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diff --git a/21786-h/21786-h.htm b/21786-h/21786-h.htm new file mode 100644 index 0000000..68e08e7 --- /dev/null +++ b/21786-h/21786-h.htm @@ -0,0 +1,3944 @@ +<!DOCTYPE html + PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Transitional//EN" + "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-transitional.dtd"> +<html> + +<head> + <title>Ruy o escudeiro: conto</title> + <meta name="AUTHOR" content="L. da S. Mousinho d'Albuquerque" /> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1" /> + <style type="text/css"> + + body {width: 80%; margin-left:10%} + + h1, h2, h3, h4 { text-align: center} + h1 {margin: 2em; text-align: center} + h2, h4 {margin-top: 2em} + + .author {font-family: serif; font-weight: bold} + + .poesia { white-space:pre; text-align: left} + + .caixa_quote { margin: 5%;margin-left: 50%; text-align: right; font-size: 0.8em} + .assinatura {text-align: right} + .ficha_tecnica {text-align:center} + + .indice {text-align:left; margin-left: 40%} + + .small-caps { + font-variant: small-caps; + } + + </style> +</head> +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Ruy o escudeiro: Conto, by +Luís da Silva Mousinho de Albuquerque + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Ruy o escudeiro: Conto + +Author: Luís da Silva Mousinho de Albuquerque + +Release Date: June 9, 2007 [EBook #21786] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RUY O ESCUDEIRO: CONTO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano. Para comentários à transcrição +visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was +produced from scanned images of public domain material +from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<div class="ficha_tecnica"> +<h1>RUY O ESCUDEIRO.</h1> + +<h2>Conto.</h2> + +<p>POR</p> + +<p class="author">L. DA S. MOUSINHO D'ALBUQUERQUE.</p> + +<div class="caixa_quote"> +<p class="poesia">Remedios contra o somno buscar querem, +Historias contão, casos mil referem.</p> +<p><span class="small-caps">Camões, Lusiadas, Canto 6.º, Est. 39.ª</span></p> +</div> + +<p>LISBOA:<br /> +1844.</p> + +<p><i>Typ. da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis. Largo do +Pelouriho, N.º 24.</i></p> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<p><i>O manuscripto original do presente Poema foi dadiva generosa de seu +illustre Auctor, feita á Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis, que +desejando corresponder a tão obsequioso offerecimento empenhou os recursos +artisticos, de que podia dispor, para que a edição fosse primorosa, e +provasse o adiantamento da gravura em madeira e da typographia em Portugal +nestes ultimos annos.</i></p> + +<p class="assinatura"><i>Os Editores.</i></p> + + + + +<h1>RUY O ESCUDEIRO.<br /> +<img src="images/HCanto1.png" alt="RUY O ESCUDEIRO" align="middle" border="0" /></h1> + + + + +<h2>CANTO PRIMEIRO.</h2> + +<div class="caixa_quote"> +<p class="poesia">Desbaratado, e roto o mouro hispano, +Tres dias o grão Rei no campo fica.</p> +<p><span class="small-caps">Camões, Lusiadas</span>, C. 3.º, E. 53.ª</p> +</div> + + +<p class="poesia"><img src="images/DCanto1.png" alt="A" border="0" align="bottom" /> Cruz azul, que em campo prateado +No escudo de Henrique reluzia, +Em cinco o Filho já tinha cortado +Por memoria dos Reis, que roto havia: +De Castro-verde o campo dilatado +O novo Rei com o arraial cobria, +Livres os seus, e os mouros fugitivos, +Partião os despojos, e os captivos.</p> + +<p class="poesia">Do arraial no meio se elevava +Do grande Affonso a lenda triumfante, +Em torno á qual o vento balançava +As dos Cabos do Exercito prestante, +De Pero Pais, que seu pendão guiava, +Dos Venégas do Aio prole ovante, +De um Sousa, de um Vallente, e de outros fortes +Nos perigos, e na gloria ao Rei consortes.</p> + +<p class="poesia">Em seguida á do Rei se distinguia +Tenda semi-real, que alli plantára +Heroe, cujo valor não desmentia +O sangue da Borgonha, que o formára; +Pedro Affonso, a quem déra a luz do dia +Amor, que o hymineo não consagrára, +Digna estirpe de Henrique, e em obras suas +Galardão do cuidado ao aio Fuas.</p> + +<p class="poesia">No circumstante campo, vasto, aberto, +Que inda ha dois sóes medroso, e trepidante +Víra a furia cruel, conflicto incerto +Do Sarraceno em lanças abundante +Contra o Christão, que anima o Chefe experto, +E no Deus de seus pais a fé constante, +Trombetas, e ataballes uns tangiam, +Outros em novo canto assim diziam.</p> + + +<h3>HYMNO.</h3> + +<p class="poesia"> Vai fugindo o Sarraceno + Mais prompto do que avançou, + Que todo o poder terreno + Por Christo desbaratou + O braço aos perros fatal + De Affonso de Portugal.</p> + +<p class="poesia"> Cada um dos Cavalleiros, + Que por Christo ao campo vem, + Cem dos infieis guerreiros + Na peleja ante si tem; + Mas tudo cede ao real + Affonso de Portugal.</p> + +<p class="poesia"> Cinco Reis de infieis mouros + Contra os de Christo vieram, + D'elles teve Affonso os louros, + As costas a Affonso deram, + Deu Deus esforço immortal + A Affonso de Portugal.</p> + +<p class="poesia"> Sobre o campo da victoria, + Onde Christo lhe appar'ceu, + E pr'a o escudo em memoria + As proprias Chagas lhe deu, + Ao throno alcemos real + Affonso de Portugal.</p> + +<p class="poesia"> Este Heroe, que Deus ajuda + Tome a nossa vassallagem: + Sempre ao povo seu acuda + Ou Elle, ou sua linhagem: + Seja pr'a sempre real + A coroa de Portugal.</p> + +<p class="poesia"> Sempre entro nós haja Rei + Natural de nossa terra, + Que na paz conduza a grei, + E que a defenda na guerra, + Qual o primeiro real + Affonso de Portugal.</p> + +<p class="poesia">Em quanto uns assim cantam dos soldados, +Vão outros pelo campo divagando: +Estes colhem despojo inda espalhado, +Aquelles secco matto vão cortando; +Ascende ao ár o fumo, que enrolado +Das accezas fogueiras vem manando, +Onde est'outros preparam o alimento +Dos membros lassos próvido sustento.</p> + +<p class="poesia"> Já o Sol menos ardente + Para o ponente descia, + Temperando a calma do dia + A fresca brisa nascente, + No occaso reluzente, + De ouro e de purpura ornado, + Guarnece o ceo azulado + A orla de nevoa espessa, + Novo dia que arremessa + Pintando um dia acabado. + Tinha chegado + A hora amena, + Nos nossos climas + Tão suave, tão doce, e tão serena, + Hora, que em tempos + De paz dourada, + Dos lavradores + É tão presada; + Quando termina + Do dia a lida, + Quando o descanço + Restaura a vida. + Sopra da tarde + Grata frescura + Reanimando + Murcha verdura. + Vem o novilho, + Já libertado + Do duro jugo, + Pascer no prado. + Sobem dos campos + Os segadores. + Ledos cantando + Ternos amores. + Gentil mancebo, + Que amor encanta, + Ao som das córdas + As penas canta, + Em quanto em giros + Linda pastora + Co'a dança leve + Mais o namora, +Hora sem par, em que o cadente dia +Traz repouso, ternura, e alegria!</p> + +<p class="poesia">Pedro Affonso no emtanto, em cujo peito +A pár da intrepidez móra a piedade, +Guerreiro sem igual, Christão perfeito, +Vai demandando a erma soledade +Do provecto Ermitão, asilo estreito +Onde fugindo as pompas, e a vaidade, +A Deus e á penitencia consagrára +O venerando velho a vida cára.</p> + +<p class="poesia">N'uma colina, apenas exalçada +Sobre a vasta planicie calorosa, +Uma exigua Capella era elevada +N'aquella idade barbara, e piedosa: +Do velho Ermita a cellula acanhada +Jazia ao lado, uma sobreira annosa, +Co'a larga rama o tecto protegia, +E do profano olhar a defendia.</p> + +<p><img src="images/ICanto1.png" alt="Ermida" align="middle" border="0"/></p> + +<p class="poesia">Ante a porta do sacro monumento +Com toscos páus estava retratado +O sacrosanto lenho do tormento, +Em que o Filho de Deus fôra pregado: +Dentro sculptado via-se o momento +Em que o Corpo sem vida, reclinado +Da Mãi nos braços, vai, qual creatura. +O Creador baixar á sepultura.</p> + +<p class="poesia">Alli da noute na primeira vela +P'ra o Rei, do sacro livro possuido, +A campana soou, que o tempo assella +Do celeste Emissario promettido, +P'ra que em luz, que a do Sol mais clara e bella +Fosse Christo por elle percebido, +Promettendo-lhe a coroa, e a victoria +Da sua estirpe, e do seu povo a gloria.</p> + +<p class="poesia">Naquelle instante o velho venerando, +De giolhos aos pés da Cruz alçada, +Estava o fim do dia consagrando, +Como do dia consagrára a entrada. +Raros alvos cabellos fluctuando +Se viam sobre a frente despojada; +E a barba, que lhe o vento sacudia +Em ondas, sobre o peito lhe descia.</p> + +<p class="poesia">Na piedosa oração todo engolfado +Estava o santo velho por tal sorte, +Que nem sequer sentiu chegar-lhe ao lado, +Do Escudeiro seguido, o Varão forte. +Pedro Affonso parou, seu peito, armado +De audacia contra os perigos, contra a morte, +Toca a vista do Ermita por tal geito, +Que não sabe se é medo, se respeito.</p> + +<p class="poesia">Mas o moço Escudeiro, que o seguia +Bem diversa impressão experimentava, +Do Ermita a quietação, quasi a apathia +Da sua alma c'o estado contrastava; +Em seu peito um volcão latente ardia, +Dos desejos no pelago nadava, +Estava n'essa idade, em que o repouso +É não só mal; mas mal o mais penoso.</p> + +<p class="poesia">Ruy era o seu nome. Á luz viera +Sob o tecto paterno junto ao Douro; +Seu Pai, no nome igual, a vida dera +Com Henrique pugnando contra o mouro. +Jámais paterno affago conhecera, +Que a triste viuvez, envolta em chôro +Ruy, unico bem que lhe restára, +No berço filho posthumo embalára.</p> + +<p class="poesia">Unica flôr, que lhe esmaltasse a vida, +A mãi no tenro filho cultivava, +Nelle a imagem do pai, reproduzida, +Embellezada ainda, idolatrava. +No Joven desde a infancia alma atrevida +Namorada da gloria se mostrava, +Com coração ardente, e generoso, +E a um tempo amante, meigo, e carinhoso.</p> + +<p class="poesia">Indole a tudo prompta, a tudo ousada +No porte do mancho transluzia: +Na estatura esbelta, e levantada +Co'a ligeireza a robustez se unia: +Sobre a frente morena, e dilatada +A negra liza comma lhe descia, +Nos olhos vivos, e de côr escura +Temperava o fogo bellico a ternura.</p> + +<p class="poesia">Não era lindo, não, que expressão tanta +Destroe a symetria da lindeza; +Porem mais do que o lindo arrastra, encanta, +Interessa, move, e a attenção tem presa. +Sem ter severo olhar, que o riso espanta, +Séria a sua expressão, toca em tristeza, +Trasborda n'ella uma alma forte e ardente, +Que tudo póde ser, salvo indiff'rente.</p> + +<p class="poesia"> Tal era formado + No vulto, e nas cores, + Que era a Marte asado, + Era asado a amores. + Qual brilha entre as flores + O cravo fragrante, + Tal elle prestante + Entre os mais brilhára, + Ou tal se elevára + Entre os companheiros, + Como nos outeiros + O olmo alteroso +Sobre o bosque ergue o cume alto, e frondoso.</p> + +<br /> +<p class="poesia">No patrio tecto, desde o berço vira +Do nobre pai o escudo pendurado, +A cota, que inimigo ferro abrira, +Inda tinta do sangue não vingado. +Mil vezes entre pranto á mãi ouvira +Contar paterna gloria e triste fado, +Mil co'a infantina mão tocado havia +A herdada lança, que ha brandir um dia.</p> + +<p class="poesia">Entre memorias taes do patrio dano +Do filho de Ruy crescera a idade; +Volvido haviam já anno apoz anno +Conduzindo o vigor da mocidade, +Quando a mãi, que respeita como arcano +Do extincto Esposo a ultima vontade, +No dia em que seu lucto revivia +Ao filho bem amado assim dizia.</p> + +<p class="poesia">«Martyr da fé Christãa teu Pai na guerra +«Pela Cruz deu a vida peleijando; +«Fatal golpe o prostrou na propria terra, +«Que para Christo andava conquistando. +«Ah! se lá donde o summo bem se encerra +«Elle, oh filho, nos vê, ver-me-ha chorando, +«Dar-te o preceito, que houve do Consorte +«Quando a alma entregou nas mãos da morte.</p> + +<p class="poesia">«Alli fica, me disse, aquella lança, +«Que só de infiel sangue foi manchada, +«Alli deixo esse escudo por herança, +«Esse elmo, essa cota, e essa espada: +«Se o summo Deus tiver de nós lembrança, +«E que um filho haja em ti, oh bem amada, +«Meu nome lhe darás, e essa armadura +«Sob a qual encontrei a morte dura.</p> + +<p class="poesia">«Dar-lhe-has esta Cruz. Isto dizendo +«Do peito a separou por vez primeira, +«E o braço, já sem força, a custo erguendo, +«Aos labios a levou por derradeira. +«Dir-lhe-has, que se a paz acho morrendo +«A esta insignia a devo verdadeira, +«Devo-a de Christo á fé, que a vida guia, +«Que ensina a fallecer sem agonia.</p> + +<p class="poesia">«Dize-lhe que a conserve ao peito unida, +«Que ao lado seu cinja a paterna espada, +«Aquella p'ra o guiar á eterna vida, +«Esta p'ra ser a seu Senhor votada; +«Que indomito na pugna asp'ra e renhida, +«A fraqueza respeite desarmada; +«Que preze a honra; fuja da cobiça, +«E da moleza vil, que o vicio atiça.</p> + +<p class="poesia">«Assim fallou teu Pai.... e a penetrante +«Ferida em rouxo sangue se esvaia. +«Sumiu-se a voz no peito palpitante, +«Aos olhos se apagou a luz do dia: +«Soou da minha dita ultimo instante, +«Já d'esta alma a ametade não vivia; +«Mas dentro de meu seio palpitava +«Penhor, que a ficar viva me obrigava.</p> + +<p class="poesia">«Vivi, a força achei, que me vigora +«No maternal amor, oh filho amado, +«Cáro penhor de um laço, doce outr'ora; +«Mas roto, quando apenas estreitado! +«A ti mancebo, a ti pertence agora +«Restituir-me aquelle que hei chorado, +«Se, como espero, em ti vir renascida +«A virtude d'essa alma ao ceo subida.</p> + +<p class="poesia">«Da tua infancia os dias acabaram, +«Já teus membros tem força e tem destreza, +«Aquelles, que o esposo me roubaram, +«Saibam que não fiquei só, sem defeza. +«Sangue vil minhas veias não herdaram, +«Nem coração sugeito a tal fraqueza, +«Que ao filho de Ruy estorve a gloria +«De ter por Deus, e pelos seus victoria.»