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+Project Gutenberg's Luiz de Camões marinheiro, by Vicente de Almeida de Eça
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Luiz de Camões marinheiro
+
+Author: Vicente de Almeida de Eça
+
+Release Date: June 8, 2007 [EBook #21779]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIZ DE CAMÕES MARINHEIRO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano. Para comentários à transcrição
+visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from Google Book Search)
+
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+
+LUIZ DE CAMÕES
+
+MARINHEIRO
+
+
+ESTUDO
+
+POR
+
+
+ALMEIDA D'EÇA
+
+
+DAVID CORAZZI--EDITOR
+EMPREZA HORAS ROMANTICAS
+Rua da Atalaya, 40 a 52
+1880
+
+
+ Quem deixará, até onde cheguem as suas forças, de concorrer para
+ illustrar o nome do Poeta extraordinario que emprehendeu e levou a
+ cabo o levantar o monumento da nossa gloria nacional?
+
+ Visconde de Juromenha. _Obras de Camões._ Vol. I, pag. 7.
+
+ O perscrutar os mais fundos recessos do espirito de um poeta como
+ Camões, não é indigno da critica, nem um estudo vasio de interesse.
+
+ J. G. Monteiro. _Carta ácerca da ilha dos amores_, pag. 11.
+
+
+A maior parte das observações, que vão ler-se, foram feitas longe da
+patria, quando o poema de Camões era o unico amigo intimo com quem
+desabafavamos saudades e soffrimentos. Concluimos depois este humilde
+estudo em uma aldeia de Portugal, onde faltavam os bons livros e mestres,
+cuja consulta seria indispensavel para que elle fosse menos que imperfeito.
+Sirva isto de desculpa á rudeza d'estas linhas, que só pretendem ser
+homenagem de agradecimento áquelle que tão bem soube fallar ao coração do
+marinheiro.
+
+Abril de 1880.
+
+
+
+
+I
+
+
+O nosso Epico, o immortal auctor dos _Lusiadas_, o escriptor que fez com
+que o estrangeiro não esquecesse de todo o nome portuguez,--tudo isto se
+diz que foi Luiz de Camões. A fibra patriotica julga-se quite da divida de
+gratidão ao grande Poeta com ter-lhe erigido um monumento de gosto
+duvidoso, em sitio acanhado da capital, e com pronunciar o seu nome quando
+lhe dizem os desalentados que Portugal é uma terra morta. Mas, por se
+orgulharem tanto de ser filhos do mesmo torrão em que nasceu Camões, nem
+por isso esses, que tantas vezes lhe citam o nome, sentem tentação de tomar
+conhecimento, sequer passageiro, do que elles dizem ser um padrão das
+nossas glorias; e, não fallando nos que propriamente se dedicam aos estudos
+litterarios, porque a esses incumbe o dever de conhecerem as obras do nosso
+Poeta, raro se encontrará nas classes illustradas um portuguez que dos
+_Lusiadas_ tenha lido mais que as poucas oitavas _selectas_, que se
+encontram nos compendios de instrucção.
+
+Assim, ao passo que o inglez, o allemão ou o francez menos dado ás lides
+litterarias, mas que se preze de ter uma educação regular, conhece, possue,
+lê e cita amiudadas vezes Shakespeare, Milton e Byron, ou Schiller e
+Goethe, ou Molière e Lafontaine, nós, despresando as joias de metal sem
+liga pelos enfeites de ouropel, fallamos de Camões quasi como os cegos
+poderão fallar da luz. E o mal é tanto maior quanto uma audaciosa escola
+contemporanea tenta arrogar-se o exclusivo de fallar verdade, de
+_photographar_ a natureza, como dizem os seus corypheus, dando a entender
+que o que antes d'elles se escreveu era tudo falso, que ninguem tinha
+habilidade para copiar a natureza, e que só elles sabem chamar as cousas
+pelo seu nome!
+
+Não nos permittem as nossas poucas forças entrar na liça contra essa
+escola, que hoje parece ter assambarcado o gosto e os louvores do publico;
+só quizeramos pedir respeitosamente aos thuriferarios do novo idolo, que
+consintam a algum _retrogrado_ da arte o conservar no mais intimo do seu
+espirito a crença de que, em tempos que já lá vão, houve quem escrevesse
+com realidade, quem pintasse a natureza tal como ella é; consintam-lhe que,
+lendo o pobre Camões, encontre n'elle descripções verdadeiramente reaes ou
+_realistas_, porque são apenas verdadeiras.
+
+Para se ser poeta, verdadeiramente poeta, para se fallar poeticamente da
+natureza ou das artes, não basta ter a inspiração do rythmo, saber alinhar
+palavras ora altisonantes ora docemente musicaes; é necessario conhecer a
+natureza, conhecer as artes e as sciencias de que se quer fallar, é
+necessario sentil-as, consubstanciar-se com ellas. Para fallar de
+astronomia, ainda mesmo poeticamente, é necessario conhecer os astros; para
+fallar do mar é necessario ter percorrido os oceanos, ter presenciado as
+tempestades, ter soffrido com o marinheiro, porque
+
+ quem não sabe a arte, não na estima
+ (Lus. V, 97.)
+
+Quem não tiver conhecido exactamente e sentido as cousas que quer
+descrever, só póde copiar uma natureza subjectiva, filha da imaginação,
+pura invenção do seu cerebro. É por isso que vemos hoje um Pharaó montado
+em corcel andaluz, mastodontes em correrias desenfreadas pelas florestas
+virgens da Europa contemporanea, condores pousados graciosamente nos
+calices das rosas, e... _il resto no lo dico_.
+
+Mas Camões viu os continentes e as ilhas, os oceanos e as montanhas, e por
+isso é o grande pintor da natureza; Camões foi soldado, e por isso é o
+veridico narrador das batalhas; Camões serviu cargos do estado, e por isso
+dos seus versos se póde tirar um tratado completo de politica; Camões,
+finalmente, navegou muito, e por isso é, como diz Alexandre de Humboldt, um
+grande pintor maritimo.
+
+Espiritos elevados e intelligencias altamente illustradas tem já
+considerado o nosso Poeta debaixo de alguns d'estes pontos de vista.
+Parece-nos, comtudo, que ainda se não explorou sufficientemente um dos
+veios mais ricos d'essa riquissima mina. Tentaremos nós, em rapido esboço,
+mostrar como na sua palheta de multiplices côres tinha Camões algumas das
+mais brilhantes e apropriadas para descrever o mar e pintar os homens que
+n'elle vivem. Procuraremos mostrar como Camões foi um marinheiro, mas um
+marinheiro de alma e coração divinamente inspirados; procuraremos
+demonstrar como lhe assenta bem o epitheto de _Naval Poet_, que lhe deu um
+escriptor inglez, e teremos assim justificado o titulo que demos a este
+despretencioso trabalho.
+
+
+
+
+II
+
+
+Para poder tratar da sciencia e da arte do marinheiro com a provada
+exatidão e superior proficiencia, que se observam nas suas obras, devia
+Camões ter tido um longo tirocinio maritimo, pois só com largas viagens
+sobre o mar poderia elle adquirir esses conhecimentos tão variados.
+
+Se ainda hoje, com tantos tratados e livros ao alcance de todas as
+intelligencias, é comtudo difficil, a quem não viu o mar e os seus
+trabalhos, fazer d'elles uma idéa aproximadamente exacta, muito mais
+acontecia isso no tempo do Poeta, quando a geographia, a astronomia e a
+nautica eram sciencias, alem de atrasadas, possuidas por poucos, de modo
+que a maioria das pessoas, ainda mesmo das classes illustradas, faziam de
+tudo o que dizia respeito á navegação, idéa vaga e por vezes muito afastada
+da verdade, confundindo-se no seu espirito os verdadeiros perigos do mar
+com os horrores e medos imaginarios, que eram ainda restos da tradição do
+Mar Tenebroso. Os escriptores, que não tinham navegado, ao descreverem
+scenas maritimas, serviam-se de um padrão uniforme, successivamente copiado
+ou imitado, e em que a natureza muitas vezes tinha pouca parte. E
+realmente, como poderá descrever com exactidão uma tempestade quem nunca
+tenha visto alguma? Como poderá descrever com verdade o alvoroço sentido
+pelo marinheiro ao avistar terra, depois da longa e trabalhosa navegação,
+aquelle que nunca saiu do remanso da patria e do conchego da familia?
+
+Mas o nosso Poeta foi n'esse ponto mais feliz que nenhum outro, porque
+navegou e viajou muito, e de si podia dizer o que poz na bôca do Gama:
+
+ Os casos vi, que os rudos marinheiros,
+ Que tem por mestra a longa experiencia,
+ Contam por certos sempre e verdadeiros,
+ Julgando as cousas só pela apparencia;
+ E que os que tem juizos mais inteiros,
+ Que só por puro engenho e por sciencia
+ Vêm do mundo os segredos escondidos,
+ Julgam por falsos ou mal entendidos.
+ (Lus. v, 17.)
+
+Antes, pois, de vermos como o Poeta tratou das cousas do mar, recordemos da
+sua biographia o que diga respeito ás navegações que fez.
+
+Luiz de Camões embarcou pela primeira vez pelos annos de 1546. Este
+primeiro embarque parece ter sido um castigo motivado ou pelos seus
+malfadados amores com D. Catharina d'Athayde ou por qualquer outra causa,
+talvez um duello dos muitos que lhe originava o seu genio ardente e
+cavalheiroso, que lhe valeu dos companheiros e quiçá dos emulos a alcunha
+de Trinca-fortes. Certo é que partiu para Ceuta, e em tão boa ou má hora
+que, logo n'essa viagem, teve um recontro com corsarios barbarescos,
+suppondo-se que foi então que perdeu o olho direito.
+
+Voltou de Africa em 1549 em companhia de D. Affonso de Noronha, que tinha
+sido capitão de Ceuta, e que, chegado a Lisboa, foi nomeado vice-rei da
+India por D. João III. Vinha o Poeta já com tenção de se alistar para a
+India, o que fez com effeito em 1550 na _nau dos Burgalezes_, que pertencia
+á armada em que D. Affonso de Noronha devia seguir viagem. Não partiu,
+porém, n'essa occasião, mas sim tres annos depois, a 24 de março de 1553,
+na armada que levava por capitão-mór Fernão Alvares Cabral. Era tal o seu
+desejo de partir, ou para deixar a patria onde o perseguiam os desgostos,
+ou para ver se melhorava de fortuna e podia realisar as aspirações do seu
+coração, que trocou com outro _homem d'armas_, e embarcou na capitaina, que
+era a nau _S. Bento_.
+
+N'esta viagem experimentou Camões os duros trabalhos do mar, porque a
+armada, poucos dias depois de saír de Lisboa, foi assaltada por um temporal
+que a dispersou. Chegado ás alturas do Cabo pagou o Poeta o tributo devido
+ao Genio d'aquellas paragens, que elle havia de immortalisar. Essa
+tormenta, que elle descreveu na sua elegia III, inspirou-lhe com certeza o
+bello episodio do Adamastor. Não podendo já seguir a viagem pelo canal de
+Moçambique, ou por ter passado a monção ou por causa das correntes
+contrarias, a nau _S. Bento_ fez a derrota por fóra da ilha de Madagascar,
+correndo n'aquelle parallelo até á latitude da India. Finalmente, em
+setembro, chegou o Poeta a Goa, depois de seis mezes de uma viagem, que,
+parcendo-nos hoje aborrecida e longa, não foi comtudo das peores para
+aquelle tempo.
+
+A vida dos militares portuguezes na India era um tecido de continuas
+expedições ora terrestres ora maritimas, predominando comtudo estas
+ultimas. Por isso, mez e meio depois de ter o Poeta chegado a Goa, já o
+vemos acompanhar o vice-rei em uma d'essas expedições, que tinha por fim
+soccorrer o rei de Cochim. Ahi teve elle occasião de observar desembarques
+e combates em terra. Logo em seguida a esta viagem ao sul de Goa fez o
+Poeta outra ao norte, embarcando na armada que foi correr a costa
+meridional da Arabia e cruzar no golfo de Aden, a qual era commandada por
+D. Fernando de Menezes, filho do vice-rei. N'esta expedição teve Camões
+desembarques, assaltos de fortalezas, combates navaes, e um cruzeiro
+enfadonho em que muitas vezes contemplou com desgosto a triste aridez do
+Guardafui, até que em setembro de 1554 regressou a Goa.
+
+Dois annos depois, sendo já governador da India Francisco Barreto, foi o
+nosso Poeta para a China, na armada de Francisco Martins, para occupar o
+cargo de provedor dos defuntos e ausentes.
+
+O nosso primeiro estabelecimento na China tinha sido na cidade de Liampó, e
+chegou a tão grande altura de riqueza e prosperidade commercial, como se
+póde ver das descripções que Fernão Mendes Pinto faz das festas com que ali
+foi recebido o famigerado Antonio de Faria. Perdeu-se este estabelecimento
+em 1542, por causa das desordens provocadas pelo negociante Lançarote
+Pereira. Em 1544 conseguiram os portuguezes estabelecer-se em Chincheu, mas
+tambem d'ahi foram expulsos em 1547 por causa das malversações e
+expoliações de Ayres Botelho de Sousa, capitão-mór e prevedor dos defuntos.
+Finalmente, faziam o seu commercio em Lampacau, quando em 1557 obtiveram
+dos chinas o estabelecerem-se na peninsula de Macau, como premio de terem
+expulsado dos seus portos um temivel pirata? É, pois, provavel que o nosso
+Poeta fosse ainda tomar parte n'esse combate, que deu aos portuguezes a
+posse d'aquelle estabelecimento, e a elle a do logar para que ía nomeado.
+
+Querem a maior parte dos escriptores, que tratam da vida de Camões, que a
+ida d'elle para a China fosse degredo imposto por Francisco Barreto, por
+causa da critica acerba que o genio mordaz e independente do Poeta fazia ás
+cousas da India, mas o erudito biographo de Camões e seu editor moderno, a
+quem nos encostamos n'estes apontamentos, defende a memoria do governador,
+e julga que se não deve considerar castigo a nomeação para um logar tão
+rendoso.
+
+Foi o Poeta infeliz em Macau, porque, dois annos depois de chegar, nos
+primeiros mezes de 1558, veiu preso para Goa, á ordem do governador, por
+accusações sobre a sua administração dos bens dos defuntos e ausentes. Quem
+sabe se elle vinha pagar as culpas do seu antecessor Ayres Botelho? Foi
+n'esta viagem de regresso a Goa que elle naufragou na costa de Camboja na
+Cochinchina, salvando-se a nado com o seu poema, e perdendo tudo o mais que
+possuia. A este naufragio allude elle quando diz que o rio Mé-kong
+
+ receberá placido e brando
+ No seu regaço o Canto, que molhado
+ Vem do naufragio triste e miserando,
+ Dos procellosos baixos escapado,
+ Das fomes, dos perigos grandes, quando
+ Será o injusto mando executado
+ Naquelle, cuja lyra sonorosa
+ Será mais afamada do que ditosa.
+ (Lus. X, 128.)
+
+Chegado a Goa, onde já estava o novo vice-rei D. Constantino de Bragança,
+foi o Poeta solto, tendo-se justificado das accusações por que vinha preso.
+Desde então até 1567 succederam-se as suas viagens por todo o Oriente, e é
+provavel que acompanhasse D. Diogo de Menezes a Malacca e d'ahi fosse
+percorrer as Molucas e chegasse mesmo ao Japão.
+
+Voltou a Goa pelo meiado de 1567, e foi agraciado pelo vice-rei D. Antão de
+Noronha com a sobrevivencia no cargo de feitor de Chaúl, logar de
+representação e bom ordenado. Não chegou, porém, o Poeta a tomar posse
+d'elle, porque, cansado de perseguições e soffrimentos, aproveitou o
+offerecimento de passagem que lhe fez Pedro Barreto, o qual ía por
+capitão-mór para Moçambique, e com elle deixou Goa em 1567, fazendo assim a
+sua ultima viagem no oceano Indico. Em Moçambique esteve cerca de dois
+annos, e foi ahi que terminou e aperfeiçoou o seu poema, feito quasi todo
+já durante o tempo em que elle esteve em Macau, já durante as suas viagens
+e expedições, pois diz elle dirigindo-se ás Nymphas do Tejo e do Mondego:
+
+ Olhae que ha tanto tempo que _cantando_
+ O vosso Tejo e os vossos Lusitanos
+ A fortuna me traz perigrinando,
+ Novos trabalhos vendo e novos damnos,
+ Agora o mar, agora exp'rimentando
+ Os _perigos mavorcios_ inhumanos;
+ Qual Canace, que á morte se condena,
+ _N'uma mão sempre a espada e n'outra a penna._
+ (Lus. VII, 79.)
