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diff --git a/21779-8.txt b/21779-8.txt new file mode 100644 index 0000000..dc6e179 --- /dev/null +++ b/21779-8.txt @@ -0,0 +1,1796 @@ +Project Gutenberg's Luiz de Camões marinheiro, by Vicente de Almeida de Eça + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Luiz de Camões marinheiro + +Author: Vicente de Almeida de Eça + +Release Date: June 8, 2007 [EBook #21779] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIZ DE CAMÕES MARINHEIRO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano. Para comentários à transcrição +visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was +produced from scanned images of public domain material +from Google Book Search) + + + + + + + + + +LUIZ DE CAMÕES + +MARINHEIRO + + +ESTUDO + +POR + + +ALMEIDA D'EÇA + + +DAVID CORAZZI--EDITOR +EMPREZA HORAS ROMANTICAS +Rua da Atalaya, 40 a 52 +1880 + + + Quem deixará, até onde cheguem as suas forças, de concorrer para + illustrar o nome do Poeta extraordinario que emprehendeu e levou a + cabo o levantar o monumento da nossa gloria nacional? + + Visconde de Juromenha. _Obras de Camões._ Vol. I, pag. 7. + + O perscrutar os mais fundos recessos do espirito de um poeta como + Camões, não é indigno da critica, nem um estudo vasio de interesse. + + J. G. Monteiro. _Carta ácerca da ilha dos amores_, pag. 11. + + +A maior parte das observações, que vão ler-se, foram feitas longe da +patria, quando o poema de Camões era o unico amigo intimo com quem +desabafavamos saudades e soffrimentos. Concluimos depois este humilde +estudo em uma aldeia de Portugal, onde faltavam os bons livros e mestres, +cuja consulta seria indispensavel para que elle fosse menos que imperfeito. +Sirva isto de desculpa á rudeza d'estas linhas, que só pretendem ser +homenagem de agradecimento áquelle que tão bem soube fallar ao coração do +marinheiro. + +Abril de 1880. + + + + +I + + +O nosso Epico, o immortal auctor dos _Lusiadas_, o escriptor que fez com +que o estrangeiro não esquecesse de todo o nome portuguez,--tudo isto se +diz que foi Luiz de Camões. A fibra patriotica julga-se quite da divida de +gratidão ao grande Poeta com ter-lhe erigido um monumento de gosto +duvidoso, em sitio acanhado da capital, e com pronunciar o seu nome quando +lhe dizem os desalentados que Portugal é uma terra morta. Mas, por se +orgulharem tanto de ser filhos do mesmo torrão em que nasceu Camões, nem +por isso esses, que tantas vezes lhe citam o nome, sentem tentação de tomar +conhecimento, sequer passageiro, do que elles dizem ser um padrão das +nossas glorias; e, não fallando nos que propriamente se dedicam aos estudos +litterarios, porque a esses incumbe o dever de conhecerem as obras do nosso +Poeta, raro se encontrará nas classes illustradas um portuguez que dos +_Lusiadas_ tenha lido mais que as poucas oitavas _selectas_, que se +encontram nos compendios de instrucção. + +Assim, ao passo que o inglez, o allemão ou o francez menos dado ás lides +litterarias, mas que se preze de ter uma educação regular, conhece, possue, +lê e cita amiudadas vezes Shakespeare, Milton e Byron, ou Schiller e +Goethe, ou Molière e Lafontaine, nós, despresando as joias de metal sem +liga pelos enfeites de ouropel, fallamos de Camões quasi como os cegos +poderão fallar da luz. E o mal é tanto maior quanto uma audaciosa escola +contemporanea tenta arrogar-se o exclusivo de fallar verdade, de +_photographar_ a natureza, como dizem os seus corypheus, dando a entender +que o que antes d'elles se escreveu era tudo falso, que ninguem tinha +habilidade para copiar a natureza, e que só elles sabem chamar as cousas +pelo seu nome! + +Não nos permittem as nossas poucas forças entrar na liça contra essa +escola, que hoje parece ter assambarcado o gosto e os louvores do publico; +só quizeramos pedir respeitosamente aos thuriferarios do novo idolo, que +consintam a algum _retrogrado_ da arte o conservar no mais intimo do seu +espirito a crença de que, em tempos que já lá vão, houve quem escrevesse +com realidade, quem pintasse a natureza tal como ella é; consintam-lhe que, +lendo o pobre Camões, encontre n'elle descripções verdadeiramente reaes ou +_realistas_, porque são apenas verdadeiras. + +Para se ser poeta, verdadeiramente poeta, para se fallar poeticamente da +natureza ou das artes, não basta ter a inspiração do rythmo, saber alinhar +palavras ora altisonantes ora docemente musicaes; é necessario conhecer a +natureza, conhecer as artes e as sciencias de que se quer fallar, é +necessario sentil-as, consubstanciar-se com ellas. Para fallar de +astronomia, ainda mesmo poeticamente, é necessario conhecer os astros; para +fallar do mar é necessario ter percorrido os oceanos, ter presenciado as +tempestades, ter soffrido com o marinheiro, porque + + quem não sabe a arte, não na estima + (Lus. V, 97.) + +Quem não tiver conhecido exactamente e sentido as cousas que quer +descrever, só póde copiar uma natureza subjectiva, filha da imaginação, +pura invenção do seu cerebro. É por isso que vemos hoje um Pharaó montado +em corcel andaluz, mastodontes em correrias desenfreadas pelas florestas +virgens da Europa contemporanea, condores pousados graciosamente nos +calices das rosas, e... _il resto no lo dico_. + +Mas Camões viu os continentes e as ilhas, os oceanos e as montanhas, e por +isso é o grande pintor da natureza; Camões foi soldado, e por isso é o +veridico narrador das batalhas; Camões serviu cargos do estado, e por isso +dos seus versos se póde tirar um tratado completo de politica; Camões, +finalmente, navegou muito, e por isso é, como diz Alexandre de Humboldt, um +grande pintor maritimo. + +Espiritos elevados e intelligencias altamente illustradas tem já +considerado o nosso Poeta debaixo de alguns d'estes pontos de vista. +Parece-nos, comtudo, que ainda se não explorou sufficientemente um dos +veios mais ricos d'essa riquissima mina. Tentaremos nós, em rapido esboço, +mostrar como na sua palheta de multiplices côres tinha Camões algumas das +mais brilhantes e apropriadas para descrever o mar e pintar os homens que +n'elle vivem. Procuraremos mostrar como Camões foi um marinheiro, mas um +marinheiro de alma e coração divinamente inspirados; procuraremos +demonstrar como lhe assenta bem o epitheto de _Naval Poet_, que lhe deu um +escriptor inglez, e teremos assim justificado o titulo que demos a este +despretencioso trabalho. + + + + +II + + +Para poder tratar da sciencia e da arte do marinheiro com a provada +exatidão e superior proficiencia, que se observam nas suas obras, devia +Camões ter tido um longo tirocinio maritimo, pois só com largas viagens +sobre o mar poderia elle adquirir esses conhecimentos tão variados. + +Se ainda hoje, com tantos tratados e livros ao alcance de todas as +intelligencias, é comtudo difficil, a quem não viu o mar e os seus +trabalhos, fazer d'elles uma idéa aproximadamente exacta, muito mais +acontecia isso no tempo do Poeta, quando a geographia, a astronomia e a +nautica eram sciencias, alem de atrasadas, possuidas por poucos, de modo +que a maioria das pessoas, ainda mesmo das classes