</p> + +<p class="poesia">De Ruy a viuva, assim fallando, +Do muro antigo as armas desprendia, +E os humidos olhos enchugando, +O filho de Ruy d'ellas cobria. +O mancebo, de nobre ardor córando. +Com respeito a armadura recebia, +Que já na dura guerra exp'rimentada, +Fôra do pai com o sangue consagrada.</p> + +<p class="poesia">Um captivo entretanto apparelhava +O bruto ardente, que se apraz na guerra, +Que impaciente o freio mastigava, +Co'a vigorosa mão cavando a terra; +Já armado sobre elle cavalgava +Quem do ninho paterno se desterra, +A procurar do mundo as aventuras, +Gratas a poucos, para tantos duras.</p> + +<p class="poesia">Da triste mãi os olhos macerados +Por largo espaço a marcha lhe seguiram; +Ao perde-lo porem entre os silvados +De uma nevoa de pranto se cobriram. +Seus animos, do filho sustentados, +Ao arrancar-se d'elle sucumbiram. +Sentiu a triste, a dôr, magoa, anciedade, +Que só conhece a maternal saudade.</p> + +<p class="poesia">Segue no emtanto o moço a varia estrada +Que o Mondego do Douro distanceia, +Na terra, dos Beroens Beira chamada, +Onde o Vouga entre as serras serpenteia, +Do Bussaco transpõe serra elevada, +E bem depressa a vista lhe recreia +Valle ameno, co'as flores e a verdura +Que nutre do Mondego a limfa pura.</p> + +<p class="poesia">De risonha colina no vertente, +Que o rio carinhoso em baixo lava, +A cidade Conimbrica é jacente, +Que então de espesso muro se cercava; +N'ella ajuntando estava armada gente +Affonso, que attacar apparelhava +O agareno Ismar chefe animoso +Do transtagano mouro bellicoso.</p> + +<p class="poesia"> Era Affonso acompanhado + D'esse Irmão, de Henrique filho + Cavalleiro de alto brilho, + Por Dom Fuas educado. + Fuas era aparentado + De Ruy com os ascendentes, + E o sangue de seus parentes + No Joven reconhecendo, + Seus destinos protegendo, + Por escudeiro o ligou + A Pedro, que o aceitou, + E entregando-lhe a lança, + Poz n'elle tal confiança, + Que como a filho o tratou.</p> + +<p class="poesia"> Lá na peleija de Ourique + No mais forte das batalhas + Rachou elmos, rompeu malhas + Ruy, com o filho de Henrique. + Ao som da tuba guerreira + Seu coração se accendeu; + Qual touro, aberta a barreira, + Com o mouro accommetteu.</p> + +<p class="poesia"> Aos golpes da herdada lança + Muitos mouros expiraram, + Muitos da espada a provança + Cáro co'a vida pagaram; + E no sangue de inimigos, + Que pela Fé derramou, + Entre azares, e perigos, + Do pai a morte vingou.</p> + +<p class="poesia">Do defunto Ruy tal era o filho, +Que Pedro Affonso ao ermo acompanhava. +Já do cadente Sol o ultimo brilho +Nas bordas do horisonte se apagava, +De altas idéas no inspirado trilho +O provecto Ermitão continuava: +Quando subito o rosto alevantando +Volveu aos dois o aspecto venerando.</p> + + +<h3>ERMITÃO.</h3> + +<p class="poesia">«Salve prole de Henrique, heroe preclaro, +«Salve sangue de Reis, a quem a gloria +«Predestinada está no assento claro +«De ter, mais que de imigos, a victoria: +«Sim, tu triumfarás do abysmo avaro, +«Do mundo calcarás pompa, e vangloria, +«Todo o fulgôr da humana heroicidade +«Sepultando no asilo da piedade.</p> + +<p class="poesia">«Onde dos teus a estirpe triumfante +«Teve origem irás, nobre e animoso, +«Do teu sangue encontrar varão prestante, +«Que em ti fecundará germen piedoso; +«Deporás a couraça rutilante, +«O elmo, o escudo, o ferro temeroso, +«Para aspirar á gloria, que não passa, +«No retiro e silencio de Alcobaça.</p> + +<p class="poesia">«Tu porem, oh mancebo, de que abrolhos +«Cheio é para ti campo da vida, +«Em que mar procelloso, entre que escolhos +«Teus de seguir a róta combatida, +«Que lagrimas amargas de teus olhos +«Devem correr, no peito que feridas +«Pungentes sofrerás, sem ter conforto +«Antes que possas recolher-te ao porto!</p> + +<p class="poesia">«Melhor fôra p'ra ti, se a natureza +«De partes menos bellas te dotára, +«Se insensivel ás graças e á belleza +«Ao pondenor, á gloria te formára, +«Se menos coração, menos viveza +«Avara p'ra comtigo te outhorgára; +«Que esse, em quem mais esmero põe natura, +«Raras vezes mimoso é da ventura.</p> + +<p class="poesia">«Os contrarios do Rei que alevantaste +«Os menores serão de teus imigos, +«Outro mais p'ra temer, outro encontraste +«Muito maior no damno, e nos perigos, +«Da dôr por esse o calix esgotaste; +«Mas, cumpridos teus fados inimigos, +«Olhará Deus p'ra ti, e á fonte pura +«Te guiará da solida ventura.»</p> + +<p class="poesia">Assim disse o Ermita, e reclinando +A cabeça no peito, alguns momentos +Recolhido ficou; alfim voltando +P'ra os dois, que quedos s'tão mudos e atentos +Acrescentou com tom solemne, e brando. +«Que somos nós mortaes, mais que instrumentos +«Dos designios de Deus, da alta sciencia +«Da insondavel eterna Providencia?</p> + +<p class="poesia">«Marcha aquelle no trilho da grandeza +«De tantos precipicios circumdado; +«Estoutro das paixões entre a braveza +«É no duro combate acrisolado; +«Nada um na abundancia e na riqueza; +«Outro é do escasso pão até privado; +«Mas se a boa ou má sorte os não illude, +«Lá tem todos a coroa da virtude.»</p> + +<p class="poesia">Estes, e outros discursos repetia +O velho, de unção cheios extremada, +Que Pedro Affonso n'alma recebia, +Qual a semente a terra preparada: +O mancebo porem a alma sentia +Com violencia tal preoccupada, +Que, orando a pár dos dois no monumento, +Tinha longe da boca o pensamento.</p> + +<p class="poesia">Mas já da noute o estrellado manto +Toda a vasta planicie acobertava, +Quando Pedro deixando o logar santo +Para o regio arraial se encaminhava; +Segue em silencio o Joven, em quem tanto +Desassocego do Ermitão gerava +O vaticinio, que debalde intenta +Dissimular a agitação violenta.</p> + +<p class="poesia"> Alertas vélas passaram, + Que do campo a guarda tem, + No arraial penetraram, + Descobrindo áquem e além + Os fógos abandonados + Pelos dormentes soldados.</p> + +<p class="poesia"> Baixou sobre Pedro o amigo + Lethargo restaurador; + Mas vigilia traz comsigo + O cuidado roedor + Que no Joven escudeiro + Deixou o Ermita agoureiro.</p> + +<p class="poesia"> Em vão suffocar tentava + Curiosidade indiscreta, + Que, mal os olhos cerrava, + Logo na mente inquieta + Se renovava a impressão + Das palavras do Ermitão.</p> + +<p class="poesia"> Assim oppresso, agitado, + Da noute as horas seguiu, + Até que o corpo cançado + Ao somno alfim succumbiu, + E o repouso ao pensamento + Deu vigor, e deu alento.</p> + +<p class="poesia"> Ao romper do dia + A trompa soava, + Cada qual surgia. + Cada qual se armava. + Aqui os infantes + Cerram as fileiras + Junto ás ondeantes + Variadas bandeiras; + Alli vem rinchando + Cavallos de guerra + O pó levantando + Da arida terra. + A rosada aurora + No aço esplandece. + Que co'a luz, que o córa, + Em chammas parece. + De todos na frente + O Rei cavalgava, + E da heroica gente + Os brios dobrava: + As Quinas sagradas + A cota lhe ornavam, + No pendão lavrados + Ao ar tremolavam. + Emtanto abatidos + A marcha seguiam + Os mouros rendidos, + Que algemas prendiam. + Assim vencedores + Os christãos marchavam, + E aos frescos verdores +Das margens do Mondego se tornavam, + Nas campinas de Ourique +Alçado rei, o heroe filho de Henrique.</p> + +<h4>FIM DO PRIMEIRO CANTO.</h4> +<p><img src="images/HCanto2.png" alt="" align="middle" border="0" /></p> + + + + +<h2>CANTO SEGUNDO.</h2> + +<div class="caixa_quote"> +<p class="poesia">A tomar vai Leiria, que tomada +Fôra mui pouco havia do vencido.</p> +<p><span class="small-caps">Camões, Lusiadas</span>, C. 3.º, E. 55.ª</p> +</div> + + +<p class="poesia"><img src="images/DCanto2.png" alt="P" border="0" align="bottom" />ara unir n'um só leito amantes aguas +Vem o Liz, sobre os seixos murmurando, +O Lena vem, nascido de entre as fraguas; +Em seu curso modesto, alegre, e brando, +Entre a relva mimosa, entre a verdura +Cada qual mollemente serpejando. +Jámais turvou a limfa clara, e pura +O forte remo, a quilha recurvada +Com que a industria mortal dóma a natura; +Sómente a braça da arvore quebrada, +A folha que no outomno cahe sem vida +Pelo placido curso foi levada. +Nas margens a aveleira entretecida +Com o espinheiro está de flôr fragante, +A madre silva co'a roseira unida. +No espelho das aguas inconstante +Reflectida balança alta ramagem +De alamo bicolôr, choupo elegante; +Dos vimes, e salgueiros a folhagem, +Molles chorões, as braças incurvando, +Vedam do sol aos raios a passagem. +Alli, na primavera, sussurrando, +Recolhe a abelha o mel por entre as flôres, +E a borboleta as beija volitando, +Quando o cantor sublime dos verdores +Da aurora ao despontar, e á tarde canta +Em frente ao brando ninho os seus amores. +A róda leve as aguas alevanta, +Que em canaes variados circulando, +Levam frescura á sequiosa planta; +Em quanto, dos invernos triumfando, +Altos pinheiros sempre verdes frontes +Reunidos se vêem aos ceos alçando +Na encosta, e cumes dos visinhos montes.</p> + +<p class="poesia">No meio d'este valle a natureza +Um penhasco erigiu, morro isolado, +Que das aridas rochas a braveza +Abruptas volve aos raios do sol nado; +Com aridez igual, igual asp'reza +Do occaso, e do sul encara o lado; +Orna-o do norte apenas a verdura +Em mais suave encosta, e menos dura.</p> + +<p class="poesia">Do forte morro ás abas se abrigaram +Da destruida Liria os habitantes, +Quando da natal terra os expulsaram +Dos romanos as armas triumfantes; +Para alli seus penates transportaram, +E da perdida patria sempre amantes, +De Liria ao novo asilo o nome deram, +Que os tempos em Leiria converteram.</p> + +<p class="poesia">De Vandalos, e Godos povoada +Foi depois, gente forte e valerosa, +Que com o tempo tambem cedeu á espada +Da sarracena raça bellicosa, +Na epocha em que a terra celebrada +Das Hespanhas sofreu perda affrontosa, +E só cantabrios serros abrigaram +Os que ao jugo africano se escaparam.</p> + +<p class="poesia">Mas alfim vencedor da maura gente, +Affonso, no penhasco edificára +Recinto marcial forte, e potente, +Que de Agostinho aos filhos confiára, +Quando do rôto Ismar a ira fremente +No povo e no presidio se vingára, +E unido a Hauzeri, mouro esforçado +Tinha de Affonso os muros conquistado.</p> + +<p class="poesia"> Ai! daquelle, que atrevido + Com temeraria ousadia + Do Leão adormecido + Os furores desafia! + O animal irritado, + De crua raiva espumando, + Corre o campo, arrebatado + Morte e ruina espalhando: + Com seus urros espantosos + A bronca serra estremece, + A luz do raio esplandece + Nos seus olhos furiosos. + Força não ha tão potente + Que a carreira lhe embarace, + Que a garra não despedace, + Que não rasgue iroso o dente: + Té que em fim o imigo alcança, + E no côrpo ensanguentado + Partido, e dilacerado, + Séva as iras e a vingança.</p> + +<p class="poesia">Assim de novo a trompa bellicosa + Nos valles retumbava, +Assim de Affonso a gente valerosa + Já de novo se armava, +E as bandeiras, que as Quinas adornavam +Os Alferes de novo ao vento davam.</p> + +<p class="poesia">Nobres, e ricos-homens á porfia + Se apromptam sem demóra +A castigar dos mouros a ousadia, + E em lide vencedora +Punir os damnos, com que Ismar irado +Todo o transito seu tinha marcado.</p> + +<p class="poesia">O escudo embraçou p'ra nobre empreza + Pedr'Affonso incansavel, +Ao Rei da crua guerra na aspereza + Consorte inseparavel, +E com elle Ruy para a vingança +Com ardor empunhou a herdada lança.</p> + +<p class="poesia">Moveu-se a gente bellica segura + Na esperança da victoria, +Que a quem temer não sabe a lide dura + Nunca desmente a gloria, +E n'um teso, ao Castello apropinquado +O campo expugnador foi collocado.</p> + +<p class="poesia"> De annoso pinheiro, + Que em frente se alçava + Do campo guerreiro, + Nos ramos pousava + Um corvo agoureiro +Que abrindo o rostro infausto, e ás azas dando, +Parecia estar os mouros malfadando.</p> + +<p class="poesia"> Os de Agar bramaram + Quando alevantadas + Em frente enchergaram + As Quinas sagradas, + E irosos juraram +Illeso conservar o logar forte +Seus muros defendendo até á morte.</p> + +<p class="poesia"> Alcaide da gente + Seu brio excitava + Hauzeri valente, + Que a lança empunhava; + Mouro forte e ardente, +Entre os do bravo Ismar um dos primeiros +Denodados, e intrepidos guerreiros.</p> + +<p class="poesia"> Com garbo, e presteza + Discorre a muralha, + Dispondo a defeza, + Prevendo a batalha, + O alcaide, e a firmeza +A audacia, e o valor no rosto ostenta +Com que dos seus a galhardia augmenta.</p> + +<p class="poesia">Ao lado de Hauzeri bella apparece, +Piedosa vista em lance tão p'rigoso! +Filha linda qual luz quando amanhece +Ao romper d'alva em dia caloroso, +O turbante, que a frente lhe guarnece +Remata alvo penacho precioso +Em quanto vão os zephiros brincando +Com os anneis sobre os hombros fluctuando.</p> + +<p class="poesia">De seda as calças tem da côr da neve, +Sobre ellas desce a tunica bordada, +Cerulea faixa a cinta circumscreve, +Qual a hastea do lirio delicada, +Cobre o virginal seio a tea leve +Onde a seda co'a lãa fôra tramada, +De vermelhos coraes um fio brando +Do collo airoso a base contornando.</p> + +<p class="poesia">Suaves de Fatima os olhos eram, +Vivos ao mesmo tempo e magestosos, +Quaes unicos os nossos climas geram, +Climas caros ao Sol, climas ditosos; +Olhos, foccos de amor, que n'alma imperam +Quer languidos, quer meigos, quer irosos; +Olhos taes, que se pranto derramaram +As mesmas brutas penhas abrandaram.</p> + +<p class="poesia">Nas pudibundas faces reluzia +A viva côr da nacarada rosa, +Que em leve gradação se esvaecia +Pela macia pelle melindrosa; +Virgem, filha gentil do meio-dia, +A côr tinha morena, e tão formosa, +Como a que a luz de um Sol claro e brilhante +Communica do prado á flôr fragante.</p> + +<p class="poesia">Da larangeira em flôr com o deleitoso +Aroma o ár da tarde embalsamado +Cede em suavidade ao amoroso +Hálito de seus labios exhalado. +O murmurio do arroio saudoso +Entro meudos seixos derivado, +O meigo sussurrar do brando vento, +Menos magia tem que o seu accento.