+
+Finalmente, em 1569, arribou a Moçambique a armada que regressava ao reino,
+e na qual íam os amigos do Poeta, os quaes, tendo pago as suas dividas, o
+trouxeram a Portugal na nau _Santa Clara_, «nau a mais rica, diz o sr.
+visconde de Juromenha, que tinha vindo de carreira da India, pois trazia a
+seu bordo Luiz de Camões e Diogo do Couto.»
+
+Fundeou a nau na bahia de Cascaes em abril de 1570, e assim terminaram as
+longas perigrinações do Poeta.
+
+Dez annos depois, a 10 de junho de 1580, morria Luiz de Camões, pobre e
+desamparado, e «vereis todos, escrevia elle pouco antes de deixar o mundo,
+que fui tão affeiçoado á minha patria, que não sómente me contentei de
+morrer n'ella, mas de morrer com ella!»
+
+
+
+
+III
+
+
+Temos visto como Luiz de Camões percorreu em repetidas viagens o Oceano
+Atlantico e o Indico, o mar da China e os Estreitos. Para vermos como a sua
+intelligencia superior aproveitou este longo tirocinio, appropriando-se e,
+por assim dizer, assimilando-se tudo quanto observára, phenomenos do mar,
+costumes dos marinheiros, sciencia de navegação, etc., basta abrir o seu
+immortal poema, porque ahi, sempre que elle tem de se referir ás cousas do
+mar, fal-o com a maxima propriedade, com toda a verdade de descripção.
+
+Respiguemos, pois, n'essa vasta campina de tantas flores e fructos.
+
+A vida do marinheiro tem tormentos e prazeres desconhecidos aos homens de
+terra. A lucta constante com os elementos torna-o _rudo_, epitheto que o
+Poeta a miude lhe dá. A monotonia dos longos dias em que se não vê _mais
+que mar e céu_ (Lus. V, 3), faz com que elle procure abreviar o tempo com
+historias e contos, torna-o investigador curioso das cousas novas que vae
+vendo. A saudade da patria faz-lhe alvoroçar o coração com a lembrança
+d'ella, e é por isso que elle procura ser o primeiro a dar o alegre brado
+de--«Terra á vista!»--brado que faz esquecer todos os trabalhos e males
+passados.
+
+Tudo isto observou Camões.
+
+Deixa o marinheiro a patria e despede-se dos parentes e amigos, que o vão
+acompanhar ao embarque, não fallando nos curiosos que não perdem o
+imponente espectaculo que offerece um navio ao fazer-se de véla. Concorre
+pois, muita gente,
+
+ Uns por amigos, outros por parentes,
+ Outros por ver sómente,
+ Saudosos na vista e descontentes.
+ (Lus. IV, 88.)
+
+Os que deixam a patria vão
+
+ Para os bateis caminhando.
+ (Lus., ibidem.)
+
+Não o fazem a olhos enxutos; as lamentações dos que os acompanham redobram
+de intensidade á medida que se aproxima a hora fatal; a extrema afflicção
+faz perder a esperança do regresso; lamentam-se todos,
+
+ As mulheres c'um choro piedoso,
+ Os homens com suspiros que arrancavam;
+ Mães, esposas, irmãs, que o temeroso
+ Amor mais desconfia, acrescentavam
+ A desperação e frio medo
+ De já nos não tornar a ver tão cedo
+ (Lus. IV, 89.)
+
+É doloroso aquelle transe, mas o dever e a necessidade fazem calar a voz do
+coração. Para evitar mais lagrimas esconde-se a hora exacta da partida, e
+embarcam-se
+
+ Sem o despedimento costumado.
+ (Lus. IV, 93.)
+
+E partem, ficando-lhes,
+
+ na amada terra
+ O coração, que as maguas lá deixavam,
+ (Lus. V, 3.)
+
+Dura ha muitos dias a viagem. O vento é de feição, o mar plano, os
+horisontes claros e extensos. Navega-se de escota folgada. O commandante,
+
+ já cansado
+ De vigiar a noite,
+ Breve repouso aos olhos dava.
+ (Lus. II, 60.)
+
+Dá meia noite, rendem-se os quartos,
+
+ Os do quarto da prima se deitavam,
+ Para o segundo os outros despertavam
+ (Lus. VI, 38.)
+
+Como é desagradavel deixar o conchego da maca ou do beliche, quando
+estavamos no melhor do somno, quando talvez a imaginação nos tinha
+transportado á patria _em dôces sonhos que mentiam_, para ir fazer um
+quarto em cima da tolda, aguentando o aspero frio da noite! Por isso os
+pobres marinheiros
+
+ Vencidos vem do somno, e mal despertos,
+ Bocejando a miude, se encostavam
+ Pelas antenas, todos mal cobertos
+ Contra os agudos ares que assopravam;
+ Os olhos contra seu querer abertos,
+ Mas esfregando, os membros estiravam.
+ (Lus. VI, 39.)
+
+Não ha manobras a fazer, não ha cousa alguma que distráia, porque, com
+tempo tão excellente, só é preciso estar álerta. Como se hão de passar
+aquellas quatro horas e afugentar o somno teimoso?
+
+ Remedios contra o somno buscar querem,
+ Historias contam, casos mil referem,
+ (Lus., ibidem.)
+
+E ahi começa o orador, o _beau-diseur_ da companhia, a contar uma historia
+interessante, que entretem a todos e faz voar as horas.
+
+Mas nem tudo são rosas durante a viagem; bem pelo contrario, os espinhos
+são em numero muito superior. Aos dias de bom tempo succedem as
+tempestades, que tornam o marinheiro
+
+ Confuso de temor, da vida incerto
+ (Lus. VI, 80.)
+
+e durante os quaes elle muitas vezes
+
+ Chama aquelle remedio santo e forte
+ Que o impossivel póde;
+ (Lus., ibidem.)
+
+
+ chama
+ Aquelle que a salvar o mundo veio
+ (Lus. VI, 75.)
+
+A navegação demorada e aborrecida tem exacerbado as saudades e irritado os
+animos; já se não juntam os grupos pelas amuradas a contar historias.
+Escaceia a aguada, a bolacha está avariada, azedou o vinho; vae-se a meia
+ração e a menos; aproxima-se o terrivel espectro das viagens prolongadas, o
+escorbuto. Assim vivem por muito tempo os marinheiros _coitados e
+perdidos_,
+
+ De fomes, de tormentas quebrantados
+ E do esperar comprido tão cansados,
+ Quanto a desesperar já compellidos;
+ Corrupto já e damnado o mantimento
+ Damnoso e mau ao fraco corpo humano,
+ E alem d'isso nenhum contentamento,
+ Que sequer da esperança fosse engano.
+ (Lus. V, 70, 71.)
+
+A tudo se resigna o marinheiro e vae
+
+ Soffrendo tempestades e ondas cruas,
+ Vencendo os torpes frios no regaço
+ Do sul e regiões de abrigo nuas,
+ Engolindo o corrupto mantimento
+ Temperado c'um arduo soffrimento
+ (Lus. VI, 97.)
+
+E peor é ainda quando chega a terrivel doença, _crua e feia_, de que já
+fallámos, com a qual
+
+ Tão disformemente ali lhe incharam
+ As gengivas na bôca, que crescia
+ A carne e juntamente apodrecia
+ c'hum fetido e bruto
+ Cheiro que o ar visinho inficionava
+ (Lus. V, 81, 82.)
+
+Assim se passam as semanas e os mezes. Anceia o marinheiro por pôr termo a
+uma navegação já aborrecida, por ter algum descanço n'aquelle lidar diario.
+Suspeita-se que está proxima a terra; porfia-se em qual será o primeiro que
+a veja; algum mais desejoso de ganhar as alviçaras sobe á _celsa_ gavea, e
+percorrendo o mar com a vista, enxerga
+
+ Terra alta pela prôa
+ (Lus. VI, 92.)
+
+e logo
+
+ «Terra, terra!» brada
+ (Lus. V, 24.)
+
+Quem ha que fique indifferente a este brado? Os mais occupados largam tudo
+por mão, os que dormem levantam-se estremunhados dos catres, e
+
+ Salta no bordo alvoroçada a gente
+ Co'os olhos no horisonte,
+ (Lus., ibidem.)
+
+devorando com elles as fórmas ainda mal distinctas da terra, e começando
+
+ Á maneira de nuvens
+ A descobrir os montes.
+ (Lus. V, 25.)
+
+Deu-se fundo. Acabaram os trabalhos e perigos, e quasi já esqueceram. Tudo
+é curiosidade dos marinheiros em observar as pessoas que de terra vem a
+bordo;
+
+ A gente se alvoroça; e de alegria
+ Não sabe mais que olhar a causa d'ella.
+ (Lus. I, 45.)
+
+Como não podem chegar-se e interrogar esses individuos, porque elles estão
+conversando com o commandante, contentam-se com espreital-os, e por isso
+
+ Está a gente maritima
+ Subida pela enxarcia.
+ (Lus. I, 62.)
+
+Por fim a curiosidade vence o respeito, e elles vão-se chegando pouco a
+pouco para ouvir as novidades;
+
+ A gente se ajunta a ouvir.
+ (Lus. VII, 29.)
+
+Chega depois a noite; são horas de descançar e dormir pela primeira vez com
+socego. Mas o marinheiro esquece-se d'isso para, ou a sós comsigo, ou dando
+largas á sua loquacidade, fazer commentarios sobre o que viu e ouviu;
+
+ Qualquer então comsigo cuida e nota
+ Na gente e na maneira desusada.
+ (Lus. I, 57.)
+
+Não escapou a Camões a qualidade ou defeito caracteristico do marinheiro
+portuguez, principalmente do algarvio, sempre fallador e gritador. Ainda
+hoje, com a disciplina moderna, é facil conseguir do marinheiro que elle
+faça tudo, que soffra as maiores privações, que arroste os maiores perigos;
+mas é difficilimo conseguir que elle esteja calado. Ha sobretudo certas
+manobras em que é quasi impossivel obter um silencio completo, e no tempo
+das descobertas, diz-nos o Poeta que os marinheiros suspendiam
+
+ as ancoras
+ Com a nautica _grita costumada_,
+ (Lus. II, 18.)
+
+e largavam
+
+ A véla, que _com grita_ se soltava.
+ (Lus. IX, 11.)
+
+E em outro logar ainda diz-nos que
+
+ A _celeuma medonha_ se alevanta
+ No rudo marinheiro que trabalha.
+ (Lus. II, 25.)
+
+Mas, se é inconveniente a gritaria dos marinheiros, bem pelo contrario é
+necessario que o official que commanda a manobra tenha voz sonora e
+vibrante, que domine o ruido do temporal e incuta coragem nos subordinados.
+Por isso nos Lusiadas, quando ruge a tempestade e é preciso que _não falte
+accordo_, o mestre dá as vozes do commando _rijamente_ e _a grandes brados_
+(Lus. VI, 71, 72.)
+
+Quando o seu navio fundeou no porto, começam para o homem do mar dias mais
+alegres e socegados que os passados na viagem. É então que elle se esquece
+da vida que levou durante tanto tempo e vae a terra,
+
+ Que não ha nenhum d'elles que não sáia,
+ (Lus. IX, 66.)
+
+como gente que é
+
+ De ver cousas estranhas desejosa
+ Da terra.
+ (Lus. V, 26.)
+
+Ahi encontra sempre divertimentos, e quando os não encontra, improvisa-os.
+Outras vezes recebe elle a bordo as pessoas de terra, e faz-lhes as honras
+da sua morada com a satisfação e liberalidade que o caracterisa.
+
+As festas de bordo fazem-se sempre _com a prata da casa_, e comtudo é por
+extremo agradavel a vista que offerece um navio preparado para celebrar
+qualquer data memoravel, ou para festejar a visita de um personagem.
+Galhardetes e bandeiras com as côres symetricamente dispostas adornam os
+mastros; outros forram os toldos e formam sanefas pelas amuradas; lustres e
+troféus feitos com armas e instrumentos nauticos transformam a tolda do
+navio em salão de baile elegantemente adornado; os proprios pandeiros de
+cabos colhidos com arte desenham no nitido convez florões e iniciaes, ou
+servem de divans aos convidados. Os altos personagens são recebidos com
+marchas tocadas pelas cornetas e tambores, com musicas executadas pelas
+charangas, com revista da guarnição a postos de combate, com salvas de
+artilheria. De noite illumina-se o mar com foguetes e tigellinhas. De tudo
+isto fallou Camões.
+
+ Começa a embandeirar-se toda a armada,
+ E de toldos alegres se adornou
+ Por receber com festas e alegria;
+ (Lus. I, 39.)
+
+ Sonorosas trombetas incitavam
+ Os animos alegres, resoando;
+ (Lus. II, 100.)
+
+ Outros
+ Instrumentos altinosos tangiam.
+ (Lus. II, 90.)
+
+ Vem arnezes, e peitos reluzentes,
+ Malhas finas e laminas seguras,
+ Escudos de pinturas differentes,
+ Pelouros e espingardas de aço puras,
+ Arcos e sagittiferas aljavas,
+ Partazanas agudas, chuças bravas;
+ As bombas vem de fogo e juntamente
+ As panellas sulphuras tão damnosas.
+ (Lus. I, 67, 68.)
+
+ Não faltam ali os raios de artificio
+ Os tremulos cometas imitando;
+ Fazem os bombardeiros seu officio,
+ O céu, a terra, e as ondas atroando
+ (Lus. XI, 90.)
+
+Ás salvas de bordo _agradecem_ as fortalezas de terra, salvando tambem:
+
+ Respondem-lhe de terra juntamente
+ Co'o raio volteando com zonido;
+ (Lus. II, 91.)
+
+e o canhão faz ouvir tanto e tão repetidas vezes a sua voz atroadora que as
+festas e cumprimentos entre gente maritima são sempre
+
+ Á maneira de peleja.
+ (Lus., ibidem.)
+
+Veja-se agora se n'este assumpto, aliás secundario, esqueceu ao Poeta
+alguma circumstancia notavel!
+
+
+
+
+IV
+
+
+Se dos costumes dos homens do mar passamos aos trabalhos manuaes, que
+constituem a parte pratica da sua arte, vamos encontrar nos Lusiadas
+descripções e allusões a quasi todas as fainas e manobras tão variadas, que
+são necessarias para fazer servir essa complicada machina que se chama
+_navio_.
+
+É imponente o espectaculo que offerece a tolda de um navio em faina geral
+de fazer-se de véla. Por mais numerosa que seja a guarnição, todos tem o
+seu posto detalhado e todos tem que fazer. Descreve Camões essa faina da
+maneira seguinte:
+
+ Já nas naus os bons trabalhadores
+ Volvem o cabrestante, e repartidos
+ Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,
+ Outros quebram co'o peito a dura barra,
+ Outros pendem da verga e já desatam
+ A véla.
+ (Lus. IX, 10, 11.)
+
+Está o ferro a _pique_, redobram os esforços dos marinheiros para o
+suspender;
+
+ As ancoras tenaces vão levando,
+ (Lus. II, 18.)
+
+e ao mesmo tempo
+
+ Da proa as vélas _sós_ ao vento dado,
+ (Lus., ibidem.)
+
+obrigam o navio a _fazer cabeça_, e eil-o que vae em demanda da barra.
+
+Nos versos que acabamos de citar estão compendiadas todas as manobras
+necessarias para um navio se fazer de véla. Não o faria melhor o Bonnefoux
+ou o Bréart!
+
+Na descripção da tempestade do canto VI, encontram-se todas as manobras de
+que se lança mão debaixo de tempo. O mestre, que presente o golpe de vento,
+_apita á gente_ e manda _carregar e ferrar joanetes_,
+
+ Os traquetes das gaveas tomar manda,
+ (Lus. VI, 70)
+
+Mal estão carregados os joanetes, já o vento está a contas com o navio.
+_Carrega a véla grande!_
+
+ «Amaina a grande véla!»
+ (Lus. VI, 71.)
+
+Não se carregou a maior a tempo, por isso ella se rasgou, e o navio, dando
+a borda de sotavento, metteu dentro uns poucos de _mares_;
+
+ No romper da véla a nau pendente
+ Toma grão somma d'agua pelo bordo.
+ (Lus. VI, 72.)
+
+É preciso allivial-o, quanto seja possivel, dos pesos, e esgotar a agua.
+Por isso o mestre ordena:
+
+ «Alija tudo ao mar,
+ Vão outros dar á bomba, não cessando!»
+ (Lus., ibidem.)