illustradas, faziam de +tudo o que dizia respeito á navegação, idéa vaga e por vezes muito afastada +da verdade, confundindo-se no seu espirito os verdadeiros perigos do mar +com os horrores e medos imaginarios, que eram ainda restos da tradição do +Mar Tenebroso. Os escriptores, que não tinham navegado, ao descreverem +scenas maritimas, serviam-se de um padrão uniforme, successivamente copiado +ou imitado, e em que a natureza muitas vezes tinha pouca parte. E +realmente, como poderá descrever com exactidão uma tempestade quem nunca +tenha visto alguma? Como poderá descrever com verdade o alvoroço sentido +pelo marinheiro ao avistar terra, depois da longa e trabalhosa navegação, +aquelle que nunca saiu do remanso da patria e do conchego da familia? + +Mas o nosso Poeta foi n'esse ponto mais feliz que nenhum outro, porque +navegou e viajou muito, e de si podia dizer o que poz na bôca do Gama: + + Os casos vi, que os rudos marinheiros, + Que tem por mestra a longa experiencia, + Contam por certos sempre e verdadeiros, + Julgando as cousas só pela apparencia; + E que os que tem juizos mais inteiros, + Que só por puro engenho e por sciencia + Vêm do mundo os segredos escondidos, + Julgam por falsos ou mal entendidos. + (Lus. v, 17.) + +Antes, pois, de vermos como o Poeta tratou das cousas do mar, recordemos da +sua biographia o que diga respeito ás navegações que fez. + +Luiz de Camões embarcou pela primeira vez pelos annos de 1546. Este +primeiro embarque parece ter sido um castigo motivado ou pelos seus +malfadados amores com D. Catharina d'Athayde ou por qualquer outra causa, +talvez um duello dos muitos que lhe originava o seu genio ardente e +cavalheiroso, que lhe valeu dos companheiros e quiçá dos emulos a alcunha +de Trinca-fortes. Certo é que partiu para Ceuta, e em tão boa ou má hora +que, logo n'essa viagem, teve um recontro com corsarios barbarescos, +suppondo-se que foi então que perdeu o olho direito. + +Voltou de Africa em 1549 em companhia de D. Affonso de Noronha, que tinha +sido capitão de Ceuta, e que, chegado a Lisboa, foi nomeado vice-rei da +India por D. João III. Vinha o Poeta já com tenção de se alistar para a +India, o que fez com effeito em 1550 na _nau dos Burgalezes_, que pertencia +á armada em que D. Affonso de Noronha devia seguir viagem. Não partiu, +porém, n'essa occasião, mas sim tres annos depois, a 24 de março de 1553, +na armada que levava por capitão-mór Fernão Alvares Cabral. Era tal o seu +desejo de partir, ou para deixar a patria onde o perseguiam os desgostos, +ou para ver se melhorava de fortuna e podia realisar as aspirações do seu +coração, que trocou com outro _homem d'armas_, e embarcou na capitaina, que +era a nau _S. Bento_. + +N'esta viagem experimentou Camões os duros trabalhos do mar, porque a +armada, poucos dias depois de saír de Lisboa, foi assaltada por um temporal +que a dispersou. Chegado ás alturas do Cabo pagou o Poeta o tributo devido +ao Genio d'aquellas paragens, que elle havia de immortalisar. Essa +tormenta, que elle descreveu na sua elegia III, inspirou-lhe com certeza o +bello episodio do Adamastor. Não podendo já seguir a viagem pelo canal de +Moçambique, ou por ter passado a monção ou por causa das correntes +contrarias, a nau _S. Bento_ fez a derrota por fóra da ilha de Madagascar, +correndo n'aquelle parallelo até á latitude da India. Finalmente, em +setembro, chegou o Poeta a Goa, depois de seis mezes de uma viagem, que, +parcendo-nos hoje aborrecida e longa, não foi comtudo das peores para +aquelle tempo. + +A vida dos militares portuguezes na India era um tecido de continuas +expedições ora terrestres ora maritimas, predominando comtudo estas +ultimas. Por isso, mez e meio depois de ter o Poeta chegado a Goa, já o +vemos acompanhar o vice-rei em uma d'essas expedições, que tinha por fim +soccorrer o rei de Cochim. Ahi teve elle occasião de observar desembarques +e combates em terra. Logo em seguida a esta viagem ao sul de Goa fez o +Poeta outra ao norte, embarcando na armada que foi correr a costa +meridional da Arabia e cruzar no golfo de Aden, a qual era commandada por +D. Fernando de Menezes, filho do vice-rei. N'esta expedição teve Camões +desembarques, assaltos de fortalezas, combates navaes, e um cruzeiro +enfadonho em que muitas vezes contemplou com desgosto a triste aridez do +Guardafui, até que em setembro de 1554 regressou a Goa. + +Dois annos depois, sendo já governador da India Francisco Barreto, foi o +nosso Poeta para a China, na armada de Francisco Martins, para occupar o +cargo de provedor dos defuntos e ausentes. + +O nosso primeiro estabelecimento na China tinha sido na cidade de Liampó, e +chegou a tão grande altura de riqueza e prosperidade commercial, como se +póde ver das descripções que Fernão Mendes Pinto faz das festas com que ali +foi recebido o famigerado Antonio de Faria. Perdeu-se este estabelecimento +em 1542, por causa das desordens provocadas pelo negociante Lançarote +Pereira. Em 1544 conseguiram os portuguezes estabelecer-se em Chincheu, mas +tambem d'ahi foram expulsos em 1547 por causa das malversações e +expoliações de Ayres Botelho de Sousa, capitão-mór e prevedor dos defuntos. +Finalmente, faziam o seu commercio em Lampacau, quando em 1557 obtiveram +dos chinas o estabelecerem-se na peninsula de Macau, como premio de terem +expulsado dos seus portos um temivel pirata? É, pois, provavel que o nosso +Poeta fosse ainda tomar parte n'esse combate, que deu aos portuguezes a +posse d'aquelle estabelecimento, e a elle a do logar para que ía nomeado. + +Querem a maior parte dos escriptores, que tratam da vida de Camões, que a +ida d'elle para a China fosse degredo imposto por Francisco Barreto, por +causa da critica acerba que o genio mordaz e independente do Poeta fazia ás +cousas da India, mas o erudito biographo de Camões e seu editor moderno, a +quem nos encostamos n'estes apontamentos, defende a memoria do governador, +e julga que se não deve considerar castigo a nomeação para um logar tão +rendoso. + +Foi o Poeta infeliz em Macau, porque, dois annos depois de chegar, nos +primeiros mezes de 1558, veiu preso para Goa, á ordem do governador, por +accusações sobre a sua administração dos bens dos defuntos e ausentes. Quem +sabe se elle vinha pagar as culpas do seu antecessor Ayres Botelho? Foi +n'esta viagem de regresso a Goa que elle naufragou na costa de Camboja na +Cochinchina, salvando-se a nado com o seu poema, e perdendo tudo o mais que +possuia. A este naufragio allude elle quando diz que o rio Mé-kong + + receberá placido e brando + No seu regaço o Canto, que molhado + Vem do naufragio triste e miserando, + Dos procellosos baixos escapado, + Das fomes, dos perigos grandes, quando + Será o injusto mando executado + Naquelle, cuja lyra sonorosa + Será mais afamada do que ditosa. + (Lus. X, 128.) + +Chegado a Goa, onde já estava o novo vice-rei D. Constantino de Bragança, +foi o Poeta solto, tendo-se justificado das accusações por que vinha preso. +Desde então até 1567 succederam-se as suas viagens por todo o Oriente, e é +provavel que acompanhasse D. Diogo de Menezes a Malacca e d'ahi