</p> + +<p class="poesia"> Quem viu a vermelha rosa + N'um ramalhete de flôres + De todas a mais formosa + Quer nas formas, quer nas côres: + Quem da noute socegada + No silencioso véo + Viu a lua prateada + Entre as estrellas do céo: + Quem na belleza prestante + Do palacio, ou templo santo + Viu a corinthia elegante + Que remata o molle achanto: + Quem entre a familia leve, + Habitante da espessura, + Viu a pomba côr da neve, + Vivo emblema da candura: + Não viu mais que uma imperfeita + Imagem das maravilhas, + Com que Fatima deleita +Os olhos, do seu povo entre as mais filhas.</p> + +<p class="poesia">Porem, já sequiosos da vingança +Os Christãos se aparelham p'ra peleija. +Em batalhas o Rei divide as lanças, +Marcando a cada uma quem a reja: +P'ra o assalto prescreve sem tardança +De cada Capitão qual dever seja, +A qual compete de ir na frente a gloria, +A qual mais tarde ha de colher victoria.</p> + +<p class="poesia">A aquelle, que no nome, qual no peito +Tem dos fortes a nobre galhardia, +Entrega o grande Affonso satisfeito. +Entre as batalhas, a que a frente guia: +Na mesma linha põe e de igual geito +A que o pendão de Mem Moniz seguia; +Bem como a forte gente, cujo ousado +Valor tem vido a Sousa confiado.</p> + +<p class="poesia">As reservas intrepidas e ardentes, +Onde a lucta attrahir maior perigo, +Viegas com Martim, e outros valentes +Promptos conduzirão sobre o inimigo; +Porem de Pedro Affonso armipotente +Braço e conselho o Rei quer ter comsigo; +Nem desdenha reter junto a seu lado +O Joven Escudeiro denodado.</p> + +<p class="poesia"> As trompas guerreiras + O signal entoam, + Ao combatte voam + As bravas fileiras. + Os mouros defendem + Debalde a campina, + Debalde pretendem, + Que os Christãos bradando + Co'a lança arremetem, + A quanto accommettem + Rompendo e prostrando.</p> + +<p class="poesia"> Qual da serra alpina + Partiu destacada + A rocha gelada, + Que o valle domina, + E em forças crestando + Na queda espantosa + Co'a massa assombrosa + Vai tudo rompendo; + Assim as batalhas + Aos mouros forçavam, + E em fuga os lançavam + Ao pé das muralhas.</p> + +<p class="poesia"> Na rocha escarpada + O mouro confia; + O Christão porfia, + E a rocha é trepada. + Embora, galgando + Por entre os rochedos, + Inteiros penedos + Descendem troando: + As penhas, nas penhas + Caindo, arrebentam; + Heroicas façanhas + Façanhas sustentam; + Setas sibilantes + Cruzam por milhares + Das fundas girantes + Com os tiros nos ares.</p> + +<p class="poesia"> Em quanto os archeiros + A morte arremedam, + Mais brava os lanceiros + Já lucta começam, + O escudo, a couraça, + A malha cerrada, + De morte esfaimada + A lança transpassa, + E aos golpes da espada + O elmo partido + No craneo fendido + Lhe franqueia a entrada.</p> + +<p class="poesia"> A escada tremente + Á muralha erguida + Já foi erigida + Pela ousada gente; + Do escudo coberto, + Com o ferro empunhado, + Mais de um segue ousado + No ár trilho incerto, + E sobre as ameias + Mais de um temerario, + Entrega ao contrario + O sangue das veias.</p> + +<p class="poesia"> A pugna engrandece, + Redobra a fereza, + Do ataque e defeza + A teima recresce. + Já os muros altos + Por todos os lados + Sentem renovados + Continuos assaltos; + Hauzeri no emtanto + Resiste esforçado, + Fero e denodado + Desconhece o espanto; + Tal, já quasi exangue, + Javali ferido + Com o dente buido + Derrama inda o sangue, + E a um tronco acuado, + O collo cerdoso + Revolve animoso + A um, e outro lado.</p> + +<p class="poesia">N'isto o intrepido Affonso, a si chamando +As reservas, que cauto tem poupado, +O decisivo esforço emfim tentando, +Ao assalto as impelle denodado. +Mal das gentes desliga o regio mando +O valor tanto a custo sopeado +Armas, clamor de guerra, e tubas soam, +E contra o mouro irrisistiveis voam.</p> + +<p class="poesia">De todos o primeiro ao morro avança +O mancebo Ruy leve, e esforçado, +Os penhascos transpõe sem mais tardança +Que a anta o precipicio congelado; +Fere, derriba, e mata a herdada lança, +Foge o mauro tropel desordenado, +Ruy segue qual raio a rôta gente +Pela porta, que aos seus torna patente.</p> + +<p class="poesia"> Por ella ruina e morte + Penetra, de horror cercada, + O valor fallece ao forte, + Com a esp'rança abandonada. + Cada qual as armas lança, + Cada qual arrója a espada. + O vencedor na vingança + Irritado se enfurece, + Céva as iras na matança, + A humanidade estremece, + Mas a sanha do soldado + A sua voz desconhece: + Nada p'ra elle ha sagrado, + E na crueza incendido + Se crê pelo ceo armado, + Sobre o infeliz vencido + Julgará infidelidade + Sentir-se compadecido; + Nem o sexo nem a idade + Salva do ferro cruento, + E de horror e crueldade +É o penhasco inteiro um monumento.</p> + +<p class="poesia">O Sol cobriu de horror a clara fronte, +Espessas negras nuvens o toldaram; +As nevoas sobre a borda do horisonte +Da roixa côr do sangue se pintaram; +Os córvos carniceiros sobre o monte +Com o faro da atroz prêza esvoaçaram, +E enlutados os ceos, a noute fria +Mais cedo pareceu pôr termo ao dia.</p> + +<p class="poesia">Farto o soldado emfim de crueldade, +Extinctos quasi os miseros vencidos, +Amainou pouco a pouco a tempestade, +Cessaram os clamores, e os gemidos, +Já o Chefe recobra a authoridade +Sem força entre os primeiros alaridos, +E da victoria no seguro goso +Abandonam-se as gentes ao repouso.</p> + +<p class="poesia">Mas Ruy, cujo joven peito encerra +O preceito da Mãi, do Pai legado, +O descanço dos olhos seus desterra, +Vagando no Castello desolado. +De quente sangue vê fumando a terra, +O cadaver encontra abandonado +E o misero, que em mais tyranna sorte +Sem asar de viver lucta co'a morte.</p> + +<p class="poesia">No peito o coração em horror tanto +De Ruy se apertou, a alma sensivel +Viu, a um tempo com dôr, terror e espanto, +P'ra quanto não é fera a scena horrivel; +Não podendo suster amargo pranto, +Quasi maldiz victoria tão terrivel, +Fugindo ao quadro atroz por mais não ve-lo +Se entranha para o centro do Castello.</p> + +<p class="poesia">Da menagem a torre alli se erguia, +No mais alto do morro alevantada, +Torre rectangular que descobria +Em redor a campina variada, +Lá na alta noute, inda hoje triste pia +Na muralha com o tempo descarnada +O infausto mocho, e no seu seio escuro +Se abriga contra a luz morcego impuro.</p> + +<p class="poesia">De vigia servia o cume erguido, +Na parte media as armas se guardavam, +No mais baixo recinto denegrida +Em prisão dura os crimes se expiavam. +Por caracol estreito, e retorcido +Os planos entre si communicavam. +Na masmorra o soldado fatigado +Não tinha a aquelle tempo penetrado.</p> + +<p class="poesia">Na torre entra Ruy, e parecia +Fatidico o instincto que o guiava; +Á medida que o caracol descia +Ancioso seu peito se agitava, +Na escuridão completa se immergia, +Palpando o muro os passos tenteava, +Quando na marcha subito impedido +Sente um corpo cahir, e ouve um gemido.</p> + +<p class="poesia">Estremece o mancebo co'a surpresa; +Mas prompto do repente recobrado, +A mão ao corpo estende, e em vez de asp'reza +Sente o tacto macio e delicado +De anneladas madeichas na leveza, +N'um seio feminil brando, agitado; +Mais não hesita, o corpo em braços toma, +Fóra da torre com o fardo assoma.</p> + +<p class="poesia">Mas o corpo que leva entre seus braços +Sem movimento está, e a voz perdida, +Pendem-lhe os membros com o mover dos passos +Qual a vide de olmeiro desprendida; +Se o coração, batendo por espaços, +No debil ser não revelára a vida, +O mancebo por certo acreditára +Que da morte os mysterios profanára.</p> + +<p class="poesia">Mais o fardo apertava contra o peito, +Mais do mancebo o peito se agitava. +Parecendo-lhe sentir passo suspeito +Que apoz elle nas sombras caminhava, +A marcha apréssa, e n'um carreiro estreito +Entra a mata, que a um lado a serra brava +Selvatica produz, e na espessura +Mais densa, o fardo põe sobre a verdura.</p> + +<p class="poesia">Qual pasmo sem igual, quando encarando +Aquella, que das trevas arrancára, +Da lua lhe revéla um raio brando +Do peregrino rosto a forma rara; +Quando, no vulto immovel attentando, +Descobre do mancebo a vista avára +As bellezas, que prodiga a natura +De Fatima juntou na formosura.</p> + +<p class="poesia">A pallidez da morte realçava +Merencoria a expressão de seu semblante; +Os apagados olhos lhe cerrava +A palpebra de cilias abundante; +Do seio, que opprimido palpitava, +Parecia que um suspiro a cada instante +Ia partir, que o moço a vida déra +Se nos labios gentis o recolhera.</p> + +<p class="poesia">Extatico de pasmo e de surpreza +Jaz Ruy com tal vista captivado, +Sem cogitar de tanta gentileza +Qual seja o miserando infausto estado. +Co'a alma em goso estranho absorta e preza +Ficára o moço alli como encantado, +Se na Bella afllicção mais dura e forte +Não parecesse estender o véo da morte.</p> + +<p class="poesia">Contrahiram-se as faces melindrosas. +Os membros delicados se obduraram, +Os labios virginaes, murchas as rosas, +Com um moto convulso trepidaram, +De suór frio as gotas abundosas +Pallida a frente, e o collo lhe banharam, +Alevantou-se o seio seu mimoso, +Tomou-se o respirar mais afanoso.</p> + +<p class="poesia">O imprudente Ruy sahe do lethargo +Recobra com o terror o pensamento, +Do abandono da triste se faz cargo +Naquelle transe horrivel de tormento; +Dos olhos lhe rebenta pranto amargo, +A Bella aperta ao peito tão violento +Como quem quer partir com ella a vida, +Ou com ella a existencia ver perdida.</p> + +<p class="poesia">Não foi do moço inutil o transporte, +Que a Bella entre seus braços estreitada; +Ou fosse por que assim o quiz a sorte, +Ou milagre de amor: reanimada, +De subito escapando ás mãos da morte. +Move o collo, ergue a frente debruçada, +Cessa a suffocação, livre respira, +Abre os formosos olhos, e suspira.</p> + +<p class="poesia">Na mesma situação mais de um instante +Um e outro ficaram sem fallar-se; +Elle de puro goso delirante, +Ella como quem busca recordar-se: +Mas breve de Ruy vendo o semblante, +Sentindo entre seus braços estreitar-se, +D'elles se arranca, e em pranto debulhada, +Fallando assim, lhe cahe aos pés prostrada.</p> + +<p><img src="images/ICanto2.png" alt="Fatima de joelhos" align="middle" border="0" /></p> + +<p class="poesia">«Oh tu, quem quer que sejas, se a piedade +«Entrada pode ter dentro em teu peito, +«De uma innocente a misera orfandade, +«Desamparo, e miseria tem respeito! +«Sei que cahi na tua potestade; +«Mas antes de sentir o seu effeito +«Morrerei!......» Disse, e as renascidas rosas +Pudibunda escondeu nas mãos formosas.</p> + +<p class="poesia">«Que do Deus que nos ouve um raio ardente +«Te vingue, e me anniquille neste instante, +«Se um sentimento indigno esta alma sente +«De que haja de córar o teu semblante! +«Perde o terror, oh Virgem, tens presente +«Um amigo, um irmão cuja constante +«Ambição será só de obedecer-te +«E contra qualquer perigo defender-te!»</p> + +<p class="poesia">Assim fallou Ruy, e alevantando +A prostrada Fatima, em mil maneiras +Foi seu terror primeiro dissipando, +Com gestos, com palavras verdadeiras. +N'um penedo que cobre o musgo brando +A Virgem se assentou, co'as lisongeiras +Expressões de Ruy cobrando alento, +Sentiu raiar a esperança em seu tormento.</p> + + +<h4>FIM DO SEGUNDO CANTO.</h4> +<p><img src="images/HCanto3.png" alt="" align="middle" border="0" /></p> + + + + +<h2>CANTO TERCEIRO.</h2> + + +<div class="caixa_quote"> +<p class="poesia">Onde está aquella imagem pura, e bella +Artificio divino entre nós raro? +Onde aquelle olhar brando, que tão caro +Me foi, e o resplendor de hua e outra estrella?</p> +<p><span class="small-caps">Ferreira, Soneto, 15.º</span></p> +</div> + + +<h3>FATIMA</h3> + +<p class="poesia"> <img src="images/DCanto3.png" alt="C" border="0" align="bottom" />avalleiro, se é verdade + «O que acabas de dizer, + «Na minha triste orfandade + «Só tu me podes valer. + «Não buscarei disfarçar-te + «Qual é minha condição, + «De tudo vou informar-te, + «Ou sejas sincero, ou não.</p> + +<p class="poesia"> «Nas terras da Andaluzia + «Mouro altivo me gerou, + «Cujo nome e valentia + «Longe a fama propagou. + «De seu braço o nobre Ismar + «Conhecendo a fortaleza, + «D'estes muros confiar + «Quiz a guarda e a defeza. + «Do Téjo a margem deixada, + «Onde outra arce regia, + «Mandou-me vir malfadada + «Para a sua companhia. + «Sobre o perigo a que me expunha + «Saudade lhe déra antolhos, + «Que elle em mim seu prazer punha, + «Que eu era a luz dos seus olhos!</p> + +<p class="poesia"> «Nascendo perdi a Madre, + «Que em seu seio me formou; + «Mas achei tudo no Padre + «Que amoroso me creou. + «Quer na tregoa socegado, + «Quer na fadiga guerreira, + «Jámais fui d'elle apartada, + «Antes sempre a companheira. + «Quando, ainda tenra infante, + «Nos campos o acompanhava, + «Sobre o cavallo possante + «Um captivo me tomava; + «E quando em forças crescida + «Quiz-me elle mesmo ensinar + «A tomar nas mãos a brida, + «Os ginetes a domar.</p> + +<p class="poesia"> «Ora correr me fazia, + «Dado ao venatorio trato, + «O gamo, que parecia + «Nadar nas pontas do matto; + «Ora..... Mas ha! que aproveita + «Recordar carinho seu?.... + «Minha desgraça é perfeita, + «Já não vive o Padre meu! + «Não vive; que se vivêra + «Por certo que a filha cára + «O seu braço soccorrêra, + «E a todo o custo a salvára!</p> + +<p class="poesia"> «Hauzeri meu Padre é morto!... + «Cavalleiro, ah por piedade, + «Se desejas dar conforto + «Á minha dura anciedade, + «Corre ao campo da batalha, + «Ao posto o mais arriscado, + «Lá na torre, ou na muralha + «Acha-lo-has traspassado. + «Do seu escudo brilhante + «Aro de ouro em torno gira, + «De ouro e purpura o turbante + «Tem por tope uma saphira: + «É seu alfange pendente + «De rico talim bordado, + «Obra da filha, e presente + «Destinado a melhor fado! + «Corre, corre, cavalleiro, + «Se tens de mim compaixão, + «Se teu peito é verdadeiro, + «Se te doe minha afflicção: + «Busca o cadaver querido, + «Faze-o á filha entregar; + «Que eu possa o sangue espargido + «Com o triste pranto lavar: + «Que eu possa triste e mesquinha + «Dar seu corpo á terra dura, + «E de quanto caro eu tinha + «Expirar na sepultura!»