+
+e não se esquece de reforçar a _gente do governo_, pondo ao leme
+
+ Tres marinheiros duros e forçosos,
+ (Lus. VI, 73.)
+
+passando-lhe ainda para mais segurança
+
+ Talhas d'uma e d'outra parte.
+ (Lus., ibidem.)
+
+Chega o navio a um porto pouco conhecido. Ao _investir_ a barra depara-se
+com uma pedra á flor d'agua. É necessario _safar_ d'ella e quanto antes.
+Aqui é inevitavel alguma confusão; não se sabe para que lado será melhor
+_guinar_, e por isso os marinheiros
+
+ Maream vélas, ferve a gente irada
+ O leme a um bordo e a outro atravessando;
+ O mestre da poppa brada.
+ (Lus. II, 24.)
+
+Com similhante contratempo é melhor não commetter a barra e _fundear em
+franquia_; por isso o commandante
+
+ Não entra pela barra, e surge fóra.
+ (Lus. I, 102.)
+
+Mas depois de reconhecida a barra já se póde tentar a entrada; então
+
+ já as proas se inclinavam
+ Para que amainassem;
+ A gente e marinheiros
+ Tomam vélas; amaina-se a verga alta;
+ Da ancora o mar ferido em cima salta;
+ (Lus. I, 48.)
+
+e por fim
+
+ Pega no fundo a ancora pesada;
+ (Lus. II, 74.)
+
+e aqui temos nós uma descripção completa da faina de fundear.
+
+Surto o navio no porto, nem por isso cessam as suas manobras e fainas. Uma
+das mais importantes consiste na limpeza do costado do navio, que depois de
+uma viagem prolongada se acha coberto de incrustações, molluscos e algas
+marinhas, principalmente nas obras vivas. Quando os navios não eram
+forrados de cobre, como hoje são, esta operação era indispensavel, posto
+que difficultosa, sendo muitas vezes necessario _espalmal-os_, isto é,
+varal-os na praia, e até _viral-os de querena_. Não se esqueceu o Poeta
+d'este serviço maritimo, descrevendo-o assim:
+
+ Aqui de limos, cascas e d'ostrinhos,
+ Nojosa criação das aguas fundas,
+ Alimpamos as naus, que dos caminhos
+ Longos do mar vem sordidas e immundas.
+ (Lus. V, 79.)
+
+É tambem um dos primeiros cuidados nos portos o renovar a aguada, e por
+isso o commandante, logo que póde, determina
+
+ De vir por agua a terra;
+ (Lus. I, 84.)
+
+ E vão a seu prazer fazer aguada.
+ (Lus. I, 93.)
+
+Para este serviço, bem como para todas as communicações com a terra dentro
+dos portos, serve-se a gente do mar dos _bateis_ ou embarcações miudas.
+Estas embarcações são quasi sempre movidas por meio de remos, cuja manobra
+é diversa e variada conforme a maior ou menor pressa e outras
+circumstancias. Assim, quando o commandante vae a terra fazer uma visita
+official, a embarcação que o transporta vae de _voga larga e descançada_, e
+
+ O remo _compassado_ fere frio
+ Agora o mar, depois o fresco rio,
+ (Lus. VII, 43.)
+
+mas quando, por qualquer motivo, é preciso chegar rapidamente, não se póde
+perder tempo com essas elegancias de manobra; _pica-se a voga_ e _aperta-se
+o remo_ (Lus. V, 32), duplicando a força de impulso e fazendo saltar o
+escaler por cima das ondas.
+
+Não esqueceram ao Poeta os combates navaes, em que o marinheiro se torna
+soldado com duplicado valor, pois tem de combater ao mesmo tempo os
+tormentos e o inimigo. Ora é um desembarque:
+
+ Apercebido vae
+ Em tres bateis.
+ (Lus. I, 85.)
+
+ Eis nos bateis o fogo se levanta
+ Na furiosa e dura artilharia;
+ A gente
+ A povoação
+ Esbombardea, accende e desbarata.
+ (Lus. I, 89, 90.)
+
+Ora é um combate entre as embarcações miudas dos dois contendores:
+
+ Huns vão nas almadias carregadas;
+ Hum corta o mar a nado diligente;
+ Quem se afoga nas ondas encurvadas;
+ Quem bebe o mar, e o deita juntamente.
+ Arrombam as miudas bombardadas
+ Os pangaios subtís.
+ (Lus. I, 91)
+
+Ora é finalmente uma verdadeira batalha naval entre duas armadas, quando
+
+ em sangue e resistencia
+ O mar todo com fogo e ferro ferve.
+ (Lus. X, 29.)
+
+Primeiro combatem de longe com a artilharia; segue-se depois a abordagem; e
+o combate decide-se por ultimo á arma branca. Assim o vencedor
+
+ Das grandes naus,
+ co'a ferrea pella
+ Que sahe com trovão do cobre ardente,
+ Fará pedaços leme, mastro, vela;
+ Depois, lançando arpéos ousadamente
+ Na capitaina inimiga, dentro nella
+ Saltando, a fará só com lança e espada
+ De quatro centos despejada.
+ (Lus. X, 28.)
+
+
+
+
+V
+
+
+Mostrámos até aqui como Camões conhecia e comprehendia os homens do mar,
+não lhe escapando nem uma das mais pequenas circumstancias, que tornam o
+seu modo de viver e pensar tão caracterisco e differente do dos homens da
+terra. Mostrámos tambem com que propriedade e conhecimento elle introduziu
+no seu poema a descripção ou antes a viva pintura das manobras e fainas que
+constituem o officio do marinheiro. Vamos agora tentar mostrar como o Poeta
+comprehendeu o theatro em que se passam as scenas tão variadas da vida do
+homem do mar.
+
+O mar, esse elemento imponente e magestoso, que enche de espanto o homem
+que, pela primeira vez, o encara, parecendo á primeira vista tão uniforme e
+tão igual, apresenta mil aspectos diversos, que são outras tantas
+manifestações das forças creadoras que abriga em seu seio. D'essas, a mais
+grandiosa, aquella que irresistivelmente se impõe e subjuga a alma mais
+destemida, é a tempestade. Nem o volcão vomitando fogo e lavas; nem a
+trovoada fusilando raios, atroando com o ribombar do trovão e inundando com
+as catadupas de agua; nem o terramoto abalando os edificios e fazendo
+ondular os montes; nem o kahmsin do deserto enterrando as caravanas com as
+suas nuvens de areia, nada póde rivalisar com uma tempestade maritima. Esta
+reune tudo o que os outros cataclysmos tem de bello e horroroso, e é ainda
+mais sublime e medonha. E são tão variados os espectaculos offerecidos pela
+natureza, que ainda nas tempestades maritimas ha differenças e
+especialidades que as distinguem entre si. Assim o temporal dos Açores não
+se parece com a tempestade do Cabo, como o cyclone do Oceano Indico differe
+do tufão do mar da China. São diversas as causas que as originam, diversas
+as circumstancias meteorologicas com que se manifestam, diversos, se é
+possivel, os horrores que inspiram.
+
+E, comtudo, Camões apanhou essas differenças, conheceu essas circumstancias
+especiaes. Duas são as principaes descripções de tempestades maritimas que
+elle nos offerece no seu poema. A primeira é de um temporal no Cabo da Boa
+Esperança, e constitue o episodio do Adamastor, que não transcreveremos por
+o julgarmos conhecido de todos. A tempestade começa por uma nuvem _temerosa
+e carregada_
+
+ que os ares escurece;
+ (Lus. V, 37.)
+
+e effectivamente uma das circumstancias peculiares das tormentas do Cabo é
+escurecer-se completamente a athmosphera. É tambem notavel a altura que
+attingem as ondas n'essas occasiões, pois nenhum navegador as viu em parte
+alguma maiores ou iguaes. Camões notou esta circumstancia na elegia III,
+onde, descrevendo a sua viagem para a India, diz que
+
+ chegando ao Cabo da Esperança
+ Eis a noute com nuvens se escurece,
+ Do ar _subitamente_ foge o dia
+ E todo o largo Oceano se embravece;
+ Em _serras_ todo o mar se convertia.
+
+Voltando aos _Lusiadas_ observaremos que todo o horror do Cabo da Boa
+Esperança está n'aquella prophecia do Gigante:
+
+ Quantas naus esta viagem
+ Fizerem de atrevidas,
+ Inimiga terão esta paragem
+ Com ventos e tormentas desmedidas.
+ (Lus. V, 43.)
+
+E é assim. Não ha paragem alguma do globo onde as tempestades sejam mais
+frequentes, podendo-se dizer que no Cabo é estado normal o mau tempo, sendo
+excepção a bonança. A tempestade
+
+ c'um medonho choro
+ Subito d'ante os olhos se apartou,
+ Desfez-se a nuvem negra e c'um sonoro
+ Bramido muito longe o mar soou.
+ (Lus. V, 60.)
+
+Aqui se observa como um pesado aguaceiro vem abater as ondas encapelladas,
+ouvindo-se comtudo por muito tempo o surdo rumor que ellas produzem como
+féras, mau grado seu, subjugadas pelo chicote do domador.
+
+Mais desenvolvida é a descripção da tempestade no Indico. N'esse mar é
+conhecida a parte que fica entre a cabeça de Madagascar e as Seychelles
+pelos frequentes cyclones e golpes de vento que a açoutam e tornam perigosa
+a navegação. E, pois, ahi
+
+ Já nos mares da India,
+ (Lus. VI, 6.)
+
+que o Poeta colloca o temporal, o qual começa, como é sabido, por uma
+pequena nuvem que desponta no horisonte, e dentro em pouco, tocada pelo
+vento com vertiginosa velocidade, occupa toda a athmosphera. A
+impetuosidade e o repente do assalto não dão tempo a manobras; muitas vezes
+é necessario _picar os mastros_, se o cyclone se não encarrega d'isso. O
+mar cava-se em ondas desencontradas e altissimas, e os relampagos e
+coriscos vem augmentar o terror. Eis estas scenas successivas da terrivel
+tragedia pintadas pelo mestre:
+
+ O vento cresce
+ D'aquella nuvem negra que apparece.
+ Dá a grande e subita procella.
+ Não esperam os ventos indignados
+ Que amainassem (a véla grande), mas juntos dando n'ella,
+ Em pedaços a fazem.
+ No romper da véla a nau pendente
+ Toma grão somma d'agua pelo bordo.
+ Os balanços, que os mares temerosos
+ Deram á nau, n'um bordo os derribaram (os marinheiros.)
+ Nos altissimos mares, que cresceram,
+ A pequena grandura d'um batel
+ Mostra a possante nau.
+ A nau grande
+ Quebrado leva o mastro pelo meio,
+ Quasi toda alagada.
+ Agora sobre as nuvens os subiam
+ As ondas,
+ Agora a ver parece que desciam
+ As intimas entranhas do profundo.
+ (Lus. VI, 70 a 76.)
+
+
+ Os ventos que lutavam,
+ Como touros indomitos bramando;
+ Mais e mais a tormenta accrescentavam,
+ Pela miuda enxarcia assoviando;
+ Relampagos medonhos não cessavam,
+ Feros trovões.
+ (Lus. VI, 84.)
+
+Mas não são apenas os traços geraes da descripção que reproduzem a exacta
+verdade. Até nas mais pequenas minudencias se mostra rigorosa exactidão. Os
+ventos são
+
+ Noto, Austro, Boreas, Aquilo,
+ (Lus. VI, 76.)
+
+recordando assim a direcção successivamente differente do vento,
+percorrendo todos os quadrantes, como se nota nas tempestades de rotação.
+Os golphinhos ou toninhas, esses graciosos companheiros do navegador
+durante a bonança, desapparecem d'aquelle theatro de desolação, e são
+substituidos pelos maçaricos, as _almas do mestre_, como lhes chama a
+poetica imaginação dos marinheiros, que vem augmentar com os seus pios
+lamentosos a tristeza do espectaculo:
+
+ As Halcyoneas aves o triste canto
+ levantaram,
+ Os delfins namorados entretanto
+ Lá nas covas maritimas entraram,
+ Fugindo á tempestade e ventos duros,
+ Que nem no fundo os deixa estar seguros.
+ (Lus. VI, 77.)
+
+Isto é perfeito, isto é enexcedivel. E comtudo ha mais ainda; ha a
+descripção de outro phenomeno do mar, que, posta em prosa, occuparia o
+logar de honra no melhor tratado de meteorologia. É a das trombas marinhas.
+N'este phenomeno em que _as nuvens do mar sorvem as aguas do Oceano_,
+começa a levantar-se
+
+ No ar um vaporsinho e subtil fumo,
+ E do vento trazido, rodear-se;
+ D'aqui levado um cano ao polo summo
+ Se via, tão delgado que enxergar-se
+ Dos olhos facilmente não podia;
+ Da materia das nuvens parecia.
+ Hia-se pouco a pouco accrescentando
+ E mais que um largo mastro se engrossava;
+ Aqui se estreita, aqui se alarga, quando
+ Os golpes grandes de agua em si chupava;
+ Estava-se co'as ondas ondeando;
+ Em cima d'elle uma nuvem se espessava,
+ Fazendo-se maior, mais carregada,
+ Co'o cargo grande d'agua em si tomada,
+ Qual roxa sanguesuga
+ se enche e a alarga grandemente,
+ Tal a grande columna, enchendo, augmenta,
+ A si e a nuvem negra que sustenta.
+ Mas, depois que de todo se fartou,
+ O pé que tem no mar a si recolhe,
+ E pelo céu chovendo em fim vôou;
+ Ás ondas torna as ondas que tomou,
+ Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.
+ (Lus. V, 19 a 22.)
+
+Quem escreveu isto? Foi Bravais? Foi Fitz-Roy? Não; foi Luiz de Camões.
+
+Camões tudo vê, de tudo falla. Ao fogo santelmo chama
+
+ lume vivo,
+ Que a maritima gente tem por santa,
+ Em tempo de tormenta e vento esquivo,
+ De tempestade escura,
+ (Lus. V, 18.)
+
+Tambem falla nas correntes maritimas, cujas leis eram pouco conhecidas dos
+primeiros navegadores, causando-lhes muitos embaraços. Ainda hoje no canal
+de Moçambique se não póde contar com a corrente, ou antes deve-se esperar
+que ella seja sempre contraria, porque, _como no mar tudo são mudanças_,
+tão depressa correm as aguas ao norte como no dia seguinte correm ao sul, e
+com tal velocidade que vencem muitas vezes a força do vento regular. É,
+pois, a corrente, como descreve o Poeta
+
+ tão possante
+ Que passar não deixava por diante;
+ Era maior a força em demasia,
+ Segundo para traz nos obrigava,
+ Do mar, que contra nós ali corria,
+ Que por nós a do vento que assoprava.
+ (Lus. V, 66, 67.)
+
+Superior á meteorologia é a sciencia astronomica, de todas a mais
+necessaria ao homem do mar. É ella que lhe ensina a conhecer onde está, a
+que parte do vasto Oceano o levaram os ventos e correntes; é ella que lhe
+mostra o caminho a seguir no meio da vasta solidão. Estava esta sciencia
+bastante atrasada no tempo do Poeta, pois que reinava ainda o errado
+systema de Ptolomeu. Mas este systema é por elle descripto tão exactamente,
+que um abalisado professor contemporaneo, ao ter de explical-o nas suas
+lições de cosmographia, nunca deixava de citar a descripção de Camões.
+Ptolomeu, fazendo da terra centro immovel de todo o universo, collocava a
+lua, o sol, os planetas e as estrellas em outras tantas espheras
+concentricas a ella, e que, sobre um eixo que passava pelos seus polos,
+giravam com velocidades diversas. Todas estas espheras eram envolvidas por
+uma ultima, o Empyreo, alem do qual estava o Ser Infinito, pois
+
+ Quem cerca em derredor este rotundo
+ Globo e sua superficie tão limada,
+ He Deus.
+ (Lus. X, 80.)
+
+Começando, pois, a enumerar as superficies concentricas, cujo conjuncto
+fórma o systema, diz Camões:
+
+ Este orbe, que primeiro vae cercando
+ Os outros mais pequenos, que em si tem,
+ Que está com luz tão clara radiando,
+ Que a vista cega e a mente vil tambem,
+ Empyreo se nomea.
+ (Lus. X, 81.)
+
+Segue-se o primeiro mobil:
+
+ Debaixo d'este circulo,
+ que não anda,
+ Outro corre tão leve e tão ligeiro
+ Que não se enxerga: he o mobile primeiro.
+ (Lus. X, 85.)
