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+The Project Gutenberg EBook of Ruy o escudeiro: Conto, by
+Luís da Silva Mousinho de Albuquerque
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Ruy o escudeiro: Conto
+
+Author: Luís da Silva Mousinho de Albuquerque
+
+Release Date: June 9, 2007 [EBook #21786]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RUY O ESCUDEIRO: CONTO ***
+
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+
+
+Produced by Pedro Saborano. Para comentários à transcrição
+visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from Google Book Search)
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+
+
+RUY O ESCUDEIRO.
+
+Conto.
+
+
+POR
+
+L. DA S. MOUSINHO D'ALBUQUERQUE.
+
+ Remedios contra o somno buscar querem,
+ Historias contão, casos mil referem.
+ Camões, Lusiadas, Canto 6.º, Est. 39.ª
+
+LISBOA:
+1844.
+
+_Typ. da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis. Largo do
+Pelouriho, N.º 24._
+
+
+
+
+_O manuscripto original do presente Poema foi dadiva generosa de seu
+illustre Auctor, feita á Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis,
+que desejando corresponder a tão obsequioso offerecimento empenhou os
+recursos artisticos, de que podia dispor, para que a edição fosse
+primorosa, e provasse o adiantamento da gravura em madeira e da
+typographia em Portugal nestes ultimos annos._
+
+ _Os Editores._
+
+
+
+
+RUY O ESCUDEIRO.
+
+
+
+
+CANTO PRIMEIRO.
+
+ Desbaratado, e roto o mouro hispano,
+ Tres dias o grão Rei no campo fica.
+ Camões, Lusiadas, C. 3.º, E. 53.ª
+
+
+ A Cruz azul, que em campo prateado
+ No escudo de Henrique reluzia,
+ Em cinco o Filho já tinha cortado
+ Por memoria dos Reis, que roto havia:
+ De Castro-verde o campo dilatado
+ O novo Rei com o arraial cobria,
+ Livres os seus, e os mouros fugitivos,
+ Partião os despojos, e os captivos.
+
+ Do arraial no meio se elevava
+ Do grande Affonso a lenda triumfante,
+ Em torno á qual o vento balançava
+ As dos Cabos do Exercito prestante,
+ De Pero Pais, que seu pendão guiava,
+ Dos Venégas do Aio prole ovante,
+ De um Sousa, de um Vallente, e de outros fortes
+ Nos perigos, e na gloria ao Rei consortes.
+
+ Em seguida á do Rei se distinguia
+ Tenda semi-real, que alli plantára
+ Heroe, cujo valor não desmentia
+ O sangue da Borgonha, que o formára;
+ Pedro Affonso, a quem déra a luz do dia
+ Amor, que o hymineo não consagrára,
+ Digna estirpe de Henrique, e em obras suas
+ Galardão do cuidado ao aio Fuas.
+
+ No circumstante campo, vasto, aberto,
+ Que inda ha dois sóes medroso, e trepidante
+ Víra a furia cruel, conflicto incerto
+ Do Sarraceno em lanças abundante
+ Contra o Christão, que anima o Chefe experto,
+ E no Deus de seus pais a fé constante,
+ Trombetas, e ataballes uns tangiam,
+ Outros em novo canto assim diziam.
+
+
+ HYMNO.
+
+ Vai fugindo o Sarraceno
+ Mais prompto do que avançou,
+ Que todo o poder terreno
+ Por Christo desbaratou
+ O braço aos perros fatal
+ De Affonso de Portugal.
+
+ Cada um dos Cavalleiros,
+ Que por Christo ao campo vem,
+ Cem dos infieis guerreiros
+ Na peleja ante si tem;
+ Mas tudo cede ao real
+ Affonso de Portugal.
+
+ Cinco Reis de infieis mouros
+ Contra os de Christo vieram,
+ D'elles teve Affonso os louros,
+ As costas a Affonso deram,
+ Deu Deus esforço immortal
+ A Affonso de Portugal.
+
+ Sobre o campo da victoria,
+ Onde Christo lhe appar'ceu,
+ E pr'a o escudo em memoria
+ As proprias Chagas lhe deu,
+ Ao throno alcemos real
+ Affonso de Portugal.
+
+ Este Heroe, que Deus ajuda
+ Tome a nossa vassallagem:
+ Sempre ao povo seu acuda
+ Ou Elle, ou sua linhagem:
+ Seja pr'a sempre real
+ A coroa de Portugal.
+
+ Sempre entro nós haja Rei
+ Natural de nossa terra,
+ Que na paz conduza a grei,
+ E que a defenda na guerra,
+ Qual o primeiro real
+ Affonso de Portugal.
+
+ Em quanto uns assim cantam dos soldados,
+ Vão outros pelo campo divagando:
+ Estes colhem despojo inda espalhado,
+ Aquelles secco matto vão cortando;
+ Ascende ao ár o fumo, que enrolado
+ Das accezas fogueiras vem manando,
+ Onde est'outros preparam o alimento
+ Dos membros lassos próvido sustento.
+
+ Já o Sol menos ardente
+ Para o ponente descia,
+ Temperando a calma do dia
+ A fresca brisa nascente,
+ No occaso reluzente,
+ De ouro e de purpura ornado,
+ Guarnece o ceo azulado
+ A orla de nevoa espessa,
+ Novo dia que arremessa
+ Pintando um dia acabado.
+ Tinha chegado
+ A hora amena,
+ Nos nossos climas
+ Tão suave, tão doce, e tão serena,
+ Hora, que em tempos
+ De paz dourada,
+ Dos lavradores
+ É tão presada;
+ Quando termina
+ Do dia a lida,
+ Quando o descanço
+ Restaura a vida.
+ Sopra da tarde
+ Grata frescura
+ Reanimando
+ Murcha verdura.
+ Vem o novilho,
+ Já libertado
+ Do duro jugo,
+ Pascer no prado.
+ Sobem dos campos
+ Os segadores.
+ Ledos cantando
+ Ternos amores.
+ Gentil mancebo,
+ Que amor encanta,
+ Ao som das córdas
+ As penas canta,
+ Em quanto em giros
+ Linda pastora
+ Co'a dança leve
+ Mais o namora,
+ Hora sem par, em que o cadente dia
+ Traz repouso, ternura, e alegria!
+
+ Pedro Affonso no emtanto, em cujo peito
+ A pár da intrepidez móra a piedade,
+ Guerreiro sem igual, Christão perfeito,
+ Vai demandando a erma soledade
+ Do provecto Ermitão, asilo estreito
+ Onde fugindo as pompas, e a vaidade,
+ A Deus e á penitencia consagrára
+ O venerando velho a vida cára.
+
+ N'uma colina, apenas exalçada
+ Sobre a vasta planicie calorosa,
+ Uma exigua Capella era elevada
+ N'aquella idade barbara, e piedosa:
+ Do velho Ermita a cellula acanhada
+ Jazia ao lado, uma sobreira annosa,
+ Co'a larga rama o tecto protegia,
+ E do profano olhar a defendia.
+
+ Ante a porta do sacro monumento
+ Com toscos páus estava retratado
+ O sacrosanto lenho do tormento,
+ Em que o Filho de Deus fôra pregado:
+ Dentro sculptado via-se o momento
+ Em que o Corpo sem vida, reclinado
+ Da Mãi nos braços, vai, qual creatura.
+ O Creador baixar á sepultura.
+
+ Alli da noute na primeira vela
+ P'ra o Rei, do sacro livro possuido,
+ A campana soou, que o tempo assella
+ Do celeste Emissario promettido,
+ P'ra que em luz, que a do Sol mais clara e bella
+ Fosse Christo por elle percebido,
+ Promettendo-lhe a coroa, e a victoria
+ Da sua estirpe, e do seu povo a gloria.
+
+ Naquelle instante o velho venerando,
+ De giolhos aos pés da Cruz alçada,
+ Estava o fim do dia consagrando,
+ Como do dia consagrára a entrada.
+ Raros alvos cabellos fluctuando
+ Se viam sobre a frente despojada;
+ E a barba, que lhe o vento sacudia
+ Em ondas, sobre o peito lhe descia.
+
+ Na piedosa oração todo engolfado
+ Estava o santo velho por tal sorte,
+ Que nem sequer sentiu chegar-lhe ao lado,
+ Do Escudeiro seguido, o Varão forte.
+ Pedro Affonso parou, seu peito, armado
+ De audacia contra os perigos, contra a morte,
+ Toca a vista do Ermita por tal geito,
+ Que não sabe se é medo, se respeito.
+
+ Mas o moço Escudeiro, que o seguia
+ Bem diversa impressão experimentava,
+ Do Ermita a quietação, quasi a apathia
+ Da sua alma c'o estado contrastava;
+ Em seu peito um volcão latente ardia,
+ Dos desejos no pelago nadava,
+ Estava n'essa idade, em que o repouso
+ É não só mal; mas mal o mais penoso.
+
+ Ruy era o seu nome. Á luz viera
+ Sob o tecto paterno junto ao Douro;
+ Seu Pai, no nome igual, a vida dera
+ Com Henrique pugnando contra o mouro.
+ Jámais paterno affago conhecera,
+ Que a triste viuvez, envolta em chôro
+ Ruy, unico bem que lhe restára,
+ No berço filho posthumo embalára.
+
+ Unica flôr, que lhe esmaltasse a vida,
+ A mãi no tenro filho cultivava,
+ Nelle a imagem do pai, reproduzida,
+ Embellezada ainda, idolatrava.
+ No Joven desde a infancia alma atrevida
+ Namorada da gloria se mostrava,
+ Com coração ardente, e generoso,
+ E a um tempo amante, meigo, e carinhoso.
+
+ Indole a tudo prompta, a tudo ousada
+ No porte do mancho transluzia:
+ Na estatura esbelta, e levantada
+ Co'a ligeireza a robustez se unia:
+ Sobre a frente morena, e dilatada
+ A negra liza comma lhe descia,
+ Nos olhos vivos, e de côr escura
+ Temperava o fogo bellico a ternura.
+
+ Não era lindo, não, que expressão tanta
+ Destroe a symetria da lindeza;
+ Porem mais do que o lindo arrastra, encanta,
+ Interessa, move, e a attenção tem presa.
+ Sem ter severo olhar, que o riso espanta,
+ Séria a sua expressão, toca em tristeza,
+ Trasborda n'ella uma alma forte e ardente,
+ Que tudo póde ser, salvo indiff'rente.
+
+ Tal era formado
+ No vulto, e nas cores,
+ Que era a Marte asado,
+ Era asado a amores.
+ Qual brilha entre as flores
+ O cravo fragrante,
+ Tal elle prestante
+ Entre os mais brilhára,
+ Ou tal se elevára
+ Entre os companheiros,
+ Como nos outeiros
+ O olmo alteroso
+ Sobre o bosque ergue o cume alto, e frondoso.
+
+
+ No patrio tecto, desde o berço vira
+ Do nobre pai o escudo pendurado,
+ A cota, que inimigo ferro abrira,
+ Inda tinta do sangue não vingado.
+ Mil vezes entre pranto á mãi ouvira
+ Contar paterna gloria e triste fado,
+ Mil co'a infantina mão tocado havia
+ A herdada lança, que ha brandir um dia.
+
+ Entre memorias taes do patrio dano
+ Do filho de Ruy crescera a idade;
+ Volvido haviam já anno apoz anno
+ Conduzindo o vigor da mocidade,
+ Quando a mãi, que respeita como arcano
+ Do extincto Esposo a ultima vontade,
+ No dia em que seu lucto revivia
+ Ao filho bem amado assim dizia.
+
+ «Martyr da fé Christãa teu Pai na guerra
+ «Pela Cruz deu a vida peleijando;
+ «Fatal golpe o prostrou na propria terra,
+ «Que para Christo andava conquistando.
+ «Ah! se lá donde o summo bem se encerra
+ «Elle, oh filho, nos vê, ver-me-ha chorando,
+ «Dar-te o preceito, que houve do Consorte
+ «Quando a alma entregou nas mãos da morte.
+
+ «Alli fica, me disse, aquella lança,
+ «Que só de infiel sangue foi manchada,
+ «Alli deixo esse escudo por herança,
+ «Esse elmo, essa cota, e essa espada:
+ «Se o summo Deus tiver de nós lembrança,
+ «E que um filho haja em ti, oh bem amada,
+ «Meu nome lhe darás, e essa armadura
+ «Sob a qual encontrei a morte dura.
+
+ «Dar-lhe-has esta Cruz. Isto dizendo
+ «Do peito a separou por vez primeira,
+ «E o braço, já sem força, a custo erguendo,
+ «Aos labios a levou por derradeira.
+ «Dir-lhe-has, que se a paz acho morrendo
+ «A esta insignia a devo verdadeira,
+ «Devo-a de Christo á fé, que a vida guia,
+ «Que ensina a fallecer sem agonia.
+
+ «Dize-lhe que a conserve ao peito unida,
+ «Que ao lado seu cinja a paterna espada,
+ «Aquella p'ra o guiar á eterna vida,
+ «Esta p'ra ser a seu Senhor votada;
+ «Que indomito na pugna asp'ra e renhida,
+ «A fraqueza respeite desarmada;
+ «Que preze a honra; fuja da cobiça,
+ «E da moleza vil, que o vicio atiça.
+
+ «Assim fallou teu Pai.... e a penetrante
+ «Ferida em rouxo sangue se esvaia.
+ «Sumiu-se a voz no peito palpitante,
+ «Aos olhos se apagou a luz do dia:
+ «Soou da minha dita ultimo instante,
+ «Já d'esta alma a ametade não vivia;
+ «Mas dentro de meu seio palpitava
+ «Penhor, que a ficar viva me obrigava.
+
+ «Vivi, a força achei, que me vigora
+ «No maternal amor, oh filho amado,
+ «Cáro penhor de um laço, doce outr'ora;
+ «Mas roto, quando apenas estreitado!
+ «A ti mancebo, a ti pertence agora
+ «Restituir-me aquelle que hei chorado,
+ «Se, como espero, em ti vir renascida
+ «A virtude d'essa alma ao ceo subida.
+
+ «Da tua infancia os dias acabaram,
+ «Já teus membros tem força e tem destreza,
+ «Aquelles, que o esposo me roubaram,
+ «Saibam que não fiquei só, sem defeza.
+ «Sangue vil minhas veias não herdaram,
+ «Nem coração sugeito a tal fraqueza,
+ «Que ao filho de Ruy estorve a gloria
+ «De ter por Deus, e pelos seus victoria.»
+
+ De Ruy a viuva, assim fallando,
+ Do muro antigo as armas desprendia,
+ E os humidos olhos enchugando,
+ O filho de Ruy d'ellas cobria.
+ O mancebo, de nobre ardor córando.
+ Com respeito a armadura recebia,
+ Que já na dura guerra exp'rimentada,
+ Fôra do pai com o sangue consagrada.
+
+ Um captivo entretanto apparelhava
+ O bruto ardente, que se apraz na guerra,
+ Que impaciente o freio mastigava,
+ Co'a vigorosa mão cavando a terra;
+ Já armado sobre elle cavalgava
+ Quem do ninho paterno se desterra,
+ A procurar do mundo as aventuras,
+ Gratas a poucos, para tantos duras.
+
+ Da triste mãi os olhos macerados
+ Por largo espaço a marcha lhe seguiram;
+ Ao perde-lo porem entre os silvados
+ De uma nevoa de pranto se cobriram.
+ Seus animos, do filho sustentados,
+ Ao arrancar-se d'elle sucumbiram.
+ Sentiu a triste, a dôr, magoa, anciedade,
+ Que só conhece a maternal saudade.
+
+ Segue no emtanto o moço a varia estrada
+ Que o Mondego do Douro distanceia,
+ Na terra, dos Beroens Beira chamada,
+ Onde o Vouga entre as serras serpenteia,
+ Do Bussaco transpõe serra elevada,
+ E bem depressa a vista lhe recreia
+ Valle ameno, co'as flores e a verdura
+ Que nutre do Mondego a limfa pura.
+
+ De risonha colina no vertente,
+ Que o rio carinhoso em baixo lava,
+ A cidade Conimbrica é jacente,
+ Que então de espesso muro se cercava;
+ N'ella ajuntando estava armada gente
+ Affonso, que attacar apparelhava
+ O agareno Ismar chefe animoso
+ Do transtagano mouro bellicoso.
+
+ Era Affonso acompanhado
+ D'esse Irmão, de Henrique filho
+ Cavalleiro de alto brilho,
+ Por Dom Fuas educado.
+ Fuas era aparentado
+ De Ruy com os ascendentes,
+ E o sangue de seus parentes
+ No Joven reconhecendo,
+ Seus destinos protegendo,
+ Por escudeiro o ligou
+ A Pedro, que o aceitou,
+ E entregando-lhe a lança,
+ Poz n'elle tal confiança,
+ Que como a filho o tratou.
+
+ Lá na peleija de Ourique
+ No mais forte das batalhas
+ Rachou elmos, rompeu malhas
+ Ruy, com o filho de Henrique.
+ Ao som da tuba guerreira
+ Seu coração se accendeu;
+ Qual touro, aberta a barreira,
+ Com o mouro accommetteu.
+
+ Aos golpes da herdada lança
+ Muitos mouros expiraram,
+ Muitos da espada a provança
+ Cáro co'a vida pagaram;
+ E no sangue de inimigos,
+ Que pela Fé derramou,
+ Entre azares, e perigos,
+ Do pai a morte vingou.
+
+ Do defunto Ruy tal era o filho,
+ Que Pedro Affonso ao ermo acompanhava.
+ Já do cadente Sol o ultimo brilho
+ Nas bordas do horisonte se apagava,
+ De altas idéas no inspirado trilho
+ O provecto Ermitão continuava:
+ Quando subito o rosto alevantando
+ Volveu aos dois o aspecto venerando.
+
+
+ ERMITÃO.
+
+ «Salve prole de Henrique, heroe preclaro,
+ «Salve sangue de Reis, a quem a gloria
+ «Predestinada está no assento claro
+ «De ter, mais que de imigos, a victoria:
+ «Sim, tu triumfarás do abysmo avaro,
+ «Do mundo calcarás pompa, e vangloria,
+ «Todo o fulgôr da humana heroicidade
+ «Sepultando no asilo da piedade.
+
+ «Onde dos teus a estirpe triumfante
+ «Teve origem irás, nobre e animoso,
+ «Do teu sangue encontrar varão prestante,
+ «Que em ti fecundará germen piedoso;
+ «Deporás a couraça rutilante,
+ «O elmo, o escudo, o ferro temeroso,
+ «Para aspirar á gloria, que não passa,
+ «No retiro e silencio de Alcobaça.
+
+ «Tu porem, oh mancebo, de que abrolhos
+ «Cheio é para ti campo da vida,
+ «Em que mar procelloso, entre que escolhos
+ «Teus de seguir a róta combatida,
+ «Que lagrimas amargas de teus olhos
+ «Devem correr, no peito que feridas
+ «Pungentes sofrerás, sem ter conforto
+ «Antes que possas recolher-te ao porto!
+
+ «Melhor fôra p'ra ti, se a natureza
+ «De partes menos bellas te dotára,
+ «Se insensivel ás graças e á belleza
+ «Ao pondenor, á gloria te formára,
+ «Se menos coração, menos viveza
+ «Avara p'ra comtigo te outhorgára;
+ «Que esse, em quem mais esmero põe natura,
+ «Raras vezes mimoso é da ventura.
+
+ «Os contrarios do Rei que alevantaste
+ «Os menores serão de teus imigos,
+ «Outro mais p'ra temer, outro encontraste
+ «Muito maior no damno, e nos perigos,
+ «Da dôr por esse o calix esgotaste;
+ «Mas, cumpridos teus fados inimigos,
+ «Olhará Deus p'ra ti, e á fonte pura
+ «Te guiará da solida ventura.»
+
+ Assim disse o Ermita, e reclinando
+ A cabeça no peito, alguns momentos
+ Recolhido ficou; alfim voltando
+ P'ra os dois, que quedos s'tão mudos e atentos
+ Acrescentou com tom solemne, e brando.
+ «Que somos nós mortaes, mais que instrumentos
+ «Dos designios de Deus, da alta sciencia
+ «Da insondavel eterna Providencia?
+
+ «Marcha aquelle no trilho da grandeza
+ «De tantos precipicios circumdado;
+ «Estoutro das paixões entre a braveza
+ «É no duro combate acrisolado;
+ «Nada um na abundancia e na riqueza;
+ «Outro é do escasso pão até privado;
+ «Mas se a boa ou má sorte os não illude,
+ «Lá tem todos a coroa da virtude.»
+
+ Estes, e outros discursos repetia
+ O velho, de unção cheios extremada,
+ Que Pedro Affonso n'alma recebia,
+ Qual a semente a terra preparada:
+ O mancebo porem a alma sentia
+ Com violencia tal preoccupada,
+ Que, orando a pár dos dois no monumento,
+ Tinha longe da boca o pensamento.
+
+ Mas já da noute o estrellado manto
+ Toda a vasta planicie acobertava,
+ Quando Pedro deixando o logar santo
+ Para o regio arraial se encaminhava;
+ Segue em silencio o Joven, em quem tanto
+ Desassocego do Ermitão gerava
+ O vaticinio, que debalde intenta
+ Dissimular a agitação violenta.
+
+ Alertas vélas passaram,
+ Que do campo a guarda tem,
+ No arraial penetraram,
+ Descobrindo áquem e além
+ Os fógos abandonados
+ Pelos dormentes soldados.
+
+ Baixou sobre Pedro o amigo
+ Lethargo restaurador;
+ Mas vigilia traz comsigo
+ O cuidado roedor
+ Que no Joven escudeiro
+ Deixou o Ermita agoureiro.
+
+ Em vão suffocar tentava
+ Curiosidade indiscreta,
+ Que, mal os olhos cerrava,
+ Logo na mente inquieta
+ Se renovava a impressão
+ Das palavras do Ermitão.
+
+ Assim oppresso, agitado,
+ Da noute as horas seguiu,
+ Até que o corpo cançado
+ Ao somno alfim succumbiu,
+ E o repouso ao pensamento
+ Deu vigor, e deu alento.
+
+ Ao romper do dia
+ A trompa soava,
+ Cada qual surgia.
+ Cada qual se armava.
+ Aqui os infantes
+ Cerram as fileiras
+ Junto ás ondeantes
+ Variadas bandeiras;
+ Alli vem rinchando
+ Cavallos de guerra
+ O pó levantando
+ Da arida terra.
+ A rosada aurora
+ No aço esplandece.
+ Que co'a luz, que o córa,
+ Em chammas parece.
+ De todos na frente
+ O Rei cavalgava,
+ E da heroica gente
+ Os brios dobrava:
+ As Quinas sagradas
+ A cota lhe ornavam,
+ No pendão lavrados
+ Ao ar tremolavam.
+ Emtanto abatidos
+ A marcha seguiam
+ Os mouros rendidos,
+ Que algemas prendiam.
+ Assim vencedores
+ Os christãos marchavam,
+ E aos frescos verdores
+ Das margens do Mondego se tornavam,
+ Nas campinas de Ourique
+ Alçado rei, o heroe filho de Henrique.
+
+FIM DO PRIMEIRO CANTO.
+
+
+
+
+CANTO SEGUNDO.
+
+ A tomar vai Leiria, que tomada
+ Fôra mui pouco havia do vencido.
+ Camões, Lusiadas, C. 3.º, E. 55.ª
+
+
+ Para unir n'um só leito amantes aguas
+ Vem o Liz, sobre os seixos murmurando,
+ O Lena vem, nascido de entre as fraguas;
+ Em seu curso modesto, alegre, e brando,
+ Entre a relva mimosa, entre a verdura
+ Cada qual mollemente serpejando.
+ Jámais turvou a limfa clara, e pura
+ O forte remo, a quilha recurvada
+ Com que a industria mortal dóma a natura;
+ Sómente a braça da arvore quebrada,
+ A folha que no outomno cahe sem vida
+ Pelo placido curso foi levada.
+ Nas margens a aveleira entretecida
+ Com o espinheiro está de flôr fragante,
+ A madre silva co'a roseira unida.
+ No espelho das aguas inconstante
+ Reflectida balança alta ramagem
+ De alamo bicolôr, choupo elegante;
+ Dos vimes, e salgueiros a folhagem,
+ Molles chorões, as braças incurvando,
+ Vedam do sol aos raios a passagem.
+ Alli, na primavera, sussurrando,
+ Recolhe a abelha o mel por entre as flôres,
+ E a borboleta as beija volitando,
+ Quando o cantor sublime dos verdores
+ Da aurora ao despontar, e á tarde canta
+ Em frente ao brando ninho os seus amores.
+ A róda leve as aguas alevanta,
+ Que em canaes variados circulando,
+ Levam frescura á sequiosa planta;
+ Em quanto, dos invernos triumfando,
+ Altos pinheiros sempre verdes frontes
+ Reunidos se vêem aos ceos alçando
+ Na encosta, e cumes dos visinhos montes.
+
+ No meio d'este valle a natureza
+ Um penhasco erigiu, morro isolado,
+ Que das aridas rochas a braveza
+ Abruptas volve aos raios do sol nado;
+ Com aridez igual, igual asp'reza
+ Do occaso, e do sul encara o lado;
+ Orna-o do norte apenas a verdura
+ Em mais suave encosta, e menos dura.
+
+ Do forte morro ás abas se abrigaram
+ Da destruida Liria os habitantes,
+ Quando da natal terra os expulsaram
+ Dos romanos as armas triumfantes;
+ Para alli seus penates transportaram,
+ E da perdida patria sempre amantes,
+ De Liria ao novo asilo o nome deram,
+ Que os tempos em Leiria converteram.
+
+ De Vandalos, e Godos povoada
+ Foi depois, gente forte e valerosa,
+ Que com o tempo tambem cedeu á espada
+ Da sarracena raça bellicosa,
+ Na epocha em que a terra celebrada
+ Das Hespanhas sofreu perda affrontosa,
+ E só cantabrios serros abrigaram
+ Os que ao jugo africano se escaparam.
+
+ Mas alfim vencedor da maura gente,
+ Affonso, no penhasco edificára
+ Recinto marcial forte, e potente,
+ Que de Agostinho aos filhos confiára,
+ Quando do rôto Ismar a ira fremente
+ No povo e no presidio se vingára,
+ E unido a Hauzeri, mouro esforçado
+ Tinha de Affonso os muros conquistado.
+
+ Ai! daquelle, que atrevido
+ Com temeraria ousadia
+ Do Leão adormecido
+ Os furores desafia!
+ O animal irritado,
+ De crua raiva espumando,
+ Corre o campo, arrebatado
+ Morte e ruina espalhando:
+ Com seus urros espantosos
+ A bronca serra estremece,
+ A luz do raio esplandece
+ Nos seus olhos furiosos.
+ Força não ha tão potente
+ Que a carreira lhe embarace,
+ Que a garra não despedace,
+ Que não rasgue iroso o dente:
+ Té que em fim o imigo alcança,
+ E no côrpo ensanguentado
+ Partido, e dilacerado,
+ Séva as iras e a vingança.
+
+ Assim de novo a trompa bellicosa
+ Nos valles retumbava,
+ Assim de Affonso a gente valerosa
+ Já de novo se armava,
+ E as bandeiras, que as Quinas adornavam
+ Os Alferes de novo ao vento davam.
+
+ Nobres, e ricos-homens á porfia
+ Se apromptam sem demóra
+ A castigar dos mouros a ousadia,
+ E em lide vencedora
+ Punir os damnos, com que Ismar irado
+ Todo o transito seu tinha marcado.
+
+ O escudo embraçou p'ra nobre empreza
+ Pedr'Affonso incansavel,
+ Ao Rei da crua guerra na aspereza
+ Consorte inseparavel,
+ E com elle Ruy para a vingança
+ Com ardor empunhou a herdada lança.
+
+ Moveu-se a gente bellica segura
+ Na esperança da victoria,
+ Que a quem temer não sabe a lide dura
+ Nunca desmente a gloria,
+ E n'um teso, ao Castello apropinquado
+ O campo expugnador foi collocado.
+
+ De annoso pinheiro,
+ Que em frente se alçava
+ Do campo guerreiro,
+ Nos ramos pousava
+ Um corvo agoureiro
+ Que abrindo o rostro infausto, e ás azas dando,
+ Parecia estar os mouros malfadando.
+
+ Os de Agar bramaram
+ Quando alevantadas
+ Em frente enchergaram
+ As Quinas sagradas,
+ E irosos juraram
+ Illeso conservar o logar forte
+ Seus muros defendendo até á morte.
+
+ Alcaide da gente
+ Seu brio excitava
+ Hauzeri valente,
+ Que a lança empunhava;
+ Mouro forte e ardente,
+ Entre os do bravo Ismar um dos primeiros
+ Denodados, e intrepidos guerreiros.
+
+ Com garbo, e presteza
+ Discorre a muralha,
+ Dispondo a defeza,
+ Prevendo a batalha,
+ O alcaide, e a firmeza
+ A audacia, e o valor no rosto ostenta
+ Com que dos seus a galhardia augmenta.
+
+ Ao lado de Hauzeri bella apparece,
+ Piedosa vista em lance tão p'rigoso!
+ Filha linda qual luz quando amanhece
+ Ao romper d'alva em dia caloroso,
+ O turbante, que a frente lhe guarnece
+ Remata alvo penacho precioso
+ Em quanto vão os zephiros brincando
+ Com os anneis sobre os hombros fluctuando.
+
+ De seda as calças tem da côr da neve,
+ Sobre ellas desce a tunica bordada,
+ Cerulea faixa a cinta circumscreve,
+ Qual a hastea do lirio delicada,
+ Cobre o virginal seio a tea leve
+ Onde a seda co'a lãa fôra tramada,
+ De vermelhos coraes um fio brando
+ Do collo airoso a base contornando.
+
+ Suaves de Fatima os olhos eram,
+ Vivos ao mesmo tempo e magestosos,
+ Quaes unicos os nossos climas geram,
+ Climas caros ao Sol, climas ditosos;
+ Olhos, foccos de amor, que n'alma imperam
+ Quer languidos, quer meigos, quer irosos;
+ Olhos taes, que se pranto derramaram
+ As mesmas brutas penhas abrandaram.
+
+ Nas pudibundas faces reluzia
+ A viva côr da nacarada rosa,
+ Que em leve gradação se esvaecia
+ Pela macia pelle melindrosa;
+ Virgem, filha gentil do meio-dia,
+ A côr tinha morena, e tão formosa,
+ Como a que a luz de um Sol claro e brilhante
+ Communica do prado á flôr fragante.
+
+ Da larangeira em flôr com o deleitoso
+ Aroma o ár da tarde embalsamado
+ Cede em suavidade ao amoroso
+ Hálito de seus labios exhalado.
+ O murmurio do arroio saudoso
+ Entro meudos seixos derivado,
+ O meigo sussurrar do brando vento,
+ Menos magia tem que o seu accento.
+
+ Quem viu a vermelha rosa
+ N'um ramalhete de flôres
+ De todas a mais formosa
+ Quer nas formas, quer nas côres:
+ Quem da noute socegada
+ No silencioso véo
+ Viu a lua prateada
+ Entre as estrellas do céo:
+ Quem na belleza prestante
+ Do palacio, ou templo santo
+ Viu a corinthia elegante
+ Que remata o molle achanto:
+ Quem entre a familia leve,
+ Habitante da espessura,
+ Viu a pomba côr da neve,
+ Vivo emblema da candura:
+ Não viu mais que uma imperfeita
+ Imagem das maravilhas,
+ Com que Fatima deleita
+ Os olhos, do seu povo entre as mais filhas.
+
+ Porem, já sequiosos da vingança
+ Os Christãos se aparelham p'ra peleija.
+ Em batalhas o Rei divide as lanças,
+ Marcando a cada uma quem a reja:
+ P'ra o assalto prescreve sem tardança
+ De cada Capitão qual dever seja,
+ A qual compete de ir na frente a gloria,
+ A qual mais tarde ha de colher victoria.
+
+ A aquelle, que no nome, qual no peito
+ Tem dos fortes a nobre galhardia,
+ Entrega o grande Affonso satisfeito.
+ Entre as batalhas, a que a frente guia:
+ Na mesma linha põe e de igual geito
+ A que o pendão de Mem Moniz seguia;
+ Bem como a forte gente, cujo ousado
+ Valor tem vido a Sousa confiado.
+
+ As reservas intrepidas e ardentes,
+ Onde a lucta attrahir maior perigo,
+ Viegas com Martim, e outros valentes
+ Promptos conduzirão sobre o inimigo;
+ Porem de Pedro Affonso armipotente
+ Braço e conselho o Rei quer ter comsigo;
+ Nem desdenha reter junto a seu lado
+ O Joven Escudeiro denodado.
+
+ As trompas guerreiras
+ O signal entoam,
+ Ao combatte voam
+ As bravas fileiras.
+ Os mouros defendem
+ Debalde a campina,
+ Debalde pretendem,
+ Que os Christãos bradando
+ Co'a lança arremetem,
+ A quanto accommettem
+ Rompendo e prostrando.