</p> + +<p class="poesia">Assim a Virgem moura se exprimia, +Mais de um suspiro as vozes lhe cortava, +E o pranto, que dos olhos lhe corria, +Da linda face as rosas lhe banhava. +O mancebo dos labios seus pendia +Que no ardor de servi-la se abrazava, +E mal ella acabou, aos pés prostrado, +D'esta sorte lhe volve transportado:</p> + +<p class="poesia"> «Por piedade, anjo de graça, + «Mitiga a acerba afflicção + «Que a alma me despedaça, + «Que me parte o coração. + «Salvarei, pois o desejas, + «Esses despojos presados; + «E se ao furor das peleijas, + «Foram seus dias poupados, + «Verás teu pai a teu lado, + «Oh bella, n'um curto instante: + «Feliz de adoçar teu fado + «O teu extremoso amante!»</p> + +<p class="poesia">No semblante da Virgem peregrina +Rubor vivo a taes vozes apparece; +Qual ao raiar da aurora purpurina +A viva côr nas nuvens resplandece; +Em seu peito porem, que a dôr domina, +A surpreza de prompto se esvaece, +Com gesto firme, e com solemne accento +Confirma assim do moço o nobre intento.</p> + +<p class="poesia"> «Cavalleiro generoso, + «Segue o proposito teu. + «Se o ceo para mim piedoso + «Salvo tem o Padre meu, + «Se ve-lo, abraça-lo ainda + «Eu dever a teu cuidado + «Pela gratidão infinda + «Terás meu peito ligado; + «Mas se o Padre, vivo, ou morto, + «Me não fôr restituido, + «Não busques p'ra mim conforto, + «Meu fado ha de ser cumprido. + «Jámais Fatima opprimida + «Escrava de um vencedor, + «A tal extremo abatida + «Servirá sob um senhor; + «Que antes de ver-me aviltada + «Saberei da abjecta sorte, + «Da condição exasperada, + «Achar allivio na morte.»</p> + +<p class="poesia"> «Não por certo, exclama o moço + Prompto o corpo alevantando, + «Se teu mal prevenir posso, + «Eu vôo já ao teu mando. + «Alenta o peito formoso, + «Minóra tanta afflicção, + «Confia no ceo piedoso, + «Angelica perfeição; + «Que aqui pela chamma ardente, + «Que n'este peito ateaste, + «Juro, que ante o Sol nascente + «Verás esse que choraste.»</p> + +<p class="poesia">Diz, e qual parte a pedra sibilante +Da volteada funda despedida, +De Fatima veloz parte o amante, +Obedecendo á ordem recebida, +De penhasco em penhasco salta avante, +Desdenhando escolher senda seguida, +Chega ao Castello, ao campo de batalha, +Ás torres, á mortifera muralha.</p> + +<p class="poesia">Uma vez, outra vez corre o recinto; +Mas em vão, com o empenho não atina. +Cada corpo examina em sangue tinto, +Busca de balde, e em buscar se obstina; +É mais forte o amor do que o instincto, +Entre as scenas de horror, entre a ruina +Só Fatima divisa e seu tormento, +Suffoca amor todo o outro sentimento.</p> + +<p class="poesia">Desenganado de que em vão procura, +Volve Ruy ao centro do Castello, +Com um facho acceso desce á cella escura +D'onde ha pouco arrancára o fardo bello; +Interroga os soldados, a armadura +De Hauzeri lhes descreve; mas de ve-lo +Nenhum lhe dá signaes; exasperado +Volta outra vez ao campo ensanguentado.</p> + +<p class="poesia">Na pesquiza injucunda em vão porfia, +Inutil tedio! infructuosa lida! +Nem novas nem signaes achar podia, +Nenhuns ha de Hauzeri morto, ou com vida. +No emtanto com o raiar de novo dia +Era a Lua no brilho amortecida, +E as estrellas mais proximas do oriente +Se engolfavam na luz do Sol nascente.</p> + +<p class="poesia">Do mancebo o valor succumbe á ideia +Da exasp'ração do ser idolatrado; +Fatima de antemão de afflicção cheia +Contempla em todo o peso de seu fado. +Por ve-la anhella; mas ve-la receia, +Receia o seu pesar exasperado, +Vacilla, treme; mas amor o excita +E da matta na senda o precipita.</p> + +<p class="poesia">As muralhas transpõe, na brenha escura +Já seus tremulos passos avançavam, +Receio, impaciencia, horror, ternura +Em tropel dentro n'alma lhe luctavam; +Tanto mais progredia na espessura +Tanto mais seus transportes se exaltavam, +Os pensamentos se lhe confundiam, +E convulsos os membros lhe tremiam.</p> + +<p class="poesia">Fóra de si, sem tino, e delirante +Chega emfim ao logar onde deixára +O prodigio de amor, cujo semblante +De todo o ser antigo lhe mudára...... +Mas, oh pungente dôr! funesto instante! +É deserto o penedo..... a forma rara +Se esvaeceu na sua ausencia breve, +Qual com o romper do dia o sonho leve.</p> + +<p class="poesia">Ligeira barca, que a favor do vento, +Em demanda da praia desejada, +Vai rapida cortando o salso argento, +Deixando apoz a esteira prolongada, +Perde o impulso, a força, o movimento, +Em banco ignoto subito encalhada: +Tal fica aniquilado, immovel, quedo +O surpreso Ruy ante o penedo.</p> + +<p class="poesia">Mas depois, prolongando um doce engano, +Luctando ainda contra a desventura, +Pela Moura clamando, o moço insano +Discorre aquem e alem pela espessura; +Porem o infausto, extremo desengano +Não pode recusar, quando a verdura, +Já pelo Sol nascido alumiada, +Se lhe antolha deserta, abandonada.</p> + +<p class="poesia"> «Tudo perdi, desgraçado, + Exclama o moço insensato, + «Só n'esta alma o seu retrato + «Dura com fogo gravado!</p> + +<p class="poesia"> «Chamma horrivel me devóra, + «Fogo intenso, fogo interno! + «Tu foges impia e traidora, + «Deixas em meu peito o inferno!</p> + +<p class="poesia"> «Como?... com quem?... para onde!... + «Serpe em meu seio esquecida! + «Que valle, ou que serra esconde, + «Perversa, a tua fugida?.....</p> + +<p class="poesia"> «Juro pela fé sagrada, + «Que de meus avós herdei, + «Que em tua raça odiada + «Meu tormento vingarei!</p> + +<p class="poesia"> «Dos teus no perfido sangue + «Este ferro hei de ensopa-lo, + «De teu pai no corpo exangue + «Hei de a teus olhos crava-lo!</p> + +<p class="poesia"> «Salvei-te a vida, e meus dias + «Daria por defender-te, + «Mal teu desejo enuncias, + «Prompto vôo a obedecer-te.</p> + +<p class="poesia"> «Volvo de amor transportado, + «De puro extremo incendido; + «Sou trahido, abandonado, + «Enganado, escarnecido!......</p> + +<p class="poesia"> «Nem se quer um monumento + «Restará de opprobrio tanto; + «Nem tu, oh musgoso assento, + «Nem tu, oh viçoso manto.</p> + +<p class="poesia"> Isto diz... Desatinado + Prostra co'a espada a verdura. + Fere fogo o aço temp'rado + Percutindo a pedra dura.</p> + +<p class="poesia"> Qual cão, de raiva atacado, + Distilando a baba impura, + Tinto em sangue o olho ardente, + Té na pedra imprime o dente;</p> + +<p class="poesia"> Ou qual o touro insofrido, + A crú jogo abandonado, + Ardente dardo incendido + Tendo no corpo cravado,</p> + +<p class="poesia"> Salta, brame, urra, e pungido + Do fogo sempre ateado, + Em corcovos accommette, + E contra a têa arremette:</p> + +<p class="poesia"> Tal o moço furioso + Musgo, relva, arbustos, flores, + Prostra, arranca, impetuoso + Nada poupa em seus furores; + Té que emfim com gesto iroso + Volve espaldas aos verdores, + E do sitio triste, e infausto + Se arranca de força exhausto.</p> + +<p class="poesia">Affonso, em tanto, em pompa respeitosa +Dos ministros de Deus marcha cercado +Á capella da Virgem gloriosa, +Que no forte Castello havia alçado. +Segue-o dos seus a turba numerosa +Exultando por ver desagravado +Do insulto agareno o logar santo +Com o christão sacrificio sacrosanto.</p> + +<p class="poesia">Já tinham descendido a curta escada, +Que ao pavimento interno conduzia, +Da porta o cume agudo transpassado +Onde esculptado o Trino Deus se via; +Co'a sagrada aspersão tinham mundado +Do sacro pavimento a lagem fria, +Em canto baixo e triste repetido +Psalmo do Rei profeta arrependido.</p> + +<p class="poesia">O merencorio som no templo escuro +Vagaroso, e solemne resoava, +Á piedosa effusão de um zelo puro +Devota a multidão se abandonava; +Quando Ruy com passo mal seguro +Do Castello nos muros penetrava +E levado da lugubre harmonia +Na Capella entre os mais se confundia.</p> + +<p class="poesia">Neste mesmo momento o Celebrante +Ante o altar sagrado reverente +Se inclinava, e o povo circumstante +Baixava até á terra humilde a frente. +A tal vista o mancebo delirante +Seu barbaro furor desmaiar sente, +Sente expirar a raiva, e a fereza, +Trocar-se a ira em luto e em tristeza.</p> + +<p class="poesia">Os musculos contractos se relaxam, +A frente, hirta até alli, no peito inclina, +Sobre os olhos as palpebras se abaixam, +O fogo abrazador cede e declina. +Não de outra sorte as plantas vigor acham +Do orvalho na frescura matutina, +Como adoça ao mancebo o horrendo estado +A pompa augusta, o cantico sagrado.</p> + +<p class="poesia">Tal quando arrebatado, e possuido +De furias infernaes, castigo horrendo, +O do povo de Deus primeiro ungido, +Co'espirito das trévas combatendo, +Fora de si, convulso, enfurecido, +Se estava entre agonias debatendo, +Da harpa de David a melodia +Seu soffrimento acerbo adormecia.</p> + +<p class="poesia">Findou porem a pompa veneranda, +Os canticos, e os ritos terminaram; +E em alas logo de uma e outra banda +Do vestibulo as gentes se formaram; +Ao pio vencedor que os rege e manda +Mil triumfaes applausos elevaram; +E em marcha triumfal, dos seus seguido, +É Affonso ao Alcacer conduzido.</p> + +<p class="poesia">Alli chegado, próve na defeza +Dos muros novamente conquistados, +Para que nem por força, nem surpreza +Possam mais ser dos mouros retomados. +Confia defender-lhe a fortaleza +Ao valor de Monteiro, e seus soldados, +Em vez de Payo, que perdido a havia +De Theotonio co'a gente a quem regia.</p> + +<p class="poesia">Mas já n'aquelle tempo o Prior Santo, +Que tal era o pensar n'aquella idade! +O baculo depondo, e o sacro manto, +Alliando a vingança co'a piedade, +Entre os mouros fizera estrago tanto +Em despique da perda da Cidade, +Que em Arronches, por elle aos seus rendida, +Fôra de Affonso a lei reconhecida.</p> + +<p class="poesia">Ao tempo em que entre os sabios conselheiros +O Rei a paz e a guerra discutia, +E ao longo das muralhas os guerreiros +Folgavam da conquista na alegria; +Ruy, a joven flôr dos escudeiros, +Monta o cavallo, que da Andaluzia +Aos corceis os mais bellos fôra inveja +Do manejo na pompa, ou na peleija.</p> + +<p class="poesia">Mas não sustenta o moço a redea leve +Co'a costumada e dextra gentileza, +Que ao soberbo animal motos prescreve +Que lhe dobram as graças e a belleza, +Deixa-a pender no collo airoso e breve, +E submergido em lugubre tristeza, +Sair faz ao acaso o bruto bello +Pela primeira porta do Castello.</p> + +<p class="poesia">O bruto a mão usada não sentindo +Co'a frente baixa o trilho proseguia, +Tardo no passo, o collo distendido, +Partir do damno as magoas parecia; +Abandonado a si, não conduzido, +Do Lena para a margem progredia; +No sitio onde hoje sua perenne fonte +Transpõe o passageiro sobre a ponte.</p> + +<p class="poesia">O quadrupede docil, como esp'rando +A lei de seu senhor na fresca borda +Um momento parou, e o moço olhando +Com torvos olhos, como quem acorda +De sonho ingrato, e á rasão tomando, +Móres penas reaes sente, e recorda, +Distrahido lhe affaga o collo, e clina, +E para a dextra a leve redea inclina.</p> + +<p class="poesia">Não longe do logar onde se achava +Graciosa a corrente se torcia, +Alli viçosa a margem se adornava +Das plantas, que o remanso mais nutria, +Com graça ao lado opposto se elevava +Um mamillo gentil, donde surdia +Um fio de agua clara murmurando +Qual rôla entre a verdura suspirando.</p> + +<p class="poesia">A curta elevação faz que se aviste +D'alli do valle ameno a gentileza, +Ondulado terreno em frente existe +D'onde o cultura tem banido a asp'reza, +Alternada co'a vinha alli subsiste +A pallida oliveira, e a riqueza +Da loura Ceres; fecha o quadro bello +Do ceo sobre o azul negro o Castello.</p> + +<p class="poesia">Aqui pára Ruy e desmontando +A um ramo o corcel liga, e lentamente +Vai a placida fonte procurando +Onde só gemer possa livremente; +Mas junto um peregrino vê, tomando +A simples refeição, na herva jacente +Seu pobre alforje está desenvolvido, +Viatorio bordão jaz estendido.</p> + +<p class="poesia"> A gorra de aba espaçosa + Calva a frente lhe obumbrava, + A concha da praia ondosa + O capello lhe adornava; + De uma correia nodosa, + Que o pardo saio apertava, + Pendente a cabaça tinha + Que a bebida em si continha.</p> + +<p class="poesia"> Escravo por longos annos + De um mouro, que o captivára, + Mão gentil da sorte os damnos + Compassiva lhe adoçára. + Quebrou-lhe os ferros tyrannos; + E liberto lhe inspirára + Sua devoção singella + Ir romeiro a Compostella.</p> + +<p class="poesia"> Tal se mostrava o Romeiro, + Que assim Ruy saudou: + «Deus vos salve, Cavalleiro, + «Vosso humilde servo sou. + «Se do trato meu grosseiro, + «Que aqui consumindo estou, + «Vos pode o uso ser grato, + «Partiremos do meu trato.</p> + + +<h3>RUY.</h3> + +<p class="poesia"> «Graças mil bom peregrino, + «Deus vos dê feliz successo + «Até o vosso destino + «E bem assim no regresso. + «Ao Apostolo divino + «Bom Romeiro o que vos peço + «É que na vossa oração + «Vos alembreis d'este irmão.</p> + + +<h3>ROMEIRO.</h3> + +<p class="poesia"> «Dizei-me, bom Cavalleiro, + «Se com o nosso Rei andais, + «De Pedro Affonso o escudeiro + «Que nome tem, que signaes? + «Dizem-me ser tão guerreiro, + «De tal pórte, e de obras taes + «Que as gentes na lide espanta + «E fóra d'ella as encanta.</p> + + +<h3>RUY.</h3> + +<p class="poesia"> «Esse escudeiro que dizes + «De Ruy o nome tem, + «Dos signaes para que ajuizes + «Elle mesmo a ver-te vem. + «Mais não busques nem pesquizes + «Novas; se as trazes de alguem, + «Falla palavras seguras + «Que eu sou esse que procuras.</p> + + +<h3>ROMEIRO.