+
+Vem depois os dois crystalinos e logo o céu das fixas, entre as quaes o
+Poeta não se esqueceu de nomear as doze constellações zodiacaes bem como as
+outras mais notaveis do firmamento:
+
+ Est'outro debaixo esmaltado
+ De corpos lisos anda e radiantes,
+ Que tambem n'elle tem curso ordenado
+ E nos seus axes correm scintillantes;
+ se veste e faz ornado
+ Co'o largo cinto d'ouro, que estellantes
+ Animaes doze traz affigurados,
+ Aposentos de Phebo limitados.
+ Por outras partes a pintura
+ as estrellas fulgentes vão fazendo:
+ A Carreta, a Cynosura,
+ Andromeda e seu pae, e o Drago,
+ Cassiopea, Orionte, o Cysne,
+ A Lebre, os Cães, a Nau e a Lyra.
+ (Lus. X, 87, 88.)
+
+Seguem-se por sua ordem os céus dos sete planetas então conhecidos,
+contando n'esse numero o Sol:
+
+ Debaixo d'este grande firmamento
+ o céo de Saturno;
+ Jupiter faz logo o movimento,
+ E Marte abaixo;
+ O claro olho do céo no quarto assento;
+ E Venus;
+ Mercurio;
+ Com tres rostos debaixo vae Diana.
+ (Lus. X, 89.)
+
+Em seguida á Lua vem finalmente os quatro elementos:
+
+ o _fogo_ e o _ar_, o vento e a neve
+ Os quaes jazem mais a dentro,
+ E tem co'o _mar_ a _terra_ por assento.
+ (Lus. X, 90.)
+
+Alem d'esta descripção, que é completa, ha por todo o poema allusões ao
+firmamento e aos seus brilhantes luzeiros, espectaculo maravilhoso e divino
+em que se enlevam os olhos do marinheiro durante as longas horas da noite.
+Citaremos apenas a allusão ao Cruzeiro do Sul:
+
+ Lá no novo hemispherio nova estrella,
+ Não vista de outra gente, que ignorante
+ Alguns tempos esteve incerta d'ella;
+ (Lus. V, 14.)
+
+á qual se segue logo a allusão áquella parte do firmamento perto do polo
+sul, onde as estrellas são mais raras, e que os astronomos modernos chamam
+o _Sacco de carvão_:
+
+ a parte menos rutilante,
+ E por falta d'estrellas menos bella,
+ Do polo fixo.
+ (Lus., ibidem.)
+
+Para acabarmos com a astronomia de Camões diremos ainda que nem sequer se
+esqueceu elle de fallar da _nautica_, parte pratica ou applicação d'aquella
+sciencia á navegação, a qual mais directamente ensina o marinheiro a _ver
+em que parte está_ (Lus. V, 26), isto é, a _pôr o ponto na carta_, pois que
+nos falla do
+
+ novo instrumento do Astrolabio
+ Invenção de subtil juizo e sabio;
+ (Lus. V, 25.)
+
+que servia, como hoje o sextante, para
+
+ tomar do Sol a altura.
+ (Lus. V, 26.)
+
+
+
+
+VI
+
+
+Está já cançada a penna de fazer transcripções, é tempo de pôr termo a este
+trabalho, e ainda não temos percorrido toda a escala de variadissimos tons
+com que Luiz de Camões teceu a sua harmoniosissima composição sobre as
+cousas do mar. Fallaremos ainda, antes de terminar, da Geographia, sciencia
+que o Poeta possuiu em subido grau, e que, como a astronomia e a
+meteorologia, é tambem essencialmente necessaria ao marinheiro.
+
+Os _Lusiadas_ são por si só um completo tratado da sciencia da terra. Não
+ha ponto conhecido no mundo do seculo XVI de que o Poeta não falle,
+assignando a cada um a sua feição geographica caracteristica, a sua
+especialidade ethnographica. Mas as suas descripções tem ainda a
+particularidade de serem essencialmente maritimas. Effectivamente ao
+marinheiro o que mais importa saber, depois da posição dos logares, é a
+fórma com que elles se apresentam vistos do mar, fórma que o marinheiro
+precisa de gravar na memoria para poder distinguir uns dos outros montes,
+cabos, praias ou enseadas aliás muito similhantes. Para isto serve-se
+muitas vezes o navegador da comparação com objectos conhecidos, e foi de
+certo elle quem inventou os nomes de Sombreiro, Barrete de S. Fillippe,
+Bonet de Jockey, Nariz de Nelson, e tantos outros, para designar e reter na
+memoria a fórma de certas saliencias da superficie da terra banhadas pelo
+mar. Ora, nas descripções geographicas de Camões, nota-se que elle procura
+muitas vezes dar o relevo da costa, e que quasi sempre refere a ella a
+descripção dos outros logares notaveis do interior, por modo que as suas
+descripções são preciosissimas para um roteiro e ensinam muitas
+_conhecenças_ do _debuxo da costa_ (Lus. X, 120), conhecimento altamente
+necessario ao navegador. Não se esquece tambem o Poeta de notar qualquer
+circumstancia, cujo conhecimento seja util ao navegante, como os productos
+da terra, a maior ou menor facilidade de se acharem mantimentos, a
+qualidade dos portos, etc.
+
+Não sendo possivel transcrever todos os logares dos _Lusiadas_ que tratam
+de geographia, porque seria preciso copiar dezenas e dezenas de estancias,
+citaremos apenas alguns poucos exemplos, e seja o primeiro a descripção da
+Europa:
+
+ Entre a zona que o Cancro senhorea,
+ Meta septentrional do Sol luzente,
+ E aquella que por fria se arrecea
+ Tanto, como a do meio por ardente,
+ Jaz a soberba Europa, a quem rodea,
+ Pela parte do Arcturo e do Occidente,
+ Com suas salsas ondas o Oceano,
+ E pela Austral o mar Mediterrano.
+ Da parte donde o dia vem nascendo
+ Com Azia se avisinha; mas o rio,
+ Que dos montes Rhipheios vae correndo
+ Na alagoa Meotis, curvo e frio,
+ As divide, e o mar, que fero e horrendo
+ Viu dos Gregos o irado senhorio,
+ Onde agora de Troia triumphante
+ Não vê mais que a memoria o navegante.
+ Lá onde mais debaixo está do polo,
+ Os montes Hyperboreos apparecem,
+ E aquelles onde sempre sopra Eolo,
+ E co'o nome dos ventos se enobrecem;
+ Aqui tão pouca força tem de Apollo
+ Os raios, que no mundo resplandecem,
+ Que a neve está continuo pelos montes,
+ Gelado o mar, geladas sempre as fontes.
+ (Lus. III, 6, 7 e 8.)
+
+A esta descripção geral da Europa segue-se a especial dos seus paizes. Como
+não as podemos descrever todas, lembraremos a da Italia:
+
+ Da terra um braço vem ao mar, que cheio
+ De esforço, nações varias sujeitou,
+ Braço forte de gente sublimada
+ Não menos nos engenhos que na espada;
+ (Lus. III, 14.)
+
+a de Hespanha:
+
+ Eis aqui a nobre Hespanha,
+ Como cabeça da Europa toda;
+ Com Tingintina entesta, e ali parece
+ Que quer fechar o mar Mediterrano,
+ Onde o sabido Estreito se enobrece
+ Co'o extremo trabalho do Thebano;
+ Com nações differentes se engrandece
+ Cercadas com as ondas do Oceano;
+ (Lus. III, 17, 18.)
+
+e a de Portugal:
+
+ Eis aqui, quasi cume da cabeça
+ Da Europa toda, o reino Lusitano,
+ Onde a terra acaba e o mar começa
+ E onde Phebo repousa no Oceano.
+ (Lus. III, 20.)
+
+Veja-se como em duas palavras se demonstra a importancia do porto de
+Moçambique:
+
+ Esta ilha pequena
+ He em toda esta terra certa escala
+ De todos os que as ondas navegamos
+ De Quiloa, de Mombaça e de Sofala;
+ E por ser necessaria procuramos,
+ Como proprios da terra, de habital-a;
+ (Lus. I, 54.)
+
+e como com outras duas se descreve a ilha de Mombaça:
+
+ Estava a ilha á terra tão chegada
+ Que um estreito pequeno a dividia;
+ Uma cidade n'ella situada,
+ Que na frente do mar apparecia,
+ Como _por fora ao longe_ descobria,
+ Regida por um Rei de antiga idade;
+ Mombaça é o nome da ilha e da cidade.
+ (Lus. I, 103.)
+
+A grande peninsula indostanica, esse theatro de tantas glorias nossas, é
+pintada assim:
+
+ Alem do Indo jaz, e aquem do Gange,
+ Um terreno mui grande e assaz famoso,
+ Que pela parte austral o mar abrange
+ E para o Norte o Emodio cavernoso;
+ Jugo de Reis diversos o constrange
+ A varias leis; alguns o vicioso
+ Mafoma, alguns os idolos adoram,
+ Alguns os animaes, que entre elles moram.
+ Lá bem no grande monte, que, cortando
+ Tão longa terra, toda Azia discorre,
+ Que nomes tão diversos vae tomando,
+ Segundo as regiões por onde corre,
+ As fontes sahem, donde vem manando
+ Os rios, cuja grão corrente morre
+ No mar Indico, e cercam todo o peso
+ Do terreno, fazendo-o Chersoneso.
+ Entre um e outro rio, em grande espaço,
+ Sae da larga terra uma longa ponta,
+ Quasi pyramidal, que no regaço
+ Do mar com Ceilão insula defronta.
+ (Lus. VII, 17, 18 e 19.)
+
+Nomea depois o Poeta as principaes nações indianas, e não lhe escapa
+lembrar a serra dos Gates, que é uma boa _marca_ por ser visivel de muitas
+leguas ao mar:
+
+ Aqui se enxerga, _lá do mar undoso_,
+ Um monte alto, que corre longamente,
+ Servindo ao Malabar de forte muro
+ Com que do Canará vive seguro;
+ Da terrra os naturaes lhe chamam Gate.
+ (Lus. VII, 21, 22.)
+
+E ao passar pelos seus portos não se esquece de notar o phenomeno a que os
+modernos geographos francezes dão o nome de _raz-de-marée_, que em alguns
+d'elles se observa, principalmente em Madrasta:
+
+ Do mar a enchente _subita grandissima_,
+ E a vasante que foge _apressurada_.
+ (Lus. X, 106.)
+
+Fallando de Aden, lembra o Poeta a circumstancia bem conhecida de nunca lá
+chover:
+
+ a secca Adem,
+ pedra viva,
+ Onde chuva dos céus se não deriva.
+ (Lus. X, 99.)
+
+E estas duas palavras--_pedra viva_--são por si só uma completa descripção
+d'aquelle arido rochedo, onde já correu muito sangue portuguez.
+
+A Ieddah attribue Camões toda a importancia que esse porto tem por ser a
+unica communicação para os peregrinos que, por mar, vão a Mecca:
+
+ Lá no seio Erythreo
+ Não longe o porto jaz da nomeada
+ Cidade Meca;
+ Gidá se chama o porto aonde o trato
+ De todo o Roxo mar mais florecia.
+ (Lus. IX, 2, 3.)
+
+Mas a descripção verdadeiramente magnifica, arrebatadora, é a que abrange
+todas as descobertas e conquistas na Africa, Asia, Oceania e America.
+Aquellas cincoenta estancias do canto X (91 a 141) com as que no canto V
+contem a _derrota_ de Vasco da Gama desde Lisboa até Melinde, são um
+compendio de geographia das descobertas até ao seculo XVI. Ao lel-as
+parece-nos que se repete para nós a magica visão que Tethys offerecia na
+ilha dos Amores aos olhos surpresos do afortunado descobridor da India;
+parece-nos que vemos desenrolar-se a nossos olhos o mappa immenso de tantas
+ilhas, portos, montanhas, rios e promontorios; parece-nos que se agitam
+diante do nós tantos centenares de povos e nações, com os seus usos tão
+oppostos, com os seus trajos ora tão singelos ora tão complicados e
+custosos, com a riqueza de suas minas ou de suas industrias, com a sua
+historia tão cheia de contrastes. E um espectaculo deslumbrante, unico, que
+obriga o mais fervente admirador dos genios modernos a render-se á
+superioridade evidente de Camões; porque Camões, e só elle, poude, sem ser
+monotono nem faltar á mais escrupulosa verdade, fazer de uma longa
+enumeração de terras e mares uma formosissima galeria das mais variadas
+paisagens e marinhas; porque só elle soube ser successivamente Claude
+Lorrain e Vernet, ficando ainda superior a estes e a todos os pintores,
+ficando sempre o grande, o incomparavel, o divino marinheiro LUIZ DE
+CAMÕES!
+
+
+
+
+VII
+
+
+ No mais, musa, no mais, que a lyra tenho
+ Destemperada e a voz enrouquecida,
+ E não do canto, mas de ver que venho
+ Cantar a gente surda e endurecida.
+ (Lus. X, 145.)
+
+Perdoe-se ao pigmeu a ousadia de applicar a si as palavras do gigante. Mas,
+na verdade, para que serve continuar? Se houvessemos de citar todos os
+logares em que Luiz de Camões se mostrou eximio pintor da natureza, e
+principalmente da natureza maritima, teriamos de copiar quasi todo o seu
+poema. Cremos, porém, que o que fica transcripto é sufficiente para
+demonstrar a nossa asserção, de que o Poeta foi um marinheiro tocado da
+divina scentelha da inspiração, que lhe fez ver os grandiosos espectaculos
+da natureza taes como elles se manifestam.
+
+E, comtudo, de que serve esta demonstração? Que póde ella fazer em prol do
+melhoramento do actual gosto litterario?
+
+Nada.
+
+Acontece com a historia das litteraturas como com a das nacionalidades.
+Quando o espirito de uma nação está decaído, quando faltam os nobres
+impulsos que a impelliram no seu progresso ascendente, quando está morto o
+patriotismo que centuplica as forças do individuo, quando o egoismo tórpe
+substituiu a abnegação e o amor da patria, é então que se recordam os
+tempos de gloria e se levantam monumentos aos heroes que já não é possivel
+imitar; são os vãos lamentos dos filhos de Israel captivos em Babylonia,
+suspirando pela liberdade de Sião, que tão mal souberam defender.
+
+E assim com as litteraturas. Quando passaram, para nunca mais voltar, os
+seus tempos de explendorosa florescencia, vem os commentadores estudar as
+obras primas, mas não apparece um só que os imite. Onde estão hoje as
+pennas que escreveram os _Lusiadas_ e as _Decadas_? E, deixando esses
+monumentos, que são como que as estrellas de primeira grandeza de um
+firmamento de eterno brilho, onde estão os successores de Diniz, de Bocage,
+de Garção, de Alexandre Herculano, de Rebello da Silva, de José Estevão, de
+Garrett, de Castilho? Transformaram-se os lagos cristalinos em charcos
+nauseabundos, as campinas viridentes em aridos pragaes; calaram-se os
+trinados dos rouxinoes, só se ouve o coaxar das rãs; e a consciencia
+publica, festejando o tri-centenario da morte de Luiz de Camões, manifesta
+em doloroso grito o arrependimento que sente por se ter deixado resvalar no
+plano inclinado do mau gosto, e marca na historia da litteratura portugueza
+o periodo da ultima decadencia.
+
+
+FIM
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Luiz de Camões marinheiro, by
+Vicente de Almeida de Eça
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIZ DE CAMÕES MARINHEIRO ***
+
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+works. See paragraph 1.E below.
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+ of receipt of the work.
+
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+
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+electronic work or group of works on different terms than are set
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
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+Literary Archive Foundation
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+ <title>Luiz de Camões Marinheiro: estudo</title>
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+Project Gutenberg's Luiz de Camões marinheiro, by Vicente de Almeida de Eça
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
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+
+Title: Luiz de Camões marinheiro
+
+Author: Vicente de Almeida de Eça
+
+Release Date: June 8, 2007 [EBook #21779]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIZ DE CAMÕES MARINHEIRO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano. Para comentários à transcrição
+visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was
+produced from scanned images of public domain material
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+
+</pre>
+
+<div class="ficha_tecnica">
+
+
+
+
+<h1>LUIZ DE CAMÕES<br />
+
+MARINHEIRO</h1>
+
+
+<h2>ESTUDO</h2>
+
+<p>POR</p>
+
+
+<p class="author">ALMEIDA D'EÇA</p>
+
+
+<p>DAVID CORAZZI--EDITOR<br />
+EMPREZA HORAS ROMANTICAS<br />
+Rua da Atalaya, 40 a 52<br />
+1880</p>
+</div>
+
+<div class="caixa_quote">
+<p>Quem deixará, até onde cheguem as suas forças, de concorrer para
+illustrar o nome do Poeta extraordinario que emprehendeu e levou a cabo o
+levantar o monumento da nossa gloria nacional?</p>
+
+<p><span class="smallcaps">Visconde de Juromenha.</span> <i>Obras de
+Camões.</i> Vol. I, pag. 7.</p>
+</div>
+
+<div class="caixa_quote">
+<p>O perscrutar os mais fundos recessos do espirito de um poeta como
+Camões, não é indigno da critica, nem um estudo vasio de interesse.</p>
+
+<p><span class="smallcaps">J. G. Monteiro.</span> <i>Carta ácerca da ilha
+dos amores</i>, pag. 11.</p>
+</div>
+<br />
+<br />
+<p>A maior parte das observações, que vão ler-se, foram feitas longe da
+patria, quando o poema de Camões era o unico amigo intimo com quem
+desabafavamos saudades e soffrimentos. Concluimos depois este humilde
+estudo em uma aldeia de Portugal, onde faltavam os bons livros e mestres,
+cuja consulta seria indispensavel para que elle fosse menos que imperfeito.
