão fatal
+a Sombra concluiu--É o hospital!</p>
+
+
+
+
+<h2>CANTO SEGUNDO</h2>
+
+<h3>No Grabato do Hospital</h3>
+
+
+<p class="poesia">É alta a noute. A lampada vacilla,
+como um pranto, na vasta enfermaria.
+Um marmoreo suor frio scintilla
+sobre a fronte do Genio, na agonia.
+O Genio vae morrer; sobre a pupilla
+treme-lhe um pranto á luz bassa e sombria,
+mais triste do que o luto d'uma sina,
+e um soluço atravez d'uma ruina.
+
+Junto do leito uma mulher extranha,
+com grandes olhos tristes e parados,
+contempla-lhe o suor frio que o banha,
+e abraça-o com seus braços descarnados.
+Como um sol que se põe n'uma montanha,
+são frios os seus olhos encovados,
+hirta, severa, tragica a postura,
+como imagem d'antiga sepultura.
+
+«Já viste--diz-lhe o Genio--ó mulher triste!
+que me olhas com teus olhos impassiveis,
+morrer no mundo alguem? Acaso viste
+as lagrimas da morte irremissiveis!
+Acaso, ao magro peito já cingiste
+uns braços que emfim caem insensiveis,
+alguns braços d'irmão que te apertaram,
+e que até ás entranhas te gelaram?
+
+«Já conheceste as grandes despedidas
+as despedidas sepulchraes, eternas?
+Já sabes quanto doe irem-se as vidas,
+formas, e almas que nos foram ternas?
+Sabes o fel das lagrimas vertidas,
+ou o sangue das lagrimas internas,
+n'um rosto amado, uns olhos, um cabello,
+que a alma sabe que não torna a vêl-o?!»
+
+Ai! sim--a Mulher diz--com voz gelada
+que pareceu sair d'entre saudades,
+calcadas como lyrios n'uma estrada,
+terriveis como pallidas verdades.
+«Eu cruzei já os reinos e as cidades
+do luto, e da miseria desolada,
+e vi magoas, e gentes fallecer
+que ninguem viu, nem tornará a vêr!»
+
+E continuou a olhal-o fixamente
+com o seu olhar tragico e marmoreo,
+e um suspiro vibrou profundamente,
+dolorido, no vasto dormitorio.
+Como atravez d'um sonho incoherente,
+n'este sonho da vida transitorio,
+O Genio leu, no seu olhar parado,
+todo o luto e terror do seu Passado.
+
+«Ah! já sei quem tu és,--o Genio clama--
+na rapida scentelha d'um delirio.
+Tu és a Musa que apregôa a fama,
+a Musa meu amor e meu martyrio!
+Foste tu que accendeste em mim a chamma!
+N'essas palpebras roxas como um lyrio,
+na pallidez, nos labios desbotados,
+vejo a Musa dos genios desgraçados!
+
+«Tu és a Musa sim d'esses errantes
+e tristes peregrinos do Ideal,
+d'esses loucos e extranhos viajantes
+que andam á busca d'uma flôr fatal,
+d'uma flôr de tons ricos, scintilantes,
+d'uma camelia azul e boreal:
+até que morrem n'uma praia nua,
+ou nos gelos, a um raio azul da lua!
+
+«Foste tu que inspiraste sempre os cantos
+que eu dediquei á Gloria e á Natureza!
+Ah! foste tu que me enxugaste os prantos,
+e ao luar me fallaste de tristeza.
+Desci comtigo ao reino dos espantos!
+Comtigo á tarde fui pela deveza!
+Comtigo á noute fui, pelas florestas,
+apanhar <i>boas noutes</i> e giestas!
+
+«Comtigo eu devassei esses segredos,
+das raizes, das Cousas, das Origens,
+do germinar dos lyrios e arvoredos,
+e fiz aos astros soluçar as virgens.
+Comtigo fui, nas pontas dos rochedos,
+debruçar-me do abysmo nas vertigens,
+e andei errante pelo mundo á tôa,
+como folha que vai n'uma lagôa!
+
+«Mas hoje gela-me o suor na testa
+e convulsa-me o corpo um calafrio.
+Desejo, sonho, amor, nada me resta!
+Nada sacode meu cadaver frio!
+Comtigo não irei pela floresta!
+Não mais irei comtigo pelo rio!
+por que o sopro vital em mim expira,
+como as cordas que estallam d'uma lyra!
+
+«Não sou a Musa,--disse a Sombra,--não!
+Mas tenho visto os prantos dos amantes,
+e a desolada e livida expressão
+dos seus gestos, nos ultimos instantes.
+As cristallinas lagrimas brilhantes
+tenho aparado n'esta magra mão;
+cerrado os olhos com meus frios dedos,
+e escutado os seus ultimos segredos!»
+
+E, continuou a olhal-o fixamente,
+com o seu olhar tragico e marmoreo,
+e um suspiro vibrou profundamente
+dolorido, no vasto dormitorio.
+Como atravez d'um sonho incoherente,
+n'este sonho da vida transitorio,
+o Genio leu, no seu olhar parado,
+todo o luto e terror do seu Passado.
+
+«Ah! já sei quem tu és,--o Genio brada--
+Conheço-o agora em teu olhar funesto.
+Leio-o na tua fronte amargurada,
+e na expressão sinistra do teu gesto.
+Tu és uma saudade aos pés calcada,
+o lyrio d'um desgosto extranho e mesto,
+tu és a prole da Lagrima e da Dôr.
+--És o sinistro e monstruoso Amor!