</h3> + +<p class="poesia"> A nova de que ora tracto, + Senhor, é tão delicada, + Que heis perdoar o recato + Com que ha de ser confiada. + Dizei-me, onde existe um matto + Com um penedo musgado, + Onde na noute apparecem + Sombras que se desvanecem?</p> + + +<h3>RUY.</h3> + +<p class="poesia"> Onde existe?...... O atrevimento + Quem te deu de pergunta-lo + Venha de sangue sedento + Em proprio, e armado indaga-lo; + Que á face do firmamento + Eu juro que hei de ensina-lo + A não juntar a ousadia + Á mais baixa covardia!</p> + + +<h3>ROMEIRO.</h3> + +<p class="poesia"> Por Christo! não te enfureças + Escudeiro generoso, + P'ra que a verdade conheças + Traz-me acaso venturoso. + As apparencias são essas, + Mas em caso duvidoso + Quem a apparencias se afferra + Muitas vezes troca e erra.</p> + +<p class="poesia"> Attenta no que te digo + Que quem partiu me dictou: + --Tu me salvaste de um p'rigo + A que o padre me guiou, + Fujo-te, o padre é quem sigo, + Foi elle quem te espiou, + Quem te seguiu á espessura + Da noute na sombra escura.</p> + +<p class="poesia"> Mal par'o buscar te apartaste + O Padre me appareceu, + Tu enganado ficaste + Só elle o engano teceu; + Mas se acaso te agastaste + Com este proceder meu + Sabe que maior desgraça + Do que a tua em mim se passa.</p> + +<p class="poesia"> Essa, que p'ra sempre grata + Te prometteu jurou ser, + Bem longe de ser ingrata, + Vai muito além do dever; + Amor a consume, e a mata, + E se t'o ousa dizer + É com a esperança perdida + De mais t'o dizer na vida.</p> + +<p class="poesia"> Distancia, muralha armada + E das seitas o rancôr + Com barreira triplicada + Circumdam a sua dôr: + De saudades definhada + Triste victima de amor + Será de Fatima a sorte + Suspirar até á morte.--</p> + +<p class="poesia"> Assim carpindo a formosa + Ouvi, que nunca enganou, + Essa cuja voz piedosa + Liberdade me alcançou, + Ouvi-lhe a queixa afanosa + Que puro amor lhe arrancou. +Ah! possa Deus por ti mandar-lhe um dia +A paz no ceo, na terra a alegria.»--</p> + +<p><img src="images/ICanto3.png" alt="Romeiro" align="middle" border="0" /></p> + +<p class="poesia">Em quanto assim fallava o viandante +O alforge e o bordão alevantava, +E mal que terminou, no mesmo instante +Da cristalina fonte se apartava. +O enternecido, transportado amante +Debalde uma, e mil cousas perguntava, +Mais não volveu resposta o peregrino, +E mudo foi seguindo o seu destino.</p> + + +<h4>FIM DO CANTO TERCEIRO.</h4> +<p><img src="images/HCanto4.png" alt="" align="middle" border="0" /></p> + + + + +<h2>CANTO QUARTO.</h2> + + +<div class="caixa_quote"> +<p class="poesia">Mas quem póde livrar-se por ventura +Dos laços que amor arma brandamente +Entre as rosas, e a neve humana pura, +O ouro, e o alabastro transparente?</p> +<p><span class="small-caps">Camões, Lus.</span>, C. 3.º, E. 142.ª</p> +</div> + +<p class="poesia"><img src="images/DCanto4.png" alt="D" border="0" align="bottom" />a socegada noite o astro cadente +P'ra plaga occidental já se inclinava: +Precursora do Sol resplandecente +A matutina estrella scintilava. +Do Téjo sobre a placida corrente +Nem a mais leve brisa volitava, +Jazia a folha immovel no arvoredo +Tudo dormia socegado, e quedo.</p> + +<p class="poesia">Apenas o silencio prolongado +Lá do longinquo charco interrompia +A grasnadora raã, do ramo alçado +O triste mocho, que agoureiro pia. +Eis que ao longo do rio socegado +Um fraco som parece que se ouvia +Compassado, moroso, e similhante +Ao surdo murmurar de agua distante.</p> + +<p class="poesia">Distingue-se melhor, em força cresce +Pouco a pouco se vem approximando, +Com o murmurio das aguas já parece +Ouvir-se o som do lenho em lenho dando, +Saltando a limpha a espaços resplandece, +O cristal se desliza sussurrando. +«Alerta companheiros com presteza +«Os remos esforçai, que é certa a preza!</p> + +<p class="poesia">Assim brada uma voz, e vigorosos +Montam nove o batel, que a sombra escura +Dos salgueiros encobre, que viçosos +A orla adornam da corrente pura: +Oito aos remos se lançam pressurosos, +Em quanto o Chefe empunha a cana dura, +Guiando a barca, que qual seta vôa +Ao mourisco batel, que tem na prôa.</p> + +<p class="poesia">«Nazarenos!... na lingua arabia grita +A gente do batel sobresaltada. +«Nazarenos» bradando, esforça, excita +O maioral a gente ao remo usada. +«Leva remos p'ra já, raça maldicta, +«Rendei-vos, perros, ou ireis á espada, +Gritam da barca, que veloz singrando +Vai o batel dos mouros alcançando.</p> + +<p class="poesia">«Lança o croque, a fateicha, afferra, atraca, +«Que não possa escapar-se a gente infida, +Brada o Chefe Christão, que prompto ataca +O batel que desiste da fugida. +Por defende-lo o mouro a espada sacca, +Trava-se atroz peleija tão renhida +Nos barcos afferrados, qual na terra +Soe tenaz mostrar-se a horrivel guerra.</p> + +<p class="poesia">Do christão bando ao impeto primeiro +Dos infieis o barco fôra entrado, +Não sem que tres christãos o derradeiro +Termo houvessem nas aguas encontrado; +Mas logo, atraz dos bancos do remeiro, +Peleija o bando mouro intrincheirado +Como quem não curando já da vida +Antes do que captiva a quer perdida.</p> + +<p class="poesia">Brilha no ár vibrando a espada núa, +Penetra pelas armas a estocada, +Céva no roxo sangue a raiva crúa +Do talhador alfange a cutilada. +Nenhum pensa em ceder, nenhum recúa +Em quanto a força em sangue derramada +Ao braço não fallece, e a mão pendente +Não deixa o ferro matador jacente.</p> + +<p class="poesia">Já dos nove christãos que accommetteram +Tres a morte nas aguas encontraram, +Cinco do peito aberta a vida deram +Que á estocada os mouros lhe arrancaram; +Mas as vidas bem caras lhes venderam +Que oito tambem dos perros expiraram, +E dos sete que restam, tres feridos +Vão a vida exhalando entre gemidos.</p> + +<p class="poesia">Mas o Chefe Christão só no perigo +Crescer sente o valor co'horror e estrago, +Qual raio abrazador sobre o inimigo +Cahe, bradando em voz alta «San-Tiago. +Morte, espanto, e terror leva comsigo, +Faz-se o batel de sangue um bruto lago, +Onde o maioral mouro acaba a vida +E o Christão Chefe a dextra tem ferida.</p> + +<p class="poesia">Dos mouros uns ao ferro a vida entregam +Outros da barca pavidos saltando +Escapados á morte á margem chegam +Com o sangue as puras aguas maculando. +Assim ao só Ruy a barca legam, +Que era elle o que indomito pugnando +Tinto no proprio sangue generoso +De tantos triumfára valoroso.</p> + +<p class="poesia">Ruy, que junto aos muros de Leiria, +Principal instrumento da victoria, +O que perdêra em paz, e em alegria +Co'indomito valor ganhára em gloria, +Que Affonso prezador da valentia, +Conservando seus feitos na memoria, +Quando á mão de Mafalda a mão ligára +Com pompa augusta Cavalleiro armára,</p> + +<p class="poesia">E depois, quando o genio seu guerreiro +A empreza concebeu agigantada +De surprehender com bando aventureiro, +Com imprevista, subita escalada, +O sitio forte, erguido, e sobranceiro, +Onde a Virgem Irene sepultada +Do Téjo, que soberbo aos mares vem, +Por milagrosa campa as aguas tem,</p> + +<p class="poesia">Para que gente moura, ou rica preza +Com mais difficuldade lhe escapasse, +De Ruy commettêra a gentileza +Que nas margens do Téjo se emboscasse, +E com a usada, indomita braveza +Qualquer batel no rio lhe tomasse +P'ra que os de Agar vencidos não sentissem +N'agua ou terra por onde lhe fugissem.</p> + +<p class="poesia">Com animo esforçado o bravo moço +Assim cumprido o real mando havia, +E dos mouros com o barbaro destroço +Das feridas o sangue confundia. +Da desigual peleija o alvoroço +Que de Ruy dobrára a valentia +Cessado tinha, e o braço seu ferido +Sente com o corpo já desfallecido,</p> + +<p class="poesia">A ferida estancar em vão procura +Co'a mão esquerda o Joven animoso, +Que a mão, co'a dôr pungente mal segura, +Recusa o ministerio caridoso. +Do sangue á perda emfim cede a natura, +Succumbe á dôr o moço vigoroso. +Seu corpo sob as armas desfallece, +Cahe prostrado na barca que estremece.</p> + +<p class="poesia">Mas antes que do Téjo na corrente +Fosse a ordem real executada, +Pelo ardente valor da christãa gente +Com temerario arrojo era assaltada +De Santarem a arce, que imprudente, +E no escarpado accesso confiada, +De Hauzeri sob o mando, que a regia, +O poder dos de Christo escarnecia.</p> + +<p class="poesia">Meias adormecidas, sem cuidado +As vélas sobre o muro mal vigiam, +Quando a escada fatal alevantado +Tem o nobre Moniz, que os mais seguiam. +Acorda tarde o mouro alvoraçado, +Que os confusos clamores desafiam, +Que os Christãos da muralha já senhores, +Em breve as portas entram vencedores.</p> + +<p class="poesia">De Affonso no poder cahiu dest'arte +Aquella, que no cume se assentava, +Soberba dominando a toda a parte +A campina feliz, que o Téjo lava. +Inutil foi p'ra o mouro circumdar-te +De fortes torreões, co'a gente brava +Procurar preservar-te e defender-te, +Se uma noute bastou para render-te.</p> + +<p class="poesia">Noute cruel e horrivel, em que o córte +Da espada anniquillou a audacia tua! +Em que a tyranna, despiedada morte +A fome saciou barbara e crúa! +Em que rios de sangue por tal sorte +O fio fez correr da espada núa, +Que apenas a seus golpes escaparam +Tres, que o fugido alcaide acompanharam.</p> + +<p class="poesia"> De Sevilha em alta torre + O Rei mouro está sentado: + D'alli co'a vista discorre + Pelo campo dilatado + Que o Guadalquivir percorre.</p> + +<p class="poesia"> Eis que p'ra banda do rio + Quatro vê vir cavalgando. + Um dos quaes o senhorio + Parece que tem do bando, + Que segue o seu alvedrio.</p> + +<p class="poesia"> Vem todos de pó cobertos, + Os ginetes vem cançados, + Mostras claras, signaes certos + De marchar afadigados + Mostram aos olhos expertos.</p> + +<p class="poesia"> Por Deus!» o Rei mouro brada-- + Do presago coração + O agouro não me agrada! + Trazem nova de afflicção + Esses que vejo na estrada.</p> + +<p class="poesia"> Aquelle que vem na frente + No cavallo mais formoso, + É Hauzeri certamente, + Que contra o Christão fogoso + Accode a pedir-nos gente.</p> + +<p class="poesia"> Pelo Profeta vos digo, + Que se agua aos brutos não dão + Santarem está em perigo + De em breve cahir na mão + Do Christão nosso inimigo;</p> + +<p class="poesia"> Porem se a sêde que tem + Aos corceis deixam matar, + É tomada Santarem, + E a nova funesta a dar + Fugitivo Hauzeri vem!»--</p> + +<p class="poesia"> Mal do Rei mouro acabavam + Os discursos agoureiros, + Que logo ao rio chegavam + Os cançados cavalleiros + E beber aos brutos davam.</p> + +<p class="poesia"> Não tarda que desmontado + Ante o mouro commovido + Tivesse Hauzeri narrado + O desastre acontecido, + O caso desventurado.</p> + +<p class="poesia"> Como Affonso se partira + Com sua bellica gente, + Como a marcha lhe encobrira, + Sobre a villa confidente + Como inesperado cahira:</p> + +<p class="poesia"> Como as vélas surprehendidas + São no muro degoladas, + As escadas erigidas, + As muralhas assaltadas, + E as fortes portas partidas:</p> + +<p class="poesia"> Como a gente, por tal sorte + De susto e trevas tomada, + Ou passa do somno á morte, + Ou corre desacordada + Encontrar da espada o córte:</p> + +<p class="poesia"> Como emfim, perdida a esperança, + Da arce os Christãos senhores, + Cevando-se na matança, + Se esquivára aos vencedores, + A buscar prompta vingança,</p> + +<p class="poesia"> E das aguas confiando + A filha, que preservára + Com tres só, dos de seu mando, + Pr'a elle Rei caminhára + Submetter-lhe o caso infando.</p> + +<p class="poesia"> Assim os mouros souberam + De Irene os muros tomados; + Grande terror conceberam, + Ao vêr a quanto arrojados + Os de Christo se atreveram.</p> + +<p class="poesia">Porem do Téjo á placida corrente; +As barcas sem governo abandonadas, +Pouco a pouco do rio brandamente +Foram ás verdes margens encostadas: +Das aguas no remanso mollemente, +De verdes espadanas rodeadas, +Com o descer da maré firmes ficaram +E no lado bojudo se inclinaram.</p> + +<p class="poesia">Á luz volve Ruy, renasce á vida; +Mas qual surpreza, qual doce portento! +Já não goteja o sangue da ferida, +Já o não punge a dôr e sofrimento; +Ao recobrar a sensação, perdida +Do sangue no espectaculo cruento. +Abre os olhos, contempla a formosura +Que qual sonho perdera na espessura.</p> + +<p class="poesia">Em vez da scena barbara horrorosa, +Onde á força da dôr ficou jacente, +Volve a si, reclinado na viçosa +Relva, que esmalta a borda da corrente. +Co'escudo, e lança, a espada bellicosa +Dos ramos de um salgueiro está pendente, +E a matutina brisa fresca, e pura +Junta o sussurro ao da agua que murmura.</p> + +<p class="poesia">Jaz a seu lado o elmo desprendido, +Do duro peso a frente libertada; +O peito, antes das armas opprimido. +Livre a aura respira embalsamada; +Com tella delicada está cingido +O braço, que ferira imiga espada, +E a linda moura, lagrymas chorando, +Lhe está no seio a frente sustentando.</p> + +<p class="poesia">«Visão!... visão do Ceo, sem pár encanto +«Inefavel prazer, que me aviventas, +«Doce illusão de amor!..... mas esse pranto +«Suspende, ah sim, com elle me atormentas. +«Nesse rosto tão bello, puro, e santo, +«Com cujo aspecto a vida me sustentas, +«Deixa vêr um sorriso, um gesto amante; +«Vê-lo sequer n'um derradeiro instante!</p> + +<p class="poesia">«Ah deixa que em meus braços amorosos +«Aperte a imagem que p'ra mim é vida; +«Que unidos n'um só ser, ambos ditosos +«Nossa essencia vejamos confundida! +«Ah Fatima, dos dias meus ditosos +«Delicias e prazer, Virgem querida, +«Ja não ha quem de mim possa apartar-te +«Tu das-me a vida, vivo só p'ra amar-te!</p> + +<p class="poesia">Disse Ruy: e a Moura, a quem a ardente +Força de um terno amor vence e domina, +Sobre o peito do amante a linda frente, +Desfeita em meigo pranto, amante inclina. +Ruy no peito a aperta vehemente, +Triumfa amor, amor só predomina!..... +Quando a barca de subito estremece, +Co'a luz do raio a margem resplandece.