+Sirva isto de desculpa á rudeza d'estas linhas, que só pretendem ser
+homenagem de agradecimento áquelle que tão bem soube fallar ao coração do
+marinheiro.</p>
+
+<p>Abril de 1880.</p>
+
+
+
+
+<h2>I</h2>
+
+
+<p>O nosso Epico, o immortal auctor dos <i>Lusiadas</i>, o escriptor que
+fez com que o estrangeiro não esquecesse de todo o nome portuguez,--tudo
+isto se diz que foi Luiz de Camões. A fibra patriotica julga-se quite da
+divida de gratidão ao grande Poeta com ter-lhe erigido um monumento de
+gosto duvidoso, em sitio acanhado da capital, e com pronunciar o seu nome
+quando lhe dizem os desalentados que Portugal é uma terra morta. Mas, por
+se orgulharem tanto de ser filhos do mesmo torrão em que nasceu Camões, nem
+por isso esses, que tantas vezes lhe citam o nome, sentem tentação de tomar
+conhecimento, sequer passageiro, do que elles dizem ser um padrão das
+nossas glorias; e, não fallando nos que propriamente se dedicam aos estudos
+litterarios, porque a esses incumbe o dever de conhecerem as obras do nosso
+Poeta, raro se encontrará nas classes illustradas um portuguez que dos
+<i>Lusiadas</i> tenha lido mais que as poucas oitavas <i>selectas</i>, que
+se encontram nos compendios de instrucção.</p>
+
+<p>Assim, ao passo que o inglez, o allemão ou o francez menos dado ás lides
+litterarias, mas que se preze de ter uma educação regular, conhece, possue,
+lê e cita amiudadas vezes Shakespeare, Milton e Byron, ou Schiller e
+Goethe, ou Molière e Lafontaine, nós, despresando as joias de metal sem
+liga pelos enfeites de ouropel, fallamos de Camões quasi como os cegos
+poderão fallar da luz. E o mal é tanto maior quanto uma audaciosa escola
+contemporanea tenta arrogar-se o exclusivo de fallar verdade, de
+<i>photographar</i> a natureza, como dizem os seus corypheus, dando a
+entender que o que antes d'elles se escreveu era tudo falso, que ninguem
+tinha habilidade para copiar a natureza, e que só elles sabem chamar as
+cousas pelo seu nome!</p>
+
+<p>Não nos permittem as nossas poucas forças entrar na liça contra essa
+escola, que hoje parece ter assambarcado o gosto e os louvores do publico;
+só quizeramos pedir respeitosamente aos thuriferarios do novo idolo, que
+consintam a algum <i>retrogrado</i> da arte o conservar no mais intimo do
+seu espirito a crença de que, em tempos que já lá vão, houve quem
+escrevesse com realidade, quem pintasse a natureza tal como ella é;
+consintam-lhe que, lendo o pobre Camões, encontre n'elle descripções
+verdadeiramente reaes ou <i>realistas</i>, porque são apenas
+verdadeiras.</p>
+
+<p>Para se ser poeta, verdadeiramente poeta, para se fallar poeticamente da
+natureza ou das artes, não basta ter a inspiração do rythmo, saber alinhar
+palavras ora altisonantes ora docemente musicaes; é necessario conhecer a
+natureza, conhecer as artes e as sciencias de que se quer fallar, é
+necessario sentil-as, consubstanciar-se com ellas. Para fallar de
+astronomia, ainda mesmo poeticamente, é necessario conhecer os astros; para
+fallar do mar é necessario ter percorrido os oceanos, ter presenciado as
+tempestades, ter soffrido com o marinheiro, porque</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">quem não sabe a arte, não na estima</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. V, 97.)</p>
+</div>
+
+<p>Quem não tiver conhecido exactamente e sentido as cousas que quer
+descrever, só póde copiar uma natureza subjectiva, filha da imaginação,
+pura invenção do seu cerebro. É por isso que vemos hoje um Pharaó montado
+em corcel andaluz, mastodontes em correrias desenfreadas pelas florestas
+virgens da Europa contemporanea, condores pousados graciosamente nos
+calices das rosas, e... <i>il resto no lo dico</i>.</p>
+
+<p>Mas Camões viu os continentes e as ilhas, os oceanos e as montanhas, e
+por isso é o grande pintor da natureza; Camões foi soldado, e por isso é o
+veridico narrador das batalhas; Camões serviu cargos do estado, e por isso
+dos seus versos se póde tirar um tratado completo de politica; Camões,
+finalmente, navegou muito, e por isso é, como diz Alexandre de Humboldt, um
+grande pintor maritimo.</p>
+
+<p>Espiritos elevados e intelligencias altamente illustradas tem já
+considerado o nosso Poeta debaixo de alguns d'estes pontos de vista.
+Parece-nos, comtudo, que ainda se não explorou sufficientemente um dos
+veios mais ricos d'essa riquissima mina. Tentaremos nós, em rapido esboço,
+mostrar como na sua palheta de multiplices côres tinha Camões algumas das
+mais brilhantes e apropriadas para descrever o mar e pintar os homens que
+n'elle vivem. Procuraremos mostrar como Camões foi um marinheiro, mas um
+marinheiro de alma e coração divinamente inspirados; procuraremos
+demonstrar como lhe assenta bem o epitheto de <i>Naval Poet</i>, que lhe
+deu um escriptor inglez, e teremos assim justificado o titulo que demos a
+este despretencioso trabalho.</p>
+
+
+
+
+<h2>II</h2>
+
+
+<p>Para poder tratar da sciencia e da arte do marinheiro com a provada
+exatidão e superior proficiencia, que se observam nas suas obras, devia
+Camões ter tido um longo tirocinio maritimo, pois só com largas viagens
+sobre o mar poderia elle adquirir esses conhecimentos tão variados.</p>
+
+<p>Se ainda hoje, com tantos tratados e livros ao alcance de todas as
+intelligencias, é comtudo difficil, a quem não viu o mar e os seus
+trabalhos, fazer d'elles uma idéa aproximadamente exacta, muito mais
+acontecia isso no tempo do Poeta, quando a geographia, a astronomia e a
+nautica eram sciencias, alem de atrasadas, possuidas por poucos, de modo
+que a maioria das pessoas, ainda mesmo das classes illustradas, faziam de
+tudo o que dizia respeito á navegação, idéa vaga e por vezes muito afastada
+da verdade, confundindo-se no seu espirito os verdadeiros perigos do mar
+com os horrores e medos imaginarios, que eram ainda restos da tradição do
+Mar Tenebroso. Os escriptores, que não tinham navegado, ao descreverem
+scenas maritimas, serviam-se de um padrão uniforme, successivamente copiado
+ou imitado, e em que a natureza muitas vezes tinha pouca parte. E
+realmente, como poderá descrever com exactidão uma tempestade quem nunca
+tenha visto alguma? Como poderá descrever com verdade o alvoroço sentido
+pelo marinheiro ao avistar terra, depois da longa e trabalhosa navegação,
+aquelle que nunca saiu do remanso da patria e do conchego da familia?</p>
+
+<p>Mas o nosso Poeta foi n'esse ponto mais feliz que nenhum outro, porque
+navegou e viajou muito, e de si podia dizer o que poz na bôca do Gama:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Os casos vi, que os rudos marinheiros,
+Que tem por mestra a longa experiencia,
+Contam por certos sempre e verdadeiros,
+Julgando as cousas só pela apparencia;
+E que os que tem juizos mais inteiros,
+Que só por puro engenho e por sciencia
+Vêm do mundo os segredos escondidos,
+Julgam por falsos ou mal entendidos.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. v, 17.)</p>
+</div>
+
+<p>Antes, pois, de vermos como o Poeta tratou das cousas do mar, recordemos
+da sua biographia o que diga respeito ás navegações que fez.</p>
+
+<p>Luiz de Camões embarcou pela primeira vez pelos annos de 1546. Este
+primeiro embarque parece ter sido um castigo motivado ou pelos seus
+malfadados amores com D. Catharina d'Athayde ou por qualquer outra causa,
+talvez um duello dos muitos que lhe originava o seu genio ardente e
+cavalheiroso, que lhe valeu dos companheiros e quiçá dos emulos a alcunha
+de Trinca-fortes. Certo é que partiu para Ceuta, e em tão boa ou má hora
+que, logo n'essa viagem, teve um recontro com corsarios barbarescos,
+suppondo-se que foi então que perdeu o olho direito.</p>
+
+<p>Voltou de Africa em 1549 em companhia de D. Affonso de Noronha, que
+tinha sido capitão de Ceuta, e que, chegado a Lisboa, foi nomeado vice-rei
+da India por D. João III. Vinha o Poeta já com tenção de se alistar para a
+India, o que fez com effeito em 1550 na <i>nau dos Burgalezes</i>, que
+pertencia á armada em que D. Affonso de Noronha devia seguir viagem. Não
+partiu, porém, n'essa occasião, mas sim tres annos depois, a 24 de março de
+1553, na armada que levava por capitão-mór Fernão Alvares Cabral. Era tal o
+seu desejo de partir, ou para deixar a patria onde o perseguiam os
+desgostos, ou para ver se melhorava de fortuna e podia realisar as
+aspirações do seu coração, que trocou com outro <i>homem d'armas</i>, e
+embarcou na capitaina, que era a nau <i>S. Bento</i>.</p>
+
+<p>N'esta viagem experimentou Camões os duros trabalhos do mar, porque a
+armada, poucos dias depois de saír de Lisboa, foi assaltada por um temporal
+que a dispersou. Chegado ás alturas do Cabo pagou o Poeta o tributo devido
+ao Genio d'aquellas paragens, que elle havia de immortalisar. Essa
+tormenta, que elle descreveu na sua elegia III, inspirou-lhe com certeza o
+bello episodio do Adamastor. Não podendo já seguir a viagem pelo canal de
+Moçambique, ou por ter passado a monção ou por causa das correntes
+contrarias, a nau <i>S. Bento</i> fez a derrota por fóra da ilha de
+Madagascar, correndo n'aquelle parallelo até á latitude da India.
+Finalmente, em setembro, chegou o Poeta a Goa, depois de seis mezes de uma
+viagem, que, parcendo-nos hoje aborrecida e longa, não foi comtudo das
+peores para aquelle tempo.</p>
+
+<p>A vida dos militares portuguezes na India era um tecido de continuas
+expedições ora terrestres ora maritimas, predominando comtudo estas
+ultimas. Por isso, mez e meio depois de ter o Poeta chegado a Goa, já o
+vemos acompanhar o vice-rei em uma d'essas expedições, que tinha por fim
+soccorrer o rei de Cochim. Ahi teve elle occasião de observar desembarques
+e combates em terra. Logo em seguida a esta viagem ao sul de Goa fez o
+Poeta outra ao norte, embarcando na armada que foi correr a costa
+meridional da Arabia e cruzar no golfo de Aden, a qual era commandada por
+D. Fernando de Menezes, filho do vice-rei. N'esta expedição teve Camões
+desembarques, assaltos de fortalezas, combates navaes, e um cruzeiro
+enfadonho em que muitas vezes contemplou com desgosto a triste aridez do
+Guardafui, até que em setembro de 1554 regressou a Goa.</p>
+
+<p>Dois annos depois, sendo já governador da India Francisco Barreto, foi o
+nosso Poeta para a China, na armada de Francisco Martins, para occupar o
+cargo de provedor dos defuntos e ausentes.</p>
+
+<p>O nosso primeiro estabelecimento na China tinha sido na cidade de
+Liampó, e chegou a tão grande altura de riqueza e prosperidade commercial,
+como se póde ver das descripções que Fernão Mendes Pinto faz das festas com
+que ali foi recebido o famigerado Antonio de Faria. Perdeu-se este
+estabelecimento em 1542, por causa das desordens provocadas pelo negociante
+Lançarote Pereira. Em 1544 conseguiram os portuguezes estabelecer-se em
+Chincheu, mas tambem d'ahi foram expulsos em 1547 por causa das
+malversações e expoliações de Ayres Botelho de Sousa, capitão-mór e
+prevedor dos defuntos. Finalmente, faziam o seu commercio em Lampacau,
+quando em 1557 obtiveram dos chinas o estabelecerem-se na peninsula de
+Macau, como premio de terem expulsado dos seus portos um temivel pirata? É,
+pois, provavel que o nosso Poeta fosse ainda tomar parte n'esse combate,
+que deu aos portuguezes a posse d'aquelle estabelecimento, e a elle a do
+logar para que ía nomeado.</p>
+
+<p>Querem a maior parte dos escriptores, que tratam da vida de Camões, que
+a ida d'elle para a China fosse degredo imposto por Francisco Barreto, por
+causa da critica acerba que o genio mordaz e independente do Poeta fazia ás
+cousas da India, mas o erudito biographo de Camões e seu editor moderno, a
+quem nos encostamos n'estes apontamentos, defende a memoria do governador,
+e julga que se não deve considerar castigo a nomeação para um logar tão
+rendoso.</p>
+
+<p>Foi o Poeta infeliz em Macau, porque, dois annos depois de chegar, nos
+primeiros mezes de 1558, veiu preso para Goa, á ordem do governador, por
+accusações sobre a sua administração dos bens dos defuntos e ausentes. Quem
+sabe se elle vinha pagar as culpas do seu antecessor Ayres Botelho? Foi
+n'esta viagem de regresso a Goa que elle naufragou na costa de Camboja na
+Cochinchina, salvando-se a nado com o seu poema, e perdendo tudo o mais que
+possuia. A este naufragio allude elle quando diz que o rio Mé-kong</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> receberá placido e brando
+No seu regaço o Canto, que molhado
+Vem do naufragio triste e miserando,
+Dos procellosos baixos escapado,
+Das fomes, dos perigos grandes, quando
+Será o injusto mando executado
+Naquelle, cuja lyra sonorosa
+Será mais afamada do que ditosa.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. X, 128.)</p>
+</div>
+
+<p>Chegado a Goa, onde já estava o novo vice-rei D. Constantino de
+Bragança, foi o Poeta solto, tendo-se justificado das accusações por que
+vinha preso. Desde então até 1567 succederam-se as suas viagens por todo o
+Oriente, e é provavel que acompanhasse D. Diogo de Menezes a Malacca e
+d'ahi fosse percorrer as Molucas e chegasse mesmo ao Japão.</p>
+
+<p>Voltou a Goa pelo meiado de 1567, e foi agraciado pelo vice-rei D. Antão
+de Noronha com a sobrevivencia no cargo de feitor de Chaúl, logar de
+representação e bom ordenado. Não chegou, porém, o Poeta a tomar posse
+d'elle, porque, cansado de perseguições e soffrimentos, aproveitou o
+offerecimento de passagem que lhe fez Pedro Barreto, o qual ía por
+capitão-mór para Moçambique, e com elle deixou Goa em 1567, fazendo assim a
+sua ultima viagem no oceano Indico. Em Moçambique esteve cerca de dois
+annos, e foi ahi que terminou e aperfeiçoou o seu poema, feito quasi todo
+já durante o tempo em que elle esteve em Macau, já durante as suas viagens
+e expedições, pois diz elle dirigindo-se ás Nymphas do Tejo e do
+Mondego:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Olhae que ha tanto tempo que <i>cantando</i>
+O vosso Tejo e os vossos Lusitanos
+A fortuna me traz perigrinando,
+Novos trabalhos vendo e novos damnos,
+Agora o mar, agora exp'rimentando
+Os <i>perigos mavorcios</i> inhumanos;
+Qual Canace, que á morte se condena,
+<i>N'uma mão sempre a espada e n'outra a penna.</i></p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VII, 79.)</p>
+</div>
+
+<p>Finalmente, em 1569, arribou a Moçambique a armada que regressava ao
+reino, e na qual íam os amigos do Poeta, os quaes, tendo pago as suas
+dividas, o trouxeram a Portugal na nau <i>Santa Clara</i>, «nau a mais
+rica, diz o sr. visconde de Juromenha, que tinha vindo de carreira da
+India, pois trazia a seu bordo Luiz de Camões e Diogo do Couto.»</p>
+
+<p>Fundeou a nau na bahia de Cascaes em abril de 1570, e assim terminaram
+as longas perigrinações do Poeta.</p>
+
+<p>Dez annos depois, a 10 de junho de 1580, morria Luiz de Camões, pobre e
+desamparado, e «vereis todos, escrevia elle pouco antes de deixar o mundo,
+que fui tão affeiçoado á minha patria, que não sómente me contentei de
+morrer n'ella, mas de morrer com ella!»</p>
+
+
+
+
+<h2>III</h2>
+
+
+<p>Temos visto como Luiz de Camões percorreu em repetidas viagens o Oceano
+Atlantico e o Indico, o mar da China e os Estreitos. Para vermos como a sua
+intelligencia superior aproveitou este longo tirocinio, appropriando-se e,
+por assim dizer, assimilando-se tudo quanto observára, phenomenos do mar,
+costumes dos marinheiros, sciencia de navegação, etc., basta abrir o seu
+immortal poema, porque ahi, sempre que elle tem de se referir ás cousas do
+mar, fal-o com a maxima propriedade, com toda a verdade de descripção.</p>
+
+<p>Respiguemos, pois, n'essa vasta campina de tantas flores e fructos.</p>
+
+<p>A vida do marinheiro tem tormentos e prazeres desconhecidos aos homens
+de terra. A lucta constante com os elementos torna-o <i>rudo</i>, epitheto
+que o Poeta a miude lhe dá. A monotonia dos longos dias em que se não vê
+<i>mais que mar e céu</i> (Lus. V, 3), faz com que elle procure abreviar o