+
+ Qual da serra alpina
+ Partiu destacada
+ A rocha gelada,
+ Que o valle domina,
+ E em forças crestando
+ Na queda espantosa
+ Co'a massa assombrosa
+ Vai tudo rompendo;
+ Assim as batalhas
+ Aos mouros forçavam,
+ E em fuga os lançavam
+ Ao pé das muralhas.
+
+ Na rocha escarpada
+ O mouro confia;
+ O Christão porfia,
+ E a rocha é trepada.
+ Embora, galgando
+ Por entre os rochedos,
+ Inteiros penedos
+ Descendem troando:
+ As penhas, nas penhas
+ Caindo, arrebentam;
+ Heroicas façanhas
+ Façanhas sustentam;
+ Setas sibilantes
+ Cruzam por milhares
+ Das fundas girantes
+ Com os tiros nos ares.
+
+ Em quanto os archeiros
+ A morte arremedam,
+ Mais brava os lanceiros
+ Já lucta começam,
+ O escudo, a couraça,
+ A malha cerrada,
+ De morte esfaimada
+ A lança transpassa,
+ E aos golpes da espada
+ O elmo partido
+ No craneo fendido
+ Lhe franqueia a entrada.
+
+ A escada tremente
+ Á muralha erguida
+ Já foi erigida
+ Pela ousada gente;
+ Do escudo coberto,
+ Com o ferro empunhado,
+ Mais de um segue ousado
+ No ár trilho incerto,
+ E sobre as ameias
+ Mais de um temerario,
+ Entrega ao contrario
+ O sangue das veias.
+
+ A pugna engrandece,
+ Redobra a fereza,
+ Do ataque e defeza
+ A teima recresce.
+ Já os muros altos
+ Por todos os lados
+ Sentem renovados
+ Continuos assaltos;
+ Hauzeri no emtanto
+ Resiste esforçado,
+ Fero e denodado
+ Desconhece o espanto;
+ Tal, já quasi exangue,
+ Javali ferido
+ Com o dente buido
+ Derrama inda o sangue,
+ E a um tronco acuado,
+ O collo cerdoso
+ Revolve animoso
+ A um, e outro lado.
+
+ N'isto o intrepido Affonso, a si chamando
+ As reservas, que cauto tem poupado,
+ O decisivo esforço emfim tentando,
+ Ao assalto as impelle denodado.
+ Mal das gentes desliga o regio mando
+ O valor tanto a custo sopeado
+ Armas, clamor de guerra, e tubas soam,
+ E contra o mouro irrisistiveis voam.
+
+ De todos o primeiro ao morro avança
+ O mancebo Ruy leve, e esforçado,
+ Os penhascos transpõe sem mais tardança
+ Que a anta o precipicio congelado;
+ Fere, derriba, e mata a herdada lança,
+ Foge o mauro tropel desordenado,
+ Ruy segue qual raio a rôta gente
+ Pela porta, que aos seus torna patente.
+
+ Por ella ruina e morte
+ Penetra, de horror cercada,
+ O valor fallece ao forte,
+ Com a esp'rança abandonada.
+ Cada qual as armas lança,
+ Cada qual arrója a espada.
+ O vencedor na vingança
+ Irritado se enfurece,
+ Céva as iras na matança,
+ A humanidade estremece,
+ Mas a sanha do soldado
+ A sua voz desconhece:
+ Nada p'ra elle ha sagrado,
+ E na crueza incendido
+ Se crê pelo ceo armado,
+ Sobre o infeliz vencido
+ Julgará infidelidade
+ Sentir-se compadecido;
+ Nem o sexo nem a idade
+ Salva do ferro cruento,
+ E de horror e crueldade
+ É o penhasco inteiro um monumento.
+
+ O Sol cobriu de horror a clara fronte,
+ Espessas negras nuvens o toldaram;
+ As nevoas sobre a borda do horisonte
+ Da roixa côr do sangue se pintaram;
+ Os córvos carniceiros sobre o monte
+ Com o faro da atroz prêza esvoaçaram,
+ E enlutados os ceos, a noute fria
+ Mais cedo pareceu pôr termo ao dia.
+
+ Farto o soldado emfim de crueldade,
+ Extinctos quasi os miseros vencidos,
+ Amainou pouco a pouco a tempestade,
+ Cessaram os clamores, e os gemidos,
+ Já o Chefe recobra a authoridade
+ Sem força entre os primeiros alaridos,
+ E da victoria no seguro goso
+ Abandonam-se as gentes ao repouso.
+
+ Mas Ruy, cujo joven peito encerra
+ O preceito da Mãi, do Pai legado,
+ O descanço dos olhos seus desterra,
+ Vagando no Castello desolado.
+ De quente sangue vê fumando a terra,
+ O cadaver encontra abandonado
+ E o misero, que em mais tyranna sorte
+ Sem asar de viver lucta co'a morte.
+
+ No peito o coração em horror tanto
+ De Ruy se apertou, a alma sensivel
+ Viu, a um tempo com dôr, terror e espanto,
+ P'ra quanto não é fera a scena horrivel;
+ Não podendo suster amargo pranto,
+ Quasi maldiz victoria tão terrivel,
+ Fugindo ao quadro atroz por mais não ve-lo
+ Se entranha para o centro do Castello.
+
+ Da menagem a torre alli se erguia,
+ No mais alto do morro alevantada,
+ Torre rectangular que descobria
+ Em redor a campina variada,
+ Lá na alta noute, inda hoje triste pia
+ Na muralha com o tempo descarnada
+ O infausto mocho, e no seu seio escuro
+ Se abriga contra a luz morcego impuro.
+
+ De vigia servia o cume erguido,
+ Na parte media as armas se guardavam,
+ No mais baixo recinto denegrida
+ Em prisão dura os crimes se expiavam.
+ Por caracol estreito, e retorcido
+ Os planos entre si communicavam.
+ Na masmorra o soldado fatigado
+ Não tinha a aquelle tempo penetrado.
+
+ Na torre entra Ruy, e parecia
+ Fatidico o instincto que o guiava;
+ Á medida que o caracol descia
+ Ancioso seu peito se agitava,
+ Na escuridão completa se immergia,
+ Palpando o muro os passos tenteava,
+ Quando na marcha subito impedido
+ Sente um corpo cahir, e ouve um gemido.
+
+ Estremece o mancebo co'a surpresa;
+ Mas prompto do repente recobrado,
+ A mão ao corpo estende, e em vez de asp'reza
+ Sente o tacto macio e delicado
+ De anneladas madeichas na leveza,
+ N'um seio feminil brando, agitado;
+ Mais não hesita, o corpo em braços toma,
+ Fóra da torre com o fardo assoma.
+
+ Mas o corpo que leva entre seus braços
+ Sem movimento está, e a voz perdida,
+ Pendem-lhe os membros com o mover dos passos
+ Qual a vide de olmeiro desprendida;
+ Se o coração, batendo por espaços,
+ No debil ser não revelára a vida,
+ O mancebo por certo acreditára
+ Que da morte os mysterios profanára.
+
+ Mais o fardo apertava contra o peito,
+ Mais do mancebo o peito se agitava.
+ Parecendo-lhe sentir passo suspeito
+ Que apoz elle nas sombras caminhava,
+ A marcha apréssa, e n'um carreiro estreito
+ Entra a mata, que a um lado a serra brava
+ Selvatica produz, e na espessura
+ Mais densa, o fardo põe sobre a verdura.
+
+ Qual pasmo sem igual, quando encarando
+ Aquella, que das trevas arrancára,
+ Da lua lhe revéla um raio brando
+ Do peregrino rosto a forma rara;
+ Quando, no vulto immovel attentando,
+ Descobre do mancebo a vista avára
+ As bellezas, que prodiga a natura
+ De Fatima juntou na formosura.
+
+ A pallidez da morte realçava
+ Merencoria a expressão de seu semblante;
+ Os apagados olhos lhe cerrava
+ A palpebra de cilias abundante;
+ Do seio, que opprimido palpitava,
+ Parecia que um suspiro a cada instante
+ Ia partir, que o moço a vida déra
+ Se nos labios gentis o recolhera.
+
+ Extatico de pasmo e de surpreza
+ Jaz Ruy com tal vista captivado,
+ Sem cogitar de tanta gentileza
+ Qual seja o miserando infausto estado.
+ Co'a alma em goso estranho absorta e preza
+ Ficára o moço alli como encantado,
+ Se na Bella afllicção mais dura e forte
+ Não parecesse estender o véo da morte.
+
+ Contrahiram-se as faces melindrosas.
+ Os membros delicados se obduraram,
+ Os labios virginaes, murchas as rosas,
+ Com um moto convulso trepidaram,
+ De suór frio as gotas abundosas
+ Pallida a frente, e o collo lhe banharam,
+ Alevantou-se o seio seu mimoso,
+ Tomou-se o respirar mais afanoso.
+
+ O imprudente Ruy sahe do lethargo
+ Recobra com o terror o pensamento,
+ Do abandono da triste se faz cargo
+ Naquelle transe horrivel de tormento;
+ Dos olhos lhe rebenta pranto amargo,
+ A Bella aperta ao peito tão violento
+ Como quem quer partir com ella a vida,
+ Ou com ella a existencia ver perdida.
+
+ Não foi do moço inutil o transporte,
+ Que a Bella entre seus braços estreitada;
+ Ou fosse por que assim o quiz a sorte,
+ Ou milagre de amor: reanimada,
+ De subito escapando ás mãos da morte.
+ Move o collo, ergue a frente debruçada,
+ Cessa a suffocação, livre respira,
+ Abre os formosos olhos, e suspira.
+
+ Na mesma situação mais de um instante
+ Um e outro ficaram sem fallar-se;
+ Elle de puro goso delirante,
+ Ella como quem busca recordar-se:
+ Mas breve de Ruy vendo o semblante,
+ Sentindo entre seus braços estreitar-se,
+ D'elles se arranca, e em pranto debulhada,
+ Fallando assim, lhe cahe aos pés prostrada.
+
+ «Oh tu, quem quer que sejas, se a piedade
+ «Entrada pode ter dentro em teu peito,
+ «De uma innocente a misera orfandade,
+ «Desamparo, e miseria tem respeito!
+ «Sei que cahi na tua potestade;
+ «Mas antes de sentir o seu effeito
+ «Morrerei!......» Disse, e as renascidas rosas
+ Pudibunda escondeu nas mãos formosas.
+
+ «Que do Deus que nos ouve um raio ardente
+ «Te vingue, e me anniquille neste instante,
+ «Se um sentimento indigno esta alma sente
+ «De que haja de córar o teu semblante!
+ «Perde o terror, oh Virgem, tens presente
+ «Um amigo, um irmão cuja constante
+ «Ambição será só de obedecer-te
+ «E contra qualquer perigo defender-te!»
+
+ Assim fallou Ruy, e alevantando
+ A prostrada Fatima, em mil maneiras
+ Foi seu terror primeiro dissipando,
+ Com gestos, com palavras verdadeiras.
+ N'um penedo que cobre o musgo brando
+ A Virgem se assentou, co'as lisongeiras
+ Expressões de Ruy cobrando alento,
+ Sentiu raiar a esperança em seu tormento.
+
+
+FIM DO SEGUNDO CANTO.
+
+
+
+
+CANTO TERCEIRO.
+
+
+ Onde está aquella imagem pura, e bella
+ Artificio divino entre nós raro?
+ Onde aquelle olhar brando, que tão caro
+ Me foi, e o resplendor de hua e outra estrella?
+ Ferreira, Soneto, 15.º
+
+
+ FATIMA
+
+ Cavalleiro, se é verdade
+ «O que acabas de dizer,
+ «Na minha triste orfandade
+ «Só tu me podes valer.
+ «Não buscarei disfarçar-te
+ «Qual é minha condição,
+ «De tudo vou informar-te,
+ «Ou sejas sincero, ou não.
+
+ «Nas terras da Andaluzia
+ «Mouro altivo me gerou,
+ «Cujo nome e valentia
+ «Longe a fama propagou.
+ «De seu braço o nobre Ismar
+ «Conhecendo a fortaleza,
+ «D'estes muros confiar
+ «Quiz a guarda e a defeza.
+ «Do Téjo a margem deixada,
+ «Onde outra arce regia,
+ «Mandou-me vir malfadada
+ «Para a sua companhia.
+ «Sobre o perigo a que me expunha
+ «Saudade lhe déra antolhos,
+ «Que elle em mim seu prazer punha,
+ «Que eu era a luz dos seus olhos!
+
+ «Nascendo perdi a Madre,
+ «Que em seu seio me formou;
+ «Mas achei tudo no Padre
+ «Que amoroso me creou.
+ «Quer na tregoa socegado,
+ «Quer na fadiga guerreira,
+ «Jámais fui d'elle apartada,
+ «Antes sempre a companheira.
+ «Quando, ainda tenra infante,
+ «Nos campos o acompanhava,
+ «Sobre o cavallo possante
+ «Um captivo me tomava;
+ «E quando em forças crescida
+ «Quiz-me elle mesmo ensinar
+ «A tomar nas mãos a brida,
+ «Os ginetes a domar.
+
+ «Ora correr me fazia,
+ «Dado ao venatorio trato,
+ «O gamo, que parecia
+ «Nadar nas pontas do matto;
+ «Ora..... Mas ha! que aproveita
+ «Recordar carinho seu?....
+ «Minha desgraça é perfeita,
+ «Já não vive o Padre meu!
+ «Não vive; que se vivêra
+ «Por certo que a filha cára
+ «O seu braço soccorrêra,
+ «E a todo o custo a salvára!
+
+ «Hauzeri meu Padre é morto!...
+ «Cavalleiro, ah por piedade,
+ «Se desejas dar conforto
+ «Á minha dura anciedade,
+ «Corre ao campo da batalha,
+ «Ao posto o mais arriscado,
+ «Lá na torre, ou na muralha
+ «Acha-lo-has traspassado.
+ «Do seu escudo brilhante
+ «Aro de ouro em torno gira,
+ «De ouro e purpura o turbante
+ «Tem por tope uma saphira:
+ «É seu alfange pendente
+ «De rico talim bordado,
+ «Obra da filha, e presente
+ «Destinado a melhor fado!
+ «Corre, corre, cavalleiro,
+ «Se tens de mim compaixão,
+ «Se teu peito é verdadeiro,
+ «Se te doe minha afflicção:
+ «Busca o cadaver querido,
+ «Faze-o á filha entregar;
+ «Que eu possa o sangue espargido
+ «Com o triste pranto lavar:
+ «Que eu possa triste e mesquinha
+ «Dar seu corpo á terra dura,
+ «E de quanto caro eu tinha
+ «Expirar na sepultura!»
+
+ Assim a Virgem moura se exprimia,
+ Mais de um suspiro as vozes lhe cortava,
+ E o pranto, que dos olhos lhe corria,
+ Da linda face as rosas lhe banhava.
+ O mancebo dos labios seus pendia
+ Que no ardor de servi-la se abrazava,
+ E mal ella acabou, aos pés prostrado,
+ D'esta sorte lhe volve transportado:
+
+ «Por piedade, anjo de graça,
+ «Mitiga a acerba afflicção
+ «Que a alma me despedaça,
+ «Que me parte o coração.
+ «Salvarei, pois o desejas,
+ «Esses despojos presados;
+ «E se ao furor das peleijas,
+ «Foram seus dias poupados,
+ «Verás teu pai a teu lado,
+ «Oh bella, n'um curto instante:
+ «Feliz de adoçar teu fado
+ «O teu extremoso amante!»
+
+ No semblante da Virgem peregrina
+ Rubor vivo a taes vozes apparece;
+ Qual ao raiar da aurora purpurina
+ A viva côr nas nuvens resplandece;
+ Em seu peito porem, que a dôr domina,
+ A surpreza de prompto se esvaece,
+ Com gesto firme, e com solemne accento
+ Confirma assim do moço o nobre intento.
+
+ «Cavalleiro generoso,
+ «Segue o proposito teu.
+ «Se o ceo para mim piedoso
+ «Salvo tem o Padre meu,
+ «Se ve-lo, abraça-lo ainda
+ «Eu dever a teu cuidado
+ «Pela gratidão infinda
+ «Terás meu peito ligado;
+ «Mas se o Padre, vivo, ou morto,
+ «Me não fôr restituido,
+ «Não busques p'ra mim conforto,
+ «Meu fado ha de ser cumprido.
+ «Jámais Fatima opprimida
+ «Escrava de um vencedor,
+ «A tal extremo abatida
+ «Servirá sob um senhor;
+ «Que antes de ver-me aviltada
+ «Saberei da abjecta sorte,
+ «Da condição exasperada,
+ «Achar allivio na morte.»
+
+ «Não por certo, exclama o moço
+ Prompto o corpo alevantando,
+ «Se teu mal prevenir posso,
+ «Eu vôo já ao teu mando.
+ «Alenta o peito formoso,
+ «Minóra tanta afflicção,
+ «Confia no ceo piedoso,
+ «Angelica perfeição;
+ «Que aqui pela chamma ardente,
+ «Que n'este peito ateaste,
+ «Juro, que ante o Sol nascente
+ «Verás esse que choraste.»
+
+ Diz, e qual parte a pedra sibilante
+ Da volteada funda despedida,
+ De Fatima veloz parte o amante,
+ Obedecendo á ordem recebida,
+ De penhasco em penhasco salta avante,
+ Desdenhando escolher senda seguida,
+ Chega ao Castello, ao campo de batalha,
+ Ás torres, á mortifera muralha.
+
+ Uma vez, outra vez corre o recinto;
+ Mas em vão, com o empenho não atina.
+ Cada corpo examina em sangue tinto,
+ Busca de balde, e em buscar se obstina;
+ É mais forte o amor do que o instincto,
+ Entre as scenas de horror, entre a ruina
+ Só Fatima divisa e seu tormento,
+ Suffoca amor todo o outro sentimento.
+
+ Desenganado de que em vão procura,
+ Volve Ruy ao centro do Castello,
+ Com um facho acceso desce á cella escura
+ D'onde ha pouco arrancára o fardo bello;
+ Interroga os soldados, a armadura
+ De Hauzeri lhes descreve; mas de ve-lo
+ Nenhum lhe dá signaes; exasperado
+ Volta outra vez ao campo ensanguentado.
+
+ Na pesquiza injucunda em vão porfia,
+ Inutil tedio! infructuosa lida!
+ Nem novas nem signaes achar podia,
+ Nenhuns ha de Hauzeri morto, ou com vida.
+ No emtanto com o raiar de novo dia
+ Era a Lua no brilho amortecida,
+ E as estrellas mais proximas do oriente
+ Se engolfavam na luz do Sol nascente.
+
+ Do mancebo o valor succumbe á ideia
+ Da exasp'ração do ser idolatrado;
+ Fatima de antemão de afflicção cheia
+ Contempla em todo o peso de seu fado.
+ Por ve-la anhella; mas ve-la receia,
+ Receia o seu pesar exasperado,
+ Vacilla, treme; mas amor o excita
+ E da matta na senda o precipita.
+
+ As muralhas transpõe, na brenha escura
+ Já seus tremulos passos avançavam,
+ Receio, impaciencia, horror, ternura
+ Em tropel dentro n'alma lhe luctavam;
+ Tanto mais progredia na espessura
+ Tanto mais seus transportes se exaltavam,
+ Os pensamentos se lhe confundiam,
+ E convulsos os membros lhe tremiam.
+
+ Fóra de si, sem tino, e delirante
+ Chega emfim ao logar onde deixára
+ O prodigio de amor, cujo semblante
+ De todo o ser antigo lhe mudára......
+ Mas, oh pungente dôr! funesto instante!
+ É deserto o penedo..... a forma rara
+ Se esvaeceu na sua ausencia breve,
+ Qual com o romper do dia o sonho leve.
+
+ Ligeira barca, que a favor do vento,
+ Em demanda da praia desejada,
+ Vai rapida cortando o salso argento,
+ Deixando apoz a esteira prolongada,
+ Perde o impulso, a força, o movimento,
+ Em banco ignoto subito encalhada:
+ Tal fica aniquilado, immovel, quedo
+ O surpreso Ruy ante o penedo.
+
+ Mas depois, prolongando um doce engano,
+ Luctando ainda contra a desventura,
+ Pela Moura clamando, o moço insano
+ Discorre aquem e alem pela espessura;
+ Porem o infausto, extremo desengano
+ Não pode recusar, quando a verdura,
+ Já pelo Sol nascido alumiada,
+ Se lhe antolha deserta, abandonada.
+
+ «Tudo perdi, desgraçado,
+ Exclama o moço insensato,
+ «Só n'esta alma o seu retrato
+ «Dura com fogo gravado!
+
+ «Chamma horrivel me devóra,
+ «Fogo intenso, fogo interno!
+ «Tu foges impia e traidora,
+ «Deixas em meu peito o inferno!
+
+ «Como?... com quem?... para onde!...
+ «Serpe em meu seio esquecida!
+ «Que valle, ou que serra esconde,
+ «Perversa, a tua fugida?.....
+
+ «Juro pela fé sagrada,
+ «Que de meus avós herdei,
+ «Que em tua raça odiada
+ «Meu tormento vingarei!
+
+ «Dos teus no perfido sangue
+ «Este ferro hei de ensopa-lo,
+ «De teu pai no corpo exangue
+ «Hei de a teus olhos crava-lo!
+
+ «Salvei-te a vida, e meus dias
+ «Daria por defender-te,
+ «Mal teu desejo enuncias,
+ «Prompto vôo a obedecer-te.
+
+ «Volvo de amor transportado,
+ «De puro extremo incendido;
+ «Sou trahido, abandonado,
+ «Enganado, escarnecido!......
+
+ «Nem se quer um monumento
+ «Restará de opprobrio tanto;
+ «Nem tu, oh musgoso assento,
+ «Nem tu, oh viçoso manto.
+
+ Isto diz... Desatinado
+ Prostra co'a espada a verdura.
+ Fere fogo o aço temp'rado
+ Percutindo a pedra dura.
+
+ Qual cão, de raiva atacado,
+ Distilando a baba impura,
+ Tinto em sangue o olho ardente,
+ Té na pedra imprime o dente;
+
+ Ou qual o touro insofrido,
+ A crú jogo abandonado,
+ Ardente dardo incendido
+ Tendo no corpo cravado,
+
+ Salta, brame, urra, e pungido
+ Do fogo sempre ateado,
+ Em corcovos accommette,
+ E contra a têa arremette:
+
+ Tal o moço furioso
+ Musgo, relva, arbustos, flores,
+ Prostra, arranca, impetuoso
+ Nada poupa em seus furores;
+ Té que emfim com gesto iroso
+ Volve espaldas aos verdores,
+ E do sitio triste, e infausto
+ Se arranca de força exhausto.
+
+ Affonso, em tanto, em pompa respeitosa
+ Dos ministros de Deus marcha cercado
+ Á capella da Virgem gloriosa,
+ Que no forte Castello havia alçado.
+ Segue-o dos seus a turba numerosa
+ Exultando por ver desagravado
+ Do insulto agareno o logar santo
+ Com o christão sacrificio sacrosanto.
+
+ Já tinham descendido a curta escada,
+ Que ao pavimento interno conduzia,
+ Da porta o cume agudo transpassado
+ Onde esculptado o Trino Deus se via;
+ Co'a sagrada aspersão tinham mundado
+ Do sacro pavimento a lagem fria,
+ Em canto baixo e triste repetido
+ Psalmo do Rei profeta arrependido.
+
+ O merencorio som no templo escuro
+ Vagaroso, e solemne resoava,
+ Á piedosa effusão de um zelo puro
+ Devota a multidão se abandonava;
+ Quando Ruy com passo mal seguro
+ Do Castello nos muros penetrava
+ E levado da lugubre harmonia
+ Na Capella entre os mais se confundia.
+
+ Neste mesmo momento o Celebrante
+ Ante o altar sagrado reverente
+ Se inclinava, e o povo circumstante
+ Baixava até á terra humilde a frente.
+ A tal vista o mancebo delirante
+ Seu barbaro furor desmaiar sente,
+ Sente expirar a raiva, e a fereza,
+ Trocar-se a ira em luto e em tristeza.
+
+ Os musculos contractos se relaxam,
+ A frente, hirta até alli, no peito inclina,
+ Sobre os olhos as palpebras se abaixam,
+ O fogo abrazador cede e declina.
+ Não de outra sorte as plantas vigor acham
+ Do orvalho na frescura matutina,
+ Como adoça ao mancebo o horrendo estado
+ A pompa augusta, o cantico sagrado.
+
+ Tal quando arrebatado, e possuido
+ De furias infernaes, castigo horrendo,
+ O do povo de Deus primeiro ungido,
+ Co'espirito das trévas combatendo,
+ Fora de si, convulso, enfurecido,
+ Se estava entre agonias debatendo,
+ Da harpa de David a melodia
+ Seu soffrimento acerbo adormecia.
+
+ Findou porem a pompa veneranda,
+ Os canticos, e os ritos terminaram;
+ E em alas logo de uma e outra banda
+ Do vestibulo as gentes se formaram;
+ Ao pio vencedor que os rege e manda
+ Mil triumfaes applausos elevaram;
+ E em marcha triumfal, dos seus seguido,
+ É Affonso ao Alcacer conduzido.
+
+ Alli chegado, próve na defeza
+ Dos muros novamente conquistados,
+ Para que nem por força, nem surpreza
+ Possam mais ser dos mouros retomados.
+ Confia defender-lhe a fortaleza
+ Ao valor de Monteiro, e seus soldados,
+ Em vez de Payo, que perdido a havia
+ De Theotonio co'a gente a quem regia.
+
+ Mas já n'aquelle tempo o Prior Santo,
+ Que tal era o pensar n'aquella idade!
+ O baculo depondo, e o sacro manto,
+ Alliando a vingança co'a piedade,
+ Entre os mouros fizera estrago tanto
+ Em despique da perda da Cidade,
+ Que em Arronches, por elle aos seus rendida,
+ Fôra de Affonso a lei reconhecida.
+
+ Ao tempo em que entre os sabios conselheiros
+ O Rei a paz e a guerra discutia,
+ E ao longo das muralhas os guerreiros
+ Folgavam da conquista na alegria;
+ Ruy, a joven flôr dos escudeiros,
+ Monta o cavallo, que da Andaluzia
+ Aos corceis os mais bellos fôra inveja
+ Do manejo na pompa, ou na peleija.
+
+ Mas não sustenta o moço a redea leve
+ Co'a costumada e dextra gentileza,
+ Que ao soberbo animal motos prescreve
+ Que lhe dobram as graças e a belleza,
+ Deixa-a pender no collo airoso e breve,
+ E submergido em lugubre tristeza,
+ Sair faz ao acaso o bruto bello
+ Pela primeira porta do Castello.
+
+ O bruto a mão usada não sentindo
+ Co'a frente baixa o trilho proseguia,
+ Tardo no passo, o collo distendido,
+ Partir do damno as magoas parecia;
+ Abandonado a si, não conduzido,
+ Do Lena para a margem progredia;
+ No sitio onde hoje sua perenne fonte
+ Transpõe o passageiro sobre a ponte.
+
+ O quadrupede docil, como esp'rando
+ A lei de seu senhor na fresca borda
+ Um momento parou, e o moço olhando
+ Com torvos olhos, como quem acorda
+ De sonho ingrato, e á rasão tomando,
+ Móres penas reaes sente, e recorda,
+ Distrahido lhe affaga o collo, e clina,
+ E para a dextra a leve redea inclina.
+
+ Não longe do logar onde se achava
+ Graciosa a corrente se torcia,
+ Alli viçosa a margem se adornava
+ Das plantas, que o remanso mais nutria,
+ Com graça ao lado opposto se elevava
+ Um mamillo gentil, donde surdia
+ Um fio de agua clara murmurando
+ Qual rôla entre a verdura suspirando.
+
+ A curta elevação faz que se aviste
+ D'alli do valle ameno a gentileza,
+ Ondulado terreno em frente existe
+ D'onde o cultura tem banido a asp'reza,
+ Alternada co'a vinha alli subsiste
+ A pallida oliveira, e a riqueza
+ Da loura Ceres; fecha o quadro bello
+ Do ceo sobre o azul negro o Castello.
+
+ Aqui pára Ruy e desmontando
+ A um ramo o corcel liga, e lentamente
+ Vai a placida fonte procurando
+ Onde só gemer possa livremente;
+ Mas junto um peregrino vê, tomando
+ A simples refeição, na herva jacente
+ Seu pobre alforje está desenvolvido,
+ Viatorio bordão jaz estendido.
+
+ A gorra de aba espaçosa
+ Calva a frente lhe obumbrava,
+ A concha da praia ondosa
+ O capello lhe adornava;
+ De uma correia nodosa,
+ Que o pardo saio apertava,
+ Pendente a cabaça tinha
+ Que a bebida em si continha.
+
+ Escravo por longos annos
+ De um mouro, que o captivára,
+ Mão gentil da sorte os damnos
+ Compassiva lhe adoçára.
+ Quebrou-lhe os ferros tyrannos;
+ E liberto lhe inspirára
+ Sua devoção singella
+ Ir romeiro a Compostella.
+
+ Tal se mostrava o Romeiro,
+ Que assim Ruy saudou:
+ «Deus vos salve, Cavalleiro,
+ «Vosso humilde servo sou.
+ «Se do trato meu grosseiro,
+ «Que aqui consumindo estou,
+ «Vos pode o uso ser grato,
+ «Partiremos do meu trato.
+
+
+ RUY.
+
+ «Graças mil bom peregrino,
+ «Deus vos dê feliz successo
+ «Até o vosso destino
+ «E bem assim no regresso.
+ «Ao Apostolo divino
+ «Bom Romeiro o que vos peço
+ «É que na vossa oração
+ «Vos alembreis d'este irmão.
+
+
+ ROMEIRO.
+
+ «Dizei-me, bom Cavalleiro,
+ «Se com o nosso Rei andais,
+ «De Pedro Affonso o escudeiro
+ «Que nome tem, que signaes?
+ «Dizem-me ser tão guerreiro,
+ «De tal pórte, e de obras taes
+ «Que as gentes na lide espanta
+ «E fóra d'ella as encanta.
+
+
+ RUY.
+
+ «Esse escudeiro que dizes
+ «De Ruy o nome tem,
+ «Dos signaes para que ajuizes
+ «Elle mesmo a ver-te vem.
+ «Mais não busques nem pesquizes
+ «Novas; se as trazes de alguem,
+ «Falla palavras seguras
+ «Que eu sou esse que procuras.
+
+
+ ROMEIRO.
+
+ A nova de que ora tracto,
+ Senhor, é tão delicada,
+ Que heis perdoar o recato
+ Com que ha de ser confiada.
+ Dizei-me, onde existe um matto
+ Com um penedo musgado,
+ Onde na noute apparecem
+ Sombras que se desvanecem?
+
+
+ RUY.
+
+ Onde existe?...... O atrevimento
+ Quem te deu de pergunta-lo
+ Venha de sangue sedento
+ Em proprio, e armado indaga-lo;
+ Que á face do firmamento
+ Eu juro que hei de ensina-lo
+ A não juntar a ousadia
+ Á mais baixa covardia!
+
+
+ ROMEIRO.
+
+ Por Christo! não te enfureças
+ Escudeiro generoso,
+ P'ra que a verdade conheças
+ Traz-me acaso venturoso.
+ As apparencias são essas,
+ Mas em caso duvidoso
+ Quem a apparencias se afferra
+ Muitas vezes troca e erra.
+
+ Attenta no que te digo
+ Que quem partiu me dictou:
+ --Tu me salvaste de um p'rigo
+ A que o padre me guiou,
+ Fujo-te, o padre é quem sigo,
+ Foi elle quem te espiou,
+ Quem te seguiu á espessura
+ Da noute na sombra escura.
+
+ Mal par'o buscar te apartaste
+ O Padre me appareceu,
+ Tu enganado ficaste
+ Só elle o engano teceu;
+ Mas se acaso te agastaste
+ Com este proceder meu
+ Sabe que maior desgraça
+ Do que a tua em mim se passa.
+
+ Essa, que p'ra sempre grata
+ Te prometteu jurou ser,
+ Bem longe de ser ingrata,
+ Vai muito além do dever;
+ Amor a consume, e a mata,
+ E se t'o ousa dizer
+ É com a esperança perdida
+ De mais t'o dizer na vida.
+
+ Distancia, muralha armada
+ E das seitas o rancôr
+ Com barreira triplicada
+ Circumdam a sua dôr:
+ De saudades definhada
+ Triste victima de amor
+ Será de Fatima a sorte
+ Suspirar até á morte.--
+
+ Assim carpindo a formosa
+ Ouvi, que nunca enganou,
+ Essa cuja voz piedosa
+ Liberdade me alcançou,
+ Ouvi-lhe a queixa afanosa
+ Que puro amor lhe arrancou.