</p> + +<p class="poesia">Retumba do trovão o som tremendo, +Da distante montanha os echos gemem, +Do rio a calma subito rompendo +Na borda antes tranquilla as aguas frémem. +Á Virgem delirante o choque horrendo +A razão restitue; seus membros tremem, +Arranca-se assustada espavorida +Dos braços com que o moço a tem cingida.</p> + +<p class="poesia">«Suspende, ah sim suspende, ó bem amado, +«De ti me afasta a propria natureza. +«Não contemplas o Ceo de horror toldado, +«O rio, o campo envoltos na tristeza. +«Foge Christão, que o meu funesto fado, +«Sem igual nos rigores, na dureza, +«Não me fez para ti, nem consentíra +«Que amor em doce laço nos uníra.</p> + +<p class="poesia">«Foge, oh Christão invicto, e generoso, +«A quem prouvéra ao Ceo que ora não visse; +«Mas já que fez teu braço poderoso +«Que em teu poder segunda vez cahisse, +«Que a teus olhos meu peito o desditoso +«Amor sem esperanças descobrisse, +«Só te resta fugir sem mais demora +«Quem, por seu mal, e por teu mal, te adora.</p> + +<p class="poesia">Isto a Moura dizia; mas o amante +Nem o trovão, nem seu carpir ouvia, +Transportado de amor, e delirante +De novo a moça com ardor cingia. +De virginal rubor tinto o semblante +Fatima seus transportes combatia; +Mas a modestia mais lhe agrava a sorte; +Que o amor de Ruy torna mais forte.</p> + +<p class="poesia">Combate ainda em pranto suffocada, +Ora emprega o rigôr, ora a ternura, +Ora Ruy argue com voz irada, +Ora lhe pinta a extrema desventura, +Cego o moço prosegue...... quando alçada +De repente ante os dois surge a figura, +De Ruy á memoria não estranha, +Do venerando Ermita da montanha.</p> + +<p><img src="images/ICanto4.png" alt="Ruy, Fatima e Eremita" align="middle" border="0" /></p> + +<p class="poesia">O mesmo era, que alli achado havia +Na piedosa oração todo engolfado, +A mesma longa barba lhe descia +Sobre o peito, no vulto magoado +Outra expressão porém ora se lia, +E com semblante triste mais que irado, +Do insano mancebo a mão tomando, +Lhe diz com tom de voz sereno e brando.</p> + +<p class="poesia">«Tu, filho de Ruy, tu de seus feitos +«Assim procuras igualar a gloria? +«Assim do Pai os ultimos preceitos, +«Filho ingrato, conservas na memoria? +«Á Mãi, que o ser te deu, nutrio aos peitos, +«Foi esta a promettida alta victoria, +«Quando do martyr Pai armas sagradas +«Te entregou de seu sangue inda esmaltadas.</p> + +<p class="poesia">«Julgas-te generoso, porque a vida +«Nos campos das peleijas arriscaste, +«Porque valente e audaz da gente infida +«Na dura guerra o impeto domaste, +«Porque esta moça só, desprotegida +«Nos conquistados muros preservaste; +«Mas, quando, oh moço audaz, assim fizeste, +«De imperio sobre ti que prova déste?....</p> + +<p class="poesia">«Tu, que esquecendo as leis de cavalleiro, +«Quando uma Virgem timida, innocente, +«Acaba de salvar-te o derradeiro +«Sopro da vida, a teu desejo ardente, +«Sem respeitar seu desamparo inteiro, +«Buscas sacrifica-la impaciente, +«Abusar da imprudencia e juventude; +«Que assim curas da honra e da virtude!</p> + +<p class="poesia">«Mas Deus a protegeu, o o ceo piedoso +«Que guardada lhe tem mais nobre sorte +«Soube arranca-la ao moço impetuoso +«Que ella arrancado havia ás mãos da morte. +«Dóma, oh mancebo, o genio teu fogoso, +«Sabe ás paixões oppor uma alma forte, +«Que em vão procura a honra e busca a gloria +«Quem aos desejos seus cede a victoria.</p> + +<p class="poesia">«Sabe não tarda a hora que ha marcado +«A eterna, e insondavel Providencia +«P'ra que d'ella, e de ti se cumpra o fado, +«Que não pode prever mortal prudencia, +«Mal de quem, com seu sopro envenenado. +«Pertender profanar essa innocencia! +«Mal de ti, se a cumprir te não dás préssa +«Do ceo a ordem, que por mim se expréssa!</p> + +<p class="poesia">«Não distante d'aqui, na opposta margem +«Um barco mouro o Téjo vem subindo, +«Procura Santarem sua viagem, +«Um irmão de Hauzeri vem conduzindo; +«Saia-mos-lhe ao encontro na passagem, +«Da nova aquelles mouros instruindo, +«Volverão, esta Virgem lhes daremos, +«E assim a Lei sagrada cumpriremos.»</p> + +<p class="poesia">Fallando assim, do Ermita venerando +A voz era solemne, e magestosa, +Via-se a frente calva circumdando +Uma aréola clara e luminosa; +Subjugado Ruy cede a seu mando, +Já na agua nada a barca pressurosa, +Já, proximos da opposta ribanceira, +Sentem remar dos mouros a bateira.</p> + +<p class="poesia">Porem ao som do remo, que devia +Para sempre talvez roubar-lhe a amada, +No coração do moço renascia +A tempestade apenas abafada; +Se co'amor o respeito combatia, +Não dura a luta na alma apaixonada, +Cede o respeito, e o moço exasperado +Ao velho falla assim com gesto irado.</p> + +<p class="poesia">«Quem, oh velho agoureiro! dependente +«Coustituiu de ti o meu destino?.... +«Vate de malles, barbaro inclemente, +«P'ra que simulas leis do ceo benino?..... +«Vai, cessa de ligar teimosamente +«A minha sorte ao fado teu mofino, +«De perseguir meus dias, de insultar-me, +«E co'escuro provir de ameaçar-me.</p> + +<p class="poesia">«É tua de Hauzeri acaso a filha?.... +«Acaso nos combates me ajudaste?.... +«Este braço, esta espada que aqui brilha +«Acaso foste tu que os animaste?... +«Esta de amor suave maravilha +«Acaso foste tu quem a salvaste?... +«Não. Entrega-la a barbaros imigos +«Só sabes querer, e expo-la a novos perigos.</p> + +<p class="poesia">«Ah! se longe de tudo á dôr votado, +«Aborreces o mundo, e seus deveres, +«Volve ao ermo dos homens sequestrado, +«Céva na solidão teus desprazeres, +«Não venhas com teu halito empestado +«Murchar da vida a flôr aos outros seres, +«Nem blasfemes o ceo, querendo que eu veja +«Desleixada, a que o ceo quer que eu proteja.</p> + +<p class="poesia">«E póde querer o ceo, que eu a innocencia +«Nas mãos dos infieis de novo entregue, +«Que Fatima infeliz da Fé na ausencia +«O Deus que a protegeu blasfeme e negue?... +«Póde querer, que a abandone sem clemencia +«Ao funesto destino que a persegue?.... +«Não, não póde tal querer; nem separado +«Soffrerei ser de um bem que o ceo me ha dado.</p> + +<p class="poesia">«Aparta-te de mim tu que o projectas, +«Aparta-te de mim, antes que iroso +«Pelas expressões tuas indiscretas +«Me leve o sangue a extremo perigoso! +«Ao zelo que por mim, por ella affectas +«Prestes pôe termo, foge pressuroso, +«Deixa-me, oh velho insano, ao meu destino, +«Poupa-me algum funesto desatino!</p> + +<p class="poesia">Immovel, qual rochedo, o velho Ermita +Do mancebo os transportes escuitava, +A compaixão, que seu penar lhe excita, +No gesto enternecido se mostrava. +Pallida, e sem alento a moça afflicta +Aos ceos os lindos olhos levantava, +Como quem do poder soberano e forte +Submissa, e resignada espera a sorte.</p> + +<p class="poesia">N'isto do batel mouro percutida +É a barca do remo abandonada: +N'agua mergulha a borda, compellida +Do veleiro batel pela pancada. +Aquella vê Ruy, que lhe era vida, +No rio desparecer precipitada, +Grita, lança-se ao rio a soccorre-la, +Mergulha em vão, em vão quer recolhe-la.</p> + +<p class="poesia">Mas o braço do Ermita mysterioso +Fatima sobre as aguas amparando +Longe a leva do amante impetuoso, +Que em vão a está nas aguas procurando, +Clama ao batel dos mouros pressuroso, +E a filha de Hauzeri prompto entregando, +Volve a Ruy, arrastra-o da corrente, +E desparece á vista em continente.</p> + + +<h4>FIM DO QUARTO CANTO.</h4> +<p><img src="images/HCanto5.png" alt="" align="middle" border="0" /></p> + + + + +<h2>CANTO QUINTO.</h2> + + +<div class="caixa_quote"> +<p class="poesia">Quaes no profundo reino os nus espritos +Fizeram descançar de eterna pena +C'uma voz de uma angelica Sirena</p> +<p><span class="small-caps">Camões, Lus.</span>, C. 10.º, E. 5.ª</p> +</div> + +<p class="poesia"><img src="images/DCanto5.png" alt="V" border="0" align="bottom" />agaroso vem marchando +Na vereda um cavalleiro, +Nobre ginete montando; +Traz o rosto do guerreiro, +Que a vizeira alevantada +Deixa contemplar inteiro, +Co'a acerba dôr concentrada +Negra sombra de tristeza +Profundamente gravou.</p> + +<p class="poesia">Dos olhos seus a viveza +Apaga a melancholia, +Da intensa magoa a dureza. +Tormento de mais de um dia, +Froixa luz de escaça esperança +Se lê na fisionomia. +Pena, que a velhice avança, +Infausta paixão ardente +Causas são de tal mudança.</p> + +<p class="poesia">Como o tronco florescente, +Que ha pouco altivo, e frondoso +Ornava a selva virente, +Que o furor do vento iroso +Rebramando enfurecido +Desafiava orgulhoso, +De insecto voraz roido +Na raiz que o alimenta, +Murcho abate o cume erguido, +Alta a copa não sustenta, +Perde da folha a verdura, +Que a seiva não alimenta, +Guarda só do lenho a altura, +Merencorio documento +Da perdida formosura; +Assim, desde o atroz momento +Que Fatima lhe roubou, +Com saudade, amor, tormento +De Ruy o ser mudou.</p> + +<p class="poesia"> No fundo d'alma + Do triste amante, + Nem um instante + Ha tregoa e calma. + Pena incessante + Que nada acalma. +Cada dia com o tempo reforçada, +Lhe consume a existencia desgraçada.</p> + +<p class="poesia"> Já, qual soía + Quando ditoso, + Não impellia + O bellicoso + Da Andaluzia + Filho fogoso +Apoz o corredor que a lebre alcança, +Ou o gamo leve, que no campo avança.</p> + +<p class="poesia"> Lá no torneio + Já não brilhava, + Marcio recreio, + Que outr'ora ornava + De audacia cheio, + Onde arrancava +Dextro e valente o premio em nobre luta; +Tanto a amarga tristeza a alma lhe enluta!</p> + +<p class="poesia"> Mesto, isolado, + Ermos outeiros + Corre, apartado + Dos cavalleiros; + Só animado + Entre os guerreiros +Se mostra ainda em frente do inimigo, +Quando a tuba guerreira o chama ao perigo.</p> + + +<p class="poesia">Ignora o infeliz qual seja a sorte +D'aquella por quem só lhe é cara a vida, +D'aquella sem a qual da espada ao corte +A existencia quizera ver perdida. +Nas aguas a deixára entregue á morte, +Nas aguas víra a Virgem submergida, +Longe d'ella com força irresistivel +Arrebatado n'esse instante horrivel.</p> + +<p class="poesia">Do agoureiro Ermita a milagrosa, +Subita apparição, prompta partida, +A aréola da frente luminosa, +A antiga prophecia d'elle ouvida: +A lembrança da Mãi terna e saudosa, +Do martyr Pai a ultima ferida, +Seus preceitos, legados á consorte, +Sellados pela fria mão da morte.</p> + +<p class="poesia">As palavras do Ermita, os seus furores +Contra elle, tão prompto castigados; +Seus primeiros desejos, seus ardores +Pelo ceo, como acinte, perturbados; +Os olhos de Fatima encantadores, +Quaes por ultimo os vira aos ceos alçados, +A angelica expressão do seu semblante, +Tudo a Ruy se pinta em cada instante.</p> + +<p class="poesia">O socego na noute em vão procura, +Foge o somno a seus olhos vigilantes; +A incerteza, entre as penas a mais dura, +Se afferra, roaz cancro, a seus instantes; +Se ao cançaço a final cede a natura, +Entre um tropel de sonhos delirantes +Vagando sem cessar o pensamento, +Em logar do repouso acha o tormento.</p> + +<p class="poesia">Tal era o miserando, infausto estado +De Ruy, que ao acaso caminhava, +Só, distante dos seus, e confiado +No valor, que a desdita não coarctava; +Não distante do muro alevantado, +Que a maura gente ainda povoava, +Na montanha, que surge graciosa, +Qual no deserto a oazis frondosa.</p> + +<p class="poesia">Em frente do mancebo se estendia +Prodiga de bellezas a natura: +Da primeva, robusta penedia +A variada, asperrima structura, +Que em agulhas, em picos se erigia, +Varios na massa, varios na figura, +Erectos estes, estes inclinados, +Selvosos uns, os outros despojados.</p> + +<p class="poesia">Ruinas da vetusta natureza, +Monumentos de um mundo transpassado, +Culminantes elevam núa a aspereza +Os cumes de granito descarnados; +Em quanto, circumdando a redondeza +Das fraldas, se divisam cumulados +Das destruidas rochas os fragmentos +Attestando o poder dos elementos.</p> + +<p class="poesia">Alli a aerea marcha pressurosa +Pára a nevoa do vento saccudida, +Alli pára a procella magestosa +Nas enroladas nuvens envolvida, +A lymfa alimentando, que abundosa +Dos penhascos nas veias repartida +Surde em cascatas, em limpidas fontes, +Em arroios gentis desce dos montes.</p> + +<p class="poesia">Lá se veem de granito á massa ingente +Do chão calcareo as zonas encostadas, +Áquem e álem partidas variamente, +Jazer rotas, confusas, deslocadas; +Quaes se de interno esforço e de repente +Nos fundos alicerces abalados +Como involucro fragil rebentassem, +E ao novo serro o dia franqueassem.</p> + +<p class="poesia">Mais abaixo porem ledo se estende +O selvatico manto de verdura, +Onde o bafo do estio nunca offende +A flôr mimosa, amante da frescura, +Onde da hervosa penha se desprende +Com murmurio suave a fonte pura, +E a mil viçosas plantas succos dando +Saudosa corre entre ellas serpejando.</p> + +<p class="poesia">No valle agreste e umbroso o medronheiro +O rubicundo fructo tem pendente +Á sombra do robusto castanheiro, +Cuja folha intercepta o sol ardente; +O carvalho frondoso, o alto olmeiro +Cinge a hera lustrosa estreitamente; +Do pinheiro co'as copas elevadas +As massas de verdura são coroadas.</p> + +<p class="poesia">Na solidão do bosque as tenras aves, +Incolas primitivas da floresta, +Chamam a vida co'as canções suaves +Musica natural que amor empresta; +Respondem-lhe de longe os tons mais graves, +Merencoria harmonia lenta e mesta +Das ondas, que escumando entre os penedos +Batem da roca os asperos rochedos.</p> + +<p class="poesia">De Alboracim as aguas misturando +Do salso mar co'as vagas amargosas, +De um lado corre o Téjo, saudando +Por derradeiro as praias arenosas; +Vão-se do outro os olhos alongando +Pelas tumidas ondas procellosas, +Que com o tempo sulcarão triumfantes +Saudando o patrio sólo as náos ovantes.