+tempo com historias e contos, torna-o investigador curioso das cousas novas
+que vae vendo. A saudade da patria faz-lhe alvoroçar o coração com a
+lembrança d'ella, e é por isso que elle procura ser o primeiro a dar o
+alegre brado de--«Terra á vista!»--brado que faz esquecer todos os
+trabalhos e males passados.</p>
+
+<p>Tudo isto observou Camões.</p>
+
+<p>Deixa o marinheiro a patria e despede-se dos parentes e amigos, que o
+vão acompanhar ao embarque, não fallando nos curiosos que não perdem o
+imponente espectaculo que offerece um navio ao fazer-se de véla. Concorre
+pois, muita gente,</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Uns por amigos, outros por parentes,
+Outros por ver sómente,
+Saudosos na vista e descontentes.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. IV, 88.)</p>
+</div>
+
+<p>Os que deixam a patria vão</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Para os bateis caminhando.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus., ibidem.)</p>
+</div>
+
+<p>Não o fazem a olhos enxutos; as lamentações dos que os acompanham
+redobram de intensidade á medida que se aproxima a hora fatal; a extrema
+afflicção faz perder a esperança do regresso; lamentam-se todos,</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">As mulheres c'um choro piedoso,
+Os homens com suspiros que arrancavam;
+Mães, esposas, irmãs, que o temeroso
+Amor mais desconfia, acrescentavam
+A desperação e frio medo
+De já nos não tornar a ver tão cedo</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. IV, 89.)</p>
+</div>
+
+<p>É doloroso aquelle transe, mas o dever e a necessidade fazem calar a voz
+do coração. Para evitar mais lagrimas esconde-se a hora exacta da partida,
+e embarcam-se</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Sem o despedimento costumado.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. IV, 93.)</p>
+</div>
+
+<p>E partem, ficando-lhes,</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> na amada terra
+O coração, que as maguas lá deixavam,</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. V, 3.)</p>
+</div>
+
+<p>Dura ha muitos dias a viagem. O vento é de feição, o mar plano, os
+horisontes claros e extensos. Navega-se de escota folgada. O
+commandante,</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> já cansado
+De vigiar a noite,
+Breve repouso aos olhos dava.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. II, 60.)</p>
+</div>
+
+<p>Dá meia noite, rendem-se os quartos,</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Os do quarto da prima se deitavam,
+Para o segundo os outros despertavam</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VI, 38.)</p>
+</div>
+
+<p>Como é desagradavel deixar o conchego da maca ou do beliche, quando
+estavamos no melhor do somno, quando talvez a imaginação nos tinha
+transportado á patria <i>em dôces sonhos que mentiam</i>, para ir fazer um
+quarto em cima da tolda, aguentando o aspero frio da noite! Por isso os
+pobres marinheiros</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Vencidos vem do somno, e mal despertos,
+Bocejando a miude, se encostavam
+Pelas antenas, todos mal cobertos
+Contra os agudos ares que assopravam;
+Os olhos contra seu querer abertos,
+Mas esfregando, os membros estiravam.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VI, 39.)</p>
+</div>
+
+<p>Não ha manobras a fazer, não ha cousa alguma que distráia, porque, com
+tempo tão excellente, só é preciso estar álerta. Como se hão de passar
+aquellas quatro horas e afugentar o somno teimoso?</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Remedios contra o somno buscar querem,
+Historias contam, casos mil referem,</p>
+ <p class="assinatura">(Lus., ibidem.)</p>
+</div>
+
+<p>E ahi começa o orador, o <i>beau-diseur</i> da companhia, a contar uma
+historia interessante, que entretem a todos e faz voar as horas.</p>
+
+<p>Mas nem tudo são rosas durante a viagem; bem pelo contrario, os espinhos
+são em numero muito superior. Aos dias de bom tempo succedem as
+tempestades, que tornam o marinheiro</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Confuso de temor, da vida incerto</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VI, 80.)</p>
+</div>
+
+<p>e durante os quaes elle muitas vezes</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Chama aquelle remedio santo e forte
+Que o impossivel póde;</p>
+ <p class="assinatura">(Lus., ibidem.)</p>
+
+
+<p class="poesia"> chama
+Aquelle que a salvar o mundo veio</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VI, 75.)</p>
+</div>
+
+<p>A navegação demorada e aborrecida tem exacerbado as saudades e irritado
+os animos; já se não juntam os grupos pelas amuradas a contar historias.
+Escaceia a aguada, a bolacha está avariada, azedou o vinho; vae-se a meia
+ração e a menos; aproxima-se o terrivel espectro das viagens prolongadas, o
+escorbuto. Assim vivem por muito tempo os marinheiros <i>coitados e
+perdidos</i>,</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">De fomes, de tormentas quebrantados
+E do esperar comprido tão cansados,
+Quanto a desesperar já compellidos;
+Corrupto já e damnado o mantimento
+Damnoso e mau ao fraco corpo humano,
+E alem d'isso nenhum contentamento,
+Que sequer da esperança fosse engano.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. V, 70, 71.)</p>
+</div>
+
+<p>A tudo se resigna o marinheiro e vae</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Soffrendo tempestades e ondas cruas,
+Vencendo os torpes frios no regaço
+Do sul e regiões de abrigo nuas,
+Engolindo o corrupto mantimento
+Temperado c'um arduo soffrimento</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VI, 97.)</p>
+</div>
+
+<p>E peor é ainda quando chega a terrivel doença, <i>crua e feia</i>, de
+que já fallámos, com a qual</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Tão disformemente ali lhe incharam
+As gengivas na bôca, que crescia
+A carne e juntamente apodrecia
+ c'hum fetido e bruto
+Cheiro que o ar visinho inficionava</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. V, 81, 82.)</p>
+</div>
+
+<p>Assim se passam as semanas e os mezes. Anceia o marinheiro por pôr termo
+a uma navegação já aborrecida, por ter algum descanço n'aquelle lidar
+diario. Suspeita-se que está proxima a terra; porfia-se em qual será o
+primeiro que a veja; algum mais desejoso de ganhar as alviçaras sobe á
+<i>celsa</i> gavea, e percorrendo o mar com a vista, enxerga</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Terra alta pela prôa</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VI, 92.)</p>
+</div>
+
+<p>e logo</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">«Terra, terra!» brada</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. V, 24.)</p>
+</div>
+
+<p>Quem ha que fique indifferente a este brado? Os mais occupados largam
+tudo por mão, os que dormem levantam-se estremunhados dos catres, e</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Salta no bordo alvoroçada a gente
+Co'os olhos no horisonte,</p>
+ <p class="assinatura">(Lus., ibidem.)</p>
+</div>
+
+<p>devorando com elles as fórmas ainda mal distinctas da terra, e
+começando</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Á maneira de nuvens
+A descobrir os montes.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. V, 25.)</p>
+</div>
+
+<p>Deu-se fundo. Acabaram os trabalhos e perigos, e quasi já esqueceram.
+Tudo é curiosidade dos marinheiros em observar as pessoas que de terra vem
+a bordo;</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">A gente se alvoroça; e de alegria
+Não sabe mais que olhar a causa d'ella.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. I, 45.)</p>
+</div>
+
+<p>Como não podem chegar-se e interrogar esses individuos, porque elles
+estão conversando com o commandante, contentam-se com espreital-os, e por
+isso</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Está a gente maritima
+Subida pela enxarcia.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. I, 62.)</p>
+</div>
+
+<p>Por fim a curiosidade vence o respeito, e elles vão-se chegando pouco a
+pouco para ouvir as novidades;</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">A gente se ajunta a ouvir.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VII, 29.)</p>
+</div>
+
+<p>Chega depois a noite; são horas de descançar e dormir pela primeira vez
+com socego. Mas o marinheiro esquece-se d'isso para, ou a sós comsigo, ou
+dando largas á sua loquacidade, fazer commentarios sobre o que viu e
+ouviu;</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Qualquer então comsigo cuida e nota
+Na gente e na maneira desusada.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. I, 57.)</p>
+</div>
+
+<p>Não escapou a Camões a qualidade ou defeito caracteristico do marinheiro
+portuguez, principalmente do algarvio, sempre fallador e gritador. Ainda
+hoje, com a disciplina moderna, é facil conseguir do marinheiro que elle
+faça tudo, que soffra as maiores privações, que arroste os maiores perigos;
+mas é difficilimo conseguir que elle esteja calado. Ha sobretudo certas
+manobras em que é quasi impossivel obter um silencio completo, e no tempo
+das descobertas, diz-nos o Poeta que os marinheiros suspendiam</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> as ancoras
+Com a nautica <i>grita costumada</i>,</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. II, 18.)</p>
+</div>
+
+<p>e largavam</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">A véla, que <i>com grita</i> se soltava.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. IX, 11.)</p>
+</div>
+
+<p>E em outro logar ainda diz-nos que</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">A <i>celeuma medonha</i> se alevanta
+No rudo marinheiro que trabalha.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. II, 25.)</p>
+</div>
+
+<p>Mas, se é inconveniente a gritaria dos marinheiros, bem pelo contrario é
+necessario que o official que commanda a manobra tenha voz sonora e
+vibrante, que domine o ruido do temporal e incuta coragem nos subordinados.
+Por isso nos Lusiadas, quando ruge a tempestade e é preciso que <i>não
+falte accordo</i>, o mestre dá as vozes do commando <i>rijamente</i> e <i>a
+grandes brados</i> (Lus. VI, 71, 72.)</p>
+
+<p>Quando o seu navio fundeou no porto, começam para o homem do mar dias
+mais alegres e socegados que os passados na viagem. É então que elle se
+esquece da vida que levou durante tanto tempo e vae a terra,</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Que não ha nenhum d'elles que não sáia,</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. IX, 66.)</p>
+</div>
+
+<p>como gente que é</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">De ver cousas estranhas desejosa
+Da terra.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. V, 26.)</p>
+</div>
+
+<p>Ahi encontra sempre divertimentos, e quando os não encontra,
+improvisa-os. Outras vezes recebe elle a bordo as pessoas de terra, e
+faz-lhes as honras da sua morada com a satisfação e liberalidade que o
+caracterisa.</p>
+
+<p>As festas de bordo fazem-se sempre <i>com a prata da casa</i>, e comtudo
+é por extremo agradavel a vista que offerece um navio preparado para
+celebrar qualquer data memoravel, ou para festejar a visita de um
+personagem. Galhardetes e bandeiras com as côres symetricamente dispostas
+adornam os mastros; outros forram os toldos e formam sanefas pelas
+amuradas; lustres e troféus feitos com armas e instrumentos nauticos
+transformam a tolda do navio em salão de baile elegantemente adornado; os
+proprios pandeiros de cabos colhidos com arte desenham no nitido convez
+florões e iniciaes, ou servem de divans aos convidados. Os altos
+personagens são recebidos com marchas tocadas pelas cornetas e tambores,
+com musicas executadas pelas charangas, com revista da guarnição a postos
+de combate, com salvas de artilheria. De noite illumina-se o mar com
+foguetes e tigellinhas. De tudo isto fallou Camões.</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Começa a embandeirar-se toda a armada,
+E de toldos alegres se adornou
+Por receber com festas e alegria;</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. I, 39.)</p>
+
+<p class="poesia">Sonorosas trombetas incitavam
+Os animos alegres, resoando;</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. II, 100.)</p>
+
+<p class="poesia">Outros
+Instrumentos altinosos tangiam.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. II, 90.)</p>
+
+<p class="poesia">Vem arnezes, e peitos reluzentes,
+Malhas finas e laminas seguras,
+Escudos de pinturas differentes,
+Pelouros e espingardas de aço puras,
+Arcos e sagittiferas aljavas,
+Partazanas agudas, chuças bravas;
+As bombas vem de fogo e juntamente
+As panellas sulphuras tão damnosas.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. I, 67, 68.)</p>
+
+<p class="poesia">Não faltam ali os raios de artificio
+Os tremulos cometas imitando;
+Fazem os bombardeiros seu officio,
+O céu, a terra, e as ondas atroando</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. XI, 90.)</p>
+</div>
+
+<p>Ás salvas de bordo <i>agradecem</i> as fortalezas de terra, salvando
+tambem:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Respondem-lhe de terra juntamente
+Co'o raio volteando com zonido;</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. II, 91.)</p>
+</div>
+
+<p>e o canhão faz ouvir tanto e tão repetidas vezes a sua voz atroadora que
+as festas e cumprimentos entre gente maritima são sempre</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Á maneira de peleja.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus., ibidem.)</p>
+</div>
+
+<p>Veja-se agora se n'este assumpto, aliás secundario, esqueceu ao Poeta
+alguma circumstancia notavel!</p>
+
+
+
+
+<h2>IV</h2>
+
+
+<p>Se dos costumes dos homens do mar passamos aos trabalhos manuaes, que
+constituem a parte pratica da sua arte, vamos encontrar nos Lusiadas
+descripções e allusões a quasi todas as fainas e manobras tão variadas, que
+são necessarias para fazer servir essa complicada machina que se chama
+<i>navio</i>.</p>
+
+É imponente o espectaculo que offerece a tolda de um navio em faina geral
+de fazer-se de véla. Por mais numerosa que seja a guarnição, todos tem o
+seu posto detalhado e todos tem que fazer. Descreve Camões essa faina da
+maneira seguinte:
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Já nas naus os bons trabalhadores
+Volvem o cabrestante, e repartidos
+Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,
+Outros quebram co'o peito a dura barra,
+Outros pendem da verga e já desatam
+A véla.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. IX, 10, 11.)</p>
+</div>
+
+<p>Está o ferro a <i>pique</i>, redobram os esforços dos marinheiros para o
+suspender;</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">As ancoras tenaces vão levando,</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. II, 18.)</p>
+</div>
+
+<p>e ao mesmo tempo</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Da proa as vélas <i>sós</i> ao vento dado,</p>
+ <p class="assinatura">(Lus., ibidem.)</p>
+</div>
+
+<p>obrigam o navio a <i>fazer cabeça</i>, e eil-o que vae em demanda da
+barra.</p>
+
+<p>Nos versos que acabamos de citar estão compendiadas todas as manobras
+necessarias para um navio se fazer de véla. Não o faria melhor o Bonnefoux
+ou o Bréart!</p>
+
+<p>Na descripção da tempestade do canto VI, encontram-se todas as manobras
+de que se lança mão debaixo de tempo. O mestre, que presente o golpe de
+vento, <i>apita á gente</i> e manda <i>carregar e ferrar joanetes</i>,</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Os traquetes das gaveas tomar manda,</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VI, 70)</p>
+</div>
+
+<p>Mal estão carregados os joanetes, já o vento está a contas com o navio.