+ Ah! possa Deus por ti mandar-lhe um dia
+ A paz no ceo, na terra a alegria.»--
+
+ Em quanto assim fallava o viandante
+ O alforge e o bordão alevantava,
+ E mal que terminou, no mesmo instante
+ Da cristalina fonte se apartava.
+ O enternecido, transportado amante
+ Debalde uma, e mil cousas perguntava,
+ Mais não volveu resposta o peregrino,
+ E mudo foi seguindo o seu destino.
+
+
+FIM DO CANTO TERCEIRO.
+
+
+
+
+CANTO QUARTO.
+
+
+ Mas quem póde livrar-se por ventura
+ Dos laços que amor arma brandamente
+ Entre as rosas, e a neve humana pura,
+ O ouro, e o alabastro transparente?
+ Camões, Lus., C. 3.º, E. 142.ª
+
+
+ Da socegada noite o astro cadente
+ P'ra plaga occidental já se inclinava:
+ Precursora do Sol resplandecente
+ A matutina estrella scintilava.
+ Do Téjo sobre a placida corrente
+ Nem a mais leve brisa volitava,
+ Jazia a folha immovel no arvoredo
+ Tudo dormia socegado, e quedo.
+
+ Apenas o silencio prolongado
+ Lá do longinquo charco interrompia
+ A grasnadora raã, do ramo alçado
+ O triste mocho, que agoureiro pia.
+ Eis que ao longo do rio socegado
+ Um fraco som parece que se ouvia
+ Compassado, moroso, e similhante
+ Ao surdo murmurar de agua distante.
+
+ Distingue-se melhor, em força cresce
+ Pouco a pouco se vem approximando,
+ Com o murmurio das aguas já parece
+ Ouvir-se o som do lenho em lenho dando,
+ Saltando a limpha a espaços resplandece,
+ O cristal se desliza sussurrando.
+ «Alerta companheiros com presteza
+ «Os remos esforçai, que é certa a preza!
+
+ Assim brada uma voz, e vigorosos
+ Montam nove o batel, que a sombra escura
+ Dos salgueiros encobre, que viçosos
+ A orla adornam da corrente pura:
+ Oito aos remos se lançam pressurosos,
+ Em quanto o Chefe empunha a cana dura,
+ Guiando a barca, que qual seta vôa
+ Ao mourisco batel, que tem na prôa.
+
+ «Nazarenos!... na lingua arabia grita
+ A gente do batel sobresaltada.
+ «Nazarenos» bradando, esforça, excita
+ O maioral a gente ao remo usada.
+ «Leva remos p'ra já, raça maldicta,
+ «Rendei-vos, perros, ou ireis á espada,
+ Gritam da barca, que veloz singrando
+ Vai o batel dos mouros alcançando.
+
+ «Lança o croque, a fateicha, afferra, atraca,
+ «Que não possa escapar-se a gente infida,
+ Brada o Chefe Christão, que prompto ataca
+ O batel que desiste da fugida.
+ Por defende-lo o mouro a espada sacca,
+ Trava-se atroz peleija tão renhida
+ Nos barcos afferrados, qual na terra
+ Soe tenaz mostrar-se a horrivel guerra.
+
+ Do christão bando ao impeto primeiro
+ Dos infieis o barco fôra entrado,
+ Não sem que tres christãos o derradeiro
+ Termo houvessem nas aguas encontrado;
+ Mas logo, atraz dos bancos do remeiro,
+ Peleija o bando mouro intrincheirado
+ Como quem não curando já da vida
+ Antes do que captiva a quer perdida.
+
+ Brilha no ár vibrando a espada núa,
+ Penetra pelas armas a estocada,
+ Céva no roxo sangue a raiva crúa
+ Do talhador alfange a cutilada.
+ Nenhum pensa em ceder, nenhum recúa
+ Em quanto a força em sangue derramada
+ Ao braço não fallece, e a mão pendente
+ Não deixa o ferro matador jacente.
+
+ Já dos nove christãos que accommetteram
+ Tres a morte nas aguas encontraram,
+ Cinco do peito aberta a vida deram
+ Que á estocada os mouros lhe arrancaram;
+ Mas as vidas bem caras lhes venderam
+ Que oito tambem dos perros expiraram,
+ E dos sete que restam, tres feridos
+ Vão a vida exhalando entre gemidos.
+
+ Mas o Chefe Christão só no perigo
+ Crescer sente o valor co'horror e estrago,
+ Qual raio abrazador sobre o inimigo
+ Cahe, bradando em voz alta «San-Tiago.
+ Morte, espanto, e terror leva comsigo,
+ Faz-se o batel de sangue um bruto lago,
+ Onde o maioral mouro acaba a vida
+ E o Christão Chefe a dextra tem ferida.
+
+ Dos mouros uns ao ferro a vida entregam
+ Outros da barca pavidos saltando
+ Escapados á morte á margem chegam
+ Com o sangue as puras aguas maculando.
+ Assim ao só Ruy a barca legam,
+ Que era elle o que indomito pugnando
+ Tinto no proprio sangue generoso
+ De tantos triumfára valoroso.
+
+ Ruy, que junto aos muros de Leiria,
+ Principal instrumento da victoria,
+ O que perdêra em paz, e em alegria
+ Co'indomito valor ganhára em gloria,
+ Que Affonso prezador da valentia,
+ Conservando seus feitos na memoria,
+ Quando á mão de Mafalda a mão ligára
+ Com pompa augusta Cavalleiro armára,
+
+ E depois, quando o genio seu guerreiro
+ A empreza concebeu agigantada
+ De surprehender com bando aventureiro,
+ Com imprevista, subita escalada,
+ O sitio forte, erguido, e sobranceiro,
+ Onde a Virgem Irene sepultada
+ Do Téjo, que soberbo aos mares vem,
+ Por milagrosa campa as aguas tem,
+
+ Para que gente moura, ou rica preza
+ Com mais difficuldade lhe escapasse,
+ De Ruy commettêra a gentileza
+ Que nas margens do Téjo se emboscasse,
+ E com a usada, indomita braveza
+ Qualquer batel no rio lhe tomasse
+ P'ra que os de Agar vencidos não sentissem
+ N'agua ou terra por onde lhe fugissem.
+
+ Com animo esforçado o bravo moço
+ Assim cumprido o real mando havia,
+ E dos mouros com o barbaro destroço
+ Das feridas o sangue confundia.
+ Da desigual peleija o alvoroço
+ Que de Ruy dobrára a valentia
+ Cessado tinha, e o braço seu ferido
+ Sente com o corpo já desfallecido,
+
+ A ferida estancar em vão procura
+ Co'a mão esquerda o Joven animoso,
+ Que a mão, co'a dôr pungente mal segura,
+ Recusa o ministerio caridoso.
+ Do sangue á perda emfim cede a natura,
+ Succumbe á dôr o moço vigoroso.
+ Seu corpo sob as armas desfallece,
+ Cahe prostrado na barca que estremece.
+
+ Mas antes que do Téjo na corrente
+ Fosse a ordem real executada,
+ Pelo ardente valor da christãa gente
+ Com temerario arrojo era assaltada
+ De Santarem a arce, que imprudente,
+ E no escarpado accesso confiada,
+ De Hauzeri sob o mando, que a regia,
+ O poder dos de Christo escarnecia.
+
+ Meias adormecidas, sem cuidado
+ As vélas sobre o muro mal vigiam,
+ Quando a escada fatal alevantado
+ Tem o nobre Moniz, que os mais seguiam.
+ Acorda tarde o mouro alvoraçado,
+ Que os confusos clamores desafiam,
+ Que os Christãos da muralha já senhores,
+ Em breve as portas entram vencedores.
+
+ De Affonso no poder cahiu dest'arte
+ Aquella, que no cume se assentava,
+ Soberba dominando a toda a parte
+ A campina feliz, que o Téjo lava.
+ Inutil foi p'ra o mouro circumdar-te
+ De fortes torreões, co'a gente brava
+ Procurar preservar-te e defender-te,
+ Se uma noute bastou para render-te.
+
+ Noute cruel e horrivel, em que o córte
+ Da espada anniquillou a audacia tua!
+ Em que a tyranna, despiedada morte
+ A fome saciou barbara e crúa!
+ Em que rios de sangue por tal sorte
+ O fio fez correr da espada núa,
+ Que apenas a seus golpes escaparam
+ Tres, que o fugido alcaide acompanharam.
+
+ De Sevilha em alta torre
+ O Rei mouro está sentado:
+ D'alli co'a vista discorre
+ Pelo campo dilatado
+ Que o Guadalquivir percorre.
+
+ Eis que p'ra banda do rio
+ Quatro vê vir cavalgando.
+ Um dos quaes o senhorio
+ Parece que tem do bando,
+ Que segue o seu alvedrio.
+
+ Vem todos de pó cobertos,
+ Os ginetes vem cançados,
+ Mostras claras, signaes certos
+ De marchar afadigados
+ Mostram aos olhos expertos.
+
+ Por Deus!» o Rei mouro brada--
+ Do presago coração
+ O agouro não me agrada!
+ Trazem nova de afflicção
+ Esses que vejo na estrada.
+
+ Aquelle que vem na frente
+ No cavallo mais formoso,
+ É Hauzeri certamente,
+ Que contra o Christão fogoso
+ Accode a pedir-nos gente.
+
+ Pelo Profeta vos digo,
+ Que se agua aos brutos não dão
+ Santarem está em perigo
+ De em breve cahir na mão
+ Do Christão nosso inimigo;
+
+ Porem se a sêde que tem
+ Aos corceis deixam matar,
+ É tomada Santarem,
+ E a nova funesta a dar
+ Fugitivo Hauzeri vem!»--
+
+ Mal do Rei mouro acabavam
+ Os discursos agoureiros,
+ Que logo ao rio chegavam
+ Os cançados cavalleiros
+ E beber aos brutos davam.
+
+ Não tarda que desmontado
+ Ante o mouro commovido
+ Tivesse Hauzeri narrado
+ O desastre acontecido,
+ O caso desventurado.
+
+ Como Affonso se partira
+ Com sua bellica gente,
+ Como a marcha lhe encobrira,
+ Sobre a villa confidente
+ Como inesperado cahira:
+
+ Como as vélas surprehendidas
+ São no muro degoladas,
+ As escadas erigidas,
+ As muralhas assaltadas,
+ E as fortes portas partidas:
+
+ Como a gente, por tal sorte
+ De susto e trevas tomada,
+ Ou passa do somno á morte,
+ Ou corre desacordada
+ Encontrar da espada o córte:
+
+ Como emfim, perdida a esperança,
+ Da arce os Christãos senhores,
+ Cevando-se na matança,
+ Se esquivára aos vencedores,
+ A buscar prompta vingança,
+
+ E das aguas confiando
+ A filha, que preservára
+ Com tres só, dos de seu mando,
+ Pr'a elle Rei caminhára
+ Submetter-lhe o caso infando.
+
+ Assim os mouros souberam
+ De Irene os muros tomados;
+ Grande terror conceberam,
+ Ao vêr a quanto arrojados
+ Os de Christo se atreveram.
+
+ Porem do Téjo á placida corrente;
+ As barcas sem governo abandonadas,
+ Pouco a pouco do rio brandamente
+ Foram ás verdes margens encostadas:
+ Das aguas no remanso mollemente,
+ De verdes espadanas rodeadas,
+ Com o descer da maré firmes ficaram
+ E no lado bojudo se inclinaram.
+
+ Á luz volve Ruy, renasce á vida;
+ Mas qual surpreza, qual doce portento!
+ Já não goteja o sangue da ferida,
+ Já o não punge a dôr e sofrimento;
+ Ao recobrar a sensação, perdida
+ Do sangue no espectaculo cruento.
+ Abre os olhos, contempla a formosura
+ Que qual sonho perdera na espessura.
+
+ Em vez da scena barbara horrorosa,
+ Onde á força da dôr ficou jacente,
+ Volve a si, reclinado na viçosa
+ Relva, que esmalta a borda da corrente.
+ Co'escudo, e lança, a espada bellicosa
+ Dos ramos de um salgueiro está pendente,
+ E a matutina brisa fresca, e pura
+ Junta o sussurro ao da agua que murmura.
+
+ Jaz a seu lado o elmo desprendido,
+ Do duro peso a frente libertada;
+ O peito, antes das armas opprimido.
+ Livre a aura respira embalsamada;
+ Com tella delicada está cingido
+ O braço, que ferira imiga espada,
+ E a linda moura, lagrymas chorando,
+ Lhe está no seio a frente sustentando.
+
+ «Visão!... visão do Ceo, sem pár encanto
+ «Inefavel prazer, que me aviventas,
+ «Doce illusão de amor!..... mas esse pranto
+ «Suspende, ah sim, com elle me atormentas.
+ «Nesse rosto tão bello, puro, e santo,
+ «Com cujo aspecto a vida me sustentas,
+ «Deixa vêr um sorriso, um gesto amante;
+ «Vê-lo sequer n'um derradeiro instante!
+
+ «Ah deixa que em meus braços amorosos
+ «Aperte a imagem que p'ra mim é vida;
+ «Que unidos n'um só ser, ambos ditosos
+ «Nossa essencia vejamos confundida!
+ «Ah Fatima, dos dias meus ditosos
+ «Delicias e prazer, Virgem querida,
+ «Ja não ha quem de mim possa apartar-te
+ «Tu das-me a vida, vivo só p'ra amar-te!
+
+ Disse Ruy: e a Moura, a quem a ardente
+ Força de um terno amor vence e domina,
+ Sobre o peito do amante a linda frente,
+ Desfeita em meigo pranto, amante inclina.
+ Ruy no peito a aperta vehemente,
+ Triumfa amor, amor só predomina!.....
+ Quando a barca de subito estremece,
+ Co'a luz do raio a margem resplandece.
+
+ Retumba do trovão o som tremendo,
+ Da distante montanha os echos gemem,
+ Do rio a calma subito rompendo
+ Na borda antes tranquilla as aguas frémem.
+ Á Virgem delirante o choque horrendo
+ A razão restitue; seus membros tremem,
+ Arranca-se assustada espavorida
+ Dos braços com que o moço a tem cingida.
+
+ «Suspende, ah sim suspende, ó bem amado,
+ «De ti me afasta a propria natureza.
+ «Não contemplas o Ceo de horror toldado,
+ «O rio, o campo envoltos na tristeza.
+ «Foge Christão, que o meu funesto fado,
+ «Sem igual nos rigores, na dureza,
+ «Não me fez para ti, nem consentíra
+ «Que amor em doce laço nos uníra.
+
+ «Foge, oh Christão invicto, e generoso,
+ «A quem prouvéra ao Ceo que ora não visse;
+ «Mas já que fez teu braço poderoso
+ «Que em teu poder segunda vez cahisse,
+ «Que a teus olhos meu peito o desditoso
+ «Amor sem esperanças descobrisse,
+ «Só te resta fugir sem mais demora
+ «Quem, por seu mal, e por teu mal, te adora.
+
+ Isto a Moura dizia; mas o amante
+ Nem o trovão, nem seu carpir ouvia,
+ Transportado de amor, e delirante
+ De novo a moça com ardor cingia.
+ De virginal rubor tinto o semblante
+ Fatima seus transportes combatia;
+ Mas a modestia mais lhe agrava a sorte;
+ Que o amor de Ruy torna mais forte.
+
+ Combate ainda em pranto suffocada,
+ Ora emprega o rigôr, ora a ternura,
+ Ora Ruy argue com voz irada,
+ Ora lhe pinta a extrema desventura,
+ Cego o moço prosegue...... quando alçada
+ De repente ante os dois surge a figura,
+ De Ruy á memoria não estranha,
+ Do venerando Ermita da montanha.
+
+ O mesmo era, que alli achado havia
+ Na piedosa oração todo engolfado,
+ A mesma longa barba lhe descia
+ Sobre o peito, no vulto magoado
+ Outra expressão porém ora se lia,
+ E com semblante triste mais que irado,
+ Do insano mancebo a mão tomando,
+ Lhe diz com tom de voz sereno e brando.
+
+ «Tu, filho de Ruy, tu de seus feitos
+ «Assim procuras igualar a gloria?
+ «Assim do Pai os ultimos preceitos,
+ «Filho ingrato, conservas na memoria?
+ «Á Mãi, que o ser te deu, nutrio aos peitos,
+ «Foi esta a promettida alta victoria,
+ «Quando do martyr Pai armas sagradas
+ «Te entregou de seu sangue inda esmaltadas.
+
+ «Julgas-te generoso, porque a vida
+ «Nos campos das peleijas arriscaste,
+ «Porque valente e audaz da gente infida
+ «Na dura guerra o impeto domaste,
+ «Porque esta moça só, desprotegida
+ «Nos conquistados muros preservaste;
+ «Mas, quando, oh moço audaz, assim fizeste,
+ «De imperio sobre ti que prova déste?....
+
+ «Tu, que esquecendo as leis de cavalleiro,
+ «Quando uma Virgem timida, innocente,
+ «Acaba de salvar-te o derradeiro
+ «Sopro da vida, a teu desejo ardente,
+ «Sem respeitar seu desamparo inteiro,
+ «Buscas sacrifica-la impaciente,
+ «Abusar da imprudencia e juventude;
+ «Que assim curas da honra e da virtude!
+
+ «Mas Deus a protegeu, o o ceo piedoso
+ «Que guardada lhe tem mais nobre sorte
+ «Soube arranca-la ao moço impetuoso
+ «Que ella arrancado havia ás mãos da morte.
+ «Dóma, oh mancebo, o genio teu fogoso,
+ «Sabe ás paixões oppor uma alma forte,
+ «Que em vão procura a honra e busca a gloria
+ «Quem aos desejos seus cede a victoria.
+
+ «Sabe não tarda a hora que ha marcado
+ «A eterna, e insondavel Providencia
+ «P'ra que d'ella, e de ti se cumpra o fado,
+ «Que não pode prever mortal prudencia,
+ «Mal de quem, com seu sopro envenenado.
+ «Pertender profanar essa innocencia!
+ «Mal de ti, se a cumprir te não dás préssa
+ «Do ceo a ordem, que por mim se expréssa!
+
+ «Não distante d'aqui, na opposta margem
+ «Um barco mouro o Téjo vem subindo,
+ «Procura Santarem sua viagem,
+ «Um irmão de Hauzeri vem conduzindo;
+ «Saia-mos-lhe ao encontro na passagem,
+ «Da nova aquelles mouros instruindo,
+ «Volverão, esta Virgem lhes daremos,
+ «E assim a Lei sagrada cumpriremos.»
+
+ Fallando assim, do Ermita venerando
+ A voz era solemne, e magestosa,
+ Via-se a frente calva circumdando
+ Uma aréola clara e luminosa;
+ Subjugado Ruy cede a seu mando,
+ Já na agua nada a barca pressurosa,
+ Já, proximos da opposta ribanceira,
+ Sentem remar dos mouros a bateira.
+
+ Porem ao som do remo, que devia
+ Para sempre talvez roubar-lhe a amada,
+ No coração do moço renascia
+ A tempestade apenas abafada;
+ Se co'amor o respeito combatia,
+ Não dura a luta na alma apaixonada,
+ Cede o respeito, e o moço exasperado
+ Ao velho falla assim com gesto irado.
+
+ «Quem, oh velho agoureiro! dependente
+ «Coustituiu de ti o meu destino?....
+ «Vate de malles, barbaro inclemente,
+ «P'ra que simulas leis do ceo benino?.....
+ «Vai, cessa de ligar teimosamente
+ «A minha sorte ao fado teu mofino,
+ «De perseguir meus dias, de insultar-me,
+ «E co'escuro provir de ameaçar-me.
+
+ «É tua de Hauzeri acaso a filha?....
+ «Acaso nos combates me ajudaste?....
+ «Este braço, esta espada que aqui brilha
+ «Acaso foste tu que os animaste?...
+ «Esta de amor suave maravilha
+ «Acaso foste tu quem a salvaste?...
+ «Não. Entrega-la a barbaros imigos
+ «Só sabes querer, e expo-la a novos perigos.
+
+ «Ah! se longe de tudo á dôr votado,
+ «Aborreces o mundo, e seus deveres,
+ «Volve ao ermo dos homens sequestrado,
+ «Céva na solidão teus desprazeres,
+ «Não venhas com teu halito empestado
+ «Murchar da vida a flôr aos outros seres,
+ «Nem blasfemes o ceo, querendo que eu veja
+ «Desleixada, a que o ceo quer que eu proteja.
+
+ «E póde querer o ceo, que eu a innocencia
+ «Nas mãos dos infieis de novo entregue,
+ «Que Fatima infeliz da Fé na ausencia
+ «O Deus que a protegeu blasfeme e negue?...
+ «Póde querer, que a abandone sem clemencia
+ «Ao funesto destino que a persegue?....
+ «Não, não póde tal querer; nem separado
+ «Soffrerei ser de um bem que o ceo me ha dado.
+
+ «Aparta-te de mim tu que o projectas,
+ «Aparta-te de mim, antes que iroso
+ «Pelas expressões tuas indiscretas
+ «Me leve o sangue a extremo perigoso!
+ «Ao zelo que por mim, por ella affectas
+ «Prestes pôe termo, foge pressuroso,
+ «Deixa-me, oh velho insano, ao meu destino,
+ «Poupa-me algum funesto desatino!
+
+ Immovel, qual rochedo, o velho Ermita
+ Do mancebo os transportes escuitava,
+ A compaixão, que seu penar lhe excita,
+ No gesto enternecido se mostrava.
+ Pallida, e sem alento a moça afflicta
+ Aos ceos os lindos olhos levantava,
+ Como quem do poder soberano e forte
+ Submissa, e resignada espera a sorte.
+
+ N'isto do batel mouro percutida
+ É a barca do remo abandonada:
+ N'agua mergulha a borda, compellida
+ Do veleiro batel pela pancada.
+ Aquella vê Ruy, que lhe era vida,
+ No rio desparecer precipitada,
+ Grita, lança-se ao rio a soccorre-la,
+ Mergulha em vão, em vão quer recolhe-la.
+
+ Mas o braço do Ermita mysterioso
+ Fatima sobre as aguas amparando
+ Longe a leva do amante impetuoso,
+ Que em vão a está nas aguas procurando,
+ Clama ao batel dos mouros pressuroso,
+ E a filha de Hauzeri prompto entregando,
+ Volve a Ruy, arrastra-o da corrente,
+ E desparece á vista em continente.
+
+
+FIM DO QUARTO CANTO.
+
+
+
+
+CANTO QUINTO.
+
+
+ Quaes no profundo reino os nus espritos
+ Fizeram descançar de eterna pena
+ C'uma voz de uma angelica Sirena
+ Camões, Lus., C. 10.º, E. 5.ª
+
+
+ Vagaroso vem marchando
+ Na vereda um cavalleiro,
+ Nobre ginete montando;
+ Traz o rosto do guerreiro,
+ Que a vizeira alevantada
+ Deixa contemplar inteiro,
+ Co'a acerba dôr concentrada
+ Negra sombra de tristeza
+ Profundamente gravou.
+
+ Dos olhos seus a viveza
+ Apaga a melancholia,
+ Da intensa magoa a dureza.
+ Tormento de mais de um dia,
+ Froixa luz de escaça esperança
+ Se lê na fisionomia.
+ Pena, que a velhice avança,
+ Infausta paixão ardente
+ Causas são de tal mudança.
+
+ Como o tronco florescente,
+ Que ha pouco altivo, e frondoso
+ Ornava a selva virente,
+ Que o furor do vento iroso
+ Rebramando enfurecido
+ Desafiava orgulhoso,
+ De insecto voraz roido
+ Na raiz que o alimenta,
+ Murcho abate o cume erguido,
+ Alta a copa não sustenta,
+ Perde da folha a verdura,
+ Que a seiva não alimenta,
+ Guarda só do lenho a altura,
+ Merencorio documento
+ Da perdida formosura;
+ Assim, desde o atroz momento
+ Que Fatima lhe roubou,
+ Com saudade, amor, tormento
+ De Ruy o ser mudou.
+
+ No fundo d'alma
+ Do triste amante,
+ Nem um instante
+ Ha tregoa e calma.
+ Pena incessante
+ Que nada acalma.
+ Cada dia com o tempo reforçada,
+ Lhe consume a existencia desgraçada.
+
+ Já, qual soía
+ Quando ditoso,
+ Não impellia
+ O bellicoso
+ Da Andaluzia
+ Filho fogoso
+ Apoz o corredor que a lebre alcança,
+ Ou o gamo leve, que no campo avança.
+
+ Lá no torneio
+ Já não brilhava,
+ Marcio recreio,
+ Que outr'ora ornava
+ De audacia cheio,
+ Onde arrancava
+ Dextro e valente o premio em nobre luta;
+ Tanto a amarga tristeza a alma lhe enluta!
+
+ Mesto, isolado,
+ Ermos outeiros
+ Corre, apartado
+ Dos cavalleiros;
+ Só animado
+ Entre os guerreiros
+ Se mostra ainda em frente do inimigo,
+ Quando a tuba guerreira o chama ao perigo.
+
+
+ Ignora o infeliz qual seja a sorte
+ D'aquella por quem só lhe é cara a vida,
+ D'aquella sem a qual da espada ao corte
+ A existencia quizera ver perdida.
+ Nas aguas a deixára entregue á morte,
+ Nas aguas víra a Virgem submergida,
+ Longe d'ella com força irresistivel
+ Arrebatado n'esse instante horrivel.
+
+ Do agoureiro Ermita a milagrosa,
+ Subita apparição, prompta partida,
+ A aréola da frente luminosa,
+ A antiga prophecia d'elle ouvida:
+ A lembrança da Mãi terna e saudosa,
+ Do martyr Pai a ultima ferida,
+ Seus preceitos, legados á consorte,
+ Sellados pela fria mão da morte.
+
+ As palavras do Ermita, os seus furores
+ Contra elle, tão prompto castigados;
+ Seus primeiros desejos, seus ardores
+ Pelo ceo, como acinte, perturbados;
+ Os olhos de Fatima encantadores,
+ Quaes por ultimo os vira aos ceos alçados,
+ A angelica expressão do seu semblante,
+ Tudo a Ruy se pinta em cada instante.
+
+ O socego na noute em vão procura,
+ Foge o somno a seus olhos vigilantes;
+ A incerteza, entre as penas a mais dura,
+ Se afferra, roaz cancro, a seus instantes;
+ Se ao cançaço a final cede a natura,
+ Entre um tropel de sonhos delirantes
+ Vagando sem cessar o pensamento,
+ Em logar do repouso acha o tormento.
+
+ Tal era o miserando, infausto estado
+ De Ruy, que ao acaso caminhava,
+ Só, distante dos seus, e confiado
+ No valor, que a desdita não coarctava;
+ Não distante do muro alevantado,
+ Que a maura gente ainda povoava,
+ Na montanha, que surge graciosa,
+ Qual no deserto a oazis frondosa.
+
+ Em frente do mancebo se estendia
+ Prodiga de bellezas a natura:
+ Da primeva, robusta penedia
+ A variada, asperrima structura,
+ Que em agulhas, em picos se erigia,
+ Varios na massa, varios na figura,
+ Erectos estes, estes inclinados,
+ Selvosos uns, os outros despojados.
+
+ Ruinas da vetusta natureza,
+ Monumentos de um mundo transpassado,
+ Culminantes elevam núa a aspereza
+ Os cumes de granito descarnados;
+ Em quanto, circumdando a redondeza
+ Das fraldas, se divisam cumulados
+ Das destruidas rochas os fragmentos
+ Attestando o poder dos elementos.
+
+ Alli a aerea marcha pressurosa
+ Pára a nevoa do vento saccudida,
+ Alli pára a procella magestosa
+ Nas enroladas nuvens envolvida,
+ A lymfa alimentando, que abundosa
+ Dos penhascos nas veias repartida
+ Surde em cascatas, em limpidas fontes,
+ Em arroios gentis desce dos montes.
+
+ Lá se veem de granito á massa ingente
+ Do chão calcareo as zonas encostadas,
+ Áquem e álem partidas variamente,
+ Jazer rotas, confusas, deslocadas;
+ Quaes se de interno esforço e de repente
+ Nos fundos alicerces abalados
+ Como involucro fragil rebentassem,
+ E ao novo serro o dia franqueassem.
+
+ Mais abaixo porem ledo se estende
+ O selvatico manto de verdura,
+ Onde o bafo do estio nunca offende
+ A flôr mimosa, amante da frescura,
+ Onde da hervosa penha se desprende
+ Com murmurio suave a fonte pura,
+ E a mil viçosas plantas succos dando
+ Saudosa corre entre ellas serpejando.
+
+ No valle agreste e umbroso o medronheiro
+ O rubicundo fructo tem pendente
+ Á sombra do robusto castanheiro,
+ Cuja folha intercepta o sol ardente;
+ O carvalho frondoso, o alto olmeiro
+ Cinge a hera lustrosa estreitamente;
+ Do pinheiro co'as copas elevadas
+ As massas de verdura são coroadas.
+
+ Na solidão do bosque as tenras aves,
+ Incolas primitivas da floresta,
+ Chamam a vida co'as canções suaves
+ Musica natural que amor empresta;
+ Respondem-lhe de longe os tons mais graves,
+ Merencoria harmonia lenta e mesta
+ Das ondas, que escumando entre os penedos
+ Batem da roca os asperos rochedos.
+
+ De Alboracim as aguas misturando
+ Do salso mar co'as vagas amargosas,
+ De um lado corre o Téjo, saudando
+ Por derradeiro as praias arenosas;
+ Vão-se do outro os olhos alongando
+ Pelas tumidas ondas procellosas,
+ Que com o tempo sulcarão triumfantes
+ Saudando o patrio sólo as náos ovantes.
+
+ Ainda então sobre a penha virente
+ Orientaes trophéos não consagrára
+ De Diu o vencedor, nem o eminente
+ Excelso pico a torre rematára;
+ Inda a pedra lavrada artistamente
+ O Alcacer real não levantára;
+ Nem a limfa liberta conhecêra
+ A marmorea bacia, que a prendêra;
+
+ Inda a riqueza então não erigira
+ Do prazer a morada caprixosa,
+ Nem o muro importuno prohibira
+ O transito na selva magestosa;
+ Inda o tronco indignado não sentira
+ Do ferro a cortadura injuriosa,
+ Nem do cordão tyranno a fantesia
+ Immolàra a belleza á symetria.
+
+ Tal era o quadro que ante o olho amante
+ Do misero Ruy se desdobrava:
+ Parou, e parecia que um instante
+ A amarga dôr no peito se adoçava.
+ Menos pezado e triste no semblante
+ Os olhos pelos cumes alongava;
+ Mas foi curta a impressão, curta a surpreza,
+ Prompto volveu á habitual tristeza.
+
+ Qual um instante só brilha o luzeiro
+ Do claro sol no meio da procella;
+ Tal da alegria um raio do guerreiro
+ Um momento sómente o vulto assella.
+ Entranha-se na selva, que primeira
+ No seu transito está frondosa, e bella,
+ Segue da agua o arroio fugitivo
+ Co'a frente baixa, o rosto pensativo.
+
+ Assim caminha, quando o pensamento
+ Sente por modo estranho perturbado.
+ Não, não é illusão, um doce accento
+ Sôa no bosque, terno, e magoado,
+ Em vez do som facticio de instrumento
+ Do murmurio do arroio acompanhado,
+ Merencoria harmonia, canto lindo
+ Qual o da rôla seu amor carpindo.
+
+ «Oh doce voz! oh canto mavioso!
+ «Ah! que se ella vivêra, assim cantára,
+ «Assim o nosso amor puro, extremoso,
+ «Solitaria, e saudosa lamentára!
+ «Mas, oh noute cruel, fado horroroso!
+ «Nas aguas para sempre a bella, a cara!...
+ Mais não disse, que os olhos se alagaram
+ E os soluços as vozes lhe cortaram.
+
+
+ A VOZ.
+
+ «Bosques sombrios, profundos retiros,
+ «Aguas correntes, aves namoradas
+ «Inda uma vez escutai os suspiros,
+ «Da desditosa, entre as mais desgraçadas;
+ «Inda uma vez escutai meu tormento,
+ «Do meu penar e da minha anciedade
+ «Origem foi um puro sentimento,
+ «Morro de amor, expiro de saudade!
+
+ «Á dura morte eu por elle arrancada
+ «A gratidão um dever me inspirou,
+ «Vi-o, fallou-me, e d'esta alma encantada
+ «No mesmo instante o dominio usurpou.
+ «Verde floresta, escuta o meu tormento,
+ «Aves, ouvi minha triste anciedade,
+ «Victima sou de um puro sentimento,
+ «Morro de amor, expiro de saudade.
+
+ «Elle partiu namorado da gloria,
+ «Elle partiu sem curar do meu fado,
+ «De quem o adóra ah talvez a memoria
+ «Não haverá nem sequer conservado.
+ «Por derradeiro escutai meu tormento,
+ «Por derradeiro ouvi minha anciedade;
+ «Se elle trahiu tão puro sentimento
+ «Mate-me amor, morra eu de saudade.