</p> + +<p class="poesia">Ainda então sobre a penha virente +Orientaes trophéos não consagrára +De Diu o vencedor, nem o eminente +Excelso pico a torre rematára; +Inda a pedra lavrada artistamente +O Alcacer real não levantára; +Nem a limfa liberta conhecêra +A marmorea bacia, que a prendêra;</p> + +<p class="poesia">Inda a riqueza então não erigira +Do prazer a morada caprixosa, +Nem o muro importuno prohibira +O transito na selva magestosa; +Inda o tronco indignado não sentira +Do ferro a cortadura injuriosa, +Nem do cordão tyranno a fantesia +Immolàra a belleza á symetria.</p> + +<p class="poesia">Tal era o quadro que ante o olho amante +Do misero Ruy se desdobrava: +Parou, e parecia que um instante +A amarga dôr no peito se adoçava. +Menos pezado e triste no semblante +Os olhos pelos cumes alongava; +Mas foi curta a impressão, curta a surpreza, +Prompto volveu á habitual tristeza.</p> + +<p class="poesia">Qual um instante só brilha o luzeiro +Do claro sol no meio da procella; +Tal da alegria um raio do guerreiro +Um momento sómente o vulto assella. +Entranha-se na selva, que primeira +No seu transito está frondosa, e bella, +Segue da agua o arroio fugitivo +Co'a frente baixa, o rosto pensativo.</p> + +<p class="poesia">Assim caminha, quando o pensamento +Sente por modo estranho perturbado. +Não, não é illusão, um doce accento +Sôa no bosque, terno, e magoado, +Em vez do som facticio de instrumento +Do murmurio do arroio acompanhado, +Merencoria harmonia, canto lindo +Qual o da rôla seu amor carpindo.</p> + +<p class="poesia">«Oh doce voz! oh canto mavioso! +«Ah! que se ella vivêra, assim cantára, +«Assim o nosso amor puro, extremoso, +«Solitaria, e saudosa lamentára! +«Mas, oh noute cruel, fado horroroso! +«Nas aguas para sempre a bella, a cara!... +Mais não disse, que os olhos se alagaram +E os soluços as vozes lhe cortaram.</p> + + +<h3>A VOZ.</h3> + +<p class="poesia">«Bosques sombrios, profundos retiros, +«Aguas correntes, aves namoradas +«Inda uma vez escutai os suspiros, +«Da desditosa, entre as mais desgraçadas; +«Inda uma vez escutai meu tormento, +«Do meu penar e da minha anciedade +«Origem foi um puro sentimento, +«Morro de amor, expiro de saudade!</p> + +<p class="poesia">«Á dura morte eu por elle arrancada +«A gratidão um dever me inspirou, +«Vi-o, fallou-me, e d'esta alma encantada +«No mesmo instante o dominio usurpou. +«Verde floresta, escuta o meu tormento, +«Aves, ouvi minha triste anciedade, +«Victima sou de um puro sentimento, +«Morro de amor, expiro de saudade.</p> + +<p class="poesia">«Elle partiu namorado da gloria, +«Elle partiu sem curar do meu fado, +«De quem o adóra ah talvez a memoria +«Não haverá nem sequer conservado. +«Por derradeiro escutai meu tormento, +«Por derradeiro ouvi minha anciedade; +«Se elle trahiu tão puro sentimento +«Mate-me amor, morra eu de saudade.</p> + +<p class="poesia">«Mas se fiel, se constante e amoroso +«Quaes os inspira elle sente os amores, +«Aves, cantai, e tu, bosque viçoso, +«Dá novo brilho a teus gentis verdores; +«Mais que a alegria é feliz meu tormento, +«Mais que o prazer feliz minha anciedade, +«Que é dom do ceo por um tal sentimento +«Morrer de amor, expirar de saudade.</p> + +<p class="poesia">Assim cantava a voz melodiosa +O canto com suspiros alternando, +A saudosa canção, queixa amorosa +Iam da selva os echos imitando. +A dôr pungente, a angustia que affanosa +Iam do moço a vida definhando +Mais rapido dissipa o doce accento, +Do que a nevoa ligeira aparta o vento.</p> + +<p class="poesia">N'um instante da moura aos pés se lança +Ruy, subido ao auge da ventura: +«Vida da minha vida, amor, e esperança +«Dos dias meus, modello da ternura! +«Que alma ingrata poderá ter mudança +«Sendo de ti amada, oh Virgem pura?.... +«Não, mil mortes soffrêra o teu amante +«Primeiro que esquecer-te um só instante.</p> + +<p class="poesia">Dize-lo; as mãos da Virgem commovida +Apertar contra os labios abrazados +O mesmo é p'ra Ruy, que a queixa ouvida +Completa os seus desejos extremados. +«Certo do teu amor, Virgem querida, +«Quem de Ruy póde igualar os fados?... +«Todo o cruel tormento que hei soffrido +«Um só accento teu fez esquecido!....</p> + +<p class="poesia">«Sorte propicia, acaso venturoso, +«Que o ser me restitue para a ventura, +«Que prodigio feliz do ceo piedoso, +«Que força superior á da natura, +«O pôde produzir?... Desde o horroroso +«Momento em que surgiu por desventura +«Esse fantasma horrivel, despiedado +«Contra mim acintoso, e conjurado:</p> + +<p class="poesia">«Dês que, do odio seu fructo execrando, +«Te vi ante meus olhos submergida, +«Em vão nas fundas aguas procurando, +«Louco de magoa e dôr, salvar-te a vida, +«Que o barbaro fantasma, oh crime infando! +«Com mais que humana força e desmedida +«De ti me arrebatou; que Anjo divino +«Protegeu, doce amada, o teu destino?...</p> + +<p class="poesia">«Indelevel lembrança! Instante horrivel +«Em que, de quanto amava separado +«Pelo monstro a meus rogos insensivel, +«Na solitaria margem fui deixado! +«Por toda a parte em meu furor terrivel +«Em vão o procurei desesperado, +«Riu-se o fado de mim, e até est'hora +«Roubou-o á minha sanha vingadora.</p> + +<p class="poesia">«Mas se elle existe acaso entre os viventes, +«Se um fantasma não é, parto do averno, +«Que a perseguir meus passos innocentes +«A ira suscitou do negro inferno; +«Por essas magoas juro tão pungentes +«Que hei soffrido, por meu amor eterno, +«Que saciando n'elle a minha furia, +«Heide lavar a tua, e minha injuria.</p> + + +<h3>FATIMA.</h3> + +<p class="poesia"> «Ah suspende! mais não digas! + «Sim suspende, oh bem amado, + «Illudido, alucinado, + «Taes blasfemias não prosigas!</p> + +<p class="poesia"> «Esse, que acusas de morte + «Só nas aguas me salvou, + «Só elle me confortou + «Na tyranna, adversa sorte.</p> + +<p class="poesia"> «Se ainda conservo a vida, + «Se inda me estás contemplando, + «Ao Ancião venerando + «Minha existencia é devida.</p> + + +<h3>RUY.</h3> + +<p class="poesia"> «Como?... Aquelle que arrancar-te + «Ousou a meu peito amante, + «Que em magoa e dôr incessante + «Me fez continuo chorar-te,</p> + +<p class="poesia"> «Da tua lei o inimigo, + «Da tua raça execrado, + «Pôde aliviar teu fado, + «Protector para comtigo!....</p> + + +<h3>FATIMA.</h3> + +<p class="poesia"> «Prodigios o ceo clemente, + «Que meus olhos desvendou, + «Por esse mesmo operou, + «Que blasfemas imprudente!</p> + +<p class="poesia"> «Desde o momento horroroso, + «Em que de ti separada, + «De quanto amava affastada + «Fui no caso lastimoso.</p> + +<p class="poesia"> «A taça da desventura + «Misera esgotar devia, + «Trazendo-me cada dia + «Nova dôr, nova amargura.</p> + +<p class="poesia"> «Mal de Cintra o alto muro + «Me recebeu malfadada, + «Foi minha alma transpassada + «Dos golpes pelo mais duro.</p> + +<p class="poesia"> «Soube que o Padre querido + «Tão digno do meu amor, + «Ao despeito, á magoa, á dôr + «Tinha infeliz succumbido.</p> + +<p class="poesia"> «Inda bem me não feria + «Este golpe acerbo, amaro, + «Que do meu unico amparo + «Se apagára a luz do dia;</p> + +<p class="poesia"> «De Hauzeri o irmão restante + «Que affavel me agazalhára, + «Que por filha me adoptára + «Viu chegado o ultimo instante.</p> + +<p class="poesia"> «Solitaria, abandonada, + «Sem amigos, sem parentes, + «De amor nas chammas ardentes + «Por mór tormento abrazada,</p> + +<p class="poesia"> «Ignorando se vivia + «O só ser que ainda amava, + «Se o jurado amor guardava, + «Se em outras chammas ardia,</p> + +<p class="poesia"> «Succumbi, em vão luctando + «Contra tanta desventura, + «E aos golpes da sorte dura + «Senti a força expirando:</p> + +<p class="poesia">«Nem já o pranto, allivio aos desgraçados, +«Os olhos meus vertiam, +«Nem já ais, nem suspiros, que exhalados +«As penas alliviam, +«Soltar podia. Opressos, suffocados +«Minha alma consumiam +«Em silencio os tormentos, morta a esperança +«De poder minha sorte ter mudança.</p> + +<p class="poesia">«Uma noute em que só de horror cercada +«Ao pezo de meus males succumbia +«De pura luz me vejo rodeada +«Igual á que no ceo precede o dia. +«De espanto e de terror sobresaltada, +«Quando convulso o corpo meu tremia, +«No centro do clarão o proprio vejo +«Que ás aguas me arrancára lá no Téjo.</p> + +<p class="poesia">«Era o mesmo; porém mais magestoso +«Ora de mim se vinha aproximando; +«Qual um astro celeste e radioso +«Brilhava o seu semblante venerando, +«Um aroma suave e precioso +«Estavam suas vestes exhalando, +«Na mão tinha uma Cruz resplandecente +«Co'a imagem do seu Deus n'ella pendente.</p> + +<p class="poesia">«Co'a voz a um tempo grave, meiga, e branda, +«Com aspecto sereno, e enternecido, +«Disse: Victima triste e miseranda +«Até agora de um fado endurecido, +«Um Deus Clemente, oh filha, a ti me manda; +«Um Deus, a quem um ai, um só gemido +«De verdadeira dôr, de penitencia +«Move com os peccadores á clemencia.</p> + +<p class="poesia">«Surge da magoa horrivel que te oprime, +«Cobra força, renasça o teu alento, +«Pela esperança do dom alto e sublime +«Com que o ceo quer sarar teu soffrimento. +«Fructo innocente de expiado crime +«Serás da pena qual da culpa isento, +«Em ti meu sangue não será contado +«Entre aquelle, que o ceo tem rejeitado!</p> + +<p class="poesia">«Uma filha, ai de mim! eu tive outr'ora, +«Como tu a formára a natureza; +«Tinha ella então, como tu tens agora, +«Esse dote funesto da belleza. +«Uma chamma tyranna, abrazadora +«Illudiu da sua alma a singelleza, +«Ligou-a o nó de amor, e da desgraça +«Ao inimigo audaz da propria raça.</p> + +<p class="poesia">«Aos braços de Hauzeri, de amor levada, +«Funesto effeito das paixões ardentes, +«Cuidando ser feliz, foi desgraçada +«Victima das angustias mais pungentes. +«O Deus, o Pai, a Patria abandonada +«Á misera continuo são presentes, +«O roedor remorso, a magoa dura +«Lhe foram escavando a sepultura.</p> + +<p class="poesia">«Chegado da infeliz o ultimo instante, +«Odios, malquerenças, queixas expiraram, +«Paterno pranto, com o do esposa amante +«Da morte o leito unidos lhe regaram. +«Resignados os olhos seus brilhantes +«Pela ultima vez aos ceos se alçaram, +«Um suspiro exhalou, cuja piedade +«As iras aplacou da Divindade.</p> + +<p class="poesia">«Fructo infeliz de amor, e de fraqueza +«Junto à Mãi expirante tu jazias, +«Por ti fallava ainda a natureza, +«Tu só na terra a alma lhe prendias. +«Tomou-te entre seus braços com viveza, +«Tu que a trama cortáras de seus dias, +«E com a voz, cortada já da morte, +«Assim fallou ao Padre e ao Consorte.</p> + +<p class="poesia">«Padre, se ingrata filha, angustia e dores, +«Por premio a teu amor só sube dar-te +«Neste fructo infeliz de meus ardores +«Possas ter quem se empenhe em consolar-te, +«E tu, por quem soffri tormento e dores +«Sem uma hora se quer cessar de amar-te, +«Consente que ella entregue ao pai que imploro +«Possa rogar por mim ao Deus que adoro.</p> + +<p class="poesia">«Assim fallou a triste, e resignada +«O golpe recebeu da dura morte, +«Partiu do erro a alma já purgada +«A repartir nos ecos do justo a sorte. +«Mas de Hauzeri em vão a prenda amada +«Reclamei, em memoria da Consorte; +«Arrancar-lha não pude, e separado +«Fui desde então p'ra sempre do teu fado.</p> + +<p class="poesia">«Supplicas, pranto, rogos, ameaças +«Para salvar-te estereis empregando, +«Fui no ermo chorar minhas desgraças +«Aos ceos dos ceos a causa confiando, +«Continuo sobre ti de Deus as graças +«Com penitentes lagrymas chamando. +«Até que a Deus tocou minha agonia, +«Deus que benigno a salvação te envia.</p> + +<p class="poesia"> «Em quanto fallava + «A cruz me estendia; + «E a dôr que a pungia + «Na alma abrandava; + «Do Deos que invocava + «Tocar-me sentia, + «Já menos soffria + «Já mais me animava, + «E quando acordava + «E a mim me volvia + «Achava-me o dia + «Outra do que estava, +«Livre da interna lucta, e na bonança +«Começando a antever a luz da esperança.</p> + +<p class="poesia">«A celeste vizão reproduzida +«Cada noute a minha alma soccorria, +«Cada noute na fé santa instruida, +«O santo Avô mais firme me fazia. +«A antiga exasperação, o tedio a vida +«Em merencoria dôr se convertia, +«Dissera-me feliz, se a um sentimento +«Conseguisse esquivar meu pensamento.</p> + +<p><img src="images/ICanto5.png" alt="Beijo" align="middle" border="0" /></p> + +<p class="poesia">Assim Fatima ao transportado amante +O terno coração patenteava; +Ruy de puro goso delirante +No gesto a paixão viva retratava; +Vivo rubor da Virgem no semblante +Da alma os sentimentos debuchava; +A selva, as aves, o arroio, as flôres +Formando um templo digno a taes amores.</p> + + +<h4>FIM DO QUINTO CANTO.</h4> +<p><img src="images/HCanto6.png" alt="" align="middle" border="0" /></p> + + + + +<h2>CANTO SEXTO.</h2> + + +<div class="caixa_quote"> +<p class="poesia">Tal está morta e pallida Donzella, +Seccas do rosto as rosas, e perdida +A branca e viva côr co'a doce vida.</p> +<p><span class="small-caps">Camões, Lus.</span>, C. 3.º, E. 134.ª</p> +</div> + + +<p class="poesia"><img src="images/DCanto6.png" alt="S" border="0" align="bottom" />oberbo ondeia a crina fluctuante +De Ruy o ginete bellicoso, +Atravez da floresta segue ovante +No accelerado trote pressuroso. +Excita o nobre bruto o ledo amante, +Vivo obedece o animal fogoso +Á redea, ha tanto tempo abandonada, +Que outra vez com vigor sente empunhada.</p> + +<p class="poesia">Seguindo vai o nobre aventureiro +Transportado de goso e de alegria +A direcção do campo, que o guerreiro +Povo de Christo alevantado havia. +Doce aspecto, risonho e lisongeiro, +Em vez da dôr, lhe exalta a fantezia, +Todo quanto carpira, quanto amára +A fortuna propicia lhe entregára.</p> + +<p class="poesia">Do ginete nas ancas assentada +Levar se deixa de Hauzeri a filha, +Entregue a amor, e por amor guiada, +Suave esperança nos seus olhos brilha. +O rosto lindo, a fórma delicada +Da natura primor, e maravilha, +A pár do Cavalleiro armado e forte, +Realisam Cyprina com Mavorte.