+<i>Carrega a véla grande!</i></p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">«Amaina a grande véla!»</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VI, 71.)</p>
+</div>
+
+<p>Não se carregou a maior a tempo, por isso ella se rasgou, e o navio,
+dando a borda de sotavento, metteu dentro uns poucos de <i>mares</i>;</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">No romper da véla a nau pendente
+Toma grão somma d'agua pelo bordo.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VI, 72.)</p>
+</div>
+
+<p>É preciso allivial-o, quanto seja possivel, dos pesos, e esgotar a agua.
+Por isso o mestre ordena:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">«Alija tudo ao mar,
+Vão outros dar á bomba, não cessando!»</p>
+ <p class="assinatura">(Lus., ibidem.)</p>
+</div>
+
+<p>e não se esquece de reforçar a <i>gente do governo</i>, pondo ao
+leme</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Tres marinheiros duros e forçosos,</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VI, 73.)</p>
+</div>
+
+<p>passando-lhe ainda para mais segurança</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Talhas d'uma e d'outra parte.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus., ibidem.)</p>
+</div>
+
+<p>Chega o navio a um porto pouco conhecido. Ao <i>investir</i> a barra
+depara-se com uma pedra á flor d'agua. É necessario <i>safar</i> d'ella e
+quanto antes. Aqui é inevitavel alguma confusão; não se sabe para que lado
+será melhor <i>guinar</i>, e por isso os marinheiros</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Maream vélas, ferve a gente irada
+O leme a um bordo e a outro atravessando;
+O mestre da poppa brada.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. II, 24.)</p>
+</div>
+
+<p>Com similhante contratempo é melhor não commetter a barra e <i>fundear
+em franquia</i>; por isso o commandante</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Não entra pela barra, e surge fóra.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. I, 102.)</p>
+</div>
+
+<p>Mas depois de reconhecida a barra já se póde tentar a entrada; então</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> já as proas se inclinavam
+Para que amainassem;
+A gente e marinheiros
+Tomam vélas; amaina-se a verga alta;
+Da ancora o mar ferido em cima salta;</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. I, 48.)</p>
+</div>
+
+<p>e por fim</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Pega no fundo a ancora pesada;</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. II, 74.)</p>
+</div>
+
+<p>e aqui temos nós uma descripção completa da faina de fundear.</p>
+
+<p>Surto o navio no porto, nem por isso cessam as suas manobras e fainas.
+Uma das mais importantes consiste na limpeza do costado do navio, que
+depois de uma viagem prolongada se acha coberto de incrustações, molluscos
+e algas marinhas, principalmente nas obras vivas. Quando os navios não eram
+forrados de cobre, como hoje são, esta operação era indispensavel, posto
+que difficultosa, sendo muitas vezes necessario <i>espalmal-os</i>, isto é,
+varal-os na praia, e até <i>viral-os de querena</i>. Não se esqueceu o
+Poeta d'este serviço maritimo, descrevendo-o assim:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Aqui de limos, cascas e d'ostrinhos,
+Nojosa criação das aguas fundas,
+Alimpamos as naus, que dos caminhos
+Longos do mar vem sordidas e immundas.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. V, 79.)</p>
+</div>
+
+<p>É tambem um dos primeiros cuidados nos portos o renovar a aguada, e por
+isso o commandante, logo que póde, determina</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">De vir por agua a terra;</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. I, 84.)</p>
+
+<p class="poesia">E vão a seu prazer fazer aguada.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. I, 93.)</p>
+</div>
+
+<p>Para este serviço, bem como para todas as communicações com a terra
+dentro dos portos, serve-se a gente do mar dos <i>bateis</i> ou embarcações
+miudas. Estas embarcações são quasi sempre movidas por meio de remos, cuja
+manobra é diversa e variada conforme a maior ou menor pressa e outras
+circumstancias. Assim, quando o commandante vae a terra fazer uma visita
+official, a embarcação que o transporta vae de <i>voga larga e
+descançada</i>, e</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">O remo <i>compassado</i> fere frio
+Agora o mar, depois o fresco rio,</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VII, 43.)</p>
+</div>
+
+<p>mas quando, por qualquer motivo, é preciso chegar rapidamente, não se
+póde perder tempo com essas elegancias de manobra; <i>pica-se a voga</i> e
+<i>aperta-se o remo</i> (Lus. V, 32), duplicando a força de impulso e
+fazendo saltar o escaler por cima das ondas.</p>
+
+<p>Não esqueceram ao Poeta os combates navaes, em que o marinheiro se torna
+soldado com duplicado valor, pois tem de combater ao mesmo tempo os
+tormentos e o inimigo. Ora é um desembarque:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Apercebido vae
+Em tres bateis.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. I, 85.)</p>
+
+<p class="poesia">Eis nos bateis o fogo se levanta
+Na furiosa e dura artilharia;
+A gente
+A povoação
+Esbombardea, accende e desbarata.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. I, 89, 90.)</p>
+</div>
+
+<p>Ora é um combate entre as embarcações miudas dos dois contendores:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Huns vão nas almadias carregadas;
+Hum corta o mar a nado diligente;
+Quem se afoga nas ondas encurvadas;
+Quem bebe o mar, e o deita juntamente.
+Arrombam as miudas bombardadas
+Os pangaios subtís.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. I, 91)</p>
+</div>
+
+<p>Ora é finalmente uma verdadeira batalha naval entre duas armadas,
+quando</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> em sangue e resistencia
+O mar todo com fogo e ferro ferve.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. X, 29.)</p>
+</div>
+
+<p>Primeiro combatem de longe com a artilharia; segue-se depois a
+abordagem; e o combate decide-se por ultimo á arma branca. Assim o
+vencedor</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Das grandes naus,
+ co'a ferrea pella
+Que sahe com trovão do cobre ardente,
+Fará pedaços leme, mastro, vela;
+Depois, lançando arpéos ousadamente
+Na capitaina inimiga, dentro nella
+Saltando, a fará só com lança e espada
+De quatro centos despejada.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. X, 28.)</p>
+</div>
+
+
+
+
+<h2>V</h2>
+
+
+<p>Mostrámos até aqui como Camões conhecia e comprehendia os homens do mar,
+não lhe escapando nem uma das mais pequenas circumstancias, que tornam o
+seu modo de viver e pensar tão caracterisco e differente do dos homens da
+terra. Mostrámos tambem com que propriedade e conhecimento elle introduziu
+no seu poema a descripção ou antes a viva pintura das manobras e fainas que
+constituem o officio do marinheiro. Vamos agora tentar mostrar como o Poeta
+comprehendeu o theatro em que se passam as scenas tão variadas da vida do
+homem do mar.</p>
+
+<p>O mar, esse elemento imponente e magestoso, que enche de espanto o homem
+que, pela primeira vez, o encara, parecendo á primeira vista tão uniforme e
+tão igual, apresenta mil aspectos diversos, que são outras tantas
+manifestações das forças creadoras que abriga em seu seio. D'essas, a mais
+grandiosa, aquella que irresistivelmente se impõe e subjuga a alma mais
+destemida, é a tempestade. Nem o volcão vomitando fogo e lavas; nem a
+trovoada fusilando raios, atroando com o ribombar do trovão e inundando com
+as catadupas de agua; nem o terramoto abalando os edificios e fazendo
+ondular os montes; nem o kahmsin do deserto enterrando as caravanas com as
+suas nuvens de areia, nada póde rivalisar com uma tempestade maritima. Esta
+reune tudo o que os outros cataclysmos tem de bello e horroroso, e é ainda
+mais sublime e medonha. E são tão variados os espectaculos offerecidos pela
+natureza, que ainda nas tempestades maritimas ha differenças e
+especialidades que as distinguem entre si. Assim o temporal dos Açores não
+se parece com a tempestade do Cabo, como o cyclone do Oceano Indico differe
+do tufão do mar da China. São diversas as causas que as originam, diversas
+as circumstancias meteorologicas com que se manifestam, diversos, se é
+possivel, os horrores que inspiram.</p>
+
+<p>E, comtudo, Camões apanhou essas differenças, conheceu essas
+circumstancias especiaes. Duas são as principaes descripções de tempestades
+maritimas que elle nos offerece no seu poema. A primeira é de um temporal
+no Cabo da Boa Esperança, e constitue o episodio do Adamastor, que não
+transcreveremos por o julgarmos conhecido de todos. A tempestade começa por
+uma nuvem <i>temerosa e carregada</i></p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> que os ares escurece;</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. V, 37.)</p>
+</div>
+
+<p>e effectivamente uma das circumstancias peculiares das tormentas do Cabo
+é escurecer-se completamente a athmosphera. É tambem notavel a altura que
+attingem as ondas n'essas occasiões, pois nenhum navegador as viu em parte
+alguma maiores ou iguaes. Camões notou esta circumstancia na elegia III,
+onde, descrevendo a sua viagem para a India, diz que</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> chegando ao Cabo da Esperança
+Eis a noute com nuvens se escurece,
+Do ar <i>subitamente</i> foge o dia
+E todo o largo Oceano se embravece;
+Em <i>serras</i> todo o mar se convertia.</p>
+</div>
+
+<p>Voltando aos <i>Lusiadas</i> observaremos que todo o horror do Cabo da
+Boa Esperança está n'aquella prophecia do Gigante:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> Quantas naus esta viagem
+Fizerem de atrevidas,
+Inimiga terão esta paragem
+Com ventos e tormentas desmedidas.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. V, 43.)</p>
+</div>
+
+<p>E é assim. Não ha paragem alguma do globo onde as tempestades sejam mais
+frequentes, podendo-se dizer que no Cabo é estado normal o mau tempo, sendo
+excepção a bonança. A tempestade</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> c'um medonho choro
+Subito d'ante os olhos se apartou,
+Desfez-se a nuvem negra e c'um sonoro
+Bramido muito longe o mar soou.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. V, 60.)</p>
+</div>
+
+<p>Aqui se observa como um pesado aguaceiro vem abater as ondas
+encapelladas, ouvindo-se comtudo por muito tempo o surdo rumor que ellas
+produzem como féras, mau grado seu, subjugadas pelo chicote do domador.</p>
+
+<p>Mais desenvolvida é a descripção da tempestade no Indico. N'esse mar é
+conhecida a parte que fica entre a cabeça de Madagascar e as Seychelles
+pelos frequentes cyclones e golpes de vento que a açoutam e tornam perigosa
+a navegação. E, pois, ahi</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Já nos mares da India,</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VI, 6.)</p>
+</div>
+
+<p>que o Poeta colloca o temporal, o qual começa, como é sabido, por uma
+pequena nuvem que desponta no horisonte, e dentro em pouco, tocada pelo
+vento com vertiginosa velocidade, occupa toda a athmosphera. A
+impetuosidade e o repente do assalto não dão tempo a manobras; muitas vezes
+é necessario <i>picar os mastros</i>, se o cyclone se não encarrega d'isso.
+O mar cava-se em ondas desencontradas e altissimas, e os relampagos e
+coriscos vem augmentar o terror. Eis estas scenas successivas da terrivel
+tragedia pintadas pelo mestre:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> O vento cresce
+D'aquella nuvem negra que apparece.
+Dá a grande e subita procella.
+Não esperam os ventos indignados
+Que amainassem (a véla grande), mas juntos dando n'ella,
+Em pedaços a fazem.
+No romper da véla a nau pendente
+Toma grão somma d'agua pelo bordo.
+Os balanços, que os mares temerosos
+Deram á nau, n'um bordo os derribaram (os marinheiros.)
+Nos altissimos mares, que cresceram,
+A pequena grandura d'um batel
+Mostra a possante nau.
+A nau grande
+Quebrado leva o mastro pelo meio,
+Quasi toda alagada.
+Agora sobre as nuvens os subiam
+As ondas,
+Agora a ver parece que desciam
+As intimas entranhas do profundo.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VI, 70 a 76.)</p>
+
+
+<p class="poesia">Os ventos que lutavam,
+Como touros indomitos bramando;
+Mais e mais a tormenta accrescentavam,
+Pela miuda enxarcia assoviando;
+Relampagos medonhos não cessavam,
+Feros trovões.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VI, 84.)</p>
+</div>
+
+<p>Mas não são apenas os traços geraes da descripção que reproduzem a
+exacta verdade. Até nas mais pequenas minudencias se mostra rigorosa
+exactidão. Os ventos são</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Noto, Austro, Boreas, Aquilo,</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VI, 76.)</p>
+</div>
+
+<p>recordando assim a direcção successivamente differente do vento,
+percorrendo todos os quadrantes, como se nota nas tempestades de rotação.
+Os golphinhos ou toninhas, esses graciosos companheiros do navegador
+durante a bonança, desapparecem d'aquelle theatro de desolação, e são
+substituidos pelos maçaricos, as <i>almas do mestre</i>, como lhes chama a
+poetica imaginação dos marinheiros, que vem augmentar com os seus pios
+lamentosos a tristeza do espectaculo:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">As Halcyoneas aves o triste canto
+ levantaram,
+Os delfins namorados entretanto
+Lá nas covas maritimas entraram,
+Fugindo á tempestade e ventos duros,
+Que nem no fundo os deixa estar seguros.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VI, 77.)</p>
+</div>
+
+<p>Isto é perfeito, isto é enexcedivel. E comtudo ha mais ainda; ha a
+descripção de outro phenomeno do mar, que, posta em prosa, occuparia o
+logar de honra no melhor tratado de meteorologia. É a das trombas marinhas.
+N'este phenomeno em que <i>as nuvens do mar sorvem as aguas do Oceano</i>,
+começa a levantar-se</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">No ar um vaporsinho e subtil fumo,
+E do vento trazido, rodear-se;
+D'aqui levado um cano ao polo summo
+Se via, tão delgado que enxergar-se
+Dos olhos facilmente não podia;
+Da materia das nuvens parecia.
+Hia-se pouco a pouco accrescentando
+E mais que um largo mastro se engrossava;
+Aqui se estreita, aqui se alarga, quando
+Os golpes grandes de agua em si chupava;
+Estava-se co'as ondas ondeando;
+Em cima d'elle uma nuvem se espessava,
+Fazendo-se maior, mais carregada,
+Co'o cargo grande d'agua em si tomada,
+Qual roxa sanguesuga
+ se enche e a alarga grandemente,
+Tal a grande columna, enchendo, augmenta,
+A si e a nuvem negra que sustenta.
+Mas, depois que de todo se fartou,
+O pé que tem no mar a si recolhe,
+E pelo céu chovendo em fim vôou;
+Ás ondas torna as ondas que tomou,
+Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. V, 19 a 22.)</p>
+</div>
+
+<p>Quem escreveu isto? Foi Bravais? Foi Fitz-Roy? Não; foi Luiz de
+Camões.</p>
+
+<p>Camões tudo vê, de tudo falla. Ao fogo santelmo chama</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> lume vivo,
+Que a maritima gente tem por santa,
+Em tempo de tormenta e vento esquivo,
+De tempestade escura,</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. V, 18.)</p>
+</div>
+
+<p>Tambem falla nas correntes maritimas, cujas leis eram pouco conhecidas
+dos primeiros navegadores, causando-lhes muitos embaraços. Ainda hoje no
+canal de Moçambique se não póde contar com a corrente, ou antes deve-se
+esperar que ella seja sempre contraria, porque, <i>como no mar tudo são
+mudanças</i>, tão depressa correm as aguas ao norte como no dia seguinte
+correm ao sul, e com tal velocidade que vencem muitas vezes a força do
+vento regular. É, pois, a corrente, como descreve o Poeta</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> tão possante
+Que passar não deixava por diante;
+Era maior a força em demasia,
+Segundo para traz nos obrigava,
+Do mar, que contra nós ali corria,
+Que por nós a do vento que assoprava.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. V, 66, 67.)</p>
+</div>
+
+<p>Superior á meteorologia é a sciencia astronomica, de todas a mais
+necessaria ao homem do mar. É ella que lhe ensina a conhecer onde está, a
+que parte do vasto Oceano o levaram os ventos e correntes; é ella que lhe
+mostra o caminho a seguir no meio da vasta solidão. Estava esta sciencia
+bastante atrasada no tempo do Poeta, pois que reinava ainda o errado
+systema de Ptolomeu. Mas este systema é por elle descripto tão exactamente,
+que um abalisado professor contemporaneo, ao ter de explical-o nas suas
+lições de cosmographia, nunca deixava de citar a descripção de Camões.