+
+ «Mas se fiel, se constante e amoroso
+ «Quaes os inspira elle sente os amores,
+ «Aves, cantai, e tu, bosque viçoso,
+ «Dá novo brilho a teus gentis verdores;
+ «Mais que a alegria é feliz meu tormento,
+ «Mais que o prazer feliz minha anciedade,
+ «Que é dom do ceo por um tal sentimento
+ «Morrer de amor, expirar de saudade.
+
+ Assim cantava a voz melodiosa
+ O canto com suspiros alternando,
+ A saudosa canção, queixa amorosa
+ Iam da selva os echos imitando.
+ A dôr pungente, a angustia que affanosa
+ Iam do moço a vida definhando
+ Mais rapido dissipa o doce accento,
+ Do que a nevoa ligeira aparta o vento.
+
+ N'um instante da moura aos pés se lança
+ Ruy, subido ao auge da ventura:
+ «Vida da minha vida, amor, e esperança
+ «Dos dias meus, modello da ternura!
+ «Que alma ingrata poderá ter mudança
+ «Sendo de ti amada, oh Virgem pura?....
+ «Não, mil mortes soffrêra o teu amante
+ «Primeiro que esquecer-te um só instante.
+
+ Dize-lo; as mãos da Virgem commovida
+ Apertar contra os labios abrazados
+ O mesmo é p'ra Ruy, que a queixa ouvida
+ Completa os seus desejos extremados.
+ «Certo do teu amor, Virgem querida,
+ «Quem de Ruy póde igualar os fados?...
+ «Todo o cruel tormento que hei soffrido
+ «Um só accento teu fez esquecido!....
+
+ «Sorte propicia, acaso venturoso,
+ «Que o ser me restitue para a ventura,
+ «Que prodigio feliz do ceo piedoso,
+ «Que força superior á da natura,
+ «O pôde produzir?... Desde o horroroso
+ «Momento em que surgiu por desventura
+ «Esse fantasma horrivel, despiedado
+ «Contra mim acintoso, e conjurado:
+
+ «Dês que, do odio seu fructo execrando,
+ «Te vi ante meus olhos submergida,
+ «Em vão nas fundas aguas procurando,
+ «Louco de magoa e dôr, salvar-te a vida,
+ «Que o barbaro fantasma, oh crime infando!
+ «Com mais que humana força e desmedida
+ «De ti me arrebatou; que Anjo divino
+ «Protegeu, doce amada, o teu destino?...
+
+ «Indelevel lembrança! Instante horrivel
+ «Em que, de quanto amava separado
+ «Pelo monstro a meus rogos insensivel,
+ «Na solitaria margem fui deixado!
+ «Por toda a parte em meu furor terrivel
+ «Em vão o procurei desesperado,
+ «Riu-se o fado de mim, e até est'hora
+ «Roubou-o á minha sanha vingadora.
+
+ «Mas se elle existe acaso entre os viventes,
+ «Se um fantasma não é, parto do averno,
+ «Que a perseguir meus passos innocentes
+ «A ira suscitou do negro inferno;
+ «Por essas magoas juro tão pungentes
+ «Que hei soffrido, por meu amor eterno,
+ «Que saciando n'elle a minha furia,
+ «Heide lavar a tua, e minha injuria.
+
+
+ FATIMA.
+
+ «Ah suspende! mais não digas!
+ «Sim suspende, oh bem amado,
+ «Illudido, alucinado,
+ «Taes blasfemias não prosigas!
+
+ «Esse, que acusas de morte
+ «Só nas aguas me salvou,
+ «Só elle me confortou
+ «Na tyranna, adversa sorte.
+
+ «Se ainda conservo a vida,
+ «Se inda me estás contemplando,
+ «Ao Ancião venerando
+ «Minha existencia é devida.
+
+
+ RUY.
+
+ «Como?... Aquelle que arrancar-te
+ «Ousou a meu peito amante,
+ «Que em magoa e dôr incessante
+ «Me fez continuo chorar-te,
+
+ «Da tua lei o inimigo,
+ «Da tua raça execrado,
+ «Pôde aliviar teu fado,
+ «Protector para comtigo!....
+
+
+ FATIMA.
+
+ «Prodigios o ceo clemente,
+ «Que meus olhos desvendou,
+ «Por esse mesmo operou,
+ «Que blasfemas imprudente!
+
+ «Desde o momento horroroso,
+ «Em que de ti separada,
+ «De quanto amava affastada
+ «Fui no caso lastimoso.
+
+ «A taça da desventura
+ «Misera esgotar devia,
+ «Trazendo-me cada dia
+ «Nova dôr, nova amargura.
+
+ «Mal de Cintra o alto muro
+ «Me recebeu malfadada,
+ «Foi minha alma transpassada
+ «Dos golpes pelo mais duro.
+
+ «Soube que o Padre querido
+ «Tão digno do meu amor,
+ «Ao despeito, á magoa, á dôr
+ «Tinha infeliz succumbido.
+
+ «Inda bem me não feria
+ «Este golpe acerbo, amaro,
+ «Que do meu unico amparo
+ «Se apagára a luz do dia;
+
+ «De Hauzeri o irmão restante
+ «Que affavel me agazalhára,
+ «Que por filha me adoptára
+ «Viu chegado o ultimo instante.
+
+ «Solitaria, abandonada,
+ «Sem amigos, sem parentes,
+ «De amor nas chammas ardentes
+ «Por mór tormento abrazada,
+
+ «Ignorando se vivia
+ «O só ser que ainda amava,
+ «Se o jurado amor guardava,
+ «Se em outras chammas ardia,
+
+ «Succumbi, em vão luctando
+ «Contra tanta desventura,
+ «E aos golpes da sorte dura
+ «Senti a força expirando:
+
+ «Nem já o pranto, allivio aos desgraçados,
+ «Os olhos meus vertiam,
+ «Nem já ais, nem suspiros, que exhalados
+ «As penas alliviam,
+ «Soltar podia. Opressos, suffocados
+ «Minha alma consumiam
+ «Em silencio os tormentos, morta a esperança
+ «De poder minha sorte ter mudança.
+
+ «Uma noute em que só de horror cercada
+ «Ao pezo de meus males succumbia
+ «De pura luz me vejo rodeada
+ «Igual á que no ceo precede o dia.
+ «De espanto e de terror sobresaltada,
+ «Quando convulso o corpo meu tremia,
+ «No centro do clarão o proprio vejo
+ «Que ás aguas me arrancára lá no Téjo.
+
+ «Era o mesmo; porém mais magestoso
+ «Ora de mim se vinha aproximando;
+ «Qual um astro celeste e radioso
+ «Brilhava o seu semblante venerando,
+ «Um aroma suave e precioso
+ «Estavam suas vestes exhalando,
+ «Na mão tinha uma Cruz resplandecente
+ «Co'a imagem do seu Deus n'ella pendente.
+
+ «Co'a voz a um tempo grave, meiga, e branda,
+ «Com aspecto sereno, e enternecido,
+ «Disse: Victima triste e miseranda
+ «Até agora de um fado endurecido,
+ «Um Deus Clemente, oh filha, a ti me manda;
+ «Um Deus, a quem um ai, um só gemido
+ «De verdadeira dôr, de penitencia
+ «Move com os peccadores á clemencia.
+
+ «Surge da magoa horrivel que te oprime,
+ «Cobra força, renasça o teu alento,
+ «Pela esperança do dom alto e sublime
+ «Com que o ceo quer sarar teu soffrimento.
+ «Fructo innocente de expiado crime
+ «Serás da pena qual da culpa isento,
+ «Em ti meu sangue não será contado
+ «Entre aquelle, que o ceo tem rejeitado!
+
+ «Uma filha, ai de mim! eu tive outr'ora,
+ «Como tu a formára a natureza;
+ «Tinha ella então, como tu tens agora,
+ «Esse dote funesto da belleza.
+ «Uma chamma tyranna, abrazadora
+ «Illudiu da sua alma a singelleza,
+ «Ligou-a o nó de amor, e da desgraça
+ «Ao inimigo audaz da propria raça.
+
+ «Aos braços de Hauzeri, de amor levada,
+ «Funesto effeito das paixões ardentes,
+ «Cuidando ser feliz, foi desgraçada
+ «Victima das angustias mais pungentes.
+ «O Deus, o Pai, a Patria abandonada
+ «Á misera continuo são presentes,
+ «O roedor remorso, a magoa dura
+ «Lhe foram escavando a sepultura.
+
+ «Chegado da infeliz o ultimo instante,
+ «Odios, malquerenças, queixas expiraram,
+ «Paterno pranto, com o do esposa amante
+ «Da morte o leito unidos lhe regaram.
+ «Resignados os olhos seus brilhantes
+ «Pela ultima vez aos ceos se alçaram,
+ «Um suspiro exhalou, cuja piedade
+ «As iras aplacou da Divindade.
+
+ «Fructo infeliz de amor, e de fraqueza
+ «Junto à Mãi expirante tu jazias,
+ «Por ti fallava ainda a natureza,
+ «Tu só na terra a alma lhe prendias.
+ «Tomou-te entre seus braços com viveza,
+ «Tu que a trama cortáras de seus dias,
+ «E com a voz, cortada já da morte,
+ «Assim fallou ao Padre e ao Consorte.
+
+ «Padre, se ingrata filha, angustia e dores,
+ «Por premio a teu amor só sube dar-te
+ «Neste fructo infeliz de meus ardores
+ «Possas ter quem se empenhe em consolar-te,
+ «E tu, por quem soffri tormento e dores
+ «Sem uma hora se quer cessar de amar-te,
+ «Consente que ella entregue ao pai que imploro
+ «Possa rogar por mim ao Deus que adoro.
+
+ «Assim fallou a triste, e resignada
+ «O golpe recebeu da dura morte,
+ «Partiu do erro a alma já purgada
+ «A repartir nos ecos do justo a sorte.
+ «Mas de Hauzeri em vão a prenda amada
+ «Reclamei, em memoria da Consorte;
+ «Arrancar-lha não pude, e separado
+ «Fui desde então p'ra sempre do teu fado.
+
+ «Supplicas, pranto, rogos, ameaças
+ «Para salvar-te estereis empregando,
+ «Fui no ermo chorar minhas desgraças
+ «Aos ceos dos ceos a causa confiando,
+ «Continuo sobre ti de Deus as graças
+ «Com penitentes lagrymas chamando.
+ «Até que a Deus tocou minha agonia,
+ «Deus que benigno a salvação te envia.
+
+ «Em quanto fallava
+ «A cruz me estendia;
+ «E a dôr que a pungia
+ «Na alma abrandava;
+ «Do Deos que invocava
+ «Tocar-me sentia,
+ «Já menos soffria
+ «Já mais me animava,
+ «E quando acordava
+ «E a mim me volvia
+ «Achava-me o dia
+ «Outra do que estava,
+ «Livre da interna lucta, e na bonança
+ «Começando a antever a luz da esperança.
+
+ «A celeste vizão reproduzida
+ «Cada noute a minha alma soccorria,
+ «Cada noute na fé santa instruida,
+ «O santo Avô mais firme me fazia.
+ «A antiga exasperação, o tedio a vida
+ «Em merencoria dôr se convertia,
+ «Dissera-me feliz, se a um sentimento
+ «Conseguisse esquivar meu pensamento.
+
+ Assim Fatima ao transportado amante
+ O terno coração patenteava;
+ Ruy de puro goso delirante
+ No gesto a paixão viva retratava;
+ Vivo rubor da Virgem no semblante
+ Da alma os sentimentos debuchava;
+ A selva, as aves, o arroio, as flôres
+ Formando um templo digno a taes amores.
+
+
+FIM DO QUINTO CANTO.
+
+
+
+
+CANTO SEXTO.
+
+
+ Tal está morta e pallida Donzella,
+ Seccas do rosto as rosas, e perdida
+ A branca e viva côr co'a doce vida.
+ Camões, Lus., C. 3.º, E. 134.ª
+
+
+ Soberbo ondeia a crina fluctuante
+ De Ruy o ginete bellicoso,
+ Atravez da floresta segue ovante
+ No accelerado trote pressuroso.
+ Excita o nobre bruto o ledo amante,
+ Vivo obedece o animal fogoso
+ Á redea, ha tanto tempo abandonada,
+ Que outra vez com vigor sente empunhada.
+
+ Seguindo vai o nobre aventureiro
+ Transportado de goso e de alegria
+ A direcção do campo, que o guerreiro
+ Povo de Christo alevantado havia.
+ Doce aspecto, risonho e lisongeiro,
+ Em vez da dôr, lhe exalta a fantezia,
+ Todo quanto carpira, quanto amára
+ A fortuna propicia lhe entregára.
+
+ Do ginete nas ancas assentada
+ Levar se deixa de Hauzeri a filha,
+ Entregue a amor, e por amor guiada,
+ Suave esperança nos seus olhos brilha.
+ O rosto lindo, a fórma delicada
+ Da natura primor, e maravilha,
+ A pár do Cavalleiro armado e forte,
+ Realisam Cyprina com Mavorte.
+
+ Sob o braço da Bella, que o estreita,
+ O coração do moço arde e palpita,
+ Elle o sente, ella o palpa, e satisfeita
+ Partilha o goso, que innocente excita.
+ Se ella suspira, elle o suspiro aceita,
+ Se olha-la intenta, ella o olhar lhe evita,
+ Pejando-se que lêa o terno amante
+ Nimia expressão de amor em seu semblante.
+
+ Assim o bosque frondoso
+ Vão prestes atravessando,
+ Um silencio deleitoso
+ Bella, e amante guardando.
+
+ Silencio, que amor prefere
+ Á mais ardente expressão,
+ Que no fundo da alma fere,
+ Que transpassa o coração;
+
+ Que identifica, que enlaça
+ Os que a mesma idéa prende,
+ Que a compaixão, que a desgraça,
+ Que amor, que a ternura entende.
+
+ Silencio não avalia
+ Alma mesquinha, apoucada,
+ Que sempre placida e fria
+ Do sacro fogo é privada.
+
+ Em silencio a natureza
+ Vê rolar no immenso espaço
+ Dos orbes a redondeza
+ Que impelliu do Eterno o braço,
+
+ Em silencio a vaga ondosa
+ Rola no lago profundo,
+ Séria a noute magestosa
+ Envolve em silencio o mundo.
+
+ Em silencio o vate absorto
+ Antes de pulsar a lira
+ Recebe o influxo e conforto
+ Do talento que o inspira.
+
+ Em silencio meditando
+ Alcança o sabio a verdade,
+ Vai-se um silencio mirrando
+ O filho da adversidade.
+
+ Silencio da alma nascido,
+ Caracter do sentimento,
+ Tu es o grau mais subido
+ Ou do goso, ou do tormento.
+
+ Atraz deixam o bosque, e as claras fontes.
+ Que atravez a verdura vem manando,
+ Co'a varia crista dos erguidos montes,
+ Que se está sobre as nuvens desenhando,
+ Tingem-se de côr varia os horisontes
+ Co'extremo sol nas aguas mergulhando,
+ Os monotonos cumes apparecem
+ Que com o calmoso estio se encalvecem.
+
+ Ficava-lhes da parte, donde o dia
+ Mais refulgente vibra os esplendores,
+ A Arrabida, entre as nevoas, que tingia
+ O sol cadente de purpureas côres,
+ Com o ramo descendente, que estendia
+ Pelos equoreos campos bolidores,
+ Do Téjo e Sado as fozes separando
+ Com o Cabo do Espichel que vai formando.
+
+ Não longe, e como filho da montanha,
+ Ficava de Palmella o cume erguido,
+ Ao longe dominando na campanha,
+ Ao perto sobre o valle, enriquecido
+ Pela filha gentil de terra estranha,
+ Que ora alli sobre o ramo seu florido
+ Ostenta a um tempo a flôr, e os pomos de ouro,
+ De perfume e frescura almo thesouro.
+
+ Jazem-lhe á dextra as aridas campinas
+ Onde com o vento a loura messe ondeia,
+ Calcareas e basalticas collinas
+ Onde a arvore a vista não recreia,
+ Mais longe as em que a limfa cristalina
+ Hoje em prisão marmorea se encadeia,
+ Roubada aos campos, á verdura, ás flores,
+ P'ra alegrar de Lisboa os moradores.
+
+ Em frente se lhe antolha o pico altivo
+ Co'as naturaes collumnas enfeixadas,
+ Columnas que formára o fogo activo
+ Nas epochas remotas e apartadas,
+ Em que inda o touro, o cervo fugitivo
+ Não pasciam nos campos co'as manadas;
+ Mas só nadantes monstros habitavam
+ Mares, que até aos serros se elevavam.
+
+ Logo as nuvens rompia mais distante
+ De Monte-junto a molle alevantada,
+ Monte-junto, que a lomba culminante
+ Une a Minde ao nordeste prolongada;
+ As aguas dividindo, que ao levante
+ Vem buscar a planicie, que regada
+ É pelo Téjo, das que ao mar salgado
+ Directas vão correr no opposto lado.
+
+ Do sol quasi submerso os derradeiros
+ Raios as eminencias só douravam,
+ Das fontes e dos valles os ligeiros
+ Vapores os contornos desenhavam;
+ Sobre as nevoas os cumes dos outeiros
+ Quaes ilhas sobre o mar se alevantavam,
+ E as aves com a ultima harmonia
+ Davam o extremo adeos ao claro dia.
+
+ Na belleza da scena que os rodeia
+ Fatima nem Ruy não attentavam,
+ Amor as faculdades lhe encadeia,
+ Ao delirio de amor se abandonavam.
+ Qual forte olmeiro a branda vide enleia,
+ Tal a bella e mancebo se estreitavam;
+ É elle o seu apoio, o seu sustento,
+ É ella de Ruy só pensamento.
+
+ Continúa o silencio dos amantes
+ Nos vivos sentimentos engolfados,
+ Nada sôa nos valles circumstantes
+ Mais que do bruto os passos compassados;
+ Só lá dos valles nos cazaes distantes
+ Ladrar se ouvem os cães, sôar dos gados
+ Monotonos chocalhos tangedores,
+ Com o debil som das gaitas dos pastores.
+
+ De um fraco ribeiro,
+ Que a calma escaceia,
+ Que na fralda ondeia
+ Do arido outeiro,
+ Cortava o carreiro
+ O leito escabroso:
+ O solo ondoloso
+ Alli se abatia,
+ E a senda descia
+ Ao váo pedragoso.
+
+ Ao pé da torrente,
+ Gosando a frescura,
+ De um chôpo a verdura
+ Ornava a corrente;
+ Da lua nascente
+ A luz estorvando,
+ A sombra alongando
+ Na estreita passagem,
+ Co'a verde folhagem
+ A senda toldando.
+
+ O corcel, que excita
+ O bellico amante,
+ Na marcha prestante
+ Um momento hesita;
+ Logo a orelha fita
+ E o trote accelera,
+ Ruy, que o modéra,
+ O fogo percebe
+ Que o bruto concebe
+ Na batalha féra.
+
+ Com o braço valente
+ A lança endereça,
+ Preme o bruto, e á préssa
+ Transpõe a corrente.
+ «Cinge estreitamente,
+ «Bella, o teu consorte,
+ «Que seu braço forte,
+ «Por ti animado,
+ «Do mais esforçado
+ «Desafia o córte.»
+
+ Fatima obedece,
+ Seu seio palpita....
+ N'isto uma voz grita
+ A Bella estremece;
+ No grito conhece
+ A aravia expressão,
+ Que no coração
+ O sangue lhe esfria.
+ Fugir quereria;
+ Mas tenta-lo é vão.
+
+ Quem vem lá?... Com voz alta e sonorosa
+ Na arabia lingua um mouro perguntava,
+ Brandindo a ferrea lança temerosa
+ O corcel co'as espóras despertava;
+ Com haste igual de sangue sequiosa
+ Outro mouro apoz elle se mostrava:
+ Ruy, que os vê, e em seu valor confia;
+ «Christo e ElRei Affonso:» respondia.
+
+ Diz. O ginete arremeça,
+ Salta o bruto ardente e forte,
+ Co'a lançada vôa a morte
+ Do mouro a cotta atravessa.
+ Espadana o sangue infido,
+ De um só golpe a alma vôa,
+ Cahe o mouro, e com o ruido
+ Das armas o valle atrôa.
+
+ Torce a redea o Cavalleiro
+ Contra o segundo inimigo;
+ Mas menos forte o guerreiro
+ Encarar não ousa o perigo:
+
+ Do ginete á ligeireza
+ Da vida confia o preço,
+ Parte, vôa, e com destreza
+ Vibra a lança de arremeço.
+
+ Parte a hastea sibilando,
+ O fado dirige o tiro,
+ Cahe Fatima, e ao golpe infando
+ Responde um longo suspiro.
+
+ Ella cahe, ella suspira,
+ No seu seio palpitante
+ Um covarde ferro aspira
+ O sangue da doce amante.
+
+ Ruy no peito a sustenta
+ Mudo, louco, exasperado,
+ Nelle o olhar Fatima attenta
+ Quasi da morte apagado.
+
+ Fitta nelle os olhos lindos
+ Onde amor lucta co'a morte:
+ «Os meus dias estão findos,
+ «Adeus suave consorte!
+
+ «Amei-te mais do que a vida
+ «Desde esse primeiro instante
+ «Em que a ti fui submettida
+ «Por teu braço triunfante;
+
+ «Nem a crença, que então tinha,
+ «Nem a ausencia, nem meu fado,
+ «D'esse amor, essencia minha,
+ «Haveriam triumfado.
+
+ «Nenhum poder sobre a terra
+ «De Ruy me apartaria,
+ «Na ausencia, na paz, na guerra
+ «Fatima tua seria!.....
+
+ «Mas Deus não quiz que embebido
+ «Em doce paixão terrena,
+ «O premio de um escolhido
+ «Fosse corôa tão pequena:
+
+ «Não quiz esse Deus clemente
+ «Que a dita nos deslumbrasse,
+ «Que o nosso amor innocente
+ «Sobre a terra se gozasse.
+
+ «Nasci de um crime, e no crime
+ «Involuntario educada,
+ «Esse Deus, sua Lei sublime,
+ «Foi por mim aos pés calcada:
+
+ «Tarde conheci seu nome,
+ «E quando a Elle voltei
+ «Um peito, que amor consome,
+ «Imperfeito lhe votei.
+
+ «Do sangue meu a abundancia
+ «Possa expiar, oh Senhor,
+ «Os erros da minha infancia,
+ «O excesso do meu amor!
+
+ «Eu vejo a mãi, que me estende
+ «Desde o ceo amantes braços,
+ «Ella a alma me desprende
+ «Dos terrenos embaraços.
+
+ «Eu vôo, oh esposo, eu vôo
+ «Ao seio da Divindade
+ «Jà seu hymno eterno entôo
+ «Nos umbraes da Eternidade.
+
+ «Só d'alli, oh doce amante,
+ «P'ra sempre a dôr se desterra;
+ «Lá te aguardo, que um instante
+ «Vive o homem sobre a terra!
+
+ «Mas ah, se a vida me déste
+ «Quando á morte me arrancaste,
+ «Deva-te a vida celeste
+ «Aquella que tanto amaste.
+
+ «Derrama, á pressa, derrama
+ «Nesta fronte a agua da vida
+ «Que a seu seio Deus me chama,
+ «Em breve por ti seguida.»
+
+ Disse. Uma força invencivel
+ Deus infunde ao moço ardente.
+ Desce, e no elmo terrivel
+ Toma a agua da corrente.
+
+ Chega. Derrama-a na frente
+ Da Virgem agonisante.
+ Ella a sente, e ternamente
+ Une ao peito a mão do amante.
+
+ Apertou-a contra o seio,
+ A elle os olhos voltou,
+ Um suspiro aos labios veio
+ Exhalou-o, e expirou.
+
+ Dizem que junto ao ribeiro
+ Doces cantos se escutaram,
+ Que na noute almo luzeiro
+ Os pastores contemplaram.
+
+ Na seguinte madrugada.
+ Vindo ao sitio os guardadores,
+ Viram a terra escavada
+ Coberta de frescas flôres.
+
+ Sobre ellas um vulto annoso
+ Candidas roupas trajando,
+ N'um vôo ao ceo pressuroso
+ Alva pomba contemplando.
+
+ Dizem mais: que os que souberam
+ O caso digno de chôro,
+ Áquella torrente deram
+ O nome de Rio Mouro.
+
+ Que Ruy na sepultura
+ Longo tempo suspirára,
+ Deposta a nobre armadura,
+ Que do martyr Pai herdára;
+
+ Que alfim do pranto exhauridos
+ Os olhos seus se seccaram,
+ E seus ais, e seus gemidos
+ Para o Senhor se voltaram.
+
+ Que do ceo a queixa ouvida,
+ Com balsamo de alta espr'ança
+ Lhe sarou Deos a ferida,
+ Lhe mandou da alma a bonança.
+
+ De Cintra no ermo escabroso
+ No serro o mais retirado,
+ Além do monte viçoso
+ Monserrate ora chamado,
+
+ Dois penhascos se elevavam
+ Que immensa louza cobria,
+ E uma caverna formavam
+ Que ao ponente a porta abria;
+
+ Alli, dos homens remoto,
+ Dos seus proprios ignorado,
+ Ruy sob um nome ignoto
+ Terminou mistico fado.
+
+ Alli do nascer da aurora
+ Té ao ultimo fulgor
+ Entoava em voz sonora
+ Os hymnos ao Creador.
+
+ Das plantas da penedia,
+ Dos fructos do agreste monte,
+ Sua comida fazia,
+ Bebida lhe dava a fonte.
+
+ Assim consumiu seus annos
+ Á solidão consagrados,
+ Té que, cumpridos seus fados,
+ Poz Deus um termo a seus damnos.
+ Partiu-se de entre os humanos
+ Sua alma candida e pura,
+ Os anjos a sepultura
+ Entre as penhas esconderam,
+ E as memorias se perderam
+ Da sua triste aventura.
+
+ Longo tempo abandonada
+ Jazeu a selvagem gruta,
+ Do lobo, e raposa astuta
+ Foi longo tempo habitada.
+ Té que a prole sublimada
+ Do ultimo lume do Oriente
+ Um asylo penitente
+ No serro agreste erigiu,
+ E de novo alli se ouviu
+ O louvor do Omnipotente.
+
+
+ Os annos correram,
+ Que tudo mudando
+ Volvem derribando
+ O mesmo que ergueram;
+
+ Da suave amante
+ Perdeu-se a memoria,
+ Esqueceu-se a gloria
+ Do Joven brilhante.
+
+ No castello antigo
+ Berço a seus amores
+ Môchos piadores
+ Só tem seu abrigo;
+
+ Selvagem verdura
+ C'o a hera lustrosa
+ Da muralha annosa
+ Cobrem a structura:
+
+ De um lado inda a selva
+ Se mostra virente,
+ Matiza inda a relva
+ Do Lena a corrente,
+
+ Inda o musgo brando.
+ Vestindo os penedos,
+ S'ta nos arvoredos
+ Amor convidando;
+
+ Mas já não lastima
+ O echo das fragoas
+ Da triste Fatima
+ As pena, e as magoas.
+
+ Do Téjo na borda
+ Ind'hoje aos salgueiros
+ O batel co'a corda
+ Prendem os remeiros,
+
+ A humida esteira
+ Tranquillos sulcando,
+ Vem inda remando
+ De noute as bateiras,
+
+ Mas da Moura linda,
+ Do Guerreiro amante,
+ No bronco habitante
+ A memoria é finda.
+
+ De Cintra a viçosa
+ As frescas torrentes
+ Vem inda fluentes
+ Á selva frondosa,
+
+ Das aves ainda
+ Na matta sombria
+ A doce harmonia
+ Com o dia não finda,
+
+ Sua doce frescura,
+ Suas limpidas fontes,
+ Seus farpados montes
+ De altiva structura,
+ Sua luz clara e pura,
+ Seu ceo azulado,
+ Seu mar empolado,
+ Que o tempo venceram,
+ Memoria perderam
+ Do Pár desgraçado.
+
+ Tu só, tu, fantesia inseparavel
+ Das margens do meu Téjo, e seus verdores,
+ Tu, ceo da patria, ceo incomparavel,
+ Que n'alma, qual no campo, espalhas flôres:
+ Só tu resuscitaste o lamentavel
+ Destino de tão firmes amadores;
+ Só tu, do tempo alevantando o manto,
+ Sobre as campas de amor chamaste o pranto.
+
+
+FIM DO CANTO SEXTO E ULTIMO.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Ruy o escudeiro: Conto, by
+Luís da Silva Mousinho de Albuquerque
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RUY O ESCUDEIRO: CONTO ***
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+The Project Gutenberg EBook of Ruy o escudeiro: Conto, by
+Luís da Silva Mousinho de Albuquerque
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Ruy o escudeiro: Conto
+
+Author: Luís da Silva Mousinho de Albuquerque
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+Release Date: June 9, 2007 [EBook #21786]
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+Language: Portuguese
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RUY O ESCUDEIRO: CONTO ***
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+Produced by Pedro Saborano. Para comentários à transcrição
+visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was
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+<div class="ficha_tecnica">
+<h1>RUY O ESCUDEIRO.</h1>
+
+<h2>Conto.</h2>
+
+<p>POR</p>
+
+<p class="author">L. DA S. MOUSINHO D'ALBUQUERQUE.</p>
+
+<div class="caixa_quote">
+<p class="poesia">Remedios contra o somno buscar querem,
+Historias contão, casos mil referem.</p>
+<p><span class="small-caps">Camões, Lusiadas, Canto 6.º, Est. 39.ª</span></p>
+</div>
+
+<p>LISBOA:<br />
+1844.</p>
+
+<p><i>Typ. da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis. Largo do
+Pelouriho, N.º 24.</i></p>
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<p><i>O manuscripto original do presente Poema foi dadiva generosa de seu
+illustre Auctor, feita á Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis, que
+desejando corresponder a tão obsequioso offerecimento empenhou os recursos
+artisticos, de que podia dispor, para que a edição fosse primorosa, e
+provasse o adiantamento da gravura em madeira e da typographia em Portugal
+nestes ultimos annos.</i></p>
+
+<p class="assinatura"><i>Os Editores.</i></p>
+
+
+
+
+<h1>RUY O ESCUDEIRO.<br />
+<img src="images/HCanto1.png" alt="RUY O ESCUDEIRO" align="middle" border="0" /></h1>
+
+
+
+
+<h2>CANTO PRIMEIRO.</h2>
+
+<div class="caixa_quote">
+<p class="poesia">Desbaratado, e roto o mouro hispano,
+Tres dias o grão Rei no campo fica.</p>
+<p><span class="small-caps">Camões, Lusiadas</span>, C. 3.º, E. 53.ª</p>
+</div>
+
+
+<p class="poesia"><img src="images/DCanto1.png" alt="A" border="0" align="bottom" /> Cruz azul, que em campo prateado
+No escudo de Henrique reluzia,
+Em cinco o Filho já tinha cortado
+Por memoria dos Reis, que roto havia:
+De Castro-verde o campo dilatado
+O novo Rei com o arraial cobria,
+Livres os seus, e os mouros fugitivos,
+Partião os despojos, e os captivos.</p>
+
+<p class="poesia">Do arraial no meio se elevava
+Do grande Affonso a lenda triumfante,
+Em torno á qual o vento balançava
+As dos Cabos do Exercito prestante,
+De Pero Pais, que seu pendão guiava,
+Dos Venégas do Aio prole ovante,
+De um Sousa, de um Vallente, e de outros fortes
+Nos perigos, e na gloria ao Rei consortes.</p>
+
+<p class="poesia">Em seguida á do Rei se distinguia
+Tenda semi-real, que alli plantára
+Heroe, cujo valor não desmentia
+O sangue da Borgonha, que o formára;
+Pedro Affonso, a quem déra a luz do dia
+Amor, que o hymineo não consagrára,
+Digna estirpe de Henrique, e em obras suas
+Galardão do cuidado ao aio Fuas.</p>
+
+<p class="poesia">No circumstante campo, vasto, aberto,
+Que inda ha dois sóes medroso, e trepidante
+Víra a furia cruel, conflicto incerto
+Do Sarraceno em lanças abundante
+Contra o Christão, que anima o Chefe experto,
+E no Deus de seus pais a fé constante,
+Trombetas, e ataballes uns tangiam,
+Outros em novo canto assim diziam.</p>
+
+
+<h3>HYMNO.</h3>
+
+<p class="poesia"> Vai fugindo o Sarraceno
+ Mais prompto do que avançou,
+ Que todo o poder terreno
+ Por Christo desbaratou
+ O braço aos perros fatal
+ De Affonso de Portugal.</p>
+
+<p class="poesia"> Cada um dos Cavalleiros,
+ Que por Christo ao campo vem,
+ Cem dos infieis guerreiros
+ Na peleja ante si tem;
+ Mas tudo cede ao real
+ Affonso de Portugal.</p>
+
+<p class="poesia"> Cinco Reis de infieis mouros
+ Contra os de Christo vieram,
+ D'elles teve Affonso os louros,
+ As costas a Affonso deram,
+ Deu Deus esforço immortal
+ A Affonso de Portugal.</p>
+
+<p class="poesia"> Sobre o campo da victoria,
+ Onde Christo lhe appar'ceu,
+ E pr'a o escudo em memoria
+ As proprias Chagas lhe deu,
+ Ao throno alcemos real
+ Affonso de Portugal.</p>
+
+<p class="poesia"> Este Heroe, que Deus ajuda
+ Tome a nossa vassallagem:
+ Sempre ao povo seu acuda
+ Ou Elle, ou sua linhagem:
+ Seja pr'a sempre real
+ A coroa de Portugal.</p>
+
+<p class="poesia"> Sempre entro nós haja Rei
+ Natural de nossa terra,
+ Que na paz conduza a grei,
+ E que a defenda na guerra,
+ Qual o primeiro real
+ Affonso de Portugal.</p>
+
+<p class="poesia">Em quanto uns assim cantam dos soldados,
+Vão outros pelo campo divagando:
+Estes colhem despojo inda espalhado,
+Aquelles secco matto vão cortando;
+Ascende ao ár o fumo, que enrolado
+Das accezas fogueiras vem manando,
+Onde est'outros preparam o alimento
+Dos membros lassos próvido sustento.</p>
+
+<p class="poesia"> Já o Sol menos ardente
+ Para o ponente descia,
+ Temperando a calma do dia
+ A fresca brisa nascente,
+ No occaso reluzente,
+ De ouro e de purpura ornado,
+ Guarnece o ceo azulado
+ A orla de nevoa espessa,
+ Novo dia que arremessa
+ Pintando um dia acabado.