</p> + +<p class="poesia">Sob o braço da Bella, que o estreita, +O coração do moço arde e palpita, +Elle o sente, ella o palpa, e satisfeita +Partilha o goso, que innocente excita. +Se ella suspira, elle o suspiro aceita, +Se olha-la intenta, ella o olhar lhe evita, +Pejando-se que lêa o terno amante +Nimia expressão de amor em seu semblante.</p> + +<p class="poesia"> Assim o bosque frondoso + Vão prestes atravessando, + Um silencio deleitoso + Bella, e amante guardando.</p> + +<p class="poesia"> Silencio, que amor prefere + Á mais ardente expressão, + Que no fundo da alma fere, + Que transpassa o coração;</p> + +<p class="poesia"> Que identifica, que enlaça + Os que a mesma idéa prende, + Que a compaixão, que a desgraça, + Que amor, que a ternura entende.</p> + +<p class="poesia"> Silencio não avalia + Alma mesquinha, apoucada, + Que sempre placida e fria + Do sacro fogo é privada.</p> + +<p class="poesia"> Em silencio a natureza + Vê rolar no immenso espaço + Dos orbes a redondeza + Que impelliu do Eterno o braço,</p> + +<p class="poesia"> Em silencio a vaga ondosa + Rola no lago profundo, + Séria a noute magestosa + Envolve em silencio o mundo.</p> + +<p class="poesia"> Em silencio o vate absorto + Antes de pulsar a lira + Recebe o influxo e conforto + Do talento que o inspira.</p> + +<p class="poesia"> Em silencio meditando + Alcança o sabio a verdade, + Vai-se um silencio mirrando + O filho da adversidade.</p> + +<p class="poesia"> Silencio da alma nascido, + Caracter do sentimento, + Tu es o grau mais subido + Ou do goso, ou do tormento.</p> + +<p class="poesia">Atraz deixam o bosque, e as claras fontes. +Que atravez a verdura vem manando, +Co'a varia crista dos erguidos montes, +Que se está sobre as nuvens desenhando, +Tingem-se de côr varia os horisontes +Co'extremo sol nas aguas mergulhando, +Os monotonos cumes apparecem +Que com o calmoso estio se encalvecem.</p> + +<p class="poesia">Ficava-lhes da parte, donde o dia +Mais refulgente vibra os esplendores, +A Arrabida, entre as nevoas, que tingia +O sol cadente de purpureas côres, +Com o ramo descendente, que estendia +Pelos equoreos campos bolidores, +Do Téjo e Sado as fozes separando +Com o Cabo do Espichel que vai formando.</p> + +<p class="poesia">Não longe, e como filho da montanha, +Ficava de Palmella o cume erguido, +Ao longe dominando na campanha, +Ao perto sobre o valle, enriquecido +Pela filha gentil de terra estranha, +Que ora alli sobre o ramo seu florido +Ostenta a um tempo a flôr, e os pomos de ouro, +De perfume e frescura almo thesouro.</p> + +<p class="poesia">Jazem-lhe á dextra as aridas campinas +Onde com o vento a loura messe ondeia, +Calcareas e basalticas collinas +Onde a arvore a vista não recreia, +Mais longe as em que a limfa cristalina +Hoje em prisão marmorea se encadeia, +Roubada aos campos, á verdura, ás flores, +P'ra alegrar de Lisboa os moradores.</p> + +<p class="poesia">Em frente se lhe antolha o pico altivo +Co'as naturaes collumnas enfeixadas, +Columnas que formára o fogo activo +Nas epochas remotas e apartadas, +Em que inda o touro, o cervo fugitivo +Não pasciam nos campos co'as manadas; +Mas só nadantes monstros habitavam +Mares, que até aos serros se elevavam.</p> + +<p class="poesia">Logo as nuvens rompia mais distante +De Monte-junto a molle alevantada, +Monte-junto, que a lomba culminante +Une a Minde ao nordeste prolongada; +As aguas dividindo, que ao levante +Vem buscar a planicie, que regada +É pelo Téjo, das que ao mar salgado +Directas vão correr no opposto lado.</p> + +<p class="poesia">Do sol quasi submerso os derradeiros +Raios as eminencias só douravam, +Das fontes e dos valles os ligeiros +Vapores os contornos desenhavam; +Sobre as nevoas os cumes dos outeiros +Quaes ilhas sobre o mar se alevantavam, +E as aves com a ultima harmonia +Davam o extremo adeos ao claro dia.</p> + +<p class="poesia">Na belleza da scena que os rodeia +Fatima nem Ruy não attentavam, +Amor as faculdades lhe encadeia, +Ao delirio de amor se abandonavam. +Qual forte olmeiro a branda vide enleia, +Tal a bella e mancebo se estreitavam; +É elle o seu apoio, o seu sustento, +É ella de Ruy só pensamento.</p> + +<p class="poesia">Continúa o silencio dos amantes +Nos vivos sentimentos engolfados, +Nada sôa nos valles circumstantes +Mais que do bruto os passos compassados; +Só lá dos valles nos cazaes distantes +Ladrar se ouvem os cães, sôar dos gados +Monotonos chocalhos tangedores, +Com o debil som das gaitas dos pastores.</p> + +<p class="poesia"> De um fraco ribeiro, + Que a calma escaceia, + Que na fralda ondeia + Do arido outeiro, + Cortava o carreiro + O leito escabroso: + O solo ondoloso + Alli se abatia, + E a senda descia + Ao váo pedragoso.</p> + +<p class="poesia"> Ao pé da torrente, + Gosando a frescura, + De um chôpo a verdura + Ornava a corrente; + Da lua nascente + A luz estorvando, + A sombra alongando + Na estreita passagem, + Co'a verde folhagem + A senda toldando.</p> + +<p class="poesia"> O corcel, que excita + O bellico amante, + Na marcha prestante + Um momento hesita; + Logo a orelha fita + E o trote accelera, + Ruy, que o modéra, + O fogo percebe + Que o bruto concebe + Na batalha féra.</p> + +<p class="poesia"> Com o braço valente + A lança endereça, + Preme o bruto, e á préssa + Transpõe a corrente. + «Cinge estreitamente, + «Bella, o teu consorte, + «Que seu braço forte, + «Por ti animado, + «Do mais esforçado + «Desafia o córte.»</p> + +<p class="poesia"> Fatima obedece, + Seu seio palpita.... + N'isto uma voz grita + A Bella estremece; + No grito conhece + A aravia expressão, + Que no coração + O sangue lhe esfria. + Fugir quereria; + Mas tenta-lo é vão.</p> + +<p class="poesia">Quem vem lá?... Com voz alta e sonorosa +Na arabia lingua um mouro perguntava, +Brandindo a ferrea lança temerosa +O corcel co'as espóras despertava; +Com haste igual de sangue sequiosa +Outro mouro apoz elle se mostrava: +Ruy, que os vê, e em seu valor confia; +«Christo e ElRei Affonso:» respondia.</p> + +<p class="poesia"> Diz. O ginete arremeça, + Salta o bruto ardente e forte, + Co'a lançada vôa a morte + Do mouro a cotta atravessa. + Espadana o sangue infido, + De um só golpe a alma vôa, + Cahe o mouro, e com o ruido + Das armas o valle atrôa.</p> + +<p class="poesia"> Torce a redea o Cavalleiro + Contra o segundo inimigo; + Mas menos forte o guerreiro + Encarar não ousa o perigo:</p> + +<p class="poesia"> Do ginete á ligeireza + Da vida confia o preço, + Parte, vôa, e com destreza + Vibra a lança de arremeço.</p> + +<p class="poesia"> Parte a hastea sibilando, + O fado dirige o tiro, + Cahe Fatima, e ao golpe infando + Responde um longo suspiro.</p> + +<p class="poesia"> Ella cahe, ella suspira, + No seu seio palpitante + Um covarde ferro aspira + O sangue da doce amante.</p> + +<p class="poesia"> Ruy no peito a sustenta + Mudo, louco, exasperado, + Nelle o olhar Fatima attenta + Quasi da morte apagado.</p> + +<p class="poesia"> Fitta nelle os olhos lindos + Onde amor lucta co'a morte: + «Os meus dias estão findos, + «Adeus suave consorte!</p> + +<p class="poesia"> «Amei-te mais do que a vida + «Desde esse primeiro instante + «Em que a ti fui submettida + «Por teu braço triunfante;</p> + +<p class="poesia"> «Nem a crença, que então tinha, + «Nem a ausencia, nem meu fado, + «D'esse amor, essencia minha, + «Haveriam triumfado.</p> + +<p class="poesia"> «Nenhum poder sobre a terra + «De Ruy me apartaria, + «Na ausencia, na paz, na guerra + «Fatima tua seria!.....</p> + +<p class="poesia"> «Mas Deus não quiz que embebido + «Em doce paixão terrena, + «O premio de um escolhido + «Fosse corôa tão pequena:</p> + +<p class="poesia"> «Não quiz esse Deus clemente + «Que a dita nos deslumbrasse, + «Que o nosso amor innocente + «Sobre a terra se gozasse.</p> + +<p class="poesia"> «Nasci de um crime, e no crime + «Involuntario educada, + «Esse Deus, sua Lei sublime, + «Foi por mim aos pés calcada:</p> + +<p class="poesia"> «Tarde conheci seu nome, + «E quando a Elle voltei + «Um peito, que amor consome, + «Imperfeito lhe votei.</p> + +<p class="poesia"> «Do sangue meu a abundancia + «Possa expiar, oh Senhor, + «Os erros da minha infancia, + «O excesso do meu amor!</p> + +<p class="poesia"> «Eu vejo a mãi, que me estende + «Desde o ceo amantes braços, + «Ella a alma me desprende + «Dos terrenos embaraços.</p> + +<p class="poesia"> «Eu vôo, oh esposo, eu vôo + «Ao seio da Divindade + «Jà seu hymno eterno entôo + «Nos umbraes da Eternidade.</p> + +<p class="poesia"> «Só d'alli, oh doce amante, + «P'ra sempre a dôr se desterra; + «Lá te aguardo, que um instante + «Vive o homem sobre a terra!</p> + +<p class="poesia"> «Mas ah, se a vida me déste + «Quando á morte me arrancaste, + «Deva-te a vida celeste + «Aquella que tanto amaste.</p> + +<p class="poesia"> «Derrama, á pressa, derrama + «Nesta fronte a agua da vida + «Que a seu seio Deus me chama, + «Em breve por ti seguida.»</p> + +<p class="poesia"> Disse. Uma força invencivel + Deus infunde ao moço ardente. + Desce, e no elmo terrivel + Toma a agua da corrente.</p> + +<p><img src="images/ICanto6.png" alt="Fatima a morrer" align="middle" border="0" /></p> + +<p class="poesia"> Chega. Derrama-a na frente + Da Virgem agonisante. + Ella a sente, e ternamente + Une ao peito a mão do amante.</p> + +<p class="poesia"> Apertou-a contra o seio, + A elle os olhos voltou, + Um suspiro aos labios veio + Exhalou-o, e expirou.</p> + +<p class="poesia"> Dizem que junto ao ribeiro + Doces cantos se escutaram, + Que na noute almo luzeiro + Os pastores contemplaram.</p> + +<p class="poesia"> Na seguinte madrugada. + Vindo ao sitio os guardadores, + Viram a terra escavada + Coberta de frescas flôres.</p> + +<p class="poesia"> Sobre ellas um vulto annoso + Candidas roupas trajando, + N'um vôo ao ceo pressuroso + Alva pomba contemplando.</p> + +<p class="poesia"> Dizem mais: que os que souberam + O caso digno de chôro, + Áquella torrente deram + O nome de Rio Mouro.</p> + +<p class="poesia"> Que Ruy na sepultura + Longo tempo suspirára, + Deposta a nobre armadura, + Que do martyr Pai herdára;</p> + +<p class="poesia"> Que alfim do pranto exhauridos + Os olhos seus se seccaram, + E seus ais, e seus gemidos + Para o Senhor se voltaram.</p> + +<p class="poesia"> Que do ceo a queixa ouvida, + Com balsamo de alta espr'ança + Lhe sarou Deos a ferida, + Lhe mandou da alma a bonança.</p> + +<p class="poesia"> De Cintra no ermo escabroso + No serro o mais retirado, + Além do monte viçoso + Monserrate ora chamado,</p> + +<p class="poesia"> Dois penhascos se elevavam + Que immensa louza cobria, + E uma caverna formavam + Que ao ponente a porta abria;</p> + +<p class="poesia"> Alli, dos homens remoto, + Dos seus proprios ignorado, + Ruy sob um nome ignoto + Terminou mistico fado.</p> + +<p class="poesia"> Alli do nascer da aurora + Té ao ultimo fulgor + Entoava em voz sonora + Os hymnos ao Creador.</p> + +<p class="poesia"> Das plantas da penedia, + Dos fructos do agreste monte, + Sua comida fazia, + Bebida lhe dava a fonte.</p> + +<p class="poesia"> Assim consumiu seus annos + Á solidão consagrados, + Té que, cumpridos seus fados, + Poz Deus um termo a seus damnos. + Partiu-se de entre os humanos + Sua alma candida e pura, + Os anjos a sepultura + Entre as penhas esconderam, + E as memorias se perderam + Da sua triste aventura.</p> + +<p class="poesia"> Longo tempo abandonada + Jazeu a selvagem gruta, + Do lobo, e raposa astuta + Foi longo tempo habitada. + Té que a prole sublimada + Do ultimo lume do Oriente + Um asylo penitente + No serro agreste erigiu, + E de novo alli se ouviu + O louvor do Omnipotente.</p> + + +<p class="poesia"> Os annos correram, + Que tudo mudando + Volvem derribando + O mesmo que ergueram;</p> + +<p class="poesia"> Da suave amante + Perdeu-se a memoria, + Esqueceu-se a gloria + Do Joven brilhante.</p> + +<p class="poesia"> No castello antigo + Berço a seus amores + Môchos piadores + Só tem seu abrigo;</p> + +<p class="poesia"> Selvagem verdura + C'o a hera lustrosa + Da muralha annosa + Cobrem a structura:</p> + +<p class="poesia"> De um lado inda a selva + Se mostra virente, + Matiza inda a relva + Do Lena a corrente,</p> + +<p class="poesia"> Inda o musgo brando. + Vestindo os penedos, + S'ta nos arvoredos + Amor convidando;</p> + +<p class="poesia"> Mas já não lastima + O echo das fragoas + Da triste Fatima + As pena, e as magoas.</p> + +<p class="poesia"> Do Téjo na borda + Ind'hoje aos salgueiros + O batel co'a corda + Prendem os remeiros,</p> + +<p class="poesia"> A humida esteira + Tranquillos sulcando, + Vem inda remando + De noute as bateiras,</p> + +<p class="poesia"> Mas da Moura linda, + Do Guerreiro amante, + No bronco habitante + A memoria é finda.</p> + +<p class="poesia"> De Cintra a viçosa + As frescas torrentes + Vem inda fluentes + Á selva frondosa,</p> + +<p class="poesia"> Das aves ainda + Na matta sombria + A doce harmonia + Com o dia não finda,</p> + +<p class="poesia"> Sua doce frescura, + Suas limpidas fontes, + Seus farpados montes + De altiva structura, + Sua luz clara e pura, + Seu ceo azulado, + Seu mar empolado, + Que o tempo venceram, + Memoria perderam + Do Pár desgraçado.</p> + +<p class="poesia">Tu só, tu, fantesia inseparavel +Das margens do meu Téjo, e seus verdores, +Tu, ceo da patria, ceo incomparavel, +Que n'alma, qual no campo, espalhas flôres: +Só tu resuscitaste o lamentavel +Destino de tão firmes amadores; +Só tu, do tempo alevantando o manto, +Sobre as campas de amor chamaste o pranto.</p> + + +<h4>FIM DO CANTO SEXTO E ULTIMO.</h4> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Ruy o escudeiro: Conto, by +Luís da Silva Mousinho de Albuquerque + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RUY O ESCUDEIRO: CONTO *** + +***** This file should be named 21786-h.htm or 21786-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/1/7/8/21786/ + +Produced by Pedro Saborano. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. 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