fosse +percorrer as Molucas e chegasse mesmo ao Japão. + +Voltou a Goa pelo meiado de 1567, e foi agraciado pelo vice-rei D. Antão de +Noronha com a sobrevivencia no cargo de feitor de Chaúl, logar de +representação e bom ordenado. Não chegou, porém, o Poeta a tomar posse +d'elle, porque, cansado de perseguições e soffrimentos, aproveitou o +offerecimento de passagem que lhe fez Pedro Barreto, o qual ía por +capitão-mór para Moçambique, e com elle deixou Goa em 1567, fazendo assim a +sua ultima viagem no oceano Indico. Em Moçambique esteve cerca de dois +annos, e foi ahi que terminou e aperfeiçoou o seu poema, feito quasi todo +já durante o tempo em que elle esteve em Macau, já durante as suas viagens +e expedições, pois diz elle dirigindo-se ás Nymphas do Tejo e do Mondego: + + Olhae que ha tanto tempo que _cantando_ + O vosso Tejo e os vossos Lusitanos + A fortuna me traz perigrinando, + Novos trabalhos vendo e novos damnos, + Agora o mar, agora exp'rimentando + Os _perigos mavorcios_ inhumanos; + Qual Canace, que á morte se condena, + _N'uma mão sempre a espada e n'outra a penna._ + (Lus. VII, 79.) + +Finalmente, em 1569, arribou a Moçambique a armada que regressava ao reino, +e na qual íam os amigos do Poeta, os quaes, tendo pago as suas dividas, o +trouxeram a Portugal na nau _Santa Clara_, «nau a mais rica, diz o sr. +visconde de Juromenha, que tinha vindo de carreira da India, pois trazia a +seu bordo Luiz de Camões e Diogo do Couto.» + +Fundeou a nau na bahia de Cascaes em abril de 1570, e assim terminaram as +longas perigrinações do Poeta. + +Dez annos depois, a 10 de junho de 1580, morria Luiz de Camões, pobre e +desamparado, e «vereis todos, escrevia elle pouco antes de deixar o mundo, +que fui tão affeiçoado á minha patria, que não sómente me contentei de +morrer n'ella, mas de morrer com ella!» + + + + +III + + +Temos visto como Luiz de Camões percorreu em repetidas viagens o Oceano +Atlantico e o Indico, o mar da China e os Estreitos. Para vermos como a sua +intelligencia superior aproveitou este longo tirocinio, appropriando-se e, +por assim dizer, assimilando-se tudo quanto observára, phenomenos do mar, +costumes dos marinheiros, sciencia de navegação, etc., basta abrir o seu +immortal poema, porque ahi, sempre que elle tem de se referir ás cousas do +mar, fal-o com a maxima propriedade, com toda a verdade de descripção. + +Respiguemos, pois, n'essa vasta campina de tantas flores e fructos. + +A vida do marinheiro tem tormentos e prazeres desconhecidos aos homens de +terra. A lucta constante com os elementos torna-o _rudo_, epitheto que o +Poeta a miude lhe dá. A monotonia dos longos dias em que se não vê _mais +que mar e céu_ (Lus. V, 3), faz com que elle procure abreviar o tempo com +historias e contos, torna-o investigador curioso das cousas novas que vae +vendo. A saudade da patria faz-lhe alvoroçar o coração com a lembrança +d'ella, e é por isso que elle procura ser o primeiro a dar o alegre brado +de--«Terra á vista!»--brado que faz esquecer todos os trabalhos e males +passados. + +Tudo isto observou Camões. + +Deixa o marinheiro a patria e despede-se dos parentes e amigos, que o vão +acompanhar ao embarque, não fallando nos curiosos que não perdem o +imponente espectaculo que offerece um navio ao fazer-se de véla. Concorre +pois, muita gente, + + Uns por amigos, outros por parentes, + Outros por ver sómente, + Saudosos na vista e descontentes. + (Lus. IV, 88.) + +Os que deixam a patria vão + + Para os bateis caminhando. + (Lus., ibidem.) + +Não o fazem a olhos enxutos; as lamentações dos que os acompanham redobram +de intensidade á medida que se aproxima a hora fatal; a extrema afflicção +faz perder a esperança do regresso; lamentam-se todos, + + As mulheres c'um choro piedoso, + Os homens com suspiros que arrancavam; + Mães, esposas, irmãs, que o temeroso + Amor mais desconfia, acrescentavam + A desperação e frio medo + De já nos não tornar a ver tão cedo + (Lus. IV, 89.) + +É doloroso aquelle transe, mas o dever e a necessidade fazem calar a voz do +coração. Para evitar mais lagrimas esconde-se a hora exacta da partida, e +embarcam-se + + Sem o despedimento costumado. + (Lus. IV, 93.) + +E partem, ficando-lhes, + + na amada terra + O coração, que as maguas lá deixavam, + (Lus. V, 3.) + +Dura ha muitos dias a viagem. O vento é de feição, o mar plano, os +horisontes claros e extensos. Navega-se de escota folgada. O commandante, + + já cansado + De vigiar a noite, + Breve repouso aos olhos dava. + (Lus. II, 60.) + +Dá meia noite, rendem-se os quartos, + + Os do quarto da prima se deitavam, + Para o segundo os outros despertavam + (Lus. VI, 38.) + +Como é desagradavel deixar o conchego da maca ou do beliche, quando +estavamos no melhor do somno, quando talvez a imaginação nos tinha +transportado á patria _em dôces sonhos que mentiam_, para ir fazer um +quarto em cima da tolda, aguentando o aspero frio da noite! Por isso os +pobres marinheiros + + Vencidos vem do somno, e mal despertos, + Bocejando a miude, se encostavam + Pelas antenas, todos mal cobertos + Contra os agudos ares que assopravam; + Os olhos contra seu querer abertos, + Mas esfregando, os membros estiravam. + (Lus. VI, 39.) + +Não ha manobras a fazer, não ha cousa alguma que distráia, porque, com +tempo tão excellente, só é preciso estar álerta. Como se hão de passar +aquellas quatro horas e afugentar o somno teimoso? + + Remedios contra o somno buscar querem, + Historias contam, casos mil referem, + (Lus., ibidem.) + +E ahi começa o orador, o _beau-diseur_ da companhia, a contar uma historia +interessante, que entretem a todos e faz voar as horas. + +Mas nem tudo são rosas durante a viagem; bem pelo contrario, os espinhos +são em numero muito superior. Aos dias de bom tempo succedem as +tempestades, que tornam o marinheiro + + Confuso de temor, da vida incerto + (Lus. VI, 80.) + +e durante os quaes elle muitas vezes + + Chama aquelle remedio santo e forte + Que o impossivel póde; + (Lus., ibidem.) + + + chama + Aquelle que a salvar o mundo veio + (Lus. VI, 75.) + +A navegação demorada e aborrecida tem exacerbado as saudades e irritado os +animos; já se não juntam os grupos pelas amuradas a contar historias. +Escaceia a aguada, a bolacha está avariada, azedou o vinho; vae-se a meia +ração e a menos; aproxima-se o terrivel espectro das viagens prolongadas, o +escorbuto. Assim vivem por muito tempo os marinheiros _coitados e +perdidos_, + + De fomes, de tormentas quebrantados + E do esperar comprido tão cansados, + Quanto a desesperar já compellidos; + Corrupto já e damnado o mantimento + Damnoso e mau ao fraco corpo humano, + E alem d'isso nenhum contentamento, + Que sequer da esperança fosse engano. + (Lus. V, 70, 71.) + +A tudo se resigna o marinheiro e vae + + Soffrendo tempestades e ondas cruas, + Vencendo os torpes frios no regaço + Do sul e regiões de abrigo nuas, + Engolindo o corrupto mantimento + Temperado c'um arduo soffrimento + (Lus. VI, 97.) + +E peor é ainda quando chega a terrivel doença, _crua e feia_, de que já +fallámos, com a qual + + Tão disformemente ali lhe incharam + As gengivas