+ Tinha chegado
+ A hora amena,
+ Nos nossos climas
+ Tão suave, tão doce, e tão serena,
+ Hora, que em tempos
+ De paz dourada,
+ Dos lavradores
+ É tão presada;
+ Quando termina
+ Do dia a lida,
+ Quando o descanço
+ Restaura a vida.
+ Sopra da tarde
+ Grata frescura
+ Reanimando
+ Murcha verdura.
+ Vem o novilho,
+ Já libertado
+ Do duro jugo,
+ Pascer no prado.
+ Sobem dos campos
+ Os segadores.
+ Ledos cantando
+ Ternos amores.
+ Gentil mancebo,
+ Que amor encanta,
+ Ao som das córdas
+ As penas canta,
+ Em quanto em giros
+ Linda pastora
+ Co'a dança leve
+ Mais o namora,
+Hora sem par, em que o cadente dia
+Traz repouso, ternura, e alegria!</p>
+
+<p class="poesia">Pedro Affonso no emtanto, em cujo peito
+A pár da intrepidez móra a piedade,
+Guerreiro sem igual, Christão perfeito,
+Vai demandando a erma soledade
+Do provecto Ermitão, asilo estreito
+Onde fugindo as pompas, e a vaidade,
+A Deus e á penitencia consagrára
+O venerando velho a vida cára.</p>
+
+<p class="poesia">N'uma colina, apenas exalçada
+Sobre a vasta planicie calorosa,
+Uma exigua Capella era elevada
+N'aquella idade barbara, e piedosa:
+Do velho Ermita a cellula acanhada
+Jazia ao lado, uma sobreira annosa,
+Co'a larga rama o tecto protegia,
+E do profano olhar a defendia.</p>
+
+<p><img src="images/ICanto1.png" alt="Ermida" align="middle" border="0"/></p>
+
+<p class="poesia">Ante a porta do sacro monumento
+Com toscos páus estava retratado
+O sacrosanto lenho do tormento,
+Em que o Filho de Deus fôra pregado:
+Dentro sculptado via-se o momento
+Em que o Corpo sem vida, reclinado
+Da Mãi nos braços, vai, qual creatura.
+O Creador baixar á sepultura.</p>
+
+<p class="poesia">Alli da noute na primeira vela
+P'ra o Rei, do sacro livro possuido,
+A campana soou, que o tempo assella
+Do celeste Emissario promettido,
+P'ra que em luz, que a do Sol mais clara e bella
+Fosse Christo por elle percebido,
+Promettendo-lhe a coroa, e a victoria
+Da sua estirpe, e do seu povo a gloria.</p>
+
+<p class="poesia">Naquelle instante o velho venerando,
+De giolhos aos pés da Cruz alçada,
+Estava o fim do dia consagrando,
+Como do dia consagrára a entrada.
+Raros alvos cabellos fluctuando
+Se viam sobre a frente despojada;
+E a barba, que lhe o vento sacudia
+Em ondas, sobre o peito lhe descia.</p>
+
+<p class="poesia">Na piedosa oração todo engolfado
+Estava o santo velho por tal sorte,
+Que nem sequer sentiu chegar-lhe ao lado,
+Do Escudeiro seguido, o Varão forte.
+Pedro Affonso parou, seu peito, armado
+De audacia contra os perigos, contra a morte,
+Toca a vista do Ermita por tal geito,
+Que não sabe se é medo, se respeito.</p>
+
+<p class="poesia">Mas o moço Escudeiro, que o seguia
+Bem diversa impressão experimentava,
+Do Ermita a quietação, quasi a apathia
+Da sua alma c'o estado contrastava;
+Em seu peito um volcão latente ardia,
+Dos desejos no pelago nadava,
+Estava n'essa idade, em que o repouso
+É não só mal; mas mal o mais penoso.</p>
+
+<p class="poesia">Ruy era o seu nome. Á luz viera
+Sob o tecto paterno junto ao Douro;
+Seu Pai, no nome igual, a vida dera
+Com Henrique pugnando contra o mouro.
+Jámais paterno affago conhecera,
+Que a triste viuvez, envolta em chôro
+Ruy, unico bem que lhe restára,
+No berço filho posthumo embalára.</p>
+
+<p class="poesia">Unica flôr, que lhe esmaltasse a vida,
+A mãi no tenro filho cultivava,
+Nelle a imagem do pai, reproduzida,
+Embellezada ainda, idolatrava.
+No Joven desde a infancia alma atrevida
+Namorada da gloria se mostrava,
+Com coração ardente, e generoso,
+E a um tempo amante, meigo, e carinhoso.</p>
+
+<p class="poesia">Indole a tudo prompta, a tudo ousada
+No porte do mancho transluzia:
+Na estatura esbelta, e levantada
+Co'a ligeireza a robustez se unia:
+Sobre a frente morena, e dilatada
+A negra liza comma lhe descia,
+Nos olhos vivos, e de côr escura
+Temperava o fogo bellico a ternura.</p>
+
+<p class="poesia">Não era lindo, não, que expressão tanta
+Destroe a symetria da lindeza;
+Porem mais do que o lindo arrastra, encanta,
+Interessa, move, e a attenção tem presa.
+Sem ter severo olhar, que o riso espanta,
+Séria a sua expressão, toca em tristeza,
+Trasborda n'ella uma alma forte e ardente,
+Que tudo póde ser, salvo indiff'rente.</p>
+
+<p class="poesia"> Tal era formado
+ No vulto, e nas cores,
+ Que era a Marte asado,
+ Era asado a amores.
+ Qual brilha entre as flores
+ O cravo fragrante,
+ Tal elle prestante
+ Entre os mais brilhára,
+ Ou tal se elevára
+ Entre os companheiros,
+ Como nos outeiros
+ O olmo alteroso
+Sobre o bosque ergue o cume alto, e frondoso.</p>
+
+<br />
+<p class="poesia">No patrio tecto, desde o berço vira
+Do nobre pai o escudo pendurado,
+A cota, que inimigo ferro abrira,
+Inda tinta do sangue não vingado.
+Mil vezes entre pranto á mãi ouvira
+Contar paterna gloria e triste fado,
+Mil co'a infantina mão tocado havia
+A herdada lança, que ha brandir um dia.</p>
+
+<p class="poesia">Entre memorias taes do patrio dano
+Do filho de Ruy crescera a idade;
+Volvido haviam já anno apoz anno
+Conduzindo o vigor da mocidade,
+Quando a mãi, que respeita como arcano
+Do extincto Esposo a ultima vontade,
+No dia em que seu lucto revivia
+Ao filho bem amado assim dizia.</p>
+
+<p class="poesia">«Martyr da fé Christãa teu Pai na guerra
+«Pela Cruz deu a vida peleijando;
+«Fatal golpe o prostrou na propria terra,
+«Que para Christo andava conquistando.
+«Ah! se lá donde o summo bem se encerra
+«Elle, oh filho, nos vê, ver-me-ha chorando,
+«Dar-te o preceito, que houve do Consorte
+«Quando a alma entregou nas mãos da morte.</p>
+
+<p class="poesia">«Alli fica, me disse, aquella lança,
+«Que só de infiel sangue foi manchada,
+«Alli deixo esse escudo por herança,
+«Esse elmo, essa cota, e essa espada:
+«Se o summo Deus tiver de nós lembrança,
+«E que um filho haja em ti, oh bem amada,
+«Meu nome lhe darás, e essa armadura
+«Sob a qual encontrei a morte dura.</p>
+
+<p class="poesia">«Dar-lhe-has esta Cruz. Isto dizendo
+«Do peito a separou por vez primeira,
+«E o braço, já sem força, a custo erguendo,
+«Aos labios a levou por derradeira.
+«Dir-lhe-has, que se a paz acho morrendo
+«A esta insignia a devo verdadeira,
+«Devo-a de Christo á fé, que a vida guia,
+«Que ensina a fallecer sem agonia.</p>
+
+<p class="poesia">«Dize-lhe que a conserve ao peito unida,
+«Que ao lado seu cinja a paterna espada,
+«Aquella p'ra o guiar á eterna vida,
+«Esta p'ra ser a seu Senhor votada;
+«Que indomito na pugna asp'ra e renhida,
+«A fraqueza respeite desarmada;
+«Que preze a honra; fuja da cobiça,
+«E da moleza vil, que o vicio atiça.</p>
+
+<p class="poesia">«Assim fallou teu Pai.... e a penetrante
+«Ferida em rouxo sangue se esvaia.
+«Sumiu-se a voz no peito palpitante,
+«Aos olhos se apagou a luz do dia:
+«Soou da minha dita ultimo instante,
+«Já d'esta alma a ametade não vivia;
+«Mas dentro de meu seio palpitava
+«Penhor, que a ficar viva me obrigava.</p>
+
+<p class="poesia">«Vivi, a força achei, que me vigora
+«No maternal amor, oh filho amado,
+«Cáro penhor de um laço, doce outr'ora;
+«Mas roto, quando apenas estreitado!
+«A ti mancebo, a ti pertence agora
+«Restituir-me aquelle que hei chorado,
+«Se, como espero, em ti vir renascida
+«A virtude d'essa alma ao ceo subida.</p>
+
+<p class="poesia">«Da tua infancia os dias acabaram,
+«Já teus membros tem força e tem destreza,
+«Aquelles, que o esposo me roubaram,
+«Saibam que não fiquei só, sem defeza.
+«Sangue vil minhas veias não herdaram,
+«Nem coração sugeito a tal fraqueza,
+«Que ao filho de Ruy estorve a gloria
+«De ter por Deus, e pelos seus victoria.»</p>
+
+<p class="poesia">De Ruy a viuva, assim fallando,
+Do muro antigo as armas desprendia,
+E os humidos olhos enchugando,
+O filho de Ruy d'ellas cobria.
+O mancebo, de nobre ardor córando.
+Com respeito a armadura recebia,
+Que já na dura guerra exp'rimentada,
+Fôra do pai com o sangue consagrada.</p>
+
+<p class="poesia">Um captivo entretanto apparelhava
+O bruto ardente, que se apraz na guerra,
+Que impaciente o freio mastigava,
+Co'a vigorosa mão cavando a terra;
+Já armado sobre elle cavalgava
+Quem do ninho paterno se desterra,
+A procurar do mundo as aventuras,
+Gratas a poucos, para tantos duras.</p>
+
+<p class="poesia">Da triste mãi os olhos macerados
+Por largo espaço a marcha lhe seguiram;
+Ao perde-lo porem entre os silvados
+De uma nevoa de pranto se cobriram.
+Seus animos, do filho sustentados,
+Ao arrancar-se d'elle sucumbiram.
+Sentiu a triste, a dôr, magoa, anciedade,
+Que só conhece a maternal saudade.</p>
+
+<p class="poesia">Segue no emtanto o moço a varia estrada
+Que o Mondego do Douro distanceia,
+Na terra, dos Beroens Beira chamada,
+Onde o Vouga entre as serras serpenteia,
+Do Bussaco transpõe serra elevada,
+E bem depressa a vista lhe recreia
+Valle ameno, co'as flores e a verdura
+Que nutre do Mondego a limfa pura.</p>
+
+<p class="poesia">De risonha colina no vertente,
+Que o rio carinhoso em baixo lava,
+A cidade Conimbrica é jacente,
+Que então de espesso muro se cercava;
+N'ella ajuntando estava armada gente
+Affonso, que attacar apparelhava
+O agareno Ismar chefe animoso
+Do transtagano mouro bellicoso.</p>
+
+<p class="poesia"> Era Affonso acompanhado
+ D'esse Irmão, de Henrique filho
+ Cavalleiro de alto brilho,
+ Por Dom Fuas educado.
+ Fuas era aparentado
+ De Ruy com os ascendentes,
+ E o sangue de seus parentes
+ No Joven reconhecendo,
+ Seus destinos protegendo,
+ Por escudeiro o ligou
+ A Pedro, que o aceitou,
+ E entregando-lhe a lança,
+ Poz n'elle tal confiança,
+ Que como a filho o tratou.</p>
+
+<p class="poesia"> Lá na peleija de Ourique
+ No mais forte das batalhas
+ Rachou elmos, rompeu malhas
+ Ruy, com o filho de Henrique.
+ Ao som da tuba guerreira
+ Seu coração se accendeu;
+ Qual touro, aberta a barreira,
+ Com o mouro accommetteu.</p>
+
+<p class="poesia"> Aos golpes da herdada lança
+ Muitos mouros expiraram,
+ Muitos da espada a provança
+ Cáro co'a vida pagaram;
+ E no sangue de inimigos,
+ Que pela Fé derramou,
+ Entre azares, e perigos,
+ Do pai a morte vingou.</p>
+
+<p class="poesia">Do defunto Ruy tal era o filho,
+Que Pedro Affonso ao ermo acompanhava.
+Já do cadente Sol o ultimo brilho
+Nas bordas do horisonte se apagava,
+De altas idéas no inspirado trilho
+O provecto Ermitão continuava:
+Quando subito o rosto alevantando
+Volveu aos dois o aspecto venerando.</p>
+
+
+<h3>ERMITÃO.</h3>
+
+<p class="poesia">«Salve prole de Henrique, heroe preclaro,
+«Salve sangue de Reis, a quem a gloria
+«Predestinada está no assento claro
+«De ter, mais que de imigos, a victoria:
+«Sim, tu triumfarás do abysmo avaro,
+«Do mundo calcarás pompa, e vangloria,
+«Todo o fulgôr da humana heroicidade
+«Sepultando no asilo da piedade.</p>
+
+<p class="poesia">«Onde dos teus a estirpe triumfante
+«Teve origem irás, nobre e animoso,
+«Do teu sangue encontrar varão prestante,
+«Que em ti fecundará germen piedoso;
+«Deporás a couraça rutilante,
+«O elmo, o escudo, o ferro temeroso,
+«Para aspirar á gloria, que não passa,
+«No retiro e silencio de Alcobaça.</p>
+
+<p class="poesia">«Tu porem, oh mancebo, de que abrolhos
+«Cheio é para ti campo da vida,
+«Em que mar procelloso, entre que escolhos
+«Teus de seguir a róta combatida,
+«Que lagrimas amargas de teus olhos
+«Devem correr, no peito que feridas
+«Pungentes sofrerás, sem ter conforto
+«Antes que possas recolher-te ao porto!</p>
+
+<p class="poesia">«Melhor fôra p'ra ti, se a natureza
+«De partes menos bellas te dotára,
+«Se insensivel ás graças e á belleza
+«Ao pondenor, á gloria te formára,
+«Se menos coração, menos viveza
+«Avara p'ra comtigo te outhorgára;
+«Que esse, em quem mais esmero põe natura,
+«Raras vezes mimoso é da ventura.</p>
+
+<p class="poesia">«Os contrarios do Rei que alevantaste
+«Os menores serão de teus imigos,
+«Outro mais p'ra temer, outro encontraste
+«Muito maior no damno, e nos perigos,
+«Da dôr por esse o calix esgotaste;
+«Mas, cumpridos teus fados inimigos,
+«Olhará Deus p'ra ti, e á fonte pura
+«Te guiará da solida ventura.»</p>
+
+<p class="poesia">Assim disse o Ermita, e reclinando
+A cabeça no peito, alguns momentos
+Recolhido ficou; alfim voltando
+P'ra os dois, que quedos s'tão mudos e atentos
+Acrescentou com tom solemne, e brando.
+«Que somos nós mortaes, mais que instrumentos
+«Dos designios de Deus, da alta sciencia
+«Da insondavel eterna Providencia?</p>
+
+<p class="poesia">«Marcha aquelle no trilho da grandeza
+«De tantos precipicios circumdado;
+«Estoutro das paixões entre a braveza
+«É no duro combate acrisolado;
+«Nada um na abundancia e na riqueza;
+«Outro é do escasso pão até privado;
+«Mas se a boa ou má sorte os não illude,
+«Lá tem todos a coroa da virtude.»</p>
+
+<p class="poesia">Estes, e outros discursos repetia
+O velho, de unção cheios extremada,
+Que Pedro Affonso n'alma recebia,
+Qual a semente a terra preparada:
+O mancebo porem a alma sentia
+Com violencia tal preoccupada,
+Que, orando a pár dos dois no monumento,
+Tinha longe da boca o pensamento.</p>
+
+<p class="poesia">Mas já da noute o estrellado manto
+Toda a vasta planicie acobertava,
+Quando Pedro deixando o logar santo
+Para o regio arraial se encaminhava;
+Segue em silencio o Joven, em quem tanto
+Desassocego do Ermitão gerava
+O vaticinio, que debalde intenta
+Dissimular a agitação violenta.</p>
+
+<p class="poesia"> Alertas vélas passaram,
+ Que do campo a guarda tem,
+ No arraial penetraram,
+ Descobrindo áquem e além
+ Os fógos abandonados
+ Pelos dormentes soldados.</p>
+
+<p class="poesia"> Baixou sobre Pedro o amigo
+ Lethargo restaurador;
+ Mas vigilia traz comsigo
+ O cuidado roedor
+ Que no Joven escudeiro
+ Deixou o Ermita agoureiro.</p>
+
+<p class="poesia"> Em vão suffocar tentava
+ Curiosidade indiscreta,
+ Que, mal os olhos cerrava,
+ Logo na mente inquieta
+ Se renovava a impressão
+ Das palavras do Ermitão.</p>
+
+<p class="poesia"> Assim oppresso, agitado,
+ Da noute as horas seguiu,
+ Até que o corpo cançado
+ Ao somno alfim succumbiu,
+ E o repouso ao pensamento
+ Deu vigor, e deu alento.</p>
+
+<p class="poesia"> Ao romper do dia
+ A trompa soava,
+ Cada qual surgia.
+ Cada qual se armava.
+ Aqui os infantes
+ Cerram as fileiras
+ Junto ás ondeantes
+ Variadas bandeiras;
+ Alli vem rinchando
+ Cavallos de guerra
+ O pó levantando
+ Da arida terra.
+ A rosada aurora
+ No aço esplandece.
+ Que co'a luz, que o córa,
+ Em chammas parece.
+ De todos na frente
+ O Rei cavalgava,
+ E da heroica gente
+ Os brios dobrava:
+ As Quinas sagradas
+ A cota lhe ornavam,
+ No pendão lavrados
+ Ao ar tremolavam.
+ Emtanto abatidos
+ A marcha seguiam
+ Os mouros rendidos,
+ Que algemas prendiam.
+ Assim vencedores
+ Os christãos marchavam,
+ E aos frescos verdores
+Das margens do Mondego se tornavam,
+ Nas campinas de Ourique
+Alçado rei, o heroe filho de Henrique.</p>
+
+<h4>FIM DO PRIMEIRO CANTO.</h4>
+<p><img src="images/HCanto2.png" alt="" align="middle" border="0" /></p>
+
+
+
+
+<h2>CANTO SEGUNDO.</h2>
+
+<div class="caixa_quote">
+<p class="poesia">A tomar vai Leiria, que tomada
+Fôra mui pouco havia do vencido.</p>
+<p><span class="small-caps">Camões, Lusiadas</span>, C. 3.º, E. 55.ª</p>
+</div>
+
+
+<p class="poesia"><img src="images/DCanto2.png" alt="P" border="0" align="bottom" />ara unir n'um só leito amantes aguas
+Vem o Liz, sobre os seixos murmurando,
+O Lena vem, nascido de entre as fraguas;
+Em seu curso modesto, alegre, e brando,
+Entre a relva mimosa, entre a verdura
+Cada qual mollemente serpejando.
+Jámais turvou a limfa clara, e pura
+O forte remo, a quilha recurvada
+Com que a industria mortal dóma a natura;
+Sómente a braça da arvore quebrada,
+A folha que no outomno cahe sem vida
+Pelo placido curso foi levada.
+Nas margens a aveleira entretecida
+Com o espinheiro está de flôr fragante,
+A madre silva co'a roseira unida.
+No espelho das aguas inconstante
+Reflectida balança alta ramagem
+De alamo bicolôr, choupo elegante;
+Dos vimes, e salgueiros a folhagem,
+Molles chorões, as braças incurvando,
+Vedam do sol aos raios a passagem.
+Alli, na primavera, sussurrando,
+Recolhe a abelha o mel por entre as flôres,
+E a borboleta as beija volitando,
+Quando o cantor sublime dos verdores
+Da aurora ao despontar, e á tarde canta
+Em frente ao brando ninho os seus amores.
+A róda leve as aguas alevanta,
+Que em canaes variados circulando,
+Levam frescura á sequiosa planta;
+Em quanto, dos invernos triumfando,
+Altos pinheiros sempre verdes frontes
+Reunidos se vêem aos ceos alçando
+Na encosta, e cumes dos visinhos montes.</p>
+
+<p class="poesia">No meio d'este valle a natureza
+Um penhasco erigiu, morro isolado,
+Que das aridas rochas a braveza
+Abruptas volve aos raios do sol nado;
+Com aridez igual, igual asp'reza
+Do occaso, e do sul encara o lado;
+Orna-o do norte apenas a verdura
+Em mais suave encosta, e menos dura.</p>
+
+<p class="poesia">Do forte morro ás abas se abrigaram
+Da destruida Liria os habitantes,
+Quando da natal terra os expulsaram
+Dos romanos as armas triumfantes;
+Para alli seus penates transportaram,
+E da perdida patria sempre amantes,
+De Liria ao novo asilo o nome deram,
+Que os tempos em Leiria converteram.</p>
+
+<p class="poesia">De Vandalos, e Godos povoada
+Foi depois, gente forte e valerosa,
+Que com o tempo tambem cedeu á espada
+Da sarracena raça bellicosa,
+Na epocha em que a terra celebrada
+Das Hespanhas sofreu perda affrontosa,
+E só cantabrios serros abrigaram
+Os que ao jugo africano se escaparam.</p>
+
+<p class="poesia">Mas alfim vencedor da maura gente,
+Affonso, no penhasco edificára
+Recinto marcial forte, e potente,
+Que de Agostinho aos filhos confiára,
+Quando do rôto Ismar a ira fremente
+No povo e no presidio se vingára,
+E unido a Hauzeri, mouro esforçado
+Tinha de Affonso os muros conquistado.</p>
+
+<p class="poesia"> Ai! daquelle, que atrevido
+ Com temeraria ousadia
+ Do Leão adormecido
+ Os furores desafia!
+ O animal irritado,
+ De crua raiva espumando,
+ Corre o campo, arrebatado
+ Morte e ruina espalhando:
+ Com seus urros espantosos
+ A bronca serra estremece,
+ A luz do raio esplandece
+ Nos seus olhos furiosos.
+ Força não ha tão potente
+ Que a carreira lhe embarace,
+ Que a garra não despedace,
+ Que não rasgue iroso o dente:
+ Té que em fim o imigo alcança,
+ E no côrpo ensanguentado
+ Partido, e dilacerado,
+ Séva as iras e a vingança.</p>
+
+<p class="poesia">Assim de novo a trompa bellicosa
+ Nos valles retumbava,
+Assim de Affonso a gente valerosa
+ Já de novo se armava,
+E as bandeiras, que as Quinas adornavam
+Os Alferes de novo ao vento davam.</p>
+
+<p class="poesia">Nobres, e ricos-homens á porfia
+ Se apromptam sem demóra
+A castigar dos mouros a ousadia,
+ E em lide vencedora
+Punir os damnos, com que Ismar irado
+Todo o transito seu tinha marcado.</p>
+
+<p class="poesia">O escudo embraçou p'ra nobre empreza
+ Pedr'Affonso incansavel,
+Ao Rei da crua guerra na aspereza
+ Consorte inseparavel,
+E com elle Ruy para a vingança
+Com ardor empunhou a herdada lança.</p>
+
+<p class="poesia">Moveu-se a gente bellica segura
+ Na esperança da victoria,
+Que a quem temer não sabe a lide dura
+ Nunca desmente a gloria,
+E n'um teso, ao Castello apropinquado
+O campo expugnador foi collocado.</p>
+
+<p class="poesia"> De annoso pinheiro,
+ Que em frente se alçava
+ Do campo guerreiro,
+ Nos ramos pousava
+ Um corvo agoureiro
+Que abrindo o rostro infausto, e ás azas dando,
+Parecia estar os mouros malfadando.</p>
+
+<p class="poesia"> Os de Agar bramaram
+ Quando alevantadas
+ Em frente enchergaram
+ As Quinas sagradas,
+ E irosos juraram
+Illeso conservar o logar forte
+Seus muros defendendo até á morte.</p>
+
+<p class="poesia"> Alcaide da gente
+ Seu brio excitava
+ Hauzeri valente,
+ Que a lança empunhava;
+ Mouro forte e ardente,
+Entre os do bravo Ismar um dos primeiros
+Denodados, e intrepidos guerreiros.</p>
+
+<p class="poesia"> Com garbo, e presteza
+ Discorre a muralha,
+ Dispondo a defeza,
+ Prevendo a batalha,
+ O alcaide, e a firmeza
+A audacia, e o valor no rosto ostenta
+Com que dos seus a galhardia augmenta.</p>
+
+<p class="poesia">Ao lado de Hauzeri bella apparece,
+Piedosa vista em lance tão p'rigoso!
+Filha linda qual luz quando amanhece
+Ao romper d'alva em dia caloroso,
+O turbante, que a frente lhe guarnece
+Remata alvo penacho precioso
+Em quanto vão os zephiros brincando
+Com os anneis sobre os hombros fluctuando.</p>
+
+<p class="poesia">De seda as calças tem da côr da neve,
+Sobre ellas desce a tunica bordada,
+Cerulea faixa a cinta circumscreve,
+Qual a hastea do lirio delicada,
+Cobre o virginal seio a tea leve
+Onde a seda co'a lãa fôra tramada,
+De vermelhos coraes um fio brando
+Do collo airoso a base contornando.</p>
+
+<p class="poesia">Suaves de Fatima os olhos eram,
+Vivos ao mesmo tempo e magestosos,
+Quaes unicos os nossos climas geram,
+Climas caros ao Sol, climas ditosos;
+Olhos, foccos de amor, que n'alma imperam
+Quer languidos, quer meigos, quer irosos;
+Olhos taes, que se pranto derramaram
+As mesmas brutas penhas abrandaram.</p>
+
+<p class="poesia">Nas pudibundas faces reluzia
+A viva côr da nacarada rosa,
+Que em leve gradação se esvaecia
+Pela macia pelle melindrosa;
+Virgem, filha gentil do meio-dia,
+A côr tinha morena, e tão formosa,
+Como a que a luz de um Sol claro e brilhante
+Communica do prado á flôr fragante.</p>
+
+<p class="poesia">Da larangeira em flôr com o deleitoso
+Aroma o ár da tarde embalsamado
+Cede em suavidade ao amoroso
+Hálito de seus labios exhalado.
+O murmurio do arroio saudoso
+Entro meudos seixos derivado,
+O meigo sussurrar do brando vento,
+Menos magia tem que o seu accento.</p>
+
+<p class="poesia"> Quem viu a vermelha rosa
+ N'um ramalhete de flôres
+ De todas a mais formosa
+ Quer nas formas, quer nas côres:
+ Quem da noute socegada
+ No silencioso véo
+ Viu a lua prateada
+ Entre as estrellas do céo:
+ Quem na belleza prestante
+ Do palacio, ou templo santo
+ Viu a corinthia elegante
+ Que remata o molle achanto:
+ Quem entre a familia leve,
+ Habitante da espessura,
+ Viu a pomba côr da neve,
+ Vivo emblema da candura:
+ Não viu mais que uma imperfeita
+ Imagem das maravilhas,
+ Com que Fatima deleita
+Os olhos, do seu povo entre as mais filhas.</p>
+
+<p class="poesia">Porem, já sequiosos da vingança
+Os Christãos se aparelham p'ra peleija.
+Em batalhas o Rei divide as lanças,
+Marcando a cada uma quem a reja:
+P'ra o assalto prescreve sem tardança
+De cada Capitão qual dever seja,
+A qual compete de ir na frente a gloria,
+A qual mais tarde ha de colher victoria.</p>
+
+<p class="poesia">A aquelle, que no nome, qual no peito
+Tem dos fortes a nobre galhardia,
+Entrega o grande Affonso satisfeito.
+Entre as batalhas, a que a frente guia:
+Na mesma linha põe e de igual geito
+A que o pendão de Mem Moniz seguia;
+Bem como a forte gente, cujo ousado
+Valor tem vido a Sousa confiado.</p>
+
+<p class="poesia">As reservas intrepidas e ardentes,
+Onde a lucta attrahir maior perigo,
+Viegas com Martim, e outros valentes
+Promptos conduzirão sobre o inimigo;
+Porem de Pedro Affonso armipotente
+Braço e conselho o Rei quer ter comsigo;
+Nem desdenha reter junto a seu lado
+O Joven Escudeiro denodado.</p>
+
+<p class="poesia"> As trompas guerreiras
+ O signal entoam,
+ Ao combatte voam
+ As bravas fileiras.
+ Os mouros defendem
+ Debalde a campina,
+ Debalde pretendem,
+ Que os Christãos bradando
+ Co'a lança arremetem,
+ A quanto accommettem
+ Rompendo e prostrando.</p>
+
+<p class="poesia"> Qual da serra alpina
+ Partiu destacada
+ A rocha gelada,
+ Que o valle domina,
+ E em forças crestando
+ Na queda espantosa
+ Co'a massa assombrosa
+ Vai tudo rompendo;
+ Assim as batalhas
+ Aos mouros forçavam,
+ E em fuga os lançavam
+ Ao pé das muralhas.</p>
+
+<p class="poesia"> Na rocha escarpada
+ O mouro confia;
+ O Christão porfia,
+ E a rocha é trepada.
+ Embora, galgando
+ Por entre os rochedos,
+ Inteiros penedos
+ Descendem troando:
+ As penhas, nas penhas
+ Caindo, arrebentam;
+ Heroicas façanhas
+ Façanhas sustentam;
+ Setas sibilantes
+ Cruzam por milhares
+ Das fundas girantes
+ Com os tiros nos ares.</p>
+
+<p class="poesia"> Em quanto os archeiros
+ A morte arremedam,
+ Mais brava os lanceiros
+ Já lucta começam,
+ O escudo, a couraça,
+ A malha cerrada,
+ De morte esfaimada
+ A lança transpassa,
+ E aos golpes da espada
+ O elmo partido
+ No craneo fendido
+ Lhe franqueia a entrada.</p>
+
+<p class="poesia"> A escada tremente
+ Á muralha erguida
+ Já foi erigida
+ Pela ousada gente;
+ Do escudo coberto,
+ Com o ferro empunhado,
+ Mais de um segue ousado
+ No ár trilho incerto,
+ E sobre as ameias
+ Mais de um temerario,
+ Entrega ao contrario
+ O sangue das veias.</p>
+
+<p class="poesia"> A pugna engrandece,
+ Redobra a fereza,
+ Do ataque e defeza
+ A teima recresce.
+ Já os muros altos
+ Por todos os lados
+ Sentem renovados
+ Continuos assaltos;
+ Hauzeri no emtanto
+ Resiste esforçado,
+ Fero e denodado
+ Desconhece o espanto;
+ Tal, já quasi exangue,
+ Javali ferido
+ Com o dente buido
+ Derrama inda o sangue,
+ E a um tronco acuado,
+ O collo cerdoso
+ Revolve animoso
+ A um, e outro lado.</p>
+
+<p class="poesia">N'isto o intrepido Affonso, a si chamando
+As reservas, que cauto tem poupado,
+O decisivo esforço emfim tentando,
+Ao assalto as impelle denodado.