+
+«Mas não és esse Amor doce e sereno,
+nascido da Belleza, o Amor antigo,
+irmão das Graças, lyrico e pequeno
+amando o rizo, o campo, e o sol amigo!
+És o Amor desolado como um threno,
+terrivel como o açoute d'um castigo,
+e empunhando na dextra ensanguentada
+um ramo de cyprestes e uma espada!
+
+«Como eu soffri das largas cicatrises,
+que abriste no meu peito, sem piedade!
+Como eu cantei meus sonhos infelises!
+Como eu te amei ao sol da mocidade!
+Como inda sinto as pontas das raizes
+do amor que alimentei, e com saudade
+lembram-me as tardes que ia nos caminhos,
+pensando em ti, sentindo teus espinhos!
+
+«Mas hoje mocidade, vida alento,
+tudo se foi, para não mais voltar!
+Vae dissipar-se tudo, como ao vento,
+do fim da tarde o fumo azul d'um lar
+Já sinto fluctuar-me o pensamento
+como uma flôr aquatica n'um mar,
+e nas paginas do livro dos meus ais
+a Sombra pôr o triste <i>nunca mais</i>!»
+
+«Não sou o negro Amor, irmão da Pena
+--a Sombra disse--e não empunho espada,
+mas tenho visto a tenebrosa scena,
+da tragedia da Vida mallograda.
+Tenho visto a blasphemia que condemna,
+a lagrima que queima ensanguentada,
+a lagrima que gela e que não corre,
+como um desejo qu'estacou, e morre!»
+
+E continuou a olhal-o fixamente
+com o seu olhar tragico e marmoreo,
+e um suspiro vibrou profundamente
+dolorido, no vasto dormitorio.
+Como atravez d'um sonho incoherente,
+n'este sonho da vida transitorio,
+o Genio leu, no seu olhar parado,
+todo o luto e terror do seu Passado.
+
+«Conheço-te afinal,--n'um grande brado
+o Genio diz.--Tu és a velha Gloria,
+mas a Gloria do genio amaldiçoado,
+a Gloria das lagrimas da Historia!
+És a Gloria do genio e do soldado
+que expira soluçando e sem memoria,
+n'um doloroso e livido arrepio,
+como um cadaver que regeita o rio.
+
+«Deves ter visto as penas penetrantes,
+como os bicos agudos do espinheiro,
+as desvelladas noutes soluçantes,
+mais negras do que o rosto d'um guerreiro,
+e as tristes magras mãos febrecitantes
+que te buscam a ti, n'um derradeiro
+esforço d'anciedade e de desdita,
+com a blasphemia e a lagrima maldita!
+
+«Illusão! Illusão! sonho que encerra
+em si a pobre humanidade inteira,
+louros que faz buscar a morte e a guerra
+nuvem que foge, á hora derradeira!
+Gloria! nome vão, a quem a Terra
+busca, e só palpa a livida caveira,
+como pallidas flores das illusões,
+que esmagaram os pés das procissões!
+
+«Gloria! nome vão! sonho e chimera,
+iris triumphante de vistosas côres,
+verme lusente que vagueia na hera,
+sonho d'estio entre luar e flores!
+Ó giesta gentil da Primavera,
+amendoeira da manhã d'amores,
+por que nos gelas do Destino á beira,
+como a chuva que molha uma bandeira!?
+
+«Gloria! esphinge eterna que dominas
+com teu olhar prophetico do Incerto,
+que nos fazes sonhar verdes collinas;
+na poeira da areia do deserto,
+Harmonia longiqua, mas que perto,
+cremos ouvir, marchando entre ruinas,
+e que de repente nos fulmina e estalla,
+como um conviva que morreu na salla!
+
+«Como eu te procurei por val e monte,
+e me rasguei nas lanças dos espinhos!
+Como eu vi teus acenos no horisonte
+a ensinar-me as veredas e os caminhos!
+Como eu te vi um dia n'uma ponte,
+n'um zimborio, n'uns campos entre ninhos,
+e outra vez, n'uma lua socegada,
+a galopar nas pedras d'uma estrada!
+
+«Vi-te ainda outra vez, ao vento frio
+d'uma tremenda e lugubre procella.
+Estendias-me a mão, entre o assobio
+do nordeste e das ondas, branca e bella.
+Bem te vi, eras tu, e foi aquella
+santa energia, que hoje já fugiu,
+foi esse teu olhar que hoje desmaia,
+que exhausto e salvo me atirou á praia!
+
+«Mas só hoje te vejo claramente!
+Só hoje, fundo, n'esses olhos leio!
+Tardaste muito em vir, Sombra inclemente!
+Já muito tarde o teu auxilio veio!
+Desalentado, pallido, doente,
+nenhum alento me commove o seio!
+Podes levar, ó Sombra! o teu thesouro.
+Não val tanto suor teu verde louro!»
+
+«Não sou Amor, nem Musa, nem Gloria,
+--a Sombra disse--nem talentos faço.
+Mais terrivel, funesta é minha historia!
+Mais duro e horrendo o peso do meu braço!
+Não colho os louros; sitios onde passo
+traçam sulcos de sangue na memoria.
+Ah! mil vezes terrivel é meu nome
+tenebroso e profundo!... Eu sou a Fome.»
+
+«A Fome!--o Genio clama--dando um grito,
+como um soluço ultimo estridente.
+A Fome me conduz para o infinito!
+A Fome é meu final, o meu poente!
+Foi isto que ganhou meu braço ardente,
+foi isto que ganhou meu estro escripto!
+a agonia e o suor n'um mundo ingrato,
+desillusões, e a enxerga d'um grabato!