na bôca, que crescia + A carne e juntamente apodrecia + c'hum fetido e bruto + Cheiro que o ar visinho inficionava + (Lus. V, 81, 82.) + +Assim se passam as semanas e os mezes. Anceia o marinheiro por pôr termo a +uma navegação já aborrecida, por ter algum descanço n'aquelle lidar diario. +Suspeita-se que está proxima a terra; porfia-se em qual será o primeiro que +a veja; algum mais desejoso de ganhar as alviçaras sobe á _celsa_ gavea, e +percorrendo o mar com a vista, enxerga + + Terra alta pela prôa + (Lus. VI, 92.) + +e logo + + «Terra, terra!» brada + (Lus. V, 24.) + +Quem ha que fique indifferente a este brado? Os mais occupados largam tudo +por mão, os que dormem levantam-se estremunhados dos catres, e + + Salta no bordo alvoroçada a gente + Co'os olhos no horisonte, + (Lus., ibidem.) + +devorando com elles as fórmas ainda mal distinctas da terra, e começando + + Á maneira de nuvens + A descobrir os montes. + (Lus. V, 25.) + +Deu-se fundo. Acabaram os trabalhos e perigos, e quasi já esqueceram. Tudo +é curiosidade dos marinheiros em observar as pessoas que de terra vem a +bordo; + + A gente se alvoroça; e de alegria + Não sabe mais que olhar a causa d'ella. + (Lus. I, 45.) + +Como não podem chegar-se e interrogar esses individuos, porque elles estão +conversando com o commandante, contentam-se com espreital-os, e por isso + + Está a gente maritima + Subida pela enxarcia. + (Lus. I, 62.) + +Por fim a curiosidade vence o respeito, e elles vão-se chegando pouco a +pouco para ouvir as novidades; + + A gente se ajunta a ouvir. + (Lus. VII, 29.) + +Chega depois a noite; são horas de descançar e dormir pela primeira vez com +socego. Mas o marinheiro esquece-se d'isso para, ou a sós comsigo, ou dando +largas á sua loquacidade, fazer commentarios sobre o que viu e ouviu; + + Qualquer então comsigo cuida e nota + Na gente e na maneira desusada. + (Lus. I, 57.) + +Não escapou a Camões a qualidade ou defeito caracteristico do marinheiro +portuguez, principalmente do algarvio, sempre fallador e gritador. Ainda +hoje, com a disciplina moderna, é facil conseguir do marinheiro que elle +faça tudo, que soffra as maiores privações, que arroste os maiores perigos; +mas é difficilimo conseguir que elle esteja calado. Ha sobretudo certas +manobras em que é quasi impossivel obter um silencio completo, e no tempo +das descobertas, diz-nos o Poeta que os marinheiros suspendiam + + as ancoras + Com a nautica _grita costumada_, + (Lus. II, 18.) + +e largavam + + A véla, que _com grita_ se soltava. + (Lus. IX, 11.) + +E em outro logar ainda diz-nos que + + A _celeuma medonha_ se alevanta + No rudo marinheiro que trabalha. + (Lus. II, 25.) + +Mas, se é inconveniente a gritaria dos marinheiros, bem pelo contrario é +necessario que o official que commanda a manobra tenha voz sonora e +vibrante, que domine o ruido do temporal e incuta coragem nos subordinados. +Por isso nos Lusiadas, quando ruge a tempestade e é preciso que _não falte +accordo_, o mestre dá as vozes do commando _rijamente_ e _a grandes brados_ +(Lus. VI, 71, 72.) + +Quando o seu navio fundeou no porto, começam para o homem do mar dias mais +alegres e socegados que os passados na viagem. É então que elle se esquece +da vida que levou durante tanto tempo e vae a terra, + + Que não ha nenhum d'elles que não sáia, + (Lus. IX, 66.) + +como gente que é + + De ver cousas estranhas desejosa + Da terra. + (Lus. V, 26.) + +Ahi encontra sempre divertimentos, e quando os não encontra, improvisa-os. +Outras vezes recebe elle a bordo as pessoas de terra, e faz-lhes as honras +da sua morada com a satisfação e liberalidade que o caracterisa. + +As festas de bordo fazem-se sempre _com a prata da casa_, e comtudo é por +extremo agradavel a vista que offerece um navio preparado para celebrar +qualquer data memoravel, ou para festejar a visita de um personagem. +Galhardetes e bandeiras com as côres symetricamente dispostas adornam os +mastros; outros forram os toldos e formam sanefas pelas amuradas; lustres e +troféus feitos com armas e instrumentos nauticos transformam a tolda do +navio em salão de baile elegantemente adornado; os proprios pandeiros de +cabos colhidos com arte desenham no nitido convez florões e iniciaes, ou +servem de divans aos convidados. Os altos personagens são recebidos com +marchas tocadas pelas cornetas e tambores, com musicas executadas pelas +charangas, com revista da guarnição a postos de combate, com salvas de +artilheria. De noite illumina-se o mar com foguetes e tigellinhas. De tudo +isto fallou Camões. + + Começa a embandeirar-se toda a armada, + E de toldos alegres se adornou + Por receber com festas e alegria; + (Lus. I, 39.) + + Sonorosas trombetas incitavam + Os animos alegres, resoando; + (Lus. II, 100.) + + Outros + Instrumentos altinosos tangiam. + (Lus. II, 90.) + + Vem arnezes, e peitos reluzentes, + Malhas finas e laminas seguras, + Escudos de pinturas differentes, + Pelouros e espingardas de aço puras, + Arcos e sagittiferas aljavas, + Partazanas agudas, chuças bravas; + As bombas vem de fogo e juntamente + As panellas sulphuras tão damnosas. + (Lus. I, 67, 68.) + + Não faltam ali os raios de artificio + Os tremulos cometas imitando; + Fazem os bombardeiros seu officio, + O céu, a terra, e as ondas atroando + (Lus. XI, 90.) + +Ás salvas de bordo _agradecem_ as fortalezas de terra, salvando tambem: + + Respondem-lhe de terra juntamente + Co'o raio volteando com zonido; + (Lus. II, 91.) + +e o canhão faz ouvir tanto e tão repetidas vezes a sua voz atroadora que as +festas e cumprimentos entre gente maritima são sempre + + Á maneira de peleja. + (Lus., ibidem.) + +Veja-se agora se n'este assumpto, aliás secundario, esqueceu ao Poeta +alguma circumstancia notavel! + + + + +IV + + +Se dos costumes dos homens do mar passamos aos trabalhos manuaes, que +constituem a parte pratica da sua arte, vamos encontrar nos Lusiadas +descripções e allusões a quasi todas as fainas e manobras tão variadas, que +são necessarias para fazer servir essa complicada machina que se chama +_navio_. + +É imponente o espectaculo que offerece a tolda de um navio em faina geral +de fazer-se de véla. Por mais numerosa que seja a guarnição, todos tem o +seu posto detalhado e todos tem que fazer. Descreve Camões essa faina da +maneira seguinte: + + Já nas naus os bons trabalhadores + Volvem o cabrestante, e repartidos + Pelo trabalho, uns puxam pela amarra, + Outros quebram co'o peito a dura barra, + Outros pendem da verga e já desatam + A véla. + (Lus. IX, 10, 11.) + +Está o ferro a _pique_, redobram os esforços dos marinheiros para o +suspender; + + As ancoras tenaces vão levando, + (Lus. II, 18.) + +e ao mesmo tempo + + Da proa as vélas _sós_ ao vento dado, + (Lus., ibidem.) + +obrigam o navio a _fazer cabeça_, e eil-o que vae em demanda da barra. + +Nos versos que acabamos de citar estão compendiadas todas as manobras +necessarias para um navio se fazer de véla. Não o faria melhor o Bonnefoux +ou o Bréart! + +Na descripção da tempestade do canto VI, encontram-se todas as manobras de +que se lança mão debaixo de tempo. O mestre, que presente o golpe de vento, +_apita á gente_ e manda _carregar e ferrar joanetes_, + + Os traquetes das gaveas tomar manda, + (Lus. VI, 70) + +Mal estão carregados os joanetes, já o vento está a contas com o navio. +_Carrega a véla grande!