+Ptolomeu, fazendo da terra centro immovel de todo o universo, collocava a
+lua, o sol, os planetas e as estrellas em outras tantas espheras
+concentricas a ella, e que, sobre um eixo que passava pelos seus polos,
+giravam com velocidades diversas. Todas estas espheras eram envolvidas por
+uma ultima, o Empyreo, alem do qual estava o Ser Infinito, pois</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Quem cerca em derredor este rotundo
+Globo e sua superficie tão limada,
+He Deus.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. X, 80.)</p>
+</div>
+
+<p>Começando, pois, a enumerar as superficies concentricas, cujo conjuncto
+fórma o systema, diz Camões:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Este orbe, que primeiro vae cercando
+Os outros mais pequenos, que em si tem,
+Que está com luz tão clara radiando,
+Que a vista cega e a mente vil tambem,
+Empyreo se nomea.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. X, 81.)</p>
+</div>
+
+<p>Segue-se o primeiro mobil:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Debaixo d'este circulo,
+ que não anda,
+Outro corre tão leve e tão ligeiro
+Que não se enxerga: he o mobile primeiro.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. X, 85.)</p>
+</div>
+
+<p>Vem depois os dois crystalinos e logo o céu das fixas, entre as quaes o
+Poeta não se esqueceu de nomear as doze constellações zodiacaes bem como as
+outras mais notaveis do firmamento:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> Est'outro debaixo esmaltado
+De corpos lisos anda e radiantes,
+Que tambem n'elle tem curso ordenado
+E nos seus axes correm scintillantes;
+ se veste e faz ornado
+Co'o largo cinto d'ouro, que estellantes
+Animaes doze traz affigurados,
+Aposentos de Phebo limitados.
+ Por outras partes a pintura
+as estrellas fulgentes vão fazendo:
+A Carreta, a Cynosura,
+Andromeda e seu pae, e o Drago,
+Cassiopea, Orionte, o Cysne,
+A Lebre, os Cães, a Nau e a Lyra.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. X, 87, 88.)</p>
+</div>
+
+<p>Seguem-se por sua ordem os céus dos sete planetas então conhecidos,
+contando n'esse numero o Sol:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Debaixo d'este grande firmamento
+ o céo de Saturno;
+Jupiter faz logo o movimento,
+E Marte abaixo;
+O claro olho do céo no quarto assento;
+E Venus;
+Mercurio;
+Com tres rostos debaixo vae Diana.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. X, 89.)</p>
+</div>
+
+<p>Em seguida á Lua vem finalmente os quatro elementos:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> o <i>fogo</i> e o <i>ar</i>, o vento e a neve
+Os quaes jazem mais a dentro,
+E tem co'o <i>mar</i> a <i>terra</i> por assento.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. X, 90.)</p>
+</div>
+
+<p>Alem d'esta descripção, que é completa, ha por todo o poema allusões ao
+firmamento e aos seus brilhantes luzeiros, espectaculo maravilhoso e divino
+em que se enlevam os olhos do marinheiro durante as longas horas da noite.
+Citaremos apenas a allusão ao Cruzeiro do Sul:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Lá no novo hemispherio nova estrella,
+Não vista de outra gente, que ignorante
+Alguns tempos esteve incerta d'ella;</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. V, 14.)</p>
+</div>
+
+<p>á qual se segue logo a allusão áquella parte do firmamento perto do polo
+sul, onde as estrellas são mais raras, e que os astronomos modernos chamam
+o <i>Sacco de carvão</i>:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> a parte menos rutilante,
+E por falta d'estrellas menos bella,
+Do polo fixo.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus., ibidem.)</p>
+</div>
+
+<p>Para acabarmos com a astronomia de Camões diremos ainda que nem sequer
+se esqueceu elle de fallar da <i>nautica</i>, parte pratica ou applicação
+d'aquella sciencia á navegação, a qual mais directamente ensina o
+marinheiro a <i>ver em que parte está</i> (Lus. V, 26), isto é, a <i>pôr o
+ponto na carta</i>, pois que nos falla do</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> novo instrumento do Astrolabio
+Invenção de subtil juizo e sabio;</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. V, 25.)</p>
+</div>
+
+<p>que servia, como hoje o sextante, para</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> tomar do Sol a altura.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. V, 26.)</p>
+</div>
+
+
+
+
+<h2>VI</h2>
+
+
+<p>Está já cançada a penna de fazer transcripções, é tempo de pôr termo a
+este trabalho, e ainda não temos percorrido toda a escala de variadissimos
+tons com que Luiz de Camões teceu a sua harmoniosissima composição sobre as
+cousas do mar. Fallaremos ainda, antes de terminar, da Geographia, sciencia
+que o Poeta possuiu em subido grau, e que, como a astronomia e a
+meteorologia, é tambem essencialmente necessaria ao marinheiro.</p>
+
+<p>Os <i>Lusiadas</i> são por si só um completo tratado da sciencia da
+terra. Não ha ponto conhecido no mundo do seculo XVI de que o Poeta não
+falle, assignando a cada um a sua feição geographica caracteristica, a sua
+especialidade ethnographica. Mas as suas descripções tem ainda a
+particularidade de serem essencialmente maritimas. Effectivamente ao
+marinheiro o que mais importa saber, depois da posição dos logares, é a
+fórma com que elles se apresentam vistos do mar, fórma que o marinheiro
+precisa de gravar na memoria para poder distinguir uns dos outros montes,
+cabos, praias ou enseadas aliás muito similhantes. Para isto serve-se
+muitas vezes o navegador da comparação com objectos conhecidos, e foi de
+certo elle quem inventou os nomes de Sombreiro, Barrete de S. Fillippe,
+Bonet de Jockey, Nariz de Nelson, e tantos outros, para designar e reter na
+memoria a fórma de certas saliencias da superficie da terra banhadas pelo
+mar. Ora, nas descripções geographicas de Camões, nota-se que elle procura
+muitas vezes dar o relevo da costa, e que quasi sempre refere a ella a
+descripção dos outros logares notaveis do interior, por modo que as suas
+descripções são preciosissimas para um roteiro e ensinam muitas
+<i>conhecenças</i> do <i>debuxo da costa</i> (Lus. X, 120), conhecimento
+altamente necessario ao navegador. Não se esquece tambem o Poeta de notar
+qualquer circumstancia, cujo conhecimento seja util ao navegante, como os
+productos da terra, a maior ou menor facilidade de se acharem mantimentos,
+a qualidade dos portos, etc.</p>
+
+<p>Não sendo possivel transcrever todos os logares dos <i>Lusiadas</i> que
+tratam de geographia, porque seria preciso copiar dezenas e dezenas de
+estancias, citaremos apenas alguns poucos exemplos, e seja o primeiro a
+descripção da Europa:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Entre a zona que o Cancro senhorea,
+Meta septentrional do Sol luzente,
+E aquella que por fria se arrecea
+Tanto, como a do meio por ardente,
+Jaz a soberba Europa, a quem rodea,
+Pela parte do Arcturo e do Occidente,
+Com suas salsas ondas o Oceano,
+E pela Austral o mar Mediterrano.
+Da parte donde o dia vem nascendo
+Com Azia se avisinha; mas o rio,
+Que dos montes Rhipheios vae correndo
+Na alagoa Meotis, curvo e frio,
+As divide, e o mar, que fero e horrendo
+Viu dos Gregos o irado senhorio,
+Onde agora de Troia triumphante
+Não vê mais que a memoria o navegante.
+Lá onde mais debaixo está do polo,
+Os montes Hyperboreos apparecem,
+E aquelles onde sempre sopra Eolo,
+E co'o nome dos ventos se enobrecem;
+Aqui tão pouca força tem de Apollo
+Os raios, que no mundo resplandecem,
+Que a neve está continuo pelos montes,
+Gelado o mar, geladas sempre as fontes.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. III, 6, 7 e 8.)</p>
+</div>
+
+<p>A esta descripção geral da Europa segue-se a especial dos seus paizes.
+Como não as podemos descrever todas, lembraremos a da Italia:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Da terra um braço vem ao mar, que cheio
+De esforço, nações varias sujeitou,
+Braço forte de gente sublimada
+Não menos nos engenhos que na espada;</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. III, 14.)</p>
+</div>
+
+<p>a de Hespanha:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Eis aqui a nobre Hespanha,
+Como cabeça da Europa toda;
+Com Tingintina entesta, e ali parece
+Que quer fechar o mar Mediterrano,
+Onde o sabido Estreito se enobrece
+Co'o extremo trabalho do Thebano;
+Com nações differentes se engrandece
+Cercadas com as ondas do Oceano;</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. III, 17, 18.)</p>
+</div>
+
+<p>e a de Portugal:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Eis aqui, quasi cume da cabeça
+Da Europa toda, o reino Lusitano,
+Onde a terra acaba e o mar começa
+E onde Phebo repousa no Oceano.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. III, 20.)</p>
+</div>
+
+<p>Veja-se como em duas palavras se demonstra a importancia do porto de
+Moçambique:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Esta ilha pequena
+He em toda esta terra certa escala
+De todos os que as ondas navegamos
+De Quiloa, de Mombaça e de Sofala;
+E por ser necessaria procuramos,
+Como proprios da terra, de habital-a;</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. I, 54.)</p>
+</div>
+
+<p>e como com outras duas se descreve a ilha de Mombaça:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Estava a ilha á terra tão chegada
+Que um estreito pequeno a dividia;
+Uma cidade n'ella situada,
+Que na frente do mar apparecia,
+Como <i>por fora ao longe</i> descobria,
+Regida por um Rei de antiga idade;
+Mombaça é o nome da ilha e da cidade.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. I, 103.)</p>
+</div>
+
+<p>A grande peninsula indostanica, esse theatro de tantas glorias nossas, é
+pintada assim:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Alem do Indo jaz, e aquem do Gange,
+Um terreno mui grande e assaz famoso,
+Que pela parte austral o mar abrange
+E para o Norte o Emodio cavernoso;
+Jugo de Reis diversos o constrange
+A varias leis; alguns o vicioso
+Mafoma, alguns os idolos adoram,
+Alguns os animaes, que entre elles moram.
+Lá bem no grande monte, que, cortando
+Tão longa terra, toda Azia discorre,
+Que nomes tão diversos vae tomando,
+Segundo as regiões por onde corre,
+As fontes sahem, donde vem manando
+Os rios, cuja grão corrente morre
+No mar Indico, e cercam todo o peso
+Do terreno, fazendo-o Chersoneso.
+Entre um e outro rio, em grande espaço,
+Sae da larga terra uma longa ponta,
+Quasi pyramidal, que no regaço
+Do mar com Ceilão insula defronta.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VII, 17, 18 e 19.)</p>
+</div>
+
+<p>Nomea depois o Poeta as principaes nações indianas, e não lhe escapa
+lembrar a serra dos Gates, que é uma boa <i>marca</i> por ser visivel de
+muitas leguas ao mar:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Aqui se enxerga, <i>lá do mar undoso</i>,
+Um monte alto, que corre longamente,
+Servindo ao Malabar de forte muro
+Com que do Canará vive seguro;
+Da terrra os naturaes lhe chamam Gate.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. VII, 21, 22.)</p>
+</div>
+
+<p>E ao passar pelos seus portos não se esquece de notar o phenomeno a que
+os modernos geographos francezes dão o nome de <i>raz-de-marée</i>, que em
+alguns d'elles se observa, principalmente em Madrasta:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Do mar a enchente <i>subita grandissima</i>,
+E a vasante que foge <i>apressurada</i>.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. X, 106.)</p>
+</div>
+
+<p>Fallando de Aden, lembra o Poeta a circumstancia bem conhecida de nunca
+lá chover:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia"> a secca Adem,
+ pedra viva,
+Onde chuva dos céus se não deriva.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. X, 99.)</p>
+</div>
+
+<p>E estas duas palavras--<i>pedra viva</i>--são por si só uma completa
+descripção d'aquelle arido rochedo, onde já correu muito sangue
+portuguez.</p>
+
+<p>A Ieddah attribue Camões toda a importancia que esse porto tem por ser a
+unica communicação para os peregrinos que, por mar, vão a Mecca:</p>
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">Lá no seio Erythreo
+Não longe o porto jaz da nomeada
+Cidade Meca;
+Gidá se chama o porto aonde o trato
+De todo o Roxo mar mais florecia.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. IX, 2, 3.)</p>
+</div>
+
+<p>Mas a descripção verdadeiramente magnifica, arrebatadora, é a que
+abrange todas as descobertas e conquistas na Africa, Asia, Oceania e
+America. Aquellas cincoenta estancias do canto X (91 a 141) com as que no
+canto V contem a <i>derrota</i> de Vasco da Gama desde Lisboa até Melinde,
+são um compendio de geographia das descobertas até ao seculo XVI. Ao lel-as
+parece-nos que se repete para nós a magica visão que Tethys offerecia na
+ilha dos Amores aos olhos surpresos do afortunado descobridor da India;
+parece-nos que vemos desenrolar-se a nossos olhos o mappa immenso de tantas
+ilhas, portos, montanhas, rios e promontorios; parece-nos que se agitam
+diante do nós tantos centenares de povos e nações, com os seus usos tão
+oppostos, com os seus trajos ora tão singelos ora tão complicados e
+custosos, com a riqueza de suas minas ou de suas industrias, com a sua
+historia tão cheia de contrastes. E um espectaculo deslumbrante, unico, que
+obriga o mais fervente admirador dos genios modernos a render-se á
+superioridade evidente de Camões; porque Camões, e só elle, poude, sem ser
+monotono nem faltar á mais escrupulosa verdade, fazer de uma longa
+enumeração de terras e mares uma formosissima galeria das mais variadas
+paisagens e marinhas; porque só elle soube ser successivamente Claude
+Lorrain e Vernet, ficando ainda superior a estes e a todos os pintores,
+ficando sempre o grande, o incomparavel, o divino marinheiro <span
+class="smallcaps">Luiz de Camões</span>!</p>
+
+
+
+
+<h2>VII</h2>
+
+
+<div class="caixa_lusiadas">
+<p class="poesia">No mais, musa, no mais, que a lyra tenho
+Destemperada e a voz enrouquecida,
+E não do canto, mas de ver que venho
+Cantar a gente surda e endurecida.</p>
+ <p class="assinatura">(Lus. X, 145.)</p>
+</div>
+
+<p>Perdoe-se ao pigmeu a ousadia de applicar a si as palavras do gigante.
+Mas, na verdade, para que serve continuar? Se houvessemos de citar todos os
+logares em que Luiz de Camões se mostrou eximio pintor da natureza, e
+principalmente da natureza maritima, teriamos de copiar quasi todo o seu
+poema. Cremos, porém, que o que fica transcripto é sufficiente para
+demonstrar a nossa asserção, de que o Poeta foi um marinheiro tocado da
+divina scentelha da inspiração, que lhe fez ver os grandiosos espectaculos
+da natureza taes como elles se manifestam.</p>
+
+<p>E, comtudo, de que serve esta demonstração? Que póde ella fazer em prol
+do melhoramento do actual gosto litterario?</p>
+
+<p>Nada.</p>
+
+<p>Acontece com a historia das litteraturas como com a das nacionalidades.
+Quando o espirito de uma nação está decaído, quando faltam os nobres
+impulsos que a impelliram no seu progresso ascendente, quando está morto o
+patriotismo que centuplica as forças do individuo, quando o egoismo tórpe
+substituiu a abnegação e o amor da patria, é então que se recordam os
+tempos de gloria e se levantam monumentos aos heroes que já não é possivel
+imitar; são os vãos lamentos dos filhos de Israel captivos em Babylonia,
+suspirando pela liberdade de Sião, que tão mal souberam defender.</p>
+
+<p>E assim com as litteraturas. Quando passaram, para nunca mais voltar, os
+seus tempos de explendorosa florescencia, vem os commentadores estudar as
+obras primas, mas não apparece um só que os imite. Onde estão hoje as
+pennas que escreveram os <i>Lusiadas</i> e as <i>Decadas</i>? E, deixando
+esses monumentos, que são como que as estrellas de primeira grandeza de um
+firmamento de eterno brilho, onde estão os successores de Diniz, de Bocage,
+de Garção, de Alexandre Herculano, de Rebello da Silva, de José Estevão, de
+Garrett, de Castilho? Transformaram-se os lagos cristalinos em charcos
+nauseabundos, as campinas viridentes em aridos pragaes; calaram-se os
+trinados dos rouxinoes, só se ouve o coaxar das rãs; e a consciencia
+publica, festejando o tri-centenario da morte de Luiz de Camões, manifesta
+em doloroso grito o arrependimento que sente por se ter deixado resvalar no
+plano inclinado do mau gosto, e marca na historia da litteratura portugueza
+o periodo da ultima decadencia.</p>
+
+
+<h3>FIM</h3>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Luiz de Camões marinheiro, by
+Vicente de Almeida de Eça
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIZ DE CAMÕES MARINHEIRO ***
+
+***** This file should be named 21779-h.htm or 21779-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
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+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
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+
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+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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