+
+«Ó illusões, ó nuvens peregrinas,
+horas da mocidade já fugidas!
+illusões ó princezas perseguidas
+galopando em phantasticas collinas,
+ó brancas cathedraes de pedra erguidas
+com as santas, á tarde, purpurinas
+vegetações, florestas, ideal
+recebei meu adeus no hospital!»
+
+«Como tu, tenho visto,--disse a Fome--
+pender muita cabeça veneravel,
+muito craneo de genio, muito nome,
+que eu lancei no abysmo do insondavel.
+Muitos que a gloria céga e que consomme
+d'uma selvagem sede insaciavel,
+tenho cingido como a tristes noivos,
+e hoje estão nas raizes, e entre os goivos!
+
+«Muitos tenho apertado entre meus dedos
+que se hão finado n'um febril delirio,
+e teem-me dito os ultimos segredos,
+com suas bocas lividas de lyrio.
+Dormem alguns á sombra d'arvoredos;
+mas outros para mais mortal martyrio,
+ninguem lhe importa em seu desprezo fundo
+onde estão os seus ossos sobre o mundo!
+
+«Gigantes craneos de candente lava
+teem repousado no meu magro peito!
+Bem lindos corpos onde a morta crava
+seus dentes, dormem sob o ceu perfeito!
+Mas, quando um genio como tu, no leito
+mata ao abandono a geração escrava,
+pelo universo, cumplice sombrio,
+corre um remorso, como um calafrio.
+
+«Por isso eu vim colher-te, inda tremente
+logo que expires, ó Genio, sem confortos,
+a lagrima de marmore imponente,
+que se gela nas palpebras dos mortos.
+Por que quero levar como presente
+aos principes, aos povos absortos,
+e aos astros a lagrima marmorea,
+que n'um grabato derramou a gloria!
+
+«Mas, se acaso na terra e sobre os mares
+ninguem avaliar este teu pranto,
+acima irei das nuvens e dos ares
+dos astros, dos planetas, do Espanto:
+mais acima das Dores e dos Pezares,
+da Justiça sublime ao throno santo,
+ás solemnes e eternas regiões,
+pedir justiça ao pranto de Camões.»
+
+Dizendo isto a Sombra descarnada
+debruçou-se do Genio sobre o leito.
+Camões morria já: hirta e gelada
+a Fome lhe crusou as mãos no peito:
+e a lagrima marmorea, regellada,
+lagrima que infunde pavido respeito,
+então colheu do rosto moribundo,
+--como um frio protesto contra o mundo.</p>
+
+
+
+
+<h2>CANTO TERCEIRO</h2>
+
+<h3>O Lençol do Genio</h3>
+
+
+<p class="poesia">O conde Vimioso em seu solar
+dá uma ceia a nobres e senhores;
+Estalam as risadas pelo ar.
+Pelos copos espumam os licores.
+A Gula e a Carne ali gosam a par:
+falla-se em caças, touros, e d'amores:
+e riem d'entre as suas pedrarias
+marquesas que hoje estão em galerias.
+
+N'isto um extranho velho entra na salla,
+hirto e solemne, como um quadro antigo;
+seu porte triste pelos peitos cala,
+seu ar hostil é como d'inimigo.
+Os risos param, emmudece a falla,
+como ao ver um remorso, ou um castigo.
+Calam barões fallando de corseis,
+e as damas com as mãos cheias d'anneis.
+
+E o velho disse:--Extranho é meu pedido!
+Extranho sim! no meio d'uma festa:
+mas venho por um morto protegido,
+e este pedido os labios não me cresta!
+Para um Genio de que hoje nada resta,
+para um Genio da fome consummido,
+um Genio infeliz! um apagado sol,
+venho pedir a esmolla d'um lençol!
+
+O lugubre pedido n'um momento
+fez em todos roçar um calafrio:
+figurou-se-lhes o gesto macilento
+da morte, ao longe, em seu corcel sombrio:
+figurou-se-lhes a Febre, o Passamento,
+e a Doença em seu catre humido e frio,
+e as damas, os barões, e os cavalleiros
+perderam os sorrisos zombeteiros.
+
+Porém o Conde dominando o gelo
+do terror que estragava a sua ceia,
+e desmaiava o busto grego e bello
+da mulher por quem todo se incendeia,
+com um riso que tem do orgulho o sello
+bradou ao velho cujo serio odeia:
+Que genio é esse então, bom velho honrado,
+que comparais ao sol já apagado!?
+
+Todos riram. Um riso irresistivel
+omnipotente, intrepido, animal,
+pela sala estallou, bronco e terrivel,
+como um insulto e a folha d'um punhal,
+O rude velho tragico, impassivel,
+deixou passar aquelle vendaval,
+depois n'um rir, de eronico respeito,
+os longos braços encruzou no peito.
+
+Zombai--o velho disse--altos senhores!
+e magnificas damas scintillantes,
+nas ricas pedrarias, plumas, flores,
+mais brancas do que os vossos diamantes!
+Zombai ao pé dos vinhos, dos licores,
+das baixellas lavradas, dos amantes,
+d'esta cousa tão comica e sem nome...
+d'um Genio pobre e que morreu de fome!
+
+E o velho riu--Ah! de que serve, é certo,
+um Genio infeliz? um portador, de lyra!?
+de que serve dos Prantos no deserto
+um instrumento que uns sons doces tira?!
+Um Genio é lava que importuna ao perto,
+e um grande craneo que o talento inspira,
+se com seu canto consolou as almas....