_ + + «Amaina a grande véla!» + (Lus. VI, 71.) + +Não se carregou a maior a tempo, por isso ella se rasgou, e o navio, dando +a borda de sotavento, metteu dentro uns poucos de _mares_; + + No romper da véla a nau pendente + Toma grão somma d'agua pelo bordo. + (Lus. VI, 72.) + +É preciso allivial-o, quanto seja possivel, dos pesos, e esgotar a agua. +Por isso o mestre ordena: + + «Alija tudo ao mar, + Vão outros dar á bomba, não cessando!» + (Lus., ibidem.) + +e não se esquece de reforçar a _gente do governo_, pondo ao leme + + Tres marinheiros duros e forçosos, + (Lus. VI, 73.) + +passando-lhe ainda para mais segurança + + Talhas d'uma e d'outra parte. + (Lus., ibidem.) + +Chega o navio a um porto pouco conhecido. Ao _investir_ a barra depara-se +com uma pedra á flor d'agua. É necessario _safar_ d'ella e quanto antes. +Aqui é inevitavel alguma confusão; não se sabe para que lado será melhor +_guinar_, e por isso os marinheiros + + Maream vélas, ferve a gente irada + O leme a um bordo e a outro atravessando; + O mestre da poppa brada. + (Lus. II, 24.) + +Com similhante contratempo é melhor não commetter a barra e _fundear em +franquia_; por isso o commandante + + Não entra pela barra, e surge fóra. + (Lus. I, 102.) + +Mas depois de reconhecida a barra já se póde tentar a entrada; então + + já as proas se inclinavam + Para que amainassem; + A gente e marinheiros + Tomam vélas; amaina-se a verga alta; + Da ancora o mar ferido em cima salta; + (Lus. I, 48.) + +e por fim + + Pega no fundo a ancora pesada; + (Lus. II, 74.) + +e aqui temos nós uma descripção completa da faina de fundear. + +Surto o navio no porto, nem por isso cessam as suas manobras e fainas. Uma +das mais importantes consiste na limpeza do costado do navio, que depois de +uma viagem prolongada se acha coberto de incrustações, molluscos e algas +marinhas, principalmente nas obras vivas. Quando os navios não eram +forrados de cobre, como hoje são, esta operação era indispensavel, posto +que difficultosa, sendo muitas vezes necessario _espalmal-os_, isto é, +varal-os na praia, e até _viral-os de querena_. Não se esqueceu o Poeta +d'este serviço maritimo, descrevendo-o assim: + + Aqui de limos, cascas e d'ostrinhos, + Nojosa criação das aguas fundas, + Alimpamos as naus, que dos caminhos + Longos do mar vem sordidas e immundas. + (Lus. V, 79.) + +É tambem um dos primeiros cuidados nos portos o renovar a aguada, e por +isso o commandante, logo que póde, determina + + De vir por agua a terra; + (Lus. I, 84.) + + E vão a seu prazer fazer aguada. + (Lus. I, 93.) + +Para este serviço, bem como para todas as communicações com a terra dentro +dos portos, serve-se a gente do mar dos _bateis_ ou embarcações miudas. +Estas embarcações são quasi sempre movidas por meio de remos, cuja manobra +é diversa e variada conforme a maior ou menor pressa e outras +circumstancias. Assim, quando o commandante vae a terra fazer uma visita +official, a embarcação que o transporta vae de _voga larga e descançada_, e + + O remo _compassado_ fere frio + Agora o mar, depois o fresco rio, + (Lus. VII, 43.) + +mas quando, por qualquer motivo, é preciso chegar rapidamente, não se póde +perder tempo com essas elegancias de manobra; _pica-se a voga_ e _aperta-se +o remo_ (Lus. V, 32), duplicando a força de impulso e fazendo saltar o +escaler por cima das ondas. + +Não esqueceram ao Poeta os combates navaes, em que o marinheiro se torna +soldado com duplicado valor, pois tem de combater ao mesmo tempo os +tormentos e o inimigo. Ora é um desembarque: + + Apercebido vae + Em tres bateis. + (Lus. I, 85.) + + Eis nos bateis o fogo se levanta + Na furiosa e dura artilharia; + A gente + A povoação + Esbombardea, accende e desbarata. + (Lus. I, 89, 90.) + +Ora é um combate entre as embarcações miudas dos dois contendores: + + Huns vão nas almadias carregadas; + Hum corta o mar a nado diligente; + Quem se afoga nas ondas encurvadas; + Quem bebe o mar, e o deita juntamente. + Arrombam as miudas bombardadas + Os pangaios subtís. + (Lus. I, 91) + +Ora é finalmente uma verdadeira batalha naval entre duas armadas, quando + + em sangue e resistencia + O mar todo com fogo e ferro ferve. + (Lus. X, 29.) + +Primeiro combatem de longe com a artilharia; segue-se depois a abordagem; e +o combate decide-se por ultimo á arma branca. Assim o vencedor + + Das grandes naus, + co'a ferrea pella + Que sahe com trovão do cobre ardente, + Fará pedaços leme, mastro, vela; + Depois, lançando arpéos ousadamente + Na capitaina inimiga, dentro nella + Saltando, a fará só com lança e espada + De quatro centos despejada. + (Lus. X, 28.) + + + + +V + + +Mostrámos até aqui como Camões conhecia e comprehendia os homens do mar, +não lhe escapando nem uma das mais pequenas circumstancias, que tornam o +seu modo de viver e pensar tão caracterisco e differente do dos homens da +terra. Mostrámos tambem com que propriedade e conhecimento elle introduziu +no seu poema a descripção ou antes a viva pintura das manobras e fainas que +constituem o officio do marinheiro. Vamos agora tentar mostrar como o Poeta +comprehendeu o theatro em que se passam as scenas tão variadas da vida do +homem do mar. + +O mar, esse elemento imponente e magestoso, que enche de espanto o homem +que, pela primeira vez, o encara, parecendo á primeira vista tão uniforme e +tão igual, apresenta mil aspectos diversos, que são outras tantas +manifestações das forças creadoras que abriga em seu seio. D'essas, a mais +grandiosa, aquella que irresistivelmente se impõe e subjuga a alma mais +destemida, é a tempestade. Nem o volcão vomitando fogo e lavas; nem a +trovoada fusilando raios, atroando com o ribombar do trovão e inundando com +as catadupas de agua; nem o terramoto abalando os edificios e fazendo +ondular os montes; nem o kahmsin do deserto enterrando as caravanas com as +suas nuvens de areia, nada póde rivalisar com uma tempestade maritima. Esta +reune tudo o que os outros cataclysmos tem de bello e horroroso, e é ainda +mais sublime e medonha. E são tão variados os espectaculos offerecidos pela +natureza, que ainda nas tempestades maritimas ha differenças e +especialidades que as distinguem entre si. Assim o temporal dos Açores não +se parece com a tempestade do Cabo, como o cyclone do Oceano Indico differe +do tufão do mar da China. São diversas as causas que as originam, diversas +as circumstancias meteorologicas com que se manifestam, diversos, se é +possivel, os horrores que inspiram. + +E, comtudo, Camões apanhou essas differenças, conheceu essas circumstancias +especiaes. Duas são as principaes descripções de tempestades maritimas que +elle nos offerece no seu poema. A primeira é de um temporal no Cabo da Boa +Esperança, e constitue o episodio do Adamastor, que não transcreveremos por +o julgarmos conhecido de todos. A tempestade começa por uma nuvem _temerosa +e carregada_ + + que os ares escurece; + (Lus. V, 