+Mal das gentes desliga o regio mando
+O valor tanto a custo sopeado
+Armas, clamor de guerra, e tubas soam,
+E contra o mouro irrisistiveis voam.</p>
+
+<p class="poesia">De todos o primeiro ao morro avança
+O mancebo Ruy leve, e esforçado,
+Os penhascos transpõe sem mais tardança
+Que a anta o precipicio congelado;
+Fere, derriba, e mata a herdada lança,
+Foge o mauro tropel desordenado,
+Ruy segue qual raio a rôta gente
+Pela porta, que aos seus torna patente.</p>
+
+<p class="poesia"> Por ella ruina e morte
+ Penetra, de horror cercada,
+ O valor fallece ao forte,
+ Com a esp'rança abandonada.
+ Cada qual as armas lança,
+ Cada qual arrója a espada.
+ O vencedor na vingança
+ Irritado se enfurece,
+ Céva as iras na matança,
+ A humanidade estremece,
+ Mas a sanha do soldado
+ A sua voz desconhece:
+ Nada p'ra elle ha sagrado,
+ E na crueza incendido
+ Se crê pelo ceo armado,
+ Sobre o infeliz vencido
+ Julgará infidelidade
+ Sentir-se compadecido;
+ Nem o sexo nem a idade
+ Salva do ferro cruento,
+ E de horror e crueldade
+É o penhasco inteiro um monumento.</p>
+
+<p class="poesia">O Sol cobriu de horror a clara fronte,
+Espessas negras nuvens o toldaram;
+As nevoas sobre a borda do horisonte
+Da roixa côr do sangue se pintaram;
+Os córvos carniceiros sobre o monte
+Com o faro da atroz prêza esvoaçaram,
+E enlutados os ceos, a noute fria
+Mais cedo pareceu pôr termo ao dia.</p>
+
+<p class="poesia">Farto o soldado emfim de crueldade,
+Extinctos quasi os miseros vencidos,
+Amainou pouco a pouco a tempestade,
+Cessaram os clamores, e os gemidos,
+Já o Chefe recobra a authoridade
+Sem força entre os primeiros alaridos,
+E da victoria no seguro goso
+Abandonam-se as gentes ao repouso.</p>
+
+<p class="poesia">Mas Ruy, cujo joven peito encerra
+O preceito da Mãi, do Pai legado,
+O descanço dos olhos seus desterra,
+Vagando no Castello desolado.
+De quente sangue vê fumando a terra,
+O cadaver encontra abandonado
+E o misero, que em mais tyranna sorte
+Sem asar de viver lucta co'a morte.</p>
+
+<p class="poesia">No peito o coração em horror tanto
+De Ruy se apertou, a alma sensivel
+Viu, a um tempo com dôr, terror e espanto,
+P'ra quanto não é fera a scena horrivel;
+Não podendo suster amargo pranto,
+Quasi maldiz victoria tão terrivel,
+Fugindo ao quadro atroz por mais não ve-lo
+Se entranha para o centro do Castello.</p>
+
+<p class="poesia">Da menagem a torre alli se erguia,
+No mais alto do morro alevantada,
+Torre rectangular que descobria
+Em redor a campina variada,
+Lá na alta noute, inda hoje triste pia
+Na muralha com o tempo descarnada
+O infausto mocho, e no seu seio escuro
+Se abriga contra a luz morcego impuro.</p>
+
+<p class="poesia">De vigia servia o cume erguido,
+Na parte media as armas se guardavam,
+No mais baixo recinto denegrida
+Em prisão dura os crimes se expiavam.
+Por caracol estreito, e retorcido
+Os planos entre si communicavam.
+Na masmorra o soldado fatigado
+Não tinha a aquelle tempo penetrado.</p>
+
+<p class="poesia">Na torre entra Ruy, e parecia
+Fatidico o instincto que o guiava;
+Á medida que o caracol descia
+Ancioso seu peito se agitava,
+Na escuridão completa se immergia,
+Palpando o muro os passos tenteava,
+Quando na marcha subito impedido
+Sente um corpo cahir, e ouve um gemido.</p>
+
+<p class="poesia">Estremece o mancebo co'a surpresa;
+Mas prompto do repente recobrado,
+A mão ao corpo estende, e em vez de asp'reza
+Sente o tacto macio e delicado
+De anneladas madeichas na leveza,
+N'um seio feminil brando, agitado;
+Mais não hesita, o corpo em braços toma,
+Fóra da torre com o fardo assoma.</p>
+
+<p class="poesia">Mas o corpo que leva entre seus braços
+Sem movimento está, e a voz perdida,
+Pendem-lhe os membros com o mover dos passos
+Qual a vide de olmeiro desprendida;
+Se o coração, batendo por espaços,
+No debil ser não revelára a vida,
+O mancebo por certo acreditára
+Que da morte os mysterios profanára.</p>
+
+<p class="poesia">Mais o fardo apertava contra o peito,
+Mais do mancebo o peito se agitava.
+Parecendo-lhe sentir passo suspeito
+Que apoz elle nas sombras caminhava,
+A marcha apréssa, e n'um carreiro estreito
+Entra a mata, que a um lado a serra brava
+Selvatica produz, e na espessura
+Mais densa, o fardo põe sobre a verdura.</p>
+
+<p class="poesia">Qual pasmo sem igual, quando encarando
+Aquella, que das trevas arrancára,
+Da lua lhe revéla um raio brando
+Do peregrino rosto a forma rara;
+Quando, no vulto immovel attentando,
+Descobre do mancebo a vista avára
+As bellezas, que prodiga a natura
+De Fatima juntou na formosura.</p>
+
+<p class="poesia">A pallidez da morte realçava
+Merencoria a expressão de seu semblante;
+Os apagados olhos lhe cerrava
+A palpebra de cilias abundante;
+Do seio, que opprimido palpitava,
+Parecia que um suspiro a cada instante
+Ia partir, que o moço a vida déra
+Se nos labios gentis o recolhera.</p>
+
+<p class="poesia">Extatico de pasmo e de surpreza
+Jaz Ruy com tal vista captivado,
+Sem cogitar de tanta gentileza
+Qual seja o miserando infausto estado.
+Co'a alma em goso estranho absorta e preza
+Ficára o moço alli como encantado,
+Se na Bella afllicção mais dura e forte
+Não parecesse estender o véo da morte.</p>
+
+<p class="poesia">Contrahiram-se as faces melindrosas.
+Os membros delicados se obduraram,
+Os labios virginaes, murchas as rosas,
+Com um moto convulso trepidaram,
+De suór frio as gotas abundosas
+Pallida a frente, e o collo lhe banharam,
+Alevantou-se o seio seu mimoso,
+Tomou-se o respirar mais afanoso.</p>
+
+<p class="poesia">O imprudente Ruy sahe do lethargo
+Recobra com o terror o pensamento,
+Do abandono da triste se faz cargo
+Naquelle transe horrivel de tormento;
+Dos olhos lhe rebenta pranto amargo,
+A Bella aperta ao peito tão violento
+Como quem quer partir com ella a vida,
+Ou com ella a existencia ver perdida.</p>
+
+<p class="poesia">Não foi do moço inutil o transporte,
+Que a Bella entre seus braços estreitada;
+Ou fosse por que assim o quiz a sorte,
+Ou milagre de amor: reanimada,
+De subito escapando ás mãos da morte.
+Move o collo, ergue a frente debruçada,
+Cessa a suffocação, livre respira,
+Abre os formosos olhos, e suspira.</p>
+
+<p class="poesia">Na mesma situação mais de um instante
+Um e outro ficaram sem fallar-se;
+Elle de puro goso delirante,
+Ella como quem busca recordar-se:
+Mas breve de Ruy vendo o semblante,
+Sentindo entre seus braços estreitar-se,
+D'elles se arranca, e em pranto debulhada,
+Fallando assim, lhe cahe aos pés prostrada.</p>
+
+<p><img src="images/ICanto2.png" alt="Fatima de joelhos" align="middle" border="0" /></p>
+
+<p class="poesia">«Oh tu, quem quer que sejas, se a piedade
+«Entrada pode ter dentro em teu peito,
+«De uma innocente a misera orfandade,
+«Desamparo, e miseria tem respeito!
+«Sei que cahi na tua potestade;
+«Mas antes de sentir o seu effeito
+«Morrerei!......» Disse, e as renascidas rosas
+Pudibunda escondeu nas mãos formosas.</p>
+
+<p class="poesia">«Que do Deus que nos ouve um raio ardente
+«Te vingue, e me anniquille neste instante,
+«Se um sentimento indigno esta alma sente
+«De que haja de córar o teu semblante!
+«Perde o terror, oh Virgem, tens presente
+«Um amigo, um irmão cuja constante
+«Ambição será só de obedecer-te
+«E contra qualquer perigo defender-te!»</p>
+
+<p class="poesia">Assim fallou Ruy, e alevantando
+A prostrada Fatima, em mil maneiras
+Foi seu terror primeiro dissipando,
+Com gestos, com palavras verdadeiras.
+N'um penedo que cobre o musgo brando
+A Virgem se assentou, co'as lisongeiras
+Expressões de Ruy cobrando alento,
+Sentiu raiar a esperança em seu tormento.</p>
+
+
+<h4>FIM DO SEGUNDO CANTO.</h4>
+<p><img src="images/HCanto3.png" alt="" align="middle" border="0" /></p>
+
+
+
+
+<h2>CANTO TERCEIRO.</h2>
+
+
+<div class="caixa_quote">
+<p class="poesia">Onde está aquella imagem pura, e bella
+Artificio divino entre nós raro?
+Onde aquelle olhar brando, que tão caro
+Me foi, e o resplendor de hua e outra estrella?</p>
+<p><span class="small-caps">Ferreira, Soneto, 15.º</span></p>
+</div>
+
+
+<h3>FATIMA</h3>
+
+<p class="poesia"> <img src="images/DCanto3.png" alt="C" border="0" align="bottom" />avalleiro, se é verdade
+ «O que acabas de dizer,
+ «Na minha triste orfandade
+ «Só tu me podes valer.
+ «Não buscarei disfarçar-te
+ «Qual é minha condição,
+ «De tudo vou informar-te,
+ «Ou sejas sincero, ou não.</p>
+
+<p class="poesia"> «Nas terras da Andaluzia
+ «Mouro altivo me gerou,
+ «Cujo nome e valentia
+ «Longe a fama propagou.
+ «De seu braço o nobre Ismar
+ «Conhecendo a fortaleza,
+ «D'estes muros confiar
+ «Quiz a guarda e a defeza.
+ «Do Téjo a margem deixada,
+ «Onde outra arce regia,
+ «Mandou-me vir malfadada
+ «Para a sua companhia.
+ «Sobre o perigo a que me expunha
+ «Saudade lhe déra antolhos,
+ «Que elle em mim seu prazer punha,
+ «Que eu era a luz dos seus olhos!</p>
+
+<p class="poesia"> «Nascendo perdi a Madre,
+ «Que em seu seio me formou;
+ «Mas achei tudo no Padre
+ «Que amoroso me creou.
+ «Quer na tregoa socegado,
+ «Quer na fadiga guerreira,
+ «Jámais fui d'elle apartada,
+ «Antes sempre a companheira.
+ «Quando, ainda tenra infante,
+ «Nos campos o acompanhava,
+ «Sobre o cavallo possante
+ «Um captivo me tomava;
+ «E quando em forças crescida
+ «Quiz-me elle mesmo ensinar
+ «A tomar nas mãos a brida,
+ «Os ginetes a domar.</p>
+
+<p class="poesia"> «Ora correr me fazia,
+ «Dado ao venatorio trato,
+ «O gamo, que parecia
+ «Nadar nas pontas do matto;
+ «Ora..... Mas ha! que aproveita
+ «Recordar carinho seu?....
+ «Minha desgraça é perfeita,
+ «Já não vive o Padre meu!
+ «Não vive; que se vivêra
+ «Por certo que a filha cára
+ «O seu braço soccorrêra,
+ «E a todo o custo a salvára!</p>
+
+<p class="poesia"> «Hauzeri meu Padre é morto!...
+ «Cavalleiro, ah por piedade,
+ «Se desejas dar conforto
+ «Á minha dura anciedade,
+ «Corre ao campo da batalha,
+ «Ao posto o mais arriscado,
+ «Lá na torre, ou na muralha
+ «Acha-lo-has traspassado.
+ «Do seu escudo brilhante
+ «Aro de ouro em torno gira,
+ «De ouro e purpura o turbante
+ «Tem por tope uma saphira:
+ «É seu alfange pendente
+ «De rico talim bordado,
+ «Obra da filha, e presente
+ «Destinado a melhor fado!
+ «Corre, corre, cavalleiro,
+ «Se tens de mim compaixão,
+ «Se teu peito é verdadeiro,
+ «Se te doe minha afflicção:
+ «Busca o cadaver querido,
+ «Faze-o á filha entregar;
+ «Que eu possa o sangue espargido
+ «Com o triste pranto lavar:
+ «Que eu possa triste e mesquinha
+ «Dar seu corpo á terra dura,
+ «E de quanto caro eu tinha
+ «Expirar na sepultura!»</p>
+
+<p class="poesia">Assim a Virgem moura se exprimia,
+Mais de um suspiro as vozes lhe cortava,
+E o pranto, que dos olhos lhe corria,
+Da linda face as rosas lhe banhava.
+O mancebo dos labios seus pendia
+Que no ardor de servi-la se abrazava,
+E mal ella acabou, aos pés prostrado,
+D'esta sorte lhe volve transportado:</p>
+
+<p class="poesia"> «Por piedade, anjo de graça,
+ «Mitiga a acerba afflicção
+ «Que a alma me despedaça,
+ «Que me parte o coração.
+ «Salvarei, pois o desejas,
+ «Esses despojos presados;
+ «E se ao furor das peleijas,
+ «Foram seus dias poupados,
+ «Verás teu pai a teu lado,
+ «Oh bella, n'um curto instante:
+ «Feliz de adoçar teu fado
+ «O teu extremoso amante!»</p>
+
+<p class="poesia">No semblante da Virgem peregrina
+Rubor vivo a taes vozes apparece;
+Qual ao raiar da aurora purpurina
+A viva côr nas nuvens resplandece;
+Em seu peito porem, que a dôr domina,
+A surpreza de prompto se esvaece,
+Com gesto firme, e com solemne accento
+Confirma assim do moço o nobre intento.</p>
+
+<p class="poesia"> «Cavalleiro generoso,
+ «Segue o proposito teu.
+ «Se o ceo para mim piedoso
+ «Salvo tem o Padre meu,
+ «Se ve-lo, abraça-lo ainda
+ «Eu dever a teu cuidado
+ «Pela gratidão infinda
+ «Terás meu peito ligado;
+ «Mas se o Padre, vivo, ou morto,
+ «Me não fôr restituido,
+ «Não busques p'ra mim conforto,
+ «Meu fado ha de ser cumprido.
+ «Jámais Fatima opprimida
+ «Escrava de um vencedor,
+ «A tal extremo abatida
+ «Servirá sob um senhor;
+ «Que antes de ver-me aviltada
+ «Saberei da abjecta sorte,
+ «Da condição exasperada,
+ «Achar allivio na morte.»</p>
+
+<p class="poesia"> «Não por certo, exclama o moço
+ Prompto o corpo alevantando,
+ «Se teu mal prevenir posso,
+ «Eu vôo já ao teu mando.
+ «Alenta o peito formoso,
+ «Minóra tanta afflicção,
+ «Confia no ceo piedoso,
+ «Angelica perfeição;
+ «Que aqui pela chamma ardente,
+ «Que n'este peito ateaste,
+ «Juro, que ante o Sol nascente
+ «Verás esse que choraste.»</p>
+
+<p class="poesia">Diz, e qual parte a pedra sibilante
+Da volteada funda despedida,
+De Fatima veloz parte o amante,
+Obedecendo á ordem recebida,
+De penhasco em penhasco salta avante,
+Desdenhando escolher senda seguida,
+Chega ao Castello, ao campo de batalha,
+Ás torres, á mortifera muralha.</p>
+
+<p class="poesia">Uma vez, outra vez corre o recinto;
+Mas em vão, com o empenho não atina.
+Cada corpo examina em sangue tinto,
+Busca de balde, e em buscar se obstina;
+É mais forte o amor do que o instincto,
+Entre as scenas de horror, entre a ruina
+Só Fatima divisa e seu tormento,
+Suffoca amor todo o outro sentimento.</p>
+
+<p class="poesia">Desenganado de que em vão procura,
+Volve Ruy ao centro do Castello,
+Com um facho acceso desce á cella escura
+D'onde ha pouco arrancára o fardo bello;
+Interroga os soldados, a armadura
+De Hauzeri lhes descreve; mas de ve-lo
+Nenhum lhe dá signaes; exasperado
+Volta outra vez ao campo ensanguentado.</p>
+
+<p class="poesia">Na pesquiza injucunda em vão porfia,
+Inutil tedio! infructuosa lida!
+Nem novas nem signaes achar podia,
+Nenhuns ha de Hauzeri morto, ou com vida.
+No emtanto com o raiar de novo dia
+Era a Lua no brilho amortecida,
+E as estrellas mais proximas do oriente
+Se engolfavam na luz do Sol nascente.</p>
+
+<p class="poesia">Do mancebo o valor succumbe á ideia
+Da exasp'ração do ser idolatrado;
+Fatima de antemão de afflicção cheia
+Contempla em todo o peso de seu fado.
+Por ve-la anhella; mas ve-la receia,
+Receia o seu pesar exasperado,
+Vacilla, treme; mas amor o excita
+E da matta na senda o precipita.</p>
+
+<p class="poesia">As muralhas transpõe, na brenha escura
+Já seus tremulos passos avançavam,
+Receio, impaciencia, horror, ternura
+Em tropel dentro n'alma lhe luctavam;
+Tanto mais progredia na espessura
+Tanto mais seus transportes se exaltavam,
+Os pensamentos se lhe confundiam,
+E convulsos os membros lhe tremiam.</p>
+
+<p class="poesia">Fóra de si, sem tino, e delirante
+Chega emfim ao logar onde deixára
+O prodigio de amor, cujo semblante
+De todo o ser antigo lhe mudára......
+Mas, oh pungente dôr! funesto instante!
+É deserto o penedo..... a forma rara
+Se esvaeceu na sua ausencia breve,
+Qual com o romper do dia o sonho leve.</p>
+
+<p class="poesia">Ligeira barca, que a favor do vento,
+Em demanda da praia desejada,
+Vai rapida cortando o salso argento,
+Deixando apoz a esteira prolongada,
+Perde o impulso, a força, o movimento,
+Em banco ignoto subito encalhada:
+Tal fica aniquilado, immovel, quedo
+O surpreso Ruy ante o penedo.</p>
+
+<p class="poesia">Mas depois, prolongando um doce engano,
+Luctando ainda contra a desventura,
+Pela Moura clamando, o moço insano
+Discorre aquem e alem pela espessura;
+Porem o infausto, extremo desengano
+Não pode recusar, quando a verdura,
+Já pelo Sol nascido alumiada,
+Se lhe antolha deserta, abandonada.</p>
+
+<p class="poesia"> «Tudo perdi, desgraçado,
+ Exclama o moço insensato,
+ «Só n'esta alma o seu retrato
+ «Dura com fogo gravado!</p>
+
+<p class="poesia"> «Chamma horrivel me devóra,
+ «Fogo intenso, fogo interno!
+ «Tu foges impia e traidora,
+ «Deixas em meu peito o inferno!</p>
+
+<p class="poesia"> «Como?... com quem?... para onde!...
+ «Serpe em meu seio esquecida!
+ «Que valle, ou que serra esconde,
+ «Perversa, a tua fugida?.....</p>
+
+<p class="poesia"> «Juro pela fé sagrada,
+ «Que de meus avós herdei,
+ «Que em tua raça odiada
+ «Meu tormento vingarei!</p>
+
+<p class="poesia"> «Dos teus no perfido sangue
+ «Este ferro hei de ensopa-lo,
+ «De teu pai no corpo exangue
+ «Hei de a teus olhos crava-lo!</p>
+
+<p class="poesia"> «Salvei-te a vida, e meus dias
+ «Daria por defender-te,
+ «Mal teu desejo enuncias,
+ «Prompto vôo a obedecer-te.</p>
+
+<p class="poesia"> «Volvo de amor transportado,
+ «De puro extremo incendido;
+ «Sou trahido, abandonado,
+ «Enganado, escarnecido!......</p>
+
+<p class="poesia"> «Nem se quer um monumento
+ «Restará de opprobrio tanto;
+ «Nem tu, oh musgoso assento,
+ «Nem tu, oh viçoso manto.</p>
+
+<p class="poesia"> Isto diz... Desatinado
+ Prostra co'a espada a verdura.
+ Fere fogo o aço temp'rado
+ Percutindo a pedra dura.</p>
+
+<p class="poesia"> Qual cão, de raiva atacado,
+ Distilando a baba impura,
+ Tinto em sangue o olho ardente,
+ Té na pedra imprime o dente;</p>
+
+<p class="poesia"> Ou qual o touro insofrido,
+ A crú jogo abandonado,
+ Ardente dardo incendido
+ Tendo no corpo cravado,</p>
+
+<p class="poesia"> Salta, brame, urra, e pungido
+ Do fogo sempre ateado,
+ Em corcovos accommette,
+ E contra a têa arremette:</p>
+
+<p class="poesia"> Tal o moço furioso
+ Musgo, relva, arbustos, flores,
+ Prostra, arranca, impetuoso
+ Nada poupa em seus furores;
+ Té que emfim com gesto iroso
+ Volve espaldas aos verdores,
+ E do sitio triste, e infausto
+ Se arranca de força exhausto.</p>
+
+<p class="poesia">Affonso, em tanto, em pompa respeitosa
+Dos ministros de Deus marcha cercado
+Á capella da Virgem gloriosa,
+Que no forte Castello havia alçado.
+Segue-o dos seus a turba numerosa
+Exultando por ver desagravado
+Do insulto agareno o logar santo
+Com o christão sacrificio sacrosanto.</p>
+
+<p class="poesia">Já tinham descendido a curta escada,
+Que ao pavimento interno conduzia,
+Da porta o cume agudo transpassado
+Onde esculptado o Trino Deus se via;
+Co'a sagrada aspersão tinham mundado
+Do sacro pavimento a lagem fria,
+Em canto baixo e triste repetido
+Psalmo do Rei profeta arrependido.</p>
+
+<p class="poesia">O merencorio som no templo escuro
+Vagaroso, e solemne resoava,
+Á piedosa effusão de um zelo puro
+Devota a multidão se abandonava;
+Quando Ruy com passo mal seguro
+Do Castello nos muros penetrava
+E levado da lugubre harmonia
+Na Capella entre os mais se confundia.</p>
+
+<p class="poesia">Neste mesmo momento o Celebrante
+Ante o altar sagrado reverente
+Se inclinava, e o povo circumstante
+Baixava até á terra humilde a frente.
+A tal vista o mancebo delirante
+Seu barbaro furor desmaiar sente,
+Sente expirar a raiva, e a fereza,
+Trocar-se a ira em luto e em tristeza.</p>
+
+<p class="poesia">Os musculos contractos se relaxam,
+A frente, hirta até alli, no peito inclina,
+Sobre os olhos as palpebras se abaixam,
+O fogo abrazador cede e declina.
+Não de outra sorte as plantas vigor acham
+Do orvalho na frescura matutina,
+Como adoça ao mancebo o horrendo estado
+A pompa augusta, o cantico sagrado.</p>
+
+<p class="poesia">Tal quando arrebatado, e possuido
+De furias infernaes, castigo horrendo,
+O do povo de Deus primeiro ungido,
+Co'espirito das trévas combatendo,
+Fora de si, convulso, enfurecido,
+Se estava entre agonias debatendo,
+Da harpa de David a melodia
+Seu soffrimento acerbo adormecia.</p>
+
+<p class="poesia">Findou porem a pompa veneranda,
+Os canticos, e os ritos terminaram;
+E em alas logo de uma e outra banda
+Do vestibulo as gentes se formaram;
+Ao pio vencedor que os rege e manda
+Mil triumfaes applausos elevaram;
+E em marcha triumfal, dos seus seguido,
+É Affonso ao Alcacer conduzido.</p>
+
+<p class="poesia">Alli chegado, próve na defeza
+Dos muros novamente conquistados,
+Para que nem por força, nem surpreza
+Possam mais ser dos mouros retomados.
+Confia defender-lhe a fortaleza
+Ao valor de Monteiro, e seus soldados,
+Em vez de Payo, que perdido a havia
+De Theotonio co'a gente a quem regia.</p>
+
+<p class="poesia">Mas já n'aquelle tempo o Prior Santo,
+Que tal era o pensar n'aquella idade!
+O baculo depondo, e o sacro manto,
+Alliando a vingança co'a piedade,
+Entre os mouros fizera estrago tanto
+Em despique da perda da Cidade,
+Que em Arronches, por elle aos seus rendida,
+Fôra de Affonso a lei reconhecida.</p>
+
+<p class="poesia">Ao tempo em que entre os sabios conselheiros
+O Rei a paz e a guerra discutia,
+E ao longo das muralhas os guerreiros
+Folgavam da conquista na alegria;
+Ruy, a joven flôr dos escudeiros,
+Monta o cavallo, que da Andaluzia
+Aos corceis os mais bellos fôra inveja
+Do manejo na pompa, ou na peleija.</p>
+
+<p class="poesia">Mas não sustenta o moço a redea leve
+Co'a costumada e dextra gentileza,
+Que ao soberbo animal motos prescreve
+Que lhe dobram as graças e a belleza,
+Deixa-a pender no collo airoso e breve,
+E submergido em lugubre tristeza,
+Sair faz ao acaso o bruto bello
+Pela primeira porta do Castello.</p>
+
+<p class="poesia">O bruto a mão usada não sentindo
+Co'a frente baixa o trilho proseguia,
+Tardo no passo, o collo distendido,
+Partir do damno as magoas parecia;
+Abandonado a si, não conduzido,
+Do Lena para a margem progredia;
+No sitio onde hoje sua perenne fonte
+Transpõe o passageiro sobre a ponte.</p>
+
+<p class="poesia">O quadrupede docil, como esp'rando
+A lei de seu senhor na fresca borda
+Um momento parou, e o moço olhando
+Com torvos olhos, como quem acorda
+De sonho ingrato, e á rasão tomando,
+Móres penas reaes sente, e recorda,
+Distrahido lhe affaga o collo, e clina,
+E para a dextra a leve redea inclina.</p>
+
+<p class="poesia">Não longe do logar onde se achava
+Graciosa a corrente se torcia,
+Alli viçosa a margem se adornava
+Das plantas, que o remanso mais nutria,
+Com graça ao lado opposto se elevava
+Um mamillo gentil, donde surdia
+Um fio de agua clara murmurando
+Qual rôla entre a verdura suspirando.</p>
+
+<p class="poesia">A curta elevação faz que se aviste
+D'alli do valle ameno a gentileza,
+Ondulado terreno em frente existe
+D'onde o cultura tem banido a asp'reza,
+Alternada co'a vinha alli subsiste
+A pallida oliveira, e a riqueza
+Da loura Ceres; fecha o quadro bello
+Do ceo sobre o azul negro o Castello.</p>
+
+<p class="poesia">Aqui pára Ruy e desmontando
+A um ramo o corcel liga, e lentamente
+Vai a placida fonte procurando
+Onde só gemer possa livremente;
+Mas junto um peregrino vê, tomando
+A simples refeição, na herva jacente
+Seu pobre alforje está desenvolvido,
+Viatorio bordão jaz estendido.</p>
+
+<p class="poesia"> A gorra de aba espaçosa
+ Calva a frente lhe obumbrava,
+ A concha da praia ondosa
+ O capello lhe adornava;
+ De uma correia nodosa,
+ Que o pardo saio apertava,
+ Pendente a cabaça tinha
+ Que a bebida em si continha.</p>
+
+<p class="poesia"> Escravo por longos annos
+ De um mouro, que o captivára,
+ Mão gentil da sorte os damnos
+ Compassiva lhe adoçára.
+ Quebrou-lhe os ferros tyrannos;
+ E liberto lhe inspirára
+ Sua devoção singella
+ Ir romeiro a Compostella.</p>
+
+<p class="poesia"> Tal se mostrava o Romeiro,
+ Que assim Ruy saudou:
+ «Deus vos salve, Cavalleiro,
+ «Vosso humilde servo sou.
+ «Se do trato meu grosseiro,
+ «Que aqui consumindo estou,
+ «Vos pode o uso ser grato,
+ «Partiremos do meu trato.</p>
+
+
+<h3>RUY.</h3>
+
+<p class="poesia"> «Graças mil bom peregrino,
+ «Deus vos dê feliz successo
+ «Até o vosso destino
+ «E bem assim no regresso.
+ «Ao Apostolo divino
+ «Bom Romeiro o que vos peço
+ «É que na vossa oração
+ «Vos alembreis d'este irmão.</p>
+
+
+<h3>ROMEIRO.</h3>
+
+<p class="poesia"> «Dizei-me, bom Cavalleiro,
+ «Se com o nosso Rei andais,
+ «De Pedro Affonso o escudeiro
+ «Que nome tem, que signaes?
+ «Dizem-me ser tão guerreiro,
+ «De tal pórte, e de obras taes
+ «Que as gentes na lide espanta
+ «E fóra d'ella as encanta.</p>
+
+
+<h3>RUY.</h3>
+
+<p class="poesia"> «Esse escudeiro que dizes
+ «De Ruy o nome tem,
+ «Dos signaes para que ajuizes
+ «Elle mesmo a ver-te vem.
+ «Mais não busques nem pesquizes
+ «Novas; se as trazes de alguem,
+ «Falla palavras seguras
+ «Que eu sou esse que procuras.</p>
+
+
+<h3>ROMEIRO.</h3>
+
+<p class="poesia"> A nova de que ora tracto,
+ Senhor, é tão delicada,
+ Que heis perdoar o recato
+ Com que ha de ser confiada.
+ Dizei-me, onde existe um matto
+ Com um penedo musgado,
+ Onde na noute apparecem
+ Sombras que se desvanecem?</p>
+
+
+<h3>RUY.</h3>
+
+<p class="poesia"> Onde existe?...... O atrevimento
+ Quem te deu de pergunta-lo
+ Venha de sangue sedento
+ Em proprio, e armado indaga-lo;
+ Que á face do firmamento
+ Eu juro que hei de ensina-lo
+ A não juntar a ousadia
+ Á mais baixa covardia!</p>
+
+
+<h3>ROMEIRO.</h3>
+
+<p class="poesia"> Por Christo! não te enfureças
+ Escudeiro generoso,
+ P'ra que a verdade conheças
+ Traz-me acaso venturoso.
+ As apparencias são essas,
+ Mas em caso duvidoso
+ Quem a apparencias se afferra
+ Muitas vezes troca e erra.</p>
+
+<p class="poesia"> Attenta no que te digo
+ Que quem partiu me dictou:
+ --Tu me salvaste de um p'rigo
+ A que o padre me guiou,
+ Fujo-te, o padre é quem sigo,
+ Foi elle quem te espiou,
+ Quem te seguiu á espessura
+ Da noute na sombra escura.</p>
+
+<p class="poesia"> Mal par'o buscar te apartaste
+ O Padre me appareceu,
+ Tu enganado ficaste
+ Só elle o engano teceu;
+ Mas se acaso te agastaste
+ Com este proceder meu
+ Sabe que maior desgraça
+ Do que a tua em mim se passa.</p>
+
+<p class="poesia"> Essa, que p'ra sempre grata
+ Te prometteu jurou ser,
+ Bem longe de ser ingrata,
+ Vai muito além do dever;
+ Amor a consume, e a mata,
+ E se t'o ousa dizer
+ É com a esperança perdida
+ De mais t'o dizer na vida.</p>
+
+<p class="poesia"> Distancia, muralha armada
+ E das seitas o rancôr
+ Com barreira triplicada
+ Circumdam a sua dôr:
+ De saudades definhada
+ Triste victima de amor
+ Será de Fatima a sorte
+ Suspirar até á morte.--</p>
+
+<p class="poesia"> Assim carpindo a formosa
+ Ouvi, que nunca enganou,
+ Essa cuja voz piedosa
+ Liberdade me alcançou,
+ Ouvi-lhe a queixa afanosa
+ Que puro amor lhe arrancou.
+Ah! possa Deus por ti mandar-lhe um dia
+A paz no ceo, na terra a alegria.»--</p>
+
+<p><img src="images/ICanto3.png" alt="Romeiro" align="middle" border="0" /></p>
+
+<p class="poesia">Em quanto assim fallava o viandante
+O alforge e o bordão alevantava,
+E mal que terminou, no mesmo instante
+Da cristalina fonte se apartava.