+que coma o louro e as triumphantes palmas!...
+
+Ah! que servem andar como pharoes,
+como Moyzés a conduzir um povo,
+alvoroçando as almas para os soes,
+n'um canto heroico, original e novo?
+Se com os prantos d'estes rouxinoes
+que alvoroçam e turbam, me commovo,
+talvez vos choque e ás almas verdadeiras,
+que não façam crescer as sementeiras!
+
+E o velho riu. As glorias do Passado
+dos heroes e dos feitos d'outra edade
+nos castellos, no mar illimitado,
+hoje fazem sorrir a mocidade!
+As glorias d'avós só tem o lado
+poetico de dar solemnidade
+e grandes tons magnificos, imponentes,
+nas sallas, entre as tellas de parentes!
+
+Elle, o Genio, cantou esses combates
+dos homens, e das forças do insondavel
+da eterna Dôr, naufragios, e os embates
+terriveis do que é fragil e mudavel!
+Castigou com a satyra os dilates
+do arbitrario, do injusto, e miseravel.
+Foi poeta, philosopho, e guerreiro.
+Só nunca conseguiu ser um toureiro!....
+
+E o velho sorriu amargamente,
+com um sorriso caustico, sombrio,
+n'um riso superior em que se sente
+uma alma forte que jámais falliu.
+O Conde então, bradou-lhe secamente,
+com um grande ar todo solemne e frio:
+«Antes de tudo dir-me-has primeiro,
+se és fidalgo, peão, ou cavalleiro!
+
+«E narra-nos depois, meudamente,
+a mim, aos cavalleiros e senhores,
+e ás preciosas damas, que ao presente
+t'escutam, piedosas sempre ás dôres:
+narra-nos essa historia surprehente
+d'esse genio infeliz, e esses horrores,
+que trazes, como vejo, na lembrança,
+com mais respeito que a dos pares de França.
+
+De novo tudo riu. Toda a sonora
+e ampla salla echoou com as risadas.
+Viam-se rir as boccas côr d'aurora
+das magnificas damas decotadas.
+Duquezas louras, tranças côr d'amora,
+com bellas mãos, macias, delicadas,
+abafavam o riso em transparentes
+lenços lacerados entre os dentes.
+
+O velho ergueu-se em toda a magestade
+e bradou n'uma voz terrivel, dura,
+que fez cessar de prompto a hilaridade,
+pelo tom nunca ouvido de amargura:
+--«Ah! infeliz, indigna Humanidade
+mil vezes infeliz! se a Creatura
+sempre se risse assim do que é sublime
+ou quando o mundo se infamou n'um crime!
+
+Ah! infeliz mil vezes! se o que é nobre
+e o que é infame, ignobil, monstruoso,
+sob o Azul sagrado que nos cobre
+tivesse o mesmo aplauso victorioso!
+Maldito e excomungado fosse o pobre!
+e maldito o Destino criminoso!
+por trabalhar ainda para o mundo
+com um suor inutil e infecundo!
+
+«Maldita fosse a Vida e o ardente beijo
+do Amor que produziu a Creação,
+maldito o Sonho e as azas do Desejo
+maldito o Pranto, a Ancia, e a Aspiração!
+Despenhada mil vezes sobre um brejo
+de insondavel miseria e humilhação
+o mundo se abysmasse n'um inferno
+do implacavel, ancioso gelo eterno!
+
+«Maldito fosse tudo o que suspira,
+maldita a Dôr, mais o soluço Humano,
+maldita a Alma e a lagrima da Lyra,
+maldito tudo quanto é grande e insano!
+Que sobre o mundo horrivel, onde gyra
+a serpente da Idea no oceano
+da treva, o derradeiro homem horrendo
+expirasse, ainda rindo, e maldizendo!
+
+«Agora, quanto a mim, ó altas damas
+magnificas, divinas, scintillantes,
+e cujos bellos olhos teem mais chammas
+do que os olhos dos rigidos brilhantes,
+antes d'ouvirdes os funestos dramas
+da fome, horrorisai-vos, sabei antes
+que eu sou só um plebeu vil que trabalha,
+e que saio das ondas da canalha!
+
+«Senti tambem em mim o fogo ardente
+da Lyra perpassar-me pela fronte,
+e amei tudo o que é justo e que é potente,
+e meus irmãos chamei ao bosque e ao monte.
+Nos desertos castellos do Occidente,
+ás nuvens côr de sangue do horisonte,
+tambem eu fui sentar-me nas collinas,
+a chorar sobre as glorias e as ruinas!
+
+«Mas o Genio infeliz, o vulto immenso
+o heroe cantor vencido pela morte
+esse que me perturba, quando penso
+no implacavel da tyrana Sorte,
+esse que já entrou no bosque denso,
+que já partiu o muro bronzeo e forte,
+que em breve vão deitar na escura valla,
+esse, só de eu fallar... treme-me a falla!»
+
+O velho então contou a trabalhosa
+lenda do Genio, a musa, e seu destino,
+a intuição da Natureza rumorosa
+da flor, da sombra, e rio crystallino.
+Como o Sol pae das plantas, e da rosa,
+penhasco alcantillado e voz do sino,
+Vegetações, florestas, nuvens, ventos,
+e cellulas, raizes, pensamentos;
+
+tudo que é vida que tem alma e sente,
+tudo que é flor suave e tem perfume,
+tudo que é aza e corta o ar luzente,
+tudo que é astro, brilha ou que tem lume,
+tudo que foge liquido e corrente,
+tudo que em corpo e alma se resume,
+tudo que é bello como o sol na alfombra
+ou fundo e triste como a voz da Sombra,
+
+todo esse vasto Todo verde e bello,
+toda essa santa Natureza enorme,
+o luar como a folha d'um cutello,
+o minerio que crêem que só dorme,
+as heras nas ruinas do castello,
+os mulluscos e a larva humilde e informe,
+tudo isso bello ou feio que se ostenta,
+tem voz, tem alma, chora e se lamenta!