37.) + +e effectivamente uma das circumstancias peculiares das tormentas do Cabo é +escurecer-se completamente a athmosphera. É tambem notavel a altura que +attingem as ondas n'essas occasiões, pois nenhum navegador as viu em parte +alguma maiores ou iguaes. Camões notou esta circumstancia na elegia III, +onde, descrevendo a sua viagem para a India, diz que + + chegando ao Cabo da Esperança + Eis a noute com nuvens se escurece, + Do ar _subitamente_ foge o dia + E todo o largo Oceano se embravece; + Em _serras_ todo o mar se convertia. + +Voltando aos _Lusiadas_ observaremos que todo o horror do Cabo da Boa +Esperança está n'aquella prophecia do Gigante: + + Quantas naus esta viagem + Fizerem de atrevidas, + Inimiga terão esta paragem + Com ventos e tormentas desmedidas. + (Lus. V, 43.) + +E é assim. Não ha paragem alguma do globo onde as tempestades sejam mais +frequentes, podendo-se dizer que no Cabo é estado normal o mau tempo, sendo +excepção a bonança. A tempestade + + c'um medonho choro + Subito d'ante os olhos se apartou, + Desfez-se a nuvem negra e c'um sonoro + Bramido muito longe o mar soou. + (Lus. V, 60.) + +Aqui se observa como um pesado aguaceiro vem abater as ondas encapelladas, +ouvindo-se comtudo por muito tempo o surdo rumor que ellas produzem como +féras, mau grado seu, subjugadas pelo chicote do domador. + +Mais desenvolvida é a descripção da tempestade no Indico. N'esse mar é +conhecida a parte que fica entre a cabeça de Madagascar e as Seychelles +pelos frequentes cyclones e golpes de vento que a açoutam e tornam perigosa +a navegação. E, pois, ahi + + Já nos mares da India, + (Lus. VI, 6.) + +que o Poeta colloca o temporal, o qual começa, como é sabido, por uma +pequena nuvem que desponta no horisonte, e dentro em pouco, tocada pelo +vento com vertiginosa velocidade, occupa toda a athmosphera. A +impetuosidade e o repente do assalto não dão tempo a manobras; muitas vezes +é necessario _picar os mastros_, se o cyclone se não encarrega d'isso. O +mar cava-se em ondas desencontradas e altissimas, e os relampagos e +coriscos vem augmentar o terror. Eis estas scenas successivas da terrivel +tragedia pintadas pelo mestre: + + O vento cresce + D'aquella nuvem negra que apparece. + Dá a grande e subita procella. + Não esperam os ventos indignados + Que amainassem (a véla grande), mas juntos dando n'ella, + Em pedaços a fazem. + No romper da véla a nau pendente + Toma grão somma d'agua pelo bordo. + Os balanços, que os mares temerosos + Deram á nau, n'um bordo os derribaram (os marinheiros.) + Nos altissimos mares, que cresceram, + A pequena grandura d'um batel + Mostra a possante nau. + A nau grande + Quebrado leva o mastro pelo meio, + Quasi toda alagada. + Agora sobre as nuvens os subiam + As ondas, + Agora a ver parece que desciam + As intimas entranhas do profundo. + (Lus. VI, 70 a 76.) + + + Os ventos que lutavam, + Como touros indomitos bramando; + Mais e mais a tormenta accrescentavam, + Pela miuda enxarcia assoviando; + Relampagos medonhos não cessavam, + Feros trovões. + (Lus. VI, 84.) + +Mas não são apenas os traços geraes da descripção que reproduzem a exacta +verdade. Até nas mais pequenas minudencias se mostra rigorosa exactidão. Os +ventos são + + Noto, Austro, Boreas, Aquilo, + (Lus. VI, 76.) + +recordando assim a direcção successivamente differente do vento, +percorrendo todos os quadrantes, como se nota nas tempestades de rotação. +Os golphinhos ou toninhas, esses graciosos companheiros do navegador +durante a bonança, desapparecem d'aquelle theatro de desolação, e são +substituidos pelos maçaricos, as _almas do mestre_, como lhes chama a +poetica imaginação dos marinheiros, que vem augmentar com os seus pios +lamentosos a tristeza do espectaculo: + + As Halcyoneas aves o triste canto + levantaram, + Os delfins namorados entretanto + Lá nas covas maritimas entraram, + Fugindo á tempestade e ventos duros, + Que nem no fundo os deixa estar seguros. + (Lus. VI, 77.) + +Isto é perfeito, isto é enexcedivel. E comtudo ha mais ainda; ha a +descripção de outro phenomeno do mar, que, posta em prosa, occuparia o +logar de honra no melhor tratado de meteorologia. É a das trombas marinhas. +N'este phenomeno em que _as nuvens do mar sorvem as aguas do Oceano_, +começa a levantar-se + + No ar um vaporsinho e subtil fumo, + E do vento trazido, rodear-se; + D'aqui levado um cano ao polo summo + Se via, tão delgado que enxergar-se + Dos olhos facilmente não podia; + Da materia das nuvens parecia. + Hia-se pouco a pouco accrescentando + E mais que um largo mastro se engrossava; + Aqui se estreita, aqui se alarga, quando + Os golpes grandes de agua em si chupava; + Estava-se co'as ondas ondeando; + Em cima d'elle uma nuvem se espessava, + Fazendo-se maior, mais carregada, + Co'o cargo grande d'agua em si tomada, + Qual roxa sanguesuga + se enche e a alarga grandemente, + Tal a grande columna, enchendo, augmenta, + A si e a nuvem negra que sustenta. + Mas, depois que de todo se fartou, + O pé que tem no mar a si recolhe, + E pelo céu chovendo em fim vôou; + Ás ondas torna as ondas que tomou, + Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe. + (Lus. V, 19 a 22.) + +Quem escreveu isto? Foi Bravais? Foi Fitz-Roy? Não; foi Luiz de Camões. + +Camões tudo vê, de tudo falla. Ao fogo santelmo chama + + lume vivo, + Que a maritima gente tem por santa, + Em tempo de tormenta e vento esquivo, + De tempestade escura, + (Lus. V, 18.) + +Tambem falla nas correntes maritimas, cujas leis eram pouco conhecidas dos +primeiros navegadores, causando-lhes muitos embaraços. Ainda hoje no canal +de Moçambique se não póde contar com a corrente, ou antes deve-se esperar +que ella seja sempre contraria, porque, _como no mar tudo são mudanças_, +tão depressa correm as aguas ao norte como no dia seguinte correm ao sul, e +com tal velocidade que vencem muitas vezes a força do vento regular. É, +pois, a corrente, como descreve o Poeta + + tão possante + Que passar não deixava por diante; + Era maior a força em demasia, + Segundo para traz nos obrigava, + Do mar, que contra nós ali corria, + Que por nós a do vento que assoprava. + (Lus. V, 66, 67.) + +Superior á meteorologia é a sciencia astronomica, de todas a mais +necessaria ao homem do mar. É ella que lhe ensina a conhecer onde está, a +que parte do vasto Oceano o levaram os ventos e correntes; é ella que lhe +mostra o caminho a seguir no meio da vasta solidão. Estava esta sciencia +bastante atrasada no tempo do Poeta, pois que reinava ainda o errado +systema de Ptolomeu. Mas este systema é por elle descripto tão exactamente, +que um abalisado professor contemporaneo, ao ter de explical-o nas suas +lições de cosmographia, nunca deixava de citar a descripção de Camões. +Ptolomeu, fazendo da terra centro immovel de todo o universo, collocava a +lua, o sol, os planetas e as estrellas em outras tantas espheras +concentricas a ella, e que, sobre um eixo que passava pelos seus polos, +giravam com velocidades diversas. Todas estas espheras eram envolvidas por +uma ultima, o Empyreo, alem do qual estava o Ser Infinito, pois + + Quem cerca em derredor