+O enternecido, transportado amante
+Debalde uma, e mil cousas perguntava,
+Mais não volveu resposta o peregrino,
+E mudo foi seguindo o seu destino.</p>
+
+
+<h4>FIM DO CANTO TERCEIRO.</h4>
+<p><img src="images/HCanto4.png" alt="" align="middle" border="0" /></p>
+
+
+
+
+<h2>CANTO QUARTO.</h2>
+
+
+<div class="caixa_quote">
+<p class="poesia">Mas quem póde livrar-se por ventura
+Dos laços que amor arma brandamente
+Entre as rosas, e a neve humana pura,
+O ouro, e o alabastro transparente?</p>
+<p><span class="small-caps">Camões, Lus.</span>, C. 3.º, E. 142.ª</p>
+</div>
+
+<p class="poesia"><img src="images/DCanto4.png" alt="D" border="0" align="bottom" />a socegada noite o astro cadente
+P'ra plaga occidental já se inclinava:
+Precursora do Sol resplandecente
+A matutina estrella scintilava.
+Do Téjo sobre a placida corrente
+Nem a mais leve brisa volitava,
+Jazia a folha immovel no arvoredo
+Tudo dormia socegado, e quedo.</p>
+
+<p class="poesia">Apenas o silencio prolongado
+Lá do longinquo charco interrompia
+A grasnadora raã, do ramo alçado
+O triste mocho, que agoureiro pia.
+Eis que ao longo do rio socegado
+Um fraco som parece que se ouvia
+Compassado, moroso, e similhante
+Ao surdo murmurar de agua distante.</p>
+
+<p class="poesia">Distingue-se melhor, em força cresce
+Pouco a pouco se vem approximando,
+Com o murmurio das aguas já parece
+Ouvir-se o som do lenho em lenho dando,
+Saltando a limpha a espaços resplandece,
+O cristal se desliza sussurrando.
+«Alerta companheiros com presteza
+«Os remos esforçai, que é certa a preza!</p>
+
+<p class="poesia">Assim brada uma voz, e vigorosos
+Montam nove o batel, que a sombra escura
+Dos salgueiros encobre, que viçosos
+A orla adornam da corrente pura:
+Oito aos remos se lançam pressurosos,
+Em quanto o Chefe empunha a cana dura,
+Guiando a barca, que qual seta vôa
+Ao mourisco batel, que tem na prôa.</p>
+
+<p class="poesia">«Nazarenos!... na lingua arabia grita
+A gente do batel sobresaltada.
+«Nazarenos» bradando, esforça, excita
+O maioral a gente ao remo usada.
+«Leva remos p'ra já, raça maldicta,
+«Rendei-vos, perros, ou ireis á espada,
+Gritam da barca, que veloz singrando
+Vai o batel dos mouros alcançando.</p>
+
+<p class="poesia">«Lança o croque, a fateicha, afferra, atraca,
+«Que não possa escapar-se a gente infida,
+Brada o Chefe Christão, que prompto ataca
+O batel que desiste da fugida.
+Por defende-lo o mouro a espada sacca,
+Trava-se atroz peleija tão renhida
+Nos barcos afferrados, qual na terra
+Soe tenaz mostrar-se a horrivel guerra.</p>
+
+<p class="poesia">Do christão bando ao impeto primeiro
+Dos infieis o barco fôra entrado,
+Não sem que tres christãos o derradeiro
+Termo houvessem nas aguas encontrado;
+Mas logo, atraz dos bancos do remeiro,
+Peleija o bando mouro intrincheirado
+Como quem não curando já da vida
+Antes do que captiva a quer perdida.</p>
+
+<p class="poesia">Brilha no ár vibrando a espada núa,
+Penetra pelas armas a estocada,
+Céva no roxo sangue a raiva crúa
+Do talhador alfange a cutilada.
+Nenhum pensa em ceder, nenhum recúa
+Em quanto a força em sangue derramada
+Ao braço não fallece, e a mão pendente
+Não deixa o ferro matador jacente.</p>
+
+<p class="poesia">Já dos nove christãos que accommetteram
+Tres a morte nas aguas encontraram,
+Cinco do peito aberta a vida deram
+Que á estocada os mouros lhe arrancaram;
+Mas as vidas bem caras lhes venderam
+Que oito tambem dos perros expiraram,
+E dos sete que restam, tres feridos
+Vão a vida exhalando entre gemidos.</p>
+
+<p class="poesia">Mas o Chefe Christão só no perigo
+Crescer sente o valor co'horror e estrago,
+Qual raio abrazador sobre o inimigo
+Cahe, bradando em voz alta «San-Tiago.
+Morte, espanto, e terror leva comsigo,
+Faz-se o batel de sangue um bruto lago,
+Onde o maioral mouro acaba a vida
+E o Christão Chefe a dextra tem ferida.</p>
+
+<p class="poesia">Dos mouros uns ao ferro a vida entregam
+Outros da barca pavidos saltando
+Escapados á morte á margem chegam
+Com o sangue as puras aguas maculando.
+Assim ao só Ruy a barca legam,
+Que era elle o que indomito pugnando
+Tinto no proprio sangue generoso
+De tantos triumfára valoroso.</p>
+
+<p class="poesia">Ruy, que junto aos muros de Leiria,
+Principal instrumento da victoria,
+O que perdêra em paz, e em alegria
+Co'indomito valor ganhára em gloria,
+Que Affonso prezador da valentia,
+Conservando seus feitos na memoria,
+Quando á mão de Mafalda a mão ligára
+Com pompa augusta Cavalleiro armára,</p>
+
+<p class="poesia">E depois, quando o genio seu guerreiro
+A empreza concebeu agigantada
+De surprehender com bando aventureiro,
+Com imprevista, subita escalada,
+O sitio forte, erguido, e sobranceiro,
+Onde a Virgem Irene sepultada
+Do Téjo, que soberbo aos mares vem,
+Por milagrosa campa as aguas tem,</p>
+
+<p class="poesia">Para que gente moura, ou rica preza
+Com mais difficuldade lhe escapasse,
+De Ruy commettêra a gentileza
+Que nas margens do Téjo se emboscasse,
+E com a usada, indomita braveza
+Qualquer batel no rio lhe tomasse
+P'ra que os de Agar vencidos não sentissem
+N'agua ou terra por onde lhe fugissem.</p>
+
+<p class="poesia">Com animo esforçado o bravo moço
+Assim cumprido o real mando havia,
+E dos mouros com o barbaro destroço
+Das feridas o sangue confundia.
+Da desigual peleija o alvoroço
+Que de Ruy dobrára a valentia
+Cessado tinha, e o braço seu ferido
+Sente com o corpo já desfallecido,</p>
+
+<p class="poesia">A ferida estancar em vão procura
+Co'a mão esquerda o Joven animoso,
+Que a mão, co'a dôr pungente mal segura,
+Recusa o ministerio caridoso.
+Do sangue á perda emfim cede a natura,
+Succumbe á dôr o moço vigoroso.
+Seu corpo sob as armas desfallece,
+Cahe prostrado na barca que estremece.</p>
+
+<p class="poesia">Mas antes que do Téjo na corrente
+Fosse a ordem real executada,
+Pelo ardente valor da christãa gente
+Com temerario arrojo era assaltada
+De Santarem a arce, que imprudente,
+E no escarpado accesso confiada,
+De Hauzeri sob o mando, que a regia,
+O poder dos de Christo escarnecia.</p>
+
+<p class="poesia">Meias adormecidas, sem cuidado
+As vélas sobre o muro mal vigiam,
+Quando a escada fatal alevantado
+Tem o nobre Moniz, que os mais seguiam.
+Acorda tarde o mouro alvoraçado,
+Que os confusos clamores desafiam,
+Que os Christãos da muralha já senhores,
+Em breve as portas entram vencedores.</p>
+
+<p class="poesia">De Affonso no poder cahiu dest'arte
+Aquella, que no cume se assentava,
+Soberba dominando a toda a parte
+A campina feliz, que o Téjo lava.
+Inutil foi p'ra o mouro circumdar-te
+De fortes torreões, co'a gente brava
+Procurar preservar-te e defender-te,
+Se uma noute bastou para render-te.</p>
+
+<p class="poesia">Noute cruel e horrivel, em que o córte
+Da espada anniquillou a audacia tua!
+Em que a tyranna, despiedada morte
+A fome saciou barbara e crúa!
+Em que rios de sangue por tal sorte
+O fio fez correr da espada núa,
+Que apenas a seus golpes escaparam
+Tres, que o fugido alcaide acompanharam.</p>
+
+<p class="poesia"> De Sevilha em alta torre
+ O Rei mouro está sentado:
+ D'alli co'a vista discorre
+ Pelo campo dilatado
+ Que o Guadalquivir percorre.</p>
+
+<p class="poesia"> Eis que p'ra banda do rio
+ Quatro vê vir cavalgando.
+ Um dos quaes o senhorio
+ Parece que tem do bando,
+ Que segue o seu alvedrio.</p>
+
+<p class="poesia"> Vem todos de pó cobertos,
+ Os ginetes vem cançados,
+ Mostras claras, signaes certos
+ De marchar afadigados
+ Mostram aos olhos expertos.</p>
+
+<p class="poesia"> Por Deus!» o Rei mouro brada--
+ Do presago coração
+ O agouro não me agrada!
+ Trazem nova de afflicção
+ Esses que vejo na estrada.</p>
+
+<p class="poesia"> Aquelle que vem na frente
+ No cavallo mais formoso,
+ É Hauzeri certamente,
+ Que contra o Christão fogoso
+ Accode a pedir-nos gente.</p>
+
+<p class="poesia"> Pelo Profeta vos digo,
+ Que se agua aos brutos não dão
+ Santarem está em perigo
+ De em breve cahir na mão
+ Do Christão nosso inimigo;</p>
+
+<p class="poesia"> Porem se a sêde que tem
+ Aos corceis deixam matar,
+ É tomada Santarem,
+ E a nova funesta a dar
+ Fugitivo Hauzeri vem!»--</p>
+
+<p class="poesia"> Mal do Rei mouro acabavam
+ Os discursos agoureiros,
+ Que logo ao rio chegavam
+ Os cançados cavalleiros
+ E beber aos brutos davam.</p>
+
+<p class="poesia"> Não tarda que desmontado
+ Ante o mouro commovido
+ Tivesse Hauzeri narrado
+ O desastre acontecido,
+ O caso desventurado.</p>
+
+<p class="poesia"> Como Affonso se partira
+ Com sua bellica gente,
+ Como a marcha lhe encobrira,
+ Sobre a villa confidente
+ Como inesperado cahira:</p>
+
+<p class="poesia"> Como as vélas surprehendidas
+ São no muro degoladas,
+ As escadas erigidas,
+ As muralhas assaltadas,
+ E as fortes portas partidas:</p>
+
+<p class="poesia"> Como a gente, por tal sorte
+ De susto e trevas tomada,
+ Ou passa do somno á morte,
+ Ou corre desacordada
+ Encontrar da espada o córte:</p>
+
+<p class="poesia"> Como emfim, perdida a esperança,
+ Da arce os Christãos senhores,
+ Cevando-se na matança,
+ Se esquivára aos vencedores,
+ A buscar prompta vingança,</p>
+
+<p class="poesia"> E das aguas confiando
+ A filha, que preservára
+ Com tres só, dos de seu mando,
+ Pr'a elle Rei caminhára
+ Submetter-lhe o caso infando.</p>
+
+<p class="poesia"> Assim os mouros souberam
+ De Irene os muros tomados;
+ Grande terror conceberam,
+ Ao vêr a quanto arrojados
+ Os de Christo se atreveram.</p>
+
+<p class="poesia">Porem do Téjo á placida corrente;
+As barcas sem governo abandonadas,
+Pouco a pouco do rio brandamente
+Foram ás verdes margens encostadas:
+Das aguas no remanso mollemente,
+De verdes espadanas rodeadas,
+Com o descer da maré firmes ficaram
+E no lado bojudo se inclinaram.</p>
+
+<p class="poesia">Á luz volve Ruy, renasce á vida;
+Mas qual surpreza, qual doce portento!
+Já não goteja o sangue da ferida,
+Já o não punge a dôr e sofrimento;
+Ao recobrar a sensação, perdida
+Do sangue no espectaculo cruento.
+Abre os olhos, contempla a formosura
+Que qual sonho perdera na espessura.</p>
+
+<p class="poesia">Em vez da scena barbara horrorosa,
+Onde á força da dôr ficou jacente,
+Volve a si, reclinado na viçosa
+Relva, que esmalta a borda da corrente.
+Co'escudo, e lança, a espada bellicosa
+Dos ramos de um salgueiro está pendente,
+E a matutina brisa fresca, e pura
+Junta o sussurro ao da agua que murmura.</p>
+
+<p class="poesia">Jaz a seu lado o elmo desprendido,
+Do duro peso a frente libertada;
+O peito, antes das armas opprimido.
+Livre a aura respira embalsamada;
+Com tella delicada está cingido
+O braço, que ferira imiga espada,
+E a linda moura, lagrymas chorando,
+Lhe está no seio a frente sustentando.</p>
+
+<p class="poesia">«Visão!... visão do Ceo, sem pár encanto
+«Inefavel prazer, que me aviventas,
+«Doce illusão de amor!..... mas esse pranto
+«Suspende, ah sim, com elle me atormentas.
+«Nesse rosto tão bello, puro, e santo,
+«Com cujo aspecto a vida me sustentas,
+«Deixa vêr um sorriso, um gesto amante;
+«Vê-lo sequer n'um derradeiro instante!</p>
+
+<p class="poesia">«Ah deixa que em meus braços amorosos
+«Aperte a imagem que p'ra mim é vida;
+«Que unidos n'um só ser, ambos ditosos
+«Nossa essencia vejamos confundida!
+«Ah Fatima, dos dias meus ditosos
+«Delicias e prazer, Virgem querida,
+«Ja não ha quem de mim possa apartar-te
+«Tu das-me a vida, vivo só p'ra amar-te!</p>
+
+<p class="poesia">Disse Ruy: e a Moura, a quem a ardente
+Força de um terno amor vence e domina,
+Sobre o peito do amante a linda frente,
+Desfeita em meigo pranto, amante inclina.
+Ruy no peito a aperta vehemente,
+Triumfa amor, amor só predomina!.....
+Quando a barca de subito estremece,
+Co'a luz do raio a margem resplandece.</p>
+
+<p class="poesia">Retumba do trovão o som tremendo,
+Da distante montanha os echos gemem,
+Do rio a calma subito rompendo
+Na borda antes tranquilla as aguas frémem.
+Á Virgem delirante o choque horrendo
+A razão restitue; seus membros tremem,
+Arranca-se assustada espavorida
+Dos braços com que o moço a tem cingida.</p>
+
+<p class="poesia">«Suspende, ah sim suspende, ó bem amado,
+«De ti me afasta a propria natureza.
+«Não contemplas o Ceo de horror toldado,
+«O rio, o campo envoltos na tristeza.
+«Foge Christão, que o meu funesto fado,
+«Sem igual nos rigores, na dureza,
+«Não me fez para ti, nem consentíra
+«Que amor em doce laço nos uníra.</p>
+
+<p class="poesia">«Foge, oh Christão invicto, e generoso,
+«A quem prouvéra ao Ceo que ora não visse;
+«Mas já que fez teu braço poderoso
+«Que em teu poder segunda vez cahisse,
+«Que a teus olhos meu peito o desditoso
+«Amor sem esperanças descobrisse,
+«Só te resta fugir sem mais demora
+«Quem, por seu mal, e por teu mal, te adora.</p>
+
+<p class="poesia">Isto a Moura dizia; mas o amante
+Nem o trovão, nem seu carpir ouvia,
+Transportado de amor, e delirante
+De novo a moça com ardor cingia.
+De virginal rubor tinto o semblante
+Fatima seus transportes combatia;
+Mas a modestia mais lhe agrava a sorte;
+Que o amor de Ruy torna mais forte.</p>
+
+<p class="poesia">Combate ainda em pranto suffocada,
+Ora emprega o rigôr, ora a ternura,
+Ora Ruy argue com voz irada,
+Ora lhe pinta a extrema desventura,
+Cego o moço prosegue...... quando alçada
+De repente ante os dois surge a figura,
+De Ruy á memoria não estranha,
+Do venerando Ermita da montanha.</p>
+
+<p><img src="images/ICanto4.png" alt="Ruy, Fatima e Eremita" align="middle" border="0" /></p>
+
+<p class="poesia">O mesmo era, que alli achado havia
+Na piedosa oração todo engolfado,
+A mesma longa barba lhe descia
+Sobre o peito, no vulto magoado
+Outra expressão porém ora se lia,
+E com semblante triste mais que irado,
+Do insano mancebo a mão tomando,
+Lhe diz com tom de voz sereno e brando.</p>
+
+<p class="poesia">«Tu, filho de Ruy, tu de seus feitos
+«Assim procuras igualar a gloria?
+«Assim do Pai os ultimos preceitos,
+«Filho ingrato, conservas na memoria?
+«Á Mãi, que o ser te deu, nutrio aos peitos,
+«Foi esta a promettida alta victoria,
+«Quando do martyr Pai armas sagradas
+«Te entregou de seu sangue inda esmaltadas.</p>
+
+<p class="poesia">«Julgas-te generoso, porque a vida
+«Nos campos das peleijas arriscaste,
+«Porque valente e audaz da gente infida
+«Na dura guerra o impeto domaste,
+«Porque esta moça só, desprotegida
+«Nos conquistados muros preservaste;
+«Mas, quando, oh moço audaz, assim fizeste,
+«De imperio sobre ti que prova déste?....</p>
+
+<p class="poesia">«Tu, que esquecendo as leis de cavalleiro,
+«Quando uma Virgem timida, innocente,
+«Acaba de salvar-te o derradeiro
+«Sopro da vida, a teu desejo ardente,
+«Sem respeitar seu desamparo inteiro,
+«Buscas sacrifica-la impaciente,
+«Abusar da imprudencia e juventude;
+«Que assim curas da honra e da virtude!</p>
+
+<p class="poesia">«Mas Deus a protegeu, o o ceo piedoso
+«Que guardada lhe tem mais nobre sorte
+«Soube arranca-la ao moço impetuoso
+«Que ella arrancado havia ás mãos da morte.
+«Dóma, oh mancebo, o genio teu fogoso,
+«Sabe ás paixões oppor uma alma forte,
+«Que em vão procura a honra e busca a gloria
+«Quem aos desejos seus cede a victoria.</p>
+
+<p class="poesia">«Sabe não tarda a hora que ha marcado
+«A eterna, e insondavel Providencia
+«P'ra que d'ella, e de ti se cumpra o fado,
+«Que não pode prever mortal prudencia,
+«Mal de quem, com seu sopro envenenado.
+«Pertender profanar essa innocencia!
+«Mal de ti, se a cumprir te não dás préssa
+«Do ceo a ordem, que por mim se expréssa!</p>
+
+<p class="poesia">«Não distante d'aqui, na opposta margem
+«Um barco mouro o Téjo vem subindo,
+«Procura Santarem sua viagem,
+«Um irmão de Hauzeri vem conduzindo;
+«Saia-mos-lhe ao encontro na passagem,
+«Da nova aquelles mouros instruindo,
+«Volverão, esta Virgem lhes daremos,
+«E assim a Lei sagrada cumpriremos.»</p>
+
+<p class="poesia">Fallando assim, do Ermita venerando
+A voz era solemne, e magestosa,
+Via-se a frente calva circumdando
+Uma aréola clara e luminosa;
+Subjugado Ruy cede a seu mando,
+Já na agua nada a barca pressurosa,
+Já, proximos da opposta ribanceira,
+Sentem remar dos mouros a bateira.</p>
+
+<p class="poesia">Porem ao som do remo, que devia
+Para sempre talvez roubar-lhe a amada,
+No coração do moço renascia
+A tempestade apenas abafada;
+Se co'amor o respeito combatia,
+Não dura a luta na alma apaixonada,
+Cede o respeito, e o moço exasperado
+Ao velho falla assim com gesto irado.</p>
+
+<p class="poesia">«Quem, oh velho agoureiro! dependente
+«Coustituiu de ti o meu destino?....
+«Vate de malles, barbaro inclemente,
+«P'ra que simulas leis do ceo benino?.....
+«Vai, cessa de ligar teimosamente
+«A minha sorte ao fado teu mofino,
+«De perseguir meus dias, de insultar-me,
+«E co'escuro provir de ameaçar-me.</p>
+
+<p class="poesia">«É tua de Hauzeri acaso a filha?....
+«Acaso nos combates me ajudaste?....
+«Este braço, esta espada que aqui brilha
+«Acaso foste tu que os animaste?...
+«Esta de amor suave maravilha
+«Acaso foste tu quem a salvaste?...
+«Não. Entrega-la a barbaros imigos
+«Só sabes querer, e expo-la a novos perigos.</p>
+
+<p class="poesia">«Ah! se longe de tudo á dôr votado,
+«Aborreces o mundo, e seus deveres,
+«Volve ao ermo dos homens sequestrado,
+«Céva na solidão teus desprazeres,
+«Não venhas com teu halito empestado
+«Murchar da vida a flôr aos outros seres,
+«Nem blasfemes o ceo, querendo que eu veja
+«Desleixada, a que o ceo quer que eu proteja.</p>
+
+<p class="poesia">«E póde querer o ceo, que eu a innocencia
+«Nas mãos dos infieis de novo entregue,
+«Que Fatima infeliz da Fé na ausencia
+«O Deus que a protegeu blasfeme e negue?...
+«Póde querer, que a abandone sem clemencia
+«Ao funesto destino que a persegue?....
+«Não, não póde tal querer; nem separado
+«Soffrerei ser de um bem que o ceo me ha dado.</p>
+
+<p class="poesia">«Aparta-te de mim tu que o projectas,
+«Aparta-te de mim, antes que iroso
+«Pelas expressões tuas indiscretas
+«Me leve o sangue a extremo perigoso!
+«Ao zelo que por mim, por ella affectas
+«Prestes pôe termo, foge pressuroso,
+«Deixa-me, oh velho insano, ao meu destino,
+«Poupa-me algum funesto desatino!</p>
+
+<p class="poesia">Immovel, qual rochedo, o velho Ermita
+Do mancebo os transportes escuitava,
+A compaixão, que seu penar lhe excita,
+No gesto enternecido se mostrava.
+Pallida, e sem alento a moça afflicta
+Aos ceos os lindos olhos levantava,
+Como quem do poder soberano e forte
+Submissa, e resignada espera a sorte.</p>
+
+<p class="poesia">N'isto do batel mouro percutida
+É a barca do remo abandonada:
+N'agua mergulha a borda, compellida
+Do veleiro batel pela pancada.
+Aquella vê Ruy, que lhe era vida,
+No rio desparecer precipitada,
+Grita, lança-se ao rio a soccorre-la,
+Mergulha em vão, em vão quer recolhe-la.</p>
+
+<p class="poesia">Mas o braço do Ermita mysterioso
+Fatima sobre as aguas amparando
+Longe a leva do amante impetuoso,
+Que em vão a está nas aguas procurando,
+Clama ao batel dos mouros pressuroso,
+E a filha de Hauzeri prompto entregando,
+Volve a Ruy, arrastra-o da corrente,
+E desparece á vista em continente.</p>
+
+
+<h4>FIM DO QUARTO CANTO.</h4>
+<p><img src="images/HCanto5.png" alt="" align="middle" border="0" /></p>
+
+
+
+
+<h2>CANTO QUINTO.</h2>
+
+
+<div class="caixa_quote">
+<p class="poesia">Quaes no profundo reino os nus espritos
+Fizeram descançar de eterna pena
+C'uma voz de uma angelica Sirena</p>
+<p><span class="small-caps">Camões, Lus.</span>, C. 10.º, E. 5.ª</p>
+</div>
+
+<p class="poesia"><img src="images/DCanto5.png" alt="V" border="0" align="bottom" />agaroso vem marchando
+Na vereda um cavalleiro,
+Nobre ginete montando;
+Traz o rosto do guerreiro,
+Que a vizeira alevantada
+Deixa contemplar inteiro,
+Co'a acerba dôr concentrada
+Negra sombra de tristeza
+Profundamente gravou.</p>
+
+<p class="poesia">Dos olhos seus a viveza
+Apaga a melancholia,
+Da intensa magoa a dureza.
+Tormento de mais de um dia,
+Froixa luz de escaça esperança
+Se lê na fisionomia.
+Pena, que a velhice avança,
+Infausta paixão ardente
+Causas são de tal mudança.</p>
+
+<p class="poesia">Como o tronco florescente,
+Que ha pouco altivo, e frondoso
+Ornava a selva virente,
+Que o furor do vento iroso
+Rebramando enfurecido
+Desafiava orgulhoso,
+De insecto voraz roido
+Na raiz que o alimenta,
+Murcho abate o cume erguido,
+Alta a copa não sustenta,
+Perde da folha a verdura,
+Que a seiva não alimenta,
+Guarda só do lenho a altura,
+Merencorio documento
+Da perdida formosura;
+Assim, desde o atroz momento
+Que Fatima lhe roubou,
+Com saudade, amor, tormento
+De Ruy o ser mudou.</p>
+
+<p class="poesia"> No fundo d'alma
+ Do triste amante,
+ Nem um instante
+ Ha tregoa e calma.
+ Pena incessante
+ Que nada acalma.
+Cada dia com o tempo reforçada,
+Lhe consume a existencia desgraçada.</p>
+
+<p class="poesia"> Já, qual soía
+ Quando ditoso,
+ Não impellia
+ O bellicoso
+ Da Andaluzia
+ Filho fogoso
+Apoz o corredor que a lebre alcança,
+Ou o gamo leve, que no campo avança.</p>
+
+<p class="poesia"> Lá no torneio
+ Já não brilhava,
+ Marcio recreio,
+ Que outr'ora ornava
+ De audacia cheio,
+ Onde arrancava
+Dextro e valente o premio em nobre luta;
+Tanto a amarga tristeza a alma lhe enluta!</p>
+
+<p class="poesia"> Mesto, isolado,
+ Ermos outeiros
+ Corre, apartado
+ Dos cavalleiros;
+ Só animado
+ Entre os guerreiros
+Se mostra ainda em frente do inimigo,
+Quando a tuba guerreira o chama ao perigo.</p>
+
+
+<p class="poesia">Ignora o infeliz qual seja a sorte
+D'aquella por quem só lhe é cara a vida,
+D'aquella sem a qual da espada ao corte
+A existencia quizera ver perdida.
+Nas aguas a deixára entregue á morte,
+Nas aguas víra a Virgem submergida,
+Longe d'ella com força irresistivel
+Arrebatado n'esse instante horrivel.</p>
+
+<p class="poesia">Do agoureiro Ermita a milagrosa,
+Subita apparição, prompta partida,
+A aréola da frente luminosa,
+A antiga prophecia d'elle ouvida:
+A lembrança da Mãi terna e saudosa,
+Do martyr Pai a ultima ferida,
+Seus preceitos, legados á consorte,
+Sellados pela fria mão da morte.</p>
+
+<p class="poesia">As palavras do Ermita, os seus furores
+Contra elle, tão prompto castigados;
+Seus primeiros desejos, seus ardores
+Pelo ceo, como acinte, perturbados;
+Os olhos de Fatima encantadores,
+Quaes por ultimo os vira aos ceos alçados,
+A angelica expressão do seu semblante,
+Tudo a Ruy se pinta em cada instante.</p>
+
+<p class="poesia">O socego na noute em vão procura,
+Foge o somno a seus olhos vigilantes;
+A incerteza, entre as penas a mais dura,
+Se afferra, roaz cancro, a seus instantes;
+Se ao cançaço a final cede a natura,
+Entre um tropel de sonhos delirantes
+Vagando sem cessar o pensamento,
+Em logar do repouso acha o tormento.</p>
+
+<p class="poesia">Tal era o miserando, infausto estado
+De Ruy, que ao acaso caminhava,
+Só, distante dos seus, e confiado
+No valor, que a desdita não coarctava;
+Não distante do muro alevantado,
+Que a maura gente ainda povoava,
+Na montanha, que surge graciosa,
+Qual no deserto a oazis frondosa.</p>
+
+<p class="poesia">Em frente do mancebo se estendia
+Prodiga de bellezas a natura:
+Da primeva, robusta penedia
+A variada, asperrima structura,
+Que em agulhas, em picos se erigia,
+Varios na massa, varios na figura,
+Erectos estes, estes inclinados,
+Selvosos uns, os outros despojados.</p>
+
+<p class="poesia">Ruinas da vetusta natureza,
+Monumentos de um mundo transpassado,
+Culminantes elevam núa a aspereza
+Os cumes de granito descarnados;
+Em quanto, circumdando a redondeza
+Das fraldas, se divisam cumulados
+Das destruidas rochas os fragmentos
+Attestando o poder dos elementos.</p>
+
+<p class="poesia">Alli a aerea marcha pressurosa
+Pára a nevoa do vento saccudida,
+Alli pára a procella magestosa
+Nas enroladas nuvens envolvida,
+A lymfa alimentando, que abundosa
+Dos penhascos nas veias repartida
+Surde em cascatas, em limpidas fontes,
+Em arroios gentis desce dos montes.</p>
+
+<p class="poesia">Lá se veem de granito á massa ingente
+Do chão calcareo as zonas encostadas,
+Áquem e álem partidas variamente,
+Jazer rotas, confusas, deslocadas;
+Quaes se de interno esforço e de repente
+Nos fundos alicerces abalados
+Como involucro fragil rebentassem,
+E ao novo serro o dia franqueassem.</p>
+
+<p class="poesia">Mais abaixo porem ledo se estende
+O selvatico manto de verdura,
+Onde o bafo do estio nunca offende
+A flôr mimosa, amante da frescura,
+Onde da hervosa penha se desprende
+Com murmurio suave a fonte pura,
+E a mil viçosas plantas succos dando
+Saudosa corre entre ellas serpejando.</p>
+
+<p class="poesia">No valle agreste e umbroso o medronheiro
+O rubicundo fructo tem pendente
+Á sombra do robusto castanheiro,
+Cuja folha intercepta o sol ardente;
+O carvalho frondoso, o alto olmeiro
+Cinge a hera lustrosa estreitamente;
+Do pinheiro co'as copas elevadas
+As massas de verdura são coroadas.</p>
+
+<p class="poesia">Na solidão do bosque as tenras aves,
+Incolas primitivas da floresta,
+Chamam a vida co'as canções suaves
+Musica natural que amor empresta;
+Respondem-lhe de longe os tons mais graves,
+Merencoria harmonia lenta e mesta
+Das ondas, que escumando entre os penedos
+Batem da roca os asperos rochedos.</p>
+
+<p class="poesia">De Alboracim as aguas misturando
+Do salso mar co'as vagas amargosas,
+De um lado corre o Téjo, saudando
+Por derradeiro as praias arenosas;
+Vão-se do outro os olhos alongando
+Pelas tumidas ondas procellosas,
+Que com o tempo sulcarão triumfantes
+Saudando o patrio sólo as náos ovantes.</p>
+
+<p class="poesia">Ainda então sobre a penha virente
+Orientaes trophéos não consagrára
+De Diu o vencedor, nem o eminente
+Excelso pico a torre rematára;
+Inda a pedra lavrada artistamente
+O Alcacer real não levantára;
+Nem a limfa liberta conhecêra
+A marmorea bacia, que a prendêra;</p>
+
+<p class="poesia">Inda a riqueza então não erigira
+Do prazer a morada caprixosa,
+Nem o muro importuno prohibira
+O transito na selva magestosa;
+Inda o tronco indignado não sentira
+Do ferro a cortadura injuriosa,
+Nem do cordão tyranno a fantesia
+Immolàra a belleza á symetria.</p>
+
+<p class="poesia">Tal era o quadro que ante o olho amante
+Do misero Ruy se desdobrava:
+Parou, e parecia que um instante
+A amarga dôr no peito se adoçava.
+Menos pezado e triste no semblante
+Os olhos pelos cumes alongava;
+Mas foi curta a impressão, curta a surpreza,
+Prompto volveu á habitual tristeza.</p>
+
+<p class="poesia">Qual um instante só brilha o luzeiro
+Do claro sol no meio da procella;
+Tal da alegria um raio do guerreiro
+Um momento sómente o vulto assella.
+Entranha-se na selva, que primeira
+No seu transito está frondosa, e bella,
+Segue da agua o arroio fugitivo
+Co'a frente baixa, o rosto pensativo.</p>
+
+<p class="poesia">Assim caminha, quando o pensamento
+Sente por modo estranho perturbado.
+Não, não é illusão, um doce accento
+Sôa no bosque, terno, e magoado,
+Em vez do som facticio de instrumento
+Do murmurio do arroio acompanhado,
+Merencoria harmonia, canto lindo
+Qual o da rôla seu amor carpindo.</p>
+
+<p class="poesia">«Oh doce voz! oh canto mavioso!
+«Ah! que se ella vivêra, assim cantára,
+«Assim o nosso amor puro, extremoso,
+«Solitaria, e saudosa lamentára!
+«Mas, oh noute cruel, fado horroroso!
+«Nas aguas para sempre a bella, a cara!...