+
+Mas que o Genio no meio d'isto tudo
+soffre mais, porque entende estes lamentos!
+Elle traduz a Dor d'isso que é mudo,
+e resume os geraes desolamentos!
+Não tendo contra a Sorte um outro escudo
+que não sejam seus fortes pensamentos,
+passa curvado n'um pesar profundo,
+--sentindo em si o mal de todo o mundo!
+
+E todos escutavam silenciosos
+damas, barões, religiosamente,
+os sentidos geraes mysteriosos
+das palavras do velho extranho e ardente.
+E cuidavam ouvir os mil chorosos
+e soluçantes ais, longinquamente,
+das subterraneas Cousas infelizes:
+os ais da planta e os choros das raizes!
+
+Elle pintou depois o Genio, quando
+deixou prender seu forte coração
+nos sorrisos d'um gesto puro e brando,
+e vagou na torrente da Paixão.
+Como feridos rouxinoes cantando,
+os seus versos resavam da afflição,
+das tragedias, desgraças e dos brados
+dos tristes corações despedaçados.
+
+E as palavras sentidas, violentas
+do plebeu calavam pelos peitos,
+e sentiam-se ouvir como os tormentos
+dos grandes corações santos desfeitos.
+Parecia-se sentir as suarentas
+e desvelladas noutes sobre os leitos
+diamantes separados, solitarios,
+mais gelados que os leitos funerarios!
+
+Desenhou-o depois triste e exilado,
+por todo o mundo errante peregrino,
+vagando como heroe, como soldado,
+açoutado do vento do Destino:
+e o seu rude pezar fundo e divino
+da grande viuvez do ente amado,
+pondo-o nas rochas tragico e proscripto,
+de braços levantados ao Infinito.
+
+E todos escutavam, surprehendidos,
+essas desgraças barbaras sepultas
+no mysterio do olvido, e esses gemidos
+e essas sagradas lastimas inultas.
+Barões e cavalleiros commovidos
+enxugavam as lagrimas a occultas,
+e as pallidas senhoras soluçantes
+alagavam com prantos os brilhantes.
+
+Depois pintou o horror da tempestade
+e o assobio dos ventos nas procellas,
+dos naufragios a lugubre verdade,
+um navio sem mastros e sem vellas.
+E o Genio do mar na immensidade,
+á fria claridade das estrellas,
+entre as ondas, os ventos, os espantos,
+salvando o grande o livro dos seus cantos.
+
+Depois mostrou-o pallido, quebrado,
+no fundo d'uma lugubre enxovia,
+no declinar da vida, envergonhado,
+preso pela Injustiça, e Cobardia.
+Pintou ao fundo tragico e assentado,
+na misera masmorra humida e fria,
+o Desespero torvo e macilento,
+irmão magro e infernal do Desalento.
+
+E do plebeu nas phrases singulares
+sentia-se o glacial dos luares frios,
+os rugidos dos ventos pelos mares,
+o desfazer das taboas dos navios:
+as fundas despedidas, e os pesares
+dos adeuses nos carceres sombrios,
+e um vento a soluçar como um açoite
+do Destino, rasgando a eterna noite.
+
+E todos escutavam, surprehendidos,
+essas desgraças barbaras sepultas
+nos mysterios do olvido, esses gemidos
+e essas sagradas lastimas inultas!
+Barões e cavalleiros commovidos
+enxugavam as lagrimas a occultas,
+e as pallidas senhoras soluçantes
+banhavam com seus prantos os brilhantes.
+
+Depois contou as noutes innarraveis
+da Miseria, e da Neve as ladainhas,
+sobre os gelos os grandes miseraveis,
+em attitudes tragicas, mesquinhas.
+Desenhou os carvalhos formidaveis
+em lugubres lençoes, as andorinhas
+fugidas, procurando outros paizes.
+E sempre! sempre a Fome! e os Infelizes!
+
+Depois narrou a rude lucta immensa
+com todas as potencias da Desgraça,
+e o Genio atravessando a névoa densa,
+como um espectro livido que passa:
+as lagrimas da Fome e da Doença,
+e o mendigar do escravo sobre a praça,
+pedindo supplicante á turba e ao mundo
+esmola para um Genio moribundo.
+
+Pintou a morte d'esse escravo amigo,
+e o Genio inda mais triste e no abandono
+da força d'esse servo, seu abrigo,
+dos amigos, dos nobres, e do throno.
+E o terrivel guerreiro do inimigo
+pintou em noutes lividas, sem somno,
+velho, dobrado, pelas névoas cruas,
+faminto á chuva, e ao vento, pelas ruas.
+
+Pintou depois, chorando, a ultima scena
+e da tragedia o derradeiro acto,
+e essa cabeça pallida, serena,
+no frio travesseiro d'um grabato.
+Desenhou esse hospicio, uma gehena,
+onde vai terminar muito apparato,
+e depois, ai! depois, fria e fatal
+a desolada lagrima final!
+
+Quando acabou, sentia-se na salla
+o ruido dos choros suffocados,
+e os soluços e as lastimas que exala
+a Dôr nos corações muito abalados.