este rotundo + Globo e sua superficie tão limada, + He Deus. + (Lus. X, 80.) + +Começando, pois, a enumerar as superficies concentricas, cujo conjuncto +fórma o systema, diz Camões: + + Este orbe, que primeiro vae cercando + Os outros mais pequenos, que em si tem, + Que está com luz tão clara radiando, + Que a vista cega e a mente vil tambem, + Empyreo se nomea. + (Lus. X, 81.) + +Segue-se o primeiro mobil: + + Debaixo d'este circulo, + que não anda, + Outro corre tão leve e tão ligeiro + Que não se enxerga: he o mobile primeiro. + (Lus. X, 85.) + +Vem depois os dois crystalinos e logo o céu das fixas, entre as quaes o +Poeta não se esqueceu de nomear as doze constellações zodiacaes bem como as +outras mais notaveis do firmamento: + + Est'outro debaixo esmaltado + De corpos lisos anda e radiantes, + Que tambem n'elle tem curso ordenado + E nos seus axes correm scintillantes; + se veste e faz ornado + Co'o largo cinto d'ouro, que estellantes + Animaes doze traz affigurados, + Aposentos de Phebo limitados. + Por outras partes a pintura + as estrellas fulgentes vão fazendo: + A Carreta, a Cynosura, + Andromeda e seu pae, e o Drago, + Cassiopea, Orionte, o Cysne, + A Lebre, os Cães, a Nau e a Lyra. + (Lus. X, 87, 88.) + +Seguem-se por sua ordem os céus dos sete planetas então conhecidos, +contando n'esse numero o Sol: + + Debaixo d'este grande firmamento + o céo de Saturno; + Jupiter faz logo o movimento, + E Marte abaixo; + O claro olho do céo no quarto assento; + E Venus; + Mercurio; + Com tres rostos debaixo vae Diana. + (Lus. X, 89.) + +Em seguida á Lua vem finalmente os quatro elementos: + + o _fogo_ e o _ar_, o vento e a neve + Os quaes jazem mais a dentro, + E tem co'o _mar_ a _terra_ por assento. + (Lus. X, 90.) + +Alem d'esta descripção, que é completa, ha por todo o poema allusões ao +firmamento e aos seus brilhantes luzeiros, espectaculo maravilhoso e divino +em que se enlevam os olhos do marinheiro durante as longas horas da noite. +Citaremos apenas a allusão ao Cruzeiro do Sul: + + Lá no novo hemispherio nova estrella, + Não vista de outra gente, que ignorante + Alguns tempos esteve incerta d'ella; + (Lus. V, 14.) + +á qual se segue logo a allusão áquella parte do firmamento perto do polo +sul, onde as estrellas são mais raras, e que os astronomos modernos chamam +o _Sacco de carvão_: + + a parte menos rutilante, + E por falta d'estrellas menos bella, + Do polo fixo. + (Lus., ibidem.) + +Para acabarmos com a astronomia de Camões diremos ainda que nem sequer se +esqueceu elle de fallar da _nautica_, parte pratica ou applicação d'aquella +sciencia á navegação, a qual mais directamente ensina o marinheiro a _ver +em que parte está_ (Lus. V, 26), isto é, a _pôr o ponto na carta_, pois que +nos falla do + + novo instrumento do Astrolabio + Invenção de subtil juizo e sabio; + (Lus. V, 25.) + +que servia, como hoje o sextante, para + + tomar do Sol a altura. + (Lus. V, 26.) + + + + +VI + + +Está já cançada a penna de fazer transcripções, é tempo de pôr termo a este +trabalho, e ainda não temos percorrido toda a escala de variadissimos tons +com que Luiz de Camões teceu a sua harmoniosissima composição sobre as +cousas do mar. Fallaremos ainda, antes de terminar, da Geographia, sciencia +que o Poeta possuiu em subido grau, e que, como a astronomia e a +meteorologia, é tambem essencialmente necessaria ao marinheiro. + +Os _Lusiadas_ são por si só um completo tratado da sciencia da terra. Não +ha ponto conhecido no mundo do seculo XVI de que o Poeta não falle, +assignando a cada um a sua feição geographica caracteristica, a sua +especialidade ethnographica. Mas as suas descripções tem ainda a +particularidade de serem essencialmente maritimas. Effectivamente ao +marinheiro o que mais importa saber, depois da posição dos logares, é a +fórma com que elles se apresentam vistos do mar, fórma que o marinheiro +precisa de gravar na memoria para poder distinguir uns dos outros montes, +cabos, praias ou enseadas aliás muito similhantes. Para isto serve-se +muitas vezes o navegador da comparação com objectos conhecidos, e foi de +certo elle quem inventou os nomes de Sombreiro, Barrete de S. Fillippe, +Bonet de Jockey, Nariz de Nelson, e tantos outros, para designar e reter na +memoria a fórma de certas saliencias da superficie da terra banhadas pelo +mar. Ora, nas descripções geographicas de Camões, nota-se que elle procura +muitas vezes dar o relevo da costa, e que quasi sempre refere a ella a +descripção dos outros logares notaveis do interior, por modo que as suas +descripções são preciosissimas para um roteiro e ensinam muitas +_conhecenças_ do _debuxo da costa_ (Lus. X, 120), conhecimento altamente +necessario ao navegador. Não se esquece tambem o Poeta de notar qualquer +circumstancia, cujo conhecimento seja util ao navegante, como os productos +da terra, a maior ou menor facilidade de se acharem mantimentos, a +qualidade dos portos, etc. + +Não sendo possivel transcrever todos os logares dos _Lusiadas_ que tratam +de geographia, porque seria preciso copiar dezenas e dezenas de estancias, +citaremos apenas alguns poucos exemplos, e seja o primeiro a descripção da +Europa: + + Entre a zona que o Cancro senhorea, + Meta septentrional do Sol luzente, + E aquella que por fria se arrecea + Tanto, como a do meio por ardente, + Jaz a soberba Europa, a quem rodea, + Pela parte do Arcturo e do Occidente, + Com suas salsas ondas o Oceano, + E pela Austral o mar Mediterrano. + Da parte donde o dia vem nascendo + Com Azia se avisinha; mas o rio, + Que dos montes Rhipheios vae correndo + Na alagoa Meotis, curvo e frio, + As divide, e o mar, que fero e horrendo + Viu dos Gregos o irado senhorio, + Onde agora de Troia triumphante + Não vê mais que a memoria o navegante. + Lá onde mais debaixo está do polo, + Os montes Hyperboreos apparecem, + E aquelles onde sempre sopra Eolo, + E co'o nome dos ventos se enobrecem; + Aqui tão pouca força tem de Apollo + Os raios, que no mundo resplandecem, + Que a neve está continuo pelos montes, + Gelado o mar, geladas sempre as fontes. + (Lus. III, 6, 7 e 8.) + +A esta descripção geral da Europa segue-se a especial dos seus paizes. Como +não as podemos descrever todas, lembraremos a da Italia: + + Da terra um braço vem ao mar, que cheio + De esforço, nações varias sujeitou, + Braço forte de gente sublimada + Não menos nos engenhos que na espada; + (Lus. III, 14.) + +a de Hespanha: + + Eis aqui a nobre Hespanha, + Como cabeça da Europa toda; + Com Tingintina entesta, e ali parece + Que quer fechar o mar Mediterrano, + Onde o sabido Estreito se enobrece + Co'o extremo trabalho do Thebano; + Com nações differentes se engrandece + Cercadas com as ondas do Oceano; + (Lus. III, 17, 18.) + +e a de Portugal: + + Eis aqui, quasi cume da cabeça + Da Europa toda, o reino Lusitano, + Onde a terra acaba e o mar começa + E onde Phebo repousa no Oceano. + (Lus. III, 20.) + +Veja-se como em duas palavras se demonstra a importancia do porto de +Moçambique: + + Esta ilha pequena + He em toda esta terra certa escala + De todos os que as ondas navegamos + De Quiloa, de Mombaça e de Sofala; + E