+Mais não disse, que os olhos se alagaram
+E os soluços as vozes lhe cortaram.</p>
+
+
+<h3>A VOZ.</h3>
+
+<p class="poesia">«Bosques sombrios, profundos retiros,
+«Aguas correntes, aves namoradas
+«Inda uma vez escutai os suspiros,
+«Da desditosa, entre as mais desgraçadas;
+«Inda uma vez escutai meu tormento,
+«Do meu penar e da minha anciedade
+«Origem foi um puro sentimento,
+«Morro de amor, expiro de saudade!</p>
+
+<p class="poesia">«Á dura morte eu por elle arrancada
+«A gratidão um dever me inspirou,
+«Vi-o, fallou-me, e d'esta alma encantada
+«No mesmo instante o dominio usurpou.
+«Verde floresta, escuta o meu tormento,
+«Aves, ouvi minha triste anciedade,
+«Victima sou de um puro sentimento,
+«Morro de amor, expiro de saudade.</p>
+
+<p class="poesia">«Elle partiu namorado da gloria,
+«Elle partiu sem curar do meu fado,
+«De quem o adóra ah talvez a memoria
+«Não haverá nem sequer conservado.
+«Por derradeiro escutai meu tormento,
+«Por derradeiro ouvi minha anciedade;
+«Se elle trahiu tão puro sentimento
+«Mate-me amor, morra eu de saudade.</p>
+
+<p class="poesia">«Mas se fiel, se constante e amoroso
+«Quaes os inspira elle sente os amores,
+«Aves, cantai, e tu, bosque viçoso,
+«Dá novo brilho a teus gentis verdores;
+«Mais que a alegria é feliz meu tormento,
+«Mais que o prazer feliz minha anciedade,
+«Que é dom do ceo por um tal sentimento
+«Morrer de amor, expirar de saudade.</p>
+
+<p class="poesia">Assim cantava a voz melodiosa
+O canto com suspiros alternando,
+A saudosa canção, queixa amorosa
+Iam da selva os echos imitando.
+A dôr pungente, a angustia que affanosa
+Iam do moço a vida definhando
+Mais rapido dissipa o doce accento,
+Do que a nevoa ligeira aparta o vento.</p>
+
+<p class="poesia">N'um instante da moura aos pés se lança
+Ruy, subido ao auge da ventura:
+«Vida da minha vida, amor, e esperança
+«Dos dias meus, modello da ternura!
+«Que alma ingrata poderá ter mudança
+«Sendo de ti amada, oh Virgem pura?....
+«Não, mil mortes soffrêra o teu amante
+«Primeiro que esquecer-te um só instante.</p>
+
+<p class="poesia">Dize-lo; as mãos da Virgem commovida
+Apertar contra os labios abrazados
+O mesmo é p'ra Ruy, que a queixa ouvida
+Completa os seus desejos extremados.
+«Certo do teu amor, Virgem querida,
+«Quem de Ruy póde igualar os fados?...
+«Todo o cruel tormento que hei soffrido
+«Um só accento teu fez esquecido!....</p>
+
+<p class="poesia">«Sorte propicia, acaso venturoso,
+«Que o ser me restitue para a ventura,
+«Que prodigio feliz do ceo piedoso,
+«Que força superior á da natura,
+«O pôde produzir?... Desde o horroroso
+«Momento em que surgiu por desventura
+«Esse fantasma horrivel, despiedado
+«Contra mim acintoso, e conjurado:</p>
+
+<p class="poesia">«Dês que, do odio seu fructo execrando,
+«Te vi ante meus olhos submergida,
+«Em vão nas fundas aguas procurando,
+«Louco de magoa e dôr, salvar-te a vida,
+«Que o barbaro fantasma, oh crime infando!
+«Com mais que humana força e desmedida
+«De ti me arrebatou; que Anjo divino
+«Protegeu, doce amada, o teu destino?...</p>
+
+<p class="poesia">«Indelevel lembrança! Instante horrivel
+«Em que, de quanto amava separado
+«Pelo monstro a meus rogos insensivel,
+«Na solitaria margem fui deixado!
+«Por toda a parte em meu furor terrivel
+«Em vão o procurei desesperado,
+«Riu-se o fado de mim, e até est'hora
+«Roubou-o á minha sanha vingadora.</p>
+
+<p class="poesia">«Mas se elle existe acaso entre os viventes,
+«Se um fantasma não é, parto do averno,
+«Que a perseguir meus passos innocentes
+«A ira suscitou do negro inferno;
+«Por essas magoas juro tão pungentes
+«Que hei soffrido, por meu amor eterno,
+«Que saciando n'elle a minha furia,
+«Heide lavar a tua, e minha injuria.</p>
+
+
+<h3>FATIMA.</h3>
+
+<p class="poesia"> «Ah suspende! mais não digas!
+ «Sim suspende, oh bem amado,
+ «Illudido, alucinado,
+ «Taes blasfemias não prosigas!</p>
+
+<p class="poesia"> «Esse, que acusas de morte
+ «Só nas aguas me salvou,
+ «Só elle me confortou
+ «Na tyranna, adversa sorte.</p>
+
+<p class="poesia"> «Se ainda conservo a vida,
+ «Se inda me estás contemplando,
+ «Ao Ancião venerando
+ «Minha existencia é devida.</p>
+
+
+<h3>RUY.</h3>
+
+<p class="poesia"> «Como?... Aquelle que arrancar-te
+ «Ousou a meu peito amante,
+ «Que em magoa e dôr incessante
+ «Me fez continuo chorar-te,</p>
+
+<p class="poesia"> «Da tua lei o inimigo,
+ «Da tua raça execrado,
+ «Pôde aliviar teu fado,
+ «Protector para comtigo!....</p>
+
+
+<h3>FATIMA.</h3>
+
+<p class="poesia"> «Prodigios o ceo clemente,
+ «Que meus olhos desvendou,
+ «Por esse mesmo operou,
+ «Que blasfemas imprudente!</p>
+
+<p class="poesia"> «Desde o momento horroroso,
+ «Em que de ti separada,
+ «De quanto amava affastada
+ «Fui no caso lastimoso.</p>
+
+<p class="poesia"> «A taça da desventura
+ «Misera esgotar devia,
+ «Trazendo-me cada dia
+ «Nova dôr, nova amargura.</p>
+
+<p class="poesia"> «Mal de Cintra o alto muro
+ «Me recebeu malfadada,
+ «Foi minha alma transpassada
+ «Dos golpes pelo mais duro.</p>
+
+<p class="poesia"> «Soube que o Padre querido
+ «Tão digno do meu amor,
+ «Ao despeito, á magoa, á dôr
+ «Tinha infeliz succumbido.</p>
+
+<p class="poesia"> «Inda bem me não feria
+ «Este golpe acerbo, amaro,
+ «Que do meu unico amparo
+ «Se apagára a luz do dia;</p>
+
+<p class="poesia"> «De Hauzeri o irmão restante
+ «Que affavel me agazalhára,
+ «Que por filha me adoptára
+ «Viu chegado o ultimo instante.</p>
+
+<p class="poesia"> «Solitaria, abandonada,
+ «Sem amigos, sem parentes,
+ «De amor nas chammas ardentes
+ «Por mór tormento abrazada,</p>
+
+<p class="poesia"> «Ignorando se vivia
+ «O só ser que ainda amava,
+ «Se o jurado amor guardava,
+ «Se em outras chammas ardia,</p>
+
+<p class="poesia"> «Succumbi, em vão luctando
+ «Contra tanta desventura,
+ «E aos golpes da sorte dura
+ «Senti a força expirando:</p>
+
+<p class="poesia">«Nem já o pranto, allivio aos desgraçados,
+«Os olhos meus vertiam,
+«Nem já ais, nem suspiros, que exhalados
+«As penas alliviam,
+«Soltar podia. Opressos, suffocados
+«Minha alma consumiam
+«Em silencio os tormentos, morta a esperança
+«De poder minha sorte ter mudança.</p>
+
+<p class="poesia">«Uma noute em que só de horror cercada
+«Ao pezo de meus males succumbia
+«De pura luz me vejo rodeada
+«Igual á que no ceo precede o dia.
+«De espanto e de terror sobresaltada,
+«Quando convulso o corpo meu tremia,
+«No centro do clarão o proprio vejo
+«Que ás aguas me arrancára lá no Téjo.</p>
+
+<p class="poesia">«Era o mesmo; porém mais magestoso
+«Ora de mim se vinha aproximando;
+«Qual um astro celeste e radioso
+«Brilhava o seu semblante venerando,
+«Um aroma suave e precioso
+«Estavam suas vestes exhalando,
+«Na mão tinha uma Cruz resplandecente
+«Co'a imagem do seu Deus n'ella pendente.</p>
+
+<p class="poesia">«Co'a voz a um tempo grave, meiga, e branda,
+«Com aspecto sereno, e enternecido,
+«Disse: Victima triste e miseranda
+«Até agora de um fado endurecido,
+«Um Deus Clemente, oh filha, a ti me manda;
+«Um Deus, a quem um ai, um só gemido
+«De verdadeira dôr, de penitencia
+«Move com os peccadores á clemencia.</p>
+
+<p class="poesia">«Surge da magoa horrivel que te oprime,
+«Cobra força, renasça o teu alento,
+«Pela esperança do dom alto e sublime
+«Com que o ceo quer sarar teu soffrimento.
+«Fructo innocente de expiado crime
+«Serás da pena qual da culpa isento,
+«Em ti meu sangue não será contado
+«Entre aquelle, que o ceo tem rejeitado!</p>
+
+<p class="poesia">«Uma filha, ai de mim! eu tive outr'ora,
+«Como tu a formára a natureza;
+«Tinha ella então, como tu tens agora,
+«Esse dote funesto da belleza.
+«Uma chamma tyranna, abrazadora
+«Illudiu da sua alma a singelleza,
+«Ligou-a o nó de amor, e da desgraça
+«Ao inimigo audaz da propria raça.</p>
+
+<p class="poesia">«Aos braços de Hauzeri, de amor levada,
+«Funesto effeito das paixões ardentes,
+«Cuidando ser feliz, foi desgraçada
+«Victima das angustias mais pungentes.
+«O Deus, o Pai, a Patria abandonada
+«Á misera continuo são presentes,
+«O roedor remorso, a magoa dura
+«Lhe foram escavando a sepultura.</p>
+
+<p class="poesia">«Chegado da infeliz o ultimo instante,
+«Odios, malquerenças, queixas expiraram,
+«Paterno pranto, com o do esposa amante
+«Da morte o leito unidos lhe regaram.
+«Resignados os olhos seus brilhantes
+«Pela ultima vez aos ceos se alçaram,
+«Um suspiro exhalou, cuja piedade
+«As iras aplacou da Divindade.</p>
+
+<p class="poesia">«Fructo infeliz de amor, e de fraqueza
+«Junto à Mãi expirante tu jazias,
+«Por ti fallava ainda a natureza,
+«Tu só na terra a alma lhe prendias.
+«Tomou-te entre seus braços com viveza,
+«Tu que a trama cortáras de seus dias,
+«E com a voz, cortada já da morte,
+«Assim fallou ao Padre e ao Consorte.</p>
+
+<p class="poesia">«Padre, se ingrata filha, angustia e dores,
+«Por premio a teu amor só sube dar-te
+«Neste fructo infeliz de meus ardores
+«Possas ter quem se empenhe em consolar-te,
+«E tu, por quem soffri tormento e dores
+«Sem uma hora se quer cessar de amar-te,
+«Consente que ella entregue ao pai que imploro
+«Possa rogar por mim ao Deus que adoro.</p>
+
+<p class="poesia">«Assim fallou a triste, e resignada
+«O golpe recebeu da dura morte,
+«Partiu do erro a alma já purgada
+«A repartir nos ecos do justo a sorte.
+«Mas de Hauzeri em vão a prenda amada
+«Reclamei, em memoria da Consorte;
+«Arrancar-lha não pude, e separado
+«Fui desde então p'ra sempre do teu fado.</p>
+
+<p class="poesia">«Supplicas, pranto, rogos, ameaças
+«Para salvar-te estereis empregando,
+«Fui no ermo chorar minhas desgraças
+«Aos ceos dos ceos a causa confiando,
+«Continuo sobre ti de Deus as graças
+«Com penitentes lagrymas chamando.
+«Até que a Deus tocou minha agonia,
+«Deus que benigno a salvação te envia.</p>
+
+<p class="poesia"> «Em quanto fallava
+ «A cruz me estendia;
+ «E a dôr que a pungia
+ «Na alma abrandava;
+ «Do Deos que invocava
+ «Tocar-me sentia,
+ «Já menos soffria
+ «Já mais me animava,
+ «E quando acordava
+ «E a mim me volvia
+ «Achava-me o dia
+ «Outra do que estava,
+«Livre da interna lucta, e na bonança
+«Começando a antever a luz da esperança.</p>
+
+<p class="poesia">«A celeste vizão reproduzida
+«Cada noute a minha alma soccorria,
+«Cada noute na fé santa instruida,
+«O santo Avô mais firme me fazia.
+«A antiga exasperação, o tedio a vida
+«Em merencoria dôr se convertia,
+«Dissera-me feliz, se a um sentimento
+«Conseguisse esquivar meu pensamento.</p>
+
+<p><img src="images/ICanto5.png" alt="Beijo" align="middle" border="0" /></p>
+
+<p class="poesia">Assim Fatima ao transportado amante
+O terno coração patenteava;
+Ruy de puro goso delirante
+No gesto a paixão viva retratava;
+Vivo rubor da Virgem no semblante
+Da alma os sentimentos debuchava;
+A selva, as aves, o arroio, as flôres
+Formando um templo digno a taes amores.</p>
+
+
+<h4>FIM DO QUINTO CANTO.</h4>
+<p><img src="images/HCanto6.png" alt="" align="middle" border="0" /></p>
+
+
+
+
+<h2>CANTO SEXTO.</h2>
+
+
+<div class="caixa_quote">
+<p class="poesia">Tal está morta e pallida Donzella,
+Seccas do rosto as rosas, e perdida
+A branca e viva côr co'a doce vida.</p>
+<p><span class="small-caps">Camões, Lus.</span>, C. 3.º, E. 134.ª</p>
+</div>
+
+
+<p class="poesia"><img src="images/DCanto6.png" alt="S" border="0" align="bottom" />oberbo ondeia a crina fluctuante
+De Ruy o ginete bellicoso,
+Atravez da floresta segue ovante
+No accelerado trote pressuroso.
+Excita o nobre bruto o ledo amante,
+Vivo obedece o animal fogoso
+Á redea, ha tanto tempo abandonada,
+Que outra vez com vigor sente empunhada.</p>
+
+<p class="poesia">Seguindo vai o nobre aventureiro
+Transportado de goso e de alegria
+A direcção do campo, que o guerreiro
+Povo de Christo alevantado havia.
+Doce aspecto, risonho e lisongeiro,
+Em vez da dôr, lhe exalta a fantezia,
+Todo quanto carpira, quanto amára
+A fortuna propicia lhe entregára.</p>
+
+<p class="poesia">Do ginete nas ancas assentada
+Levar se deixa de Hauzeri a filha,
+Entregue a amor, e por amor guiada,
+Suave esperança nos seus olhos brilha.
+O rosto lindo, a fórma delicada
+Da natura primor, e maravilha,
+A pár do Cavalleiro armado e forte,
+Realisam Cyprina com Mavorte.</p>
+
+<p class="poesia">Sob o braço da Bella, que o estreita,
+O coração do moço arde e palpita,
+Elle o sente, ella o palpa, e satisfeita
+Partilha o goso, que innocente excita.
+Se ella suspira, elle o suspiro aceita,
+Se olha-la intenta, ella o olhar lhe evita,
+Pejando-se que lêa o terno amante
+Nimia expressão de amor em seu semblante.</p>
+
+<p class="poesia"> Assim o bosque frondoso
+ Vão prestes atravessando,
+ Um silencio deleitoso
+ Bella, e amante guardando.</p>
+
+<p class="poesia"> Silencio, que amor prefere
+ Á mais ardente expressão,
+ Que no fundo da alma fere,
+ Que transpassa o coração;</p>
+
+<p class="poesia"> Que identifica, que enlaça
+ Os que a mesma idéa prende,
+ Que a compaixão, que a desgraça,
+ Que amor, que a ternura entende.</p>
+
+<p class="poesia"> Silencio não avalia
+ Alma mesquinha, apoucada,
+ Que sempre placida e fria
+ Do sacro fogo é privada.</p>
+
+<p class="poesia"> Em silencio a natureza
+ Vê rolar no immenso espaço
+ Dos orbes a redondeza
+ Que impelliu do Eterno o braço,</p>
+
+<p class="poesia"> Em silencio a vaga ondosa
+ Rola no lago profundo,
+ Séria a noute magestosa
+ Envolve em silencio o mundo.</p>
+
+<p class="poesia"> Em silencio o vate absorto
+ Antes de pulsar a lira
+ Recebe o influxo e conforto
+ Do talento que o inspira.</p>
+
+<p class="poesia"> Em silencio meditando
+ Alcança o sabio a verdade,
+ Vai-se um silencio mirrando
+ O filho da adversidade.</p>
+
+<p class="poesia"> Silencio da alma nascido,
+ Caracter do sentimento,
+ Tu es o grau mais subido
+ Ou do goso, ou do tormento.</p>
+
+<p class="poesia">Atraz deixam o bosque, e as claras fontes.
+Que atravez a verdura vem manando,
+Co'a varia crista dos erguidos montes,
+Que se está sobre as nuvens desenhando,
+Tingem-se de côr varia os horisontes
+Co'extremo sol nas aguas mergulhando,
+Os monotonos cumes apparecem
+Que com o calmoso estio se encalvecem.</p>
+
+<p class="poesia">Ficava-lhes da parte, donde o dia
+Mais refulgente vibra os esplendores,
+A Arrabida, entre as nevoas, que tingia
+O sol cadente de purpureas côres,
+Com o ramo descendente, que estendia
+Pelos equoreos campos bolidores,
+Do Téjo e Sado as fozes separando
+Com o Cabo do Espichel que vai formando.</p>
+
+<p class="poesia">Não longe, e como filho da montanha,
+Ficava de Palmella o cume erguido,
+Ao longe dominando na campanha,
+Ao perto sobre o valle, enriquecido
+Pela filha gentil de terra estranha,
+Que ora alli sobre o ramo seu florido
+Ostenta a um tempo a flôr, e os pomos de ouro,
+De perfume e frescura almo thesouro.</p>
+
+<p class="poesia">Jazem-lhe á dextra as aridas campinas
+Onde com o vento a loura messe ondeia,
+Calcareas e basalticas collinas
+Onde a arvore a vista não recreia,
+Mais longe as em que a limfa cristalina
+Hoje em prisão marmorea se encadeia,
+Roubada aos campos, á verdura, ás flores,
+P'ra alegrar de Lisboa os moradores.</p>
+
+<p class="poesia">Em frente se lhe antolha o pico altivo
+Co'as naturaes collumnas enfeixadas,
+Columnas que formára o fogo activo
+Nas epochas remotas e apartadas,
+Em que inda o touro, o cervo fugitivo
+Não pasciam nos campos co'as manadas;
+Mas só nadantes monstros habitavam
+Mares, que até aos serros se elevavam.</p>
+
+<p class="poesia">Logo as nuvens rompia mais distante
+De Monte-junto a molle alevantada,
+Monte-junto, que a lomba culminante
+Une a Minde ao nordeste prolongada;
+As aguas dividindo, que ao levante
+Vem buscar a planicie, que regada
+É pelo Téjo, das que ao mar salgado
+Directas vão correr no opposto lado.</p>
+
+<p class="poesia">Do sol quasi submerso os derradeiros
+Raios as eminencias só douravam,
+Das fontes e dos valles os ligeiros
+Vapores os contornos desenhavam;
+Sobre as nevoas os cumes dos outeiros
+Quaes ilhas sobre o mar se alevantavam,
+E as aves com a ultima harmonia
+Davam o extremo adeos ao claro dia.</p>
+
+<p class="poesia">Na belleza da scena que os rodeia
+Fatima nem Ruy não attentavam,
+Amor as faculdades lhe encadeia,
+Ao delirio de amor se abandonavam.
+Qual forte olmeiro a branda vide enleia,
+Tal a bella e mancebo se estreitavam;
+É elle o seu apoio, o seu sustento,
+É ella de Ruy só pensamento.</p>
+
+<p class="poesia">Continúa o silencio dos amantes
+Nos vivos sentimentos engolfados,
+Nada sôa nos valles circumstantes
+Mais que do bruto os passos compassados;
+Só lá dos valles nos cazaes distantes
+Ladrar se ouvem os cães, sôar dos gados
+Monotonos chocalhos tangedores,
+Com o debil som das gaitas dos pastores.</p>
+
+<p class="poesia"> De um fraco ribeiro,
+ Que a calma escaceia,
+ Que na fralda ondeia
+ Do arido outeiro,
+ Cortava o carreiro
+ O leito escabroso:
+ O solo ondoloso
+ Alli se abatia,
+ E a senda descia
+ Ao váo pedragoso.</p>
+
+<p class="poesia"> Ao pé da torrente,
+ Gosando a frescura,
+ De um chôpo a verdura
+ Ornava a corrente;
+ Da lua nascente
+ A luz estorvando,
+ A sombra alongando
+ Na estreita passagem,
+ Co'a verde folhagem
+ A senda toldando.</p>
+
+<p class="poesia"> O corcel, que excita
+ O bellico amante,
+ Na marcha prestante
+ Um momento hesita;
+ Logo a orelha fita
+ E o trote accelera,
+ Ruy, que o modéra,
+ O fogo percebe
+ Que o bruto concebe
+ Na batalha féra.</p>
+
+<p class="poesia"> Com o braço valente
+ A lança endereça,
+ Preme o bruto, e á préssa
+ Transpõe a corrente.
+ «Cinge estreitamente,
+ «Bella, o teu consorte,
+ «Que seu braço forte,
+ «Por ti animado,
+ «Do mais esforçado
+ «Desafia o córte.»</p>
+
+<p class="poesia"> Fatima obedece,
+ Seu seio palpita....
+ N'isto uma voz grita
+ A Bella estremece;
+ No grito conhece
+ A aravia expressão,
+ Que no coração
+ O sangue lhe esfria.
+ Fugir quereria;
+ Mas tenta-lo é vão.</p>
+
+<p class="poesia">Quem vem lá?... Com voz alta e sonorosa
+Na arabia lingua um mouro perguntava,
+Brandindo a ferrea lança temerosa
+O corcel co'as espóras despertava;
+Com haste igual de sangue sequiosa
+Outro mouro apoz elle se mostrava:
+Ruy, que os vê, e em seu valor confia;
+«Christo e ElRei Affonso:» respondia.</p>
+
+<p class="poesia"> Diz. O ginete arremeça,
+ Salta o bruto ardente e forte,
+ Co'a lançada vôa a morte
+ Do mouro a cotta atravessa.
+ Espadana o sangue infido,
+ De um só golpe a alma vôa,
+ Cahe o mouro, e com o ruido
+ Das armas o valle atrôa.</p>
+
+<p class="poesia"> Torce a redea o Cavalleiro
+ Contra o segundo inimigo;
+ Mas menos forte o guerreiro
+ Encarar não ousa o perigo:</p>
+
+<p class="poesia"> Do ginete á ligeireza
+ Da vida confia o preço,
+ Parte, vôa, e com destreza
+ Vibra a lança de arremeço.</p>
+
+<p class="poesia"> Parte a hastea sibilando,
+ O fado dirige o tiro,
+ Cahe Fatima, e ao golpe infando
+ Responde um longo suspiro.</p>
+
+<p class="poesia"> Ella cahe, ella suspira,
+ No seu seio palpitante
+ Um covarde ferro aspira
+ O sangue da doce amante.</p>
+
+<p class="poesia"> Ruy no peito a sustenta
+ Mudo, louco, exasperado,
+ Nelle o olhar Fatima attenta
+ Quasi da morte apagado.</p>
+
+<p class="poesia"> Fitta nelle os olhos lindos
+ Onde amor lucta co'a morte:
+ «Os meus dias estão findos,
+ «Adeus suave consorte!</p>
+
+<p class="poesia"> «Amei-te mais do que a vida
+ «Desde esse primeiro instante
+ «Em que a ti fui submettida
+ «Por teu braço triunfante;</p>
+
+<p class="poesia"> «Nem a crença, que então tinha,
+ «Nem a ausencia, nem meu fado,
+ «D'esse amor, essencia minha,
+ «Haveriam triumfado.</p>
+
+<p class="poesia"> «Nenhum poder sobre a terra
+ «De Ruy me apartaria,
+ «Na ausencia, na paz, na guerra
+ «Fatima tua seria!.....</p>
+
+<p class="poesia"> «Mas Deus não quiz que embebido
+ «Em doce paixão terrena,
+ «O premio de um escolhido
+ «Fosse corôa tão pequena:</p>
+
+<p class="poesia"> «Não quiz esse Deus clemente
+ «Que a dita nos deslumbrasse,
+ «Que o nosso amor innocente
+ «Sobre a terra se gozasse.</p>
+
+<p class="poesia"> «Nasci de um crime, e no crime
+ «Involuntario educada,
+ «Esse Deus, sua Lei sublime,
+ «Foi por mim aos pés calcada:</p>
+
+<p class="poesia"> «Tarde conheci seu nome,
+ «E quando a Elle voltei
+ «Um peito, que amor consome,
+ «Imperfeito lhe votei.</p>
+
+<p class="poesia"> «Do sangue meu a abundancia
+ «Possa expiar, oh Senhor,
+ «Os erros da minha infancia,
+ «O excesso do meu amor!</p>
+
+<p class="poesia"> «Eu vejo a mãi, que me estende
+ «Desde o ceo amantes braços,
+ «Ella a alma me desprende
+ «Dos terrenos embaraços.</p>
+
+<p class="poesia"> «Eu vôo, oh esposo, eu vôo
+ «Ao seio da Divindade
+ «Jà seu hymno eterno entôo
+ «Nos umbraes da Eternidade.</p>
+
+<p class="poesia"> «Só d'alli, oh doce amante,
+ «P'ra sempre a dôr se desterra;
+ «Lá te aguardo, que um instante
+ «Vive o homem sobre a terra!</p>
+
+<p class="poesia"> «Mas ah, se a vida me déste
+ «Quando á morte me arrancaste,
+ «Deva-te a vida celeste
+ «Aquella que tanto amaste.</p>
+
+<p class="poesia"> «Derrama, á pressa, derrama
+ «Nesta fronte a agua da vida
+ «Que a seu seio Deus me chama,
+ «Em breve por ti seguida.»</p>
+
+<p class="poesia"> Disse. Uma força invencivel
+ Deus infunde ao moço ardente.
+ Desce, e no elmo terrivel
+ Toma a agua da corrente.</p>
+
+<p><img src="images/ICanto6.png" alt="Fatima a morrer" align="middle" border="0" /></p>
+
+<p class="poesia"> Chega. Derrama-a na frente
+ Da Virgem agonisante.
+ Ella a sente, e ternamente
+ Une ao peito a mão do amante.</p>
+
+<p class="poesia"> Apertou-a contra o seio,
+ A elle os olhos voltou,
+ Um suspiro aos labios veio
+ Exhalou-o, e expirou.</p>
+
+<p class="poesia"> Dizem que junto ao ribeiro
+ Doces cantos se escutaram,
+ Que na noute almo luzeiro
+ Os pastores contemplaram.</p>
+
+<p class="poesia"> Na seguinte madrugada.
+ Vindo ao sitio os guardadores,
+ Viram a terra escavada
+ Coberta de frescas flôres.</p>
+
+<p class="poesia"> Sobre ellas um vulto annoso
+ Candidas roupas trajando,
+ N'um vôo ao ceo pressuroso
+ Alva pomba contemplando.</p>
+
+<p class="poesia"> Dizem mais: que os que souberam
+ O caso digno de chôro,
+ Áquella torrente deram
+ O nome de Rio Mouro.</p>
+
+<p class="poesia"> Que Ruy na sepultura
+ Longo tempo suspirára,
+ Deposta a nobre armadura,
+ Que do martyr Pai herdára;</p>
+
+<p class="poesia"> Que alfim do pranto exhauridos
+ Os olhos seus se seccaram,
+ E seus ais, e seus gemidos
+ Para o Senhor se voltaram.</p>
+
+<p class="poesia"> Que do ceo a queixa ouvida,
+ Com balsamo de alta espr'ança
+ Lhe sarou Deos a ferida,
+ Lhe mandou da alma a bonança.</p>
+
+<p class="poesia"> De Cintra no ermo escabroso
+ No serro o mais retirado,
+ Além do monte viçoso
+ Monserrate ora chamado,</p>
+
+<p class="poesia"> Dois penhascos se elevavam
+ Que immensa louza cobria,
+ E uma caverna formavam
+ Que ao ponente a porta abria;</p>
+
+<p class="poesia"> Alli, dos homens remoto,
+ Dos seus proprios ignorado,
+ Ruy sob um nome ignoto
+ Terminou mistico fado.</p>
+
+<p class="poesia"> Alli do nascer da aurora
+ Té ao ultimo fulgor
+ Entoava em voz sonora
+ Os hymnos ao Creador.</p>
+
+<p class="poesia"> Das plantas da penedia,
+ Dos fructos do agreste monte,
+ Sua comida fazia,
+ Bebida lhe dava a fonte.</p>
+
+<p class="poesia"> Assim consumiu seus annos
+ Á solidão consagrados,
+ Té que, cumpridos seus fados,
+ Poz Deus um termo a seus damnos.
+ Partiu-se de entre os humanos
+ Sua alma candida e pura,
+ Os anjos a sepultura
+ Entre as penhas esconderam,
+ E as memorias se perderam
+ Da sua triste aventura.</p>
+
+<p class="poesia"> Longo tempo abandonada
+ Jazeu a selvagem gruta,
+ Do lobo, e raposa astuta
+ Foi longo tempo habitada.
+ Té que a prole sublimada
+ Do ultimo lume do Oriente
+ Um asylo penitente
+ No serro agreste erigiu,
+ E de novo alli se ouviu
+ O louvor do Omnipotente.</p>
+
+
+<p class="poesia"> Os annos correram,
+ Que tudo mudando
+ Volvem derribando
+ O mesmo que ergueram;</p>
+
+<p class="poesia"> Da suave amante
+ Perdeu-se a memoria,
+ Esqueceu-se a gloria
+ Do Joven brilhante.</p>
+
+<p class="poesia"> No castello antigo
+ Berço a seus amores
+ Môchos piadores
+ Só tem seu abrigo;</p>
+
+<p class="poesia"> Selvagem verdura
+ C'o a hera lustrosa
+ Da muralha annosa
+ Cobrem a structura:</p>
+
+<p class="poesia"> De um lado inda a selva
+ Se mostra virente,
+ Matiza inda a relva
+ Do Lena a corrente,</p>
+
+<p class="poesia"> Inda o musgo brando.
+ Vestindo os penedos,
+ S'ta nos arvoredos
+ Amor convidando;</p>
+
+<p class="poesia"> Mas já não lastima
+ O echo das fragoas
+ Da triste Fatima
+ As pena, e as magoas.</p>
+
+<p class="poesia"> Do Téjo na borda
+ Ind'hoje aos salgueiros
+ O batel co'a corda
+ Prendem os remeiros,</p>
+
+<p class="poesia"> A humida esteira
+ Tranquillos sulcando,
+ Vem inda remando
+ De noute as bateiras,</p>
+
+<p class="poesia"> Mas da Moura linda,
+ Do Guerreiro amante,
+ No bronco habitante
+ A memoria é finda.</p>
+
+<p class="poesia"> De Cintra a viçosa
+ As frescas torrentes
+ Vem inda fluentes
+ Á selva frondosa,</p>
+
+<p class="poesia"> Das aves ainda
+ Na matta sombria
+ A doce harmonia
+ Com o dia não finda,</p>
+
+<p class="poesia"> Sua doce frescura,
+ Suas limpidas fontes,
+ Seus farpados montes
+ De altiva structura,
+ Sua luz clara e pura,
+ Seu ceo azulado,
+ Seu mar empolado,
+ Que o tempo venceram,
+ Memoria perderam
+ Do Pár desgraçado.</p>
+
+<p class="poesia">Tu só, tu, fantesia inseparavel
+Das margens do meu Téjo, e seus verdores,
+Tu, ceo da patria, ceo incomparavel,
+Que n'alma, qual no campo, espalhas flôres:
+Só tu resuscitaste o lamentavel
+Destino de tão firmes amadores;
+Só tu, do tempo alevantando o manto,
+Sobre as campas de amor chamaste o pranto.</p>
+
+
+<h4>FIM DO CANTO SEXTO E ULTIMO.</h4>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Ruy o escudeiro: Conto, by
+Luís da Silva Mousinho de Albuquerque
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RUY O ESCUDEIRO: CONTO ***
+
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+Literary Archive Foundation
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+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
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+Procedures for determining public domain status are described in
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+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
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+status under the laws that apply to them.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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