+O Conde estava em pé, hirto, e sem falla,
+hirtos, sem falla, em pé, os convidados,
+e as damas atiravam soluçantes,
+ás plantas do plebeu os seus brilhantes.
+
+«Guardai--o velho disse--altas senhoras!
+as vossas bellas joias preciosas,
+que já de nada servem n'estas horas
+ao que morreu, sem vossas mãos piedosas.
+Prendei-as novamente ás tranças louras,
+que o cantor, n'estas horas luctuosas,
+para ir enterrar-se, á luz do sol,
+carece só da esmola d'um lençol!
+
+O Conde deu uma ordem. N'um momento
+um nitido lençol pagens trouxeram.
+Ao pegar-lhe no rosto macilento
+do plebeu as lagrimas correram.
+«Eu chóro--bradou elle--esse talento,
+esse craneo que as lagrimas arderam,
+e que em premio do genio que trabalha
+só teve por esmolla esta mortalha!
+
+«Este lençol váe ser o teu sudario
+ó grande Genio! que rollaste á praia
+da Morte, desgostoso e solitario,
+mais branco do que a lua que desmaia.
+Quando soar teu sino funerario,
+e no teu craneo a campa rasa caia,
+chorai damas, barões, n'um chôro fundo
+a maior alma que deitou o mundo!
+
+Essas faces chorai, as quaes araram,
+as lagrimas do abandono e da desgraça,
+as quaes como carvões rubros queimaram,
+ou como um vento d'areal que passa:
+este craneo chorai, de cuja taça
+as lagrimas de sangue s'entornaram,
+e este lençol sabei damas, barões
+vai embrulhar o corpo de Camões!
+
+E novamente as lagrimas correram,
+e os soluços de novo rebentaram,
+as côres novamente se perderam,
+e os convivas em pé se levantaram:
+os lacaios o passo suspenderam,
+muitas damas mimosas desmaiaram,
+como caiem as lagrimas internas
+nas funeraes separações eternas.
+
+O velho ia a sair. Porem o Conde
+o deteve e bradou:--«Que nome é o teu
+ó homem singular, onde s'esconde
+um peito que é mais nobre do que o meu?
+Por que reinos cruzaste? Dize aonde
+aprendeste, ó phantastico plebeu!
+a fallar das extranhas afflicções,
+d'um modo que sacode os corações...?!»
+
+O velho então ergueu-se, em toda a altura
+do seu corpo potente e agigantado,
+e deixou ver a athletica figura,
+de sorte que pareceu ter-se elevado.
+E então, n'um tom terrivel d'amargura,
+que deixou todo o mundo alvoroçado,
+bradou num ai, n'um grito, extranho e novo
+--Sou o Pranto do Povo e volto ao Povo!</p>
+
+
+
+
+<h2>CANTO QUARTO</h2>
+
+<h3>A Lagrima de Marmore</h3>
+
+
+<p class="poesia">Essa lagrima immovel que se gela
+sobre as palpebras roxas dos finados,
+e que eu já vi rollar funesta e bella
+nas faces de dous entes bem amados,
+o que é que ella nos diz? que nos revella
+de profundos desejos decepados,
+d'inauditas ou intimas desgraças,
+que são as flores funebres das Raças?!
+
+O que é que ella nos diz, que nos remove
+até ao mais profundo das entranhas,
+triste como flor onde não chove,
+no cume inacessivel das montanhas?!
+Dirá ella um desejo que já houve,
+cheio de dôr e aspirações extranhas,
+e expirou e morreu n'um mundo falso
+como um amor ao pé d'um cadafalso!?...
+
+Quando a Fome colheu do moribundo
+a lagrima de marmore dorida,
+poz-se logo a caminho pelo mundo
+e foi vendel-a aos Principes da Vida.
+Mas alguns, num desdem fino e profundo,
+riram da triste offerta nunca ouvida:
+outros tiveram um horror absorto
+ao verem uma lagrima d'um morto!
+
+Lembrou-se então d'um Principe potente
+que vive n'um payz todo de gelo,
+que ama tudo que é gélido, inclemente,
+e frio como a folha d'um cutello.
+Penetrou no palacio refulgente,
+todo cheio de marmore e ouro bello,
+e onde elle desvellava insomnias cruas
+no meio de milhões d'espadas nuas.
+
+Quando o Cesar cruel viu esse pranto
+de que gostou seu genio monstruoso
+á Sombra disse--Acho um secreto encanta
+n'este gélido objecto curioso!...
+Deixa-a ficar que causará espanto
+ao meu povo selvagem tenebroso,
+e assim lhe ensine n'um terror mortal
+como é que gela a lagrima final!
+
+Porém da noute no silencio frio
+quando o Cesar dormia no seu leito
+esta lagrima ao Principe sombrio
+infundia-lhe um tragico respeito.
+Das visões no terrivel desvario
+via da Morte o ultimo tregeito:
+e as caveiras sem olhos, nem narises,
+de todos os sinistros infelizes!
+
+E a lagrima implacavel e severa
+accusava-o de todos os seus crimes
+dos seus instinctos tragicos de fera,
+dos mortaes que dobrava como vimes,
+dos irmãos e dos Paes que elle prendêra,
+e das almas viris, fortes, sublimes,
+a quem seu braço sem cessar enterra
+pelas entranhas humidas da terra!
+
+E o Despota na lagrima parada
+lia a lenda de todos que sem nome
+sobre a neve, ou na mina bronzeada
+tinham morrido esqualidos de fome:
+via os prantos da plebe esfarrapada
+que n'um suor esteril se consome:
+e os clamores formidaveis, justiceiros,
+dos prantos de milhões de mineiros!...