por ser necessaria procuramos, + Como proprios da terra, de habital-a; + (Lus. I, 54.) + +e como com outras duas se descreve a ilha de Mombaça: + + Estava a ilha á terra tão chegada + Que um estreito pequeno a dividia; + Uma cidade n'ella situada, + Que na frente do mar apparecia, + Como _por fora ao longe_ descobria, + Regida por um Rei de antiga idade; + Mombaça é o nome da ilha e da cidade. + (Lus. I, 103.) + +A grande peninsula indostanica, esse theatro de tantas glorias nossas, é +pintada assim: + + Alem do Indo jaz, e aquem do Gange, + Um terreno mui grande e assaz famoso, + Que pela parte austral o mar abrange + E para o Norte o Emodio cavernoso; + Jugo de Reis diversos o constrange + A varias leis; alguns o vicioso + Mafoma, alguns os idolos adoram, + Alguns os animaes, que entre elles moram. + Lá bem no grande monte, que, cortando + Tão longa terra, toda Azia discorre, + Que nomes tão diversos vae tomando, + Segundo as regiões por onde corre, + As fontes sahem, donde vem manando + Os rios, cuja grão corrente morre + No mar Indico, e cercam todo o peso + Do terreno, fazendo-o Chersoneso. + Entre um e outro rio, em grande espaço, + Sae da larga terra uma longa ponta, + Quasi pyramidal, que no regaço + Do mar com Ceilão insula defronta. + (Lus. VII, 17, 18 e 19.) + +Nomea depois o Poeta as principaes nações indianas, e não lhe escapa +lembrar a serra dos Gates, que é uma boa _marca_ por ser visivel de muitas +leguas ao mar: + + Aqui se enxerga, _lá do mar undoso_, + Um monte alto, que corre longamente, + Servindo ao Malabar de forte muro + Com que do Canará vive seguro; + Da terrra os naturaes lhe chamam Gate. + (Lus. VII, 21, 22.) + +E ao passar pelos seus portos não se esquece de notar o phenomeno a que os +modernos geographos francezes dão o nome de _raz-de-marée_, que em alguns +d'elles se observa, principalmente em Madrasta: + + Do mar a enchente _subita grandissima_, + E a vasante que foge _apressurada_. + (Lus. X, 106.) + +Fallando de Aden, lembra o Poeta a circumstancia bem conhecida de nunca lá +chover: + + a secca Adem, + pedra viva, + Onde chuva dos céus se não deriva. + (Lus. X, 99.) + +E estas duas palavras--_pedra viva_--são por si só uma completa descripção +d'aquelle arido rochedo, onde já correu muito sangue portuguez. + +A Ieddah attribue Camões toda a importancia que esse porto tem por ser a +unica communicação para os peregrinos que, por mar, vão a Mecca: + + Lá no seio Erythreo + Não longe o porto jaz da nomeada + Cidade Meca; + Gidá se chama o porto aonde o trato + De todo o Roxo mar mais florecia. + (Lus. IX, 2, 3.) + +Mas a descripção verdadeiramente magnifica, arrebatadora, é a que abrange +todas as descobertas e conquistas na Africa, Asia, Oceania e America. +Aquellas cincoenta estancias do canto X (91 a 141) com as que no canto V +contem a _derrota_ de Vasco da Gama desde Lisboa até Melinde, são um +compendio de geographia das descobertas até ao seculo XVI. Ao lel-as +parece-nos que se repete para nós a magica visão que Tethys offerecia na +ilha dos Amores aos olhos surpresos do afortunado descobridor da India; +parece-nos que vemos desenrolar-se a nossos olhos o mappa immenso de tantas +ilhas, portos, montanhas, rios e promontorios; parece-nos que se agitam +diante do nós tantos centenares de povos e nações, com os seus usos tão +oppostos, com os seus trajos ora tão singelos ora tão complicados e +custosos, com a riqueza de suas minas ou de suas industrias, com a sua +historia tão cheia de contrastes. E um espectaculo deslumbrante, unico, que +obriga o mais fervente admirador dos genios modernos a render-se á +superioridade evidente de Camões; porque Camões, e só elle, poude, sem ser +monotono nem faltar á mais escrupulosa verdade, fazer de uma longa +enumeração de terras e mares uma formosissima galeria das mais variadas +paisagens e marinhas; porque só elle soube ser successivamente Claude +Lorrain e Vernet, ficando ainda superior a estes e a todos os pintores, +ficando sempre o grande, o incomparavel, o divino marinheiro LUIZ DE +CAMÕES! + + + + +VII + + + No mais, musa, no mais, que a lyra tenho + Destemperada e a voz enrouquecida, + E não do canto, mas de ver que venho + Cantar a gente surda e endurecida. + (Lus. X, 145.) + +Perdoe-se ao pigmeu a ousadia de applicar a si as palavras do gigante. Mas, +na verdade, para que serve continuar? Se houvessemos de citar todos os +logares em que Luiz de Camões se mostrou eximio pintor da natureza, e +principalmente da natureza maritima, teriamos de copiar quasi todo o seu +poema. Cremos, porém, que o que fica transcripto é sufficiente para +demonstrar a nossa asserção, de que o Poeta foi um marinheiro tocado da +divina scentelha da inspiração, que lhe fez ver os grandiosos espectaculos +da natureza taes como elles se manifestam. + +E, comtudo, de que serve esta demonstração? Que póde ella fazer em prol do +melhoramento do actual gosto litterario? + +Nada. + +Acontece com a historia das litteraturas como com a das nacionalidades. +Quando o espirito de uma nação está decaído, quando faltam os nobres +impulsos que a impelliram no seu progresso ascendente, quando está morto o +patriotismo que centuplica as forças do individuo, quando o egoismo tórpe +substituiu a abnegação e o amor da patria, é então que se recordam os +tempos de gloria e se levantam monumentos aos heroes que já não é possivel +imitar; são os vãos lamentos dos filhos de Israel captivos em Babylonia, +suspirando pela liberdade de Sião, que tão mal souberam defender. + +E assim com as litteraturas. Quando passaram, para nunca mais voltar, os +seus tempos de explendorosa florescencia, vem os commentadores estudar as +obras primas, mas não apparece um só que os imite. Onde estão hoje as +pennas que escreveram os _Lusiadas_ e as _Decadas_? E, deixando esses +monumentos, que são como que as estrellas de primeira grandeza de um +firmamento de eterno brilho, onde estão os successores de Diniz, de Bocage, +de Garção, de Alexandre Herculano, de Rebello da Silva, de José Estevão, de +Garrett, de Castilho? Transformaram-se os lagos cristalinos em charcos +nauseabundos, as campinas viridentes em aridos pragaes; calaram-se os +trinados dos rouxinoes, só se ouve o coaxar das rãs; e a consciencia +publica, festejando o tri-centenario da morte de Luiz de Camões, manifesta +em doloroso grito o arrependimento que sente por se ter deixado resvalar no +plano inclinado do mau gosto, e marca na historia da litteratura portugueza +o periodo da ultima decadencia. + + +FIM + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Luiz de Camões marinheiro, by +Vicente de Almeida de Eça + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIZ DE CAMÕES MARINHEIRO *** + +***** This file should be named 21779-8.txt or 21779-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/1/7/7/21779/ + +Produced by Pedro Saborano. Para comentários à transcrição +visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was +produced from scanned images of public domain material +from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. 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