+
+Fugiu logo do leito insupportavel,
+e por todo o palacio vaga errante.
+De manhã chama a Sombra miseravel
+e entrega-lh'a, com mão febrecitante:
+Leva d'aqui--lhe grita--esse implacavel
+tormento, que é mais frio que um brilhante,
+porque de prantos tenho um cemiterio
+no gelo excepcional do meu imperio!
+
+Lembrou-lhe então á Fome ir offertal-o
+de Roma ao mais sinistro inquisidor.
+Deixa á porta o seu pallido cavallo.
+Penetra cheia d'um mortal terror.
+Quando o sicario a viu sentiu abalo
+e disse á Fome--Eu gosto d'esta flor
+que florece nos mortos, como lyrios
+que gelaram nos olhos dos martyrios!
+
+Porem da noute no silencio enorme,
+a fixidez da lagrima impassivel
+olhava-o como um olho frio e informe,
+e accusava-o de tudo que ha de incrivel,
+Accusava-lhe a alma, antro desforme;
+e estendia-lhe então n'um sonho horrivel
+de eternos prantos um gelado mar
+--como uma immovel solidão polar.
+
+E ao bandido lembravam-lhe as torturas
+dos que vira morrer nos seus flagicios,
+de todas as sinistras creaturas
+a quem passara a esponja dos supplicios.
+E as disformes e energicas figuras,
+com blasphemias, gritavam-lhe os seus vicios,
+e entre injurias, mostravam, justiceiras
+os braços calcinados das fogueiras.
+
+Envia de manhã chamar a Fome,
+e á Sombra grita com sorriso duro,
+podes levar a lagrima sem nome,
+e esconde-a bem no antro mais obscuro.
+Como uma pedra que o abysmo some
+faze que ella se suma; e no futuro
+não me tragas jamais estes espelhos
+dos que morreram contra os Evangelhos!
+
+Quando a Fome largou os dous sicarios
+foi procurar o rei dos mais banqueiros,
+que era tambem senhor dos usurarios,
+cujos navios eram aos milheiros.
+O palacio valia os mil erarios
+dos principes mais ricos estrangeiros.
+E as suas sallas tinham cem figuras
+das mais raras e nuas esculpturas.
+
+Quando o banqueiro viu a extranha offerta
+disse n'um tom ironico e orgulhoso,
+«A vida d'um poeta é pobre e incerta!
+Mais mesquinho o seu pranto angustioso!
+Comtudo, como a fome vil te aperta,
+guardarei este pranto curioso,
+e na alcova a porei, como memoria
+de que vai tudo Ouro, e nada a Gloria!
+
+Porem, de noute no silencio fundo,
+a lagrima impassivel fixa, dura,
+recordava-lhe os prantos que no mundo
+fizera derramar a sua usura.
+E n'um estar immovel e profundo,
+como um espectro d'uma sina escura,
+todos choravam, n'este pesadello,
+--inconsolaveis lagrimas de gelo!
+
+Levantou-se o banqueiro torturado
+e mal a aurora avermelhou a terra,
+chamou a Fome, e livido, aterrado,
+disse á Sombra--«Confessa-me o que encerra
+esse impassivel pranto amargurado
+que não sei o que tem me gela e aterra,
+tendo eu só n'estas salas cem figuras
+das mais ricas marmoreas esculpturas?»
+
+«Não sei--a Sombra disse:--Teem-me dito
+o mesmo, muitos grandes assassinos.
+É que esse pranto foi talvez o grito
+do Genio contra o injusto dos destinos.
+É que o Genio é o açoute do Infinito
+contra os crimes, e os grandes desatinos,
+e mesmo sob os goivos mortuarios
+regela ainda as almas dos sicarios!
+
+Depois d'isto ninguem mais quiz o pranto!
+Todos riam do extranho d'essa offerta.
+Uns fugiam da Fome com espanto.
+Outros julgavam-lhe a razão incerta.
+Uma virgem, porem, d'um rosto santo
+bradou, a face de rubor coberta:
+--Eu amei d'um poeta a fronte amada!
+Ai! quem déra essa lagrima gelada!
+
+«Porem nada te dou, por que sou pobre,
+a ti que és pobre como eu sou tambem.
+Sobe acima do azul que a todos cobre,
+acima dos Despresos, do Desdem.
+Sobe acima da Dôr que é grande e nobre,
+mais acima dos astros, mais além
+do Egoismo, da Inveja, e da Cubiça,
+e vai leval-a ao throno da Justiça!
+
+Então a Sombra abandonou o mundo,
+e ergueu-se logo acima das espheras,
+longe da Besta d'Ouro e Vicio immundo,
+para longe dos Tempos e das Eras,
+perto do abysmo do insondavel fundo,
+onde teem corpo as lucidas chimeras:
+montada n'um cavallo horrendo e feio,
+sem estribos, sem redeas, e sem freio.
+
+Quando ella contemplou em baixo a terra,
+humillimo planeta grão d'areia
+preza do Tempo e insaciavel Guerra
+e onde a raça dos mortaes ondeia,
+ella que nada já commove e aterra,
+que nenhum pranto d'um estranho anceia,
+sentiu brotar no secco coração
+a rubra e extranha flor da Indignação.
+
+Ella atravez passara d'almas, vidas,
+e dos martyres lugubres descalços,
+das jovens mães crueis infanticidas,
+das illusões e dos sorrisos falsos,
+atravez das eternas despedidas,
+dos crimes, dos incestos, cadafalsos,
+e de todos os crimes e desgraças
+que são os fructos tragicos das Raças.
+
+Ella atravez passara d'essas almas
+aonde em prantos s'escreveu <i>jámais</i>,
+das grandes solidões das neves calmas,
+atravez das galés, dos hospitaes,
+atravez das blasphemias e dos ais,
+das glorias, dos triumphos, e das palmas,
+e atravez sempre! sempre! do gemido
+do Genio eternamente perseguido.
+
+Por isso quando foi perto do throno
+da terrivel Justiça, da Immutavel,
+ia ainda indignada do abandono
+em que se afunda o Genio inconsolavel.
+Como os nordestes varrem pelo outomno
+as roseiras, assim ella implacavel,
+tinha varrido toda a piedade
+contra a dura e egoista Humanidade.
+
+Mal a viu a Justiça disse--ó Fome
+o que é que trazes da sombria Terra?
+Trazes um ai do que morreu sem nome?
+Sonho de virgem que teu braço enterra?
+Trazes um riso que o infeliz consomme?
+Ultimo beijo em que um amor s'encerra?
+Trazes um grito, um desalento fundo?
+Trazes um pranto de que riu o mundo?
+
+Trago mais que isso replicou sombria
+a magra Fome, apresentando o pranto:
+--Eu trago-te esta lagrima tão fria
+como o gume da Espada justo e santo.
+Eu trago-te este pranto d'agonia,
+e que a ti mesmo causará espanto,
+pranto que gelou como uma esperança,
+pranto que clama um grito de vingança!
+
+A Fome então narrou, succintamente,
+a historia da lagrima marmorea.
+Narrou toda essa vida descontente,
+toda essa tragedia tão sem gloria;
+seu genio, seu destino, e febre ardente
+do Bello, e de gravar-se na memoria,
+e esse pranto tão triste e tão profundo,
+que só o quiz uma mulher no mundo!
+
+Ao acabar ergueu-se ferozmente
+a Justiça em seu throno, commovida,
+e clamou com um brado omnipotente
+tal que as origens abalou da Vida:
+«--Eu juro pelo sangue do innocente,
+por mim, por esta lagrima caida,
+pelo Ceu, pela Dôr, e pelo Espaço,
+por minha espada, e força de meu braço;
+
+por tudo que ha de justo e de terrivel,
+por tudo que ha de santo e d'implacavel,
+pelo pranto que cae no Invisivel,
+e o soluço que rolla no insondavel,
+que não destruo ó mundo, ó insensivel,
+planeta! essa vida miseravel,
+por ter havido uma mulher que quiz
+um desolado pranto d'infeliz!
+
+«Mas já que o não quizeste ó Terra fria,
+quero-o eu, de continuo, na presença!
+Quero tel-o de noute, quer de dia,
+como um sonho constante em que se pensa!
+Quero ter esta lagrima sombria,
+para um dia lavrar tua sentença!
+Quero tel-o ante mim, como lembrança:
+para lembrar-me de que sou Vingança!
+
+«Quero tel-o ante mim, ah! como um grito,
+que me recorde os tristes que sem nome
+hão estendido os braços no Infinito,
+na sêde de Justiça que os consome!
+Quero tel-o ante mim, como o afflicto
+brado do Genio que morreu á fome,
+e que vos prove d'esta espada os brilhos,
+de que vós, ó Poetas, sois meus filhos!»
+
+Assim disse a Justiça. E desde então
+ante ella jaz o pranto eternamente,
+para provar que se não verte em vão
+a lagrima, na terra, do innocente:
+que a natureza é mãe, e o Genio irmão
+do espirito dos astros refulgente
+e que a Justiça sopra a sua ira
+nas cordas vingadoras d'uma Lyra.
+
+Eu não sei se entendestes o sentido
+Occulto e justo d'esta allegoria,
+se fiz ondular bem a vosso ouvido
+os tenebrosos sons d'esta agonia?
+E vós, ó tristes! tristes! que haveis ido
+tranzidos repousar na valla fria,
+esquecidos, inglorios, sem um pranto
+a lagrima acceitai d'este meu canto!
+
+Acceitai este canto, como preito
+craneos de lava que não orna o louro!
+e emfim morrestes, porque o vosso peito
+bateu nas pedras, d'entre as nuvens d'ouro.
+Acceitai n'esta lagrima o respeito,
+vós que encontrastes só riso e desdouro!
+e que em vez do festim do que trabalha,
+não tivestes nem louros, nem mortalha!
+
+Acceitai n'esta lagrima o protesto
+de muitas gerações de rebellados
+contra o abandono insolito e funesto
+do mundo silencioso aos vossos brados!
+Em vez do riso, insulto, e do doesto,
+acceitai nossos pezames irados,
+e n'este canto, ó mortas existencias!
+os protestos de muitas Consciencias!
+
+E tu, ó mundo, aprende-o! D'ora avante
+não mates mais o Genio que irradia!
+Não s'ergam nunca mais ao ceu distante,
+Contra ti, magros braços d'agonia!
+Por que hoje, sabe-o bem! fixa e brilhante,
+está clamando e bradando noute e dia,
+acima d'Odios, Prantos, e Cubiça,
+a lagrima marmorea ante a Justiça.</p>
+
+
+<h4>FIM.</h4>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
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+
+
+End of Project Gutenberg's A Fome de Camões, by António Duarte Gomes Leal
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A FOME DE CAMÕES ***
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+Produced by Pedro Saborano. Para coment&#65533;rios &#65533;
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
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+people in all walks of life.
+
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+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
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+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
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+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
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+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
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+
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